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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(t'n memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanca e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaieca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.

A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga


depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
267
O caso Galileo Galilei

"República Guaraní"

A Igreja e a Escravidáo no Brasil


I O indio

A Igreja e a Escravidáo no Brasil


II. O africano

Igreja Popular: Que é?

"Filosofía da Ciencia"

"Aborto. O Direito á Vida"

MARCO-ABRIL — 1983
PERGUNTE E RESPONDEREMOS
MARCO-ABRIL — 1983
Publicacáo bimestral
N° 267

Diretor-Responsável: SUMARIO
D. EstévSo' Bettencourt OSB
Autor |e Redator de toda a materia Reabertura do processo:
publicada neste periódico
O CASü GALILEO GALILEI 2
Diretor-Administrador
Cinema e inlerpretacao da historia:
D. Hildebrando P. Martins OSB
"REPÚBLICA GUARANÍ" de Silvio
Back 1o

Em retrospectiva serena e objetiva:


Admlnlstracao e dislribulcao:
A IGREJA E A ESCRAVIOAO NO
Edic6es Lumen Christí BRASIL: I. O INDIO 18
Dom Gerardo, 40 - 5° andar, S/501 Ainda a escravatura:
Tel.: (021) 291-7122 A IGREJA E A ESCRAVIDAO NO
Caixa postal 2666 BRASIL: II. O AFRICANO 30
20001 - Rio de Janeiro • RJ Candente questáo:
IGREJA POPULAR: QUE É? 45

Um desafío intelectual:
Pagamento em cheque nominal visado ou
Vale Postal (para Agencia Central/Rio), "FILOSOFÍA DA CIENCIA" de Rubem
Alves 62
enderezado áa:

EdicSes Lumen Christl


Láurea da Academia Nacional
de Medicina:
Caixa Postal 2666
"ABORTO. O DIREITO Á VIDA,"
20001 • Rio de Janeiro • RJ
por diversos 70

Esclarecendo dúvidas...
"OPUS DEI" : PRELAZIA PESSOAL . . 79
ASSINATURA EM 1983:
(De Janeiro a dezembro) Cr$ 2.500,00
Número avulso de 1982 Cr$ 200,00
Número avulso de 1963 Cr$ 450,00
NO PRÓXIMO NÚMERO:
RENOVÉ SUA ASSINATURA
QUANTO ANTES 268 — maio-junho — 1983
Pré-pascal e pós-pascal nos Evangelhos.
— Os protestantes e María. — "A sexuali-
COMUNIQUE-NOS QUALQUER dade Humana". — "Urna nova Moral". —
"Estamos salvos". — "Historia da Teología
MUDANCA DE ENDERECO na AL". — "Dogmatismo e tolerancia" —
"O que é a Magonaria".

Compoaicto e hnpresaao:
"Marques Saraiva"
Santos Rodrigues, 240
Rio de Janeiro COM APROVACAO ECLESIÁSTICA
QUARESMA E PÁSCOA
No tempo de Quaresma e Páscoa, a mente do cristáo se
volta para o misterio da dor... A solugáo para tal problema
tem sido procurada por filósofos e religiosos, que indagam:
como conciliar o sofrimento com a bondade do Criador, que
é Pai?

A sá razáo e a fé respondem que o mal nao pode ter sua


origem em Deus — por definigáo, Ser Perfeitissimo —, mas
a tem na criatura, que, livre como é, pode agir defeituosamente.
Todavía acrescenta a fé que Deus nunca permitiría o mal se
nao tivesse recursos para tirar do mal bens aínda maiores
(S. Agostinho); Deus nao é indiferente ao mal que o homem
comete ou padece. Por isto quis assumir a sorte do homem e,
percorrendo-a até a morte de cruz, deu-lhe um desembocar
inédito: a ressurreigáo ou a vitória sobre a morte. Atualmente
o caminho da cruz continua a ser o caminho do homem, mas
o sinal negativo da caminhada foi mudado em positivo: a cruz,
patíbulo do escravo, tornou-se a árvore da vida. Em conseqüén-
cia, o Cristo no Apocalipse aparece como «Aquele que conheceu
a morte, mas eis que vive pelos séculos dos séculos, e tem as
chaves da morte e da regiáo dos mortos» (Ap 1,18).
Ao cristáo compete assumir a sua cruz em uniáo com o
Senhor Jesús. Nao é táo difícil fazé-lo no inicio da vida espiri
tual, quando há entusiasmo «novico». Mais difícil é fazé-lo
anos a fio, sem que se possa prever o respectivo fim. A corrida
do atleta cristáo nao é corrida de salto, que se vence em segun
dos, mas é corrida de fólego, ... corrida que, quanto mais
duradoura, tanto mais gloriosa é; trata-se de dar um passo,
mais um passo, aínda mais um passo..., sem que se tenha
a certeza humana de que haverá torga para o passo seguinte.
Tal é o heroísmo cristáo. Enquanto o discípulo de Cristo assim
peleja, pode acometé-lo a tentagáo do desánimo: largue os seus
propósitos utópicos, jogando fora todos os esforcos realizados
no decorrer de 80 ou 90% da caminhada! Esta tentagáo é
conhecida no próprio livro do Apocalipse, onde se lé: «Guarda
o que tens para que ninguém arrebate a tua coroa» (Ap 3,11).
Isto quer dizer: «O que fizeste até agora é para ti penhor de
inestimável coroa de gloria; nao permitas que na reta final a
pusilanimidade te prostre por térra. Cré naquele que te
chamou... Cré e nao serás frustrado!»
Ora é tal fé que Quaresma e Páscoa pretendem corroborar
em todo cristáo, principalmente neste ano, em que se come-
moram 1950 anos de Redengáo do género humano.
E. B.

— 89 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XXIV — N' 267 — Marco-abril de 1983

Reabertura do processo:

0 Caso Galileo Galilei


Em sínlese: O presente artigo reproduz a noticia de um Simposio
ocorrido recentemente na Universidade Católica de Washington a respeito
do caso de Galilou. Os Intelectuais al reunidos, revendo o famoso episodio
do século XVII, enfatfzaram o fato de que a tese heliocéntrica de Galileu
nao podía apresentar em seu favor razóes convincentes; Galileu julgava
que o fluxo das mares serla a prova da revolucSo da Térra em torno do
Sol, quando na verdade se sabe que as maros se devem á forga da gravi-
dade da Lúa. Sem argumentos plausiveis, a tese do sabio florentino só
podía parecer errónea aos teólogos e ao grande público do século XVII,
para quem o geocentrismo tinha n§o somonte foros científicos, mas tam-
bém autoridade incutida pelas páginas bíblicas (cf. Js 10,12s). Será pre
ciso, pois, entender a atitude de repulsa a Galileu no século XVII a partir
das circunstancias de tal época, e nao em funcáo de parámetros que só
posteriormente foram definitivamente reconhecidos.

Comentario: Depois que o S. Padre Joáo Paulo II em 1980


falou da possível reabertura do processo Galileu Galilei, este
tema tem estado freqüentemente no ar. Cf. PR 244/1980,
p. 156; 250/1980, pp. 420-428. Pergunta-se: que poderia a
Igreja dizer a respeito, depois de haver condenado Galileu?

Ora em 1982 realizou-se na Universidade Católica de


Washington um Simposio sobre o assunto, do qual deu noticias
o repórter Philip J. Hilts do jornal Washington Post em artigo
transcrito pelo liatón América Daity Post de 5/10/1982. Tal
escrito nao pretende ser um relatório de estilo científico, mas
é suficiente para por o leitor a par de recentes e importantes
pronunciamentos feitos sobre a candente questáo por parte de
cientistas. Eis por que transcreveremos, a seguir, o texto do
artigo em tradugáo portuguesa \ e Ihe acrescentaremos alguns
comentarios.

1 Ao distinto tradutor, Sr. José Lobo de Parias, aqui fica expressa a


gratidfio da redacáo de PR.

— 90 —
O CASO GALILEU GALILEI

I. O ARTIGO
REABERTURA DO PROCESSO GALILEU GALILEI
Gal ¡leu nao pode provar pela razao que o cosmos
tlnha o sol como centro
WASHINGTON — Trezentos e cinqüenta anos depois do ¡ulga-
mento de Galileu, num simposio em pequeño auditorio na Universi-
dade Católica daqui, estabeleceu-se a mesma discordancia entre fé
e ciencia que perturbou Galileu Galilei.
No afá de desfazer alguns dos mitos relacionados com o
famoso julgamento (um dos mais importantes acontecimentos políticos
da historia da ciencia e singular caso de confuto entre razao e fé),
os próprios intelectuais entraram a disputar sobre o significado da fé.
Por um momento, todos os presentes ficaram surpresos.
Oven Gingerich, astónomo grisalho baixinho, de Harvard, estova
falando, ¡á no fim do simposio, a respeito da perturbacao de Galileu
como homem de fé que encontrou sinais de que a sua Igreja e a
Escritura estavam erradas.


— «Ho¡e na ciencia (disse Gingerich, um tanto inesperada
mente) nao ha mais crenca como tal: :ó há probabilidade».
Levantou-se visivelmente nervoso um sujeito no auditorio, e disse:
— «Nao posso admitir isfo. Nao posso aceitar, como diz o
senhor, que os dentistas nao acreditem na materia que estudam, e
que é possível que a astronomía esteja errada acerca do que sejam
as estrelas e como se movem. O senhor realmente pensa que está
tudo errado?
— Pensó (respondeu Gingerich). é possivel. Por exemplo:
quando argüidos, os físicos diróo que os átomos, como objetos reais
na forma que imaginamos, nao podem ser comprovados de modo
absoluto. O máximo que podemos dizer, é que o universo age como
se fosse feito de átomos».
E continuou o distinto astrónomo:
— «Também com as estrelas, sabemos que sao apenas pontos
de luz expostos em chapas fotográficas. Nao existe prova absoluta
do que sejam elas».

Interveío o Padre William Wallace, alto e grisalho dominicano


da Universidade Católica:
— «Mas o senhor aceita .a astronomía como apenas altamente
provável? Ou realmente acredita nela como algo verdadeiro?
— A maioría dos cientistas nao pensa nisto (disse Gingerich)».
— 91 —
i «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

Nenhuma Medida Absoluta


E prosseguiu Gingerich:

— «Mas, quando pressionados, os dentistas nao podem deixor


de lembrar-se de que a realidade absoluta caiu por térra no comeco
do século com Einstein. Provou-se que o próprio tempo é relativo, é
questao de percepcáo. Ficou provado que a materia é fluida e enga
ñosa. Ficou evidente que nenhum tipo de medida é absoluto. Tive-
ram de ser abandonadas muítas das realidades absolutas do espaco
e do tempo. Daí em diante nao se pode simplesmente falar de certe
zas nem do que é real ou irreal.

— Nao posso acreditar (resmungou o homem do auditorio


enquanto se sentava)».

O simposio denominado «Reinterpretando Galileu» foi realizado a


semana passa na Universidade Católica e no Instituto Smithsoman
para rever o processo de Galileu, em face de novos elementos recen-
temente descobertos acerca da vida dele.

Tanto na tribuna como nos corredores, só se falava, durante o


simposio, de alguns novos testemunhos sobre Galileu, e, aínda mais,
a respeito da decisao da Igreja de reabrir o processo Galileu.

Sao facéis de entender os fatos. Em 1616, urna comissáo de


teólogos declarou que há duas proposicóes literalmente contrarias a
Biblia: que o sol permanece parado e que a térra se move. Em 1632,
Galileu publicou o livro «Diálogo Sobre os Dois Principáis Sistemas
do Mundo», no qual ensinava e defendía os dois principios proscri
tos. Por causa disto foi ¡ulgado em 1633, e declarado culpado.
Depois, Galileu foi convidado a desdizer-se, isto é: declarar explíci
tamente que nao sustentara que a térra se move e que o sol perma
nece parado. Galileu concordou.

Superadas as Concepgóes Erróneas


Mas, no simposio — em virtude de prova de Wallace, de
Gingerich e do intelectual polonés Joseph Zycinski — foi re[eitado
grande número de concepcóes erróneas sobre Galileu e sobre o
[ulgamento.

Os intelectuais disseram, contrariamente á crenca popular:


— «Galileu nao foi acusado nem condenado por heresia. Ga
lileu nao fo¡ torturado, nem Ihe foram mostrados os instrumentos de
tortura.

— 92 —
ó Casó úaLileü galileí

— O ponto de debate no processo nao fo¡ estriramente de


ignorancia religiosa versus verdade científica: a verdade científica em
sí mesma, naquela época, era obscura e equívoca.

— E, depois de Galileu concordar em dizer que nao acredítava


na térra em movimento e no sol parado, provavelmente nao pronun-
ciou, como diz a lenda, as provocadoras palavras: 'E, contudo ela
se move!' » '

Um dos que, no simposio, tém ligacao direta com a reabertura


por parte do Vaticano, do processo Galileu, é Wallace. Disse ele"
que, ao reabrir o caso, nao pretende a lgre¡a mudar o veredicto.

— «De fato | disse Gingerich com um sorriso), seria difícil para


a lgre|a achar Galileu inocente. Ele foi apenas acusado de desobe
decer a urna ordem da Igreja, e está fora de dúvida que realmente
desobedeceu».

Mundos Diferentes

— «O verdadeiro motivo para a reabertura do caso disse


Wallace — é dar á Igreja a oportunidade de demonstrar que nao
ha confuto entre ciencia e religiao; aplicam-se a dois diferentes mun
dos: o mundo da fé e o mundo que o homem pode conhecer pelos
sentido; e pela razao».

Declarou Wallace que a reabertura do caso, portento, a¡udará


a reagir contra a onda de fanatismo fundamentalista que parece
assolar o mundo inteiro, e nao só os Estados Unidos. Disse mais que
fundamentalismo e críacionismo procuram demonstrar que ciencia e
religiao estao em confuto e que a Igreja prec'sa reagir contra estas
ideías.

A suposicao de que há confuto entre crenca religiora e conhe-


cimento científico decorreu, em grande parte, do que ainda se diz a
respeito de Galileu e do ¡ulgamento dele. Em face da unanimidade
de opinioes dos oradores no recente simposio, ¡á se pode hoje afir
mar: Estova simplesmente errada a prova científica de Galileu.

De acordó com Wallace, Golileu, quando moco, pensou que a


sua grande prova seriam as mares, se ao menos pude:se ele demons
trar a influencia direta do giro da térra e das revolucoes em torno
do sol na subida e na descida dos mares.

— 93 —
6 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

Mas naturalmente Galileu estova errado. As mares nao sao


causadas pelo movimento da térra, mas pela forca de gravidade
da lúa.

Pior aínda, nao havia símplesmente prova de que o modelo


heliocéntrico de Galileu e de Copérnico fosse melhor do que o mo
delo popular geocéntrico demonstrado por Tycho Brahe. E o sistema
de Brahe tinha a vantagem de nao se opor á Escritura nem á doutrina
da Igreja.

Justificasño

Assim, pelos conhecimentos da época (disseram os intelectuais


no simposio), houve justificativa para o processo, porque descobri-
ram que Galileu desobedeceu as ordens da lgre¡a, e por acreditarem
que Galileu nao dispunha de elementos para demonstrar que o sol
era o centro do universo.

Mas os intelectuais discordam sobre o dramático momento do


¡ulgamento de Galileu: a confissao.

Usando novos documentos da ciencia de Galileu, disse Wallace


que Galileu acreditava muito bem que obteria finalmente provas
cabais do sistema heliocéntico. Mas na época do processo, quando
contava cerca de anquento anos, Galileu sabia que nao tinha argu
mentos para provar o seu ponto de vista.

II. COMENTARIO

Numa linguagem jornalística, entre outras consideracóes


o artigo em foco propóe as seguintcs verdades referentes as
partes postas em confronto, ou seja, a Galileu e aos teólogos.

1. A posigao de Galileu

Galileu estava com a razáo. O passar dos tempos com-


provaria a tese. Contudo na época em que ele a apresentava,
o cientista italiano nao podia contar com argumentos ou com
provas científicas. Pretendía, portanto, abalar um grande
edificio de ciencia e fé, que durava vinte sáculos (desde
Ptolomeu!), sem ter razóes convincentes. Com efeito, diz o
articulista, Galileu tencionava provar sua tese a partir do

— 94 —
O CASO GALILEU GALILEI

fenómeno das mares: estas seriam devidas ao giro da Térra


o as revolugóes do nosso planeta em torno do Sol. Ora sabe-se
que as mares nao sao causadas pelo movimento da Térra, mas
pela forca da gravidade da Lúa.

Os outros argumentos aduzidos pelo cientista florentino


eram ineptos para provar o heliocentrismo.

«Gallleu acreditava muito bem que obteria finalmente provas cabais do


sistema heliocéntrico. Mas na época do processo, quando contava cerca
de cinqüenta anos, Galileu sabia que nao tinha argumentos para provar o
seu ponto de vista" (p. 94 deste fascículo).

2) Os intelectuais do Simposio em foco enfatizaram o


fato — hoje em dia cada vez mais evidente — de que a ciencia
está sempre a rever suas posigóes. Quanto mais progride, mais
reconhece que há número crescente de variáveis nos seus
horizontes e ñas premissas de suas conclusóes; estas, pois,
ficam sujeitas a grande instabilidade. Por isto nao se pode
fazer da ciencia um absoluto ou urna «deusa», nem se deve jogar
a ciencia contra a fé; na verdade, nao há confuto entre ciencia
e fé; aquela nao alcanga o plano da fé, nem esta interfere
diretamente ñas proposigóes da ciencia. Antes, deve-se dizer
que os artigos da fé prolongam e ilustram as verdades racionáis
e científicas numa complementagáo harmoniosa.

3) As ponderagóes anteriores nao significam que nao


naja certezas ou verdades inconcussas, para a mente humana.
Estas existem no plano da metafísica (o ser nao ó o nao ser,
o todo é maior do que qualquer das suas partes, o homem é
um vivente racional...), como também existem em proposi
góes da matemática, das ciencias naturais e das ciencias
humanas. Além disto, para o homem de fé ocorrem as
inabaláveis certezas das proposigóes reveladas por Deus.

2. A posigao idos teólogos

Os teólogos do século XVII insurgiram-se contra Galiteu


e obtiveram dos Pontífices da época a condenado do astrónomo.
A respeito deve-se observar:

1) Ninguém duvidava, no século XVII, de que a S. Escri


tura ensinava o heliocentrismo (cf. Js 10,12s); este, portante, se
revestía nao só de autoridade «científica», mas também de
valor religioso. Era, pois, moralmente impossível que a teología
do século XVII aceitasse o heliocentrismo apresentado sem
bases sólidas por Galileu:

— 95 —
8 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

"Nio havia simplesmente prova de que o modelo heliocéntrico de


Galileu e de Copérnico (osse melhor do que o modelo popular geocéntrico
demonstrado por Tycho Brahe. E o sistema de Brahe tinha a vantagem de
n§o se opor á Escritura nem á doutrina da Igreja" (p. 94 deste fascículo).

Para sermos justos, temos que procurar entender os


homens do século XVII a partir das premissas e dos referenciais
que para eles eram válidos, e nao a partir dos parámetros
professados pelo século XX.

2) Galileu parecía especialmente inoportuno aos teólogos


do século XVII pelo fato de que nao se limitava a afirmar pro-
posipóes de cosmología, mas introduzia-se no setor da exegese
bíblica, tencionando ditar normas aos teólogos. Tais normas
podiam ser verídicas, mas o fato de que procediam de um
aparente herege tornava-as totalmente inaceitáveis á cons-
ciéncia dos teólogos do século XVII.

3) A oposiQáo dos teólogos e do Sumo Pontífice á tese de


Galileu nao compromete a infalibilidade do magisterio da
Igreja, que tem por ámbito táo somente os temas de fé e de
Moral. Ora é certo que o caso Galileu versava sobre assuntos
de ordem científica, aparentemente associados á autoridade da
S. Igreja. Em tal materia nem o Papa nem os bispos em sua
colegialidade tém garantía de infalibilidade.

4) Contudo deve-se notar bem: o Pontífice e os teólogos


condenaram, no caso Galileu, urna proposigáo que, por falta
de argumentos, parecía errónea ao grande público, e, de fato,
foi tida como errónea aínda durante dois sáculos. Com efeito,
a fim de ilustrar quáo difícil devia ser a um cristáo imbuido da
mentalidade dos séculos XVI/XVII admitir o heliocentrismo,
seja aqui observada a atitude dos autores protestantes diante
do novo sistema:

Lutero julgava que as idéias de Copérnico eram idéias de


louco, que tornavam confusa a astronomía.

Melancton, companheiro de Lutero, declarava que tal sis


tema era fantasmagoría e significava a rebordosa das ciencias.

Kepler (1581-1630), astrónomo protestante contemporáneo


de Galileu, teve que deixar a sua térra, o Wurttemberg, por
causa de suas idéias copernicianas.

— 96 —
O CASO GALILEU GALILEI

Em 1659, o Superintendente Geral de .Wittemberg,


Calovius, proclamava altamente que a razáo se deve calar
guando a Escritura falou; verificava com prazer que os teó-
jogos protestantes, até o último, rejeitavam a teoría de que a
Térra se move.

Em 1662, a Faculdade de Teologia protestante da Univer-


sidade de Estrasburgo afirmou estar o sistema de Copérnico
em contradicáo com a Sagrada Escritura.

Em 1679, a Faculdade de Teologia protestante de Upsala


(Suécia) condenou Nils Celsius por ter defendido o sistema
de Copérnico.

Ainda no século XVIII a oposigáo luterana contra o sis


tema de Copérnico era forte: em 1744 o pastor Kohlreiff, de
Ratzeburg, pregava enérgicamente que a teoría do heliocen-
trismo era abominável invengáo do diabo.

5) O artigo em pauta chama a ateneáo para a necessidade


de se dissiparem «conceptees erróneas sobre Galileu e sobre o
julgamento» (p. 92 deste fascículo). Os historiadores dos
séculos XIX-XX narraram o episodio de Galileu, nao raro ins
pirados por certos preconceitos ou por premissas anticlericais.
Ora hoje em dia apregoa-se a manifestagáo da verdade em sua
objetividade sem obliteracóes de qualquer origem que seja. Ao
homem de ciencia, como também ao homem de fe, interessa
■únicamente a verdade como fruto de suas pesquisas e objeto
de sua profissáo.

ANO SANTO

"A extraordinaria celebrado Jubilar da Redencáo visa, antes de mais


nada, a reavivar nos fiéis da Igreja Católica a conscléncia de que a sua
condicáo privilegiada nao se deve atribuir aos próprios méritos, mas slm
a urna graca especial de Cristo; pelo que, se a ela nao corresponderem
com os pensamentos, palavras e aedes, bem ionge de se salvarem, serao,
antes, mais severamente julgados.

Em conseqüéncia, todos os fiéis devem sentir-se se.Veludo chamados


a urna aplicacáo especial á penitencia e á renovacáo, dado que é este o
estado permanente da própria Igreja, a qual, sendo simultáneamente santa
e sempre necessitada de puriflcacáo, nao descura nunca a penitencia e a
renovacáo de si mesma, seguindo a exortacáo dirigida por Cristo ds multi-
d5es no inicio do seu ministerio: 'Fazei penitencia e acredita! na Boa-Nova'"
(Joio Paulo II, Bula "Aperite" ir? 4).

— 97 —
Cinema e interpretado da historia:

"República Guaraní"
de Silvio Back

£m síntese: O filme "República Guaraní" de Silvio Back interpreta


a historia dos aldeamentos indígenas fundados e dirigidos pelos jesuítas
ao Sul do Brasil entre 1610 e 1767 como se se tratasse de obra de prepo
tencia e avidez da Companhia de Jesús; por Isto o filme é tido pelo pró-
prio autor como "iconoclasta", isto é, destruidor de clássicas imagens de
missionárlos. — Na verdade, Silvio Back é ateu professo, de modo que
nfio pode compreender o significado religioso e filantrópico da obra evan-
gellzadora dos padres jesuítas, mas tudo julga do ponto de vista socio-
-económico-político; so vé "exploradores" e "explorados" onde houve
abnegacáo, doacáo e amor cristáos. Evangelizar ó anunciar a Boa-Nova
de Jesús Cristo (consoante o mandato do próprio Senhor em Mt 28,18-20);
Implica sempre respeito á liberdade alhela. Sabe-se que os aldeamentos
indígenas visavam a defender os fndios contra "saltéamentos" ou incursdes
dos bandeirantes que os queriam escravizar; os da República Guarani che-
garam a certa prosperidade cultural e agrícola, que os indígenas so con-
seguiram porque convocados e orientados pelos jesuítas. A grande cha
cina contra os aborígenes se deu em conseqüdncia do Tratado de Madrid
(1750), quando as tropas portuguesas e espanhotas massacraram os indios
rebeldes ao decreto que os removía do sou territorio próprio para outra
banda do continente.

O filme é realmente Iconoclasta, no sentido de que destrói imagens


de auténtico valor humano e cristáo.

Comentario: Esteve no cartaz, com certo alarde da


imprensa, mas sem grande público ñas salas de cinema, o filme
«República Guarani» da autoría de Silvio Back 1. Este pretende
reinterpretar a historia das Redugóes de indios orientadas
pelos jesuítas nos séculos XVII e XVIII; vé nesse episodio da
historia da América Latina algo que até o presente momento
nunca foi apontado, a saber: a exploracáo dos indios por urna
multinacional sequiosa da tesouros materiais. O autor, inspirado
por categorías anti-religiosas, acusa a Companhia de Jesús e a
Igreja no decorrer do seu filme; exibe mesmo o testemunho de

1 Producáo: Silvio Back e Empresa Brasileira de Filmes (EMBRAFILME),


1981. DuracSo: 1 h 40 mln. Processos: 35 mm/Plano/Easímancolor.

— 98 —
«REPÚBLICA GUARANÍ» 11

alguns jesuítas e do Pe. Clovis Lugon, que aparecem no con


texto da película como se apoiassem a tese de Silvio Back; este
utilizou pouco honestamente o depoimento dos sacerdotes, que
nao tencionavam favorecer a mensagem de Back.

Dada a importancia da temática, voltar-nos-emos, ñas


páginas subseqüentes, para o conteúdo do filme e para as
implicacóes do mesmo no setor da historia, da filosofía e da
fé. De modo especial, abordaremos a questáo «Igreja e
escravatura».

1. «República Guaraní»: o filme

O filme «República Guarani», do ponto de vista artístico,


é pobre; nao tem enredo, mas apresenta pessoas e vozes que
discursam sobre os indios e os jesuítas, assim como imagens
de ruinas da República e cenas da vida dos indios: muitas
dessas cenas sao simplesmente extraídas das películas «Xetas
na Serra dos Dourados» e «Bandeirantes», documéntanos de
media metragem de 1956 e 1940 respectivamente.

Através das imagens e dos discursos, Silvio Back tenciona


aludir a um fato histórico, a saber:

No sáculo XVII, os padres da Companhia de Jesús reu-


niram os indios em cerca de trinta «ReducSes» ou «Pueblos»
ou aldeamentos na regiáo em que se tocam o Brasil, a Argen
tina, o Paraguai e o Uruguai. Congregando os indios dessa
forma, os jesuítas visavam a defendé-los dos adversarios, que
eram os bandeirantes (escravizadores de indios), ao mesmo
tempo que lhes ministravam evangelizagáo, catequese e os
beneficios da cultura associada a urna ordem social humanita
ria e próspera. Esse conjunto de Reducóes foi chamado
«República Guarani» ou «República Comunista-crista dos
Guaranis», tal era a organizagáo governamental, escolar,
hospitalar, artesanal, agrícola... que ocasionava aos indios um
bem-estar e urna tranqüilidade notáveis; a producáo de erva-
-mate e a pecuaria eram os esteios da economia guarani.

A República durou de 1610 a 1717, ou seja, pouco mais


de sáculo e meio; terminou em conseqüéncia do Tratado de
Madrid (1750), Tratado pelo qual Portugal entregou á Espanha
a colonia de Sacramento (hoje, o Uruguai) e recebia em troca

— 99 —
12 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

o territorio dos Sete Povos das Missóes, que correspondía á


extensáo da República Guaraní; Portugal, porém, nao quis ter
em suas térras os milhares de indios sediados na República- por
isto resolveu expulsá-los para o territorio espanhol, do outro
lado do no Uruguai. Os indios, porém, nao aceitaram a trasla-
dacao, preferindo morrer em seu torráo natal; revoltaram-se
pois, contra os senhores portugueses e espanhois, o que lhes
valeu dura represalia da parte dos exércitos brancos- assim
morreram cruelmente milhares de indios das Redugóes, que
encerraram a sua historia de tal maneira trágica. Julga-se
que, do comego (1610) ao fim (1767) de sua historia, a Re-
publica Guaraní abrigou meio-milháo de indios. Em nossos
dias ainda se podem ver ruinas da civilizagáo da República em
Sao Miguel (RS), Trindade, Sao Borja...

A ...0Fa ,Sílvio Back- a0 recordar os fatos históricos, pretende


atnbuir-Ihes urna nova interpretacáo mediante o seu filme
tido como «filme iconoclasta» >. Em vez de propor os tradi-
cionais conceitos de evangelizagáo e missáo (transmissao das
verdades da fé e dos valores culturáis cristáos por um ideal
estritamente religioso), o autor da película analisa os fatos a
partir de premissas inspiradas pela cosmovisáo marxista- os
jesuítas seriam urna organizado multinacional posta a servigo
dos reís da Espanha e de Portugal e interessada em dominar
ou explorar os indios a fim de criar para si e para os monarcas
colonizadores um tesouro material «fabuloso».
Eis algumas das sentengas mais típicas de Silvio Back:
"A Companhia de Jesús foi a primelra multinacional ideológica do
mundo. Transmltlndo o Evangelho, com um Cristo Inimaglnável, para africa
nos, asiáticos e indios americanos, sobrepondo-se impunemente ao universo
2SíS.»rHCa. t P0V°" na5Í°' trib°í,0S iesultas inau9uraram o imperialismo
espiritual dos tempos modernos. So vieram a perder essa heqemonia em
1B82 p.1?"t0 XV'"" (ReptólFca Guaranl' Ed- Pa2 e T¿£? íkPde üínrtro
"Em que se assemelham os Jesuítas das 'Reducoes1 do Paraauai
nomogenelzando indios de diferentes parcialidades com os senhores de
engenno, que reunlam indiscriminadamente negros de varias nac5es afrlca-
üaSi e °,t CJamp^ de concentrasSo nazista, onde judeus de origem social e
nacionalidades diversas e conviccaes políticas freqüentemente confutantes
eram marcados feíto gado, para perderem sua individualidade? Por al se
qUe0S°?° Ü"? **"181"" " identidade ética do iid
Iconoclasta .. porque sacode conceitos estratificados, desfaz cren-
d ees mitos e mist.ficacSes ideológicas sobre esta fantástica e mal conhe-
clda infancia e adolescencia do Cone Sul" (Silvio Back).

— 100 —
d , «REPÚBLICA GUARANÍ» 13

"República Guaraní: enquadramento harmonioso do indígena, urna


sociedade 'comunista cristS', elo perdido do socialismo dos Trópicos, único
projeto pedagógico da Igreja bem sucedido entre povos primitivos, urna
sociedade alternativa dentro do mundo colonial escravocrata? Ou um 'imperio'
teocrático, urna subjugacáo feroz do Indio, sem precedentes durante a con
quista e colonizaclo das Américas, com indígenas transformados em vas-
salos do rei de Espanha e trabajadores bracais? Ou, aínda urna destri-
balizacáo cujos efeitos explicariam todo o drama e a miseria do indio
moderno?" (ib. p. 37).

Como se vé, a tese de S. Back é fortemente agressiva,


e esvazia toda a realidade transcendental e mística qus classica-
mente se tem atribuido 'á agáo evangelizadora da Igreja,
especialmente ao trabalho da Companhia de Jesús entre os
indios.

Passemos agora a

2. Urna reflexóo

Ponderando a crítica apresentada por Silvio Back, podemos


tecer as seguintes consideragóes:

1) O autor do filme é professadamente ateu; por isto nao


pode entender o significado religioso e filantrópico da obra dos
jesuítas e da evangelizagáo, mas tudo julga do ponto de vista
sócio-económico-politico (fazendo eco aos principios do mate
rialismo marxista); só vé exploradores e explorados onde houve
abnegagáo, doagáo e amor cristáo.

Na verdade, evangelizar, para o cristáo, é expressáo de


amor aos irmáos; quem conhece a Boa-Nova do Evangelho, nao
pode deixar de querer transmiti-la aos seus semelhantes para
que estes sejam igualmente beneficiados por ela; já dizia a
filosofía neo-platónica: «O bem é difusivo de si», ou seja, o
bem tende a comunicar-se a todos. Com efeito; a evangelizacáo
dos indios enriqueceu-os nao somente no plano espiritual, dando
um sentido á sua vida cotidiana, mas também no plano material
e civilizatório.

2) Faz-se mister distinguir entre evangelizagaoi e proseli-


tismo. Evangelizagáo é a proposigáo da mensagem evangélica,
dirigida á inteligencia e á sede de verdade que todo homem
traz em si; nao impóe, nao constrange, nem violenta os des
tinatarios, mas respeita a sua liberdade. As contrario, proseli-

— 101 —
14 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

tismo é a tentativa de fazer adeptos mediante recursos


desonestos ou constrangedores (oferecimento de assisténcia
médica, escola, emprego ou outras vantagens); vem a ser fla
grante desrespeito á dignidade humana.

Ora os jesuítas praticaram a evangelizagáo, impelidos pela


mais genuína motivacüo, que é a ordem do Senhor Jesús: «Ide
e fazei que todas as nagóes se tornem discípulos, batizando-as
em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo, e ensinando-as
a observar tudo quanto vos ordenei» (Mt 28,19s). Tal missáo
é auténticamente crista. Os missionários, porém, nao prati
caram o proselitismo, isto é, nao violentaram os indígenas para
que aceitassem o Batismo. É o que se depreende das diversas
determinagóes da autoridade eclesiástica nos sáculos XVI-XVII,
no sentido de que nao se deviam impor o Batismo e a profissiáo
de fé católica nem mesmo aos escravos. A propósito ver os
respectivos textos ás pp. 113-117 deste fascículo. Vém ao caso
ainda as palavras de Arlindo Rubert em sua obra A Igreja no
Brasil:

"Nao seria exato alirmar que o amerindio foi catequizado a toque


de caixa de guerra, pols, se guerra houve em algumas partes, foi mais
vezes motivada para acalmar levantamentos de belicosos selvagens, que
ameacavam povoagdes portuguesas ou se aliavam a estrangetros invasores,
como é o caso dos tamolos do Rio de Janeiro e dos potiguares da Pa-
ralba, etc. Nunca houve guerra com o intuito de subjugá-los para Ihes
impinglr o Evangelho" (p. 238).

3) Inegavelmente a obra missionária junto aos indigcnas


foi acompanhada de certa transmissáo de cultura; os jesuítas
(os franciscanos, os carmelitas...), ao transmitirem a mensa-
gem evangélica, transmitiam outrossim categorías e moldes
de cultura ocidental. Este fato foi tido como violencia infligida
aos aborígenes. — A propósito duas observagóes sejam feitas:
a) os missionários identificavam o Cristianismo
com a maneira ocidental de viver o Cristianismo.
Faltavam-lhes os conhecimentos de antropología
cultural e psicología que ajudam hoje o estudioso a
distinguir determinada mensagem das formas contin
gentes que a exprimem. Atualmente apregoa-se a
aculturagáo do Cristianismo dentro dos moldes afri
canos asiáticos e indígenas. Pai'ece, porém, que, trans-
mitindo aos indios as formas da cultura ocidental, os
missionários Ihes proporcionavam um beneficio nao
pequeño. Com efeito; a cultura indígena era rudi-
mentar; embora tivesse seus valores, praticava a
antropofagia, a poligamia, a borracheira ou bebe-

— 102 —
«REPÚBLICA GUARAN!» 15

d«ira...; os missionários procuraram, tanto em nome


da fé quanto em nome da dignidade humana, converter
os indios para costumes mais nobres. Para tanto
concorreram os aldeamentos; estes, embora tirassem
os indios do contato com as selvas, isentavam-nos da
vida selvagem, nómade e instável, inepta para o pro-
gresso cultural; os aldeamentos fixavam os indios á
térra, habituavam-nos ao trabalho e protegiam-nos
contra os inimigos bandeirantes, facilitando-lhcs a
aquisigáo de hábitos bons. A concentragáo dos indios
em Redugóes dotadas de regime administrativo pró-
prio fazia-se em defesa dos próprios aborigénes, que
eram procurados ou salteados por expedicionarios
brancos sequiosos de máo-de-obra.

b) Destas ponderagóes resulta que a transmissüo


dos moldes de cultura ocidental foi urna promogáo
para os indios do Brasil; adamáis nao chegou a ser
total erradicacáo dos hábitos dos aborígenes, pois
muitos valores positivos destes foram í-espeitados,
como se poderia provar com nao poucos exemplos.

4) A atribuigáo da castigos corporais aos indios ñas


RedugÓes jesuítas nao é senáo urna das facetas da cultura e da
pedagogía de épocas passadas. Os antigos, até os últimos
decenios, nao duvidavam da eficacia da palmatoria e dos golpes
corporais para provocar a recuperacáo moral de urna crianga
ou de um adulto. Os santos recorriam a tal método e sub-
metiam-se ao mesmo. A própria Regra de Sao Bento, escrita
no século VI e famosa por seu senso de brandura e equilibrio,
prescreva sejam aplicadas punigdes corporais aos desobedientes;
cf. ce. 23 e 30. Nao é de admirar que alguém, educado segundo
os ditames de tal cultura, chegue a agradecer ao mestre a apli-
cacáo de castigos corporais, como refere o filme República
Guaraní. A estranheza que tal atitude suscita num homem
moderno, nao era experimentada pelos antigos. Donde se ve
que nao se deve julgar a conduta dos antepassados estritamente
segundo os referenciais de nossos tempos. Embora a lci natural
soja sempre a mesma em todos os homens e em todos os
tempos, o grau de dcsabrochamento dessa lei pode variar de
época para época; as circunstancias históricas, as conquistas
da ciencia e da civiiizagáo podem despertar problemas de cons-
ciéncia que os antigos nao chegavam a conceber. O comporta-
mentó de um individuo há de ser avaliado dentro das categorías
do pensamento e da ética da respectiva época.

— 103 —
16 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

5) A violencia brutal e desumana contra os indios ocorreu


quando, em conseqüéncia do Tratado de Madrid (1750), os
portugueses os quiseram expulsar do territorio da República
Guaraní, á revelia dos respectivos habitantes. Travou-se entáo
a Guerra Guaranítica, em que as tropas de Portugal e de
Espanha se atiraram contra os indios amotinados por nao
quererem abandonar o territorio onde haviam morrido os seus
antepassados e onde haviam eles nascido. A atitude dos indí
genas era justa e muito compreensível, por mais que contra-
riasse aos interesses das cortes. Os jesuítas foram acusados
de fomentar sub-repticiamente a resistencia dos nativos a de-
terminagóes regias, embora os padres negassem tal agáo. Era
entáo Primeiro-Ministro de Portugal Sebastiáo José de Car-
valho e Meló, Marqués de Pombal, hornern cruel e prepotente,
acusado de ser tenaz perseguidor de seus adversarios; Pombal
e seus delegados no Brasil tramaram a extingáo da Companhia
de Jesús em Portugal e nos seus dominios ultramarinos; a 3 de
setembro de 1759 foi publicado o decreto de expulsáo dos
inacianos, decreto que no Brasil teve sua aplicagáo em 1760.
Todos os colegios da Companhia foram fechados; os padres
tiveram que abandonar as aldeias de indígenas das quais tinham
a administragáo — o que redundou em total desprotegáo e
chacina dos indígenas. Para substituir a agáo dos jesuítas,
Pombal publicou o «Diretório dos Indios», que regulamentava
os aldeamentos, mas cuja eficacia foi quase nula, pois o novo
sistema durou poucos decenios apenas.

6) O fato de que os jesuítas estavam associados aos


monarcas de Espanha e Portugal na sua obra missionária nao
invalida essa obra nem surpreende o estudioso. Outrora a
Igreja e o Estado estavam unidos entre si, de tal modo que
era impossivel empreender a evangelizagáo dos povos recém-
-descobertos sem a aquiescencia e a tutela do Estado. Com-
preende-se que as Redugóes jesuítas pagassem taxas á Coroa,
como se entende ainda hoje o pagamento de impostos (os quais
podem, por vezes, ser extorsivos). Compreende-se tamben» que
os jesuítas orientassem a economía da populagáo guaraní que
eles dirigiam, pois os indios eram inexperientes e de pouca
cultura; isto, porém, nao quer dizer que, antes de Marx, já
houvesse regime comunista no Sul do Brasil, nem significa
exploragáo do indio por parte dos missionários, pois é notoria
a prosperidade que de modo geral as Redugóes jesuítas atin-
giram através do regime sócio-económico ai instaurado pelos
jesuítas.

— 104 —
«REPÜBLICA GUARANÍ» 17

P5e-se ainda a questáo da atitude da Igreja frente á


escravatura tanto de indios quanto de negros — tema este que
será objeto de artigos subseqüentes.

3. Conclusao

De quanto foi dito depreende-se que o filme República


Guaraní de Silvio Back é tendencioso; por suas interpretagóes
anticlericais distorce a realidade dos fatos, apresentando como
obra de egoísmo e prepotencia abusiva o trabalho missionário
da Companhia de Jesús e, de modo geral, da Igreja Católica.
O autor, alias, se confessa francamente ateu; donde se segué
que tem dificuldade para entender o heroísmo e a abnegacáo
inspiradas pela fé. É de lamentar ainda que, para incutir sua
tese anticristá, o autor do filme tenha recorrido a depoimentos
de padres jesuítas contemporáneos e do sacerdote suígo Clóvis
Lugon. Este, autor da obra A República Comunista Crista dos
Guárante (cujo original foi publicado em francés no ano de
1949), mostrou-se objetivo na apreciagáo dos fatos históricos
concluindo em termos favoráveis aos jesuítas. Nao obstante, o
depoimento deste escritor, como também o de alguns membros
da Companhia de Jesús, sao apresentados no contexto do filme
como se fossem infensos á obra missionária jesuíta. Podemos,
pois, confirmar o juizo que o próprio Silvio Back proferiu sobre
o seu filme: é iconoclasta... Iconoclasta, diríamos, no sentido
de que destrói imagens de genuino valor histórico, humano e
cristáo, em favor de concepgóes filosóficas pré-concebidas.

A propósito seja citado o livro do próprio Silvio Back: República


Guaran!, Ed. Paz e Térra, Rio de Janeiro 1982. Para o estudo da historia
do Brasil, sao úteis:

Calmon, Pedro, Historia do Brasil — Sáculo XVI. As Orlgens, I, Rio


Rio de Janeiro 1959.

ídem, Historia da Fundacao da Bahia, Bahía 1949.

Leite S.J.. Pe. Serafim, Historia da Companhia de Jesús no Brasil,


10 vols. Lisboa-Rio de Janeiro 1938-1950.

Rocha Pita, Sebastlao da, Historia da América Portuguesa, 3? ed.,


Bahia 1950.

Rocha Pombo, J.F. da, Historia do Brasil, 9 vols. Rio de Janeiro s/d.

Rubert, A., A Igreja no Brasil, vol. I, Ed. Palotti, Santa María (RS) 1981.

Wetzel S.J., Herbert E., Mem de Sá, Rio de Janeiro 1972.

— 105 —
Em retrospectiva serena e objetiva:

A Igreja e a Escravidao no Brasil

I. O ÍNDIO

Em s¡nlc9e: O presente artigo expóe sumariamente o histórico da


escravatura desde os tenvpos pré-cristios até a época contemporánea. A
seguir, explana as razñes pelas quais a escravatura pode parecer legitima
nao so aos povos anteriores a Cristo, mas também aos povos cristáos.
Por último, analisa-se a posicfio da Igreja frente á escravlzacáo dos fndios
no Brasil; documentos papáis e gestos de bispos e sacerdotes jesuítas sao
citados a fim de evidenciar o interesse da Igreja no tocante ás populacoes
aborigénes (na medida em que esse respe!to podia ser entendido dentro
dos parámetros culturáis dos séculos XVI-XVIII).

Comentario: Últimamente vem-se comentando em publi-


cayóes diversas o papel da Igreja Católica frente á escravatura
de indios"e negros no Brasil. Há quem acuse a Igreja de inercia
e conivéncia no caso; terá mesmo contribuido para agravar a
sorte dos escravos. Estes lances da imprensa recente tém leva
do historiadores católicos á pesquisa de fontes e documentos
do passado a fim de averiguarem a realidade dos fatos. Ñas
páginas seguintes, proporemos: 1) breve histórico do escrava-
gismo, 2) reflexóes sobre o tema, 3) dados concretos que
ilustram a atitude da Igreja perante o escravismo indígena.
Em próximo artigo de PR voltar-nos-emos para a Igreja e a
escravatura negra.

1. Traeos históricos

A escravidao é fenómeno, infelizmente, quasa táo antigo


quanto o género humano. Estava associada ás guerras. Com
efeito, o guerreiro vencido ora tornado propriedade do vence
dor. Também se prendía á condigáo de insolvencia; quem nao
pudesse pagar as suas dividas, vendía a sua pessoa ou os seus
filhos e familiares ao respectivo credor. Na Grecia praticava-se
o rapto, especialmente de enancas: havia homens e mulhares
especializados nesta tarefa, que eles executavam principalmente

— 106 —
IGREJA E ESCRAVIDAO: O ÍNDIO 19

nos lugares de grande afluencia pública: feiras, festas, etc. As


criangas expostas ou abandonadas pelos pais podiam ser re-
colhidas como escravos. No período áureo de Atenas, havia na
Grecia 3.000.000 de homens livres e 20.000.00 de escravos.

Na Mesopotámia havia escravos de certo nivel cultural


(eram prisioneiros de guerra!): assim no novo Imperio babiló
nico (séculos VII-VI a.C.) encontravam-se escravos dados aos
negocios em mercados, bancos, sitios, em nome do seu senhor
ou por conta própria, ... escravos qua chegavam a ter escravos
a seu servico.

No Imperio Romano, os escravos, além de executar tra-


balhos domésticos, também podiam desempenhar fungóes
administrativas e burocráticas, assimiladas aqueles por impli-
carem dependencia das ordens de outrem. Entre os Secretarios
de Estado podia haver escravos — o que muito desagradava á
aristocracia senatorial.

Certos proprietários do escravos cediam-nos em aluguel;


neste caso ao escravo podia tocar urna parte da renda que cabía
ao patráo. A alguns escravos era permitido trabalhar por conta
própria, pagando ao patráo urna parte de seus emolumentos.
Desta maneira conseguiam juntar um peculio, mediante o qual
compravam oportunamente a sua liberdade.

Nos séculos II-I a.C. em Roma a escravatura atingiu o


auge. Os escravos, numerosos e baratos, eram utilizados nos
grandes latifundios em trabalhos agrícolas. Nesse periodo veri-
ficam-se as revoltas de escravos: na Sicilia em 135-131 a.C.
e 104-100 a.C, em Espártaco em 73-71 a.C.

Em suma, pode-se dizer que a agricultura e a industria,


o comercio, a construgáo civil e outras atividades da civilizagáo
antiga estavam estritamente na dependencia da escravatura;
sem esta, nem a vida pública nem a doméstica se sustentariam
no Imperio Romano; pode-se dizer que a sociedade romana se
baseava sobre o trabalho escravo.

Este falo explica que o Cristianismo, embora apregoasse


a igualdade de todos os homens (cf. Gl 3,28; Rm 10,12; Cl 3,11;
ICor 12,13), nao tenha podido abolir imediatamente a escra
vatura no Imperio Romano. De resto, a própria Biblia no
Antigo Testamento reconhecia a escravidáo nao somente de
estrangeiros, mas também de israelitas (cf. Lv 25,35-55); este

— 107 —
20 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

precedente bíblico, associado aos costumes romanos, constituía


um legado de peso para os cristáos; este legado, que vinha a
ser um trago da cultura da época, era um referencial que se
impunha a todo judeu e todo cristáo do Imperio Romano. O
próprio Apostólo Sao Paulo dava instrugóes a senhores e
escravos a fim de que convivessem em harmonía (cf. Ef 6,5-9-
Cl 3,22-4,1; ICop 7,21-23; Tt 2,9s); o escravo Onésimo, fugitivo
e depois batizado por Sao Paulo, foi devolvido pelo Apostólo
a seu patráo Filemon com urna carta,:que pedia ao amo cristáo
um tratamento fraterno para o escravo cristáo (Fm).

Na Idade Media, a antiga escravidáo cruel e desumana


cede, em parte, a urna instituigáo muito mais branda, que foi
a dos servos da gleba; estes se obrigavam a fixar-se no territo
rio do senhor feudal para o qual trabalhavam, mas recebiam
em troca tutela e abrigo contra invasores, piratas, guerrei-
ros...; isto redundava em beneficio do pequeño agricultor, que
nao teria possibilidade de sobreviver de outra maneira; grande
parte dos escravos assim transformaram-se em colonos — o que
bem pode ser atribuido, entre outros fatores, á influencia
humanitaria do Cristianismo.

Alias, o Concilio de Nicéia I (325) dá-nos noticia de que


escravos haviam sido admitidos ao sacerdocio. O Papa S.
Calisto, por exemplo, era um escravo liberto.

Os medievais, contudo, continuavam a fazer, de seus pri-


sioneiros de guerra, escravos. Precisamente no século IX surgiu
no latim medieval a palavra sclavu, outra forma de slavus, que
se tornou esclave (escravo) no francés do século XIII. Isto se
explica pelo fato de que as populagóes eslavas dos Baleas for-
neciam o principal contingente dos escravos do Ocidente.
Nos sáculos XIII-XIV o tráfico de escravos aumentou
notavelmente nos países mediterráneos, preparando a época
de intensa escravidáo praticada pelos povos colonizadores da
América a partir do século XVI. Alias, na península ibérica as
guerras de reconquista, movidas contra os árabes ocupantes da
península, ocasionaram a freqüente utilizagáo de mugulmanos
capturados em guerra como escravos. A partir de 1444 os
portugueses adquiriram diretamente escravos negros do Sudáo
(África).

A época moderna se abre com a descoberta de novas térras


no Oriente e no Ocidente. A fim de trabalhar no continente
americano, os colonos portugueses comegaram por valer-se dos

— 108 —
1GREJA E ESCRAVIDAÓ: Ó tÑDIÚ

indígenas. Estes, porém, mostraram-se pouco dóceis, muito


dados á fuga e propensos a molestias transmitidas pelo europsu
ou contraídas por efeito do pesado trabalho a que eram subme-
tidos. Esbogaram-se entáo os primeiros conflitos entre os co
lonos, desejosos de máo-de-obra, e os missionários, que se
opunham á escravizagáo dos aborígenes ou, ao menos, propug-
rtavam tratamento mais brando.

O bispo de Chiapas, Frei Bartolomeu de las Casas


(1474-1566), levantou-se em defesa dos indios e sugeriu que
se aproveitassem negros já reduziSos á escravidáo; alias, isto
já vinha sendo praticado na América Central em pequeña
escala. Note-se, de resto, que entre os africanos mesmos era,
náó raro, usual a escravidáo, se bem que limitada quase exclu
sivamente aos trabalhos domésticos.

O apogeu do tráfico de escíavos ocorreu, na América em


geral, entre 1750 e 1790, principalmente de 1781 a 1790; neste
período contam-se cerca de 82 mil escravos importados por
ano, dos quais 35 mil por ingleses, 24 mil por franceses, 18 mil
por portugueses, 4 mil por holandeses e mil por dinamarqueses.
Foi também no sáculo XVIII que teve inicio o movimento aboli
cionista; o Reino Unido da Grá-Bretanha, país que mais prati-
cara o tráfico de escravos, foi também o que mais se empenhou
pela sua abolicáo. Esta foi ocorrendo aos poucos nos diversos
países da América (no Brasil, entre 1883 e 1888). Contudo
entre certos povos a escravidáo perdura até o sáculo XX;
somente em 1962 foi oficialmente abolida na Arabia Saudita.
Um relatório apresentado em 1955 em sessáo da ONU
asseverava a existencia de indicios de escravidáo e práticas
semelhantes aínda em determinadas regióes, como a península
arábica, o Sudeste asiático, a África e a América do Sul!

Estes tragos históricos foram aqui recordados para ilustrar


quáo arraigado esteve, e está, o fenómeno da escravatura na
mente dos homens através dos sáculos. Passemos agora a urna
reflexáo sobre os fatos.

2. Refletindo.. .

Quem olha, hoje para o fenómeno da escravatura na histo


ria do Brasil (para nao dizer: ... na historia universal), nao
pode deixar de experimentar urna atitude de indignacáo e re
pulsa. — Na verdade, é preciso reconhecer abusos e crimes

— 109 —
22 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

cometidos contra a pessoa humana na historia da escravidáo;


houve maldade, porque todo homem está sujeito a cair em
erros. Todavia nao basta tal julgamento como se abarcasse
toda a realidade do passado escravagista. Se o observador
contemporáneo nao quer cometer injustiga, nao pode simples-
mente condenar todos os antepassados a partir de premissas
que sao claras em nossos dias, mas nao eram familiares aos
antigos; deve, antes, procurar entender os fatos pretéritos
dentro dos referenciais de que dispunham os antepassados.

Por conseguinte, meregam ponderagáo os seguintes dados:

1) Os antigos, os medievais e os modernos até época re


cente julgavam freqüentemente que os negros e os indios nao
eram plenamente seres humanos; por conseguinte, nao gozavam
dos mesmos direitos que os homens brancos. Esta concepgáo,
sustentada de boa fé, atenuava a culpabilidad-e dos escravagistas.

2) Acontece outrossim que muitos dos escravos eram


pessoas que teriam sido condenadas á morte por seus próprios
compatriotas e que, compradas na qualidade de escravos, esca-
pavam 'a morte cruel. Os colonos os resgatavam, julgando
praticar obra de misericordia ao poupá-los de serem pasto de
festins canibalescos. Alguns capturavam os indios, alegando
que eram pagaos e, por isto, era um beneficio levá-los para
junto das povoagóes dos cristáos, onde poderiam aprender a
mensagem da fé e ser batizados 1. — Hoje diríamos que o amor
cristáo mandava por em liberdade os escravos comprados, em
vez de os obrigar á vida escrava; todavia na antigüidade este
gesto ulterior nao passava fácilmente pela mente de um ci-
dadáo, vistas as ponderagóes anteriores e dado que toda a
organizagáo da sociedade dependía da máo-de-obra escrava.

3) Mais; durante séculos homens e mulheres hoje um


versalmente reconhecidos como heroicos e cheios de generosi-
dade, conviveram com o fato da escravatura sem que lhes
ocorresse a idéia de mover urna revolucáo, violenta ou nao,
contra a mesma. Pode-se comegar a enumeragáo por S. Paulo
Apostólo: este, embora tenha professado os principios que
lógicamente levariam á extingáo da escravatura, nao viu em
sua época as condigóes para propugnar explicitamente tal con-
seqüéncia. O mesmo aconteceu com S. Agostinho (t 430),

1É obvio que hoje nenhum cristáo justificarla tal procedimento nem


reconheceria tais alegagóes.

— 110 —
IGREJA E ESCRAVIDAO: O INDIO 23

S. Tomás de Aquino (f 1274), S. Francisco de Assis (f 1226),


S. Teresa de Ávila (f 1582) ... Em sua consciéncia subjetiva
nao chegavam a ver na escravatura um mal a ser incondicio-
nalmente combatido como hoja é combatido.
4) Mijitos dos que criticam o passado, detém sua atengáo
apenas sobre os tragos sombríos ou negativos do mesmo; ba
scados em consideracóes unilaterais, condenam as gerasóes
pretéritas. Ora é preciso por em relevo a verdadc na sua inte-
prra; esta apresenta, além de elementos sinistros, atitudes nobres
dos homens e mulheres do passado. Nem mesmo a sociedade
que hoje censura os antenatos, está isenta de censuras: ola traz
em seu bojo diversos males, como o consumismo, ou a cobija
do lucro, do bem-estar, que colocam o dinheiro ácima do
próprio homem, o desprezo da pessoa e a violagáo dos direitos
alheios, o descaso da vida humana desde o selo materno até
a idade avangada, o comercio de tóxicos, a poluigáo da natu-
reza, do meio-ambiente, diversas formas de massificacáo do-
vidas, em grande parte, aos meios de común icagáo social e,
ainda, o elevado grau de pornografía sórdida ou meramente
instintiva e irracional. Talvez muitos convivam cpm esses maies
sem observar que poderiam ser removidos ou que haveria
expressóes mais auténticas da dignidade humana; até que
ponto sao tais pessoas subjetivamente culpadas?

Dito isto, importa que ños voltemos para certos fatos que
evidenciam a atitude da Igreja diante da escravatura na histo
ria do Brasil.

3. Atitude áa Igreja
Distinguindo a escravizagáo do indígena e a do negro,
neste artigo abordaremos apenas a do indígena; ficará a do
negro para o subseqüente estudo.

3.1. As incursóes dos senhores

Os precedentes históricos ou o hábito inveterado de re


correr a escravos levou os portugueses a procurar servir-se do
indio para prover aos trabalhos bragais de que precisavam'.

1 "Rara seria cnláo a casa nobre de Portugal onde nao houvesse


escravos mouros apreendidos ñas guerras de Marrocos; o desde o lempo do
Infante, como na antiga Roma, os negros da África erom objeto de comercio.
No censo de Lisboa om 1551 os escravps eram 9,95% da populacáo"
(Herbert Wetzel, A escravatura e os Jesuítas no Brasil colonial, em "O Arqui-
diocesano", 7/01/1979, r. 3).

— 111 —
54 «EERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

As tribos que se chocavam em guerras, prontificavam-se a


vender aos brancos os- seus prisioneiros em troca de quinquilha-
rias e bugigangas. Caso isto nao ocorresse, condenavam-nos
a morrer para servir a prática da antropofagia em banquetes
canibalescos.

Nao contentes com isto, os brancos faziam incursóes entre


os indios, isto é, assalteavam-nos ou salteavam-nos a fim de
os capturar como escravos que trabalhariam ñas fazendas.

Merece especial atengáo o ocorrido com os indios Caetés.


Mataram e devoraram o bispo D. Pedro Fernandes, tres cóne-
gos e cerca de cem outras pessoas, vítimas de naufragio. E
vangloriavam-se disto, proclamando que haviam matado o
chefe religioso dos brancos; ora tal atitude foi tomada como
ignominia ao nome cristáo. Em conseqüéncia, o Governador
Mem de Sá (1557-1572) mandou contra os Caetés urna expe-
digáo, determinando que fossem * reduzidos á escravidáo em
castigo modelar. Este fato desencadeou, da parte dos colonos,
outros assaltos a indios de tribos diversas, como se todos
fossem réus do mesmo crime — o que mereceu ¡mediata re-
provagáo do Governador.

Diante dos fatos, registraram-se protestos da parte das


autoridades eclesiásticas e de autoridades civis.

3.2. As medidas tomadas

Sabe-se que no inicio do século XVI o dominicano Freí


Domingos de Minaja viajou da América Espanhola a Roma,
a fim de relatar ao Papa Paulo III os abusos ocorrentes com
relagáo aos indios. Em conseqüéncia, o Pontífice escreveu a
Bula Veritas Ipsa de 2/6/1537. Nesta o Pontífice expóe o equi
voco subjacente á instituigáo da escravatura:

"O comum inimigo do género humano, que sempre se opóe ás boas


obras para que perecam, inventou um modo, nunca dantes ouvido, para
estorvar que a Palavra de Deus nio se pregasse ás gentes, nem elas se
salvassem.

Para isso moveu alguns ministros seus que, desejosos de satisfazer ás


suas cobicas, presumem afirmar a cada passo que os Indios das partes
ocidentals e merldlonais e as mais gentes que nestes nossos tempos tém
chegado á nossa noticia, hSo de ser tratados e reduzidos a nosso servico
como animáis brutos, a titulo de que sio inábeis fiara a Fé católica; e,
com pretexo de que sao incapazes de recebé-la, os pOem em dura ser-
vidáo em que tém suas bestas, apenas é tio grande como aquela com
que afligem a esta gente".

— 112 —
IGREJA E ESCRAVIDAO: O INDIO 25

Neste texto merece atengáo especial a mengáo de indios


c das mais gentes, que sao os africanos. A uns c outros
Paulo ni quer defender. Por isto acrescenta:

"Pelo teor das presentes determinamos e declaramos que os ditos


indios e todas as mals gentes que daqui em diante vierem á noticia dos
cristáos, ainda que estejam fora da fé crista, nao estSo privados, nem
devem sé-lo, de sua liberdade, nem do dominio de seus bens, e nao devem
ser reduzidos á servidlo".

As determinagóes da Bula lograram efeitos positivos,


mormente porque observadas pelos jesuítas, como atesta o
ouvidor Pero Borges a El-Rey:

"Agora que, a requerimento destes padres apostólos (os jesuítas) que


cá andam, homens a quem nio falta nenhuma virtude, eu mando por em
liberdade os gentíos que foram salteados, e nSo tomados em guerra, estáo
os gentíos contentes e parece que Ihes vai a coisa de verdade e mais
porque véem que se Ihes faz justica, e a fazem a eles, quando alguns
cristSos os agravam; e parece-me que será causa para nao haver ai guerras"
(citado por H. Wetzel, A escravatura e os Jesuítas no Brasil colonial, em
"O lArquIdiocesano", 7/01/1979, p. 3).

Na aldeia de Sao Paulo da Bahía, os moradores brancos


perturbavam os indios, pois, como escreve o Pe. Nóbrega a
Tomé de Souza, «tomavam-lhes as suas térras e rogas em que
sempre estiveram de posse e nunca fizeram por donde as per-
dessem, antes na guerra passada estes ajudaram aos cristáos
contra os seus próprios... E porque nisto o Governador
e eu estorvamos esta tiranía, contra mim conceberam má
vontade». — Ora a rainha D» Catarina deu razáo ao Pe. Nó
brega, escrevendo ao Governador Mem de Sá:

"Encomendo-vos consultéis estas coisas (da distribuicáo de térras)


com os padres da Companhia, que nessa Capitanía estiverem, e fagáis isso de
maneira que vos parecer que convém ao bem e aumento da conversáo e
conservacSo dos ditos gentíos, e nao seja escándalo a outras partes
e a todos se oucam de justica e igualdade". O Governador devería até
devolver as térras que Ihes foram tomadas e dadas a outrem sem justa
causa, o que "seria gra consolacfio e quIetasSo" (citado por H. Wetzel, ib.).

A 30 de julho de 1609 El-Rey promulgou nova lei, que


abolía por completo a escravidáo indígena:

"Declaro todos os gentíos daquelas partes do Brasil por Mvres, con-


forme o direito e seu nascfmento natural, assim os que já foram balizados
e reduzidos a nossa santa fé católica, como os que ainda servirem como
gentíos, conforme a pessoas livres como sao".

— 113 —
2fi «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

Aos 22/4/1639 o Papa Urbano VIH publicou o Breve


«Commissum Nobis» incutindo a liberdade dos indios da
América. Este documento chegow ao Rio por mcio do Pe. Fran
cisco Pias, que iria até Buenos Aires com mais trinta com-
panheiros. Trazia também urna nova lei de Sua Majestade,
que mandava dar a libefdade a todos os cativos sob pena de
castigos do Santo Oficio e de confiscagáo dos bcns. — No seu
Breve, o Papa mandava, sob pena de excomunháo reservada
ao Pontífice, que ninguém prendesse, vendesse, trocasse, doasse
ou tratasse como cativos os indios da térra. Dispunha outros-
sim que a ninguém seria lícito ensinar ou apregoar o aprisiona-
mento dos mesmos.

Sabedores disto, os oficiáis da Cámara e alguns homens


do povo reuniram urna Junta no Convento do Carmo do Rio
de Janeiro para tratar do assunto. No dia seguinte, o Reitor
do Colegio dos jesuítas publicou o Breve pontificio. Insurgi-
ram-se entáo «alguns homens da Cámara e do povo, e de
assuada com motim formado vieram ao Colegio e, arromban-
do-lhe com machados as portas, entraram dentro com intento,
como clamavam e mostravam bem as infamias que diziam aos
padres, de os matarem ou botarem fora da térra; e o fizeram
se nao acudirá o Governador a os moderar».

Os amotinados escreveram um libelo inflamado contra os


padres, que se viram forgados a recorrer a Lisboa para se de
fender das acusagóes.

Na Capitanía de Sao Vicente o mesmo Breve Pontificio


também provocou tumultos. Na Casa do Conselho de Sao
Vicente reuniram-se dez procuradores das vilas daquela Capi
tanía em sessáo que durou tres dias. «Concluiram que
botassem fora de toda aquela Capitanía aos padres da Com-
panhia, porque, vendo-se os padres da Companhia avexados e
oprimidos com desejo de tornarem éts suas casas e Colegio,
haveriam da Sua Santidade a suspensáo da Bula, e de Sua
Santidade e Majestade licenca para os poderem ter como ca
tivos, e liberdade de consciéncia para poderem fazer suas
entradas no sertáo».

Na sexta-feira 13 de julho de 1640, as 2 horas da madru


gada mandaram os membros da Cámara de Sao Paulo tocar
os sinos para reunir o povo da vila. O procurador Joáo
Fernandes Saavedra leu a sentenga da Junta de Sao Paulo que

— 114 —
IGREJA E ESCRAVIDAO: O ÍNDIO 27

desterrava os padres da Companhia; estes foram imediata-


mente expulsos aos empurróes pelo povo. Os padres dirigi-
ram-se para Santos, onde chegaram no día seguinte. Somente
em 1653, tres anos mais tarde, voltaram para Sao Paulo.

Em Santos liouve semelhantes tumultos por causa da


publicagáo do Breve sustentado pelos jesuítas. Estes foram
expulsos da vila no dia 3 de agosto de 1640. Dois anos mais
tarde, em 1642, voltaram para lá, por ordem do rei D. Joño IV.

No Maranháo registraram-se também motins contra a


determinagáo pontificia. Em 1684, a insurreigáo era chefiada
por Lisboa Manuel Bequimáo. O povo dirigiu-se ao Colegio dos
jesuítas, intimando-os a sair do Maranháo por serem nocivos
á térra em virtude da protegáo que dispensavam aos indios.
Redigiram um protesto com cerimónias judiciais, cuja substan-
cia brevemente resumida é a scguinte: que o povo do Maranháo
os langava fora nao por escándalo algum em seu comporta-
mentó e vida religiosa, nem mesmo por faltarem ao cuidado
da salvagáo das almas. Que a razáo, motivo e principal funda
mento desta resolugáo era «porque os padres tinham a adminis-
tragáo temporal dos indios, no que experimentava aquele povo
intoleráveis apertos. Que lhes pediam e intimavam juntamente
nao pretendessem jamáis voltar para a térra, que de nenhum
modo os quería, e de que já haviam sido langados duas vezes
e intentados lancar outra». — Os jesuítas foram embarcadis
em duas naus: a primeira, transportando quinze Religiosos,
chegou a Pernambuco aos 18/5/1684; a outra, onde so achavam
doze, fieou detida no Ceará com o mastro fendido. — No ano
seguinte, 1685, o novo Governador Gomes Freiré de Andrade
trazia instrugóes da Corte para restabelecer a ordem antes
vidente: os jesuítas puderam entáo voltar ao Maranháo em
23/9/1685.

Voltando ao sáculo XVI... Sabe-se que o segundo bispo


do Brasil, D. Pedro Leitáo (1559-1573), assinou aos 30/7/1566
na Bahía com o Governador Mem de Sá (1557-1572) e o
Ouvidor Dr. Brás Fragoso urna Junta em defesa dos indios;
defendia-os contra os abusos dos brancos e dava maior apoio
aos aldeamentos instaurados pelos jesuítas. O Pe. Anchieta
elogiou o bispo pelo zelo em prol da liberdade dos aborígenes.
Outro jesuíta escreveu: «O Bispo prega e repreende acremente
aos que maltratam e fazem desaforos aos indios» (dados ex
traídos do livro de A. Rubert, A Igroja no Brasil, vol. I, p. 288).

— 115 —
28 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

Também o primeiro prelado do Rio de Janeiro, Padre


Dr. Bartolomeu Simóes Pereira (1578-1603), foi rígido defensor
dos indios, sempre contrario 'á escravizagáo dos mesmos; por
isto sofreu graves dissabores. O quarto prelado do Rio de
Janeiro, o Pe. Dr. Lourengo de Mendonga, dizia que «mandou
guardar as Constituigóes Eclesiásticas dos antecessores... qoe
sempre se opuseram a estas táo iniquas vendas (de escravos)»
(Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, L. 219, de. 17).

As autoridades governamentais da colonia também se


interessaram pela defesa dos indios. Assim Mem de Sá, dese-
joso de garantir a liberdade dos aborígenes, deu a estes térras
para o seu cultivo; os jesuítas entáo se empenharam por que
fossem boas e férteis. Por isto entraram em conflito com os
brancos, que reclamavam para si as melhores térras. Em con-
seqüéncia, foram levadas a Portugal queixas contra os jesuítas.
Em 1559 escrevia o Padre Provincial de Lisboa, Manuel de
Torres, ao Pe. Nóbrega, exortando-o a procurar a amizade de
todos e ser mensageiro de paz.

O monarca determinava ainda que o trabalho nao fosse


forgado e que o salario fosse pago como a todas as demais
pessoas livres. Mandavam outrossim que todos os indios escra-
vizados fossem postos em liberdade.

Os moradores da térra insurgiram-se contra tais injungóes.


Eis o que relata o Pe. Provincial Henrique Gomes ao Pe. Geral
dos jesuítas:

No día 28 de junhp de 1610, na Bahía, "convocaram o povo á Cámara,


onde sendo todos juntos, tratando-se a materia, houve varios pareceres e
entre eles alguns que nos embarcassem a todos para Portugal, por inimi-
gos do bem comum e da república... FqI tal o motim do povo que o
Procurador dos indios correu o risco de ser morto so por dizer nesta oca-
sláo que se informassem da verdade e acbariam que os padres nao tinham
culpa algurna" (H. Wetzel, A escravatura e os Jesuítas no Brasil colonial,
em "O Arquidiocesano", 28/01/79, p. 3).

Neste episodio verifica-se que os jesuítas sofreram também


por prestarem obediencia ás ordens do rei que defendiam os
indios.

— 116 —
ÍGREJA E ESCRAVlDÁÓ: Ó ÍNDIÓ

4. Conclusáo

Estáo assim expostos alguns dos fatos históricos mais


importantes para se reconstituir o papel desempenhado pela
hierarquia da Igreja frente á escravidáo dos indios. Houve
empenho por respeitar tal populagáo — o que exigiu sacrificios
da parte de clérigos. Verdade é que esse esforco nao se voltou
contra a escravatura como tal; nem se deve crer que os clérigos
nao tiveram escravos a servigo das suas obras; nao lhes pas-
sava pela mente a idéia de abolir por completo o trabalho
escravo, pois redundaría em colapso tanto da vida civil e econó
mica da sociedade como das atividades humanitarias e evange-
lizadoras da Igreja.

Importa, porém, registrar que, dentro das categorías de


pensamento e cultura dos séculos XVT-XVIH, a Igreja opós
resistencia á exploragio dos indígenas na medida em que esta
podia parecer ilegítima a um cristáo da época (de consciéncia
bem formada).

A propósito muito nos valemos dos artigos do Pe. Herbert


Wetzel S.J. publicados sobre %A escravatura e os jesuítas no
período colonial», em «O Arquidiocesano» de Mariana (MG),
aos 7/01, 14/01, 21/01, 28/01, 4/02, 11/02, 18/02/19/79.
Destes impressos foram extraídas as citagóes aqui transcritas
(desde que nao seja ocasionalmente indicada fonte própria).

Ver aínda:

HAUBERT, MÁXIME, L'Bglise et la défense des 'sauvages': le Pére


Antonio Vlelra au Brésil. Bruxelles 1964.

HOORNAERT, EDUARDO, Teología e acao pastoral em Antonio Vieira:


1652-1661, em "Historia da Teología na América Latina. SSo Paulo 1981.

LAS CASAS, BARTOLOMEU OE, Historia de las Indias, em "Biblioteca


de Autores Españoles". XCVI. Madrid 1961.

LEITE, SERAFIM, Historia da Companhia de Jesús no Brasil. Rio de


Janeiro 1938-1950 (10 volumes).

VINCENT, ANDRÉ, L'intuition fundaméntale de Las Casas et la doctrine


de Saint Thomas, em "Nouvelle Revue Théologique" 1972, 944-952.

— 117 —
Aínda a escravatura:

A Igreja e a Escravidáo no

II. O AFRICANO

Em sintese: O artigo apresenta testemunhos de Papas, bispos e Sí


nodos da Igreja que se manifestaran! contrarios á escravatura ou em favor
de tratamento mais humanitario dos escravos através dos séculos, e espe
cialmente no decorrer da historia do Brasil. De resto, o fato da escravatura
há de ser considerado no contexto dos séculos passados e á luz das cate
gorías de pensamento e cultura de tais épocas. Certas conclusSes referentes
á maneira concreta de tratar a pessoa humana, por mais claras que hoje
nos sejam, nao puderam ser evidentes aos homens de épocas passadas,
nem aos santos. Conseqüentemente, será preciso julgar a prática da escra
vatura nSo segundo os referenciais do século XX (que, embora se diga
iluminado, ainda conhece o escravagismo), mas á luz dos parámetros da
cultura dos séculos passados. Assim perceber-se-á que a Igreja exerceu
solicitude e procurou ser fiel ao Evangelho diante da própria ¡nstituigáo da
escravatura.

Comentario:: Dando continuidade ao nosso artigo anterior,


passamos, ñas páginas subseqüentes, ao exame do papei dos
prelados e clérigos diante da escravizagáo do homem africano.
Urna análise da documentacáo respectiva póe em relevo enér
gicas advertencias contra a instituigáo em foco.

1. Testemunhos e exorta;Ses
Seráo citados dez depoimentos dispostos século por século.

1.1. O Pe. Antonio Vieira (1608-1697)

O Pe. Antonio Vieira S. J. é tido, por vezes, como aliado


dos senhores da térra contra os escravos, guando, na verdade,
assumiu posigáo de censura aberta aos inclementes patróes.
Essa censura dirige-se, em última análise, ao próprio regime
escravagista. Em mais de um sermáo o grande pregador expóe
o seu modo de pensar:
"Saibam os pretos, e n§o duvldem, que a mesma MSe de Deus é
Máe sua..., porque num mesmo Espirito fomos batizados todos nos para
sermos um mesmo corpo, ou sejamos judeus ou gentíos, ou servos ou
livres" (Sermáo XIV, em Sermdes, vol. IX Ed. das Américas 1958, p. 243).

— 118 —
ÍGREJA E ESCRAVIDAO: Ó AFRICANO 31

Citando no final o trecho ICor 12,12, o Pe. Vieira observa


que o Apostólo assim falou «por que nao cuidassem, os que
sao fiéis e senhores, que os pretos, por terem sido gentíos e
serem cativos, sao de condigáo inferior» (ib. p. 246).

No sermáo XXVII, o Pe. Vieira censura o tráfico de


escravos:

"Ñas outras térras, do que aram os homens e do que fiam e tecem


mulheres se fazem os comercios: naquela (na África) o que geram os
pais e o que criam a seus peitos as mSes, é o que se vendé e compra.
Oh! trato desumano, em que a mercancía sao homens! Oh! mercancía
diabólica, em que os interesses se tiram das almas alheias e os ricos sao
das próprlas!" (ib, p. 64).

Considera o pregador a disparidade existente na sociedade


escravagista:

"Os senhores poucos, os escravos muitos; os senhores rompendo


alas, os escravos perecendo á fome; os senhores nadando em ouro e prata,
os escravos carregados de ferros; os senhores tratando-os como brutos, os
escravos adorando-os e temendo-os como deuses; os senhores em pé,
apontando para o acoite, como estatuas da soberba e da tirania, os escravos
prostrados com as mSos atadas atrás, como imagens vilíssimas da servi-
dáo e espetáculos da extrema miseria" (ib., p. 64).

Interroga entáo Vieira:

"Estes hornens nao sao filhos do mesmo Adáo e cía mesma Eva?
Estas almas nio foram resgatadas com o sangue do mesmo Cristo? Estes
corpos nSo nascem e morrem como os nossos? Nao respiram com o mesmo
ar? NSo os cobre o mesmo céu NSo os aquenta o mesmo sol?
Que estrela é logo aquela que os domina, táo triste, tao inimiga, tao
cruel?" (ib., p. 64).

E Vieira concluí que Deus nao pode aceitar a escravidáo.


O sermád se encerra com seria admoestagáo:

"Oh! Como temo que o océano seja para vos Mar Verrnelho, as
vossas casas como as de Faraó, e todo o Brasil cpmo o Egitol Ao último
castigo dos egipcios precederam as pragas, e as pragas já as vemos, sao
repetidas urnas sobre as outras e algumas sSo novas e desusadas, quais
nunca se viram na clemencia deste clima. Se elas bastarem para abrandar
os coracdes, razio te remos para esperar misericordia na emenda; mas se
os coracdes, como o de Faraó, se endurecerem mals, aínda mal, porque
sobre elas n8o pode faltar o último castigo. Queira Oeus que eu me
engañe neste triste pensamento, que sempre aqui, e na nossa corte, os
mais alegres sSo os mais cridos. Sabe I, porém, que é certo — e fique-vos
Isto na memoria — que se Jaóonias e seus ¡rmSos creram em Jeremías,
nao seriam cativos; mas, porque deram mais crédito aos profetas falsos
que os adulavam, assim ele, como seus Irmáos, todos acabaram no cati-
veiro de Babilonia".

— 119 —
32 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

Foi em tais termos severos que o Pe. Antonio Vieira


profligou a desumanidade da servidáo no Brasil.

1.2. Senhores e escravos, conforme o Pe. J. Benci S.J. (1700)

Em 1700 foi publicado pelo missionário jesuíta Pe. Jorge


Benci S.J. um livro importante e corajoso intitulado «Econo
mía Crista dos Senhores no Governo dos Escravos» 1. Tal obra
tornou-se base para a elaboragáo das Constituic&es Primeiras
do Arcebispado da Bahía de 1707 (ver subtítulo seguinte: 1.3).
O censor do livro, Freí Emanuel da Silva, emitiu a respeito o
seguinte parecer:

"... contra domlnorum nostrae Americae erga servos implam tyrannl-


dem, perutllem et necessaríum clamorem censeo. — Julgo tratar-se de
muito útil e necessário clamor contra a impía tiranía dos senhores da nossa
América para com os escravos".

Eis os principáis tragos da obra:

A escravidáo é um mal, «sendo o género humano livre por


natureza e senhor nao somente de si, senáo também de todas
as mais criaturas». «O senhorio-, filho do pecado», ocasiona
«culpas e ofensas a Deus pelas sem-razóes, injustigas, rigores
e Uranias que praticam os senhores com os servos».

Quanto aos deveres de uns para com os outros, argumenta


o Pe. Benci:

"A diversidade que há entre o senhor e o servo, nSo consiste em


que o servo esteja obrlgado ao senhor, e nao o senhor ao servo, mas na
diversidade das obrigacSes que reciprocamente devem um ao outro".

"Usar dos escravos como de bruto é coisa táo Indigna que Clemente
Alexandrino julgou que nSo podía caber em homem de razáo e de julzo.
£, se Isto nSo é obra de homem racional, muito menos o pode ser do
homem crlstáo, a quem o mesmo Cristo encomendou tanto o amor e carl-
dade com o próximo".

A seguir, o autor recorda o dever de nao exigir trabalho


dos escravos nos domingos e días santos. Recomenda atengáo
ap vestuario dos servos, visto que «o ornato dos servos é cré
dito dos senhores... Se alguém nao tem posses para os vestir,
nao tenha posses para os ter».

No tocante a saúde, observa: «No Brasil se acham senho


res de entranhas táo pouco compassivas e em tanta maneira
duras que, logo que véem os servos enfermos (principalmente

— 120 —
IGREJA E ESCRAVIDAO: O AFRICANO 33

se a doenga pede cura dilatada e custosa), os desamparam».


Tais senhores «nao merecem ser contados no número dos
cristáos... Todos igualmente somos ovelhas de Jesús Cristo
e remidos todos com seu preciosíssimo sangue».

O tipo de trabalho exigido dos escravos há de ser moderado,


de modo que «pecam por excesso os que os oprimem com tra-
balhos superiores a suas forgas ou por excessivos ou por
demasiadamente continuados».

No final da obra resume Benci o seu pensamento: «O


estado mais infeliz a que pode chegar urna criatura racional,
é o cativeiro, porque com o cativeiro lhe vém como em compen
dio as desgrasas, as miserias, os vilipendios e as pensóes mais
repugnantes e inimigas da natureza». O ideal seria a libertagáo
dos escravos, mas, visto que isto nao pode ser obtido, Benci
pede ao menos misericordia:

"Antigamente os cristáos da primitiva Igreja, logo que recebiam o


balismo, davam liberdade a seus servos, parecendo-lhes que com a liber-
dade da lei de Cristo nao estava bem o cativeiro. Assim o fizeram os Her-
mes, os Cromados, e outros muí tos, de que estáo cheias as Historias
Eclesiásticas. Nao quero persuadir com isto aos senhores a que facam o
mesmo aos seus escravos. Senhores, eu nao pretendo que deis liberdade
aos vossos servos; que, quando o fizésseis, farieis o que fizeram os verda-
deiros cristáos. O que só pretendo de vos, é que os tratéis como a pró
ximos e como a miseráveis; que Ihes deis o sustento para o corpo e para
a alma; que Ihes deis somente aquele castigo que pede a razio; e que
Ihes deis o trabalho tal que possam com ele e os nao oprima. Isto só
vos peco, Isto só espero, e isto só quero de vos: Pañis el disciplina, et
opus servo (pao, ensino e trabalho para o servo)".

Tais tópicos do livro do Pe. Jorge Benci S.J. sao suficien


temente significativos para mostrar que a escravatura foi
objeto de especial solicitude da parte da Igreja desejosa de
minorar o sofrimento dos cativos.

1.3. As «Constitui;oens Primeyras do Arcebispado da Bahía»

Em 1707, na cidade do Salvador teve lugar o Primeiro


Sínodo Diocesano do Brasil, que promulgou as «Constituicóes
Primeiras do Arcebispado da Bahia», que estiveram em vigor
ñas demais dioceses do país durante os séculos XVIII e XIX.
Esse documento dedicou vinte e tres tópicos á situacáo dos
escravos.

— 121 —
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

Entre outras, merece atengáo a exortagáo a que os senhores


proporcionassem aos escravos comida, roupa e o descanso dos
domingos e dos dias santos.

"Nao é menos para estranhar o desumano e cruel abuso e corruptela


muito prejudicial ao servlco de Deus e bem das almas, que muitos senhores
de escravos tém Introduzido: porque, aproveítando-se toda a semana dos
miseráveis escravos, sem Ihes darem colsa alguma para o seu sustento
nem vestido com que se cubram, nao Ihes satisfazem esta divida, fundada
em direito natural, com Ihes deixarem livres os domingos e dias santos,
para que rujies ganhem o sustento e vestido necessário. Donde nasce que
os miseráveis servos nao ouvem Missa nem guardam o preceito da Lei de
Deus, que proíbe trabalhar em tais dias. Pelo que, para desterrar tSo
pernicioso abuso contra Deus e contra o homemi, exortamos nossos súdi-
tos e Ihes pedimos, pelas chagas de Cristo Nosso Senhor e Redentor, que
daqui em dlapte acudam com o necessário aos seus escravos, para que
possam observar os ditos preceitos e viver como crlstáos".

Nesta passagem é significativa a mengáo de abuso contra


o homem (nao apenas contra Deus), mengáo que revela a cons-
ciéncia de que todo ser humano, mesmo ñas condigóes da escra-
vatura (que era um trago inórente aos costumes daquela
época), merecía respeito.

O Sínodo se interessou também pela catequese a ser mi


nistrada aos escravos, todavía sem que se Ihes impusesse o
Batismo. O Titulo XIV das Constituigóes apresenta o elenco
de pergpntas que se faziam aos mais rudes no intuito de nao
os forgar a receber o sacramento:

"Queres lavar a tua alma com a agua santa?"

"Botas fora da tua alrna todos os teus pecados?"

"Nao has de fazer mais pecado?"

"Botas fora de tua alma o demón'o?"

Logo a seguir, tem-se a advertencia:

"E porque tem sucedido, morrerem alguns desses bocaes sem cons
tar sua vontade de quererem ser balizados, no primelro tempo em que se
Ihes puderem fazer as perguntas sobreditas ou por intérpretes ou na nossa
lingua, se tiverem alguma luz déla, Importa muito para a salvacio de suas
almas, que se Ihes facam..."

Mais: "Os filhos dos infléis nao devem ser balizados sem licenca dos
pais, antes de chogarem ao uso da razSo, ou Idade em que pecam o
Batismo".

1 Grifo nosso.

— 122 —
IGREJA E ESCRAV1DA0: O AFRICANO 35

"E, no que diz respeito aos escravos que vieram de Guiñé, Angola,
Costa da Mina ou oulra qualquer parte etn idade de mais de sete anos,
aínda que nao passem de doze, declaramos que nao podem ser batizados
sem darem para isto seu consentimento".

O Sínodo também levou em conta o direito de matrimonio


e de vida conjugal dos escravos:

"Conforme o direito divino e humano, os escravos e escravas podem


casar com outras pessoas cativas ou livres, e seus senhores Ihes nao
podem impedir o Matrimonio, nem o uso déte em tempo e lugar conveniente,
nem por esse respeito os podem tratar pior, nem vender para outros luga
res remotos, para onde o outro, por ser cativo ou por ter outro justo impe
dimento, o nao possa seguir e fazendo o contrario pecam mentalmente e
tomam sobre suas consciéncias as culpas de seus escravos, que por esse
temor se deixam muitas vezes estar e permanecer em estado de conde-
nacao".

Finalmente o documento se volta para o trato a ser dis


pensado aos escravos defuntos:

Estipula a pena de excomunháo maior para os senhores


que mandavam «enterrar seus escravos no campo e mato como
se fossem brutos animáis». E no número 833 exorta:

"Porque é alheio da razio e piedade crista que os senhores que se


serviram de seus escravos em vida se esquec.am deles em sua morte, Ihes
encomendamos muito que pelas almas de seus escravos defuntos mandem
dizer Missas e pelo menos sejam obrigados a mandar dizer por cada escravo
ou escrava que Ihe morrer, sendo de quatorze anos para cima, a Missa de
corpo presente".

É nestes termos que o Primeiro Sínodo Diocesano do Brasil


quis mitigar a sorte dos escravos. Torna-se oportuno lembrar
que a Igreja estava entáo sob o regime do padroado, que
sujeitava as suas determinagóes á «tutela» e ao «beneplácito»
do monarca.

1.4. A Bula «Immensa Pastorum» de Bento XIV (1741)

Poucos decenios após o Primeiro Sínodo Diocesano do


Brasil, o Papa Bento XIV, fazendo eco a predecessores seus,
houve por bem profligar a escravatura.

A Bula «Immensa Pastorum» assim redigida foi enderegada


aos bispos do Brasil e de outras partes da América, a fim de
que tentassem obter melhores condigóes de vida para os
escravos.

— 123 —
36 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

O documento lembra, de inicio, que «nao devemos ter


maipr caridade do. que nos preocuparmos em colocar nossa
existencia nao só a favor dos cristáos, mas também da escra-
vatura e inteiramejite a favor de todos os homens». A seguir,
expóe o problema: «Por isto recebemos certas noticias nao
sem gravíssima tristeza de nosso ánimo paterno, depois de
tantos conselhos dados pelos mesmos Romanos Pontífices,
nossos Prede.cessores, depois de Constituicóes publicadas pres-
crevendo que aos infléis do melhor modo possível dever-se-ia
prestar trabalho, auxilio, amparo, nao descarregar injurias,
nao flagelos, nao ligames, nao escravidáo, nao morte violenta,
sob gravissimas penas e censuras eclesiásticas...»

O Pontífice ainda recorda, renova e confirma as declara-


góes dos Papas Paulo III em 1537 e. Urbano VIII em 1639. O
primeiro ordenou ao arcebispo de Toledo que protegesse os
indios da América e ameagou de excomunháo, cuja absolvigáo
ficaria reservada ao Papa, quem os subjugasse. Quanto a
Urbano VIII, estipulou severas censuras canónicas para todos
os que violentassem o livre arbitrio dos indios, convertidos ou
nao. Bento XIV chama desumanos os atos de prepotencia
contra os escravos e estabelece haja excomunháo «latae sen-
tentiae ipso facto incurrenda» (isto é, excomunháo infligida
desde que cometido o delito) e outras censuras canónicas para
os que maltratavam os indios. E por «maus tratos aos indios»
explica o Pontífice que entende escravizar, vender, comprar,
trocar, dar, separar de suas mulheres e filhos, esbulhar, levar
para outros lugares, cercear de qualquer modo a livre agáo,
deter no cativeiro, como também, por qualquer pretexto, ajudar
de qualquer forma os agentes destas iniquidades. Exorta final
mente os Bispos a que «com diligencia, zelo e caridade cumpris-
sem á sua tarefa».

O Marqués de Pombal, por alvará de 8/5/1758, mandou


executar esta Bula em todo o Brasil apenas no tocante aos
indígenas. Na verdade, o teor do documento refere-se a todos
os homens, incluidos os de origem africana trasladados para
o Brasil.

1.5. A obra do Pe. André JoSo Antonil S.J. (1711)

Ante o fato consumado da escravatura no Brasil, o jesuíta


Pe. André Joáo Antonil escreveu a obra intitulada «Cultura e
opulencia do Brasil por suas drogas e minas» (1711), obra que
toma a defesá dos escravos vitimas de abusos dos senhores.

-. 124 —
Í6REJA E ESCRAVÍDAÓ: ó AFRICANO 37

Assim, por exemplo, exorta os patróes a colocar á dispo-


sieáo dos escravos «mantimentos e fardas, medicamentos,
enfermaría e enfermeiro».... «Nada, pois, tenha o senhor do
engenho de altivo, nada de arrogante e soberbp; antes, seja
muito afável com todos e olhe para sgus lavradores como para
verdadeiros amigos».

Ao feitor diz o Pe. Antonil: «Adoeeendo qualquer escravo,


deve livrá-lo do trabalho e por outro em seu lugar e dar parte
ao senhor para que trate de o mandar curar e ao capeláo para
que o ouca de confissáo e o disponha, crescendo a doenga, com
os sacramentos para morrer».

Voltando a dirigir-se aos patróes, o Fe. Antonil repreende


os que nao se preocupam com a vida moral dos seus servos,
observando se vivem virtuosamente e cumprem seus devercs
religiosos. Censura os senhores que irnpedem os escravos de
guardar os domingos e freqüentar a Missa por exigirem deles
trabalho. Acrescenta: «... E deve (o senhor) também mo
derar o servigo, de sorte que nao seja superior as forgas dos
que trabalham, se quer que possam aturar». Repreende
outrossim os que batiam «por qualquer coisa pouco provada ou
levantada e com instrumentos de muito rigor, ainda quando
os crimes sao certos». Refere outrossim a praxe louvávcl de
certos patróes:

"Costumam alguns senhores dar aos escravos uñí dia em cada semana
para plantarem para si, mandando algumas vezes com eles o feitor para
que se nSo descuidem e isto serve para que nao padegam fome nem cer-
quem cada dia a casa de seu senhor, pedindo-lhe a racSo de farinha.
Porém, nSo Ihes dar farinha, nem dia para plantarem e querer que sirvam
de sol a sol no partido, de dia e de noite «om pouco descanso no engenho,
como se admitirá no tribunal de Oeus sem castigo?"

Quem tem escravos, seja para eles como um pai, apregoa


Antonil. Nao Ihes recuse a sua legítima recreagáo. Deixe-os
cantar, bailar honestamente, fazer suas festas de Nossa Ssnhora
do Rosario e de Sao Benedito e do titular da cápela local. Sejam
os patróes liberáis para cobrir as despesas destas solenidades,
incentivando desta forma seus servos. Em suma, Antonil prega
a generosidade que faz dos servos amigos.

A posigáo do sacerdote jesuitaináo foi singular nos sáculos


XVII/XVIII. Nota Katia de Queirós Mattoso em livro recente:

— 125 —
38 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

"0 clero regular dessa época procurava por todos os meios atenuar
os aspectos insuportáveis da escravatura como instituicáo. Para ele, o
escravo também possui urna alma que cumpre proteger" (Ser escravo no
Brasil. Ed. Braslllense S. A. Sao Paulo 1982, p. 118).

Passemos agora ao sáculo XIX, no qual foi abolida a escra


vatura no Brasil.

1.6. A atitude de Gregorio XVI (1839)

Aos 3/12/1839, olPapa Gregorio XVI, mediante urna epís


tola incisiva, quis corroborar em seu sáculo as declaracóes de
seus antecessores. Escreve, pois, taxativamente: «Admoesta-
mos os fiéis para que se abstenham do desumano tráfico dos
negros ou de quaisquer outros homens que sejam».

Nesse documento o Pontífice percorre sumariamente a


historia da escravatura. Comega por lembrar que o advento
do Cristianismo contribuiu se nao para abolir, ao menos para
mitigar as condicóes dos escravos:

"Logo que a luz da Boa Nova comecou a espalhar-se entre os homens


comegaram também aqueles infelizes, que naqueles tempos, mormente pelas
vicissitudes da guerra, cairam em grande número na mais dura escravidáo,
a sentir, pela maior parte, alivio na sua sorte, se pertenciam a senhores
cristios, porquanto, chelos como estavam do Espirito Santo, os Apostó
los ... admoestavam os senhores para que tratassem bem os seus escravos,
concedendo-lhes o que fosse de direito e de eqüidade, e sobretudo para
que se abstivessem de maltratá-los, devendo lembrar-se de que o verda-
deiro senhor nao so dos escravos, mas dos mesmos senhores, é aquele
que está no céu, diante de quem nao há distincSo de pessoas".

Continua adiante o Pontífice:


"Ngo so os cristáos comee,aram a tratar os seus escravos como irmSos,
mormente se tinham a mesma fé de seus senhores, mas comegaram a mos-
trar-se mais inclinados a dar-lhes a liberdade se a mereciam, o que sobre
tudo costumava ter lugar pelas testas da Páscoa, como nos consta do teste-
munho de Gregorio de Nlssa" l.

O Papa Gregorio XVI cita outrossim um antecessor seu,


Clemente I, que conheceu pessoas que, «ardendo em fogo de
caridade, até tomaram sobre si cadeias alheias por nao terem
outro meio de resgatar seus irmáos».

Entre parénteses, é oportuno notar que na Idade Media


foram fundadas duas familias religiosas destinadas á redencáo
dos escravos:

1 Gregorio de Nissa foi bispo em Nissa (Asia Menor) no século IV.

— 126 —
ÍGREJÁ É ESCRAVIDÁÓ: Ó AFRICANO 39

A Ordem dos Trinitarios (Ordo SS. Trinitatis de Redemp-


tione Captivorum), instituida em 1198 por Sao Joáo da
Mata (f 1213) para a libertagáo dos prisioneiros e dos escravos
cristáos do dominio dos sarracenos;
A Ordem dos Mercedários (Ordo Beatas Virginis de Mer-
cede Redemptionis Captivorum), fundada por S. Pedro No-
lasco (t 1256) e S. Raimundo de Penafort (f 1275); visava
também á libertagáo dos escravos cristáos do cativeiro
sarraceno.

Apesar destes antecedentes, o Papa Gregorio XVI lamenta


o fato de que muitos inescrupulosos haviam continuado a
«reduzir a escravidáo os indios, os negros e outros desgraga-
dos» por «torpe amor do ganho». Sao entáo mencionados
Pontífices que se insurgiram contra a dureza de trato infligido
aos escravos: Pió II, que a 7/10/1462 escreveu ao bispo de
Rovigo, quando este ia viajar para a Guiñé; Paulo III, que,
aos 29/5/1537, se dirigiu ao Cardeal-arcebispo de Toledo;
Urbano VIII, que, com a data de 22/4/1639, escreveu ao
Coletor da Cámara Apostólica em Portugal; Bento XIV, que,
aos 20/12/1741, enviou urna Bula aos bispos do Brasil e de
outras térras da América; Pió VII (1800-1823), que, «animado
do mesmo espirito de reiigiáo e caridade que seus predecessores,
empregou toda a sua influencia para com os diferentes sobe
ranos, a fim de que o comercio da escravatura fosse inteira-
mente abolido entre.os cristáos». Gregorio XVI aspirava a que
«semelhante infamia» fosse para sempre extirpada nos países
católicos.
Eis os significativos termos com que se encerra a Bula:
"Pelas passadas de nossos predecessores, admoestamos e conjura
mos por Jesús Cristo todos os fiéis, de qualquer estado e condicáo que
sejam, para que, daqui em diante, nao continuem a oprimir táo Injusta
mente os indios, negros ou outros quaisquer homens, pr¡vando-os de seus
bens ou fazendo-os escravos, nem mesmo se atrevam a dar auxilio ou
favor aqueles que tal tráfico exercitam, por meio do qual os negros, como
se fossem animáis bravios, e nao homens, sSo reduzidos á escravidáo de
qualquer maneira que seja e, sem respeito para as leis da justica e da
humanldade, comprados, vendidos e condenados aos mals duros trabalhos,
além do Inconveniente de eternizar as guerras, e as discordias nos países
em que se faz o comercio da escravatura, em razio da esperanza do
ganho com que se anlmam os que se ocupam na apreensáo dos negros.
Tudo isto, portanto, Nos reprovamos, como altamente Indigno do nome de
crlstao, em virtude da autoridade apostólica que Nos compete e, com essa
mesma autoridade, proibimos que qualquer eclesiástico ou leigo, sob qual
quer pretexto que seja, se atreva a favorecer ou proteger o tráfico da
escravatura ou pregar e ensinar em público ou em particular, de qualquer
maneira que seja, coisa alguma contra o que nestas nossas letras se acha
determinado".

— 127 —
46 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

As enérgicas palavras do Pontífice dariam seus frutos


poucos decenios mais tarde, como se sabe.

1.7. Leño XIII e a epístola «In Plurimis» (5/05/1888)

Aos 5/5/1888 o Papa Leáo XIII enviou aos bispos do


Brasil urna epístola atinente á escravatura.

Diz, de inicio, estar ciente das medidas adotadas no Brasil


em favor da libertagáo dos escravos — o que alimentava no
Pontífice «a gratissima opiniáo de que os brasileiros queriam
abolir e extirpar a imanidade da escravidáo».

A seguir, o Papa propóe um retrospecto da problemática:

"É profundamente deplorável a miseria da escravidáo a que desde


muitos séculos está sujelta urna parte nao pequeña da familia humana".

Considera entáo o episodio de Onésimo, o escravo fugitivo


que Sao Paulo batizou e quis devolver ao patráo Filemon com
urna carta de exortagáo a este; o relacionamento social inspi
rado pelo Cristianismo estava impregnado de profundos senti-
mentos humanitarios, que aos poucos levariam a urna revisáo
da condicáo dos escravos:

"A Igreja nao quis proceder com precitacáo em procurar a emanci


pado e a libertagáo dos escravos, o que evidentemente nao se podía fazer
senSo de maneira tumultuosa que redundaría em daño deles mesmos e em
detrimento da sociedade".

"Os cuidados da Igreja no patrocinio dos escravos cresciam conti


nuamente e, nao perdendo nenhuma oportunidade, procurava conseguir pru
dentemente que Ihcs fosse dada a liberdade".

Entre os cristáos, lembra o Papa, introduziu-se o costume


louvável de dar «a liberdade aos escravos por generosa manu-
missáo». E recorda quanto fizeram os Papas em favor dos
escravos:

S. Gregorio Magno, «que resgatou o maior número que


Ihe foi possível»; Adriano I, o qual ensinou «que os escravos
podiam contrair livremente matrimonio, mesmo contra a
vontade de seus senhores»; Alexandre III, que «em 1167 intimou
terminantemente ao rei mouro de Valencia que nao fizesse
escravo nenhum cristáo»; Inocencio III, que «aprovou e con-
firmou a Ordem da Santíssima Trindade para a redengáo dos

— 128 —
IGREJA E ESCRAVIDAO: O AFRICANO 41

escravos» caídos em máos dos sarracenos; Honorio III e


Gregorio IX, que deram aprovagáo a instituigáo semelhante,
a Ordem de Santa María das Mércés, que Sao Pedro Nolasco
tinha fundado com Regra severa, exigindo dos Religiosos que
déla fizessem parte, se entregassem ao cativeiro em lugar dos
cativos, se isto fosse necessário para os resgatar; Gregorio IX,
a exortar os fiéis que oferecessem seus serves a Deus e aos
santos em expiagáo de suas culpas; Gregorio Magno, a propor
disposigóes de maior dogura ñas leis civis, com total éxito, pois
Carlos Magno as incorporou nos seus Capitulares e, depois,
Graciano as adotou no seu Decreto.

Em suma, «a Igreja defendeu sempre os escravos das vio


lencias e dos ultrajes dos senhores, aplicando para esse fim o
rigor de suas penas». Desta maneira a Igreja conseguiu por
termo á escravidáo na Europa.

Frente á escravatura fora da Europa, principalmente a


partir do sáculo XVI ñas térras da América, Leáo XIII men
ciona que levantaram a voz em favor dos indios e dos negros
os Papas Pió II, Leáo X, Paulo III, Urbano VIII, Bento XIV,
Pío VII, Gregorio XVI. Em seguida, Leáo XIII refere a sua
atuagáo pessoal em prol dos miseráveis escravizados. E, por
fim, volta-se para a situagáo no Brasil, louvando as iniciativas
recentes destinadas a preparar a extingáo da escravatura; ao
que acrescenta:
"E agora, Veneráveis IrmSos, a vos queremos dirigir o Nosso pensa-
mento e as Nossas Letras, para manifestar-vos e repartir convosco a grande
alegría que experimentamos pelas decisóes que nesse Imperio se adota-
ram, pertinentes á escravatura. Urna vez que foi estabelecido, por leí,
que todos aqueles que se encontram ainda na condicáo de escravos, seráo
admitidos na classe e nos direitos dos homens livres, nio só isto em si
nos parece bom, fausto e salutar, mas achamos nesta realidade, confir
mada e avalorada, a esperanza de progressos consoladores para os inte-
resses civis e religiosos".

Leáo XIII teve a ventura de acompanhar a extingáo da


escravatura no Brasil ocorrida aos 13/5/1888 mediante a
leí 3.353. A fim de comemorar enfáticamente tal evento, o
Papa quis enviar á Princesa Isabel a Redentora a Rosa de
Ouro, sinal da benevolencia de Sua Santidade.

1.8. As Irmandades e a escravatura

Urna instituigáo importante do Brasil colonial foram as


Irmandades ou Confrarias Religiosas, que certamente desem-
penharam papel de relevo no tocante a sorte dos escravos. O

— 129 —
42 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

objetivo das Irmandades era congregar pessoas de fé em vista


de urna vivencia mais coerente do Cristianismo; na verdade,
porém, as Confrarias exerceram o papel de consciéncia da
igualdade de todos os homens entre si: afirmando os direitos
dos escravos aos beneficios religiosos em pé de igualdade com
os senhores, tornavam-se fator de educagáo e formagáo das
mentalidades. Os escravos que se congregavam em Irmandades,
sentiam-se seres humanos iguais aos seus patróes, certos de
que gozavam diante de Deus das mesmas prerrogativas que
estes tanto durante esta vida como após a morte.

As Irmandades dos pretos se apresentavam, por vezes, táo


bem organizadas quanto as dos brancos. Chegaram a construir
suas igrejas e cápelas próprias, para escapar á tutela dos
brancos; esses templos serviam como lugares de mediagáo
quando os brancos se desentendiam entre si. «Assim, por
exemplo, a Ordem Terceira de Sao Francisco, na Tijuca, pre-
feriu instalar-se em um altar lateral da igreja do Rosario,
enquanto construía sua sede. Eventualmente poderia ter tido
algum altar na Sé ou em outra igreja de brancos, mas preferiu
ficar sujeita, ao menos temporariamente, a um grupo de
pretos» (Julita Scarano, DevogSo e Escravidáo, Sao Paulo,
1978, p. 33)1. Comenta J. Scarano:
"Conforme se vé, os Tercelros de SSo Francisco se submeteram ao
Julgamento de uma Mesa constituida de pretos, apesar de que sua con-
frarla abrigava pessoas de categoría elevada: comerciantes ricos e altos
dignhárlos" (Ib. p. 34).

Como notam os historiadores, as Irmandades «se tornaram


o único meio que permitía aos negros, como grupo organizado,
ombrear com os demais habitantes da colonia» (ib., p. 6).

1.9. ArquIcKocese de Mariana e escraviáao

Nos Anais da arquidiocese de Mariana (MG), onde era


denso o número de escravos, destacam-se as vozes de dois
prelados que se levantaram contra a escravatura.

1. A primeira é a de Dom Antonio Ferreira Vigoso, que


em 1840 escreveu sobre tal instituicjio. Retomando palavras de
José Bonifacio de Andrada, afirmava o entáo sacerdote,
missionário lazarista:

i A noticia, transmitida por J. Scarano, é baseada num texto do


Livro de ElelcSo da Mesa da Irmandade de N.S. do Rosarlo dos Pretos,
datado de 1742 a 1832.

— 130 —
IGREJA E ESCRAVIDAO: O AFRICANO 43

"Eia. pols, legisladores do vasto Imperio do Brasil, basta de dormir; é


tempo de' acordar do sonó amortecido em que há séculos jazemos. Nao
pode haver industria segura e verdadeira, nem agricultura florescente e
grande, com bracos de escravos... Mostra a experiencia e a razáo que
a riqueza só reina aonde impera a liberdade e a justica, e nao onde mora
o cativeiro e a corrupcio".

O pensamento de Dom Vigoso se exprime ainda em urna


carta dirigida em 1850 a um amigo advogado que desejava
dedicar-se 'á agricultura:

"Quanto á sua consulta se será bom largar a advocacia, á ¡mitajá'o


de S. Ligório, e outros santos, e comprar Africanos para a agricultura, eu
digo que nao é licita tal compra, porquanto, enquanto houver quem cá os
compre, haverá quem os vá comprar (ou roubar ¿ África), coisa tao oposta
á humanídade. Minha razáo repugna. Eu nao os tenho, nem os quero...
Com os Africanos, V.S. faria muito, é verdade, mas, além de atrair a Ira
de Deus com esta barbaridade, empatava grande capital; um ou dois que
Ihe morresse seria de muito prejulzo a seus interesses, e, sendo o com
padre um dos legisladores, daria com tal compra escándalo a muitos".

2. O segundo pastor que importa citar, é Dom Antonio


María Correa de Sá e Benevides, que escreveu em 1887 urna
Pastoral sobre a escravatura; entre outras coisas, dizia:

"Falo-lhes em favor de grande número de nossos IrmSos que ainda


esperam o dia da liberdade, em favor dos grandes principios plantados
por Nosso Senhor Jesús Cristo, os quais o estado da escravidáo impede
que consigam seu cabal desenvolvimento e até contraria. Falo-lhes para
o bem de tantos individuos, para promover a honra da patria, a expansáo
e o progresso do Cristianismo, ambos interessados na pronta extincáo do
elemento escravo. Falo finalmente para urna obra que vem extinguir urna
nódoa do Brasil, reformar a moralidade pública e particular e promover
com ela a salvapáo de multas almas, tanto dos senhores, como dos escra
vos, que por causa da escravidáo grandemente porigam".

O prelado citava ainda as intervengóes da Igreja em favor


dos escravos nos Concilios regionais de Merida (Espanha) em
666; de Toledo, em 589, 656 e 675; de Macón, em 585; de
Reims, em 625; de Chalons, em 650; de Armagh, em 1177
e outros.

E concluía: «Ajudem o movimento de libertagáo...


Tomem deveras a peito auxiliar a libertagáo dos cativos, nao
cessem de aconselhar e persuadir a todos para que a auxiliem
na medida de suas forgas».

E, para concretizar estes propósitos, Dom Benevides quis


incentivar a fundagáo da «Associagáo Marianense Redentora
dos Cativos».

— 131 —
44 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

Po'der-se-iam aínda citar depoimentos da figuras emi-


tentes da Igreja Católica que se pronunciaran! contra a escra-
vatura ou em favor de menos dura sorte para os escravos.
Fizeram-no movidos por fé ardente, vivida dentro dos pará
metros culturáis da respectiva época.

2. Gondusoes

Os testomunhos até aqui aduzidos manifestam urna atitude


da Igreja menos conhecida frente á instituigáo escravagista.
Quem deseja ser justo, nao pode deixar de levar em conside-
racáo tais depoimentos, que háo de ser lidos nao dentro das
categorías de pensamento da época contemporánea (pois entáo
poderiam parecer fracbs), mas á luz do modo de pensar e viver
da época de cada qual dos autores citados; assim lidos, tais
textos revelam o auténtico senso cristáo que nunca deixou de
animar a Igreja através dos sáculos.

Na redasfio deste artigo mullo nos valemos dos estudos publicados


pelo emérito historiador e filósofo Cdnego José Geraldo Vidlgal de Carvalho
no jornal "O Arquidiocesano." de Mariana, MG, aos 11/07, 25/07, 19/08,
15/08, 22/08, 29/08, 5/09, 12/09, 19/09, 26/09, 3/10, 10/10, 17/10/82.

* * *

ANO SANTO

"Cada ano litúrgico, na verdade, ó a celebracáo dos misterios da nossa


Redencao; no entanto, a ocorréncia da dala Jubilar da morte salvifica de
Cristo sugere que tal celebracSo se]a participada de maneira unáis intensa.
J¿ em 1933 o Papa Pío XI, de venerável memoria, houve por bem evocar,
com um afortunado intuito, o XIX Centenario da Redencao com um Ano
Santo Extraordinario, prescindido de entrar na questSo da data precisa
em que terá sido crucificado o Senhor.

Urna vez que neste ano de 1983 ocorre o 1950? aniversario desse
acontecimento excelso, foi arnadurecendo em irjim a decisao... de dedicar
um ano Inteiro á especial comemoracáo da Redencao, a flm de que esta
penetre mals profundamente no pensamento e na atlvldade de toda a
Igreja.

Este Jublleu terá infcto a 25 de marco próximo, Solenidade da


AnunclacSo do Senhor, que recorda aquele momento providencial em que
o Verbo Eterno, fazendo-se homem por obra do Espirito Santo no seio da
Virgem María, se tornou participante da nossa came... O mesmo con-
ciulr-se-á a 22 de abril de 1964, domingo de Páscoa, dia da plenitude da
alegría alcancada pelo sacrificio redentor de Cristo, em virtude do qual
a Igreja de maneira perene maravilhosamente se renova e se alimenta"
(Joto Paulo II, Bula "Aperite Portas Redemptori" de 6/01/83, n? 2).

— 132 —
questao:

Igreja Popular: Que

da
do c?i 68e: o Socialismo
Crlstáos para « ?? da e'9reja P°pular que
congéneres, Se se
assocla
op6emaos& ™V¡mentos
Igreja insti-
Scoma m ParYleitear ™a ^a igreja comprometida Uri.ara-
mente com a luta de classes e a transformacSo da soeledade Essa Igreja
popular já nao teria as características da obra fundada por Jesús Crtsto
oo'Socialismo
tSLTe a guerrílha
"££ hUmana> "a qual
se incitarían* aS tarefa
á sua pe8Soassóclo-polttlca
comprometidas com
mediante
S TlZ™**
* ,P
re!Í9Í°SaS °S araut0S dessa
essa '^ S?Ptof "Sí
a realidade historica contemporánea e uma
lidd
i -:tmla ,de m°d0 que Sirva a denuncíar "'nimigos" e insti-
mente tzJZ T' Pro1essam a secularlzagao dos valores mais genulna-
S^r^TlTSrf tranSCe"dtI <
yerdade' deve"se re'eitar a premlssa da teoría da «
marxfsínrmaThr'6 °PreSS°re,S
marxismo, mas há uma gama de " posi53es
°Prlmid°Ssoclais.
"a Sociedade-
A IgreiacO"lo
por SSTo
sua vez
nfio abrange apenas uma classe (a dos pobres, identificados com o povo)'

iilliipi
Comentario: Nao raro se ouve falar de novo modelo de
Igreja, mais adaptado aos nossos tempos e especialmente ás
circunstancias da América Latina: seria uma Igreja Se nasce
do povo e toma tragos mais flexíveis, em sua doutrinl e em
f^H SCÍ? I"3' d° QUe a Igreia Oficia1' "krárquica, instituciona-
ÍS™o -a prop?sta aParece em PuWicaeóes varias, das quais
algumas sao mais explícitas, outras mais moderadas. Disto
resultara duvidas e interrogares no grande público, que se ve
interpelado por novas teorías, cujo valor nem sempre é fácil
perceber — É o que justifica uma explanagáo do tema em PR,
seguida de um comentario da problemática assim levantada
— 133
J6 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

1. Pono de fundo

Váo aqui propostas algumas das premissas da tese de uma


«Igreja popular».

Sob a luz de uma análise marxista da sociedade, verifica-se


que os homens se repartem em duas grandes classes- a dos
opressores, que sao uma minoría detentara dos bens de pro-
ducáo e a dos oprimidos, que vém a ser a grande massa,
empobrecida e explorada por aqueles.

Essa situagáo há de ser a chave sob a qual se deve ler a


Sagrada Escritura e conceber a vida crista. Ora a Escritura
no Antigo Testamento apresenta a historia do povo de Israel
escravizado e oprimido pelos egipcios e libertado do cativeiró
pelo Senhor Deus; apresenta outrossim Jesús Cristo, que no
limiar do Novo Testamento se mostrou rebelde contra as estru-
turas sociais da sua época, contestando as autoridades consti
tuidas e, por isto, morreu na cruz como subversivo e revolu
cionario. Em conseqüéncia, há quem deduza da S. Escritura
o incitamento a subverter a ordem social hoje vigente tida
como injusta, a fim de se chegar a uma sociedade sem classes
que respeite a igualdade fundamental de todos os homens A
libertagáo do povo oprimido seria a grande meta do cristáo
A teología construida a partir da consideragáo das injusticas
sociais teria por criterio de verdade a sua eficiencia liberta
dora; a ortopraxis seria mais importante do que a ortodoxia
A Liturgia também, segundo este modo de ver, há de ser con
cebida em vista da praxis libertadora ou em vista da trans-
formagáo da sociedade atual.

Como se v§, esta nova teología apregoa uma releitura das


S. Esenturas, releitura a partir da situagáo concreta na qual
o cristáo se acha na América Latina: como os antigos cristáos
repensavam Jesús a partir das circunstancias de Tessalónica,
Éfeso, Corinto..., deixando-nos a respectiva imagem de Jesús
nos escritos do Novo Testamento, assim também nos deveria-
mos repensar Jesús a partir do momento presente latino-
-americano. O que as primeiras comunidades cristas fizeram,
deve ser repetido pelas comunidades cristas contemporáneas,
de modo a reinterpretar Jesús e sua mensagem para o homem
latino-americano. Com outras palavras: nao sao os sinais dos
tempos que deyem ser interpretados á luz da Revelacáo Divina,
mas, ao contrario, é a Revelagáo que há de ser interpretada á
IGREJA POPULAR 47

luz dos smais dos tempos. A situagáo social de cada época é o


«lugar teológico» por excelencia; o homem de hoje é o principio
nermeneutico da S. Escritura; a antropología é o principio a
partir do qual se deve compreender o misterio de Cristo e da
Igreja, assim como as doutrinas e instituigóes do Cristianismo.
Em conseqüéncia deste principio subjetivo, verifica-se que
o conteúdo da fé se muda: esta significa aderir a Cristo revo
lucionario e segui-lo; ficam em segundo plano as verdades do
Credo, que seráo avaliadas de acordó com a sua eficacia trans
formadora da sociedade. Sao palavras de Diego Irarrazável
membro do movimento «Cristáos para o Socialismo»: '
"Descubrimos que nSo é possivel um compromlsso revolucionario dos
cristáos sem urna transformacSo da fé" (Cristianos en el Processo Socia
lista, pp. 469s).

"Creío honestamente que todos os que estamos aqui reunidos, tomos


convertidos... Últimamente vivemos urna experiencia nova de conversao
NSo mudaram apenas alguns compromissos políticos ou algumas posicóes
ideológicas. Foi-se mudando também a nossa fé" (p. 476).

A conversao assim entendida é «conversao ao povo e ao


processo revolucionario»:

"Assumir a praxis subversiva dos explorados que procuram construir


urna térra nova, é viver a experiencia da conversáo evangélica, ó encon
trar urna nova identidade humana e crista" (Documento de Québec 1975
n? 17; ver bibliografía).

"Converter-se é comprometer-se com o processo de Iibertacáo dos


pobres e explorados" (Gustavo Gutiérrez, Teología de la Liberación, Sala
manca 1974, p. 268).

"A prática da fé está implícita na prática revolucionarla. Aiguém é


tanto mais cristáo quanto mais solidario com as lutas do povo em prol da
sua libertagao" (Los Cristianos y el Socialismo 1973, p. 244).
As concepcóes até aqui expostas implicam alteragáo do
conceito de historia sagrada. Classicamente distinguem-se a
historia da salvagáo (historia do povo de Deus da Antiga e da
Nova Alianga) e historia profana... Ora a nova teologia da
libertagao afirma que toda a historia da humanidade é historia
da salvagáo, guiada pelo Espirito Santo:
"A unidade da historia humana ó um tema fundamental na teologia
latino-americana. É urna superagSo do dualismo antagónico que separa a
historia profana — a das realidades temporais ou das sociedades poli-
ticas ■— da historia sagrada ou da salvacáo, e que reduz esta a urna sim
ples identificacSo com a historia de Israel ou da Igreja. A historia humana
é concebida, na reflexSo teológica latino-americana, como a única historia.

— 135 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS* 267/1933

é h!S!Óri.a da salva5s°" (Francisco Vanderhoff e Miguel Arael

somente todos os homens podem salvar-se porque foíam cha


OíSiPnín?e"S-a tantt°' ^ de fat0' tod°s i siSof-Ü
SS pr°PT0Sieao contraria a constante Tradicáo crista e a
4a íraof?n,,damentada nos escrit°s do Novo Testa-
Cf. Mt 25,31-46, onde Jesús distingue dois tipos de
sentenca sobre os homens no final da historia

m» StGS P°UC°f trasos da nova teoI°Sía sá0 suficientes para


que possamos situar o que se chama «Igreja Popular».

2. «Igreja Popular»
Se a conversáo dos cristáos consiste em voltar-se para a
transformagáo das atuais estruturas sociais, entende-se que
deva surgir urna nova Igreja dita «popular», na qual se con-
greguem todos os «novos cristáos» assim convertidos:
trn hJ'? P|?C888O.llw«>|uclonárlo mesmo torna posslvel urna revolu5áo den
tro da Igreja... Neste momento, mais do que em outras épocas a loraia
deve ser recriada» (Los Cristianos y el Socialismo, p 239s)

A Igreja nova há de se opor á Igreja oficial, hierárquica,


institucional, da qual se distinguirá por sua índole eminente
mente flexivel e informal. A nova Igreja terá suas caracterís
ticas, que podemos assim catalogar:

2.1. A ortopraxis arfma da ortodoxia. Ateísmo


Este binomio já foi introduzido ñas consideragóes antece
dentes. Significa que o Credo pode ser revisto e, conseqüente-
mente, adaptado as concepffóes políticas dos cristáos. Há
mesmo quem fale de um Cristianismo sem religiáo ou ateu
porque, sem mais, associado a filosofía materialista de Karí
Marx. Sao numerosos os testemunhos de teólogos ou, melhor
de ideólogos que apregoam tal proposigáo:

a a,,f«í?ad? a^ prim.az|a da a5fio revolucionaria, os cristáos ... aceitam


a autonomía da ciencia e a acáo revolucionarla. Neste sentido, é preciso
?»iín«fr a *A constr"5ao da socbledade socialista é urna tarefa nao
religiosa e supae um Cristianismo sem rellgISo» (Los Cristianos y el Socia
lismo. Primer Encuentro Latinoamericano, 1973, p. 209).

— 136 —
Cristianismo sem religiáo pode ser mesmo um Cristia
o ateu (paradoxo), segundo o ex-sacerdote Pablo ¿chard
e seus discípulos. Eis como este autor se í
ssstssstás^ panamenha
que

A tese do autor, muito sublinhada pela revista era esta-


3ar UrGCer "* * é Prd ^ ateu ™ ^
O próprio Pablo Richard confessa-

Como se ve, esse ateísmo vem a ser algo de ambiguo O


fato e que P. Richard reconhece a necessidade de náóTpr¿
%?££££££"•pois estas ná0 aceitariam integr¿se-
conse9uem solver o problema da mobi-

á revolu?ao do que declarar-se ateu» (ib. p. 52).


O «ateísmo» de Pablo Richard assume outro nome, a saber:
2.2. Secularismo

Entende-se por secularismo o apagamento do nome de


Beus e dos valores sagrados que equival! a ignorar a Deus ou
mesmo negar a Deus. Assim, por exemplo, seSprime ClSs

— 137 —
E RESPONDEREMOS» 2¿7/it«M

^ - «■*». a just.5a,

Segundo
g o autor,
o autor, oo que
que Cristo
Cristo veio
veio ensinar
ensinar ee fu
fundar nao
ser
ser e
e de
de rife (ib.^ST?0
at^ST?0*
p. 10). Isto Um
agir at^ST?* eStUdizerde
eStU°
quer d quevida'
idos um ™á°á™
sacramentos

sao dispensáveis, pois nao comunicam a ¿acá ¿ salvíS S m2 2
apenas a manifestara. Um homem, ateu oTpagSo que se
e^penhasse pela justiga social, estarla no camLho da k?vTCáo
Este proposigao, alem do mais, tem sabor pelagiano, ¿ois
T™JS£ a capacidade de ^ ^
3) Alianza com o marxismo

?-atÍ aqui foi dit0' depreende-se que está na


(¿ vezes H3P P°P^ar^contrair
(ás vezes, tambem designado por
^anCa como marxismo
po «socialismo»,
ili como na ex-
pressao «Cnstaos para o Socialismo»). Tenham-se em vista
os seguintes depoimentos: v sta

"A opgáo pelo Socialismo marxiste, por mais que isto

nf° ?braca o marxismo, deixa-se ficar numa posicáo


(reformadora da sociedade atual) e nao revolu-
pCatólica:
3P é sao
°-CaS° d0S Que SeS«em a tirina SocTal da
também ditos «tercenistas», porque acre-
TSiáS"80 seia nem °capitalismo liberal nem °
pTteHsm'o'ío soclííiÍmo"S Cri criaráiiefnátri'as'P°l«¡cás' 'cristas1 "entre
9, 1976, p. 38).

— 138 —
IGREJA POPULAR

no m,,^771 ÍU8ar defin'"vamente a pretensáo, amplamente difundida


no mundo cristao, de sermos portadores de um projeto especifico de socle-
dade, expresso na chamada 'Doutrina Social C°ista\ De fato' parecemos
i?~2t?i pi¡etensao de Werer deduzir d° Evangelho, em nome do prtmado
do espiritual, um comportamento político" (Documento de Bolonha 1973
publicado por Fierro/Mate, Cristianos por el Soclaltamo 1975, 3%)

mOVÍmento em Pro1 de

4) «ImplosSo» da Igrejo oficial

Muitos daqueles que procuram transformar a Iereia ou


criar urna nova Igreja, nao querem retirar-se da S. Igreia, onde
foram baüzados e nutridos espiritualmente, mas desejam
mudar a Igreja tornando difícil e penosa a subsistencia dos
respectivos pastores, na esperanca de que estes acabem por
retirar-se. É o que se depreende de numerosas declaracóes dos
arautos da «nova Igreja»:

"A nos interessa recuperar essa zona da Igreja que está com o poder
ÍLtomiS S3irem.0S.
saiam eles.
da l9reja> Tornar-'hes-emos a vida" impossível para queI
Interessa-nos viver esse confuto no interior da Igreja

mesmo que seía um


Este texto póe em relevo o propósito de suscitar dentro
Sre£ o? u°nfllt0 amánente. Frei Betto (Alberto
O. P.) observa por sua vez:

daJ'Uta interna se conse9"e mudar a Igreja» (aos


* jas írá9ua 198° A s
Ou aínda, conforme os Cristáos para o Socialismo:
™<?iS>nf!?nt08 que "0SS0S movlmenfos tém tido com autoridades ecle-

exterior das mesmas por urna orientaclo procapitalista e


SfiSFÍM t &fSÍ°* QRufntad?s4ndoP
4 Encentro
ncentro tSKEt
no BoletIm n'13 d0 Grupo SAL
Interessa salientar nesta Declaracáo duas atítudes que
norteiam o comportamento de muitos membros da Igreja
dados áá contestacao:
contestacao: «nao nos deixarmos isolar», «nao nos
deixarmos recuperar».
recuperar»

— 139 —
«PERGUIsfTE fi RESPONDEREMOS» ¿67/1983

Muito a propósito o Papa Paulo VI, em sua Exortacáo


ÍSü-J1? benevotlen,tia* de 8/12/1974 lamentava 0S focos
de ínfidehdade que atualmente surgem na Igreja e que infeliz
mente «procuram solapá-la por dentro». E ac?escentava-
«Promotores e vitimas de tal processo pretendem SrmanS
na Igreja, com os mesmos direitos e as mesmas possibilidades

Já se tem observado, e com muito acertó: em épocas oas-


sada* os que pretendiam destruir a Igreja, eram confessada-
mente anticatólicos; hoje em dia, os depredadores da «Igreia
renovada» estáo no próprio bojo da Igreja e se dizem arautos
da «Igreja renovada» — o que é foco de graves mal-entendidos
para o povo de Deus.

5) Pobreza doutrinária

Compreende-se que a prioridade dada á praxis sobre o


lógos acarrete um esvaziamento da mensagem teológica entre
os arautos da Igreja popular. Eis como o fato é analisado por
D. Boaventura Kloppenburg, bispo auxiliar de Salvador (BA):
"Urna das atribuicdes do povo-pobre-oprlmldo-conscientlzado serla-
ser o sujeito da própria Teología... Por esta razSo. encontramos entro os
fautores da nova Igreia Popular urna generalizada atltude de desdém para
com os teóloaos aue. segundo eles, nSo estao comprometidos e multo
menos estáo Identificados com o que eles chamam 'povo'. O desprezo para
com os teólogos acarreta a desestima da próprla Teología elaborada pelos
desdenhados teólogos. Resultado: ¡á nao tém nem deseiam ter urna boa
sa, refletlda e madura Teología. Em verdade, nem tém Teología.

fa«,m fíor/ °ertameiV° ° motlvo P°r que a'fluns teólogos da libertacao


fazem alarde da sua vida com o ■povo-pobre-oprlmido-consclentlzado-lutador
Els, a seus olhos, um titulo que vale muito mals do que qualguer título
académico, que, de resto, quase sempre Ihes falta...

Tal ó a líbertacao da Teología. Já nio querem ser professores nem


ensinar com seriedade a metodología, a competencia e o preparo exigidos
ñas severas Universidades do Velho Mundo" Seria um método bancário.
Tudo vem do povo e de seus privilegios epistemológicos, proféticos e mís-
SriíJíhS?' °. PO?° peüsa entender a Palavra, nño se engaña, nSo peca.
Principalmente ele realiza a auténtica praxis, a única que vale O dovo ó
transformado em mito. Ouem fez urna opplo de classe em favor de um e
contra a outra, tem as portas abortas para a verdade. Já nao precisa de
estudo. É o verdadBlro teólogo. Os que estudaram Teología antiga, Ideo-
logizada trataram de esquecé-la para aprender com o povo, que é o novo
magfetério Fazer um curso para ser diácono é um método opressor'
(J. Comblin). O que ilumina, é a praxis libertadora e revolucionaria. A

— 140 —
IGREJA POPULAR

partir da praxis, com a praxis, na praxis e pela praxis

vez sea este o motivo pelo qual temos agora urna verdadeira in

ver tantas bobabens e simploriedades»

Estes dizeres, sarcásticos como sao, nao deixam de oó


íeítes ZÍp
ZÍatO ,,
mUÍt° rit e' mo*dos Por SteriOrdiS
Sr
Stí? •? ,da.Palavra de Deus, ou seja, agitados por precon-
ceitos ideológicos e passionais, escrevem na América Latina
SSLa Unt°S íe°lóSícos com° « estivessem cultivando a
IrrS-1
formacao
^e,rdade> ° qUe desejam é P6r a servico da trans
social o enorme patrimonio da mensagem de Jesús
Cristo e da té crista. Como exemplo, entre outros dessa dS
torcao, esta também o fato de que, para eles, a Biblia vem a
ser preponderantemente o Antigo Testamento, na medida em
que este propoe questóes da política do povo de Israel; a visáo
cristo da política que decorre de urna leitura do Novo Testa
mento (especialmente do Apocalipse) Ihes é estranha.

6) A historia confemporánea e a Biblia

Para os fautores da Igreja popular, a historia contemporá-


SfrSi Y61" ?nal F*10^™1 Deus se revela> como a histórfa
de Israel descrita pela Biblia foi canal de revelagáo. Nao há

«e no ^^, testTemunh0S mais ejfPlícitos e recentes desta tese


Encontró Latmo-americano de Teología realizado em
Managua (Nicaragua) de 8 a 14/9 de 1980 com a presenS
MpSnreHtaPPartÍ?Pai?,teS Prove^ntes do Brasil, do Chile do
fS Espanha^"' Salvador. da Guatemala, da Nicaragua
Os participantes do Encontró exaltaram a Igreja popular
como dimensao especifica do movimento popular revoluciona
rio da Nicaragua. Esta Igreja popular, como realidade já
existente, e contraposta á Igreja oficial ou hierárquica, como

•r i \As«.tas res.Pectivas 'oram publicadas com o título Apuntes para una


Teología Nicaragüense. San José, Costa Rica 1981, 198 pp.

— 141 _
54 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

se depreende do título publicado a p. 69 do volume de Atas-


O?eSlIg-T ?°^lar - ^^estabeleddaTadidotai":
Os conferencistas do Encontró afirmam a existencia de tenates
entre urna e outra. Tais tensóes sao conscientemente pravo!
Sí í? !ígre;|a P°Pular»' » Q«e os membros desta estáo
persuadidos de que «a luta de classes atravessa a Igreja-Sst°
SK?^L6 S°r ^^ da ^ it
SK? f
A nova «Igreja popular» necessita de «nova Teología» •
«(Comprovamos) que o modelo de Teología utilizado tradicio-'
nalmente pela Igreja nao corresponde as necessidades consi
deradas pela Praxis Crista Revolucionaria» (p. 190) Por
conseguirte,
guirte, a revolucáo «urge urna re-leitura militante e
Biblia Urge criar
revolucionaria da Biblia. cri urna teología
tlí aZ Z po
pular» (p 196). Esta nova teología deve ser elaborada «a
partir das bases e com as bases» (p. 196). E deve partir da
praxis revolucionaria. Pois «o texto agora é a praxis» (p. 165)
como explica José I. González Faus S.J., o qual acrescenta!
aquele que na sua teología nao parte da praxis revolucionaria
nao pode fazer teologia, simplesmente por falta de texto A
nova teologia admite, como condigio essencial, a necessidade
de captar a novidade do histórico (p. 73). A tarefa teológica
propnamente dita e assim concebida: «Auscultar, discernir e
articular a palavra, que Deus está pronunciando hoje em e
atraves da Nicaragua» (p. 73). Alias, na p. 71 o redator do
texto declarara que «o dado teológico mais importante é o
triunfo da revolucáo sandinista... Através deste aparecerá a
nova Palavra de Deus sobre Nicaragua como realidade histó
rica global, e sobre as igrejas cristas de Nicaragua».
Como se vé, a Igreja Popular admite «urna nova palavra
de Deus». Jon Sobrino condena como fundamentalismo bíblico
afirmar que a revelagáo de Deus se realizou adequadamente
urna vez por todas. Seria também fundamentalismo bíblico
pensar que a Igreja conta com o depósito da revelagáo divina-
na verdade, Deus estaría «pronunciando agora urna palavra'
atual e novidadeira» (p. 116), como a pronunciou nos tempos
bíblicos; por conseguinte, a historia da revelacio de Deus aos
homens nao acabou; antes a revelagáo atualmente feita pela
historia é aínda mais abalizada e exigente do que a revelacáo
ocorrida nos tempos bíblicos. «Nao estar a escuta dessa possível
nova palavra seria o pecado fundamental contra o Deus da
historia» (p. 117). Confessar Deus como o Deus da historia
significa «escutar a palavra concreta tal como esta veio a ser

— 142 —
IGREJA POPULAR 55

Quem eré que Deus já disse tudo, pode ser que nada tenha
escutado» (p. 118). Nesta mesma página Jon Sobrino proclama
em tom categórico:

"Se a Igreja nSo admite, ao menos em principio, a possibilidade de


d™? Pa'avra d¿ P,T "a hIstória atual e se "8° admite a esencia
de encarnar-se na h.stória, tal como esta vem a ser, a fim de escutar a
ranAnf;» ?' 5-°T l°dos °s seus dogmas, sua doutrina social, seu Direito
Fnni: .'
Inclusive com
5^i° d0SJPadres e seus feól°9°s oficialmente réconhecidos.
os llvros da revelacao sagrada, pode ser que esteja deso-
Le°e
Ltar¡m °PCÍSamee
H|PHne
estar ¡mpedindo que DeusáqU8la P8'8*"
seja Deus qU6 D6US
e Senhor "UBr <!■»
soberano E' ÍS
E'*
da historia E ¡sto
m~ 1 te"ia5ao P8""» de fodo homem e concupiscencia típica da Igreja
mas também possibilidade de graca e encango, se torna mais patente
em momentos de mudanca e de processos revolucionarlos" (p. 118).

Por isto Sobrino julga que a Igreja oficial «tem medo de


Deus; tem medo de pór-se diante de Deus e ouvir a sua pa-
lavra» (p. 108).

A guisa de complemento, transcrevemos aqui em traducáo


portuguesa trechos de urna leitura latino-americana da Biblia
da autonade Everardo Ramírez Toro, ex-Religioso, ex-sacer-
dote e ex-Professor de Teología. Este publicou um «Evangelio
Latino-americano de la Liberación» como «nova traducáo do
Evangelho de Jesús». O autor está convencido de que a sua
versao devolveu ao Evangelho a sua feicáo original e resgatou
a pessoa de Jesús de todas as mistificagóes que Ihe foram im-
postas através dos sáculos. «Esta será a primeira vez que
lerao o Evangelho em seu sentido originario sem confusóes
nem desvios interesseiros» (ob. cit, p. 10).

O nascimento de Jesús é assim apresentado:


"Antes que José coabitasse com María, a m3e de Jesús que ele
tomara como esposa, verificou que ela estava grávida. José., resolveu
abandoná-la sem o dizer a quem fosse. Todavía durante a noite teve um
sonho e ouviu urna voz que Ihe dlzía: 'José, fllho do povo, nao temas
tomar a Mana por esposa, porque é inocente e fol violada'" (ob. cit.
p. 13). '

Na p. 58 os adversarios de Jesús fazem referencia á


ongem obscura de Jesús e dizem: «Nossa origem é limpa e nao
como a tua: és filho natural e nem sequer se sabe quem é teu
verdadeiro pai». Ao que Jesús responde: «Quem de vos pode
censurar-me por alguma coisa, fora a minha origem, da qual
nao sou responsável?» 4

— 143 —
56 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

A p. 49 lé-se que se aproximaram de Jesús uns sacerdotes


tradicionalistas para submeté-lo á prova e lhe perguntaranv
«Para a Santa Máe Igreja, o matrimonio é indissolúvel; mas
muitos jovens sacerdotes, desses que sao chamados revolucio
narios, defendem o divorcio em caso de incompatibilidade de
temperamentos. Que dizes tu a isto?» Jesús respondeu:
«Voces, hipócritas, pensam que urna cerimónia religiosa pode
unir dois seres por toda a vida, sem nada mais levar em
conta? Tolos! A única coisa que pode unir inseparavelmente
um homem e urna mulher, é o amor. Se dois seres nao se
amam nem se compreendem mutuamente, por que háo de
continuar unidos? Que providencien! ao bem futuro de seus
filhos e se separem!»

Na p. 83, o autor informa que Jesús foi morto por um


golpe de metralhadora e que colocaram o cadáver de Jesús com
urna metralhadora ñas máos para insinuar que se suicidara.

Na última página é mencionada a «ressurreigáo»: o povo


saiu as rúas «proclamando que Jesús, o libertador, vive no
povo e no coracáo de todos aqueles que amam a justica social
e procuram a libertagáo».

A guisa de observacáo final: a palavra «libertagáo


(liberación)» e seus derivados ocorre 348 vezes em 78 páginas,
isto é, na media de cinco vezes por página!

Este exemplo de re-leitura do Evangelho abusivamente se


denomina «latino-americano». Na verdade, parece inspirado de
preconceitos que desrespeitam o significado originario do texto
sagrado. O estudioso tem o direito de perguntar se houve ai
um mínimo de seriedade e de objetividade frente ao texto
bíblico. Este nao deve ser lido a partir de premissas pré-esta-
belecidas nem latino-americanas nem materialistas, mas, como
diz o Concilio do Vaticano II, «é preciso estudar com atengáo
o que os autores queriam dizer e o que Deus queria dar a
conhecer mediante tais palavras» (Constituigáo Dei Verbum
n» 12). Sem a observancia desta regra fundamental, o leitor
cai no subjetivismo; nao faz exegese ou explanagáo do texto,
mas manipula-o em favor de urna tese preconcebida, caindo em
condusóes arbitrarias e fantasiosas ou mesmo grotescas e
irreverentes, como aquelas que o texto atrás transcrito
formula!

— 144 —
ÍGRfiJA POPULAR 57

7) A Liturgia «apropríada»

Em todos os tempos a Liturgia foi utilizada pelas correntes


heréticas para veicular erros doutrinários. Em nossos dias os
movimentos em prol da «Igreja popular» se servem déla para
incutir ao povo concepgóes ideológicas, inspiradas muitas vezes
por mentalidade que nao é crista. Alias, este aproveitamento
da Liturgia faz parte do programa de acáo formulado pelos
Cnstaos para o Socialismo em sua Jornada Nacional de no-
vembro de 1972 no Chile. Assinalava «a urgencia de criar
novas formas litúrgicas a partir do compromisso revoluciona
rio, exprimindo os valores que ocorrem ñas lutas e organizagóes
políticas do povo. Por conseguinte, a Eucaristía nao se celebra
segundo fórmulas ou receitas, mas é a expressáo viva de um
povo que luta unido contra os opressores. Assim vai-se gerando
urna nova espiritualidade, com referencia permanente ao com
promisso revolucionario e a um encontró sempre surpreendente
com Cristo libertador» (citado por Pablo Richard, em Cristianos
por el Socialismo. Historia y Documentación. Ed. Sigúeme
1976, pp. 255-257).

m ii "]a\.]iiut?ia'cute forma depende da criativldade dos cristáos, dista


multo da liturgia cíclica e histórica, pois é a celebracáo da entrega á Deus
no acontecer histórico. Esta primeira apropriacSo de valores emancipa-
tlvos, surgidos da nova praxis classlsta, forma o substrato de urna nova
« l« i ir simb?hz,a5a° crista de urna Igreja do povo" (Los Cristianos por
oí socialismo y la Iglesia. Documento de la Comisión Segunda del Segundo
Encuentro Internacional de Cristianos por el Socialismo. Québec, abril de
1975. Reproduzído no Boletim n? 12 do Grupo SAL de Medellín, pp. 3-7).

Em 1976 foi publicado em Bogotá o livro intitulado


Oración desde la Praxis Liberadora (Estudios Encuentro
n.» 3-4, 220 pp.). É destinado a pessoas que tenham feito sua
opcao classista, e que sao incitadas a ver inimigos em toda
parte. Das 24 Oragóes Eucaristicas ai apresentadas váo ex
traídos alguns trechos:

Oracáo Eucaristica da «lgre¡a para os Pobres»:

"Oremos por urna Igreja pobre e dos pobres, livre de estruturas".


"LIvra-nos, Pal, de nossas segurancas doutrlnárias e jurídicas. Faze-nos
radicáis no anuncio do teu Evangelho... Llvra também os pastores de
toda resposta pré-fabrlcada... de toda concordata..."

— 145 —
58 «PERGUNTE K RESPONDEREMOS» 267/1983

Oracao Eucarísrica da «Humanidade Peregrina»:

"Ajuda-nos, Pai, para que a Igreja nao ponha sua preocupacSo fun
damental na ortodoxia da doutrlna, nem no perigo do ateísmo nem na
obediencia á autorldade".

Oracao EucarísHca «O Deus que sempre nos inquieta»:

"Acolhe, ó Pai, nossa oracSo por todos aqueles que flzeram da Igreja
um lugar de culto adormecedor; por todos aqueles cujas práticas piedosas
observancias rituais, indagacSes sobre Deus nunca os levaram a desines-
talar-se nem a comprometer-se com os pobres;... por todos os adorme
cidos no sagrado, dirigentes de um Cristianismo soporífero, incapazes de
maldizer os ricos... Ajuda-nos a delxar-nos evangelizar pelos pobres".

•JJt- Como se vé| tais fórmulas repetem geralmente as mesmas


ídéias e instilam animosidade ou odio, sem recear fazé-lo em
estilo de oragáo — o que é grosseiro abuso. Alias, o episcopado
colombiano publicou aos 21/11/1976 um documento importante
sobre as tendencias socialistas de cristáos em que dizia «que a
mstrumentalizagáo da Liturgia é talvez o maior dos abusos que
contem. A Eucaristía deixou de ser, para eles, o sacrificio e o
banquete do Senhor, para converter-se em meio de 'conscienti-
zagáo', em instrumento de luta revolucionaria, em ocasiáo de
arengas políticas. Por isto nada os impede de burlar todas as
normas da celebracáo e elaborar a seu criterio oragóes,
formulas e cánticos que destroem o sentido sagrado da Liturgia
e a convertem em ato de protesto e convite á revolta A
Eucaristía assim profanada já nao edifica a comunidade dos
rrmaos, mas aguga o ánimo dos camaradas» (XXXII Assamblea
Plenana: Identidad Cristiana en !a Acción por La Justicia
SPEC, Bogotá, 1976, n' 39).

Estes textos, assaz provocadores, seráo comentados, a


seguir, quando propusermos reflexóes sobre a Igreja popular.

3. Refletindo. . .

As teses expostas levam-nos a rever tres pontos


importantes:

3.1. Igreja popular

Existe urna só Igreja de Cristo: deriva-se do próprio


Cristo, que a entregou aos Apostólos encabegados por Pedro;
recebeu do próprio Senhor Jesús a certeza da perenidade
através dos séculos («as portas ou forgas do inferno nao pre-

— 146 —
IGREJA POPULAR

valeceráo contra Ela», Mt 16,18); recebeu outrossim a promessa


da assisténcia de Cristo e do Espirito, a fim de que nao deturpe
a mensagem do Evangelho, mas, ao contrario, a explicite e
desdobre oportunamente através dos sáculos, de acordó com as
circunstancias de cada época (Mt 28.18-20; Jo 21,15-17;
Le 22,31s).

Por conseguinte, nao é licito a quem quer que seja, fundar


outra Igreja de Cristo; esta será sempre espuria ou obra pura
mente humana; redundará numa agremiagáo de pessoas que
terá a efémera duracáo de toda obra humana.

A única Igreja de Cristo tem seus pastores ou sua hierar-


quia, aos quais Cristo prometeu assisténcia: «Estarei convosco
até a consumado dos séculos» (Mt 28,20). Isto quer dizer que
nao pode haver auténtica Igreja fora da hierárquica, oficial,
institucional. Cristo nao prometeu sua infalível assisténcia aos
discípulos mais zelosos ou mais voltados para os pobres, mas,
sim, aos Apostólos e aos seus legítimos sucessores no pastoreio
do rebanho. Quem, portante, se separa da Igreja institucional,
separa-se do próprio sacramento do Cristo; já nao tem certeza
de estar fazendo a obra do Cristo. Por isto seria coerente com
sua atitude se deixasse de atribuir á nova agremiagáo o título
de «Igreja».

Nao há dúvida, porém: na única Igreja de Cristo há


elementos acidentais, reformáveis..., que podem ser retocados
em vista das sucessivas épocas da historia. Tais alteracóes,
contudo, nao deveráo afetar a substancia da fé e da instituigáo
jurídica da Igreja.

3.2. Alianea com o marxismo

Nao há compatibilidade entre Cristianismo e marxismo.


Este é visceralmente ateu e materialista, de modo que cedo ou
tarde passa a combater os cristáos que lhe queiram dar apoio.
Tal é o caso nítido da Nicaragua, por exemplo, onde os cristáos
apoiaram a revoluc.áo sandinista-marxista e hoje se véem per
seguidos por esta, desde que nao queiram renunciar a seus
legítimos direitos de cristáos. A decepgáo sofrida pelos cristáos
socialistas da Nicaragua levou nao poucos deles a se voltar
recentemente contra o sandinismo: tal é o caso do «Comandante
Zero» ou Edén Pastora, o de Alfonso Róbelo (que na época da
insurreicáo mobilizara os empresarios contra Samoza), o de

— 147 —
§0 «PERÚUNTE E RESPONDEREMOS» 2Ó7/1983

Violeta Chamorro, viúva de Chamorro, proprietário de «La


Prensa», assassinado pela ditadura somozista,... para nao
falar de D. Migual Obando Bravo, arcebispo de Managua, que
foi o primeiro a alertar contra os abusos do sandinismo
marxista.

Por conseguinte, nao. sao mais do que dialética vazia as


afirmacóes de que, para ser cristáo auténtico, é preciso fazer
opgáo pelo marxismo. Um cristáo genuinamente marxista já
nao é cristño.

3.3. InterpretasSo da Biblia e historia

A historia bíblica, que vai de Abraáo (1850 a.C. aproxi


madamente) até a geragáo apostólica, é inconfundível, pois vem
a ser o tempo da revelagáo de Deus aos homens; através déla
sao transmitidas aos homens as grandes verdades da fé e as
grandes linhas da conduta do povo de Deus. Após a geragáo
dos Apostólos, nao hánova revelagáo pública; os cristáos vivem
do depósito da historia bíblica, referindo as suas diversas situa-
góes aos padrees contidos nesta. A consciéncia desta verdade
contribui para relativizar o significado da historia posterior aos
Apostólos, que nao pode ser tomada de maneira absoluta como
escola de comportamento dos cristáos.

Isto, porém, nao exclui que a Biblia seja lida e relida pelos
cristáos através dos sáculos para encarnarem a sua mensagem
ñas sucessivas fases da historia; conserve-se, porém, a comunháo
com a Igreja de Cristo no tempo e no espago. É o que declara
a Comissáo Teológica Internacional em seu documento sobre
o pluralismo teológico (1972):

"Por causa do caráter universal e missionário da fé crista, os aconte-


clmentos e as palavras reveladas por Deus devem ser sempre pensados,
reformulados e de novo vividos no interior de cada cultura humana, se se
quer que dém resposta verdadeira aos problemas que tém sua raiz no
coracáo de cada ser humano e que Inspirem a oracSo, o culto e a vida
cotidiana do povo de Deus. O Evangelho de Cristo asstm leva toda cul
tura á sua plenltude e a submete, ao mesmo tempo, a urna prática cria-
tiva. As Igrejas locáis que, sob a d ¡recio de seus pastores, se aplicam a
esta ardua tarefa de encarnacáo da fé crista, devem manter sempre a
continuidade e a comunhio com a Igreja universal do passado e do pre
sente" (citado por B. Kloppenburg, Iglesia Popular, pp. 65s).

— 148 —
IGREJA POPULAR 61

De resto, nao há quem nao veja nos livros e pronuncia-


mentos dos fautores da Igreja popular a intencáo (consciente
ou inconsciente) de utilizar vocábulos e valores cristáos para
propugnar urna causa que nao é crista, mas anticristá, porque
atéia e materialista; voltam sempre certas características cons
tantes, como a falta de amor 'á Igreja, o menosprezo da dou-
trina e do aprofundamento da fé, a animosidade para com as
autoridades, o desrespeito, enfim, por tudo que seja transcen
dental ou vertical. Infelizmente a simulacáo da ideología
marxista sob a capa de Cristianismo, como a propóem os fau
tores da Igreja popular, tende a iludir nao poucos cristáos
desejosos de atender aos mais pobres, sem apostatar explícita
mente, da fé crista. Tal seducáo nao ocorrerá com tanta
freqüéncia desde que haja nítido conhecimento da doutrina
social da Igreja. Esta se volta para a questáo social como o
marxismo se volta, sem, porém, propugnar o totalitarismo ou
o coletivismo marxista, que desrespeita a pessoa humana. É
certo que o Cristianismo é avesso a toda forma de injustiga e
proclama a necessidade de transformacáo de todas as estru-
turas sociais iníquas; e isto, com mais acertó e retidáo do que
o marxismo, porque a mensagem crista toma por base da sua
proclamagáo a mais sólida e eficiente de todas as premissas:
o plano de Deus. Nao há dúvida: se o homem nao respeita a
Deus, também nao respeita ao homem nem prové ao verda-
deiro bem da sociedade, como ensina a experiencia da Polonia
e de outros países sufocados pela ideología marxista.

A respeito pode-se ler

KLOPPENBURG, B., Iglesia Popular. Bogotá, 2? ed., 1982. As pp. 11-15


deste livro é indicada ampia bibliografía emanada dos grupos de Cristáos
para o Socialismo e análogos.

Em breve :

ÍNDICE GERAL DE PR 1978-1982.

Pedidos á Ed. «Lumen Christi».

O índice Geral de 1957 a 1977 foi publicado em folhas


mimeografadas, que também poderao ser solicitadas á
Ed. «Lumen Christi».

— 149 —
um desafio intelectual:

"Filosofía da Ciencia'
. »f

de Rubem Alves

a «akhISL»*"6' ° teÓ'^90 Profeslante RlJbem Alves vem mais urna vez


5-P Sií JáBaflora °°? interessan«8 "vro filosófico Intitulado "A filosofía
um Deí, «iTIS ,dIss|Parn° mlto d° cientificismo, que faz da "lenca
rCi- mnfía^ (,2U T ^eus por e"«»nenda) em lugar do verdadeiro
Oeus. mostra que a ciencia nao ó apta a explicar todos os enigmas que
i« Til COnC8b81 nem .a resP°nder a «"dos os anseios deste. Por esta sua
tese o livro merece aplausos. Contudo o autor cede ás vezes a ™in
oÍ°oTr^qUe M6SffZ ° P:ÍnCÍf'° de causalldad° e levl'a uncíanlo de ce I-
cismo Irón.co. Neste ponto nao pode ser acompanhado por quem professe
LttlaiOS°rm' 3U5 é otlmista no tocante as Posslbllldades, do homem
Verda,de- En9at'nhando. caindo e levantando-se su:
S a c°K°0S seü8 erros de PBSquísa e maIs

Comentan»: Rubem Alves é teólogo protestante, autor


de hvros como «O Enigiria da Religiáo (Ed. Vozes), «Protes-
tantismo e Repressáo» (Ed. Ática), «O que é Religiáo» (Ed
Brasihense). Em 1981 entregou ao público o livro «Filosofía
fiL2?nCla\qif Vam0S considerar. ^ índole estritamente
filosófica i. Trata-se de obra rica em observacóes de bom
senso, testemunhos, exemplos..., apresentados em estilo por
«vezes sarcástico, que ampio círculo de leitores poderá ler visto
que o autor sabe expor teses de alto valor filosófico em lin-
guagem concreta e acessível.

1. A tese do livro

Deve-se reconhecer que o livro é um tanto repetitivo —


o que pode cansar um ou outro leitor. O autor exalta a ciencia
opondo-a aos mitos e ás expressóes da fantasía infantil, mas
ao mesmo tempo mostra as limitacóes e os perigos de fainas
inerentes a toda pesquisa científica. Através das suas observa-
coes, R. Alves deseja simplesmente dissipar o mito ou a idola-

i RUBEM ALVES, Filosofía da Ciencia. Inlroducao ao Jobo e suas


regras. — Cd. Braslllense, Rio de Janeiro, 1981, 135 x 207 mm, 209 págs.

— 150 —
«FILOSOFÍA DA CIENCIA» 63

tria do cientificismo, isto é, da atitude de quem iulga que a


ciencia, em seu progresso constante, explicará todos os enigmas
e resolverá todos os problemas do homem sobre a térra.
Eis em poucos parágrafos o que propóe o autor:

1.1. Do m'rJo ontigo ao mito do cientificismo

A ciencia é a tentativa de explicar fenómenos visiveis


mediante fatores ou causas invisíveis. A necessidade de encon
trar tais explicacóes corresponde a um dos mais íntimos anseios
do ser humano. Outrora a explicacáo dos fenómfenos que cer-
cavam o homem, era deduzida principalmente da fantasia dos
observadores e de modelos ou esquemas que estes concebiam
a prion ou anteriormente a qualquer averiguagáo empírica-
nao havia meios (instrumentos, aparelhos ou outros recursos)
para penetrar dentro da realidade concreta: o espaco plañe-
taño, os elementos químicos, a arqueología... Por isto o
dentista so podía responder ás suas naturais indagacóes
mediante teorías preconcebidas. Eis um espécimen deste
procedimento: Francis Bacon (t 1626) assim quería explicar
a estrutura do sistema solar:

«Hó sete fanelas dadas aos animáis no domicilio da cabeca,


alravés das quais o ar é admitido no tabernáculo do corpo para
aquece-lo e nufri-lo. '

Quais sao estas partes do microcosmos? Duas narinas dois


olhos, dois ouvidos e urna boca. D.a mesma forma, nos céus, como
macrocosmos, há duas esrrelas favoráveis, duas desfavoráveis, dois
luminares e Mercurio, indeciso o indiferente. A partir destas e de
muifas outras similaridades na natúreza, tais como os sete metáis, etc.,
que seria cansafivo enumerar, concluimos que o número dos planetas
é necessariamente seré» (transcrito da p. 16 do livro em foco).

Como se ve, na falta de telescopios, Bacon tinha que se


servir de um modelo preexistente para conceber a estrutura
do nosso sistema solar. Procedía por método dedutivo mais do
que por mdugáo, isto é, deduzia de premissas preconcebidas
condusóes que nao tinham suficiente base na própria realidade.
A partir dos séculos XVI/XVII, os cientistas passaram a
usar um instrumental de pesquisa cada vez mais apurado.
Foi-lhes entáo possível dedioar-se mais >k indugáo, ou seia á
observacao precisa e minuciosa dos fatos a fim de construir
— 151 —
64 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

teorías explicativas mais fundamentadas ou mais condizentes


com a realidade. Pois, na verdade, a ciencia nao se pode limitar
á averiguacáo dos fenómenos catalogando-os de maneira mera
mente descritiva (tal é a tese do positivismo de Augusto Comte,
t 1857). A ciencia, para ser auténtica, nao pode deixar de
tentar interpretar os fatos, procurando fonrfular as leis univer-
sais que os regem e construindo teorías que, combinando essas
diversas leis entre si, sejam plausiveis elucidacóes dos fenó
menos observados.

Justamente as novas teorías da ciencia a partir dos sáculos


XVI/XVII empolgaram os estudiosos, pois puseram de lado
explicacóes fantasistas e infantis dos sabios dos tempos passa-
dos. Pareciam dizer a palavra definitiva. Mais: possibilitaram
ao homem aproveitar melhor as energias da natureza fabricando
artefatos de civilizagáo e cultura: a utilizacáo do vapor, a da
eletricidade, a fotografia, o telefone, etc., vieram satisfazer a
profundos anseios do ser humano. Foi esta «empolgagáo» que
gerou o novo mito: o iriito da ciencia ou o cientificismo.

Rubem Alves, logo no inicio do seu livro, denuncia o mito


da ciencia:

«O dentista vírou um mito. E todo mito é perigoso, porque ele


induz o comportamento e inibe o pensamento. Este é um dos resul
tados engrasados {e trágicos) da ciencia. Se existe urna classe
especializada em pensar de maneira correta (os cientistas), os
outros individuos sao liberados da obrigacao de pensar e podem
simplesmente fazer o que os cientistas mandam» |p. 11).

1.2. O cientificismo em xeque

A experiencia tem demonstrado sobejamente que a ciencia


está longe de ser a todo-poderosa explicadora dos enigmas;
sim, as teses dos cientistas estáo sempre sujeitas a ser refor-
muladas, como se vé através dos últimos decenios; elas tém os
seus aspectos de precariedade, que se podem assim delinear:

a) quando o dentista, após o devido processo indutivo,


tende a formular urna lei que ele diz universal, recorre sempre
a um tanto de fantasía e de fé natural. Com efeito: ele julga
que o futuro será semelhante ao passado e que todos se com-
portam como aqueles elementos (muitos ou poucos) que ele
examinou diretamente.

— 152 —
«Filosofía da ciencia»

«Jó sabemos que vocé se interessa por gansos e ¡á fez mesmo


urna pesquisa: 10.000 gansos, todos eles de cor branca. Os 10.000
gansos, vocé viu e, a partir deles, vem o salto ¡ndutivo: 'todos os
gansos sao broncos1. Vocé viu todos os gansos? Nao. .. Neste
caso específico, a passagem foi ... de alguns para todos» (p. 116).

b) A interpretagáo que o dentista dá aos fatos observa


dos, depende freqüentemente das disposigóes psicológicas do
sujeito. Muito significativo é o caso de um desenho complexo
e ambiguo, que, justamente por ser ambiguo, pode ser tido
como a representacáo de urna velha e a de urna moga (cf
p. 156, onde se encontra o anibíguo desenho). Sem alteracáo
dos dados gráficos, a mente do observador os organiza de duas
diferentes maneiras, de modo a corresponderem á imagem de
urna velha e á de urna moga:

«A visao de unía exige que eu se¡a cegó para a outra. A ado-


cao de um padrao impede que eu veja as coisas tais como sao vis
tas por outros que usam padroes diferentes. Se os dentistas
tivessem consdéncia deste fafo, seriam mais humildes em suas afir-
magoes e compreenderiam .que as verdades que Ihes parecem táo
claras, tao obvias, sao resultados da perspectiva específica que ado-
tam. Ora a jovem, ora a velha» (p. 158).

c) Sabe-se outrossim que os cientistas trabalham nao


raro na dependencia de patrocinadores que Ihes financiam as
pesquisas e, de certo modo, orientam o tipo de estudos que os
pesquisadores devem cultivar:

«O dentista isolado, artesño, solitario na sua contemplacao da


realidade, confiante na sua razao, ¡á nao mais existe. Nao se pode
mais fazer ciencia em laboratorio de fundo de quintal. Quem quiser
fazer ciencia, tem de se submeter as instituicóes científicas.

Serao elas que o iniciarao na linguagem, ñas etiquetas e nos


rituais da ciencia; reconhecerao formalmente as suas credencial e
odeclararáo como 'apto1; Ihe fornecerao os laboratorios; financia-
rao os suas pesquisas; fornecerao o público que eventualmente lera
os artigos eruditos que vierem a ser produzidos» (págs. 196s).

1.3. A incerteza da «certeza» científica

Ainda para desfazer o mito da ciencia, R. Alves observa


que o dentista nunca pode lograr certeza do que ele afirma.
E-lhe dado, sim, refutar categoricamtente as suas teorías, se

— 153 —
66 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

em um ou mais casos elas sao contraditadas por experiencias


contrarias. Todavía sempre que a experiencia confirma as
conclusóes de algum dentista, esta confirmagáo equivale
apenas a um «talvez sim, muito provavelmente; podes conti
nuar a pesquisar nesta diregáo, na expectativa de um eventual
nao ou obstáculo que se te oponha mais adiante»:

«Urna teoría pode ser testada? Sim.

Quando os resultados confirmara a teoría, posso concluir sobre


a sua veracidade? Nao. Aqui, o sim nao passa de um talvez.

E quando o resultado diz neo? Neste caso pode-se ter a ce,--


toza: a teoría é falsa.

Assim o cientista pode ter certeza quando a teoría ó decla


rada falsa, mas nunca pode ter certeza quando ela é declarada
verdadeira...

Dissemos que a natureza fala, sob tortura. Vocabulario curio.


O dentista propoe as perguntas. A natureza responde: 'sim', 'nao*.
E terminamos dizendo que, quando cía diz 'sim', eslá na realidade
dizendo apenas 'talvez1.. . Quando os resultados da investigacao
confirmam as previsoes da teoría, isto nao quer dizer que a teoría
seja verdadeira. Trata-se de um talvez apenas, que nunca pode
ser resolvido. Concluímos, portento, que o sim da natureza nunca
é digno de confianca. Esta é a razao por que a verificacao nao
pode ser tomada como credencial de urna teoría. Mas o nao que
diz que a teoría é falsa, é digno de confianca» (p. 178s).

R. Alves se detém também na verificacao da teimosia


com que muitos cientistas tendem a defender suas teorías
numa atitude por vezes emotiva ou preconcebida:

«Imaginemos a seguinte afirmacao sobre o universo dos gansos:

'Todos os gansos sao broncos'.

Esta afirmacao pretende ser verdadeira para ,todas as aves


em questáo. E, se aparecer' um ganso verde.. . ? Neste caso, a
teoría caí por térra.. . Basta um .ganso verde para liquidar com
o todos, é isto que Kuhn quer dizer: 'ser admiravelmente bem
sucedido nao é a mesma coisa que ser completamente bem sucedido'.

— 154 —
«FILOSOFÍA DA CIENCIA» 67

Mas lia um jeito de contornar esta dificuldade. Frente ao


bicho verde eu digo: 'Isto nao é um ganso, mas sim um fanso'. Se
o bicho é um fanso, a universalidade da minha afirmacáo con
tinua intacta. Mas a que preco? Por meio de artificios como este se
pode preservar urna teoría indefinidamente. E era isto que estava
acontecendo com a teoría de Ptolomeu. Dada urna discrepancia
particular, os astrónomos invariavelmente eram capazes de elimi-
ná-la por meio de pequeños reajustes no sistema de círculos com-
postos de Ptolomeu... Os filósofos da ciencia chamam de expli-
cacoes ad hoc este tipo de artificio. Mas chega um momento em
que, após sucessivas explícaedes ad hoc, temos em nossas maos
nao só gansos e fansos, como também bansos, cansos, dansos,
¡ansos, loncos, mansos, etc. A receita ficou de tal forma complexa,
as excecoes sao tantas, que ela deixou de ser urna ferramenta ade-
quada. Neste momento, ela perde a sua credibilidade» (págs. 50%).

A propósito vejam-se ainda as págs. 191-193.

1.4. Conclusáo

Em conclusáo, o autor julga que a ciencia deveria perder


a obsessáo pela verdade e se preocupar mais com o seu
impacto sobre a vida das pessoas:

«A preservacóo da natureza, a saúde dos pobres, .a producao


de alimentos, o desarmamento dos dragóes (sem dúvidas, os mais
ayancados em ciencia!), a liberdade, enfim, esta coísa ¡ndefinível
que se chama felicidade. A bondade nao necessita de legilimacoes
epistemológicas. Com Brecht, poderíamos afirmar: 'Eu sustento que
a única finalidade da ciencia está em aliviar a miseria da existencia
humana' » (p. 207).

Tais sao as palavras fináis do livro. Perguntamo-nos agora:

2. Que dizer?

O livro sugere ao leitor um Sim de ordem geral acompa-


nhado de alguns Nao particulares.

2.1. Um «sim» geral

R. Alves tem razáo quando, com outros autores contem


poráneos, se dispóe a desfazer o mito da ciencia. Este tem sido
o deus ex macüiina (o Deus inventado) dos que negam o

— 155 —
68 «fiERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

verdadeiro Deus, ou o falso refugio dos que se fecham ao


Transcendental ou Absoluto. É necessário, pois, que se dissipe
qualquer ilusáo a respeito das possibilidades de resposta da
ciencia as interrogagóes do homem.

R. Alves póe as claras a fragilidade das teses dos dentistas


nos tópicos do livro que acabamos de destacar. Todavía...

2.2. Alguns «nao» particulares

1. Rubem Alves apoia-se muito em David-Hume (1711-


-1776) para dissipar a nocáo de causalidade. Ora Hume é um
filósofo sensista, empiritista, que observava os fatos, mas
renunciava á interpretacáo dos mesmos pelo recurso as essén-
cias ou a elementos trans-sensiveis ou metafísicos. Analisando
a nojáo de causalidade, fundamental para a ciencia, afirmava
que ela se baseia no hábito de associar entre si experiencias
sucessivas. Ora o sensismo levou Hume a certo ceticismo, que
um bom filósofo nao pode compartilhar.

A nocáo de causa há de ser afirmada pelas seguintes


razóes:

Existem seres contingentes, isto é, seres que existem, mas


poderiam nao existir. Nao existem por si mesmos ou nao
possuem em si mesmos a razáo suficiente da sua existencia.
Existemi, pois, em virtude de outro ser, do qual recebem a
existencia por participacáo. Mas receber de outro a existencia
por participacáo é depender deste outro quanto á existencia;
é ter nele a sua causa. Por conseguinte, todo ser contingente
tem a sua causa.

Ora, sempre que se dé um fenómeno nao explicável por si


mesmo, será necessário procurar-lhe urna causa ou procurar
reduzi-lo -á agáo de elementos que nao aparecem á primeira
vista, mas que nem por isto deixam de ser reais e nem por
isto deixam de ser a razáo suficiente ou a justificativa do
fenómeno observado. "Por conseguinte, é legítimo ao cientista
procurar tais elementos invisiveis mediante observacáo indu-
tiva, pois tais elementos existem. Acontece, porém, que nem
sempre é fácil descobri-los; o estudioso pode enganar-se, pode-se
deixar levar por emocóes... pode-se ver obrigado a recomecar
duas, tres vezes as suas pesquisas; isto tudo é apto a sugerir
oautela diante de certas afirmacóes da ciencia, mas de modo
nenhum anula o principio de que a ciencia é válida e valiosa e
de que ela pode chegar a conclusóes firmes e seguras.

— 156 —
«FILOSOFÍA DA CIENCIA» 69

Alias, a vida de qualquer homem (mais ainda a do cristáo)


jamáis se poderia entender sem grandes e fundamentáis
certezas.

2. O dentista que tenha consciéncia dos fatores que o


impedem de ser objetivo e imparcial em suas pesquisas pode
mais fácilmente libertar-se da influencia de tais fatores- seja
despojado de preconceitos, seja disponível para a verdade
(como quer que ela se aprésente), seja disposto a reconhecer
os seus eventuais erros e a recomegar as suas pesquisas. Cer-
tamente o estudo fecundo supóe certas qualidades éticas no
respectivo cultor.

3. O final do livro é assaz cético ou irónico: a ciencia


poderia, por um pouco, abandonar «a obsessáo pela verdade»
e se preocupar mais com a felicidade e a bondade.

Afirmamos que a ciencia só tem sentido se é a procura


da verdade, e procura efetuada com airtor e carinho. Alias,
R. Alves fala desse «amor intelectual» (p. 162) e do amor do
estudioso pelo seu campo de investigacáo (p. 162). A verdade
vem a ser luz para as demais atividades dos homens: exercício
da bondade, promogáo da felicidade... Sem a apreensáo previa
da verdade, é inútil dedicar-se a qualquer obra de bem-estar
em favor dos homens; tal atividade será cega, febril, mais
desconcertante do que edificante.

De resto, a promogáo da bondade e da felicidade nao é


excluida dentre as finalidades da ciencia. É certo que indire-
tamente a penetragáo da verdade redundará em estímulo para
que os honnens cultivem com mais lucidez e convicgáo a
bondade. Sim; verdade e bondade sao eonvertíveis entre si,
pois sao predicados do ser como tal. É, pois, para desejar nao
que os homens se desinteressem pela pesquisa da verdade o
que seria catastrófico para a humanidade —, mas que criem
em si disposigóes éticas aptas a fazer que a verdade descoberta
pelos dentistas seja sempre aplicada ao servigo do homem e...
do próprio Senhor Deus, ao qual toda verdade se reduz!
Em síntese: julgamos muito interessante o livro de R. Alves
por causa da sua tese geral. O leitor abrirá seus horizontes e
muito lucrará por entrar em contato com a brilhante erudigáo
do autor. Mas eremos que é preciso nao compartilhar o ceti-
cismo e o espirito de sarcasmo com que R. Alves por vezes se
manifesta em relagáo á ciencia.

— 157 —
Láurea da Academia Nacional de Medicina:

"Aborto. 0 Direito á Vida"


por diversos

«!t !?e: ■ Qüatro beneméri«°s médicos publicaram um livro sobre


Este
'/fK00 Sil6
«losonca/dfK Si6 6StemaséJambé
"e9Ítimo ná0 lh«* aos
2j.lm«nt- «lt tÓ,'iCa> masJambém a°s olhos da
o"1"*
d ciencia
i
É°ica
* Éica
médica.
Esta atua mente acha-se táo evoluída que possui recursos para evitar o
chamado "aborto terapéutico". Tal tese é estudada na base da experiencia
de numerosos especialistas consultados pelo quatro médicos em foco ent a
SíSS18 f>9Ta{eTm COmo ° Dr" Alvaro Qtilmartte. Hiho: «É toSá esS
' baseada em fatos inconfundiveis, em mirlade de ellos

novo

Comentario: Foi recentemente editado mais um livro


sobre o aborto aos cuidados dos médicos Drs. Joáo Evangelista
flos Santos Alves, Dernivai da Silva Brandáo, Carlos Tortellv
SUS"* Ci°StAf ^ald?nir de Braganca l- A obra mereceu s¿?
^ureada pela Academia Nacional de Medicina com o Premio
Gemval Londres, de Ética Médica. Trata-se de meticuloso
estudo referente ao problema do aborto, estudo inspirado So
propos,to fundamental da Medicina, que é o de salíar a vida
Nao na duvida, os autores conseguiram reunir dados científicos
e depoimentos pouco conhecidos entre os nao especialistas a fim
de dissipar concepgóes erróneas e preconceitos relativos á
materia.

rm .EiS ^or que> apesar de 3* muit0 comentado o tema em


PR -, realgaremos, a seguir, alguns dos tópicos do livro que
mais importancia parecem ter para o grande público

iLivrarfa AGIR Editora, Rio de Janeiro, 140 x 210 mrn, 145, pp.

2Cf. PR 213/1977, p. 388; 201.202.203.204/1976; 185/1975, p. 218.

— 158 —
«ABORTO. O DIREITO A VIDA» ?l

1. Nomenclatura

O abortamento consiste na morte ou na expulsáo do


concepto antes da sua viabilidade extra-uterina.

Entende-se por concepto o ser humano no período de vida


que vai desde o seu inicio, na concepeáo, até o nascimento.
Embriáo vem a ser o concepto durante as primeiras semanas
de vida; feto é o embriáo no período subseqüente a essas pri
meiras semanas. Esta distincáo nao será observada na expla-
nacáo seguinte, que usará os tres vocábulos com o mesmo
sentido.

O aborto pode ser espontáneo ou natural, como também


pode ser provocado.

O aborto provocado e direto é o que resulta de ato direta


e deliberadamente destinado á morte do feto; é a expulsáo do
feto localizado na matriz quando ainda inviável; é, pois, a morte
provocada e premeditada do feto. É precisamente este tipo de
aborto que o estudo presente considera.

2. A legislado brasifeira

O Código Penal vigentérdatádo"dé~194orFfoibe~óliborta-


mento praticado, equiparando-o tácitamente ao homicidio
(Parte Especial — Titulo I: Dos crimes contra a pessoa —
Capítulo I: Dos crimes contra a vida — arts. 124 a 127). Toda-
via admite duas excecóes, pelas quais o abortamento provocado
é isento de punicáo (art. 128): a do caso de estupro e a do
aborto dito «terapéutico» (art. 128, I e II).

Estas duas excecóes sugerem as seguintes observagóes:

CoñstitüÍBm~gráve incoeréncia~dentro"~dá~ tegislácácTbrasi-


leira. Com efeito; o Código Civil resguarda os direitos do nas-
cituro desde a conceicáo e o Código Penal classifica o aborta
mento entre «Crimes contra a Pessoa», «Crimes contra a
Vida»; por conseguinte, reconhecem implícitamente a inviola-
bilidade da vida do feto. Se assim é, verifica-se que «esta nao
pode ficar á mercé de circunstancias sobre as quais nao lhe
cabe responsabilidade direta. Seria absurdo imputar-se aos

— 159 —
72 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

fetos gerados por violencia (estupro) e aos que se desenvolvem


no ventre de gestante doente, a responsabilidade pela violencia
do pai ou pela doenga da máe. Nao é lógico, portanto, que a
lei faga excegóes permitindo que se tire urna vida, com funda
mento em circunstancias que nao incriminam, nem podem incri
minar, a mesma vida que a própria lei protege» (p. 51).

O aborto é precisamente o exterminio de urna vida humana


antes do nascimento, vida que tem o direito natural de desen-
volver-se segundo as suas potencialidades e independentemente
do tipo de circunstancias em que tenha sido gerada. Donde se
vé que o aborto provocado — mesmo em casos de estupro e de
doenga da gestante — é urna iniqüidade.
"Assim a modificasáo que se deve... desojar ou pedir, no Código
Penal brasilero,... é a prolblcáo total e definitiva da prátlca do aborta-
mento, atitude mals consentánea l com o dlrelto e a justica, bem como
com o espirito e o progresso da Medicina" (p. 52).

Como se vé, os autores sao enérgicos em sua posigáo,


opondo-se á tendencia atual de legalizar o aborto; esta pers
pectiva nao somente é marcada pelas peias de injustiga e
iniqüidade, mas é algo que o progresso da Medicina rejeita
cada vez mais firmemente.

Vejamos, pois, o que a Medicina moderna tem a dizer sobre


o conceito de «aborto terapéutico».

3. O «aborto terapéutico»
A equipe de médicos em questáo abordou colegas das mais
diversas áreas da Medicina a fim de averiguar o seu modo de
pensar relativo ao aborto dito «terapéutico» (ou ditado por
motivo de tratamento da mulher enferma). Todos esses pro-
fissionais responderam nao ver por que aínda se falar de
«aborto terapéutico», pois a Medicina moderna já possui re
cursos tais que permitem tentar salvar a vida da crianca ino
cente sem prejudicar a da respectiva máe. Transcreveremos
abaixo alguns desses eloqüentes testemunhos, focalizando por
último, de modo especial, o caso da rubéola.
Eis as palavras do Dr. Henrique A. Paraventi, Professor
Adjunto da Escola Paulista de Medicina:

1 Diríamos simplesmente: "única atitude consentánea..." (Nota da


Redacao).

— 160 —
«ABORTÓ. Ó DIREJTÓ A VIDA» 1Á

"Sua pergunta a respailo do assim chamado 'abortamento terapéu


tico' em nossa época delxou de existir.

Meu testemunho como Professor Adjunto na Clínica Obstétrica da Es


cola Paulista de Medicina e Pré-natalista na disciplina de 'Higiene Materna'
na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de SSo Paulo: jamáis
Indicamos ou presenciamos este tipo de intervencáo nestes trinta e um
anos de vida profissional.

Na Clínica Obstétrica da Escola Paulista de Medicina passaram as


mals variadas Intercorréncias clínicas e cirúrgicas, cuidando-se sempre a
preservacSo fetomaterna.

Somos particularmente contrarios a este movfmento de legalIzagSo do


aborto, pols até o Ítem do nosso Código Penal atual, onde refere que o
aborto nao é punlvel quando feito em mSe com grave risco de vida,
redunda hoje, pelo avancar técnico e dos conhecimentos médicos, que este
termo deve ser suprimido. Espero ter respondido e dado minha opiniáo
fundamentada na experiencia de urna clínica universitaria de responsabi-
Ildade didática e formatlva como a nossa" (pp. 88s).

O Dr. Emilio Mastroianni assim se pronunciou, como


Professor da Escola Paulista de Medicina:

"iA minha longa experiencia trabalhando há mals de trinta anos, seja


na clínica do Hospital-Escola, seja na clínica particular, individualmente e
em equipe, posso afirmar que os progressos atuais das Ciencias Médico-
biológicas sSo de tal porte que dao ao médico-assistente urna pléiade de
recursos que praticamente aboliram do arsenal obstétrico a indicacao para
abortamento terapéutico. Se algumas vezes o obstetra se encontra a bra
cos com problemas que o fazem pensar nessa indicacao, deverá consi
derar novamente toda a problemática, pois que, provavelmente, será a falta
de recursos próprlos ou o excesso de orgulho pessoal que o Impedem de
recorrer a especialistas que poderiam ampará-lo terapéuticamente, para
resolver um caso clínico complicando urna gravidez ou urna gestacáo que
se Instala numa paciente doente, e assim, em vez de apelar simplesmente
pela Interrupcáo da gestacáo, terá melos de levá-la a bom termo, ou mesmo,
em casos excepcional, aos limites da viabilidade, e assim poderá ter
cumprido um preceito hlpocrático do juramento que o obriga sempre a
tentar salvar urna vida e que nao usará de seus conhecimentos para faci
litar o crlme ou perverter os costumes" (p. 87s).

Tenha a palavra agora o Professor Alvaro Guimaráes


Filho, ex-catedrático de Clínica Obstétrica da Escola Paulista
de Medicina, ex-catedrático de Maternologia da Faculdade de
Higiene e Saúde Pública da Universidade de Sao Paulo, atual
responsável pelo Amparo Maternal:

"Especificando o objetivo da indagagao nos é solicitado responder as


seguintes perguntas:

1?) Na Obstetricia moderna existem condignos, inerentes á gravidez,


que justifiquen! o chamado abortamento terapéutico?

— 161 —
74 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

2?) Dispóe a Medicina atual, com o extraordinario progresso das


ciencias, de recursos que possibilitem ao médico conduzir com éxito, até a
viabilldade fetal, os casos de gravidez em gestante que seja portadora de
enfermidade de natureza grave (cardiopatia, nefropatia, pneumopatia, hiper-
tensio arterial, etc.)?

«QUANTO A 1« PERGUNTA. RESPONDEMOS: NAO, isto é, nao exis-


tem na atualidade indicacdes obstétricas ou indicacóes clínicas do chamado
"ABORTAMENTO TERAPÉUTICO".

"Sintetizando a nossa opinlao de especialista, informamos que cm


quarenta e seis anos de vida profissionol, continuada, nunca indicamos uní
"ABORTAMENTO TERAPÉUTICO...

SIM, nao apenas "atualmente" mas já há muito tempo a Medicina


possui recursos que possibilitam ao médico conduzir com éxito, até a viabi-
lidade fetal, os casos de gravidez em que a gestante ó portadora de enfer
midade de natureza grave.

Estatfsticas levantadas em dois grupos homogéneos de hospitais con-


celtuados dos Estados Unidos, num dos quais os médicos praticam habi-
tualmente o abortamento terapéutico, e o outro grupo no qual os obstetras
nao Indicavam a interrupcáo da gravidez, demonstraram que no mesmo
periodo de tempo e com urna observacao de cerca de 3.000.000 de partos,
as mortalidades maternas estudadas globalmente ou específicamente em
face da doenca Intercorrente eram em menor número nos hospilais que
observaram a assisténcla conservadora" (pp. 89-93).

A rubéola é geralmente apresentada como doenga que pro


voca deformacóes na crianga nascitura, de tal modo que, por
razóes de profilaxia, seria indicado o aborto a todas as máes
afotadas de rubéola durante a gestagáo.

A respeito pronunciam-se os médicos consultados pelos


autores do livro:

Dr. Pierre Maroteaux: "Quando a rubéola ataca a mae no segundo


mes de gravidez, no caso mais vulneravcl para a crianca, somente 20%
dos fetos sao portadores de má formacSo. O risco diminuí gradativamente,
tornando-se nulo depois do quarto mes" (p. 112).

Dr. Rendu: "No caso de mSes que tiveram rubéola, será necossário
matar todas as enancas quando urna boa parte délas é normal? Urna pes
quisa prospectiva, conduzida desde 1955 no Laboratorio de Seroprofilaxia
no Hospital das Criancas doentes de Paris, sobre as mulheres grávidas com
rubéola tendo nessa ocasiSo tomado urna dose superior a 10 mi de gama-
blobulinas plasmáticas humanas 'standard' (a 16,5%), foram os seguintes
os resultados globals:

— aborto espontáneo: 126 (4,7%);


— natimortos e mortos ao nascer: 47 (1,8%);
— anormals: 35 (1,3%);
— normáis: 2.453 (92,2%).
Seria necessário matar 2.488 criancas para evitar o nascimonto de
35 anormais?" (p. 112s).

— 162 —
«ABORTO. O DIREITO A VIDA» 75

A propósito deste depoimento os autores do livro tecem


as seguintes consideragóes:

«Sabemos que em toda vida humana, mesmo na defeituosa,


existem sempre valores a preservar, e entre eles o valor da
própria vida. O abortamento provocado constituí um crime
contra a vida, seja a vítima normal, seja anormal, pois, se é
crime bárbaro matar um ser humano inocente e saudável, nao
o deixará de ser pelo fato de o inocente apresentar deficiencias.
A vida deficiente necessita de protegáo e nao de agressáo.
Admitir a eliminagáo da vida humana deficiente, em sua
fase intra-uterina, significa verdadeira agressáo mora! a todas
as pessoas deficientes, de todas as idades, pois seria o mesmo
que dizer aos nossos irmáos deficientes que nos apenas os tole
ramos, que eles nao deveriam existir, que melhor seria se eles
tivessem sido mortos no ventre materno...» (p. 113).
«O direito de existir, prerrogativa de toda criatura
humana desde a concepgáo, nao é problema de opiniáo. Nao
é urna convenció. O direito á vida nao é adquirido progressiva-
mente, pois tem inicio no momento mesmo em que a vida ó
concebida. É principio de direito natural, que há de ser sempre
respeitado, no que pesem as inúmeras dificuldades que, em
certos casos, isso possa acarretar aos pais, á familia, ia socie-
dade. Nao pode, portante, variar ao sabor de apreciagóes sub
jetivas ou de injuncóes económicas, políticas ou sociais.
Quaisquer dispositivos legáis que possam favorecer, ainda
que em mínima parcela, a prática do abortamento, sao perigosos
e injustos, pois afrontam um principio fundamental de Direito
Natural e de Direito Divino Positivo: o direito de existir, o
'nao matarás'» (p. 53).

Donde se vé a necessidade de se suscitar ñas familias e,


em particular, nos genitores a convicgáo de que o nascituro
merece respeito, á custa mesmo de sacrificios nobres e magná
nimos, em vez de se fomentar nos familiares a falsa concepgáo
de que a vida de um inocente possa ser exterminada. Será
preciso procurar a solugáo da problemática na primeira, e nao
na segunda alternativa.

4. O aborto em caso de estrupo

Os autores do livro nao se detém particularmente no caso


do estupro, que constituí a outra excegáo «favorecida» pela
legislagáo brasileira. Afirmam, porém, a ilegitimidade do

— 163 —
7é «PERGUÑTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

aborto mesmo em tais circunstancias, pois a crianga inocente


no seio materno, nao está obrigada a sofrer as conseqüéncias
da violencia sofrida por sua genitora.

Desenvolvendo tal argumentagáo, diríamos: um mal (o


aborto) nao corrige outro mal (a violencia e a desonra pade
cidas pela gestante). Será preciso, antes, responder ao mal
• com o bem, ou seja, procurando avivar na sociedade a cons-
ciéncia de que a máe solteira tem o direito de dar á luz seu
filho, sem se ver obrigada ao traumatismo físico e psicológico
do abortamento. É para desejar que se criem instituigóes de
amparo á gestante solteira, em vez de induzi-la por pressáo
moral a expelir seu filho. Como se vé, requer-se profunda mu-
danga de mentalidade por parte das familias onde ocorra o
caso de uma máe solteira, a fim de que assumam as sortes da
gestante e de seu filho, em vez de rechagar a infeliz vítima da
violencia humana.

Merecem aínda atengáo as ponderagóes dos autores do


livro concernentes á ampia legalizagáo do aborto no Brasil.
Ei-las, em substancia, transcritas.

5. Ampia legalizagáo ido aborto

«Propóe-se a legalizagáo do referido crime na suposigáo de


que, sendo ele 'corretamente' realizado por profissionais
'honestos, idóneos e competentes', substituiría a prática clan
destina, que é levada a efeito por pessoas ignorantes e incom
petentes. .. Afirma-se ainda que — por mecanismo nunca
convincentemente explicado — a impunibilidade do crime
resultaría em menor incidencia do mesmo.

Ora o exterminio voluntario de uma vida humana inocente


e indefesa constituí delito muito mais grave que o roubo, cuja
prática é muito mais difundida que o abortamento e cujos prin
cipáis fautores também escapam, quase sempre, ás malhas da
lei. Nem por isso foi ainda proposta a legalizagáo de certos
tipos de furto, a fim de que sejam praticados com mais par-
cimonia e comedimento por 'distintos e respeitáveis' amigos do
alheio, sem que corram eles risco de vida e de desonra, nem
envolvam terceiros, muitas vezes injustamente implicados. Na
mesma linha de raciocinio se poderia propor a 'legalizagáo' do
'Esquadráo da Morte', que passaria a ser considerado insti-
tuigáo de 'utilidade pública', etc., etc., etc.

— 164 —
«ABORTO. O DIREITO A VIDA» 77

A análise fria e seria de fatos recentes mostra que, em


varios países — como Japáo, Dinamarca, Suécia, Rússia, Ingla
terra, Estados Unidos — onde o abortamento foi, de certa
forma, facilitado ou liberalizado, cresceu o número desta
intervengáo, cuja prática atingiu elevado grau de degradagáo
e brutalidade jamáis imaginado.

Noticias amplamente divulgadas relatam verdadeiros


horrores.

Em Nova Iorque, a prática do abortamento foi totalmente


liberada, podendo a intervengáo ser realizada até o sexto mes
de gestagáo (24» semana) — urna crianga nascida prematura
mente, no sexto mes de gestagáo tem condigóes biológicas de
sobreviver e tornar-se adulto normal, desde que nao lhe seja
negada a devida assisténcia!... E o número de abortamentos
aumenta assustadoramente, a ponto de os hospitais terem de
sofrer adaptagóes para atender á procura, cada vez mais
freqüente. Urna noticia foi assim transmitida em 1970:

'Desde o primeiro dia de julho, quando entrou em vigor


urna lei mais liberal, os abortos constituem urna das operagóes
mais freqüentes nos hospitais do Estado de Nova Iorque'.

Noticiou-se também que, sendo táo grande a facilidade,


programaram-se viagens com todas as despesas pagas incluindo
abortamento em Nova Iorque. Para propaganda pública foram
utilizados grandes cartazes com os dizeres: ABORTAMENTO
LEGAL: 250 DÓLARES.

Também na Inglaterra as conseqüéncias foram funestas,


contando-se o abortamento entre as intervengóes mais realiza
das. Em Londres multiplicaram-se clínicas especializadas nesta
macabra intervengáo.

Noticias provenientes de varias partes do mundo sao


levadas ao conhecimento da opiniáo pública, insensibilizando-a.
Divulgou-se que muitos fetos vivos, (as vezes com o choro
característico do recém-nato, sao assim langados ao incinerador
ou cedidos a Institutos de Biología para fins experimentáis,
onde chegam ao final de sua curta, mas dramática existencia»
(pp. 42s).

— 165 —
78 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

«Constituí fato bem conhecido que a lei nao só é punitiva,


mas é também educativa. Logo, além de injusta será de
malfazeja conseqüéncia qualquer excecáo que exclua da prote-
gáo legal o direito á vida de inocentes seres humanos — ainda
no ventre materno, frágeis e inermes — pois enfraquecerá na
comunidade a consciéncia do devido respeito aos direitos
humanos naturais e inalienáveis» (p. 44).

6. Conclusao

O livro inteiro merece ser lido por quem sinceramente


deseje estudar o tema do aborto. Fala em nome nao só da
consciéncia ética, mas também em nome da ciencia, isto é, da
ciencia médica, desmascarando os pretextos geralmente indu-
zidos para a extincáo da vida do feto sob o rótulo de «aborto
terapéutico».

Esta designagáo, hoje ainda muito menos do que outrora,


nao tem sentido aos olhos da Medicina moderna, dotada de
extraordinarios recursos para salvar a vida, ou seja, para
exercer sua missáo essencial. Este é certamente um dos
grandes títulos de benemerencia da obra indicada..., obra que
é escrita por médicos, fundamentados sobre ampia experiencia
de colegas especialistas das diversas áreas da patología. Possa
este estudo despertar em nossos contemporáneos a persuasáo
de que há grandeza e nobreza em nao procurar sempre solucóes
imediatistas e pragmáticas para os grandes problemas da vida,
mas, sim, no fato de sabermos escalonar os valores e respeitar
a escala, ainda que com sacrificio e renuncia!

Estévao Bettenoourt OS B.

— 166 —
Esclarecendo dúvidas...

"Opu$ Dei": Prelazia Pessoal

O artigo publicado em PR 264/1982, pp. 345-361 sobre o Opus Del,


Socledade que visa a promover a santlficagfio dos seus membros mediante
urna espiritualidade adaptada á vida no século, suscltou grande interesse
da parte dos nossos leitores. Eis por que voltamos a publicar algo sobre
o assunto, ou seja, um artigo de Mons. Marceilo Costaiunga, Subsecretario
da S. Congregacflo para os Blspos, que explica o novo estatuto jurídico
do Opus Del.

* * #

As Prelazias Pessoais

O Concilio Vaticano II indica com precisáo a razao de ser espe


cífica das Prelazias pessoais, ao afirmar que a sua erecao se com-
preende por «motivos apostólicos», isro é, para «a realizacao de
iniciativas pastarais peculiares em beneficio de distintos grupos
sociais em determinadas regioes ou nacoes ou inclusive em todo o
mundo» (Decr. Presbyterorum Ordinis, n. 10).

As disposigoes conciliares receberam interpretando auténtica no


«Motu proprio» Ecclesiae Sonctae, do Papa Paulo VI. Essas normas
concretas determinam, entre outras coisas, que «nada impede que
leigos... mediante convenios com a Prelazia, se dediquem as obras
e iniciativas desta». Este fato corresponde perfeitamente á amplia-
cao de horizontes eclesiais levada a cabo pelo Concilio, que salien-
tou que a missao apostólica da Igreja nao pode reduzir-se á ativi-
dade da Hierarquia Sagrada, e assim reconheceu e impulsionou a
funcao que corresponde aos leigos na unidade desta missao (cfr.
Const. dogm. Lumen gentkm, n. 10; Decr. Christus Dominus, n. 16;
Decr. Apostolicam actuositalem, nn. 2, 5, etc.; Decr. Presbyterorum
Ordinis, n. 9).

Esta renovada tomada de consciéncia da funcao insubstituível


dos leigos, que atuam sempre em comunhao íntima com os sacer
dotes ao realizarem a missao entregue por Cristo a sua Igreja, é um
dos frutos mais valiosos do Concilio, e da lugar a diversas conse-

— 167 —
80 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983 ____

qüéncias: délas, a mais importante é que a atividade dos clérigos e


a dos leigos, salvaguardadas as suas características específicas, con-
vergem necessariamente nao só de modo genérico, para alcanzar a
salvacao das almas, mas também de modo específico, para realizar
taregas apostólicas próprias, que pressupoem compromissos e ativi-
dades especiáis, como sucede precisamente no caso das Prelazias
pessoais.

Um Problema Institucional

Acontece que este contexto normativo geral está de acordó


com a realidade social do Opus De¡, que encontró assim urna confi-
guracao eclesíal adequada e definitiva.

Com efeito, o Opus Deí, fundado em Madrid a 2 de outubro


de 1928 por Mons. Josemaria Escrivá de Balaguer, nao tinha na
legislacao geral da lgre¡a as normas aptas para a sua inclusao no
lugar canónico adequado. Nao deve surpreender que ¡sto aconteces,
porque se trata de vm fenómeno peculiar, que nasceu — assim
escrevia Paulo VI ao Fundador da Obra a 1« de Outubro de 1963
«como expressao viva da juventude perene da l.greja, aberta com
sensibilidade as exigencias de um apostolado moderno».

A ¡dentidade do Opus Dei e o seu desenvolvimiento dinámico


suscitaram, desde o inicio, dois problemas essenciais: a necessidade
de contar com sacerdotes incardinados a instituigao — e, portanto,
em situacao de plena disponibilidade para a assisténcia espiritual
dos membros leigos — e a necessidade de urna organizacao e de
um governo com caráter universal e centralizado. Em 1943 e 1947,
deram-se a essas aspiracoes as solucoes jurídicas menos inadequadas
para aqueles anos dentro do ámbito do direito comum. Trafava-se,
no entonto, de solucoes parciais, que de modo algum proporciona-
vam a plena garantió de secularidade, tao necessária e desejada.
Por isso, o Fundador do Opus Dei nao deixou de manifestar á Santa
Sé a sua esperanza filial de que, no momento oportuno, se pudesse
chegar á atual solucáo ¡urídica.

Os documentos do Concilio Vaticano II criavam, finalmente, o


caminho jurídico para a solucáo do problema, evitando ter de recor-
rer-se a otos de excecao ou de privilegio. Em 19ó9, Paulo VI aeon-
selhou o Fundador do Opus Dei a convocar o Congresso Geral espe
cial, que iniciou os estudos convenientes, tendo em vista a transfor-
macao do Opus Dei em Prelazia pessoal. Depois do falecimento de
Mons. Josemaria Escrivá de Balaguer (1975) e de Paulo VI (1978),

— 168 —
«OPUS DEI»: PRELAZIA PESSOAL , 81

estes trabalhos foram expressamente impulsionados por Joáo Paulo I


e por Joao Paulo II. Em 1979, o Pontífice reinante incumbiu o com
petente Dicastério da Curia Romana — a Sagrada Congregacao para
os Bispos — de estudar o pedido formal «presentado pelo Opus Dei.
Ao longo deste esfudo, que durou mais de dois anos, foram apre
ciados todos os aspectos do problema. Isto permitíu nao só eliminar
qualquer dúvida sobre a possibilidade da erecao do Opus Dei como
Prelazia pessoal, mas também comprovar a oportunidade dessa
medida.

As premissas e conclusoes deste estudo, reunidas em dois volu-


mes num total de 600 páginas, foram submetidas a urna comissao
de Cardeais. Tendo em conta o parecer emitido por esta em novem-
bro de 1981, o Papa dispós que se dessem os passos neces:ár!os para
proceder á erecao do Opus Dei como Prelazia pessoal. No entonto,
como mostra de deferencia para com os Bispos, o Santo Padre quis
que, antes de realizar este ato, se enviasse urna nota expondo o con-
teúdo essencial do mesmo aos Bispos diocesanos — mais de 2.000 —
das nacoes ñas quais o Opus Dei realiza o seu trabalho, dando aos
destinatarios urna margem de lempo para que apresentassem as suas
possíveis observacSes. Foram numerosas as respostas de Bispos que
manifestavam a sua satisfácelo pessoal pelo modo como se tinha
obtido a solucao do problema institucional do Opus Del. Nao falta
ra m, ainda que em número muito menor, cartas em que se faziam
observacóes e se solicitavam esclarecimientos.

A Configúraselo Jurídica Definitiva do «Opus Dei»

Deste modo, a erecao do Opus Dei como Prelazia pessoal corres


ponde plenamente ao seu cansina fundacional e á realidade social
e apostólica da instituicao. Com efeito, a Obra constituí urna uni-
dade apostólica, orgánica e indivisível (ou se¡a, urna unidade nao só
de espirito, mas fambém de regjme, de formacao e de finalidade espe
cífica), com mais de mil sacerdotes incardinados e mais de 72.000
leigos incorporados, homens e mulheres de 87 nacionalidades, de
todas as profissoes, oficios e condicóes sociais.

Haverá que recordar em primeiro lugar que a nova configuracao


jurídica do Opus Del conserva inalteradas, determinando-as ainda
com mais precisao, as normas que regulamentaram até agora as rela-
coes da ¡nstituicáo com os Bispos diocesanos. A ¡urisdicao do Prelado,
embora se exerca claramente noutro campo, pode considerar-se equi
valente á dos Superiores gerais de institutos religiosos clericais de

— 169 —
82 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

direito pontificio. Apenas equivalente, ¡ó que é conceitualmente dife


rente dentro do sistema jurídico eclesial: de fato, a natureza das
Prelazias pessoais ícfr. Ecclesiae Sartctae, I, n. 4) é nítidamente
secular, como o é a natureza do Opus Dei, cojos membros nao modi-
ficam a sua condicao teológica e jurídica de clérigos ou leigos
seculares.

Os sacerdotes ¡ncardinados ao Opus Dei provem dos fiéis leigos


a ele incorporados, recebem a formacao nos Centros da Prelazia erigi
dos com esta finalidade, segundo as normas aprovadas pela Santa Sé.
Sao chamados as Ordens sagradas pelo Prelado, a quem compete o
regime de tais sacerdotes; estes, por outro lado, se submetem tanto
as leis que regem a disciplina do clero como as direlrizes de caráter
doutrinal e pastoral da Igreja.

Os leígos q-ue se dedicam á finalidade apostólica da Prelazia


mediante um vinculo contratual definido, e nao em virtude de votos,
continuam sendo fiéis leigos ñas respectivas dioceses; portante, per-
manecem sob a jurisdicSo do Bispo diocesano em fudo o que o direifo
estabelece para os fiéis em geral. A ¡urisdicáo do Prelado do Opus
Del só os afeta no que se refere ao cumprimento das específicas obri-
gacoes ascéticas, formativas e apostólicas que livremente assumiram
através do vínculo da dedicacao ao fim próprio da Prelazia: obriga-
cóes que, pela sua própria natureza, estao fora do ámbito de com
petencia do Ordinario do lugar.

Tendo em conta, também, que a atividade apostólica do Opus


Dei se realiza ñas múltiplas Igrejas particulares, os Estatutos da Pre
lazia respeitam a devida coordenacáo pastoral territorial, de modo
que fiquem salvaguardados os legítimos direitos dos Ordinarios locáis.
Assim, por exemplo, podem citar-se as normas que prescrevem a auto-
rizacao do Bispo diocesano respectivo para a erecao de cada um dos
Centros do Opus Dei; as que se referem aos convenios necessários,
caso se confiem á Prelazia paróquias, ¡grajos reitorais ou oficios
diocesanos.

Para evitar possíveis equívocos, poderá ser útil acrescentar outro


pormenor relativo aos sacerdotes incardinados a urna diocese e que
se associam ao Opus Dei para dele receber urna ajuda, com o fim
de alcancar a santidade pessoal no exercício do seu ministerio. Por
este fato, tais sacerdotes nao passam a formar parte do clero da
Prelazia, mas — em virtude do direito que Ihes reconhece o Decreto
Presbyterorum Ordinis, ns. 8 e 3 — ficam simplesmente adscritos a

— 170 —
«OPUS DEI»: PRELAZIA PESSOAL 83

Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, que é urna as:ociacao sacer


dotal inseparavelmente unrda á Prelazia. Por isso, o Bispo diocesano
é e continua sendo o seu único Ordinario, de quem dependem
canónicamente.

A configuracao jurídica definitiva do Opus Dei, com o itinerario


que a precedeu, constituí uma confirmacao significativa da harmonio
que vigora entre carisma e leis na vida da l.greja. Daí qtie o ato pon
tificio signifique um bem para a lgre[a universal, pois nao se limita
a resolver um problema institucional, mas dá vida a nova figura jurí
dica e pastoral desejada pelo Concilio Vaticano II. Por outro lado,
este ato da Santa Sé manifestó o reconhecimento e a estima pela
atividade realizada pelo Opus Dei, que tende a difundir uma pro
funda tomada de consciéncia sobre a vocacáo universal á santidade
e ao apostolado. De maneira ainda mais especifica, o Opus Dei
(«operatio Dei», «trabalho de Deus») recorda aos homens de todos
os tempos o valor cristáo do trabalho de cada dia, manual ou inte
lectual, realizado na presenca de Deus em vista do bem dos ¡rmaos.
Dírigindo-se a um grupo de profissionais, membros do Opus Dei, o
Santo Padre Jofio Paulo II disse-lhe: «é certamente grande o vosso
ideal: desde os seus coméeos antecipou-se á teología do laicato, que
viria a caracterizar a Igreja do Concilio e do pós-Concílio» (Alo-
cucáo, 20-VIII-1979). Trata-se, na verdade, de um afa apostólico
que, enxertando-se plenamente na missdo do Povo de Deus, mani
festó a vontade divina de fazer ressaltar o valor santificante e apos
tólico das atividades de cada dia.

Efetivamente, a Igreja considera seu dever o cultivo de uma


espiritualidade do trabalho, componente essencial da existencia
humana e meio de santif¡cacao pessoal e de apostolado (cfr. Const.
pasf. Gaudium et Spes, nn. 34ss.; Ene. Laboren exercens, parte V).
£ a «cao do trabalho, que nos chega de Nazaré, da casa do «filho
do Artesáo» (Mt 13,55), daquele trabalho que, durante tantos anos,
foi o centro á volta do qval giraram as alegrías, ocupaedes e espe-
rancas redentoras de Jesús na oficina de José, junto de María, sua
Mae e nossa Mae.

Morts. Marcello Costalunga


Subsecretario da Sagrada Congregacao
para os Bispos
84 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

UM CURSO DE PARAPSICOLOGÍA

Realizou-se de 17 a 28 de Janeiro pp. o IX Curso de


Parapsicología e Religiáo promovido pelo CLAP (Centro
Latino-Americano de Parapsicología), sob a direcáo do
Pe. Osear González-Quevedo S.J. e de sua equipe.

Sem dúvida, o CLAP é benemérito por procurar esclarecer


o público a respeito de fenómenos misteriosos que muitos
atribuem ao além, mas na verdade se devem a forgas do
psiquismo humano. Também merece grande aprego o trabalho
de psicoterapia realizado por especialistas no CLAP em favor
de pessoas vítimas de disturbios nervosos. As aulas do curso
em foco ofereceram aos seus participantes principios válidos
para abordarem numerosos casos de psicopatologia hoje em
dia ocorrentes.

O CLAP pede aos seus alunos queiram oferecer subsidios


e sugestóes para que aprimore a sua tarefa. Em vista disto,
váo aqui formuladas as impressóes de um cursista de
janeiro-1983.

1. As aulas do CLAP nao se limitam a assuntos parapsi-


cológicos apenas, mas entram no terreno próprio de outras
ciencias (filosofía, exegese bíblica, teología, medicina...), e
entram... com tom peremptório e definitório (as vezes,
também simplório), sem levar em conta os matizes que os
especialistas de cada ciencia sabem observar a respeito das
materias que estudam. Essa atitude de auto-suficiéncia um
tanto absolutista (e pouco científica, pois o cientista é cauteloso
ñas suas afirmacóes) nao pode deixar de prejudicar o trabalho
do CLAP. Além disto, chama a atengáo de todo cursista o
estilo irónico ou sarcástico com que alguns mestrés do CLAP
defendem suas posigóes e rejeitam as de outros pensadores;
diz o adagio popular que «a ironía é a arma dos fráeos»; por
certo, ela é alheia ao estilo do cientista. Daí a sugestáo de que
os mestres do CLAP 1) moderem seu modo de falar;.2) nao se
introduzam em áreas alheias sem ouvir os especialistas respec
tivos e sem ler a bibliografía mais recente sobre cada assunto;
3) nem queiram definir a partir de principios parapsicológicos
certos temas que só podem ser devidamente explanados com
os recursos da lingüística, da literatura antiga, da historio
grafía, da filosofía e da teología.

— 172 —
UM CURSO DE PARAPSICOLOGÍA 85

2. Desses temas tres podem ser especialmente realgados:


2.1. A Gristologia: As aulas do CLAP abordam longa-
mente a figura de Jesús Cristo, submetendo-a a criterios de
parapsicología! Em particular, procuram explicar o episodio
do jejum e das tentagdas de Jesús no deserto (cf. Mt 4,1-11).
O tema da consciéncia psicológica de Jesús tem sido explanado
por teólogos como Karl Rahner, Michael Schmaus, Pietro Pá
rente ...; trata-se de mestres que, como bons conhecedores de
psicología, antropología, e dados da Revelagáo, elaboraram teo
rías dignas de consideragáo, mas cautelosas porque a figura
divino-humana de Jesús Cristo é singular. Nenhuma dessas
explanagóes é abordada no curso do CLAP, que vé em Jesús
um «alucinado» por causa do prolongado jejum que fizera no
deserto!... Além disto, o CLAP explica a ressurreicáo de
Lázaro, que já cheirava mal quatro dias após a morte, como
se Lázaro nao estivesse realmente morto, mas apenas sob o
efeito de morte clínica; por conseguinte, nao terá havido pro-
priamente a ressurreigáo de um morto (cf. Jo 11)! — O CLAP
julga que em alguns casos Jesús fez milagres «parapsicológicos»;
tal terá sido o caso da tempestade acalmada: Jesús previu que
o vento ia cessar de soprar sobre o lago de Genesaré; entáo
disse as aguas: «Acalmai-vos!» — Perguntamos a propósito:
se, como ensina o CLAP, as faculdades parapsicológicas sao
espontáneas e nao podem ser provocadas a criterio do seu
portador, como pode Jesús fazer tantos milagres na «hora
certa», valendo-se de foreas parapsicológicas? Dem vemos que
seria melhor para o CLAP nao entrar em questóes de Cristo-
logia e de exegese bíblica.
2.2. A existencia do demonio ou dos aojos maus. É
posta em xeque pelo CLAP. O afá de afastar qualquer possibi-
lidade de intervengáo do demonio na historia de Jesús e dos
cristáos leva o CLAP a negar praticamente a existencia do
demonio; os textos bíblicos que mencionam o Maligno sao
considerados á luz da mitología e, assim, sao esvaziados; quanto
aos pronunciamentos do magisterio da Igreja, sao interpretados
de modo a se tornarem pouco ou nada significativos; mesmo
os recentes pronunciamentos de Paulo VI sao «driblados» de
modo a nada dizerem ao CLAP1.
i Declarava Paulo VI aos 15/11/72:
"Afasta-se do quadro do ensinamento bíblico e da Igreja aquele que
recusa reconhecer a existencia do diabo... Ou aquele que admite seja
este um principio existente por si, que nao teria origem em Deus, como
a tem toda criatura... Ou quem explica o demonio como sendo urna
pseudo-realidade, urna personificacao conceitual e imaginaria das causas
desconhecidas de nossas miserias" (audiencia geral de 15/11/72; ver
também homilía de Paulo VI aos 29/6/1972).

— 173 —
86 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

A propósito observanios: é certo que os cristáos e nao


cristáos tém atribuido ao demonio fenómenos que a ciencia
explica suficientemente. Disto, porém, nao se segué que se
deva negar a existencia do demonio; este assunto nao é mera
mente filosófico ou empírico, mas pertence ao patrimonio da
fé ou faz parte da mensagem crista. Para negar a existencia
do demonio, é preciso revolver todas as Escrituras, principal
mente as do Novo Testamento, e interpretá-las de maneira
tendenciosa e violenta; urna exegese serena e objetiva das Escri
turas leva a afirmar a existencia dos anjos bons e maus
(demonios). Além disto, o magisterio da Igreja tem professado
constantemente a crenga na existencia do demonio, merecendo
especial mengáo a definigáo do Concilio IV do LatrSo em 1215;
em conseqüéncia, é gravemente temerario negar esta proposi-
gáo, de tal modo está ela encravada dentro da mensagem dos
Evangelhos e da Tradigáo da Igreja. Mais: se Jesús praticou
o exorcismo quando nao havia demonios nem endemoninhados,
Jesús «fingiu»..., fez o papel de palhago; ter-se-á acomodado
a urna crendice do seu povo, confirmando os fiéis num erro
teológico que terá perdurado até o século XX! Realmente tais
conseqiiéncias sao incompatíveis com a figura de Jesús, que
veio para dar testemunho da verdade (cf. Jo 18,37). — Em
sintese, pode alguém negar os casos de pretensa possessáo
diabólica que hoje em dia váo sendo apresentados, sem por isto
negar a existencia do demonio; nem é necessário que o fiel
católico se preocupe tanto com o demonio, pois mais importante
é pensar em Deus e na fidelidade incondicional a Jesús Cristo
na sua S. Igreja.
2.3. Antropología e escatologia: O CLAP afirma que
corpo e alma sao dois aspectos da mesma realidade — o que
equivale a negar a real distingáo entre corpo e alma. Em con
seqüéncia, o CLAP afirma que, assim como o cao gera o cao,
o homem gera o homem. Na verdade, deve-se levar em conta
que o corpo é material e a alma humana é espiritual; sao
irredutíveis um ao outro; por isto a alma humana tem origem
própria; deve-se a um ato criador de Deus, que a infunde em
cada ovo fecundado (as almas dos genitores, sendo espirituais,
nao se podem dividir nem podem emitir sementé vital). Ao
contrario, a alma ou o principio vital do cao é meramente
material; por isto pode ser eduzido da materia viva dos respec
tivos genitores (o cao gera o cao inteiro, porque o cao é apenas
materia viva, sem alma espiritual).
Mais: a alma humana é substancia incompleta no sentido
de que ela precisa do corpo para desenvolver as suas facuidades,
mas isto nao quer dizer que ela nao possa subsistir sem o corpo.
— 174 —
UM CURSO DE PARAPSICOLOGÍA 87

A morte do homem é a separagáo de corpo e alma; aquele é


destruido; esta, sendo espiritual, nao se destrói, mas subsiste
e usufrui da sua sorte definitiva; quando Cristo vier consumar
a historia, dar-se-á a ressurreicáo dos corpqs (cf. 1 Cor 15,23).
A ressurreicáo nao se dá logo após a morte, como declarou a
S. Congregagáo para a Doutrina da Fé aos 17/5/1979 em
documento que o CLAP ignora em suas aulas. A tese da
ressurreigáo logo após a morte afirma que, ao morrer, o ser
humano entra na eternidade; por isto, já nao tem que aguardar
a consumacáo dos tempos e ressuscita como se estivesse na
parusia. Ora tal afirmagáo supóe que o homem depois da
morte passe a viver sob o regime da oternidade; na verdade, o
homem nao é eterno, mas é, sim, ¡mortal por parte de sua
alma; só Deus é eterno; após a morte, o ser humano está sujeito
ao evo, e nao á eternidade; cf. PR 238/1979, pp. 399-404
e 239/1979, pp. 456-464.
Outros varios pontos poderiam ser apresentados cqmo
merecedores de seria revisáo por parte do CLAP. Lamentamos
que a benemérita obra pastoral de tal instituigáo seja prejudi-
cada por sua pretensáo (talvez inconsciente) de «omniciéncia»
e pelo tom agressivo ou sarcástico de suas explanagóes (a
violencia gera a violencia!). Cremos que tais males possam ser
sanados em vista de um próspero futuro para a agáo pastoral
do CLAP em plena comunháo com a fé e a vida da S. Igreja.
A propósito da existencia do demonio, ver
PR 173/1974, pp. 195-205 (Comentario do livro "O Exorcista" o do
filmo respectivo);
PR 174/1974, pp. 246-257 (possessao diabólica: Sim ou nao?);
PR 174/1974, pp. 258-267 (os porcos de Gerasa);
PR 176/1974, pp. 323-337 (milagros e "milagres");
PR 177/1974, pp. 323-336 (as tentacóes de Jesús);
PR 177/1974, pp. 337-347 (filme "Madre Joana dos Anjos");
PR 191/1975. pp. 490-499 (estudo de perito da Santa Sé);
PR 191/1975, pp. 475-489 (o "sobrenatural" e o psiquismo humano).
Cardeal Joseph Ratzinger, Entre a Morte e a Ressurreicáo, em
COMMUNIO, n? 1/1982, (comentario da Declaragfio da S. Congregagáo para
a Doutrina da Fé de 17/5/1979).
Eeteváo Betlencourt O.S.B.
• * *

AOS NOSSOS LEITORES COMUNICAMOS QUE, PARA FACILITAR


A CONSULTA E A UTILIZACAO DE PR, EM BREVE PUBLICAREMOS O
ÍNDICE GERAL DE "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 1978-1982
(CINCO ANOS). PQDERA SER SOLICITADO A EDITORA "LUMEN
CHRISTI".
O ÍNDICE GERAL DE 1957 A 1977 FOI PUBLICADO EM FOLHAS
MIMEOGRAFADAS, QUE TAMBÉM PODERAQ SER SOLICITADAS A
EDITORA «LUMEN CHRISTI".
A REDACAO

— 175 —
.88 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 267/1983

JUSTIQA, DIREITOS E DEVERES A LUZ DA METAFÍSICA


CRISTA
TEMA DO XIII COLOQUIO FILOSÓFICO INTERNACIONAL
DuracSo: de 14 a 20 de julho de 1983.
Local: Sede do CONPEFIL, Vía Anhanguera, Km 26, Sao Paulo (SP),
Brasil — Endereco para correspondencia: Caixa postal 11587 —
Telefone: 260-7680.
Coordenado geral: Pe. Dr. Stanlslavs LadusSns, S.J.
14 de julhfo
Introducto: Temática e Metodología. — Prof. Dr. Pe. Stanislavs
Ladusans, S.J.
Os Fundamentos Metafisicos da ConstltuicSo da Ordem Moral. — Professor
Dr. Dom Octavio Derisi.
.« Metafísica Crista da Justica. — Prof. Dr. Alberto Caturelli.
15 de julho
DimensSo Jurídica do Hojnem como Fundamento da Justica. — Professor
Dr. Augustin Basave del Valle.
., Metafísica Crista da Conexao da Justica com ,a Ordem Social. —
Prof. Dr. Gonzalo Ibañez.
A Vida Econfimlco-polílica & Luz da Metafísica Crista. — Prof. Dr. lulo
BrandSo.
16 de Julho
O Imperio Marxista da Forca Parante a Forca da Jusllca. — Prof. Doutor
Pe. Miguel Poradowski.
A Busca Atual e Descoberta de Deus cojmo Raíz Última dos Direlfos e
Deveres Individuáis da Pessoa Humana. — Prof. Dr. Agustín Basave
Fernández del Valle'.
17 de julho
A Metafísica Crista dos Direitos e Deveres na Familia. — Dr. Juan Vallet de
Goytisolo.
A Metafísica Crista dos Direitos e Deveres da Pessoa Humana na Sociedade
Civil. — Prof. Dr. Dom Octavio N. Derisl.
Os Direitos e Deveres da Comunidade Interajnericana e da Convivencia
Internacional. — Prof. Dr. José Pedro Galváo de Sousa.
Direitos e Deveres ñas Constituicfies Hodiernas do Ocidente. — Dr. Juan
Vallet de Goytisolo.
Direitos e Deveres ñas ConstltuicSes Hodiernas do Oriente. — Professor
Dr. Pe. Ismael Quiles, S.J.
Direitos e Deveres da Universidade á Luz da Metafísica Crista. — Professora
Dr1 Maria Mercedes Terrén.
20 de Julho
Jusllca, Oireitos e Deveres na Sagrada Escritura. — Prof. Dr. Pe. JoSo
Evangelista Martins Térra S.J.
Justlca, Direitos e Deveres na Doutrlna Social da Igreja Católica. —
Prof. Dr. Pe. Battlsta Mondin.
A Metafísica dos Direitos Divinos e da Justina do CrislSo. — Prof. Doutor
Alberto Caturelli.
IntegracSo Final das Pesquisas do Coloquio Filosófico. — Prof. Doutor
Pe Stanislavs Ladusans, S.J.

— 176 —
OBRAS DIVERSAS DE OUTRAS EDITORAS :

Historia de la Filosofía (Biblioteca de Autores Cristianos) :

Vol. I — Grecia y Roma, Guillermo Fraile, 850 págs.

Vol. II (1?) — El Cristianismo y la Filsofia patrística.


Primera Escolástica, Guillermo Fraile, 570 págs.

Vol. II (2? i — Fillosotia judia y musulmana. Alta Escolástica.


Guillermo Fraile, 610 págs.

Vol. III — Del Humanismo a la Ilustración, Guillermo Fraile, 1110 págs.

Vol. IV — Siglo XIX: Kant, idealismo y esplritualismo,


Teófilo Urdanoz O.P., 670 págs.

Vol. V — Siglo XIX: Socialismo, materialismo y positivismo.


Kierkegaard y Nietzche, 665 págs.

Vol. VI — Siglo XIX: De Bergson al final del existencialismo.


Teófilo Urdanoz, 773 págs.

Padres Apostólicos (Edición bilingüe completa),


Daniel Ruiz Bueno, 1130 págs.

La Regla de San Benito, Garcia M. Colombas e Iñaki Aranguren, 510 págs.

San Benito, Fundador de Europa, Ramón Molina Pinedo, 165 págs.

Tomando por guia el Evangelio (releyendo la Regla de San Benito), 252 págs.

Soy Cristiano i Apuntes para un catecismo del pueblo), Gonzalo Girones,


485 págs.

Missel Dominical de l'Assemblóe, Ed. Brepols-Paris, pelos monges de


Saint-André, Hautecombe, Clervaux, 1546 págs.

Missal Popular (Dominical) Gráfica de Coimbra, Portugal.

Os Padres da Igreja tEP) — 2? ed., D. Cirilo Foich Gomes OSB: Os escri


tores dos cinco primeiros séculos cristaos,
290 págs.

Poemas do Reino de Deus (3? ed."), Dom Marcos Barbosa OSB (Editora
José Olimpio), 192 págs.

Vocé condece Deus? (AGIR) — Sintese da Doutrina crista com seus dog
mas, liturgia e moral. — María de Lourdes
G. de Oliveira, 251 págs.

Atende-se pelo Reembolso Postal


ediqOes lumen christi
Rúa Dom Gerardo, 40 - 5? andar — sala 501
Caixa Postal 2666 - Tel.: (021) 291-7122
20001 Rio de Janeiro RJ

OBRAS DE D. CIRILO FOLCH GOMES O.S.B.:

"RIQUEZAS DA MENSAGEM CRISTA" (Comentario ao Credo do Povo de


Deus), 2* ed., 1981, 689 págs.

Em doze capítulos, todos os tratados da Teología sistemática.


Para cursos de leigos, seminaristas, etc.

"É urna excelente iniciacao teológica, bem documentada e bem


escrita" (Manzanedo, in: "¡Angelicum" 59 (1982) 434).

"Creio que em castelhano nao temos obra comparável a esta pela


extensáo, clareza, modemidade, equilibrio, solidez" (A. Bandera,
¡n: "La Vida sobrenatural" n? 502, julho-agosto de 1982, Sala-
manco, Espanha).

"A DOUTRINA DA TRINDADE ETERNA", 1980, 400 págs.

A problemática contemporánea em torno do misterio trinitario.


O significado da expressáo "Tres Pessoas" ao longo da Tradicáo
patrística e teológica.

Elogios ao livro em diversas revistas, assinados por L. Sartori


("Studia Patavína"), J. Galot ("Gregorianum"), B. de Margene
("Science et Esprit"), A. Perego ("Divus Thomas"), V. M. Leroy
("Revue Thomiste"), A. Bandera ("Ciencia Tomista"), C. Pettino
("Divinitas"), etc.

"AMOR FORTE COMO A MORTE", 64 págs.


0 tema do Sagrado Coracáo nos Sermóes de um grande teólogo
do Brasil colonial: Fr. Mateus da Encarnacáo Pinna O.S.B.
(1687-1784).

"Creio que a leitura deste opúsculo, escrito com tanta singeleza


e profundidade, fará muito bem ás almas, sobretudo a aquelas
que desejam penetrar no misterio do amor de Deus pelo homem"
(O. Alejandro Mestre, Arcebispo-coadjutor de La Pazi.

NO PRELO:

"O MISTERIO DO D.EUS VIVO", por A. Patfoort O.P.


Traducáo de D. Cirilo Folch Gomes. Cerca de 200 págs.
é um tratado sobre Deus Uno e Trino. Usado como livro de texto
na Pontificia Universidade de Santo Tomás de Aquido. Roma.
Obra em estilo didático, de orientacáo tomista e grande informacáo
bíblica, aborda assuntos candentes como a "Teología do Pro-
cesso", "o sofrimento de Deus", "a predestinacáo e o mal", etc.