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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDIQÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristao a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabal no assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.

A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga


depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
268
"Eis a lúa Máe"

Pré-Pascal e Pós-Pascal
na exegese dos Evangelhos?

Os protestantes e María SS.

"A sexualidade humana"

Urna nova moral?

"Estamos salvos"

"Historia da Teologia
na América Latina"

"Dogmatismo e tolerancia"

Llvros em estante

Maio-Junho — 1983
PERGUNTÉ E RESPONDEREMOS MAIO-JUNHO — 1983
Publicaste bimestral
N' 268

Dtretar-Responsável: SUMARIO
D. EstevSo' Bettencourt OSB
"EIS A TUA MAE 1
Autor e Redator de toda a materia
publicada neste periódico Que significa
PRÉ-PASCAL E PÓS-PASCAL NA EXE-
Diretor-Admlnialrador
GESE DOS EVANGELHOS? 2
D. Hildebrando P. Marlins OSB
O Manifestó de Dresden :
OS PROTESTANTES E MARÍA SS. . 13

Estatfsticas e tendencias modernas :


AdmlnlstracSo e dlstribuIcSo:
"A SEXUALIDADE HUMANA" por va
Edicóes Lumen Christi rios autores 17
Dom Gerardo, 40 - 5«? andar, S/501 Apéndice: Carta da S. Congregado
Tel.: (021)291-7122 para a Doutrina da Fé 32

Caixa postal 2666 O fim do sistema tradicional:


20001 - Rio de Janeiro - RJ UMA NOVA MORAL? por J. Marcos
Bach 38

Firme e lúcido:
"ESTAMOS SALVOS" por D. Valfredo
Pagamento em cheque nominal visado ou
Vale Postal (para Agencia Central/Rio), Tepe 56
enderezado as: Um enfoque novo :
"HISTORIA DA TEOLOGÍA NA AMÉ
Edicóes Lumen Christi
RICA LATINA" por diversos .. 64
Caixa Postal 2666
Na serie "Liberta cao e Teología" :
20001 - Rio de Janeiro - RJ
"OOGMATISMO E TOLERANCIA" por
Rubem Alves 71
LIVROS EM ESTANTE 84
ASSINATURA EM 1963:

(De Janeiro a dezembro) Cr$ 2.500,00


Número avulso de 1982 Cr$ 200,00
Número avulso de 1983 Cr$ 450,00
NO PRÓXIMO NÚMERO:
RENOVÉ SUA ASSINATURA
269—Ju I ho-Agosto — 1983
QUANTO ANTES

Ano Santo: Que é? — Freud e a Retí-


giao — "O Ser e o Messias". (J. p. Mi
COMUNIQUE-NOS QUALQUER randa) — Nostradamus: Profeta? — "Filo
sofía da Ciencia". (Rubem Alves) — A
MUDANCA DE ENDERECO
Igreja na Rússía e na Albania — Excomu-
nháo no novo Código de Direito Canónico.
— "Gandhi" no cinema.
ComposIcSo o Impressfio:

"Marques Saraiva"
Santos Rodrigues, 240
Rio de Janeiro COM APROVACAO ECLESIÁSTICA
"EIS A TUA MÁE!"
(Jo 19,27)
Mato é o mes dedicado pela piedade católica a María SS...
Ora em nenhuma outra fonte como na S. Escritura aparece
imagem mais bela da Virgem-Máe. Detenhamo-nos apenas no
Evangelho segundo Sao Joáo.
María ai aparece táo somente no limiar (Cana) e no fim
da vida pública (Calvario) de Jesús. Estes dois episodios
constituem como que a moldura da missáo do Senhor.
Sim. Ñas bodas de Cana, Maria observa em dado mo
mento que falta o vinho. Depois de o haver comunicado a
Jesús, diz aos serventes: «Fazei tudo o que Ele vos disser».
Tal palavra de Maria faz eco a Palavra do Pai proferida por
ocasiáo do Batismo de Jesús: «Ouvi-o!». Sao Joáo nao nos
relata a cena do Batismo nem, por conseguinte, a voz do Pai,
mas faz-nos ouvir através de Maria essa ordem do Pai:
«Ouvi-o!»
No Calvario, Maria aparece como a Máe dolorosa. Ela
sofre por ver o Filho crucificado. Tais dores, porém, se tor-
nam dores de parto, dores que geram a vida. Com efeito, diz-
•lhe Jesús, apontando para Joáo: «Eis o teu Filho»; e a Joáo
diz o Senhor, acenando para Maria: «Eis a tua Máe!» (Jo
19,25-27). E daquela hora em diante o discípulo a levou para
a sua casa. Tal era a Hora de Maria. A sua maternidade em
relagáo a Jesús se prolongaría na maternidade que lhe tocaría
em relagáo a todos os homens, contidos no seu seio quando
Jesús, Cabeca do Corpo Místico, lá estava contido.
O papel de Maria como Máe no IV Evangelho explica de
certo modo por que Sao Joáo nunca a designa por seu nome
«Maria». Fato estranho: Sao Marcos menciona urna vez este
nome; Sao Mateus, cinco; Sao Lucas, treze vezes (doze no
Evangelho, e urna nos Atos dos Apostólos), ao passo que Sao
Joáo nunca... Este trago surpreendente se elucida se consi
deramos que o nome «Maria» era assaz usual entre os judeus:
o IV Evangelho mesmo refere Maria de Cléofas, Maria Mada-
Lena, Maria de Betánia... O título que caracterizaría Ma
ria SS. deveria ser outro, para Sao Joáo: seria o de Máe,...
Máe de Jesús e Máe de todos os homens! Assim no IV Evan
gelho Jesús aparece marcado pelo seu relacionamento singular
com o Pai («Meu Pai, o Pai que me enviou, o Pai que me
ama...») e pela sua uniáo filial a María.
Possamos nos neste mes de maio tornar-nos cada vez mais,
como Jesús, todos voltados para o Pai e devotados filialmente
a Maria!
E.B.
— 17" —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XXIV — N? 268 — Maio-junho de 1983

Que significa

Pré-Pascal e Pós-Pascal
na Exegese dos Evangelhos?
Em sfntese: O presente artigo considera o problema levantado por
muttos críticos, segundo os quais as narracdes dos Evangelhos, escritas
multos anos após a Ressurreicáo de Jesús, nSo nos transmitem a face
objetiva dos ditos e feitos de Cristo anteriores á Ressurreicáo; o pos-
-pascal seria a expressáo da fé dos prlmeiros cristáos e nSo nos poria
em contato com a realidade histórica ou com o pré-pascal. A análise
desta temática revela que o problema se deriva de preconceitos liberáis
e racionalistas, que caem por térra desde que se examinem atentamente
os textos do Novo Testamento. Entre outros argumentos que refutam a
tese, está o fato dos numerosos Evangelhos apócrifos; estes escritos, slm,
transpóem para a realidade pré-pascal as conceptees teológicas dos
cristáos de após Páscoa, apresentando Jesús como taumaturgo desde
crianca ou como portador de mensagens próprlas de correntes heréticas
dos séculos 11/IV. Também se deve citar o uso das expressoes "Filho do
Homem" e "Reino de Deus", que ocorrem freqüentemente nos Evangelhos
e que desaparecem nos demals escritos do Novo Testamento. lAinda outras
observacoes sao propostas a flm de evidenciar a falsidade da poslcáo
racionalista, que, alias, é contradltada também por exegetas nSo católicos,
entre os quais se dlstinguem os da escola sueca de Ríesenfeld.
• • •

Comentario: Muitos exegetas e nao poucos divulgadores


da mensagem evangélica insistem no fato de que as palavras
e os feitos de Jesús só foram redigidos por escrito anos depois
de ocorridos, ou seja, muito após a Ressurreicáo de Jesús:
assim só temos relatos pós-pascais de dizeres e acontecimentos
pré-pascais. Em conseqüéncia, afirmam que nao se deve
atribuir a tais textos valor plenamente objetivo ou científico,
pois exprimem a perspectiva e a fé subjetivas dos respectivos
narradores. Tal conclusáo cria um hiato entre o Jesús da fé
(ou o Jesús concebido pela crenga dos primeiros cristáos) e o
Jesús da historia (o Jesús que realmente viveu na Palestina);
nao se poderia saber exatamente o que disse e fez Jesús, mas
apenas o que a respeito dele pensaram os primeiros cristáos.
Ora tal raciocinio impressiona muitos fiéis quando, na ver-
dade, é preconcebido e falso. É o que veremos a seguir.
— 178 —
PRÉ-PASCAL E PÓS-PASCAL

1. Análise da questao
1. A argumentado da crítica em pauta, inspirada pelas
premissas de Rudolf Bultmann, procede por duas etapas:
1) As concepgóes dos Apostólos e dos discípulos
de Jesús foram transformadas pela Ressurreigáo.
Antes de Páscoa, viam no Mestre um pregador e tau
maturgo cujo misterio nao conseguiam penetrar. Ora
a Ressurreigáo lhes mostrou que esse Jesús era o
Salvador ou mesmo o Filho de Deus em sentido estrito.
Tal mudanga subjetiva na mente dos Apostólos é
inegável; faz-se mister registrá-la.
Segue-se outra etapa de raciocinio, que já nao goza do
mesmo valor científico, mas se deriva de premissas preconce
bidas e arbitrarias:

2) A fé dos Apostólos e discípulos levou-os


a escrever os Evangelhos ou urna grande parte
destes desviando (embelezando, engrandecendo, exa
gerando...) o pensamento e os feitos de Jesús; os
evangelistas nao estavam preocupados com a reali-
dade histórica objetiva, mas, sim, com teorías e con-
cepcóes teológicas que depois de Páscoa teriam sido
forjadas pelos primieiros cristáos a fim de atender a
seus anseios subjetivos. — Daí nao se poder atribuir
valor histórico aos relatos evangélicos.
2. A segunda parte do raciocinio merece serios reparos,
pois é contraria aos fatos. — Com efeito, antes do mais note-se
o seguinte:

Conhecemos cerca de quarenta «Evangelhos» produzidos


pela «fé» dos cristáos: sao os apócrifos1, que a Igreja nao
considerou como Escrituras auténticas ou canónicas. Os estu
diosos admitem que tais textos transmitem alguns veios de
genuina tradicáo referente a Jesús; todavía o estilo desses
ensaios tende evidentemente a aumentar e «embelezar»; inven-

lA palavra "apócrifo" vem do grego apókryphos, que significa oculto.


Os Evangelhos e outros escritos ptedosos nao reconhecidos oficialmente
pela Igreja como genufna Palavra de Deus nio podlam ser lidos no culto
público ou ñas assembléias litúrgicas, mas podiam eventualmente ser utili
zados em leltura particular, nao pública (donde oculta, apócrifa).
Evangelho ou texto canónico é o escrito que a Igreja ¡ncluiu no
canon ou no catálogo dos livros sagrados, tldos como inspirados pelo Se-
nhor Deus. O canon tem caráter oficial e público. O livro canónico é,
pois, o livro catalogado oficialmente.

— 179 —
4 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

tam feitos extraordinarios, comprazem-se em atribuir a Jesús


milagres ridículos como também póem nos labios do Senhor
dizeres que exprimem as premissas desta ou daquela seita da
antigüidade. A comparagáo dos Apócrifos com os Evangelhos
canónicos contribuí para por em relevo a sobriedade do estilo
e das narragóes dos textos oficiáis. A guisa de exemplo, seja
citado o Evangelho de Tomé, que é talvez, dentre os apócrifosx,
o mais próximo dos Evangelhos canónicos; eis algumas das
frases ai atribuidas a Jesús:
"Bem-aventurado é o lefio que o homem venha a comer de modo que
o lefio se torne homem. Infeliz, porém, é o homem que o lefio coma de
sorte que o homem se torne leáo" (n"? 7).

"Quando vos despirdes de vossas vestes sem experimentar vergonha,


quando tirardes vossa roupa e a depositardes aos vossos pés e a piso-
teardes ¿ semelhanca das criancas, entáo vos tornareis fllhos daquele
que é o vívente e já nao terels medo" (n? 42).

"Simfio Pedro Ihes disse: 'Que María (Madalena?) sala de junto de


nos, pois as mulheres nao sSo dignas da vida*. Jesús respondeu: 'Eis
que eu a atrairei de modo a torná-la macho; assim ela vira a ser um
espirito vivo semelhante a vos, os machos. Pois toda mulher que se tor
nar macho, entrará no Reino dos céus'" (n<? 118).

Tais dizeres do Evangelho de Tomé reproduzem com


evidencia as tendencias ou a respectiva escola, extremamente
fantasista e imbuida de concepgóes nao cristas. Os antigos
escritores da Igreja nos séculos II/IV (S. Ireneu, Orígenes
S. Hipólito de Roma, S. Cirilo de Jerusalém...) nos dáo noticia
de que o Evangelho dito «de Tomé» era de inspiracáo gnóstica
ou dualista; terá estado em uso entre os maniqueus, que julga-
vam ser a materia má por si mesma.

Ulteriores observagóes se impóem ao estudioso.

2. Continuando a reflefír. . .

Levem-se em conta ainda os seguintes tópicos:

2.1. Comparacdo entre os Sinóticos

Quem compare os Evangelhos Sinóticos (Mt, Me, Le) entre


si, verificará como cada um reagia ao texto dos outros; os
redatores nao tendiam a ampliar nem embelezar, mas, antes,

10 estudioso encontrará urna boa colecto de Evangelhos apócrifos


no volume Los Evangelios Apócrifos. Edición critica y .bilingüe, por Aurelio
de Santos na colecSo Biblioteca de Autores Cristianos n"? 148. Madrid 1975.

— 180 —
PRÉ-PASCAL E PóS-PASCAL 5

a abreviar. Com efeito; dado que Me apresenta o texto mais


antigo (como admitem os exegetas em geral), observa-se que
contém pormenores concretos que os outros julgaram des-
necessários e suprimiram; comparem-se, por exemplo, entre si:

Jesús enslna com autoridade

Me 1,21-22 Mt 7,26b-29 Le 4,31-32

"Entraram em Cafar- "As multídSes fica- "Desceu entSo a Ca-


naum e, logo no sá- ram extasiadas com o farnaum, cidade da Ga-
bado, foram á sinagoga, seu ensino, porque as Illéla, e ensinava-os aos
Extasiavam-se com o ensinava com autor! sábados. Ficavam pas
seu ensino, porque Ihes dade, e nao como os mados com o seu en
ensinava com autori escribas". sino, porque (alava com
dade e nao como os autoridade".
escribas".

Cura da sogra de Pedro

Me 1,29-31 MI 8,14-15 Le 4,38-39

"E, logo ao salr da "Entrando Jesús na "Saindo da Sinagoga,


Sinagoga, foi á casa de casa de Pedro, viu a entrou na casa de Si
Simáo e André, com sogra deste, que es mio. A sogra de Si
Tfago e JoSo. A sogra tava de cama e com máo estava com febre
de Simáo estava de febre. Logo tocou-lhe a alta, e pediram-lhe por
cama com febre, e eles mió e a febre a dei- ela. Ele se inclinou
Imediatamente o mencio- xoo. Ela se levantou e para ela, conjurou seve
naram a Jesús. E, apro- pós-se a servl-lo". ramente a febre e esta
ximando-se, t o m o u - a a deixou. Imediatamente
pela mSo e a fez levan- ela se levantou e pds-se
tar-se. A febre a dei- a servi-los".
xou e ela se pds a
servi-los".

Numerosas curas á tardlnha

Me 1,32-34 Mt 8,16-17 Le 4,40-41

Ao entardecer, quando Ao entardecer, trou- "Ao por do sol, to


o sol se pds, trouxe- xeram-lhe muitos ende- dos que tinham doen
ram-lhe todos os que moninhados e Ele, com tes atingidos de males
estavam enfermos e en- urna palavra, expulsou diversos, traziam-nos e
demonln hados. E a el- os esplritos e curou Ele, impondo as maos
dade inteira aglome- todos os que estavam sobre cada um, cura-
rou-se & porta. E Ele enfermos, a fim de se va-os. De muitos tam-
curou muitos doentes cumprlr o que fol dito bém saiam demonios
de diversas enfermida- pelo profeta Isaías: 'Le- gritando: 'Tu és o Fi-
des e expulsou mui vou as nossas enfer- Iho de Deusl' Em tom
tos demonios. Nao con dades e carregou as ameacador, porém, Ele
sentía, porém, que os nossas doen$as'". os proibia de falar, pois
demonios falassem, pois sabfam que Ele era o
eles o conheclam". Messias".

— 181 —
6 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

De resto, quem compara prolongadamente, verifica que


Mt e Le abreviam o relato de Me nao somente ñas segóes ácima
citadas, mas no decorrer de todo o respectivo relato. Em con-
seqüéncia, vé-se quáo gratuito é dizer, sem mais, que a fé
pós-pascal levou os evangelistas a ampliar.

2.2. Sao Marcos e suas fontes

Talvez, porém, observe alguém: se Mateus e Lucas


abreviaram em vez de ampliar, nao se poderia crer que Marcos
ou as fontes utilizadas por Mateus e Lucas, independentemente
de Me, procederam diversamente, dando livre curso k sua
imaginagáo, excitada pelos acontecimentos de Páscoa?

A esta pergunta toca urna resposta negativa. Com efeito;


os críticos, que conhecem os aspectos salientes da mentalidade
das primeiras comunidades cristas da Palestina, verificam que
a fé pós-pascal das mesmas nao foi projetada sobre os relatos
de acontecimentos pré-pascais. Eis alguns exemplos signifi
cativos:

a) Para realgar a evidencia da ressurreigao de Jesús, é


de crer procurassem mostrar que ela se impusera logo com
toda certeza as primeiras testemunhas. Ora, ao contrario, os
evangelistas nao deixam de mencionar repetidamente as hesita-
góes dessas primeiras testemunhas: María Madalena nao re-
conheceu logo Jesús (cf. Jo 20,14-16) nem os discípulos de
Emaus, que caminharam com Jesús sem o identificar
(cf. Le 24,16-31); mesmo após as aparigóes da Galiléia
(cf. Mt 28,17) alguns duvidaram (cf. Mt 28,17; texto que causa
embarago aos intérpretes).

b) Pedro, sendo o chefe dos Apostólos, deveria ser


sempre o mais realgado e exaltado. É isto, sim, o que ocorre
nos Atos dos Apóstalos (1,15; 2,14; 2,38; 3,1-12; 4,8-21; 5,3-11;
8,14-25; 9,32-11,18; 12,3-17; 15,7). Os Evangelhos, porém,
apresentam Pedro freqüentemente em perspectiva pouco
favorável:

Mt 14,31: «Homem de pouca fé, por que duvidaste?»;

Me 3,32-33: «Pedro, chamando Jesús de lado, comegou a


adverti-lo. Ele, porém, voltando-se e vendo os seus discípulos,
repreendeu a Pedro, dizendo: 'Afasta-te de mim, Satanás,
porque nao pensas as coisas de Deus, mas as dos homens'»;

— 182 —
PRÉ-PASCAL E PÓS-PASCAL

Le 9,32: Pedro adormeceu por ocasiáo da Transfiguragáo;


Me 14,37} Mt 36,40: Pedro adormeceu também durante a
óracáo de Jesús no horto das Oliveiras;

Me 14,29-31.66-72; Mt 26,33-35.69-75; Le 22,3-34*54-62;


Jo 13,6-9; 18,15-18.25-27: a renegagio de Pedro é narrada
minuciosamente;

Mt 18,21; Le 12,41; Jo 13,6-9; 18,10s: Pedro intervém de


maneira pouco oportuna ou adequada á situacáo.

Tais episodios mostram suficientemente que os redatores


dos Evangelhos nao projetaram no seu texto a silueta do
Apostólo Pedro posterior á Páscoa.
c) Os Atos dos Apostólos e as epístolas apresentam com
tanta insistencia Jesús como Messias que este termo, traduzido
para o grego por Christós, se tornou segundo nome próprio de
Jesús. — Ora os Evangelhos sao táo reticentes neste particular
que alguns exegetas lhes atribuem a intencáo de guardar um
«segredo messiánied» (Jesús só teria revelado aos poucos a sua
identidade de Messias, de modo a nao ser tomado como revolu
cionario político e subversor da ordem vigente); em conseqüén-
cia, nos Evangelhos quem reconhece o Messias, entre outros, sao
os demonios, aos quais Jesús impóe silencio (Me 3,lls; Le 4,41);
os Apostólos, em meados da vida pública, proclamam o Messias,
iluminados por especial inspiragáo divina (cf. Me 8,29; Le 9,20;
Mt 16,15-17); Jesús se revela á Samaritana (cf. Jo 4,25s). Por
ocasiáo do processo final, os juízes parecem estar aínda mal
informados a propósito da identidade de Jesús (cf. Me 14,61s;
Mt 26,63s; Le 22,67s). — Pergunta-se: por que é que as antigás
comunidades cristas, que professavam a messianidade de Jesús,
nao conceberam as narracóes evangélicas segundo o teor
explícito da sua fé?

d) Em outros casos, verifioa-se precisamente o oposto:


os Atos dos Apóstelos nunca aplicam a Jesús a fórmula «Filho
do Homem» (exceto em At 7,56, numa exclamagáo do primeiro
mártir S. Estéváo). Também nao a aplicam o Apocalipse nem
Sao Paulo nem os outros autores inspirados de epístolas do Novo
Testamento K Ao contrario, nos Evangelhos Hlho do Homem

i Em Hb 2,6 e em Ap 1,13; 14,14 a fórmula FHho do Hornean (sem


artigo em grego) significa simplásmente um homem, de acordó com o seu
sentido originario aramaico.

— 183 —
8 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

ocorre 82 vezes com referencia á vida pré-pascal de Jesús: 14


vezes em Me; 30 vezes em Mt; 25 vezes em Le; 13 vezes em Jo.
É muito significativo o fato de que a mesma fórmula tenha
desaparecido do uso dos cristáos que exprimiam a fé da Igreja
pós-pascal; leva a concluir que os autores dos quatro Evan-
gelhos nao configuravam o passado (os episodios pré-pascais)
segundo as concepgóes da fé pós-pascal.

e) Outra averiguacáo importante: a expressáo Reino de


Deus ocorre 71 vezes nos Evangelhos, mas é cada vez menos
mencionada nos restantes escritos do Novo Testamento. Deste
fato se deduz que nao foi a fé pós-pascal que criou tal locugáo,
mas foi Jesús quem a utilizou; os primeiros arautos da Boa-
-Nova ainda lhe fizeram eco, mas aos poucos deixaram-na cair
em desuso.

O mesmo se diga a respeito das parábolas: estas sao carac


terísticas do ensinamento de Jesús, segundo os Evangelhos,
mas estáo totalmente ausentes do restante do Novo Testamento.

f) Alias, os redatores dos Evangelhos tiveram a lealdade


de reconhecer que, por vezes, os acontecimentos pós-pascais
iluminaram retrospectivamente o modo como os Apostólos e
discípulos entenderam os episodios pré-pascais. Assinalam, por
exemplo, o fato em

Jo 2>20-22: «Disseram-lhe os judeus: 'Quarenta e seis


anos foram precisos para se construir este templo, e tu o
levantarás em tres días?' Ele, porém, falava do tempo do seu
corpo. Assim, quando ele ressurgiu dos mortos, seus discípulos
lembraram-se de que dissera isto, e creram na Escritura e na
palavra dita por Jesús».

Jo 12,14-16: «Jesús, encontrando um jumentinho, montou


nele, como está escrito: 'Nao temas, filha de Siáo! Eis que vem
o teu rei montado num jumentinho' (Zc 9,9s). Os discípulos a
principio nao compreenderam isto; mas, quando Jesús foi glori
ficado, lembraram-se de que estas coisas estavam escritas a seu
respeito e que elas tinham sido realizadas».

Jo 13,6s: «Chega Jesús a Simáo Pedro, que lhe diz:


'Senhor, tu me lavas os pés?' Respondeu-lhe Jesús: 'O que fago,
nao ó compreendes agora, mas o compreenderás mais tarde'».

— 184 —
PRÉ-PASCAL E PÓS-PASCAL

Le 24,5-8: «Cheias de medo, as mulheres inclinaram o


rosto para o chao; os anjos, porém, disseram: 'Por que pro
curáis entre os mortos aquele que está vivo? Ele nao está aqui;
ressurgiu. Lembrai-vos de como vos falou, quando aínda estava
naGaliléia: É preciso que o Filho do Homem seja entregue ás
máos dos pecadores, seja crucificado, e ressuscite ao terceiro
dia'. E elas se lembraram de suas palavras». Compare-se
com Le 18,31.

g) Em suma, vé-se que nos Evangelhos se aplica urna


lei geral dahistória: só depois do fato ocorrido é que o historia
dor compreende bem tal episodio e o pode descrever com toda
a clareza. — Quem, por exemplo, acompanha o noticiario dos
jomáis de cada dia, difícilmente pode dizer quais das noticias
ocurrentes sao relevantes para o futuro e quais se tornaráo
insignificantes. Só se pode descrever urna guerra após a vitória
ou a derrota final, pois somente entáo o alcance de cada episo
dio pode ser devidamente dimensionado dentro do conjunto
respectivo. Mas nem por isto dirá a critica sadia que o narra
dor, esclarecido pela visáo do todo, necessariamente falsifica
ou deturpa a descrigáo dos episodios particulares, tirando a
esta o seu valor histórico.

Se, a cada noite da vida mortal de Jesús, os Apostólos


tivessem redigido o seu diario, teriam consignado muitos fatos
que hoje nos sao desconhecidos, mas, sem dúvida, haveriam
transmitido urna imagem menos auténtica da pessoa e da
pregagáo de Jesús, pois teriam interpretado muitos tópicos
(por exemplo, a Messianidade de Jesús, o anuncio do Reino de
Deus, as predicóes da Paixáo e daRessurreicáo...) em fungáo
dos seus pontos de vista pré-pascais, muito nacionalistas e ter
restres; nao teriam sido capazes de entender tais tópicos no
sentido intencionado por Jesús. Alias, é por isto que o Senhor
oportunamente dizia e repetía: «Compreenda aquele que tem
ouvidos para entender!» (Mt 11,15; Me 4,9; Mt 13,9; Le 8,8;
Me 4,23; Mt 13,43; Le 14,35).

Donde se vé que a projegáo de luz posterior aos fatos,


quando ocorre nos Evangelhos, em vez de prejudicar o valor
da historiografía, muito ao contrario contribuí para revelar o
genuino alcance de cada gesto e de cada palavra de Jesús. Este,
alias, predisse aos Apostólos antes da sua Paixáo: «O Paráclito,
o Espirito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos
ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tiver dito»
(Jo 14,26).

— 185 —
10 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

3. Conclusáo

Quem reflete sobre os argumentos até aquí propostos, nao


pode deixar de perguntar a si mesmo por que sao táo freqüente-
mente contestadas as narracóes pós-pasoais de acontecimentos
pré-pascais da vida de Jesús. Somente um preconceito ou a
aceitagáo precipitada de certos chavóes pode explicar tal
atitude. Esta, alias, nao é partilhada por bom número de
exegetas abalizados, tanto europeus como norte-americanos.
Entre outras, destaca-se a escola sueca de Riesenfeld e discí
pulos: um destes, B. Gerhardsson, publicou os resultados de
seus estudos numa obra que foi traduzida para línguas ociden-
tais, tendo em francés o título La Pré-histoire des Evangiles
(París, Cerf 1978). Eis como o autor resume o seu pensamento:
"Os Evangelhos Sinótlcos nSo nos apresentam um simples eco da voz
de Jesús, mas as palavras oriundas de sua boca e fielmente guardadas
asslm como narracaes que, em última anállse, se derlvam dos homens que
estavam perto de Jesús durante o ministerio do Senhor na Gallléla e em
Jerusalém" (p. 118 da edlcflo francesa).

Gerhardsson mostra ainda que a convicgáo de que o fim


dos tempos era iminente nao se opunha, na primeira geragáo
crista, ao interesse pelo passado e á conservagáo de recordagóes
históricas. Nao há dúvida, para os primeiros cristáos, Jesús
nao era apenas van homem do pretérito, mas o Vívente por
excelencia, o Senhor exaltado na gloria. O brilho de Páscoa
nao levava a esquecer os humildes inicios de Jesús de Nazaré,
pois a fé crista faz questáo de unir paradoxalmente o aniquila-
mento da Cruz e a exaltagáo de Páscoa.

Gerhardsson rejeita assim o ceticismo de Bultmann e a


tese do sociologismo de Emile Durkheim, segundo a qual as
coletividades tém, sem mais, o poder de criar lendas aptas a
destruir a veracidade histórica. Nos Evangelhos, assevera
Gerhardsson, podemos encontrar as próprias palavras de Jesús
e os trámites mesmos de sua pedagogía. O modo típico que
Jesús adotava para ensinar, era o do roachalista (ou narrador
de mechaJim, sentengas, parábolas). A diferenga dos sabios da
sua época, que se interessavam, antes do mais, pela vida moral
e social dos seus discípulos, Jesús centrou os seus ensinamentos
no conceito de Reino de Deus e na necessidade de se abrirem
os homens á gratuidade da Boa-Nova. Jesús condensava as
suas explanagóes em sentencas curtas, bem lapidadas, aptas a
se gravarem na memoria dos ouvintes; oportunamente pro-
punha aos seus discípulos a explicagáo mais pormenorizada de
tais ensinamentos (cf. Me 4,10.34). Procedendo desta maneira,
— 186 —
PRÉ-PASCAL E PÓS-PASCAL 11

Jesús seguia o método pedagógico dos rabinos de sua época,


que valorizavam enormemente a transmissáo meramente oral
de suas doutrinas; esses ensinamentos oráis, guardados fiel
mente na memoria dos discípulos, eram ocasionalmente e aos
poucos consignados por escrito; formavam-se assim pequeñas
coletáneas de dizeres dos rabinos, devidas á memoria e ao tra-
balho de compilagáo dos discípulos dentro do judaismo; os
rabinos esmeravam-se por apresentar suas concepgóes em pro-
posicóes breves, incisivas, que os ouvintes deviam aprender de
cor antes que os mestres lhes fizessem o comentario porme
norizado de tais dizeres.

Gerhardsson, baseado em tais pesquisas da historia do


rabinismo, julga que Jesús seguiu a metodología rabínica; por
isto admite que, antes de partirem para a sua primeira missáo
na Galiléia, por exemplo, os Apostólos e discípulos devem ter
memorizado sentengas do Senhor Jesús assim como o relato
de feitos significativos do Mestre (cf. Mt lOpar.).

As conclusóes de Gerhardsson descortinan! urna visáo da


origem dos Evangelhos frontalmente diversa da de Bultmann
e de autores propensos ao ceticismo. Gerhardsson é historiador
e pesquisador que se serve de dados concretos e da praxe dos
rabinos para fundamentar o seu parecer, ao passo que a escola
Bultmanniana é apriprística; estabelece premissas inspiradas no
racionalismo, no sociologismo de Emile Durkheim, no existen-
cialismo de Martín Heidegger e pretende definir a priori (de
antemáo), por dedugáo filosófica, qual seja o grau de veraci-
dade dos Evangelhos. Ora tal método é erróneo; os Evangelhos
sao um texto encravado na historia, de modo que, antes do
mais, os dados históricos, arqueológicos, lingüísticos, psicoló
gicos, psicopedagógicos dos judeus... háo de ser levados em
conta para se aferir a fidelidade histórica de tais escritos.
Gerhardsson mostra que o texto atual dos Evangelhos nao é
senáo a cristalizagáo última e definitiva da pregagáo oral do
próprio Jesús (e nao apenas das comunidades cristas primi
tivas), ... pregagáo que os Apostólos, como auténticos discí
pulos de um mestre judeu, foram consignando na sua memoria;
guardaram fielmente as linhas-mestrás de tal pregagáo e nao
raro também as próprias palavras que lhe serviam de veículo.
Os mesmos Apostólos foram difundindo os ensinamentos recebi-
dos de Jesús; aos poucos, dentro das comunidades cristas do
século I foram-se formando coletáneas de parábolas, de pro-

— 187 —
12 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

fecias, de normas éticas... deixadas por Jesús; tais coletáneas


foram sendo, por sua vez, reunidas em um conjunto mais ou
menos complexo que tomou o nome, por excelencia, de
Evangelho:... Evangelho segundo Marcos, segundo Mateus,
segundo Lucas, segundo Jdáo.

Em síntese: o estudioso nao se deixará impressionar de-


mais por doutas hipóteses concernentes á oposigáo entre pré-
-pascal e pós-pascal. Nao há dúvida, a fé de Páscoa abriu os
olhos dos discípulos para a realidade transcendental e o genuino
sentido das palavras e acóes de Jesús; concorreu assim para
que retivessem e apresentassem tal feito de preferencia a tal
outro. Todavía nenhum crítico até hoje forneceu prova satis-
fatória de que algum gesto ou algum vocábulo de Jesús tenha
sido gravemente deformado pelo entusiasmo decorrente da
Ressurreigáo.

Este artigo muito deve ao estudo de Jean Carmlgnac: Pré-pascal et


post-pascal. Sens el valeur de ees expressions, em Esprit et Vie, 10/07/80,
pp. 411-415.

(Continuado da pág. 264)

o autor dos seres que por evolucSo descendem de outros seres vivos; a
sabedoria e o poder de Deus em nada sao depreciados, mas, antes, me-
thor se podem observar no desenvolvimento paulatino das especies viven-
tes. Hoje em día há muitos cientlstas evolucionistas católicos e evangé
licos que aceitam a evolucSo nos termos atrás propostos e por Pió XII
em 1950 oficialmente formulados.

4) Apraz citar a obra de Paúl Amos Moody: "IntroducSo á Evolu-


cáo", obra coeditada pela Editora Universldade de Brasilia em 1975. O
autor, que é extremamente versado e atualiza'do no setor das ciencias riatu-
rais, termina o seu votume com o capitulo 22 Intitulado: "E entao? Urna
carta aberta aos estudantes". Nestas páginas fináis Paúl Moody mostra
como se conclllam a fé crista, a Biblia e a ciencia evolucionista, argu
mentando com precisfio e profundidade notávels.

NSo há, pols, por que quebrar langas em nome da Biblia ou da fé


por causa da questáo: "EvolucSo: sim ou n&o?". Deixemos que os cien
tlstas falem livremente a respelto dos dados que as pesquisas empíricas
possam revelar, e acrescentemos a Isto apenas dois grandes principios:
1) Deus é o autor da materia inicial, á qual terá dado as lels da sua evo-
luc.ño; 2) Oeus é o Criador da alma humana, qualquer que tenha sido a
origem do corpo humano. Estas duas solenes proposites, por serem de
ordem filosófico-rellgfosa, jamáis serSo refutadas por algum dentista
sincero.

E.B.

— 188 —
O Manifestó de Dresden:

Os Protestantes e Maria SS.

Publicamos ábaixo um texto intitulado Maniíesto de


Dresden atribuido a um Grupo de teólogos luteranos da
Alemanha Oriental. Este texto se acha na revista Spiritus
Domini n» 5, maio 1982, pp. 20s, transcrito do Journal de la
Grotte de Lourdes. Embora nao possamos indicar a data do
texto original nem a da referida fonte francesa que o publicou,
julgamos oportuno dá-lo a conhecer ao público em PR, visto
que nao é caso isolado; já em PR 180/1974, pp. 491s, por
exemplo, foi publicado um texto de John Wesley, fundador do
Metodismo, denominacjio protestante, a respeito do valor de
Maria SS. na dispensacáo da salvacáo.

Eis, pois, a mensagem luterana:

I. O MANIFESTÓ

«O culto da Virgem Maria, que data dos primeiros séculos do


Cristianismo e que nunca faltou na Igreja Católica, tomou grande
impulso em conseqüéncia das aparicoes de Lourdes e Fátima. Estas
aparicoes encontraram eco no mundo inteiro e a sua importancia foi
posta em relevo durante o Ano Mariano proclamado por Pió XII.

Em Lourdes, em Fátima e em outros santuarios marianos, a crí


tica imparcial se encontra diante de fatos sobrenaturais, que Ȏm
relacao direta com a Virgem Maria, se¡a mediante as aparicoes, seja
por causa das gracas milagrosas solicitadas e obtidas pela sua inter-
cessao. Esses fatos sao tais que desafiam toda explicacáo natural.

Sabemos ou deveríamos saber que as curas de Lourdes e Pátima


sao examinadas com elevado rigor científico por médicos católicos
e nao católicos. Conhecemos também a praxe da Igreja Católica,
que deixa transcorrer varios anos antes de declarar alguma cura
milagrosa. Até hoje 1.200 curas ocorridas em Lourdes foram pelos
médicos consideradas como 'científicamente ¡nexplicáveis'. Todavia a
Igreja Católica só declarou milagrosas quarenfa e quatro délas.

— 189 —
14 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

Nos últimos trinta anos 11.000 médicos passaram por Lourdes.


Todos os médicos, qualquer que seja a sua religiáo ou a sua posicáo
científica, tém livre ingresso no Bureau des Conslatations Medicales.
Por conseguinte, urna cura milagrosa é dotada das maiores garantías
possíveis.

Qual é, pois, o sentido profundo destes milagres no plano de


Deus? — Bem parece que Deus quer dar urna resposta irrefutável á
incredulidade dos nossos dias. Como poderá um incrédulo continuar
a viver de boa fé na sua incredulidade diante de tais fotos?

E também nos, cristao evangélicos, poderemos aínda, em vir-


tude de preconceitos, passar ao lado desses falos sem nos aplicar a
um atento exame? Urna tal atitude nao implicaría grave responsabi-
lidade para nos? Pode um cristáo evangélico ter o direito de ignorar
tais realidades únicamente pelo fato de se aprcsentarem na Igreja
Católica e nao na sua comunidade religiosa? Tais fatos nao deve-
riam, ao contrario, levar-nos a restaurar a figura da Mae de Deus
na Igreja Evangélica?

Somente Deus pode permitir que Maria se dirija ao mundo atra-


vés de aparicoes.

Nao nos arriscamos talvez a cometer um erro fatal fechando


os olhos diante destas realidades e nao Ihes dando atencáo al.guma?
Cristáos evangélicos da Alemanha, deveremos talvez continuar a
opor-lhes recusa e indiferonca? Continuaremos a nos comportar de
modo que o inimigo de Deus nos mantenha em atitude de intencional
cegueira?

Nao deveremos talvez abrir o nosso coracao a esta luz que Deus
fez brilhar para a nossa salvacao?

Tal problema, evidentemente, merece exame: nao deve ser afas-


tado de antemáo por preconceito, pelo único motivo de que tais
curas sao apresentadas pela Igreja Católica. Urna tal atitude a car
reta ria grave daño para nos mesmos e para o mundo inteiro.

Grande responsabilidade nos toca. Temos o direito de examinar


tais fatos. Nao nos é possível passar além e encampar tudo no
silencio.

Hoje em alguns países está em causa a existencia mesma do


Cristianismo. Sería o cume da tolice ignorarmos a voz de Deus .que
fala ao mundo pela mediagao de Maria e dar-lhe as costas única
mente porque Ele faz ouvir a sua voz através da Igreja Católica.

— 190 —
OS PROTESTANTES E MARÍA SS. 15

Como quer que se¡a, nSo nos poderemos calar por muito tempo
sobre tais realidades. Temos que examina-las a fundo, sem precon-
ceiro, pois é ¡mínente urna catástrofe.

Poderío acontecer que, re¡eitando ou ignorando a mensagem que


Deus nos faz chegar através de Maria, estejamos recusando a última
graca que Ele nos oferece para a nossa salvacáo.

É por isto um dever muito grave para os chefes da Igreja lute


rana e para as outras comunidades cristas examinar tais falos e
tomar urna posicao objetiva. Este dever impoe-se também pelo faro
de que a Mae de Deus nao foi esquecida somente depois da Guerra
dos Trinfa Anos e na época dos livres pensadores da metade do
século XVIII.

Sufocando no coracao dos evangélicos o culto da Virgem, des-


truiram os sentimentos mais delicados da piedade crista.

No seu Magnifica! Maria declara que todas as geracoes a pro-


clamarao bem-aventurada até o fim dos tempos. Todos nos verifi
camos .que esta profecia se cumpre na Igreja Católica e, nestes tem
pos dolorosos, com intensídade sem precedentes.

Na Igreja Evangélica tal profecia caiu em tao grande esgueci-


mentó que difícilmente se encontró algum vestigio da mesma.

Ainda urna vez estas reflexoes nos impoem o dever de exami


nar os fatos citados e de tirar dos mesmos todas as conclusoes
decorrentes».

II. REFLEXÁO

O texto atrás transcrito sugere algumas ponderagóes, que


vSo abaixo expressas:

1) A redacáo de PR nao pode identificar com precisáo


a fonte e a data de origem da Declaragáo. Como quer que seja,
esta nao destoa de outros pronunciamentos emanados de teó
logos protestantes dos últimos decenios. É por esta razáo que
ela pode merecer atengáo.

— 191 —
16 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

2) O texto transcrito fala enfáticamente de Lourdes e


Fátima e das curas ai obtidas. — Ora os fiéis católicos sabem
que as aparigóes marianas ai verificadas nao constituem objeto
de fé universal; trata-se de revelacóes particulares, que na
verdade nada acrescentaram aos artigos da fé, mas apenas
avivaram nos homens a consciéncia de que oragáo e penitencia
sao indispensáveis.

3) A Igreja Católica nao é propensa a admitir milagres


Com facilidade. Ao contrario, Ela submete os fatos tidos como
milagrosos a severos exames científicos e médicos, a fim de
que possa finalmente concluir, quando seja o caso, que Deus
quis intervir em favor dos homens em tal ou tal episodio de
cura. — Os teólogos luteranos se mostram satisfeitos com tal
seriedade da Igreja Católica e julgam que os fatos extraordina
rios registrados com exatidáo científica em Lourdes sao sinais
de Deus que interpelam os homens. Cremos que tais teólogos
tém toda a razáo quando assim pensam; sao sensíveis á eviden
cia dos fatos.

4) Todavía o grande valor do Manifestó transcrito


consiste em ser tal documento um testemunho que reconhece
o lugar de María na piedade crista, independentemente mesmo
de aparicóes e milagres. A teología das denominagóes evangé
licas oriundas nos séculos XVI/XVII mais e mais tem deseo-
berto o significado de María SS. na economía da salvagáo,
significado que a Biblia e a Tradigáo lhe assinalam. Os Re
formadores do século XVI nao foram agressivos em relagáo a
María como foram e sao os sectarios do século XX, mas
iniciaram a depreciacáo de María SS.; a sua atitude era moti
vada principalmente pelos abusos da piedade popular católica
dos séculos XV/XVI, e nao pela leitura das genuínas fontes
da fé. Urna vez passada a época de réplica que foram os séculos
XVI/XVII, María surge de novo gloriosa aos olhares dos
irmáos evangélicos. — Isto é altamente alvissareiro, porque
María, como Máe dos homens (cf. Jo 19,26s), é vínculo ou elo
entre os irmáos separados; é penhor de re-encontro feliz dos
cristáos entre si. Eis por que nos regozijamos ao perceber,
através do Manifestó de Dresden, a revalorizagáo da piedade
mariana entre os irmáos evangélicos. Possa a Máe do Bom
Consélho obter do seu Divino Filho, em favor dos homens, a
reta visáo do papel que a Ela toca na Comunháo dos Santos!

— 192 —
Estatísticas e tendencias modernas:

"A Sexualidade Humana"


por varios autores

Em síntese: O livro em pauta fo¡ rejeitado tanto pela ComissSo Dou-


trinal da Conferencia dos Bispos dos Estados Unidos em 1977 como pela
S. Congregado para a Doutrlna da Fé em 13/07/1979. Os motivos de tal
condenacao sño, entre outros, a índole subjetiva dos criterios da moralídade
adotados pelos autores da obra: o bem-estar que decorra de alguma prática
sexual (relacSes pré-matrimoniais, homossexuallsmo, masturbacáo...) é
suficiente para legitimar tal prática. Os autores recorrem também com
freqüéncla a estatísticas referentes á conduta sexual dos homens de nosso
tempo, atribuindo-lhes forte valor decisorio em favor de práticas classlca-
mente tidas como aberrantes. Ora sabe-se como sao precarias multas das
estatfstlcas hoje em día aduzidas pelos pesqulsadores; além do qué, é de
notar que a verdade e o bem nao dependem do voto da maloria, mas pairam
ácima do número, grande ou pequeño, de seus adeptos.

Os criterios propriamente evangélicos, como seriam a vivencia do


Batismo, que é morte ao velho homem e ressurreicao com Cristo para
urna vida nova, estSo quase apagados na perspectiva do livro em foco.
A teología da cruz e o valor desta nSo tém significado na definigSo do
comportamento sexual, conforme tais autores, que insinuam a legitimidade
do uso do sexo entre duas pessoas nao casadas, até mesmo por diverti-
mento.

Estas poucas observagdes sao suficientes para justificar a condenacao


do livro por renomados teólogos e moralistas, como também pelos simples
fiéis, que guardam a capacidade de julgar teorías á luz da fé e da Páscoa
de Cristo.

Comentario: Foi publicado em 1982 um livro intitulado


«A Sexualidade Humana. Novos Rumos do Pensamento Cató
lico Americano» 1. É da autoría de Pe. Prof. Anthony Kosnik
(coordenador), Pe. Prof. Ronald Modras, Sister Agnes
Cunningham, Dr. William Carrol, professor de Direito, e
Dr. James Schulte, especializado em Direito matrimonial. Tal
estudo foi solicitado pela Sociedade Americana Católica de Teo
logía, que houve por bem publicar o relatório final da Comissao

iEd. Vozes, 135 x 210 mm, 333 pp.

— 193 —
18 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

atrás indicada sem lhe conferir aprovagáo ou desaprovagáo


(cf. p. 7). O original norte-americano foi publicado em 1977
e logo traduzido para línguas estrangeiras.

O livro provocou celeuma nos Estados Unidos da América,


a ponto de induzir a Comissáo Doutrinal da Conferencia Epis
copal Norte-Americana a publicar Declaragáo condenatoria do
mesmo. Tal documento foi corroborado por um pronuncia-
mentó da Sagrada Congregagáo para a Doutrina da Fé datado
de 13/07/1979, publicado em Apéndice a este artigo
(cf. pp. 208-213). Estes dois documentos, acompanhados de
intervengóes de Bispos diversos, evidenciam quanto é delicado e
candente o conteúdo da obra em pauta. Eis por que referire
mos, antes do mais, alguns dos seus tragos mais salientes; a
seguir, proporemos reflexóes sobre o mesmo.

1. O conteúdo cfa obra

O livro comega por um estudo da sexualidade humana na


Biblia (cap. I) e na Tradigáo crista (cap. II). Apresenta,
depois, alguns dados das ciencias empíricas sobre a sexualidade
(cap. III) e elementos para urna teología da sexualidade
(cap. IV). Por último traga diretrizes pastorais (cap. V), ao
que se seguem um Pós-escrito e tres Apéndices.

1. Os autores abordam todas as facetas da teoría e da


prática sexual. Em alguns casos parecem apresentar apenas
as sentengas de antropólogos, sociólogos ou filósofos; em outros
insinuam ou explicitam diretrizes para o comportamento sexual
(mesmo quando referem posigóes de pesquisadores das ciencias
humanas, os autores do livro nao raro as apoiam indireta-
mente).

Neste contexto, o livro propóe:

1) o livre recurso a anticoncepcionais artificiáis, segundo


os ditames da «consciéncia de cada individuo implicado»
(p. 158);

2) o recurso á estérilizagáo definitiva do homem ou da


mulher, de acordó com as circunstancias em que as pessoas
interessadas se encontram (pp. 169s);

— 194 —
«A SEXUALIDADE HUMANA» 19

3) a inseminacáo artificial heteróloga (mediante doador


anónimo), desde que «exista um forte desejo mutuo por parte
do marido e da mulher e suficiente estabilidade na vida conjugal
para compensar os riscos indicados» (p. 171);

4) a uniáo marital sem contrato civil e sem o sacra


mento, também chamada «matrimonio consensual»... «Só
podemos concluir que tais relagóes, verdadeiramente criativas
e integradoras para os individuos implicados, podem ser também
moralmente aceitáveis, pelo menos enquanto nao forem
supressas as restrigóes civis para a realizagáo do matrimonio
legal» (p. 178);

5) ao julgar as relagóes sexuais pré-matrimoniais, dizem


os autores, nao se deve isolar este ou aquele ato de relaciona-
mento sexual. Será preciso levar em conta «a relagáo com Deus
e a posigáo moral dos interessados diante de todas as situaeóes
da vida». «O desprendimento, a honestidade e o desejo de levar
vida verdadeiramente crista com respeito a outras relagóes e
dimensóes podem indicar com seguranga qualidades semelhan-
tes numa conduta de um casal. No trato com católicos sol-
teiros, é possível avaliar a seriedade e a qualidade moráis de
um relacionamento pelo espago dado a oragáo e á participacjio
em comum nos sacramentos da Igreja, sobretudo na Eucaristía»
(p. 205).

Em outros termos talvez se pudesse dizer: quanto mais


«piedosos» forem os jovens, tanto mais estaráo credenciados
para ter relagóes sexuais pré-matrimoniais!

Ainda dissertando sobre a vida sexual dos solteiros, escre-


vem os autores: «As relagóes que promovem o crescimento e a
integragáo, sao moralmente boas» (p. 216).

Em suma, os solteiros involuntarios, os solteiros viúvos e


os solteiros divorciados também estáo habilitados a ter seus
relacionamentos sexuais fora do matrimonio; cf. pp. 217-222.

6) Sobre o homossexualismo léem-se os seguintes


pronunciamentos:

«Os homossexuais tém os mesmos direitos ao amor, inti-


midade e relacionamentos como os heterossexuais... As
normas que regulam a moralidade da atividade homossexual
sao as mesmas que regulam toda atividade sexual» (p. 256).

— 195 —
20 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

«Os homossexuais cristáos tém as mesmas necessidades e


direitos aos sacramentos como os heterossexuais. Ao deter
minar se convém ou nao dar absolvigáo ou a S. Comunháo a
um homossexual, pode o pastor orientar-se pelo principio geral
da teologia moral fundamental, de que só se pode impor uma
obrigagáo moralmente certa. Ubi dubium, ibi libertas. Uma
dúvida invencível, seja de direito, seja de fato, permite seguir
uma opiniáo verdadeira e sólidamente provável em favor da
liberdade» (p. 258).

7) No tocante á masturbagáo, é dito a p. 272:

«As pessoas que estáo seriamente a bragos com a tarefa


de integrar a sua sexualidade, especialmente os adolescentes,
deveriam ser incentivadas a receber a Eucaristía em toda opor-
tunidade, mesmo que tenha havido incidencias ocasionáis de
masturbacáo. A pressuposigáo é que nao pecaram gravemente
e por isso nao perderam o seu direito de receber os sacra
mentos» (p. 272).

8) «O travestismo implica uma preferencia acentuada


por usar roupas de pessoas do sexo oposto. Exprime um con-
flito psicossexual, que parece ser uma combinagáo de homos-
sexualismo e fetichismo... Há fundadas razóes para se
duvidar da gravidade moral da culpa em semelhante comporta-
mentó por causa dos fatores psicológicos implicados» (p. 274).

9) Sobre a vida consagrada a Deus, lé-se:

«Homens e mulheres que estiverem se preparando para


uma vida de celibato ou virgindade no testemunho cristáo, háo
de ser preparados para uma experiencia da sexualidade humana
que seja para eles criativa e integradora, dentro do contexto
do seu Gompromisso a um estado especifico de vida» (p. 283).

10) Em síntese, lé-se á p. 141:

«Nenhuma expressáo fisica da sexualidade, inclusive as


práticas oráis, contanto que sejam mutuamente gratificantes
e aceitáveis, devem ser prejulgadas como moralmente
aberrantes ou perversas» (p. 141).

Este principio, como se vé, baseando-se no caráter grati


ficante © aceitáveJ da prática sexual, é apto a justificar qualquer
tipo de comportamento.

— 196 —
«A SEXUALIDADE HUMANA» 21

2. Sao estas algvimas das conclusóes mais típicas a que


chegam os autores do livro em questáo. A obra, além disto,
é rica em insinuacóes; mesmo quando os autores rejeitam
alguma prática sexual, mostram-se abertos á reconsideragáo.
dependente de ulteriores pesquisas no campo das ciencias
empíricas humanas. Assim

a) no tocante ao svving (balango, oscilagáo) ou troca de


esposas, dizem os autores:

«Estudos recentes indicam que tal atividade é superficial


a longo prazo e muitas vezes redunda em alienagáo para as
pessoas implicadas. Embora permanegamos abertos para ulte
riores resultados das pesquisas, julgamos que ... svving parece
destruir e alienar e, portanto, desumanizar em geral» (p. 180).

Pergunta-se: nao há outros criterios para julgar o swing


senáo os criterios psicológicos e os resultados das pesquisas
sociológicas? Onde estáo os criterios típicamente cristáos?

b) Sobre o adulterio observam os autores:

«As características de enriquecimento do outro, honesti-


dade e fidelidade merecem atengáo particular nos casos de
relagóes sexuais escusas e comerciáis. Além disso, os orienta
dores deveriam levar em conta especialmente os padróes que
podem se desenvolver em tais casos, atendendo ao fato de que
os padróes de comportamento sao mais importantes do que os
atos individuáis e que o sentido de um ato merece mais consi-
deragáo do que o ato em si mesmo» (p. 181).

Realmente é indefinida a posigáo dos autores frente ao


adulterio; os criterios, em última análise, sao subjetivos: «o
sentido do ato é mais importante do que o ato». E quem poderá
avaliar tal sentido?

Ainda merecem atengáo os seguintes dizeres:

«Estas relaoóes (adulterinas) parecem contradizer muitas


das características da sadia inter-relagáo sexual e, ácima de
tudo, comprometer a fidelidade da alianga apresentada pela
S. Escritura como um ideal. Desta forma, deixando aberto o
caminho para maiores pesquisas das ciencias empíricas, deve-
mos recomendar com insistencia a maior cautela nestes
assuntos para que nao ponham em risco o crescimento e a
integragáo táo necessários em toda atividade humana» (p. 182).

— 197 —
22 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

Perguntamos: para julgar a moralidade de algum tipo de


comportamento humano, o criterio último será o das pesquisas
das ciencias empíricas? Nao haveria principios estruturais e
decisivos para julgar a moralidade do adulterio?

c) Os autores póem ainda outro problema:

«Ha duas outras formas de atividade extraconjugal que


podemos incluir na categoría tradicional de adulterio, a saber:
as relagóes sexuais 'co-maritais* (triangulares) e as de 'troca
de cónjuge1 ('cama redonda', quarteto ou dois casáis). Os
termos se aplicam áquelas situagóes que envolvem atividade
sexual com uma ou mais pessoas além do cónjuge, com o con-
sentimento e muitas vezes o encorajamento de uma das partes.
Muito se escreveu sobre essa dimensáo da experiencia sexual
hoje. Alguns autores defendem esta forma de inter-relagáo
como uma resposta verdaderamente crista aos problemas e
carencias de certos grupos na sociedade, como os anciáos e os
'solteiros infelizes'» (p. 181).

A propósito de tal problemática observam os autores:

«Os dados empíricos até agora nao nos autorizam quais-


quer conclusóes sólidas sobre os efeitos de semelhante com
portamento, sobretudo vistos a longo prazo. A doutrina católica
tradicional considera todos esses casos injustificáveis, contra
rios á natureza e á finalidade do matrimonio. Outros
reconhecem ao menos a possibilidade teórica de tais expedientes
apoiarem os principios do verdadeiro crescimento e total inte-
gragáo humana» (p. 182).

O que surpreende nesta passagem, é a falta de criterios


objetivos ou de principios para julgar os comportamentos
mencionados. A validade moral dos mesmos dependerá apenas
de «pesquisas empíricas» ou do depoimento subjetivo de pessoas
devotadas a tais práticas?

Procuraremos agora avaliar as premissas e as linhas dire-


trizes adotadas pelos autores da obra.

— 198 —
«A SEXUALIDADE HUMANA» 23

2. Ltrihas diretrizes: avaliagáo

Proporemos seis pontos a ser ponderados.

2.1. Sexualidade e genitalidade

Os autores da obra insistem muito em que o ser humane


é sexuado em toda a sua estrutura física e psíquica e em todos
os seus atos (p. 112). Por conseguinte «o movimento em dire-
gáo ao outro, sobretudo e específicamente para alguém do outro
sexo, ai está, implícito em sua existencia corporal». Por isto
torna-se inconcebível, numa personalidade bem formada, a
renuncia ao apetite sensivel de prazer venéreo, ou, com outras
palavras, é normal a procura do prazer venéreo independente-
mente do matrimonio; cf. pp. 129s.

É neste raciocinio que se acha o cerne da argumentagáo


dos autores em pauta. Ora tal arrazoado implica a eonfusáo
de sexualidade e genitalidade. A primeira é a masculinidade
ou feminilidade que realmente caracteriza todo ser humano em
cada urna de suas células sem excegáo; todas as notas típicas
da pessoa sao ssxuadas ou próprias do respectivo sexo: cábelo,
voz, máos, modo de andar... Quanto á genitalidade, é o uso
dos órgáos sexuais característicos da masculinidade e da femi
nilidade. Ora pode-se, e deve-se, dizer que, assim como nao há
pessoa assexuada, nao há expressáo de quem quer que seja, que
nao se ache marcada pela masculinidade ou a feminilidade; é
impossível, pois, conceber o comportamento ou um ato assexuado
da parte de um ser humano. Isto, porém, nao quer dizer que
em toda pessoa se deva manifestar sempre a genitalidade ou
o apetite erótico ou a tendencia ao prazer venéreo; é possível
que alguém viva plenamente a sua sexualidade sem exercer a
genitalidade. Por conseguinte, as pessoas solteiras nao estáo
obrigadas, por presumida exigencia da sua personalidade, a
praticar atos de genitalidade. Pode e deve haver repressáo,
sublimagáo ou transferencia dos impulsos da genitalidade desde
que esta nao encontré as condigóes éticas e jurídicas adequadas
(o casamento) para se exercer dignamente.

De resto, sabe-se que os impulsos sexuais sao muitas vezes


comandados (direta ou indiretamente) pelo psiquismo do sujeito
(fantasía ou imaginagáo, conceitos e preconceitos...); em
conseqüéncia, se alguém julga que, para se realizar plenamente,
nao pode deixar de exercer a sua genitalidade, sentirá impulsos

— 199 —
24 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

sexuais veementes, que o sujeito difícilmente conseguirá do


minar. Se, porém, a mesma pessoa se convencer de que pode
ser personalidade masculina ou feminina plenamente realizada
sem o exercício da genitalidade, experimentará menos impulsos
eróticos e conseguirá viver dignamente a sua castidade.
Muito a propósito lé-se na Declaragáo da S. Congregacáo
para a Doutrina da Fé sobre o livro em pauta:
"Nao é no ámbito da sexualidade genérica que se vem inserir o pro
blema moral da castidade. Insere-se sobretudo no campo mais especifico
do ser e do comportamento sexual que é chamado sexualidade genital.
Esta, embora compreendlda no ámbito genérico da sexualidade, tem as
suas regras próprias, correspondentes a urna estrutura e a urna finalidade
própria e nao coincidem, sem mais, com as da sexualidade genérica. Por
conseguirle, quando em 'A Sexualidade Humana' se cita o primeiro pará
grafo de 'Persona Humana', como já foi notado, esquece-se o que segué
na doutrina deste documento sobre a sexualidade humana, de modo espe
cial o n<? 5, que afirma claramente: 'O uso da fungSo sexual tem o seu
verdadeiro sentido e a sua retidao moral so no matrimonio legitimo'"
(ver Apéndice a este artigo, p. 210 deste fascículo).

2.2. Criterios para julgar a «noralidade da vida sexual

A doutrina clássica ensina quanto segué:

A vida sexual é urna funcáo da pessoa humana que está


associada a órgáos próprios, dotados de suas finalidades e de
suas leis naturais. O prazer venéreo que decorre do uso dos
órgáos sexuais, nao é urna finalidade ou urna especie de passa-
-tempo agradável que se justifique por si mesmo ou a título de
recreagáo para o homem1. Esse prazer é um anexo..., anexo
á ordem natural das coisas, que tem em mira a prole ou a
fecundidade; esse prazer só pode existir legítimamente ou só
pode ser desfrutado se o individuo exercita urna fungáo que
tem sua finalidade própria ou a fecundidade. Isolar o prazer
a fim de o desfrutar significa inverter a ordem da natureza por
motivos hedonistas; significa violar a natureza — o que nao
se faz sem detrimento, físico ou moral, para quem a viola.
— Por conseguirte, o uso da genitalidade ou a fruicáo do pra-
venéreo é regido pelas leis da natureza (que exigem a estabili-
dade do matrimonio), e nao pode ser provocado somente em
vista do próprio prazer.

iA p. 81 lé-se:
"Pode ser o sexo mero dlvertlmento ou ensejo de gratifica$3o sensual?
Parece haver consenso de que o sexo pode ser usado como divertimento
num contexto de respeito mutuo e atencáo".

— 200 —
«A SEXUALIDADE HUMANA» 25

Ora os autores do livro rejeitam tal criterio objetivo para


avaliar o uso da genitalidade e propóem outros, que sao de
índole acentuadamente subjetiva, a saber:

1) «o bem-estar da pessoa total»; cf. pp. 146-147, 154,


157, 168. «A avaliagáo moral da contracepgáo e da esterili-
zacáo há de ser vista á luz do bem-estar geral da pessoa»
(p. 154).

Pergunta-se agora: E como definir «o bem-estar geral da


pessoa»? Trata-se de bem-estar físico, sensível? Nao há tam-
bém um bem-estar derivado do cultivo de valores espirituais,
que exige, nao raro, a renuncia a valores físicos e sensíveis? Os
cristáos julgam que o bem-estar decorre, antes do mais, dos
valores espirituais do individuo, especialmente da consagragáo,
a Deus, do ser e da atividade de alguém, mesmo com exclusáo
dos prazeres venéreos.

2) A p. 87 aparece como criterio o «levar existencia de


veras humana».

Mais urna vez pergunta-se: que significa, no caso, o «de


veras humana»? Implica satisfaga© sensível como supremo
criterio? Quem respondesse afirmativamente, reduziria o
homem ao modelo pansexualista de Freud, que é unilateral e
deformador da personalidade humana, pois na verdade os
valores «deveras humanos» incluem o predominio do espirito
sobre a materia.

3) O criterio para avaliar os atos sexuais seria «a funcáo


criativa e integradora» dos mesmos, conforme pp. 94, 131,
180s, 185, 210...

De novo, a expressáo é genérica e plurivalente, deixando


margem a interpretagóes diversas e ao subjetivismo.

4) Os dados das ciencias empíricas (sociología, psicología,


etnología...) sao também, conforme os autores, criterios para
se perceber a evolugáo do comportamento sexual da humani-
dade e formar juízos de valor que possam estar em antagonismo
com os clássicos julgamentos moráis; cf. pp. 82-100.

As novas experiencias sexuais seráo tidas como válidas ou


nao válidas, do ponto de vista moral, em fungáo das conseqüén-
cias que tenham sobre a saúde e o bem-estar daqueles que as
praticam. Todavía, reconhecem os autores, as pesquisas empí-

— 201 —
26 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

ricas até hoje pouco elucidaram o sentido de certas práticas


sexuais. Apenas se pode dizer que «a pesquisa revela que
qualquer forma de comportamento sexual humano imaginável
é sancionada por esta ou por aquela cultura. Nao existe com
portamento universalmente proibido. Ao mesmo tempo, nao
existe urna cultura que riáo tenha algum tabú sexual» (p. 78).
5)1 A pesquisa do comportamento de irracionais também
é levada em consideragáo.

«Outra via de abordagem é observar o comportamento


sexual de animáis— A concepcáo de base é que animáis infFa-
-humanos... destituidos de liberdade... podem mostrar certos
absolutos naturais. O que se descobriu, foi que existem animáis,
em varias especies, que se entregara a comportamento sexual
nem sempre diretamente visando a reprodusio, mas apenas o
prazer. Entregam-se á autq-estimulaeáo, homossexualidade e
á cópula fora da especie» (p. 78).

Tais criterios de mqralidade ou de validade dos atos huma


nos supóem simplesmente que a verdade ou o bem estejam
sempre do lado mais numeroso entre os homens ou do lado dos
animáis irracionais. O modelo a seguir seria ou o comporta
mento da maioria dos homens ou o dos animáis irracionais.
— Ora é notorio que a verdade e o bem sao independentes do
número de seus adeptos; pode haver desmandos coletivos,
gregarios, alucinados... que, nem pelo fato de serem coletivos,
sao decisivos para o homem que reflete.

Aínda a respeito de estatísticas e amostragens, faz-se


mister observar que elas sao, muitas vezes, de valor dübio,
parcial ou quigá tendencioso. É preciso usar de grande cautela
para apoiar sobre elas alguma conclusáo.

6)- Os autores ainda enumeram sete predicados que devem


ornar a sexuajidade humana e a tornam legitima: a) auto-
libertadora; b) enriquecedora do óutro; c) honesta; d) fiel;
e) socialmente responsável; f) promotora da vida; g) alegre!
Como se vé, tais notas devem ornar nao somente o com
portamento sexual, mas, de modo ger-al, a conduta do ser
humano como tal; sao insuficientes para especificar o relaciona-
mento sexual propriamente dito, que deve ter suas caracterís
ticas peculiares, como todo ato humano tem as suas. A pro
pósito observe-se o que diz a Declaracáo da S. Congregacáo
para a Doutrina da Fé:

_ 202 —
«A SEXUAUDADE HUMANA» 27

"Os autores do Hvro tentam ... Imprimir um conteúdo mais concreto


ao criterio formal, 'cresclmento criativo para a integracáo', mas quase nada
deste desenvolvimento parece referir-se á atlvldade sexual genital. É ver-
dade que eles tém apenas em vista apresentar alguns 'valores significa
tivos', todavía os citados (por exemplo, 'sincera', 'alegre', 'socialmente res-
ponsável') poderlam otimamenle dar-se como postulado á maior parte das
atividades do homem.

Os autores pretendem que estes nSo se|am criterios puramente subje


tivos, embora na realldade o sejam: os juízos pessoais acerca destes fatores
sSo táo diferentes — determinados por sentimentos pessoais, emocoes; cos-
tumes, etc. — que serla quase Impossível descobrir criterios claros de tudo
o que pode exatamente contribuir para a Integracfio de cada pessoa e
para o seu cresclmento em qualquer atividade sexual especifica" (ver
Apéndice, p. 212).

Em síntese, lamentamos que os criterios assinalados pelos


autores nao déem a necessária énfase á objetividade das normas
moráis (os autores nao a recusam por completo; cf. p. 155),
mas se detenham demasiadamente no subjetivo e contingente,
ou seja, nos aspectos de bem-estar, integragáo, criatividade...,
que deixam margem aos mais contraditórios e esdrúxulos tipos
de comportamento.

2.3. Leí natural e liberdade

Os autores rejeitam o conceito de lei natural biológica


como norma para o comportamento humano e propóem em seu
lugar o uso da liberdade criativa.

A esta tese propomos as seguintes observagóes:

1) A rejeigáo da lei natural acarreta conseqüentemente


urna atitude fortemente subjetiva e quigá arbitraria na aferigio
dos valores moráis. Tudo pode tornar-se válido neste contexto
sob a alegagáo de que concorre para o «bem-estar total» do
sujeito.

2) A liberdade criativa nao é um fim, mas um meio


através do qual o ser humano se deve tornar mais e mais o
que ele já é embrionariamente por sua própria natureza. A

— 203 —
28 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

propósito pode-se aduzir a seguinte imagem: um abridor de


latas foi planejado pelo seu fabricante para a finalidade especí
fica de cortar metal resistente; urna lámina de barba, ao con
trario, é concebida pelo seu planejador em vista da finalidade
específica de se aplcar á barba. Se, porém, alguém, em nome
da sua liberdade criativa, quiser desrespeitar a natureza (e a
«lei natural») de cada um destes dois instrumentos, aplicando
a lámina ao metal resistente de urna lata e o abridor de lata
á pele do rosto, nao se beneficiará, mas, ao contrario,
testemunhará a sua incompreensáo e imaturidade; desfi-
gurar-se-á sem conseguir resultado algum. Assim a pessoa que
quiser usar a sua liberdade de maneira criativa, para fazer no
plano sexual o que lhe pareca desejável, sem levar em conta
a natureza e a estrutura própria das suas fungSes orgánicas
genitais, nao se tornará mais feliz, nem se realizará melhor,
mas, ao contrario, prejudicar-se-á grandemente. A liberdade
criativa, por conseguinte, foi dada ao homem para que possa,
de maneira consciente e espontánea, atender as leis ou exigen
cias da sua natureza — o que é penhor de grandeza e felici-
dade; a violagáo da natureza geralmente é nociva a quem a
comete.

2.4. O velho homem e a Cruz

O liyro em foco sugere, de ponta-a-ponta, o atendimento


aos apetites da carne:

"A sexualidade humana fluí livre e espontáneamente da profundeza


do ser da pessoa... Gera auto-seguranza, promovendo com isso o pleno
desenvolvimento das capacidades da pessoa para o cresclmento e a auto-
-expressSo. Há um legítimo auto-iríteresse e auto-reallzacáo que a expres-
sño sexual se destina ~a servir e satisfazer" (pp. 121s) *.
- ■-_ ~*
"A imnortancla do elemento erótico, Isto é, o desejo ¡nstlntual de pra-
zer e gratificacSo merece ser afirmada e encorajada. A expressSo sexual
humana existe para ser gozada sem sentimentos de culpa ou remorso.
Deveria refletir a apalxonada celebrado da vida, que ela despena" (p. 125).

Estes dizeres supóem um conceito de natureza humana


«rousseauniano», ou seja, otimista sem reservas. Nao levam
em consideragáo o fato de que a natureza humana, ontologica-
mente boa, se acha desordenada ou desregrada no plano dos

1Neste texto, "sexualidade" significa propiamente "genltalldade".


O que se afirma a respeito de sexualidade, nao se poderla afirmar tSo
irrestritamente no tocante á genitalidade.

— 204 —
«A SEXUALIDADE HUMANA»

seus apetites. Há instintos meramente emotivos, irracionais


e cegos, no homem, que contradizem as aspiragóes mais eleva
das da razáo e da fé, como notava o Apostólo (fazendo eco,
alias, a pensadores anteriores):

"Sou carnal, vendido como escravo ao pecado... Nao pratico o que


quero, mas fago o que detesto... Eu sel que o bem nSo mora em mlm,
Isto é, na mlnha carne. Pois o querer o bem está ao meu alcance, nao,
porém, o praticá-lo. Com efeito, nSo fa;o o bem que eu quero, mas
cometo o mal que nSo quero...

Quando quero fazer o bem, é o mal que se me apresenta. Eu me


comprazo na lei de Deus segundo o homem interior, mas percebo outra
lei em meus membros, que peleja contra a lei da minha razáo e que me
acorrenta á lei do pecado que existe em meus membros! Infeliz de mlm!"
(Rm 7,14-24).

A existencia da concupiscencia desregrada dentro do ser


humano levou, em todos os tempos, os mestres de espirituali-
dade crista a recomendar a ascese ou a disciplina e a mortifica-
Cáo dos instintos ou das paixóes desordenadas. Quem dá vasáo
a todos os seus impulsos carnais, tendo em vista o prazer ou o
«bem-estar», jamáis se tornará livre, mas será sempre escravo
ou joguete dos instintos. Freud, alias, concebía o homem como
impelido por instintos e devedor a estes, a tal ponto de nao
poder entender a mortificagáo ou renuncia; esta seria fator de
neurose, quando na verdade vem a ser passagem para a ver-
dadeira liberdade e plena realizaeáo da personalidade K

2.5. Neo pulverizar o comporlamento humano

Os autores muito insistem em que nao se deve considerar


isoladamente cada ato humano, mas colocá-lo sempre no con
texto da vida do individuo.

i Verdade é que os autores, á p. 132, mencionam "urna dose sau-


dável de ascetismo e autodisciplina" que "deve necessariamente acompa-
nhar o esforco de ser sensível e responder sexualmente".

Todavia esta referencia á ascese quase nio tem repercussao no con


junto do livro, que antes incita o leitor a dar largas ao apetite de prazer
sexual, qualquer que seja o seu estado de vida (solteiro voluntario ou invo
luntario, casado, viúvo, homossexual, narcisista, tendente ao travestismo,
vocacionado para o celibato...).

Cremos que os autores tiveram urna ¡ntuicao auténtica ao mencionar


a ascese no contexto citado, mas nao souberam ser coerentes com essa
Intuigáo, que desaparece no conjunto da tese.

— 205 —
30 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

Este principio é válido. Todavía nao deveria levar a crer


que nao há atos isolados destoantes da linha geral de comporta-
mentó de alguém. Com efeito, pode haver atos plenamente
conscientes e voluntarios que estejam em contradigáo com a
habitual conduta de vida de um cristáo. O ser humano é
fraco e, por isto, sujeito a incoeréncias. Verdade é que, quando
um desvio ocorre a título esporádico e momentáneo, pode ter
menos gravidade do que quando resulta de atitudes premi-
ditadamente más.

2.6. Uso dos documentos oficiáis da Igreja

Quem lé a obra em pauta, pode conceber a impressáo de


que faz eco genuino aos recentes documentos da Igreja rela
tivos ia sexualidade: Constituicáo Gaudium et Spes do Concilio
Vaticano II, encíclica Humana© Vita/e de Paulo VI, Declaracáo
Persona Humana da S. Congregacáo para a Doutrina da Fé.

Verifica-se, porém, que tais documentos sao utilizados de


maneira parcial apenas e filtrados por premissas que nao con-
dizem com as de tal documentagáo.

a) Tenha-se em vista, por exemplo, a citacáo da Decla-


ragáo Persona Humana ocorrente á p. 131, onde se lé:

"A vlrtude da castidade nSo se limita a evitar as faltas Indicadas;


ela tem ainda exigencias positivas e mais elevadas. É urna vlrtude que
marca toda a personalidade no seu comportamento, tanto interior como
exterior" (n<? 11 de Persona Humana).

Interpretando tal afirmagáo, os autores pouco adiante


afirmam:

"A castidade torna possivel o desenvolvimento intrapessoal e inter-


pessoal, convidando a urna resposta ativa ás possibilidades que a sexuali
dade humana oferece. A repressSo, supressio ou negacáo dessas possibi-
lidades sao um desvio da vlrtude asslm como também o é a capa insensata
do prazer sensual como objetivo último da vida" (p. 131).

Ora nesta frase «sexualidade» parece confundir-se com


«genitalidade», como sói acontecer no decorrer do livro. Con-
seqüentemente a castidade seria a virtude que levaría a usar
da genitalidade de maneira criativa e integradora. — Em res-
posta, afirmamos que isto é verdade entre cónjuges, notando-se,
porém, que «maneira criativa e integradora» nao significa
isengáo de normas objetivas ditadas pela lei natural. Todavía,

— 206 —
«A SEXUALIDADE HUMANA»

ao se tratar de pessoas solteiras, a castidade será a virtude que


levará á expansáo da sua masculinidade e feminilidade de
acordó com as normas da retidáo e honestidade sem chegar á
genitalidade.

b) A p. 107, o livro cita a Constituicáo Gaudium et Spes,


do Concilio do Vaticano II:

"Os estudos e as descobertas mais recentes das ciencias, da historia


e da filosofía despertam problemas novos, que acarretam conseqüéncias
também para a vida e exigem dos teólogos novas investigares" (n? 62).

De acordó com as observacóes assim formuladas, os autores


se voltam freqüentemente para os dados das ciencias empiricas
e para os efeitos do comportamento sexual sobre a saúde física,
mental e a vida da sociedade contemporánea; cf. pp. 180,
181, 184...

Ora julgamos ser muito importante levar em conta todos


estes dados, pois a Teología nao pode ignorar a realidade
humana nem os sinais dos tempos. Contudo sabemos que há
comportamentos de multidóes que podem ser aberrantes; a
teología moral nao é simplesmente a canoniaacáo da conduta
da maioria dos homens; o cristáo é algo como sal na térra e
fermento na massa (cf. Mt 5,13; 13,33) — o que quer dizer
que o cristáo pode e deve oportunamente ter um sabor de vida
diferente, que seja sinal de urna filosofía diversa ou da intuigáo
de um misterio transcendental. Se o cristáo nao for tal, para
nada servirá senáo para ser lancado fora e pisoteado pelos
homens. Daí a necessidade de coragem para nao trair os princi
pios do Evangelho frente a tipos de comportamento nao
evangélicos, sem, porém, mostrar agressividade ou hostilidade
aos que nao compartilham a moral evangélica.

Sao estas algumas ponderacóes que nos ocorrem após a


leitura atenta do livro em foco. Permita Deus seja lido por um
público madura e sadiamente crítico!

Observamos, de resto, que nos Estados Unidos mesmos apareceu


urna refutacao da obra em pauta aos cuidados de Wllllam E. May e
John F. Harvey, com o titulo On underetandlng "Human Sexuality". Fran-
ciscan Herald Press, Chicago 1977.

— 207 —
32 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

APÉNDICE

Vai, a seguir, transcrita a referida Declaragáo da S. Con-


gregacáo para a Doutrina da Fé, acompanhada de carta intro-
dutória dirigida ao Sr. Bispo Presidente da Conferencia Epis
copal Norte-Americana.

A Sua Ex.cia Rev.ma o Senhor Dom John R. QuSnn, Presidente


da Conferencia Episcopal Americana

CARTA DA SAGRADA CONGREGADO PARA A DOUTRINA


DAFÉ

Excelencia Reverendíssima

Ao livro «Human Sexualiry: New Directions in Ameritan Certholic


Thought» (A sexualidade humana: novas diretrizes no pensamento
católico americano) — estudo mandado fazer pela Catholic Theo-
logical Society of América e entregue <aos cuidados do Rev. P. An
thony Kosnik — foi dada grande publicidade, sendo difundido nao
só nos Estados Unidos mas também noutros países, quer na língua
inglesa, quer ñas varias tradugoes.

A Sagrada Congre.gacao para a Doutrina da Fé deseja louvar


a agao dos Bispos Americanos, que souberam exercer o seu minis
terio pastoral como auténticos mestrés da fé, chamando a atengao
dos seus sacerdotes e dos fiéis para os erros contidos no mencionado
livro, particularmente no que diz respeito á inaceitabilidade das «dire
trizes pastarais» como normas válidas para a forma gao da conscién-
cia crista em materia de moral sexual.

A CongregagSo deseja louvar especialmente a Comissáo Dou-


trinal da Conferencia Episcopal pela sua declaragao de novembro
de 1977, que dá urna apreciagao do livro capaz de poder servir aos
Bispos e a toda a Comuni-dade Católica, nao só nos Estados Unidos
mas onde quer que o livro se espalhou. As «Observagoes» desta
Congregacáo, aqui anexas, poderáo também ser úteis aos Bispos na
direcao prudente e continua do povo sobre esta delicada questdo
pastoral.

— 208 —
<tA SEXUALIDADE HUMANA» 33

Ao mesmo tempo nao pode esta Congregacao deixar de expri


mir que está preocupada por urna insigne associacao de teólogos
católicos ter organizado a publicacao deste relatório, de tal modo
que difunde largamente os principios e as conclusóes erróneas deste
livro, criando assim urna fonte de confusao entre o povo de Deus.

Fícaria grato a Vossa Excelencia Reyerendíssima se propusesse


esta carta á atengao dos membros da Conferencia Episcopal.

Com os mais cordiais respeitos, <apresento-lhe os melhores votos


pessoais.

Em Cristo

FRANJO Card. SEPER


Prefeito

Roma, 13 de ¡ulho de 1979

II

DECLARACAO

da Sagrada Congrégamelo para a Doutrírta día Fé


sobre o livro «A Sexualidad© Humana»
estudo confiado
pela «Catholic Theological Society «f América»
ao cuidado do Rev. P. Anthony Kosnik

O livro «A Sexualidade humana» já foi criticado na substancia


por teólogos, por numerosos Bispos americanos e pela Comissao
Doutrínal da Conferencia Episcopal Americana. Vé-se claramente que,
á luz de tais críticas, os autores do livro — que falam de animar
outros «a continuar conosco a busca de respostas mais adequadas e
catisfatórias ao misterio da sexualidade humana (p. XVIII) — deve
ra o reconsiderar rigorosamente as posicoes tomadas. Esta reconside
rando é mais que nunca necessária porque o assunto do livro («A Se
xualidade humana») e a tentativa de oferecer «algumas diretrizes
úteis a pastores de almas, a sacerdotes, a diretores espirituais e a
professores multas vezes perplexos e incerros» impoe aos autores
enorme responsabilidade guanto ás conclusóes erróneas e ao influxo
potencialmente dañoso que estas idéias podem ter na correta forma-
cao da consciéncia crista de muitas pessoas.

— 209 —
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

Considerando .que o livro e as suas opiníoes tiverana grande


difusao nos E:tados Unidos, noutros países de língua inglesa, e nou-
tros aínda devido as varios traducoes, esta Sagrada Congregacao
¡ulga dever seu intervir, chamando a atencao para os erros contidos
no livro e convidando os autores a corrigMos. Reduzimos as nossas
considerandos a alguns erros que parecem ser os mais fundamentáis
e entram no núcleo do problema, embora esta limitacao nao deva
levar a concluir-se que nao ha¡a neste livro outros erros de natureza
histórica, bíblica e teológica.

1) Erro muito freqüente no livro é a mampulacao do conceito


ou definicáo de «sexualidade humana», «O sexo é portanto a moda-
lídade particular com que os seres humanos notam e exprímem tanto
o serem incompletos .na sua individualidade quanto o estarem rela
cionados uns com os outros como machos e fémeas. . . Esta definí-
gao alarga o significado da sexualidade além da c-treita e única
concepcao genital ou procriativa, e esta é a perspectiva em que a
sexualidade é inserida ñas reflexoes que va o seguir-se» (p. 64).
Esta rcflexao refere-se áquilo que em modo genérico se pode cha
mar sexualidade; neste sentido, a sexualidade «é vista como forca
que abraca, influencia e condiciona qtialquer ato da pessoa, em qual-
quer momento da vida» Ip. 63). Sempre neste sentido genérico, cita
o livro a «Declaracao acerca dalgumas questoes de ética sexual»,
documento que reconhece esta basilar diferenciacáo humana, afir
mando: «Ao sexo, na verdade, vai a pessoa humana buscar as
características que, no plano biológico, psicológico e espiritual, a
fazem homem ou mulher, condicionando assím em grande medida o
caminho do seu desenvolvimento até á maturidade, e a sua insercáo
na sociedades (Persona Humana, 1).

Todavía, nao é no ámbito desta sexualidade genérica que se


vem inserir o problema moral da castidade. Insere-se sobretudo no
campo mais específico do ser e do comportamento sexual que é
chamado sexualidade genital. Esta, embora compreendida no ám
bito genérico da sexualidade, tem os suas regras próprias, corres
pondentes a urna estrutura e a urna finalidade própria e nao coin-
cidem, sem mais, com as da sexualidade genérica. Por conseguinte,
quando em «A Sexualidade humana» se cita o primeiro parágrafo
de «Persona Humana», como ¡ó foi notado, esquece-se o que segué
na doutrina deste doedmento sobre a sexualidade humana, de modo

— 210 —
<A SEXUALIDADE HUMANA* 35

especial o n* 5 que afirma claramente: «O uso da funcao sexual


tem o seu verdadeiro sentido e a sua retidáo moral só no matrimonio
legitimo».

É na mesma medida evidente que o Vaticano II, no n° 51 da


Gaudium et Spes, fala claramente da sexualidade genital e nao da
sexualidade genérica, ao afirmar: o caráter moral do comporta-
mentó sexual «nao depende apenas da sincera inténselo e da apre-
ciacao dos motivos, mas é determinado por criterios objetivos, que
se fundam na natureza mesma da pessoa humana e dos seus atos,
e se destinani a manter, num contexto de amor verdadeiro, o sen
tido completo da doacáo mutua e da procriacao humana; e tudo
isto nao será possível se nao for cultivada com sinceridade a vir-
tude da castidade conjugal». Enquanto a primeira parte desta cita-
gao é usada muitas vezes em «A sexualidade humana», a última é
ordinariamente omitida, omissao que se aplica também á frase
seguinte da Gaudium et Spes que diz: «Os filhos da Igreja, funda
dos nestes principios, ao regularem a procriacao, nao poderño seguir
caminhos que estao condenados pelo magisterio da Igreja, quando
este interpreta a lei divina». De fato, falando este livro exclusiva
mente de sexualidade genital, poe de parte as normas específicas
que dizcm respeito a esta e tenta resolver a questao com os crite
rios da sexualidade genérica (cfr., mais abaixo, o n* 2).

Além disso, no que diz respeito á doutrina do Vaticano II, faze-


mos notar outro conceito errado. O livro diz e rediz recusar o Con
cilio deliberadamente manter a jerarquía tradicional de fins primarios
e secundarios do matrimonio, abrindo a Igreja a urna compreensSo
nova e mais profunda do significado e dos valores do amor conjugal
(p. 7óss). Pelo contrario, respondendo á proposta, apresentada por
muitos Padres, de inserir-se no texto, n* 48, esta distincao jerárquica,
a Comissao encarregada dos Modos declara explícitamente: «Num
texto de caráter pastoral, que pretende estabelecer diálogo com o
mundo, nao se requeren! elementos jurídicos. . . Seja como for, a
importancia primordial da procriacao e da educacao aparece pelo
menos dez vezes no texto» (cfr. nn. 48 e 50).

2) Segundo o modo de considerar a sexualidade, tal como ele


é descrito em «A sexualidade humana», a formulando dos seus fins
sofre mudanca radical, se comparada com a formulacao clássica.
O fim tradicional da sexualidade, «procriativo e unitivo», explicado
coerentemente em todos os documentos do magisterio, compreendidos
o Vaticano II e a «Humanae Vitae», é substituido por um fim «cria-
tivo e integrativo», chamado também «crescimento criativo para a
¡ntegracao», que descreve urna finalidade ampia e vaga, aplicável a

— 211 —
36 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

qualquer sexualidade genérica e praticamente a todas as acoes huma


nas. Admitindo embora que a procriacao é urna eó, de todas as
formas possíveis, da criatividade, mas nao essencial á sexual'rdade
(cfr. p. 65ss), isto representa sempre mudanca gratuita de termos
agora aceitos, mudanca que nao é fundada em argumentos substan
ciáis e contradiz a formulacáo usada pelo Vaticano II e retomada
em «Persona Humana». Esta mudanca das finalidades, e por conse-
guinte dos criterios da monalidade, na sexualidade humana, modi
fica evidentemente todas as conclusoes tradicionais sobre o compor-
tamento sexual e, mudando a terminología comuin, fecha até a porta
a .possibilidade dum debate fecundo teológico.

3) Os autores do livro tentam, além disso, imprimir um con-


teúdo maís concreto ao criterio formal, «crescimento criativo para a
in te.gracao» (p. 71 ss), mas quase nada deste desenvolvimento parece
referir-se á atividade sexual genital, é verdade que eles tém apenas
em vista apresentar alguns «valores significativos» (cfr. p. 71}, toda
vía os citados (por exemplo «sincera», «alegre», «socialmente res-
ponsável») poderiam otimamente dar-se como postulado á maior
parte das atividades do homem.

Os autores pretendem que estes nao se¡am criterios puramente


subjetivos, embora na realidade o sejarm os juízos .pessoais acerca
destes fatores sao tfio diferentes — determinados por sentimentos
pessoais, emocoes, costumes, etc. — que seria quase impossível des-
cobrir criterios claros de tudo o que pode exatamente contribuir para
a ¡ntegracao de cada pessoa e para o seu crescimento em qualquer
atividade sexual específica.

Assim, no cap. 5°, os criterios para discernir qual é o crescimento


criativo para a integracáo, quando sao aplicados a áreas específicas
da atividade sexual, nao levam a regras práticas ou úteis para urna
seria formacáo da consciéncia em questoes sexuais. Mais, no livro
sao chamadas «linhas diretrizes» coisas que nao podem nunca ser
consideradas normas moráis absolutas e universais (p. 75).

4) As aplicacSes práticas propostas no cap. 5 mostram clara


mente as conseqüéncias destas teorías sobre a sexualidade humana.
Tais conclusoes ou se apartam do en si na mentó católico, assim como
é coerentemente proposto pelos teólogos moráis e ensinado pelo
magisterio da Ig.'eja, ou o contradizem diretamente. Por desgraca,
ficou tristemente por acabar, e até mesmo invertida, a ¡ntencao
expressa no prefacio: «O cap. 5. . . quer oferecer aos pastores ocupa
dos no ministerio algumas ¡nformacoes e diretrizes que os ajudem a
formar e dirigir a consciéncia dos fiéis nesta materia, segundo um
projeto de vida que se inspira em Jesús Cristo».

— 212 —
«A SEXUALIDADE HUMANA» 3?

Os autores quase sempre encontram escapatoria para permitir


o «crescimento para a ¡ntegracáo», descurando ou destruindo qxiai-
quer elemento intrínseco da moral sexual, especialmente o seu fim
procriartvo. Se depois chegam a desaprovar algumas formas de com
portamento sexual, é :ó por causa da suposta ausencia, expressa
geralmente sob forma de dúvida, duma «integracao humana» (como
no caso de «swinging» — relacoes sexuais promiscuas, troca das
esposas, bestialidade) e nao porque tais acoes se oponham á natu-
reza mesma da sexualidade humana. Quando chegam a considerar
algumas acoes completamente ¡moráis, nao é nunca por motivos
intrínsecos, baseados numa finalidade objetiva, rías só por autores
nao verem nenhum recurso para as levar a que sirvam á integracao
humana. Dependerem assim, argumentos teológicos e científicos, de
criterios «preciados na sua esséncia sobre a base da experiencia
¡mediata acerca do que é humano ou menos humano, dá azo a um
relativismo de comportamento humano que deixa de reconhecer qual-
quer valor que se¡a absoluto.

Com estes pressupostos, nao admiro que o livro pre:te táo pouca
atencao aos documentos do Magisterio da Igreja e muitas vezes
contradiga abertamente o seu claro ensinamento e as suas úfeis nor
mas moráis, no campo da sexualidade humana.

«PERMITIR-ME-AO AFIRMAR ISTO, APÓS TER VI


VIDO O CONCÍLIO E TER-ME ALEGRADO COM SEUS
FEITOS: CERTOS FENÓMENOS DA IGREJA ATUAL EXI-
GEM QUE EU CHAME A ATENQÁO DE TODOS PARA O
FATO DE QUE, COM O TEMPO, A VIDA CARISMÁTICA
PODE DESTRUIR A SI MESMA, A MENOS QUE OS DIREI-
TOS DIVINOS DO MAGISTERIO SEJAM SINCERAMENTE
RECONHECIDOS E LEALMENTE RESPEITADOS» (CAR-
DEAL HENRI DE LUBAC).

— 213 —
O finí do sistema tradicional:

Urna Nova Moral?


por J. Marcos Bach

£im sfntese: J. Marcos Bach propSe urna nova Moral baseada sobre
duas pilastras: 1) a llberdade da consciéncla Individual; 2) o consentlmento
de urna comunldade auténtica. Ora isto redunda em liberar todos os desejos
e veleidades do ser humano, que encontrará sempre em alguma corrente de
estudiosos a aprovacSo para os seus comportamentos mais subjetlvistas e
arbitrarlos. A proposta de Marcos Bach é secularista; a Igreja Católica
(da qual ele faz parte) é posta de lado por completo, e a vontade ou o
plano de Oeus, a Páscoa de Cristo, a Cruz redentora sao praticamente
Ignorados.

Verillca-se que o pensamento de Marcos Bach nao somente nao é


católico em sua linha central, mas está sujeito a contradic5es e incoe-
rénclas no tocante ao sentido de "natureza humana", "pecado", "con-
fissáo sacramental"...: como falar de pecado, como fala M. Bach, num
contexto que nao leva em conta a vontade ou o plano de Deus?

Por este e outros muitos motivos, o livro é obra que exprime um


pensamento liberal aínda inseguro, que se encamlnha para adaptar a Moral
ao individuo e nao o individuo á Moral.

Comentario: O Pe. J. Marcos Bach, durante vinte anos,


foi professor de Teología Moral e, desde 1959, professor de
Cultura Religiosa e Ética Profissional na Universidade do Vale
do Rio dos Sinos em Sao Leopoldo (RS). É autor de livros
sobre Ética Sexual e chega á formulacáo mais recente do seu
pensamento no livro «Urna Nova Moral? O fim do sistema
tradicional» 1. Como sugere o título, a obra é provocadora,
pondo em xeque nao somente a Moral católica e a doutrina da
Igreja, mas também outros sistemas de Moral, a fim de fazer
nova e radical proposta no setor da Ética.

Abaixo exporemos o conteúdo do livro em suas grandes


linhas, ao que se seguirá um comentario.

1 Ed. Vozes, Petrópolls, 140 x 210 mm, 173 pp.

— 214 —
UMA NOVA MORAL? 39

1. Urna nova Moral?

1. O autor critica a Moral católica porque apresenta ao


homem urna serie de normas, decorrentes, em grande parte, da
lei natural: «Nao mataras, Nao roubaras, Honrarás pai e
máe.. .>, lei natural que se acha impressa na própria índole
biológica ou fisiológica do homem (o que fundamenta os pre-
eeitos relativos a temperanga e á castidade).

Critica outrossim os sistemas de Moral nao católicos, como


o mugulmano, o marxiste..., visto que impóGm sempre ao
homem leis e preceitos, limitando ou sufocando a liberdade do
individuo.

Formuladas estas críticas, o autor desenvolve o seu pensa-


mento, que em suas grandes linhas pode ser apreendido pelo
estudioso, mas que nao deixa de apresentar pontos contraditó-
rios ou ambiguos, como se perceberá a seguir.

Eis urna primeira etapa do raciocinio de Bach:

«Parto da premissa de que todo e qualquer sistema ético é


urna construjáo humana. Para ser auténtico ('legítimo'), deve gra
vitar em torno do homem. Ora o homem nao é eterno, É um ser
histórico-cultural. Nao é, tampouco, um ser natural, feíto de ima-
néncia pura. Logo, a Moral (conjunto tecido de principios e leis
eternas) nao existe. Exisrem sistemas que va o de um extremo do
espectro cultural a outro. De cultura para cultura esta constélaselo
axiológiea muda de forma e substancia. A conclusao que se impoe
a quem reflete, é a de que nao há nem pode haver sistema moral
imutável e definitivo» (p. 11).

Na base destas ponderagóes, o autor propóe a seguinte


tese: Nao há necessidade de sistema moral ou de ditames e
proibigSes moráis para urna personalidade moralmente adulta.
«Bastam-lhe a voz da consciéncia e o apoio crítico de urna
comunidades (p. 159). Um sistema moral é necessário
táo somente para as pessoas moralmente subdesenvolvidas
(cf. p. 159). Por conseguinte, nao há necessidade de se elaborar
um novo sistema moral (cf. p. 160).

— 215 —
40 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

As duas pilastras da «nova Ética» * seráo: 1) a liberdade


do individuo, que pode ser identificada com a voz da cons-
ciéncia isenta de leis e injungóes; 2) o consentimento de urna
comunidade auténtica. É o que se depreende dos seguintes
dizeres:

«Urna ética crista só possui 'legitímidade' se for estruturada em


torno de dois polos básicos:

— A liberdade dos filhos de Dcus.

— A Comunidade Eclesial, como 'sacramentum salutis1.

Urna ética assim concebida certamente bem pouca semelhanca


ferio com a atual» (p. 167).

«A existencia humana, isto é, as situacóes concretas em que a


liberdade do homem é posta diante do desafio, muito mais que aca
demias e departamentos, representa o grande laboratorio moral da
humanidade. Querer determinar a validade de urna determinada
opcáo humana a partir de um acervo doutrinário, seja ele qual for,
é a mesma coisa que dirigir e detinir a viaa humana a partir de
Marte e Júpiter. O cristao deveria ser o último a cair na tentacáo
de submeter a pujanca pletórica da vida á árida rigidez da leí...
Em outras palavras: á experiencia cabe realmente a última palavra
em materia de moral. Nao á experiencia particular, mas á expe
riencia coletiva de um conjunto comunitario» (pp. 50s).

2. Repetidamente o autor se insurge contra pretensas


instancias superiores á liberdade do homem; nao reconhece a
autoridade da Igreja nem a lei natural. A aceitagáo desta é
tida como fisicismo e resquicio de panteísmo (cf. p. 37). A
própria comunidade eclesial, considerada como sacramentum
salutis, exclui a hierarquia da Igreja e seu magisterio, contra
os quais Marcos Bach manifesta animosidade veemente
(cf. pp. 44, 46s, 51, 64, 69s, 169...); chega mesmo a dizer que

i O autor diz ás pp. 159s que nSo há necessidade de novo sistema


moral (pols este só servirla a pessoas moralmente subdesenvolvidas). Ape-
sar disto, tala, logo a seguir, de "nova Ética" (p. 161) e de "Ética crista
diferente da atual" (p. 167).

— 216 —
UMA NOVA MORAL? 41

a nova moral é «anticlerical e antieclesiástica» (p. 158) 1. De


resto, o próprio Deus parece afastado do horizonte da nova
Moral: «Querem que o homem trace a trajetória do seu destino,
e nao Deus» (p. 158). Ou ainda: «Nao se pode elaborar um
sistema moral tomando como ponto de partida a vontade de
Deus» (p. 24). Estas afirmagóes, entendidas a rigor, equiva-
leriam a propor um comportamento ético secularista, baseado
únicamente ñas intuigóes e aspiragóes subjetivas das pessoas
interessadas.

Pode-se dizer que o subjetivismo predomina nesta nova


perspectiva moral; cada individuo torna-se para si arbitro do
bem e do mal. A comunidade ou coletividade, mencionada
como elemento construtivo de moralidade, vem a ser, no caso,
urna instancia cujo papel se torna vago e flexivel; o que deter
minada comunidade aceita, outra nao aceitará, e vice-versa...
Atualmente há grupos sociais que, baseados em pesquisas
científicas.julgam poder legitimar as mais variadas formas de
comportamento sexual, regidas únicamente pelo prazer ou pela
auto-realizagáo subjetiva dos interessados. Cf. o livro «A
Sexualidade Humana», por varios autores, analisado as
pp. 193-213 deste fascículo.

3. Parece-nos, porém, haver urna incoeréncia de termi


nología quando o autor se refere ao conceito de leí natural. M.
Bach rejeita constantemente a lei natural, chegando a dizer
por causa disto:

«Só existe urna única realidade e urna única ordem: a sobre


natural crista (crística). Enfocar urna questao moral hoje com argu
mentos inspirados nos determinismos da natureza é o mesmo que
negar a ordem instaurada por Cristo» (p. 167).

iA p. 12 o autor rejeita as ¡njuncdes do magisterio da Igreja e Ihes


opSe as novelas da tetevisáo como fator que produz a nova Moral:

"Quem sao os donos da Moral? Os eclesiásticos e censores ofi


ciáis supoem que estio em condicSes de dar á sociedade o tom moral
prevalente. Na realidade, esta é urna funcSo que passou para o dominio
dos melos de comunicacáo de massa. Quem faz a Moral em vigor, nao é
o Papa. Pois o Papa nao é personagem de novela. A moral que termina
por se Impor, é de procedencia novelesca" (p. 12).

Pergunta-se: como entender estas observacdes de M. Bach? Seriam


brincadeira irónica ou hSo de ser tidas como formulacSo do pensamento do
autor? Os meios de comunlcacSo de massa, com suas novelas, seriam a
expressáo da coletividade que é legitimo fator de Moral, segundo M. Bach?

— 217 —
42 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

Este texto é estranho, porque a ordem sobrenatural ins


taurada por Cristo é a da cruz (escándalo e loucura, segundo
ICor 1,23), á qual se segué a ressurreigáo. Tal ordem ensina
que é preciso crucificar a carne com seus vicios para poder
configurar-se a Cristo ressuscitado, como nova criatura
(cf. Gl 5,24; Ef 4,22-24). Tal ordem está também associada
ao sacramentum salutis, que é a Igreja, com sua hierarquia e
seu magisterio. Ora M. Bach parece contradizer a toda essa
perspectiva através do seu livro, que propóe a liberdade do
homem como indiscutivel criterio de moralidade, isenta de
qualquer lei ou injungáo.

De resto, a palavra «sobrenatural» neste contexto torna-se


ambigua. Com efeito, o autor observa:

«Na mente de cristáos e ateus a natureza possui um conjunto


de leis a que o homem nao se pode furtar. . . porque possuem poder
e autoridade sobre a sua vontade livre... Nao é lícito ao homem
cortar o cordao umbilical que o impede de assumir plenamente a
sua autonomía moral? Nada há de estranho na atitude de um ateu
que continua prestando á natureza um tipo de vassalagem a que
ela nao tem mais direito. .. Nao seria mais ¡nteressante convidar o
ateu a pensar no mesmo plano sobrenatural em que o cristao pensa,
quando pensa (e nao repele apenas o ensinamento de antecessores
evenfuais}?» (p. 63).

Como se vé, neste contexto o vocábulo «sobrenatural»


prescinde da fé, pois pode ser professado também por um
ateu — o que gGra ambigüidade no uso da palavra feito por
M. Bach.

Ainda a respeito de natureza registra-se urna ambigüidade


no livro de J. Marcos Bach. O conceito parece polivalente ou
confuso, se se considerar o seguinte texto:

«Devemos deixar de lado a nalureza como fonte fornecedora


de normas moráis. Quando muito, pode servir de fonte de inspira-
cao, isso sim. A natureza do homem (espiritual por esséncia e sobre
natural por vontade do Deus Salvador) é a única fonte da moral»
íp. 19).

Pergunta-se: afinal a natureza é ou nao é fonte de normas


moráis? Vejam-se a primeira e a última frases do texto citado.
Além disto, note-se: a natureza do homem nao é essendalmente
espiritual (o hom^m nao é anjo), mas é essencialmente psicos-
somática. E — mais ainda — indagamos: que significa «natu
reza sobrenatural»?

— 218 —
UMA NOVA MORAL? 43

Poderíamos perguntar ainda se se trata apenas de ter


minología incoerente ou se nao há contradicáo e inseguranga
no próprio modo de pensar. Diversas correntes de pensamento
(entre as quais a teología católica) se cruzam na mente de
Marcos Bach.

4. A partir das premissas estabelecidas pelo autor, a


nova Moral nada terá de mortificante para o velho homem
(cf. Ef 4,22) ou de combate direto ao pecado. Com efeito,
segundo Bach, «o bem é conatural ao homem <e o mal é produto
de urna infiltragáo posterior» (p. 163). Em conseqüéncia, basta
ao homem procurar amar e praticar o bem: com isto estará
«combatendo o pecado com eficiencia. A nova moral é a moral
do amor; ora o' amor nao pode ser moralizado ou sujeito a
normas; ele é absolutamente livre; ele é o criterio supremo da
avaliacáo moral» (p. 62). O autor se compraz em citar
S. Agostinho: «Ama e faze o que quiseres» (p. 61). «Tudo o
que o amor dita, é sempre bom. Ser bom é, pois, deixar-se
conduzir pelo amor» (p. 61). — Ora tal proposigáo é ambigua.
A palavra «amor» é suscetível de diversas acepcóes: o amor
pode ser possessivo e egoísta; pode também ser sensual, erótico,
interessado em satisfazer aos apetites sexuais, como também
pode ser oblativo e benevolente, procurando «construir o outro,
em vez de desfrutar do outro construido». Ora nao se pode
dizer que qualquer ato inspirado pelo amor é moralmente bom.
O amor que nao conhece sacrificio, renuncia a instintos egoístas
ou mesmo bestiais, embora traga o título de amor, nao c amor.
Daí a bivalencia do discurso de M. Bach.

5. No tocante 'á Ética sexual, o autor nao se estende


longamente, pois remete o leitor a dois livros de sua autoría
já publicados (cf. p. 161). Todavía nao deixa de formular
proposicáo estranha, a saber;
«Somente grupos comunitarios sexualmente heterogéneos (bis-
sexuais) em sua composicáo estao em condicoes de propiciar um
desenvolvimento normal e pleno da sexualidade.. . Em grupos de
composícSo homogénea a tendencia a formas patológicas de rela-
cionamento fácilmente prevalece sobre o desenvolvimento sadío e
positivo» (p. 160).

Nestas linnas transparece exagerada tendencia a promover


o intercambio dos sexos — o que pode degenerar em atitudes
mórbidas e destruidoras da personalidade. Urna comunidade
homogénea de pessoas celibatárias pode favorecer o desenvolvi
mento de personalidades generosas e equilibradas, como com-
prova a experiencia.

— 219 —
44 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

6. Quem lé a p. 142 do livro em foco, tem a impressáo


de que nao há culpa moral, mas apenas «deterninismos bio-
genéticos» (teoría de Lombroso) e doengas mentáis (teoría de
Hesnard); por conseguínte, nao há que combater o pecado, mas
«a única coisa inteligente a ser feita é aprender a conviver com
o pecado, submetendo as 'vitimas' do complexo moral a um
tratamento psicoterapéutico adequado. A psicanálise substituí
a moral» (p. 142). — Nao obstante, M. Bach fala da confissáo
sacramental e do relacionamento «confessor-penitente» como
de algo que merece respeito. Chega a dizer: «O confessor faz
justiga, absolvendo» (p. 140; cf. p. 41).

Em grandes linhas, tal é a tese do livro de M. Bach: em


alguns de seus. tópicos pode nao estar devidamente clara a
explicítada, mas entende-se que o autor propóe, para o futuro,
um comportamento moral que dependa exclusivamente da liber-
dade de consciéncia do sujeito e do consentimento de urna
comunidade auténtica — dois fatores assaz subjetivos e maleá-
veis de modo a justificarem qualquer tipo de comportamento.

O autor se detém ainda com impropriedade sobre pontos


que no contexto ocupam lugar lateral, como confissáo sacra
mental, inferno, «dualismo» de natureza e graga,... de corpo
e alma... Além disto, reGorre freqüentemente a estilo sarcás-
tico ou caricatural — o que contribui para impressionar (sem
fundamento) o respectivo leitor. Seria para désejar que M.
Bach escrevesse em estilo menos passional, mais concatenado
e coerente — o que daria cunho mais científico ao seu livre.
As justificativas para a agressividade do autor sao muito
pessoais e pouco convincentes (cf. p. 12).

Passemos agora a urna reflexáo sobre o conteúdo da obra.

2. Refletindo. . .

O livro nao pode deixar de sugerir algumas observagóes


capitais.

2.1. Subjetivismo e relativismo

Em última instancia, o autor reduz os criterios da morali-


dade aos désejos dos interessados: o que eu désejar fazer, será
moralmente bom; o que nao quiser fazer, nao será moralmente
bom. O individuo nunca se verá constrangidó a fazer o que nao

— 220 —
UMA NOVA MORAL? 45

queira (abster-se desta ou daquela atitude ou prática) e, para


fazer o que queira, encontrará sempre o respaldo de algum
grupo humano, pois nao há comportamento ético (ou aético)
que nao encontré hoje em dia apoio em alguma escola socio
lógica, psicanalítica, etnológica...

A posigáo do autor é assim urna réplica a exagerado obje


tivismo ou universalismo das leis moráis, que nao levavam em
conta a situacáo do sujeito. O existencialismo ético contribuiu
para dissipar o caráter muito impessoal de certos sistemas de
moral antigos, mas acarretou o perigo do excesso oposto, ao
qual sucumbe o livro em foco. A tentagáo de ser arbitro
entre o bem e o mal é precisamente a que acometeu os pri-
meiros pais, aos quais o tentador sugeriu: «Deus sabe que, no
dia em que comerdes (da fruta proibida), os olhos se vos
abriráo e seréis como Deus, arbitros entre o bem e o mal»
(Gn 3,4).

Na verdade, o ser humano nao é o arbitro absoluto do


bem e do mal moráis, mas ele aprende a definir tais categorías
em instancias superiores, ou seja, ñas leis do Criador impressas
na natureza humana e transmitidas pelos legítimos intermedia
rios K Sim; feito para o Absoluto2, é no Absoluto, e nao em
si, que o homem encontra os criterios para definir o bem e o
mal. Inegavelmente a consciéncia há de ser respeitada,
mas... a consciéncia bem formada ou aquela que colhe ñas
devidas fontes as normas para o reto comportamento. Á cons
ciéncia moral toca aplicar as leis universais a cada caso
concreto, averiguando com sinceridade até que ponto o sujeito,
em sua situacáo pessoal, é enquadrado pela norma geral. A
consciéncia moral está longe de ser o divisor absoluto entre
o bem e o mal.
Nao há dúvida, a mentalidade existencialista yem pene
trando cada vez mais o pensamento ocidental, relativizando a
verdade e o bem e favorecendo o laxismo dos costumes. A
propósito o magisterio da Igreja se pronunciou contrariamente
em sucessivas instancias, das quais urna das mais explícitas é a
seguinte:

1 A hierarquia da Igreja, na medida em que ensina proposites de


fé e de Moral, tem para o crlstáo autoridade garantida pela assisténcia
infaltvel do próprio Cristo (cf. Mt 28,18-20). O mesmo se diga do Romano
Pontífice, quando define artigos de fé e de Moral; cf. Mt 16,16-20.
2 "Tu nos fizaste para Ti, Senhor, e inquieto é o nosso coracSo
enquanto nao repousa em TI" (S. Agostinho, ConflssSes 11).

— 221 —
46 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

"Instrucáo dirigida a todos os Ordinarios, aos professores


de Seminarios, de Casas de Estados para Religiosos, de Cole
gios e Universidades, sobre a Moral da situacáo.

Contrariamente ás poslcSes tradiclonafs da Igreja em materia de


ensino e de prátlca da Moral, comecou a se propagar em numerosas
reglóos, e mesmo entre os católicos, um sistema de Moral que geratmente
se designa sob o nome de Moral da sltuacáo, e que se diz independente
dos principios da Moral objetiva (a qual, em última análise, se funda no
ser); tal sistema pretende ser nSo so equivalente, mas até superior á
Moral objetiva.

Julgam os protagonistas desse sistema que a norma última e deci


siva do agir nSo consiste numa ordem objetiva de valores, determinada pela
lei natural e conhectda com certeza por meló déla, mas numa luz e num
jufzo Internos do espirito de cada Individuo, pelos quals este percebe o
que deve fazer na sltuagSo concreta. A decisSo final da conscíéncia
humana nSo consiste, <pols, conforme eles, na aplicagSo de urna lei uni
versal a um caso particular, considerando-se e ponderando-se segundo as
regras da prudencia, as circunstancias determinantes da sltuacáo — como
ensina tradicionalmente a Moral objetiva, transmitida pelos grandes auto
res — e, sim, na luz e no Julzo internos espontáneos ácima mencionados.
A validada e a exatldSo objetivas de tal julzo nSo seráo, ao menos em
numerosos casos, normadas em última instancia por alguma norma obje
tiva que valha independentemente da aprecla?ao subjetiva do homem. Alias,
nem sequer deverá nem poderá ser normada por semelhante norma: basta
plenamente o juizo subjetivo.

Segundo os mesmos autores, a nogáo tradicional de lei natural já


nao satisfaz mais. Deve-se fazer apelo á nocSo de natureza, que geral-
mente nao representa um valor absoluto e objetivo, mas apenas relativo e,
conseqüentemente, mutável, com excefáo talvez de uns poucos dados posi
tivos e principios que dizem respeito á natureza humana metafísica (isto é,
absoluta e imutável). O concelto tradicional de le! natural encontra-se, de
fato, no nivel desse valor apenas relativo. Muitos elementos daquilo que
agora é considerado como postulados absolutos da lei natural baseiam-se
— sempre conforme a opiniéo e doutrina desses mesmos autores — tSo
somente no conceito de natureza existente; possuem, por consegulnte, ape
nas valor relativo e mutável e devem ser adaptados, cada vez de novo, ás
s¡tuac6es modificadas.

Urna vez admitidos e aplicados tais principios, os mencionados auto


res dlzem e ensinam que, se cada pessoa julgar em sua consciéncla o
que há de fazer na situacáo presente, nao segundo leis objetivas, mas de
acordó com a luz de ordem Intima e individual que provém de urna lntuic§o
pessoal, nos nos preservaremos ou libertaremos com facilldade de nume
rosos conflitos moráis, insolúvels por outra via.

Muitas das proposites sustentadas pelo sistema da Moral da situa


cáo seo contrarias á verdade e ao juizo da sá razSo: constltuem resquicios
do modernismo e do relativismo, e multo se afastam da doutrina católica
ensinada através dos séculos. Estfio próximas, em numerosos aspectos, a
diversos sistemas na"o católicos de Moral.

— 222 —
UMA NOVA MORAL? 47

Tendo ponderado Islo tudo, a fim de remover o perigo dessa nova


Moral, do qual falou o Sumo Pontífice o Papa Pió XII em suas alocucñes
de 23 de marco e 18 de abril de 1952, e a fim de conservar a pureza e a
seguranca do magisterio católico, esta Suprema e Sagrada Congregacáo
do S. Oficio proibe que se ensine e aprove a doutrina da Ética da situacáo,
sob qualquer nome que seja, ñas Universidades, nos Colegios, nos Semi
narios e ñas Casas de formacSo dos Religiosos; também veda que se
propague e defenda essa doutrina em livros, dissertacOes, cursos ou con
ferencias, ou de qualquer outro modo.

Dado em Roma, na sede da S. Congregacfio do S. Oficio, aos 2 de


fevereiro de 1956.

J. Card. Ptzzardo
Bispo de Albano, Secretario".

Pode-se dizer sem hesitagáo que o teor deste documento


corresponde á mente da Igreja ainda nos nossos dias.

A respeito da lei natural manifestou-se o Papa Paulo VI


em alocugáo datada de 18/03/70:

"É claro que a lei relativa ao modo de agir, a lei moral, deriva do
ser humano, pois é dele que depende o dever ser. Mas quem é o homem?
Quem é o crlstSo? É preciso ter urna nocáo, pelo menos instintiva e
intuitiva, da natureza do homem para compreender qual deve ser o seu
modo de agir...

Fazemos apenas algumas perguntas: existe realmente urna lei natu


ral? Esta pergunta parece ser ingenua, porque se prevé fácilmente urna
resposta exata. Mas, se pensarmos em tantas objegSes que hoje se fazem
em relacSo á existencia de urna leí natural, nao é ingenua. Em parte
compreende-se por qué. Quando se confunde e se altera a verdadeira
concepcáo do homem, confunde-se e altera-se também a concepcáo da
sua vida, do seu modo de agir e da sua moralidade.

Mas nos, que julgamos poder responder, por meio da reflexáo ilumi
nada — se quiserdes — pela luz da sabedoria crista, a antiga máxima
'conhece-te a ti mesmo', o sentido imánente da consciéncia e, principal
mente, o lume da razio dizem-nos que estamos sujeitos a urna lei — simul
táneamente direlto e dever — que nasce do nosso ser, da nossa natu
reza, a urna lei nao escrita, mas vivida — 'non scripta, sed nata lex'
(Cicero) —, lei que SSo Paulo reconhece também nos pagaos, fora da
luz da Revelacao divina, quando diz que eles sSo a lei de si mesmos:
'ipsi sibi sunt lex' (Rom 2,14)...

Ainda somos sensíveis ao clássico e tremendo confuto da tragedia


grega, que se reflete no coracáo frágil, mas tSo humano, de Antígone,
quando esta se insurge contra o poder infquo e tirano de Cleonte. Hoje
mals do que nunca, somos fautores da personalidade e da dignidade
humana. E por qué? Porque conhecemos no homem um ser que reclama
um 'dever-ser1, em virtude de um principio exigente a que chamamos lei
natural" (SEDOC, n? 11, maio 1970, cois. 1320s).

— 223 —
48 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

2.2. Secuknfcmo

A proposta moral de Marcos Bach faz freqüentemente


questáo de dizer que Deus nao é fator de moralidade — o que
lhe confere um cunho secular ou meramente leigo (alheio a
Deus). Esta nota — que, alias, caracteriza outros sistemas
de Moral contemporáneos (cf. pp. 193-213 deste fascículo) —
aparece, por exemplo, nos seguintes tópicos:

"Nao se pode elaborar um sistema moral tomando como ponto de


partida a vontade de Deus, porque o conheclmento desta vontade dispen
sarla a criacSo de um sistema moral" (p. 24).

"A conversSo moral é um processo que nio deverla ser confundido


com a conversüo religiosa. Retornar á sua própria casa é urna colsa e
voltar á casa do Pal é outra, bem diferente. A confusáo entre o plano
moral e o religioso so serve para prejudicar a ambos. SSo duas realidades
autónomas e representan! a resposta a duas dimensóes distintas do homem"
(p. 25).

A Moral significa, conforme o autor, «a auto-realizacáo do


homem» (cf. p. 25) sem implicar em conformagáo a um modelo
divino, arquetipo ao qual o homem terá sido chamado a con-
figurar-se'.

Por conseguinte, a quanto parece, a nova Moral será sem


Deus ou Moral leiga.

Todavia M. Bach parece ter hesitado neste ponto, pois


tímidamente menciona Deus como referencial da moralidade.
É o que ocorre á p. 25:

"Nosso ponto de partida é a natureza do homem, mas em sua globa-


Ildade. Vista, portanto:

— como ser transcendente, voltado para atém de si próprio;

— como ser religioso, voltado com todas as fibras do seu ser para
um centro" (cf. também p. 129).

U Revelacáo judeo-crista motiva freqüentemente a vida moral do


homem apontando-lhe o modelo divino ou mesmo a comunhSo de vida com
o próprio Deus. Cf. Lv 11,44 e Mt 5,44-48, textos em que o homem é con
vidado a ser santo ou perfelto porque Deus é santo e perfeito. Veja-se
também a analogía da vldelra e dos ramos em Jo 15,1-8.

— 224 —
UMA NOVA MORAL? 49

Seria oportuno que o autor explicasse melhor o sentido e


a fungió desse centro, e dissipasse a contradicáo que estas pro-
posigóes implicam em relagáo 'as dos textos anteriormente ci
tados e transcritos do mesmo capítulo do livro em foco.

A guisa de comentario á tese de urna Moral leiga ou sem


Deus, poder-se-ia lembrar a frase de Dostoievskjy, subscrita
por Jean-Paul Sartre: «Se Deus nao existe, tudo é permitido»
(«L'existencialisme est-il un humanisme?»).

Muito significativos sao também os testemunhos de autores


ateus referentes á falencia da Moral atéia, que o Pe. Paul-
-Eugéne Charbonneau colecionou e publicou no seu livro: «O
homem á procura de Deus», pp. 189, 191, 193, 243
(cf. PR 263/1982, pp. 321-329).

2.3. Orimisno natural e pecado

É difícil perceber-se o que o autor pensa em relagáo a


natureza humana e ao pecado original de que falam as Escri
turas. Em certas passágens, parece fazer eco ao otimismo
filosófico de Jean-Jacques Rousseau, como, por exemplo, neste
trecho:

"Se admitimos como verdade de base que o homem nasce bom, ó bom,
e taivez acabaría sendo bem melhor do que é, nao fosse a Moral, tudo
passa a ser diferente" (p. 9).

Todavía á p. 66 diz o autor:

"O pecado está contido na agáo humana, nao apenas como tentagáo
externa (diabólica), mas como elemento constitutivo. £ ao menos licito
pensar assim se a teoría do pecado original corresponde á verdade".

Nesta segáo o autor já menciona o pecado original, mas


como teoría e numa frase condicional.

Como quer que seja, Marcos Bach admite que todos os


atos humanos sao contaminados pelo mal:
"O ato moral 'químicamente' puro é antes um devanelo do que um
objetivo serio" (p. 66).
"O pecado é o único ato de proprledade exclusiva do homem...
A única coísa que pode fazer sozinho, sem ajuda de nlnguém, é o pecado...
Através dele o homem toma consciéncla de sua Identidade própria" (p. 143).
"Quando encontramos urna pessoa realmente boa, estamos diante de
urna excecao. A coisa mais improvável é encontrar esta 'maravilha
humana'" (p. 36).

— 225 —
50 ¿PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

Perguntamo-nos:

a) Afinal de contas existe ou nao o pecado original, ou


seja, urna recusa ou um Nao dito pelos primeiros homens a
Deus na origem da historia da salvagáo? — A doutrina cató
lica ensina que Deus fez a natureza humana boa; dotou-a de
gragas especiáis (filiagáo divina e dons preternaturais); a
seguir, convidou o homem a se confirmar em tal estado, mas
o homem recusou a sua aquiescencia, pretendendo ser autónomo
ou independente de Deus. De entáo por diante, os homens
nascem portadores de urna natureza humana que é ontologica-
mente boal, mas cujos apetites sao, muitas vezes, desordenados
no plano ético,... desordenados em conseqüéncia da perda dos
dons origináis, que teriam subordinado os instintos á razáo do
homem. — Como se relaciona J. Marcos Bach com essa
doutrina?

b) Se o autor fala de pecado, como o entende? Será


pecado contra Deus? Mas para M. Bach os criterios da morali-
dade sao a livre consciéncia do homem e o consentimento da
comunidade. Contra quem ou contra qué se dirige o pecado?

c) Como entender as consideracóes de M. Bach sobre a


confissáo sacramental, que ele nao parece rejeitar (embora lhe
faca críticas devidas a mal-entendido no assunto)? Quando o
sacerdote absolve, é Deus que absolve. Mas por que Deus
absolve num contexto como o que M. Bach delineia?

2.4. Teología da Cruz

Nota-se, nessa nova Moral laicizada ou secularista, a


ausencia da temática bíblica e, de modo especial, paulina, que
fala de luta da carne contra o espirito no plano moral
(cf. Gl 5,16-24); o Apostólo menciona também a contradigáo
existente entre os seus anseios mais elevados e a conduta peca
minosa a que os instintos arrastam o homem; cf. Rm 7,15-24.
Em conseqüéncia, Sao Paulo apregoa a necessidade de morte
ao velho homem (cf. Ef 4,22-24; Rm 6,12-23) ou de renuncia
aos instintos desordenados: «Os que sao de Cristo, crucificaram
a carne com as suas paixóes e apetites» (Gl 5,24). Pelo

i Nada há que seja mau por si ou no plano ortológico ou no plano


do ser, visto que Deus bom so podía criar seres bons. — O mal entrou
no mundo mediante o pecado ou no plano moral; o pecado é o abuso da
liberdade, que, podendo dizer Slm a Deus, lhe disse N§o.

— 226 —
UMA NOVA MORAL?

Batismo o neófito morre com Cristo para o pecado e ressuscita


sacramentalmente para urna vida nova; em conseqüéncia, deve
viver todos os dias a realidade da morte com Cristo para per
mitir o desabrochamento da graga sacramental; cf. Rm 6,1-14.

Neste contexto entende-se que a mortificagáo tenha pleno


sentido. Nao é inspirada por dualismo nem masoquismo, mas
deve-se ao desejo de libertar das paixSes contraditórias o homem
novo suscitado pelo sacramento do Batismo em cada cristáo.

0 próprio Cristo afirma que, para salvar a vida é necessá-


rio perdé-la e que quem nao quiser perder a vida (morrer ao
velho homem), nao chegará á vida (do novo homem);
cf. Mt 16,24-26. A propósito M. Bach tece consideragóes
irónicas, que desfiguram a doutrina do Evangelho, como se
depreende da seguinte citagáo:

"A natureza é o adversario da graga (conforme a Imitacáo de Cristo,


55)... Esta é urna forma dualista de conceber a ativídade moral. Para
poder colocar-se do lado da graga divina, o homem precisa entrar em
guerra consigo mesmo. Nao poderá haver vitória, se nao houver um der
rotado, um perdedor. E este perdedor é o homem, na hipótese de urna
Vitoria da graga. Em caso de derrota da graga e conseqüente triunfo da
natureza, o perdedor será novamente o homem (inferno).

Quem, no pleno uso de suas faculdades mentáis, se dispde a entrar


numa luta em que so pode perder?" (p. 162).

É difícil compreender que um antigo professor de Teología


Moral possa propor táo absurda e maliciosa interpretagáo do
Evangelho. — Na verdade, a graga nao destrói a natureza,
mas supóe-na e aperfeigoa-a, dizem S. Tomás e a clássica teolo
gía; nao há, pois, antagonismo entre graga e natureza (no
sentido ontológico). Apenas a graga ajuda o homem a se
libertar, no plano moral, dos instintos desregrados ou das
paixóes contraditórias, permitindo que o homem seja mais ele
mesmo ou urna criatura renovada. A ascese ou a purificagáo
interior implica nao em derrota do homem como tal, mas, sim,
em perda do «velho homem» (ou da realidade desordenada que
cada qual traz em si), para que o homem em sua face auténtica
(criatura racional elevada 'á filiagáo divina) possa configurar-se
definitivamente com toda a sua grandeza e harmonía. O Cris
tianismo está longe de estabelecer qualquer tipo de dualismo;
ele afirma a grandeza do corpo humano (criatura de Deus
sabio), quando promete a ressurreigáo dos corpos. Todavia a
mensagem crista nao pode deixar de reconhecer que no homem

— 227 —
52 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

há tendencias moráis contraditórias, derivadas da desordem


induzida pelos primeiros homens, tendencias que é preciso re-
duzir á convergencia e á harmonía.

A p. 161 o autor volta a repudiar o dualismo entre materia


e espirito ou corpo e alma no homem. Tem razáo; nao há dua
lismo ou oposiqáo ontológica entre corpo e alma (embora
haja nítida distingáo entre ambos, que se chama dualidade).
Contudo no plano ético nem sempre há harmonía entre tenden
cias da carne e tendencias do espirito. Ora a tal harmonia deve
ser levado o individuo pela sua vida moral.

2.5. O sacramento da Reconciliado

J. Marcos Bach aborda algumas vezes no seu livro o sacra


mento da Reconciliagáo (cf. pp. 33s. 142s). As pp. 33s, critica
o tipo de penitencia que o confessor costuma impor aos fiéis:

"Cinco Pal Nossos ou colsa parecida... É a penitencia realmente


urna resposta adequada ao pecado? Em outras palavras: qual a relacSo
moral entre o pecado cometido e suas conseqüéncias todas, e a recltacfio
de algumas oracdes totalmente inofensivas? Qual a ligacfio positiva entre
a penitencia e o processo de conversSo do qual a confissio é apenas
slnal sacramental?" (p. 34; cf. p. 42).

Quem nao leve em conta a historia do sacramento da


Penitencia, poderá realmente estranhar o fato de que algumas
poucas oragóes definidas pelo confessor sejam tidas como peni
tencia, de modo que, urna vez aceita tal penitencia, se dé a
absolvisáo ao fiel católico. Recordando, porém, tal historia,
compreender-se-á o fato.

Com efeito; na Igreja antiga (até o fim do século VI)


os cristáos acusavam ao bispo ou ao sacerdote (em confissáo
geralmente secreta) os seus pecados graves. Tendo-os ouvido,
o ministro da Igreja procurava atribuir-lhes urna «penitencia
justa e congrua» (S. Cipriano), isto é, urna satisfagáo que
contribuisse, por suas exigencias, a arrancar as raizes do pe
cado, suscitando no penitente a prática de fervoroso amor a
Deus; tal poderia ser a prática de quarenta dias de jejum a
partir da quarta-feira de cinzas. Quem jejuasse diariamente
(exceto aos domingos) até o por do sol, juntamente com os
demais penitentes da comunidade, acompanhado pelas oragóes
da Igreja, deveria excitar em si grande amor a Deus e horror

— 228 —
UMA NOVA MORAL? 53

ao pecado, aptos a extinguir a cobiga desregrada ou a promo


ver o dominio sobre as paixóes. Ao fim de tal penitencia, o
ministro da Igreja dava, em nome do Senhor, a absolvigáo ao
penitente, absolvicáo que, como se v§, supunha um processo
enérgico de conversáo.

Contudo, a partir de fins do sáculo VI, tal atitude da


Igreja comecou a ser alterada, porque se tornava insustentá-
vel ou mesmo contraproducente em muitos casos. Com efeito;
os sacerdotes foram dando a absolvicáo logo após a acusacáo
dos pecados e o propósito, do penitente, de se converter; a
penitencia a ser realizada depois da absolvigáo ainda era dura
durante alguns sáculos, mas também esta comegou a ser mais
e mais abrandada até chegar a forma hodierna de se recita-
rem algumas poucas oragóes, que nao sao penitenciáis. Será
que com isto a Igreja está «perdoando com excessiva facili-
dade» (p. 34) ou está banalizando algo de serio e santo?
— Nao. O dever de se converter ou de extinguir as raizes do
pecado continua estritamente imperioso para o pecador arre-
pendido. Apenas acontece que, em vez de estipular, como
outrora, as maneiras oportunas de promover tal conversáo
(tantos dias de jejum, de cilicio, de oragáo mais intensa...),
a Igreja houve por bem impor ao penitente um símbolo ou
lembrete de penitencia (cinco Pai nosso...), ficando o res
tante da tarefa de conversáo entregue ao zelo ou á virtude
de penitencia do cristáo. De todo modo, este terá que praticar
a sua conversáo ou renuncia ás tendencias desregradas me
diante o cultivo de um amor a Deus mais forte e mais pro
fundo. Se nao conseguir durante esta vida fazer penetrar o
amor de Deus até o fundo do seu ser por covardia, negligen
cia ou outro motivo, o cristáo terá a oportunidade e neces-
sidade de o fazer na vida postuma ou no purgatorio (caso
morra em estado de graga, mas ainda portador de resquicios
do pecado).

Vé-se assim como a Igreja encara com seriedade o pro


cesso de penitencia do cristáo. Ela absolve desde que naja
indicios de sincero arrependimento e bom propósito da parte
do pecador; assim este pode voltar a revigorar-se no sacra
mento da Eucaristía, mas deverá impreterivelmente assumir,
por iniciativa pessóal (com a graga de Deus), a extirpagáo das
tendencias desregradas que continuam a nele habitar após a
absolvigáo sacramental. Tal doutrina está longe de ser a
«marmelada teológica» que M. Bach imagina (cfr. p. 142).

— 229 —
54 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

2.6. A outoridade na Igreja

O autor se refere com irreverencia á autoridade e a certas


instituigóes existentes na Igreja. Deseja remover qualquer
possibilidade de intervengáo do magisterio da Igreja no campo
da Moral; de modo especial, a encíclica «Humanae Vitae»
(1968) merece as suas criticas. O tom em que o autor se ex
prime é passional e amargo.

A propósito observe-se:

Para um fiel católico, a Igreja é, como ensina o Conci


lio do Vaticano II, o «sacramento da unidade» (cf. «Lumen
Gentium» fí> 1); «sacramento», no contexto, quer dizer: «reali-
dade sensivel, humana, que é portadora e transmissora de bens
divinos ou das gragas da Redengáo». Em outros termos: a
Igreja nao é sociedade meramente humana, que possa ser
julgada pelos predicados de seus membros ou de sua hierarquia,
mas, além de humana, a Igreja é divina no sentido de «Corpo
de Cristo» prolongado (cf. Cl 1,24; ICor 12,4-27); Cristo
prometeu aos Apostólos e aos seus legítimos sucessores assistén-
cia infalível até a consumagáo dos séculos: «Estarei convosco
até a consumagáo dos séculos» (Mt 28,20); o Senhor nao disse:
«Estarei com os mais sabios ou os mais santos ou os mais
zelosos...», mas simplesmente «... com os que sucederem
legítimamente aos Apostólos até o fim».

A Igreja.assim vivificada pela presenga de Cristo e pela


agáo do Espirito Santo (cf. Jo 16,13), compete o encargo de
apregoar a mensagem do Evangelho e aplicá-la aos sucessivos
tenipos da historia. Toca-lhe dizer aos homens, á guisa de Máe
e Mestra, quais os caminhos que levam a vida eterna, de acordó
com a Boa-Nova de Jesús Cristo. Por isto a autoridade da
Igreja pode e deve pronunciar-se a respeito de problemas
moráis, pois a Moral se deriva da Boa-Nova; «a nobreza
obriga» o cristáo a se comportar em tudo com a dignidade que
a fé inspira. A Igreja nao se define a propósito com intencóes
preconcebidas, masoquistas, medievalistas.... mas com o animo
de servidora fiel (cf. Constituigáo «Dei Verbum» n« 10), que
leva em conta o temporal e o Eterno, o contingente e o Abso
luto, o provisorio e o Definitivo... Por causa destes seus
criterios (que reverenciam a dimensáo de Infinito existente ñas
aspiracóes do ser humano), a Igreja nem sempré pode dizer
Sim as modas que surgem entre os homens, inspiradas, muitas
vezes, por criterios hedonistas e materialistas (envernizados
por aparentes cientificismo e liberalismo).

— 230 —
UMA NOVA MORAL?

Especialmente a teología da Cruz, típica da pregagáo do


Evangelho, «escandaliza» os homens de ontem e de hoje, sus
citando a aversáo dos indispostos em nossos dias como nos
tempos de S. Paulo (cf. ICor 1,23). Nao obstante, a Igreja
nao poderá silenciar a cruz ou a necessidade de crucificar a
velha criatura com suas paixóes desresgradas, a fim de que se
formo no cristáo mais nítidamente a imagem do Cristo Jesús.
De resto, a mensagem da Igreja, criticada por individuos ou
grupos, tem-se comprovado no decorrer dos tempos como a
verdadeira sabedoria, que preserva os mais auténticos valores
do homem, ameacados de naufragio na tormenta por que passa
a humanidade contemporánea.

Eis por que julgamos ineptas as críticas de Marcos Bach


ao magisterio da Igreja e sugerimos ao autor: 1) repense a
sua tese central, que póe fim a Moral, dando livre passe
«envernizado» para que cada um faga o que queira; 2) procure
fazer amadurecer um pouco mais as suas proposigóes, que por
vezes se chocam entre si de maneira contraditória ou correm
em linhas paralelas que nao fazem síntese; 3) torne as suas
observacóes á Igreja mais objetivas e serenas ou mais condi-
zentes com o estilo de urna obra científica. E que Deus o
ilumine!

«NA IGREJA, NAO PODER1AMOS PENSAR EM SAL


TAR, POR ASSIM DIZER, POR CIMA DOS SÉCULOS E
LIGAR-NOS MEDIATAMENTE COM A BIBLIA... É ISTO
O QUE FEZ O BIBLICISMO, REJEITANDO CLAMOROSA
MENTE O SÍMBOLO DE NICÉIA, A ESCOLÁSTICA, OS
PADRES DA IGREJA, AS CONFISSOES DE FÉ, PARA
ATER-SE 'ÚNICAMENTE A BIBLIA'.. . ORA, COISA ES-
TRANHA, ESTE PROCEDIMENTO TEM LEVADO SEM-
PRE A UMA TEOLOGÍA MUITO 'MODERNA'. ESTES
BIBLICISTAS DECIDIDOS PARTILHAVAM DA FILOSO
FÍA DE SEU TEMPO; ENCONTRARAM NA BIBLIA SUAS
PRÓPRIAS IDÉIAS; LIBERTARAM-SE DOS DOGMAS DA
IGREJA, MAS NAO DE SEUS DOGMAS E DE SUAS CON-
CEPCOES PRÓPRIAS» (CARDEAL HENRI DE LUBAC).

— 231 —
Firme e lúcido:

"Estamos Salvos"
por D. Valfredo Tepe

,Em ahílese: O novo Mvro de D. Valfredo Tepe, blspo de llhéus (BA),


tenclona ajudar o cristio a se definir diante das Ideologías. Lembra a
verdade bíblica segundo a qual "estamos salvos" (Hb 10,39). Tal salvacSo,
porém, nSo é de índole meramente terrestre, embora passe pela historia
deste mundo; ela so estará consumada no fim dos tempos. A conscléncia
disto relativiza, aos olhos do crlstSo, todos os modelos sócio-político-eco-
nomicos; relativiza também o Imperativo da "luta de classes"; pode alguém
nao estar a favor de um reglme ou sistema sem ter obrigacSo de lutar
contra ele. O crlstáo deverá poder discernir o que há de bem e o que
há de mal tanto na situacSo como na oposicfio. Isto nSo quer dizer que
o crlstio nfio se deva empenhar corajosamente por um mundo mals |usto;
ele deve faze-lo, entre outros motivos, para ser fiel á orlentacSo oficial da
Igreja; mas será realista, cíente de que o mal nao brota das estruturas da
sociedade, mas de dentro do homem.

O autor incute também o amor á Igreja, que nao é apenas sociedade


de homens mals ou menos retos, mas é o Corpo de Cristo e o sacramento
da salvacfio para todos os homens. As falhas da Igreja nSo surpreendem
os crlstSos, já que as frontelras entre o bem e o mal passam pelo cora;8o
de cada homem. — O. Tepe também acentúa a importancia de nao se
desviar o sentido das verdades da fé; estas hSo de ser guardadas Incó
lumes através das mudancas de fórmulas que se tornem necessárias por
causa das mudancas culturáis.

Comentario: No leque bibliográfico dos últimos tempos


aparece como obra de real valor o livro de D. Valfredo Tepe,
teólogo e psicólogo, atualmente bispo de llhéus (BA) 1. O autor
já é conhecido por outras obras, que visam a estruturar a
pessoa humana no torvelinho das propostas contemporáneas;
desta vez, D. Valfredo procura situar «o cristáo diante das
ideologías» (subtítulo do livro) — o que ele consegue fazer
com maestría. Em vista da estima que o livro merece,
dedicar-lhe-emos as páginas seguintes, procurando salientar
algumas de suas teses mais características.

i Estamos salvos. O crlstáo diante das Ideologías. Colecáo "Liber-


tas§o e Teología" n<? 18. — EdicOes Paulinas, Sao Paulo, 130 x 200 mm,
208 pp.

— 232 —
«ESTAMOS SALVOS» 57

1. «Estamos salvos!»

A grande mensagem do livro é a da própria Escritura


Sagrada: «Estamos salvos!» (Hb 10,39; SI 79,4; cf. p. 208).
O autor, porém, enfatiza que esta salvagáo nao pode ser consi
derada como meramente «intra-terrena» ou imánente á historia
e á realidade deste mundo: «O homem busca sempre algo que
transcende o imediato e o imediatismo. Sempre mais estremece,
mesmo nos países mais adiantados, a 'fé' secularizada nos téc
nicos e nos tecnocratas; sempre mais se abala a esperanga
numa salvagáo intra-terrena» (p. 173; cf. pp. 104-106).

É no Reino de Deus que o homem encontra resposta para


as suas aspiragóes ao Bem Absoluto e Infinito. Este Reino já
comega germinalmente na realidade da Igreja; tende a se
desabrochar cada vez mais no decorrer dos tempos, mas só
estará consumado no finí dos sáculos; tem, pois, caráter trans-
-histórico (cf. p. 115). Em conseqüéncia, todos os modelos
sócio-político-económicos sao relativos, para o cristáo; este
«jamáis se fanatiza por alguma solucáo intra-terrena» (p. 115);
«nao espera um paraíso terrestre; é imunizado contra o virus
de um messianismo intra-terreno» (p. 116).

Esta relativizagáo leva a rejeitar a tese segundo a qual


quem nao se empenha pela luta de classes é conivente com a
opressáO:

"No plano político, eu posso nSo estar a favor de um regime ou


sistema, sem ser obrigado á alternativa: estar contra ele. é um argumento
capcioso do arsenal ideológico de urna análise de ruptura afirmar que
aquele que nao combate um regime, que nao luta para derrubá-lo, estaria
favorecendo a ele ou estaria conivente com ele... Só onde se vé o
demonio no sistema contrario, há esta alternativa radical. Quanto se relati-
viza a política partidaria, pode-se ver que há o bem e o mal tanto na sitúa-
gao como na oposicáo. Vé-se que há possibilidade de conviver com muitos
sistemas e tentar nesta convivencia fazer o bem. Denunciando o que está
errado, mas também apoiando o que é proveitoso para o povo. Mu ¡tas
vezes um cristao conscientizado pode fazer um 'bem político' bem grande
quando cumpre com fidelidade e com amor ao povo sofredor suas funcSes,
talvez subalternas, numa reparticao burocrática de qualquer regime"
(pp. 128s).

A relativizagáo é ilustrada outrossim pelo próprio teste-


munho da S. Escritura:

— 233 —
58 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

"O povo (de Israel), que fol libertado da opressao do Egito, por sua
vez dominava e até exterminava cruelmente populacdes nativas. E era
novamente explorado e escorchado pelos seus próprlos reís, o que levou
á divlsfio em dois reinos e mais tarde a um sem número de revolugóes
'palacianas': todas em nome da libertacáo e luta contra o corrupcao"
(p. 131).

Estas proposigóes nao devem dissuadir o cristáo de se


empenhar por um mundo histórico mais justo e fraterno. Ao
contrario, a consciéncia de que é dentro das estruturas da
sociedade contemporánea que se inicia o Reino, leva o cristáo
a trabalhar com pleno afinco pela remogáo de todos os males
da historia, como o pedem os documentos oficiáis da Igreja
(cf. Constituigáo Gaudium et Spes do Concilio do Vaticano II;
Documento de Puebla). Todavia este esforgo há de ser realista
e iluminado pela fé.

"É Ingenuldade progressista, evolucionista ou revolucionarla pensar


que as mudancas de estruturas trarSo o paraíso á térra. O homem pra-
tlca o mal nao só pela influencia ou pelo contagio das estruturas injustas,
mas por 'geragáo espontánea'. Cada homem é 'Adáo1. Em cada um pode
recomecar a historia da queda. Até o fim do mundo trigo e joio crescerfio
juntos... Até o flm dos tempos, o mal nao será definitivamente julgado e
banldo" (p. 71).

Poder-se-iam multiplicar as citagdes de passagens sabias


e oportunas de D. Valfredo Tepe, que procura guardar sadio
equilibrio entre o pecaminoso alheamento aos problemas tem-
porais e a total imersáo nos mesmos.

2. Jesús Cristo e a Igreja

A salvagáo vem de Deus por intermedio de Jesús Cristo,


que é inseparável da sua Igreja.

Há, porém, quem diga: «Jesús, sim! A Igreja, nao!»


(p. 147). — Tal disjungáo é «insensata» (p. 147), pois a
Igreja nao é apenas a soma dos homens que a compóem, mas
é o sacramento da salvagáo, sacramento no qual Cristo está
indefectivelmente presente, comunicando aos homens a sua
graga. Mais: «É a Igreja que me leva a Cristo e me faz
conhecer Cristo. Nada sabemos de Cristo a nao ser pela Igreja.
As fontes de noticias sobre Jesús Cristo, fora do Cristianismo,
sao insignificantes. As fontes importantes sao as Escrituras
do Novo Testamento... Mas estas Escrituras só existem
porque existe Igreja» (p. 147s).

— 234 —
«ESTAMOS SALVOS» i»

As falhas existentes na Igreja nao decepcionan! o cristáo,


pois o bem e o mal estáo no coragáo de cada cristáo ou mesmo
de cada homem. Ora a Igreja se compóe de homens, embora
nao somente de homens. É através dos homens que Deus quer
comunicar a sua salvagáo a todas as criaturas (cf. p. 156).
De resto, a santidade de Cristo fratifica nos santos: «E os
santos testemunham a realidade mais intima da Igreja»
(p. 157).

A Igreja nao deve, por isto, ser reduzida a um sinal elitista


e assim se contentar com «poucos, mas bons» (p. 174). Entre
outras coisas, esta proposigáo quer dizer que nao se devem
«apertar muito as exigencias para o batismo, isto é, para a
entrada na Igreja»; muitas pessoas nao tém possibilidade de
fazer precisamente o curso de pais e padrinhos; outros vivem
em situagáo familiar irregular; ora as criangas nao deveriam
indiscriminadamente sofrer as conseqüéncias da infeliz situagáo
dos pais.

A índole nao elitista da Igreja explica também o seu zelo


missionário. Cristo se encarnou para salvar todos os homens
e recapitular todas as coisas. Com este fim se identifica a
Igreja: «Se Cristo nao desanimou diante da humanidade inteira
a ser convertida, dispondo apenas de um grupo de doze...,
por que a Igreja deveria hoje restringir sua atividade missioná-
ria, por desánimo ou por falsa modestia, entendendo-se apenas
como sinal 'para os budistas serem melhores budistas'?»
(P. 174).

A visáo de fé leva a Igreja a urna continua autocrítica á


luz do Evangelho, a fim de que se despoje de qualquer atitude
antievangélica. «Ora antievangélica seria também urna atitude
quase sádica de autoflagelagáo. Urna auto-acusagáo dos
membros da Igreja no sentido de 'a Igreja está realmente
errada', 'a Igreja nao tem nada de bom', 'tudo é farsa e hipo-
crisia', 'tudo deve ser radicalmente mudado'. Isto nao é nem
verdade nem humildade evangélica. A Igreja, mesmo em sua
forma peregrina, já é comego do Reino! Já agora aparecem
os frutos do Espirito: amor, alegría, paz, santidade» (p. 199).

— 235 —
60 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

3. Fé e Teología

«O Cristianismo nao é um resumo de verdades teóricas,


nao é um sistema filosófico ou ideológico: é fé. Fé numa
verdade histórica que se tornou o fundamento de tudo. Esta
verdade histórica chama-se Jesús Cristo, morto e ressuscitado»
(p. 121).

«É traigáo da fé diluir de tal maneira os dados objetivos,


as verdades da fé, sobretudo a verdade histórica fundamental,
em minha forma subjetiva de vé-los ou aproveitá-los que prati-
camente nada mais naja em comum com outros; mas apenas
urna recriagáo, urna re-leitura radical. — Esta tentagáo é
muito real e, de certa maneira, compreensível» (pp. 121s).

Muitos cristáos se véem diante do dilema: ou subordinar


os valores humanistas (inclusive a prática política) a Jesús
Cristo morto e ressuscitado ou subordinar Jesús Cristo a con-
cepgóes humanistas, «vendo em Jesús apenas um fenómeno
raro e modelar de vida humana, que apenas nos estimula a
fazer hoje coisas semelhantes» (p. 121). Esta segunda alter
nativa equivaleria a «envernizada» apostasia em relagáo a
Jesús Cristo.

A fé será sempre ameagada pelo perigo de relativismo.


Este parte do principio de que todas as fórmulas lingüísticas
sao condicionadas ou dependentes de alguma cultura; nao
podem, portante, exprimir o caráter absoluto e imutável da
verdade. A proposito, observe-se: «As verdades da Revelagáo
sao imutáveis; o conteúdo da fé deve sempre ser salvaguardado»
(p. 191). A Igreja em sua Tradicáo exprimiu essas verdades
imutáveis em fórmulas de determinada cultura; tais fórmulas
háo de ser entendidas em seu contexto originario próprio, como
expressdes fiéis da verdade. Caso tais expressóes se tornem
menos significativas em quadros culturáis posteriores, será
legítimo tentar reformular as verdades da fé. Contudo, observa
D. Tepe, «há sempre o perigo de falsear urna verdade quando
se tenta refundi-lá em novas fórmulas lingüisticas. Nao se
deve jogar fora ou quebrar urna fórmula tradicional, sancio
nada, sem antes ter encontrado outra que realmente transmita
adequadamente o conteúdo. Nao podemos expor a fé ao perigo
de se evaporar no intervalo entre a quebra de urna fórmula
tradicional e a busca de urna nova» (p. 191).

— 236 —
«ESTAMOS SALVOS»

A fé se defronta muitas vezes com ideologias, que, na


mente dos seus seguidores, tomam o caráter absoluto da fé.
«O poder é entáo colocado a servigo da fé secularizada, de tuna
ideología dogmatizada... A caminhada vai do poder de urna
fé á fé no poder... Oderint tum metuant., já dizia o Imperador
tirano em Roma ('que me odeiem, contanto que tenham
medo')» (p. 118).

O poder absoluto das ideologias é nao raro eficaz na ins-


tauragáo de reformas sociais. «Parece que a instalagáo do
sistema marxista é como em Cuba — consegue acabar, com
rapidez, com a miseria extrema de um país. A socializagáo nao
da 'miseria', mas da sobriedade e austeridade, é um dos
grandes feitos dos sistemas comunistas frente aos sistemas
capitalistas. Nivelar, acabando com a miseria de uns e o luxo
de outros. Todavía o criterio da eficiencia nao deve ser o único
ou predominante na agáo pastoral. Queremos a libertagáo dos
pobres de sua miseria. Mas a busca do caminho mais rápido
ou do método mais eficiente nao deve deixar de ver a 'verdade'
que está envolvida: 'A verdade toda sobre Jesús Cristo, sobre
a Igreja e sobre o homem', como o Papa tem inculcado em
Puebla e no Brasil. A verdade sobre o homem, a visáo integral
do homem como a fé crista a oferece, nao deve ser simplesmente
postergada em favor de urna opgáo eficiente pela libertagáo
dos oprimidos. Nao pode o teólogo privilegiar urna teoría social
ou urna análise sociológica só porque Ihe parece mais eficiente
e útil. Com isto caímos no principio do utilitarismo: bom e
verdadeiro é o que é útil para urna classe ou um partido»
(pp. llls).

A doutrina crista é dotada de forca transformadora aínda


mais eficaz do que a ideología marxista, pois ela corresponde
ao plano de Deus; todavía é preciso que os cristáos acreditem
realmente no valor do Evangelho como fermento renovador
da sociedade e antídoto de todas as injustigas; caso nao estejam
convictos disto, enterraráo os talentos outorgados pelo Senhor
Deus. Sabiamente dizia Joáo Paulo II em Salvador:

"Ou se faz (a justica) através de reformas profundas e corajosas,


segundo principios que exprimem a supremacia da dignidade humana ou
se faz — mas sem resultado duradouro e sem beneficio para o homem —
pelas forcas da violencia" (p. 119).

O apelo á coeréncia dos cristáos é, no caso, de altíssima


importancia.

— 237 —
62 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

4. A guisa «le complemento...

Aínda apraz transcrever alguns trechos do livro de D. Val-


fredo que nos parecem de coragem notável e digna de louvor:

«Qual é o sistema píor: marxismo ou capitalismo selvagem?


Ambos sao detestáveis. Mas no sentido religioso o mais perigoso é
o marxismo, pois se apresenta com ares de 'salvador da humanidade',
como messianismo secularizado» (p. 114).

«O cristao sabe que eré; o marxista eré que sabe. O mar-


xista acredita que sua ideología tem base científica. Aceita em ter
mos de fé que foram descobertas as leis evolucionáis da historia:
a caminhada para a humanidade livre, igual, solidaria, através de
processos económicos acelerados pela luta de classes.. .

Justamente esta 'fé' no caráter científico de sua ideología torna


os marxistas ortodoxos e os regimes históricos do marxismo ímunes
ao .questionamento de novas descobertas no campo científico. O
marxista eré que sabe e com ¡sto falsifica a fé e a ciencia. Ciencia
é urna busca incessante da verdade que se supera a si mesma em
sempre novas verificacoes e aperfeicoamentos. A fé numa ciencia
faz a busca estagnar, dogmatiza aspectos parciais e se recusa a
revisar posicóes. Os 'revisionistas' se tornam 'heréticos' e sao trata
dos como tais... O poder é colocado a servico da fé secularizada,
de urna ideología dogmatizada» (pp. 117s).

«A erenca na existencia do demonio ou diabo nao é algo infan


til e indigno de um homem inteligente. Certo, tem havido exageras
nesta crenca e por causa déla excessos de perseguicoes de criaturas
inocentes, como na época da caca as bruxas. Pode aínda haver
excesso na interpretaejo de doencas mentáis como possessoes diabó
licas. . .

Mas o misterio continua. Sao fúteis os exorcismos científicos


que querem desmistificar a existencia do Maligno. A Igreja mantém
a fé na existencia de seres espirituais, criados por Deus: os anjos.
Ela acredita na queda de alguns deles que abusaram de sua liber-
dade numa revolta contra Deus e se endureceram no mal ¡rreversi-
velmente...

Jesús fala do 'poder das trevas' e vé sua missao em grande parte


sob o ángulo da libertacáo dos homens deste poder diabólico. Jesús
se entende como o 'mais forte' ,que vence o 'forte' (cf. Le 11,22) ...

— 238 —
«ESTAMOS SALVOS» 63

Ver nestas afirmacoes de Jesús apenas urna maneira mítica de se


expressar, própria daquela época, é urna reinterpretacáo temeraria
da figura e da míssao de Jesús num ponto muito central. Se certos
exegetas esfáo muito apressados em dar o adeus ao demonio, achan-
do-o um mito dispensável, nao partem do senso dos fiéis, nem da
doutrina ensinada pelo Magisterio da Igreja. Nem tampouco, pare-
ce-me, do bom senco, de quem olha a realidade do mundo sem ¡lusao
nem otimismo ingenuo» (pp. 28s).

5. Conclusao

Sao estas algumas linhas características do livro em pauta,


livro que veio langar clareza e serenidade em terreno assaz
controvertido e confuso. É para desejar que grande número
de estudiosos reflitam sobre as belas páginas de D. Valfredo
Tepe, que aborda com sabedoria ainda numerosas outras
facetas da fé, da teología e da atuaeáo do cristáo no mundo
de hoje.

«NOSSAS OBRAS SE ESVAEM COM O PÓ DO SÉCULO,


NA HEMORRAGIA UNIVERSAL DA 'NEGUENTROPLV
QUE ARRASTA TODAS AS COISAS, NESTE MUNDO,
PARA A MORTE, MAS RAIOU UM DÍA, QUE JAMÁIS
TERMINARÁ. ELE NOS VEM DA OBSCURIDADE DE
NAZARÉ E NOS ALCANQA ATRAVÉS DOS SÉCULOS:
ELE NOS ARRASTA PARA ALÉM DE TODOS OS NASCI-
MENTOS E DE TODAS AS MORTES, ATÉ O INSTANTE
DO JULGAMENTO E DA CONCLUSAO, ATÉ NA VIDA
FUTURA, ATÉ ÑAS PROFUNDEZAS DA ETERNIDADE,
ISTO É, ATÉ AO CENTRO MESMO DA VERDADE. A
ESPERANCA JA COMECOU: ELA NAO PODE MAIS
ACABAR» (CARDEAL HENRI DE LUBAC).

— 239 —
Um enfoque novo:

"Historia da Teología na América Latina'


por diversos

£m slntese: A coletánea de artigos ácima apresentada inspira-se


nos principios da CEHILA (Comíssáo de Estudos de Historia da Igreja na
América Latina), que procura ler a historia do continente através das cate
gorías de luta de classes, anállse marxista da sociedade, historia "versus"
metafísica, mentalidade semita "versus" mentalidade grega... Tal perspec
tiva desfigura n3o raro a narracSo histórica, Impondo-lhe esquemas pré-
-concebldos e artificiáis. Ademáis o historiador n8o deve julgar a conduta
dos antepassados segundo categorías de pensamento contemporáneas; é
necessário procurar entender as geracoes passadas a partir das premlssas
de historia, geografía, cultura e desabrochamento ético que Ihes estavam
ao alcance. Isto nao quer dizer que o bem e o mal sejam relativos, mas,
sim, que nem todas as consciéncias desfrutam da mesma maturidade para
perceber as exigencias da moralidade em toda a sua extensáo e profun-
dldade.

Els por que a coletánea em pauta nos parece unilateral e inade-


quada para espelhar com fidelidade os fatos passados e a evolucao da
teologia no nosso continente.

Comentario: O volume ácima indicado contém nove


estudos apresentados e debatidos, sob a coordenagáo de Pablo
Richard, no Simposio sobre Historia da Teologia na América
Latina, realizado pela Comissáo de Estudos de Historia da
Igreja na América Latina (CEHILA) em Lima, no Perú, de
23 a 26 de julho de 1980 l. Quatro desses ensaios referem-se
ao Brasil: o de Riolando Azzi, que esboga um quadro geral da
producjáo teológica no Brasil ao longo da sua historia; o de
Eduardo Hoornaert sobre a teologia do Pe. Antonio Vieira no
seu período missionário no Maranháo; o do Pe. José Osear
Beozzo, sobre o pensamento do Pe. Julio Maria no alvorecer
da República, e o de Rubem Alves, sobre as idéias teológicas
no protestantismo brasiteiro. Os outros artigos se devem ao
Prof. Enrique Dussel, presidente da CEHILA, ao Prof. Samuel

i Historia da Teologia na América Latina, por diversos. — Ed. Paulinas,


SSo Paulo, 160 x 230 mm, 198 pp.

— 240 —
TEOLOGÍA NA AMÉRICA LATINA 65

Silva Gotay, de Porto Rico, ao Prof. Otto Maduro, da Univer-


sidade de Merida na Venezuela, ao Prof. Agustín Churruca
Peláez, do México, e ao Prof. Pe. Gustavo Gutiérrez, do Perú.

Essa coletánea de artigos, como diz a Introdugáo (p. 7),


é o germen de urna obra mais vasta referente á historia da
Teología na América Latina. Merece a atengáo do estudioso
pelos seus enfoques característicos.

1. Algumas linhas-mestras

O grupo CEHILA compartilha as teses da Teología da


Libertacáo na sua forma mais extremada — o que quer dizer
que considera a historia da América Latina como cenário em
que opressores e oprimidos se defrontam numa luta de séculos,
que chega ao seu auge nos últimos decenios.

Alguns artigos sao moderados e assaz objetivos, como os


de Osear Beozzo sobre o Pe. Julio María (pp. 107-126) e o de
E. Hoornaert sobre o Pe. Antonio Vieira (pp. 63-74); a sua
leitura é interessante e enriquecedora. Em outros ensaios
torna-se mais patente a tendencia filosófico-ideológica, que tem
a sua expressáo máxima no estudo de Samuel Silva Gotay
sobre «Origem e desenvolvimento do pensamento cristáo revo
lucionario a partir da radicalizagáo da doutrina social ñas
décadas de 1960 e 1970» (pp. 139-164).

Samuel Silva Gotay, detendo-se sobre urna faixa cronoló


gica assaz restrita (1960-1980), tenta descrever a passagem
do Cristianismo social (ou do Cristianismo que segué a doutrina
social da Igreja oficial) ao Cristianismo revolucionario; o estudo
é rico em documentacáo e bibliografía. O autor desenvolve a
sua exposigáo dentro de parámetros filosófico-teológicos, que
assim se podem resumir:

O pensamento bíblico nao é metafísico, essencialista, mas


historicista e dinámico; o próprio Jesús teve urna cosmovisáo
histórica e materialista. É o que Gotay sugere na seguinte
passagem, que sintetiza bem o seu pensamento:

"A cosmovisao histórica e materialista com a qual Jesús e a Igreja


primitiva interpretam a realidade e entendem a sua fé, é transformada,
grasas á influencia da cosmovisáo essencialista, em metafísica greco
-romana, mediante esse processo de 'traducao' da linguagem e da filo
sofía dos 'gentíos'. Dai as serlas conseqüéncias sobre a ética e a política
da Igreja que sofremos até os nossos dias" (pp. 157s, nota 1).

— 241 —
66 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

Com outras palavras: segundo Gotay, a preocupagáo com


a verdade imutável e com valores transcendentais é estranha
á mensagem do Antigo Testamento e ao Evangelho; foi a
contaminagáo do pensamento bíblico pela filosofía grega a
responsável pelos interesses metafísicos do Cristianismo antigo
e medieval até os últimos tempos. Em nossos dias, é preciso
remover a influencia grega sobre a teología e voltar as fontes
do pensamento bíblico:

"A verdade da fé nio é aquilo que se ajusta com o que é metafísica-


mente, segundo a definlcSo do preexistente e do imutável, revelado a
partir do mundo das Idéias ou do espirito metaflsico, mas, slm, aquilo que
se faz com eficacia e amor para a llbertacao do homem e para a cons-
trucSo do Reino e do homem novo" (p. 156).

Nesta proposigáo nota-se a antítese entre ser e fazer, entre


ortodoxia e ortapraxis... A fé conseqüentemente nao é adesáo
a verdades perenes (das quais decorram normas práticas de
vida), mas é a afirmagáo de um agir que é revolucionario,
visando a transformar a América Latina mediante luta de
classes:

"A fé, como tal, nao é 'crenca' em um sistema de idéias reveladas


do além — como se fosse urna epistemología idealista defeituosa —, mas
a atitude de esperanza do compromlsso com o Reino de Deus na historia.
A fé, vista assim, Implica urna praxis de libertacao histórica e política"
(p. 156).

A Moral crista, segundo tais premissas, é a Moral da re-


volugáo; éticamente louvável é tudo aquilo que acelera a mu-
danca sócio-politico-económica da América Latina. Diga-o o
próprio autor:

"A Moral hebraica-crlstá da Biblia n8o corresponde ás normas reve


ladas a partir do mundo metaflsico dos principios eternos e universais,
mas é aqueta que se depreende das necessldades concretas de urna ac§o
política eficaz para se conseguir a libertacfio e estabelecer a justica para
os pobres, os oprimidos e os explorados. Como conseqüéncla dessas afir-
macoes, posso postular que a Teología da Libertacao se caracterizo pelos
seguintes traeos:

a) Reestrutura a reflexao teológica de tal maneira que abandona a


cosmovlsáo de raizes platónicas e opta pela cosmovisSo materialista e
histórica da tradieño bíblica dos hebreus, o que torna posslvel incorporar a
compreensáo científica da historia e da sociedade á sua rellexao teoló
gica Em outras palavras, submete á critica final o dualismo céu-terra da
teología tradicional, e afirma esta historia terrena como a única historia
existente..." (p. 156).

— 242 —
^ TEOLOGÍA NA AMÉRICA LATINA 67

Como se depreende, a «compreensáo científica da histo


ria e da sociedades a ser incorporada á teología é a da aná-
lise marxista, habitualmente preconizada pelos teólogos da
libertagáo.

Será instrutivo, para o estudioso, ler os restantes pontos


característicos da teología da libertagáo expostos á pp. 155-157
do artigo em pauta.

Pergunta-se agora:

2. Que dizer a propósito?

O exame do artigo de Gotay, como também o da coletánea


toda, pode impressionar o leitor imperito no assunto, pois os
autores insinuam que a visáo bíblica é materialista e revolu
cionaria (= marxista), ao passo que o pensamento cristáo
vigente desde os primeiros sáculos é grego, platónico, nao
bíblico. O próprio Jesús terá sido um revolucionario materia
lista (?), traído pela interpretagáo das geragóes dos primeiros
séculos.

A propósito observamos:

1) É erróneo vincular a mensagem bíblica a alguma con-


cepgáo filosófica — a dos semitas, por exemplo —, em oposigáo
a outra. A mensagem revelada utiliza tanto os recursos do
pensamento semita como os do pensamento grego; tenham-se
em vista especialmente o livro da Sabedoria (escrito em Ale-
xandria no século I a.C.) e os do Novo Testamento, que se
referem nao raro as categorías da filosofía grega, como por
exemplo, a epístola aos Hebreus.

2) Também é erróneo afirmar que a filosofía grega é


dualista, ou seja, propensa á antítese entre materia e espirito,
corpo e alma, céu e térra... Aristóteles corrigiu Platáo e o
pensamento órfico, afirmando o hilemorfismo, ou seja, a dou-
trina da alma «forma do corpo», doutrina que S. Tomás de
Aquino (t 1274) e sua escola adotaram. Donde se vé que a
mensagem bíblica pode ser validamente penetrada e ilustrada
mediante o instrumental da filosofía grega sem cair no dualismo
ou no maniqueísmo.

— 243 —
68 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS* 268/1983

3) Nao se pode reduzir a fé a urna profissáo de praxis


ou atividade revolucionaria. A verdade, com o que ela tem de
perene e imutável, é anterior á atividade do homem e ilumina
a esta. A primazia atribuida á verdade a-temporal e absoluta
nao implica alienacáo ou descaso em relacáo 'á ordem temporal,
mas, antes, garante orientagáo e direcionamento á atividade
do homem.

O cristáo colabora na construgáo de um mundo novo


porque, para tanto, é incitado pela consciéncia de que o Reino
de Deus comega na térra. O profissional cristáo joga nao
somente com o seu nome e os seus valores pessoais, mas com
o nome e a honra de Deus; daí a necessidade de se esmerar
mais ainda do que se ele fosse motivado por objetivos mera
mente humanos; é o que se lé na Constituigáo Gaudium et Spes
do Concilio do Vaticano II:

"O Concilio exorta os cristáos, cidadios de urna e outra cidade, a


procuraren) desempenhar fielmente as suas tarefas terrestres, guiados pelo
espirito do Evangelho. Aíastam-se da verdade os que, sabendo nao termos
aqui cidade permanente, mas buscarmos a futura, julgam, por consegulnte,
poder negligenclar os seus deveres terrestres, sem perceber que estSo mais
obrlgados a cumpri-los por causa da própria fé, de acordó com a vocagáo
á qual cada um foi chamado... Este divorcio entre a fé professada e a
vida cotidiana de muitos deve ser enumerado entre os erros mais graves
do nosso tempo... Portanto nao se crie oposicáo artificial entre as ativi-
dades profissionais e sociais, de urna parte e, de outra, a vida religiosa"
(n<? 43).

4) A Sagrada Escritura nao aceña apenas a urna ordem


temporal nova, mas tem em mira o Reino de Deus consumado
num plano transcendente; os bens temporais sao transitorios
e, por sua própria índole transitoria, devem levar o cristáo a
ultrapassá-los numa perspectiva de eternidade. Para nao multi
plicar citagóes, sejam recordados apenas os seguintes textos
bíblicos: , .... ■'.•¿¿li
Mt 6,19-21: "Nao acumuléis para vos tesouros na térra, onde a traca
e o caruncho os destroem, e onde os ladrdes arrombam e roubam, mas
acumulai para vos tesouros nos céus, onde nem a trapa nem o caruncho
destroem e onde os ladrQes nao arrombam nem roubam; pois, onde está
o teu tesouro, al estará também o teu coracáo".

2Cor 4,18: "Nio olhamos para as coisas que se véem, mas para as
que nao se véem, pois o que se vé é transitorio, mas o que nao se vé é
eterno".

F1 1,21-23: "Para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro... Desejo


partir para estar com Cristo, o que é Incomparavelmente methor; mas per
manecer na carne é mais necessário por vossa causa".

— 244 —
TEOLOGÍA NA AMÉRICA LATINA 69

Alias, verifíca-se que a teología da libertagáo, a fim de


apoiar seu programa de expectativas temporais, recorre mais
aos primeiros livros da Biblia do que aos escritos do Novo
Testamento; apela para as páginas do Éxodo como se estas
significassem a promessa de um Reino de Deus confinado ao
tempo e ao espaco. Na verdade, o Éxodo, visto em perspectiva
neo-testamentária e, especialmente, paulina, aceña para um
Reino de Deus transcendental a ser obtido plenamente ao termo
da presente peregrinagáo. Tenham-se em vista as seguintes
passagens:

1Cor 10,2-4.11: "Nossos país, na nuvem e no mar, todos foram batí-


zados em Moisés. Todos comeram o mesmo alimento espiritual, pote beblam
de urna rocha espiritual que os acompanhava, e essa rocha era Cristo...
Estas coisas Ihes aconteceram para servir de exemplo e foram escritas
para a nossa instrucSo, nos que fomos atingidos pelo fim dos tempos".

Hb 3,58: "Moisés era fiel em toda a sua casa, como servo, para ser
testemunha das coisas que deveriam ser ditas. Cristo, porém, na qualidade
de Filho, está ácima de sua casa".

Por conseguinte, cometería violencia contra os textos


bíblicos quem quisessa explanar os livros iniciáis do Antigo
Testamento em detrimento da ótica transcendental que os
escritos cristáos inspiram. A térra onde correm o leite e o
mel, só pode ser entendida como figura de urna plenitude que
a historia jamáis oferecerá, mas apenas preparará. A cons-
ciéncia desta verdade incute ao cristáo a certeza de que nao
deve subordinar á atividade temporal a tendencia aos valores
transcendentais; a historia é assim relativizada, perdendo o
cáráter de referencial único e decisivo que a teología da liber-
tagáo lhe quer atribuir. O Cristianismo clássico nao recusa a
historia e seus valores: apenas coloca-os na perspectiva da
eternidade.
5) Nao se deve julgar o procedimento dos antepassados
segundo categorías hoje vigentes, mas nao plenamente
desabrochadas na consciéncia de geracóes anteriores. Certos
tipos de comportamento hoje condenados podiam parecer legí
timos ou mesmo necessários aos olhos de nossos antepassados.
Dizendo isto, nao defendemos o relativismo ético da situagáo.
Mas pomos em relevo que o desabrochamento aínda incompleto
da consciéncia moral, assim como certos dados históricos e
geográficos, podiam dificultar aos antigos a percepcáo de va
lores éticos que a vida moderna apresenta mais claramente
aos nossos contemporáneos. Observa a propósito o Pe. Arlindo
Rubert no seu volume «A Igreja no Brasil. Origem e desen-
volvimento (século XVI)», p. 17:

— 245 —
70 tPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

"Se qulsermos compreender a historia, sentir as atitudes dos nossos


malores, multas délas para o homem de hoje chocantes e paradoxals, pro
curemos estudar a mentalldade de cada época, o sentido social do tempo,
os criterios em que se estribava a legislacSo vigente... Assim podemos
melhor entender certos episodios históricos, tais como a chamada Intole
rancia religiosa, a InquIsicSo, a distincSo entre crlstSo-novo e cristSo-velho,
o fato da escravatura... Aduzlmos tais exemplos nao para levantar loas
aos aspectos menos evangélicos dessas InstltuIcSes político-religiosas, mas
para descobrir menos má vontade ou Ignorancia nos homens do tempo.
Alias, nos homens do findar do século XX somos, com freqüéncia, assaz
Ingenuos e Incoerentes. Condenamos episodios passados que nos parecem
monstruosos e calamos fenómenos históricos em edicoes contemporáneas
aínda mals volumosas e cruéls, porque apresentados sob o disfarce de
IntencOes aparentemente legítimas ou em nome de leis socials que parecem
válidas e aceltáveis...".

Estas ponderagóes tém a importancia de atenuar o espirito


sistemáticamente crítico de historiadores contemporáneos, que
se tornam unilaterais e injustos, a título mesmo de praticar a
justiga.

Sao estas algumas reflexóes que a coletanea «Historia da


Teología na América Latina» nos sugere, numa tentativa de
juizo imparcial e objetivo.

AOS NOSSOS LEITORES COMUNICAMOS QUE, PARA


FACILITAR A CONSULTA E A UTILIZACAO DE PR,
FORAM PUBLÍCALOS O ÍNDICE GERAL DE «PERGUNTE
E RESPONDEREMOS» 1978-1982 (CINCO ANOS). PODE
SER SOLICITADO A EDITORA «LUMEN CHRISTI».

O ÍNDICE GERAL DE 1957 A 1977 FOI PUBLICADO


EM FOLHAS MIMEOGRAFADAS, QUE TAMBÉM PODEM
SER SOLICITADAS A «LUMEN CHRISTI».

A REDAQÁO

— 246 —
Na serie "Libertario e Teología":

"Dogmatismo e Tolerancia"
de Rubem Alves

Em Sintese: Rubem Alves, teólogo protestante dissidente das linhas


clássicas do presbiterianismo, julga que o Protestantismo representa, por
suas origens, o espirito democrático, crítico, progressista, criatlvo, ao passo
que o Catolicismo é a reiigiáo do dogma, da autoridade, da ordem, da
Institulcáo. Últimamente, poróm, o Catolicismo tem evolufdo no sentido de
admitir pluralismo em seu bojo e atitudes criticas em relacáo ás instituigóes
e á ordem social vigentes. 1A0 contrario, o Protestantismo tem-se fechado
em atitudes rígidas, inquisitoriais, alheias ás questfies sócio-pollticas — o
que seria mais compreensivel no Catolicismo. Em conseqüéncia, R. Alves
apregoa que o Protestantismo se volte para as suas origens e se encontré
com o Catolicismo de hoje na área da contestado da acáo social
(Evangelho social).

O livro, tendendo a reduzir realidades complexas (como o Catoli


cismo e o Protestantismo) a linhas esquemáticas, cai ás vezes em contra-
dicSes. Além disto, ó de notar a ausencia de auténtica visáo de fé quando
Rubem Alves considera o Cristianismo; parece encará-lo como um sistema
filosófico ou político que os homens poderiam adaptar a suas tendencias;
os criterios de ortodoxia e heterodoxia nSo serlam os da verdade e do
erro, mas os ¡nteresses dos mais fortes ou prepotentes. Inspirado por tais
premissas, R. Alves chega a ser sarcástico ou Irreverente diante de certas
atitudes religiosas.

Comentario: Apareceu em 1982 mais um livro muito


significativo sobre Cristianismo e «acáo transformadora da
sociedade». Deve-se á pena do teólogo protestante Rubem
Alves S que muito tem escrito sobre o fenómeno religioso, a fé
e a ciencia. O livro procura apresentar sínteses ou visóes de
conjunto, que caracterizem o Catolicismo e o Protestantismo,
especialmente através dos seus 160 anos de existencia conjunta
no Brasil. A obra nao pode deixar de interpelar vivamente o
leitor, levando-o a refletir sobre os tópicos langados pelo autor.
É em ressonáncia desses desafios que váo escritas as páginas
subseqüentes, em que 1) examinaremos o conteúdo do livro
e 2) proporemos breves ponderacóes a respeito.

i R. Alves, Dogmatismo e Tolerancia. Serie "UbertacSo e Teología",


n? 17. Ed. Paulinas, Sao Paulo, 1982, 129 x 198 mm, 172 pp.

— 247 —
72 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

1. O conteúdo do livro

Rubem Alves caracteriza Catolicismo e Protestantismo


ros seguintes termos:

1) Catolicismo

O Catolicismo seria:

a) a religiáo do dogmatismo, do totalitarismo ou da


falta de liberdade para os fiéis, que sao óbrigados a crer o que
a Igreja lhes ensina; cf. pp. 81. 106;

b) a religiáo da ortodoxia, em oposigáo á heterodoxia


« á heresia; cf. pp. 38.50;

c) a religiáo da magia ou dos sacramentos, que comu-


nicam a salvagáo ex opere operato, ou seja, pelo cumprimento
mesmo do rito sagrado; cf. p. 136;

d) a religiáo da autoridade, da ordem e da lei; cf. p. 134;

e) a religiáo que procura preservar o passado no pre


sente e menos pensa em se preparar para o futuro;
cf. pp. 138. 146.

Ao contrario,

2) O Protestantismo

... seria

a) a religiáo da tolerancia e da liberdade: «A autoridade


é algo estranho ao espirito do Novo Testamento» (p. 16). O
autor reconhece que a liberalidade das comunidades protes
tantes tem causado o esfacelamento e a desintegragáo do
Protestantismo: «O individualismo protestante contém em si
as sementes da desintegragáo» (p. 58);

b) conseqüentemente, o Protestantismo é «como o espi


rito da democracia, da modernidade, do progresso»; cf. p. 81;

— 248 —
«DOGMATISMO E TOLERANCIA» 73

c) o Protestantismo importa-se mais com a graga ou a


gratuidade da salvagáo, e nao sa preocupa tanto com a lei;
cf. pp. 18s. 37;

d) o Protestantismo cede á heterodoxia e á heresia. É


tolerante e nao dogmático: «Deus se ri das nossas tentativas
de conhecé-lo peía teología, aprisioná-lo em instituicóes»
(P. 15);

e) o Protestantismo é a religiáo da pregacáo, e nao do


sacramento; cf. p. 137.

R. Alves julga que estes elementos, por mais centráis que


sejam, estáo esquecidos no Protestantismo. Por isto, propóe
urna síntese do que seja o Protestantismo, usando de tom
dolorido:

«O protestantismo tem temas esquecidos, pecas empoeiradas,


que ninguém mais sabe usar, mas que poderiam ser tiradas das
sombras:

A liberdada (fot com este tema que a Reforma se iniciou)...

A grasa — que significa, básicamente, que o problema da sal-


vacao nao é um problema com o qual os homens devam se ocupar,
po¡s que depende exclusivamente de Deus. Livres de preocupacoes
com a temperatura do inferno e o mobiliario dos céus, os homens
poderiam dedicar-se a cuidar da térra, boa dádiva de Deus. . .

A fé, confianea — ninguém é salvo pela ortodoxia, mas pela


simples confianea em Deus, de modo que os protestantes devería m
se sentir livres para as mais loucas aventuras do pensamento — o
nosso jogo de contas de vidro — sabendo que heresia e ortodoxia
sao palavras do vocabulario dos fortes, mas nao do vocabulario de
Deus...

A 'teimosia profética, que denuncia todas as formas de opressáo


e absolutismo.. .

O museu das pecas esquecidas é ¡mensamente grande. Mas o


prego para nele se entrar é a coragem para mergulhar no próprio
passado. T5o pobre se tornou o protestantismo no presente que é
necessário voltar, redescubrir as raízes para ver se resta aínda alguma
esperance... x> (p. 37).

— 249 —
74 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

3) O momento presente

O autor julga que nos últimos decenios se verifica estranho


fenómeno: o Catolicismo desdiz a elementos menos valiosos da
sua tradigáo para abracar tragos do Protestantismo, ao passo
que este faz o jogo oposto: esquece os principios que nortearam
a Reforma no século XVI, para adotar elementos do
Catolicismo:

«Aqueles .que estudam o Catolicismo se defrontam com urna


surpreendente reviravolta -da Igreja, até o momento nao elucidada.
Como explicar que urna ¡nstituicáo hierárquica, aparentemente mono
lítica, de orientacáo sacramental, mágica e sacerdotal, famosa por
suas aliárteos com os poderes dominantes, este¡a passando pela
experiencia de profundas Tachaduras ideológicas e ¡nstitucionais?
Observa-se urna nova orientacáo teológica e prática na direeao do
'povo de Deus' (os leigos comuns, sem nenhuma participacao na
hierarquia), contempla-se o surgimento de um enorme pluralismo de
experiencias e tendencias, ao mesmo tempo em que a preocupando
com a justica e com os oprimidos se tornou marcante, ¡untamente
com a denuncia corajosa dos poderes dominantes, que desemboca
num tenso confuto com o Estado. Tudo isto se constituí numa sur-
presa que levanta questóes teóricas de fundamental importancia...

O estudo do Protestantismo nos surpreende de maneira inversa.


Criados ao embalo de urna ideología liberal, os protestantes apren-
deram que o Protestantismo é um espaco institucional onde a liber-
dade de consciéncia é um imperativo que pode e deve exprimir-se
numa tolerancia para com a diversidade e o pluralismo. Aprende-
ram também que, como o próprio nome indica, a tradicáo protes
tante é protesto, de resistencia a todas as armas de autoritarismo e
dogmatismo (representadas paradigmáticamente á consciéncia pro
testante pelo Catolicismo). A geracao protestante que, na década
dos anos 50, optou conscientemente pelo Protestantismo como urna
alternativa ideológica e como um instrumento de acao política, acre-
ditou ingenuamente nessas afirmacoes. Mas o periodo de ingenui-
dade teve duracáo curta. E isto, porque, antes mesmo que as armas
e o dinheiro tivessem inaugurado o novo Estado em 19Ó4, ¡á um
processo semelhante acontecía dentro dos espacos pastorais da reli-
giáo» (pp. 97s).

Na verdade, alguns setores do Catolicismo vém-se pronun


ciando em contrario & ordem sócio-político-económiea vigente
no Brasil, ao passo que as comunidades protestantes se fecham
as questóes de tal ordem e nao acompanham certos redutos
católicos em sua contestagáo.

— 250 —
«DOGMATISMO E TOLERANCIA» 75i

«Foi publicado, tempos afras, nos Estados Unidos um livro cujo


título levanta a seguinte questáo: Por que esteta crescendo as igre-
¡as conservadoras? Pergunta curiosa porque, dada a atmosfera crí
tica e inquisitiva do século em que vivemos, tudo parecería indicar
que os grupos mais abertos, e nao os mais fechados, deveriam estar
crescendo. Mas tal nao se dá. Os grupos conservadores, seja do tipo
fundamentalista, seja do tipo pentecostal, crescem. Mas aqueles que
tentam exprimir urna preocupacao crítica e profética estáo enfren
tando serias crises. Decresce o número dos seus membros. Decrescem
fambém, de forma substancial, as contribuícoes financeiras de que
dependiam estes .grupos para sobreviver» {p. 77).

Tendo colocado o problema, Rubem Alves tenta dar-lhe a


sua explicagáo:

O catolicismo, querendo manter a sua unidade institucional,


teve que aceitar certo pluralismo interno de teologías e orienta-
góes práticas. Daí tornar-se mais amigo da tolerancia e da
liberdade... Se nao tivesse procedido assim, teria perdido
grande número de adeptos, que haveriam desertado para o
Protestantismo; cf. p. 101.
Ao contrario, o enrijecimento do Protestantismo se explica
por duas premissas características da historia protestante: 1)
existe afinidade entre Protestantismo e capitalismo, tema muito
explanado especialmente a partir de Max Weber (p. 102); 2)
também existe afinidade entre Protestantismo e Estado tota
litario: isto parece pouco plausível, mas é comprovado pela
realidade do Calvinismo, «seque pretendía estabelecer um sis
tema totalitario de controle de vida dos cidadáos, sob a orienta-
cáo da Palavra de Deus» (p. 103). «A verdade nao pode fazer
concessóes ao erro» (p. 103).

Em vista de tal estado de coisas, R. Alves apregoa que o


Catolicismo continué a seguir a sua orientagáo mais liberal e
democratizante, ao passo que o Protestansimo há de tornar
a valorizar os seus principios de liberdade e criatividade: «Os
mortos podem renascer. Nao foi isto que ocorreu com a Igreja
Católica?» (p. 104).
Desenvolvendo tais idéias, o livro termina com as seguin-
tes observagóes:

«É consolador (e irritante) reconhecer que foi a Igreja Católica


que se apropriou dos melhores frutos do pensamento protestante.
E isto nos sugere urna estranha possibílidade: talvez um estudo das
idéias .protestantes ten ha de deixar as instituicóes protestantes para
entrar no seío do Catolicismo. . .

— 251 —
76 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

Talvez, para se falar do fufuro do Protestantismo ceja neces-


sário se lembrar do passado do Catolicismo. O que nos conduz á
visáo do vale de ossos secos, do profeta Ezequiel, que miraculosa-
mente se tornou numa multidáo incontável. Quem diría que a Igreja
Católica passarla pela metamorfose por que passou? Ninguém, muito
menos os protestantes. É possível que, num futuro talvez nao muito
distante, o Protestantismo se redescubra na sua própria heranca, viva
no Catolicismo, e .que isto conduza ao milagre da cura da inimizade
e se abra para um futuro comum» (p. 172}.

Passemos agora a urna reflexáo sobre as teses defendidas


por Rubem Alves.

2. Refletirrdo. . .

A leitura da obra em pauta sugere algumas consideragóes...

2.1. Objetivismo e subjetivismo

As diferengas entre Catolicismo e Protestantismo aponta-


das por Rubem Alves reduzem-se finalmente ao binomio: subje
tivismo e objetivismo. O Protestantismo é inspirado por urna
atitude subjetivista básica (R. Alves chama-a também «indivi
dualista», p. 58), ao passo que o Catolicismo é fundamental
mente objetivista.

Que significa isto?

1) O Protestantismo nao nega o Absoluto de Deus e da


Verdade revelada, mas julga que a interpretacáo da Palavra
Revelada e as conclusóes daí derivadas háo de proceder do
livre exame, ou seja, de um criterio subjetivo, pessoal e indivi
dualista. O mestre protestante pode dizer (ou ao menos
pensar): «Eu julgo que a Palavra de Deus na Biblia tem tal
ou tal significado e, por isto, acarreta tais e tais conclusóes
práticas». Se tal interpretagáo nao se encontra em alguma
comunidade eclesial, o mestre protestante que o queira, pode
fundar a sua «Igreja»; foi o que Lutero fez em relagáo á Igreja
Católica; foi o que muitos discípulos de Lutero fizeram em re
lagáo a este; foi o que discípulos de discípulos de reformadores
fizeram em relagáo aos seus mestres.

Escreve R. Alves:

— 252 —
«DOGMATISMO E TOLERANCIA» 77

«Religioes :3o como mesas de banquetes: ludo está preparado


e há desde os pratos rigorosamente destinados as dietas vegetaria
nas até as .gorduras chamuscadas ñas brasas para aqueles que gos-
tam de carne... E os fiéis se aproximam, cada qual com o seu
pratinho, e escolhem... Veja, observe! Já vao saindo com seus
pratos chelos» (p. 11).

Poder-se-ia dizer paralelamente, interpretando o pensa-


mento de R. Alves: religioes sao como partidos políticos. Cada
qual professa parte da verdade e do bem, mas ninguém está
obrigado a jurar por algum, porque todos sao instituigóes
meramente humanas, sujeitas as limitagóes dos seus fundado
res e guias.

A concepto de religiáo ácima exposta explica o ceticismo


de R. Alves em relagáo a «ortodoxia e heterodoxia», ou seja,
em relagáo á verdade e ao erro em materia de fé: a delimitagáo
entre um e outro se deveria a criterios políticos e nao a criterios
de verdade mesma. Leia-se, por exemplo, a explanagáo:

«Por que mecanismos se conclui que os ortodoxos sao orto


doxos e os hereges sao hereges? A historia nos dá urna pista muito
interessante para responder a esta pergunta: os hereges sao sempre
os vencidos e os ortodoxos os vencedores. Em última análise, a deci-
sao é feita por um processo político. Os hereges sao os fracos; os
ortodoxos sao os fortes. Aquilo que urna instituicáo eclesiástica reco
nhece como verdade, e que usa como criterio para estigmatizar o
herege, foi formulado e imposto, um dia, por aqueles que detinham
o monopolio do poder político nesta mesma instituido. Se a sitúa-
cao tivesse sido a oposta, isto é, se os perdedores tivessem sido viro-
riosos, o seu pensamento teria sido imposto como verdade e orto
doxia' e o de seus oponentes como heresia. Assim ortodoxia e here-
sia póuco ou nada nos revelam sobre o problema da verdade. Tais
conceitos simplesmente apontam para os vencedores e os perdedores»
{p. 110$).

2) Ao contrario, o Catolicismo é fundamentalmente obje-


tivista. Isto quer dizer: o católico reconhece o primado absoluto
de Deus e da Palavra de Deus tal como ela lhe é revelada por
Jesús Cristo (que é Cabega e Corpo ou Igreja). fía, pois, crite
rios objetivos, independentes do sujeito humano, para se dis-
tinguirem verdade e erro em materia de fé; esses criterios,
portante, nao podem ser identificados com interesses políticos.
O católico professa que Jesús Cristo nao abandonou a sua
Palavra e os seus discípulos ao jogo dos embates e vicissitudes

— 253 —
78 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

da historia, mas garantiu-lhes assisténcia especial, penhor de


integra fidelidade & verdade através dos sáculos, de tal modo
que na sucessáo de Pedro e dos Apostólos se acha o criterio
para encontrar incólume a Verdade Revelada. Por isto o cató
lico nao pode reconhecer outra Igreja senáo aquela fundada
por Jesús Cristo e entregue a Pedro e aos Apostólos. Qualquer
tentativa de fundar outra comunidade eclesial é obra humana,
fadada a se esfacelar e fracassar segundo a precariedade das
instituicóes meramente humanas e segundo o que acontece
lógicamente no Protestantismo.

Está claro que a Igreja nao tem o direito de alterar o


depósito da fé nem de o adaptar a interesses políticos, mas, ao
contrario, Ela o deve guardar e transmitir com absoluto res-
peito, sob a assisténcia do Espirito Santo. Sao palavras do
Concilio do Vaticano II:

«O oficio de interpretar auténticamente a Palavra de Deus


escrita ou transmitida oralmente foi confiado únicamente ao magis
terio vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesús
Cristo. Tal magisterio evidentemente nao está ácima da Palavra de
Deus, mas a seu servigo, nao ensinando senao o que foi transmitido,
no sentido de que, por mandato divino e com a assisténcia do Espi
rito Santo, piamente ausculta aquela palavra, santamente a guarda
e fielmente a expoe. E deste único depósito da fé tira o magisterio
o .que propSe para ser acreditado como divinamente revelado»
(Consr. Del Verbum n* 10).

É a cpnsciéncia do significado da Igreja que justifica a


autoridade da Igreja e dentro da Igreja. Dizer que «a autori
dade é algo estranho ao espirito do Novo Testamento» (p. 16)
é simplesmente esquecer textos como os de Mt 16,18; 18,18,
onde Jesús diz, no primeiro a Pedro só, no segundo aos mi
nistros da Igreja e a Pedro: «Tudo o que ligares (ligardes) na
térra será ligado no céu, e tudo o que desligares (desligardes)
na térra será desligado no céu»... Os vocábulos ligar-desligar,
tirados da linguagem rabínica, significam impor ou absolver
jurídica e autoritariamente. Notemos, porém, que autoridade
nao implica prepotencia arbitraria, mas servicp benévolo aos
irmáos.

Ao conceito de autoridade está associado o de instituicSo.


Esta diz organizacao, distribuicáo de tarefas e responsabili
dades, em vista da consecucáo de um objetivo; é nota própria

— 254 —
«DOGMATISMO E TOLERANCIA» 79

de qualquer sociedade de homens peregrinos nesta térra. O


conceito de instituigáo nao se opóe ao de comunidade
(= partilha solidaria de interesses) nem significa enrijeci-
mento mortífero ou mumificagáo de uma sociedade viva.

Dentro da instituigáo da Igreja e sob o signo da ortodoxia,


pode existir pluralismo, ou seja, toda a gama de posigóes dou-
trinárias e práticas compatíveis com os termos da Palavra
revelada por Cristo. Daí haver na Igreja Católica a teología
alexandrina, a antioquena, a tomista, a escotista, a motinista,
a teología querigmática, a teología narrativa, a espiritualidade
inaciana, a carmelita, a berulliana, a sulpiciana... O plura
lismo sempre existiu na Igreja; talvez em nossos dias se estenda
por um leque maior, mas ocorre sempre dentro dos parámetros
da doutrina oficial da Igreja. Alias, o Papa Joáo XXIII, ao
convocar o Concilio do Vaticano II, lembrou antigo axioma,
tradicional na Igreja: «Ñas coisas necessárias haja unidade;
ñas coisas indiferentes, haja liberdade; em todas as coisas, haja
caridade».

2.2. Sacramentos e(ou) pregacáo?

Ás pp. 136s, R. Alves estabelece a distingáo-oposigáo entre


sacramentos e pregacáo:

«Basta que olhemos superficialmente para as duas comunidades


— Católica Medieval e Reformada — para verificar que uma dife-
renca fundamental as distinguía. A primeira constituia-se em torno
da participacáo mecánica no sacramento (que era idéntico á parti
cipacáo na ordem global), enquanto a segunda se reunia em torno
da pregacáo. ..

... a linguagem da mágica, que admite ter poder para mudar


o mundo (tal como acontecía com as fórmulas sacramentáis medie-
vais, instrumento para a transubstanciacao) ...

... a pura participacáo, sacramental ou de consumo (note-se


que a mercadoria funciona como o sacramento do homem da socie
dade de consumo) conduz a uma relacao de unídimensionalidade».

Os sacramentos (Batismo, Crisma, Eucaristía, Penitencia,


Ungáo dos Enfermos, Ordem, Matrimonio) sao sinais sensíveis
através dos quais Deus comunica sua graga numa atitude

— 255 —
80 «PERGUTSTTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

soberana, todavía nao mágica. Isto quer dizer: os ritos sacra


mentáis devidamente celebrados sempre propiciam a grasa de
Deus, mas nunca a imp5em mecánicamente ao fiel; nunca
santificam independentemente da vontade do cristáo. Assim se
combinam entre si graca (gratuidade da parte de Deus) e Lei
(observancia dos preceitos do Senhor por parte do homem);
nao há dilema entre graga e vida ética ou prática das virtudes;
ao contrario, agüela suscita e exige a resposta ética do cristáo.

A pregagáo ou a Palavra sempre acompanha a celebragáo


dos sacramentos da Igreja, nao como palavra mágica, mas
como linguagem de interpretagáo ou linguagem que analisa o
presente á luz do passado e projeta seu olhar para o futuro
(exatamente como R. Alves afirma ser a pregagáo protestante).

2.3. Contrad¡s5es

R. Alves reconhece que «no Protestantismo, como no Cato


licismo, nada há de simples... O que pode ser dito de cada
um de nos: legiáo, muitos nomes, muitas vozes, muitos gestos.
É o que ocorre com o Protestantismo» (p. 104).

Na verdade, o autor, tencionando caracterizar sintética


mente o Protestantismo e também o Catolicismo, aborda
temática muito complexa. Em conseqüéncia, parece que nao
cónseguiu evitar contradigóes. Eis dois pontos para os quais o
leitor poderia legítimamente esperar elucidagóes da parte do
autor:

1) Autoritarismo... Para R. Alves, o Protestantismo


representa o grito de liberdade dos cristáos nao só do
sáculo XVI, mas da época moderna; cf. pp. 97.119. Todavia o
autor afirma também urna «possível afinidade entre o Protes-
tismo e um Estado autoritario» (p. 102); e cita o caso do
Calvinismo, que «criou- mecanismos internos de repressáo do
possível comportamento desviante» (p. 103).

2) Mais de urna vez o autor relativiza o conceito de


heterodoxia ou verdade de fé («Deus se ri das nossas tentativas
de conhecé-lo pela teología», p. 15) *. — Nao obstante, afirma

i"A aceitadlo de um discurso como verdadelro e ortodoxo e a rejel-


c8o de outro como falso e heterodoxo se dé ao nfvet do poder político dos
sujeltos que enuncian) e sustentam os tais discursos. O que importa, é
quem tem a última palavra. E isto se decide em nfvels pré-lingüfsticos"
(p. 38).

— 256 —
«DOGMATISMO E TOLERANCIA» 81

que «o Protestantismo privilegia a questáo da verdade, e foi


obrigado a estabelecer padróes relativamente rígidos daquilo
que era tido como a doutrina verdadeira» (p. 102). Ou aínda:
«O Protestantismo se organiza em torno da questáo da verdade»
(p. 101).

Que pensar a respeito dessas ambigüidades? R. Alves


nao ficou demais na superficie da problemática? Nao se
precipitou ao querer caracterizar sumariamente Catolicismo
e Protestantismo?

3) Convém ainda citar o conceito de «profeta» proposto


por R. Alves: «O profeta é sempre um desviante, que denuncia
a verdade socialmente aceita como falsidade e idolatria, e
anuncia a sua verdade» (p. 112).

Eis outro tópico precipitado e um tanto leviano: na ver


dade, o profeta nao é sempre um desviante ou um contestador;
ele é muitas vezes um consolador e amigo; é um conselheiro
que está ao lado dos reis e do povo para orientá-los em nome
de Deus; cf. Is 7,3-17; 44,1-8.21-28; 52,1-12; Jr 31,1-28.31-40;
Ez 40,1-48,35...

2.4. O Catolicismo «se protestantiza», o Protestantismo


«se catolidza»

1. Ao verificar o pluralismo e a criatividade no Catoli


cismo contemporáneo, Rubem Alves julga que a Igreja Católica
se protestantiza: «Dizia o falecido Gustavo Corcáo, com toda
razáo, que a Igreja Católica estava se protestantizando. E
parece que nunca disse coisa táo verdadeira» (p. 16). Doutro
lado, R. Alves vé no fechamento do Protestantismo as questóes
sócio-políticas de nossos dias urna atitude que seria mais com-
preensível no Catolicismo. E dirige um apelo ao Protestantismo
para que se vá encontrar com o Catolicismo na área das reivin-
dicacóes por urna sociedade terrestre renovada (p. 172).

2. A propósito observemos:

a) O interesse do Catolicismo pelos valores humanos e


por urna sociedade democrática deriva-se do Evangelho e nao
da tradigáo protestante. Por conseguinte, o fato de propugnar
tais valores nao assimila o Catolicismo ao Protestantismo.
Quanto a outras expressóes do Catolicismo posterior ao Conci-

— 257 —
82 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

lio, como Liturgia em vernáculo, participada por toda a


assembléia, leitura assidua da Biblia, valorizado da homilia,
vivencia de «povo de Deus», elas sao anteriores ao Protestan
tismo (sáculo XVI); trata-se de práticas da Igreja antiga que,
por um motivo ou por outro, foram no decorrer dos tempos
postas de lado, mas hoje em dia sao restauradas por correspon-
derem a legitimas exigencias de nossa época.

b) Doutro lado, o fato de que o Protestantismo se fecha


ao espirito democrático e assume atitudes autoritarias, nao é
heranga recebida do Catolicismo, mas decorre de certas pre-
missas do próprio Protestantismo:

«é muito fácil a um grupo religioso capitular ante os poderes


do Estado. Especialmente quando existe urna longa tradicáo de sepa-
racao de poderes que reserva a esfera política para os governantes,
c segrega a l.greja a urna regiao espiritual e interior. Por varios
séculos a Igreja luterana afirmava a doutrina dos dois Reinos: o Reino
da Le!, secular, a-religioso, com poderes para gerir as questoes deste
mundo, e o Reino da Graca, pessoal e íntimo, definido pela Igreja,
o comunidade dos fiéis, a pregacao da palavra, os sacramentos»
(P. 71).

Donde se vé quáo irreal é dizer que o Protestantismo


assume atitudes católicas em materia sócio-politica.

c) É para desejar, sim, que católicos e protestantes se


aproximem mutuamente no desempenho de sadia agáo política
iluminada pelos principios do Evangelho. Contudo é para de
sejar que a uniáo entre católicos e protestantes se realize em
nivel ainda mais profundo, ou seja, no nivel da fé e do Credo.
Tal uniáo nao poderá efetuar-se com detrimento da verdade
ou mediante concessóes «políticas» de parte a parte, pois o
patrimonio da fé nao é um legado meramente humano, mani-
pulável por homens (como seria um sistema filosófico ou um
programa de partido político), mas é um teso.uro comunicado
por Deus, que exige absoluta fidelidade; qualquer «adaptagáo»
desse patrimonio (considerado em seus tragos essenciais) seria
traicáo ao Senhor Jesús. A propósito o Concilio do Vaticano II
promulgou oportuno documento dito «Unitatis Redintegratio»,
que em sadia abertura ecuménica .traga as linhas segundo as
quais o Catolicismo há de se voltar para os irmáos separados.

— 258 —
«DOGMATISMO E TOLERANCIA» 83

3. Gonchjscto

O livro de R. Alves é interessante pelas tentativas de síntese


que apresenta ou pelo fato de tentar por em relevo os tragos
característicos do Catolicismo e do Protestantismo: alguns
quadros panorámicos sao muito válidos, ao lado de outros
menos felizes. Todavía o livro ressente-se de certo relativismo
e ceticismo em relacáo a proposigóes da fé — o que vem a ser
assaz grave. Certas proposigóes do Cristianismo sao por vezes
consideradas em tom fortemente sarcástico e irreverente;
cf. pp. 19.29.110s. O relativismo leva por vezes o autor a con
siderar o fenómeno «Cristianismo» segundo perspectivas mera
mente humanas (sociológicas, económicas, políticas...); R.
Alves dá grande importancia as questóes sócio-políticas, que
parecem nao raro absoryer, aos seus olhos, os demais valores
humanos, inclusive a religiáo.

De resto, tal posigáo nao surpreende o leitor que tenha


conhecimento da tese doutoral de Rubem Alves apresentada no
Princeton Theological Seminary em 1968 com o título «Toward
a Theology of Liberation» (traducáo castelhana: Religión: Opio
o instrumento de liberación? Montevideo 1970). Este livro é
assaz avancado na directo de um secularismo ou da chamada
«teología da morte de Deus». R. Alves é mais crente em «Dog
matismo e Tolerancia» do que em sua tese doutoral, mas nao
é guia para introduzir o leitor no ámago da mensagem crista.

A guisa de bibliografía :

ALVES, RUBEM, Towards a Theology of Llberatlon, Princeton 1968. Em


traducao castelhana: Religión: Opio o Instrumento de liberación?, Monte
video 1970.

IDEM.VarlacSes sobre a vida e a morte. SSo Paulo.

CONCILIO DO VATICANO II, ConstltuicSo "Del Verbum."


Decreto "Unltatls Redlntegratio".

MATEO SECO, LUCAS F., G. Gutlerrez-H. Assman-R. Alves: Teología


de la Liberación, Madrid 1981.

MONDIN, BATTISTA, Os Teólogos da Ubertacao. Sao Paulo 1980.

TEPE, VALFREDO, Estarcios Salvos, SSo Paulo 1982.

— 259 —
livros em estante
Os poderes de Jesús Cristo, por Lauro Trevisan. — Editora e Distri
buidora da Mente, Santa María (RS), margo 1983, 138 x 210 mm, 266 pp.

Eis mais um llvro do Pe. Lauro Trevisan, de quem já comentamos


"O Poder Infinito da sua Mente" em PR 263/82, pp. 299-309. Nesta nova
obra, o autor propaga idólas de seus escritos anteriores: identifica a oracáo
com o poder da mente: "Orar é pensar. Ora é falar o seu pensamento...
é dizer o que vocé quer que acontece na sua vida interior e exterior" (p. 53).
A oracfio seria, pois, um meio de acionar a energía que liga o individuo
ao universo; o aclonamento dessa energía desencadearia os efeltos físicos
e psíquicos intencionados pelo "orante"; oracáo seria, pois, um processo
mecánico assemelhado pelo autor ao da corrente elétríca:

"O pensamento cria, o desejo atrai, a fé realiza... Esta é urna lei


que nño falha... Quando vocé pede algo e nao alcanga, nao desconfie
da veracidade desta lei, porque a leí nao pode falhar. Veja onde vocé
falhou... Se vocé coloca urna tomada na sua casa e ela nSo liga, vocé
val tratar de rever a llgacáo da tomada, nao é mesmo? Porque eletrici-
dade vocé sabe que tem na sua casa. Tanto é verdade que outras lám
padas e tomadas estáo ligadas e funcionam. Assim é com a lei do PEDÍ
E RECEBEREIS" (p. 230s).

Ora tais con ce p?oes nada tém que ver com o concetto cristáo de
oracSo; este ensina que orac&o é elevacáo da alma a Deus, a fim de que,
em atitude filial, o louvemos e Ihe proponhamos as nossas indigencias,
sempre com a cláusula: "Faca-se, porém, a tua vontade, ó Pal, e nao a
mlnha" (palavras do Senhor Jesús em Me 14,36). A concepeáo de oracao
defendida por Lauro Trevisan se deriva, em última análise, da sua nocao
pantefsta de Deus e do homem; este funciona melhor com Deus, com
poderes divinos, desde que entre em estado alfal Cf. p. 55.

Muito graves neste llvro sao também as ídéias que o autor externa a
respeito de Jesús. Até o Batismo, segundo L. Trevisan, Jesús era simples-
mente o filho de María e José; era apenas Jesús. No Batismo, porém,
"fol gerado o Cristo, o Filho de Deus" (p. 59); Jesús veio a ser "o Cristo,
o Iluminado, o Messias, o Salvador, o Grande Avalar" (p. 59). Ou aínda:
no Batismo, "o Espirito Santo gerou o Cristo" (p. 37). "Até aqui existia
o Jesús, o Filho do homem; mas agora nascia ou era gerado o Filho de
Deus" (p. 37). Tais frases nao podem deixar de surpreender profunda
mente a quem sabe que provém de um presbítero católico que celebra a
S. Mlssa e se apresenta como sacerdote da Igreja. "Messias" e "Avalar",
Cristianismo e Budismo pantefsta se encontram na mesma frase!

A tese segundo a qual no Batismo Jesús se tornou o Filho de Deus


ó a da heresla adopcionista difundida em grupos dos primeiros séculos.

Jesús terá operado maravilhas com o poder de sua mente ou utilizado


o conhecimento que tinha das energías especiáis contidas no universo
(p. 59). Voltaremos oportunamente a comentar o livro, o que, alias, de
certo modo é felto em termos técnicos e numa vIsSo cle.ntífica pelos autores
da obra segulnte:

— 260 —
LIVROS EM ESTANTE 85

Técnica do Poder da Mente e a Salvacao, por uma comunidade de


médicos cristSos. — Ed. Loyola, Sao Paulo 1983, 138 x 207 mm, 74 pp.

Esta obra se deve a um grupo de médicos da diocese de Sao José


dos Campos (SP), grupo apresentado pelo próprlo bispo diocesano Dom
Eusébio Osear Sene id, que corrobora com a sua palavra as advertencias
da equipe de autores. Estes se dedlcaram a atenta análise dos cursos de
Controte da Mente que se váo multiplicando pelo Brasil sob diversos nomes
e conseguem seduzir milhares e milhares de pessoas: "Há uma yariedade
de cursos que usam os recursos hipnóticos para atingir sua finalldade.
Após os cuidados preparatorios indispensáveis induzem o estado hipnoidal,
podendo progredir até o transe hipnótico profundo da etapa sonambúlica,
onde poderla se processar uma ac3o equivalente á lavagem cerebral" (p. 11).

Tais cursos nao somente violam a personalidade dos seus ouvintes e


os sugestionam, de modo a induzi-los a concepcoes mirabolantes e com-
portamentos exóticos. Também professam, via de regra, o panteísmo ou
monismo, isto é, a doutrina que identifica a Divindade e o homem, como
se fossem uma única substancia em evolucáo:

"Os conceitos admitidos pela maioria destes cursos em relacáo á


constituicáo do HOMEM divergem fundamentalmente da concepgao do
homem sob a ótica crista. Pode-se dizer que, via de regra, os diferentes
cursos de controle da mente apresentam clara e veladamente este homem
sob o ponto de vista MONISTA/PANTElSTA... O raciocinio pode ser
lógico, mas partem de premlssas erradas, antlcristas ou pantefstas" (p. 19).

O panteísmo é aberrante, porque identifica Absoluto e relativo, Neces-


sário e contingente, Infinito e finito.

Voltaremos a este livro para apreciá-lo mais detidamente ñas páginas


de PR. Por ora desejamos agradecer aos autores o belo trabalho que vém
realizando e exprimir-lhes os votos de que continuem sempre com pleno
éxito a esclarecer o público, que em última análise procura o que só o
Evangelho transmitido pela S. Igreja pode oferecer.

Deus te espera, por Pe. Alfredo Pérez González. Rio de Janeiro 1983
(2? edlcSo), 140 x 210 mm, 280 pp.

Este livro aparece em segunda edicto, revista e notavelmente acres-


cida. É um compendio de Teologia Dogmática, Sacramentarla e Moral,
destinado aos jovens estudantes de Colegios, Seminarios assim como a
adultos que se queiram instruir na fé. O estilo é claro, didático e sólido.
Nio sao muitos os manuais da fé católica que se possam utilizar para a
formacao do povo de Deus, pois alguns se preocupam excessivamente com
a acSo do cristao no mundo e deixam de enfatizar partes importantes do
Credo; outros cedem a teorías e hipóteses discutidas em vez de apresentar
a doutrina oficial da Igreja. No livro em foco, tem-se a mensagem crista
devidamente explanada sem desvíos. Chamamos a atencáo para os capí
tulos acrescentados á edicao anterior: "Teología antiga e Teologia nova"
(pp. 265-270) e "Temas da nova Teologia" (pp. 271-280), capítulos em que
o autor considera problemas atuais como a da reformulacáo das verdades
da fé, mantendo sadlo equilibrio. Um índice de Pessoas e Materias (nao
paginadol) completa a obra e facilita-lhe o uso. Congratulamo-nos com o
autor por esse valioso trabalho, que muito se recomenda aos fiéis, em
geral, e aos professores de Cultura Religiosa, de modo especial.

— 261 —
86 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

Os pedidos sejam dirigidos ao autor no enderezo: Rúa Roberto


Silva 60, Ramos, 21060 Rio de Janeiro (RJ). Fone: 230-8291.

A Fé explicada, por Leo J. Trese. Tradujo do inglés por Isabel


Pérez. — Editora Quadrante, sao Paulo 1981, 138 x 216 mm, 420 pp.

Trata-se da tradugSo do livro norte-americano "Trie Faith Explained",


que expde a mensagem crista segundo o esquema habitual: O Credo, Os
mandamentos, Os sacramentos e a Oragáo.

O autor é seguro em suas afirmacdes e fiel á doutrlna da Igreja;


explana as verdades da fé, levando em conta as posslveis objegOes que a
propósito deste ou daquele ponto Ihes poderlam ser feitas; assim, por exem-
pto, no tocante á criagáo e ao pecado original (pp. 39-53). Apenas dese-
jamos lembrar que o monogenismo, estritamente proposto pelo autor, nfio
é de fé (cf. p. 43); pode-se conceber a doutrina da criagáo e do pecado
original numa perspectiva poligenlsta: Adáo significarla o Homem, o Ser
Humano posto dlante do Criador, independentemente do número de indivi
duos que constitulam a humanidade nos seus primordios. Como nlnguém
pode afirmar quantos eram, nlnguém também pode condenar o monoge
nismo como erróneo; como quer que seja, nao convém identificá-lo com a
doutrina da fé. É correta a posigSo do autor no que concerne ao evolucio
nismo; este pode ter ocorrido para o corpo do homem, mas, em qualquer
hlpótese, a alma terá sido criada e Infundida por Oeus aos primeiros viven-
tes que tenham atingido o grau de perfeigSo do corpo humano.

Recomendamos esta obra aos fiéis leigos e seminaristas; o autor nao


somente comunica a verdade contida ñas proposigSes da fé, mas sabe
transmitir também o amor e o respelto á mesma num estilo muito agradável
e fluente. Tenham-se em vista, por exemplo, os "Conselhos práticos para
comungar" (pp. 312-314), seccáo em que o autor lembra certos sinais e
símbolos de que precisa a fé para se alimentar. Algumas das páginas do
livro descem a minucias que hoje em dia se tornaram raras em obras
semelhantes, mas que nem por isto perderam a sua razáo de ser.

Igreja, o que é? aos cuidados da Prelazia de Sao Félix do Araguaia.


Colecáo "Da base para a base" / 7. — Ed. Vozes, Petrópolis 1982 (4? edi-
cáo), 160 x 210 mm, 46 pp.

Este opúsculo, de caráter popular, redlgldo em linguagem simples e


ilustrado por desenhos, pretende explicar aos fiéis o que seja a Igreja.
Todavia verifica-se que pSe em relevo apenas certos aspectos da Igreja,
além de Incorrer em impropriedades de linguagem. Os autores do opús
culo incutem a nocáo de povo de Oeus que, como dizem, compreende
"os cristáos batizados, católicos, protestantes e crentes que vivem no jeito
que Jesús quer. Também os nao cristáos que vivem com slncerldade e
lutam pela liberdade e a dignidade de todas as pessoas" (p. 29). — Per-
gunta-se: será que a Igreja se identifica simplesmente com o povo de
Deus assim compreendido? A Igreja professa a fé que Cristo Ihe entregou,
celebra a Liturgia Instituida pelo Salvador e conserva a ffdelidade a Pedro
e aos seus sucessores; urna explanag&o sobre a Igreja nao pode delxar
de Incluir tais notas. Estas nao sao de todo silenciadas pelo opúsculo,
mas nao aparecem na caracterizagáo da Igreja. Além disto, verifica-se
que o vocábulo "Igreja" é usado no plural em sentido relativista, como se

— 262 —
LIVROS EM ESTANTE 87

pudesse ser unívocamente atribuido á Igreja Católica e ás comunidades


cristas nao católicas; cf. p. 20. A Igreja de Cristo sao atrbufdos erros e
desvíos, sem que os autores procedam á devlda matizacao; com efeito,
os erros se devem aos homens da Igreja e sao cometidos á revelia da
Igreja; ademáis muitos feitos que hoje sao reconhecidos como erróneos,
nao o eram no passado; cf. pp. 21.24. Além do qué, a Igreja Católica
como tal nunca se desviou da verdade, mas é auténtica depositarla e
transmissora da mesma, de acordó com a assisténcia que Jesús Cristo Ihe
prometeu; cf. Mt 16,16-19; 28,18-20.

A p. 25 a expressüo "A Igreja está dividida" é ambigua. A p. 22 a


mencSo das induigéncias é caricatural; em vez de desfigurar tal instituigáo
aos olhos dos fiéis (que geralmente estSo mal Informados a respeito),
teria sido oportuno esclarecer o que sao as indulgencias, pondo em relevo
o sentido teológico das mesmas, como fez o S. Padre Paulo VI na Constl-
tulcáo Apostólica "Indulgentiarum Doctrina" de 1/01/1967.

Em suma, o opúsculo está longe de corresponder á Eclesiologla do


Concilio do Vaticano II; tem, antes, o tipo de um panfleto ideológico ou
unltateralmente concebido em vista da "conscienttzacSo" do povo de Deus.
Segundo a Assembléia de Puebla, Ideología é "toda concepgao que ofe-
re?a urna visfio dos diversos aspectos da vida, desde o ponto de vista de
um grupo determinado da socledade. A Ideología manifesta as aspiracdes
desse grupo, convida para certa solidariedade e combatlvldade e funda
menta sua legitimacSo em valores específicos. Toda ideología é parcial,
já que nenhum grupo particular pode pretender Identificar suas aspirares
com as da socledade global" (rí? 535).

Estas palavras do Documento de Puebla enquadram e definem bem


o tipo do opúsculo em pauta.

O Principe da Paz, por Irene Tavares de Sá. — Ed. Loyola, SSo


Paulo 1983, 150 x 210 mm, 134 pp.

Irene Tavares de Sá, conheclda educadora e escritora, houve por


bem escrever urna sintese da historia sagrada para adolescentes, tendo
em vista fácil itar-lhes a assimllacgo do texto bíblico.

A autora selecionou episodios importantes do Antigo Testamento,


como a criagáo, o pecado, as figuras de Abraáo, José, Moisés, Josué,
Sansáo, Ester, os Macabeus... Quanto ao Novo Testamento, percorreu as
grandes llnhas da vida de Jesús e desenvolveu temas de fé, como a
SS. Trindade, a Graca, a tgreja, a Eucaristía..., procurando assim trans
mitir o conheclmento de Importantes artigos do Credo. Vé-se que a autora
se dedícou cuidadosamente á sua tarefa, esforcando-se por ser precisa
onde Jiavia possibilidade de ambigüidade ou de interpretac5es diversas;
assim já na Introducto, pp. 11s, a evolucáo é admitida para o corpo
humano, mas a criag&o é exigida para explicar a origem da alma humana.

O livro é ameno e atraente, vasado, por vezes, em estilo poético.


Possa fazer o bem que a benemérita autora teve em mira! As Escrituras
falam na medida do amor com que alguém as lé. Irene Tavares de Sá
sabe despertar nos pequeños o amor ás Sagradas Escrituras, como de
certo modo já observa o Sr. Arcebispo Dom Delgado no Prefacio da obra.

— 263 —
88 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 268/1983

Da Orlgem do Homem, por Samuel Novaes Figuelra. — Salvador,


Bahia, 1982, 160 x 210 mm, 262 pp.

O Dr. Samuel Novaes Figueira é membro da Sociedade Brasileira de


Médicos Escritores e da Academia Evangélica de Letras do Brasil. PropSe
longo estudo (que infelizmente nao aprésenla Sumarlo para se poder ter,
logo de Inicio, urna vlsáo de conjunto), em que tenta demonstrar a impos-
sibilldade da evolucSo do ser humano a partir de vivente inferior. Cita em
contrario testemunhos de dentistas múltiplos mais do que propiamente
argumentos de antropología, biología, genética ou ciencias naturais; o livro
é relativamente pobre no campo das pesquisas empíricas e procede por
via de autoridade (que, em última análise, é a do texto de Génesis 1-3
tomado ao pé da letra; cf. p. 138).

Com todo o respeito devldo ao autor, tomamos a liberdade de discor


dar frontalmente da tese do livro em foco pelos seguintes motivos:

1) O texto bíblico, que reconhecemos como Palavra inspirada por


Deus, tem em mira comunicar aos homens urna mensagem religiosa, ou
seja, nos dizeres de S. Agostinho, ensinar "como se vai ao céu, e nao
como val o céu". Vejam-se também as palavras de S. Paulo: "Toda Escri
tura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir,
para educar na justica, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, quali-
ficado para toda boa obra" (2Tm 3,16s). A finalidade da Escritura é, pols,
de ordem moral e religiosa estritamente. Por conseguinte, infligiría violen
cia á Escritura quem quisesse argumentar a partir de Gn 1-3 para tecer
alguma teoria a respeito da maneira como o mundo e o homem se origi-
naram. O que o texto sagrado quer dizer, é que todas as criaturas tém
sua origem e sua finalidade em Deus; este é o Criador, direto ou indireto,
de todos os seres, inclusive do homem. O exame literario do texto sagrado,
hoje relido á luz dos documentos descobertos ñas térras orientáis bíblicas,
exige que nSo se atribua valor de ciencias naturais aos dizeres poéticos e
figurados de Gn 1-3.

2) As ciencias naturais apontam como muito verossimil um certo evo


lucionismo; o corpo do homem viria de um primata primitivo, do qual
também se teráo originado os macacos superiores hoje existentes. A fé
nao afirma nem rejeita tal proposIcSo; nada tem a Ihe opor desde que se
admita que a alma humana, por ser espiritual, nao veio por evoluc3o, mas
foi dlretamente criada por Deus e infundida nos seres evoluídos até o grau
de organlzacáo do corpo humano. Por conseguinte, a evolucáo do corpo
humano é antropológicamente possível e, do ponto de vista da fé, acei-
tável (feita a ressalva atrás); a criacSo direta da alma humana, alias, é
exigencia da s§ razao.

3) Infelizmente o evolucionismo foi originariamente proposto por


Charles Darwln numa perspectiva materialista, mecanicista e afinalista, sendo
¡mediatamente utilizado pelos estudiosos irreligiosos do século XIX como
arma contra a veracidade da Biblia e da fé. Em conseqüéncla, muitos pen
sadores, crlstáos e nao crlstaos associaram entre si evolucionismo e
Impiedade-atefsmo. Posteriormente, porém, verificou-se que a evolucáo da
materia e dos viventes pode ser entendida numa visSo teleológica, fina
lista ou sob a regencia do Senhor Deus. Em vista disto, dir-se-á: Deus é

(Continua na pág. 188)

— 2fi4 —
LIVROS ESPANHÓIS

Obras Completas de Santa Teresa de Jesús (BAO, 7? ed., 1184 p.

Biblia y legado del antiguo Oriente (El entorno cultural de la Historia de


salvación), M. García Cordero (BAO, 700 p.

Exposición de la Fe cristiana (BAO, Mons. Miguel Peinado Peinado, 380 p.

Cristo, Vida del mundo (BAO, Bertrand de Margeríe, 395 p.

Sagrada Biblia, versión directa de las lenguas originales, Eloino Nácar


Fuster y Alberto Colunga Cueto, (42? ed.), 1642 p.

La verdad sobre Jesucristo, su biografía narrada por quienes le conocieron,


Jesús Martínez Cajal,. ene.

Lo que dijo verdaderamente la Biblia, Manfred Barthel, 352 p.

El encuentro con Dios, una interpretación personalista de la religión


J. Martín Velasco, 252 p.

Historia del Cristianismo, Manuel Riu Riu, 180 p.

Astronomía, explorando el universo, 333 ilustraciones, 16 mapas, 536 p

El Jesús de los Evangelios, José Caba, 332 p.

Cristo Vivo, Vida de Cristo y vida cristiana (5? ed.), José Cabodevilla, 1974.

Queremos ver a Jesús (Retiro en el Vaticano), Cardenal Eduardo Piro-


nio, 306 p.

María en la Escritura y en la fe de la Iglesia, Cándido Pozo, 172 p.

La Regla de San Benito, texto bilingüe y comentario de D. Garcia Colom


bas OSB, 500 p.

Soy cristiano (Apuentes para un Catecismo del pueblo, Gonzalo Girones, da


Universldade de Valencia, 480 p.

Padres Apostólicos (BAO, Edición bilingüe completa. Daniel Ruiz Bueno,


1130 p.

Tomando por gula et Evangelio — Reteyendo la Regla de San Benito, 252 p


EDIQOES LUMEN CHRISTI
Rúa Dom Gerardo, 40 — 59 andar — Sala 501
Caixa Postal 2666 — Tel.: (021) 291-7122
20001 — Rio de Janeiro — RJ

NOVIDADES

"O MISTERIO DO DEUS VIVO", por A. Patloort O.P.

TraducSo de D. Cirilo Folch Gomes. Cerca de 200 págs.

é um tratado sobre Deus Uno e Trino. Usado como livro de


texto na Pontificia Universidade de Santo Tomás de Aquino,
Roma. Obra em estilo didático, de orientacSo tomista e
grande informacSo bíblica, aborda assuntos candentes como
a "Teología do Processo", "o sofrimento de Deus", "a pre
destinado e o mal", etc. Para cursos de bom nivel teoló
gico.

O HUMILDE E NOBRE SERVICO DO MONGE, pelo Abade Presi


dente da Congregado Beneditina de Subiaco, D. Gabriel
BRASO OSB. TraducSo de Alceu Amoroso Lima e suas
lilhas, 230 p. (A sair brevemente).

SALTERIO — 150 Salmos, traducSo da CNBB, com 75 Cánticos do Antigo


e do Novo Testamento traduzidos por O. Marcos Barbosa, especial
mente para uso monástico. Edigño bilingüe (latim-portugués), 650 p.
Edlcfio só em vernáculo, 500 p.

INSTRUCAO GERAL SOBRE A LITURGIA DAS HORAS — Vol. V da Cole-


cáo "A Palavra do Papa". Documento da Congregado dos Sacra
mentos e do Culto Divino, regulando a recitacSo do Oficio Divino.

LITURGIA DAS HORAS — (EdicSo da. Gráfica de Coimbra, 1983), em qua-


tro volumes, contendo em cada volume salmos, antífonas, leituras e
responsos, papel biblia, em estojo 'plástico. — é o Breviario do Vati
cano II, promulgado pela Santa Sé, para' uso do Clero, Religiosos e
Leigos. Aceitam-se encomendas, que seráo atendidas logo que che-
garem da editora de Portugal.

APOFTEGMAS — A Sabedoria dos Antigos Monges, TradugSo e anotacoes


por D. EstévSo Bettencourt. Breves sentencas proferidas pelos primi
tivos monges do deserto, que viviam praticando oracSo e ascese. Sen-
tengas que propóem urna doutrina, urna norma de vida espiritual ou
narram um episodio instrutivo e edificante da vida desses ascetas que
vlveram no Egito dos séculos IV e V, 262 *p.

BODAS DE PRATA E DE OURO — Ritual e textos de Mlssa para uso dos


jubilares e seus convidados, 9? edicSo, 24 p.

MEUS QUINZE ANOS — Ritual e textos de Missa, para uso do Celebrante


e convidados dos jovens, 12? edicSo, 24 p.

A UNCAO DOS ENFERMOS — Ritual de urgencia para uso do Celebrante


e das pessoas presentes, 38 p.

ATENDE-SE PELO REEMBOLSO POSTAL