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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESElSfTAQÁO
DA EDIpÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devenios
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanza a todo aquele que no-la
pedir {1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanca e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propoe aos seus leitores:
aborda questdes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.


Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.

A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaca


depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
responderemos
V)

< SUMARIO

Janeiro, o mes da porta

LU
o "Devese crer na Trindade?"

w A SS. Trindade: como ilustrá-la?

O " 1994...": U ma profecía?

<£ Vítimas da pornografía


5
tu Venceu o bom senso
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O
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a.

ANO XXXII JANEIRO 1991 344


PERGUNTE E RESPONDER EMOS JANEIRO - 1991
Publicado mensa I N° 344

Diretor- Responsáve I: SUMARIO


■ Estévao Bettencourt OSB
Autor e Redator de toda a materia Janeiro, o mes da porta 1
publicada neste periódico
Perguntam as Testemunhas de Jeová:
Diretor-Administrador: "Deve-se crernaTrindade?" * . 2
D. Hildebrando P. Martins OSB
Um pouco de Teología:
Administrado e distribu ¡cao: A SS. Trindade: como ilustrá-la? 16
Edicoes Lumen Christi
Dom Gerardo, 40 - 5? andar. S/501 Fim do Cristianismo:
Tel.: (021) 291-7122 "1994...": Urna profecía? 22
Caixa Postal 2666
20001 - Rio de Janeiro - RJ Testemunhos impressionantes:
Vitimas da pornografía 36

ImprossSo o Encadorna;9o
Venceu o bom senso (D. Jaime Coelho) . 47

"MARQUES-SARA1VA"
GRÁFICOS E EDITORES S.A.
Tols.: (02IK73-9498 -S73-9447

NO PRÓXIMO NÚMERO:

Educacao Sexual. - Revelacoes particulares. - Católico e Mapom? -


Coma reversível e Coma irreversfvel. - "Brida" de Paulo Coelho. - Carta
da Albania. - Sao Basilio (+379) e a Defesa da Vida.

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA,

ASSINATURA ANUAL (12 números): Cr$ 1.500,00 - Número avulso ou atrasado: Cr$ 150,00

Pagamento (á ecolha)
1. VALE POSTAL á agencia central dos Correios do Rio de Janeiro em nome de Edi
coes "Lumen Christi" Caixa Postal 2666 - 20001 - Rio de Janeiro - RJ.
2. CHEQUE NOMINAL CRUZADO, a favor de Edicoes "Lumen Christi" (endereco
ácima).
3. ORDEM DE PAGAMENTO, no Banco do Brasil, conta N° 31.304-1 em nome do
Mosteiro de Sao Bento, pagável na agencia Praca Mauá/RJ N? 0435-9. (Nao enviar
através de DOC ou depósito instantáneo - A identificacao é difícil).
Janeiro, o Mes da Porta...

Janeiro, lanuarius em latim. vem de ¡anua, porta. E ¡anua vem de


lanus, o deus de todo comego, conforme a mitología latina. Por ser o deus
de todo inicio, lanus era representado, ñas moedas romanas, com duas faces:
urna olhava para tras e outra para a frente; era o lanus bifrons ou bíceps, que
significava plásticamente o fluxo do tempo. Presidia naturalmente ao pri-
meiro mes e ao primeiro dia do ano. Os romanos principiavam seu ano sob a
tutela de urna divindade própría!

O vocabulario portugués conservou o nome de Janeiro para o primeiro


mes do ano. Este fato nao pode deixar de sugerir aos cristaos algumas refle-
x5es implícitas em tal nomenclatura e - diríamos - derivadas do fundo
mesmo da consciéncia de todo homem:

1) Quem comeca um novo ano, é herdeiro de um passado que nao


pode ser esquecido. Lance um olhar para tras, como lanus o lanca. E apren
da. .. O passado é escola; proporciona experiencia:. . . experiencias positi
vas, que ensinam a viver corretamente, e experiencias negativas, que ensinam
a evitar os escolhos.

2) Quem comeca um novo ano, lanca também um olhar para a frente,


como lanus. O futuro que se abre, é um convite a todo homem (especial
mente ao cristao) para que supere a si mesmo; se procedeu bem, procure
proceder melhor ainda (o cristao é chamado á santidade, e sabe que o tempo
Ihe é concedido á guisa de moratoria, para que resgate os dias perdidos ou
mal aplicados; cf. Rm 2,4; 2Pd 3,9). Dílate-se, pois, o olhar do cristao que
comeca novo ano!

3) Estar entre o passado e o futuro significa ser elo ou passagem entre


urna fase e outra da historia. Significa preparar o futuro para que as geracoes
vindouras encontrem o patrimonio da humanidade abrilhantado pelo fato de
ter existido a geracao presente. É grande responsabilidade; lembra a cada
cristao que ele nao vive para si, mas para o Cristo, que protrai a sua obra
redentora através dos tempos, servindo-se de uns para salvar a outros.
4) O Deus lanus era também, pelos romanos, associado á Paz. Era ele
quem tutelava Roma contra os sabinos e Ihe assegurava tranqüilidade. Para
o cristao, isto é altamente expressivo. Que o novo ano iniciado em Janeiro
de 1991 seja penhor de Paz! Já no Antigo Testamento Shalom correspondia
ao ideal messiánico, expectativa que Jesús Cristo confirmou, tornando-se
Ele mesmo a nossa Paz: "Ele criou um Homem Novo, estabelecendo a Paz"
(Ef 2,15). — Possa esta paz de Cristo, que supera todo entendimento (cf.
Fl 4,7), derramar-se sobre o povo de Oeus e toda a humanidade em 1991!

E.B.
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS
II

ANO XXXII - N? 344 - Janeiro de 1991

Perguntam as Testemunhas de Jeová:

"Deve-se Crer na Trindade?M

Em tíntese: As Testemunhas de Jeová, na suá tendencia a voltar ao


Antígo Testamento, com detrimento do Novo, negam a SS. Trlndade e a
DMndade de Cristo. Julgam que as Escrituras nio apresentam a revelacSo do
dogma trinitario; este tara sido oficialmente professado no sáculo IV apenas,
em conseqüñncia de helenizacSo e deturpacio da mensagem crista". - Verifí
case, fsorém, que ¡á o Antígo Testamento prepara de algum modo a revela
cSo da SS. Trindade, que nSo podía ser manifestada aos/udeus, dado o am
biente de povos pagaos que os cercavam. No Novo Testamento há varías fór
mulas trinitarias, analisadas ñas páginas deste artigo; tais fórmulas encontra-
ram eco nos escritos da Liturgia e dos teólogos dos sáculos ll-IV. - Pro
curando ilustrar como em Deus possa haver tréspessoas sem quebra da uní-
dade de natureza ou substancia, os teólogos recorrem ao instrumental da
filosofía grega, de reconhecido acume lógico; tal recurso é legítimo, con tan
to que nio afete ó conteúdo das verdades reveladas. Por consegulnte, a pro-
fissió de fé na SS. Trindade nio á algo de heterogéneo dentro do Cristianis
mo, mas á a genufna expllcltacio do depósito revelado, que o magisterio da
Igreja reconheceu e sancionou sob a guia do Espirito Santo (cf. Jo 14,26;
16,13).

* * *

As Testemunhas de Jeová, embora se derivem do protestantismo, já


nao sao cristas) pois nao admitem a Divindade de Jesús Cristo nem o miste
rio da SS. Trindade. Periódicamente lancam fascículos que tendem a mos
trar que. a crenca na Trindade resulta da helenizacao ou paganizacao da pri
mitiva mensagem crista. Com a data de 18/01/1985 foi impresso um número
da revista "Despertai!" que negava a SS. Trindade; ao que respondemos em
PR 283/1985, pp. .486-496.
"CRER NA TRINDADE?"

Mais recentemente, ou seja, em 1989, a Sociedade Torre de Vigia pu-


blicou o caderno intitulado "Deve-se crer na Trindade?", em que repete a
habitual argumentacao antitrinitária. A pedido de le itores, exporemos de
novo a doutrina católica, acrescentando alguns dados ao texto de PR 283.

1. O fascículo das Testemunhas

Quem lé o fascículo "Deve-se crer na Trindade?", pode ficar impres-


sionado com a volumosa explanacao de motivos. Em grande parte, trata-se
de sofismas, textos ¡solados do seu contexto e preconceitos. Em primeira
abordagem, desejamos observar o seguinte:

1) A propalada paganizacao do Cristianismo é destituida de funda


mento. Os cristaos morreram mártires precisamente para nao aderir ás eren-
cas e aos costumes dos pagaos. O problema já foi considerado ém PR 336/
1990, pp. 220-225.

2) O fascículo apresenta numa mesma página imagens de tríades pa


gas e representacoes iconográficas da SS. Trindade. . . A propósito diremos
adiante que o número 3 era muito estimado pelos antigos povos, mas o
dogma trinitario tem significado radicalmente diverso do das tríades nao
cristas. Ademáis a Igreja proibiu que se represente a Trindade mediante um
busto com tres cabecas (a de um anciao, a de um adulto e a de um jovem)
ou mediante urna cabeca com tres faces. Tais ¡magens, que insinuam mons
truosidades, contribuem para ridicularizar a SS. Trindade, como querem as
Testemunhas de Jeová ao apresentá-las em seu fascículo.

3) Tem-se a impressáo de que somente em fins do século XIX a men-


sagem bíblica do Antigo e do Novo Testamento foi bem entendida, pois os
cristaos sempre professaram a fé trinitaria. - Ora é preciso ter muita cora-
gem para admitir que durante dezenove séculos ninguém tenha entendido
a doutrina do Novo Testamento; era necessário que viesse Charles Taze
Russell (1852-1916) para que o mundo entendesse o Evangelho e os escri
tos neotestamentários! Russell, assim distante, sabia mais e melhor do que
os cristaos mais antigos a respeito da Palavra de Cristo? - Seria absurdo
admiti-lo.

Passemos agora ao exame mais detido da problemática.

2. A argumentacao das Testemunhas

Segundo a córrante em foco, o Novo Testemartto nao apresenta a pa-


lavra Trindade nem a doutrina explícita da SS. Trindade; Jesús e seus segui-
'PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 344/1991

dores nao tencionaram abandonar a fórmula do Antigo Testamento: "Ouve,


Israel: o Senhor nosso Oeus é um só" (Dt 6,4). A doutrina trinitaria ter-se-á
desenvolvido gradualmente no decorrer dos séculos, enfrentando muitas
controversias.

Mais precisamente: segundo tal escola, a doutrina bíblica, que nao re-
conhece a SS. Trindade, foi adaptada á filosofia grega nos primeiros séculos.
Havia ñas concepcoes religiosas e filosóficas nao cristas muitas tríades, que
correspondían! a aspectos do Deus Supremo; de modo especial, Platáo
(427-347 a.C.) terá inspirado os "apóstatas pais da Igreja" para que conce-
bessem Pai, Filho e Espirito Santo como tres pessoas num só Deus. Urna
das formulacóes do "novo dogma" terá sido "Pai, Mae {= Espirito Santo) e
Filho", pois a palavra ruach (= espirito, em hebraico) é de género feminino.

Nos primeiros séculos, teólogos unitarios e trinitarios, como dizem as


Testemunhas, se confrontaram ardorosamente, acabando por prevalecer es
tes últimos. No Concilio de Nioéia I (325), foi formulado o Símbolo de fé
trinitaria, que o Concilio de Constantinopla I completou em 381, professan-
do a trindade de pessoas e a unidade de substancia em Deus.

Assim é que, segundo as Testemunhas, os cristaos católicos, ortodoxos


e protestantes adoram um Deus que nao compreendem. Somente a partir de
1874, mediante os estudos de Charles T. Russell e seus companheiros, foi
denunciado o erro de dezesseis séculos de Cristianismo; em conseqüéncia so-
mente as Testemunhas entendem adequadamente a doutrina bíblica referen
te a Deus, cujo nome auténtico seria Jeová.

Perguntamos: que dizer a propósito?

Procederemos por partes.

3. A doutrina bíblica

A Biblia ensina estritamente a unidade e unicidade de Deus. Qualquer


fórmula politeísta é aberracao nao só no plano da fé crista, mas no da lógica;
nao pode haver mais de um só Deus ou mais de um Ser Absoluto e Eterno.

Dito isto, consideremos de per si o Antigo e o Novo Testamento.

3.1. O Antigo Testamento

No Antigo Testamento, visto que o povo de Israel estava cercado de


nacoes pagas politeístas, a Leí de Moisés e os Profetas insistiram sobre a uni-
"CRERNATRINDADE?"

cidade de Deus; nao havia como revelar ao povo de Israel toda a riqueza da
vida de Deus, que, sem perder a sua unidade, se afirma tres vezes, como Pai,
Filho e Espirito Santo respectivamente.

Todavía nao podemos deixar de observar a tendencia, dos autores do


Antigo Testamento, a conceber como pessoas ou a personificar certos atri
butos ou propriedades de Deus; é o que se dá especialmente em relacao á Sa
bedor i a, á Palavra e ao Espirito de Deus. Examinemos de mais perto como
isto se dá.

3.1.1. ASabedoria

A sabedoria como tal é um atributo de Deus e do homem. Todavía nos


livros sapiencial ela foi sendo concebida como pessoa; assim em Jó 28,1-28;
Br 3,4-4,4; Pr 8,12-36; Eclo 24,5-32; Sb 7,22-26.

A sabedoria "sai da boca do Altíssimo, e, como a neblina, cobre a tér


ra. .. reina sobre todos os povos e nacoes" (Eclo 24,3-6). Só Deus sabe onde
ela habita; só Deus conhece o caminho que leva a ela (cf. Jó 28,23). Desde a
eternidade, ela foi estabelecida; antes das montanhas e dos mares, foi ge ra
da; assistia a Deus, como mestre-de-obra, na criacao do mundo; todo o tem-
po ela brincava na presenca de Deus e se alegrava com os homens (cf Pr 8,
22-31). Ela apareceu sobre a terrae no meio dos homens conviveu (cf. Br 3,38).
É um espirito inteligente, samo, imaculado, amigo do bem, todo-poderoso...
É um reflexo da luz eterna, um espelho nítido da atividade de Deus, uma
imagem da sua bondade (Sb 7,22-26).

Embora estes textos insinuem ser a Sabedoria uma pessoa distinta de


Deus, sabemos que a mentalidade judaica nao os podia entender senao como
figuras literarias, que personificavam poéticamente um atributo de Deus. No
Novo Testamento, porém, Sao Paulo alude a esses textos e identifica a sabe
doria com a segunda Pessoa da SS. Trindade ou o Cristo Jesús:

ICor 1,24: "Cristo é o poder e a sabedoria de Deus";

Hb 1,3: "Cristo é o resplendor da gloria de Deus e a imagem da sua


substancia; sustenta todas as coisas pela sua palavra poderosa";

Cl 1,15: "Cristo é a imagem do Deus invisível".

O apostólo, ilustrado pela revelacao crista, re leu os textos do Antigo


Testamento de modo a descobrir neles uma revelacao da segunda Pessoa da
SS. Trindade.
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 344/1991

3.1.2. A Palavra

A palavra (dabar), para os semitas, tinha rnais importancia do que para


nos. Atribuiam-lhe eficacia própria, que durava para além do momento em
que era proferida.

Assim a palavra de Deus é tida como criadora:

Gn 1.3.6.9.11.14s. 20.24: "Deus disse... E assim se fez."

SI 32,6: "O céu foi feito pela Palavra do Senhor".

Sb 9,1: "Deus dos Pais,... que tudo criaste com tua palavra".

SI 147,4: "O Senhor envia suas ordens á térra e sua palavra corre ve
lozmente".

A eficacia atribuida á Palavra de Deus explica tenha sido ela concebida


como péssoa ao lado do próprio Deus; assim, por exemplo, nos seguintes
textos:

!s 55,10s: "Como a chuva e a nevé descem do céu e para lá nao voltam


sem ter regado a térra, ... tal ocorre com a palavra de minha boca; ela nao
torna a mim sem fruto; antes, ela cumpre a minha vontade e assegura o éxi
to da missao para a qual a enviei".

Sb 18,14s: "Quando um silencio envolvía todas as coisas e a noite me-


diava o seu rápido percurso, tua palavra onipotente precipitou-se do trono
real dos céus".

Sb 16,12: "Nao os curou nem erva nem ungüento, mas a tua palavra,
Senhor, que a tudo cura".

Nestes textos nao há, segundo os judeus que os escreveram, senao per-
sonificacao poética ou figura literaria. Todavia o Apostólo S. Joao desenvol-
veu a concepcao judaica, apresentando a segunda pessoa da SS. Trindade co
mo Palavra (Lógos, em grego). Cf. Jo 1,1: "No principio existia o Lógos, e
o Lógos estava com Deus e o Lógos era Deus. . . E o Lógos se fez carne, e
habitou entre nos, e vimos a sua gloria, como a gloria do Unigénito do Pai"
(vertambém 1,14).

3.1.3. O Espirito de Deus

O termo hebraico ruach, (em latim, spiritus, espirito) significa "vento,

6
"CRER NATRINDADE?"

brisa silenciosa, tempestade. . ." Está associado á idéia de vida. Em conse-


qüéncia, as intervencóes de Deus em favor do seu povo na historia sao atri
buidas á ruach (forca vivificante) de Deus. É esta quem transforma os ho-
mens, tornando-os capazes de facanhas excepcionais; tenha-se em vista o
caso de Sansao (Jz 13,25; 14.6).

O Messias prometido pelos Profetas seria portador do ruach: Is 11.1-5;


42, 1-3; 61,1s, Jl 3.1-3. Essa forca vivificante de Deus seria dada a todos os
homens: Is 32,15-20; 44,3-5. E produziria novas criaturas: Ez 11,19; 18.31;
36,26; 37.1-10.

Nota-se também a tendencia a personificar o Espirito entre os judeus;


cf. is 63,1 Os; 2Sm 23,2. Isto, porém. sem ultrapassar os termos de urna figu
ra poética. — O Novo Testamento mais urna vez desenvolveu o pénsamento
judaico, apresentando o Espirito como a terceira Pessoa da SS. Trindade;
cf. Jo 14,25; 16,7.13; At 2,1-22.

3.2.2. O Novo Testamento

Jesús explicitou as nocoes judaicas, falando abertamente do Pai e do


Espfrito, que com o Filho constituem um só Deus em tres Pessoas.

A SS. Trindade aparece em algumas fórmulas marcantes:

Mt 28,18s: "Ide e fazei que todas as nacoes se tornem discípulos, ba-


tizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espfrito Santo". - Temos
aqui a fórmula tal como era aplicada na liturgia do Batismo; a justaposicáo
mediante a preposicao e significa a igualdade de natureza das tres Pessoas
Divinas.

Mt 3,16; Me 1,11; Le 3,22; Jo 1,32: no Batismo de Jesús, o Pai se faz


ouvir apontando o Filho, e o Espirito Santo se manifesta sob a forma de
pomba (a pomba era, ñas literaturas antigás, um si na I que servia para iden
tificar).

Le 1,30-35: na anunciacao do anjo a María, o Pai é dito "o Altíssimo,


o Senhor Deus"; o Espfrito Santo é identificado com "o Poder do Altfssi
mo". Este recobre María com a sua sombra, como as asas de um pássaro re-
cobrem urna criatura, simbolizando a acao divina fecundante e vivificante
{cf. SI 16 [17], 8; SI 56 [57] 2; Gn 1,2); em conseqüéncia, María recebe
em seu seio o Filho de Deus, ao qual ela deverá dar a natureza humana, para
que Ele nasca como Filho de Deus e (enquanto homem) como Filho de
María.
8 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 344/1991

2Cor 13,13: "A grapa do Senhor Jesús Cristo, o amor de Deus e a


comunicapao do Espirito Santo estejam com todos vos!" - Nesta fórmula,
Deus (Pai) é tido como o Amor (pois, na verdade, foi como Amor que Ele
quis ¡dentificar-se no Novo Testamento; cf. 1 Jo 4,16). Esse Amor tem um
sorriso (grapa) para os homens, que é o Filho feito homem, manifestaplo do
Pai. Essa grapa se comunica a cada homem mediante o Espirito Santo, ao
qual, portanto, é atribuida a comunhSo.

Gl 4,6: "Porque sois filhos, enviou Deus em nossos coracoes o Espirito


do seu Filho, que clama: Abbá, Pai!" (cf. Rm 8,15). Este texto nos diz que
o Espirito Santo nos faz filhos no Filho e, conseqüentemente, com o Filho
nos leva a clamar a palavra por excelencia: Abbá, Pai. Somos assim inseridos
na vida trinitaria; a consciéncia deste fato era tao viva para os antigos crte
taos que aprendiam a dizer Abbá desde os primeiros dias da sua conversao,
ficando essa palavra aramaica, mesmo fora da Palestina, como a palavra
mais tipica e fundamental da mensagem crista.

Ef 2,18: "Por Cristo. . . num só Espirito temos acesso ao Pai". - Nes-


te texto é apresentado o papel de cada urna das Pessoas trinitarias na obra de
salvacao do homem: o Espirito Santo ó sempre aquele que nos faz filhos ou
aquele que nos atinge em nosso intimo. Ele nos leva ao Pai (que é o Princi
pio e o Finí, o Primeiro e o Último) mediante o Filho (que é o nosso Ponti
fico ou Mediador). "Ao Pai pelo Filho no Espirito Santo" é a fórmula clás-
sica da piedade crista, ge raímente reassumida pela Liturgia. Vivemos "no Es
pirito Santo" (cf. ICor 12,3; Rm 8,9.11), pois é o Espirito que anima e vi
vifica o Corpo de Cristo que é a Igreja.

Tt 3,4-6: "Quando a bondade e o amor de Deus, nosso Salvador, se


manifestaran!, . . . fomos levados pelo poder regenerador e renovador do Es
pirito Santo, que ele ricamente derramou sobre nos por meio de Jesús Cris
to, nosso Salvador". - Como se vé mais urna vez, o Pai é o Amor, que tem a
iniciativa de nos salvar, o Filho é o Pontífice ou Mediador, e o Espirito San
to é a forca de Deus que nos recría, fazendo-nos consortes da vida trinitaria.

Hb 2,3s: "A salvacao comecou a ser anunciada pelo Senhor. Depois


foi-nos fielmente transmitida pelos que a ouviram, testemunhando Deus jun
tamente com eles, . . . pelos dons do Espirito Santo distribuidos segundo a
sua vontade". . . — Deus (Pai) é o principio de toda a salvacao; o Filho é a
Palavra, que na térra anuncia essa Boa-Nova do Pai; o Espirito Santo é Aque
le que em nossos corapóes explana e interpreta a mensagem.

Tal é a doutrina dos escritos do Novo Testamento.

Vé-se, pois, que nao se pode dizer que no Novo Testamento nao há

8
"CRERNATRINDADE?" 9

declaracSes trinitarias ou que a doutrina da SS. Trindade é alheia aos escri


tos bíblicos. É certo que tal doutrina se encontra expresa, nos textos cita
dos, de maneira vivencial, sem preocupacóes especulativas e sistemáticas. Os
textos bíblicos enfatizam o significado salvffico das verdades da fé, pois a
Biblia foi escrita como mensagem de salvacáo; todavia foi redigida em ter
mos suficientemente claros, que a Tradíelo crista foi aos poucos desenvol-
verido de forma homogénea.

4. A antiga Tradicffo

Na geracao que se seguiu ¡mediatamente aos Apostólos, há testemunhos


de fé trinitaria em continuidade com os do Novo Testamento. Tenham-se
em vista, por exemplo, os seguintes:

1) o rito batismal era ministrado em nome das tres Pesíoas Divinas,


em conformidade com Mt 28,19. Assim atesta a Didaqué, catecismo da Igre-
ja nascente redigido no fim do século I:

"No que da respeito eo Batismo, batizai em nome do Pai, do Filho e


do Espirito Santo em agua córrante. . . Derrama/' tres vetes agua sobre a ca
bera em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo" (n9 7).

S. Justino (t165 aproximadamente) escreve:

"Os que devem ser batizados, sffo levados por nos a um lugar onde na
fa agua, e sá~o regenerados da mesma maneira como nos fomos regenerados.
Com efeito; 6 em nome do Pai de todos e Senhor Deus e de nosso Salvador
Jesús Cristo e do Espirito Santo que recebem a locSo na agua. Este rito nos
foi entregue pelos Apostólos" (Apología I, n961).

Tertuliano (Í220): "Foi estabeledda a leí de batizar e prescrita a fór


mula: 'Ida, ansinai os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do
Espirito Santo' (Mt 28,19)" (De Baptwmo c 13).

2) Os escritores mais amigos expressam a sua fé trinitaria em pas-


sagens como:

"Um Deus, um Cristo, um Espirito de grapa" (S. Clemente Romano,


i 100aproximadamente, Aos Corintios 46,6).

"Como Deus vive, vive o Senhor e vive o Espirito Santo" (S. Clemente
Romano, ib. 58,2).

"Vos sois as podras do templo do Pai, elevado para o alto pelo guin-

9
1Í> "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 344/1991

dasta de Jésus Cristo que é sua Cruz, com o Espirito Santo como corda"
(S. Inicio de Antioquia, i 107, Aos Efasios 9,1). •

"Mantende-vos. . . na fé e na carídade. no Fitho e no Pai e no Espiri


to, no principio e no fím... Sede submissos ao Blspo e unsaos outros, co
mo Cristo segundo a carne se submeteu ao Pai, e os Apóstalos a Cristo e ao
Pai e ao Espirito, a fím de que a unidade se/a, ao mesmo tempo, carnal e
espiritual" (Aos Magnesios, 13,1s¡.

"Eu te louvo. Deus da verdaoe. Te bendigo, Te glorifico por teu Filho


Jesús Cristo, nosso eterno e sumo Sacerdote no céu; por Ele, com Ele e o
Espirito Santo, gloria seja dada a Ti, agora e nos sáculos futuros'. Amém"
(S. Poiicarpo, t156, Martirio, 14,1-3).

"Já temos mostrado que o Verbo, ¡sto é, o Filho estove sempre com
o Pai. Mas também a Sabedoria, o Espirito estava igualmente Junto dele an
tes de toda a criacSo" (S. Ireneu, tcerca de 202, Advenus Haereses IV
20,4).

Muito significativo é o texto do apologista cristao Atenágoras. ti80:

"Como nio se admiraría alguém de ouvir chamar ateus os que admi-


tam um Deus Pai, um Deus Filho e o Espirito Santo, ominando que o seu
poder ó único e que sua distíncao á apenas distincSo de ordensT" /Súplica
pelos Cristáos, c 10).-,

3) A palavra "tríade" ou "trindade" (trias, em grego) aparece pela pri-


meira vez nos escritos de Teófilo de Antioquia (tapós 181), exprimindo
de maneira mais sistemática a doutrina consagrada pela S. Escritura; com
efeito, ao referír-se aos dias da criacáo em Gn 1, diz o autor: "Os tres dias
que precedem o aparecimento dos luzeiros, sao tipos da Trindade: de Deus,
de seu Verbo e de sua Sabedoria" (A Autólico, I. II, c. 14). O fato de que
Teófilo usa a palavra trias como um termo corrente, sem necessidade de ex-
plicacao, leva a crer que tal vocibulo nao foi introduzido por Teófilo, mas
já era usual antes dele.

No sáculo III, como se compreende. a fé dos cristáos na SS. Trindade


se manifesté ainda mais elocuentemente. Os dados bíblicos suscitaram nos
teólogos da Igreja o desojo de penetracáo sistemática, pois a teologia é fides
quaarens intBllectum, fé que procura compreender. Registrou-se entáo o de
bate teológico, do quai vio, a seguir, reproduzídos os principáis traeos.

10
"CRERNATRINDADE?" 11

S. As controversias trinitarias

As prímeiras tentativas de conciliar unidade e trindade em Deus foram


falhas: tendiam a subordinar o Filho ao Pai (o Espirito Santo era menos es-
tudado). Tal teoría nos séculos II e III tomou o nome de monarquianismo
(defendía a monarquía divina).

No sáculo IV, o subordinacionismo foi representado por Ario de Ale-


xandria a partir de 315: afirmava ser o Filho a primeira e mais excelente
criatura do Pai. Tendo sido concedida a paz aos cristaos em 313, compreerv
de-se que a controversia tenha tomado vulto que nunca tivera. Em conse-
qüéncia, reuníu-se o primeiro Concilio Ecuménico da historia em Nicéía
(Asia Menor) no ano de 325, o qual redígiu urna profissao de fé, que afir
mava:

"Cremas.. . em um só Senhor Jesús Cristo, Filho de Deus, nascido do


Pai como Unigénito, isto é, da substancia do Pai, Deus de Deus, luz da luz,
Deus verdadeiro, gerado, nio feito, consubstancial com o Pai, porguen) foi
feito tudo que há no céu e na térra" (DS 125 [54]).

Vé-se que o texto acentúa a identidade de substancia do Pai e do Fílho


para afirmar que o Filho nao foi criado (quem cria, tira do nada),'mas>gera-
do (quem gera se prolonga no filho gerado); o Filho é Deus de Deus, Deus
verdadeiro de Deus verdadeiro.

Todavía a disputa nao se encerrou em 325. Entre outras questoes, res-


tava a das relacoes do Espirito Santo com o Pai e o Fílho. Após decenios de
debates, reuniu-se o Concilio de Constantinopla I em 381. que acrescentou á
profissao nicena de fé os dados referentes ao Espirito Santo:

"Cremos no Espirito Santo, Senhor e fonta de vida, que procede do


Pai (cf. Jo 15,26), com o Pai e o Filho 6 adorado e glorificado, o qual falou
pelos Profetas" (DSn° 150 [86]).

Afirmando que o Espirito Santo é adorado com o Pai e o Filho, os


padres conciliares queriam incutír a identidade de substancia (ou a Divinda-
de) do Espirito Santo com o Pai e o Filho. Nao há, pois, subordinacao do
Espirito ao Filho ou ao Pai.

Só foi possivel aos teólogos chegar á formulacao exata do dogma após


recorrerem á distincao entre ouiía (esencia, natureza) e hypóttasis (pessoa).
Aquela ó única (a Divindade); as pessoas, porém, sao tres, sem esfacelar nem
retalhar a natureza divina, como tres sao os ángulos de um triángulo sem es
facelar a superficie do triangulo.

11
12 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 344/1991

A filosofía grega, que primava peto seu acume lógico, forneceu aos
teólogos cristlos o instrumental necessário para que pudessem elaborar a re
ta fórmula da fó. Nao há inconveniente na utilizacáo da razao e dos seus
conceitos para se ilustraren) as verdades da fé, contanto que se preserve incó
lume o conteúdo de Revelacáo divina. O recurso á filosofía grega nao impli-
cou em helenizacao do Cristianismo; os cristáos eram muito ciosos da ¡den-
tidade da sua fé, a ponto de morrerem como mártires para nao a trair. De
resto, o estudo objetivo e sereno das Escrituras do Antigo e do Novo Testa
mento bern mostra que a doutrina da SS. Trindade é genuinamente bíblica;
foi profesada na Igreja antes de qualquer apelo á filosofía grega.

O misterio da SS. Trindade estará sempre ácima do alcance da razao


humana, como, alias, a vida do próprio Deus em sua unidade é "algo que o
olho nao viu, o ouvido nao ouviu, o coracao do homem jamáis percebeu"
(ICor 2,9). Isto, porém, nao quer dizer que a razao humana nao possa des
cubrir nos seus conceitos e na imagem das criaturas nocoes que ¡lustrem de
algum modo o misterio de Deus; é precisamente esta a tarefa da teología.
Como todos os estudiosos, os teólogos procedem lentamente, formulando
teorías e hipóteses, que o debate vai eliminando e purificando; assim prepa-
ram a via para o magisterio oficial da Igreja, que nao raro mediante Conci
lios foi definindo nos primeiros séculos as genufnas fórmulas da fé católica.

Podemos aqui referir ainda a objecao que as Testemunhas levantam


contra o dogma trinitario, ao dizerem que 1+1+1 = 3, ou seja, se o Pai é
Deus, se o Filho é Deus, se o Espirito Santo é Deus, temos tres deuses. Ao
que respondemos na mesma Mnguagem popular: 1x1x1 = 1; vé-se, pois, que a
a trindade nao exclui a unidade desde que o fiel cristao a entenda devida-
mente: em Deus as tres pessoas nao multiplican) a natureza e a substancia
divina, como os tres ángulos de um triángulo nao multiplican) a figura
geométrica.

Quanto á tendencia a identificar o Espirito Santo com a Mae do Filho,


ao lado do Pai, na SS. Trindade, deve-se a urna córreme judaica representada
pelo apócrifo "Evangelho dos ^ebreus" (datado dos séculos l/ll).Teve ori-
gem em urna seita judeo-crista dita dos "Nazarenos de Beréia", que estavam
distantes das linhas doutrinárias dos demais cristáos; queriam, por exemplo,
eliminar do Novo Testamento as epístolas de S. Paulo, tido como apóstata
da Leí de Moisés; menosprezavam os Evangelhos canónicos para se aterem
somonte ao Evangelho segundo os Hebreus. Tal corrente nao encontrou res-
sonancia no Cristianismo; em conseqOéncia, também a interpretacao ai dada
ao Espirito Santo e i SS. Trindade nao teve continuidade.

6. Jeová ou Javo?

As Testemunhas de Jeová tém como fundador Charles-Taze Russell

12
"CRERNATRINDADE?" 13

(1852-1916), nascido em Pittsburg (U.S.A.) de familia presbiteriana. Em


1870 tornou-se adventista. Como tal, refez os cálculos referentes á segunda
vinda de Cristo, que os adventistas tinham previsto para 1843/44; Russell
assinalou-a para 1914 e, finalmente, para 1918. Infelizmente, porém, Russell
faleceu em 1916.

O sucessor foi o juiz Rutherford, que, tendo ido á Europa em 1920,


ai anunciou o inicio da idade de ouro para 1925. Esse novo líder da seita,
até entao dita "dos Estudiosos da Biblia", fez que tomasse o nome de 'Tes
temunhas de Jeová". Rutherford morreu em 1942.

Atualmente as Testemunhas tém seu centro principal em Brooklyn


(Nova lorque), onde sao editados dois jomáis também traduzidos para o
portugués: 'Torre de Vigia" e "Despertai-vos!"

Ás Testemunhas acentuaram o retorno ao Antigo Testamento, que os


Adventistas já tinham iniciado. Chegam ao ponto de negar a SS. Trindade;
chamam Deus pelo apelativo Jeovah, forma tardia e errónea do nome
Jahweh. - Com efeito; o nome com que Deus se revelou a Moisés é Vahweh
(cf. Ex 3,13-17). Tal era a reverencia tributada a este apelativo que os judeus
nao o ousavam pronunciar a partir do ex (lio (sáculo VI a.C). Era tido como
"o nome que se escreve, mas nao se lé". Ao encontrarem escrito tal nome,
os Israelitas pronunciavam Adonay1 (= meu Senhor). Em conseqüéncia.
após o século VI d.C. os rabinos fizeram a fusao das consoantes de I H W H
com as vogais de E d O n A y; donde resultou JEHOWAH. Notemos, porém,
que aínda no inicio da Idade Media a pronuncia do vocábulo assim oriundo
era sempre Adonay. A pronuncia Jeová é, pela primeira vez, atestada por
Raimundo Martini, autor da obra "Pugio Fidei" no ano de 1270; parece,
porém, que já estava em uso ñas escolas rabínicas anteriores. Só foi adotada
pelos cristaos no século XVI; principalmente os protestantes, tendo á fren
te o calvinista Teodoro Beza de Genebra, Ihe deram voga, de modo que as
Biblias protestantes de língua inglesa freqüentemente aduzem o nome
Jeová.

Além disto, para as Testemunhas de Jeová, Jesús Cristo é apenas cria


tura. Esta afirmacao faz cair por térra todo o edificio do Cristianismo.

Vé-se, pois, como é infundada a posicao antitrinitária das Testemu


nhas: nem na Biblia, nem na Tradiclo encontra apoio; faz, antes, parte da
tendencia das Testemunhas a retornar ao Antigo Testamento em detrimento
da Revelapao de Nosso Senhor Jesús Cristo.

1 O primeiro a era mudo, corraspondendo a um e.

13
14 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 344/1891

7. A SS. Trindade e as fórmulas pagffs

O estudo das religiSes comparadas mostra que em algumas correntes


religiosas aparecem tríades.

1. A mais simples é a de Pai, Mié e Filho. ocorrente no Egito amigo


sob a forma de Osiris, Isis e Horus. - Ora tal concepto antropomórfica está
bem distante da Revelacao crista; o Espirito Santo nao é a MSe de Deus
Filho nem é a Esposa de Deus Pal. Ademáis a ñoclo do Filho de Deus féito
homem e crucificado 6 totalmente estranha as tradicoes do Egito e dos
povos antigos em geral.

2. Na India existe a Trimurti. Tri lembra o n9 3, ao passo que murti,


em sánscrito e em hindi, quer dizer: corpo sólido, materia, forma e, princi
palmente, estatua ou imagem. Designando imagem, murti significa tambérn
urna manifestado divina. Trimurti seria, portento, a tríplice manifestado
da Divindade.

Há diversas Trimurti ou manifestacóes da Divindade na India. Assim,


por exemplo, existe a Tríade:

Brahma, principio criador do mundo (ou principio donde emana o


mundo, visto que a noció de produzir a partir do nada ou criar era estranha
á India);

Vishnu, principio protetor do mundo;

Shiva, principio destruidor do mundo.

Todavía na concepcab do hlnduísmo nao há igualdade entre «sastres


manifestacSes da Divindade: Brahma é o deus supremo, impessoal, que no
plano dos fenómenos ou das aparfinclas, se manifesté em tres deuses diferen
te*. Brahma assim pode aparecer como a Divindade em seus tres aspectos de
Criador, Conservador e Destruidor do mundo. Quase nao há templos dedica
dos a Brahma, ao passo que os templos e oratorios consagrados a Vishnu e
Shiva se contam aos milhares.

O pensamento filosófico hindúísta pode também dizer que Brahma é,


ao mesmo tempo. Existencia (Sat), Conscifincia (Cit) e Felicidade (Ananda)
ou Sacddanandebrahma. Estas concepcSes se distinguem bem da nocao cris-
tfide Pal, Filho'e Espirito Santo.

A india é o bar^o de urna multidao de concepcSes religiosas, de modo


que na mitología e na iconografía shivaítas, Brahma e Vishnu sao algumas

14
"CRER NA TRINDADE?" 15

vezes um tanto ridicu lanzados. A tendencia do pensamento hindú ísta naoé


a de fazer alternativas e exclusivismos, mas, antes, prefere as sínteses e as
complementacóes (em lugar das oposicoes).

Encontram-se na India outras tríades:

Agni, o deus Fogo; Vayu, o deus Vento; Surya, o deus Sol, cada qual
reinando no seu próprio setor, ou respectivamente sobre a térra, os ares e
océu.

Sejam mencionados outrossim: os tres Vedas ou tipos de escritos sa


grados, os tris fogos do sacrificio, o tríplice mundo, os tres gumas ou quali-
dades constitutivas do universo ...

O número 3 é táo estimado pelos antigos e, por isto, táo utilizado na


Mística, porque lembra o triángulo equilátero, que é imperturbável ou inder-
rubável e invencível. Tres, em conseqüéncia, era tido como símbolo de
perfeicao.

A SS. Trindade crista, embora pareca corresponder á tendencia mera


mente humana de valorizar o número 3, tem um significado e conteúdo
teológico que a distanciam de qualquer tríade nao crista, como se verá ás
pp. 16-21 deste fascículo.

Nao nos surpreende o fato de que a SS. Trindade seja considerada um


misterio. .. Trata-se da esséncia do próprio Deus, que definimos como sen
do a máxima perfeicao; por conseguinte, há de ultrapassar, em riqueza de
vida, os limites da inteligencia humana. Ultrapassa. porém, sem contradizer
ás verdades racionáis ou á lógica.

A própria fé é um ato racional. Com outras palavras: quem eré, nao


está renunciando á sua raciona lidade. Ao contrario, está a exercé-la, pois a
própria razao humana afirma ao homem que a verdade nao acaba onde os
horizontes do raciocinio acabam. A lógica nos leva a erar; é inteligente ter fé.

A propósito ver
CURSO DE INICIACAO TEOLÓGICA POR CORRESPONDENCIA,
Módulos 6 e 7, Rúa Benjamín Constant, 23, 39 andar, Caixa Postal 1362,
20001 Rio do Janeiro (RJ).

GOMES, CIRILO FOLCH, Riquezas da Mensagem CristS. 1979.

PATFOORT, ALBERT, O misterio-do Deus Vivo, Ed. Lumen Christí,


Caixa Postal 2666, Rio de Janeiro (RJ).

15
Um pouco de Teología:

A SS. Trindade: Como Ilustrá-la?

Em írmete: O misterio da SS. Trindade, embora nSo possa ser cabal


mente penetrado pela inteligencia humana, ó ilustrado pala mesma a partir
da analogía (imagen) a semeihanca) de Deus existente no homem. Os atos de
conhecer e amar do homem vém a ser espelho a partir do oval a Teología
dássica tonta esclarecerá vida eterna dopróprio Deus.

* * *

Depois de mostrar a fundamentadlo bíblica do misterio da SS. Trinda


de, passamos ao estudo sistemático deste artigo de fé. — As páginas subse-
qüentes terao, no mínimo, a vantagem de evidenciar que o dogma da
SS. Trindade nao exige abdicacao ou renuncia do cristao á sua inteligencia.

1. As procassdes em Deus

Os teólogos tentaram, desde os primeiros sáculos, penetrar de algum


modo no mistário da vida de Deus Uno e Trino. NSo há dúvida, este escapa
á plena compreensSo da inteligencia humana, que é sempre finita. Como
quer que seja, a ref lexao teológica pode mostrar nao somente que o misterio
da SS. Trindade nao é um absurdo,' mas também que grande harmonía e
suma conveniencia existem nesse misterio.

Eis como, em sfntese, se pode ilustrar o misterio da SS. Trindade.

A S. Escritura, ao falar do Pai e do Filho, supoe procedencia (ou pro-


cessao)2 do Filho em relacao ao Pai. No tocante ao Espirito Santo, diz
Jesús: "O Espirito da verdade, que procede do Pai..." (Jo 15,26).

Há quem diga popularmente: Se 1' + 1 + / = 3, como á que Deus Pai,


Deus Filho a Deus Espirito Santo nao sao tres deuses? Na mesma linguagem
popular podase responder: 1*1*1=3, mas 1X1X1 = 11- Assimse
desfaz a objecSo mal concebida.

3 Nao confundir com procisñb, que 6 ume cerlmónia religiosa. ProcassSo


vem de proceder eso se usa na linguagem teológica trinitaria.
ASS.TRINDADE:COMOILUSTRÁ-LA? 17

Vejamos, pois, o que á uma procenáo.

— É simplesmente a origem de um ser a partir de outro. Nao implica


relacao de causalidade entre um e outro. Por exemplo, a luz e o calor pro-
cedem de uma lámpada acesa (há relacao de causalidade no caso); a estrada
Rio-Sao Paulo procede do ponto A (nao há relacao de causalidade entre o
A e a estrada, mas há uma processao ou procedencia).

Há dois tipos de processao: a transeúnte e a imánente.

Na processao transeúnte, o termo que procede sai do principio donde


procede. É o que ocorre quando alguém escreve uma carta (esta sai para fora
da pessoa que escreve), quando alguém confecciona uma obra de arte...

Na processao imánente, o termo que procede permanece no sujeito


donde procede. É o que acontece com nossas acóes vitáis: o conhecer, o
querer, o ver, ó ouvir... A acao permanece no sujeito como perfeicao deste.
Por exemplo, quando admiro uma paisagem, nada sai de mim; nao obstante,
realizo uma atividade, olhando, refletindo, imaginando. .., que me enrique
ce interiormente.

Dentre as acoes imanentes, as mais nobres sao as da vida intelectiva: o


conhecer intelectivo e o querer (que decorre do conhecimento).

Observemos o que ocorre em nos: nosso eu é dotado de intelecto (me


diante o qual somos chamados a conhecer a verdade) e de vontade (median
te a qual queremos e amamos a verdade, que é um bem).1 Conhecemos ver
dades parciais e amamos, com a nossa vontade, cada verdade descoberta.
Assim nossa vida é uma continua procura da verdade (mediante a inteligen
cia), que suscita em nos momentos de gozo e deleite (amor).

■Transponhamos essa realidade para Deus, já que somos imagem e


semelhanca dele.

Em Deus nao existem processoes transeúntes (pois estas implicam


imperfeicao), mas há processoes imanentes. Sim; em Deus há um conhecer
intelectivo e um querer (que é também amor). Todavía Deus naoconhece a
Verdade pouco a pouco, mas num único ato Deus conhece toda a Verdade;
conseqGentemente, com um único ato Deus ama todo o Bem.

E qual é o objeto do conhecimento e do amor de Deus?

1 A filosofía ensina que o Ser, na medida em que ó considerado peia inteli


gencia, é Verdade e, na medida em que á desojado peta vontade, é um Bem.

17
18 "PERGUNTE É RESPONDEREMOS" 344/1991

— É o próprío Deus. Deus nao depende de criatura alguma para co-


nhecer e amar; toda criatura comeca no tempo; só Deus é eterno. Isto quer
dizer: desde toda a eternidade Deus se conhece cabal e exaustivamente e.
conhecendo-se, projeta urna imagem de Si, igual ao próprio Deus que a
projeta (nao há retalhamento nem diminuidlo nesta imagem); é um segundo
eu em Deus, é Deus de Deus ou a segunda Pessoa da SS.Trindade. A S. Es
critura dá a essa pessoa os nomes de Filho, Logos (conceito, palavra), Ima
gem (todo Filho é imagem e palavra de seu pai).1 Tal é a primeira processao
existente em Deus; há de ser entendida á semelhanca do que se dá quando
projetamos nossos conceitos e os contemplamos mentalmente; também tem
analogía com a geracao ou com o relacionamento existente entre pai e filho.2

Mas a vida de Deus - como a de qualquer um de nos - nao é só co-


nhecimento. Este suscita o amor. Por isso o conhecimento que Deus tem de
si, suscita o amor de Deus a esse bem, que 6 Ele mesmo. O amor em Deus
nao é um ato parcelado (em Deus nada pode ser parcelado), mas é o próprio
Deus que ama, ou ainda: é o amor que o Pai tem ao Filho e que o Filho tem
ao Pai. Esse amor é chamado o Espirito Santo. Tal é a segunda processao
existente em Deus: 6 a da terceira pessoa ou do terceiroeu, que procede do
Pai e do Filho; na falta de outro nome, essa processao é chamada "espira-
pao", pois tem por termo o Espirito.

. Vemos assim que em Deus deve haver duas processoes e tres pessoas.
Nao pode haver nem mais nem menos. É importante salientar que essas pro-
cessSes nao implicam temporalidade (antes e depois), nem hierarquia nem
dependencia. No único e permanente instante da eternidade, Deus se conhe
ce gerando o seu Filho, igual ao Pai, e Deus se ama, produzindo o Amor
Subsistente.

Há, pois, urna só natureza em Deus, duas processoes e tres pessoas. As


processoes, sendo ¡manentes, nao dividem nem retalham a única natureza
divina; nao constituem tres deuses, mas um só Deus ou urna só natureza
divina, que se afirma tres vezes.

A analogía assim exposta é a que mais se aproxima da vida de Deus. Os


antigos escritores da Igreja propunham outras, que a seu modo ilustram a
SS. Trindade.

1 Cf. Me 1,11 (Filho); Jo 1,1 (Logos); C11,15 (Imagem).


1 É de notar, alias, que o mesmo verbo conceber se aplica tanto i concep
to de nocSes ou idiias quanto á* concopcao de um filho. O pensador con
cebe um profeto mental; a mee concebe um filho.

18
A SS. TRINDADE: COMO ILUSTRÁ-LA? 19

Imaginemos um lencol de agua debaixo da térra; é algo de grande, mas


invisfvel e ¡nsondável aos olhos da criatura. Esse lencol se manifesta median
te um "olho de agua", que revela aos poucos a quantidade e a qualidade
da agua oculta. Por sua vez, esse olho de agua dá origem a um córrego, que
irriga e "vivifica" toda a térra vizinha. — Ora o lencol de agua invisfvel re
presenta o Pai; o olho de agua, o Filho ou o Lógos, que diz o que há no len
col; o córrego representa o Espirito Santo, que comunica a todos os homens
a vida decorrente da agua oculta.

Imaginemos outrossim um tronco de planta com suas raízes invisf-


veis. É portador de urna vida, que se manifesta na flor. Esta, por sua vez,
exala um suave perfume, que impregna todo o ambiente. Ora o tronco.com
suas rafees significa o Pai; a flor que "fala" e revela, simboliza o. Filho; o
suave odor representa o Espirito Santo. - Estas duas últimas imagens poem
em relevo principalmente as peculiaridades de cada Pessoa divina: o Pai é o
principio sem principio; é o Deus invisfvel, também chamado "Abismo" e
"Silencio". O Filho é a imagem ou palavra do Pai; pelo Filho é que o Pai se
dá a conhecer aos homens; Ele é também o mediador e o Pontífice. O Espi
rito Santo é Deus que atinge cada homem na sua intimidade e Ihe fala ao
coracao; é o Artífice da santificacao de cada um.

Há ainda outra maneira de figurar a SS. Trindade, muito usual na arte


latina: é a do triángulo equilátero. Este apresenta urna só área, que é focali
zada diversamente a partir de cada um dos seus ángulos: A, B e C; estes sao
iguais entre si, mas ocupam posicóes diversas e ¡nconfundfveis dentro da uni-
dade da figura.

Passemos agora a outro aspecto do misterio:

2. As missoes divinas

Em sua vida íntima, Deus é uno e trino. Conhecemos tal misterio atra-
vés de sua manifestapao na historia da salvacao. Esta nos ensina que existe
um Pai, o qual nos enviou seu Filho (misterio da Encarnacao na plenitude
dos tempos; cf. Gl 4,4). O Pai e o Filho, por sua vez, nos enviaram o Espiri
to Santo como dom por excelencia, como hospede invisível de cada coracao
em estado de grapa; cf. Jo 14,26. — Ao falar-nos desses "envíos" ou dessas
"missoes", a S. Escritura dá-nos á entender que sao o eco temporal das eter
nas processoes existentes em Deus.

O estudo das missoes divinas dá ao tratado da SS. Trindade urna nota


muito viva e concreta. O misterio de Deus aparece profundamente inserido
dentro da trama da historia dos homens.

19
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 344/1991

O Pa¡ nao é enviado, porque nao procede, é Ele quem envia o Filho
como Salvador, nascido de María Virgem. "Quando chegou a plenitude dos
tempos, enviou Deus o seu Filho. nascido de urna mulher, nascido sob a Lei,
para reunir os que estavam sob a Lei, a fim de que recebéssemos a adocaó
filial" (Gl 4.4s). Esta é a missao visível do Filho, que nao implica subordi-
nacao da segunda Pessoa em relacáo á primeira, e que torna Deus. de modo
novo e mais íntimo, presente ás criaturas.

O Espirito Santo, que procede do Pai do Filho, é-nos enviado por


ambos: ... de modo visível, sob forma de Ifnguas de fogo, no dia de Pen
tecostés (cf. At 2);... de modo invisfvel, á guisa de hospede interior, no dia
do Batismo de cada cristSo: "Porque sois filhos, enviou Deus em nossos
coracóes o Espirito do seu Filho. que clama: Abbá, Pai! De modo que já nao
és escravo, mas filho. E, se és filho, es também herdeiro. gracas a Deus"
(Gl 4.6s).

O Espirito Santo é o dom que o Pai e o Filho nos entregam como con-
seqüéncia da vitória de Cristo; Ele é o "outro Paráclito (Consolador)", na
ausfincia de Cristo (cf. Jo 14,16).

Vé-se assim que a santif¡cacao dos homens se faz por comunháo com a
vida das tres Pessoas divinas; por obra do Espirito Santo, o cristao é feito
filho no Filho e. com o Filho, volta aó Pai. A piedade crista deve saber
orientar-se diante desta verdade; especialmente a sua oracao há de se mover
dentro do esquema: Ao Pai por Cristo no Espirito Santo.

As doxologias (fórmulas de glorificacao) antigamente rezavam "Gloria


ao Pai pelo Filho no Espirito Santo". No século IV, porém, surgiu a heresia
ariana, que subordinava o Filho ao Pai, prevalecendo-se, entre outras coisas,
de tal fórmula. Em conseqOSncia. os autores católicos enfatizaram outra re-
dacao: "Gloria ao Pai, ao Filho e ao Espirito Santo", frase em que sá*o pos
tas exatamente no mesmo plano as tres Pessoas divinas. Esta outra maneira
de rezar tem seu fundamento teológico e acabou prevalecendo sobre o ante
rior. Todavia nao nos deveria levar a esquecer o papel que toca a cada Pessoa
trinitaria na santificacao do cristao.

Os santos sempre desfrutaram o dom que o próprio Deus faz de si a


quem O procura. A bem-aventurada Elisabeth da Trindade, Religiosa carme
lita (t1906), cultivou generosamente a consciéncia da habitacao de Deus no
cristao, deixando, entre outras, a seguinte poesia:

"Era urna noita tranquila, alto o silencio;


O meu pequeño navio cortava o mar.
De repente íevantaramse as ondas

20
A SS.TRINDADE: COMO ILÚSTRALA? 21

E o frágil navio naufragou:


Era a Trindade que me absorvia.
Refugio encontré/ naquele abismo,
Mergulhada para sempre no infinito.
Aquí minha'alma respira e adormece,
Vivendo com os seus 'tres' no tempo eterno".

3. As apropriacoes

Chamamos "propiedades" certos predicados que convém, de maneira


exclusiva, a urna Pessoa divina: assim a inascibilidade e a paternldade, ao
Pai; a filiacao, o ser Palavra. o ser Imagem, ao Filho; a espiracao passiva, o
ser Amor e o ser dom, ao Espirito Santo.

Na Liturgia e na S. Escritura ocorrem também apropriacoes. Apro-


priacao é o ato.de atribuir a determinada Pessoa Divina um predicado co-
mum as tres; essa apropriacao se faz na base da semelhanca que tal predi
cado comum tem com alguma propriedade. Dizemos, por exemplo, no
Credo: "Creio em Deus Pai todo-poderoso. Criador do céu e da térra. . .";
na verdade, as tres Pessoas sao igualmente poderosas e criaram o mundo;
todavía parece que o ato de criar tem especial afinidade com o Pai, porque
este é o Principio sem principio ou o Alfa em Deus. — Ao Filho é apro-
priada a Sabedoria (ICor 1,24), nao porque só Ele seja sabio, mas porque
Ele é a Palavra do Pai. - Ao Espirito Santo é apropriada a santif¡cacao dos
homens, nao porque esta seja obra exclusiva da terceira Pessoa, mas porque
o Espirito é a consumacao da vida trinitaria ou o ósculo entre o Pai e o Fi
lho; ora santif ¡cacao implica consumacao no amor. Sao numerosas as apro
priacoes que a piedade crista tem efetuado em seus hinos e textos litúrgicos.

* * *

(continuado da p, 35)

dedos a capital, milhares de moscovitas se reuniram ao longo dos tres


quilómetros do percurso. Cantavam e rezavam. Imagina-se que, por detrás
das cortinas do Kremlin, os homens, talvez o próprio Gorbatchev, estives-
sem espiando o serpejar da multidao. Os cantos se levantavam depois de 73
anos de pedra." Deus chegava ali, de onde nunca havia saido. É isto.

Há, em tudo isso, um punhado de esperanca para um mundo que se


deixa perder no mais absurdo materialismo. Mas nao deixa de ser preocu
pante pensar que é mais fácil Deus ficar presente no meio da perseguicSo e
até do martirio dos seus fiéis do que sobreviver num mundo a quem Ele
nao incomoda mais, porque perdeu a importancia. Este é o nosso desafio"
( O LUTADOR. 14 a 20/10/1990, p. 2).

21
Fim do Cristianismo?

"1994...": Urna Profecía?

Em tíntese: O escritor italiano Ferruccio Parazzoli escrgveu o roman


ce da fícfio "profetice" intitulado "1994. La Nudité a la Spada", em que
imagina o fim do Catolicismo para 1994. Julga estar apoiado pelo fato
de que o Catolicismo já nSo tem ressonincia no mundo de hoja. - A revista
"II Sabato" resotvau entrevistar personalidades Italianas a respeito da tese
do romancista; entn os varios depoimentos assim colhidos, destacarme
aqueles que enfatizam a queda dos regimos ateus no Leste Europeu e a
procura de urna nsposta religiosa nos pa/ses ocidentais porparta dospovos
ncém-fíbertados do ngime ateu marxista. O Cristianismo é apto a dar essa
nsposta, pois o Evangelho hoje á o mesmo que nspondeu ao Imperio Ro
mano pagad; conserva todo o seu vigore a sua capacidada de atrair. Aconte
ce, porim, que a forga do Evangalho pode estar atenuada, caso os católicos
nSo creiam seriamantB neta ou quairam 'mesdar a mansagem do Evangalho
com mensagens heterogéneas, cedendo é impnssSo da que o Evangelho
como tal está defasado. Na verdada, nSo é o Evangelho que está dafasado,
mas talvez a tempera de alguns dos seus arautos estafa debilitada ou anémica.

* * *

0 escritor italiano Ferruccio Parazzoli escreveu o romance de ficcao


"1994. La Nudita e la Spada" (1994. A Nudez e a Espada), no qual imagina
o fim do Catolicismo para 1994: o Papa fugirá para Manilha (Filipinas), o
Cardeal Martín!, de Milao. será fuzilado juntamente com Don Giussani no
patio da residencia arqu¡episcopal de Milao. SerSo vítimas do poder maco-
nico-maf¡oso instalado nos Governos europeus. Muitos católicos — clérigos e
leigos — nao de se exilar voluntariamente, enquanto outros perecerao na per-
seguícSo, assinalando o fim da historia bimilenar do Cristianismo. Mas nin-
guém pranteará esse desaparecimento. Somente um punhado de pessoas sen
tirá a necessidade de se encontrar urna vez por ano ñas novas catacumbas
das grandes cidades para repetir os ritos da Páscoa crista*. Todavía o homem
da rúa nlo experimentará essa necessidade; flcará indiferente. E como pen
sar que nlo será assim? Para ele, o Cristianismo, com suas crencas abstraías
e com seus fastidiosos ritos domlnlcals, á coisa do passado. Ele já se acostu-
mou á ausencia do Cristianismo.

22
"1994...": UMA PRQFECIA? 23

O autor julga que nao se trata.de um romance de ficcao, mas de previ-


sao de algo que já comecou a acontecer, como se a Barca de Pedro fosse um
Titanio qualquer, sujeito ao naufragio definitivo entre as ondas da historia.
- Parazzoli conta como concebeu a idéia de escrever tal romance:

"Lembro-me: era um domingo como tantos outros, no mis de maio


de dois anos atrás, A ¡groja estava semt-vazia, a Missa era a mesma, havia os
mesmos semblantes distraídos, Ham-se as mesmas palavras do Evangelho,
que já nib interpelavam ninguám... Entelo pensei contigo mesmo, deixando
a imaginacSo trabalhar: e, se se desencadeasse urna perseguicSo anticatólica,
ficaria algum vestigio visfvel da Igreja jé hoje assim reduzida?" Yendo res
pondido "Nao" a si mesmo, o autor pos-se a recolher material: "EntSo, du
rante alguns meses comecei a colecionar recortes de jomáis, revistas e livros
que pudessem, de algum modo, oferecer um suporte real é minha,hipótese
fantástica".

Ñas suas consideracoes, o autor leva em conta a acolhida simpática e


solene que o Papa tem encontrado em suas viagens pastorais; pondera tam-
bém a queda dos regimes comunistas do Leste Europeu, regimes que procla-
mavam o fim da religiao como "opio do povo".

"Sim, vi também eu pela televisSo as cenas da viagem do Papa a Pra


ga. . . Sim. Foi um espetáculo grandioso. . . Mas a nos, a nos ocidentais,
que dizem aqueles imagens tSo excepcional e distantes? Nada... Alám de
urna efémera emocSo. nada. . . Talvaz porque já vimos o vazio e a morte
que existempor tras daquela Iiberdade que as populacSes de Leste comecam
a desfrutar, cinqüenta anos depois de nos".

O romance de Ferruccio Parazzoli toca certamente problemas reais da


vida católica de hoje; o choque entre a fé e a mentalidade do homem con
temporáneo, muitas vezes distante do Evangelho, tem sacudido a Igreja.
Dentro da propria Igreja os fiéis — clérigos e leigos — se agitam, querendo
repensar o Catolicismo á luz dos parámetros de nossos dias, mas nem sempre
convergindo para as mesmas conclusoes.

A revista italiana "II Sabato", após haver registrado a publicacao da


obra de Parazzoli, foi colher depoimentos sobre o assunto junto a pensado
res diversos, a fim de perceber o que julgam sobre a "profecía" do romance.
A seguir, transcreveremos alguns desses testemunhos e Ihes acrescentaremos
breves comentarios.

1. Depoímantos

Sao muito diferentes uns dos outros os testemunhos de pensadores

23
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 344/1991

contemporáneos a respeito da "saúde do Catolicismo de hoje". Vejamos o


que se segué:

1.1. Pe. Antonio Caruso SJ.: "Moscou chora, Roma nao r¡"

O Pe. Antonio Caruso, jesuíta, outrora colaborador da revista "La


Civiltá Cattolica" em materia política, publicou o livro La Croco del Sud
(A Cruz do Sul), que se tornou um pequeño best-seller nos ambientes da
Curia Romana, pois o autor trabalha na Secretaria de Estado do Vaticano.
É urna obra realista, que procura ser objetiva e afirma:

"Se Moscou chora, Roma nio rí. . . E, se o mundo comunista dá


sinais de rápido e simuitSneo desmoronamento, isto nio permite pensar que
o mundo cristio esteja em perfeito estado de saúde".

0 Pe. Caruso levanta a hipótese de que as nacoes católicas da Europa


poderiam, em breve, ter o destino dos países que viram nascer o Cristianis
mo (Palestina e Próximo Oriente). Hipona, a cidade de S. Agostínho no Nor
te da África, nao está hoje reduzida a ruinas recobertas de areia e flageladas
pelo vento do Saara?

Caruso vai mais longe, e diz:

"A crise gerat do Catolicismo hoje é tanto mais grave quanto muitos se
comprazem em negé-la. . . Essa crise 6 devida aos insidiosos ataques de urna
nova gnose,1 que, tendo conseguido implantarse dentro do Corpo da Igreja,
tem numerosas células ativas em via de multiplicacio rápida... Que resulta
rá disso?"

E continua:

"O que mais desatino suscita ñas fileiras dos católicos fiéis é ver um
número nio pequeño de eclesiásticos aplicarse á tentativa de esvaziar o
Cristianismo. E por 'eclesiásticos' entendo os clérigos em toda a extensio do
loque, com exclusio do Pontífice Romano.. . mas inc/uindo figuras porta
doras de mitra episcopal".

Comentaremos o depoimento sob o subtítulo 2 deste artigo.

Gnose seria um conhecimento pretensamente superior, riáis profundo e


fundamentado do que afónoseu sentido dássico.

24
"1994...": UMA PROFECÍA? 25

12. Salwatore Abbruzzese: Duas ponibilidades de desfecho da crite

"A críse do Cristianismo e a sua reducSo a um humanismo filantró


pico sao a conseqüéncia. esperada e receada, de um longo processo da secu
larizacSo. ' No decurso deste processo nSo faltaram momentos em que a
Igreja Católica foí posta de lado ou mesmo desprestigiada e perseguida. Para
lelamente á secularízalo, apareceram livros que analisavam a situacSo e
enfatízavam os pongos e ató mesmo a irreversibilidade desse processo; te-
nha-se em vista o romance de Hugh Benson: 'O Senhor do Mundo', recen-
temente reeditado pela Ed. Jaca Bock. Pois bem. Verificar que o confuto
entre religiSo e modernidade nSo é novidade de nossos días nSo equivale a
subestimá-lo. Todavía, hoje como ontem, a reducSo do Cristianismo a urna
insossa filantropía, que serviría ao laicismo dominante, é apenas urna das
possíveis conseqüéncias desse inevitável confuto entre religiSo e modernida
de. NSo se poderíam imaginar outras conseqüéncias ou outros cfesfechos
desse confuto, desde que se levem em conta outros fatos históricos, multo
concretos e presentes em nossos dias, como sejam: a persistencia da mais
alta espiritualidade religiosa no bojo da cultura européia do sáculo XX, os
testemunhos heroicos oferecidos pelo Cristianismo nos campos de exter
minio ou aínda a ¡mperecível pertinacia do solidarismo católico na época
contemporánea?

A vertente filantrópica, essa especie de 'Cristianismo fraco', está, por


certo, sujeita a todo tipo de crítica no plano aciesia!; pode ser criticada
como síntoma de urna fó ineficaz e insuficiente. Tem seu paralelo em ou
tras vertentes, que sacudíram a Europa, como os sincretismos mágico-reli
giosos da relígiosidade popular. O humanitarismo filantrópico 6 o sinal de
urna pertenca imperfeíta á Igreja. Todavía o fato mesmo de existir esse hu
manitarismo filantrópico atesta a existencia de algunos interrogacBes fun
damentáis; é o sinal de urna secularizado semi-frustrada e apenas parcial
mente realizada; é o sinal de que a grande partida entre a religiSo e o mundo
moderno aínda está para ser jogada.

NSo talamos aquí dos novos movímentos religiosos, das afirmacdes


fortes e das reivindicacSes abertamente religiosas — fatos estes sociológica
mente inexplícáveis, se se admite que a secularizacSo ¡i ganhou a batalha e
nSo volta atrás. O processo de secularizacSo pode tsr um desfecho bem di
verso da morte da religiSo".

O autor, em suma, quer dizer que os síntomas do mundo de hoje nao


levam apenas a prognosticos de ateísmo e morte da religiao, mas, ao contra-

1 Secularizado, no caso, significa: apagamento do sagrado, laicízacSb da


vida pública. Mais adequado seria falar de secularismo neste contexto.

25
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 344/1991

río, permitem prever também o surto muito vivaz do sentimento religioso


tempre presente (embora, por vezes, um tanto latente) na historia da hu-
manidade.

13. Mínimo Fini: "N6s, leigos, nos desorientamos"

"Parece estranho talar de fím do Cristianismo num momento em que a


Ignja Católica, mediante as grandes viagens do Papa o os recentes acontecí-
mantos nos países comunistas, parece estar triunfando retumbantemente.
Nao obstante, segundo vejó, existe urna crise do Cristianismo. O que o Cris
tianismo e. em particular, o Catolicismo ganhou em ecumenismo, ele o está
poniendo em profundidade e intensidade. Principalmente nos ditos países
oddentais, a Igrefa se debrucou domáis sobre a modernidade, sobre o indus
trialismo, sobre a tecnologizació; nSó tomou as devidas distancias. Poristo
no momento atual, como contragolpe é modemizacao e ao seu hedonismo
desumanizanto, surge ñas sociedades ocidentais urna forte procura de senti
do ou, ao menos, de espiritualtdade; esta demanda Já nSo é tSo dirigida é
Igrefa Católica (que parece domáis comprometida com os 'tempos moder
nos'), mas dirígese a outras formas de retigiosidade, que cortamente sSo
mais toscas o elementares (tenhamos em vista as solfas, os varios esoterismos
o os fenómenos ligados á astrologia, i cartomancia, ao espiritismo, formas
religiosas tídas como mais novas o estimulantes).

Como so compreende, pan mim, que sou um leigo, isto tudo equivale
a urna parda".

1.4. Mario Luzi: Neurosa milenarista

"A fó que se confronta com a anti-fá, com a incredutidade... Foias-


sim desdo as origens. Creio que será assim em todos os tempos. NSo gosto
otes» retorno periódico do milenarismo, que ¡i se tomou um género litera
rio. Éuma dramatizacao inútil, devida talvez ao cansaco, a neurosos, á imagi-
nacSo. Por corto, multas facetas do Catolicismo passam, mas passam porque
cumpriram sua tarefa o esgotaram sua razió de ser. Mas, quando formina
urna modalfdade do era crista", pode comecer outra, ou um Cristianismo mais
próximo de Cristo. Há algo que é mais íntimo e maforno Cristianismo...,
malor do que as formas históricos que a tgreja assume... e isto fica para
sampre.

Falo-te do fím do Cristianismo em tom apocalíptico. Mas esse fim


podo contar um ncomeco, pois o Espirito sopra onde quer. Jesús no Evan-
golho so intoressa por distípar todas as soguroncas cómodas e por enslnar-nos
ovo a forcé do Deus se revela na fraqueza do homenx Isto sempre me fasci-
nou vertiginosamente... ".

26
"1994...": UMA PROFECÍA? 27

15. Emanuete Severino: Paradoxos que pedem explicado

"Fim do Cristianismo? Sim; está no ocaso, masé preciso saber expli


car por que precisamente em nossos dias, neste ocaso, o Cristianismo parece
triunfar. Nio basta declarar o fim do Cristianismo, é preciso saber explicar
o sucesso real da Igreja em nosso tempo. Hoje a Igreja consegue apresentarse
como expressib das necesidades é das exigencias do homenx.. Mas entSb
como se explica o paradoxo de um Catolicismo que seria apenas urna reali-
dado passada e ultrapassada, mas que parece emergir como o Grande Vence
dor neste momento histórico?

Pensamos que pode haver retomo ao grande passado do Ocidgnte (e o


Cristianismo é o elemento mais grandioso desse passado), porque a cultura
contemporánea nio conseguiu acabar por completo com esse passado. A
própria crítica que Metzsche fez a esse passado, náb foi peremptória. Por
isto o Catolicismo pode ressurgir nSo somonte de fato, mas também com
pleno direito.

Quem poderá provar que o passado nio pode em absoluto retomar?


Enquantp náb se pudor provar isto, o passado que o Catolicismo representa
voltará e poderá reafirmarse plenamente, como acontece clamorosamente
em nossos dias. Na vardade, a cultura contemporánea abre esse espaco ao
Catolicismo".

1.6. Pe. Angelo Macchi SJ.: "Urna nova fase de luz"

"O momento atual é, para o Cristianismo, como a aurora de um novo


dia que está para vir. As ideologías que presumiam excluir Deus da historia
humana, já percorreram a sua parábola histórica. Tanto o coletívismo mar-
xista quanto o liberalismo capitalista faiiram. Hoje nio há urna única pessoa
ou córrante de pensamento no mundo que possa reivindicar a mesma forca
cultural e autoridade de que goza a Igreja Católica. Por conseguíate, como
falar de fim do Cristianismo? é um absurdo.

E, se o Papa desempenha neste contexto um papel cortamente fun


damental, o renascimento atual da fé nio ó redutfvel apenas á sua extraordi
naria persona/idade. Pensó, por exemplo, no grande e positivo influxo que o
Oriente exerceri sobre o Ocidente. Os preciosos depósitos de religiosidade e
de espiritualidade que um regime ateu manteve aferrolhados durante tantos
decenios, serió abortos de novo e com certeza muito nos enriquecerSó. As-
sim haverá um intercambio fecundo entre Oriente e Ocidente. . . . Das
nacdes orientáis nos vira o testemunho de urna religiosidade mais profunda,
purificada no crivo da perseguicao. Serio eles os verdadeiros mestres da fé.

27
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 344/1991

Estamos no ¡nido dasse processo. Mas todo faz prever que um tampo chelo
de fui aguarda a fgreja. Como urna nova (dada Media".

2. Refletindo...

0 teor do romance e os depoimentos anexos sugerem-nos algumas


ponderacoes.

2.1. O Fim do Cristianismo?

Alguns dos pensadores que deram seu test emú nho, enfatizaram o fato
de que os regimes ateus do Leste Europeu caíram bruscamente em 1989/90,
ap6s urna experiencia de decenios fracassada: em nacoes cristas quiseram
construir urna cultura nova, sem o Cristianismo ou mesmo hostil ao Cristia
nismo, tido como "opio do povo"; decretaram o fim do Cristianismo. E, em
última instancia, quem pereceu nao foi o Evangelho, mas os seus adversarios
e algozes! Tal é a vitalidade do Cristianismo! Fato paralelo se deu nos pri-
meiros sáculos da Igreja, ou seja, entre 64 (primeira perseguicao aos cristaos,
decretada por Ñero) e 313 (Paz de Millo, fim das perseguicoes).

Os povos recém-libertados do Comunismo voltam-se agora para o Oci-


dente, á procura de urna mensagem diferente ou religiosa, corresponden
te a índole mística congénita em todo homem. O problema que se coloca,
consiste em que o Cristianismo ocidental corre o perigo do "achatamento"
ou do "desfibramento", pois a civilizacao do bem-estar e do consumo o
ameaca; em conseqüéncia, as seitas vao ocupando os espacos vazios deixados
pelo Cristianismo desvirtuado.

Donde se vé que a eventual fraqueza ou anemia do Cristianismo nao se


deve aos seus principios doutrinários e moráis (embora entrem, nao raro, em
choque com a mentalidade moderna), mas, sim, ao esvaziamento que Ihe
infligem aqueles que o deveriam sustentar. A mensagem auténticamente cris
ta, por mais desambientada que pareca no mundo de hoje, continua a ser a
Grande ou a Única Resposta para a humanidade conturbada.

O Evangelho hoje 6 o mesmo que outrora; atravessou séculos de perse


guicao violenta sem se deixar apagar. Sao também as mesmas as carencias do
homem, que sempre teve e tem sede de valores sólidos e profundos, embora
exigentes. A própría Moral católica, com suas normas, por vezes, rígidas, é
garantía de bom sonso e dignificacao do ser humano.

Perguntamos entSo: por que se pode falar, com certo fundamento


na realidade, de fim do Cristianismo? — Respondemos, em parte, apontan-
do o desfibramento ou a descrenca de católicos, que, impregnados da

28
"1994...": UMA PROFECÍA? 29

mentalídade deste mundo, desvirtuam a forca e a riqueza espiritual da


mensagem crista.

Passemos a outras consideracoes, complementares destas ref Iex5es.

22. A mentalWade moderna

As correntes de pensamento contemporáneas oferecem inegavelmente


muitos pontos positivos; mas também entram em confuto com a mensagem
crista em nao poucos tópicos, como vai exposto a seguir.

1) Hedonismo

A mentalidade moderna é hedonista ou, ao menos, avessa ao sacrificio


e á renuncia. A filosofía de Sigmund Freud incutiu o horror ao "contrariar a
si mesmo", alegando que isto pode tomar o individuo neurótico. Deste prin
cipio se segué uma tendencia crescente á liberdade de conduta, que chega a
ser libertinagem. Se o individuo nao se acostuma a dominar seus impulsos
(nao raro cegos e incoerentes), toma-se escravo dos mesmos, em vez de con
quistar liberdade. - Ora o Cristianismo apregoa o autocontrole, o valor da
cruz motivada pela aspiracao a bens maiores; a Mensagem da Cruz de Cristo,
que é loucura e escándalo (cf. 1Cor 1,23), é inórente á pregacao do Evange-
Iho, nao por masoquismo ou pessimismo doentio, mas porque sem Cruz ou
renuncia nao há crescimento interior nem grandeza de personal¡dade.

2) Antropocentrismo subjetivista

O principal referencia! do pensamento contemporáneo é o homem,


sua promocao e seu bem-estar. Quem admite Deus, nao raro admite-o em
funcao do homem, fazendo da religiao uma especie de terapia ou de servico
ao homem. Este vem a ser a medida ou o padrao para julgar todas as coisas.
— Ora o Cristianismo é esencialmente teocéntrico, afirmando que a plena
realizacao do homem nao está no próprio homem, mas em Deus; alias, entre
a glorificaclo de Deus e a consumacao do homem nao há antitese, mas, ao
contrarío, convergencia. "Servir a Deus é reinar", diz a Liturgia.

3) Antiintelectualismo e relativismo

A corrente existencialista disseminou certa aversao á Metafísica e até


mesmo ao intelectualismo. O homem contemporáneo eró no valor do inte-
lecto no setor da matemática e das ciencias ditas "exatas", mas, fora deste,
parece nao admitir verdade perene e absoluta; daf professar certo relativis
mo em mataría de Ética, Direito, Filosofía, Religiao... - Ora o Cristianismo
professa o Absoluto da Verdade nao s6 no tocante as ciencias exatas, mas

29
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 344/1991

também no que concerne a Filosofia e á Religlao; pela fé o homem dá sua


adesSó ¿ verdade que Deus Ihe revelou.

Sao estes alguns pontos que explicam o confuto existente entre o au


tentico Cristianismo e a mentalidade contemporánea. Esta ó, sem dúvida,
mais cómoda, mals "compreensiva"; além do qué, é incutida pelos podero
sos meios de comunicacao, dentro os quaís sobressai a televisao. Por ísto o
Cristianismo é ameacado em sua sobrevivencia e sofre a tentacao de se diluir
ou descolorir, a fim de poder encontrar aceitacao no mundo de hoje.

Levemos adiante ainda a nossa reflexáo, perguntando:

23. E que colocaríamos em seu lugar?

Algumas cosmovisoes ou concepcoes gerais de vida se oferecem ao ho


mem de hoje, fora do Cristianismo.

1) O materialismo

Este assume diversas modalidades (a económica, a hedonista, a pan-


sexualista. . .).■ Parece, porém, que nenhuma délas satisfaz ao ser humano,
preenchendo suas aspiracdes mais profundas. - A experiencia marxista,
que prometía ao homem a feticldade mediante a redistribuicáo da economía,
malogrou, dando lugar a novo surto de tendencias místicas. Os Estados Uni
dos, país onde mais riqueza existe, sao também um país onde numerosas
crencas religiosas pululam ao lado de urna libertinagem sexual pouco constru-
tiva e gratificante (os abusos sexuais estao freqüentemente ligados á violen
cia e ao crime, pois excitam paixóes desenfreadas, como se depreende do
artigo das pp. 36-46 deste fascículo). O aparedmento de novas e novas cor-
rentes místicas espiritualistas em meio ao mundo materialista é como que
urna replica do ser humano como tal ¿s propostas do materialismo.

2) As novas "Místicas"

O fenftmeno das novas "Místicas", generalizado no mundo ocidental,


á multo significativo das aspiracSes do homem ao Transcendental. Contudo
é falho, pois nffo resiste ao crivo da razffo; as emocSes e as atitudes desarra-
zoada* e passionals preponderam em muitos casos, levando até mesmo a
aben-acSes lamentáveis, como noticiam os jomáis (há país que matam fi-
Ihos, há pessoas que obedecem cegamente as ordens de um líder ou de um
gurú, aceitando mesmo o suicidio por obediencia).

30
"1994,..": UMA PROFECÍA? 31

3) O lila

0 Isla é a córreme religiosa que atualmente mais cresce no mundo


inteiro. Seria o substitutivo do Cristianismo?

- Nao se podem negar os valores de piedade. cultura e mística da


Tradicao islámica. É inegavel, porém, que se trata de urna corrente religiosa
fortemente ligada aos povos árabes e ao nacionalismo respectivo. Entre os
fatos contemporáneos, seja mencionada a posicáo recentemente assumida
pelo Presidente Saddam Hussein,1 no I raque, para hostilizar as nacóes oci-
dentáis: apela para os valores religiosos do islamismo. O líder iraquiano, aos
10/08/90, acusava os próprios árabes sauditas (ou da Arabia Saudita) de
"ter desafiado a Deus no dia em que colocaram a Meca e o Túmulo dó Pro-

1 Saddam Hussein nasceu em Takrit (regiio ao Norte de Bagdá), de modes


tos camponeses sunitas. Os sunitas sao maometanos seguidores da Sunna ou
da Tradicio que codificou os ditos e gestos de Maomó e os comentarios fei-
tos a este patrimonio; v€m a ser minoritarios no traque e ma/oritários no
mundo árabe, onde a minoría i chuta (discípulos de um descendente da.
filha Fátima de Maomé edeseu esposo A/i).

Órfffo desde cedo, Saddam foi educado sem religiib por um tío nacionalis
ta fervoroso e antimonarquista. Comecou a estudar as primeiras letras com
oito anos de idade. Após a escola primaria, foi enviado para o Liceu Al
Karkh de Bagdá, foco de nacionalismo. Aos 19 anos de idade, aderiu ao Par
tido Baas (Renascimento) fundado em 1947em Damasco por MichelAflak,
nacionalista árabe ao extremo. Dois anos mais arde, um golpe de Estado
levou ao poder o General Kassem. O Partido Baas, descontente com o
Governo deste chefe. houve por bem assassiná-lo; Saddam Hussein fez parte
do Comando encarregado do assassfnio. Todavía, como a tentativa de homi
cidio foi malograda, Saddam foi exilado para o Egito (Cairo). Em 1963, o
Baas tomou o poder e Saddam Hussein foi subindo na hierarqula govema-
mental; tomou-se Vice-Pnsidente da República e homem forte do regime
em Julho de 1968. Em 1979 veio a assumir a Presidencia da República do
¡raque.

O nacionalismo de Saddam leva-o a valorizar a religiéo muculmana como


parte integrante do patrimonio cultural árabe. É isto que explica os discur
sos religiosos do Presidente, que na verdade é pouco familiar á nligiib em
geral. O regime de Saddam Hussein é oficialmente um regime higo, embora
nSb contrario é religiSo.

31
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 344/1991

feta sob a protecao.do estrangeiro"1 (ou soja, dos norte-americanos). Días


mais tarde, Saddam Hussein exortava:

"É tempo de que vos, muculmanos, assumais o vosso papal. Abrase


dianta dé vos a vía do Jihad,3 quaprovocou a colara do impúdico Bush".

Saddam Hussein parece realizar concretamente a predicao feita por


Michel Aflak: "Días virao em que os nacionalistas árabes serlo os únicos a
defender os verdadeiros valores do Isla".

Comparando o Cristianismo com o Isla sob tal aspecto, verificamos


que o Cristianismo também cedeu outrora a tendencia de empreender guer
ras religiosas (nao ó o caso de discutir se eram justas ou nao), mas é certo
que o Cristianismo, por sua fndole mesma, paira ácima de qualquer nacio
nalismo; ele é católico, universal, aberto a todos os povos e tende a se incul-
turar em todos, á diferenca do seu tronco judaico, no qual religiao e descen
dencia de Ábralo estao intimamente associadas entre si. O Cristianismo pre
ga a igualdade de todos os seres humanos entre si, independentemente de
roca, sexo e idade; foi precisamente por'isto que conseguiu penetrar e con
verter o Imperio Romano e o mundo ocidental antigo, apesar das perseguí-
coes cruentas que sofreu.

Em cohseqüSncia, nao se poderia dizer que o Isla é o substitutivo


jovem e vigoroso de um Cristianismo velho e decrépito que esteja a desapa
recer. Num juízo objetivo e destituido de preconceitos, pódese dizer que
nao se encontra no mundo de hoje urna córente de pensamento tao signi
ficativa e tao expressiva para o homem e suas interrogacoes básicas quanto
o Cristianismo.

Surge entSo a pergunta:

3. E que falta so Cristianismo?


••• -• ■ r, . . >-

Cromos que nada falta a mensagem crista tanto no plano da doutrina

1 A grande mosquita da Meca e o Túmulo do Profeta Maomé em Medina


sSo os dois mais Importantes santuarios do fsiff; o tercelro é a Mosquita de
Ornar em Jerusalém. Para os muculmanos, o territorio Saudita ó como urna
Grande Mesqvita.

1 O Jihad é o combate sagrado para promover o Islamismo. O Grande Jihad


consiste em lutar contra as más tendencias do erante muculmano. O Peque
ño Jihad consiste em combateros Inlmlgos do lst£

32
"1994...": UMA PROFECÍA? 33

quanto no da Moral. A fé 6 sempre escándalo e loucura, mas aquele escán


dalo e loucura que leva o homem a sair de suas categorías limitadas e mes-
quinhas para mergulhar em Deus, o Bem Infinito; foi esse escándalo-loucu-
ra que venceu a furia "sabia" dos perseguidores até 313.

O que falta ao Cristianismo, é, sim, urna traducao mais auténtica e


coerente, da parte dos seus adeptos; falta talvez um testemunho mais lúcido
e vigoroso, menos desfibrado, mesclado e atenuado do que o testemunho
dado por muitas comunidades católicas em nossos dias. £ o desojo de salvar
o Cristianismo da rejeicáo ou o desejo de tomar suave e agradável ó Cristia
nismo que vem a ser a causa de sua anemia e fraqueza. Jesús mesmo disse:
"Se o sal da térra perder o seu sabor, com que se há de salgar? Para nada
mais vale senao para ser lancado fora e pisado pelos homens" (Mt 5,13). ■

Se os cristaos nao querem que o Cristianismo seja pisoteado e rejei-


tado pelos homens, hao de procurar ser mais auténticamente cristaos, por
tadores do genuino sabor do Evangelho no mundo de hoje. Isto nao quer
dizer que se empreenda agressao ou polémica religiosa em nome de um
auténtico Cristianismo, mas implica a vivencia pura e simples da fé até as
suas últimas conseqüéncias.

Seja esta a conclusao incutida pelo romance "1994. . ." de-Ferruccro


Parazzoli. Nao se creia na ruina daquela casa que Cristo fundou sobre a
Rocha (= Pedro), mas tome-se consciéncia de que aos católicos compete,
em resposta, conceber nova estima pela Igreja e reconhecer o valor insubsti-
tufvel da mensagem crista e a necessidade de vivé-la com a máxima coerén-
cia possfvel para atender aos anseios de um mundo que "foi feito para Deus
e nao pode repousar senao em Deus" (S. Agostinho).

* * *

APÉNDICE

Freqüentemente a imprensa dá noticias da vital


em particular, do Catolicismo, em nossos dias, apesar da
tém infligido Governos ateus. - Entre outros tópicos, sejam destacados os
seguimos:

"AUMENTA FÉ RELIGIOSA EM CUBA,


AFIRMA ARCEBISPO

BONN — 0 Presidente da Conferencia Episcopal de Cuba, Dom Jaime


Lucas Ortega y Alamino, afirmou ontem que existe um aumento da féreli-

33
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 344/1991

glosa em seu país, no oval nSo se registrou quatqver retrocesso na abertura


do Governo pan a acao pastoral da Igre/a Católica. Dom Jaime Lucas, que
é tambim Arcebispo de Havana, esté visitando a Alemanha Otídental é fren
ta de urna delegacáb de religiosos, da quat partidpam o Bfspo de Cienfuegos,
Dom Femando Prego Casal, e o Secretario da Conferencia Episcopal, Dom
Carlos Manuel de Céspedes.

De acordó com o visitante, a renovacSb da fé é fácilmente constatada


atreves do aumento do número de batlzados, do total de conversóos entre os
Jovens, e de partlrípacSo das pessoas ñas menifestacóes de religiosidade
popular.

— A fé religiosa nao está mona, nem a ponto de morrer. Ela se maní-


festa em algumas ocasides de manefra surpreendente até para a própría Igra-
ja. Tudo Isso é entendido por nos nSo como o romplmento de umsuposto
isolamento, mas sim por um ampio renascer religioso, que ocorre concomí-
tantamente com os fenómenos de modificado ocorridos no Leste Europeu

Ele fez questSo, no entonto, de esclarecer que o renascimento religio


so em Cuba nSo foi urna conseqüéntía daquelas modlflcacBes, pois surgiu
anteriormente e elas. Eacrescentou:

- Ao contrarío do que algunsprevlam, o Mundo de hoje nao camlnha


para o ateísmo. Embora encontremos algum agnosticismo, hé urna nova rali-
glosldade, na quaf a fé surge sob diferentes formas.

Dom Jaime Lucas informou também que a posdbllidade de o Papa


JoBo Paulo II visitar Cuba - para o que foi convidado pela Conferencia
Episcopal e pelo próprío Presidente Fidel Castro — continua em aborto,
mas nao se sabe aínda ovando ocorreré" (O Globo, 13/10/1990, p. 18).

"URSS APROVA LIBERDADE DE CONSCIENCIA


ERELIGIAO

Das Agendas Intemetíonels

O Parlamento da Unláó Soviética aprovou a leí do llberdada de cons-


cltnda que aumenta conslderavelmente a abordado religiosa no pa/s. Por
342 votos a favor, um contra e urna abstencáb, passa a ser permitida a cria-
oío de assodacOes religiosas e o ensino religioso llvre na URSS.

0 Estado nao flnandaré nenhume ativldade religiosa e nem as campa-

34
"1994...": UMA PROFECÍA? 35

nhas de ateísmo. Os seminaristas passarió a teros masmos dfreltos que os


demais estudantes do país.

Asslstíram i sessffo o patriarca da tgre/a Ortodoxa Russa, Alexei 29,


e representantes de confissóes protestantes e do Judaismo. A Igreja Orto
doxa Russa é largamente majoritáría na URSS e fol tambám vftíma da per-
seguicSo religiosa do regime comunista. Sua estrutura foi tatamente subme-
tida ao Estado, que nomeia os ocupantes da hierarquia, a grande parte de
suas propriedades foi confiscada.

A perestroika do presidente Mikhail Gorbatchev aliviou aigumas das


restricdes á prática religiosa no país. Aigumas igrejas, mosteiros e semina
rios foram devolvidos e fez-se vista grossa a aigumas prátlcas proibidas for-
malmenm, como prodssSes e outras celebracóes ao arlivre" (A FOLHA DE
SAO PAULO, 27/09/90). \

"RÚSSIA:DEUS ESTÁ DE VOLTA

Pe. Patchoal Rangel

0 joma lista francés Gilíes Lapouge escreveu há días que Deus'volta ao


país de Lénin e do ateísmo oficial, sem nunca ter saído. Ele foi declarado
¡ndesejável, foi insultado, controlado, perseguido, proibido. Mas, escreve
Lapouge, "Deus nao desiste fácilmente". Assim, depois de 73 anos de
banimento, "efe que retorna em triunfo, com o regime se preparando para
restabelecer seus di re ¡tos, por meio de urna 'leí sobre liberdade de cons-
ciéncia e de organizacao religiosa'".

Há poucos dias, pude ler urna crónica emocionada de Giorgio Torelli


sobre o mesmo assunto. "Leio em um jornal mitanes — escrevia Torelli —:
'A Santa Rússia desfila diante de Lenine. Pela primeira vez desde a Revo-
lucao, urna grande cerimonia religiosa se desenrolou na maior Igreja do
Kremlin.' E continuava: 'No meio de urna selva de cruzes e icones, militares
de fiéis em procissao no coráceo de Moscou.' Num outro cotidiano (este,
turinés) encontrei isto: 'Poucos tinham visto alguma vez coisa semelhan-
te: o patriarca desfilar vestido de púrpura, circundado de bispos e me
tropolitas.1 "

E Giorgio Torelli comenta: "A procissao aconteceu por ocasiao do


dia de Moscou. E embora o vento gélido de setembro espremesse entre os

(continua nap.21)

35
Testemunhos impresionantes:

Vítimas da Pornografía

Em tíntese: As páginas subsecuentes apresentam quatro depoimentos


de homens e mulheres norteamericanos a respeito da violencia criminal de-
córrante do uso da pornografía nos Estados Unidos. Esta tende a escravizar
e bestíalizar o ser humano, principalmente o masculino, levandoo a pratícar
todo tipo da torpeza com a mulher: "Te amare! até te matar" é o título de
um filme norte-americano posto em cartaz no Brasil.

As mulheres vftimas da pornografía se queixam da conivéncia da Po-


Ifría e da inercia das autoridades governamentais. Alias, a industria porno
gráfico i sustentada nao só pela cobica do prazer cegó e anti-humano, mas
tambám pela perspectiva do lucro fínanceiro; a industria renda US$ 8 bi-
Ihdes por ano nos Estados Unidos1. - Dafa urgencia de ove a opiniio públi
ca desperté para os graves males oriundos da pornografía e exija dos molos
de comunicacSb social, especialmente'das emissoras de televisSb, mais res
pelto eos individuos e as familias do Brasil. Ao Governo toca, sem demora,
tomar providencias efícazes.

* • •

A opiniio pública no Brasil está muito ¡mpressionada pela violencia


que ocorre em asaltos, seqüestros, homicidios. . . Mas pouco se importa
com a pornografía que, na verdade, está muito ligada á violencia, como estí
mulo a mesma. A associacSo de pornografía e violfincfa foi experimentada e
documentada nos Estados Unidos: neste país as vftimas da pornografía tém
sido tío numerosas que foram chamadas a depor perante a U.S. Attomey
General'! Comminion on Pomography* nos anos de 1985 e 1986. Esses tes
temunhos foram reunidos e publicados em dois volumes, num total de 1957
páginas. Desses dois volumes a Sra. Phyllis Schlafly fez um excerpto intitu
lado Pomography Victime, editado por Crossway Books, Westchester,
Illinois. Firet Prlnting 1987, obra de 282 páginas.

1 Comissao do Departamento de Justica do Governo Federal norte-ameri


cano relativa é Pornografía.

36
VÍTIMAS DA PORNOGRAFÍA 37

A Sra. Ora. Phyllis Schlafly 6 portadora de doutorado em Direito pela


Universidade de Washington, Presidente do Eagle Forum, urna organizacáo
pro-Familia, e membro da Comissao do B¡centenario da Constituicáo dos
Estados Unidos (por nomeacao do Presidente Reagan). Em 1977 foi apon-
tada pelo Good Housekeeping como urna das dez mais admiradas mulheres
do mundo.

Extrairemos de tal livro quatro depoimentos dos mais significativos. De


antemao saiba o leitor: esses testemunhos relatam os fatos de maneira milito
crua e realista, podendo mesmo chocar pessoas impressionáveis. Todavía,
como diz Ingrid Horton á p. 79, o dever de dizer a verdade para evitar que
as vftimas se multipliquem, levou as pessoas a narrar detidamente as peripe
cias violentas a que foram submetidas por causa da pornografía. É únicamen
te o amor á verdade e ao desmascaramento de urna trama perversa que nos
leva a reproduzír os relatos mais crus neste fascículo de PR.

Segundo* a mesma Sra. Ingrid Horton, "pornografía sao fotografías


ou escritos que relatam comportamento erótico no intuito de provocar exci-
tacao sexual" (p. 73).

1. Testemunhos

1.1. Depoímento de Mary Steinman (Chicago 25/07/85)

"Nasci em Omaha, Nebraska. Fui vftima de abuso sexual em minha


própria familia no lar, quando tinha tres anos de idade. Meu pai trouxe urna
mala cheia de fotografías e revistas pornográficas. Desde os primeiros anos,
ele me ensinou a pratícar sexo oral com ele. Ele me pendurava de cabeca
para baixo num cubículo e empurrava chaves de parafuso para dentro de
mim. Ás vezes ele as aquecia antes de as usar.

Ele revia as suas fotografías pornográficas quase todos os días, á fim de


colher inspiracao para o que haveria de fazer comigo ou com urna de minhas
irmas. Ele me amarrava as máos e os pés e me tapava a boca para ensinar-me
que menina grande nao grita. Dizia-me que eu era muito feliz por tertal pai,
que me ensínava os fatos da vida.

Muitas das fotografías que ele tinha, eram de mulheres reduzidas é


escravidao, com míos e pés amarrados e a boca tapada. Lembro-rne da foto
grafía de urna muiher que tinha urna córrante em torno do pescoco, as maos
e os pés amarrados respectivamente a cabeceira e aos pés de urna cama. Al-
gumas das fotografías mostravam adultos a fazer sexo com enancas e crian-
cas a fazer sexo com enancas. Tinha também um monte de fotografías apre-
sentando sexo em grupo.

37
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 344/1991

Msu pal cotocava um cavalete junto ¿ cama; pendurava-lhe urna foto


grafía o, como um professor, dizia-me: 'Eis o que vais aprender hoje'. A se
guir, ele praticava comlgo o que a ¡magem enslnava. Quando eu tinha quatro
anos de tdade, meu pa¡ me alugou a outras pessoas para que praticassem o
sexo comigo.

Comigo ia também urna parte de sua colecto pornográfica, cujo atu-


guel estava incluido no preco do contrato e que Ihe devia ser restituida.
Este abuso continuou até os meus quatorze anos de ¡dade.

Nao tive infancia. . . Eu nao era senao instrumento de pornografía


para uso de meu pai. .. Por causa destes abusos, hoje sou radicalmente con
traria á pornografía e, por causa da pornografía, nao tenho prazer no sexo.
A palavra amor me é extremamente dolorosa. Meu pai dizia que me amava,
e o seu amor me feria.

Aparecí em numerosos programas de radio e televisao, tanto nacio-


naís como locáis, a f im de ajudar outras vítimas infantis de abusos sexuais e
para informar o público a respeito dos perigos do uso da pornografía.

Viajei por todo este país. Encontrei muitas vítimas de abusos sexuais
em idade infantil, e verifique! que em todos esses casos, como no meu caso,
o uso da pornografía foi um denominador comum... Julgo que ela deveria
ser abolida. Se a pornografía é inofensiva, entfio eu e os milhoes de outras
enancas vítimas de abusos no país somos culpadas da onda de erotismo que
existe naqueles que abusaram de nos. Mas nos nao somos culpadas; a porno
grafía é culpada, e nos, como enancas, somos os objetos inocentes da cobica
transviada de adultos. Nao existe pornografía inofensiva, como nao é inofen
sivo o abuso de criancas, o rapto e o assalto sexual. A pornografía cria um
círculo vicioso de geracao a geracao".

12. Testemunho de Sara Winter (Washington D. C, 19/06/85)

"Eu fui obligada a pratícar a prostituicao desde os treze anos de idade.


Fui urna das muitas mocas que fugiram de casa na década de 1960. Minha
única experiencia sexual, antes disso, ocorrera com um menino da minha
.idade. Eu também fora vítíma de abuso sexual aos doze anos. Na primeira
noite que passei longe de casa, fui raptada. Na segunda noite fugi da casa
aonde os meus raptores me tlnham levado. Na tercelra noite, estava andando
pelas rúas com a mente confusa quando fui colhida por um homem.

Confíei-lhe os meus problemas. Ele quis levar-me consigo. Enquanto


permanecí com ele, tratou-me relativamente bem. Era gentil comigo, da-
va-me alimento e dizia ser solícito para comigo. Mas ele também me deu

38
VlYlMAS DA PORNOGRAFÍA 39

drogas e tirou fotografías de mim desnuda. Apos urnas poucas semanas, ele
me vendeu a um proxeneta (cáften). Eu nao percebi. a principio, o alcance
desse gesto. . . Bob, a quem fui vendida, tentou seduzir-me. Pois que Ihe
resistí, ele me violentou e me disse que eu havia de trabalhar para ele como
prostituta.

Nos primeiros tempos de minha convivencia com ele, roubou meus


documentos, minhas jóias e minha roupa. Fui repetidamente surrada e vio
lentada. Ele ameacou minha vida e a vida de minha familia. Mais de urna vez
ele prometeu contactar minha familia e dizer á minha máe que eu era urna
prostituta ou entregarme ás autoridades, que, dizia ele, haveriam de me dei-
xar encarcerada até os vinte e um anos de idade. Ele alegava que o escándalo
destruiría a minha familia. Eu Ihe dava crédito.

Agora reconheco que eu estava profundamente traumatizada por mi


nha falta de liberdade, pela violencia e os espancamentos. Ele cóntrolava
todos os aspectos da minha conduta. Ele chegou a pintar meus cábelos e a
mudar a minha aparéncia. Eu nunca tinha dinheiro; era ele quem comprava
os alimentos que eu comía e as vestes que eu usava. Eu nunca escapava dos
olhares dele, a nao ser quando eu estava trabalhando' e ele éstava um pouco
á distancia.

Esse tipo de cercea mentó nao ó coisa rara. Aconteceu a outras mulhe-
res que eu contactei...

Ás vezes, quando um proxeneta me levava para um bar, onde outros


proxenetas mostravam as suas mulheres, nao nos era permitido falar urnas
com as outras. . . Cada vez que urna mulher falava, era profundamente
humilhada e espancada por ter infringido urna regra imaginaria de silencio
e porque o seu proxeneta havia definido que ela se comportara mal. Nos
éramos entregues de proxeneta a proxeneta. Os proxenetas nos usavam para
pagar as dividas que eles tinham uns com os outros. Nos éramos levadas á
forca para a rúa ou para lugares estratégicos. A mulher que fosse assim leva
da, tinha a única esperanca de que o seu raptor a recolhesse. Quem quisesse
fugir, corría o risco de ser colhida por um proxeneta ainda mais brutal.

Era horrível a sorte da mulher que fosse recapturada por seu proxe
neta originario; ele a punia de maneira selvagem por ter fúgido com um
homem, que na verdade a havia raptado. Em varias ocasiSes tentei fugir do
meu primeiro proxeneta. Mas, como eu era urna adolescente sem recursos,
longe da minha familia e acreditando que eu era urna grande criminosa, náfo
era difícil ao meu proxeneta levar-me de votta para sua casa. Ele me puxava
á forca pelas rúas, pelos restaurantes e os taxis, injuriando-me o tempo todo,
enquanto eu gritava por socorro. Ninguém queria envolver-se com o problema.

39
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 344/1991

Os homens que me compraran)... eram figuras salientes no setor dos


diverttmentos e no noiso Governo. A materia deles tinha seus cinqüenta,
sessenta anos. Tinham filhas e netas da minha idade... Era claro que nffo
usava da minha liberdade; era sempre recoberta de feridas e contusóes. Os
homens julgavam isso repugnante e me admoestavam a respeito. Era cada
vez mais claro que eu era sexualmertte inexperiente. Eu nao sabia o que fa-
zer. Por isto eles recorriam á pornografía para me ensinar o comportamento
sexual, e diziam-me que fizesse como as mulheres das fotografías fazia m, e
usavanvme.

Um dos homens que eu via regularmente, possufa urna vasta colecao


de ¡mpressos fotográficos para adultos e para enancas... Cada vez que meu
proxeneta o avistava, ele mostrava fotografías pornográficas de mim e de
outra mulher. Ele também fazia videotapes dos atos sexuais que se realiza-
vam sob a sua direcao. Esta prática se prolongou por um ano na freqüénda
media de urna vez por semana.

Meu proxeneta me obrígou também a fazer o papel de um macho cas


trado. Tinha entao por clientes urna media de dez a vinte homens. O jogo
comecava com'a extbicao de urna serie de filmes pornográficos para os ho
mens; depois disso, urna outra mulher e eu tfnhamos sexo com esses ho
mens. Isto realizava-se em lugares públicos, satas de diversóes, bares. . . Eu
era forcada a cumprir contratos, que tinham seu cenário nos grandes hotéis
de Nova lorque, com a participacao de centenas de profissioñais liberáis,
doutores, juristas... Os filmes que eram previamente exibidos, davam o esti
lo e a modalidade dos atos sexuais que nos havíamos de realizar, minha com-
panheira e eu.

Havia um apartamento na parte ocidental de Nova lorque para o qual


eu era enviada freqüentemente. Lá havia geralmente dois ou tres homens.
Depois que eu fazia sexo com eles, eles me fotografavam em varias posicoes
pornográficas. Como eu era urna menina, eu nao os chamava pornografistas,
mas me referia a eles como fotógrafos.

Somente quando me torne] adulta e lancei um olhar retrospectivo, to-


mei consdéncia de que o apartamento onde havia aquela cama e o aparato
fotográfico respectivo, era um recinto de producto pornográfica ilegal.

Em certa ocasiáo, urna outra menina e eu fomos levadas a um aparta


mento em New Jersey para encontrar-nos com alguns homens. Disseram-nos
que eram verdadeiros gángster* e que devfamos ser gentis para com eles.
Quando chegamos, fomos levadas a um quarto onde havia um conjunto de
luzes e o equipamento para filmar. Mandaram-nos realizar urna cena de
tesbismo. Após quinze minutos, deram-nos ordem de vestir-nos e fomos

40
VITIMAS DA PORNOGRAFÍA

devolvidas a Nova lorque. Foi somente mais tarde que eu tomei consciéncia
de que fora usada na confeccáo de um filme comercial.

Muita gente pensa que rnulheres e meninas como eu, usadas pela por
nografía, consentimos nessa humilhacáo e nesses abusos; mas $6 há consen
timento se há liberdade de escolha;eu, porém, era escrava de um proxeneta.
Nao creio que possa haver consentimento da parte de uma menina entregue
ás maos de figuras do crime em New Jersey a altas horas da noite. — Talvez
alguém pergunte por que é que eu nao recorría á Policía pedindo ajuda. Na
verdade, eu nao teria que me deslocar para ir ao Distrito Policial do meu
quarteirao; os policiais estavam no meu apartamento todas as semanas para
pagar o aluguel da minha pessoa.

Quando eu tinha dezesseis anos, fui enviada pelo Juizado para a PrisSo
Juvenil. Esse encarceramento equivaleu a um pesadelo de abusos sexuais ñas
maos dos funcionarios exploradores. Uma jovem queixou-se dos abusos aos
seus pais no dia da visita. Na noite seguinte, deram-lhe um castigo exemplar;
ouvfamos seus gritos e gemidos a noite inteira. A versao oficial, na manha
seguinte, relatava que ela tentara fugir, fora capturada e levada para o ¡so-
lamento.

Pouco depois, fui transferida para um lugar de diversóes. Quando avis


te i uma oportunidade, fugi. Mas era claro para mim que o Servico Social da
comunidade nao estava preparado para me proteger, e as autoridades^nao
somente nao me protegeriam, mas até me explorarían!. Nao havia meio de
me desvencilhar da prostituidlo.

Meu último proxeneta era um pornografista, o mais brutal de todos.


Ele dominava tres meninas ou mulheres constantemente. Todas as noites
éramos colocadas diante de uma tela sobre a qual eram apresentados filmes
pornográficos; ele queria-se excitar dessa maneira...

Uma manha, depois de haver 'trabalhado' a noite inteira, entrei no


meu quarto de dormir e vi as paredes recobertas de sangue e uma muiher
semiconsciente caída no chlo com feridas e contusoes. Seus olhos estavam
inchados e o sangue Ihe corría das pernas. Meu proxeneta a espancara com
uma vassoura. Deu-me ordem de tomar conta déla para que nao fugisse.
Quando ele caiu no sonó, eu a deixei fugir. Paguei multo caro por té-lo
feito. Ele me bateu com um chicote de cávalo e violentou-me. Fez um filme
recordando o acontecimento e sádicamente o exibia a nos de quando em
quando,

A maneira como esse homem conquistava mulheres para a prostitui


cao, era pedir manequins para modelos atreves dos jomáis...

41
42 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 344/1991

Eu escape) da prostituiclo de maneira totalmente imprevisível e voltei


a ser mulher. Enquanto me entreguei a prostltuicao e á pornografía, tomei
drogas; eram-me fornecidas por meu proxeneta e eu as aceitava porque me
aliviavam o sofrimento físico e emocional. Visto que eu me destruí pela
heroína que consumí, eu já nao interessava aos proxenetas para as suas
artes; delxaram-me entao em liberdade. Assim entre 18 e 19 anos, após
cinco anos de prostituido, eu estava sem um vintém, sem casa e viciada pela
heroína. Mlnhas coxas estío permanentemente marcadas pelas repetidas
pancadas e chicotadas; como adulta, tomei conhecimento de que contraf
doencas venéreas, porque meu proxeneta me forcou á vida sexual desde
os treze anos.

Aos vinte anos, conseguí libertar-me do hábito da heroína. Poucos


anos depois casei-me com meu primeiro marido. Em breve, nosso relaciona-
mentó tornou-se um inferno. Era um homem alcoólatra e mau. A mlnha
vida conjugal foi sendo espantosamente semelhante á minha vida na prosti-
tuicao. . . Ele nao era capaz de permanecer no mesmo emprego... Entrega-
va-se á ira e me espancava sem piedade. Após os golpes, ele quería sexo.

A pornografía estava sempre em nossa casa...

Meu marido morreu antes dos 25 anos de idade num acídente automo-
bilfstico provocado pela embriaguez. Poucos meses antes, tomei conheci
mento de algo que explicava a sua baixa estima de sí mesmo, o seu alcoolis-
mo e o seu ávido consumo de pornografía: sim, vi urna fotografía dele, como
adolescente, numa exposicao de figuras pornográficas...

A lei nao leva em consideracao mulheres e enancas que foram ofendi


das como nos. Os adeptos da pornografía alegam que a Constituicáo Ihes
garante o direito de escolher tal material para leitura. Os produtores de por
nografía afirmam que a Constituicáo Ihes assegura o direito de ganhar di-
nheiro com a pornografía...

Quero saber quando o Governo dará atencao a mulheres como eu e


aos meus direitos civís...

Para finalizar, eu quera dizer-vos que a maioria das mulheres que expe-
rimentaram o que experimente1!, nao sao t3o felizes quanto eu. Leve! vinte
anos para apagar o que foi feito em mim pela pornografía e a prostituicao.

Mas aínda existe a pornografía. .. E sei que nada posso fazer contra
ala. Vivo consciente de que neste momento os produtores de pornfl podem
usar esse material para humilhar a mim e á minha familia. Sei que pode ser
utilizado para prejudicar a minha vida profesional no futuro. Eu sei que esse

42
VfTIMAS DA PORNOGRAFÍA 43

material é protegido pela lei porque foi produzido poucos meses ap6$ os
meus dezoito anos de idade. Já que pornografía ó urna industria que rende
US$ 8 bilhóes por ano, também sei que o que aconteceu a mim, continuará
a acontecer a outras meninas e mulheres como eu. Continuarlo a ser usadas
e ofendidas, como eu fui usada e ofendida pela pornografía; e, se elas tive-
rem a sorte de escapar como eu, viverao sob a mesma ameaca de denuncia e
de chantagem que pesa sobre mim".

1.3. Testemunho de Diann (Chicago, 24/07/85)

"Fui vi tima de abuso sexual como adulta por parte de meu marido.
Nos nos encontramos em 1978 e nos casamos no fimde 1979. Temos duas
filhas na idade de um e quatro anos respectivamente. Eu era obrigada a rea
lizar certas práticas sexuais fantasiosas que meu marido aprenderá em muita
leitura e em filmes pornográficos. Tinha ele especial interesse pela*pornogra-
fia sádica e masoquista. Estava sempre disposto a dar-me surras e chicota-

Eu nao tinha consciéncia de que estava sendo sexualmente explora


da. . . Até o dia em que conversei com urna mulher que aconselhavS outras
mulheres; nunca censurei meu marido, que julgava que eu era urna esposa fria
e pouco carinhosa...

A meu ver, as relacoes sexuais nao eram saudáveis, mas'eu nao sabia
como controlá-las. Tomei certas ¡nformacoes a respeito de abusos sexuais.
E pensava: como poderla eu dizer que meu marido me ofendía, se ele me
amava?

A pornografía parecia-me ser como a gasolina no motor. Meu marido


fazia déla um instrumento. Ele me mostrava impressos pornográficos a fim
de me persuadir de que estaría tudo muito bem se eu aparecesse ñas bancas
de jomáis. Apresentando-me periódicos e o público que os procurava, ele me
dava a entender que outras mulheres estavam envolvidas na prática sexual
livre. Já que tanta gente era assim participante, por que é que eu nao me
dária por satisfeita como tantas outras mulheres?

Em conseqüéncia dessa insistencia, eu concebí urna baixa estima de


mim mesma. Sentia-me emocionaIrrtente ¡solada por causa de medo e per-
plexidade. Eu nao podia falar com a familia a respeito dessas coisas. Durante
certo tempo, os familiares me trataram como se eu estlvesse sentindo a de-
pressao posterior ao parto. . . Na verdade, nao era depressao desse tipo o
que eu sentia; era a reacáo diante do meu relacionamento sexual anormal.

No corrteco do nosso casamento, meu marido deu-me um ultimátum:

43
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 344/1991

ou eu havla de satisfazer a todos os seus desejos sexuais fantasiosos ou eu


teria freqüentemente relacdes com ele, Nóssa vida sexual pareceu pautar-se
pela literatura pornográfica e a fantasía, mais do que pelo amor que deve
existir entre um homem e urna mulher.

Eu gostarla de ler um trecho do livro Intitulado Strange Loves (Amo


res Estranhos). que esclarece como eu me sentia vftima do abuso:

'Talvez o amor identificado com sexo apenas se/a a verdadeira e única


perversib. É coisa Que ofende a nossa natureza de seres humanos... A per-
versio existe, se um dos parceiros julga que o outro é mero instrumento de
prazer, ou também se o intercambio sexual é imposto na base dos direitos
conjugáis. Isto vem a ser violencia legalizada'.

Esta mensagem é pesada, mas creio que deve ser levada em considera-
cío. Estou certa de que nao sou a única mulher vftima de abusos sexuais. Há
mais casos estranhos, dada a influencia das revistas pornográficas. As mulhe-
res que posam para as revistas, a que ponto se estao degradando!

Nos tres primeiros anos do nosso casamento, tfnhamos relacoes se


xuais tres vezes por semana no mínimo; e, sempre que havia sexo, era prece
dido pela consideracao de revistas".

1,4. Testemunho do Dr. Frank Osanka (Chicago, 25/07/1985)

"Sou-lhes muito grato pela oportunidade de partilhar convosco algu-


mas de minhas conclusoes referentes ao nexo entre pornografía e criminali-
dade. Sou Presidente do Behavioral Consultants em Naperville, Illinois.

O depoimento concerne a Thomas Schiro, que em Janeiro de 1982 foi


condenado á cadeira elétrica por ter seqüestrado brutalmente e estrangulado
mortalmente urna jovem em setembro de 1981.

O primeiro contato de Thomas Schiro com a pornografía deu-se quan-


do tinha menos de oito anos de idade. Descobriu dois dos filmes pornográfi
cos que seu pai recolhera durante a segunda guerra mundial. A exibicao de
tais filmes motivou-o a masturbar-se e desenvolver nele a necessidade de
procurar mais pornografía. Um dos filmes chamava-se Bedtime (Tempo de
Cama) e apresentava um homem e urna mulher em varias posturas de relacio-
namento sexual. O aspecto mais significativo do filme era a descricao do cor-
po de urna mulher como sexualmente atraente; a cSmara, porém, freqüente
mente chamava a atencao para a face angustiada dessa mulher. A mensagem
que o jovem Schiro deduzia, era a de que as mulheres tém prazer sexual no
tratamento descrito. S6 mais tarde ele se tornou consciente de que a maioria

44
V (TIMAS DA PORNOGRAFÍA 45_

das mulheres nao tém prazer em tal sofrimento e humllhacío; mas na idade
de oito anos ele nao o podía averiguar, porque cultivava necetsidades sádicas
de violentar mulheres, fosse em pensamento, fosse em Btoi.

Poucos anos depois, Schiro se acostumara a roubar ou comprar revis


tas pornográficas em lojas de drogas ou procurar tal material em depósitos
de lixo. Com seus dez anos de idade, ele entreva furtivamente em sessoes de
filmes drive-in. Schiro acompanhava com a masturbacao todas as exibicoes
pornográficas a que assistia. Quando ele raptou e matou sua última vítima,
ele se expusera a revistas, livros e filmes pornográficos. Muitos desses docu
méntanos ¡nclufam atos de sadismo contra mulheres.

A evolugao psicossexual de Schiro regrediu a tal ponto... que ele as-


sociava sempre masturbacao e consideracao de impressos pornográficos".

2. Reflexá*o final

Varios outros depoimentos se encontram no livro editado por Phyllis


Schlafly. Os que transcrevemos, já dao urna idéia do que contém os demais.
Deles sejam extraídas algumas linhas-mestras da problemática:

1) A industria pornográfica é altamente lucrativa. Rende US$ 8 bi-


Ihoes por ano nos Estados Unidos. Por isto haverá sempre quem lute por sus-
tentá-la, ¡ndependentemente do mal que ela cause aos usuarios. A cobica do
lucro prevalece sobre os mais nobres interesses ou mesmo sobre a dignidade
da pessoa humana; esta se torna menos valiosa do que o dinheiro, aos olhos
dos pornografistas.

2) Há certa hipocrisia da parte dos produtores da pornografía, que a


qualificam de inofensiva e a querem ver protegida pelas leis do Estado.

3) O uso do material pornográfico escraviza e bestializa a pessoa hu


mana, tornando-a sádica, desvaí rada ou mesmo assassina. Perverte radical
mente o conceito de amor. Nao nos surpreende entao que esteja sendo exi-
bido nos cinemas do Brasil o filme norte-americano: "Te amareí ató te ma
tar". Os depoimentos atrás transcritos comprovam a existencia desse tipo
de "amor".

4) Se a populacao do Brasil está ta"o revoltada contra os crimes de


toda especie que vém ocorrendo na sociedade, a ponto de pensar na implan-
tacao da pena de morte, deveria dar muito mais atencao a um dos fatores
mais provocadores de violencia social, que'é a industria pornográfica. Esta
se tornou urna escola de autodestruicao dos individuos, das familias e
do país.

45
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 344/1991

5) É, pois, Imprescindfvel que os meios de comunicarlo social, entre


os quals a televisio ocupa lugar eminente, tomem consciéncia de sua enorme
respoosabllldade. — As autoridades governamentais compete vigiar para que
esses poderosos cañáis deixem de ser tifo deletérios como tém sido em nosso
país. A vigilancia govemamental em tal caso nada tem de antidemocrático;
6,80 contrario, um servico de alto valor prestado ao povo brasileiro.

A propósito verPR 341/1990, pp. 443-454.

* * *

A CELEBRACÁO DO SACRAMENTO DA RECONCILIACAO

A pedido de leitores, lembramos:


Existem tres formas de se ministrar a reconciliacao sacramental, que é
o meio ordinario e necessário para se obter o perdao dos pecados graves ou
mortais:
1) acusacao particular e absolvicao individual de acordó com o costu-
me vigente; /
2) preparacao comunitaria com acusacao e absolví cao individuáis.
Quem participa desse rito sem realizar a confissao individual, nao recebe o
sacramento, mas toma parte apenas numa paraliturgia penitencial, que pode
contribuir para excitar a contricao e obter o perdao dos pecados leves;
3) preparaca"o comunitaria e absolvicao coletiva. Este rito é concedido
pela Igreja desde que se realizem as seguintes ccndicoes:
a) naja grande afluxo de penitentes e insuficiente número de con-
fessores;
b) seja de prever que as pessoas nao atendidas naquele momento fica
rio muito tempo sem os sacramentos.

Ao Bispo diocesano compete verificar se tais situacoes ocorrem na sua


diocese e, caso julgue que sim, indicar os dias do ano em que se possa minis
trar a absolvicao coletiva. Os fiéis devem ser informados de que Ihes incum
be a obrigacáo de confessarem, quanto antes, os pecados assim absolvidos.
A aceltacao desta norma por parte dos fiéis é necessária para a validado
da absolvicao. A razao por que a tgreja exige a acusacao dos pecados
mesmo em tais casos, está no fato de que nao Ihe compete o direito de
abolir a confissao sacramental, decorrente das palavras do próprio Cristo em
Jo 20,22-23; a Igreja pode apenas inverter a ordem das partes do rito do
Sacramento. .
'. A "propósito vejam-se os cañones 960-962 do Código de Direito
Canónico.

Ettdváo Bettencourt OSS.

46
Venceu o Bom Senso

Dom Jaime Luiz Coelho


Arcebispo de Maringá*

A onda de indignacao contra os desmandos na Televisao foi crescendo


a tal ponto, que chegou o momento da vitória do bom senso. O novo Minis
tro da Justica — e ele tem arsenal moral para isso — publicou urna Portaría
que regulamentava os programas de TV e suas chamadas para os mais diver
sos horarios, estabelecendo criterios de "classificacao indicativa". Nao se
trata de censura - o que a Constituicao eliminou, urna vez que esta mutila,
e chega a amputar programas - mas, sim, trata-se de fazer, como afirma o
Ministro, urna "classificacao indicativa". Sao "recomendacoes" ás emissoras
de televisao, para que respeitem os valores éticos da famflia brasileira, da
infancia, do adolescente, do jovem. O novo Estatuto da Crianca e do Adoles
cente prevé até penalidades para aqueles que ferirem os direitos da crianca e
do adolescente ali exarados. As cenas de violencia, de sexo explícito, vulgari
dades, essa enxurrada de lama era levada ñas telas de televisao em qualquer
horario, sem o menor respeito devido a pessoa humana, que ainda saiba dar
a si mesma o devido valor. Tamanha foi a ¡ndignacao do povo sadio brasilei-
ro, que o seu clamor chegou ao Ministerio da Justica.

Mas! É sempre o Mas!...

Tao logo se publicou a Portaría do Ministro da Justica, aqueles que


nao tém o menor senso de pudor e para os quais mais vale a forca do dinhei-
ro, levantaram-se contra a mesma. A imprensa trouxe as mais variadas opi-
nioes sobre o assunto. Assim o V¡ce-Presidente da Rede Globo afirmou:
"Nao acho urna solucao inteligente, adulta, nem que defenda a sociedade
brasileira. Sou da opiniao de que a responsabilidade do que vai ao ar, deve
ser do vefeulo e da famflia". Realmente. Já que o ve fcu lo, o canal de TV,
nao sabe impor a si mesmo urna adequada apresentacao, chegou a vez da
familia mostrar os absurdos que a mesma televisao vinha ¿presentando. De
outro lado, o Vice-Presidente da SBT aplaudiu a Portaría, dizendo: "Sou
totalmente a favor. Infelizmente a televisao brasileira, a partir da redemocra-
tizacao, passou depressa demais da liberdade á libertinagem". E diz mais:
"A busca pela audiencia está levando a excessos múítas erhissoras -inclusive
a minha —, que eoloeam programas improprios em determinados horarios.

* A RedacSo de PR agradece vivamente ao Sr. Arcebispo D. Jaime a colabo-


ragSo nesta revista, pedindo ao Senhorque ilumine semprg o ministerio pas
toral de S.Exda.

47
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 344/1991

Nos todos somos culpados pelos abusos. Nao temos o direito de fazer isso
com o povo brasileiro". Há outros testemunhos contra a Portaría e outros
favoráveis, dentro dos cañáis de TV e seus proprietários. Nao faz muito te ro
po, o Diretor-Presidente da Rede Globo, Roberto Marinho, publicamente
confessava esses excessos, referindo-se & recomendacoes do Papa Joao Pau
lo II sobre os deveres, da Televisao, de preservar os valores moráis da socie-
dade; e tomava o compromisso de procurar, ¡unto aos demais proprietários
de Televisao, um acordó para que se purificassem os programas de TV. A
Portaría do Ministro da Justica, Jarbas Passarinho, chegou em boa hora.
Como explica o Secretario Nacional dos Direitos de Cidadania e Justica,
"o importante 6 que se entenda que censurar é mutilar, cortar, amputar;
outra coisa é vocé fazer urna classificacao indicativa, dizendo a que horas o
programa deve entrar no ar". "Pareceu-me que houve urna repercussao des
cabida, pois nao se trata de censura e sim de classificacao indicativa", dis-
se o Ministro da Justica.

Todos sabemos que milhares de assinaturas estavam sendo coletadas


junto as pessoas de bem, para serem levadas ao Presidente da República,
pedindo um paradeiro a essas cenas de sexo, violencias e quejandas nos
programas de televisao em horarios improprios. Finalmente VENCEU O
BOM SENSO. Aguardamos para ver se definitivamente VENCERÁ O
BOM SENSO; vencerá a Portaría do Ministro da Justica? Ou vencerá a for-
ca dos detentores de cañáis de Televisao, continuando com os programas
indignos de sexo explícito, de violencia, de tanta vuigaridade, quebem deno-
tam a estatura dos que os planejam e exibem? Espera-se que, realmente, o
Brasil mude para MELHOR.

* * *

Jesús em Mateus, por Mons. Víctor Hadad. - Ed. Santuario. Apareci


da, 1986, 160x230mm, 127 pp.

O livro procura apresentar o Evangelho de Sib Mateus a partir da ótica


de um oriental, levando em conta o cenário e os costumes do Oriente anti-
go. Disto resultam páginas altamente interessantes;ás vezes, porém, tem-se a
impressSo de estar diante de interpretacio artificial ou toreada. Talé o caso,
por exemplo, da p. 89, onde o autor tenta explicar o uso do dual ou a pre-
senca de dúos figuras (personagens) em Mt 8,28-34; 9,17-31; 20.29-37;
21,1-7; 26,60; 26,69.71, quando os textos paralelos de Me e Le tSm um só
pé'rsonagem ou virios (nSo dois). O recurso ao espectro ou á sombra do in
dividuo nSo convence; é preciso procurar a explicacSo no estilo ou nos pro-
cessos ndadonais do Evangelista. - O livro é útil, mas pode ser discutido
em urna ou outra de suas passagens.

48
RENOVÉ QUANTO ANTES SUA ASSINATURA DE P.R.
Para 1991: Cr$ 1 £00,00

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" ANOS 1989e 1990:


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Como nem todos podem vir ao Rio de Janeiro ou penetrar na clausu
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lonial do inicio do sáculo XVII, adquirindo o grande Álbum em estojo en-
titulado O MOSTEIRO DE SAO BENTO.

Contém 18 fotografías artísticas (preto-e-branco) por Hugo Leal, o


mesmo que fotografou Ouro Preto e Salvador (BA) - Texto portugués-
inglés por D. Marcos Barbosa, - Formato: 38 x 29.

Prego do exemplar: Cr$ 6.000,00

EDICÓES "LUMEN CHRISTI" - MOSTEIRO DE SAO BENTO


Rúa Dom Gerardo, 40, - 59 andar - Sala 501
Caixa Postal 2666 - Tel.:(021) ¿91-7122