P. 1
Personalidade e Crescimento Pessoal Cap.1e2

Personalidade e Crescimento Pessoal Cap.1e2

4.4

|Views: 7.269|Likes:
Publicado porLucas Savio

More info:

Published by: Lucas Savio on Apr 02, 2009
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF or read online from Scribd
See more
See less

08/20/2015

A psicanálise surgiu de modo natural
como fruto de anos de tratamento de clientes.
A teoria baseou-se em algumas premissas cen-
trais. Uma delas era o papel fundamental da
ansiedade na manutenção da neurose (isto é,
comportamento inadaptativo repetitivo).

Ansiedade

O maior problema da psique é como li-
dar com a ansiedade. A ansiedade é desenca-
deada por um aumento de tensão ou desprazer;
ela pode se desenvolver em qualquer situação
(real ou imaginária) quando a ameaça a algu-
ma parte do corpo ou da psique é forte demais
para ser ignorada ou dominada.
Os eventos que podem causar ansiedade
incluem, entre outros, os seguintes:

1. Perda do objeto desejado - por
exemplo, uma criança privada de

portantes, mas inevitavelmente insatisfeitos,
o que a condena a sentimentos de perpétua
deficiência e inferioridade. Apesar destas as-
serções (que previsivelmente receberam mui-
tas críticas na literatura feminista), Freud afir-
mou diversas vezes que achava que jamais
havia realmente entendido as mulheres ou a
psicologia das mulheres. Na verdade, ele rei-
terou muitas vezes o caráter e valor experi-
mental de sua descrição pessoal da sexuali-
dade feminina e suas vicissitudes.
Ele supôs que a sexualidade feminina era
constituída de uma sexualidade masculina de-
sapontada, em vez de representar o resultado
de tendências distintamente femininas. Hoje
esta visão talvez seja a mais fraca das suposi-
ções da teoria freudiana.
A maioria dos primeiros textos psicana-
líticos afirma que a ausência de um pênis na
menina conduz não apenas à inveja do pênis
do menino e a sentimentos de inferioridade,
mas também à real inferioridade, isto é,
inferioridade em ter-
mos de seu senso de
justiça, curiosidade in-
telectual, capacidade
de aplicar suas idéias
independentemente da
aprovação de um ho-
mem, etc. A idéia de
que a inveja do pênis
possa ser um fenômeno
clínico muito real e fre-
qüentemente observa-
do é descartada porque, na mente de muitas
pessoas, ela está muito intimamente ligada à
hipótese da inferioridade feminina generali-
zada. Isso é lamentável, pois, como sugeriu
Karen Horney (1926), a inveja do pênis pode
ser uma experiência natural para as mulhe-
res da mesma forma que a inveja da gravidez,
do parto, da maternidade e da amamentação
é uma experiência natural para os homens.
Ainda mais importante, sentir inveja não
predestina a menina à perpétua inferioridade.
Ao contrário, sua ocorrência, diz Horney, pode
oferecer-lhe um complexo conjunto de senti-
mentos cujo enfrentamento e domínio por par-
te da menina são fundamentais para seu cres-
cimento e desenvolvimento, certamente não
como um ser humano inferior, e sim maduro.
Ernest Jones, o primeiro biógrafo de
Freud, foi um dos primeiros psicanalistas a
afirmar que "o apego edipiano da menina se

Ainda que a anatomia, é
verdade, possa apontaras
características de mascu-
linidade e feminilidade, a
psicologia nâo. Para a psi-
cologia, o contraste entre
os sexos desaparece gra-
dualmente entre atividade
e passividade e, com ex-
cessiva facilidade, identi-
ficamos atividade com
masculinidade B passivi-
dade com feminilidade.
(Freud, 1930)

42

JAMES FADIMAN & ROBERTFRAGER

Psicanálise: a teoria

A intenção de Freud, desde seus primeiros
escritos, era melhor compreender os aspectos
da vida mental que eram obscuros e aparente-
mente inacessíveis. Ele chamou de psicanáli-
se tanto a teoria quanto a terapia.

Psicanálise é o nome (1) de um procedimento
para a investigação de processos mentais que
são quase inacessíveis de outra maneira, (2)
de um método (baseado nessa investigação)

um dos pais, de um amigo íntimo
ou de um animal de estimação.
2. Perda de amor - por exemplo, rejei-
ção, fracasso em recuperar o amor
ou a aprovação de alguém impor-
tante para você.
3. Perda de identidade - por exem-
plo, medos de castração ou perda
do rosto.
4. Perda de amor por si mesmo - por
exemplo, desaprovação de traços
pelo superego, bem como qualquer
ato que resulte em culpa ou ódio de
si mesmo.

Existem dois mo-
dos de diminuir a ansie-
dade. O primeiro é lidar
com a situação de modo
direto: superando obs-
táculos, confrontando
ou fugindo de ameaças,
e resolvendo ou che-
gando a um acordo com
os problemas para mini-
mizar seu impacto. Dessa forma, trabalhamos
para eliminar dificuldades, diminuir as chances
de sua recorrência e também diminuir as pers-
pectivas de ansiedade adicional no futuro. Nas
palavras de Hamlet, "tomamos armas contra
um mar de problemas e por resistência os fin-
damos".

A abordagem alternativa defende-se da
ansiedade distorcendo ou negando a própria
situação. O ego protege toda a personalidade
contra a ameaça falsificando a natureza da
ameaça. Os modos pelos quais as distorções
são empreendidas são chamados de mecanis-
mos de defesa (Anna Freud, 1936) e serão mi-
nuciosamente discutidos no Capítulo 3.

Se o ego é obrigado a ad-
mitir sua debilidade, ele
rompe em ansiedade - an-
siedade realista com res-
peito à aparência do mun-
do externo, ansiedade mo-
ral com respeito ao supe-
rego e ansiedade neuróti-
ca com respeito à força
das paixões no id. (Freud,
1933)

para o tratamento dos transtornos neuróticos,
e (3) de um conjunto de informações psicoló-
gicas obtidas desta maneira, as quais se estão
gradualmente acumulando para formar tuna
nova disciplina científica. (1923, p. 234)

Freud acreditava que o material incons-
ciente permanece inconsciente somente com
considerável e contínuo dispêndio de libido.
Quando este material é tornado acessível, li-
bera-se uma energia que pode ser utilizada
pelo ego para propósitos mais saudáveis. A
liberação de materiais bloqueados pode mini-
mizar atitudes autodestrutivas. A necessida-
de de ser punido ou a
necessidade de sentir-
se inadequado podem
ser diminuídas trazen-
do-se à consciência os
primeiros eventos ou
fantasias que as ocasio-
naram. Por exemplo,
muitos americanos se
interessam por sua atra-
tividade sexual: os pênis são muito curtos ou
muito finos, os seios são muito pequenos,
muito grandes, mal-formados, etc. A maioria
destas idéias surge durante o período da ado-
lescência ou antes. Os resíduos inconscientes
dessas atitudes são visíveis em preocupações
sobre adequação sexual, desejabilidade, eja-
culação precoce, frigidez e inúmeras preocu-
pações relacionadas. Se estes medos não-ex-
pressos são explorados, expostos e aliviados,
pode haver um aumento na energia sexual dis-
ponível, bem como uma diminuição da ten-
são geral.

A teoria psicanalítica sugere que é possí-
vel, mas difícil, entrar em acordo com as de-
mandas recorrentes do id. A análise procura
superar a resistência natural e trazer as me-
mórias e idéias dolorosas reprimidas do id de
volta à consciência (Freud, 1906). "Uma das
tarefas da psicanálise, como você sabe, é le-
vantar o véu da amnésia que esconde os pri-
meiros anos da infância e trazer as expressões
da vida sexual infantil que se escondem atrás
dele para a memória consciente" (1933, p. 28).
Conforme a descrição de Freud, os objetivos
presumem que, ao nos libertarmos das inibi-
ções do inconsciente, o ego estabelece novos
níveis de satisfação em todas as áreas do fun-
cionamento. Conseqüentemente, a resolução
de ansiedades enraizadas na primeira infância
libera energia bloqueada ou deslocada, para

Quanto mais conhecida se
tornara psicanálise, mais
médicos incompetentes
irão praticá-la amadoris-
ticamente e naturalmente
fazer dela uma trapalhada.
A culpa disso será, então,
atribuída a você e sua
teoria. (Jung, em carta a
Freud; em McGuire, 1974)

PERSONALIDADE E CRESCIMENTO PESSOAL

43

uma satisfação mais realista e completa de nos-
sas necessidades.

Sonhos e trabalho do sonho

Á partir das associações livres de seus pa-
cientes, bem como de sua própria auto-anali-
se, Freud começou a examinar os relatos e as
lembranças de sonhos. Em A interpretação dos
sonhos
(1900), ele afirmou que os sonhos aju-
dam a psique a se proteger e satisfazer. Obstá-
culos e desejos não-mitigados preenchem a
vida diária. Os sonhos são um equilíbrio parcial,
tanto física quanto psicologicamente, entre
anseios instintuais e limitações da vida real.
Sonhar é um modo de canalizar desejos insa-
tisfeitos, através da consciência, sem desper-
tar o corpo físico.

Uma estrutura de pensamentos, geralmente
muito complexa, que se construiu durante o
dia e não se estabilizou - um fragmento do
dia - prende-se com firmeza mesmo durante
a noite à energia que assumiu [...] e, assim,
ameaça perturbar o sono. Este fragmento do
dia transforma-se em um sonho pelo trabalho
do sonho e, deste modo, torna-se inofensivo
ao sono. (Freud em Fodor e Gaynor, 1958, p.

52-53)

Mais importante do que o valor biológico
dos sonhos são os efeitos psicológicos do tra-
balho do sonho. O trabalho do sonho é "a to-
talidade de operações que transformam os ma-
teriais brutos do sonho - estímulos corporais,
resíduos do dia, pensamentos oníricos - de
modo a produzir o sonho manifesto" (LaPlanche
e Pontalis, 1973, p. 125). Um sonho não apa-
rece simplesmente. Ele se desenvolve para aten-
der necessidades específicas, embora estas não
sejam claramente descritas pelo conteúdo ma-
nifesto do sonho.

Quase todos os sonhos podem ser com-
preendidos como a realização de um desejo.
O sonho é uma rota alternativa para satisfazer
os desejos do id. Durante a vigília, o ego se
esforça para aumentar o
prazer e reduzir a ten-
são. Durante o sono, ne-
cessidades insatisfeitas
são classificadas, combi-
nadas e organizadas de
modo que as seqüências
do sonho permitam sa-

Reconhecemos a consis-
tência da teoria da realiza-
ção de desejos até certo
ponto, mas vamos além
dela. A nosso ver ela riflo
esgota o significado do
sonho. (Jung, em carta a
Freud, em McGuire, 1974)

tisfação adicional ou redução da tensão. Para
o id, não importa se a satisfação ocorre na rea-
lidade física sensória ou na realidade onírica
interna imaginária. Em ambos os casos, ener-
gias acumuladas são descarregadas.
Sonhos repetitivos
podem ocorrer quando
um evento do dia desen-
cadeia o mesmo tipo de
ansiedade que ocasio-
nou o sonho original.
Por exemplo, uma mu-
lher ativa e feliz no ca-
samento, aos 60 anos,
pode ainda sonhar, de
tempos em tempos, que
está fazendo uma prova
de faculdade. Quando
chega na sala de aula,
descobre que a prova já
terminou. Ela chegou
tarde demais. Ela tem
este sonho quando está
ansiosa com alguma di-
ficuldade atual; entre-
tanto, sua ansiedade
não está relacionada nem com a faculdade nem
com provas, às quais já deixou para trás há
muitos anos.

Muitos sonhos não parecem ser praze-
rosos; alguns são deprimentes, alguns pertur-
badores, alguns assustadores, e muitos sim-
plesmente obscuros. Muitos sonhos parecem
reviver eventos passados, enquanto outros pa-
recem ser proféticos. Mediante a análise de-
talhada de dezenas de sonhos, relacionando-
os a eventos da vida do sonhador, Freud con-
cluiu que o trabalho do sonho é um processo
de seleção, distorção, transformação, inver-
são, deslocamento e outras modificações de
um desejo original. Essas mudanças fazem
com que o desejo modificado seja aceitável
para o ego, mesmo que o desejo original seja
totalmente inaceitável para a consciência ví-
gil. Freud sugeriu motivos para a permissi-
vidade nos sonhos em que agimos além das
restrições morais de nossas vidas despertas.
Em sonhos, matamos, mutilamos ou destruí-
mos inimigos, parentes ou amigos; expressa-
mos em ação perversões e aceitamos uma
ampla gama de pessoas como parceiros sexu-
ais. Nos sonhos, misturamos pessoas, lugares
e situações que seriam impossíveis em nosso
mundo desperto.

Um sonho, portanto, é uma
psicose, com todos os ab-
surdos, delusões e Ilusões
de uma psicose. Sem dú-
vida, é uma psicose de cur-
ta duração, que é inofensi-
va e até desempenha uma
função útil. (Freud, 1940)

Os sonhos não devem ser
equiparados aos sons des-
regulados que emanam de
um instrumento musical
golpeado por alguma for-
ça externa, e não pela mão
de um músico; eles não
são desprovidos de senti-
do, não são absurdos; [...]
eles podem ser inseridos
na cadeia de atos mentais
vígeis inteligíveis; eles são
construídos por uma ativi-
dade altamente complexa
da mente. (Freud, 1900)

44

JAMES FADIMAN & ROBERT FRAGER

Os sonhos são os ver-
dadeiros intérpretes de
nossas inclinações, mas
é preciso arte para sepa-
rá-los e compreendê-los.
(Montalgne, 1580, Ensaios)

Os sonhos procuram realizar desejos, mas
nem sempre são bem-sucedidos. "Sob certas
condições, o sonho só consegue realizar seu
objetivo de uma forma muito incompleta, ou
tem que abandoná-lo completamente; uma fi-
xação inconsciente ao trauma parece encabe-
çar a lista desses obstáculos para as funções
do sonho" (Freud, 1933, p. 29).
No contexto da psicanálise, o terapeuta
auxilia o paciente na interpretação dos sonhos,
para facilitar a recupe-
ração do material in-
consciente. Freud fez al-
gumas generalizações
sobre tipos especiais de
sonhos (por exemplo,
sonhar que se está cain-
do, sonhar que se está voando, sonhar que se
está nadando, sonhar com fogo), mas ele dei-
xou claro que as regras gerais nem sempre são
válidas. As associações pessoais de cada um
com seus sonhos são mais importantes do que
qualquer conjunto preconcebido de regras de
interpretação.

Embora alguns críticos de Freud com fre-
qüência sugiram que ele exagerava os com-
ponentes sexuais dos sonhos para que se con-
formassem com sua teo-
ria geral, a resposta de
Freud é clara: "Jamais
mantive a asserção, mui-
tas vezes atribuída a
mim, de que a interpretação dos sonhos indica
que todos os sonhos possuem um conteúdo se-
xual ou são derivados de forças motrizes sexu-

Os sonhos são reais en-
quanto duram - podemos
dizer mais sobre a vida?
(Havelock Ellls)

ais" (Freud, 1925a, p. 47). O que ele enfatizava
era que os sonhos não são nem aleatórios nem
acidentais mas sim um modo de satisfazer de-
sejos não-satisfeitos.
Um outro tipo de crítica é que as idéias
de Freud foram seriamente limitadas por sua
falta de conhecimento sobre sociedades não-
européias. Na índia, por exemplo, "oself [e seus
sonhos] não são de modo algum tão niti-
damente delimitados quanto o são para nós"
(0'Flaherty, 1984, p. 22), e, nos grupos ame-
ricanos nativos, a função e o entendimento dos
sonhos situam-se fora das
especulações de Freud.
"Na maioria dos modelos
americanos nativos, não
existe separação distinta
entre o mundo sonhado
e o mundo vivido [...].
Em contraste, os mode-
los ocidentais do sonhar
demarcam nitidamente
o sonhar da vigília, e vêem o sonhar como um
estado alterado de consciência biologicamen-
te conduzido, que, não obstante, pode produzir
informações úteis nas mãos de um interpretador
qualificado" (Krippner e Thompson, 1996).
Sand (1999) acusa que a injunção de Freud con-
tra o uso de simbolismo, exceto para conteúdo
sexual, inibiu a utilização mais livre da inter-
pretação de sonhos pelos psicanalistas.

De forma alguma ultrapassada, a pene-
tração de Freud no mundo dos sonhos ainda é
vital e assunto de interesse e debate (Kramer
et ai., 1994).

Freud náo tinha bons mo-
tivos para escolher os de-
sejos Infantis reprimidos,
em relação à emergente
pletora de pensamentos
oníricos inconscientes,
como sendo as principais
forças motrizes de nossos
sonhos. (Grunbaum, 1994,
p.81)

REFLEXÃO PESSOAL
Investigue Seus Próprios Sonhos

Faça uma diário de sonhos mantendo um bloco de anotações ao lado de sua cama. Pela manhã, antes de
fazer qualquer coisa, faça alguns apontamentos sobre seus sonhos. Mesmo que jamais tenha lembrado de seus
sonhos anteriormente, este método irá ajudá-lo a recordá-los. Está comprovado que aqueles que cumprem estas
tarefas recordam-se de seus sonhos regularmente em poucos dias.
Mais tarde, durante o dia, descreva seus sonhos mais minuciosamente. Inclua suas associações com deter-
minados aspectos de seus sonhos. Veja se essas associações apontam para possíveis significados. Por exem-
plo, seus sonhos poderiam ser tentativas de realizar desejos? Tente adivinhar com o quê os diversos segmentos
se relacionam em sua vida. Preste atenção àqueles fragmentos que parecem ser parte de seu "resíduo do dia".
Você percebe alguma coisa que reflete seus desejos ou atitudes com as outras pessoas?
Mantenha este diário por diversas semanas. À medida que for lendo outras partes deste livro, você irá apren-
der outras formas de analisar os sonhos. De tempos em tempos examine seu diário de sonhos e veja se pode
fazer novas interpretações. Atente especialmente para temas ou padrões recorrentes. (Os capítulos sobre Jung,
Anna Freud e os pós-freudianos oferecem outras maneiras de registrar os sonhos.)

PERSONALIDADE E CRESCIMENTO PESSOAL

45

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->