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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDipÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
'.■" visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste site Pergunte e
Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar. este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.


Pe. Estevao Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.
A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaca
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
responderemos
co

SUMARIO

A Alegría de Viver um Tempo Precioso


co
LXJ

o Da Palavra ao Culto - Do Culto á Palavra

co
LU
Acáo de Grapas após a Comunhao
D

O Culto dos Santos

LU "Roger conseguiu curar-se da AIDS"


i

Livro em Estante

ANO XXXIII MAIO 1991 348


PERGUÑTE t RESPONDEREMOS
MAIO - 1991
Publicado mensal
N9 348

Dirator-RetpontáMl: .
SUMARIO
Esteváo Bettencourt OSB
Autor e Redator de toda a materia
A Alegría de Viver um Tempo
publicada neste periódico
Precioso 241

Diretor-Administrador:
A Piedade Crista e suas Fon tes:
D. HMdebrando P. Martins OSB
Da Palavra ao Culto - Do Culto á
Palavra 242
Administracáo e distríbuicáo:
Edicóes Lumen Christi
Reverencia e Gratidao:
Dom Gerardo. 40 - 5? andar. S/501
Acao de Gracasapósa Comunhao 256
Tel.: (021) 291-7122
Caixa Postal 2666 Teología e Apologética:
20001 - Rio de Janeiro - RJ
O Culto dos Santos 263

[mprass&o o Encadernacáo Caso Singular e Sensacional:


"Roger conseguiu curar-se da AIDS". . . 276

Livro em Estante 287


"MARQUES-SARAJ\'A-
GRÁFICOS E EDITORES SA.
TelS (021K73-9498 - 273-94*7

NO PRÓXIMO NÚMERO:

Teología Feminista. - "O Advogado do Díabo". - O Camelo e o Fundo


da Agulha. - -"Isto é o meu Corpo" (Mt 26,26). - Escandinávia: o.
bem-estar que nao satisfaz. — "Torneí-me rica mediante o aborto". — Música
"Rock": que é?

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA.

ASSINATURA ANUAL (12 números): Cr$ 2.000.00 Número avulso ou atrasado: CrS 200.00

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cóes "Lumen Christi" Caixa Postal 2666 - 20001 - Rio de Janeiro - RJ.
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3. ORDEM DE PAGAMENTO, no Banco do Brasil, conta N? 31.304-1 em nome do


Mosteiro de Sao Bento, pagável na agencia Praca Mauá/RJ N? 0435-9. (Nfo enviar
através de D0C ou deposito instantáneo - A identificacáo 6 difícil).
M
üíü
A Alegría de Viver um Tempü
Precioso

"Cada momento de nossa existencia, cada respiro, cada batida do nos-


so pulso, se assim posso dizer, cada clareo de nosso pehsamento tem conse-
qüéncias eternas. Essa historia sem igual nos será um día apresentada, e será
apresentada a todo o universo" (J.-B. Bossuet, bispo de Meaux, t1704).
Que tenciona o grande Bossuet dizer com tais palavras? - Veiamo-lo
por partes.

1) 0 valor do tempo. . . Cada segundo deste tem seu correspondente


na eternidade; é construcáo da vida definitiva. Sim, diz a Escritura que o
homem é chamado a ver Deus face á face (cf. ICor 13,12); esta visao ocorre-
rá realmente, na medida do amor com que a criatura encerrar a sua caminha
da terrestre. Daí a importancia de se viver cada minuto em amor a Deus e
ao próximo.
2) A Escritura desenvolve esta verdade, recorrendo á imagem dos
livros que seráo abertos no dia do jutgamento final:
"Mil miñares o serviam, e mirfades de miríades o-assistiam. O tribunal
tomou assento e os livros foram abertos" (Dn 7,10; cf. Ap 20,12).
A figura dos livros significa que os atos humanos constituem as pági
nas de um grande documento, que vem a ser a vida de cada pessoa. Sim; vi
ver é escrever um livro, no qual tudo o que o homem faz é registrado. Qiían-
do refletirnos sobre a nossa existencia, talvez sejamos propensos a considerar
alguns aspectos mais do que outros; algo talvez nos escape, quase apagado da
memoria pelo acumulo de peripecias vividas posteriormente. Ora um dia
tudo nos será recordado; veremos com objetividade o filme da nossa vida;
alguns se surpreenderáo talvez por verificar que as coisas pequeñas vividas
com fidelidade terao assumido elevado valor! Outros, ao contrario, se
decepcionarlo por averiguar que momentos aparentemente brilhantes sérfo
tidos como ocos e comparáveis a bolhas de sabao.
3) E nao somente cada individuo tomará consciéncia do valor de sua
vida no termo desta caminhada. Quando o Senhor vier julgar todos os ho-
mens, o livro da vida de cada um será manifestado também a todos, pois a
natureza humana é tal que os méritos e deméritos de cada um repercutem
nos seus irmáos. . . Pensemos na enorme influencia de urna palavra oral ou
escrita, de um exemplo ou testemunho. . . Murtas vezes o entusiasmo ou o
desanimo do posso próximo se liga a urna atitude falada ou vivida por nos.
Será muito importante que cada pessoa veja o que deve a cada qual de seus
semelhantes (país, educadores, mestres, figuras heroicas do passado. . .).
Quem é ignorado ou esqueddo, será reconhetido com seu valor próprio.
Este fascículo de PR. apresentando tres artigos de espiritualidade, pos-
sa contribuir para avivar nos leitores a consciéncia do valor da existencia pre
sente e a alegría de viver um tempo tao rico de oonseqüéncias definitivas!

E.B.

241
"PEROUNTE E RESPONDEREMOS"
ANO XXXII - NQ 348 - Maio de 1991.

A piedade crist§ e suas fontes:

Da Palavra ao Culto - Do Culto


a Palavra*

A Sagrada Escritura como elemento essencial ao culto do


Antigo e do Novo Testamento

Em síntese: A Palavra bíblica no Antigo Testamento foi freqüente-


mente suscitada pelas diversas fases do culto sagrado e da vida do povo de
Israel. Em muitos textos do Antigo Testamento encontram-se vestigios da
Liturgia de Israel. No Novo Testamento Palavra e Culto continuam éntrela-
cadas, com notas características proprias; com efeito, a Palavra (datar) de
Deus era pelos israelitas concebida como algo de eficaz, algo que comunica
a vida do próprío Deus. Ora o Novo Testamento parte da premissa de que a
Palavra (o LogosJ de Deus se fez carne a fim de restaurar o homem ferido
pelo pecado. O Verbo feito carne é o Re-criador do homem e o prímeiro
Cultor do Pai; Ele convoca os homens todos para urna assembléia sagrada
(qahal), que mediante Cristo, realiza a adoracSo, por excelencia, do Pai.

Na Liturgia católica, a Palavra nio é mera prodamacSo, mas é o anun


cio de algo que o culto sagrado ou os sacramentos (especialmente, a Euca
ristía) efetuam realmente. A Liturgia concretiza o anuncio da Escritura; rea-

* Este artigo é da autoría da Prof? María de Lourdes Correa Lima, Mestra em


Teología pela PUC-RJ. Corresponde ao texto de uma conferencia proferida
em 17/10/90 pela professora na V Semana de Liturgia do Seminario Arqui-
diocesano de Sao José. Rio de Janeiro. — Agradecemos cordialmente á pro
fessora a sua valiosa colaboracao, que se distingue pela profundidade e luci
dez das ponderacoes.

242
DA PALAVRA AO CULTO. ..

liza e comunica de forma nova a presenca agraciante do Senhor Ressusd-


tado. A Escritura se completa na Liturgia e esta, por sua vez, leva a um co-
nbecimento experimental da ñevelacSo.

* * *

A relevancia da Sagrada Escritura para o culto cristao tem sido ultima-


mente, por diversas vezes e de varias formas, rea I cada. Embora ¡á a simples
observadlo do espapo ocupado pela Escritura ñas celebracóes litúrgicas nos
tale acerca de seu valor, num plano mais profundo e propriamente teológi
co é a ref lexao acerca da natureza mesma da Liturgia e da Palavra de Deus
que nos dá a sua base e alcance. Por sua estrutura intrínseca, Palavra e Culto
apresentam-se como intimamente relacionados e reciprocamente exigitivos.
A Palavra conduz ao culto e para ele se orienta; o culto implica a Palavra.
Esta concepcao básica é já, por diversas vezes, posta em relevo na Constiui-
cao Sacrosanctum Concilium do Vaticano II. No parágrafo 24 assim se
expressa o documento conciliar:

"Na celebrafSo litúrgica é máxima a importancia da Sagrada Escritura."

E no parágrafo 56, referindo-se á Missa:

"As duas partes de que consta, de certa forma, a Missa, a liturgia da


palavra e a liturgia eucaristica, estao tao estreitamente unidas que formam
um único ato de culto. "l

Donde provém esta relacao e orientapáo recíproca? Qual sua base e


seu significado? Que ¡mplicacoes traz para a índole da celebracao litúrgica
e para a configurapao da Sagrada Escritura? Que conseqüéncias surgem des-
te fato?

Intentando formular urna resposta a estas questoes, seguiremos em


nossa ref lexao tres passos: procuraremos primeiramente delinear em grandes
trapos o conspecto histórico acerca da formacao da Sagrada Escritura em sua
relacao com o culto; em seguida, ensaiaremos um a profunda mentó dos da
dos teológicos essenciais concementes á relacao entre Palavra e Culto. Por
fim, procuraremos evidenciar os aspectos principáis da relacao entre estas
duas realidades.

1 Sobre o tema da importancia e do papel da Escritura na Liturgia, cf. tam-


bém Sacrosanctum Concilium 35; 48; 91 e Dei Verbum 21.

243
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 348/1991

1. Conspecto Histórico

A pesquisa bíblica atual realca com dnfase o longo processo de ela-


boracao da Sagrada Escritura, pondo em relevo as etapas de tradicáo oral e
escrita que precederán) a codificacao do texto final, tal qual o temos hoje.
Estas tradicSes, que se fazem presentes na Escritura Sagrada em diversas
formas literarias, encontram-se relacionadas com os diversos ámbitos de
vida.1 Dentre os diversos contextos vitáis, aparece o ambiente cúltico como
particularmente rico de significado, seja no Antigo.seja no Novo Testamento.

1.1.0 Antigo Testamento

Detenhamonos primeiramente no Antigo Testamento, ressaltando


somente alguns de seus muitos elementos. Podemos identificar textos rela
cionados diretamente com algumas solenidades litúrgicas, como, por exem-
pío, os SI 96; 105,1-15; 106,47s, relacionados á colocacáo da arca no Tem
plo, por Davi (cf. ICr 16,4); o SI 30, á festa da dedicacao do Templo; o
SI 92, ao dia de sábado; ou ainda o SI 29, por vezes relacionado com o tér
mino da festa das Tendas.1 Por outro lado, diversos salmos trazem em seu
inicio ou final a aclamacao Amen ou Aleluia que, segundo ICr 16,36
{cf. Esd 3.11), constituía, na liturgia de Israel, a resposta do povo ao final
de um hiño entoado pelos levitas.3

Encontrarnos também textos que refletem liturgias penitenciáis e se


referem a dias de jejum ou a festa do Yóm Kippur (Dia da Expiacao).4
Tomemos como exemplo o texto de Os 5,15-6,6, onde se pode perceber
o convite de retorno a lavé (YHWH), que deveria expressar a atitude de con-

1 SSb tradicoes que surgem, por exemplo, no ambiente familiar (cf. Dt 4J9s;
6,20s; Ex 13,8.14), ñas situacdes cotidianas de afíicSb ou alegría (cf. SI 6;
7; 9; 10; 25; 30; 32), na corte real (cf. SI 2; 18; 20; 21; 45).

3 Cf. T. BALLARINI e V. REAL!, A Poética Hebraica e os Salmos, Petró-


polis, 1985, p. 46.

3 Cf..por exemplo. S1104-105; 106; 111-112; 113; 115-117; 135; 146-150.


Isto, por sua vez, é corroborado por diversos textos que se referem a salmos
entoados no culto do Templo. Cf. ICr 23,4s.3O; 2Cr 7J6; 29,30; Esd 3,10;
Ne 1Z24.45; Edo 47£-12.

4 Por exemplo, SI 44; 58; 60; 66; 74; 79; 80; 83; 85; 89; 90; 123; Dt 9,18;
1Rs 8J33S3; 2Cr 20,9; Est 7.21s; Is 59,9-15a; 63.7-64,11; Jr 14,2-9.10-22;
Lm 5; Os 7,14; Jl 1;Jn 3$.

244
DA PALAVRA AO CULTO...

versáb do povo - 6,1-3 -, seguido de urna resposta a esta palavra, dirigida


por levitas em nome de lavé (YHWH) - 6.4-6 -. Outro exemplo encontra-se
em Jl 2,12-17, que descreve com detalhes um dia de penitencia pelo pecado
cometido.

No conspecto do Antigo Testamento, podemos encontrar aínda textos


referentes á liturgia de entrada em santuarios ou no Templo, textos estes em
que se expressa o desejo de encontrar a Deus em seu santuario, o gozo de
estar as su as portas, e se enumeram as condicoes para a aproxijnacao do
lugar sagrado, para a adoracao e louvor ao Senhor. Texto bastante conheci-
do é o SI 15, que assim se inicia:

"Senhor, quem pode hospedarse em toa tenda, quem pode habitar em


teu monte sagrado?"

Ouainda Is33.14b-16:

"Quem dentre nos poderá permanecer /unto ao fogo devorador?


Quem dentre nos poderá manter-se ¡unto aos braseíros eternos?"1

Cantos de peregrinapáo e procissao sao também numerosos como


Is 2,3:

"Vinde, subamos ao monte de YHWH, á casa do Deus de Jaco, para


que ele nos instrua a respeito dos seus caminhos e assim andemos em suas
veredas."2

Ou ainda outros momentos de liturgia no Templo. Vejamos alguns


exemplos:

- SI 5,3b : "É a ti que eu suplico, YHWHl De manha ouves minha voz.


De manha eu te apresento minha oferenda e espero."

- SI 22,23: "Vou anunciar teu nome aos meus irmaos, louvar-te no meio
da assembléia."

- S1134,1: "E agora, bendizei a YHWH, servos todos de YHWH'. Vos

1 Cf. também SI 24,3-6; Mq 6,6s; Ez 18,5-17; talvez também SI 100;


118,19s; 134; Is 26¿s; Jr 7.10.

2 Cf. SI 46,9; 66,5; Mq 42; Jr 31.6; 51,10; Is 33J20.

245
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 348/1991

que servís na casa de YHWH todas as noites, nos ¿trios da


casa do nosso Deusl "

— SI 141,2: "Suba minha pnce como incensó em tua presenca, minhas


mábs erguidas como oferta vespertina]"

— SI 149,1: "Aleluial Cantai a YHWH um cántico novo, seu louvor na


assembléia dos fiéis."

— SI 150,1: "Aleluial Louvai a Deus no seu Templo, louvai-o no excelso


firmamento."

Os santuarios aparecem assim como lugares privilegiados para a for-


mulacao de tradicoes escritas. 0 culto exigia textos litúrgicos, que eram en-
táo elaborados para esta finalidade. Sao oracoes e hinos, muitos dos quais se
encontram na Sagrada Escritura. Alám disso, como centros da vida de Israel,
os lugares de culto deviam possuir textos litúrgicos e administrativos, que
servíriam de fonte também para escritos posteriores de índole histórica.1
Por outro lado, a própria palavra contribufa para a estruturacao do culto,
urna vez que este em Israel sempre esteve centrado na intervengo salvffica
de Deus, a qual tinha nos escritos sagrados sua formulacao mais auténtica.

Nao é, porém, somonte na liturgia dos santuarios que encontramos a


Palavra de Deus ligada ao culto. Também na liturgia familiar temos o Sitz im
-Leben3 de muitas tradicoes e textos bíblicos. Tomemos como exemplo a
festa da Páscoa, que no seu extenso ritual, desenvolvido ao redor da mesa
familiar, constava, entre outros elementos, de urna pergunta litúrgica dirigi
da pelo memoro mais novo ao chefe da familia, pergunta esta que dava ense-
jo á narracao dos feitos salvfficos de Deus em favor do povo por ocasiao da
saída do Egito, e que hoje se encontra consignada por escrito em livros
como o Éxodo; cf. Ex 12,25-27.

Também sob outro ángulo de vista podemos observar a proximidade


entre Escritura e Liturgia no Antigo Testamento. É interessante notar como
Moisés, que aparece nos livros sagrados como o responsável pela Torah3 é
simultáneamente apontado como o instaurador do culto.4 Também nao

1 Cf. Ex 15,1b-18; Dt 31¿0-32.43.


3 Sitz im Leben = lugar na vida, ambientado.

3 Cf. Ex 19-24;cf. 24,4;Dt&11.


4 Cf. Ex 25-31: Moisés transmite ao povo a regulamentacio acerca do culto.

246
DA PALAVRA AO CULTO...

deixa de ser significativo que o livra do Deuteron&mio esteja ligado a urna


reforma litúrgica no tempo do rei Ezequias.1 Além do qué, sabe-se com
seguranca que a Lei codificada neste livro teve sua origem no Reino do
Norte, precisamente nos santuarios lá localizados. Por outro lado, parece ser
sintomático que o núcleo deste livro - Dt 12-26 -, descoberto no tem
po de Josias, tenha sido encontrado exatamente no Templo, entao sujei-
to a reformas.

Um passo importante é dado no tempo do exilio. No exilio babilóni


co (587-538 a.C), como nao existisse mais o Templo, os livros. sagrados
desempenharam como que a funcao do santuario. Através de sua leitura e
da instrucao que se Ihe seguía, dava-se de modo singular a uniao do povo
com Deus, f inalidade de todo o culto. A sinagoga, como casa de oracáo e de
cultivo da Palavra de Deus, parece ter tido origem neste tempo. E nao é sem
surpresa que observamos que, urna vez reconstruido o Templo e restaurado
o culto sacrifica) em seu interior, na época pós-exilica, no entanto a institui-
cáo da sinagoga continuou. Por que a sinagoga nao foi eliminada? Por que
ela permaneceu, como centro de culto da Palavra, urna vez que já fora res
taurado o culto sacrifical em Jerusalém? Também no Templo era anunciada
e rezada pelo povo a Palavra. Mas será que nao subsistiu a forte intuicáo de
que a Palavra como tal tinha também urna funcao de culto, que ela era urna
forma de expressáo do culto, e que mesmo os que se encontrassem longe de
Jerusalém, através déla entravam em comunhao com Deus? Neste ponto é
¡nteressante observar que a própria estrutura da sinagoga de certa forma
repetía a do Templo: o lugar onde eram guardados os rolos sagrados era
denominado "Santo" e, como o "Santo" do Templo de Jerusalém, era
também fechado por um véu.

O culto sinagogal centrava-se na audicao da Palavra de Deus e na res-


posta do povo a esta Palavra e reproduzia, deste modo, o diálogo da
Alianca do Sínai, por sua vez estreitamente ligada a um ato sacrifical.3 Após
o inicio do culto com o Shema' (Ouve) e oracoes, tinha lugar a leitura solene
de um trecho da Lei e do respectivo texto profético. Seguia-se urna exor-
tacao dirigida ao povo, a resposta do povo em forma de preces, niños.

1 Cf. 2Rs 18,1-6; 2Cr 29,31. O rei Ezequias governou entre 716 e 687 aC.
Outra datafáb o sitúa entre 727 e 698 aC.

1 Precisamente em 622 Cf. 2Rs22.1-23J0.

3 Cf. Ex 24,3-8. Em Ne 8 se espelha, de modo esquemático, o desenrofar do


culto.

247
8 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 348/1991

salmos responsoríais, e terminava-se o culto com a bénca*o de Nm 6.24-26.


Este esquema pode ser observado aínda no tempo do Novo Testamento-
cf. Le 4.17; At 13,15.

Maisum testemunho acerca da relacao.entre palavra e culto no pós-exf-


lio encontramos nos livros de Zacarías, capítulos 1 a 8, e Ageu. A atividade
profetice relatada nenes dois livros encontra-se diretamente reladonada com
a reconstrucao do Templo de Jerusalém.

1.2.0 Novo Testamento

O Novo Testamento nos mostra com igual clareza a inter-relacao entre


palavra e culto. É notorio que a redacao dos escritos neo-testamentarios está
baseada em grande parte no Sitz ¡m Leben cúltico. Se, por um lado, textos
como Ef 5,19 e Cl 3,16 - que se referem a "salmos, hinos e cánticos espi-
rituais" - aludem diretamente ao ambiente cúltico, por outro, certas passa-
gens podem ser provenientes da liturgia de entao. Exemplos claros encontra
mos nos hinos de Fl 2,6-11 e ITm 3,16. Acresce a isto que a própria prega-
cao, depois de codificada nos diversos escritos, encontrava no culto uma oca-
siib propída ao seu desenvolvimento; cf. At 20,7-12. Como o culto pode
influenciar a própria codificado dos textos, demonstra-o, por exemplo, uma
variante de Mt 6,13. que acrescenta ás palavras do "Pai nosso" a frase por
nos ainda hoje aclamada na liturgia: "porque a ti pertencem o Reino e o
Poder e a Gloría pelos sáculos. Amém".1

Acrescente-se a este dado ter a liturgia judaica da Palavra configurado,


em grande parte, a estrutura da liturgia crina. A Igreja retomou sua estrutu
ra essendal. O Novo Testamento, porém, outorga-lhe uma significacao nova
e um novo desenvolvimento: o Senhor Ressuscitado é o centro. A liturgia
tem agora como ponto de referénda a obra salvífica realizada por e em Cris
to, celebrada em misterio, anamnesis (memoria). A Palavra 6 entao entendi
da á luz desta Revelacao definitiva e a ela serve. O texto de Le 24,13-35 - a
aparicao de Jesús aos discípulos a caminho para Emaús — parece bem ilus
trar esta nova perspectiva. Temos aqui primeiramente o Senhor que interpre
ta as Escrituras - v.27 - e, em seguida, se faz reconhecer no partir o pao
- v.30s -. A Escritura recebe a partir de Crino sua nova e definitiva inter-
pretacao e o Senhor se constituí, em seu próprio corpo, no Templo do Novo
Testamento; cf. Jo 2,19-23.

Estas breves e seletivas consideracóes realcam o fato de que o culto se

'. Hoti sou estin he batileia kai he dynamis kai he doxa oís tous aionas amen.

248
DA PALAVRA AO CULTO... 9

constituiu, tanto no Amigo Testamento como no tempo da Igreja, lugar


privilegiado da Palavra.

2. Aprofundamento teológico

Perguntamo-nos aqui acerca do porqué desta aproximacáo entre pala


vra e liturgia.

Podemos partir de urna primeira constatacao. A Sagrada Escritura nos


mostra como Deus se revela, na historia do povo eleito, através de acontecí-
mentos e palavras intimamente conexos entre si (cf. Dei Verbum n<?2). Por
acontecimento entendem-se as obras e as acoes salvfficas, realizadas direta-
mente por Deus ou por intermediarios, dependentes ¡mediatamente do agir
humano ou manifestamente milagrosas. Por palavra entende-se aquela que o
Senhor manifestou através de seus representantes autorizados. As obras de
Deus confirmam suas palavras, como que representam as palavras. Pensemos,
por exemplo, no relato sobre o éxodo. Deus se apresenta como o Deus San
to que ouve o povo, o protege e o guia. O feito salvífico realizado corrobora
suas palavras; cf. Ex 3,7-10; c.12-14. Isto também se verifica no caso dos
profetas: segundo a obra histórica deuteronomista, o criterio para a distin-
cao entre verdadeiro e falso profeta é exatamente a realizacao do que foi
anunciado.'

Por outro lado, as palavras interpretam os acontecimentos, dao o seu


significado dentro do plano de Deus, retirando a ambigüidade que neles
possa haver. Retomemos nosso exemplo do éxodo: só podemos conhecer
seu pleno e real significado se atentamos á sua finalidade tal qual é aponta-
da pelo texto bíblico. O povo é feito livre para servir o Senhor, para entrar
em comunhaocom o seu Deus. Deus o retira do Egito "para junto de mím".*

O SI 33,4 ilustra bem estes aspectos ao colocar em paralelo a palavra


e o agir de Deus:

"A palavra de Deus é reta,


e a sua obra toda é verdade."

Podemos assim melhor considerar a relevancia da palavra e dos eventos


na economía salvffica de Deus. A Revelacao possui urna estrutura histórica e

1 Cf. Dt 18,21-22; 1Rs 2228; Jr28J9; Ez 33J.

1 Ex 19.4; cf. 7,16.26; 8.4.16.23;S,1.13; 10,3.24.

249
10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 348/1991

sacramental e esta sua última dimensao provém exatamente do fato da


inter-relacSo entre eventos e palavra.

Mas que é esta Palavra de Deus que, estreitamente ligada aos feitos
salvíficos, os eleva a um nivel sacramental? Detenhamo-nos por aiguns mo
mentos sobre este ponto.

a) A Palavra

O termo hebraico que aqui está em jogo é o vocábulo dabar. Sua raíz
possui básicamente dois significados, um dos quais, que nos interessa no mo
mento, incluí, a um tempo, o sentido de "palavra" e de "coisa".1 Dabar é
primeramente aquilo que á falado, a palavra. Trata-se, porém, de palavra
nao sonriente no seu aspecto lingüístico, mas ainda do próprio conteúdo
do que 6 anunciado. A partir daf se compreende por que dabar pode signi
ficar também "coisa". Mas, no uso bíblico, "coisa" diz respeito a urna
ocasiao, um fato, um acontecí mentó concreto. É assim que podemos ler em
Gn 15,1: "Depois destas coisas (isto é, acontecímentos, debarim) a palavra
de YHWH foi dirigida a Abráo".1 Corrobora-se dessa maneira a íntima rela-
cao entre gesta e verba na economía da Revelacao.

Isto por sua vez tem seu fundamento, segundo o meio de expressao
humana, no fato de que, para a cultura do antigo Israel, como para os povos
do Oriente Próximo em geral, a palavra é nao somente meio de comunicacSo
de pensamentos e sentimentos de alguém, mas, na base desta realidade, ela
comunica a própria pessoa que se expressa. A palavra nao se reduz a urna
manifestado do pensar ou sentir; ela possui urna existencia concreta e ope
rativa, dependente daquele que a pronuncia. E por isso traz em sí a forca da
pessoa que a pronunciou. A palavra é um ser real. Como o hálito que, ao
se pronunciar a palavra, juntamente com o som sai da boca de quem fala,
assim a palavra é um ser concreto que expressa e traz á realidade a forca
própria do locutor. "Hálito", em hebraico, se diz ruah e, referido a Deus,
significa a sua forca que cría, dá e sustenta a vida, impele a agir, realiza

1 O outro significado é "estar atrás, volver as costas": E. JENNI e C.


WESTERMANN, Diccionario Teológico Manual del Antiguo Testamento /,
Madrid, 1978, col. 614.

1 Cf. tambóm ISm 4,16; 10.16; 21,9; 2Sm 1,4; 1fís 12J0; Rt 3,18; Est
1,13; 2,22; 8JS; Esd 10,9; Gn 22,1.20 et passim.

250
DA PALAVRA AO CULTO... 11_

um evento.1 Este principio explica a ocurrencia do paralelismo ruah —


dabar. A Palavra de Deus aparece assim como urna estrutura paralela a ruah
Elohim, como o demonstra, entre outros textos, o SI 33,6:

"Por sua palavra (dabar) os céus foram feitos e pelo sopro (natí/ de
sua boca todo o seu exército".

Como o ruah Elohim, a Palavra de Deus (dabar Elohim/YHWH) é


também poderosa, eficaz; nao só anuncia, mas realiza o que significa.2 Pois,
se o poder da palavra depende de quem fala, do "sopro" de quem fala, a
Palavra de Deus é a atualizacáo do seu poder eficaz e salvador; cf. Is 55,1 Os.
É portanto portadora de vida (cf. S1119, 25.49s.107.154) e continua a agir
mesmo ap6s ser pronunciada.3

No Novo Testamento temos a realizacao plena desta concepcáo quan-


do a Palavra, o Verbo de Deus, se torna o evento Jesús: "O Verbo sé fez car
ne e habitou entre nos" (Jo 1,14a). Jesús, o Verbo de Deus encarnado, é,
assim, a plenitude da revelacáo. Sua atuacao sintetiza de modo máximo e su
blime toda a realidade dos conceitos de Palavra e Acontecí mentó. Jesús é o
acontecimento salvffico definitivo e realiza a salvaclo através de suas obras e
palavras, que nao sao senao urna única Obra e Palavra, sua Cruz e Ressurrei-
cao. O Novo Testamento, de diversos modos, nos p5e diante dos olhos que a
palavra de Jesús tem prerrogativas divinas: é poderosa, possui autoridade, é
eficaz, é portadora de vida.4 A palavra de Jesús é a palavra dp Pai,s pois
Ele mesmo é o Verbo do Pai. E por isto o seu culto ao Pai — sua obediencia,
sua entrega de amor e confianca ás má*os do Pai, que culmina na Cruz — , é
também o único e irrevogável culto, o culto definitivo, escatológico.6

1 Cf. Gn 2,7; 6,17; 7,22; S1104.29; 146,4; Ez 37,10.15; Jo 34,14s;Jr 10,14;


Ed3,19.

2 Cf. Os 6,5; Jr 5,14; 23,19; Is 49¿.

3 Tomemos alguns exemplos: Jeremías (4J5-31; 8,10-12; 13,15-17.18-19;


20,4-6 et passimj anuncia a destruicSo, que posteriormente ocorrerá; tam
bém em Gn 27¿5ss:a béncSo que Isaac dé a Jaco, nao pode mais ser retirada.

4 Cf. Mt 7.29; Me 1,22; Le 4J32; Mt 8,8.16; Me 1.25; 2.10; 4,39; Le 7.7.14;


Jo 1,4.

s Jo 14.24; 1,18; 3,11.34; 826.28.38; 12,49-50; 17,8.14.

6 Cf. Hb 9,11s; 726s et passim.

251
"PERPUNTE E RESP0N6EREM0S" 348/1991

b) O Culto

Passemos agora á análise do segundo polo da relacáo, o culto. A base


do culto hebraico — e, segundo sua proporcSo própria, do culto do Novo
Testamento — é a celebracao dos feitos salvíficos de Deus em favor do Povo
eleito, feitos estes que encontram seu significado pelo entrelacamento com a
Palavra de YHWH. Próprio desta liturgia e fator que a distingue dos cultos
das religióes nao reveladas, ó o fato de que ela nao é primeramente expres-
sao do homem para com Oeus ou da procura humana de comunhSo com a
Divindade. Mas é primeira e fundamentalmente sinal da relacao que Deus
quer estabelecer com o homem. E isto exatamente por causa da Palavra. Pois
o culto hebraico tem sua razao de ser na convocacao por Deus. Deus chama,
con-voca seu povo para se reunir em Assembléia de culto - qahal.ekklesía.
Esta assembléia nao pode ser convocada por urna iniciativa popular, mas ■
somente pelo chamado de Deus. Assim o povo convocado ao redor do Sinai
para receber a Lei e celebrar a Alianca (cf. Ex 24,1-8), se reúne na autorida-
de de YHWH. Quando a alianca parece destruida e o povo disperso, após o
exilio, Esdras, em nome de Deus, convoca um novo qahal e é restaurado o
povo, sempre por iniciativa de Deus; cf. Esd 8-10. No final do Antigo Testa
mento, há a grande esperanca de que Deus queira convocar m'ais urna vez o
seu povo, queira ratificar de novo a alianca, estabelecer sua Lei. Espera-se
um grande qahal renovador e restaurador. Jesús, após o trabalho preparato
rio de Joáo Batista, convoca o qahal dos tempos definitivos. Mas Ele o faz
na nova .Lei do amor ao Pai e, no Pai, a todos os irmáos. Ele o faz na alian
ca realizada em seu próprio Corpo e Sangue, em sua morte de cruz e ressur-
reicáo gloriosa; cf. 1Cor 11,25. E dá aos seus discípulos o seu Corpo, para
integrá-los em seu ser. Eis o novo qahal!

O culto do Novo Testamento, é entao o próprio Senhor que o realiza:


Ele é o Templo, o Sacrificio e o Sacerdote único1 e Ele convoca e realiza
a reuniáb dos que créem - sao agora assembléia santa em torno dele e tor
na m-se participantes de seu ser Templo, Sacerdote e Sacrificio.2 Urna vez
mais podemos perceber a inter-relacao entre palavra e liturgia, pois aquete
que é o Logos de Deus é também o Culto do Novo Testamento. A vida de
Jesús, este evento, é configuracao do Logos divino. O Logos como aconte-
cimento salvifico é constitutivo para o culto, que por sua vez é o próprio
Verbo-Senhor em atitude de ofertorio, ao Pai, por nos.

1 Cf., por exempló, Jo 2,19-23; Hb 9,11-14.

2 Cf. Me 3.13; Rm 12,1; 1Cor 10,16; 12,12; Ct 1J4.

252
DA PALAVRA AO CULTO. ■ ■ 13

3. Palavra e Culto, diferentes formas de presenpa


de urna única realidade

A partir destas consideracoes, vemos que a liturgia nao apenas utiliza a


Sagrada Escritura no seu desenrolar, mas a Sagrada Escritura é elemento
essencial da liturgia. Esta como que brota do fato da Palavra de Deus. Como
a palavra — da bar —, pelo seu próprio conceito exige a realidade, a coisa, o
evento, assim também a Escritura na acao cultual.

Tematizemos este aspecto, tendo em vista especialmente a liturgia


crista. A obra salvífica escatologica de Deus em Cristo Jesús constituí o
cerne de toda a liturgia. E esta obra salvífica se encontra anunciada de modo
privilegiado na Biblia, escrita por sua vez, em grande parte, di reta mente em
vista deste culto. A Escritura é o anuncio da obra salvífica realizada em
Cristo, que convoca a todos a déla participarem e a usufruírem de seus efei-
tos. A Liturgia realiza "in mysterio", no nivel ritual e memorial, esta mesma
obra salvffica anunciada na Escritura.

É nesse sentido que toda a liturgia exige a Escritura; esta é a Revelacao


proclamada aos que créem, e por isso é da liturgia um elemento essencial. A
liturgia, por sua vez, sendo a realizacao memorial, a atualizacao do Misterio
Pascal, centro e plenitude do plano salvífico de Deus, tem em si o Cristo
Senhor presente de modo real e vivo, Ele que é a Palavra encarnada. E está
presente sob diferentes formas, também e de modo singular na Palavra
anunciada; cf. Sacrosanctum Concilium n<? 7. Desse modo, no culto a
Palavra da Sagrada Escritura se atualiza, ou seja, se faz ato, operando de
maneira especial e única - diferente de qualquer leitura particular, que
possui nesse sentido um outro estatuto - o poder e a forca salvíficos do
Senhor, que é sua fonte.

Em outras palavras, a Sagrada Escritura proclama o evento salvífico; a


Liturgia o realiza "in mysterio", concretiza em forma memorial o anuncio
da' Escritura. A Sagrada Escritura anuncia o Cristo Senhor; a Liturgia realiza
e comunica de urna forma nova a presenca agraciante do Senhor Ressusri-
tado. A Escritura se completa na Liturgia e esta, por sua vez, leva a um
conhecimentó experimental, existencial, da Revelacao. É por isso, também
sob este título, plena de sentido a aclamacao da assembléia no cerne da
própria liturgia eucarística, ¡mediatamente após as palavras da instituicao:

"Anunciamos, Senhor, a vossa morte,


e proclamamos a vossa ressurreigSo."

O que a Palavra diz, se realiza naquele ato litúrgico que se está desen
rolando.

253
14 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 348/1991

A Liturgia é, assim, gesto e palavra em íntima relacáo. 0 culto se


torna, portanto, a realizacao plena da Palavra no seu sentido, a ela inerente,
de um ser concreto, de um acontecimento. É. por assim dizer, a "corporifi-
cacao" da Palavra, a forma ritual da Palavra. Pois é atualizacao da presenca
salvadora da Palavra de Deus Encarnada, tomada Templo e Culto únicos, o
Senhor R essuscitado.

Concluindo

Neste breve estudo, pudemos constatar a fntima relacao existente


entre Palavra ou Escritura Sagrada e Culto, no contexto da Revelacao
judaico-crista. Vimos, por um lado, que muitos textos que hoje temos na
Sagrada Escritura, apresentam traeos cultuais. Eles estao presentes nao
somente em grande parte dos Salmos, mas ainda em escritos proféticos e de
índole histórica, sapiencial ou didática, em textos do Amigo como do Novo
Testamento.

Por outro lado, pudemos ver que a Lei e outros textos do Antigo
Testamento eram lidos de modo solene na Liturgia. Muitos foram codifi
cados já em funcao de tal finalidade, de modo que o culto marcou sua
influencia nao s6 na redacáo, mas também no próprio conteúdo da Sagrada
Escritura. A isto acrescente-se o papel decisivo que desempenhou o culto
judaico e cristao na formacao do canon das Sagradas Escrituras exatamente
porque, na prática, reconhecer um escrito como aprovado para leitura
litúrgica significava reconhecer o seu caráter sagrado ou, como diríamos nos
hoje, a sua ¡nspiracao divina. Em contrapartida, também os textos bíblicos
influenciaram o culto: as orapces e os hinos a serem pronunciados possuíam
uma base bíblica e a própria estrutura litúrgica era determinada em parte
pela palavra - as leituras e sua explicacao.

Consideramos em seguida os aspectos teológicos que fundamentavam


este fato. Esta relacao Escritura-Culto tem suas raízes no modo escolhido
por Deus para realizar a sua Revelacao: obras e palavras em íntima conexao.
Vimos o sentido da Palavra já para o povo hebreu — sentido este que será o
paño de fundo para entendermos a Palavra no Novo Testamento - e o valor
e significado do culto.

Num terceiro momento, aludimos aos pontos principáis do relaciona-


mentó das duas realidades em questao, e pudemos constatar como ele é sin
tetizado no seu mais alto grau na Pessoa e no Misterio de Jesús Cristo.

Jesús, por ser a Palavra que se encarna, é a própria realidade da salva-


cao; cf. Ef 1,9; 3,9; Cl 1,27; 1Tm 3,16. Ele é a Palavra visível. Palavra que se

254
DA PALAVRA AO CULTO... 15

torna sinal, sacramento. É a partir do Senhor, Verbo e Templo, Palavra e


Culto, que temos a chave para a compreensao da Liturgia do Novo Testa
mento. Ela nao se constituí primeiramente num ato do ser humano que se
dirige a Deus em busca de comunhao. Antes, possui um ponto de partida
totalmente distinto. Ela é o ato divino de salvacac em forma ritual. E, com
isto, é capaz de elevar o homem a filho de Deus e este, em Cristo, pode en-
táo oferecer-se em culto ao Pai; cf. Rm 12,1. Introduzido no misterio de
Cristo, nele pode oferecer a Deus a verdadeira adoracao; cf. Jo 4,23-25.
Assumido em amor pelo Senhor Ressuscitado, é feito, com Cristo, hostia,
templo, louvor, adoracao.

A Palavra coloca-se dentro desta dinámica dialógica pertencente a


toda a Liturgia. Deus, como Esposo, dirige ao homem, em Cristo, sua Pa
lavra. Esta Palavra, que é Amor e Salvacáo, realiza sua obra: gera amor,
torna-nos filhos; cf. Rm 8,25s. A assembléia litúrgica, como Esposa, vol-
ta-se a seu Senhor em amor e, em Cristo, dá ao Pai a única resposta: unin-
do-se ao Cristo, Logos do Pai, toma-se com Ele um único pneuma (cf. ICor
6,17), Ele que é o único a oferecer a Deus o supremo culto de adoracao
(cf. 1Cor 15,28).

• * *

(continuafió da p. 262):

3) Os avisos paroquiais, que nao raro sao dados antes do fim da Missa,
hao de ser sumarios de modo a nao dispersar indevidamente a atencao da
assembléia. Quanto ao costume de que o celebrante se despeca dos fiéis á
porta da igreja, nao deve impedir que os comungantes facam sua acao de
gracas antes de deixar a igreja; a oracao, no caso, deve ter a prioridade sobre
qualquer cerimdnia de convivencia humana e fraterna.

4) A duracao da acao de gracas protrafa-se outrora por quinze minu


tos, conforme as recomendacoes dos mestres de espiritualidade. Atualmente
os documentos oficiáis da Igreja nao explicitam duracao, mas falam de "con
veniente espaco de tempo", como diz a Instrucao Inaestimabile Donum
n° 17 atrás citada. Esse espaco de tempo será mais longo ou menos longo
conforme a devocao do cristao. A este compete criar o hábito da acao de
gracas particular após a Comunhao eucarfstica ou após a S. Missa.

Nao há dúvida, o artigo de Renée de Tryon Montalembert é muito


oportuno. O fato de ser publicado pelo jornal oficioso L'Otservatore Roma
no confere-lhe certa autoridade e bem manifesta a preocupacao da Santa Sé,
cujo alcance os fiéis católicos saberao compreender para responder-lhe
dignamente.

255
Reverencia e gratidSo:

Agáo de Grabas Após a


Comunháo

Em sfntese: Um artigo publicado pela Sra. fíenée de Tryon Monta-


lembert no jornal L'Oservatore Romano é indicio de urna preocupado da
Santa Sé relativa ao desuso da agio de gracas particular após a Comunháo
Eucarfstica. As raides deste declínio sSo diversas, notándose, entre outras,
urna exagerada valorízacSo da piedade comunitaria e do encontró com os
irmSos, em detrimento da estima do encontró pessoal e silencioso com o
próprio Cristo. A idéia de ceia fraterna estaría erróneamente prevalecendo
sobre o conceito de comunháo com o Cristo pessoal, Cabeca do Corpo
Místico.

Em vista disto, o artigo propoe um esforco pastoral intenso para res


taurar nos fiéis o sentido auténtico da Comunhio Eucarfstica e incentivé-los
é oracSo pessoal e silenciosa após a recepcáo do sacramento; é a oracSo par
ticular que permite a asst'milacSo frvtuosa do dom de Deus, que por vezes
pode permanecer estéril por falta de atencSo mais detida do comungante. Os
avisos paroquiais e outras práticas que atualmente estejam em uso após a
Comunhio Eucarfstica, nSo deverSo impedir os fiéis de permanecer em reco-
Ihimento por espaco de tempo conveniente após a recepcSo do Sacramento.

* * *

Verifica-se a progressiva perda do costume de fazer acao de grapas


após a Comunháo Eucarfstica ou após a S. Missa. A Tradigao católica incutiu
esta praxe, altamente benéfica para a vida espiritual, pois favorece a oracao
pessoal e a uniao com o Senhor Jesús.

A fim de obviar a este problema, foi publicado no jornal L'Osservatore


Romano de 11/12/1990 (edicao semanal francesa) um artigo da Sra. Renée
de Tryon Montalembert1 intitulado: "A propos de l'action de grdces aprés la
Communion (A propósito da acao de gracas após a Comunháo)". Trata-se de

1 O Jornal nSo apresenta os dados pessoais da autora. (Nota do tradutor).

256
ACÁO DE GRAQAS APÓS A COMUNHÁO V7

urna reflexao seria e ponderável, que passamos a reproduzir em traducfo


brasileira, pois tem pleno significado para o povo de Deus em nosso país.

I. O TEXTO

1. Os Principios

Falar de acáo de grapas após a Comunhao Eucarística pode parecer


pleonasmo, pois toda a celebrado eucarística - na sua íntegra — constituí a
acáo de grapas por excelencia. Neta se recapitulam e culminan} as múltiplas
modalidades de acao de gracas ininterrupta que deve ser — também na sua
íntegra - a vida de cada crístáo (cf. eucharístein = dar gracas; cf. Cl 3,17;
1Ts5,18).

Mas trata-se aqui, de modo particular, dos instantes privilegiados que


se seguem, para o sacerdote e para os fiéis, á comunhao sacramental com o
Corpo de Cristo.

A Constituido Dogmática Lumen Gentium, fazendo-se eco da tradi-


cao constante da Igreja desde as suas origens (cf. 1Cor 10,17), lembra-nos
que, participando realmente do Corpo do Senhor na fracao do pao eucaris
tia), somos elevados á comunhao com Ele e entre nos (n<? 7).

Assim, de um lado, a Comunhao Eucarística realiza a uniao de cada


comungante com o Corpo e o Sangue de Cristo. Trata-se ai de verdadeira
uniao de sua pessoa com a pessoa mesma de Jesús Cristo, corporalmente
presente no comungante: presenca real que resulta da transubstandacao
efetuada pelas palavras consecratórias que o padre pronuncia in persona
Christi no momento da consagrado (signum et sacramentum).1

1 Em todo sacramento distinguem-se:


- o sinal exterior, visível: agua, óleo, pió, vinho, gestos, palavras.. . É
dito em latím sacramentum tantum (sacramento apenas);
- o efeito ¡mediato, que encaminha para o afeito último; no caso da
Eucaristía, é a recepcSo do Corpo de Cristo realmente presente sob forma
sacramental. Este efeito é chamado em latím sacramentum et res (sacra
mento e esséncia do sacramento). O artigo de jornal que traduzimos, talvez
por erro tipográfico, refere signum et sacramentum.
- o efeito último, que, no caso da Eucaristía, é a graca santificante, que
beneficia espirítualmente o comungante e reforja a sua ¡nsergao no Corpo
de Cristo que 6 a Igreja. Tal efeito 6 chamado res sacramenti, o Smago ou o
essencíal da atuacao do sacramento. (Nota do Tradutor).

257
18 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 348/1991

Mas, de outro lado, a Comunhao Eucarística realiza a uniao de cada


comungante com o Cristo total, Cabeca e Corpo, portante nao apenas com
o seu Corpo físico, mas também com o Corpo Místico ou, em outras pala-
vras, com a Igreja considerada em sua totalidade e em cada um dos seus
membros (cf. res tantum).

Eis por que a Comunhao Eucarística, que se sitúa no coracao mesmo


da Liturgia, constituí, de um lado, um ato eminentemente pessoal do cristáo
batizado, e, de outro lado, visto que as acóes litúrgicas nao sao acoes parti
culares, mas celebracoes da Igreja, que é sacramento da unidade (canon 837),
a Comunhao Eucarística, na qual se consuma o santo Sacrificio da Missa,
constituí, por excelencia e para cada comungante, um ato eclesial.

Nesta perspectiva, é para agradecer a Deus um tao grande beneficio


que o Missal Romano de Paulo VI (Institutio Generalis Missalis Romani)
prevé explícitamente que a recepcao da Santa Comunhao seja seguida de um
tempo de oracao pessoal - e principalmente de um tempo conveniente de
silencio sagrado — com a possibilidade de exprimir por cantos, salmos ou
cánticos, a alegría e a gratidáo daqueles que, alimentados pela carne e o
sangue de Cristo, se tornem a realidade do seu Corpo que é a Igreja. Assim
se emende a acao de grapas eclesial; é altamente desejável que ela seja pro
longada após a celebracao mediante meditacao durante um tempo con
veniente.1

2. Os Abusos

Ora verifica-se muito freqüentemente:

1) A omissáo de todo momento de silencio após a Comunhao. Esta


omissáo é tanto mais impressionante quanto tende a se instaurar o costume

1 Reza a Instruyo Geral do Missal Romano n9 56J:


"Terminada a distribuicao da Comunhao, se for oportuno, o sacerdote e
os fiéis oram por algum tempo em silencio, podendo a assembléia entoar um
hiño ou outro canto de louvor".
Algo de semelhante se encontra na Instrucio Iriaestimabile Donum
n9 17 (17/04/80/ publicada pela CongregacSo para os Sacramentos e o Culto
Divino com a aprovacao de Joao Paulo II:
"Recomendase aos fiéis que nao descuiden), depois da Comunhao, urna
justa e indispensável afao de grapas, quer na própria celebracao — com uns
momentos de silencio e com um hiño- ou um salmo ou aínda outro cántico
de louvor -," quer, terminada a cetebracSo. permanecendo possivelmente em
oracao durante um conveniente espaco de tempo".

258
ACÁO DE GRAQAS APÓS A COMUNHÁO 19

de um tempo de silencio após a proclamacao da Palavra de Oeus e a homilía.


Resulta daf um contraste estridente entre a duracao concedida á Liturgia da
Palavra harmoniosamente celebrada e o tempo estranhamente reduzidoque
se dedica á Liturgia eucarística propriamente dita. É frequeme decorrerem
tres minutos apenas (contados de relógio na mao) entre a Comunháfo do
último dos fiéis e o momento em que o sacerdote deixa o altar.

2) A proclamacao, logo após a Comunhao, de avisos paroquiais, com


a intervencao de leigos para assuntos de ordem prática (coral, apresentacao
de movimentos, coletas, etc.).

3) O abandono quase total da prolongacao. após a Missa, da acao de


gracas.

3. Causas desses abusos

1) A diminuicao do sentido do sagrado na acepcao mais nobre desta


palavra e, mais precisamente, o enfraquecimento da fé efetiva na presenca
real.1

2) O esfriamento do amor em nossos coracSes (Cardeal Journet e "o


choque da presenca eucarística").

3) Urna interpretacao inexata da necewidade de participacáo ativa dos


fiáis (actuosa participatio). É incutida, com razáo, pelo Concilio do Vatica
no II. mas nao poderia ser auténtica sem urna conveniente interiorizacao do
Misterio.

4) Urna insuficiente valorizacao da dimensao pessoal do encontró


com Cristo, ao passo que se valoriza, de modo superficial, o encontró do
comungante com seus irmáos, encontró considerado mais como simples
convivencia do que em sua realidade de misterio eclesial. Temos aqui urna
situacao análoga á que ocorre ñas celebracoes penitenciáis com absolví cao
coletiva indevida.

5) A atenuacao do senso do pecado e, conseqüentemente, do sentido


da confissao. Joao Paulo II enfatizou o líame existente entre o Sacramento
da Penitencia e o da Eucaristía. E a censura que o Apostólo Paulo dirigia aos

Fé efetiva é aqueta que efetua, distinguindo-se da fé afetiva, que pode fí-


car apenas no íntimo do corapao inerte. (Nota do tradutor)

259
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 348/1991

cristffos da Corlnto (ICor 11,28-30) nSo diría respeito de certo modo tam-
bóm á nossa geracao?1

6) Certa ¡ncoeréncia espiritual. Nao é possível tomar consciénda de


nossa Comunhao com o Cristo total e. por conseguinte. com toda a Igreja
(o que ó a finalidade, a res tantum, do sacramento) sem tomar consciéncia
da nossa uniáo pessoal com o Cristo como pessoa (res et sacramentum).
Ora, para que haja tal tomada de consciéncia. nao se pode fazer economía de
tempo. Nao é necessário á esponja um lapso de lempo para que a agua a
penetre? De modo análogo, nao é necessário ao comungante um intervalo
mínimo de silencio e de paz para que ele se deixe penetrar pela presencia do
Cristo vivo?

7) Certa influencia das concepcoes protestantes da "Santa Ceia".

8) Registremos também problemas de ordem pratica (necessidade de


transmitir aos fiéis os avisos e as informacoes pessoais) e de fndole pastoral.
O sacerdote, após a Missa do domingo, faz questao. sempre mais freqüente-
mente, de saudar os paroquianos, enquanto estes se dao a urna conversa ami
ga entre si. As vezes mesmo alguns restauram a tradicao antiga dos ágapes.2

4. Nossos anseios

1) Sejarh clara e firmemente recordadas as recomendacóes do nosso


Missal Romano e da Instrucao Inaestimabile Donum concernentes á acao de
grapas litúrgica apos a Santa Comunhao. Seja respeitado o segmento de tem
po previsto para essa acao de grapas.

2) Procurem-se solucóes para os* casos de ordem prática e pastoral


(avisos e informacoes pastorais), assim como para o encontró amigável do
sacerdote com os paroquianos após a Missa dominical.

1 Eisaspalavras de Sio Paulo mencionadas:


"Que cada um examine a si mesmo antes de comer desse pao e beber des-
so cálice, pois aguóle que come e bebe sam discernir o Carpo, come e bebe
a própria condenado. £is por que há entre vos tantos debéis e enfermos e
mu/tos morreram". (Nota do tradutor).

2 Ágape era a refeicao fraterna de caridade /ágape, em grego) que os amigos


cristibs realizavam após a oalebracao da Eucaristía, a fim de beneficiar os
irmSos mais pobres. (Nota do tradutor).

260
AgÁODEGRACASAPÓSACOMUNHÁO 21

3) Seja revalorízada a apao de grapas pessoal após a Missa, na base dos


seguintes dados:

a) a insistencia do magisterio da Igreja. Pió XII. insistíu sobre a


importancia dessa atitude, lembrando que

- semdúvida.osatosda Liturgia, especialmente os da Liturgia eu-


carfstica, tém valor objetivo. Por conseguinte, sao ef icazes por grapa de Deus,
e nao por habilidade nossa, para unir a piedade dos fiéis a Cristo Cabeca, e
assim efetuar de certo modo urna acao de toda a comunidade;

- nao obstante, nao é menos ¡ndispensável o que se poderia cha


mar a piedade subjetiva. De modo particular, é muito conveniente que, urna vez
recebida a S. Eucaristía e terminadas as cerimónias públicas, o comungante
se recolha intimamente unido ao Divino Mestreetenhacom este um coloquio;

- por conseguinte, afastam-se da reta senda da verdade os que,


apegando-se ás palavras mais do que ao espirito da letra, afirmam e ensinam
que, urna vez terminado o sacrificio da Missa, nao há que o prolongar por
urna apáo de grapas alegando que o sacrificio do altar é por si mesmo urna
apao de grapas e que a apao de grapas particular é questao de devopao pessoal
e privada, concerniente ao individuo e nao ao bem da comunidade. Nao equi
vale isto a esquecer a exigencia fundamental dos sacramentos, cuja índole
mesma pede que o cristao, ao recebé-los, tire daí copiosos frutos de santi-
dade? O Concilio do Vaticano II, em sua Constituicáo sobre a S. Liturgia,
nos lembra outrossim a importancia insubstituível da oracao pessoal, pois
"a vida espiritual nao se limita á participapao da Liturgia apenas" (n9 12).

b) O testemunho dos Santos: especialmente o de Santa Catarina


de Sena e Santa Teresa de Ávila corrobora esta doutrina.

c) Nao poderíamos aínda perguntar se o abandono da acao de gra


pas particular nao é, em parte, responsável pela rarefacao das vocapoessacerdo-
taise religiosas? E ten hamos cuidado para nao esquecer os testemunhos conver
gentes que vieram do recente Sinodo sobre a formacao dos sacerdotes e que
unánimemente reconhecem a urgencia, para os Seminaristas, de ser seria
mente formados no sentido de urna vida espiritual auténticamente pessoal
e vigorosa.

4) Que se envidem todos os esforpos para suscitar nos fiéis urna fé es


clarecida e reta a respeito da presenca eucaristica, e o senso de respeito e
adoracao que sao devidos a esta. Para o conseguir, parece necessário

a) explicar aosfiéiso significado exato dos diversos modos de pre-

261
22 "PÉRtíUNTEE RESPONDEREMOS" 348/1991

tenca dé Cristo, tais como sao enumerados na Constituido sobre a Sagrada Li


turgia h<? 12, ternbra ndo-lhes que é sob as espades eucar ísticas que se rea li za es-
sa presenca por excelencia e enfatizando em que consiste a espedficidade da
presenca real;

b) levar em conta especial o principio teológico segundo o qual os


sacramentos sao puros dons gratuitos de Deus e por isto nao podem ser tomados
(exceto no caso do sacerdote que celebra a Missa), mas devem sempre ser
racebidos. Na Franca generalizou-se o costume de que os fiéis tomem o
cálice do Preciosísimo Sangue, colocado sobre o altar pelo sacerdote no
caso da Comunhao sob as duas especies.1

II. COMENTARIO

O texto termina bruscamente e parece incompleto no jornal


L'Osservatore Romano donde foi extraído. Como quer que seja, é portador
de significativos traeos de teologia e piedade, que vao, a seguir, realcados:

1) A oracao comunitaria ou a oracao oficial da Igreja, que culmina na


celebracao da Eucaristía, é excelente e deve nortear toda a piedade dos fiéis.
Todavia ela pode permanecer estéril, se nao se Ihe dá urna complementacáo-
(e preparacao) na oracao individual. Há de ser assimilada pelos fiéis no silen
cio e no recoih'imento, em fntimo coloquio com Deus.

2) Por conseguinte, a própria Eucaristía só dará todos os frutos se os


comungantes se dedicarem á acao de gracas pessoal. Esta pode ocorrer tan
to dentro da Missa (logo após a Comunhao, antes que o celebrante diga a
oracao final) como logo após a Missa. No primeiro caso, a acao de gracas
costuma ser breve. Daí a conveniencia de que todos os fiéis permanecam em
oracao silenciosa e profunda após o término da Missa.

(continua na p. 255)

1 A autora quer dizer que os dons nao sa~o tirados ou usurpados, mas rece-
bidos, como compete a tudo o que 6 gratuito. Assim também a Eucaristía,
sendo um dom de Deus, nao deve ser retirada de cima do altar petos fiáis,
mas deve ser ncebida das mSosdo ministro devidamento investido para tanto.

Verlnstrucao Inaestimabile Donumn?S;


"A Comunhao eucarfstica é um dom do Senhor, que 4 dado aos fiéis por
intermedio do ministro deputado para isso. Nao á admitido que os fiáis to
mem eles próprios o pSo consagrado e o cálice sagrado, e muito menos é
admitido que os fiéis os passem uns aos outros". (Nota do tradutor).

262
Teología e Apologética:

O Culto dos Santos

Em símese: O culto dos Santos, ponto nevrálgíco no diálogo entra


católicos e protestantes, ó justificado pela TradicSo crista" mais amiga, apoia-
da alias em fundamentos bíblicos prá-cristaos (cf. 2Mc 15,14). O Concilio
de Trento o reafirmou, procurando, poróm, coibir abusos e mal-entendidos
instaurados na piedade católica. 0 Concilio do Vaticano II niterou a. dou-
trina da Igreja, pondo em relevo os aspectos cristocentrico e teocéntrico
dessa prática de piedade.

Com efeito. A solidariedade existente entre os membros do povo de


Deus náb 6 extinta pela passagem da vida terrestre para a celeste; ao contra
rio, o amor fraterno que anima os justos nesta vida, é liberto de escorias do
pecado na outra vida; torna-se, pois, mais ardoroso e genuino. Deus, que nos
fez membros da mesma comunhao, proporciona aos Santos no céu o conhe-
cimento de nossas necessidades para que e/es possam intercder -por nos,
como intercederían! na térra. Essa intercessao quer-nos levar mais a fundo
dentro do plano de Deus; 6 encaminhada para a gloria de Deus e o louvor
do Redentor; os Santos sao totalmente relativos a Cristo; sao obras-primas
de Cristo, que nos le vam, por suas preces e seus exemplos. a reconhecer me-
Ihor a grandeza da nossa Reden (So.

Vé-se, pois, quanto ó entranhada na teología católica a devocao aos


Santos. Nao ó obrigatória, mas facultativa; como quer que seja, decorre de
lúcida compreensao do plano salvffico de Deus, principalmente no que diz
respeito á Bem-aventurada Virgem María, MSe de Deus e Máe dos homens
(cf. Jo 1925-27).

* * *

Sabe-se que um dos pontos nevrálgicos no relación amento entre cató


licos e protestantes é a veneracáo dos Santos, que ¡nclui a prece dirigida aos
mesmos e a estima das reliquias. Os discípulos de Lutero julgam haver nis-
to graves desvios doutrinários, que eles atribuem á Tradicao católica.

Visto que o assunto volta freqüentemente á baila, vamos dedicar-lhe


as páginas seguintes.

263
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 348/1991

1. A h istória da questifo

O culto de venerapao (nao de adoracao) dos Santos foi até o sécu-


lo XVI prática tranquila e obvia entre os cristaos.

As rafzes desta praxe estío já ñas páginas do Amigo Testamento.


- Com afeito; ató o sécu lo 11 a .C. os judeus professava m a existencia do cheol
ou o entorpecimento da consciéncia dos defuntos relegados promiscuamente
para um lugar subterráneo dito cheol; ai estariam incapazes de receber qual-
quer sancao. No sáculo II dissipou-se tal nocáo; aflorou no povo de Israel a
consciéncia de que os irmáos que deixam esta vida, mantém lúcido um nú
cleo de sua personalidades vivem como membros da Alianca de Deus com o
seu povo; conseqüentemente, sao solidarios com os fiéis peregrinos na térra
e ¡ntercedem por eles. É o caso, por exemplo, de Jeremías profeta que, fale-
cido no sáculo VI a.C, aparece a Judas Macabeu no século II a.C, junta
mente com o Sumo Sacerdote Onias {também falecido), como "o amigo de
seus irmáos, aquele que muito ora pelo povo, pela cidade santa. Jeremías, o
profeta de Deus" (2Mc 15,14).'

No Novo Testamento esta consciéncia se fortalece: na epístola aos


HebreuSi o autor recorda os justos do Antigo Testamento, heróis da fé, e
insinúa a sua solidariedade com os irmáos ainda vivos na térra. Com efeito,
afirma:

"Todos eles, embona pela fé tenham recebido um bom testemunho,


apesar disso nao obtíveram a realizado da promessa. Pois Deus previa para
nos algo de melhor, a fim de que sem nos nSo chegassem á plena realizado"
(Hb 11,39s).

Logo a seguir, o autor imagina esses justos colocados num estadio


como que a torcer pelos irmáos ainda existentes neste mundo; constituem
urna densa nuvem de torcedores interessados no bom éxito do certame que
nos toca:

"Portante também nos. com tal nuvem de testemunhas ao nosso re


dor, rejeitando todo fardo e o pecado que nos envotve, corramos com perse-
veranos para o certame que nos éproposto" (Hb 12,1).

1 Diz a propósito a Biblia de Jerusalém em nota de rodepé a 2Mc 15,14:


"Esse papel conferido a Jeremías e a Onias é a prímeira atestacSo da trenca
numa oracSo dos Justos fatecidos em favor dos vivos".

264
O CULTO DOS SANTOS 25

Corremos, pois, acompanhados por testemunhas que nos querem ver


vitoriosos como eles foram.

Consciente disto, já nos seus primeiros tempos a Igreja comecou a


prestar veneracao particular aqueles defuntos que por sua vida e morte ha-
viam confessado Jesús Cristo. Como relatam as fontes históricas, na segunda
metade do sáculo II, firmou-se o costume de haver urna celebracao eucarfsti-
ca em cima do túmulo dos mártires no día do aniversario da sua morte (con
siderado como o dia do seu natalicio}. Apóso período de perseguicdes, que
se encerra em 313 com a Paz de Constantino, os cristaos construiram cape-
las e igrejas sobre os túmulos dos mártires.

A veneracao dos mártires, após a era do martirio sistemático, esten-


deu-se aos monges (que procuravam viver o espirito do martirio em absoluta
renuncia no deserto); em seguida, foi devotada também aos Bispos e sacer
dotes e demais fiéis do povo de Deus. Os Bispos eram os juízes da devocao
espontánea dos cristaos, de modo que Ihes competía aprovar ou nao tal ou
tal manifestacao de piedade. Os Santos eram proclamados pela piedade dos
fiéis e os Bispos consentiam ou nao consentiam em tais gestos.

Nos sáculos VIII/IX foi debatida a questáb das ¡magens (¡oonoclasmo).


O objeto da controversia eram principalmente as imagens de Jesús Cris
to; s6 acidentalmente foram abordadas as imagens dos Santos e, conse-
qüentemente, o culto dos Santos. - O Concilio Ecuménico de Nicéia II
(787) declarou licito o uso de imagens sagradas: a estas se presta um culto
relativo á pessoa ou as pessoas representada(s) pelas imagens. Tal culto em
relacao aos Santos é de veneracao (dulia) e nao de adoracao (latréia), que
compete a Deus só.

Um passo adiante no aprofundamento da temática foi dado pelo


Papa Joao XV: em 993 ele procedeu á primeira canonizacao formal. Isto
quer dizer que doravante nao vaieria mais a aclamacáb de um Santo por
parte do povo de Deus, aprovada pelo Bispo local. O Papa atribuia exclusi
vamente a si a funcao de canonizar os Santos1 - o que se faria após me
ticuloso processo ou exame dos respectivos indicios de santidade, a fim de
se evitarem equivocos por parte do entusiasmo das massas de fiéis. O pri-
meiro Santo assim canonizado foi Santo Ulrico, Bispo de Augsburgo (Bavie-
ra), falecido em 973. Nessa ocasifo (em 993) Joao XV enderecou a encíclica
Cum conventus esset aos Bispos da Alemanha e da Gália, em que realca dois
importantes principios da veneracao dos Santos:

1 Canonizar ó Inserir no canon ou catálogo dos Santos.

265
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 348/1991

"Honramos os senos para que a honra recaía sobre o Senhor que dis-
se: Quem vos amina, a Mim acolhe' (Mt 10,40). Akfm do qué, nos, que nao
podemos confiar em nossas próprías virtudes, se/amos sempre ajudados pe-
n £^£.!i.W mérít0S d°S SantOS" <D°n™9erSchónmetzer, Enquirfd»
fri 756 [342]/.

Em plena Idade Media, o Concilio do Latrao IV (1215) promufgou


uma advertencia sobre abusos ocurrentes no culto das reliquias:

"0 fato da que alguns expoem reliquias dos Santos para vendé-las
e as apresentam ao público desordenadamente, tem acarretado danos para
a religiSo crista. A fim de que isto nio mais aconteca, estabelecemos pe
lo presente decreto que doravante as reliquias antigás nao sejam expostas
fora do respectivo cofre nem se/am aposentadas para venda. As que fo-
rem racém-descobertas, ninguóm ouse veneré-las publicamente sem que
tenham sido previamente reconhecidas pelo Pontífice Romano. De res
to, os prelados náb permitam que os fiéis dese/osos de venerar reliquias
ñas igrejas desses prelados sejam iludidos por falsas imagens ou documen
tos, como em varios lugares, por motivo de lucro, tem acontecido habitual-
mente" (Denzinger-Schónmetzer, Enquiridio o? S/S [440]).

Vé-se que na época havia abusos decorrentes da fragilidade humana,


abusos, porém, que nao deviam implicar a supressao do uso justificado por
motivos teológicos, como adiante se. verá.

0 culto dos Santos e das reliquias era algo de táo radicado na piedade
católica que o Papa Martinho V, no questionário apresentado aos seguidores
de Wiclef e Huss (contestatarios reformistas dos séculos XIV e XV), incluiu
a seguinte pergunta:

"Cré e afirma que é lícito aos fiéis venerar as reliquias e as imagens


dos Santos?" (Bula ínter Cunetas, de 22/02/1418, questáo 29D-S Enaui-
rídio/»? 1269 [679]). '

De acordó com o principio tradicional Lex Orandi Lex Credendi (a le i


da oracao é a lei da fé, a oracáo é expressao e escola de fé auténtica), o culto
dos Santos praticado na Liturgia da Igreja nao era apenas uma questáo de
disciplina ou uma prática venerável; era, slm, algo que se prendía ao patrimo
nio da fé católica. Negar o culto de veneracao aos Santos seria ferir, ao me
nos indiretamente. uma verdade de fé católica. Eis por que b Papa mandava
perguntar aos contestatarios se aceitavam a veneracao dos Santos.

Os abusos ]¿ condenados pela autoridade da Igreja no século XIII fo-

266
O CULTO DOS SANTOS 27

ram-se avolumando nos séculos subseqüentes. O fim da Idade Media foi de


piedade férvida ou mesmo exuberante, mas pouco ilustrada pela doutrina da
fé, de modo que os fiéis manifestávam seus sentimentos religiosos de manei-
ras evidentemente aberrantes. Isto provocou a réplica de Lutero e Calvino
noséculoXVI.

Os dois reformadores aceitavam a veneracao dos Santos (alias, quem


nao venera um herói ou urna heroína?), mas contestavam a sua funcao de
intercessores; esta parecia-lhes derrogar á exclusividade da acao salvífica de
Jesús Cristo; em particular, Lutero argumentava que também o justo per
manece pecador (é um pecador revestido do manto dos méritos de Cristo,
mas pecador debaixo de urna capa de justica); por conseguinte.'dizia Lutero,
os justos nao podem ser instrumentos de salvacao.

A estas assercoes o Concilio de Trento respondeu tanto na Profissáo


de Fé Tridentina (13/11/1564, D.-S. 1867 [998]) como no "Decreto sobre a
Invocacao, a Veneracao e as Reliquias dos Santos e as Imagens Sagradas"
(3/12/1563). Este último afirma seis pontos:

1) Os Santos, que reinam com Cristo, oram pelos homens;

2) Invoca-los e implorar a sua ¡ntercessao é coisa boa e útil;

3) No entanto. Cristo fica sendo o único Redentor;

4) Os beneficios em resposta & oracao vém de Deus através de seu


Filho (a Deo per Filium).

0 Concilio ainda exortou os Bispos a que instruissem os fiéis con


forme a Tradicao da Igreja e impedissem os abusos existentes:

5) A veneracao das reliquias se justifica pelo fato de que os corpos dos


Santos eram templos do Espirito Santo e serao ressuscitados para a vida
eterna;

6) As imagens dos Santos prestem-se honra e veneracao, tendo-se em


vista Aquele ou aquele(a)s que tais imagens representam. A veneracao das
imagens estimula o agradecimento a Deus e a imitacSo dos heróis da fé (ver
D.-S., Enquirfdio n° 1821-1825 [984-988]).

Como se vé, o Concilio de Trento reiterou a doutrina tradicional da


Igreja, ao mesmo tempo que repeliu quaisquer abusos, para os quais chamou
a atencao dos Bispos e mestres da fé, encarregados de velar pela pureza da
doutrina e da piedade cristas. — Note-se, porém, que os padres conciliares

267
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 348/1991

quiseram salvaguardar a liberdade dos fiéis frente ao culto dos Santos; este
é tido como bom e útil (bonum et utile), nao, porém, obligatorio. A Igreja
como tal cultua os Santos em seu calendario litúrgico, mas deixa ao criterio
de cada fiel definir os termos de sua devocao pessoal.

Até o Concilio do Vaticano II (1962-65) nada de novo se disse em


caráter oficial sobre o assunto. Este último Concilio retomou a temática e
deu-lhe urna formulacao bem mais precisa e correspondente ás objecdes
protestantes; enfatizou especialmente o caráter cristocéntrico e teocéntrico
do culto dos Santos (Cristo e Deus Pai é que, em última análise, sao cultua-
dos quando se cultuam os Santos).

Assim, por exemplo, reza a Constituicao Sacrosanctum Concilium


sobre a Sagrada Liturgia:

"Nos natalicios dos Santos a Igreja apregoa o misterio de Páscoa vivi


do pelos Santos que com Cristo sofreram e foram glorificados, e propoe o
seu exemplo aos fiéis, para que atraía por Cristo todos ao Pal e por seus
méritos obtanham os beneficios de Deus" (nQ 104).

Este texto dá um caráter fortemente teocéntrico e cristocéntrico ao


culto dos Santos. Ele nos induz a reconhecer o misterio da Páscoa ou da
vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. O exemplo dos Santos deve levar
os fiéis ao Pai mediante Jesús Cristo. — O mesmo é dito pouco adiante:

"As testas dos Santos proclamam as maravilhas de Cristo realizadas em


seus servos e mostram aos fiéis os exemplos oportunos a ser imitados"

A Constituicao Lumen Gentium insiste sobre o enfoque cristocéntri


co, quando afirma:

"Assim como a comunhSo crista entre os cristaos na térra mais nos


aproxima de Cristo, assim o consorcio com os Santos nos une tambám a
Cristo, do qual como de sua Fonte e Cabecá promana toda a grapa o a vida
do próprio Povo de Deus. Convém, portanto, sumamente que amemos esses
amigos e co-herdeiros de Jesús Cristo, alóm disso irmSos e eximios benfei-
tores nossos¡rendamos as devidas grapas a Deus por meio deles, os Invoque
mos com súplicas e recorramos as suas oracSes, á sua intercessSo e ao seu
auxilio para impetrarmos de Deus as grapas necessérias por meio de Seu
Fllho Jesús Cristo, único Redentor e Salvador nosso. Pois todo genuino
testemunho de amor manifestado por nos aos habitantes do cáu, por sua
própria natureza, tende para Cristo e termina em Cristo, que é a coma de

268
O CULTO DOS SANTOS 29

todos os Santos e, por Efe, em Deus, que é admirável nos seus Sanos e nefes
ó engrandecido" (n° 50).

Assim o Concilio do Vaticano II apresentou a veneracao aos Santos


como algo de lógicamente inserido no patrimonio da genuína fé e algo de
salutar, tendente a nos fazer mais e mais admirar a obra de salvacáo de Deus,
que toma novas e novas facetas em cada Santo. Estes nos levam a Deus; sao
totalmente relativos a Deus, como bem dizia S. Agostinho: "Deus é Deus
sem eles, mas eles que sao sem Deus? — Ipse enim sirte ¡Mis Deus est; illi sine
¡lio quid sunt?" (sermao 128, 3).

Procuremos agora aprofundar as razoes teológicas subjacentes ao cul


to dos Santos.

2. Razoes teológicas

Eis como teológicamente se fundamenta a intercessao dos Santos por


nos em atendimento as preces que Ihes dirigimos:

A salvacao crista é comunitaria, e nao individualista, como atesta a


Escritura do Novo Testamento, propondo a ¡magem do Corpode Cristo, no
qual cada membro tem urna funcáo e desempenha papel indispensável;
cf. 1Cor 12,12-17. É por isto também que os cristaos pedem a a)uda de seus
irmaos na térra; solicitam especialmente oragoes para que possam chegar ao
seu Objetivo Supremo, a exemplo do que os Apostólos faziam e mandavam
fazer (cf. Tg 5,16; 2Cor 1,3.7.9; Fl 1,9; Cl 4,3). Há, pois, comunhao e solí-
dariedade entre os cristaos, assim expressa pelo Apostólo: "Alegrai-vos com
os que se alegram; chora¡ com os que choram. Tende a mesma estima uns
pelos outros" (Rm 12,15s).

Ora Deus, que é o autor dessa comunhao solidaria, nao permite que
ela se extinga com a mor te; na verdade, a chamada "morte" nao é extinpao
da vida, mas transicao de urna modalidade de vida para outra. Ao contrario,
a morte liberta o cristáo dos entraves do pecado e da seducao das paixoes,
permitindo que o seu amor a Deus e aos irmaos se torne mais puro. Disto se
segué que a comunicacao de amor fraterno entre vivos e defuntos nao so-
mente seja possível, mas venha a ser mesmo urna conseqüéncia do aperfei-
coamento do amor dos que passaram para o além. O Senhor Deus se encar-
rega de os tornar cientes das necessidades dos seus irmaos na térra, já que
sem essa intervencao de Deus nao haveria intercambio entre cristaos pere
grinos e cristaos consumados. Por conseguinte, a oracao dos Santos pelos
viandantes deste mundo é o desdobramento do seu amor a Deus e ao próxi
mo, que caracterizou a sua vida na térra e agora é pleno ou livre de obstácu
los. Os justos falecidos querem ajudar-nos a atingir o termo de nossa voca-

269
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 348/1991

cío, que é "participar da sorte dos Santos na luz" (Cl 1,12). O amor e a
bondade dos Santos, isto é, aquilo que constituí a santidade, permanecem
para sempre.

Foi esta, argumentado que moveu os mestres da Tradicao crista a


professar a ¡ntercessao dos Santos pelos irmaos na térra. Eis aqui tres tes-
temunhos:

Orígenes de Alexandria (t .250), no seu Tratado sobre a O ragao, reco-


Ihe as passagens bíblicas que falam da intercessao dos Santos e dos profetas,
e propoe a seguinte reflexao: as virtudes cultivadas nesta vida sao definiti
vamente aperfeicoadas no além. Ora a mais valiosa de todas é a caridade;
esta portanto na outra vida é ainda mais ardente do que na vida presente.
Por conseguinte, os Santos falecidos exercem seu amor para com os irmaos
na térra mediante a intercessao dirigida a Deus em favor das necessidades
desses peregrinos. Ver "Sobre a Oracao" n° 11,2.

S. Tomás de Aquino (t1274) professa semelhante doutrina. Pergunta,


na Suma Teológica ll/ll 83, 11, se os Santos na patria rezam por nos. E res
ponde afirmativamente; sim, a oracao pelos outros decorre do amor ao pró
ximo. Ora, quanto mais perfeitos no amor forem os Santos na outra vida,
tanto mais nao de rezar pelos peregrinos na térra, a fim de os ajudar a chegar
ávida eterna.1

Até mesmo o pensador protestante Gottfried W. Leibniz (t 1716)


declara nao entender por que nao se deve recorrer aos Santos na orapáo.
Mais: chama a atencáo para a estrutura cristocéntrica e teocéntrica dos
nossos pedidos aos Santos, que, conforme Leibniz, obedecem ao seguinte
modelo:

"Considera, ó Deus, as tribuía(des que e/es (os Santos) suportaran} por


tua grapa em pro/ do teu nomo; ouve as suas orafdes, ás quais o teu Filho
unigénito conferíu forqa e valor".'

1 "Cum oratio pro alus facta ex caritate proveniat... quanto sancti qui sunt
ín patria sunt perfectiorís caritatis, tanto magis orant pro viatoribus, qui
orationibus adiuvari possunt".

1 Leibnizens System der Theologie. Nach dem Manuskripte von Hannover


ins Deutsche übersetzt von R. Rass und Dr. Wais. Mogúntia, 3?
1825, p. 158.

270
O CU LTO DOS SANTOS 31

O motivo pelo qual os bem-aventurados respondem ás nossas preces, é


o seu amor muito vivo:

"Os bem-aventurados olnam agora para as nossas vicissitudes muito


mais do que durante esta vida terrena e vBem tudo de mais porto. .. O seu
amor e a sua vontade de ajudar sao muito mais ardentes e as suas oracSes
muito mais ef¡cazas do que durante a vida terrena, é corto que Deus escuta
tambóm as oracóes dos vivos e que nos esperamos proficuamente que as
nossas oracoes se unam ás dos irmábs. NSo vejo, por isto, razio pela qual
devamos duvidar da idáia de invocar um bem-aventurado ou umanjo santo
e de implorara sua ¡ntarcessio o a sua ajuda" (obra citada, p. 190).

Merece especial atencao o fato de que a oracao aos Santos e a inter-


cessáb dos Santos nao derrogam á unicidade do Salvador e Mediador Jesús
Cristo. Ao contrario, esse intercambio entre vivos e morios decorre da obra
redentora de Cristo e dá gloria ao Salvador; é expressáo da excelencia dessa
salvacáb. Mais ainda: os Santos sao relativos a Jesús Cristo; tudo devem a
Este e em tudo encaminham os seus irmaos para Jesús, como notava o Con
cilio do Vaticano II citado á p. 268 deste fascículo.

Os Santos nao sao doadores nem fontes de grapas; sao apenas advoga-
dos, que ¡ntercedem por eficacia da mediacáo salvíf ica de Jesús Cristo.

3. Questoes complementares

1. Á luz destas verdades, compreende-se também a legitimidade do


culto das reliquias. Estas sao fragmentos dos ossos dos Santos ou objetos
que serviram ao seu uso. Ora todas as culturas praticaram o respeito e a ve
nerado (nao a adorapao) tanto dos despojos mortais como dos pertences
de seus heróis. Que se pode objetar a urna viúva que ten ha diante dos olhos
a fotografía do marido e conserve carinhosamente os objetos usados por ele?
Como seria violento e antinatural impedir a tal viúva a veneracao das reli
quias do marido, é também violento, para um cristáo, impedir-lhe que guar
de a estima aos sinais materiais que lembram os heróis da fé.

É certo outrossim que a profissao de que os homens ressuscitarao no


fim dos tempos, incutiu grande apreco aos despojos mortais dos Santos,
elevados & dignidade de templos do Espirito Santo durante a vida presente
{cf. 1 Cor 6,15-20). — Verdade é que Deus nao recolherá as cinzas esparsas
do cadáver para provocar a ressurreicao, mas a materia primeira (no sentido
aristotélico-tomista) unida a alma do individuo assumirá as feicoes do res
pectivo corpo, tornando-se a carne gloriosa correspondente a tal alma.

Os abusos registrados no decorrer da historia quanto ao culto dos

271
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 348/1991

Santos nao sfió razio suficiente para se condenar a devocao aos masmos e
as suas reliquias.

2. É claro, porém, que a veneracao dos Santos em suas diversas moda


lidades fica sendo algo de facultativo para cada fiel católico. Cornudo seria
muito astranho que um católico nao tivesse devocao alguma a Maria Santfs-
sima, a mais bendita de todas as mulheres (cf. Le 1,42) e a Mae da Vida, a
nova Eva; a devocao a Maria decorre da própria vocacao do crístao a ser "um
outro Jesús" (cf. Rm 8,29). Com efeito; quanto mais alguém é um outro Je
sús, tanto mais também é devoto filho de Maria, pois Jesús foi todo Filho
do Pai (como Deus) e todo filho de María (como homem). Assim a devocao
a Maria resulta lógicamente do Cristocentrismo da piedade crista.

3. Ainda urna observacao: há Santos tidos como protetores em espe


ciáis situacóes de necessidade: assim Santa Edviges seria a ¡ntercessora dos
endividados; Santa Rita de Cássia, a dos fiéis envolvidos em problemas inso-
lúveis; Santo Antonio de Pádua, o tutor dos namorados e noivos.. . Essa
relacao entre o Santo e determinada carencia dos irmaos peregrinos deve
ter fundamento na vida do respectivo Santo; é de crer que este tenha obtido
grandes grapas de Deus outrora em ocasioes semelhantes ás dos seus devo
tos. — Tal relaciona mentó é aceitável, mas nao deve degenerar emsupersticáo.

4. Verifica-se assim a legitimidade e até mesmo a conveniencia do cul


to dos Santos. Quem compreendeu bem o que é o Cristianismo, nao o pode
imaginar sem essa comunháo viva entre os membros do Corpo de Cristo,
quer estejam ainda peregrinando na térra, quer já se achem na gloria do céu.
Somente os abusos e as caricaturas puderam desfigurar essa tao bela reali-
dade, levando muitos cristaos a negá-la; negam-na simplesmente porque
estSo equivocados a respeito.

5. A imagem do Santo deve pairar nítidamente ante os olhos do cris


tao, pois o Santo é o reflexo mais límpido de Deus e é o ser humano realiza
do por excelencia. O bom médico, o bom músico, o bom cientista podem
ser homens maus, mas o Santo será sempre um homem bom (ou urna mulher
boa); será um homem tao perfeito quanto possível dentro das limitacoes
humanas. Há, pois, necessidade enorme de Santos em nosso mundo; sao o
tesouro e a riqueza da Igreja (a concretizacáo dos méritos de Cristo, fonte
de toda santidade) e o auténtico patrimonio da humanidade. Por isto o
mundo nao pode deixar de clamar: "Senhor, da-nos Santos!"

A propósito muito se recomenda o livro de Wolfgang Beinert, O Culto


aos Santos Hoje. Ed. Paulinas, Sao Paulo 1990.

Ver também Pfí 336/1990, pp. 220-236 (Cristianismo e paganismo).

272
O CULTO DOS SANTOS 33

APÉNDICE
UM TESTEMUNHO ELOQÜENTE

Para ¡lustrar as verdades da fé, sao muito significativos os exemplos


dos próprios Santos e justos que as viveram e viven» concretamente. - Daf a
conveniencia de se citar aqui o testemunho de fim de vida do Pe. Julio Fra
gata S.J., que fateceu em Portugal aos 27/12/1985.

Nascido em 1920, o Pe. Fragata SJ. foi professor universitario em


Braga e no Porto e Superior Provincial da Provincia Portuguesa da Compa-
nhia de Jesús. Era homem de grande erudicáo associada a modestia e discri-
cao. Revelou a riqueza de sua vida espiritual no fim da sua existencia terres
tre, como se poderá depreender dos trechos e noticias que se seguem:

1. Ás vésperas de ser operado de um cáncer no estómago, registrava


em seu "Diario Espiritual":

"Tenho sentido certa alegría em deixar este mundo como, quando e


onde o Senhor quiser, entregando-lhe totalmente todo o meu fim de carrei-
ra aqui. Mas noje, na Eucaristía, sentí que, assim como Jesús, deixando este
mundo, comecou a fazer aínda maior bem nele, também só desojo deixar
este mundo para que, do outro mundo, tenha ocas/So de fazer aínda maior
bem. Só 'passando a fazer bem' se dá real gloría a Deus; e creio.que o Se
nhor disporá que termine a minha vida neste mundo quando estiver em
circunstancias de fazer, do outro mundo, maior bem neste mundo. Quero
pedir a Nossa Senhora que me ampara nesta vida, para que nela seja de tal
modo purificado que. ao sair deste mundo, possa logo comecar a fazer
maior bem aqui. Sentí rápida, mas elevada considerafao neste pensamento"
(Braga, 30/05/85).

2. Freqüentemente sublinhava que o sofrimento era urna riqueza que


nao se podía desperdigar, que a sua partida para Deus ia ser benéfica, urna
grapa para ele e para os irmaos. Assim, afirmava no seu Depoimento, trans
bordante de esperanca e otimismo cristaos:

"Na expectativa de tudo o que me pode acontecer, desojo evitar es-


banjar aquilo que mais se esbanja neste mundo, que é o sofrimento. Porque
o sofrimento sem amor 6 um esbanjamento.

No Calvario, tres estao crucificados: o mau /ádralo, que nio aceita o


sofrimento, apesar de padecer; o bom ladrSo, que o aceita o por isso ouve
de Jesús as consoladoras pafavras: 'Hoje estarás contigo no Paraíso'. Mas há
também o sofrimento do Cristo, onde culmina o amor numa eficacia da Re-

273
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 348/1991

denoSb. fíadir-Te-ei demasiado, Senhor, sa o sofrimento que me espera for


mais que mera aceitacSo, tomando-se entrega voluntaría como a Tua, em
holocausto pela salvacSó do mundo?. .. Tu confiscas a minha fragilidade a
como preciso do Teu perdió;penetras também a minha ansia de ser contigo
'cordelro de Deus que tira o pecado do mundo'. Aceita, Pai, a minha entrega
a dá-me a forca do Teu Espirito para que habite em mim a fortaleza de
Cristo" (25/09/85).

3. Atesta o Pe. Manuel Morujao, Superior da Comunidade Jesuíta na


Faculdade de Filosofía de Braga, de que o Pe. Julio Fragata era membro:

"Das idóias que mais freqüentamente Ihe ouvi repetir nos seus últi
mos meses, ara o sublinhar insistente que a sua partida para e Casa do
Pai ia ser um bem para nos, que por nos iría interceder Junto de Deus, que
de lá nos podaría ser mais útil a fazar maior bem. Poucos meses antes da sua
partida, conversávamos á mesa sobre qual seria a nossa ocupacSo na éter-
nidade. De súbito nos interrompeu, com voz de quem conhece a verdade por
dentro: - No céu, ama-sel 0 descanso eterno é sumamente ativo em amor,
em Deus-Amor.

Demos' a palavra ao Pe. Fragata através desta página do seu 'Diario


Espiritual':

Tenho recebido tantas visitas, telefonemas, cartas, mostras de dedida-


cao a carinho por parte de médicos, pessoas que me tratam: . . que nao sei
oomo demonstrar o meu reconhecimento...

Bem sei que tudo é grapa Tua e que Tu és Aquele que compensa todo
o bem que se faz. Jutgo que me prometerte compensar todas as atencoes
para comigo nesta doenca, dum modo muito singularmente especial, como
se elas fossem dirigidas diretamente a Ti. Obrigado! Mas também sei que
assim como neste mundo toda a dedicacao deve ser reoonhecida por aquele
que a recebe, no outro mundo Tu ma darás possibilidadas misteriosas, mas
eficazes e reais, de poder mostrar este reconhecimento. Julgo que isto é urna
conseqüéncia necessária da nossa unidade em Ti, em comunhao de Santos.

Momentos depois ti ve a convicpao de qua o Senhor me atendía este


desojo e que faria com que, do Céu, fizesse muito bem em uniao com Cris
to. Também sentí que Ele estará comigo até a morte dando-me grande for
taleza.

Acredito, Senhor, ñas surpresas do Teu Amor, mesmo quando estas sao
dolorosas. Entrego-me i Tua vontade, que quero fazer minha' (05/10/1985).

274
O CULTO DOS SANTOS 35

O Pe. Fragata partiu para chegar mais atónos. Separou-se de nos para
se tomar mais próximo nosso. Perdeu a vida para a ganhar mais em pienitu-
de. . . Mais peno de Deus, mais peno de nos. Partiu com um propósito :fa-
zer maior bem. Quem está em Deus, nSo pode deixar de cumpriA"

(Passagens extraídas de COMMUNIO, edicao portuguesa, janeiro/fe-


vereiro 1986. pp. 87-89).

Eis um dos mais belos comentarios de quanto foi dito sobre a comu-
nháo e a ¡ntercessáo dos Santos. 0 Pe. Julio Fragata S.J. teve consciéncia
destas realidades transcendental e quis vivé-las plenamente; elas o ajudaram
a considerar a "morte" com um olhar diferente, profundamente cristao;ele
sabia que nao se tornaría estranho a seus irmaos peregrinos na térra, mas
exerceria viva solidariedade com eles!

* * *

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A necessidade de sabermos o que professamos e por que


o professamos, impoe-se cada vez mais. Eis por que a Escola
"MATER ECCLESIAE" oferece oito Cursos por Corresponden
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ral; 4) Historia da Igreja; 5) Liturgia; 6) Diálogo Ecuménico;
7) Sobre o Ocultismo; 8) Parábolas e Páginas Diffceis do Evan-
gelho.

As matrículas podem ser efetuadas em qualquer época


do ano. Ao término do Curso, a Escola, filiada á Arquidiocese
do Rio de Janeiro, oferece certificado de conclusaTo do cur
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Curso sem compromisso de pravas. Ulteriores informacoes sejam
solicitadas a:

CURSOS POR CORRESPONDENCIA

CAIXA POSTAL 1362

20001 RIO DE JANEIRO (RJ)

275
Caso singular e sensacional:

"Roger Conseguiu Curarse


da AIDS"
por Bob Owen

Etn tíntese: O Dr. Bob Owen relata o caso de um paciente de AIDS,


designado como Roger Cochran, que foi ter com o médico Dr. Bob Smith
após haver sido desengañado pela Medicina convencional. Bob Smith nunca
tratara de aidéticos, mas, como era antigo amigo e colega de Roger Cochran,
houve por bem tentar urna terapia nova, ¡á que a convencional em nada re
sultara. Tal vía consistiría na recusa de quaiquer medicamento e na aplicacao
da um Jejum terapéutico (abstinencia de quaiquer alimento a nao ser suco
de frutas a agua). Roger, nSo tendo mais espéranos de cura, aceitou ser
"cobaia" 'do Dr. Bob Smith. A principio sentiuse muito mal:parecía piorar,
muito fraco, magro a sujeito a dores. Todavía o Dr. Bob resolveu insistir,
apesar das suas próprias hesitacSes e dos rogos do paciente. Após trínta e
anco días de Jejum, Roger estava notavelmente meihor:dores menos fortes,
pressSo arterial normal, cor da pele mais sadia. .. O médico explicava tais
melhoras pala tese de que o organismo eliminava os tóxicos que o uso de
drogas, de medicamentos e as emoooes desregradas ou violentas haviam
produzido no paciente.

A persistencia no tratamento deu os resultados almelados: para ace


lerar o processo de recuperado, a enfermeira El/en, que se dedicava a Roger
com muito zato, suscitou um namoro a a perspectiva de casamento para
Rogar, que se julgava condenado é morte.

Urna vez livre da doenps, Roger associou-se ao Dr. Bob Smith na ins
talado de um Centro de Medicina Biológica, alheia a produtos farmacéuti
cos e é comercializado que estes provocam freqüentamente, com grande
detrimento para os'pacientas.

* * *

Foi dado a lume em portugués um livro singular, da autoría do mé


dico norte-americano Dr. Bob Owen, que conta como um colega seu,
chamado Roger Cochran, se livrou da AIOS, recuperando plenamente a

276
"ROGER CONSEGUIU CURARSE DA AIDS" 37

saúde.1 - O relato tem um qué de sensacional: narra um fato inédito em


tom revolucionario, nao poupando críticas á atual prática da Medicina.

Sem querer assumir posicao em questóes de terapia médica (o que nao


compete á nossa revista), julgamos oportuno divulgar o conteúdo de tal li-
vro, pois pode servir de reconforto a muitos e talvez abrir pistas para que ou-
tras pessoas resolvam serios problemas de saúde.

1. O Relato

1.1. Que é a AIDS?

Bob Smith e Roger Cochran foram colegas na Faculdade de Medicina


da Universidade da California. Serviram juntos ás forcas armadas norte-ame
ricanas no Vietna; os horrores daquela situacáo bélica levaram Roger ao uso
de drogas e á procura de outros paliativos. Retornando aos Estados Unidos,
os dois amigos se separaram até 1986, quando Roger Cochran apareceu no
consultorio de Bob Smith. Estava desfigurado pela magreza e o envelheci-
mento precoce. ..

Ao vé-lo, Smtth surpreendeu-se e, após urna conversa cheia de interro-


gacóes, foi informado de que Roger estava sofrendo de AIDS e procurava
seu colega (tido como profissional competente); fora desengañado por ou
tros médicos, que o julgavam incurável e próximo á morte.

De um lado, o desánimo acometía Roger e. de outro lado, a perplexi-


dade afetava Bob Smith. . . Este era um clínico ge ral, que nunca se def ron-
tara com um caso de AIDS, doenca esta que ele pouco conhecia. Roger, po-
rém, insistía em que o amigo e colega se ¡nteressasse, de algum modo, por
obter urna eventual regressáo do quadro.

Após a primeira entrevista assim mencionada, Bob pos-se a pensar e


resolveu atender ao paciente. Por conseguinte, recebeu-o em nova consulta,
na qual os dois colegas se puseram a refletir juntos. Verificaram que a AIDS
ataca pessoas de ambos os sexos, de diferentes idades. . . , traumatizadas
anteriormente ou no seu físico ou na sua sexualidade ou na sua emotivida-
de. . . A conversa se prolongou na residencia de Bob Smith, cuja filha Julie
levantou urna ¡nterrogacao: "Doutor Cochran, o senhor toma muitos remé-

1 Bob Owen, Roger conseguiu curarse da AIDS: sua I uta e sua vitória. 77a-
duzido do inglés por Beatriz Catanhede Orsini. - Ed. Paulinas, SSo Paulo
1990, 140 x 210 mm, 169pp.

277
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 348/1991

dios? Va¡ ver que fo¡ por ¡sso que o seu sistema imunológico parou de fun
cionar".

A hipótese de excesso de medicamentos, levantada inocentemente


pela menina, impressionou o Dr. Bob. Este entSó pos-se a indagar do pácten
te que fundamentos teria a questao da filha, e verificou que, de fato, Roger,
desde os seus tempos de mil ¡tanda no Vietna até aquele momento, recorrerá
tartamente a drogas ilegais e a drogas legáis (ou medicamentos); principal
mente depois que adoecera, o seu organismo vinha sendo bombardeado por
remedios para pneumonía, tumor no abdomen, pressao alta, etc. Além dis
to, certos tipos de comportamento (como a promiscuidade homossexual)
haviam maltratado o físico e o psíquico de Roger. Daf a conclusao solene
tirada pelo Dr. Bob após ouvir o relato do paciente:

"Escute ¡sso: a AIDS nSo é urna doenca epidemial. A AIDS é, isto


sim, urna epidemia de estilos de vida nocivos1. Em outras palavras: nio é a
AIDS que destral o sistema ¡munológico. É o sistema imunológico enfra-
queddo que se torna presa fácil de um conjunto de síntomas que chamamos
de AIDSl Roger, a AIDS nao faz com que o sistema imunológico pare de
funcionar. A AIDS é o resultado de um sistema imunológico que já nao
fundonaval..."

NSo precisamos ter modo de um virus que nSo podemos ver. Nunca.
Mas temos que tomar cuidado para nSo ultrapassar os limites do nosso or
ganismo maravilhoso..."

Roger disse: "Esta 6 urna boa definido, Bob. A AIDS 6 um exemplo


do que acontece quando abusamos do nosso corpo, passando dos limites —
ístoéAIDS\"(p.SS).

As mesmas idéias sao explicitadas mais adiante no livro, em um diálo


go entre o Dr. Bob e a enfermeira Ellen, que cuidava de Roger:

"'Acho que ele está esgotado, disse o Dr. Bob. E 6 bem ¡sso que á a
AIDS: esgotamento, exaustao.

— ExaustSo?, perguntou Ellen. NSo compreendo. A AIDS nSo 6 cau


sada por um virus?

— Ellen, existem muitas teorías sobre isso e essa ó urna délas. Pessoal-
mente. acho que a AIDS é o resultado de um estilo de vida chelo de exces-
sos, que destruí ou quase destról o sistema ¡munológico...

278
"ROGER CONSEGUIU CURAR-SE DA AIDS" 39

- Mas nao é o contrarío?, perguntou ela. Nao éa AIDSque destrói o


sistema imunológico?

- Acho que nao, embora seja essa a opiniao mais generalizada. Acho
que a AIDS nao ataca nem a pessoa nem o sistema imunológico. Acredito
que a AIDS se desenvolve em pessoas cujo modo de vida tenha sobrecarre-
gado ou destruido o sistema imunológico deles...

Ellen levantou a cabeca, devagar. 'Essa idéia é novidade para mim', dis-
se ela. 'Parece que tenno muito que aprender sobre a AIDS, doutor'.

Concordei. 'Todos nos temos aínda muito que aprender sobre a


AIDS'" (pp. 105s).

1.2. O trata mentó

Tendo explicado de tal maneira o surto da AIDS, o Dr. Bob pergunta-


va a si mesmo se o organismo debilitado de Roger teria recuperado. Como
procedería para reativar o sistema imunológico destruido pelas drogas? Ha-
veria mesmo alguma possibilidade de recuperacáo? — Se a houvesse, esta
deveria incluir a suspensao de toda e qualquer droga, a fim de permitir que
o organismo restaurasse seu próprio poder de recuperacao, caso ainda esti-
vesse cm tempo.

Conseqüentemente. o Dr. Bob pediu ao seu paciente que acreditasse


na tentativa de tratamento que Ihe seria aplicada á guisa de experiencia. Ten-
do obtido a aquiescencia do enfermo, o Dr. Bob mandou que se abstivesse
de toda e qualquer medicacáo. . . ; deixasse de lado também o café..., que
ele tomava muito prazerosamente e com grandes quantidades de acucar.
Roger mostrou-se, a principio, dócil as injuncóesdo clínico, que palmilhava
um terreno novo, desconhecido a ambos; Roger serviría de cobaia num es-
forco corajoso de salvar-se da AIDS, de cujas oonseqüéncias mortais a Medi
cina convencional nao o pudera ¡sentar.

Também a alimentacao de Roger foi quase toda suspensa: reduzir-se-ia


a suco de frutas e agua; o paciente ficaria doravante em estrito repouso e ex
posto ao sol regularmente.

Pouco depois de iniciado o tratamento, Roger sentiu violentamente as


conseqüéncias do mesmo. A falta de café causou-lhe pánico, mas finalmente
este cedeu á energía do Dr. Bob, que conseguiu impor sobriedade ao enfer
mo. Eis um espécimen das situacoes por que passava nao raro o médico no
exercfcio da sua ousada missao:

279
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 348/1991

"Disse Rogar: 'Aínda estou terrivelmente cansado. EnSo me estou sen-


tindo bem. Mas Isso nao é novidade...'

Responden o médico: 'Algum problema em especial?'

'Estou bastante enfoado. Vomite/ algumas vezes. Estou com dor de


cabera. E minhas costas estao me matando. Mas vou sobreviven ..'

'Claro que vai sobreviven Agora nao 6 a AIDS que está fazendo vocé
se sentir mal. É o seu corpo. O que está acontecendo, ó urna coisa de que vocé
nunca ouviu falar antes...'

'Vamos ver. Acho queja ouvi falarde tudo'.

'Vocé está atravessando urna crise curativa'.

Roger riu sem achar muita graca. 'E eu quepensei que estava doente.
Vocé diz que é urna crise curativa? E o que é urna crise curativa?'

'É seu corpo trabathando para vocé ficar bom. Seu organismo está
fazendo tudo o que pode para se livrar dos venenos que vocé vinha armaze-
nando há tanto tempo...'

Roger deu um sorríso torto. 'Isso parece estranho'. Encolheu os om-


bros. 'Mas... '

'Fora esses síntomas, como está se sentindo?'

Roger apontou para o quarto. 'Bob, isto aqui é étimo. Acho que eu
nao sabia como estava cansado. . . e quanto tinha que me esforear só para
cuidar de mím mesmo. E agora tudo isto, e aínda urna enfermeira em tempo
integral. O que mais eu poderla desojar?"

'Está gostando dos sucos de frutas?'

'Um pouco. Nao consigo tomar muito'.

'NSo beba maís do que tem vontade. O seu corpo está tentando ensi-
nara vocé... deixe\" (pp. 106s).

0 Dr. Bob fortalecia-se em seus propósitos contrarios á Medicina con


vencional lendo livros que o corroboravam em sua posicao: assim, por exem-
plo, a obra de Herbért M. Shelton: Fasting can save your Life (0 jejum pode
salvar a sua vida), que Ihe incutia o seguinte:

280
"ROGER CONSEGUIU.CURAR-SE DA AIDS"

"Nada que o homem conhece, se compara ao Jejum, como forma de


aumentar a eliminacao de impureas do sangue e dos tecidos. . . Á medida
que o jejum progride, as secncSes retidas ou, mais precisamente, os residuos
retidos sao eliminados do corpo e o sistema se purifica. As irritacdes se acal-
mam; o corpo descansa do ponto de vista vital, a pessoa se re faz" (p. 99).

Ou aínda:

"Há muítos e muitos anos, o homem busca um salvador. Guando nao


busca um salvador, busca urna cura... Em vez de comprar ou implorar urna
cura, o melhor seria parar de criar doenfas. A doenca é criacao do próprio
homem" (J. H. Tilden, Toxemia explained - A Toxemia explicada, citado
áp.78).

Outro paciente, chamado Larry, ao qual o Dr. Bob recomendara ou-


trossim o jejum, acabou morrendo. Isto abateu muitooclmico.quéconfessa:

"Para aumentar aínda mais o meu sentímento de fracasso, quando fui


ver Roger no inicio da noite, ele estava pior do que nunca. Mal se mexia,
quase nem percebeu a minha presenca. A pele estava fría e úmida, a respira
do rápida e superficial. A tosse funda e seca que ele tinha antes, estava mais
funda e mais congestionada" (p. 111).

Roger ia perdendo peso; ele, que normalmente deveria pesar 90 quilos,


só tinha 62. Sentía dores horrfveis: "Ah, Bob, gemeu ele. Isto está terrível.
Minha cabeca. Meu estómago. Minhas pernas. As costas. Tudo está doendo.
Ah, meu Deus, comodói!" (p. 118).

Bob era tentado a voltar atrás, ministrando ao paciente um analgésico


ou internando-o num hospital. Todavía raciocinava:

"Roger e a medicina ortodoxa haviam percorrido o caminho dos medi


camentos e nio tinha dado ceno. Nao tinha dado ceno porque as drogas e
os medicamentos eram exatamente a causa do problema. E, quanto mais me
dicamentos davam, mais o problema aumentava. Naquele exato momento,
percebi com clareza que os hospitais. . . a medicina ortodoxa... os medica
mentos. .. nSo eram a so/ucao para Roger.

NSo podiam devolver a vida e a saúde ao meu amigo.

Por quase urna semana Roger jé estava limpo de medicamentos de


qualquer tipo. Nio chegou porto nem de um comprimido de aspirina. NSo
tinha tomado nada a nao ser suco fresco de fruta e agua pura. Nada mais
havia entrado em seu corpo...

281
42 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 348/1991

Ele nSo tinha apresentado progresso aparento durante essa semana.


Mas nio tinha piorado.

Significava que, embora Roger nao mostrasse sinais evidentes de me-


Inora, o simples lato de nao ter piorado já era uma melhora1." (p. 118).

Um banho de agua quente serviu para aliviar uma das mais fortes cri-
ses de dor do paciente (p. 119).

1.3. As melhoras

Aos poucos, o enfermo passou a apresentar nítidos sinais de melhora:


a contagem de glóbulos brancos subiu, o número total de linfócitos aumen-
tou de forma significativa. O sistema imunológico de Roger já nao estava
¡nativo; comecara a funcionar de novo. A pele, que antes era flácida, come-
cava a ficar mais firme e adquiría um bronzeado saudável, devido aos banhos
de sol; o tono muscular também estava melhorando; as lesoes do sarcoma de
Kaposin iam diminuindode tamanho; a congestao no peito também se abran-
dava e raramente se ouvia Roger a tossir durante a noite; a pressao arterial,
após muitos anos de disturbios, voltava a ser normal.

No 359 dia de abstinencia a nao ser de suco de frutas e agua, excla-


mou Roger:

"Há anos nao me sinto assim tio bem. Estou dormindo melhor. Alias,
só preciso de urnas seis ou sete horas de sonó por noite. Acho que nunca
dormí antes tio pouco assim" (p. 135).

Pouco depois, o Dr. Bob resolveu tornar mais substanciosa a dieta do


enfermo, permitindo-lhe comer algo como frutas e hortalicas frescas; as do-
ses, módicas a principio, ser iam aumentadas aos poucos; embora Roger nao
sentisse apetite algum, estava muito fraco e com aparéncia esquelética. Já
haviam decorrido seis meses desde o primeiro contato do enfermo com o
Dr. Bob.

Este ¡a-se corroborando na concepcao de que sao os desregramentos


da conduta humana que provocam a debilitacao do organismo e, conseqüen-
temente, as molestias. E nao só os desvíos de conduta, mas também pensa
mientos e emocóes podem ter os mesmos efeitos; o que acontece na mente,
inevitavelmente se reflete na saúde ou na doenca do corpo. Quem se entrega
a raiva, rancor, decepcao, amargura, medo, vergonha e outras emocoes nega
tivas, "estimula a producáb de mensageiros químicos que chegam a todas as
partes do corpo, espalhando a má noticia" (p. 140). "Os pensamentos no
organismo se transformam em adrenalina, noradrenalina, cortisona, ACTH

282
"ROGER CONSEGUIU CURARSE DA AIDS" 43

e outras substancias químicas, que alteram o delicado equilibrio biológico


do corpo e enfraquecem o sistema ¡munológico. Quando isto acontece a
uma pessoa. ela se torna presa fácil de todo tipo de doencas que normalmen
te seriam repelidas" (p. 141).

Bob formula sua conclusao ainda mais ousadamente:

"A AIDS nao mata as pessoas. Venho dizendo isso há semanas.

la f¡cando cada vez mais claro para mim.

A AIDS é efeito e nao causa.

A A IOS reflete e mostra o sistema ¡munológico destruido, mas a AIDS


nao é causa do colapso do sistema ¡munológico.

Quando o sistema ¡munológico fíca inutilizado por substancias quími


cas traicoeiras, liberadas pela negatívidade descontrolada, o resultado é um
organismo sem defesas, incapaz de protegerá si próprio. Conclusao: o corpo
se toma vftima de todos os tipos de doengas 'oportunistas', como é o caso
do sarcoma de Kaposi, da pneumonía por Pneumocystis carinti e de certos
tipos de cáncer.

A morte, quando ocorre. é entao atribuida á AIDS, o que nao é justo.


A AIDS nió causa a morte. A AIDS nSo pode causar nada. A AIDSésim-
plesmente o estado em que o corpo se encontra quando ele destruiu seu pró
prio sistema imunológico\...

A AIDS, na mt'nha opiniao, nada mais é que o resultado do desrespeito


ás leis imutáveis de Deus. Assim como uma pessoa é 'punida' por violar im
prudentemente as leis da gravidade ou da eletricidade, também é punida por
violar as leis que regem os cuidados com o seu próprio corpo" (p. 141).

Ou ainda:

"Todas as doencas - quer seja gripe, asma, cáncer, artrite, osteoporo-


se, diabete ou AIDS — sao apenas rótulos artificiáis, que colocamos ao acaso
em diversos conjuntos de síntomas, dependendo da sua localízalo física. E
todas as doencas sao apenas uma toxemía progressiva (ou envenenamento)
induzida por drogas (medicamentos e substancias químicas), sejam endóge
nas (produzidas internamente), sejam exógenas (produzidas externamente).

283
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 348/1991

E, quando a toxemia nSo tratada piora muito, o sistema imunológico


comeca sua autodestruifSo. A AIDS é o resultado final do sistema imuno
lógico destruido.

E este ó o motivo pelo qual a AIDSsempre 6 fatal:o carpo esgotou


suas reservas. Nao consegue mais reconstruir ou recuperarse. Ele nao pode
fazermaisnada.

Só resta morrer.

Efíoger?

Por que seu sistema imunológico comecou a funcionar de novo? A


resposta parecía dará.

Atravós do jejum, o corpo de Roger pode eliminar as substindas tóxi


cas acumuladas. Ao fícar em um ambiente sem tensoes, cercado de atancSo e
can'nho, as drogas auto-induzidas, que seu medo e sua raiva produziam havia
anos, também foram eliminadas" (p. 143).

Para provocar o bom funcionamento psíquico de Roger, a sua enfer-


meira Edén se Ihe dedicava ¡nteiramente; donde resultou um namoro e a
perspectiva de casamento para o enfermo, que se julgava condenado á morte.

1.4.0 desfecho da historia

Roger Cochran foi-se recuperando sempre mais rápidamente a tal pon


to que o Dr. Bob Smith o deu por totalmente curado e o convidou a traba-
Ihar consigo na funda pao de um Centro que difundisse a terapia biológica ou
natural, sem ingerencia de medicamentos. "A única coisa que um medica
mento pode fazer, é aliviar o mal-estar. Temporariamente. Por pouco tempo.
Mas um medicamento nao pode curar. S6 o próprio corpo pode fazer ¡sso"
(pp. 164s).

O autor do livro, no final do seu relato, faz alusao a interesses mercan-


tis ligados á AIDS. Cita, por exemplo, o Dr. Stephen S. Caiazzo, presidente
de urna Comissao de Médicos de Nova lorque (Comminee of Concerned
Physiciant), que diz:

"A AIDS está-se tomando um negocio millonario, envolvendo bilhSes


de dólares em lucros potenciáis pan a industria biomédica...

Entretanto, por causa da competífSo acirrada dentro da industria, nao


é raro para nos que estamos envolvidos de perto com a AIDS, recebermos

284
"ROGER CONSEGUIU CURAR-SE DA AIDS" 45

ofertas de informacdes sigilosas e confidendais sobra acoes, ofertas de grati-


fícacoes e pagamentos por consultoria em troca do apoio a modalidades no
vas e lucrativas de tratamento e diagnóstico de urna determinada empresa.
Nanhum módico merecedor de seu diploma pode aceitar esse tipo de ofere-
cimento. Sería urna violacao de todos os principios da ética médica...

O problema contudo vai mais fundo aínda. Devido é forma limitada


e extremamente difícil pela qual a AIDS é transmitida, ela ó básicamente
urna doenca comportamental. Com medidas de saúde adequadasem todos
os nfveis, urna educacao sólida para todos os americanos e responsabilidade
por parte dos individuos, aAIDStem 100% de possibilidade de ser evitada...

A AIDS ó urna tragedia humana de proporcoes inacreditáveis. Mas ó


urna doenca com a qual podemos acabar no momento em que tivermos von-
tade e determinado suficientes. No entanto, tenno medo de que essa von-
tade e essa determinado nunca aparecam, com toda a industria que vemos
germinando em tomo da AIDS...

Estamos porto do día em que vamos precisar da AIDS e nao podare


mos mais vivar sem ela, porque ela será essencial aos lucros de ¡numeras em
presas".

Exclama Bob:

"'Meu DeusV, disse a mim mesmo, será possivel que tenhamos nos
prostituido a ponto do ¡menso sofrimento de nossos irmaos nao significar
nada para nos além de alguns dólares a mais?'" (p. 148).

Acrescenta o Dr. Bob:

"Era obvio para mim que a AIDS, ela própria, era muito mais do
que sonriente outra doenca ou outra epidemia. Era urna verdadeira instituí'-
cSo. Urna instituido muito bem planejada. E que, por tras do pánico da
AIDS, estava urna poderosa e imensa máquina financeira, dando as cartas
e controlando toda a industria farmacéutica e da saúde. Um artigo no jor
nal Los Angeles Herald Examiner (21 de marco de 1987) reforcou minhas
impressoes. Falando do medicamento Retrovir, feito pela Burroughs Well-
come Company, o fabricante estimava que 'o preco do tratamento anual
seria em torno de oito a dez mil dólares por paciente'...

Oito a dez mil dólares anuais por um paciente com A IDS\

Estes e outros dados levaram-me a acreditar que homens como eu e


como milhans de outros médicos bem-inten donados estávamos sendo ines-

285
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 348/1991

crapulosamente manipulados. E a maioria de nos havia acreditado na pro


paganda e entrado no ¡ogo deles.

Isso era realmente monstruoso" (pp. 150s).

Este final de livro é violento. Registramo-lo com objetividade, sabendo


que pode haver nisso um tanto de exagero e paixao.

O relato termina com uma palavra de Roger:

"Se o feitor acredita que precisa de um diagnóstico, uma opiniao, um


tratamento, conselhos terapéuticos, uma alteraoSo no seu modo de vida ou
qualquer outra ajuda referente á saúde, e gostaria de conhecer instituicdes
e/ou profissionais da saúde, que oferecem um tratamento alternativo, sugiro
que entre em contato com o Projeto CURE e a National Health Federation,
quepodem ajudá-lo..." (p. 166).

Enderecos:

Project CURE. 2020 K Street, NW.Suite 350


. Washington, D. C. 20069

National Health Federation, 212 W. Foothill Blvd.


Monrovia, California, 91016.

2. ReflexSo final

Como dito, nao é intencáo de PR tomar posicao diante do dilema


"Medicina Convencional ou Medicina dita 'Biológica'?". Interessava-nos
apenas registrar o caso de Roger Cochran, que fora desengañado pela Medi
cina "ortodoxa", mas conseguiu salvar sua vida seguindo um caminho novo,
inédito. Visto que muitos pacientes podem estar em situacao análoga á
de Roger Cochran quando foi procurar o Dr. Bob Smith, parece oportuno
saberem que a condenacao tal vez nao seja irrevogável; haverá possivelmente
para eles uma saída do problema desde que queiram submeter-se a uma tera
pia diferente, apontada por Bob Owen na obra que acabamos de analisar.

O relato deste autor também projeta luz sobre a Campanha contra a


AIDS que o Ministerio da Saúde vem desenvolvendo no Brasil. - A idéia é
válida, sem dúvida; mas a execuclo do projeto nao vai até as rafzes éticas
da molestia. Aponta, sim, como causas de AIDS: relacSes sexuais com pes-
soas contaminadas, agulhas e seringas contaminadas, transfusao ou contato
com sangue contaminado, contato entre m§e contaminada e filho durante a
gravidez ou no parto.

286
"ROGER CONSEGUIU CURAR-SE DA AIDS" 47

Ora, já antes do livro de Bob Owen, e mais aínda após a publicacao


do mesmo, sabia-se e sabe-se que a AIDS tem origem em comportamento
desregrado do ser humano, especialmente na prática da genitalidade. O jor
nal O GLOBO (28/12/90, p. 17} noticia:

"Pelos registros do Ministerio da Saúde, dos 13.817 casos diagnosti


cados entre 1980 até agosto de 1990, 36 por cento sao homossexuais,
24 por cento contrairam a doenca por transfusao de sangue, 17 por cento
sao bissexuais, 17 por cento sao usuarios de drogas, e 11 por cento hete-
rossexuais.

Nos últimos anos, o perfil da doenca está mudando, e os usuarios de


drogas representam o grupo que mais cresce entre os portadores de AIDS...

'Temos urna situacao critica, em que um terco da populado do país


é constituida de analfabetos. Oitenta por cento da populacao vive em áreas
urbanas sem infra-estrutura para receber esse contingente. A isso soma-se o
fato de a doenca ser transmitida sexualmente, o que torna muito mais
difícil mudar comportamentos', avalia Eduardo Cortes, Diretor da Divisad
Nacional de Doencas Sexualmente Transmissfveis/AIDS, do Ministerio da
Saúde".

Abuso da prática sexual e consumo de drogas sao rafees de AIDS. É


necessário denunciar isto a fim de que a populacao do Brasil procure na
renovacao ou reforma de seus costumes a solucao de Um problema que pre
servativos, camisinhas e outros meios artificiáis nao resolvem.... nao resol-
vem e ainda fornecem lucro vultoso a firmas comerciáis, que, conforme
Bob Owen, se beneficiam com os males do próximo!
Estévao Bettencourt O.SB.

* * *

Livro em Estante
A Cura pelas Maos ou a Prática da Polaridade, por Richard Gordon.
Traducao de María Dhyan Beatriz. - Ed. do Pensamento, SSo Paulo
160x210mm, 143 pp.

O autor é norte-americano, discípulo do fundador do Sistema da Pola


ridade, Dr. Randolph Stona,.austríaco, que acabou seus días na india.
Afirma que o corpo humano emite cargas elétricas (positivas e negativas).
Assim, por exemplo, ñas maos o polegar teria carga neutra, o indicador tena
carga negativa, o dedo medio teria carga positiva, o anular feria carga negati-

287
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 348/1991

va, o dedo mindinho tarta carga positiva (cf. p. 103). Maís:a parte alta do
corpo tena carga positiva, os pos tariam carga negativa, o lado dimito feria
carga positiva, o lado esquerdo tena carga negativa (p. 27).

Em conieqüéncia, o autor ensina múltiplas maneiras de aplicar as


maos sobre o corpo de um paciente, combinando, cargas positivas e cargas
negativas. Pelas mSos passaria a energía vital que se transmitiría ao corpo
do paciente.

O llvro se restringe ao campo da antropología e da psicología; nSo


entra em questóes religiosas. Duas vezas refere-se superficialmente á Biblia:
Cristo tara chamado luz a forca vital (cf. p. 20); a ImposicSo das mSos re
montaría pelo menos aos tempos bíblicos (cf. p. 135). Já que nSo mencio
na Deus, nao se pode dlzer que Richard Cordón soja pantaísta, como pare-
cem ser outros estudiosos dessa área.

Chama-nos a atencSo, porém, o fato de que o iivro 6 publicado pela


Editora do Pensamento, que 6 espirita, e recomenda urna serie de Hvrosde
índole espirita e panto fsta.

Em suma, a prática da imposicao das mábs, "cañáis de magnetismo"


(segundo R. Gordon), nio 6 incompatfvel com a doutrina católica, mas está
associada (remotamente, ao menos) a sistemas de pensamento nSo católi
cos em alguns casos notorios no Brasil. Ver PR 340/1990, pp. 415-421
("A Cura peta ImposicSo das Maos", de H. Back e P. Grísa).

SER JOVEM

"ES JOVEM, SE ÉS DISPONlVEL. SE SABES CONSTRUIR ILHAS


DE PAZ EM TI E EM TORNO DE TI. ÉS TÁO JOVEM QUANTO TUA
CONFIANQA. TÁO VELHO QUANTO TUA DESCONFIANZA. TÁO
JOVEM QUANTO TUA SEGURANCA. TÁO VELHO QUANTO TEU TE
MOR. TÁO JOVEM QUANTO TUA ESPERANCA, TÁO VELHO QUAN
TO TEU DESESPERO. ÉS TÁO JOVEM QUANTO TUA FÉ, TÁO VELHO
QUANTO TUA DÚVIDA.

MAS. QUANDO TODAS AS CORDAS DO TEU CORACÁO ESTI-


VEREM ESTRACALHADAS E SEU FUNDO FICAR RECOBERTO DAS
NEVES DO PESSIMISMO E DO GELO DO CINISMO, ENTÁO SERÁS
VELHO. E ENTÁO... PEDE A DEUS QUE TENHA PIEDADE DA TUA
ALMA". ■'

(ANÓNIMO)

288
A Regra de Sao Bento, 3?ed¡cao em latim/portugués, oom
anotacoes por D. Joao Evangelista Enout, OSB. 1990.21 Op. CrS 790,00
Estudos sobre a Regra de Sao Bento, sob a orientacao da
Ir. Aquinata Bockmann, OSB.:
- Fascículo I - Introducao ao Método. 29p. 1977 . . . Cr$ 395,00
- Fascículo II - Comentario dos Capítulos 66-67.50p. . Cr$ 695,00
- Fascículo III - Comentario dos Capítulos 27-28.72p. . Cr$ 695,00
- Fascículo IV - Comentario dos Capítulos 33-34.52p. . CrS 695,00
- Fascículo V — Comentario do Capítulo 35. 56p. . . . Cr$ 695,00
- Fascículo VI — Comentario do Capítulo 48. 58p. . . . CrS 695,00
- Fascículo Vil - Comentario do Capítulo 19. (A sair) .' Cr$
Perspectivas da Regra de Sao Bento, Ir. Aquinata
Bockmann, OSB., comentario sobre o prólogo e os
Capítulos 53, 58, 72, 73 da RB. 364p. 1990 CrS 2.250,00
Lectio Divina, ontem e hoje. (II). Cimbra 1990. 285p. . . . CrS 4.000,00
Jesús Cristo ideal do Monge, Dom Columba Marmion,
OSB. Ed. Ora & Labora CrS 4.000,00
Bento de Núrsia - Pai do Manaquismo Ocidental por
Walter Nigg. Editorial A.O. de Braga e Ed. Loyola.
Com ilustracóes. 120p CrS1.748,00
Sao Bento e a profissao de Monge, por D. Joao Evangelista
Enout, OSB. 190p. 1990 ' CrS 990,00
Conferencias de Joao Cassiano, 1?e 2?. 60p. 1984 CrS 520,00
Conferencias de Joao Cassiano. XXI e XXII. 79p. 1988 . . Cr$ 520,00
Conferencias de Joao Cassiano, XXIII e XXIV. 91 p. 1988. CrS 520,00
Vida de Santo Honorato (Sermao de Santo Hilario) e vida
dos Padres do Jura - Cimbra 1987. 125p CrS 600,00
Vida de Sao Pacómio — segundo a tradipáo copta. Td. por
Aida Batista do Val. Impresso Mosteiro da Sta. Cruz.
410p. 1989 CrS 1.590,00
Sao Bernardo e o Espirito Cisterciense - Dom Jean
Leclercq. 82p. 1989 CrS 700,00
Salterio meu minha alegría — (ilustrado em tradicao)
pelas Monjas bened¡tinas Abadía de Sta. María CrS 500,00
Salterio - Salmos &■ Cánticos. Td. pela CNBB e por
Dom Marcos Barbosa. 500p. 1989 Cr$ 1.300,00
Grego Bíblico - A chave para quem désejar ler o NT na
língua original, o Grego. 220p. Escrita manual, impressa
em off-set CrS 1.500,00
Primeiro ano de Canto Gregoriano e Semiologia
Gregoriana - Dom Eugéne Car diñe. Td. Me. Maria do
Redentor, CSA. 350p. 1989 CrS 4.000,00
A Palavra do Papa - Joao Paulo íleo espirito
beneditino. Carta Apostólica, Homilías e alocucoes.
111p. 1980 CrS 420.00
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sempre novo, para responder as interrogacSes, aos desafios, aos
fracassos e ás novas esperanzas do homem" (Do Prefacio de D.
Romer).

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