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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESErsTTAQÁO
DA EDipÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanca e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
" visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
W_ vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortalega
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Verítatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
nsammtam
00

5 SUMARIO
i- ■'■.
< Para descrever o Amor de Deus

|2 A Igreja ante o racismo


H As esportillas de Missa

uj A cremacáo de cadáveres?

O "O fascinante poder da mente" por Germano de Nováis

oo Feminino e Feminilidade
<
5 A cruz de Caravaca?

m
o
ce
o.

ANOXXXI MARQO 1990 334


KtHUUNIt t HfcSPONDEREMOS MARCO-1990
Publicacao mensal
N9 334

DiretorResponsável: SUMARIO
Estevao Bettencourt OSB
Autor e Redator de toda a materia Para descrever o amor de Deus 97
- publicada neste periódico
Palavra oficial:
Diretor-Administrador: A Igreja ante o racismo 98
0. Hildebrando P. Martins OSB Mal-entendidos:
As Esportillas de Missa 110
Administracao e distribuido:
Edicoes Lumen Christi Que sentido tem
Oom Gerardo. 40 - 5? andar S/50I A Cremacao de Cadáveres? 120
Tel.: (021) 291-7122
Otimismo ao máximo:
Caixa Postal 2666
"O Fascinante poder da mente"
20001 - Rio de Janeiro RJ
por Germano de Nováis 133
ImprossJo o Encademacáo
A vía áurea:
Feminismo e Feminilidade 138

Queé:
"MARQUES-SARANA" A Cruz de Caravaca? 141
GfVÍFtCOS E EDITORES S.A.
Tels.: (0!1¡273-$49B -273-9447

NO PRÓXIMO NÚMERO:

335 -ABRIL -1990

Origem da vida e Acaso. - A Meditacao Crista. - Ainda os Manuscritos do


Mar Morto. - As Financas da Santa Sé. - A Pílula RU 486. - "Deus:
Sonho ou Pesadelo?". - Comunidades Eclesiais de Base. - Noticias da
Nicaragua.

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA

ASSINATURA ANUAL (12 números): NCz$ 250,00 - Número avulso: NCz$ 25,00

. Pagamento lá escolha) .
1. VALE POSTAL a agencia central dos Correios do Rio de Janeiro em nome de Edicoes
"Lumen Christi" Caixa Postal 2666 20001 Rio de Janeiro - RJ.

2. CHEQUE NOMINAL CRUZADO, a favor de Edicoes "Lumen Christi" (endereco ácima).

3. ORDEM DE PAGAMENTO, no Banco do Brasil, corita N? 31.304 1 em nome do Mos-


teiro de Sao Bento, pagável na agencia Praca Mauá/RJ N° 0435-9. (Nao enviar através
de DOC ou depósito instantáneo - A identificacao é difícil).
3IBLI0
CENTi

Para Descrever o Amor d


9
A oracáo crista tem raízes na oracao judaica, como o Novo T~stameiT" ' ~
M<-
to tem seu preámbulo no Antigo Testamento. Ora no judaismo encontram-
se profundas expressoes de amor a Deus, ... Deus Criador, que se manifesta
na historia do seu povo. Entre outros, seja aqui registrado um hiño cantado
por Israel antes da leitura da Tora e atribuido a um autor iudeu do sáculo
XI d.C:
"Se nos enchéssemos o océano de tinta.
Se transformássemos em penas todos os filamentos das
ervas.

Se o mundo todo fosse de pergaminho


E todos os homens fossem escritores por profissao
PARA DESCREVER O AMOR DE DEUS
Na*o bastaría a tinta do océano
Nem o pergaminho seria suficiente
Mesmo que fosse estendido de horizonte á horizonte!"
A pujanca das ¡magens utilizadas por esta fórmula faz eco a textos bí
blicos do Antigo Testamento: "Eu te amei com amor eterno; por isto con-
servei para ti o amor" (Jr 31,3)... "Javé se afeicoou a vos e vos escolheu nao
por serdes o mais numeroso de todos os povos e, sim, por amor a vos e para
manter a promessa que Ele jurou aos vossos país" (Dt 7,7s). No Novo Testa
mento, o Apostólo Sao Paulo dirá: "Ele me amou e se entregou por mim"
(Gl .2, 20) ou ainda: "Deus, que é rico em misericordia, pelo grande amor
com que nos amou, quando estávamos mortos em nossos delitos, nos vivifi-
cou juntamente com Cristo... a fim de mostrar nos tempos vindouros a ex
traordinaria riqueza da sua grapa" (Ef 2, 4-7).
Pode-se dizer que a Boa-Nova da Palavra de Deus consiste precisamen
te em anunciar ao homem a incrfvel mensagem de que Deus o ama primeiro
e gratuitamente, e espera urna resposta condigna.

No tempo da Quaresma, que caracteriza o mes de marco, o irreversí-


val Amor de Deus se apresenta muito enfáticamente aos cristüos, exortando-
os a atitudes mais coerentes, ou seja, á eliminacao do velho fermento,... fer
mento da malicia e da perversidade, para que sejam nova massa {cf. 1Cor
5, 7$). Cristo é nossa Páscoa, o Cordeiro sacrificado para tirar o pecado do
mundo. Possamos acompanhar a sua ¡molacao no fim da Quaresma como
prescreve o ritual judaico: purificados do velho fermento, que, no caso, é o
pecado, a heranca do primeiro Adao ..., a fim de podermos participar da vi-
tória e da ressurreicao do segundo Adao.

É esta profunda vivencia em comunhao com Cristo que pode levar no


vo alentó ao mundo decaído! E.B.

97
"PERCUNTE E RESPONDEREMOS
II

Ano XXXI - N? 334 - Marpo de 1990

Pala vra oficial:

A Igreja Ante o Racismo

Em síntese: Aos 3/11/1988 a ComissSó de Justica e Paz da Santa Sé


publicou um documento sobre a Igreja e o Racismo. Trata-se de um texto
oficial da Igreja, que condena nSo somente o racismo enquanto é menospre-
zo de urna raca em favor de outra, mas também toda forma de discriminacao
que fira a dignidade da pessoa e a unidade da familia humana. Mesmo den
tro de um mesmo poyo há repressdes devidas a características culturáis, lin
güisticas, religiosas... Os trabalhadores estrangeiros, os imigrados e os refu
giados sSo freqüentemente vftímas de marginalizacao pelo simples fato de
nSo pertencerem á populacao nacional de um país. Estes e outros males se-
melhantes tém sido profligados pela Organizacio das Nacoes Unidads, basea-
da em dados científicos, e vém sendo impugnados pela Igreja; esta, inspirada
pelos artígos da fé, ensina que todo homem foi criado á imagem e semelhan-
ca de Deus, foi remido pelo sangue de Cristo e ó chamado é mesma vida eter
na no seto da única familia humana espalhada pelos continentes da Térra.

Os meios de combate ao racismo hao de ser, sem dúvida, os instrumen


tos jurídicos e as leis de cada povo. Estes, porém. serio letra mona e inefi
caz, se nSo forem acotnpanhados de auténtica conversad doscoracSes, decor-
rente da persuasSo de que "Todo homem é meu trmSo" (Día Mundial da
Paz, 1971).

A Pontificia Comissao de Justica e Paz emitiu aos 3 de novembro de


1988 urna Deciaracao sobre a Igreja e o Racismo, assinada pelo Cardeal Ro-
ger Etchegaray, Presidente, e por Mons. Jorge Mejia, Vice-presidente da mes-

98
A IGREJA ANTE O RACISMO

ma Comissáo.1 Aborda tema de grande atualidade, pelo qual a Igreja se sen-


te vivamente interpelada. O documento, abrangente e lúcido, compreende,
além de Introducto e Conclusao. quatro partes: 1) Os comportamentos ra
cistas ao longo da historia; 2) As formas do racismo hoje; 3) A dignidade de
toda rapa e a unidade do género humano (visáo crista); 4} Contribuicfo dos
cristáos para a promocao, juntamente com os outros, da fraternidade e da
solidariedade entre as racas.

Como se vé, o documento comeca com um percurso histórico; depois


detem-se no presente e no racismo contemporáneo; formula, a seguir, a res-
posta teórica do cristáo ao problema; e, por isto, abre perspectivas de acfo
concreta do cristao frente ao racismo.

A leitura de tais páginas abre os olhos para os aspectos diversos do


problema, podendo, por isto, ser altamente benéfica a todo homem que
hoje em dia queira refletir sobre uma realidade candente e questionadora.
Eis por que proporemos, a seguir, uma símese do documento, acompanhan-
do passo a passo o seu desdobramento.

1. Os comportamentos racistas ao longo da historia (2-7)

Por racismo entende-se "a consciéncia de pretensa superioridade bioló


gica de determinada raca em relacao as outras". Isto costuma gerar perseguí-
cao, manipulacao e exploracao do homem pelo homem. As rafees de tais
comportamentos encontram-se na realidade do pecado, de que falam as nar-
racdes bíblicas de Caím e Abel e da Torre de Babel.

Na antiguidade greco-romana parece nao ter existido o mito da raca.


Houve, sim, a prática da escravidao; esta afetava individuos feitos prisionei-
ros em guerra, sem que houvesse povos desprezados por causa de sua raca.

O povo hebreu tinha consciéncia do amor de Deus por ele, manifesta


do sob a forma de alianca gratuita. Julgava-se, pois, diferente dos outros po
vos, que praticavam a idolatría. O motivo dessa distincao era de índole reli
giosa, nao biológica. Nos escritos dos Profetas transparece mesmo um certo
universalismo ou a consciéncia do que todos os homens sao chamados á mes-
ma fe.

O Cristianismo veio afirmar plenamente essa universalidade, pois anun


cia a salvacao a todas as nacdes.

1 Precisamente a data de assinatura do Documento era a da festa litúrgica


de S. Martinho de Pones ou de Uma (Perú), filho de um espanhol e de uma
escrava negra.

99
4 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 334/1990

Em conseqüéncia, a Idade Media nao conheceu o racismo no sentido


estrito da palavra; os povos eram distribuidos em cristaos, judeus e infléis.
segundo criterios religiosos; verdade é que essa distincáb fez que os judeus
sofressem muitas vezes graves humilhacoes, acusacoes e desterros."

A descoberta do Novo Mundo, no século XVI, provocou mudancas de


atitude. Se os grandes navegantes dos séculos XV e XVI estavam isentos de
preconceitos racistas, os soldados e os comerciantes nao foram igualmente
respeitosos; para tirar proveito do trabalho dos indígenas e, em seguida, dos
negros, reduziram-nos á escravidao. Os Papas nao tardaram em reagir. Paulo
III, na Bula Sublimis Deus, de 2/06/1537, denunciou aqueles que sustenta-
vam que "os habitantes das Indias ocidentais e dos continentes austrais...
deviam ser tratados como animáis privados de razao e utilizados exclusiva
mente para o nosso proveito e ao nosso servico".

Acrescentava solenemente o Papa:

"No desejo de remediar o mal que foi causado. Nos decidimos e decía-
ramos que os chamados indígenas, bem como todas as outras populacoes
com que no futuro a cristandade entrará em relacSo, nao deverio ser priva
dos da sua liberdade e dos seus bens - nao obstante as alegacSes contrarias
—, aínda que eles nao sejam cristaos, e que, ao contrarío, deverio ser det'xa-
dos em pleno gozo da sua liberdade e dos seus bens".

O Papa Urbano Vil I teve que excomungar aqueles que detinham escra-
vos indígenas.

Dentre os membros do clero, sobressaiu-se a figura de Bartolomeu de


Las Casas (t1566), dominicano e bispo, cujas atitudes foram seguidas por ou-
tros missionários: induziu os Governos de Espanha e Portugal a rejeitar a
teoría da inferioridade humana dos indígenas e a impor urna legislacao pro-
tetora, da qual se beneficiaran! também, de ceno modo, um século mais tar
de, os escravos negros trazidos da África. A obra de Las Casas é urna das pri-
meiras contribuicoes para a doutrina dos direitos universais do homem, fun
dados sobre a dignidade da pessoa independen te mente da sua pertenca étni
ca e religiosa. Na sua esteira, os grandes teólogos e juristas espanhóis Francis
co de Vitoria e Francisco Suarez, iniciadores do direito dos povos, desenvol
verá m a doutrina da igualdade fundamental de todos os homens.

Acontece, porém, que a Lei do Padroado concedía aos monarcas de


Espanha e Portugal grande ingerencia nos assuntosda Igreja, impedindo-a de
tomar as decisoes pastarais que se impunham.

Sempre preocupada em melhor respeitar as populacoes indígenas, a

100
A IGREJA ANTE O RACISMO

Sé de Roma nao deixou de insistir para que se fizesse a distincao entre a


obra de evangelizarlo e o imperialismo colonial, com o qual ela corría o ris
co de ser confundida. Neste sentido a Congregacao para a Propaga pao da Fé
enviou urna Instrucao aos missionários que partiam para a China em 1659,"
dizendo-lhes:

"Nio ponhais zelo nem vos apliquéis a convencer estes povos a mudar
os seus ritos, os seus costumes e as suas tradicoes. a nao ser que se/am evi
dentemente contrarios á religiSo e á Moral. Nada é mais absurdo do que
transferir para junto dos chineses a Franca, a Espanha, a Italia ou qualquer
outro país da Europa. Nio deveis levar-lhes a cultura dos nossos países, mas
a fé... Nao procuréis substituir os usos destes povos com os da Europa, e ten-
de a malor solicitude pbssível em vos adaptar a eles".

No século XVIII foi elaborada urna ideología racista, contraria aos en-
sinamentos da Igreja. Procurou justificar os seus preconceitos a partir da cor
da pele e dos caracteres somáticos do individuo; estabelecia assim urna di fe-
renca substancial, de caráter biológico hereditario, para concluir que os po
yos submetidos á escravidáo pertenciam a racas inferiores. É no final do sé-
culo XVIII que a palavra raca aparece pela primeira vez para classificar os se
res humanos do ponto de vista biológico. No século XIX alguns autores in
terpretara m a historia da civilizacao como urna competí pao entre racas for
tes e racas fracas. A decadencia das grandes civílizacoes explicar-se-ía por
cruzamento de racas que empobrecería a pureza do sangue.

Estas teses geraram a ideología do nacional-socialismo na Alemanha,


que tinha em vista eliminar as racas "inferiores" (judeus, cíganos) assim co
mo as pessoas física ou mentalmente deficientes.

A Igreja nao deixou de levantar a sua voz: aos 25/3/1928 um decreto


do S. Oficio condenava o anti-semitismo. Em 1937 o Papa Pío XI publicou
contra o nazismo a encfclica Mit brennender Sorge (Com candente preocu-
pacío), na qual afirmava:

"Todo aquele que toma a raca ou o povo ou o Estado..., ou qualquer


outro valor fundamental da comunidade humana... para os retirar da sua
escala de valores... e os divinizar com um culto idolátrico, perverte e falsifi
ca a ordem das coisas por Deus criada e estabelecida" (Acta Apostolicae Se-
disXX/X. 149).

Aos 13/4/1938 o mesmo Papa ¡mpunha a todos os professores de Teo


logía nos Seminarios e ñas Faculdades Católicas que ref utassem as pseudover-
dades científicas por meio das quais o nazismo justificava a sua ideología ra
cista. Notemos ainda as seguíntes palavras de Pío XI proferidas a 28/7/1938:

101
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 334/1990

"Católico quer dizer universal, nao racista, nao nacionalista no sentido


separatista destes dois atributos... Nada queremos separar na familia huma
na... A expressao género humano revela precisamente a raga humana. Deve-
se dizer que os homens sao, antes de tudo, um grande e único género, urna
grande e única familia de seres vivos... Existe urna só raca humana universal
católica e, com ela e nela variacoes diversas... Eis a resposta da Igreja" (La
Documentation Catholique 1938, 1058-1061).

Em 1942 o Papa Pió XII, na sua mensagem de Natal, afirmou que,


entre os postulados erróneos do positivismo jurídico, "se deve incluir urna
teoria que reivindica para urna determinada nació, raca ou classe o instituto
jurídico, imperativo supremo e norma sem apelo... O anseio de urna ordem
social nova e melhor, a humanidade o deve a centenas de milhares de pessoas
que, sem culpa alguma, mas simplesmente porque pertencem a tal raca ou
nacionalidade, estáo destinadas á morte ou a um definhamento progressivo"
(AAS XXXV, 1943, 14.23).

Ainda em nossos dias o fenómeno da escravidao nao está totalmente


superado. Além do qué, a Asia e a África sofrem, em algumas de suas regioes,
urna certa divisao de castas bem como diferencas sociais dificéis de ser supe
radas. Vejamos agora

2. As formas de racismo hoje (8-16)

1. A forma mais evidente do racismo hoje é o racismo institucionaliza


do pelas leis de um país, como ocorre no apartheid da África do Sul: todo
sul-africano é definido pela raca que Ihe é obrigatoriamente atribuida; em
conseqüéncia, urna minoría branca domina as populacces negra, mestica e
indiana do país. Os cristáos tém denunciado esse regí me. As comunidades ra-
ciais oprimidas tendem a reagir com atitudes racistas, tío deploráveis quanto
aquelas de que sao vítimas.

2. Outra forma de racismo atual é a que se verifica em alguns países


contra as populacoes aborígenes, testemunhas da populacao originaria des-
sas regioes. Sao sobreviventes de genocidios praticados pelos invasores ou
tolerados pelos poderes coloniais. A propósito dessas minorías devem-se evi
tar duas coisas: 1) que sejam confinadas em reservas, como se tivessem de vi-
ver ali. para sempre concentradas no seu passado; 2) que sejam vítimas de as-
si milacao toreada, sem se respeitar o seu direito a manter a identidade pro-
pria. A ¡ntegracao desses povos na sociedade que os cerca, deve efetuar-se
por livre escolha.

3. Há também países que limitam os direitos de minorias religiosas,


que sao muí tas vezes de origem étnica diferente daquela da maioria dos cida-

102
A IGREJA ANTE O RACISMO

daos. Em tais países a conversao á fé crista implica nao raro a perda da cida-
dania; os cidadaos 'discriminados sao tidos como de segunda categoría, preju-
dicados no setor do trabalho, da habitacao, da educacao superior...

4. Seja mencionado aínda o etnocentrismo, atitude segundo a qual um


povo tende a defender a sua identidade denegrindo a dos outros, a ponto de
Ihe recusar o pleno reconhecimentó de sua humanidade; pode conduzir á
aniquilacío cultural, que os sociólogos chamam etnocídio,.. etnocídio que
só tolera a presenca do outro na medida em que se deixa assimilar á cultura
dominante. Nos países da África e da Asia que se tornaram independentes,
as fronteiras políticas nem sempre coincidem com os limites de urna nacao,
de modo que, no interior de fronteiras artificiáis, a convivencia entre as po-
pulacoes de tradipoes, línguas, culturas e religióes diferentes encentra o obs
táculo de hostilidades recíprocas de tipo racista.

5. Há outrossim opressao injusta quando populacóes inteiras sao man-


tidas num estado de desarraigamento dos territorios, onde se tinham legíti
mamente instalado e vivem como prófugos, muitas vezes sem teto, ou quan
do, permanecendo na própria patria, se encontram em condipoes humilhan-
tes. Tal é o caso tanto do povo palestino como do povo judeu.

6. Nao é exagerado dizer que no interior de um mesmo país existe um


racismo social, quando, por exemplo, ¡mensas massas de camponeses pobres
sao expulsas de suas térras e mantidas em condicoes de Ínferioridade social e
económica por propietarios poderosos, que se beneficiam da inercia ou da
cumplicidade ativa das autoridades. Trata-se de novas formas de escravidáo,
freqüentes no Terceiro Mundo.

7. Nos países de forte imigracao existe o fenómeno do racismo espon


táneo, que se observa entre os seus habitantes em relacao aos estrangeiros,
principalmente quando estes se distinguem pela sua origem étnica ou pela
sua religiao. A repulsa, no caso, se deve a um nacionalismo exagerado e a um
temor irracional, provocado pela presenca do outro ou pelo confronto com
as notas diferenciáis dos ¡migrantes. Os vexames a que sá*o submetidos os
refugiados e migrados, tim como efeito levá-los a reagrupar-se em guetos -
o que retarda a integracao deles na sociedade que os recebeu.

8. Merece particular referencia o anti-semitismo, que se desenvolveu


trágicamente durante a segunda guerra mundial. Em nossos dias aínda exis-
tem organizacoes que apoiam o mito antí-semíta; multiplicaram-se também
acóes terroristas contra pessoas ou símbolos do judaismo.

9. Quem considera as modernas técnicas de procriacao artificial e ma


ní pulapao genética, pode temer novas formas de racismo. É preciso que as

103
8 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 334/1990

leis fixem, quanto antes, limites ¡ntransponi'veis a fim de que essas técnicas
nao caiam ñas míos de poderes abusivos, que procurariam produzir seres hu
manos selecionados segundo criterios de raca ou de qualquer outro tipo.
■ Restaurar-se-ia entao o mito do racismo eugenético. Onde desaparece o res-
peito á vida segundo as disposicóes do Criador, é de recear que desapareja
todo freio moral ao poder dos homens.

Para repelir com firmeza as manobras inspiradas pelo racismo, é neces-


sário haja profundas conviccoes sobre a dignidade de toda pessoa e sobre a
unidade da familia humana. A Moral apregoada pela Igreja deriva-se de tais
conviccoes e deve ser espelhada em leis que garantam o bem-estar de todos
os povos.

3. Dignidade e unidade do género humano (17-23)

1. O pensamento da Igreja está cristalizado em varios documentos, dos


quais seja citado como especialmente significativo o seguinte trecho da
Constituicáo Gaudium et Spes do Concilio do Vaticano II:

"Dotados de alma racional e criados é imagem de Deus, todos os ho


mens tém a mesma origem; redimidos por Cristo, todos gozam da mesma vo-
cacSo e destinacSo divina: deve-se portanto reconhecer cada vez mais a igual-
dade fundamental de todos...

Na verdade, nem todos os homens se equiparam na capacidade física,


que é variada, e ñas torcas intelectual e moráis, que sao diversas. Contudo
qualquer forma de discriminacao nos direitos fundamentáis da pessoa, seja
ela social, seja cultural ou esteja fundada no sexo, na raca, na cor, na condi-
ció social, na língua, na religíao, deve ser superada e eliminada, porque con
traria ao plano de Deus" (n.29).

Fazendo eco a estas palavras, o Papa Paulo VI assim se expressava pe-


rante o Corpo Diplomático:

"Para quem eré em Deus, todos os seres humanos, mesmo os menos fa


vorecidos, sSo filhos do Pai universal, que os criou á sua imagem e guia os
seus destinos com amor providente. Paternidade de Deus significa fraternida-
de entre os homens; é este um principio-base do universalismo cristao, um
ponto em comum também com as outras grandes rellgioes e um axioma da
mais alta sabedoria humana de todos os tempos, a que tem o culto da digni
dade do homem" (14/1/1978).

Tais afirmacoes encontram seu fundamento tanto ñas ciencias huma


nas quanto na Revelacao Divina, como passamos a ver.

104
A IGREJA ANTE O RACISMO

2. Com efeito. As ciencias humanas contribuem para fazer desaparecer


muitos preconceitos que alimentam o racismo. Assim, por exemplo, se lé nu-
ma declaracáo de cientistas da UNESCO, datada de 8/06/1951:

"Os cientistas reconhecem geraímente que todos os homens atuais per-


tencem a urna mesma especie, o homo sapiens, e se derívam de urna estirpe"
(Le racisme devant la sdenca. UNESCO, París 1973, n. 1. p, 369).

3. A Revelacao Divina corrobora e aprofunda estes dizeres.

Sim; a fé ensina que Deus criou o ser humano á sua imagem e seme-
Ihanca. Este vínculo do homem com o seu Criador é a base de inalienáveis
direitos (e deveres) de todo ser humano. "Nem o individuo, nem a sociedade
nem o Estado nem instituicáo alguma podem reduzir o homem — ou um gru
po de homens — á condicao de objeto" (n.19).

Com outras palavras: deve-se dizer que todos os homens, criados por
Deus, tém a mesma origem e sao chamados a formar urna só familia. A esco-
Iha do povo judeu nao contradiz a este universalismo; Deus quis, mediante
Israel, travar alianca com todo o género humano: "Em ti se rao abencoadas
todas as nacoes da térra", declarou o Senhor a Abraao (Gn 12,3).

O Novo Testamento reforca esta revelacao da dignidade humana. Na


verdade, o misterio da Encamacao evidencia como Deus quis honrar a natu-
reza humana; mediante Jesús Cristo, todos os homens sao chamados a entrar
em Alianca definitiva com Deus, ¡ndependentemente de preconceitos raciais.
Tal Alianca é selada pelo sacrificio de Cristo na Cruz; este aboliu o fosso
existente entre judeus e pagaos e propiciou a re-criacao do homem.
"Homem Novo é o nome coletivo da humanidade resgatada por Cristo, na
diversidade de seus componentes, reconciliada com Deus num só Corpo, que
é a Igreja" (n.21). Em conseqüéncia, "já nao há grego nem judeu, nem cir
cunciso nem incircunciso, nem bárbaro, nem cita, nem escravo nem livre,
mas Cristo, que é tudo em todos" (Cl 3,11; Gl 3, 28).

Cristo quer que tais conviccoes se traduzam em comportamentos con


cretos. Ele mesmo mostrou-se acolhedor a todas as categorías de pessoas
com quem entrou em contato (a Samaritana e os Samaritanos, a Sirofenícia,
os pagaos, os publícanos, os doentes...). E solenemente advertiu: seremos jul-
gados sobre a atitude que tivermos para com o estrangeiro ou o menor de
nossos irmaos; sem mesmo o sabermos, é com Cristo que nos encontramos
ao abordar cada um destes (cf. Mt 25,38-40).

Por conseguinte, a Igreja tem no mundo a vocacao de ser o povo dos


remidos ou dos que formam em Cristo um só Corpo Místico. O Concilio do

105
10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 334/1990

Vaticano II definiu-a muito adequadamente como "o sacramento ou sinal e


instrumento da íntima uniáo com Deus e da unidade de todo o género hu
mano" (cf. Lumen Gentium n.1). Na Igreja nao pode haver discriminacao
devida a raga ou nacionalidade, condicao social ou sexo (cf. Lumen Gentium
n.32). É precisamente este o sentido da palavra católico, universal, que ca
racteriza a Igreja. As falhas que tenham ocorrido ou ocorram na execucao
desse projeto, sao devidas á fraqueza humana, mas nao invalidam a missao
que a Igreja recebeu por mandato divino.

Tal doutrina implica graves conseqüéncias de ordem prática, que po


de m ser compreendidas sob tres palavras: respeito das diferencas, fratern¡da-
de, solidariedade.

Respeito das diferenpas... Embora portadores da mesma dignidade, os


homens nao tém todos as mesmas capacidades físicas e os mesmos talentos
intelectual e culturáis. Igualdade nao quer dizer uniformidade. É necessário,
pois, reconhecer a diversidade e a complementariedade das riquezas culturáis
e das qualidades moráis de uns e outros. A nenhum grupo humano é lícito
atribuir a si urna superioridade de natureza sobre os outros.

O respeito mutuo deve desenvolverse em fraternidade: "Todo homem


é meu irmao" (Tema do Dia Mundial da Paz em 1971). A caridade, que está
na raiz dessa fraternidade, nao é mero sentimento de benevolencia ou pieda-
de; ela tem como objeto permitir a todo individuo vi ver em condicoes dig
nas, que Ihe competem por justica.

A própria fraternidade deve ser levada adiante até a prática da solida


riedade, que abraca todos os homens, em particular ricos e pobres. Disto de
pende a paz entre os homens e as nacdes: "A obra da solidariedade é a paz"
(Encíclica Sollicitudo Rei Socialis n.38).

4. A contribuicao dos cristáos (n.24-32)

O preconceito racista nao será extirpado apenas mediante metos ex


trínsecos (legislacao, demonstracao científica...). É preciso combaté-lo na
sua raiz, onde ele se forma, ou seja, no coracao dos homens. Por isto o pr¡-
meiro passo a dar em demanda da superacao do racismo é o da conversao
dos coracoes.

Por sua vez, a conversao dos coracoes há de ser baseada em conviccoes


firmes a respeito da dignidade de todos os homens, tal como a Tradicao oral
e escrita as incute. "O recurso á Biblia para justificar os preconceitos racistas
deve ser resolutamente denunciado. Jamáis a Igreja autoriza urna le i tura tao
disforme da Escritura" (n.25).

106
A IGREJA ANTE O RACISMO

As convicoes assim concebidas deveráo exteriorizar-se em condutas e


atitudes concretas:

1) disponibilidade ao diálogo, á partilha, á ajuda recíproca, á colabora-


cao com todos os homens.

2) Defender as vítimas do racismo, onde quer que se encontrem. Mui-


tos o fazem por motivos humanitarios. "Os cristaos nao hesitam... em parti
cipar nesta I uta pela dignidade de seus irmaos, preferindo sempre os meios
nao violentos" (n.26).

3) Na denuncia do racismo a Igreja quer man ter urna atitude evangéli


ca. Com efeito; importa nao apenas denunciar para procurar compreender
as situacoes e as pessoas que Ihes dáfo origem, a fim de as ajudar a encontrar
urna solucao razoável para seus problemas. "A Igreja se preocupa por evitar
que as vítimas reajam com violencia e ven ha m, por sua vez, a assumir um
comportamento semelhante áquele que elas rejeitam. A Igreja quer oferecer
um espapo de reconciliacao e nao exacerbar as oposicdes" (n. 27).

4} O papel da escola, como foco nao só de instrucáo, mas também de


educacao, é primordial. É importante ensinar que o outro, precisamente por
que é diferente, pode enriquecer a nossa experiencia. De um lado, a forma-
cao cívica deve enaltecer os valores patrios, nao porém a ponto de se tornar
nacionalismo exacerbado e hostil aos estrangeiros. Possa a escola oferecer
aos filhos dos imigrados a ocasiao de se inserirem na populacao autóctone.

5) Os textos de lei, as instituicoes nacionais e regionais háo de traduzir


o respeito pelo próximo. No interior de um mesmo Estado a lei deve ser a
mesma para todos os cidadaos, sem distincfo; nao sejam discriminadas as
minorías étnicas, lingüísticas ou religiosas.

De modo especial, sao vítimas de preconceitos raciais os imigrados, os


refugiadps, os trabalhadores estrangeiros temporarios... A lei deverá velar
por reprimir qualquer forma de exploracao contra tais pessoas. Precisamen
te ñas relacoes de trabalho deverao originar-se melhor conhecimento e acei
ta cao mutua entre pessoas de origem étnica e cultural diferente; nao permi-
tam as leis que, por urna prestacao igual de trabalho, os estrangeiros sejam
discriminados em relacáo aos trabalhadores autóctones no tocante ao sala
rio e á previdencia social.

6) A nivel internacional, é necessário continuar a elaborar instrumen


tos jurídicos de luta contra o racismo; e, sobretudo, é preciso torná-los efi-
cazes. As Nacóes Unidas tém-se empenhado notavelmente na proclamacao
dos direitos dos homens e dos povos; aos 21/12/65, por exemplo, declarou a

107
12 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 334/1990

ONU: "Nada pode justificar em caso algum a discriminacao racial, nem em


teoría, nem na prática" (Conveneab Internacional sobre a Eliminacáo de
todas as formas dé Discriminacao Racial, Preámbulo, § 6). Aos 2/11/1973
a ONU proclamou o decenio da luta contra o racismo e a discriminacao ra
cial, decenio que foi renovado em 1983. A Santa Sé, como membro qualifi-
cado da comunidade internacional, tem participado das decisóes da ONU.

7) Os Bispos do mundo inteiro tém também urna acao de relevo a


exercer, continuando, alias, a que vém praticando. Merece especial referen
cia o Episcopado dos Estados Unidos, que ainda em 26/03/87 se pronun-
ciou contra a persistencia de sinais de racismo na sociedade americana, nota-
damente na organizacáo dita Ku Klux Klan. Outro testemunho saliente é
o dos Bispos da África do Sul, que vém lutando contra o apartheid com o
apoio da Santa Sé manifestado pelo Papa Joao Paulo II em sua visita áquele
país:

"A questao do apartheid, entendida como um sistema de discrimina-


cao social, económica e política, empenha a vossa missao como mestres e
guias espirituais dos vossos rebanhos, num esforco necessárío e determinado
em combater as injusticas e em sustentara substituicao dessa política basea-
da na justica e no amor. Animo-vos a permanecer, de maneira firme e corajo
sa, nos principios que estao na base de urna resposta pacifica e justa és legí
timas aspiracSes de todos os vossos concidadSos".

Termina o capítulo 4 do Documento que analisamos, nos seguintes


termos:

"Os países onde existem graves tensoes raciais, devem darse conta da
precaríedade de urna paz que nio se baseia no consenso de todos os compo
nentes da sociedade. A historia ensina que desconhecer por longo tempo os
direitos do homem acaba quase sempre por provocar explosoes de violencia
incontroláveis. Para instaurar urna ordem fundada sobre o dimito, é preciso
que os grupos antagonistas se deixem guiar pelos valores supremos e trans
cendentes, nos quais se funda toda a comunidade humana e toda a relacSo
pacífica entre as nacdes" (n. 32).

O texto, denso como é, encerrase com urna

Conclusao

Apesar das Declaracoes da ONU e da Igreja, o racismo ainda existe em


nossos días numa gama assaz ampia de modalidades: o apartheid é hoje a
sua forma mais característica. Existem, porém, outros tipos de discrimina-

108
A IGREJA ANTE O RACISMO 13

cao, cujo motivo explícito nao é o da rapa, mas que tém efeitos semelhantes.
Seria hipócrita acusar um só país: muí tos poem em prática urna discrimina-
cao, que eles mesmos em teoría abominam.

A Igreja encoraja a errad ¡cacao desses preconceitos. Pede a Deus que


converta os coracoes e oferece-lhes um espaco de reconciliacao. Apesar dos
pecados de seus membros, ela tem consciéncia de ha ver sido constituida
testemunho do amor de Cristo sobre a térra. A palavra de Deus que a todos
propoe, é aquela que ela mesma procura viver: "Todo homem é meu ¡rmao".

(continuado da pág. 137)

todas as mulheres da térra, pois a sua percepcao extra-sensorial captou urna


realidade que aínda hoje continua verdadeira" (p.108).

3. Conclusao

Deve-se reconhecer que o Prof. Germano de Nováis é benemérito por


enfatizar o valor do o ti mismo e da confianca. Ele o faz como homem
de fé, que estima a doutrina católica e até mesmo tenta reforcá-la. Este res-
peito pela fé e seus artigos nao pode deixar de chamar a atencao.

Mas, como outros psicólogos. Nováis, bom conhecedor da sua área de


estudos, parece carecer de formacao filosófica e teológica, de modo que re
corre a terminología impropria, veículode conceitos que o próprio autor tai-
vez nao quisesse professar. Isto torna ambigua a leitura do seu livro; algumas
passagens sao de teor panteísta e podem levar o leitor ao erro.

Seria necessário que os psicólogos distinguissem com exatidáo as ativi-


dades psicológicas (cuja eficacia se deve ao treinamento do individuo) das
atividades da fé, que se desenvolvem no plano sobrenatural, nao milagroso,
mas plano decorrente da elevacao do homem á condicao de filho de Deus e
templo do Espirito Santo; tais atividades dependem estritamente da graca de
Deus e da acao do Espirito Santo. Nao se identifique oracao com poder da
mente ou do pensamento, pois este se pode exercer sem que o individuo pen
se em Deus. A oracao 6 o permanente recurso do homem, pois ela pode ser
praticada em meio ás tempestades mentáis ou em qualquer estado de alma;
ela é a elevacao da alma a Deus, fecunda em todas as horas do dia e da noite.

109
Mal-entendidos:

As Esportillas de Missa

Em símese: A prática das esportillas, inspirada pelos escritos mesmos


do Novo Testamento e vigente durante quase dois mil anos, nao pode ser
extinta, mas deve ser elucidada e explicada aos fiéis para que se livrem de
todo mal-entendido a respeito. Tal prática tem duplo sentido: 1) para quem
oferece sua dádiva, deve ser penhor de mais íntima participado do fiel na
oblacao eucarística e nos frutos desta; é expressSo da fé e do amor com que
tem acesso ao Pai por Cristo no Espirito Santo; 2) para a Igreja universal, é
meio de sustentacao legítimo, ancorado na TradicSo bíblica e aínda hoje in-
dispensável em muitas regioes católicas; cuide-se, porém, de remover daí to
do aparéncia de simonía, coisa pela qual tém zelado as autoridades eclesiásti
cas e o Dimito Canónico.

As espórtulas ou os honorarios1 de Missa sao um ponto nevrálgico para


muitos fiéis; desejariam vé-los substituidos pelo dízimo, que separa nítida
mente o culto divino e a contribuicao dos fiéis para o sustento material da
Igreja. Há, pois, necessidade de esclarecer o seu significado e assim dissipar
possíveis equívocos sobre o assunto. É o que taremos, examinando: 1) a po-
sicao atual do magisterio da Igreja; 2) a historia da prática das espórtulas;
3} as objecoes hoje levantadas contra tal uso.

1. A posicao do Magisterio

1. Após o Concilio do Vaticano II (1962-1965), que fez serio balanco


da vida da Igreja, considerando as suas necessidades, Paulo VI houve por

1 A palavra esportilla vem do latim sportula, diminutivo de sporta, cesto.


Sportula vem a ser um cestinho e, por extensSó, significa dádiva, dom libe
ral.
A palavra esportilla ó equiparada a honorarios, que indica a remunera-
cao dada aqueles que exercem urna profissSo liberal (advogados, médicos...).
Éa honra tributada ao trabalho de tais profissionais.

110
AS ESPÓRTULAS PE MISSA

bem legislar também sobre as esportillas de Missa. Aos 13/06/1974 publicou


o Motu próprio Firma in Traditione, em que dizia:

"É tradicao firmemente estabelecida na Igreja que os fiéis, movidos


por seu espirito religioso e seu senso eclesial, acrescentem ao sacrificio euca-
ristico um corto sacrificio pessoal, a fim de participar mais estritamente da-
quele. Atendem assim ás necesidades da Igreja e, mais particularmente, á
subsistencia dos seus sacerdotes. Isto está de acordó com o espirito das pala-
vras do Senhor: '0 trabalhador merece o seu salario' (Le 10,7), palavras que
Sao Paulo lembra em sua prímeira carta a Timoteo (5,18) e na prímeira aos
Corintios 19,7-14).

Este costume, mediante o qual os fiéis se associam mais estritamente


ao sacrificio de Cristo e dai colhem frutos mais abundantes, foi nao somente
aprovado, mas também estimulado pela Igreja, que vé nessa prática como
que um sinal da uniao do fiel batizado com Cristo e da uniao do fiel com o
sacerdote, que exerce o seu ministerio para o bem dele".

Tais palavras de Paulo VI, que reafirma urna praxe tradicional na Igre
ja, foram proferidas a pos madura reflexao sobre as diversas propostas de re-
formulacao da mesma.

2. 0 Código de Direito Canónico, promulgado aos 25/11/83, coníide-


rou a questao das esportillas de Missa nos seguintes termos:

Canon 945 -Sí. "Segundo o costume aprovado pela Igreja, a qual-


quer sacerdote que celebra ou concelebra a Missa, é permitido recebera es-
pórtula oferecida para que ele aplique a Missa segundo determinada inten-
cao.

§ 2. Recomendase vivamente aos sacerdotes que, mesmo sem receber


nenhuma esportilla, celebrem a Missa segundo a intencao dos fiéis, especial
mente dos pobres.

Canon 946 — Os fiéis que oferecem espórtula para que a Missa seja
aplicada segundo suas intencSes concorrem, com essa oferta, para o bem da
Igreja e participam de seu empenho no sustento de seus ministros e obras.

Ciñan 947 - Deve-se afastar completamente das espórtulas de Missas


até mesmo qualquer aparSncia de negocio ou comercio.

Canon 948 - Devem aplicarse Missas distintas na intencao de cada


um daqueles pelos quais foi oferecida e aceita urna espórtula, mesmo pe-
quena.

111
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 334/1990

Canon 951 - § 1. O sacerdote que celebra mais Missas no mesmo día,


pode aplicar cada urna délas segunde a intencao pela qual fot oferecida a
espórtula, mas com a condicao de reter para si a espórtula de urna só Missa,
excetuando o dia do Natal do Senhor, e entregar as outras para os fins deter
minados pelo Ordinario, admitindo-se alguma retribuicao por titulo extrín
seco .

0 novo Código assim confirma a disciplina comida no Código ante


rior, cánones 824-844, acrescentando-the duas notas próprias:

— recomenda que os sacerdotes celebrem gratuitamente em favor dos


fiéis, especialmente dos pobres;

— mediante a sua oferta, os fiéis contribuem para o bem da Igreja, das


suas obras e para o sustento dos seus ministros.

Merece atencao também o fato de que o sacerdote que celebra mais de


urna Missa por dia, nao pode guardar para si mais do que urna espórtula. —
Caso celebre urna só Missa por diversas ¡ntencóes {Missa comunitaria, como
se diz), mediante oferendas espontáneas, que nao podem ser equiparadas a
esportillas, os Bispos costumam determinar que o sacerdote guarde apenas
a quantia correspondente a urna espórtula e entregue o resto á Curia Dioce
sana.

Procuremos agora a

2. Justificativa teológica

Para entendermos devidamente a legislacao da Igreja, tornase necessá-


rio recordar o respectivo fundamento teológico, que é o seguinte:

1. A Missa é a própria imolacao de Cristo (outrora oferecida cruenta


mente na Cruz), que a Onipoténcia Divina torna presente de maneira incruen
ta sobre os altares, sem que multiplique tal imolacao, mas sem que por isto Ihe
diminua algo de sua plena realidade. A mesma oblacao de Cristo realizada no
pretérito deixa de pertencer ao pretérito e se faz presente. "Misterio da fé"
diz a fórmula de consagracao eucarfstica.

E por que Jesús Cristo quis instituir tal rito?

— Ele o quis em vista de seus fiéis, ou seja, a fim de associar ao sacrifi


cio da Cruz a sua Igreja. Com efeito, outrora no Calvario Jesús, como Sa
cerdote, se ofereceu ao Pai qual Vítima pelos pecados do mundo. Atualmen-

112
AS ESPÓ RTU LAS D E MISSA ¡7

te na S. Missa Jesús oferece com a Igreja, que participa do Sacerdocio de


Cristo, e se oferece com a Igreja, que participa da qualidade de Cristo Hostia.

Ora lembremo-nos de que a Igreja nao é apenas o clero, mas é o Corpo


Místico, do qual todo cristao é um membro ou urna célula viva. É, pois, em
cada fiel batizado que a Igreja repousa, vive e age.

Oeste fato decorre importante conseqüéncia relativa aos frutos da


S. Missa.

Sendo a Missa o próprio Sacrificio da Cruz celebrado de maneira in


cruenta, compreende-se que cada S. Missa tem, como tal, valor infinito; com
efeito, qualquer dos atos de Cristo possui tal valor, já que procede de urna
Pessoa Divina. Por conseguinte, urna so Missa por si seria suficiente para dar
a Deus todo o louvor que as criaturas Ihe devem, suficiente também para
apagar as culpas de todos os homens, perdoar todas as penas satisfatórias,
obter todas as grapas, espirituais e temporais, necessárias á salvapao...

Na realidade, porém, o valor infinito da Missa nao é aplicado aos ho


mens em grau infinito; os frutos da S. Missa, para as criaturas, sao sempre
limitados.

Por qué?

— Porque a Missa nao é somente oferecida por Cristo. Enquanto, sim,


é oferecida por Cristo, toda Missa indubitavelmente produz frutos para o
género humano; é sempre eficaz para louvar a Oeus e obter grapas para os
homens, independentemente das criaturas que déla participam. Todavia, na
medida em que os membros de Cristo, os cristaos, sao associados ao ofereci-
mento, os frutos do rito sagrado sao restritos. Com efeito, o Corpo Místico,
com o qual Jesús compartí I ha o seu ato de oblacao, consta de urna multidao
de homens portadores das conseqüéncias do pecado, e, por isto, limitados
em seu espirito de ofertorio ou de entrega total ao Pai. A parte de devota-
mentó próprio que cada cristáo associa á oblacao de Cristo, está sujeita as
restricóes que o egoísmo e a covardia provocam. Estes empecilhos, como se
compreende, torna m os fiéis menos aptos a usufruir os beneficios da Reden-
cao e, conseqüentemente, limitam a aplicacao dos frutos da Missa.

Em termos positivos, poder íamos recordar as palavras da Oracao Eu-


carCstica n.1:

"Lembrai-vos, ó Pai. dos vossos fílhos e fílhas N.N. e de todos os que


circundam este altar, dos quais conheceis a fidelidade e a dedicacSo em Vos
servir. Eles Vos oferecem conosco este sacrificio de louvor por si e por todos

113
_18 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 334/1990

os seus e elevam a Vos as suas preces pana alcanzar o perdió de suas faltas, a
seguranza em suas vidas e a salvagao que esperam".

Vemos que o texto chama a atencao para a fidelidade e a dedicapao


(f¡des et davotio) daqueles que oferecem com Cristo o sacrificio do altar, é
a fé e a dedicado (espirito de entrega e de amor) dos cristaos. em uns mais
intensa, em outros menos vivida, que os torna capazes de obter em seu fa
vor e em favor de outrem as grapas ou os frutos decorrentes do Sacrificio
Eucaristico.

2. Costumam-se distinguir tres tipos de frutos decorrentes de cada ce


lebracao da S. Missa:

a) frutos gerais, isto é, grapas em beneficio de toda a Igreja e de cada


um dos seus membros diretamente; indiretamente beneficiam também todos
os homens que nao pertencem á Igreja, visto que a santif ¡cacao dos cristaos
implica a santificacáo do mundo e Cristo é o Salvador de todos os homens;

b) frutos espadáis: sao grapas que tocam ao(s) celebrante(s)-, aos seus
ministros e a todos os que assistem físicamente ao rito eucaristico, nele to
mando alguma parte;

c) frutos especialissimos: sao grapas cuja aplicacao a Misericordia Divi


na deixa á livre escolha dos fiéis. Por conseguinte, as pessoas interessadas po
de m assinalar urna finalidade particular (urna intencao especial), á qual serao
aplicadas essas grapas. Isto acontece precisamente quando os fiéis pedem que
a Missa seja celebrada por tal defunto, por tal anlversariante, por tal causa,
em acao de grapas por um favor recebido, etc. - A intencao formulada será
mais ou menos beneficiada na medida da fé e da devocao dos cristaos consi
derados na seguinte ordem:

1?) o(s) presbitero(s) ou bispo(s) que celebram a S. Missa, pois é (sao)


o(s) representante(s) imediato(s) da S. Igreja em tal ato litúrgico;

2?) os fiéis que tiverem ocasionado a celebracao da S. Missa, formu


lando a respectiva intencao ou as respectivas intencoes, pois esses cristaos
sao, logo após o(s) celebrante(s), os oferentes mais diretos, por conseguinte
os mais próximos representantes da Igreja. Dai a conveniencia de que nao
somente pecam a celebracao da Missa, mas também déla participem física
mente presentes.

3?) os fiéis que estiverem presentes á celebracao do Sacrificio, rezan


do com o celebrante e participando;

114
AS ESPÓRTULAS DE MISSA 19

4?) os fiéis da Igreja universal (mesmo ausentes e longínquos), pois to


dos os cristáos sao envolvidos nos atos litúrgicos da Igreja; sao eles que cons-
tituem de maneira concreta a face humana da Esposa de Cristo.

Os fiéis que pedem a celebracao da S. Missa por alguma intencao, eos-


tumam exprimir a sua participacao nessa celebracao mediante a oferta do
que se chama "esportilla". Eis a origem desta prática:

No inicio da historia da Igreja, os cristáos que saíam de casa para par


ticipar da S. Missa, levavam consigo dons naturais (pao, vinho, leite, frutas,
mel ... ). O pao e o vinho eram reservados para a consagrado eucarística, ao
passo que as outras dádivas eram distribuidas aos irmá'os mais carentes sob
forma de ágape ou refeicao fraterna. Assim quem freqüentava a Liturgia
Eucarística, déla participava nao só pela fé e a devocao, mas também medi
ante um sinal sensfvel dessa atitude interior. Aos poucos, os bens naturais
foram sendo substituidos por dinheiro (que é de mais fácil manuseio), ...
dinheiro oferecido fora (antes ou depois) do rito litúrgico. A propósito ver
ulteriores noticias em PR 220/1978, pp.164-173; 223/1978, pp. 282-294, e
também no Curso de Diálogo Ecuménico por Correspondencia, Módulo 20,
pp. 78-80.

Examinemos agora as objecoes que se levantam hoje contra a prática


das espórtulas.

3. Sim ou Nao?

Serao quatro as objecoes consideradas:

3.1. tgreja e Dinheiro

"É preciso dissodar a celabracSo do culto sagrado e o dinheiro, pois a


praxe atual pode ser mal entendida e favorecer abusos".

— Sem dúvida. A prática das espórtulas pode ser ocasiao de comporta-


mentó indevido por parte de clérigos e de leigos. Todavia abusus non tollit
usum, o abuso nao deve impedir o uso... As espórtulas, como tais, nada tém
de desonesto; ao contrario, elas se justificam como sendo a expressao da fé
e do amor dos fiéis desejosos de participar mais intimamente dos frutos da
S. Missa.
Mais precisamente devemos dizer: a Ujreja nao sendo urna sociedade
meramente transcendental, mas estando inserida neste mundo, precisa de
dinheiro para exercer a missfo de pregar o Evangelho que Cristo ihe confiou.
Isto ... desde os tempos de Jesús:

115
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 334/1990

Os doze Apostólos, segundo S. Joao, tinham urna caixa comum (cf. Jo


12, 6). Serviam a Jesús com seus bens algumas mulheres beneficiadas pelo
Senhor e seguidoras de seus passos: María Madalena, Joana, mulherde Cuza,
Susana e varias outras (cf. Le 8,1-3).

A primeira comunidade crista em Jerusalém praticava a voluntaria par


tí Iha de bens (cf. At 2,44; 5,1-6).

Sao Paulo desenvolveu uma teología da coleta, enfatizando o inter


cambio entre judeus e gentíos convertidos ao Cristianismo: aqueles comuni-
cavam seu patrimonio espiritual aos pagaos para que se tornassem cristáos;
consequentemente estes deviam transmitir aos irmaos pobres de origem ju
daica algo dos seus bens materiais; cf. 2Cor 8,1-9.14; Rm 15, 26s. Assím se
fortalecerían! os lapos de comunháo entre os discípulos de Cristo.

Aos corintios Sao Paulo recomendava que no dia da assembléia litúr


gica (domingo) os cristáos pusessem de lado o que tivessem poupado em fa
vor dos seus ¡rmábs em Jerusalém; cf. 1 Cor 16,1s. O Apostólo atribuía gran
de importancia a tal gesto, pois seria o sinal e o penhor da unidade entre os
cristáos de origens diversas; cf. Gl 2,10.

Notemos outrossim o elogio que o Senhor teceu á oblapáo da viúva no


Tesouro do Templo: "Em verdade eu vos digo que esta viúva, que é pobre,
lancou mais do que todos os que ofereceram moedas ao Tesouro. Pois todos
os outros deram do que Ihes sobrava; ela, porém, na sua penuria ofereceu
tudo o que tinha, tudo o que possuia para vi ver" (Me 12, 42-44).

É desta praxe instituida pelos Apostólos que se origina, entre os cris


táos, o costume de associar á oblacao do altar uma doapao material em favor
dos irmaos ou da Igreja. Este costume deve ser isento de qualquer vislumbre
de comercio, mas nao deve ser abolido; antes, seja explicado pelos pastores
aos fiéis; estes compreenderao que nao se trata de pagar algo que nao tem
preco, mas de testemunhar o desejo de assocíar-se intimamente á oferta que
Jesús faz de Si e de sua Igreja ao Pai. Especialmente a Liturgia da Missa re
formada sob Paulo VI facilita aos fiéis a participado ou a tomada de consci-
éncia de que tém sua responsabilidade na oblacao eucarística.

3.2. Justica e caridade

"O clero que, por seu trabalho, merece recebar o necessário para se
sustentar, deveria ter sua subsistencia garantida por um sistema de financia-
mentó independente de ofertas feitas por particulares ou pelos fiáis que pe-
cam servicos religiosos".

116
AS ESPÓRTULAS DE MISSA 21

- Pode-se reconhecer que esta afirmacao á razoável e ponderável. Mas


a realidade concreta de nossas paróquias e dioceses fica longe de Ihe corres
ponder. Nao tém meios de assegurar ao clero um salario ou o seu sustento
digno. Isto é verdade especialmente nos países da Cortina de Ferro, na Asia
na África e na América do Sul. A Europa e os Estados Unidos parecem cons
tituir excecoes; mas, mesmo assim, em tais regioes há setores muito pobres,
em que o sacerdote só tem os honorarios do culto para se sustentar.

Vista a comunhao que une entre si as dioceses do mundo inteiro, ca


da sacerdote dos países desenvolvidos deve preocupar-se com a subsistencia
de seus confrades de dioceses carentes. Isto tem ocorrido pelo fato de que as
espórtulas de Missa doadas pelos fiéis em determinado país sao, por vezes,
transferidas para países mais pobres, a fim de que lá se celebrern as Missas
solicitadas, de acordó com a regulamentacao estabelecida pelo Código de
Direito Canónico:

Canon 953: "A ninguém é licito receber, para aplicar pessoalmente,


tantas espórtulas de Missas que nao possa satisfazer dentro de um ano".

Canon 954 - "Se em determinadas igrejas ou oratorios se pede a cele-


bracio de Missas em número superior ás que ai se podem celebrar, é licito
celebrá-las em outro lugar, salvo vontade contraria dos ofertantes expressa-
mente manifestada".

Canon 955 — § I. "Quem tenciona confiar a outros a celebracao de


Missas a serem aplicadas, deve entregar quanto antes a celebracao délas a sa
cerdotes de sua confianca, contanto que conste estarem eles ácima de qual-
quer suspeita; deve transmitir integralmente a espórtula recebida, a nSo ser
que conste com certeza que o excedente da soma devida na diocese foi dado
a titulo pessoal; tem aínda a obrigacSo de cuidar da celebracao délas até que
tenha recebido urna declaracao de que foi aceita a obrigacSo e recebida a
espórtula.

§ 2. O prazo dentro do qual as Missas devem ser celebradas, comeca a


partir do dia em que as recebeu o sacerdote que vai celebrá-las. a nao ser que
conste o contrario.

§ 3. Quem confia a outros Missas a ser celebradas, deve sem demora


registrar num livro as Missas que recebeu e que entregou a outros, anotando
também suas espórtulas.

§ 4. Cada sacerdote deve anotar cuidadosamente as Missas que recebeu


para celebrar, e as que jé celebrou".

117
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 334/1990

Canon 956 — Todos e cada um dos administradores das causas pías, ou


de algum modo obrigados a cuidar da celebradlo de Missas, se/'am clérigos,
sejam leigos, entreguem a seus Ordinarios os encargos das Missas que nao ti-
verem sido satisfeitos dentro de um ano, segundo o modo a ser por estes de
terminado".

3.3. Oferenda do individuo e oferenda da comunidade

"As espórtulas sao oferendas de individuos em favor de su as intencoes


pessoais (aniversario, a pao de grapas, sufragio por um def unto da familia...).
Ora isto parece 'privatizar* a S. Missa (popularmente há quem fale do 'dono
da Missa': aquele qua ofereceu a espórtula). Ora tal tendencia á errónea. Se
ria preciso dar a compreender aos fiéis qua na Missa todos se oferecem, uni
dos a Jesús, com seu trabalho, suas alegrías e ansiedades. 'Por meio dele ofe-
recamos continuamente um sacrificio de louvor a Deus, isto é, o fruto dos
labios que confessam o seu no me' (Hb 13,15). Esta ob lacio de todos póde
se exprimir mediante dons da comunidade aos irma*os iríais pobres, como se
ria a entrega de vestes, alimentos, material escolar... por ocasiao do Oferto
rio da Missa (essa entrega substituiría a coleta de dinheiro feita durante o
Ofertorio)".

- Estas observacoes sao válidas. O Código de Direito Canónico reco-


menda vivamente a celebracao da Missa mesmo sem espórtulas, em favor dos
¡rmáos mais pobres (vivos ou mor tos). Alias, todos os domingos cada Vigário
tem a obrigacao de aplicar urna Santa Missa pro populo, pelo povo de Deus;
seria a principal Missa paroquial; nesta poder-se-ia fazer o Ofertorio de dádi
vas que simbolizem explícitamente os grandes interesses de cada fiel pela co
munidade (tais seriam roupas, calcadas, alimentos...).

Este realce dado ás ofertas comunitarias nos domingos nao exclui que,
durante a semana ao menos, haja oblacáo de espórtulas pessoais por inten-
cóes particulares (sufragio de algum def unto, cura de enfermo, bom éxito na
vida matrimonial...). A manutencao desta prática éde interesse tanto dos fiéis
como tais quanto da Igreja como instituicao segundo o que foi dito atrás.
Sao palavras do Senhor Jesús: "Importa praticar isto sem omitir aquilo"
(Mt 23, 23).

3.4. E aqueles que nao tSm dinheiro para mandar celebrar a S. Missa?

"A prática das espórtulas parece favorecer a uns, que tám dinheiro e
podam mandar celebrar a S. Missa, em detrimento de outros fiéis, que nao
dispSem de recursos para pedir a celebracao nem por si nem por seus fami
liares dafuntos".

118
ASESPÓRTULASDEMISSA 23

-AS. Igreja reza diariamente por todas as grandes intencoes e neces-


sidades do ginero humano (os doentes, os moribundos, os encarcerados, os
falecidos...). Em conseqüéncia, nao se pode dizer que há almas abandonadas
no purgatorio por falta de dinheiro da parte dos familiares. A comunicado
de bens espirituais entre os fiéis nao conhece classes nem privilegios; todos
os bens espirituais da Igreja circulam livremente entre todos os membros
desta; todas as almas sao beneficiadas pelos sufragios universais da S. Igreja.
Nao se creia que as regras de lógica terrestre e comercial sejam observadas
também por Deus. O Senhor seria mesquinho se atendesse menos solicita-
mente aos interesses daqueles que menos dinheiro tém; heranca monetaria
nao significa primazia para alguém diante de Deus. Jamáis podaremos esque-
cer que a grapa e a misericordia de Deus tém o primado sobre as obras do
homerri. As almas dos pobres, por conseguinte, sao amadas por Deus como
as demais.

De resto, notemos: a espórtula de Missa nao tem somente o objetivo


de sufragar os mortos mediante a celebracao da S. Eucaristía. Indepentemen-
te desta finalidade, ela contribuí para estimular a participado do fiel na
oblacao eucarfstica de' Cristo e sustentar a Igreja em suas necessidades
mataríais.

4. Conclusao

A prática das esportillas, inspirada pelos escritos mesmos do Novo Tes


tamento e vigente durante quase dois mil anos, nao pode ser extinta, mas
deve ser esclarecida e explicada aos fiéis, para que se livrem de todo mal-en
tendido a respeito. Tal prática tem duplo sentido: 1) para quem oferece sua
dádiva, deve ser penhor de mais íntima participacfo na oblacao eucarfstica e
nos frutos desta; é expressao da fé e do amor com que tem acesso ao Pai por
Cristo no Espirito Santo; 2) para a Igreja universal, é meio de sustentacao le
gítimo, ancorado na Tradicao bíblica e ainda hoje indispensável em muitas
regioes; cuide-se, porém, de remover daí toda aparéncia de simonía - coisa
pela qual tém zelado as autoridades eclesiásticas.

A prática do dfzimo é inegavelmente outro meio de prover ás necessi


dades materiais da Igreja. Marece incentivo, desde que os fiáis a compreen-
dam e aceitem pd-la em execucao.

119
Que sentido tem

A Cremagáo de Cadáveres?

Em símese: A Igreja nio se opoe á cremacio de cadáveres, desde que


nao seja solicitada por motivos anticristaos ou materialistas; segundo a Tra-
dicao bíblica e crista, o sepultamento dos morios é preferfvel, pois distingue
melhor dos detritos indesejáveis e incinerados o corpo humano, templo do
Espirito Santo.

A cremacao boje em dia é justificada por motivos urbanísticos, ecoló


gicos, higienísticos... Todavía parece também ser a expressSo do horror da
morte que tem marcado a sociedade contemporánea; esta vem apagando os
símbolos da morte e da sobrevivencia, descaracterizando os cemitérios ou
transformando-os em parques de lazer. A incineracao, neste contexto, pode
vir a ser um dos recursos mais radicáis para extinguir a imagem do defunto
(nem túmulo nem visita do túmulo pode haver, se as cimas sao ¡aneadas
num rio ou numjardim ameno).

Com isto nSo queremos impugnar peremptoriamente a cremacao dos


cadáveres, que pode ter suas razóes legitimantes, nem intencionamos de
fender as manifestacoes teatrais de dor e luto perante a morte que ocorre-
ram no passado, mas temos em vista lembrar que: 1) a morte é a única cer
teza que a enanca e o adulto tém.daíser desarrazoado evitarconsiderá-la;
2) a morte, ¡nevitável como é, nio se/a considerada pelos cristSos como rup
tura ou fim, mas, sim, como plenitude de urna vida que a enanca recebe ger
minal no Batismo e que tende a se desabrochar cada vez mais até a sua con-
sumacSo no Além ou na visSo de Deus face-á-face.

Registrarse a tendencia, ao menos em certos países, a substituir a tradi


cional inumacao dos mortos pela cremacao dos respectivos cadáveres. Há
mesmo quem julgue que tal será a praxe mais freqüente num futuro nao
muito distante. Todavia esta previsao parece contraditada por certa aversao
natural de numerosas pessoas á perspectiva da cremacao, pois esta faz que ao
corpo humano se aplique o mesmo tratamento que a objetos indesejáveis ou
inúteis.

120
A CREMACÁO DE CADÁVERES 25

Entre alguns dados interessantes a propósito, seja citado um inquérito


realizado na Franca junto a 1.128 pessoas, de mais de quinze anos de idade;
comportava cerca de cinqüenta perguntas concernentes á incineracáb. Eis al
guns de seus tópicos mais significativos:

Á pergunta "Vocé prefere ser enterrado(a) ou incinerado(a), 53%res-


ponderam preferir ser enterrados; 20%, incinerados; 27% nada responderam.

Á pergunta "Algumas pessoas preferem ser incineradas; vocé julga que


isto ocorre principalmente

— por motivos ecológicos?" — 28% responderam Sim;

— "por motivos económicos (é menos caro)?" - 7% responderam Sim;

— "por razoes filosóficas?" — 41% disseram Sim;

— "por outros motivos?" -14% responderam Sim;

— Nao se pronunciaran! 10%.

Esta estatística faz pensar. Apenas 20% preferiram a incinerado, mas


na mesma época (1979) houve na Franca menos de 1% de cremacoes... — o
que significa que a teoria e a prática nao se sobrepoem exatamente. Obsérve
se tabém que 41% julgaram haver motivos filosóficos para se preferir a inci-
neracfo; isto é significativo, pois, em última análise, se verifica que é o senti
do do homem e de sua vida que está em causa quando se discute a cremacao
de um cadáver.

Eis outra estatística, concemente á pratica da cremacao em diversos


países no ano de 1983:

Japao, 90%; Grá-Bretanha, 76%; Dinamarca, 60%; Holanda, 38%; Ale


mán ha Ocidental, 19%; Bélgica, 9%; Luxemburgo, 6%; Franca, 1, 83%; Ita
lia, 0,4%.

Estes números parecem confirmar a tese de que determinada filosofía


de vida está, nao raro, associada á prática da cremacao. Diante desta verifica-
cao, examinaremos: 1) a posicao da Igreja Católica perante tal uso; 2) moti
vos subjacentes á cremacao em nossos dias.

121
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 334/1990

1. A Igreja e a cremacao

1.1. Fundamentado bíblica

A cremacao de cadáveres foi e é praticada por numerosos povos. Toda


vía os judeus sempre Ihe preferiram a inumacao. A propósito cita-se o texto
deDt21,22s:

"Se um homem , culpado de crime que merece a pena de morte, é


mono e suspenso a urna árvore, seu cadáver nao poderá permanecer na árvo-
re á noite; tu o sepultarás no mesmo día, pois o que for suspenso é um mal
dito de Deus. Deste modo nao tornarás impuro o solo que o Senhor teu
Deus te dará por heran^a".

Nao ser sepultado era castigo, conforme os seguintes textos:

Jr 8,1 s: "Naquele tempo — oráculo do Senhor — tirarao de seus sepul


cros os ossos dos reís de Judá, os ossos de seus príncipes, os ossos dos sacer
dotes, os ossos dos profetas e os ossos dos habitantes de Jerusalém Eles os
espalharao diante do sol, da luz e de todo o exército celeste, que eles ama-
ram, servíram e ¡nterrrogaram e diante dos quaís eles se prostraram".

2Rs 9, 36s: "Jeú dísse: 'Esta foi a palavra do Senhor, que pronuncíou
por intermedio de seu servo Elias, o tesbita: No campo de Jezrael, os des
devoraráo a carne de Jezabei; e o cadáver de Jezabei será como estéreo espa-
Ihado no campo, de modo que nao se poderá dizer: Esta é Jezabei' ".

Os casos de incineracao eram excecóes:

ISm 31,12s: "Todos os valentes... retiraram do muro de BetsSo cadá


ver de Saúl e os dos seus filhos... e os incineraram. Depois recolheram os
seus ossos e os enterraram debaixo da tamareira de Jabes".

Os cristaos herdaram o costume judaico do sepultamento; mediante ri


tos especiáis, tencionavam mostrar seu respeito aos cadáveres. Foi, alias, isto
que se deu com o próprio Jesús:

Jo 19, 40-42: "Tomaram o corpo de Jesús e o envolverán) em panos


de linho com os aromas, como osjudeus costumam sepultar. Havia umjar-
dím no lugar onde ele fora crucificado e, no ¡ardim, um sepulcro novo, no
qual ninguém fora aínda colocado. Ali entao por causa da Preparado dos ju
deus e porque o sepulcro estava peno, eles depositaram Jesús".

Sobre tal base bíblica desenvolveu-se a historia do Cristianismo.

122
A CREMACÁO DE CADÁVERES 27

1.2. Na historia da Igreja

Distinguem-se quatro fases, de durado desigual, na historia do trata-


mentó dos cadáveres dentro da Igreja:

1.2.1. Ata a Paz de Milao (313)

Os primeiros sáculos até 313 foram marcados por violentas persegui-


coes aos cristaos; os adversarios os agredíam também pela violacao de suas
sepulturas e pela incineracao dos corpos dos mártires. Os cristaos reagiram
contra tais invectivas, nao porque a cremacao fira direta mente algum artigo
de fé ou Moral católica; ela nao impede a ressurreicao final dos corpos, pois
em qualquer- hipótese é claro que o cadáver se reduz a cinzas, que muitas
vezes sao devoradas pelos vermes. Nao obstante, Deus reconstituirá o com
posto de corpo e alma, no fim dos tempos ou por ocasiáo da segunda vin-
da de Cristo, unindo á alma que sobreviverá, aquilo que a filosofía chama
"materia prima" ou "pura potencia"; esta assumirá os traeos típicos da pes-
soa em foco.

A Igreja seguiu a praxe bíblica, cavando catacumbas (cemítéríos) para


sepultar seus mortos e empregando todos os meios para recuperar os cadá
veres de seus mártires. Disto temos um testemunho muito ni'tido ñas Atas
dos Mártires de Liáo (Gália), que morreram em 177:

"Estovamos em grande afíicao por nSo poder sepultar seus corpos na


térra. A noite nio nos ajudava. O dinheiro nio seduzia os guardas, nem a
oracSo os perturbava. Vigiavam heroicamente como se fosse de seu interés-
se que os corpos nao tívessem sepultura... Por conseguinte, os cadáveres dos
mártires foram expostos e deixados ao ar livre durante seis días; a seguir, fo
ram cromados e reduzidos a cinzas pelos perversos, que os atiraram no Ró
dano, a fim de que nio fícasse mais nenhum vestigio deles na térra. Os pa
gaos faziam isto como se pudessem vencer a Deus e privar os mortos de
novo nascimento, a fim de que, como diziam, os mártires nao tívessem espe
rance de ressurreicao" (Eusébio, Historia Eclesiástica,/. V, c. 1. § 61).

Este texto manifesta claramente, de um lado, o vivo desejo, dos cris-


táos, de sepultar seus mortos, a ponto mesmo de subornar os guardas, e, de
outro lado, a firme intencfo, dos pagaos, de atingir os cristaos em sua fé na
ressurreicao.

1.2.2. Do sáculo IV so sáculo XIX

Após a era das perseguí goes torna-se tranquila a praxe de sepultar os


mortos. A Liturgia das Exequias foi-se desenvolvendo em vista da inumacao

123
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 334/1990

dos cadáveres. Os cemitérios eram construidos, muitas vezes, ao lado da


Igreja matriz da cidade, de modo que se dedicava aos mortos um religioso
respeito; os defuntos e os sobreviventes pareciam continuar em comunháo
entre si, sem que se sentisse a necessidade de relegar a nectópole (= cidade
dos mortos) para longe da cidade dos vivos. Sábese também que muitos per-
sonagens medievais aspiravam a ser sepultados na própria igreja ou nos claus
tros dos mosteiros e dos templos sagrados. Mais: a veneracao de reliquias
também atestava o respeito tributado aos mortos e aos seus despojos; estas
eram considerados como resquicios do templo vivo de Oeus (cf. 1Cor 3,
16s; 6, 19; 2Cor 6, 16), e "instrumentos utilizados pelo Espirito Santo para
toda obra boa", como dizia S. Agostinho.

Foi-nos transmitida a noticia de incineracao em casos raros, como, por


exempio, os de epidemia: a autoridade do Imperador prescrevia entao a cre-
macao; realizada esta, recolhiam-se as cinzas numa urna, que era depositada
na térra, com as mesmas honras que tocavam a um cadáver sepultado.

Há também noticia de punicao infligida a quem, sem motivo serio, in-


cinerasse um cadáver. Assim, por exempio, urna lei de Carlos Magno datada
de 789, punia com a morte "quem tivesse incinerado o corpo de um defun-
to, conforme o rito dos pagaos, e reduzido os seus ossos a cinzas". O Papa
Bonifacio VIII excomungou em 1299, mediante a Decretal Detestandae Fe-
ritatis (L. III, tit. VI), quem infligisse macabro trato a cadáveres, para tórna
los mais leves e poder transportá-los mais fácilmente; dispunha que nao go-
zariam de sepultura eclesiástica os restos mortais decorrentes de tais mani-
pulacoes.

No sáculo XVII I, porém, a Revolucáo Francesa despertou no Ocidente


a atencao para a cremacao. Em 1798 foi proposta a construcao, em París
(Montmartre), de um columbario (ou edificio a nichos) no qual seriam guar
dadas as urnas funerarias portadoras das cinzas de cadáveres cremados.
Quatro grandes portas Ihe daríam acesso, dedicadas respectivamente á Infan
cia, á Juventude, á Maturidade e á Velhice; quatro entradas, sinuosas como
sinuosa é a vida, levariam até o monumento central desse edificio,... monu
mento que seria urna pirámide coroada de um tripe, a significar o f im de tu-
do. O projeto encontrou pouca ressonáncia, de modo que, embora muito fo
calizada e discutida, a cremacao nao chegou a ser usual nos paises cristáos
até a segunda metade do século XIX.

Este, fortemente marcado por idéias materialistas e atéias, constituíu


um clima propicio á disseminacao da tese e da prática da cremacao; naquela
época, esta praxe significava urna réplica ao Cristianismo ou a expressáo de
que nada há após a morte, podendo conseqüentemente o cadáver humano
ser tratado como lixo.

124
A CREMACÁO DE CADÁVERES 29

1.2.3. Na transido do sáculo XIX ao socolo XX

Sob a pressao da Maconaria, no sáculo XIX fundaram-se associacoes


para promover a cremacao de cadáveres e realizaram-se Congressos^dostina-
dos a justificá-la na Europa.

Na Franca, aos 15/11/1887 fo¡ votada urna lei que autoriza va a esco-
Iha de funerais ou por inumacao ou por cremacao. O primeiro crematorio de
Paris fo¡ inaugurado em 1889 na área do cemitério do Pére-Lachaise.

A Igreja se pronunciou sucessivamentecontra a nova prática. Assim aos


19/05/1886 era proibido aos católicos filiar-se a alguma sociedade partidaria
da ¡ncineracao ou pedir a incineracao para si mesmos. Aos 15/12/1886 eram
privados da sepultura eclesiástica aqueles que tivessem persistido no desejo
de ser incinerados. Aos 27/07/1892 tais declarares eram confirmadas e se
Ihes acrescentava a proibicao de celebrar publicamente a S. Missa por um ca
tólico que tivesse sido incinerado (nao era proibida a celebracao em caráter
privado); aos funcionarios dos crematorios certas restricoes eram impostas.

As razoes de tais determinacoes derivavam-se de que os pedidos e a


prática da cremacao no século XIX tinham caráter filosófico, ¡stoé. prendi-
am-se geralmente a macons, que tencionavam dessa forma afirmar que nao
existe outra vida e que o corpo humano, apósesta existencia terrestre, pode
ser tratado como qualquer detrito indesejado. O sepultamento, segundo a
praxe bíblica e o exemplo de Jesús Cristo, era normativo para a Igreja na-
quela época.

Em 1917 foi promulgado o Código de Direito Canónico (hoje substi


tuido pelo de 1983), que rezava:

Canon 1203: "Os corpas dos fiéis defuntos devem ser sepultados; é w-
provada a sua cremacao. Se alguém, de qualquer modo, pedir que seu cadá
ver se/a incinerado, será ilícito executar tal desejo. Se esse pedido for acres-
cantado a um contrato, um testamento ou algum outro ato, se/a tido como
nio existente".

Clnon 1240 § 1?, 5* "Serio privados da sepultura eclesiástica, a me


nos que tenham dado sinal de penitencia antes da morte.... os que tiverem
pedido que seus corpos sejam queimados".

Aos 19/06/1926, nova Instrucao do S. Oficio recordava as prescricóes


anteriores e acrescentava-lhes tres observacóes:

— a incineracao como tal nao é intrínsecamente pecaminosa; por isto

125
3o "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 334/1990

pode ser permitida em casos de ¡nteresse geral (epidemias, guerras...); mas


sao gravemente ilícitas a prática sistemática e a propaganda da mesma;

- se a incineracáo resulta nao da vontade do defunto, mas da decisao


de terceiros, poderáo ser celebradas exequias religiosas, desde que se evite
todo escándalo;

— as cinzas de alguém que tenha pedido a incineracao, nao poderáo ser


depositadas num cemitério cristao; caso as autoridades civis o exijam, os sa
cerdotes háo de protestar e recusa rao qualquer participacao nos ritos funerá-

Como se vé, esta última determinado já comportava certa abertura,


reconhecendo a legitimidade da incineracáo em casos especiáis. A posicáo
da Igreja era explicada em 1948 por um canonista muito conceituado, o
Prof. Raoul Naz:

"Nao se julgue que a eremacao seja um obstáculo á On ¡potencia Divi


na no día da ressurreifSo dos corpos. Ocorre, porém, que essa prática 6 pre
conizada segundo intencoes hostis á Igreja, no intuito de substituir o simbo
lismo cristao da inumacao pelo simbolismo materialista e pagao da incinera-
cao. É ceno que a propaganda emprol da cremacao tem orígens masónicas.

Mons. Choltet cita este tmcho de urna circular dirigida pelas Lojas aos
seus membros:

'Os franco-macons deveriam recorrer a todos os meios para propagar o


uso da cremacSo. A Igreja, proibindo a incineracSo dos corpos, afirma os
seus direítos sobre os vivos e os morros e procura conservar no povo as anti
gás crencas referentes á alma espiritual e é vida futura, atualmente dissipadas
por evocacáo da luz da ciencia' "(Traite de Droit Canonique, t. III, pp. 39s).

Passemos agora á época contemporánea.

1.2.4. Na segunda metada do sáculo XX

Os tempos evoluiram. As autoridades eclesiásticas puderam verificar


que muitos pedidos de cremacao nao se ¡nspiravam em razóes filosóficas an
tier istás, mas sim em motivos pragmáticos. Daí a revi sao da legislacao ante
rior, devida a urna disposicao do S. Oficio datada de 08/05/1963:

"Ha/a cuidadoso empenho em manter fielmente o costume de sepul


tar os corpos dos fiéis defun tos.

126
A CREMAQÁO DE CADÁVERES 31

2. Domante as prescricoes dos cánones 1203 § 29 e 1240 § 19, 5?


nao serio observadas a nao ser que se comprove ter sido a cremacao solici
tada como recusa dos dogmas cristáos, em espirito sectario ou por odio é
religiío católica ou á Igreja.

3. Segue-se que os sacramentos e as preces públicas nao deverSo ser


recusadas aos que pedirem a incineracio de seus corpos, a menos que soja
evidente que tal pedido foi feito pelos motivos ácima, contrarios á doutrí-
na crista".

4. Para nao debilitar a estima do povo cristio á tradlcSo eclesiástica e


para mostrar a aversao da Igreja á incineracio, os ritos das exequias eclesiás
ticas e dos sufragios ulteriores nunca poderio ser celebrados no lugar da pro-
pria incinerado. Também nao se deverá acompanhar o carpo até aquele
local".

Esta legislacao. que já reconhecia a legitimidade da cremacao por mo


tivos pragmáticos, aínda foi abrandada pelo Ritual dos Funerais publicado
aos 15/08/1969, que suprimiu a proibicao do n.4 anterior:

"Aqueles que preferirem a incineracáó de seus cadáveres, dever-se-á


conceder o rito dos funerais cristáos, exce to se for evidente que fizeram tal
escolha por motivos hostis á doutrina crista... As exequias serio celebradas
segundo o estilo usual na regiáo, de tal modo, porém, que nao se dissimule a
preferencia da Igreja pelo sepultamento dos cadáveres á semelhanca do que
o Senhor mesmo quis para si; evite-se escandalizar os fiéis ou causar-lhes
surpresa.

Os ritos previstos para a cápela do cemitário ou para junto do túmulo


podem, em tal caso, ser efetuados no lugar mesmo da incineracáó e até, na
falta de outro lugar apropriado, junto ao forno crematorio, évitando-se pru
dentemente provocar escándalo ou parecer favorecer o indiferentismo re
ligioso".

Finalmente o atual Código de Direito Canónico datado de 1983 en-


dossou tal prática, ao declarar muito brevemente:

"A Igreja recomenda vivamente que seja conservado o piedoso costu-


me de sepultar os corpos dos defuntos; todavía ela nio proibe a cremacio, a
nio ser que naja sido escolhida por motivos contrarios á doutrina cristi"
(canon 1176.53).

E a inda:

127
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 334/1990

Canon 1184 § 1Í "Dgvem ser privados das exequias eclesiásticas, a


nao ser que antes da morte tenham dado algum sinal de penitencia eclesiás
tica:

29 os que tiverem escolhido a cremacao de seu corpo por motivos


contrarios á doutrina crista"".

Este percurso histórico evidencia bem que a aversao da Igreja á crema-


cao nunca foi devida a principios dogmáticos, mas era condicionada pelo sig
nificado que os materialistas davam a tal prática,... significado contingente,
mas que ¡mplicava urna contradicho á fé católica.

Em nossos dias, desde que se peca a cremacao por motivos pragmáti


cos, a Igreja nao se opoe á prática... Entre as razoes mais aduzidas atualmen-
te, contam-se: a higiene (o mito de urna morte "limpa"), o urbanismo (os
grandes espacos ocupados pelos cemitérios tornam-se ociosos), a ecología (a
térra pertence aos vivos!), o progresso (a cremacao é praticada nos países
mais ayancados em tecnología), a economía (alega-se erróneamente o menor
custo financeiro da cremacao)... Além disto, porém, os observadores julgam
poder descobrir na onda ascensional da cremacao um elemento sutil, subja-
cente, que passamos a considerar, visto ser assaz importante.

2. Cremacao: urna reflexáo sobre o fenómeno

Um fato urbanístico chama-nos a atencao.

Na Idade Media crista, o cemitério nao constituía urna área á parte,


mas se situava em torno da ¡greja principal da cidade, portanto nos centros
urbanos, grandes ou pequeños. Parecía desempenhar certo papel dentro da
sociedade, unindo os vivos e os monos no quadrodeuma grande familia,
cujos membros coabitavam. Isto quer dizer ainda que o cemitério nao era
escondido ou ocultado aos olhares dos viventes, mas bem caracterizado por
sua arquitetura e seus sinais, que falavam da morte e da sobrevivencia pos
tuma. — Ainda hoje há remanescentes desse tipo de cemitérios vastos, espe-
taculares e monumentais; além dos que existem ñas cidades do Brasil, sejam
citados o do Pére-Lachaise de París, o Cemitero Monumentale de Milao, o
Stagüeno de Genova, o Forest Lawn Memorial Park perto de Los Angeles...
Sao necrópoles, cidades dos mortos, bem definidas como tais.

Nota-se, porém, nos tempos atuais urna tendencia a apagar, tanto


quanto possível, os sinais da morte. Esta parece tornar-se algo de tafo horren
do que até os seus símbolos clássicos sao removidos do convivio dos mor-
tais. A ¡mortalidade ou a sobrevivencia parece ser um "antigo sonho", produ-
to de mentalidade simplona ou de imaginacao fecunda. O famoso mentor da

128
A CREMACÁO DE CADÁVERES 33

Revolucao Francesa, Maximilien de Robespierre (t1794), tinhaa crenca na


ressurreicao como urna "ficcao necessária". A morte é o silencio e impóe o
silencio sobre a própria morte e o post mortem. "Os vivos tém medo dos
mortos; tém medo principalmente da morte" (G. de Menasce).

Se náo.há mais lugar para o "antigo sonho" da ¡mortalidade, também


já nao deve haver espaco físico para exprimi-lo..., nao deve existir "térra dos
mortos". É o que se verifica em algumas sociedades contemporáneas; ai os
cemitérios váo desaparecendo ou tornando-se algo cada vez mais vago e des
caracterizado.

Urna das maneiras de realizar essa chamada "estética do desaparecí-


mentó" consiste em assemelhar os cemitérios a parques ou áreas verdes, ñas
quais até as criancas se divertiriam. Tal é a tendencia dos anglo-saxoes.1

Outra forma da "estética do desaparecimento" concebe as necrópoles


como imóveis modernos ou edificios-torres, que nao se distinguem dos de-
mais no conjunto de.predios das cidades.

Segundo estas duas maneiras de proceder, já nao aparecem novos ce


mitérios nos ambientes dos vivos, mas, ao contrario, ocultam-se ou dissimu
la m-se as necrópoles ou as cidades dos mortos.

Outro comportamento, mais radical ainda, é observado mais recente-


mente: há projetos de necrópoles subterráneas, de tal modo que os cemité
rios sao, por sua vez, "enterrados" ou subtraídos aos olhares dos viventes.

Por último, verifica-se em alguns casos que se vém repetindo: no plañe-


¡amento de novas cidades, os urbanistas simplesmente esquecem-se de prever
um espapo para os mortos.

Todos estes fatos parecem ter urna raiz comum, a saber: o desejo de
afastar a recordacao da morte. Esta, quando nao pode ser silenciada, é tra
vestida ou relegada para as fronteiras do invisível. Nada mais se tema dizer
sobre a ¡mortalidade e a sobrevivencia; no próprio interiorl das necrópoles, os

1 Em 1986 o Deputado Freitas Nobre no Brasil elaborou um projeto que


transformava os cemitérios em jardins de lazar e de pesquisas científicas. Os
mortos seriam enterrados em posicSo vertical; em cima dos cadáveres coto-
car-se-iam estrume e adubantes a fím de tomar o solo fértil, e neste se plan-
tariam árvores e vegetáis destinados a proporcionar bem-estar a quem dase-
jasse passear, e materia de pesquisas aos estudiosos da flora e da fauna. Cf.
PR 293/1986, pp. 475-478.

129
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 334/1990

túmulos sao estandartizados, mudos, atrofiados em sua simbologia. Os ami


gos cemitérios parecem ilhas estranhas no conjunto urbanístico.1

É sobre este fundo de cena que se pode considerar a cremacao em nos-


sos dias. Nao seria ela, ao menos em alguns casos, a expressao do anseio, ca
da vez mais difundido, de apagar os vestigios da morte?

Esta, alias, comeca a ser escamoteada nos hospitais: em nome da técni


ca médica ou da obstinacao terapéutica, o paciente é ¡solado; a assisténcia
que se Ihe presta, é estritamente profissional, ás vezes impessoal; o doente se
vé cercado de aparelhos e de profissionais que observam os registros da apa-
relhagem, ás vezes em dolorosa solidao {visto que os entes mais caros só fu
gazmente o podem abordar).2

Urna vez averiguada a morte, os técnicos se empenham por fazer desa


parecer o cadáver... A morte é marcada por um interdito ou um tabú, mais
forte do que o do sexo.3

A cremacao vem a ser uma ulterior etapa de apagamento da morte. É


a maneira mais científica, mais limpa, mais eficaz e mais rápida da elimina-
cao de cadáveres que se tornam embaragosos, onerosos, talvez insuportáveis,
para os sobreviventes. Embora nao seja mais económica, é a forma de dis
pensar os vivos de conservar o túmulo e visitar os monos no cemitério. As
cinzas ou sao guardadas em columbarios de modo muito impessoal ou ati-
radas dentro das aguas de rio ou de mar ou lancadas ao ar num jardi m de
saudades... A cremacao tornou possfveis os genocidios cometidos por Adolf
Hitler: o problema dos carrascos nao era o de matar, mas o de se desfazer
dos montees de cadáveres...

Verdade é que a perspectiva da incineracao suscita muitas vezes certa


repulsa ou mesmo o desespero. É também verdade que as razoes alegadas em

1 Nao há düvida, as observacoes ácima sao muito mais consentáneas com a


realidade européia do que com a brasileira. Verificase, porém, que as ten
dencias de além-mar vio penetrando aos poucos em nosso país e ganhando
voga crescente em nossos centros urbanos.

2 Nada se pode objetar ao emprego da técnica médica e dos protxdimentos


mais requintados da ciencia (desde que nib fíram a Ética). Mas o que muitos
pensadores registram. é que os recursos modernos condenam freqüentemen-
te o enfermo a uma solidio dolorosa, na qual Ihe falta o acompanhamento
dos familiares e amigos.
3 Sabemos que Freud julgava serem o Eros e o Thánatos, o sexo e a morte, o
amor e a agressividade, os dois impulsos fundamentáis do ser humano.

130
A CREMACÁO DE CADÁVERES 35

favor da cremacao podem ser sinceras e fundamentadas: higiene, urbanismo,


ecología, progresso, economía (?)... Mas nao se pode negar que exprimem
outrossim o modo de pensar (consciente ou inconsciente) de urna sociedade
secularizada ou dessacratizada, ... sociedade para a qual a dedicacao de tem-
po gratuito e ritual aos monos nao tem sentido, visto que há tafo pouco
tempo para dedicar aos ¡nteresses dos vivos. Os pacientes que pedem a cre
macao de seus cadáveres para nao onerar a sua familia, corroboram essa lo
gística tecnicista, aínda que só pensem em aliviar os seus parentes.

A bem da verdade, pódese crer que a voga da cremacao nos países


ocidentais se deve, em parte, também á influencia das religioes orientáis, es
pecialmente da India. Para estas, o corpo é o involucro perecível que o espi
rito depoe na hora da morte, a fim de poder revestí r-se deoutro involucro
na próxima reencarnacáo. Esta conviccao, sem dúvída, subestima ou reía-
tiviza o valor do corpo que cada individuo tem na vida presente. Outra é a
concepcao crista, que admite urna só passagem do homem por esta térra e,
por isto, aprecia grandemente o corpo humano como sendo instrumento e
teatro do aperfeicoamento ou da auto-realizacao da almr humana.

Em alguns casos, os familiares pedem a urna portadora das cinzas do


defunto a fim de a guardar em casa... A intencao pode ser boa ou ditada por
saudades. Parece, porém, contraditória em relacao ao rito da cremacao, que
é a forma mais radical de acabar com algo que se torna oneroso e indesejado.
A experiencia ensina que em alguns casos a presenca da urna em residencia
da familia tem dado origem a ritos familiares e fantasiosos; restauram o cul
to dos mortos, que a incineracao parece querer apagar.

Passemos a urna

3. Conclusao

Nao há dúvida, a incineracao tem seus aspectos válidos e positivos; po


de implicar beneficios para a sociedade contemporánea. Mas nao deixa de
ter seu caráter ambiguo: ela entra em voga precisamente numa época em
que a imagem da morte tende a ser apagada da memoria dos vivos; a incine
racao á, sem dúvida, urna forma expedita e sumaria de contribuir para esse
apagamento da morte... Ora a fuga do conceito de morte e dos seus símbo
los nao sonriente é anticrista, mas é também anti-humana. Com efeito; a mor
te é a única certeza que a enanca pode ter ao nascer; é o grande Norte que
deve nortear toda a existencia terrestre de. alguém. Já os amigos romanos
diziam: "In ómnibus réspice finem. — Em tudo o que facas, considera o
fim". É o fim que dita as etapas da caminhada e que indica o rumo a seguir;
quem nao quer pensar no f¡m,'torna-se um barco á deriva das ondas e nao
vé sentido em sua existencia. Dai a importancia de nao se esquecer o desfe-

131
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 334/1990

cho da vida humana; esta pode ser comparada a um livro, do qual cada dia o
indivi'duo escreve uma página e que há de ser revisto e entregue lúcido, poli-
do e rico de mensagem aos sobreviventes no dia em que o autor terminar sua
jornada terrestre. - Para o cristao, estas ref lexoes filosóficas sao mais signi
ficativas ainda, pois ele sabe que a morte nao é uma ruptura, uma perda, mas
é a transí pao para a plenitude da vida; nesta perspectiva, a morte perde o seu
caráter horrendo e detestável, para tornar-se a consumacao almejada por
muitos e muitos justos no decorrer da historia. Santa Teresa dizia: "É tempo
de acabar esta noite de má pousada!" ou ainda: "Senhor, é tempo de nos
vermos!"

Ao enfatizar estas verdades, nao tencionamos contradizer as tenden


cias modernas de evitar o masoquismo ou as atitudes macabras, sentimentais
e teatrais que a morte suscitou em tempos passados. É oportuna, sim, a rea-
cao a tal desolacao. A fé crista só pode apoiar e fortalecer atitudes sobrias e
comedidas perante a morte; a Liturgia dos defuntos hoje em dia canta o Ate-
luia, á diferenca do que acontecía outrora. Mas o que a fé crista nao aceita,
é o apagamento da realidade da morte e dos seus símbolos; é a fuga sistemá
tica de tal recordacao como se fosse algo de feio ou um tabú. O cristao te-
nha em vista diariamente a possibilidade da morte, que nao pede licenca e
muitas vezes nao manda aviso previo; enquadre este desfecho dentro de uma
prospectiva de confianca e otimismo..., confianca e otimismo que tém seu
fundamento na Paiavra de Deus, á qual cada individuo responderá mediante
uma conduta de vida íntegra ou fiel á sua vocacao. Quem vive de tal modo,
vai perdendo o medo da morte, para considerá-la cada vez mais como colhei-
ta feliz de uma farta semeadura ou como plenitude de uma vida interior que
vai desabrochando aos poucos no decorrer da existencia terrestre.

Bibliografía:

ANGUÉ JEAN-LOUIS. Incinération et rituel des funárailles, em Etuda*,


dezembro 1985, pp. 663-676.

BAGNARD. GUY Les incinórations et l'Eglisa, em La Documentation Ca-


tholique.n. 1993. 5/11/1989, pp. 961s.

LOTZIKA, INÉS, Incinération: malaiie pour un dernier adieu, em Etudes,


dezembro 1985, pp. 657-662.

SCHLEGEL, JEAN-LOUIS, Logiques de l'incinórstion, em Etudes, dezem


bro 1985, pp. 677-680.

URBAIN, JEAN-DIDIER, Les «metieres d'Ocddant, em Etudes, aoüt-sep-


tembre 1982, pp. 193-203.

132
Otimismo ao máximo:

"O Fascinante Poder da Mente"

por Germano de Nováis

Em símese: 0 Prof. Germano de Nováis afirma com insistencia que a


mente humana d'tspoe de enormes poderes, mediante os quais o homem con
seguirá um dia até mesmo transferirse para outras galaxias. — Deve-se reco-
nhecer que o otimismo e a sugestao positiva predispoem a pessoa ao éxito
em seus empreendimentos. Todavía G. de Nováis parece ir mais longe, admi-
tindo urna energía derivada da mente. Esta se exerceria especialmente na
oracSo. Assim a prece é desvirtuada, como também o conceito de Deus é
confundido no livro com nocoes pantefstas, embora o autor faca questao de
dizer que recusa o panteísmo. O livro pode oferecer suas vantagens, incutin-
do paz e esperanca, mas é ambiguo pelo teor geral de suas páginas.

0 Prof. Germano de Nováis é membro da Academia Rio Grandense de


Letras, autor de poesias, romances e também de livros de Psicología. Urna de
suas últimas obras intitula-se "O Fascinante Poder da Mente",1 obra que
tenciona disseminar otimismo e confianca com muita eloqüéncia e con vi c-
cao, mas que nao deixa de suscitar interrogacoes. Visto que a temática está
muito em voga (tenham-se em vista os Cursos e os livros de Controle e Trei-
namento da Mente), analisaremos de parto o trabalho de Germano de Nováis
e procuraremos refletir sobre ele.

1.0 conteúdo do livro

A tese do autor é brevemente formulada em frase da 4a. capa: "Em


vocé, em mim, dentro de cada ser humano existe esse poder realmente fasci
nante. Acredite no poder das idéias! Pensamentos sao energías naturais, que
criam a realidade que pensamos. Este livro Ihe mostrará caminhos de luz e
de progresso... Vocé comprovará o poder fascinante de sua própria mente".

1 Ed. Loyola, Sao Paulo 1989. 140x2Wmm, 125pp.

133
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 334/1990

A mente humana é, contorne o autor, a mais poderosa das energias na-


turáis de que o homem dispoe; cf. pp. 7. 14. Em conseqüéncia, "somos do-
nos de um poder fantástico. Sim, o fascinante poder da mente existe em
cada ser humano normal. 0 pensamento é a maior energía natural que existe
dentro de nos. Somos o molde do nosso pensamento. Somos o que pensa
mos" (p. 14).

Entre os varios efeitos estupendos produzidos pela mente, o autor


enuncia: 1) formacao de personal¡dade sadia (p. 23), libertacao do medo {p.
31), vitória e mudanca de vida (p. 45), coloracaodos pensamentos (p. 53),
auto-realizacao (p. 61), fazer sonhar e programar sonhos (p. 69), abrir cami-
nhos (p.79), encarar e preparar o futuro (p.89), fazer amar e perdoar (p.
95), produzir a percepcao extra-sensorial (p. 105). Em conclusáo, o autor
ensina:

"As idéias lúcidas, as idéias com clareza de cristal, tém um poder sin
gular. Sao como urna clareira numa floresta. Importa, pois, cultivarmos
idéias claras ou ter clareza do que a nossa mente humana pode e. nao pode.
Se a dúvida destrói a fé, a falta de idéias claras gera confusao. E mente
confusa nao conduz ao éxito" (p. 117).

"Quem pensa vitória e acredita no pensamento que nutre, tornase vi-


torioso, porque o pensamento da vitória éa energía que nos toma vitoriosos.
Assim o pensamento de medo é urna energía negativa que cria a realidade que
tememos. O pensamento de felicidade gera os momentos felizes que nos fa-
zem vibrar de energía" (p. 119).

Isto significa "entrar em Alpha", que é o nivel de Deus:

"A Mente Divina é criatíva, cheia de paz e harmonía. É Alpha perene.


A nossa mente humana, quanto mais entrar em nivel de paz e harmonía, ni
vel Alpha, nivel de Deus, mais refletírá a imagem e a semethanfa de Quem a
criou"(p. 124).

O livro, através de repetidas afirmacóes, quer incentivar o leitor a con


seguir os efeitos mais maravilhosos desde que saiba utilizar o poder de sua
mente pensando em coisas positivas e grandiosas.

Tais dizeres suscitam

2. Reflexoes

Proporemos quatro considerares:

134
"O FASCINANTE PODER DA MENTE" 39

2.1.0 poder da «jgestao

É certo que a mente humana possui o poder de dispor o respectivo su-


jeito para uma atividade intensa e fecunda como também para a inercia e o
desánimo. A auto-sugestao ou o autocondicionamento tém enorme repercus-
sao na conduta da pessoa. Por isto é importante suscitar no público oti mis
mo, confianpa na vida, vontade de vencer, como também é de grande valor
combater o pessimismo. Germano de Nováis, porém, parece exagerar quan-
do escreve:

"Novas descobertas no futuro acabaño levando o homem a conquistar


o universo e, portento, a sair do sistema solar. As antenas cósmicas jé come-
caram a'ser implantadas em muitas mentes. 0 fascinante poder da mente hu
mana — fagulha maravilhosa da Mente Divina — nao só deve levaroshomens
a cultivar a sabedoria de nao se autodestruirem, mas a enfrentar fronteiras
nunca antes imaginadas do espago cósmico. Estamos cada vez mais próximos
de uma era cósmica, em que muitos homens deixarSo a térra para irpovoar
outros planetas, talvez em outras galaxias, bem distantes do sistema solar.
Deus deu ao homem este poder gigantesco. Precisamos apenas usar o poder
da mente... Daqui para frente, o progresso da tecnología surgirá numa veloci-
dade ultra-sónica" (p. 49). cf. p. 51.

2.2. Panteísmo

0 otimismo de G. dé Nováis se deve, em parte, as concepcoes panteís-


tas que ele professa, embora em varias passagens tente recusá-las. — Com
efeito; no texto atrás citado afirma que "a mente humana é fagulha maravi
lhosa da Mente Divina" (p. 49).

Á p. 108 escreve:

"Somos filhos de Deus e em cada um de nos se esconde uma fagulha


faiscante do poder do pai da Vida". Eáp. 94:

"0 pensamento humano é como uma fagulha, uma falsea, um rato de


luz, uma centelha divina escondida dentro de nos... e que pode a cada mo
mento... dourar de auroras toreáis o nosso porvir" (p. 94).

Ora é ilógica a rtocao de centelha divina. Supoe que Deus seja quanti-
tativo e sujeito ás leis da Física dos corpos, quando na verdade Deusé ¡ma
terial ou espiritual; nao se reparte em parcelas nem fagulhas. O autor parece
ter consciéncia disto ao afirmar que Deus críou o Universo e o homem — o
que significa que o mundo e o homem nao sao emanacóes de Deus (pp. 123-
25).

135
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 334/1990

Verificase, porém, que G. de Nováis nao é preciso nem claro em Filo


sofía. Assim, por exemplo. assevera que, como Deus é uno e trino, "também
o homem é uno e trino. Uno, forma um todo. Trino, porque é composto de
corpo, alma e espirito" (p. 123). Á p. 110 escreve: "A mente e o corpo sao
substancias independentes, com acoes autónomas, mas podem agir intima
mente unidos". Na verdade, a Filosofía perene afirma que o homem se com
pre de corpo e alma; esta é o principio vital do ser humano, principio vital
que Ihe permite desempenhar todas as suas funodes vegetativas, sensitivas
e intelectivas.

Á p. 122 o autor diz que "a Mente Divina é energia infinita, todo-po
derosa, capaz de criar as energías finitas". — Ora a expressao "Mente Divi
na" lembra a locuelo "Mente Cósmica" do panteísmo, Mente Cósmica que
é também assemelhada á energia nos sistemas panteistas.

Ainda á p. 122 lé-se: "A materia - que é energia — pode nascer da


energia do pensamento divino" e "As energías do Universo ... nasceram do
poder criativo da Mente Divina". — A combinacao de nascer e criaré inviá-
vel: criar é produzir a partir do nada, ao passo que nascer é proceder de dois
genitores a partir das respectivas se mentes vitáis. Nováis quis usar o verbo
"nascer" em sentido metafórico; num livro científico, porém, prefere-se a
linguagem precisa, isenta de ambigüidades, principalmente quando se fala de
Deus.

Á p. 17 há mencao das "¡mensas esperancas de Deus". — Na verdade, a


esperanca é própria de quem tende ou está em via — o que nao é'o caso de
Deus.

Ainda á p. 17 lemos: "Quem cultiva o nivel Alpha, cultiva o nivel de


Deus, que é Alpha perene, paz infinita, amor e sabedoria sem fim". — Mais
urna vez, estranha afirmapao: aplicase a Deus um conceito que supoe a nos-
sa ¡mperfeicao, pois nos, que podemos estar em Alpha, também podemos es
tar em Beta...

2.3. Oracao

Em particular no tocante á oracao, Nováis cede á tentacao de muitos


psicólogos: identifica a oracao com urna energia que parece paralela á ener
gia física:

"Existem energías físicas como a energia muscular, a energia solar, a


própria energia nuclear.

136
"O FASCINANTE PODER DA MENTE" 41
~—■ ¡ -^—^^^^^^—

Existem energías moráis, como a energía do caráter, que pode tornar o


homem firme em suas afirmacSes ou decisdes.

Existe a energía mental, que imprime no pensamento, nSo importa se


positivo ou negativo, uma forca singularmente grande.

Existe aínda uma energía sobrenatural, o poder da oracao, em que a fé


e a confíanca em Deus, que é o poder infinito, nos concede uma forca sobre
humana, uma energía que transcende a natureza, o tempo e o esoaco"
(p.118).

A oracao parece ter sua eficacia na base de uma opera gao energética
realizada pela mente:

"Vocé pode mudar a sua vida para melhor. Mas só o poderá se usar o
fascinante poder da sua mente. Mesmo quando vocé está orando na paz e no
silencio do seu coracio, vocé está usando a sua mente humana para atraír a
paz e a grapa divina. O maior poder natural do homem está na sua mente.
Pela mente se operam todas as transformares. Usemos bem a nossa mente.
Nos temos essepoder maravilhoso á nossa disposifSó" (p. SI).

■ Na verdade, a mente pode emitir ondas, segundo alguns estudiosos.


Mas a oracáo nada tem que ver com isto; ela nao se baseia em forcas físicas
nem em poderes mentáis, mas na fé e no amor com que alguém se coloca di
ante de Deus. É preciso distinguir bem treinamento psíquico e oracao ;aque-
le tem suas regras, é comensurável ou matematizável; ao contrario, a oracao
resulta da acao da grapa e do Espirito Santo no homem (cf. Rm 8, 26s) -
o que ultrapassa toda concepcao da Física.

2.4. Profecía

A profecia, segundo a doutrina católica, é um carisma ou dom de


Deus, distinto da percepcáo extra-sensorial ou de qualquer percepcao pre
monitoria. A profecia, sendo carisma especialmente concedido por Deus,
nao falha, ao passo que as faculdades psíquicas e parapsíquicas podem fa-
Ihar. - Daía inconveniencia da afirmacáb: "Quando videntes ou clarividen
tes, como Moisés, Daniel, Nostradamus, prevéem acontecimentos ou de-
monstram poderes paranormais, sao apenas imagens vivas da infinita sabedo-
ria e clarividencia de Deus. Quando a Virgem María... predisse que todas as
nacóes a chamariam bem-aventurada, demonstrou ser a mais clarividente de

(continua na pág. 109)

137
A via áurea:

Feminismo e Feminilidade

Em símese: Atónica Perin Diezpropoe o sentido do auténtico feminis


mo, que nSo há de sera imitacao do homem fpois isto subordinaría a mulher
ao modelo masculino), mas sim a possibilidade de pleno desenvolvimento
das virtualidades que a mulher possui como pessoa e como coletividade fe-
minina. "O homem que deu nome e lugares coisas, adotou a autorídade pa
ra manter seu ser. A mulher escolheu outro caminho: sua missSo nSo 6 do
minar, é desarmare, assim, afirmara vida."

* * *

Publicamos o artigo da Sta. Ménica Perin Diez, publicitaria, que traba-


Ihou em televisao e atualmente vive em Curitiba como Assessora de Comuni-
cacSo da Associacao de Mulheres de Negocios e Profissionais do Paraná.
Também coordena um Clube de Atívidades Extra-escolares para meninas de
oito a doze anos.

A Sta. Ménica Diez sejam consignados os agradecímentos da RedacSo


de PR por esta sua valiosa colaboracSo.

Basta abrir os jomáis, ligar a televisao ou o radio para chegar a urna


conclusao: a mulher vem conquistando seu "lugar ao sol", tao reclamado
através dos sáculos.

Este alvorecer de nova era para a muther vem trazendo urna serie de si-
tuacóes inéditas. Questiono aqui se nos, mulheres, sabemos assumi-las ou se
nao nos estamos deixando levar por preconceitos, tomando urna posicSo de
"defensiva", evitando, quase com repugnancia, os remanescentes daquela
mulher que vimos em nossas avós. Ser mulher, para algumas, tornou-se urna
carga ¡nsuportável, um estigma contra o qual se deve lutar, abolindo-se
quaisquer diferencas entre homem e mulher. No entanto, a mulher se esque-
ce de que, ao tentar igualar-se, assemelhando ás do homem as suas caracte
rísticas próprias, corre o perigo de converter-se num ser híbrido, competiti
vo, metido na esfera do homem, sem conseguir mais do que urna imitacao

138
FEMINISMO E FEMINILIDADE 43

incompleta das qualidades e dos modos masculinos. Nessa falsa libertacao, é


abandonada a consideracao de determinados conceitos como familia, lar,
amor, feminilidade, que, por mais que o desejemalgunse algumas.nao pas-
saramde moda.

Emancipar-nos é o mesmo que dizer possibilidade real de desenvolví-


mentó pleno das virtualidades que possuimos, como individuos e como mu-
Iheres. A igualdade de direitos, de.oportunidades diante das leis nao suprime
a diversidade entre os sexos. Pelo contrario, essa diversidade é estimulada,
servindo assim para melhor desenvolvi mentó da sociedade. Por isto, ao aban
donar suas características de mulher-pessoa, a muiher se vé discriminada e.
interiorizada. A feminilidade é corrompida, ochamado "cavalheirismo" desa
parece e amulher, que antes era impedida de sair, trabalhar fora, freqüentar
os mesmos ambientes dos homens, vé-se impedida de ter um lar, urna fami
lia, amá-los e ser feminina, sem ser rotulada de "escrava", "amélia".

Para urna auténtica realizacao pessoal, é urgente que a muiher assuma


sua identidade de maneira ativa, procurando desenvolver as qualidades que
I he sao próprias. Todas as tarefas sao nobres e realizadoras, se desempenha-
das com a finalidade de prestar um serví po de busca de melhora da pessoa e
da sociedade.

O que a muiher deve almejar antes de qualquer identidade com o-ho-


mem, é o reconhecimento de sua dignidade como pessoa. Podemos dizer que
entre homem e muiher existem idéntica dignidade, mas funcóes distintas. E,
essa dignidade, a muiher a encontra tanto ao dirigir urna empresa como ao
fazer um bolo de chocolate. Ser pessoa implica muito mais do que simples-
mente existir ou exercer tarefas. Urna pessoa nao é somente aquilo que faz.
Realiza determinadas possibilidades próprias de sua natureza. Ambos - ho
mem e muiher — possuem a natureza humana com suas características essen-
ciáis, que se manifestam de maneira diversa nao só em cada um dos sexos
como em cada um dos individuos. É ¡sto o que chamamos personalídade: o
que nos faz ser "cada um" e nao "o outro". A imitacSo do outro — no caso,
o homem — levaría a muiher a nao realizar suas potencialidades origináis e a
colocar-se em posicáo de inferioridade, reprimindo seu desenvolvimento.

A capacidade de afetar e afetar-se, no homem e na muiher, apresenta


diferentes matizes. O homem questiona a existencia. Está sempre inquieto
pela reaiidade do ser. Neste sentido podemos dizer que é um ser "fora de si".
A vida, para ele, é mais antagónica. Está de frente as coisas. Seu existir ó
urna reta, na qual está mais voltado á lógica. A muiher á um ser metido em si
mesmo. Profundamente imersa nos matizes de sua persona I idade, está tafo
firmemente ancorada á última reaiidade metafísica do mundo, que faz pou-
co esforpo por explicá-la e estruturá-la. A muiher é, nao fala sobre o ser. O

139
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 334/1990

principio feminino é dar nova vida, tendendo a centralizar o interesse no ser


humano concreto. Portanto, nao cabem na natureza feminina manífestacoes
contra a vida, como o aborto, ou urna mesquinha economía da f un pao gene
rativa. Tais atitudes ferem a dignidade humana e reduzem a mulher a um
simples animal para procriacao, controlada por programas de planejamento
populacional.

O verdadeiro direito da mulher é exercer sua liberdade para melhor al


canzar seus fins. E ela os alcanca no lar, na escola, no trabalho, onde é neces-
sária por sua condicao natural de diálogo, que contribui para que seja supe
rada a massificacao, para que entre protestos violentos e ruidosos permane-
cam sempre em pé a vida e a esperanca.

Nao é só a mulher que reivindica o reconhecimento de sua dignidade.


É a própria sociedade que reclama sua presenca e deve esperá-la, com a in-
tencao de abrir sulcos a um ambiente cada vez mais humano, superando de-
feitos a que ás vezes o mundo fica exposto por urna ordenacao exclusiva
mente masculina.

Para a mulher, este enorme horizonte obriga-a a um profundo con he-


cimento de seu ser e de sua condicao de pessoa, assim como a viver profun
damente no lar, na rúa, no escritorio, ñas classes, com seu modo específico,
junto aqueles que compartíIham de seu tempo, amor e trabalho.

A mulher está imersa na paixao do vital, concreto e abarcável. Tem


predi lecao pelo individual: pronuncia-se sobretudo pela esperanca e a forta
leza. Sua capacidade de doacfo vai unida á possibilidade de perder, sem per
sistencias triunfalistas. O homem, que pos nome e lugar ás coísas, adotou a
autoridade para manter seu ser. A mulher escolheu outro caminhorsua mis-
sao nao é dominar, é desarmar e, assim, afirmar a vida.

(continuado da pág. 144)

creio? Por que creio em Jesús Cristo? ... na Igreja Católica? ... na Eucaris
tía?" É o que já Sao Pedro preconizava no sáculo I: "Estai sempre prontos a
dar razao da vossa esperanca a todo aqule que vola pede" (1Pd 3,15).

É a esta conclusao que nos leva a considera cao das devocoes propostas
pelo Ocultismo em torno da Cruz de Caravaca.
Ertevffo Bettancourt O.8.B.
Que ó

A Cruz de Caravaca?

Em símese: A Cruz de Caravaca ó um símbolo cristao que comecou a


ser cultuado durante urna Cruzada contra os mouros muquímanos na Idade
Media em territorio da Espanha (Caravaca ó um Iugarejo da Espanha). Tai
símbolo tomou-se tema de lendas a ponto de se Ihe atribuirem efeitos mará-
vilhosos, de que falam a Umbanda, o Espiritismo, o Esoterísmo... Em suma,
¡nstaurou-se ampio e denso ecleticismo, com tendencias fortes á magia, em
torno da Cruz de Caravaca, que é acompanhada de devocoes congéneres
(Cruz de Constantino, de S. Bartolomeu, de SalomSo, de Oxalá, de Alba-
troz, de Alecrim...). — Este conjunto de devocdes se prende á mentafidade
imaginosa, inspirada pela mística desligada do raciocinio. Nossos días, ingra
tos como sSo, propician! a propagacao de tal procura de solucoes mágicas
para os problemas da humanidade.

Na sociedade pluralista de nossos días, o cristáo é freqüentemente in


terpelado por propostas religiosas aparentemente cristas, que o deixam sur-
preso ou mesmo perplexo. Tal é o caso da Cruz de Caravaca, cruz de dois
bracos, semelhante á dos gregos, que é tida como penhor de copiosas gracas
e béncaos para os seus usuarios. Em resposta aos leitores de PR que tém soli
citado explicacdes a respeito, apresen tamos aquí o que foi possfvel apurar
neste particular.

1. Origem da devocao

Na Espanha medieval (em época que as fontes nao determinam), de-


senvolviam-se cruzadas de cristáos contra os mouros... Em certo momento,
os cruzados, com suas espadas prateadas e suas armaduras reluzentes, viram-
se cercados pelos sarracenos; a sua bandeira branca, portadora da ¡magem da
Cruz, seria destrocada pelos mouros. Quando estavam para capitular, o Du
que Fernao de Andaluzia teve urna inspiracSb divina: invocou os poderes da
CRUZ. Entáo, como se tivessem tocado as trombetas de Jericó (cf. Js 6,20),
os cruzados se ergueram, elevando ao ar a Cruz, dita de Caravaca (pois vinha
de um lugarejo assim chamado) e foram derrotando os adversarios.

141
46 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 334/1990

Durante a noite, entre fogueiras do acampamento, os guerreiros da


Cruz bebiam o vinho da gratidáo. A vitória assim milagrosamente obtida fi-
cou célebre, de modo que os jograis e menestréis a celebravam em versos me-
dievais. A eficacia da Cruz de Caravaca foi sendo mais e mais apregoada en
tre os cristaos, a ponto de se imaginarem estórias e lendas a respeito da
mesma.

No Brasil a Cruz de Caravaca foi ¡ntroduzida por Martim Afonso de


Souza, cuja esquadra também trazia bois e mudas de cana de acucar. Martim
Afonso a colocava junto ao seu coracao. No Nordeste brasileiro, foi-se divul
gando a noticia de novos e novos milagres, obtidos mediante tal Cruz. Mui-
tas mulheres assim tiveram seus filhos curados de febre ou de picadas de co
bra. Até Lampeáo, o rei dos cangaceiros, a usava num rosario de Padrim, fei-
ta com apo.

Na Umbanda é utilizada pelos pretos velhos mirongueiros na prática


da magia.

Foram redigidas muitas oracoes invocando a Cruz de Caravaca, hoje


publicadas em livros especiáis "milagrosos e sagrados". Quem possui um livro
desses, nao o deve emprestar a quem quer que seja, pois "o livro pega as suas
vibracdes, a sua forca; deve ser só seu. Caso um amigo ou um párente neces-
site dele, adquira outro volume, pois por certo estará dando a seu párente
um amigo e um protetor espiritual" (Dados extraídos de O Livro da Milagro
sa e Sagrada Cruz de Caravaca. Pallas Editora, 5a. edicto, pp. 11s).'

Até mesmo o rei Salomao no século X a.C. terá tido, entre os seus te-
souros, a Clavícula de Salomeo e a Cruz de Caravaca - o que é clamoroso
anacronismo, visto que a Cruz é símbolo cristao, mormente se a chamamos
"Cruz de Caravaca".

As oracoes inspiradas pela devocáo á Cruz de Caravaca sao tidas como


poderosíssimas; "contém as chaves da Felicidade e da Fortuna"; sao "preces
de grandes virtudes e eficacia para toda classe de enfermidades"!

Examinemos agora

1 Esta obra, que apresenta urna coletánea de preces, traz a seguinte observa-
cao: "Nesta obra só incluímos as oracSes mais fortes e mágicas. Delxamos de
incluir propositadamente aquetas que nao possuem o PODER DE CURAR E
DE ABRIR OS CAMINHOS" (p.4).

142
A CRUZ DE CARAVACA 47

2. A espi ritual ¡dade respectiva

Quem folheia os livros de oracóes relacionadas com a Cruz de Carava-


ca, verifica que esta se tornou um símbolo polivalente: prende-se ao Cristia
nismo, que é seu berco (pois se refere a Jesús Cristo e aos Santos, ás vezes
identificados com figuras da mitología), á Cabala hebraica (pois acompanha
invocacoes cabalísticas), ao hinduísmo (pois há ai a I usa o aos deuses da In
dia, aos devas, a Ramakrishna). á Umbanda, ao Esoterismo... Supoe-se que a
oracao seja o próprio poder da mente devidamente cultivado e que ela possa
gerar urna córreme protetora em favor do orante (o que tem sabor de pan
teísmo). Tenhase em vista, por exemplo.a passagem abaixo:

"O ser humano tem poderes que desconhece. Só usamos urna parte
mínima denossa mente. Se soubermos aplicar nossa mente, tetemos sucesso.
Pense sempre ñas coisas boas que deseja obter e elas virio a voc$. Assim re-
velaram os que traziam ao paito a cruz em cima da armadura e lutavam con
tra os infléis. Ramakrishna diz: 'Amae tudo viré a ti' " (O Livro da Milagro
sa e Sagrada Cruz de Caravaca, p. 67).

Ao lado da Cruz de Caravaca, os livros esotéricos mencionam as de


Constantino, Constancio, que foram Imperadores bizantinos do século IV, a
de Migné (vista em 1118 e 1855 de modo milagroso), a Cruz luminosa dos
Turcos, a Cruz de Pedras da Cachoeira, a Cruz de Oxalá, a Cruz de Albatroz
(segredo dos mouros)... Eis dois espécimens das estarías relacionadas com
a Cruz; no caso... com a Cruz de SalomSo:

Maneira de fazar urna copia desta poderosa cruz

"Deve ter sete centímetros. O material usado deve ser a anuda pura.

Deve ser cortada numa sexta-feira, ás tris horas da tarde em ponto. E,


depois de feita, deve ser mergulhada no azeite e no mel por algumas horas.

Depois deixa-se secar por algum tempo e deve ser oculta em lugar tal
que nao seja muito bolida ou admirada, é um grande talismSda sorte. Esta
cruz neto é do conhecimentó geral, visto que SalomSo amava suas mulheres,
as sultanas, as libias, as de Sabá, mas jamáis deixou que estas enfiassem os
dedos em sua cruz sagrada. Só a mulher que realmente amar o hqmem deve
pegá-la, pois em caso contrario a cruz se tornará vermelha de pecados"
(ibidem.p.70).

Após esta fantasiosa e anacrónica receita, segue-se outra relativa á


Cruz de Bartolomeu:

143
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 334/1990

"Num livro multo estimado e muito desconheddo, até da maior parte


das pessoas estudiosas, que tem por título VIDA E MILAGRES DE & BAR-
TOLOMEU. echamos a melhor manaira de fazer esta cruz antiga:

Cortemse tres pedacos de pau de cedro, um mais comprído e dois


mais curtos, para formaren) os pedacos, com alecrím, arruda e eipo, e coló-
que-se em cada braco em cima e em baixo da parte mais comprida, urna mas-
sa pequeña de apreste. Deixa-se em agua benta por tres días. E retíra-se da
agua ao dará meia-norte.

Diz-se esta conjurafáb á Cruz:

'A yirtude da agua te Umpé e que me protejas do mal. Livraime das


tantacoes e do mau-olhado, pelo pau de cedro, pelo aipo e pela maca de d-
prgste'" (Ibidem pp. 70s).

Pasemos agora a urna

3. Conclusao

Nao há necessidade de ulteriores dados para se perceber que a devocao


á Cruz de Caravaca e congéneres é produto de fértil imaginacao, agucada por
uma mentalidade mágica. O ser humano é espontáneamente voltado para o
Transcendental. Bem dizia S. Agostinho: "Senhor, Tu nos f izeste para Ti, e
inquieto é o nosso coracáb enquanto nao repousa em Ti" (Confissdes 1,1).
Todavia 6 senso religioso dissociado da lógica ou do racioci'nio corre o ris
co de cair no meramente imaginario ou fantasioso. Esta atitude hoje em dia
se propaga com facilidade, pois vivemos numa época de aversao á metafísi
ca ou de tendencias existencialistas e antiintelectualistas. Alias, parece que
as receitas racionáis e científicas faliram frente aos problemas da humanida-
de contemporánea, de modo que os homens procuram solucoes maravilhosas,
¡rrac¡onais, mágicas, falsamente religiosas, porque totalmente subjetivas e su
persticiosas. Quem adota tal modo de ver, sujeita-se a ser escravizado por si-
nais e símbolos tidos como todo-poderosos e aptos a exigir os.maiores sacri
ficios dos seus adeptos; tenha-se em vista a jneticulosidade em questoes de
horario, local, material de devocáb...; pensemos também na construcao de
um mundo portentoso que os rituais propóem aos seus seguidores, suscitan
do uma fé seni fundamento ou uma crendice forte.

Em conseqüéncia, vé-se a necessidade de um acreditar esclarecido, que


saiba apresemar suas credenciais ao próprio individuo érente e á sociedade;
possa cada cristao ter uma resposta clara e firme para as perguntas: "Por que

(continua na pág. 140)

144
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da face e da verdade de Deus, espelhada na trajetóriá de um viver humano
renascido do sangue redentor-de Cristo. - Assim, o discípulo de S. Bento
ouve o chamado para fazer-se monge, para assumir a "profissao de monge".

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e muito ao dia quanto a problemática atual; a documentacao
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á fé, de aprofundamento em seu estudo, e de meditacao sobre
as riquezas da mensagem crista*' (V.M. Leroy, na "Revue Tho-
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ca controversia entre Católicos"e Protestantes, procurando mostrar que a dis-
cussao no plano teológico perdeu muito de sua razio de ser, pois nao raro,
versa mais ¡sobre palavrás do que sobre conceitorou proposicdes.
Cap. I O Catálogo bíblico: Livros canónicos-e Libros apócrifos. - II Somen-
te a Escritura? - III Somente a Fé? Nao as obras? - IV A Santfssima Trin-
dade: Fórmula paga? - V Ó Primado de Pedro - VI Eucaristía: Sacrificio
e Sacramentó - Vil A ConfissSo dos pecados - VIII O Purgatorio - IX As
Indulgencias - X María, Virgem e Mae - XI Jesús teve irmaos? - XII O
Cultoaos Santos - XIII E as imagens sagradas? - XIV Alterado o Decálo
go? - XV Sábado ou Domingo? - XVI 666 (Ap 13,18) - XVII Vocé sabe
quando? - XVIII Seitas e espirito sectario - Apéndice geral: A era Constan-
tiniana -Epílogo — Bibliografía.

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Batista do Val. Imp. Mosteiro da Santa Cruz. 410p 250,00
— Sao Bernardo e o Espirito Cisterciense — Dom Jean Leclerco.
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— Salterio meu, minha alegría por Ir. Rafaela Pecego, OSB. Aba
dia de Santa Maria. 1988. - Os 150 Salmos desenhados a
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— Salterio - Salmos <S.C3ntícos. Td. dos 150 Salmos aprovada pe
la Comissao Episcopal de Exame e Aprovacao dos Textos
Litúigicos (CEEATL) da CNBB e confirmada pela Sagrada
Congregado para os Sacramentos e o Culto Divino. Tradu-
cao de 53 Cánticos do Antigo Testamento e 22 do Novo,
por Dom Marcos Barbosa, OSB, para uso Monástico. 1989.
500p 320,00

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