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O amor e a morte

Os homens fazem da morte um signo de suas impossibilidades e temores humanos. Fazem dela uma contingncia, algo impensvel, portanto, fazem de si prprios incapazes para compreend-la na sua totalidade. Ora na medida em que compreendo que no vivo e nem vou ao encontro da vida, mas, que a cada dia morro e vou ao encontro da morte e todos os dias das nossas vidas so sempre um s dia apagando todos os outros, assim como os anos apagam os contornos, as formas, a leveza de um rosto, da mesma forma, a mo que escreve minha histria se desfaz pela outra mo que se incumbe de apagar as marcas, os rastros do meu destino. Penso que a experincia do amor vive e respira esse movimento. O amor no quer insistir na durao do desejo; quer cessar no instante mesmo de sua origem, ou seja, quer morrer para viver. O amor no existe nem consiste onde o desejo de posse insiste e quer prevalecer. O amor no passa, no vem pelo pensamento, no tem imagem de si mesmo, no vem pelo tempo e nem dura no tempo, subitamente surge, aparece, semelhante a experincia da morte. S o amor e a morte transformam todas as coisas. Adalid Zeballos
25/09/1984