O Homem que Amava Acarajé

(um conto de fados) Sabrina Gledhill

Era uma vez na Bahia, um homem que amava acarajé. Amava tanto que tornou-se um perito no assunto. Pesquisou as raízes africanas da iguaria, indo até a Nigéria para degustar o saboroso acará, o ancestral profano do acarajé baiano, com características diversas: mais achatado, preparado com pimenta na massa e servido sem vatapá, caruru ou salada. Nosso herói, o finado Aluísio (infelizmente, já se foi), soube de uma famosa mãe-de-santo que o acarajé é descendente direto do acará litúrgico, preparado nos Candomblés como oferendas aos orixás. Quanto mais descobriu sobre estes deliciosos bolinhos dourados, mais lamentou sua degradação nos dias de hoje: baianas de todas as crenças, até aquela que acusa o Candomblé de “adorar o demo”; pior, a massa, às vezes, até batida no liquidificador, deixando de lado o pilão que extrai, com cada batida, todo o sabor do feijão fradinho; dendê de quinta, queimado até o ponto de dar dor…de barriga; feijão velho; cebola pouca. A lista de reclamações e reivindicações crescia a cada dia. Nesta luta ele tinha uma firme aliada, a baiana Domingas, cujo tabuleiro ficava perto da entrada do prédio onde Aluísio morava. Ele aprovava as iguarias dela, não só o acarajé, mas o abará, o vatapá, o caruru, os bolinhos de estudante que ela teimava em alcunhar de „punheta‟. Aluísio só lamentava que sua fama não tivesse corrido o mundo como a das baianas da orla marítima. Como montava seu tabuleiro numa rua sem saída, pouco freqüentada por turistas, sua clientela se limitava aos entendidos e, é claro, os transeuntes e moradores locais. Com o intuito de ajudar Domingas, Aluísio colocou uma

duas filhas e (nada espanta) um alto teor de colesterol ruim. ela virava os olhos quando ele se aproximava. ligado a um ecocardiógrafo. que pediram basta. Mal balançava a cabeça para responder ao seu „bom dia‟. Funcionou. Ele teria que mudar de vida. Ledo engano. Quando voltou para casa. Renunciara ao amado acarajé. recebeu um ultimato da mulher. Todo dia. seu coração deu o primeiro grito de socorro. quando saía do prédio. Sem graça. Não queriam perder o marido. Depois de algumas semanas. rodou a baiana. com uma mulher. cumprimentava a baiana como de costume. Mas nada pedia e nada comia. cometido por um supervisor de sua confiança. mas não deu em nada. alguns pensariam que o Aluísio era um louco desvairado. veio o dia fatal. Prometeu e fez promessa a Santo Expedito. E finalmente. ele notou uma certa frieza no seu olhar. sem mais nada para fazer. acusando umas e outras de deturpar a sua arte com ingredientes ruins e práticas idem. um possível desfalque no banco. como se a baiana e seus acepipes nem existissem. O celular tocou quando saia do prédio. Reivindicou um órgão regulador da categoria para preservar as tradições baianas e fornecer iguarias melhores a nativos e turistas. Aluísio sofreu uma arritmia.nota no jornal que foi o estopim da “guerra das baianas”. entupiram-se várias artérias e depois de anos de tanto abuso. Era banqueiro. era seu vice-diretor. das filhas. Passou uma semana no soro. passou pelo tabuleiro de Domingas sem olhar para ela. Quando ele 2 . Daí em diante. os ecocardiogramas prognosticaram recuperado. Deixara de lado as frituras. o pai. Enfim. não informou a Domingas de sua humilhante situação. Foi parar na UTI. e tudo continuou como dantes. O assunto era sério. De tanto ingerir dendê. Assustados com tamanha obsessão. um homem sério. Enquanto conversava. Depois de poucos meses.

foi como se um círculo mágico se formasse em torno do tabuleiro.insistia. A viu quando fritou três bolinhos miúdos e jogou-os na rua. até passar mal. A guerra fria se instalara. sempre fingindo conversar no celular. 3 . Daqui para frente. não comentou isto com ninguém. Para Aluísio. por espanto do porteiro e deleite da baiana. Imaginou que Domingas estava invocando Exu para segurar seus calcanhares. mexer no bolso ou olhando para qualquer lado. foi como se entrasse num micro-clima hostil. Aluísio estava mais sensível a tudo. sem trégua. apertar sua garganta. ou futucar suas costas quando passasse por aí. ao invés de atravessar a rua. envergonhado de ficar tão impressionado. quando saía de casa. como tanto queria. Quando passava na frente de Domingas. Daí em diante. por mais que o porteiro estranhasse. sentia vontade de atravessar a rua. virava a cara. Desta vez. sentir tonturas. tendo à direita um beco sem saída e à esquerda o tabuleiro maldito. De coração frágil. A intempérie era tanta que chegava a tropeçar. Mas seria covardia! Não podia mostrar fraqueza.‟ Eclodiu a guerra fria. Não vou falar mais com ela e ponto final. até o fim. principalmente a um clima pesado. Um dia. Depois de várias tentativas. menos o dela. Aluísio pensou. „Quem é ela para me esnobar. mas cada vez mais. Aluísio saiu para fazer cooper mais cedo. farei de conta que é uma estranha qualquer. A idéia fixa do acarajé se transferiu para Domingas e sua suposta magia. Já fiz tanto para aquela baiana. Achando frescura. o nosso Aluísio transferiu suas energias de pesquisador para o assunto de sua própria pele e a proteção da mesma. Procurou a famosa mãe-de-santo que o orientara sobre o acarajé. andava em torno da roda mágica. quando a baiana começava o ritual da preparação dos acarajés.

mais sete e…a situação continuou a mesma. O atendente comentou com seu chefe. é claro. entidades mil. Caiu no tapete da sala segurando o peito e foi levado às pressas ao hospital. as conseqüências serão…imprevisíveis. Se um „trabalho‟ falhava – e falhava sempre – vinha a sugestão de fazer outro mais forte – e mais caro. uma mãe-desanto menos conhecida e mais disposta a agradar o „freguês‟. Cada vez que pensava em Domingas – um dia sim. Instalaram um inquérito. mas o oráculo dos búzios me diz que não há nada a ser feito. sob observação.- Sinto muito. Ou pior. Suas artérias enfraquecidas não resistiram à 4 . então. Aluísio pagou e continuou pagando. Pagou uma fortuna para que oferendas fossem feitas a vários orixás. Se tomar qualquer atitude. na véspera. Ninguém deu importância às palavras do „louco‟. rezando para impedir o pior. Apavorado. que avisou à polícia. ainda na UTI. da terra e do mar. Aluísio chegou a reclamar. Foi tido como louco e caiu na boca do povo. espíritos do céu. Procurou. sua mulher e suas filhas pediram seu impedimento judicial. mas foi tudo em vão. A magia forte da baiana agora tramaria sua morte. Antes que entrassem em falência. nada. outro também – sentia um calafrio que sacudia todo o seu corpo. tomou sete banhos.foi aquela baiana que me matou‟. Aluísio levou a lista de folhas à feira. até não poder mais. A perícia deu o veredicto: o homem morrera do coração. certa vez. Sem condições de pagar por sua proteção. o moribundo sussurrava: „Domingas . Na ambulância. Além disso. ouviu que a mãe-de-santo passara a noite toda de joelhos. caboclos e caboclas. Teve que largar o trabalho e ficar em casa. sofreu o inevitável. - A senhora não pode fazer nada para fechar meu corpo? Para contra-atacar? Você pode tomar uns banhos de folhas como descarrego. até que veio a falecer. Quando.

5 . E a clientela cresceu. transformando o tabuleiro da Domingas num point da cidade. A baiana viu seu nome entrar com destaque nos livros e manuais de turismo. vieram os turistas e visitantes. de feitiço. e foi aos poucos entregando o trabalho às filhas e sobrinhas. nativos e estrangeiros. logrou com a morte. O banqueiro morreu de reza. Correu a fama. gorda e rica. O que não conseguira em vida. o homem que amava acarajé. mudou-se para um novo shopping que se instalou na área. „foi a baiana quem matou‟. de ebó. ficando cada vez mais famosa.sua dupla obsessão com o dendê e a Domingas. Mas correu o boato. Vieram da orla.

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