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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIN-E

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriarñ)
APRESENTTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanza a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanca e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
W_ vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Estevao Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Estevao Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.

A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaga


depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
responderemos
- SUMARIO
í

í ' Para que a Vida seja preciosa


o
u Aínda a Jornada de Orajes em Assis

As Sepulturas na Prehistoria
n

D "Vivar sem o Temor da Morte"

A Descoberta de Deus

0 As Aparicoes de Natividade (RJ)

- "Senhor e Grande Arquiteto"


j

o Kurt Waldheim no Vaticano


D

L —^^———^-^^—^——^—^—^—^—^—^——

ANO XXVIII - NOVEMBRO - 1987 306


PERGUNTE E RESPONDEREMOS NOVEMBRO -1987
Publtcagao mensal N? 306

SUMARIO
retor-Responsável:

Estéváo Bettencourt OSB Para que a vida seja preciosa 433


Autor e Redator de toda a materia
Ravolvendo e comentando
publicada neste periódico
Ainda a jornada de oracoes em Assis. . 434
retor-Administrador: As primeiras manifestacóes do homem
D. Hildebrando P. Martins OSB As sepulturas na pré-história 444

Urna proposta:
Iministracáo e distribuido: "Viver sem o temor da morte" 448
Edicóes Lumen Christi
Do ateísmo a fó:
Dom Gerardo, 40 - 5° andar, S/501
A descoberta de Deus 462
Tel.: (021) 291-7122
Caixa Postal 2666 Ainda em foco:
20001 - Rio de Janeiro - RJ As aparicoes de Natividade (RJ) 466
Oracao de Joao XXIII?
ComposIcOo a Impreu&o
"Senhor e Grande Arquiteto" .. .474
p-A "MAROUíS-SARAIVA"
Por que
Rúa Suam nmxnm, í*o -
CMkloMSI-»?» Kurt Waldheim no Vaticano? 477
I«H. Í7J-M4Í - 273-M4?
- 273-9449 - RJ
Livros em Estante 478

SINATURA EM 1988: CzS 400,00 NO PRÓXIMO NÚMERO:

Número avulso: CzS 50,00 307 - Dezembro -1987

s NOVOS Assinantes:
a assinatura {desde 1987) será válida até Suicidio: por qué? — "Os Caminhos das
nesmo mes de 1988. CEBs no Brasil". — As Testemunhas de
eirá depositar a importancia no Banco Jeová e a Biblia. — Que pensar sobre o fumo?.
Brasil para crédito na Conta Corrente — Escrava Anastácia. - índice Geral de 1987.
0031 304-1 em nome do Mosteiro de
o Bento do Rio de Janeiro, pagável na
léncia da Praca Mauá (n? 0435) ou en-
ir VALE POSTAL pagável na Agencia
COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA
ntral dos Correios do Rio de Janeiro.

RENOVÉ QUANTO ANTES COMUNIQUE-NOS QUALQUER

A SUA ASSINATURA MUDANQA DE ENDERECO


Para que a vida seja
O mes de novembro comeca com Finados, dia que nos poe inevitavel-
mente diante da realidade da Morte! Este fato, assustador para muitos, po
de ser considerado a luz de um episodio narrado pelo escritor judeu Chaim
Potok; trata-se de um diálogo ocorrido entre um menino de seis anos e seu
pai:

"Eu desenhava. . . o modo como meu pai olhava um passarinho deita-


do de lado á margem da calcada perto de nossa casa. - 'Está mono, pai?' Eu
tinha seis anos e nao sentía a coragem de olhá-lo. — 'Por que morreu?' — Tu-
do o que vive, deve morrer'. - 'Tudo?' — 'Sim'. - 'Tu também, papas? E
mamae?' — Sim'. - 'E eu?' - 'Sim', disseele. Depoís acrescentou em yiddish:
'Mas será talvez depois de ter vivido urna boa e longa vida, meu filho'. Eu
nao conseguía compreender. Fiz um esforco para olhar o passarinho. — 'Tu
do o que vive, será um dia como esse passarinho? Por qué?' perguntei. —
'Foi assim que o Eterno fez o seu universo, meu filho'. — 'Por qué?' — 'Para
que a vida se/a preciosa, meu filho. Urna coisa que tu possuas para sempre,
nunca é preciosa' " (CHAIM POTOK, Meu nome é Asher Lev, New York
1972. p. 1561.

Este episodio manifesta elevada sabedor ¡a. Aborda a questao: qual po-
deria ser o sentido da vida presente se ela está condenada á morte? Por iro
nía, a morte.é a única certeza que toca ao homem desde que nasce... - 0
cristao responde, dizendo que a morte nao é ruptura, mas transicao da pre
caria vida terrestre para a vida definitiva "na Casa do Pai" (cf. Jo 14,2).

0 sabio do episodio narrado abstrai da continuidade da existencia no


além e observa que precisamente a morte física é que nos leva a valorizar a
vida presente: "Urna coisa que tu possuas para sempre, nunca é preciosa". É
o fato de sabermos que o tempo é irrecuperável que nos leva a aproveitá-lo
com todo o afinco {mormente o cristao o deve fazer, pois sabe que cada se
gundo da sua existencia tem repercussao na eternidade). Os que sao cons
cientes da irreversibilidade do tempo, nao o desperdicam, como nao raro se
desperdiga a agua que pinga de urna torneira mal fechada durante a noite
inteira (tal desperdicio nao impressiona muito, porque geralmente se sabe
que bastará abrir a torneira no dia seguinte para ter agua em fartura).

Estranho, mas valioso paradoxo! É a certeza da morte ffsica, a qual


vem imprevistamente, "sem pedir (¡cenca," que dá sadia seriedade ao viver
dos homens, especialmente dos cristaos; para estes, a eternidade comeca no
tempo; é, sim, o pleno desabrochar de urna sementé lancada pelos sacramen
tos no coracáo de cada filho de Deus! Possa a consciéncia desta verdade fun
damental despertar em todos os caminheiros deste mundo a estima que cada
instante de tempo merece!
E. B.

433
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
Ano XXVIII -N9306 -Novembro - 1987

Revolvendo e comentando...

Aínda a Jornada de
Oracdes em As sis

Em tíntese: A so/ene reuniao de Oracdes realizada em Assis aos 27/


10/1986, longe de ceder eo relativismo ou ao sincretismo, foi o exercício da
missao da Igre/a, chamada a ser "o sacramento da íntima uniao dos homens
entre si e com Deus". Existe, sim, urna unidade fundamental na familia hu
mana, decorrente do fato de que Deus criou todos os homens á sua imagem
e semelhanca e os chamou ao consorcio final da sua vida; além do qué, to
dos foram concebidos em Cristo e remidos por Cristo. Esta unidade émais
básica e forte do que as diferencas de raga, cultura e até de religiao. A Igre/'a
foi instituida por Cristo para ser esse fator de superacao das diferencas, a
fim de constituir o único Povo de Deus, ao qual todos os homens sSo chama
dos.

Tal missao da Igre/'a se desempenha normalmente mediante evangeliza-


cao, diálogo e oracáo. Em Assis assumiu nova e inédita modalidade: encon-
traram-se homens diversos uns dos outros por suas ragas, suas culturas e suas
crencas, mas unidos em certos traeos fundamentáis: o anseio pela Paz (ele
mento profundamente bíblico: ShalonV, o reconhecimento de que a Paz é
dom de um Senhor Supremo e a súplica a esse Senhor acompanhada de je-
jum, símbolo de purif¡cacao do coracao.

O Santo Padre desenvolveu o sentido da Reuniao de Assis em varias


alocucoes, que foram recolhidas e publicadas em especial fascículo, do qual
extra irnos alguns tópicos importantes e significativos.

* * *

Aínda está presente na memoria de mu ¡tos e muitos homens, qualquer


que seja a sua crenpa religiosa, o grande evento de 27 de outubro de 1986:

434
JORNADA DE ORAQOES EM ASSIS

entao reuniram-se em Assis, a convite do Papa Joao Paulo II, 108 pessoas
representantes das grandes religióes da humanidade (cristaos, budistas, hin
dú i'st as, maometanos, jainitas, judeus, chintoi'stas, sikitas, zoroastrianos, cul
tores das tradicionais crencas da África e da América), a fim de passarem um
dia em oracao e jejum, na qualidade de peregrinos, que pediam a Deus a paz
para o mundo.

Este grande acontecimento nao foi aceito por grupos cristaos, que o ti-
nham na conta de relativizador dos valores típicos do Evangelho e da Igreja
Católica. A propósito já publicamos algumasconsideracdesem PR 301/1987,
pp. 266-275. Dado que dispomos de novos subsidios, pouco difundidos no
Brasil e aptos a projetar mais clara luz sobre o evento, vamos, a seguir, publi
car ainda alguns textos e noti'cias de interesse; se rao extraídos do Bulletin,
órgao do Secretariado da Santa Sé para o Diálogo com os Nao Cristaos, n?
64, 1987-XXI 1/1,64.

1. A intencáo do Papa Joao Paulo 11

O Dia do Encontró de Assis decorreu em tres fases: ás 9h da man ha, as


delegacdes religiosas se reuniram na basílica de S. María dos Anjos (Assis),
onde o S. Padre deu as boas-vindas a todos e expós os propósitos do Encon
tró. A seguir, os diversos grupos se dirigiram para igrejas ou saldes da cidade
de Assis, onde se detiveram em oracao das 11 h até as 13h30 min (cada dele-
gacao rezou segundo as suas tradipoes); nao houve almopo nem lanche. As
13h30 min convergiram todos os participantes para a Praga que fica diante
da Basílica inferior de Sao Francisco, onde se colocara um estrado frente a
um semi-círculo de cadeiras, que foram ocupadas pelos presentes; entao ca
da grupo teve cinco minutos para rezar sobre esse estrado enquanto os de-
mais ouviram; terminadas as preces, distribu i ram-se ramos de oliveira (cada
delegacao plantaría o seu ramo em seu Templo principal), sinaise saudapoes
de paz, pequeños presentes. O S. Padre falou mais urna vez aos delegados e
finalmente ofereceu-lhes, no refeitório do Convento Franciscano, urna fru
gal refeicáo (sem carne nem vinho); entregou a cada qual urna estampa de
Assis, autografada, saudou individualmente a todos e retirou-se.

Ora é importante realcar palavras do discurso de abertura proferido


por Joáo Paulo II na Basílica de S. María dos Anjos:

"Como Chefes Religiosos, nao viestes cá para urna Conferencia Ínter-


religiosa sobre a Paz, em que se acen tuariam a discussao oua procura de proje
tos em escala mundial a favor de urna causa comum.

O agrupamento de tantos Chefes Religiosos para rezar é, como tal, um


convite dirigido noje ao mundo, para que tome consciéncia de que existe ou-

435
4 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 306/1987

tra dimensao da paz e outra maneira de a promover que nSo sejam as negó-
ciacoes, os compromissos políticos, os Tratados económicos. A paz resulta
da oracio que, dentro da diversidade das religides, exprime relacao com um
Poder Supremo que ultrapassa nossas meras capacidades humanas.

Nos vimos de longe nSo apenas por causa da distancia geográfica, que
muitos dentro nos tiveram de vencer, mas principa/mente em vista das nossas
peculiares origens históricas e espirituais.

O fato de que tenhamos vindo cá nao implica a intencao de procurar


um consenso religioso entre nos ou de en tabular urna negociacao sobre as
nossas conviccoes de fé. Também nao significa que as religides possam ser
reconciliadas mediante um compromisso comum com um projeto terrestre
que ultrapassaría todas as crencas religiosas. Também nao se trata aquí de fa-
zer concessoes ao relativismo em materia de crencas religiosas, pois todo ser
humano deve seguir honestamente a sua consciéncia reta com a intencao de
procurar a verdade e de Ihe obedecer.

Nosso Encontró atesta tSo sonriente — e aqui está o seu significado pa


ra os homens do nosso tempo — que, na grande batalha em favor da paz, o
género humano, sem perder as suas diversidades, deve haurir ñas fontes mais
profundas e mais vivificantes em que a consciéncia se forma e sobre as quais
se fundamenta a atividade moral dos homens" fBulletin, p. 32).

Assim quis o S. Padre dissipar a suspeita de que o Encontró de Assis


redundasse em relativizacáo dos valores religiosos. O Cardeal Francis Arinze,
Presidente do Secretariado para os Nao Cristaos, desenvolveu a finalidade
positiva da grande assembléia nos seguintes termos:

"Os representantes das Igrejas e Comunidades Cristas e das religides do


mundo reuniram-se em Assis com a única intencao de pedir a Deus o grande
dom da paz. O Santo Padre muí tas vezes salientou a necessidade desse dom
para todos, a sua urgencia e o fato de que depende somente de Deus. Por is
to ele convidou outros crentes que compartilham o mesmo interesse pela
sorte do género humano e que manifestam a mesma prontidao para se com
prometer a procurar a paz mediante a oracao.

A celebracao de Assis proclama que a oracao é necessária para obtera


paz. Na maioría das tradicoes religiosas, a oracao é acompanhada por/ejum e
peregrinacao. Estes tres exercídos espirituais estiveram harmoniosamente
combinados em Assis.

Cada familia ou tradicao religiosa foiplenamente respeitada. NSo hou-


ve tentativa de formular urna oradlo comum a todas. A oracao está bascada

436
JORNADA DE ORAQOES EM ASSIS

na fé. Visto que as crengas sao diversas, a fórmula escolhida para a celebra-
gao foi 'estarmos ¡untos para rezar', e nao 'rezarmos juntos'. Enquanto os
cristaos assim respeitam a fé de outros crentes, que também fazem seus es-
forgo para poupar Deus, os cristaos nao deixam de dar um humilde e sincero
testemunho da nossa fé em Jesús Cristo, Senhor do universo...

A oragao ajuda o ser humano a se abrir ao seu Criador para os valores


de outro mundo, e também para o seu vizinho. A oragao a/'uda a pessoa a
entrar em contato com Deus ou o Absoluto ou a Última Realidade. — 'A
oragao tem urna dimensao que, na diversidade das religioes, tenta exprimir a
comunicagao com um Poder colocado ácima de todas as nossas torgas hu
manas. A paz depende fundamentalmente desse Poder, que nos chamamos
Deus e que, como cristaos, eremos terse revelado em Jesús Cristo. É este o
sentido do Día Mundial de Oragao' (Joao Paulo II, Discurso de Encerramen-
to aos 27/10/86, n?3)" fBulletin, pp. 138s).

Como se vé, os documentos da Igreja apelam para o substrato religio


so existente em todo ser humano, anterior a qualquer confissao de fé especí
fica, e que poe todos os homens em contato com a Divindade mediante a
oragao. Foi o exercício desse senso religioso natural, capaz de estreitar todos
os homens entre si e com Deus, que o S. Padre quis provocar no Encontró
de Assis.

Importa agora ouvir alguns depoimentosde participantes do Encontró.

2. Depoimentos de Participantes nao Católicos

1. Na manhá seguinte á do Encontró, ou seja, aos 28/10/86, reuniram-se


as delegacoes religiosas com o Cardeal Francis Arinze, a fim de exporem as
suas impressóes. Eis alguns testemunhos dos mais significativos:

a) Venerável Etai Yamada, budista do Japao:

"Em nome de todos os representantes japoneses, exprimo a nossa pro


funda gratidao ao Papa Joao Paulo II e ao Secretariado do Vaticano para os
Nao Cristaos pelo convite para o Día de Oragao em Assis. Tenho 91 anos de
idade e congratulo-me cordialmente pelo éxito desta iniciativa. Agora che-
gou a nossa vez de continuar este propósito. O grupo japonés considerou es
te assunto e houve por bem celebrar semelhante Dia de Oragao pela Paz no
Monte Hiei, perto de Kyoto, em agosto de 19871 ,para o qual temos o pra-
zer de convidar os representantes de cada religiao do mundo".

1 A respeito deste outro Encontró, verp. 443.

437
6 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 306/1987

b) Sr. Ramsahaí Purohit, representante do hindú(smo:

"Ntí diálogo ínter-religioso, é necessário reconhecer a supremacía de


Deus. Nem o género humano como tal nem os seus Chefes Religiosos sio ca-
pazes de criar a vida. O único doador da vida é Deus. O respeito á vida é es-
sencial e fundamental. Somente respeitando a vida podemos tornar-nos
construtores da paz".

c) Sr. Ahmed Tidjane Ba, muculmano da Costa do Marfim (África):

"Aprecio vivamente a iniciativa do Santo Padre neste Dia de Assis. A


planta que iancou raízes aquí em Assis, hei de levá-la para onde eu for. A
paz é o fruto da justica, da liberdade, do respeito, do amor, da fratemidade
e da mutua compreensao. Todos estes valores sao religiosos. Por isto todas as
pessoas religiosas devem-se dedicar á construcao da paz. Eu gostaria de fazer
urna proposta concreta: que cada país e cada regiao formem um Comité pa
ra a Paz a fim de levar adiante a iniciativa do Santo Padre".

d) Rev. Yoshikiyo Mita, shintofsta. Delegado do Ven. Muneyoshi Togu-


kawa, do Japáo:

"Exprimo a minha gratidao pelo Dia de OracSo de ontem e-pelo En


contró de hoje. Sentimos o deverde colocar em prática tudo o que ouvimos
do Papa e de todos os senhores. No Japao, os seguidores de Shinto promo-
vem diálogo e trabalho conjunto entre as religioes. Especialmente os/ovens
shintofstas estao conscientes da necessidade de diálogo inter-re/igioso e entu
siasmados por lévalo adiante".

e) Sr. Okomfo Kodwo Akon, de Gana, representante das tradicionais


religiÓes da África:

"Estou comovido pelo convite para o Dia de OracSo que o Papa me


enviou, e também porque ele quis incluir as tradicionais religioes da África
entre as grandes religioes do mundo. Quero rezar, sempre e em toda parte,
pela paz, como o Papa me deu o exemplo.

Paz nao significa uniformidade, mas antes pluralismo; é a humanidade


ñas suas diversidades. Isto é ilustrado pela pluralidade de idiomas humanos.
É importante que os Chefes das varias religioes saibam como respeitar a to
lerancia religiosa para mantera convivencia pacata e harmoniosa dospovos".

f) Sr. John Pretty-On-Top, representante das religioes tradicionais norte


americanas:

438
JORNADA DE ORAQÜES EM ASSIS

"Encontro-me aqui entre os representantes das religíoes do mundo pe


la primeira vez na minha vida. Esta é urna experiencia nova para mim, e fe-
nho estado muito comovido. Por isto exprimo meus sinceros agradecimentos
ao Santo Padre. Os indios da América sao pobres; eles nSo viajam muito.
Farei todo o possivel para ser um portador da paz da maneira indicada pelo
Santo Padre. Nao sou um homem culto, mas falo-lhes de todo o meu cora-
cao. É bom termos mutuo respeito e confianca" f Bulletin, pp. 125-9}.

2. Ainda se podem referir algumas das exclamacóes espontáneas pro


venientes dos participantes do Encontró: "Sou grato a Vos (Santo Padre),
por nos terdes reunido para a oraclo!", "Grato por ter reunido cristaos e nao
cristaos!", "Grato por nos terdes trazido cá a Assis!", "Eu nunca imaginei
que estaría presente a oracao de budistas, hindú ístas e maometanos!", disse
um Patriarca ortodoxo; "Grato ao Papa de Roma; assim muitas barreiras re
ligiosas foram removidas", disse um membro da Igreja Reformada. "Nosso
relacionamento agora passou por urna virada decisiva!", exclamavam alguns
nao cristaos; "Agora vejo outros crentes com novos olhos; eis um dom que
recebi aqui em Assis" (dizeres de nao cristaos).

Muito significativo foi o comportamento do Sr. Togbui Assenon, re


presentante das tradicionais religioes africanas e urna das pessoas mais sim
ples da assembléia. Por causa da sua idade avancada, das suas vestimentas
leves e do clima do seu país de origem, ele sofreu duramente o rigor do
frío. Estava enrijecido e tiritante e, por isto, varias vezes foi convidado para
deixar a Praca e procurar lugar mais abrigado. Insistiu, porém, em participar
firme até o final da cerimonia. Depois foi levado para a Enfermaría, total
mente exausto; parecía que já nao poderia reagir a algum tratamento. Duas
horas mais tarde, porém, quando ouviu que o Papa estava para partir, deixou
bruscamente o leito, tomou o seu bastao, saiu para o corredor e encostou-
se na parede. Ele quería símplesmente agradecer ao Papa e tocar o Homem
de Oracao e Paz antes que fosse embora. Feíto isto, voltou contente para a
Enfermaría, onde ficoudetidonacama durante todo odia seguinte (Bulletin,
pp. 145 s).

3. Muito importante ainda é o testemunho dado pelo arcebispo anglicano


de Cantuária Most Reverend Robert Runcie, perante o Sínodo Anglicano
aos 13/11/86:

"Acredito que a minha experiencia em Assis é ponderosa para o nosso


debate a respeito de. . . autoridades; e isto, a dot's títulos. Primeiramente
nossas conversacoes com Roma nos lembram a universalidade da Igreja.
Queiramo-lo ou nao, existe apenas urna Igreja Crista, somente um Bispo que
podía ter convocado com éxito tal conjunto ecuménico de chefes cristios:
Batistas e Ortodoxos, Reformados e Quakers, Metodistas e Luteranos,

439
8 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 306/1987

Orientáis e Anglicanos — assim como a própria Igreja Católica Romana. Eis


por que estimule! o Papa, desde a data de sua peregrinado a Cantuária, a
chamar e reunir as Igrejas Cristas para orarem pela paz. Roma tem um certo
papel histórico, que nao pode ser ignorado, qualquer que se/a o modo de o
avaíiarmos no plano teológico. — E, se nos olhamos para as outras grandes
religioes do mundo, é evidente que nossas diferencas entre cristaos parecem
menos significantes. As outras grandes comunidades de fé consideram o Pa
pa, de certo modo, Aquele que é o principal porta-voz do Cristianismo, quei-
ramo-lo ou nSo. Por isto foram e/es a Assis. O simples fato desse histórico
Encontró mundial merece nosso mais caloroso louvor para os nossos amigos
no Vaticano e o nosso constante apoio" fBulletin.p. 43).

Passemos agora a urna

3. Avaliacao teológica

O aspecto mais importante da Jornada de Assis é certamente o teológi


co. Ato inédito na historia da humanidade e fadado a ter conseqüéncias mar
cantes para o futuro do mundo (crente e nao crente), o Encontró sugere al-
gumas ref Iex5es de índole estritamente teológica.

1. Valorizacao da oracao

Oizia o Santo Padre aos Cardeais e aos membros da Curia Romana aos
22/12/1986:

"Em Assis, descobriu-se, de modo extraordinario, o valor único que a


oracao tem em prol da paz; nSo se pode obter a paz sem oracao, oracSo de
todos, f¡cando cada um na sua própria identidade. . . Devemos ver nisto...
urna outra manifestacio admirável da unidade que nos liga para além das di
ferencas e divisdes de toda especie. Toda auténtica oracao se encontra sob a
influencia do Espirito, 'que intercede com insistencia por nos, pois nao sabe
mos o que pedir para orar como devemos', mas o Espirito reza em nos 'com
gemidos inefáveis e Aquele que sonda os coracdes sabe quais sao os dese/os
do Espirito' (Rm 8,26s). Com efeito; podemos afirmar que toda auténtica
oracao é suscitada pelo Espirito Santo, que está misteriosamente presente
no coracao de todo homem.

Foi o que pudemos ver em Assis: a unidade que provém do fato de


que todo homem e toda muiher sao capazes de orar, isto é, de se submeter
totalmente a Deus e de se reconhecer pobres diante dele. A oracao é um dos
meios para realizar o designio de Deus entre os homens (cf. Ad Gentes n?3}"

440
JORNADA DE ORACOES EM ASSIS

Aínda outro ponto importante fo¡ salientado pelo S. Padre.

2. Missáo da Igreja e Unidade do género humano

No mesmo discurso de 22/12/86, dizia o S. Padre algo que se pode re


sumir do seguinte modo:

O género humano é uno nao só no plano físico e psíquico, mastam-


bém segundo a vocacao que Deus Ihe deu. Essa unidade básica se funda no
misterio da criacao: Deus Uno e Trino criou o homem com especial aten-
pao, ddndo-lhe a sua ¡magem e semelhanca (Gn 1,26-28; 2,7. 18-24). A uni
dade de origem de toda a familia humana, marcada pela unidade de Deus
(Pai, Filho e Espirito Santojorienta para um fim comum a todos os ho-
mens; dizia S. Agostinho: "Tu nos fizestes para Ti, Senhor, e o nosso cora-
cao está inquieto enquanto nao repousa em Ti" (Confissdes 1,1). Por isto há
um único designio divino para todo homem que venha a este mundo, inde-
pendentemente da cor de sua pele e do horizonte histórico e geográfico no
qual ele viva; as diferencas físicas e culturáis sao menos importantes do que
a unidade radical, fundamental e decisiva do género humano.

O designio de Deus tem seu centro em Jesús Cristo, Deus e Homem,


"no qual todos os homens encontram a plenitude da vida religiosa e por
quem Deus reconciliou consigo todas as coisas" (Declarapao Nostra Aetate
n? 2). Assim como nao há homem ou mulher que nao traga em si o sinal da
sua origem divina, assim nao há ninguém que possa ficar fora ou á margem
da obra de Jesús Cristo, "morto em favor de todos" e, portanto, "Salvador
do mundo" (cf. Jo 4,42). Diz o Concilio do Vaticano II muito a propósito:
"Devemos afirmar que o Espirito Santo dá a todos, de maneira conhecida só
por Deus, a possibilidade de ser associado ao misterio pasca I" (Constituícáo
Gaudium et Spes, n?22).

Sao Paulo, alias, diz que "Deus quer que todos os homens sejam salvos
e cheguem ao conhecimento da verdade. Pois Deus é um só, e um só tam-
bém é o Mediador entre Deus e os homens" (1Tm 2,4-6).

Assim devemos distinguir dois planos: o da unidade fundamental, que


se deriva diretamente do designio de Deus, e o das diversidades de cultura
e de religiao, plano este que é algo de humano. Essas diferencas devem ser
ultrapassadas em proveito do grandioso designio de unidade que preside á
criacao: ... nao as diferencas que significam a riqueza espiritual e a geniali-
dade de cada povo (estas sao dom de Deus; cf. Ad Gentes n? 11), mas as di
ferencas que manifestam os limites e as quedas do espirito humano, tentado
pelo Maligno no decorrer da historia (cf. Lumen Gentium n?16).

441
10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 306/1987

Os homens podem nao estar conscientes da sua unidade radical de orí-


gem, de meta final e de insercao no mesmo plano de Deus. Embora julguem
por vezes que estao irremediavelmente separados ou em antagonismo mu
tuo, na verdade estao incluidos no grande designio do Pai em Cristo, que
"de certo modo se uniu a todos os homens" (Gaudium et Spes n°22).

Neste.contexto a Igreja foi instituida por Cristo para ser "o sacramen
to universal de salvacao", "o sinal e instrumento da íntima uniao com Deus
e da unidade de todo o género humano" (Lumen Gentium n?1). Isto impli
ca que a Igreja é chamada a trabalhar mediante evangelizarlo, oracao e diá
logo, para que desaparecam entre os homens as fraturas e as divisoes que os
afastam do seu Principio e Fim e os tornam hostis uns aos outros. Ela assim
vai realizando o novo Povo de Oeus, ao qual sao chamados todos os homens
para serem membros vivos: 'Todos os homens portanto sao chamados a esta
católica unidade do Povo de Deus, que prefigura e promove a paz universal.
A ela pertencem ou sao ordenados de modos diversos quer os fiéis católicos,
quer os outros crentes em Cristo, quer enfim todos os homens em geral, cha
mados á salvacao pela graga de Deus" (Lumen Gentium n? 13).

No desempenho da sua missao, a Igreja é levada a descubrir e respeitar


as "sementes do Verbo". Com efeito; a unidade fundamental do género hu
mano nao pode deixar de se exprimir em auténticos vestigios na vida dos po-
vos, mesmo dos que professam religioes diferentes. Esses tragos .básicos exis
tentes em todos os homens hao de ser reconhecidos e cultivados pela Igreja
de tal modo que possam servir de caminho para a consecucao da plena uni
dade do género humano no único Povo de Deus.

Ora o evento de Assis foi praticamente a ilustraclo visivel dessa unida-


de fundamental de todos os homens: todos os participantes, provenientes de
diversas partes do mundo, mostraram desejar a Paz (Shalom), todos reconhe-
ceram que ela depende de um Supremo Doador e todos a imploraram pela
súplica.

Promovendo esse Encontró, a Igreja tinha em mira, antes do mais, re-


conhecer e respeitar essa vocacao a ser Povo de Deus inserido em todos os
recantos do mundo. Ela agiu consciente de estar seguindo urna norma do
próprio Deus, pois foi o Criador e Redentor que, em seu designio de amor,
instituiu essa misteriosa relacáo entre os homens religiosos e a unidade do
Povo de Deus.

Concluí entao textualmente o S. Padre:

"Apresentando a Igreja Católica que dá as mSos aos seus irmSos cris-


tios, enquanto estes /untos davam as maos aos ¡rmSos de outras religides, a

442
JORNADA DE ORAQÓES EM ASSIS 11

Jornada de Assis foi como que urna expressao visível da doutrina do Conci
lio do Vaticano II. Mediante essa Jomada, conseguimos, gracasaDeus, por
em prática, sem sombra de confusSo ou de sincretismo, esta conviccao que
é a nossa, inculcada pelo Concilio, conviccao referente á unidade de princi
pio e de fim da familia humana como também referente ao sentido e ao va
lor das rellgioes nao cristas.

Essa Jornada nao nos ensinou a reler, com olhos mais abertos e pene
trantes, o rico ensinamento conciliar relativo ao designio salvifico de Deus, á
posicao central de Jesús Cristo nesse designio e á profunda unidade que está
na orígem desse designio e para a qual ele tende mediante a diaconia da Igre-
¡a? A Igreja Católica se manifestou aos seus flitios e ao mundo no exercicio
da sua funció de promover a unidade e a caridade entre os homens e mes-'
mo entre os povos (cf. Nostra Aetate n? 1)". Ver discurso citado n? 1-9; Bul-
letinpp. 62-68.

Estao assim explanados o fundamento e o significado teológicos da


grande reuniáo de Assis. Sem desvios, foi, antes, urna forma nova e inédita
do exercício do ministerio da Igreja, que marcará profundamente os tempos
vindouros. Gragas sejam dadas a Deus peía realizacao de tal evento!

NO JAPÁO. .. EM FAVOR DA PAZ

Eis o que a propósito se pode ler no Boletim BIP-SNOP-SOP (Bulletin


Oecuménique d'lnformation), edipao de 09/09/87, n?598, p.5:

"Cerca de duzentos representantes budistas, muculmanos, ¡udeus, hin-


duistas, sikhs e confucionistas reuniram-se aos 3 e 4 de agosto de 1987, a
fim de orar em favor da paz, no monte Hiei, peno de Kyoto. Essa reuniao,
patrocinada pela Conferencia Japonesa dos Representantes Religiosos, assi-
nalava o 1.200? aniversario desse lugar santo budista. Em mensagem dirigida
aos participantes da reuniao, o Papa Joao Paulo II entatizou que tal assem-
bléia mantinha o espirito da Jornada de Oracao pela Paz realizada em outu-
bro pp. na cidade de Assis".

Como se vé, nao houve propriamente a re pe ti gao da Jornada de Assis.

443
As primeirai mamfestacoes do homem:

As Sepulturas na
Pré-Historia

Em síntese: As mais antigás sepulturas da pré-históría datam de


80.000 a.C ¡período paleolítico inferior). Revelam a existencia, no ho
mem pré-histórico, de espiritualidade e de senso religioso; com efeito, sepul-
tando seus morios, os antigos julgavam que eles sobreviviam — o que está li
gado á arenca em Deus ou na Divindade, que assegura ao homem a vida pos
tuma. Assim o senso religioso, a fabrícacao de instrumentos de pedra lascada
e a producao do fogo sao os primeiros sínais da inteligencia humana sobre a
face da Térra. A religiao nao é um fenómeno tardío e mórbido do homem
amedrontado, mas é a expressSo da racionalidade ou da inteligencia humana
desde que ela aparece no mundo. — Nótese que os animáis irracionais nao
sepultam seus monos.

* * * ~

As pesquisas de paleontología tém permitido mais e mais reconstituir


os inicios do ser humano sobre a face da térra. É certo que se trata de setor
de estudos aínda obscuro e talvez impenetrável em muitos de seus aspectos,
pois a própria passagem do tempo destruiu documentos e monumentos que
revelariam algo dos primordios da humanidade.

Um dos pontos que últimamente tém vindo á baila, á o das sepulturas


da pré-históría. Examinemos os dados arqueológicos e procuremos ler o seu
significado.

1. Os dados arqueológicos

A pré-históría é o período que abrange as atividades do homem ante


riores ao aparecimiento da escrita, isto é, anteriores a 8.000 a.C. aproximada
mente. Compreende os períodos da Idade da Pedra, em que os homens usa-
vam exclusivamente armas e instrumentos de pedra, sem recurso ao bronze e
ao ferrq, Nesse uso da pedra, há aperfeicoamento paulatino, de modo que se
distirtgúem:

444
SEPULTURAS NA PRÉ-HISTÓRIA 13

a ¡dade paleolítica; os mais amigos instrumentos de pedra tém cerca


de 2.500.000 anos. O homem criou entao balas, martelos, machados de pe
dra; descobriu a producao do fogo; vivia da capa de animáis e da coleta de
frutas e raizes que encontrava. Morava em cavernas, abrigos naturais ou ao ar
livre;
a idade mesolítica;
a idade neolítica.

As linhas divisorias entre essas tres épocas da Idade da Pedra sao diver
samente assinaladas pelos autores, dada a exigüidade de elementos disponí-
veis para se fazerem cálculos. Mas isto nao importa ao tema que aqui nos ¡n-
teressa: as sepulturas da pré-história.

As mais antigás que conhecamos, datam de 80.000 a.C. Para as épocas


anteriores a esta data, nao temos vestigios expICcitos; e isto, por varios moti
vos: 1) quanto mais recuamos no tempo, mais escassos sao os documentos
preservados: 2) por ocasiao das escavacoes arqueológicas, o próprio trabalho
de remocao de entulhos e térra contribuí para deslocar ossadas e instrumen
tos; assim o que os arqueólogos podem observar, já nao tem as suas caracte
rísticas típicas origináis (como seriam as de urna sepultura); a mensagem dos
fósseis torna-se entao incompreensível; 3) em vez de sepultar em covas
abertas pela mío do homem, os antigos podiam sepultar em depressoes do
'erreno — o que contribui para descaracterizar as sepulturas...

Hoje conhecem-se cerca de quinze sepulturas da Idade da Pedra - o que


é considerado muito significativo; conseguiram atravessar milenios sem se
desfazer pela acao das chuvas, da erosao, dos terremotos, das guerras, etc.
Eis alguns dos seus principáis sitios: La Chapelle-aux-Saints (Franca), Gri-
maldi (Italia), Arena Candida (Italia), Shanidar (Iraque), Qafzeh (perto de
Nazaré, Israel) . . . Quanto mais o período da Pedra avanca no tempo, mais
profusos aparecem os ritos funerarios: as pinturas das cavernas e os artifi
cios múltiplos que cercavam os mortos, revelam cuidados especiáis para com
os corpos dos defuntos.

Verifica-se que os cadáveres nao eram abandonados, sem mais, á déte-


rioracao natural, como se daría no caso de um cao ou de urna ave. Todos os
esqueletos da Idade da Pedra, aparecem deitados sobre o lado direito ou o
esquerdo, encolhidos, com as maos e os pés artificiosamente dispostos, de
modo a lembrar o feto no útero materno ou o adulto adormecido; nao fo-
ram lancados á térra de qualquer maneira, mas mereceram carinho e solicitu-
de da parte dos sobreviventes. Junto ao cadáver colocavam utensilios di
versos: armas, estatuetas de Venus (símbolo da Vida e da fecundidade), joias
(como dentes perfurados, conchas perfuradas, braceletes, parolas, espinhas
de peixe, colares...).

445
U "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 306/1987

Ao ser sepultado, o cadáver era salpicado de ocre vermelho (minérío


de ferro) ou era deitado em leito de ocre; este, por sua cor, seria símbolo do
sangue e, por conseguirle, da vida. Ás vezes, o ocre era colocado explícita
mente diante da boca e das fossas nasais, como símbolo do sopro de vida.

Especialmente interessante é a sepultura das duas cr¡anpas de Spungir,


na URSS: foram enterradas juntas, urna délas tendo a seu lado urna grande
tanca, oilo dardos, dois punhais, dois bastoes furados; a outra tinha também
urna grande lanca consigo, mas apenas tres dardos e um punhal. Muitas paro
las se achavam em torno da cabeca, dos bracos, das pernas, do peito e sobre
os pés de cada esqueleto. Traziam bonés muito "ricos" com carreirasde pa
rolas de marf im de diversas formas dispostas paralelamente, caninos de rapo
sa polar, semi-aneis talhados em chifre de mamuth (possivelmente destina
dos a prender os cábelos ou as caudas de raposa que ornamentavam a cabe
ca). Os p'unhos tinham braceletes finos; e os dedos, aneis de marfim. Sobre o
peito de um dos esqueletos, encontrou-se urna figura de cávalo em forma de
placa.

Merece atencao aínda a sepultura dita "do Jovem Príncipe" em Arena


Candida (Italia): em torno da cabeca, encontraram-se glóbulos perfurados,
joias outrora cozidas sobre as suas vestes, um grande punhal de pedra em sua
mao.

Em Shanidar draque), encontraram-se em torno do esqueleto sedi


mentos com vestigios de polen — o que significa que fora o cadáver enter
rado sobre um leito de flores vivas e coloridas. . . Isto há cerca de 50.000
anos!

Parece que a ornamentacSo e os utensilios variavam de acordó com a


idade, o sexo e as funcoes desempenhadas outrora pelo defunto.

Á medida que as populacoes prá-históricas foram assumindo a vida se


dentaria, constituiram cemitérios. Em conseqüéncia, foram descobertas ver-
dadeiras necrópoles em Teviec e Hoedic (Bretanha, Franca), Muge (Portu
gal), Vedbaek (Dinamarca), Mallaha (Israel).

Indaga-se agora:

2. Que pensar?

Qual terá sido a razáo do sepultamento dos mortos desde a pré-histó-


ría?
- Em geral, os dentistas estao de acordó em reconhecer que tais se
pulturas nao tém valor apenas utilitario ou pragmático (atender á higiene,

446
SEPULTURAS NA PRÉ-HISTÓRIA 15

por exemplo), mas exprimem a conviccao de que os antepassados sobrevi-


vem no além; precisam de ser acompanhados, guarnecidos, equipados (se
nao, poderiam voltar?. . .). A crenca na sobrevivencia, por sua vez, está liga
da á crenca em Deus (entendido como os amigos o podiam entender); os de-
funtos estariam em demanda da Divindade ou já a teriam encontrado... As
mitologías dos povos históricos desenvolveram amplamente as crencas do
homem pré-histórico, apresentando as "peripecias" ou "aventuras" da vida
postuma.

0 prof. Cécile Lestienne escreveu a respeito o artigo "Funérailles d'an-


tan" na revista "Science et Avenir", n?480, fevereiro 1987, pp. 54-59, onde
tece as seguintes consideracoes:

"Podemos afirmar que os sepultanr.entos intencionáis estao obrigato-


ñámente associados á crenca no Além, numa vida postuma ou num renasci-
mentó.. .? Nosso conhecimentó das sociedades arcaicas e primitivas poderia
sugerír-no-lo. Mas diz Leroi-Gourhan: Até um ateu aceita ser enterrado....

Nao obstante, parece que essas sepulturas sao o testemunho de urna certa
espiritualidade. É certo que elas nao sao devidas apenas a cautelas de higie
ne. Por que os antigos se dariam ao trabalno de enterrar alguém, quando se
ria mais simples tancar o cadáver numa fossa um tanto afastada?

Mas ainda mais significativos do que esta reflexao sao outros indi
cios: . . . os corpos nao foram enterrados de qualquer modo. 0 seu sepulta-
mentó exigiu cuidados e atengao dos sobreviventes" (pp. 56s).

Assim o Professor Lestienne mesmo acaba reconhecendo que os res


quicios funerarios da pré-história sao o indicio da espiritualidade do ho
mem, desde os primordios da sua pré-história: "Há ao menos 80.000 anos
que os homens enterram os seus mortos. Estudando como nossos ancestrais
cuidavam dos seus defuntos, os pesquisadores da pré-história esbopam o nas-
cimento da espiritualidade" (revista citada, p. 54).

Um estudioso cristao nao pode deixar de valorizar enormemente esses


túmulos pré-históricos. Sao típicos do ser humano, pois nenhum animal, por
mais aperfeicoado que seja, sepulta os seus mortos; o homem, ao contrario,
desde que aparece sobre a face da Térra, pratica a inumacao. Com isto tam-
bém fica patente que o senso religioso é outra nota congénita no homem
desde os albores da existencia humana; a religiao nao é um fenómeno tardío
da criatura amedrantada ou amesquinhada pelas forpas da natureza, mas é o
testemunho da inteligencia desde que ela pode ser identificada na penumbra
da pré-história. A fabricacao de instrumentos lascados em vista de um objeti
vo, a producao do fogo e o sepultamento dos mortos sao as primeiras mani-
festacoes da racionalidade humana na pré-história.

447
Urna proposta:

"Viver sem o Temor


da Morte"
por Renold J. Blank

Em síntese: R. J. Blank defende no seu livro a tese de que na hora da


morte todos os homens se deixam envolver e salvar por Deus, mesmo aque
les que se achem consciente é explícitamente avessós a Ele. Por conseguin-
te. se o inferno existe (dúvida proposta por Blank), está certamente vazio.
Esta concepcSo restaura, de certo modo, urna afirmacao jé condenada pelo
Concilio de Constantinopla II (553), que rejeitou a apocatástase (= restau-
racao) final de todas as criaturas numa hipotética felicidade inicial. — O as-
sunto "salvacao eterna e graca de Deus" pertence estritamente ao dominio
da fé; por isto nao é lícito abordá-lo sem consideracao fiel dos documentos
emitidos pela Igreja a propósito, é preciso, sem dúvida, removerás imagens
fantásticas e aterradoras que, durante sáculos, foram associadas á doutrina
dos Novissimos; a Igreja mesma o recomendou no Concilio dejrento; mas
nao se deve retocar o que pertence ao patrimonio da fé.

Blank se coloca na linha da Teología da Libertario extremada, privile


giando a praxis ou a Moral em detrimento do logos ou da ortodoxia. Profes-
sa também teorías que a Igreja rejeita a respeito da ressurreicao e da parusia,
nao levando em conta a Instrucao sobre alguns pontos de Escatologia ema
nada da Congregacao para a Doutrina da Fé aos 17/05/79.

Reconheca-se, porém, que o autor teve a intencao de depurara fé dos


quadros fantasiosos ou dantescos que Ihe foram associados.

Renold Blank é professor de Filosofía na Faculdade de Teología de


Sao Paulo e na Escola Suíco-brasileira. Cursou Literatura, Filosofía e Psico
logía na Uníversidade de Fr¡burgo (Suíca) e fez cursos especiáis ñas Universi
dades de Montpellierr, Dijon e París (Sorbona). — Apresenta ao público um
livro que tenciona despertar confianca e otimismo diante da morte, apoian-
do-se em textos bíblicos e em autores católicos. Todavía o seu otímismo tem
suscitado estranheza, pois foge aos parámetros da constante doutrina da fé.
- Passamos a examinar o conteúdo da obra para poder tecer-lhe alguns co
mentarios.

448
"VI VER SEM O TEMOR DA MORTE" 17

1. A tese do autor

Em suma, Renold Blank quer dizer aos seus leitores que nao tenham
medo da mprte, pois esta é o encontró com Deus-Amor; mesmo aqueles
que nao tenham vivido com Deus e morram explícitamente avessos a Ele
serao recobertos pela Misericordia Divina, que Ihes dará a vida eterna, como
a dará aos fiéis. Esta tese leva o autor a tratar do ¡nferno, do purgatorio e do
jui'zo de Deus sobre os homens.

1.1. O inferno
Blank afirma que nao haverá condenagao ao inferno, pois todos se sal-
varao, mesmo os que morram contrarios a Deus. O autor chega a por em dú-
vida a existencia do inferno, que ele julga absurdo, em favor de urna apoca-
tástase ou restauracao universal: "Nenhum homem poderá dizer se o inferno
existe realmente ou nao" (p. 134).

Para firmar sua posicao, o autor analisa as objecóes que se Ihe possam
fazer:

1) As declaracóes de Jesús sobre o inferno (pp. 133s). Segundo Blank,


nao devem ser entendidas como "informagoes" ou como mensagens doutri-
nárias e, sim, como exortacao á mudanga de vida. Eis as suas palavras:

"Embota seja verdade que o próprío Jesús falava do Jui'zo de Deus e


do inferno, sabemos que ele nao empregava estas nocoes para nos dar 'infor
magoes', mas sim para acentuar a iminéncia e a urgencia da sua mensagem
do Reino de Deus. É sob esse aspecto que a teología moderna interpreta es-
sas palavras de Jesús na maioria dos casos.

Assim Herbert Vorgrimler escreve sobre o assunto: 'Ele (Jesús) usava


palavras conhecidas, como 'inferno', 'perdicao eterna' nao para formular
urna doutrina sobre esses temas, mas, sim, para acentuar através dessas reali
dades o caráter definitivo do seu aparecimento, para definir a sua época co
mo sendo a última oportunidade para urna nova opcao de vida' (H. Vorgrim
ler, Wir werden auferstehen p. 69)" (p. 133).

Estas palavras fazem eco fiel ao pensamento existencialista de Rudolf


Bultmann, segundo o qual o Evangelho nao transmite urna doutrina ou urna
metafísica, mas tao sonriente um apelo vivencia! a passarmos de urna conduta
nao auténtica para outra auténtica. Diluir-se-ia assim o Credo para dar pre
ponderancia a urna Moral muito marcada pelo subjetivismo.

Em grande parte, as declaracóes de Jesús e da Tradicao nao seriam


mais do que os resquicios tardios da literatura apocalíptica dos judeus, que

449
H5 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 306/1987

usava de muitas ¡magens aterradoras para descrever a sorte dos maus no


além, mas que ignorava a mensagem neotestamentária do Deus-Amor. Tais
páginas perderam o seu valor em nossos días, segundo Blank.

2) As declaracoes da Tradicao e do magisterio da Igreja {pp. 126-133).. .


O autor cita algumas; comenta, porém, o seu estilo e nao parece levá-las muí-
to a serio. Julga que há urna evolucao nos pronunciamentos do magisterio,
"que comepou a modificar-se, acentuando mais a seriedade da decísao de vi
da pela qual o homem é julgado" (p. 128). Nao leva em conta o Credo do
Povo de Oeus, redigido por Paulo VI em 1968 precisamente para dissipar dú-
vidas sobre os artigos de fé (inclusive o inferno), nem considera a Declaracáo
da Congregacao para a Doutrina da Fé datada de maio de 1979, que reafir
ma a constante doutrina da fé sobre os Novfssímos. Alias, é de notar que
Blank cita principalmente teólogos como Hans Küng, Ladislau Boros, Leo
nardo Boff, Huergen Moltmann, e pouco utiliza os documentos oficiáis da
Igreja.

3) Positivamente, J. Blank pretende apoiar-'se sobre outros textos bíbli


cos:

a) Mt 20,1-16: a parábola dos vinhateiros que fizeram trabalho desi


gual, mas receberam todos igual salario. Este texto significaría que "a nossa
nopao de justica nao é necessariamente análoga á nocao da justica de Deus"
(p. 121).

O conceito de um Deus que pune o pecado, seria explicável pelas teo


rías de S. Freud e C. G. Jung: segundo estes autores, o homem atribuí a Deus
a repressao da culpa que ele, homem, por deficiencia sua, poe em prática (pp.
73.125s).

b) Le 7,36-50. A parábola da mulher agraciada significaría que Deus


perdoa até aos mais escandalosos pecadores. Cf. p. 140.

c) "Jesús desceu aos infernos", conforme o Credo, bascado em 1Pd


3,18-22... Isto quer dizer, segundo Blank, que Jesús passou pela morte de
um reprobo pregado á cruz, ou seja, pelo "inferno", "a fim de que nenhum
homem tenha que experimentá-lo, porque dessa condicao a morte de Jesús
o salvou" (p. 118). Nao somente aqueles que tém fé, mas também os que
morreram avessos a Deus, serao beneficiados por esse gesto de Jesús.

" ' Deus encerrou todos na desobediencia para a todos fazer misericor
dia' (Rm 11,32). NSo podemos pensar de modo diferente se quisermos pen
sar radicalmente na redencao... Qualquer outra ¡nterpretacao significaría li
mitara redencao de Deus em Jesús Cristo. A partir desta perspectiva, a Ínter-

450
"VIVER SEM O TEMOR DA MORTE" 19

prefacio mais ampia do salmo 107, de acao de gracas, nao parece injustifica
da. Será que este salmo nao poderla fazer também urna referencia aqueta
gratidio infinita que deveriam sentir os que apesar de tudo, na morte, por
um ato de clemencia de Deus foram salvos da situacio desesperadora, provo
cada pelo Nao dito a Deus?" (pp. 144s)'.

"Até quando se encontrava abandonado por Deus na cruz, Jesús acre-


ditou nele. Contudo estar abandonado por Deus significa inferno...

Jesús, porém, acreditou e confiou em Deus até no seu abandono por


parte dEle; isto significa, entao, até no inferno. Desde Jesús existe urna pes-
soa que, até no inferno, aínda continuou acreditando que Deus salvaría. No
ato de fé de Jesús, porém, e esta é a conviccao dominante na tradicao crista,
no ato de fé professado por Jesús estao incluidos os atos de fé de todos os
seres humanos, por mais incompletos ou imperfeitos que sejam.

Seria errado, também, acreditar que, no ato de fé de Jesús, esse aban


donado por Deus, esse condenado, estaría incluida também a impossibilida-
de dos atos de fé e de confianca daqueles que ¡á nao podem mais crer? Da-
queles que até na morte nao estao mais em condicoes de realizar aquele ato
confiante de aventurarse com Deus?

Sera que as negacoes dos que se condenam a si mesmos também nao


estao incluidas na fé confiante do Deus Jesús e, deste modo, igualmente
abolidas?" (p. 142s).

"Quem corre o perigo de desesperarse por causa da infinita seríedade


de sua própria responsabilidade pessoal, é encorajado pela possível salvacao
de cada individuo: á misericordia de Deus nio sao postas quaisquer barrei-
ras, nem mesmo no inferno" (pp. 165s).

Voltaremos ao assunto.

1.2. O julgamento particular e o universal

Segundo Blank, estas expressóes nao significam o exercício da justipa


divina, mas iluminapáo do ser humano por parte de Oeus: na morte b ho-

1 O autor cita, a seguir, o salmo 107 (106), vv. 1.10-16, que cantam a mise
ricordia do Deus que liberta os homens das penas e dos grilhoes.

451
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 306/1987

mem se encontra com Cristo, que o ilumina, mas nao o condena. O autor se
serve dos depoimentos que, conforme os Drs. Raymond Moody e Elizabeth
Kübler-Ross, foram dados por pessoas que estiveram em coma profundo ou
no limiar da morte real. Tais testemunhos referem quatro experiencias bási
cas, segundo R.J. Blank:

"O homem encontrase fora do seu corpo.

Aparece diante dele um caloroso espirito de urna especie que nunca


encontrou antes — um espirito de luz.

Este ser pede-lhe, sem usar palavras, que reexamine sua vida, e o ajuda,
mostrando urna recapiwlacSo panorámica e instantánea dos principáis acón-
tecimentos de sua vida.

Urna ampliacao do horizonte do Eu humano, geralmente ligado a um


estado de felicidade" (p. 86).

A luz branca, atrás mencionada, seria a de Cristo. Este interrogaría o


homem nao para o ameacar ou condenar, pois "todos sentem o total amor e
aceitacao vindos da luz, qualquer que seja a resposta" (p. 87).

Conseqüentemente, o juízo universal por ocasiao da segunda vinda de


Cristo é reinterpretado de modo a nao por em jogo a categoría de justica di
vina, mas significaría, segundo Blank, "a solidariedade existente entre o ho
mem e o cosmos,. . . um cosmos integrado por Jesús Cristo em Deus; com o
cosmos também os homens serao integrados" (ver p. 164).

Tal explicacao nao parece clara ¿ primeira vista, mas é elucidada por
quanto R. Blank afirma ñas páginas anteriores (pp. 156-163): o juízo final
pora em evidencia a repercussao social dos atos dos individuos: "Perante to
do o mundo ficará provado que o nosso Deus é do lado dos fracos e dos ¡n-
justicados. E ficará provado que os que tiveram fé neste Deus, tinham razao
E igualmente ficará provado que toda opressio é errada, seja ela religiosa,
económica ou social; e errados estarlo também todos os que a praticaram
durante ávida" (p. 162).

De resto, o juízo universal, a parusía e a consumacao dos tempos se


daráo, para cada um, na hora da morte, conforme Blank, pois o homem,
saindo do tempo, entrará logo na eternídade, onde nao há sucessao de dias:
"Na morte so existe um AGORA eterno para o ser humano. Neste AGORA
coincidem a autoconsciéncia, a ressurreicao da carne e a conversao evolutiva
do ser humano. Todas essas realidades estao ligadas e relacionadas com o en
contró com o Deus eterno que ama" (p. 15).

452
"VIVER SEM O TEMOR DA MORTE" 21_

1.3. O purgatorio

O purgatorio é explicado como um ato de converslo praticado pelo


homem na hora da morte: a criatura, fazendo urna singular experiencia de
que Deus a ama, senté a atrapao desse amor e abandona tudo o que a impos-
sibilita de amar a Deus e se entrega completamente a Ele: "A aceítacao desse
amor ou dessa clemencia de Deus poderá ser um processo doloroso, pois o
ser humano terá que vencer tudo o que aínda Ihe resta de orguiho e de egoís
mo" (p. 147).

É essa "conversao dolorosa" na hora da morte que o autor chama


"purgatorio".

Em suma, sao estas as grandes linhas doutrinárias do livro de R. J.


Blank, que concluí com otimismo: se existe salvacao para todos os homens,
mesmo para aqueles que morrem apegados a urna vida alheia a Deus, nao há
por que ter medo da morte. Está claro que a responsabilidade de cada indivi
duo na térra Ihe deve tornar a presente vida muito seria, mas nao há por que
recear quanto á sorte postuma de todo e qualquer ser humano.

Refutamos a propósito.

2. Refletindo sobre as fontes

Os assuntos em pauta pertencem explícitamente ao patrimonio da fé


cristi. Por isto, para abordá-los com fidelidade e exatidao, é indispensável
ouvir a palavra dos documentos da fé a respeito.

1. Aínda em 1979, diante de hesitacoes correntes em materia escatológi-


ca, a Congregacao para a Doutrina da Fé publicou urna Instrucao, em que
afirma a existencia do inferno. Eis o trecho que vem ao caso:

"A Igreja, em adesáo fiel ao Novo Testamento e a Tradicao, acredita


na felicidade dos justos que estarao um dia com Cristo. Ao mesmo tempo,
Ela eré numa pena que há de castigar para sempre o pecador que for privado
da visao de Deus, e aínda na repercussao desta pena em todo o ser do mesmo
pecador. E, por fim, Ela eré existir para os eleitos urna eventual purif¡cacao
previa á visao de Deus, a qual no entanto é absolutamente diversa da pena
dos condenados. É isto o que a Igreja entende guando fala de Inferno e de
Purgatorio" (n?7).

2. Em 1968, o S. Padre Paulo VI promulgou o Credo do Povo de Deus,


outra resposta á problemática de nossos tempos, o qual professa:

453
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 306/1987

"Os gue corresponderán» ao amor e á misericordia de Deus, ¡rao para a


vida eterna; e os que os recusaran) até o fim, ¡rao para o fogo que nao se ex
tinguirá jamáis".

3. Estes documentos reproduzem o constante ensinamento da Igreja,


que, por exemplo, no sáculo XIV (em 1336} definiu por voz do Papa Bento
XII a existencia do inferno:

"Definimos que, por disposicao geral de Deus, as almas dos que mor-
rem em pecado atual e mortal, logo depois da morte, descem ao inferno, on
de sao atormentadas pelas penas infernáis" (Constituicao Benedictus Deus,
Dz 530s).

Como se vé, todos estes textos falam claramente de céu, inferno e pur
gatorio. Professam a fé da Igreja, baseada na S. Escritura e na Tradicao oral.
Os textos bíblicos nao podem ser interpretados independentemente da Pala-
vra oral que os bercou e os acompanha através dos sáculos. Nao há dúvida, o
Senhor Jesús, ao falar do inferno, usou de metáforas próprias da literatura
apocalíptica judaica: trevas, pranto, rangerdedentes (Mt 8,11s; 13,32-43.50;
24, 51; 25,30); o Apocalipse menciona figuradamente "tanque ardente de
fogo e enxofre" (Ap 21,8; 20,10). Isto, porém, nao querdizer que a prega-
cao de Jesús sobre o inferno seja toda metafórica. Vejam-se os textos de Mt
25,41.46; 18,8; Le 12,5. Ñas epístolas de Sao Paulo a sorte dos reprobóse
mencionada sem metáfora alguma; cf. Rm 2,6-8; 1Cor6,9s; Gl 5,21; Ef 5,5.

As dificuldades hoje ocorrentes para se admitirem os pontos de fé em


foco provém, em grande parte, da inadequada compreensáo dos mesmos. De
modo especial, o inferno parece opor-se á nocáo de um Deus-Amor, tao en-
fatizada por R. Blank; todavia veremos que o estudo mais preciso do que seja
o inferno desfaz tal impressao.

3. Juízo, purgatorio e inferno

Examinemos o exato conceito de cada urna destas realidades.

3.1. Juízo de Deus

Distinguimos entre juízo particular e juízo universal, nao porque Deus


precise de avaliar — e avaliar duas vezes — a conduta do homem, mas porque
todo ser humano tem seu aspecto pessoal, individual e seu aspecto social.

454
"VIVER SEM O TEMOR DA MORTE" 23

3.1.1. Juízo particular

Logo após a morte, a alma humana, separada do corpo, comparece


diante de Deus, que a ilumina com a sua luz, a fim de que a criatura reco-
nhepa sem subterfugios o que realmente ela é,... quais os méritos e deméri
tos de sua existencia, e assim reconheca também a sorte que I he toca, ou o
tipo de colheita definitiva correspondente á sua semeadura terrestre.

0 juízo particular, portanto, nada tem que ver com um tribunal, em


que o juiz deva ouvir pros e contras e finalmente proferir a sentenca. Cada
alma humana já vai com a sua oppao feita por Deus ou contra Deus; cada
qual profere a sua sentenca nesta vida, usando da liberdade que Oeus Ihe dá.
Apenas no fim de sua peregrinacao será dado á criatura ver, com clareza que
difícilmente tem na térra, o valor preciso e o alcance perene de seus atos.
Assim iluminada, a criatura compreenderá nítidamente o que Ihe compete
encontrar no além.

Entre o juízo particular e o juízo universal, transcorre o que se chama

3.1.2. O evo

Nao raro se diz que, saindo do tempo e do espapo mediante a morte, o


ser humano entra na eternidade. Ora esta afirmacao implica serio erro filosó-
fico-teológico.

Com efeito. A eternidade é própria do ser que nao tem comeco nem
fim; nao é urna duracao prolongada quilometricamente, mas é, por parte de
alguém, a posse simultánea de todo o seu ser; ora isto compete a Deus só; é
o único Ser que nao tem comeco nem fim.

A alma humana nao terá fim, embora tenha tido comeco; por conse-
guinte, ela nunca possui nem possuirá simultáneamente toda a sua existen
cia; urna parte já se foi e outra aínda vira. A morte nao mudará este regime
ou nao fará da alma humana um ser eterno (= Deus), compartilhando o re-
gime de Deus; admitir esta possibilidade é incidir numa incoeréncia lógica;
urna eternidade que tenha tido comeco, nao é eternidade.

Por outro lado, após a morte da pessoa (ou após separar-se do corpo),
a alma humana já nao estará sob o regime do tempo, que é próprio das cria
turas que tém comeco e tém fim. Por conseguinte, para a alma humana sepa
rada do corpo existe um regime de duracao que se chama "evo" ou "eviter-
nidade"; este consiste numa sucessao nao de dias e de noites, mas de atos
(da inteligencia e da vontade) ora mais, ora menos intensos. Quem tem co
meco, tem continuidade; esta é inerente á alma humana; nao será urna con-

455
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 306/1987

tinuidade de progresso ou de regresso moral, pois a morte estabiliza o no-


mem nos termos em que ela o encontra, mas — reconhecamos — a sucessao e
o enriquecimento do conhecimento e do amor há de estar implicada na no-
cao de evo (que foge a toda experiencia do homem peregrino). De novo seja
citada a Instrucáo da Congregacao para a Doutrina da Fé:

"A Igreja, ao expor a sua doutrina sobre a sorte do homem depois da


morte, excluí qualquer explicado que tirasse o seu sentido a AssuncSo de
Nossa Senhora, naquilo que esta tem de único, ouseja, o fato de ser a glorí-
f¡cacao corporal da Virgem Santissima urna antecipacáo da glorificacao que
está destinada a todos os outros eleitos" fn?6).

Por conseguinte, nao se pode dizer que, logo após a morte, a alma hu
mana é re-unida a um corpo glorioso (ressurreigao) e presencia a segunda vin-
da de Cristo e o juízo final. Isto significaría que quem morre em 1987 já
vé consumadas criaturas que ainda nao nasceram nem existem.

Em síntese, diremos:

existencia com inicio e com fim:é medida pelo tempo


existencia com inicio e sem fim: evo
existencia sem inicio e sem fim: eternidade

3.1.3. Juízo universal

No fim dos tem pos, dar-se-á a ressurreigáo dos mortos e o juCzo uni
versal.

A própria Escritura ensina que a ressurreicao nao ocorrerá antes da


consumapao dos tempos: "Todos ressuscitarao. Cada um, porém, em sua or-
dem: como primicias. Cristo; depois aqueles que pertencem a Cristo, por
ocasiSo de sua vinda (parusia)" (1Cor 15,23s). Ver também 1Ts4,16; 2Cor
5,2-4.

O juízo universal nao há de ser entendido como um balanpo de méri


tos e deméritos para se chegar a urna sentenca final sobre cada ser humano
ou sobre o género humano. Seja, antes, concebido como a revelacao da solí-
dariedade existente entre os homens de todos os tempos: manifestar-se-á a
todos a irradiacao positiva ou negativa do comportamento de cada qual; a
verdade será restaurada como verdade, embora sufocada pelo erro durante a
historia deste mundo; o bem e o mal serao reconhecidos como tais, por mais
que tenham sido encobertos ou mascarados no decorrer do tempo.

456
"VIVER SEM O TEMOR DA MORTE" 25

3.2. O inferno

O conceito cristao de inferno, dizem, é contrario ao conceito de um


Deus bom e perfeito. Na verdade, a doutrina concernente ao inferno nao
derroga em absoluto a Bondade de Deus.

Com efeito. Todo ser humano foi naturalmente feito para o bem,... e
para o Bem que nao se acabe ou o Bem Infinito (Deus). Este, explícita ou
implícitamente, exerce atracao sobre todo homem, á semelhanca do Norte
que atrai a agulha magnética da bússola. Se alguém, usando da sua livre von-
tade, diz Sim a esse Norte (= Deus), encontra repouso e plenitude (a bem-
aventuranga celeste). . . Se, porém, voluntariamente Ihe diz Nao e no dia da
morte é encontrado pelo Senhor nessa atitude de repulsa consciente e volun
taria, terá o definitivo distanciamento de Deus; o Senhor respeitará a sua op-
clo negativa e nao o forcará a voltar para Deus. É este estado que se chama
inferno; a própria criatura a ele se condena, sem que o Senhor Deus necessi-
te de proferir alguma sentenca. Além desta dolorosa f rustracao, há no infer
no o que a S. Escritura chama fogo,.. . fogo, porém, que nao é o da térra.

Tal estado é definitivo e sem fim, porque a alma humana é, por si mes-
ma, ¡mortal. O mesmo só terminaría

- se o Senhor aniquilasse a criatura (o que seria contrario á Sabedoria


do Criador; Deus nao destrói o que Ele faz);

- se o Senhor forpasse a vontade da criatura a dizer-lhe um Sim pos


tumo, contrario á livre opcao da mesma (ora, o Senhor, que deu a liberdade
ao homem, nao Iha retira);

- se o Senhor cessasse de amar a criatura e deixasse de Ihe aparecer


como o Sumo Bem; entao o pecador se fecharía em si mesmo ou no seu
egoísmo, sem experimentar a atracao de Deus; ele nao sofrena inferno. Eis,
porém, que o Senhor nao pode deixar de amar o homem, porque Ele é inca
paz de se contradizer; Ele nao pode dizer Nao após ter dito Sim; o seu amor
é irreversível.

Eis o que se entende por inferno numa lúcida concepcao. Vé-se que
tal estado, longe de ser incompatível com a santidade de Deus, resulta preci
samente do fato de que Deus ama a criatura... e a ama divinamente, isto é,
sem se poder desdizer e sem poder retirar-lhe o seu amor; cf. 2Tm 2,11-13.

A doutrina da fé nao nos esclarece a respeito do número de criaturas


que faleceram ou falecerao em estado infernal ou de recusa explícita da mi
sericordia de Deus. Mas também nao nos permite dizer que Deus imporá o

457
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 306/1987

seu amor aqueles que nao o quiserem; isto seria derrogar ao dom da liberda-
de de opcao, dom feito pelo Criador ao homem. Tal incerteza é reconhecida
por bons teólogos, entre os quais Karl Rahner:

"Nem a doutrína da Igreja - na Tradicao e no magisterio extraordina


rio - nem a doutrína da Escritura nos constrangem, de modo certamente
obrigatório. á afirmacao determinada de que ao menos alguns homens sao
realmente condenados, quer se trate de pessoas nominalmente designadas,
quer de anónimas; ao contrario, todas as afirmacoes escatológicas na Escritu
ra e na TradicSo podem compreender-se (sem anteciparmos um ¡ulgamento
futuro da Igreja} como afirmacoes segundo as quais a condenacao é urna
possibilidade auténtica, indevassável, para o peregrino" fEcrits Théologiques,
f. 9 p. 162).

3.3. O purgatorio

Quem morra com pecados leves (impaciencia, preguica, pequeñas


omissoes. . .), nao terá no inferno a perda definitiva da vida, mas também,
em tais condicoes, nao poderá gozar da vi sao de Oeus face-a-face, pois Deus
é tres vezes santo (cf. Is 6,3); nenhuma sombra de pecado pode subsistir na
presenpa dele. Daí a necessidade de urna purificacao postuma no chamado
"purgatorio". Este nao consta de chamas, mas é um estado no qual a alma se
arrepende, até o extremo, de suas negligencias; o amor a Deus, fortalecido,
extingue os afetos desregrados da alma, de modo que ela se torna una ou
isenta de contradicoes. A existencia no purgatorio nao se mede por dias nem
meses, mas pelo evo. - Os fundamentos bíblicos da doutrina do purgatorio
sao: 2Mc 12,38-45; ICor 3,10-15. . . A Igreja, por seu Magisterio, tem rea
firmado a realidade do purgatorio; cf. p. 453.

4. Amor e justica em Deus

4.1. Mt 20, 1-16

A parábola de Mt 20,1-16 poderia insinuar que para Deus nao valem as


categorías de justipa tais como os homens as entendem; é o que R. Blank
sugere em seu livro. Examinemos, pois, o sentido exato desta parábola.

Ela so pode ser devidamente entendida se colocada sobre o seu fundo


decena:

Em Mt 19,16-22, lé-se o episodio do jovem rico desejoso de chegar á


perfeicao, mas incapacitado de seguir Jesús por causa do apego que tinha aos
seus muitos bens.

Em Mt 19,23-26 Jesús observa quanto é difícil a um rico preso aos


bens temporais entrar no Reino dos Céus.

458
"VIVER SEM O TEMOR DA MQRTE" 27

Conseqüentemente em Mt 19,27-30 Pedro lembra que ele e os Apostó


los tiveram a coragem que o jovem rico nao teve, e pergunta o que Ihe está
reservado. Jesús coerentemente responde que aqueles que assim procedem
está preparada a vida eterna.

Estes episodios poderiam levar á conclusao de que o Cristianismo é


urna escola de estoicismo ou faquirismo espiritual: vencerá quem mais esfor-
co atlético exercer ou quem demonstrar ter mais forca de vontade para se
impor á Justipa Divina. Tal ñoclo seria falsa. Justamente para dissipá-la, se-
gue-se no Évangelho a parábola de Mt 20, 1-16: esta apresenta cinco turmas
de operarios, das quais só a primeira é tratada com estrita justipa (foi feito
com esses homens o contrato de um dinheiro e o contrato se cumpriu; ver
vv. 2 e 13); as outras turmas foram tratadas com justipa e gratuidade listo é,
receberam a frapáo de dinheiro correspondente ao número de horas de seu
trabalho e mais o restante, de grapa, para inteirar um dinheiro). Ora, confor
me as boas regras de interpretapao das parábolas, a linha central da parábola
é que se torna portadora da mensagem teológica; por conseguinte, se o pa-
trao tratou seus operarios muito mais com gratuidade do que com justipa, o
Senhor Deus, diz a parábola, trata os homens muito mais com misericordia
e gratuidade do que com justipa; isto quer dizer que os méritos dos homens
— que Deus reconhece — sao antecipados pela grapa de Deus; nao existíriam se
Deus nao tivesse tomado a iniciativa de dar a sua grapa. Ai está, pois, a res-
posta á problemática lanpada pelo capítulo 19 de S.Mateus: se o Cristianis
mo propoe renuncia, como Jesús a propós ao homem e como os Apostólos a
executaram, a resposta generosa do homem nao há de ser motivo de va glo
ria e auto-suficiéncia, mas, ao contrario, é fruto da grapa de Deus previamen
te dada á criatura.

Vé-se, pois, que nao é necessário alterar a nopáo de justipa quando


aplicada a Deus; a justipa será sempre "dar a cada um o que Ihe compete";
apenas é de notar que, quando Deus dá ao homem o que este mereceu, o
homem nao pode esquecer que ele só o mereceu porque Deus Ihe outorgou a
grapa de o merecer (doacao esta que é realmente gratuita ou para a qual nao
podemos estabelecer normas gerais derivadas do nosso "bom senso").

4.2. "Desceu ao inferno"

R. Blank afirma que Jesús desceu ao inferno (p. 118). "Ele percorre
todas as dimensóes do inferno para que todo homem, no seu distanciamento
de Deus, tenha a possibilidade de se reencontrar com Cristo" (p. 119). Estas
afirmapoes servem a Blank para concluir que Jesús já sofreu o inferno em fa
vor de todos os homens, de modo que ninguém deve recear cair em tal des
grapa.

O raciocinio do autor baseia-se em certo equívoco. Quando se diz no


Credo que Jesús desceu ao inferno ou que, logo após a sua morte, foi ter

459
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 306/1987

com os espiritas "detidos no cárcere" (1Pd 3,18-22), as palavras "inferno" e


"cárcere" nada tém que ver com o que se chama "a sorte eterna dos repro
bos". Com efeito; os judeus julgavam que debaixo (infra) da térra havia um
lugar em que os justos aguardavam a Redencao trazida pelo Messias; diz en
tao a fé que Jesús, tendo vencido a morte na Cruz, anunciou a esses justos a
Boa-Nova da salvacáo. Inferno, no caso, é o adjetivo de infra; significa lugar
inferior ou subterráneo. Dos dizeres bíblicos nao se pode deduzir que Jesús
provou o tormento do inferno dos reprobos para livrar, de entao por dian
te, todos os homens que morram avessos a Deus.

4.3. lluminacao na hora da morte

A misericordia de Deus, segundo Blank, se exerceria, entre outras ma


ne ¡ras, pela concessao, ao homem, de urna poderosa iluminacao na hora da
morte; em conseqüéncia, o moribundo teria um encontró lúcido com Deus
e se deixaria envolver totalmente ou salvar por Ele (pp. 104s).

Ora o próprio autor nao é muito claro quando trata deste assunto. Ci
ta Ladislau Boros em favor da dita iluminacao, como também cita Karl
Rahner em contrario, e concluí: "As afirmapoes a este respeito permanece-
rao sempre no dominio da especulacao teológico-filosófica" (p. 104). Ape-
sar de tudo, Blank parece favor ave I a esse iluminativo encontró com Deus,
que deve provocar um ato de fé e confianca absoluta no Salvador.

Temos aqui um postulado que parece nao levar em consideradlo o fa-


to de que precisamente no fim da vida muitas pessoas se acham esclerosadas,
inconscientes e ¡ncapazes de utilizar suas faculdades por causa da doenca ou
da velhice. Admitir que venham a gozar entao de urna lucidez especial con
traria o curso natural de muitos currículos de vida; é no fluxo da sua vida in
te ira que a pessoa faz sua opcao, de tal modo que, no fim da vida, terá o ple
no desabrochar de suas atitudes ou colherá os frutos da sua sementeira; pro
digios sao sempre excecoese nunca podem ser previstos.

Ademáis os depoimentos de enfermos que chegaram ao coma profun


do e retomaram o curso de vida anterior, sao muito provavelmente exprés-
sao da ¡maginacao desses pacientes; teceram o enredo de suas experiencias
no limiar do Além, baseando-se em categorías religiosas e filosóficas f reqüen-
tes ñas sociedades ocidentais; com efeito, a ¡dé i a de que a outra vida é en
contró com urna figura de luz e amor após a travessia de um túnel e num jar-
dim ameno corresponde ao anseio e b fantasía de numerosos cidadaos; a ou
tra vida seria semelhante a vida presente num plano superior e "melhorado".
Por conseguínte, nao se podem utilizar tais depoimentos como balizas teo
lógicas. Se tivessem sido auscultados no Oriente ou na África pacientes bu
distas ou hindúístas ou mesmo politeístas e animistas, as "experiencias" do
Além teriam sido provavelmente bem diversas.

460
"VIVER SEM O TEMOR DA MORTE" 29

Em suma, é preciso cultivar a sobriedade quando se tenciona falar da


hora da morte e dos acontecimentos subseqüentes. Certamente a luz de
Deus se projetará sobre a alma humana para que veja mais claramente a Ver-
dade; isto, porém, num plano que nada terá de físico ou topográfico.

5. Conclusao

É justo reconhecer no livro de Blank a intencao de desmitizar a morte


e o Além, dissipando concepcoes dantescas e aterradoras, que mais depen-
dem da fantasía do que da mensagem da fé. É sabio também, da parte do au
tor, mostrar que as situacoes de ¡njustiga Social podem ter aspecto infernal e
que é preciso remové-las em favor de urna sociedade mais justa e fraterna
(pp. 153-177).

0 livro, porém, se coloca na linha da Teología da Libertagáo extrema


da: privilegia a praxis em detrimento do logos ou da ortodoxia (pp. 133.
176). Pouco valoriza os documentos oficiáis da Igreja, dando mais énfase a
urna dimensao sócio-política da fé. 0 Concilio de Trento em 1563 pediu aos
Bispos procurassem evitar que os pregadores explanassem o purgatorio em
termos fantasiosos, aptos a satisfazer únicamente á curiosidade ou mesmo á
supersticao (cf. Denzinger, Enchiridion n?983). Se na verdade nada se pode
dizer sobre a salvacáo ou a ruina eterna de Judas e outros homens, nao é lí
cito afirmar que todos se salvarao, mesmo os que morrem em pecado grave,
avessos ao convite da grapa de Deus; esta tese, alias, já foi condenada pelo
Concilio de Constantinopla II, quando os conciliares rejeitaram a apocatás-
tase (= restaurado) final de todas as criaturas numa hipotética felicidade
inicial. O bom cristao, alias, nao se deixa obcecar nem mesmo impressionar
pela perspectiva do inferno; ele sabe, com certeza moral, que quem vive com
Deus terá a vida ¡mortal com Ele. Ao comentar a figura de Abraao peregri
no, tal como a apresenta Hb 11,8, Vaughan observa:

"Há um instinto de imortalidade na santidade. Aquele que vive com


Deus, sabe que vivera para sempre (cf. Mt 22,32). Canaa nao podía sera me
ta de alguém que caminhava com Deus".

A certeza desta plenitude de vida se deriva da própria fé coerentemente


praticada. Dissipem-se as imagens teatraisque se associaram aos conceitos cris-
taos do Além, mas guarde-se com fidelidade e confianca a íntegra da fé da
Igreja.

Segue-se significativo testemunho de alguém que, convertido do ateís


mo, enfrentou a morte com serenidade e coragem, certo de que era a sua
Páscoa com Cristo ou a sua transiólo para a Plenitude.

461
Do atei'smo á fé:

A Descoberta de Deus
por Jean Luchaire

Em síntese: As páginas seguintes apresentam o itinerario de conversao


de um ateu francés, que descobriu Deus poucos meses antes de morrer e dei-
xou relato pessoal de grande signif¡cacao.

Jean Luchaire foi, em París, Presidente da Comissao de Imprensa Pari


siense durante a ocupacao alema (1940-44) e, como tal, colaboracionista
com o nacional-socialismo.

Foi, mais tarde, preso pelos franceses, seus compatriotas, e acusado


de traicao. Condenaram-nb a morte, que ele sofreu por fuzilamento em
Montrouge aos 22 de fevereiro de 1946. O fim de seu itinerario de vida é
muito significativo pela sinceridade e coragem de que deu provas.

Filho de familia racionalista, nada aprenderá de religiao no lar. Levou


vida de burgués culto, que pertencia a um grupo de intelectuais incrédulos e
dados ao gozo dos prazeres terrestres.

Urna vez acusado e preso em Fresnes, viu-se ocioso e entediado na pri-


sao; por isto pediu ao Capelao que I he emprestas» alguns livros.. . Aos pou
cos foi evoluindo em sua mentalidade e, de cético que era, veio a pedir o Ba-
tismo, fez a Primeira Comunháo, quis que o seu casamento civil fosse legali
zado na Igreja e pós-se a viver o breve resto de sua vida em serenidade sorri-
dente.

Deixou um caderno de Memorias em que anotou as razoes para crer


e os motivos para duvidar. Ele os explana imaginando estar mostrando a um
colega ficticio o caminho que ele mesmo percorreu:

"Quis percorrer essa estrada de novo, nao só para te levar á alegría que
agora é minha, mas para averiguar o sólido fundamento das minhas etapas.
Cheguei ao termo, nada tenha a cortar ou a retificar".

462
A DESCOBERTA DE DEUS 31

Eis como se desenvolve esse itinerario, a partir do problema inicial:

"Tu me dizes que és incrédulo. . . Só podes aceitar aquilo que vés,


aquilo que tocas ou as verdades constatadas por tua razao. .. Está bem, ra
ciocinemos^."

Entao Luchaire interroga o interlocutor imaginario como ele mesmo


se interrogara:

"Teus sentidos, sabes que sao incompletos, insuficientes. E/es te pro-


porcionam algumas certezas. Nao digas que te propiciam todas as certezas.

Tua razao? É um guia infinitamente seguro. Utiliza-o. Se queres, serve-


te tao somente déla".

Luchaire retrocede entao as origens do mundo e da vida:

"No decorrer dos teus longos raciocinios, chegas a esta pergunta muí-
to sensata: 'Quem criou a Térra ou as nebulosas das quais a Térra saiu?'

Ai tua razao para. Pois responder: 'A materia sempre existíu' é o mes
mo que nao responder, é urna confissao de ¡ncapacidade".

Diante das palavras que despertam a idéia de infinitude, ausencia de


limites, verifica:

"As silabas de tais palavras estao nos teus labios, mas o seu significado
nao entra em teu espirito. És obrigado a concluir: 'Nao sei\' "

Conhecendo por experiencia os refugios em que a razao se encerra pa


ra nao ir até o fim do seu itinerario, Luchaire se torna incisivo:

"Será que te podes consolar com a tua incapacidade dizendo: '0 que
eu nSo sei, os meus descendentes longinquos o saberao um dia?'... Nao; os
homens dirao aínda frente aos enigmas fundamentáis: 'Eu nao se/!'"

Assim, através desses 'Nao sei' que o deixaram sem resposta a propósi
to do sentido da vida, Luchaire chega á "hipótese Deus". É um Deus invisí-
vel, sem dúvida, mas... se Ele fosse a resposta...!? Ele se interpela a si mes
mo:

"Cegó, podes recusar a existencia da luz, mas entao consentes em ficar


enfermo. Eu me recusei a esta atitude".

463
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 306/1987

Com o seu interlocutor ficticio, ele examina á luz da "hipótese Deus"


os grandes movimentos interiores do seu corapao e da sua consciéncia:

"Tu amaste, tu amas. Por que, ultrapassando o mero instinto do ma


cho, . . . tu, eue nossos semelhantes experimentamos a teimosa necessidade
de urna companheira de todos os días? E por que procuramos ás vezes essa
companheira única mediante exploracoes desanimadoras?

Donde vem essa voz interior que te diz: 'Isto é mau', 'Isto é bom'?...
Essa voz que chega em certos momentos a censurar até os teus instintos de
conservacao pequeños e grandes?... Se essa voz viesse de longe e se chamas-
se Deus?"

Esta primeira parte do diálogo termina com a conclusao:

"Deus aínda é para ti apenas urna fría expiicacao lógica, na falta de


qualquer outra expiicacao suficiente; mas será que isto nao é mil vezes me-
Ihor do que o teu 'Nao sei' inicial ou do que o apelo ao acaso, palavra esta
humilhante para a tua dignidade? Já deste um grande passo; resta-te outro a
cumprír. É preciso que passes da lógica á crenca, da demonstracao á Fé".

Agora Luchaire deixa as sinuosidades da razao para fazer ouvir as "pal-


pitacoesda alma":

"Aquí eu te entrego a ti mesmo: sonda o teu coracao, interroga aspal-


pitacoes da tua alma. Esforca-te no silencio da tua meditacao por te comuni
cares com Deus. Se nao o conseguirás, isto nSo significará que nao existe
Deus, mas, sim, que Deus aínda nao te quer falar porque nao estás pronto
para ouvi-lo. . . Mas, quando estiveres pronto, urna confianca calma e lumi
nosa te penetrará: tu acreditarás1."

0 cegó chega á luz - a certeza de Deus o penetra. Desde entao:

"Tu compreendes a vida, já nao tens medo da morte, porque já nSo


crés na morte. Sentes Deus no teu passado, no teu presente e no teu futuro.
Nada perdeste do que julgavas possuir outrora, e adquiriste nova e prodigio
sa riqueza: ficaste sendo tu mesmo, mas tu te entregaste ñas maos dele. Tua
vontade tornou-se submissa á dele. Tens confianza nele, no tocante a ti, aos
teus bens, á humanidade inteira".

A seu modo, ele pronuncia o seu "Senhor, lembra-te de mim quando


entrares no teu Reino". Tendo um pouco mais de tempo do que o seu ante
cessor no Gólgota, ele nos informa a respeito do seu encontró com Jesús:

464
A DESCOBERTA DE DEUS 33

"Jesús. . . só veio á Térra para lembrar, para mostrar Deus e para indi
car aos homens como Deus deve ser compreendido e servido. Jesús, do qual
a Igreja é a filha,... cuja perenidade e expansao sao elas mesmas um milagre
permanente e demonstrativo".

Supera entao as objecóes e chega á Igreja:

"A partir deste momento, Deus, Jesús e a Igreja sao ¡nseparáveis em ti,
pois nao tem fé agüele que só tem fé pela metade ou com reservas... Já que
necessariamente existem elementos humanos na Igreja, guarda frente a eles o
teu direito de crítica e de reforma. Mas nao te é lícito exercer esse direito
sobre aquilo que na Igreja é de origem divina, isto é, derivado da palavra de
Jesús ou dos seus discípulos diretos. 0 que Deus ditou é palavra divina; per
manece tao peno quanto possivel dessa palavra e tu estarás dentro da ver-
dade...
Fresnes, 7 de fevereiro de 1946"

Urna vez proferida a sen tenga de condenacao á morte, as autoridades


recusaram o pedido de indulto ou grapa. Eis entao o que foram os últimos
momentos de Jean Luchaire, segundo o testemunho do Capeláo que Ihe as
sistiu e que tudo contou aos colegas de prisao:

"No dia da sua morte, ele subiu no camburao em companhia de


um ¡ovem miliciano de vinte anos, que acabara de comungar também ele. Es-
tavam numa manha de primavera, fresca e clara. Rotineiramente disse o
/ovem: 'Que manha bonitaY Luchaire colocou sua mSo fraterna sobre o om-
bro do mesmo e sorríu-lhe: 'Tu verás, meu filho. Tudo será aínda mais belo
dentro de dez minutos no Paraíso1."

0 texto dispensa comentarios. Colhido no fascículo Cahiers du Clan


n?3, agosto 1967, artigo La mort en face. Ver também Xavier Vallat, Feuil-
les de Fresnes. Obras citadas por Jacques Loew, em : La Vie á l'Ecoute des
Grands Priants, Fayard Mame 1986, pp. 37-42.

no próximo natal dé como presente aos seus amigos


uma assinatura de "pergunte e responderemos", que
tornará v.s. presente aos mesmos durante os doze meses
do ano. as palavras de fé da nossa revista poderáoser-
lhes de grande necessidade numa fase da historia em
que todos sao obrigados a pensar duas vezes antes de
se definí rem di ante das múltiplas interrogacóes que
lhes suscita a sociedade contemporánea.

465
Ainda em foco:

As AparicOes de
Natividade (RS)
Em síntese: Em Natividade (RJ} ocorreram nos anos de 1967 e 1968
quatro apartides atribuidas a Nossa Senhora e recebidas pelo Dr. Sebastiao
Fausto Barreira de Faría. Duas Mensagens foram ditadas ao vidente relativas
a 1) urna pedra a ser cuidadosamente guardada e todos os anos mergulhada
na agua de um regó, 2) a preservacao da devocao a María, Mae de Deus,
3) o ecumenismo, 4} a migracao da humanidade para outros mundos, etc. -
A Virgem María ter-se-á despedido "desde éfeso", ao encerrar a quarta apa-
ricao. — Ora um exame atento das Mensagens e das linhas características dos
fenómenos de Natividade leva a crer nSo sejam auténticas aparicdes da Santa
Mae de Deus, mas, antes, a expressao do ánimo do "vidente". A Igreja nao
se pronunciou a respeito de Natividade nem há inquérito em curso a tal pro
pósito, porque os elementos em pauta nao parecem justificar tal atencao.

A Fazenda de Coqueiro, perto de Natividade (RJ), tornou-se em 1967


e 1968 a sede de aparicoes atribuidas a Nossa Senhora. 0 vidente foi o Dr.
Sebastiao Fausto Barreira de Faria, médico e advogado. Até nossos días, há
ecos desses fenómenos, que suscitam o interesse e as dúvidas dos fiéis. Eis
por que as páginas seguintes abordarao sumariamente o assunto.

1. Os fenómenos

Eis o resumo dos acontecimentos baseado em relato do Dr. Fausto


de Faria:

"As aparicdes foram em número de quatro, testemunhadas únicamen


te pelo médico, cuja reacio as duas primeiras foi de espanto e de indescrítí-
vel emocao e perplexidade ás seguintes. A terceira, devido ao aparecimento
misterioso da pedra (Cefas), único fato visto e confirmado por mais cinco
pessoas, foi a mais impressionante. Todas ocorreram de tarde e num só lu
gar. A primeira, que durou segundos, tendo Nossa Senhora apenas dito: 'Nao
se assuste, volte', aconteceu a 9 de maio de 1967, quando ele se encontrava

466
ASAPARIQOESDENATIVIDADE(RJ) 35

a sos, ¡nspecionando a construyo de um regó na Fazenda Coqueiro, propríe-


dade de sua familia. A segunda, de rápida duracao também e na qual Nossa
Senhora desapareceu sem nada dizer, sucedeu oito dias após, a 17 de mato,
estando ele em companhia do seu administrador Jerónimo Zuza, e do fazen-
deiro Anir Silva. Na terceira. a 12 de julho do mesmo ano, Nossa Senhora di-
tou, em dez minutos aproximadamente, a primeira e enigmática mensagem,
tendo ele, a seu lado, a sua senhora, María Elisa, o médico Walter Nováis, os
fazendeiros Waldir Carvalho e Bartholomeu Barra e o seu administrador, os
quais, perplexos, viram, no final, o aparecímentó da pedra ñas maos do mé
dico. A 12 de julho de 1968, exatamente um ano depois da terceira, e nao
obstante ter ele ido ao local, nesse período, mais de cem vezes, sobreveio a
quarta e última, quando levou e mergulhou no regato a pedra misteriosa.

Nessa aparícao, Nossa Senhora, ao ditar a segunda e longa mensagem,


contendo urna frase para a qual pediu segredo, identificou-se claramente. Ao
término da mesma, que se prolongou por quase urna hora, um fato se deu:
urna nuvem escura ¡solada no céu claro, pairou sobre o local, deixando cair
urna neblina, seguida de urna aragem, o que causou grande emocao na mu/ti-
dio ali comprimida.

As aparicoes tiveram lugar num único ponto do regato existente no si


tio Milagre, adquirido em principio de 1967 e integrante da Fazenda Co
queiro, situada peno de Natividade, cidade do extremo-norte do Estado do
Rio de Janeiro. ..

Nossa Senhora apareceu sempre em carne e osso, conforme expressao


do médico, nítida e inconfundivel como qualquer criatura humana vista á
curta distancia. Olhava-o fixamente. Sua postura era ereta, com as maos jun
tas ácima da cintura e os pés descalcos dentro do leito raso do regato. Um
destaque impressionante: as maos e pés eram douradosl Usava um vestido
inteirico, de mangas largas, de tecido grosso e modelo primitivo, cinza-azu-
lado claro e um manto igual na cabeca. Era alta, magra, aparentando aproxi-
madamene quarenta e poucos anos. Pele alva, rosto oval e bonito, com urna
expressao acolhedora e santa. Olhos grandes, bem afastados um do outro,
castanhos claros, sendo na mesma cor os cábelos. Voz suave, num portugués
perfeito. Sorriu urna vez na primeira aparícao e tornou-se triste na quarta, ao
ditar a seguinte frase: 'Que conserve meu templo sempre aberto e inviolá-
vel\'" (extraído do livro citado no final deste artigo, pp. 7 e 8).

Quanto ao vidente, o Dr. Fausto de Faria, já falecido, nasceu no Ama


zonas em 1915. Fo¡ por duas vezes Deputado Estadual, abandonando a polí
tica em 1959. Casouse em 1938 com María Elisa Guimaraes de Faria, da
qual teve tres filhos. Confessou ele mesmo:

467
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 306/1987

"A minha religiosidade sempre fora assaltada por dúvidas e descréalas.


Para os misterios da vida e do universo, eu sempre procurara os caminhos da
Ciencia. Jamáis procurei o espiritismo ou acreditei em qualquer forma de
torcas ditas ocultas. Nao fazer mal a ninguém foi sempre urna especie de
preocupacao filosófica e sentimento religioso dentro de mim. Cornudo nun
ca me julguei um homem perfeito nem puro" (Relatório entregue ao Prof.
Jurandyr Manfredini, psiquiatra).

Vejamos agora o texto das duas Mensagens de Natividade.

2. As Mensagens

2.1. Primeira Mensagem (12/07/1967)

"Os meus símbolos tém varios nomes, mas eu sou urna única criatura.

Para os céticos e incrédulos, eu sou a mensageira das verdades divinas.

Esta agua passa por urna cefas que há muitos arios caiu de onde eu ve-
nho. Quem déla beber, penitenciando-se, conhecerá os milagros da fé e do
amor.

Nao deixe que o meu templo seja incendiado — o templo do meu pri-
meiro símbolo.

Apanhe esta cefas de ferro, minério do qual o Brasil 6 muito rico,


guarde-a íntegra, em Natividade, e todos os anos traga-a para ser colocada
nesta agua.

Volte á sua vida e a seu destino.

Ponha as máos, assim, como estao as minhas, dentro d'água, junto aos
meus pés".

Observacao: o aparecimento misterioso da cefas (pedral ñas maos do


vidente se deu após esta última frase, quando ele retirou do regato as máos
e as abriu, a pedido da voz que Ihe falava.

2.2. Segunda Mensagem (12/07/1968)

"Eu sou realmente Miriam, Ma"a Imaculada de Jesús unigénito.

Meu símbolo primordial, porque característico, 6 a matemidade divi


na, razao da minha própria existencia.

468
AS APARIQOES DE NATIVIDADE (RJ)

Meu templo, que os fmpios e os apóstatas também tentam destruir, é


o culto universal á minha condicao de Mae de Deusfeito hornero.

Eu sou a mensageira da fé e do amor para a cristandade traumatizada


pela discordia, em meio á humanidade ameacada em seu esplritualismo.

Á Igreja de meu Filho — guardia e intérprete primeira de sua doutrina


- e da qual também sou Mae, eu transmito a seguinte exortacáo:

'Que, sem renuncia á sua esséncia e aos seus valores fundamentáis, sa


biamente continué a ajustar sua acao á face dos tempos, a fim de melhor
cumprir sua sagrada missáo espiritual, evangelizadora sobretudo, e partici
par, da maneira mais ampia e decidida, mas pacíficamente, na solucao dos
problemas de ordem social e económica, atinentes á doenca, á pobreza, á
ignorancia e á opressao, indispensável á paz dos povos e das nacoes.

Que nao esmoreca no longo e arduo caminho da edificacao de um só e


grande templo que acolha a unificacáo do cristianismo, ampliando assim a
fé e a pregacao em defesa da familia e da sociedade contra as forcas desagre-
gadoras da decadencia espiritual e moral, os preconceitos, o orgulho e o
odio, a maldade e a violencia.

Que restabeleca o primado do culto a Deus e a meu Filho, sem mácula


das invocacóes aqueles cujas vidas comprovadamente santas, sejam fontes
perenes de virtudes.

Que conserve meu templo sempre aberto, intransigível e inviolável.

Que mantenha a respeitabilidade de seus templos, a hierarquia e a au-


toridade de seus oráculos episcopais, principalmente do maior, de Cefas.

Que se acautele com os incendiarios da fé e da disciplina em seu pro-


prio seio.

Atencáo! Fica a seu criterio a conveniencia e a oportunidade da divul-


gacao da seguinte frase:

.(i)

(7) Frase aínda nao divulgada.

469
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 306/1987

Que o homem, na sua genialidade e grandeza - dádivas de Deus - nao


se ofusque com as suas conquistas.

Em vao prenunciaram, porque este mundo só se extinguirá com a sua


luz, nao antes de passarem milh8es de anos e de haver a humanidade cami-
nhado para outros mundos.

Enquanto nao for depositada definitivamente no templo do qual sou


padroeira, em Natividade, que jamáis falte alguém para guardar e aqui tra-
zer, todos os anos, esta Cefas, penhor e símbolo da minha presenca perma
nente neste regato e neste recanto abencoado de fé e de espera nca, de con
solo e resignacao, e onde as gracas por seu intermedio obtidas sejam apenas
registradas no silencio da humildade, das oracoes e penitencias, em favor dos
sofredores e infelizes, das almas, da uniao das familias cristas e espirituais,
dos pecadores e incrédulos.

Esta é a minha imagem, nesta revelacao. Que seja divulgada com esta
mensagem.

Seu pedido de Fátima e de Lourdes nao pode ser atendido, porque a


fé nao está condicionada as revelacóes de Deus. Sejamos bons e humildes e
oremos para alcancá-la e senti-la.

Este é o meu segundo e último adeus desde Éfeso.

Eu abencóo a todos aqui presentes que vieram com fé ou em busca da


fé, e desejo que minha béncao maternal chegue a todos quantos, homens e
mulheres, em todas as partes do mundo, com renuncia, abnegacao e sacrifi
cios, estao a servico de Deus em seu apostolado e ministerio.

Nao sinta a ¡ndiferenca e o insulto dos orgulhosos. Reze por eles.

Adeus".

3. Comentarios

Proporemos tres consideracoes:

3.1. Reserva e sobriedade

Antes do mais, é sadia atitude de fé manter reserva diante de'todo fe


nómeno extraordinario, até que haja plenamente evidencia de que vem da
parte de Deus. Os caminhos pelos quais o Senhor quer atrair o homem, sao
os da fé, que ilumina modesta e suficientemente os passos da criatura, sem

470
ASAPARICOESDE NATIVIDADE (FU) 39

estroncios nem alardes. A criatura, sim, é propensa a ver ou proclamar mila-


gres.

A experiencia ensina que muitas ilusoes tém ocorrido nesse interesse


por milagres. Especialmente nos últimos decenios os conhecimentos mais
apurados de Psicología e Parapsicología tém contribuido para explicar fenó
menos que até entáo eram tidos necessariamente como intervencoes extraor
dinarias de Deus.

Por conseguinte, no caso de Natividade (RJ) é oportuno que um sadio


espirito cn'tico (nao demolidor, mas construtivo) se exerca, a fim de que a
verdade seja reconhecida sem mésela de erros.

3.2. O texto das Mensagens

A análise do texto das duas Mensagens de Natividade dá a ver que o


seu ámago é um tanto vago e nem sempre muito lógico; usa locucoes inade-
quadas — o que é pouco condizente com a Sabedoria de Nossa Senhora. Ve
jamos:

Mensagem I

"Urna cefas que há muitos anos caiu de onde eu venho. . .". — Nao
deixa de ser estranho o uso de um vocábulo aramaico dentro de urna frase
brasileira, que nao necessitava de tal hibridismo (de resto a transíiteracao au
téntica seria kefa'). Quis Nossa Senhora dizer que a rocha ou a pedra caiu do
céu (ou de Éfeso) há muitos anos? — Ver, de resto, a segunda Mensagem, on
de a Virgem Maria se despede a partir de Éfeso...

A entrega de urna pedra que devia ser cuidadosamente guardada e to


dos os anos mergulhada de novo no rio, causa especie.

Mensagem II

Miriam. . . Outro vocábulo aramaico, cujo emprego é descabido no


contexto.

A entrega de urna pedra que devia ser cuidadosamente guardada e to-


pao do Cristianismo, ampliando assim a fé.. ."Trata-se de um Templo espiri
tual que acolha todos os cristaos (impropriamente "a unif¡cacao do Cristia
nismo")? "Ampliar a fé" é inadequado; mais exato seria "difundir a fé".
Que significariam ainda as palavras "sem mácula das invocacoes aqueles..."
e "invocacoes maculadas"?

471
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 306/1987

"Aqueles cujas vidas comprovadamente santas sejam fontes perenes de


virtudes...". No caso, melhor do que "fontes" dir-se-ia "estímulos".

O artificio de urna frase deixada em segredo, cuja revelapao estaría a


criterio do vidente, também é algo de fantasioso.

A profecía "escatológica" prevé milhóes de anos para este mundo (que


aínda é relativamente jovem). A humanidade passará para outros mundos. -
Estas predipoes contradizem á praxe do Senhor Jesús, que recusou fazer
qualquer profecía sobre a data do fim do mundo. A mígracao da humanida
de para outros planetas é tema de romances de ficcao científica, mas nao é
tema teológico.

O Or. Fausto se impressionou pelo fato de que a Mensagem aludíu ao


"seu pedido de Fátima e Lourdes" (pedido de sínais para incrédulos). - Ora
nao há razao para crer que a Virgem María tenha feito menpao desse anseio;
o próprio vidente pode ter tirado do seu íntimo ou da sua experiencia a res-
posta que ele atribuiu a Nossa Senhora.

A Virgem SS. deu o segundo e último Adeus desde Éfeso.. . Segundo


em relapao a qual primeiro? Seria em relapao á aparipao anterior? — Desde
Éfeso? María está em Éfeso? As descobertas arqueológicas mostram com evi
dencia que María morreu em Jerusalém, onde hoje se aponta o seu túmulo; a
tradicao referente á morte de Maria em Éfeso é recente, ou seja, data do
tempo de Ana Catarina Emmerich, 1774-1824; esta Religiosa recebeu grapas
singulares, mas as revelapoes que se I he atribuem nao sao fidedignas, pois fo-
ram redigidas por outrem, isto é, por Clemente Brentano. Somente em 1890
comecou a ser cultuada a memoria da Santa Míe de Deus em Éfeso, no mon
te Coressos, num Santuario chamado Meryemana (Turquía).

Em suma, quem procura depreender o significado das duas Mensagens


de Nativídade, depara-se com muítas palavras e pouco conteúdo; as frases es-
tao mal redigidas tanto do ponto de vista lógico como do ponto de vista
teológico. Dir-se-ia que exprimem, sim, aquilo que o Dr. Fausto podía trazer
em seu inconsciente, como resultado de leituras, conversas e contato com
fontes religiosas1. É difícil, porém, justapor tais mensagens áquelas que ema-
naram de Lourdes e Fátima, ñas quais a precisao teológica, a concisao e a
simplicidade do estilo se ¡mpoem ao leitor.

/ O próprio Dr. Fausto confessou que tinha dúvidas de fé e nao pratícava


a religiao católica quando Ihe ocorreram as "visoes". Este estado de espirito
se reflete bem no texto das "revelacoes", que parecem provir de pessoa pou
co familiarizada com os grande temas e documentos da Igreja.

472
AS APARICÜES DE NATIVIDADE (RJ) 41

3.3. Comprovacio?

A autoridade da Igreja nao se pronunciou sobre o tema "Natividade",


nem há inquérito eclesiástico sobre o caso, talvez por nao se encontrarem
af elementos que merecam atencao mais detida.. . De outro lado, verifica-se
que a própria Providencia Divina nao parece estimular o recurso ás Mensa-
gens de Natividade, pois o fenómeno tem passado despercebido á grande
maioria dos fiéis do Brasil, e tende a cair cada vez mais no esquecimento.

As ¡nformacoes utilizadas neste artigo foram extraídas do livrodo Pe.


Celso Caucig: "A Revelacáo de Nossa Senhora 'Mae de Deus' a um médico
de Natividade (RJ)", Sao Paulo 1971. Este livro toma posicao eloqüente-
mente favorável ás aparicoes de Natividade e tem o Imprimatur do Bispo de
Assis (SP) e da Curia Metropolitana de Sao Paulo; todavía em ambas as con-
cessoes os signatarios observam explícitamente que e licenpa para imprimir o
livro nao significa pronunciamento sobre a autenticidade dos fatos alegados;
mas apenas implica que em tal obra nada se encontra que seja contrario aos
ensinamentos da Igreja.
Estes elementos parecem suficientes para que o leitor possa avaliar as
"aparicoes" de Natividade.

* * *

(continuado da p. 480)
O terceiro volume se concentra na S. Eucaristía, desenvolvendo tonga
mente os aspectos teológicos da mesma e o significado das oracoes e dos ges
tos da celebracio da Missa no passado e em nossos dias. Há ai ricos ensina
mentos, que contribuem para a compreensao e a vivencia mais plenas da S.
Missa; os autores poem em relevo nocóes que escapam ao comum dos fiéis
católicos, entre as quais a densa concepto de Sacrificio-sacramento. Apenas
lamentamos que tenham cedido desnecessariamente ao espirito crítico pon
do em relevo deficiencias da piedade dos séculos passadcs, sem mostrar as
pectos positivos da mesma. A propósito se/a licita urna observacao impor
tante: na década de 1940, o jesuíta Pe. Joseph A. Jungmann publicou exaus-
tivo estudo sobre a Missa institulado "Missarum Solemnia" fdois volumes);
tal obra aínda era, e é, mais rica em informacdes sobre o desenvolvímento da
Liturgia e mais compreensiva dos percalcos pelos quais passou a historia da
celebracao; o seu enfoque é mais sereno do que o dos autores de Anamnesis.
Por isto eremos que seria oportuno, como alias dizem os próprios especialis
tas, que se fizesse urna reedicao atualizada da obra de Jungmann, pois cer-
tamente Anamnesis nao a substituí, mas, sim, a amplia do ponto de vista
teológico. Com isto nao tencionamos empalidecer os méritos desta obra re
cente, que contribuí valiosamente para a formacao dos nossos leigos e clé
rigos.
E. B.

473
OracaodeJoáoXXIII?

"Senhor e Grande Arquiteto

Aínda sao enviadas a redacao de PR noticias de uma "Oragao do Papa


Joao XXIII" em favor da Maconaria. .. Eis por que lembramos já ter comen
tado esse texto em PR 132/1970, pp. 554-556; 258/1981, pp. 312. - Para
facilitar uma avaliacao do assunto, reproduziremos abaixo o texto tal como
foi enviado recentemente á nossa revista e Ihe acrescentaremos os comenta
rios oportunos.

SENHOR E GRANDE ARQUITETO

'Nos nos humilhamos a Teus pés


e invocamos o Teu perdao, pela
heresia que, no curso dos séculos,
nos impediu de reconhecer em
nossos irmaos macons os Teus
seguidores prediletos.

Lutamos sempre contra o livre


pensamento, porque nao havfamos
compreendido que o primeiro dever
de uma religiáo, como af irmou
o Concilio, consiste em reconhecer
o direito de nao se crer em Deus.

Havíamos impensadamente acreditado


que um sinal da cruz pudesse ser
superior a tres pontos formando
uma pirámide.

Por tudo isso nos penitenciamos, Senhor


e, com o Teu perdao. Te rogamos que nos
facas sentir que um compasso sobre um
altar pode significar tanto quanto velhos
crucifixos". Amém.

474
"SENHOR E GRANDE ARQUITETO" 43

(Oracaa escrita pelo Papa Joao XXIII, publicada no "Journal de Genéve"


día 8 de setembro de 1966).

COMENTANDO. . .

O texto atribuido ao Papa Joao XXIII sugere duas observares princi


páis:

'i) o conteúdo da dita orapao refere proposipoes que absolutamente


nao se enquadram dentro da mensagem crista, mesmo após a renovapao con
ciliar; a cruz será sempre um símbolo auténticamente cristao e indispensávei
na pregacaodo Cristianismo. Com efeito, Sao Paulo, em 1Cor 1,23.19.17; Cl
2,20, lembra que a cruz está no centro da cosmovisao e da pregapáo cristas.
É pela cruz de Cristo que tudo toma sentido novo, segundo o Apostólo. Por
conseguinte, jamáis se poderá pensar em substituir na iconografía crista a
cruz por tres pontinhos em pirámide ou pelo compasso; estes símbolos nao
tém relacao com a mensagem do Evangelho. O Papa Joáo XXIII, cuja pieda-
de era notoriamente amiga do Rosario e dos elementos tradicionais, nao po
de ter sido o autor das palavras que a "orapao" Ihe atribui.

2) O texto da prece parece aludir á Declarapao do Concilio do Vatica


no II relativa á Liberdade Religiosa, poisdiz:

"Temos lutado contra a liberdade de pensamento, pois nao tínhamos


compreendido que o prímeiro dever de uma religiao, como justamente afir
ma o Concilio, consiste em reconhecer o direito de nao crer em Deus."

Ora o documento do Vaticano II referente á Liberdade Religiosa data


de 7 de dezembro de 1965. O Papa Joáo XXIII, porém, morreu em junho de
1963. Por conseguinte, jamáis este Pontífice poderia ter feito a referencia
ácima: "como afirma o Concilio". Quando Joao XXIII faleceu, nao existia
declarapao conciliar sobre Liberdade Religiosa!

Note-se, alias, que este documento é mal entendido pelo autor da


"orapao", pois nunca o Concilio intencionou declarar que "o primeiro dever
de uma religiao consiste em reconhecer o direito de nao crer em Deus". O
que o Vaticano II afirmou, é que a nenhum homem é lícito constranger o
seu próximo a abandonar ou abrapar qualquer crenpa religiosa, pois nem o
ateísmo nem a fé se ¡mpoem pela violencia. Todo ser humano, por conse
guinte, deve ser deixado livre para dizer, em consciéncia, Sim ou Nao a
Deus. Disto nao se segué que a fé e a indiferenpa religiosa sejam atitudes
equivalentes entre si. O Concilio chegou a declarar explicitamente:

475
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 306/1987

"O próprio Deus mánifesta ao género humano o caminho pelo qual os


homens, sen/indo a Ele, poderiam salvarse e tornarse felizes em Cristo. Cre-
mos que essa única e verdadeira religiSo se encontra na Igreja Católica e
Apostólica. Os homens todos estao obrigados a procurara verdade, sobretu-
do aqueta que diz respeito a Deus e á sua Igreja e, depois de conhecé-la, a
abracé-la e praticá-la" (Declaracao Dignitatis Humanae n? 1).

É evidente, pois , que Joao XXI11 nao é o autor da oragáo que a Maco-
naria Ihe atribuí.

Doutrina Católica compendiada hoje para Adultos, pelo Pe. Luiz Gon-
zaga da Silveira D'Elboux S.J., 9a. edicao em 1987. Ed. Loyola, Sao Paulo
1987, 140x210 mm, 142 pp.

Eis urna obra catequética que se recomenda tanto por seu conteúdo
como por sua apresentacao. Segué o método de perguntas e respostas, res-
postas, porém, menos sucintas do que as do Catecismo clássico e, por isto,
mais facéis de ser compreendidas pelo estudante. Em suas últimas edicoes.
a obra foi atuaiizada de acordó com o Código de Direito Canónico de 1983
(no tocante aos padrinhos do Batismo, da Crisma, á freqüéncia da Reconci-
liacao sacramental, ao j'ej'um e á abstinencia de carne. . .}. Atende ao nivel
de pessoas de certa cultura que desejem sucinta exposicao da doutrina cató
lica. Em suas primeiras páginas o livro traz dois importantes documentos: o
Credo do Povo de Deus elaborado por Paulo VI em 1968 em vista das hesita-
coes de muitos fiéis sobre o pecado original, o purgatorio, a Confissao sacra
mental. . ., e urna alocucao do mesmo Pontífice sobre a Fé datada do mes-
mo ano. O Apéndice do livro aprésenla as oracoes costumeiras do fiel católi
co e um índice Analítico, que facilita o uso da obra. Regozijamo-nos pelo
éxito deste trabalho do Pe. D'Elboux, elogiosamente introduzido pelo Sr.
Arcebispo de Pouso Alegre, Dom José D'Angelo Neto. Alias, o número de
edifdes sucessivas deste Catecismo j'á é um título de recomendacao.

Catecismo Essencial, pelo Instituto Missionário dos Servos da Igreja,


Caixa postal 55, 15001 Sao José do Rio Preto (SP), 5a. edicio em 1987,
115x160 mm, 84 pp.

O povo de Deus precisa de obras simples e substanciosas, ao lado das


mais alentadas, que Ihe Ievem a Boa Nova do Evangelho confiada á S. Igreja.
Ora este Catecismo, que já conhece cinco edicoes, é um desses opúsculos
que corresponder^ a tal necessidade. Oferece em termos breves e claros toda
a doutrina católica, além de tópicos de Moral e um elenco de oracoes para
uso dos cristaos. Vale a pena difundir este trabalho, especialmente em terri
torios de missio ou assemelhados a estes (as vezes, as grandes cidades o sao),
pois é valioso subsidio para a formacao dos fiéis. E.B.

476
Porque

Kurt Waldheim no Vaticano?

Aos 25/06/87 o Santo Padre Joao Paulo II recebeu no Vaticano o Pre


sidente da República da Austria, Sr. Kurt Waldheim e sua esposa. Tal visita
suscitou protestos da parte de judeus e nao judeus, que alegavam ter sido
Waldheim um carrasco nacional-socialista durante a guerra de 1939-45. Ver-
dade é que Waldheim foi também Secretario Geral da Organizacao das Na-
coes Unidas durante dez anos.

A contestagao partiu dos Estados Unidos, onde os grupos judeus resol-


veram lancar violenta campanha contra o passado do estadista. A Via della
Conciliazione em Roma, passagem habitual para a Cidade do Vaticano, foi
ocupada, no dia da visita, por cerca de duzentos manifestantes portadores de
cartazes de protesto acompanhados de clamores. Por isto a entrada do Presi
dente da Austria e de sua esposa no Vaticano realizou-se por um acesso late
ral.

O Vaticano nao cedeu aos contestatarios, pois o Santo Padre tem por
principio acolher todos os chefes de Estado que Ihe pedem audiencia; e ¡s-
to. . . nao tanto em vista da pessoa do Governante, mas em atengao ao país
ou á nagao que ele representa. A acolhida, no caso, fazia-se especialmente
premente, pois se tratava da Austria, um país de antigás e vivas tradigoes ca
tólicas. No discurso dirigido a Waldheim, o Pontífice insistiu sobre o papel
que toca á Austria em favor da paz: "Colocado ao longo da crucial linha de
demarcagao entre o Ocidente e o Oriente, vosso país está atualmente volta-
do para as tarefas de favorecer o bom relacionamento entre as nacóes, de
fender os direitos humanos, tutelar a liberdade e promover a paz".

Os prelados da Igreja, conscientes do estremecimento que o gesto do


Papa causou ñas relagóes judaico-cristas, mostraram-se empenhados em res
taurar o clima de bom entendimento que se produziu nos últimos anos entre
a Igreja e o Judaismo. O bom relacionamento poderá sempre apoiar-se em
recentes gestos do S. Padre mesmo: em 1986 esteve em visita na Sinagoga de
Roma, interpelando os judeus como "¡rmaos mais velhos"; além do qué, em
maio 1987, visitando a Alemanha, Joao Paulo II proferiu as mais severas sen-
tencas de condenaclo ao nazismo que a Igreja até hoje pronunciou.

477
46 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 306/1987

De resto, nao é certa a participapao de Waldheim nos crimes de guer


ra nazistas. Em 1986 o Presidente foi eteito após ter negado cumplicidade
em tais delitos. A fírn de averiguar exatamente os fatos, o próprio Governo
austn'aco nomeou urna comissio de historiadores pertencentes a diversas na
cionalidades, que, após apurados estudos, divulgará um relatório final. Sao
os seus membros: Hans Rudolf Kutz, presidente, de nacionalidade su fea: o
israelense Jehuda Wallach, o alemao ocidental Manfred Messerschmidt, o
británico Gerald Fleming, o americano James Collins e o belga Jean Vanwel-
kenhuyzen. Aguarda-se, pois, urna avaliacao ¡ndependente e objetiva.

Estévao Bettencourt O.S.B.

.LIVROS EM ESTANTE.

Bfblía Sagrada. Novo Testamento. Edipao Pastoral. - Ed Paulinas, Sao


Paulo 1986, 137 x 190mm,445pp.

Eis urna nova traducao do Novo Testamento, devida a Ivo Storniolo e


Euclides Martins Ballancin, autores outrossim das introducoes e notas. "Pro
cura traduzir em linguagem corrente, evitando construcoes rebuscadas e pa-
lavras de uso menos comum";a ótica éada "realidade desafiadora do nosso
país e do nosso continente" (Apresentacao). Traz o Imprímatur de D. Alba-
no Cava/Un, Bispo Responsável pela Catequese na CNBB (até abril de 1987).
Em geral, nada se pode objetar de grave no texto traduzido. Apenas
observamos que a palavra grega epfskopos é vertida por dirigentes (Fl 1,1)
e por guardiao (At 20,28); presbíteros por anciao (At 20,17) e por presbí
tero (1 Tm 5,17). Verdade é que a nota a Fl 1,1s explica o sentido de epísko-
pos, palavra que teria sido melhor nao traduzir.

As notas procuram sintetizar o conteúdo de secoes inteiras do texto


sagrado, de modo que este 6 sumariamente explicado ao leitor. A iniciativa
é válida, pois facilita a leitura bíblica. Infelizmente, porém, a orientacao
doutrinária dessas notas é, em muitos casos, unilateral, pondo em relevo
quase exclusivamente as conseqüéncias sócio-políticas da mensagem crista;
ver, por exemplo, as notas a Mt 10.26-33; 11.1-6; 11¿5-30; 24, 32-51; 25,
1-13; 25, 31-46; Me 15, 33-41. . .; retornam constantemente as palavras
"opressores, poderosos, oprimidos, pobres, margina/izados, sistema, justica,
¡nteresses, sociedade, riqueza, projeto, libertacao, liberdade..." Através des
sas explicacoes, tem-se a impressao de que Jesús veio pregar tao somente a
prática da Justica social e, por causa disto, foi condenado á morte. Ora Jesús
veio, antes do mais, trazer a revelacao do Pai e do seu plano de filiacao divi
na para todos os homens — o que nSo transparece suficientemente nesses co
mentarios.

478
LIVROS EM ESTANTE 47

Além disto, Jesús é reduzido, cá e lá, a figura de mero profeta inseguro


quanto ao seu destino: "Senté medo e vontade de desistir e fugirda cruz",
mas supera pela oracio; vera nota a Me 14, 32-42.. .

O presbítero tem a fungió de "animar a liturgia e ensinar a Sagrada


Escritura" (nota a tTm 5, 17-25); ora, "animar"pode ser tarefa também de
um leigo; o presbítero celebra "na pessoa de Cristo".

Estranha é a explicacao dada a 1Cor 7,36-38: tratar-se-ia de "no'tvo


que senté forte desejo sexual, mas se vé premido pelo ideal celibatário apre
sen tado por alguns da comunidade". O texto grego é, sem dúvida, obscuro,
mas os comentadores da Edicao Pastoral véem ai coisas que os bons exegetas
nao costumam ver. Cf. nota correspondente na Biblia de Jerusalém.

O tratamento "vocé, voces" nao é o melhor, nem numa traducio po


pular da Biblia; ver Pfí 296/1987, pp. 40-48.

Em síntese, a Edicao Pastoral é entendida como "incitamento socio-


político" — o que depaupera a mensagem do Novo Testamento. Esta tem,
por certo, conseqüéncias de Ética Social, mas é, antes do mais, a revelacao
do misterio de Deus aos homens e a promessa da heranca definitiva que toca
aqueles que no Espirito pelo Filho caminham para o Pai (cf. Ef 2,18).

A Verdade da Justina, por Tercio Machado Siqueira, Gilberto Gorgu-


Iho, Roberto Fitzpatrick, Domingos Zamagna, Paulo de Tarso Lockmann,
Anna Flora Anderson, José Comblin. Colecio "Estudos Bíblicos" n? 14 -
Ed. Vozes 1987, 156x 227 mm, 75 pp.

Eis mais um volume de serie redigida por autores católicos e protestan


tes, inspirados pelos principios da Teología da Libertacao extremada; a óti
ca dentro da qual consideram o texto sagrado, é sempre a sócio-económico
política — o que gera distorgoes de interpretado: a mensagem bíblica seria
a de combate as estruturas sociais vigentes e de solidaríedade com os homens
"empobrecidos". — Em conseqüéncia, o Pe. Comblin apresenta urna estra
nha figura de Sao Paulo: "Paulo viu-se livre de estruturas eclesiais" (p. 64);
"Paulo nao foi ordenado, nao pertenceu a urna hierarquia eclesial... Paulo
representa o paradigma dos leigos. Efe foi o leigo típico e completo. Dirige
a palavra a Pedro como leigo que se dirige ao ministro ordenado. Exerce um
papel missionárío como leigo. Reivindica a autonomía no seu campo missio-
nário, a autonomía do leigo nao na ordem temporal, e sim na ordem da mis-
sao" (p. 67). — O autor nao considera o texto de Gl 2, 2s, em que SSo Paulo
diz ter ido a Jerusalém para expor seu Evangelho aos maiorais da Igreja, a'
fim de nao correr nem ter corrido em vio. Paulo quis submeter-se a Igreja;
nio foi um autónomo pregador do Evangelho. Além disto, considerou-se au-

479
48 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 306/1987

téntico membro da hierarquia, que instituía presbíteros: ver At 14,23; 1Tm


4,14; 2Tm 1,6...

É unilateral e forjada a conclusáo referente a Mateus, devida ao co


mentador protestante Paulo de Tarso Lockmann: "Na comunidade de Ma
teus as funcoes nao sao pastores, diáconos e bispos, mas profetas e justos"
(p. 50). - O autor nao leva em conta os textos de Mt 16,16-19 e Mt 18,17s,
em que Jesús entrega a Pedro só, e a Pedro com os orne, as facuidades de li
gar e desligar: o que Pedro liga e desliga na térra, é ligado e desligado no céu;
o que os Apostólos com Pedro ligam e desligam na térra, é ligado e desligado
no céu.

Em suma, o volume, ao lado de páginas válidas de exegese referente a


Jeremías, Malaquias, Eclesiastes, Salomao, Mateus, Joao e Paulo, apresenta
muitas outras perpassadas por diretrizes preconcebidas, que impedem urna
leitura objetiva e propriamente teológica da Escritura, . . leitura capaz de
patentear a transcendencia do plano de Deus revelado nos livros sagrados.

Anamnesis. Vol. 3: A Eucaristía - Teología e Historia da Celebrapao,


por S. Marsili, A. Nocent, M. Auge, A.J. Chupungco. Tradujo de Benóni
Lemos. - Ed. Paulinas, Sao Paulo 1987, 155x225mm, 346 pp.

Este é o terceiro volume de urna obra que, sob o titulo geral Anam
nesis, deverá compreender oito tomos, oferecendo aos estudiosos urna Intro-
ducao á teología e á historia da Liturgia. Já foram anteriormente publicados
em portugués, pela mesma Editora, o volume 1? (que apresenta a nocao de
Liturgia densamente elaborada e enriquecida por dados históricos) e o volu
me 2? (que trata explícitamente da historia da Liturgia e dos principáis livros
litúrgicos). 0 feitor encontra nesses tres volumes estudos preciosos, que le-
vam a ultrapassar a face sensfvel dos ritos sagrados (cantos, gestos, utensilios
sagrados. ..) para compreender o valor doutrínário da agio litúrgica; a Litur
gia é apresentada, em última análise, como a historia da sa/vaqao em exercf-
do, pois é a perpetuacao da obra redentora de Cristo realizada pelo Senhor
Jesús através da sua Igreja. Tal nocao é explanada preponderantemente no
volume prímeiro.

O segundo tomo oferece um panorama das diversas familias litúrgicas


(orientáis e ocidentais), esclarecendo o leitor no tocante aos ritos bizantinos,
copta, armenio.. . e outros, que sao pouco familiares aos crístios latinos.
Além disto, percorre a historia dos livros litúrgicos romanos, mostrando co
mo foram tratados pela reforma litúrgica empreendida pelo Concilio do Va-
ticano II.

(continua na p. 473)

480
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". . . A doutrina proposta pelo Autor é profunda e segura, e
muito ao dia quarrto á problemática atual; a documentapío
é rica e bem dominada e a apresen tapao clara e ordenada.
faz do livro ao mesmo tempo urna excelente obra de inicia
pao a fé, de aprofundamento em seu estudo, e de medí tapao
sobre as riquezas da mensagem crista" (V.M. Leroy na
Revue Thomiste" 78. 1979, p. 350)." 690 págs. (23 x 16).
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7- edifáo

Manual para os M.E.C.E. contendo


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texto de Rubens Junqueira Vilella do Departamento de
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