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TECNOLOGIA MECANICA Estrutura e Propriedades das Ligas Metalicas 2° edicao VICENTE CHIAVERINI Professor Titular da Escola Politécnica da Universidade de Sao Paulo Membro Honorério da Associacéo Brasileira de Metais | TECNOLOGIA MECANICA ESTRUTURA E PROPRIEDADES { DAS LIGAS METALICAS VOLUME I i 2 edigao .KRON Books do Brasil Rditora Ltda. Kditora McGraw-Hill Ltda. Paulo ‘Tabapudi, 1105, Itaim-Bibi AP 04533, (O11) 829-8604 e (011) 820-8528 Rio de Janeiro @ Lisboa @ Porto © Bogoté ® Buenos Aires ® Guatemala © Madrid © México ® New York ® Panamé ® San Juan © Santiago Auckland @ Hamburg @ Kuala Lumpur ® London @ Milan © Montreal © New Delhi @ Paris @ Singapore @ Sydney © Tokyo ® Toronto CWAL OU NTU UNENOE OC Doprrtamests ao Adatulsteagho : Divino « cote Petindénto : SEC. Coa Tecnologia Mecanica — Estrutura e Propriedades das Ligas Metilicus Fiehr 69292 8 Copyright ©1977, 1986 da Editora McGraw-Hill, Ltda. Data do Lan » { Comprovante de Langamento vig re Todos os direitos para a lingua portuguesa reservados pela Editora McGraw-Hill Ltda. Nenhuma parte desta publicagao poderd ser reproduzida, guardada pelo siste- ma “retrieval” ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, seja este eletronico, mecdnico, de fotocépia, de gravacdo, ou outros, sem pré- via autorizacdo, por escrito, da Editora. ETFRN - UNED Editor: Alberto da Silveira Nogueira Jinior BIBLIOTECA Coordenadora de Revisdo: Daisy Pereira Daniel Supervisor de Produgao: Edson Sant’Anna Capa: Lay out: Cyro Giordano Arte Final: Jaime Marques i A minha esposa A meus filhos Dados de Catalogacdo na Publicagao (CIP) Internacional (Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Chiaverini, Vicente, 1914— c458t ‘Tecnologia mecanica / Vicente Chiaverini. — v.13 2. ed, — Sao Paulo : McGraw-Hill, 1986, | 2.ed. Bibliografia. Contetido: v. 1. Estrutura e propriedades das ligas metélicas, — v. 2 Processos de fabricago e tratamento. ~ v.3. Materiais de construgdo mecénica, 1. Engenharia mecénica 2. Mecdnica aplicada I. Titulo, cpD-621 85-2045 620.1 Indices para catdlogo sistematico: 1, Engenharia mecdnica 621 2. Mecdnica apticada 620.1 | PREFACIO iL — ESTRUTURA METALICA - CARACTERISTICOS GERAIS DOS METAIS 1 -A constituigdo da matéria . 2-Mudangas de fases . 3 - Algumas definigées 4 -Natureza do étomo 5 -Associacao de étomos . . 5.1 - Ligagdo ionica . . . 5.2 - Ligagdo covalente . . . 5.3 - Ligagdo Van der Waals . 5.4 - Ligagdo metélica.... . / 6 -Materiais metdlicos ....... 6.1 - Ocorréncia dos metais . 6.2 - O estado metilico . : 7 -Caracteristicos gerais dos metais . 7A - Densidade......... 7.2 + Propriedades térmicas .. . . . 73 - Propriedades elétricas e magnéticas 15 7.4 - Propriedades éticas . 7 75 - Propriedades quimicas . . . 18 wut 1 tl iia anil Tecwologta Mecdnica ESTRUTURA CRISTALINA DOS METAIS 1 oo e reticulados cristalinos - Alotropia .... 2- meets do reticulado. . . 3 -Planos crstalogriticos,direg6es cristalogrficas Indices de Miller........ : 4. Imperfeigdes ou defeitos cristalinos . - Imperfeig6es de ponto . 4.2 - Imperfeigdes de linha... .... 4.3 - Qutras imperfeigdes cristalinas PLASTICIDADE DOS METAIS -Introdugfo ... 2... -Deformagao eléstica 3 “Deformagéo plastica - Deformagdo por escorregamento A 3. Escorregamento mediante movimento de discordancia 3.3 - Deformagao por maclagdo . . . . -Deformagao dos metais policristalinos . . . 7 NA, - Deformacdo a frio e deformacao a quente . 4.2 - Recristalizagao 4.3 - Crescimento de grdo .. . 4.4 - Medida do tamanho de grao . . 4.5 - Comentitios finais sobre a recristalizagao 4.6 - Trabalho a quente...... v > LIGAS METALICAS . . 1 -Imputezas nos metais 2-Solugses sélidas . 3-Difusio.. . 4 - Ligas metilicas . 4.4 - Lei das fases de Gibbs 5 -Diagramas de equilfbrio ou de constituigao 5.1 - Ligas cujos componentes sfo totalmente solaveis tan- to no estado Iiquido como no sélido 5.2 - Ligas cujos componentes so totalmente soliveis no estado liquido, porém insoliveis no estado s6lido . . . 5.3 - Ligas cujos componentes so totalmente soliveis no estado lfquido, mas apenas parcialmente soliveis no estado sélido ..... 5.4 - Ligas cujos componentes podem formar, em parte, compostos intermetélicos que podem, por sua vez, ser inteiramente soliveis, parcialmente soliveis ou inso- 19 ¢ 19 23 24 25 30 30 a 36 cs es 39 ~ 43 43 47 48 50 52 55 56 59 59 61 63 63 66 67 68 69 69 ze 7 v a Vill 1 Sumdrlo lévels em um ou em ambox ox excessos dos compo- nentes wee 7 5.5 - Ligas com mais de dois componentes . . PROPRIEDADES MECANICAS E SUA eee - DEFINICOES . 1-Introdugéo . . 2- Definigdes 3 -Coeficiente de segurangae tensdo admissivel de trabalho 4-Ensaios mecinicos, normas e especificag6es ......... 5 -Levantamento de dados obtidos nos ensaios . . . . RESISTENCIA A TRACAOE RESITENCIA A COMPRESSAO 1 - Resisténcia a tragdo. Grifico tensio-deformagao 1.1 - Alongamento ¢ estricgo, Ductilidade . 2-Diagrama tensio-deformagao verdadeiro - 3 -Curvas tensio-deformagdo para alguns materiais~ 4 - Tipos de fratura por tragiio : 5 -Corpos de prova empresados no ensaio de tragdo 6 - Resiliéncia e tenacidade . <7 -Observages finais sobre a resistencia a tragdo:e 0 ensaio de tragdo : 8 -Resisténcia a compressdo .. . . 8.1 - Ensaio de compressio . . RESISTENCIA AO DOBRAMENTO E RESISTENCIA A FLEXAO OU A RUPTURA TRANSVERSAL. ENSAIOS CORRESPONDENTES «0.0... 0200 0005 1-Dobramentos ........- 1.1 - Ensaio de dobramento . . . 2--Resisténcia a ruptura transversal... 2.0.0. e eee 3-ConclsOes . 0. eevee cece cece cece eee e eee ee RESISTENCIA AO CISALHAMENTO E A ToRchO . 1 -Introdugao 2 -Ensaios .. . 3 -Conclusses DUREZA ... 1 -Introdugto . .. 2.-Ensaios de dureza : 2.1 - Ensaio de dureza Brinell . . 2.2 - Ensaio de dureza Rockwell 80 82 84 84 85 86 87 88 7 _ 101 104 105 107 112 113 114 11s 116 118 118 120 122 124 126 126 es) 7 134, 134 137 138 141 XI XII Tecnologia Mecdnica 2.3 - Rockwell suy 2.5-- Dureza escle: 5 -Conclusées — FLUENCIA . . ] -Fendmeno da fluéncia 2-Ensaios de fluéncia 2.1 ~ Resisténcia a fluéncia : 2.2 - Resisténcia 4 ruptura por fluéncia .. .. 2.3 - Dispositivos para ensaio de fluéncia . . : 3 -Curvas representativas de propriedades de fluéncia 4 - Recuperagdo e relaxagaio 5 -Conclusdes ~ RESISTENCIA AO Cl 1 -Introdugao . 2-Ensaios de choque .. . 3 - Temperatura de transigao 3-Conclusdes .. . — FADIGA : 1-Introdugdo .. . 2-Ensaios de fadiga 2.1 - Corpos de prova para ensaio de fadiga : 3- ators que influem na resisténcia & fadiga dos metais . - Efeito da composiedo e das condig6es de fabricagao 32 - Efeito da freqiiéncia da tensio ciclica .. perficial . . 2.4 - Ensaio de dureza Vickers roscépica . . 2.6 - Ensaios de microdureza .. . 3 - Relages de conversao de dureza . . . 4 -Relagdes entre dureza e resistencia § tragdo ‘HOQUE. ~3.3 --Efeito da temperatura 3.4 - Efeito das dimensées . 3.5 - Efeito da forma 3.6 - Efeito das condigoes superficiais 3.7 - Efeito do tratamento superficial . 3.8 - Efeito do mei 3.9 - Efeito do atrito 4 -Relagdo do limite de fadiga com a resistencia a tragao dos metais .. 5 - Outros tipos de esforgos . 6 -Conclusdes “io 144 144 146 146 148 148 150 152 152 156 157 157 157 162 165 166 167 167 169 173 176 178 178 183 190 190 191 192 194 195 196 200 200 208 210 21 el 212 XIII PROPRIEDADES E ENSAIOS DIVERSOS . 1 -Capacidade de amortecimento........ 1.1 - Ensaios de amortecimento . . . \ 2 -Capacidade de embutimento 3- nei a0 desgaste . ae Tanne . Ensaios de usinabi dade | 4.- - Ensaios de desgaste . Sumdrto XIV — ESFORCOS COMBINADOS — TEORIAS DE RESISTENCIA 1 - Teorias de resisténcia - Teoria de RANKINE ov da “tensdo maxima” 1.2.- Teoria de SAINT-VENANT ou da “deformagao we Bl 1d 1.3 - Teoria de “ ‘eisalhamento maximo ARen Questdes e Exercicios . Bibliografia . Indice Analitico maxima’ = Teoria de BELTRAMI ‘ou da “energia-deformagao” ou “trabalho de deformagdo maximo” .....-...- 1.5 - Teoria de HUBER ou da “energia de empenamento” -Cargas eiclicas -Escolha de uma teoria de resisténcia . -Teoriade MOHR ....... - Ensaios sob tenses multiaxiais ; : 5.1 = Corpo de prova plano em forma de cruz . | 5.2 - Corpo de prova cilindrico oco, de paredes finas . 5.3 - Corpo de prova com compressao superposta em trac 6 - Tensdes de trabalho xr _ = 218 219 220 223 224 226 229 229 230 232 232 232 232 233 235 242 243 243 244 244 248 A industria moderna, em todos os seus setores produtivos, estd exigindo equipamentos e componentes mecdnicos cada vez mais sofisticados; daf a necessidade de conhecer-se, com razodvel profundidade, os materiais empre- gados no seu projeto e construgdo, sobretudo os metdlicos, os quais constituem ainda a principal fonte de suprimento da matéria-prima necesséria. © emprego das ligas metilicas na engenharia ¢ na industria é baseado, principalmente, nas suas propriedades meécénicas, embora, em muitas aplicagdes, além dessas, outras propriedades devam ser consideradas como resisténcia 4 corrosio, resisténcia ao calor, caracterfsticos elétricos e magnéticos etc. As propriedades mecdnicas estdo intimamente relacionadas com a estrutura, a qual, por sua vez, depende da composigdo quimica e das condi- Wes de fabricagGo das ligas. Porque esses conhecimentos sio fundamentais para a melhor compre- ensio do comportamento das ligas quando sujeitas as cargas de servigo, assim como para a selegGo correta das ligas para determinadas condigdes de servigo, 0 objetivo desta obra, de fins didaticos e como fonte dé consulta para profis- sionais da engenharia ¢ da industria, é analisar a estrutura e as propriedades dos metais ¢ suas ligas e estudar a correlacdo desses caracteristicos entre si e com as condigdes de fabricagao. XM XIV Tecnologia Mecdnica Os assuntos e os dados aqui apresentados sfo o resultado de uma oxtensa pesquisa bibliogréfica que cobre as principais publicagSes com eles relacionados. A sistemdtica adotada na exposigdo é baseada na experiéncia do autor de Jongos anos de ensino de engenharia, no seu contato constante com casos que ocorrem na indiistria e nas freqientes indagagdes que lhe sao feitas a respeito de muitos dos fatos que se verificam no emprego de pegas metdlicas em determinadas condigdes de servigo. ESTRUTURA METALICA — CARACTERISTICOS GERAIS DOS METAIS 1A constituigdo da matéria Os noventa elementos que constituem aTerra estdo presentes em quantidades muito diferentes e distribufdos de modo totalmente nao uniforme na atmosfera, na hidrosfera e na litosfera. A matéria do universo € constituida de étomos; mas somente os gases inertes, que constituem apenas uma pequena fragdo da atmosfera, sfo encon- trados no estado atémico. A maioria dos elementos existe na forma de moléculas consistindo em dois ou mais dtomos iguais ou diferentes; exemplos Op, Nz ou COp. ‘A hidrosfera ou os oceanos séo principalmente agua contendo substancias dissolvidas em quantidades varidveis. A maioria dessas substancias existe.no estado “idnico” ou “carregado”, de preferéncia ao estado at6mico ou neutro. As rochas, areias e argilas da litosfera ou da crosta terrestre so principal- mente agregados sélidos ou compostos envolyendo os elementos oxigénio, silfcio, alum{nio, s6dio, hidrogénio, ferro, calcio, magnésio, potdssio ¢ titanio mais comumente. ‘A parte da matéria estruturalmente homogénea & denominada “fase”. Um gis ou uma mistura de gases no possuem um arranjo molecular ou atémico internamente regular, devido ao movimento a esmo e grande separago de seus constituintes, Os gases puros ou uma mistura de gases so considerados um sistema de fase simples, como o estado gasoso. 2 ‘Tecnologia Mecdnica Os Ifquidos se parecem, de certo modo, com gases comprimidos. Con- tudo, as forgas interat6micas ou intermoleculares, responsdveis pela sua estabilidade entre as temperaturas de fusio e de ebuligo promovem uma “ordenagao local” no estado Iyquido. Aqui a relagdo espacial entre um dtomo ou molécula e seus vizinhos é regular a cada instante, mas muda continuamente com o tempo ¢ 0 movi- mento das particulas € suficientemente vigoroso para impedir uma “orde- nagio” em faixa mais longa. Ao contrdrio dos gases, os liquidos podem existir como fases distintas que nao se misturam, Uma combinaggo de éleo e dgua ou de merctrio e agua produz duas fases separadas por um contorno, ao passo que o alcool e a égua formam uma fase simples, devido 4 solubilidade total miitua, ou seja, estdo intimamente misturados numa escala de dimensdes atomicas, Alguns s6lidos como 0 quartzo cristalino (SiO2), a galena (PbS), 0 gelo (H,0) e um sélido ndo-cristalino como o vidro, so substincias de fase simples. Outros como o granito, a madeira e 0 ago sfo substincias de fases miltiplas, ou seja, so agregados de duas ou mais fases que se diferen- ciam pela composigao quimica e pela estrutura. Os s6lidos de fases miltiplas podem ser reconhecidos pela observaydo 6tica de sua “microestrutura”, com elevados aumentos. Como se verd, os dtomos de um s6lido possuem posigdes geometrica- mente fixas, um em relagdo ao outro, ao contririo dos liquidos e dos gases. 2 Mudangas de fase Praticamente todos os elementos puros so encontra- dos no estado sdlido (cristalino), Ifquido ou gasoso, dependendo das con- digdes externas de temperatura e pressio. Medindo-se o calor necessério para fundir ou vaporizar tais substancias, pode-se obter informagGes uteis. A Figura 17) mostra uma curva tipica de aquecimento; as linhas A, Ce E representam a modificagdo de temperatura com a adigGo de calor para os estados sdlido, liquido ¢ gasoso e as linhas B e D correspondem as chamadas “paradas térmicas”, associadas com a fusfo e a vaporizagao. A situagdo correspondente ao resfriamento do vapor ao Ifquido e em seguida ao sdlido envolve o proceso inverso. Contudo, nem todos os materiais se comportam desse modo, ou seja, nem todos apresentam uma evolugio bem marcada de calor na solidifi- cago: elementos formadores de vidro, como o selénio e compostos como a sflica SiO2 e muitos polimeros orginicos, quando resfriados a partir do estado Irquido, so exemplos em que a porgo Liquida da curva de resfria- mento continua sem descontinuidade até as temperaturas em que os ma- teriais se tornam sélidos. Ketrutura matdiica — Curucter(attoan garaly dox metate t a ‘lo aims Figural Curva de aquecimento tipica para uma substancia pura sob pressiio constante. Esse comportamento depende da velocidade de tesfriamento, como esté indicado na Figura 2; a * calor removido Figura 2 Curvas de resfriamento para substincias que ndo cristalizam imediatamente. 4 Tecnobyla Meatnica para resfriamento muito lento, os trechos A, B e C representam o Kiquido, 0 processo de solidificagao (cristalizagio) ¢ 0 solido (vidro), respectivamente; — para resfriamento relativamente répido, os trechos A, D e E represen- tam o liquido, o liquido superresfriado e 0 s6lido, respectivamente; — para uma velocidade intermedidria, os trechos A, F, G e H representam © liquido, 0 proceso parcial de cristalizagdo, as cristalitas em matriz de liquido super-resfriado ¢ as cristalitas em matriz. vidrosa, respectivamente. 3 Algumas definigdes Chama-se “entalpia”(1) a quantidade de energia de uma substancia sob aquecimento e sujeita a pressdo constante. A entalpia é¢ expressa por H = E + PV, onde H = entalpia Pp pressa0 V = volume E = energia interna, ou seja, a energia cinética média de todos os étomos. “Entropia” é a medida da distribuigdo a esmo ou do grau de desordem dos arranjos internos dos dtomos ou moléculas num sistema de materiais de fase simples" Para quantificar a entropia S, admite-se que a entropia de um cristal perfeito puro seja igual a O°K, corespondente a um estado de perfeita ordem!*). Assim como a entalpia, a entropia ou “desordem”.de um sistema aumenta com a temperatura. produto da entropia pela temperatura absoluta TS é chamado “fator de entropia’” e tem as unidades de energia. A diferenga entre a entalpia H de um sistema e seu fator de entropia € chamada “energia livre Gibbs G”: G=H-TS A Figura 3'") mostra a variagdo da energia livre G com a temperatura para as fases Iiquida e s6lida da dgua. ("9K (escala Kelvin) = —273°C (temperatura mininia absolut). Katrurura metditca - Caractertutlean garata dox metate 4 «enti ge G@ = Figura 3 Energia livre como funcdo da temperatura para as formas cristalina (gelo) & Hiquida (égua). Nota-se que abaixo de 0°C — temperatura de equilibrio de fusdo ou solidificagdo — ¢ a presséo atmosférica, a energia livre do gelo menor que a da agua; logo o gelo fase estdvel. Acima de 0°C, a dgua € a fase estavel. A qualquer temperatura, a diferenga de energia livre — DG — é representada pela separacdo vertical entre as duas curvas. No ponto de equilfbrio de fusio — 0°C — as energias livres sdo iguais ¢ tanto a dgua como o gelo sfo estaveis. 4 Naturezadodtomo Para explicar a natureza do dtomo, por muito tempo utilizou-se 0 modelo de BOHR, proposto em 1913, que compara o dtomo ao sistema solar: um nucleo (sol) e particulas ou corpisculos mo- vendo-se rapidamente, em Srbitas circulares ou elfpticas (planetas) em torno do micleo. As particulas em movimento sio os “elétrons”, carregadas negativamente. O niicleo, por sua vez, ¢ composto de dois outros tipos de particulas: 0 “néutron” com carga elétrica neutra e 0 “proton” com carga elétrica posi- tiva, do mesmo valor que a do elétron, cuja carga elétrica é negativa ¢ equivale a—1,602.1079 coulomb") , © conceito de BOHR, embora ainda utilizado pela sua clareza e simpli- cidade esté ultrapassado, devido as teorias da fisica moderna: “quantizagdo de energia” de PLANK, “‘dualidade ondacorpisculo” de DE BROGLIE, “indeterminago” de HEISENBERG e “equivaléncia entre massa ¢ energia” de EINSTEIN, as quais propiciam uma nova interpretagéo da estrutura atémica!?), 6 Tecnologia Meatnica Assim, os elétrons, em vez de serem-considerados meramente como particulas, possuem natureza dupla, comportando-se a0 mesmo tempo como particulas (ou corptisculos) ou como ondas e, do mesmo modo, nio se pode afirmar que um dado elétron se encontre, num dado instante, num determi- nado ponto com uma determinada energia. O niicleo do dtomo 6, pois, circundado por elétrons, os quais se movi- mentam rapidamente. O didmetro atémico é muito pequeno: da ordem de 107° m ou 10~* microns e 0 do micleo é da ordem de 107'5 m'"). 0 étomo de ferro'3), por exemplo, possui um raio de 1,241 Al"), Apesar do seu menor didmetro, o micleo contém a maior parte da massa atémica. O préton e o néutron possuem aproximadamente a mesma massa, cada uma das quais € 1.800 vezes maior que a de um elétron. © néutron é eletricamente neutro, mas o préton tem uma carga elétrica positiva correspondente a +1,602 x 107! coulomb, a qual é exata- mente a carga negativa de um elétron. © peso de um tomo é praticamente proporcional ao peso total de protons ¢ néutrons do niicleo. O peso de um elemento quimico é chamado “‘peso atémico”, o qual varia dentro de uma faixa muito ampla, desde 1,008 para o hidrogénio, até cerca de 250 para alguns dos elementos instaveis transuranianos'4), O peso atémico é expresso em gramas por dtomo-grama, Um dtomo-grama contém sempre 6,02 x 107? dtomos (nimero de Avogadro)(4), Assim ‘. eso at6mico peso do stome = EG O némero de protons no niicleo Z é chamado de nimero atémico caracteriza um elemento quimico!), O ndmero correspondente a massa at6mica de um étomo, expresso por A, édado por A=Z+N onde N éo numero de néutrons do nticleo. 7 mm = 10 microns. Karrutura matditea — Caractartatloan garcia dox metala 7 Um clemento quimico ¢ caracterizado pelo némero Z, de modo que ftomos de um dado elemento podem apresentar um ntimero vuridvel do néutrons. “Jsétopos” so considerados subespécies de elementos quimicos, com 0 mesmo nfimero Z, mas diferentes mimeros A e N. O peso atémico de um elemento corresponde a média das massas atémicas de vérios isStopor quo ocorrem naturalmente no elemento. A escala de peso atémico ¢ baseadu no valor do is6topo de carbono que corresponde a 12 ¢ que tem um némero do massa atémica equivalente a 12'1), niicleo de um dtomo pesa menos do que a soma dos pesos de sun partfculas componentes isoladamente. A diferenga entre a massa real ea dow componentes é chamada “defeito de massa’"'") e se relaciona com a energia ligadora do niicleo AE, por intermédio da equaco de Einstei AE = Amc? onde ¢ éa velocidade da luz. ‘As forcas nucleares que unem 0s protons e os néutrons so enormes ¢ a energia de ligagdo equivale a cerca de 8,5 milhdes de elétrons-volts (meV) por particula do nicleo!"), : ‘A maior energia de ligagdo por partfcula do micleo encontra-se em niicleos de ntimero atémico médio, como no do ferro. Nesses niicleos, N ¢ aproximadamente igual a Z. Para méicleos de mimero atémico maior, como no uranio, N é aproximadamente igual a 1,5Z e a energia de ligago por par- ticula do nticleo 6 menor. Em razo dessa estabilidade nuclear menor, alguns js6topos de urinio sao instaveis em relagdo A fissdo, ou seja, se 0 is6topo de urinio (Z = 92, A = 235) é bombardeado com um néutron, ocorre uma reagio que desprende grande quantidade de energia e resulta em produtos de reagio que so niicleos e néutrons de menores dimensdes. Pela teoria de Bohr, os elétrons se movem em torno do nicleo de um ftomo de acordo com Grbitas circulares ou elipticas. O elétron que gira na 6rbita mais vizinha do nticleo possui menor energia do que o que se move numa rbita mais externa. Desse modo, para mover um elétron de uma Grbita mais interna para uma érbita mais externa é necessirio realizar um trabalho e, inversamente, a energia ¢ liberada, na forma de radiagao eletro- magnética, se um elétron for capaz de movimentar-se de uma 6rbita mais externa para uma mais interna. () Um elétron-wlt corresponde a quantidade de energia que um elétron adquire a0 sec acelerado mediante a queda de voltagem de um volt. Isso equivale a 1,602 x 10719 (3,83 x 107° cal.). a Tocnologla Mecdnica Os elétrons da drbita mais externa sfo chamados “‘létrons de valéncia”. Outra propriedade importante dos elétrons 6 a de apresentarem um movimento de rotacdo. Eles podem ser visualizados como pides girando em tomo de um eixo que passe pelo seu centro. Os elétrons podem, pois, ser imaginados como pequenos mas, visto que uma carga elétrica girando cria um campo eletromagnético. Conforme esses imagindrios pides giram para a esquerda ou para a direita, dizse que eles possuem “spin” positive ou negativo. Na realidade, como jé foi mencionado e como ¢ afirmado pela mecénica das ondas (conceito de Heisenberg), um elétron no pode ser definido como uma particula girando numa érbita com um raio determinado. H4, a0 contrério, uma “‘probabilidade” de um elétron situar-se em certas regides espaciais, de modo que a sua localizagio é melhor descrita em termos de sua “probabilidade de distribuiggo de densidade”, o que € comumente chamado “nuvem de elétrons”. A teatividade quimica dos dtomos de diferentes elementos é devida a sua estrutura eletrOnica, ou seja, do nimero e da distribuiggo espacial dos elétrons mais externos. As ligagdes interatémicas resultam da interferéncia das ondas estaciondrias e eletronicas de dois ou mais dtomos. Algumas substancias atraem-se mutuamente muito pouco, como os gases inertes hélio, nednio e argonio e apresentam reatividade quimica muito pequena, Tais substancias condensam-se a temperatura muito baixa. Outras substincias, como o gés metano (CHy), sfo fortemente ligadas internamente, mas sua atragio, uma pela outra, é muito frac. Finalmente, substéncias como cloreto de sédio, silfcio e cobre, possuindo alto ponto de fusio, apresentam uma ligagZo forte no estado sstido. 5 Associaglo de dtomos —Esses.trés tipos de substéncias servem para exemplificar os trés tipos iniciais de associagdo atémica ou ligagdo quimica, a saber: ligagdo iénica (NaC!) também chamada heteropolar, ligagfo cova- lente (silfcio) também chamada homopolar e ligagdo metdlica (cobre)'5). Existe outro tipo de ligagfo, que é a mais fraca de todas, a chamada ligagdo Van der Waals. 5.1 Ligagéo iénica fi o tipo mais simples de ligago e o mais fécil de descrever: &tomos de elementos com um ou dois elétrons de valencia (da 6rbita mais externa) facilmente libertam esses elétrons, tornando-se fons carregados positivamente. O NaCl e 0 MgO so exemplos de sélidos em que predomina esse tipo de ligagdo. Para formarse o NaCI hé transferéncia dos elétrons de valéncia do dtomo de Na ao dtomo de Cl, Para remover os elétrons-valéncia de dtomos de s6dio livres, gastase uma certa quantidade de Kasrutura motdliea — Qaructertutionn garaty dos motate 0 cnorgla, que resulla om sons de sddio carrogudos positivamonte (eitlonn Na"). A. uquisigio dos elétrons por atomo de cloro livre corresponde a ww liberagtio de cnergia, formando-se fons de cloro carregados negativamonte (anions CI-). 5.2. Ligagdo covalente Neste caso, um dtomo compartilha seus elton com um dtomo adjacente. exemplo mais simples é encontrado na molécula de hidrogénio, em que so necessdrios dois 4tomos de hidrogénio para formar sua molécula. Atomos diferentes podem igualmente combinar-se para formu moléculas com ligagdo covalente. Exemplos: fluoreto de hidrogénio HF, dgun H, O, amOnia NH e metana CHg. Nesses casos cada dtomo fornece um elétron para formar uma ligagdo de um par de elétrons. 5.3. Ligagdo Van der Waals __E a ligacdo interatémica ou intermolecular mais fraca e que ocorre entre dtomos de gases inertes. Nestes gases, a Orbita mais externa (de valéncia) est4 completa e, em conseqiiéncia, os seus dtomos possuem atragio mitua muito pequena. Nessa ligacdo, ocorre apenas in- fluéncia mitua das ondas eletrénicas estaciondrias sem que os elétrons sejam compartithados. 5.4 Ligacdo metélica Nesta ligagdo, os elétrons sio compartilhados por indmeros étomos. Este tipo de ligagdo pode ser mais facilmente expli- cado da seguinte maneira: se num dtomo existirem apenas poucos elétrons de valéncia, eles podem ser removidos de modo relativamente facil, ao passo que os elétrons restantes sio mantidos firmemente ligados ao nticleo. Formase, de fato, uma estrutura constitufda de fons positivos e de elétrons de nio-valéncia, ou seja, pertencentes as drbitas mais internas, os que sio mantidos ligados ao nicleo. Em outras palavras, os elétrons de valéncia podem eventualmente abandonar a érbita do dtomo do qual participam para se incorporarem ao dtomo vizinho. Pode, por assim dizer, haver uma troca de elétrons-valéncia: se um dtomo pode perder um ou mais elétrons- valéncia do seu sistema, ele pode igualmente receber um ou mais elétrons- valéncia dos dtomos vizinhos, ou ainda compartilhar elétrons-valéncia com esses étomos vizinhos. Assim, admite-se que na ligago metélica, 0 dtomo se acha constante- mente no estado de perder, adquirir ou compartilhar elétrons-valéncia com 0 dtomos vizinhos. A Figura 4 constitui uma representago esquemética do fendmeno: uma nuvem de elétron em constante movimento, na qual se acham imersos 0s fons, A alta mobilidade dos elétrons-valéncia explica as relativamente elevadas condutibilidades elétrica e térmica dos metais. 10 Tecnologia Meatnica ons Positivos Nuvern de elétrons Figura4 —Representago esquemética do fendmeno resultante da ligagdo metélica. Do conceito acima, surge a definigso mais cient/fica de metal: ‘elemento que prontamente perde elétrons, de modo a criar uma ligagdo metélica ¢ resultar condutibilidade elétrica”. 6 Materiais metélicos Os metais constituem o mais importante grupo de materiais de construgo, gragas as imimeras aplicagdes nos varios campos da engenharia, O seu crescente emprego e importancia deve-se principalmente ao con- tino conhecimento que se tem adquirido de suas propriedades e do seu comportamento, sob a ago das diversas condigies de servigo, assim como ao constante aperfeigoamento dos métodos de fabricago e tratamento e 20 progressivo desenvolvimento de novas ligas. metal mais empregado é ainda o ferro. Outros metais, contudo, como © aluminio, o cobre, o chumbo, o zinco, o estanho, 0 niquel e o magnésio e outros menos comuns — cromo, tungsténio, titanio etc. — sfo imprescindiveis em muitas aplicagdes, de modo que sua importancia é igualmente considerdvel. 6.1 Ocorréncia dos metais Alguns metais sfo encontrados no estado chamado nativo, ou seja, na forma praticamente pura. Exemplos: ouro, platina e, mais raramente, cobre, prata e mercttrio. Na maioria das vezes, contudo, os metais sio encontrados na forma combinada com outros elementos, constituindo os chamados “minerais”, 0s quais so essencialmente compostos quimicos, tais como 6xidos, hidré- xidos, sulfetos, carbonatos ete., aos quais se dio denominagOes determinadas como hematita, limonita, calcita, quartzo, feldspato, cassiterita, mica etc Esses minerais so encontrados na superficie da terra, até determinadas pro- fundidades, isoladamente, ou em conjunto com outros minerais. Chamam-se “minério” os minerais dos quais se podem extrair os metais. Os minérios, quando em quantidades suficientes para serem explorados Katrurura metdilea — Curwetertetieat gerata dow metatr uw economicamente, formam os “depésitos™ ou “Jozidas”, definidos, pols, come um mingrio ou uma mistura de minérios dos quais elementos motit- lleos podem ser extrafdos mecanicamente. 6.2.0 estado metélico A definigZo mais simples ¢ usual de metal 6 que considera esse elemento “uma substéncia quimica elementar opacn, lustrosa, boa condutora do calor e da eletricidade ¢ boa refletora da I quando convenientemente polida’(6), Os metais, na sua maioria, caracterl- zam-se também por apresentarem certo grau de ductilidade e plasticidade e serem mais pesados que outras substincias elementares. Os caracterfsticos de maleabilidade, opacidade e condutibilidade térmica ¢ elétrica so resultantes da ligacdo metélica, a qual, como jé se mencionou, permite a definigdo mais cientffica para metal(6): “elemento que prontamente perde elétrons de modo a criar uma ligagdo metalica e resultar condutibilidade elétrica”’. A ligagdo mais forte corresponde a metais de maior ponto de fusio ou de maior ponto de ebuligio. 7 Caracterfsticas gerais dos metais Sob o ponto de vista pritico, as propriedades que tém maior importancia na engenharia sio as mecénicas, ou seja, aquelas relacionadas com a resisténcia que os metais oferecem quando sujeitos a esforgos de natureza ‘mecénica, como trago, compressio, torgio, choque, cargas cfclicas etc., porque, com base na sua determinagao ¢ conhe- cimento, so projetadas, calculadas ¢ executadas as estruturas metalicas, fixas ou méveis e todos os componentes metdlicos utilizados na indiistria. Essas propriedades serdo exaustivamente estudadas nesta obra De grande importancia 6, igualmente, o estudo de certos caracteristicos fisicos e quimicos dos materiais, cujo conhecimento pode ser de grande utilidade para sua selegdo e utilizagao. Essas propriedades que sero vistas a seguir, so, em sua maioria, um caracteristico do cristal perfeito, ao paso que as propriedades mecinicas dependem geralmente das imperfeigdes que ocorrem nos metais. Em outras palavras: enquanto as propriedades mecénicasse relacionam com uma amostra particular do material, sendo somente idénticas em varias amostras do mesmo material quando as condigdes de fabricagdo ¢ trata- mento forem perfeitamente idénticas, os caracteristicos gerais, fisicos, quimicos etc., se telacionam diretamente com o material, ou seja, si0 essencialmente idénticos em diferentes amostras do material. ‘As propriedades mecdnicas sfo “sensiveis”, na sua maioria, 4 estrutura do material. Os caracteristicos gerais so “ndo-sensiveis” 4 estrutura. 2B Tecnologia Mectnica A Tabela 1'7) relaciona as propriedades sensiveis e ndo-sensiveis 4 estrutura, TABELA1 PROPRIEDADES SENSIVEIS E NAO-SENSIVEIS A ESTRUTURA Nio-sonsiveis a Propriedades ostrutura Sonsfveis a ostrutura - Densidade Mecéinicas Médulo de elasticidade \cia mecdinica Plasticidade Térmicas Dilatagdo térmica Cond (a alta temperatura) (especialmente a baixas ‘temperaturas) Ponto de fuséo Calor especifico Calor de fuséio Elétricas Resistividade Resistividade (a baixa (a alta temperatura) temperatura), em semicondutores ¢ metais Potencial eletro-quimico Magnéticas Propriedades Propriedades paramagnéticas © ferromagnéticas diamagnéticas Supercondutibitidade | Temperatura de Capacidade condutora transiggo de corrente 7A Densidade A sua definigio clissiea ¢ “peso por unidade de volume”. O valor reciproco é chamado “volume especifico”. A Tabela 2 mostra a densidade, além da temperatura de fusio, de alguns dos metais mais conhecidos.. Nas ligas metélicas, a densidade muda devido a alteragdes da massa média dos dtomos e do parémetro do reticulado. 9 < s a 3 < # DENSIDADE E TEMPERATURA DE FUSAO DE ALGUNS ELEMENTOS Simbolo Elemento irodnio Ponto de fusio oc Densidade 2 i ZBLES5OBSCSSSBBRGLIE g slog & Pars: 4 $ eile 28 g i. E/Ellceichalestistdook wl 885888 S88SEESZ Scio, § 5 4 2 5 i g § i 5 8 i 3 3 —E 2 3 a g 3 8 : 7 3 titanio, vanddio, definidas. Os valores apresentados na Tabela sfo valores médios. Alguns elementos como bi o 4 Tecnologla Meatnica 7.2 Propriedades térmicas A elevagio da temperatura dos metais aumenta a amplitude de vibragdo dos 4tomos. Como conseqiiéncia, ocorre uma expansfo térmica do reticulado cristalino, traduzida na prética, por uma mudanga de dimens6es. Essa alteragdo dimensional 6 expressa em termos de “coeficiente linear de dilatagdo térmica”, medido em em/cm/°C. A elevagdo da temperatura leva 4 fuso do metal, cuja “temperatura de fuso” (indicada para alguns elementos na Tabela 2*), expressa em graus Celsius, representa um ponto de transigo importante em relago ao aco- modamento dos dtomos na estrutura do material. Por outro lado, a “mudanga de volume” de um metal, em fungio da temperatura, produz conseqiléncias importantes em varias operagOes metalir- gicas como fundigdo, forjamento, soldagem, tratamento térmico etc. Alguns valores estdo representados na Tabela 38), onde se nota que alguns metais, como o silicio e o bismuto, contraem ao fundir. TABELA3 MUDANGAS DE VOLUME, NA FUSAO, DE ALGUNS METAIS Elemento | Mudancade volume, % Elemento | Mudanca de volume, % ui 1,65 Zn 4,20 Na 2,50 cd 4,70 K 2.55 Hg 3,70 Gs 2,60 Al 6,00 cu 4A5 si —12,00 Ag 3,80 Sn 280 Au 510 Pb 3,50 Ma 4,10 Bi ~3,35 Outras propriedades témicas so a “capacidade ou poder calorific” € © “calor especifico”. O poder calorifico expresso em calorias/g/°C ou kgeal/kg/°C, sendo a “caloria” (cal) a energia requerida para aimentar de ee Katrutura motdlioa - Curwctertattoas geratt dox metals ts 1°C a temporatura de 1 g de dgua!*), Assim, o poder calorifico é a quuntl- dade de calor necesséria para elevar da temperatura unitéria a massa unlrla de um material homogéneo. O “calor especifico” & definido como a reluydo entre a capacidade de armazenar calor do material e a da gua, ou soja, quantidade de calor necesséria para elevar a massa unitéria de um materlul de 1°C de temperatura para a quantidade de calor necesséria para elevar lo 1°C a mesma massa de égua. © calor especifico determina a quantidade de calor necessfria nos processos metaltirgicos, tais como fundigao e tratamento térmico. Esse fato pode ser expresso pela formula 4Q = CpdT, ou seja, 0 calor especifico Cp controla o aumento de temperatura dT produ- zido pela adigdo de uma certa quantidade de calor dQ, numa grama do material. Finalmente, outra propriedade térmica importante é a “condutibilidade térmica”, indicada por um coeficiente k, expressa por cal/s.cm.°C, que define i capacidade condutora do calor de uma substdncia e que depende ndo s6 da propria substincia como também do estado em que ela se encontra. 7.3 Propriedades elétricas e magnéticas As primeiras correspondem ao comportamento dos metais sob a agdo de uma corrente elétrica e a sua capacidade de transmitir energia elétrica. As propriedades magnéticas cor- respondem ao comportamento dos metais sob a aco de um campo eletro- magnético externo. Chama-se “condutibilidade elétrica” a capacidade do metal transmitir ou conduzir corrente elétrica. Sob esse ponto de vista, os materiais podem ser classificados em condutores, isolantes (ou diclétricos) e semicondutores. Os metais se caracterizam, principalmente, por pertencerem ao primeiro grupo. A condutibilidade elétrica é devida, como se viu, 4 mobilidade dos elétrons e a sua facilidade de movimentar-se. & medida em (ohm-m)7!. ("Em unidades inglesas, 0 poder calorifico é expresso por BTU/Ib/°F; 0 BTU eq vaie a 0,252 keal, 10 Tecnologla Meciniea A roctproca da condutibilidade elétrica € a “resistividade elétrica”, propriedade que se exprime em microhm-cm e se relaciona com a “resisténcia elétrica”, por intermédio da formula: R=plla onde, resisténcia em ohm resistividade em microhm-cm comprimento da amostra do material em cm R p 1 A = secgdo transversal da amostra em cm? A resisténcia ctesce, com 0 comprimento e decresce com a secgdo transversal. A resisténcia ainda aumenta linearmente com a temperatura até a tempe- ratura de fusdo do metal. A Tabela 4 apresenta a condutibilidade elétrica relativa e a resistividade absoluta de alguns metais'®), TABELA4 CONDUTIBILIDADE ELETRICA RELATIVA E RESISTIVIDADE DE ALGUNS METAIS Condutibitidade elétrica retativa Por unidade de érea | Por unidade dade alétrica Metal de secedo transversal de peso rmicrohm-cm Prata 108 2 1,468 Cobre 100 100 16 Aluminio 61 201 26 Magnésio 37 180 44 Zinco 28 35 58 Nique! zB 23 63 Ferro 18 2 88 Estanho 12 4 13,0 Chumbo 8 6 204 No caso das propriedades magnéticas, o campo eletromagnético externo 6 chamado de “fora magnetizante”, designado pela letra H e expresso em oersteds. A grandeza da forga magnética induzida, também indicada como “densidade do fluxo magnético”, é designada pela letra B e expressa em gauss. Katrutura metdiica - Curucterturtoas gerats dox metat uw Define-se “permeabilidade 2” como a habilidade de um material sor mngnetizado ou a habilidade de conduzir linhas magnéticas de forgu oi comparagio com o ar e 0 vacuo, cuja permeabilidade equivale a um, Em relag&o as propriedades magnéticas, os materiais podem ser clasuifl- cados em ferromagnéticos, que possuem alta permeabilidade, como o ferro €'0 cobalto; diamagnéticos, cuja permeabilidade é inferior a 1 (hum) e para- magnéticos, que possuem permeabilidade ligeiramente superior a 1 (hum). 7.4 Propriedades éticas Quando se dirige um feixe de ‘luz sobre a superficie de uma substincia s6lida (ou liquida), nota-se que certa fragdo R da intensidade de luz incidente ¢ refletida. Nos metais (e suas ligas) 0 valor de R 6 elevado, aproximando-se, em alguns casos, da unidade, quando, para vidro inorganico, por exemplo, seu valor é de aproximadamente 0,05. Chamando-se I, a intensidade de luz incidente, a intensidade de luz que penetra no material sera(10) G-®I, Dependendo do tipo de material, uma parte ou a totalidade dessa luz é absorvida por intermédio de interagdes eletrénicas, ao passar através do s6lido. Desse modo, verificase uma intensidade continuamente decrescente 4 medida que a luz atravessa 0 s6lido. ‘A mudanga fracional de intensidade de luz, expressa por at numa disténcia dx é diretamente proporcional ao “‘coeficiente de absorgao linear @” do material l/l = —adx. Integrando-se essa equacao, tem-se 1=1,0-R)e** de modo que a intensidade da luz que atinge a superficie traseira de um material de espessura 1 é 1, =R)e 2 ‘A “opacidade” e a elevada “refletibilidade” dos metais revelam que os valores de R (fragdo da intensidade de luz incidente) e « (coeficiente de absorgo linear) sfo altos. Atribui-se esse fato 4 aco da radiagdo incidente que, numa vasta faixa de freqiiéncias, promove ou estimula elétrons a ocupar Petals a 18 Tecnologia Mecdnica ‘xonas vazias de maior energia, sendo a seguir absorvidos. Em outras palavras, no momento em que os elétrons sao estimulados, eles decaem para niveis de energia inferiores e ocorre reemissao de luz da superficie do metal. A reflexio & a combinagio da absorgiio e reemissdo. ‘As cores que 0s metais apresentam quando submetidos a ago da luz branca dependem da freqiiéncia ou do comprimento de onda da luz. incidente ¢ da refletibilidade. Por exemplo, a prata apresenta cor branca devido 2 alta refletibilidade ao longo de toda a regidio visfvel; j4 0 cobre ¢ 0 ouro absorvem, de preferéncia comprimentos de onda mais curtos, com uma refletibilidade mais baixa e apresentam coloraco avermelhada e amarelada respectivamente. 7.5 Propriedades quimicas _Relacionam-se com a resisténcia que 0s metais oferecem ao ataque pelo meio ambiente (corrosao) ou pelo efeito da temperatura (oxidagdo). As “resisténcia 4 corrosio” ¢ “resisténcia & oxi- dagio” sio, portanto, caracteristicas de grande importéncia, em vista da in- fluéncia que 0 meio circunvizinho (gasoso, liquido ou mesmo s6lido) e que a temperatura exercem sobre 0 metal, provocando diversos tipos de ataque corrosivo e oxidante, muitos dos quais sfio de cardter irregular e de determinagaio relativamente dificil. De fato, a reagdio dos meios corrosivos sobre os materiais pode ser afetada por muitas variiveis, como por exemplo, a verdadeira natureza quimica ¢ concentracao do meio corrosivo, o grau de exposicao (total ou parcial e constante ou cfclico), tempo de exposic&io, temperatura etc. Normalmente, a corrosio € medida em mm ou cm de superficie que se perde anualmente. Pode-se medir igualmente em gramas de peso perdido anualmente. © comportamento dos metais a elevadas temperaturas exige igualmente uma avaliagio cuidadosa, em face das condigdes extremamente criticas, em relagio & temperatura, a que muitos metais esto sujeitos, influindo na sua capacidade de resistir as cargas a que estao_submetidos. A necessidade de utilizar-se metais em condigdes de ambiente agressivo a temperaturas acima do ambiente levaram ao desenvolvimento de ligas especiais, resistentes & corrosio e ao calor, além do emprego de tratamentos superficiais que permitem aumentar sua resisténcia & corrosdo © & oxidagao. CAPITULO 11 --——--—-—--——---—- ESTRUTURA CRISTALINA DOS METAIS 1. Sistemas e reticulados cristalinos Qs metais, ao se solidificarem, “cris- talizam”, ou seja, os seus dtomos que, no estado Iiquido, estavam’ se movi- mefitando e distribuidos a esmo, localizam-se em posigbes relativamente definidas e ordenadas, que se |repetem em trés dimens6es, formando, uma figura geométrica regular que é 0 “cristal”. A Existem sete sistemas cristalino: hexagonal, trigonal, tetragonal e ciibico, iclinico, monoclinico, ortorémbico, De acordo com a disposiggo dos dtomos, originam-se desses sistemas 14 possiveis distribuiges dos referidos dtomos, formando os chamados “reticulados” (retfculos ou redes), designados com o nome de “reticulados Bravais”. Esses 14 reticulados esto representados na Figura 5!"), Cada cristal constitu{do por apenas um determinado grupo de dtomos é cllamado “célula unitdria’” ou “célula cristalina unitéria”. O modelo de cristalizagao pode ser melhor compreendido ao verificar-se ‘© que acontece quando um metal solidifica no interior de um recipiente (Figura 6). As principais células unitérias que se formam, em pontos diferen- tes, crescem geralmente pela absorgfo de outras, até se encontrarem for- mando um contomo irregular que delimita uma drea onde est¥o compreendi- das milhares daquelas pequenas células. 19 —_— 20 Tecnologia Mecdnica in IMPLES, MONOCLINICO DE BASE TRICLINICO MONOCLINICO Si CLINIC DE tif : RTOROMBICO DE ORTOROMBICO DE ORTOROMBICO DE ORR! GAGCENTRADA. “FACECENTRADA CORPO CENTRADO | ROMBOEDRICO TRAGONAL TETRAGONAL DE ee TEUIMBLES CORPO CENTRADO cUBICO DE CORPO cUBICO DE FACE COBICO SIMPLES CENTRADO CENTRADA Figura S Reticulados cristalinos Bravais. Metrutura crlatalina dos metate at bee Vigura 6 — Representagdo esquemdtica do processo de solidificapdo (cristalizagdo) de um metal. Um conjunto de células unitarias forma 0 “cristal” com contornos geo- métricos, o qual, ao adquirir os contornos irregulares pelo seu crescimento e devido aos_pontos.de contato de cada conjunto, passa a chamar-se “gro” Esses_griios so, ligados entre si por uma pelicula que geralmente no se considera mais cristalina, como se verd mais adiante (Figura 7). Figura 7 Representagdo esquemética da estrutura cristalina (granular) dos metais. 22 Tecnologia Meotnica Em resumo, cada grao € constituido por milhares de células unitérias: estas, por sua vez, consistem em grupos de dtomos que se dispuseram em posigdes fixas, formando figuras geométricas tfpicas. Essas disposig6es fixas dio, pois, origem aos “reticulados” ou “reticulos”, como a Figura 5 indicou. Os principais reticulados cristalinos, segundo os quais cerca de dois tergos dos metais cristalizam, esto indicados na Figura 8. CUBICO DE FACE v ITRADO CUBIC CEN CENTRADA HEXAGONAL COMPACTO Figura 8 Representagdo esquematica dos principais reticulados cristalinos. ” Netrutura crimatina dos metate = at ‘Sao clos: reticulado cibico centrado, em que os étomos se disp6em nos vértlcex © no centro de um cubo, Os metais que cristalizam nessa forma su: ferro a temperatura ambiente (forma alotrépica alfa), cromo, Iillo, molibdénio, tantalo, tungsténio e vanddio, entre outros; reticulado citbico de face centrada, em que os dtomos se dispdem nox vértices e nos centros das faces de um cubo. E 0 caso do ferro acini de 912°C (forma alotrépica gama), aluminio, cobre, chumbo, niquel, prata, entre outros; ~ reticulado hexagonal compacto, em que os étomos se localizam em cada vértice © no centro das bases de um prisma hexagonal, além de trés outros dtomos que se localizam nos centros de trés prismas triangulares compactos alternados. Os metais cujo reticulado ¢ o descrito so, entre outros, 0 zinco, 0 magnésio, 0 cobalto, 0 cadmio e 0 berilio.¢ 1.1 Alotropia “‘Alotropia” ou “polimorfismo” € a propriedade que certos metais, como o ferro, apresentam de possuirem reticulados cristalinos diferentes, conforme a temperatura. No caso do ferro, por exemplo, aque- cendose esse metal a cetca de 912°C, o reticulado cibico centrado (CC) passa a reticulado citbico de face centrada (CFC), A primeira forma alo- trépica que ocorre na faixa de temperaturas ambiente até 912°C € designada por “alfa” e a segunda forma, que ocorre acimade 912°C, é chamada “gama”. Essa mudanga alotrdpica 6 reversivel. A alotropia do ferro é muito importante sob o ponto de vista prético, porque a forma alotropica gama pode dissolver carbono até uma porcentagem de aproximadamente 2%, a0 passo que a forma alfa dissolve apenas uma quantidade minima de carbono, da ordem de 0,02% (a 727°C), Esse fato tem grande significado no tratamento térmico dos agos. Além do ferro, outros elementos metélicos podem apresentar formas alotrépicas diferentes. A Tabela 52) indica a alotropia de alguns metais, incluindo o ferro, as estruturas cristalinas e as temperaturas de transformagao correspondentes. As transformagGes alotrépicas que ocorrem com temperaturas crescentes sfo acompanhadas de absorgo de calor e as que ocorrem com temperaturas decrescentes, por desprendimento de calor. Verificamsse, igualmente, durante a transformagdo alotrépica, mudangas no volume especifico, as quais podem ser positivas ou negativas, no aqueci- mento ow no resfriamento. As mudangas de volume, na maioria dos casos, s0 da ordem de 1% ou menos. ee annnnitnl 4 ‘Tacnologla Mectntca TABELAS FORMAS ALOTROPICAS DE ALGUNS METAIS Metal Forma alotropica a Forma alotropica a temperatura ambiente outras temperaturas Ca CFC ec (> 447°C) Co He cre (> 427°C) Hf HC cc (> 1742°C) Fe cc CFC (912°— 1394°C) cc (> 1394°0) ui cc HC (< — 193°C) Na cc He (<— 233°C) Tl He cc (> 234°C) Ti HC cc (> 883°C) zr HC ec (>872°C) CFC = cibico de face centrada HC = hexagonal compacto CC = aiibico centrado 2 Parametro do reticulado Corresponde as dimensdes da célula unitéria. No reticulado cibico, por exemplo, o pardmetro é representado pelo com- primento da aresta da célula unitéria cibica, o que significa que, nesses reticulados, hd somente um parimetro de reticulado. ‘Ao contrério, os metais que cristalizam com outros reticulados apresen- tam mais de um pardmetro. Os resultados da medida dos pardmetros de reticulado sio expressos ‘em angstrons (1 A = 10~ *cm) e valores tfpicos de parametros de reticulados sdo os seguintes: Al — 4,04. Mo — 314A Fe alfa — 2,9 A Fe gama — 3,6A Em relagdo ao ferro, nota-se que, embora o ferro gama apresente uma aresta mais longa (3,6 A) do que o ferro alfa (2,9 A), a estrutura do ferro gama é mais densa do que a do ferro alfa. De fato, 0 ntimero de dtomos diferente em ambos os reticulados como se pode observar a seguir: oT. Hatrutura ortstalina dos metais as Fe alla — cubo centrado - 1 dtomo no centro mais 8 x (1/8) Atomos nos vértices = 2 dtomos Fe gama — cubo de face centrada —8 x (1/8) 4tomos nos vértt- ces mais 6 x (1/2) dtomos nas faces = 4 dtomos'"), Como os volumes desses reticulados so expressos por Fealfa = (2,9)? Fe gama = (3,6)° 24,4 03 46,743 © ferro alfa possui 24,4/2 = 12,2 A? por étomo ao passo que o ferro gama possui 46,7/4 = 11,7 A? por dtomo. 3. Planos cristalogréficos, diregdes cristalogréficas. Indices de Miller Um cristal contém “planos” de dtomos que constituem os “planos cristalogréfi- cos” e que exercem uma grande influéncia nas propriedades dos metais. Figura 9 Representagdo esquemética do sistema de eixos perpendiculares que permi- tem especificar os planos e as diregdes cristalogréficas. () No cubo centrado, cada dtomo do vértice é comum a oito cubos; no cubo de face centrada, cada dtomo do centro da face é comum a dois cubos. 20 Tecnologia Meotnica Os planos cristalogrificos mais faceis de identificar so os que constituem a célula unitéria. Hé, contudo, outros planos. A identificagao desses planos feita admitindo-se arbitrariamente, na célula unitéria cristalina, trés eixos perpendiculares entre si, como mostra a Figura 9, de modo que a orientagdo desses planos possa ser designada por um conjunto de trés mimeros, chama- dos “indices de Miller”, representados por (hkl). Em outras palavras, os indices de Miller especificam os planos cristalo- graficos em termos de comprimento de suas intersecgdes com 0s trés eixos, a partir da origem F. Por exemplo: — plano ABCD é paralelo aos eixos X e Ze intercepta o eixo Ya uma dis- tancia interatémica; os indices de Miller desse plano sto indicados por ‘A sua representagio é a seguinte: (hkl) = (010) — plano EBCF intercepta os eixos ¥ ¢ Z e pode ser considerado a uma distancia interatomica ao do eixo X!"). Logo, seu indice de Miller sera a T = ou 1, 0, 0 ou (hkl) = (100) (*) Podese, para isso, deslocar a origem do eixo de coordenadas, a uma disténcia ‘Ag, a0 longo do eixo X, do ponto F ao ponto G. Ketrutura orittalina dox metals ” Com o mesmo raciocfnlo tem-se para os plunos EHGE, HAGD, ABI © FGDC os soguintes (ndices de Miller, respectivamente: (hkl) ~ (O10); (hkl) = (100); (hkl) = (110) e (hkl) = (110). Os {ndices de Miller especificam nfo apenas um Gnico plano, mas todo © conjunto de planos paralelos. As Figuras 10, 11 ¢ 12''9) mostram os mais importantes planos cristalo- grificos dos cristais cibicos, Chibico de face centrada Figura 10. Planos cristalogrificos (010) em estruturas ctibicas. chibico eentrado chibico de face contrada Figura 11 Planos cristalogréficos (110) em estruturas ctibicas. 2 Tecnologia Mectnica cbico de face centrada Figura 12. Planos eristalogréficos (111) em estruturas ctibicas. ‘A “directo cristalogréfica” € dada pelo raio que parte da origem e passa através de um ponto a uma distincia unitéria da célula, em cada uma das trés diregdes axiais. [As direg6es so representadas por mimeros entre chaves e expressas da seguinte maneira: [uvw]. O procedimento indicado para especificar essas diregdes é 0 seguinte!"4) — tome-se a diregao FD, por exemplo, na Figura 9. Os indices sao obtidos, movendose, a partir da origem, uma distancia a, a0 longo do eixo X e movendo-se uma disténcia idéntica na diregfo positiva do eixo Y. Os ee Hutrutura oristalina dox metais aw {ndices dessa diego sfo: [uw] = [110]. Essa directo corresponde a dlregffo da diagonal da face inferior do cubos - diregfo FA — corresponde 4 diregdo da diagonal central do cubo, (On indices sio obtidos movendo-se, a partir da origem, a uma distdnula interatémica, em diregao ao dtomo situado na mesma distancia dow (16x eixos. Seu indice sera: {uvw] = [111]; — dirego FH, correspondent a uma das faces laterais do cubo. Seu indice 6 obtido, movendo-se, a partir da origem ao dtomo situado na mesma distancia em relagGo aos eixos Xe Z. Seu indice é: {uvw] = [101]; — diregdo FG, correspondente a uma das arestas do cubo. Seu indice é obtido movendo-se em diregdo ao dtomo situado 4 mesma distincia em relagdo aos eixos Y e Z, Corresponde a [uw] = {100}. A importéncia do estudo dos planos cristalogréficos dos metais est relacionada com a maior ou menor capacidade de deformagio destes ou com sua plasticidade. Esse fato pode ser melhor explicado da seguinte maneira: — nos cristais hd planos de maior densidade atémica, ou seja, que contém maior mimero de tomos. Veja-se, por exemplo, os reticulados ciibico de face centrada (CFC) e cibico centrado (CC) (Figura 8). © cristal cibico de face centrada possui planos contendo seis ¢ cinco Atomos, 20 paso que 0 cébico centrado possui planos contendo cinco ou quatro étomos. Assim, 0 primeiro possui um maior ntimero de planos de maior densidade at6mica. Essa é a primeira consideragdo. A segunda consideragdo esté relacionada com o fato de que a deformagio dos cristais se dé segundo planos paralelos aos planos de maior densidade atémica; esses planos, a0 longo dos quais ocorre a deformago cristalina, s40 chamados “planos de escorregamento”. Desse modo, os cristais que possuem um maior ntmero de planos de maior densidade atémica so os que possuem um grande mimero de planos de escorregamento. Jo Tecnologia Mecdntca A teroeira consideragio diz respeito ao fato de que os planos de maior densidade atémica so igualmente os mais espacados do reticulado. Basta Iembrar, no caso dos reticulados CFC e CC, que os comprimentos das arestas so diferentes: a aresta do primeiro é maior (3,6 A) que a do segundo (2,9 A). Esse maior espagamento pode ser traduzido por uma menor resisténcia a0 escorregamento desses planos em relaco a quaisquer outros. Em conse- qiéncia, os metais que possuem reticulados céibicos de face centrada (CFC), como aluminio, cobre, chumbo, prata e ferro na forma alotrépica gama so mais faceis de deformar que os metais com reticulado ciibico centrado (CC), ‘como cromo, molibdénio, tungsténio, ferro a temperatura ambiente (forma alotrépica alfa) ete. ‘A deformabilidade ou plasticidade dos metais é ainda influenciada pelos chamados “‘defeitos” ou “imperfeighes cristalinas”. 4 Imperfeigdes ou defeitos cristalinos As consideragSes até agora feitas foram baseadas na existéncia de um cristal perfeito, ou seja, numa célula unitéria ou conjunto de células em que os étomos se dispoem regularmente, de acordo com os modelos estudados. Muitas propriedades como densidade, ponto de fusio etc, so estimadas ‘ou previstas na base da definicao de um “cristal ideal”, sem defeitos ou imperfeigoes. Outras propriedades, contudo, sobretudo as que mais interessam sob © ponto de vista de aplicagdo dos metais, como as propriedades mecanicas, desviam-se apreciavelmente das que se poderiam prever na base de um cristal perfeito. £ comum, por exemplo, a presenga de étomos que provocam impurezas, © que constitui, de certo modo, uma imperfeigao cristalina, embora seja comum adicionarse propositadamente dtomos impuros para modificar as propriedades do metal. [As imperfeig6es cristalinas so, em principio, de dois tipos: “imperfeigoes de ponto” e “imperfeigdes de linha”. 4.1 Imperfeigdes de ponto Correspondem 4 falta de um ou mais éto- mos ou presenga de dtomos extras ou ao deslocamento de étomos. ‘A mais simples é a “lacuna”, a qual se origina quando falta um étomo no reticulado normal. Se faltarem dois atomos, 0 defeito chamar-se-4 “bi- lacuna”, Mais dtomos podem estar ausentes, A origem dessas imperfeigdes pode ser atribufda quer a um empacotamento defeituoso durante o proceso original de cristalizagio, quer a vibrag6es térmicas dos étomos a temperatu- ras elevadas''5), As lacunas podem mover-se, trocando de posigfo com os 4tomos vizinhos, Essa movimentagdo fornece um meio para os dtomos mi Ketrutara ertatatina dow metate a grarem ou difundirse no estado sélido a tomperaturas elevadas, 0 que tn vorece 0 mecanismo de difusto, tdo importante em determinados procemon metaldrgicos. Outro defeito de ponto é a “intersticialidade”, que se caracterizu poln ocupagfo por um dtomo de uma posigdo intersticial, dentro do reticuludo cristalino, Se o dtomo, por assim dizer intruso, for menor que os dtomon restantes do reticulado, o efeito da imperfeigéo é pequeno; caso contrirla, haveré uma distorgdo atémica. A Figura 13 representa os principais defeitos de ponto. 20000 00000 o0000 00000 68888 CC o9ag00 oe@000 oo0o0°0 o000°0 (88) (29/3) 3. oe o0000 o0000 Figura 13 Imperfei¢des de ponto: (a) lacuna; (b) intersticialidade; (c) étomo impuro. Quando os defeitos de ponto envolvem lacunas de pares de fons, eles so chamados “imperfeigdes Schottky”, comuns em muitos cristais de natureza i6nica. Outio defeito de ponto é a “imperfeigéo Frenkel” que envolve o des- Jocamento de um ion do reticulado para uma posigao intersticial' 15), 4.2 Imperfeigdes de linha A mais importante 6 a “discordancia”, por- que se atribui a esse defeito a principal responsabilidade pelo fendmeno de escorregamento, segundo 0 qual a maioria dos metais se deforma plastica- mente ou de modo permanente. __ Gileulos te6ricos indicam que para se deformar permanentemente um cristal perfeito, o esforgo cortante ou de cisalhamento necessdrio é muito grande, A Figura 14 representa esquematicamente o processo de deformagao permanente de um cristal perfeito. A parte (a) da figura mostra a posigfo inicial, antes da aplicagio do esforgo de deformagio e 0 deslocamento resultante de um plano at6mico do cristal de uma distincia interatémica pela aplicagdo do esforgo de cisalhamento. 32 Tecnologia Mectnica Figura 14 Proceso de deformagdo permanente num cristal perfeito. ‘A parte (b) da figura mostra o resultado do esforgo de deformagao. Como a pritica demonstrou que o esforgo necessirio para produzir esse deslocamento de planos atdmicos em relagfo a planos vizinhos ¢ muito menor que 0 previsto pelos cdlculos tedricos, deve-se admitir a presenga de uma imperfeigao. Essa imperfeigdo corresponde a um plano extra de dtomos no interior da estrutura cristalina e é chamada “discordéncia de aresta”” ou “plana” ¢ estd representada esquematicamente na Figura 15, onde se nota a presenga de uma aresta de um plano extra de dtomos, donde a denominacao “dis cordéncia de aresta”. Katrutura ertetalina dox metale a Na figura, o plano do papel corresponde ao plano (100) do um reticuludo cbico; a aresta do plano extra de Aomos é indicada, na figura, pela llnha OC. A aresta indica que 0 plano extra de étomos termina no interlor do crlatal, em vez de atravessé-lo totalmente. A discordancia de aresta ¢ acompanhada por zonas de compresstto 6 ile tensflo, 0 que resulta em aumento de energia a0 longo da discorddncl Submetendose o cristal da Figura 15 a um esforgo de cisalhamento suficientemente elevado e perpendicular a discordincia, esta se move como mostra a Figura 16, ocasionando uma deformago permanente. {orga de clsslhamento — . a = — a = Pers sees? oe amen a Erte wr siaso - domed LY » . (o Figura 16 Deformagdo permanente que resulta do movimento de uma discordancia de aresta. Em (a) da figura, mostra-se 0 arranjo atémico nas vizinhangas da dis- cordancia de aresta, antes de se aplicar 0 esforgo; em (b), indica-se 0 arranjo atémico, depois de aplicado 0 esforgo que provocou o movimento da dis- cordancia de uma distancia interatémica; em (c) est4 indicado 0 aspecto do cristal, durante e aps a aplicagao do esforgo de deformagao. Verse, pois, que a aplicaggo do esforgo de cisalhamento ocasionou o movimento da discordancia de aresta; a continua aplicagdo do esforgo provoca deslocamentos sucessivos, de modo que se a discordancia se movi- mentar através de um cristal inteiro, a metade superior do cristal serd des- Jocada de um espacamento atémico, como mostra a parte (c) da Figura 16. Costuma-se dizer, nesse caso, que o deslocamento foi correspondente a um “vetor de escorregamento”, também chamado ‘‘vetor Burgers b”, 0 qual define a quantidade e a diregdo do deslocamento verificado!'4), 4 ‘Tecnologia Mectnica Na discordéncia de aresta, a grandeza do vetor Burgers corresponde a0 espagamento at6mico. O vetor Burgers, no deslocamento de aresta, ¢ sempre perpendicular A linha de discordancia Normalmente, os metais apresentam ambos os tipos de imperfeigdes: de ponto e de aresta, os quais interagem entre si. Nas vizinhangas de uma discordéncia de aresta, os étomos ficam compri- midos acima da linha ou plano dedeslocamento e, abaixo desse plano, ficam mais separados. Essas regides do cristal se caracterizam, pois, por estarem sob compressio ou sob tensio, como ja foi mencionado. Nessas condigdes, Atomos intersticiais de maior didmetro que os étomos de reticulado normal tendem a segregar-se na regio sob tensfo, onde ha mais espago para a sua localizago. Do mesmo modo atuam os étomos substitucionais, porque os interst{cios na regio de tensio sdo maiores. Contudo, dtomos substitucio- nais menores tendem a segregar na regifio sob compressio. De qualquer modo, a interago dessa impureza resulta numa maior difi- culdade de se movimentar uma discordéncia, o que significa que para deformar um metal impuro (ou liga metilica) sfo necessirios maiores esforgos de cisalhamento. ‘A Figura 17!) elucida melhor a produg#o de uma discordancia de aresta devida ao escorregamento em um teticulado cibico simples. O escorregamento ocorreu sobre a area ABCD. A discordancia de aresta AD é perpendicular a diregGo de escortegamento. Figura 17 Representagdo esquemdtica da discordancia produzida por escorregamento num reticulado cibico simples. Hatrutura oittalina dox metate as © segundo tipo bisico de discordfincla 6 a “discordéncla om osplru ou “em hélice”, representada esquematicamente na Figura 18!74), para um teticulado ebico simples. Figura 18 Representagdo esquemdtica da discordéncia em hélice produzida por escorre- gamento num reticulado ciibico simples. Nota-se que a linha de discordancia AD é paralela a dirego de escor- regamento, ao contrdrio do que ocorre na discordancia de aresta Como resultado, a parte superior do cristal, A direita da linha AD, move-se em relagdo a parte inferior, na diregdo do vetor de escorregamento. A esquerda da linha AD no ocorreu qualquer escorregamento. Esse tipo de imperfeigio ¢ melhor compreendido, se, na Figura 18, tragar-se um circuito ao redor da linha de discordéncia, na face frontal do cristal, Partindo do ponto X e completando o circuito, chega-se ao ponto X’, situado a um plano at6mico atrés daquele que contém X. Ao completar esse circuito, tragouse o curso de uma espiral. Cada vez que se completa um circuito em redor da linha de discordéncia, um novo curso em espiral é tracado; desse modo, os planos atémicos ficam disposto em redor da discordancia na forma de uma rampa em espiral ou de um parafuso. 46 ‘Tecnologia Mecdnica A denominagao “em hélice” deve-se também a essa disposigao, A Figura 19'78) constitui outra representagdo da discordéncia em espiral, com o percurso do vetor Burgers indicando que o movimento de deslizamento ocasiona a formagao de uma tampa em espiral ou em hélice. Figura 19 Vetor Burgers para uma discordéncia em hélice num reticulado ctibico simples. Finalmente a Figura 2015) mostra a formagio da discordincia pelo cisalhamento. A parte (a) da figura corresponde a discordancia de aresta; a parte (b), 4 discordancia em espiral e a parte (c) indica o circuito completo com as componentes de “aresta” e “‘em espiral”, ou seja, 0 cisalhamento resultante da agdo conjunta dos dois tipos de discordancia. 4.3 Outras imperfeigdes cristalinas Além das imperfeigoes vistas e que ocorrem no interior do reticulado, outros tipos de defeitos devem ser considerados. Ketrutura eristalina dos metats Figura 20 Representagdo esquemdtica da formagdo de uma discordincia por cisalha- Thamento. Figura 21 Representagdo esquemética do defeito de superficie. we Tecnologla Mectnica Esses defeitos estdo relacionados com as superficies externas dos cristais ou com os cristais adjacentes, ou seja, com os contornos de grao. A Figura 21 constitui uma representagdo esquemdtica do chamado “defeito de superficie”, relacionado com os étomos da superficie, os quais nao se encontram totalmente cercados por outros 4tomos, como acontece no interior do reticulado. Em outras palavras, esses dtomos possuem vizinhos somente de um lado, por isso eles apresentam maior energia que 0s dtomos interiores. Outro defeito ou imperfeig#o se relaciona com o “contorno de gro”. Esse contomo 6 caracterizado por ser uma zona de transi¢o, em que os étomos nao pertencem claramente a gro algum, ao contrério do que ocorre no interior do grio, onde os dtomos estdo perfeitamente acomo- dados, de acordo com o reticulado cristalino correspondente. Ao longo do contorno de gro nao existe, portanto, um empacotamento atémico perfeito. Essa zona de transigdo € caracterizada por possuir uma energia maior que a que existe no interior dos grios, fato esse que explica a maior rapidez de ataque do contorno de gro, quando o metal é submetido 4 ago de um reagente quimico, para observagdo da estrutura, pois os étomos da zona de transigfo ou do contorno do grao se dissolverfio mais rapidamente que os outros. O resultado é o aparecimento de uma linha perfeitamente visivel a0 microscépio. O contorno de grado interfere na progressio dos movimentos das discordancias. CAPITULO Il — PLASTICIDADE DOS METAIS. 1 Introdugdo Os materiais, quando submetidos a um esforgo de natureza mecanica, tendem a deformar-se. Conforme sua natureza, 0 seu comporta- mento, durante a deformagfo, varia. Assim é que alguns apresentam uma deformagao eldstica até ocorrer.a sua ruptura. Exemplos: materiais plisticos do tipo elastomeros. Outros, como os metais e os polimeros termoplisticos, podem softer uma considerdvel deformago permanente antes da ruptura. Essa deformag&o permanente é precedida pela deformagio elistica. Os metais assim se comportam devido a sua natureza cristalina que caracterizada, como se vit, pela presenga de planos de escorregamento ou de menor resisténcia mecdnica no interior do seu reticulado. Esse caracteristico de “deformabilidade permanente” ¢ muito impor- tante na pratica, pois permite a realizag4o da “conformagdo mecinica”, ou soja, das operagdes mecinico-metalirgicas muito empregadas na fabricagao de pegas metdlicas, A capacidade dos metais poderem ser deformados de modo permanente 6 definida como “plasticidade”. 2 Deformagio eléstica No caso da “deformagio elistica”, representada esquematicamente numa célula unitéria na Figura 22, esta muda de dimen- s6es, alongando-se, se o esforgo for de tragdo, ou comprimindo-se, se 0 esforgo for de compressdo. 39 0 Tecnologia Mecinica Sem detormacdo | Deformacao Deformagio por trago por compressio, Figura 22. Representagdo esquemética da deformacao eléstica. Cessados 0s esforgos, a célula volta a forma e dimensoes originais. Dentro dessa chamada “fase elistica”, a deformagdo € proporcional 4 tensGo correspondente ao esforco aplicado; a relagdo entre a tensio e a defor- magdo € chamada “médulo de elasticidade” (médulo de Young) que é um caracteristico t{pico de cada metal e que, como se viu, é uma propriedade “ndo-sensivel & estrutura”. O médulo de elasticidade ¢ tanto maior quanto maior a forga de atragZo entre os atomos. A Tabela 6 indica os médulos de elasticidade de alguns metais, os quais dependem da diregdo cristalina. TABELA6 MODULO DE ELASTICIDADE DE ALGUNS METAIS Modulo de etasticidade, kfg/mm? (MPa) Metal Maximo Minimo Médio Aluminio 7.700 (75.500) 6.300 (61.800) 7.000 (68.600) Ouro 11,200 (109.800) 4,200 (41.200) 8.400 (82.400) Cobre 19,600 (192.200) 7,000 (68.600) 11.200 (110,000) Ferro (CC) 28.700 (281.400) 12.600 (123.600) 21.000 (206.000) Tungsténio 39.900 (391.200) iL 39,900 (391.200) 39,900 (391.200) —— Plasticidade dos metals a“ Por oxemplo, no caso do ferto etbleo centrado, o valor méxima no vorifica na diregto [111] e o minimo na dirego [100]. Esse fato 6 multo importante quando se considera que os metais sfo materiais policristalinon, ‘© que pode ser melhor demonstrado pela Figura 23!17). a) g 2 tb) Figura 23 Representago esquemdtica da variacdo das tensdes elisticas com a direcdo ou orientagao dos grdos. a Tecnologia Mecdnica (Os grdos, como mostra a figura, so orientados a esmo, de modo que cada um deles apresenta um médulo de elasticidade diferente e o médulo de elasticidade médio (a esmo) € 0 indicado pela linha tracejada da parte (b) da figura. ‘A figura anterior, 22, permite ainda definir uma outra relagdo — 0 “médulo de Poisson” — que é a relagdo negativa entre a deformagao lateral, indicada por E,, devida A compressfo e a deformagao longitudinal, repre- sentada por E,, devida a tragdo: Ey yor® Ey Finalmente, é comum nas aplicagdes prdticas dos metais ocorrerem esforgos de cisalhamento, ou seja, esforgos que tendem a deslocar um plano de dtomos em relagdo ao plano adjacente, como estd indicado na Figura 24(17), 38888 Le (a) tb) Figura 24 Representagdo esquemética da deformagéo eléstica por cisalhamento: (a) sem deformagao; (b) deformagdo por cisalhamento. ‘A “deformagio eléstica por cisalhamento” & definida pela expresso y = taga onde @ é 0 dngulo de cisalhamento. Define-se ainda “‘médulo de cisalhamento” ou “médulo de rigidez” pela expresso get 7 onde v é a tensio de cisalhamento e y é a deformagdo elistica por cisalhamento. Plurtteidade dos mataty a 3° Doformagto plastica Ultrapassuda w fuse elfstica ou o “limite obfstten" do muterial sob doformagio, este deformase permanentemente, dentro dit chanuda “fase pléstica”. Um dos significados priticos da deformagfo plastica jé foi visto, ou xojn, possibilidade do material ser submetido, no estado sdlido, a operages de con- formagdo mec4nica (laminagdo, forjamento, estampagem, estiramento etc,), Outro significado estd relacionado com o comportamento dos motuln, quando empregados em estruturas fixas ou méveis, que, ao ficarem sujeltox aos esforgos mecanicos normalmente presentes nessas estruturas quando em. servigo (tragiio, torgfo etc.), nfo devem deformar-se em cardter permanento, A deformagdo plistica dos metais efetivase por intermédio de doly processos fundamentais: — deformaga6 por escorregamento ~ deformagao por maclagao. 3.1 Deformagio por escorregamento A deformagio por escorrega- mento resulta de esforgos de cisalhamento. O “‘cisalhamento” 6 um tipo de tensGo resultante de esforgos de tragio ou compressio, como a Figura 25 mostra claramente. ttt RO Figura 25 Componentes de cisalhamento resultantes de esforcos de tragao e compressio. “ ‘Tecnologia Mectnica escorregamento resultante dessas tensOes de cisalhamento ocorre pelo deslizamento de blocos de cristal, uns sobre outros, ao longo de planos orlstalinos definidos, chamados “planos de escorregamento”, numa diregdo arlstalogréfica, chamada “‘diregio de escorregamento”. A combinagio de um plano de escorregamento e de uma diregdo de escorregamento compoe ‘0 chamado “sistema de escorregamento”. ‘A maioria dos metais apresenta um nimero elevado de sistemas de excorregamento, geralmente igual ou superior a doze. Por exemplo, os metais coin teticulado cibico de face centrada, como aluminio, niquel, cobre, ferro gama, possuem doze sistemas de escorregamento, porque neles hd quatro planos de alta densidade atOmica, cada um dos quais contém trés diregdes do alta densidade at6mica. Embora alguns reticulados cibicos centrados possam apresentar maior nimero de sistemas de escorregamento, estes no compreendem planos com densidade atémica tao elevada, de modo que os metais com esses reticulados exigem maior esforgo de deformagdo para softerem escorregamento. O escorregamento em cristais simples esté a na Figura 26'18), ‘4 0 4 e Figura 26 Representagio esquemitioa do fendmeno de escorregamento em cristais sim ples Essa figura mostra o fenémeno de deformagao num cristal simples ao aplicarse um esforgo de tragdo. A parte (a) da figura representa o cristal antes da deformacdo, com a indicagao dos planos de escorregamento, orien- tados segundo o angulo Xo. A parte (b) representa a deformagio livre, ou soja, sem que as extremidades do cristal estejam presas: verifica-se 0 movi- mento de segmentos do cristal, um em relagdo ao outro, sem rotagao do plano de escorregamento. A parte (c) da figura, com as extremidades presas, indica que ocorreu rotagao do plano de escorregamento, com x, menor que Xo- Phattoidacte dox metaie 4s Essa soqiéncia de figuras mostra, em resumo, o seguinte: ao ser upll- cudo um osforgo de tragHo, os planos deslizam um eri relagfo ao outro, sem. mudar sua orlentagHo relativamente ao eixo axial, correspondente a upll- cagfo da carga. Poder-se-ia comparar o fendmeno ao que ocorre quando se manuseia um baralho de cartas. Esse movimento dos planos cristalogni- floos no sentido lateral ¢, contudo, impedido pelas garras que seguram 0 cristal, como se este fosse uma amostra submetida a um ensaio de tragfo, lo modo que os planos de escorregamento so obrigados a girar em torno do eixo axial. Andlises por intermédio de difragdo de raio-X mostraram que, de fato, os planos cristalinos sofrem uma rotagfo na faixa mediana da amostra, sofrendo por sua vez, rotagZo e dobramento nas vizinhancas das extremidades. Cada um dos segmentos individuais mostrados na figura é chamado “pacote de escorregamento”, o qual pode apresentar espessuras de 107° a 107 cm(26), © escorregamento ocorre, em resumo, quando a tensio de- comiposta do plano de escorregamento, na diregdo do escorregamento, atinge um determinado valor, designado por “tensfo decomposta critica de cisalhamento”. A Figura 27'17) mostra, para um cristal simples, um sistema de escor- regamento compreendendo o plano de escorregamento e a diregdo de escorregamento. so plano ae Figura 27 Representagio esquemdtica de um sistema de escorregamento para um cristal simples 4 Tecnologia Mectnica Angulo ¢ corresponde ao Angulo entre a normal ao plano de escor- regamento e 0 eixo de tragdo; o Angulo A corresponde ao Angulo entre esse eixo e a diregdo de escorregamento. ‘A componente da forga aplicada P atuando na dirego do escorrega- mento € dada por Pcosh Sendo S a secgdo transversal nominal do cristal, a tensto ¢ dada por o =P/S ou as = Multiplicando por cosa temse Poosh = oScosh ‘A rea do plano de escorregamento ¢ igual a Sloos$ Assim, a componente da tensfo de escorregamento ¢ dada por — Posh o, = Pook. 7 Ss cosf =Z cosr eos$ = acosh coss ‘onde cosh cos$ representa um fator de orientagdo, as vezes chamado “fator Schmid”. © escorregamento ocore com uma forga axial quando \ = 45° ¢ § = 45°, o que resulta em o, = 1/20. Plasttotdade dox mataty ” 3.2 Excorregamento mediante movimento de discordincia JA fol comentado que o mecanismo simples de cisalhamento que leva d deformngto plistica dos metais faria supor que a resisténcia que esses materiais oferovem 4 deformagtio deveria ser muito maior do que o que se verifica na pnftlen Assim, a0 procurar-se uma explicago para esse fato, conclui-se quo wi mecanismo mais complexo deve estar interferindo. A experiéncia lovou a considerago de um mecanismo envolvendo o movimento de discordénclus, De fato, como o deslizamento de planos internos de dtomos significarla a ruptura simultanea de um enorme ntimero de ligages atOmicas, exigindo forgas excessivamente grandes para a deformagdo, tornou-se mais ldgico admitir que 0 escorregamento ocorre em etapas ou degraus, de modo a envolver apenas pequenos segmentos de um plano atémico em cada degrau. A presenga ou 0 aparecimento de discordéncias no cristal permite esse escorregamento, como a Figura 28 mostra, ) Figura 28 Movimento de uma discordancia de aresta no escorregamento pléstico. © escorregamento ocorre na parte inferior do cristal. Essa explicaggo torna-se mais clara acompanhando a Figura 29'20). Para um reticulado perfeito, todos os étomos no plano inferior esto em posigdes em que hé uma energia minima. Assim, se os étomos do plano superior so deslocados para a direita, por exemplo, em relagZo aos do plano inferior, cada dtomo encontra a mesma forca que se opde ao deslocamento. O reticulado imperfeito mostra uma discordancia em aresta, traduzida por um plano extra de dtomos, entre 4 e 5. Os dtomos mais distanciados do centro da discordancia, posig6es 1 ¢ 9 ou 2 € 8, estéo em posicdes corres- pondentes a energia minima; os do centro, nfo. Se se considerar, agora, pares de dtomos, 4 e 5, 3 e 6, localizados simetricamente em lados opostos do centro da discordancia, verifica-se que eles encontram forgas que sio iguais e opostas, Em conseqiiéncia, se os dtomos préximos do centro da “ ‘Tecnobogla Mecdntea Campo de energia Oocec oo 0 8 3 8 O° O° ©O0 0000 8 OD Perfeito reticulado cristalino oO ° oO ° oO Oo fo} Oo ° Reticulado cristalino contendo uma discordancia em aresta Figura 29 Representagdo esquemética do movimento de uma discordéncia através do rreticulado cristalino. discordancia so forgados a deslocar-se de disténcias iguais, metade encontra forgas que se opdem ao deslocamento e metade forgas que ajudam esse deslocamento. Assim, a tensfo exigida para deslocar a discordancia de uma disténcia atmica é muito pequena. 3.3 Deformagio por maclagéo Outro mecanismo de deformagdo que ocorre em alguns metais é amaclagdo”, As Figuras 30 ¢ 31 representam esse me- canismo que leva a formagdo de “gémeos” num cristal, quando sujeito a determinada tensfo. Esses gémeos so chamados “maclas”. A Figura 30!2") mostra o plano de maclagfo (111) num reticulado ciibico de face centrada. Esse plano é um dos de maior densidade at6mica no reticulado em quest4o. O plano hachurado (110) é interceptado pelo plano (111) na linha ce. Admitindo que o plano (110) seja o plano do papel ¢ admitindo um conjunto de varias células unitérias, resulta a Figura 31, que y EO Plaitioldade dos metate oT plano de rmaclago (191) an Figura 31 Representagio esquemética da maclagdo num reticulado citbico, representa o mecanismo de maclagdo. Nessa figura, o plano de maclagdo (111) contém a diregio MN. Cada um dos planos (111) na secgdo de maclagio atua em cisalhamento ao longo da diregao indicada; o primeiro plano UV movese um tergo da distancia interatOmica; o segundo WX move-se dois tergos e 0 terceiro YZ move-se segundo a disténcia interatémica inteira. Resulta uma secefio do cristal que é imagem especular da outra. A Figura 32 mostra esquematicamente a madagio de um cristal de calcita. 50 Tecnologia Mecdnica Figura 32. Representacdo esquemdtica da deformacao por maclaco de um crisial de calcita, ocorrida pela introducao de wma tdmina de faca numa aresta. Em resumo, a maclagiio pode ser descrita como 0 mecanismo por intermédio do qual uma parte do cristal adquire uma orientago que se relaciona com a otientacio do resto do reticulado nfo maclado de um modo simétrico, re- sultando, assim, que a parte maclada do cristal € uma imagem especular da parte ndo maclada. ‘As “maclas” podem ser produzidas por outros mecanismos, além da deformagao mecfnica, como, por exemplo, 0 recozimento posterior a uma deformagio pléstica. ‘As maclas produzidas por deformagio mecfnica sio chamadas “maclas meciinicas”. As outras so chamadas “maclas de recozimento”. ‘As maclas meciinicas so produzidas em metais com reticulados cibicos centrados e hexagonais compactos, mediante a aplicagiio de carga de choque ¢ temperaturas decrescentes. Alguns exemplos incluem o ferro alfa, 0 tntalo, metais de reticulados ctibicos centrados e 0 zinco, o cédmio, 0 magnésio € 0 titanio, de reticulados hexagonais. Sob certas condigdes, a formagao de maclas é acompanhada por um estalo ou série de estalos, chamados comumente “grito de estanho”??), Essas maclas podem formar-se em tempo muito curto, da ordem de 30 microssegundos ou menos?2), Nos metais de reticulados ctibicos de face centrada, a maclagio ocorre somente em circunsténcias de temperaturas muito baixas — criogénicas — ¢ altas velocidades de deformagao(?), 4 Deformacao dos metais policristalinos A presenca de contornos de grdo interfere, como seria de prever, no comportamento dos metais, quando sujeitos A deformagao, Assim sendo, nos metais policristalinos, como ocorre geralmente, © tamanho de griio € um dos fatores importantes a considerar na sua deformacao plastica, assim como nas suas propriedades mecdnicas. Plastiodade dos metats ut Como j4 se mencionou, 0 contorno de griio pode ser considerado como uma regifo conturbada da estrutura cristalina dos metais. Sua espossurn & de apenas alguns didmetros atémicos! 14), A deformagao, quando aplicada nos metais policristalinos, ocorre no Interior dos grdos, de acordo com os prinefpios j4 estudados. Ao pasuir dle um gro para outro, a orientagdo cristalogréfica muda abruptamento, Ox gros mais favoravelmente orientados em relagio 4 direggo do eslorga aplicado, deformam-se em primeiro lugar, o que causa um aumento da resisténcia para ulterior deformagio, devido a um fendmeno chamado “encruamento”, que seré estudado mais adiante. Em seguida, deformaniwo os gros menos favoravelmente orientados. A deformagdo, em geral, nfo prossegue através dos contornos dos grios. Numa primeira aproximagio, pode-se dizer que esses contornos constituem uma regido de maior resisténcia mecanica, Na realidade, pode-se explicar essa maior resisténcia a deformagio pelo fato de tratarse de uma regido extremamente conturbada, devido ao quase embaralhamento dos dtomos provenientes dos reticulados adjacentes a0 contorno. A mudanga de orientagao de um grao para outro explica igual- mente a maior resisténcia do contorno. Do mesmo modo que a policristalinidade confere aumento de resisténcia & deformagao, o tamanho de gro atua de modo idéntico, no sentido de que, 4 medida que diminui o tamanho de grio, aumenta a resisténcia a deformagdo meciinica (Figura 33). XA I Nc Figura 33 Efeito do tamanho de gro na ruprura de metal. 52 Tecnologia Mecintca De fato, somente a componente da forga paralela ao plano de escor- regamento atuante em cada grado ¢ eficiente e quanto menor o tamanho de grdo mais freqiente ¢ a mudanga da diregaio de escorregamento, o que torna mais diffcil a deformago. Em outras palavras, sendo os contornos de gros mais resistentes, quanto maior a quantidade de contornos — ou seja, quanto menor o tamanho de gro — maior a resisténcia do metal ao esforgo de deformagio. Contudo, a ruptura dos contornos pode ocorrer em determinadas con- digdes, como por exemplo por agdo da corrosdo. 4.1 Deformagio a frio e deformagao a quente O esforgo mecinico que leva A deformagao e que se traduz pela realizagfo de um trabalho mecinico, pode ser levado a efeito em condigdes diferentes de temperatura, desde a temperatura ambiente até altas temperaturas, inferiores, entretanto, as de fusdo dos metais. Costumase distinguir o “trabalho mecinico a frio” do “trabalho mecanico aquente”, por uma temperatura indicada como “temperatura de recristalizagio”, caracterfstica de cada metal e definida como “a menor temperatura na qual uma estrutura deformada de um metal trabalhado a frio 6 restaurada ou € substituida por uma estrutura nova, livre de tenses, ap6s a permanéncia nessa temperatura por um tempo determinado”. A deformagdo plastica resultante do trabalho mec4nico a frio abaixo da temperatura de recristalizagio — ainda que superior 4 ambiente — pro- voca o chamado fendmeno de “‘encruamento”, cujos efeitos sio traduzidos por uma deformagio da estrutura cristalina e modificago das propriedades mecénicas do material, efeitos esses tanto mais intensos, quanto maior a intensidade do esforgo mecanico a frio. 0 trabalho a frio produz, pois, uma deformagio geral dos grios, como estd demonstrado na Figura 34. | SSeS Estrutura no estado de intenso estiramento a frio. Estrutura no estado recristalizado Estrutura no estado laminado a frio Figura 34 Representagdo esquemdtica do efeito do encruamento na estrutura metdlica. i a - oe Plaxticdade dox metals wt Os grifos ulongumese na diregtio do esforgo mecénico uplicado, monon Intensamente (laminado a frio) ou mais intensamente (severamente estirady), Como resultado da deformacdo mecinica a frio intensa, ocorrem aprecidveis movimentos das imperfeigdes cristalinas, principalmente discor- déncias, ao longo dos planos de deslizamento. Forma-se como que um rett- dilhado tridimensional de discordancias que, juntamente com a distorgto dos planos de escorregamento impedidos de avancar pelos contornos don gros adjacentes, provoca uma desordem no modelo cristalino normal, tor- nando mais dificil o escorregamento ulterior e afetando assim as propricdudox mecdnicas. £ esse o fendmeno de “‘encruamento”, A Tabela 7'23) mostra o efeito do encruamento sobre alguns dow caracter{sticos mecanicos de diversos metais ¢ ligas metdlicas. TABELA7 EFEITO DO ENCRUAMENTO SOBRE CARACTERISTICOS MECANICOS DE ALGUNS METAIS E LIGAS Propriedades mecdnicas” Rosistancia a tre6d0] atongamento | Dureza Liga Estado kgf/mm? | MPa % ‘Ago doce doce {AISI 1010) Normal 33,6 336 38 120 Trabalhado a frio, 90% 91,0 910 2 265 ‘Agp inoxidével (301) Normal ly) 770 60 165 Severamente laminado afrio 129,5 1295 9 380 Aluminio puro Normal on a1 40 2B ‘Severamente trabalhado a frio 16,8 168 10 44 Latdo para cartuchos Normal 33,6 336 55 70 Trabalhado a frio 70 | 770 14 155 Como se vé, a resisténcia mecnica e a dureza aumentam, ao passo que © alongamento, um dos caracteristicos representativos da ductilidade, diminui.

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