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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESErsTTAQÁO
DA EDIQÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que elevemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanca e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
V_ vista cristáo a fim de que as dúvidas se
. dissipem e a vivencia católica se fortaleca
** no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar. este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.

A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaca


depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
SUMARIO
<
o
"Urna agua viva murmura dentro de mim: Vamos ao Paü'
1-
<
O caso "Paúl Touvier"

"O Além Existe" por Lino Sardos Albertini

O Racionalismo CristSo

"O Grande Compló" por J.C. de Castro Rios

A Alma das Mulheres

"Matai-os todos: Deus saberá reconhecer os seus!"

O Papa Silvestre II: Mago e Adivinho?

m A declarapao de Bonn
O
ce Quando comeca a vida humana?
o.

ANO XXX — NOVEMBRO 1989 "330


KtHGUNIb t KtbfUNUtHtMUb NUVbMBRO - 1989
Pubhcacáo mensal N? 330

Diretor-Reiponsável: SUMARIO
Estévao Bettencourt OSB "Urna agua viva murmura dentro de mim:
Autor e Redator de toda a maiéru Vamos aoPai!" 481
publicada neste periódico A descoberta de um carrasco na Franga:
O caso "Paúl Touvier" 482
Oiretor-Administrador: Um livro ambi'guo:
D. Hildebrando P. Martins OSB "O Além Existe" por Lino Sardos
Albertini 493
O Espiritismo reformado:
Admmistracao e distribuicao:
O Racionalismo Cristao 504
Edigóes Lumen Christi
Livro sensacional:
Dom Gerardo. 40 - 5? andar, S/501 "O Grande Compld" por J.C. de
Tel.:(021| 291 7122 Castro Ríos 511
Caixa Postal 2666 Historia e Lingüística: °
20001 - Rio de Janeiro RJ A Alma das Mulheres 516
Historia Deturpada:
"Matai-os todos: Deus sabara
reconhflcer os seus!" 519
Caso Misterioso:
O Papa Silvestre 11: Mago e Adivinho?. 522
Quem leu? Quem soube?
"MARQUES-SARA/VA"
A declaracáb de Bonn 525
GRÁFICOS £ EDITORES S.A.
lels : (0lt)!?3-949B - Í73-9447 Quando comeca a vida humana? 528

NO PRÓXIMO NÚMERO:

331 - DEZEMBRO - 1989

Padre Damiao, o Leproso de Cristo. - "O Péndulo de Foucault", de Um-


berto Eco. - Os Manuscristos do Mar Morto: segredo abafado? - Doze Anos
entre as Testemunhas de Jeová. - índice Geral de 1989.

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

ASSINATURA ANUAL (12 números): NCzS 50,00 - Número avulso: NCzS 5,00
Pagamento la escolha)

1. VALE POSTAL a agencia central dos Correios do Rio de Janeiro em nome de Edicoes
"Lumen Christi" Caixa Postal 2666 20001 Rio de Janeiro - RJ.

2. CHEQUE NOMINAL CRUZADO, a favor de Edicoes "Lumen Christi" (endereco ácima).

3. ORDEM DE PAGAMENTO, no Banco do Brasil, conta N? 31.304-1 em nome do Mos-


teiro de Sao Bento, pagável na agencia Praga Mauá/RJ N? 0435-9. (Nao enviar através
de DOC on denñsito instantáneo - A identif¡carao é difi'rill
"Urna Agua Viva Murmura
Dentro de Mim: Vamos ao Pai!"
(S. Inácio, sos Romanos 7)

0 mes de novembro se abre com a comemoracáo de nossos falecidos,


que recomendamos á Misericordia Divina.

A morte costuma ser o grande espantalho para muitos, pois parece ar


rancar o individuo daquilo que Ihe é conhecido e familiar a fim de transpor-
talo para o estranho e incerto. Tal, porém, nlo é a concepcao cristS da mor
te. O Senhor afirma: "Quem eré em mim, aínda que morra, vivera. E quem
vive e eré em mim, jamáis morrerá" (Jo 11, 25s). Nesta perspectiva, a morte
é urna transicSo para a plenitude da vida; por ela o cristao deve entrar na
consumacao da alegria que Ihe é dada germinalmente na térra.

A conviecáo desta verdade exprimiu-se na literatura crista com grande


eloqüéncia. Tal é o caso, porexemplo, deS. Inácio de Antioquia ("M07), que,
condenado ás feras em Roma, escrevia aos fiéis daquela cidade:

"Maravilhoso é, para mim, morrer por Jesús Cristo, mais do que reinar
até os confins da térra. Procuro a Ele, que morreu por nos; quero Aquele
que ressuscitou por nossa causa. Aguarda-me o meu nascimento... Permití
que receba luz pura; quando lá chegar, serei homem" (Aos Romanos 6,1s).

Conscientes disto, os cristaos designavam a morte como sendo o seu


natalicio ou a entrada na verdadeira vida: "Aguarda-me o meu nascimento...
Quando lá chegar, serei homem". Conseqüentemente, quem procura estar
com Cristo durante a sua peregrinacáo terrestre, nao tem medo da morte;
esta nao o introduzirá no estranho, mas, ao contrario, será o termo do desa-
brochamento de urna sementé de vida lancada dentro do cristao desde o día
do seu Batismo. Por ¡sto dizia o mesmo S. Inácio: "Sou alguém que vive e
deseja morrer. Urna agua viva murmura dentro de mim: 'Vamos ao Pai!' "
(Aos Romanos 7,2).

0 cristao nao é obrigado a desejar a morte. Desejá-la pode ser covar-


dia, como rambém pode resultar da compreensao do que a morte significa.
A agua viva é o símbolo do Espirito Santo (cf. Jo 7,39), que fala no coracSo
dos fiéis e os incita a urna caminhada retilínea através dos percalcos deste
mundo em demanda do Pai. 0 segredo que faz da morte um marco positivo,
é a perseveranca cotidiana no servico de Cristo ou é a antecipacao do "estar
com Cristo" - expressao muito simples utilizada no Novo Testamento (cf.
Le 23, 43; Fl 1,23), em falta de outra, para significar o ¡nefável: "O que os
olhos nao viram, o que os ouvidos nao ouviram, o que o coracao do homem
jamáis percebeu eis o que Deus preparou para aqueles que oamam" (1Cor

2'91' E.B.
481
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS
it

Ano XXX - N? 330 - Novembro de 1989

A descoberta de um carrasco na Franca:

O Caso "Paúl Touvier*

Em sfntesa: o artigo apresenta depoimentos de personalidades france


sas a quem interessou de perto o caso de Paúl Touvier. Como se sabe, era
carrasco, colaborou com os nacional-socialistas na Franca e foi preso num
mosteiro beneditino, onde se escondía. Tais testemunhas reconhecem que a
justica deve ser exercida também neste caso; lembram, porém, alguns traeos
de situaedes passadas e presentes que devem ser levados em conta a fim de
que summum ius (a suprema justica) nSo se torne summa iniuria (a suprema
injustica).

Há meses, veio á baila o caso de Paúl Touvier, cidadao francés que co


laborou com o nacionalsocialisrro nos anos de 1940-45 e, após a guerra, se
escondeu da Policía em alguns mosteirosda Franca. Foi encontrado e preso
na manh§ de quarta-feira 24 de maio de 1989 no Priorado Saint-Francois
em Nice,1 tendo tomado o nome de Paúl Lacroix.

P. Touvier nasceu em Chambéry no ano de 1915. Durante a segunda


guerra mundial, colaborou com as tropas de ocupacao alema na Franca, tor-

Trata-se de um mosteiro sujeito ájurisdicao de D. Maree/ Lefébvre, Bispo


dissidente da Igreja Universal.

482
O CASO "PAÚL TOUVIER"

nandose Chefe dos Servigos de InformacSo da Milicia de Liao. A sua ativi-


dade Ihe valeu a acusacao de haver cometido crimes contra o género huma
no, dos quais os mais graves seriam o assassinato do Victor Basch, ex-presj-
dente da Liga dos Direitos do Homem, e de sua esposa, o assassínio de sete
reféns judeus em Rilleux-la-Pape, a deportaclo de judeus, de refugiados po
líticos espanhóis e de membros da Resistencia francesa aos alemáíes. Logo
após a desocupacao da Franca por parte dos nacional-socialistas, P. Touvier
refugiouse em casas religiosas católicas, tendo recorrido a autoridades ecle
siásticas,-entre as quais Mons. Charles Duquaire (falecido em 1987), Secre
tario particular do Cardeal-arcebispo de Liao D. Pierre-Marie Gerlier.

Paúl Touvier foi condenado á morte pelos tribunais militares de Liao


aos 10 de setembro de 1945 e de Chambéry aos 4 de marco de 1947. A sen-
tenca, porém, nao foi executada. Aos 21 de setembro de 1971, foi agraciado
pelo presidente Georges Pompidou, ficando, porém, privado dos seus direi
tos de cidadáo francés.

Aos 20 de setembro de 1984, espalhou-se a noti'cia de que morrera.


Quando foi descoberto e preso em maio de 1989, a opiniao pública, na
Franga e no estrangeiro, se abalou, e a Igreja Católica foi questionada por
que algumas casas religiosas haviam concedido asilo a P. Touvier. Em conse-
qüéncia, varios pronunciamentos de personalidades católicas se fizeram ou-
vir, dos quais destacaremos, a seguir, tres dos mais significativos.

1. A Conferencia dos Bispos da Franca1

A Conferencia dos Bispos da Franga tem como porta-voz o Pe. Jean-


Marie Di Falco, que, muito interpelado pela imprensa, emi'tiu as seguintes
dec laracoes aos 26/05/1989:

"Se a investigagáo a respeito de Paúl Touvier revelar que há homens


da Igreja culpados, a lei deverá ser-lhes aplicada como é aplicada a todos.

Urna comunidade religiosa nao pode criar obstáculo á lei e ocultar


malfeitores.

Os meios de comunicacao social dao a impressao de que foi instituida


urna fantástica rede de cumplicidade para esconder Paúl Touvier. Isto signi
fica atribuir-lhe honra excessiva.

1 Texto traduzido a partir do original publicado em La Documentaron


Catholiquen? }987. 2/07/89, p. 656.

483
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS 330/1989

Quando se fala de Igreja, quem é que se tem em vista? Estou descon


certado com a imagem de Igreja que estao divulgando. Se a investigado re
velar que há homens de Igreja culpados, a justica se exercerá. Mas por que
mover todo esse processo contra a Igreja? Por que esse encarnicamento con
tra a Igreja?"

O Pe. Di Falco, a esta altura, lembra que muitos católicos, sacerdotes,


Religiosos, Religiosas e leigos pertenceram á Resistencia antinazista, entre os
quais o Pe. Yves de Montcheuil, por exemplo, assassinado na gruta de La
Luiré (Vercors).

O Pe. Di Falco registra outrossim que Mons. Charles Duquaire, que


protegeu Touvier após a desocupacao da Franca, "nunca foi bispo auxiliar
de Liao..." Em suma, o mesmo lamentou, urna vez mais, a índole aproxima-
tiva, as vezes fantasista e errónea, dos relatos divulgados.

2. O depoimento do Pe. André Poisson1

O Pe. André Poisson. Prior da Grande Cartuxa (mosteiro de austera


observancia), foi entrevistado por Louis de Courcy, repórter de La Croix.
L'Evénement (3/06/1989).

Louis da Courcy: "Padre André, que sabe o Sr. a respeito de Paúl


Touvier?"

Pe. Andró Poisson: "Velo ao mosteiro algumas vezes. A principio, um


outro padre o recebia. Quando esse padre se foi para outro mosteiro, dei-
xou-o aos meus cuidados. Touvier estava fortemente marcado pelo seu pas-
sado. Quando encontrava amigos membros da Resistencia, era tido como su
jo; e, quando cruzava adeptos de Pétain,5 era tomado por mártir. Por isto
ele vinha cá para encontrar um recanto alheio ás paixoes.

Como cristao, ele precisava de falar com um sacerdote. Foi a este títu
lo que eu o acolhi. Ele precisava de ser ajudado. Foi sempre neste nivel que
ficaram as nossas relacSes. Eu diría quase que aquilo que ele fez outrora nao
me interessava tanto. Nao sou nem jornalista nem historiador. Nunca procu-

1 Texto traduzido do francés como foi publicado por La Oocumentation


Catholiquen? 1987,2/07/89, pp. 658-660.

2 O Manchal Pétain assumiu o Governo da Franca após a rendicSo aos ale-


mias em 1940. Estava sujeito aos nacionalsocialistas. Contra estes militava
a Resistencia francesa (Nota do Tradutor).

484
O CASO "PAÚL TOUVIER"

rei tirar a limpo o passado de Touvier. Ele falou-me varias vezes dos seus an
tecedentes e do seu próprio chefe. Para mim, ele era alguém que estava á
procura e precisava de ajuda, e eu tentava escutá-lo."

"Paulo, eis a palavra e o cheque de que Ihe falei"

L.d.C: "Ficou ele hospedado aqui na Grande Cartuxa?"

A.P.: "Nunca. Ele nao passou nem mesmo tres semanas com a sua fa
milia em Correrle (casa a dois quilómetros do mosteiro, no qual se recebem
hoje os visitantes), na época em que ele tinha existencia legal, após trinta
anos de prescricao1 e agraciamento concedido por Pompidou. A sua visita á
familia deu-se alguns meses depois que foi agraciado. Ele foi embora ás pres-
sas, pois foi informado de que a Polícia estava para chegar, a fim de o levar.
Com efeito; esta chegou algumas horas depois que fugiu. Rondaram por al
guns dias em torno de Correrie".

L.d.C: "O jornal Le Dauphiná Liberó de 26 de maio pp. publicou urna


carta do Sr. a Paúl Touvier datada de 29 de maio de 1967, e que terá sido
encontrada na casa de Touvier em Chambéry. Ai lé-se o seguinte: 'Paulo, eis
a palavrinha e o cheque do qual Ihe falei. Fago votos para que Ihe proporcio-
nem toda a ajuda que vocé espera...' Tal carta será realmente da autoría
do Sr.?"

A.P.: "Nao digo que nao..., mas também nao posso dizer Sim. Nao te-
nho disso lembranca alguma. Nao creio que tenha escrito a palavrinha... O
cheque, sim, é certo. Nem ele nem a esposa dele trabalhavam. Ele nao tinha
recursos pessoais. Sim; eu o ajudei. O Cardeal Lustiger disse: 'Se alguém co
mo ele me tivesse procurado, eu Ihe teria dito que fosse apresentar-se á Po
lícia'. Isto nao é realista. Um individuo condenado á morte vem bater á tua
porta e tu Ihe dirás que se vá para entregar-se á Polícia? Nao se pode proce
der assim. Jurídicamente sim. Mas moralmente é impossível".

L.d.C: "Mas a caridade crista nao pode estar em oposicao á justica".

A.P.: "Normalmente nao deve haver oposicao. Mas eu sou sacerdote.


Vem um homem e pede-me que conversemos; eu nao tenho o direito de di-
zer-lhe que nSo".

1 A prescribió, segundo o Dicionário de Aurelio, é "a maneira pela qual se


extingue a punibilidade do autor de um críme ou contravencSo, pornio ha-
ver o Estado exercido contra ele no tempo legal o seu direito de acSo, ou
pornio terefetívado a condenacSo que Ihe impbs". (Nota do Tradutor).

485
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS 330/1989

L.d.C: "Dai' até dar-lhe um cheque, há distancia".

A.P.: "Em última instancia, pensó que a justica existe e que nao nos
devemos opor a ela. Mas também existe a misericordia. Qualquer que seja
o passo de Touvier, todo homem tem direito a certa misericordia. Ele vinha
pedir urna ajuda moral; eu também nao podía ignorar que elequasenadati-
nha para comee".

L.d.C: "Hoje, conhecendo a repercussao de sua atitude, o Sr. faria


a mesma coisa?

A.P.: "Nao digo que nao. Acolher alguém em nome de Cristo significa
transmitir urna mensagem. Mesmo que a justica exista, ela nao deve aniqui
lar o fato de que tal homem é amado por Deus e este amor deve ser exprés-
so. É demasiado fácil dizer: 'O Senhor te ama; vai entregar-te á policía!' É
preciso que haja urna realizacao concreta dessa misericordia".

'Fiz parte da Resistencia durante toda a guerra"

L.d.C: "O Sr. acha que as suas declaracoes podem ser aceitas pelos
judeus e pelos membros da Resistencia?"

A.P.: "Fiz parte da Resistencia durante toda a guerra. Nunca estive do


lado de Touvier. Mais de urna vez quase me vi daquele lado. Alguns mem
bros da minha familia foram deportados. Por conseguinte, posso falar na
base de experiencia. Após a guerra fez-se a depuracao das atitudes. Entao a
justica foi tao mesclada de ¡njustíca e vinganca que era necessário guardar re
servas em relacáo as sentencas proferidas pretensamente em nome da justica.
Nao estou arrependido de ter acolhido Touvier naquelas circunstancias. Na
quele momento a Franca precisava de compreender (e talvez aínda precise)
que o cristao tem o dever de perdoar. E o digo muito á vontade. pois nunca
estive do lado da Mili'cia".

L.d.C: "Paúl Touvier estava consciente de ser um criminoso?"

A.P.: "Ele rejeita a imputacao de certos crimes que Irte sao atribuidos.
Este é um dos motivos pelos quais cometeu a imprudencia de f icar na Fran
ca. Com ou sem razao (nao sei dizer), ele está convencido do seu direito,
com excecSo do caso dos reféns de Rillieux e um outro caso que esqueci.

486
O CASO "PAÚL TOUVIER"

Ele julga que ometeu crimes condenáveis, sem dúvida, mas com finalidade
leal, para realizar um servido".1

L.d.C: Nao será que falta a Paúl Touvier uma consciéqcia moral
apurada?

A.P.: "É possível, mas, de acordó com o que ele me disse, ele nao tem
sangue ñas míos, a nao ser em um ou dois casos muito precisos. Parece-me
que Mons. Duquaire, que eu nunca vi, tinha a mesma conviccao que eu".

"Aguardo provas objetivas"

L.d.C: "Conviccáo que até hoje fica sendo a mesma?"

A.P.: "Aguardo provas objetivas. Touvier mostrou-me documentos


que parecem provar a veracidade das suas afirmagoes. Mas eu nao pesquisei.
0 que muito me preocupa, é que hoje se descobre imprevistamente um crí-
me contra a humanidade num homem que fo¡ beneficiado pela prescricao
após dois processos e duas condenacoes, e que atualmente tem o direito de
existir sobre a face da térra. Nisto parece-me haver falta de honestidade".

L.d.C: "Quando comecou o seu relacionamento com Touvier?"

A.P.: "Creio que por volta de 1962".

L.d.C: "O mosteiro abrigou outras pessoas?"

A.P.: "Pessoas desse tipo, nao antes da Libertacao da Franca. Antes da


Libertacao. o mosteiro escondeu pessoas que trabalhavam na Resistencia.
Logo após a Libertacao. um individuo de Grenoble, comprometido com a
colaboracao. pediu abrigo, que, evidentemente, I he concedemos. A quem es
tá atolado, de vemos ajudálo para superar tal etapa. Depois disto, o indivi
duo responderá por seu comportamento. Nao estamos obrigados a nos res
ponsabilizar definitivamente por tais individuos, é claro".

L.d.C: "Quando cessou o seu relacionamento com Touvier?"

A.P.: "Em 1973 ou 1974. Depois disto, de vez em quando, mas muito
intermitentemente ele me escreveu".

1 Aquí é preciso observar que o fim nSo justifica os meios. Uma finalidade
leal e moralmente sadia nao justifica o emprego de recursos criminosos |7Vo-
ta do Tiidutor).

487
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS 330/1989

L.d.C: "Se o juiz Ihe pedir que compareca,-que dirá o Sr.?"

A.P.: "As conversas que eu tive com Touvier, eram as de um sacer


dote com alguém que procurava um padre. Por isto, nada tenha a dizer aos
jui'zes... O Sr. sabe, pelo fato de alguém ser ministro do Senhor, está em si-
tuacáo perigosa. Mas eu o escolhi e aceitei".

L.d.C: "O Sr. sabia que, acolhendo Touvier, corría riscos?"

A.P.: "Eu sabia que seria julgado, condenado pelo público. É inevitá-
vel. Mas ninguém tem a obrigacao de dar contas, a um juiz, de assuntos de
consciéncia. Mesmo que o Cardeal Decourtray me pedisse minha opiniao, eu
nada teria a dizer; alias, ele nao o fez".

L.d.C: "Como vé o Sr. o encarceramento de Touvier?"

A.P.: "Reconheco que os judeus sofreram enormemente, muitas fami


lias foram dizimadas e sofrem ferimentos incuráveis. Eu os respeito plena
mente. Eu nao quero que eles tenham a impressao de que esqueco isto. Mas
isto nao justifica o que me parece anormal, ou seja, esse processo que vem
sendo assim levado. Nao sinto a minha consciéncia comprometida nessa
questao.

L.d.C: "O Sr. quer acrescentar outra coisa?"

A.P.: "Aquí o que mais desejamos, é viver em silencio no mosteiro e


rezar. Foi por circunstancias totalmente ocasionáis que fomos envolvidos
na acolhida de alguém como Touvier. Quando este bateu ás nossas portas, o
Superior daquela época julgou que, nesse caso muito especial e a título to
talmente excepcional, havia motivo para falar com ele. Em outras circuns
tancias, nao atendemos a pessoas que nos pedem conversa".

Em suma, pode-se dizer que o Pe. Prior da Grande Cartuxa se apoia so


bre a distincáo entre foro externo e foro interno. No foro externo, ou seja,
diante da Poli'cia e da sociedade Touvier podia ser simpiesmente um réu me
recedor de condenacáo. No foro interno, porém, ou em sua consciéncia,
Touvier era um réu (sem dúvida), um réu que talvez se sentisse abalado por
quanto havia cometido e por isto pedia urna palavra de orientacáo e de fé da
parte dos ministros de Deus; a estes ná*o era lícito levar em conta apenas a
estrila justica, mas justica e misericordia deviam andar juntas, pois parecía
ser este o procedimento mais condizente com o de Jesús Cristo. Já os ami
gos romanos formulavam um axioma que Joá"o Paulo II repetiu na sua Encí
clica "Rico em Misericordia": "Summum ius summa iniuria. — A suprema
justica pode tornar-se suprema injustica". Quem apenas considera a justica e

488
OCASO"PAULTOUVIER" 9

a aplicagao das leis, sem levar em conta as circunstancias próprias de cada ca


so, corre o risco de cometer suma injustica. Foram estas reflexoes que inspi-
raram o comportamento dos monges e possivelmente de outros eclesiásticos
que nao denunciaram Touvier á Justipa. mas prestaram ouvidos a esse no-
mem atribulado e perplexo.

Segue-se ainda importante declaracao.

3. A palavra do Bispo de Avinhao

O Boletim Diocesano de Avinhao, n? 12, de 11/06/89, publicou pon-


deracoes do Sr. Bispo local, Mons. Bouchex, que reproduzimos em tradupáo
portuguesa:

"O que se chama 'o caso Touvier' foi em uníssono abordado por jor-
nais, programas de radio e televisSo ñas últimas semanas. Com exatidao maior
ou menor — muitos pontos permanecem obscuros — os repórteres nos des-
creveram as atividades de Paúl Touvier durante a última guerra e sua existen
cia até o encarceramento recente. Alguns membros da Igreja Católica, e mais
amplamente a Igreja Católica, nao foram poupados.

Minha intenpao nao é retornar a esses acontecimentos. De resto, nao


sou capaz de o fazer. O caso está agora ñas maos da Justica, que o esclarece
rá tanto quanto possível. Á medida que a investigarlo nos revelar as pepas
do dossié, deveremos ter a lealdade e a coragem para olhar de frente certos
segmentos do nosso passado, como também do passado e do presente de ou
tros países.

1. A segunda guerra mundial é urna dessas épocas em que todos os va


lores fundamentáis foram confundidos, em que o bem e o mal se mesclaram
a ponto de se tornar difi'cil fazer a triagem. Quase cinqüenta anosdepois, é
fácil dizer o que devia e nao devia ser feito. Alguns - católicos ou nao — ti-
veram a lucidez e capacidade de discernimento para ver com clareza e tomar
os compromissos exatos que deviam ser assumidos. Isto mu ¡tas vezes Ihes
custou caro. Daí advém a grandeza do seu comportamento que. para nos,
serve de exemplo. Outros, sem dúvida a maioria, católicos ou nao, nao tive-
ram essa lucidez e essa capacidade de discernimento. Isto nao justifica os
crimes cometidos e que sao da aleada da Justiga. Mas nos obriga á modestia.
Mais ainda: isto nos mostra quanto, em certos momentos, podemos carecer
de referenciais para poder saber o que é necessário fazer e o que devemos
absolutamente evitar.

Após 1945, a Franpa conheceu outros dramas, em que alguns deram


provas da mesma lucidez e da mesma capacidade de discernimento, enquan-

489
10 "PERPUNTE E- RESPONDEREMOS 330/1989

to outros, conscientemente ou nao, fizeram outras opcoes. Pensó nos acon


tecimentos da Algéria entre 1954 e 1962. Alguns souberam preparar o futu
ro e, quando se tratava de católicos {por exemplo, Mons. Duval). tiverama
coragem de seguir a luz do Evangelho, mas nao sem sofrimento. A admira-
pao que Ihes dedicamos, nao nos deve impedir de ser humildes ao julgarmos
os outros, católicos ou nao.

Outros pai'ses experimentaram ou experimentam semelhantes sitúa-


c6es confusas, em que varias pessoas se encontram entre duas forcas confu
tantes, sem poder ter a distancia necessária para julgar e tomar posicao, si-
tuacoes em que os homens sao levados pelos acontecimentos a lutar contra
seus compatriotas em guerras que geralmente nao revelam as intencoes secre
tas de seus promotores. Pensemos no que se deu no Vietnam ou no Cambod-
ja, no que ocorre no Afeganistáo ou na África do Sul. Muitas pessoas estive-
ram ou estao em situacSes tao complexas que Ihes foi ou Ihes é difícil fazer
opcSes teóricas e práticas.

Ao longo da historia (pensemos nos anos que a Revolucao Francesa


durou), homens e mulheres viram-se diante de questóes cujas respostas mais
tarde se revelaram cheias de conseqüéncias. Se dermos a impressáo de que as
opcSes eram ou sao evidentes, corremos o risco de cair num simplismo fora
da realidade. Devemos ter a lealdade de reconhecer que é preciso aprender
mediante os acontecimentos da historia, a discernir entre o bem e o mal,
sem cair num maniqueísmo fácil.1

2. Entre 1939 e 1945, houve franceses que cometeram crimes ou fo-


ram cúmplices de crimes, diante dos quais nos perguntamos como é que che-
garam a tanto. Nesse período, houve franceses que torturaram e eliminaram
homens é mulheres. Outros franceses o fizeram em outras circunstancias.
Aqueles que denunciaram tais procedimentos, muitas vezes tiveram que o fa
zer em oposicao á opiniao pública.

Sabemos também que foram, e ainda sao praticados encarceramentos


em massa, torturas inimagináveis, assassínios inúmeros. pisto temos exemplo
na URSS, no Cambodja, na China Popular, em certos países da África e da
América Latina, sem esquecermos o Afeganistao, o Ira, o Líbano: sao coisas
conhecidas. Os responsáveis por tais procedimentos foram e sao, ás vezes,
chefes de Estado recebidos com honras. É leal reconhecer que, segundo al-
guém é poderoso ou miserável, o julgamento da opiniao pública é diverso.
Todo criminoso deve prestar tontas á Justica. Afirmando isto de maneira

1 Isto é, julgar que o bem e o mal estejam tao rígidamente distribuidos


que de um lado só haja o bem e do outro lado só o mal (Nota do Tradutor).

490
OCASO"PAULTOUVIER" 11

categórica com relacao a algumas pessoas (e nunca o taremos suficientemen


te), só podemos surpreender-nos ao verificar que outras nao tiveram ou nao
terao que submeter-se á Justica.' De resto, quantos dentre nos se associam á
acao de organizacoes como a A.C.A.T. (Apao dos Cristáos para a Abolicáo
da Tortura), cujo objetivo é alertar a opiniao pública sobre todas as formas
de tortura em todo e qualquer país, promover a oracao pelas vi'timas e pelos
carrascos, concitar os homens a trabalhar para que tal flagelo desapareja?
É urgente denunciar os crimes contra a humanidade. é também urgente tra
balhar para que desaparecam os crimes. Estamos nos devidamente convenci
dos disto?

O caso Touvier suscita e suscitará paixSes. Essas paixóes tém sua orí-
gem nos crimes que ele cometeu e no envolvimento de certas pessoas em tais
facanhas. Nao seriam também oriundas do fato de que o caso Touvier amea-
ca de nos obrigar a considerar de frente algumas fases da nossa historia que
nao gostamos de recordar?... Chama-nos também a atencao para a nossa pas-
sividade diante de tantos crimes que se cometem no mundo.

Urna chaga só pode ser curada se ela é, antes do mais, reconhecida e


manifestada. Isto dói. Se alguns membros da Igreja estao envolvidos no caso
Touvier e se os seus motivos eram condenáveis, nos, católicos, teremos que
olhar de frente e assumir essa chaga, sem falsa justificativa e sem hipocrisia.
Os franceses em geral deverüo também ousar considerar em cheio esse perío
do e outros períodos da historia que eles preferem deixar na penumbra. A
única maneira de olhar de frente o nosso presente e o nosso futuro consiste
em termos a coragem de assumir o nosso passado, longínquo ou próximo.
Também temos que reconhecer a nossa indiferenpa pessoal e coletiva diante
dos habitantes de outros países que passam por situacóes em que Ihes é difí
cil ver com clareza, e em que se cometem os mesmos horrores.

Se o caso Touvier nos ajudar a conceber essa lealdade corajosa, ele


ocasionará talvez que crescamos em lucidez e em capacidade de discernir e
de lutar contra tudo o que destrói a humanidade. Nos o faremos entáo com
modestia - o que nao quer dizer... com covardia e fraqueza".

Á guisa de comentario: estas consideracóes merecem atencao porque

— de um lado, incitam a reconhecermos o mal como mal, com sinceri


dade e coragem;

— de outro lado, porém, chamam a atencao para possfveis atenuantes


de procedimentos tidos como condenáveis. Com efeito; quem se vé imerso

491
12 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS 330/1989

numa situacao confutante e confusa, difícilmente percebe o reto alvitre a


tomar e, por isto, pode optar per atitudes que no momento parecem reco-
mendáveis, mas posteriormente se revelam dignas de censura. A Justica pede
que se levem em conta as circunstancias em que nossos antepassados tiveram
que agir, e ná'o Ihes apliquemos categorias que hoje nos sao claras, mas a eles
nao eram nítidas;

- o caso Touvier também chama a atencao para semelhantes situacoes


que aínda hoje ocorrem no mundo e diante das quais a humanidade nao tem
talvez a coragem de tomar providencias, para que nao se prolonguem nem
repitam!

Sabias ponderales!

(continuacao da pág. 510)

os enredos de "vida pregressa" aprésentados por pessoas em transe nada


mais sao do que a livre associacao de impressoes e imagens colhidas no de-
correr desta própria vida.

d) Existem, sem dúvida, pessoas sensitivas ou paranormais (mais dota


das do que as normáis). Os fenómenos ditos "de mediunidade" que se Ihes
atribuem, nao provém de espi'ritos do Além, mas resultam das faculdades na-
turais de tais pessoas impelidas pela sugestao e a fantasía.

Á luz destas observacoes, verifica-se que o RC é que vem a ser obscu


rantismo, afirmando teses imaginosas que ele nao pode provar e que a cien
cia contemporánea dissipa fácilmente como sendo erróneas.

CORRESPONDENCIA MIÜDA

Maria Emilia (30140, Belo Horizonte, MG): Na falta de seu endereco


completo, comunicamos-lhe aqui que já saiu um artigo sobre o Movimento
do Catecumenato em PR 290/96, pp.300-310. Nao é lícito alterar a Liturgia
Eucarística, como ainda recentemente lembrou o S. Padre na Carta come-
morativa do 25? aniversario da Sacrosanctum Concilium; ver PR 329/29,
pp. 441s.

492
Um livro ambiguo:

"O Além Existe1

por Lino Sardos Albertini

Em jfrítese: O Dr. Lino Sardos Albertini, tendo perdido trágicamente


um filho de 26 anos de idade, procurou consolo... Finalmente¡ulgou encon-
trá-lo no Espiritismo, que o Dr. Albertini pensa poder conciliar com a fé ca
tólica. 0 seu filho, André, em coloquios mediúnicos, teria pedido ao pai
que, em nome de André faleddo, se encarregasse de incutir ao mundo a exis
tencia do Além. Em conseqüéncia, o Dr. Lino escreveu um livro em que rela
ta os contatos pretensamente havidos com André e tenta enfáticamente per-
suadir o leitor de que as práticas mediúnicas se podem coadunar com a fé
católica. - O autor está equivocado, de boa fé. 0 livro é inspirado por con-
cepcdes espiritas, que a Parapsicología contribuí para esclarecer e díssipar.

0 Dr. Lino Sardos Albertini é advogado residente em Trieste (Italia).


Foi presidente da Academia de Estudos Jurídicos e Económicos "Cenáculo
Triestino" e presidente da Junta Diocesana de Acao Católica de Trieste. Ho-
mem culto e ilustrado, sofreu um drama em 1981, perdendo súbitamente
um filho, André, que tinha 26 anos de idade. Muito abatido pelos aconteci
mientos, acabou encontrando alguns médiuns que dizem ter feito a mediaclo
entre o pai na térra e o filho no Além. Oesses "coloquios" resultou um livro:
"0 Além Existe",1 que pretende demonstrar aos leitores que, de fato, há
urna outra vida.

A obra suscita numerosas questoes; pelo qué, sintetizaremos o seu


conteúdo e Ihe taremos alguns comentarios.

1.0 livro

No día 9 de junho de 1981, André, nascido em 1955, filho do autor


do livro, saiu de casa para urna viagem de breves ferias pela Italia,... e nunca
mais voltou. O pai e a mae, Impressionados pelo fato, puseram-se a pesquisar
o paradeiro do rapaz, mas em va o. Depois de algum tempo, houve quem Ihe

1 Ed. Loyola, Sio Paulo 1998, 140x210mm, 174 pp.

493
14 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS 330/1989

recomendasse a procura da parapsicología para detectar o cadáver do jovem.


O Dr. Lino nao acreditava nesse tipo de investigacoes, mas, em desespero de
causa, aceitou a proposta e comecou a ter contatos com médiuns, especialmen
te com urna senhora chamada Da. Anita, que utilizava um pincel atómico
(ás vezes, urna cañeta ou mesmo um batom) para escrever mensagens psico-
grafadas; Da. Anita se dizia guiada pelo espirito do seu falecido pai, que Ihe
"revelava" a identidade dos espantos que se manifestavam por ela.

Assim o Dr. Albertini diz ter-se comunicado com seu filho André.
morto num assalto e interessado em aliviar a dor de seus genitores na térra.
André terá indicado ao pai o lugar em que seu cadáver jazia dentro do rio
Pó. O Dr. Lino fez diversas tentativas para resgatar o corpo do filho, mesmo
dois anos após o seu desaparecimento, mas inútilmente. Além disto, diz ter
mantido numerosos coloquios com André através da médium Da. Anita;
nessas conversas André terá revelado ao pai que viera ao mundo e morrera
para dar testemunho da existencia de urna vida postuma ou do Além; pedia,
pois, que o seu genitor divulgasse as comunicacoes de André. Disto resultou
um livro escrito em italiano, com o título Estste l'Aldilá. Un'eccezionale
testimonianza rigorosamente documentata (Luigi Reverdito, Editore). A
obra apresenta traeos biográficos de André Albertini, a constatacao de sua
morte, os esforcos feitos para encontrar o cadáver, e os coloquios mediúni-
eos com o espirito do falecido; além disto, reproduz as atas desses colo
quios, fotografías de folhas psicografadas, etc. O autor Dr. Lino repetida
mente se diz católico fiel á Igreja, inicialmente avesso ás comunicacoes medí-
únicas, mas confessa estar convicto de haver realmente conversado com o
seu filho "desencarnado" e faz questao de afirmar que a aceitacSo de tais co
loquios se coaduna perfeitamente com as proposicoes da fé católica. Em
suas primeiras páginas, a obra traz a "Apresentacao" (pp. 7-9) feita pelo Pe.
Pascoal Magni, teólogo, epistemólogo e escritor, assim como consideracoes
sobre "A Igreja ante os fenómenos paranormais" (pp. 11-14), do Pe. Joao
Martinetti, estudioso da paranormalidade. Vé-se que o autor quis muñirse
de documentos úteis para firmar a credibilidade dos relatos perante o públi
co católico. Daí a pergunta:

2. Que dizer?

Distinguiremos quatro aspectos do livro.

2.1. A suposicao básica

O Dr. Albertini assim expoe a justificativa para sua crenca na autenti-


cidade dos depoimentos recebidos mediunicamente.

494
"O ALÉM EXISTE" 15

"Muitos estudiosos admitem que as respestas recebidas peto médium


sao manifestares de entes distintos do médium, especialmente de faieddos.

O fenómeno é considerado possfvel até no catolicismo. Na dogmática


católica há, de fato, antes de tudo, o principio da ¡mortalidade da alma e o
da Comunhao dos Santos, ou seja, a existencia de urna interligacao com a
Igreja militante - nos, viventes na Térra - e os nossos faieddos da Igreja
triunfante ou da Igreja purgante.

Com essa certeza dogmática rezamos em favor de nossos defuntos


(Igreja purgante) ou pedimos a eles, se canonizados (Igreja triunfante),
ajuda para a nossa vida material e espiritual.

Acreditamos, como católicos, na eficacia da oracSo desde que feita


com fé constante e fervorosa e dirigida para o nosso bem espiritual ou do
próximo. NSo é impossfvel, portento, que Deus, destinatario supremo de
qualquer oracao, possa acolhé-la, mesmo que de forma excepcional.

Há também a possibilidade - assim nos ensina a dogmática católica


- de que as forcas negativas, constituidas pelos anjos rebeldes a Deus, pos-
sam comunicarse com os viventes. Há, análogamente, na Biblia e na histo
ria da Igreja, varios exemplos de intervencSes na vida humana, também de
espfritos eleitos, os Anjos que, em algumás circunstancias especiáis, apare-
ceram aos viventes para dar-lhes conselhos e comunicacoes. Os exemplos sao

conheddos e nSo é necessário citá-los.

Segundo o catolicismo, portanto, parece-me perfsitamente ortodoxa a


possibilidade de contatos entre vivos e monos, especialmente quando isso
faz parte de um plano divino" (p. 67).

As afirmacóes do Dr. Albertini abordam dois pontos importantes; 1) a


comunicacao entre vivos e mortos, principalmente a que vem do Além para
o aquém; 2) as oracoes ou os sufragios dos vivos pelos mortos. Nao devem
estes dois pontos ser confundidos entre si; pelo que Ihes dedicaremos distin
tas consideracoes.

2.1.1. As comunicacoes doi mortos com os vivos

Nao temos trámite algum para interpelar os mortos e deles receber


mensagens; nem a ciencia nem a fé nos indicam como poderfamos fazer isso.

Verdaüe é que, no decorrer da historia da Igreja, se tém apontado ca


sos de pretensas comunicacoes entre vivos e mortos. A rigor, n§o sao impos-

495
16 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS 330/1989

si'veis; a fé católica nao contradiz de antemáo tal supósicao, mas afirma que
nao há criterios seguros para identificar a autenticidade dessas comunica-
c5es; antes, existe grande risco de se tratar de fenómenos meramente psico
lógicos e parapsicológicos, como demonstra a experiencia.

Oe modo geral, pode-se afirmar que as ditas "comunicacoes mediúni-


cas" nSo sao mais do que expressSes do psiquismo do médium, cujo incons
ciente funciona de maneira surpreendente (tal é o caso também de Da. Ani-
ta, como será explanado adiante, apesar dos argumentos aduzidos em favor
pelo Dr. Albértini). Por conseguinte, só se deve admitir a genuinidade de in-
tervencoes do Além quando os respectivos fenómenos nao se coadunam com

alguma das explicacóes naturais que se Ihes possam dar.

2.1.2. Os sufragios dos vivos pelos monos

Embora nao tenhamos vias naturais de diálogo com os mortos, a Igreja


desde os seus primeiros sáculos pratica:

— a oracao aos justos que nos precederam na gloria celeste e que sao
amigos qualificados de Deus: os Santos. A morte nao extingue a comunhao
. existente entre os membros de Cristo, de modo que, assim como os justos na
térra intercedem pelos seus ¡rmaos, podem fazer o mesmo na outra vida. É o
que a tradicao judaica já admitia mesmo antes de Cristo; ver 2Mc 15,13s, on
de aparece o Profeta Jeremías no Além como "amigo dos seus ¡rmaos, aque-
le que muito ora pelo povo e por toda a cidade santa". - Verdade é que os
justos falecidos nao tém meios naturais de perceber as oracoes que Ihes diri
gimos; mas a Providencia Divina Ihes dá a conhecer as nossas súplicas, preci
samente para que se mantenha viva a comunhao dos Santos;

— a oracao pelas almas do purgatorio. Esta nao implica coloquio ou


com un ¡cagao com as almas, mas sao preces dirigidas a Deus em favor dos ir-
maos que délas precisem para se purificar das escorias do pecado levadas pa
ra a outra vida.

Vfi-se, pois, que o Dr. Albertini no trecho atrás transcrito confunde os


termos e faz ilacSes indevidas, na tentativa de justificar coloquios mediú-
nicos.

2.2. O contaúdo das mansagsns de André

Quem lé tais mensagens, tem a ¡mpressSo de que sao concebidas como


se o Além fosse urna edicao do aquém renovada, melhorada e ampliada.
Com efeito; André se apresenta como um espirito que, no momento do as-

496
"O ALÉM EXISTE" 17

sassfnio, saiu de seu corpo, assistiu do alto e com indiferenca h cena de mor
ticinio realizada na térra; depois, embocou por longo túnel:

"A entrada (do túnel) atrai porque se vé urna grandiosa Luz que'cha
ma, mas nem sempre se consegue logo alcanzar a Luz. Os mais afortunados
como eu, que sSo acofhidos por amigos ou parantes, sim. Outros, no entan-
to, devem esperar muito tempo e isto faz sofrer porque se sabe que, aiém do
túnel, tudo é maravilhoso e se gostaria de chegar lá quanto antes" (p.49).

André, no Aiém, terá experimentado "muita paz, nenhuma vontade


de voltar. Sim; o meu amigo Marcos veio logo receber-me para a/cancar a
Grande Luz.

0 ambiente no aiém 6 lindfssimo, tSo lindo que é indescritfvel. Vocé


pode descrever as sensacSes?" (p. 49).

Ora o Aiém nao é dimensional; por isto nao tem túnel nem jardim,
nem luz física. É um mundo espiritual, nao geográfico, em que a alma huma
na é julgada pelo Criador ou, melhor, iluminada por Ele para que possa ava
har os seus méritos e deméritos e.conseqüentemente, usufrua da sua sorte (a
vida eterna após plena purificacáo ou a eterna separacao de Oeus). Os ami
gos e parentes nao sao os "recepcionistas" de quem morre, pois nao há ne-
cessidade disto na outra vida.

Diz aínda André em urna de suas mensagens:

"Eu infelizmente estou perdendo todas as esperances de fazer parte da


fileira dos eleitos" (p. 45).

Estes dizeres supóem um clube ou urna agremiacao cujo ingresso é


pleiteado por muitos candidatos que concorrem a algumas vagas, fazendo fi
las para submeter-se ao exame dos requisitos. Em determinada mensagem
(p.53) "André está na hierarquia", conforme outro espirito "desencarna
do"; mas André replica que "hierarquia" nao é termo apropriado (p.54).

A mesma concepglo imaginosa parece subjacente ao seguinte trecho


de diálogo psicografado:

"Per(junta: Vocé está sabendo que na Páscoa fui com mamae a Med/'u-
gorje, na Iugosiávia, onde unsjovens dizem ver diariamente Nossa Senhora...
Pedimos a alguns dos videntes que intercedessem ¡unto a Nossa Senhora por
vocé... VooS pode dizer algo a respeito?

497
18 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS 330/1989

Resposta: Nio consta que a Senhora Celeste tenha recebido mensagens


que me digam nspeito; porque, quando ísso acontece, nos somos chamados
e devemos estar presentes".

0 Além seria um colegio, um educandário, um quartel..., no qual os


internos sao chamados ao Gabinete do Diretor ou do Responsável sempre
que urna merisagem de fora os interpela? — No Além, os espíritos se com
portarían! como no aquém; além de haver os recepcionistas, haveria aqueles
que se cansam para transmitir mensagens á Térra (cf. p.22).

O fato de André exigir de seu pai a colaboracao na missao de "fazer


saber ao mundo inteiro que existe o além" pode ser tido como urna projecao
do próprio Dr. Albertini, que imaginou tal missao para seu filho e para si
mesmo, a fim de se consolar da perda do filho. Veremos adiante que os mé-
diuns nao recebem mensagens do Além, mas proferem aquilo que eles tém
no consciente ou no inconsciente dos seus consulentes.

Mais: o apelativo "Luz Infinita", muito freqüente ñas mensagens me-


diúnicas de André para designar o Senhor Deus, é estranho ás Escrituras e a
tradicao católica. Verdade é que Sao JoSo diz que "Deus é luz" (Uo 1,5;
Jo 1,9), mas nunca fala de Luz Infinita. Esta expressao écomum no Espiri
tismo, ñas crenpas indianas e esotéricas. As "mensagens" de André nunca se
referem ao Espirito Santo ou á SS. Trindade como tal.

Assim verificamos que o conteúdo das- mensagens atribuidas a André


nao corresponde aos artigos professados pela fé católica, mas simaos do Es
piritismo. Mencionemos os depoimentos de pessoas que narraram as experi
encias feitas quando estavam em coma profundo e que o Dr. Raymond A.
Moody Jr. publicouemum Mvro; cf. PR 216/1977, pp. 501-506 e 227/1978,
3a. capa.

2.3. A pjicograf ia

A médium Da. Anita transmite mensagens do Além por via psicográfi-


ca. Isto muito impressionou o Dr. Albertini, levando-o a crer que tal proces-
so sup8e realmente ¡ntervencao de um espirito "desencarnado".

A psicografia é um dos fenómenos parapsicológicos atualmente mais


estudados e penetrados pela ciencia. Verifica-se que nada supoe de transcen
dental, mas se desenrola do seguinte modo: todo psicógrafo acredita que re-
ceberá mensagens. do Além; assim sugestionado, dispoe-se a recebé-las, en
trando em transe ou perdendo o controle sobre o seu inconsciente. Este en-
tlo associa reminiscencias que tem guardadas dentro de si, ou capta noti
cias de fora; esses elementos provocam o movimento físico da máo, que, segu-

498
"O ALÉM EXISTE" jg

rando urna cañeta ou um pincel, é direcionada pelo inconsciente e se poe a


escrever aquilo que está no íntimo do psicógrafo.

Este pode perceber inconscientemente no inconsciente do'seu cliente


aquilo que este Ihe traz e gostaria de ouvir, como se fosse mensagem do
Além. Assim o psicógrafo pode "dar recados" maravilhosos, supreendentes,
inexplicáveis á primeira vista e altamente consoladores, porqué correspon-
dem a quanto os consulentes aflitos desejam ouvir.

Sábese também que o médium pode inconscientemente provocar mo-


vimentos convencionais (retilíneos, circulares, obh'quos...) com a sua mao
portadora de urna cañeta ou um péndulo, exprimindo assim aquilo que o
próprio médium traz no seu íntimo.

' Em muitos casos as respostas psicografadas sao vagas ou mesmo evasi


vas e descomprometidas. Tenhamos em vista o seguinte diálogo:

"P.: Vocé sabe se com o sistema de e/reno poderemos resgatar seu


corpo?

R.: Poderte saber, mas a Luz Infinita nada me assinalou.

P.: Entio vocé nao sabe se o seu resgate está próximo?

R.: Nao, sei que há de se fazer, mas nSo sei quando.

?.:Se as autoridades nSo nos autorizarem a drenar a parte do Pó que


nos interessa ou se o trabalho nSo der o resultado esperado, como devore
mos proceder? NSo saberemos mais o que fazer.

R.: Esse problema, nos o estudaremos se e quando for necessérío.

P.: As tres fotos tiradas por C, em que se vé um corpo humano, res-


pectívamente a cabeca e o pescoco, sao um sinal dado a nos ou efeito natu
ral da fotografía?

R.: Isso é obra da Luz Infinita. NSo Ihe disse que ó bom ser amigos de-
la?" (p. 115).

O Dr. Albertini afirma que "Da. Anita só fala o dialeto triestino e nao
teria condicSes de se expressar com conceitos tao qualificados e profundos"
(p.24).' — Tal argumento nada prova: um médium pode exprimiese até em
língua estrangeira que ele nunca tenha estudado; com efeito, ele pode ter li-

499
20 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS 330/1989

do ou ouvido algo em tal idioma; talvez nao tenha dado importancia a essas
percepcoes, mas estas Ihe ficaram gravadas no inconsciente, de modo a virem
á tona quando o médium entra em transe. O próprio Dr. Albertini afirma:

"Da. Anita é inteligente. Lé ¡ornáis e revistas normalmente, como as


senhoras da sua idade e posicSo... Lé, quando Ihe aparece a oportunidade,
um outro artigo de revista (de parapiscologia) e acompanha algum programa
(de parapsicología) na televisao" fp. 20).

2.4. Questóes complementares

Destacaremos tres pontos:

2.4.1. Os sinais extraordinarios

As pp. 21-27, o Dr. Albertini narra tres episodios que Ihe parecem nao
ter explicacáo senao por ¡ntervencao do Além: 1) o falecido Gigi Rosani ter-
se-ia intrometido num coloquio do pai com o filho desencarnado André; es
te teria mandado o pai e a médium ler no jornal a noticia do falecimento de
Rosani;2) urna mancha de sangue apareceu no II Giornale, atribuida á auto
ría de André desencarnado; 3) André teria feito cair a tampa de urna cañeta.

Estes episodios mereceriam um estudo muito preciso, de modo a se


averiguar o que realmente se deu e em que-circunstancias ocorreu; os relatos
do livro sao insuficientes para se poder proferir um diagnóstico a respeito. A
fé católica ensina que só se pode pensar em ¡ntervencoes do Além depois de
esgotar todas as possibilidades de explicacao pelo aquém. O mesmo se diga a
respeito de outros casos extraordinarios relatados pelo Or. Albertini no de-
correr do seu livro; somente um exame criterioso e objetivo dos fatos pode-
ría permitir um diagnóstico; na falta desse exame, é temerario apelar para
explicacdes de ordem transcendental, de mais a mais que se sabe quanto se
podem engañar as pessoas emocionadas e impressionadas pelos altos e baixos
da vida cotidiana.

2.4.2. As concepcoes espiritas

Quem lé o livro, tem a ¡mpressao nítida de que é todo inspirado por


concepcóes espiritas, que os amigos do Dr. Albertini, bom católico, Ihe fo-
ram aos poucos incutindo. O Dr. Lino relutou para aceitá-las, mas, vencido
talvez pelo traumatismo do brusco desaparecimento do seu filho, acabou ce-
dendo á "promessa" de o reencontrar mediante coloquios mediúnicos. Ten-
do adotado o Espiritismo <sem o perceber), o Dr. Albertini tudo fez para
justificar suas novas concepcdes, tentando fundi-las com a fé católica. Eis

500
"O ALÉM EXISTE" 21

um espécimen de diálogo em que o espirito de André se refere a urna mé


dium diversa de Da. Anita:

"Esta sra. invoca a minha presenca; por isto urna parte de mim entra
em sintonía com ela; mas sio apenas sensacdes, nio pensamentos. Explico
melhor: ela pode captar, por exemplo, o amor que sinto por voces e pelo
próximo, mas nSo coisas que nao quero comunicar" fpp. t42$).

Isto quer dizer que os mádiuns tém poder quase dominador sobre os
espi'ritos do Além, obrigando-os á sintonía (este termo lembra ondas sono
ras!). Os "desencarnados", porém, se defendem como podem!

Alias, nao se deve confundir evocacáo dos mortos com parapsicología,


como insinúa o Dr. Albertini á p. 72: "Na literatura parapsicología, costu-
ma-se falar... de 'espíritos brincalhSes', isto é, de entes que se intrometem,
dando respostas engañadoras" (p. 72). - Na verdade, a parapsicología estuda
os fenómenos paranormais, procurando detectar as causas para-psicológicas
que os motivam. Para-psicológico quer dizer: ao lado do psicológico habitual
e normal; trata-se de um funcionamento mais ampio do psiquismo humano.
Por conseguinte, a parapsicología é avessa á hipótese de que "espíritos brin-
calhoes e engañadores" entrem em comunicacao com os homens; ela tenta
mostrar as rafzes psíquicas e subjetivas dos fenómenos atribuidos aos "espí
ritos brincalhSes".

2.4.3. O apoio de eclesiásticos

0 Dr. Albertini transcreve no inicio do seu livro o testemunho de dois


sacerdotes que aprovam o seu recurso á mediunidade... O Pe. Martinetti, por
exemplo, apresenta como criterios de auténtica intervencao dos espíritos
do Além

"... os casos em que o presumido falecido revela o caréter, a maneira


de pensar e de falar que possuia nesta vida aquele que diz ser, os nomes e os
costumes de pessoas conheddas por ele e pelos participantes da sessao, mas,
sobretudo, noticias absolutamente desconhecidas dos médiuns e dos partici
pantes, conheddas somante pelo faleddo quando estava nesta vida e verifi
cadas hoje como exatas.

Essas revelacdes possuem notável valor indicia! quando se pode consta


tar a ausencia de espedais e extraordinarios dotes de clarividencia no mé
dium e nos participantes (isto é, nunca mostraram esses dotes em sua ativi-
dade ordinaria) e, aínda mais, se as revelacdes acontecem com particularida
des paranormais nSo atribufveis a elas (como, por exemplo, com urna cañeta
que escreve sem a guia do médium). As noticias até agora desconhecidas e

501
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS 330/1989

que se revslaram exatas sSo, entSo, um sinal bastante convincente da presen-


ca de um espirito que se comunica do Além, mas nSo óferecem aínda fortes
probabilidades de que se/a verdadeiramente o faleado que diz ser" (pp. 12s).

A propósito observamos: o poder do inconsciente, a percepcao extra-


sensorial, a hiperestesia sensorial, a telepatía, a clarividencia e outras faculda-
des do psiquismo humano sao hoje cada vez ma¡s exploradas, de modo que
se admitem varias modalidades extraordinarias segundo as quais alguém (es
pecialmente urna pessoa muito sensitiva) pode captar conhecimentos e no
ticias. Conseqüentemente "as noticias absolutamente desconhecidas dos
médiuns e dos participantes, conhecidas somente pelo falecido quando esta-
va nesta vida" podem-se tornar conhecidas dos médiuns independentemente
de alguma revelacio proveniente do Além. Desta maneira dissipa-se a valida-
de do criterio aduzido pelo Pe. Martinetti para admitir comunicacoes me-
diúnicas.

Também nao é suficiente indicio de manjfestacSes do Além o fato de


que "os monos nunca neguem pontos substanciáis do Evangelho e do ensi-
no da Igreja; antes, fornecam confirmacao dos mesmos, com frutos positivos
de vida moral e religiosa" (ver p.13). Na verdade também os católicos nesta
vida podem realizar obras edificantes e erróneamente atribui-las ao Além.

O Pe. Martinetti, alias, reconhece que a Biblia e o magisterio da Igre


ja condenam a evocacao dos mortos; ver Is 8,19; Lv 19,31; 20, 6.27; Dt 18,
11... A principal razao da condenacao nao é que os mortos seriam incomo
dados ou que maus esp ir ¡tos apareceriam em lugar dos bons, mas é que a ne-
cromancia vem a ser supersticao ou crendice; com efeito, ao homem nao fo-
ram revelados os meios de se comunicar coloquialmente com os falecidos, de
modo que quem pratica artes com tal finalidade, está atribuindo a tais artes
poderes religiosos que elas nao tém. Isto alimenta falso senso religioso ou de-
turpa a religiao.

A Igreja admite, sim, que as almas dos defuntos (e também os anjos


bons e maus) se manifestem aos viventes na térra, mas julga que tais manifes
tares (cuja autenticidade deve ser bem comprovada) nao podem ser provo
cadas ou "encomendadas"; elas sao espontáneas e nao dependem de algum
ritual ou instrumental (cañeta, pincel, batom...).

3. Conclusao

O livro do Dr. Lino Sardos Albertini é a expressao do drama emotivo


de um pai que perdeu trágica e imprevistamente um f ilho de 26 anos de ida-
de, muito caro aos genitores. A dor assim gerada nestes procurou um alivio,
... alivio que foi imaginar esse filho entrando em coloquio com os pais para

502
"O ALÉM EXISTE" 23

dizer-lhes que ele, André, e seus genitores tinham a missao de incutir ao


mundo a existencia do Além; estaría assim compensada, para o Dr. Alberti-
ni, a perda do seu filho André.' Na verdade, o Dr. Lino se dedicou a tal mis-
sao, mas dentro de parámetros espiritas. O Catolicismo eré na vida postuma,
sim, mas nao a configura á semelhanca da vida presente (túnel, luz, fileira de
candidatos, receío de perder a vaga...}. Antes, a fé católica repete com Sao
Paulo: "O que os olhos nao viram, os ouvidos nao ouviram e o coracao do
homem nao percebeu, eis o que Deus preparou para aqueles que O amam"
(ICor 2,9). O homem morre com sua sentenca lavrada por ele mesmo no de-
correr desta vida, dizendo Sim ou Nao a Deus através dos seus atos; a alma
humana colhe imediatamente os frutos do que semeou na térra; na consu-
macao da historia, por ocasiao da segunda vtnda de Cristo, dar-se-á a ressur-
reicao dos corpos. No Além, nao há burocracia nem promocao nem espacos
pa^a chefia e para subalternos, mas, sim, a visao de Deus face-á-face para
aqueles que viveram com Deus na vida presente; em Deus os justos veráo as
criaturas e as amarao comungando com o amor de Deus.

Em fevereiro de 1990 a Escola "Mater Ecclesiae" lanzará um Curso so


bre Ocultismo por Correspondencia, em que serio abordados sistemática
mente os fendnemos mediúnicos. Endereco: Caixa postal 1362, 20001
Rio (RJ).

A guisa de bibliografía:

FRIDERICHS, EDVINO AUGUSTO, Panorama da Parapsicología ao


alcance de todos. Editora Loyola.

ÍDEM, Onde os espíritos baixam. Ed. Loyola. Higiene mental em


contato com a natureza. Ed. Loyola.

GONZALEZQUEVEDO, ÓSCAR, A Face Oculta da Mente. Ed.


Loyola. As Forcas Físicas da Mente. Ed. Loyola. O que é Parapsicología.
Ed. Loyola.

503
O Espiritismo reformado:

O Racionalismo Cristáo

Em tíntase: Luiz José de Mattos, no comeco do sáculo XX, houve por


bem reformar o Espiritismo kardecista, julgando-o demasiado religioso e
pouco racional. "Guiado por espirito do Astral Superior", removeu o con-
ceito monoteísta de Deus para adotar o panteísmo (tudo é Deus); neste ca
so, o homem vem a ser uma partícula da Inteligencia Suprema encarnada na
materia e fadada a se aperfeicoar atreves de encarnares numerosas. Haveria
espfritos malvados pairando no Astral Inferior, dispostos a causar obsessoes
nos viventes da térra; os defeitos de temperamento e os males físicos e fisio
lógicos seriam o resultado de obsessSo (= intervencSo) de espfritos malignos
desencarnados. O Racionalismo Cristao querproporcionar orientacoese fór
mulas para afastar tais maus espfritos e levar os homens é perfeicSo. — A leí-
tura das obras do Racionalismo Cristao evidencia que se trata de um con
junto de aflrmacdes gratuitas, fantasiosas e mesmo ilógicas. Nada tém de Ra
cionalismo, pois o apelo habitual para a obsessio é obscurantista e anti-ra-
cional, nem tém algo de Cristao, pois zombeteiam a religüo e seus seguido
res.

Entre as modalidades do Espiritismo (comunicacao entre vivos e mor-


tos), está a correóte que, impropriamente, se chama Racionalismo Cristao.
Vejamos em que consiste.

1. AsOrigens

0 fundador do Racionalismo Cristao (RC) chamava-se Lufz José de


Mattos. Nasceu na vila de Chaves (Traz-os-Montes, Portugal) aos 03/01/1860.
Veio para o Brasil com 14 anos de idade. Tornou-se comerciante e até mes
mo Vice-C6nsul de Portugal em Santos (SP). Freqüentava o Espiritismo kar
decista, quando em 1910, numa sessao espirita, "o Pe. Antonio Vieira, em
corpo astral" o escolheu para presidir a sessao. Comecou entao a pensar em
reformar o Espiritismo, que ele julgava ser demasiado religioso e pouco cien-

504
O RACIONALISMO CRISTAO 25

tífico ou racional. Tornou-se ferrenho adversario do kardecismo e quis fun


dar um Espiritismo nao religioso, mais racional e científico.

Luiz de Manos afirmava que o kardecismo é "a maior praga que exis
te", é "um saco de patifarias enfeitado com as rendas Sem caridade nío há
salvac£b e outras frioleiras", é "urna supersticao que se tornou religiao e por
todo o Brasil espalha urna atmosfera de cretinice, de fanatismo enfermico e
de debilidade mental". A Federacao Espirita Brasileira seria "o maior saco
de gatos e loucos que existe no mundo". Alias, também contra a Igreja Cató
lica insurgiu-se o fundador em "Cartas ao Cardeal Arcoverde" e contra os
médicos em "Cientistas sem Ciencia".

Sao palavras de Luiz de Manos: "Olhemos os loucos que superlotam


em número já quadruplicado o Hospital Nacional de Alienados, olhemos as
cadeias do interior do Brasil sempre as voltas com avariados mentáis, olhe
mos as casas para Obsedados que os praticantes desse nojento Espiritismo
mantém, e concluiremos que medidas enérgicas se impoem para salvaguardar
os incautos e normalizar os infelizes" (citacoes tiradas de Cartas Oportunas
sobre Espiritismo, Rio de Janeiro 1939).

Conforme Luiz de Manos, os espíritos do Astral superior, em longos


meses de trabalho, Ihe ditaram a obra fundamental: Espiritismo Racional e
Científico (cristao), que passou por sucessivas revisces ("segundo as inspira
res do Astral Superior"), até chegar ao título mais simples de Racionalis
mo Cristao (RC). Luiz de Manos faleceu em 1926. Deixou como sede prin
cipal da sua obra o Centro Espirita Redentor no Rio de Janeiro. Os seus se
guidores foram chamados "racionalistas" ou também "redentoristas", pois
os centros filiados tinham invariavelmente o apelativo "Redentor".

2. A Doutrina

Oficialmente o Racionalismo Cristao (RC) nao é religiao, nem com


bate as religiSes, "mas apenas os seus erros". Na verdade, porém, os "racio
nalistas" sao fortemente opostos as crencas religiosas em geral e fazem de
Luiz de Manos um "profeta" ao lado dos fundadores de religiao, porque
"foi maior que o próprio Cristo" e é "o mestre dos mestres". Eis os princi
páis traeos de sua doutrina:

2.1. Deus

A palavra Deus é escrita com letras minúsculas e menosprezada como


sendo de "origem fradesca". é substituida por "Grande Foco" e "Inteligen
cia Universal":

505
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS 330/1989

"O Racionalismo Cristao ensina que o espirito é luz, é forpa, é urna


partícula da Inteligencia Universal. Ensina também que a constituicao do
Universo se baseia em dois únicos Principios - Forpa e Materia - e que essa
Forea é a mesma inteligencia que enche o espago infinito e que incita e
movimenta todos os corpos. Adotou, porém, como forma de representapáo
a expresslo Grande Foco apenas para exprimir essa Forca total, essa Inteli
gencia Absoluta, que é a Luz Infinita a vibrar incessantemente no Espapo
Universal" (RC, 27a. edipao, p. 64).

Este texto redunda em panteísmo ou na afirmacáo de que a Inteligen


cia Absoluta (a Divindade) é a Forpa total que entra, com a materia, na
constituipao do universo e do homem. Luiz de Mattosainda é mais explíci
to abaixo:

"Nao há diferenpa entre as duas expressoes... — Forpa e Grande Foco.

Forpa é a-expressao empregada quando se trata da sua associapao com


a Materia, e Grande Foco quando se quer exprimir o agente universal na
sua conceppao infinita; sao, porém, termos sinónimos, de sentido inteira-
mente igual. Nenhum ser, por mais sofista que se queira mostrar, poderá
apontar, em qualquer dessas duas expressdes a mais leve afinidade com a pa-
lavra 'deus', profundamente desmoralizada pelo sentido mesquinho, materia
lista e animalizado que Ihe emprestaram os adorados de todas as religioes"
(ib., p.64).

Notemos aínda a seguinte afirmapao: "Todos os individuos sao espi-


ritualmente irmaos, como partículas inteligentes de um único Todo" (RC,
p.6).

2.2. O ter humano

O homem é um composto de Forpa e Materia. A Materia nao tem atri


butos próprios, mas ela reflete aqueles que a Forpa (substancia divina) Ihe
comunica. A Forpa, no ser humano, também é dita "partícula da Inteligen
cia Universal".

A Forpa comeca sua evolucao dando estrutura ao átomo; depois, dá-a


ás moléculas... Assim forma ela o reino mineral, o vegetal e o animal... Nos
animáis a Forpa vai desenvolvendo sua apio: os instintos sao considerados in
teligencia embrionaria, que evolui até o grau do espirito, podendo entao en-
carnar-se em corpo humano.'

1 NSo é necessário dizér que os conceitos $ vocábutos do Racionalismo Cris-


tio nio se condliem, em absoluto, com os da Teología católica.

506
O RACIONALISMO CRISTÁO 27

Tendo chegado á categoría de espirito, a Forca se encarna muitas ve-


zes, a fim de atingir a perfeicao espiritual; este processo pode durar milhares
de anos. Há dezessete graus de evolucao na Térra mediante reencarnacdes.
Oepois do 17?, a evolucao se faz no Espago que tem a denominacao de As
tral Superior.

Entre a Térra e o Astral Superior existe o Astral Inferior, que é ocupa


do por espíritos desencarnados pouco evoluídos. Dao expansao aos vicios
que eles alimentaram quando estavam na Térra: assim, se tém vontade de fu
mar, encostam-se no fumante encarnado, e experimentam o prazer do fumo;
algo de semelhante se dá quando querem satisfazer aos seus desejos de comer,
beber, jogar...; encostam-se ñas pessoas terrestres para atender aos seus an-
seios desregrados. É assim também que tem origem a obsessáo.

Luiz de Manos divide a humanidade em duas categorías: a dos espíri


tos adoradores e a dos independentes. "Os adoradores acham-se na carnada
inferior, desde a dos selvícolas, urna das primeiras fases da encarnacao em
forma humana, até os individuos congregados pelas vetustas e modernas or-
ganizacoes religiosas" (RC p.10). Os espíritos independentes, ao contrario,
integram a carnada superior, alheios a qualquer forma de religiao; tém seus
interesses voltados para servir á humanidade, comunicando-lhe as linhas
doutrinárias do Racionalismo Cristao.

2.3. A obsessáb

A obsessao é algo de muito importante no Racionalismo Cristao, que


explica deficiencias moráis, paixSes, extravagancias dos seres terrestres por
intervencáo {= obsessao) dos maus espíritos do Astral Inferior.

"Espíritos que, quando encarnados,... levaram urna vida irregular, ma


terializada e abundante de falhas, permanecem por decenios no Astral infe
rior, agindo perversamente contra os encarnados... Chegam a atuar bem
adestrados, em falanges, para melhor atingir seus objetivos; suas organiza
res possuem vigias que ficam atentos ás ocasiSes propicias, escalados em va
rios pontos, para dar o alarma no instante preciso e promover a convocacao
dos demais obsessores para acao em conjunto" (RC, p. 207).

Eis alguns síntomas de obsessao: rir sem motivo, manifestar cacoetes,


chorar sem razao, comer exageradamente, estar sempre com sonó, fazer gra-
cinhas tolas, usar palavrdes, mentir habitualmente, gesticular e falar sozinho,
gastar mais do que se deve e pode...

Os espíritos do Astral inferior podem também produzir enfermedades


físicas, dado que estao impregnados de miasmas de varias e perigosas doen-
cas.

507
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS 330/1989

O RC se especializa em curar as pessoas obsedadas, fornecendo-lhes


prescricSes de médicos do Astral Superior, que baixam sobre a Térra nao pa
ra se encarnar de novo, mas para ajudar os telúricos a realizar sua missao be
néfica. Os médiuns sao pessoas habilitadas para receber as comunicacoes po
sitivas dos espfritos bons e transmití-las aos clientes. Luiz de Manos, orienta
do pelo Astral Superior, descobriu um método especial de '"Limpeza Psí
quica", que compreende "Irradiacóes" e sacudimentos (choques fi'sicos) das
pessoas obsedadas. Ensina o opúsculo "Como se fortifica e esclarece o espi
rito", "publicado por ordem do Astral Superior": se alguém for acometido
de ataque, "será preciso sacudi-lo fortemente, embora Ihe magoem os bracos,
e dar-lhe agua fluídica, o que se fará apertando-lhe ligeiramente o nariz e
despejando-Ihe a agua na boca"; o Astral Superior garante que "com este
método se evitaráo todas as enfermidades, se curarao ou amenizarlo as que
já existirem".

2.4. A mediunidade

A mediunidade ou a faculdade de captar mensagens e intervencoes do


Além é muito estimada pelo RC. Com efeito. diz Luiz de Mattos, "o espapo
ocupado pela atmosfera terrestre está repleto nao só de espi'ritos, mas de
pensamentos, daí resultando as vibracoes de duas correntes distintas, classí-
ficadas como correntes do mal e do bem" (RC, p. 293).

As modalidades mediúnicas mais correntes sao: a intuitiva, a olfativa,


a auditiva, a vidente, a psicográfica, a clarividente e a de ¡ncorporacao, com
os seus fenómenos de desdobramento de personalidade, de materializacáo,
levitacao e transporte.

Em todas as carnadas sociais há individuos que sao médiuns e podem


incorporar espíritos desencarnados, embora ignorem a posse desta faculda
de. Os espíritos desencarnados que perambulam pelo Astral Inferior, perce-
bem rápidamente quai: os encarnados que possuem a capacidade mediúni-
ca de ¡ncorporacao, porque notam o efeito pronto das suas intuicoes. Em
conseqüéncia, o médium pode ser vítima dos espi'ritos do Astral Inferior,
caso nao esteja preparado para evitar a maléfica aproximacao dessas enti
dades. Sim; contam-se aos milhoes, no Astral inferior, os espíritos intrigan
tes e facciosos que encontram nos lares onde nao se pratique o RC, campo
aberto para saciarem as suas tendencias cínicas. Quem gosta de maledicen
cia, intriga e mexerico, produz pegamentos dessa ordem e atrai para junto
de si falanges de espíritos da mesma índole.

Exercendo sabiamente a mediunidade, o individuo deve procurar aper-


feicoar-se no menor número possível de encarnabas, sem se expor a sofri-
memos demasiado cruciantes. Isto é possível desde que a pessoa siga fiel-

508
O RACIONALISMO CRISTAO 29

mente as instrucSes do Racionalismo Cristao. Acautele-se contra a ambicio


descomedida, geradora de egoísmo e usurpacüo; ela fácilmente leva á Ipcura,
á paranoia, á demencia, coisas de que está cheio o nosso mundo!

Luiz de Mattos nao fala de recompensa definitiva para os que atinjam


a perfeicao. Parece que tais espíritos terao que continuar a intervir na térra a
fim de ajudar os seus semelhantes carentes. Na verdade, sem Deus que seja a
Resposta ao homem, é impossível conceber urna bem-aventuranca no senti
do pleno desta palavra.

2.5. O racionalista cristáb

O RC propde alguns principios que garantem o éxito dos empreendi-


mentos de seus seguidores: ter vontade forte para aplicá-la ao bem; manter o
equilibrio das emocoes; nao desejar para os outros o que alguém nao queira
para si; comba ter a maledicencia; usar de comedimento no falar, no vestir,
no trabalhar, no dormir, no alimentar-se e no recrear-se; cultivar permanen
temente o bom humor, por meio do qual as células do organismo recebem
influencias salutares; nao procurar reconciliacao com as pessoas desonestas
e falsas porque a natureza nao dá saltos e as modificacoes nao se efetuam
numa so encarnacao; apurar a amizade fraterna com as pessoas de bem, a
fim de intensificar a córreme de harmonía do planeta para o beneficio
comum.

A observancia destas normas assegura ao individuo um viver relativa


mente ameno e rodeado de ótimas perspectivas; tal pessoa filia-se á córreme
do bem, em oposicao á do mal, que campeia neste mundo, causando convul-
soes grandes e penosas; é impossível ficar neutro entre estes dois polos.

Tal código de Ética lembra o do Estoicismo pré-cristao. Este visava a


suscitar o homem "sabio", isento de paixoes, resultante do "atletismo"'mo
ral do próprio individuo, sem o auxilio da graca de Deus (pois o Estoicismo
também professava o panteísmo).

3. Avaliacao

1. O Racionalismo Cristao nao é nem Racionalismo nem Cristao. Nao


6 Racionalismo, porque admite teses que a razao nao alcanca, ou seja, a exis
tencia e a acáo de espíritos desencarnados; as doencas e os defeitos tempera-
mentáis sao explicados pela razao como conseqüéncias de fatores biológicos
e naturais. No plano auténticamente racional, nao há apelo para entidades
do Além, tidas como "obsessivas" ou causadoras das desgracas que as leis da
Física e da Biología explicam satisfatoriamente. Nao é Cristáb, pois reduz
Cristo á categoría de mero líder religioso, cuja obra é ridicularizada por Luiz

509
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS 330/1989

de Mattos: "As religiSes falham..., incutindo fantasías perniciosas, como os


hipotéticos céu e inferno,... santidades, perdSes, salvacao, livros sagrados,
palavra de Oeus, etc." (RC, p. 229).

L. de-Mattos substituí o monoteísmo do kardecismo pelo panteísmo,


guardando e desenvolvendo as concepcoes espiritas de mediunidade e comu-
n¡cacao com os mortos. O panteísmo nao nega a existencia da Divindade,
mas identifica-a com o mundo e o homem (pan = tudo; trieos = Oeus); des-
ta maneira isenta o homem de culto a Deus e do julgamento de um Ser Su
perior - o que, de certo modo, satisfaz ao senso de auto-suficiéncia do ser
humano. Quem lé os escritos de Luiz de Mattos, percebe mais de urna vez
a afirmacáo de tal atitude:

"Terminada a leitura destes capítulos, terá o leitor em suas maos a


chave com que, se quiser, poderá abrir a porta do caminho do éxito.

Nada pretende o Racionalismo Cristao de ninguém. ... Daía indepen


dencia com que se apresenta, falando clara e sinceramente, expondo os fatos
como eles realmente sao, sem receio algum de afugentar os prosélitos que
engrossam as fileiras de todas as seitas e religides" (RC, p. 223).

"Sem o conhecimento de como se processam as reencarnacoes e esta-


belece o ritmo da evolucao. de que maneira se desenvolve a partícula da
Inteligencia Universal, de como exerce a Forca a sua acao sobre a Materia,
fica o sectarista limitado na sua existencia terrena, que representa urna gota
de agua no Océano da Vida, a encarar os problemas do espirito com um
acanhamento penalizante" (RC, p. 225).

2. Na verdade, devemos afirmar que

a) Deus nao pode ser Identificado com o Grande Todo do universo e


da humanidade, mas é transcendente e eterno, ao passo que o mundo visí-
vel é contingente e temporal. Deus nao se pode confundir com as coisas vo-
lúveis e transitorias, nem se pode retalhar em partículas.

b) A Religiao nada tem que ver com obscurantismo, mas é a mais no-
bre atitude que o homem possa conceber. Adorar é precisamente reconhecer
a Suma Verdade e o Supremo Bem e assumir diante déla atitude de reveren
cia e devotamento que compete a todo ser finito. Nisto nao há rebaixamen-
to, mas, ao contrario, dignificacao da pessoa humana.

c) A tese das reencarnacoes é totalmente gratuita. Ninguém a pode


provar. Ao contrario, a parapsicología tem contribuido para demonstrar que
(continua na pág. 492)

510
Livro sensacional:

"O Grande Compló"

por J.C. de Castro Rios

Em síntese: José Carlos de Castro Rios oferece ao público um roman


ce que descreve o desdobramento de urna trama arquitetada contra a Igre-
¡a Católica por Stalin e o comunismo soviético após a segunda guerra mun
dial (1939-1945). Esse compló tem seus aspectos sensacionais, finamente
descritos pelo autor, que bem conhece a organiiacao da Igreja; seria a causa
dos desvios doutrinéríos e moráis ocorrentes na Igreja dos últimos decenios
e teña por objetivo destruir o Catolicismo, tido como um dos principáis
advérsenos da expansao do comunismo no mundo. Castro Rios alude vela-
damente a numerosos personagens e fatosda vida da Igreja recente. Finalmen
te aprésenla o desmascaramento dessa chamada Operacao De Profundis sob o
pontificado do Papa Joao Paulo II, que promovea Operacao Te Doum para
dissipar a infiltracao comunista nos ambientes católicos e restaurar a ordem
dentro da Igreja.

* **

0 autor J.C. de Castro Rios é um romancista de talento, que apresenta


a historia da Igreja desde o fim da segunda guerra mundial (1945) até nossos
dias como marcada pela infiltracao de agentes marxistas dentro do Catolicis
mo no intuito de destruir a Igreja Católica.1 A obra, atravás de personagens
e cena ficticias, alude a prelados e acontecimientos reais. É escrita de manei-
ra f luente e apaixonante, suscitando no leítor diversas interrogacoes e provo
cando seria reflexSo sobre a vida da Igreja nos últimos decenios. - A seguir,
resumiremos o conteúdo do livro, ao que se seguirlo alguns comentarios.

1 0 Grande Compld (Operado De profundis), por J.C. de Castro Rios. -


Bdicon, Rúa Itapeva 85, 01332 Sá~o Paulo (SP); fone 289-7477. Ano de
1989, 140x210mm,286pp.

511
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS 330/1989

1. A trama astuta

Logo após a segunda guerra mundial, Josef Stalin, na URSS, verifica


que a Igreja Católica constituí um dos malores obstáculos a expansao do co
munismo no mundo. Resoive entáo declarar-I he guerra de exterminio. Para
tanto, encarrega seus subalternos de tramar urna OperacSo dita De Profun-
di», que deve procurar infiltrar dentro dos Seminarios, Conventos e demais
instituicdes católicas agentes comunistas dissimulados sob as feícoes de ca
tólicos militantes, novicos, estudantes de Teología e padres.

A Comissao constituida por Stalin recorre a sacerdotes que deixaram


o ministerio e conhecem bem a organizacáto eclesiástica. Destes aiguns acei-
tam de ¡mediato a tarefa, ao passo que outros hesitam; sao entáo submeti-
dos a lavagem cerebral que os "convence". Urna vez conquistados, esses
ex-padres aliciam jovens que também sao tratados com lavagem de cránio
e finalmente enviados aos Conventos e Seminarios na qualidade de candida
tos. Tais agentes desempenham admiravelmente o seu papel, de modo que
acabam sendo ordenados padres e passam a exercer o ministerio sacerdotal
dentro dos parámetros de urna Teología Dogmática e Moral laxista, sécula-
rista,... enfim apta a desfibrar a fé e a conduta dos fiéis que os procuram no
confessionário e em aulas. O autor imagina varios casos ocorrentes no Bra
sil, que podem ser muito bem identificados por quem acompanha a impren
sa.

Castro Ríos conhece bem a estrutura da Vida Religiosa e o Direito Ca


nónico, de modo que é exato e meticuloso ao descrever as aventuras desses
espides colocados dentro da Igreja. No seu afa~ de vencer, os comunistas te-
rSo procurado influenciar a ele ¡gao do sucessor de Joáb XXIII, mas foram
superados pela escolha do Papa Joáo Paulo I; as mesmas tramas foram efe-
tuadas por ocasiao do conclave seguinte, mas também sem resultado para a
esquerda política, é precisamente sob o pontificado de Joá~o Paulo II que
vem desmascarada a OperacSo De Profundis, principalmente após haver ten
tado o assassfnio do Pontífice na Praca de SSo Pedro aos 13/05/81. O Papa,
tendo escapado do atentado, promove a réplica á Operaca*o De Profundis,
organizando a OperacSo Te Deum, cujas intencfies sao expostas no final do
livro pelo Pontífice:

"Precisamos ter urna Igreja realmente santa, em que os seus metnbros


se empenhem na sua autoperfeicSo, Só conseguiremos renovar a face da
térra se pudermos contar com pessoas santas. Porque só pessoas de fé conse-
guem transmitir a fé; só pessoas com esperance conseguem transmitir a es-
peranca, só pessoas que vivam o verdadeiro amor conseguem transmitir
a caridade" (p. 283).

512
"O GRANDE COMPLÓ" 33

O livro é extremamente crftico e mordaz, pintando em traeos muito


sombríos a situacSb da Igreja atual. Dar a pergunta:

2. Que dizer?

Seis observares parecem vir a propósito:

1) É certo que o livro focaliza episodios lamentáveis ocorridos dentro


de ambientes católicos. Dá-lhes colorido forte, gritante, ficticio em parte,
mas apto a despertar a atengSo do leitor. Tais qüadros nao exprimem as diré-
trizes do magisterio da Igreja, que, com J.C. de Castro Rios, condena os mes-
mos desmandos; basta ler os documentos emanados da Santa Sé para perce
be r quanto as autoridades eclesiásticas sofrem em vista dessas aberracoes e
tentam impor-lhes um dique e um remedio. Trata-se de desvíos de pessoase
setores da Igreja, que em sua linha central e oficial permanece fiel e vital, in
dicando o caminho certo a quem sinceramente procure a Verdade e o Amor.

2) Fica a berta a pergunta: será que esses desvarios, em materia de Teo


logía, de Moral e de acáo pastoral, resultam de ¡nfittracá'o,... e de infiltracáo
comandada por Moscou? Tem J.C. de Castro Rios alguma documentacao
que dé fundamento a sua hipótese de um "Grande Compló"? Haverá de fato
espioes, isto é, pessoas inimigas da Igreja disfamadas em padres. Religiosos e
seminaristas, intrometidas em redutos católicos sob a orientagao do comu
nismo internacional? — Ná*o se pode ignorar a simpatía e o apoio que os paí
ses comunistas (Rússia, Cuba, Nicaragua...) tríbutam aos teólogos e á Teolo
gía da Libertapáfo, que Castro Rios apresenta disfarpadamente sob o nome de
"Teología dos Oprimidos". Tal apoio é comprovado, entre outras fontes,
por urna obra de J. Grigulevich escrita em russo, publicada em Moscou e tra-
duzida para o castelhano com o título "La Iglesia Católica y el Movimiento
de Liberación en América Latina" (Editorial Progresso, Zuboviski bulvar 17,
Moscou, URSS); este livro descreve a situacáo dos pai'ses latino-americanos
tidos como dominados pelo imperialismo e chamados a se libertar pelo mar
xismo infiltrado dentro da Teología.1

Também é de notar que Francesco Scalzotto (pseudónimo) escreveu o


livro "Fui EspíSo!", em que diz ter sido falso sacerdote da Igreja Católica a
servico da Loja Macónica P-2, juntamente com Neimar de Barros; cf. PR
232/1989, pp. 166-175. Os nomese fatos citados por Scalzotto sao tao pre-

1 Á p. 497 diz Grigulevich: "As mudencas observadas na Igreja Católica pro-


vém das transformacdes que se verifican) na realidade, e daquelasde que, com
orgulho compreensfvel e justificado, se fazem responsáveis os comunistas".

513
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS 330/1989

cisos e vivazes que se pode crer na veracidade das noticias que ele transmi
te. Seriam outro testemunho de que a Igreja Católica está na mira sorrateira
de muitos adversarios da fé e do Evangelho, que ela procura viver e pregar
com denodo.

3) Independentemente da hipótese de infiltragoes na Igreja, explicam-


se os desvíos doutrinários e moráis de setores da Igreja a partir da própria
mentalidade moderna, que está impregnada de hedonismo, existencialismo,
relativismo... Muitos católicos, a título de "humanizar" a sua conduta de vi
da crista", cedem ao naturalismo. Além disto, a onda de secularismo (cf.
PR 324/1989, pp. 194-206) penetra dentro da Igreja, fazendo crer que servir
ao homem é suficiente para servir a Deus, de modo que o católico nao preci
sa de ter expressóes de fé transcendental e sacralidade. Estas correntes filo
sóficas vá*o ao ámago de escolas e redutos católicos, em grande parte porque
os meios de comúnicacío social as transmitem de variadas maneiras e encon-
tram sempre intelectuais "católicos" que as envernizem e as ensinem como
proposicSes de um Catolicismo renovado e revitalizado (o que é totalmente
falso).

A explicacao dos males por recurso a infiltracab marxista pode ser ve-
rossi'mil, mas permanece hipotética,1 ao passo que o contagio da mentalida
de é um fato evidente.

4) O livro tenta terminar bem, afirmando a descoberta do compló e a


organizacao da antitética OperacSo Te Deum de resgate. Com isto o autor
quer repetir algo que ele coloca nao raro nos labios dos personagens do ro
mance: "Nao se entusiasme, nao vá ta~o longe. Muitos já tentaram acabar
com a Igreja Romana, mas nao conseguirán-)" (p. 91).

Esta conclusao insinúa ao leitor a necessidade de coesáo dos fiéis ca


tólicos em torno do sucessor de Pedro, o Papa Joao Paulo II, que, bom
conhecedor das táticas do marxismo, tudo vem fazendo para sanar as chagas
de ceños setores da Igreja, os quais, consciente ou inconscientemente, estao
debilitando o testemunho do Evangelho em nossos dias.

5) O leitor de tal romance ná"o pode deixar de ficar impressionado ou


mesmo perplexo pela vivacidade das cenas descritas e pelas acusacoes indire-
tamente lancadas a Igreja. Saiba, porém, que certas proposicoes ou atitudes
atribuidas á Igreja no livro sá"o exageradas; o autor quis caricaturar muita

1 Em carta á redado de PR, Castro Ríos diz conhecer casos de real infiltra-
cSo de comunistas na Igreja.

514
"O GRANDE COMPLÓ" 35

coisa, a fim de falar com mais eloqüéncia. Por conseguirle, náfo se pode jul-
gar a Igreja atual somente pela leitura do romance de Castro Rios. Inegavel-
mente dentro dessa mesma Santa Igreja existem expressoes surpreendente-
mente betas de heroísmo, fé e amor, principalmente em movímentos novos,
que vem surgindo precisamente para responder aos desatinos da crise.

6) A resposta a situacfo lamentável de setores da Igreja atual .há de


ser, da parte de cada um, maior fidelidade a vocacáTo de servir a Deus na
única Igreja que Jesús fundou e confiou a Pedro e seus sucessores, garantin-
do-lhes a ¡ndefectibilidade no desempenho de sua missao. "Urna alma que se
eleva, eleva o mundo inteiro" (Elizabeth Leseur); assim também o cristlo
que procura o Cristo na Igreja apascentada pelos seus legítimos pastores, en-
contra a grapa e os meios de santificacfo que Ihe possibilitam levar urna vida
fecunda em méritos e valores sobrenatural em favor de toda a Comunháo
dos Santos e da humanidade inteira. Mais do que de qualquer outra coisa, a
Igreja precisa de Santos, e é este apelo que Ela dirige aos seus filhos na hora
presente, em que, aberta ou sorrateiramente, as torcas do mal pretendem em
vio solapá-la.

Se o romance de Castro Rios (que fica sendo sempre um romance!)


contribuir para avivar a consciéncia destas verdades em seus leitores, terá fei-
to obra benemérita. Praza a Deus que assim seja!

(continuacSo da pág. 478)

Vé-se quanto é necessário que, ao falar de historia, principalmente de


Historia da Igreja, o cidadao contemporáneo se certifique daqüiio que ten-
ciona afirmar, a fim de nao cometer um erro historiográfico e urna injustica!

Ver:

CEREJEIRA, MANUEL GONQALVES. A Igreja e o Pensamento Con


temporáneo, Coimbra 1928 (2a. ed.)

KURTH, GODEFROID, Femmes (Ame des), em Dictionnaire Apologeti-


que de la Foi Catholique, vol. I, cois. 1897s. París 1925.

515
Historia e Lingüística:

A Alma das Mulheres

Em »(rítese: Há quem afirme que a Igreja menosprezou a mulher du


rante sáculos, apelando, por exemplo, para o Concilio de Mácon (Gália), que
em 585 teria negado alma humana á mulher. Tal suposicSo é falsa; para to
mar consciénda disto, basta examinar as fontes da mesma; verificase entao
que o Concilio como tal nao tratou do assunto; por um historiador da épo
ca é que somos informados de que um Bispo teria perguntado se se pode
aplicar é mulher o termo homo. Naquela fase da historia, homo em latim
aínda era comumente atribuido á especie humana como tal, sem distincSo
de sexo; o homem era dito vir, e a mulher lamina. Homo fhomem) seria um
substantivo genérico, que alguns relutavam a atribuir ao sexo feminino.

Alegando que a Igreja durante sécülos nao valorizou devidamente a


mulher, há historiadores que apelam para o Concilio de Mácon (Gália) em
585; os Bispos reunidos teriam entao discutido se a mulher tem ou nao tem
alma. Segundo o escritor Garcia Redondo, so "por urna diminuta maioria"
é que eles convieram em reconhecer á mulher a dignidade humana. Outros
autores dizem que recusaram formalmente tal proposicao. — Visto que este
tópico passa de boca em boca sem que os próprios narradores saibam exata-
mente de que se trata, vamos abordar o assunto ñas páginas seguintes.

1. O Concilio de Mácon (585)

O único fundamento das alegacóes ácima é um trecho da Historia


Francorum (Historia dos Francos) de S. Gregorio de Tours, que, referindo-
se ao Concilio de Mácon, descreve o seguinte:

"Houve neste Sínodo um bispo que dizia nio poder a mulher chamar
se homem. Noentanto deu-se por satis feito, quando os Bispos Ihe apresenta,
ram as raides, recordando-lhe o que ensina o livro do Antigo Testamento, o
qual diz que no principio, quando Deus criou o homem, os criou vario e fé-
mea e Ihes deu o nome de AdSo, isto i, homem de térra e, dando embora á

516
A ALMADASMULHERES 37

muiher o nome de Eva, os chamou homem a ambos. Alias, Nosso Senhor


Jesús Cristo é também chamado Filho do Homem, porque nasceu da Virgem
Santíssima, que é urna muiher. Quando ele converteu a agua em vinho, disse:
'Muiher, que há entre ti e mim?' Grafas a estes testemunhos e a varios ou-
tros, a questao ficou liquidada e a discussao terminou" (VIII, XX).

Este é o único depoimento pelo qual somos informados a respeito do


incidente. As Atas do Concilio de Mácon, que nos foram conservadas e que
constam de vinte cánones (leis), dizem respeito aos principáis deveres dos
fiéis e do clero, e nao fazem a mínima mencao do episodio em pauta. Donde
se deduz que este nao deve ter ocorrido ñas próprias sessdes do Concilio,
mas em conversas particulares, fora das sessoes oficiáis. Um único Bispo en-
tao levantou a questao: pódese designar o sexo feminino pela palavra latina
homo? Vé-se que nao se tratava de urna questao teológica, mas de um ponto
de vocabulario e lingüistica; na verdade, nao se discutia a existencia de alma
ñas mulheres.

Por conseguinte, a versao que até hoje é veiculada em conversas, lan-


cando sobre a Igreja urna nota sombría, carece de fundamento na realidade.
É amostragem muito significativa de como surgem lendas e estórias com apa-
réncia de historicidade, aptas a impressionar o público pouco informado so
bre o assunto.

Procuremos entender melhor a dificuldade levantada pelo anónimo


Bispo no Concilio de Mácon.

2. O porqué do problema

1. O portugués, o francés, o italiano, o espanhol e outras línguascare-


cem de vocábulo próprio para designar genéricamente todos os individuos
humanos, abstraindo da diferenca sexual. Por isto, tais linguas sao obrigadas
a usar o vocábulo que indica o individuo masculino (homam, homme,
uomo, hombre...) para designar a especie humana. Dizemos, por exemplo:
"o homem é um ser mortal", tencionando designar com tal termo masculino
(homem) também a muiher. Ao contrario, o latim, como também o grego,
o alemao, possuem, além dos termos específicos (vir-femina, em latim; anér-
gynó, em grego; Man-Waib ou Frau em alemao) um termo genérico que de
signa todo e qualquer individuo pertencente á especie humana: homo, án-
thropo», Mensch. A existencia de tal vocábulo é vantagem para as linguas
que o possuem, pois aumenta a clareza da expressáo, evita a confusao, e faci
lita o debate filosófico.

Acontece, porém, que nem sempre em latim se retinha o sentido gené


rico do vocábulo homo; era utilizado por vezes para indicar ou um individuo

517
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS 330/1989

masculino ou mesmo um feminino. O primeiro destes empregos resultou em


que homo ñas línguas neo-latinas designa, primeiramente, o individuo mas
culino. Há exemplos, no latim classico, de homo significando mulher, mas
sao raros; eram tidos como excecoes (cf. Cicero, Pro Cluent. LXX; Ad Fami
liares IV V; Ovidio, Fast. V 620; Juvenal VI, 282; Plínio, Historia Natural
XXVIII, IX, 33). Os gramáticos latinos toleravam tal uso, mas nao permi-
tiam que se atribuisse á palavra homo o género gramatical feminino. Assim
escreve Charisius:

"Heres, parens, homo, etsi in communi sexu intellegantur, tamen


masculino genere semper dicuntur. Nemo enim wcundam heredero dicit aut
bonam parentem aut malam hominem, sed masculine, etsi de femina habea-
tur" (Ver Keil, Grammatici Latini, f. /, p. 102).

Simplificando: os gramáticos toleravam que se afirmasse "O homem é


mortal", tendo em vista o ser masculino e o feminino, mas nao permitiam
que se dissesse: "A homem é mortal".

2. Ora acontece que os autores cristaos latinos da antigüidade faziam


uso da liberdade concedida pelo gramático Charisius. Assim o próprio Gre
gorio de Tours relata urna visita que ele fez a Ingeberga, viúva do rei Cariber-
to, dizendo:

"Accessi. fateor, vidi hominem timentem Deum, qui cum me benigne


excepisset..." ^Historia Francorum IX XXVI). O que significa: "Aproximei-
me, digo, e vi um homem (urna pessoa) que temía a Deus, o qual, após me
ter benignamente recebido,..."

Na linguagem feudal, homem era sinónimo de vassalo, de modo que


se tornou freqüente o uso do vocábulo homem para designar a mulher-vas-
salo. Assim lé-se em Molanus, Historiae Lovanienses IV, 4: "Quod mulieres
sint etiam nomines Sancti Petri. - As mulheres sao também vassalos (ho-
mens) de Sao Pedro".

A Condessa Margarida da Flándria escrevia a Sao Luís de Franca: "Si-


re, si vos requier com vostre cousine et vostre hom".

Eméndese agora qual o objeto da discussao de que fala S. Gregorio de


Tours, no Concilio de Mácon. O Bispo em questao duvidava da legitimidade
de um costume raro, mas autorizado pelos gramáticos, de se usar a palavra
homo para designar um individuo do sexo feminino. Quando Ihe mostraram,
por exemplos tirados da Biblia, que a sua crítica carecia de fundamento, o
Bispo retirou seu questionamento e o caso nao teve ulteriores seqüelas.
(continua na pág. 515)

518
Historia deturpada:

"Matai-os Todos: Deus Saberá


Reconhecer os Seus!"

Em tíntase: Os dizeres "Matai-os todos: Deus saberá reconhecer os


seus" sao atribuidos ao Papa Inocencio III numaatitudo de guerra injusta e
prepotente. Há quem até hoje se retira a tal senten^a deturpando o Papado,
sem, porém, conhecer exatamente o fundamento real daquilo que vai assim
transmitido. No artigo abaixo fica evidenciada a falsidade de tal ordem, que
nunca foi proferida por Inocencio III nem parece sequer ter autenticidade
histórica.

Quem estuda ou ensina historia, está sujeito por vezes a abonar falsos
casos ou dizeres, se ná*o exerce sadio espirito cn'tico sobre as obras que utili
za. Na verdade, a historiografía é densa de episodios falsos ou caricaturados,
pois nao raro é inspirada pelas tendencias filosóficas que de quem os narra.
— Abaixo consideraremos um desses tópicos famosos, que veio á baila mais
urna vez em data relativamente recente, com daninhas conseqüéncias para o
público.

1. Em data recente, o rumor...

Como referem as atas da Constituinte do Brasil, aos 17 de junho de


1987 reuniu-se a Comissao da Soberanía, a fim de estudar "censura, aborto e
greve". Foi entao que o Senador José Paulo Bisol tomou a palavra como re
lator nos seguintes termos:

"Sr. Presidente, Srs. Constituintes, há muitos sáculos na regiao da Gá-


lia existia urna civilizacSo que era a mais avancada da época. Urna das deno-
minacoes dessa civilizacSo era a Lei Languedoc. Como sol acontecer, as pes-
soas, as coletividades, as comunidades ayancadas enfrentam o status quo;
pensam de novo, discutem e avancam. Em conseqüéncia do ayanco inteligen
te de urna cidade do Languedoc, o Papa a declarou em estado de heresia e
contra ela enviou os seus soldados em urna cruzada. A aludida cidade foi to
mada, porque era muito civilizada e pacífica e nío cuidava muito de arma-

519
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS 330/1989

memos. O comandante da cruzada passou a punir os heréticos. Mas. ao iazer


o levantamento individual dos heréticos, ele encontrou urna dificuldade in-
superável. é que ser ou nao herético é do foro íntimo de cada um; nao tem
visibilidade e nio tem diagnóstico. Como distinguir entre um herético e um
nio herético? ¡mediatamente - este é um fato histórico e precisamos apren
der com a historia — o comandante da cruzada enviouao Papa um mensagei-
ro para indagar qual era a solucSo, o que fazer... O Papa respondeu: 'Mate-os
todos; Deus saberá distingui-losV

Estou citando este fato porque impressionado com apaixio dosposi-


cionamentos. A paixSo, seja ela ideológica, religiosa ou moral, faz, por para
logismo, com que aspessoas se sintam, sem perceber, donos da verdade e ca-
pazes de proceder como o Papa: 'Mate-os todos; Deus saberá distfngui-los'.
Isso aconteceu há sáculos".

O senso crítico do estudioso tem o direito de perguntar: em que data


ocorreu o episodio? Como se chamava a cidade civilizada posta em foco?
Qual o nome do Papa que terá proferido a alegada sentenca? Qual o nome
do comandante da cruzada? A noticia do Senador gaucho pode ser de gran
de peso, mas acha-se redigida em termos muito vagos e imprecisos, que tém
até mesmo tragos do imaginoso e romanceado... É preciso, pois, sondar as
fontes da historia.

2. A historia real

O parlamentar brasileiro referiu-se levianamente a urna anedota da his


toriografía, cujo fundamento real e remoto é o seguinte:

Nos sáculos Xl/XItl a Europa foi atormentada por hordas de cataros


ou albigenses: pilhavam cidades e aldeias, destruindo bensalheios pelo fogo
e as armas, impregnados de mentalidade dualista; rejeitavam a materia como
sendo obra má de um Princi'pio mau; em conseqüéncia, condenavam o casa
mento como participado no projeto do mal, permitiam o suicidio, estabele-
ciam categorías sociais antagónicas, etc. Os cataros se estabeleceram no forte
de Béziers em 1209. A Igreja e o poder civil tinham interesse em coibir os
avancos dos cataros, pois nao somente deterioravam a fé, mas tumultuavam
a vida pública. Por conseguinte, os ocupantes do forte de Béziers foram
abordados por vias pacíficas e persuasórias para se renderem. Como resistís-
sem, o Papa Inocencio III (1198-1216) ordenou que se movesse urna Cruza
da contra eles. Ao chegarem diante de Béziers, os chefes dos cruzados en-
contraram a resistir-lhes na cidadela nao somente albigenses, mas também al-
guns católicos. NSo sabendo como distingui-los, diz a anedota, teriam per-
guntado ao legado do Papa, Arnaldo Amaine, abade de Cister, o que haviam

520
"MATAIOS TODOS..!" 41

de fazer. E o monge teria dito: "Caedite eos,' novit enim Oominus qui sunt
eius! — Matai-os todos, pois Deus saberá reconhecer os seus!"

Tomada a cidadela, houve cruéis cenas de assassínio e pilhagem. Quan-


to ao número das vítimas, uns falam em 100 mil, outros em 60 mil, outros
em 20 mil; este último número ainda parece exagerado, porque mais de me-
tade dos mortos encontrava-se na igreja da Madalena, onde nao cabem nem
5 mil pessoas.

Em qualquer hipótese, a carnificina nao fpi ordenada pelo Papa nem


sequer pelos chefes militares da expedicáo, mas por gente que se tinha in-
troduzido no exército dos cruzados. Com efeito; a frase atribuida ao abade
de Cister é considerada apócrifa por Augusto Moünier, historiador do Lan-
guedoc, bem insuspeito pelo seu notorio anticlericalismo: "On doit déclarer
absolument apocryphe ce mot barbare". Efetivamente, há numerosas cró
nicas do século XIII, escritas por testemunhas verídicas do saque de Béziers,
e nenhuma délas registra tal frase. Ele só aparece em obras de Cesário, mon
ge alemáo que escreveu a duzentas leguas do teatro das operacSes, confiado
em informacdes de origem albigense. Os historiadores afirmam até que ela
nem podia ser pronunciada, porque o assalto á cidadela foi efetuado por
urna fracSo do exército dos cruzados, sem o conhecimento dos principáis
chefes.

Como se vé, a historia pode ser cultivada de maneira tendenciosa, de


sorte a desfigurar injustamente personagens e instituicSes. O leitor e o estu
dioso de historia procurarao sempre averiguar a idoneidade e a credibilidade
das obras que consultam a fim de "nao engolir gato por lebre"!

A propósito:

CEREJEIRA. MANUEL GONQALVES. A Igreja e o Penjamento Con-


temporáneo. Coimbra, 2a. ed. 1928.

GAUBERT, HENRI, Les Mots Historiques qui n'ont pas até pronon-
céi.p. 27s.

GUIRAUD, JEAN, Histoire partíale. Hirtoire vraie, Tomo l,c. 23s.

521
Caso misterioso?

O Papa Silvestre II: Mago


e Adivinho?

Em síntese: Em torno do Papa Silvestre II (999-1003} forjaram-se len-


das para explicar o seu extraordinario saber, que na respectiva época parecía
inspirado pelo demonio, com o qual o Pontífice teña feito um pacto. Hoje
em dia a boa crítica histórica reconhece que se trata de estarías destituidas
de credibilidade.

No Mvro "0 Despertar dos Mágicos", pp. 59$, de Louis Pauwels e Jac-
ques Bergier,1 lé-se o seguinte:

"... o prodigioso destino de um dos homens mais misteriosos do Oci-


dente: o Papa Silvestre II, conhecido sob o nome de Gerbert d'Aurillac. Ñas-
cido em Auvergne no ano 920, falecido em 1003, Gerbert fot monge benedi-
tino, professor da Universidade de Reims, arcebispo de Ravena e papa por
mercé do Imperador Otao III. Tería passado algum tempo na Espanha; de-
pot's, urna misteriosa viagem té-lo-ia levado até as indias, onde obtivera diver
sos conhecimantos que causaram assombro ao seu círculo. Também possuia,
em seu palacio, urna cabeca de brome que respondía SIM ou NAO ás per-
guntas que ele Ihe fazia sobre política e a situacao geral da Crístandade. Na
opiniao de Silvestre II (volume CXXXIX da Patrología Latina, de Migne),
esse processo era muito simples e correspondía ao cálculo feito com dois nú
meros. Tratar-se-ia de um automato análogo ás nossas modernas máquinas
binarias. Essa cabeca 'mágica' foi destruida quando da sua morte. e os no-
nhecimentos trazidos por ele cuidadosamente escondidos. A biblioteca do
Vaticano proporcionaría, sem dúvida, algumas surpresas ao investigador au
torizado. 0 número de outubro de 1954 de Computers and Automation. re
vista de cibernética, declara: 'Temos de imaginar um homem de um saber

1 0 Despertar dos Magos. Introdujo ao Realismo Fantástico. Traducao de


Gina de Freítas. Ed. Difusao Européia do Livro, Rúa Bento Freitas 362, Sao
Paulo 1968.

522
PAPA SILVESTRE II 43

extraordinario, de urna destreza e de urna habilidade mecánica fora do co-


mum. Essa cabeca falante teria sido feita spb determinada conjuncio das es-
tretas que se dá exatamente no momento em que todos os planetas estao ini
ciando o seu percurso. Nao se tratava nem de passado, nem de presente, nem
de futuro, pois aparentemente essa invencao ultrapassava de longe a impor
tancia da sua rival: o perverso espelho sobre a parede da rainha, precursor
dos nossos modernos cerebros automáticos. Houve quem dissesse, evidente
mente, que Gerbert só foi capaz de construir semelhante máquina porque
mantinha relacoes com o Diabo e Ihe jurara eterna fidelidade' ".

Que dizer a propósito?

Comecemos por observar que o Papa Silvestre II, já na qualidade de


monge da Abadía beneditina de Sao Gerardo de Aurillac. se distinguiu pela
sua grande erudicao e sua notável habilidade técnica; escreveu obras de Ma
temática: De Numsrorum Divisione (Sobre a Divisao dos Números), Geome
tría Gerberti (A Geometria de Gerberto)...; fabricou relógíos para contar as
horas da noite e outros pequeños aparelhos, que na sua época pareciam ul-
trapassar as capacidades humanas. Por ¡sto Ihe atríbuíram um pacto com o
demonio, como se o Maligno Ihe tivesse ensinado tais nocdese artes. Assim
formaram-se lendas em torno deste Pontífice, que foram registradas no Lí
ber Pontificalis, vol. II, p. 263,' desta fonte é que Pauwels, Bergier e outros
autores tiram as noticias atrás registradas.

A crítica moderna, porém, nao hesita em reconhecer que se trata de


estórias ficticias, inspiradas ora pelo fato do extraordinario saber do Pontí
fice, ora pelo contexto em que viveu (fim do primeiro milenio e inicio do se
gundo; Silvestre II foi Papa de 2/4/999 até 12/05/1003). A própria edicao
crítica do Líber Pontificalis devida ao historiador Louis Duchesne traz o se-
guinte comentario á estória do pacto de Silvestre 11 com o diabo:

"Cette légende paraft s'étre formée ven la fin du Xlsiécle. D'óllinger.


dans ses Papstfá'beln, la sígnale pour la premiare foissouslaplumeduCardi-

1 Le Libar Pontificalis. Texte, introduction et commentaire par l'Abbé L


Duchesne. Tome II. París, E. de Boccard Editeur, 1 Rué de Medid, 1955.
O Líber Pontificalis é um catálogo que cotém dados biográficos sobre
os Papas desde Sá~o Pedro até Martinho V (+1431). Foi-se formando aos
poucos; teve sua primeira edicao no sáculo VI, devida a um clérigo anónimo,
que atribuía a obra ao Papa SSo Dámaso (f284). Esse catálogo foi sendo
prolongado e ampliado até o sáculo XV sem muito senso crítico nem grande
tino historiográfico.

523
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS 330/1989

nal Benno Vita et Gerta Hildebrandi, qui écrívait en 1O99.Sigebert de Gem-


bloux la connatt; Vicent de Beauvais (XXXIV, 98) la raconte toutau long.
C'est peut-étre á luí que Martín l'a empruntée; il y a pourtant quelque diffé-
renee entre les deux ródactions",

Ousaja: "Esta lenda parece ter-se formado pelo fim do sáculo XI.
D'óllinger, em suas Papitfabeln (Fábulas sobre os Papas), a assinala pela pri
me!ra vez sob a pena do Cardeal Benno, Vita et Gesta Hildebrandi (Vida e
Feitos de Hlldebrando), que escrevia em 1099. Sigeberto de Gembloux a
conhecia. Vicente de Beauvais (XXIV 98) a refere tongamente. É talvez dele
que Martín a tomou de empréstimo; todavía há certa diferenta entre as duas
redacSes".

O fato mesmo de haver diferenca entre as versSes da estória mostra


que se trata de noticias a ser consideradas com olhar crítico e questionador.
O próprio Louis Duchesne designa tal estória como "lenda formada no fim
do sáculo XI".

É, pois, falsa a noticia da viagem de Silvestre II á India. Esteve na Es-


panha, sim, onde assimilou um tanto da ciencia dos árabes.

É para desejar que se dissipem os mal-entendidos que pairam sobre a


figura do Papa Silvestre II.

* * *

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2) CURSO DE INICIACÁO TEOLÓGICA (35 MÓDULOS)
3) CURSO DE TEOLOGÍA MORAL (28 MÓDULOS)
4) CURSO DE HISTORIA DA IGREJA (57 MÓDULOS)
5) CURSO DE LITURGIA (38 MÓDULOS)
6) CURSO DE DIÁLOGO ECUMÉNICO (32 MÓDULOS)
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524
Quem leu? Quem soube?

A Declaracáo de Bonn

Em síntese: Segue-se um Manifestó assinado por 4.132 muiheres ale-


mSs em réplica á DeclaracSo de Colonia, subscrita por 163 teólogo que se
insurgiam contra a orientacao do Papa Joao Paulo II no seu governo pasto
ral. Tais signatarias apoiam as normas da Santa Sé; o seu texto foi escamo
teado pelos meios de comunicacao social, que só deram divulgacSo ao pro
testo sensaclonalista e se desinteressaram pela DeclaracSo de apoto e fideli-
dade á Santa Sé (alias, assinada por número multo maior de pessoas/.

Em PR 325/1989, pp. 255-259 foi comentada a Declaracao de Colo


nia, assinada por 163 teólogos de língua alema* em protesto contra o ministe
rio do S. Padre Joao Paulo II. Trazia a data de 06/01/1989. Os Bispos da
Alemanha e de outros países puseram em evidencia o caráter tendencioso
desse documento, como foi relatado no citado artigo de PR. Todavia a im
prensa relegou ao silencio outro Manifestó, devido a um número maior de
pessoas (4.132 muiheres), que exprimiam a sua solidariedade e seu apreco ao
S. Padre. Visto que os meios de comunicacao nao divulgaram esse texto, fi-
zeramse dele copias avulsas distribuidas ao grande público.

Tío importante Declaracao va i abaixo publicada em traducao do origi


nal alemáo para o portugués, com a introducao que o silencio da imprensa
provocou. O fato é significativo, pois revela a parda I ¡dade com que os meios
de comunicacao por vezes divulgam as noticias referentes á Igreja: os aspec
tos negativos e sensacionalistaS interessam-lhes mais do que a verdadeira face
da realidade, com o que ela possa ter de belo e grandioso.

"SALTA AOS OLHOS..."

"A declaracao chamada de Colonia, com cerca de 163 assinaturas,


dentre as quais somente quatro de muiheres, encontrou nos meios de comu
nicacao social urna difusao rápida, ampia e gratuita. Seus promotores nao
devem ter tido despesa extra, afora a do porte do córrelo.

525
46 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS 330/1989

Totalmente diversa é a situacao da declaracao chamada de Bonn. Foi


publicada como materia paga, ocupando uma página inteira no jornal Frank-
furter Allgemeine Zeitung de 23 de marco de 1989. As 4.132 mulheres cató
licas signatarias da declaracao, em linha de regra, nao terSo os altos salarios
de professores universitarios. Embora se trate neste caso exclusivamente de
mulheres, leigas, sua voz foi vítima do "compld do silencio" (Pío XI). Maní-
testamente, segundo os meios de comunicacao, tudo o que respira um "com
plexo anti-romano", tem mais efeito e aceitacao na opiniao pública. Em to
do caso, esse tipo de informacio nao é procedimento objetivo e equilibrado.

Segue-se o texto que tevo sua divulgacao silenciada:

Bonn, 20 de marco de 1989

Santo Padre,

Diversos acontecimentos recentes levamnos a nos, mulheres, filhas da


Igreja — maes, donas-de-casa, mulheres engajadas profissional, social e politi
camente — a formular a seguinte declaracao:

— Para nos, os filhos sao sinais de esperanpa e de futuro.

— No fato de ter f ilhos, nao vemos limitacáb á nossa auto-realizacáo; e


sabemos que nenhuma muiher que assassine seu filho nascituro se torna mais
livre. Somos suficientemente liberáis para reconhecer a toda crianpa o seu d¡-
reito humano á vida. Como mulheres modernas e críticas, somos suficiente
mente esclarecidas para saber avaliar a clarividencia e o alcance quetinha e
tem a encíclica Humanae Vitae.

-■ Nao consideramos a pílula anticoncepcional um meio de emancipa-


cao; antes, amiúde ela é um instrumento de determinacao imposta por ou-
tros. Nao vemos na libertinagem sexual qualquer sinal libertador.

— O fato de nao podermos estar ao altar como sacerdotisas nao di


minuí em nada o conceito e a percepcao que temos de nosso valor; e tam-
pouco estamos numa posicáo de concurrencia com os homens na Igreja.

— Finalmente, aínda que o espirito deste tempo seja contrario a isto,


'sabemos que a Igreja nao é uma associacao democrática, mas patria espiri
tual de muitos, sob uma única doutrina. Como a Palavra de Deus, ela é sub-
traída a todas as tentativas de acomodá-la ás tendencias e aos votos de maio-
rias. Nesta Igreja, por Cristo edificada sobre Pedro, o rochedo, nao se trata,
por exemplo, na nomeacao dos Bispos, de uma questáo de forca, mas sim de
poder divino.

526
A DECLARAQAO DE BONN 47

Enguanto, para a nossa Igreja, Deus á mais importante do que as petu


lancias do espirito desse tempo, nela nos nos sentimos em nossa casa!"

O fiel católico sentese feliz por tomar conhecimento desta corajosa


Declaracao de pessoas que, com sacrificio financeiro e risco de escarnio, rea-
firmam sua fé em Cristo e na Igreja. 0 Apostólo Sao Paulo, em Fl 4, 2s, fala
de Evódia e Síntique, duas mulheres de Filipos que "o ajudaram na luta pelo
Evangelho e cujos nomes estao no Livro da Vida". É de crer que também es-
sas ardorosas mulheres de Bonn, seguindo a trilha de tantas precursoras que
ajudaram os Apostólos através dos séculos, tenham seus nomes inscritos no
Livro da Vida!

"NAO TENHAIS ME DO DE SER SANTOS!"

"POR QUE ESTÁIS AQUÍ. JOVENS DOS ANOS DE 90 E DO SÉ-


CULO XX? NAO SENTÍS EM VOS O ESPIRITO OESTE MUNDO NA ME
DIDA EM QUE ESTA ÉPOCA, RICA EM MEIOS DE USAR E ABUSAR,
LUTA CONTRA O ESPl'RITO DO EVANGELHO?
NAO VIESTES AQUÍ PARA VOS CONVENCER DEFINITIVA
MENTE DE QUE SER GRANDES QUER DIZER SERVIR? MAS ESTÁIS
DISPOSTOS A BEBER ESSE CÁLICE? ESTÁIS DISPOSTOS A VOS DEI-
XAR PENETRAR PELO CORPO E O SANGUE DE CRISTO, A FIM DE
MORRER AO VELHO HOMEM, QUE ESTÁ EM NOS E RESSUSCITAR
COM ELE? SENTÍS EM VOS A FORCA DO SENHOR PARA ASSUMIR-
DES SOBRE VOS OS VOSSOS SACRIFICIOS, OS SOFRIMENTOS E AS
CRUZES QUE PESAM SOBRE OS JOVENS DESORIENTADOS, QUE
PROCURAM O SENTIDO DA VIDA, QUE SAO MANIPULADOS PELO
PODER, PELO DESEMPREGO, QUE SOFREM FOME, QUE ESTÁO
MERGULHADOS NA DROGA E NA VIOLENCIA, ESCRAVOS DO
EROTISMO, QUE SE PROPAGA POR TODA A PARTE? SABÉIS QUE O
JUGO DE CRISTO É SUAVE? E QUE É SOMENTE POR CRISTO QUE
RECEBEREMOS O CÉNTUPLO AQUÍ E AGORA E, A SEGUIR. A VIDA
ETERNA?...
EU VOS CONVIDO, CAROS AMIGOS, A DESCOBRIR A VOSSA
VERDADEIRA VOCAQÁO PARA COLABORAR NA EXPANSÁO DESSE
REINO DE VERDADE E DE VIDA, DE SANTIDADE E DE GRACA. DE
JUSTICA, DE AMOR E DE PAZ. SE QUERÉIS REALMENTE SERVIR,
DEIXAI QUE CRISTO REINE EM VOSSOS CORACOES. QUE ELE VOS
AJUDE A FAZER OPQÓES E A CRESCER NA POSSE DE VOS MES-
MOS..., QUE ELE VOS LEVE PELO CAMINHO QUE CONDUZ A CON-
DICÁO DO HOMEM PERFEITO! NAO TENHAIS MEDO DE SER SAN
TOS! TAL É A LIBERDADE PELA QUAL CRISTO NOS LIBERTOU (cf.
GI5.1)".-
JOÁO PAULO II, AOS JOVENS REUNIDOS EM COMPOSTELA
AOS 20/08/89.

527
Quando cometa a Vida
Humana? A Resposta da
Ciencia e do Direito

A conviccao, adquirida pelos cientistas e pesquisadores, de que a vida


humana cometa com a fecundacao do óvulo pelo espermatozoide, vai-se fir
mando cada vez mais e já está sendo premissa para sen tengas judiciárias. Foi
o que ocorreu recentemente nos Estados Unidos da América, conforme no
ticia da imprensa:

"JUIZ DÁ A DIVORCIADA O DIREITO SOBRE EMBRIOES

Um juiz norte-americano conceden ontem a urna mulher divorciada a


custodia de sete óvulos fecundados por seu ex-marido. Mary Sue Davis, 29,
poderá implantar os óvulos em seu útero e ter um bebé de proveta.

O juiz Dale Young, da cidade de Maryville (Estado do Tennessee, su


deste do pafs) aceitou os argumentos de Mary Sue de que os óvulos fecun
dados representam sua última oportunidade de engravidar. Ele rejeitou os ar
gumentos de Júnior Davis, ex-marido de Mary, de Que nSo quer ser pal

Embride» humanos nao sao proprisdada de ninguóm. A vida cornaca


na conc*pca*o. O casamento dos Davis produziu sarss humanos na provata,
que poderáb se converter agora em filhoi diz a sentenca.

Os sete óvulos, fecundados em dezembro, estio num laboratorio do


Centro de Fertilidade do Tennessee, em Knoxville. Pouco depois. Júnior Da
vis entrou com o pedido de divorcio. Ele disse que nao quer um filho criado
sem os dols país, e que os embrides de laboratorio sSo simples tecido hu
mano".

(A Folha da Sao Paulo, 22/09/89, A-4)

"A vida cornaca na concapcao", declarou o juiz, apoiando-se ñas sen-


tencas mais abalizadas dos cientistas (cf. PR 305/1987, pp. 457-461).
O fato causou grande impacto no mundo inteiro, pois contribuí para recha-
car o argumento abortista segundo o qual o ovo fecundado pode ser destruí-
do, pois nSo seria gente.
Esteváb Bettancourt O.S.B.

528
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y soloquios. BAC. 1980 180.00
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por los prof. de Salamanca. BAC. 7a. ed. revista. 1986 . 380,00
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ción de Dios. Auery Ratzinger. Herder. 1979 319,00
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EL PENSAMIENTO RELIGIOSO EN EL SIGLO XX. J. Macquar-
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1981 ' 278.00
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Herder. 1985 380.00
MANUAL DE TEOLOGÍA DOGMÁTICA. Ludwíg Ott. Herder.
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te a Escritura? — III Somente a Fé? Nao as obras? - IV A Santíssima Trin-
dade: Fórmula paga? — V O Primado de Pedro — VI Eucaristía: Sacrificio e
Sacramento — Vil A ConfissSo dos pecados — VIII O Purgatorio - IX As
Indulgencias — X María, Virgem e Ma"e - XI Jesús teve irmfos? - XII O
Culto aos Santos - XIII E as imagens sagradas? - XIV Alterado o Decálo
go? - XV Sábado ou Domingo? - XVI 666 (Ap 13,18) - XVII Vocé sabe
quando? — XVIII Seitas e espirito sectario - Apéndice geral: A era Constan-
tiniana - Epilogo — Bibliografia.

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