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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESEISTTAQÁO
DA EDIpÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
SL vista cristáo a fim de que as dúvidas se
' X dissipem e a vivencia católica se fortaleca
"no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar. este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
en

SUMARIO
3

<
A Nova Árvore da Vida

"Um Homem é um Homem" (Jéróme Lejeune)


LU

O
Embriao e pré-embriao
I-

LU
Sao Basilio (t 379) e a Defesa da vida

O A Festa Crista

"Liberte seu poder extra" por Pedro A. Grisa

Leste Europeu e Segredo de Fátima


LU

"O Dilema da Sexualidade" por José Maria Monteoliva S.J.


m

O
Livros em Estante
tr
o.

ANO XXXII MARQO 1991 346


IGUNTE E RESPONDEREMOS MARCO - 1991
Publicarlo mensal N9 346

Mor-Retponsável: SUMARIO
Estfivao Bettencourt OSB
<\utor e Redatot de toda a materia A Nova Árvore da Vida 97
publicada neste periódico Trágico e sensacional:
"Um Homem é um Homem"
etor-Administrador: (Jéróme Lejeune) 98
0. Hildebrando P. Martins OSB
Continua o debate:
Embriáo e pré-embriáo 105
mintstracao e distrital icá*o:
Edipóes Lumen Christi Um caso desconhecido:
Dom Gerardo. 40 - 5? andar. S/501 Sao Basilio (t379) e a Defesa
Tei.: (021) 291-7122 da vida 111

Caixa Postal 2666 Quaresma e Páscoa:


20001 - Rio de Janeiro- RJ A Festa Crista 114

Otimismo pela Sugestao:


tmprassáo e Encado'nafáo "Liberte seu poder extra" por
PedroA.Grisa 127
Ainda em voga:
Leste Europeu e Segredo de Fátima . . . 137
••MARQUES-SARA/VA"
Sim e Nao:
GRÁFICOS E EDITORES S.A.
"O Dilema da Sexualidade" por
Tels. (021)273-9*98 - 273-9447
José María Monteoliva S.J 140
Livrosem Estante 142

NO PRÓXIMO NÚMERO:

Que é o homem? - Inteligencia e Instintos: diferencas. - E o "retrato" de


Jesús? - Um padre na Sibéria. - A Idade Media, os monges e o progresso. -
Sobre o Neocatecumenato.

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA.

SINATURA ANUAL (12 números): Cr$ 2.000.00 - Número avulso ou atrasado: Cr$ 200,00

Pagamento (á escolha)
1. VALE POSTAL á agencia central dos Correios do Rio de Janeiro em nome de Edi-
coes "Lumen Christi" Caixa Postal 2666 - 20001 - Rio de Janeiro - RJ.
2. CHEQUE NOMINAL CRUZADO, a favor de Edicóes "Lumen Christi" (enderepo
ácima).
3. ORDEM DE PAGAMENTO, no Banco do Brasil, conta N° 31.304-1 em nome do
Mosteiro de Sao Bento, pagável na agencia Praca Mauá/RJ N° 0435-9. (Nao enviar
através de DOC ou depósito instantáneo - A ¡dentif¡cacao é difícil).
A Nova Arvore da Vida
0 mes de marco é o mes de Quaresma e Páscoa, durante o qual o cris-
táo procura aprofundar o sentido dos tempos que ele celebra. Para ajudá-lo.
a Tradicao crista propoe historietas certamente lendárias, aptas, porém, a
ilustrar as grandes verdades da fé.
Entre outras, narra-se que, quando o pai Ada o estava para morrer, en-
viou seu filho Sete (cf. Gn 4.25) á porta do paraíso, a fim de pedir ao
Querubim que o guardava (cf. Gn 3,24), um fruto da árvore da vida; seria o
antidoto da morte que o ameacava. O anjo respondeu ao menino que nlo
Ihe podia dar o fruto desejado, pois Adao ¡ncorrera na sentenca de morte e
era justo que a sofresse. Todavía dar-lhe-ia um raminho da árvore da vida;
quando o pai morresse, o menino o plantaría sobre o túmulo do falecido;
estivesse certo - acrescentava o anjo - de que. quando tal raminho cresces-
se e desse fruto, o pai Adao revivería! Assim fez o menino. E a predicáo do
anjo se cumpriu!
Que significa esta estória?
— O Evangelho afirma que Jesús foi crucificado no Gólgota — o que
em hebraico quer dizer: "Lugar da Caveira" {cf. Jo 19,17). Que caveira era
essa? - A lenda diz que era a do pai Adao. . . A Cruz de Cristo plantada
sobre o monte da Caveira é simbolizada pelo ramo da árvore da vida, que
Sete terá plantado sobre o túmulo de seu pai. Quando esse ramo (= a Cruz)
deu seu fruto (= o sangue de Cristo derramado sobre o túmulo e a caveira
de Adao). o Homem reviveu, isto é, recuperou a estrada da vida eterna; Cris
to é o novo ou o segundo Adao (Rm 5,12-19; 1Cor 15,45-49), que restitui
ao género humano a vida perdida pelo primeiro Adao.
O significado positivo da lenda em foco consiste em ilustrar a reca-
pitulacao realizada na plenitude dos tempos (cf. Ef 1,9s). Com efeito; a
historia da salvacao decorre entre dois eixos ou dois homens compendiosos:
o primeiro e o segundo Adao. O primeiro é pai para a morre; o segundo é
pai para a vida; a árvore da vida perdida no paraíso é resgatada pela Cruz
de Cristo, nova árvore da vida; a primeira Eva, que acompanhava Adao, é
recuperada pela segunda Eva; o nome desta "Mae da Vida" só se realiza
plenamente em María Santíssima. peta qual o Senhor da vida entrou no
mundo.
Ora a existencia do cristáo é a miniatura da historia universal ou a
passagem do primeiro para o segundo Adao. Nasceu de seus genitores, des
cendentes do primeiro, e renasceu, pelo Batismo, do segundo Adao. Impor-
ta-lhe, durante a sua peregrinacao terrestre, morrer para a desordem herdada
do primeiro Adao e dar espapo crescente á vida do segundo, recebida no Bau
tismo. - A Quaresma é o tempo forte em que esta ascese (exercício) se
efetua, a fim de que no domingo de Páscoa o fiel cristáo possa celebrar a
vitaría do segundo Adao sobre o pecado e a morte nlo só na Liturgia, mas
também em sua existencia pessoal!
E.B.

97
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

ANO XXXII - N9 346 - Marco de 1991

Trágico e sensacional:

"Um Homem é um Homem"


(Jérome Lejeune)

Em sfntese: O Dr. Jérdme Lejeune, genetícista de fama mundial, reía-


tou num iivro sua intarvencSo no processo de divorcio do casal norte-ame
ricano Júnior e Mary Davis. Estes cOnjuges tinham sete embrides derivados
de sementes vitáis dos própríos consortes, conservados em vida numa gala-
deira. Ao definir a partilha de bens, a mulher quería esses embrides para si
a f'tm de tentar levá-los adianto, ao passo que o marido também os quería
para si como se fossem coisas destinadas á "liquidacSo". O Dr. J. Le¡eune,
chamado da Franca aos Estados Unidos para oferecersuas informacóes ao
juiz, defendeu a tese segundo a qual, desde a conceicSo, o embriio já ó um
autentico ser humano e merece tersua vida raspeitada como a de quaiquer
outro inocente. O juiz aceitou a proposicBo do dentista e atríbuiu os sete
embrides congelados á tutela da mSe para que esta tentasse desenvolvé-los
mediante implante em útero materno. Assim termínou um caso inédito em
toda a historia da jurisprudencia mundial.

* * *

O Dr. Jér&me Lejeune é um dos matares geneticistas do momento


presente, já condecido dos leitores de PR mediante um trabalho seu publi
cado em PR 305/1987, pp. 457-61. Este cientista famoso defende e com-
prova a.tese segundo a qual no ovo fecundado existe um ser humano real,
diferente do pai e da mié; contém em potencia toda a riqueza de faculda-
des e a estatura de auténtico vivente racional.

Ora em 1990 o Dr. Lejeune publicou mais um Iivro, este de título


estranho: "L'enceinte concentratlonnaire d'aprés les minutes du proces de

98
"UM HOMEM É UM riOMEM"

Maryville" (O circuito de concentracao, minuto por minuto do processo de


Maryvüle).1 O autor conta uma facanha inédita de sua vida profissionat
ocorrida em agosto de 1989.0 caso é singular em toda a historia da huma-
nidade e merece ampia difusao, pois dá que pensar ao mundo contemporá
neo. Vamos, pois, apresentar o conteúdo do livro e procurar compreender
a sua mensagem.

1. O casal Júnior e Mary Davis

A imprensa nao deu grande divulgacao ao processo de Maryville, que


impressionou as cortes judiciárias norte-americanas. Ei-lo:

O Sr. Júnior L. Davis casou-se com a Sta. Mary, esperando terfilhós.


Tendo tentado engravidar, Mary foi algumas vezes decepcionada por urna
gravidez extra-uterina, que nao permitiu o desenvolvimento da enanca. Os
dois cónjuges resolveram entáb adotar um pequenino. Mas também isto nao
foi bem sucedido. Finalmente optaram pela fecunda?ao in vrtro. Os médicos
extrafram nove óvulos de Mary e em proveta conseguiram que fossem fecun
dados pela sementé do marido. Dois dos ovos assim obtidos foram implanta
dos no útero da mulher, mas nlo sobreviveram. Os sete outros foram conge
lados em vista de ulterior implantacao. Em temperaturas muito baixas -
mais baixas do que para os produtos conservados emaparelhos domésticos —,
o movimento vital dos embrides é quase totalmente extinto; cessa o de
senvolvimento do embriao. Mas pode recomecar quando aquecido de manei-
ra prudente - o que permite seja implantado noseio materno.

Pouco após esta última tentativa de ter filhos, o Sr. Júnior L. Davis
pediu o divorcio. Pos-se entao a questao: que fazer com os sete embrides
congelados? O advogado da mae sustentava que cada embriao é um ser hu
mano e devia ser confiado & tutela de sua genitora. Ao contrario, o advogado
do pai afirmava que se tratava de um pré-embriao ou de uma "coisa", que
partencia ao pai.

No impasse do .litigio, os interessados resolveram chamar da Franca o


Dr. Jéróme Lejeune, que teve quarenta e oito horas para atravessar o Atlán
tico e comparecer perante o tribunal em Maryville: devia fornecer ao juiz os
elementos necessários para arbitrar entre a peticao da mae e a asserclo do
pai dos embriSes. Era uma tarefa singular em toda a historia da humanidade!

Chegado a Maryville, o Dr. Lejeune reafirmou sua tese: o concepto é


um ser humano, independentemente da sua ¡dada; nao é um "bem" ou algu-

1 Editions Le Sarment/Fayard, 144 pp.

99
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 346/1991

ma coisa que possa ser tratada como um objeto sem vida. Por conseguinte,
os sete embrioes deveriam ser entregues a um curador que tutelasse os seus
direitos humanos, enquanto nao fossem implantados no seio da muiher que
Ihes propicíasse o desenvolvimento. 0 caso nao tinha precedentes: como o
curador haveria de exercer a sua tutela? Apesar de tudo, a lei mandava que
a enanca concebida tivesse os mesmos direitos que a crianca nascida, sempre
que se tratasse de partilhar urna he ranea.

O juiz, tendo ouvido as partes ¡nteressadas e o profissional Dr. Lejeune,


houve por bem aceder á sentenca deste e nomear procurador provisorio dos
embrioes o Chefe do Laboratorio que os tinha congelado. Seria um "curador
a frió". Este os deveria entregar á sua mae, a Sra. Mary Davis, visto que os
embrioes humanos nao sao objeto de propriedade e a vida humana comeca
no momento da fecundadlo; "era de interesse superior da crianca ou das
enancas ¡n vitro que a sua mae a Sra. Davis tivesse, por sentenca judiciária,
a possibilidade de os levar a termo mediante ¡mplantacao".

2. O depo¡mentó do Dr. Lejeune

A aventura descrita pelo Dr. Lejeune tem o título "Circuito de Con-


centracao", assim justificado pelo autor:

"Empilhados aos milhares num recinto refrigerado por azoto líquido,


reduzidos ao número de matrícula ou de entrada, esses seres humanos de
extrema¡uventuda estad encerradosnuma concentracSo can".'

O processo de Maryville suscitava urna questao fundamental: um ser


realmente concebido pelo encontró de espermatozoide e óvulo é ou nao é
ser humano poucas horas depois da concepcao ou no momento em que é
congelado? — Tal pergunta deixava de ser urna questao apenas biológica
para tornar-se também urna questao jurídica ou questao de direito positivo.
Com efeito; na partilha dos bens do casal que se divorciava, os embrioes
congelados deviam, pelo juiz, ser considerados como "coisas" ou como
objetos, cuja posse pudesse ser atribuida a um ou outro dos conjuges de ma-
neira exclusiva e definitiva? Ou deveriam ser reconhecidos como seres huma
nos vivos e chamados a desenvolverse, de modo a nao serem tratados como
coisas? Seriam sujeitos dotados de direitos, e nao apenas objetos dos direi
tos de um dos conjuges? Neste último caso, haveriam de ser confiados á
mae, que á a pessoa mais indicada para cuidar dos filhos e de sua educacao.

1 Can, no caso, em francés significa nSo um campo de concentracSo, mas


um recipiente, que garanta a aglomeracSo ou a concentracSo dos embrides.
(Nota do tradutor).

100
"UM HOMEM É UM HOMEM"

O Dr. Jéróme Lejeune defendeu a última tese (que, como dito, foi
aceita pelo juiz). Teve que enfrentar o advogado do esposo, que representava
a posicao contraria, tentando identificar os embrioes como objetos de pro-
priedade. O debate entre o módico e o jurista, em pleno ámbito do tribunal,
foi altamente interessante, como se pode depreender do trecho abaixo citado:

Advogado: "Va/o, Dr. Lejeune, que a sua posicio neste processo seria
totalmente divena, se o Sr. admitísse que um embríSó nio é um ser humano
no sentido ótico ou legal ou filosófico ou religioso".

Járdme Lejeune: "Por corto. Se eu estivesse convencido de que esses


recentísimos seres humanos sSo apenas objetos de pmpriedade, eles nao te-
riam interesse algum para o geneticista, visto que um bem irracionalpu urna
coisa pode ser liquidada a criterio dos proprietários. Mas, se eles sSo seres
humanos (o que de fato ocorre), nSo podem ser considerados como um bem
patrimonial. É preciso confiá-los a um curador".

Adv.: "EntSo surge a pergunta: que ó um embriSo, do ponto de vista


ético, filosófico e legal? Em seus estudos, o Sr. chegou á conviccSo muito
firme de que o embriSo recente ou simplesmente o embriSo é um ser huma
no como o Sr. o descreveu?"

J. L.: "Sim".

Adv.: "E o Sr. reconhece que outros homens, após tonga e profunda
refíexSo, possam chegar a urna conclusSo contraria i sua?"

J. L.: "Nao, nao posso admitir isso".

Adv.: "0 Sr. nao admite isso?"

J. L.: "NSo conheco um dentista que tenha chegado á opiniSo de que


se trata de um bem móvel. Ora esta 6 precisamente a questSo: os embrides
sao um bem móvel que se pode liquidar, ou seo seres humanos que hao de
ser confiados á tutela de alguém? —OSr. me pSe a pergunta; respondo com
precisSo. Nunca ouvi um dos meus colegas (nossas opiniSes dh/ergem em
muitos pontos), nunca ouvi um deles dizer a mim ou a outros que um em-
briSo congelado era a pmpriedade de alguém, que podía ser vendido, que
podía ser liquidado como um bem qualquer. Nunca, nunca ouvi isso".

Adv.: 0 advogado insistíu entSo ¡unto ao Dr. Lejeune para que defi-.
nisse o que constituí um ser humano segundo a Genética. Dísse, pois: "Vou
interrogá-lo diretamente, Dr. Lejeune. O Sr. se referiu ao zigoto e ao em-
bríio como sendo seres humanos extremamente jovens".

101
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 346/1991

J. L.: "Sfm".

Adv.: "O Sr. julga que um ser humano extremamente Jovem tem os
mesmos dfreitos que um ser humano mais ¡doso, como eu?"

J. L.: "É preciso que o Sr. me desculpe. .. No que diz respeito ao


Sr. mesmo, eu nSo consigo ver diferenca entre o ser humano extremamente
Jovem que o Sr. foi, eoser humano mais ¡doso que o Sr. é. O que define um
ser humano, é o feto de ser memoro da nossa especie. Assim, quer se/a extre
mamente jovem, quer seja mais ¡doso, ele nSo muda de urna espacie para
outra. Ble 4 da nossa estirpe. Isto éurna defintcSo. Diría, muito precisamen
te, que tenho o mesmo respeito á pessoa humana, qualquer que seja o núme
ro de quitos que pese, ou o gnu de diferenciacSo das células.

Quando vemos a prímefra célula humana, podemos dizer: 'Este indivi


duo seré capaz de falar, e talaré japonés se viverem Tequio. E podemos di
zer reciprocamente, vendo a primeira célula de um chimpanzé: esse indivi
duo nunca hé de filar.'"

Adv.: "Dr. Lejeune, permita-me assegurar-me de que compreendi bem


o que o Sr. diz: o zigoto deve ser tratado com o mesmo respeito que toca a
um ser humano adulto?"

J. L.: "NSo Ihe digo isso, porque nSo estou em condicSes de o saber.
Eu Ihe digoté um ser humano. Após o qué, toca ao Juiz definir se esse ser
humano goza dos mesmos direitos que os outros. Se o Sr. quer estabeiecer
diferencas entre os seres humanos, aprésente suas provas ou as raides que
fundamentara essa diferenciacSo. Mas, se o Sr. mepergunta, na qualidade de
geneticista, se esse ser é humano, responderé! que, visto que á um ser e é
humano, só pode serum ser humano".

Adv.: "Deduzo dos seus testemunhos que, segundo o seu modo de


pensar, é coisa mé matar intenciona/mente um zigoto".

J. L.: "Julgo que nSo é um bem. Pois equivale a matar um memoro da


nossa especie".

Adv.: "Seria a mama coisa que matar, vinta anos mais tarde, a pessoa
ou o ser humano que outrora era zigoto?"

J. L.: "É difícil responder porque o Sr. me formule urna questSó co


mo se eu fósse um juiz. quando eu sou um biólogo".

Adv.: "Mas quats sSo os seus sentimentos?"

102
"UM HOMEM É UM HOMEM'

J. L.: "Meu sentímento é que nSo é bom matar um membro da nossa


especie, é sen timen to muito simples".

Adw.: "NSo há difarenca para o Sr., guando alguóm mata saja um zigo-
to, soja um feto?"

J. L.: "Há grande difBranca: etes nao tSm a mesma idada. Agüele é
extremamente ¡ovem. Este é um pouco menos fovem. Mas, para mim, a dife-
renca nao é grande, porque em ambos os casos se elimina um membro da
nossa especie. É esta a única rázalo pela qual eu nSo mato ninguém; tratase
de seres humanos".'

Eis o principal trecho do debate entre o geneticista e o advogado. Pro


curemos agora formular as conclusoes oriundas desse caloroso diálogo.

3. Conclusoes

Tres sao os pontos principáis que ressaltam do livro do Dr. Jérdme


Lejeune:

1} 0 ser humano, segundo o geneticista, se define como um óvulo


fecundado que traz em si todo o patrimonio genético da especie humana;

2) a idade nao interfere na definicao do ser humano; tenha horas ape


nas, tenha dias, meses ou anos, é sempre um membro da especie humana. Se
alguém quer usar o termo pré-embriao para designar o óvulo recém-fecunda-
do, nao recuse a esse pré-embriao, desde a sua célula inicial, a identidade de
ser humano;

3) nenhum homem de ciencia em nossos dias (segundo Lejeune) sus


tenta a tese de que um embriao congelado possa ser a propriedade de alguém
ou possa ser comprado, vendido ou liquidado como um bem móvel. 0 direi-
to civil, já desde remotas épocas, distingue entre pessoas e "bens" como
sendo aquelas sujeito de direito e estes objeto de direito. Reduzir um sujeito
de direito á categoría de bem móvel, objeto de propriedade, é algo de mons
truoso.

1 O Dr. Lejeuna quer dizer que, como geneticista, ele nconhece a identida-
de do ser humano em qualquer embriSo humano e deixa ao Juiz a tanta de
definir os direitos que tocam a tal ser humano. Lejeune usa de carta ironía
nesta resposta, pois nSo 4 preciso ser Juiz para saber que a todo ser humano
compete o direito i vida e ao desenvolvimento de si mesmo.

103
8 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 346/1991

Alias, testemunhando o seu senso maternal, a Sra. Mary Davis decía*


rou explícitamente parante o juiz que, se a justica Ihe recusasse o direito de
desenvolver a vida existente nos embrides, ela pediria que ao menos a vida
fiSo Ihes fosse retirada... Disse que prefería ver seus filhos educados por
outra mulher, a qual o Juiz os entregaría, a vé-los abandonados na geladeira.
Ao se pronunciar assim, Mary Davis assemelhou-se b mulher que diante do
reí Salomao declarou que antes quería ver seu filho entregue á mulher rival
do que o ver partido ao meio para atender a cada uma das duas pretenden-
tes; cf. 1Rs 3,16-28.

A guisa de apéndice, é de notar com pesar que, embora naja plena evi
dencia em favor da tese do Dr. Lejeune, a Inglaterra, aos 23/04/1990, viveu
estranho momento: a Cámara dos Lords aprovou uma leí segundo a qual,
durante quatorze días a partir de sua concepclo, o embriao pode ser o obje
to de experimentacio médica e, por conseguinte, também de destruicao. Tal
decisio marca um passo significativo na legislacao da Gra-Bretanha. Será
elucidada pelo noticiario do artigo subseqüente deste fascículo.

• * *

(contínuacSb da p. 113}

Sao Basilio morreu quatro anos após obter tío alvissareiros resultados.
Faleceu prematuramente com a idade de cinqQenta anos, esgotado pelas tri-
bulacoes e as austeridades de sua existencia. Seus funerais foram um triunfo.
O povo avaliava a perda que a sua morte representava.

Merece relevo outrossim a firmeza de Basilio na defesa da fé contra a


heresia de Ario, que negava a Divindade do Filho de Deus ou da Segunda
Pessoa da SS. Trindade. Os Imperadores Romanos favoreciam os he reges e
maltratavam os Bispos ortodoxos. Ora o Imperador Valente, ariano, delegou
o prefeito Modesto para ameacar Basilio, caso persistisse em defender a dou-
trina da Igreja. Modesto nao conseguiu dissuadir Basilio. Finalmente, nao
tendo mais argumentos, disse o prefeito:

"Atéhojt ninguém ousou falar-me com talliberdade".

Ao que nspondou Basilio: "Sem dúvida, nunca encontraste um BispoX"

Pois bem. Os cristlos de hoje sao herdeiros dos Santos, aos quais nao é
lícito trair tío nobre linhagem, em que Basilio figura como modelo de rara
grandeza!

104
Continua o debate:

Embriáo e Pfé-Embriáo

Em síntese: Um Simposio rea/izado em Roma no ano de 1990, soba


mponsabilidade da instituicSo Politefa, abordou questdes atinentes ao
inicio e ao fim da vida humana.

Quanto ao inicio, afirmou, numa DedaracSo final, que antes do


149 dia de existencia nSo se tem um embriáó humano, mas, sim, umpré-em-
briSo; este estaría sujeito ao tratamento que a "simpatía" do operador Ihe
quisesse devotar; tal criterio 6, sem dúvida, vago e subjetivo, permitindo ao
pesquisador urna plena autonomía no tocante é bioética, autonomía preco
nizada pela referida DedaracSo.

No concernente ao fim da vida, resultou do Simposio urna "Proposta


de Testamento Biológico" enviada ás Cámaras Legislativas italianas. Atribuía
a cada cidadio o direito de decidir a maneira como queira morrer, devendo
a Medicina fornecer-lhe os cuidados e malos oportunos para que-morra da
maneira menos incómoda possfvel.

Além disto, no decorrer do Simposio outro texto foi estudado (nSo,


porém, aprovado) que nSo admitía diferenca alguma no tocante é ética das
pesquisas feitas em organismos vivos (fossem de ratinhos, fossem de seres
humanos recém-concebidos).

Como se vé, a filosofía subjacente a tais documentos é altamente sub


jetiva e egoísta, menosprezando brutalmente a vida humana em favor de um
pragmatismo ou utilitarismo materialista e mecanicista.

* * *

■Realizou-se em Roma, nos dias 29-31/03/90, um Simposio organiza


do pela instituido italiana Politefa,1 tendo por tema "A Bioética: questdes

1 Polltefa ó urna assoclacBo de estudiosos e políticos fundada em 1983. Tem


«m vista estudar questóes de ordem pública hoje discutidas e apresentar
principios de solucSo aos regimos democráticos e pluralistas. Segué urna II-
nha de filosofía liberal e neopositivista, como se depreenderá da exposlcSo
subseqüente.

105
10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 346/1991

moráis e políticas para o futuro do homem". Ao fim desse Encontró, foi


publicada urna "Declaracáb sobre o Embriao" assinada por sessenta estudio
sos italianos, entre os quais a Dra. Rita Levi Montalcini, Premio Nobel de
Medicina.

O teor dessa Declaracao, resultante das explanacóes e dos debates


ocorridos no Simposio, é de importancia capital. Pelo qué Ihe dedicaremos
as páginas subseqüentes.

1. A Declaracao sobre o Embriao

A Declaracao reconhece que "o problema do estatuto do embriao hu


mano e do respeito que se Ihe deve, é um dos problemas centráis e mais con-
trovertidos da bioética contemporánea". A seguir, propoe'a necessidade de
se conciliarem entre si a ciencia e a filosofía neste particular e concluí que,
"em vista dos recentes conhecimentos da omni-potencialidade do zigoto e
do embriao" e de outros conhecimentos (nao definidos), se deve dizer que
"antes do 149dia após a fecundapao fica excluido que o embriao tenha vida
pessoal ou seja pessoa".

Mais: segundo a Declaracao, a rtegacao ácima nao quer dizer que a vida
pessoal do embriao comece no 149 dia. . . Para assinalar bem a diferenca
entre as duas fases, sugerem os congressistas que o ser existente antes do
149dia seja dito "pré-embriao", f ¡cando a palavra "embriao" reservada para
o período posterior ao 149 dia. Vé-se, pois, que a nova terminología nao é
apenas urna questao de lingüística, mas implica toda urna filosofía ou con-
ceituacao de ser humano, pessoa e vida humana.

Os autores da Declaracao nao querem, com isso, dizer que nao se deva
respeito ao pré-embriao. Tal respeito, porém, fica a criterio do "senso de
responsabilidade dos pesquisadores" e de "oportunas normas legislativas".

A orientacao ético-filosófica da Declaracao foi expressa, de maneira de


cisiva, pela conferencia inicial do Simposio, a cargo do Dr. Uberto Scarpelli,
Professor de Filosofia do Direito da Universidade de Milao. A este mestre a
organizacao do Encontró concedeu, para expor suas idéias, mais do que o
dobro do tempo outorgado aos demais conferencistas - o que bem mostra
a intencao dos organizadores do Congresso.1

1 Houve, sem dúvida, urna palestra de orientacSo ático-filosófica diferente


nesse Congresso, a cargo do Prof. Pe. Paolo ValoriS.!. Professor Ordinario
de Filosofía Moral na Universidade Gregoriana;propos urna fundementacSo
ética aborta i Transcendencia e aos valores metaf/sicos. Mas tal conferencia
pouco relevo logrou no contexto do programa do Simposio.

106
EMBRIÁOE PRÉ-EMBRlAO 11

O Prof.ScarpelM criticou, como sendo "becos sem saída" para a Bioéti


ca, tanto "a via da Igreja" quanto "a via da natureza (a da lei natural). Em
seu lugar, propós, como única via praticável pela Bioética, "urna ética racio
nal", que "se apresenta como sistema de proposicoes dedutíveis de princi
pios ou de um único principio ao qual os outros possam ser reduzidos".

E qual seria tal principio?

— Tal principio deveria ser a simpatía, entendida como ¡maginacao


participante capaz de nos fazer sentir e viver, como se fosse nossa, a expe
riencia de outrem. Essa simpatía deve "gerar respeito e tolerancia", que, por
sua vez, "levam a autonomía como capacidade de dar regras a si mesmo. O
principio de autonomía constituí urna chave para o acesso á Bioética e se
torna decisivo para muitas questoes: a eutanasia, a fecundacao artificial
entre cónjuges, a doacáo de órgáos..."

Com outras palavras: nenhuma norma objetiva deverá existir para a


Bioética, mas apenas o respeito derivado da simpatía de um ser humano
por outro ser; essa simpatía, porém, nao extingue, mas garante ao individuo
a autonomía, de modo que cada um é legislador independente, para si, em
questoes de Bioética {tratamento de conceptos, eutanasia, fecundacao ar
tificial. ..).

O único limite imposto á autonomía seria "o prejuizo notável para


outros sujeitos (atuais e futuras) resultante do uso dessa autonomía".

Vé-se, pois, que impera ai o liberalismo ético, que nio conhece norma
alguma objetiva, anterior ou exterior ao individuo agente — o que pode re
dundar em egoísmo e instrumentalizacao dos outros. Tal posicao sugeriu ao
Or. Luigi Lombardi Vallauri, Professor Ordinario de Filosofía do Direito na
Uníversidade Católica de Milao, durante os debates do tema as seguintes per-
guntas: a simpatía deveria estender-se do mesmo modo a todos os pensado
res, inclusive a Hitler? Quais os limites dessa simpatía? Nao seria mais corre
to falar de cumplicidade? Nao haveria outro principio mais claro e funda
mental?

Passemos agora a urna reflexao sobre o principio de Bioética assim


apre sentado.

2. Ponderarles...

2.1. Avalíacáo serena

A posicao do Prof. Scarpelli, adotada pela Declaracao em foco, recusa

107
12 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 346/1991

a objetividade dos valores moráis, fazendo que estes dependam únicamen


te do jufzo (talvez, por vezes, passional ou preconcebido) do individuo. A
única restricao imposta a esse subjetivismo seria a do eventual prejufzo cau
sado a outro individuo (prejuízo esse que também pode ser subjetivamente
aterido).

O Prof. Scarpelli toma como referencial ético a "simpatía" que o ho-


mem deve ter para com outros seres. Ora o conceito de simpatía é algo de
vago e, mais urna vez, subjetivo {ha quem simpatize com esporte, música,
política, como há quem nao simpatize); além disto, a simpatía proposta por
Scarpelli (de certo modo, sinónimo de benevolencia) professa um otimismo
um tanto ingenuo com relacao ao ser humano. Com efeito; é notorio que,
quando a pessoa nao reconhece normas objetivas que a cofbam, cede ao libe
ralismo ético; donde resulta a famosa fórmula Homo homini lupus (o ho-
mem é lobo para o homem), aínda que acobertada pela capa de "simpatía".
O egofsmo e os ¡nteresses individuáis ou particulares tém prevalecido em lar
ga escala nos debates e ñas disputas que tecem a historia da humanídade.

Em última análise, as consideracoes do Prof. Scarpelli tém em vista


¡sentar os pesquisadores e, em geral, os agentes da saúde de qualquer barrei-
ra moral no desempenho de suas funcoes; a Bioética a nada se opona, con
tanto que, sob o título capcioso e ilusorio de "simpatia", o individuo reali-
ze seus projetos.

Verifica-se, poís, que nao tem fundamento objetivo a nomenclatura


"pré-embriao e embriao". sendo aquele o concepto de menos de 14 dias de
existencia. Desde o momento da fecundacao do óvulo pelo espermatozoide
já existem no concepto todas as potencialidades que caracterizan! o ser hu
mano; nada há que se Ihes acrescentar a nao ser a alímentacao e a protecao
adequadas, para que se forme um auténtico ser humano. Foí ¡sto o que o
Dr. Jéróme Lejeune demonstrou através de seus estudos (cf. PR 305/1987.
pp. 457-461 e o anterior artigo deste fascículo). Foi também o que afirma-
ram solenemente a Assembléia Parlamentar do Conselho da Europa e o Par
lamento Europeu, rejeitando a distincao entre "pré-embriao e embriao" e
afirmando a plena natureza humanado concepto.

1 A propósito ver PR 327/1989, p. 384: o Conselho da Europa, pela ñeco-


mendacSo n9 1.100, reconheceu, que, "desde o momento em que o esper
matozoide fecunda o óvulo, aqueta diminuta célula (ovo humano) já é urna
pessoa e, portanto, deve ser intocável aos engenheiros genéticos e pesquisa-
dores biogenáticos".
O Conselho da Europa é urna instituicio leiga, que fala em nome de 21 paí
ses; estipulou severas penas para os países membros que infrin/'am tal Decía-
racio.

108
SAO BASfLIO E A VIDA... 13

22. As razóos latentes da Declaracao

Pode-se crer que, entre as razSes inspiradoras da Declaracao em foco,


esteja o desojo de utilizar tecido do concepto para experiencias terapéuticas
diversas, especialmente para o tratamento de molestias degenerescentes,
como a doenca de Parkson e a de Alzheimer. Com efeito, quem nao reco-
nhece o embriao como pessoa, julgará ter o direito de desmembrá-lo e de
utilizar as suas células para transplantes; enxertadas em organismo afetado
por molestia, elas o poderiam regenerar.

Tal intencao (que nao é meramente hipotética) é profundamente


egoísta e individualista, além de fazer prevalecer a leí do mais forte. Quando
este sofre alguma necessidade, arroga a si o direito de salvar-se de problemas,
esmagando os mais fracos e indefensos. Assim inspirada, a Declaracao se po-
deria intitular muito coerentemente: "Declaracao dos direitos de aproveita-
mentó do embriao".

A mentalidade subjacente a tais propósitos é altamente deletéria em


níveis ainda mais clamorosos, pois vem a ser responsável pelo rapto de crian-
cas inocentes e indefensas, as quais se extirpam rins e córneas para serem
transplantados em pacientes económicamente aquinhoados. É o que ocorre,
a quanto parece, entre as massas do subproletariado urbano de cídades do
Terceiro Mundo.

A única diferenca entre a utilizacao de embrioes e a de enancas é que


este último caso pode ser testemunhado por quem queira denunciar a cruel-
dade do ser humano; ao contrario, o recurso a embriSes se faz no ambiente
reservado dos Laboratorios e dos Centros hospitalares.

Os que recorrem a tais procedimentos terapéuticos, tém certamente


em vista o progresso da humanidade, mas. . . de urna humanidade que, na
sua ansia de progredir, acaba por alimentar-se dos seus próprios filhos. O
futuro do género humano será entlo um retorno á exploracao arbitraria do
homem pelo homem, até a imolacao dos mais fracos para atender aos inte-
resses dos mais fortes?

Alias, é de notar que, no mesmo Simposio de Politeía, foi apresentada


urna segunda Declaracao, que criticava a primeira por considerar demasiado
exiguo o prazo de quatorze días para jogar com.um "pré-embriSo". Afirma-
va que as experiencias a serem feitas sobre a concepclo humana devem ser
submetidas as mesmas normas éticas que regem as experiencias feitas sobre
organismos vivos (em conseqüéncía, os embriSes humanos hSo de ser trata
dos como sao tratados os ratinhos e camundongos de Laboratorio!). E
rezava textualmente:

109
14 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 346/1991

"Se se devem impar limites ás experiencias feitas sobre a concepcSo


humana, serffo os limites decornntes das opfdes e dos projetos Que a própria
sociedade estabefece e promove em vista do seu bem-estar"\

Eram signatarios desta proposta os Drs. Bruno Brambati e Leonardo


Formigli.

A tais mestres pode-se recordar que no sáculo XX existiram sociedades


que, visando ao seu "bem-estar", exterminaran! milhoes de seres humanos.
Desta facanha s6 colheram desgraca e amargura.

Observe-se, de resto, que a Proposta Brambati-Formigli nao foi assumi-


da pela assembléia de Politefa.

3. "Proposta de Testamento Biológico"

O Simposio de Politeía oficializou um outro documento, que susci-


tou serios debates, com o título "Proposta de Testamento Biológico". Foi
esta enviada á Comissao de Justica da Cámara e do Senado da Italia, sob a
responsabilidade do Prof. Guido Alpa, docente de Direito Privado na Uní-
versidade de Genova, e do Prof. Renato Boeri, neurologista e presidente de
umaentidade dita "Consulta de Bioética".

■ O 'Testamento Biológico" seria o contrario do que dizem as pala-


vras. Reconhece a cada cidadao o direito de dispor da sua vida ou de deci
dir a maneira como queira morrer, desde que se veja afetado por alguma
molestia grave ou pelo desinteresse de viver; a Medicina Ihe deveria oferecer
os cuidados e meios necessários para que a morte assim escolhida transcor-
resse de maneira suave e reconfortante! Assim o médico colaboraría com o
paciente nao para o ajudar a viver, debelando a morte, mas para o ajudar a
morrer, . . . e morrer da maneira menos incómoda possível. Urna das últi
mas expressoes da ciencia seria a de promover a morte, atendendo aos an-
seios subjetivos de um ser humano.

Realmente o Congresso de Politeía foi todo inspirado pela mentalida-


de pragmatista, que nao desdenha menosprezar a vida humana, tida como
coisa, comparável á vida do animal irracional, destituida de qualquer pers
pectiva transcendental.

A tanto levam o utilitarismo e o mecanismo de determinado tipo de


rivilizacao que ameaca o homem contemporáneo. Este seria grande, alimen-
tando-se dos seus próprios filhos? Por pouco que alguém refuta sobre a filo
sofía inspiradora de tais propostas, nao pode deixar de Ihes dizer um Nao
decidido: res sacra homo (algo de sagrado ó o homem), já diziam os antigos.
— O respeito a pessoa humana paira ácima das conquistas da ciencia e dos
interesses particulares.

110
Um caso desconhecido:

Sao Basilio (+ 379) e a Defesa


da Vida

Em sintese: A Igrejs sgmpra foi contraría ao aborto, apesar de estar em


voga na antíguidade a teoría de Aristóteles segundo a qual a vida humana
masculina, só comeca quarenta días após a concepcSb e a feminlna somonte
oitenta días... Éntreos testemunhos mais significativos dessa antiga p'ósicSo
da fgrefa, contase o de SSb Basilio Magno, Bispo de Cesaráia (Capadócia,
Turquía hodierna), que desencadeou Intensa campanha contra o infanticidio
e o comercio de criancas abortadas, logrando sucesso notável em seu tempo.

* * •

Há quem diga que a Igreja favoreceu o aborto durante sáculos, bascan-


do-se na teoría aristotélica segundo a qual a vida humana masculina só
comeca quarenta días após a concepcao e a vida feminina só oitenta dias
após. . . É certo que os cristaos compartilharam essa teoría — hoje ultrapas-
sada —, pois nao tinham os necessários conhecimentos de Genética. — Toda
vía também é certo que, mesmo professando o aristotelismo no caso, a Igreja
sempre condenava o aborto como sendo a extincao de um processo vital de
tipo humano. A propósito já foi publicado um longo artigo com a adequada
documentacao em PR 324/1989, pp. 231-239.

Neste fascículo acrescentaremos ao material já proposto mais um


dado, ou seja, a enérgica apáo de S. Basilio Magno (t379), Bispo de Cesaréia
da Capadócia (Turquía de hoje), contra o aborto e o infanticidio.

1. Sá"o Basilio: trapos biográficos

Basilio nasceu em 329 na Capadócia, de familia muito ilustre. Seu pai


era um retórico estimado e sua mae urna mulher de fé. Entre os seus irmaos,
contam-se tres santos: Gregorio de Nissa (Bispo), Pedro de Sebaste e Macrína.

Estudou em Cesaréia, Constantinopla e Atenas, formando-se em letras.


Ensinava Retórica em Cesaréia, cedendo ao fascfnio da celebridade e de urna
carreira mundana, quando foi chamado pelo Senhor para receber o Batismo
e levar auténtica vida crista.

111
16 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 346/1991

Fez-se monge ás margens do rio Oronte e p6s-se a escrever as Regrat


Monásticas, que tiveram grande influfincia sobre o monaquisino posterior.
Em 362, porém, tendo ido a Cesaréia para assistir aos últimos momentos do
Bispo Difinios, que o batizara, Basilio foi ordenado presbítero pelo sucessor
de Difinios. Passou a viver em Cesaréia, aiudando o próximo e defendendo a
reta fé contra os arianos.

Em 370, morto o Bispo Eusébio de Cesaréia, Basflio foi feito Bispo


apesar de sua saúde muito franzina; era de inteligencia brilhante e profunda
vida espiritual.

Em seu regime episcopal, Basflio teve que enfrentar nao somente pro
blemas teológicos suscitados pelos hereges, mas também a displicencia das
autoridades públicas: o povo vivia miseravelmente, ainda nao plenamente
evangelizado; em um de seus escritos, Basflio narra o drama de um pai obri-
gado a vender um de seus fiihos como escravo para remediar á indigencia da
familia. Sao suas palavras textuais: "As exigencias chegam ao cúmulo da
desumanidade. Exploras o desespero, fazes dinheiro com lágrimas, estran
gulas quem está nu, esmagas o faminto".

Basilio deu o exemplo distribuindo seus bens entre os pobres e dedi-


cando-se á constátelo de urna cidade para os desamparados chamada Basi-
Ifada: havia ali um hospital, com urna ala reservada as doencas contagiosas,
um asilo para idosos, alojamento para operarios com distribuicao de sopa
aos indigentes.

Foi nesse quadro de atividades que o Bispo se deparou com o grave


problema do infanticidio.

2. A defesa das criancas

Basilio descobriu urna quadrilha de malfeitores que ganhavam dinhei


ro ás custas do aborto. Com efeito; fomeciam ervas, chas, pessários e até
meios cirúrgicos a mulheres que queriam interromper a gravidez. Após o
aborto assim praticado, levavam as criancinhas e as vendía m a fabricantes
egipcios de cosméticos, que utilizavam a gordura humana para a fabricacao
de varios cremes de beleza.

Basilio, ao tomar conhecimento do fato, dirigiu-se as autoridades


civis para pedir coibicao; foi, porám, surpreendido pela resposta de que tal
comercio era legal e sempre existirá.

Sem demora entao comecou ele mesmo a tomar providencias: pregou


urna serie de sermoes sobre a sacralidade da vida humana; mobilizou os cris-

112
SAO BASILIO E A VIDA... 17

taos de sua regiao para levarem socorro ás familias e as mulheres que sofriam
a crise da gravidez. Empenhou-se, persuadindo amigos e povo, por conseguir
a mudanca das leis homicidas. Empreendeu um programa de educacao em
toda a regiao para mostrar á populacao a gravidade do infanticidio; publi
camente protestou contra os comerciantes egipcios, que se valiam do sofri-
mentó das familias locáis para matar criancas e ganhar dinheiro. Sao palavras
do Santo:

"A mulher que deliberadamente destrói urna vida, deve ser punida
como assassina. Mais: aqueles que a a/udam e Ihe fomecem substancias abor
tivas para exterminar criancas no seio materno, sSó também assassinos, e
devem recebera punicSo correspondente".

Todavia a campanha de Basilio encontrou forte resistencia. Isto se


entende pelo fato de que o costume de abortar estava profundamente arrai
gado na tradicao dos cidadaos do Imperio Romano. Com efeito; um pa-
terfamilias (pai de familia) tinha o direito de decidir se urna criancinha
recém-nascida em seu lar teria a chance de sobreviver ou nao. Quando o pai.
com seus familiares, resolvía nao patrocinar a crianea. abandonava-a aos
estranhos: a maioria das cidades romanas tinha, fora de seu perímetro, lu
gares especiáis e muros onde os recém-nascidos indesejados eram expostos
para morrer ou para ser recolhidos por quem os quisesse adotar.

Basilio se surpreendeu profundamente quando Ihe disseram que essa


prática era perfeitamente legal. Por isto pds-se a lutar para que tal direito
do pai de familia fosse ab-rogado e se destruíssem os depósitos públicos
de criancas abandonadas.

A campanha do Bispo Basilio chegou aos ouvidos do Imperador Va-


lentiniano. . . Este, finalmente, em 374 deu o primeiro passo para modificar
a tradicao, decretando:

"Todos os genitores estío obrígados a responsabilizarse pelas criancas


que eles concebem. Aqueles que violentam ou abandonam seus filhos, de
vem sofrer as penalidades prescritas pela lei".

Assim pela primeira vez na historia do Imperio Romano o aborto, o


infanticidio, a exposicao e o abandono de criancas foram considerados ¡le
gítimos. A quadrilha de comerciantes que vendiam aos egipcios, foi racha-
cada oficialmente e os lugares de exposicao de criancas abandonadas foram
destruidos.

(continua na p. 1041

113
Quaresma e Páscoa:

A Festa Crista

Em tíntese: A festa 6 algo de profundamente humano;corresponde ¿


necessldade que todos tím, de se expandir e vivar momentos de gratuidade
e de sonho,... sonho que pode náb ser mera utopia.

A fíevelacSó Judeo-cristS conhece suas festas: as do Antigo Testamen


to convergiram para a festa crista de Páscoa, celebracSo da vitóría da vida
sobre a morte, e réplica a todos os fatores de desgraca humana. Páscoa é a
festa da re-criacSo do homem. fárido pelo pecado e pela morte. Todo do
mingo vem a ser comemoracSo do evento pascai ou um momento de etemi-
dede no tempo; por isto os amigos se compraziam em chamar o domingo
"o oitavo dia da semana", o dia que ultrapassa os seta días da primeira cria-
cSoe da labuta do homem moral sobre a térra. A celebracSo da vitóría de
Cristo no domingo se faz mediante a Eucaristía, que á o compendio sacra
mental de todos os dons de Deus aos homens. 0 cristSo que tem conscién-
da das verdades que professa, nSo pode delxar de estimar a observancia do
domingo como dia de Missa e de elevacSo da alma a Deus para antegozar
mals intensamente os valores definitivos.

* * *

Em nossos dias, o vocábulo "festivo" é empregado, por vezes, em tom


pejorativo; significa "levíano, superficial". Ora este fato implica urna dete-
rioracáb do conceito de festa, que ó um conceito profundamente humano e
rtobra. A festa bem entendida é algo de profundamente arraigado em todas
as religides e culturas do mundo. Por isto o Cristianismo também tem suas
festas ou sua FESTA, á qual atribuí valor especial, dado o seu caráter trans
cendental.

Ñas páginas subseqQentes, examinaremos 1) o significado de festa no


plano antropologico-cultural; 2) o sentido particular de festa no Cristianis
mo e 3) o do domingo como celebracSo da Páscoa do Senhor.

1. A festa como expressSo humana

A festa é algo de tío antigo quanto a cultura humana. Nenhuma época


deixou de ter suas festas. NSo a extinguíram nem os puritanismos exagera-

114
A FESTA CftlSTÁ 19

dos do passado nem a permissividade consumista e desenfreada do presente,


que esvazía o conteúdo nobre da festa. Nem mesmo a tensao da vida de nos-
sos días, a pobreza e a fome eliminam a propensao do homem á festa; ao
contrario, esta aparece como o canal que dá vazáb á esperanca. A festa vem
a ser urna exigencia oriunda das profundidades mesmas do ser humano. —
Reconhecendo isto, os antropólogos procuram enunciar os títulos que dao
valor á festa:

Todos sabem por experiencia o que é urna festa, de modo que nao há
necessidade de definí-la.1 Importa, porém, arrolar algumas características da
festa no sentido auténtico e sadio da palavra:

1) Os dias de festa sao dias de expansao mais livre do ser humano.


Rompem a mcnotonia da vida cotidiana, que pode ser massif¡cante, marcada
como é pelo ritmo de tarefas que, embora necessárias e justas, desgastam o
homem.

Os dias de festa permitem ao homem encontrar-se consigo mesmo e


entrever, através dos parénteses da festa, o sentido mais, profundo e trans
cendente da sua existencia.

2) A festa ajuda o homem a cultivar a gratuidade, emencipandc-o do


afa utilitario, pragmático e calculista,2 que é muitas vezes a tónica de
cada dia.

Tudo o que é útil, é importante, mas é sempre meio subordinado a um


fim. Ao contrario, o que nao é útil, pode ser um valor por si mesmo, nao
dependente de outro. A bem-aventuranca celeste, por exemplo, ou a festa
definitiva nao será um valor útil, porque será o objetivo consumado e per-
feito da vida humana.

3) A festa tem sempre urna dimensao comunitaria. Ela congrega e une


pessoas de procedencias diferentes, rompendo barreiras sociaise estabelecen-
do um tipo de solidariedade nobre e espontánea. A festa provoca a partilha
e a comunhao de interesses.

4) A festa, que geralmente celebra um acontecimento do passado,


torna esse passado presente e projeta-o para o futuro. Assim, por exemplo,

1 O Dicionárío de Aurelio diz que festa ¿"rouniSo alegra para fim da db/er-
timante". — Describió pálida a pobre.
3 Vardade é que a festa também tem sua utílidode e seus ob/etívos:ela per
mite que o homem se restaure e se recomponha física e psíquicamente.

115
20 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 346/1891

todo aniversario é ocasiao de recordar um evento pretérito e de atualizé-lo;


o evento 6 considerado a distancia, com objetlvidade, de modo que os ho-
mens tomem conscifincia da responsabilidade que Ihes incumbe de desenvol
ver cada vez mais vigorosamente a heranca recebida dos antepassados. A
recordacao do pretérito fundamenta a esperance do futuro.

Eis algumas linhas típicas da festa genufna, nao estragada pela espiral
consumista, que a empobrece é reduzá categoría de meio de lucro material.1

2. A Festa CristSf

Todas as correntes religiosas e culturáis térn suas festas, mas nenhuma


possui motivos táo válidos quanto a crista para viver desde já a festa que nao
acabará. Com efeito; a mensagem crista assume todos os valores positivos da
festa humana e os eleva a nivel superior, pois elá celebra a re-criacao do ho-
mem por Jesús Cristo, que. com a sua Páscoa (morte e ressurreicáo), fez no
vas todas as coisas; cf. Ap 21,5.

A festa crista está profundamente arraigada na historia, pondo-se em


continuidade com a festa judaica, que nela encontra a sua consumacao.

Ná verdade, Jesús, desde menino, viveu profundamente as festas israe


litas do seu tempo. Estas eram o sinal da Alianca de Deus com Israel e a ex-
pressffo da alegría de saber-se povo de Deus. Ele mesmo, o Senhor, prescre-
vera a celebracao das festas:

"Celebrarás a festa em honra do Senhor teu Deus no tugar que Efe


tíverescolhido para que o Senhor teu Deus te abencoe" (Dt 16,15).

"Durante seis días trabalharás e farás as tuas obras; mas o sétimo á


día de descanso, consagrado ao Senhor teu Deus" (Ex 20,9s).

Todas as festas de Israel expressavam a expectativa de urna realidade


vindoura na plenitude dos tempos (cf. Gl 4,4). A entrada de Cristo neste
mundo pds termo a profecía para dar lugar á salvacio definitiva.

Jesús selou urna nova Alianca de Deus com a humanidade mediante o


seu sangue. Tomou o lugar do cordeiro imolado em cada cela pascal do Anti-

1 é o que se dá com festas auténticamente cristSs como Natal e Páscoa.


O comando e o intuito de ganho matarial apoderaramse dessas ocasiffes do
ano para fíns lucrativos, deteriorando por completo seu profundo significa
do cristSo e humano.

116
APESTA CRISTA 21

go Testamento; entregou aos discípulos o seu corpo e o seu sangue ¡motados


para serem a vítima de nova e plena Páscoa. Mandando que repetissem o seu
gesto em memoria dele, Jesús instituiu a Eucaristía, que torna presente atra-
vés dos tempos, de modo incruento, o sacrificio de Jesús oferecido cruenta
mente na sexta-feira santa. Cf. Mt 26,26-28.

É de notar que Sao Jólo no seu Evangelho faz coincidir na mesma tar
de de 14 de Nisi a ¡molacao do cordeiro da Páscoa judaica e a morte de Cris
to na Cruz como verdadeira vítima pascal. Assim a realídade dissipou as
sombras. Cf. Hb 10,1.

Mediante a sua morte expiatoria, Jesús também levou á consumacao


a solenidade judaica da Expiacao (Yom Kippur), pois o seu sangue abriu a
entrada no santuario celeste ou na Jerusalém celeste; cf. Hb 9,11-14.

Em Jesús torna-se presente sobre a térra o Reino de Deus; é urna se


menté que se vai expandindo até o fim dos tempos. Os bens desse Reino
(filiacao divina, comunháo com o Pai pelo Filho no Espirito Santo, penhor
de heranca eterna) sao definitivos; tendem a desabrochar cada vez mais am-
plamente no coracao do cristSo. Ora esse Reino assim entendido é por Jesús
comparado a urna grande festa de nupcias (cf. Mt 22,1s), á qual sao convi
dados todos os homens. Alias, Jesús inaugura sua pregacao messianica no
contexto de urna festa de nupcias em Cana da Galiléia (cf. Jo 2,1-12).

O Evangelho - a Boa-Nova do Reino— está todo perpassado pela ale


gría (tenha-se em vista especialmente Le 1-2), sinal de que o "noivo" se en-
contra entre os seus amigos (cf. Jo 3,29s; Me 2,18-22). A própria dramatici-
dade da Paixao desemboca na alegría efusiva da Ressurreicao.

3. Páscoa, o cerne da festa crista*

Os cristaos tém, no centro do seu calendario de celebracSes, a Páscoa


de Jesús. Foi nessa ocasiao que o Senhor adquiriu para sempre, em favor de
todos os homens, a reconciliacSó com Deus após o pecado dos primeiros
país e fez urna nova criacSo. Toda festa é um Sim á vida; ora a Páscoa é a
festa da Vida por excelencia, com vitória sobre a própria morte. Por isto
o significado de Páscoa se irradia sobre o ano cristSo inteiro. Toda festa cris
ta é, a seu modo, um eco de Páscoa ou urna celebracao de Páscoa.

A Páscoa de Cristo se perpetua, por excelencia, na Eucaristía. Isto ex


plica o lugar central que ocupa a Missa em cada festa crista"; sem Eucaristía,
a festa á privada da sua referencia mais intensa á Páscoa de Cristo, eixo de
toda a vida crista. A Palavra de Deus, lida em cada assembléia eucarfstica,

117
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 346/1991

recorda as maravilhas realizadas por Deus na historia da salvacao e anuncia


a continuacáo das mesmas, aqui e agora, por meio dos sacramentos.

É precisamente a Eucaristía que faz que as festas cristas nao sejam


mera recordacao do passado, mas sejam um sinal que manifesta e toma
presente a bondade de Deus, Salvador do mundo por meio de Jesús Cristo.1

A festa crista, porém, nao se reduz apenas á celebragao da Eucaristía.


Esta se prolonga na chamada "Liturgia das Horas" (especialmente no Oficio
das Laudes matutinas e das Vésperas), como também nos exercfcios de pie-
dade que a devocao do povo de Deus estima. A temática da festa crista ¡ns-
pirou mu ¡tas vezes autos, dramas sagrados, misterios, alérn de divertimentos
sadios que exprimem a dilatacao dos corapoes.

A fonte de toda a alegría crista será sempre a presenca do Senhor na


sua Igreja, cumprindo a promessa até o fim dos séculos: "Estareí convosco"
(Mt 28,20). É presenca misteriosa, mas real e multiforme, grapas ao dom do
Espirito, que acompanha os discípulos e os converte em morada do Pai e
do Filho.

Esta presenpa sacramental de Jesús, mais eficaz e importante do que


a presenca visível captada outrora pelos sentidos, é a antecipapáo do encos
tro definitivo na festa que nao terá fim. Enquanto nao chega a consumacao
da historia, a Igreja tem o papel de congregar todos os homens em seu bojo
para serem participantes da alegria final.

As festas cristas, tendo por centro a participapao na S. Eucaristía,


constituem o ponto alto da vida do discípulo de Cristo. Todos os demais
valores - religiosos, culturáis, humanos e sociais - que integram o conceito
de festa, estao incorporados nesse valor fundamental, que Ihes dá sentido
pleno.

4. Unidadee multiplicidade

Estes dados ¡mplicam outrossim que os cristaos, em última análise,


celebram sempre a mesma única festa de Páscoa na Liturgia e na vida. A
aparente multiplicidade de festas do calendario cristao é exigencia inevitá-

1 O leitor observará a insistencia com que se afirma que a Eucaristía (e os


sacramentos em geral) atualizam ou tomam presente a Páscoa de Cristo
realizada há quase dois mil anos. Esta afírmacSo só pode ser sustentada pela
fé, mas 4 básica dentro da mensagem crístS. É déla que se derivam outras
proposicBes da doutrina católica.

118
A FESTA CRISTA 23

vel da condicao de peregrinos terrestres, sujeitos a progredir aos poucos na


compreensao e na assimilacSo dos dons de Deus.

Atendendo a este ritmo de viandantes, a S. Igreja, Mae e Mestra, vai


desdobrando no tempo todo o misterio de Cristo, desde a expectativa do
mesmo no Antigo Testamento (Advento) e o Natal até Páscoa e Pentecos
tés, que acenam para a segunda vinda (parusia) do Senhor Jesús.

É de notar, porém, que esse desdobramento do misterio de Cristo com


todos os seus matizes e ressonáncias, a constituir o ano litúrgico, tem sempre
seu núcleo fundamental e seu ápice no acontecimento decisivo da morte e
ressurreicao de Jesús (Páscoa), que se irradia em todas as testas do ano cristfo.

5. O Domingo

0 domingo ficou sendo o dia em que, por excelencia, os cristaos cele-


bram a Páscoa ou a vitória de Cristo sobre a morte. O Concilio do Vatica
no II o valorizou como festa primordial:

"Em virtude da tradicSo apostólica, que tem sua origem no dia mesmo
da RessurreicSo de Cristo, a Igreja celebra em cada oltavo dia o Misterio Pas
ca/. Esse dia chamase justamente dia do Senhor ou domingo. Neste dia,
pois, os cristSos devem muñirse para, ouvindo a palavra de Deus e partici
pando da Eucaristía, iembrar-se da PaixSo, Ressurreicao e Gloria do Senhor
Jesús e dargracas a Deus, que os regenerou para a viva esperance pela ressur-
reicio de Jesús Cristo dentro os morios. Porisso o domingo é um dia de fes
ta primordial que deve ser lembrado e inculcado é piedade dos fiéis, de mo
do que soja também um dia de alegría e de descanso. As outras ceiebracBes
nSo se Ihe anteponham, a nSo ser que realmente sejam de máxima importan
cia, pois o domingo á o fundamento e o núcleo do ano litúrgico" (Consti-
tuicSo Sacrosanctum Concilium nQ 106).

O domingo nasceu no dia em que Cristo ressuscitou. Este aconteci


mento é tao importante para os cristaos (cf. ICor 15,13.17) que a Igreja o
celebra de oito em oito dias sem interrupcao (mesmo quando os dias da
semana sao consagrados ao jejum e á penitencia, como na Quaresma e no
Advento). Examinemos, pois, de mais perto algumas de suas facetas.

5.1. O primeiro dia da semana judaica...

O domingo é o dia posterior ao sábado (7? dia) da semana judaica,


pois Jesús ressuscitou "no primeiro dia da semana", como atestam os evan
gelistas (cf. Mt 28,1; Me 16,1.9). Era, pois, o primeiro da semana judaica

119
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 346/1991

que, para os cristaos, veio a ser o shabbath (repouso), o dia do Senhor (cf.
Ap 1,10) e o oitavo dia, como veremos a seguir.

5.1.1. Shabbath

A palavra hebraica Shabbath significa repouso. O sétimo dia dos ju-


deus era dedicado ao repouso. Os cristaos compreenderam, desde o tempo
dos Apostólos, que o sétimo dia, doravante. deveria ser o da Ressurreicab
do Senhor. Por isto deslocaram de um dia a contagem da semana, de modo
a celebrar seu sétimo dia (sábado) no primeiro dia da semana judaica ou no
domingo. Sao Paulo já dá testemunho desta praxe em 56, quando recomen-
dava que, por ocasiao da assembléia eucarística no domingo, se fizesse a
coleta em favor dos pobres:

"No primeiro dia da semana, cada um de vósponha de lado o que con


seguir poupar" (tCor 16,2).

O livro dos Atos dos Apostólos (20,6-11) também atesta a celebracáb


da Eucaristía no primeiro dia da semana judaica bu no domingo cristao:

"No primeiro dia da semana, estando nos munidos para a fracSo do


pSb..." (At 20,7).

Observe-se que até hoje os cristaos de língua siria chamam o domingo


"primeiro dia da semana". Isto, alias, combina bem com o costume portu
gués de numerar os dias da semana a partir de segunda-feira (a "primeira
feira" é o domingo!).

5.1.2. O Dia do Senhor

Por volta de 95, ao escrever o Apocalipse, Sao Jofo refere o nome cris
tao dado ao primeiro dia da semana judaica:

"Ful arrebatado em espirito no dia do Senhor e ouvi atrás de mim


urna grande voz como que de trombeta" (Ap 1,10).

Aexpressao grega kyriakó harriera (- dia senhorial) vem de Kyrio»;


deu em latim dominica dfes; donde se fez dominga no portugués arcaico, e
domingo na linguagem atual.

120
A FESTA CRISTA 25

Assim o primeiro día da semana é tido como o día em que Jesús rece-
beu "um nome que está ácima de todo nome" (Fl 2,9) e foi, pelo Pai, cons
tituido o Salvador de todos os homens.1

A locucao día do Senhor ocorre logo no fim do sáculo I, na Dídaqué,


catecismo da Igreja nascente: "Reuni-vos no día do Senhor para a fracáb do
pao e agradecei (celebrai a Eucaristía)" (XIV, 1).

Chama a atencao a associacao de día do Senhor e Eucaristía. Esta, per


petuando a Páscoa do Senhor. é, na verdade, o melhor meio de a celebrar. A
praxe tem suas raízes no próprio Evangelho: os discípulos de Emaus reco
nheceram o Senhor ressuscitado ao celebrarem a fracao do pío na tardinha
do dia de Páscoa: ouviram a Palavra do Senhor, que Ihes desvendava as Escri
turas caminho andando, e descobriram a sua presenca vitoridsa quando par-
tiu o pao e Ihos distribuiu; cf. Le 24,13-22.

O dia do Senhor foi posteriormente chamado também "dia do Sol" —


costume até hoje existente em inglés (Sunday), em alemao (Sonntag). Es
te designativo tem sua origem no linguajar dos pagaos, que dedicavam ca
da dia da semana a um astro: Sol, Lúa, Marte, Mercurio, Júpiter, Venus,
Saturno; deixou vestigios em Ifnguas neolatinas (como o espanhol, o italia
no, o francés).

Sao Justino (t 165) dirigiu ao Imperador Antonino Pió urna Apología


em favor dos cristSos, na qual descreve minuciosamente a assombléia euca
ristía. Já que tinha em vista os pagaos, utilizou a terminología deles, cha
mando o domingo "dia do sol"; esta expressao nao implica interferencia do
paganismo no Cristianismo, mas exprime o desejo, de Justino, de se fazer
compreender numa exposicáo que em absoluto ná*o se ressente de sincre
tismo religioso:

"No dia que se chama do Sol, celebrase urna reuniSo dos que moram
ñas cidades ou nos campos e alise ISem, quanto o tempopermite, as Memo
rias dos Apóstalos ou os escritos dos profetas.

Assim que o leitor termina, o presidente faz urna exortacSó e convite


para Imftarmos tais belos exemplos. Erguemo-nos todos, entíb, e elevamos
em con/unto nossas preces, após as quais se oferecem pSo, vinho e agua,
como ¡á dissemos. O presiden te também, na medida de sua capacidade, eleva
a Deus suas preces e acSes de gracas, respondando todo o povo 'Amém'.

"Se confessares com tua boca que Jesús 6 Kyriot (Senhor) e cretas em teu
coracSo que Deus 0 ressusrítou dentro os morios, serás salvo" (Rm 10,9).

121
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 346/1991

Segueta a distribuido a participacio, qua se faz a cada um, dos alimentos


consagrados pela acffo da gracas, a seu envió aos ausentes,, por meto dos
diáconos. Os que tím. e querem, dio o que Ihes parece, conforme sua livre
determinacSo, sendo a coleta entregue ao presidenta, que com efa auxilia
os órfibs e viúvas, os enfermos e outros necesitados, os encarcelados, os
forastairos de passagem, constituindose, numa palavra, opmvedorde quan-
tos se acham em necessidade. Celebramos essa reuniSo geral no día do sol,
por ser o primeiro, aqueta em que Deus, transformando as trovas e a materia,
fez o mundo; o die tambám em que Jesús Cristo, nosso Salvador, nssuscitou
dos morios: pois convém saber que o crucificaram no día anterior ao de
Saturno, e que no día seguinte, isto ó, no dia do sol, aparecau a seus apostó
los e discípulos, ensinando as mesmas doutrinas que propomos a vosso
exama."

Aludindo á expressao pagl e tentando cristianizá-la, S. Inácio de An-


tioquia (t 107) dizia que o domingo "é o dia em que amanheceu nossa
vida" (Aos Magnesios 9,1). Podia basear-se em expressdes bíblicas como
Le 1,78, onde o Messias é chamado "o astro (Anatolé) das alturas", e
MI 3,20, que apresenta o Messias como "Sol de Justica". A tradicao crista
desenvolveu a temática, como se depreende dos dizeres de S. Máximo, bispo
deTurim(t465):

"O domingo ó, para nos, um dia vanerável a solene, porque é aqueta


em que o Salvador, como o Sol nascente, dissipou as urnas do inferno, e
brilhou com a luz da rassumicSo. Por esta razió, tal dia 4 chamado pelos
ftomens do mundo dia do sol, já que o Sol de Justica oiluminou ao nascer"
(homilía em Pentecostés 1).

5.1.3. Ooitavo dia

A designacao do domingo como sendo o oitavo dia da semana significa


que no domingo o cristao ultrapassa o modo de viver e os bens que este
mundo oferece, para usufruir um pouco mais dos bens eternos.

O número 7, na Mística antiga, simboliza sempre a perfeicao ou pleni-


tude dos bens deste mundo. Para os israelitas, o sétimo dia era o dia de par
ticipar do descanso de Deus, que teria criado o mundo em seis dias. O oitavo
dia, sobrepondo-se aos sete dias da semana, é o dia que nao tem ocaso ou o
dia da luz definitiva; é como que um dia arrebatado á eternidade.

Nesse dia o cristfo é chamado a "procurar mais intensamente as coisas


do alto, onde Cristo está sentado ¿ direita de Deus" (Cl 3,1). Assim revigo-
rado, retoma ele na segunda-feira o curso de seus afazeres a fim de construir
mais convictamente o Reino de Deus sobre a térra.

122
AFECTA'CRISTA 27

Entre o sábado judeu e o domingo cristao existem ruptura e continui-


dade. Ruptura, por causa da radical novidade do domingo, que nao ó sinv
plásmente a cristianizacao do sábado, mas o sacramento da Páscoa de Cristo
e de urna nova criacao. . . Continuidade, porque o rico sentido teológico
do sábado, dia de paz e repouso em Deus, antegozo da felicidade postuma,
permanece válido. Por isto entende-se que muitos cristaos antigos prove
nientes do judaismo, tenham observado o sábado; todavía, ao pdr do sol do
sábado (quando se comecavam a contar as horas do domingo, conforme o
costume judaico), dispunham-se a celebrar a Ceia do Senhor e a presenca do
Ressuscitado com os cristaos de origem ná*o judaica. Em nossos dias algumas
denominacóes protestantes, tendentes a retornar ao Antigo Testamento,
apregoam a observancia do sábado, esquecendo o deslocamento da criacao
para a re-criacao realizada por Jesús Cristo, que fez do dia da Ressurreicao
o dia do Senhor por excelencia.

52. O Dia da Assembléia Eucarfstica

Como dito, o momento alto do domingo é o da celebracáo eucarfsti


ca, que reúne os fiéis em torno da mesa de Cristo. Por isto o dia do Senhor é
também o dia da Igreja. Na verdade. Cristo, Eucaristía e Igreja sao insepará-
veis entre si; a Eucaristía (Corpo de Cristo sacramental) faz a Igreja (Corpo
de Cristo místico), e a Igreja faz a Eucaristía. Em conseqüéncia. o cristao é
convocado para participar da Eucaristía juntamente com seus irmábs, for
mando um só corpo eclesíal, mesmo que prefira ir á igreja isoladamente; as
tendencias particulares háo de ceder ao senso eclesial e sacramental que a
mensagem crista" suscita em todos os fiéis. A assembléia eucarfstica domini
cal deve tomar-se urna necessidade vital, a respiracao e a pulsacao do corá
ceo dos filhos da Igreja.

A consciéncia desta verdade é-nos atestada por episodios antigos, dos


quais destacamos o dos mártires de Abitene (perto de Tunis, ao Norte da
África); poderiam ser chamados "os mártires do domingo".

Era o ano de 304. Um grupo de cristaos, presos por estarem reunidos


contra as ordens do Imperador Díocleciano, compareceram aos 12 de feve-
reiro em Cartago perante o procónsul Anulino. Havia ai um sacerdote, Sa
turnino, além de jovens, criancas e pessoas importantes da sociedade, entre
as quais o senador Dativo. As Atas do processo por que passou esse grupo,
nos dio a conhecer o diálogo travado entre os cristaos e os jufzes, desejosos
de que se declarassem culpados. Todos acabaram morrendo pela fé, como
narra minuciosamente o cronista. Eis trechos dos mais significativos das Atas:

"A primeira dos confessons da fé torturados, Tática, gritou: 'Somos


cristíbs;por isto é que nos reunimos'.

123
28 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 346/1991

O procónsul interrogou-a: 'Quem é que, ¡unto contigo, chefia as vossas


munidas?

A mártir respondeu com voz clara: 'O presbítero Saturnino, a todos


nos'.

Vitoria, urna das cristas, respondeu: 'Tudo o que tenho feito, tem sido
espontáneo e por minha própria vontade. Sim;assisti á reuniio e celebre! os
misterios do Senhor com meus irmios, porque sou crista'.

O presbítero Saturnino, tendo sofrido torturas em seu corpo, fot leva


do á presenca do procónsul, que Ihe disse:

'Tu agiste contra o mandamento dos Imperadores reunindo-te com to


dos esses cidadSos'.

Saturnino, cheio do Espirito Santo, respondeu-the: 'Celebramos tran


quilamente o día do Senhor, porque a celebracSo do dia do Senhor nSo pode
ser omitida'.

Enquanto atormentavam o sacerdote, sobreveio o leitor Emérito, que


disse: 'Sou eu o responsável, pois as reunidos se realizaram em minha casa.
E assim fizamos porque o dia do Senhor nio pode ser preterido; é o que
manda a leí".

O procónsul penjun tou:

'Em tua casa foram celebradas essas reunidos? Por que permitiste aos
teus colegas entrar?"

— 'Porque sáb meus irmios e eu nSo os podía impedir'.

— 'Ora era teu dever ¡mpedi-los'.

— 'Isso nSo me era possível, pois nos nio podemos viversem celebrar
o misterio do Senhor'.

Igualmente, varios dos companheiros puseramse a declarar:

— 'Nos somos crístSos e nio podemos guardar outra lei que nao a leí
santa do Senhor".

O procónsul Ihe disse:

124
A FESTA CRISTA 29

- 'NSo vos pergunto se sois crístSbs, mas se cefebrastes reunidos'".

A esta altura o autor das Atas comenta:

"Tola e ridicula pergunta do juizl Como se o cristio pudesse viversem


celebrar o día do Senhorl Ignoras, Satanás, que o cristSb está fundamentado
na celebrado do día do Senhor?"

Ainda nessas Atas se lé que um jovem, Félix, deu corajoso testemu-


nho: "Eu celebrei devotamente os misterios do Senhor e me reuni a meus
irmaos, porque sou cristao".

Um menino, Hilariano, sem medo dos tormentos, tarnbém disse: "Sou


cristao, e espontáneamente, por minha própria vontade, celebrei devotamen
te os misterios do Senhor e me reuni aos meus irmaos, porque sou cristao"
(Actas de los Mártires, BAC, pp. 975-994).

Como se vé, para os primeiros cristaos a observancia do domingo era


de importancia capital. Verdade é que, outrora como hoje, houve os negli
gentes, que os pastores tiveram de exortar á prática fiel. É o que se depreen-
de da epístola aos Hebreus, escrita talvez entre 64 e 70:

"Velemos uns pelos outros para nos estimulamos á candada e as boas


obras. Nio deixemos as nossas assembléias, como alguns costumam fazer.
Procuremos antas animar-nos sempre mais, é medida que vedes o Día se
aproximar" (Hb 10, 24s).

No século III, a Didascalia dos Apostólos exortava:

"Quando ensinares, ordenarás e persuadirás o povo a ser fiel as assem


bléias de culto; nao falte, mas saja fiel ao costume de reunirse, a fim de que
ninguém se/a causa de detrimento para a Igreja por suas faltas, nem o Corpo
de Cristo se veja diminuido em algum de seus membros... NSo vos engañéis,
pois, e neo privéis da seus membros Nosso Senhor, nem dilaceréis ou estra-
calheis o seu Corpo. NSo deis primazia aos vossos interesses antes que é Pala-
vra de Deus; mas no día do Senhor deixai tudo e acorre! com diligencia ás
vossas assembléias, pois aquí está o que vos honra. Que desculpa teráb diante
de Deus os que nSo se reúnem no día do Senhor para escutar a Palavra da
vida e nutrirse do alimento divino que permanece para sempre?" (cap. 13).

Em 305 aproximadamente, o Concilio regional de Elvira (Espanha),


supondo a obrigacáo de Missa dominical, impunha sancao aos faltosos:

"Se alguém, encontrándose na cidade, deixar de acudir á igreja duran-

125
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 346/1991

te tres domingos, será privado, por algum tempo, da ComunhSo para que
veja que precisa de se emendar" (canon 21).

S. Agostinho (t 430) se queixava de que em seu tempo havia cristaos


que iam mais ao teatro ou ao circo do que á igreja!

Atualmente registra-se a grande crise de católicos que se dizem "nao


praticantes". Muitas sao as causas deste fenómeno:

- falta de conhecimento da doutrina crista;

- o secularismo, que esvazia os dias festivos, privando-os dos seus


conteúdos religiosos para substitui-los pelos novos ritos de massas: esporte,
teatro, discoteca, turismo.. .;

- fins de semana fora do local de residencia;

- transicao da civilizacáo rural para a urbana, fazendo com que nu


merosas populacoes se desloquem, e, junto com seu torrao natal, percam
seus hábitos religiosos;

- defasagem entre festas religiosas e feriados civis...

Apesar da baixa prática religiosa em nossos dias, a Igreja julga que de-
ve continuar a urgir a observancia do domingo como sendo um mínimo
¡nsubstitufvel para que atguém possa ser considerado cristao; ¿om eféito, o
domingo com a sua Eucaristía é que faz a identidade do cristao. Quem nao
participa da Missa dominical, corre o risco de ver apagar-se a sua fé. É muito
difícil perseverar como crente se nao h¿ prática religiosa correlativa.

Possa a consciéncia destas verdades ¡mpregnar-se profundamente em


nossos fiéis católicos!

Ver a propósito:

PR 312/1988. pp. 236-238 (A RestauracSo do Domingo CristSb);

Pfí 324/1989, pp. 207-218 (O Domingo).

126
Otimismo pela sugestfo:

"Liberte seu Poder Extra"


Pedro A. Grisa

Em sfntese: O livro recenseado tenciona disseminar otimismo na base


de propositóos pantefstas fantasiosas. "Como o fiiho de peixe, péixinho é,
os filhos de Deus, deuses tém que ser também" (pp. 31s). Desta afirmacáb
deduz o autor que o homem é co-Criador, e, pelo poder de sua mente con
centrada com otimismo sobre determinado objetivo, é capaz de obter ou
realizar tal objetivo. O livro ensina exercícios e técnicas de concón tracSo,
aos quais atribuí efeitos maravilhosos. — Ora o panteísmo á aberracSo nSo
somonte no plano religioso, mas também no plano filosófico ou racional,
pois identifica o Absoluto e o relativo, o Infinito e o finito. Os efeitos que
Pedro Grisa atribuí ás suas técnicas, quando realmente ocorrpm, sio, na
grande maioría dos casos, devidos é forca da sugestSo ou de condícionamen-
tos positivos que as sentencas do autor incutem ao respectivo cliente. NSo
queremos, porém. negar as atividades parapsicologías do ser humano (per-
capcBo extra-sensorial, telepatía, clarividencia. . .), que sao reconhecidas e
estudadas por autores católicos em perspectiva cristS, sem panteísmo ou
sem a concepcSo de que a Dívindade, o mundo e o homem constituem urna
grande rede de vibracees o comunicacSes.
* * *

Os autores de Psicología e Parapsicología tém-se aplicado, últimamen


te, a despertar no público atitudes de otimismo, dando a ¡mpressüo de que a
mente humana é todo-poderosa como o próprio Deus o é. Os livros portado
res de tal mensagem fazem grande sucesso. Todavia quem os lé atentamente,
verifica que, no plano doutrinário, nao resistem ao crivo da razáo ou da lógi
ca. - É o que se poderá averiguar após o exame sereno do livro de Pedro
A. Grisa: "Liberte seu Poder Extra".1

1 EDIPAPPI, Editora de Parapsicología e Psicotrónica. Florianópolis, 1990


(S9edicSo), 140x210mm, 193 pp.

127
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 346/1991

1. A mensagem do autor

1.1. A mente é poderosa... Por qué?

Pedro Grisa afirma que todo ser humano dispoe de poder enorme
situado em $ua mente, mas desconhecido ou nao utilizado pela maioria dos
individuos.

E como justifica essa afirmacao?

Supoe que o Universo seja urna rede de seres que estao em sintonia
entre si, de modo que quem sabe acionar um elemento dessa rede consegue
acionar outros de grande alcance. Sao palavras do autor:

"Uñate a mim ou a ele, construindo um novo Nos, sintonizando mais


e mais com a Harmonía Cósmica...

Que seu futuro, por mais difícil que parvea ser, se/a sempre mais mar
cado pela Riqueza, pela Saúde, pela Sabedoría e pela Felicidade. vivendo na
paz, no amor ana dinámica Harmonía evolutiva do Universo" (pp. 7s).

O poder assim atribuido á mente humana faz o homem co-criador do


Universo ou, de corto modo, igual a Deus:

"Pela Leí da CriacSo tomárnosos CO-CRIADORES do Universo com


Deus. Assim podemos compreender a Realidada Objetiva existente por tras
da expressSo bíblica que diz serem os seres humanos fllhos de Deus.

Sabemos, pela observacSo da Natureza, que 'filho de peixe, peixinho


é', 'filhote de oncanasce pintado', 'de ventre de ovetha nSo nasce cabrito'...

Assim, se somos FHhos de Deus, deuses tamos que ser também. Pelo
Poder de Criar a realidade em que vivemos, pela Lei da CriacSo comprova-
mos a legltím/dade de nossa origem divina. Como Deus cria o Universo pela
palavra (Verbo), por Seu Pensamento, assim nos - Seres Humanos, FHhos
de Deus — criamos o nosso mundo pelo Poder da Mente (Subconsciente):
'0 que se cria na Menta, tornase realidade'" (pp. 31s).'

1 Podor-se-ia perguntar ao autor: por que usa tantas maiúsculas? Sara que
julga que as torcas neutras do homem e do mundo sSo divinas? Estaría en-
táb professando o pantsfsmo? — A resposta afirmativa a esta penjunta de-
corre da leitura do Ib/ro.

128
"LIBERTE SEU PODER EXTRA" 33

Pedro A. Grisa explica ulteriormente o seu pensamento, falando de


EU-PROFUNDO, que se liga á Onipoténcia Divina:

"Todas as expressSes como: 'Eu-Superior, Cristo-Interior, Mente-Mís


tica, Poder-Cósmico, Eu-Verdadeiro. . .' poderfamos também chamar de
EU-PROFUNDO, a reatidade mais profunda da interioridade humana, que
nospde emligacao direta com os atributos divinos da Onipoténcia famni-po-
tentia, poder tudo ou tudo poder, poder infinito da Mente), fonte do Poder
Extra; bem como da Onipresenca (estar em toda parte) e da Oniciéncia
(saber tudo. registro pleno de todas as leis cósmicas)" (p. 32).

Merece atencao ainda o texto da p. 152:

"Vocé possui os poderes ¡limitados do Psiquismo nao porque é Júio,


María, Tibúrcio ou Felisberto, mas slm porque vocé está integrado na Per-
feita Harmonía do Universo.

O Poder está em vocé, enquanto estiver unido á fonte do Absoluto


Poder Cósmico".

Como se vé, as leis da mente ou o exercfcio do pensamento e as leis do


universo estao em íntima relacao mutua — o que confirma a conclusao de
que, segundo Pedro A. Grisa, o homem faz parte de urna rede de vibracoes
que é preciso captar e emitir sabiamente para conseguir efeitos extraordina
rios. - Pergunta-se agora:

1.2. E como se exercita o poder da mente?

O autor explana a resposta ás pp. 35-47. Acha-se sintetizada as pp. 46s:

"Aquí está o grande segredo que habita as profundezas do Ser Huma


no: a ProgramacSo da Fó" (p. 46).

E como se pode acionar o processo psíquico que desemboca na fé


todo-poderosa?

"Simples ... A Palavra despena o Pensamento. O Pensamento atíva a


ImaginacSo. A ImaginacSo pmduz ata a EmocSo. A EmocSo grwa a Convic-
ció. A ConviccSo mais a EmocSo éaFé.Ea Fé, automáticamente, aciona o

129
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 346/1991

PODER EXTRA, entra em sintonía com o infinito Podar Criador do Univer


so. ENTÁO VOCÉ PODE DESENVOL VER A FÉ EM SI MESMO".1

Praticamente ¡sto quer dizer o seguinte:

Quem quer alcanzar um objetivo muito importante (saúde, riqueza,


felicidade...), deve comecar por repetir palavras ou frases condizentes com
esse objetivo. A mente deve habituar-se a repetir essas palavras. Deve tam-
bém imaginar situacóes positivas correspondentes ao objetivo almejado. A
¡maginacao deverá despojar-se de todo pessimismo e desánimo para fazer
desabrochar ¡magens de beleza, vitória e felicidade. Em conseqüéncia, aca
bará conseguindo ou criando o bem ou os bens a que aspira: "O Sucesso, a
Riqueza, a Saúde, o Amor, a Felicidade se rao plantas que amadurecerao os
frutos saborosos de novo Paraíso plantado em seu coracao" (p. 47).

Esta afirmapao reaparece á p. 190:

"Se em sua Manís (Subconsciente) estiver a imagem clara e forte de


vocé sadio e bemsucedido - a saúde e o sucesso sario atraídos para a alegría
de sua vida".

Ouap. 178:

"Existe apenas a satisfacSo ou a felicidade daquele que se vé crescendo


- em processo de realizació, ¡sto ó, de criacSo cósmica. - Estamos inseridos
no processo da EVOLUCÁO CÓSMICA".

O final do livro repete mais urna vez a tese do autor:

"Vod está ligado é Perfeita Harmonía Cósmica através do 'cordio


umbilical' do Eu-Profundo.

E vocé possui —emsi—o instrumento para integrarse — praticamen-


tB — concretamente — é Perfeita Harmonía Cósmica, desencadeando o PO
DER EXTRA, que desconhece limites e barreiras -6o PROCESSO PSÍQUI
CO que dispon a FÉ.

1 O autor dé o nome de FÉ a um produto do psiquismo humano, como se


véip. 43: "ConviccSo profunda somada a urna forte emocao pmduz o que
chamamos, cientificamenW, de FÉ". - Ora tai nio é o conceito de Fé que a
Teología católica professa. É lamentável que Pedro Grisa use um termo cías-
slcamente consagrado pela S. Escritura e a Teología para designar algo que
pode nio ter valor religioso algum.

130
"LIBERTE SEU PODER EXTRA" 35

DESENCADEAR O PROCESSO PSÍQUICO SERVÍNDO-SE DOS


INSTRUMENTOS DE IMAGINACÁO, RESPEITANDO, MAIS E MAIS.
AS LEIS CÓSMICAS, E DESCOBRIUSE PARA VOCE 0 CAMINHO DA
PROSPERIDADE, DO SUCESSO, DA HARMONÍA FAMILIAR, DA SAÚ-
DE E BEM-ESTAR, DA FELICIDADE.

VOCÉ PODE SER FELIZ. - QUER7' (p. 193).

1.3. A Prece Científica

Pedro Grisa identifica a ora pao com o processo psfquico desencadea-


dor do Poder da Mente. A oracao seria todo-poderosa na medida em que fos-
se devidamente ativado o Poder Mental! Eis a explanacao do autor:

"A grande deseoberta científica do valor das mensagens telepáticas


positivas, para ajudar outras pessoas, ó um fato que as religioes já utilizavam,
há sáculos, sob o nome de prece ou oracao.

• A chamada Prece Científica fundamentase em dois aspectos:

jo _ No sentido de auto-ajuda — desencadeia o Processo.Psíquica

29— No sentido de hetero-ajuda, orar em beneficio dealguém — faz-se


presente a mensagem positiva diredonada.

• É a mensagem telepática positiva direcionada que pode ser exerci-


tada, tremada e desenvolvida atravás das técnicas de Relax e Dominio da
ImaginagSo.

• Muitos oram ou mam. pedindo auxilio a Deus para si ou para


outros, e nSo sáb atendidos. Simplesmenta porque rezam e continuam
preocupados, ¡sto á, desconfiam de Deus e de si mesmos. NSo desencadeiam
o Processo Psíquico. A violencia destruidora da dúvida está presente.

• Por outro lado, sua mensagem telepática quer ser positiva mas — de
fato - é negativa. SSo mais fortes, em sua menta, as imagens e ossentimen-
tos negativos. Transmite, em verdade, mensagem mais negativa que positiva.

• Em tais casos, nem Deus pode ajudar, porque Ele respeita, ácima de
tudo, a Sua Obra Suprema. E, em Sua Obra Suprema, dotou o ser humano
de potencialides e o equipou com instrumentos que Ele nspeita.

0 ser humano dispde de Liberdade e Responsabilidade para utílizá-los,


instrumentos e potencialidades, como quisar.

131
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 346/1991

• A verdadeíra forma de rezar ou de orar é a entinada pelas técnicas


de Relax e Dominio da ImaginacSb. Cristo ia ao silencio do deserto.

E o camínho da busca do aperfefcoamento e perfelcSo da Pnce Cien


tífica está indicado ñas Leis Mentáis ou da Harmonía Cósmica" fpp. 114s).

Ao fazermos a avaliacao do livro, diremos que tal concepcao nada tem


que ver com a oracao propriamehte dita. Esta 6 sempre urna humilde eleva-
cao da alma a Deus; pede filialmente ao Pai do céu as grapas de que o orante
necessita. A oracao é eficaz na medida em que Deus livre e soberanamente
Ihe queira dar atendimento. e nao por forca da habilidade psíquica do homem.

1.4. A Agua Energizada

A guisa de espécimen, vai aqui transcrita urna das receitas de Pedro


A. Grisa, esta "para eliminar a própria dor":

"Se vocé quiser eliminar dores que vocé senté ou solucionar outros
problemas, vencer outras dificuldades, como nervosismo, perturbacSes fisio
lógicas, e ajudarprocessos de terapia clínica, use a AGUA ENERGIZADA.

1 — VocS jé está com as mibs energizadas ou com a Energía Eletro-


magnética Ki harmonizada, segundo a Técnica XV.

2 - Vocé pega um copo de tamanho medio. Enche até a motado de


agua.

3 — Coloca o copo sobre a máb iraca. A mSo forte fica ácima do copo,
com os dedos voltados para dentro (sem entrarem no copo).

4 — Enquanto se mantám nessa posicSo, IMAGINA ratos de luz irra


diados ñas pontas dos dedos, atravessando e ativando a agua.

5— Enquanto isso, ANALISA a sua difículdade. Procura descobrir


por que está com essa dor ou com »/ difículdade.

6— Analisando o problema (nao deve durar mais que dois minutos),


segura o copo com a máb forte. Inspira profundamente e mantém o ar preso
nos pulmOes até nSo agüentar mais. Quando percebe que nib pode conti
nuar maniendo o ar preso nos putmBes, bebe a agua — SEM SOL TAROAR.

7— Terminando de tomar a agua - sola o ar, dizendo: ESTÁ RE


SOL V/DO MEU PROBLEMA'.

132
'LIBERTE SEU PODER EXTRA" 37

Em menos de um minuto, a dor tere desaparecido.

- Em casos de enxaqueca - repetir tris vezas, com intervalos de cin


co a den minutos.

- Aqui também, há relagio com atos religiosos, como:

• a agua benta;

• a agua fluidificada, etc." (p. 151).

Infelizmente o autor confunde mais urna vez os temas psicológicos e


religiosos. A agua benta nada tem que ver com a agua energizada; ela nao
produz efeitos "certeiros" encomendados pelo homem, nem efeitos mági
cos; trata-se de um sacramental, que Deus pode tornar eficaz desde que isto
convenha aos verdadeiros interesses da criatura.

Neste contexto nao nos surpreende outra afirmacáo de Pedro Grisa:

"A uniao dos tres dedos:polegar, medio e indicador intensifica o cam


po da energía vital das mábs. . . E aqui também há relacSo-com gestos reli
giosos: na Igre/a Católica os bispos e o Papa dio a béncao aopovo unindo os
dedos polegar e indicador. E os tres dedos fazemse presentespraticamente
em todas as béncSos que usam instrumentos tais como:ramos molhados de
agua benta, turíbulo com incensó" (p. 153).

Na verdade, teria sido melhor o autor nao entrar em assuntos de Li


turgia, dos quais ele mostra ter pouco ou erróneo conhecimento. 0 juntar os
dedos na celebracao da S. Missa tem explicacao bem diferente da parapsico-
lógica; além do qué, é prática que hoje nao mais se usa na Liturgia Latina.
Os orientáis, ao dar a béncao, juntam os tres dedos mencionados para indi
car os misterios da SS. Trindade e da EncarnacSo.

0 autor ainda disserta, em varios capítulos, sobre aspectos da sua tese,


abordando, por exemplo, o dominio dos Sonhos, as Energias Coloridas, a
Irradiacao da Energia Vital, as Leis Cósmicas... Em suma, porém, a mensa-
gem do livro está apresentada nos termos até aqui propostos.

No corpo do livro insere-se a ¡ndicacao de excretóos e técnicas, das


quais alguns consistem em conceber um teatro interior fantasioso, no qual
o sujeito imagina ocorrer o prodigio (cura, vitória sobre o fumo, ajuda ao
próximo. . .) que ele muito deseja obter. Sao técnicas assaz complexas, mas
sedutoras pelas promessas de beneficios quejlhes estao anexas.

133
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 346/1991

É obvio indagar:

2. Equedizer?

Nao se pode ignorar a boa intencáo de Pedro A. Grisa, que deseja p6r
a servico do próximo recursos que ele julga altamente poderosos. Todavia
nem por isto se pode dar um aval ás suas idéias. Estas sao deficientes no pla
no filosófico mesmo (sem que naja necessidade de recorrer a alguma crenpa
religiosa).

2.1. Panteísmo

O autor fala de Criador e criacao (cf. p. 31), mas as suas teorías su-
p5em a Divindade identificada com o mundo e o homem, ou seja, o panteís
mo. É o que demonstram os textos atrás citados, aos quais outros se podem
acrescentar:

"O Ser Humano,1 porseu Pensamento, sita Manta, está integrado, uni
do ao Pensamento Cósmico, que gerou o Universo.

Por isso, o Ser Humano participa, através de seus atos mentáis, do Pro-
cesso Psíquico, da Críagio do Universo, do mundo em que vive" (p. 175).

Os conceitos de fé e oracao, que sao nocoes religiosas, ná"o devem ser


reduzidos a processos meramente psicológicos. Ter fé e orar sao atitudes
acessíveis a qualquer individuo, mesmo aos mais traumatizados, enfermos e
prostrados; sao efeitos da grapa de Deus no homem. Pedro A. Grisa reduz
todo o relacionamento do homem com Deus (re-ligiao) a um exercído men
tal, que toma o homem autónomo, tao poderoso quanto Deus. Nem se
podería esperar outra conclusao, visto que o autor adota os principios do
panteísmo (identifica pan, tudo — homem e universo — com theós, Deus).

Muitos leitores desprevenidos poderlo enganar-se a respeito do pensa


mento religioso de Grisa, dado que ele cita a Biblia, dando a impressao de
que encontré apoio ñas páginas sagradas: cf. pp. 31.55.61s.146.187.192.

Sabemos que Pedro A. Grisa, em sua infancia, recebeu formacáo cató


lica, da qual ainda conserva o vocabulario, mas da qual perdeu abertamente
o conteúdo.

A respeito do panteísmo j¿ se tem escrito repetidamente em PR: é

1 Por que malúsculas? - Pgrgunta do articulista.

134
"LIBERTE SEU PODER EXTRA" 39

aberracao no plano da lógica, porque identifica o Absoluto, o Eterno, o


Perfeito (a Divindade) com o relativo, o temporal, o ¡mperfeito (a criatura).
Supoe a transicao do humano para o divino, ou do finito para o Infinito, o
que é ¡nconcebível aos olhos da lógica.

O fato de ser o homem imagem e semelhanca de Oeus nao quer dizer


que ele seja centelha ou partícula da Divindade, mas implica apenas que o
homem tenha inteligencia e vontade, que Ihe dáo o poder de dominar e
reger o Universo em continuacao da obra de Deus.

22. CorpoeAlma

O panteísmo de Pedro Grisa se manifesta também quando nega a dis-


tincao entre corpo e alma (p. 23). E conseqüentemente o autor admite a
transicáo do material ao mental, do orgánico ao espiritual (p. 193). Em
suma, nega a distincao entre materia e espirito:

"Nao há urna real distintió entra mataría e espirito... A materia nao


existe. O que existe é energía assumindo a forma de pensamento" (p. 174).

Esta proposicáo é falha. A Física pode ensinar que a materia é energía;


ela quer dizer que o que parece sólido e compacto a olho nu, resulta de
ondas, que constituem o ámago do átomo e das partículas subatómicas. Ora
essa energía nao é espirito; é ainda materia pelo fato de ser quantitativa,
matematizável, ponderável. A Física, como Física, nao corthece o conceito
de espirito, que nao é matematizável, mas é estritamente do nivel do racio
cinio e da lógica.

"A energía assume a forma de pensamento" é sentenca errónea, pois o


pensamento nao é um fluido energético. É acao do intelecto (faculdade espi
ritual), que se serve do cerebro para elaborar conceitos, juízos e raciocinios;
estes sao atividades espirituais, produtos de urna potencia espiritual, que
utiliza o cerebro (faculdade corpórea).

2.3. ASugastao

Nao se pode negar que as proposicoes e técnicas apresentadas por


Pedro A. Grisa déem resultados em muitos casos patológicos. Os seus efeitos
positivos, porém, nao se devem a urna pretensa sintonía cósmica nem ao po
der infinito da mente, mas á forca da sugestao. Esta é de grande alcance;
quem está positivamente sugestionado, emancipa-se de bloqueios interiores e
funciona mais desimpedidamente; realiza facanhas que o pessimismo e os
condicionamentos negativos nao Ihe permitiriam efetuar.

135
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 346/1991

As receitas de exercfcios de Pedro Grisa sugestionam poderosamente


e sao capazes realmente de obter efeitos de alivio em favor de certos pacien
tes. Há doencas que sao psicogenicas ou sao geradas por estado de ánimo
perturbado ou nervoso; ora, se alguém consegue acalmar o seu psíquico me
diante sugestionamento e condicionamentos, elimina a causa de tais moles-
tias e é curado. Eis a explicacao simples e exata da maioria dos éxitos obti-
dos pelas técnicas indicadas. Seria oportuno, porém, que Pedro Grisa, utili
zando o poder da sugestSo para beneficiar os seus pacientes, nao misturasse
essa técnica com valores religiosos; a sugestlo funciona independentemente
de proposicoes religiosas (verdade é que a religiáo pode ser manipulada co
mo um dos mais poderosos fatores de condicionamento). A arte de suges
tionar é lícita contanto que seja honesta e nao envolva falsamente proposi
coes religiosas.

A emissao de raios a partir do corpo humano é assunto controvertido.


É aleatorio fundar sobre tal hipótese urna ampia terapia.

Nao negamos, porém, as faculdades parapsicológicas que Pedro A. Gri


sa recenseiaemseu livro: percepcáo extra-sensorial, telepatía, clarividencia...
Sao estudadas e reconhecidas pelos parapsicólogos genuinamente cristaos,
sem mésela de panteísmo. Deus criou o homem, dotando-o de um funcio-
namento paranormal (em alguns individuos mais possante do que em ou-
tros); mas isto nada tem que ver com panteísmo ou rede de vibracSes ou
com Harmonía Cósmica ou leis evolutivas do homem.

Em suma: o livro de Pedro A. Grisa soma-se a urna serie de outros


que, com a capa de mensagem crista, estao impregnados de ¡déias nao cris
tas (entre as quais o panteísmo) e, através de urna linguagem religiosa cris
ta, instilam conceitos nao cristaos e mesmo aberrantes no plano da lógica.
0 público precisa de reconforto e terapia, sem dúvida; esta, porém, nao há
de ser proposta em parámetros irracionais e fantasiosos; para suscitar otimis-
mo, confianca e esperance, a sa razao e a auténtica fé crista sao plenamente
suficientes, como atesta a vida de tantos heroicos cristaos inteiramente fiéis
á cosmovisao do Evangelho e da Igreja.

136
Aínda emvoga:

Leste Europeu e Segredo de


Fátima

Em tíntese: Nestas páginas é atada e comentada a resposta do Santo


Padre Joio Paulo II a urna ¡ornafista, que Iheperguntou se os acontecimen-
tos do Leste Europeu (1989) sio o cumprimento do Terceiro Segredo de
Fátima. Sua Santídade afirmou entSo que cortamente sao umagraca do céu
obtida por IntercessSo de María SS., mas nao se referíu ao Terceiro Segredo.
Nem a ele se referiram alguns Bispos de Portugal aos quais se fez a mesma
perguna. tsto bem mostra que a Igra/a oficialmente náb está interessada em
avivar a atencao dos fiéis para algo que ¡á está ionge no tampo e nunca foi
mencionado pelos Papas em suas alocucóes. - Está claro, porém, que esta
verificado náb excluí, antes reconhece a intervengo materna de María SS.
em favor dos homens, especialmente ospovos do Leste europeu.

* * *

A queda do comunismo no Leste Europeu despertou em muitos obser


vadores a impressao de que se estava cumprindo o Terceiro Segredo de Fáti
ma. O próprio Reitor do Santuario de Fátima, Pe. Luciano Guerra, escreveu
alguns artigos sobre Fátima e os acontecimentos do Leste — o que avivou a
curiosidade do público em torno do Terceiro Segredo.

Na verdade, porém, ninguém sabe o que contém o Terceiro Segredo de


Fátima, que. conforme a Irma Lucia, devia ser revelado em 1960, mas nao o
foi. . . Mais de trinta anos já se passaram dessa data até nossos dias e, perió
dicamente, se levanta a hipótese de que tal ou tal fenómeno de grande reper-
cussao seja a execucao do Segredo. Os meios de cornun¡cacao social se apro-
veitam dos fatos para Impressionar a opiniio pública e despertar o interesse
dos seus clientes. Mas sem fundamento...

1. Falam autoridades da Igraja

Urna das provas mais evidentes de que a Igreja oficialmente nao está
preocupada com o Segredo de Fátima nem se preocupa com o cumprimento
do mesmo, é a atitude sobria do Papa frente ao assunto. Assim, por exem-
plo, por ocasiao de urna viagem pastoral á África em 25/01/90, a jornalista

137
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 346/1991

Aura Miguel, da Radio Renascenca de Portugal, pos a Joao Paulo II a seguin-


te pergunta:

"Santo Padre, em Portugal muitos julgam que os acontecímontos, do


Leste Europeu foram previstos pela Virgem em Fátima. V. Santidade, como
os Papas anteriores, conhece o Terceiro Segredo;que pensa a respeito?"

Respondeu o Pontífice:

"Por corto, a fó e a confianca dos fiéis na Virgem SS. sao teológica


mente justificadas, pois sabemos que é a MSe dos homens e dos povos. O
que atuaimente ocorre na fíússia, na parte oriental e centro-oriental da
Europa, destinase a respeitar melhor os direitos humanos ou a pessoa huma
na. Ora podemos atribuir esta solicitude á Mia do céu. Assim entendida,
pode-se aceitar a conviccao dos portugueses e de multas outras pessoas. É
evidente que as reveiacdes de Fátima, as revelacdes privadas de Fátima, con-
cordam com a doutrina da fá Esse acordó com a doutrina da fé nSo entra
em pormenores, nio entra muito em minucias. Até os maiores peritos da
doutrina da fé se regozijam muito guando véem que tal pafavra ou tal pro-
messa se cumpre no decorrer dos anos".

A Irma Lucia, vidente de outrora, foi informada a respeito do depoi-


mento dé Joao Paulo II. E respondeu: "Estou totalmente de acordó com o
que disse o Papa".

Foi levado o teor da declaracao do Pontífice também ao Pe. José Ge-


raides Freiré, Professor da Universidade de Coimbra e membro da Comissao
de Peritos encarregados da publicacao dos documentos relativos a Fátima. O
sabio mestre mostrou-se da opiniao de que a resposta do Papa á jornalista
fora "evasiva" e a da Ir. Lucia era "aínda mais evasiva". Todavía admitia
que muito provavelmenta os acontecimentos do Leste tém que ver com
Fátima.

No mesmo sentido manifestaram-se Bispos de Portugal interrogados a


respeito do Terceiro Segredo e os acontecimentos do Leste.

Como se vé, parece ter havido silencio intencional a respeito do Segre


do. Isto chama a atencao de modo especial na resposta de Joao Paulo 11 á
Jornalista, que explícitamente quería saber se os acontecimentos do Leste
Europeu estavam relacionados com o Segredo de Fátima. Na verdade, Nossa
Sen hora dísse aos tris videntes em 13/07/1917:

"Se derem ouvidos a meus pedidos, a Rússia se converterá e terüo paz.


Se nSo, espalharé os seus arros pelo mundo, promovendo guerras e perseguí-
cOes é Igreja. Os bonsserSo martirizados, o Santo Padre taré muito queso-

138
LESTE EUROPEUE FÁTIMA 43

frer, varías nacSes serio aniquiladas. Finalmente o meu Confió Imaculado


triunfará. O Santo Padre me consagrará a Rússia, que se convencerá, e será
concedido ao mundo um tempo de paz".

Esta promessa da Virgem SS. cumpriu-se em parte e está-se efetivando


de maneira cada vez mais concreta. Todavía ela corresponde ao Segundo, e
nao ao Terceiro Segredo de Fátima. O Segundo Segredo dizia respeito preci
samente ao fim da guerra de 1914-18 e á conversao da Rússia. É, pois, falso
dízer que os acontecimientos do Leste Europeu sao o cumprimento do Ter
ceiro Segredo. Este nao é do conhecimento do público nem é mencionado
pelas autoridades da Igreja.

2. Observado final

Apresentamos estas consideracSes aos nossos leitores a fim de aju-


dá-los a se orientar diante do noticiario sensacionalista da imprensa. A Igre
ja nao menciona oficialmente os Segredos de Fátima, mas aceita e recomen-
da vivamente a mensagem da Virgem SS. aos tres videntes: "Oracao e Pe
nitencia".

Nao há por que negar a realidade das aparicoes de Fátima, embora nao
sejam materia de fé. Há mesmo graves razoes para crer que o Senhor Deus,
mediante sua Mae Santíssima, queira chamar os homens á conversao e á
oracao numa época conturbada como a nossa. Quem se converte e reza, faz
o que de mais importante possa ocorrer em nossos dias, e responde auténti
camente a Nossa Senhora.

Ver a propósito

PR 292/1986, pp. 410-428 ("O Segredo de Fátima", obra do Pe. José


Geraldes Freiré, em resentía).

* * *

CURSOS POR CORRESPONDENCIA

A Escola "Mater Ecclesiae" comunica o lancamento de seu 8Q Cur


so por Correspondencia: PARÁBOLAS E PÁGINAS DI FICÉIS DO EVAN-
GELHO (43 Módulos, que procuram combinar exegese científica e espi-
ritualidade bíblica). - Os outros Cursos versam sobre: Sagrada Escritura,
Iniciacao Teológica, T. Moral, Historia da Igreja, Liturgia, Diálogo Ecumé
nico, Ocultismo.

Encomendas e pedidos de informacoes sejam dirigidos a: CURSOS


POR CORRESPONDENCIA, Rúa Benjamín Constant 23,20241 Rio (RJ) ou
Caixa Postal 1362. 20001 Rio (RJ).

139
Sim e Nfio:

UO Dilema da Sexualidade"
Josa María Monteoliva SJ.

Muito se tem escrito sobre educado sexual, segundo inspiracóes diver


sas. O Pe. José María Monteoliva S.J., educador do Colegio Sao Luíz (Sao
Paulo, SP), apresenta um livro que aborda a sexualidade humana (seu senti
do, seus valores, suas deformacoes. . .) e a maneira de educar crian fas, ado
lescentes e jovens para o reto uso da genitalidade. Cf. "O Dilema da Sexuali
dade", ed. Loyola, Sao Paulo 1990, 140 x 200 mm, 140 pp.

A obra supoe vasto estudo do assunto, leitura de ampia bibliografía.


Sua grande vantagem é insistir em que a instrupao sexual nao basta, mas há
de ser acompanháda de educacao, que aprésente escala de valores e envolva
o ser humano total (coráceo e cabeca). Por isto o autor critica, com pleno
fundamento, Marta Suplicy (cf. p. 97), Rose-Marie Muraro (cf. p. 192),
Simone de Beauvoir (cf. p. 112), que nao se preocupam com parámetros
moráis, mas se interessam mais pela informacao, a reivindicacSo de direitos
da mulher, a revolucao sexual, etc.' •

Interessantes sao as pp. 85-100, em que o autor fala da adolescencia,


descreyendo suas características.

Infelizmente, porém, eremos que o autor tende a certa condescenden


cia, nao rara em nossos dias entre os tratadistas da materia.

Assim as pp. 99s considera o homossexualismo de maneira benigna,


citando autores que de certo modo o querem legitimar (Guy Durand,
Anthony Kosnik, John McNeill e outros); tais autores, levando em contaas
situacSes pessoais destes ou daqueles individuos, julgam que Ihes é lícita a
prática homossexual. Nao ha no livro de Monteoliva a mínima referencia a
dois documentos da Igreja dos últimos anos relativos ao assunto em termos
condizentes com a Biblia e a Tradicáo crista (ver bibliografía deste comen
tario a p. 141).

Paralelamente, no tocante á masturbacSo, Monteoliva se refere a Guy


Durand como autor de "teoría científicamente fundamentada", teoría, po-

140
"O DILEMA DA SEXUALIDAD?' 45

rém, que faz vistas largas sobre o problema. Vejase o comentario da obra de
Guy Durand "Sexualidade e Fé" em PR 327/1989. pp. 345-356. Monteoliva
nao cita a Declaracáo "Persona Humana", em que a Congregacáo para a
Doutrina da Fé propoe o juízo clássico da Tradicáo crista, diverso do de
Guy Durand.

Seria desejável que Monteoliva se pronunciasse de modo claro sobre


as relacóes pré-matrimoniais. Na verdade, ele parece nao as aceitar quando
aborda o tema "Juventude" (pp. 101-112), mas requer-se mais nitidez de
posicáo. — Bem diferentes sao as ponderacoes de Joao Mohana em seu fa
moso livro "Vida Sexual de Solteiros e Casados", livro que é extremamente
realista e concreto, além de dissertar com toda a clareza desejável sobre os
diversos aspectos da temática, enunciando sempre os postulados da Moral
católica, que, em última análise, sao os da própria le¡ natural.

Observamos ainda que á p. 20 ocorre urna expressáo inadequada. O


autor tem em vista rejeitar o dualismo "corpo e alma", ou seja, a tese que
julga o corpo como elemento mau e a alma como algo de bom e nobre. ..
Com razao Monteoliva recusa tal posicao. Mas nao rejeite a dualidade de
corpo e alma; estas duas substancias (na Hnguagem filosófica) se distinguem
urna da outra, como materia e espirito se distinguem; sao, porém, comple
mentares entre si no plano ontológico, pois o homem é um ser naturalmente
psicossomático, e nao é um "espirito" encarnado por castigo de seus peca
dos. Rejeite-se, pois, o dualismo (expressáo pejorativa), nao, porém, a dua
lidade de corpo e alma.

O livro se presta a muitas outras observacoes: apresenta páginas alta


mente positivas, quando se refere a amor, sexualidade e genitalidade. Toda
vía, quando encara concretamente a prática genital, procura nao chocar; na
verdade. deveria ser explícitamente fiel á Moral professada pela Igreja em
seus documentos oficiáis emanados da Congregacáo para a Doutrina da Fé:

Declarafio "Persona Humana", de 29/12/1975 (sobra Homossoxualis-


mo, MasturbafSo a Relacdes Pré-matrimoniais).

Carta aos Bispos da Igreja Católica sobra o Cuidado Pastoral das Pes-
soas Homossexuais, de 19/10/1986.

141
Livros em Estante

A.Fé nossa Je cada Dia, por J. Alves. Colegio "Celebrado da Fé"


n9 3. - Ed. Paulinas, Sio Paulo 1985 (2?edicio), 130x 200 mm, 260 pp.

O livro traz o subtitulo "Explicacao do Credo em Linguagem Popu


lar", e percorre os artigos do Credo com comentarios de ordem ética ou
sócio-polftica, mais do que de ordem doutrinária. A mensagem crista é con
siderada como escola de transformacio social, havendo alusSes freqüentes
a opressio, fome, miseria, injusticas, patrio, operario, dinheiro, exploracio,
ganancia. . . A doutrina da fé é muito superficialmente proposta. Verifi-
camse mesmo omissoes graves, relativas a artigos de fé, como o pecado ori
ginal, a Missa, o sacramento da Penitencia, o purgatorio postumo. A infali-
Bilidade do magisterio do Papa é relativizada ou negada é p. 214. Em refació
á Igrej'a, também se registra relativismo é p. 230. O autor cai em contradicao
no tocan te á salvacio eterna: á p. 253 diz que "todos os homens (a humani-
dade) e todo homem (cada pessoa) verao a face do Senhor Deus", mas as
pp. 254-256 fala do inferno como real antfíese do céu.

A linguagem do livro procura exemplos na vida cotidiana, chegando


as vezes á banalizacio, como acontece quando quer explicar o j'ui'zo final
(pp. 182-186). O subtítulo "ExplicacSo do Credo em Linguagem Popular"
é ambiguo e capcioso: o leitor tem, á primeira vista, a impressSo de que en
contrará a auténtica mensagem Cristi em linguagem clara e fácil; na verdade,
porém, "linguagem popular" no caso significa "linguagem de incitamento do
povo para que tome posicSo política".

Embora o livro se/a apresentado "Com aprovacSo eclesiástica", nio


corresponde, de modo nenhum. é doutrina da Igrej'a, se/a porque a mutila
(cortando-lhe pontos muito importantes), se/a porque os tópicos escolhidos
sio explanados de maneira muito superficial e nio raro distorcida.

É de notar que o "Jornal de Opiniio" vem transcrevendo em suas edi-


cSes páginas deste livro; transmití assim urna imagem desfigurada do Credo
católico — o que nio se entende da parte de um periódico que é tido como
órgio patrocinado pelo episcopado do Brasil.

O Evangelho de Mateus, por José Comblin, Paulo Lockmann, Sandro


Gal/azi, Carios Mesters, Ana Flora Anderson, Gilberto Gorgulho. Colegio
"Estudos Bíblicos" n9 26 - Ed. Vozes, Imprensa Metodista e Editora Sino
dal, Petrópolis 1990, 160 x 210 mm, 72 pp.

142
LIVROS EM ESTANTE 47

Este comentario de Mateus, como os dermis livros da ColecSo, deve-se


é colaboracSo de católicos e protestantes. Além do qué a Editora Vozes, a
imprensa Metodista e a Editora Sinodal (Luterana) sSo responséveis pela
impressSo e distribuido dos volumes. A mentalidade que inspira os autores
de cada fascículo, 6 a da Teología da LibertacSo, oramais, ora menos paten
te em cada artigo.

A colaboracSo de Carlos Mesters no fascículo que analisamos, é a mais


significativa das tendencias da obra. LS o Evangelho "a partir do povo lati
no-americano explorado e oprimido" (cf. p. 61), e nSo a partir do Espirito
Santo, que inspirou o Evangelho; nenhuma referencia faz é TradicSó e ao
magisterio da Igreja. Em conseqüéncia, a interpretacSo do texto sagrado é
desviada ou deturpada; tenha-se em vista, por exemplo, a p. 65, em que
Mesters comenta a peticio do Pai Nosso: "Perdoai-nos as nossas dividas"
(Mt 6,12): Mesters entende o vocábulo grego opheilémata no sentido mate
rial e chega a pensar no perdió da divida externa que os países pobres deve-
riam recebar dos países ricos1. Na verdade, opheilémata ém Mt 6,12 há de ser
entendido no sentido de Le 11,4, onde se IS: "Perdoai-nos as nossas ofensas,
hamartíai. . ." O Senhor Jesús tem em mira os pecados -¡ofensas contra
Deus), dos quais devemos esperar o perdSo na medida em que soubermos
dar o perdió aos nossos ofensores. Ora passar do plano transcendental e
definitivo para o material e contingente, como aquiocorre, é realmente des
figurar o Evangelho. — Este é um, entre outros exempfos, de como a exegese
dos autores do fascículo é capaz de desviar o sentido do texto sagrado.

Á p. 63, é condenado o mérito, quando na verdade ó impossfvel ao


crístSo prescindir do valor ou do mérito das boas obras. Cf. Mt 5,12: "Ale-
grai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus". Ver tam-
bém Mt 6,20: "Jun tai para vos tesouros nos céus".

Á p. 64, é rejeitado o Juramento na base de Mt 5,34-37, quando na


verdade a própria Escritura aprésente exemplos de Juramentos legítimos e
santos:Mt 26, 63s;2Cor 1,23; Fl 1,8.

Em suma, o volunte em foco nao é cartilha para se penetrar no autén


tico sentido do Evangelho de SSo Mateus.

Ancestrais, Vida Intra-uterina e Libertapáo do Homem, por María Luí-


za Zanchetta. Ed. Berthier, Passo Fundo 1987, 155x 220 mm, 245pp.

A autora é psicanalista e julga que muitas deficiencias do compor-


tamento humano tém sua origem em fatos ocorridos durante a vida in
tra-uterina do individuo ou mesmo em ocorréncias registradas na vida dos

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48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 346/1991

genitores, dos avós ou dos bisavós dessa pessoa. Em conseqúéneia, a psica-


nélise a a regressSo em idade fariam o pacienta tomar consciéncia desses
traumas dos encastráis e o libertariam das respectivas fainas de conduta.
Cada qual é "o seu mundo biopsicosmoespiritual, a também o mundo
biopsicosmoaspiritual dos seus encostráis próximos e remotos" (p. 5). "A
biopsicosmoespiritogénese individual e coletiva está viva e atuendo ñas
pessoas de hoje" (p. 207).

O aspecto psicanalftico do iivro saja discutido pelos especialistas dessa


área. O que nos importa, é a filosofía adotada pela autora e subjacente aos
capítulos da Parte II do Iivro (pp. 195-245). NSo raro os livros que realcam
a eficacia dos tratamentos e treinamantos da mente, supSem urna antropo
logía pantefsta; mesmo autores que se dizem católicos a falam da Jesús Cris
to e do Evangelho usam um linguaj'ar pantefsta (do qual.talvaz nao tanham
consciéncia ciara por falta de formacSb filosófica). Assim é p. 211 l&se:
"A Inteligencia Infinita que existe no seu interior é infalfvel". A p. 243:
"A Mente de Cristo na minha mente ¡á me impermeabilizou contra o mal".
Do cénbro proceden) "ondas mentáis ou tevam é execucao do que se pansa"
(p. 244). Do cerebro proceden) "vibracSes malignas que querem estragar
toda a vida" (p. 225). Tem-se a impressSb da que todas as nossas expressSes
psíquicas se fazem por meio de ondas e vibracSes. ora benéficas, ora maléfi
cas; o próprío Deus parece agir por meio de vibracdes que dele procedem:
"Tendo consciéncia das torcas maléficas, poder-se-á destruí-las pela Forca
e pelo Poder de Deus,. . . a Energía viva aprésente no homem a no univer
so. Quanto mais nos tomamos seres espirituais, tanto mais estamos envoltos
pela áurea luminosa do Espirito da Cristo, que nos protege e liberta de todo
mal. . . É ele que nos capacita para. . . destruir as influencias negativas
oriundas do mal" (p. 234).

A autora professa a tricotomía "espirito, alma e corpo" fcf. pp. 209.


231); na verdade, espirito e alma coincidem no homem, pois a alma humana
é espiritual. O Ser humano consta de corpo (material) a alma (espiritual).

0 Iivro de María Luiza Zanchetta é, pois, edétíco e confuso, do ponto


de vista filosófico-teológico; tonda a fazer da vida espiritual do homem (e do
próprío Deus) um ¡ogo de ondas e vibracSes semalhantes as que a Física
estuda. Ora Isto é contraditório a aberrante. Possam as técnicas terapéuticas
indicadas pela autora ter mais valor do que a sua filosofía1.

E.B.

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