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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Splendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).
Esta necessidade de darmos
conta da nossa esperanca e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste site Pergunte e
Responderemos propoe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaieca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.


Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR


Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e
passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaca
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
U> SUMAR 10

3
I-
< Crise da Catequese

UJ Por Que Há Menos Procura do Sacramento?


O
I-
A Confissao Metodista e a Maconaria
co
UJ
3 "Problemas de Bioética"
a
Democracia e Escola Particular

(O
< O Aborto Sempre em Foco
S
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_l

ca
O
oc
a. ANO XXVII JANEI RO - 1986 284
PERGUNTE E RESPONDEREMOS JANEIRO-1986
Publicado mental N?284

Diretor-Responsável: SUMARIO
EstSváo Bettencourt OSB
Autor e Redator de toda a mataría
publicada neste periódico O futuro da fé:

Di retor-Ad ministrador CRISE DA CATEQUESE 2


D. Hildabrando P. Martins OSB
Reconciliado:

POR OUE HÁ MENOS PROCURA DO


AdministracSo e distribuicao:
SACRAMENTO? 12
EdicSes Lumen Christi
Dom Gerardo, 40-5? andar, S/501
Aínda a candente questáo:
Tel.: (021) 291-7122
Caixa postal 2666 A CONFISSÁO METODISTA E A
20001 - Rio de Janeiro - RJ MACONARIA 20

Um livro que faltava:


Assinatura de 1986: Cr$ 100.000
"PROBLEMAS DE BIOÉTICA" por Andrew C.
Varga 25
Para pagamento da assinatura de
1986, queira depositar a importan
cia no Banco do Brasil para crédito Pronunciamento importante:
na Conta Corrente n9 0031 304-1 DEMOCRACIA E ESCOLA PARTICULAR . . 36
em nome do Mosteiro de Sao Bento
do Rio de Janeiro, pagável na Agen
Mais um documento de peso:
cia da Praca Mauá (n? 0435) ou en
O ABORTO SEMPRE EM FOCO 40
viar VALE POSTAL pagável na
Agencia Central dos Correios do
LIVROS EM ESTANTE . 47
Rio de Janeiro.

NO PRÓXIMO NÚMERO
RENOVÉ QUANTO ANTES 285 — Fevereiro - 1986
A SUA ASSINATURA
Renovacéo Carismatlca: que é? - Silenciar
a verdade para preservar a paz? — "Paraíso terres
tre: saudade ou esperanca?" (C. Matters). - Pecado
COMUNIQUE-NOS QUALQUER original: como entender? - O Direito ao Foro In
MUDANCA DE ENDERECO timo.

Composicáo e Impressao: COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA


"Marques Saraiva"
Santos Rodrigues,'240
Rio de Janeiro
BIBLIOTECA

Trabalhar, Orar e Soírer

Há poucos meses, um repórter entravistou o Cardeal Frantisek Toma-


sek, arcebispo de Praga (Tchecoslováquia), que Ihe expós as dificuldades por
que passa a Igreja naquele país. A pergunta final soava: "Eminencia, nao está
cansado de combater sem éxito?" Ao que respondeu o prelado: "A situagao
é difícil. Nao se vé como e quando possa melhorar. Mas tenho sempre espe-
ranca. Digo sempre uma coisa: quem trabalha pelo Reino de Deus, faz muí-
to; quem reza, faz mais; quem sofre, faz tudo. Este tudo é exatamente o
pouco que se faz entre nos na Thecoslováquia" (IL Sabato 8,14/06/85 p.
11).
As palavras de S. Eminencia brotam de profunda experiencia de Cris
tianismo, da qual tiram vigorosa esperanpa. Sim; por vezes, o Senhor Deus
coloca seus fiéis em situacoes tais que as verdades da fé thes afloram á cons-
ciéncia com pujanca mais pura. No caso, o Cardeal Tomasek aponta tres mo
dos de servir á Igreja: o trabalho (o mais obvio), a oracao (modo que só a fé
justifica) e o sofrimento (o desastre, sos olhos da razao). Pois bem; nos dize-
res de S. Eminencia, a oracao vale mais do que o trabalho, e o sofrimento
ainda é mais precioso ("faz tudo!"). E por qué? Por ser a mais íntima partí-
cipacáo na Páscoa de Cristo, que compreende Cruz e Ressurreicao; quem
participa conscientemente da Paixlo do Senhor, terá parte também na sua
vitória. É desta verdade que brota a esperanca dos cristaos: Cristo pregado á
Cruz salvou o mundo.
Tais reflexdes nao significam que o cristSo deva deixar de trabalhar,
para só orar e sofrer. As tres atitudes sao inseparáveis entre si. Diz mesmo a
sabedoria crista: "É preciso trabalhar como se tudo dependesse do homem.
Rezar como se tudo dependesse de Deus. E sofrer como quem completa em
sua carne o que falta á Paixáo de Cristo, em prol do seu Corpo, que é a Igre
ja Icf. Cl 1,24)". Consciente disto, o S. Padre JoSo Paulo II pediu aos enfer
mos que o ajudem no desempenho da sua missao apostólica: "Pedimos a to
dos vos que sofreís, que nos ajudeis. Precisamente a vos que sois fráeos, pe
dimos que vos tornéis uma fonte de forca para a Igreja e para a humanidade.
Na terrível luta entre as torcas do bem e do mal, venca o vosso sofrimento
em uniao com a Cruz de Cristo!" (S.D. n?31).
As palavras do Cardeal Tomasek sao programa para o cristao em 1986:
há de trabalhar, orar e de fazer dos aparentes fracassos suportados com Cris
to a grande fonte de sua fecundidade apostólica!

E. B.
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XXVII - N? 284 - Janeiro de 1986

O Futuro da Fé:

Crise da Catequese
Em Símese: As autoridades da Igreja tém mostrado, últimamente, es
pecial solicitude pela íntegra e fiel transmissao das verdades da fé na cate
quese. Por isto Joáo Paulo II publicou a Exortacao Apostólica "Catequese
Hoje" (1980), em eco ao Sínodo Mundial dos Bispos de 1977; o Cardeal Jo-
seph Ratzinger, DD. Prefeito da S. Congregado para a Doutrina da Fé, pro-
nunciou famosa conferencia sobre o assunto em Janeiro de 1983. Em Julho
do mesmo ano, o Cardeal Silvio Oddi, Prefeito da S. Congregacáo para o Cle
ro, proferiu alocucao sobre o mesmo tema no Catechetical Day de Virginia
(U.S.A.). O texto desta palestra vai, a seguir, reproduzido em traducid por
tuguesa. Lembra o direrto que toca aos catecúmenos de todas as idades, de
receber o íntegro depósito da Fé, sem truncamentos e atenuacoes. A ver-
dade revelada por Oeus é sempre salvífica; ao catequista ná*o é lícito alterá-la
a título nenhum, pois isto seria trair o Senhor Jesús.
A fidelidade ao conteúdo das verdades da fé exige também, da parte
do catequista, urna didática adequada, de modo que se possa adaptar ao grau
de compreensáb dos seus discípulos em diversas fases de idade.

É notorio que a autoridade da Igreja se tem preocupado com a trans-


missáb das verdades da fé ou a catequese hoje. O S. Padre Joao Paulo II, re
matando e enfeixando as observares do Sínodo Mundial dos Bispos de
1977, publicou em 1980 a Exortaca*o Apostólica Catechesi Tradendae {Cate
quese Hoje): considera af os problemas do conteúdo e da forma do ensino
religioso em nossos tempos.
Aos 15-16/01/1981 o Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da S. Con-
gregapao para a Doutrina da Fé, proferiu em Lyon e París famosa conferen
cia sobre o assunto. Apontava entao, como urna das principáis falhas dos
métodos modernos, o descuido de transmitir aos catecúmenos o conheci-
mento do Credo, dos sacramentos e dos mandamentos. Tal falha é conse-
qüéncia da supressió dos manuais de catecismo que existiam outrora. Em
vez de recorrer a tais compendios da fé, muitos mestres "tentaram recons
truir a doucrina da fé partindo diretamente da Biblia", sem levar em conta a
CRISE DA CATEQUESE

Tradicao e o magisterio da Igreja. A Escritura foi assim sujeita a re-leitura ou


re-interpretapoes, que nao raro tinham por criterio decisivo a experiencia da
comunidade ou a dos peritos; tal procedimento tem despojado a fé do seu
conteúdo ou da sua substancia.
Eis que em 19/07/1983 o Cardeal Silvio Oddi, Prefeito da S. Congre
ga?» paré o Clero, proferiu no Catechetical Day do Estado de Virginia (U.
S.A.) urna alocugSo, que faz eco á Palavra do S. Padre e do Cardeal Prefeito
da S. Congregacao para a Doutrina da Fé. Dada a importancia da temática,
apresentamos, a seguir, este texto em traducáb portuguesa. O original inglés
encontra-se na revista Divine Love, 2?trimestre de 1983;endereco:P.O.Box
24, Fresno, Ca 93707, U.S.A.

O DIREITO A VERDADE INTEGRAL

O direito dos catecúmenos á verdade

"A catequese é a arte de levar á maturidade a fé dos que se aproximam,


e de fazer destes, mediante a educacáb, verdadeiros discípulos de Cristo
(JoSo Paulo II, "Catequese Hoje", n?19). Com palavras precisas, catequese
é o modo de procedermos para tornar mais explícita nossa adesSo pessoal a
Jesús Cristo (Jo 14,6) após o Batismo.
Ñas térras de missao, quem se esforca por aprofundar a sua fé de prin
cipiante, é freqüentemente chamado "catecúmeno". Mas aqueles que ainda
nao foram batizados e ouvem pela primeira vez a explanacao da doutrina da
fé. sao também chamados "catecúmenos". Ñas dioceses mais antigás, fala-
mos até de catequese de adultos e expressSes semelhantes. Disto depreende-
mos que, no uso popular, a palavra "catequese" serve para indicar a trans-
missao da Palavra de Deus em quase todos os níveis, a quase todas as idades,
a cristaos batizados como também a aspirantes ao Batismo. Em sentido lato,
somos todos... catecúmenos, em paralelo a urna dona de casa coreana que
ouca falar de Jesús pela primeira vez.
Por conseguinte, a palavra "catequese" é, multas vezes, tomada em
sentido assaz ampio. Se queremos abordar tal assunto com todas as suas
implicacfies ele se torna realmente muito vasto. Eis por que resolví res
tringí r-me a um só aspecto: o direito dos catecúmenos á verdade.
Á primeira vista, esta proposicáo parece clara por si mesma, como o
lema que se acha impresso no dólar norte-americano: "In God we trust"
(Em Deus confiamos). Todos os homens, e nao apenas os norte-americanos,
devem por em Deus a sua confianca; e todos os homens, nao somonte - os
catecúmenos, tém direito á verdade. Todavia é um fato - sabemo-lo bem -
que nem todos colocam a sua confianca em Deus; paralelamente nem em to
da parte é respeitado o direito á verdade. Por conseguirla, no setor da cate
quese é necessário examinar o direito, de todo homem, mulher, e enanca, de
ouvir a verdade a respeito de Deus; como corolario deste direito, a Igreja
4 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 284/1986 ,

tem a obrigacio de vigiar para que a Verdade de Deus seja fielmente transmi
tida.

O Catecismo

Os cristaos aprendem que as quatro notas da Igreja sao a unidade, a


santidade, a catolicidada e a apostolicidade.
Parece-me que as mesmas quatro notas características, com as dev.das
adaptacóes. tambero marcam a Verdade. Desejo examinar cada, urnadélas,
«servando maior espaco á primeira. que é a unidade e a .ntagrulacte^v..-
dade. sinal necessário da autenticidade da doutrina. Esta nota nos ajudará a
esclarecer o que se entende por "legítimo pluralismo".

A Catequese Hoje

Muitos catecúmenos hoje em dia sSo instruidos apenas a respeta, de


uma parte da doutrina da fé. Em certos periódicos transparece verdadeira
antipatía para com os textos catequéticos que proclamam, sem rodeíos, a
Xrina da fó. Talvez seja esta a razSo pela qual os ¡ovens negligenc.am seus
deveres religiosos. As cartas que me chegam de certas regioes do mundo^
confirmam-me nesta opiniSo. Está claro que. se nos nos contentamos com
ensinar que os Apostólos viram Jesús depois de sua morte sern ™"c'onI°!
nnrm»nnres oitorescos do peixe comido com eles (Le 24.42), o convite a
S parí qSe PSSe a maínolado aberto de Jesús (Jo 20,27). o encontró
de Jesús com María Madalena. que a principio nao o reconhecera, po.s nao
imaginava revé-lo (Jo 20,14).... os catecúmenos s3o privados do seu d.re.to
a verdade inteira.

A ressurreicao corporal de Jesús

Por que as coisas sao assim? Porque deixamos os nossos catequizados


expostos ao fluxo de meias-verdades a propósito da ressurreigfo corporal de
Cr^o As vezes querendo evitar exageres na interpretacao da Escritura,
transmitimos urna visSo deformada do relato evangélico e privamos os nos-
os ouv ñTe! da descricao completa da ressurreicSo de Jesús. Evidentemente,
a verfade completa é que os Apostólos nao foram vítimasde aluc.nacao.
Realmente Jesús em corpo e alma saiu vivo do sepulcro; mu.tos o v.ram
come^m com Ele; aqueles mesmos que a principio duvidaram.^W"*»*
se era Ele realmente, foram convencidos. A segu.r, ele seleleyou^aos^céus.
Nao houve sombra de alucinacSo; trata-se da verdade exata (cf. At 10.40-43).

A verdade é o reconhecimentó da realidade objetiva

No fundo, que é a verdade? Esta é aquestio proposta por Pilatos. Os


4
CRISE DA CATEQUESE

filósofos no decorrer dos tempos enfrentaram o problema. A verdade é a


conformacao do espirito á realidade exterior. Por conseguinte, a verdade
exige que nos submetamos a realidades que estáo fora de nos mesmos; e isto
nos é difícil. Temos a tendencia a decidir a respeito do que 6 verdade ou er
ro apoiando-nos exclusivamente sobre nos mesmos, sem referencia a qual-
quer coisa ou pessoa fora de nos. Somos sempre os filhos de Adao, herdei-
ros da sua propensao a centrar tudo sobre si mesmo. Todavia a verdade ná"o
se determina por opinioes pessoais; ela se apoia sobre a realidade objetiva.
De fato.. . O Papa Joao Paulo II define a verdade como sendo "o re-
conhecimento da realidade" (alocucao á Universidade Católica da América,
Washington DC, 10/10/1979).
Somos chamados, em todas as situacoes, a praticar essa submissao i
verdade, principalmente quando se trata da verdade divina. Muitas vezes, po-
rém, como Pilatos, procuramos cínicamente furtar-nos a ela; ou mesmo, co
mo Satanás, nos nos colocamos em rebeliao flagrante contra a verdade, mo
vidos por um orgulho disposto a nao ceder nem diante do homem nem dian
te de Deus. Certas verdades religiosas nao sao de fácil aceitacao ou porque
obrígam os vigorosos instintos humanos e se dobrar ou porque nossa razio
é demasiado limitada para as apreender. Como quer que seja, Deus quer que
as aceitemos, e aceitemos na Fé.

Ass'palavras duras"... (Jo 6,60)

Lembramo-nos da tristeza com que Jesús olhou os que dele se afasta-


vam, quando Ele anunciara á multidao a instituicfo da Eucaristía e a entrega
do seu corpo como comida e do seu sangue como bebida. Os ouvintes julga-
ram as suas palavras "duras" e se foram (Jo 6,60). Mas Pedro e os outros
Apostólos ficaram com Ele. Assim devemos nos fazer.
A verdade revelada nao é algo a que a razao nos leve, mas ela nos vem
pela fé. Por conseguinte, a vontade deve mover a razao a aceitar, nao porque
a inteligencia tenha aprendido cabalmente o concertó, mas porque Oeus o reve-
lou e nos eremos em Deus. É preciso ensinar os jovens a estudar a doutrina
da Igreja com o olhar da Fé e ensinar-lhes o que Deus revelou. É evidente
que tais verdades sao muito mais importantes do que o que eles podem ima
ginar. ..

Transmitir o ensinamento da Igreja, e nao opinioes

Eis por que os catequistas se devem preservar, com grande cuidado, de


censurar a Palavra de Deus. O Senhor nada nos ensinou que nos possa fazez
mal. Todos aqueles que procuram entravar a marcha do inocente para a ver
dade inteira, destroem na crianca a razao mesma da sua existencia e p3em-se
em contradicüo com o objetivo da Encarnacao, que é: arrebatar o homem ao
pai da mentira e apresentá-lo ao Pai da Verdade. Criando o homem e a mu-
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 284/1986

Iher á sua semelhanca (Gn 1,26), Deus deu a todo ser humano o direito á
verdade, ¡sto 6, o direito de O conhecer como Ele é, nao deformado pelos
homens que tentam rebaixar o Criador ao nivel da criatura.
Um dever paralelo toca naturalmente aos que tém o encargo de formar
os jovens: estáo obrigados a respeitar o direito destes a ser instituidos na
Verdade, em toda a Verdade, e nada mais; para tanto, será preciso fazer cla
ra distincao entre aquilo que a Igreja ensina e as opiniSes humanas.
O Papa atual lembrou enérgicamente aos professores de Religiao:
"Teólogos e exegetas tém o dever de vigiar com grande solicitude, para
que os fiéis nao tomem por proposifdes certas de fé o que pertence ao setor
das opinioes ou dos objetos discutidos entre os peritos. .. (Os catequistas)
devem acautelarse para nao perturbar a mente dos ¡ovens introduzindo na
catequese teorías estranhas, questoes inúteis e discussdes esteréis, coisas que
S. Paulo frecuentemente reprovou em suas Cartas Pastorais" ("Catequese
Ho¡e"n?6i;cf. 1Tm6¿2).

A s§f pedagogía nao se opoe ao ensino dos mandamentos

Alguns professores de Religue- parecem hoje passar mais tempo diri-


gindo exerefeios literarios do que ministrando aos seus alunos urna doutrina
. sólida. Os bons mestres sabem utilizar a aula de modo a na*o ocupar o tempo
quase todo com motivacoes, deixando apenas poucos momentos para a ex-
posipSo da materia programada. Acontece tambám ás vezes que os progra
mas sao muito pobres de conteúdo.
Dizem, por exemplo: a SS. Trindade é assunto a evitar, porque a «¡an
ca nSo aprendería. O pecado também, porque a crianpa corre o risco de ad
quirir um complexo de culpa; o inferno igualmente, porque traumatizaría a
crianza. O divorcio, da mesma forma, porque a crianza conhece numerosas
pessoas divorciadas na sua familia.
Sendo assim, tomam-se necessárias imagens, filmes e discussoes para
ocupar o tempo que nao é mais consagrado a apresentar a Palavra de Deus.
Todavía o espirito da enanca, desde que se abre, precisa de receber algo de
substancial. Nenhum catequista tem o direito de recusar h crianca o conheci-
mento dos pontos fundamentáis da fé. NSo merece o seu salario o professor
que nao seja capaz de falar aos seus alunos a respeito da queda, da Reden-
gao, do pecado, da graca, do juizo, do céu e do inferno, sem traumatizar os
seus discípulos. Ás vezes sao precipitadamente ensinadas ás enancas coisas
que elas deveriam ignorar na sua idade; ao mesmo tempo, porém, é-lhes re
cusado o conhecimento de coisas que elas precisam de saber em qualquer
idade.

Pluralismo somante fora do depósito da fé

O suave e muito estimado Papa JoSo Paulo I, que táo cedo nos foi ar-

6
CRISEDACATEQUESE

rebatado, dirigiu-se no último dia da sua vida aos Bispos das Filipinas, di-
zendo-lhes enfáticamente: "Um dos ma¡s estritos direitos dos fiéis é o de re-
ceber a Palavra de Deus em toda a sua pureza e inteireza" (28/9/1978).
No estudo da Teologia e da Biblia há cortamente varios setores em que
a verdade nao aparece com clareza ao espirito humano e a respeito dos quais
a Igreja nao se pronunciou. Af é aceitável um pluralismo de opinioes entre
os estudiosos. Mas, mesmo em tais casos, o pluralismo tem seus limites. Urna
opiniao nao pode ser verídica se ela contradiz a urna sentenca certa. N3o se
pode dizer Nao ás verdades conhecidas, sob pretexto de descobrir o deseo-
nhecido. Se a negacao do que a Igreja tem por certo é necessária para apre-
ender urna "verdade nova", aonde vamos parar? Por certo, em tais casos a
"verdade nova" é falsa. Eis por que toda sentenca da Escritura ou do Magis
terio há de ser interpretada nSo isoladamente, mas no contexto do depósito
dafé.

Adaptar a educapao sexual á capacidade da crianca

Passemos agora á segunda característica da verdade: ela é santa. A ver


dade é santa porque Deus á verdade: "Eu sou a Verdade", disse Jesús (Jo
14,6). A verdade nao ameaca a dignidade e a santificacab do homem. Tudo
o que Deus fez e dispoe, tende a santificar o homem, desde que este o utili
zo em conformidade com as exigencias da natureza e o ensinamento divino.
Nosso corpo, a natureza em ge ral, as descobertas científicas, tudo isto é bom
como tal. Todavia o uso que fazemos de tais bens, será aferido em funcáo da
seguinte pergunta: tal uso contribui ou nao para a realizacio da finalidade
para a qual Deus criou o homem?
A Igreja n3o tem medo da verdade.. . de nenhuma verdade, porque
Deus é a Verdade. Ao mesmo tempo, porém, as circunstancias ñas quais a
verdade é transmitida aos jovens, devem ser seriamente levadas em consíde-
racao pelo professor inteligente. A verdade é comparável, sob certos aspec
tos, aos bons alimentos que devem ser ingeridos em quantidade conveniente
e temperados agradavelmente para que o homem tire proveito. Disseram-me,
por exemplo, que nao devem ser dadas aos bebezinhos grandes fatias de filé
"mignon". Do mesmo modo, se temos que explicar aos jovens a sexualidade
humana, precisamos de tomar muito cuidado para apresentar a materia gra-
dativamente, levando em conta a sua capacidade de assimilacab.

Respeito á santidade da verdade

Sempre me surpreendi por ver que a nossa geracSo, que se gloria de ter
dado passos de gigante no setor da psicologia humana, parece nao compreen-
der o que nossos antepassados sabiam instintivamente, a saber: tudo o que
concerne á reprodució humana, emociona vivamente os jovens.
Eis por que o respeito ao corpo humano, santuario do Espirito Santo,
8 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 284/1986

que vive nos homens e ñas mulheres, nos meninos e meninas santificadas
pela grata divina, exige que se tenha grande solicitude por adaptar as condi-
coes emotivas, intelectuais e fisiológicas dos catequizandos os dados biológi
cos, sociais e teológicos relativos á reproducao humana. A reverencia ao ser
humano, o respeito á santidade da verdade, a solicitude para com a modes
tia instintiva e protetora ditarao ao professor a maneira de se exprimir e de
apresentar a materia.

A verdade deveria libertar o homem das paixoes

Em suma, a verdade nos fará livres (Jo 8,32}. Se a transmissáo de urna


verdade torna o homem escravo das suas paixoes, a causa disto nao é a ver
dade, mas a maneira como esta terá sido apresentada. O professor nao é um
projetor de cinema, nem um computador que transmite tudo aquilo que
dentro dele é colocado. O professor é urna pessoa que pensa. Está preparado
para transmitir urna mensagem da maneira mais adaptada aos seus jovens dis
cípulos. Compreandemos assim a enorme confianca que Deus mesmo depo
sita no homem e na mulher, atribuindo-lhes o encargo vital e delicado de
transmitir aos seus semelhantes verdades que procedem de Deus, quando Ele
mesmo as podaría revelar diretamente a cada individuo. A nos compete hon
rar tal confianca pela honestidade do nosso ensino.

Mu itas "verdades científicas" nao passam de teorías

Em terceiro lugar, a verdade é católica, ou seja, universal. NSo depen


de nem da geografía, nem da política, nem da raga, nem mesmo da historia.
Somos, por vezes, levados a pensar que a verdade pode mudar com os anos.
O átomo, por exemplo, foi inicialmente considerado como a menor partí
cula. Veio o dia em que alguém conseguiu fragmentá-lo;porconseguinte, já
nSo é o que se pensava. Será isto urna prava científica de que as verdades
mudam? Cortamente nao. A verdade nao mudou; foi o homem que se enga-
nou na sua primeira maneira de explicar: ele ¡ulgava ser o átomo a menor
partícula, quando na verdade nao o era.

Muitas proposicoes que chamamos "verdades científicas", sao apenas


teorias. Alguns dentistas dizem que descendo de um peixe dos trópicos. Isto
me agrada como teoría, porque os peixes slo bonitos, ao passo que eu nao o
sou!
O depósito da Fé nao muda com o tempo

Semelhante observacSo seja feita em materia de doutrina católica. Te


mos que usar de grande prudencia ao falar de "verdade". A verdade crista
nao mudará jamáis; todavia nem tudo o que ensinam os homens da Igreja, é
verdade imutável. O que o Cristo ensinou, o que foi divinamente revelado, é

8
CRISE DA CATEQUESE

a verdade; esta vale tanto em París quanto em Pequim. O conjunto das ver
dades reveladas, nos o chamamos freqüentemente "depósito da Fé". Nem o
magisterio da Igreja tem o direito de modificar o que Oeus disse. Eis por
que, entre outras coisas, o casamento ficará sendo sempre indissolúvel; visto
que Jesús o proclamou tal, a Igreja nao o pode retocar. Mas no concernente
ao culto, á organizado de diversas atividades religiosas, as obras de peniten
cia, aos dias santos, etc., há lugar para alteracoes, inspiradas pelas circunstan
cias locáis e as necessidades de determinada fase da historia. Nesses setores
pode-se legítimamente discutir a conveniencia, a necessidade, a utilidadede
adaptacdes. Foi este precisamente o objetivo do Concilio do Vaticano II,...
Concilio pastoral destinado a propor métodos, enfatizar urgencias, por em
di a o apostolado, levando em conta as necessidades dos nossos tempos.

Nenhuma das medidas de atualizacao afetou o depósito da Fé. Costu-


máveis dizer "Credo in unum Deus"; agora dizeis "Creio em um so Deus".
O idioma mudou, mas a verdade nao se modificou. O sacerdote, durante a
Missa, ficava voltado para a parede da igreja; agora ele está virado para os
fiéis. Mas o sacerdocio ministerial é sempre o mesmo e nao pode ser confun
dido com o sacerdocio comum dos fiéis.

As mudancas introduzidas na Liturgia

As recentes modificacSes introduzidas na vida da Igreja perturbaram


inútilmente algumas pessoas. Em varios casos, as razoes que motivaram as
mudancas nSo foram claramente explicadas; raramente os fiéis receberam
esclarecimentos a respeito da distincüb entre a substancia e os elementos
acidentais da Fé.
Houve também aqueles que nSo se limitaram as mudancas prescritas
e quiseram, por iniciativa própria, introduzir mudanzas substanciáis: por
exemplo, a distribuicao da Eucaristía a pessoas que nao créem na real pre-
senca eucarfctica de Cristo. Tais exageras, porém, nao impedem que legíti
mos aperfaigoamentos se imponham periódicamente na vida pastoral da
Igreja.

O ensinamento dos Apostólos: criterio último...

O quarto trapo característico da verdade da Igreja é a sua apostolicida-


de. Isto quer dizer que o Depósito da Fé (que nio se identifica com normas
meramente disciplinares e administrativas) deve ser encontrado tal qual, ao
retrocedermos até os tempos apostólicos. A Igreja ensina que tudo o que é
necessário á salvacáb deve encontrar-se na Escritura e na Tradicao, que se en-
cerra com a geracao dos Apostólos (ConstituicSo Dei Verbum n? 4 e 8), ou,
para fixar urna data..., com a morte do último sobrevivente dos Apostólos,
SSo Joáó Evangelista.
A apóstolicidade da verdade católica é um criterio extremamente útil
10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 284/1986

de ortodoxia, pois todo ensinamento que contradiga ao que disseram os


Apostólos, deve ser, sem mais, rejcitado. Como já vimos, a verdade é una.
Visto que a verdade proclamada pelos Apostólos é firme, tudo o que Ihe seja
contrario, há de ser excluido do nosso ensinamento.

A auténtica interpretado da Escritura

Talvez nem tudo o que os Apostólos ensinaram, tenha sido sempre


perfeitamente claro, mesmo para os Apostólos. Pois elestambém, como to
dos os justos, viviam da Fé (Rm 1,17). Transmitiram á Igreja, e portanto a
nos, o que aprenderam de Cristo, o Enviado do Pai. No decorrer dos sáculos,
deu-se um desdobramento gradual desse ensinamento originario de Cristo
(Constituicao Oei Verbum nos 8 e 24). O Cardeal John Henry Newman cha-
mava isso "o desenvolvimento da doutrina". E a doutrina católica, como era
de se esperar, continua a se desenvolver, pois a Verdade Eterna é inesgotável
e oferece sempre novo alimento á contemplacáb humana.

Todavía o desenvolvimento da doutrina nao constituí urna nova revela-


cao; nada muda no significado essencial da Palavra. Verifica-se apenas urna
floracSo, um alargamento ñas conseqüéncias, urna compreensao mais ampia
das aplicapoes, sempre em fidelidade á Palavra originaria. Sendo assim, para
julgarmos a autenticidade de determinada doutrina, temos que poder rela-
cioná-la com o ensinamento dos Apostólos. N3o queremos dizer que se deva
retroceder até a Escritura mesma. Com efeito, "há muitas outras coisas que
Jesús fez e ensinou e que nao estao escritas neste livro" (Jo 21,25). Mas o di-
reito de interpretar com autoridade o ensinamento dos Apostólos nao com
pete ao simples cristáb: "O encargo de interpretar auténticamente a Palavra
de Deus, escrita ou oral, foi confiado exclusivamente ao Magisterio vivo da
Igreja" (Constituicao Dei Verbum n? 10).
A consciéncia deve-se conformar á Lei de Deus

Poderfamos perguntar aqui como a consciéncia de cada cristao se deve


comportar no tocante a fé; com efeito, dizem-nos que devemos obedecer a
nossa consciéncia. Que acontece se a consciéncia nos dita urna coisa e a Igre
ja nos ensina outra? Que haveremos de escolher?
Será preciso distinguir entre o fato e a boa vontade. Se um motociclis
ta é multado por um guarda de tránsito por haver violado um sinal verme-
Iho, poderá talvez responder com toda a sinceridade: "Eu nSo o tinha visto".
Mas, embora esteja inocente diante de Deus como um cordeirinho, nüo é
menos verdade que ele infringiu o regulamento.

Semelhante situacáo ocorre a propósito da lei moral. Assim como o


motociclista tinha a obrigacáb de observar os sinais do tránsito, homens e
mulheres tém o dever de se informar a respeito das normas de conduta pro
mulgadas pela Igreja. Todos estío obrigados a formar e educar a sua cons-

10
CRISE DA CATEQUESE 11

ciencia conforme as normas cristas.

Se alguém, homem ou mulher, nSo está de acordó com a Igreja sobre


determinado ponto, a deliberadamente procede em sentido contrario, pres
tará comas no dia do jufzo. Quando o Soberano Juiz Irte perguntar: "Sabias
que a Igreja ensinava isto ou aquilo?", terá essa pessoa a coragem de respon
der: "Sim, Senhor, mas eu nao escava de acordó"?1. Se, porém, alguém viola
a Lei de Deus em boa fé, carece de culpa.

A verdade é luz

Caros irmaos e irmas em Cristo, como catequistas, vos e eu temos a


obrigacao de ensinar a verdade aos jovens e a todos aqueles que vos pedem
conselhos e regras de conduta na sua luta para chegar á vida eterna. A Igre
ja nos envía nSo para que apregoemos nossas pessoas ou nossas opinioes pro-
prias, mas para pregarmos "Jesús Cristo, e Jesús Cristo crucificado" (ICor
3,2). incumbe-nos o dever de ajudar nossos catecúmenos a edificar sobre só
lidos fundamentos a sua vida espiritual. Os sólidos fundamentos nao se cons-
troem com tijolos rachados, com cimento ralo e segundo linhas mal traca-
das. Ensinai a doutrina sólida, a verdade inteira, nada mais do que a verdade,
sem a misturar com o que agrade aos ouvidos dos homens (cf. 2Tm 4,3).
Pois a Palavra de Deus é a Verdade mesma e os jovens que vos pracuram tém
o direito, direito pago pelo sangue de Cristo, de conhecé-Lo como Ele quer
ser conhecido, como "a luz que brilha ñas trevas e que as trovas neto podem
obscurecer" (Jo 1,5)".

O texto do Cardeal Oddi. claro como é, dispensa comentario. A quem


deseja continuar a refletir sobre o tema, recomenda-se o livro "A Fé em Cris-
se? O Cardeal Ratzinger se interroga". Editora Pedagógica e Universitaria,
Praca Dom José Gaspar, 106, 3! sblj. n? 15 - 01047 - Sao Paulo (SP)-
telefone: (011)259-9222.

1 Talvez alguém indague com que autoridade a Igreja promulga nor


mas moráis. — A resposta é a seguinte: Cristo confiou á sua Igreja o ministe
rio de ensinar (cf. Mt 28,18-20), de ligar e desligar ou impar e dispensar (cf.
Mt 16,16-19; Mt 18,17s). Sao Paulo fala da "Igreja do Deus Vivo, coluna e
alicorea da Verdade" (ITm 3,15). A Igreja 6 o Cristo prolongado (Cf 1,24);
o Espirito Santo Ihe assiste para que apreenda e transmita toda a Verdade
(cf. Jo 14,)6s. 26; 16,12s). Por isto toca á Igrgja a funcSo de esclarecer os
fiéis a respeito do caminho que leva a Deus e á santidade — o que equivale a
tracar normas éticas. (Nota do tradutor).

11
Reconciliacao:

Por Que Há Menos


Procura do Sacramento?

Em símese: No último Sínodo Mundial Ordinario dos Bffpos (outubro


1983) Mons. Austin Vaughan, Bispo Auxiliar de Nova lorqua (USA), fez
urna intervencao a respeito do declfnio do número de confissoes sacramen
táis atualmante na Igraja. Entre as causas do lamentável fato, apontou:
1) certa confusSo, existente entre os fiéis, a respeito da nocao de pecado
(existe?... é possível?... que é pecado grave?... pecado mortal?); 2) ate-
nuacab da consciéncia de que a Redencao 6 necessária e ocorre mediante o
ministerio da Igreja. O autor do pronunciamento solicitava respostas para tal
problemática.
Publicamos o texto de Mons. Vaughan em traducán portuguesa acom-
panhado de breve comentario.

* * *

O último Sínodo Mundial Ordinario dos Bispos, reunido em Roma no


mes de outubro de 1983, abordou o tema "Reconciliacao e Penitencia na
MissSo da Igreja". Tinha em mira, entre outras coisas, enfrentar a problemá
tica do declfnio do número de confissoes sacramentáis em nossos tempos.
Ora, entre as intervenccies dos Srs. Bispos sinodais, merece especial destaque
a de Mons. Austin Vaughan, Bispo Auxiliar de Nova lorque, que propds al-
gumas das causas dessa realidade. Visto que o texto ó sabio e oportuno, pu-
blicamo-lo em traducao portuguesa acompanhada de comentario.

ALGUMAS CAUSAS DO DECLl'NIO

Confusdes básicas

"É para mim um daver enfatizar dois pontos, sando que o primeiro é
apresentado em nome da Conferencia Episcopal dos Estados Unidos.
Muitos sao os nossos irmSos Bispos que atribuem o atual declfnio do
número de confissoes, ao menos em parte, á confusSo que reina entre os
fiéis a respeito das nocSes de pecado, consciéncia, necessidade da penitencia
e da reconcilia?So. NSo poucos dentre eles exprimiram a esperancá de que o
Sínodo ofereca um ensinamento claro sobre tais assuntos.

12
POR QUE HÁ MENOS CONF1SSOES? 13

Atualmente há mal-entendidos e desacordó* a respeito das questoes


seguintes:

1) Que é um pecado grave? É um ato? é urna orientacáo de vida? Ou,


mais precisamente, que relacao existe entre urna e outra coisa?

2) Quais os pecados que devem ser confessados? O problema se coloca


por causa de urna serie de temas discutidos nestes últimos anos, a saber:
a) a opcao fundamental e suas conseqüéncias para a qualificacáo moral
dos atos do individuo;
b) a distinpao entre pecado mortal e pecado grave;
c) significado e conseqüéncias da liberdade da consciéncia individual, que
parecem implicar um confuto com a doutrina explícita da Igreja;
d) questionamento dos valores absolutos da Moral;
e) insistencia sobre os fatores psicológicos que limitam a liberdade huma
na e, por conseguinte, implicam mais restrita possibilidade de pecar;
f) a afirmacao de que os pecados sexuais safo (objetivamente falando) pe
cados de materia leve;
g) o questionamento do grau de responsabilidade subjetiva nos pecados
sexuais;
h) urna teoría do mal "óntico", que relaciona a responsabilidade moral
com a ¡ntencáo da pessoa mais do que com a índole do que ela escolhe
ou realiza;
i) o questionamento da faculdade que toca á Igreja, de obrigar os fiéis,
sob pecado mortal, a coisas nao exigidas pela lei de Deus.

Negligencia da doutrina da Igreja

Em muitos casos, as autoridades docentes da Igreja deram a tais ques


toes, nos últimos anos, respostas muito claras. Nao obstante, a contestacao
persiste, ora mais forte, ora menos forte, ao nivel das Faculdadesde Teolo
gía, dos Seminarios, das escolas secundarias e da catequese. Nesta última, ela
aparece freqüentemente como menosprezo mais do que como contradicao
direta ás normas da Igreja.
Com isto, nada estou dizendo de novo. Com efeito; há quinze anos
que a contestacao existe em grande parte da Igreja. O relatório sobre as con
seqüéncias do Sínodo de 1980 e da Instrucao Familiaris Consortio que ouvi-
mos na semana passada, dava testemunho do fato.

A dissensao, problema importante mormente quando trata de


normas piráticas

Chamo a atencao para o fato de que a dissensao ou a divergencia é um


problema muito maior ou mais ¡mediato quando diz respeito ás normas prá-

13
14 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 284/1986

ticas ("voca deve fazor isto..."; "él he proibido fazer aquilo. ..") do que
quando se refere a pontos de vista especulativos.
Com efeito. Muitas pessoas suportam assaz fácilmente que Ihesdigam
que sobre determinado ponto de doutrina a posicáo católica nao é uniforme,
pois assim gozam de liberdade para tirar su as conclusdes dentro do conjunto
dos principios cristaos. Mas nao toleram que os seus pastores divirjam entre
si no tocante á prática de vida católica. Ero tais casos, muitos fiéis deíxam de
pronunciar ou aceitar qualquer diretriz.

O fardo mais pesado recaí sobre os confessores

Creio que a situacao se agravou pelo fato de que nos últimos anos nao
se cultivou mais a casuística1 em Teología Moral. Em muitos casos os con
fessores já nao tém claras normas a seguir. O fardo mais pesado recai sobre
os sacerdotes encarregados das confissoes, pois estao na primeira linha.
Quaisquer que sejam os conselhos dados por eles, o penitente pode sempre
ocasionar-Inés dúvidas. Disto se segué que o ministerio da ConfissSo sacra
mental se torna encargo penoso.

Confusao a respeito da possibilidade de pecado mortal e da sua


freqiiéncia

Eis um novo aspecto da problemática, a primeira vista, mais grave do


que os anteriores: a confusao ou contestacao a respeito da possibilidade de
pecado mortal ou da sua freqüéncia. A maioria dentre nos aprendeu a consi
derar o pecado mortal como possível ou como perigo ¡mínente a partir de
certa idade. O sacramento da Penitencia revestíale assim de grande impor
tancia, como remedio para o pecado e fortalecimento contra a tentacao. O
pecado mortal era algo que podia acontecer todos os dias ou algumas vezes
por dia na vida aqueles que nao estivessem multo perto de Cristo. Atualmen-
te ouvimos opíníoes segundo as quais seria difícil cometer pecado mortal;
caso ocorra, é por poucas vezes no dacorrer de urna vida. Atos considerados
outrora como gravemente culpados continuam a ser tidos como maus,
mas alega-se que sao cometidos sem o comprometimento pessoal necessário
para que haja pecado mortal.

Que podemos fazer a propósito neste Sínodo?


É mais fácil enunciar os problemas do que Ihes oferecer solucóes: mas,
de modo geral, eis o que podemos fazer:

1 Casuística: estudo de casos de consciéncia. (Nota do tradutor).

14
POR QUE HÁ MENOS CQNFISSOES? 15

1) olhar de frente a questáo pastoral da frequerida e do perigo do pe


cado mortal no mundo de hoje;

2) cuidar de oferecer urna casuística aos confessores, principalmente


no tocante aos assuntos mais controvertidos.

Atenúa?!» do sentido da necessidade da Redencáo e da mediacáo


da Igreja

O ponto seguinte deriva-se do meu modo de ver pessoal, e nao provém


da Conferencia dos Bispos norte-americanos.

Creio que o declfnio do número de coníissoes está ligado também a


urna atenuacao do sentido da necessidade da Redencáo e da mediacao da
Igreja para que os fiáis possam receber o perdao dos pecados.

Sobre o prime ira problema (atenuado sentido da necessidade da Re


dencáo), creio que o declfnio tem sua origem em opinioes hoje muito acei
tas pelos católicos, ao menos implícitamente, mas por vezes tambám explíci
tamente.

Primeiramente cráem mu i tos que todos ou quase todos chegarao ao


oáu, a ponto de ninguém correr o perigo de perder a sua alma.

a) por causa da misericordia infinita de Deus e da sua vontade salvffica;

b) porque poucos pecados sao mortais e 6 quase impossível cometer al-


gum {visto que a maioria das acoes tidas como gravemente culpadas
nao afetam a orientacao fundamental da pessoa para Deus).

Em conseqüéncia, nao haveria necessidade urgente de reconciliacao da


parte do individuo,

A dimensao escatológica

A realidade do inferno é controvertida por muitos ou, ao menos, mui-


tos perguntam se na verdade há quem se perca no inferno.

No documento distribuido pela ComissSo Teológica Internacional,


nao há mencSo do inferno nem da alma humana (excetuada talvez a passa-
gem de significado implícito: "os pecados queexcluemdo Reino de Deus",
p. 22). O mesmo ocorre com o Relatório que introduziu os debates sobre
tais assuntos. Em parte alguma nesses documentos há referencia ao purgato
rio, nem as indulgencias (com excecSo de urna leve alusao no texto da Co
missSo Teológica Internacional); nada af se le sobre o significado de urna pu-
rificacao temporal dentro do plano divino de salvacab. Também se registra
silencio sobre o papel que a penitencia exerceu na vida da maioria dos nos-

15
16 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 284/1986

sos santos canonizados e sobre as motivares da sua prática penitencial. Pa


rece que boa parte da nossa tradicao ascética fo¡ deixada no esquecimento.
Nao encontró em tais documentos alguma dimensao escatológica e, nao obs
tante, no passado esta era de máxima importancia na preparacSo dos fiéis
para a recepcao dos sacramentos.

Quem poe de lado alguma doutrina, expSe-na a nao mais ser pro-
fessada

Sem dúvida, essas omissoesnlo sfo sinal de falta de fá. é certo que nao
se pode dizer tudo num documento relativamente breve. Mas um escritor
bem conhecido, há cerca de quinze anos, emitia a opiniao de que, para o
futuro, doutrinas definidas seriam modificadas na Igreja, nao mediante urna
negacao formal, mas porque esquecidas e ignoradas (elas se tornariam "peri
féricas"). Tomemos, pois, cuidado para nao deixar que se percam capítulos
de alcance pastoral em nosso magisterio por causa de orientacoes novas.

Urgente é levar a salvacao a todos

Creio que todo o nosso esforco pastoral, principalmente no setor do


sacramento da Penitencia, foi profundamente afetado pela nopáb, geralmen-
te aceita, de que nao há urgencia em levar a salvacSo aos homens, visto que
todos a ela chegam de qualquer modo. Precisamos de um ensinamento claro
a respeito do concelto real de pecado mortal e a proposito dos efeitos pro
fundos e extensos que ele tem na vida dos individuos.

Falsa noció de salvacao

No tocante á minha segunda observacáo (atenuacab do sentido da ne-


cessidade da mediacáo da Igreja para que os fiéis recebam o perdSo dos peca
dos), alguns sustentam a tese de que o Esp frito Santo age em todos os povos
e em todas as religioes em grau suficiente para Ihes levar a salvacao. Sendo
assim, pensam eles, a Igreja nao á a Arca da salvacao nem há urgencia em
levar os povos ao conhecimento da írosme. Se há necessídade de perdao, di-
zem, pode ser obtido fora da Igreja e do seu sistema sacramental, grapas á
acSo do Espirito Santo ñas outras religioes e na obediencia á lei natural.

Efeitos desfavoráveis sobre o zelo e as vocapdes missionárias

Estas idéias tiveram por resultado diminuir o zelo missionário ou apli-


cá-lo, de preferencia, a melhorar as condicóes de vida temporal antes que a
acolher nao cristáos no seio da Igreja.

16
POR QUE HÁ MENOS CONFISSOES? 17

Tém também suas conseqüéncias sobre as vocacoes, nao exatamente


ñas comunidades missionárias, mas ñas dioceses e ñas Congregares Religio
sas em geral, pois o apostolado dos presbíteros, dos Irmaos e das Religiosas
já nao parece ser de importancia vital.

- Repito-o: precisamos de ensinamento claro a respe¡to da necessidade


real que os homens tém da Igreja para atingir a salvacáb.

Mais: precisamos de defender esta doutrina mediante urna apologética


persuasiva".

' COMENTARIO

Verifica-se que o texto de Mons. Vaughan é muito penetrante e incisi


vo. Os problemas levantados pelo Sr. Bispo tiveram feliz resposta na Exorta-
cao Apostólica "Reconciüacáb e Penitencia" publicada aos 2/12/84 pelo S.
Padre Joao Paulo II como resultado dos estudos e debates realizados por
ocasiao do Sínodo de 1983. Tal documento de Joao Paulo II já foi apresen-
tado e comentado em PR 281/1985, pp. 270-283; o leitoré, pois, convida
do a consultar tal fascículo.
N3o se pode negar, porém, que a problemática apontada por Mons.
Vaughan perdura ata hoje. É por isto que, juntamente com o texto do prela
do, propomos á consideragao dos nossós leitores os seguintes pontos básicos,
que, inspirados na mais genuína doutrina da Igreja, respondem as dúvidase
hesitacoes recenseadas por Mons. Vaughan:

1) O pecado é um pensamento, urna palavra, um ato ou urna omissáb que


se volta contra a Lei de Deus. Para que seja grave ou mortal (guarda-se a si
nonimia pelas razoes que indicaremos a seguir), requer-se: a) materia grave
ou de vulto, b) conhecimento de causa, c) vontade deliberada. Quando falta
algum desses requisitos, o pecado é dito leve ou venial.

2) Há quem diga que só existe pecado mortal quando a pessoa quer expli-
citamén te apagar sua opcáb fundamental por Deus ou quer voltar toda a sua vi
da para outro fim supremo que nao Deus (por exemplo, o dinheiro, o pra-
zer, a gloria.. .). Caso alguém peque gravemente (por adulterio ou homici
dio, por exemplo), mas nem por isto deixe de dizer que Deus é o fim supre
mo de sua existencia, ñSo estaría pecando mortalmente. Se esta teoría fosse
verídica, haveria poucos pecados mortais, pois geralmente quem peca nao
pensa em dizer um NSo explícito a Deus; apenas procura o prazer ou a com-
pensacáo que o pecado the pode acarretar. O pecado cometido em materia
grave, sem que o pecador retrate sua opcáb fundamental por Deus, seria pe
cado grave, nao, porém, mortal.

17
18 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 284/1986

Ora tal teoria nao ó aceita pela Igreje; nem é aceita por esta a distincüo
entre pecado grave e pecado mortal. Veja-se a propósito o Documento Per
sona Humana ou "Declaracao sobre Algumas Queridas de Ética Sexual" pro
mulgada pela S. Congregacao para a Doutrina da Fé aos 29/12/75. Veja-se
também o novo Código de Direito Canónico que, para evitar distincóes su-
tis, apenas fala de pecados leves e pecados graves (sem mencionar pecados
mortais); com esta Mnguagem o Código quer dizer que todo pecado nao leve
é grave ou mortal; nao há, além do pecado leve e do pecado grave, urna ter-
ceira categoría {que seria o pecado mortal).

3) A psicología das profundidades ensina que a liberdade humana é dimi


nuida ou nula, supondo que sajamos joguetes de instintos passionais existen
tes em nosso inconsciente. Por conseguinte, o ser humano nao seria sujeito
de culpa imputável ou n3o podaría ser responsabilizado no foro moral, mas
deveria ser considerado vftima da sociedade (super-ego), que censura os atos
instintivos e passionais da pessoa. - É certo que também esta doutrina nSo
se coaduna com a Moral Católica; esta reconhece os fatores que atenuam a
liberdade e a responsabilidade do comportamento (traumas de infancia,
complexos psicológicos. ..), mas afirma que nem por isto todos os homens
sao moralmente irresponsáveis; ao contrario, a educacüb tende a excitar o
senso de responsabilidade e o bom uso da liberdade no educando.

4} É de crer que os pecados graves ou mortais nunca tenham sido - e


muito menos hoje sejam - algo de raro na historia da humanidade;os morti
cinios, os latrocinios, os adulterios, a exploracsb do homem pelo homem...
s§o fatos de todos os tempos, que, sem dúvida, marcam profundamente a
realidade dos nossos días. Nao se diga que aqueles que cometem tais males
sao todos doentes mentáis ou irresponsáveis, pois isto seria falso.

Hoje em dia muitos evitam a palavra "pecado" como se fosse ultrapas-


sada ou inconveniente. Todavía nada há de mais sadio do que reconhecer a
verdade e déla tirar as conseqüencias lógicas. Veja-se a propósito o livro do
psiquiatra norte-americano Karl Menninger: "O pecado da nossa época" (Ed.
José Olympio, Rio de Janeiro, 1975) comentado em PR 205/1977, pp. 14-26.

5) A Moral fórmula preceitos e normas válidos para todos os homens e


todos os tempos ("nao matar, nao roubar, nao adulterar..."}. Estas normas
tém, por si ou objetivamente falando, valor universal. A avaliacSó moral dos
nossos atos nao depende apenas da situacao bu das circunstancias contin
gentes em que o sujeito é colocado, embora estas também tenham que ser
levadas em conta para se definir a moralidade de um ato humano.

6) A avaliacao moral de um determinado ato também náb depende ape


nas da intencao de quem o comete; ela deve levar em conta outrossim a ma
teria em torno da qual versa esse ato. Por exemplo, o relacionamento sexual

18
POR QUE HÁ MENOS CONFISSOES? 19

praticado por duas pessoas que se amam mutuamente fora do casamento, é


pecado grave, embora nenhuma tenha a intencao de prejudicar a outra.

7) Os pecados sexuais versam sobre materia importante ou grave. Está


claro, porém, que nem todos sfo graves ou moríais, dado que nem sempre
há plena lucidez de mente e vontade deliberada ñas pessoas que os cometem.
Todavía nao se pode dizer que o assunto "castidade" seja de pouca monta
no plano moral ou ínteres» apenas aos planos fisiológico e psicológico.

8) A Igreja, como sacramento de Cristo, goza de autoridade necessária


para falar em nome do Senhor e impor aos fiéis preceitos graves. Estes, em
última análise, nao sSo senao explicitacSes da Lei natural e da mensagemdo
Evangelho. Disse o Senhor Jesús aos Apostólos: "Quem vos ouve, a mim ouve;
quem vos rejeita, a mim rejeita. E quem me rejeita, rejeita aquele que me en-
viou" (Le 10,6).

A Igreja nao é urna instancia contingente ou dispensável no designio


de Deus. Mas é inseparável de Cristo. Nao é possível a um cristao aderir fiel
mente a Cristo sem aderir também á Igreja por Ele fundada e entregue ao
pastoreio de Pedro e seus sucessores. A distribuicao das gracas da salvacáb,
inclusive a remissao dos pecados, se faz necessariamente através do ministe
rio da Igreja. Com outras palavras: a salvacao proposta pelo Senhbr Deus é
essencialmente sacramental: comeca pelo sacramento primordial que é a hu-
manidade de Cristo, e se prolonga na Igreja-sacramento, para atingir cada in
dividuo mediante os sete ritos-sacramentos.

9) A recordacáo dos novfssimos ou das realidades fináis da existencia hu


mana é altamente salutar. A quem está em viagem, interessa ter sempre em
mente o termo aonde quer chegar. É a partir desta meta que o viajante defi
ne as etapas intermediarias, ajusta seu le me, e avalia cada qual das peripecias
do seu itinerario. Por isto a reflexfo sobre a morte e a sorte postuma (o céu,
com seu eventual estágio previo que é o purgatorio postumo, e o inferno) é
necessária e fecunda para o direcionamento da vida de um cristao. Silenciar
tais dados á eliminar urna das fontes de lucidez de espirito e de forca de von
tade de que precisa o cristao.

Eis algumas reflexSes sugeridas pelo importante pronunciamento de


Mons. Vaughan, que, sem dúvida, encara leal mente graves problemas da vida
católica de nossos dias.

19
Aínda a candente questao:

A Confissao Metodista e a Maconaria

Em Símese: A Confissao Metodista da Inglaterra (país onde surgiu a


Maconaria filosófica atual em 1717) reprova a participado dos seus fiéis ñas
Lojas Macñnicas por motivos muito semelhantes aos que movem a tanto a
Igreja Católica: 1) a fndole secreta, nao publicamente justificável, da Maco
naria; 2) o conceito de Grande Arquiteto do Universo nao satisfaz as tradi-
coes religiosas nem do Cristianismo nem de outras religiSes; 3)o nome de
Cristo tem sido cancelado explícitamente de fórmulas de oracáb crista ado
tadas ocasionalmente pela Maconaria; 4} o 13?grau de iniciacao revela que o
nome do Supremo Ser é Jahbulon, palavra que se compóe de nomes de di-
vindades de religioes diferentes - o que revela ecletismo ou, melhor, o re
lativismo religioso da Maconaria; 5) a salvacáo do homem, segundo os ma-
cons, parece reservada ás pessoas que atinjam os graus mais elevados da hie-
rarquia maconica.
A expoliéis de motivos metodista foi redigida por urna Comissáb de
peritos, que subordinaran! o texto final da mesma, com suas informacoes, ao
Secretario da Grande Loja da I nglaterra e obtiveram deste o laudo de que é ve
rídico e fiel aos fatos.
Estes elementos contribuem para esclarecer e corroborar a posicáb da
Igreja Católica contraria á Maconaria, reafirmada ainda recentemente (no-
vembro de 1983).

* *

A Igreja Católica tem-se manifestado repetidamente contraria á Maco


naria. Fé-lo ainda em 1983, pouco depois de promulgar o. novo Código de
Direito Canónico. Esta última declaracSo da Santa Sé surpreendeu estudiosos
que julgavam ter chegado o momento da conciliacáb entre o Catolicismo e a
Maconaria. A propósito foi publicado um artigo de esclarecimiento em PR
281/1985, pp. 300-307 (ver também PR 275/1984, pp. 303/314): a Igreja
julga estar em pecado mortal o católico que pertenca a Maconaria, visto que
os principios doutrinários desta nao se conciliam com os da S. Igreja.
Ora, talvez para surpresa de varios estudiosos, também a Confissao Me
todista da Inglaterra (país onde teve origem a Maconaria filosófica atual em
1717), recomenda a seus fiáis a naó-adesao a Maconaria. É o que nos diz o
artigo de Cario Cavicchioli publicado em "Famiglia Cristiana" n?30de24/

20
METODISTAS E MA^ONARIA 21

07/85 pp. 46s, com o título "I Metodisti Inglesi invitati a non aderire alia
Massoneria". Esta importante exposicao, traduzida do italiano, vai apresen-
tada ñas páginas que se seguem.

OS METODISTAS INGLESES CONVIDADOS A NAO ADERIR


A MACONARIA

"A Igreja Metodista Británica aconselhou com firmeza os seusmembros


a nao aderirem a Maconaria. Aqueles que já pertencem a esta, pediu que re-
considerem em sua consciéncia tal filiacáo, pois os conceitos e as práticas
macónica nao estao em harmonía com os ditames do Cristianismo. É a pn
meira vez que urna Igreja protestante se pronuncia contra a poderosa organi-
zacao secreta oriunda no próprio Reino Unido no comeco do sáculo XVIII e
de lá difundida no mundo inteiro. A posicao assumida pela hierarquia meto
dista se assemelha — embora nao seja tao nítida nem empenhativa — a da
Igreja Católica, que, há muito tempo, condenou a Maconaria como absoluta
mente contraría aos ensinamentos do Evangelho.
Tal noticia suscitou grande agitagao, como se compreende, se consi-
derarmos que, na GrS-Bretanha, há no mínimo 800.000 maconse os princi
páis expoentes das Lojas sao figuras assaz ilustres ou influentes na sociedade
británica; a própria autoridade suprema da Maconaria, o Mestre da Grande
Loja, é membro da Casa Real, ou seja, primo da Rainha.

1. Os antecedentes da Declaracao Metodista1

A decisao dos hierarcas metodistas nao veio imprevistamente. Foi to


mada durante a assembléia anual da Conferencia Metodista (órgab de gover-
no da Confissao wesieyana) realizada em Birmingham na primeira semana de
julho de 1985. Já no verSo do ano anterior a hierarquia encarregara a sua
"Comissao de Fá e Constituicao" de efetuar aprofundado estudo da Maco
naria e de preparar, na base deste, um relatório sintético com as devidas con-
clusóes referentes a compatibilidade ou nao de alguém ser metodista e, ao
mesmo tempo, macom.
A Comissáb, presidida pelo Rev. David Stacey, teólogo e professor
universitario de Filosofía, chegou & conclusSo de que as duas concepcoes sao
incompatíveis entre si; o seu relatório foi aprovado pela maioria esmagadora
da Conferencia de Birmingham: 600 vozes favoráveíse apenas 30contrarias.
O texto em pauta — vale a pena salientá-lo — fora elaborado com admirável
preocupacao de objetividade; o seu conteúdo foi submetido ao parecer da
Grande Loja da Inglaterra por via do respectivo secretario, a fim de que ex-

Os subtítulos se devem ao tradutor do artigo.

21
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 284/1986

purgasse a versáb final de qualquer possfvel erro de informacáb ou de


¡nterpretacáb; o laudo do Secretario declarou nada haver ali a corrigir.

2. Os porqués do Nao

O relatório, antes do mais, chama a atencáb para o fato de que a pró-


pria índole secreta da Maconaria suscita logo um problema para os cristaos:
"A comunidade crista é urna fellovwhip (sociedade de companheiros) aberta,
para a qual o segredo, de qualquer especie nao publicamente justificável, se
torna destrutiyo". Mais: aos macons se pede que creiam num Ser Supremo,
as vezes chamado "Grande Arquiteto do Universo", ao qual devem dedicar
"urna devocáo que parece atenuada e insuficiente para qualquer tradicáo re
ligiosa. É inquietante o fato de que esse Ser Supremo nao seja para todos os
macons o Deus da concepcáo crista, e que nos diversos graus da Maconaria
nenhuma oracao mencione Jesús Cristo. Há casos documentados de ritos
macónicos realizados em igrejas cristas, nos quais o texto das oracóes Cristis
foi alterado para se remover deles o nome de Cristo".
O aspecto teológico mais estranho para os cristaos, prossegue o texto,
aparece ñas funcoes macón ¡cas do grau conhecido pelos iniciados como "Ar
co Real"; é o 13? entre os trinta e tres da escala hierárquica. Um dos segre-
dos revelados nesse grau afirma que o nome do Ser Supremo é Jahbulon. O
ritual especifica que se trata de um termo composto. "A melhor explicacib
desse título diz que se formou de tres partículas: Jah, Bul e On; as duas pri-
meiras sao nomes de divindades em religi8es diversas. A terceira era outrora
interpretada assim também, mas os exegetas modernos julgam que isto é
erróneo. Em todo caso, é claro que nao nos encontramos distantes de um
exemplo de sincretismo ou da tentativa de fundir diversas religiSes numa so,
o que nao é aceitável aos cristaos.

Do mesmo modo, está em contraste insuperável com o Evangelho o


conceito macdnico (nao muito claro) de salvapao;esta parece reservada ape
nas aqueles que atingem os graus mais elevados da escala hierárquica. Alóm
disto, "ainda que a Maconaria afirme nao ser urna religiSo nem um movi-
mento religioso, os seus rituais contém práticas religiosas e supSem princi
pios religiosos - razao pela qual 6 evidente que ela pode entrar em forte
choque com o Cristianismo. Por conseguinte, há grande perigo de que o cris-
tao que se torne macom comprometa a sua fe* ou a sua fidelidade a Cristo,
talvez sem ter consciéncia disto". Em conseqüéncia, concluem os relatores,
"a nossa diretriz é que os metodistas nao devem aderir á Maconaria".
Se a assembláia aprovou quase unánimemente o relatório e as suas
conclusoes, o debate em Birmingham foi candente. Urna grande parte dos
participantes desejava da Comissao urna censura mais drástica á Maconaria.
Com efeito; a recomendacao formulada pela assembléia é cautelosa e, de
modo nenhum, vinculante. Mas, como explicou o Rev. David Stacey, o ho-

22
METODISTAS E MA^ONARIA 23

mem que presidiu aos longos trabalhos, nao está nos hábitos da Confissao
Metodista impor proibicoes aos fiéis; disse-me ele em breve entrevista ¡"Ve
ja: o metodismo rejeita, por exemplo, p uso das bebidas alcoólicas, mas nao
excomunga nem pune nem acabrunha os seus membros que bebem. Diz-lhes:
'Refleti, considerai o problema e resolvei-o em vossa consciéncia'. E, se dian
te de Oeus, se sentem justificados para beber, bebem.'O mesmo vale no to
cante a Maconaria. Preparamos este relatório e demos diretrizes pastorais.
Solicitamos aos metodistas que o meditem, e aos metodistas macons pedi
mos que perguntem a si mesmos, em consciéncia, se, quando decidiram fí-
liar-se a Loja, ponderaram e avaliaram todas as questóes e implicacoes que o
texto do Relatório IhesexpSe".

3. Prospectivas

Como quer que seja, o voto de Birmingham terá ampia repercussáo na


Gra-Bretanha; em breve, produzirá efeitos também no Sínodo da Igreja An-
glicana, a mais importante do país, que deverá encarar a fundo o tema da
Maconaria nos próximos meses. E entre os anglicanos que se conta o maior
número de macons. As hierarquias da organizacao secreta masónica, a quan-
to se sabe, compSenvse principalmente de anglicanos, muitas vezes persona-
gens da alta aristocracia. O Mestre da Grande Loja é o Duque de Kent, sobri-
nho de Jorge VI, que o precedeu nesse cargo;ó também primo da atual Raí-
nha.

A Corte de S. Jaime ou a Casa Real últimamente distanciou-se um


pouco das Lojas Macónicas. Filipe de Edimburgo, príncipe consorte, foi ini
ciado na Fraternidade Secreta em 1952, por imposicao do sogro e a contra-
gosto do Duque de Mountbatten, seu tio e mentor. Mas nunca ultrapassou
o grau de aprendiz, que é o mais baixo da escala macdnica. Seu filho Carlos,
o herdeiro do trono, jamáis quis saber de Maconaría, provavelmente porque
ó um cristao devoto, com forte simpatía para com o Catolicismo. A Rainha
Elisabete, por ser mulher, nao pode entrar na Maconaría, que só admite no-
mens. Mas, em compensacSo, traz o título honorífico de Grande Patraña.
Um outro seu primo, o Príncipe Miguel de Kent, é um macom, do grau de
"IrmSode Grande Categoría".

Na Gra-Bretanha a Maconaría conta 6.000 Lojas; a mais importante, a


Grande Loja, está em Londres, tendo sede num edificio que parece um tem
plo da Babilonia, nao longe de Piccadily nem da ponte dos Irmaos Negros
(nome que se inspira inocentemente de urna antiga comunidade dominica
na do bairro); debaixo dessa ponte faleceu misteriosamente entercado Ro
berto Calvi, o banqueiro ligado ao escándalo da Loja Italiana P-2. Foi pre
cisamente em conseqüéncia desse obscuro episodio que a opiniao pública
británica comecou a interessar-se pela Maconaría do Reino; muito foi per-

23
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 284/1986

turbada e muito perturbou as atividades das Lojas. Um livro publicado pou-


cos meses depois revelou quanto as práticase as estruturas da Maconariaes-
tavam difundidas: tornou-se notorio, por exemplo, que na Polonia 60%dos
Commissioners de Contea era macons; e que até na nova moderna sede de
Scotland Yard, em Londres, havia um lugar-reservado aos rituaisda Frater-
nidade secreta. Se tal é a realidade, poder-se-ia explicar por que o inquéri-
to referente ao fim do banqueiro Calvi foi extraordinariamente confuso e
nSo chegou a apurar o que tenha acontecido naquela noite de ve rao, ao lon
go do rio Tamisa".

* * *

Estas noticias e ponderacoes de Carlos Cavicchioli contribuem para


ilustrar a posicao da Igreja Católica, que nSo se fecha á Maconaria por moti
vos de mentalidade estreita ou "conservadora", mas, sim, por razoes que a
própria Confissao Metodista (e talvez a Anglicana, ambas de índole mais
flexfvel) reconhece como válidas e decisivas.

(continuado da p. 48)

o escriba Esdras, que era fiel e zeloso da Lei de Moisés, opondo-lhe Noemi,
figura liberal (p. 40) - o que parece anacrónico e fruto de preconceitos.
Em suma, o texto do livro de Rute, em vez de ser estudado numa óti
ca científica e objetiva, é utilizado para ilustrar teses de ordem socio-política
modernas. O comentador, porém, é lógico em seu método: julga que a Biblia
deve ser submetida a urna re-leitura a partir da praxis ou da acSo transfor
madora da sociedade. Este é um ponto de partida indiscutido, formulado se
gundo os principios da análise social marxista; o texto da Biblia é entfo ilu
minado pelos imperativos da praxis transformadora, de modo a servir de
apoio a esta. De tal tarefa exegética resulta um comentario tendencioso e
deformador, todavía muito penetrante porque escrito em linguagem simples
e popular ilustrada por desenhos.
Transcrevemos aqui a conclusSo do Professor Stefano Virgulin em sua
Introduc3o ao livro de Rute:
"O principal escopo do livro é transmitir á posteridade urna historia
edificante e comovente, sob todos os seus aspectos, relativas ás origens da
familia de Davi. O grande reí de Israel, mediante um plano providencial de
Javé, contou entre os seus antepassados urna moabita, ou seja, um membro
daquele povo que por sáculos se mostrou hostil a Israel. O livro possui, por-
tanto, um fundamental interesse nao particularistico ou de familia, mas na-
(continua na p. 39)

24
Um livro que faltava:

"Problemas de Bioética
ii

por Andrew C. Varga

Em símese: O livro de Andrew Varga é um compendio de Ética Crista


para os profissionais da Medicina, da Enfermagem e, em geral, para todos os
estudiosos. Aborda os problemas moráis relacionados com a vida desde o
nascimentó até a morte, propondo para cada tema o embasamento científi
co e os principios de solucao ética. A orientacáb do autor é fiel as normas da
Igreja; pelo que a obra merece viva recomendacao, vindo a preencher urna la-
cuna em nossa bibliografía.

O livro "Problemas de Bioética" deve-se ao jesuíta norte-americano


Pe. Andrew C. Varga, da Universidadede Fordham. Em boa hora a Universida-
dedo Rio dos Sinos (UNISINOS), dos jesuftasdeSSo Leopoldo (RS), oman-
dou publicar em traducao portuguesa, a fim de elucidar, do ponto de vista
ético, questóes que a biología contemporánea lanca ao público: contencSo da
natalidade, aborto, engenharia genética, experimentacüo em seres humanos,
psicocirurgia e controle do comportamento humano, transplante de orgaos,
pre-selecaó e troca de sexo, drogas, assisténcia ao anciao e ao moribundo...
O livro se abre com um capítulo sobre "Principios Moráis e as Ciencias
da Vida", em que o autor propSe diversos sistemas éticos que poderiam vir
ao caso: o positivismo, a Ética da situacao, o utilitarismo. . . e termina op
tando pela Ética da leí natural. Nos capítulos subseqüentes, o autor aborda
os problemas bioéticos, como se poem na seqüéncia da vida humana desde a
concepcao até a morte; em cada capítulo há primeiramente o embasamento
científico e informacóes sobre o desenvolvimento da ciencia; a seguir, sao
analisadas as questóes e propostos os principios de solucao respectivos. O
que impressiona o leitor dessa obra, é a precisáo filosófica que o autor pos-
sui e aplica com grande perspicacia.
Dentro da densidade e variedade de temas abordados, seccionaremos
quatro, aos quais dedicaremos mais detida atencSo ñas páginas subseqüentes:

1
Problemas de Bioética, por Andrew C Varga. Traducao de Pe. Guido Ed
gar Wenzel S.J. - Unisinos, SSo Leopoldo (RS) 1982. 155x230 mm,
222/pp.

25
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 284/1986

o aborto, a Engenharia Genética, os transplantes e o respeito a vida, a assis-


téncia ao enfermo.

1. Aborto

O debate sobre o aborto nSo é novo no Brasil; grande tem sido a pro-
ducao bibliográfica a respeito. Salientemos, porém, o modo como Andrew
Varga o considera.

1.1. Quando comeca a vida humana?

1. Antes do mais, o autor coloca a pergunta ácima. A resposta a tal


questio é fundamental para se avaliar se o aborto é ou nao um homicidio.
Para elucidar a temática, o autor lembra que "o continuo e ininterrup-
to desenvolvimento do ser concebido, na crianca recám-nascida, sugere que a
vida humana af está presente desde a concepcao" (p. 41). Com outros ter
mos: "A 'humaneidade' está presente desde a concepcao, porque só a pre-
senga de urna causa específicamente humana pode explicar os efeitos hu
manos do crescimento teleologicamente1 ordenado do conceptus para che-
gar a ser a crianca completamente desenvolvida" (p. 41).
Como se vé, o efeito do desenvolvimento humano do feto (que é urna
realidade inegável) pede urna causa humana ou um princfpio vital humano
no próprio embriáo. Efeitos específicos pedem causas específicas.
Mais Continua o autor: "Mesmo que houvesse alguma dúvida quanto
á humanidade do conceptus. nao nos 6 permitido P6r em perigo a vida de
um ser que, possivelmente, já é um ser humano com urna alma espiritual.
Deve-se seguir, neste caso, o caminho mais seguro, porque nao nos é permi
tido realizar üm ato que possa matar urna pessoa.. . O problema do inicio
da vida humana nao é um problema científico, mas filosófico e ético lp.41)
2. A seguir, o autor examina as objecoes que se possam levantar con
tra tal posicSo.
a) A mais significativa é a que procede dos fenómenos de geminacao e
recombinacao. - A geminacao é a divisáo de um único óvulo fecundado em
dois embriSes, que se desenvolvem separadamente; o resultado sao gómeos
idénticos; tal processo pode ocorrer dentro dos quatorze días que se seguem
a fecundacáb. - A recombinacSo é a juncSo de dois grupos de células (que
se vio desenvolvendo independentemente) numa só, de modo que acaba ha-
vendo apenas um feto em vez de gémeos;este processo pode verificar-se até
o inicio da terceira semana após a fecundacáo. - Tais fenómenos parecem

1 Teleologicamente, «fo é, ordenado segundo urna fínalidade ou urna mata


(télos, em grego) a atingir.

26
"PROBLEMAS DE BIOÉTICA" 27

provar que o óvulo fecundado nao é pessoa humana, porque a ¡ndividualidade


ou a ¡ndivisibilidade é nota essencial da pessoa.
Quedizer? .
- No tocante a geminacáb, pode-se responder que ela supoe um único
organismo individual ou um ser humano dotado de todos os seus componen
tes, no inicio do processo de desenvolvimento. A partir deste individuo, que
nao perde a sua singularidade, tem origem um segundo, provavelmente me
diante certa forma de reproducáb assexuada; com efeito, tem-se observado
que a vida, nos prímeiros estágios de desenvolvimento, se produz algumas ve
zas por fissao assexual.
Quanto á recombinacáo, pode ser entendida como se um dos dois
origináis continuasse o seu desenvolvimento, ao passo que o outro deixaria
de existir. Assim se vé que desde o inicio do processo, tanto na geminacáb
quanto na recombinacab, há um principio vital específico e humano em ca
da embriao existente.
b) Leve-se em conta também a opiniao que faz coincidir o inicio da
vida humana com o comeco do funcionamento do cerebro ou com a emis-
sao de ondas cerebrais. Para fundamentar esta tese, lembram alguns estudio
sos que a morte é a cessacao da atividade do cerebro; as ondas elétricas deste
podem ser medidas pelo eletroencefalograma (EEG); um EEG que nao regis
tre sinal algum, mostra que o cerebro já nao está funcionando e a pessoa está
mona. Por analogía, o comeco das atividades cerebrais assinalaria o inicio da
vida humana.
A propósito, porém, note-se a* seguinte diferenca: o cerebro ¡nativo
nao tem capacidade de reviver por si. Mas o embriao em desenvolvimento
tem a capacidade de fazer funcionar o cerebro; ele traz a potencialidade de
desenvolver todas as atividades humanas: percepcfo, raciocinio, vontade...
Por conseguinte, os dois estágios, embora possam apresentar EEG liso, sao
esencialmente distintos um do outro: a morte significa o fim irreversivel de
todas as atividades humanas, ao passo que o estado embrionario implica a
potencialidade viva e dinámica de desenvolver tais atividades; essa potencia
lidade nao é um nada, é algo oposto a ausencia de potencialidades do cere
bro morto.
c) Outra opiniao sustenta que o inicio dos movimentos espontáneos
do feto no seio da mae marca o comeco da vida humana.
- Pergunta-se, porém: como provar que o feto nao é humano antes de
movimentar-se no seio materno? Em que sentido o movimento indica a
transformado de um feto nao humano em ser humano? Os movimentos sao
apenas os efeitos de urna causa que Ihes é anterior e que faz o feto ser huma
no antes de movimentar-se.
d) A viabilidade fora do seio materno seria, segundo outros, a linha di
visoria entre o ser na*o humano e o humano. Mas indaga-se:como a viabilidade
transforma a natureza do feto, de modo que o nao humano se tome entSb
humano? A viabilidade é um síntoma; é a manifestacab do grau de desenvol-

27
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 284/1986

vimento do feto, desenvolvimento que cometa muito anteriormente á viabi-


lidade. Ademáis o momento em que comeca a viabilidade, nao pode ser de
terminado com precisao.
e) Há ainda quem diga que o feto se torna humano, quando nasce e se
faz ¡ndependente de sua mae. - Todavia note-se que tal independencia é as-
saz relativa, de modo que nao se vé como transforma o feto nao humano em
humano.
Em conclusao: "percorrendo o caminho de volta desde o nascimento
de urna enanca, nao podemos encontrar ruptura no desenvolvimento de um
ser que acaba de nascer, ruptura essa que faria dele um ser individual dife
rente antes do nascimento. Há urna identídade pessoal nesse ser. é o mesmo
ser desde o óvulo fecundado até o nascimento e até a idade adulta. É dife
rente de qualquer outro. Parece que a vida humana é um continuo desenvol
vimento. .. desde a concepcao até a morte" (p. 43).
1.2. Aborto terapéutico

O aborto terapéutico (ou aborto como tratamento medicinal) parece


indicado quando a vida do feto se opde á saúde de urna mulher grávida. — To
davia Andrew Varga adverte que o aborto, hoje em dia, já nao pode ser tido
como recurso necessário para se recuperar a saúde de urna mulher. A Me
dicina moderna tem meios de resolver a maioria dos problemas de saúde fe-
minina relacionados com a gravidez, sem chegar ao aborto; a prática do
aborto, em tais casos, se deve ou á impericia do médico ou ao desejo de eli
minar "pela raiz" ou drásticamente o problema. Quanto ás doencas que nao
estao vinculadas a gravidez, nao sao curadas mediante aborto; caso a gravi
dez intensifique a molestia, existem tratamentos médicos que contornam o
problema até que o feto atinja a sua viabilidade. Por conseguinte, nao é con-
dizente com a ciencia contemporánea falar de "aborto terapéutico".

1.3. Estupro ou incesto

Estupro é violencia desumana e cruel causada a urna mulher. A gravi


dez daf resultante é fruto de grave injustica, de modo que, segundo alguns, a
mulher nao deveria ser obrigada a suportar tal gravidez.
Para esclarecer O problema, é preciso lembrar que o feto nao é um in
justo agressor. O agressor é o estuprador; o feto é vftima inocente como a
mae; por isto nao pode ser morto como se fosse o agressor. Se, além disto,
compararmos a vida do feto com o alivio da mulher esperado atravás do
aborto, verificamos que a vida humana deve ser colocada em nivel mais ele
vado na escala dos valores. Em conseqüéncia, vé-se que, nem em caso de es
tupro, o aborto é justificado.
A solucáb para tais problemas nao está em matar a enanca (o que sig
nificaría tentar resolver um mal acrescent ando-I he outro mal), mas em 1)

28
"PROBLEMAS DE BIOÉTICA"

ajudar as vítimas do estupro, dando-Inés apoio psicológico, social e religioso,


para que as m§es possam terseusfilhossem sofrerotraumade um abortamen-
to (que a sociedade, especialmente os pais, costumam impor por pressao mo
ral); 2) atacar o mal pela raíz, dando-se aos jovens urna educacáb sexual que
nao seja mera instrucao de biologia e anatomia, mas que inclua um escalona-
mento de valores; enfatizem-se "os valores da fam ília, o respe i to para com as
pessoas, o significado do amor verdadeiro (que nao é sinónimo de atracáo se
xual) e, especialmente, a responsabilidade das conseqüéncias de nossos
atos" (pp. 49s), evitando-se assim o mal das relacoes pré-matrimoniais.

2. Engenharia Genética

Por "Engenharia Genética" entendem-se as tentativas de preparar e


manipular o genotipo humano de modo a obter seres humanos por via arti
ficial. O campo das experiencias últimamente realizadas pelos cientistas é
cada vez mais ampio, passando da fecundacao artificial homologa (ou dentro
do casal) até a producáo de cloons ou de seres provenientes de um único ge
nitor.
Gesta vasta gama de experiencias destacaremos aqui algumas, ás quais
A. Varga consagra especial atencáo.

2.1. Inseminacao artificial homologa

A inseminacáo artificial homologa {ou dentro do mesmo casal) é algo


que a Moral católica vem estudando atentamente.
Existe um pronunciamento do S. Padre Pió XII que.em 29/09/1949,
fazendo eco a urna Declaracáo do S. Oficio de 24/03/1897, rejeitavaa
fecundacao artificial mesmo homologa. A razSo disto está em que no caso
"os aspectos procriativos do ato gerador natural estao separados" (p. 61).
Com outras palavras a ejaculacao masculina se faz num tempo, fora do seu
ámbito natural; a introducSo da sementé se faz em outro tempo, por via me
cánica. Esta quebra do processo natural seria ilícita. - Todavía após Pío XII
há moralistas que consideram outros aspectos da questao: "nao julgam imo
ral que a mulher se submeta á inseminacao artificial com o semen do mari
do, se, por raz8es médicas, se torna necessário ajudar o casal a ter, genética
mente, seu próprio filho. Argumentan) que a unidade e a finalidade do casa
mento sao preservadas, e a ciencia apenas ajuda o casal... a atingir o fim na
tural do matrimonio" (p. 61). Tais argumentos sao ponderarais, mas nio

Sabemos que o conceito de Engenharia Genética é mais restrito, segundo


outros autores. Nestas páginas estamos expondo o pensamento de An-
drewC Varga.

29
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 284/1986

prevalecern sobre a sentenca de recusa anteriormente exposta; o fiel católico


nunca deve agir com risco de estar cometendo falta moral; esta é algo de
tao grave que até mesmo o risco de a incorrar provoca a repulsa do cristao.

2.2. Inseminacao artificial heteróloga


é a qus se faz mediante a ¡ntervencáb de terceiro dentro de diversas
modalidades: a fecundacáo pode ser realizada em proveta...; urna vez fecun
dado, o ovo pode ser implantado no útero da mae verdadeira ou no de urna
mSe de aluguel.
1. A propósito da fecundacao em proveta, o autor lembra que, para
servir a este fim, existem até mesmo Bancos de espermatozoides e Bancos
de óvulos congelados. A sementé humana é comercializada nos Estados Uni
dos e alhures, em proporcoes cada vez mais avultadas; os doadores (anóni
mos) sao classificados segundo seus predicados físicos e intelectuais (louros
ou morenos, artistas ou dentistas, militares ou bonachóes...}.
A. Vargas, com razáo, mostra a ¡moralidade de tais práticas;e isto a di
versos títulos:
a) a sementé humana é equiparada á do gado, que o homem tem ma
nipulado para obter animáis de maior rentabilidade comercial;em tal caso, a
dignidade humana ou o ser específico do homem é simplesmente conculca
do e apagado (p. 61);
b) a inseminacao artificial mediante intervengo de anónimo pode
provocar casamentos entre "meio-irmabs e meio-irmSs" (p. 62);
c) "Um inquérito descobriu que poucos médicos realizam exames pa
ra detectar doencas hereditarias no doador... Urna vez que o doador é pago
com cerca de 25 a 35 dólares por espécimen, esta remuneracSo pode levá-lo
a ser menos honesto em suas respostas" (pp. 62s);
d) "A humanidade tem lutado, ao longo da historia, para eliminar ou,
pelo menos, diminuir a discriminacáo e o racismo. Novos elementos de cisáo
nao devem ser introduzidos em nossa sociedade. A eugenia positiva ou a ten
tativa artificial de produzir urna rapa superior á imoral" (p. 63);
e) Quanto a fecundacaó em proveta, a técnica, além de outros incon
venientes, se ressente de estar ainda em fase experimental. "O Dr. Steptoe
admitiu que o nascimento de Louise Brown aconteceu somente após 'apro
ximadamente cem tentativas mal sucedidas'(The New York Times, decem-
ber 1, 1978). Podaría o método ser aperfeicoado com a experimentacSo em
animáis...? é diffcil responder a esta pergunta, mas o caso é que a transfe
rencia de embrides envolve a destruicao de um sem-número deles. Por isto, a
prática, assim como está agora, deve ser julgada imoral" (p.71).

Em outra passagem, Andrew Varga ainda é mais explícito:

"A fertilizado 'In vitro'. . . envolve necesariamente a destruícao de

30
"PROBLEMAS DE BIOÉTICA" 31

um certo número de vidas humanas incipientes... Quando se tem dúvida so


bre a presenca da vida humana, deve-se seguir o caminho mais seguro e tratar
um óvulo fecundado com o mesmo respeito que é devido á vida humana.
Deve-se, pois, concluir que nSo ó ético trazer embrides humanos para a exis
tencia e destruNos, invocando mera experimentado. O feto estaré sendo
utilizado antes como objeto experimental do que como um ser humano"
(p. 70).

Com todos estes dizeres, o autor interpreta fielmente o pensamento


católico a respeito de tais práticas.

2.3. Clonagem

A palavra grega klon significa ramo. Sabe-se que, em mu ¡tos casos, o


ramo de urna planta fincado na térra é capaz de crescer e desenvolver-se em
planta da masma composicáo genética. Dá-se eruto urna reproducáo assexua-
da;o novo individuo ó chamado, por extensSo, done.
Na base desta verif¡cacao, os dentistas vém tentando reproducáo asse-
xuada também com animáis - o que se chama clonagem. O principio evoca
do por tais pesquisadores ó o seguinte: plantas e animáis superiores tem duas
especies de células: as genéticas e as somáticas. Quando as células germináis
ou genéticas se unem entre si (espermatozoide e óvulo, por exemplo), dá-se
a reproducáo sexual. O filho é genéticamente diferente de ambos os genito
res, pois a uniao das células germináis produz a mésela dos trapos caracterís
ticos do genitor e da genitora. Verifica-se, porém, que cada célula somática
(nSo genética) de um organismo vivo contém em seu núcleo o código de to
do o organismo. Em conseqüéncia, os dentistas conceberam o plano de to
mar uma célula germinal, extrair-lhe o núcleo e substitui-lo pelo núcleo de
urna célula somática, para ver se o óvulo se desenvolvería numa prole nor
mal, que seria copia exata ou clone do individuo do qual tivesse sido extraí
do o núcleo.

David Rorvik, em seu livro "In His Image: Trie Cloning of Man" (Na
sua imagem: a reproducáb exata do homem), narra que foi solicitado por um
millonario solteirab para produzir o seu clone. Rorvik terá aceito a incum
bencia, mas haverá guardado sagrado a respeito da idsntidade da pessoa e
do próprio processo de clonagem. Laboratorios foram montados num país
do Sudeste da Asia e, após numerosos insucessos, a clonagem terá sido obtí-
da. "O embriao clonado, haverá sido gestado por uma mulher nativa, que deu
á luz um menino sadio, copia carbono do milionário. Diz-se que o menino
estava passando bem e crescendo normalmente" (p. 76).

Os dentistas receberam tal noticia com grande ceticismo, chegando al-


guns a té-la na conta de "estaría falsa". Uma vez que Rorvik quis guardar se-
gredo a respeito das pessoas envolvidas no caso, este nao pode ser controla-

31
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 284/1986

do científicamente; por conseguirte, nada significa para o progresso da cien


cia.
Que dizer da moralidade da clonagem?
— Note-se que segundo parece, tal fenómeno ainda nao ocorreu na
realidade, mas é apenas projeto de ficcáb. Os que o preconizam, apontam
vantagens do mesmo, como serlam a producüo de homens "de encomenda",
destinados a servir a metas políticas ou interesses de grupos. Refletindo so
bre o assunto, Andrew Varga faz urna avaüaclo de tais teorias:
"Todos os argumentos em favor de clonagem implicam, de alguma ma-
neira, que o homem seja usado apenas como meio para objetivos sociais ou
para satisfazer aos desejos individuáis ou paternos. Os dones seriam meros
produtos de laboratorio ñas maos de homens egoístas ou ditadores ambicio-
sos. Os clones seriam um novo tipo de escravos, produzidos para a realizacSo
de certas tarefas específicas. Mesmo que tais tarefas fossem altamente inte-
lectuais ou artísticas, élas passariam a ser produtos característicos de seres
humanos destinados a trabalhos toreados. Alóm do fato de nao tersido pro
vado que talentos e habilidades sejam hereditarios, os clones deveriam agir
como o doador do núcleo o faria" (p. 79).
3. Transplantes de órgaos

Os transplantes de órgaos ou partes do organismo (rim, coracáo, cór


nea, pelo, sangue...) sao lícitos desde que observadas certas condicoes:

3.1. Doador-cadáver

É moralmente louvável o ato de doar um órgao ou o corpo, após a


morte, para ajudar os vivos.

Requer-se, porém, que a extracüo do órgao a ser transplantado nlo se


fapa antes da morte do doador.

Pergunta-se, porém: quando morre urna pessoa? — Muitos cientistas


aceitam simplesmente o EEG horizontal como criterio da morte. A aceita-
cao deste criterio facilita grandemente o processo de transplante. Todavia há
médicos que julgam nao poder dispensar tres outros criterios: irreceptibilida-
de e irresponsabilidade; ausencia de movimentos e de respiracáo; falta de re-
flexos. Acrescenta A. Varga:

"Estamos tratando aquí dos direitos básicos de urna pessoa á sua vida.
Parece-nos que, sempre que há urna dúvida razoivel sobre se ainda existe ou
nao vida, deve-se seguir o método mais seguro, isto é, deve-se decidir em fa
vor da vida. Os aspectos pragmáticos do transplante sSo de importancia se
cundaria. Devem-se respeitar os direitos primarios do paciente" (p. 146).

32
"PROBLEMAS DE BIOÉTICA" . 33

3.2. Doador vivo

Do ponto de vista ético, o recurso a doadores vivos está limitado aos


casos de órgaos pares ou de partes que se regeneram: os rins, o sangue, a me
dula óssea e a pele. A ninguém é I ícito doar em vida o f ígado ou os pulmoes,
visto que isto seria um atentado contra a sobrevivencia do doador |cf. p.
147).
As doacóes voluntarias de órgaos devem estar restritas aos adultos, que
podem avaliar todos os problemas médicos e éticos envolvidos em cada caso
e tomar decisóes livres e conscientes. Para evitar pressoes do doente ou dos
seus parentes sobre um possível doador, desenvolveu-se a prática, entre os
médicos, de entrevistar em particular os candidatos a doador; caso se des
cubra alguma relutáncia da parte do candidato a aceitar a funcao de doador,
é julgado "¡ncompatível" para fins de transplante (cf. p. 149).
Os órgibs a ser transplantados nSo devem ser vendidos nem compra
dos. "Há pouco tempo, um homem de Detroit que estava na lista de espera
de transplante de rim, colocou um anuncio no jornal, oférecendo tres mil
dólares pelo órgáb. Recebeu mais de cem chamadas telefónicas de pessoas
que Ihe queriam vender um rim. O hospital, no entanto, recusou, com ra
zio, o transplante do rim que fora comprado. A solicitacSb da venda de ór
gaos do corpo deve ser evitada, porque pode levar a muitos abusos e, mes-
mo, ao mercado negro, comercializando órgaos" (p. 150).

4. Avelhice

A Medicina moderna tem conseguido debelar muitos males que acarre-


tavam morte prematura para o ser humano. Donde se segué que o número
de andaos numa sociedade bem evoluída é crescente, chegando a constituir
"o poder grisalho" (poder, porque sao consumidores de artigos especiáis e
eleitores). Ñas grandes aglomerares urbanas, os jovéns cidadábs já nao po
dem cuidar dos velhos, que, por isto, s§o mais e mais freqüentemente reco-
Ihidos em asilos e casas de geriatria; nestas os anciSos devem recebar asststén-
cia especial, que Ihes amenize os incómodos da idade. Tais instituicoes s3o
necessárias, mas infelizmente correm o risco de se tornar industria ou empre
sa financeira.
Os dentistas tém procurado as causas do envelhecimentó a fim de ven-
cé-las e assim prolongar a vida humana.
Alguns problemas particulares se colocam a este propósito.

4.1. A Medicina Criónica

Robert C.W. Ettinger, em seu livro "The Prospect of Immortality" (A


prospectiva da imortalidade), aventou a seguinte tese: se o espermatozoide
pode ser congelado e descongelado sem perder a sua fertilldade, por que nao

33
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 284/1986

pedería todo o organismo humano ser congelado quando estivesse afetado


de urna doenpa ssm cura e devolvido á plena animacáo mais tarde, quando a
Medicina tivesse descoberto os remedios adequados? Ettinger acreditava que
isto pudesse ser feito. Seu livro deu origem á Medicina criónica (krios, em
grego, frío), que coloca os corpos em nitrogénio líquido mantido á tempera
tura de-196°C.
Esta proposta nao é em si absurda. Nao se trata de ressuscitar mortos,
mas de parausar pelo frío um processo vital gravemente afetado, a fim de
que nao se deteriore ulteriormente, no intuito de o fazer voltar á plena ativi-
dade quando se Ihe puder ministrar a medicacáo adequada. Caso isto venha a
realizar-se (por enquanto, nenhum caso de congelamento de corpos foi leva
do a termo), dir-se-á que a alma humana espiritual permaneceu no corpo
congelado, tendo suas atividades muito diminuidas, para voltar a exercer
suas plenas funcóes em caso de descongelamento.

A Medicina Criónica (que ainda é urna utopia) nSo poderá exercer sua
acSó sem o consentimento do enfermo ou, se impossfvel, o da respectiva fa
milia, pois ela corre o risco de induzir o paciente a viver num mundo a ele
desconhecido, anos e anos após a paralisacáb de suas atividades conscientes.
Ora nao se pode obrigar alguém a assumir a vida em tais condícSes; requer-se
o respeito á pessoa humana, que deve ser deixada livre para dispor de si.
4.2. A assisténcia aos moribundos
"O homem é o único ser vivo que tem conscíéncia de estar caminhan-
do para a morte" (p. 175). Nada há de mais certo do que a morte na existen
cia de alguém. Todavía a morte é assunto em que as pessoas nao gostam de
pensar e de que nSo querem falar. Procura-se mesmo evitar que os pacientes
gravemente enfermos possam suspeitar de que o seu fim está próximo; "ali-
menta-se o paciente com a falsa esperanca de que tudo dará certo" (p. 175).
Mais: a medicina moderna, com suas técnicas esmeradas, exige ¡solamente
dos enfermos em centros de terapia intensiva, onde o paciente permanece
longe dos familiares, reduzido nao raro á qualidade de número no quadro do
respectivo ambiente.
Ora paradoxalmente estes procedí mentos nem sempre beneficiam o
enfermo, mas contribuem para aumentar o seu sofrímente moral: o clima ar
tificial de inverdade em que ele é colocado, a solidao física e moral que ele
experimenta. .., nao podem deixar de ser penosos. NSo raro acontece que
todas as pessoas da cercanía do doente sabem do seu grave estado ou da imi-
nlncia da morte, ao passo que o próprio paciente, o mais interessado de to
dos no caso, é mantido na ignorancia — o que é realmente chocante.
A. Varga propoe a revisao de tal praxe. No tocante á ¡nformacao do
paciente sobre o perigo que o ame acá, observa:
"Há obrigacao moral em dizer aos pacientes a verdade ou deve a ver-
dado ser ocultada? Segundo sólidos principios éticos, todos tém direito á ver-

34
"PROBLEMAS DE BIOÉTICA" 35

dada a nio ser que haj'am abdicado desse direito ou dSem a entender que
nao querem saber a verdade ou que nao desajam ser informados. Um pacien
te pode indicar, de aiguma forma, que nao deseja ouvira verdade acerca de
sua doenca. Neste caso, o médico nSo tem obrigacao moral de informá-lo.
Fora deste caso, ele deve a verdade a seu paciente" (p. 191¡.
"Parece-me que o médico nio devena supor, fácilmente, que urna in-
formacao verdadeira seria prejudicial ao paciente. A nao comunicacao pode-
ría ser, no momento, mais prejudicial do que a verdade...
Segundo varios levantamentos, a grande maioria dos pacientes desejam
ser informados sobre s natureza de sua doenca, mesmo que esta seja fatal.
Nos temos a obrigacao para com o nosso próximo de ser sempre sinceros,
mas, principalmente, quando ele estése aproximando do final de sua vida.
Nos próprios nSo desejamos outra coisa que a sinceridade compassiva, nos
últimos momentos de nossa vida" fp. 192).
É de crer que A. Varga tenha plena razáo. A vida é um livro de que to
do homem va¡ diariamente escrevendo urna pagina; é para desejar que ele
saiba ser o momento de terminar tal livro, a fim de Ihe apor um fecho digno:
possa reler as páginas anteriores, corrigir-lhes os erros, pedir perdao por fal
tas cometidas, rematar a sua obra, a fim de entregar completo e revisado o
testemunho de sua vida para uso dos pósteros.

No que concerne á eutanasia, o autor distingue entre eutanasia ativa


(que consiste em aplicar recursos para matar o paciente) e eutanasia passiva
(que vem a ser a renuncia aos meios que entretém a vida). Enquanto a pri-
meira é condenada pela consciéncia moral crista, a segunda é subdividida em
duas modalidades: a renuncia a meios ordinarios e a renuncia a meios extra
ordinarios ou desproporcionáis aos resultados que se possam atingir. A nao
aplicacáb dos meios rotineiros ou ordinarios de manutencáo é ilícita, pois
significa morticinio indireto; ao contrario, a renuncia a recursos extraordina
rios ou desproporcionáis aos efeitos atingfveis nao é condenável.

A posicao de A. Varga corresponde ao pensamento da tgreja aínda re-


cernemente formulado por urna Declaracao da S. Conyregacao para a Dou-
trinada Fé, daqual se acha breve explanacSo em PR 252/1980, pp. 516-525.

Varias outras considerares de valor sao oferecidas ao estudioso pela


obra de Andrew Varga. Apenas alguns aspécimens sSo aquí apresentados
com urna recomendacao do livro ao público interessado.

Nio nos podemos fuñar a indicar erros gráficos de ceno peso: á p.


148, seria preciso tirar o nao da linha 11 de cima para baixo; e é p. 149
leíase sanidade ou saüde em lugar de santidade.

35
Pronunciamento importante:

Democracia e Escola Particular

De 14 a 18 de julho de 1985, reuniu-se em Florianópolis (SC) o XX


CONEPE (Congresso Nacional dos Estabelecimentos Particulares de Ensino).
Participaran) do mesmo cerca de mil educadores provenientes de todos os
Estados; representavam aproximadamente trinta mil escolas de livre inicia
tiva de todo o Brasil. Conferencistas e participantes, falando, ouvindo e dis-
cutindo em grupos e em plenáríos, refletiram sobre o tema "Democracia e
Liberdade de Ensino". O Ministro da Educacao, Senador Marco Maciel,
prestigiou o Congresso com sua presenca á sessab inaugural e pronunciou a
conferencia de abertura.

As conclusoes do XX CONEPE se consubstanciaram em documento


que pode ser considerado como um novo marco na historia educacional bra-
sileira: a DECLARACÁO DE FLORIANÓPOLIS, sfntese de principios de
mocráticos, respaldados em sadia visáb do homem, da sociedade e do mun
do, em consonancia com os valores do humanismo cristao. Eis o importante
texto:

DECLARAQAO DE FLORIANÓPOLIS

"Os educadores presentes ao XX CONEPE - CONGRESSO NACIO


NAL DOS ESTABELECIMENTOS PARTICULARES DE ENSINO, repre
sentando trinta mil escolas de livre iniciativa de todo o territorio brasileiro,
reafirmam, neste importante momento da vida institucional do país, os prin
cipios que norteiam a sua acáb, como responsáveis pela formacao de milhSes
de educandos - crian?as, jovens e adultos - entregues á sua orientapao:

I — Educacao é Direito de Todos

A criatura humana vem ao mundo para ser livre, e a educacao é ele


mento fundamental para o exercfcio da liberdade. A ausencia de educacao
produz mutilacSo espiritual, incapacita o ser humano para fruir os bens do
saber, da cultura e da arte, marginalizando-o social e politicamente, atrofian-
do-o para o exercício das facilidades de julgar, escolher e fazer opcoes.

36
DEMOCRACIA E ESCOLA PARTICULAR 37

II - A Familia é a Primeira Sede Natural do Direito e do Dever


de Educar

Na familia, a enanca nasce para aprender a andar, falar, ouvir, comuni


carse, pensar e crescer. Esse apoio biológico e espiritual prossegue na dire-
cao da plenitude. Cabe ao Estado assegurar é familia todas as condíedes pa
ra que o processo educativo percorra as suas diversas fases até a maturídade
e a ¡nsercao de cada pessoa no grupo social ao qual se incorporará.

III - Ao Estado Cabe o Dever de Assegurar a Educacao

Nao importando o segmento social em que a familia se ache, ao Esta


do cabe ensejar todos os meios para que a educacao se realizó. A responsabi-
lidade atribuida ao Estado nao significa, contudo, o direito á usurpacao do
processo educacional e o conseqüente monopolio do mesmo, transformando-o
em instrumento de imposicSo de urna forma única e estatizante de ensino.
Á familia, a esta sim, é que cabe a responsabilidade, reconhecida na DECLA-
RAQÁO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO HOMEM, de dar aos filhos o g§-
nero de educacáb que escolher. Proporcionar os meios, é que é dever do Es
tado.

IV - Escola do Estado, se Única ou Exclusiva, Conduz á


Discriminacáo

O monocórdio slogan segundo o qual "dinheiro público é para a escola


pública" reflete postura totalitaria, ¡ncompativel com os ideáis da DEMO
CRACIA. Dinheiro público nao pertence ao Estado e sim ao POVO, porque
provém da total idade dos contribuirnos. Conseqüentemente, constituí ato
discriminatorio reservá-lo exclusivamente ao fínanciamento da escola que o
próprio Estado defina como a mais conveniente aos seus propósitos políti
cos e ideológicos.

V - A Escola é Servico á Disposicao da Familia

Ao educar, a escola o faz por delegacao da familia. Ao delegar, a fami


lia deve ter o direito de escolher a agencia a qual delega. Como qualquer ou-
tra célula da sociadade civil, a familia tem o direito de recebar do servico pú
blico os meios que assegurem a sua liberdade de opcao, seja pela escola do
Estado, seja pela da livre iniciativa.

37
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 284/1986

VI — O Estado é Parte do Corpo Político, seu Servidor 8 nao


Senhor

O papal do Estado é instrumental. Por seu intermedio, o corpo políti


co-social se organiza. O bem comum, que deve ser o objetivo do Estado, se
materializa no atendimento de todas as necessidades de cada cidadSb, entre
as quais a educacáb é basilar. Como servidor, e nlo senhor, nao é o Estado
que deve escolher o tipo de educacáb mais conveniente a cada pessoa. Este
direito é da familia ou do próprio cidadáb.

Vil — A Escola é para o Homem e nao para a Sociedade

Quando a escola se transforma em instrumento de realizacao da von-


tade do Estado, a formacao do individuo livre se vé ameacada pela manipu-
lacab que leva aos regimes totalitarios de direita ou de esquerda. O produto
da Escola Única do Estado tende a ser o agente da vontade exclusiva do Es
tado.

VIII - Liberdade Democrática Implica Autonomía Escolar

Democracia ó ¡ncompatfvel com tutela. Nao basta que se "permita" a


existencia da Escola Particular. É indispensável que ela exista livre. Obvia
mente, escola livre nao significa escola sem lei. Ao contrario, corresponde á
escola regida por lei que Ihe assegure livre definicao de flnalidade e de filoso
fía de educacáb.

IX — Liberdade de Ensino é Liberdade para Ser Diferente

A sociedade se constituí de criaturas diferentes. É ato de violencia sub-


meté-las, todas, á mesma doutrina educacional. Oportunidades diferentes pa
ra diferentes criaturas humanas só se materializam quando há plena LIBER
DADE DE ENSINO e quando ESTADO e INICIATIVA PRIVADA se unem
para o estabelecimento de um SISTEMA NACIONAL DE EDUCACÁO que
equilibre os objetivos da sociedade, como um todo, e os de cada individuo
como integrante do grupo social.

X - Ná"o Há Democracia sem Liberdade de Ensino

A imagem elitista, perversa e intencionalmente atribuida á Escola Par


ticular, é responsabilidade do Estado, quando este nao se organiza para en-

38
DEMOCRACIA E ESCOLA PARTICULAR 39

sejar o acesso a esse tipo de ¡nstituicáb nao apenas aos integrantes dos estra
tos sociais mais abastados, mas, indiscriminadamente, a cada cidadao, inde-
pendentemente de sua condicao social.

Nesta oportunidade, A ESCOLA PARTICULAR BRASILEIRA reafir


ma a sua posicao de decidido apoio á verdadeira construcao de uma NOVA
REPÚBLICA, mais JUSTA, mais FRATERNA e mais HUMANA; de umaso-
ciedade em que os "interesses colativos" nao venham a se transformar em
pretexto para o estabelecimento de qualquer tipo de ditadura ideológica; em
que a vontade, o ideal e o sonho de cada criatura humana nao sejam sufoca
dos pela pretensa infalibilidade do ESTADO TODO-PODEROSO.

Ao reafirmar estes principios, a ESCOLA PARTICULAR declara nao


abdicar dos seus direitos e das suas prerrogativas, expressos e garantidos na
tradicáb constitucional brasileira e nos DIREITOS UNIVERSAIS DO HO-
MEM, que devem reger as acoes de uma sociedade LIVRE E DEMOCRÁ
TICA.

Se INICIATIVA PRIVADA E PODER PÚBLICO se encontrarem nu-


ma forma inteligente e construtiva de trabalho harmonioso, "JUNTOS HA-
VE REMOS DE FAZER DESTE PAlS UMA GRANDE NACÁO (Tiraden-
tes)".

Florianópolis, 18 de julhode 1985".

* * *

(continuado da p. 24)
cional. Mas nao se podem excluir outras intencSes secundarias e concomi
tantes, como a de realcar as virtudes da piedade e da fidelidade que exornam
uma familia, segundo o modelo dos relatos patriarcais contidos no Génesis;
nem se deve excluir uma indireta tomada de posicao contra o rigorismo pós-
exílico a propósito de matrimonios mistos e contra a xenofobia de certos
espíritos nutridos em nacionalismo racial. Hoje, no en tanto, se reconhece a
ausencia de intencSes polémicas diretas" (T. Bailarín, Introducao á Biblia
II/2, p. 94. Ed. Vozes, Petrópotis 1976).
É muito notável, no livro de Rute, a intencSo de apresentar a genealo
gía do reí Davi, descendente da moabita e antepassado do Moisés. Este con-
seqüentemente é filho de judeus e de nao judeus, como salienta o Evangelis
ta (Mt 1,5); a universalidade da obra do Messias, é assim salientada.

(continua na p. 46)

39
Mais um documento de peso:

0 Aborto Sempre em Foco

O Conselho Regional de Medicina do Estado de S§b Paulo (CREMESP)


emitiu parecer favorável á legalizado do aborto no Brasil em data de 05/03/
19B5.
Diante do fato, o Dr. Helio Begliomini, médico inscrito no CREMESP
e pós-graduado pela Escola Paulista de Medicina, houve por bem opor-se a
tal atitude em carta, da qual o ilustre dentista teve a gentileza de enviar urna
copia a PR. É com sincera gratidáb ao Dr. Helio Begliomini que publicamos
as suas consideracóes, que, sem dúvida, contribuem para I anear luz sobre a
discutida questSo do aborto.

"Sao Paulo, 05 de julho de 1985

limo. Sr.
DR. FERNANDO LEITE DE CARVALHO E SILVA
Presidente do CREMESP
Rúa Domingos de Moráis, 1810 - Vila Clementino
04010 - SAO PAULO - SP

Prezado Dr.

Como médico membro deste Conselho Regional de Medicina e desejo-


so de manifestar minhas contribuicoes a esta nobre entidade, expresso,
a seguir, minhas ponderacóes contrarias com relacáo á "POSICÁO DO
CREMESP FRENTE A QUESTÁO DO ABORTO NO BRASIL"
divulgadas no dia 05 de marco do corrente ano.

I - Em relapSo ao artigo n? 2, assinalo:

O CREMESP propoe a clara legalizado do aborto:

... "urna vez que pessoas com maiores recursos financeiros


encontram possibilidades de sua realizacao em boas condicóes,
com perfeito atendimento médico" em detrimento das pessoas'
mais pobres que procurariam "pessoas nao habilitadas e em
condicóes precaríssimas porque clandestinas, colocando em ris
co a saúde e a vida das mulheres".

40
ABORTO EM FOCO 41

... porque "é feito ás centenas de milhares por ano".

... porque "ao CREMESP parece que a le¡ atual é ultrapassada, na


medida em que existe urna contradicho entre os prescritos mo
ráis nos quais ela se baseia, e a realidade da práticado aborto".

. . . porque "a penalizacao do aborto conforme prevista pela lei,


reflete um estado de hipocrisia social, levando a urna situacfo
perversa".

. . . porque "as restricoes legáis atuais geram urna coercao significa


tiva fazendo com que milhares de mulheres ou levem adiante
gravidezes indesejadas ou recorram ao aborto clandestino".

As justificativas ácima sao providas de inerentes e insustentáveis inco-


eréncias e tendencioso sensacionalismo emocional, em detrimento de
urna análise racional e equilibrada.

Vejamos:

1. NSo é coerente nem ético legalizar condicóes erradas so porque


sejam mal tratadas por "pessoas nao habilitadas" e em "condicóes
precarfssimas".

2. N36 é coerente nem ¿tico legalizar condicóes erradas e aviltantes á


dignidade humana so porque abundam em nosso meio.

Nestes casos o CREMESP deveria tambám se preocupar com a legaliza-


c3o de outras condicóes mórbidas tais como: desnutricáo, alto índice
de mortalidade infantil, doanpa de Chagas, malaria, Leishimaniose,
etc. Outras situacoes nao médicas tambám devariam ser legalizadas,
tais como: subemprego, desemprego, analfabetismo, falta de moradia
etc., urna vez que grassam no nosso meio. Esta incoeréncia, sim, é que
é "hipocrisia social".

3. O CREMESP nao é o órgao mais apropriado para aumentar o mer


cado de trabalho da classe médica, principalmente no que tange a
circunstancias espurias.

4. Nao é concebfvel corrigir um possível erro (gravidez indesejada)


com um erro cerro e calamitoso (o aborto provocado), mormente
quando referendado pela mais nobre entidade da classe medicado
Estado de Sa"o Paulo: o CREMESP.

41
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 284/1986

11 - Em relacáb ao artigo n? 3, assinalo:

O CRM refere como sendo "imperativo que o aborto passe a ser le


gal. .. também naqueles casos em que o produto da concepcao for
de doencas potencialmente deletérias para o seu desenvolví mentó
ou acometido de afeccóes genéticas graves".

Esta declaracáo encerra dizeres imprudentes e ¡nconseqüentes, que


merecem ser comentados.

1. Que poderes tem o CREMESP de conclamar que deve ser "im


perativo que o aborto passe a ser legal"?

Em outras palavras, quem deu o poder ao CREMESP, ao médi


co, ao pai, & mué, ao advogado, ao juiz.ao presidente etc., de de
cidir sobre a morte de alguém? Tal pretenso poder jamáis ema
naría do povo e sim de mentes mal orientadas, sem o devido
bom senso antropológico. Ao contrario, é mister do CREMESP
defender a vida em todas as suas nuances, e específicamente du
rante a gestacio. Talvez seja interessante recordar as sabias, hu
manas, naturais e milenares palavras do pai da medicina: "Nao
usare! da prática do aborto".

2. Ojiando se pretende legalizar o aborto "naqueles casos em que o


produto da concepcáb for portador de doencas potencialmente
deletérias", está-se cometendo um erro bárbaro, urna vez que,
ser potencial, é ser provável. . ., favorável. . ., susceptível. . .,
mas jamáis, ser "matemáticamente" certo de acontecer. Ora, so
por esta palavra dúbia poder-se-iam justificar centenas de atos
criminosos com respaldo legal.

3. Quando se justifica como "imperativo" a legalizacüo do aborto


no concepto "acometido de afeccSes genéticas graves", está-se
ressuscitando um claro pensamento neonazista, onde imperam
atitudes inescrupulosas, parciais, arbitrarias de urna casta de pes-
soas que julga ser a defensora e portadora da verdadeira rapa.

NSo é fácil comprovar que o feto tenha afeccóes genéticas gra


ves. Ademáis, este é um conceito unilateral, pois se trata somen-
te de cond¡?oes morfológicas e portanto "palpáveis". E aqueles
conceptos que poderiam ter transtornos de ordem mental, psí
quica? Outrossim, é unilateral e neonazista, pois querer aniqui
lar um individuo intra-útero por ter afeccóes genéticas édeixar
o flanco aberto para exterminar outras "afeccóes graves" e

42
ABORTO EM FOCO 43

indesejáveis, tais como paraplégicos, tetraplégicos, pacientes


portadores de baixo quociente de inteligencia, psicópatas, doen-
cas senis ou qualquer condicao muito grave e irreversfvel.

III - Em relacao ao item 4, o CREMESP reconhece que a "maioria


dos abortos praticados no Brasil nao é de natureza médica, mas
psico-social"; assim propoe "ampio debate no seio da sociedade
civil sobre o assunto", servindo suas "conclusoes como subsidios
para reformulacao da leí".

Novamente, nao é próprio do CREMESP propor para a popula-


cao ampios debates sobre normas fundamentáis que norteiam a
conduta médica. O CRM nao é o porta-voz, o representante do
povo, nem entidade sindical.

A sociedade tem plenos direitos de discutir, argumentar, ouvir


quaisquer assuntos ¡ndependentemente da anuencia do CRE
MESP. Este, por outro lado, nao é obrigado nem deve acatar
"anseios populares", de comissSes parlamentares, etc., sobretudo
quando tencionam denegrir a imagem e a conduta do médico em
salvar vidas, além de minar o "status quo" da entidade. Ao con
trario, o CREMESP deve preservar, por si próprio, a integridade
da conduta médica e as mais ampias e dignas necesidades de
saúde do ser humano, em direto beneficio da sociedade civil.

IV - No item 5 o CREMESP afirma que "está cíente de que a aceita-


cao ou nao da prática do aborto, sendo um problema de ordem
moral, é questSo do foro íntimo, nao se podando obrigar pacien
tes e médicos a proceder contrariamente aos ditames de suas
consciéncias".

Esta frase denota dois aspectos importantes:

1. Trata-se de urna redundante e leviana afirmacao, pois ninguém ó


obrigado a fazer o que nao quer, nSo somante nesta questSo do
aborto, mas nos mais elementares procedimentos de qualquer ra
mo de atividade social.
2. Aprésente urna atítude clássica e ao mesmo tempo fraca, dúbia e
covarde de "lavar as maos". Com tal parágrafo procura-se deixar a
responsabilidade para o paciente e o profissional que fará a tarefa.
Em outras palavras, quem nao quiser proceder ao aborto por ter
urna formacáb moral mais equilibrada e justa (pois encara todos
os ángulos do problema), estará sendo igualado a um outro ines
crupuloso, visando apenas o "sofrimento psico-social materno" e

43
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 284/1986

se esquecendo do sofrimentó biopsico-social do outro ser - o


feto. . . Quando nao visa a sua promissora "industria de anji-
nhos".
Sem dúvida nenhuma, o problema do aborto é de ordem moral,
mas muito mais de ordem natural, urna vez que póe em xeque
o mais forte instinto do ser animal evo luido, que é o da sobrevi
vencia. Ao querer deixar a questao para o foro íntimo, o CRE
MESP deixaria também de ser coerente e deveri a proceder da
mesma forma com relacSo a outros problemas dif icéis, tais co
mo: uso e venda de psicotrópicos e tóxicos para quem quiser,
campanhas colativas de esterilizacáb medicamentosa ou cirúrgica
de massa, uso da eutanasia etc., etc.

V — Um dos principios em terapéutica á tratar a (s) causa (s) e evitar


tratar as conseqüéncias. O aborto é conseqüéncia de causas polifa-
toriais. Nao as diagnosticar e nao as tratar 6 ser um guia cegó. En
tre elas cito: liberalizacao do comportamento sexual, perda da no-
cSo de respeito para com o ser humano, industria do consumismo
sexual (TV, teatro, revista, filmes, motéis, etc); aviltante campa-
nha em prol da destruicao da familia e dos valores mais nobres da
pessoa; sociedade de consumo, perda do sentido de responsabili-
dade; progressao libertina e inconseqüente do movimento feminis
ta; falta de adequada educacao sexual para filhos e país; elevado
número de casáis separados ou de relacionamento egoísta e frágil;
falta de urna adequada pol ítica de contenpSo do abuso do tóxico e
da violencia urbana; falta de bagagem moral ñas pessoas investidas
de poder; analfabetismo; desemprego; falta de moradia; de ali-
mentacáo, etc., etc.

Como se pode ver, há sempre urna ou mais causas em associacáb


para que o aborto seja realizado. Nesta altura, seria oportuno que
o CREMESP perguntasse: O que tem esta entidade a ver com estas
situacóes bio, psico, política, económica, moral e social? Real
mente, pensó que nao é mister do CREMESP tratar de assuntos
variados e de múltiplas aleadas. Contudo, nao é dever também do
CREMESP incentivar e sancionar atos contrarios á vida humana
em todo o seu escopo, mormente quando se trata de sua extin-
cáo. O CREMESP nao deve ser permissivo e nem passivo ao que
rer tratar as conseqüéncias e nao as causas do problema. Este fato
assume proporcóes gigantescas ao se pensar que o problema será
equacionado e resolvido com a legaliza?» da pena de morte de
inocentes ¡ndefesos, realizados por um carrasco que se formou em
medicina, com a anuencia do mais respeitado órgfo da classe.

44
ABORTO EM FOCO 45

VI - A tónica do posicionamento do CREMESPem questlo 1o¡ enfo


car os aspectos relacionados á "saúde pública", aos graves danos
possfveis de ocorrerem com a máe e os aspectos psico-sociais.
Em nenhum momento o CREMESP se posidonou a favor do
concepto.

Por qué? A funcao precipua deste órgSo é defender, em última


instancia, a materia-prima da arte de curar que é a vida. Ora.
através de irrisorios conhecimentos de biología, citología e mi
crobiología pode-se aprender que a vida em si mesma é um pro-
cessc que independe da forma, do tamanho, da cor, das condi-
coes sodais ou religiosas, do nfvel intelectual, do tempo.do lo
cal de evolucao, das alterares mórbidas de alguns ou varios
órgaos, etc., etc.

Por que, entáb, querer classificar a vida do ponto de vista ótico


em intra e extra-útero, urna vez que é o mesmo processo em di
ferentes locáis e diferentes estágios de desenvolvimento?

Ao se aceitar tal divisao, deve-se ser coerente e aceitar a elimina-


cao do doente psicopático incurável. do excepcional, do anciio
portador de condicSes mórbidas irreversfveis, do paciente com
neoplasia intratável, etc. Qual é a diferenca em se eliminar o
mesmo individuo (inocente, sem sua autorizedlo) intra ou extra-
útero?

Ao se favorecer a prática do aborto, está-se implantando urna


grave injustica em direito, pela qual o individuo inocente é con
denado á pena de morte, sem nenhuma condicaó de defesa; quer
atravás de seu organismo, quer através de advogados, de institui-
cóes, do CREMESP, etc.

Qual será o órgáb que protegerá o inocente concepto, que se


constituiu num novo individuo (que nao pode ser dividido, que
mantém características próprias)?

Qual a razio ética e biológica para se proteger devidamente a vi


da da mSe e desprezar a protecáo da vida do filho intra-uterino?
Ambos tém o mesmo denominador comum - A VIDA, razáo da
arte de curar, razáo da existencia do CREMESP. Por que essa
incoeréncia? Por que tal esquecimento?

Apesar da divulgacáo do pronunciamento do CREMESP, só pu


de tomar o devido conhecimento depois de 4 meses. Tenho cer-

45
46 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 284/1986

teza de que urna ampia parcela da classe médica desconhece e


desaprovaria o teor de tal nota.

Finalizando, devo externar o meu sincero desejo de preservar a medici


na no seu ampio sentido, bem como contribuir para que ela seja mais enalte
cida e nao empobrecida e aviltada, como usualmente observado hoje em dia.

Outrossim, minha intencao nao é outra senáb manter o mais alto pres
tigio, adignidade e a idoneidade que o CREMESPtem.e que mui humilde
mente atesto. Nao gostaria de ver maculada e desacreditada moralmente a
instincía máxima da Ética médica de Sao Paulo.

Contando com sua compreensao para as minhas mais sinceras inten-


cóes, agradecería se o teor deste depoimento, bem como o de outros colegas
solidarios, fosse levado em consideracáb.

No aguardo de suas observacóes, renovó urna vez mais meus respeito-


sos votos de estima e apreco por esta insigne ¡nstituicao.

HELIO BEGLIOMINI
CREMESP N934.257
* * *

Como nos foi comunicado pelo próprio Dr. H. Begliomini, o CRMESP


respondeu atenciosamente a tais ponderacSes, prometendo levá-las na devida
consideracao.

Esteva» Bettencourt O.S.B.

Biblia de Jenisaiém. Nova edica"o, revista. - Ed. Paulinas, Sao Paulo


1985,138"x 198 ram, 2366 pp.

As EdicCes Paulinas estío brindando o público brasileiro com a edicao


da famosa "Biblia de Jerusalém" (edicio da Biblia que teve seu berco na E-
cole Biblique dos Dominicanos de Jerusalém) em formato menor e com o
seu texto revisto. Temos assim urna apresentacSo dos livros sagrados, de
caráter sólidamente científico, enriquecida por boas notas de roda-pé assim
como oportunas introducoes e cartas geográficas, tabelas diversas... Aguar-
dava-se tal edicio para se poder utilizar com mais facilidade um texto que é,
sem dúvida, digno de todo apreco.
E.B.

46
livros em estante
Descubra o Valor do Terco, por JoSo Mohana. - Ed. Loyola, Sao Pau
lo 1979 140 x 210 mm, 62 pp.

O Pe. JoSo Mohana, rico de tantos conhecimentos em medicina, psico


logía, filosofía, Teología. .., nos revela mate urna de suas aptidSes: depois de
ter escrito sobre os Salmos, ese revé também sobre o Terco de Nossa Senho-
ra. O autor assim tem presente um problema da piedade contemporánea:
após o Concilio do Vaticano II (1962-1965), muitos fiéis procuraran! revi-
gorar a sua vida de oracSo mediante um contato mais assíduo com a S. Escri
tura; puseram entáo de lado certas formas de piedade mais simples e popula-
res, entre as quais o Rosario (quinze dezenas de Ave-Maña, das quais cinco
formam um Terco). Houve mesmo, por parte de certas correntes, menospre-
zo pelo Terco. Vinte anos após o Concilio, nota-se hoje urna procura de
equilibrio: além das formas de oracío inspiradas pela Biblia (o que supOe
um pouco de cultura religiosa), existe, revalorizado, o Rosario (forma de
oracab que nao exige livro e que pode ser aplicada em qualquer lugar). O
Rosario, com suas 150 Ave-Mana, veio mesmo a ser "o Salterio (150 salmos)
dos pequeninos e iletrados" a partir do século XIII.
JoSo Mohana, que diz ter feito a. experiencia do descaso e da revalori-
zacSo (cf. p.9), apresenta na Parte I do livro em foco as múltiplas e belas fa
cetas do Rosario: oracSo bíblica, cristológica, eclesiológica e também oracSo
muito baseada na psicología humana (as pp. 27-32 sao milito interessantes
sob este aspecto). Na Parte II propSe as maneiras concretas de se rezar o
Terco como oracio vocal e mental; as sugestOes que formula para se vencer
a rotina, sao muito úteis. O Terco vem a ser assim a oracSo dos mais variados
momentos do dia: nao so das horas reservadas ao recolhimento, mas também
dos momentos de viagem, de espera, de trabalho manual. .. É urna forma
que o cristSo tem, de exprimir a sua pennanente fome e sede de Deus, aínda
que durante o trabalho nSo o possa fazer sempre com a máxima concentra-
cao desejável. - Muito se recomenda a leitura do livro de Mohana, cujo con-
teúdo se toma fácilmente assimilado em virtude do estilo agradável do
autor.

Eficacia do Rosario em nosso Século XX. pelo Pe. Valerio Alberton S.


J. - Ed. Loyola, Sío Paulo 1982,140 x 210 mm, 141 pp.

Eis outro livro que muito estimula a oracSo do Rosario, desta vez nar
rando fatos através dos quais se depreende o valor de tal prece. As historias

47
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 284/1986

referidas evidenciam quanto a Virgem SS. se digna de interceder maternal-


mente pelos filhos que a invocam em suas tribula;Oes. O Pe. Alberton cole-
cionou os episodios a partir de livros e revistas diversos, indicando sempre as
respectivas fontes. O livro cometa descreyendo a heroica facanha de dezes-
seis sobreviventes de um desastre de avia?áo nos Andes em 1972: passaram
71 dias entre tempestades de nevé e avalanches, com temperatura que chega-
va a 20 graus abaixo de zero, desprevenidos de roupas para tal clima e sem
ter alimentos suñcientes, nao lhes restando outra alternativa senáo a de co-
merem a carne dos companheiros já falecidos. Todos unánimemente declara-
ram que a fé e a oracSo diaria, sobretudo a do Rosario, lhes obtiveram o ver-
dadeiro milagre da sobrevivencia; mesmo urna das vítimas, que se dizia socia
lista, passou a rezar e tomou-se animador do grupo em varias sessOes de
oracao! - Somos gratos ao Pe. Alberton por este livro, que faz parte de urna
serie de seus escritos referentes ao Rosario.

Rute. Urna Historia da Biblia, por Carlos Mesters. - Ed. Paulinas, Sao
Paulo 1985,130 x 180 mm, 92 pp.

Este opúsculo foi muito utilizado como comentario ao livro de Rute


durante o mes da Biblia (setembro) pp. Procura mostrar o paralelo entre a
historia de Rute (no tempo dos Juízes ou nos sáculos XII/XI a.C.) e os dias
atuais. Infelizmente, porém, realiza urna exegese pouco objetiva ou muito
inspirada por premissas sócio-políticas; o comentador quer, a todo custo,
encontrar no livro sagrado os problemas modernos de falta de p9o, salario,
tena, etc. Para tanto adota pontos de vista discutíveis. Porexemplo, afirma
que o livro de Rute foi escrito após o exilio (S87-S38 a.C), retratando a si-
tuacáo de Israel em tal época (cf. pp. 16-22). Ora os estudiosos nao sao uná
nimes ao indicar a data de redacío de Rute; há quem a coloque antes do exi
lio, como, por exemplo, a equipe responsável pela Biblia de Jerusalém: "Os
argumentos alegados em favor de urna data tardia — posic.So no canon he
braico, língua, costumes familiares, doutrina — nao sío decisivos e o livro,
com excec,So dos últimos versículos, poderia ter sido composto na época da
monarquía".
A fome de que trata o livro de Rute, nio era necessariamente motiva
da por desordens sociais; com efeito, houve fome em Israel no tempo de
Jaco e de José (cf. Gn 41,53-57); houve fome durante o reinado de Claudio,
como narra S. Lucas em At 11, 27-30; o fenómeno pode ser explicado a
partir de causas diversas. Também é de notar que no livro de Rute nao há
menc.ao de opressáo social nem de luta de classes. O comentario desfigura
(continua na p. 24)
- - F F.S
P. R. NOVAMENTE MENSAL

Dado o crescente interesse de numerosos leitores, a partir des-


te número - PERGUNTE E RESPONDEREMOS aparece nova-
mente urna vez por mes.
Consecuentemente, aumentarao nossos compromissos finan-
ceiros, ainda que seja reduzido a 48 o número de suas páginas.
Como é notorio, sobem periódicamente o custo do papel de
imprensa, os salarios dos funcionarios, as tarifas postais e os trans
portes. Tudo isso nos obriga a novos reajustes.
As assinaturas vao de Janeiro a dezembro: CrS 100.000.
Amigo, se esta revista Ihe foi útil, queira difundí-la entre os
seus conhecidos. Seja um multiplicador de valores!

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NUEVO DERECHO CANÓNICO - Manual universitario -
Por Catedráticos de Derecho Canónico. 2a. edición. 1983,
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JESÚS CRISTO Y LA VIDA CRISTIANA - Antonio Royo
Marin, OP. 1961, BAC ,. CrS 118.300
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1980 (C/ilustracfíes) Apéndice de Grabados. 535p. Editorial
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del Concilio Vaticano II. Karol Wojtyla, 1982,354p. BAC . CrS 243.100
LOS EVANGELIOS APÓCRIFOS - Edición critica y bilin
güe, Aurelio de Santos Otero. 1984,707p. BAC CrS 330.300
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1978, BAC CrS 102.900

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bajo persas y Griegos. Libro de Job. — Professores de La
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tico, Isaías, Jeremías y Ezequiel — Professores de la Com
pañía de Jesús. BAC Cr$ 189.150
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Daniel y Profetas menores — Professores de la Compañía
de Jesús, 1971, BAC Cr$ 189.150
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de los Apóstoles y Cartas de San Pablo - Professores de la'
Compañía de Jesús, 1965,1125p. BAC Cr$ 197.730
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sores de la Compañía de Jesús. 1967,925p. BAC Cr$ 183.300
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filosofía patrística. Guilhermo Fraile, 3a. edición, 1975,
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Historia de la Filosofía, Tomo III, Del Humanismo a la Ilustra
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Historia de la Filosofía, Tomo V, Siglo XIX: Socialismo, ma
terialismo y positivismo. Kierkegaard y Nietzsche. — Teófi
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Historia de la Filosofía, Tomo VI, Siglo XX: De Bergson al
final del existencialismo. - Teófilo Urdanoz, OP. 1978.
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