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Controle Social no fim do milênio.

PEDRO LUCIANO EVANGELISTA FERREIRA Advogado, Mestre em Criminologia e Direito Penal e Professor na Escola da Magistratura do Paraná.

No decorrer do processo histórico-evolutivo da Criminologia surgiram várias fases em que foram criados e utilizados referenciais distintos para a identificação e explicação do fenômeno da criminalidade. Se inicialmente, em meados do século XIX, a Criminologia surgiu inebriada por considerações biológicas e antropológicas, tendo em vista a adoção da concepção de crime como fenômeno de patologia social - conforme o ideário cunhado por Lombroso - dividindo a sociedade entre “normais” e “criminosos” e legitimando o controle social, mais adiante, o foco temático foi deslocado da pessoa do criminoso para a reação social frente à conduta desviante, em que importante papel tiveram as reflexões psicanalíticas de Freud sobre a teoria criminológica. Em momento posterior, outra significativa redefinição da perspectiva criminológica surge no último quartel do século XX com o rotulacionismo ou “labeling approach” cujo eixo principal está centrado na produção social do desvio e do delinqüente desvelando um fenômeno social de “etiquetamento”, estigmatização e controle social intimamente relacionado com fatores econômico- estruturais. De posse deste arcabouço teórico-conceitual e sem ignorar o baldrame axiológico que o sustenta, o desafio da chamada “Criminologia Crítica” é a busca da verdadeira compreensão do sistema penal e suas reais funções para - não obstante as falácias contidas no discurso oficial - alcançar a realidade deste poderoso instrumento de seleção e dominação social (com especial destaque para o contexto em que se encontram inseridos os países latino-americanos) já que a política imperante destina-se a salvaguardar apenas aqueles sujeitos que são adequados para o consumo, nos moldes do “bom discurso capitalista”. Fixada esta preliminar exposição, a questão das drogas e de todo o discurso para o seu combate fica mais clara porquanto a droga “como doença social produtora de inimigos sociais (traficantes)” é a nova “forma do mal” que desestabiliza o bom andamento social e justifica políticas intervencionistas norte- americanas salvíficas (v.g., “Projeto Colômbia”) sobre os países latino-americanos “produtores, causadores e únicos responsáveis pelo mal”. Mas a relação lucro-consumo-controle persiste. Como bem questionam os criminólogos: “Por que, afinal, a política de combate às drogas não busca conter o consumo que é a causa e o fomento da produção?” A resposta é clara: Porque sob o ponto de vista econômico estas políticas motivam e justificam o aumento do preço da matéria-prima, incrementando geometricamente os lucros provindos do comércio desta valiosa mercadoria. A difusão das drogas entre os jovens é funcional ao sistema haja vista possibilitar e legitimar o aumento do controle social estigmatizador e seletivo que manifesta-se por meio de dois paradigmas diferenciados, o primeiro é policial-repressivo quando se tratar das classes menos favorecidas e mais vulneráveis, para elas não há compaixão ou misericórdia apenas balas de fuzil; o segundo será o

paradigma médico-anestésico para os mais ricos que são enviados para o internamento em casas de desintoxicação já que são “bons meninos”, “merecem uma outra chance”,. Enfim, é o controle social no fim do milênio.