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Adquirido pela Camara ein leilão

judicial do espolio do Dr. Cesar A.


Mourão Pitta
Veja-se acta de 1 d' Agosto de 1907.
QGE
PELA FELIZ INSUGURAÇÃO
D O
SEMINARIO DA CIDADE DO FUNCHAL
NA I L H A D A M A D E I R A
COMPOZ, E RECITOU
NA P R E S E N Ç A
D O
EXC."O E R.fi1oS E N H O R
D. JOSE DA COSTA T O K R E S ,
Bfio da t~iw,do Conjêlho de Sua MageJdde Fidelifima ,
D O
ILL.alo E E X C . nZo S E N H O R
GOVEKNADOK,
E T O D A A MAIS N O B R E Z A ,
FRANCISCO MANOEL DE OLIVEIRA,
Prof'cJior Rcgio de FiloSofia Maciotral da Jupraditla Ilba :
O F F E K E C I D A S
EM SINAL DE RGSPEITO
A O M E S M O
P R E LADO.
E X C a M 0E RmM0

L I S B O-A,
NA REGIA OFFICINA TYPOGRAFICA. Anno 1789.
Com iicetiçn da Hcal Mexa d~ CornmifsJo Geral (obre o Exa-
m e , e Ceniura dos Livros.
4

ciliar os voffos applaulòs com o ap-


p r a t o dc pompofos c o i i h c c i m e ~ ~ t ,
os

fclc-iiça. R1dis Gubsc, e iii'iis f~il>iiiiiccmpcnlio'oc-


cLipa o mcci peiif~i~iciito.A Rcligiáo e a Pa- ,
, ,
t r i a ohjcRos os iii.iis iiitercEL~iites c os íix~is
digiios dos noilos esforços, saí) o podci.»To agcn-
t e , que iiifliic í'obrc 3 I I I ~ : I ~reroluç50.
I.~ Qa~ic!o
,
o FuiicliL;l iiitiiciicicido co!ii T. ayp3reiite gr.iii-
,
d c z n d c IJLIIII 11ocivo C ri!iiloio ILI::O , C~~COII~:C-
,
ceiido os reiir vc:.ilc~~!c.ir,7siiitcscffcs Iiavin vergo-
nliol>nicritc a h s i i ~ j o i i a ~ l;io ctliicaç5o cln hlocidn-
,
J o as iioi~i..iç, os eiiiprcgos c a s
d e : < l l ~ ~ ~ nIICIIC
,
d i g l i i d ~ d c sç15o, t ~ o t -Iuan iiidccotofo ti..ifi;:i) o
premio da I;.ivil :iliiiiLi$o, 011 Sc cstorcliiiio 1 ~ -
la
violencia do poderoí'o valimento, e da &anda-
intriga : q~iaiidoa ignorancia caminli3va com
,
pa&s fJcrilc50s ao S.intuario OU O indifcreto
e .~v.ircijtopai , forçiindo a vocaçh do dergraça-
d o fil!io , o a r r n f i ~ v a, q u d violenta, e relufilin-
,
tc ~ i ~ t i i n a30, Altar da Divindade que rejeita
os Iioloc~ultosde touros, e iiovillios, e fi5 rece-
hc O r o l u n t a r i o , o puro facrificio d c hum cora-
,
$2" cofitri to , e liurnil!ido cu noto a Providen-
c i a , que inccffanteriiente r6lIa h b r e a felicidade
dos Póvos, qucrcrido falv.1110 d a imininente rui-
n a , excitatido no coraçzo da no% A~igufiao be-
ncfiio J c L j o de enviar-ltic hum Rcitaurador.
Forma-ie n idéa , os meios Te facilitáo ; e para
a exesuç5o do prc)-jc&o , fc!!bia , e prúvidamente
fi fiszo a s Kc'~csvifi,~sfobre o 11oKoE ~ c e l l e n t i ~
fimo I'relado. DeAina-le para illuitrlir os noiros
,
efpiritos e corrigir os noffos abufos, o mefmb
que ha de reformar os nolfòs cofiurnes e diri- ,
gir as noffas acç0cs. A R e l i g i s o , e a Patria vá0
ter o mefrno Proteoor. A gloria de Deos e o ,
,
bem da humanidade membros do meí'mo car-
,
po c cuja uniáo conftitue o difiinçtivo e prin- ,
,
cipat çaraaer do ChriRiatiifmo sáo s bafe do feu
P~Ror3l dcfvelo. Educar a Mocidade, formati-
do Cid-id;íos uteis ,í l'dtria; initruir osMiniftros
,
do S ~ n t u ~ r i oprocurando que dignamente def-
empenlicm as frinçbcs do leu augufio MiniRe-
rio : eis-aqui o ohjeflo dos feus principaes cui-
,
dados. Para cite fiiii implora e obtem da Real
Mu-
( 9 )
Munificeiicia a refórma , e augmento do Epil-
copalseminario, de cujo novo Plano a gloria í'e-
rá de Deos , a utilidade n o r a , todo o trabalho
feu. E bcni que a futura experiencia Iie Ió quem
inteiramente vos f a r i coiihecer efta verdade ;com
t u d o , eu m e p r o p o n h o iiirpirnr-vos Iiuina antici-
pada id&a della , rnofirando no prefcnte Difcur-
f o , qumto o SyyRema rcgular da pública Infiruc-
$20 concorre para o augniento d o C h r i f ianifmo,
,
e para o focego do Eítado n o que confifie a ver-
dsdeira felicidade dos I'óvos. Rias parli prece-
,
der coni a clareza, e prccisáo que huin tzo vaf-
,
to affumpto requer e de que he iurceptivel o
breve circulo dos meus limitados conheciinen-
,
tos ferá neceffario recorrer aos priiicipios fun-
damentaes da Literatura. I

Se attentamente confultarmos a confiitui-


%$O d a no& natureza , acharemos que e m to-
das as n o r i s acçócs , em todos os n o 6 s proje-
8 0 s tem huma grande influencia o def'ejo da pro-
pria felicidade ; e que por eRe motivo reputa-
mos mais , ou menos efiiinavel qualquer toda ,
,
feguildo ella fe aviziiilia o u aparta deRe í'ufpi-
rado fim. Porém he táo complexa eRa idéa de
felicidade, sáo t a n t o s os rodeios , e labyrinthos,
com que eRá envolvida a Cua eftrada, que facil ,
e mefmo frequentemente nos confundimos e ,
extraviainos, ieguindo as erradas veredas, que nos
,
mofira, e iiidica h u m apparente e enganofo pra-
zer. Pois fendo o homem hum cornpofio de duas
B na-
( I0 )
naturemr entre fi mui diverfas, efiá fujeito a di-
relasócs , c he capaz de huma duplicada
=rpecie prazeres. Entre a imnienfa varieda-
de de o&jeflos, que do fecundo feio da nature-
,
za Sobre o vaRo Univerfo fe propagáo huns sáo
,
proprios a aliciar a fua vontade lifonjeando-
Ihc as paix0es ; outros a illudir o feu entendi-
mento, offufcatido-lhe a raz5o : e dependendo a
felicidade de que elle juftamente os aprecie,
a fim de os procurar com Iium grdo de força, e
diligencia proporcionado ao (eu refpefiivo va-
lor, claramente ie patentea , que tudo aquillo,
que o habilitar para fazer eRa jufta efiima~iio ,
e conformar com elia o leu procedimento, deve
confiderar-fe como hum move1 da fua felicida-
d e , c citimar-fc Ií proporçio do Teu effeito. Tal
he osyitema regular da piíblica Initrucgáo : que-
m dizer, aquelle glorioio Syitema de conhecimen-
tos , que dd ao homem a í'ua principal preemi-
,
nencia fobre os brutos e que o eleva ao maior
g r b de perfeiçáo ,de que a í'ua natureza finita he
fufceptivel.
Qualquer que pertende entrar neRa car-
reira ,ordinariamente Te efparita ao primeiro af-
pc&o de huma táo vaita, e difficultofa empreaa,
olhando para a curta esfera da fua capacidade.
Corn cffcito , a indaga* da natureza humana, e
,
das innu(ner3vcis naturems que nos rode50,
offerece á noKi contempla~áohum copiofiffimo
obje&o. De outra parte, a vida hc curta e a ,
pro-
( Ir
propria experiencia nimiamente limitada ( r ) ,
para que o homem porra por Ti rncfino invefiigar
,
todas as relaç6es e propriedades dos Entes ;
examinar todas as qualidades Fyficas , e Moraes ;
e daqui deduzir as rcçras das ruas acçGes, e fi-
xar os verdadeiros pafii~sda felicidade. Q a l via-
j a n t e em h u m p 3 i ~efirnnho , elle ferá obri-ado
a perguntar aos oi~rroso catliiiiho e a 'utilizar- ,
fe d a experieiicia daquclles, que antes dclle tri-
lhário com reput:içáo a efirada da vida. Deita
forte procurará fazer com que a fdbia Antiguida-
de contribua á rua inltrucçáo, e fabedoria ( 2).
Alem dos Y ó v o s , e NaçOes exiftentes ,Hebreos ,
Egypcios , Syrios, Chaldeos , Medos, Gregos,
,
Romanos todos virá6 apprefentar-lhe os feus
,
thefoums donde elle extrahirá com felecçáo
quanto lhe parecer bom, e preciofo. ( 3 )
B ii Mas
( r ) Admiravelmenre o diz o nollò famofo Ozorio de Rc-
gis IrtJitut. Iib. 6. @anuis &orno rnultií negotiir irrterftt nd ,
Jntnmamque fetle#utem yerveriiat ,4 nibil aliud novit , niJi quod
, ,
ipSc vidit atque t r a t ~ l e g i t ,fitriper ndolefcei~s atyue penk puev br-
, ,
brndus c/t : ùoc igitur quod vita' brevitas aegat litera cumu-
Zatd lavgiuntur.
( 2 ) Sayientia omnium antiquorum txqrrirct jayieirs. Ecclefia-
fiic. Cap. 39. v. I .
, ,
( 5 ) Tbefauros Japie?atium yrifiorurn yuor illi liferir mntz-
,
dantes ? J O ~ ~reliquerut~t
S , una cum necefaviis meis veziollvetls ,
,
fi guia reyeriamus boni elicimus : magnumqur lsrcrum ~rlritra-
=Sr. Xenophon. de fa6I. BiEl. Socrac. lib. r ,
A razáo parece dalla o citado Ozorio lib. 6. dc RcgiE
IuJiítut. Quia illi , quorum J'criyta e.rtntit, ornes fertne fuevunr
, ,
finnno ingettio Jumma do#rina ji!mmaque eloqu~nriapvcoditi:
, ,
deindc, quod ea gua literis manda, unt usu Juo tntttum i a g r
( I2 >
Mas como poderia iAo ler, feiiáo IiouveG
fe algum rnetliodo de o confeguir ? Eis-aqui pois
a prccisSo , e utili~ladc d o efiudo das Linguas.
C o m tutio , coiiio a intelligencia dos diverfi~s
idiol~lgs,em que tem escrito os Sabios que nos ,
prccc~iGr-50, feria Tem dúvida huma mais labo-
r i i L i npp1icaç;io ,
Iiuni cftiido ainda m a i s difficul-
,
tofb c coiiip!icado, do que o particular exanie
dos iiicfmos iiinunieravcis objefios, a que as Ar-
,
tcs c Ssiencins fc dirigem ; era precifi~fixar al-
g u m , que fendo geralmente adoptado pelos S I -
bios de todas a s Naç6es FervifTè como de amplo,
canal , por ondc mutiiainente Te traní'rnittiffern a s
,
fitas expcriciicias e obfervaç6es concernentes á
Rcligiáo , c á Humanidade, á gloria de Dcos,
e á u t i l i ~ l ~ ddos
c Póvos.
Tãcs foráo (depois dos lamentaveis fecu-
A

los, em que a invssiio dos Barbaros involveo no


tcnebrofo manto da ignorancia toda a Europa,
qumdo os primeiros crepufculos da Literatura
corneçdrlo a i l l u m i n a r aq&e vaRo Continente )
as Lingu~sGrega,e Latina. Dous niotivos prin-
cipultncnte imaginar-fe que concbrre- ,
riáii para eRa acertadiniina ercolha. O primeiro
(fcni f ~ z cnicnsáo
r de que iicllss foriio orighalrnen-
te
nio p r p c r r i u t i t ,Jed aritiyui$imuruni bnmitium i c r i p t i i ndjuri , 6
*u lari:i$iiiao t ~ ,C P , qule ~ i d e r u ~,~e&t mngranr
~ l i cot~firmati
,
uiiiitntir r i l u r huniniiir allaturn yojlerirnti cotficrarutir. EC
A riR. 6 . Erhic. c . I I . Peritot um bomiiruni 6. ,
Jetriorum /ru ,
yrudeniuni /rtiteniiis ,
oyiaiotiilus atrcrrdcrc ac jidtnr adbibrrr
eywtc't.
t e efcritas as mais nobres producçóes da Antigui-
dade) ; porque 3s Linguas mortas s$o niais dura-
veis, e menos fujeitas ; o u , para incllior dizer,
,
totalmente izentns da volubilidade e alteraçóes ,
a Quea s vivas cAáo contiiiuamente expoitas. O [e-
guAdo ; porque as N a ~ ó c sexificntcS , e contem-
,
yoraness niiniamcnte ciofiis d3 gloria huinas
das o u t r a s , teriáo entre fi por lium dcmaziado
diltiiifiivo de iupciioridadc a crcolha de huina
dellas ,. cujo partitular idioma obtivcff' s prce-
miriencia de rervir de univeria1 iiiterprctc dos
feus literarios conheciineiitos.
,
Pela feliz Reitauraçáo e Refórma das Le-
t r a s nelte Reino, devida á Real Bcneficencia do
noíío Fideliffiino Soberano o Senhor C>. JOSE' I.
,
(aba que por fi fó feria baltante para fazer-nos
cara 3 f ~ i aMemoria , e merecer-lhe o g- l o r i o h ,
,
e liíol-jjciro Nome d e P'li da l'atrin quc por taii-
tos titulos d e v i d ~ i n e n t e fe Ilie attribue ) a tnbas
eRas Lioguas entrát-50 tambem n o Plano .dos no6
f's ERudos; e Ce da Grega até aqui náo tem ti-
, talvez por
do a noffa Patria I i u t ~ ~ i i C a d e i r aferá
náo ter havido quem folicitailè a rua prorno~áo.
Aproveitemo-nos com t u d o das grandes vanta-
,
gens que nos offcrecc a Latina bem pcrfuadi-
dos de qiie a intelligcncia, e familiaridade das
,
Linguas pricicipalmerite deitas, a que chama'o
eruditas. deve iufiamente confirlerar-fe como par-
,
t e de hiina ed;caS50 l i b e r ~ l e como necea~ria
introducçáo par4 as Sciencias.
N~u
Náo preíuma com tudo alguem, que en-
tende Efcritores Latinos , fe nunca efkudou
0s
mais da que Latim. Eu rei que a muitos efia
propofiSáo preceri inteiramente hum paradoxo;
{nas a dcrnonfirag20 fará evidente a lua verdade.
Sem 30 menos huma fiifficiente noçáo de Rheto-
, ,
rica e da Poetica ( r ) fim eu me atrevo a ,
,
dize110 fcm h u m coiiliecimcnto regular dos pre-
,
cciros defia adiniravel Arte niriguem entrará no
verdadeiro efpirito dos Elcritores do antigo La-
, ,
cium cujas obras slo e feráo fempre reputa-
das conio os mod6los do bom gofio jufia elo- ,
cuçáo , e iudiciofa crítica.
Para prova do meu primeiro afferto figu- ,
,
remos dous homens hum infiruido nas regras
,
da Eloqucncia outro inteiramente dcllas igno-
rante ; fe eiitre íi os compararmos pelo feu talen-
,
to, e- modo de penfar -elles nos parecerdó quafi
de diffcrente efpecie. Para o ultimo o fublime,
,
o maravilho10 o natural o facil o terno, o , ,
ju-
,
( I ) Ex Portis, Hi/ioricis, &JRbetoribu~ bonorurn virorsrm
,
r&ionrr & lcrmonrs optimos eligemus ; 6. juxta totarn apium
/iniilirrrdittcm , rorum participes nos fieri couvet~it. Baíilio
Magn. Concion. ad adoleícentes. Et 'tiocrat. ad Demonic. Pa-
.
ranet. Serm. Decet . . poerarum optima guqiue diJcere, &Jea
lcgrrt , 9u.e alii v i r i fayie?zte~utiliter prlceyeuunr. Nam u#,
apcr omnibus quidem ffofculis injidcre de Jngulir autem u t i l i a
rnrpcrc widrmur ; Jíc crudirionir rtiam compnrarrdr jludio/or ,
nullius rei e f e rudes , jèd undique utilia collígere decet. Et
,
Aeíchin. contra Creliphonr. Ciim yueri funiu r yoetarsm jcri-
,
fo?jtiar rdifcinur ut ,rum ad virilcm dtatlm yervctlrrimur illis,
trlanlur*
( 15
jucundo , e todas , que confii-
as mais bellezas
tuem huma obra completa , sáo intei rarnentc per-
didas. Se algum dia a iolidio , s ociofidade ,
,
ou qualquer erpecic de infortunio o forç5o a
recorrer AO foccorro dos livros, por ver ie nelles
encontra a confolaça'o, que a verdadeira Filofo-
,
fia alli tem depoiitado : oh ! que infipidos que
fafiidiofos lhe s5o os feus difcurfos ! Elle fim pú-
,
de lellos ; mas deíconliecerá os delicados e*fu-
blimes rafgos com que o Teu fnbio Author os or-
,
nou, e enriquece0 aGin como o Salvagem Ame-
,
ricano o 'I'apuia , o Benin , o Gangárn defco-
nhece o valor das geminas, e metaes preciofos ,
que nos feus climas devofitou com liberal máo
a Natureza. Huma efpe'cie de eff upida admira-
@o he e mais alto, &as efterii a que o
feu efpirito inculto póde alpirar. Entretanto que
o primeiro, cofiumado a gofiar do inftruaivo de-
leite, que ao intelligente offerece a contempla-
, ,
$50 da belleza ordem, harmonia defgnio fym- ,
metria das partes, e conformação da verdade, e
natureza , acha dentro em fi melmo hum i n e x ~
haurivel fundo do mais nobre , e mais judicio-
fo recreio.
Parece-me que nada mais feria neceffario-
para jufiificar a precisáo, e utilidade da Aheto-
rica, e fazella entrar no plano da geral InRruc-
,
@o da M o c i d ~ d e a f i m como tarnbem a P o c t i
ca , a qual náo deve fer conliderada como Iium
efiudo diyerio ; pois na verdade a Poeiiii he a
;ti-
filha primogenita da Eloquencia, e a que parti-
cularmente eleva os noffos penfamentos, inflam-
ma a ,
imaçinaçzo aviva as noffas diícri-
,
~ O c s d 3 força ás iioffas palavras ,
e finalmente
n que derrama í'obre os nonòs d i l c u r h s a rique-
za, c f ~ i b l i i n i d a d ede i d b a s , a variedade, e har-
,
monia do efiilo a delicadeza, c e l c g ~ n c i adas
exp rc fsócs.
IRo n5o he pertender que todos os que
entrio na carreira das Lctras k j 3 o 0r.tdores e ,
Poetas. Eu fei que hum Homero , e hum Vir-
gilio , hum Cicero, e hurn Demofihenes sáo pro-
ducç6cs, ein que a Natureza parece trabalhar por
.
muitos feculos ( I ) Porbm aquelle a quem ella ,
náo concede0 o talento para. a coinpofiçáo em
,
hiim , ou outro gcnero a o menos pelo efiudo,
e a p p l i c a g á o dos preceitos fe habilitará, náo f6
,
para elcrever pura e c o r r e é t m e n t e no efiilo
,
epiitolltr e nos communs e mais importantes ,
negocios concernen tes ao feu eltado e profiLsáo ; ,
mas tambem para a intelligencia dos Efcritores,
que Y ~ Vnas
~X O idades da Literatura e
felices ,
que
( I ) Vcrè mihi Iroc ~ i d e e re f i diflurur : e x orn?ri[>uriir gui ,
,
i n b a r u a artium Judiir l i l e r a l ~ m i fr i m , doflriuirque v e r j a t i
tni?iimanr copinm yeetarum eprrgiorum e x t i t i f e : ntque i n boc ipJo
, ,
nrcmcro i n quo yerrnro exoritur aliquis excellcrzs Ji diligenter ,
6 ex tioJrorum, 8. r x Grrcorum copia rnmparare voier muttd ,
tameri pauciorer Oratorcr , gulim Poetie liolri reycrier2tur. Cicer.
,
de Orat. r . Quem deiejar mais póde ver os Cayiriilos 11.
111. IV.e V. onde o Orador liornano [rara amplamente e h
materia.
que primeiro arvoráriio o gloriofo efiandarte da
,
verdadeira erudisáo e do bom goRo fe qui- ,
zer utilizar-fe da fua experiencia e conheci- ,
mentos.
Coin t u d o , feria improprio. e mefmo iii-
,
a

decororo que huin Erite , a quem o Creador


I A /

dotára d e razzo, e entendimento, ie contentaG


fe com adquirir-toda a fua icicncia (reja-me li-
cito dize116 uiliin ) cin fegrindn m h . Q e o nie-
nino, que ainda náo púde firinar o debil , e dcli-
cada' pé para d a r oi priineiros paffos, Icja con-
duzido pela 11160 da caririlioia inái , ou do aio
, ,
cuidC~dolò pede-o a natureza e a mefina ra-
,
záo o approva. Mas que ie diria fe ainda depois
de a d u l t ~, elle 1)náo atrevere a andar fem o ar-
rimo, a que na infancia fe havia coitumado ? Pois
t a l , e póde Ter que ainda mais vesgonhofa k r á ,
a inerciii d ~ q u e l l equc
, deixando ociofa a fua ra-
,
záo nada featreve indagar por Ti m e h o e ce- ,
,
gamente caminha pela earada que lhe indica
,
talvez huin caprichofo e extraviado guia. E m
materias de tanta importancici, como sáo a natu-
,
reza e propriedades dos Entes e ainda mais ,
particularmente a fumnia felicidade do homem,
&o deve, o que fe reíolve a entrar na profifsáÓ
das Letras, e que afpira ás dignidades da Reli-
giáo, ou aos einpregbs da RefLblica ,contentar-
.,
fe com hutna noticia hifiorica e r e ~ o u f a rintei-
/

ramente fobre a experiencia e tefiemuiiho dos


1

outros; mas eRB obrigado a examinar a verdade


C dos
dos objeOos por ti mefmo, e a adquirir OS conhe-
,
cimentos hlet~fyficos e Moraes, fundado fobre
a propria experiencia , e obfervasáo. Ora iRo
,
he o que Fc cliarna Filofofia Racional a qual
cottitircIici:~ie ii icid3g~çZioda verdade, o conlie-
,
cirncnto abfisaflo de todas as couf.1~ a f i m liu-
m.inaS, coino Divinas, que podem icrvir de ob-
,
jcRo a eAa ii~cPinaiiidagnçáo e fobrc tudo a
appl icaçcío de todos cltes conhecimentos :ís ac-
çócs , e prqje8os humanos , deduziiido da fitua-
çáo da nora vida, e coiinex0cs com os Entes que
,
nos rodcso , 3s regras d a noffa conduaa fixan-
do a cconoinía '13 vontade, c dos affe&os, cita-

guiando-rios pç1.i c i t r ~ d adn &tude d poffe da,


,
vcrd.idciri fc1ici~Lide por que táo anfiofameiite
fufvir;imos.
Seguindo paíh a paro o natural progreffo
do eípirito humano na carreira das Letras, julgo
,
t c r arás iuoftr~do que o L a t i m , a Rhetoricii,
e a Filofofia sáo os principaes ramos da litera-
ttirn humana , que entra0 n o fy'yRem3 regular da
,
pública IiifirucçTio e que debaixo do titulo d e
H~innt~idadcs confiituem a bafe dc huina educa-
5" liberal, e os iiidifpetifaveis preludias do pre-
,
iciitc Scm iriario. Coin effeiro o Teu efiudo náo 46
nos 1iabilita para a intelligencia das bellas pro-
diicçóes dos fabios de todas as idades , nos fa-
milidriza coin o verdadeiro goRo da cornpoíiç20,
e nos dirige na citrada da vida, mas tambem fen-
G-
Gvelmente contribue para o vinculo d a focie-
dade , e para o iocego do ERado. Elle dilata
,
o noffo eepirito, aperfeiçoa o eiiteiidiinento Tua-
,
vira os coftuines , fcrcna as pairóes nutre a re-
3 ~ x 5 0 ,e finnlniente rios diíj~óepara as mais ter-
nas , e jucundas IcnTaçóes dn v i d ~iocial. H u m
homem ( a confiante cxpcricnçia m c aiitlioriza
p a r a o affii-marj fim , hiiin horncrn, que fc faini-
liarizar com eRes iitilifirnos conlieçiii~cntos,nun-
,
ca virá a fer hiim vaE~lloícdicioíb hum filho
derobediente, hurn p a i deshiimaiio ,lium cfpofo
intraonvel , Iium perfido a m i g o , oii finalmente
,
hurn Iioiiicrn turhuleiito e malfeitor.
Mas quanto mais a nora indagas50 fe en-
tranha no intlicado labyrintho da natureza, mais
o m ~ r o ~ ~ ~ ~ pfiei rconveiice
ito da incomprehenli-
vel MageA.ide do Teu h b i o A u t h r , e da infiiffi-
,
ciencia d a iioff. fraca e limitada rnzáo. Parece
que o Omnipotente, para confuiidir o noffo or-
gullio, e intimar-rios a iinperfeisáo da nora na-
,
tureza degenerada quiz que o conhecimeiito
das fias principaes obras zombaffe de todos os
,
esforços do noiro erpirito e illudire as mais exa-
&as indagaçóes do noffo entendimento. A crea-
ç5o do Mundo, e as fuas diverfas revoluçóes; a
quéda do homem , e a Tua admiravel Redem-
p ~ á o; o Juizo final , e huma vindoura immortali-
dade sáo objeoos, em qiie a humana fabedoria
n50 podia inltruir-nos , Te o Senhor náo fc tivef-
fe dignado de os revelar. Q u e alegria porem
C ii náo
O
;. deve fcntir o fincero Filofofo em ier fuffici-
entemente infiruido em tlo importaiitifirnas ina-
terias pelo meimo Deos, que cm hum, e outro
TcRimcnto nos quiz etiriquccer coni efic lega-
do dil Ti13 rcvelaçiio ! Legado inaprcciavcl que,
lias conltitiie coIicrdciros d3 í'ua Gloria, e bem-
a ~ c n t ~ i r a d opelo
s interininavcl periodo da eter-
nitlacie !
,
V I Shbeis, meus Senhores qiie eu fallo
,
da,; fatitas Efcritiiras fontes incxIiaurivcis dc toda
, ,
3 ?'lieologia, D o g m ~ t i c a Polemica c Moral ,on-
de ,debaixo do fimples ornnmeiito da verdade, e
,
da magcfkofa bellcza do fublimc fe encontráo as
regras, a que devemos conformar as noras a c ~ b e s
neAa vid3 , e depois dclln Ter jiilgados na ou-
t r a : onde fe coritfm ns rniris jiidicioías, e fubli-
mcs doutrinas, os mais uteis ,c importantes prc-
ccitos : onde ,n'hum eRilo o mais jucundo e o
,
mais pcrluafivo o Efpirito do Senhor que Te ,
r s p r i m i ~pelos orgáos-dos Efcri tores Sagrados ,
infirue a razáo hucnana em tudo o que ella po-
dcri3 dcí'ej~r fcr infiruida. Alli amilainerite' fe
, ,
delcrcve a origem os viiiculos e os deveres
do homem. Alli a perda da fua primeira inno-
,
ccncia a degr3daçá'o da Tua natuieza e todas ,
as portentof.1~mzravillias , que a Omnipotencia
,
obrou para a iua ref6rma e i a l v n ~ á o ,difiinea-
mente fc relatzo. Alli vemos da inundaçáo d o
a n t i g o furgir h u m iiovo mundo ; os Patriarcas
,
povoando fegunda vez a tcrra que por cR3 uni-
ver-
1
.veria1 catafirofe havia mudado inteiramente de
.face ; a íbberba dos homens conf~iiidida;o Etcr-
no horroriaddo com os progreffos da abominavel
,
idolatria eicollierido liuiii povo para fer o de-
yofitario da verdadeira Religiáo ; os Profetas va-
ticinando para nora utilidade ; e ultiinamente o
Senhor, c R e i d;i Gloria , defcciido dos Ceos a
,
habitar eiitrc n6s ein huin cfiddo abjclio para
cumprir o ndmiravel plano d~ Redempçso e ,
reconciliar o homem com a Divindade offcndi-
,
da. Alli a iinmortalidndc c o f u t u r o i' rcveláo.
Alli o folemne efpeflaculo do Juizo final e as,
elpciiitoF~s fccnas c13 confuinmaçiio dos feculos ,
diante de nós Te repretsiitão. Alli finalineiite as
..
portas do Ceo fe patenteáo, e . . oh ! que in-
explica~el'amuencia de gloria íè .nos prepara
por todos os feculos de huma eteriiidade fem fim !
,
Dizei labios da terra, vós, Filofofos ,
, ,
Gymnofophiftas Mggcs Bramines Druydes ,
,
ird dos ou por qunesquer outros nomes que ,
,
quercis vos appellidem : dizei d c que fervio toda
enà orgulhoia fciencia, de que tanto vos jaAa-
veis , le clla vou iiáo pode ao menos iniciar ncf-
,
t e fublimc e admiram1 fyitema da Sabedoria ce-
,
M e ? Sagrada Tlieologia fciericias do Chriitia-
,
nií'mo vós idcs coro3r effa grande obra ;vós fois
,
o fiin a que todos os preliminares citudos do
,
prefente S e m i t i ~ r i o[e dirigem. Sem v6s Cem
as i m p o r t ~ n t e sdoutrinas da Religi50 ; fem OS
,
conhecimentos do Dogma e da Moral, nenhum
pIa-
plano de educasgo poderia fer util, e intereffan-
te a R e ~ u b l i c a ,nem m e h o vantajofo aos parti-
culares. ( I )
Eis-
( r ) Sir igitur j a m Loc a principio perfuo/um civibur , d e
@,irias rerunr, ac niodgrntorcs Deos.
o~~tiirrm t . ..
5 qualis
,
e , p i d ngnr ., ~ u i dir3 /e ndmittnt qua nietite q u ~
q v i j j ~ jír ,
pirrLztr coinr relibio?~rr, ir>rueri ; piorum impiorím baberr
,
&e

vali,-:~:.m. Cic. de Legik. Iib. 2 . c. 7. Deos yctlerari 6 cole-


rg dcb:t?!us. Culiur autctn D ~ o r u meJ! optinlus, idemyue ca/iflnrus,
,
&(que ~'nn-?ifinrur gletiifl~niurguryietarir ,
u t ror jenrper pu-
r j , irr;egrâ , incerrrcyta &+ ~ Z E ? I I C vale Y f?lcl'en:uY. N o b
&r

enim Pb,l+ylri /ol:inr, verrim etinni maiores 1roJ7i.i fupP?/3itionem


n HI/;R:oric 1:pfirfivet utrt. ld. dc NnturÚ Dtor. l i b. 2 . c. 2 8 . 118
,
li>c"e auttni $:7r Jimuintiorris, Jicur reliqud. ~ i r r u t e r ita y i e t a ~
it;f@ nora potc-& ; cum qun Jimul 6 fatjffiratem &a Religim
rum rolli tlccept c/ : cluibus JuLlatis , yerturlntio v i t e lequitur
, nrí yic.írrte advevfus Deos
,
mng:'" r o r ~ j u j i o . Alquc baud j'iio
~UI!,TIY , j d t s criam, jòcietas bumaai generis, 6. u n a excet-
,
irntifima uirtns jujlitia tollatur. J bid. li b. I . c 2. Utiles A+
,
tem t J è bar opitriones quis neget ,ctim it~tellignt, qudm multa
,
j m t n t u r jurijuratldo ; quantr Jalutis Jitit fo~derunl religiones ;
gtrlim nsuitor Divitzi Jupylicii nreiur a fielerc re.uocar.it ; quamqur
jan2n fit jocietar civium itttcr iyjôr diis immortalilus intevyoji-
,
tis rum judicibur rum teyibus. Id. de Legil. li b. 2 . c. 7. Creio
que Te n i o p6Je d i z e r mais claramenie q u a n t o as D o u t r i n a s
d a Reliyiáo sio intereffantes, eqiie íeni ellas toda a ordem
da Kepublica, e a mefma utilidade particiilar fe dritruiria.
Para rubor, e confusáo n o r a , devemos adniirar-nos com o
,
A bbadr ri' 01ivete do modo com que bum Pagdo nos cxyõe ( além
d e olltras verdades da Heligiio revelada ) o importantr Do~rna
rJn yrektr;n dc bum Deos cJct-utador dos cornço'es. Criminar-me.
hio t a l v e z , de que eu , tallanrlo das lciencias do Chriltiaa
nirmo , me íirva da doutrina de lium Eihnico; porém O r i -
genes, e S. Jeronprno fará0 a minha Apologia. Diz pois aE
fimo primeiro : Si forti tjrr nliquando iovet~inrusaliquid Japietlter
a Gfntililur d i a u m , non conririuò cum auciorij rioniiiie ,fperneic de-
brn2u.i i% dzlla :nte pro eo ,quod legen? a Den dotam tesemur ,co7ive-
@irnos t u ~ ~ c/uperbiâ,
re &Jycrnere verba yrudestiunz; /edjicutApo:
( 23 1
Eis-aqui , meus Senhores, como o fyltema
regular da pública infir~icçáodeve concorrer pa-
ra o auginento do Ciirifiianifino, e para o Jòce-
go do Efiado. Eis-aq~italvez mais do que feria
neceffario para excirar o voíh rcligiofo e pa- ,
triotico zelo n promover o elt;ibelecirnento e ,
corifcrvaç20 deite reccni-nafci~lo ( feil-ine pei;
mi ttid a a exprefsso ) dcRe recein-iiaCcido Semi-
nario. Ser-vos-ha indifferente que os v o f i s pro-
y lios filhos , voffos parciites , voffos amigo.:, ar-
rancadas as trevas da ignorancia , refpl~iideçáo
algum dia com as luzes de huina clirifiá e li- ,
beral educaç3o ; a q u a l náo fó lhes franquee o
,
n c c e G das honras empregos e dignidades , ,
mas t a m b s ~o~..~prepare,.obaB.ilite para exercer
dignamente as luas funfóes? Se os dcfiinais pa-
ra h! inif ros do Altar, Interpretes da Religiáo ,
Oraculos do Evangelho, DiTpeniriros dos thrfou-
,
ros da graça devem fer infiruidos nas Cciencias
D i v i n a s , e Ecclefi:.iticas, para cuja intelligencia
concorrem , e s5o em certo modo Cubfidiarias as
chamadas Humanidades: fe a nobre l'rofií'sáo das
,
Leis, d Iioii rn da 'Toga ao exercicio de Jurifcon-
,
fultos para ferem os Proteaores da innocencia ,
,
os Flagellos do crime os Advogados da Patria ,
OS

j o l ~ sdicir : Omnia yroba~:rer,quod bonnm e/? renrnter. Origens


Exodum Homit. I I. E o Fegurido: Quatrdo Pbilojdybor lei
gin~us,qun71do i71 mnnus no/i'rnr l i h i .vetiiulrt Jnyientid fecula.
"r Ji quid irr eis urilc reperin~ur,ad irt#runi dogma cori.uertimw.
Hieron. EpiR 2 2 . ediiion. \'Enet. an. 1766. inq. max. tom
coj. 75. & EP. 146. yeterum editionum.
0s Orgios JuAiça ; a mais folicla baí'e deRe
d3
,
importante ecdificio Scri o amor da humanidade,
e o s conhecimentos das Leis dn Natureza, e dos
direitos gerdc.; do genero humano principias ,
fundamcntaes de Iiuina boa Ethica : fe a o fervi-
,
ÇO do Efiado huma tal educag30 lhes Terá igual-
,
mente proveitofa. Aquellcs que melhor conhe-
,
cerem a iisturczn do Governo civil os juitos li-
,
mites da authoridndc c da íbjjciç5o, e o s prin-
cipio~univerfaes da equidade, e da virtude, fe-
ráo ietnpre os mais déitros Politicos, e os mais
conltanks Patriotas.
Sc cu náo tivera a felicidade de fallar á
face de hum tSo erudito, e refpeitavel Congre&
fo, cu-ins fiipcriorcs luzcs , c jufio difcernimen-
t o fazem íiuperfluas todas as razóes, que a mi-
nha irnaginaçáo podia fuggeri-r-me ;e ie para per-
fuadir eces entliuíiaitas do liicro, a quem a infa-
ciavcl avareza f ~ parecer
z difpendiÒfa a educa-
$20 d e feus filhos ; ou effcs indolentes, que naf-
cidos no feio da abundancia *pafsao n'hum ver-
gonhofo ocio a mocidade, a adolefcencia n o vi-
,
cio a virilidade no crime , e a velhice na deG
,
efperaçáo me víra obrigado a valer-me do ex-
terior, mas para a maior parte írrefiitivel poder ,
,
da authoridade eu lhes diflera com o famoío
Patriarca de+Conitãntinopla ( I ), que u a moci-
,
n dade ociofa e impudentemente educada, he
Y, en-

( r ) Div. Chryfolt. in Matrh. Homil. 38. Oriojh juvtntur


impdcnter educata, emni feroci$imú b:/iâ imnianior e/.
r, entre todas as fdras a mais cruel. » Que aEm
como o cainpo inculto e derprezado (sáo do ,
$~biÓBifpo de Silves o iioRò grande Ozorio ( I )
eAas palavras ) quanto mais fcrtil Iie mais fe ,
,
eiriça de iibrallios e de elpinlios, c com @e-
reza de agrcftes plantas inteirainciitc le cfiraga ;
affim o cSpirito d a mocidade, fc com humn edu-
caçio liberal Ce náo cultiva, quanto iilnis illufirc
he a fua indole, tanto mais com pcfirnos vicios
{e deteriora. 11 Par iKo (defia forte o confirma
huma das maiores luzes daIgrej:i ( t ) ) por iKo
de nenliumli í'orte deve a initrucç5o vi tuperar-i',
í> como o pensáo alguns (1;oincns na verdade ru-
M des, e infeiil3tos ; e que porque anim o p c n s á ~ ,
r fc fazem dignos,do i1049 deiprezo) pois que- ,
*
+ - s e - .

reri8o'ii;rtaniente que todos foTem taes c o m o


>t elles s5o ,
a fim de quc i foinbrn da geral
3 ipnoraiicia
u
Dudeffc em certo m o d o a iua eltar
L

N occulta. » Eu llies repetíra a judicioia lentença


d e Dioeenes tgo infelizmente Gerificada nos no{-
U

,
{os dias c no noffo pniz : que os filhos m a l
educados sio as maiores inimigos qtic os pais
D tem.
( I ) Lib. I. de Hexis I~lJitrrt. U t crger ? i e ~ . I ~ R u s i?icuii
ias, quo ferriiior eJ , E Ò viagir Jpinis & vepribus , $7'. ngrrjiarn
p l ~ n t n r u r n rr/yevitate wlJntur : itn cdm nttintus nlinimi ,cditur
,
liberali d i f c i p l i l j i , quo clnrior e) illius iadolss e6 pluribus , &
tetrioribus v i t i i s ohruitur.
( 2 ) Div. Gregor. Nazian. Orar. 8. Xaud qulquani i z i i s r
a'i{ciplin,e lunt uitapernnd,e , oemadwlodum n o ~ ~ ~ i u l l rv'isd t tur ;.
, ,
(/rd rudes r&- iniperiti ~5qui irn / e t ~ t i u e t, Jir 1.t neglieeulf.)
~ e l i e n tenim omtrer tnles , q u ~ l e ripji Jutrr , e fe , yuò in ~ommuni
,
iguor'mtia lntere 6 irtfiirim argumerara efsgct-4 p ~ f i l t k
tem ria canfada velhice ( I ) . E ultimamente Ihes
clamára com o MeRre de Platáo ( 2 ) : Aonde, 6
homens ( affirn repreliendia Socrates aos Athenien-
,
f ~ s ) aonde vos precipitais, que pondo todo o
voni> cuidado em amontoar riquezas, iiiteiramen-
t c vos efqueceis de voffos filhos, a quem haveis
de deixallas ?
alas parece-me que já fatigada a voffa atd
,
tens50 tacitanicnte accura a minha prolixidade.
Eu n í o abuhrei da voffa modefia 'condefcenden-
cia : a melma civilidade com que me efcutais,
feri huin poderofo infcntivo o meu fileiicio.
C o m tudo n prcfença deita refpeitavel Corpora-
ç50 , que hoje pela primeira vez fe offerece eni
eipe&aculo 5 iioffa vifia, pede, nem eu poffo lne-
gar-llic, as primicias da minlia veiiera~áo c d o ,
meu acatamento.
He de v&, Senhores, que eu fallo ;de v6s,
a quem o perfpicaz difcernimento do noffo Ex-
celientiffimo ,e Revcrendinimo Prelado efcolheo
para ~ i n i i t r ó sdas fuas Cabias, e providentes de-
terminas&~, eficazes initrumentos dos feus va[-
t o s , e utiliffimos projeaos: d e v6s, q u e incum-
bidos da educaçzo da mocidade, podeis, infpi-
rando-lhe o amor da virtude n'huma idade, em
qiie o feu coraçio he Culceptivel de quaeiquer im-
pref-
#
( i ) Filii mal2 edncnri , fummi b o t e s patribus itz Jetzeflutc
,
junt. ( 2 ) Plar. in Cliriphon. QuorJum rairis, bomincs qui omnr
i14 conzparnridis prcuriiis vejlrum Judiunr facitis ; filiorum ~ t r 3d
,
iuibur tas relinguiair rrullam juriè curam /u/ciyiiis !
prefs6cs ,
fazer hum mais importante ferviço 4
Kel igiáo , e á I'atria ( i ) , do q l i e toitos os M3-
giRr'~dosde liurna , e outra jerarquia, zinda que
arrn~dos coui o poder da Gpremn autlioridnde ,
fe nos 11nbitos d o vicio, por falta de cducagáo ,
,
vier a f~zer-lccaloia e obfiinada. Jidificai pc-
10 voffo procedimento o acerto de lilima t5o hon-
rosa ercollia. Nlium plano d e t a n t a importancin ,
como a Kefórina , e- Regiilarnento d o prcfeiite
Srminario , n$o devem entrar fim20 homens d e
hum irreprehenfivel caraller ; liotnciis , cqin vida
feja hurn coiitíiiuo com tnentnrio dos feus precei-
tos ( 2 ); e cuja virtude, iem hypocrifia ,fejra hurn
fcguro penhor da rnorigcra<;Zoda mocidade, en-
tregue a o k u cuidado ;.bmegs que p e r í ~ ~ a d i -
dos + do 'grande-depofito que fe lhes tem confia-
' do , fej5o inciinfaveis em defempcnliar os feus

dcvercs , rnoitrando lium riáo filiçido zelo pelos


,
prefentes e fut~irosintereries dos feus pupilos;
homens, em liuma palavra, proprios para infpi-
,
rar ainor , e reverencia e capazes pela d o ~ u r a
do feu temperamento de alcatifar de roías a ef-
D ii tra-

( r ) He, depois de ter exercido dignamente todns as Ma-


gifiraturas de Roma, que Cicero , filndndo tia prcprii expe-
riencia ,o d i z afiim : Quod nruaur Rtipulrli~knfct-vc mnjttr , me-
liusve poguti~us , quiin Ji dosenrur , atqup rwdimur jnvctrtutrni?
, ,
Hir prlejertim movzlius ,ntque renrporibur quilzlr ita pvolclpíh e/l
,
vefratint~dn atqae coercrndn lit. P c !?ivin.
ate omttiutlt oyibur
lib. 2 . C. 2. ( L ,
) validiorn ramen /unt exempln g:l/itn verba ;
,
d. plrniur ejl opere doctre guim voce. Leo Magnits Serm. dc
S. -Uurent,
tr3d3 Sciencias. Com cRas boas qualidades,
que cm confidcro, Cuavilareis em grande par-
te o laboriofo exercicio dos volfos refpc&ivos
empregos; e como o principal, ou talvez iinico
objcfio da prerentc infiituiçáo, h e , como já dif-
{ c , educar a mocidade, formando Cidadáos uteis
,
6 Patria e infiruir os MiniRros do Santuario,
p r o c ~ i r . ~ n d oque digiiamentc defempenliem as
fiiiiçOcs d o Teu aug~ifioMinifierio ; dcveni a pie-
dade, e a virtude cRar lempre d i a n t e dos voffos
olhos, e mais em vonàs acçGcs, do que em vof-
ia boca. A mocidade, que olha de ordiriaiio com
tihiczs p x a tudo que tem apparencia de precei-
tos, he vivamente tocadn pelas boas, e recom-
mcndiivcis acçõcs ( r ) , 3s q i l i i ~pela ~ maior par-.
tc iriipririictn no feu ccrcbr-o táo profundos vcf-
tigios, qiic nunca mais fe rifcáo d a fua meiiio-
ria. lito ;os p6e na indirpcnravel obrignçáo de
ter fempre os olhos vigilantes fobre os voffos
C
pupilos delviaiido-os dos objeoos que involvem ,
,
nocivas qualidades fazendo que em torno del-
Ics tudo reípire pureza , verdade , e innocen-
tia ; e efpr&tand'o, por affirn dizer; a opportu-
nidade d c lançar em Teu coraçáo as feinentes das
virtuílcs, que n5o deixari6 d e produzir o centu-

,
( i ) Prkciperc aliir relle feri idiojum cJ ,. guad a r r o g a n r i a n
rumorem ntiinii o l e t : nlttrr e ~ ~ i nriojlrn
z ,
fublzmis ac j u p c r b a ,
ut ~ z . ? n m praeptiuriem t n m l u n m ir inpietrtiore dcdigtratur accl-
,
pfr: ; .!i: eidcm oblique prr e:ceniyla, <r Glnridj Jibeuori acgui-
&ir. Laurçnr. Valenl. in Procemio HiRoriar.
( 30 1
,
regiilar , e irreprehenhel, eftabelecido e uni-
formemente fufientsdo f'obre eitcs nobres , e Tu-
blimes principias: Religiáo fem fanatiimo , pie-
,
dade feri1 hypocrifi~ compaix8o f i m fingimen-
to , generofi~ladcCem ofienta@o, jultiça mifiura-
,
da de clemencia e patriotiirno com todas as
virtudes iòciaçs,
SEGUNDA O R A Ç A O ,
COMPOSTA, E R E C I T A D A
PELO AUTHOR,
NA A B E R T U R A D A A U L A
DE
FILOSOFIA RACIONAL
N A PROMOÇÃO DAS LETRAS
PELO
E X C . ~E ~E R~E V . ~ I OS E N H O R
B I S P O D O F U N C H A L
D. J O S E DA COSTA T O R R E S ,

D EPOIS de ter por longo tempo amarga-


mente lameiitado atci aqui fempre em váo,
chegou finalmente a í'uí'pirada Epoca, em
que deviáo ceíl'ar as minhas queixas. Depois de
humn dilatada, e tetiebrofa noite, me parece vir
,
raiando a madrugada e a ribnha Aurora tin- ,
gindo de hum rofado crepufcu10 o liorizonte pro-,
metter-nos hum claro, e fere110dia. Ao liarmon~o-
fo concerto com que as fonoras aves faudáo o afiro
, ,
luminofo que vai nafcer e diante do qual as
,
efcuras, e denlàs nuvens fogem fe diffipáo e ,
,
defapparecem fobrefaltada defperta a Funcha-
lenfe Mocidade ; e do leio do ocio, onde jazia
no
( 32 )
no mais profLindoíomno , começa a levantar
gruida Em v30 para arrancar ao vergonha-
íocativei r. da ignoraiicia ,ajudado d e meus Cal-
l c p , jllc extcndia eu a millha debil lnáo: ergo
,
mil j fortes os duros, e pezados ferros com que
c f i ~tyr.inna da razáo a tinha preza ao. jugo da
inerte indoleiicia, para que não foffein abortivos
norís esforços. ERa vifioria citava relervada pa-
ra I i ~ i r n b r i l p mais podcrofo. Hum mais robuG
t o , e mais defiro Athleta d c v i n numernr entre
as Tuas g l o r i o f a s expcdiç6es o illufire vencimen-
to deita f a t a l Hydra. E entre tanto que clla fibi-
lando dc raiva, 'can baldados, mas repetidos a-
taques, p tocura ainda i i i f i i llar-lhe o negro mor ri-
fero veneno , qcic eiitre cnlànçuentnda efcuma
pela dcvorantc f'~t~cc voniita , cuberto com a
,
inv~ilner.ivc1Egidc o valerofb Heroe promette
riso defiRir do combate, até que o nefando monE-
,
tro convulfo expire aos fcus inccffantes e inevi-
taveis golpes.
Aos tofcos , mas parecidos raí'gos do meu
fraco pincel ; á humilde, mas encrgica proporçáo
defta ~llegoricapintura, qual de v6s com pezar
fc iiáo recorda do laitimofo, e deploravel d a d o
de decadencia, a que fe achava reduzida a Lite-
ratura na no& Patria ? Mas qual tambem ao
mo tempo cheio de jubilo fe náo figurajá n'lium
1 1 0 ~ 0feculo de ouro, onde as Artes, e as sien-
<ias fe v e r 6 florecer debaixo dos aufpicios de
Ilum fabio, e religioio Alecenas ?
?ISa-
( 33
)I Sagrado Miniitro da Augufia Providencia !
Tu, quem a xnefma Sabedoria eterna parece
a
t e r a huni t e m p o deitinado para PaRor, e pa-
ra MeRre: T u , que animado do verdacteiro ef-
,
pirito do CliriitiaiiiTino iabcs coilciliar a gloria
' { c Deos com a utilidade dos honiens, e h z c r
caiifa d a Rcligiáo a caufa da Humariidade dig- ,
na-te d e inclinar porhurn pouco os teus indul-
gentes ouvidos : benigno efcuta as ma1 lima;
dos veriodos d o mcu Diicurlò. Eu 1150 vcnlio
I

com altuciofas, e adulndorns palavras tecer-te


h u m merccnlrio Pnnegyrico. Maldito o pri-.
,
mciro ,que deita dctefiavel c infefia linguagem
Ce fervio! Maldito ,o_aue -
.e para corromper a tua
-
L -
ii

al ~37'l% atrever a lev3lIn aos teus can-


didos oiividos ! Amante, e ProteRor das Letras
( qualidades; que plenamerite dcpócm eiu favor
da tua meíina f ~ b e d o r i n) , ellas fer;io as que a
ku tempo liáo de tecer-te o mais perfeito , e
o mais completo elogio. A ~ 3 t i n i d i d e ,a 1lke-
.torica , a Filofofia ,
que até aqui inlulta-
das pela impudente ignorancia foErêráo n e
F u n c h a l os mais indecciites opprobrios ; hoje
protegidas pelo teu poderofo braço, já nóo re-
ceiio alçar com alegria o modeito femblante.
Sei~fivcisao teu beneficio, Teu Rcfiaurador te
acclainardó em todas as idades ; e fazendo que
o teu Nome Cobreviva aos eRragos do t e m p o ,
o feliz dia da Tua rcfiauraçáo f u i a mais b r t
lliante Epoca da tua HiAoria. N
E Sim,
( 34
Sim, meus Senhores, efies importantes e ,
utiliffimos coiiliecimentos, com que a Real Bcne-
ficencia dos noffos Auguitos Soberailos quiz fa-
cilitar , e promover a infirucgá'o dos feus fieis
vafilIo~,feri50 femprc olhados neRe defgraçado
,
Paiz le náo com efcandalofa irris30 ao menos,
,
com hiima culpavel indifferença a náo fcrein as
iubliines luzes, e o pafioral zelo do noffo Exccllen-
tiiIimo ,e Keverendiffirno Prelado. Vós o fabcis :
dilpenfai-me de o repetir: elle nie ouvc devo ,
rcfleitar a fua modeitia. E por n5o abufar da voffa
paciencia, dcixaiido os outros ramos deite bello
,
fyfierna da pública infirucgáo que nos feus relpe-
Aivos Profeffores tein fem dúvida mais fabios, e
mais eloquerites PanegyriRas , tratarei Iútnente d e
moftrar-vos no prefente Difcudo a importancia ,
e utilidade da Filohfia Racional. Procurarei íèr
concifo. A c a d a da Literatura he cauia voKi : Te-
ria indccorolo valer-me de outro titulo para ob-
ter as voraas attenfóes,
,
O interege e a gloria sio os dous eixos,
em que a máquina do homem fe revolve : o pra-
, ,
zer e a neceffidade, a poderora e invencivel
força que a impelle, cuja acçáo he regulada pe-
lo entendimeiito, ou dirigida pela vontade. Eite
a d m i r a ~ e lC ~ ~ P O RdeOmateria organizada, e de
, ,
efpirito afiivo e cogitante que ein quaiito a
primeira parte fegue iieceffariamciite a encadea-
$20 dos acontecimentos Fyficos ; obra q u a n t o a
,
&gunda Com total e ablaluta ipdependencia,
Ta1
( 3r )
Talhe a liberdade do homem. Mas o Sabio Crea-
dor (que para depofitar nelle huma imagem rua
,
lhe havia feito eRe generolo prefente) anteven-
do as funeltas confequencias do abufo com a meG
ma Omnipotente Dextra que o forrnára, gravou
em Teu efpirito
- hum infaciavel def'ejo de felici-
dade.
Ha no coras50 do homem hum eipagofo va-
zio, que nenhum outro objeoo pGde encher. Em
qualquer efiado, e m qualquer condigáo todos af-
piráo a eRe doce, e appetecido fim. Com tudo,
os frequentes enganos, que coin fantafiicas ap-
parencias illudem a iùa razáo ; e as vehementes
,
yaixóes que com rnentirofas ,é liiongeiras efpe-
ran f f n r a d q , sáo outros tan-
'1hes ín;Péaent.a confceyiío
,
do que táo anfiofa mas frliitradamente procu-
o . O juito camiiihando pela eitrada da virtu-
d e ; o perverfo nadando no immenio pilago dos
,
vicios : o iabio confultando a razáo e a expe-
riencia ; o ignorante vagando icm tino, e fem con-
fellio: o libéral pelo bom ufo das ruas riquezas,
fuaviíinedo a necelIidadc do indigente ;o avaro ain-
da mais pobre no centro da fuameíma opulencir ,
engroffando com os defpojos dos miferaveis os
feus criminaes thefouroe ;o generofo efquecendo-
.
fe da affronta e ehontaneamente perdoando ao

.
aggreffor ; o hngativo iacrificando iudo ao Teu re-
fentirnento e cevando o implacavel rancor no
fangue do &u contrario : o coApaliivo interne~n-
E ii do-
( 36 1
do-rc ,
3 0 ~ f p e & C u 1 ~ da inifcria c efln~igando
roni bcncficn máo as lagrinifis do dcfgiaçndo O
,
d c s l i i i i i ~ ~ ii iiiofcrifivel aos clamores da afflicsâo
olhnnLjo com eiitranlias de ferro as icenas da ca-
Iartiid3ile: todos fc prop6em por objefio a pro-
pria fclici'hde : todos, todos igualmente querem
fcr fcliccs. Mas ignorais vós aoiigem de táoop-
pofios fentitncntos ? Defconlieceis a caufii q u e ,
ctfciros táo contrarios ? Soiidai , f«ndnr
cuidndofanientc o liornem, ex~imiiinicom :irtcn-
,
530 todas 3s fuas acs6cs c entáo vos feri fiicil
coniiccer que todas as malignas influencias do
vicio sáo r i i o t i ~ ~ d npelos
s erros do eiitendimen-
to, ou pelas desordens da vontade ; deploraveis
conSeqiiencias da culpa do pri inciro homem ;de-
,
feitos aboiniiiaveis quc a L7ilofofia tem por obje-
to corrigir, e acauteiir.
A eRa palavra Fi~ofojfct n5o a-juntei ( e u vos
fupplico*) a prejudicial idéa de hum extravagan-
,
tc , e nioiifiruolo tropel dc queltíics inuteis d e re-
gras ociolas, de barbaras enprefsdes, de itiintet-
ligiveis vocabùlos, com que o eicolafiico orguL
lho , aborto dos feculos corrompidos, extorquia
OS applaufos da credula ignarancia ,
que fó ad-
m i r a , e louva aqui110 que náo entende. Perceber
a realidade dos obje8os ; diicernir a relnçáo das
Jd6as ; acautelar a falacia-dos fentiaos ; cohibii
a s e ~ c e f f od~a imaginas50 ; examinar a folidez
dos juizos ; efiabelecer o nexo dos difcurfos ; pe-
a força dos argumentos ; dilpôr o e n c a d e a
raiem-
( 37 )
mento dos raciocinios : eis-aqui as funç6es da
verdadeira Logica ; arte Divina, que dirigindo
o entendimeiito na indagag5o da verdade ,defvia
a razáo de precipitar-fe no erro.
. Mas nem todas as dcforderis do homem naf-
cem deAc pcrniciofo principio. Os defeitos d a
vontade s3o aitida mais ~iocivos, e ritermo iiinis
,
culpavei~ do que a illicnaçso do erpirito. Co-
nhecer o b e m , e abraçar o rn;il; difcorrer como
,
Filofofo, e obrar como iiilenfato $20 contrndic.
çSes, que ~ U L I C ~ ~ P deixar
O ~ C ~d c~ criiitii~ar-Se.
O
,
DeteR:ivel procedimeiito que Tó Iiiima depura-
d a Ethica póde com os fcus faudaveis preceitos
corrigir !
A eRi o@iofiffilima Sciencia devc o homem
ira vèrdàde os mais iiiiportanteç Serviços. Ella hc
,
quem a travéa de innumernveis c moilltruolòs
fyRcrnns de huma qiiimcrica bema\~ciitur3nçn ,
fempre accommodados a o cspriclio d a imagina-
550, que os forja, lhe mofira o iinico, e infalli.
vel caminho dc a conkgui r , daiido-llie a conhe-
cer o caraaer do íi~iinitnoRein. Elln llie enlina a
medir, c calcular pelas fabias leis do lioiielfo o ,
,
que hc verdadeiramente util e agradavel ; a fi-
,
xar a idéa do licito a moderar a violeticia das
paixdes, a prcfcrever limites 3 virtude, a levan-
tar barreiras contra o vicio. Ella lhe fiz ver a
prudencia , feparando cuidadofamcnte o bein do
mal; a JuAiça d a n d o a cada Iium o que Ilie perh
, ,
tente a n.iiiguem offendendo amando a todos ; a
Fo r,-
F o r t l l e ~ atolerando a adverfidade ; a Temperan-
ça cohihindo o appetite. Ella ein fim Ilie a%nala
os devcres d a creatura , do vaff~110, do patriota,
do cidnd50, do familiar, do aliiigo do homem,
devcrcs todos d e huma abf'oluta neceilidade , e
á excepçáo do primeiro todos de huma mutua
corre ipondencili.
~ c i x a r e ieu no filencio as utilidades daquel-
Ia a h l t r a f i ~Doutrina, a quem os Sabios q u e nos
precedêrio, náo ki fe por excellcncia, ou pelo
objeflo, dcráo entrc toda a l:ilolòfia o titulo de
Primeira ? Pcrdoai, Scnhores, fe vos for mole6
t a a niinlia prolixidade, Eu vos prometti fer brc-
A

vc ; 1113sn5o ine atreverei a fel10 em prejuizo da


caura q11c defcnc?~. Soffrei pois , que ao menos
de p3K~gemvos rccordc as mais importantes vrti-
tagens dii f~iblime, e profuiida Metafyfica. Ella
,
he a que nos offerecc as n o ~ ó e s cauías , e ra-
z6cs ienericas de t o d o s os e n t e s , eternos, crea-
dos, poffiveis. Por ella conhcce o homem a ef-
piritualidide da fubitancia que o anima ; e o Ma-
terialifia Fc cònvcnce da Tua merma immortalida-
de. Nella a Natureza pela voz dos fenomenos
atteltn a exiltcncia da Divindade, e dcfaggrava a
gloria do fcu Atithor ultrajada pelo ímpio Atheo.
Dclla , ein fitn , aprende o Difcipiilo de Epicuro
a recanhccer a Providencia que nega ; o Ethni'co
a abjiirar o Politheiíino , a que idolátra ; o Fa-
natico a m o ~ l e r a r o entliuíiafiico zelo que o in-
flLiiiims; o Hypocrita a depór a marcara das vir-
tudes que náo poffue. Eis-
c 39 1
Eis-aqui pois debuxado em miniatura ovaC
t o painel da Filoiofia Racional ; e fe nclle náo
enc-on trais aquella agradavel rn iltura d e fuavcs ,
e brilhantes cores , que realsáo 3 elegancia d o
defeiilio , e decidem fobre a deltrcza do piiicel,
ao menos eu iiic lifoqieio d c q.u e , atravds dosde-
feitos da copia, rcconhecereis as perfciç6es do
Original. A çrandczn, e importaiicia do teu ob-
jeRo vos perruadirá da rua utilidade , e preci-
siio ; e o fcu frequente ufo , aniin na v i d a civil ,
como chriftá , vos detern1inar.í a promovclla c ,
eu1tivalla.
Ein va'o ,Tem elte prcjiininar conliecimcnto,
pref~irnealguem familiarizar-fe com a vc'rdadeira
literatura. Em váo , reveftido de itnpofforas cxte-
,
~ i o r i d a d e s ou apoiado fobre o fragil a r r i m o d e
pompoí'os ufurpados titiilos ,tcntai*Jofoberbo, e
indomito pedaiitifino iiirroduzir-í'e iio t e m p l o
das fciencias , e coní'ultar os oraciilos da fabe-
doria no venerando interior do Ceu fantilario. 0.
genio Tutelar da Filoiofia ( Temel hailre n o Arcnn-
j o , que proliibe a entrada do dcliciofb Edeti á
infeliz raça do primeiro culpado ) cerrará coii-
tra elle as bronzeadas portas do inãgeítofo edifi-
cio , friin jiieando-as ao mefmo tempo aos feus
cult~res.
Agradeçamos pois i noffa AuguRa effe ad-
rniravel beneficio da fua Real muiiificencia ; e
utilizando-nos d3s importantes vnntagens , que
nos psomette a regularidade do prefeiire Plano ,,
fa-
( 40
f ~ t i s f q a m o saos rotos do Teu ExccllentiErno Tn-
itituidor. Efie Terá o mellior meio de fer-lhe gra-
tos : c a ~ o f l e r i d a d e , que, a pezar d a diltancia
dos I c c ~ ~ l ojulga
s, com niais re&idáo fobre o me-
,
reciincnto dos liomcns gravando o feu rerpei-
t w e l Nome nos faitos da Memoria, por nós llie
erigirá hum mais duravel, e gloriofo monuinen-
t o de gratidio.
Diffe,

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