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P rojeto

PERGUNTE

E

RESPONDEREMOS

ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor com autorizagáo de

Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb

(in memoríam)

APRESENTAQÁO

DA EDipÁO ON-LINE

Diz Sao Pedro que devemos

estar preparados para dar a razáo da nossa esperanca a todo aquele que no-la

pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos

conta da nossa esperanca e da nossa fé

hoje é mais premente do que outrora,

visto que somos bombardeados por

numerosas

e

':"

correntes

filosóficas

religiosas contrarias á fé católica. Somos

assim incitados a procurar consolidar

nossa crenca católica mediante um

aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e

Responderemos propóe aos seus leitores:

atualidade

aborda

questóes

da

controvertidas, elucidando-as do ponto de

ÍL vista cristáo a fim de que as dúvidas se

A dissipem e a vivencia católica se fortaleca no Brasil e no mundo. Queira Deus

abencoar este trabalho assim como a

equipe de Veritatis Splendor que se

encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e

passamos a disponlbilizar nesta área, o excelente e sempre atual

conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.

A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga

depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e

zelo pastoral assim demonstrados.

SUMARIO

"Tarde eu Te amei !"

(O

UJ

■O

I-

Que hA depois da morte?

Divorsas Religioes e urna só Verdade ?

III

"Po- que crer? A Fé e a Revelacáo" (Luiz José de Mesquita)

a

Espórtulas "Coletivas" de S. Missa

Vi

SantaSé: Relapoes Diplomáticascom Israel?

s

III

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O

ce

Q.

ANO XXXII

Livro em Estante

OUTUBRO 1991

353

PERGUWTE E RESPONDEREMOS

Publicacáó mensaI

Diretor-Responsavel:

Estéváo Bettencourt OSB

Autor e Redator de toda a materia

publicada neste periódico

Uiretor-Administrador:

D. Hildebrando P. Martins OSB

Administracáo e distribuicáo:

Edicóes Lumen Christi Dom Gerardo,40-5- andar,s/501 Tel.: {021)291-7122 Caixa Postal 2666

20001 - Rio de Janeiro - RJ

Impressao e Encaúemacáo

'-MARQUES SAJLAA\A"'

GRÁFICOSe EDITORES SA-

Tels. (0111273-9498 - ¡ '3-9H7

OUTUBRO - 1991

N9 353

SUMARIO

"Tarde Eu Te Amei

!"

Tudo acaba? Eterno retorno? Que há depois da morte?

Relativismo Religioso?

Diversas Religioes e urna só Verdade

Denso e precioso:

"Por que crer? A Fé e a Revelapao"

?

(Luiz José de Mesquita)

Missas "Comunitarias":

Espórtulas "Coletivas" de S. Missa

Por que nao?

Santa Sé: Relacoes Diplomáticas

com Israel?

Livro em Estante

NO PRÓXIMO NÚMERO:

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473

480

Aínda a data (50?) do Evangelho de Marcos. - "O Martelo das Feiticei-

ras". - "Existe saída? Para urna Pastoral dos Divorciados" (B Háring) -

"NewAge": Que é?. - "Biblia:Perguntasque o Povo faz" (M.Strabeli).

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

ASSINATURA ANUAL (12 números): Cr$ 5.000,00 - Número avulso ou atrasado: Cr$ 500.00

-Pagamento (á escolha).

1. VALE POSTAL á agencia central dos Correios do Rio de Janeiro em nome de

Edicóes "Lumen Christi" Caixa Postal 2666 - 20001 - Rio de Janeiro - R J.

2. CHEQUE NOMINAL CRUZADO, a favor de Edicóes "Lumen Christi" (endereco

ácima).

3. ORDEM DE PAGAMENTO, no Banco do Brasil, conta n? 31.304-1 em nome do

Mosteiro de Sao Bento, pagável na agenda Praga Mauá/RJ n9 0435.9. (Nao en

viar através de DOC ou depósito instantáneo-A identificado é difícil).

ASS.

h¡Hl

"Tarde eu te Amei

!"

M

"Tarde eu te amei, ó Beleza tao antiga e tao nova, tarde eu Te amei.

Mas como? Tu estavas dentro de mim, e eu estava fora de mim mesmo

Tu

estavas comigo, e eu nao estava contigo. Retinham-me longe de Ti as criatu

ras, que nao existiriam se nao existissem em Ti

Tu me chamaste, e teu clamor venceu a minha surdez. Tu exalaste o

teu perfume, eu respirei, e eis que por Ti suspiro. Provei-Te, e tenho fome de

Ti. Tu me tocaste e eu ardo de amor por causa da paz que Tu me deste"

(Confissóes, I.X, c. 27).

Estas palavras do grande S. Agostinho recordam o acidentado itinera rio deste pensador, que durante decenios procurou urna resposta para seus anseios, batendo á porta de varias escolas filosóficas. Finalmente encontrou

a Boa-Nova de Cristo, na qual se aquietou. Em conseqüéncia, o mestre quis

exprimir a sede do Bem Infinito que o movia e que certamente move todo ser

humano. A experiencia dos povos do Leste Europeu submetidos ¿ escola do

ateísmo militante e, apesar de tudo, fiéis ao seu senso religioso confirma a

conviccao de que a pessoa humana nao foi feita para bem menor do que o

próprio Infinito.

Muitos, porém, como Agostinho, procuram o Infinito em bagatelas e

ídolos. Detxam-se prender em seu itinerario por pretensos valores, de tal tendo encetado a sua caminha-

modo que se assemelham ao viandante que,

da. é seduzido pelas flores e borboletas da

estrada, a ponto de esquecer a

meta á qual desejava chegar! Triste sorte! As criaturas podem ter seu valor,

sem dúvida, mas é valor relativo, que aceña á Fonte de todos os valores.

Santo Agostinho diz que procurava a Beleza Infinita fora de si, em

bolhas de sabio, e nao se dava conta de que o Autor da Beleza se encontra-

va em seu intimo. Sim, o mesmo doutor afirma que "Deus é mais elevado do

que os nossos mais elevados conceitos e mais íntimo a nos do que o que te mos de mais íntimo" (superior summo meo, interior intimo meo). Ele está

presente a toda criatura, nao como centelha divina (Deus nao se reparte),

mas como Aquele que criou e conserva as suas criaturas, impedindo que re- caiam no nada. A novo título. Ele está presente no cristao fiel, pois este co-

munga com a vida da SS. Trindade (cf. Gl 4,8). A Mística crista, consciente disto, desenvolveu a temática da habitacao de Deus ñas almas retas, de acor-

do, alias, com os dizeres do Apostólo (cf. ICor 6,19s). A expressao mais en-

. fática desta conviccao é a obra de Santa Teresa de Ávila intitulada "O

Castelo Interior" ou "As Sete Moradas", obra em que a autora descreve o

progresso na vida de oracao, que aos poucos vai descobrindo, por experien

cia íntima ou mística, a presenca de Deus (Beleza Infinita) na alma justa e

fiel.

Possa a ora«?ao de S. Agostinho servir de alentó e guia ao leitor con -

D

temporáneo!

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C.D.

"PERÍUNTE E RESPONDEREMOS"

ANO XXX!I - N? 353 - Outubro de 1991

Tudo acaba? Eterno retorno?

Que há Depois da Morte?

Em síntese: O crístio considera a morte como a passagem da vida tem

poral para a vida definitiva. Quem viveu em fidelidade a Deus neste mundo,

terá para sempre o consorcio com Deus ou a visao face-á-face da Beleza In finita, desde que esteja puro de qualquer resquicio de pecado. Tal pureza pode ser adquirida na existencia presente ou na postuma (purgatorio postu mo). Quem termina esta peregrinacao terrestre voluntariamente avesso a

Deus, terá para sempre a separacao de Deus assim preparada e semeada (in

ferno). A ressurreicao da carne se dará no fim dos tempos, quando Cristo vier julgar todos os homens. O juízo universal nao implicará ponderacao de méritos e deméritos (cada criatura já vai para Deus com a sua sentenca lavra- da pela própria criatura), mas significará a manifestacao dos méritos e demé

ritos de cada um á coletividade do género humano, pois os homens sSo inter-

dependentes entre si tanto para o bem como para o mal.

Após a morte de cada homem há também o que se chama "o ¡ufzo

particular", que também nao é o balanceamento de obras boas ou más, mas

manifestacio, ao próprio individuo, do verdadeiro valor da sua vida; Julga- mo-nos com dif¡cuidada na vida presente; por isto o Senhor Deus, logo após

a nossa morte, nos mostrará com lucidez qual o peso da nossa existencia na

térra.

Em suma, o que se dé após a morte é a colheita de urna semeadura,

que será farta na proporcao do que tivermos semeado. Há continuidade en

trea vida presente e a futura.

*

*

*

A questáo da sorte postuma é decisiva para os homens na térra; se na

da há após a vida presente, a existencia terrestre é a única chance de felicida- de (entendida geralmente no sentido material e carnal). Se, porém, há outra vida, a passagem pela térra adquire o caráter de preámbulo e preparacSo, que

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QUE HÁ DEPOIS DA MORTE?

leva a considerar os bens concretos como sombras e acenos de algo mais ple

no e cabal.

Todo ser humano que refuta um pouco, formula as perguntas: Donde

venho? Para onde vou? Ñas páginas subseqüentes examinaremos a que a ñevelacao crista nos ofe-

As respostas sao diversas, nem todas satisfatórias.

rece.

1. O problema

Geralmente, quando os homens pensam em sua morte, tendem a ima-

giná-la como algo de remoto, que nao deve perturbar o momento presente.

Isto é síntoma da repugnancia espontánea que a natureza humana experi

menta diante do fenómeno "morte". 0 próprio Sao Paulo, alias, dizia que desejava chegar ao encontró final com Cristo sem ter que morrer previamen

te (cf. 2Cor 5, 2-4); quería, sim, viver até a segunda vínda (parusia) de Cris

to, pois julgava que os justos da última geracao serlo dispensados de morrer

e terao seus corpos transfigurados por ocasiao da segunda vínda do Senhor

(cf. 1Cor15, 51; 1Ts4, 15-17).

A filosofía existencíalista moderna veio lembrar ao homem que a mor

te é urna realidade intrínseca do próprio homem, realidade que o acompa-

nha durante toda a sua existencia terrestre. Dizia, por exemplo. Martín Hei-

degger (t 1976): "A morte é um modo de ser que a existencia humana assu-

me, desde que ela tem ini'cío". Desde que comecamos a viver, a morte atua

em nos; o passar dos días e das horas implica um desgaste do corpo humano.

A morte, como inimigo interno, vai solapando os muros da nossa fortaleza, de modo a provocar a implosao; os achaques físicos que vamos sofrendo, sao urna vite-ría parcial da morte sobre o nosso corpo, vitória que anuncia ul teriores avancos até a vitória final. Na base destas ponderacóes, os existen-

cialistas definem o homem como um "ser-para-a-morte" nao s6 porque está

destinado a morrer, mas porque é constantemente afetado pela realidade in

trínseca da morte.

Mais: os existencialistas afirmam que a vida humana é limitada por

dois nada: o homem terá surgido do nada (nao por obra de um Deus Cria

dor) e se encaminha, passo a passo, inexoravelmente, para o nada. Alias,

este caminho para o nada, segundo os existencialistas, é comum a todos os

seres vivos, pois todos sofrem o mesmo desgaste até desaparecerem total

mente; mas o que dá urna nota trágica á existencia, é que esta é consciente

de estar-se precipitando num naufragio. Visto que o homem é consciente do

seu inevitável destino, brota dentro dele a angustia (Heidegger) ou a náusea (Sartre). Para que a vida seja mais suportável, o existencialismo ensina a acei-

tacáo da tragedia como maneira de chegar a urna "existencia auténtica".

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"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 353/1991

Refletindo sobre a posicao existencialista, o cristao vé no repudio da ¡déia de desaparecimento total (repudio que todo homem experimenta a seu modo) urna expressao do justo anseio de imortalidade que a criatura huma na traz dentro de si. Assim observa o Concilio do Vaticano 11:

"Diante da morte, o enigma da condicao humana atinge seu ponto

alto. O homem nao se aflige somente com a dor e a progressiva dissolucao

do corpo, mas também, e multo mais. com o temor da destruicao perpetua.

Mas é por unta inspirado acertada do seu coracio que afasta com horror e

repele a ruina total e a morte definitiva de sua pessoa. A sementé de eterni-

dade que leva dentro de si, irredutfvel á materia apenas, ¡nsurge-se contra a morte. Todas as conquistas da técnica, aínda que utilfssimas, nao conseguem

acalmar a angustia do homem. Pois a longevidade, que a biología Ihe obtém,

nao satisfaz ao desejo de viver sempre mais que existe inelutavelmente em

seu coracao" (Const. Gaudium et Spes n? 18).

Note-se que o texto ácima fala de "urna sementé de eternidade", alu-

dindo assim á alma ¡mortal que todo homem, por sua própria natureza. traz

em si.

Um homem destinado ao nada seria um absurdo, como reconhece Sar-

tre: "É absurdo que tenhamos nascido, é absurdo que morramos". Absurdo,

sim, porque contraditório: o homem repudiaría naturalmente a sua própria

natureza fadada á destruicao total.

O homem, porém, nao pode ser um absurdo. A hipótese do "homem absurdo" nao só fere o bom senso, mas torna ¡mpossível todo e qualquer ra ciocinio; com efeito, os arrazoados desse ser intrínsecamente absurdo se- riam, como se poderia supor, regidos pela lei do absurdo.

Ora Deus mesmo, através de sua santa Palavra, fortalece a intuicao de

que o nada nao pode ser o destino final do homem. 0 Senhor criou o ho mem para a vida e a bem-aventuranea ou para urna sorte que está além das

fronteras da miseria terrestre. Eis o que o Concilio afirma:

"Enquanto toda a imaginacao fracassa diante da morte, a Igreja, ins

truida pela Revelacao divina, afirma que o homem foicriadopor Deus para um fim feliz, além dos limites da miseria terrestre. Mais aínda: ensina a fé

cristi que a morte corporal, da qual o homem seria subtraído se nao tivesse pecado, será vencida um día, quando a salvacSo perdida pela culpa do ho

mem Ihe for restituida porseu onipotente e misericordioso Salvador. Pois

Deus chamou e chama o homem para que ele, com a sua natureza inteira, dé sua adesao a Deus na comunhao perpetua da incorruptfvel vida divina"

(Const. Gaudium et Spes n? 18).

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QUE HÁ OEPOIS DA MORTE?

A Profissao de Féou o Credo do Cristianismo termina precisamente

afirmando a vida eterna, ponto culminante da esperanca crista: "Creio na

vida eterna", diz o Símbolo Apostólico; "Esperamos a vida do mundo que

há de vir", professa o Símbolo Nicenc-constantinopolitano. Assim, ehquan-

to o existencialismo define o homem como um "ser-para-a-morte", o Cristia nismo o considera um "serpara-a-vida".

Pergunta-se agora: como o fiel católico entende a passagem para a vida eterna? Em que consiste essa vida? E quais os conceitos que a fé católica Ihe

associa?

2. A passagem para a vida definitiva

1. Costuma-se chamar "morte" a passagem para a vida eterna. Já aqui

há urna observagao a fazer:

A morte nao é morte propriamente, mas é o término final do nosso

nascimentó. Com efeito; pode-se dizer que todo homem nasce em duas eta

pas: a primeira tem lugar no seio materno, onde a criancinha é aconchegada, alimentada e protegida para que se possa desenvolver; após nove meses de gestacao, é dada á luz; diz-se que "nasceu". Na verdade, o que é dado á luz,

é um ser humano muito frágil, embrionario e inacabado. O bebé recém-nas-

cido chora por ter perdido seu ninho e aconchego; mas aos poucos vai-se

acostumando a respirar, alimentar-se e subsistir por conta própria. Dá-se en

tao a segunda fase da gestacao, aos cuidados do próprio individuo. Este pro

cura desenvolver suas potencialidades e crescer nao so no sentido físico, mas

também nos planos espiritual e moral; vai atingindo a sua estatura plena ou

a sua personalidade. Finalmente, quando Oeus o julga conveniente, chama-

o a Si. Ocorre entao a dita "morte", que, na verdade, nao é senao a consu-

macao de urna longa gestacao, ou é o momento terminal do nascer; se o indi

viduo se desenvolveu auténticamente, é dado á luz eterna. Somente entao se

tem a pessoa acabada ou plenamente desabrochada, á semelhanca do que se

dá com a larva da borboleta, que sai do casulo; depoe o involucro e aparece, ñas suas genuínas dimensSes.

É nesta perspectiva que o cristáo deve encarar a sua partida deste

mundo; é entrada na vida consumada e nao destruicao ou aniquilamento.

2. E que ocorre propriamente quando alguém morre?

Respondamos por partes:

a) O homem é um composto de corpo (material) e alma (espiritual).

A Filosofía aristotélico-tomista o explica mediante a teoría do hilemorfis-

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"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 353/1991

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mo: a alma faz as vezes de forma (principio vital) que anima ou vivifica a materia; corpo e alma sao substancias distintas urna da outra, mas feitas para se completar; é no corpo e pelo corpo que a alma espiritual se vai

aperfeicoando na vida presente.

A S. Escritura fundamenta estas afirmacSes em diversos textos:

Em Mt 10, 28, Jesús diz que os homens podem matar o corpo, mas

nao podem matar a alma;

Em Fl 1, 23 Sao Paulo, no texto original grego, afirma "ter o desejo

de desmontar a tenda para partir e estar com Cristo";

Em 2Pd 1, 14, volta a mesma imagem: " enquanto estou nesta ten-

da, sabendo que em breve he¡ de me despojar déla". Tal fórmula combina duas metáforas: a da tenda e a da veste (despojar-se nao se refere a urna ten-

da, mas a urna veste); as duas imagens exprimem a persuasao de que existe

um núcleo de personalidade chamado "alma", o qual continua a viver mes-

mo após o desmonte da tenda ou o despojamento da veste.

Em 2Cor 5, 1-4 retorna a combinacao das imagens "tenda" e "veste":

"Sabemos que, se a tenda da nossa morada terrestre for destruida, tere-

mos no céu um edificio, obra de Deus, morada eterna, nao feita por maos

humanas" (v.1). Sao Paulo se refere á morte como sendo "a destruicao da

tenda da nossa morada terrestre"; esta será substituida pelo corpo futuro,

"obra de Deus". O Apostólo, porém, desejaria nao ter que mor re r ou nao ter

que experimentar a destruicao do corpo terrestre; isto será possfvel, diz Pau

lo, se o Apostólo estiver vivo (= vestido do seu corpo terrestre) quando Cris

to voltar em sua gloria: "gememos pelo desejo ardente de revestir por cima

da nossa morada terrestre a nossa habitacao celeste — o que será possfvel, se

tormos encontrados vestidos, e nao ñus" (v. 2s). Como se vé, Sao Paulo pas-

sa da metáfora da tenda para a da veste, e o faz repetidamente no v. 4: "Nos,

que estamos nesta tenda, gememos acabrunhados, porque nao queremos ser

despojados da nossa veste, mas revestir a outra por cima desta, a fim de que

o que é mortal seja absorvido pela vida".

Em 1T» 4, 16 o Apostólo afirma que, por ocasiao da segunda vinda de

Cristo, os mortos ressuscitarao — o que quer dizer que, antes da parusia, os

faiecidos subsistem na condicao de alma espiritual separada do corpo, embo- ra já gozem da sua sorte definitiva (visao de Deus face-á-face ou alheamento

definitivo de Deus).

A distincáo entre corpo e alma nada tem de dualismo ou nao implica

que a materia (corpo) seja essenciaimente má e o espirito (alma) seja essen-

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QUE HÁ DEPOIS DA MORTE?

cialmente bom.1 O platonismo e o neoplatonismo professavam taldualismo

(que está subjacente á doutrina da reencarnarlo); o aristotelismo, porém, e

o tomismo professam nao o dualismo, mas a dualidade, ou seja, a distincao real de corpo e alma feitos nao para se repelir, mas para se complementar mutuamente (como homem e mulher nao constituem um dualismo ou um

antagonismo de esséncias, mas, sim, urna dualidade ou dois seres distintos

feitos para se complementar um ao outro).

b) Vé-se, pois, que a morte é a separacao de corpo e alma, pelo fato de

que o corpo está desgastado e, por conseguinte, incapacitado de ser sede da

vida humana. O cadáver se deteriora ou dissolve-se em seus elementos com ), na (¡mortal por sua própria natureza) vai colher o que semeou na vida pre

ponentes (calcio, ferro, hidrogénio, oxigénio

ao passo que a alma huma

sente ou vai ter a sorte que preparou para si mesmá no decorrer desta vida.

Essa sorte, como dito, pode ser dupla: a plena realizacao ou a total

frustracáo. Examinemos cada modalidade de per si.

3. A plena realizacao: o céu

Quem procura ñas Escrituras a descríelo da bem-aventuranca celeste,

verifica que ela é algo tido como inefável, pois ultrapassa o alcance de qual-

quer discurso. É Sao Paulo quem diz:

"O que os olhos nao viram, os ouvidos nao ouviram, e o coracao do

homem jamáispercebeu, eíso que Deus preparou para aqueles que o amam"

(1Cor2.9).

1 Para evitar equívocos, lembramos que espirito é um ser incorpóreo, dota

do de inteligencia e vontade. Existem tres modalidades de espirito:

nao criado: Deus

para viversem corpo: anjo

Espirito

criado

para se aperfeicoar no corpo: alma humana

Donde se vé que o conceito de espirito é mais ampio que o de alma

humana. A alma humana é espirito criado por Deus para desenvolver suas

potencialidades no corpo, perfazendo com o corpo um só todo ou um úni

co principio de acSo.

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"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 353/1991

E por que é inefável a bem-aventuranca celeste?

- Porque consiste em ver Deus face-á-face (cf. 1Cor 13, ¡2; Uo 3,2)

— o que preenche toda capacidade de conhecimento e amor da criatura.

Deus é o Sumo Bem; por isto estar com Deus é fruir do Sumo Bem na inti- midade que Ele proporciona á sua criatura. Diz Jesús em Sao Mateus que o

servidor fiel ouvirá o convite: "Entra no gozo do teu Senhor" (Mt 25, 21).

Na impossibilidade de descrever o que seja tal gozo, os escritores sagra dos usam fórmulas muito simples: "Estar com Cristo" (Fl 1, 23), o que faz

eco á promessa de Jesús proferida ao bom ladrao: "Hoje estarás comigo no

paraíso" (Le 23, 43). Ou aínda: viver neste corpo é "estar longe do Senhor"

(2Cor 5, 6), ao passo que morrer é "estar longe deste corpo e presente ao Senhor" (2Cor 5, 8). Quem caminha no corpo. caminha na fé, ao passo que

quem deixa o corpo entra na vísao (2Cor 5, 7).

A visao da Face da Beleza Infinita encherá de felicidade o justo no

além, sem todavía Ihe causar tedio ou fastio; Deus so nao é novo para si. A criatura é incapaz de esgotar a riqueza da Perfeícao Divina; daí dizer S.

Agostinho: "Insatiabiliter satiaberis veritate. - Serás insaciavelmente saciado

com a verdade".

Em Deus os bem-aventurados véem o plano de Deus, a sabedoria do

seu designio salvi'fico e tudo o que Ihes concerne. O grau de amor com que

cada um tiver morrido, dará a medida da familiaridade com Deus (que é amor) e, conseqüentemente, o acume necessário para ver a Deus face-á-face;

cada qual contemplará a Beleza Infinita na proporgáo do seu amor a Deus e

ás criaturas.

Outra metáfora ocorrente no Novo Testamento para designar a vida

futura é a do banquete; cf. Mt 8, 11; 22, 2-14; 26, 29; Le 13, 24; 14. 15;

Ap 3, 20; 19, 9. Tal imagem já era usual no judaismo, que representava a era

messiánica sob a forma de um festim. Jesús a retoma, sugerindo assim: 1) a intimidade dos bem-aventurados com Deus, pois convidar alguém para a sua

própria mesa significa estima e, nao raro, intimidade; 2) a comunhao dos jus

tos entre si, visto que todo banquete supoe pluralidade de convivas.

4. A frustracao definitiva

"Deus quer que todos os homens se saivem e cheguem ao conhecimen to da verdade" (1Tm 2, 4). Todavía o homem pode, por abuso de sua líber-

dade, frustrar esse designio de Deus. O Criador respeita a livre opelo da cría- tura e nao a forpa a voltar-se para Ele. A recusa dita a Deus comeca na vida

440

QUE HÁ DEPOIS DA MORTE?

presente e se prolonga ao além, caso a criatura morra consciente e volunta riamente avessa ao Senhor. Nao será necessário que Este profira urna senten-

ca condenatoria, pois a própria criatura terá feito a escolha de sua sorte defi )

nitiva, aderindo a um ídolo (dinheiro, prazer, gloria

em oposicao a Deus,

Único Bem verdadeiro. O estado decorrente desse Nao voluntario dito a

Oeus é chamado inferno.1 É algo de extremamente penoso, pois implica o

contrario da bem-aventuranca (ou do encontró com o Bem Absoluto), para

a qual todo homem foi feito e para a qual conserva um tropismo congénito

e indelével apesar de ter optado voluntariamente contra esse Bem Absoluto.2

A fundamentacao bíblica do inferno é clara:

prevé a divisao dos homens em fiéis e infiéis e

Em Mt 25, 31-46 Jesús

a diversa sorte de uns e outros. O mesmo ocorre em Mt 13, 41s. 49s; 22, 13;

25, 26.30. Sao Paulo adverte que os impíos nao herdaráo o Reino de Deus;

cf. GI5, 21; 1Cor 6, 9s; Ef 5,5.

Últimamente temse perguntado se nao se pode admitir que a conde-

nacao definitiva seja mera hipótese, de tal modo que nao haverá reprobos,

mas todos os homens se salvarao. — O Concilio do Vaticano II abordou esta

questao e, depois de um estudo detido, a respectiva Comissao Teológica es- clareceu que, segundo o Evangelho, haverá de fato reprobos; skn, Jesús em

1 Inferno é adjetivo derivado do vocábulo latino infra; quer dizer "(lugar)

inferior". Segundo a concepcao dos antigos, debaixo da térra fínfraj havia

um compartimento reservado aos impíos. Esta "topografía do além" já per- deu sua voga, embora permanece atual o conceito de estado postumo no

qual a aversSo a Deus é tremendo tormento.

2 A respeitocabeurnaexplicacaoantropológica:

Distinguem-se

- a natureza humana, oser "vívente racional",com suaspotencialida

des e aspiracoes congénitas para o Bem, coisa que o homem nao faz, mas re

cebe de Deus para desenvolvé-la e levá-la a termo;

- a vontade, que pertence á natureza, mas é livre e, por conseguinte,

pode desenvolver as potencialidades da natureza em sentido oposto ao que

Ihe é ¡nato (para (dolos e para o mal, e nao para Deus e os verdadeiros bens).

Se a vontade do homem orienta a vida do individuo na direcao do

Bem verdadeiro, para o qual ele foi feito, tem-se o céu. Se a orienta no sen

tido antitético, tem-se o inferno. Este é um Nao voluntario dito a Deus, ao

qual a natureza humana incoercivelmente aspira.

Vé-se assim que o inferno ó um estado (nao lugar) paradoxal, o que

nao pode deíxar de ser tremendamente doloroso.

441

"PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 353/1991

10

Mt 25,46 diz que "os impíos ¡rio para o tormento eterno", estando o verbo

no futuro e nao no condicional. Eis o que se 16 ñas atas do Concilio:

"Ao abordar o §49 da Constitulcao Lumen Gentium, um dos padres conciliares pediu que se díssesse explícitamente que há de fato reprobos, de

modo queacondenaciónaopatecasermerahipótese.

Resposta da ComissSo Teológica Radatora: 'A proposta nao se enqua-

dra bem no contacto do § 49. De resto, o '§ 48 cita palavras do Senhorno

Evangelho que falam dos reprobos em forma de futuro"'/Acta Synodalia Sa- crosanctiConciliiOecumenici Vaticani//, vol. III, Pars VIII, p. 144s).

O Evangelho fala de "fogo" do inferno; cf. Mt 13, 41s. 49s; 25,41

É claro que nao se trate de fogo igual ao que se conhece na térra, nem é algo

de meramente metafórico (dor íntima), mas se trata de urna pena que os teó

logos explican) diversamente: a sentenca mais provável afirma que esse fogo

significa a réplica das criaturasmateriais que todo pecado neste mundo mal trata e violenta (quem peca, peca sempre com o corpo e a materia). Nao há

como descer a ulteriores pormenores. Sentido semelhante tém as expressoes "trevas exteriores, choro e ranger de dentes" (Mt 22,13; 25,30).

Por conseguinte, ninguém deve imaginar o inferno como um caldeirao

de enxofre fumegante, no qual os demonios com tridentes espetam e ator-

mentam os reprobos. O Concilio de Trento (1545-1563) pediu sobriedade

aos mestres e pregadores que dissertem sobre o inferno; este é, antes do mais, a voluntaria perda do Bem Infinito (e insubstituível), Bem para o qual

a criatura humana foi feita.

fim, pois após a vida presente nao é possível

O estado infernal nao tem

a criatura mudar de opcao; a via do peregrino termina nesta térra; cada qual

elabora sua personalidade, com suas incllnacóes, tío somonte neste mundo.

Do seu lado, Deus nao forca a criatura a dizer-Lhe Sim, violentando a liber-

dade'da mesma.

Tal estado de coisas ó perfeitamente compatfvel com o amor de Deus.

Sim; é precisamente porque Deus ama - e ama irreversivelmente - que o

reprobo no além pode verificar com toda a clareza que Deus é o Sumo Bem,

ao qual ele disse um Nao voluntario a definitivo. Se Deus subtraísse seu

amor ao reprobo e o "esquecesse", este nao sentirla dilaceracSb intima, mas

estaría voltado únicamente para os seu» Ídolos voluntariamente escolhidos.

O amor de Deus 6 Sim, sim urna vez por todas; ora isto vem a ser extrema

mente consolador para o homom peregrino na térra, mas 6 extremamente doloroso gara,quem Ihe disse um Nao definitivo (esta recusa nao é acompa-

nhada por Deus, que continua a amar). NSo se brinca com o amor de Deus.

442

11_

QUE HÁ'DEPOIS DA MORTE?

O cristao tem consciéncia disto, mas guarda plena conf¡anca, porque quem

sinceramente procura a Deusapesardassuasfálhas,jamáisseráfrustrado.

5. A purif ¡cacao postuma

Todo homem 6 chamado a ver Deus face-á-face, como dito. Mas nao pode subsistir diante de Deus nenhum resquicio de pecado ou ¡mperfeicao. Ora o ser humano é geralmente portador de urna desordem interior que ele

deveria extirpar, mas que, nao radicalmente extirpada, o leva a recair sempre

ñas mesmas faltas.

Com outras palavras: o pecado supSe sempre desordem interior (im pulsos e cobicas desregradas) e alimenta essa desordem. O cristao, ao confes- sar-se, recebe o perdao de suas culpas; mas, infelizmente, a contricao que ele

concebe, encontra resistencia no seu íntimo, de tal modo que a desordem,

raiz do pecado, nao é extirpada. O programa da vida crista 6 lutar contra

essa desordem e erradica-la, a fim de que o coráceo seja purificado e possa

ver Deus face-á-face. Caso isto nao aconteca na vida presente, o cristao terá que se libertar dos resquicios do pecado no além, ou seja, num estado que se

chama "purgatorio", poís ninguém pode ver Deus face-á-face se traz alguma

sombra de pecado. Isto é lógico.

5.1. Fundamentos bíblicos

Os fundamentos bíblicos da doutrina do purgatorio se encontram em

2Mc 12, 39-45 e 1Cor 3,10-15.

1} Em 2Mc 12, 39-45 narra-se que alguns soldados judeus foram

encontrados mortos num campo de batalha, tendo debaixo de suas vestes

objetos consagrados a ídolos (coisas proibidas pela Lei de Moisés). Entáo

Judas Macabeu mandou fazer urna coleta para que fosse oferecido em Jeru-

salém um sacrificio pelos pecados de tais irmaos. O autor sagrado,' sob o ca-

risma da ¡nspiracao bíblica, louva o procedimento de Judas: "Se ele nao es-

perasse que os mortos que haviám sucumbido iriam ressuscitar, seria supér- fluo e tolo rezar pelos mortos. Mas, se considerava que urna belíssima re

compensa está reservada para os que adormeceram piedosamente, entao era

santo e piedoso o seu modo de pensar. Eis por que ele mandou oferecer esse

sacrificio expiatorio pelos que haviam morrido, a fim de que fossem absol-

vidos do seu pecado" (12, 44s).

Em poucas palavras: o texto supSe pessoas que morrem piedosamente,

mas trazando alguma incoeréncia (que nao foi apostasia). Tocava-lhes, sim,

a recompensa definitiva; mas somente após a expiacao postuma exigida pela

imperfeipao de sua fidelidade a Deus.

443

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 353/1991

12

2) Em ICor 3,10-15, Sao Paulo fala de homens que construiram sobre

o fundamento que éJesús Cristo, utilizando, uns, material precioso, resisten

te ao fogo (ouro, prata, pedras preciosas) e, outros, material precario e com-

bustível (madeira, feno, palha).Todos sao fiéisa Cristo, mas algunscom fer

vor e zelo, e outros com tibieza e lentidáo. O dia do juízo (apresentado sob

a metáfora do fogo) provará a solidez da obra construida sobre o mesmo fundamento Cristo. Se tal obra resistir por constar de materia nobre e in-

combustível, o seu autor "receberá urna recompensa". Mas, se nao resistir por constar de material combustível (madeira, feno, palha), o operario "so- frerá detrimento", isto é, urna pena; nao será urna condenacao, pois o texto diz explícitamente que o trabalhador "se salvará, mas como que através do fogo"; o que quer dizer: salvar-se-á como aqueles que se salvam através das

chamas, ao verem-se repentinamente surpreendidos por um incendio, do

qual se livram nao sem angustia.

Frisemos bem que o fogo, neste texto, tem sentido meramente meta

fórico, pois o juízo de Deus na Biblia costuma ser mencionado através dessa imagem; cf. SI 78, 5; 88, 47; 96, 3. O purgatorio nao consta de fogo; é sim- plesmente o estado postumo no qual a alma do cristao vé, com toda a clare

za, a hediondez da sua vida tibia na térra, e repudia toda incoeréncia do seu amor a Deus, vencendo a resistencia das paixoes que neste mundo se opuse- ram á purif¡cacao desse amor. - A alma sofre por ter sido negligente e, em conseqüéncia, ter postergado o seu encontró face-á-face com Deus.

6. A ressurreicao da carne

6.1. Como a entender? Cuando?

Visto que o homem é um composto de corpo e alma, é compreensível

que, após a dissolucáo operada pela morte, ele seja reconstituido em sua ¡n- tegridade. A recomposipáo (ressurreicao da carne) dar-se-á no fim dos tem-

pos, quando Cristo voltar em sua parusia ou plena manifestado para consu

mar a historia. É o que ensina o Apostólo em 1Cor 15, 22s:

"Assim como todos morrem em Adió, todos receberao a vida em Cris to. Cada um, porém, na sua ordem: como primicias. Cristo; depois, aqueles que pertencem a Cristo, por ocasiao da sua vt'nda fparusiaV".

O mesmo se lé em 1Ts 4,16s:

"Quando o Senhor, ao sinal dado, á voz do arcanjo e ao som da trom- beta divina, descer do céu, entao os morios em Cristo ressuscitarSó primeiro;

em segundo fugar, nos, os vivos

para o encontró com o Senhor".

u,

seremos arrebatados com eles ñas nuvens

444

13

QUE HÁ DEPOIS DA MORTE?

Em 2Cor 5,1-4 o Apostólo professa a mesma concepplo.

Conseqüentemente dir-se-á que, após a morte do coniposto humano, a

alma, sendo espiritual e ¡mortal, sobrevive por si ou independentemente do

corpo; usufrui entao da sua sorte definitiva até a consumagao dos tempos; a

ausencia do corpo nao a impede de ter consciéncia lúcida. Quando Cristo re

tornar em sua parusia, a alma humana receberá esse seu complemento natu ral, que é o corpo (sem, porém, exercer as funcoes da vida vegetativa e da sensitiva; cf. Mt 22, 30: "Na ressurreicao nem eles se casam nem elas se dao em casamento, mas sao todos como os anjos no céu").

6.2. Duas objecoes

1. A crenca na ressurreicao dos corpos está ligada ao otimismo que o

cristao professa em relapáo á materia. Esta é criatura de Deus; o corpo é par

te integrante do ser humano; por isto há de ser associado á sorte definitiva

da alma.1

Tal doutrina encontrou, e até hoje encontra, contestacao por parte de

nao cristaos. — Assim, por exemplo, já Sao Paulo em Atenas, ao falar de res

surreicao a filósofos e outros cidadaos, foi escarnecido nestes termos:

"Ao ouvirem falar da ressurreicao dos monos, alguns comecaram a

zombar, enquanto outros diziam: 'A respeito disto, vamos ouvir-te outra

vez'"(At 17.32}.

Algo de semelhante aconteceu a Paulo quando anunciou a ressurreicao

ao Procurador romano Festo, que exclamou:

"Estás louco, Paulo. Teu enorme saber te levou é loucura" (At 26,24).

Tertuliano, escritor cristao dos séculos ll/lll (f 220), recordava-se dos

tempos anteriores á sua conversao nestes termos:

"Também nos riamos dessas coisas em outros tempos" fApologeticum

18, 4).

Orígenes (f 250) narra como o misterio da ressurreicao parecia ridícu

lo aos pagaos por nao o entenderem (Contra Celsum I 7).

1 A tese da reencarnado opoe-se frontalmente á da ressurreicao, pois supoe

que a materia se/a má; nela o individuo expía faltas de existencias pregressas;

reencarnase em castigo de seus pecados. A verdadeira feficidade consistiría

em livrar-se da materia ou desencarnar-se definitivamente.

445

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 353/1991

14

S. Agostinho (t 430), repetindo alias o que já Tertuliano observara,

escreve:

"Em nenhum outro ponto contradizem tanto á fé crista quanto no to cante á ressurrei'eio da carne" fEnarratio 2 In Psalmum 88, S).

2. A principal razao pela qual os amigos contrariavam á idéia de

ressurreigao, era o conceito platónico de corpo, tido como cárcere ou sepul cro. Em tal contexto a volta ao corpo seria castigo e nao premio; o ideal

ficava sendo a total emancipacao em relacao á materia. O Cristianismo se opós frontalmente ao dualismo platónico, como se depreende de urna obra do sáculo II atribuida a Sao Justino mártir (+165):

"Acaso é o homem outra coisa que nao um vívente racional composto

de corpo e alma? Ou será que a alma já por si é o homem? — De modo ne

nhum, ela 6 a alma do homem. Acaso diremos que o corpo é o homem? - De modo nenhum; diremos que é o corpo do homem. Por conseguinte, nem

o corpo nem a alma separadamente é o homem, mas aquilo que resulta da uniao de corpo e alma é o homem" (De resurrectione 8).

As imagens de tenda e veste que, como vimos, designam, no Novo Tes tamento, o corpo humano, nao querem depreciar o corpo, mas apenas faci

litar a compreensao de que no homem há algo que subsiste quando o corpo desmorona e se desfaz.

3. Outra fonte de objecoes á tese crista era de índole racionalista. Afir-

mava a impossibilidade da ressurreicfo nos termos seguintes, tirados dos escritos'do filósofo Porfirio (+305):

"É loucura pensar em ressurreicao. Com efeito; imaginemos que um

homem pereceu num naufragio eseu corpo foidevorado pelospeixes. Poste

riormente uns pescadores comem esses peixes. Tais homens vém a morrer e

seus cadáveres sa~o devorados pelos caes; finalmente os caes, ao morrer, tor-

nam-se presa das aves de rapiña. Ora depois dessas peripecias todas onde se

poderá encontrar o corpo daquelenáufragopara o ressuscitar?"(Fragmento

94).

A propósito é de notar que, para que naja ressurreigao, nao se requer

que Deus recolha a poeira dos cadáveres a fim de com ela plasmar de novo

os corpos. Lembremo-nos de que, já durante a vida terrestre de um homem,

a materia do respectivo corpo se vai renovando lentamente, de modo que, de sete em sete anos, cada qual tem outra constituicao material; nao obstante, esta é realmente o mesmo corpo do individuo. Ora, se o corpo de alguém pode ser o mesmo, embora conste de materia diversa, a objecao de Porfirio

446

15

QUE HÁ DEPOIS DA MORTE?

(e de quantos o sigam) se dissolve fácilmente. Deus pode reconstituir o corpo

de urna pessoa falecida a partir do que os filósofos chamam "materia pri ma"; esta, reunida á alma desse individuo, torna-se o corpo mesmo de tal pessoa, com as suas notas típicas, visto que a identidiade da alma propicia a

identidade das características do respectivo corpo.1 — O corpo dos justos

ressuscitados é certamente glorioso, semelhante ao corpo de Jesús, mas con

serva as características morfológicas do corpo mortal.

Estas ponderagoes bem mostram que nao sao decisivas as objecoes fi

losóficas contrarias á ressurreicao dos corpos. Para a fé"crista, esta proposi-

cao é essencial. Nao há Cristianismo sem a afirmacao da ressurreicao de Cris

to e dos cristaos, como declara Sao Paulo em ICor 15, 12-17:

"Se se prega que Cristo ressuscitou dos monos, como podem alguns dentre vos dizer que nao há ressurreicao dos monos? Se nao há ressurreicao

dos monos, também Cristo nao ressuscitou. E, se Cristo nao ressuscitou, va- zia é a nossa pregacao, vazia também é a vossa fé. Acontece mesmo que so mos falsas testemunhas de Deus, pois atestamos contra Deus que Ele ressus

citou a Cristo, quando de fato nao o ressuscitou, se é que os monos nao res-

suscitam

Se Cristo nao ressuscitou, ilusoria é a vossa fé; aínda estáis nos

vossos pecados".

Como se percebe do texto ácima, os corintios nao duvidavam da res surreicao de Cristo; o que eles rejeitavam, era a ressurreicao dos cristaos.

Ora, diz Sao Paulo, urna e outra estao ligadas indissoluvelmente entre si e

constituem a pedra fundamental da pregacao do Evangelho e da mensagem

crista.

*

*

*

Depois de percorrer sumariamente a símese da escatologia crista, o

leitor pode verificar que ela corresponde ás aspiracoes mais profundas do ser humano, que foi feito para a vida e a felicidade, bens que Cristo prome-

teu a todos os seus fiéis seguidores.

1 Tal processo tem sua analogía no fato de que o metabolismo de um no-

mem mona! incorpora ao organismo respectivo materia nova; esta vem a ser

o corpo típico de tal pessoa porque passa a ser animada pelo mesmo princi

pio vital ou pela mesma alma.

447

Relativismo Religioso?

Diversas Religíóes e Urna só

Verdade ?

Em sfntese: No Consistorio dos Cardeais do mundo inteiro, realizado

em Roma de 4 a 6 de abril de 7991, o Cardeal Josef Tomko, Prefeito da

Congregagao paraa Evangelizado dosPovos,apresentouurna teoríaoriunda

da india que distingue entre o Cristo cósmico Logos e Jesús Cristo. Aqueie

estaría presente em todas as religioes do mundo, ao passo que este só no Cristianismo. Donde se segué que nao se deveria fazer algum esforco missio-

nárío de evangelizacao e catequese dos povos nao católicos, mas apenas cui

dar da promocio temporal e económica de todos os povos.

A tese é muito vulnerável, pois anula o conceito de verdade e relativiza

todas as mensagens religiosas, colocando no mesmo plano o politeísmo, o

panteísmo e o monoteísmo — o que peca nao somente contra a fé católica,

mas também contra a si razio.

* * * No Consistorio dos Cardeais do mundo inteiro, realizado em Roma de A
* *
*
No Consistorio dos Cardeais do mundo inteiro, realizado em Roma de
A
a 6 de abril de 1991, o Cardeal Josef Tomko, Prefeito da Congregapao pa
ra
a Evangelizado dos Povos, dissertou sobre as novas correntes religiosas de

nossos días. Deteve-se especialmente sobre urna teoria originaria da India, que relativiza lizado dos povos. A tal tendencia já o Papa Joao Paulo II respondeu em

sua encíclica RedemptorisMissio, comentada em PR 350/1991, pp. 290.-303.

isagem crista e extingue o esforco missionário de evange

A seguir, reproduziremos a exposicao feita pelo Cardeal Josef Tomko,

acrescentando-lhe breve comentario. Ver-se-á que, de certo modo, a nova

teoria é inspirada pelo secularismo ou o horizontalismo subjacente também

a teses teológicas existentes no Brasil.

* *

*

FALA O CARDEAL TOMKO

A difusao das seitas e o desafio que elas apresentam á Igreja,tém re-

percussoes teológicas, além de pastorais. A confusao doutrinal sobre o con-

448

DIVERSAS RELIGIÓES E UMA SÓ VERDADE?

17

teúdo da fé abre o caminho ao pulular das seitas, á sua justificado prática, e

sobretudo á falta de empenho no cuidado pastoral e no anuncio explícito

de Jesús Cristo que constituí a comunidade crista.

Há um relativismo gnóstico e um mal-entendido teológico que nivelam

todas as religioes, as diversas experiencias e crencas religiosas a um mt'nimo

denominador comum, pelo que tudo se equivale e cada um pode percorrer um dos caminhos igualmente válidos para a salvapao.

Há teorías teológicas que esvaziam e deformam o misterio revelado do

Verbo encarnado em Jesús Cristo, e constróem arbitrariamente o misterio de urna realidade divina que "emerge", "se encarna" ñas diversas figuras reli giosas (encarnacoes, salvadores, mediadores, reveladores, fundadores, místi cos). Estas teorias tornam-se por vezes praxe pastoral, tirando o empenho

missionário e enfraquecendo a própria identidade crista.

Os apelos da Encíclica missionária

Joáo Paulo II, na sua última Encíclica Redemptoris Missio, quis reafir

mar as bases teológicas da identidade missionária da Igreja e, pelo fato mes-

mo, corrigir certas ¡nterpretacoes teológicas. De tais ambigüidades fala em termos gerais (cf. Rm 2,36) e particulares (cf. Rm 6,11,17-18,28-29). Nes- tas precisacóes teológicas Jesús Cristo, o único Salvador e a perfeita revela-

cao de Oeus. está no centro do documento. Af irma-se nele que "é contrario á fé crista introduzir qualquer separacao entre o Verbo divino e Jesús Cris to" (RM 6). que "o Reino de Deus, que conhecemos pela Revelacao, nao

pode ser separado de Cristo nem da Igreja" (RM 18); que o Espirito "que

sopra onde quer e que já estava a operar no mundo, antes da glorificacao do

Filho

é o mesmo que agiu na encarnacao, vida, morte e ressurreicáo de

Jesús, e atua na Igreja" (RM 29).

Mas o que é que está por detrás destes apelos do Santo Padre? Nao se trata de observacóes sem fundamento, mas de precisapoes e correcoes a

certas teorias e tendencias teológicas, que podem estar mais difundidas do

que se eré á primeira vista.

Desde o Concilio Vaticano II, de fato, a Igreja empenhou-se no diálo

go inter-religioso, e o Magisterio conciliar e seguinte procurou explicar a sua

natureza e fundamentos. Diversos teólogos procuraram aprofundar os funda mentos mesmos do diálogo e as realidades teológicas conexas. O papel dos

teólogos é importante e o Papa salienta-o na Encíclica, encorajando-os a esta

obra que deve contribuir para a vida e a missao da Igreja (RM 2, 36). Al-

guns, todavía, desenvolveram doutrinas inaceitáveis e destruidoras, que po

dem ser reconduzidas a tres temas principáis: Cristo, o Espirito, o Reino.

449

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 353/1991

18

Um Jesús Cristo «interpretado

Segundo alguns teólogos indianos, na busca do diálogo, Jesús Cristo

nao une, mas, ao contrario, divide; a unidade e o acordó sao portanto procu

rados nao no "cristocentrismo", mas no "teocentrismo", ou seja, em torno

do misterio divino, enquanto a pessoa de Jesús Cristo é relativizada.

Decerto, estes teólogos conhecem bem os textos bíblicos que apresen-

tam Jesús Cristo como o único Salvador dos homens e o único Mediador en

tre Deus e os homens. Consideram-nos, contudo, como cristologias posterio

res e como afirmacoes enfáticas, no nivel das do marido enamorado da pro-

pria esposa.

Partindo da distinpáo entre o Cristo-Logos e o Jesús histórico, afirma

se que no Logos há mais do que no Jesús histórico, pelo que o Logos pode

aparecer noutras religioes e noutras figuras históricas em que está escondido.

O Cristo-Logos pertenceria a todas as religioes e manifestar-se-ia nelas. 0

Jesús histórico, ao contrario, pertence á religiao crista e á Igreja. Ao Cristo cósmico-Logos enlapa-se também a mediacao salvífica das religioes nao cris

tas. O papel da Igreja estaría, antes, ligado ao papel de Jesús histórico. Certas

classificacoes, como "final, último, único, universal", por conseguinte, só

sao verdadeiras se aplicadas ao Verbo, mas nao a Jesús histórico! Em conclu-

sao, o misterio universal da salvacao realiza-se mediante todas as religioes.

Outros teólogos afirmam que nao se pode absolutizar o modelo de Calcedonia, nem obrigar a fazer dele urna simples versao. Os títulos cristoló-

gicos sao dados a Jesús mais tarde, por particulares crencase culturáis, que

sao interpretares.

Outros propoem um teocentrismo pluralista. Consciente ou incons cientemente igualam nao só os aderentes ás diversas religioes, mas também os conteúdos e até os fundadores de cada urna das religioes, que sao todos

classificados salvadores, em quem opera ou se encarna históricamente o infi

nito Misterio de Deus.

Para se fazer o diálogo de igual para igual, ou se degrada Jesús Cristo calando a sua divindade, ou se exaltam os fundadores de outras religioes, fa-

zendo deles a quase encarnapao de Deus, mediadores e salvadores, equipara

dos a Jesús Cristo.

Um Espirito vagante

Para sustentar estas teorías, algumas vezes é usada também a teologia

450

19

DIVERSAS RELIGIÓES E UMA SÓ VERDADE?

do Espirito. Alguns teólogos asiáticos insistem sobre a obra universal do Es

pirito, fora do ámbito da Igreja. Alguns relacionam-na com a universalidade

do ministerio do Cristo-Logos, que está presente e opera em toda parte gra-

cas ao Espirito. Outros tendem a separar a atividade do Espirito, de Cristo.

Ambas as correntes véem cornudo, no Espirito umversalmente presente e operante, outra razao para afirmar o valor salvífico das diversas religióes,

independentemente de Cristo.

Um Reino amorfo

Em paralelo e em estreita ligacao com as teorías expostas, inclusivistas ou pluralistas, é enfatizado o Reino. Afirma-se que o universal designio divi no de salvapao consiste na promocao do Reino, deslocando o centro da Igre

ja para o Reino. 0 Reino torna-se assim como o "novo ponto focal" da

evangelizado.

E entao que é este "Reino", sem, com freqüéncia, nem sequer Ihe

acrescentar "de Deus"? Ele compreenderia todas as religióes, as quais sao

chamadas a construi-lo num diálogo reciproco; identificar-se-ia com a "nova

humanidade", que uniría todos os homens em comunidade de amor, justica

e paz; sería o "bem-estar da humanídade", a "libertapáo humana". 0 Reino tende, portanto, a ser concebido como urna "utopia", urna "coisa".

Assim, constrói-se o "reino-centrismo", para o contrapor ao "eclesio- centrismo" da "plantatio Ecclesiae", que é comumente declarado superado

e falso. Por exemplo, escreve-se: "A

missao primaria da Igreja é a construpao

do Reino, e o diálogo com as outras religíóes é o meio para este objetivo. A é chamada

Igreja nao é chamada a construir-se a sí mesma. mas a servir

também a morrer para que o mundo possa víver".

O que é completamente ignorado por estes teólogos, é o fato de que

Jesús nao só anuncíou o Reino, mas se proclamou Rei no qual o Reino de

Deus se torna presente. Jesús Cristo, com o seu misterio pascal, dá o signifi cado mais profundo e especifico ao Reino; sem Ele, "falar do reino é sim- plesmente urna ideología", como observou L. Newbigin.

Conseqüéncias sobre a missao

Elas sao simplesmente devastadoras. A finalidade da evangelizapao é

desviada e reduzida; a necessidade da fé em Jesús Cristo, do batismo e da

Igreja, é posta em dúvida. "Neste contexto do pluralismo religioso - excla ma um teólogo indiano - ainda tem sentido proclamar Cristo como o único

Nome em que todos os homens encontram a salvapao e chamar a fazerem-se

discípulos mediante o batismo e a entrar na Igreja?".

451

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 353/1991

20

A evangelizado no sentido global, em que o "novo ponto focal" é a

construcao do Reino, ou seja, da nova humanídade, consistiría só no diálo

go, na inculturacáo e na libartacáo. Estranha mas significativamente, é omi tido o anuncio ou proclamado; antes, ela é classifícada como propaganda

ou proselitismo. A evangelizado é reduzída ao diálogo de tipo social ou i

promocao económico-social e a "libertacáo" das ragas com todos os meios,

incluida a violencia. Sobre a conversao, um teólogo indiano escreve: "A con versao religiosa é o resultado do jacobinismo ocidental e da sua intoleran cia peito de outra, enquanto nenhuma religiao tem o monopolio da verdade".

A conversao nasce do sentido de superíoridade de urna religiao a res-

O abandono das estacóes missionárias, das pregacoes do Evangelho e

da catequese, por parte dos missionários, do clero, das religiosas, e a fuga para obras sociais, como também o continuo falar em sentido redutivo dos

"valores do Reino" (justica, paz) é um fenómeno difundido na Asia e propa-

gandado por algunscentros missionários,também noutroscontinentes.

O valor da "Redemptoris Missio"

Sobre este quadro ambiental, a recente Encíclica do Santo Padre, "Re demptoris Missio", mostra-se nao s6 tempestiva, mas até mesmo providen cial. Quem considerou os tres primeiros capítulos abstratos e repetitivos da

doutrina berh conhecida, deverá mudar de opiniao. Eles parecem extrema

mente necessários para reafirmar a fé da Igreja ñas verdades postas em perigo pelas teorias aqui esbocadas.

E é já urna enorme ajuda para quem quer seguir a voz do Papa. Cornu

do, a problemática já tem tal amplitude e as teorias expostas difundem-se

com tanta rapidez; que a Santa Sé nao pode f¡car passiva. Elas criam um gra ve perigo para a fé em Jesús Cristo, tal como á professada pela Igreja todos

os domingos e días de festa no "Credo", e como é ensinada no Concilio de

Calcedonia; além disso, no campo prático produzem o efeito de enfraquecer

o espirito missionário, de reduzir a evangelizacao apenas ao desenvolvimento

e ao diálogo, com o abandono do anuncio, da catequese e, lógicamente, das conversoes e dos batizados. Elas confirmam fortemente as bases e a justifica-

pao de dois fenómenos denunciados na Encíclica "Redemptoris Missio": "a

mentalidade do indiferentismo, hoje muito difundida" e "um relativismo re ligioso, que levaapensarque 'tantovale urna religiao como a outra'" (n. 36).

Se a India é o epicentro destas tendencias, e a Asia o campo principal,

tais idéias já circulam na Oceánia, nalguns países da África e na Europa. A missao é, pois, insidiada duplamente: na atividade direta de evangelizacao

452

21^

DIVERSAS RELIGlOES E UMASÓ VERDADE?

nos territorios missionários e no influxo negativo sobre as vocapóes missio- nárias ñas Igrejas de antiga cristandade.

P6e-se, portanto. com toda a seriedade, o quesito: que se há-dé fazer

para que a Palavra de Deus sobre a salvacao, que nos é dada únicamente em

Cristo, seja anunciada na sua pureza: "UtverbumOeicurratetclarificetur"?1

Refletindo

1. O Cardeal Tomko aponta para urna nova teoria oriunda de ambien tes teológicos da India e de outros países, teoria segundo a qual se deveria

distinguir entre o Cristo Lógos cósmico e o Jesús histórico:

— o primeiro seria o próprio Deus, que se estaría manifestando em to

das as religioes, de modo que todas estariam voltadas para o mesmo Deus;

— o segundo, o Jesús da historia, seria urna faceta do Cristo Lógos cós

mico, aquele que se manifestou no Cristianismo; teria outras facetas parale

las e equivalentes, de sorte que se deveriam equiparar entre si Jesús Cristo,

Buda, Maomé, Confúcio

As religioes seriam caminhos equivalentes entre si

dirigidos para o mesmo Deus.

Em conseqüéncia, o objetivo da missao dos católicos nao seria reunir

todos os povos na Igreja fundada por Jesús Cristo, e entregue a Pedro e seus

sucessores, mas seria congregar todos os homens, de qualquer religiao, no

Reino (de Deus); o Reino se caracterizaría nao por determinada crenpa reli

giosa, mas por amor, justipa, paz, bem-estar da humanidade, libertapáo dos

homens homens e batizá-los em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo (cf. Mt 28, 18-20), seria condenável como proselitismo e intolerancia; a evangeliza-

O zelo missionário, que procura anunciar a fé católica a todos os

pao se reduziria á promopSo económico-social e á libertapao das rapas, coisas estas que todos os homens aceitam independentemente de suas crenpas reli

giosas.

2. Ora a propósito ¡mpoem-se algumas considerares:

a) É ilógico ou irracional dizer que todas as crenpas religiosas sao equi

valentes entre si, pois elas propoem Credos diferentes, que se excluem mu

tuamente no plano da lógica ou da própria razáo. Com efeito; as religioes professam ou o politeísmo (haveria muitos deuses) ou o panteísmo (tudo se

ria Deus) ou o monote fimo (h¿ um só Deus transcendental, Criador do mun-

Que a Palavra de Deus corra e se/a glorificada. {Nota do Redatori.

453

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 353/1991

22

do e do homem a partir do nada). Ora o politeísmo 6 ilógico, porque multi plica o Absoluto e o Infinito (Deus); o panteísmo também é irracional, por

que identifica o Absoluto com o relativo, o Eterno com o temporal, o Ne- cessário com o contingente. Por conseguinte, s6 resta urna forma de religiao

lógica (aos olhos da razio mesma), que é o monoteísmo; este se encontra na linha judeo-crista-muculmana (o judaismo é a preparacSo para o Messias Je sús Cristo, ao passo que o islamismo é a fusao de judaismo e Cristianismo com elementos da religiáo árabe antiga, marcada por tendencias nacionalis tas, como sao as da guerra de conquista ou guerra santa).

b) O Reino de Deus nao é a realizacao meramente natural ou socio

económica dos homens. Isto seria muito pouco para quem experimenta a

sede do Infinito. É, sim, o encontró com Deus face-á-face á luz da Verdade

Única que é Deus revelado por Jesús Cristo. O Reino de Deus nao é mera

mente secular, temporal, mas é religioso e transcendental; supóe a pregapao

religiosa de Jesús Cristo, que nao se confunde com a de Buda, Maomé,

Confúcio

c) A Igreja é o sacramento do Reino ou é o Reino de Deus iniciado

na térra, mas ainda velado pelo claro-escuro da fé e pelos sinais que transmi- tem a grapa e a vida definitiva por entre as penumbras desta peregrinacao. A Igreja de Cristo {confiada a Pedro e seus sucessores) é o caminho objetiva

mente obrigátório a todos os homens para chegarem á plenitude do Reino;

cf. Constituicáo Lumen Gentium n? 14; Decreto Ad Gentes n? 7.

d) Fora da Igreja Católica, há sementes de verdade e de bem, que de-

vem ser estimadas, mas que ainda sao gérmens destinados a desabrochar ple

namente. A pregacao missionária tem por objetivo precisamente catalisar o

desabrochamento > dessas sementes de verdade e bem esparsas fora do Cato

licismo, e fazer que todos os homens cheguem ao conhecimento da Verdade revelada por Jesús Cristo e fielmente conservada na sua Igreja (cf. ITm 2, 4;

Mt 16, 16-19; Le 22, 31s; Jo 21, 15-17).

e) Deve-se reconhecer que há muitas pessoas de boa fé a professar o

panteísmo, o politeísmo ou crencas religiosas nao católicas. Estas pessoas, na

medida em que sao candidamente fiéis ao que julgam ser a Verdade e o Bem,

chegarao ao único Deus revelado por Jesús Cristo; cf. Constituícao Lumen

Gentium n? 16. Deus nao há de Ihes pedir contas daquilo que nao Ihes tiver

revelado. Esses fiéis pertencem invisivelmente ¿ Igreja de Cristo, ao passo

que outros Ihe pertencem visivelmente; salvar-se-ao mediante Jesús Cristo e

a Igreja, embora professem a fé islámica, budista ou outra, pois na verdade

há um só Salvador dos homens; Jesús Cristo, que exerce a sua obra redento

ra através dos sáculos mediante o sacramento da sua Igreja confiada a Pedro

e seus sucessores.

454

23

DIVERSAS RELIGIÓES E UMA SÓ VERDAOE?

f) Vé-se que nao há como distinguir realmente entre o Logos cósmico

e Jesús Cristo (o Jesús da historia). O Lógos cósmico é a segunda Pessoa da

SS. Trindade, que se fez homem no seio de María Virgem, e, como homem,

tomou o nome de Jesús. A pregacáo de Jesús é a do Lógos. Este, porém, nao

se ocultou aos povos nacrcristaos, pois fala a todo homem mediante a reve

lado natural, isto é,

— pelo testemunho das criaturas ou do cosmos, que apontam para o

Criador, e

- pelo testemunho da consciéncia moral, ¡nata em todo homem, a di-

zer: "Pratica o bem e evita o mal".

Nao há contradícao entre a revelacao natural e a revelacao bíblica, mas

há gradacao; a revelacáo bíblica leva muito além os dados que a revelacao

natural comunica aos homens; o misterio de Deus Uno e Trino, a Encarna-

gao Redentora do Logos, a elevacáo dos homens á filiacao divina

sao pro-

posicoes que explicitam e desenvolvem a revelacao natural. É na revelacao

natural, feita a todos os homens, e nao nos Credos religiosos existentes fora

do Catolicismo, que se deve procurar a base comum na qual todos os ho

mens se encontram. Todos os Credos religiosos — dos quais um só é ¡nteira- mente verdadeiro — tém a mesma base comum, que é a religiosidade natural decorrente da revelacao natural de Deus aos homens.

*

*

(continuafao da p. 465):

26. Os dogmas da fé devem ser guardados tao somente em seu sentido

prático, isto é, enguanto normas preceptivas de agir, nao, porém, como nor

mas de crenca.

27. A divindade de Jesús Cristo nao se prova pelos Evangelhos, mas é

um dogma que a consciéncia crista deduziu da noció de Messias.

35. Nem sempre Cristo teve consciéncia de sua dignidade messiénica. 58. A verdade nao ó
35.
Nem sempre Cristo teve consciéncia de sua dignidade messiénica.
58.
A verdade nao ó mais ¡mutével que o próprio homem, posto que

ela se desenvolve com ele, nele e por meio dele.

59. Cristo nSo ensinou um determinado corpo de doutrinas apíicável a

todos os tempos e a todos os homens, mas, antes, iniciou um movimento re

ligioso adaptado ou adaptávelaos diversos tempos e lugares".

(Ver Demiger-Schonmetzer. Enquirídio

3435. 3458s).

455

n? 3420-22. 3425-27.

Denso e precioso:

'Por Que Crer? A

Revelacáo"

e

a

por Luiz José de Mesquita

Em síntese: 0 Prof. Luiz José de Mesquita oferece ao público va/ioso

livro sobre afee a Revelado Divina. Aborda a complexa temática de manei-

ra exaustiva; ás suas reflexoes teológicas, filosóficas, psicológicas, inspiradas por S. Tomás de Aquino e sua escola, acrescenta urna coletinea de textos do

Novo Testamento, da Tradicao e do magisterio da Igreja atinentes á fé. 0 li

vro será de grande utilídade para quantos dese/em aprofundar o assunto,

principalmente em nossos días, quando tantos seres humanos sofrem a in-

quietacao de quem foi feito para Deus e nao descansa enquanto nao repousa

no Bem Infinito.

As páginas subseqüentes oferecem urna síntese do capitulo inicial da

obra, que trata de incredulidade e conversao.

*

*

*

O Prof. Luiz José de Mesquita é bacharel em Direito e diplomado em

Filosofía e Pedagogía pela PUC de Sao Paulo, onde foi professor de Filosofía

Moral por muitos anos. Entrega ao público valiosa e exaustiva obra sobre a Fé (Parte Dea Revelacáo Divina (Parte II). Em linguagem precisa, seguindo

as pegadas de S. Tomás de Aquino e dos clássicos mestres, percorre todos os aspectos da temática, indo até o ámago de cada questao. A Parte III do lívro

é urna coletánea o> textos do Novo Testamento, dos Concilios, dos Papas e

de grandes teólogos relativos á fé, que ilustram muito significativamente o

corpo da obra.1 Enriquecido por urna Introducao do Cardeal 0. Lucas Mo-

reiráNeves, o volume éaltamente recomendável principalmente aosestudan-

tes de Teología e aos clérigos em geral, pois tem m'tidas características didá-

tícas. Mas fará bem outrossim aos fiéis de certa cultura e aos pensadores sin-

1 Por que crer? A Fé e a Revelacáo. Introducao do Cardeal Moreira Neves.

- Ed. Ave María, Sao Paulo, 140 x 210 mm, 493 pp. Endereco do autor:

Rúa Dr. Veiga Filho 161, ap. 81 - 01229 Sao Paulo <SP).

456

"PORQUECRER?"

25

ceros. Pode-se dizer que o livro se destina a quem queira refletir, aínda que

nao tenha milita fé. mas seja isento de preconceitos.

Visto que se trata de denso volume, contentar-nos-emos com a apre- sentarlo do capítulo I da Introducao, que aborda a temática "Incredulidade

e Conversao" (pp. 1-17).

Incredulidade e conversao

Antes de tratar da fé como tal, o Prof. Mesquita se detém sobre a sua anti'tese - a incredulidade — e o caminho que leva á fé — a conversao.

1. Incredulidade

Sao examinadas 1) as causas e 2) as expressóes da ¡ncredulidade.

1.1. Causas da incredulidade

1) A ignorancia religiosa ou o fato de alguém nao conhecer a mensa- gem da fé explica a falta de fé em muitas pessoas.

A ignorancia pode ser inculpada (de boa fé) ou culposa (de má fé). O Prof.
A
ignorancia pode ser inculpada (de boa fé) ou culposa (de má fé).
O
Prof. Joáo Pandiá Calógeras (°>*1934), engenheiro, político e histo

riador, escrevia ao Pe. Madureira S. J referíndo-se aos tempos anteriores ¿ sua conversao: "Era muito confuso o estado de meu espirito, quase caótico.

Obrigou-me o amigo a sentir o erro de varias interpretacoes mínhas. fruto de

minha ignorancia, nao de qualquer má fé" (Mesquita. p. 2).

Há também a ignorancia de má fé ou preconcebida.1

Já Tertuliano, apologista cristao, por volta do ano 200, pedia aos

adversarios da religiao crista que nao a condenassem sem primeiro a conhe

cer.

A vida materializada, absorvente, de mílhoes de pessoas que sedizem

católicas, mas nao tém prática religiosa alguma, é urna das causas do declínio

da fé nesses individuos.

O estudo do Cristianismo nao pode nem deve atemorizar o incrédulo;

quem sabe se, por tras da recusa de melhor conhecimento das proposicóes

da fé, nao há o receio de vir a ter fé e mudar de vida?

1 Preconceito é o juízo formado antes do exame da questao.

457

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 353/1991

26

■ Há preconceitos freqüentes que obcecam a mente. Assim, por exem-

pío, a nocao de Idade Media como período obscurantista, sem se levar em

conta a arte romántica e a gótica (com suas catedrais), a Magna Carta das

Liberdades na Inglaterra, a Divina Comedia de Dante Alighieri, a Suma Teo lógica de S. Tomás de Aquino e obras semelhantes de outros pensadores.

Há um preconceito contra a metafísica como sinónimo de atraso religioso

e dialética escolática, quando na verdade a metafísica é a mais elevada ex- pressao do intelecto humano. Há também o preconceito dos que general i-

zam, condenando o Catolicismo porque tal ou tais católicos nao dao o au

téntico testemunho do Evangelho. Em suma, cita-se o caso do médico Dr. Alexis Cairel: quis expor aos seus futuros examinadores da Faculdade de Liao, positivistas, um milagre que ele presenciara em Lourdes e relatava

em espirito científico; responderam-lhe entio: "é inútil insistir; com tais

idéias nada tens a fazer entre nos" (Mesquita, p. 5).

Após o estudo consciente da religiao, o convertido verifica quanto

tempo perdeu longe da casa do Pai. Depois, á medida que vai vivendo real mente a sua fé, percebe e degusta "as insondáveis riquezas de Cristo"

(cf. Ef 3,8).

2) Entre os obstáculos á fé, apontam-se vicios e desvíos intelectuais,

que dificultam o acesso á fé, pois provocám carencia de método e de con he-

cimentos adequados e falsa visao do mundo. Eis alguns desses vicios:

a) a vida fútil, despreocupada de valores elevados, limita a capacidade

do homem ao círculo do que é terreno e efémero.

b) o próprio estudo das ciencias pode deformar a mente ou embotá-la para o conhecimento que nao seja experimental; a inteligencia é aguijada em determinados setores do saber, mas torna-se miope em outros. Assim um cé lebre zoólogo regressava certa vez de uma viagem ao Egito; perguntaram-lhe

entáo a respeito dos monumentos (pirámides) daquele país; respondeu, po- rém, que nada poderia dizer, pois no Egito s6 procurara morcegos e com mais nada se preocupara. Conta-se também que o grande matemático Ro-

berval certa vez se retirou de um teatro, em meio á cena, dizendo que

O

aquilo "nada provava", pois nada tinha de geométrico ou matemático

próprio Prof. Pandiá Calógeras confessava que "o vicio ingénito da educacáo

matemática" Ihe tirava "a elasticidade necessária" e fazia que "atribuisse á

materia supremacía sobre o espirito";

c) o desajuste ou a falta de adequacao entre o intelecto e a materia

estudada dificulta o conhecimento de certas verdades. Sim; como aplicar os

métodos experimentáis e as deducoes matemáticas ao estudo de Deus, da al

ma, da vida crista ou religiosa ou como "encontrar a alma na ponta de um

458

"POR QUE CRER?"

27

bisturi"? É famoso o caso do astronauta Yuri Gagarin, o primeiro russo que

deu voltas em torno da Térra; ao deseer, após contemplar as imagens deslumbrantes do espapo sideral, declarou que nao vira Deus! Nao é de sur-

preender; como o veria se s6 usava categorías de Física, Mecánica e Mate

mática?

3) Existem também obstáculos á fé que sao de índole moral:

- A soberba, a auto-suficiéncia, a presuncfo nao saocom-

o orgulho

patíveis com auténtica vida de fé;

- também as paixoes desregradas

É notorio o adagio: "Quem nao

vive como pensa, acaba pensando como vive", o que quer dizer: se alguém

nao tem a coragem de elevar os afetos ao nivel de suas nobres concepcoes de

vida e aspiracóes, há de procurar, consciente ou inconscientemente, urna

cosmovisao que justifique o baixo nivel de suas paixoes e afetos; perderá a

fé crista ou nao a atingirá. A incredulidade está na razáo direta da deprava-

cao dos eos tu mes; a sensual ¡dade entorpece progressivamente as faculdades intelectuais. "Ninguém nega a existencia de Oeus senáo aquele a quem con-

vém que Ele nao exista", dizia Bacon.

Passemos agora as

1.2. Expressóesda incredulidade

Podem-se registrar, por ordem cronológica, as seguintes:

1) O racionalismo e o naturalismo. No sáculo XIX a filosofía da Fran

ca, da Inglaterra e da Alemanha foi muito marcada pela tendencia a funda

mentar a religiao sobre verdades naturais ou apenas sobre os principios da

razao. Daí se originou o que se chama "o deísmo";1 este recusa as Escrituras

Sagradas, a Tradicao judeo-crista. os milagres, a veracidade dos Evangelhos. Tem seus principáis representantes em Renán, Reinach, Reimarus, Straiiss

2) O modernismo é urna forma de racionalismo de fim do sáculo XIX

e comeco do sáculo XX. Procura reduzir as verdades bíblicas e teológicas a

meras proposicoes racionáis, tentando assim conciliar o mundo moderno e suas descobertas científicas (nos setores da historia, da psicologia, da socio- )

com as tradicional afirmacoes da Igreja. O modernismo negava toda

logia

1 O deísmo é o reconhecimento da fé em Deus apreendido únicamente pe

las luzes da razao. — Ao contrario, o teísmo professa a fé em Deus, que se re- velou mediante a Tradifio oral e escrita no ¡udeo-cristianismo.

459

"PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 353/1991

28

¡ntervencao de Deus na historia e admitia variadas interpretacóes dos artigos

de fé (Jesús Deus e homem; a real presenta eucarística, o magisterio da

Igreja ) de acordó com a sucessao dos tempos e das circunstancias. O mo dernismo
Igreja
)
de acordó com a sucessao dos tempos e das circunstancias. O mo
dernismo foi condenado peloSyllabm de Pió IX em 18641 e principalmente
por Pió X no decreto Lamentabili (1907)J e na encíclica Pascendi (1907).
Na verdade, o racionalismo, longe de exaltar, reduz o homem, porque
suprime o que está ácima da razáo, mas nao contra a razio. Bem dizia Ches-
terton: "Sei que os velhos racionalistas alegam que a razáo Ihes impede a vol-
ta
á fé, mas é falso; nao é mais a razao, e sim a paixao
3} No sáculo XIX alguns fundadores de escola filosófica professaram
o
ateísmo. Augusto Comte (positivista) 1' 1857, Feuerbach (precursor do

marxismo) +1872, Karl Marx (pai do marxismo) +1883, Nietzsche (ornáis apaixonado de todos) 11900. Este, no seu livro "O Anti-Cristo", escreve:

"Condeno o Cristianismo; contra a Igreja crista levanto a mais terrf-

vel das acusacoes, que ¡amáis tenham subido aos labios de um acusador. Ela

é a maior de todas as corrupcoes

Chamo o Cristianismo a grande maldi-

cao, a grande corrupcio íntima, o grande instinto de vinganca, para o qual nao há meio bastante venenoso, oculto, subterráneo, pequeño —euo chamo

o mortal estigma de opróbrio da humanidade" (Mosquita, p.7).

Afinal verifica-se que o racionalismo, rejeitando a fé e os dogmas, pro- poe outro tipo de fé e de dogmas,, pois parte do principio (nao demonstra

do) de que nada pode existir de transcendental ou nada que ultrapasse a compreensao da razáo. Sao palavras de Ernesto Renán:

"A condicao mesma, para que possa haver ciencia, é crer que tudo po~ de ser explicado naturalmente

As ciencias históricas em nada diferem,

quanto ao método, das ciencias físicas e matemáticas; elas supSem que ne-

Donde

nhum agente sobrenatural vem perturbar a marcha da humanidade

o axioma inflexível, base de toda crítica: um evento tido como milagroso 6 necesariamente fendário" (Questíons contemporaines 1876, pp. 223sJ.

"O primeiro principio é que o milagro nao tem fugar no tecido das coi sas humanas" í'Etudes d1Histoíre Religieuse 1857. Proface, p. Vil).

"

a esséncia mesma da ciencia é a negacao do sobrenatural" (ib.

pp. 137s).

7 Verp. 464 deste fascículo. 3 Ver p. 465 deste fascículo.
7
Verp. 464 deste fascículo.
3
Ver p. 465 deste fascículo.

460

"PORQUECRER?"

29

O cristao nao postula de antemao ou a priori o sobrenatural. A exis tencia deste só se impoe como conclusSo de fatos, a partir do real, contraria

mente do que acontece no racionalismo, que comeca pela exclusáo preesta-

belecida dos valores transcendentais.

Digamos agora algo sobre

2. Conversao

A conversao é o grande encontró do incrédulo com Deus. Cada con-

versáo tem sua historia, que nao se repete, pois sao muitas as vias que levam

o homem a Deus.

Conhecido é o caso de Paúl Claudel (i 1955), poeta francés, que repen tinamente foi iluminado por Deus:

"Eu próprío estava de pé entre a multídao (na catedral de Notre Dame

de París) junto do segundo pilar é entrada do coro, á direita da sacristía. Foi

entao que seproduziu o acontecimento que domina toda a minha vida. Num

instante, meu coragao foi tocado e acredite! com tal forca de adesao, com tal elevacio de todo o meu ser, com tao poderosa conviccao, com tal certe

za, sem deixar lugar a qualquer especie de dúvida

Tive, de súbito, o forte

sentimento da inocencia, da eterna juventude de Deus. urna revelacao ine-

É verdade\ Deus existe. Ele está em toda parte. £ Alguém, éum Ser

fável

tSo pessoal quanto eu. Ele me ama, Ele me chama" (Mesquita, p. 13).

Gabriel Marcel, o pensador existendalista cristao (t 1973}, procedeu

mais lentamente. 0 ponto de partida de suas reflexóes sobre Deus e o além

foi a pergunta: "Que acontece aos morios?" Acrescenta o mesmo Marcel:

"As Paixoes e as Cantatas (de Bach)

no fundo a vida crista me veio atra-

vés disso". O momento decisivo ocorreu por ocasiao de um intercambio

epistolar com Francois Mauriac: Gabriel enviou a este escritor urna no

ta crítica sobre o livro "Dieu et Mammón"; Mauriac respondeu-lhe em

25/02/1929, com agradecimentos e urna pergunta: "Afinal, por que vocé

nao é um dos nossos?" - Com urna clareza fulminante, Marcel reconheceu

o convite que Deus Ihe dirigía, como ele mesmo escreveu:

"Mauriac me lancou seu apelo; optei peto catolicismo e nao pelo pro

testantismo. Pensei: sim, sou cristao; seria covardia esquivar-me por mais tempo. Mas sentí entao como um apeío víndo de bem mais longo do que Mauriac" (Mosquita, p. 13).

461

"PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 353/1991

30

A graca nao elimina a natureza; supoe-na e respeita-a; por isto cada

ser humano reage, a seu modo, diante dos apelos do Senhor. Geralmente

distinguem-se tres etapas num processo de conversao:

2.1. O aniquilamento de si mesmo

A gestao na dor, na angustia, no vazio costuma ser o primeiro passo

para o renascimento espiritual. Deus esvazia primeiramente a alma cheia de

si mesma, para depois cumulá-la de seus bens.

Assim Charles de Foucauld sentiu-se inquieto e entediado antes de

descobrir a luz do Evangelho; chegou a escrever a um amigo:

"Vocé é feliz porque acredita. Eu procuro a luz e nao a encontró ".

Repetía entao, como que com medo e baíxinho: "Meu Deus, se Vos

existís, fazei que eu Vos conheca".

S. Agostinho também dizia: "Senhor, Tu nos fizeste para Ti, e inquie

to é o nosso coracao enquanto nao repousa em Ti" (Confissoes 11).

A conversao de Claudel comecou repentinamente, mas entrou logo

num período de lutas entre 25/12/1886 e 25/12/1890 (quatro anos)!

Depois comecou, para ele, a segunda fase.

2.2. O trabalho da inteligencia e a luta da vontade

Nesta segunda fase, a pessoa é atormentada pela dúvida e a incerteza,

misturadas com o pavor das mudancas de atitudesvivenciais. Eis algunstes-

temunhos:

Paulo Setúbal confessou: "Nesta luta tremenda, neste entrechoque

brutal de dois espfritos contraditórios há uma vi'tima só: eu" (Confiteor).

. John Newman perguntava a si mesmo: "Será a Igreja Anglicana a con

tinuadora auténtica da Igreja de Cristo, a herdeira dos ensinamentos do

Evangelho?" Enquanto a inteligencia assim duvidava, a vontade hesitava em

abandonar a situacáo privilegiada que Ihe cabia no Anglicanismo para, já em

meia-idade, ir bater humildemente ás portas da Igreja Católica, onde certa- mente só Ihe tocaría o último lugar

Claudel sentia o respeito humano.em relacao aos demais intelectuais,

seus companheiros; que diriam eles? E como explicar aos próprios familia-

462

"PORQUECRER?"

31

res que nao comería mais carne ás sextas-fe iras? — Mesmo depois de crer,

Claudel confessa que suas ¡déiasanticristas aínda o atormentavam:

"Minhas conviccoes filosóficas estavam intatas. Deus as deixara des-

denhosamente onde estavam, e eu nada via a múdameles; a religiSo católica parecia-me continuar o mesmo tesouro de historias absurdas; setis padres e

fiéis me inspiravam a mesma aversSo que ia até o odio e o desgosto. O edifi

cio de minhas opinides e de meus conhecimentos permanecía de pé, e nao

Ihe achava qualquer defeito

As condícoes de um homem que fosse arran

cado bruscamente de seu corpo para ser colocado num corpo estranho, no

meio de um mundo desconhecido, é esta a única comparacSo que posso en

contrar para exprimir esse estado de confusSo completa" (Mesquita, p. 15si.

Gabriel Marcel, por su a vez, observa:

"É muito difícil. Perdura a impressao de cauterizacao interior Atra-

vessei um período penoso: caminho semeado de obstáculos dificéis de ven cer

No fundo foram as licdes do catecismo que eu mal supórtei num mo

mento em que o laco vital com Deus me parecía, se nao rompido, ao menos

infinitamente frouxo. Hoje tenho a impressao de estar recuperado no senti do pleno da palavra" (Mesquita, p. 16).

No caso de S. Agostinho, embora a inteligencia já estivesse iluminada

pela verdcde, as paixóes ainda queriam arrastar a su a vontade, como o pro- prio Santo confessa:

"Eram bagatelas as coisas que me retinham, vaidades de vaidades, mi-

/>has antigás amigas; puxavam-me pela minha roupa de carne ediziam-meem

voz baixa: 'Queres deixar-nos? Já nao estaremos mais contigo, nunca, nun

ca? A partir de agora, nunca mais poderes fazer isto

nem aquilo?'

E que coisas, meu Deus, que coisas me sugeríam com as palavras isto e

aquilo? Por favor, meu Deus, afasta-as de minha alma1. Que imundfcies me

sugeriam, que indecencias1.

é verdade que as ouvia como que de longe, com menos da metade da

forca de antes; já nao me enfrentavam cara a cara, limitándose a sussurrar-

me pelas costas e a beliscar-me ás escondidas, para que me voltasse enquanto

me ia afastando délas.

Falavam-me com pouca forca; pois lá para onde eu olhava, e para onde tinha medo de saltar, podía já vera casta dignidade da continencia, serena, alegre, acariciamdo-me honestamente para que me aproximasse sem medo,

463

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 353/1991

32

estendendo-me as suas piadosas maos, chalas da boas obras, para dar-me as

boas-vindas eabracar-me" fConfissoes, livro VIII, cap. 11).

A terceira fase é a do

2.3. Encontró com Deus

Finalmente a criatura peregrina encontra Deus e nele repousa de modo

firme e estável, sentindo-se feliz e realizada. A alegria desse encontró deve

ser experimentada, pois escapa á descricao de discursos humanos. Seja ouvi-

do, porém, o testemunho de Thomas Merton, que, urna vez convertido, se

fez monge trapista:

"Estava entre as quatro paredes de minha nova Hberdade. Era livre.

Pertencia a Deus e nao mais a mim mesmo, e pertencer-lhe é ser fivre'."

(Mesquita.p. 17).

Henri Bergson, o judeu que se aproximou muito intimamente do Ca

tolicismo, dizia que o Santo é o verdadeiro super-homem, do qual Nietz- sene só nos mostrou a caricatura. Tal predicado já permite imaginar a gran

deza, em tudo, inclusive em satisfacáo e seguranca, desse super-homem.

*

*

Ñas páginas deste artigo, procuramos reproduzir o teor de um capí

tulo do livro do Prof. Luiz José de Mesquita. O leitor poderá depreender a densidade e o valor da obra em pauta. Aborda magistralmente um dos te

mas mais vivenciais e complexos da mensagem crista: teología, filosofia, psicologia se entrelacam nessa explanacáo que por certo abrirá novos hori zontes e iluminará pontos obscuros na mente do estudioso que a ele se

dedicar.

APÉNDICE

1. Eis algumas das proposicSes condenadas pelo Syllabus:

"2. Deve-se negar toda acao de Deus sobre os homens e sobre o

mundo.

"3. A razio humana 6 o único arbitro do verdadeiro e do falso, do

bem e do mal, sem qualquer consideracSo a Deus. E/a é leí para si mesma

e, por suas capacidades naturais, basta para prever ao bem dos homens e

dospovos.

464

33

"PORQUECRER?"

4. Todas as verdades religiosas derivam da natural capacidade da razio

humana;dondeserarazioanormaprímeirapelaqualpodeedeveohomem

alcanzar todo género de qualquer verdade.

5. A revelacio divina ó imperfeita e, por isso, sujeita a continuo e in

definido progresso, que corresponde ao progresso da razio humana.

6. A fé crista se opde á razio humana; e a revelacio divina nao só de

nada vale, mas também prejudica aperfeiciohumana.

7. As profecías e os milagros expostos e narrados ñas Sagradas Escritu

ras, sao f¡cedes poéticas, e os misterios da fé Cristi urna suma de elucubra-

cSes filosóficas; e o conteúdo de ambos os Testamentos um inventarío de

mitos;e o próprioJesús Cristoé urna ficcSo mítica.

8. Como a razio humana se equipara é própria religiio, por isso as dis

ciplinas teológicas devem ser tratadas do mesmo modo que as filosóficas.

9. Todos os dogmas da religiio crista sao, indiscriminadamente, obje

to da ciencia natural ou filosófica; e a razio humana com suficiente cultura

histórica, porsuas naturais torcas e principios, alcanca a verdade de todos os

dogmas, aínda os mais recónditos, desde que eles sejam propostos como

objeto de sua considerado".

(Ver Denzinger-Schonmetzer, Enquirídio

n9 2902-2909)

2. Do decreto Lamentabili, á guisa de exemplos, extra irnos as seguin-

tes proposicoes condenadas:

"20. A revelacio nao pdde ter sido outra coisa senio a consciéncia

adquirida pelo homem de sua relacSo com Deus.

21. A revelacio, que constituí o objeto da fé católica, nio fícou encer

rada com os apostólos.

22 Os dogmas que a Igreja propoe como revelados, nao sao verdades

de origem divina, mas urna certa interpretacao do fato religioso, que a mente

humana conseguiu com seu trabalhoso esforco.

25. 0 assentimento da fé se assenta, em última anélise, num conjunto

de probabilidades.

465

(continua na p. 455)

Missas "Comunitarias":

Esportillas "Coletivas"

de S. Missa

Em 5 mtese: As espártalas de S. Missa, legítima colaboracio dos fiéis

no sustento das obras da Igreja, significan) afee o devotamento dos respec

tivos doadores; estes, participando mais intensamente da celebracSo da Mis

sa mediante a sua oferta material, tém direito a formular urna ou mais inten-

coespetasquaisdeve seraplicadaa Missa.

A fim de.evitar abusos a respeito, a S. Sé estipufou que o montante da

espórtula seja definido porcada Bispoparaasua dioceseenSo sejalicitore-

ceber mais de urna espórtula por urna S. Missa. Últimamente, na falta de sa cerdotes para atender a todos os pedidos de Missa, tém-se celebrado Missas

comunitarias: cada um dos interessados formula as suas intencoes e oferece

a quantia que desoja. Visto, porém, que a quantiaassimarrecadadapodeul- trapassar o teor da espórtula oficial, a Santa Sé determinou que, em tais ca sos, ao sacerdote toca apenas o montante correspondente á espórtula oficial;

o excedente sé/a entregue á Curia Diocesana. Além disto, um Decreto da

CongregacSo para o Clero, datado de 22/02/91, determina quesomente duas

vezes por semana é permitido celebrar Missas comunitarias em cada paró-

quia.

*

*

*

Aos 22/02/1991 a Santa Sé, mediante a CongregacSo para o Clero,

promulgou um Decreto referente ás esportillas de S. Missa: tem em vista

principalmente a prática da "¡ntencao coletiva", segundo a qual se celebra

urna so S. Missa por diversas intenpoes indicadas por fiéis que, para tanto, doam urna pequeña quantia de dinheiro.

As determinacóes da Santa Sé tém importancia, pois se destinam a

evitar mal-entendidos e abusos que nao raro ameacam o uso do dinheiro.

Eis por que publicaremos o texto do Decreto precedido de esciarecimentos

necessários á melhor compreensao do assunto.

1. Esportillas: que sao?

A S. Missa é a perpetuacao do sacrificio do Calvario sobre os nossos al

tares. É Cristo quem se oferece sacramentalmente ao Pai com a sua Igreja,

466

35

ESPÓRTULAS COLETIVAS DE MISSA

para que esta possa participar da oblacao de Jesús. A Missa assim celebrada

obtém frutos e grapas em favor dos fiéis. Essas grapas sao distribuidas a cada um de acordó com o seu grau de participacao na oferenda a Cristo; tal parti- cipacao implica fé e devotamente) da parte do cristao.

Para exprimir essa atitude interior, amigamente os fiéis, antes de sair de casa para a Missa, iam buscar na sua dispensa o pao e o vinho necerssários

á celebracao e os levavam solenemente ao altar no momento do Ofertorio.

Além do pao e do vinho, que eram consagrados, tornándose o Corpo e o

Sangue de Cristo, os fiéis costumavam levar ao altar dádivas natur'ais (óleo,

),

frutas, leite, mel, cera

que serviam ao sustento da igreja e dos pobres da

comunidade. O pao e o vinho, pela consagrapao, se tornavam o sacramento

do Corpo e do Sangue do Senhor, ao passo que as outras dádivas eram ben- tas logo antes do Pai-Nosso e, depois da Missa, distribuidas em refeipao fra terna (ágape). Com o tempo, as dádivas naturais foram substituidas por di- nheiro (elemento mais funcional), que, a seu modo, devia exprimir o desejo, dos fiéis, de participar, com fé e amor, do sacrificio de Cristo. Finalmente o

dinheiro passou a ser oferecido fora da Missa, como hoje acontece; é a cha

mada "espórtula", que nao é prego do culto sagrado, mas continua sendo o

símbolo da fé e da devopao com que um cristao deseja participar do Sacri

ficio Eucaristico.

Ao ofertar a espórtula, o fiel expressa o seu desejo de entrega ao Pai com Cristo ou a sua participadlo na oblapao de Cristo; conseqüentemente pode indicar urna ou mais intenpoes pelas quais deseja que se aplique a Mis sa. Esta prática é assaz antiga e contribuí para a manutenpao da paróquia

e de suas obras.

A fim de evitar qualquer abuso, a S. Sé houve por bem regulamentar a praxe das esportillas nos seguintes termos:

1) O montante da espórtula de Missa é estipulado por cada Bispo dio cesano para a sua diocese; ao sacerdote nao é licito fugir desta norma;

2) A urna espórtula corresponde urna Missa. Nao é permitido receber

mais de urna espórtula por urna só Missa.

Acontece, porém, que nos últimos tempos há grande número de fiéis

a pedir a celebraplo de Missas e insuficiente número de sacerdotes para Ihes

atender individualmente. Por isto em varias igrejas se introduziu a seguinte prática: varios fiéis podem solicitar a celebracao de urna Missa, indicando

cada qual a sua intencáo e dando quantia inferior á da espórtula. Tem-se

assim o que se chama "espórtula coletiva" e "Missa comunitaria". A soma

467

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 353/1991

36

de dinheiro assim arrecadado pode ultrapasar o valor da espórtula tabelada pelo Bispo; em tal caso, nao é lícito ao sacerdote ficar com todo o dinhei

ro; guarde apenas a cota correspondente á espórtulae entregue o excedente

a Curia Diocesana, para que o Bispo aplique essa quantia em beneficio das

obras diocesanas mais carentes (Seminario, paróquias, movimentos pasto-

rais

);

ver PR 220/1978, pp. 164-173, artigo que expóe minuciosamente a

historia,o sentidoea regulamentacao dasespórtulas.

Ora as disposicoes de ordem jurídica relativas ás espórtulas de Missa

receberam ulteriores precisoes mediante o Decreto da Congregacao para o Clero datado de 22/02/1991, cujo texto é o seguinte:

2. O Decreto da Santa Sé

"É costume constante na Igreja -

como escreve Paulo VI no Motu

Proprio1 FIRMA IN TRADITIONE - que os fiéis, impelidos pelo seu senti

do religioso, queiram trazer, em vista de urna participacao mais ativa na cele

brado eucarfstica, a sua colaboracao pessoal, contribuindo assim para as

necessidades da Igreja e, de modo particular, para o sustento dosseus minis

tros (AAS, vol. 66 [1974], p. 308).

Amigamente esta colaboracao consistía prevalentemente em ofertas de

géneros; nos nossos tempos, ela tornou-se quase exclusivamentepecuniaria.

Mas as motivacoes e as finalidades da oferta dos fiéis permaneceram iguais e foram sancionadas também no novo Código de Direito Canónico (cf can

945, § 1; 946).

Já que a temática se refere diretamente ao augusto Sacramento, qual-

quer mínimo indicio de lucro ou de simonia causaría escándalo. Por isso a

Santa Sé tem sempre seguido com atencao o evoluir desta piedosa tradigao, intervindo oportunamente para cuidar das su as adaptacSes ás mudancas de

situacoes sociais e culturáis, a fim de prevenir ou corrigir, onde seja necessá- rio, eventuais abusos conexos com taisadaptacoes (cf. can. 947 e 1385).

Últimamente, de fato, muitos Bispos dirigiram-se á Santa Sé para

obter esclarecimentos quanto á celebracao de santas Missas por intencoes

chamadas coletivas segundo urna praxe bastante recente.

1 Motu proprio é expressao/atinaquesignifica "porprópriomovimento"

ou "por própria iniciativa". Designa qualquer ato legislativo elaborado e promulgado pelo Sumo Pontífice por sua própria iniciativa ou sem que te- nhasidosolicitado.

468

37

ESPÓRTULAS COLETIVAS DE MISSA

É verdade que desde sempre os fiéis, especialmente em regioes mais

pobres económicamente, costumam levar ao sacerdote ofertas modestas, sem pedirem expressamente que, por cada urna destas, seja celebrada urna

Missa segundo urna ¡ntencáo particular. Em tais casos é lícito unir diversas

espórtulas para celebrar tantas santas Missas quantas correspondem á taxa diocesana.

Os fiéis, de fato, sao sempre livres para unir as suas intenpoes e ofertas

na celebrapao de urna única Missa por essas intencoes.

Bem diverso é o caso daqueles sacerdotes que, recolhendo indistinta

mente as ofertas dos fiéis, destinadas á celebracao de santas Missas segundo as intencoes particulares, as acumulam numa só espórtula e Ihes satisfazem

com urna única santa Missa, celebrada segundo urna intencao chamada pre

cisamente "colét¡va".

Os argumentos a favor desta nova praxe sao especiosos e dissimulado

res, quando nao refletem também urna eclesiologia errónea. De qualquer modo, este uso pode comportar o risco grave de nao satisfazer a urna obriga- cao de justica para com os doadores das espórtulas e, com o passar do tem-

po, de debilitar progressivamente e de extinguir completamente no povo

cristSo a sensibilidade e a consciéncia quanto á motivacao e á finalidade da

espórtula para a celebracao do santo Sacrificio, segundo as intencoes parti

culares; alen disto, podem privar os ministros sagrados que ainda vivem des-

tas ofertas, de um meio necessário para o seu sustento, e subtrair a mu ¡tas

Igrejas particulares os recursos para a sua atividade apostólica.

Portante, em execucao do mandato recebido do Sumo Pontífice, a Congregacao para o Clero, em cuja competencia se acha a disciplina desta delicada materia, realizou ampia consulta, ouvindo também o parecer das

Conferencias Episcopais. Após atento exame das respostas e dos varios as pectos do complexo problema, em colaboracao com os outros Dicastérios

interessados, a mesma Congregacüo estabeleceu quanto segué:

Art. 1

S 1. Nos termos do can. 948: Devem aplicar-se Missas distintas na in-

tencáo de cada um daqueles pelos quais foi oferecida e aceita urna espórtu

la, mesmo pequeña. Por isso, o sacerdote que aceita a espórtula para a cele bracao de urna santa Missa por urna intenpao particular, deve ex iustitia satisfazer pessoalmente á obrigacao assumida (cf. can. 949), ou confiar a outro sacerdote a celebracao, segundo as condicSes estabelecidas pelo direi-

to (cf. cánn. 954-955).

469

"PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 353/1991

38

§ 2. Violam esta norma a assumem a relativa responsabilidade moral,

os sacerdotes que acumulam indistintamente espórtulas para a celebracao de

Missas segundo intencoes particulares e, unindo-as numa única espórtula sem o conhecimento dos ofertantes, satisfazem-lhes com uma única Missa cele

brada segundo uma ¡ntenclo chamada coletiva.

Art. 2

§ 1. No caso em que os ofertantes, advertidos de maneira previa e ex

plícita, consintam livremente em que as suas espórtulas sejam acumuladas

com outras numa única espórtula, pode-se satisfazer-lhes com uma só santa

Missa, celebrada segundo uma única ¡ntencao coletiva.

§ 2. Neste caso, é necessário que seja indicado publicamente o lugar e

o horario em que essa santa Missa será celebrada, nao mais do que duas vezes

por semana.

§ 3. Os Pastores, em cuja Diocese sé verificam estes casos, déem-se

conta de que este uso, que constituí uma excepcao em vigor pela lei canóni ca, no caso de se ampliar excessivamente — mesmo com base em idéias erró

neas sobre o significado das espórtulas para as santas Missas - deve ser con

siderado uní abuso. Poderia progressivamente gerar nos fiéis o desuso de fa-

zer ofertas para a celebracao de Missas distintas, segundo intencoes particu

lares, extinguindo assim um antiqüfssimo costume, salutar para as almas sin

gularmente e para a Igreja inteira.

Art. 3

§ 1. No caso considerado no § 1 do art. 2, ao celebrante náoé lícito

reter para si únicamente a espórtula estabelecida na Diocese (cf. can. 950).

§ 2. A soma excedente á espórtula determinada pela Diocese deve ser

entregue ao Ordinario, de que fala o can. 951 § 1, o qual o destinará aos fins

estabelecidos pelo Direito (cf. can. 946).

Art. 4

Especialmente nos Santuarios e nos lugares de peregrinacao, aonde ha- bitualmente afluem numerosas ofertas para a celebracao de Missas, os Reito-

res, onerata contcientia, devem atentamente vigiarpor que sejam aplicadas á

risca as normas da lei universal nesta materia (cf. principalmente os can.

954-956) e as do presente Decreto.

470

ESPÓRTULAS COLETIVAS DE MISSA

Art. 5

§ 1. Os sacerdotes que recebem esportillas maiores para celebracao de

Missas segundo intencóes particulares, por exemplo, na Comemoracao dos

Fiéis Defuntos, ou noutras particulares circunstancias, nao podendo satisfa- zer-lhes pessoalmente dentro de um ano (cf. can. 953), em vez de as rejeitar,

frustrando a piedosa vontade dos ofertantes e removendo-os do louvável

propósito, devem transmití-las a outros sacerdotes (cf. can. 955) ou ao pró- prio Ordinario (cf. can. 956).

§ 2. Se nessas ou semelhantes circunstancias se configurar quanto é descrito no art. 2 § 1 deste Decreto, os sacerdotes devem ater-se ás disposi-

coes do art. 3.

Art. 6

Aos Bispos diocesanos incumbe de modo particular o dever de fazer com que, com prontidao e tomem conhecimento destas normas, e de vigiar por que elas sejam obser vadas.

clareza, tanto o clero secular como o religioso

Art. 7

É preciso, contudo, que também os fiéis sejam instruidos sobre esta

disciplina, mediante urna catequese específica, que deve em primeiro lugar

abranger:

a) o alto significado teológico da espórtula dada ao sacerdote para a

celebracao do sacrificio eucarístico, a fim de prevenir sobretudo o perigo de

escándalo por causa de urna especie de comercio com as coisas sagradas;

b) a importancia ascética da esmola na vida crista, ensinada por Jesús

mesmo, pois a espórtula oferecida para a celebracao de Missas é urna forma

excelente de esmola;

c) a partilha dos bens, pela qual, mediante as espórtulas para a cele

bracao de Missas, os fiéis concorrem para o sustento dos ministros sagrados e para a realizacao de atividades apostólicas da Igreja.

471

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 353/1991

40

O Sumo Pontífice, no día 22 de Janeiro de 1991, aprovou de forma es

pecífica as normas do presente Decreto, e ordenou que fossem promulgadas

e entrassem em vigor.

Roma, da sede da Congregacao para o Clero, 22 de fevereiro de 1991.

Conclusao

Do texto transcrito depreende-se que

Antonio Card. INNOCENTI

Prefeito

+ Gilberto AQUSTONI

Areabitpo Titular da Caerle

Secretario"

1) todo fiel tem direito á Missa "individual", se a deseja;

2) -as Missas Comunitarias so podem ser celebradas duas vezes por

semana;

3) em tal caso, o celebrante guarda a quantia correspondente a urna

espórtula de Missa na respectiva diocese e entrega o restante á Curia Dioce

sana.

Tais normas, sabias e prudentes como sao, dissipam mal-entendidos

e evitam abusos.

*

*

*

(contínuafio da p. 479)

tos de representacao ativa e passiva. O Estado do Vaticano é instrumento desse Governo Central, que pode deixar de existir entre 1870 e 1929, sem que a Santa Sé deixasse de existir e ter sua representacao diplomática.

3) Urna coisa sao as relacóes religiosas com o povo judeu; outra sao as

relacoes políticas com o Estado judeu ou de Israel. Aquetas tém progredido

no sentido de aproximacao benévola; estas seguem outros ritmos por moti

vos jurídicos, de tal modo, porém, que o relacionamento religioso nao seja

prejudicado.

O público em geral encontrará na Declaracao oficial transcrita nestas páginas as luzes necessárias para julgar a questSo das relacoes entre a Santa

Sé e o Estado de Israel.

472

Por que nao?

Santa Sé: Relagóes Diplomáticas

com Israel?

Em síntese: Trespontos confusos sao elucidados numa importante de-

claracao da Sala de Imprensa da Santa Sé redigida em resposta aqueles que

desejariam houvesse relacoes diplomáticas entre a Santa Séeo Estado de Is

rael: 1) Distingam-se reconhecimento de um Estado e retacees diplomáticas

com este Estado (a Santa Sé reconhece o Estado de Israel, mas nSo tem rela

coes diplomáticas com o mesmo por causa de problemas até boje existentes

desde a fundacio do Estado de Israel; tratase principalmente de definir asi-

tuacao dos palestinos e dos crístaos dentro do novo Estado); 2) Distingam-se

a Santa Sé e o Estado da Cidade do Vaticano (aque/a personifica o Governo

central da Igreja com seu direito a representacio diplomática, so passo que o Vaticano é instrumento desse Governo central); 3) Distingase entre relacoes religiosas e relacoes políticas (aquetas viobem entrea Santa Séeo povoju-

deu, ao passo que estas se acham estagnadas, visto que o Estado de Israel aíndanSo resolveuproblemas importantesparaa Igreja).

*

*

*

O confuto no Golfo Pérsico em janeiro-fevereiro de 1991 posa Igreja

frente a questoes de paz internacional. Estavam em litigio cristios, mucul-

A Santa Sé nao podia nem devia tomar partido, visto que a

manos e judeus.

sua missao é de paz e fraternidade entre os homens. Nao obstante, sofreu

pressáo por parte de ¡udeus e nao judeus para que "reconhecesse o Estado

de Israel", dado que até hoje nao há relacóes diplomáticas entre a Santa Sé

e o Estado de Israel.

Visto que no grande público as idéias nem sempre estao claras a respei-

to, abordaremos o assunto ñas páginas subseqüentes, transmitindo a resposta

oficial da Santa Sé ás interpelacóes a ela dirigidas.

Antes do mais, porém, consideremos os termos do problema.

1. Os termos do problema

Pouco antes do inicio da guerra do Golfo (17/01/91), a comunidadé

judia de Roma emitiu urna Nota, na qual se lia:

473

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 353/1991

42

"Como irmSos em Abraio e, por conseguíate, com sentímento de paz para com todos os filhos de Abraio — muculmanos, cristaos e ¡udeus —, jul-

gamos ter chegado o momento oportuno para que o Sumo Pontífice reco-

nheca o Estado de

da paz

Israel, dando assim a contríbuicáb da Santa Sé á causa

A comunidade judia considera insustentável no plano político e nao

justificada no plano moral a posicSó da Santa Sé, que nao reconhece o Esta

do de Israel. Quarenta anos após a fundafio deste, a Santa Sé e Joao Paulo

, // evitam até pronunciar o nome desse Estado. Por isto muitos ¡udeus acham que a Santa Sé nao reconhece o Estado de Israel por causa de um preconcei-

to teológico. * Apesar desta atitude preocupante, eremos no sincero desojo,

do Papa, de contribuir para urna paz verdadeira e justa no Oriente Medio".

A televlsao italiana, em alguns de seus debates, fez ressoar as mesmas

observacSes. Até mesmo alguns deputados italianos postularam o estabeleci-

mento de relacoes diplomáticas entre a Santa Sé e o Estado de Israel.

Mais: no domingo 27 de Janeiro, por ocasiao da recitagao do Ángelus

(ao meio-dia), cerca de quinhentos judeus, portadores do kippa,2 foram á

Praca Sao Pedro manifestar a reivindicagáo de relacoes diplomáticas entre a Santa Sé e Israel; traziam bandeirinhas do Estado de Israel e faixas ñas quais se lia SHALOM (Paz). O Papa Joao Paulo II, cíente disto, chegou-se á

janela de seu aposento e ¡mprovisou a resposta: ''SHALOM significa Paz.

Desejo esta Paz para o vosso povo e para o Estado de Israel".

Tal pressionamento levou a Santa Sé a emitir urna Declaracao expli cativa, assinada pelo Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, o Sr. Joaquim Navarro-Valls. Tal Declaracao, publicada em italiano no Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé, nao foi transcrita pelo jornal L'OSSERVATORE RO MANO. Veio publicada em francés no periódico LA 0OCUMENTATI0N

CATHOLIQUE de 3/3/1991, n?2023, pp. 224-226; deste documentarlo foi

traduzidá para o portugués, como se pode ler abaixo.

2. A Declarapao da Santa Sé

"Já em tempos passados, mas principalmente nos últimos dias, vem-se

1 Preconceito teológico seria urna aversao dos católicos aos judeus tidos co

mo povo incrédulo, apóstata, indigno de Deus, etc. - Tal preconceito nSo

existe ñas Declarares da Igreja, como se evidenciará ñas páginas subseqüen- tes. (Nota da Redacio).

2 Barrete que cobre a parte superior da cabeca.

474

SANTA SÉ E ISRAEL

43

notando na opiniao pública urna certa confusáo a respeito da questao das re

lapoes entre a Santa Sé e o Estado de Israel.

I. Reconhecimento de um Estado a relacoes diplomáticas

A primeira confusáo ocorre entre 'reconhecimento de um Estado' e

'estabelecimento de relapoes diplomáticas' com esse Estado.

A propósito faz-se mister consultar um bom tratado de Direito Inter

nacional para se perceber a diferenpa.

1.1. Reconhecimento do Estado de Israel

O fato de que nao existem relapoes diplomáticas entre a Santa Sé e o

Estado de Israel nao quer dizer que a Santa Sé nao reconheca o Estado de

Israel.

a) É preciso que fique claro que a Santa Sé nunca questtonou a exis

tencia do Estado de Israel após a proclama?ao de sua independencia.

Entre os testemunhos disto, notem-se os seguintes:

- Foi reconhecida urna delegacáo israelense1 entre os delegacoes ofi

ciáis enviadas aos funerais de Pío XII, á abertura e ao encerramento do Con cilio do Vaticano II, aos funerais do Papa Joao XXIII e á inaugurapao oficial

do pontificado de S. Santidade o Papa Joao Paulo II;

- O encontró do Papa Paulo VI com o Presidente do Estado de Israel em Meghiddo na Samaría, por ocasiao da viagem á Térra Santa (Janeiro de

1964);

- As visitas ao Vaticano de personalidades do Governo israelense:

1969, Abba Eban, Ministradas Relapoes Exteriores.

1973, Golda Meir, Primeira-Ministra, 1975, Moshe Kol, Ministro do Turismo,

1978, Moshe Oayan, Ministrodas Relacoes Exteriores,

1982, Isaac Shamir, Ministro das Relapoes Exteriores, 1985, IsaacShamir, Primeiro-Ministro.

1 Distingam-se os termos israelense e israelita. Aquele designa os cidadaos

do Estado de Israel; este designa os fílhos de Israel, qualquer que se/a a sua

cidadania.

475

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 353/1991

44

- Os contatos regulares com o Embaixador israelense junto ao Gover-

no da Italia, e os da Delegacao Apostólica em Jerusalém com o Ministro das

Relacóes Estrangeiras. A propósito, pode-se salientar que aos 16/10/1990,

Mons. Andrea Cordero Lanza de Montezemolo, Delegado Apostólico em Je

rusalém, foi visitar, no inicio do seu mandato, o Dr. Herzog, Presidente de

Israel;

- As numerosas referencias do S. Padre ao Estado de Israel: na ¡mensa

maioria das. ¡ntervencoes do Santo Padre concernentes aos problemas da Térra Santa e do Oriente Medio, é mencionado o Estado de Israel e faz-se re

ferencia ao Estado de Israel e á sua exigencia de seguranea. A título mera mente indicativo, abrangendo um longo período da historia, podemos citar:

A homilía do S. Padre em Otranto (05/10/1980): "O povo judeu, após

experiencias trágicas, associadas ao exterminio de tantos de seus filhos e f¡-

Ihas, levado pela angustia de seguranca, deu origem ao Estado de Israel";

A CartaApostólica Redemptionis Anno (20/04/1984):" Para o povo

¡ude'u que vive no Estado de Israel e que naquela térra conserva testemunhos

tao preciosos da sua historia e da sua fé, devemos invocar a seguranca deseja-

da e a justa tranqüilidade, que sao as prerrogativas de cada nacao e as condi-

cóes de vida e de progresso de toda e qualquer sociedade";

A alocucao aos chefes da comunidade judaica de Miami (11/09/1987):

"Após o exterminio trágico da Shoah (Holocausto) o povo judeu comecou

urna nova fase de sua historia. Como toda nacao civil, ele tem direito a urna

patria, segundo a lei internacional. Para o povo judeu, que vive no Estado

de Israel ";

Discurso ao Corpo Diplomático (12/01/1991): "Para garantir, ao mes- mo tempo, ao Estado de Israel as justas condicoes de sua seguranca ";

Na audiencia geral de 23/01/1991: "Exprimo particularmente a minha

solidariedade com aqueles que, no Estado de Israel, sofrem lamentáveis bombardeios".

b) Poda-se-ia dizer que se trata apenas de reconhecimento implicito,

Mas na praxe internacional, na maioria dos casos, o reconhecimento de um

Estado se faz implicitamente e nao há necessidade, segundo o Direito, de de-

claracoes solones e explicitas.

476

SANTA SÉ E ISRAEL

45

1.2. Relacóes diplomáticas

As relacoes diplomáticas sao outra coisa e dependem de um conjunto

de circunstancias e ponderacoes.

Tais relacóes sao voluntarias e, como afirma o Direito: "Nenhum Esta

do é obrigado

a entreter relacóes diplomáticas ou consulares com os ou-

tros" (Balladore Pallieri, Oroit International Public. Millo 1962, p. 338).

Se isto é verdade para os Estados, é mais aínda verdade para a Santa

Sé, que nao é um Estado, mas o Governo Central da Igreja Católica.

A Santa Sé, nao sendo um Estado, está presente na ONU somente co

mo observador; mas, mesmo que fosse um Estado, ficaria livre para entreter ou nao relapóes diplomáticas com determinado Estado.

Como se compreende, o caso de Israel nao é o único para o qual a

Santa Sé julgou oportuno esperar, antes de resolver estabelecer relacóes di

plomáticas formáis. Podem-se recordar, por exemplo, alguns casos mais espe-

taculares, nos quais, embora nao tenha havido relacóes- diplomáticas, teña

sido ou seria absurdo dizer que a Santa Sé nao reconhecia ou nao reconhece

o Estado:

- Tal é o caso da África do Sul e do reino da Jordania;

- É o caso do México e da URSS, com os quais há pouco comecou

um processo destinado a estabelecer relapoes diplomáticas formáis;

- Foi até o ano passado o caso da Polonia e de outros Estados da Eu

ropa centro-oriental;

- Com os Estados Unidos da América só há relacoes diplomáticas a

partir de época recente. Nao obstante, é evidente que a Santa Sé sempre re-

conhecera os Estados Unidos.

Para cada um desses casos, há ou houve motivos específicos, mas

essenciais para a Santa Sé; e, no tocante a Israel, certamente nao se trata de

razóes teológicas, mas de motivos jurídicos.

II. Santa Sé e Estado da Cidade do Vaticano

Urna segunda confusao que ocorre em diversos escritos destes últimos

tempos, está no uso das expressSes 'Santa Sé' e 'Estado da Cidade do .Vati

cano'.

477

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 353/1991

46

1. A Santa Sé é sujeito do Direito Internacional. É a personificado do

Governo central da Igreja e

sempre foi reconhecida, no decorrer da historia,

como sujeito de legacao ativa e passiva.

2. O Estado da Cidade do Vaticano é urna minúscula realidade territo

rial, cuja funcao é tornar possfvel ao Papa o exerci'cio do seu ministerio de

governar a Igreja universal.

Mesmo quando nao existia o Estado da Cidade do Vaticano, entre

1870 e 1929, a Santa Sé tinha relacoes diplomáticas com muitos Estados.

III. Dificuldades jurídicas

Dito isto, é notorio que existem até hoje dificuldades de ordem jurí dica para se estabelecerem oficialmente relacóes diplomáticas entre a Santa

Sé e o Estado de Israel. Com efeito; sao as dificuldades (aínda nao resolví- das) da presenca de Israel nos territorios ocupados e das relacóes com os pa

lestinos; sao as dificuldades decorrentes da anexao da Cidade Santa de Jeru-

salém como da situacao da Igreja Católica em Israel e nos territorios admi

nistrados por Israel.

IV. Dimensao religiosa e dimensao política

Urna terceira confusao que por vezes se verifica, é a que se faz entre a

dimensao religiosa e a dimensao política, entre as relacóes e a atitude da

Santa Sé e da Igreja frente ao judaismo e as relacoes entre a Santa Sé e o

Estado de Israel.

1. As relacoes inter-religiosas existem e se desenvolvem: em dezem- bro pp. foi celebrado pela Comissao para as Relacoes Religiosas com o Ju

daismo o 25? aniversario da Declaracao conciliar Nostra Aetate, com a par-

ticipacáo de representantes das grandes Organizares judaicas do mundo

inteiro.

Neste contexto é preciso situar a visita de S. Santidade á Grande Si nagoga de Roma, os encontros do Papa com grupos de judeus por ocasiao

de suas viagens apostólicas em muitos países, como também as Declara- coes da Santa Sé contra o anti-semitismo.

2. No tocante ao Estado de Israel, existe, da parte da Santa Sé, urna

atitude de profundo respeito, como existe para com todos os outros Esta

dos. Em particular, a Santa Sé considera que o Estado de Israel deve ser

protegido na sua existencia e seguranca, especialmente através da procura de acordos com os outros Estados da regiao.

478

SANTA SÉ E ISRAEL

47

A Santa Sé também sabe que, entre os judeus do mundo inteiro, é

particularmente importante o amor á térra dos pais e ao Estado de Israel.

Ela o compreende e respeita.

Mas a Santa Sé julga que o quadro do diálogo religioso e do respeito ao povo judeu e á sua historia deve ser distinto do quadro político. Isto é expresso claramente num importante documento, datado de 1985, da Co-

missao para as Relacoes Religiosas com o Judaismo. Af se lé:

'Os cristSos sao convidados a compreender este apego religioso dos

A existen cia do Estado de Israel e suas opcoes políticas devem ser consideradas nu- ma ótica que, como tal, nao é religiosa, mas está relacionada com os prín~

cfpios comuns do Direito Internacional'".

judeus á Térra Santa, que tem suas ratees na tradicao bíblica

3. Reflexao final

Importa frisar as tres confusSes freqüentemente cometidas pela opi-

niao pública e esclarecidas pelo texto da Santa Sé:

1) Reconhecer um Estado é urna coisa; outra é manter relacoes di*

plomáticas com esse Estado. - Ora a Santa Sé reconhece o Estado de Is rael, como demonstram sobejamente os fatos e dizeres citados. Mas nio

mantém relacoes diplomáticas com o Estado de Israel por razoes nao teo lógicas, mas jurídicas; certos problemas ainda nao resolvidos se opoem

a isto:

a) a situacao dos palestinos, que foram rechazados da Palestina e até

hoje estao sem habitat próprio, ficando, por vezes, sujeitos á administracao

¡sraelense;

b) as condicoes dos cristaos na Térra Santa, precarias e inseguras, a tal,

ponto que mais e mais emigram da Térra Santa, onde nasceram, para outros países;

c) o estatuto jurídico da Cidade Santa de Jerusalém, incorporada ao Estado de Israel, e sede do Parlamento Nacional (Kennesseth), sem que

se leve em conta o caráter singular e sagrado dessa cidade;

d) a delimitacao de fronteiras com os países vizinhos de Israel.

2) Urna coisa é a Santa Sé. Outra é o Estado da Cidade do Vaticano. A

Santa Sé é a personificscSo do Governo Central da Igreja Católica, com direi-

(continua na p. 472)

479

48

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 353/1991

Livro em Estante

SEXO: Bloqueios e Desbloqueios, por Freí Ovidio Zanini. — Bdicon,

Sao Pauto 7989, 140x2Wmm, 139pp.

Pódese dizer que este livro é urna colegio de receitas de gestos, posi-

coes e artificios eróticos destinados a excitar marido e mulher no seu

relacionamento mutuo. 0 autordeseea pormenores, por vezes, repugnantes,

tais como se encontrariam na literatura de mais baíxo cálao. Tudo, porém, é

apresentado em linguagem aparentemente piedosa, com chacóes freqüentes

do livro bíblico do Cántico dos Cánticos, com referencias á uniao de Cristo com a Igreja, a SS. Trindade, á presenca dos anjos e santos (cf. p. 121). Muí-

tiplicam-se os adjetivos para indicar a euforia de quem se dispóe a pratícar

atos sexuais, á semelhanca do que faria um adolescente imaturo e inexperi-

ente. 0 vocabulario chega a ser, muitas vezes, chulo e grosseiro. Além do qué, variasimagens acompanham o texto, reforjando o respectivo impacto.

O livro merece graves censuras nSo somente em nome da fé, mas a par tir das premissas mesmas da si razio. Com efeito.

1) o autor pretende respeitar a lei natural, mas favorece e recomenda o

sexo anal e bucal, como algo de sadio e válido. 0 criterio para orientar o comportamento sexual há de ser o prazer ou "aquilo de que cada qual dos dois consortes gósta"; cf. pp. 95-97. Nisto há contradicio, pois assim sao abonadas práticasantinaturais.

2) O namoro e o noivado parecem gozar de todos "os díreitos do cora-

cao", realizando atos e posturas provocadores que obviamente podem levar agraves deslizes; cf. pp. 59s.

3) "O corpo do(a) consorte é seu" (pp. 82-87). Esta frase, freqüente- mente repetida pelo autor, é pretexto para sugerir a coisif¡cacao do (a) con sorte. Cada qual tena o direito de exigir do parceiro as posturas e os gestos

mais humi/hantes que

/he agradassem, como se estivesse lidando com urna

misa ou um brinquedo. - Na verdade, o casamento dá direito á vida sexual,

sempre, porém, dentro dos limitesque o respeito e a dignidade impoem.

4) "O termómetro de um casamento ó a cama" (p. 96). Este axioma reduz a vida conjugal ao uso do sexo. Ora'pode e deve haver auténtico amor sem vida sexual, sempre que as contingencias (doencas, viagens, indisposi- ;)o samento é, sim, a capatídade de se doar com renuncia ao próprio eu, se

cóés

exijam, sem quebra da fidelidade conjugal. — O termómetro do ca

hecessário.

480

5) O livro jutga que as restricdes á excitacao sexual sao farisaicas

(p.90). - Na verdade, se nao exerce o controle dos impulsos, o ser humano fácilmente se torna besta impelida irracionalmente e degradase. Castidade é.

sim, o reto uso do sexo, mas com as cautelas devidas para que os impulsos cegos nio facam degenerar o uso em abuso. O próprio autor reconhece que

dentro do ser humano existe "um animal monstruoso" (p. 108). Ora este fá

cilmente prorrompe com violencia, se é excitado nos termos que Ovidio

Zanini preconiza.

67 O livro recorre a urna dialética sutil, com jogo de palavras e distin-

coessem fundamento real, para tentar tranquilizar os leitores incautos. — Es

te tipo de discurso, a apareada de piedade e a "empolgacao"com que o au

tor apresenta seus conselhos, intensificam a índole' nociva e francamente

condenável de tal obra. Em lugar desta, podem-se sugerir as de Joao

Mohana, sacerdote e médico, que, com igual conhecimento de causa, enea- minha seus leitores para sadio uso da sexualidade em plano francamente cris-

tao e digno. A Igreja sabe que a vida sexual é santificada pelo sacramento do

matrimonio, sacramento que exige do cristao a capacidade de amor abnega

do de que Cristo nos deixou o exemplo.

E.B.

RIQUEZAS NA MENSAGEM CRISTA (2? ed), por Dom Cirilo Folch Go

mes O.S.B. (falecido a 2/12/83). Teólogo conceptuado, autor de um tratado

completo de Teología Dogmática, comentando o Credo do Povo de Deus. promulgado pelo Papa Paulo VI. Um alentado volume de 700 p., best seller

de nossas Edicoes

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DIÁLOGO ECUMÉNICO, Temas controvertidos.

Sen Autor, D. Es té vio Bettencourt, considera os principáis pontos da clássi-

ca controversia entre Católicos e Protestantes, procurando mostrar que a dis-

cussao no plano teológico perdeu muito de sua razao, de ser, pois, nao raro,

versa mais sobre palavras do que sobre conceitos ou proposicoes - 380 pági

nas. SUMARIO: 1. O catálogo bíblico: livros canónicos e livros apócrifos —

2. Somente a Escritura? - 3. Somente a fé? Nao as obras? - 4. A SS. Trin-

dade. Fórmula paga? - 5. O primado de Pedro - 6. Eucaristía: Sacrificio e

Sacramento - 7. A Confissao dos pecados. - 8. O Purgatorio - 9. As indul

gencias - 10. María, Virgem e Mae - 11. Jesús teve irmaos? - 12. O Culto

aos Santos - 13. E as imagens sagradas? - 14. Alterado o Decálogo - 15. Sá bado ou Oomingo? - 16. 666 (Ap. 13.18) - 17. Vocé sabe quando? -

18. Seita e Espirito sectario - 19. Apéndice geral. - 304 págs

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P rojeto

PERGUNTE

E

RESPONDEREMOS

ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor

com autorizagáo de

Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb (in memoríam)

APRESENTAQÁO

DA EDIpÁO ON-LINE

Diz Sao Pedro que devemos

estar preparados para dar a razáo da

nossa esperanga a todo aquele que no-la

pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos

conta da nossa esperanga e da nossa fé

hoje é mais premente do que outrora, visto que somos bombardeados por

correntes religiosas contrarias á fé católica. Somos assim incitados a procurar consolidar

nossa crenga católica mediante um

aprofundamento do nosso estudo.

numerosas

e

filosóficas

Eis o que neste site Pergunte e Responderemos propóe aos seus leitores:

aborda

questóes

da

atualidade

controvertidas, elucidando-as do ponto de

vista cristáo a fim de que as dúvidas se dissipem e a vivencia católica se fortaleca

no Brasil e no mundo. Queira Deus

abengoar este trabalho assim como a

equipe de Verítatis Splendor que se encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Estevao Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Estevao Bettencourt e

passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual

conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e

Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.

A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaga depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e

zelo pastoral assim demonstrados.

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