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P rojeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESErMTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanza a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
W_ vista cristáo a fim de que as dúvidas se
¿ dissipem e a vivencia católica se fortalega
* no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.

A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaca


depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
282
"Ao Jovens e as Jovens do
Mundo"

A Renovacao Carismática

A lgreja Proibiu a Leitura da


Biblia?

"Coloquio Sobre a Fé"

"O Estado do Vaticano"

'Vida Pastoral" - "Maria, Mae


de Jesús"

SETEMBRO-OUTUBRO -1985
PERGUNTE E RESPONDEREMOS Setembro - Outubro — 1985
Publicacáo bimestral N9 282

Diretor-Responsável: SUMARIO
D. Estéváo Bettencourt OSB
Autor e Redator de toda a materia No Ano Internacional da Juventude:
publicada neste periódico
"AOS JOVENS E ÁS JOVENS DO MUN
Direlor-Administrador DO" por Jólo Paulo II 358
D. Hildebrando P. Martins OSB
Sim ou Nao?
A RENOVACÁO CARISMÁTICA ... 372
Administrando e distribuido:

Edigóes Lumen Christi No diálogo ecuménico:

Dom Gerardo, 40 - 5? andar, S/501


A IGREJA PROIBIU A LEITURA DA
BIBLIA? 385
Tel.: (021) 291-7122
Gaixa postal 2666
Franqueza realista:
20001 - Rio de Janeiro - RJ
"COLOQUIO SOBRE A FÉ" por Messori-
Ratzinger 402

ASSINATURA PARA 1986


- P.R. MENSAL Utn folheto polémico:
"O ESTADO DO VATICANO" 420
Cr$ 100.000 até o mes de junho
Cr$ 80.000 a quem pagar até 31 de de- Folheando revista:
zembro de 1985. "VIDA PASTORAL" - "MARÍA, MÁE DE
JESÚS" 436
Para pagamento da assinatura de
1986 queira depositar a importan Livros em Estante 442
cia no Banco do Brasil para crédito
na Conta Corrente n? 0031 304-1
em nome do Mosteiro de Sao Bento
do Rio de Janeiro, pagável na Agen
cia da Praga Mauá (n?0435) ou VA
LE POSTAL na Agencia Central do
Rio de Janeiro.
NO PRÓXIMO NÚMERO
RENOVÉ QUANTO ANTES 283 — Novembro-Dezembro — 1985
A SUA ASSINATURA
Comunismo e Cristianismo: desafio ou diálogo?
— O homem na URSS. — O primeiro Estado atsu
COMUNIQUE-NOS QUALQUER do mundo. — DeclarapSo de Los Andas. — SS. Trin-
dade: mito psgSo? — S. -María Goretti: santa por
MUDANCA DE ENDEREC/O
engaño? — A Comunhao na máo. — Notas e Comen
tarios.
Composlcáo e ImpressSo:

"Marques Saraiva"
Santos Rodrigues, 240
Rio de Janeiro Com aprovacáb eclesiástica
SEMEAR E COLHER
A S. Escritura usa a imagem do semeador para designar
a vida presente: «O que o homem semear, ele o colherá... Nao
nos cansemos de fazer o bem; se nao desfalecermos, a seu tempo
colheremos» (Gl 6,7-9). Há, portante, em nossa existencia duas
fases: a da semeadura e a da colheita; a semeadura ocorre
durante a caminhada terrestre; a colheita se fará na patria
definitiva. A primeira é preparagáo e ante-cámara da segunda
(embora a muitos a vida presente parega ser a Vida propria-
mente dita com um «nebuloso» apéndice no além). A segunda
estará na proporgáo da primeira, mas... em proporgáo
ampliada; sim, diz o Apostólo: «Nossas tribulagóes momentá
neas sao leves em relagáo ao peso eterno de gloria que elas nos
preparam até o excesso» (2Cor 4,17). Disto se segué que é
preciso semear de máos cheias para colher de máos ainda mais
cheias: «Irmáos, quem semeia pouco, também colherá pouco;
mas quem semeia com largueza, com largueza também colherá»
(2Cor 9,6).
Para semear com largueza, requer-se generosidade ou
mesmo espirito de sacrificio: «Quem quer salvar a sua vida, há
de perdé-la», diz o Senhor (Jo 12,25). O Salmo 125 explora
este aspecto da realidade, recorrendo á imagem de urna cami
nhada de ida e volta: a ida se dá no tempo atual de semeadura;
é penosa, em meio a lágrimas; mas a volta será feliz, pois encon
trará copiosos frutos: «Os que semeiam em lágrimas, ceifaráo
em meio a cangóes. Váo andando e chorando ao levar a sementé;
ao voltar, vém cantando, trazendo seus feixes» (SI 125,5s).
Portanto quem hoje chora para ser fiel á sua vocagáo crista,
pode estar certo de que há um outro lado da realidade, que será
a sua compensagáo. Ainda sao palavras de Jesús: «Em verdade,
em verdade, vos digo: chorareis e vos lamentareis, mas o mundo
se alegrará. Vos vos entristeceréis, mas a vossa tristeza se
transformará em alegría. Quando a mulher está para dar á
luz, entristece-se porque é chegada a sua hora; quando, porém,
dá á luz, ela já nao se lembra dos sofrimentos pela alegría de
ter vindo ao mundo um homem» (Jo 16,20s).
Estes textos bíblicos nos reconfortam, lembrando-nos que
todas as coisas visiveis estáo relacionadas com valores invisiveis.
Embora o visível seja mais impressionante á primeira vista,
é certamente menos importante do que o seu correlativo invisí-
vel; é no tempo presente que construimos a nossa vida definitiva
ou que preparamos a estatura espiritual que teremos por todo
o sempre.
A luz destas verdades, lancemos nosso olhar sobre a
historia que nos cerca, e saibamos responder aos seus apelos
com renovada generosidade, com paz profunda e confianca
inabalável! E. B.
— 357 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XXVI — N? 282 — Serembro-outubro de 1985

No Ano Internacional da Juventude:

"Aos Jovens e as Jovens do Mundo"


por Joáo Paulo II

Em sinlese: No Ano Internacional da Juventude, Joáo Paulo II escre-


veu urna Carta aos Jovens do mundo ¡nteiro, abordando de modo sabio os
diversos pontos de interrogacáo dos seus destinatarios. O texto constituí
um manual completo de referencias capazes de elucidar a juventude: Deus,
a formacáo moral, a escolha do futuro (sacerdocio, Vida Religiosa, matri
monio...), a ¡nstrucáo profesional, a cultura, o trabalho, o desemprego,
o esporte, o amor á natureza, ás obras dos homens, a amizade, o servlfo
aos semelhantes, as prospectivas em relacáo ao terceiro milenio, a respon-
sabilidade dos jovens ancorados na fé e certos da vitória do Senhor Je
sús... sao temas que caracterizam e enriquecem este precioso documento.

Por ocasiáo do Ano Internacional da Juventude (1985), o


Papa Joáo Paulo II quis escrever urna Carta aos jovens de am
bos os sexos datada de 31 de margo de 1985. Este documento
considera os íntimos anseios de todo jovem como também as
múltipla formas de suas atividades em nossos dias, constituindo
um texto propicio para valiosas reflexóes. Em vista disto,
passamos a propor uma síntese dos dizeres de tal Carta.

A CARTA

1 . Intradugóo

O documento abre-se com a citac.5o de palavras da 1 Pd:

"Estai sempre prontos para uma resposta vitoriosa a todo aquele que
vos interrogar acerca da esperanga que vos anima" (1Pd 3,15).

Estes dizeres do Apostólo exortam todo cristáo a tomar cons-


ciéncia do porqué de sua fé e de suas expressdes de fé. Assim sao
interpelados também os ¡ovens, ... e de maneira particularmente
enfática no ano que Ihes é dedicado; juventude e esperanca sao tor-

— 358 —
O PAPA AOS JOVENS

mos que se as<ociam muito adequadamente, pois aos jovens é con


fiado o futuro da humanidade, «a responsabilidade daquilo que um
día se tornará atual. . . e que aínda é futuro». Este futuro temporal
tem que ser preenchido nao só com bens de cultura científica e téc
nica, mas também com valores éticos, que dispoem o homem para a
fruicao da vida eterna (n9 1).

2. Cristo fala com os jovens

No Evangelho Cristo aparece falando com a ¡uventude, especial


mente no diálogo relatado em Me 10,17-22; Mt 19,16-22; Le 18,18-25.
Através do jovem ai interpelado pode-se dizer que o Senhor fala
com os ¡oven5 e as ¡ovens de todas as nacoes e de todos os tempos:
«Cada um de vos é um dos seus interlocutores potenciáis neste diá
logo». — Por isto as reflexoes subseqüentes serao inspiradas pelo
texto do Evangelho atrás citado.

3. A juvenfude é urna riqueza singular

O Evangelho diz que corto ¡ovem, possuidor de muitos bens, foi


procurar Jesús para ¡nterrogá-lo a respeito da vida eterna.

Que «muitos bens» eram esses?

— Certamente eram as riquezas materiais das qua;s o ¡ovem era


proprietário. Além disto, porém, o jovem possuía outra riqueza, que
era a da sua própría ¡uventude. Com efeito; «o período da juventude
é o momento de urna descobcrta particularmente intensa do eu humano
e das propiedades e capacidades a ele conjuntas. . . Esta riqueza
consiste em descobrir e conjuntamente programar, escolher, prever e
ossumir as primeiras decisoes de man eirá pessoal, que terao impor
tancia para o futuro», importancia pessoal e, ao mermo tempo, social
ou comunitaria.

Mas será que a riqueza que é a juventude, afasta de Cristo,


como ocorreu ao jovem do Evangelho? — Nao; o jovem se afastou
de Cristo por estar apegado ás suas riquezas, nao por ser ¡ovem; ao
contrario, a sua ¡uventude — cheia de ideal e entusiasmo — é que
o tinha levado a Cristo a fim de O interrogar sobre a vida eterna;
como jovem, ele foi pedir a Jesús um projelo de vida: «que devo
fazer para que a minha vida tenha todo o seu valor e pleno sentido?
Que devo fazer para alcancar a vida eterna?»

Estas perguntas, todo homem as poe a si mesmo ao longo de


toda a sua vida; na juventude, porém, elas imp5em.se de maneira
particularmente intensa — e é bom que isto aconteca. Principalmente

— 359 —
4 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

quando a vida é carregada de sofrimentó, o ser humano vé-se obri-


gado a indagar a respeito do sentido da sua existencia, removendo
qualquer forma de auto-ilusao.

4. Deus é Amor
Jesús responde á interrogacao do ¡ovem, dizendo-lhe: «Ninguém
é bom sendo só Deus» — o que significa: «Só Deus é o fundamento
último de todos os valores,- só Ele dá um sentido decisivo á nossa exis
tencia humana». Sem Deus o mundo dos valores criados fka como
que suspenso num vazio absoluto; ... o mal apresenta-se como bem
e o bem fica desqualificado.

E por que é que só Deus é bom?

— Porque Ele é Amor (Uo 4,8.10). «Com efeito, Deus amou


tanto o mundo que deu o seu Filho Unigénito» (Jo 3,16). Estes dize-
res encerram em si a solucao definitiva para a questao do sentido da
vida. «Quanto eu rezo a fim de que vos, jovens meus amigos, oucais
esta resposta de Cristo de modo verdaderamente pessoal, a fim de
que encontréis o caminho interior, para a compreender, para a acei
tar e para a realizar!»

De resto, responder a Deus, que é Amor, nao é táo difícil ao


homem, visto que este foi criado á imagem e semelhanca de Deus.
Este fato nos dá a entender que o homem sem Deus nao pode com
preender a si mesmo como também nao se pode realizar. Jesui
Cristo veio ao mundo, antes do mais, para nos tornar conscientes
disto.

5. A pergunta sobre a vida eterna


O jovem perguntou a Jesús: «Que devo fazer para alcancar
a vida eterna?» Esta pergunta parece pouco significativa para o
homem de hoje, cuja a ten cao e solicitude é sempre mais voltada para
o progresso temporal: «A ciencia aliada á técnica descobriu, de
maneira incomparável, as possibilidades do homem em relacáo á
materia; e conseguiu, por outro lado, dominar o mundo interior do
seu pensamento, das suas capacidades, das suas tendencias e das
suas paixóes».

Todavia Cristo dilata os horizontes do homem, dizendo-lhe que


ele tem urna alma ¡mortal e que o seu destino último está em Deus;
o Evongelho que Ele anunciara, foi selado definitivamente com a sua
Cruz e Ressurreicao. Qualquer explicacao da vida e qualquer pro-
jeto de futuro que prescinda do além, sufoca a criatura humana. Dai
a necessidade de que o cristño, embora se sinta comprometido com

— 360 —
O PAPA AOS JOVENS

o sua vocacáo neste mundo, deve procurar chegar ao desapego em


relacño a esta rica e apaixonante realidade que é o mundo. «Passa
o cenário desfe mundo... O homem... nasce com a perspectiva
do día da sua morte; ao mesmo tempo, o homem cuja razSo pro
funda de ser está no superar-se a si mesmo, comporta também em
si tudo aqvilo com que vence o mundo».

«O Cristianismo ensina-nos a compreender a temporalidade na


perspectiva do Reino de Deus, na perspectiva da vida eterna. Sem
esta, a temporalidade, mesmo a mais rica e elaborada, nao traz ao
homem senao a inelutável necessidade da morte».

Verdade é que a juventude pode julgar-se distante da


morte. Todavía, a menos que seja cega, é-lhe impossível con-
ceber o seu projeto de vida sem levar em conta a pergunta e
a realidade atinentes ao fim desta caminhada terrestre, ...
fim que na verdade nao é senáo a passagem para a vida defi
nitiva.

6. Sobre a Moral e a consciencia

Como caminho para a vida eterna, Jesús indicou aos jo-


vens os mandamentos. Estes determinam o valor moral dos
atos humanos. Estáo inscritos (exceto o terceiro, relativo ao
dia do Senhor) na consciencia moral da humanidade, de modo
que nao somente os judeus e os cristáos, mas também os
outros homens os podem reconhecer, como afirma Sao Paulo
em Rm 2,14s: «Cada um de nos desde a juventude tem a
experiencia da voz da consciencia».

Esta fala sempre a respeito dos diferentes atos do homem,


acusando-os ou defendendo-os. É necessário, porém, que cada
individuo procure formar em si urna consciencia moral reta,
isenta de qualquer deformagáo proveniente do relativismo ou
do utilitarismo.

«Caros jovens, meus amigosl Cristo... pergunta-vos ,qual é o


estado das vossas consciéncias. Esta é a ¡nlerrogacao fundamental
da vossa ¡uventude, que há de contar em rodo o vosso projeto de
vida... O valor deste anda intimamente ligado á posicao que cada
um de vos tem diante do bem e do mal moral».

Tocamos aqui a dimensáo mais importante do tempo e


da historia. «A historia, de fato, é escrita nao só pelos aconte-
cimentos que se desenrolam, em certo sentido, 'de fora'; mas
é escrita, antes do mais, 'de dentro': é a historia das cons
ciéncias humanas, das Vitorias ou das derrotas moráis». A

— 361 —
6 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

consciéncia humana joga nao só com o tempo, mas também


com a eternidade; o homem leva para além da fronteira da
morte o depósito de bem e de mal que ele tenha acumulado
para si no decorrer desta vida. Em cada um dos nossos atos
está presente a dimensáo da vida eterna.

7. «Jesús fitou-o com amor»

O jovem respondeu á indicacáo de Jesús, dizendo-lhe que


já observava os mandamentos de Deus... Excelente estado
de ánimo: ter a consciéncia tranquila diante de Deus ou ter
urna personalidade moralmente bem formada. Esta constroi
a familia, a sociedade, a profissáo, a política, a comunidade
da Igreja... Entre os valores moráis sobressai o do amor,
que leva o homem a abrir-se para Deus e para o próximo;
é ele que cria a fraternidade entre os homens e que o leva a
nao fazer a outrem o que alguém nao quer para si mesmo.

A quem assim vive, Jesús fita com amor. Neste olhar


amoroso de Cristo está contida, em sintese, toda a Boa-Nova.
«Desejo a cada um e a cada urna de vos que descubráis este
olhar de Cristo e que viváis totalmente a sua experiencia...
talvez no momento do sofrimento, talvez por ocasiáo do tes-
temunho de urna consciéncia pura, como no caso do jovem do
Evangelho, ou talvez numa situacáo oposta: quando se impóe
o sentido de culpa com o remorso de consciéncia. Cristo efeti-
vamente olhou também para Pedro na hora da sua queda:
quando ele tinha renegado por tres vezes o seu Mestre». É
necessária ao homem a consciéncia de ser amado eternamente
por um amor que se revelou mais forte do que todo mal e
toda destruigáo.
8. «Segue-me»

Continuando o diálogo com Jesús, o jovem, desejoso de


perfeicáo, perguntou ao Senhor: «Que me falta ainda?» Esta
pergunta indica a existencia, no coracáo do homem, da aspi-
racáo a algo que transcende os trámites habituáis da vida
honesta; a busca do Absoluto leva o homem a facanhas
extraordinarias. Esta busca sugere aos nao cristáos (budistas,
hinduistas, maometanos...) a pobreza material e a pureza
espiritual; aos cristáos ela inspira o programa das oito bem-
-aventurancas, o do sermáo da montanha (Mt 5-7) e o dos con-
selhos evangélicos, que Jesús formula em resposta ao jovem
sequioso: «Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens;
dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; depois vem e
segue-me» (Mt 19,21).

— 362 —
O PAPA AOS JOVENS

As palavras de Jesús tém significado particular para os


jovens de todas as geracóes, inclusive para nossos dias. Elas
traduzem o chamado ao sacerdocio ministerial (que na Igreja
latina implica o celibato) ou á Vida Religiosa consagrada pelos
votos de pobreza, castidade e obediencia.

«é por isto que desejarla dizer-vos, a todos e a cada um de vos,


¡ovens. . .: se um tal chamamcnto chegar ao teu coracáo, nao o sufo
ques! Deixa que ele se desenvolva até a maturidade de urna vocacáo!
Colabora com ele mediante o oracao e a fidelidade aos mandamentos!
"A messe, de fato, é abundante' (Mt 9,37)... Há enorme necessidade
de sacerdotes segundo o coracáo de Deus — e a lgre¡a e o mundo
de ho¡e tém enorme necessidade de um testemunho de vidas dadas
scm reserva a Deus: do testemunho de um amor esponsal ao próprio
Cristo, que, de modo particular, torne presente entre os homens o
Reino de Deus e o aproxime do mundo».

9. O projeto de vida e a vocacao crista


O Senhor Deus chama nao apenas para o ministerio
sacerdotal e a Vida Religiosa; Ele chama também para esta
dos de vida e tarefas seculares. «Pode-se chegar a ser imita-
tador de Cristo de diversos modos:... nao somente dando tes
temunho do reino escatológico de verdade e de amor, mas
também aplicando-se na transformacáo de todas as realida
des temporais segundo o espirito do Evangelho. É aqui que
tem o seu ponto de partida também o apostolado dos leigos,
que é inseparável da própria esséncia da vocacáo crista». Esta,
alias, está intimamente associada a recepcáo dos sacramentos,
que, por sua vez, tém suas raizes na sacramentalidade da Igreja.

10. «Grande Sacramento Esponsal»

Dentre os sacramentos há um que se impóe geralmente


á consideragáo dos jovens com particular énfase: o do matri
monio. No projeto de vida que cada jovem formula, encon-
tra-se muitas vezes a experiencia do amor conjugal, que tem
suas origens na própria obra criadora de Deus; Ele fez homem
e mulher, chamados a se complementar mutuamente. Tal
complementagáo é rica em valores e bela; é preciso cuidar,
porém, de que nao seja falsificada nem deturpada. «Através
desse amor que nasce em vos — e que tem de ser inscrito no
projeto de toda a vida — deveis ver a Deus, que é amor
(cf. Uo 4,8.16)».

— 363 —
8 tPERGUNTE E RESPONDEREMOS? 282/1985

Precisamente na fase em que os jovens pensam em seu


futuro consorcio matrimonial, é importante que nao se afas-
tem de Cristo, mas, ao contrario, se empenhem mais ainda no
diálogo com o Senhor. É Cristo quem ensina o amor esponsal
e o íaz participar da uniáo de amor maior, que é o de Cristo
com sua Igreja (cf. Ef 5,32).

«Pensó que o futuro do homem se decide, em boa parte, ao longo


da caminhada deste amor, inicialmente juvenil, que vos, que tu e
ela... que tu e ele, descobris nos caminhos da vossa juventude. Nisto
há — pode-se dizer — urna grande aventura; mas há também urna
grande tarefa a cumprir».

«Hoje em dia os principios da Moral conjugal crista, em muitos


meios, sao apresentados sob imagem deformada. Procura-se impor
a vastos círculos... um modelo que se autoproclama 'progressista'
e 'moderno'. Nao se repara, quando assim acontece, que neste modelo
o homem e, talvez, sobretudo a mulher, de sujeito é transformado
em objeto (objeto de manipulacáo específica) e todo o vasto conteúdo
do amor é reduzido ao gozo do prazer que, mesmo que existisse de
ambas as portes, nao deixaria de ser egoísta na sua esséncia. Por
fim a enanca, que é o fruto e a encarnacao nova do amor dos doij,
torna-se cada vez mais 'um adjunto incómodo'. A civilizacáo materia
lista e a civilizacáo do consumo penetram em todo este maravilhoso
conjunto do amor conjugal, paternal e maternal e despoja-o daquele
conteúdo profundamente humano, que desde o principio foi marcado
por um cunho e reflexo divino.

Caros ¡ovens, meus amigos! Nao permitáis que vos seja subtraída
esta riqueza!... Nao tenhais medo do amor que impoe ao homem
exigencias precisas».

11. Heranga
A historia da humanidade passa, desde as suas origens
— e passará até o fim —, pela familia. O homem entra nela
mediante o nascimento, que ele deve aos pais; depois deixará,
no momento oportuno, este primeiro ambiente de vida e de
amor e passará a um outro novo. Deixando o pai e a máe,
cada qual, em certo sentido, os leva consigo; assume a múl
tipla heranga que tem na familia a sua fonte. E ele próprio
— ele e ela — continuará a transmitir a mesma heranga.
Ora esta compreende numerosos bens: antes do mais, o
de ser pessoa humana; depois, o de ser membro de urna socie-
dade, que tem seu idioma, sua cultura, sua nacionalidade, sua
patria, sua historia... Estes sao enormes valores, que tra-

— 364 —
O PAPA AOS JOVENS

zem consigo um apelo á consciéncia moral de cada individuo.


cDevemos fazer tudo aquilo de que somos capazes para assu-
mir esta heranga espiritual, para consolidá-la, para conservá-la
e para desenvolvé-la».

«As figuras eminentes da historia, antiga ou contemporánea, de


urna nacao, também servem de guias para a vossa ¡uventude e favore-
cem o desenvolvimento daquele amor social, que mais freqüentemente
ó chamado 'amor patrio' ».

12. Talentos e obriga$6es


No contexto da familia e da sociedade insere-se o tema
do trabalho. Todo jovem procura conhecer sempre melhor a
si mesmo para descobrir os seus talentos pessoais e assim ave
riguar os tipos de tarefas e atividades que poderá ou deverá
desenvolver durante a sua vida.
Sem dúvida, o trabalho é algo de arduo e penoso, mas
ele forma e, em certo sentido, cria a personalidade do homem.
A fim de que isto acontega devidamente, requer-se a prepa-
racáo para o trabalho ou a escola, que abrange diversos graus,
desde o primario até a Universidade; em todas estas institui-
góes é de enorme importancia o papel dos professores, educado
res e orientadores, a quem particular responsabilidade incumbe
pela formagáo dos jovens. A instrugáo é um dos bens funda
mentáis da civilizagáo humana, de modo que é de se lamentar
a condigáo daqueles jovens que estáo privados da possibilidade
de instrugáo; esta lacuna constituí um desafio permanente as
autoridades e pede solugáo adequada.
Está claro que a instrugáo e a escola devem estar vol-
tadas para a verdade; esta é a luz da inteligencia, da qual todo
homem deve viver. A fome de verdade constituí a aspiragáo
fundamental de todo ser humano. Por isto também o trabalho
deve servir á verdade, que o homem há de cultivar durante a
vida inteira.

A esta altura nao se poderia deixar de mencionar o pro


blema do desemprego, que atormenta as geragóes jovens do
mundo inteiro, disseminando a inseguranca em seus coragóes.
Daí a importancia de recordar a todos os governantes e res-
ponsáveis no campo da economía que o trabalho é um direito
do homem; por isto há de lhe ser assegurado mediante a cria-
gáo de oportunidades de trabalho para todos. «Mediante o tra-

— 365 —
10 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

balho, o homem nao só transforma a natureza,... mas tam-


bém se realiza a si mesmo como homem, e até, em certo sen
tido, se torna mais homem».

13. A auto-educa$cio e as ameagas

A familia e a escola exercem importante papel educativo.


Todavía este nao basta. Requer-se a colaboracáo do próprio
educando num permanente trabalho de auto-educacáo. Sim; a
estrutura interior de cada um nao pode ser construida apenas
de fora para dentro; cada um tem de a construir por dentro,
pelo esforco unido á perseveranca e á paciencia (o que nem
sempre é fácil para os jovens).

A auto-educagáo na juventude póe os alicerces do desen-


volvimento sucessivo da personalidade; a juventude é a «escul-
tora que modela toda a vida». A tarefa de auto-educacáo terá
em mira especial a verdade, a ser cada vez mais penetrada, e
a liberdade; esta nao significa «fazer tudo o que me apetece
ou o que sinto o impulso de fazer», mas ela implica a disci
plina e o autodominio; «ser verdadeiramente livre significa ser
um homem de consciéncia reta, ser responsável, ser um homem
'para os outros'».

As exigencias de auto-educacáo sofrem ameacas diversas


da parte do mundo contemporáneo, ameacas que podem impri
mir no jovem marcas para o resto da vida:

«Quero aquí aludir, por exemplo, a tentacao do criticismo


exasperado, que desejaria discutir tudo e por tudo em questáo; ou
á tentacao do ceticismo em relagño aos valores tradicionais, do qual
se resvala fácilmente para urna especie de cinismo petulante, quando
se trata de enfrentar os problemas do trabalho, da profissáo e do
próprio matrimonio. E como deixar em silencio, ainda, a tentacao
constituida pela propagacáo, sobretudo nos paises mais prósperos, de
urna comercializacáo do diverrimento, que afasia de urna aplicacáo
feria em viver bem a vida e arresta para a passividade, para o egoísmo
a para o isolamento?

Constituí também ameaca para vos, carissimos ¡ovens, o mau uso


das técnicas publicitarias, que incentiva a tendencia natural pora fugir
ao esforco, prometen do a satisfácelo ¡mediata de todos os desejos, ao
mesmo tempo que o consumismo, ligado a esse mau uso, insinúa que
o homem procure realizar-se a si mesmo sobretudo pelo gozo dos bens
materiais. Quantos e quantos ¡ovens, apanhados pelo fascínío de
miragens engañadoras, se abandonam á forca incontrolada dos instin
tos, ou se aventuram por caminhos aparentemente ricos de promessa,

_ 366 —
O PAPA AOS JOVENS 11

mas destituidos, na realidade, de perspectivas auténticamente humanas!


Sinto a necessidade de repetir aqui tudo aquilo que escrevi na Men-
sagem que vos dediquei, a vos precisamente, pelo Dia Mundial da
Paz deste ano: 'Alguns de vos podem ser tentados a fugir ás responsa
bilidades: evadir-se no mundo ilusorio do álcool e da droga, nos
efémeras relacoes sexuais sem compromissos pelo que respeita ao
matrimonio e á familia, na indiferenca, no cinismo e até na violencia.
Estai alertas contra o engodo de um mundo que quer explorar e
manipular a vossa busca enérgica e generosa de felicidade e de
orientacáo' ».

Concluí o S. Padre:

«Escrevo-vos tudo isto para exprimir a viva preocupacáo que


tenho em relacáo a vos. .. A todos aqueles que, com varias formas
de tentacoes e ilusoes, procuram destruir a vossa ¡uventude, nao posso
deixar de lembrar as palavras de Cristo, quando se refere ao escándalo
e aqueles que o provocam: 'Ai daqtiele por cuja obra os escándalos
vém! Melhor seria para ele se Ihe pendurassem ao pescoco urna pedra
de moínho e fosse lancado ao mar, do que escandalizar um so destes
pequeninos'.

Palavras .graves! Particularmente graves na boca daquele que


veio revelar o amor. Mas quem ler com atencao precisamente estas
palavras do Evangelho, deverá compreender quanto é profunda a
antítese entre o bem e o mal, entre a virtude e o pecado. Deve captar
ainda mais claramente a importancia que a ¡uventude de cada um e de
cada urna de vos tem aos olhos de Cristo. Foi verdaderamente o amor
pelos jovens que Ihe ditou estas palavras graves e severas».

14. A ¡uventude como «crescimento»


«Jesús crescia (ou progredia) em sabedoria, em idade e em
graca diante de Deus e dos homens» (Le 2,52).

Assim a juventude é também um período de crescimento.


Este tem diversas facetas: é, antes do mais, crescimento cro
nológico, ao qual está naturalmente ligado o desenvolvimento
psico-físico ou o crescimento de todas as energías, pelas quais
se constituí a individualidade humana normal. Outras dimen-
eóes se devem ainda enunciar como elementos imprescindíveis:
haja a integragáo gradual de tudo aquilo que é verdadeiro, que
é bom e que é belo; e isto, nao só quando a vida é fácil, mas
também quando (e estes sao a maioria, senáo a totalidade, dos
casos) anda ligada aos sofrimentos, á perda de pessoas queri
das e a toda a experiencia do mal que incessantemente se faz
sentir no mundo em que vivemos.

— 367 —
jL2 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

O variegado crescimento da juventude é altamente bene


ficiado pelo contato com a natureza; este enriquece-nos, pois
nos ajuda a descobrir e acolher o misterio da criagáo, fazendo-
-nos passar espontáneamente dos valores visiveis para os invi-
síveis. É bom para o homem ler nao apenas nos livros impres-
sos, mas também no livro da natureza, através do qual trans-
parece a sabedoria do Criador. Para obter este contato com a
natureza, cada um tem de se esforcar, procurando conseguir
o tempo necessário e aceitando as fadigas que o mesmo com
porta; esta fadiga é criadora.

A propósito deve-se mencionar também o esporte como


ocasiáo de crescimento nao só físico, mas também interior, do
ser humano. A prática do esporte proporciona ao homem a
alegría de dominar-se e de superar obstáculos e resistencias;
ora isto faz crescer.

Mais: o crescimento dos jovens pode ser obtido também


mediante o contato com as obras dos homens e, mais ainda,
com os homens vivos.

Com as obras dos homens... «Vivendo em contato com


elas, no vasto campo de tantas culturas diferentes, de tantas
artes e de tantas ciencias, nos aprendemos a verdade sobre o
homem..., a verdade que contribuí para formar e aprofundar
a humanidade de cada um de nos».

O contato com outros homens... Este pode assumir a


forma de amizade e oamaradagem num ámbito mais vasto do
que a própria familia, exigindo sempre o senso crítico e a
capacídade de discernimento dos verdadeiros valores... Pode
igualmente assumir a forma de servigo aos outros numa doa-
gáo generosa, que nos faz ser mais plenamente homens.

De resto, o múltiplo crescimento dos homens jamáis pode


prescindir do contato com Deus, que se obtém especialmente
mediante a oragáo. «Rezai e aprendei a rezar! Abrí os vossos
coragoes e as vossas consciéncias diante daquele que vos co-
nhece melhor do que vos mesmos. Falai com Ele! Aprofundai
a Palavra de Deus vivo, lendo e meditando a Sagrada Escri
tura ... Deus responde de modo totalmente gratuito, pelo dom
de si, dom que na linguagem bíblica se chama 'graca1. Procurai
viver na graga de Deus!»

— 368 —
O PAPA AOS JOVENS 13

15. O grande desafio do futuro

No final do segundo milenio, a Igreja olha para os jovens


como sendo os portadores da sua esperanga num futuro me-
Ihor; a Igreja é chamada a ser «o sacramento ou sinal e ins
trumento da intima uníáo com Deus e da unidade de todo o
género humano» (Lumen tientium n1* 1). Contemplamos, po-
rém, o mundo dividido e dilacerado por múltiplos fatores que
aíetam a sensibilidade da própria juventude: «Centenas de mi-
lhares de homens vivem em miseria extrema, até morrerem
de fome, enquanto somas enormes sao empregadas na produ-
gáo de armas nucleares, cujos arsenais já estáo em eondigóes
de provocar a autodestruigáo da humanidade». Parece dese-
nhar-se a possibilidade de catástrofes verdaderamente apoca
lípticas.
Diante disto, podem os jovens perguntar: Por que é que
chegamos a isto? Quais as causas da injustiga que tanto nos
impressiona? Por que tantas prisóes, tantos campos de con-
centragáo, tanta violencia sistemática, tantas torturas...?
«Vos, jovens, podéis perguntar tudo ¡sto, ou melhor, deveis
perguntá-lo! Trata-se efetivamente do mundo em que vivéis hoje e no
qual ha veis de viver amanha, quando a geracao atualmente de idade
mais madura tiver passado. Com razao, pois, perguntais: por .que
é que um (So grande progresso da humanidade no campo da ciencia
e da técnica, que nao tem comparacao com o de nenhuma época
precedente da historia, por que é que o progresso no dominio da
materia, por parte do homem, se volta contra o mesmo homem, em
tantos aspectos? Vos perguntais também justamente, e sem dúvida com
um sentimenlo íntimo de medo: Será porventura irreversível este estado
de coisas? Poderá ele ser mudado? Conseguiremos nos mudá-lo?

Com razao vos perguntais isto. Sim, esta é urna per,gunta funda
mental no ámbito da vossa geracao».

A estas perguntas responde o S. Padre citando palavras


do Apostólo Sao Joáo: «Escrevo-vos, jovens, que já vencestes
o Maligno. Escrevi-vos, filhinhos, porque conheceis o Pai...
Escrevi-vos, jovens porque sois fortes e a Palavra de Deus
permanece em vos» (Uo 2,13s). Sao palavras antigás e mo
dernas, que traduzem a fé,... a fé portadora da vitória do
bem sobre o mal: «Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa
fé» (Uo 5,4).

— 369 —
14 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

A fé, que pete o jovem em contato com o Cristo e lhe dá


comunháo com a sua Palavra vitoriosa, há de habilitar o cris-
táo a lutar contra o mal e a superá-lo.

«O Apostólo escreve: 'Vencestes o Maligno!' E verdade. £ pre


ciso remontar constantemente as raízes do mal e do pecado na historia
da humanidade e do universo, assim como Cristo remontou a essas
mesmas raízes no misterio pascal da sua Cruz e da Ressurreicáo. Nao
se há de ter medo de chamar pelo nome o primeiro artífice do mal:
o Maligno. A tática que ele adotava e continua a adotar consiste em
nao se revelar, a fim de que o mal por ele inoculado desde o principio
cresca a partir do próprio homem, dos próprios sistemas e das relacóes
entre os homens, entre as classes e entre as nacoes... — para se
tornar também cada vez mais pecado 'estrutural' e cada vez menos
se deixar identificar como pecado 'pessoal'. Conseqüentemente, para
que o homem se sinta de algum modo 'liberto' do pecado e, ao mesmo
tempo, cada vez mais se venha a encontrar mergulhado no pecado.

O Apostólo diz: 'Jovens, sois fortes': é preciso somente que 'a


Palavra de Deus permaneca em vos'. Porque sois fortes, podereis assim
atingir os mecanismos escondidos do mal, as suas raízes; e deste modo
conseguiréis gradualmente modificar o mundo, transforma-lo, torná-lo
mais humano, mais fraterno e, ao mesmo tempo, mais de Deus. Nao
se pode de fato separar o mundo de Deus, nem contrapó-lo a Deus
no coracáo dos homens. Nem se pode separar o homem de Deus,
e contrapó-lo a Deus. Isto seria contra a natureza do mundo e contra
a natureza do homem — contra a verdade intrínseca que constitui toda
a realidade! O coracao do homem está verdaderamente inquieto
enquanto nao repousa em Deus. Estas palavras do grande Santo
Agostinho nunca perderao a sua atualidade».

16. Mensagem final


«Jovens, meus amigos: eis que deposito em vossas maos esta
carta; ela acha-se na esteira do diálogo evangélico de Cristo com
o {ovem e promana do tesremunho dos Apostólos e das primeiras
geragoes de cristaos».

«De vos depende o futuro, de vés depende o final deste milenio


e o inicio do novo. Nao sejais passivos, porta nto; procurai assumir
as vossas responsabilidades em todo os campos que para vos se abrem
no nosso mundo! Juntamente conosco rezarSo os Bispos e os Sacer
dotes ñas diversas partes do mundo pela mesma intenedo.

— 370 —
O PAPA AOS JOVENS 15

E, oo rezarmos assim todos, na .grande comunidade dos ¡ovens


da Igreja inteira e de todas as Igrejas, volvemos o nosso olhar para
María, para Aquela que acompanha Cristo no ¡nido da sua missao
entre os homens: María de Cana da Galiléia, que intercede pelos
¡ovens, pelos esposos recém-casados, quando comeoa a faltar o vinho
para os hospedes no banquete nupcial. Enlao a Mae de Cristo dirige
aos homens que lá eslavam para servir á mesa durante a refeicáo,
estas palavras: 'Fazei tudo o que ele vos disser'. Ele, Cristo.

Faco minhas estas palavras da Mae de Deus e dirijo-as a vos,


jovens, a cada um e a cada urna de vos: 'Fozei tudo o que Cristo vos
disser'. E abencoo-vos em nome da Santissima Trindade. Amén».

Esta Carta, como se vé, constituí precioso manual de refe


rencias para os jovens: abrange de maneira sabia e lúcida os
diversos pontos de interesse da juventude. Fossa encontrar
profunda ressonáncia nos coragóes ávidos daqueles que a lerem,
jovens cronológicos ou jovens que, apesar dos anos, tenham
guardado em si o entusiasmo e as nobres aspiragóes que devem
caracterizar a juventude!

ERRATA

Em PR 281/1985, p. 275, linlia 13, lé-se: «... cometidos


cem advertencia... Kctifique-se o texto para «cometidos com
advertencia...»

* * *

«O OCASO DA NOSSA VIDA FUGAZ £ O DESPONTAR


DA AURORA ETERNA»
(Karl Rahner)

* * *

A PARTIR DE JANEIRO 1986 PR VOLTARA A SAIR


MENSALMENTE.

— 371 —
Sim ou Nao?

A Renovacáo Carismátka
Em sintese: O autor do artigo, Hilario Campion, relata suas experien
cias na Renovacio Carismática da Inglaterra e da Irlanda: aponta abusos
e desvíos multo graves, que redundan) em total desvirtuamento do ideal da
Renovacáo. Tais erros, devidos á falta de formagSo doutrinária e talvez
também a tendencias psicopatológlcas de certos membros da Renovacáo,
nfio sSo Inerentes á índole do Movlmento. Este tem em mira levar os seus
seguidores a urna vida de oracáo mais intensa, em docilidade ás inspiracdes
do Espirito — o que contribui (e realmente tem contribuido) para a santili-
cacao de numerosos fiéis. Os dons extraordinarios e o caráter espetacular
ou teatral de certas manifestacoes "carismáticas" nao fazem parte necessária
da uniao com Deus e da ascensSo para a perfeicáo crista; antes, devem
suscitar suspeitas da parte de quem comeca a experimenta-las; é preciso
provar os espirites e exercer discernlmento entre auténticos dons de Deus
e síntomas patológicos. Se forem observadas tais normas — já militas
vezes enunciadas pelos Papas recentes —, a Renovacáo Carismática poderá
produzlr copiosos frutos na santiticacáo do povo de Deus.

A renovacáo Carismática (RC) tem chamado a ateng.áo


dos fiéis na Igreja. Enquanto muitos lhe aderem entusiástica
mente, outros a censuram. Inegavelmente a RC tem feito
enorme bem a numerosos cristáos, levando-os á vida de ora-
Cáo e ao fervor espiritual; daí a importancia que tem na cons-
trucáo do Povo de Deus. Todavía a procura quase obsessiva
de dons extraordinarios, como línguas estranhas e outros, tem
prejudicado muitos dos membros da RC; tais inconvenientes
nao sao suficientes para se condenar a RC como tal, mas exi-
gem cautelas da parte dos fiéis; seria para desejar que muitos
sacerdotes se dedicassem 'á orientagáo dos grupos de oracáo a
fim de evitar exageras, mal-entendidos e desvíos, que nao sao
inerentes aos principios e aos ideáis da RC.
Para ilustrar os abusos ocorrentes na RC, o Sr. Hilario
Campion, fiel católico leigo inglés, escreveu um artigo que vai
traduzido a seguir1. Frisamos bem que, ao publicá-lo, nao
tencionamos destruir, mas, ao contrario, contribuir para o
desenvolvimento sadio e fecundo da RC.

i A traduclo foi feita a partir do texto francés publicado em "Le


Christ ao monde" 1985, n? I (Jan.-fev.), pp. 47-57.

— 372 —
RENOVACÁO CARISMÁTICA 17

OS PENTECOSTAIS CATÓLICOS

A Casa de tneu Pai

Escrevo por ter feito a experiencia do Pentecostalismo por dentro.


A mudanca que sofri, foi tao sutil que acreditei de todo o coracao ter
razóes para seguir as práticas e a espiritualidade do Movimento.
Pareceu-me extremamente fácil obter que outros se comprometessem.
Uto req-uer pouca coisa; nao exige nem intelecto nem vontade; basta
que alguém seja emotivo. Mas trazer as pessoas á verdade é questSo
muifo diferente.

Tomei consciéncia da grande dificuldade que um individuo isolado


pode experimentar para se afastar do Pentecostalismo. Desde que
alguém se enxerte realmente no Movimento, este se torna urna forma
de vida: tudo gira em torno da reuniao de oracáo, dos «Seminarios»,
dos grupos de pesquisa,... atividades as quais tendemos a nos apegar
fortemente. Nossos amigos perlencem aos grupos carismáticos, falamos
todos a mesma linguagem. As festas e as peregrinacoes carismática*
passam á frente do mais. A RC comporta diversos graus de compro-
misso; muito dependem da posicáo social de cada membro do grupo.
Mas o compromisso mínimo ¡á tem efeitos nocivos para a fé.

Já há mais de dois anos que abandonei todo relacionamento com


a RC. Se olho para tras, vejo até que ponto a minha arrogancia le
alimentava dessa «liberdade de oracáo», como direm. As oracoes
tradicionais da lgre¡a nao tém voga ñas reunioes de oracáo carismática;
na S. Missa eram evitados os hinos católicos que exprimem com tanto
acertó a doutrina da Igreja.

Gracas a Oeus e á bem-avenlurada Mae de Jesús, redescobri o


Catecismo e, com ele, recuperei a conviccao de que a Igreja, seus
sacramentos, sua doutrina, sao indispensáveis á salvacao. Em certo
momento, tive que escolher entre o Pentecostalismo e a Igreja. Fiz a
opcao e voltei ao lar. Retornei á minha familia maravilhosa, onde
Nossa Sen hora é a M5e, onde os anjos e os Santos sao meus irmáos
e minhas irmSs. Tive a felicidade de encontrar um sacerdote bom e
obediente, que me propordonou a leitura de biografías de Santos e
me levou de novo á prática do terco, que, como «¡anca, eu recitava
todas as noites em familia. Eu tentava ser simultáneamente um bom
católico e um bom carismático. Isto foi impossível, pois imperceptivel-
mente, queiramo-lo ou nao, tías reunioes carismáticas os cristáos
perdem o contato com a verdadeira fé.

— 373 —
18 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 282/1985

A via mais segura: a dos Santos

«Eu sou a luz do mundo», diz o Senhor Jesús. «Vos sois a luz
do mundo», disse Ele á sua Igreja. Nesta brilham grandes luminares
que Ele colocou sobre o candelabro para que iluminem todos os que
estáo na casa. Sao eles que nos chamamos «os Santos». O Concilio
do Vaticano II nos diz que, considerando como os Santos vivem, des
cubrirnos as pistas mais seguras qve nos leva rao, através das vicissitudes
deste mundo, á perfeita unido com Cristo, isto é, á santidade dentro
das condicoes próprias do nosso estado de vida.
Mais: a minha experiencia pessoal me ensinou que essa «pista
mais segura» dos Santos e a pista da RC sao vias bem diferentes, tanto
que a caridade e os perigos ameacadores me obrigam a falar alto.
Por conseguíate, caro leitor, eu Ihe ofereco um relatório das minhas
experiencias.

A experiencia da RC
Entrei para a RC ent 1977, .quando me aproximava dos trinta
anos. Fui á primeira reuniáo de oracáo por curiosidade e, a partir de
entao, comecei a freqüentá-la semanalmente. Cheguei a pensar que
essa forma de oracáo e de espiritualidade correspondía a urna
necessidade minha. Como quer que seja, fiquei cerca de cinco anos
totalmente comprometido com a RC. Dirigir reuniSes de oracáo, orga
nizar sessóes, preparar ¡ornadas de renovacáo, impar as máos sobre
os doentes, os deprimidos e os abandonados, tudo isto tornou-se para
mim urna forma de vida. Preferí as Missas carismáticas com guitarras,
cantos modernos, sermóes comovedores, muitas oracóes em línguas, etc.
A minha vida estava centrada sobre o RC, e nao sobre a minha fé
católica; mas eu nao o feria reconhecido entao. Pouco a pouco adotei
atitudes nao católicas e abondonei as minhas devocoes anteriores.
Ainda dava lugar á Virgem SS., quando isto me convinha (mas somente
entao). Eu me sentía capaz de ir a Deus por meus próprios meios.
Eu estava em relacionamento direto com o céu. Os Santos eram coisas
do passado; também as imagens, os bons livros católicos, os sacra
mentos ... Eram substituidos por símbolos, tais como as etiquetas
coladas nos carros: «Jesús é vivo» e o sin al do peixe. Minhas leituras
se reduziam aos livros de bolso pentecostais, desprovidos de qualquer
lastro teológico. Eu gostava muito de rezar. Quando eu achava a
leitura difícil, geralmente recorría as línguas; entao eu me sentia bem;
podia também sentar-me na posicáo recomendada, fazendo exercícios
respiratorios para recuperar o estado de euforia .que me poria em
contato direto com Deus. Sim; a minha vida mudara de todos os modos.
Eu passava por momentos «altos» e magníficos e, quando sobrevinham
depressóes, eu pedia a um amigo que me impusesse as máos; logo
tudo ia bem de novo.

— 374 —
RENOVACAO CARISMATICA 19

«Vossas palavras caem no vazio», diz Sao Paulo

Lembro-me de ter assistido ao Congresso Internacional de Dublin.


Era o ano de 1978. Cerca de 30.000 sacerdotes lá estavam, junto com
milhares de Religiosas. Deus sabe quantas pessoas chegaram nos
últimos tres dias; talvez urnas 30.000. Logo que entrei no estadio,
deixei-me invadir pelo entusiasmo geral. Experimentei algo que posso
chamar «estado extático». Quando os pronunciamentos em línguas
atingiram o mais alto grau, lembro-me de que irresistível fluxo de
lágrimas me inundou a face. Eu me sentia muito leve, totalmente
aberto a todos os dons que Deus me quisesse outorgar. Sim; «u estava
realmente aberto; mas a qué? Todos os dias, os Sacerdotes e as Reli
giosas nos estimulavam a rezar em línguas e a quem nao o conseguía
eles mostravam como fazer. Quando alguém comecava a balbuciar,
apenas repetía o nome de Jesús; aos poucos, era estimulado a proferir
como que um vagido de criancinhas. Ao som das línguas que vibravam,
acrescentavam-se sons estranhos e ininteligíveis. Assim a pessoa era
tida como agraciada para sempre com o dom das línguas. Tivera
pleno éxito.

Entusiasmo

Naquela semana, vi urna serie de coisas estranhas. Olhando para


tras, parece-me ter presenciado curas, que eu poderia testemunhar, mas
apenas curas de menor vulto. Encontreí entao o padre Francis
MacNutt. Lembro-me de que as pessoas o ochavam parecido com o
Cristo. Ho¡e ainda... os seus livros sao em toda parte e sempre
oferecidos aos membros do Movimento e aos católicos. Muitos ¡ulgam
ter sido curados por ele. As pessoas deixam-se táo fácilmente dominar
pelo entusiasmo! Eu mesmo rezei sobre muitos enfermos e ¡ulguei té-Ios
curado. Rezei sobre mim mesmo e me dei por curado. Seria longo
demais referir outros exemplos do que pode produzir a imaginacao
super-excitada. O perígo é realmente grande quando alguém deseja
ter urna doenca e consegue por vezes manifestar os respectivos sínto
mas, a fim de simular urna cura. Nao sei se o fazem para chamar a
atencdo. Mas sei que essas coisas acontecem, mesmo com pessoas
aparentemente equilibradas. O ser humano tem o poder de abusar
de si mesmo.

«Regozijai-vos antes por fer vossos nomes inscritos no céu»


Ao dom das curas está associado, no momento, o de expulsar
os demonios e exorcizar os possessos. Conheci muitas pessoas ator
mentadas por perturbacóes nervosas ou emocionáis, as quais se dava
a entender que precisavam de ser libertadas do demonio. Em con-
seqüéncia acontece que os membros do Movimento considerados

— 375 —
20 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

portadores do dom de exorcizar sao cercados por aqueles que precisam


de exorcismo. Dir-se-ia que os demonios se reunem em torno deles no
intuito de ser expulsos. Os responsáveis nao dño atencño as respec
tivas prescrícóes do Direito Canónico.

Díga-se de passagem: o grupo de oracao de que eu fazia parte,


era dirigido por Religiosas, instruidas e dirigidas por om Religioso
sacerdote, que se dizia gurú. Este pormenor lembra naturalmente o
hinduísmo e mostra como tais práticas podem impedir que alguém
acolha a palavra do Cristo, que diz ser a Porta pela qual todos devem
entrar. Continuci os exercicios durante toda a semana, gracas ao que,
me tornei um «expert». Só me associei a carismáticos católicos, que
me sustentaram fortemente. O grupo de oracao ao qual eu pertencia,
tornou-se minha razao de viver.

Indiferenca
As coisas mudaram também do ponto de vista social. Meu grupo
de oracao tornou-se minha familia. Anglicanos, metodistas, pentecos-
tais, qualquer que fosse a denominacáo, rezávamos ¡untos; a denomi-
nacáo nao tinha importancia... Todos cantávamos a Deus cantos
populares, segurando as maos uns dos outros, unidos no mesmo
Espirito. Pouco importara a nossa religiáo; Deus nos amava, e isto
bastava.

Porta-voz de Deus

Um sacerdote nos dizia: «O que há de surpreendente nessa Reno-


vacao Carismática, é que ela nao exclui o orguiho». Nao é lamentável
que se adulem as pessoas para fazé-las passar da humildade ao
orguiho? Ha verdade, esse orguiho é a arma da qual Satanás se serve
para destruir interiormente a lgre¡a, para acabar com as comunidades
religiosas, as paróquiar, as familias. Onde outrora havia um corpo
compacto á escuta de urna autoridade única, tínhamos doravante
pessoas á escuta de urna voz interior, que era transmitida aos outros
como se fosse revelacáo divina. O presumido dom de profecía
exercia-se em toda parte: ñas reunioes de oracao, durante as Missas
e noutras assembléias carismáticas. Nessas reunioes nao é raro
ouvirem-se mensagens contraditórias. Alguém, em nome de Cristo,
propoe o silencio; outra pessoa, também em nome de Cristo, pede
música e urna prece de louvor. Neste contexto, um fiel, portador do
dom de discernimento, define o que vem de Deus, e é acatado pelos
outros. Tal tipo de profecía ocorre em toda parte: fora das Missas,
das reunioes de oracao, das assembléias. . . mensagens sao dirigidas
em nome de Cristo a urna paróquia, a urna diocese, a urna regiáo, ao
mundo inteiro. Muitas vezes consistem em convite a oracao, ao
¡e¡um..., que sao coisas boas; mas essas indicacoes ¡á foram dada*

— 376 —
RENOVACAO CARISMATICA 21

pelo Espirito Santo mediante a Igreja. Visto que os autores de «profe


cía »> se julgam diretamente inspirados, segue-se que a voz da Igreja
se torna supérflua. As exortacoes de María e dos videntes de Fátima
caem doravanfe nos ouvidos de surdos; mal se ouve o que diz o Santo
Padre. Mas, quando Keifer e Bourgeois proclamam a mensagem
pentecostal, esses filhos da Igreja, surdos á voz de sua MSe, exultam
de emocao.

Uso e interpretacáo da Escritura

Dizem-nos .que a Renovacao Carismática levou de novo o povo


cristao á leitura dos Livros Sagrados. Nao ha dúvida, as máos se vol-
taram para a Biblia, mas os cristáos carismáticos, quando a léem, nao
o fazem á luz dos ensinamentos da Igreja. Estimulam as pessoas a usar
a Biblia de modo supersticioso; abrem-na ao acaso para tentar dis
cernir o que Deus Ihes quer dizer ou para ai procurar respostas diretas
a urna situacáo particular. Sao estas, para eles, as duas únicas
maneiras de utilizar a Escritura.

Um Evangelho contrario á Tradijáo

E verdade, muitos dirao, como eu mesmo disse multas vezes, que


esse novo Movimento os levou a reencontrar a fé.Sim; muitos voltaram
á prática da fé, mas nao por precisarem da Igreja e de seus ensina
mentos, nao por obediencia á fé, mas únicamente para responder a
urna especie de despertar espiritual, como ocorre entre os anglicanos,
os metodistas, os luteranos, etc.

Gozam de relagóes diretas com Deus

Creio que é impossivel a quem se comprometeu com a RC, ficar


por muito tempo em pleno acordó com os ensinamentos da Igreja e
com a nossa fé tradicional, seje Cardeal, seja Bispo, seja sacerdote,
seja leigo. O espirito do Pentecostalismo é demasiado contrario ao
espirito católico. Sinto-me obrigado a acautelar-me contra a idéia de
que o Movimento Carismático Católico deveria ser preservado porque
certas pessoas ai encontram um grande socorro. Chegam ao ponto de
presumir que tudo depende dos dirigentes e que um bom responsável
mantém o seu grupo na fidelidade á Igreja. Na verdade, produz-se
inevitavelmente, entre os próprios dirigentes, um desmantelamento do
espirito do Catolicismo; produz-se, porém, tao paulatinamente que é
preciso tempo considerável para que a vítima o perceba, se é que ela
o acaba percebendo. Vem o momento em que a pessoa já nao faz
parte do Israel verdadeiro ou já nao pertence realmente ao Corpo de

— 377 —
22 «PEKGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

Cristo. Já nao é o irmao ou a irmñ dos Santos da lgre¡a. Em vez


de os escurar (aqueles através dos quais Deus nos mostra seu sem
blante e nos fala de coisas que o nosso tempo precisa de ouvir), as
pessoas se lancam as novidades espirituais, qtialquer que seja a religiáo
professada. Gozando de relacoes diretas com Deus, deixam de ser
membros do Corpo cuja Cabeca é o Filho de Deus e o Filho de María.
A coisa é tño real que alguns dirigentes chegam a experimentar algum
arrependimento e dizem: «Devemos dar lugar a María em nosso Movi
mento». Daí urna quantidade de livros escritos nao por amor a tÁaria,
mas com o desejo de defender o Movimento. Pois o Movimento é
sempre, para os seus membros, a leí suprema.

Necessidade da lgre¡a

Devo acrescentar que, durante todo o tempo em que fiz parte


da RC, tive consciencia da importancia de urna orientacao segura.
Observava o comportamento de nossos padres e Religiosos Carismá-
ticos a fim de me inspirar nele. Isto de nada me serviu, pois o seu
entusiasmo na procura dos dons extraordinarios do Espirito só me
desnorteou. Numa reuniao de responsáveis realizada num convento,
ouvi urna Religiosa minimizar a necessidade do Santissimo Sacramento.
Muitas vezes ouvi também os responsáveis dizer que em nossos dias ¡á
nao precisamos dos Santos, pois o Espirito Santo age em todos de modo
especial. Um dos dirigentes na Inglaterra Setentrional dizia que o
purgatorio nao existe.

Censuravam-me por ser demasiado dogmático. Aqueles que o


diziam, eram católicos.A mor parte das coisas que eles diziam era
verídica, mas nao passavam de recordacoes verbais do passado, pois
as palavras que eles utilizavam nao exprimiam o seu verdadeiro modo
de pensar. Este progressivamcnte se afastara do conceito de lgre¡a
«Corpo Místico de Cristo» e, para todos, necessário instrumento de
salvacao.

Os abusos

A mudanca ocorrida no modo de pensar dos carismáticos nao


transparece necessariamente no seu comportamento visívei. Quando a
sua atitude para com a Igreja difere da dos católicos propiamente
ditos, difere por parecer mais ostensivamente piedosa. A mudanca se
revela, antes, numa serie de atitudes liberáis que levam a graves erras.
Conheco muiros católicos cultos e até Religiosos que estimulam os nao
católicos a receber a Eucaristia. Conheco ministros da Eucaristía que
Irazem consigo o Sanlíssimo Sacramento para se defender das influén-

— 378 —
RENOVACAO CARISMATICA 23

das diabólicas. Conheco calólicos que nao reconhecem diferenca entre


a Missa celebrada por um sacerdote católico e a Missa celebrada por
um ministro anglicano. Em todos estes casos, trata-se de calóricos
membros da Renovacao Carismática. Se esse Movimento «chamasse os
presbíteros a urna auténtica renovacáo», tais coisas nao deveriam
acontecer. Na verdade, porém, esses desvíos nao sao fatos extra
ordinarios dentro do Movimento nem se limitam a um só territorio.

Ñas Missas carismáticas nao raro observam-se militas manífesta-


cóes rentimentais. Com que ardor os devotos se comprazem nisso!
Com que insistencia febril convidam os outros a participar de urna
Missa «táo auténticamente como nunca»! Muitas vezes essas Missas
sao muito mais longas do que as habituáis, pois lá ocorrem dantas,
aplausos, cantos, línguas, profecias... Dizem os participantes: se
é licito externar as emocoes numa partida de futebol, por que nao as
manifestar quando estamos na presenta de Deus? Dance! em torno
de santuarios, de máos dadas com sacerdotes, Religiosas e leigos.
é o que habitualmente se chama «dancar no Espirito». Muitas vezes,
mas nao sempre, tal prática ocorre a pos a S. Comunhao. Por vezes,
pedem á assembléia que reze para obter a manifestacao do Espirito
ou o Batismo no Espirito; isto acontece no santuario da igreja. Tal
cerimdnia pode desenvolver-se tanto durante como após a Missa.
Muitas vezes vi dezenas de pessoas prostradas sobre o pavimento do
coro. . . Segundo a teologia carismática, o espetáculo dos corpos
estendidos é sinal seguro da presenta do Espirito Santo. Por vezes
designam tal manifestacáo pelas palavras «morto no Espirito».

Advertencia dos Sumos Pontífices

... No día 3 de setembro de 1969, falando dos carismátícos em


geral, incluidos os arautos de reformas sociais, o Papa Paulo VI chamou
a atencao para fenómenos que «nao somente estao em contradicáo
com o Direito Canónico, mas ferem o ámago do culto católico, pois
vemos que se emancipam das estruturas institucionais da Igreja autén
tica real e humana, na falaciosa esperanto de instaurar um Cristianismo
livre, puramente carismático, mas, na realidade, amorfo, esvaecenie,
exposto a todas as correntes da paixao e da moda». Urna semana
depois, voltou a falar do «recurso a ideologias arbitrarias, á suposicao
gratuita de fatos carismáticos, a fim de preencher o vazio interior
aberto pela perda da confianca em Deus e ñas diretrizes da Igreja».

Aos 24 de setembro de 1969, Paulo VI tornou ao assunto: «Ao


falar da Igreja de nossos dias, muitos se dizem inspirados por espirito

— 379 —
24 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

profetice Profer«m afirmacóes arriscadas e, as vezes, inadmissíveis;


referem-se ao Espirito Santo como se o Divino Paráclito estivesse sempre
a servico deles. Alguns o fazem, infelizmente com a intencao, nao
confessada, de se emancipar do magisterio da Igreja, que goza da
asistencia do Espirito Santo. Deus permita nao cause grandes danos
a presuncáo dessas pessoas, que consiste em fazer do seu juízo ou da
sua experiencia pessoal a regra ou o criterio de doutrina religiosa.
Queira Deus impedir que se deixem iludir as pessoas de boa vontade,
ao consideraren! essas opinióes particulares como dons carismáticos
e inspiracoes proféticas».

Aos 26 de outubro de 1974, Paulo VI aludía ás comunidades


carismáticas propiamente ditas: «Notamos com satisfacao que aspiram
a ser movidas pelo Espirito Santo. Mas essa aspiracáo seria frustrada
se a sua vida eclesial na unidade do único Corpo de Cristo se apagasse
ou se emancipasse da legítima autoridade; ou se se entregasse a inspi
racoes particulares e arbitrarias.

O Papa Joáo Paulo I muito falou a respeito antes da sua eleicao.


O curto prazo das suas funcoes de Vigário de Cristo na térra, 33 dias
apenas, teve a vantagem de dar a conhecer ao mundo o que ele
redigira anteriormente. Dirigindo-se a Santa Teresa de Ávila no seu
livro «illustrissimi. . .», escreveu: «Em nossos dias também, Teresa,
ouvimos falar de dons carismáticos e de hierarquia. Pois que eréis
especialista nestes assuntos, permiti-me extrair das vossas obras os
seguintes principios:

1) O Espirito Santo está ácima de tudo. Os dons carismáticos


como as faculdades de nossos pastores vém dele. Ele vela para que
reinem harmonio e boa vontade entre a hierarquia e os carismáticos.
Ele assím garante a unidade da Igreja.

2) As pessoas agraciadas com dons carismáticos e a hierarquia


sao necessárias á Igreja, mas de maneiras diferentes. As primeiras
fazem as vezes de aceleradores; contribuem para o progresso e a
renovacao. A hierarquia deve servir de freio; ela contribuí para a
estabilidade e a prudencia.

3) Os carismáticos e a hierarquia por vezes se manifestam sobre


os mesmos assuntos. Como a hierarquia tem por tarefa regulamentar
as principáis manifestacoes da vida da Igreja, aos carismáticos nao
é lícito apelar para suas visees a fim de subtrair-se ás diretrizes da
hierarquia.

— 380 —
RENOVACAO CARISMATICA 25

4) As experiencias carismáticas nao sao o privilegio de quem


quer que seja. Podem ser concedidas a qualquer cristao: sacerdotes
e leigos, homens e mulheres. . . Em vosso «Livro das Fundagoes:», leio:
'Urna penitente dizia ao seu confessor que Nossa Senhora vinha
freqüentemente visitá-la, entretinha-se com a devota durante urna hora,
revelando-lhe o futuro e muitas outras coisas. Dado que algumas ver
dades emergiram dessas tolices, o conjunto tomava aparéncia de
verdade. Entao eu disse ao confessor que aguardasse o cumprimento
das profecías e procurasse conhecer a vida da penitente para ver se
trazia outros sinais de santidade. Ao final ... ficou comprovado que
todas as apregoadas visóes nao passavam de pura imaginacao'. Cara
Santa Teresa, como seria bom que pensasseis em voltar atualmente!
Em toda parte ouve-se a palavra 'carisma'. Os mais variados tipos de
pessoas sao conhectdos como profetas; até os estudantes que enfrentam
a policio ñas rúas ou que praticam a guerrilha na América Latina. . .!
Outros tentam opor os carismáticos aos seus pastores. Que diríeis de
tudo isso?... Vos que obedecíeis ao vosso confessor mesmo quando
os seus conselhos diferiam daqueles que Deus vos inspirava na oragáo?»

Nosso atual Papa, Joáo Paulo II, quando se dirige a carismáticos


(entendidos no sentido deste artigo), exprime geralmente o seu prazer
em recebé-los e em verificar que qviseram ir a Roma, pois esta opcáo
significa que compreendem a importancia do seu enraizamento na
unidade católica da Fé e da Caridade, da qual a Cátedra de Pedro
é o centro visível.
A seguir, ele transmite os seus ensinamentos, que
consistem numa serie de exortacoes á prudencia, das qvaís eis as
principáis:

1) Fidelidade á auténtica doutrina da Fé. O que contradiga


a essa doutrina, nao vem do Espirito.

2) Valorizando dos dons outorgados para o servido do bem


comum.

3) Ter sempre em vista a caridade que, só ela, leva o cristao á


perfeicao.

Citemos algumas das declaracóes que Joño Paulo II julgou


necessárias:

«Os sacramentos comunicam a graca, de acordó com a manifestó


vontade de Cristo».

— 381 —
26 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

«O Espirito Santo que distribuí os seus dons em medida ora maior,


ora menor, é o mesmo que inspirou as Escrituras e que assiste ao
magisterio vivo da Igreja, á qual Cristo confiou a auténtica interpre-
tacáo das Escrituras».

«Vos que estáis á frente da Renovacáo, necessitais de formacao


sempre rnais profunda a respeito do que a Igreja ensina. Esta exerce
a tarefa bimilenar de meditar a Palavra de Deus, investigar as riquezas
da mesma e dá-las a conhecer ao mundo».

«De acordó com a Providencia Divina, aos Bispos toca a responsa-


bilidade pastoral de guiar todo o Corpo de Cristo... ApresentarSo
á Renovacáo Carlsmática as necessárias diretrizes».

«Ao Bispo compete a funcáo única e indispensável de garantir a


integracao da Renovacáo Carismática na vida da Igreja a finí de que
o Movimento escape á tendencia de criar estruturas margináis».

A importancia dos sentimentos

Em outro discurso, aos 23 de novembro de 1981, o S. Padre


disse aínda: «Nao faltam riscos. Sabéis quais sao: por exemplo, a
exagerada importancia atribuida á experiencia sentimental do divino;
a procura ¡moderada do 'espetacular' e do 'extraordinario'; o gosto
das interpretacóes precipitadas e erróneas da Escritura; o fechamento
sobre si mesmo e a fuga dos compromissos apostólicos; o narcisismo,
que ¡sola e fecha sobre si. Estes e outros riscos se apresentam na vossa
caminhada, e nao somente na vossa. A propósito dir-vos-ei com Sao
Paulo: 'Examina! tudo, e guardai cuidadosamente o que é bom'. Por
conseguinte, mantenhamo-nos em constante e .grata disponibilidade
frente a todo dom que o Espirito queira comunicar-nos, todavia sem
esquecermos que todo carisma é dado em vista do bem comom. Como
qver que seja, asplrai aos dons mais elevados. A este propósito sabéis
que existe urna vía aínda mais excelente. Sao Paulo a aponía numa
página extraordinaria: é a via da caridade, que, por si só, confere
significado e valor a todos os outros dons. Animados pela caridade,
nao somente escutareis espontánea e dócilmente aqueles que o Espirito
constituiu qualificados administradores da Igreja de Deus, mas experi
mentareis a necessidade de vos abrírdes a urna compreensáo sempre
mais atenta dos vossos irmaos e de vossas ¡rmas, a fim de serdes com
eles um só coracao e urna só alma.

— 382 —
RENOVACAO CARISMATICA 27

Deste propósito decorrerá a verdadeira renovacao da Igreja


a I me jada pelo Vaticano II. Vos vos esforcareis por incrementá-la me
diante a oracao, o testemunho e o servico. Com efeito, a Exortaeao
Apostólica 'Catechesi Tradendae' o lembra: 'A renovacao no Espirito
será auténtica e produzirá frutos copiosos na Igreja, menos por suscitar
carismas extraordinarios do que por levar o maior número possível de
fiéis, na sua existencia cotidiana, a um esforzó humilde e paciente e
perseverante para conhecer e testemunhar cada vez melhor o misterio
de Cristo».

Estes dizeres todos nos mostram bem quanto o Santo Padre deseja
desviar seus filhos de caminhos que sejam perigosos para eles.

REFLETINDO. . .

A leitura do artigo de Hilario Campion sugere-nos as


seguintes ponderagóes:

1) O autor tem em vista particularmente a RC como se


apresenta na Grá-Bretanha e na Irlanda. Talvez nem tudo o
que ele aponta de negativo, se verifique também no Brasil.
Todavía sabemos que serios desvíos tém ocorrido entre os
membros da RC: obsessáo por dons extraordinarios, procura
(talvez inconsciente) do «espetacular» e «teatral», aberragóes
psíquicas apresentadas como dons do Espirito Santo... Em
outro plano, verifica-se certa «protestantizagáo» do Catolicismo,
pois há «carismáticos» que julgam ter a iluminagáo direta do
Espirito Santo e dispensam o magisterio da Igreja e as suas
instituigóes oficiáis. A isto associa-se o subjetivismo em mate
ria de fé: o Credo é alterado, os «iluminados» créem e vivem
a seu modo... Estes e outros males ocorrem realmente na
RC do Brasil, e devem ser francamente apontados para que
os fiéis bem intencionados se acautelem e nao sejam levados
para onde nao imaginam nem querem.

2) É certo, porém, que a RC tem feito e continua fazendo


grande bem a muitos dos seus seguidores, levando-os a desco-
brir a uniáo com Deus pela oragáo, a leitura da Biblia e a con-
versáo de seus costumes. Todavía, para que nao se deteriore
o Movimento, faz-se mister que

383-
28 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 262/1985

— conserve sua incondicional fidelidade ao sacramento da


Igreja; este comporta magisterio e instituigóes visíveis,... que
se tornam cañáis da graga de Cristo; o misterio da Encarna-
cáo se prolonga no Corpo de Cristo, que é a Igreja (cf. Cl 1,24),
de modo que é utópico encontrar a plenitude dos dons de Cristo
e do Espirito sem fiel adesáo á Igreja fundada pelo Senhor
Jesús;

— a humildade seja cultivada, de modo que ninguém pre


suma ter fácilmente dons extraordinarios e inspiragóes diretas
do Espirito;

— os dons extraordinarios sejam considerados com grande


sobriedade. Nao sao essenciais á santificagáo do cristáo. Os
mestres da vida espiritual exortam á desconfianga desde que
alguém julgue estar recebendo dons extraordinarios: a vaidade,
o amor próprio, tendencias psicopatológicas, ignorancia e outros
fatores podem explicar o «extraordinario» em muitos e muitos
casos. De resto, a procura insistente do extraordinario é, nao
raro, sinal de pouca fé. «O justo vive da fé» diz Sao Paulo
(Rm 1,17; Gl 3,11; Hb 10,38), isto é, vive do claro-escuro ou
da penumbra e nao de milagres ou sinais portentosos.

Cremos que, se forem observados todos estes principios,


a RC tem um papel muito salutar a preencher na Igreja do
Brasil. Que o Espirito Santo oriente o Movimento e o conserve
na pureza de seus ideáis!

— 384 —
No diálogo ecuménico:

A Isreja Proibiu a Leitura da Biblia ?

Em slntese: A historia da Igreja evidencia que esta é favorável á


leitura e difusao da S. Escritura, Palavra de Deus e manancial de vida
espiritual. Houve, porém, sécutos da Idade Media e da Moderna em que
a Biblia foi objeto de abusos por parte de hereges, que se serviam do texto
sagrado para incutir proposicSes contrarias á constante fé da Igreja. Lida
segundo criterios subjetivos ou de acordó com o "livre exame", a Biblia se
prestava, e presta ainda hoje, as mais esdrúxulas Interpretares. Eis por
que, principalmente no século XVI, a Igreja emitiu normas que restringiam
o uso das tradúceles vernáculas da Biblia; esta ficaria patente, em sua
forma latina, a lodos os estudiosos.

No século XX, passadas as dificeis condiedes das épocas dos Reforma


dores e do jansenismo, a Igreja incentiva os fiéis á leitura e á difusio da
Biblia, como faziam os antigos mestres do Cristianismo.

Ouve-se, por vezes, dizer que a Igreja proibiu aos fiéis


católicos a leitura da Biblia. A afirmagáo, porém, costuma ser
vaga ou destituida de documentagáo, de modo que geralmente
nao se sabe até que ponto possa ser verídica. Eis por que nos
voltaremos para o assunto, percorrendo quatro periodos da
historia da Igreja, durante os quais Bispos e mestres se pro-
nunciaram sobre a leitura das Escrituras.

1. A época anliga

Nos primeiros séculos, a Escritura era o tema das prega-


cóes na Liturgia; a teología era cultivada como se fosse sim-
plesmente exegese da Biblia. A vida espiritual dos fiéis se
nutria ricamente do texto sagrado.

Examinemos alguns testemunhos desse uso freqüente.

Nos séculos II/IH, Tertuliano (t 220) enumerava, entre


os males decorrentes dos casamentos mistos, a dificuldade de
se ler a S. Escritura em familia: «Que será feito do estímulo

— 385 —
30 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

da fé para ler as Escrituras?» (Ad Uxorem II, c 6). Este


texto supóe que era costume ler a Escritura no lar cristáo
— o que daría como fruto um aumento da fé.

A Didascalia Apostolorum, cap. 2 (inicio do séc. III), con


firma a proposigáo ácima ao dizer: «Esteja (a Escritura)
neste lar, e leia-se na Lei, no livro dos Reis, nos Profetas e no
Evangelho (que é o cumprimento das profecías)».

S. Ambrosio (f 397) convidava os fiéis a ler a S. Escri


tura e a traduzi-la em vida. Os escritores sagrados nao devem
ser personagens estranhos ao leitor, mas, ao contrario, com
eles haja um diálogo muito vivo:
«Exercitemo-nos diariamente na leitura e procuremos imitar o que
lemos.. . Recorre, como a teus conselheiros, a Moisés, Isaías, Jeremías,
Pedro, Paulo, Joao e ao Grande Conselheiro: Jesús, Filho de Deus»
(Enchiridion Asceticum n? 419).

S. Gregorio Magno (f 604) assim escreve ao médico Teo


doro:
«Que é, pois, a S. Escritura senao urna carta proveniente de Deus
ás suas criaturas?»

Ora todo aquele que recebe urna carta, é curioso por


conhecer o seu conteúdo:

«O Imperador do céu, o Senhor dos homens e dos anjos, qtierendo


que vivas, enviou-te suas cartas e, nao obstante, filho querido, des
cuidas-te de ler essas missivas. Peco-te, pois, que procures meditar
todos os dias as palavras do teu Criador. Reconhece o coracSo de
Deus em suas palavras, a fim de que suspires mais ardentemente pelas
coisas eternas e teu coracáo se aoenda em menores desejos das alegrías
celestiais» (ib. n° 1.284).

S. Jerónimo (f 420) é, dos escritores latinos, o que mais


insistiu na leitura da Biblia. Assim escrevia a Eustóquio, filha
de Santa Paula:

«Lé com freqüéncia e aprende o melhor que possas. Que o sonó


te «ncontre com o livro ñas máos e que a página sagrada acolha o
teu rosto vencido pelo sono« (PL 22, 404).

— 386 —
LEITURA DA BIBLIA NA IGREJA 31

A outra dirigida sua, Pacátula, S. Jerónimo escreve, fa-


lando de urna filhinha dessa matrona crista:

«Quando completar sete anos..., aprenda de cor o salterio e,


durante os anos da sua adolescencia, faca dos livros de Salomao, dos
Evangelhos, dos Apostólos e Profetas o tesouro do seu coracáo»
(Enchirídion Asceticum n* 515).

Finalmente, dirigindo-se a Furia, viúva do filho do pro


cónsul Probo, escrevia:

«Guarda na memoria um número determinado de versículos das


Sagrados Escrituras; cumpre este dever que tens para com Deus e nao
des descanso a teu corpo antes de ter alimentado teu espirito com esta
delicada tarefa» (ib. n* 515).

É notável a insistencia com que S. Jerónimo incute a assi-


duidade na leitura das páginas sagradas.
Entre os mestres gregos, S. Joáo Crisóstomo (t 407) com
para a Sagrada Escritura ao paraíso terrestre:
«A leitura das Sagradas Escrituras é um prado espiritual e um
paraíso de delicias... Este paraiso, Deus o plantou nao na térra, mas
ñas almas dos fiéis, de modo que nao está confinado em um lugar, mas
se estende a toda a térra» (PG 59,87).

O santo doutor recomenda aos fiéis na igreja que, urna


vez tornados á casa, tomem em máos os livros sagrados e
procurem penetrar no sentido das verdades que lhes foram
propostas.
E qual a finalidade da leitura bíblica? — Eis o que se
pode depreender dos dizeres dos antigos doutores:

1) A Escritura é alimento da vida espiritual:

S. Beda, o Venerável (t735): «Leite e mel, eis o que sao


o Antigo e o Novo Testamento na Igreja» (PL 91, 294D).

S. Joáo Crisóstomo (t 407): «O gosto da palavra de Deus


é nao somente mais doce do que o mel, mas também é mais
precioso do que ouro e pérolas, mais puro do que a prata»
(PG 51,207).

S. Gregorio Magno (t 604): «A Escritura Sagrada é nosso


alimento e nossa vida» (PL 76,886).

— 387 —
32 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

2) O conhecimento das Escrituras é meio valioso para


vencer as paixoes:

S. Jerónimo (f 420): «Ama a ciencia das Escrituras, e


nao amarás os vicios da carne» (PL 22,1078).

S. Joáo Crisóstomo (f407): «A leitura das Sagradas Es


crituras livra o espirito das chamas de todos os maus pensa-
mentos» (PG 51,89).

«Assim como os que estáo privados da luz nao podem


andar bem, assim os que nao gozam dos raios das Divinas Es
crituras necessariamente pecam e erram com freqüéncia, visto
que andam em meio a obscuras trevas» (PG 60,391s).

3) A razao mais profunda é a seguinte:

S. Jerónimo (t 420): «A ignorancia das Escrituras é igno


rancia de Cristo» (PL 24,17).

«Bebe das duas tacas: a do Antigo e a do Novo Testa


mento, porque em ambas bebes do Cristo» (PL 24,983).

Para que o contato com as Escrituras seja fecundo, os


mestres antigos recomendam que seja feito dentro da tradicáo
viva da Igreja: «Leite e mel, eis o que sao o Antigo e o Novo
Testamento dentro da Igreja».

Por esta razáo, S. Joáo Crisóstomo, depois de recomendar


a assídua leitura das Escrituras em casa, onde talvez nao haja
quem a interprete, acrescenta:

«Por ¡sto nos, que conhecemos vossas preocupares, trabalhos e


muitos afazeres, pouco a pouco vos fazemos penetrar no sentido da
Escritura, e com urna exposicáo lenta procuramos que se fixe mais
tenazmente a memoria das coisas que vos dizemos» (PG 51,90).

Os próprios mestres antigos procuravam o contato com a


tradicáo da Igreja, cientes de que a Escritura é bergada pela
Palavra de Deus oral, de modo que só pode ser devidamente
entendida se colocada na linha dessa tradigáo. É o que Rufino
de Aquiléia (t 410) refere a respeito de S. Gregorio de Na-
zianzo (t 390) e S. Basilio (t 379):

— 388 —
LEITURA DA BIBLIA NA IGREJA 33

«Durante treze anos — segundo dizem —, tendo deixado de lado


todos os livros pagaos gregos, entregaram-se ao estudo dos livros da
Escritura Divina, que eles procuravam entender, apoiados nao em seu
¡uízo próprio, mas nos escritos e na autoridade dos antepassados»
(Historia da Igreja PL 21, 518B).

Verifioa-se, portante, que na fase antiga da historia da


Igreja a leitura da Escritura era grandemente estimada e reco
mendada. — Sobreveio

2. A Idade Media

2.1. Continuacáo do uso clássico

Nesta época a Escritura continuou a ser intensamente


utilizada

— nos mosteiros, cujos monges praticavam a lectio divina


ou a leitura espiritual, voltada principalmente para a Palavra
de Deus;
"•'i

— no cultivo da Teología. Esta ainda no sáculo XIII era


simplesmente chamada sacra pagina, pois era elaborada á guisa
de comentario do texto sagrado.

2.2. O analfabetismo

Todavía um grande mal afligía as populacóes da Idade


Media: o baixo nivel cultural ou mesmo o analfabetismo; a
queda do Imperio Romano ocidental em 476 provocou o colapso
da civilizagáo antiga e o declínio dos estudos em geral. O
clero recebia instrucáo; mas os leigos, quer príncipes, quer
camponeses, freqüentemente nao sabiam ler. Este fato criou
distancia entre os fiéis cristáos e a Biblia; a própria piedade
se ressentiu desse afastamento. Todavía sempre se ouviram
vozes que atestavam o uso da S. Escritura. Assim, por exemplo,
S. Anselmo de Cantuária em 1109 exortava a ler a Escri
tura, porque «ela mostra como devem viver tanto os monges
como aqueles que moram em palacios». Acrescentava que,
quando os leigos nao podem ler ou interpretar a Escritura por
falta de instrugáo, «devem deixar que sejam esclarecidos, como

— 389 —
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS* 282/1985

fazem os reis, pelos bispos e os clérigos do seu reino» (trans


crito da La Lectura de la Biblia, por Rubén Boada, em BAC
n' 284, p. 771; ver bibliografía no fim deste artigo).

Ruperto de Deutz (f 1130) considerava «inescusáveis al-


guns leigos que, por exemplo, nao celebravam nenhum dos dias
de festa que consistissem em ler ou ouvir a S. Escritura ou,
por amor a esta, abster-se dos habituáis trabalhos servís»
(ib. p. 771).

Um médico e filósofo conhecido, Antonio Galateo, escrevia


a um amigo: «Se queres ler meus escritos, recomendo-te que
primeiro leias a Sagrada Escritura, a qual é a fonte da santi-
dade e a norma de urna vida reta e feliz. Depois estudarás os
ensinamentos platónicos e aristotélicos» (ib. p. 771).

O livrinho intitulado Seelentrost (Consolo da Alma), es


crito em 1407, publicado em doze edicóes sucessivas até 1523,
exprimia-se do seguinte modo:

«O consolo da alma está nos ensinamentos divinos e na medita-


cao da Sagrada Escritura. Deves ler e ouvir com prazer os livros da
Biblia, porque, assim como o corpo vive do alimento terrestre, a alma
vive da mensagem divina; sim, o homem vive uño somenle do pao
cotidiano, mas tambero da Palavra que sai da boca de Deus ou da
Sagrada Escritura» (ib. p. 771).

Pedro de Blois, por volta de 1200, depois de dizer que a


Sagrada Escritura era para os monges algo de indispensável,
acrescentava: «Se és leigo, lé a Escritura com mais zelo»
(ib., p. 771).

O livro Spiegel des kranken und sterbanden Menschen


(Espelho do homem doente e moribundo) recomenda viva
mente «ler a Escritura» ou, em caso de nao saber ler, escutá-la:

«Todo homem que deseje exercitar-se e progredir no amor de


Deus deve se conhece as letras — ler com prazer a Sagrada Escri
tora; se nao o é, deve ouvir de boa vontade a santa e divina Palavra
desde que comeca o uso da razao até a morte» (ib. p. 771).

— 390 —
LEITURA DA BÍBLIA NA IGREJA 35

Mais ainda: na Idade Media publicaram-se excertos ou


sinteses de livros bíblicos com imagens a fim de atingir o povo
simples. Tenha-se em vista a Biblia paunerum, provavelmente
do século XIII, e o Speculum humanae rcdemptionis do
século XIV.

No fim da Idade Media foi-se difundindo o interesse pelas


Escrituras — o que se depreende especialmente de tradugóes
para as linguas vernáculas. Antes de 1500 um catálogo de
códigos mencionava 122 edigóes completas da Biblia: 94 em
latim, 15 em alemáo, 11 em italiano, urna em boémio, urna em
francés e urna em cataláo. Alias, na Espanha já se lia a Bi
blia em língua vernácula antes de Afonso X o Sabio (1252-
-1284). Portanto, muito antes de Lutero (f 1546) existiam
tradugóes da Biblia para as línguas usuais entre as populagóes
de diversos países.

Além do mais, note-se que a Biblia, nao legível pelas mas-


sas analfabetas, era transmitida a estas pelos cañáis da litur
gia, da catequese e, especialmente, da arte (pintura, escul
tura ...); esta última era o livro dos iletrados, pois lhes per-
mitia aprender as coisas que eles nao podiam depreender dos
livros.

Consciente do valor das Escrituras, o autor da Imitagao


de Cristo no século XV escrevia, a respeito das mesmas, pala-
vras que se destinavam a ter enorme penetragáo no povo de
Deus:

«Deste-me, como a um enfermo, leu sagrado corpo como alimento


da alma e do corpo, e tua divina palavra para que guiasse, como unía
lámpada, os meus passos. Sem estas duas coisas, eu nao poderla viver
bem, porque a Palavra de Deus é a luz da alma, e teu sacramento o
pao da vida. Estas duas coisas podem ser consideradas como duas
mesas colocadas no tesouro da Santa lgre¡a» (I. IV. c. 11).

2.3. Nuvens ameacadoras

Em todos os tempos — tambétn na Idade Media — a


Igreja se viu obrigada a velar para que a S. Escritura nao
fosse objeto de interpretagóes arbitrarias e fantasiosas; com
efeito, sempre houve facgóes que procuravam fundamentar
suas concepgóes imaginosas mediante a autoridade da Biblia,
afastando-se assim da auténtica mensagem de Cristo.

— 391 —
36 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS* 282/1985

Na Idade Media, varios pregadores apareceram que, com


a Biblia ñas máos, agitavam os fiéis e negavam verdades da
fé. Dentre estes, dois merecem especial destaque pela influen
cia que exerceram sobre os pósteros.

Os Valdenses devem sua origem a Pedro Valdo (Pierre de


Vaux), rico comerciante de Liáo (Franca). Profundamente
abalado pela leitura da Biblia, que ele mandara traduzir para
o provengal por dois clérigos em 1176, pós-se a pregar, junta
mente com alguns companheiros, baseando-se únicamente na
Biblia; esta era a única norma de doutrina e vida que aceita-
vam; os valdenses aprendiam de cor e comentavam a seu modo
trechos dos Evangelhos e partes consideráveis tanto do Antigo
como do Novo Testamento. Com o tempo, foram-se mais e
mais afastando da Igreja, negando o purgatorio, o valor da
oracáo pelos defuntos, o culto dos santos, o servico militar, o
juramento, etc.; só admitiam os sacramentos do Batismo, da
Eucaristía e da Penitencia. No sáculo XVI aderiram a Re
forma protestante.

John Wiclef (1320-1384), professor de Filosofía e Teolo


gía na Universidade de Oxford, estabeleceu também como
única norma de fé a Escritura, que, em parte, ele mandou tra
duzir e, em parte, traduziu pessoalmente do latim para o inglés.
Em suas pregagóes, que citavam a Biblia subjetivamente inter
pretada, negava a autoridade do Papa, a transubstanciacáo
eucarística, a confissáo auricular, o culto dos santos, das reli
quias, das imagens sagradas... Segundo Wiclef, a Biblia, espe
cialmente o Novo Testamento, «está aberta á compreensáo
dos homens mais simples no que toca aos pontos necessários
& salvagáo».

Sobre este fundo de cena entendem-se as intervencóes do


magisterio da Igreja que tentavam coibir o abuso das Escri
turas divulgadas em vernáculo e interpretadas arbitrariamente
por seus arautos. Tenham-se em vista, por exemplo, os pro-
nunciamentos do Papa Inocencio m (1198-1216) referentes á
diocese de Metz (Alsácla, Franca): o bispo desta cidade comu
nicara ao Pontífice que um grupo de pessoas da diocese havia
mandado traduzir livros da Biblia para o francés no intuito de
comentá-los e discuti-los em grupos fechados,... grupos que
nao admitiam quem nao estivesse de acordó com eles; admoes-
tadas por alguns sacerdotes, tais pessoas haviam-lhes resis-

— 392 —
LEITURA DA BIBLIA NA IGREJA 37

tido. O Papa entáo escreveu duas cartas: urna ao Bispo e ao


seu cabido; e outra, a todos os fiéis da diocese de Metz. Nesta
última observa que
— a pregagáo do Evangelho nao se deve efetuar em grupos
fechados, mas de maneira pública, e cita Mt 10,27 e Jo 18,201;
— tal é a profundidade das Escrituras que nao só os sim
ples e analfabetos, mas também os prudentes e doutos nao
estáo habilitados a entendé-las plenamente;

— é necessário ter urna «missáo» (incumbencia atribuida


pelo bispo) para pregar.

No final o Papa exorta os fiéis a que mudem de atitude e


sigam a fé católica e a disciplina da Igreja. Vé-se que o movi-
mento valdense estava nos horizontes do Pontífice.

No primeira carta Inocencio III pedia ao Bispo de Metz


que procedesse com prudencia e indagasse solícitamente a res-
peito da problemática, para que ele, Papa, pudesse tomar pro
videncias.
Como se pode observar, estes textos nao proibem a lei-
tura da Biblia, mas tém em vista coibir possiveis erros decor-
rentes do indevido uso da mesma e do subjetivismo dos intér
pretes.

No mesmo século XIII propagou-se a seita dos cataros,


que eram dualistas, isto é, avessos á materia como se esta fosse,
por si mesma, má; já que tentavam fundamentar-se também
ñas Escrituras lidas sem criterios objetivos, o Concilio de To-
losa (Franca) em 1229 proibiu o uso de traducóes vernáculas
da Biblia. Esta disposigáo foi confirmada e reiterada pelo Con
cilio de Tarragona (Espanha) em 1233. A mesma proibigáo
ocorre num decreto do rei Jaime I, o Conquistador, da Espa
nha, que aos 7 de fevereiro de 1235 estabelecia: «Ninguém
possua em vernáculo os livros do Antigo e do Novo Testa
mento» (cf. Mansi, Conciliorum Amplissima Collectio 23,293).

1 Mt 10,27: "O que vos digo ñas trevas da noite, dizei-o em plena
luz; e, o que ouvis em segredo, proclamai-o sobre os terragos".

Jo 18,20: "Falei abertamente ao mundo; ensinei sempre na sinagoga


e no Templo, onde se reunem os judeus. Nada disse as ocultas", disse Jesús.

— 393 —
38 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

No século XV, dada a agitagáo provocada por Wiclef e


sequazes entre os fiéis, as autoridades eclesiásticas da Ingla
terra reunidas no Sínodo de Oxford (1408) proibiram a publi-
cagáo e a leitura de textos vernáculos da Biblia nao autoriza
dos. O mesmo se deu no Sínodo dos bispos alemáes reunido
em Mogúncia no ano de 1485.

Passemos agora aos séculos XVI/XIX.

3. Do século XVI ao século XIX


1. No século XVI a Reforma protestante apregoou as
seguintes teses referentes as Escrituras Sagradas:
a) a Biblia é a única fonte de revelagáo divina e a única
autoridade decisiva em materia de fé e de costumes;

b) a única norma de interpretagáo da Biblia é a intuigáo


subjetiva que cada crente experimenta ao ler a Biblia («livre
exame»);
c) os livros sagrados contém em si mesmos o testemunho
de que sao inspirados; nao é necessário que alguma instancia,
fora dos livros bíblicos, nos diga que eles sao inspirados por
Deus e mais nenhum outro goza desta prerrogativa.

Ora tais proposicóes haveriam de esfacelar o Cristianismo,


entregando-o as intuigóes subjetivas dos leitores da Biblia.
Logo tres Reformadores (Lutero, Calvino, Zvinglio) fundaram
tres novas modalidades de Cristianismo no século XVI; poste
riormente as comunidades reformadas foram, por sua vez,
reformadas e reformadas, derivando-se desse processo centenas
de denominagoes protestantes independentes urnas das outras,
porque dependentes da inspiragáo subjetiva do respectivo fun
dador.

Ademáis os principios da Reforma protestante incutem


violencia á própria Escritura Sagrada porque a desligam da
Tradigáo oral, que lhe é anterior, que a bergou e sem a qual
a Biblia nao pode ser devidamente entendida; cf. 2Ts 2,5s.
15; 3,6...

— 394 —
LEITURA DA BIBLIA NA IGREJA 39

Eis por que o Concilio de Trento (1543-1565) houve por


bem tomar medidas que preservassem os fiéis católicos dos
males acarretados pelas proposicóes dos Reformadores. Entre
estas, sejam mencionadas:

a) a declaragáo de autenticidade da Vulgata latina, tra-


dugáo devida a Sao Jerónimo (t 420) e difundida entre os cris-
táos. — Entre as muitas tradugóes latinas e vernáculas da Bi
blia, nao raro realizadas tendenciosamente ou a fim de incutir
doutrinas novas e heréticas, o Concilio proclamou a Vulgata
latina isenta de erros teológicos; assim se dissiparia a confusáo
de clérigos e leigos, que já nao sabiam onde encontrar a pura
mensagem bíblica. Como se compreende, o Concilio nao quis
afirmar que a Vulgata é perfeita como tradugáo, mas tomou
uma providencia válida e necessária em meados do sáculo XVI;

b) a condenagáo do principio do «livre exame» ou da


livre interpretagáo da Biblia. Esta só pode ser devidamente
entendida se iluminada por instancias objetivas, reconhecíveis
por todos os leitores; entre estas, predomina a Tradigáo, que o
magisterio da Igreja formula com a assisténcia do Espirito
Santo;

c) a proibicáo de edigóes da Biblia sem o nome do autor


responsável pela edigáo; e proibigáo de difundir o texto da Bi
blia sem a aprovagáo do Bispo diocesano;

d) estimulo para o reflorescimento do estudo da S. Es


critura nos colegios, conventos e mosteiros.

No tocante as tradugóes da Biblia encontram-se normas


entre as Regulae tridentinae de libris prohibitis (Regras tri-
dentinas concernentes aos livros proibidos); tais Regras, ela
boradas por uma Comissáo de padres conciliares, foram apro-
vadas pelo Papa Paulo V em 1564. Eis as que interessam no
caso:

Regra III: «... (o uso) das traducoes dos livros do Antigo Testa
mento poderá ser concedido, a ¡uízo do Bispo, únicamente a homens
doutos e piedosos sob a condicáo de que tais traducoes sejam usadas
apenas para «sclarecer a Vulgata e melhor entender a S. Escritura. ..

— 395 —
' 40 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

O uso das traducóes do Novo Testamento realizadas por autores


da primeira classe * a ninguém seja concedido, porque sua leitura
costuma acarretar para os leitores pouca utilidade e grande perigo. . .».

Regra IV: «Tendo-se evidenciado pela experiencia que, se se


permite a leitura da S. Escritura em língua vernácula de maneira
ordinaria e indiscriminada, costuma originar-se, em virtude da temeri-
dade dos homens, mais detrimento do que utilidade, é necessário
neste particular seguir o ¡uízo do Bispo ou do Inquisidor, a fim de que,
ouvido o pároco ou o confessor, se conceda a leitura da Biblia em-
língua vernácula aqueles que se possa prever retirarao de tal leitura
aumento de fé e de piedade sem prejuizo algum espiritual» (Denzinger-
-Schonmetzer [DS], Enchirídion n° 1853s).

2. Estas disposicóes háo de ser entendidas dentro das


circunstancias históricas em que foram promulgadas; visavam
á preservagáo da fé e ao bem do povo de Deus ameagados pelo
uso capcioso da Biblia no sáculo XVI. Tiveram por conseqüén-
cia a pouca difusáo do texto sagrado entre os católicos e a
falta de contato da piedade posterior com as suas fontes bíbli
cas; tornaram-se, por isto, ponto nevrálgico na disciplina da
Igreja, de tal modo que os jansenistas dos sáculos XVII/XVIII
as impugnaram; é o que se depreende das seguintes proposi-
cóes de Pascásio Quesnel, jansenista, condenadas pelo Papa
Clemente XI em 1713:

«79. Em todo tempo, em todo lugar e a toda classe de pessoas,


é útil e necessário estudar e conhecer o espirito, o piedade e os
misterios da Sagrada Escritura.

80. A leitura da Sagrada Escritura é para todos.

81 . A obscuridade santa da Palavra de Deus nao é razao para


que os leigos se dispensem de sua leitura.

82. O dia do Senhor deve ser santificado pelos cristáos me


diante leituras piedosas, principalmente das Sagradas Escrituras. E
nocivo querer demover o cristao de tais leituras.

i Trata-se de autores mencionados nominalmonte em outro documento.

— 396 —
LEITURA DA BIBLIA NA IGREJA 41

83. É ilusóo persuad¡r-se de que a noticia dos misterios da


religiáo nao deve ser comunicada as mulheres mediante a leitora dos
livros sagrados. O abuso das Escrituras e as heresias «asceram nao
do ingenuidade das mulheres, mas da ciencia soberba dos homens.

84. Retirar o Novo Testamento das máos dos cristaos ou man-


té-lo fechado para eles, privando-os do modo de o entender, é fechar
para eles a boca de Cristo.

85. Proibir aos cristaos a leitura da Sagrada Escritura, especial


mente do Evangelho, é proibir o uso da luz aos filhos da luz e fazer
que sofram urna especie de excomunhao» (DS 2479-2485
[1429-1435]).

Tais proposicóes, rejeitadas ao menos como ofensivas á


piedade (saltem piarum aurium offensivae), exprimem, sem
dúvida, verdades que em outras épocas seriam, e hoje sao, per-
feitamente aceitáveis; acontece, porém, que eram apresenta-
das pelos jansenistas em época e em ambiente de polémica — o
que dava a tais sentengas alcance grave e virulento que hoje
elas nao tém.

Ainda em 1794 o Papa Pío VI condenava urna proposigáo


jansenista do Sínodo de Pistoia (1786) que, em outras circuns
tancias, nao teria merecido tal censura:

«67. A doutrina que afirma que só urna real inepcia dispensa


da leitura das Sagradas Escrituras, como também a sentenca segundo
a qual é manifestó a ignorancia das verdades primarias da religiáo
oriunda do descuido da leifura bíblica: falsas, temerarias, perturba
doras da paz e da alma, condenadas entre os proposicóes de
Quesnel» (DS ri* 2667 [15671).

3. No século XIX multiplicaram-se as Sociedades Bíbli


cas protestantes cuja finalidade era difundir a Biblia em tra-
dUQÓes vernáculas. Compreende-se que, na base dos principios
adotados no século XVI, a Igreja se opusesse a tais iniciativas,
consideradas como perigosas para a reta fé.

A primeira condenacáo deu-se em 1816. Ao arcebispo cató


lico que recomendava aos seus fiéis a Sociedade Bíblica fun
dada em Sao Petersburgo na Rússia, escrevia o Papa Pío VII:

— 397 —
42 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

«A Igreja Romana, segundo as prescricoes do Concilio de Trento,


reconhece a edicáo vulgata da Biblia e rejeila traducoes feitas para
outros idiomas, se nao estiverem acompanhadas de notas provenientes
dos escritos dos Padres e dos doutores católicos, a fim de que tño
grande tesouro nao se¡a exposto as corruptelas das novidades...

Se nao poucas vezes lamentamos que ten ha m falhado na inter-


pretaeáo das Escrituras homens piedosos e sabios, como nao deveremos
recear grandes riscos se se entregarem as Escrituras traduzidas em
vernáculo ao povo ignorante, que, na maioria dos casos, carece de
discernimento e ¡oiga com temeridade?» (DS 271 Os [lóO3s]).

Em 1844, o Papa Gregorio XVI escrevia na encíclica Ínter


praecipuas machinatíones:

«Nao ignoráis quanta diligencia e sabedoria sao necessárias para


se traduzir fielmente a Palavra de Deus; em conseqüéncia, nada há de
mais fácil do que ñas traducoes vernáculas, multiplicadas pelas Socie
dades Bíblicas, se introduzirem erros gravíssimos, seja por imprudencia,
seja por fraude de tantos tradutores; tais erros, alias, permanecen*
ocultos para a perdicáo de muilos, dada a multidSo e a variedade de
tais Sociedades. As Sociedades Bíblicas pouco ou nada interessa o
fato de que os homens que léem a Biblia em vernáculo, caiam em um
ou outro erro; mais Ihes importa que acostumem aos poucos a exercer
o livre exame a respeito do sentido das Escrituras e a menosprezar as
tradicóes divinas contidas na doutrina dos Padres e guardadas na
Igreja, Católica, repudiando assim o próprio magisterio da Igreja»
(DS n' 2771 [1630]).

Aínda em 1846 escrevia Pío IX:

«As astutas Sociedades Bíblicas... nao cessam de distribuir


gratuitamente a todos os homens, etnbora rudes, os livros das Sagradas
Escrituras traduzidos para línguas vernáculas contra as regras da Santa
Igreja e interpretados, muitas vezes, com perversas explicacoes. Assim,
rejeitadas a divina Tradicáo, a doutrina dos Padres e a autorídade da
Igreja Católica, todos hño de interpretar a Palavra de Deus segundo
o seu ¡uizo próprio, pervertendo o sentido da mesma e deslizando em
graves erros. Tais Sociedades... Gregorio XVI as reprovou, e Nos
queremos, finalmente, condená-las» (DS n* 2784).

398 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985 43

Tal posigáo da Igreja se manteve até o comego do sé-


culo XX. Era motivada por circunstancias contingentes e se
revestía de caráter disciplinar, nao dogmático. Era, pois, refor-
mável, desde que desaparecessem as razóes que inspiravam as
apreensoes decorrentes da difusáo do texto sagrado em lingua-
gem vernácula. Ora realmente no sáculo XX foi-se alterando
o contexto histórico dos sáculos anteriores. O Papa S. Pió X
(1903-1914) deu inicio a urna renovagáo da piedade da Igreja,
que fora profundamente marcada pela réplica ao protestan
tismo, ao jansenismo e a heresias dos últimos sáculos; a ati-
tude defensiva ou presentadora nao podia deixar de depaupe
rar a espiritualidadc católica; fora necessária, mas nao se podia
manter por mais tempo; nem havia no sáculo XX raz5es para
manté-la. A volta as fontes, que deve sua inspiragáo remota
a S. Pío X, compreenderia a restauracáo do espirito litúrgico,
o recurso freqüente a S. Escritura e a renovagáo da catequese.
Conscientes disto, entramos na historia do sáculo XX.

4. No sáculo XX

Em 1920, ao comemorar o décimo quinto centenario da


morte de S. Jerónimo, o Papa Bento XV promulgou a enciclica
Spiritus Paraclitns, na qual formulava normas concretas para
o bom uso da S. Escritura. Após haver recordado que o Santo
Doutor recomendava a todos a leitura diaria da Palavra de
Deus, dizia o Pontífice:

«Pelo que Nos foca, Veneráveis Irmaos, □ imitacao de S. Jerónimo,


¡amáis deixaremos de exortar todos os fiéis crislaos a que leiam todos
os días principalmente os Santos Evangelhos de Nosso Senhor, os Ato*
e as epístolas dos Apostólos, tratando de con verte-los em seiva do
«eu espirito e em sangue de suas veías» (Enquirfdio Bíblico IEB]
rí> 477). *

A seguir, o Papa elogiava a Sociedade de S. Jerónimo,


cuja finalidade era divulgar o mais possível os Evangelhos e
os Atos dos Apostólos, de tal modo que nenhuma familia oare-
cesse deles e todos se acostumassem á leitura diaria e á medi-
tagáo dos mesmos.

Quanto ás disposigóes para bem aproveitar a leitura


bíblica, o Pontífice as resumía nestes termos:
«Todo aquele que se aproxima da Biblia com espirito piedoso,
fé firme, ánimo humilde e sincero deseio de aproveitar, nela encontrará
e poderá degustar o pao que desee dos céus> (EB n* 4B9).

— 399 —
44 «FERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

Com efeito; é preciso rezar, a exemplo de S. Jerónimo,


para entender as Escrituras, porque «a Escritura nao pode ser
lida nem entendida de maneira diferente daquela que exige o
Espirito Santo, pelo qual ela foi escrita». Mais: o Pontífice lem-
brava que é necessária humildade para submeter-se á autori-
dade dos mestres e da Igreja,... Igreja a cuja tradigáo a Bi
blia está intimamente ligada.

A atitude de Bento XV representava algo de novo na Igreja


pós-tridentina. Estava, porém, na linha de conduta pastoral
do Papa anterior — S. Pió X —, que aprovara e animara a
Sociedade de S. Jerónimo.

Pouco mais de dois decenios decorridos, o Papa Pío XII,


na encíclica Divino Afilante Spiritu, recomendava por sua vez
a difusáo da Biblia entre os fiéis:

«Os prelados favorecam e preslem sua ajuda áquelas piedosas


assodacoes cuja finalidade é difundir entre os fiéis os exemplares
das Sagradas Letras, principalmente dos Evangelhos, e procurar que
ñas familias cristas se faca ordenada « santamente a leitura diaria
das mesmas; recomendem eficazmente a S. Escritura, traduzida para
as línguas vernáculas com a aprovacao da Igreja» (EB n' 566).

A orientacáo dos Pontífices foi finalmente assumida pelo


Concilio do Vaticano II (1962-1965), especialmente em sua
Constituicáo Itei Verbum c. 6, que trata da S. Escritura na
vida da Igreja: um forte estímulo ai é dado á freqüentac.áo
cotidiana da Escritura por parte dos fiéis, como também á
difusáo do texto sagrado em línguas vernáculas:

«É preciso que os fiéis tenham acesso patente á Sagrada Escritura.


Por esta razóo, a Igreja logo desde os seus coméeos fez sua aquela
traducáo grega antiga do Antigo Testamento chamada dos Setenta,
e sempre teve em grande apreco as outras traducSes, quer orientáis
quer latinas, sobretudo a chamada Vulge.ta. Mas, visto que a Palavra
de Deus deve estar sempre á disposicáo de todos, a Igreja procuro
com solicitude maternal que se facam traducoes apropriadas e apuradas
ñas diversas línguas, sobretudo a partir dos textos origináis dos Livros
Sagrados. Se essas traducoes, segundo a oportunidade e com a apro
vacao da autoridade eclesiástica, se vierem a fazer em colaboracáo
com os irmáos separados, poderdo ser usadas por todos os cristáos»
n' 22).

— 400 —
LEITURA DA BIBLIA NA IGREJA 45

«Este sagrado Concilio exorta com ardor e insistencia todos os


fiéis, mormente os Religiosos, a que aprendam a ¡mínente ciencia de
Jesús Cristo (Fl 3,8) mediante a leitura freqüente das Divinas Escri
turas, porque a ignorancia das Escrituras é ignorancia de Cristo.
Debrucem-se, pois, gostosamente sobre o texto sagrado, quer através
da Sagrada Liturgia, rica de palavras divinas, quer pela leitura espiri
tual, quer por outros meios que se váo espalhando tao louvavelmente
por toda a parte, com a aprovagao e o estímulo dos pastores da
Igreja. Lembrem-se, porém, de que a leitura da Sagrada Escritura deve
ser acompanhada da oracáo, para que seja possível o coloquio entre
Deus e o horneen; 'com Ele talamos quando rezamos,- a Ele ouvimos
quando lemos os divinos oráculos'.

Compete aos sagrados pastores, depositarios da doutrina apostó


lica, instruir oportunamente os fiéis que Ihes foram confiados, no reto
uso das Livros divinos, de modo particular no Novo Testamento, e sobre-
tudo nos Evangelhos. E isto por meio de traducóes dos textos sagrados,
que devem ser acompanhadas de notas necessárias e verdaderamente
suficientes, para que os filhos da Igreja se familiarizem de modo seguro
e útil com a Sagrada Escritura e se embebam do seu espirito» (n' 25).

Como se vé, nao poderia ser mais favorável ao uso da


S. Escritura a atitude da Igreja contemporánea. As palavras
de S. Jerónimo (t 420) tornam-se normas da autoridade ecle
siástica. As restricóes impostas as tradugóes vernáculas eram
devidas a fatores contingentes; a Igreja, como Máe e Mestra,
senté o dever de zelar pela conservagáo incólume da fé a Ela
entregue por Cristo e ameacada pelas inlerpretacóes pessoais
de ¡novadores da pregagáo; eis por que lhe pareceu oportuno
reservar o uso da Biblia a pessoas de sólida formagáo crista
nos sáculos em que as heresias pretendiam apoiar no texto
sagrado as suas proposigóes perturbadoras. É, pois, para deso
jar que os estudiosos entendam os porqués da atitude da Igreja
dos sáculos XVI-XIX e hoje se sintam convidados a difundir n
S. Escritura em comunháo com a Igreja e a sua Tradigáo.

A propósito:

L. Alonso-Schokel e oulros, Comentarios a la Constitución Dei Verbum


sobre la Divina Revelación. Colegio BAC n? 284. Madrid 1969.

Manuel de Tuya-José Salguero, Introducción a la Biblia I. Colegáo BAC


n? 262. Madrid 1967.

— 401 —
Franqueza realista:

" Coloquio Sobre a Fe "


por Messori-Ratzinger

Em sintese: O jornalista Vittorio Messori enlrevistou, durante trinta


horas de agosto de 1984, o Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da S. Con-
gregacáo para a Doutrina da Fé, a respeito dos problemas da fé em nossos
dias. S. Eminencia respondeu com slnceridade e coragem, sendo que as
suas respostas foram publicadas no livro "Rapporto sulla fede" (edicBo
Italiana, que salu ao lado da alema e da francesa): o Cardeal Ratzinger
revlu o texto das tres edicóes e o aprovou como sendo fiel ao seu
pensamento.

O Prefeito da Congregado em foco sitúa o cerne da problemática da


fe hoja no conceito de Igreja; se esta é questionada, está claro que as
verdades do Credo professadas e ensinadas pela Igreja também vacilam na
mente dos fiéis. E a razáo pela qual a Ecleslologia está em crise, é a
adocáo absolutizante, por parte de teólogos, de criterios heterogéneos —
sociológicos, economistas, políticos, racionalistas... — para conceber a
Imagem da Igreja. A mesma admissáo absolutizante de premlssas n8o
teológicas tem atetado a exegese da S. Escritura, a Moral católica, a Liturgia,
a Interpretado do Concilio do Vaticano II...

A leitura do livro Impressiona pela clareza e a profundidade que as


suas páginas exprimem. Pode fortalecer os fiéis católicos que vacilam
perguntando se, diante dos muitos abusos doutrinárlos e disciplinares ocor-
rentes hoje na Igreja, nao estáo "atrasados" ou "errados"; o número de
desvios é tSo marcante que parecem tornar-se a norma certa. É a esta
suspeita que o Cardeal Ratzinger responde para dissipá-la ou para mostrar
que a fé é inconfundlvel com sociologia, política ou economia; será sempre
transcendental, conservando o seu caráter de "loucura e escándalo" Já
apontado por S. Paulo em 1Cor 1,23.

— 402 —
«COLOQUIO SOBRE A FÉ» 47

O jornalista Vittorio Messori já é conheddo no Brasil por


seu livro «Hipóteses sobre Jesús»; nesta obra o autor procura
mostrar que as murtas hipóteses formuladas pelo racionalismo
sobre Jesús nao atingem o ámago da figura do Divino Mestre;
somente a mensagem da fé a pode ilustrar adequadamente.
Mais recentemente Messori publicou o livro «Rapporto sulla
Fede» (Coloquio sobre a Fé) \ volume que contém o teor de
urna entrevista de trinta horas realizada por Vittorio Messori
em diálogo com o Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Sa
grada Congregagáo para a Doutrina da Fé.
0 Cardeal Ratzinger, por sua posicáo administrativa, é,
após o Papa Joáo Paulo II, a pessoa mais abalizada na Igreja
para falar sobre a Fé; está á frente da Congregagáo (um quase
Ministerio) encarregada de acompanhar a fé católica e suas
expressóes através da historia; tal Congregagáo é a mais im
portante da Curia Romana. Nascido na Baviera (Alemanha)
em 1927, Joseph Ratzinger foi ordenado sacerdote em 1951 e,
tendo obtido o doutorado em Teología, foi professor ñas mais
célebres Universidades da Alemanha (Münster, Tübingen, Re-
gensburg). Durante o Concilio do Vaticano II (1962-1965) foi
assessor do episcopado alemáo na qualidade de teólogo aberto
aos problemas atuais. Em 1964 foi um dos fundadores da
revista internacional Concilium, da qual se afastou oportuna
mente por discordar dos rumos demasiado liberáis que a revista
foi tomando. Declara Ratzinger: «Sempre procurei permane
cer fiel ao Concilio do Vaticano II, este hoje da Igreja, sem
nostalgia de um ontem irreversivelmente passado, e sem impa
ciencia por um amanha que nao é nosso» (p. 15). Nomeado
arcebispo de Munique e, em 1982, Prefeito da S. Congregacáo
para a Doutrina da Fé, o Cardeal Ratzinger é um homem sim
ples, ao qual o jornalista V. Messori, mima atitude totalmente
inédita, pediu urna longa e franca entrevista. Nao se furtando
a tal, o Cardeal Ratzinger recebeu-o no Seminario de Bressa-
none (Brixen), de 15 a 18 de agosto de 1984. O jornalista,
como é de seu mister, foi provocador em suas perguntas; as
respostas, gravadas, tornaram-se o livro em pauta. O texto
final deste foi submetido ao exame do Cardeal Ratzinger nao
somente em italiano, mas ñas suas tradugóes; o prelado reco-

1 Rapporto sulla Fede. Vittorio Messori a colloqiilo con Joseph


Ratzinger. Ed. Paollne. Milano 1985,125 x 200 mm, 216 pp. Salu simultánea
mente em edlcdes italiana, alema e francesa. Aguarda-se para breve urna
edlgSo brasllelra; a espanhola |á foi publicada.

— 403 —
48 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

nheceu a fidelidade do trabalho de Messori e aprovou-o, de


modo que o livro exprime realmente o pensamento do Prefeito
da S. Congregacáo para a Doutrina da Fé.

Tal obra é de rara coragem e clarividencia, pois aborda


as questóes de fé e disciplina das quais todos os fiéis cristáos
tém conhecimento (ao menos superficial) e vai ao fundo dos
problemas, procurando detectar as correntes de pensamento
que estáo na raiz dos mesmos. É um diagnóstico sincero, por
vezes sombrío, que abre caminhos para urna auténtica reno-
vacáo da vida católica em nossos tempos. A propósito observa
V. Messori:

«Ratzinger é um homem totalmente imerso em dimensSo reli


giosa ... Sendo assim, nao tém sentido os esquemas 'conservador-
-progressista' ou 'direita-esquerda', inspirados por urna dimensao bem
diversa, que é a das ideologías políticas; tais esquemas nao se aplicam
a visáo religiosa, que... é de outra ordem, superando em profundidade
e altura todas as demais.

Também seria erróneo aplicar o Ratzinger o outro esquema gro


tesco 'otimista-pessimista'. Quanlo mais o homem de fé se identifica
com o evento que funda o otimismo por excelencia — a Ressurreicao
de Cristo —, tanto mais pode dar-se ao realismo, á lucidez, á coragem
de considerar os problemas como tais, sem fechar os olhos ou colocar
lentes cor de rosa» (pp. 8s).

Nota ainda o jornalista:

«Um ¡ovem colaborador de Ratzinger em Roma falou-nos da


intensa dimensao de oracao com que o Cardeal afasta o perigo de
transformar-se em grande burócrata, assinando decretos que nao se
¡mportem com a fibra humana das pessoas atingidas. 'Muitas vezes —
dizia aquele ¡ovem — ele nos reúne na cápela do Dicaslério para urna
meditacao e urna oracao em comum. Existe nele urna necessidade
constante de enraizar o nosso trabalho cotidiano (muitas vezes ingrato,
em contato com a patología da fé) num Cristianismo vivido como ser-
vico ao povo de Deus' x> (p. 8).

Vista a importancia do livro em foco, percorreremos, a


seguir, alguns de seus tópicos mais salientes, seguindo a
edigáo italiana do mesmo.

— 404 —
■ «COLOQUIO SOBRE A FÉ» 49

1. «Aínda há fiereges e heresias?»

A esta pergunta do jornalisla, Ratzinger come;a por res


ponder citando os cánones 751 e 1364 do Código de Direito
Canónico de 1983 (resultado de vinte e quatro anos de intenso
trabalho). E acrescenta:

«Também para a Igreja pós-conciüar (na medida em que se¡a


válida a expressao 'pós-conciliar', que nao aceito. . .), existem hereges
e heresias, rubricadas pelo novo Código como 'delitos contra a religiao
e « unidade da Igreja'; está também previsto o modo de defender
contra elas a comunidade dos fiéis».

Continua: «A palavra da Escritura é atual para a Igreja de todos


os tempos, como fica sempre atual a possibilidade, para o homem, de
cair em erro. Por conseguirle, é atual ainda ho¡e a admoestacao da
segunda epístola de Pedro a que nos guardemos dos 'falsos profetas
e dos falsos mestres que introduzirao heresias perniciosas' (2,1)...
Nao esquecamos que, para a Igreja, a fé é um 'bem comum", orna
riqueza de todos, a comecar pelos pobres, os mais indefesos diante dos
erros: portanto, defender a ortodoxia é, para a Igreja, obra social em
favor de todos os fiéis,. . . é tutelar os direitos do próprio teólogo e os
da comunidade. Naturalmente tudo se¡a visto á luz da grande admoes
tacao evangélica: 'proticar a verdade na caridade'. Também por isto
a excomunhao na qual ainda hoje ¡ncorre o herege, é considerada
sancao medicinal, isto é, penalidade que nao procura tanto castigá-lo
quanto corrigi-lo e curá-lo. Quem se convence do seu erro e o re-
conhece, é sempre acó I h ¡do de bracos abertos, como um fílho particular
mente caro, na plena comunhao da Igreja».

Observa o ¡ornalista: «Estes dizeres parecem simples e claros


demais para corresponder á realidade do nosso tempo, tño pouco
redutível a esquemas predefinidos».

Diz o Cardeal: «É verdade. As coisas concretas nao sao tño


claras quanto as define (nem pode deixar de o fazer) o novo Código.
Aqueta 'negacao' e aquela 'dúvida obstinada' de que fala este, ho¡e
quase nunca as encontramos de modo patente. £ de presumir qve
existam numa época espiritualmente complexa como a nossa; mas nao
querem aparecer cómo tais. Quase sempre os teólogos oporao ao
Magisterio as suas próprias hipóteses teológicas, dizendo que aquele
nao exprime a fé da Igreja, mas apenas a 'arcaica teología romana'.
Dir-se-á que nao a Congregacao pora a Fé, mas eles, os 'hereges',

— 405 —
50 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

representan! o sentido 'auténtico' da fé transmitida. Onde haja um


vínculo mais forte com a Igreja, ocorre um fenómeno diferente, mas
ligado ao primeiro: fico sempre surpreso pela habilidade de teólogos
que conse.guem sustentar exatamente o contrario do que está escrito
em claros documentos da Igreja. Apesar de tudo, a ¡nversáo é apre-
sentada com habéis artificios dialéticos como sendo o verdadeiro sen
tido do documento em questáo» {pp. 21-23).

2. A raíz da crise: o conceito de Igreja

Penetrando logo no cerne da problemática, o Cardeal Rat-


zinger afirma repetidamente que o conceito de Igreja é «a ori-
gem de boa parte dos equívocos ou dos erros propriamente
ditos que ameacam tanto a teología como a opiniáo comum
católica».

Explica: «Tenho a ¡mpressao de que tácitamente se vai perdendo


o sentido auténticamente católico da realidade 'Igreja'... Muitos já
nao acreditam que se trate de realidade intencionada pelo próprio
Senhor. Mesmo a alguns teólogos a Igreja aparece como urna cons-
trucao humana, um instrumento criado por nos, que, por conseguinte,
podemos reorganizar livremente de acordó com as exigencias do
momento. Insinuou-se de muitos modos no pensamento católico...
urna concepteo de Igreja que nem se pode chamar 'protestante' no
sentido clássico. Alguns dos conceitos correntes de Igreja se prendem,
antes, ao modelo de 'igrejas livres' dos Estados Unidos da América do
Norte, onde se refugiaram os crentes para escapar ao modelo opressivo
da 'Igreja do Estado' prodozido na Europa pela Reforma. Aqueles
refugiados, nao acreditando mais na Igreja como intencionada por
Cristo e querendo ao mesmo tempo fugir da Igreja do Estado,
criaram a sua lgre¡a, urna organizando estruturada segundo as suas
necessidades».

Pergunta o jornalista: «E, para os católicos, qual o modelo?»

Explica o Cardeal: «Para os católicos, a Igreja é, sim, composta


por homens, que or.ganizam a sua face externa; mas, atrás desta, as
estruturas fundamentáis sao intencionadas pelo próprio Deus e, por
isto, sao intocáveis. Atrás da face humana acha-se o misterio de urna
realidade sobre-humana, sobre a qual o reformador, o sociólogo e o
organizador nao tém autoridade para intervir.

— 406 —
«COLOQUIO SOBRE A FÉ» 51

Se a Igreja é considerada como construcao humana, como artificio


nosso, os próprios conteúdos da fé acabam por tornar-se arbitrarios:
sim, a fé perde o seu órgao auténtico e garantido, através do qual se
possa exprimir. Assim, sem urna visSo que seja sobrenatural, e nao
apenas sociológica, do misterio da Igreja, a própria Cristologia perde
o seu referencial com o Divino; a urna estrutura puramente humana
acaba por corresponder um projeto humano. O Evangelho torna-se o
projeto 'Jesús', o projeto 'libertacSo social', ou outros projetos mera
mente históricos, que podem parecer religiosos, mas que sao ateus em
sua substancia» (pp. 45s).

«É preciso criar de novo um clima auténticamente católico, re


descobrir o sentido da Igreja como Igreja do Senhor, como espaco da
real presenca de Deus no mundo. Este misterio do qual fata o
Vaticano II quando escreve aquelas palavras terrivelmente compromete
doras, que corresponden» a toda a tradicáo católica: 'A Igreja, o
reino de Cristo ¡á presente no misterio' (Lumen Gentium n9 3)» (p. 48).

Falando do relacionamcnto dos fiéis com a hicrarquia da


Igreja, diz Ratzinger:

«A obediencia, segundo alguns, nao seria urna virtude crista, mas


o resquicio de um passado autoritario, dogmático, que deve ser supe
rado. Sim; se a Igreja é a nossa Igreja, se a Igreja somos nos apenas,
se as suas estruturas nao sao intencionadas por Cristo, nao se com-
preenderá a existencia de urna hierarquia como servido aos fiéis bali
zados por instituicáo do próprio Senhor. EntSo os fiéis recusaráo o
conceito de autoridade intencionada por Deus, autoridade qve tem
sua legitimando em Deus, e nao — como acontece ñas estruturas poli-
ticas — no consentimento da maioria dos membros da organizacao.
Mas a Igreja de Cristo nao é um Partido nem urna associacáo nem um
clobe; a sua estrutura profunda e ineliminável nao é democrática, mas
sacramental, por conseguinte hierárquica, pois a hierarquia baseada
sobre a sucessao apostólica é condicüo indispensável para atualizar
a forca e a realidade do sacramento. A auíoridade aqui nao se
baseia sobre votacoes de maioria; baseia-se sobre a autoridade de
Cristo mesmo, que quis comunicá-la a homens que fossem seus repre
sentantes até o seu retorno definitivo. Só pela restauragao desta con-
cepcSo será possivel redescobrir a necessidade e a fecundidade católica
da obediencia á legítima hierarquia da Igreja» (pp. 49s).

— 407 —
52 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

Sobre «reforma» da Igreja pronuncia-se o Cardeal:

«O que nos podemos fazer, é infinitamente inferior Áquele que


faz (a renovacao da Igreja). Por conseguinte, 'reforma' auténtica nao
significa tanto esforcarmo-nos para erguer novas fachadas, mas (ao
contrario do que ensinam certas Eclesiologias) 'reforma' auténtica sig
nifica trabalharmos para fazer desaparecer, na maior medida do
possível, o que é nosso, de modo que melhor apareca o que é dele,
do Cristo, é esta uma verdade que os santos bem conheceram; eles
reformaram em profundidade a Igreja nao por haver concebido planos
de novas estruturas, mas reformando-se a si mesmos. Já o disse, mas
nunca o repetiremos bastante: é de santidade, nao de management
(administracao) que precisa a Igreja para responder as necessidades
do homem» (pp. 53s).

«Como repetiu freqüentemenre Joao Paulo II, 'a Igreja de hoje


nao precisa de novos reformadores. A Igreja precisa de novos santos' »
(P. 41).

Aínda a respeito da Igreja diz S. Eminencia:

«Para o homem moderno, é mais compreensível um conceito de


Igreja que em finguagem técnica seria dita 'congregacionalista' ou
"Igreja livre' (Freechurch). Disto se segué que a Igreja seria uma forma
que poderia variar de acordó com a maneira como os homens organi-
zam a realidade da fé; assim haveria de corresponder o mais possível
as exigencias da situacao de cada momento. Já dissemos, mas vale
a pena repeti-lo: é quase ¡mpossível a mullos hoje compreender que
atrás de uma realidade humana esteja presente a misteriosa reafidade
divina. Este é o conceito católico de Igreja, como sabemos; é também
muito mais difícil de se aceitar do que o conceito de 'Igreja livre' »
(p. 165).

3. Fé e Teología

Sabemos que hoje em dia as sentengas e correntes de teó


logos sao propaladas pela imprensa, causando perplexidade
no grande público, que já nao sabe o que ensina propriamente
a doutrina da fé. Na verdade, a teología é fides quaerens iiitel-
lectum, é a fé que procura compreender ou aprofundar os dados
da Revelagáo Divina.

A propósito observa o Cardeal Ratzinger:

— 408 —
«COLOQUIO SOBRE A FÉ» 53

«Muitas correntes teológicas parecem ter esquecido que o sujeito


que elabora a teología nao é o estudioso individual, mas é a comuni-
dade católica no seu conjunto; é a Igrejo inteira. Deste esqtiecimento.
do trabalho teológico como servico eclesial, deriva-se um pluralismo
teológico que na verdade é muitas vezes um subjetivismo e individua
lismo, muito distante das bases da tradicáo comum. Cada teólogo
parece hoje querer ser criativo; mas a sua tarefa auténtica é aprofun-
dar, ajudar a compreender e a anunciar o depósito comum da fé, nao
'criar'. Se nao se observa isto, a fé se fragmenta numa serie de escolas
e de correntes, muitas vezes, contrastantes, com graves prejuízos para
o perplexo povo de Deus. .. Muitos chegaram a se convencer de que
tais esforcos nao raro contribuiram mais para agravar do que para
resolver a crise...

Nesta visao subjetiva da teologia, o dogma é muitas vezes consi


derado como urna gaiola ¡ntolerável, um atentado á liberdade dos
estudiosos. Perdeu-se de vista o foto de que a definicao dogmática é,
sim, um servico á verdade, um dom oferecido aos fiéis pela autoridade
que Deus instituiu. Os dogmas — ¡á se disse — nao sao muralhas
que nos impecam de ver, mas, ao contrario, sao janelas abertas para
o infinito» (p. 72).

Se a teología está em crise, é claro que também a cate-


quese — ou a transmissáo das verdades da fé na escola —
estará em crise, «exposta a fragmentagáo, a experiencias que
mudam continuamente». Sao palavras do Cardeal:

«Alguns catecismos e muitos catequistas jó nao ensinam a fé


católica no seu conjunto harmonioso — em que cada verdade supoe
e explica as outras —, mas procuram tornar humanamente 'interes-
santes' (segundóos correnles culturáis do momento) alguns elementos
do patrimonio cristao. Alguns textos bíblicos sao postos em relevo
porque considerados 'mais próximos da sensibilidade contemporánea';
outros, por razoes oposlas, sao deixados de lado. Por conseguinte, ¡á
nao há urna calequese que seja formacSo global para o fé, mas
reflexos e acenos de experiencias antropológicas parciais, subjetivas»
Ipp. 72s).

Urna das causas do subjetivismo na teologia e na cate-


quese é, sem dúvida, o fato de que a leitura da Biblia foi dis-
sociada da Tradigáo da Igreja. A Biblia é lida por muitos eru
ditos hoje á luz de teorías filosóficas ou dados arqueológicos,
sem que levem em conta o que até hoje a Igreja deduziu do
texto sagrado. Diz S. Eminencia:

— 409 —
54 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

«O Mame entre Biblia e Igreja foi rompido. Esta separacao teve


inicio, há séculos, «m ambiente protestante e se alastrou recentemente
entre estudiosos católicos. A interpretacao histérico-crítica da Escritura,
por certo, abriu muitas e grandiosas possibilidades de compreender
melhor o texto bíblico. Mas, por sua índole mesma, tal método só pode
iluminar o texto na sua dimensao histórica e nao no seu atual valor»
(p. 74).

Pergunta entao o ¡ornalista: «Um católico que deseje estar atua-


lizado, pode ler a sua Biblia sem se preocupar demais com as com
plexas questoes exegéticas?

Respondeu o Cardeal: «Sim, por certo. Todo fiel católico deve


ter a coragem de crer que a sua fé (em comunhao com a da Igreja)
supera qualquer 'novo magisterio' dos peritos e dos intelectuais. As
hipóteses destes podem ser úteis para se compreender a origem dos
livros bíblicos, mas há um preconceito evolucionista em se dizer que
só pode entender o texto quem estude a maneira como se desenvolveu
e formou. A regra de fé, hoje como ontem, nao é ditada pelas des-
cobertas (verdadeiras ou hipotéticas) das fontes e das carnadas da
Biblia, mas é-nos dada pela Biblia como hoje existe, como foi lida na
lgre¡a desde a época patrística 1 até nossos dios. E a fidelidade a este
modo de ler a Biblia que nos deu os santos, muitas veres pessoas de
poucas letras e alheias as complexas questoes da exegese. Apesar
de tudo, foram eles que melhor compreenderam a Biblia» (pp. 76s).

4. O demonio

O diálogo entre o jornalista e o teólogo versou também


sobre a existencia do demonio. Esta, embora seja objeto de
fé católica, é negada por alguns teólogos. Diz o Cardeal:

«Admitem — nem podem deixar de o fazer — que Jesús, os


Apostólos e os Evangelistas estavam convictos da existencia das forcas
demoníacas. Mas, ao mesmo tempo, dáo por certo que, ao pensarem
assim, Jesús e seus seguidores eram vítimas das categorías de pensa-

i Época patrística sao os séculos em que viveram os mestres e dou-


tores da Igreja que contribuirán! para defender e formular a reta fé contra
as grandes heresias da antigüidade. Estende-se até S. Gregorio
Magno (t 604) no Ocidente e S. JoSo Damasceno (t 749) no Oriente.

— 410 —
«COLOQUIO SOBRE A FÉ» 55

mentó dos ¡udeus de outrora. Ora, visto que aos modernos tais catego
rías ¡á nao sao conciliáveis com nossa imagem do mundo, os estudiosos
ho¡e cancelam, como por prestidigitacao, o que julgam incompreensível
ao homem de ho¡e.

Isto significa que, para dizer 'Adeus' 00 diabo, nao se baseiam


sobre a Escritura (a qual afirma precisamente a existencia do mesmo),
mas referem-se a nos, a nossa visao do mundo. Para negar o demonio
e qualquer outro aspecto da fé incómodo ao conformismo contemporá
neo, nao se comportam como exegetas, como intérpretes da Escritura,
mas como homens do nosso tempo.

A autoridade sobre a qual tais especialistas da Biblia fundamen


ta m o seu ¡uízo, nao é a própria Biblia, mas a visao do mundo con
temporánea ao biblista. Este fala entáo como filósofo ou como
sociólogo e a sua filosofía consiste apenas numa banal e aerifica
adesao ás sempre provisorias persuasoes da época».

Intervém Messori: «Portanto, se bem compreendi, feriamos a


inversáo do tradicional método de trabalho teológico: ¡á nao é a
Escritura que julga o mundo, mas é o mundo que ¡ulga a Escritura».

Respondeu o Cardeal: «Com efeito. E a procura continua de um


anuncio que aprésente o que já sabemos ou que de algum modo seja
agradável a quem ouve» (pp. 150s).

«Nao nos devemos adaptar á mentalidade de tantos crentes da


atualidade, os quais pensam que basta comportar-se mais ou menos
como se comporta a maioria, e certamente tudo irá bem» (p. 151).

5. O pecado original

Alguns teólogos hoje adotam a tese de Jean-Jacques Rous


seau (t 1778), segundo a qual o homem seria bom por natu-
reza, corrupto, porém, pela educagáo errónea e pelas estrutu-
ras sociais. Quem conseguisse reformar estes fatores, ocasio
naría ao homem viver em paz consigo e com os seus seme-
lhantes.

A propósito observa Rafzinger: «Se a Providencia um dia me


liberar dos meus atuais compromissos, hei de me dedicar a escrever
sobre o 'pecado original' e a necessidade de se redescobrir a sua

— 411 —
56 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

realidade auténtica. Com efeito; se nao se compreende que o homem


se acha num estado de alienacáo nao só económica e social..., ¡á
nao se compreende a necessidade de Cristo Redentor. Toda a estrutura
da fé é assim a m cacada. A incapacidade de comprender e apresentar
o pecado original é realmente um dos mais graves problemas da teo-
logia e da pastoral dos nossos lempos.

«E donde provém tal incapacidade?», pergunta Messori.

Responde Ratzinger: «Numa hipótese evolucionista do mundo (á


qual corresponde em teología um certo teilhardismo) obviamente nao
há lugar para o pecado original. Este, ao máximo, seria urna expressáo
simbólica, mítica, para indicar as falhas naturais de urna criatura como
o homem, que, a partir de origens muito imperfeitas, caminha para a
perfeícao ou em demanda da sua realizacao completa. Todavía aceitar
esta visao significa derrubar a estrutura do Cristianismo: Cristo é trans
ferido do passado para o futuro; redencáo significa simplesmente ca-
minhar para o futuro como necessária evolucáo para o melhor. O
homem torna-se apenas um produto ainda nao rematado; nega-se a
redencáo, porque, em tal hipótese, nao houve pecado a expiar, mas
apenas urna falha decorrente da natureza» (pp. 80s).

Em última instancia, acrescenta Ratzinger, «a crise do pecado


original é apenas um síntoma da nossa profunda dificuldade de per-
ceber a realidade de nos mesmos, do mundo e de Deus. Nao bastam
as discussoes com as ciencias naturais, como, por exemplo, a paleonto
logía, «mbora este tipo de confronto seja necessário. Devemos estar
conscientes de que estamos diante de precompreensoes ou de prede-
cisoes de índole filosófica» ' (p. 81).

Pergunta, porém, o jornalista: «Adao, Eva, o paraíso, a fruta,


a serpente... Que dizer a respeito?»

Responde o teólogo: «A narrativa da S. Escritura referente as


origens nao fala como a historiografía moderna, mas serve-se de
imagens. Ela revela e oculta ao mesmo tempo. Mas os elementos que
ela lanca, sao razoáveís e a realidade do dogma é salvaguardada. O
cristáo nao serviría devidamente aos irmaos se nao anunciasse, em
suma, que, para sermos salvos, temos que nos abandonar ao Amor»
(p. 82).

1 Com outras palavras; o Cardeal quer dizer que as objegáes contra


o pecado original nao sSo apenas as que pretensamente as ciencias naturais
levantam (objecCes, sem dúvlda, solúvels), mas se devem a preconceltos
filosóficos da mentalldade moderna, que concebe horror ao termo "pecado".

— 412 —
«COLOQUIO SOBRE A FÉ» 57

6. O drama da Moral

Observa S. Eminencia: «Nutn mundo como o oddental, em que


o dinheiro e a riqueza sao a medida de tudo, em que o modelo do
mercado liberal ¡mpoe as suas leis implacáveis a todos os aspectos da
vida, a Etica católica autentica aparece a mijitos como um corpo
ostranho, remoto, urna especie de meteoro, que contrasta nao só com
os concretos hábitos de vida, mas também com o esquema básico do
pensar. O liberalismo económico se traduz, no plano moral, em seu
exato correspondente: o permissivismo» (p. 83).

«E quais seriam as expressoes desse permissivismo?», indagou


o ¡orna lista.

«Rompeu-se o liame entre sexualidade e casamento. Dissociado


do matrimonio, o sexo ficou sem referencial: tornou-se urna especie
de mina flutuante, um problema e também urna potencia omnipresente.

Após a dissociacáo de sexualidade e matrimonio, aquela foi des


vinculada da procriacáo. Todavia o movimento de ruptura deu-se no
sentido inverso: procriacáo sem sexualidade. Em conseqüéncia, acom-
panhamos as experiencias mais impressionantes... da tecnologia, da
Engenharia Genética, em que a procriacáo é independente do uso do
sexo. A manipulacáo biológica está desarraigando da natureza (cujo
conceito é contestado)o homem. Tenta-se transformar o homem e
manipulá-lo como se faz com qualquer outra coisa: é equiparado
simplesmente a um produto planejado a gosto...

Nesta marcha que desfaz conexoes fundamentáis naturais (e nao


apenas culturáis, como dizem alguns), estao contidas conseqüéncias
inimagináveis que derivam da lógica mesma que inspira tal procedi-
mento. . . Com efeito; torna-se lógico que o prazer, a libido do
individuo ven ha a ser o único referencial possivel para o sexo. Este,
sem razáo objetiva que o justifique, vai procurando a sua razáo subje
tiva na satisfacao dos desejos, na resposta mais satisfatória possivel
aos instintos do individuo, instintos aos quais este nao pode opor um
freio racional. Cada qual é livre para dar o conteúdo subjetivo á sua
libido pessoal.. . Para dar um exemplo hoje muito atual, direi que
se torna um direito inalienável (e como ncgá-lo na base de tais pre-
missas?) o homossexualismo; o reconhecimento pleno deste vem a ser
um aspecto da 'libertacao' do homem» (pp. 84-86).

— i: ?, —
58 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

Tendo posto de lado o Evangelho como base da Ética, o horneen


procura na sua razao os principios do respectivo comportamento
moral. Em conseqüéncia, concebeu a Moral dos fins ou como se
prefere nos Estados Unidos, onde é elaborada e difundida em grau
máximo — «a moral das conseqüéncias, o 'conseqüencíalismo': nada
é em si bom ou mau; a bondade moral de um ato depende única
mente da sua finalidade e das suas conseqüéncias previsiveis
e calculáveis. Tendo tomado consciéncia dos inconvenientes de tal
sistema, alguns moralistas procuraram atenuar o conseqüencialismo
mediante o 'proporcionalismo': o agir moral dependería do confronto
instituido pelo sujeito entre a proporcao de bens e a de males que
estariam «m ¡ogo» (p. 91).

«Ñas eonviccoes moráis de certas teologías da libertacáo há


freqüentemente um fundo de Moral proporcionalista: o 'bem absoluto',
isto é, a construcao da sociedade justa socialista, torna-se a norma
moral que justifica tudo mais, inclusive — se necessário — a violencia,
o homicidio, a mentira. Eis um dos muitos aspectos que mostram como,
desvinculando-se de Deus, os homens se tornam presa das conseqüén
cias mais arbitrarias. A razao do individuo pode propor á sua ativi-
dade objetivos sempre mais diversos, mais imprevisíveis, mais perigosos.
E aquilo que parecía libertacao toma o sinal contrario, mostrando na
realidade a sua face diabólica. Ha verdade, tudo isto já foi descrito
com precisáo ñas primeiras páginas da Biblia» (p. 92).

7. As mulheres, a Mul'her

O Cardeal Ratzinger foi interrogado também a respeito do


papel da muiher na sociedade civil e na Igreja contemporánea.
Comentou:

«£ a muiher que sofre mais duramente as conseqüéncias da con-


fusáo e da superficialidade de urna cultura fruto de mentes masculinas
e de ideologías masculinas. Estas engañam a muiher. . . dizendo que
na verdade a querem libertar».

E aborda a questáo do sacerdocio das mulheres:

«A primeira vista, as instancias do feminismo radical em favor


de total equiparacáo entre o homem e a muiher parecen» nobilíssímas
ou, ao menos, muíto razoáveis. E parece lógico que a reivindicacao
de ¡ngresso da muiher em todas as profissoes, sem exclusáo de alguma,

— 414 —
«COLOQUIO SOBRE A FÉ» 59

se transforme, no interior da Igreja, em pedido de acesso ao sacerdocio.


A muitos.. . a possibilidade de ter sacerdotizas católicas parece nao
apenas justificada, mas inocua; seria urna simples e indispensável
adaptacao da Igreja a urna situacao social nova».

«Entáo por que obstinar-se na recusa?», perguntou o ¡ornalista.


Respondeu Ratzinger: «Na verdade, este tipo de emancipacao
da mulher nao é novo. Esquecem que no mundo antigo todas as
religides tinham sacerdotizas. Todas, exceto urna: a hebraica. O
Cristianismo, seguindo o exemplo escandalosamente original de Jesús,
abre as mulheres urna situacao nova, reserva-lhes um lugar que re
presenta novidade em relacao ao [udaísmo. Mas conserva o costume
de só dar o sacerdocio aos homens. Evidentemente a intuicao dos
cristáos compreendeu que a questao nao era secundaria e que defen
der a Escritura (nem o Antigo nem o Novo Testamento conhecem
sacerdotizas) significa também defender a pessoa humana. A comecar,
como se entende, pela pessoa do sexo feminino».
O jornalista pediu ulteriores explicarles para tal afirma-
gáo que nao lhe parecía suficientemente clara. Ao que res
pondeu o Cardeal:
«É preciso irmos ao fundo da reivindicacáo que o feminismo radi
cal deriva da cultura, hoje difundida, de banalizar a especificidade
sexual, tornando permutáveis os papéis do homem e da mulher.
Falando da crise da Moral tradicional, disse que na raiz da crise há
urna serie de rupturas fatais; entre estas, por exemplo, a que ocorre
entre sexualidade e procriacao. Desvinculado da fecundidade, o sexo
¡á nao se aprésenla como característica determinada ou como orienta-
cao radical, típica da pessoa. Homem? Mulher? Sao perguntas que,
para alguns, se tornaram velhas, sem sentido, se nao racistas. A
resposta da mentalidade contemporánea é previ sí ve I: 'Homem ou
mulher, isto pouco nos interessa. Somos todos simplesmente pessoas
humanas'. Isto na verdade é grave, mesmo que pareca belo e gene
roso; significa, sim, que a sexualidade ¡á nao é considerada como
enraizada na antropología,- significa que o sexo é visto como urna
simples funcáo permutável a gosto».

— «E daí?»
— «Daí se segué lógicamente que todo o ser, e todo o agir da
pessoa humana sao reduzidos a pura funcionalidade ou mero papel:
por exemplo, o papel de consumidor ou o de trabalhador, conforme
os regimes..., algo que nao diz respeito diretamente á diversidade
sexual. Nao é por acaso que, entre as campanhas de 'libertacáo'
destes anos, se registrou a de fugir da 'escravidao da natureza'; rei-
vindicam o direito de tornar-se homem ou mulher a gosto, talvez por

— 415 —
60 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 262/1985

vía cirúrgica, e exigem que o Estado reconheea esta autónoma vontade


do individuo. E nao é por acaso que as leis se adaptaram logo a
tais exigencias. Mesmo que esta 'mudanca de sexo' nada mude na
constituicáo genital da pessoa interessada; é apenas um artificio
exterior, com o qual nao se resolvem os problemas, mas apenas se
constroem realidades ficticias. Se tudo é apenas urna funcao deter
minada pela cultura, pela historia e nada há de especifico inscrito tías
profundidades da natureza, também a maternidade se torna urna
funcao casual; com efeito, certos movimentos feministas consideran)
injusto que somente á muiher toque dar á luz e ornamentar. E a
ciencia... Ihe acode, transformando um homem em muiher, e více-
-versa, como já vimos, ou separando da sexualidade a fecundidade,
de modo a promover a procriacáo mediante manipulacoes técnicas.
Nao somos todos i,guais? Por conseguinte, se necessário, combatamos
as desigualdades da natureza. Todavía a natureza nao pode ser com
batida sem que soframos as conseqüéncias mais devastadoras. A
sacrossanta igualdade entre homem e muiher nao exclui, antes exige,
a diversidades (pp. 93-96).

Solicitado pelo jornalista, o teólogo considera mais direta-


mente o aspecto religioso da questáo:

«O Cristianismo nao é urna especulacáo filosófica, nao é urna


construcáo da nossa mente. O Cristianismo nao é nosso, é a Revelacao
de Deus, é urna mensagem que nos foi entregue e que nao temos o
direito de reconstruir a gosto. Por conseguinte, nao estamos autoriza
dos a transformar o 'Pai Nosso' em 'Máe Nossa': o simbolismo usado
por Jesús é irreversível».

— «Entao estaría o diálogo encerrado?»

— «Estou convencido de que o feminismo na sua forma radical


leva a algo que nao é o Cristianismo. . ., mas urna religiao diversa.
Mas também estou convencido (comecamos a ver as razoes profundas
da posicáo bíblica) de que a Igreja Católica e as comunidades orto
doxas, defendendo a sua fé e o seu conceito de sacerdocio, defendem
tanto o homem quanto a muiher na sua totalidade, na sua distincáo
irreversível entre masculino e feminino; por conseguinte, defendem o
sua irredutibilidade a simples funcoes ou papéis».

E conclui S. Eminencia: «De resto, vale a pena repetir aqui o que


nao me canso de dizer: para a Igreja, a ünguagem da natureza (no
nosso caso: dois sexos complementares entre si e bem distintos um do
outro) é também a lin.guagem da Moral; homem e muiher sao chama-
aos a metas igualmente nobres, eternas, mas por caminhos diversos.
É em nome da natureza — sabemos que este conceito é posto em

— 416 —
«COLOQUIO SOBRE A FÉ» 61

xeque pela tradicao protestante e pelo lluminismo — que a Igreja


levanta a voz contra a tentacao de se formularem os pessoas e seu
destino segundo projetos meramente humanos ou de se apagarem as
características individuáis e a respectiva dignidade. Respeitar a bio
logía é respeitar o próprio Deus e salvaguardar as suas criaturas».

Fruto «do Ocidente opulento e do seu estatuto intelectual», o


feminismo radical «anuncia urna libertacáo, isto é, urna salvacao dife
rente, se nao oposta a crista». Mas «toca aos homens, « principalmente
as mulheres que experimentam os frutos dessa presumida salvacao
pos-crista, interrogar-se com realismo para saber se essa salvacao
implica um aumento de felicidade, um maior equilibrio, urna síntese
vital raois rica do que a que abandonaran! por ¡ulgarem-na superada»
Ipp. 97s).

Para a crise da Moral, da mulher e do conceito de Igreja,


o Cardeal aponta um remedio que «mostrou concretamente a
sua eficacia ao longo de todos os séculos cristáos. Um remedio
cujo prestigio parece hoje ter-se obscurecido entre alguns cató
licos, mas que é, mais do que nunca, atual». Tal é María San-
tíssima.

Em particular a respeito do terceiro segredo de Fátima,


o jornalista perguntou ao Cardeal se nao será publicado. Ao
que respondeu S. Eminencia:

«O Santo Padre julga que isto nada acrescentaria ao que um


cristáo deve saber a partir das fontes da Revelacáo e também a partir
das aparicoes marianas aprovadas pela Igreja; estas confirmam a
urgencia de penitencia, de conversao, de perdao, de ¡ejum. Publicar
o terceiro segredo seria expor-se ao perigo de manipulacoes sensacio-
nalistas do seu conteúdo» (p. 11).

8. Urna certa «libértaselo»

A entrevista do Cardeal Ratzinger, tendo ocorrido em


agosto de 1984, é anterior á Instruc.io Libértalas Nuntius
(3/9/84) e a declaragóes precisas relativas a Frei Leonardo
Boff. Por isto nao aborda tais documentos. Mas refere-se o
Cardeal á Teología da Libertacáo, dizendo:
«O que é teológicamente inaceitável e socialmente peri.goso, é
essa mistura de Biblia, Cristologia, política, sociología, economía. Nao
é lícito abusar da Escritura e da teología para absolutizar e sacra lizar
urna teoría referente a ordem sócio-política. Esta, por sua natureza,
é sempre relativa. Se, porém, alguém sacraliza a revoiucáo — mistu-

— 417 —
62 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

rondo Deus, Cristo e ideologías —, cria um fanatismo entusiasta que


pode levar as piores injusticas e opressoes, contradizendo com fatos
áquilo que a teoria propunha».

«É doloroso — em sacerdotes e teólogos! — a ilusao rao pouco


crista de poder criar um hornero :e um mundo novos nao pelo apelo á
conversao de cada um, mas atuando apenas sobre as estruturas sociais
e económicas. Na verdade, é o pecado pessoal que está na base das
próprias estruturas sociais injustas. É sobre a raiz, e nao sobre o
tronco e os ramos das árvores da ¡njustica, que se deve trabalhar se
se qver urna sociedade realmente mais humana. Estas sao verdades
cristas fundamentáis, rejeitadas, porém, com desprezo como alienantes
e espiritualistas» (pp. 202s).

9. Conclusao
Outros tópicos do livro em foco ainda mereceriam desta
que; tais os que se referem ao «Concilio a redescubrir», as
Conferencias Episcopais, á Liturgia, ao Ecumenismo, á Evan
gelizado, á Escatologia... Na verdade, a obra apresenta um
panorama abrangente de toda a problemática da fé hoje.
Os comentadores do livro chamaram a atengáo para a
palavra «Restauracáo», utilizada pelo Cardeal Ratzinger para
designar o programa do próximo futuro da Igreja. Significaría
urna volta á época pré-conciliar ou um apagamento da reno-
vacáo do Concilio do Vaticano n (1962-1965) tido como fra-
cassado? — Tal interpretagáo foi categóricamente desmentida
pelo Cardeal Prefeito, que assim se explicou:
«Se por 'restauracóo' se enfende um voltar atrás, nenhuma res-
tauracáo é possível. A Igreja vai á frente, em demanda da consuma-
cao da historia; Ela olha para o Senhor que vem. Nao; para tras nao
voltaremos, nem podemos voltar. Portento, nao hovera restauracao
neste sentido. Mas, se por 'restauracao' entendemos a procura de um
novo equilibrio após os exageras de abertura indiscriminada para o
mundo, após as interpretares demasiado positivas de um mundo
agnóstico e ateu, entao a restauracao em tal sentido (um renovado
equilibrio das orientacóes e dos valores no interior da totalidade
católica) é muito desejável e, de resto, ¡á está-se exercendo na Igreja.
Neste sentido pode-se dizer que está encerrada a primeira fase após
o Vaticano II» (p. 3ó).
Ve-se, pois, que a posigáo do Cardeal Joseph Ratzinger
nada tem de extremismo ou conservador ou progressista. É
simplesmente a atitude de fidelidade incondicional a Igreja e
a Cristo, que vive nesta. Dado que esta fidelidade é contes
tada ou menos prezada hoje em dia, o livro em foco pode pare-
— 418 —
«COLOQUIO SOBRE A Ffi» 63

cer estranho. Todavía ele deve ser tido como altamente bené
fico, pois veio dizer explícitamente verdades que se foram rare-
fazendo na linguagem dos cristáos; veio acudir á hesitasáo de
muitos que, diante do grande número de abusos ou exageros
hodiernos, perguntam se afinal nao sao os abusos que consti-
tuem a norma certa, de modo que quem nao os aceita é mal
informado ou antiquado ou erróneo. Nao há como vacilar:
quem mantém a auténtica fé com c que ela tem de «loucura e
escándalo» (ICor 1,23), está longe de errar; conserva-se na
posigáo certa (embora, humanamente falando, incómoda) para
o bem de seus irmáos.

Possa o livro assim apresentado encontrar sempre maior


número de leitores, que nao poderio deixar de reconhecer o
conteúdo lúcido, profundo e sereno das ponderacóes do Car-
deal Ratzinger! Este nos chama á confianca e ao otimismo
baseados num sincero diagnóstico da situacáo da fé em nossos
dias; a partir da realidade desafiadora devidamente identifi
cada se construirá o futuro da Igreja.

419 —
Um folheto polémico:

"0 Estado do Vaticano

Epn síniese: O opúsculo intitulado "O Estado do Vaticano", de orlgem


protestante, agride a Igreja Católica na base de inverdades e sarcasmo.
Atendendo ao pedido de leitores, tecemos algumas consideracdes a res-
peito. O panfleto nao somente falsifica a historia e a mensagem da Igreja
Católica, mas incide em contradigóes que bem revelar» o despreparo e a
nula autoridade de quem o redigiu.

Tém sido encaminhadas a redagáo de PR sucessivas soli-


citagóes no sentido de que comente o folheto «O Estado do
Vaticano», divulgado ñas paróquias do Brasil pelo pastor pro
testante Lauro de Barros Campos, de Campiñas (SP). Dada
a ampia difusáo desse escrito, perpassado de inverdades estri
dentes, publicamos, a seguir, algumas consideragóes a respeito.
Anima-nos táo somente o desejo de salvaguardar a verdade,
dissipando graves equívocos.

1. Tópicos salientes

Quem lé o opúsculo (e outros semelhantes, que tém sido


disseminados em grande número), tem a impressáo de que o
Protestantismo precisa de mentiras e calúnias para poder pro-
pagar-se entre os fiéis. Com efeito; o opúsculo é, de ponta-a-
-ponta, a expressáo de inverdades grosseiras e de odio pas-
sional contra a Igreja Católica e suas instituigóes.

Com referencia direta ao autor do opúsculo (seria o pró-


prio distribuidor do mesmo?), torna-se evidente que nunca
estudou a Igreja Católica, sua historia, sua mensagem e sua
estrutura, pois nao cita documentacáo ou fontes de primeira
máo. Refere-se a compendios de historia ou de polémica anti
católica, mas sem indicar exatamente o autor, o titulo da obra,
ano de edigáo, páginas em foco... As citacdes, quando ocor-
rem, sao geralmente imprecisas, como «Jornal II Giornio, Mi-
láo> (p. 4), «Chiniqui, pág. 44» (p. 12), «Taine, infra» (p. 3,
sem que se veja esclarecimento infra), «Vita del Marcelo,
pág. 132» (p. 12). O autor apenas repete, sem espirito cientí-

— 420 —
«O ESTADO DO VATICANO» 65

fico, o que já foi escrito, e, visto que nao tem conhecimento


pessoal do assunto, incide em erros e contradigóes, que passa-
mos a recensear:

Pág. 1: O autor traga um paralelo entre as Ordens Reli


giosas do Catolicismo e as denominagóes do Protestantismo
(Batistas, Presbiterianos, Metodistas, Luteranos...). Ora o
paralelo nao existe, pois as Orifens e Congregagóes Religiosas
do Catolicismo reconhecem um Pastor Supremo comum, que
é o Papa (por conseguinte, nao quebram a unidade do Catoli
cismo), ao passo que as denominagóes protestantes nao tém
chefe comum; sao independentes e multiplicam-se de modo a
se afastar cada vez mais da doutrina do Novo Testamento,
tendendo a fazer prevalecer a do Antigo Testamento (cf. Tes-
temunhas de Jeová e seitas derivadas); desta maneira quebram
a unidade do Protestantismo e perdem-se no individualismo
mais arbitrario.

Pág 2: Sao mencionadas as «Pseudas Decretáis de Isi


doro do século 2«». — Na verdade, as Pseudo-Decretais datam
do século IX (entre 845 e 857). Vém a ser urna colegao de
textos jurídicos, auténticos e nao auténticos, devida a um certo
escritor chamado Isidoro Mercator, provavelmente de Rheims
(Franga). Este autor foi confundido nos tempos seguintes
com Santo Isidoro, bispo de Sevilha (560-636). Por isto a
colegáo tomou o nome de «Pseudo-Isidoriana» ou «Pseudo-De
cretais de Isidoro de Sevilha», pois se verificou no século XV
que nao podia ser de S. Isidoro de Sevilha. — Donde se vé
que, a varios títulos, é falso falar de «Pseudas Decretáis de
Isidoro do século 2"». A historia nao conhece Isidoro do
século 2".

Pág. 3: «Antes do Papa Sixto IV ninguém ia para o pur


gatorio, porque nao existia... Surgiu com seu decreto!» Á
pág. 6 se lé o mesmo. Todavía á pág. 8 está dito que o dogma
do Purgatorio data de 503 — o que nao se coaduna com as
afirmagóes anteriores, pois o Papa Sixto IV data de 1471-1484.
Na verdade, a crenga na existencia do purgatorio deriva-se dos
principios bíblicos (cf. 2Mc 12,39-46; ICor 3,10-16; Mt 5,25s)
e é documentada por textos cristáos dos primeiros séculos. Cf.
E. Bettencourt, «Diálogo Ecuménico». Ed. Lumen Christi, Rio
de Janeiro 1984, pp. 141-157.

Pág. 3: É mencionado «o Papa Joáo XXIII ano 1410»,


com a advertencia: «nao confundir com o Joáo XXIII mais re
cente; nao sabemos porque um papa posterior decide adotar o

— 421 —
66 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

nome de um anterior táo imoral». — Ora Joáo XXIII (1410-


-1415), no caso, nao foi Papa, mas anti-Papa.
Pág. 5: Sao mencionados Ratramno, Rábano Mauro (nao
Rubano Mauro, como se lé no opúsculo), Sao Joáo Crisóstomo,
S. Agostinho como adversarios da transubstanciacáo eucaris-
tica, sem a indicagáo das respectivas fontes. Na verdade, Ria-
tramno (t 868) e Rábano Mauro (t 856) nao podem ser ali-
nhados na mesma escola teológica, pois divergem entre si- Rá
bano Mauro (776-856) professa a real presenca de Cristo na
Eucaristía, como também o faziam S. Joáo Crisóstomo (t 407)
e S. Agostinho (t 430). Ratramno, sim, foi dissidente, profes-
sando mero simbolismo eucarístico.

Pág. 5: «Entre 1305 e 1377 a Igreja foi govcrnada por


dois Papas, um em Avinháo e outro em Roma». — Há ai evi
dente confusáo: de 1305 a 1377 os Papas residiram táo somente
em Avinháo; nao havia titular em Roma; de 1378 a 1415, sim,
deu-se o grande cisma do Ocidente, que terminou com a eleigáo
do Papa Martinho V.

Pág. 5: «Antes de 1215 nenhum cristáo aceitava que a


farinha se transformava em Cristos». — Abstraindo do lin-
guajar sarcástico e pouco digno, notamos que, desde a época
dos Evangelistas, a Igreja professa que o pao eucarístico se
torna o Corpo de Cristo e o vinho se converte no sangue do
Senhor; cf. Mt 26,26-28; Me 14,22-25; Le 22,15-20; ICor 11,
23-25. A Tradigáo o professou desde os seus inicios, conforme
a documentacáo apresentada em «Diálogo Ecuménico» pp. 103-
-123. A palavra «transubstanciagáo» foi concebida pela teo-
logia escolástica (medieval) para designar o fato já anterior
mente professado, ou seja, a real presenga eucarística de Jesús
(transubstanciacáo significa a conversáo da realidade do pao
e do vinho na realidade do corpo e do sangue do Senhor). Tal
vocábulo parece ter sido utilizado, pela primeira vez, pelo bispo
Estéváo de Autun (t 1140); retornou sob a pena de muitos
teólogos e canonistas na segunda metade do sáculo XII e foi
oficialmente reconhecido pela Igreja no Concilio do Latráo IV
(1215); é a este último fato que o opúsculo alude irreverente
mente. Antes, porém, da palavra «transubstanciagáo», já a
realidade da mesma era professada pelos cristáos, como atesta
o texto dos Evangelhos, que é de clareza meridiana.

Pág. 7: Em 1215 o Papa Inocencio III terá proibido a


leitura da Biblia. Todavía á p. 8 isto é atribuido ao ano de
1229, quando o Papa Inocencio III já estava morto (faleceu

— 422 —
«O ESTADO DO VATICANO» 67

em 1216). Na verdade, o autor é impreciso, ou melhor, enga-


nou-se. Eis o que na verdade se deu:

O Bispo de Metz (Alsácia) comunicou ao Papa Inocen


cio III (1198-1216) que um grupo de pessoas da diocese havia
mandado traduzir livros da Biblia para o francés no intuito
de comentá-los e discuti-los em círculos fechados..., círculos
que nao admitiam quem nao estivesse de acordó com eles;
admoestados por alguns sacerdotes, tais pessoas haviam-lhes
resistido. O Papa entáo escreveu duas cartas: urna ao Bispo
e ao seu cabido; a outra a todos os fiéis da diocese de Metz.
Nesta última observava que

— a pregagáo do Evangelho nao se deve efetuar em gru


pos fechados, mas de maneira pública, e cita Mt 18,27 e
Jo 18,20;

— tal é a profundidade das Escrituras que nao só os sim


ples e analfabetos, mas também os prudentes e doutos nao
estáo habilitados a entendé-las plenamente;

— é necessário ter urna «missáo» (incumbencia atribuida


pelo Bispo) para pregar.

No final o Papa exorta os fiéis a que mudem de atitudc


e sigam a fé católica e a disciplina eclesiástica.

Na primeira carta Inocencio m pedia ao Bispo de Metz


que procedesse com prudencia e indagasse solícitamente a res-
peito da problemática para que ele, Papa, pudesse tomar pro
videncias.

Como se pode observar, estes textos nao proibem a leitura


da Biblia, mas tém em vista coibir possíveis erros decorrentes
do indevido uso da mesina. Á Igreja, sim, Cristo confiou a
missáo de guardar e transmitir incólume a Palavra de Deus.

Pág. 7: «Em 1534 surgiu urna Ordem sinistra (a dos Je


suítas) ... Propunha varrer da térra protestantes, magons e
mugulmanos». Quantos erros nao há ai! — Na verdade, a
Magonaria filosófica só comegou a existir em 1717! Por con-
seguinte, os jesuítas nao podiam ter originariamente o propó
sito de o combater.

Pág. 8: «O Imperador Constantino celebra o 1" Concilio


em 313». — Na verdade, o primeiro Concilio universal, o de
Nicéia I, realizou-se em 325. No ano de 313, Constantino, me
diante o Edito de Miláo, concedeu a paz aos cristáos.

— 423 —
68 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS? 282/1985

Pág. 9: Entre os pretensos adversarios da virgindade de


María, sao mencionados S. Ireneu de Liáo (f 202) e S. Epi-
fánio (t 403), que foram convictos defensores da mesma. Bem
se vé que o autor do opúsculo fala sem conhecimento de causa.
Ver S. Ireneu, Contra as heresias V 2; S. Epifánio, Panário 1.
III, t. II, haer. LXXVm, á p. 440 deste fascículo.

O autor acrescenta: «Afinal casar-se e ter filhos nao des


merece. .. O que desmerece, e muito, é a condigáo de celiba-
tário». — Estas palavras injuriam o próprio Jesús e o Apos
tólo Sao Paulo, que, aos olhos do autor do opúsculo, já nao
merecem crédito. O casamento, sem dúvida, é santo (cf. Ef
5,25-32), mas nao exclui o valor da vida celibatária, instituida
pelo próprio Cristo (cf. ICor 7,25-35).

Pág. 9: Em 787 instituiram o culto a Maria». Ora ás


pp. 6 e 8 está dito que «María comecou a ser cultuada em
431»¡ — Afinal 787 ou 431? — Nenhuma das duas datas! Já
em Le 1,43 María é chamada «Máe do meu Senhor», sendo
que a palavra «Senhor» traduz o grego Kyrios, que, por sua
sua vez, traduz o hebraico Jahvtíh; donde se entende que Ma-
ria é Máe de Javé ou Máe de Deus na medida em que o Se
nhor Deus quis fazer-se homem e assumir a natureza humana
no seio de María Virgem (nao na medida em que Ele é Deus
eterno). Ora em 431 o Concilio de Éfeso proclamou tal ver-
dade bíblica, designando María como «Máe de Deus» (Theo-
tókos, em grego, era título, já muito antes de Éfeso, utilizado
pelos escritores da Igreja).
Pág. 9: O Papa Joáo XII em 1317 terá introduzido a
recitacáo da «Ave-Maria». — Ora o Papa Joáo XII nao é de
1317, mas de 955-964. A «Ave-Maria» já se acha no Evange-
lho, donde é simplesmente tirada para ser repetida pelos fiéis:
veja Le 1,27 (o anjo disse a María «Ave, cheia de grasa, o
Senhor é contigo...») e Le 1,42 (Isabel saudou María com
estas palavras: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é
o fruto do teu ventre!»).
Pág. 10: «Sao Jerónimo ano 340 dizia o mesmo...»
Sao Jerónimo aínda nao nascera em 340! Ele viveu de
347 a 420.
Pág. 12: Mais urna vez volta a mencáo de Joáo XXIII
em 1410. — Já dissemos que nao foi Papa, mas antipapa.
Pág. 12: «Francesco Petrarca, humanista, ano 1304 des-
creveu o Vaticano...» — Petrarca viveu de 1304 a 1374. Em
1304 nao descreveu coisa alguma!

— 424 —
«O ESTADO DO VATICANO>

Pág. 13: «Em 869 a Igreja Oriental separou-se de Roma».


— O cisma de 869, devido ao Patriarca Fócio de Constantino-
pla, nao foi definitivo, pois houve reatamento. A ruptura defi
nitiva deu-se em 1054, sob o Patriarca Miguel Cerulário de
Constantinopla.

Pág- 13: No § 5 desta página encontram-se afirmacóes


referentes a Lutero e ao Papa, que sao de simploriedade sur-
preendente. O autor do opúsculo fala de varios temas em ter
mos sumarios e em tom táo categórico que só revelam sua
ignorancia e obcecagáo; a pesquisa da verdade parece nao Ihe
interessar; dir-se-ia, antes, com a devida venia, «um macaco
em casa de taúcas»: desajeitado, gesticula descabidamente e faz
estragos, em vez de por em relevo a verdade.
Pág. 13, § 5: Nao se escreva fortalescer, mas fortalecer,
Pá#. 14: «S. Ireneu, bispo de Esmirma...» — Diga-se:
«bispo de Liáo (Gália)». Esmirna fica na Asia Menor. Há con-
fusáo com S. Policarpo de Esmirna mencionado á p. 17.
Pág. 16: «O Cardeal Congar de París propñs: ... Todo
padre e bispo deve casar-se... O Papa nao é infalível... Ne-
nhum papa, bispo ou padre é intermediario entre Deus e o
homem a nao ser Jesús Cristo». — Antes do mais, observe
mos: nunca existiu o Cardeal Congar; apenas se conhece o
Pe. Yves Congar, frade dominicano, teólogo do Concilio do
Vaticano II! Além disto, seria favor indicar em que obras
teológicas do Pe. Congar se encontram as proposigóes a ele
ácima atribuidas. Quem conhece o Pe. Congar, sabe que ele
nunca escreveu tais coisas.

Pág. 16: O opúsculo refere que «no concilio de Cartago


ano 397 a Igreja ratificou formalmente os vinte e sete livros do
Novo Testamento». — O autor «esqueceu-se» de dizer que o
mesmo Concilio nao somente definiu como canónicos os vinte
e sete livros do Novo Testamento, mas também promulgou
como canónicos os escritos do Antigo Testamento, incluindo
neste Tobías, Judite, l'/2' Macabeus, Baruque, Sabedoria, Ecle
siástico, que Lutero nao quis reconhecer e retirou da Biblia dos
cristáos. O mesmo canon ampio (contendo os sete livros cita
dos) já fora promulgado pelo Concilio de Hipona (canon 36)
em 393 e haveria de ser repetido pouco depois pelo Concilio de
Cartago XV em 419; tal catálogo tornou-se usual na Tradicáo
crista e foi reafirmado solenemente pelos Concilios Ecuménicos

— 425 —
JO «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 282/1985

(universais) de Florenga em 1442 e de Trento em 1546. Donde


se vé que nao foi o Concilio de Trento que em 1546 acrescen-
tou os sete livros deuterocanónicos (apócrifos, segundo os pro
testantes), mas foi Lutero quem nao os quis reconhecer e eli-
minou da Biblia. — Se os protestantes estudassem um pouco
mais, e sem preconceitos, nao desfigurarían! tanto a verdade!
Após salientar tais incoeréncias do opúsculo em foco, deve-
mos voltar-nos para alguns dos principáis títulos de contro
versia levantados pelo respectivo autor.

2. O Papado

1. Segundo alguns historiadores, Sao Leáo Magno (t 461)


terá sido «o primeiro Papa» (p. 21). É difícil dizer por que
afirraam isto. Tais assercoes provém geralmente da pena de
pessoas que só estudam superficialmente, e nao raro guiadas
por preconceitos.

A propósito do Papado encontram-se longas explanagóes


no livro «Diálogo Ecuménico» já citado, pp. 57-101.

Recordaremos aqui apenas o seguinte:

O Papado tem suas origens nos próprios escritos do Novo


Testamento: Mt 16,16-19; Le 22,31s; Jo 21,15-17.

Em Mt 16 Jesús promete fundar sua Igreja sobre Pedro


(Kefa) i, a quem o Senhor entrega as chaves do Reino dos
céus e o poder de ligar e desligar. Estes dizeres pertencem á
íntegra do texto evangélico (como reconhecem os próprios pro
testantes) e tém um sabor aramaico muito puro.

Em Le 22,31s Jesús outorga a Pedro a missáo de confir


mar seus irmáos na fé, fortalecido como será, e é, por especial
assisténcia de Jesús.

Em Jo 21,15-17 o Senhor confirma a promessa, consti-


tuindo Pedro pastor de suas ovelhas.

1 Notemos que o Senhor Jesús falou em aramaico. Por conseguirte,


usou a palavra Kefa: "Tu és Kefa e sobre essa Kefa edificare! a mlnha
Igreja". — Donde se ve que é va a argumentado do opúsculo (pág. 8),
que supSe tenha Jesús utilizado as palavras petros e petra. Basta conhecer
um pouco de lingüística para refutar as proposicSes do opúsculo.

_ 426 —
«O ESTADO DO VATICANO» 71

Todas estas palavras calaram vivamente no ánimo dos


Apostólos e dos cristáos posteriores. Assim Pedro é o mais
citado dos Apostólos nos escritos do Novo Testamento (171
vezes); o segundo é Joáo (46 vezes). Logo nos primeiros sé-
culos da Igreja o sucessor de Pedro em Roma interveio de
maneira decisoria em controversias teológicas (quartodeci-
mana, rebatismo, arianismo...). As palavras de Cristo, á
guisa de sementé, foram desabrochando cada vez mais; na me
dida em que a historia se desenrolava, apresentavam-se novas
e novas oportunidades para que o Papa exercesse suas fungóes
primaciais; em 451, quando Sao Leio Magno interveio no Con
cilio de Calcedonia dirimindo um litigio cristológico, nada de
novo ou estranho fazia; apenas continuava a missáo que Cristo
havia confiado a seus antecessores e que os sucessores have-
riam de levar adiante. Por conseguinte, nao há por que enfa-
tizar o ano de 451 como se fosse o do surto do Papado.

De modo geral digamos: a Palavra do Evangelho é viva,


cheia de virtualidades, que haveriam de atender aos sucessivos
desafios dos tempos. Por isto ela toma através dos séculos
novas e novas expressóes, que nao devem causar estranheza,
desde que sejam o desdobramento homogéneo das virtualida
des da sementé inicial. Vé-se, pois, que as formulagóes e as
práticas da fé nao surgem «por decreto» na Igreja, como jul-
gam alguns historiadores, mas váo desabrochando aos poucos
a partir da sementé evangélica até atingir a sua plenitude de
significado e receber a sua confirmacáo da autoridade da
Igreja. Para avaliar a autenticidade de tais expressóes, nao
há outro criterio senáo o magisterio da Igreja, á qual Cristo
prometeu a sua assisténcia perene até o fim dos séculos (Mt
28,18-20); nao é tal ou tal teólogo ou profeta que julga a
Igreja de Cristo e as suas manifestacóes, pois o teólogo nao
goza do necessário carisma para tanto; é somente a Igreja,
por seu magisterio devidamente assistido por Cristo e pelo Es
pirito Santo (Jo 14,16.26; 16,13), quem julga a autenticidade
das expressóes da fé e da vida do povo de Deus no decorrer
da historia.

— 427
72 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

Todo cristáo profere tres atos de fé básicos, sobre os


quais se constroem a sua teología e a sua ética:

1) «Creio em Deus Pai Criador do céu e da térra»;

2) «Creio em Jesús Cristo, Palavra do Pai, Deus feito


homem para nos remir»;

3) «Creio no Espirito Santo, que vive na Santa Igreja


(a qual é a Comunhháo dos Santos), para a remissáo dos peca
dos. .. e a vida eterna».
Isto quer dizer que quem eré em Jesús Cristo, eré tam-
bém no Corpo de Cristo que dele se deriva desde Pentecostés,
vivificado pelo Espirito Santo, o qual é a alma da Igreja.
«Creio em Deus», «Creio em Jesús Cristo» e «Creio no Espirito
Santo que vive na Igreja» sao tres proposicóes inseparáveis
entre si, que o cristáo professa num só ato de fé (fé que nao
é cega, mas que tem suas credenciais, estudadas no tratado
dito «da Teología Fundamental»). A partir dessas proposigóes
— repita-se — é que o cristáo elabora sua teología e vive a
sua ética.

2. O fato de ter havido maus Papas nos séculos X e


XVI nao invalida a autoridade do Papado; antes, a corrobora.
Sim; verifica-se que também através desses prelados Cristo
quis govemar a sua Igreja, pois nenhum deles promulgou de
creto ou norma que contrariasse a fé e a Moral da Igreja. O
fato mesmo de que a Barca de Pedro foi entregue a timoneiros
pouco dignos sem naufragar, corrobora a tese de que é Jesús
mesmo quem guia a sua Igreja. De resto, notemos que as
noticias sobre os Papas transmitidas pelo opúsculo em foco as
pp. 3-5 sao tendenciosas e destituidas de criterio científico. A
historia é o terreno mais explorado pelas ideologías, que pro-
curam interpretá-la a seu modo, a fim de justificar teses polí
ticas e sociais dos respectivos ideólogos. Por conseguinte, é
preciso que o estudioso saiba discernir lucidamente os livros
ou manuais de historia que utiliza, pois nem todos referan os
acontecimentos passados com objetividade imparcial e cien
tífica.

— 428 —
«O ESTADO DO VATICANO» 73

3. A civilizagóo dos países protestantes

Á p. 4 o opúsculo compara entre si nagóes protestantes e


nagóes católicas... Concluí que aquelas estáo muito mais
desenvolvidas do que estas; e isto, em virtude da sua fé pro
testante. O Catolicismo terá atrasado o progresso dos povos.

— O argumento nao é novo. Já foi considerado pelo Pe.


Leonel Franca S.J. em seu diálogo com o Sr. Ernesto Luís de
Oliveira, protestante. Ver a propósito os livros «A Igreja, a
a Reforma e a Civilizagáo» de Leonel Franca, 2» edigáo, Rio
1928, e «Catolicismo e Protestantismo» do mesmo, 2» edigáo,
Rio 1952. Destas obras sejam destacados alguns tópicos.

«A suposta superioridade das nagóes protestantes sobre as


católicas tem sido amplamente explorada nos meios de cultura
intelectual inferior, como argumento popular contra a Igreja»
(Catolicismo e Protestantismo, p. 214).

Para elucidar a afirmagáo dos autores protestantes, pro


curemos, antes do mais, desfazer algumas ambigüedades:

3.1. Os equívocos da questáo

1. A civilizaba© de um povo é algo de muito complexo,


pois vem a ser fungáo de múltiplas e variadas causas. Reduzir
a grandeza de um povo a algumas cifras de comercio e expli-
cá-las pelo fator religioso é simplificagáo pueril.

Com efeito. Perguntemo-nos se existem propriamente na-


cóes católicas e nagóes protestantes. Qual o povo que desde a
Reforma esteve sujeito únicamente á influencia católica ou á
protestante? O intercambio de idéias e livros, cada vez mais
acentuado, nao permite que um povo seja plasmado por um
só sistema filosófico ou religioso. A própria constituigáo demo
gráfica dos povos ditos protestantes mostra que constam, em
proporgáo respeitável, de cidadáos católicos: assim a Holanda,
a Alemanha Ocidental, a Suiga, a Inglaterra, os Estados Uni
dos. .. De modo especial, notemos que tais países protestantes
tém sido governados também por dirigentes católicos; tal foi
o caso da Alemanha, que se reergueu das ruinas da segunda
guerra mundial sob a administracáo de Konrad Adenauer; tal
foi o caso de John Kennedy nos Estados Unidos; tal é atual-
mente o caso da Holanda, cujo Primeiro-Ministro é católico...

— 429 —
74 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

Da mesma forma os países ditos católicos contam com certo


contingente de nao católicos e de livres pensadores, que exer-
cem sua influencia sobre a vida pública.

2. Que se entende por «civilizagáo» de um povo?

Nao raro designa-se assim o bem-estar material: prospe-


ridade económica, desenvolvimiento industrial, poderio militar,
influencia política... Menos se pensa na retidáo dos costumes,
na dignidade moral da vida.

Ora acontece que nem sempre os povos desenvolvidos no


plano material sao os mais elevados no plano moral; a riqueza
e o bem-estar sao freqüentemente fatores de embotamento da
consciéncia ética. Pois bem; a religiáo é responsável primei-
ramente pelos valores moráis de um povo; quanto aos valores
materiais, ela só indiretamente os atinge; dependem, em grande
parte, nao da religiáo, mas das riquezas naturais, da posicáo
geográfica, das condigóes climatéricas, das facilidades de comu-
nicagáo, da perspicacia política dos estadistas... O historiador
deve examinar a influencia destes fatores para explicar a civi
lizagáo de determinado povo. Isolar urna nacáo próspera, esque-
cendo os fatores históricos e geográficos que condicionaran! o
seu desenvolvimento, e dizer que tal prosperidade se deve aos
fatores religiosos, é um procedimento que nem a sá razáo nem
a ciencia histórica apoiam. Quem assim proceda, poderá dizer
que o politeísmo pagáo dos gregos e dos romanos era prefe-
rível ao monoteísmo dos judeus e da Biblia, porque os greco-
-romanos tiveram civilizagáo e poderio militar superiores aos
dos judeus; ... dirá também que o islamismo de Maomé é pre-
ferivel ao Cristianismo, porque os maometanos dos sáculos X
e XI construiram urna civilizagáo que em certos pontos ultra-
passou a dos cristáos da mesma época; estes só mais tarde se
recuperaram. Donde se vé que nao se deve fazer da prosperi
dade material de um povo o criterio para avaliar suas crencas
religiosas.

— 430 —
<tQ ESTADO DO VATICANO* 75

A superioridade do protestantismo só poderia ser compro-


vada se ficasse evidente a superioridade, no plano moral, dos
povos protestantes desde que e porque abracaram a Reforma;
seria preciso também provar que os povos católicos nunca
atingiram igual elevacáo moral precisamente porque se con-
servaram fiéis ao Catolicismo. Ora nunca fizeram nem pode-
ráo fazer semelhantes demonstragóes.

Analisemos agora o caso da evolugáo de um ou outro país


em particular.

3.2. Casos particulares

1. Espanha. Este país sofreu notável decadencia polí


tica nos sáculos XVIII e XIX. Será que isto se deve á sua for-
macáo religiosa? — Francamente nao. A Espanha foi vítima
de grandes desastres navais,... das desvantagens da sua situa-
gáo geográfica, que a obrigava a combater as vezes simultá
neamente nos Países Babeos, na Italia e no Ultramar,... dos
erros de política económica e financeira cometidos por Filipe II
f 1580-98) e seus sucessores,... de guerra injusta com os Esta
dos Unidos. Quando esses fatores ainda nao atuavam e o Ca
tolicismo na Espanha era profundo, a Espanha era urna das
maiores potencias do mundo, dotada de urna historia que difí
cilmente será igualada. É dos países que mais contribuiram
para formar outros povos.

2. Portugal. Sofreu evolugáo semelhante á da Espanha.


Em ambos os casos houve o mesmo fenómeno: cabega ou me-
trópole na Europa e corpo esparso por quatro continentes — o
que nao se poderia sustentar indefinidamente.

3. Inglaterra. A Inglaterra, nos seus tempos de católica,


ou seja, antes de 1534, era um país em que a liberdade impe-
rava; tenham-se em vista a Magna Charta Libertatum (a Magna
Carta das Liberdades), fundamento da Constituigáo liberal
inglesa de junho de 1315. O Parlamento británico, instituicáo
democrática, data de 1268. — A Reforma protestante, porém,
provocou um retrocesso notável no setor da liberdade do povo
inglés: desencadeou-se no país um regime de opressóes e tira
nías que duraram tres séculos com grande intensidade e até
hoje conservam seus resquicios no Norte da Irlanda. Eis algu-
mas das medidas repressoras adotadas pelos monarcas ingleses
contra a populagáo católica: 1581, pena de morte para o sacer-

— 431 —
76 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 282/1985

dote que ouvisse confissáo; 1585, pena de morte ou confiscagáo


de bens contra todo sacerdote ou seminarista que ousasse per
manecer ou entrar em territorio inglés; mesma pena para quem
ousasse hospedá-lo ou protegé-los; 1677, os católicos foram
privados do direito de voto; 1688, expulsáo de todos os cató
licos do territorio inglés; 1700, premio de mil libras esterlinas
a quem prendesse sacerdote ou bispo católico ou provasse que
havia celebrado Missa.

A Irlanda foi e aínda é (no territorio de Ulster, setentrio-


nal) vítima de leis repressivas dirigidas contra os católicos:
um católico nao podía possuir um cávalo cujo valor passasse
de cinco libras esterlinas e, se um protestante pudesse afirmar
que excedía esta quantia, era autorizado a apoderar-se do ani
mal, pagando cinco libras (1696); nenhum católico podia com
prar bens fundiários nem arrendar terreno por mais de trinta
anos (1703); morrendo um católico, se na descenpéncia havia
algum protestante, este era declarado único herdeiro dos bens,
com exclusáo de todos os párenles católicos ainda mais próxi
mos; havia proibigao aos protestantes de instruir católicos e a
estes proibigao de abrir escolas ou enviar os filhos ao conti
nente europeu em busca de instrucáo e ciencia; havia autori-
zagáo aos magistrados de enviar os filhos das familias católicas
á Inglaterra para se instruirán nos principios da Reforma; ñas
familias católicas, se a máe se declarava protestante, o pai
perdía o direito de educar os filhos na religiáo católica; os
sacerdotes fiéis eram condenados ao exilio, ao passo que os
apóstatas eram amparados oficialmente com honorarios anuais
de 20, 30, 40 libras esterlinas (1704-1705).

Estas atitudes sao surpreendentes e inexplicáveis princi


palmente num país que professa o «livro exame da Biblia».
E nao só na Inglaterra vigoraram tais medidas; tiveram
seus paralelos em outros países protestantes, como registra
o Pe. Leonel Franca, em «Catolicismo e Protestantismo»,
pp. 259s:

4. «Na Escocia presbiteriana, em principios do sáculo XVII era


severamente proibido alugar casa a quem fosse suspeitc de católico;
tres cidadaos de Edimburgo, por haverem hospedado a um sacerdote,
foram condenados á morte, mas a sentenca nao foi executada; Joao
Logan pagou com 5.000 esterlinas o 'delito' de ouvir Missa; quem
houvesse cometido o mesmo crime no estrangeiro, perdia para si e
para os seus herdeiros todos os bens, que passavam para a Coroa.

— 432 —
«O ESTADO DO VATICANO» 77

Em 1615, JoSo Ogilvie, por ser sacerdote e jesuíta, foi execolado em


Glasgow.

Na Dinamarca, Colen, sacerdote católico, foi em 1624 expulso


do país, e um negociante que o havia acolhido em sua casa, fustigado.
Um decreto real de 18 de fevereiro do mesmo ano proibia a todos os
sacerdotes e Religiosos a estada no país, sob pena de morte. Assim
se implantou e se defendeu na Dinamarca a religiáo do livre exame.

Na Holanda renovavam-se periódicamente as disposicoes legáis


contra os católicos. A luteranos e calvinistas, anglicanos e anabatistas
reconhecia-se o direito a exercício público do próprio culto; aos holan
deses fiéis á religiáo dos seus pais, nao. Em 1612 os Estados Gerais
expediram decretos contra as atividades dos eclesiásticos e a freqüéncia
de escolas católicas; aos oficios públicos era em quase toda a parte
vedado o acesso aos católicos. Quando os calvinistas que triunfaram
no sínodo de Dordrecht subiram ao poder, os antigos editos penáis
contra os católicos foram renovados e agravados. A 26 de fevereiro
de 1622 fechava-se a entrada na Holanda a qualquer eclesiástico
estrangeiro e proibia-se, sob as mais severas multas o culto católico,
ainda de caráter privado. Este edito foi renovado em 1Ó24, em 1629
e ainda em 1Ó41. Em Utrecht proibia-se sob pena de 50 florins o
antigo costume de pór-se um rosario ñas máos dos defuntos; em 1644
foi vedado ás senhoras católicas que nao tinham filhos, fazer testa
mento. Que regime liberal para propagar e defender urna religiáo
cujo principio era o direito individual ao livre exame!»

5. Brasil e Estados Unidos. Tem-se dito que o Brasil é


naturalmente mais rico e mais inteligente do que os Estados
Unidos; se nao se desenvolveu tanto quanto este país, deve-se
ao fato de sermos católicos e os norte-americanos, protestantes.

A propósito transcrevemos interessantes ponderagóes do


mesmo Pe. Franca em «Catolicismo e Protestantismo», pági
nas 267-269:

«Tome urna carta .geográfica, preclaro professor,- esqueca o seu


protestantismo e observemos.

A primeira diferenca, capital para a civilizacao de um povo, é


que o territorio norte-americano se estende de océano a océano; o
trabaiho de colonizagao e utilizacao do solo pode ser atacado simultá
neamente dos dois extremos, estimulado pelo comercio aqui com a
Europa, ali com a Asia. No Brasil, o mar só nos banha a fronteira

— 433 —
78 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

oriental; a grande serró que para logo se eleva dificultou extraor


dinariamente a penetracao para o interior. As nossas cidades rendi-
Iharam a costa; a populacao distribuiu-se por urna estreita faixa marí
tima; e quase todo o ¡menso territorio patrio, por falta de comercio
possível, ficou e Reara ainda, por largo tempo, quase despovoadg
e inexplorado.

Mais. Toda a gente conhece a relac.no entre a extensáo das linhas


da costa de um país e o seu desenvolvimiento económico. África, o
mais atrasado dos continentes, conta apenas um quilómetro de costa
para 1.420 quilómetros quadrados de térra. Lapparent oferece-nos
a seguinte tabela comparativa. Por um quilómetro da costa:

Quilómetros
de territorio

África 1.420
Asia 763
América do Sul 689
Australia 534
América do Norte 407
Europa 289

Enquanto os Estados Unidos vém ¡mediatamente após a Europa,


a América do Sul só leva vantagem á África e á Asia. Se no continente
sul-americanos distinguirme» o Brasil (7.920 km de costa, 8.307.218
km2 de área), encontraremos para cada km de costa urna superficie
de 1.048 km 2, o que nos coloca no penúltimo lugar, superior apenas
ao do continente negro, e incomparavelmente abaixo da posicao
norte-americana.

Passe agora, professor, o observar as coordenadas geográficas.


O ¡menso territorio da República do Norte está na zona temperada;
a quase totalidade do brasileiro, na zona tórrida. O que representa
o clima na belezo e saúde da raga, na capacidade de trabalho, na
resistencia á fadiga, no espirito de iniciativa, sabem-no todos os
higienistas e sociólogos, exceto o Sr. Ernesto Luís.

Outro passo. A civilizacáo americana nao é autóctone; é urna


civilizacao de empréstimo, importada do Velho Mundo. Oro a distancia
que separa os Estados Unidos da Europa é, pelo menos, duas vez*»
menor que a que medeia entre o Brasil e os grandes focos da cultura

— 434 —
<O ESTADO DO VATICANO> 79

ontiga. Rapidez e economía ñas comunicacoes muito mais favoráveii


aos do Norte. Por essa circunstancia e, mais, pela semelhanca do
clima, as grandes «urentes imigratórias dirigiram-se de preferencia
paro a patria do dólar. De 1840 a 1914 mais de 30 milhoes de
europeus desembarcaram nos portos norte-americanos. Era o braco
do homem indispensável para valorizar as riquezas brutas da natureza.
Entre estas riquezas, muito superiores ás nossas, salientamos as ¡azidas
de carvao de pedra e de petróleo, cuja influencia preponderante no
desenvolvimento económico acabamos há pouco de assinalar».

4. Outros tópicos

Como os demais panfletos protestantes, também o que exa


minamos argüí os católicos de certas práticas, que já foram
elucidadas em PR e, de modo especial, no livro «Diálogo Ecumé
nico» (DE), cujas páginas passamos a citar:

1) Culto das imagens: DE, pp. 213-224;


2) Indulgencias: DE, pp. 159-178;
3) Oragáo em sufragio dos mortos: DE, pp. 141-158;
4) O primado de Pedro e seus sucessores: DE, pp. 57-102;
5) A confissáo dos pecados: DE, pp. 129-140.
Fazemos votos para que os irmáos separados estudem um
pouco mais, e com mais objetividade, a historia do Cristia
nismo e a mensagem do Catolicismo. Se o fizerem, mudaráo
de atitude. A agressividade preconcebida nao pode construir o
Reino de Deus; nao pode ser veiculo de difusáo do verdadeiro
Evangelho.

ERRATA

Em PR 281 (julho-agosto 1985), p. 355, é atribuido ao


S. Padre Joáln Paulo BE o livro de normas intitulado «Cateqaese
Renovada». Na verdade, é obra da Conferencia Nacional dos
Rispos do Brasil. Agradecemos aos PP. Antonio Pinheiro
Freiré (Fortaleza) e Natal Macchi (Goiánia) as oportunas
observaeoes que a propósito nos enviaram.

— 435 —
Folheando revista:

" Vida Pastoral"


" María, Máe de Jesús

Em sínlese: A revista "Vida Pastoral" malo-junho, 1985, é dedicada a


"María, MSe de Jesús". Os seus cinco artigos principáis versam sobre a devo-
cio a María Santisslma considerada do ponto de vista sociológico, ignorando
quase por completo os parámetros da fé ou a mensagem da Biblia e da
TradicSo a respelto de María. De resto, o titulo "Mae de Jesús" é signifi
cativo da IntencSo reducionista dos editores; é evitada a expressSo "MSe
de Deus", multo antiga e cara & TradicSo crista. Quem considera María
Santlssima e a Igreja, que nela se espelha, do ponto de vista meramente
humano, desfigura a realldade sobrenatural e nfio pode delxar de confundir
os leitores.

A revista «Vida Pastoral» n« 122 (maio-junho de 1985)


vem dedicada a «Maña, Máe de Jesús». É de lamentar, porém,
que, em vez de partir das premissas das Escrituras e da Tra-
di£áo, os artigos deste fascículo sejam inspirados por categorías
de sociología e antropología, que deturpam o significado da
devogáo a María. De modo especial, merecem serios reparos
os artigos de (1) Joáo Rezende Costa («A questáo marioló-
gica I», pp. 2-8) e (2) Luiz Roberto Benedetti («A devocáo a
Nossa Senhora e as transformagóes sociais», pp. 29-35).

Para nao alongar este artigo, observamos que o fio central


de tais estudos consiste em afirmar que a devocáo a Maria foi
orientada pelo magisterio no decorrer dos sáculos a fim de
atender a interesses políticos e temporais da Igreja. Um espé
cimen desta tese é o seguinte trecho da autoría de L. R.
Benedetti:

«O Cristianismo com Constantino (306-337) torna-se... o


religiáo dominante, associada á estrutura e funcionamento do Estado,
acabando por aceitar de forma atenuada e camuflada os principios
contra os quais lutara, na expressao feliz de Gramsci.

— 436 —
«MARÍA, MAE DE JESÜS» 81

Nessa adaptacao do Cristianismo á socíedade aparece o culto


á Virgem Maria. Na realidade é o Cristianismo absorvendo na sua
vida institucional os crencas populares que assimilaram a Virgem Morid
todos os títulos associados as Virgens Maes (cf. Leonardo Boff, Dimen-
sáo Teológica do Feminino, Revista de Cultura Vores, 1977/10, p. 41).

O dogma é definido, o culto oficializado, as massas incorporadas;


estas contribuem para o fortolecimento da instituicdo religiosa, tornada
religiao oficial de Estado, reforco, portanto, do poder político, media
dor da dominacáo de urna classe sobre o conjunto da sociedade»
(p. 31).

A propósito observamos:

1) L. R. Benedetti pode estar tentando fazer um estudo


de Sociología da Religiao católica — o que é bem diferente de
um artigo de Teología. A sociología prescinde da fé e procura
enquadrar todos os fenómenos sociais dentro de supostas leis
ou normas do comportamento humano concebidas segundo as
premissas filosóficas do estudioso. Ora a Igreja, para o cris-
táo, nao é sociedade meramente humana, mas é o sacramento
da uniáo dos homens com Deus e entre si (cf. Lumen Gentium
n» 1); se ela apresenta urna face humana, esta é assumida den
tro de um plano divino de salvacáo.jegido pelo Espirito Santo;
é este, em última análise, que, penetrando o corpo da Igreja,
faz que seus elementos humanos sirvam á manifestagáo da
graga e da sabedoria de Deus; cf. Ef 2,20-22; 3,3,12. Diz explí
citamente o Apostólo: «Dou a conhecer... por meio da Igreja
a multiforme sabedoria de Deus, segundo o designio preesta-
belecido desde a eternidade» (Ef 3,10s). Por conseguinte, quem
focaliza a Igreja exclusivamente do ponto de vista das ciencias
humanas, nao pode deixar de conceber urna visáo unilateral
ou mesmo falsa, como ocorre no artigo em pauta. A devogáo
a Maria vem a ser o desdobramento legítimo de verdades con-
tidas na Palavra de Deus a nos transmitida por via oral (Tra-
dicáo oral) e por via escrita (Biblia Sagrada); tal desdobra
mento, se foi catalisado por acontecimentos históricos concre
tos, deve-se, em última instancia, á acao do Espirito na Igreja.

2) Ficando apenas no plano sócio-histórico e prescin-


dindo da fé, podemos apontar fatos que evidenciam quanto a
Igreja foi pouco «política» e essencialmente fiel a sua missáo
pastoral a Ela confiada por Cristo:

— 437 —
82 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

— Em Janeiro de 1077, no castelo de Canossa, o Papa Gre


gorio VII houve por bem absolver da excomunháo o Imperador
Henrique IV da Alemanha, propugnador da investidura leiga
(nomeacáo de bispos segundo os interesses do monarca). O
Pontífice confiou na atitude penitente do Imperador e, por isto,
absolveu-o, correndo o risco «político» de ver seu adversario
reabilitado na luta contra a Igreja. Ora foi precisamente isto
o que se deu: Henrique IV, absolvido, voltou a impugnar o Pon
tífice, a tal ponto que este morreu no exilio em Salermo (1085),
exclamando, segundo alguns: «Amei a justiea e odiei a iniqüi-
dade. Por isto morro no exilio».
Em 1531, o Papa Clemente VII recusou, segundo o
Evangelho, o divorcio ao rei Henrique VII da Inglaterra. Esta
atitude de fidelidade a Cristo acarretou para a Igreja a perda
do reino da Inglaterra, pois o monarca, em conseqüéncia, se
declarou «Chefe Supremo da Igreja na Inglaterra».

— Em 649 o Papa Martinho I, no Concilio do Latráo,


opós-se á vontade do Imperador, defendendo a reta fé contra
as teorías monoteléticas e monergéticas propugnadas pelo mo
narca. Este, indignado, mandou prender o Pontífice, que foi
levado para Constantinopla (653), condenado por motivo de
«alta traicáo», vergonhosamente maltratado e, por fim, exilado
na Criméia, onde sucumbiu aos sofrimentos (655).

Numerosos outros casos se poderiam citar que desmentem


a tese, a priori concebida, de que a devocáo e os dogmas da
fé foram condicionados por interesses sócio-politicos.

3) L. R. Benedetti enquadra seu artigo dentro de cita-


góes de textos do Papa Paulo VI como se os dizeres do arti
culista nao fossem senáo o comentario do pensamento do Pon
tífice (ver pp. 29 e 35). — Na verdade, Paulo VI na sua «Exor-
tacáo sobre o Culto á Virgem Maria», aduzida por Benedetti,
retoma e reafirma os temas clássicos da teología e da piedade
mañanas, acrescentando-lhes a observacáo de que María tem
significado pleno para os fiéis de nossos dias, pois foi «mulher
forte, que conheceu de perto a pobreza e o sofrimento, a fuga
e o exilio» (p. 35). Isto, por certo, nao quer dizer que se deva
reduzir a figura de María á de urna heroína no campo sócio-
-político.

4) Os demais artigos do fascículo — da lavra do Pe.


Francisco Viana Pires, de Paulo Fernando Carneiro de An-
drade e Ione Buyst — sao menos «agressivos» do que os dois

— 438 —
«MARÍA, MAE DE JESUS>

citados no inicio desta nota; mas infelizmente limitam-se a con


siderar aspectos sociológicos das peregrinacóes ou da devogáo
a María SS. Esta seria símbolo de certas atitudes da mulher
apregoadas pelo machismo como também de certas outras ati
tudes preconizadas pelo feminismo (cf. especialmente pp. 24-
-28). O enfoque secularista predomina assim mima publicacáo
que se destina a fornecer subsidios para a Pastoral do povo
de Deus! Verifica-se que os nomes tradicionais aínda subsis-
tem em tais artigos, mas o seu conteúdo e o seu significado
sao profundamente alterados: a visáo da fé, as referencias ao
plano de salvacáo divina, o papel da graca ... sao empalide
cidos ou mesmo silenciados, com serio prejuízo para a genuína
compreensáo da temática.

5) Notemos ainda que a expressáo «Máe de Jesús», no


título do fascículo, tem substituido últimamente o título «Máe
de Deus» (Theotókos) clássico nos escritos marianos (ver, por
exemplo, á p. 28 o título «María, Máe de Jesús» de urna obra
de C. Mesters). A traducáo brasileira do Missal Romano usa
constantemente os termos «Máe de Jesús» em lugar de «Máe
de Deus» mesmo quando em latim se lé D©i Genitrix. Os
tradutores que assim procedem, nao querem negar a Divin-
dade de Jesús (já nao seriam cristáos), mas querem evitar
urna expressáo que os protestantes nao empregam.

Diante destes fatos, observamos que o título Theotókos foi


sempre muito caro á tradigáo crista, como reconhece o Pe.
Joáo Rezende Costa á p. 6 do fascículo. Sao Cirilo de Jerusa-
lém e o Concilio de Éfeso (431) quiseram, mediante a afir-
macáo da Maternidad? Divina de María, professar a Divindade
do Senhor Jesús; com efeito, toda máe gera urna pessoa; ora
em Jesús havia urna só pessoa (a divina ou a segunda Pessoa
da SS. Trindade) em duas naturezas; portanto, se María gerou
Jesús, gerou a pessoa do Filho de Deus na medida em que se
fez homem no seio de María ou na medida em que assumiu a
natureza humana. Está claro que María nao é máe da Divin
dade ou de Deus em sua eternidade. — Em conseqüéncia, é
de estranhar a omissáo do título «Máe de Deus», que se entra-
nhou na piedade do povo católico; tenha-se em vista especial
mente a recitacáo da fórmula que se deve ao Concilio de Éfeso:
«Santa María, Máe de Deus, rogai por nos, pecadores, agora e
na hora da nossa morte. Amém». Tal fórmula, bem explicada,
longe de derrogar as verdades da fé, só contribuí para reafir
ma-las.
Estevao Bettencourt - O. S. B-

— 439 —
NOTAS
«O DOMINGO»

O folheto litúrgico «O DOMINGO», editado pela Pia Socie-


dade de Sao Paulo, costuma trazer em sua quarta página urna
reflexao que nao raro é lida depois da Comunháo da Missa
dominical. É nosso dever de consciéncia chamar a atencáo dos
fiéis para a índole secularista e deletéria desses comentarios:
tém criticado a autoridade da Igreja e suas instituigóes, pondo
em relevo quase exclusivo os valores sociais, como se o Cristia
nismo se realizasse somente através destes. Assim verifica-se
a politizacáo total da existencia crista que o Documento de
Puebla rejeita: é preciso nao «identificar a mensagem crista
com urna ideología nem fazer releituras do Evangelho a partir
de urna opgáo política; faz-se mister ler o político a partir do
Evangelho e nao o Evangelho a partir da política» cf. n» 559).

Entre outros, seja mencionado o folheto n« 35 (21/07/85),


onde se lé um artigo sobre «O Congresso do Pao», designacáo
grosseira do XI Congresso Eucarístico Nacional. O autor fala
sobre a Eucaristía como pao do céu, pao da fé, pao do amor...,
dizendo-nos que ela exige a distribuicáo do pao da térra entre
os homens. Todavía nao menciona urna só vez Jesús Cristo
(como é possivel isto, quando se fala de Eucaristía?); a Deus
só se refere quatro vezes, ao passo que de pao fala doze vezes!
Nada se le ai sobre o sacrificio de Cristo no Calvario perpetuado
sacramentalmente sobre os nossos altares para que o oferecamos
com Cristo ao Pai. Isto é gravissimo, pois a Eucaristía, é antes
do mais, a perpetuado da oferta de Cristo na Cruz para que
a Igreja (os fiéis) déla possam participar; a Missa jamáis poderá
ser reduzida ao tipo de urna ceia religiosa que transborda na
vida civil. Mesmo que nao os negué explícitamente, quem silen
cia certos aspectos da doutrina católica, comete erro.

Os demais folhetos podem, em sua quarta página, estar


apontando problemas de ordem social que merecam atengáo.
Fazem-no, porém, de maneira passional e irónica, que nao
edifica os fiéis, mas dissemina o azedume... e isto logo após
a Comunháo Eucarística, quando a piedade dos fiéis se deye
deter em íntima oracáo ao Senhor Jesús. A Liturgia é assim
manipulada para fins espurios ou políticos, como alias ela o foi
muitas vezes na historia da Igreja: os hereges arianos, janse
nistas, galicanos... utilizaram as fórmulas da Liturgia para
incutir ao povo simples as suas concepcóes erróneas. Algo de
semelhante se diga a respeito dos comentarios as leituras bíbli
cas e dos cánticos propostos pelo folheto para cada domingo.

— 440 —
NOTAS 85

Sao textos que desviam a atengáo dos valores transcendentais


e religiosos para recair em «chavóes» provocadores, ja muito
batidos; nao atendem as prescrigóes da Constituigáo do
Vaticano n sobre a S. Liturgia: «Os textos destinados aos
cantos sacros sejam conformes á doutrina católica, e sejam
tirados principalmente da Sagrada Escritura e das fontes
litúrgicas» (n« 121).

Lamentamos tais fatos. É assim que se vai esvaziando a


fé do povo de Deus sob o pretexto de a alimentar.

«AMADEUS»

no cinema

O filme «Amadeus» de Milos Forman é tido como obra-


-prima da cinematografía contemporánea. Apresenta, entre
outras, urna questáo teológica, a saber: por que Deus distribuí
diversamente as sortes dos homens? — Esta questáo já foi repe
tidamente abordada em PR; cf. 247/1980, pp. 304-306.

Em síntese, diremos: Deus nada deve a criatura alguma;


tudo o que Ele dá, dá-o gratuitamente, pois nada é anterior a
Deus (cf. Rm ll,35s; ICor 4,7). O Criador, portanto, derrama
seus dons de acordó com os seus livres e soberanos designios.
É certo, porém, que Deus nao trata mal nenhuma de suas cria
turas; em caso contrario, nao seria Deus. Se Ele permite o
sofrimento (e todos os homens sofrem, sem excegáo), Ele o faz
em vista de um bem maior; com efeito, a dor é urna verdadeira
escola para os homens, como já notavam os pensadores gregos
formulando o trocadilho Pathos-Mathos (sofrimento = apren-
dizagem). A Providencia Divina, ao permitir a provagáo dos
homens, tem sempre em mira tirar dos males bens aínda maio-
res, como observa S. Agostinho: «Deus nunca permitiría o mal
se Ele nao soubesse tirar do mal bens ainda maiores».

As oragóes das pessoas que sofrem e que anseiam por


algum bem, nunca deixam de ser atendidas, desde que realiza
das com fé e humildade (em nome de Cristo ou com Cristo, diz
o Evangelho, cf. Jo 16,23; Le 11,9-13). Deus, porém, que vé
mais amplamente do que nos, sabe melhor o que nos convém;
em conseqüéncia, quando nao nos dá o que lhe sugerimos em
vista de nosso bem, concede-nos outros valores, que realmente
corresponden! ao que, em última instancia, desejamos.

— 441 —
96 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

Eis o que a reflexáo teológica pode dizer sobre o problema


langado pelo filme «Amadeus». É necessário que o cristáo
ultrapasse os limites de suas categorías humanas para consi
derar a temática como Deus a considera, e compreenderá com
alegría que nao há injustiga em Deus, mas, ao contrario, a
de designios muito mais sabios do que os nossos e, por isto,
aparentemente absurdos á nossa exigua compreensáo.

livros em estante
As Confissdes, de Santo Agostinho. Versáo do latim e notas de Jorge
Pimentel Cintra. — Ed. Quadrante, Rúa Iperoig 604, 05016 Sao Paulo (SP),
123 x 188 mm.

S. Agostinho (t 430) é um dos grandes genios da humanidade, cujo


pensamento é sempre atual. Escreveu sua autobiografía sob forma de con
fissdes, ou seja, de oracao e louvor a Deus pelos grandes beneficios
recebidos da parte do Senhor numa trajetória muito acidentada; Agostinho
bateu á porta de diversas escolas, chegando a calr no ceticismo, antes de
encontrar definitivamente o Cristianismo.

As "Confissoes" de S. Agostinho sao urna obra de 13 volumes, dos


quais os nove primeiros contém os traeos biográficos do autor desde a
infancia até a con versáo; os quatro restantes abordam a criacáo do mundo,
do homem e as noc5es de tempo e eternidade... — Jorge Pimentel Cintra
houve por bem selecionar das páginas autobiográficas das "Confissoes"
as passagens mais significativas e traduziu-as em linguagem simples, que
conserva a beleza e a profundidade dos origináis; acrescentou ao texto urna
Apresentacao e notas explicativas. Apenas lamentamos que nSo tenha
Indicado quais volumes e capítulos váo assim entregues ao público. — O
livro ó altamente recomendável como leitura de formacao e espirltualidade;
manlfesta o ardor de um homem que conheceu todas as miserias humanas
e soube finalmente superá-las com a grasa de Deus.

Missal Cotidiano. Traducáo e edicáo brasileiras a cargo de Manoel


C. Quinta e H. Dalbosco. Ed. Paulinas, Sao Paulo 1985. 113 x 195 mm,
Lll e 1.916 pp.

As vezes os fiéis lamentam já nao ter num só Missal portátil os


textos de todas as Missas como outrora o tinham. Na verdade, a reforma
litúrgica do Concilio do Vaticano II enriqueceu consideravelmente a S.
Liturgia, tornando impossfvel a edicSo de leituras, oragoes e cánticos de
todas as Missas num só volume portátil. Por isto, após o Concilio pre-
parou-se o novo Missal dos fiéis em mais de um volume. As Edicóes
Paulinas oferecem dois volumes: um reservado ás Missas de todos os
domingos do ano (Missal Dominical), e outro com os demais dias (Missal
Cotidiano). Este último, que temos ante os olhos, foi muito cuidadosa-

— 442 —
LIVROS EM ESTANTE 87

mente preparado pelo Centro Catequético Salesiano de Turim-Leumann


(Italia). Apresenta valiosa Introducto aos Mvros da Biblia na Liturgia, ao
culto da Virgem María e dos Santos, ao calendario da Igreja... As leituras
bíblicas de cada Missa sao acompanhadas de adequados comentarios, que
permltem compreendé-las e meditá-las. Cada santo é apresentado em breve
esboco biográfico. Com estes subsidios a participado dos fiéis na S.
Missa torna-se mais consciente e frutuosa. Quem tem o Missal Dominical
e o Cotidiano, pode preparar sua S. Missa na véspera e realizar sua oracáo
particular sobre os respectivos textos.

Mais larde compreenderás, por A. M. Carré, O.P. Tradugao de María


Prudencia de Vasconcelos Resende. — Ed. Santuario, Rúa Padre Claro
Monteiro 342, 12570 Aparecida (SP), 135 x 218 mm, 158 pp.

O Pe. Carré é membro da Academia Francesa e famoso pregador


dominicano. Publica em traducao portuguesa urna serie de comentarlos ao
Evangelho sob forma de meditacao, procurando por em relevo o sentido
profundo do texto sagrado. O título tenciona sallentar a atualidade
permanente do Evangelho; so poderemos compreender plenamente muitas
de suas passagens na visáo face-a-face de Deus. O estilo do livro é
acessível ao grande público.

Viver de Amor, por Elisabete da Trindade. Tradugao de Attilio Candan


ColecSo "Clássicos de Espiritualidade". — E. Cidade Nova, em co-edigáo
com Carmelo Descalco do Brasil, Rúa Coronel Paulino Carlos 29 04006 Sio
Paulo (SP), 105 x 157mm, 135 pp.

A Ir. Elisabete da Trindade viveu no Carmelo de Dijon (Franga) em


fama de santidade, passando para a Casa do Pai com 26 anos de Idade;
foi beatificada aos 25/11/1984. Fez profunda experiencia da unifio com
Deus, dedicando sua piedade especialmente ao misterio da SS. Trindade,
que habita ñas almas justas. Frei Patricio Sciadini, O.C.D. apresenta no
opúsculo ácima registrado urna selecao de textos dessa grande Religiosa
reunidos sob tres titulos: Medilagóes, Pensamentos, Programa de Vida. A
leitura dessas passagens alimenta a espiritualidade e abre ao leitor novos
horizontes de fé: "Minha felicidade jamáis foi táo grande, táo verdadeira
como depols que Deus se dignou associar-me as dores do Divino Crucilicado,
para que eu complete na minha carne o que falta ás tribulagoes de Cristo",
como dizia S. Paulo (Cl 1,24)" (p. 112). "Nao posso dizer que amo
( o sofrimento em si mesmo, mas amo-o porque me torna semeihante Aqueie
que é meu Esposo e meu Amor" (pp. 112s).

* Antropología e Praxis no Pensamento de Joáo Paulo II. Congresso


Internacional. — Ed. Lumen Christi 1985, 140 X 210 mm, 279 pp.

Este livro contém as conferencias proferidas no Congresso realizado


sobre o Pensamento do Papa Joao Paulo II no Rio de Janeiro de 18 a 22
de outubro de 1984, sob o patrocinio da Arquidiocese do Rio de Janeiro
e do Pontificio Conselho para a Cultura. As exposicóes versam essencial-
mente sobre o ser humano visto pelo Cristianismo e o Marxismo, fazendo
sempre referencia ás obras filosólico-teológicas de Joáo Paulo II, outrora
Karol Wojtyla. Na verdade, o pensamento do S. Padre merece ser estudado,
pois é profundamente alicergado tanto na filosofía como ñas premissas da

— 443 —
88 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 282/1985

fé; quem o penetra, compreende melhor as atitudes de Joáo Paulo II frente


aos problemas éticos e teológicos de nossos días; nao sao derivadas de
estreiteza de mente, mas, ao contrario, resultam de reflexSo concatenada
a partir de sólidas premissas. A bibliografía de Karol Wojtyla publicada no
livro em foco (pp. 251-266) compreende 215 títulos de livros, artigos re-
censoe8, prefacios, encíclicas, ExortacSes Apostólicas e outros documentos
da lavra de S. Santidade — quantia esta grandemente respeltável. Dentre
os estudos de que consta a obra em foco, sobressaem os de Pe. Ney Affonso
de Sá Earp, Rocco Buttiglione, Josef Seifert, Jozef Tischner...; sSo trabalhos
de alto nivel, que poderño ¡nteressar a filósofos, sociólogos, antropólogos,
politólogos... Também dignos de nota sao os depoimentos proferidos pelos
arceblspos de Brasilia, Medellln e San Salvador sobre a atuacSo da Igreja
no panorama da América Latina.

Catecismo £ssencial (Subsidio catequético-vocacíonal-devocional) é um


opúsculo de 63 páginas (120 x 180 mm) publicado pelo Instituto Diocesano
Mlssionário dos Servos da Igreja, Caixa postal 411, 77100 Anápolis (GO). Em
breves licSes expoe os principáis pontos da fé católica, ao que se segué
um devocionario (oracñes da manhá, da noíte, Tergo, S. Mlssa...). Tal
subsidio catequético, de bom conteúdo, poderá ser útil a muitas instituicdes;
vendido a prego módico, principalmente em casos de encomendas de maior
monta.

E. B.

A MAIS ANTIGA ORAQÁO A MARÍA

Em 1917 foi desenterrado das areias do Egito e em 1938


editado um papiro grego do século III, que continha, um pouco
devastada, a mais antiga oragao da Igreja a Maria SS. Eis o
seu texto:

"SOB A VOSSA MISERICORDIA NOS REFUGIAMOS, MAE


DE DEUS! NAO DESPREZEIS OS NOSSOS PEDIDOS NA
ANGUSTIA, MAS LIVRAI-NOS DO PERIGO VOS QUE SOIS A
ÚNICA PURA E BENDITA!"
Esta oracáo depressa se espalhou por toda a Igreja e na
Idade Media recebeu um acréscimo. O Concilio do Vaticano II
a ela alude na Constituigáo Lumen Gentium n° 66: "Desde
remotíssimos tempos a Bem-aventurada Virgem é venerada sob
o título de Mae de Deus, sob cuja protegáo os fiéis se refu-
giam suplicantes em todos os seus perigos e necessidades".
Tal é também a nossa oracáo: "A vossa protecáo recor
remos, Santa Máe de Deus. Nao desprezeis as nossas súpli
cas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos
os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita!"
(As informacoes ácima se devem ao Pe. Balduírto Klip-
per S.J., no boletim NOTICIAS, 16/07/1985, p. 16).
444 __
P.R. NOVAMENTE MENSAL

Dado o crescente ¡nteresse de numerosos leitores, a partir do


próximo ano - 1986 - PERGUNTE E RESPONDEREMOS apare
cerá novamente urna vez por mes.
Como conseqüéncia aumentaráo nossos compromissos finan-
ceiros, ainda que seja reduzido a 48 o número de suas páginas.
Como é notorio sobem periódicamente o custo do papel de
imprensa, os salarios dos funcionarios, as tarifas postais e os trans
portes. Tudo isso nos obriga a novos reajustes.
As assinaturas vao de Janeiro a dezembro. No segundo semes
tre, porém, a partir de 1? de julho, haverá automáticamente novo
pequeño reajuste.
A título de promocáo, o primeiro pagamento da assinatura
para o ano de 1986 (jan.-jun.) que for saldado até 31 de dezembro
de 1985 gozará de um descontó de 20% sobre o preco total: ou
seja, Cr$ 80.000 em vez de Cr$ 100.000.

• APOFTEGMAS (séc. IV/VI


A Sabedoria dos Amigos Monges. Breves sentencas proferidas pelos Monges do
deserto. 262 páginas impressas Cr$ 10.000

• A REGRA DE SAO BENTO (séc. Vil


Ed. bilingüe, 210 páginas Cr$ 11.000
Ed. só em portugués, 75 páginas ■ Cr$ 6.000

• INICIACÁO Á HISTORIA MONÁSTICA. (Mosteero da Virgem. Petrópolis)


1?vol. (esgotado) — Impressab-xerografada.
2? vol. 26 capítulos: Desde o Monaquisino Celta até a Reforma de Cister - 124
páginas (com mapas e 3 Anexos) Cr$ 15.000

• VIDA MONÁSTICA, Elementos básicos — por D. Agustín Roberts, 192 pág. traduzi-
do em 6 I ínguas Cr$ 10.000

• VIDA E MILAGRES DE S. BENTO III livro dos Diálogos de S. Gregorio Magno).


3? ed. comemorativa do IV Centenario de fundacáb do Mosteiro de Sao Bento do
Rio de Janeiro (1586), com 5 láminas ilustrativas. (A sair).

• JOÁO PAULO II E O ESPIRITO BENEDITINO.


Carta Apostólica, Homilías e Alocucóes, 111 páginas Cr$ 7.000

• OS MONGES BENEDITINOS NO BRASIL. O. Joaquim Grangeiro de Luna OSB


Esboco histórico, 1947 - 162 páginas Cr$ 10.000

• O HUMILDE E NOBRE SERVIQO OO MONGE. D. Abade Gabriel Braso OSB.


Trad. de Alceu Amoroso Lima e suas filhas, 232 páginas Cr$ 17.000

ATENDE-SE PELO REEMBOLSO POSTAL


Texto completo das 11 conferencias por ocasiao do
Congresso patrocinado pela Arquidiocese do Rio de
Janeiro e pelo Pontificio Conselho para a Cultura,
do Vaticano.

Que a presente publicacSo seja o inicio de um


renovado interesse, em nosso país, pelo pensamento
pontificio. E contribua para solidificar a unidade
afetiva e efetiva com o Sucessor de Pedro.

e praxis i
no pensamento s
de Joao Paulo II
Pedidos á "Lumen Christi" ou ao
Ed. Joao Paulo II, Rúa Benjamín

lumen Christi
Constant 23 ou C.P. 1362/20001
RJ.

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