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Migração Sazonal em Santa Bárbara d'Oeste

Migração Sazonal em Santa Bárbara d'Oeste

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Este trabalho faz uma análise das migrações sazonais de nordestinos para Santa Bárbara d'Oeste, suas perspectivas e qualidade de vida.
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EDNELSON MARIANO DOTA

MIGRAÇÃO SAZONAL EM SANTA BÁRBARA D’OESTE: CONDIÇÕES DE VIDA E COTIDIANO DOS BÓIAS-FRIAS

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS, AMBIENTAIS E DE TECNOLOGIAS FACULDADE DE GEOGRAFIA Campinas 2007

EDNELSON MARIANO DOTA

MIGRAÇÃO SAZONAL EM SANTA BÁRBARA D’OESTE: CONDIÇÕES DE VIDA E COTIDIANO DOS BÓIAS-FRIAS
Trabalho de conclusão de Curso apresentado à Faculdade de Geografia em cumprimento à exigência para a obtenção do título de Bacharel e Licenciado em Geografia, sob orientação da Profª. Drª. Juleusa Maria Theodoro Turra.

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS, AMBIENTAIS E DE TECNOLOGIAS FACULDADE DE GEOGRAFIA Campinas 2007

COMISSÃO EXAMINADORA

Presidente e Orientador Profª. Drª. Juleusa Maria Theodoro Turra 1° Examinador Prof.º Dr.º José Marcos Pinto da Cunha 2° Examinador Prof.ª Ms. Lúcia Cavalieri

Campinas, 06 de dezembro de 2007.

AGRADECIMENTOS

Primeiramente a DEUS... Agradeço aos meus pais, que desde os primeiros passos na vida me apoiaram, e me mostraram o verdadeiro valor da educação e do conhecimento. Minha noiva Sirlene, que durante esta empreitada esteve sempre ao meu lado, me apoiando e ajudando nas horas difíceis, e ao meu irmão, sempre presente. Aos meus amigos de sala, com os quais convivi estes últimos quatro anos, em especial à Natália, Paula e Sabrina, grupo forte nas idéias, e companheiras do dia-adia. A todos os professores da geografia, que transmitiram parte de seus conhecimentos para que pudéssemos nos tornar geógrafos competentes, em especial à professora Juleusa, que me indicou os caminhos para a realização desse trabalho. Ao Projeto de Extensão Atlas da Violência em Campinas, sob direção do professor Lucas de Melo Melgaço, que me trouxe condições para que aprimorasse meus conhecimentos não só em geoprocessamento, mas também no trabalho em equipe, ao lado do Guilherme, da Cristiane e do Daniel. Aos migrantes estabelecidos em Santa Bárbara d’Oeste, que foram tão gentis ao abrirem seus alojamentos e concederem entrevistas que foram tão importantes para a elucidação desse trabalho. Aos funcionários da Vigilância Sanitária, da Casa da Agricultura e da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, que auxiliaram no que tinham conhecimento. Enfim, a todos aqueles que de alguma forma contribuíram para minha formação como pessoa, e agora como geógrafo, meu muito obrigado.

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DOTA, Ednelson M. Migração Sazonal em Santa Bárbara d’Oeste: Condições de vida e Cotidiano dos bóias-frias. Trabalho de Conclusão de Curso, Graduação em Geografia – Licenciatura e Bacharelado, Pontifícia Universidade Católica de Campinas, 2007.

RESUMO

O trabalho se propõe a explicar a migração temporária nordestina, analisando os motivos dessa migração, o quanto essa mobilidade influencia na vida daqueles que migram, e daqueles que lá permanecem. Santa Bárbara d’Oeste, município com alta produtividade de cana-de-açúcar é o destino desses trabalhadores rurais migrantes, os quais chegam para trabalhar, e passar boa parte do ano. Conhecer as condições de vida, as vivências, experiências e expectativas que estas pessoas carregam, além de compreender quais as vontades e objetivos que os norteiam, é o conteúdo desse trabalho. Palavras-chave: Migração sazonal - Bóia-fria – Cana-de-açúcar

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO..................................................................................................................

p. 01

CAPÍTULO I: As migrações no Brasil e suas conseqüências............................................ CAPÍTULO II: Santa Bárbara d’Oeste: da formação aos dias atuais................................. CAPÍTULO III: Migrantes sazonais em Santa Bárbara d’Oeste....................................

p. 04 p. 14 p. 26

CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................................................. REFERÊNCICAS BIBLIOGRÁFICAS.............................................................................. ANEXOS.............................................................................................................................

p. 39 p. 41 p. 43

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ÍNDICE DE TABELAS

Tabela 1 Brasil, imigrantes interestaduais, 1965-2000........................................................ p. 05 Tabela 2 Brasil: Trocas líquidas e saldos migratórios interestaduais, 1965 – 2000............ p. 06 Tabela 3 Ranking de municípios produtores do estado de São Paulo (ton) 2006.............. p. 22 Tabela 4 Ranking de municípios produtores do Brasil (ton) 2006....................................... p. 22 Tabela 5 Despesa média mensal familiar............................................................................ p. 31 Tabela 6 Proporção da população em situação de pobreza............................................... p. 32

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ÍNDICE DE MAPAS E FOTOS

Mapa 1 - Região Semi-árida do Brasil......................................................................... p. 10 Mapa 2 - Santa Bárbara d’Oeste................................................................................. p. 15 Mapa 3 - Evolução da área urbanizada de Santa Bárbara d’Oeste........................... p. 17 Mapa 4 - Rodovias e área urbanizada de Santa Bárbara d’Oeste.............................. p. 18 Mapa 5 - Região Metropolitana de Campinas............................................................. p. 19 Mapa 6 - Região Metropolitana de Campinas e municípios limítrofes à Santa Bárbara d’Oeste............................................................................................ p. 21 Mapa 7 - Localização dos alojamentos em Santa Bárbara d’Oeste........................... p. 27

Foto 1 Foto 2 Foto 3 Foto 4 -

Alojamento.................................................................................................... p. 33 Alojamento.................................................................................................... p. 33 Alojamento.................................................................................................... p. 33 Ônibus rural.................................................................................................. p. 33

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ÍNDICE DE GRÁFICOS

Gráfico 1 -Evolução da produtividade de cana-de-açúcar em Santa Bárbara d’Oeste.. p. 24

Gráfico 2- Evolução da produtividade de cana-de-açúcar: estado de São Paulo e Brasil............................................................................................................... p. 24

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INTRODUÇÃO
O fluxo de pessoas pelo espaço sempre foi muito comum em todas as partes do mundo, e em todas as épocas. Desde os tempos remotos, com os povos nômades, passando pela época relatada na bíblia, até os dias atuais, a migração constitui-se como um dos fenômenos principais no globo. Especificamente no Brasil, os fluxos populacionais iniciaram-se antes mesmo do descobrimento, a partir dos costumes dos povos indígenas. Tribos como a dos índios Guarani, que tem por características serem nômades, já viviam se deslocando pelo território ainda “virgem”. Após 1500, a partir do desenvolvimento das grandes navegações, chegaram ao litoral brasileiro os portugueses, que a partir daquele momento se tornariam proprietários das terras, e dariam início ao que hoje chamamos de Brasil. Do descobrimento até os dias atuais, nosso país foi palco de vários e importantes deslocamento de massas humanas. A instalação das primeiras pessoas vindas de Portugal para as capitanias, a chegada de negros para o trabalho escravo, a migração de nordestinos para a construção de importantes capitais como São Paulo, e posteriormente Brasília. O êxodo rural, que tanto modificou o espaço, e os fenômenos migratórios mais recentes, como a busca pelo Centro-Oeste, e a migração sazonal, a qual será abordada neste trabalho. As causas das migrações variam a partir do momento histórico, e da cultura de cada povo. Os negros eram obrigados; enquanto os índios Guaranis migram por costume1, objetivando encontrar Nhanderu. Por outro lado, a maior parte dos movimentos populacionais foi motivado por um algo mais, melhores oportunidades de trabalho, melhores condições de vida. As condições mínimas que as pessoas buscam para a realização pessoal muitas vezes não podem ser encontradas ou conseguidas em sua terra natal, fato que os fazem buscar novos horizontes, que venham, mesmo que de modo parcial, a realizar
Afirmação construída a partir de experiência empírica, através dos trabalhos de campo realizados nas aldeias guaranis do Jaraguá e Tenodé Porá.
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seus objetivos. Desta forma, a migração mostra-se como fenômeno multifacetado, seus fluxos abrangem desde pessoas em condições sub-humanas à procura de oportunidades, até pessoas de classe média, buscando países como os Estados Unidos, o leste europeu e o Japão, para, quem sabe, lá encontrar o que lhes faltam aqui. O deslocamento espacial das populações, com suas diferentes causas é também uma avaliação dos territórios, das possibilidades que apresentam. Antes mesmo de ser usado como recurso pelas grandes empresas, (SANTOS, 1997) o território já era usado pela população, tanto como abrigo quanto como meio de oportunidades. Essas oportunidades se mostram a partir da diferenciação de cada lugar, seja em suas condições econômicas, sócias e até climáticas “como no inverno quase nem tem chovido, a gente fica sem opção” (Francisco Souza, 35 anos)

Fato importante que colabora para a continuidade do ato de migrar é a assimilação da mão-de-obra no local de destino. A captação dessa mão-de-obra que possibilita a migração sazonal, específica para o trabalho, e é a falta dessa absorção pelo mercado de trabalho que fez com que o movimento Nordeste – São Paulo tenha diminuído sensivelmente, e que o retorno destes que vieram há algum tempo começasse a aflorar como movimento relevante no século XXI. Santa Bárbara d’Oeste, um dos pontos de captação dessa mão-de-obra, recebe anualmente relevante contingente populacional de migrantes provindos do Nordeste, que por suas particularidades necessitam do trabalho. Essa necessidade acaba por criar uma migração sazonal, que se mostra importante tanto para os migrantes quanto para os usineiros. A importância da cana-de-açúcar, presente deste a formação do município, e o atual momento de expansão das área canavieiras pelo Brasil, a partir das questões ambientais tão aclamadas no momento, aliada às necessidades energéticas no Brasil, mostra que a cana é tão importante para Santa Bárbara d’Oeste, quanto o trabalho nos canaviais paulistas se mostram essenciais para os migrantes sazonais.

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Estes migrantes, que de tão longe buscam os trabalhos nos canaviais paulistas, passam a maior parte do ano longe de casa, da família, em busca do que não conseguem no Nordeste, condições de comprar alguma coisa além da própria alimentação do dia-a-dia. Homens de diferentes situações, desde os simples empregados do campo no Nordeste, até pequenos proprietários de terras, todos buscam esse trabalho extra, pesado, mas muito valioso para estes trabalhadores. Esse é um movimento migratório da atualidade, um movimento que tem como causas dificuldades de vida em uma região do país pouco desenvolvida, e por objetivo conseguir melhores condições de vida para esta população. E é este movimento, que há décadas se mostra relevante para a manutenção de certo padrão de vida para os migrantes, que será abordado neste trabalho. O trabalho está estruturado em três capítulos, com objetivo de mostrar as condições que explicam a migração sazonal nordestina, as vivências e expectativas destes migrantes em Santa Bárbara d’Oeste. Para tanto, foram recursos empregados na sua produção leituras quanto às migrações, e especificamente sobre migração sazonal, de forma que pude compreender tal processo. Entrevistas com agentes do município, e com os próprios migrantes, compreendendo assim as relações que os cercam; pesquisas e saídas a campo, para melhor contato com as questões dos trabalhadores no município, e compreender seus anseios quanto ao trabalho temporário nos canaviais do município.

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CAPÍTULO I As migrações no Brasil e suas conseqüências
O estudo dos fluxos populacionais pelo território, entitulado de migração, tem sido tema freqüente nos estudos da geografia brasileira ao longo das décadas e é considerado como uma área de pesquisa tradicional desta ciência2. Segundo Santos(1994), a migração caracteriza-se como sendo o movimento da população pelo espaço, sendo que este movimento está relacionado às transformações políticas, sociais e econômicas dos diversos lugares onde ela ocorre. “Por isso, dizemos que a migração é um fenômeno histórico e social.” (SANTOS, 1994, p.7) Históricamente, o Brasil teve como principais locais de movimentação populacional a região nordestina e o estado de Minas Gerais, e isso se deu por diversos fatores, muitas vezes isolados atuando conjuntamente, mas acima de tudo as desigualdades regionais do Brasil foram o fator principal que propiciou a grande mobilidade das pessoas.
De modo geral, as condições criadoras de deslocamentos das populações da região do Nordeste submetidas a uma situação-limite prendem-se ao contexto das relações desiguais de desenvolvimento entre as regiões/estados. (CAVALCANTI, 2000, p.02).

Essa mobilidade proporcionou um equilíbrio nos saldos populacionais das diversas regiões, uma com excedente (Nordeste e Minas Gerais), e outra com falta devido à crescente industrialização pela qual estava passando (São Paulo). Brito et al.(2004) exemplifica tal equilíbrio quando citam que as principais rotas de migração
se estruturam para atender, não só as necessidades de transferência regional do excedente de força de trabalho, mas, também, [...]
Em levantamento realizado na base Lattes encontraram-se 23 grupos de pesquisa que estão trabalhando com o tema migração: 4 deles pertencentes à Geografia, além de 6 da Antropologia, 4 da Demografia, 3 da Sociologia, 3 da História, 2 da Educação e 1 da Economia. Esses dados demonstram a relevância dos estudos migratórios não só para a Geografia e para a Demografia, tradicionais neste tema. Outras ciências também perceberam a relevância do tema para a percepção da estruturação do espaço, e o entendimento do Brasil como é conhecido hoje. Disponível em: <www.lates.org.br> .Acesso em 25/04/2007, 15:20.
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articulavam os dois grandes reservatórios de força de trabalho, o Nordeste e Minas Gerais, com os estados onde ocorria o maior crescimento industrial[...]. (Brito et al., 2004,p.02)

Desta forma, uma região supria a necessidade da outra. São Paulo com suas indústrias em expansão assimilava a grande quantidade de nordestinos, que buscavam um emprego com o qual pudessem conquistar melhores condições de vida do que aquela que poderia ter no Nordeste. E a busca por esse sonho movimentou milhares de pessoas, sendo que o crescimento expressivo desses fluxos ocorre a partir da década de 1940. A intensidade desse fluxo pode ser confirmada quando analisamos a afirmação de que “na segunda metade da década de setenta, São Paulo tenha recebido um terço dos imigrantes interestaduais dos quais, 41,0% eram nordestinos” (Brito e Marques, 2002, p. 05).
Tabela 1: Brasil, Imigrantes Interestaduais, 1965-2000.
PERÍODOS REGIÃO OU ESTADO NORTE NE. SETENTRIONAL NE. CENTRAL NE. MERIDIONAL MINAS GERAIS ESPÍRITO SANTO RIO DE JANEIRO SÃO PAULO PARANÁ EXTREMO SUL CENTRO-OESTE DISTRITO FEDERAL TOTAL 1965/70 ABSOLUTO 98.228 91.447 188.390 108.456 100.372 48.450 418.343 713.326 366.239 89.446 309.665 383.256 2.915.617 1975/80 1986/91 1995/2000 % ABSOLUTO % ABSOLUTO % ABSOLUTO % 454.447 554.085 562.644 3,37 9,49 11,03 10,71 133.891 177.262 191.948 3,14 2,80 3,53 3,65 401.935 519.357 570.475 6,46 8,40 10,34 10,86 223.400 242.794 305.906 3,72 4,67 4,83 5,82 336.177 372.685 450.452 3,44 7,02 7,42 8,57 103.537 135.438 130.094 1,66 2,16 2,70 2,48 394.489 254.775 323.087 14,35 8,24 5,07 6,15 1.396.938 1.242.972 24,47 1.562.494 32,64 27,80 23,65 207.792 271.667 299.946 15,56 4,34 5,41 5,71 206.360 285.513 315.130 3,07 4,31 5,68 6,00 201.263 619.277 645.148 10,62 10,47 12,32 12,28 260.887 195.393 216.863 13,14 5,45 6,89 4,13 100,0 4.786.671 100,00 5.025.184 100,00 5.254.665 100,00 Fonte: FIBGE, Censos Demográficos de 1970, 1980, 1991 e 2000

Apud Brito et al.(2004)

Em conformidade com os autores citados acima, Cavalcanti (2000) afirma que a chegada da grande massa de nordestinos a São Paulo foi imprescindível para o crescimento e o desenvolvimento paulista em todas as esferas, mas principalmente na parte econômica. Supriam vagas abertas pelas novas empresas, mas eram 5

empregados principalmente nos serviços de base, que preparavam as estruturas para a instalação das novas indústrias. Dessa forma, milhares trabalhavam na construção civil, ajudando a “girar o motor” da economia paulista. Sendo esta a principal economia do país, e exercendo influência econômica devido à instalação dessas novas indústrias, fazia “girar” também o “motor” da economia nacional. Um dos principais motivos que explicam a migração como fenômeno de gigantescas proporções, de milhares e até milhões3 de pessoas, além dos desequilíbrios regionais (políticos e econômicos), Matos (1992) cita alguns outros fatores que tiveram participação neste processo. Afirma que, o aumento da concentração fundiária no Nordeste, crises na economia exportadora, secas periódicas e o alto crescimento populacional, também contribuíram decisivamente para o processo.
Tabela 2: Brasil, Trocas Líquidas e saldos migratórios interestaduais, 1965-2000
REGIÃO OU ESTADO PERÍODO 1965/70 1975/80 1986/91 1995/2000

NORTE 41.169 314.741 131.158 63.291 NE. SETENTRIONAL -41.929 -186.660 -200.961 -228.089 NE. CENTRAL -425.110 -571.785 -408.522 -269.734 NE. MERIDIONAL -327.324 -174.334 -269.718 -276.341 MINAS GERAIS -516.838 -237.032 -107.901 36.778 ESPÍRITO SANTO -59.665 17.114 44.289 34.006 RIO DE JANEIRO 306.114 140.756 -40.903 46.127 SÃO PAULO 427.268 1.066.976 747.023 350.623 PARANÁ 199.041 -590.405 -204.678 -40.940 EXTREMO SUL -162.862 -58.543 20.479 19.803 CENTRO-OESTE 190.241 116.063 238.256 238.478 DISTRITO FEDERAL 369.895 163.107 51.480 25.998 Fonte: FIBGE, Censos Demográficos de 1970, 1980, 1991 e 2000

Apud Brito et al., 2004

O aumento na concentração fundiária4 aparece como um fator de forte importância e que explica em parte as migrações no território nacional. Existe um
Ver tabela 1. No ano de 1985, existiam no Brasil 5.802.206 estabelecimentos rurais, que passaram a ser 4.859.865 no ano de 1995-96, uma queda de 16,24% no número de propriedades. A área média das propriedades, por sua vez, passou de 59,8 ha em 1970 para 72,8 ha no ano de 1995-96, um aumento de 21,73%. Fonte: Fonte: IBGE – Censo Agropecuário 1995/96. Disponível em: <www.agricultura.gov.br> Acesso em 15/06/2007, 16:48.
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conceito que explica como a concentração fundiária continuou a crescer em certas áreas do país, com ênfase aqui à região nordestina: a expropriação. Segundo Aurélio Buarque de Holanda Ferreira5, o verbo expropriar significa “tirar a (alguém), legalmente, a posse de sua propriedade, mediante indenização”, onde, muitas vezes não existe o pagamento de indenização. Entendendo assim o significado deste termo, podemos analisar as causas ocorridas durante as últimas décadas que propiciaram a expropriação das terras dos camponeses. Conforme Silva (1999), a expropriação de terras no Brasil teve respaldo a partir “dos planos de modernização edificados durante os anos 1960 e 1970, pelos governos da ditadura militar” (p. 39). Sendo um fato legal, aos grandes proprietários e donos do capital não foi necessária a utilização de violência expressa, mas sim, ainda segundo a autora, “da violência escondida e legal, ou seja, da violência monopolizada pelo Estado, com a promulgação de leis que implemetaram os projetos de modernização dessa região”. (idem, p.27) A expropriação das terras dos pequenos agricultores culminou com o fim do meio de subsistência de que detinham, ficando assim impossibilitados de sobreviver da própria terra. Levando em consideração que estes locais mostram pouco ou nenhum desenvolvimento quanto à indústria e o comércio, fica assim a população impossibilitada de sobreviver por outros meios que não o da agricultura, modo de sobrevivência tradicional, mas que agora já não dá mais suporte para tal fato. E aqueles que acreditam que os camponeses pudessem viver por um tempo com o dinheiro ganho com a venda da terra, podem ter um claro exemplo do que a autora quer dizer quando cita “violência legal”. Esse tipo de violência não é aquela citada no código penal brasileiro, passível de punição, mas sim um tipo de pressão, de assédio para que o pequeno produtor venda sua terra a preços mais baixos que o de mercado. “O medo de ficar sem as terras fez com que os camponeses as ‘vendessem’, a qualquer preço, aos compradores paulistas[...]” (ibidem, p. 46). Esse processo de expropriação de terras dos camponeses, quando analisado como fenômeno isolado, parece inexpressivo na explicação dos fluxos migratórios nacionais. Mas abrindo o foco de análise, e levando em consideração outro fator, como
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FERREIRA, A. B. de H. Minidicionária da língua portuguesa. Ed. Nova Fronteira, 1993.

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a quantidade de pessoas que compravam essas terras, chega-se a algumas conclusões: “o processo de compra das terras foi acompanhado de outros elementos, tais como a concentração da propriedade, mediante a aglutinação dos minifúndios, da apropriação das terras devolutas[...]”. (ibidem, p. 47). A questão fundiária brasileira é tema de grandes e constantes discussões, pois, o país concentra o quinto maior território do planeta, que por má distribuição e falta de políticas agrárias eficazes, não consegue solucionar o problema. Essa falta de política, de assistência governamental é de extrema relevância quando discutimos a questão das migrações no Brasil, pois reflete nos fluxos populacionais. Quando se faz uma análise histórica dos donos do poder no Brasil, chega-se à conclusão de que na maior parte do tempo a classe dominante, os donos do capital estiveram à frente do poder6. Desta forma as políticas implantadas visavam predominantemente satisfazer as suas necessidades, indo geralmente em direção contrária, ou não favorável às populações mais carentes, se “esquecendo” das mesmas na elaboração das políticas. A questão nordestina, que há séculos é muito bem conhecida nunca teve um plano efetivo de desenvolvimento7. A ajuda para o Nordeste não deve ser como muitas que já foram implantadas; assistencialista como a doação de alimentos, que contribui especificamente para a subsistência temporária da população. As políticas devem focar o desenvolvimento regional, com o apoio para os pequenos agricultores, incentivos para as comunidades visando o trabalho e mesmo intenções voltadas para a redistribuição das terras improdutivas, que não são poucas na região nordestina. Com a concentração fundiária já mencionada anteriormente, muitos perderam suas terras. E as pequenas áreas que
Um grande exemplo desse fato é o caso que se passou entre os anos de 1894 e 1930, época que ficou conhecida como República do Café com Leite, pois o país era dominado pelos Barões do café, que prodominantemente faziam política para defender seus interesses. 7 A SUDENE (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) foi um plano governamental no sentido de ajudar no desenvolvimento na região nordestina. Tinha como objetivos a produção de alimentos na zona úmida do Nordeste, o desenvolvimento no semi-árido de uma agricultura resistente aos efeitos da seca, a colonização do Maranhão e o desenvolvimento da irrigação no São Francisco. O plano foi iniciado no governo de Juscelino Kubtscheck, em 1959, e encerrado no ano de 2001. No ano de 2003, no mês de junho foi finalizado o projeto de recriação da SUDENE, onde o “planejamento regional norteado pelos objetivos da inclusão social, do desenvolvimento sustentável e da melhoria das condições da competitividade da economia” nordestina são os objetivos desta nova fase. MINISTÉRIO DA INTEGRAÇÃO NACIONAL, Bases para a recriação da SUDENE: por uma política de desenvolvimento sustentável para o Nordeste, 2003. Disponível em <www.integracao.gov.br/publicacoes> Acesso em 15/06/2007, 18:40.
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ainda estão nas mãos dos camponeses, sofrem com a seca, que assola o semi-árido nordestino. Não há modos de derrotar a seca, mas existem meios para se adaptar a ela, e começar a produzir a partir de métodos que sanem a falta de água, como a irrigação, que já ocorre em certas partes do Nordeste. Em todas as partes do país a questão da seca nordestina, e da miséria do seu povo é constantemente explorada pela mídia, sendo que a seca é que recebe a culpa pelas grandes dificuldades enfrentadas no cotidiano dos nordestinos, quando na verdade a responsabilidade pelas condições dessa população está na falta de assistência, não para combater o clima, mas para aprender a produzir, a estocar água nos períodos chuvosos, enfim, viver em harmonia com ele. Com tantos problemas, para boa parte da população desses locais sobra apenas uma opção para a sobrevivência: migrar. Uma migração forçada, por diversos fatores, como as diferenças regionais, a perda de terras, ou expropriação, e conseqüentemente a concentração fundiária que se forma, aos fatores climáticos. Todos esses fatores citados, exceto o clima, são produzidos pela falta de assistência governamental, pelo descaso com toda uma população, sua cultura e seus modos de vida.

Mapa 1:

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Não havendo outra solução, ou pela rede de relações já construídas, a população busca na migração seu sustento, o dinheiro extra para ajudar nos meses sem qualquer renda na sua localidade de origem. É neste contexto que aparece o migrante sazonal, que busca trabalho fora de seu local tradicional, para manter-se nos meses em que permanecerá sem maiores ganhos. Migração sazonal é aquela em que o migrante busca trabalho em outra área que não seja a de sua residência normal, sendo que de modo geral os canaviais e os laranjais do estado de São Paulo são os grandes destinos dessa mão-de-obra temporária, contratada para o período de safra. Terminado este tempo, os migrantes retornam para suas regiões de origem, voltando a sua vida costumeira. “O tempo, agora, é compreendido pelo tempo da migração forçada, especialmente a temporária, mediante a permanência nas fazendas de usinas durante quase 9 meses ao ano.”(SILVA, 1999, p.58)

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De modo geral, os migrantes buscam um tipo de serviço igual ao que estão acostumados a trabalhar em suas áreas, sendo que normalmente trabalham no campo, principalmente nas lavouras das grandes usinas de álcool e açúcar e nas processadoras de sucos industriais. Essas migrações “forçadas” nas quais os nordestinos se inserem não refletem apenas na vida econômica, mas influenciam, inclusive, na cultura, pois desde pequenos já sabem que quando chegarem na idade certa, também terão de migrar.
Assim, desde muito pequenas, as crianças aprendem o verdadeiro significado de São Paulo, isto é, qualquer lugar deste estado, o lugar de destino de seus pais e parentes, mas também o lugar de onde voltam para suas terras, e ficam sabendo que, quando inteirarem a idade, seguirão a mesma rota. (SILVA, 2001, p.01)

Mesmo conhecendo sua sina desde pequenos, a idade propensa à saída dos locais de origem é quando se tornam adultos, época em que a responsabilidade pesa e com ela a necessidade de angariar renda para o próprio sustento. Segundo Cavalcanti (2000), a migração é mais comum nas idades de entrada e saída da faixa economicamente ativa, nas idades de se casar, e quando o casal gera filhos, épocas essas em que a busca por melhores condições de vida “afloram” nas pessoas. Além disso, migrar significa cortar a raiz com os pais, sinônimo de independência e de mudança de vida para os jovens. (CAVALCANTI, 2000, p.15) Entre idas e vindas, um pouco da cultura modificada, novos costumes, novas palavras e acima de tudo um modo pouco diferente de viver, e de construir práticas espaciais, fazem com que essas pessoas, ano a ano, incorporem novos valores e tentem mudar seus padrões de trabalho e de vida. Ao conhecerem as diferenças dos locais onde vivem, elaboram pensamentos em que a vontade de mudar, de sair do comum, da vida de miséria e de dependência à qual são vítimas cresce, deixando-os insatisfeitos com a realidade cotidiana. Neste período de tempo fora de seus locais de origem experimentam emoções, sensações, lugares, compras, enfim, um tipo de vida diferente daquela que estão acostumados.

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[...]em decorrência da miséria no campo, a mudança para a cidade e o desemprego em atividades urbanas, mesmo em se tratando de atividades não qualificadas, significam ascensão para o migrante. (CAVALCANTI, 2000, p.09)

São essas sensações, experiências que pouco a pouco vão dilapidando e mudando a forma de pensar e agir. “Depois de um tempo na cidade, os jovens que voltam não conseguem mais adaptar-se ao trabalho tradicional” (Cavalcanti, 2000, p.15) Essa dificuldade de adaptação ocorre pois
[...] o migrante, quando bem sucedido nas lavouras de cana do interior paulista, recebe um novo status, uma diferenciação social e cultural. Destaca-se em seu mundo tradicional quando se apropria do moderno a partir de bens simbólicos e materiais. (VETTORASSI, 2003, p.02)

Esses bens simbólicos aos quais a autora cita são objetos como boné, óculos de sol e celular, “bens materiais típicos do modo de vida paulista e, portanto, do ‘moderno’”. (VETTORASSI, 2003, p.02) Em contrapartida, nem tudo que é do “moderno” é assimilado pelos migrantes, que mantém vivo diversos pontos da cultura tradicional da terra natal, pois “parecer moderno, mais do que ser moderno. A modernidade se apresenta, assim, como a máscara para ser vista. Está mais no âmbito do ser visto do que no viver”. (MARTINS, 2000, p.39 apud VETTORASSI, 2003, p.04) Nesse sentido, forma-se a aparência do migrante bem sucedido, daquele que foi em busca de melhora de vida, e conquistou seu espaço num dos lugares mais desenvolvidos do país. O status e muitas vezes a ilusão de uma evolução na qualidade de vida faz com que os migrantes enfrentem as dificuldades de migrar, e de viver em um local, mantendo seu coração em outro. Dessa forma não são parte integrante nem de um (terra natal com vínculos familiares), nem de outro (local em que buscam trabalho, onde são apenas os migrantes temporários, os bóias-frias). (SILVA, 2001) Bem ou mal sucedido, o migrante quando retorna geralmente não tem oportunidades diferentes, não pode fugir do comum, ficando à mercê dos problemas estruturais aos quais (eles próprios e os estados locais) estão intrinsecamente ligados. Um dos pólos de atração desses migrantes sazonais no estado de São Paulo é a cidade de Santa Bárbara d’Oeste, tradicionalmente conhecida pela monocultura de

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cana-de-açúcar em larga escala em sua área rural, e que anualmente utiliza-se da mãode-obra dos migrantes sazonais para a colheita da lavoura, provindos em sua grande maioria da região nordestina. O município barbarense, com uma população de 186.3088 pessoas, distribuídas em uma área de 271 Km², sempre teve papel importante na produção de cana-de-açúcar, sendo este o principal produto cultivado nas terras do município. Tal importância se mostra quando se leva em consideração o jargão “Pérola açucareira”, que a cidade recebeu pela importância da produção que ocorria em sua área rural. O município, além de tradicional na produção sucroalcooleira, tem estreitos laços com a migração, não só para os cuidados com os canaviais, mas também a própria formação do município atualmente mostra que a presença de migrantes é forte na cidade, representando boa parte da população residente no município, fato que trataremos no próximo capítulo.

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Projeção feita pelo Seade, para o ano de 2007.

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CAPÍTULO II Santa Bárbara d’Oeste: da formação aos dias atuais
Santa Bárbara d’Oeste, fundada em 1818, tem em seus registros históricos o nome de D. Margarida da Graça Martins como fundadora do município. Essa senhora na verdade era uma antiga proprietária de terras onde hoje se encontra o município, possuia “duas léguas quadradas” de terras, que eram delimitadas a norte pelo Rio Piracicaba e a leste pelo Ribeirão Quilombo9. Mas foi em 1817 que D. Margarida se mudou para o local, onde enfrentando muitas tempestades, decidiu doar terras para a construção de uma capela em homenagem a Santa Bárbara. A capela foi inaugurada em 1818, sendo a partir de então o ano considerado de fundação do município. Nesse período, a região onde Santa Bárbara d’Oeste está fixada passou por um processo denominado ciclo do açúcar paulista, e que a partir do aumento da demanda na Europa concomitantemente à desorganização da produção nas colônias francesas, “criaram as circunstâncias externas favoráveis à exportação, [sendo que] no começo do século XIX, a produção e exportação do açúcar já era a mais importante atividade econômica paulista.” (SEMEGHINI, 1991, p.15) A “alavanca fundamental” para a criação do município foi a abertura de uma estrada de terra que ligava a freguesia de Santo Antônio de Piracicaba à Vila de São Carlos de Campinas, em 1810. Esta foi criada com o intuito de facilitar o transporte de açúcar entre Piracicaba e Campinas, fato que propiciou maior interesse nas terras cortadas pela estrada, e assim atraiu sesmeiros, inclusive a fundadora do município10. A chegada dos sesmeiros11 à região trouxe consigo uma política voltada para a produção agrícola em grande escala, que deu importante salto após 1865, com a chegada de imigrantes estadunidenses, fugitivos da Guerra da Secessão. Os métodos

As informações foram retiradas do site da prefeitura municipal de Santa Bárbara d’Oeste: <www.santabarbara.sp.gov.br> e <http://www.santabarbara.sp.gov.br/cmemoria>. Acesso em 07/07/2007, 15:30 10 CRIVELLARI, José Maria. Santa Bárbara d’Oeste – Edição Histórica. Santa Bárbara d’Oeste, Editora Focus, 1971 11 Em 1818 o sistema de sesmarias ainda vigorava como modo de distribuição de terras. No ano de 1822, a partir de uma resolução de D. Pedro foi suspensa a concessão de sesmarias, e não se admitiam novas posses. As posses anteriores a essa resolução foram reconhecidas. Disponível em: http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao02/materia02. Acesso em 10/07/2007, 16:10

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trazidos pelos americanos “foram considerados revolucionários para a região e para a época, e que transformaram suas plantações em verdadeiras escolas de lavoura”. (CRIVELLARI, 1971, p.14) Fundaram na área rural barbarense um vilarejo denominado Villa Americana, que após ganhar população e importância emancipou-se, formando o que hoje conhecemos como sendo o município de Americana.
Mapa 2: Santa Bárbara d’Oeste

Elaboração Cartográfica: Ednelson Mariano Dota

Santa Bárbara d’Oeste, seguindo a tendência da região da qual participa, cresceu e se desenvolveu de 1818 até os dias atuais. Esse fato ocorreu principalmente devido o município se localizar
no mais importante pólo econômico-populacional do interior do estado de São Paulo[..., sendo que] registrou nas últimas décadas a entrada de expressivos contingentes populacionais, tanto provenientes de outros

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estados brasileiros quanto, e principalmente, do próprio estado de São Paulo. (BAENINGER; MAIA, p. 01)

O expressivo crescimento populacional pode ser observado a partir da década de 1970, época que o Brasil como um todo começa a sofrer significativas mudanças estruturais para a industrialização, fato que São Paulo, tanto capital quanto interior, se sobressaiu perante as outras regiões do país. “No estado, entre 1956 e 1980, enquanto o número de estabelecimentos industriais mais do que dobra, a força de trabalho multiplica-se por três”. (SEMEGHINI, 1991, p.133) Ainda segundo Semeghini, o Valor Total de Investimento (VTI) nacional, atingiu em 1950, 49%, em 1960 55%, e em 1970 58% do montante total dirigido para o estado paulista. Desta forma, acabou por se tornar um pólo de novas indústrias, que acompanharam investimentos em infraestrutura, como as rodovias12, por exemplo. No caso específico do município barbarense, as taxas acompanharam as tendências. Foi a época de intenso crescimento populacional e instalação das novas indústrias. O que possibilitou esse incremento positivo foi a desconcentração relativa da atividade industrial que ocorria na Região Metropolitana de São Paulo, o que propiciou um acelerado desenvolvimento econômico e populacional em direção a Campinas, incluindo Santa Bárbara d’Oeste. (BAENINGER, 1992, p.07) O crescimento da população de Santa Bárbara d’Oeste a partir da década de 1970 esteve entre os maiores dentre os municípios da região de Campinas. Segundo Baeninger(1992), em 1970 o município contava com 31.018 pessoas, passando para 76.621 em 1980. Essa foi a década com crescimento mais intenso do contingente populacional, tendo um aumento de 45.603 pessoas, das quais 37.974 eram provenientes de migração, buscando condições melhores de vida na região de Campinas. Essa busca por novas oportunidades era tipicamente urbana, pois já em 1970 eram apenas 4.709 pessoas morando na área rural, fato que obrigou o município a investir em infra-estrutura para alocação dessa população.

As duas principais rodovias que cortam a região de Campinas, a Anhanguera e a Bandeirantes, que ligam a capital ao interior, receberam grandes investimentos nesse período. Em 1948, a Anhanguera recebeu pavimentação no trecho de São Paulo a Campinas, enquanto a Rodovia dos Bandeirantes foi inaurada em 1978. Disponível em: <www.estradas.com.br>. Acesso em:03/08/2007.

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Mapa 3: Evolução da Área Urbanizada de Santa Bárbara d’Oeste

No ano de 1980, Santa Bárbara d’Oeste, atingiu um nível de crescimento populacional expressivo13, fato que propiciou ao município chegar em 1990 com a marca de 135.962 pessoas. Segundo os últimos dados da Fundação Seade, o município contava em 2006 com 184.207 pessoas, população pequena perante certos municípios, mas visto que, em 1950, contava com apenas 3 mil pessoas, temos um dos municípios com crescimento mais acelerado da região de Campinas, e até do estado.

A taxa de crescimento entre as décadas de 1970 e 1980 ficou em 9,46% ao ano, menor apenas do que a de Sumaré (16,01%) e Nova Odessa(10,14%). (BAENINGER, 1992, p.11)

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Mapa 4: Rodovias e a área urbanizada de Santa Bárbara d’Oeste

O saldo migratório altamente positivo foi e continua sendo uma característica da região de Campinas. Diversos fatores contribuíram e ainda contribuem para que exista um pólo de atração de pessoas, entre as quais a desconcentração de indústrias ocorrida inicialmente na capital, e hoje de ser o principal pólo de instalação de empresas de tecnologia de ponta do país. Esse beneficiamento ocorrido se deu pelas características gerais da infra-estrutura presente, pois além das rodovias já citadas, ferrovias, mão-de-obra abundante e qualificada, centros de pesquisas renomados formam a base regional: são características essas que possibilitam acesso fácil ao grande mercado consumidor de todo estado de São Paulo e o escoamento de mercadorias inclusive para exportação.

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Todos esses fatores fizeram com que se formasse uma região altamente industrializada e relativamente populosa, observando-se inclusive o “nascimento” de conurbações entre boa parte dos municípios. Existia então uma metrópole (Campinas), e seus vizinhos com níveis expressivos de industrialização e urbanização. Com o desenvolvimento regional se sobressaindo perante as outras regiões do estado, mostrou-se necessário a formação de uma região político-administrativa em comum. Formou-se assim a Região Metropolitana de Campinas (RMC), criada no ano de 2000, e que agrega os principais municípios que mais se destacam no plano econômico no entorno do município de Campinas, tendo este como metrópole regional.

Mapa 5:

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A Região Metropolitana de Campinas14 (RMC) tem uma posição de destaque no cenário nacional, sendo uma das regiões metropolitanas com maior diversificação na produção industrial, principalmente em setores dinâmicos e de alto input científico/tecnológico, sendo que as diversas rodovias facilitam a fluidez tanto para a capital quanto para o interior, fato que atraiu muitas empresas. A mão-de-obra qualificada atende a demanda das grandes empresas de alta tecnologia, ficando praticamente independente da capital em todos os setores necessários ao pleno funcionamento da empresa. A RMC conta com uma população de aproximadamente 2.338.148 habitantes, sendo formada por 19 municípios15, dentre os quais Santa Bárbara d’Oeste se destaca, juntamente a Paulínia, Sumaré, Americana e Campinas, principalmente no setor econômico: industrial e agrícola. No setor agrícola, o município barbarense está entre os que mais se destaca, pela sua enorme produção de cana-de-açúcar. No ano de 2006, a produção nacional do produto foi de 457.245.516 toneladas de cana, sendo que destes o estado de São Paulo foi responsável por 69,89% do total, com 269.134.237 toneladas. Santa Bárbara d’Oeste, que neste ano produziu 960.00016 toneladas, respondeu por 0,20% da produção nacional, e por 0,35% da produção estadual de cana-de-açúcar. Isso aponta que a cultura de cana-de-açúcar tem grande relevância na economia do município barbarense.

As informações referentes à Região Metropolitana de Campinas foram retiradas do site da Agência Metropolitana de Campinas (AGEMCAMP). Disponível em: <www.agemcamp.sp.gov.br>. Acesso em: 02/07/2007. 15 Americana, Arthur Nogueira, Campinas, Cosmópolis, Engenheiro Coelho, Holambra, Hortolândia, Indaiatuba, Itatiba, Jaguariúna, Monte Mor, Nova Odessa, Paulínia, Pedreira, Santa Bárbara d’Oeste, Santo Antônio de Posse, Sumaré, Valinhos e Vinhedo. 16 Em 2006 houve redução da área plantada da cana-de-açúcar no município, que passou de 13.439 para 12.800 hectares. Essa diminuição da área reduziu também a produção, que em 2005 havia sido de 1.016.886 toneladas, representando 5,92% de queda para 2006. Fonte: IBGE

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Mapa 6:

Analisando os dados sobre a produção das lavouras temporárias nos solos barbarenses, no ano de 200517, temos que das 1.018.349 de toneladas produzidas, nada menos que 99,85%18 foi de cana de açúcar, que foi responsável por 1.016.886 toneladas. Neste mesmo ano, dos 14.139 hectares utilizados na produção das lavouras temporárias, a cana-de-açúcar ocupou 13.439, ou 95,04%19 do total das áreas disponíveis. O rendimento médio total dessas lavouras ficou em R$ 96.114.000, sendo que desse montante, a cana-de-açúcar respondeu por 78,72%20 do total, com um rendimento médio de R$ 75.666.000.

Dados mais recentes publicados. Fonte: Instituto de Economia Agrícola. Disponível em: <www.iea.sp.gov.br> Acesso em: 25/10/2007, 14:30. 18 Dentre os outros 0,15% restantes, estão 90 toneladas de arroz em casca, 330 toneladas de batatainglesa, 139 toneldas de feijão em grãos e 904 toneladas de milho em grãos. 19 Dos 4,06% restantes, estão o arroz em casca com 100 hectares, a batata-inglesa com 20 hectares, o feijão com 190 hectares e o milho com 390 hectares de plantação. 20 Dos 21,28% restantes, o arroz rendeu R$ 900.000, a batata-inglesa ficou com R$ 165.000, o feijão “abocanhou” o montante de R$ 731.000 e o milho teve um rendimento de R$ 2.317.000.

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A produção de cana-de-açúcar tem uma importância histórica no município, mantendo-se à décadas como o produto que mais ocupa as áreas agricultáveis do município. Neste sentido, a análise dos prós e dos contras da cana-de-açúcar nas terras barbarenses mostra-se importante, pois o grande predomínio de uma monocultura pode ser fato de desenvolvimento no setor agrícola ou mesmo atraso para o desenvolvimento do município como um todo. Mais importante do que se especializar em determinada atividade é ter uma produção dinâmica, abrangendo diversos tipos de produto, para que em período de crise de um deles, o município mantenha-se sem muitas perdas e reflexos negativos.
Tabela 3: Ranking de municípios produtores do estado de São Paulo (ton) 2006
1 2 3 4 5 6 7 9 99 Morro Agudo - SP Jaboticabal - SP Paraguaçu Paulista - SP Batatais - SP Barretos - SP Piracicaba - SP Olímpia - SP Valparaíso - SP Jaú - SP Santa Bárbara d'Oeste - SP 7.835.267 3.600.000 3.500.000 3.272.500 3.270.300 3.200.000 3.150.000 3.150.000 2.962.500 960.000 1 2 3 4 5 6 7

Tabela 4: Ranking de municípios produtores do Brasil (ton) 2006
Morro Agudo - SP 7.835.267

Campos dos Goytacazes - RJ

Jaboticabal - SP Paraguaçu Paulista - SP Batatais - SP Barretos - SP Piracicaba - SP 8 Olímpia - SP Valparaíso - SP 140 Santa Bárbara d'Oeste - SP

3.815.145 3.600.000 3.500.000 3.272.500 3.270.300 3.200.000 3.150.000 3.150.000 960.000

Fonte: IBGE – Produção Agrícola Municipal Organização: Ednelson Mariano Dota

Fonte: IBGE - Produção Agrícola Municipal Organização: Ednelson Mariano Dota

A cana-de-açúcar teve diversos momentos desde a sua implantação no Brasil até os dias atuais. Começou como um dos principais produtos exportados na época do Brasil colonial, com produção em larga escala na zona da mata nordestina, utilizandose do rico solo massapê. Posterior a zona da mata nordestina, a produção de cana encontrou espaço no estado do Rio de Janeiro e logo depois no estado de São Paulo, encontrando no solo fértil terra roxa todas as condições para seu pleno desenvolvimento. Até esse momento praticamente toda a produção de cana-de-açúcar era voltada para o abastecimento dos mercados internos e externos de açúcar e destilados. Mas foi no ano de 1975, com o surgimento do Programa Nacional do Álcool 22

(Proálcool)21, que a cana-de-açúcar novamente ganhou espaço. Teve a partir deste programa bases de sustentação para o aumento da produção e mercado consumidor garantido. Da época de sua implantação até o ano 2000, o Proálcool viveu certo equilíbrio, não conseguindo manter o crescimento expressivo observado até o ano de 1985. Após o ano de 2000, com o aumento exacerbado do preço do barril de petróleo no mercado internacional, ocorrido como reação pela guerra do Iraque, os combustíveis alternativos novamente ganharam destaque e foi lançado, em março de 2003, os motores flex fluel22, que dominaram as vendas a partir desta data, e alavancaram novamente a venda do álcool combustível no Brasil. A importância dos motores bicombustíveis e a retomada da expansão das lavouras canavieiras não tiveram o mesmo estímulo nas terras barbarenses. Tendo como base o PIB (Produto Interno Bruto) do município, observa-se que a agricultura teve um crescimento expressivo até o ano de 2002. A partir de 2003 (ano de lançamento dos motores flex fluel e início da nova expansão da cana-de-açúcar), contraditoriamente ao que se chamaria de normal para um município com mais de 90% das áreas agricultáveis tomadas pela cana, Santa Bárbara sofre uma retração no PIB agropecuário que também pode ser observado no ano seguinte. Todo o movimento observado em nível internacional com relação aos biocombustíveis, apontados como uma das soluções para os problemas ambientais ao redor do globo, têm incentivado o aumento da produção do álcool combustível, e conseqüentemente o aumento das áreas ocupadas pela cana-de-açúcar. Segundo estimativa do IEA (Instituto de Economia Agrícola), a previsão para a safra 2007 é 12,2% superior à 2006, chegando a atingir uma área de 4,8 milhões de hectares ocupados23. O aumento da produção brasileira acompanha o movimento global próambiente, através da política externa brasileira, que tem por objetivo o aumento da
O Programa Nacional do Álcool (Proálcool) foi criado em 14 de junho de 1975, através do decreto de nº 76.593, tendo como objetivo estimular a produção de álcool para o setor de combustíveis automotivos. Fonte: <www.biocombustivel.br> . Acesso em: 19/07/2007, 14:20. 22 Segundo estimativas da ANFAVEA (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), em 2013 o número de veículos Flex Fluel deve chegar a 15 milhões, representando 52% dos veículos em circulação no Brasil. Disponível em: <www.anfavea.com.br> Acesso em: 26/10/2007, 15:02. 23 Disponível em: http://www.iea.sp.gov.br/OUT/verTexto.php?codTexto=9039. Acesso em 17/09/2007.
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exportação do álcool. Essa política nacional visa o aumento das vendas tanto do álcool anidro (que se mistura à gasolina, variando de 20 a 25% do total), quanto o álcool hidratado (utilizado em veículos movidos 100% a álcool).

Gráfico 1: Evolução da prudutividade de cana-de-açúcar em Santa Bárbara d'Oeste Quantidade (toneladas) 1050000 1000000 950000 900000 850000 800000
19 90 20 04 19 96 19 94 19 92 19 98 20 00 20 02 20 06

Ano

Fonte: Instituto de Economia Agrícola Organização: Ednelson Mariano Dota
Gráfico 2: Evolução da produtividade de cana-de-açúcar: estado de São Paulo e Brasil Quantidade (toneladas) 500000000 400000000 300000000 200000000 100000000 0
6 8 0 2 4 0 2 4 19 9 19 9 19 9 19 9 20 0 19 9 20 0 20 0 20 0 6

Brasil São Paulo

Ano

O país se mostra hoje como o maior centro mundial de produção de cana-deaçúcar, tendo diversas frentes, centros de pesquisas particulares, de universidades e institutos voltados para o desenvolvimento de novas técnicas e produtos derivados da

Fonte: Instituto de Economia Agrícola Organização: Ednelson Mariano Dota

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cana. Dentre esses produtos, o que leva maior destaque é o álcool combustível, que no dia 07 de maio de 2004 estreou como commodity no mercado internacional. As commodities tem por objetivo controlar os preços e garantir o abastecimento do mercado mundial, funcionando como um mecanismo regulador, assim como acontece com outros produtos, como o açúcar, o café e o petróleo, que também são commodities.

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Capítulo III Migração sazonal em Santa Bárbara d’Oeste
Na imensa área ocupada pela cana-de-açúcar em Santa Bárbara d’Oeste, estima-se que a mecanização seja responsável por aproximadamente 35% da colheita24. Quem responde pelos outros 65% da colheita são os trabalhadores rurais, popularmente conhecidos como bóias-frias. Segundo Puschinelli (2007), a mecanização é pouco presente no município, pois a maior parte dos canaviais estão nas mãos dos pequenos proprietários, sem condições de investir na mecanização. As máquinas que colhem estão nas áreas de plantio das próprias usinas, que de qualquer forma dependem da mão-de-obra migrante para as áreas de maior declividade, local em que as máquinas não alcançam. A partir de 2006, a denominação bóia-fria deixou de se encaixar com o perfil dos cortadores de cana. As constantes denúncias por maus-tratos acabaram por intensificar a fiscalização por parte do ministério público, que realizou parcerias para viabilizar a melhoria da qualidade de vida. Uma dessas parcerias, realizada com a Vigilância Sanitária prioriza a visita aos alojamentos, analisando as condições dos prédios, e a infra-estrutura. “A vida por aqui melhorou muito nesses 9 anos que venho pra cá” relatou João Francelino Bezerra25, 35 anos. Dentre os benefícios conquistados nos últimos anos, além da melhora dos alojamentos, está a obrigatoriedade de receber as refeições fornecidas por terceiros. Desta forma, estando na roça ou no alojamento, recebem marmitex quente (fato pelo qual o termo bóia-fria não lhes cabe mais). Os fiscais da VISA (Vigilância Sanitária) seguem algumas normas que ditam as características dos alojamentos (NR 24), aquelas sobre os riscos no ambiente de trabalho (NR 9), e a que trata da saúde dos trabalhadores rurais, antes e durante o trabalho na usina (NR 7). Mostrando preocupação com a melhora das condições dos trabalhadores, a VISAT (Vigilância em Saúde do Trabalhador) lançou o curso Capacitação em Vigilância em Saúde do Trabalhador do Setor canavieiro, o qual tem por objetivo “Capacitar as equipes de vigilância em saúde para o desenvolvimento de
Segundo Jesuína Puschinelli Carneiro, Engenheira Agrônoma da Casa da Agricultura de Santa Bárbara d’Oeste, em entrevista realizada no dia 11/09/2007. 25 Foram entrevistados 11 trabalhadores rurais nordestinos estabelecidos em Santa Bárbara d’Oeste nos dias 11 e 12 de agosto de 2007.
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ações de Vigilância em Saúde do Trabalhador (VISAT) do Setor Canavieiro dos municípios-sede de usinas/destilarias, lavouras de cana-de-açúcar e habitações coletivas das respectivas Regiões de Saúde”26.
Mapa 7: Alojamentos de migrantes cadastrados na VISA

A VISA de Santa Bárbara d’Oeste mantém um cadastro atualizado dos alojamentos existentes dentro dos limites municipais [ANEXO I], os quais são utilizados para visitas de inspeção. Segundo Eliane Franco Wiesel Salvador27, Coordenadora Técnica da VISA, “não são todos os alojamentos que estão cadastrados, pois para isso o responsável pelo alojamento deve ter firma aberta”. Salienta também que “aqueles

“Eliminar, minimizar e/ou controlar os riscos à saúde do trabalhador do setor canavieiro paulista” é o objetivo-geral do curso. Informações disponíveis em: <www.cvs.saude.sp.gov.br> Acesso em: 17/08/2007. 27 Entrevista realizada em 14/08/2007, com a Coordenadora Técnica e com o Fiscal Sanitário Vitor Rodrigues Junior.

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que se cadastram é porque estão ciente de suas responsabilidades, [...] se não fossem cumprir com os deveres, certamente não cadastrariam seus alojamentos.” Segundo esse cadastro da VISA, o município conta hoje com 11 alojamentos cadastrados, abrangendo um total de 378 trabalhadores rurais. Esses alojamentos estão espalhados por todo o município, sendo que se observa uma pequena concentração na zona leste, área em que os valores de aluguéis são considerados médios28. Os trabalhadores rurais cortadores de cana estabelecidos em Santa Bárbara d’Oeste são na sua maioria migrantes sazonais, ou seja, aqueles que se estabelecem no município por certo período de tempo. Este tempo constitui-se como sendo a época de colheita, que se inicia em maio, e tem seu término no mês de novembro. Estes trabalhadores migrantes são maciçamente de origem nordestina, e buscam o campo barbarense como saída para os meses em que não conseguem produzir no Nordeste. Dentre os trabalhadores, existe uma considerável amplitude de idades, sendo que observa-se pessoas desde os 18 até os 51 anos de idade. Segundo informações dos próprios trabalhadores, a idade limite comum é por volta dos 45 anos de idade, pois “o serviço é muito pesado, e depois dos 40 a gente começa arriá”, afirma Cícero Alves de Souza, 39 anos. No dia da visita ao alojamento, Cícero apresentava luxação no ombro esquerdo, com o qual manuseia o facão, e por isso estava há 4 dias sem trabalhar. “O turmeiro disse que eu tô recebendo, vamos ver”, salienta, com certo receio quanto ao pagamento dos dias em que estava parado. Trabalhar com a terra é a vida dessas pessoas, pois no Nordeste alguns são arrendatários de terras, outros prestam serviços para terceiros, e alguns poucos são pequenos proprietários. A maior parte é casada, e permanecem metade do ano longe de suas famílias, sendo que a vontade de voltar impera dentre os trabalhadores.

“Se chovesse mais lá, eu nunca viria pra cá. É muito difícil ficar longe da esposa, da família. O que ajuda um pouco agora é que esse ano meus dois
A maior parte dos alojamentos estão no Bairro Planalto do Sol, cujo preço médio do aluguel de uma casa com 5 cômodos e 1 banheiro é de R$ 400,00. Nos bairros mais carentes, como Parque Zabani e o Jardim Nova conquista, residências nessas mesmas condições custam por volta de R$ 300,00. Outros bairros, como Cidade Nova e Jardim Pérola, mais estruturados, o preço do aluguel sairia por volta de R$ 500,00 a R$ 600,00 mensais.
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moleques também vieram, mas também deixaram as mulheres lá.” (João Francelino Bezerra, 35 anos)29 O trabalho nas lavouras paulistas se mostra como necessário para esta população, mas não pela simples e pura busca pela sobrevivência. Nos depoimentos colhidos fica claro que o objetivo fundamental dessa jornada de trabalho é a conquista/manutenção de certo poder aquisitivo, que cria condições para aquisição de determinados objetos que em situações de vida normal se tornam improváveis no Nordeste. Santos, cita que
[...]as migrações brasileiras, vistas pelo ângulo da sua causa, são verdadeiras migrações forçadas, [...] migrações ligadas ao consumo e à inacessibilidade a bens e serviços essenciais. (SANTOS, 1988, p. 44)

Esses objetos, segundo os trabalhadores são imóveis, carros, motos, aparelhos eletrodomésticos, que acabam por compensar todas as dificuldades de se viver metade do ano longe de casa. “se não for assim nóis num tem nada, só faz pra come, e mesmo assim com muita dificuldade, porque lá no inverno só tem chovido 3 mês, então você planta, colhe e depois vive com o que conseguiu [...]” (João Francelino Bezerra, 35 anos) “no campo a gente consegue planta milho, que é mais rápido, mas alguns também produzem arroz, feijão. Os que tem um pedacinho de terra também tem algumas cabeça de gado.” (Cícero Alves de Souza, 39 anos) Tão importante quanto o trabalho para o migrante, é o migrante para os usineiros. Enquanto existir o corte manual de cana, a relação migrante/cana continuará sendo indissociável, pois ambos (migrantes e usineiros) estão sendo favorecidos nesta relação. Quando a análise da relação é externa – feita por agentes não incluídos nos processos -, cria-se uma visão de grandes lucros para usineiros, em contrapartida de

Para melhor caracterização das entrevistas, as transcrições são feitas conforme a fala dos entrevistados, mantendo inclusive erros de português.

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depreciação/exploração dos migrantes. Mas o que ocorre, na verdade, é a complementação, pois “o interesse do capitalista e do operário é, portanto, o mesmo [...]. E de facto! O operário soçobra se o capital não o emprega. O capital soçobra se não explora a força de trabalho”. (MARX, 1849)30 O migrante necessita do trabalho, e o usineiro da mão-de-obra barata que o migrante tem a oferecer. Apesar dessa “dualidade”, cabe ressaltar que não existe equivalência entre os dois, mas sim a exploração do trabalho dos migrantes por parte dos usineiros. A lei da oferta e da procura, tão utilizada quando o assunto é o consumo e as questões do mercado capitalista, é facilmente adaptada aos canaviais. Existe uma grande quantidade de pessoas no Nordeste interessadas no trabalho oferecido pelas usinas, maior do que a procura, ou seja, o número de vagas que a usina tem a oferecer. Isso provoca uma desvalorização do preço do trabalho do migrante: salários baixos para os trabalhadores, lucros altos para os usineiros.

“a maior parte quer vir, só que os mais animados sempre são os mais jovens, querem ganhar pra comprar, pra ter as coisas” (Francisco Bezerra da Silva, 31 anos) Segundo relato dos trabalhadores, o número de pessoas interessadas em trabalhar nos canaviais é grande, superando o número de oportunidades. Os mais jovens, em busca do novo, ansiosos por novas e diferentes oportunidades, fora do campo nordestino, são os que mais buscam esse tipo de vaga. Não há vaga para todos, desta forma cria-se uma seleção. Esta não ocorre de modo formal, tal qual as empresas realizam: priorizam algumas características que nem sempre são levadas em consideração quando uma empresa é o agente empregador. O bom comportamento nas atitudes diárias e o prévio conhecimento do selecionador é o que conta no momento de ser selecionado. Tudo é levado em consideração para que não haja problemas entre os trabalhadores, e que os selecionados cumpram as obrigações, e compensem o investimento prévio com transporte, que é feito pelas usinas.
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MARX, Karl. “Trabalho Assalariado e Capital”, Editorial “Avante!”, 2006.

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“a pessoa responsável pela seleção sempre avisa como é aqui; deixa bem claro que o trabalho é duro, pesado, cansativo e que não tem muito descanso. O que não pode acontecer é a pessoa chega e não querer trabalhar, né?” (Francisco Bezerra da Silva, 31 anos) “pra este alojamento (26 pessoas) eu é que escolho as pessoas. Tento ajudar a família e os conhecidos, então trago meu moleques, os vizinhos. Não adianta eu querer ganhar sozinho, a gente tem que dividir o pão, não é mesmo? [...] mas pra selecionar não ganho nada não, e faço isso porque já tenho mais experiência. Aqueles que ficam bagunçando, os que não gosta de trabalhar a gente não traz, porque aqui não vai render, só vai atrapalhar. (João Francelino Bezerra, 35 anos)

O trabalho nos canaviais paulistas é apontado como solução financeira para as famílias do semi-árido nordestino, sendo que o fato de conseguir este trabalho significa melhora nas condições de vida dessas pessoas. Isso ocorre pela insuficiência da estrutura produtiva dessa área no Nordeste, que não dá condições para sua população manter um nível de vida satisfatório, em que possam consumir produtos além dos alimentos necessários à subsistência. Essa insuficiência da estrutura produtiva do Nordeste fica clara quando analisamos que “em 2004, nada menos que 56,7% da população do Nordeste era considerada pobre (26,6 milhões de pessoas)” (IPEA, 2006)31. Além de ter o maior número de pessoas consideradas pobres do Brasil, a região, que sofre com grandes disparidades sócio-econômicas, também se destaca no quesito de possuir “oito dos dez estados brasileiros com menor rendimento domiciliar per-capita médio, [...sendo eles] Alagoas, Maranhão, Piauí, Ceará, Bahia, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte”. (IPEA, 2006) Deste modo, a região nordestina fica marginalizada perante as outras: menos condições de vida para a população, menor poder de compra e de consumo, que por final acaba por “forçar” essa população às migrações.

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IPEA, Radar Social – 2006: Condições de vida no Brasil. Brasília, 2006

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Tabela 5: Despesa média mensal familiar BRASIL 1465,31 CENTRO-OESTE 1433,61 NORDESTE 978,58 NORTE 1115,93 SUDESTE 1757,15 SUL 1564,85
Fonte: IBGE - Pesquisa de Orçamentos Familiares 2003

Tabela 6: Proporção da população em situação de pobreza 2001 2002 2003 2004 BRASIL 33,3 33,0 33,9 30,1 CENTRO-OESTE 28,4 27,7 29,2 23,3 NORDESTE 57,2 57,1 58,2 53,7 NORTE 40,8 42,7 43,9 36,9 SUDESTE 21,4 21,1 22,2 19,3 SUL 21,4 20,1 19,8 16,9
IPEA 2006

A migração sazonal começa com a seleção dos trabalhadores. Em seguida, a viagem, que dura alguns dias é feita em ônibus fretado pelas usinas, levando os trabalhadores até Santa Bárbara d’Oeste, prontos a ficarem longe da família e realizar o trabalho nas lavouras paulistas. Cada trabalhador, responsável pela seleção dos trabalhadores no Nordeste, monta uma turma, que quando em Santa Bárbara d’Oeste ocupará o mesmo alojamento. Estes alojamentos podem ser na área rural, como os que estão registrados no nome da usina Cosan com 144 trabalhadores, e o alojamento da usina Furlan, com 75 trabalhadores. Além destes 2 alojamentos, estão cadastrados na VISA do município outras 9 residências coletivas (alojamentos dentro da área urbana), que juntas somam outros 179 trabalhadores. Quanto às condições destes alojamentos, pode-se verificar que em 2005 e 2006, não houveram registros de reclamações, fato diferente dos anos anteriores.

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Foto 1: Alojamento

Foto 2: Alojamento

Foto: Ednelson Mariano Dota Foto 3: Alojamento

Foto: Ednelson Mariano Dota Foto 4: Ônibus rural

Foto: Ednelson Mariano Dota

Foto: Ednelson Mariano Dota

A partir de buscas realizadas nos jornais que cobrem o município, foram encontradas diversas reportagens sobre os migrantes alojados no município, dentre as quais aquelas que citam as condições inapropriadas dos alojamentos. Dentre as reportagens que cita maus-tratos aos trabalhadores, duas são do ano de 2002, uma de 2003 e mais duas de 2004. Após esse período, a imprensa escrita que cobre Santa Bárbara d’Oeste não registrou nenhum fato novo, principalmente pela intensificação da fiscalização por parte do ministério do trabalho, a partir da VISA.

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Segundo a VISA32 de Santa Bárbara d’Oeste, após o início das inspeções nos alojamentos, observou-se melhora progressiva nas condições oferecidas aos trabalhadores. Essas melhoras, obtidas a partir de inspeções regulares, foram obtidas em todos os âmbitos da vida dos migrantes em terras barbarenses, não só no caso dos alojamentos, mas na alimentação, que obrigatoriamente deve ser servida por terceiros, e nas próprias condições de trabalho, onde todos são registrados como funcionários das usinas. O transporte dos trabalhadores dos alojamentos para a roça é feito através dos ônibus rurais, notadamente em más condições. Estes ônibus são de propriedade do empreiteiro responsável pelos alojamentos dos trabalhadores, e pelo transporte diário dos mesmos até o canavial. Há registros jornalísticos de acidentes ocorridos devido à precariedade dos meios de transporte dos trabalhadores. A precariedade dos veículos não recebe importância por parte dos empreiteiros, pois “o Brasil, é o único país onde existe preconceito com trabalho do campo, com os trabalhadores rurais. Não se dá a importância merecida a esses trabalhadores”33, e por isso, independente da situação, chegar ao trabalho, e depois retornar ao alojamento é o que importa para estas pessoas. Quando da vinda dos migrantes para Santa Bárbara d’Oeste, pouco trazem de objetos, sendo que apenas as roupas para o dia-a-dia e o garrafão de água, acompanham essas pessoas até as terras paulistas. Além disso, por aqui pouco se compra, sendo que de modo geral as guloseimas são as preferidas. “a gente procura não gastar muito aqui. A maioria aqui é casada, então deposita no banco pra mulher se manter por lá. Do dinheiro que pega, metade fica aqui mesmo, porque tem que pagar a cantina34, água e força da casa, segura um dinheirinho pra comprá umas bolachas, tomar uma cervejinha, compra cartão pra ligar pra esposa, e o resto guarda.” (Elton Moraes de Souza, 26 anos)

Entrevista realizada no dia 03/11/2007, com Eliane Wiesel Salvador, Coordenadora Técnica, há 08 anos no cargo, e Vitor Rodrigues Junior, Fiscal Sanitário, há 04 anos no cargo. 33 Jesuína Puschinelli Carneiro. 34 Cantina é como se referem à cobrança feita pelos empreiteiros, no valor de R$ 220,00 mensais, para custeio de alimentação e o transporte até a lavoura. Os custos com a água e energia consumidos nas casas também são pagas pelos trabalhadores.

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Além da preocupação com a família que permaneceu no Nordeste, alia-se a questão do custo de vida, que segundo os trabalhadores, são bem diferentes nas duas regiões. “o preço das coisas aqui é muito alto, por isso a gente só gasto o necessário. Esses dias fui no mercado com o empreiteiro nosso, fazer umas compras pra ele levar pra turma que manda nossa comida. Ele falou pra eu pegar o que achava que daria pra 1 mês, então peguei 20 sacos de arroz, bastante feijão, as carne e hora que passo no caixa, deu 480 reais. Todo esse dinheiro pra pouca coisa, porque lá no Nordeste, com 400 reais você vai no armazém e manda vim uma caminhonete carregada de coisas, que dá pra você passa com a sua família uns par de mês.” (João Francelino Bezerra, 35 anos) A questão do custo de vida diferenciado entre Santa Bárbara d’Oeste e o nordeste, especificamente na área onde residem, é de fato fator que chama a tenção entre os trabalhadores estabelecidos em Santa Bárbara d’Oeste. Enquanto João Francelino me citava essa experiência da visita ao supermercado com o empreiteiro, outro trabalhador rural do mesmo alojamento aproximou-se e citou comparação interessante, da própria experiência adquirida no município. Ele, casado há 15 anos no Nordeste, pai de 2 filhos, acabou por conhecer uma mulher em Santa Bárbara d’Oeste, e estava morando com a mesma em uma residência em separado, próximo ao alojamento dos amigos. “lá, com 500 reais por mês, você vive tranqüilo, pagando ainda o aluguel. Uma casinha boa custa 50 reais por mês, a água a gente não paga, então só tem que pagar a força. Aqui a coisa é bem diferente: pra sustentar uma família aqui, tem que ganhar uns 1000 reais, porque o aluguel é caro, tem que pagar água, força e ainda fazer compra. Só to morando com a Maria porque não gasto com comida, e pago metade do aluguel” (Guilherme Castro dos Santos, 37 anos) Segundo Guilherme, sentia-se muito carente, motivo pelo qual “juntou-se” com Maria, e relatou também que o fato de ainda poder enviar dinheiro para a família no Nordeste foi imprescindível, pois “por mais coisas erradas que faça, nunca me esqueço dos filhos”. Essa questão das carências, das saudades do Nordeste explicam

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determinadas compras realizadas no município, especialmente as influências causadas na feira-livre central, ocorrida nas manhãs de domingo, na área central do município. Essa feira é tradicional, recebendo inclusive visitantes de outros municípios como Americana e Capivari. Teve início nos anos 60, mas a partir de 2004, observou-se o início de um fato interessante, tendo como agente causador os migrantes sazonais alojados no município. Dentre as mais de 70 barracas presentes na feira, 3 comercializam produtos de origem ilícitas, como CDs e DVDs piratas. Essas barracas tocam seus CDs desde o início da manhã, e, através de observação a campo, pode-se constatar que, das 4 horas na qual foram reproduzidas músicas, aproximadamente 3 horas foram especificamente para Forró, tipo de música originariamente nordestina. “a gente toca mais forró porque os nordestinos procuram bastante, então nós testamos os cds e colocamos o que chega de novo pra eles ouvirem” (Ronaldo Rocha Ribeiro, 19 anos)35 De modo geral, gastam mais no último mês de permanência, quando compram produtos para presentear a parentela que na origem permaneceu. Os gastos feitos em Santa Bárbara d’Oeste está condicionado a um fator principal, que é ser casado ou solteiro. Os casados, que carregam maior responsabilidade consigo, são os que gastam menos, pois procuram depositar a maior quantia possível para a mulher e os filhos que no Nordeste permaneceram. O objetivo é poupar, para melhorar de forma geral as condições nos meses em que retornarem. Quanto aos solteiros, esses tem objetivos diferentes: sem a necessidade de enviar dinheiro para o Nordeste, ficam mais livres para gastarem seus salários, consumindo produtos muitas vezes com valor expressivo, como aparelhos de som e vídeos-game, observado nos alojamentos. O não-trabalho dos migrantes se mostra bem caseiro, com poucos momentos de lazer, e muito repouso para agüentar a pesada vida nos canaviais. Costumam sair muito pouco, freqüentando geralmente apenas bares, para confraternizar com os amigos.

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Entrevista realizada em 28/10/2007.

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“a gente sai muito pouco. Como quase não conhecemos a cidade, não sabemos onde ficam os lugares bons, e onde é perigoso freqüentar.” (Elton Moraes de Souza, 26 anos) Os migrantes então, vivendo em Santa Bárbara d’Oeste, acabam por construir suas interações espaciais com o lugar, isto porque escolher os “lugares bons e ruins” são interações criadas a partir das experiências já consolidadas na origem, e que são moldadas para se adaptar à forma de vida que levam em Santa Bárbara d’Oeste. Segundo Corrêa, as práticas espaciais são “um conjunto de ações espacialmente localizadas que impactam diretamente sobre o espaço, alterando-o no todo ou em parte ou preservando-o em suas formas e interações espaciais”. (CORRÊA, 2003, p.68) Os migrantes escolhem os locais a freqüentar, e esse processo de escolha, ou de seletividade espacial, ocorre quando alguém “decide sobre um determinado lugar segundo este apresente atributos julgados de interesse de acordo com os diversos projetos estabelecidos” (CORRÊA, 2003). Como o projeto para o tempo em solo barbarense é trabalhar e poupar capital, o lazer e conseqüentemente visitas a lugares desconhecidos que possam oferecer determinados riscos aos trabalhadores ficam em segundo plano. O uso do território é para o migrante seu modo de vida, sendo que a constante locomoção está intrinsecamente ligada às condições de vida desta população. Santos cita que
No começo da história, o território era os dois, para todos... Ele era abrigo e era recurso. As pessoas tiravam dele a sua sobrevivência e eram também protegidas por ele. A história da humanidade é a história da dissociação dessas duas condições, que agora chegou ao ápice com a produção das chamadas redes. As redes são formadas de pontos bem tratados, bem equipados no território, facilitando a vida das grandes empresas globais. Essas grandes empresas instalam-se nesses pontos.[...] Elas tratam o território apenas como recurso, mas são muito pouco numerosas. No caso do Brasil, esse percentual é ínfimo. A maioria esmagadora, a quase totalidade das empresas tem o território como abrigo. (SANTOS, 1997, p.22)

Milton Santos trata do uso do território pelas empresas, e aqui, sua teoria será aplicada aos migrantes, que tiram sua sobrevivência no território, e que dele dependem

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integralmente. Guardadas as devidas proporções, os migrantes utilizam-se do território assim como as empresas, sendo que fazem isso por completo, ou seja, preenchem as duas saídas existentes. O território como recurso é aquele que os migrantes utilizam para tirar o seu sustento caracterizando-se como as plantações de Santa Bárbara d’Oeste. É recurso pois tem o significado de trabalho, de angariar renda, que por fim é enviado para o Nordeste. Outros significados típicos da vida humana não existem nessa relação, pois suas raízes estão no Nordeste, ficando Santa Bárbara d’Oeste como o meio encontrado de suprir suas necessidades. Mesmo sendo o modo de fuga encontrado pelos migrantes para os problemas nordestinos, Santa Bárbara d’Oeste também é abrigo para estes trabalhadores. É abrigo pois apesar do objetivo específico ser o trabalho, eles tem que se estabelecer, e dessa forma acabam por criar as interações espaciais com o lugar, como aqueles citados anteriormente. Durante o dia, horário de trabalho nos canaviais, o território é recurso, e durante a noite, quando descansam nos alojamentos, o território acaba por se tornar abrigo.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
A elaboração desse trabalho, feito a partir de análises na bibliografia citada, permitiu-nos chegar a algumas conclusões, e acabou também por criar novas e interessantes inquietações, os quais num futuro trabalho poderão ser abordados. O crescimento da produção canavieira nacional está em franca expansão, a partir das questões ambientais, que hoje recebe os holofotes em todas as partes do mundo. Esse crescimento, que engloba desde o estado de São Paulo, maior produtor nacional, até novas frentes no Centro-Oeste, tem em cada local características diferentes. Estas características, em Santa Bárbara d’Oeste acabam por chamar atenção. Enquanto a maior parte da produção no país se concentra nas mãos das grandes usinas, no município esta produção está concentrada em pequenas propriedades, fato que acaba por inviabilizar a mecanização agrícola. Desta forma, necessitando da colheita manual, a mão-de-obra migrante acaba por suprir a essa demanda. As migrações, verificadas desde o início das civilizações, sempre estiveram ligadas às necessidades de cada povo. Desta forma, cada povo, em cada momento histórico, sempre buscavam novas oportunidades em outros locais, o que certamente continuará existindo. Um desses movimentos pelo território ocorre atualmente, tendo como autor os camponeses nordestinos estabelecidos na zona semi-árida, que por não terem condições de plantar durante boa parte do ano, buscam oportunidades em outros locais. A migração nordestina existe por um fator bem definidos: a insuficiência do área semi-árida do Nordeste, que não consegue construir uma estrutura na qual sua população possa produzir sem tanta dependência do clima, fato que cria a necessidade de migrar. A partir dos relatos dos próprios migrantes, a necessidade é de consumir produtos além daqueles que seriam utilizados para alimentação, algo além da própria subsistência. Desta forma, a migração não aparece como opção, mas como única saída.

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O movimento é importante para todos os agentes do processo, por isso é tão forte, e sem perspectivas de estar em vias de arrefecer. Mas outros fatores ameaçam essa supremacia da mão-de-obra migrante, como a mecanização. Apesar dela estar crescendo ano a ano, essas máquinas não alcançam terrenos com determinadas declividades, fato que favorece o trabalho migrante. De qualquer forma, a mecanização continuará avançando e cobrirá boa parte dos terrenos. Qual serão as opções para estas pessoas se o trabalho nos canaviais paulistas não estiverem mais acessíveis? Estas e outras questões devem receber mais atenção, e certamente estes fatores acarretarão grande impacto social no Nordeste, onde a parte das famílias que ficam recebem as economias adquiridas em São Paulo, sendo imprescindível para as condições de vida dessa população. O que certamente fica evidente é que se as oportunidades nos canaviais paulistas diminuírem, os migrantes encontrarão outras formas de suprir as necessidades. Outros destinos ganham importância, como a busca pelas novas áreas do Centro-Oeste, no Norte, e no próprio Nordeste, como o oeste da Bahia, por exemplo. Esta é a única afirmação que se mostra evidente, pois as decisões de investimento, para possibilitar uma vida com boas condições em conformidade com o que o semi-árido possibilita, não tem recebido a devida importância pelo poder público, fato que não ajuda a população a vencer as dificuldades da seca, e tornar a região auto-suficiente, não precisando assim buscar na migração o sustento da família.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Anexo I
Conforme solicitado, segue a relação de alojamentos / moradias de trabalhadores rurais cadastradas nesta VISA no ano de 2007. COSAN S/A Indústria e Comércio São Francisco; End: Fazenda Areia Branca, s/nº Quantidade de trabalhadores: aproximadamente 144 Clodoaldo Medina ME; End: Rua Natal, 1404, Planalto do Sol Quantidade de trabalhadores: aproximadamente 15 Clodoaldo Medina ME; End: Orlando Cerchiare, 318, Vila Rica Quantidade de trabalhadores: aproximadamente 26 Walter Venâncio Morato; End: Rua Terezina, 1082, Planalto do Sol Quantidade de trabalhadores: aproximadamente 18 Walter Venâncio Morato; End: Rua Olinda, 669, Planalto do Sol Quantidade de trabalhadores: aproximadamente 24 Usina Açucareira Furlan S/A; End: Rod. SP 304, 5, Alambari Quantidade de trabalhadores: aproximadamente 75 Alberto Medina; End: Av. São Paulo, 2724, Cidade Nova II Quantidade de trabalhadores: aproximadamente 20 Newton Deale M. K. Junior e Outros; End: Av. São Paulo, 2496, Cidade Nova Quantidade de trabalhadores: aproximadamente 20

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Claudinei R. de Carvalho ME; Rua Lituânia, 155, Jd. Europa IV Quantidade de trabalhadores: aproximadamente 12 Claudinei R. de Carvalho ME; Rua Lituânia, 479, Jd. Europa Quantidade de trabalhadores: aproximadamente 12 Claudinei R. de Carvalho ME; Rua Assis Brasil, 26, Pq. Residencial Frezarin Quantidade de trabalhadores: aproximadamente 12

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