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Compilação e Editoração Eletrônica

Luiz Edgar de Carvalho

HÁ MANEIRAS DE LER QUE SÃO MANEIRAS DE SER

Programa de
Educação em
Valores
Humanos
Este livro nos apresenta o inovador
Programa de Educação em Valores Humanos,
criado na Índia por Sathya Sai Baba, há mais de 30 anos
e hoje aplicado em mais de 130 países.

Aqui se encontra uma possibilidade de resposta à permanente


busca da educação neste início de milênio, empenhada em construir
a ponte entre o conhecimento e o desenvolvimento ético do caráter.

Este é um livro didático porque explica uma metodologia,


expõe uma teoria e sugere atividades.

Narra experiências concretas e bem-sucedidas,


fornecendo ao educador que se aventurar por esses mares
inovadores a perspectiva de um porto seguro.

Mais ainda, este é um livro de fé, pois apresenta


a crença no desenvolvimento de valores humanos.

Conhecimento, desenvolvimento e fé no ser humano:


elementos indispensáveis para a construção
de novos modelos em educação.

Lumensana
Publicações Eletrônicas
Para ler e pensar
Março – 2009
APRESENTAÇÃO

Valores. Humanos.
Que valores? A que seres humanos estamos nos referindo?
Vislumbrar um novo mundo, esta é a grande proposta: mudar o mundo a partir de
novos paradigmas em educação.
Neste início de milênio, os seres humanos se defrontam com inúmeras crises,
muitas delas envolvendo diretamente a própria sobrevivência da humanidade. No
Brasil, assim como no mundo todo, busca-se um encaminhamento para a educação,
vista como fio condutor prioritário, embasador da construção de novos modelos de vida.
Programa de Educação em Valores Humanos traz propostas que funcionam como
um descontaminador do nosso olhar. Mostram-nos um caminho, uma possibilidade de
reaprender a viver os valores que direcionam nossas vidas.
Verdade, Ação Correta, Amor, Paz e Não-violência deixam de ser conceitos
abstratos e passam a ser possibilidades vivenciadas. É a proposta de retorno ao sagrado,
não para crer, mas para viver.
Programa de Educação em Valores Humanos tem sua origem nas propostas de Sri
Sathya Sai Baba, iniciador de uma nova ordem social, educador internacionalmente
reconhecido, cuja metodologia vem sendo adotada com sucesso em vários países do
mundo. Aqui, este Programa é apresentado com base na metodologia e nos
ensinamentos de Sathya Sai Baba, porém, adaptados às necessidades e realidades
brasileiras. Mais que um simples Programa, ele nos educa e nos faz aprender. Mais
ainda, apresenta a crença no desenvolvimento de valores humanos. Conhecimento,
desenvolvimento e fé no ser humano: elementos indispensáveis para a construção de
novos modelos em educação.
Adotar este Programa na vida significa encontrar novos rumos de crescimento e
autotransformação. É também a constatação de que já existem novos modelos
educacionais que nos oferecem possibilidades de desenvolvimento do potencial
humano, e o encaminhamento de soluções que com o antigo olhar não podíamos
vislumbrar.

Este Programa de Educação em Valores Humanos


é dedicado aos educadores e àqueles que buscam soluções
por meio do autoconhecimento, assumindo o compromisso
da transformação pessoal e social e tornando-se artífices
de um novo homem e de um novo mundo.

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ÍNDICE

Introdução
O Professor

O que são valores humanos

Valores humanos
Os valores humanos absolutos e os aspectos da personalidade
Verdade – Aspecto Intelectual
Ação Correta – Aspecto Físico
Amor – Aspecto Psíquico
Paz – Aspecto Mental
Não-Violência – Aspecto Espiritual
Os subvalores ou valores relativos
Os subvalores relativos da Verdade
Os valores relativos da Ação Correta
Os valores relativos da Paz
Os valores relativos do Amor
Os valores relativos da Não-violência

O Programa de Educação em Valores Humanos


Educação dos níveis da personalidade
A família: primeira educadora em valores humanos
Desenvolvendo a imaginação criativa

Histórias de Transformação

Mitos de Transformação

Pensamentos de Transformação

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INTRODUÇÃO

Neste início de século, o homem está sedento de conhecimento, de fé e de experiências


espirituais. Está em busca das nascentes, dos mananciais da sabedoria. E, ao chegar à
encruzilhada do processo de civilização, precisa encontrar seu rumo e direcionar seu
destino. Para isso, deve encarar e avaliar seus erros e realizações. Para pôr em prática
uma mudança do comportamento social, faz-se necessária uma renovação da
compreensão do homem, do mundo e das ciências exatas e humanas, não apenas
intelectualmente, mas pela transformação interior, cujo efeito atinja o âmago do ser e se
manifesta conscientemente por suas ações. A educação tem papel fundamental nessa
transição, já que pode trazer uma nova compreensão da natureza humana, do mundo e
da própria existência.
Os atuais sistemas educacionais dissociaram o aspecto material do espiritual,
fragmentaram o conhecimento e comprometeram o desenvolvimento integrado da
personalidade dos alunos. Inibiram a criatividade e o sentido de percepção superior.
Negligenciaram a função básica da educação como formadora de caracteres, que é o
aspecto fundamental das propostas educacionais que visam sintonizar-se com as reais
aspirações do ser humano. A restauração da unidade e da integração do conhecimento só
ocorrerá quando os valores morais e espirituais voltarem a fazer parte da educação e
preparação de indivíduos com elevado padrão de dignidade e grandeza de objetivos. As
qualidades e aspectos da personalidade humana não podem ser tratados superficialmente
se quisermos nos adequar ao atual estágio da civilização. O equilíbrio entre o cultivo da
inteligência e a purificação dos impulsos emocionais e entre as disciplinas físicas e
mentais é essencial para a descoberta do ser cósmico e do comportamento holístico.
Para tanto, deve-se incentivar o aspecto intuitivo-espiritual e enfocar o
autoconhecimento com acuidade e espírito de auto-indagação.
É importante ensinar a pensar, a enfrentar desafios internos e externos, e fazer do
ato de viver a grande oportunidade para a ampliação de subsídios na investigação da
própria realidade. Só assim uma transformação terá êxito e permitirá que cada indivíduo
contribua para o progresso consciente dos valores morais e espirituais, esforçando-se
para cunhar um novo modelo de sociedade.
A exploração das regiões mais sutis da mente, por meio da harmonização dos
diversos níveis de consciência, conduz a um maior aproveitamento do potencial de
inteligência. A instrução baseada somente na memorização, ignorando a vivência total
do potencial humano, não cumpre um propósito educativo. O conhecimento da energia
espiritual insere o ser humano no todo pelo reconhecimento de que ele é uma partícula
infinitesimal da energia cósmica. A energia espiritual não é algo apartado da vida física.
É tão natural quanto nascer, crescer, amadurecer, reproduzir e morrer para reintegrar-se
á fonte de energia total. Não podemos limitar a noção de realidade aceitando como
verdadeiro somente o nosso relacionamento com o que é material e aferível pelos
sentidos tridimensionais.
O conhecimento exterior é proporcionado pela ciência através de informação sobre
a natureza, o cosmos e as formas e conteúdos físicos, que são a roupagem visível da
existência de Deus. Os valores morais e espirituais fazem aflorar o conhecimento
interior, o despertar da alma e o aperfeiçoamento do caráter. Ciência e vivência
espiritual não são incompatíveis. A metafísica ainda é considerada algo vago e absurdo,
sem objetivo prático, o que denota falta de informação e medo de questionar o
estabelecido. O confronto dos hábitos correntes com a renovação de modos de conduta
é intolerável para parte da sociedade.
Contudo, existe uma corrente de pensamento diametralmente oposta ao
conformismo e à inércia, que investe na vida procurando respostas para as questões
primordiais do espírito. A descoberta da física quântica obrigou a humanidade a fazer
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uma revisão conceitual da realidade. Não podemos continuar a cultivar todo tipo de
separatismo, dificultando a evolução da civilização. A revisão da realidade provocada
pela física quântica teve como resultado o surgimento de paradigmas que abrangem
todos os setores da atividade humana.
Nossos problemas podem ser solucionados porque estamos sendo forçados a
perceber a dinâmica interna da nossa interdependência em relação ao outro ser humano,
à natureza e a todas as formas de vida. A capacidade evolutiva inata e o aspecto
espiritual devem ser aceitos nos sistemas educacionais como partes integrantes da
personalidade humana. Isso pode fazer com que nosso ideal de construir uma
civilização digna e harmoniosa não seja uma utopia, mas um fato concreto. A vivência
dos valores nos capacita como herdeiros do conhecimento humano e da essência divina.
Observando os valores humanos no cotidiano, percebemos que eles ilustram como todas
as coisas e criaturas estão infinitamente conectadas.
A proposta do programa de educação em valores humanos é que o humanismo e os
valores ético-espirituais sejam fundamentos de uma nova ordem social. O programa
elucida alguns princípios que nos devem nortear enquanto nos dedicamos a transformar
a educação num instrumento efetivo para a realização do homem, a conquista da paz e
da liberdade criativa na busca da perfeição. Criado pelo mestre espiritual e educador
reconhecido no mundo inteiro Sri Sathya Sai Baba, o programa é utilizado em dezenas
de países há mais de vinte anos. Não tem caráter religioso, doutrinário ou político e a
forma direta dos métodos de transmissão, da valorização das virtudes inerentes à
condição humana, facilita enormemente a sua aplicação. Propõe um aprendizado
integral, em que matérias gerais são ensinadas de maneira abrangente e rica e
experimentadas conjuntamente pela internalização dos valores. O conhecimento é posto
em prática pautado pelo caráter reto e ação amorosa. A aprendizagem real deve traduzir-
se em aquisição de habilidades e de mudanças e aprimoramento da personalidade.
O programa contribui para formar seres humanos de caráter íntegro, livres de
medos e de preconceitos de raça, religião, cor ou sexo. Desse modo, permite que a
síntese cultural e espiritual da humanidade seja compartilhada sem barreiras impostas
pelo egoísmo ignorante e cruel. Prepara os jovens para a vida, e não apenas para
“ganhar” a vida. Os valores forjam o caráter e o caráter define o homem.

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O PROFESSOR

De todas as atividades da sociedade, o magistério foi a que mais sofreu deteriorações. O


professor foi vítima da falta de compreensão, por parte das autoridades governamentais,
do papel que desempenha na sociedade. Ensinar quer dizer guiar, estimular e orientar o
processo de aprendizagem. A transmissão do ensino não pode ser conformista e
acomodada. Deve ser um esforço pessoal e técnico dirigido no sentido da formação do
caráter e da transformação da conduta humana. O ensino deve despertar o interesse pelo
conhecimento e estimular o impulso natural de aprender.
O problema da formação do professor de primeiro e segundo graus é da maior
seriedade. Os professores do primeiro segmento do primeiro grau têm seus
conhecimentos pedagógicos prejudicados porque os cursos de pedagogia não são
ministrados com a necessária profundidade e atualização. Com isso, o aprendizado ficou
comprometido e a escola tornou-se passiva e enfadonha. As fontes de motivação dos
alunos e dos professores foram aos poucos minguando.
A parte mais nobre e fundamental da educação, que é o contato direto e íntimo com
a criança, foi desvalorizada. Não é menos verdade que os professores aceitaram com
relativa passividade a degradação da qualidade do ensino, da sua renda e prestígio
social, assim como não demonstraram interesse em desenvolver suas aptidões e
capacidades. Por outro lado, o educador é sempre movido pelo ideal de servir. Ensinar é
a mais bela e digna das tarefas e a educação é a grande responsável pela renovação da
sociedade, o que exige do professor profunda devoção ao seu trabalho. Como
transmissor das riquezas do conhecimento das diversas culturas da humanidade, é
indispensável que o educador tenha consciência da grandeza de sua profissão e atue
como incentivador de idéias, conduzindo energias criativas como formador de
princípios. Daí a importância da escolha do método na transmissão do conhecimento. O
melhor método é o que desperta o interesse e visa um fim valioso, realizado graças aos
esforços de mestres e alunos.
O educador deve buscar em si mesmo o verdadeiro sentido de “educar”, deve ser o
exemplo vivo dos seus ensinamentos e converter sua profissão numa atividade
cooperadora do engrandecimento da vida. É possível, desse modo, reverter o quadro
desastroso e anêmico em que se encontra o sistema educacional.
Sabemos que a crise mundial dos sistemas educacionais resulta da transição de
parâmetros de comportamento no panorama de mudanças globais; da liberação de
velhas crenças e dogmas, com o rompimento de conceitos de segurança, felicidade,
poder etc., e seus efeitos nas atividades práticas. A premência espiritual obriga a
educação secular a rever seus métodos e acompanhar os movimentos da evolução
natural, buscando soluções compatíveis a partir do seu pilar principal, o professor. Este
deverá encontrar respostas em seu interior, pois antigos pontos de referência já não têm
validade.
Cumpre ao professor ser o inspirador do aprendizado das matérias e do cultivo do
espírito no processo estrutural do caráter. Ele retomará o lugar que lhe é devido na
sociedade quando despertar do marasmo comodista e partir para o devotamento
profissional e a ação amorosa. Para isso deverá pesquisar, inovar e incrementar seus
conhecimentos pedagógicos, expandir sua cultura geral e procurar conhecer e
desenvolver novas técnicas de ensino. No programa de valores humanos utiliza-se a
síntese das conquistas da moderna pedagogia, acrescentando a isso o aprimoramento
humano do professor como agente de transformações.
A insatisfação com o sistema educacional é notória. A evasão escolar, crescente,
está sujeita a manipulações políticas e reflete o descaso governamental com a educação,
o celeiro em que uma nação armazena seus valores e líderes. O professor é a pedra
angular e o agente de mudanças desse estado de coisas. Ao lado de pais de alunos
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tornados parceiros, é capaz de operar uma verdadeira revolução no campo educacional.
Criando um ambiente escolar acolhedor e criativo, sempre atento aos talentos e
dificuldades dos alunos, o professor estimulará a determinação, o interesse e a alegria
por aprender. Muitos métodos e propostas educacionais formaram técnicos capazes, mas
se esqueceram de investir no professor enquanto ser humano e espiritual capaz de
extrair do seu íntimo o aperfeiçoamento de suas faculdades.
No programa de educação em valores humanos, o autoconhecimento e a vivência
dos valores são preponderantes; professores, pais, alunos e escolas assumem o modelo
da sociedade do futuro, já. O progresso de uma nação só acontece quando o sistema
educacional integra a sabedoria do espírito e o conhecimento intelectual, revelando o
papel do homem na sociedade e a valorização da vida.

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O QUE SÃO VALORES HUMANOS

O que é um valor.
A disciplina filosófica que estuda os valores é a axiologia, a crítica dos valores. O
homem, pela sua configuração mental e espiritual, não vive mergulhado num mundo
tão-só de coisas materiais, como ocorre com os animais, mas num ambiente de valores,
símbolos e sinais. Diante disso, é necessária uma exata compreensão dos valores.
Nietzsche deu status filosófico aos valores, mas foi Max Scheler quem atuou no
campo da pesquisa dos valores, na descrição dos fenômenos ou das essências puras
que ocorrem na consciência. Por meio dessa exploração, Scheler concluiu que os
valores pertencem a uma esfera que não se confunde com a do ser, pois possuem uma
peculiaridade irredutível. São percebidos não por uma introspecção simples, mas por
uma instituição emocional.
É difícil conceituar com abrangência os valores e estes apresentam uma imensa
dispersão. Deve-se englobar na designação de valores a honra, o dinheiro, o zelo, o
dever, o direito etc., pois todos são valores e, por conseguinte, sua definição deve ser de
tal ordem que convenha a essas categorias axiológicas.
Em conseqüência, é comum conceituar valor, primeiramente, como uma não-
indiferença de alguma coisa com um sujeito ou uma consciência motivada.
Os valores se alicerçam em dois pontos:
1. Um sujeito dotado da necessidade de uma motivação.
2. Um objeto, uma pessoa, uma atitude, algo enfim capaz de satisfazer ou atender
à exigência do sujeito.
Portanto, para se chegar aos valores humanos mencionados a seguir e aos seus
respectivos subvalores, o ponto de partida seria desencadear a motivação interior,
despertando, pelo trabalho do educador, o interesse em tal descoberta.

Os valores humanos são fundamentos morais e espirituais da consciência humana.


Todos os seres humanos podem e devem tomar conhecimento dos valores a eles
inerentes. A causa dos conflitos que afligem a humanidade está na negação dos valores
como suporte e inspiração para o desenvolvimento integral do potencial individual e
conseqüentemente do potencial social. Não é possível encontrar o propósito da vida sem
esses valores que estão registrados em nosso ser profundo, ainda que adormecidos na
mente e latentes na consciência. Os valores são a reserva moral e espiritual reconhecida
da condição humana.
A vivência dos valores alicerça o caráter, e reflete-se na conduta como uma
conquista espiritual da personalidade. No dinamismo histórico, os valores
permaneceram inalteráveis como herança divina em cada um de nós, apontando sempre
na direção da evolução pelo autoconhecimento. Nesse grandioso drama humano, criado
por nossos erros e acertos, os valores abrem espaço e trazem inovações essenciais para a
sobrevivência da espécie e o cumprimento do papel do ser humano na criação. Vivemos
tempos críticos, violentos e desesperados; isso acontece devido ao fato de grande parte
da humanidade ter esquecido seus valores e tê-los considerado até ultrapassados e
desinteressantes.
O medo, o desamor e o engano têm qualificado nossos relacionamentos emotivos e
operativos com os nossos semelhantes e com o mundo. Verificamos que, sem o
exercício dos valores intrínsecos ao ser humano, andamos por caminhos de dor,
deteriorando a qualidade de vida no planeta. No século vinte, fomos mobilizados por
ideologias que inverteram a escala de valores e assim estabeleceram tensões sócio-
econômicas, gerando perplexidades, individualismo e desalento. Por outro lado, não
podemos deixar de enfocar que, apesar do descompassado desenvolvimento que
tivemos, negligenciando o humano em prol da economia e da tecnologia, desse caldo
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borbulhante de inquietações e discrepâncias surgiu a mudança dos conceitos de poder e
felicidade.
A constatação da ineficácia das coisas materiais, da fama e do poder econômico
como portadores de felicidade, trouxe à tona a auto-indagação e a necessidade de
mudanças. Pouco a pouco percebemos que a felicidade é uma conquista da alma e,
portanto independe de circunstâncias ou satisfação de desejos.
Tudo isso nos obriga a uma redefinição do que é poder; cada vez mais fortemente
sentimos que o amor fraterno e o conhecimento compartilhado anulam a disputa e a
necessidade de domínio. As relações de poder mudam na medida em que os valores
criam novos significados e maneiras de conceber a vida. Estamos em uma encruzilhada:
ou aceitamos a renovação pessoal e social pelo reconhecimento dos valores e os
elaboramos interiormente, ou nos agarramos a convicções preconceituosas, arcaicas e
individualistas, fugindo do compromisso histórico.
O resgate dos valores humanos é o nosso grande desafio, mas o ser humano tem
reservas inesgotáveis de transformação. Temos nos valores morais e espirituais o grande
instrumento de aprimoramento e o traço de união dos povos, sem distinção. Os valores
promovem a verdadeira prosperidade do homem, da nação e do mundo.

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VALORES HUMANOS

OS VALORES HUMANOS ABSOLUTOS E


OS ASPECTOS DA PERSONALIDADE

VERDADE – ASPECTO INTELECTUAL

A verdade é o princípio da vida, o imperecível dentro das coisas perecíveis; é a


essência por trás de todas as formas de vida; a energia divina que impregna toda a
existência.
A verdade absoluta é eterna e imutável; o que muda é a nossa condição e
capacidade de nos aproximar dela e experienciá-la. A purificação da mente, o controle
dos sentidos, a pesquisa interior e a harmonização das emoções nos capacitam a
reconhecer o quantum de energia cósmica que vibra em nós, mostrando-nos a
comunhão com o todo e a verdade. A intuição e a inspiração nos põem em contato com
o Absoluto. Para isso é preciso colocar a inteligência e o intelecto como servidores do
nosso ser eterno. A verdade é um valor humano porque só a espécie humana pode
encontrá-la e vivenciá-la. A verdade dirige a conduta do homem autêntico; é o que dá
significado e dignidade à vida. Ser verdadeiro é uma conquista da mente pela reta
intenção de auto-realização.
A verdade relativa é aquela que se percebe através dos sentidos físicos, e é
representada pelo que se vê, se sente e sobre a qual se emite julgamento. É, portanto
variável de acordo com as experiências vividas pelo indivíduo. A verdade absoluta é
Deus.

AÇÃO CORRETA – ASPECTO FÍSICO

Descobrir quem somos é a razão de nossa vida. O aspecto físico é o veículo da


ação que permite a manifestação concreta da consciência. A nossa personalidade assume
papéis, e assim enfrenta forças opostas e conflitantes ao viver a natureza sensorial em
busca da vivência da natureza divina. A ação correta surge do aprimoramento do caráter
pela contínua busca de si mesmo. Na ação correta estão a conexão com a consciência, a
sintonia cósmica e a vitória. A vivência relativa do valor faz da vida algo digno e útil
pelo discernimento entre o certo e o errado, o que fere ou alegra nossa consciência. Agir
corretamente é ouvir a voz interna que contribui para o crescimento da criatividade e do
talento em busca do autoconhecimento e do bem comum. É um valor humano, porque
só o homem pode moldar e escolher o próprio comportamento.

AMOR – ASPECTO PSÍQUICO

O amor é a energia inesgotável que move o mundo, os universos e os seres. É a


força de criação, coesão e sustentação da vida. O amor é a energia de unidade e
transformação. Vivemos num universo dual entre os pares de opostos e a relatividade; o
amor é o impulso de integração.
As polaridades se expressam mais acentuadamente na luta entre o amor e seu
oponente implacável, o medo, ou seja, a expansão e a restrição do ser, respectivamente.
A eliminação consciente do medo nos liberta do egocentrismo, e o amor preenche os
espaços internos e assume as rédeas da vida. Sob o domínio do medo, estamos sempre
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sujeitos ao dualismo do mundo e da ilusão das coisas inconsistentes e passageiras, que
nos fazem sofrer pela sua própria condição de transitoriedade.
O amor é a energia que abastece a psique, a alma, e essa plenitude reflete-se nos
nossos pensamentos, palavras e ações. É privilégio e conquista da condição humana a
faculdade de amar incondicionalmente. Podemos transpor a autopreservação e o sentido
de posse, bem como vencer os limites de aversões e preferências, pelo exercício do
amor. Unir as centelhas para formar uma enorme fonte de luz, tornando-se feliz e
fazendo felizes os seus semelhantes, viver em sintonia com o cosmos, são tarefas
inerentes ao homem. O amor revela nosso ser profundo, sagrado, transcendental e
sublime.

PAZ – ASPECTO MENTAL

A paz é a base da felicidade humana. A eliminação da desordem interior criada


pelas emoções em ondas sucessivas e pela formação incessante de pensamentos e
desejos permite a experiência da paz. Na experiência da paz é que se processam as
transformações profundas na nossa personalidade. A interiorização gera a alquimia
divina que modifica a vibração energética e aprimora a consciência. Na mente nascem
as idéias, os pensamentos tomam formas e os desejos tornam-se emoções. Ela pode ser
a nossa maior aliada, mas também o nosso obstáculo mais difícil. Disciplinada, é o
ponto de ligação entre a personalidade e o espírito. Desordenada, tende a criar
pensamentos e dúvidas que devastam e corroem a paz interior. O repouso mental é tão
importante quanto o repouso físico; a meditação tem por finalidade permitir que nossa
mente obedeça a nossa vontade para esvaziar o falso ego.
O egoísmo, a inveja, a hipocrisia e outros defeitos da personalidade nascem na
mente instintiva do homem, a sua natureza animal. Nós, seres humanos, não somos
superanimais; somos seres divinos e podemos experimentar essa realidade graças à
mente. A paz é um valor humano porque só a espécie humana pode domar as paixões e
tendências inferiores, redirecionar sua vida e adquirir equanimidade e bem-aventurança.

NÃO-VIOLÊNCIA – ASPECTO ESPIRITUAL

É a mais elevada conquista da personalidade humana. O ser humano que


conquistou a si mesmo é manso de coração, incapaz de ferir algo ou alguém, por
pensamentos, palavras ou atitudes. No estado de não-violência termina a divisão e o
dualismo torna-se monismo. Atingiremos a não-violência e o amor altruísta pela
conquista das nossas tendências inferiores com o cultivo das virtudes. Respeitar as leis
naturais, os seres e as coisas criadas com humildade e sabedoria é vivenciar a não-
violência como valor absoluto. A vida se nutre da vida, mas o ser humano pode atingir a
grandeza de saber que é possível subsistir sem infligir danos desnecessários às outras
formas de vida. É a finalidade, a meta do desenvolvimento da consciência, a perfeição
humana. A vitória do espírito sobre a natureza inferior é refletida na não-violência.

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OS SUBVALORES OU VALORES RELATIVOS

A cada valor absoluto correspondem valores relativos que devem ser assimilados,
ressaltados, e praticados no cotidiano. A vivência desses valores alicerça o caráter por
meio de transformações dos níveis da consciência. Partindo da condição humana e
exercitando os valores relativos, obteremos a revelação da nossa natureza divina. A
partir da intermediação desses valores, nossos pensamentos e formas de expressão
adquirem padrões novos e espectro cada vez mais amplo. A integração dos níveis e
aspectos das energias vitais e a destruição das cadeias da ignorância libertam o homem
integral, para buscar a si mesmo e ao Absoluto.
O gênero humano está vivendo aflições e crises político-econômicas, rivalidades
religiosas, raciais e de classes sociais, o que reflete desequilíbrio e contradição. O
desenvolvimento tecnológico e científico não serviu para unir as nações, mas para
aumentar as distâncias e diferenças. Ódio, inveja, cobiça, competição e sede de poder
sobrevivem porque os homens utilizam sua inteligência e criatividade a serviço da
crueldade e do egoísmo. As lideranças político-sociais, formadas e educadas num
sistema educacional que prioriza a competição e o sucesso econômico, relegam os
valores humanos a importância secundária.
O remédio para tanto desacerto e sofrimento está no próprio homem. É chegado o
momento de ele assumir a responsabilidade que lhe cabe perante si e a vida. Procuramos
– apostando nas coisas que criamos sem valorizar a nós mesmos, seus criadores –
encontrar a felicidade de fora para dentro, atraídos pelo falso e ilusório. Tudo isso
acontece porque ignoramos quem somos realmente. Devemos ansiar pelo
autoconhecimento, usar a inteligência para fazer o bem e minimizar as fontes de
sofrimento, vivendo os valores que nos são intrínsecos. Nunca é demasiado tarde para
iniciar a grande viagem em busca de nós mesmos. E partir para a mais fundamental das
aspirações humanas, o autoconhecimento.
Os subvalores ou valores relativos são manifestações de cada valor absoluto no
exercício da vida; são nossos instrumentos de aprimoramento da personalidade, que se
molda constantemente para que possa atingir seus verdadeiros objetivos.

A razão de colocar definições, posicionamentos e sentimentos pessoais em cada


um dos valores relativos é comungar com aqueles que começam a se deter mais
profundamente nos próprios valores e descobrir seus sentimentos e conceitos pela
vivência, percebendo as mudanças extremamente benéficas que ocorrem em suas
atividades profissionais e nos relacionamentos humanos, assim como no trato com as
emoções. O que nos interessa ao expor essas definições é ajudar na observação das
conexões internas que se estabelecem e na reformulação de opiniões e
comportamentos, assim como nas suas conseqüentes aberturas conjunturais. A vivência
dos valores aqui enfocados reintroduz na corrente cultural dominante um interesse
renovado pelo autoconhecimento e pela espiritualidade.

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OS VALORES RELATIVOS DA VERDADE
E SUAS DEFINIÇÕES

DISCERNIMENTO – É a utilização da inteligência e do poder discriminatório do


que é certo ou errado para tomar uma posição perante uma circunstância ou fato, de
acordo com a nossa consciência. O discernimento é um processo constante de
refinamento do intelecto para atingir maior poder de percepção e conclusão a respeito
de fatos, coisas e pessoas, distinguindo um estágio de um objetivo. Nossa capacidade de
discernimento cresce na medida em que exploramos as regiões mais sutis da mente e
ampliamos o poder de captação e percepção da verdade, reconhecendo o ser interno
como guia. É a conexão entre a lógica e o sentimento.

INTERESSE PELO CONHECIMENTO – Ter sede de saber sobre o mundo


objetivo, visível, agrada a nossos sentidos e fascina nossa mente. É o meio de descobrir
a melhor forma de nos adequarmos à vida e dela tirar o melhor proveito, assim como de
contribuir, com nossos talentos, para sua melhoria. Esse anseio pelo conhecimento pode
fazer também com que nos detenhamos mais profundamente no mundo subjetivo que
permeia as coisas e ultrapassemos os limites de nossos sentidos, provocando o
rompimento da inércia e do comodismo, condição indispensável para vencer a
ignorância e ampliar as possibilidades de experimentar os diversos aspectos da
existência. A mobilização interior, ao liberar a coragem e a força de vontade, vence
todos os obstáculos que se interponham no caminho do autoconhecimento.

AUTO-ANÁLISE – É a procura honesta e corajosa da verdade pela observação


dos nossos mecanismos internos, com o reconhecimento de defeitos e qualidades; a
única forma de encontrar meios de superação das falhas e de otimização das virtudes e
talentos. Os resultados desse diálogo interior aparecerão naturalmente na forma de
mudanças de postura intelectual e comportamental, pelo assenhoreamento das próprias
emoções, pela definição de personalidade, elevação de ideais e objetivos e,
principalmente, pela evolução espiritual.

ESPÍRITO DE PESQUISA – O ser humano deve ser o investigador inteligente


que, mesmo imerso no mundo material e vítima de pressões do meio e apelos dos
instintos, procura descobrir indicadores que o auxiliem a rasgar os véus da ilusão e
tornar-se autoconsciente, ousando investir na percepção do grau de amalgamação
existente entre o objetivo e o subjetivo. Somente conseguiremos saber onde um começa
e o outro termina quando superarmos a identificação com a forma como princípio e fim.
Pesquisar externa e internamente nos traz a revelação de que a causa de todo sofrimento
é a falta de conhecimento da verdade, e isso nos proporciona meios de preencher essa
falta. Assim sentiremos a relação do finito com o infinito.

PERSPICÁCIA – A perspicácia emerge espontaneamente do potencial intuitivo.


Por isso, permite ver e sentir além do que é expressado. E possibilita a compreensão
instantânea do que jaz por trás das aparências. É a capacidade de apreender o sentido
das coisas e situações com a captação de seus significados e contradições, filtrando-as e
avaliando-as. Perspicácia é a combinação da revelação intuitiva com a percepção
intelectiva.

ATENÇÃO – Estar presente por inteiro em tudo o que observar, sentir, escutar,
dizer ou fazer é fundamental para que possamos ter a experiência real das oportunidades
de aprendizado e crescimento que a vida oferece. Ao enfocar nossa atenção em algo,
ocorre uma comunicação energética entre nós e o objeto do nosso foco, fazendo surgir
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novas idéias que são desenvolvidas pela mente, que as delineia e dá início ao processo
de criação. A falta de atenção é terreno propício para o erro, a injustiça e toda sorte de
desperdício. Atentos a nós mesmos, aos semelhantes e à natureza, poderemos encontrar
Deus em nós e no mundo.

REFLEXÃO – Refletir é conversar consigo mesmo, formando pensamentos vivos


e ensaiando ações para a concretização de ideais. É treinar o intelecto para o raciocínio
abstrato, a fim de descortinar horizontes além do tangível, para encontrar revelações
íntimas com significação impossível de ser alcançada apenas pelo raciocínio lógico.
Refletir não é devanear – é buscar soluções dentro de nós e não fora de nós. A reflexão é
o diálogo com os níveis mais profundos do ser. Ao procurar soluções para os efeitos dos
estímulos externos em nós, detendo-nos nos movimentos internos e externos e nas
inquietações íntimas, acendemos luzes que projetam as formas adequadas de agir de
modo claro e visível.

SINCERIDADE – É o crisol onde se purifica o caráter. Uma mente impulsionada


pela verdade, um intelecto sem mesquinharias nos predispõem a obedecer sempre aos
ditames da nossa consciência. A falta de sinceridade revela um caráter frágil e subordina
o homem a uma sucessão de ilusões, gerando uma energia desgastante. As
conseqüências daninhas da mentira são curadas pela sinceridade quando colocamos a
verdade a serviço do bem e não como instrumento de agressividade sob a capa da
franqueza. Sinceridade é servir amorosamente ao próximo pelo exercício da sintonia
com a Verdade. É pré-requisito para se atingir o aperfeiçoamento do caráter.

OTIMISMO – É a convicção do nosso poder de transformação e de criatividade.


O otimismo nasce da confiança em si mesmo e na renovação da vida. Alimenta de
esperança o coração. Qualquer obstáculo será facilmente transposto se for examinado
com destemor e lucidez. Otimismo é a luz interna que refulge e mostra a nossa
capacidade de refazer a nós mesmos para que as coisas que nos rodeiam sejam refeitas.
O otimismo estimula a criatividade e a força transformadora.

HONESTIDADE – Ser honesto é aderir totalmente à verdade. A honestidade nos


liberta dos disfarces, inseguranças, embustes e ardis que muitas vezes cultivamos por
medo de não ser aceitos e por desconhecer nossos talentos e capacidades. A honestidade
nutre o caráter reto mesmo diante das tentações mais sedutoras – é qualificação
indispensável para a auto-realização.

EXATIDÃO – Expressar-se com exatidão reflete segurança, firmeza,


conhecimento e poder de síntese. A exatidão se manifesta na mente limpa e no coração
amoroso. O indivíduo que se orienta pela consciência e centraliza o pensamento em seus
ideais, sempre comprometido com a verdade, expressa suas intenções e conceitos de
forma límpida e concisa. Assim, quando obrigamos a mente a enfatizar seu aspecto de
tela em que projetamos as imagens conforme nossa capacidade de vê-las, evitamos a
ambigüidade, que é o fruto da incerteza e da insegurança.

COERÊNCIA – É a harmonia entre pensamentos, palavras e ações. Alcançamos a


coerência quando nos introvertemos a ponto de poder sentir a realidade do que
dispomos e do que precisamos aprimorar para viver esse equilíbrio e deixá-lo fluir
naturalmente. Nossas atitudes e posicionamentos estarão sempre sujeitos às
necessidades eventuais e circunstanciais, mas a harmonia interior impedirá qualquer
mudança essencial da coerência. Os pensamentos fúteis e perniciosos, as palavras
ofensivas e os atos egoístas revelam a ignorância e a desarmonia interior. Os

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pensamentos puros e criativos, as palavras verdadeiras e amorosas e os atos nobres e
generosos denotam, por sua vez, a comunhão com a divindade, e a coerência é o reflexo
dela.

IMPARCIALIDADE – O egoísmo fraciona a visão da verdade. As emoções


desordenadas provocam oscilações de humor, o que nos impede de raciocinar, enxergar
e compreender as coisas sem sectarismos. Para sermos imparciais, é necessário assumir
uma postura interior e exterior destacada e eqüidistante das mais diversas situações. Ser
imparcial é superar predileções e aversões.

SENTIDO DE REALIDADE – A verdade tem de ser conquistada e o sentido real


das coisas surge da percepção da energia cósmica que permeia tudo e todos
permanentemente. Para vencer o auto-hipnotismo, devemos adestrar a mente pra definir
e diferenciar o efêmero do perene, a fim de evitar o cultivo de desejos e angústias
causados pelo superdimensionamento ou distorção da visão da realidade. Devemos
aceitar os aspectos ilimitados da realidade espiritual sem excluir a realidade palpável e
mensurável como veículo para maiores descobertas e percepção dos diversos níveis de
compreensão da verdade.

LEALDADE – É um exercício de doação e crença, adesão a uma causa ou pessoa


sem visar proveitos pessoais. Só pode ser leal aquele que é verdadeiro consigo mesmo.
A consciência de que somos parte de um todo desbanca o individualismo e a
competição, dando lugar à lealdade e ao espírito fraterno; ao mesmo tempo, faz crescer
o sentimento amoroso e estabelecer-se uma aliança altruísta e leal.

JUSTIÇA – Estabelecer a diferença entre o legal e o justo pela ampla análise dos
diversos aspectos de uma questão sem preconceitos ou raciocínio viciado é o meio mais
correto de ser justo. Para julgar algo ou alguém é preciso estar ciente de que somos
falíveis e aprendizes de nós mesmos; portanto, agimos de acordo com o nosso nível de
autoconhecimento. Em termos sociais, posicionamentos estanques, normas e regras
definitivas não são compatíveis com uma sociedade mutável, que exige a atualização de
leis e a agilidade na sua aplicação. O respeito aos direitos, às obrigações do ser social e
aos valores humanos promove harmonia e justiça.

LIDERANÇA – O verdadeiro líder incorpora os anseios do grupo com espírito de


doação e o conduz com humildade e lucidez, agindo acima dos interesses pessoais.
Liderar é conduzir consciente de que se está sendo guiado por uma força maior, com
espírito de serviço, sem auto-exaltação ou fruição de privilégios. Liderar corretamente é
usar o poder outorgado sem contaminar-se pela necessidade de domínio e mando.

HUMILDADE – A humildade só se manifesta quando vencemos o orgulho


pessoal. É uma conquista interior e não uma atitude externa que causa efeito impactante
sobre as pessoas. Só os humildes de coração e mente conseguem transformar
conhecimento em sabedoria. Essa virtude revela nossa natureza superior; por isso, ser
humilde não é ser subserviente, é ser consciente. A humildade faz com que ofereçamos
nossos serviços desinteressadamente, atuando sempre de acordo com a nossa
consciência amorosa. Ela nos torna mais fortes e firmes de caráter, o que permite
superar mais facilmente os assaltos da vaidade e da pretensão, quer venham dos nossos
impulsos internos, quer do comportamento dos semelhantes. Pela humildade
transmutamos vaidade em auto-estima, orgulho em comunhão, ira em motivação. A
humildade enseja a vitória sobre os excessos que corrompem e sua transformação em
bênçãos.

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Relato de experiência

O resgate dos valores humanos e de seus subvalores deve ser a proposta básica de
todas as experiências que vivemos no cotidiano. Apresentamos, a seguir, o relato de
uma experiência, com enfoque na verdade e em seus subvalores.

Uma professora de português vivenciou um trabalho muito interessante com


alunos da 5ª série do ensino fundamental. A princípio, pediu aos alunos que fizessem
uma leitura, em casa, do livro “A Planície e o Abismo”, de Rubem Alves. Na sala de
aula, deixou que as crianças relatassem a história conforme a haviam compreendido. A
seguir, pediu a um aluno que retomasse o livro e lesse as duas primeiras páginas, em
que um personagem voltava para casa depois de uma feliz noitada com os amigos.
Como acontecia sempre, ele seguia pensativo, tranqüilo, montado no seu lindo cavalo
branco. Em todo o trajeto, apenas um lugar lhe dava calafrios: a encruzilhada onde
começava a trilha que levava ao alto de uma montanha, silenciosa, sempre envolta em
neblina. Diziam que essa montanha era mágica, contavam-se histórias estranhas de
pessoas que a haviam desafiado e não mais tinham voltado.
Nesse ponto da narrativa, a professora interrompeu a leitura e sugeriu uma
reflexão sobre aquele momento vivido pelo personagem. Perguntou aos alunos se
percebiam a razão da inquietação que tomava conta do rapaz sempre que chegava à
encruzilhada e ficava fascinado e ao mesmo tempo amedrontado com a maravilhosa
montanha à sua frente. Várias hipóteses foram levantadas, até que um garoto
respondeu que o rapaz tinha medo porque a montanha representava o desconhecido
para ele. A professora transpôs a situação para a vida pessoal dos alunos, induzindo-os
a se voltarem para si mesmos, fazendo perguntas simples como: E nós também sentimos
medo do desconhecido? Em que situação já nos percebemos sentindo muito medo? O
que representa a encruzilhada na vida do personagem? Como nos relacionamos com o
medo quando enfrentamos situações novas? Olhamos corajosamente para dentro de
nós mesmos e buscamos ver tudo com clareza ou apenas caminhamos, movidos
cegamente pelas circunstâncias? Como somos realmente? O que somos
verdadeiramente?
Inúmeras questões foram colocadas e as crianças, entusiasmadas e atentas,
surpreendiam-se com as descobertas que faziam naquele momento sobre si mesmas.
Utilizando o livro, a professora desenvolveu de forma agradável e divertida um
trabalho de autoconhecimento em que as crianças puderam perceber, por elas mesmas,
que o ser humano é um misto de luz e sombra, qualidades e defeitos, mas com um
potencial infinito para pesquisar externa e internamente, para autoprojetar-se, evoluir
e tornar-se verdadeiramente um ser completo, humano, no sentido mais profundo do
termo.

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OS VALORES RELATIVOS DA AÇÃO CORRETA
E SUAS DEFINIÇÕES

DEVER – O dever primordial do ser humano é saber quem é verdadeiramente. O


aprimoramento do intelecto e a observação interior trazem à tona a consciência da
energia espiritual como força motriz e fonte inspiradora. O equilíbrio entre matéria e
espírito nos torna mais adequados e capacitados a desempenhar nosso dever, assim
como nossas obrigações como seres sociais. O dever aparenta ser um fardo assustador
para aquele que ainda desvincula a energia espiritual da material e que devido a isso
depende sempre de alguém ou do acaso e não aceita a responsabilidade pelo próprio
progresso, quer material, quer espiritual. Assumimos nossos deveres com alegria
quando, conectados com a ação cósmica, oferecemos nossos talentos para cumpri-los
contribuindo para o bem-estar familiar e comunitário. Sentimos, assim, o prazer de
cumprir a nossa tarefa e desempenhar o nosso dever corretamente.

RESPONSABILIDADE – É responder pelas próprias palavras e ações e pelo que


lhe foi confiado. Só o ser humano responsável assume as rédeas do seu destino,
construindo seu caráter dignamente. Assim, pode se autoconhecer, modificar-se e
modificar a sociedade como co-autor com a divindade na condução do homem sobre o
planeta.

ÉTICA – Os princípios morais e espirituais integrados na sociedade pelo


comportamento coerente diante das atividades e dos relacionamentos humanos
permitem a evolução equilibrada da civilização. A ação só é útil se estiver aliada à
sabedoria e aos valores humanos; caso contrário, perde-se em ativismo cego e
inconseqüente. O progresso pessoal implica necessariamente atitudes fecundas e
altruístas, respeito próprio e pelo semelhante. Agir eticamente é pôr em prática o que
temos de melhor para enriquecer a vida e a sociedade com pureza de sentimentos e
intenções. Essa é a obrigação do ser consciente.

VIDA SALUTAR – A seleção dos alimentos que ingerimos, dos ambientes e das
pessoas com quem convivemos, além de tudo aquilo que recebemos como informação e
sensação através dos órgãos dos sentidos, definirá nossos hábitos e a higidez do nosso
corpo e da nossa mente. Dessa forma, o desrespeito ao nosso corpo e à nossa mente
compromete nossa atuação e dificulta o crescimento interior. Nosso corpo é
indispensável como veículo e nossa mente deve ser o instrumento para a penetração nos
níveis mais elevados da nossa consciência.

INICIATIVA – Ter iniciativa é entrar no fluxo da energia regeneradora da vida, o


que faz surgir das profundezas do coração a certeza de ser útil e de estar em sintonia
com o cosmos, que certamente nos permite a ação correta e aponta o melhor caminho.
Quando rompemos as barreiras do medo do novo, saímos da inércia conformista.
Confiamos então nas nossas possibilidades de gerar mudanças e desenvolvimentos
pessoais e coletivos. O medo imobiliza e atravanca a evolução, pois, temerosos de
enfrentar a nós mesmos e aos desafios da vida, costumamos culpar pessoas ou
circunstâncias pela nossa falta de iniciativa.

PERSEVERANÇA – Nos combates individuais internos e nos embates exteriores


pela vida afora, é a perseverança a arma mais eficiente. Ela fortalece nossa fé na energia
divina que existe por trás de cada coisa ou acontecimento, quer nos pareçam benéficos e
bem-sucedidos, quer sejam dolorosos e malogrados. Quando definimos propósitos
positivos, nossa consciência aponta a direção e os meios para atingi-los, assim como os
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instrumentos que nos impeçam de tomar outras estradas. A perseverança possibilita o
autoconhecimento e a conexão com a alma.

RESPEITO – Só o ser humano sente respeito: por si mesmo, pelos outros, pela
natureza e pelo sagrado. Quando cultivamos nossas virtudes e procuramos superar
nossos defeitos, crescem as condições de, respeitando nosso próprio estágio de
evolução, respeitar o estágio do outro. A partir daí procuramos o ponto de contato e não
a linha que nos separa. Respeitar a privacidade e a individualidade alheias sem
julgamentos impulsivos é reconhecer por trás da forma exterior e das atitudes
discutíveis a chama divina imanente que existe em nós.

ESFORÇO – O esforço permite realizações materiais e espirituais. Esforço e


empenho constantes são imprescindíveis também para que tomemos ciência das nossas
capacidades e limites em qualquer empreendimento. Podemos sentir a importância de
algo pelo esforço despendido para conquistá-lo. Para a expansão da consciência e o
aprimoramento do caráter é preciso esforço no sentido de vencer os apelos do nosso
psiquismo inferior. Sem esforço, não há mérito. Esforçar-se é comprometer-se com a
vontade na busca de um objetivo.

SIMPLICIDADE – À medida que avançamos no autoconhecimento e nos


sintonizamos com o nosso ser eterno, diminuímos nossas necessidades. Procuramos a
essência das coisas, e esse estado da alma se exterioriza na nossa postura diante da vida;
nossos relacionamentos com os demais se tornam mais fáceis e livres, e temos
condições mais propícias de enxergar o melhor modo de atuar em qualquer
circunstância. Opera-se uma mudança progressiva nas nossas prioridades e,
conseqüentemente, nossos modos de sentir e agir são simplificados. Viver simplesmente
é deixar fluir a orientação da consciência sem medo ou privação da liberdade de sentir a
existência.

AMABILIDADE – Somos essencialmente amor e por isso tendemos a ter um


comportamento amoroso. O medo, o egoísmo e o orgulho erguem barricadas contra a
vida e as pessoas, o que resulta em ações agressivas, idéias perniciosas e imagens
mentais de constante autodefesa. A identificação com o medo provoca discordância com
o mundo, isolamento e sofrimento. Somos amáveis quando vibramos amorosamente,
sem bajulações ou necessidade de ser aceitos, pois apenas deixando o amor guiar nossas
palavras e ações exalamos amabilidade espontaneamente.

BONDADE – É a inspiração do ato amoroso sem expectativa de recompensas. É


importante procurar enxergar o bem e as boas qualidades em nós e nos semelhantes,
comungando com o lado positivo da vida. Só podemos enxergar o bem nos outros se
vivermos nele e para ele, e lutarmos destemidamente para que o bem sempre triunfe.
Com bondade, participamos do drama do mundo sem quimeras ou ilusões, contribuindo
com fé e amor para que seja melhor.

DISCIPLINA – Para obter êxito em empreendimentos materiais ou espirituais,


temos de disciplinar nossas energias e impulsos. Se nossos atos são reflexos das
emoções desenfreadas e indisciplinadas, vivemos sem sentido, temos dificuldade para
definir prioridades, caminhamos às cegas, sem finalidade; portanto, sem empenho. A
disciplina física e mental equilibra emoções, elimina a confusão e a profusão de
pensamentos estéreis que desgastam e impedem a visão clara dos objetivos.
Descortinando transformações, a disciplina proporciona os meios para produzir melhor,
ser mais feliz e descobrir a força do espírito como fonte de alegria.

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LIMPEZA – A limpeza do corpo renova energias, reanima e conserva a saúde. A
limpeza da mente e do coração, eliminando perspectivas equivocadas, preconceitos e
crenças dogmáticas, sentimentos inferiores e egoístas, é fundamental para o
florescimento de pensamentos e atitudes boas, saudáveis, moralmente harmoniosas e
amorosas. Idéias claras, relações francas são reflexos de uma alma limpa e de um
caráter puro e forte.

ORDEM – Tudo o que existe obedece a uma ordem, que é o princípio ordenador, a
força que propicia a criação, manutenção e expansão da vida. No nível consciente da
vida humana, a ordem exterior é o reflexo da ordem interior. Os pensamentos ordenados
pelo exercício da meditação cedem espaço para a intuição. A partir daí, nossa
imaginação não é apenas divagadora, mas criativa, e podemos assim expressar nossas
aptidões de forma organizada e concreta. A ordem estabelece harmonia para realizar
idéias e atingir ideais.

CORAGEM – Coragem não é temeridade ou demonstração de força bruta. O


corajoso enfrenta os obstáculos internos e externos sem vacilações, inseguranças ou
receios, pois é movido pela força do seu caráter. Aceita os percalços advindos dos
confrontos, com fé nas transformações que o conduzirão à vitória. A falta de coragem
desenvolve hipocrisia, dissimulações e posturas pusilânimes. O medroso mente porque
não assume a si mesmo, nem assume as conseqüências dos seus atos. Ter coragem é
também saber reconhecer a fraqueza do agressor quando somos agredidos, controlar
nossos impulsos inferiores e ter compaixão do adversário. Só com coragem podemos
viver plenamente nosso potencial humano. Assim, ter coragem é ter respeito por si
mesmo, pelos outros e responsabilidade por todas as suas ações.

INTEGRIDADE – Todo ser humano tem polaridades. Afinal, a vida se manifesta


pelo atrito dos opostos. A dualidade estabelecida entre matéria e espírito, bem e mal,
ignorância e sabedoria é o grande desafio da consciência. A tarefa essencial do homem é
preencher os espaços interiores de amor, vencer o egocentrismo e encontrar o sentido da
vida. Superamos a dualidade pela integração com a essência interior. A consciência
dessa interação, colocada em prática, forma um caráter íntegro e uma mente criativa e
equilibrada, livre de exacerbações nervosas. Integrados, somos guiados pela inspiração,
a voz da consciência unificada.

DIGNIDADE – O respeito por si próprio, pelo semelhante e pela vida engrandece


e dignifica o ser humano. A nobreza do caráter, a integridade e a estabilidade emocional,
assim como os valores morais, geram uma energia firme e forte. O homem digno é
merecedor da condição humana. Espalha segurança, harmonia e admiração; cumpre seu
papel na criação, consciente dele e livre de temores, inseguranças ou ardis.

SERVIR O PRÓXIMO – Servir é o modo mais eficaz de vencer o egoísmo e


desenvolver o altruísmo. Servir ao próximo desperta a humildade latente, a ação
amorosa, alicerça os demais valores e fortalece o caráter. É o amor atuando como
alimento da consciência e pautando a conduta que promove transformações
fundamentais. Servir ao próximo sem sentimentalismo, mas movido pelo amor
incondicional, é a melhor maneira de dissolver a barreira do egoísmo que tapa e empana
a luz que somos em essência.

PRUDÊNCIA – Ser prudente é ater-se às coisas e fatos, examinar possibilidades e


conseqüências antes de manifestar um pensamento, uma intenção ou empreender uma

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ação. Só o homem pode colocar-se diante de situações, pessoas e coisas da forma mais
condizente com sua consciência, e agir do modo mais conveniente, evitando atritos e
sofrimentos por seguir os impulsos instintivos e ter devido a isso reações intempestivas.
Prudência não é vacilação ou indecisão. Uma pessoa prudente sabe interpretar a vida
como um campo de aprendizado em que energias inter-relacionadas estão em constante
interação.

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OS VALORES RELATIVOS DA PAZ
E SUAS DEFINIÇÕES

SILÊNCIO INTERIOR – A paz e a alegria estão no reino interior. Dirigir a


mente para dentro de nós é um exercício extremamente eficiente que nos enseja ouvir a
voz da divindade interna. Esse procedimento nos proporciona conhecer as causas do
nosso sofrimento, ou seja, a prioridade que damos à forma externa e o percurso do
caminho das aparências. Para reverter esse quadro de aflição e instabilidade emocional,
é preciso esvaziar a mente de pensamentos e desejos, entrar no silêncio interior e deixar
fluir a energia da força alquímica que transmutará nossas inquietações em paz. O
silêncio interior permite o fluxo da consciência, que nos traz inspirações e gestações de
propósitos mais elevados. Assim, iluminamos a nossa mente e a transformamos num
aliado e mediador para o diálogo real com a vida. No silêncio interior nosso espírito
comunga com o cosmos.

CALMA – Nossa mente é devastada por pensamentos egoístas, críticas,


ressentimentos e ansiedade, o que fertiliza o terreno para o plantio de mais agitação e
dúvidas. Observando atentamente as causas que provocam a nossa desestabilização,
veremos que a confusão está apenas na superfície da mente e que, mergulhando mais
fundo em nosso ser, encontraremos a calma necessária para descobrir respostas e
soluções para os problemas. A calma traz a lucidez, tão necessária para avaliar e
aproveitar as oportunidades que a vida nos oferece. A calma conquistada traz uma
abertura para o autoconhecimento e para a serenidade na avaliação de tudo o que nos
rodeia e de nossos sentimentos.

CONTENTAMENTO – Alimentamos ideais e desejos egoístas e ilusórios quando


nos deixamos envolver pelos argumentos da insensata pressão que impõe modelos pré-
fabricados de felicidade e realização. Para não entrar nesse jogo, basta saber o que nos é
necessário e suficiente para fazer-nos felizes. Conhecer as razões do nosso
descontentamento pela auto-indagação muitas vezes mostra que estamos
superestimando coisas e problemas. Apostar no contentamento como satisfação de
desejos e aquisições materiais nos torna insaciáveis e incontentáveis. Ouvindo nossa
consciência, aplicamos os instintos e intelecto corretamente, sentimos a relatividade das
coisas, usamos melhor nossa inteligência – e o contentamento se estabelece
naturalmente.

TRANQÜILIDADE – Conquistamos tranqüilidade quando fortalecemos a


verdadeira imagem das pessoas e das coisas. A fervilhante multiplicidade de sensações e
os arrebatamentos impedem que sintamos a vida mais intensa e profundamente. Quando
o efêmero não nos satisfaz mais, buscamos na tranqüilidade interior, fora do alcance das
exaltações, desfrutar o essencial. A equanimidade diante da alegria ou do sofrimento, do
sucesso ou do fracasso, é a marca do ser humano auto-realizado.

PACIÊNCIA – Estamos todos subordinados ao tempo de maturação das coisas.


Nada acontece fora de hora. A paciência brota do amadurecimento do caráter e da
clarificação da mente. Dissipamos as névoas da ansiedade à medida que superamos o
imediatismo imaturo e egoísta. Paciência não quer dizer lentidão e postura de enfado,
preguiça e desestímulo. Somos pacientes quando agimos dando o que temos de melhor
e entregando o resultado à vontade maior. Paciência consigo mesmo reflete-se na
paciência com o semelhante e com a vida. Com paciência, superamos etapas com menos
sofrimento, sempre movidos pela esperança e crença na vida.

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AUTOCONTROLE – O autocontrole evita infligir dor, aborrecimento e
constrangimentos aos outros e a nós mesmos. Constitui um elemento importante para
vencer nossas tendências inferiores, atingir nossas qualidades e nos preparar melhor
para viver. O assenhoreamento dos nossos impulsos não se consegue pela repressão ou
negação da consciência. Só o homem pode ser senhor de si, pelo conhecimento e
aprimoramento de todos os níveis da sua personalidade e da sua consciência. Não
podemos nos esconder de nós mesmos nem do mundo, mas, sim, triunfar dos nossos
defeitos e das adversidades por meio do autocontrole e da autodisciplina.

TOLERÂNCIA – A falta de tolerância restringe o âmbito de oportunidades de


aprendizado. Ser tolerante exercita nossa capacidade de amar o próximo. A
compreensão e o respeito por pontos de vista contrários ajudam a sair da prisão do
egoísmo vaidoso. É o suporte para combater um dos traços mais característicos do
homem fundamentado na animalidade: o desamor. Tolerar não é suportar pessoas ou
situações para assumir uma posição de menosprezo ou de auto-engrandecimento. A
tolerância é um valor humano que ajuda a ver tudo e todos com serenidade, desde que
encaremos a vida sem preconceitos ou exigências.

CONCENTRAÇÃO – A concentração da mente em determinado ponto leva à


compreensão e a vivências mais profundas e abrangentes do objeto da nossa atenção.
Nada pode ser adequadamente examinado, assimilado ou executado sem concentração.
O cultivo da capacidade de concentração produz ações corretas e proficientes. A
concentração de esforços no trabalho, na busca do autoconhecimento e da auto-
realização deve fazer parte de todos os momentos da vida. Este é o caminho para
alcançar a elevação espiritual e a felicidade humana.

AUTO-ACEITAÇÃO – O medo do autoconhecimento impede a auto-aceitação. O


desconhecimento de nós mesmos leva à avaliação errônea do nosso físico, das nossas
dificuldades e das qualidades que temos. Criamos, então, expectativas fictícias sobre
nós mesmos, sofremos crises e frustrações pela estagnação do comportamento
ressentido e passamos a viver prisioneiros do medo. Ao nos julgarmos incapazes de
corresponder às nossas fantasias, temos a tendência de recorrer à autopunição, em vez
de superar essas projeções com a correção dos defeitos e exploração das verdadeiras
potencialidades e aptidões. Auto-aceitação é fruto da coragem de vencer a letargia da
ignorância e viver sem culpa, rompendo as limitações. Saber que temos os dons
necessários para contribuir no engrandecimento do todo provoca auto-aceitação e
agimos a partir daí cheios de gratidão e confiança.

AUTO-ESTIMA – A ausência de auto-estima deprecia o indivíduo, que, assim,


desconsidera as oportunidades que a vida lhe apresenta e se sente rejeitado, entediado e
excluído. Vê tudo negativamente e, descrente e desconfiado, encara o mundo como
reflexo da sua autonegação. O exame corajoso e lúcido dos motivos da falta de auto-
estima, sem queixumes ou culpas, com disposição de vencê-los, produz mudanças
internas e a valorização da vida. A auto-estima é imprescindível para o cumprimento da
primeira etapa da evolução humana e espiritual, que é a utilização consciente da
personalidade como instrumento de desvelamento da verdade e de acesso à divindade
interior.

DESPRENDIMENTO – O desapego é o relacionamento altruísta com tudo e com


todos. O apego às convenções sociais e à opinião pública nos submete a banalidades. O
apego a preconceitos estreita horizontes, o apego às pessoas reduz o amor à posse e o
apego às coisas torna a pessoa mesquinha. As coisas materiais estão a nosso serviço e

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não nós estamos a serviço delas. O desprendimento permite um relacionamento
amoroso com as pessoas sem subjugá-las ou moldá-las ao nosso gosto. O
desprendimento é conquistado quando se alcança o equilíbrio entre a força da matéria e
a força do espírito e se vive não a repulsão entre essas forças, mas a sua harmonização.
Sem desprendimento, não há transformação, pois o apego entorpece.

AUTOCONFIANÇA – Estamos sempre expostos às alternâncias de vitórias e


derrotas, e a autoconfiança é a energia que nos anima e assegura a vitória sobre as
dificuldades individuais e a fragilidade. A autoconfiança nos estimula a seguir a nossa
vocação evolutiva natural, combater interna e externamente em nome da verdade
sempre, atentos para não ser traídos pela natureza inferior ilusória e estacionária. Só
pode ter fé em Deus aquele que tem fé em si mesmo; caso contrário, seria impossível
reconhecer a presença da divindade interior e sua atuação em nós e em tudo que existe.

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OS VALORES RELATIVOS DO AMOR
E SUAS DEFINIÇÕES

DEDICAÇÃO – É a atitude natural inspirada pelo amor puro por alguém, por uma
causa ou atividade. A dedicação, em qualquer empreendimento, fortalece o poder de
realização. Sem dedicação, não há progresso cultural, material ou espiritual. Aquele que
se dedica ao que acredita não conhece instabilidade e indefinições. A dedicação ao
autoconhecimento desperta energias adormecidas, e, se nos voltarmos para a prática da
espiritualidade no cotidiano, podemos fazer da nossa vida uma oferenda à divindade
imanente em todas as manifestações dessa vida.

AMIZADE – A verdadeira amizade é adesão amorosa, fonte de inspiração e


aprimoramento mútuos. O intercâmbio honesto e leal de experiências fortalece a
amizade e une os corações. A amizade nasce por sincronia de energias, não importam as
atividades ou os objetivos das pessoas. A compreensão das dificuldades, o apoio na dor
e na alegria, a crítica terna e objetiva e o reconhecimento de talentos e qualidades dos
outros é o procedimento de quem nutre amizade verdadeira; caso contrário, reduzem-se
a ligação e o relacionamento amoroso a atitudes convencionais de comportamento.
Amizade é um sentimento doce e profundo que une fraternalmente as almas, criando
confiança e equilíbrio.

GENEROSIDADE – Doar-se é superar o egocentrismo, passar da auto-satisfação


subjetiva e física como princípio e fim para a comunhão com os semelhantes. A
colaboração movida por amor é a mais bela forma de generosidade. A generosidade
implica discernimento. Deve ser condizente com a necessidade e capacidade de
recepção do semelhante para que não interfiramos em seu processo de crescimento,
tanto material quanto espiritual. Se assumirmos uma posição generosa perante a vida,
colocar-nos-emos à disposição dela e amaremos, servindo aos outros e favorecendo os
nossos processos criativo-intuitivos ao expandir nossa capacidade de amar e
compreender.

DEVOÇÃO – A devoção reconstrói fundamentos morais e amorosos, estimula a fé


e destrói dúvidas corrosivas que dificultam o autoconhecimento. Não se deve confundir
devoção com fanatismo. Devoção é entrega amorosa. Fanatismo é escapismo,
banalização da fé. As exacerbações nas demonstrações externas de devoção denotam
desequilíbrio emocional e exibicionismo. Devoção é o sentimento vivo do amor; por
isso, ela vibra em nosso coração, e a expressamos pelo amor que consagramos a tudo
que fazemos. Ser devoto é fazer de cada ato uma celebração do amor de Deus e por
Deus.

SIMPATIA – Sentimos simpatia e somos simpáticos por comunicação energética.


A energia amorosa que liberamos quando abrimos o coração e a mente, sem conceitos
rígidos, em direção à luz, gera simpatia e associação. Atraímos pessoas pelo ímã do
amor, somos mais ou menos simpáticos a alguém por sintonia e receptividade de
vibrações energéticas. Quando tiramos as máscaras e armaduras impostas pelo medo,
liberamos nossa energia do orgulho e da agressividade. Simpatia muitas vezes é
confundida com bajulação ardilosa, que visa à obtenção de benefícios e vantagens. O
bajulador sabe tocar exatamente no ponto fraco do interlocutor, que, vaidosamente, o
acha simpático. A energia harmonizadora da simpatia derrete o gelo da indiferença,
aproxima criaturas e constrói elos de ligação amorosa entre as pessoas. Viver em
harmonia conosco, encontrar nosso centro permite a liberação homogênea da nossa
energia, cujo reflexo é a simpatia.
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GRATIDÃO – Só aquele que venceu o orgulho e a pretensão alcança o terno e
alentador sentimento de gratidão. Caso contrário, o benfeitor torna-se uma presença
incômoda e o beneficiado, em lugar de gratidão, confronta-se com a sensação de dívida
e a obrigação embaraçosa de retribuir o benefício. Gratidão é sentir a ressonância
amorosa de uma ação fraterna e desinteressada no coração. Agradecer ao semelhante e a
Deus é a melhor maneira de orar, pois o agradecimento é a mais linda oração.

CARIDADE – Se o nosso semelhante estiver passando por dificuldades materiais


ou emocionais, devemos procurar dar-lhe alívio e encontrar soluções, sem esperar
recompensas nem criar dependências. Devemos alimentar a autoconfiança e a alegria de
viver das pessoas. A caridade é exercício de amor, não de pena, pois pena é a derradeira
emoção que se sente por outrem, ao passo que a caridade é movida pelo sentimento de
pertencermos à família humana, conscientes de que se pode aprender com a dor e o
sofrimento alheios, e que cada experiência se encaixa no grande esquema da vida.
Devemos amar deixando cair as couraças do ego e ser amorosamente caridosos.

PERDÃO – O perdão nos liberta dos grilhões da mágoa e do ressentimento, que,


na realidade, são subprodutos do orgulho. A vaidade do ego endurecido é o maior
empecilho para o perdão. Aquele que não perdoa desenvolve raciocínio e sentimentos
duros e inflexíveis, e está sempre se cozinhando no próprio caldo fervente da raiva e dos
desejos de vingança. Perdoar a nós mesmos ajuda a perdoar aquele que nos tenha
ofendido e a eliminar intransigências e deixar de ser carrascos de nós e dos outros.
Perdoar ao agressor todas as ofensas e injúrias nos liberta dele porque compreendemos
o estágio de evolução da sua consciência e nos alegramos com seu progresso, pois,
tendo reconhecido o erro, se arrepende e pede perdão. Quem pede perdão com sincero
arrependimento revela evolução de seu espírito. O perdão é um elo que nos liga à
misericórdia divina.

COMPAIXÃO – O cultivo das virtudes resulta em compaixão, o reconhecimento


da divindade imanente em cada ser. Ser compassivo é sentir o outro dentro do coração e
recebê-lo sem restrições. Não significa que devamos assumir o seu problema ou a sua
dor, mas compartilhá-los amorosamente, enquanto procuramos soluções para as aflições
com lucidez e atitudes positivas, sem permitir que as emoções toldem nossa capacidade
de raciocinar. Desse modo, atraímos inspirações, aproximamo-nos da Graça, a divina
intervenção.

COMPREENSÃO – Compreender é entender com a mente e com o coração, é a


assimilação do sentimento abrangente de acontecimentos, situações e comportamento
dos semelhantes. Compreensão não significa concordância. Aceitar as razões que
levaram alguém a agir de determinada maneira é sair de dentro de nós, de preconceitos,
e aceitar os limites de cada um. A compreensão ajuda a viver no mundo como num
vasto campo de aprendizado, num centro de treinamento do espírito para o
aprimoramento da consciência e a expansão do amor.

IGUALDADE – Estamos contidos e contemos toda a criação – não estamos


separados. Se excluirmos nome e forma, somos iguais em essência. Adquirimos uma
individualidade e formamos nosso caráter para experienciar as transformações da
consciência e perceber que estamos aqui aprendendo essa igualdade. Perdemos então o
egoísmo diferenciador e o altruísmo surge em conseqüência da comunhão com tudo e
todos. A igualdade de direitos, obrigações e oportunidades estabelecida na sociedade é
básica para o progresso do homem em todos os níveis da personalidade. O sentimento

25
de igualdade determina prioridades e orienta nosso comportamento e posicionamento
diante da sociedade.

ALEGRIA – É um estado anunciado pela alma que inunda o coração e a mente.


Independe de prazeres sensoriais, aquisições materiais ou condicionamento exterior. É
um patamar de onde partimos para viver a vida plenamente, participando dela com
entusiasmo. As emoções equilibradas e a observação da renovação da vida trazem
alegria interior e exultamos com o contentamento dos outros. Alegria é o estado natural
do ser humano e só desaparece quando eclipsada pela falta de autoconhecimento e pela
ausência de amorosidade. A capacidade de superação de problemas é alimentada pela
alegria de viver. A solução de impasses traz satisfação pessoal e sensação de alegria e
capacidade, e uma visão mais clara de nós mesmos.

ESPÍRITO DE SACRIFÍCIO – O espírito de serviço e sacrifício é qualidade


básica para vencer as tendências e banalização da vida e superar as características da
nossa natureza animal. Evoluímos humana e espiritualmente com espírito de sacrifício
sustentados pela força da alma, o amor altruísta. Sacrifício não quer dizer sempre dor,
mortificação ou sofrimento. A renúncia a algo para dar um sentido mais nobre e amplo à
vida proporciona mais alegria do que um prazer efêmero, por mais intenso que pareça.
A renúncia, a privação de alguma coisa para dar felicidade a alguém ou a uma causa,
pode trazer satisfação e alegria inimagináveis. À medida que os ideais se tornam mais
grandiosos, os desejos fazem-se mais impessoais e nobres. O espírito de sacrifício
sacraliza a vida e supera amarguras.

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OS VALORES RELATIVOS DA NÃO-VIOLÊNCIA
E SUAS DEFINIÇÕES

COOPERAÇÃO – É fazer junto, trabalhar em comum. A cooperação fortalece o


espírito de grupo e enfraquece a competição e a necessidade de ganhar – mostra que o
outro não é adversário, mas companheiro. O reconhecimento da importância de cada um
no todo abre a mente e o coração para o conjunto, e isso faz que ofereçamos
prazerosamente nossos talentos para o bem comum. O egoísmo competitivo superestima
nossa atuação e diminui a qualidade da atividade do outro. A cooperação apara as
arestas da vaidade e do orgulho auto-suficiente.

FRATERNIDADE – O egoísmo provoca medo, separação e crueldade. A


consciência da fraternidade entre os homens e da paternidade de Deus muda o sentido
de estar vivo. A percepção de que os nossos anseios mais legítimos e profundos são
basicamente os mesmos que movem o coração dos nossos semelhantes inverte a visão
individualista. Compreendemos então a vida sob novo prisma e nos livramos de
demonstrações de interesses pessoais para manifestar respeito, amor e reciprocidade,
reconhecendo em todos a mesma origem divina.

ALTRUÍSMO – Tudo o que fazemos com altruísmo é positivo e construtivo


porque inspirado pela nossa sabedoria interior. O altruísmo é a vitória sobre o egoísmo
que embaça e obscurece a visão de nós mesmos, do outro e do universo. Ele ilumina a
consciência e faz que o mais simples ato, realizado sem a preocupação de satisfazer
nosso ego, de modo desapegado, torne-se um rito sagrado, porque somos movidos por
amor, sem visar recompensas.

RESPEITO À CIDADANIA – O respeito à cidadania reforma a sociedade porque


reformula o comportamento do cidadão. A consciência de que o nosso bem-estar e
prosperidade estão ligados ao bem-estar e à prosperidade social nos ajuda a
compreender como nos colocar em harmonia com o sentido da vida, desempenhando
nossos deveres e reivindicando nossos direitos em conjunto. O respeito ao espaço
comum, ao patrimônio público, e a contribuição para a melhoria da qualidade de vida da
comunidade determinam o desenvolvimento real e nos conscientizam da
interdependência. Perdemos o sentido da evolução quando o nosso egoísmo substitui a
busca do verdadeiro significado da vida pelo progresso material, acreditando que nos
bastávamos a nós mesmos. A participação de todos é o poder da sociedade de amenizar
a dor e o desamparo dos menos favorecidos com idéias e iniciativas criativas e viáveis.
Respeito à cidadania exige a ação consciente e o compromisso do cidadão de servir à
sociedade.

CONCÓRDIA – O exercício da concórdia consiste na apreciação serena, paciente


e lúcida de uma opinião ou situação que envolva ou a nós ou a outras pessoas, visando
encontrar soluções de consenso. Em qualquer discussão, deve-se buscar acordos e não
impor pontos de vista imperativamente, para que a troca de idéias seja válida e estas não
morram estéreis. A concórdia é a busca do senso comum, da paz e da harmonia entre
posições opostas visando o aprimoramento de objetivos.

FORÇA INTERIOR – O cultivo dos valores humanos nutre o caráter. A


debilidade de caráter deve-se à falta de força interior, que nos leva a temer a vida,
mentir, roubar, matar e praticar toda sorte de vilanias e crimes contra a natureza. A força
interior enobrece os pensamentos e impulsiona nossos atos para a superação de todo
obstáculo. Vencemos nossas deficiências e hesitações com a ajuda da força interior, a
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centelha vital que nos anima e inspira como parceira incondicional. Enfrentar
adversidades abre novos caminhos; as transformações movem-se através de provações e
a força interior propicia a renovação mental e espiritual.

UNIDADE – Apesar da multiplicidade de aspectos e diversidade de funções e


formas, nada nem ninguém pode ser considerado isolado. Tudo o que existe na natureza
e no universo interage e se comunica energeticamente. Se abrirmos o coração e o
intelecto para a vida, veremos nitidamente a unidade da natureza. O amor é a grande
ação unificadora, a energia que anima, mantém e transforma a existência. O espírito de
Deus refulge dentro e através de Sua obra e unifica a aparente diversidade.

PATRIOTISMO – Não significa delimitar fronteiras e defendê-las a qualquer


custo. Não é cultivar separação e a divisão do planeta, o que já nos causou e ainda causa
muito sofrimento. Patriotismo é um compromisso amoroso que assumimos com o
pedaço da Terra que nos recebeu como filhos. Devemos amar a nossa pátria honrando e
respeitando seu solo e nossos compatriotas, oferecendo nossos talentos e esforços para
seu engrandecimento. O mundo hoje está de tal modo interdependente econômica,
científica e culturalmente, que não permite mais nenhum retrocesso; portanto, somos
irmãos vivendo em lugares diferentes. Os valores humanos e espirituais fortalecem um
país. As nações declinam moral, econômica e culturalmente quando seus filhos se
esquecem de que são seres humanos, de que têm no espírito sua forma mais evoluída de
ser.

RESPONSABILIDADE CÍVICA – Criticar erros e deficiências sociais sem


procurar eliminá-los é fugir das responsabilidades civis. Agir como espectadores, como
se estivéssemos incólumes, só agrava os problemas. Instituições governamentais,
indústrias, empresas, universidades e escolas funcionam porque homens e mulheres
nelas trabalham e delas se beneficiam; só justificam sua função na sociedade se os
colaboradores tiverem dedicação, honestidade, consciência do valor do serviço prestado
e responsabilidade cívica. Caso contrário, agimos de forma parasitária e nos opomos ao
esforço evolutivo da sociedade.

SOLIDARIEDADE – É a comunicação profunda com o nosso semelhante,


porque, sendo solidários, enfatizamos nossas similaridades e dissolvemos empecilhos
em forma de personalidade, credo, cultura, raça ou posição sócio-econômica. A
solidariedade supera a indiferença e faz reconhecer o outro em nós. Ela nos torna mais
receptivos e identificados com a humanidade e toda a criação divina.

RESPEITO A TODAS AS FORMAS DE VIDA E À NATUREZA – A natureza


tem método e equilíbrio perfeitos em suas múltiplas expressões. A mãe Terra e seus
elementos unidos nos compõem e mantêm. A atuação perfeita da natureza é por si só
uma grande lição, que ensina, ainda, o quanto fazemos parte dela. Demonstramos nosso
nível de autoconhecimento respeitando cada forma de vida como um sistema do qual
somos parte integrante. A saúde da natureza, a ecologia e seu equilíbrio devem ser
respeitados e preservados, assim como devemos nos manter saudáveis e equilibrados.
Após tantas agressões e devastações praticadas contra a natureza pela nossa ignorância
cega e ambiciosa, devemos procurar ter um diálogo mais harmonioso e humano com ela
e suas criaturas. Manifestação da vontade de Deus, a natureza e suas expressões são
sagradas.

RESPEITO A TODAS AS FORMAS DE CULTO E RELIGIÕES – O


esplendor da Verdade é único, embora apareça de maneiras diferentes, refletido nos

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vários costumes, mitos, credos, rituais e manifestações da espiritualidade e criatividade
humanas. Não podemos julgar culturas segundo os nossos padrões se quisermos
compreendê-las e avaliá-las amplamente. É preciso estar aberto para aprender com as
diferenças, respeitando-as, enxergando sem distorções preconcebidas a expressão das
várias culturas e religiões. Todos os seres humanos têm medos, dúvidas e necessidades
espirituais e físicas; assim, só uma aliança entre eles permite a revelação dos mistérios
da vida. A religiosidade permeia todas as maneiras de encontrar a essência da Verdade
em todas as coisas visíveis. Ela não separa, unifica. O que nos afasta dela é a ignorância,
o medo e o egoísmo arrogante.

USO ADEQUADO DO TEMPO – Tudo o que vive cumpre um ciclo na


existência. Cada ser humano dispõe de um período dentro da eternidade para cumprir
seu propósito na vida. O tempo biológico segue sua evolução natural: nascimento,
desenvolvimento, procriação, amadurecimento, envelhecimento e morte física. O tempo
sensitivo e subjetivo é relativo aos nossos estados de ânimo. O tempo natural está
condicionado ao nosso contato com o mundo por meio dos sentidos. Quando anulamos
a atividade mental, com o sono ou hipnose por exemplo, o tempo pára para nós.
Portanto, a realidade transcende o tangível. O uso adequado do tempo que temos de
vida física consiste em aproveitar cada oportunidade de aprender como única, adquirir
autoconhecimento e servir a sociedade fazendo nossas tarefas sincronizadas com o
ritmo da natureza e com a divindade interior, seguindo Sua ordem sagrada.

USO ADEQUADO DA ENERGIA DO DINHEIRO – O dinheiro está


impregnado de energia gerada pelas nossas convenções, normas de comportamento,
desenvolvimento social e aspirações materiais. Como toda energia, deve circular; caso
contrário, cria desconforto, dor, injustiça, violência e todo tipo de desequilíbrio
individual e social. O dinheiro gera possibilidades e não pode ser usado como um
instrumento de poder. Avareza, ganância e desperdício são erros cometidos
freqüentemente no trato com a energia do dinheiro, devido à inversão dos valores na
sociedade. Os valores éticos e espirituais têm sido desprezados, enquanto o dinheiro é
visto como a satisfação de desejos insaciáveis. A energia do dinheiro serve para suprir
as necessidades básicas, propiciar enriquecimento cultural e ser usada para benefícios
comunitários através de iniciativas e atividades edificantes e não para separar as pessoas
e embrutecê-las,

USO ADEQUADO DA ENERGIA VITAL – As necessidades e compulsões da


natureza do nosso corpo físico não precisam ser reprimidas, mas, sim, conscientizadas.
São energias e por isso mesmo devem fluir naturalmente, sem permissividade ou
desregramento, para, bem direcionadas, constituírem forças saudáveis que mantenham o
nosso organismo hígido. O controle da mente sobre os apelos sensuais evita o desgaste
inútil da energia vital. Desperdiçamos energia com discurso vazio, ansiedade, agitação
excessiva ou sobrecarga da mente com pensamentos atabalhoados. O corpo está a
serviço do nosso espírito, por isso deve ser respeitado como servidor e disciplinado para
permanecer saudável e apto. O uso adequado da energia vital proporciona melhores
condições de aprendizado, disposição física e elevação de propósitos.

USO ADEQUADO DA ENERGIA DO ALIMENTO – Os alimentos, quando


ingeridos, transformam-se na energia geradora de pensamentos, emoções e movimentos.
O cuidado com a alimentação tem sido desprezado. Atualmente damos mais atenção à
qualidade do combustível das máquinas do que ao que move o nosso corpo. Devemos
voltar a dar prioridade aos alimentos sadios, naturais e energéticos, livres de
conservantes. É preciso comer qualidade e não quantidade, pois o controle da gula

29
facilita o domínio dos demais impulsos. Alimentação sadia e equilibrada gera saúde
física e mental. O conhecimento do valor nutritivo dos alimentos e de sua ação
energética ajuda a desenvolver a percepção superior.

USO ADEQUADO DO CONHECIMENTO – Tanto o conhecimento adquirido


por educação formal ou pela observação da vida quanto a sabedoria espiritual adquirida
pela experiência com o transcendental devem ser compartilhados e não desperdiçados.
Sonegar conhecimento é um ato de violência; porém, oferecê-lo àquele que não tem
condições de assimilá-lo também constitui uma forma de agressão. Usar adequadamente
o conhecimento significa empregá-lo sempre em benefício do próximo e da evolução do
homem. Deve ser transmitido sem imposições e dosado conforme a sede do semelhante,
mas sempre com amor e generosidade. Conhecimento é uma forma de poder; assim,
deve ser usado com discernimento, a serviço do bem.

30
O PROGRAMA DE EDUCAÇÃO
EM VALORES HUMANOS
“A mais importante busca humana é esforçar-se pela moralidade em
nossa ação. Nosso equilíbrio interno, inclusive da existência, depende
disso. Somente a moralidade em nossas ações pode dar beleza e
dignidade à vida. Fazer disso uma força viva e trazê-la para a
consciência é talvez a tarefa principal da educação.” Albert Einstein

A educação em valores humanos tem sido vista em vários países da Europa, Ásia,
África, América do Norte e América do Sul como uma fascinante e promissora forma de
suprir o grande déficit qualitativo dos diversos sistemas educacionais existentes no
mundo. Sócrates levantou a questão: pode a virtude ser ensinada?
A meta da educação moral é incrementar gradualmente autonomia e autocontrole
na personalidade; não se trata de impor ou ensinar virtudes, mas de facilitar a
autodescoberta das próprias virtudes. A criança que desenvolve um bom caráter pela
conscientização das suas virtudes terá um comportamento de acordo com os valores
vivenciados e internalizados. Desse modo, não pautará suas ações por regras e
obrigações sociais apenas, mas por convicção interior do que sejam ética e moral.
O Programa de Educação em Valores Humanos é adotado em mais de cem países
há aproximadamente trinta anos; portanto, não se trata de mais uma experiência na área
educacional, mas de uma realidade aferível quanto à sua validade e aceitação. Apresenta
uma teoria educacional que sintetiza várias filosofias em uma criteriosa e funcional
mistura de técnicas e princípios.. Toda e qualquer filosofia educacional aceita estes
princípios cardiais: conhecer os fundamentos da comunicação, incluindo a informática;
aprimorar a saúde física e mental; desenvolver a habilidade na convivência em família,
nas relações cívicas e vocacionais; otimizar o tempo de trabalho e de lazer; aperfeiçoar a
sensibilidade ética. Atualmente, são as seguintes as teorias educacionais em uso:
teológica, adotada nos países em que as escrituras da religião nacional, seus dogmas e
rituais direcionam o ensino; materialista, adotada nos países que professam o
materialismo (reconhece apenas a existência da razão, desconhecendo o aspecto
espiritual da personalidade humana); científico-humanista, fundamenta o ensino e
encontra a origem de tudo na matéria, sendo o homem, mente e intelecto, extensão
natural dela; humanista: tem por base a idéia do homem como manifestação do
universo, sendo faculdades reconhecidas dele o corpo, a mente, o intelecto e a razão (é a
mais difundida de todas as teorias).
O Programa de Educação em Valores Humanos contribui para um aprofundamento
do humanismo psíquico-espiritual, permitindo o conhecimento intuitivo espiritual,
cultivando o homem psíquico-espiritual, permitindo a transcendência da razão e a
estruturação do caráter pelo desenvolvimento integral da personalidade. O progresso
verdadeiro passa pela elevação moral e espiritual do ser humano. O escopo da Educação
em Valores Humanos não é a demolição das conquistas na área da educação, mas a
reconstrução dos princípios primordiais da educação. Combinar a ação no mundo
material com o anseio legítimo da busca espiritual facilita a transformação dos valores
seculares em valores espirituais, propiciando a aquisição do conhecimento integrado e
auto-realização, redefinindo o propósito da vida.

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As metas do programa de educação em valores humanos

• Conduzir os alunos ao caminho do autoconhecimento e auto-realização através


do desenvolvimento integral da personalidade e da espiritualidade,
independentemente de religião ou credo.
• Fomentar o espírito de equipe, a criatividade, o respeito às diferenças, assim
como reverência e amor pelos homens e pela natureza.
• Conscientizar os alunos das suas capacidades e estimulá-los a empregar seus
talentos a serviço da comunidade.
• Livrar os alunos do medo e da culpa impostos culturalmente, mostrando que a
felicidade é o estado natural do ser humano. Que o poder está na lisura do
caráter e no autoconhecimento e não no acúmulo de dinheiro e coisas
materiais. Demonstrar que o progresso do homem é seu auto-aprimoramento e
que esse aperfeiçoamento traz o progresso social.
• Cultivar os valores humanos e espirituais e os bons costumes e a compreensão
do homem como ser cósmico.
• Despertar nos alunos a consciência de que eles serão as lideranças que
estabelecerão os moldes da sociedade futura.
• Demonstrar que a educação secular e a educação espiritual são
complementares. Educação espiritual não é doutrinação ou catequese, pois
corresponde ao desejo essencial do ser humano de experienciar o sagrado sem
priorizar nenhuma forma de culto ou religião.
• Vivenciar o amor como pilar de sustentação da grande fraternidade humana, e
a paz como valorização da vida.

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EDUCAÇÃO DOS NÍVEIS DA PERSONALIDADE

NÍVEL FÍSICO — EDUCAÇÃO DO FÍSICO

Atualmente, a educação física é irrelevante no nosso sistema educacional: limita-se


a jogos. A educação física deve visar ao aprimoramento do corpo, ao desenvolvimento
de um organismo saudável e ao equilíbrio da energia vital. A criança deve ter
consciência da importância do corpo como veículo de expressão.
A educação do nível físico deve abranger o ensino das funções dos órgãos que
formam o organismo, a importância da alimentação, o respeito às necessidades naturais
do corpo, e a higiene de um modo geral. Há que se salientar também a importância da
limpeza do espaço comum: ruas, praças, veículos coletivos etc., para que se incremente
a idéia de coletividade e se diminua a ênfase na individualidade. Muitos problemas
futuros podem ser evitados se a educação do físico for encarada de modo mais
abrangente. Alguns hábitos errados estão enraizados na educação do nível físico.
Exemplo: consideram-se a irrequietação e a hiperatividade como sinal de saúde; por
isso, estimula-se e aprova-se a queima excessiva e inútil de energia. Desconhecendo que
é um sistema energético interagindo com outros sistemas, a criança tem dificuldades de
comunicação amorosa e harmônica consigo mesma e com os semelhantes.
Um quadro bem ilustrativo do uso racional e equilibrado da energia é
proporcionado pelos animais e todo ser vivente da natureza com seus ritmos de
atividade harmoniosos, que lhes permitem aproveitar cada momento da vida de forma
intensa. Por outro lado, toda atividade demanda reposição de energia e novamente a
natureza constitui excelente exemplo. Assim, deve-se mostrar que a natureza descansa,
as plantas e os animais dormem para recobrar as energias e despertar mais alegres. Isso
incentiva a criança a observar os próprios movimentos internos, bem como os da
natureza, o que a faz sentir-se parte de tudo, do mundo. Outro mau hábito muito
arraigado na nossa sociedade consiste em obrigar a criança a dormir como uma forma
de castigo; assim, ela procura resistir ao sono, e sofre com isso. Estabelecemos ligação
entre adequação e sensação física, o que poderá acarretar futuramente vícios de
comportamento, inclusive a droga. Exemplo: “faça isso que eu lhe dou um doce”, ou
“caso você cumpra suas obrigações, eu lhe darei tal brinquedo”. Estimulando a
barganha e desviando o compromisso com a ação adequada, condicionamos ser aceita a
autogratificação. Não é a forma correta de incentivar nem aprendizado nem
aprimoramento.
Ginástica olímpica, danças e esportes de equipe educam o físico sem rigidez, mas
com disciplina e constância. O físico é a base para a ação correta, e sua prática exige o
desenvolvimento de hábitos saudáveis para que o corpo possa ser instrumento da
criatividade, respeito e cooperação em todos os campos de atividade. O físico, sendo
nossa realidade básica, deve ser educado e conscientizado, aprimorado para poder ser
utilizado em toda a sua potencialidade.

“Os estudantes devem aprender a se converter em um novo tipo de líder;


líder que passou pela escola e pela universidade
e dominou os problemas do presente e do futuro à luz do passado;
líder que aprecia as tradições culturais do seu país.”
Sathya Sai Baba

NÍVEL EMOCIONAL — EDUCAÇÃO DAS EMOÇÕES

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As emoções estão intimamente condicionadas à higidez do corpo.
Conseqüentemente, alterações de saúde influem no humor e no comportamento dos
indivíduos. As emoções são vividas subjetivamente, não obedecem a padrões definidos.
Nosso temperamento determina a forma individual de sentir e reagir às emoções
provocadas pelas dinâmicas das experiências durante nossas vidas.
A família, a escola e a sociedade, com suas condições geográficas e tradições
culturais, os padrões morais e normativos, formam o terreno de experiências em que a
criança desenvolverá sua personalidade e formará seu caráter. A formação do caráter
começa pelo equilíbrio do temperamento, que é o meio de expressão das emoções,
modos de sentir e reagir diante das coisas e situações. Assim, é fundamental que a
criança aprenda a reconhecer antes as próprias emoções e reações. Para isso, aconselha-
se a observar a atuação das emoções no seu físico, nos outros e no ambiente, o que lhe
enseja aferir e entender os efeitos causados por suas reações emocionais. Pais e
professores podem orientar carinhosamente a criança aparando as arestas do seu
temperamento e ajudando-a a se auto-observar e observar os seus semelhantes de uma
forma mais acurada. Ela aceitará e assimilará assim, com maior naturalidade, a
disciplina e as frustrações, bem como aprenderá a estabelecer sua identidade, sua
imagem, e a diminuir a dependência de outras pessoas, temer menos, tomando decisões
e formando valores de acordo com o desenvolvimento psico-emocional, sem maiores
conflitos. A criança precisa descobrir e viver a partir do que sente e conscientiza.
Percebendo que as emoções expressadas são a ligação entre ela e as pessoas.
A educação das emoções passa pelo auto-reconhecimento, que permite reconhecer
as próprias ações e as ações de outros indivíduos. Saber estabelecer juízos sobre si
mesmo é o primeiro passo para aprender a formar juízo sobre coisas e pessoas e
desenvolver a maturação das emoções e a motivação e curiosidade pelo aprendizado. O
caráter é formado pelo encontro com o mundo, ou seja, o confronto com as situações, o
meio ambiente e as pessoas em geral.
A educação das emoções constitui também um processo fundamental para elevar o
grau de sociabilidade, despertar o autodomínio e cultivar o discernimento, e essa tarefa
cabe igualmente aos professores e aos pais e familiares. O uso adequado dos sentidos, o
empenho em trabalhar as fraquezas e qualidades propiciam à criança ser testemunha dos
seus desejos e frustrações. Desse modo, ela se capacita cada vez mais a conhecer seu
caráter e a transformá-lo, estruturá-lo e fortalecê-lo. O contato com a auto-estima advém
do contato natural com as emoções, que proporciona ao indivíduo experimentar
livremente seus sentimentos e avaliá-los corretamente.

“O caráter torna a vida imortal. O caráter perdura depois da morte física.


Há quem diga que saber é poder, mas eu digo que o caráter é o poder.
Até a aquisição de conhecimentos depende de um bom caráter.
De modo que todos devem aprender a forjar um caráter impecável,
sem vestígios de maldade. As qualidade que integram um bom caráter são:
o amor, a paciência, a perseverança e a compaixão.
Essas contêm todas as qualidades mais elevadas e precisam ser respeitadas.”
Sathya Sai Baba

NÍVEL INTELECTUAL — EDUCAÇÃO DA MENTE

Um físico bem cuidado e as emoções reconhecidas e alinhas criam as condições


necessárias para melhor aproveitamento mental. O nível mental é o responsável pela
transformação da informação em conhecimento. É o nível do aprendizado onde os
pensamentos e ensinamentos são armazenados, filtrados e objetivados.

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A criança deve ser orientada para o aprendizado percebendo as potencialidades de
sua mente e descobrindo suas forças criativas, pois estas só se transformam em ação útil
e digna por uma mente disciplinada, independente e destemida. E o poder da mente não
deve visar apenas à satisfação de desejos e ambições pessoais, mas à realização de
objetivos mais amplos e generosos.
A concentração, o raciocínio rápido e a compreensão abrangente são desenvolvidos
pela meditação. Uma mente tranqüila proporciona não somente paz interior, mas alegria
e melhor aplicação dos nossos talentos. A paz mental gera o silêncio interior e o contato
com o nível espiritual.
A auto-observação, realizada com a mente aberta e livre de atribulações, enriquece
nossas atividades cotidianas e produz o autodescobrimento.
A educação dos impulsos instintivos – que são cegos, inconscientes e instáveis — é
feita nesse nível. Prêmios e castigos são instrumentos poucos eficazes para mudar as
tendências instintivas. O melhor modo de modificá-las consiste na substituição de um
hábito nocivo por outro proveitoso e sadio.
A personalidade e a atitude do professor são de suma importância para suscitar o
interesse, a atenção e a concentração dos alunos. Cabe a ele tornar interessantes e
atraentes as aulas, criando métodos didáticos que estimulem, dirijam e tornem
fascinante a aprendizagem. Um dos grandes obstáculos para o aprendizado está na não-
aceitação do erro e das deficiências de assimilação. O educador precisa conscientizar-se
da sua própria relutância em aceitar os seus erros e fazer ver aos alunos que o erro faz
parte da aprendizagem, é obstáculo a superar no percurso, e não sinal de incapacidade.
Além disso, o educador deve ressaltar que a velocidade de raciocínio e as reações
psicomotoras são próprias e inerentes a cada indivíduo e que todas elas devem ser
encaradas como naturais e dignas de respeito. Mas é importante mostrar também que a
concentração constitui um dos meios para a assimilação e fixação do ensinamento que
poderá ser empregado concretamente na ocasião oportuna. Palavras correm o risco de
ser esquecidas facilmente. Aprender internalizando é o exercício para não esquecer
rapidamente — viver o que foi ensinado ajuda a assimilação. Para isso, o professor deve
desenvolver atividades que estimulem a memória sensorial, espacial e temporal, e a
memória abstrata e simbólica, para outros processos mentais. Memória verbal e lógica e
memória intuitiva.
Imagens verbais de associação dos sentidos, compreensão abrangente e abertura
para o pensamento criativo são expressões da memória bem trabalhada. O professor
deve criar dinâmicas que mostrem à criança a importância do que ela aprendeu na aula
em sua vida cotidiana: o que mais a encantou do que aprendeu, como ela aplicará o
ensinamento nos seus relacionamentos familiares, amizades, brincadeiras etc.,
estimulando a capacidade de aprender e de pensar como fonte de alegria e prazer. O
educador precisa vivenciar interiormente a experiência do aluno, abrindo sua mente e
coração para o novo, evitando impor informações de fora para dentro. Isso exigirá do
professor atenção a si mesmo para encontrar modos criativos de superar-se,
redescobrindo o prazer de ensinar e aprender ao mesmo tempo.

“O propósito da educação espiritual é permitir ao homem obter uma visão


do divino na sociedade. Quando o homem combina essa visão e o espírito de sacrifício,
funde-se com Deus. A visão da divindade e a fusão com ela são os dois pólos:
um positivo e outro negativo. Unidos, positivos e negativos os levarão
ao estado que os tornará divinos.”
Sathya Sai Baba

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NÍVEL INTUITIVO — EDUCAÇÃO PSÍQUICA

Os valores morais e espirituais devem ser ensinados de modo prático e simples,


para que a criança os reconheça em si, nos outros e nas situações da vida cotidiana. Não
se trata de uma catequese, mas de estimular a auto-observação, a percepção das
sutilezas do pensamento e o conhecimento pela experiência dos valores humanos como
naturais e inerentes; abrir um leque de possibilidades para ajudar a eliminar as restrições
geradas pelo medo, buscando não apenas o que é conhecido e ajustar-se a ele, mas
procurando descobrir a si mesma e transpor as barreiras do desconhecido.
A intuição permite a vivência plena das escolhas feitas a partir de orientações
interiores. Abrindo as porta de um universo de abundância ilimitada, a intuição e a
criatividade fazem aflorar as habilidades e os talentos, assim como a descoberta da vida
espiritual como natural da condição humana. O nível intuitivo abrange tudo o que nasce
da alma.

“A educação é um processo lento, como o desenvolvimento de uma flor,


na qual a fragrância se torna mais profunda e mais perceptível no florescimento
silencioso, pétala por pétala. Esse desenvolvimento significa disciplina e inteligência,
em vez de ser apenas resultado da ação de uma pessoa dedicada à tarefa de ensinar
e preparar para os exames de maneira meramente repetitiva.
O exemplo, e não o preceito, é a melhor ajuda para o ensino.”
Sathya Sai Baba

NÍVEL ESPIRITUAL — EDUCAÇÃO ESPIRITUAL

A educação espiritual é fundamentada na busca do aperfeiçoamento do caráter. Só


assim os valores humanos serão praticados espontaneamente para a obtenção do
conhecimento essencial e não apenas do relativo e formal.
No sistema educacional vigente, o aspecto intelectual se restringe ao hemisfério
esquerdo do cérebro, ou seja, à lógica e ao raciocínio objetivo, e mesmo assim deixa a
desejar no desenvolvimento das potencialidades da mente. O hemisfério direito – onde
se localizam o raciocínio abstrato, a criatividade e os aspectos espirituais – é
praticamente desprezado.
É necessário integrar a espiritualidade no ensino e na formação do caráter para o
aproveitamento total do instrumental da personalidade. Investigando a própria realidade,
o ser humano se transforma e transforma seu entorno, cumprindo de modo condizente
seu papel na sociedade. O desenvolvimento do nível psico-espiritual faz com que as
energias vitais sigam seu curso natural e harmonicamente. E o desenvolvimento
integrado da personalidade nos devolve o sentido de totalidade e universalidade. Traz a
consciência da transcendência e amplia o âmbito de aproveitamento da vida e dos
talentos naturais.

“A mente e o intelecto são os bois atrelados à carroça (o homem interno).


Os bois não estão acostumados ao caminho da verdade, da ação correta,
da paz e do amor, e por isso arrastam a carroça pelo caminho que lhes é familiar,
ou seja, a falsidade, a injustiça, a preocupação e o ódio.
Vocês devem adestrá-los para que sigam o melhor caminho
a fim de não causar danos a vocês mesmos, à carroça à qual estão atados
e aos homens que são levados por ela.”
Sathya Sai Baba

36
A FAMÍLIA: PRIMEIRA EDUCADORA
EM VALORES HUMANOS

“Poderão engendrar filhos educados os pais que forem educados.”


Goethe
“Educai as crianças e não será necessário castigar os homens.”
Pitágoras

Ser é ensinar. Não é preciso ter grande erudição, grande fama ou poder para exalar
amor, doçura, compreensão e firmeza. Nossos atos, pensamentos, palavras, cuidados,
emoções e sentimentos revelam quem somos. Viver em harmonia interior torna cada
pensamento e ação uma expressão dessa harmonia. A família é o núcleo formador do
caráter e os pais, avós, tios e irmãos mais velhos são exemplos vivos para a educação da
criança.
Os valores humanos são transmitidos basicamente pela família. Hoje em dia as
famílias vivem o grande conflito entre os valores éticos e a dinâmica da sociedade,
apelando, dentro da escala invertida de valores, para o egocentrismo, o medo, o
ceticismo e o cinismo. Nessas condições, o grande desafio consiste em fazer da
microssociedade, que é a família, o elemento reformulador da macrossociedade.
Atualmente, como educadores, precisamos ser educados. Estamos oferecendo
inquietude e incerteza às crianças, esquecemo-nos de que o nosso modo de
aproximação, a nossa maneira de falar, agir e viver constituem a nossa contribuição para
a sociedade. A forma de encarar a nós mesmos, de enfrentar nossos problemas
cotidianos representa a educação que damos aos nossos filhos.
O método educacional mais valioso é a experiência pessoal (a criança terá os ideais
e os valores que vivenciar em família). Em toda a criação, cada coisa tem uma base – na
formação do caráter de uma criança, a família é a base de sustentação. Se desejamos ter
uma família harmoniosa, devemos ser harmônicos; se desejamos ter amor, precisamos
amar. Nossos filhos, amigos, parentes e a sociedade se beneficiarão se nos
conscientizarmos de que o nosso comportamento diante da vida resume a educação que
transmitimos às nossas crianças. A transformação da nossa vida decorre da
transformação do nosso coração.
O cultivo ao respeito e à consideração aos semelhantes desperta o bom
comportamento da criança como indivíduo. Pais tendem a se apropriar do filho como
um objeto e por isso não se detêm nas manifestações da personalidade esboçadas pelas
atitudes e emoções da criança. Por outro lado, o afeto insensato e o medo de errar
resultam muitas vezes em liberdade indiscriminada. Ambas as condutas são fruto do
despreparo para a convivência e para o exercício do amor. As virtudes humanas devem
ser alimentadas na criança para que ela possa experimentar a alegria de sua vivência.
A purificação das percepções, o desenvolvimento e ordenação dos impulsos
sensoriais e o reconhecimento das emoções conduzem ao auto-aprimoramento e à
firmeza de caráter. Cabe aos pais infundir coragem, otimismo, alegria e fé nas crianças,
para que elas desenvolvam a capacidade e o entusiasmo para enfrentar os desafios da
vida. Os pais são guias e exemplos; dessa forma, devem agir de acordo com suas
palavras, afinal só um grande educador pode formar um grande estudante. Não basta
plantar sementes puras nas mentes infantis, instruindo-as na cooperação, disciplina e
valores espirituais – precisamos nutri-las para que cresçam e proliferem. Devemos nos
lembrar sempre de que o serviço que prestamos aos nossos filhos é sagrado.
Pais, parentes e professores devem congregar-se e manter um comportamento
harmônico para que possam transmitir verdade e segurança à criança; vigiar a própria
conduta e palavras e procurar seguir os conselhos dos mais sábios, disciplinar, não pelo
temor ou pelo exercício do poder de forma perniciosa e agressiva; lembrar-se sempre de
37
que disciplinar é canalizar energias dentro de uma atmosfera alegre, amorosa e honesta
para entregar à nova geração uma vida mais digna e feliz.
A prática de disciplinas espirituais junto com os estudos formais é fundamental. A
religiosidade deve ser desenvolvida, assim como a humildade e o comprometimento
com os valores humanos para o fortalecimento do caráter, da sociedade e do país. Uma
sociedade sem os valores humanos como fonte de inspiração e esteio não é uma
comunidade humana, e a família desempenha papel preponderante na reforma da
sociedade. Dizem-nos que o raciocínio analítico detém todo o saber; assim, buscamos
acumular informações e acabamos prisioneiros de idéias, conceitos e imagens que
criamos das coisas e pessoas.
Os ensinamentos que transmitimos às crianças constituem o reflexo dos nossos
condicionamentos. Cumpre-nos estar dispostos a abrir nossa mente a fim de enxergar o
nosso verdadeiro caminho e a nossa verdadeira alma, e abraçar a vida sem medo de
experimentar nossa transformação, vendo cada momento como uma chance de
aprendizado para sentir o mistério da vida sem limitações. Deus nos oferece desafios e
está presente em todas as situações de nossa vida. A mudança é o ponto de partida;
quando permitimos que ela nos conduza a estados de consciências mais elevados,
crescemos e aceitamos a flexibilidade de raciocínio, sabendo que temos poder de
superar obstáculos e de ampliar nossos horizontes e perspectivas.
O processo de transformação, com ciclos que se completam uns dentro dos outros,
é o que chamamos de mudança, que cria novos padrões e paradigmas de ação e
percepção. De qualquer modo, nosso eu profundo está ciente de que as mudanças são
inevitáveis. Vivemos um momento de redefinições em todos os campos da sociedade. A
redefinição da família é o principal fundamento da formação da nova sociedade.
Embora bem-intencionados, freqüentemente os pais prejudicam emocionalmente os
filhos.
O relacionamento baseado no medo exclui o respeito e a compreensão e acaba por
existir apenas formalmente – é uma adaptação para ser aceito e amado, por parte da
criança. Assim, a necessidade de ser bem-comportado e conveniente substitui a
expressão natural da ludicidade da criança. A compreensão dos atos e sentimentos dela
não significa enfraquecimento da autoridade dos pais; ao contrário, revela aproximação
entre pais e filhos. Encorajar amorosamente a criança a ser independente, ter iniciativa,
autoconfiança e percepção de si mesma e dos outros, além de estruturar a base da
personalidade, melhora as relações familiares e a comunicação com o mundo.
Os laços afetivos familiares levam ao aprendizado primário de dar e receber amor
durante toda a vida. Um convívio amoroso e saudável em família elimina grande parte
dos atritos na convivência com amigos e colegas de trabalho. O conflito de gerações
advém principalmente do comportamento externo formal: por isso, o fortalecimento dos
valores humanos e da amorosidade age como fator de harmonização.
A instrução tanto na família como na escola não pode ser mecânica e arbitrária. É
preciso que ajudemos a criança a encontrar significado no aprendizado, proporcionar-
lhe uma abertura para a experiência da vida. A família, na realidade, é o fator
preponderante de desenvolvimento da personalidade, do caráter e do comportamento
das crianças.
A vivência dos valores é a valorização da experiência, não uma imposição
conceitual. Dentro e fora de casa, ao direcionar o pensamento para explorar as diversas
questões que a vida nos apresente, os valores internalizados alimentam nosso caráter e
guiam nossa conduta. A família estruturada nos valores humanos é uma família amorosa
e fortalecida. Sai Baba diz: “O pai, a mãe e o professor são os três principais
responsáveis pela formação do futuro do país. A educação deve ser recebida como uma
prática espiritual para o estabelecimento da paz no coração do homem, assim como na
sociedade, incluindo a comunidade humana”.

38
Pratique o que prega

Todo o mal do sistema educativo vigente reside basicamente no fato de se guiar a


criança pelo caminho teórico, sem o suporte do exemplo. Exigimos que a criança aja
corretamente, mas nos esquecemos de nos auto-observar e nos aprimorar como seres
humanos. Não somos superiores apenas pelo fato de sermos pais, tios, avós, irmãos
mais velhos ou professores. Na verdade, somos aprendizes e educadores ao mesmo
tempo. Não podemos fazer da educação um instrumento de poder repressivo e
totalitário, mas, sim, uma forma de amar e servir.
O amor permite o relacionamento verdadeiro entre as pessoas, não importam idade,
sexo, cor ou nível cultural. O amor não amedronta – unifica. Muitas vezes nos
orgulhamos de nossos conhecimentos e desenvolvemos egoísmo, competição e
necessidade de poder. Como pais e professores, temos o dever de praticar o que
pregamos na nossa vida cotidiana. Se tivermos a vida e os propósitos pautados pelos
valores humanos internalizados em nossa mente e coração transmitiremos naturalmente,
através de palavras e ações, o verdadeiro ensinamento daquilo que faz a vida valer a
pena, ou seja, os valores humanos. Conselhos sem exemplos de atos que espelhem o
nosso discurso são inúteis e fomentam dúvidas, descrença e desunião.
Sem nos educarmos internamente, com o domínio dos nossos impulsos e emoções,
não podemos nos considerar educados. Para consolidar o conhecimento teórico e
confirmar o aprendizado, nossas atitudes precisam ser o reflexo da experiência.
Cultivando humildade e disciplina, caminhamos para o autoconhecimento, e então
descobriremos que educação não significa apenas aquisição de informação, mas a
ampliação dos horizontes da mente e o aperfeiçoamento do caráter. Fomos educados
superficialmente e nossa inteligência não foi orientada para medrar as habilidades sutis,
mas com o desenvolvimento de nossa intuição despertaremos para o espírito e
ouviremos suas mensagens.
A personalidade humana desenvolvida integralmente floresce em todo o seu
esplendor e um caráter firme alimenta-se do bem e de ideais nobres. Revendo nossas
falhas, teremos mais condições de melhorar a educação das crianças, fortalecendo o
ensinamento material com a instrução moral e espiritual. E para melhorar a sociedade
devemos nos tornar melhores individualmente, cumprir as obrigações com a
comunidade e gozar dos direitos fundamentais conscientes de ser um produto dela – por
isso, devemos crescer com ela, trabalhando e servindo a todos da melhor forma
possível.

39
DESENVOLVENDO A IMAGINAÇÃO CRIATIVA
“Só podemos viver uma vida plena quando estamos em harmonia com os símbolos,
e a sabedoria é o retorno a eles. Não é uma questão de crença ou
de conhecimentos e, sim, de concordância do nosso pensamento
com as imagens primordiais do inconsciente.”
Carl G. Jung

Nosso subconsciente pode ser nosso aliado ou inimigo; curar-nos ou tornar-nos


doentes. É o depositário das nossas ansiedades ocultas, dos desejos reprimidos. Por isso,
é muito importante aprender a entrar em contato com ele para que assim possamos fazê-
lo trabalhar a nosso favor. Ele será o intermediário do inconsciente e, através do
conhecimento cada vez maior do universo das imagens, símbolos e mitos que ele
domina, poderemos adquirir a capacidade de nos assenhorear de nós mesmos e usufruir
da harmonia entre o mundo exterior e o mundo interior.
A educação da nossa mente leva à autodescoberta e ao uso pleno de nossas
potencialidades. A dissociação de corpo, mente e espírito criou o embotamento
espiritual e o individualismo. Agarrado a si mesmo, o ser humano não libera o fluxo
natural da energia e pratica desse modo a negação da vida.
A imaginação criativa, as visualizações, suas imagens e símbolos, ajudam a
entrar em contato com nossas dimensões interiores e criam ligações entre elas. Pelas
visualizações criamos instrumentos eficazes de ampliação da capacidade de sentir,
compreender e usufruir a vida e suas incontáveis oportunidades de aprendizado.
Desse modo, podemos transpor os limites do mundo objetivo. A imaginação, o
sentimento e a intuição facilitam o esclarecimento de aspectos desconhecidos de nós
mesmos. A revelação de entraves, deficiências e qualidades positivas através de imagens
criativas e símbolos constitui ajuda inestimável para a unificação do corpo, da mente e
do espírito. As visualizações permitem a descoberta de caminhos que a conduzem ao
nosso ser real, que é multidimensional e está em comunhão com o cosmos em constante
expansão.
A mente objetiva é organizada pelo mundo tridimensional, onde atividades
físicas, emocionais e mentais a informam e moldam. A mente subjetiva e seus níveis
superiores são o reino da percepção intuitiva, da abstração, da gestação de idéias e
insights que permitem a compreensão abrangente de coisas e fatos. A mente subjetiva é
alimentada e desenvolvida pelo espírito e pela energia universal. A lacuna entre a mente
objetiva e a subjetiva pode ser preenchida pelas visualizações criativas, visando
trabalhar internamente na busca do auto-aprimoramento e da autodescoberta. As
visualizações são projeções do subconsciente e do inconsciente que desvelam a
linguagem da alma. Se vivenciarmos os arquétipos e nos detivermos em nós mesmos,
observando seus padrões de ação instintiva, compreenderemos melhor a nós mesmos e a
nossos semelhantes. Para isso, contribuem as histórias e os mitos de transformação.

40
HISTÓRIAS DE TRANSFORMAÇÃO
I – O JOGO DE XADREZ

Depois de sofrer um grande desgosto na vida, um jovem decidiu ingressar num


mosteiro. No primeiro encontro com o abade, disse:
– Estou desiludido com a vida e quero alcançar a iluminação para libertar-me
desses sofrimentos. Todavia, não tenho capacidade de me ater a qualquer coisa por
muito tempo. Jamais conseguiria dedicar longos anos à meditação, ao estudo e à
austeridade. Sei que reincidiria em erro e seria atraído de volta ao mundo, por mais
doloroso que ele seja. Existe algum atalho para pessoas como eu?
– Existe – respondeu o abade. – Desde que você esteja realmente determinado.
Diga-me: o que você já estudou? Em que mais se concentrou em toda a sua vida?
– Em nada, na verdade. Minha família era muito rica e eu nunca precisei trabalhar.
A única coisa que realmente despertou meu interesse foi o xadrez. Eu passava a maior
parte do tempo jogando xadrez.
O abade pensou por alguns instantes e disse ao seu assistente:
– Vá chamar o monge Wu e diga-lhe para trazer um tabuleiro e peças de xadrez.
O monge trouxe o tabuleiro e o abade, enquanto arrumava as peças, pediu também
que trouxessem uma espada. Assim que recebeu a arma, ergueu-a ao alto e disse:
– Você, monge Wu, jurou obediência a mim, seu chefe. Eu agora exijo esta
obediência: você vai jogar uma partida de xadrez com este jovem. Se perder, terá a
cabeça cortada com esta espada. Mas prometo-lhe que renascerá no paraíso. Se você
vencer, cortarei a cabeça do jovem: o xadrez é a única coisa na qual ele se empenhou
em toda a vida e, se for derrotado, bem merece perder a cabeça.
O monge e o jovem olharam para o abade e viram que ele estava falando sério: ele
realmente cortaria a cabeça do perdedor.
Começaram então a partida. No início o jovem sentiu o suor escorrendo até os
tornozelos, pois estava em jogo a própria vida. O tabuleiro de xadrez tornou-se o
mundo, estava inteiramente concentrado nele.
O jovem começou jogando mal, mas o monge fez uma jogada infeliz e ele
aproveitou para lançar-se ao ataque. Enquanto a posição de seu adversário
desmoronava, o jovem olhou de soslaio para o seu rosto: viu uma expressão de
inteligência e sinceridade, marcada por anos de austeridade e trabalho. Lembrou-se
então de sua vida inútil, e uma onda de compaixão invadiu seu coração.
Deliberadamente fez uma jogada ruim; em seguida, outra, arruinando sua posição e
deixando suas peças sem defesa.
Subitamente, o abade inclinou-se para a frente e derrubou o tabuleiro no chão.
– Nenhuma cabeça há de tombar aqui – disse ele. – Duas coisas somente são
necessárias. – E, voltando para o jovem: – Concentração absoluta e compaixão. Hoje
você aprendeu ambas aqui. Você estava totalmente concentrado no jogo e em meio a
esse estado pôde sentir compaixão e se dispor a sacrificar a sua vida. Permaneça alguns
meses conosco. Se seguir nosso treinamento com o mesmo espírito, com certeza
alcançará a iluminação.
Assim fez o jovem, e alcançou a iluminação.
(Tradição Zen)

41
II – ESPÍRITO DE PESQUISA, SINCERIDADE,
AUTENTICIDADE, COERÊNCIA

Nasrudin, o lendário mestre sufi, disse ao rei:


– Essas leis não tornam melhores as pessoas. Elas devem praticar certas coisas de
forma a sintonizar-se com a verdade interior, que se assemelha apenas ligeiramente à
verdade aparente.
O rei decidiu que poderia fazer com que as pessoas observassem a verdade – e o
faria. Ele poderia fazê-las praticar a autenticidade.
O acesso à sua cidade era feito por uma ponte, sobre a qual o rei ordenou fosse
construída uma forca. Quando os portões foram abertos ao alvorecer do dia seguinte, o
capitão da guarda estava postado à frente de um pelotão para inspecionar todos aqueles
que por ali passassem.
O rei proclamou um edito: “Todos serão interrogados. Aquele que falar a verdade
terá seu ingresso permitido. Se mentir, será enforcado”.
Nasrudin deu um passo à frente.
– Aonde vai? – perguntou o guarda.
– Estou a caminho da forca – respondeu Nasrudin calmamente.
– Não acreditamos em você!
– Então, se estiver mentindo, enforquem-me!
– Mas se o enforcamos por mentir, faremos com que aquilo que disse seja verdade!
– Isso mesmo: agora sabem o que é a verdade – a sua verdade!
(Tradição sufi)

III – AUTOCONTROLE, CONTENTAMENTO

Um homem morreu e foi para um lugar muito lindo, rodeado de todo conforto
imaginável. Um ser vestido todo de branco aproximou-se dele e disse:
– Aqui, o senhor pode ter tudo o que desejar: qualquer comida, qualquer tipo de
prazer, qualquer forma de entretenimento.
O homem ficou encantado e por vários dias deliciou-se com todas as formas de
deleite que sonhara na terra. Um dia, porém, entediou-se de tudo. Chamou o atendente
de trajes brancos e explicou:
– Estou cansado de tudo isso. Preciso fazer alguma coisa. Que tipo de trabalho
você pode me oferecer?
O atendente sacudiu a cabeça tristemente e respondeu:
– Sinto muito, senhor. Essa é a única coisa que não podemos lhe oferecer. Não há
trabalho aqui.
O homem retrucou:
– Essa não! Eu bem poderia estar no inferno!
O atendente completou com brandura:
– E onde o senhor pensa que está?

IV - COMPREENSÃO

Certa vez, um homem muito rico mandou um criado à feira para se informar sobre
o valor de um diamante que desejava vender. Conforme a recomendação do patrão, o
criado consultou primeiro o verdureiro. Este pegou o diamante na mão e o examinou
por um momento.
– Eu lhe dou nove cestas de berinjela por ele.
42
– Ofereça um pouco mais – insistiu o criado.
– Não, já ofereci mais do que ele vale.
O criado agradeceu, e levou o diamante para o patrão.
– Muito bem – disse o patrão. – Vamos ouvir agora o vendedor de tecidos.
Ao ser consultado, o vendedor de tecidos comentou:
– É uma bela pedra e poderia fazer uma linda jóia com ela. Eu dou novecentos
reais.
– Não pode chegar a mil? – perguntou o criado.
– Impossível! Não sei se vale os novecentos, acho que minha oferta foi excessiva.
Ao tomar conhecimento da resposta do vendedor de tecidos, o patrão pediu ao
criado para levar a pedra ao joalheiro. Queria a opinião de um perito.
O joalheiro examinou o diamante rapidamente e disse:
– Ofereço cem mil reais.
Só recebemos o que buscamos, e avaliamos o que compreendemos.
(História de Sri Ramakrishna)

V – PODER DE SÍNTESE - EXATIDÃO

Há mais de cem anos, na Universidade de Oxford, na Inglaterra, um grupo de


jovens estava sendo submetido a exames de religião. As provas eram individuais e a
cada um dos jovens era feita uma pergunta diferente sobre as diversas escrituras
sagradas.
Um jovem de olhos brilhantes aproximou-se da banca para ser examinado. O
professor entregou-lhe uma folha de papel que pedia uma dissertação sobre o
significado espiritual do milagre das Bodas de Caná, quando Jesus transformou água em
vinho.
O jovem pegou a folha, leu atentamente as instruções, sentou-se e passou a
meditar. Enquanto ele mantinha o olhar absorto no vazio, seus colegas escreviam
alucinadamente. O tempo estava prestes a se esgotar e todos os alunos apressavam-se a
entregar as provas, ao passo que o jovem de olhos brilhantes permanecia no mesmo
estado contemplativo.
O professor aproximou-se dele e perguntou se não pretendia escrever algumas
linhas sobre o milagre de Jesus. O jovem lorde Byron olhou para o professor e sorriu
docemente. Pegou a pena e escreveu:
“A água encontrou o Mestre e enrubesceu”.
(O poder de síntese – Extraído de “Histórias da alma, histórias do coração”, de
Cristina Feldman e Jack Kornfield)

VI – USO ADEQUADO DO CONHECIMENTO

Um erudito viajava pela primeira vez num transatlântico e estava fascinado pelo
cruzeiro marítimo e a proximidade dos humores insondáveis do mar. Apreciava andar
pelo convés respirando o ar marinho e sempre que encontrava um marinheiro
costumava perguntar sobre seus conhecimentos.
Certa vez, um marinheiro limpava o convés com afinco quando o erudito o
interpelou:
– Diga-me, meu amigo, você estudou filosofia?
O marinheiro olhou-o intrigado e respondeu:
– Não, senhor, só sei navegar.
O erudito retrucou:
43
– Você estudou geometria, zoologia, psicologia?
E o marinheiro:
– Não, não, não.
Certa noite, uma tempestade violenta castigou o navio; ondas enormes lavavam o
convés, e o casco rachou, deixando a embarcação ao sabor das ondas. Aterrorizado, o
erudito em pânico procurava em vão agarrar-se ao mastro, quando o marinheiro
aproximou-se e perguntou-lhe:
– Diga-me, senhor, por acaso já estudou nadalogia?
O erudito só conseguiu negar balançando a cabeça.
– Que pena! – disse o marinheiro. – O senhor só fez desperdiçar a sua vida, pois o
navio vai afundar.

(Moral desta história: Arrogância e exibicionismo revelam o desconhecimento da


importância das habilidades de todos para o desenvolvimento da sociedade.)

(Conto popular – Extraído de “Histórias da alma, histórias do coração”, de


Cristina Feldman e Jack Kornfield)

VII – GRATIDÃO E DEDICAÇÃO

Um samurai corajoso e de temperamento violento foi a um mosteiro à procura de


algumas respostas para suas inquietações. Lá foi recebido por um monge jovem e
franzino. Olhando o frágil corpo vestido com uma roupa cor ocre, o samurai disse,
prepotente:
– Quero saber sobre o céu e o inferno.
O monge olhou para o guerreiro e respondeu com enorme desprezo:
– Ensinar-lhe sobre o céu e o inferno? Como poderia ensinar-lhe alguma coisa?
Olhe para você mesmo: imundo, malcheiroso. Você envergonha os samurais. Saia
daqui! Não suporto a sua presença!
O samurai, atônito a princípio, foi tomado de fúria e tremia de ódio, com o rosto
cor de púrpura e os lábios trêmulos. Tentava em vão balbuciar algumas palavras. Puxou
a espada violentamente e preparou-se para cortar a cabeça do pequeno monge.
– O inferno é isso – disse o monge fixando-o nos olhos docemente.
O samurai deteve a espada no ar, assombrado. A dedicação ao serviço e a
fraternidade compassiva do monge o levaram a arriscar a própria vida para que ele
sentisse o inferno. O guerreiro sentiu o coração aquecido pelo sentimento de gratidão e
companheirismo. Olhou para o monge, com a mente pacificada.
– Isso é o céu! – disse o monge, com serenidade.
(Tradição zen-budista)

VIII – BUSCA E INICIATIVA

Em Cracóvia, vivia um rabino chamado Eisik. Pobre e muito piedoso, vivia


solitário, sempre em busca do sentido maior da vida. Procurava tão intensamente o
sentido da vida que se esquecia de sentir a vida e usufruir a beleza transmitida pelas
coisas e pessoas pelo simples fato de existirem.
O rabino Eisik costumava ter sonhos proféticos. Certa vez sonhou com um ser que
lhe ordenou seguir viagem até Praga, onde, sob a grande ponte que leva ao palácio real,
havia um tesouro escondido. Seguiu as instruções recebidas e viajou a procura da tal
ponte. Ao chegar ao local indicado ficou assustado com a quantidade de guardas que
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vigiavam dia e noite as cercanias do palácio. Desse modo, passou a estudar uma
estratégia para iniciar as escavações e apossar-se do tesouro.
O chefe dos guardas, ao notar que o rabino vinha rondando a ponte havia muitos
dias, fez-lhe algumas perguntas. Eisik decidiu contar a verdade: falou da mensagem
recebida em sonho e da sua intenção de cumprir as ordens. O chefe dos guardas deu
uma gargalhada e escarneceu da ingenuidade do rabino. Disse:
– Você não imagina a coincidência incrível entre nossos sonhos: eu sonhei que um
grande tesouro se encontra em Cracóvia, mais exatamente na casa de um rabino
chamado Eisik. O tesouro estaria escondido num canto, perto da velha e empoeirada
estufa da casa. Eu sou um homem racional; não creio em sonhos.
O rabino disse que, ao contrário, acreditava em tudo e em todos. Agradeceu muito
pelo aviso recebido em sonho e rumou para casa. Assim que chegou, encaminhou-se ao
local onde estava a velha estufa, cavou o chão com firmeza e realmente encontrou um
grande tesouro. Feliz, refletiu em voz alta:
– Um estranho de outra crença e outra raça me revelou o significado da
peregrinação interior.
(Tradição judaica)

IX – SIMPLICIDADE E CONTENTAMENTO

Certa vez, um homem muito rico e muito ocupado caminhava pela praia para tentar
aliviar a carga dos inúmeros e complexos problemas que moldavam a sua vida. De
repente, ele deparou com um pescador deitado despreocupadamente junto de um barco,
olhando o azul do céu. Indignado, deteve-se junto ao pescador e perguntou:
– Como você pode ficar deitado aí, por que não está pescando?
O pescador virou lentamente a cabeça na direção do homem e respondeu com outra
pergunta?
– Por que você está tão irritado? Eu não estou pescando porque já pesquei o
suficiente para o dia de hoje.
Inconformado, o homem insistiu:
– Se você estivesse com seu barco no mar, certamente traria mais peixes para
vender ou estocar e poderia ganhar muito mais dinheiro. Com mais dinheiro, você
compraria um barco melhor, mais moderno, com maior capacidade de navegação, e com
ele teria uma pesca mais abundante e conseqüentemente mais dinheiro. Logo você
poderia até ser dono de uma companhia pesqueira e ser um homem rico.
– E o que eu faria então? – perguntou o pescador.
– Você teria condições de gozar muito mais desta vida. Poderia comprar uma linda
casa, automóvel do ano, roupas caras, viajar, namorar lindas mulheres. Enfim, tudo o
que o dinheiro pode oferecer.
– Mas eu sou feliz assim, vivendo cada momento como único e precioso; vivo o
presente e o que tenho basta para suprir minhas necessidades. Assim consigo apreciar a
vida estando atento a tudo o que me acontece.
– Você se contenta com pouco. É preciso aproveitar mais a vida!
Olhando o interlocutor com um leve sorriso desenhado no rosto, o pescador
perguntou:
– O que você acha que eu estou fazendo agora?
(Conto popular)

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MITOS DE TRANSFORMAÇÃO
I – O MITO DE TESEU

Teseu era filho de uma rainha, Etra, e de um deus, assim como do rei. Ou seja,
ele tinha dois pais: Egeu e Posêidon. Numa ilha chamada Creta havia um rei muito
poderoso chamado Minos. Ele guardava num labirinto um touro sagrado que nascera
dos amores da esposa do rei, Pasífae, com um touro enviado por Posêidon. Muitas vidas
foram sacrificadas, oferecidas a esse monstro chamado Minotauro, metade homem,
metade touro, que se alimentava de carne humana.
Uma ocasião, Androgeu, filho de Minos, foi a Atenas assistir às Panatenéias e
participou dos combates. Atuou de forma tão galharda, que conquistou todos os
prêmios. Magoados, os rapazes atenienses mataram-no. Minos, como vingança, sitiou a
cidade e exigiu de seus habitantes um tributo que deveria ser pago a cada nove anos,
constituído do sacrifício de sete rapazes e sete moças, oferecidos ao Minotauro. Ao
aproximar-se o prazo para o pagamento do quarto tributo, Teseu ofereceu-se para
acompanhar o grupo como um deles.
Ao chegar a Creta, Teseu encontrou uma linda jovem chamada Ariadne, filha do
rei Minos. Apaixonada por Teseu, a jovem princesa, conhecedora das intenções dele,
decidiu ajudá-lo.
Ariadne deu a Teseu um novelo de fio para que ele pudesse se guiar dentro do
labirinto que encerrava o monstro. Assim, Teseu matou o Minotauro e conseguiu
escapar do labirinto. Depois, partiu para Atenas, levando Ariadne e Fedra, irmã de sua
benfeitora. No caminho, ele abandonou Ariadne na ilha de Naxos, deixando-a
inconsolada.
Antes de partir para Creta, Teseu havia combinado com seu pai que, se
conseguisse matar o Minotauro, trocaria as bandeiras pretas do seu navio por bandeiras
brancas. No entanto, excitado pela vitória, Teseu esqueceu a promessa, e seu pai, vendo
a bandeira negra tremular no mastro, acreditou que o filho estivesse morto. Desgostoso,
precipitou-se ao mar que a partir de então passou a ser conhecido como Egeu.
Teseu teve sua vitória coroada de tristeza em vez dos louros da alegria.

Reflexão
O mito de Teseu mostra que a força, a coragem e a determinação exigem também
atenção, respeito pelos sentimentos alheios e gratidão. Sozinhos, esses valores não
bastam. É preciso enfrentar as adversidades e os desafios da vida, mas sempre ouvindo
o nosso coração, a sabedoria interior.
O labirinto simboliza o eu interno; o Minotauro, os temores e negatividades.
Ariadne representa as faculdades intuitivas. O abandono de Ariadne por Teseu expressa
a identificação com as emoções efêmeras em detrimento da força interior que nos guia
nos nossos labirintos interiores mostrando sempre a saída, a solução.
A vaidade e o egoísmo geraram o descuido e o descaso de Teseu, provocando a
morte do rei. O desrespeito ao semelhante provoca dor e demérito.
Quais são suas atitudes e posições diante desse mito? Avalie suas emoções e o
que foi mobilizado interiormente ao entrar em contato com o mito de Teseu.

II – O MITO DE PALAS ATHENA

Nascida sem intervenção de mãe, a energia feminina, Athena surgiu da cabeça de


Zeus. Nasceu adulta e talentosa. Dominava as artes, tanto as úteis quanto as
ornamentais, assim como a arte do combate pela justiça e pela verdade. Muitos heróis,
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em defesa de causas grandiosas, viam seu vulto majestoso descer dos céus e
extasiavam-se diante de sua beleza iluminada pelos olhos cintilantes no rosto de
expressão franca e poderosa.
Tão valente quanto Ares, Athena é sábia e cumpridora da vontade de Zeus. É
também a deusa dotada da coragem de dizer “não” sem subterfúgios e de defender o que
lha parece correto. Athena sacrifica paixões momentâneas em favor de objetivos
concretos.
A comunicação verdadeira muitas vezes é feita quando ouvimos o bom senso.
Essa é uma das lições da deusa. Nascida armada e adulta, Athena explicita as defesas
interiores e as dificuldades de relacionamento. Guerreira corajosa, não foge de desafios.
Certa vez, Aracne, uma tecelã talentosa, que encantava tanto os humanos quanto
os seres mágicos da natureza, desafiou Athena. A deusa, disfarçada de anciã, aconselhou
a tecelã a pedir perdão pelo desacato. A jovem manteve-se firme em sua atitude, nem se
intimidou quando a velha senhora se transformou na esplendorosa Athena.
A deusa aceitou a competição que consagraria a melhor tecelã. Aracne escolheu
como motivo de seus bordados cenas que provavam os erros e enganos dos deuses do
Olimpo, com destaque para os disfarces de Zeus em suas conquistas amorosas. Athena
bordou a cena de sua luta com Posêidon, representando os doze poderes celestes. Nos
quatro cantos da tapeçaria estavam desenhados os momentos de desafio que os mortais
se atrevem a impor aos deuses. Athena usou esse recurso para advertir a rival do seu
desagrado.
Aracne deixava patente nos bordados sua presunção e atrevimento. Exibia
arrogantemente o seu magnífico trabalho. Athena admirou a qualidade da obra, mas
indignou-se com o insulto. Com sua adaga, fez o tecido em tiras e, com a mão na testa
de Aracne, fez que esta se envergonhasse do seu ato. Tamanho foi o sentimento de culpa
de Aracne, que ela, não agüentando o peso da vergonha, enforcou-se.
Athena, irada com a atitude de Aracne, que fugiu à responsabilidade de seus
atos, tocou o corpo da mortal. Imediatamente a moça de transformou numa aranha, o
inseto que tece a teia da sua própria substância. Aracne continuou pendurada, não pela
corda do enforcamento, mas pelo fio gerado dela mesma, e prosseguiu fiando e tecendo
por toda a eternidade.

Reflexão
Athena é a deusa da combatividade espiritual. Ela simboliza a sabedoria, a justiça e a
verdade.O amor combativo em defesa da verdade é o meio de acesso ao
autoconhecimento. Para um convívio harmonioso dos níveis de nossa personalidade e o
contato com nossa alma, precisamos enxergar a verdadeira imagem das coisas e
pessoas. O escudo de Athena reflete nosso ser real. Simboliza também o intelecto
clarificado, o discernimento. Brotada da cabeça de Zeus, ela é sua criatividade,
intuição e capacidade de elaboração e organização de idéias; a energia feminina do
deus.
Diz o mito que Perseu viu a Medusa refletida no escudo de Athena. O reflexo da
verdade protege da precipitação enganosa e permite o distanciamento necessário para
o reconhecimento das emoções, quer negativas, quer positivas. Promove a
autoconfiança e a determinação de atingir a realização de propósitos.
Athena encarna o intercâmbio de energia e a comunicação fluente entre o
hemisfério esquerdo – a objetividade – e o hemisfério direito – a intuição e criatividade
do nosso cérebro. É a grande tecelã de idéias que urde os fios dos pensamentos
criativos. É também um arquétipo de coragem, prudência e discernimento.
Aracne simboliza a pretensão, o atrevimento e o despeito. No mito, como todo
pretensioso, ela prefere morrer a encarar o próprio erro. Aracne é prisioneira de si

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mesma e aumenta sempre o âmbito da sua cadeia, ou seja, sua teia de arrogância e
inveja.
Procure observar sua identificação com os mitos expostos e os pensamentos e
emoções que afloram diante do arquétipo. Encare Athena e Aracne em si próprio.

III – O MITO DE INDRA

Certa vez, Indra, o rei dos semideuses, senhor do raio e triunfador dos demônios,
teve de enfrentar um monstro terrível que invadiu seus domínios celestes. Um monstro
desceu à Terra e engoliu toda a água dos rios, fontes e lagos, deixando o mundo numa
seca de dar dó. Aflito e agoniado, Indra demorou a lembrar-se de sua reserva de raios e
trovões. Mas, assim que tranqüilizou seu coração com a certeza de que era capaz de
ajudar o mundo, lançou seus poderosos raios sobre o monstro e o destruiu. As águas
então fluíram abundantes outra vez.
Indra encheu-se de orgulho pelo feito. Considerando-se sempre o mais
maravilhoso dos seres, caminhou até a mais alta montanha cósmica, que fica no centro
do Universo, e lá decidiu construir um palácio digno de sua grandeza. Chamou o
arquiteto dos deuses, que logo fez o projeto e pôs-se a trabalhar.
Toda vez que Indra inspecionava as obras, encontrava um defeito e achava que a
construção devia ser mais grandiosa e luxuosa. O arquiteto, desesperado, pressentia que
a obra não teria fim. Ambos eram mortais e os desejos de Indra não tinham limites;
portanto, ele estaria aprisionado por toda a vida aos caprichos do semideus.
Angustiado, o arquiteto recorreu a Brama, símbolo da força e da graça. Contou-
lhe sua história e sua desdita. Depois de ouvi-lo atentamente, Brama disse:
– Não se preocupe. Eu darei uma solução para o seu caso.
Na manhã seguinte, no portal do palácio em construção surgiu um menino lindo,
negro-azulado, vestido ricamente e rodeado de crianças. O porteiro correu a avisar Indra
da visita do menino esplendoroso. Curioso, Indra mandou o menino entrar.
– Seja bem-vindo – disse-lhe Indra. O que veio fazer aqui?
O garoto falou com voz doce e poderosa ao mesmo tempo, voz que ressoou
pelos universos afora:
– Ouvi dizer que está construindo um palácio como nenhum Indra teve igual!!
Indra, indignado, disse:
– Como assim: nenhum Indra? Do que você está falando?
O menino replicou:
– Eu tenho visto centenas de Indras vir e desaparecer. Vishnu dorme sobre Secha
(a eternidade) no oceano cósmico; o Universo, como um lótus, nasce do seu umbigo.
Sentado no lótus, vive Brama, a energia criadora. Brama abre os olhos e o mundo é
criado e governado por um Indra. Brama fecha os olhos e tudo desaparece. Brama vive
quatrocentos e trinta e dois mil anos. Quando ele morre, o lótus onde ele se assenta se
desfaz e outros lótus nascem, assim como outro Brama. Pense nas galáxias além das
galáxias, no espaço infinito, cada universo com seu lótus e seu Brama abrindo e
fechando os olhos. E quantos Indras?
Enquanto o menino falava, um exército de formigas passou desfilando. O
menino riu e Indra quis saber a razão do riso. Apontando para as formigas, o menino
disse:
– Todas são antigos Indras. Através de muitas vidas, eles se elevam das mais
baixas condições à mais alta iluminação. Aí, eles lançam um raio sobre um monstro e
pensam: “Como eu sou formidável!”, e voltam a despencar.
Nesse instante entrou na sala um iogue com uma constelação de pêlos no peito.
O menino perguntou o nome do velho, e ele respondeu:
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– Cabeludo.
Disse que não tinha casa nem família, que vivia a meditar na eternidade e na
fugacidade do tempo. Dirigindo a Indra, disse:
– Você sabe, toda vez que morre um Indra, um mundo desaparece e cai um fio de
pêlo do meu peito. Metade dos pêlos já se foram e breve todos terão ido. A vida é curta.
Por que construir uma casa?
O menino era Vishnu e o velho, Shiva; eles que foram ensinar a Indra que ele era
parte do todo. Indra chamou o arquiteto e suspendeu a construção do palácio. Decidiu
renunciar a tudo e praticar a meditação. Sua mulher, a rainha Indrami, aflita, procurou o
rishi (sacerdote) dos deuses:
– Ajude-me. Ele resolveu ser iogue renunciante.
O sacerdote dos deuses foi ao encontro de Indra e disse:
– Você é o rei dos deuses, a manifestação do mistério de Brama na esfera do
tempo. Saiba apreciar esse alto privilégio e viva como quem você realmente é. Vou
escrever um livro sobre a arte do amor. Assim, você e sua mulher saberão que, no
maravilhoso mistério dos dois, um Brama está radiantemente presente.
As palavras do sacerdote dos deuses convenceram Indra a desistir da sua inenção
de se tornar iogue e o levaram a descobrir que na vida ele representa o eterno como
símbolo, pode-se dizer, de Brama.
Conto dos Upanishads
Extraído de “O poder do mito”, de Joseph Campbell.

Reflexão
Pense na ilusão que emperra a nossa capacidade de autoreconhecimento e na
impermanência das coisas; na nossa condição de escolha, no livre-arbítrio. Sair do
mundo ou viver no mundo, mas sempre movidos pelo amor, nunca pela culpa ou pelo
medo. Ao saber da sua real dimensão e importância, Indra encontrou a paz e cumpriu
sua função.

IV – O MITO DE HÉRCULES

Hércules era filho de Alcmena e de Zeus. Para conquistar Alcmena, Zeus


assumiu a forma física de Anfitrião, marido de Alcmena e pai terreno de Hércules. Hera,
a esposa de Zeus, tomada de ciúme furioso, enviou duas serpentes para eliminar
Hércules, que, então com oito meses, as estrangulou com as mãos, demonstrando já a
prodigiosa força que viria a caracterizá-lo. Quando Athena amamentava o pequeno
Hércules, este lhe feriu o seio ao sugá-lo com grande sofreguidão. Assustada, a deusa
repeliu a criança, e o leite que escorreu então acabou por formar no espaço a Via-
Láctea.
Aos dezoito anos, Hércules matou um leão que assolava a região. Em seguida
participou de várias contendas, e numa dela venceu Ergino, rei de Orcômeno, que exigia
de Tebas um tributo anual de cem bois. Como prêmio por essa vitória, Creonte, rei de
Tebas, ofereceu-lhe a mão de sua filha Mégara, que deu vários filhos ao herói. No
entanto, num acesso de loucura provocado por Hera, Hércules matou a mulher e os
filhos a flechadas. Zeus puniu Hera pela perseguição infligida ao herói e manteve a
deusa suspensa por uma corrente de ouro entre o céu e a terra.
Para se purificar do crime, Hércules consultou o oráculo de Delfos, que lhe
ordenou dirigir-se a Tirinto e colocar-se a serviço de Euristeu durante doze anos.
Sob as ordens deste, realizou os feitos que ficaram conhecidos como “Os Doze
Trabalhos de Hércules”: a morte do leão de Neméia, a captura do touro de Creta, a
captura do javali de Erimanto, a tomada do cinturão de Hipólita, a limpeza dos
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estábulos de Áugias, a destruição da hidra de Lerna, a captura do gado vermelho de
Gerião, a morte dos pássaros de Estinfalo, a captura das éguas antropófagas, a captura
do cervo de pés de bronze, as maçãs de ouro das Espérides, a morte de Cérbero, o
guardião de Hades.
Vencedor, o herói procura o amor estável, já que sempre sofreu com seus
impulsos afetivos e suas escolhas amorosas.
Hércules casou-se com Dejanira e foi morar em Cálidon, junto do sogro Eneu.
Por fatalidade, matou involuntariamente Eunomos, filho de Arquiteles, parente de Eneu,
o que o obrigou a exilar-se, com Dejanira e o filho Hilo. Durante a viagem, lutou com o
centauro Nessus, que, vencido, ofereceu a Dejanira, como vingança, uma poção que
dizia tratar-se de um filtro do amor capaz de fazê-la reconquistar o marido caso ele lhe
fosse infiel. Ela aceitou o presente.
Prosseguindo viagem e após inúmeras aventuras, Hércules venceu Eurito e fez
de Íole, filha do rei, sua amante. Pediu a Dejanira uma túnica para usar nas festividades
que comemorariam a vitória. Dejanira, porém, sabendo da aventura amorosa do marido
com Íole, embebeu a túnica na poção recebida de Nessus. Dejanira, acreditando que a
túnica iria reanimar a paixão do marido, enviou a roupa encantada a Hércules.
A roupa colou-se à pele de Hércules e queimou-a como fogo. Atormentado pela
dor e sem conseguir desvencilhar-se da vestimenta, ele subiu a encosta do monte Eta,
ergueu uma pira de carvalhos e pinheiros, na qual se atirou. Quando o fogo lhe atingiu
o corpo, um trovão reboou e Hércules foi elevado ao céu, onde Zeus recebeu seu filho
preferido.
No Olimpo, Hércules reconciliou-se com Hera. Casou-se com Hebe, a deusa da
juventude eterna, filha de Hera. Assim Zeus, feliz pela chegada de Hércules ao Olimpo,
perdoou Hera e libertou-a também. O herói foi então divinizado.

Reflexão
Hércules é símbolo da força do homem que, mesmo imerso no mundo material e vítima
dos apelos e influências do meio onde vive, segue o caminho da alma e enfrenta os
reveses e obstáculos vencendo as próprias tendências inferiores na busca de seu
objetivo. Hércules é a consciência despertada que realiza seus trabalhos e reconhece
sua capacidade. Como filho mítico de Zeus, está destinado a vencer, ou seja, é herdeiro
de sua força e poder espiritual. Tendo sido alimentado por Athena, foi nutrido pela
combatividade espiritual que ela representa, estando destinado a sair vencedor de si
mesmo. Existem versões que colocam Hera como nutriz, e ela teria por engano
alimentado o objeto do seu ódio.
Da mesma forma, sendo Hera símbolo do amor sublime, manifestando no
condicionamento da matéria suas paixões, ela é o alimento fecundador da alma, e o
conflito da mente entre a força do espírito e o amor possessivo e ciumento.
Mesmo submetido a Euristeu, às circunstâncias do mundo exterior, ele fez disso
a oportunidade de conhecer e dominar seus defeitos e qualidades. Hércules nunca se
envaidece de seus feitos: é o guerreiro do espírito. Sua agressividade nunca é gratuita;
está sempre libertando pessoas e lugares de algum mal – é alguém a serviço do bem.
Essas qualidades superam suas deficiências, fazendo, das dificuldades, oportunidade
de aprendizado. Descobriu as próprias qualidades e forças latentes e utilizou-as de
maneira correta, buscando o aperfeiçoamento e a sintonia com a divindade.
Enfrentou a dualidade da vida matando as serpentes ainda no berço, mostrando
sua disposição de busca de si mesmo. É o homem nos seus aspectos humano e divino,
um guerreiro do espírito lutando contra a identificação com a matéria transitória e
perecível. A oposição entre Hera e Zeus minou sua vida. A reconciliação de Zeus e
Hera libertou a deusa da punição de Zeus e redimiu Hércules pelo amor divino. Zeus é
a potência extraordinária, o espírito imortal; Hera, o amor submetido às oscilações

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instintivas, e ficam em oposição. A reconciliação simboliza a conquista da consciência
pelo amor incondicional.
O sacrifício de Hércules, ou seja, a purificação dos impulsos sensoriais, amaina
o poder devastador das paixões inferiores e liberta a alma.
Meditar no significado do mito de Hércules, para avaliar sua capacidade de
enfrentar obstáculos e reveses sem queixumes ou autopiedade, encarando-os como
oportunidades de autoconhecimento e autodimensionamento. Procure encontrar outros
valores no símbolo e observe o que foi mobilizado interiormente em seu campo
emocional. Trabalhe a auto-análise e o autocontrole. É a partir das nossas falhas
reconhecidas com sinceridade que conquistamos a nós mesmos e alcançamos o
desabrochar das qualidades essencialmente espirituais.

V – O MITO DE ORFEU E EURÍDICE

Orfeu era filho de Apolo e da musa Calíope. Do deus sol, seu pai, recebeu uma
lira de ouro, que tocava com perfeição tal, que nada nem ninguém conseguia resistir ao
encanto de sua música. Toda a natureza se rendia ao som deslumbrante dos seus
acordes: sua música abrandava as feras e deixava em transe de doçura animais e deuses.
Era adorado e admirado por todos os homens e todas as mulheres o desejavam para si.
Orfeu era amado por muitas mulheres, mas amava Eurídice e casou-se com ela.
Certo dia, Eurídice passeava com as ninfas, suas amigas, e o pastor Aristeu avistou-a,
ficou fascinado pela sua beleza e tentou conquistá-la. Amedrontada, Eurídice correu e
na fuga pisou numa serpente, que a picou e causou-lhe a morte. Desesperado, Orfeu
cantou a imensa dor que lhe oprimia o coração para deuses e homens, em vão.
Ainda inconsolável, Orfeu desceu aos infernos para procurar Eurídice. No reino
de Hades, tangeu as cordas de sua lira de forma tão pungente e harmoniosa, que por
alguns momentos transformou as trevas dos infernos fazendo suspender os suplícios dos
condenados e comovendo as divindades infernais. Perséfone e Hades entregaram
Eurídice a Orfeu, com uma condição: Orfeu sairia na frente, seguido de Eurídice, e não
deveria voltar-se para olhá-la enquanto não chegasse à superfície, Orfeu aceitou a
imposição e os dois amados saíram. Mas, a ansiedade de Orfeu o traiu: num átimo, ele
olhou para trás a fim de certificar-se da presença da amada e Eurídice lhe foi arrebatada.
Morta pela segunda vez, Eurídice estava perdida para ele, pois não haveria uma segunda
chance.
As Mênades, enlouquecidas de paixão, o disputaram, perseguiram sem trégua e
finalmente, no afã desesperado, o dilaceraram. Morreu Orfeu vítima do próprio encanto.
Orfeu tentou inutilmente voltar aos infernos para resgatar Eurídice. Então, ele
cantou o seu amor para sempre e sua lira reluz nos céus como constelação.
Morto, Orfeu desceu ao Hades e lá encontrou sua Eurídice. Juntos ficaram para
sempre, sem culpas, sem punições. Viveram o amor com harmonia, com intensidade,
sem ambivalência, para ser inspiração de poetas e deuses.

Reflexão
Orfeu é o símbolo do esplendor da criatividade e da inconstância da mente criativa.
Somente o sentimento verdadeiro, o amor de Eurídice poderia salvá-lo. Ela é o lado
sublime do seu ser – simboliza sua alma, assim como a concentração criadora.
Não sabendo amar com entrega de alma, Orfeu sofreu seduções e terminou
destruído pelas Mênades, ou seja, as exacerbações dos desejos vaidosos e
desenfreados.
Eurídice desapareceu no Hades, símbolo do subconsciente, mas o punido foi
Orfeu. O arrependimento e o despertar do amor como força interior não foram
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suficientes para impedir que Orfeu se desviasse de sua meta: salvar Eurídice. Inúmeras
mulheres – símbolos da sedução e dos desejos múltiplos – haviam assediado o poeta.
No mito, Orfeu é dilacerado pelas mulheres que não aceitavam ser repudiadas por ele.
Porém, ele reencontrou o amor harmonia, pelo reencontro final com Eurídice, sua
alma. É importante ressaltar que a impaciência faz que Orfeu ceda à tentação de olhar
para trás, desviando-o da meta e perdendo Eurídice.
Do mesmo modo, nós, se não desenvolvermos a concentração e o
relacionamento constante com nossa alma, seremos destruídos pelos desejos
insaciáveis. O arrependimento não é suficiente se não houver a determinação de
superar o erro. Sem atenção, há desperdício de criatividade e ausência de metas.
Avalie seu poder de concentração. O que tem feito para ter um contato mais
intimo com seu ser eterno? Tem conseguido colocar um teto para os seus desejos?
Como está o seu poder criativo? Procure encontrar outros valores no mito de Orfeu e
Eurídice e veja como você costuma reagir diante do amor sob seus diversos aspectos.
Reveja suas emoções.

VI – O MITO DE BELEROFONTE

Belerofonte era filho de Posêidon, sendo Glauco seu pai putativo. Banido da
cidade por ter matado um tirano de Corinto, Belerofonte fugiu para Tirinto, onde se
abrigou na corte do rei Proteu. A rainha, Estenebéia ou Antéia, apaixonou-se pelo herói,
mas, não correspondida, acusou-o ao marido de tentar seduzi-la. Proteu enviou-o ao rei
da Lícia, Iobates, com uma mensagem: o rei devia matá-lo. Para não infringir as leis da
hospitalidade, o rei encarregou-o de realizar vários trabalhos, que certamente o levariam
à morte. Um deles consistia em destruir Quimera, um terrível monstro cujo corpo era
metade leão, metade cabra, tinha cauda de dragão e vomitava chamas pelas narinas,
causando devastação, destruindo rebanhos e devorando seres humanos.
Antes de ir ao encontro do monstro, o herói foi ao templo de Athena, passando lá
a noite. Durante o sono, a deusa apareceu e entregou-lhe uma rédea de ouro, além de
fazê-lo ver o cavalo alado Pégaso. Segundo suas palavras, assim que o cavalo visse a
rédea de ouro deixaria que ele o montasse sem resistência. Assim aconteceu. Pégaso
levou Belerofonte em seu dorso, levantou vôo e ao avistar a Quimera lançou-se sobre
ela e a matou com um só golpe.
Belerofonte foi exposto a novos perigos em tarefas impostas pelo rei, mas
Pégaso sempre ajudou a vencê-las. Vendo que o herói era protegido pelos deuses, o rei
deu-lhe a filha em casamento e ele tornou-se o herdeiro do trono. O orgulho e a
pretensão tomaram conta de Belerofonte. O herói acreditava-se invencível e quis subir
ao Olimpo montado em seu corcel alado para tornar-se imortal, mas Zeus enviou um
emissário para atormentar Pégaso. O cavalo, irritado, atirou Belerofonte ao chão. A
partir desse dia, ele andou errante pelo mundo, coxo e cego.

Reflexão
Belerofonte é símbolo de imprudência, mas também de inocência e pureza de intenção.
A pretensão vaidosa vitimou o herói, que se tornou incapaz de dominar o monstro
interior da exaltação orgulhosa. O monstro Quimera é a ilusão que expressa o nosso
desafio básico. O germe da perversão está sempre latente. Não podemos permitir que
uma vitória sobre os nossos defeitos ou sobre os obstáculos da vida nos leve a
ultrapassar os limites da sensatez. Nossa tendência é usar uma vitória sobre nossa
natureza inferior como apanágio para desistir do processo de auto-aperfeiçoamento
baseados no orgulho tolo e insensato.

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Voltando ao mito: no início da aventura, Belerofonte venceu graças à pureza e à
força de sua inocência; ele superou a intriga tramada contra ele ajudado pela deusa
Athena, símbolo da combatividade pela verdade. A intervenção de Athena mostra que o
ser humano só encontra condições de vencer a ilusão quando conta com suas
qualidades espirituais passíveis de elevá-lo acima das garras da Quimera.
A impetuosidade pode levar à multiplicação de desejos e à presunção. Pégaso, o
cavalo das musas, é a abstração criativa – quando o herói é derrubado do corcel, sai
derrotado e incapacitado. Sem o poder de abstração, o ser humano não justifica sua
condição como criação de Deus. Sempre que nos desligamos das nossas virtudes e
valores essenciais, ficamos amarrados às nossas negatividades e estacionamos ou
vivemos nossas experiências pela metade.
Entre em contato consigo mesmo, sentindo suas próprias emoções diante da
narrativa do mito. Em que aspectos o mito se identifica com você? Costuma confundir
impetuosidade com coragem? Como reage diante da satisfação ou frustração de suas
expectativas?

VII – O MITO DE PERSEU

Perseu era filho de Zeus e Dânae. Acrísio, avô de Perseu e rei de Argos, soube,
por um oráculo, que sua filha Dânae teria um filho que o mataria. Assim, mandou
construir uma grande arca de madeira, na qual encerrou mãe e filho, e atirou-a ao mar. A
arca chegou a Serifo e foi encontrada por um pescador que levou Dânae e Perseu ao rei
Polidectes, que os acolheu bondosamente.
Polidectes apaixonou-se por Dânae e decidiu casar-se com ela. Porém, com
receio de que o enteado pudesse usurpar-lhe o trono, concebeu um plano para eliminá-
lo: ordenou-lhe buscar a cabeça de Medusa, uma das Górgonas, monstros medonhos que
andavam devastando o reino. Medusa tinha sido uma linda moça, que se orgulhava
principalmente dos seus cabelos. Certo dia, resolveu rivalizar com Athena em beleza.
Furiosa pelo atrevimento de Medusa, a deusa transformou seus cabelos em horripilantes
serpentes. Ela se tornou deste então um monstro cruel e nenhum ser vivo podia olhá-la
de frente, sob pena de virar pedra. Muitos homens e mulheres que ousaram fitá-la
transformaram-se em estátua.
Perseu aceitou a tarefa. Com o escudo dado por Athena, as sandálias de Hermes
e o capacete de Hades que tornava invisível aquele que o usasse, Perseu saiu à procura
de Medusa. Ao chegar ao reduto das Górgonas, observou que Medusa dormia.
Cautelosamente, sem olhar para o monstro e guiando-se pela imagem da criatura
refletida no escud0 de Athena, a decapitou. Colocou a cabeça num saco e partiu.
No caminho de volta, Perseu passou pelos domínios de Atlas, dono dos mais
belos jardins que já existiram, com árvores e frutos de ouro. Quando lhe pediu pousada,
Atlas recusou, pois uma profecia advertira-o a não confiar nos filhos de Zeus. Ofendido,
Perseu roubou os pomos das Hespérides e, a seguir, mostrou a Atlas a cabeça de
Medusa; o gigante então se transformou numa cadeia de montanhas. Os céus e as
estrelas são as testemunhas do fardo eterno que Atlas carrega em seus ombros, o mundo.
Montado em Pégaso, Perseu desapareceu no firmamento.

Reflexão
No espelho de Athena o homem enxerga seu “eu” verdadeiro e não o “eu” que acredita
ser. Por ter enfrentado a verdade refletida no escudo da deusa, Perseu adquire força e
condições de vencer a si mesmo, as falsas valorizações e as falsas crenças. Suporta a
imagem dos seus defeitos representados pela Medusa cruel e ressentida. Hermes lhe
oferece agilidade de raciocínio e a espada da determinação. Pégaso, a inspiração e
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sublimação, renasce, liberto pela coragem. O cavalo das Musas, símbolo da criação
artística, surge da morte da crueldade, do orgulho, da violência e do despeito. A
intuição brota da morte dos aspectos inferiores da personalidade.
A imaginação doentia morre para poder nascer a imaginação criadora. A vida,
vista através de sentimentos inferiores como paixões e competição, torna-se uma arena
em que vaidade e egoísmo saem vencedores, deformando a verdade. Perseu leva a
cabeça de Medusa, simbolizando seu destemor e sua intenção de encarar as
dificuldades no caminho do autoconhecimento. A vitória de Perseu não foi apenas a
morte de Medusa, mas o levar a cabeça, ou seja, a adesão à verdade na busca de si
mesmo.
O escudo de Athena lhe mostrou também suas qualidades positivas. Atlas,
embora grande, forte e poderoso, deixa-se levar pelo medo que alimenta o apego.
Carrega o fardo da insegurança e do isolamento, nem consegue compartilhar. O
pânico, a perseguição, o conceito prévio o petrificam.
Trabalhe a coragem de enfrentar a si mesmo. Como você tem usado a sua
imaginação? Alimentando negatividades e devaneios ou abrindo portas de
criatividade? Reveja seus apegos e a capacidade de vencer conjeturas e experimentar a
verdade.

VIII – O MITO DE PROMETEU

Prometeu era um titã, uma raça gigantesca que habitou a Terra antes do homem.
Prometeu significa previdente, prudente; tinha um irmão, Epimeteu, que significa
imprevidente, imprudente. Os dois irmãos foram incumbidos de fazer os animais com
todas as faculdades necessárias à sua sobrevivência. Observando a natureza e os deuses,
Prometeu engendrou do barro lodoso o homem. Sua criatura não tinha vida e, para
animá-la, Prometeu recorreu a Athena. A deusa, protegendo o titã com seu manto de
invisibilidade, ajudou-o a roubar o carro de Apolo, do sol, o fogo divino. O fogo divino
foi insuflado no homem e este é capaz de criar e transformar a natureza. Zeus, tomado
de ira, exigiu a reparação. Prometeu dispôs-se a oferecer um sacrifício ao deus para
aplacar sua indignação. Matou um boi e, depois de esfolar o animal, encheu o couro
com ossos e estufou-o com ervas; com a carne formou outro boi menor, pediu a Zeus
que escolhesse um deles e enganou o deus. Quando Zeus percebeu o logro, castigou
Prometeu enviando Pandora, uma mulher com atributos e encantos cedidos pelos deuses
e deusas do Olimpo. Pandora trazia consigo uma caixa que ofereceu a Prometeu; ele
recusou, mas Epimeteu, curioso, encarregou-se de abrir a caixa. Na caixa estavam todas
as alegrias e as mazelas humanas, doenças, dores e enganos, que escaparam e se
espalharam pela Terra. No fundo da caixa restou algo, a esperança, para dar ao homem
condições de suportar o mundo e suas provocações. Zeus mandou Hafaístos aprisionar
Prometeu, acorrentando-o ao monte Cáucaso e condenando-o a ter todas as manhãs o
seu fígado devorado por uma águia. Á noite, o fígado se refazia para, no dia seguinte, o
suplício ter continuidade. Hércules libertou Prometeu movido pela compaixão e Zeus o
perdoou e libertou.

Reflexão
Para modelar o homem, Prometeu utilizou a terra lodosa, símbolo do que nos prende à
condição animal, dos instintos primitivos. Quando quer dar vida à sua criatura, ele
recorre ao fogo do espírito refletido no intelecto. Não é a luz do espírito ainda, pois
nesse caso o intelecto está a serviço da supremacia do homem sobre as demais
criaturas e não a serviço do autoconhecimento. É a discórdia entre matéria e espírito,
dissociando a essência da aparência. O pecado original. Zeus se opõe ao homem por
54
este ter recebido o fogo dos deuses; sua ira deve-se à precipitação de Prometeu. Ele
teme as conseqüências que o intelecto longe do espírito pode trazer. O intelecto a
serviço apenas dos prazeres sensoriais pode impedir a descoberta do real sentido da
vida e banalizar-se. Quando Prometeu engana Zeus, ficando com a melhor parte do
boi, isso significa a revolta do intelecto contra o espírito pela exaltação das paixões e
desejos mundanos. Pandora é a ilusão a que estamos todos expostos, a caixa é a
condição humana, sujeita a altos e baixos, à grandeza e à fragilidade. Prometeu resiste
a Pandora, mas é atingido pelo efeito da caixa, fica vulnerável e é acorrentado ao
Cáucaso, ou seja, à densidade. É libertado por Hércules (o homem divinizado) que
reconcilia Prometeu (o intelecto) com Zeus (o espírito), eliminando o pecado original
pela redenção do reencontro de essência e aparência, forma e conteúdo. Athena, a
combatividade pela verdade, ajuda Prometeu a conseguir o fogo dos deuses, mas a
coragem, o espírito de sacrifício, a renúncia e a compaixão de Hércules libertam
Prometeu, trazendo a luz do espírito à consciência. Trabalhe os valores contidos no
mito procurando identificá-los e vivenciá-los.

XI – O MITO DE HEFAÍSTOS

Hefaístos nasceu de Hera; quando do seu nascimento, sua mãe estava furiosa
com Zeus, seu marido. Ele nasceu sem participação de nenhum deus; foi gerado por
partogênese, assim como Athena nasceu sem participação de nenhuma deusa ou mortal,
gerada por Zeus, saída de sua cabeça. O despeito de Hera fez Hafaístos nascer um ser
muito feio, com pés deformados. Ela, horrorizada, jogou-o no Olimpo e esqueceu-se
dele. Ele desceu aos infernos e lá ficou meditando. Perguntava-se por que era órfão e
mal-amado. Odiava Hera com todas as suas forças. Era extremamente hábil, forjava
objetos utilitários, mas sentia um bloqueio nas suas emoções e criações. Sofria tanto o
abandono quando sua deformação. Não podia crer nos seus talentos, era evitado até
pelos seres do Hades por sua disposição amarga e melancólica. No mundo subterrâneo,
ardia de ressentimento e tramava sua vingança contra Hera. Queria que ela sentisse o
que era ser abandonado. Talhou um trono e o ofereceu a Hera; quando a deusa sentou-se
no trono, correntes a prenderam. Prisioneira e suspensa no ar, ela ficou numa espécie de
balanço, no limbo, nem acima nem abaixo, e totalmente só. Em vez de ficar feliz,
Hefaístos sentiu-se mais miserável do que nunca. Muitos deuses haviam implorado o
perdão para Hera, mas Hefaístos se negava, até que Dionísio retirou o anão ressentido
dos infernos enquanto ele dormia e levou-o ao Olimpo, elevando sua consciência.
Hefaístos foi transportado no lombo de um humilde asno; ao despertar, sentiu-se livre e
pleno de alegria por ter bebido da taça do perdão oferecida por Dionísio. Soltou as
correntes que prendiam Hera e libertou-se, libertando-ª Tornou-se o artesão dos deuses,
entrou no Olimpo como o mais criativo e habilidoso dos seus habitantes.

Reflexão
O mito de Hefaístos nos ajuda a trabalhar os valores perdão, generosidade e auto-
aceitação. As emoções fixas, como teimosia e orgulho ferido, geram dor e isolamento.
Hefaístos, quando elevou sua consciência, pôde forjar no seu fogo interior e livrou-se,
livrando Hera das amarras do ressentimento. Quando perdoamos, despertamos para o
amor, a compaixão e a compreensão. Ao se ver livre da amargura e da autopiedade,
Hefaístos libertou sua criatividade e seus talentos.

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X – O MITO DE GANESHA

Ganesha é o senhor dos obstáculos, o guardião das portas e dos mistérios,


nascido apenas de sua mãe Pavarti, retirado da própria substância dela. A deusa certo
dia decidiu criar para si, de si mesma, um servidor e guardião. Raspou sua pele
perfumada e dela nasceu Ganesha, belo, bem-desenvolvido, forte, vigoroso e valente.
Olhando Ganesha cheia de ternura, Pavarti disse: “Você é meu filho e só
pertence a mim”. Encantada, cobriu o jovem de beijos e entregou-lhe uma clava,
dizendo-lhe para defendê-la diante da porta dos seus aposentos.
Shiva, consorte de Pavarti, chegou e quis entrar; o jovem impediu-o e, apesar
das tentativas e esforços de Shiva para convence-lo dos seus direitos de esposo,
Ganesha foi irredutível, não o deixou passar.
A fúria de shiva foi imensa; chamou seus subordinados para afastar Ganesha da
porta, mas foi inútil, o rapaz venceu-os todos. O exército de Shiva foi derrotado e isso
deixou o deus mais irado ainda. Pegou o seu tridente e cortou a cabeça de Ganesha.
Pavarti entrou em desespero inconsolável e, ao ver a dor da deusa, Shiva, para
consola-la, ordenou que o primeiro animal que aparecesse fosse trazido à sua presença.
O primeiro animal foi um elefante, cuja cabeça foi cortada e unida ao corpo de Ganesha.
Ressuscitado, o filho da Mãe do Mundo foi nomeado o senhor dos exércitos de
Shiva,; os “ganas”, gênios do céu. Entre os gênios estavam os “vighnaganas”, os
obstrutores, que dificultam as realizações e provocam erros que desviam os homens de
sua meta. Por isso, Ganesha é Vighneshvara, o senhor dos obstáculos. S´a sua
benevolência permite a superação das dificuldades. É o mestre da iniciação, dos
mistérios e dos ritos pelos quais os obstáculos podem ser removidos ou evitados. Essa é
a razão de ser ele invocado antes de qualquer ritual ou cerimônia religiosa hindu.
Deuses e homens homenageiam Ganesha.
O deus, com corpo de homem e cabeça de elefante, quatro braços, ventre
avantajado, tem como veículo o rato. É representado sentado em uma enorme flor-de-
lótus ou dançando num só pé. Quando sentado, tem o rato aos seus pés. Em cada mão
carrega um símbolo. O machado de lâmina dupla, o “pasha”, ou seja, o látego formando
o princípio e o fim para a volta ao infinito, na mão espalmada, abençoando, traz o
desenho do sol, e na outra mão traz um pode com doces. O rato aos seus pés tem um
prato de comida à sua frente, ao invés de comer, o rato, olha para o deus. É a energia
divina que alimenta o intelecto, clarificado, removendo nossos obstáculos internos e
externos.
Mitologia Hindu

Simbolismo do mito de Ganesha - Ganesha simboliza a unidade fundamental do


macrocosmo e do microcosmo. A cabeça de elefante simboliza a memória, a sabedoria
e o discernimento, pois, com a tromba, o elefante pode arrancar uma árvore, assim
como delicadamente escolher a folha mais tenra para comer. O ser divino e animal, o
imensurável e o individual. Os quatro braços representam o poder e a unidade das
polaridades. O machado é a transformação: destrói para construir. O “pasha” é a
justiça, o cumprimento do processo evolutivo. A bênção representa a eliminação do
medo. O pote com doces representa que o amor de Deus é o mais doce e nutritivo dos
alimentos. Pavarti é o poder da ação; shiva, a fonte de todo o poder; Ganesha, o poder
de discernimento, a sabedoria do que é certo e do que não e. O rato são nossos
instintos e impulsos inferiores.

Reflexão - Nascidos da Mãe do Mundo somos todos nós; somos filhos da Mãe Terra,
sujeitos aos seus desejos e comandos. A troca da cabeça, a metanóia dos gregos, é a
superação da mente feita por shiva, o Senhor dos Universos, o Eterno recriador de
56
mundos; é a transformação que nos permite a consciência da paternidade divina. O
ventre largo é a capacidade de digerir a dos homens. Representa a nossa condição de
transformar egoísmo e sofrimento em compaixão e amorosidade. O rato representa os
nossos instintos, o veículo de Ganesha, assim como nossa natureza humana é o veículo
do nosso espírito, nossa essência divina. O rato, ao invés de comer, olha para Ganesha
em adoração. Quando conseguimos nos assenhorear dos nossos instintos, realizamos
nossa natureza divina.

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PENSAMENTOS DE TRANSFORMAÇÃO

1. Tudo aquilo que você pode fazer, ou sonha fazer, comece agora. A ousadia é
feita de gênio, poder e magia. Comece agora. (Goethe)

2 Se você caminhar com confiança na direção dos seus sonhos e se esforçar


para viver a vida que imaginou, irá encontrar um sucesso inesperado em momentos
comuns. (Henry David Thoreau)

3. Pedi e dar-se-vos-á; buscai e encontrareis; batei e abrir-se-vos-á. Porque


aquele que pede, recebe; o que busca, encontra; e ao que bate, se abre. (Mateus 7,7-
8)

4. Ao ouvir e seguir a sua intuição, em qualquer grau, você se transforma num


canal criativo para o poder superior do Universo. (Shakti Gawain)

5. A mais importante busca humana é esforçar-se pela moralidade em nossa


ação. Nosso equilíbrio interno, inclusive da existência, depende disso. Somente a
moralidade em nossas ações pode dar beleza e dignidade à vida. Fazer disso uma
força viva e trazê-la para a consciência é talvez a tarefa principal da educação.
(Albert Einstein)

6. Somos donos do que calamos e escravos do que dizemos. (Jean Rostand)

7. Uma palavra mal colocada estraga o mais belo pensamento. (Voltaire)

8. Aquele que obtém uma vitória sobre outros homens é forte; porém, quem
consegue vencer a si mesmo é todo-poderoso. (Lao-Tsé)

9. A maior sabedoria é conhecer a si mesmo. (Galileu Galilei)

10. Busquem sua felicidade na felicidade dos outros. (Zoroastro)

11. Antes escutava suas palavras e confiava em suas ações. Agora escuto o que
dizem e observo o que fazem. (Confúcio)

12. Busca dentro de ti mesmo e lá encontrarás tudo. (Sólon)

13. Se sentes mais vergonha diante dos outros que diante de ti mesmo, é porque
não estimas tua alma. (Anônimo)

14. Se estás disposto a admitir que erraste quando erras . . . então és honesto.
(Vicente Alexandre)

15. Não é por veredas planas que se sobe às alturas. (Sêneca)

16. As palavras vão ao coração quando saem do coração.


(Rabindranath Tagore)

17. A autenticidade perde amizades, porém, ganha amigos. (José Narosky)

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18. Dizer o que sentimos. Sentir o que dizemos. Concordar as palavras com a
mente. (Sêneca)

19. Não olhe o seu parceiro como se fosse maior ou menor que você em
estatura... porque Javé não olha o que o homem olha, pois o homem olha o que está
diante de seus olhos, mas Javé olha os corações. (Samuel 16,7)

20. A soberba é uma das mais perigosas enfermidades do espírito. (Montaigne)

21. Deveis fazer a todo custo o que é justo; deveis deixar de fazer o injusto, sem
importar-vos com o que o ignorante pense ou diga. (Krishnamurti)

22. Se as pessoas que ocupam posições de menor destaque não têm confiança
nos de cima, o governo do povo é uma impossibilidade. (Confúcio)

23. Lidera e governa teu povo com bondade e ganharás seu afeto, porque o
governo bondoso e clemente é mais duradouro que a submissão forçada. (Aristóteles)

24. O caráter não é nada de postiço. Não é uma etiqueta que se cola e descola à
vontade. Não é jóia que se exibe em público e se guarda depois a chave, no fundo de
um cofre de veludo. O caráter são hábitos que se imprimem para sempre na vontade.
(D. Aquino Corrêa)

25. O homem de caráter é o mesmo em toda a parte. Sabe guardar as


conveniências, mas desconhece oportunismos. O que não se permite a si mesmo
perante a sociedade, não o faz tampouco em oculto, nem no mais íntimo recesso da
consciência.
(D. Aquino Corrêa)

26. Cada um é responsável pelo que lhe sucede e tem o poder de decidir o que
quer ser. O que és hoje é o resultado dos teus atos passados. O que serás amanhã é o
resultado dos teus atos de hoje. (Vivekananda)

27. A consciência é o melhor livro de moral, e é, seguramente, o que mais


devemos consultar. (Pascal)

28. Aventurar-se causa ansiedade; porém, não se aventurar é perder-se. E


aventurar-se no mais alto sentido é precisamente tomar consciência de si mesmo.
(Sören Kierkegaard)

29. Existem homens que lutam um dia e são bons. Existem homens que lutam
um ano e são muito bons. Porém, existem os que lutam toda a vida. Esses são
imprescindíveis. (Bertold Brecht)

30. Seja uma pessoa e trate os outros como pessoas. (Hegel)

31. Antes de tudo, respeitem a vocês mesmos. (Pitágoras)

32. Esquecendo o caminho já percorrido, me esforço por alcançar o que está


mais adiante. (São Paulo)

33. Não importa a causa do teu sofrimento, não firas teu semelhante. (Buda)

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34. O simples e natural é o supremo e último fim da cultura. (Nietzsche)

35. Não nos falta valor para empreender certas coisas porque são difíceis;
porém, são difíceis porque nos falta coragem para empreendê-las. (Sêneca)

36. Jogar limpo significa, antes de tudo, não culpar os outros dos nossos erros.
(Erick Moffer)

37. Deus olha para as mãos limpas, não para as mãos cheias. (Spinoza)

38. É imprescindível acentuar o fato de que a habilidade de amar depende do


desenvolvimento do caráter da pessoa. (Erich Fromm)

39. Prudente é aquele que analisa suas circunstâncias, observa a conduta dos
que o rodeiam e sabe distanciar-se a tempo do que não convém à sua dignidade.
(Cícero)

40. Deus nos fala no silêncio. (Sai Baba)

41. Fala quando tuas palavras sejam tão doces quanto o silêncio.
(Provérbio chinês)

42. Quem acumula paciência e mansidão diminui seus ofensores e aumenta seus
protetores. (Sai Baba)

43. Não poderás impedir que a melancolia sobrevoe tua cabeça; porém, poderás
conseguir que ela não faça de ti seu ninho. (Provérbio chinês)

44. As lutas da vida nem sempre favorecem o homem mais forte ou mais ágil.
Porém, cedo ou tarde, o homem que triunfa é aquele que espera e confia. (Unamuno)

45. Um homem que não acha satisfação em si mesmo busca encontrá-la em vão
por toda parte. (La Rochefoucauld)

46. Se à noite choras pelo sol, não verás as estrelas. (Rabindranath Tagore)

47. Vossos filhos não são vossos filhos. São filhos e filhas da ânsia pela vida,
desejosa de perpetuar-se. (Khalil Gibran)

48. Se não tivéssemos defeitos não nos agradaria tanto descobrir defeitos nos
outros. (La Rochefoucauld)

49. Nossa maior glória não consiste em não fracassar nunca, porém em nos
levantarmos cada vez que cairmos. (Confúcio)

50. Pelo tamanho da resposta que deres a quem te ofenda saberás o tamanho da
verdade que existe na ofensa. (Mahatma Gandhi)

51. Para saber falar é preciso saber escutar. (Plutarco)

52. Uma resposta suave e humilde enfraquece a ira. (Provérbio árabe)

60
53. A vida humana é comparável a uma árvore, e os compatriotas do indivíduo,
aos seus ramos. Nos ramos vicejam as flores dos seus pensamentos e sentimentos. As
flores transformam-se gradualmente em frutos de boas qualidades e virtudes. O suco
delicioso dos frutos é o caráter. Sem raízes e frutos, uma árvore não passa de madeira
para queimar. A autoconfiança é a raiz da árvore da vida, e o caráter, seu fruto.
(Sai Baba)

54. Ajudar-se a si mesmo leva ao êxito. Não dependa de outros. Pratique a


confiança e a fé em si mesmo. (Vivekananda)

55. A confiança em si mesmo é o primeiro segredo do êxito. (Emerson)

56. De nada servem a fama, o dinheiro, o êxito, se não soubermos criar, ao


longo de nossa existência, laços de amizade sincera, conduta ética, propósito honesto
de nossas atividades, respeito pela lei e pelos nossos semelhantes. (Marcílio)

57. Amizade é uma igualdade harmoniosa. (Pitágoras)

58. Para conseguir o que queiras, te valerá mais o sorriso que a espada.
(Shakespeare)

59. Poucas vezes quem recebe o que não merece agradece o que recebe.
(Francisco de Quevedo)

60. Queixava-me de não ter sapatos, até que vi um homem que não tinha pés.
(Provérbio chinês)

61. Ser desvalido não significa não ter um teto sobre a cabeça; porém, não ter
também quem nos compreenda, quem nos ame. (Madre Teresa de Calcutá)

62. Amar é viver com o coração, ou seja, com a parte mais viva e mais
consoladora do nosso ser. (Henri Lacordaire, pregador francês)

63. Estejam sempre alegres, sejam bons, sejam amigos. E presenteiem com sua
alegria também aqueles que estão tristes. (João Paulo II)

64. Conhece-se o coração do homem pelo que ele faz e sua sabedoria pelo que
ele diz. (Ali Ben Abi Taleb, pensador árabe)

65. Triste daquele que não sabe sacrificar um dia de prazer em prol de seus
deveres para com a humanidade. (Rousseau)

66. Onde existe educação não há distinção de classes. (Confúcio)

67. A bondade nada sabe de cores, credos ou raças. Todos os homens nascem
iguais. (Abraham Lincoln)

68. Ame ao ser humano, pois ele é você. (Nikos Kazantzakis)

69. Buscando o bem de nossos semelhantes, encontramos o nosso. (Platão)

61
70. Ama teu próximo como a ti mesmo. (Jesus Cristo)
71. Devemos ser parentes de todos os seres e de todas as coisas.
(Provérbio indígena, Sioux)

72. Ame sua pátria como ama sua mãe. (Sai Baba)

73. Uma nação goza de paz e prosperidade quando a espada está enferrujada, o
cárcere vazio, o celeiro cheio, a escadaria do templo desgastada, a do tribunal coberta
de ervas, quando os artistas são enaltecidos e honrados, e as condutas são retas.
(O Talmude)

74. O amor pela pátria começa na família. (Francis Bacon)

75. Convenci-me de que só o amor aproxima o que é diferente e realiza a união


da diversidade. (João XXIII)

76. Tudo o que afeta a terra afeta os filhos da terra. (Cacique Seattle, sioux)

77. A Terra será o que são seus homens. Que se abram os teus olhos e teu
coração. (Provérbio náhuatl, México)

78. A humildade nas palavras e nas ações é preferível à esmola que segue a
injustiça. (Maomé)

79. A mais bela obra humana é ser útil ao próximo. (Sófocles)

80. Até uma folha de papel pesa menos quando dois a levantam.
(Provérbio coreano)

81. Às riquezas mal adquiridas, prefere uma pobreza intocável. (Sócrates)

82. Amas a vida? Então não malgaste o tempo, porque esse é o material de que é
feita a vida. (Benjamin Franklin)

83. Não há raças: o que há são modificações diversas do homem, nos detalhes
de hábitos e formas, o que não muda o idêntico e o essencial. (José Martí)

84. Quando se fala demais, as palavras não têm peso. (Gurdjieff)

85. Estar em ócio prolongado não é repouso, porém preguiça. (Sêneca)

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Compilação e Editoração Eletrônica
Luiz Edgar de Carvalho

HÁ MANEIRAS DE LER QUE SÃO MANEIRAS DE SER

Programa de
Educação em
Valores
Humanos

Textos extraídos e compilados do livro


Aulas de Transformação,
O Programa de Educação em Valores Humanos,
de Marilu Martinelli,
Editora Fundação Peirópolis

Lumensana
Publicações eletrônicas
Para ler e pensar
Março – 2009

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