direitos humanos

AUTORES: JOSÉ RICARDO CUNHA, CAROLINA DE CAMPOS MELLO E PAULA SPIELER

4ª edição

ROTEIRO De CURSO 2009.1

Sumário

Direitos Humanos
APRESENTAÇÃO.............................................................................................................................................................................03 Aulas...........................................................................................................................................................................................07 AULA 01: INTRODUÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS.............................................................................................................................08 Aula 02: Desenvolvimento histórico dos direitos humanos..................................................................................................15 Aula 03: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos................................................................................18 Aula 04: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos................................................................................26 Aula 05: Os tratados de direitos humanos e a Constituição Federal.....................................................................................30 Aula 06: Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos...............................................................................................................37 Aula 07: Sistema global: mecanismos convencionais e não-convencionais de proteção dos direitos humanos...............44 Aula 08: Sistemas regionais de proteção dos direitos humanos...........................................................................................49 Aula 09: Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos.........................................53 Aula 10: Sistema Interamericano de Direitos Humanos: Estudo de Caso...............................................................................58 Aula 11: Direito Internacional Humanitário e Direito Internacional dos Refugiados.......................................................62 Aula 12: Os direitos civis e políticos: direito à vida................................................................................................................74 Aula 13: Os direitos civis e políticos: direito à liberdade e integridade pessoal.................................................................91 Aula 14: Violência Urbana.........................................................................................................................................................96 Aula 15: Direitos humanos econômicos, sociais e culturais..................................................................................................99 Aula 16: A especificação do sujeito de direitos. Os direitos humanos sob a perspectiva de gênero................................. 104 Aula 17: Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente.................................................................................. 109 Aula 18: Os direitos humanos sob a perspectiva racial........................................................................................................ 114 Aula 19: Direitos Humanos e a questão indígena................................................................................................................... 122 Aula 20: Direitos Humanos e orientação sexual.................................................................................................................... 126 Aula 21: Teatro do Oprimido.................................................................................................................................................... 132 Aula 22: O papel da sociedade civil na promoção e proteção dos direitos humanos.......................................................... 135 Aula 23: Desenvolvimento e Direitos Humanos..................................................................................................................... 137 Aula 24: Tribunal Penal Internacional................................................................................................................................. 141 Aula 25: Direito Humano Pós-11 de setembro......................................................................................................................... 144

direitos humanos

APRESENTAÇÃO
1. Visão Geral

a) Objeto: O curso de direitos humanos tem por objeto a compreensão da realidade contemporânea (ser) por meio do estudo do marco normativo (dever ser) de tais direitos, seja no âmbito internacional, seja no nacional. Assim, o curso será organizado em quatro partes: 1) 2) 3) 4) Introdução ao Estudo dos Direitos Humanos; Proteção Internacional dos Direitos Humanos; Aspectos Sócio-Jurídicos dos Direitos Humanos; e Novos Temas e Novos Atores.

b) Metodologia: Elegeu-se a abordagem crítica como elemento permeador de todo o curso de Direitos Humanos. Procurou-se assim a utilização de diferentes métodos que representem um conjunto de possibilidades, tendo como ponto comum a efetiva participação do aluno. Atividades como role plays, estudos de casos, apresentação de seminários ou mesmo organização de uma oficina do Teatro do Oprimido são sugestões apresentadas como meios de interatividade dos alunos com o conteúdo apresentado. Dessa forma, o curso não se apresenta como uma unidade estanque, com conteúdo “engessado” no espaço e no tempo, mas com a fluidez necessária para a adaptação do programa às questões mais candentes em termos de direitos humanos. Ressalte-se ainda o caráter cooperativo do método que privilegia a interação entre alunos e professores. c) Bibliografia: O curso foi montado com base em temas, não em autores ou “escolas”, o que justifica a extensão da leitura indicada. Todavia, tendo em vista a necessidade de se estabelecer uma bibliografia básica para compor a biblioteca da Escola, foram indicados certos livros que permeiam, na medida do possível, todas as aulas. Sugere-se ainda a utilização de recursos virtuais como fontes de pesquisa, notadamente sites de órgãos e organizações nacionais e internacionais. É também descrita, em todas as aulas, a legislação vigente – sejam os tratados ou normas internas – necessária para a compreensão do assunto abordado.
2. Objetivos

Os principais objetivos do curso são: • • • Apresentar os conceitos fundamentais referentes a direitos humanos; Examinar violações de direitos humanos; Compreender os sistemas internacional, regional e nacional de proteção dos direitos humanos;
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b) Nota ao Aluno: trata-se do conteúdo mínimo que deve ser apreendido como leitura prévia à aula. e caberá ao professor a responsabilidade de incentivar o debate sobre os assuntos escolhidos. a legislação a ser consultada e os sites pesquisados. a postura crítica. Por meio da “problematização”. os alunos deverão apresentar os principais argumentos que fizeram do caso um paradigma na compreensão de determinado assunto. É importante ressaltar que tal atividade não se restringe à anunciação de uma resposta correta. FGV DIREITO rio 4 . Nesse sentido. As aulas serão variadas – algumas mais expositivas. a bibliografia obrigatória.direitos humanos • Municiar o(a) aluno(a) de instrumentos práticos para a intervenção no mundo contemporâneo. entre outros. Incentiva-se a participação dos alunos em todas as aulas. habilidades diversas serão avaliadas mediante a proposição de algumas atividades específicas: • • Nos role plays. são posturas a serem incentivadas nos alunos. ainda. A nota apresenta. é que estes se situem como partes de um processo histórico permeado de avanços e retrocessos. A contextualização da temática proposta. A atividade pretende incentivar o posicionamento crítico. A atividade pretende capacitar os alunos na compreensão de posições adversas em tribunais e despertá-los para a necessidade de se chegar a um resultado. Todas as aulas são compostas de duas partes: a) Nota ao Professor: trata-se de um roteiro sugestivo de pontos a serem abordados em sala de aula. serão apresentados posicionamentos a serem defendidos pelos alunos diante de uma situação hipotética. Do Material Didático O material didático do curso de Direitos Humanos foi elaborado de maneira flexível permitindo tanto ao professor quanto ao aluno a adaptação do programa a questões contemporâneas a sua implementação. os alunos serão convidados a não eternizar de forma acrítica entendimentos pré-estabelecidos e a desenvolver suas capacidades de análise e de prática engajada. Por meio de elementos como objetivo didático e objetivo programático. a criatividade e o respeito à opinião alheia. mas visa ainda ao estímulo à criatividade acerca de outras respostas possíveis. o(a) professor(a) contará com o apoio necessário naquilo que é considerado de maior relevância para a compreensão do assunto em pauta. o estabelecimento de link com assuntos correlatos. No Estudo de Caso. além de desenvolver a capacidade dos alunos de visualizarem o mundo que os circunda com a “lente” dos direitos humanos. outras mais abertas à participação e à discussão encadeada pelos alunos –. 3. característica essencial ao direito. O objetivo final do curso.

corre-se o risco de certa parcialidade na confecção desse material. Aponta-se.0 pontos). Não obstante a preocupação de se contemplar os temas mais atuais em direitos humanos. desde então. Ao não encontrar determinado tema entre os propostos neste material didático. Formas de Avaliação Os alunos serão avaliados com base em: a) Participação em aula. por meio de casos concretos. estudo de caso. Nesse sentido. o que não lhes confere papel de maior significado. Tradutori traditori. Tendo em vista a opção de contemplar temas e não autores.0 pontos). mister a escolha de conteúdos a serem priorizados em face de outros. 5. d) Prova final: escrita (10. Mesmo quando se referirem a temas considerados “clássicos” em direitos humanos. 2) determinação de uma decisão judicial. notadamente na “Unidade IV: Novos Temas e Novos Atores”. os alunos deverão apresentar um panorama geral sobre e determinada realidade e. Desafios e Dificuldades A riqueza dos assuntos e a complexidade do que se pretende alcançar com o curso de “direitos humanos” conduz à necessidade de um recorte temático.0 pontos). c) Avaliação formativa: prova escrita (5. 6. qualquer tentativa de se apresentar determinado aspecto virá acompanhada por alguma perspectiva subjetiva. a certeza de que a temática dos direitos humanos conterá sempre novos “capítulos” confere ao presente material didático uma configuração temporal. o leitor poderá concluir que a sua retirada foi alvo de debate por parte daqueles que contribuíram para a confecção das aulas propostas.direitos humanos • Nos seminários. Atividades Complementares Atividades em conjunto com outras disciplinas Encontra-se em estudo duas atividades a serem realizadas em conjunto com as disciplinas de Direito Civil (tópico sugerido: Direitos da Personalidade) e Direito Constitucional (tópico sugerido: Direitos Fundamentais). diagnosticar as respostas normativas possíveis. como indicativo de atividades: 1) escolha de um filme a ser debatido conjuntamente pelos três professores. seminários (5. 4. b) Atividades específicas: role plays. preferencialmente do FGV DIREITO rio 5 .

Universalidade X Relatividade. Fundação Bento Rubião. na medida do possível. Proteção na Constituição de 1988. Direitos Econômicos. Realização de Palestras As seguintes palestras serão realizadas em data marcada de acordo com a disponibilidade dos convidados e a conveniência da Escola. Projeto Legal. Perspectiva histórica. Proteção internacional. que também possa ser alvo de discussão conjunta pelos três professores. Direito Humanitário e Direito dos Refugiados. Violência. 7. Novos temas. Tortura Nunca Mais. Direito Internacional dos Direitos Humanos: Direitos Humanos. São Martinho. O papel da sociedade civil na proteção dos direitos humanos Sugere-se o convite a movimentos sociais e organizações não-governamentais que trabalhem na Advocacia em Direitos Humanos no âmbito nacional e internacional. Marcelo Freixo (Centro de Justiça Global). Instituto Pro-Bono. Direitos Civis e Políticos. Center for Justice and International Law (CEJIL). Viva-Rio. Julita Lengruber (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania – CESEC/Universidade Candido Mendes/RJ). Especificação dos sujeitos de direito.direitos humanos Supremo Tribunal Federal. Sociais e Culturais. Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). Polissemia conceitual. entre outros: Centro de Justiça Global. Novos atores. dentre outras. Comissão Pastoral da Terra (CPT). mantendo. O envolvimento das demais disciplinas é fundamental para demonstrar aos alunos como o instrumental que recebem em cada uma das disciplinas tornase ainda mais dinâmico ao dialogar com as demais. Idéia de gerações e suas críticas. FGV DIREITO rio 6 . Proteção Regional. João Ricardo Dornelles (Núcleo de Direitos Humanos do Departamento de Direitos da PUC-Rio). a consonância com as datas propostas no programa: A violência no Rio de Janeiro Sugere-se o convite a especialistas como Ignácio Cano (Laboratório de Análises da Violência – UERJ). EMENTA b) Tema: a) Tema: A disciplina Direitos Humanos. Principais documentos. FASE. entre outros.

Especificação do sujeito de direito: os direitos humanos sob a perspectiva de gênero. 5. 20. O papel da sociedade civil na proteção dos direitos humanos. Venezuela). Sistema Interamericano: estudo de caso (El Amparo Vs. Direito Humanitário e Direito dos Refugiados. 21. Direitos Humanos e a questão indígena. Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente. Da regionalização: introdução aos sistemas europeu. 24. 17. 2. Sistema global: mecanismos convencionais e extra-convencionais de proteção aos direitos humanos. UNIDADE 4: NOVOS TEMAS E NOVOS ATORES 22. 6. FGV DIREITO rio 7 . Tribunal Penal Internacional. Universalidade e relatividade cultural dos direitos humanos: conceitos. 4. Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos. sociais e culturais. 18. Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos. 25. Violência urbana. 15. 23. Direitos Humanos e orientação sexual. 8. 3. Teatro do Oprimido. Introdução aos direitos humanos: fundamentos e gramática. Direitos Humanos no contexto pós-11 de setembro de 2001. africano e americano. UNIDADE 2: A PROTEÇÃO INTERNACIONAL DOS DHs 7. 13. UNIDADE 3: ASPECTOS SÓCIO-JURÍDICOS DOS DHs 12. A Constituição Federal e a proteção dos direitos humanos. 14. Direitos Humanos e a questão étnica. 11. 10. Universalidade e relatividade cultural dos direitos humanos: role play. Desenvolvimento histórico dos direitos humanos. Os direitos civis e políticos.direitos humanos Aulas UNIDADE 1: INTRODUÇÃO AO ESTUDO DOS DHs 1. 16. Direitos Humanos econômicos. 19. Os direitos civis e políticos: role play referente ao direito à vida. Desenvolvimento e Direitos Humanos. 9.

A tragédia. A partir daí. esse menino de rua viu a mãe ser Acesso em: 21 de abril de 2005.direitos humanos AULA 01: INTRODUÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS NOTA AO ALUNO Para a primeira aula do Curso de Direitos Humanos. atirou na direção do seqüestrador. O filme relata o trágico seqüestro de um ônibus coletivo que resultou na morte da refém e do seqüestrador e foi destaque nos noticiário em 12 de junho de 2000. um plano aéreo mostra o belo percurso do ônibus que trafegava da Favela da Rocinha. o documentário consegue provocar suspense e nostalgia ao utilizar mais de 70 horas de imagens de TV. mas gerar discussão sobre o tema.com. que morreu por asfixia a caminho do hospital. levou a polícia do Rio a ser duramente criticada pela imprensa e pela opinião pública. que tirou o romantismo do “Dia dos Namorados” e durou quatro horas. espera-se uma reflexão acerca do seguinte ponto: O que existe em comum entre o filme “Ônibus 174” e os textos a seguir? ÔNIBUS 174 RELEMBRA TRAGÉDIA CARIOCA1 Vencedor do Festival Rio BR deste ano. Disponível em: http://cinema. revistas e notícias de rádio sobre o incidente. Um outro tiro acertou Nascimento. passando pelos cartões postais das praias de São Conrado e Vidigal e pela avenida Niemeyer até chegar ao Jardim Botânico. “Fizemos questão de manter a fidelidade e a cronologia do episódio. além de revelar uma extensa pesquisa com jornais.br/ficha/0. 1 FGV DIREITO rio 8 . “Nossa preocupação (no filme) não é a de apontar culpados nem soluções. o documentário Ônibus 174. explicou Padilha em entrevista recente à Reuters.00.. tentando salvar a refém. um policial. de José Padilha. O cuidado do filme em mostrar os dois lados da moeda aparece na entrevista com a tia de Nascimento. terra. revistas e artigos de Internet. que foi afastado da Política Militar por ter se colocado contra a ação policial no episódio que terminou com a morte da passageira Geísa Firmo Gonçalves e de Sandro Nascimento. O longa começa com o seqüestro e a partir dele inserimos depoimentos”.html. atirou contra a passageira.TICOI677-MNfilmes. Tudo isso é mesclado ao depoimento do ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais Rodrigo Pimentel.” Logo no início. Quando Nascimento resolveu se entregar e saiu do ônibus protegido por Geísa. mas (sim avaliar) o que motiva uma sociedade a agir dessa forma. apesar de a história ser conhecida do público. Por meio de textos extraídos de jornais. Mas errou o tiro e Nascimento. um dos seqüestradores. onde aconteceu a tragédia. Segundo o relato dela. Não podemos nos resumir ao ato do seqüestro. mostra a violência das ruas cariocas retratando um seqüestro verídico. conforme havia ameaçado. o aluno deverá assistir ao Filme “Ônibus 174” de José Padilha e ler os textos abaixo.

Índia e França. é a nova escravidão. como em Nova York e Los Angeles.direitos humanos assassinada a facadas quando tinha nove anos e mais tarde escapou de ser morto da chacina da Candelária – uma biografia dura e amarga. mostra quanto o seqüestro traumatizou os cariocas. que não pretendem de forma alguma esconder e amenizar os fatos.. naturalizado americano. Revista Isto É. orçado em 600 mil reais. Mas essa nova escravidão pouco tem a ver com nostalgias e atavismos do passado pré-abolição. a Justiça dos EUA condenou a seis anos e meio de prisão e indenização de US$ 110 mil o engenheiro brasileiro René Bonetti. como está crescendo. África e América Latina. O percurso ainda existe. que estudou o assunto no Brasil. há três mil escravas domésticas em Paris e a história se repete em Londres e Zurique. Alexandre Magno de Oliveira. 2 FGV DIREITO rio 9 . a resposta seria não.) Muito mais versátil e importante.. Cerca de um milhão de meninas com menos de 18 anos trabalha de graça como doméstica nas Filipinas. Continua tendo sentido falar de escravidão neste início do terceiro milênio? Para muitos sociólogos sérios. baseada na propriedade privada de uma pessoa. depois Comsat e depois o projeto Sivam. chocam ao demonstrar a real dimensão do ocorrido – ela sofreu um derrame durante o seqüestro e não consegue mais falar. COSTA. Tailândia. desarticulação das sociedades pré-capitalistas e ex-socialistas pela integração ao mercado mundial. fica a cargo de representar sua mulher no filme. acusado de manter por 20 anos a empregada doméstica Hilda Rosa dos Santos como sua escrava. onde oficialmente não há escravidão há muitos séculos. crescimento das migrações e redução ao absurdo. Mauritânia. O viúvo de Geísa. novas variedades resistentes a antibióticos aparecem onde menos se espera. Porém. geralmente com meninas compradas e às vezes até “adotadas” em países pobres da Ásia. Antônio Luiz Monteiro Coelho da. A escravidão chega ao Terceiro Milênio2 Em 14 de agosto. pré-capitalista. Paquistão. Segundo o sociólogo britânico Kevin Bales. Mas este “não” se refere à forma clássica do fenômeno. Ônibus 174. tal como consta nos livros de história e de economia política – um modo de produção tradicional. 16 de outubro de 2000. bem inserida no mercado pós-moderno e global e inteiramente criada e reproduzida pelas atuais condições da economia – desemprego tecnológico. a escravidão é como a tuberculose: todos pensavam que estava extinta nos países civilizados e em vias de desaparecimento em todo o mundo. Bonetti não é um senhor de engenho alagoano. mas o número da linha mudou de 174 para 158. mas um engenheiro eletrônico paulistano que emigrou para trabalhar na mais alta tecnologia: Intelsat. sendo capaz de se comunicar apenas por escrito. mas. de repente. (. legal e garantida pelo Estado. forma extrema de superexploração capitalista. Para Bales. numa definição mais ampla – escravidão como condição em que o trabalhador não recebe remuneração e sua vida é totalmente controlada por outros – não só é comum. hoje com 42 anos de idade. enquanto imagens da educadora Damiana Nascimento. porém.

a viabilidade do negócio passou a depender cada vez mais de trabalho gratuito. (. Voltando ao Brasil. vetando visitas de terceiros. Sua vinda resultou da combinação do colapso dos preços das commodities nos anos 80 e 90. higiene e segurança e cumprindo uma jornada que se estende noite adentro. junto com o acirramento da concorrência no setor têxtil resultante da abertura do mercado brasileiro às importações asiáticas (cuja produção freqüentemente também usa trabalho escravo ou semi-escravo). Recentemente.. O aumento da distância dos centros consumidores (metrópoles. bem como churrasqueira e talheres fundidos com o mesmo combustível. geralmente tecnologicamente atrasadas. costurando roupas vendidas nas melhores butiques e publicitadas pelos mais ousados outdoors pós-modernos. ganham cada uma cerca de US$ 50 mil por ano para seus “donos” mas nada para si mesmas. há uma boa probabilidade de estar usando carvão produzido por trabalho escravo. que destruiu a economia mineira boliviana.direitos humanos devido ao acirramento da concorrência pela globalização. da remuneração de atividades tradicionais. Bom Retiro e Pari. Isto inclui 50 mil nos EUA. proíbe-os de sair à rua e fecha-os dentro de casa. Assim se dá boa parte da produção de carvão vegetal. indústria siderúrgica) e com o menor preço e aumento da disponibilidade de combustíveis alternativos (carvão mineral. Se o trabalhador quer deixar o patrão que o trouxe.) Tráfico sexual. O colapso da URSS levou uma enxurrada de mulheres empobrecidas e desesperadas da Europa Oriental para trabalhar como escrava-prostitutas para o crime organizado nas capitais da Europa Ocidental. 35 mil prostitutas. A escravidão sexual é ainda mais característica do mundo pós-moderno. bem como moradia e alimentação. Segundo ela. mulheres e crianças. O patrão costuma exigir fidelidade de pelo menos um ano e às vezes retém seus passaportes. um dos casos de nova escravidão mais conhecidos é o das dezenas de milhares de trabalhadores (às vezes com suas famílias) aliciados por “gatos” no interior de Minas e do Nordeste e levados a empreendimentos em locais isolados para viver em condições precárias de habitação. mas os grandes mercados para esse tráfico são o Sudeste Asiático (250 mil) e a Europa Oriental (mais de 200 mil).. gás natural). Quando você faz um churrasco. sobretudo no Brás. envolvendo.. iniciando um processo de endividamento e dependência do qual nem todos conseguem se safar. Os gastos da viagem – cerca de US$ 150 – são pagos pelo empregador. No Brasil. há cerca de 100 mil imigrantes bolivianos que trabalham nas confecções de São Paulo. tornam-se devedores permanentes e trabalham por abrigo e comida. (. a secretária de Estado americana Madeleine Albright chamou a atenção para o tráfico escravo sexual como um dos empreendimentos criminosos que mais crescem no mundo. nas suas diversas etapas. um milhão de mulheres e crianças são vendidas por ano em todo o mundo por um total de US$ 6 bilhões. geralmente vendidas muito jovens por algo como US$ 2 mil. da guerra e das perseguições anti-semitas dos anos 1920. atividade tradicional deslocada para o Norte e Centro-Oeste pelo esgotamento das matas do Sudeste. Desconhecendo o valor das compras e o mecanismo de cálculo da produção.) Em São Paulo. Na Tailândia. este o considera um FGV DIREITO rio 10 . fundições. repetindo a triste odisséia das “polacas” espalhadas pelo mundo como conseqüência da derrocada econômica..

Foram noticiadas recentemente mais seis mortes por desnutrição em duas aldeias do povo Guarani Nhandeva da região do Sul do Mato Grosso do Sul. cobra as despesas da viagem ou o ameaça com o fantasma da Polícia Federal. de Acesso em 21 de abril de 2005. no Mato Grosso. a 150 km de Antonio João. estrutura de produção e de alimentos tem levado à morte de crianças indígenas. porém. como o dos bolivianos do Pari ou as trabalhadoras das subcontratadas da Nike na Indonésia.67 em 2004. A remuneração pode ser tão baixa quanto R$ 30 a R$ 50 mensais. de agosto a novembro. Foram seis mortes na terra indígena Dourados. Na terra retomada em outubro do ano passado e hoje ameaçada de reintegração. o número pode chegar a 200 milhões. a mortalidade infantil naquela área foi de 87. empresa que desde 1997 tem sido forçada por uma dura campanha de boicote e denúncias a reformular sua política de compras para oferecer melhores condições a fornecedores que tratam melhor seus empregados. poderiam ser chamados de semi-escravidão – empregos informais com remuneração muito baixa. desde o início de 2005. banana. paraguaios ou mesmo bolivianos. No ponto alto da produção para as vendas do Natal. sete dias por semana. arroz.direitos humanos “traidor”. jornadas extremamente longas. Parece que em vez de uma sociedade de lazer movida pelo trabalho de robôs. onde as carências de terra. chineses e outros – mantidos em condições semelhantes em vários trabalhos agrícolas. 3 FGV DIREITO rio 11 . o século 21 veio nos trazer a escravidão numa escala que a humanidade jamais conheceu.72 por mil nascidos vivos em 2001 e baixou para 41. tidos como mais “generosos” que seus concorrentes brasileiros. Nos EUA. o maior foco é a Ásia. e a morte de seis crianças com sintomas de desnutrição em aldeias do povo Xavante. industriais e de serviços. sem garantias trabalhistas e com moradia e alimentação controladas pelo empregador-. Se forem considerados casos que. nos dois primeiros meses deste ano. Segundo Kevin Bales. milho. nos municípios de Japorã e Eldorado. Ainda está próxima.br/site/noticias/15552. o cinema torna bem conhecida a situação de imigrantes ilegais – mexicanos. 27 milhões de pessoas vivem as várias formas de nova escravidão e o número está crescendo. onde trabalhadores superexplorados fabricam brinquedos. embora conste que os mais hábeis chegam a tirar R$ 400 mensais – ao menos com os patrões coreanos. Um caso notório é o dos pequenos empresários que no Sudeste Asiático fabricam tênis para a ultramoderna Nike. mas também nessa modalidade. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). à taxa de mortalidade de Dourados. a 570 quilômetros de Cuiabá. Disponível em: http://www. sob ameaça de coação física ou policial. Crianças indígenas morrem de desnutrição3 A violência de um despejo dos Guarani-Kaiowá seria reforçada pelo atual contexto do estado do Mato Grosso do Sul. o trabalho chega a se estender por 15 horas por dia. batata. têxteis e outros artigos de consumo baratos para todo o mercado global. bem mais do que a população inteira do Império Romano ou de qualquer sociedade escravista do passado.adital. mas ainda é insuficiente. na região de Campinápolis.com. feijão. os Guarani-Kaiowá de Nhande Ru Marangatu puderam voltar a produzir alimentos para subsistência. asp?lang=PT&cod=15552. como mandioca.

Alexandre Padilha. Os números da Funasa (Fundação Nacional de Saúde). 6% dos eleitores afirmaram que receberam oferta de vender o voto por dinheiro. Percentuais como estes se repetem em todas as aldeias do povo Guarani no Mato Grosso do Sul. que tem divulgado a média de desnutrição do Estado. Acesso em: 21 de abril de 2005. Entre os benefícios oferecidos está em primeiro lugar o dinheiro (56%). 23. Segunda Pesquisa Transparência Brasil sobre compra de votos em eleições populares 4 Pesquisa nacional sobre a prática de compra de votos. eram 56 por mil. Outras 52 crianças (20%) estão em situação de risco nutricional. dados da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) apontam que 47 das 256 crianças menores de 5 anos atendidas pela Funasa. Os dados da pesquisa indicam que uma série de conceitos sobre a compra de votos necessita de revisão: • • O nível de instrução do eleitor tem influência moderada sobre a oferta. realizada após as eleições municipais de 2000. mas a taxa é muito alta se comparada com o restante da população brasileira”. dos Guarani Kaiowá. A análise dos dados por aldeias mostra um quadro ainda mais preocupante do que aqueles apresentados pela Funasa. realizada pelo Ibope para a Transparência Brasil e a União Nacional dos Analistas e Técnicos de Finanças e Controle entre 14 e 17 de novembro de 2002. revelou que nas eleições de outubro/ novembro cerca de 3% dos eleitores receberam oferta de candidatos ou cabos eleitorais para vender o seu voto. responsável pela saúde indígena no Brasil. a média estadual não mostra que em Amambai. seguido de bens materiais (30%) e favores da administração (11%).direitos humanos 64 óbitos por mil crianças nascidas vivas. Disponível em: http:// www. Em 2004 atingimos a menor taxa de mortalidade infantil em povos indígenas. 4 FGV DIREITO rio 12 . Pesquisa realizada pelo Ibope em novembro de 2002 por Bruno Wilhelm Speck e Claudio Weber Abramo. Em pesquisa anterior deste gênero. No MS.2% das crianças desnutridas saíram dessa situação nos primeiros meses do ano. de 12% de desnutridos e 15% de crianças em risco nutricional. a desnutrição atinge 19% das crianças. Em 2002. De acordo com o diretor do Departamento de Saúde Indígena. ou 18% delas. de 47 por mil nascidas vivas. de no máximo 3%.pdf. demonstram que a preocupação sobre a alimentação e sobre as condições de vida das crianças indígenas não pode se restringir às aldeias de Dourados. “A situação ainda preocupa a todos e nós temos que manter a sociedade e a comunidade indígena mobilizadas para isso. por exemplo. sem contar os casos de risco nutricional. Em Antônio João. A média nacional é de cerca de 25 por mil. Também cresceu a distribuição de alimentos para os indígenas das aldeias da terra indígena Dourados. Assim. Desde a última semana. aldeias dos povos Terena e Kadiwéu têm um índice mais baixo de desnutrição. Os compradores de votos se dirigem igualmente a eleitores de todas as faixas de renda. tem a taxa em 17%. toda a direção da Funasa transferiu-se para o município e diversas equipes de médicos e nutricionistas passaram a atuar no local.org/tilac/ indices/ encuestas/dnld/compra_de_votos_brasil. A aldeia Tacuru. disse à Agência Brasil. apresentam desnutrição.transparency.

e não de uma série histórica sobre o mesmo fenômeno. Os eleitores com mais idade são menos sujeitos à oferta do que os mais jovens. Segundo a organização. os americanos já não podem mais reivindicar que estão defendendo os direitos humanos em outros países. 5 FGV DIREITO rio 13 . Da mesma forma como ocorreu no levantamento relativo às eleições municipais de 2000.uk/portuguese/noticias/ story/2005/01/050113_direitoshumanosro. em 2002 nivelou-se com a Sudeste. serviços públicos). as pesquisas da Transparência Brasil visam elaborar um indicador para acompanhar o fenômeno ao longo do tempo. Logo. Acesso em: 21 de abril de 2005.direitos humanos • • O fenômeno de oferecer algo em troca do voto independe da condição e do tamanho do município. A pesquisa referente à compra de voto nas eleições municipais se limitou às ofertas em dinheiro.shtml. a comparação entre as duas pesquisas relatadas referentes às eleições em 2000 e 2002 requer certo cuidado. Por outro lado. há diferenças mais significativas quanto à distribuição do fenômeno da compra de votos por idade do eleitor. e eleições estaduais e nacionais de outro. bbc. embora ainda com incidência do fenômeno. Há pouca diferença entre sexos. com os homens sendo ligeiramente mais assediados do que as mulheres. As maiores diferenças se dão entre as regiões do país (Gráfico 8). quando a pesquisa nas últimas eleições incluiu todos os tipos de troca oferecidos (dinheiro. no art. O código eleitoral de 1965 dispõe. afirmou a ONG de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch. a pesquisa revela que cerca de 3 milhões de eleitores receberam oferta de vender o seu voto. Observe-se que. Vale a pena lembrar que o código eleitoral define essa transação como crime. em 2002 as regiões Norte/ Centro Oeste mostraram-se as mais vulneráveis. se eles mesmos estão praticando abusos. bens materiais. Com todas as limitações. Disponível em: http://www. que a interferência de poder econômico e o desvio ou abuso de poder de autoridade serão coibidos e punidos.co. Porém. no Iraque. Eua estão minando direitos humanos no mundo. Sudeste e Sul mostram um quadro menos desfavorável. de um lado. A ONG cobrou a criação de uma comissão independente nos Estados Unidos para examinar o abuso de prisioneiros na prisão de Abu Ghraib. seguidas pelo Nordeste. mesmo que não aceita pelo eleitor. Trata-se em primeiro lugar de uma comparação entre eleições municipais. enquanto em 2000 a região Sul apresentou-se no mesmo nível do Nordeste. estamos diante de um universo de 3 milhões de infrações criminais ocorridas nas últimas eleições. O artigo 299 criminaliza a mera oferta de compra de voto. diz ong5 Violações dos direitos humanos cometidas pelos Estados Unidos estão minando a lei internacional e erodindo o papel do país no cenário internacional. 237. Além de aferir o volume do “mercado” de votos no Brasil.

1996. a maior organização de defesa dos direitos humanos baseada nos Estados Unidos. DORNELLES. uma outra entidade. O que são direitos humanos? São Paulo: Brasiliense. 1547. no modelo da que investigou os ataques de 11 de setembro. disse a ONG. em Cuba. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: ALMEIDA. A era dos direitos. A entidade pede que o governo Bush instale uma comissão totalmente independente. Teoria Geral dos Direitos Humanos. Fernando Barcellos de. João Ricardo. BOBBIO. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Rio de Janeiro: Campus. para analisar as denúncias de abusos em Abu Ghraib. o Worldwatch Institute.direitos humanos Na quarta-feira. “A adoção de interrogatórios com coerção é parte de um desrespeito mais amplo dos princípios dos direitos humanos em nome do combate ao terrorismo”. 1989. diz que as ações dos americanos nestas prisões tiveram um efeito negativo sobre a credibilidade do país como um defensor dos direitos humanos e líder da guerra contra o terrorismo. A entidade cita as técnicas de interrogatório com coerção em Guantánamo e Abu Ghraib como especialmente prejudiciais. Também pede a indicação de um promotor especial para determinar o que houve de errado e levar os responsáveis à Justiça. p. O grupo. A Human Rights Watch diz que os americanos já não podem mais dizer que sua posição é moralmente correta e liderar como exemplo. Norberto. havia divulgado um relatório que dizia que a chamada “guerra contra o terrorismo” pode estar perpetuando o ciclo de violência no mundo. 1992. Credibilidade O governo americano está no momento investigando denúncias de abusos de prisioneiros no Iraque e também na prisão da base militar de Guantánamo. FGV DIREITO rio 14 .

uma vez que a ruptura da unidade religiosa fez surgir um dos primeiros direitos individuais: o da liberdade de opção religiosa. destaque-se: a laicização do Direito Natural a partir de Grócio e o apelo à razão como fundamento do Direito. Alguns autores tratam esse momento como o embrionário dos direitos humanos. FGV DIREITO rio 15 . enquanto que os reis – até então considerados nobres – reivindicavam os direitos pertencentes à nobreza e ao clero. por sua vez. Ainda na Idade Antiga. nobreza e povo. a sociedade européia se organizava em “ordens” ou “estamentos”. O imperador e o papa disputavam a hegemonia suprema em relação a todo o território europeu. mas apontar alternativas. É nesse contexto em que se formulam as primeiras declarações de Direitos. Alguns autores vêem nas primeiras instituições democráticas em Atenas – o princípio da primazia da lei (i. Destacam-se aqui: na Inglaterra. Mas afinal. do nomos: regra que emana da prudência e da razão. Dessa forma. são impostos limites ao poder real por meio da linguagem dos direitos. bem como de diversas lutas e revoluções. Dessa forma. acordado entre determinados atores sociais e referentes exclusivamente aos limites do poder real em tributar. passagem da Baixa Idade Média para a Alta Idade Média) voltava a tomar força a idéia de limitação do poder dos governantes. da consagração de direitos comuns a todos os indivíduos – do clero. quando surgem os direitos humanos? O debate sobre o tema conduz sempre ao limite do surgimento do próprio Direito. foi uma resposta a essa tentativa de reconcentração do poder (limitou a atuação do Estado). e não da simples vontade do povo ou dos governantes) e da participação ativa do cidadão nas funções do governo – o primórdio dos direitos políticos. em 1215. o Habeas Corpus Act de 1679 e o Bill of Rights de 1689. até a Revolução Francesa. a consagração dos direitos humanos é fruto de mudanças ocorridas ao longo do tempo em relação à estrutura da sociedade. uma vez que.direitos humanos Aula 02: Desenvolvimento histórico dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O desenvolvimento dos direitos humanos foi um processo histórico e gradativo. durante a Idade Média.e. Dentre as conseqüências da Reforma. há um movimento de reconstrução da unidade política perdida com o feudalismo. Outros asseveram sua natureza como meramente contratual.e. séculos depois. a Reforma Protestante é vista como a passagem das prerrogativas estamentais para os direitos do homem. pressuposto do reconhecimento. É importante salientar que. A partir do século XI. Não caberá à aula 02 resolver um embate travado entre pensadores ao longo dos séculos. instituiu um complexo sistema de controles recíprocos entre os órgãos políticos e um complexo mecanismo que visava a proteção dos direitos individuais. Como resultado da difusão do Direito Natural e no contexto das Revoluções Burguesas. Nesse sentido. a elaboração da Carta Magna.. a república romana.. a noção de direito subjetivo estava ligada ao conceito de privilégio. Convém salientar que na passagem do século XI ao século XII (i.

Os homens são dotados de direitos inatos. Em face de alguns direitos. Nesse contexto. em 1917. XVI: baseado na lição clássica de Montesquieu – teoria do governo misto combinada com uma declaração de direitos. uma vez que coloca em cheque a idéia contemporânea de indivisibilidade e interdependência dos direitos. notadamente na Segunda. significou um marco da consagração da universalidade dos direitos humanos. conforme serão estudados ao longo do curso. É importante ressaltar que ambas as Declarações consagraram os direitos humanos da primeira geração. e na França. Sociais e Culturais. ambos de FGV DIREITO rio 16 . conforme demonstrado a seguir: Declaração de Virgínia. e da Constituição de Weimar em 1919. 1776 Fruto da Revolução Americana – visavam restaurar os antigos direitos de cidadania tendo em vista os abusos do poder monárquico. atende-se para o ponto comum: a insuficiência da abstenção estatal como forma de garantia de direitos. 1789 Fruto da Revolução Francesa – os franceses se viam em uma missão universal de libertação dos povos. as atrocidades cometidas durante as Guerras Mundiais. Todavia. Reconhecimento da igualdade entre os indivíduos pela sua própria natureza e do direito à propriedade. a Declaração de Virgínia de 1776. em 1948. Entre essas. Marco do nascimento dos direitos humanos na história. Até o presente momento.direitos humanos nos Estados Unidos. não dispunha sobre os direitos correlativos dos cidadãos) só tiveram sua plena afirmação com a elaboração da Constituição mexicana (em decorrência da Revolução Mexicana). a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. Já os direitos de terceira geração só foram consagrados após a Segunda Guerra Mundial. cabendo ao poder estatal declará-los. Tanto a DUDH. liberdade e propriedade. deixou transparente a necessidade de se estabelecerem marcos inderrogáveis de direitos a serem obedecidos por todos os Estados na concertação estabelecida no pós-Guerra. com base na idéia de que existem direitos baseados na coletividade. a idéia de gerações – importante como mecanismo de compreensão histórica – merece ser criticada desde esse momento. Por mais que o direito humanitário e a Organização Internacional do Trabalho já indicassem a necessidade de uma proteção de direitos que se sobrepusesse aos ordenamentos internos. Art. Todavia. a elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). Consagração dos princípios iluministas: igualdade. Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. todas inspiradas no direito natural. ao passo que os direitos humanos de segunda geração (embora a Constituição francesa de 1791 já estipulasse deveres sociais do Estado. à educação e à saúde. somente a intervenção estatal é capaz de garanti-los. ambas expressas em um texto escrito (a constituição). examinamos a luta por direitos humanos em contextos nacionais. cabe destaque o momento histórico em que os direitos humanos foram galgados ao patamar internacional. como o Pacto Internacional de Direitos Civil e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. como é o caso do direito ao trabalho.

No decorrer da década de 90. Diante do exposto. 31-118. 2001. Reconstrução dos direitos humanos – um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. 2001. ganha força o discurso de que os direitos humanos não eram mais discursos dos blocos. mas tema que deveria compor a agenda global. Volume I. pp. Tratado de direito internacional dos direitos humanos. Por sua vez. a qual consagrou os paradigmas da universalidade. 36-66. Foi nesse contexto que se desenvolveram as grandes conferências da década de 90. Celso. destacando-se a Conferência de Viena de 1993. vale adiantar que a confecção dos dois pactos localiza-se em um contexto de Guerra Fria em que os dois blocos disputavam ideologicamente a concepção de direitos humanos. Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. Rio de Janeiro: Companhia das Letras. serão estudados na aula referente ao Sistema Global de Proteção dos Direitos Humanos. pp. questiona-se: Qual é a importância da Carta Magna de 1215? Quais os elementos em comum entre a Declaração de Virgínia e a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão? O que são gerações de direitos? Quais foram os precedentes para a consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: COMPARATO. pp. Legislação: Constituição Federal de 1988 Declaração de Virgínia de 1776 Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 FGV DIREITO rio 17 .direitos humanos 1966. Fábio Konder. o final da década de 80 foi marcado pela derrocada do socialismo real. Antônio Augusto. São Paulo: Saraiva. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris. 1997. A afirmação histórica dos direitos humanos. indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos. 117-145. Todavia. LAFER.

Em março de 2004. Dessa forma. lamenta tal proibição. assim como a comemoração do Ramadã (período no qual os muçulmanos ficam um mês em jejum). a igualdade entre os sexos. Sua mãe. é expulsa da escola. por outro lado. a promulgação da referida lei. o Marrocos. a Assembléia Nacional da França. Nesse sentido. a radicalização da laicidade é tida como uma forma de assegurar a liberdade da mulher e. com receio das represálias que poderia vir a sofrer por parte da comunidade muçulmana. antes da independência de seu país. em respeito às crenças religiosas de sua família. o Primeiro de Moharam (primeiro dia do calendário Islâmico) e o Eid-al-Adha (festa do carneiro que comemora o sacrifício de Abraão). em silêncio. por seguirem todos os ensinamentos e tradições da religião islâmica. conseqüentemente. Comemora. da maneira como foi criada. Diante disso. Sua família migrou para o país no começo da década de 1950. Zaíra considera que alguns hábitos já fazem parte de sua identidade cultural. ela admira a liberdade feminina e acredita que poderia ser mais feliz sem as imposições religiosas do islamismo. Zaíra encontra-se dividida: por um lado. pois. com base no princípio da laicidade do Estado. adotou uma lei que proibiu o uso ou porte de qualquer símbolo religioso pelos alunos nas escolas públicas a partir do próximo ano letivo (setembro de 2004). No entanto. com base na lei em vigor. Zaíra começa a se aprofundar no assunto. Para sua surpresa. a não-utilização do véu (hiyas) violaria os ensinamentos sagrados do Alcorão. e principalmente. uma vez que considera tal medida extremamente ofensiva a sua crença religiosa e a sua identidade cultural.direitos humanos Aula 03: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O CASO Zaíra. Desconsertada. estudando as posições a favor e contra a proibição do uso de véu e de qualquer símbolo religioso em escolas públicas. também. Zaíra. e em decorrência de seu contato com um mundo não-muçulmano. como o uso de véu na escola e na foto da carteira de identidade. Isto significa que Zaíra não poderá mais ir à escola usando o véu de acordo com sua religião mulçumana. resolve usar seu véu no primeiro dia do novo ano letivo. por sua vez. FGV DIREITO rio 18 . com medo das conseqüências das atitudes de seu pai. é uma das cinco milhões de pessoas muçulmanas que vivem na França. conforme sempre o fez. sonhando para sua filha um futuro distinto do dela. conforme exposto a seguir: Feministas Defendem a igualdade entre os sexos como um dos princípios fundamentais da democracia. Ela e sua família são consideradas muçulmanos “fundamentalistas”. comemora. 15 anos. seu pai ameaça tirá-la da escola caso ela não use o véu. Nesse contexto.

Trata-se de uma escolha feita pela aluna a seguir os ensinamentos muçulmanos. o uso de véu por alunas muçulmanas representa uma cultura milenar. destaque-se as freiras católicas que cobrem o corpo inteiro e não são incomodadas pela sociedade. Partido de Justiça e Desenvolvimento Islâmico Defende a identidade cultural e o direito à liberdade religiosa. por ser necessária para assegurar a separação entre Igreja e Estado. católicos e judeus atenta contra tais princípios. tal proibição. bem como a liberdade de expressão. é também um dos requisitos para se garantir uma sociedade democrática. Partido pela liberdade religiosa Defende ser a liberdade de escolha religiosa um princípio basilar de qualquer sociedade democrática. de quipá e da estrela de Davi pelos judeus e da cruz e de crucifixo por católicos. O banimento do véu confirma que há uma perseguição religiosa aos islâmicos desde o 11 de setembro de 2001. Nesse sentido. o Estado tem que banir tal discriminação. limitando os atos dos indivíduos e. Nesse sentido. A utilização de véu por alunas muçulmanas em escolas públicas. e não uma forma de submissão. determinando suas próprias vestimentas.direitos humanos O uso de véu por alunas muçulmanas representa uma submissão da mulher ao homem. bem como é uma forma válida para se combater o fundamentalismo islâmico. tendo em vista não ser peça ornamental e estritamente religiosa. causa separação e discriminação entre os alunos. FGV DIREITO rio 19 . De acordo com a Corte. a proibição da utilização de qualquer símbolo religioso por alunos muçulmanos. Como exemplo. uma vez que promove e estimula a segregação das religiões. Conselho Superior de Educação Defende a laicidade do Estado e o combate ao fundamentalismo religioso como forma de melhorar o acesso à educação. o que é pior. A imposição de uma proibição dessa dimensão demonstra o autoritarismo do Estado e a violação do princípio do Estado Democrático de Direito. Dessa forma. Corte Européia de Direitos Humanos Defende que a proibição de uso de véus nas escolas públicas por alunas muçulmanas não viola o direito de liberdade religiosa. tornando a escola em um local de aprendizagem e não de conflito. demonstrando tanto a sua devoção e religiosidade quanto a sua obediência a valores tradicionais que compõem a cultura.

a saúde. a proteção aos locais de culto e a suas liturgias..direitos humanos Questões: Em primeiro lugar: O Estado francês agiu de forma correta ao adotar e promulgar a referida lei? Se esse caso ocorresse no Brasil (tendo em vista ser um Estado igualmente democrático e laico).313 – Lei Rouanet – de 23 de dezembro de 1991 Restabelece princípio da lei nº 7. 5º Todos são iguais perante a lei. o Estado brasileiro estaria violando algum princípio fundamental ou direito humano? Utilize a legislação brasileira.. qualquer discriminação de natureza política FGV DIREITO rio 20 . assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa. institui o Programa Nacional de Apoio à Cultura – PRONAC – e dá outras providências.] VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença. à igualdade. e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.. 205. bem como as posições acima mencionadas para responder tais questões. direito de todos e dever do Estado e da família.] Art. [. a vida privada. Lei n..] VIII – ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política. MATERIAL DE APOIO Legislação: Constituição Federal de 1988 Art... O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional.] X – são invioláveis a intimidade. 6. [. Constitui crime. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. a moradia.505. o trabalho.. à liberdade. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. punível com reclusão de dois a seis meses e multa de vinte por cento do valor do projeto. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. [. sem distinção de qualquer natureza.. a honra e a imagem das pessoas.. à segurança e à propriedade. 215... os tratados internacionais de direitos humanos (dispostos abaixo). [. [. a proteção à maternidade e à infância. [.] Art..] Art. a assistência aos desamparados. na forma desta Constituição (grifou-se).. fixada em lei.] Artigo 39º. sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida. o lazer. de 02 de julho de 1986. a previdência social. A educação. salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa.º 8. a segurança. São direitos sociais a educação. nos termos seguintes: [. na forma da lei..

Artigo II. religião. Art.] Artigo XVIII: Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento. levando em consideração seus respectivos procedimentos constitucionais e as disposições do presente Pacto. Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração. Esse direito implicará a liberdade de Ter ou adotar uma religião ou crença de sua escolha e a liberdade de professar sua religião ou crença.] III – crença e culto religioso. os Estados-partes comprometem-se a tomar as providências necessárias.] FGV DIREITO rio 21 . Nos casos expressos em lei. religião. Parágrafo único. de 13 de julho de 1990 Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. opinião política ou de qualquer outra natureza. Lei nº 8. Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente.] Art. pelo culto e pela observância.] Artigo 18 1. de consciência e de religião. de atividade intelectual e artística... cor. 2º. com sitas a adotá-las. Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. língua. 2. origem nacional ou social.... de consciência ou crença. Art. da celebração de ritos. em público ou em particular. ou qualquer outra condição. [. 1º. Os Estados-partes no presente Pacto comprometem-se a garantir a todos os indivíduos que se encontrem em seu território e que estejam sujeitos à sua jurisdição os direitos reconhecidos no presente Pacto. individual ou coletivamente. sexo. [. 16. pelo ensino. sem distinção de qualquer espécie.069. Declaração Universal dos Direitos Humanos Artigo I. opinião política ou de outra natureza. e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade. pela prática. origem nacional ou social.. seja de raça. riqueza. de práticas e do ensino. aplica-se excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade. a pessoa até doze anos de idade incompletos. cor. O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos: [.direitos humanos que atente contra a liberdade de expressão.. este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença. Considera-se criança. Na ausência de medidas legislativas ou de outra natureza destinadas a tornar efetivos os direitos reconhecidos no presente Pacto. nascimento. [.. consciência e religião. situação. [. tanto pública como privadamente. Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Artigo 2º 1. sem discriminação alguma por motivo de raça. no andamento dos projetos a que se referem esta Lei. Toda pessoa terá direito à liberdade de pensamento... língua. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade. por meio do culto. para os efeitos desta Lei. sexo. isolada ou coletivamente.

culturais e religiosos. sexo.] 18. é dever dos Estados promover e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais. Étnicas. com base no sexo. situação econômica. sua própria vida cultural. em pé de igualdade e com a mesma ênfase. Concordam em que a educação deverá visar o pleno desenvolvimento da personalidade humana e do sentido de sua dignidade e fortalecer o respeito pelos direitos humanos e liberdades fundamentais. Concordam ainda em que a educação deverá capacitar todas as pessoas a participar efetivamente de uma sociedade livre.. Os direitos humanos das mulheres e das meninas são inalienáveis e constituem parte integral e indivisível dos direitos humanos universais. Sociais e Culturais Artigo 2º [. econômica. sem qualquer forma de discriminação e em plena igualdade perante a lei. étnicos ou religiosos e promover as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz. social e cultural nos níveis nacional..] 19.. Considerando a importância da promoção e proteção dos direitos das pessoas pertencentes a minorias e a contribuição dessa promoção e proteção à estabilidade política e social dos Estados onde vivem. língua.direitos humanos Artigo 27 Nos estados em que haja minorias étnicas. conjuntamente com outros membros de seu grupo. Todos os direitos humanos são universais.. Declaração e Programa de Ação de Viena de 1993 5. [. FGV DIREITO rio 22 . as pessoas pertencentes a essas minorias não poderão ser privadas do direito de ter. [. A plena participação das mulheres. nascimento ou qualquer outra situação. em condições de igualdade. sejam quais forem seus sistemas políticos. Os Estados Partes do presente Pacto reconhecem o direito de toda pessoa à educação. assim como diversos contextos históricos. regional e internacional e a erradicação de todas as formas de discriminação.. religiosas ou lingüísticas... Os Estados Partes do presente pacto comprometem-se a garantir que os direitos nele enunciados se exercerão sem discriminação alguma por motivo de raça. origem nacional ou social. indivisíveis interdependentes e inter-relacionados. na vida política. em conformidade com a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos da Pessoa Pertencentes a Minorais Nacionais. Religiosas e Lingüisticas. [. civil. favorecer a compreensão.] Artigo 13 1. Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos.. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos de forma global. a tolerância e a amizade entre todas as nações e entre todos os grupos raciais.] 2. opinião política ou de outra natureza. justa e equitativa. religião. são objetivos prioritários da comunidade internacional. a Conferência Mundial sobre os Direitos Humanos reafirma a obrigação dos Estados de garantir a pessoas pertencentes a minorias o pleno e efetivo exercício de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais. Embora particularidades nacionais e regionais devam ser levadas em consideração. econômicos e culturais. cor. de professar e praticar sua própria religião e usar sua própria língua.

Acesso em: 15 out. desde que não sejam “invasivos”. Em uma decisão que pode abrir precedentes. 48. 2004. surgirão no país quando entrar em vigor a lei banindo o uso do véu pelas muçulmanas em escolas públicas.12. atualmente à frente do governo turco e que possui raízes islâmicas. a corte com sede em Estrasburgo (França) rejeitou a argumentação apresentada por uma estudante turca impedida de frequentar a faculdade de medicina da Universidade Istambul porque o véu usado por ela violava o código de vestimenta da instituição. segundo se prevê. disse o órgão. De acordo com uma decisão da Justiça em 1989.com. “Podem se justificar medidas adotadas em universidades para impedir certos movimentos fundamentalistas religiosos de pressionar estudantes que não praticam a religião em questão ou aqueles adeptos de outras religiões”. O Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP). onde professoras muçulmanas estão apelando contra leis de vários Estados que as impedem de cobrir suas cabeças. com toda a liberdade e sem qualquer interferência ou forma de discriminação. Folha de S. 6 ELUF. mas acabou voltando atrás ao se deparar com a oposição dos militares defensores da secularidade do sistema. estudou a possibilidade de colocar fim à proibição do uso do véu. integrado pela Turquia.2003. A sentença do tribunal pode ajudar o governo francês a enfrentar os processos que.html. As proibições impostas em nome da separação entre Igreja e Estado seriam então consideradas “necessárias em uma sociedade democrática”. 30. havendo notícias de algumas expulsões em virtude da insistência no uso do véu. véus e outros símbolos religiosos são permitidos nas escolas do Estado.06. 7 Terra online. a ex-estudante de medicina Leyla Sahin foi impedida de realizar uma prova porque estava usando um véu. 2004.gov. 29. Notícias prévias: Corte européia mantém proibição de véu muçulmano6 A proibição do uso de véus pelas alunas muçulmanas em escolas públicas não viola o direito de liberdade religiosa e é uma forma válida de combater o fundamentalismo islâmico. vem noticiando o intenso debate que se instalou na França a respeito do uso do véu muçulmano por alunas das escolas públicas daquele país.OI333991-EI312. A Turquia é uma sociedade majoritariamente muçulmana que introduziu um sistema de governo secular nos anos 1920. principalmente esta Folha. O véu religioso A imprensa brasileira. Acesso em: 15 out. Disponível em: http://noticias.br/Noticias. 7 FGV DIREITO rio 23 . Disponível em: http://clipping. que é parte do Conselho da Europa. de professar e praticar sua própria religião e de usar seu próprio idioma privadamente ou em público. é procuradora de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo e autora de “A Paixão no Banco dos Réus”. A decisão da Corte Européia também pode ter ressonância em casos na Alemanha. asp?NOTCod=98021. depois do colapso do Império Otomano. Paulo. No caso decidido nesta semana. disse a Corte Européia de Direitos Humanos hoje. Luiza Nagib.. terra.br/mundo/interna/ 0. Em razão da ampla interpretação que a palavra “invasivo” permite.2004. vários conflitos ocorreram entre pais de alunas e diretores de escolas. Foi secretária nacional dos Direitos da Cidadania do Ministério da Justiça (governo Fernando Henrique Cardoso.direitos humanos As pessoas pertencentes a minorias têm o direito de desfrutar de sua própria cultura. afirmou a corte.00. planejamento. entre outros livros. Luiza Nagib Eluf.

FGV DIREITO rio 24 . isolando-se em suas comunidades. sendo que o poder político não está vinculado a nenhuma delas. tendo apurado que 57% dos franceses apóiam a proibição do uso do véu em escolas e repartições públicas.direitos humanos A discussão a respeito dos limites das determinações religiosas é de interesse geral e deve ser acompanhada pelos demais países laicos em todo o mundo. para justificar numerosas formas de privar as mulheres de seus direitos fundamentais. tampouco é estritamente religioso. inciso VIII. opção religiosa com imposição de subalternidade. No entanto. O dispositivo. que estigmatiza a mulher. em seu art. existem na França 5 milhões de muçulmanos. Não se pode confundir convicção pessoal com opressão. Por essa razão. para evitar violações de direitos trazidas pelas próprias religiões aos seus seguidores. temendo restrições que possam. mais cedo ou mais tarde. Tanto as alegações fundamentadas em princípios religiosos quanto as calcadas em hábitos culturais não podem ser admitidas quando se prestarem a restringir ou eliminar direitos. essas distorções encontram-se desmascaradas internacionalmente. Não falta quem atribua aos europeus a incapacidade de acolher. como Alemanha. é um Estado em que todas as religiões são permitidas e respeitadas. inclusive o cabelo. 5º. respirar ou falar. assim como a França. As atrizes Isabelle Adjani e Isabelle Huppert e a designer de moda Sonia Rykiel. além da França. tendo em vista tratar-se de “um símbolo visível da submissão da mulher”. também. Uma pesquisa de opinião sobre o assunto foi divulgada recentemente. Por outro lado. Os usos e costumes de determinados grupos sociais foram utilizados. eventualmente. É um “uniforme” feminino. afetá-los também. Essas populações resistem tenazmente a assimilar os valores ocidentais. Protestante e Ortodoxa opuseram-se à proibição. Isso significa que não se pode confundir convicção pessoal com opressão. assinaram o manifesto. as comunidades muçulmanas impõem às mulheres regras extremamente opressivas. deve ser aplicado. os imigrantes. por vezes chegando ao absurdo de obrigá-las a cobrir o rosto todo com o uso da burca. a revista “Elle” francesa divulgou um apelo ao presidente Jacques Chirac. possuem significativa presença muçulmana. mas a intolerância maior parece não ser dos países hospedeiros. decorrente de imigrações. outros países do velho continente. sem preconceito. Portugal e Inglaterra. É o que nos assegura a Constituição de 1988. Escudadas em princípios religiosos. a maior comunidade islâmica da Europa. criado para evitar discriminações em razão de credo. para que apresentasse projeto de lei proibindo o uso de véu por meninas muçulmanas nas escolas. O Brasil. Hoje. assinado por mais de 60 mulheres de destaque. pode ocorrer entre nós. dentre outras. Trata-se de uma polêmica que. dentre os quais o Brasil. Espanha. Nossa Carta Magna. opção religiosa com imposição de subalternidade. estabelece que “ninguém será privado de direitos por motivos de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política”. mesmo que com isso elas tenham dificuldades para enxergar. Impedem-nas de mostrar qualquer parte do corpo. durante muito tempo. setores das igrejas Católica. De acordo com dados estimados. O tal “véu” não é peça ornamental.

assim. Surtiria. O véu imposto às muçulmanas tem por objetivo impedir que as mulheres se manifestem livremente. significa que a sexualidade feminina é proibida e “pecaminosa”. que deve ser extirpado. mas opressão física e intelectual. pode ser a melhor saída para esse impasse. Por essa razão. Fortalecer as mulheres. Não se trata. No entanto talvez a melhor forma de diminuir a adesão ao véu não seja a proibição legal nem a expulsão da escola de meninas que entendam necessário adotar a vestimenta de seus ancestrais. o efeito oposto ao desejado. Além disso. é importante desestimular o seu uso. O problema do véu está essencialmente ligado ao horror às manifestações do feminino. Diferentemente do que novelas de televisão andaram mostrando. como já se argumentou. como seres humanos. A proibição de cobrir a cabeça e o corpo tornaria o lamentável véu um símbolo da resistência cultural e religiosa de uma população já segregada. em terra estrangeira.direitos humanos A polêmica que se iniciou na França com relação ao uso do véu islâmico demonstra que chegou o momento de rever princípios e dogmas religiosos usados para tolher as liberdades democráticas de seus seguidores. de associar islamismo com terrorismo. criando para elas mecanismos de autodefesa e a possibilidade de outra opção de vida. não há glamour no uso do véu. FGV DIREITO rio 25 .

Rachel Herdy. Na II Conferência Mundial de Direitos Humanos. bem como pelo fato de não ter havido um consenso desde o início em relação às normas que deveriam ser positivadas. (ii) o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. Sociais e Culturais. única maneira das normas universais serem realmente efetivas. em especial aquele travado entre representantes da China e a de Portugal. União das Repúblicas Soviéticas Socialistas. Como exemplo. e que o argumento da diversidade não pode ser utilizado para limitar os direitos humanos. segundo o projeto proposto pela Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. da Assembléia Geral das Nações Unidas. O debate entre universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos sempre esteve presente nos foros internacionais. religiosa e ideológica. O intuito era estabelecer uma Carta Internacional de Direitos que. a efetividade universal de suas normas continua em estágio de implementação. este diálogo intercultural tem sido limitado tanto no momento da consagração da universalidade dos direitos humanos como nos debates ocorridos nos foros internacionais. produto do desenvolvimento de cada país. 8 A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adotada em 10. França e Panamá. representou um marco na proteção desses direitos. de tradição confucionista. 7.direitos humanos Aula 04: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos NOTA AO ALUNO A concepção histórica e culturalmente construída de direitos humanos conduz à imperatividade de que qualquer tentativa de universalização seja fruto de um diálogo entre as diferentes culturas. defende que cada cultura deve ter seu DE BARROS FRANCISCO. tendo em vista que dos 58 membros das Nações Unidas na época.12. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) de 19489 consagrou a universalidade dos direitos humanos e. Diálogo intercultural dos direitos humanos. realizada em Viena no ano de 1993. a delegação da China sustentou ser o conceito de direitos humanos histórico e cultural. na qual o indivíduo – pré-social – tem direitos inatos cuja proteção foi transferida para o Estado. p. acirrou-se o debate entre as delegações governamentais. 9 Apenas os representantes dos seguintes Estados participaram da elaboração da redação do projeto da DUDH: Bielorússia. (iii) adoção de medidas de implementação. Monografia de final de curso. Por outro lado. Por um lado. nenhum contra e oito se abstiveram.1948. a delegação portuguesa alegou ser a universalidade compatível com a diversidade cultural. e (iii) a IV Conferência Mundial sobre a Mulher de 1995 (Beijing). conseqüentemente. Contudo. uma vez que houve um número limitado de países que participaram de sua elaboração10. Filipinas. (ii) a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento de 1994 (Cairo). 48 votaram a favor. não aceita o indivíduo como um ser pré-social e. 10 FGV DIREITO rio 26 . compreenderia: (i) a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). assim. a delegação chinesa. conforme as etapas. Isto significa que enquanto a delegação portuguesa sustenta uma visão liberal. O processo de universalização dos direitos humanos. era composto por três etapas8: (i) elaboração de uma declaração universal. 217 A (III). 2003. como se verá a seguir. Curso de Direito da PUC-Rio. destaquem-se três: (i) a II Conferência Mundial de Direitos Humanos de 1993 (Viena). através da Resolução n. (iii) o Protocolo Adicional ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. entre 1947 e 1948. (ii) criação de documentos vinculantes. Estados Unidos. No entanto.

sendo este instituto denominado kafalah. ou cujos interesses exijam que não permaneça nesse meio. de 1989. ocorrida no Cairo.”14 11 DE BARROS FRANCISCO. que faz referência expressa à Kafalah do direito islâmico13. não havendo. como exceção. 14 15 SANTOS. ou o controle – e mesmo o monopólio – da informação por poucos pode gerar dificuldades. ter confirmado a universalidade dos direitos humanos e a obrigação dos Estados em respeitá-los e promovê-los independentemente de seus sistemas político.11. FGV DIREITO rio 27 . pp. em geral. temporária ou permanentemente privada de seu ambiente familiar. a colocação em instituições adequadas de proteção para as crianças. através da Resolução 44/25 das Nações Unidas. Registre-se. mas sim a fortalece. a colocação em lares de adoção. em seu artigo 5º. Vol. realizada em Beijing. 427-461. é permitido que outra família assuma a obrigação de cuidar da criança que não seja de sua linhagem.). que significa garantia. Esses cuidados poderão incluir. cit. do qual resultou um artigo baseado na proposta de países islâmicos: artigo 2012. Destarte. Tratado de direito internacional de direitos humanos. 1989. na verdade a diversidade cultural não se opõe à universalidade dos direitos humanos. o exemplo bem sucedido de diálogo intercultural nos trabalhos preparatórios da Convenção sobre os Direitos da Criança. espaço para um diálogo intercultural. 335-336. em perspectiva adequada. O artigo 20 dispõe que: 1. Nesse sentido. verifica-se que em todas as conferências mundiais tem prevalecido a posição ocidental.. Nesse contexto. terá direito à proteção e assistência especiais do Estado. sendo inconcebível a imposição de valores ocidentais como universais11. Contudo. a Kafalah do direito islâmico. 13 DE BARROS FRANCISCO. então. tendo a Plataforma de Ação de Beijing concluído que as práticas que limitam o exercício dos direitos da mulher não podem ser sustentadas em detrimento da universalidade dos direitos humanos. Já na IV Conferência Mundial sobre a Mulher de 1995. 2. Há um denominador comum: todas revelam conhecimento da dignidade humana. 15. cit. Por uma concepção multicultural de Direitos Humanos. Boaventura de Sousa (org. A tradição islâmica não permite a adoção. mas sim elementos essenciais ao alcance desta última.. fazse necessário a construção de um diálogo intercultural como forma de se atingir a universalidade efetiva dos direitos humanos. Os Estados-partes assegurarão. verificar que. Em se tratando da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento de 1994. sugere-se que os discursos ‘fundamentalistas’ dos direitos humanos – tanto o universalista quanto o relativista – sejam superados. Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo liberal. econômico e cultural. Convém. planejamento familiar e direitos reprodutivos – prevaleceu em todos os casos a posição ocidental. apesar da Declaração e Programa de Ação de Viena. A diversidade cultural há que ser vista. 2003. p. a adoção ou. foi abordada a validade das práticas culturais baseadas na inferioridade da mulher. religiosa. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. a discussão permanece em aberto. Boaventura de Sousa. estereótipos e preconceitos. p. fazendo necessário a criação de espaços para o diálogo intercultural. 12 A Convenção sobre os Direitos da Criança foi adotada em 20. III. que tem por premissa a impossibilidade de se compreender claramente as construções de uma cultura com base nos topos de outra. Ao se considerar soluções. op. Antonio Augusto. In: SANTOS. e não como um obstáculo a esta. cabe ressaltar que embora tenham surgido diversas concepções sobre os temas abordados entre as diferentes culturas – como. Toda criança. se necessário. Para tanto. é relevante a proposta de diálogo intercultural sugerida por Boaventura de Sousa Santos15 a fim de compatibilizar tal embate: a hermenêutica diatópica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. como um elemento constitutivo da própria universalidade dos direitos humanos. por exemplo. Contudo. Dessa forma. 2003. prestar-se-á a devida atenção à conveniência de continuidade de educação da criança. cultural e lingüística da criança (grifou-se). embora exista o debate entre universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos. de acordo com suas leis nacionais. Não raro a falta de informação. Não é certo que as culturas sejam inteiramente impenetráveis ou herméticas. de forma excepcional. 3. Mas universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos são ou não compatíveis? Conforme doutrina de Cançado Trindade: “As culturas não são pedras no caminho da universalidade dos direitos humanos. uma vez que não permitem o diálogo. op. inter alia.direitos humanos próprio entendimento do que sejam direitos humanos. Capítulo XIX. 20. cuidados alternativos para essas crianças. uma vez que a criança muçulmana tem o direito inalienável de ligação direta com a linhagem paterna. Trata-se de um método que visa a superar as dificuldades encontradas em um diálogo intercultural. bem como à origem étnica. p. CANÇADO TRINDADE.

Percepção da incompletude das culturas. tem-se que buscar a versão mais aberta.. Esta premissa pode ser traduzida da seguinte forma: “temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza. por mais que todas as culturas tenham concepções sobre dignidade humana. gera também uma dicotomia: se uma cultura se considera completa. Esta gera sentimentos de frustração e descontentamento e. para uma noção de universalidade construída de baixo para cima. Por fim. se organiza como uma constelação de sentidos locais. Assim. por meio do diálogo intercultural. (v) aproximação das políticas de diferença e de igualdade. Constatação de diferentes conceitos de dignidade humana. indaga-se: (i) Embora tenha sido reafirmada a universalidade dos direitos humanos na Declaração e Programa de Ação de Viena. p. uma vez que é esta que melhor aceitará as particularidades das demais culturas. De maneira bem resumida. passando da noção de universalidade imperialista. (iv) percepção da incompletude das culturas. baseada em um localismo globalizado. Contudo. Superação da tensão universalismorelativismo. Após essa breve exposição do tema. segue. nem todas as percebem em termos de direitos humanos. mutuamente inteligíveis. 458. Conceito Ambos os discursos – o etnocêntrico e aquele que considera as culturas como absolutas e incapazes de questionamento – impedem o diálogo intercultural.. uma vez que a identidade e compreensão do ser humano ocorrem em contato – diálogo – com outro. 2. abaixo. 5. em uma abordagem cosmopolita. temos o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”16. O reconhecimento do outro é essencial para a construção de uma identidade multicultural. Há diversas versões de dignidade humana. desde que não signifique uma conquista cultural. o conceito de cada premissa: Premissas 1. por mais que todas as culturas tenham concepções de dignidade humana. estará sujeita à conquista cultural.direitos humanos tal diálogo somente torna-se possível se houver uma mudança na conceituação de direitos humanos. imposta pela globalização hegemônica. assim. 16 17 Ibid. a curiosidade de procurar novas respostas satisfatórias que se traduzam no diálogo intercultural. e que se constitui em redes de referências normativas capacitantes”17. não estará interessada no diálogo. Ibid. (iii) constatação de diferentes conceitos de dignidade humana. seja por sua destruição. seja pela absorção. há cinco requisitos para que os direitos humanos possam ser teorizados e aplicados como multiculturais: (i) superação da tensão universalismo-relativismo. A solução proposta pelo autor é optar pelo reconhecimento da incompletude e pelo diálogo. 4. (ii) ter em mente que. Ter em mente que. Contudo. 3. se reconhece sua incompletude. tem-se que o objetivo da proposta de Boaventura de Sousa Santos é. 443. p. FGV DIREITO rio 28 . o cosmopolitismo. a fim de que seja construída uma concepção multicultural dos direitos humanos que.. Aproximação das políticas de diferença e de igualdade. nem todas têm a percepção em termos de direitos humanos. transformar a concepção de direitos humanos. “em vez de recorrer a falsos universalismos.

TRINDADE. 427-461. Diretor: Theo Van Gogh. Capítulo IV. Roteirista: Ayaan Hirsi Ali. Boaventura de Sousa (org. Nova York: Columbia University Press. pp. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris.). em termos de diálogo intercultural. FGV DIREITO rio 29 . Negotiating Culture and Human Rights. 211-234. Lynda. de 1989? Um país muçulmano pode alegar respeito a sua cultura como forma de se eximir da responsabilidade de garantir e promover os direitos das mulheres? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: SANTOS. 2003. In: SANTOS. Duração: 10min.direitos humanos sua efetivação ocorre na prática e de forma igualitária em todos os países? Qual é a proposta de Boaventura de Sousa Santos para que seja construída uma concepção multicultural dos direitos humanos? O que significa o reconhecimento da incompletude da cultura? O que representou. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. III.). I. NATHAN. Antonio Augusto Cançado. 2001. Tratado de direito internacional de direitos humanos. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. pp. Capítulo XIX. Abdullahi Ahmed (ed). ___________. Andrew. pp. 1997. Ano: 2004. Human Rights in Cross-Cultural Perspectives. Philadelphia: University of Pennsylvania Press. Tratado de direito internacional de direitos humanos. 2003. PELEG. 1995. Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo liberal. BELL. Legislação: Declaração e Programa de Ação de Viena Declaração Universal dos Direitos Humanos Convenção sobre os Direitos da Criança Atividade Complementar: Filme: Submissão. 301-349. Vol. Leitura acessória: AN-NA’IM. Boaventura de Sousa. a Convenção sobre os Direitos da Criança. Ian (eds. Por uma concepção multicultural de Direitos Humanos. Vol.

propiciando um verdadeiro bloco da constitucionalidade19.01. de registrar no artigo 5o. parágrafo 2o Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados.)”. MELO. a Constituição faz menção expressa à promoção e proteção dos direitos humanos quando afirma que sua prevalência constitui princípio que rege as relações internacionais do Estado brasileiro (artigo 4º). Carolina de Campos. 45. 72. 2004. não se sobrepõe ela às leis do País. Ao apreciar o aparente conflito No julgamento do Recurso Extraordinário no. 15. No. Ao tratar da dinâmica da relação entre a Constituição Brasileira e o sistema internacional de proteção dos direitos humanos objetiva-se não apenas estudar os dispositivos do Direito Constitucional que buscam disciplinar o Direito Internacional dos Direitos Humanos. o Habeas Corpus nº.131/95. mesmo pelas vias ordinárias. ciente de que sua obra resulta em um marco jurídico que se estende no tempo. In: Revista Direito. fortalecendo os mecanismos nacionais de proteção dos direitos da pessoa humana. Embora a Convenção de Genebra que previu uma lei uniforme sobre letras de câmbio e notas promissórias tenha aplicabilidade no direito interno brasileiro. a mais importante referência do Texto de 1988 constitui a seguinte: Artigo 5o. o Supremo Tribunal Federal considerou: “Convenção de Genebra – Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas Promissórias – Aval aposto à Nota Promissória não registrada no prazo legal – Impossibilidade de ser o avalista acionado. reconhecido por alguns autores com campo de interação entre as duas áreas do direito. “O bloco da constitucionalidade e o contexto brasileiro”. não é esta a interpretação promovida pelo Supremo Tribunal Federal. Todavia. Todavia. disso decorrendo a constitucionalidade e conseqüente validade do Decreto-lei n. quando estabelece no artigo 7o do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) que o Brasil propugnará pela formação de um Tribunal Internacional dos Direitos Humanos. 427/1969. Direitos humanos e direito constitucional internacional.direitos humanos Aula 05: Os tratados de direitos humanos e a Constituição Federal NOTA AO ALUNO A aula de nº 05 tem por objeto o estudo do Direito Constitucional Internacional.. No julgamento do leading case após a promulgação da Constituição. 80. Em julgados de toda a década de 90.1969. p. Em primeiro lugar. 427. Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. ou ainda. de 22.”18 Cabe assim menção às partes do Texto Constitucional que se referem a direitos humanos.. Tal posicionamento conduz à ilação de que os tratados de direitos humanos podem ser objeto de controle de constitucionalidade e de que lei federal pode vir a revogar tratado já incorporado ao ordenamento jurídico interno. a qual garante a possibilidade de extensão do texto constitucional em relação a outros direitos e garantias que não estejam expressos no artigo 5o. o tribunal manteve posição firmada desde 197720 de que os tratados possuem status infraconstitucional com equivalência à lei ordinária. “Esta interação assume um caráter especial quando estes dois campos do Direito buscam resguardar um mesmo valor – o valor da primazia da pessoa humana – concorrendo na mesma direção e sentido. Cabe aqui a interpretação de que outros direitos e garantias também possuam hierarquia constitucional. Validade do Decreto-lei n. 19 Tal redação revelou-se “campo minado” ao longo da recente história constitucional. mas também desvendar o modo pelo qual este último reforça os direitos constitucionalmente assegurados. São PAULO: Max Limonad. Estado e Sociedade. 20 FGV DIREITO rio 30 . o STF reafirmou sua jurisprudência. Flávia. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. parágrafo 2o a sua “cláusula aberta” ou “cláusula de receptividade”. Parece clara a opção do legislador constituinte. que institui o registro obrigatório da Nota Promissória em Repartição Fazendária.004. sob pena de nulidade do título (. 18 PIVESAN.

in verbis: Art. também por decisão do Plenário. no Habeas Corpus nº 77. item 7. inciso LXVII: Não há prisão civil por dívida. em cada Casa do Congresso Nacional. do Pacto de São José da Costa Rica no sentido de derrogar o Decreto-Lei 911/69 no tocante à admissibilidade da prisão civil por infidelidade do depositário em alienação fiduciária em garantia.05. quando do julgamento do RE 206. No tocante ao status constitucional. além de não poder contrapor-se à permissão do artigo 5o. em dois turnos. as normas infraconstitucionais especiais sobre prisão civil do depositário infiel. por fim. Dessa orientação divergiu o acórdão recorrido. em julgado de 15 de maio de 2007 (RHC 90759/ MG – Minas Gerais). e diante da emenda. mas resultou no afastamento das regras comuns alusivas ao depósito”. restando mais dúvidas do que certezas. LXVII. da mesma Constituição. ao tratar novamente da prisão do depositário infiel.071/GO de 29 de maio de 2001. o Tribunal manteve o posicionamento ao afirmar que “(. de 08 de dezembro de 2004. da Constituição não se aplica aos tratados internacionais sobre direitos e garantias fundamentais que ingressaram em nosso ordenamento jurídico após a promulgação da Constituição de 1988. pois.direitos humanos de normas existente entre a Constituição Federal de 1988. Parágrafo 3o. Ainda. Afinal. 21 Pacto de San José da Costa Rica ou Convenção Americana de Direitos Humanos. estabeleceu a corte que “nada interfere na questão do depositário infiel em matéria de alienação fiduciária o disposto no parágrafo 7º da Convenção de San José da Costa Rica”. não derrogou. Já o Ministro Marco Aurélio. poderá o Poder Legislativo aprovar determinadas normas contidas nos tratados com status constitucional e outras com de lei federal? O que ocorre com os tratados ratificados até a presente data? O que são “tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos”? A primeira pergunta conduz à necessidade de se registrar alguns comentários acerca do procedimento de incorporação dos tratados em geral.) o Pacto de San José da Costa Rica. Constituição Federal. que o parágrafo 2o do artigo 5o. É de observar-se. Relator Ministro Moreira Alves. não possuem forma para conter ou para delimitar a esfera de abrangência normativa dos preceitos inscritos no texto da Lei Fundamental. em 27. conforme seu contrato de alienação fiduciária.. 5o.631/98. e o Pacto de San José da Costa Rica22. a qual estabelece a permissão de duas forma de prisão civil (depositário infiel e devedor de alimentos – artigo 5o inciso LXVII21). serão equivalentes às emendas constitucionais. voto vencido. afirmou que “os tratados internacionais não podem transgredir a normatividade emergente da Constituição. A novidade ainda não foi elucidada pela doutrina e jurisprudência. e isso porque ainda não se admite tratado internacional com força de emenda constitucional”. o Pacto de San José da Costa Rica não implicou a derrogação da Constituição Federal. O artigo 84. a emenda precisou a hierarquia dos tratados de direitos humanos. Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados. salvo a do responsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e a do depositário infiel. o qual restringe tal permissão apenas ao devedor de alimentos. ressaltou que “realmente. no julgamento do RE 253. qual a regra que deve prevalecer: a Constituição Federal ou o Pacto de San José? Recente alteração constitucional. na circunstância descrita considerado infiel e assim passível de prisão civil. mais conhecida como Reforma do Poder Judiciário. por três quintos dos votos dos respectivos membros. 22 23 Mais recentemente. No caso de alguém que não cumpriu o dever de pagar as prestações de seu carro e. Inconstitucionalidade da interpretação dada ao artigo 7o.. veio a trazer duas importantes inovações ao abrigo constitucional aos direitos humanos: elucidou a possibilidade do status constitucional dos tratados de direitos humanos e estabeleceu a federalização das violações de direitos humanos. em especial dos tratados de direitos humanos. o STF negou provimento a um recurso em habeas corpus que questionava a possibilidade do depositário infiel ser preso em virtude do disposto no Pacto de San José da Costa Rica. O novo parágrafo do artigo 5o da Constituição Federal estabelece. é considerado depositário.482. além de não disporem de autoridade para restringir a eficácia jurídica das cláusulas constitucionais. Alguns autores preferem resolver o aparente conflito de normas por meio de uma regra de hermenêutica específica ao campo dos direitos humanos: a aplicação da norma mais favorável à vítima. Artigo 5o . Esse entendimento voltou a ser reafirmado recentemente. a Emenda nº 45.98.”23 Recentemente. inciso VIII da Cons- FGV DIREITO rio 31 . por ser norma infraconstitucional geral.

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tituição Federal confere ao presidente da República a competência privativa para negociar e celebrar tratados, convenções e atos internacionais, sujeitos ao referendo do Congresso Nacional. Em regra, tal competência é exercida pelo ministro das Relações Exteriores ou pessoa por ele designada para tal. Ainda, de acordo com o artigo 49, inciso I, é de competência exclusiva do Congresso Nacional resolver definitivamente sobre tratados, acordos e atos internacionais. Assim, caberá primeiramente à Câmara dos Deputados, sucedida pelo Senado Federal, a aprovação dos tratados. Em ato discricionário, cabe ao presidente da República o ato da ratificação, consolidado por meio de um decreto, considerado pela jurisprudência do Supremo Tribunal Federal ato fundamental para que o tratado possa surtir efeitos no ordenamento jurídico interno. Em resumo, os tratados seguem os seguintes passos: Negociação e Assinatura pelo Poder Executivo + Aprovação pelo Poder Legislativo + Ratificação pelo Poder Executivo

Ultrapassada a regra geral para a incorporação dos tratados no ordenamento jurídico interno, cabe ressaltar que o legislador constituinte de 2004 deixou transparente a possibilidade de que os tratados venham a ter hierarquia constitucional caso sejam aprovados com o procedimento reservado às emendas constitucionais. Se por um lado não cabe mais dúvida acerca do status, podemos concluir que a inserção de tal norma pode conduzir à ilação de que certos tratados terão hierarquia constitucional e outros não, o que seria uma resolução descabida seja no âmbito do Direito Constitucional ou do Direito Internacional. Afinal, se o Estado brasileiro já ratificou os mais importantes tratados de direitos humanos, qual seria o atual status dos mesmos? Apesar de não constar da Emenda Constitucional nº 45 qualquer menção aos tratados já incorporados à ordem interna, não parece razoável que tais tratados sejam tidos como leis ordinárias e os futuros como normas constitucionais. De acordo com Tarciso dal Maso, “deveria ser admitida hierarquia normativa superior para tratado sobre direitos humanos já ratificado, até porque seria ilógico, por exemplo, que Protocolo Adicional à determinada Convenção, futuramente aprovado pelo procedimento do parágrafo 3o do art. 5o, seja considerado como força de emenda à Constituição e a própria Convenção-quadro não.”24 Também causa estranheza que tenham que ser submetidos a uma nova apreciação, notadamente quando o Estado brasileiro já se pronunciou no âmbito internacional por meio da ratificação dos mesmos. Caberá ao Poder Legislativo o estabelecimento de procedimento específico para a aprovação de tratados de direitos humanos em conformidade com a determinação constitucional, restando ao Poder Judiciário o papel fundamental de reinterpretar a sua jurisprudência para a necessária adequação à norma. Por fim, a resposta à indagação sobre a definição de tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos será obtida ao longo deste curso, uma vez que se pretende estabelecer, com o devido rigor técnico, o que se entende por direitos humanos. Cabe enfatizar, desde então, que os tratados de direitos humanos, compreendidos

JARDIM, Tarciso dal Maso. Afirma o autor a inconstitucionalidade do novo parágrafo inserido no artigo 5o ao estabelecer que “se favorável ao projeto constitucional brasileiro, o STF reconheceria o nível constitucional de todos os tratados que consagrassem direitos e garantias fundamentais, com base no parágrafo 2o do artigo 5o, e declararia o novo parágrafo 3o do artigo 5o como contrário às cláusulas pétreas, pois, nos termos do inc. IV, parágrafo 4o do artigo 60, seria tendente a abolir direitos fundamentais ao aventar hipótese de certos tratados sobre direitos humanos não poderem ter status constitucional a depender do procedimento legislativo adotado.” (página 50)
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como gênero de que são espécies as convenções, devem ser interpretados de forma mais ampla, englobando também direito humanitário e direito dos refugiados. Saliente-se aqui a outra inovação apresentada pela Reforma do Poder Judiciário: a federalização das violações de direitos humanos. De acordo com a nova redação, o artigo 109 passa a contar com a seguinte redação:
“Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar: V-A as causas relativas a direitos humanos a que se refere o § 5º deste artigo; § 5º Nas hipóteses de grave violação de direitos humanos, o Procurador-Geral da República, com a finalidade de assegurar o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil seja parte, poderá suscitar, perante o Superior Tribunal de Justiça, em qualquer fase do inquérito ou processo, incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal.” (NR)

A inovação institucional deve ser entendida sob os seguintes argumentos: Passo definitivo de enfrentamento à impunidade e garantia de proteção à vítima: O pacto federativo brasileiro, especificamente no tocante à repartição das competências entre Poder Judiciário Estadual e Federal, possui no artigo 109 da Constituição referência fundamental. Os temas ali relacionados são de competência da magistratura federal, sendo os demais – a grande maioria – considerados reservados à magistratura estadual. Tal divisão temática acarreta em atribuições distintas também para outros órgãos que atuam perante o Poder Judiciário. Por exemplo, os crimes contra a organização do trabalho, os crimes contra o sistema financeiro e a ordem econômica financeira deverão ser investigados pela Polícia Federal, sendo a eventual denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal perante a Justiça Federal. Todavia, a omissão ou mau funcionamento das instituições estaduais – Poder Executivo (em especial a polícia), Ministério Público, Defensoria Pública, Magistratura – diante de um caso concreto conduziram o legislador a estabelecer que em determinados casos a competência deverá ser transferida para a Justiça Federal de forma a não acarretar uma outra violação de direitos humanos: o direito a um julgamento justo e imparcial e em um prazo razoável. Nesse sentido, o deslocamento de competências veio a reforçar a necessidade de um efetivo funcionamento das instituições estaduais e a garantir o combate à impunidade por parte das instâncias federais em casos específicos e, por conseqüência, que seja ampliada a proteção dos direitos humanos. O federalismo adotado pela Constituição Federal A Constituição brasileira estabelece um federalismo de cooperação25 entre os seus entes – União Federal, Estados, Municípios e Distrito Federal, o que não exclui um exercício cooperativo também em relação à atividade jurisdicional. A federalização das violações de direitos humanos não constitui uma novidade nesse sentido. Cabe lembrar que o artigo 109, parágrafo 3º, da Constituição Federal estabelece que, na ausência de Varas Federais ou Trabalhistas, a Justiça Estadual exerça as competênb)
SCHREIBER, Simone; e COSTA, Flávio Dino de Castro e. “Federalização da competência para julgamento de crimes contra os direitos humanos”. In: Direito Federal: Revista da Associação dos Juízes Federais do Brasil. Ano 21. No. 71. Niterói: Editora Impetus. Julho a setembro de 2002. p. 253.
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cias que pertencem à Justiça Federal e do Trabalho. No intuito de atender à vítima diante de atividade jurisdicional específica, o Judiciário Estadual acaba por exercer a jurisdição sob matéria excluída de sua competência originalmente. Não é de se causar espanto a alternativa de que, diante da ausência ou mau funcionamento da Justiça Estadual, que a Federal exerça a atividade jurisdicional, visando à implementação de um julgamento justo e imparcial. Há de se ressaltar ainda que a Constituição Federal previu remédio federativo muito mais grave para violações de direitos humanos quando, em seu artigo 34, inciso VII, alínea b, possibilitou a intervenção da União nos Estados para assegurar o princípio constitucional sensível dos direitos da pessoa humana. É possível concluir que o constituinte originário criou um caso extremo de chamamento para a União Federal de casos de violação de direitos humanos e o constituinte derivado, por meio da Emenda Constitucional nº 45, estabeleceu uma hipótese mais específica, o deslocamento de competência em um determinado caso. Responsabilidade Internacional A Constituição Federal, em seu artigo 21, inciso I, estabelece que compete à União Federal, manter relações com Estados estrangeiros e participar de organizações internacionais. Nesse sentido, é a União Federal, e não seus Estados-membros, que respondem pela responsabilidade internacional decorrente do descumprimento das obrigações assumidas pelo Estado brasileiro pelos tratados de direitos humanos. Tendo em vista que a soberania é una e indivisível, o Estado Federal não pode alegar razões de ordem organizacional interna como fator excludente de responsabilidade. Os termos dos tratados internacionais dos quais o Estado brasileiro é parte são aplicáveis a todas as suas partes componentes. A responsabilidade internacional acaba implicando para o Estado brasileiro uma situação complexa focalizada em dois pontos: a) a maior parte das violações de direitos humanos encontra correspondência direta com as competências dos Estados-membros da federação; e b) o compromisso do Estado brasileiro com o marco protetivo internacional dos direitos humanos, notadamente após a Constituição de 1988, em consonância com os princípios da dignidade da pessoa humana e com da transparência internacional. Como estudaremos em momento oportuno, tramitam na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) mais de 100 petições contra o Estado brasileiro. Em regra, são raríssimos os casos que apontam à responsabilidade direta da União em face da violação de direitos humanos. Isto posto, é possível afirmar que, na maioria expressiva dos casos, a responsabilidade é do Estado-membro. Observese que boa parte destes casos pendentes na Comissão poderá ser submetida à Corte Interamericana, cuja jurisdição foi reconhecida pelo Brasil em dezembro de 1998, notadamente após a alteração do Regulamento da Comissão que prevê a presunção de encaminhamento dos casos à Corte Interamericana de Direitos Humanos. Nesse sentido, é bem vindo um mecanismo capaz de assegurar o cumprimento dos tratados de direitos humanos em caso dos entes federativos falharem ou não disporem de condições operacionais ou estruturais. Acredita-se que o estabelecimento
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c)

“assegurar o devido cumprimento de obrigações decorrentes dos tratados de direitos humanos”). OF/Nº 022/04/PR/PA – incidente de deslocamento de competência (caso Irmã Dorothy Stang). Disponível em: http://www. MATERIAL DE APOIO Casos / Jurisprudência: 26 É importante ressaltar que a Lei no. Acesso em: 08 de maio de 2004. 1o.direitos humanos da federalização veio a exercer precisamente esse mecanismo federal que possibilite à União um instrumento nacional para a responsabilidade internacional. Acesso em: 05 de junho de 2006. Somente a prática permitirá que tais questões sejam preenchidas. União Federal. Tal afirmativa afasta as acusações de que tal deslocamento feriria a independência do Poder Judiciário. já previu a possibilidade de que a Polícia Federal investigo infrações penais relativas à violação a direitos humanos. b) o ditame constitucional da proteção dos direitos humanos em conformidade com o pacto federativo. de 08 de maio de 2002. mas não constitui solução mágica. A alternativa de federalização dos crimes de direitos humanos pode conduzir à disseminação nos entes federados do melhor cumprimento às obrigações decorrentes de tratados de direitos humanos dos quais o Brasil é parte – sob o risco do incidente de deslocamento de competências. FGV DIREITO rio 35 .br/pgr/asscom/Stang.26 Acredita-se ainda em um efeito no sentido inverso: a capilarização da promoção dos direitos humanos. mediante provocação. e c) a sistemática processual vigente. Incidente de Deslocamento de Competência 2005/0029378-4.gov. Conclui-se que a possibilidade de deslocamento de competências para violações de direitos humanos encontra-se em perfeita sintonia com: a) os parâmetros do direito internacional por estabelecer mais um grau de subsidiariedade no âmbito interno.446. A possibilidade de deslocamento de competência ou a federalização das violações constitui avanço institucional significativo em termos da defesa de direitos humanos. Legislativo. Disponível em: http:// www. Qualquer inovação conduz à necessidade de estabelecimento de limites.pgr. O impacto de suas ações e omissões no plano internacional pode servir de estímulo ao melhor funcionamento das instituições locais em casos futuros. 10. inciso III).mpf.gov. d) Dos parâmetros processuais A Emenda Constitucional nº 45 estabelece ainda que o incidente de deslocamento será apreciado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) a pedido do Procurador-Geral da República. mais de dois anos antes do instituto de federalização.pdf. Judiciário e Ministério Público – e sociedade civil devem conjugar esforços para fazer desse novo dispositivo constitucional um imperativo para a defesa dos direitos humanos.stj. Estados – compreendidos aqui pelos Poderes Executivo. É importante ressaltar que tal deslocamento somente pode ser decidido por órgão jurisdicional. que a República Federativa do Brasil se comprometeu a reprimir em decorrência de tratados internacionais de que seja parte” (art. uma vez que o STJ é o órgão jurisdicional de cúpula entre justiça estadual e federal.br/ SCON/pesquisar. muito ainda se discutirá para a elucidação dos requisitos de admissibilidade (ex: “grave violação de direitos humanos”.jsp?b=ACOR&livre=federalização. IDC 1 / PA. Nesse sentido.

Flávia. 401-447. O parágrafo 2º da Constituição Federal” In: TORRES. Celso. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. Leitura acessória: ALBUQUERQUE MELO. Parecer apresentado ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. 2002. Curso de Direito Internacional Público. e PIOVESAN. ______________________. Ricardo Lobo (org. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris. Rio de Janeiro: Renovar. Da federalização das violações de direitos humanos.direitos humanos Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. 1997.). Tratados Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos e Federalização dos Crimes de Direitos Humanos na Reforma do Judiciário. Teoria dos Direitos Fundamentais. Tratados Internacionais de Direitos Humanos e Constituição Brasileira. Antônio Augusto. Flávia. CANÇADO TRINDADE. Volume I. Legislação: Constituição Federal de 1988 FGV DIREITO rio 36 . Rio de Janeiro: Renovar. pp. 13ª edição. 2001. GALINDO. George Rodrigo Bandeira. 1999. Belo Horizonte: Editora Del Rey.

(d) Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência – CONADE.683. e (c) Subsecretaria de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos – SPDDH. de 28 de maio de 2003. (iii) Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. (ii) Conselhos Nacionais e Estaduais. o tráfico de drogas e as mortes no trânsito não podem ser consideradas normais. dando destaque ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH). tais documentos carecem de sentido se não houver mecanismos para garantir e promover os direitos humanos. Órgãos executivos: (a) Subsecretaria de Articulação da Política de Direitos Humanos – SAPDH. abaixo.htm. o extermínio.gov. Coordenação da Política Nacional de Direitos Humanos. (vii) Defensoria Pública e Ministério Público. em conformidade com as diretrizes do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH). Dentre os principais órgãos. (v) Comissões de Direitos Humanos das Câmaras Municipais. estadual e municipal. Órgãos colegiados: (a) Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – CDDPH. (c) Conselho Nacional de Combate à Discriminação – CNCD. especialmente em um Estado e em uma sociedade que se desejam modernos e democráticos. Os assassinatos.direitos humanos Aula 06: Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos NOTA AO ALUNO “Os Direitos Humanos são os direitos de todos e devem ser protegidos em todos Estados e nações. A SEDH foi criada pela Lei nº 10.br/ sedh/dpdh/gpdh/pndh/principal. 2005. (vi) Conselhos Municipais. Seguem. e (e) Conselho Nacional dos Direitos do Idoso – CNDI. assessorias. Introdução. as chacinas. os seqüestros. Os direitos humanos são assegurados pela Constituição Federal e por diversos tratados internacionais em que o Brasil é parte. (b) Subsecretaria de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente – SPDCA. (b) Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA. sua composição. É preciso dizer não à banalização da violência e proteger a existência humana”27. destaquem-se: (i) Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR). (iv) Comissões de Direitos Humanos das Assembléias Legislativas. 27 Composição Principal atribuição FGV DIREITO rio 37 . e grupos de trabalho temáticos. No entanto. Trata-se do órgão da Presidência da República que tem por atribuições articular e implementar as políticas públicas voltadas para a promoção e implementação dos direitos humanos. Disponível em: http://www.mj. Programa Nacional de Direitos Humanos I. É nesse contexto que surgem diversos órgãos de proteção dos direitos humanos nos planos nacional. Acesso em: 23 fev. principal atribuição e programas a serem executados de acordo com o Plano Plurianual 2004-2007: Fatores Definição Órgãos colegiados e executivos. o crime organizado. atuando preventiva ou punitivamente (no caso de terem ocorrido violações de direitos humanos).

Acesso em: 23 fev. oportunidade na qual a Comissão de Trabalho. Os conselhos nacionais e estaduais.br/sedh/cndi Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária – CNPCP – www. Cuida-se.gov.mj. mj.gov. de autoria do então deputado federal Projeto de Lei n.31 Já a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados foi criada por meio da Resolução n. http://www.br/EmConstrucao/pdf/Rel_OrgaoPrograma1. o qual transforma o CDDPH no Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH). Ambos os conselhos têm como meta a promoção e defesa dos direitos humanos. como mecanismos de participação e de legitimidade social iniciam-se no Brasil. (d) promover estudos para aperfeiçoar a defesa dos direitos humanos.br/sedh/ Conselho Nacional dos Direitos da Mulher – CNDM – www. criado pela Lei n. Direito de Todos.br/spmulheres Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência – CONADE – www. 31 FGV DIREITO rio 38 . 4715/199430.br/seppir Outros órgãos colegiados nacionais: Comitê Nacional para a Educação em Direitos Humanos – CNEDH Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo – CONATRAE Conselhos Estaduais Conselho Estadual de Defesa dos Direitos do Homem e do Cidadão Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher Conselho Estadual dos Direitos do Idoso Conselho Estadual do Consumidor Conselho Estadual de Proteção de Vítimas e Testemunhas 28 Para maiores informações sobre o objetivo de cada programa.br/sedh/cncd Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA – www. por sua vez. planobrasil. mj.asp?idserv info=43507&url=http://www. verificouse que o projeto de lei encontrava-se sujeito à apreciação do Plenário (http://www2. de Administração e Serviço Público designou um relator.mj. acesse o site http://www. A última ação ocorreu em 15 de setembro de 2004. 4319/1964.mj. Em consulta realizada no site da Câmara dos Deputados em dia 23 de fevereiro de 2005.mj.gov.br/sedh/cddph Conselho Nacional de Combate à Discriminação – CNCD – www. e (e) prestar informações para os organismos internacionais sobre a situação dos direitos humanos no país. durante a “VIII Conferência Nacional dos Direitos Humanos”. gov. cabe destacar suas principais atividades: (a) receber denúncias de violações de direitos humanos de abrangência nacional e investigá-las em conjunto com as autoridades competentes locais. Segue. de peça fundamental na proteção dos direitos humanos. (g) Promoção e Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente. (b) constituir comissões de inquéritos para facilitar as investigações. a lista dos conselhos nacionais e estaduais existentes: Conselhos Nacionais Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – CDDPH – www. 11). órgão específico da SEDH/PR.gov. Disponível em: http://www. 4715/ 1994.htm (par.gov. M. Conselhos Gestores e participação política. pdf. 30 Discurso proferido pelo Ministro Nilmário Miranda.br/seppir ou www. (b) Atendimento Socioeducativo do Adolescente em conflito com a lei. (c) Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. 2ª ed. assim.br/defaultCab. Em relação ao CDDPH. (e) Gestão da Política de Direitos Humanos. de acordo com Gohn29. a fim de dar maior agilidade às apurações de violações de direitos humanos.gov.gov.br/sedh/ct/ CONADE Conselho Nacional dos Direitos do Idoso – CNDI – www.gov.gov. e (i) Proteção da Adoção e Combate ao Seqüestro Internacional.br/sedh/ct/di. 29 GOHN. e.br/internet/proposicoes). (h) Promoção e Defesa dos Direitos de Pessoas com Deficiência.htm.presidencia. 2005. (d) Direitos Humanos. (c) atuar por meio de resoluções. 2003.br/ccivil_03/ Projetos/PL/pl4715..gov.camara. Tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei n.presidencia.br/cnpcp Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial – CNPIR – www. abaixo. como fruto da organização e das lutas sociais. São Paulo: Cortez.direitos humanos Programas a serem executados (Plano Plurianual 20042007)28 (a) Assistência a Vítimas e a Testemunhas Ameaçadas.gov. (f ) Nacional de acessibilidade.gov. o deputado Tarciso Zimmermann (PT-RS). 231. presidencia. G. presidencia. em 13 de maio de 2003.gov.planalto.

A comissão de direitos humanos33 consiste em uma das comissões permanentes. 35 Acesso em: 26 fev.obrasocial-rj. podendo ainda haver comissões parlamentares de inquérito. concretizou-se uma antiga reivindicação dos movimentos populares.br/comissoes/ cdhm. 33 34 Para maiores informações.htm.gov. por sua vez. Embora muitos conselhos municipais não funcionem da maneira como deveriam. Acesso em: 23 fev. Segue. Nesse sentido. em 31 de janeiro de 1995. camara. FGV DIREITO rio 39 . Os Conselhos Municipais de Direitos Humanos. Seus objetivos também são encaminhar denúncias. (d) lutar pela garantia e implementação de tais direitos.br/dicas/D102%20%20Pol%C3%ADtica%20muni cipal%20de%20direitos%20hu manos. Dentre suas atividades. A sociedade civil deve propor alternativas de políticas públicas. a lista dos conselhos municipais do Município do Rio de Janeiro e seus contatos35: Acesso em: 04 junho 2006. org. Disponível em: http://www2.htm. parlamentares e entidades de defesa dos direitos humanos. Disponível em: http://www. e (d) promover pesquisas e estudos relativos à situação dos direitos humanos no respectivo município. (b) adotar providências e propor medidas para apurar violações de direitos humanos. (c) opinar sobre proposições e assuntos ligados aos direitos humanos. os mesmos continuam sendo peça importante no combate às violações de direitos humanos. são compostos por representantes do governo e da sociedade civil empenhados em discutir. Ao criar o novo órgão técnico e suprapartidário. são importantes canais de participação coletiva e de criação de novas relações políticas entre governos e cidadãos por meio de um processo de interlocução permanente. Já as Comissões de Direitos Humanos das Câmaras Municipais também têm caráter permanente e são marcadas pelas seguintes atribuições:34 (a) receber. o que tornou mais eficiente e rápido o trabalho investigativo intentado pelo legislativo brasileiro. a fim de que governo e sociedade civil possam atuar de forma articulada na proposição e no desenvolvimento de ações voltadas para a promoção e a proteção dos direitos humanos. implementar e avaliar em conjunto as políticas públicas referentes a determinado grupo da sociedade mais vulnerável. 2005.br/direitos/brasil/legislativo/cdhcf/cartilha_cdh/19_comissoesassembleia. avaliar e investigar denúncias relativas à ameaça ou violação de direitos humanos. 2005.gov. Representou um marco na história dos direitos humanos do país. É composta por 23 deputados e 23 suplentes e tem por finalidade investigar violações de direitos humanos. penetrar na lógica burocrática estatal para transformá-la e exercer o controle socializado das ações e deliberações governamentais. abaixo. acesse o site http://federativo. Disponível em: http://www.direitos humanos Nilmário Miranda. bndes.org. (b) escutar as vítimas de violações ou seus familiares.br/enderecos1. destacam-se: (a) participar do estabelecimento da política municipal de direitos humanos. html#parte2. sendo o recebimento de denúncias sua atividade principal.32 A Assembléia Legislativa de cada Estado é composta por comissões permanentes e temporárias. (c) colaborar com organizações não-governamentais e internacionais que atuem na defesa dos direitos humanos. criar espaços de debates. sugerir projetos e fiscalizar a atuação do Poder Público. uma vez que desempenha papel fundamental na proteção dos direitos humanos e na promoção da cidadania. (b) fiscalizar e acompanhar programas governamentais relativos à proteção dos direitos humanos. motivo pelo qual a Secretaria Especial de Direitos Humanos apóia os conselhos municipais já existentes. Destaquem-se suas principais atribuições: (a) receber denúncias de violações de direitos humanos e encaminhá-las ao órgão competente. 32 Dispõe acerca de todas as Comissões de Direitos Humanos das Assembléias Legislativas. (c) realizar ou patrocinar campanhas e eventos locais com o objetivo de difundir e proteger os direitos humanos.dhnet.

br Conselho Municipal de Entorpecentes: comen@pcrj.: 2502-2431 BIP: 2460.rj.br Conselhos Tutelares: Horário de funcionamento: de 2ª a 6ª feira. s/nº – setor 4 (Sambódromo) – Centro – CEP . Conselho Tutelar de Ramos 5 C. 2205-3798 BIP: 2460.R 3.gov.: 2595-7086 BIP: 2460.br Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência: comdef@pcrj.gov.1010 – códigos: 4369909/ 4369912/ 4369886/ 4369931/ 4369934 Área de Abrangência: Santo Cristo/ Caju/ Cais do Porto/ Saúde/ centro/ Aeroporto/ Bairro de Fátima/ Castelo/ Praça Mauá/ Rio Comprido/ Estácio/ Cidade Nova/ Catumbi/Triagem/ São Cristovão/ Mangueira/ Benfica/ Paquetá/ Santa Tereza.direitos humanos • • • • • • • • • • • Conselho Municipal da Criança e do Adolescente: cmdca@pcrj.1/ XIIR. 180 – Tel/Fax.rj.2 – Rua Conde de Bonfim. 56 – Laranjeiras – CEP.: 2502-7122 R.2 – Rua Professor Lacê.151 – Inhaúma – CEP . de 9 às 18 horas. para contatos durante o final de semana use o bip Conselho Tutelar do Centro 1: C.1010 – códigos: 4369923/ 4369924/ 4369929/ 4269901/ 4369930 Área de Abrangência: Méier/ Todos os Santos/ Engenho de Dentro/ Encantado/ São Francisco Xavier/ Rocha/ Piedade/ Abolição/ Consolação/ Riachuelo/ Água Santa/ Sampaio/ Lins/ Engenho Novo/ Complexo do Alemão/ Bonsucesso/ Olaria/ Inhaúma/ Esperança/ Higienópolis/ Maria da Graça/ Jacaré/ Engenho da Rainha/ Tomas Coelho/ Del Castilho/ Jacarezinho/ Vieira/ Fazenda. 21060-120 Tel/fax: 2290-4762 BIP: 2460. 3.R 2.br Conselho Municipal de Assistência Social: cmas@pcrj.2º andar -Tijuca – CEP.R 2.rj. 57 – Ramos – CEP.R 1 – Rua Salvador. 22231-130 Tel/fax. 267. Conselho Tutelar de Laranjeiras 2: C.A – Estrada Velha da Pavuna.R 3.: 2569-5722 BIP: 2460.20765-170 Tel/Fax.rj. 20211-260 Tel.gov. 20560-200 Tel/Fax.1010 – códigos: 4369926/ 4369920/ 4369918/ 4369925/ 4369913 FGV DIREITO rio 40 .1010 – códigos: 4369899/ 4369905/ 4369898/ 4369904/ 4369935 Área de Abrangência: Botafogo/ Catete/ Glória/ Cosme Velho/ Flamengo/ Laranjeiras/ Humaitá/ Urca/ Praia Vemelha/ Copacabana/ Leme/ Jardim Botânico/ Ipanema/ Vidigal/ São Conrado/ Rocinha.1 – Rua São Salvador.rj.gov. Conselho Tutelar do Méier 4: C. Conselho Tutelar de Vila Isabel 3: C.gov.br Conselho Municipal dos Direitos do Negro: condedine@pcrj.1010 – códigos: 4369915/ 4369895/ 4369893/ 4369894/ 4369892 Área de Abrangência: Tijuca/ Praça da Bandeira/ Alto da Boa Vista/ Vila Isabel/ Grajaú/ Andaraí/ Maracanã/ Aldeia Campista.

3 – CIEP. 22713-370 Telefone: 2446-6508 BIP: 2460.R 4 – Estrada Rodrigues Caldas.1010 – códigos: 4369906/ 4369900/ 4369891/ 4369897/ 4369928 Área de Abrangência: Campo Grande/ Santíssimo/ Senador Augusto Vasconcelos/ Mendanha/ Rio da Prata/ Monteiro/ Guaratiba/ Pedra de Gauratiba/ Morro da Pedra/ Praia do Aterro/ Ilha Guaratiba FGV DIREITO rio 41 . CEP. Augusto Pinheiro de Carvalho – Rua Xavier Curado.1 – Rua Oliveira Braga. 1733 – Marechal Hermes – CEP. 21715-000 Tel.R5. 211 – Realengo – CEP.1010 – códigos: 4369919/ 4369896/ 4369890/ 4369908/ 4369907 Área de Abragência: Bangu/ Campo dos Afonsos/ Santíssimo/ Deodoro/ Realengo/ Vila Militar/ Magalhães Bastos/ Padre Miguel/ Senador Camará/ Jardim Sulacap Conselho Tutelar de Campo Grande 9 C. Conselho Tutelar de Bangu 8 C. Conselho Tutelar de Madureira 6 C.2 – Rua: Coxilha s/nº – XVIII RA – Campo Grande – CEP.1010 – códigos: 4369887/ 4369888/ 4369889/ 4369914/ 4369911 Área de Abrangência: Jacarepaguá/ Praça Seca/ Valqueire/ Taguara/ Freguesia/ Anil/ Tanque/ Curicica/ Camorim/ Gardênia Azul/ Cidade de Deus/ Pechincha/ Barra da Tijuca/ Recreio dos Bandeirantes/ Vargem Grande/ Piabas/ Grumari/ Itanhangá.1010 – códigos: 4369903/ 4369927/ 4369916/ 4369917/ 4369902 Área de Abrangência: Irajá/ Vicente de Carvalho/ Vila da Penha/ Vista Alegre/ Vila Cosmo/ Madureira/ Quintino Bocaiuva/ Bento Ribeiro/ Marechal Hermes/ Engenheiro Leal/ Turiaçu/ Campinho/ Rocha Miranda/ Osvaldo Cruz/ Anchieta/ Ricardo de Albuquerque/ Guadalupe/ Parque Anchieta/ Pavuna/ Coelho Neto/ Acari/ Barros Filho.400 – Prédio da Administração.direitos humanos • • • • Área de Abrangência: Ramos/ Maguinhos/ Olaria/ Penha/ Vigário Geral/ Parada de Lucas/ Penha Circular/ Jardim América/ Cordovil/ Bras de Pina/ Ilha do Governador/ Ribeira/ Zumbi/ Cacuia/ Pitangueiras/ Praia da ribeira/ Cocotá/ Bancários/ Tauá/ Galeão/ Moneró/ Portuguesa/ Jardim Guanabara/ Cidade universitária/ Complexo da Maré/ Vila esperança/ Vila do João/ Vila do Pinheiro/ Praia de Ramos/ Timbau/ Maré/ Marcílio Dias/ Baixa do Sapateiro/ Nova Holanda/ Rubens Vaz/ Parque União/ Roquete Pinto/ Conjunto Pinheiro.R 5. Colônia Juliano Moreira – Jacarepaguá. 3.: 3390-6420 BIP: 2460. 21610-380 Tel/Fax. Conselho Tutelar de Jacarepaguá 7 C.R 3./Fax: 3332-3744 BIP: 2460. 23085-570 Tel/Fax: 2413-3125 BIP: 2460.

de preferência junto à delegacia mais próxima. (d) notificar violações a direitos individuais. FGV DIREITO rio 42 . encontra-se o encaminhamento de denúncia de direitos humanos. conforme o artigo 129 CF.O. A Defensoria Pública. o Defensor Público irá encaminhá-la ao Poder Judiciário ou poderá resolver o conflito entre as partes extrajudicialmente.: 3395-0988/Fax. coletivos ou sociais. bem como possui centros de atendimento ao público. consumidor.º – Santa Cruz – CEP. a Defensoria Pública e o Ministério Público são instituições necessários à atividade jurisdicional do Estado. Nos casos de atos infracionais praticados por adolescentes.) e iniciar procedimentos de investigação. denunciar o fato à polícia. (e) expedir recomendações aos poderes públicos a fim de que façam cessar violações de direitos humanos. seguem. 23570-220 Tel.1010 – códigos: 4369910/ 4369922/ 4369933/ 4369932/ 4369921 Área de Abrangência: Santa Cruz/ Paciência/ Sepetiba Considerados Funções Essenciais à Justiça pelo Texto Constitucional. cível. Disponível em: http://www. como o recebimento de denúncias de violações ou ameaças de direitos humanos. Ao receber uma denúncia de violação de direitos humanos. cujas principais atribuições são36: (a) requisitar informações.dhnet. atua em diversas áreas (criminal. Especificamente no que se refere ao Ministério Público Federal. que deverá emitir um Boletim de Ocorrência (B. 2005. você deve preferencialmente encaminhar a denúncia à Delegacia Especializada de Investigação de Atos Infracionais praticados por Adolescentes. ambas as instituições têm o dever de proteger os direitos humanos e combater suas violações. org. do site da Rede Nacional de Direitos Humanos. aos moldes do ombudsmen nórdico. 75/93 designou o Procurador dos Direitos do Cidadão. do regime democrático e dos interesses coletivos e individuais indisponíveis. (c) investigar. exatamente da maneira como estavam. exerce outras atividades. as medidas que um indivíduo deve tomar quando presenciar ou souber de uma violação de direitos humanos37: Em caso de crime. você também pode procurar o Conselho Tutelar e/ou a Delegacia Especializada em Crimes contra Crianças e Adolescentes.3 – Rua: Olavo Bilac. de acordo com o artigo 134 CF. a Lei Complementar n.html. 3395-1445 BIP: 2460. por sua vez. com um mandato de dois anos. O mesmo site disponibiliza o contato dos órgãos mencionados. Acesso em: 23 fev. Entre as formas existentes para a consecução de tais fins.R 5. 36 Para maiores informações. O Ministério Público. abaixo. entre outras) junto ao Judiciário e extrajudicialmente na composição de conflitos.rndh. No caso de violência cometida contra criança ou adolescente.br/ denuncia. Competem à Defensoria Pública a orientação jurídica e a defesa em todos os graus da comunidade carente. A polícia é a porta de entrada do sistema de garantia de direitos e poderá orientá-lo(a) e fornecer informações relativas ao andamento de sua denúncia.html. acesse o site http://www. s/n.gov. ao passo que cabe ao Ministério Público a defesa da ordem jurídica. além do papel tradicional de fiscal da lei e acusador público. Sendo assim. 37 As informações contidas abaixo foram extraídas.br/direitos/brasil/apoio/ mpublico/mpdh.direitos humanos • Conselho Tutelar de Santa Cruz 10 C. (b) instaurar inquéritos. Em uma apertada síntese.

Pernambuco. Pelo exposto.direitos humanos No caso de violência sofrida pela mulher. Bahia. como o Movimento Nacional de Direitos Humanos – MNDH. Pará. ou. 2004. você deve preferencialmente encaminhar sua denúncia à Delegacia da Mulher mais próxima ou procurar os conselhos de defesa dos direitos da mulher. org. procurar a Delegacia de Polícia mais próxima. indaga-se: A quem você deve recorrer quando souber de uma violação cometida contra uma criança? Quais são os principais órgãos de proteção e promoção dos direitos humanos no âmbito nacional? Quais são as principais funções da Secretaria Especial dos Direitos Humanos? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: Princípios de Paris. procurar o Ministério Público de seu Estado para fazer sua denúncia. ou caso haja suspeita de que a violação tenha sido praticada por agente policial. Recorrer a serviços de disque-denúncia.gov. para toda violação de direitos humanos. ainda. Legislação: Constituição Federal de 1988 FGV DIREITO rio 43 .br. Disponível em: http://www.br/direitos/brasil/textos/principioparis. Já existem ouvidorias de polícia nos seguintes Estados: São Paulo. Minas Gerais. Você pode. Acesso em: 23 fev. que tem Seccionais e Comissões de Direitos Humanos em todos os Estados da Federação. encaminhar sua denúncia à Polícia Federal pelo e-mail dcs@dpf. Rio de Janeiro. Rio Grande do Sul.htm. você pode: Contactar a Ouvidoria de Polícia em seu Estado. Você também pode procurar orientação junto à Ordem dos Advogados do Brasil – OAB.dhnet. além disso. Paraná e Espírito Santo. Procurar orientação junto a conselhos de defesa de direitos humanos e/ou organizações da sociedade em seu município/Estado. Ceará. Importante: Caso sua denúncia tenha sido negligenciada ou colocada em dúvida pelos órgãos policiais. Não havendo delegacias especializadas.

além de definir tais expressões. A DUDH é um marco no Direito Internacional dos Direitos Humanos. Flávia. (iii) por ser uma Declaração e não um tratado. Capítulo VI. com base no princípio da dignidade da pessoa humana. uma vez que rompem com a noção de que o Estado é o único sujeito de Direito Internacional e com a noção de soberania absoluta. Adotados pela Assembléia Geral através da Resolução n.1966. com a adoção de dois tratados internacionais. que dividia o mundo em capitalismo e socialismo. (iii) cooperação internacional nas esferas social e econômica.01. assim.12. 2002. apenas atesta o reconhecimento de um código comum a ser seguido por todos os Estados. em 1945. tem força vinculante. assim. uma vez que. (ii) integra o direito costumeiro internacional e/ ou os princípios gerais de direito e. São Paulo: Max Limonad. embora estabeleça a necessidade de proteção e promoção dos “direitos humanos e liberdades fundamentais”. por consenso dos Estados. com os principais objetivos: (i) manutenção da paz e da segurança internacionais. foi criada a Organização das Nações Unidas. por tal motivo. A criação de dois pactos distintos ocorreu em virtude do contexto da Guerra Fria. é dotada de força vinculante. Contudo. (ii) promoção dos direitos humanos no âmbito internacional. sociais e culturais são programáticos e. Contudo. 39 FGV DIREITO rio 44 . em 16. bem como da prevalência da posição ocidental. pois admitem intervenções na esfera nacional em prol da proteção dos direitos humanos. colocou a proteção dos direitos humanos em seu centro. p. 2200-A (XXI). demandam realização progressiva.1976 (PIDESC) e 23. não os define. sustentava que as duas categorias de direitos 38 PIOVESAN. 164. a universalidade. da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. dando ensejo à adoção. uma vez que surgiu após as enormes atrocidades ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial. a Organização Internacional do Trabalho e a Liga das Nações. Dessa forma. interdependência e indivisibilidade dos direitos humanos. que. Seja qual for a posição sustentada.03. constante na Carta das Nações Unidas. Sociais e Culturais (PIDESC)39.1976 (PIDCP). estabelece. iniciado em 1949 mas só concluído em 1966. em 1948. há divergências quanto a sua força vinculante: (i) constitui interpretação autorizada da expressão “direitos humanos”. sendo a DUDH uma declaração e não um tratado. Os principais precedentes do processo de internacionalização dos direitos humanos são o Direito Humanitário. e. não comportando força vinculante – visão estritamente legalista. só entraram em vigor em 03.direitos humanos Aula 07: Sistema global: mecanismos convencionais e não-convencionais de proteção dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O movimento de internacionalização dos direitos humanos é bastante recente na história. A Carta das Nações Unidas. o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. o fato é que houve um processo de “juridicização”38 da DUDH. ambos com força obrigatória. A Carta das Nações Unidas consolidou o Direito Internacional dos Direitos Humanos e fez surgir uma nova ordem internacional que. ao afirmar ser os direitos civis e políticos autoaplicáveis enquanto que os direitos econômicos. com o intuito de reconstruir os direitos humanos e trazer a dignidade da pessoa humana para o centro das relações entre Estados.

por sua vez. Dentre as funções do Comitê de Direitos Humanos. abaixo. que tenha sido criado pelo PIDESC. Segundo Protocolo: estabelece a abolição da pena de morte. Protocolo Facultativo: estabelece o mecanismo de petições individuais. É peculiar. Sociais e Culturais (criado pelo Conselho Econômico e Social). a discriminação racial (Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial). comunicações interestatais e relatórios. apenas no plano político: power of embarrassment. para fins exemplificativos. Há também o sistema de indicadores. 40 O Comitê só poderá apreciar a comunicação interestatal caso os dois Estados envolvidos tiverem feito uma declaração em separado. Embora haja inúmeros tratados de direitos humanos. A Declaração Universal. Não tem um Comitê próprio. aos recursos internos) e inexistência de litispendência no plano internacional. (iii) requerer dos Estados informações sobre determinada situação. para que uma petição individual seja interposta. uma vez que é também composto por diversos tratados multilaterais de direitos humanos referentes as violações específicas de direitos. inexistência do devido processo legal ou impossibilidade de acesso. e que os procedimentos internacionais têm natureza subsidiária. O projeto do protocolo adicional que prevê a petição individual está em fase de elaboração. estabelecido pela Declaração de Viena de 1993. sendo uma garantia adicional à proteção dos direitos humanos sempre que os instrumentos nacionais sejam omissos. pois prevê apenas o mecanismo dos relatórios. o quadro. Relatórios. Ainda. tendo em vista que o acesso a este mecanismo é opcional. Devem ser realizados progressivamente. que inaugura o sistema global de proteção dos direitos humanos. pela vítima. não se restringe à Carta Internacional. sendo os respectivos Comitês análogos ao Comitê de Direitos Humanos criado pelo Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. demonstra um breve resumo: PIDCP Compreende um rol de direitos mais extensos do que o da DUDH. O sistema global. encaminhar comunicações. Comitê sobre Direitos Econômicos. PIDESC Compreende um rol de direitos mais extensos do que o da DUDH. Comitê de Direitos Humanos (criado pelo Pacto) – sua decisão não tem força vinculante e não há sanção efetiva para o Estado que não a cumpre. juntamente com os dois Pactos. Ressalte-se. Amplitude Sistemática de monitoramento Sistemática de implementação Protocolos O sistema global é composto por mecanismos convencionais e mecanismos nãoconvencionais de proteção dos direitos humanos. a discriminação contra as mulheres (Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher). O Comitê de Direitos Humanos concluiu que não apenas o indivíduo que sofreu a violação. comunicações interestatais40 (ambos dispostos no próprio Pacto) e petições individuais (Protocolo Facultativo)41. São auto-aplicáveis. como a tortura (Convenção Internacional contra a Tortura). 41 Para que um indivíduo possa encaminhar uma petição individual. o Estado deve ter ratificado tanto o PIDCP quanto o Protocolo Facultativo. por oportuno. Os mecanismos convencionais são aqueles criados por convenções específicas de direitos humanos. faz referência a apenas quatro convenções específicas e seus mecanismos convencionais: FGV DIREITO rio 45 . o quadro. ou seja. mas também ong e terceiros podem representá-lo e. Quanto à abrangência e sistemáticas de implementação e monitoramento de ambos os Pactos Internacionais. faz-se necessário o cumprimento dos requisitos de admissibilidade: prévio esgotamento dos recursos internos (salvo por demora injustificada. formam a Carta Internacional dos Direitos Humanos ou International Bill of Rights. (ii) proferir uma decisão em relação à petição individual que apenas declare que a violação resta caracterizada ou que determine que o Estado repare a violação cometida. a seguir. que o Direito Internacional dos Direitos Humanos é suplementar e paralelo ao direito nacional.direitos humanos não poderiam estar em um só pacto. assim. destaquem-se: (i) receber petições individuais.

Notícia de imprensa da ONU relacionada a tal resolução (da Assembléia Geral da ONU. por conseguinte. reconhecendo. n.1987. 45 A competência do Comitê só foi ampliada para receber petições individuais e realizar investigações in loco com a adoção do Protocolo Facultativo à Convenção em 1999.09. 42 É importante ressaltar que os Comitês têm competência para avaliar comunicações que contenham violação a direito disposto apenas na Convenção que o criou. mecanismo não-convencional criado pela Assembléia Geral. por sua vez. em 18. Ainda. Comitê sobre os Direitos da Criança Somente prevê os relatórios (estabelecido pela Convenção).1989. a denúncia pode versar sobre qualquer direito humano.1979.asp?N ewsID=17811&Cr=rights&Cr1 =council. comunicações interestatais e petições individuais (estabelecidos pela Convenção). petições individuais e realização de investigações in loco (Protocolo)46 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n.1990. 10449. Acesso em: 20 março 2006. Sistemática de implementação Relatórios. Contudo. em 10. Há 2 Protocolos Facultativos: sobre Conflito Armado e sobre Prostituição Infantil. Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n. A competência dos Comitês para receber petições individuais está vinculada à declaração feita em separado pelo Estado (no caso da petição individual estar prevista na própria Convenção) ou pela ratificação do Protocolo Facultativo.03. uma vez que demonstram a diferença entre os mecanismos convencionais de proteção dos direitos humanos e os mecanismos não-convencionais.12. Caráter inovador: o Comitê pode iniciar uma investigação própria caso receba informações de fortes indícios de tortura. Os mecanismos não-convencionais.1984. a apresentação de denúncias por indivíduos ou grupos de indivíduos aos Comitês não depende da ratificação de convenções específicas nem de declaração relativa a cláusulas facultativas ou de ratificação de protocolo adicional. a competência do Comitê contra a Tortura para apreciar petições individuais. comunicações interestatais e petições individuais (estabelecidos pela Convenção) Relatórios (estabelecido pela Convenção). Focar-se-á no Conselho de Direitos Humanos (CDH).11. segue. 34/180. a seguir. em 20.01. Contudo.direitos humanos Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial42 Sistemática de monitoramento Comitê sobre a Eliminação de Discriminação Racial Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher43 Comitê sobre a Eliminação de Discriminação contra as Mulheres Convenção Internacional contra a Tortura44 Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança45 Comitê contra a Tortura Relatórios.09.un. 2106 (XX). Quanto ao Brasil. só entrou em vigor em 03. de 15. un. desumanos ou degradantes. 47 FGV DIREITO rio 46 .1969.doc. Acesso em: 20 março 2006. só entrou em vigor em 04. como a Assembléia Geral e o Conselho Econômico e Social. são aqueles decorrentes de resoluções elaboradas por órgãos das Nações Unidas. só entrou em vigor em 26.org/News/Press/ docs/2005/ga10449. só entrou em vigor em 02. um artigo da ONU referente à Resolução 60/251.1981. a aula deverá destacar que o mesmo só não reconheceu a competência tanto do Comitê de Direitos Humanos. de 15.03. Contudo.2006: http://www.06. tendo em vista que em relação ao último.2005) – http:// w w w. 46 A Resolução da Assembléia Geral da ONU ainda não está disponível.org/apps/news/story. em 26. O governo brasileiro ratificou recentemente (12/01/2007) o Protocolo Facultativo à Convenção contra tortura e outros tratamentos ou penas cruéis. 43 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n.1965.12. Contudo. 44 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n.htm. 44/35. 39/46. Dessa forma. Esses pontos são relevantes. uma vez que possui posição central no sistema não-convencional de proteção.12.

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O CDH foi criado em 15 de março de 2006, tendo substituído a Comissão de Direitos Humanos efetivamente a partir de 16 de junho de 2006, data de sua abolição47. A resolução foi aprovada por 170 votos a favor e 4 contra – EUA, Israel, Ilhas Marshall e Palau48. Dentre os avanços trazidos com o estabelecimento do Conselho de Direitos Humanos, destaquem-se: (i) gozo de maior status, já que será um órgão subordinado à Assembléia Geral (enquanto que a Comissão era subordinada ao Conselho Econômico e Social); (ii) um maior número de reuniões ao longo do ano; (iii) constituição por representação geográfica igual; (iv) o direito de votar estará associado com membership. Ressalta-se, ainda, que o Conselho será composto por 47 membros, os quais serão escolhidos por maioria absoluta da Assembléia Geral. O CDH tem as mesmas funções que a extinta Comissão de Direitos Humanos: (i) competência genérica de atuar em quaisquer questões ligadas aos direitos humanos (estabelecida em 1946, no momento de sua criação); e (ii) apreciação de casos específicos de violações de direitos humanos (a partir de 1967). Em relação à apreciação desses casos específicos, o CDH segue dois procedimentos: procedimento 123550 e procedimento 150351 (alterado pela Resolução 2000/3, do Conselho Econômico e Social). O procedimento 1235 autorizou o CDH e a Sub-Comissão para a Promoção e para a Proteção de Direitos Humanos, a examinarem informações relativas às violações sistemáticas de direitos humanos, o que hoje se traduz na realização de um debate público anual e na investigação e análise de casos específicos pelo CDH e pela citada Sub-Comissão. Em se tratando do procedimento 1503, o mesmo foi criado a fim de que fossem examinadas comunicações referentes à violação sistemática de direitos humanos. Com a adoção da Resolução 2000/3, o Grupo de Trabalho sobre Situações é que se tornou o responsável da análise dos casos, elaboração de recomendações, bem como pela decisão de submeter ou não um caso ao CDH. O Grupo de Trabalho sobre Situações, após analisar o caso, poderá enviá-lo ao Conselho de Direitos Humanos, que, por sua vez, poderá adotar uma das seguintes medidas: (i) manter a situação sob análise, requerendo maiores informações do Estado envolvido; (ii) cancelar o estudo da situação sob a Resolução 1503 e iniciar um procedimento público sob a Resolução 1235; (iii) apontar um especialista independente. Destaque-se que ambos os procedimentos possibilitam que o CDH nomeie um Relator Especial com mandato para países específicos. Além dessas funções, o CDH também pode designar relatores temáticos ou grupos de trabalho com o objetivo de examinarem determinadas violações de direitos humanos. Os Grupos de Trabalho, Relatores Especiais e Representantes Especiais desempenham as seguintes atividades: (i) busca e recebimento de informações; (ii) questionar os governos sobre sua legislação e prática doméstica; (iii) envio, aos governos, de alegações sobre casos urgentes a fim de obter um esclarecimento; (iv) aceitar ou recusar o convite feito por determinado país para visitá-lo em virtude da ocorrência de violações referentes ao seu mandato; (vi) realização de visitas; e (vii) relato anual de suas atividades ao Conselho de Direitos Humanos.

48 In ‘historic’ vote, General Assembly creates new UN Human Rights Council. UN News Centre. Disponível em: http://www. un.org/apps/news/stor y. asp?NewsID=17811&Cr=right s&Cr1=council. Acesso em: 20 março 2006.

Criado pela Resolução 1235 do Conselho Econômico e Social, em 6 de junho de 1967.
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Criado pela Resolução 1503 do Conselho Econômico e Social, em 27 de maio de 1970.
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O Brasil já recebeu a visita dos seguintes relatores especiais52,: Sr. Juan Miguel Petit – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a venda de crianças e prostituição infantil e a utilização de crianças na pornografia; Sra. Asma Jahangir – Relatora Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre execuções sumárias, extrajudiciais ou arbitrárias; Sr. Jean Ziegler – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre o direitos à alimentação; Sr. Doudou Diène – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e formas conexas de intolerância; Sr. Nigel Rodley – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a questão de tortura; Sr. Leandro Despouy – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a independência de juízes e de advogados. Diante do exposto, indaga-se: Como se dá a nomeação de um relator especial? Um indivíduo brasileiro pode encaminhar uma comunicação individual ao Comitê de Direitos Humanos? Tendo em vista a consagração da indivisibilidade dos direitos pela Declaração Universal de Direitos Humanos, por que foram elaborados dois Pactos distintos (Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais)? O que significa a consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos para o indivíduo e para o Estado? Qual é a importância da II Conferência Mundial de Direitos Humanos realizada em Viena, em 1993?
MATERIAL DE APOIO Textos:

Leitura obrigatória: PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. São Paulo: Max Limonad, 2002. Capítulo VI. pp. 163-179 (Cap. VI; itens “a”- “c”); pp. 216-224 (Cap. VI; item “k”). Leitura acessória: TRINDADE, Antonio Augusto Cançado. O direito internacional em um mundo em transformação. Rio de Janeiro: Renovar, 2002. p. 627-670. Legislação: Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Segundo Protocolo ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos referente à Abolição da Pena de Morte Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais Carta das Nações Unidas Declaração Universal de Direitos Humanos Declaração e Programa de Ação de Viena

52 Até a presente data, i.e., novembro de 2004.

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Aula 08: Sistemas regionais de proteção dos direitos humanos
NOTA AO ALUNO

A par do sistema global de proteção dos direitos humanos, há três sistemas regionais de proteção dos direitos humanos: o sistema europeu, o sistema interamericano e o sistema africano. Os sistemas regionais complementam o sistema global, tendo em vista que têm o mesmo objetivo: a proteção do indivíduo e o combate às violações dos direitos humanos. Sendo assim, o indivíduo que tiver um direito violado, pode optar pelo sistema que melhor lhe favoreça, já que vigora, no âmbito internacional, o princípio da norma mais favorável à vitima. O sistema europeu tem por fundamento a Convenção Européia sobre Direitos Humanos, de 1950. Em 1961, tal Convenção foi complementada pela Carta Social Européia (tendo em vista que dispunha apenas sobre os direitos civis e políticos) e, em 1983, foi emendada pelo Protocolo n. 11, que trouxe inovações fundamentais ao funcionamento do sistema: (i) reestruturação profunda dos mecanismos de controle da Convenção (substituição dos 3 órgãos de decisão – Comissão, Corte e Comitê de Ministros do Conselho da Europa – por um só órgão: a Corte Européia de Direitos Humanos); (ii) funcionamento de uma única Corte, em tempo integral (a nova Corte Européia de Direitos Humanos passou a operar em 1o de novembro de 1998); (iii) assegura o acesso direto à Corte aos indivíduos, i.e., o indivíduo passa a ter ius postulandi. Dessa forma, constata-se que o sistema europeu é o mais avançado no que diz respeito ao reconhecimento da capacidade processual internacional ativa dos indivíduos, uma vez que é o único sistema regional de proteção dos direitos humanos que permite ao indivíduo postular diretamente à Corte. O sistema africano, por sua vez, tem por principal instrumento a Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos, adotada em 1981 e em vigor a partir de 1986, que prevê tanto os direitos civis e políticos quantos os direitos econômicos, sociais e culturais. A referida Carta tem por objetivo priorizar os direitos dos povos. As disposições da Carta relativas aos direitos dos povos demonstram a tendência moderna à coletivização dos direitos do homem. Nesse contexto, tem-se que a Carta apresenta a singularidade de colocar, no mesmo documento, conceitos considerados antagônicos: indivíduo e povo, direitos individuais e direitos coletivos, direitos sociais, econômicos e culturais e direitos civis e políticos. Quanto aos mecanismos de proteção e promoção dos direitos humanos, a Carta Africana estabelece a Comissão Africana de Direitos Humanos e dos Povos, podendo a mesma ser provocada por um Estado-parte ou por indivíduos. Já o protocolo adotado em Ovagadongou (em 9 de junho de 1998), Burina Faso, que entrou em vigor em 25 de janeiro de 2004 (30 dias após o 15o Estado – número mínimo exigido – tê-lo ratificado53), estabelece a Corte Africana de Direitos Humanos e dos Povos como órgão complementar ao labor da Comissão. Em se tratando do sistema interamericano, o mesmo tem como origem a IX Conferência Interamericana54, oportunidade na qual foram aprovadas a Declaração

Acesso em: 25 jan. 2005. Disponível em: http://www. fidh.org/article.php3?id_article=450.
53 54 Realizada em Bogotá, Colômbia, de 30 de março a 2 de maio de 1948.

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html. em maio de 1948. Acesso em: 03 maio 2004. em vigor desde 13 de dezembro de 1948. nas próximas duas aulas. a Comissão se transformou em um órgão de fiscalização da situação dos direitos humanos nos Estados da OEA. em 1969 (entrou em vigor apenas em 1978). Sendo assim. Com a adoção da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção Americana) ou Pacto de San José da Costa Rica. a Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem foi a base normativa central do sistema interamericano e. Após a adoção da Carta da OEA e da Declaração Americana. 55 A Comissão e a Corte serão estudadas. foi aprovada a proposta de criação de um órgão destinado à promoção dos direitos humanos (mais tarde denominado Comissão Interamericana de Direitos Humanos) até a adoção de uma Convenção Interamericana de Direitos Humanos.org/juridico/spanish/firmas/b-32. que emendou a Carta da OEA. criou-se a Corte Interamericana de Direitos Humanos e a Comissão passou a ser dotada de novas atribuições56. a mesma só se tornou o principal órgão da OEA após a adoção do Protocolo de Buenos Aires em 1967. Em 1965. 56 57 Informações obtidas no site oficial da Organização dos Estados Americanos (OEA). O primeiro passo foi a criação de um órgão especializado na proteção dos direitos humanos no âmbito da OEA. no período que antecede a adoção da Convenção Americana de Direitos Humanos. com as modificações ocorridas em seu Estatuto. abaixo. Segue. até hoje. o sistema interamericano foi se desenvolvendo lentamente. assim. No entanto.direitos humanos Americana de Direitos e Deveres do Homem e a Carta da Organização dos Estados Americanos (OEA)55. foi adotada em conjunto com a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem na IX Conferência Interamericana. Disponível em: http://www. respectivamente. a lista dos Estados que a ratificaram57: PAÍSES SIGNATÁRIOS Antigua y Barbuda Argentina Bahamas Barbados Belize Bolívia Brasil Canadá Chile Colômbia Costa Rica Dominica Ecuador El Salvador Estados Unidos Grenada Guatemala Guyana Haiti Honduras Jamaica México Nicarágua Panamá Paraguay FIRMA 02/02/84 06/20/78 11/22/69 11/22/69 11/22/69 11/22/69 11/22/69 06/01/77 07/14/78 11/22/69 11/22/69 09/16/77 11/22/69 11/22/69 11/22/69 RATIFICAÇÃO 08/14/84 11/05/81 06/20/79 07/09/92 08/10/90 05/28/73 03/02/70 06/03/93 12/08/77 06/20/78 07/14/78 04/27/78 09/14/77 09/05/77 07/19/78 03/02/81 09/25/79 05/08/78 08/18/89 A Carta da OEA. Em 1959. Em 1960. continua sendo a principal base normativa vis-à-vis dos Estados não-partes da Convenção. foi aprovado pelo Conselho da OEA o Estatuto da Comissão. Constata-se. que dos 34 Estados-membros da OEA. 25 deles ratificaram a Convenção Americana. que confirmou ser a promoção dos direitos humanos a função da Comissão. durante a 5ª reunião de consultas dos Ministros de Relações Exteriores realizada em Santiago do Chile. FGV DIREITO rio 50 . aproximadamente seis meses antes da adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral das Nações Unidas.oas.

Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (1994). indaga-se: Qual é o diferencial do disposto na Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos? Por que o sistema europeu é considerado o mais avançado? Qual é a diferença entre o papel da Corte Interamericana. para o sistema interamericano. ao estabelecer que os Estados-partes não podem aplicar em seu território a pena de morte a nenhuma pessoa sujeita a sua jurisdição. a Convenção Americana reconhece um catálogo de direitos civis e políticos. (c) Convenção Interamericana para Prevenir. Vicente & Grenadines Suriname Trinidad & Tobago Uruguay Venezuela 07/27/77 09/07/77 11/22/69 11/22/69 07/12/78 01/21/78 11/12/87 04/03/91 03/26/85 06/23/77 À semelhança do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. e (d) Convenção Interamericana sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Pessoas Portadoras de Deficiências (1999). deu novo ímpeto à tendência a favor da abolição da pena de morte. Sociais e Culturais (ou Protocolo de San Salvador) em 1988 (entrou em vigor em 1999). dando um passo adiante no que concerne o disposto no artigo 4. Nesse sentido. da Corte Africana e da Corte Européia de Direitos Humanos? Qual é a importância. dos instrumentos de proteção dos direitos humanos? FGV DIREITO rio 51 . foi elaborado o Protocolo Adicional à Convenção Americana em matéria de Direitos Econômicos. portanto. verifica-se a complementaridade entre o mesmo e o sistema interamericano. O segundo Protocolo Adicional à Convenção Americana é relativo à abolição da pena de morte (1990). pelos Estados.direitos humanos Peru República Dominicana San Kitts y Nevis Santa Lucía St. que se limita a prever o “desenvolvimento progressivo” dos mesmos.6 da Convenção Americana.2 a 4. No entanto. não admitindo. a fim de suprir a lacuna do artigo 26. Em relação ao sistema global. sociais e culturais. Há. quatro convenções interamericanas “setoriais” mais recentes: (a) Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura (1985). Cabe salientar ainda que o sistema interamericano de direitos humanos contemporâneo não se limita à Convenção Americana e aos dois protocolos. da incorporação. ela restringe ao artigo 26 a consagração dos direitos econômicos. reservas (salvo em tempo de guerra). (b) Convenção Interamericana sobre Desaparecimento Forçado (1994). pergunta-se: por que ambos os sistemas são complementares? Qual o fundamento de haver um sistema interamericano de proteção dos direitos humanos quando já há um sistema de abrangência global? Em relação aos sistemas regionais. Este Protocolo. Dessa forma. também.

direitos humanos MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. O sistema interamericano de direitos humanos no limiar do novo século: recomendações para o fortalecimento de seu mecanismo de proteção. Flávia. Direitos humanos e justiça internacional. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher Convenção Interamericana sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Pessoas Portadoras de Deficiências (1999) FGV DIREITO rio 52 . Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. Flávia. 2000. 103-151. 50-59. São Paulo: Editora dos Tribunais. 72-84. 2006. p. Capítulo IV. PIOVESAN. pp. O sistema interamericano de proteção dos direitos humanos e o direito brasileiro. São Paulo: Saraiva. Legislação: Convenção Européia sobre Direitos Humanos e Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem e Convenção Americana sobre Direitos Humanos Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura Convenção Interamericana sobre Desaparecimento Forçado Convenção Interamericana para Prevenir. In: GOMES. Antonio Augusto. Flávio Luiz.

direitos humanos

Aula 09: Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos
NOTA AO ALUNO

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão) originou-se da Resolução VIII da V Reunião de Consulta dos Ministros de Relações Exteriores (Santiago, 1959). Em 1960, foi aprovado pelo Conselho da OEA o Estatuto da Comissão, que confirmou ser a promoção dos direitos humanos a função da Comissão. Em 1965, com as modificações ocorridas em seu Estatuto, a Comissão se transformou em órgão de fiscalização da situação dos direitos humanos nos Estados da OEA. No entanto, a mesma só se tornou o principal órgão da OEA após a adoção do Protocolo de Buenos Aires em 1967, que emendou a Carta da OEA. A Comissão é composta por sete membros eleitos pela Assembléia Geral por um período de 4 anos, podendo ser reeleitos apenas uma vez. Em relação às suas funções, são elas: conciliadora; assessora; crítica; legitimadora; promotora; protetora. Com a adoção da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção) ou Pacto de San José da Costa Rica, em 1969 (entrou em vigor apenas em 1978), a Comissão passou a ser dotada de novas atribuições. Isto significa que, a partir da adoção da Convenção, a Comissão passou a ser tanto o principal órgão da OEA quanto órgão do referido instrumento. Dessa forma, todos os Estados da OEA têm o dever de proteger e promover os direitos humanos, seja por meio do disposto na Carta da OEA e na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (para os Estados-membros da OEA), seja por meio do estabelecido na Convenção (para os Estados-partes). Sendo assim, verifica-se a coexistência de dois sistemas em relação à Comissão: o sistema da OEA e o sistema da Convenção. No entanto, por se tratar de aula referente ao sistema interamericano, focaremos o estudo da Comissão no sistema da Convenção. A Comissão tem competência para examinar comunicações encaminhadas por indivíduo, grupo de indivíduos ou organizações não governamentais, que contenham denúncia de violação a direito consagrado na Convenção, cometida por algum Estado-parte. Isto porque os Estados, ao se tornarem parte da Convenção, aceitam automática e obrigatoriamente a competência da Comissão para apreciar denúncias contra eles. Dessa forma, a comunicação individual é obrigatória e a comunicação interestatal58 é facultativa no sistema interamericano, ao passo que no sistema europeu ocorre o oposto. Em relação ao procedimento da petição perante a Comissão, verificam-se quatro fases: (a) fase da admissibilidade; (b) fase da conciliação; (c) fase do Primeiro Informe; e (d) fase do Segundo Informe ou a propositura de uma ação de responsabilidade internacional perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Dessa forma, pode-se sintetizar a apreciação de uma denúncia pela Comissão da seguinte forma:

58 Em outras palavras, a Comissão só poderá analisar a comunicação interestatal (um Estado denuncia o outro por violação a algum direito humano) quando ambos os Estados, além de terem ratificado a Convenção, declararem expressamente que reconhecem a competência interestatal da Comissão.

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Recebe denúncia  aprecia sua admissibilidade (i.e., se os seguintes requisitos foram observados: prazo, prévio esgotamento de recursos internos e a inexistência de litispendência internacional)  considera-a admissíve  requer informações ao Governo e à parte  tenta uma solução amistosa  não ocorrendo, a Comissão envia o 1º informe ao Governo, dando-lhe um prazo de 3 meses para cumprir as exigências  Estado não cumpriu  Comissão envia o caso à Corte ou elabora o 2º informe. Ainda, cabe mencionar que a Comissão pode iniciar um caso de oficio (art. 24, Regulamento Comissão), se possuir informações necessárias. Saliente-se, também, a função preventiva exercida pela Comissão. Em decorrência de suas recomendações de caráter geral dirigidas a determinados Estados, ou formuladas em seus relatórios anuais, foram derrogados ou modificados leis, decretos e outros dispositivos que afetam negativamente a vigência dos direitos humanos. Ainda, a função preventiva da Comissão pode ser observada na elaboração de medidas cautelares e, inclusive, ao solicitar à Corte que adote medidas provisórias. Por fim, destaque-se que a par do sistema de petições ou comunicações, dois sistemas também têm um papel fundamental na proteção e promoção dos direitos humanos: (a) o sistema de investigações (observações in loco); (b) o sistema dos relatórios, o que inclui tanto o relatório com recomendações gerais enviado a determinado Estado, quanto os relatórios periódicos apresentados à Assembléia Geral da OEA, que contém, muitas vezes, considerações de caráter doutrinário. A Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte), órgão jurisdicional da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção), realizou suas primeiras reuniões na sede da OEA em Washington, em 29 e 30 de junho de 1979, e instalou-se em sua sede permanente em São José da Costa Rica em 3 de setembro de 1979. Esta instituição judiciária é composta por sete juízes nacionais de Estadosmembros da OEA, escolhidos por título pessoal, e tem por objetivo a aplicação e interpretação da Convenção. Até novembro de 2006, dos 35 Estados-membros da OEA, 24 Estados haviam ratificado a Convenção Americana59, e, dentre estes, 21 reconheceram a competência contenciosa da Corte60. Até julho de 2005, a Corte já havia proferido 127 sentenças, sendo que destas 57 são sentenças de mérito (ou seja, avaliam se evetivamente houve violação)61. A Corte tem duas competências: consultiva e contenciosa. Em relação à competência consultiva, qualquer membro da OEA pode solicitar o parecer da Corte relativo à interpretação da Convenção ou de qualquer outro tratado referente à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos. Ainda, a Corte pode opinar sobre a compatibilidade de preceitos de legislação interna em face dos instrumentos internacionais. Até julho de 2005, a Corte havia emitido 18 pareceres62. Em se tratando de sua competência contenciosa, apenas a Comissão e os Estados-partes (que expressamente reconhecerem a jurisdição da Corte) podem submeter um caso a Corte. Isto significa que o indivíduo depende da Comissão para que seu caso seja apreciado pela Corte, uma vez que ela é a dominus litis absoluto.

Argentina, Barbados, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Dominica, Equador, El Salvador, Granada, Guatemala, Haiti, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai, e Venezuela. Ressalte-se que Trinidad e Tobago denunciou a Convenção em 26 de maio de 1998.
59

Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai, e Venezuela.
60

PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e justiça internacional. São Paulo: Saraiva, 2006. p. 105.
61 62

Ibid., p. 100.

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Ao longo de sua história, a Corte já possuiu outros três regulamentos (1980, 1991, 1996), estando hoje em vigor o Regulamento de 2000 (a partir de 1 de junho de 2001). As inovações consagradas neste diploma são definidas pelo juiz Cançado Trindade como “o grande salto qualitativo” por considerar a proteção jurisdicional aos direitos humanos a forma mais efetiva de salvaguarda dos direitos humanos. Ao assegurar em seu artigo 23 que “depois de admitida a demanda, as presumidas vítimas, seus familiares ou seus representantes devidamente creditados poderão apresentar suas solicitações, argumentos e provas em forma autônoma durante todo o processo”, a Corte outorgou ao indivíduo o locus standi in judicio. Resta claro que as verdadeiras partes no caso contencioso perante a Corte são os indivíduos demandantes e o Estado demandado, e processualmente, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos como o titular da ação. O processamento do Estado perante a Corte se dá através de seis fases: (a) fase da propositura e exceção preliminar; (b) fase da conciliação; (c) fase probatória; (d) fase decisória; (e) fase das reparações; e (f ) fase de execução da sentença.
FASES TÓPICOS E CASOS - Apenas a Comissão e os Estados-partes da Convenção podem submeter um caso à Corte (art. 61, Convenção). - Citação do Estado. - Prazo para o Estado apresentar exceções preliminares, bem como seu exame pelo presidente da Corte. - Faculdade da Corte para convocar audiência. - Possibilidade do demandante desistir da ação. Se a desistência se der antes da citação, ela será aceita obrigatoriamente. Se ocorrer após a citação, a Corte ouvirá as partes. - Corte arquiva o processo ou continua (passa-se à 2ª fase). - As partes podem fazer um acordo. No entanto, cabe a Corte homologá-lo. - Citar o caso Maqueda (exemplo de acordo homologado pela Corte)63. - A propositura de solução amistosa é uma faculdade da Corte. - Prazo para a contestação. - As provas têm que estar elencadas na petição inicial ou contestação, salvo nas hipóteses previstas no art. 43, do Regulamento da Corte. - Corte pode produzir prova ex officio (art. 44, Regulamento Corte). - Os Estados não podem processar as testemunhas e peritos por suas declarações (art. 50, Regulamento Corte). - A sentença tem força jurídica vinculante e obrigatória. - Exposição dos votos dissidentes e concorrentes. - Não é obrigatória. Ocorrerá apenas quando a sentença de mérito não tratar das reparações (citar o caso Gangaram Panday64). - Excepcionalmente, admite-se aqui a participação do indivíduo de forma autônoma (art. 23, Regulamento Corte65). - Trata-se de uma nova etapa do processo: as partes serão intimadas novamente. - Possibilidade de uma nova conciliação entre as partes. - Há uma variedade de reparações que podem ser fixadas, dentre elas: reconhecimento da responsabilidade, indenização por danos material e moral, obrigação de investigar e punir os agentes responsáveis pelas violações, obrigações de fazer (ex: construir posto médico e escolar – caso Aloeboetoe66),.
63 A Comissão e o governo argentino acordaram pela libertação de Guilhermo Maqueda. Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Maqueda, Resolução de 17 de janeiro de 1995, Série C n. 18, § 27. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/ serie_c/index.html. RAMOS, André de Carvalho. Direitos humanos em juízo. São Paulo: Max Limonad, 2001. Capítulo IV. p. 220-225.

1. Fase da propositura e exceção preliminar

2. Fase da conciliação

3. Fase probatória

4. Fase decisória

Corte condenou o Suriname a pagar determinada quantia aos herdeiros da vítima, como forma de indenização pecuniária aos danos causados. Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Gangaram Panday, Sentença de 21 de janeiro de 1994, Série C n. 16, item 4 do dispositivo da sentença. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/ serie_c/index.html. André de Carvalho Ramos. op. cit.,. p. 168-179.
64 65 Trata-se de uma inovação trazida pelo novo Regulamento da Corte, em vigor a partir de 1º de junho de 2001. Regulamento aprovado pela Corte no seu XLIX período ordinário de sessões, celebrado do dia 16 a 25 de novembro de 2000.

5. Fase das reparações

Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Aloeboetoe e outros, Sentença de 10 de setembro de 1993 (reparações), Série C n. 15, § 20. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/serie_c/index.html. RAMOS, A. op. cit., p. 162-168.
66

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A primeira sentença da Corte em face do Estado brasileiro foi editada em agosto de 2006.Estado não pode alegar impedimento de direito interno como forma de se eximir do cumprimento da pena. indaga-se: • • • O procedimento perante a Comissão pode ser renunciado pelo Estado? Qual é a posição da Corte a respeito? Os requisitos que devem ser observados para que uma petição seja admitida pela Comissão comportam exceções? Quais? Quais são os casos em que a Comissão pode adotar medidas cautelares ou requerer que a Corte adote medidas provisórias? Já houve algum caso em que a Corte requereu ao Brasil que adotasse medidas provisórias? Caso positivo. Convenção). 68 Para ler a sentença na íntegra.2. Convenção). Nos últimos anos. tanto pendentes ante ela como ainda não submetidos a ela.Caso o Estado não cumpra a sentença. seu dever de cuidar e de prevenir a vulneração da vida e da integridade pessoal. Quatro outras resoluções (agosto de 2002. abril de 2004. a Corte determinou que o Estado brasileiro proteja a vida e integridade pessoal dos presos da Casa de Detenção “Urso Branco”. a pedido desta última (art.or. o Estado as cumpriu? Quais foram as conseqüências? 67 Informações atualizadas em 25 de outubro de 2006. de modo a evitar danos irreparáveis à vida e integridade pessoal de indivíduos. acesse o site da Corte Interamericana de Direitos Humanos: http://www.A indenização se dará pelo processo interno vigente (art. 63. Diante do exposto.O Estado se compromete a cumprir integralmente a pena (art. em especial com a aceitação da jurisdição da Corte. há de se concluir que a adesão do Estado brasileiro ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos. As medidas provisórias revelam. Estado de Rondônia. Convenção). bem como seu dever de regulamentar e fiscalizar o atendimento médico de saúde”68. . Fase de execução da sentença .direitos humanos 6. Por fim. 65.67 A Corte deixou claro que o Brasil “tem responsabilidade internacional por descumprir. a importante dimensão preventiva da proteção internacional dos direitos humanos. mas pendentes ante a Comissão. . reconhecendo a jurisdicionalização das violações de direitos humanos que engendram sua responsabilidade internacional. julho de 2004 e setembro de 2005) também foram publicadas com o mesmo propósito. a Corte tem ordenado medidas provisórias de proteção em um número crescente de casos. A Corte as ordena com base em uma presunção razoável. assim. Constam ainda dos procedimentos perante a Corte: dois casos de fundo (Damião Ximenes e Gilson Nogueira) e outra medida provisória (Adolescentes Internos da FEBEM). 68. cabe a Corte indicar o caso em seu relatório à Assembléia Geral da ONU (art. no caso do Damião Ximenes. FGV DIREITO rio 56 .1. É importante ressaltar que o Estado brasileiro aceitou a jurisdição da Corte em 10 de dezembro de 1998.corteidh. . neste caso.cr/. Em junho de 2002. Tais medidas têm sido ordenadas em casos de extrema gravidade ou urgência. Convenção).2. na cidade de Porto Velho. 68. garantiu aos indivíduos uma importante e eficaz esfera complementar de garantia aos direitos humanos sempre que as instituições nacionais se mostrem omissas ou falhas.

In: Direitos Humanos no Brasil 2003. Antônio Augusto. 63-99. 118-145. RAMOS. caso Gangaram Panday. Legislação: Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem Convenção Americana sobre Direitos Humanos Carta da OEA Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Estatuto da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos Estatuto da Corte Interamericana de Direitos Humanos FGV DIREITO rio 57 . 2003. Capítulo VII. 2006. p. caso Maqueda. O esgotamento de recursos internos no direito internacional. 2006. Direitos humanos e justiça internacional. 261-268. 225-232. São Paulo: Saraiva. São Paulo: Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. 162-168. 98-118. Brasília: Editora Unb. Capítulo III. p. CEJIL Brasil. 85-98. caso Aloeboetoe. Flávia. São Paulo: Saraiva. Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. Responsabilidade internacional do Estado e decisões do Sistema Interamericano em 2003. p. 1997. Capítulo IV: caso Velásquez Rodriguez. pp. pp. 341-349. Direitos humanos em juízo. 491-515. 168-179.direitos humanos • • Quantos casos contra o Brasil tramitam perante a Comissão? Qual é a natureza de ambos os informes da Comissão? Tendo em vista a inexistência de qualquer sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos em desfavor do Estado brasileiro. 2001. cabem as seguintes indagações: • • • Há distinção entre sentença estrangeira e internacional? Deverão as sentenças ser examinadas pelo Supremo Tribunal Federal pela concessão do exequatur? Poderão os indivíduos demandantes executar perante a Justiça Federal? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. p. p. 220-225. André de Carvalho. Direitos humanos e justiça internacional. Flávia. p. São Paulo: Max Limonad. p. PIOVESAN. Capítulo V. p. p. caso El Amparo.

recomendando ao Estado venezuelano que punisse os autores do crime de homicídio praticado contra as vítimas de ‘El Amparo’. abordaram Tovar a fim de saber o paradeiro de seus entes que haviam ido pescar no dia 29 e até agora não tinham retornado. levando em consideração o divulgado pela mídia (haveria ocorrido um confronto armado com combatentes colombianos). além de indenizar os familiares das vítimas. familiares.direitos humanos Aula 10: Sistema Interamericano de Direitos Humanos: Estudo de Caso NOTA AO ALUNO 1. localizada a 15km do local dos eventos. a Comissão instaurou o caso n. No dia seguinte. Breve descrição dos fatos Em 29 de outubro de 1988.602. Em 10 de agosto de 1990. 29/93. Em virtude da presença de grande quantidade de pessoas diante da delegacia. o Inspetor chefe do DISIP (Direção dos Serviços de Inteligência e Prevenção) visitou Tovar e lhe informou que havia matado 14 guerrilheiros. o Informe n. membros do exército e da polícia do CEJAP (Comando Específico José Antonio Páez). Às 11:20 o barco parou e quando os pescadores desembarcavam. 10.1 (garantias judiciais). todos eles em concordância com o artigo 1. lhes ofereceu proteção. 8. Logo após. 24 (igualdade perante a lei) e 25 (proteção judicial).1. Foi alegada violação aos seguintes artigos da Convenção Americana de Direitos Humanos: 2 (dever de adotar disposições de direito interno). que realizavam uma operação militar. bem como violação aos artigos 5. se entregaram ao Comandante da Polícia de “El Amparo”. Tovar. No entanto. mataram 14 dos 16 pescadores. conforme o artigo 50 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção). prontamente. 8. Na tarde do dia 29. data na qual adotou. 4 (direito à vida). 5 (direito à integridade pessoal). FGV DIREITO rio 58 . 24 e 25 em relação aos dois pescadores que conseguiram fugir. Os dois sobreviventes conseguiram escapar a nado e. que. 16 pescadores do povoado “El Amparo” dirigiamse ao Canal “La Colorada” para participar de um campeonato de pesca. Tovar começou a sofrer pressões por parte de policiais e militares para entregar os sobreviventes ao Exército. que tramitou até o dia 12 de outubro de 1992. em um primeiro momento. refugiaram-se na fazenda “Buena Vista”. DO CASO O caso “El Amparo” foi submetido à Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte) pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) em face do Estado da Venezula no dia 14 de janeiro de 1994. foi impossível retirar os sobreviventes à força dali.1 (obrigação de respeitar os direitos) pela morte de 14 dos 16 pescadores.

em voto dissidente. Essa ação judicial foi possível tendo em vista que a Venezuela ratificou a Convenção em 9 de agosto de 1977 e reconheceu a competência da Corte em 24 de julho de 1981. 2 (dever de adotar disposições de direito interno). Na sentença de reparações de 14 de setembro de 1996. do referido Informe. do Código de Justiça Militar com o objeto da Convenção. na qual assevera que tal exame somente seria possível no exercício de sua competência consultiva. 3) afirma que as reparações serão alvo de acordo entre a CIDH e o Estado. 2) decide que o Estado venezuelano está obrigado a continuar as investigações acerca dos fatos a que se refere e a sancionar os responsáveis. 5. e violação aos arts. que o estado indenizasse os familiares das vítimas. 5 (direito à integridade pessoal). tal dispositivo não fora aplicado. em votação não unânime. incisos 2 e 3. a Corte não acatou o pedido da Comissão Interamericana de Direitos Humanos sob o argumento de que. 54. alegando o seguinte: violação aos arts. Isoladamente. dentre outras medidas: 1) fixa o valor da indenização aos familiares das vítimas às vítimas sobreviventes.direitos humanos Em virtude falta do cumprimento. a Comissão propôs. pelo Estado venezuelano. FGV DIREITO rio 59 . 24 (igualdade perante a lei) e 25 (proteção judicial). uma ação de responsabilidade internacional contra o referido estado perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte). 3) declara. a Comissão solicitou que fosse declarada a incompatibilidade do art. pela morte dos 14 pescadores. sendo reservado àquele tribunal a faculdade de aprova-lo. Reiterou-se assim o posicionamento na Opinião Consultiva nº 14. 4 (direito à vida).1 (obrigação de respeitar os direitos). todos eles em concordância com o artigo 1. ainda. 2) decide que o Estado está obrigado a reparar os danos e pagar uma justa indenização às vítimas sobrevivente e aos familiares dos falecidos. 8. 8. em 14 de janeiro de 1994. em sentença de 18 de janeiro de 1995. a Corte: 1) tomou nota do reconhecimento de responsabilidade efetuado pelo Estado venezuelano. Por fim. que não procedem as reparações não-pecuniárias nem pronunciamento sobre a conformidade do Código de Justiça Militar e a Convenção. Em resumo. a Corte. 24 e 25 em relação aos dois sobreviventes. argumenta o juiz Antônio Augusto Cançado Trindade que. Por outro lado. Requereu. não sendo necessário o aguardo da ocorrência de um dano.1 (garantias judiciais).1. a própria existência de um dispositivo legal pode per se criar uma situação que afeta diretamente os direitos protegidos pela Convenção. o Juiz Antônio Augusto Cançado Trindade expressa seu entendimento de que a Corte deveria ter esclarecido que tem a faculdade de decidir acerca da incompatibilidade entre os artigos do Código de Justiça Militar e a Convenção. Breve descrição dos passos processuais Em um breve resumo. in casu.

corteidh. Familiares das Vítimas. os quais assumirão os seguintes posicionamentos: a) b) c) d) e) Comissão Interamericana de Direitos Humanos. 3. 5. 4. DOS POSICIONAMENTOS PROPOSTOS Dez alunos poderão participar da atividade. Estado da Venezuela.or. Universitas –Centro Universitário de Brasília – UniCEUB. DOS ARGUMENTOS Tendo por base as decisões do caso em tela. 2. “El nuevo reglamento de la Corte Interamericana de Derechos Humanos (2000): la emancipación del ser humano como sujeto del derecho internacinal de los derechos humanos” in Revista Proteção Internacional da Pessoa Humana. 3. Corte Interamericana de Direitos Humanos. 6. São Paulo: Max Limonad. André de Carvalho.html Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. No 2. 09 – 40. I. Antônio Augusto. p. cada grupo deverá construir argumentos acerca dos seguintes pontos: 1. Disponível em: http://www.cr/seriec/ index_c. Indenização em geral e danos materiais Danos morais Efetuação do pagamento Reparações não pecuniárias Compatibilidade do Código de Justiça Militar com a Convenção Americana Dever de investigar e punir os responsáveis MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: Caso El Amparo Vs. 2001. devendo estes ser divididos em cinco grupos. RAMOS. Direitos humanos em juízo. Venezuela.direitos humanos 2. Vol. e Voto dissidente do Juiz Antônio Augusto Cançado Trindade. FGV DIREITO rio 60 .

direitos humanos Legislação: Convenção Americana sobre Direitos Humanos Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos FGV DIREITO rio 61 .

alimentos. Eles devem ter garantido o direito de retornar a suas casas o mais cedo possível. uma vez que tais vertentes possuem um elemento em comum: a proteção da pessoa humana. conflitos armados. O CICV está profundamente preocupado com relatos de que os feridos não estão podendo receber atenção médica adequada. São conflitos que atingem milhares de pessoas no mesmo momento em que você está lendo esse texto. A organização faz um chamamento às partes para que tomem toda precaução possível poupando os civis e as propriedades civis.cicr. crianças e idosos. entre tantos outros. O CICV permanece comprometido em realizar seu trabalho humanitário no Iraque e insta todas as partes a facilitarem a passagem de suas equipes de ajuda humanitária que levam assistência de maneira neutra aos civis afetados pelo conflito. Muitos destes deslocados internos precisam de água. Iraque: civis devem ser poupados. Doentes e feridos. conduz à inafastabilidade do estudo do DIH e do DIR. Milhares de civis iraquianos. As notícias expostas nas seguintes notas não nos contam ocorrências escondidas em algum capítulo da História. tais particularidades não afastam. tratados Dia 09 de novembro de 2004 Comunicado melha de imprensa nº 04/62 do Comitê Internacional da Cruz Ver- Fallujah/Iraque (CICV) – O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) lembra a todos os envolvidos nos enfrentamentos armados em curso no Iraque que o Direito Internacional Humanitário proíbe agredir ou matar aos civis que não tomem parte diretamente das hostilidades. deslocados.direitos humanos Aula 11: Direito Internacional Humanitário e Direito Internacional dos Refugiados NOTA AO ALUNO Nascidos em períodos históricos diversos. e o pessoal médico e seus veículos devem poder operar sem entraves em quaisquer circunstâncias. o Direito Internacional Humanitário (DIH). A organização insta os beligerantes a assegurar que todos os que precisem de cuidados – sejam ou não inimigos – devem ter acesso ao atendimento médico. e respeitando o princípio de distinção e proporcionalidade nas operações militares. refugiados. fugiram de Fallujah buscando refúgio nos arredores da cidade. A realidade do mundo contemporâneo refletida em temas como guerra contra o terrorismo. e sim intensificam sua complementaridade. o Direito Internacional dos Refugiados (DIR) e o Direito Internacional dos Direitos Humanos (DIDH) apresentam aplicabilidades e mecanismos de supervisões diferenciados. abrigo e assistência médica.org/Web/por/sitepor0.nsf/html/66LLHJ!OpenDocument FGV DIREITO rio 62 . incluindo mulheres. Todavia. http://www.

o maior teatro de operações do CICV em todo o mundo. e em toda a cadeia de comando das forças governamentais. Frente às graves violações do Direito Internacional Humanitário cometidas sob responsabilidade do governo. em terreno. Com um orçamento de US$ 112 milhões. Kutum e Zalingei. em 2005. “Penso que o CICV optou por uma boa solução quando decidiu concentrar suas operações de socorro nas regiões rurais com a intenção de evitar novos deslocamentos de populações e facilitar o retorno dos que partiram”. disse Kellenberger.cicr. na África. fronteira entre o Chade e o Sudão. Além de fazer conhecer o Direito Internacional Humanitário e de assegurar o respeito por estas normas. Kellenberger reconheceu que o acesso às vítimas do conflito armado no Darfur melhorou sensivelmente desde de sua última visita à região. velando prioritariamente pelo conhecimento e respeito aos princípios básicos do Direito Internacional Humanitário. que este retorno deve ser absolutamente voluntário e que as condições de segurança para os civis devem ser consideravelmente reforçadas nestas áreas. Neste caso. onde participa da Cúpula de Nairóbi para Um Mundo Livre de Minas http://www. o Sudão será. Kellenberger deixou claro que o CICV seguirá de perto a implementação das recomendações apresentadas. em todas as ocasiões. O governo deve também tomar as providências para acabar com a impunidade dos culpados por violações. fornecendo água e alimentos. O presidente do CICV encontrou-se com diversas autoridades do governo sudanês. Kellenberger formulou uma série de recomendações destinadas a melhorar a proteção da população civil. As operações do CICV são realizadas em cooperação com o Crescente Vermelho Sudanês e outras Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. de ambos os lados do conflito. Do Sudão. Por outro lado ele destacou. o presidente do CICV irá ao Quênia. em março de 2004. além de artigos de primeira necessidade e socorro médico.direitos humanos Sudão: presidente do CICV reforça importância do respeito ao Direito Internacional Humanitário Dia 30 de novembro de 2004 Comunicado melha de imprensa nº 04/71 do Comitê Internacional da Cruz Ver- Cartum/Genebra (CICV) – O presidente do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) Jakob Kellenberger terminou hoje uma visita de três dias às cidades de El Fasher.org/web/por/sitepor0.nsf/iwpList4 747E1213A0B72DE90325 6F5F005B3500 FGV DIREITO rio 63 . na região do Darfur. o CICV presta assistência a meio milhão de pessoas em todo o Sudão.

Recebe cédula de identidade de estrangeiro. FGV DIREITO rio 64 . muitos viajam como clandestinos em cargueiros e enfrentam dias de fome e tensão. O elo que os une: expulsos por terríveis guerras civis.direitos humanos Refugiados no Brasil: o lado humano dos conflitos que assolam o mundo em território nacional Por Patrícia Pereira Há 3 mil refugiados no Brasil. 38 anos. Segundo o representante no Brasil do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). e que desde 1997 tem uma lei nacional específica na qual se compromete a receber. Outros vagam anos a pé até conseguir embarcar em aviões. Mesmo assim. Luis Varese. que pode levar seis meses. “Eles sabem que não serão deportados.2 mil dos 1. Com a ratificação. é analisado pelo Comitê Nacional para Refugiados (Conare). São mulheres e. e no Brasil A primeira barreira que o refugiado enfrenta é a viagem de fuga. como conta neste especial o africano da Costa do Marfim Edmond Kouadio. fornecidos pelo Acnur. a pessoa passa a gozar de total liberdade dentro do território nacional. em grande parte. mas que ainda não conseguiram o direito de viver em território nacional. Barreiras na fuga. A condição pode ser estendida aos familiares e dependentes que se encontrem em território nacional. existem pelo menos outros 6 mil refugiados que vivem no Brasil. Com o mesmo perfil. Só se cometerem uma infração grave. Aqui. conta que a maioria dos que não conseguem obter o status permanece no Brasil assim mesmo. Para chegar ao País. permanecem com medo da deportação. por um período médio de seis meses. CPF e carteira de trabalho e. cerca de 35% das pessoas que entram com processo para pedir o reconhecimento como refugiado têm essa condição validada. diz. O processo. em meio a lembranças de dor e sofrimento. é preciso provar que se corre risco de vida no país de origem. seria o mesmo que morrer. famílias inteiras de desterrados. órgão ligado ao Ministério da Justiça. Já no Brasil. É preciso ultrapassar a fronteira de sua terra natal para pedir proteção ao governo do Brasil – país signatário do tratado da Convenção de Genebra. A maioria é de africanos e latino-americanos. Sozinhos em um país estranho e vivendo de forma ilegal. de 1951. ideológicas e religiosas. violências étnicas e tribais e outras violações graves de direitos humanos. Voltar para casa.5 mil refugiados que vivem na cidade. perseguições políticas. proteger e ajudar a integrar refugiados. fugiram de seus países de origem e realizaram verdadeiras façanhas para chegar ao Brasil. homens com idade entre 20 e 25 anos. em São Paulo. pediram refúgio ao governo e tentam reconstruir suas vidas. onde são oferecidos programas de apoio a imigrantes e por onde já passaram cerca de 1. para eles. tem direito a um salário mínimo e medicamentos. vivem com medo”. A assistente social Denise Orlandi Collus. Às vezes. que atravessou quase todo o continente africano fugindo de massacres e guerras civis. que trabalha no Sesc Carmo.

Comitê Internacional da Cruz Vermelha.htm As duas primeiras notas de imprensa são datadas de novembro de 2004. FGV DIREITO rio 65 . responsável por implementar o programa do Acnur em São Paulo e no Rio de Janeiro. Gerard. por que será que existem normas que regulamentam as condutas perpetuadas nesse período? Haveria uma contradição entre conflito e regras a serem cumpridas? A resposta é não. enfrenta o desemprego e a desilusão das filhas provocada pela queda na qualidade do ensino. é preciso compreender algumas limitações acordadas pelos Estados de forma a tornar os conflitos armados menos danosos. o que dificulta sua entrada no mercado de trabalho”. Direito Internacional Humanitário e Direitos Internacional dos Direitos Humanos: tradicionalmente.estadao. Após essa leitura. Antônio Augusto. “Sistemas Internacionais de proteção da pessoa humana: o direito internacional humanitário”. conta Denise. CR: Instituto Interamericano de Direitos Humanos. Peru e Cuba – nos últimos anos reforça esse grupo. Surge então uma nova barreira: a do preconceito. têm a ajuda da Cáritas. Volume I. que é jornalista e especializou-se em prevenção e administração de desastres. Para isso. “mais recentemente o primeiro temse voltado também para situações de violência em conflitos internos.”70 Quais elementos são característicos do DIH? Definição: “trata-se do corpo de normas jurídicas de origem convencional ou consuetudinário. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. A normatização do conflito visa precisamente à mitigação de seus efeitos e a sua não transformação em uma barbárie absoluta. 70 71 PEYTRIGNET. http://www. cabe a exploração de alguns elementos do DIH e do DIR. As três vertentes da proteção internacional dos direitos da pessoa humana.direitos humanos Enquanto aguarda o resultado do processo os refugiados procuram aprender a língua. p. a terceira nota reflete um panorama dos refugiados no Brasil. o DIH protege a pessoa humana em conflitos armados e o DIDH em todos os tempos. com mulher e quatro filhas. PEYTRIGNET.). e que limita. 1996. Antônio Augusto. Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.com. Na Colômbia.br/especial/refugiados. Tendo em vista que a Carta das Nações Unidas legitima expressamente o uso da força em circunstâncias limitadas. respectivamente acerca dos conflitos vividos no Iraque e Sudão. organização não-governamental de assistência e proteção aos refugiados ligada à Igreja Católica. San José. sempre tendo como parâmetro o DIDH. especificamente aplicável aos conflitos armados. adaptar-se aos hábitos dos brasileiros e integrar-se socialmente. de 45 anos. Dificilmente ele consegue exercer no Brasil a profissão que desempenhava antes. In: CANÇADO TRINDADE. Histórico: Como foi estudado na aula 02 – Desenvolvimento Histórico dos Direitos Humanos. notadamente no que se refere à proteção da pessoa humana. São pessoas com formação universitárias e politizadas. a urgência passa a ser conseguir emprego e moradia. 275. No Brasil. A boa formação do refugiado acaba às vezes sendo um ponto negativo para a integração. Por sua vez. e SANTIAGO. todavia. evitando que sejam afetados as pessoas e os bens legalmente protegidos. O crescente número de refugiados vindos da América Latina – principalmente Colômbia. Gerard. trabalhava na Cruz Vermelha. Jaime Ruiz de (orgs. internacionais ou não-internacionais. o DIH pode ser indicado como precursor da internacionalização CANÇADO TRINDADE. o direito das partes em conflito de escolher livremente os métodos e os meios utilizados na guerra. como o colombiano Juan (nome fictício). Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor. e o segundo à proteção de certos direitos básicos também em diversas situações de conflitos e violência.”71 Se a guerra é o campo do conflito. 1997. Com os papéis em mãos. “O refugiado é quase sempre visto como bandido ou traficante. por razões humanitárias.

o Protocolo Adicional I amplia a definição de conflito armado internacional por incorporar aqueles nos quais se luta contra regimes de dominação colonial ou contra regimes racistas. para a elaboração de dois protocolos adicionais às Convenções de Genebra. A extensão de sua aplicabilidade e a ratificação por parte de 191 países fazem com que o DIH seja denominado muitas vezes de o “Direito de Genebra”. A convite do governo suíço. Esse esforço normativo é resultado da barbárie vivenciada nos campos de guerra existentes na Europa durante o século XIX. a preocupação com as guerras de libertação nacional e a necessidade de regulamentação dos conflitos armados não-internacionais conduziram ao chamamento de uma conferência internacional em 1977. realizada também em Genebra. entre franceses e austríacos. foi celebrada uma conferência no ano de 1864 que aprovou o Convênio para a proteção dos feridos no campo. Era necessário um compromisso mais efetivo por parte dos Estados para o estabelecimento de uma ordem mundial pós-1945. Dunant fundou o Comitê Internacional de Ajuda aos Feridos. O Protocolo II foi ratificado por 156 países. em companhia de outros genebrinos. norte da Itália. É importante lembrar que nesse momento. no qual propõe a criação de entidades de socorro privadas em cada país e a elaboração de um acordo internacional que facilitasse o trabalho das mesmas. que. Por iniciativa do CICR. em 1862. Todavia. o qual veio a ser chamado logo após de Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). em seus 10 artigos. o livro “Recordações de Solferino”.direitos humanos da proteção da pessoa humana. estabeleceu o marco normativo moderno do DIH. o mundo era formado por poucos Estados e não existiam instâncias multilaterais que pudessem monitorar o uso da força. o genebrino Henry Dunant presenciou as atrocidades da batalha de Solferino. doentes e náufragos das Forças Armadas no mar. tendo sido ratificado por 161 países. a Suíça convocou uma conferência em Genebra no ano de 1949. e Protocolo Adicional II – disciplina a previsão do artigo 3º comum e sua aplicabilidade a conflitos armados internos. Condições: forças armadas dissidentes ou outros grupos armados organizados. Convenção de Genebra III – protege os prisioneiros de guerra. Publicou. Principais tratados: tal passo não foi suficiente para evitar os resultados trágicos das duas Grandes Guerras Mundiais. • Protocolo Adicional I – em nome do princípio da auto-determinação dos povos. O enquadramento moderno é marcado pela Convenção de Genebra de 1864 para melhoramento da condição de feridos no campo. Convenção de Genebra II – protege os feridos. Em 1863. e Convenção de Genebra IV – inaugura a preocupação com a população civil. sob comando responsável e exercendo controle sobre certa parte do território. da qual resultaram os diplomas que constituem a chave-mestra do DIH: • • • • Convenção de Genebra I – protege os feridos e doentes das Forças Armadas em campanha. FGV DIREITO rio 66 • . Em 1859.

armas químicas e sua transferência de minas anti-pessoais e sobre a sua destruição. duradouros e graves ao meio ambiente natural. população civil ou bens de caráter civil. 256DEA00349CD7). Está proibido o emprego de armas que causem danos combatente de combate. encontram-se: a) Convenção de 1992 – proibição destruição. Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos náufragos. Está proibido o emprego de armas que danos instalações e as permitir que façam seu trabalho. o professor poderá apresentar Princípios fundamentais: De acordo com gráficos apresentados no site do CI146 De72 acordo com gráficos apresentados no site do CICV146 . encontram-se: a) Convenção de 1992 – proibição iwpList104/A586AE20F1419C1 http://www. sem discriminação alguma. população ou bens caráter civil. Tratar com humanidade o adversário que se rende ou é capturado.” sanitárioAcesso nem suas instalações http://www. alunos uma linguagem dos princípios CV é possível enumerar os representativa princípios regedores do DIH: gerais regedores do DIH: aos alunos uma linguagem representativa dos princípios gerais regedores do DIH: Somente podem ser atacados os objetivos militares.cicr. produção e 146 FGV DIREITO rio 67 Acesso em: 19 e sobre de junho de 2005. o professor poderá apresentar aos . em qualquer ataques diretos contra pessoas de civis. De acordo com gráficos apresentados no site do CICV146.cicr. Tratar com humanidade o adversário que se rende ou é Tratar com humanidade capturado.” Acesso em: 19 de junho de 2005. assim como os danos causados a bens de caráter indiscriminados e a obrigação de tomar medidas de precaução a fim de evitar.nsf/htmlall/section_ihl_conduct_of_hostilities?OpenDocument.nsf/iwpList104/846A586AE20F1419C1256DEA00349CD7) Acesso em: 19 de junho de 2005. de armas bacteriológicas e sua b) Convenção de 1993 – proibição de armas químicas e sua principais tratados constantes do destruição. também denominado “mini-convenção” são aplicáveis a conflitos armados não-internacionais. 2005.nsf/htmlall/section_ihl_weapons?OpenDocument. no corpo humano. Somente podem ser atacados os objetivos militares. assim como os prisioneiros ou detidos. o duradouros e certas graves ao meio ambiente natural.direitos humanos As convenções e o Protocolo I são aplicáveis a conflitos armados. e em qualquer situação civil. o Protocolo II e o Artigo 3 comum às Convenções.nsf/ principais tratados constantes do Direito de Nova Iorque. Direito de Nova Iorque. 146 146 http://www. civil. sem discriminação alguma. junhoassim como de os 2005. as biológicas. Respeitar os civis e seus bens. por natureza. laser cegantes ou em: incendiárias.nsf/iwpList104/846A586AE20F1419C1256DEA00349CD7) . laser cegantes extensos.org/web/por/sitepor0.” em: e de19 de os civis. 72 assim Acesso em: 19 junho 2005. estocagem. Disponível em: 145 O Direito de Nova Iorque combatentes armas que. assim limitados emprego de armas. b) Convenção 1993 –do proibição deestocagem. Disponível Não atacar o pessoal médico ou humano. Importante ressaltar que a aplicabilidade de tais normas não está condicionada à declaração formal de guerra.nsf/htmlall/section_ihl_conduct_of_hostilities?OpenDocument.org/web/por/sitepor0. http://www. ae proibição dos situação ataques Não causar sofrimentos oude danos excessivos.org/web/por/sitepor0. Asúnico armas que violam os "ditames da consciência pública" também podem ser Não atacar o pessoal médico ou sanitário nem suas extensos. Disponível em: transferência de minas anti-pessoais a sua destruição.cicr. o número de mortos e de feridos entre os civis. Disponível em: como de projéteis que explodem ou se alastram facilmente no corpo em: 19 de junho de em: http://www. e c) Convenção de 1997 – Tratado de Otawa: de proibição emprego. bastando o fato de um conflito armado. e c) Convenção de 1997 – Tratado de Otawa: proibição do emprego. Disponível em: http://www. por natureza. sejam combatente fora de combate. oAcesso número de mortos feridos entre danos causados a bens de caráter http://www. como biológicas. o que significa o envolvimento de dois ou mais Estados. a proibição dos ataques indiscriminados e a obrigação tomar medidascivil de precaução a fim de evitar.org/Web/por/sitepor0. minimizar. ataques diretos contra pessoas civis. assim como os prisioneiros ou detidos.cicr. o adversário que se rende ou é capturado.. Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos náufragos. sem discriminação alguma.cicr. 145 145 indiscriminadas ou que possuam causarão sofrimento requerido para deixar um O Direito de Nova Iorque características “proíbe aos que combatentes empregar maior armas ao que. Dentre os 2005. náufragos. Somente podem ser atacados os objetivos militares. químicas. sejam Não “proíbe causar aos sofrimentos ou empregar danos excessivos. Respeitar os civis e seus bens. Em tratados específicos são causem proibidos ou proibidas de acordo com esse único argumento. Disponível em: cicr. ou incendiárias. assim como os prisioneiros ou detidos.org/Web/por/sitepor0. Dentre os e permitir que façam seu trabalho.nsf/htmlall/section_ihl_weapons?OpenDocument. destruição.org/web/por/sitepor0. produção e de armas bacteriológicas e sua destruição.org/web/por/sitepor0.cicr. As armas que violam os "ditames da consciência pública" também podem ser indiscriminadas ou que possuam características que causarão sofrimento maior ao requerido para deixar um proibidas defora acordo com esse argumento.” Acesso 19 de junho de limitados o emprego de certas armas. Em tratados específicos são proibidos ou como de projéteis que explodem ou secomo alastram facilmente químicas. Por sua vez. Disponível em: minimizar.

é mantido como emblema e sinal distintivo do serviço de saúde dos pelo DIH a duas categorias específicas: Pessoas protegidas: pessoas que. uma vez que a violação das regras de DIH corresponde à violação de regras de caráter interno. estes emblemas igualmente reconhecidos nos termos da presente Convenção. Estabelece ainda que. Vivencia-se hoje um enorme fluxo migracional. prisioneiros de guerra. Tal instituição foi consagrada pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas de 1961. direitos humanos Não atacar o pessoal médico ou sanitário nem suas instalações e permitir que façam seu trabalho. o Estado obriga-se não ataques ou outros atos hostis (destruição. captura. em homenagem à Suíça. apenas às normas nele constantes. meio de tais gráficos à relevância concedida cores federais.cicr. em especial a autorida147 civis e militares. vez da cruz vermelha. serviço e principalmente a capitais. por meio da nomenclatura ‘Potência Protetora’. comum e militar e processual penal comum e militar.. civis. instituição imparcial capaz de acompanhar a veracidade das alegadas violações ao DIH. náufragos. notadamente penal e processual. mas também a adequar a sua legislação interna de Exemplos de bens protegidos: bens de caráter civil e bens culturais.org/Web/por/sitepor0. o Protocolo I de 1977 convencionou a criação da Comissão Internacional de Apuramento dos Fatos.. o sinal cruz vermelha em por fundo branco. a designação de um Estado alheio ao conflito. seja em tempo de paz ou de guerra. o crescente vermelho ou o leão o sol vermelhos considerados os feridos. Disponível em: http://www. o Estado deve envidar todos os esforços para cessar condutas que afrontam o DIH e deve punir os autores de condutas adversas a esse direito. Por sua vez. confisco etc . de infrações às normas de DIH: tendo em vista a necessidade de se estabelecer uma autoridade neutra capaz de arbitrar um conflito armado. por outro. é também tarefa do Estado estabelecer medidas de repressão. causado muitas vezes pelas próprias decorrências do capitalismo que não encontra nas fronteiras a mesma flexibilidade. deve assegurar medidas de controle. represálias. merecem tratamento especial por eparte do DIH. Assume ainda a obrigação de adotar medidas preventivas. Considerada a dificuldade de eleição de tal Estado. os são enfermos. notadamente no que se refere às normas de caráter penal 147 de transporte sanitários. nunca estiveram tão altas no que concerne a pessoas. pessoal fundo branco. as fronteiras estatais diminuem no que concerne a mercadorias. De acordo com o artigo 38 da Convenção I de Genebra. FGV DIREITO rio 68 .). o direito consuetudinário 162 reconheceu. sanitário e religioso.nsf/htmlall/section_ihl_protected_persons_and_property?OpenDocu Igualmente. unidades e meios forma a compatibiliza-la. para os países que empregam já como sinal distinde em sua condição. o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) acaba por agir como substituto da potência. Não colocar obstáculos ao pessoal da Cruz Vermelha no desempenho de suas funções. em Assim são tivo. Bens protegidos: aqueles que devem ser protegidos contra Aplicabilidade do DIH: ao assinar um tratado de DIH. Direitos Humanos e Direito dos Refugiados A globalização econômica desnuda um paradoxo: por um lado. Não colocar obstáculos ao pessoal da Cruz Vermelha no desempenho de suas funções. Por fim. fundamentais à determinação ment. como a de difusão do conteúdo dos tratados. em virtude exércitos. formado pela inversão das Cabe ao heráldico professorda chamar à atenção. Nesse sentido. des Acesso em: 19 de junho de 2005.Não causar sofrimentos ou danos excessivos. seja comum ou militar.

e ALMEIDA. 134 países comprometeram-se com a causa no momento da assinatura da Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 e do Protocolo de 1967. nacionalidade. O Direito Internacional dos Refugiados vem galgando importantes passos ao longo de sua história. estabelece que: MELO.”74 Há de se destacar que a concepção clássica de refúgio. 73 O Protocolo de 1967 veio justamente a retirar a restrição temporal impressa pela Convenção. se não tem nacionalidade e se encontra fora do país no qual tinha sua residência habitual em conseqüência de tais acontecimentos não pode ou. por causa de uma agressão exterior. Todavia. a Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelece que toda pessoa vítima de perseguição tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países. inciso 2: 2. não quer valer-se da proteção desse país ou que. Estabelece. erigindo a necessidade de revisão do conceito do refúgio. está obrigada a abandonar sua residência habitual para buscar refúgio em outro lugar for do seu país de origem ou do país de sua nacionalidade. Guilherme de (orgs.direitos humanos É claro que o ‘deslocar-se’ faz parte da história. entrando em vigor em 1974. religião. mas foi o final da SegundaGuerra Mundial o marco inaugural para o abrigo internacional a sua proteção. A primeira iniciativa de ampliação encontra-se na Convenção da Organização da Unidade Africana. p. Nádia de. A proteção ao refugiado encontra abrigo no marco fundamental dos direitos humanos: assinada em 1948. no contorno específico da figura do refugiado. aprovada em 1969. adaptando-no à realidade regional.). concebida no descrito contexto. uma ocupação ou uma dominação estrangeira ou de acontecimentos que pertubem gravemente a ordem pública em uma parte ou na totalidade de seu país de origem. em determinadas situações. devido ao referido temor. Rio de Janeiro: Renovar. 2001. “Revisitando o conceito de refúgio: perspectivas para um patriotismo constitucional”. este conceito tem como centro a questão da perseguição. Carolina de Campos. Em sua terceira conclusão. Nesse sentido. em virtude desse temor. A Convenção estabeleceu a definição clássica de refugiado como qualquer pessoa que: (. In: ARAÚJO. por ocasião da Declaração de Cartagena de 1984. 267.. grupo social ou opiniões políticas. Originalmente. o que se coaduna perfeitamente à dualidade de sistemas vivenciada no pós-guerra: os refugiados podiam ser vistos como troféus de um sobre o outro.) em conseqüência de acontecimentos acorridos antes de 1o. se encontra fora do país de sua nacionalidade e que não pode ou. A ampliação do conceito também teve palco no continente americana. “criado em um contexto de Guerra Fria. tendo como base a idéia de perseguição. não quer voltar a ele. em seu artigo 1. 74 FGV DIREITO rio 69 . a realidade internacional demonstrou a incapacidade desse conceito jurídico em dar uma resposta a situações fáticas. O Direito Internacional dos Refugiados: uma perspectiva brasileira. caracteriza-se como subjetiva e individual. de janeiro de 195173 e temendo ser perseguida por motivo de raça. O termo “refugiado” aplicar-se-á também a toda pessoa que. ou do país de sua nacionalidade..

tendo-se em conta. 75 76 Idem. Percebe-se uma clara objetivação do conceito de refúgio. Afinal. “vem-se passando gradualmente de um critério subjetivo de qualificação de indivíduos. mas a violação de direitos humanos assume a condição de situação que acarreta refúgio. o qual deixa de ter a idéia de perseguição como fundamental. no que concerne à solução duradoura. proteção e solução. reassentamento). considere também como refugiados as pessoas que fugiram de seus países porque sua vida. interação local. os conflitos internos. segurança ou liberdade foram ameaçadas pela violência generalizada. Esta declaração aprofundou as relações entre o DIR e o DIDH ao tratar de forma mais aprofundada questões deslocamentos forçados. a agressão estrangeira. a um critério objetivo concentrado antes nas necessidades de proteção. violações maciças de direitos humanos e conflitos armados podem ser indicados por fatores determinantes para a saída de determinados grupos de um país. por ocasião da Declaração de San José. Por fim.”75 Os conceitos descritos conduzem ainda à premissa que permeia a presente aula. nos últimos anos. “A visão tradicional concentrava atenção quase que exclusivamente na etapa intermediária de proteção (refúgio). a violação massiva dos direitos humanos ou outras circunstâncias que tenham perturbado gravemente a ordem pública. deve ser estipulada uma solução considerada duradoura para os refugiados. resta claro que o DIR e o DIDH passam a ter não apenas progressiva interação. p. A. De acordo com Cançado Trindade. Nesse sentido. Não se pode mais alimentar a compartimentalização da proteção da pessoa humana. parágrafo 2) e a doutrina utilizada nos informes da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. A. uma década depois de Cartagena. É precisamente nesse sentido que se constrói a estratégia do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). a definição ou conceito de refugiado recomendável para sua utilização na região é aquela que além de conter os elementos da Convenção de 1951 e do Protocolo de 1967. segundo as razões que os teriam levado a abandonar seus lares. Tanto a concepção africana quanto a americana demonstram como a realidade conduziu a necessidade de adequação da Convenção de 1951. cabem alguns esclarecimentos: ultrapassada a concessão de refúgio por órgão independente e especializado. Dentre elas. foram as necessidades de proteção que levaram o ACNUR.”76 No que se refere à etapa preventiva. cabendo ao Estado CANÇADO TRINDADE. p..direitos humanos (. Cumpre ressaltar que os países americanos reiteram a perspectiva ampliada do conceito de refúgio no ano de 1994. FGV DIREITO rio 70 . op. no pertinente. destaca-se a integração local. 322. Por sua vez. a ampliar seu enfoque de modo a abranger também a etapa ‘prévia’ de prevenção e a etapa ‘posterior’ de solução duradoura (repatriação voluntária.. constituindo campo de implantação concomitante do DIDH e do DIH.) faz-se necessário encarar a extensão do conceito de refugiado. a etapa da proteção tem no princípio do non refoulement sua principal viga. 320. o precedente da Convenção da OUA (artigo 1. desse modo.cit. o DIDH deve contracenar com o DIR em três momentos: prevenção. e dentro das características da situação existente na região.

Como ilustrado o terceiro texto inicial da Nota ao Aluno. é possível vislumbrar o atual retrato dos refugiados no Brasil: Tabela 1 – Total de Refugiados no Brasil em fevereiro de 200579 (acnur e conare) Continente de procedência África América (América Latina e Caribe) Ásia Europa Total Total  2. cit. Disponível em: h t t p : / / w w w. cabem aqui algumas ponderações sobre os refugiados no Brasil. em retrospectiva histórica. Como ressalta Guilherme de Almeida. a d i t a l. asp?lang=PT&cod=17275. br/site/noticias/17275. O diagnóstico das nacionalidades vêm sofrendo alterações ao longo dos anos. asp?lang=PT&cod=17275.78 De acordo com a tabela abaixo. apesar do decréscimo. apátridas.2 milhões. c o m . de 28 de janeiro de 1961. o ACNUR tem desenvolvido diversas atividades que contemplam os deslocados. estimandose em 9. alguns grupos fossem recebidos com outro título. Por mais que as condições que expulsam os refugiados e os deslocados de seus lares possuam o mesmo cerne – afirmativa que encontra respaldo no conceito objetivo de refugiados – somente aquele que cruza a fronteira pode perquirir o status de refúgio. ao incorporar a Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951. G. Tal cláusula fez com que.215. Mas. o Decreto nº 50. o Estado brasileiro aceitou as vítimas da guerra civil angolana com base na Declaração de Cartagena. retornados.4 milhões de deslocados internos aumentou para 19. 79 FGV DIREITO rio 71 . c o m . Originalmente criado com tarefa restritiva aos refugiados. Todavia. apátridas e um total de 6. solicitantes de asilo e retornados. nem todas as pessoas que têm que deixar seus lares cruzam as fronteiras. Se o número de refugiados vem diminuído ao longo dos últimos anos. o mais baixo em quase 25 anos. o Brasil recebe cerca de 1200 angolanos. Por fim.2 milhões o total atual. estabelece uma “reserva” geográfica. Disponível em: h t t p : / / w w w. 155 a 159. a qual estipula o Brasil aceitaria somente refugiados originados do continente europeu. Entre os anos de 1992 e 1994. de forma a garantir o princípio do non refoulement. br/site/noticias/17275. o Brasil recebe hoje milhares de refugiados. o dado global de pessoas das quais se ocupa o ACNUR. no ano de 2004. pp.direitos humanos todas as providências necessárias para o exercício dos direitos humanos por parte dos refugiados. 77 78 ALMEIDA. como educação e trabalho. mesmo em momento anterior à elaboração da Lei nº 9747/97 que abrigou tanto a concepção clássica quanto a ampliada de refugiado. Cabe também a repatriação. o ACNUR assevera que “o número global de refugiados baixou em 4%. o mesmo não se pode dizer dos deslocados. incluindo os solicitantes de asilo. op. Fonte: CONARE Acesso em: 27 de junho de 2005.”77 Por fim.506 274 181 113 3074 Acesso em: 27 de junho de 2005. sendo absolutamente necessária a anuência do refugiado. Em se mais recente Relatório. Interessante ressaltar que. há também o reassentamento quando o refugiado vai para um terceiro país. como foi o caso de 150 vietnamitas em 1979/80 e 50 famílias Bahai (Irã) em 1986. a d i t a l. até que fosse levantada em 1989.

Guilherme Assis de. 2001. VIII. Da mesma forma. Todavia. itens III e XII). O direito internacional dos refugiados: uma perspectiva brasileira. momento de constituição do Comitê Nacional para Refugiados (CONARE). DIH e DIR? Qual a principal distinção? Porque a guerra deve ser objeto de restrições? Quais os princípios regedores do DIH? O que significa o princípio do non refoulement? Qual é a diferença normativa entre refugiados e deslocados? Quais requisitos devem ser preenchidos para a aquisição do status de refugiado no Brasil? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. Rio de Janeiro: Renovar. A contabilidade de refugiados e deslocados está recortada a um determinado período histórico. Vol. CANÇADO TRINDADE. as seguintes perguntas poderão auxiliar o professor na condução da aula: • • • • • • • Quais são as principais interações entre o DIDH. Todavia. itens I e II).direitos humanos Tais números refletem os pedidos de refúgio acolhidos antes e depois de 1998. I. Tratado de direito internacional de direitos humanos. pp. 284-352 (Cap. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. VIII. Vol. Órgão coletivo sediado no Ministério da Justiça. Tratado de direito internacional de direitos humanos. Dentre elas. a elasticidade conceitual deve ser respeitada pela aplicação de medidas preventivas que evitem que refugiados e deslocados tenham que dar início à partida. 1997. 1997. pp. FGV DIREITO rio 72 . 270-284 (Cap. Leitura acessória ARAÚJO. há de se ressaltar que nos últimos anos. Antonio Augusto. como é o caso dos deslocados. voltamos ao objeto desse curso: a efetiva proteção dos direitos humanos. Antonio Augusto. torna-se significativo o número de refugiados latinoamericanos. I. o CONARE é responsável pelo exame das solicitações de refúgio e pela elaboração de políticas públicas para os refugiados. Nádia de. É certo que a ampliação da definição constitui uma forma de se contemplar grupos que tiveram que deixar seus lares por diferentes razões. Fica clara a preponderância de refugiados de origem africana. Diante de todo o exposto. e ALMEIDA. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. notadamente provenientes da Colômbia. organizações internacionais como o ACNUR tiveram que expandir o universo de grupos sob sua responsabilidade.

São Paulo: Max Limonad. Introducción al derecho internacional humanitario. In: PIOVESAN. Liesbeth. 115 – 146. PIOVESAN. Temas de Direitos Humanos. “O direito de asilo e a proteção internacional dos refugiados”. 2003. Buenos Aires: Centro de Apoyo en Comunicación para América – Comitê Internacional de la Cruz Roja. pp. Restricciones en la coducción de la Guerra. 21 – 41. Legislação: Constituição Federal de 1988 Convenções de Genebra de 1949 Protocolos Adicionais de 1977 Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 Atividade Complementar: Filme “O Resgate do Soldado Ryan” de Steven Spielberg.direitos humanos KALSHOVEN. pp. Flávia. Frits e ZEGVELD. 2003. FGV DIREITO rio 73 . Flávia.

ao entrar no sistema informatizado do Departamento de Aviação Civil (DAC). a hipótese do abate do avião colombiano. Santiago e seu co-piloto. Antônio Gonzales foram as primeiras vítimas da Lei do Tiro de Destruição. mais conhecida como Lei do Abate. como medida de intervenção. Colômbia e Venezuela. Estiveram presentes autoridades. Diante do acontecido. Dentre os principais argumentos. quando partia da Colômbia para a Ilha de Marajó. Gúzman e Gonzáles mantiveram sua rota original. que possui membros em toda região amazônica. Tais dados foram enviados a Autoridade de Defesa Aeroespacial que. após ordem do Comandante da Aeronáutica. Ao entrarem no espaço aéreo brasileiro. fazendo com que a comunicação fracassasse. Como medida de averiguação. embora não tivessem percebido. conduziram-na à condição de suspeita. Santiago Gúzman realiza o transporte de sementes medicinais entre diversas localidades em seu avião de pequeno porte. o piloto da FAB tentou contato via rádio. uma das aeronaves da FAB disparou tiros de advertência laterais à aeronave. FGV DIREITO rio 74 . emitindo sinais visuais para o pouso imediato da aeronave. representantes de organizações e familiares das vítimas. foram fotografados por uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) a fim de verificar. Pelo fato de Gúzman e Gonzales terem prosseguido em sua rota. não conseguiu identificar a aeronave. destaque-se: Ministério da Defesa Sustenta que o Estado brasileiro tem o dever de defender sua soberania nacional – um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito – sempre em conformidade com as normas legais. é membro da Associação Amigos das Sementes. o avião foi considerado hostil. No entanto. o que causou verdadeira situação de pânico para os pilotos. Estado do Pará. colombiano. entre outras coisas. não conseguiram entender o que lhe era solicitado. Logo em seguida.direitos humanos Aula 12: Os direitos civis e políticos: direito à vida NOTA AO ALUNO Santiago Gúzman. na qual foi debatido exaustivamete o assunto. a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados convocou uma Audiência Pública. nível de vôo. mas os pilotos. por um problema técnico. Há mais de 10 anos. foi disparado tiro com o intuito de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo. Tiveram início as medidas de intervenção: duas aeronaves da FAB aproximaram-se ostensivamente. Em 20 de outubro de 2004. inclusive no Peru. tipo de aeronave. país reconhecido como importante fonte de substâncias entorpecente. sua matrícula. Dessa forma. os disparos foram além de sua finalidade: o avião foi abatido e os tripulantes faleceram. Em procedimento objeto de registro sonoro. A impossibilidade de identificação da aeronave e a procedência da Colômbia.

O grupo reconhece que a lei é dura e drástica. Ademais. O Estado deve investir em meios alternativos de controle. vedada expressamente pela Constituição Federal brasileira (salvo em caso de guerra declarada). a falta de habilitação do piloto. direito consagrado constitucionalmente. a vida de seus cidadãos. desatualização do exame médico. suspeitos de tráfico de drogas. Assim. Sendo assim. Defensores da Lei e Ordem Argumentam que a lei é importante e necessária pois o consumo de drogas no Brasil e no mundo é uma tragédia cotidiana que mata anualmente. deveriam ter tido os direitos à ampla defesa e de ser julgados pelo Poder FGV DIREITO rio 75 .direitos humanos além de estar legalmente prevista. atende não apenas a um interesse público superior e socialmente legítimo como ao princípio constitucional da segurança pública. uma vez que os tripulantes foram condenados sem julgamento e direito à ampla defesa. milhares de pessoas. e não-utilização de fonia para não pagar as tarifas de proteção ao vôo podem ser apontadas como falhas que não devem ter como conseqüência a violação do direito à propriedade das aeronaves. O Poder Judiciário é o órgão competente para julgar e condenar alguém. equipara-se à resistência à prisão. uma vez que os mesmos estavam ameaçando a soberania e. Organização pela independência do poder judiciário Sustenta que o abate ao avião colombiano constitui ofensa ao devido processo legal. tendo em vista que. mas sustenta ser um mal necessário para se combater um mal maior. Associação Nacional de Empresas Aeroviárias O mau funcionamento do sistema de comunicações. nesse caso. Defensores dos Direitos Humanos Sustenta que o direito à vida deve ser garantido e promovido em todas as hipóteses. foi aplicada aos 2 tripulantes. se o piloto resolve ignorar sete medidas que visam sua identificação. não podendo haver decisão extrajudicial. a fuga. constitui um dos direitos fundamentais do ordenamento jurídico brasileiro. o abate ao avião colombiano significa que a pena de morte. conseqüentemente. e em última conseqüência. além de ser consagrado internacionalmente. o direito à vida. não se opõe ao direito à vida dos tripulantes. Questão De que forma a Lei do Tiro de Destruição protege a soberania nacional? O abate do avião colombiano viola o direito à vida? Os tripulantes. pelo uso ou tráfico.

[.. bem como as posições acima mencionadas para responder tais questões. III – assegurar a defesa nacional.. 60. LV – aos litigantes. [. A República Federativa do Brasil. no mínimo.] XLVII – não haverá penas: a) de morte. Compete privativamente à União legislar sobre: [. [.. sem distinção de qualquer natureza...] XXXVII – não haverá juízo ou tribunal de exceção. aeroportuária e de fronteiras...direitos humanos Judiciário? Utilize a legislação brasileira (abaixo). defesa marítima. [.] XXII – executar os serviços de polícia marítima.] XXVIII – defesa territorial. marítima.] Art.. salvo em caso de guerra declarada.] Art.] III – a dignidade da pessoa humana.. 1º.. fluvial. [. 4º. [...] II – declarar a guerra e celebrar a paz... FGV DIREITO rio 76 . 22.] II – prevalência dos direitos humanos. 84. 21.... nos termos seguintes: [. [. A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: [. aérea e aeroespacial. LIV – ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal. Compete à União: [. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal.] Art... constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: [. XIX.. defesa civil e mobilização nacional (grifou-se). e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa. [.] Art. à liberdade. A Constituição poderá ser emendada mediante proposta: I – de um terço. navegação lacustre. dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal..... Legislação Constituição Federal de 1988 Art..] Art. [. Todos são iguais perante a lei.. à igualdade. 5º.] VI – defesa da paz. com os meios e recursos a ela inerentes..] LIII – ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente. em processo judicial ou administrativo. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. defesa aeroespacial.. à segurança e à propriedade..] X – regime dos portos. [.. nos termos do art.

preparar. repele injusta agressão. vender. prescrever... traz consigo ou guarda matéria-prima destinada a preparação de substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. fornece ainda que gratuitamente. trazer consigo. produzir.. II – semeia. adquire. [. ter em depósito. guardar. de qualquer forma. produzir. remeter.. ministrar ou entregar. 25. III – de mais da metade das Assembléias Legislativas das unidades da Federação. usando moderadamente dos meios necessários. cada uma delas.] IV – os direitos e garantias individuais. ministrar ou entregar. a direito seu ou de outrem [. de 21 de outubro de 1976 Dispõe sobre medidas de prevenção e repressão ao tráfico ilícito e uso indevido de substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou psíquica. remeter. sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar.. Nas mesmas penas incorre quem.848. e pagamento de 50 (cinqüenta) a 360 (trezentos e sessenta) dias-multa. vender. e dá outras providências. adquirir. tem em depósito. Lei nº 6. indevidamente: I – importa ou exporta. produz.] Art 12. transportar. prescrever. § 1º. expõe à venda ou oferece. além da pena correspondente à violência. adquirir. a consumo substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. fabricar. Art 12. de qualquer forma. fornecer ainda que gratuitamente. manifestando-se. Pena – Reclusão.direitos humanos II – do Presidente da República.. guardar.] Evasão mediante violência contra a pessoa Art. pela maioria relativa de seus membros. 352. de 3 (três) a 15 (quinze) anos.] § 4º – Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: [. de três meses a um ano. preparar. ter em depósito. transporta. [. atual ou iminente. vende.. cultiva ou faz a colheita de plantas destinadas à preparação de entorpecente ou de substância que determine dependência física ou psíquica. expor à venda ou oferecer. a consumo substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. Evadir-se ou tentar evadir-se o preso ou o indivíduo submetido a medida de segurança detentiva.368. fabricar. trazer consigo.] Legítima defesa Art. FGV DIREITO rio 77 . remete. Código Penal Decreto-lei no 2. transportar.. sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar.. [. usando de violência contra a pessoa: Pena – detenção. expor à venda ou oferecer. de 7 de dezembro de 1940.. Entende-se em legítima defesa quem. Importar ou exportar. fornecer ainda que gratuitamente. Importar ou exportar. fabrica.

fazendárias ou da Polícia Federal. tem em depósito..804. assim como os maquinismos. [. utilizados para a prática dos crimes definidos nesta Lei. traz consigo ou guarda matéria-prima destinada a preparação de substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. remete. Nas mesmas penas incorre quem. 303. ficando sujeita à medida de destruição.] Art 18. II – se. [. que dispõe sobre medidas de prevenção e repressão ao tráfico ilícito e uso indevido de substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou psíquica. excetuadas as armas. fabrica.] Art. vende. e pagamento de 50 (cinqüenta) a 360 (trezentos e sessenta) dias-multa. § 1°.. As penas dos crimes definidos nesta Lei serão aumentadas de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços): I – no caso de tráfico com o exterior ou de extra-territorialidade da lei penal. A autoridade aeronáutica poderá empregar os meios que julgar necessários para compelir a aeronave a efetuar o pouso no aeródromo que lhe for indicado.368.1998) – grifou-se. entrando no espaço aéreo brasileiro. cultiva ou faz a colheita de plantas destinadas à preparação de entorpecente ou de substãncia que determine dependência física ou psíquica. que serão recolhidas na forma da legislação específica (grifou-se). Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos. de 5. expõe à venda ou oferece. II – semeia. nos seguintes casos: I – se voar no espaço aéreo brasileiro com infração das convenções ou atos internacionais. adquire. produz. Lei nº 7. transporta. 34. instrumentos e objetos de qualquer natureza. A aeronave poderá ser detida por autoridades aeronáuticas. nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada. Lei nº 9.. a aeronave será classificada como hostil. após a sua regular apreensão. § 1º. de 30 de junho de 1999 Altera a redação do art 34 da Lei nº 6. FGV DIREITO rio 78 . de 19 de dezembro de 1986 (Código Brasileiro de Aeronáutica) Art.565. de 3 (três) a 15 (quinze) anos. § 2°.614. (Parágrafo acrescentado pela Lei nº 9. IV – para verificação de sua carga no caso de restrição legal (artigo 21) ou de porte proibido de equipamento (parágrafo único do artigo 21). desrespeitar a obrigatoriedade de pouso em aeroporto internacional.direitos humanos Pena – Reclusão. aeronaves e quaisquer outros meios de transporte. embarcações. de 21 de outubro de 1976. Os veículos. ficarão sob custódia da autoridade de polícia judiciária. V – para averiguação de ilícito. III – para exame dos certificados e outros documentos indispensáveis. fornece ainda que gratuitamente..3. indevidamente: I – importa ou exporta. utensílios. ou das autorizações para tal fim.

.... Brasília.... 2º e 3º do art.............. FERNANDO HENRIQUE CARDOSO Decreto nº 5.... 2o e 3o do art. Lei nº 9.. de 19 de dezembro de 1986. 177º da Independência e 110º da República.... 84. de 5... inciso IV....... Para fins deste Decreto. (§ 2°renumerado e alterado pela Lei nº 9.. oriunda de regiões reconhecidamente fontes de produção ou distribuição de drogas ilícitas..565......... que dispõe sobre o Código Brasileiro de Aeronáutica......614.. levando em conta que estas podem apresentar ameaça à segurança pública..... Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. de 19 de dezembro de 1986... 2o.... no que concerne às aeronaves hostis ou suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins... ou FGV DIREITO rio 79 ....” Art. Art. de 16 de julho de 2004 Regulamenta os §§ 1º..... DECRETA: Art. . § 3º... Este Decreto estabelece os procedimentos a serem seguidos com relação a aeronaves hostis ou suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins........1998).... nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada (grifou-se). 1o... numerado como § 2º...... O art. é considerada aeronave suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins aquela que se enquadre em uma das seguintes situações: I – adentrar o território nacional.614.. e tendo em vista o disposto nos §§ 1o............ § 2º...... renumerando-se o atual § 2º como § 3º....... sem Plano de Vôo aprovado.565.. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA. 303 da Lei nº 7... de 19 de dezembro de 1986.. 303. a aeronave será classificada como hostil.. A autoridade mencionada no § 1º responderá por seus atos quando agir com excesso de poder ou com espírito emulatório........ 1º.. 303 da Lei no 7....... no uso da atribuição que lhe confere o art.......144......... para incluir hipótese destruição de aeronave O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o CONGRESSO NACIONAL decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art.....565.....3..direitos humanos § 3°. da Constituição..... 303 da Lei no 7................ 5 de março de 1998.... passa a vigorar acrescido de um parágrafo.. de 5 de março de 1998 Altera a Lei nº 7.. Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos.. na forma seguinte: “Art.. de 19 de dezembro de 1986... ficando sujeito à medida de destruição... 2º....565.. A autoridade mencionada no § 1° responderá por seus atos quando agir com excesso de poder ou com espírito emulatório.....

de forma progressiva e sempre que a medida anterior não obtiver êxito. Art. no ar ou em terra. A medida de destruição consiste no disparo de tiros. e V – autorização do Presidente da República ou da autoridade por ele delegada. intervenção e persuasão. IV – execução sobre áreas não densamente povoadas e relacionadas com rotas presumivelmente utilizadas para o tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins. a vigiar o seu comportamento. § 1o. 5o. As medidas de persuasão seguem-se às medidas de intervenção e consistem no disparo de tiros de aviso. III – execução por pilotos e controladores de Defesa Aérea qualificados. ainda. § 3o. II – registro em gravação das comunicações ou imagens da aplicação dos procedimentos.direitos humanos II – omitir aos órgãos de controle de tráfego aéreo informações necessárias à sua identificação. se estiver cumprindo rota presumivelmente utilizada para distribuição de drogas ilícitas. O teor deste Decreto deverá ser divulgado. 4o. feitos pela aeronave de interceptação. pela aeronave interceptadora. Art. As medidas de intervenção seguem-se às medidas de averiguação e consistem na determinação à aeronave interceptada para que modifique sua rota com o objetivo de forçar o seu pouso em aeródromo que lhe for determinado. 2o estarão sujeitas às medidas coercitivas de averiguação. de conhecimento obrigatório dos aeronavegantes. com a finalidade de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo da aeronave hostil e somente poderá ser utilizada como último recurso e após o cumprimento de todos os procedimentos que previnam a perda de vidas inocentes. com a finalidade de interrogá-la. de acordo com as regras de tráfego aéreo. § 2o. Art. 3o. As aeronaves enquadradas no art. A medida de destruição terá que obedecer às seguintes condições: I – emprego dos meios sob controle operacional do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro – COMDABRA. As medidas de averiguação visam a determinar ou a confirmar a identidade de uma aeronave. com o objetivo de compelir a aeronave suspeita a efetuar o pouso em aeródromo que lhe for indicado e ser submetida a medidas de controle no solo pelas autoridades policiais federais ou estaduais. para ser submetida a medidas de controle no solo. Art. antes de sua vigência. Art. executadas por aeronaves de interceptação. com o objetivo de persuadi-la a obedecer às ordens transmitidas. de maneira que possam ser observados pela tripulação da aeronave interceptada. A aeronave suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins que não atenda aos procedimentos coercitivos descritos no art. 7o. segundo os padrões estabelecidos pelo COMDABRA. consistindo na aproximação ostensiva da aeronave de interceptação à aeronave interceptada. ou não cumprir determinações destes mesmos órgãos. com munição traçante. ou. 6 o. por meio da Publicação de Informação Aeronáutica (AIP Brasil). destinada aos aeroFGV DIREITO rio 80 . por intermédio de comunicação via rádio ou sinais visuais. 3o será classificada como aeronave hostil e estará sujeita à medida de destruição.

Acesso em: 08 nov. uma decisão. aplicando. efetuados pela FAB.direitos humanos navegantes e de conhecimento obrigatório para o exercício da atividade aérea no espaço aéreo brasileiro. antes de sua destruição. José Viegas. O Ministério da Defesa. na prática. Essa Lei é flagrantemente inconstitucional. que a regulamentou. causando a morte do piloto e dos passageiros. 5º. 2004. pelos seus atos. 11. em relação às “aeronaves suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins”. suspeitos do tráfico de drogas. pelos pilotos da FAB. Mas será possível excluir. Como ainda não havia sido regulamentada.br/wwwroot/ 02de2004/inconstitucionalidadedaleidoabatefernandolima. introduziu. 8o. na semana passada. por intermédio do Comando da Aeronáutica. Art. deverá adequar toda documentação interna ao disposto neste Decreto. Pior: essa Lei instituiu a execução extrajudicial. a lei não se aplica aos aviões militares. da apreciação do Poder Judiciário. O Ministro negou.07. permitindo a condenação e a execução sumária de todos os passageiros dos pequenos aviões civis. Esse Decreto entrará em vigor no próximo dia 18 de outubro. Art. em 05. e o Presidente da República. com vistas ao seu aprimoramento. sem julgamento. porque a nossa Constituição garante o direito à vida e proíbe a pena de morte. a pena de morte. XLVII). a pena de morte no Brasil.1998. ao aprovar essa Lei. e os pilotos encarregados de sua execução já estiveram em Belém. 16 de julho de 2004. Este Decreto entra em vigor noventa dias após a data de sua publicação. As autoridades responsáveis pelos procedimentos relativos à execução da medida de destruição responderão. essa Lei passou desapercebida. Os procedimentos previstos neste Decreto deverão ser objeto de avaliação periódica. peremptoriamente. sem o devido processo legal e em tempo de paz? De acordo com o Ministro da Defesa.tex.2004. “porque se trata de resistência à prisão e as aeronaves somente serão destruídas se os seus pilotos não obedecerem às ordens Artigo escrito por Fernando Lima. mas agora o Presidente Lula assinou o Decreto nº 5144. Art. que se trate de uma condenação à morte. 183o da Independência e 116o da República. poderão ser derrubados. 12. assim. Notícias prévias Inconstitucionalidade da Lei do Abate80 A Lei nº 9614. mas os aviões clandestinos civis. Fica delegada ao Comandante da Aeronáutica a competência para autorizar a aplicação da medida de destruição. 80 FGV DIREITO rio 81 . Brasília.2004. pela simples suspeita do tráfico de drogas. Art. htm. de 16. salvo em caso de guerra declarada (art. 10. conforme pretenderam o Congresso Nacional. professor de Direito Constitucional da UNAMA. de tão graves conseqüências. nacionais ou estrangeiros. efetuando os necessários treinamentos. sem o devido processo legal. estabelecendo os procedimentos que deverão ser seguidos. como a de derrubar uma aeronave em vôo. Art. quando agirem com excesso ou abuso de poder. no espaço aéreo brasileiro. ao permitir o tiro de abate. a destruição de aeronaves suspeitas de estarem transportando drogas. de 05.03. Disponível em: http:// www.07.pro. após o descumprimento de nove procedimentos. ou seja. cada qual nos limites de suas atribuições. 9o.

como. coloca em perigo a vida de inocentes. porque inúmeras aeronaves. Para combater o crime. a autoridade policial seja obrigada a matá-lo. como a missionária americana Verônica Bowers e a sua filha de sete meses. em 21. passa a utilizar os mesmos métodos dos criminosos. a derrubada de aeronaves. O Estado tem a obrigação de prender os suspeitos.2004. Por essa razão. Evidentemente. no encalço do delinqüente. Charity. portanto. a Bolívia e o Peru. sem direito a defesa e sem julgamento. e parece sugerir que a pena de morte seja aplicada. e a floresta amazônica é uma das principais rotas dos traficantes de drogas. porque a opinião pública será levada a acreditar que essa Lei contribuirá para reduzir a entrada de drogas no País e também para impedir que o nosso espaço aéreo seja transformado em rota do narcotráfico internacional. leis semelhantes à nossa. de acordo com as suas declarações. muitos civis inocentes já foram mortos. Ressalte-se. até hoje. incluindo países produtores e exportadores de cocaína. punida com a pena de morte. como a Colômbia. que na Colômbia e no Peru. porque a fuga. matando os seus pilotos e passageiros. em busca de drogas. além de ser inconstitucional. embora não exista. se não se tratasse de um assunto tão sério. embora não estejam transportando drogas. proibida pela Constituição e considerada cláusula pétrea. exceto mediante violência contra a pessoa (art. Os argumentos seriam ridículos. por pressão dos Estados Unidos. divulgadas pelo “site” da OAB. se o motorista tentasse fugir. por exemplo. também. para o competente exame da documentação. caso o criminoso atente contra a vida do policial (art. Sei perfeitamente que o assunto é polêmico. poderão deixar de se identificar para os pilotos da FAB. não apenas concorda com a Lei do Abate. que não pode ser alterada nem mesmo através de emenda constitucional. não podendo matá-los. 25 do Código Penal). o Brasil tem fronteiras com onze países da América do Sul. ou até mesmo do porta-malas. para o “crime” de “exploração ilegal da biodiversidade”. poderá ocorrer que. também. não seria. 352 do Código Penal).07. que a pretexto de combater os traficantes. Na minha opinião. Infelizmente. pela simples suspeita de tráfico de drogas. A Lei do Abate. No entanto. o Estado FGV DIREITO rio 82 . por diversas razões. ainda. o Supremo Tribunal Federal não foi provocado. talvez. certamente. a falta de equipamentos adequados. Além disso. Aliás. ainda. mas acha que não devem ser admitidas exceções (aeronaves militares). com ou sem lei. é assassinato e depõe contra o Brasil.direitos humanos dos pilotos da FAB”. mesmo que a fuga fosse tipificada como crime. somente os aviões que estivessem transportando drogas seriam derrubados. na hipótese de legítima defesa. para apreciar a constitucionalidade da Lei do Abate. Mesmo assim. sobretudo na Amazônia. uma lei autorizando -. Roberto Busato. nem ao menos constitui crime. os pilotos e passageiros não poderiam ser condenados à morte. o próprio Presidente nacional da OAB. Como se sabe. que também adotaram. e de obedecer à ordem de pouso. se o seu motorista não obedecesse à ordem de parar. e muito menos por uma simples suspeita. porque seria o mesmo que afirmar que um automóvel cheio de passageiros deveria ser metralhado pelos policiais rodoviários. nem por isso poderia ser morto o que às vezes acontece.

a aeronave será classificada como hostil. do Ministério das Relações Exteriores. com o pleno esclarecimento dos procedimentos e das condições em que a medida de destruição poderia ser executada. de 19 de dezembro de 1986. Desrespeitando a Constituição. passou a ser imprescindível que o novo dispositivo fosse aplicado dentro de uma moldura de rígidos preceitos de segurança. Disponível em: http://www. FGV DIREITO rio 83 . com a seguinte redação: § 2º Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos. Nessas condições. e modificado pela Lei nº 9. à interdição e à apreensão por autoridades aeronáuticas. por intermédio de seus representantes legais. particularmente sobre os movimentos aéreos não regulares. instituído pela Lei nº 7.br/Publicacao/Imprensa/ Noticias/3007_abate. apelidada pela imprensa de Lei do Abate.565. 81 Acesso em: 8 nov. quando estes tenham apoiado direta ou indiretamente a destruição de aeronave civil. suspeitos de envolvimento com o tráfico de drogas ilícitas. Todos estes aspectos demandaram a necessidade de regulamentação do citado dispositivo legal. praticando a Lei de Talião. tornando-se necessária a definição das expressões meios coercitivos. mil. fazendárias ou da Polícia Federal.htm. aeronave hostil e medida de destruição. A partir de abril de 2003. ficando sujeita à medida de destruição. do Ministério da Justiça.fab. por intermédio de um decreto presidencial. um grupo de trabalho constituído por integrantes do Ministério da Defesa. medidas de integração de procedimentos com os países vizinhos e legislação de países interessados no tema e que mantêm normas específicas sobre responsabilidade civil de seus cidadãos. Histórico O Código Brasileiro de Aeronáutica. a justiça privada e a vingança anárquica. foi introduzido o parágrafo segundo. iguala-se aos delinqüentes.06. A lei em questão introduziu conceitos novos. tais como procedimentos de interceptação aérea. Força Aérea Brasileira Centro de Comunicação Social da Aeronáutica (30. de 5 de março de 1998. instituiu Lei do Tiro de Destruição. a sociedade brasileira. Ademais. normas internacionais da aviação civil. 2004. do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República e especialistas do Comando da Aeronáutica se reuniu com o objetivo de estudar todos os aspectos pertinentes à regulamentação da Lei do Tiro de Destruição. Neste artigo. nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada.direitos humanos também se subordina ao Direito. que veio preencher uma importante lacuna. desobedecendo ao devido processo legal e afastando o poder de decisão das autoridades devidamente constituídas para jurisdicionar os conflitos e aplicar as sanções previstas nas leis penais. em apoio às medidas de policiamento do espaço aéreo brasileiro. no seu artigo 303.614.2004)81 1. trata dos casos em que uma aeronave pode ser submetida à detenção.

3. a caminho da Europa e Estados Unidos. com isto. Medidas O Governo Brasileiro. oriundas das regiões reconhecidamente produtoras dessas substâncias. houve completa desobediência às ordens emitidas pela autoridade. Cenário Com a modernização do sistema de defesa aérea e controle do tráfego aéreo brasileiro. em suas ordens de identificação e de pouso em pista pré-determinada. no combate ao tráfico terrestre e fluvial. as aeronaves de interceptação da Força Aérea Brasileira. O texto é resultado de uma série de intercâmbios com países vizinhos. apesar de ter-se chegado ao tiro de advertência. Esses entendimentos indicam que a entrada em vigor da regulamentação não trará efeitos adversos ao país. decidido a reverter essa situação e aprimorar a defesa do país. o Governo brasileiro considerou necessária apenas a regulamentação da lei para esse aspecto. a regulamentação da Lei do Tiro de Destruição aprovada abrange somente o caso de aeronaves suspeitas de envolvimento com o tráfico internacional de drogas.direitos humanos 2. criou instrumentos de dissuasão adequados ao policiamento do espaço aéreo brasileiro. A regulamentação da Lei do Tiro de Destruição. responsáveis pelo policiamento do espaço aéreo. minimizar riscos de equívocos. como a transferência de efetivos militares para a Amazônia e a modificação da legislação brasileira no sentido de preparar as Forças Armadas para atuar contra os delitos transnacionais fronteiriços. comprovou-se que as principais rotas de entrada de drogas ilícitas em território brasileiro ocorrem por via aérea. eram ignoradas por pilotos em vôo clandestinos. Em muitas situações. assinada pelo Presidente da República. Essas seguem para o interior do Brasil (consumo interno) ou para países vizinhos. FGV DIREITO rio 84 . Execução Em primeiro lugar. que entra em vigor 90 dias após a sua publicação no Diário Oficial da União (em 19 de julho). caracterizando-se situação similar à resistência à prisão. por falta da regulamentação da Lei do Tiro de Destruição. Decreto Nº 5. que transportam a droga para o território brasileiro. vem desenvolvendo uma série de ações. em pequenas aeronaves. entre outros destinos da rota de exportação. A questão foi amplamente debatida com outros governos interessados no tema. sendo o SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia) uma grande expressão desse trabalho. portanto. levando em conta a crescente ameaça apresentada pelo narcotráfico para a segurança da sociedade brasileira. Porém. como previa a legislação em vigor. A regulamentação.144. Tornou-se necessária uma ação mais eficaz do Estado no combate a esses vôos ilícitos. 4. que ocorreram para integrar os procedimentos de interceptação aérea e. Em razão do que prescreve a Carta da ONU sobre o princípio de autodefesa. é uma medida imprescindível para combater a criminalidade associada ao tráfico internacional de drogas.

caracterizada pela execução de dois procedimentos: FGV DIREITO rio 85 . após ter estabelecido com ela contato visual próximo. serão encarregadas da execução dessas medidas. Passos Caracterizada a aeronave como suspeita. tipo de aeronave. e. que é mostrada. 5. sem plano de vôo aprovado. caso esteja trafegando em rota presumivelmente utilizada na distribuição de drogas ilícitas. acionadas pelo Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA). fotografam a aeronave interceptada e colhem informações de matrícula. que entrará no sistema informatizado do Departamento de Aviação Civil (DAC) para verificar se a matrícula corresponde ao tipo de aeronave. através de uma placa. de uma posição discreta. endereço.direitos humanos Antes de ser classificada como hostil e. de 121. será realizado apenas o acompanhamento. licença. iniciando pela de VHF 121. à medida de destruição. etc. 1º) MEDIDAS DE AVERIGUAÇÃO primeiro nível das medidas busca determinar ou a confirmar a identidade de uma aeronave. de acordo com as regras estabelecidas internacionalmente e de conhecimento obrigatório por todo aeronavegante. sujeita à medida de destruição.5 ou 243 MHz. 2º) MEDIDAS DE INTERVENÇÃO – caso o piloto da aeronave suspeita não responda e não atenda a nenhuma das medidas já enumeradas. proa e características marcantes. detalhados e seguros. ainda. que se dá quando as informações são transmitidas para a Autoridade de Defesa Aeroespacial. d) Realização de sinais visuais. validade do certificado de aeronavegabilidade. ocasião em que os pilotos da aeronave de interceptação.5 MHz. à aeronave interceptada pelo piloto do avião de Defesa Aérea. validade de exame médico. aplicadas de forma progressiva e sempre que a medida anterior não obtiver êxito. nome do piloto que normalmente a opera. se considerada hostil. As aeronaves de interceptação da Força Aérea Brasileira. dados de identificação. ou. a aeronave deverá ser considerada como suspeita e submetida a procedimentos específicos. ela estará sujeita a três tipos de medidas coercitivas. ou não cumprir determinações dessas mesmas autoridades. sem serem percebidos. b) Confirmação da Matrícula. Engloba os seguintes procedimentos: a) Reconhecimento à Distância. oriunda de regiões reconhecidamente fontes de produção ou distribuição de drogas ilícitas. que é a Intervenção. portanto. a vigiar seu comportamento. Caso a aeronave esteja em situação regular. nível de vôo. ou b) a que omitir aos órgãos de controle de tráfego aéreo informações necessárias à sua identificação. São duas as situações em que uma aeronave pode ser considerada suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins: a) a que entrar em território nacional. dados de qualificação e de localização. o nome de seu proprietário. passa-se ao segundo nível de medidas coercitivas. c) Interrogação na freqüência internacional de emergência.

que consiste na realização de disparo de tiros. b) os procedimentos descritos serão registrados em gravação sonora e/ou visual das comunicações. com munição traçante. Situação da aeronave Nível de medida Normal Situação de Normalidade Procedimentos Verificação das condições de vôo da aeronave. o que significa dizer que tanto os radares quanto as aeronaves de interceptação envolvidas no policiamento do espaço aéreo deverão estar sob controle operacional das autoridades de defesa aérea brasileira. previstas pela regulamentação contida no Decreto nº 5. consiste na realização de tiros de advertência. lateralmente à aeronave suspeita. quanto por intermédio dos sinais visuais previstos nas normas internacionais e de conhecimento obrigatório. de forma visível e sem atingi-la. São elas: a) a sua realização só poderá ocorrer estando todos os meios envolvidos sob controle operacional do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA). também determinado pela aeronave interceptadora de forma semelhante à tarefa anterior. obrigatoriamente. em todas as freqüências disponíveis. 8) Tiro de Destruição Medidas de Averiguação Suspeita Medidas de Intervenção Medidas de Persuasão Hostil Medidas de Destruição MEDIDA DE DESTRUIÇÃO o tiro de destruição deverá atender. assinado pelo Excelentíssimo Senhor Presidente da República e publicado no Diário Oficial do dia 19 de julho. feitos pela aeronave de interceptação. são oito os procedimentos a serem seguidos pelas autoridades de defesa aérea para o policiamento do espaço aéreo. e estará sujeita à medida de destruição. 3) Contato por Rádio na Frequência de Emergência. 5) Mudança de rota. b) pouso obrigatório.144. 4) Sinais Visuais. que entrará em execução somente se o piloto da aeronave suspeita não atender a nenhuma das medidas anteriores.direitos humanos a) mudança de rota. FGV DIREITO rio 86 . segundo os padrões estabelecidos pelo Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA). tanto pelo rádio. a exigências rígidas. d) o procedimento irá ocorrer sobre áreas não densamente povoadas e relacionadas com rotas presumivelmente utilizadas para o tráfico de drogas. com a finalidade de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo da aeronave transgressora. 3º) MEDIDAS DE PERSUASÃO – o terceiro nível das medidas previstas. de 16 de julho de 2004. determinada pela aeronave de interceptação. 1) Reconhecimento à Distância. No total. c) será executado apenas por pilotos e controladores de defesa aérea qualificados. 7) Tiros de Advertência. 2) Confirmação de Matrícula. 6) Pouso Obrigatório. Somente quando transgredidos os sete procedimentos iniciais é que a aeronave será considerada hostil.

em entrevista por e-mail ao Correio.10. aumentando o flagelo do problema do tráfico no país. esses passageiros estariam sendo executados sem ter tido direito a julgamento. Lei do abate entra em vigor (17. O deputado Fernando Gabeira (sem partido-RJ) o acompanha. delega ao Comandante da Aeronáutica a competência para aplicar a medida de destruição.com. “Para mim isso é a mesma coisa que a pena de morte”. A demora de oito anos para conseguir a rubrica presidencial tem explicação: antes de fazer com que a lei entrasse em vigor. o Palácio do Planalto considerou necessário conversar com países como os Estados Unidos.br.5 mil votos. pelo site www. No Brasil.br/ultimas. José Viegas. Viegas classificou a Lei do Abate como uma “forma de dissuasão” para coibir o tráfico de drogas. No entanto. mas não está sozinho. O ministro da Defesa. 2004. É importante ressaltar que a utilização dessa medida extrema somente ocorrerá após terem sido cumpridos todos os procedimentos previstos em lei e que esse será o último recurso para o Estado evitar o ingresso de aeronaves que transportam drogas para o território brasileiro. Para Suplicy. que reuniu quase 9. dispara o senador petista Eduardo Suplicy (SP). Em uma enquete realizada pela internet. a medida foi anunciada como mais uma ferramenta de combate ao tráfico de drogas e ao contrabando de armas. com elevado grau de confiabilidade e segurança. como as ocorridas no Peru em 2000.2004)82 A partir de hoje. no decreto de regulamentação. protesta o parlamentar ao lembrar que a lei foi aprovada em 1998 com o apoio de tucanos e petistas. “Oxalá nunca necessitemos utilizar a medida de destruição”. No Congresso. que “a medida de destruição é a última de uma série de procedimentos que visam obrigar a aeronave infratora a pousar e submeter-se às medidas de policiamento no solo”. o senador é um dos poucos que reclamam. a lei que derruba aviões levanta muitas polêmicas. possibilitando. Acesso em: 8 nov. a necessária agilização do processo de tomada da decisão. por exemplo. 82 FGV DIREITO rio 87 . “A sociedade não foi ouvida”.pop.com. qualquer aeronave que cruzar o céu brasileiro sem se identificar pode ser destruída. mesmo que a aeronave interceptada esteja lotada de criminosos. O ministro esclarece. assim. Competência O Excelentíssimo Senhor Presidente. O parlamentar defende que a lei poderá provocar a morte de muitos inocentes. refuta a comparação feita pelo senador Suplicy: “Não há qualquer correspondência entre a regulamentação da medida de destruição e a instituição da pena de morte. 87% dos internautas se posicionaram a favor da medida (é uma forma legítima de defender a soberania) e 13% se disseram contrários ao tiro de destruição (só deveria ser usado em casos de guerra). Disponível em: http://noticias. correioweb.direitos humanos 6. htm?codigo=2618013. O país é o terceiro país na América do Sul a adotar a Lei do Abate – os primeiros foram o Peru e a Colômbia. A lei foi regulamentada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva no dia 19 de julho de 2004. Existia o temor de que se um cidadão estrangeiro estivesse dentro de um avião destruído pelo governo brasileiro e o país sofresse algum tipo de retaliação militar ou econômica. São situações absolutamente díspares”.

“Os traficantes tinham certeza da impunidade. reconhece. hangares de manutenção. explica Azambuja. Alô. brigadeiro Francisco Azambuja.” Barnes said. alô. 83 FGV DIREITO rio 88 . embassy spokesman Doug Barnes told CNN Saturday. plane. cnn. Comandante Todo o piloto que for abastecer o avião receberá um dos 100 mil panfletos com informações sobre a Lei do Abate. Acesso em: 20 abril 2005. Mas os aviões militares no máximo acompanhavam a aeronave suspeita até o pouso.02/. sindicatos da aviação e hospitais entre outros pontos de passagem obrigatórios de pilotos e de futuros pilotos. “Não estamos brincando de fazer policiamento aéreo. the Peruvian Air Force and a Baptist missionary group are giving conflicting accounts of events that led to the shooting down of the plane. salas de tráfego de aeroportos. Disponível em: http://archives. Faziam até sinais obscenos”. como é chamada a licença para vôo. O nosso trabalho é fazer com que a lei seja cumprida. já avião terá que. Meanwhile. A idéia é fazer com que distribuição do material não fique restrita aos aeroportos e atinja pilotos que não têm brevê. lembra Azambuja que tem imagens de vídeo com o comportamento dos criminosos. “Os tiros são para obrigar a aeronave a pousar. Ele compara o procedimento ao adotado por policiais militares com veículos que não param em uma blitz. O procedimento de interceptação existe há 24 anos. A diferença. Zombavam de nós. 110 emissoras de rádio AM e FM divulgam a campanha em toda a extensão da fronteira seca brasileira e atingindo 72 cidades. Cada caso será estudado na hora em que acontecer. A intenção da Força Aérea Brasileira não é matar ninguém”. Orçada em R$ 280 mil. Não deve existir condescendência nem com aeronaves suspeitas que estiverem com crianças a bordo. a campanha tem o objetivo de informar que como a aeronave deve agir ao ser interceptada por aviões da Força Aérea Brasileira. acredita o comandante de Defesa Aeroespacial Brasileiro (Condabra). no mínimo. Plane shootdown: Drug intercept flights suspended in Peru – CNN (abril de 2001)83 Drug interception flights in Peru have been suspended until the completion of an investigation into the downing of a missionary plane that killed two of five Americans on board – a 7-month-old girl and her mother.com/2001/US/04/21/peru. Na maior parte dos casos. “We are working with Peruvian authorities to investigate what happened. o avião irregular deixava o território brasileiro e adiava a travessia para outro dia. “O desfecho é de responsabilidade exclusiva do comandante da aeronave”. empresas aéreas. Desde o último dia 8. Cerca de 10 mil cartazes serão distribuídos para os aeroclubes. até o dia 28.S. afirma. Mas nenhum subterfúgio que eles possam usar estará dando salvo-conduto ao traficante ou elemento que está fazendo tráfego ilegal para se salvar”. é que ao ser atingido em um pneu o veículo pode parar em um acostamento.direitos humanos O governo brasileiro garante que o procedimento de abate vai ser cuidadoso. U. fazer um pouso de emergência.

“As part of an agreement. was shot in the legs. How could he be in contact with the civil authorities and their own military not know about it?” he said. The statement said the air force has initiated an investigation. Pennsylvania. reconnaissance plane provided location data for the subsequent intercept mission that was conducted by the Peruvian Air Force. Loftus said he could not confirm that a flight plan had been filed.S. radar and aircraft provide tracking information to the Peruvian Air Force on planes suspected of smuggling illegal drugs in the region”. he said. which had not filed a flight plan.S. “I’ll wait to see all the facts before I reach FGV DIREITO rio 89 .S. 38. and had been working in Peru since 1993. Michigan. A statement from the Peruvian Air Force said an unidentified plane. U. first located plane A U. the U. Kevin Donaldson. “Facing such circumstances and. reconnaissance plane. “lamenting profoundly the loss of human life”. Bowers’ husband. president of the Association of Baptists for World Evangelism. embassy in Lima said the U.S. with the assistance of the reconnaissance plane. to obtain a visa for the infant. Bush. at which point the Peruvian Air Force dispatched a rescue plane. A Cessna A-37B. Loftus said Pilot Kevin Donaldson had been in radio contact with the tower in Iquitos. and their son. but he said that was the usual practice. 7. The family is from Muskegon. Mission: Plane on safe course Michael Loftus. said their plane never left Peruvian air space. the statement said. 42. which sponsored the missionaries. the air force plane fired. After the missionaries’ Cessna 185 did not respond to a command to identify itself. site of the nearest consulate. “I can’t explain to you the statements of the Peruvian Air Force. were uninjured. he said. The pilot of the civilian plane finally responded after landing in a river near Pevas. helping the Peruvians detect aircraft used in drug trafficking. it said. the statement said. he said. in agreement with established procedures. Killed in the incident were 35-year-old missionary Veronica Bowers and her seven-month-old daughter. Charity.S. the intercept system was activated”. de Cuellar express sorrow for loss Asked about the incident while attending the Summit of the Americas in Quebec City. “Central aviation authorities had given him a landing slot.S. State Department. reconnaissance plane was working as part of an agreement between the United States and Peru to combat drug trafficking. other than probable confusion until they get their facts sorted out”. Jim. was near the Peruvian military plane at the time of the incident but was unarmed and did not participate in shooting at the missionaries’ plane. Cory.direitos humanos U.m. embassy in Lima. It had flown to the border town of Benjamin Constant. “proceeded to intercept the unknown airship”. The spokesman at the U. was detected entering Peruvian air space from Brazil around 10 a. a missionary in Peru since 1983. of Geigertown. said a spokesman for the U.S.S. According to a statement issued by the U. Friday. President George Bush said.

gabeira. que não podem ser punidos com rajadas de metralhadoras ou tiros de canhão: mau funcionamento do sistema de comunicações desses aviões. uma fiscalização prévia mais rigorosa na frota que voa. Eliminados os aeroportos clandestinos. por exemplo.e da Rio Sul Linhas) Nas asas de um projeto pouquíssimo discutido pela sociedade. A parte de fundamentação da lei não merece reparos: trata-se de proteger o território nacional de aeronaves sem identificação e barrar o tráfico de drogas. but right now. que consiste em “balear” com tinta colorida o adversário. Sem erros. a pena de morte no Brasil. não estão a serviço do tráfico ou mesmo do contrabando.br/causas/subareas. tinta neles! 84 Acesso em: 25 abril 2005. sem remorsos. muitas vezes ao investigar acidentes com aeronaves de pequeno porte. Muitos dos inúmeros pequenos aviões que cruzam nosso espaço aéreo em regiões ermas. desatualização do exame médico. e não-utilização de fonia para não pagar as tarifas de proteção ao vôo. As autoridades aeronáuticas ficam sabendo das transgressões. mas é o que fica evidente quando vem à luz a chamada Lei do Abate. two lives”. virtualmente. curiosamente. Exagero? Talvez. Com certeza. sobretudo na Amazônia.asp ?idArea=8&idSubArea=136. said White House spokesman Gordon Johndroe.direitos humanos any conclusions about blame. Assim. falta de habilitação do piloto. sem sangue ou tragédias. nos centros de lazer: o divertido paint ball. o que eliminaria o principal ponto de apoio das operações aéreas ilegais. reduziria drasticamente o número de aeronaves sujeitas à ameaça de derrubada. que permite à FAB derrubar aviões clandestinos dentro do nosso espaço aéreo e que acaba de merecer uma oportuna ação contrária do deputado Fernando Gabeira. FGV DIREITO rio 90 . Em vez de balas. Peruvian Prime Minister Javier Perez de Cuellar approached Bush and “expressed his deep regret and offered to help the families in any way he could”. na região amazônica. O problema está nos riscos claramente subjacentes ao texto. teríamos uma clara identificação dos eventuais infratores.com. the Associated Press reports. we mourn for the loss of the life. estamos vivendo a ameaça de termos. possibilitando sua punição quando aterrissassem. Disponível em: http://www. disponível. São aeronaves que transportam gente através de centenas de quilômetros de território que não conta com qualquer outro meio de transporte. São aeronaves que podem deixar de se identificar para o caça interceptador por uma miríade de razões. todas elas pecadilhos. buscar-se-ia na própria tecnologia um meio de evitar o abate equivocado e irreversível. E a tecnologia está aí mesmo. entre outras. Mais: a tecnologia hoje disponível permite identificar e destruir todos os aeroportos clandestinos.(…) Tinta neles!84 George Ermakoff (Presidente do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias -SNEA.

5o – artigo este destinado aos direitos e garantias fundamentais do indivíduo. Isto significa que o Estado tem a responsabilidade primária pela proteção desses direitos.735 trabalhadores (sendo que quase a metade no estado do Pará). o mecanismo de petição individual. O primeiro protocolo ao PIDCP. Já o PIDCP é destinado exclusivamente à proteção dos direitos civis e políticos. a existência de trabalho escravo confronta diretamente com os direitos humanos. prevendo. cabe abordar dois casos. Em relação ao primeiro. sociais e culturais. Em relação ao sistema interamericano. 5o. a proteção dos direitos civis e políticos sempre foi priorizada ao longo da evolução histórica dos direitos humanos em detrimento da proteção dos direitos econômicos. destina-se à proteção dos direitos civis e políticos. salientem-se os instrumentos de proteção dos direitos civis e políticos nos sistemas global. o que corresponde a 51. (ii) caso Damião Ximenes. Nesse sentido. por mais que preveja ambas as categorias de direitos (direitos civis e políticos e direitos econômicos. sendo os instrumentos internacionais complementares e subsidiários. Quanto ao primeiro. III (proíbe o trabalho escravo ao dispor que “ninguém será submetido a tratamento desumano ou degradante”). de violação de direitos civis e políticos: (i) trabalho escravo. dá especial ênfase à primeira. cabe destacar que um país que tem como fundamentos a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho. por sua vez. Em 2003. Nesse sentido. assim. Já no âmbito nacional. Nesse contexto.direitos humanos Aula 13: Os direitos civis e políticos: direito à liberdade e integridade pessoal NOTA AO ALUNO Embora a indivisibilidade dos direitos humanos seja consagrada internacionalmente. regional (mais especificamente no interamericano) e nacional. destaque-se a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção) que. destaquem-se os artigos da CF a respeito: art. 5º. 26. caput (assegura o direito à liberdade) e art. serão utilizados para superar as deficiências e omissões do sistema nacional. veio a ampliar a proteção de tais direitos. É importante ressaltar que os instrumentos internacionais de proteção não substituem o sistema nacional. a violação mais visível em termos de direitos civis e políticos é do direito à liberdade. ou melhor. há a Constituição Federal (CF). com exceção do disposto no art.1% do total dos libertados FGV DIREITO rio 91 . cabe destacar a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) e o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (PIDCP). A DUDH. Isto significa que o indivíduo pode enviar uma petição ao Comitê caso o Estado do qual faça parte tenha ratificado o referido protocolo. Quando se fala em trabalho escravo. o PIDCP estabelece o Comitê de Direitos Humanos e a sistemática dos relatórios e das comunicações inter-estatais. sociais e culturais). no Brasil. Como instrumentos de proteção dos direitos em tela. que elenca os referidos direitos em seu art. foram resgatados de cativeiros 4.

destaquem-se88: (a) instituição de uma Vara Itinerante do Trabalho onde não houver juízes. Dessa forma.htm.asp?idio ma=PT&noticia=10909.br/agestado/noticias/2004/mar/08/182. De acordo com a Comissão e com os peticionários. De acordo com o ministro Nilmário Miranda. a mãe foi visitá-lo e o encontrou sangrando. mas fracassou: o médico. foi à busca de auxílio. será que o mero reconhecimento da existência de trabalhadores escravos é suficiente para acabar com a escravidão no país? Quanto ao segundo caso. http://www. com a roupa rasgada. Ceará. Contudo. (c) concessão de alternativas de vida às pessoas pobres (alfabetização. Desesperada. 8o do PIDCP (bem como o art. 6o da Convenção) proíbem expressamente a escravidão. a propositura da ação pela Comissão perante a Corte. o envio do caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão). o Brasil. a maioria na região amazônica86. ao reconhecer em uma reunião oficial da ONU a existência de “formas contemporâneas de escravidão” em seu território. que em 11 de dezembro de 2003 foi promulgada a Lei nº 10. que estatui o confisco de terras para as propriedades que tenham mão-de-obra escrava. foi internado na tarde de 1 de outubro de 1999 na Casa de Repouso Guararapes. Idem. Os fatos 85 Para maiores informações. a fim de que o trabalho escravo não seja uma opção. acesse o site http://www. 86 87 88 89 Idem. de forma breve. Dentre as medidas para acabar com o trabalho escravo. Estadão.263 indivíduos85. em virtude da apresentação de um “quadro psicótico”. a presente aula não aprofundará no estudo do procedimento de um caso perante ambas. que chega a 9. 90 Aula elaborada em 27 de janeiro de 2005. 4o da DUDH e o art. uma vez que nenhum outro país o havia feito. estadao. as violações alegadas. A vítima já havia sido internada em 1995 no mesmo estabelecimento. dizendo. que comporta cerca de 80% dos trabalhadores escravos. No âmbito internacional.adital. ter acesso à terra.direitos humanos nos últimos oito anos (1995-2003). 30 anos à época. e agonizando. é de suma importância destacar os fatos. entre outras). 91 Como a Comissão e a Corte já foram objetos de análise de uma aula anterior. que alterou o artigo 149 do Código Penal – dispõe que “reduzir alguém a condição análoga à de escravo” é crime – mas não aumentou a pena mínima de dois anos para esse tipo de crime. fiscais e delegados. já que apenas uma pessoa foi condenada até hoje87. e quando houver punição para as pessoas que tiram proveito desse tipo de trabalho. FGV DIREITO rio 92 . tirar documentos de identidade. conforme exposto a seguir91: 1.com. promotores. Ressalte-se.org. entrou para a história das Nações Unidas89. e sim na análise das violações dos direitos civis e políticos da vítima. cabe mencioná-lo tendo em vista se tratar do único caso brasileiro que teve uma decisão emitida pela Corte Interamericana de Direitos Humanos90 (Corte).br/asp2/noticia. com as mão amarradas por trás das costas. (b) estabelecimento de uma política social para saber de onde vêm os escravos. Idem. na manhã de 4 de outubro.803. por oportuno. Damião Ximenes. o trabalho escravo acabará se a Câmara dos Deputados aprovar a proposta de emenda constitucional (Proposta de Emenda Constitucional nº 438/01). em 8 de março de 2004. O art. com dificuldade de respirar. que a Brasil reconhece na ONU a existência de trabalho escravo. com hematomas. a responsabilidade do Estado brasileiro. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que haja entre 25 e 40 mil trabalhadores escravos no Brasil. responsável pela clínica tratou-a com descaso.

Entre março e julho de 2000. os familiares da vítima levaram o corpo para realização de autópsia no instituto forense de Fortaleza.direitos humanos morte é uma coisa natural da vida. 4. destaquem-se duas: na primeira versão. tortura e abuso sexual de pacientes. Dessa forma. apresentou perante a Comissão uma petição contra o Brasil. em 4 de outubro de 1999. enquanto que na outra versão ele havia brigado com outros pacientes. A responsabilidade do Estado brasileiro A Casa de Repouso Guararapes é uma clínica privada conveniada ao SUS (Sistema Único de Saúde). foi instituída a Junta Interventora da Casa de Repouso Guararapes. O envio do caso Em 22 de novembro de 1999. já havia um recado que seu filho havia falecido. chegando lá. pode cancelar a autorização do ente privado como prestador de serviços de saúde em nome do Estado (arts. A propositura da ação Em 30 de setembro de 2004. o Estado brasileiro tem o dever de controlar e fiscalizar os serviços prestados pela referida instituição. Já houve. 2. que tem como diretor o médico da Casa de Repouso Guararapes. uma morte em 1987 e outra em 1991. no âmbito interno. Dentre as versões apresentadas pelos enfermeiros e funcionários da instituição. não estando satisfeito com os serviços prestados. FGV DIREITO rio 93 . O médico fez constar como causa da morte “parada respiratória” e não ordenou a realização de autópsia. tendo em vista que o Estado brasileiro não cumpriu as recomendações da Comissão. duas ações (uma penal e uma civil) tramitando perante a justiça local. irmã de Damião Ximenes. 196 a 200. O Estado. voltou para sua casa em busca de ajuda e. denunciando os fatos ocorridos em detrimento de seu irmão. Damião Ximenes faleceu 3 dias após sua internação. Há. 3. Damião havia brigado com enfermeiros. ou melhor. Não é a primeira vez que ocorre uma morte por violência e maus tratos na instituição em tela. a senhora Irene Ximenes Lopes. que incluíram golpes na cabeça com objetos contundentes. Dessa forma. CF). No laudo consta que se trata de “morte real de causa indeterminada”. a Comissão resolveu enviar o presente caso à Corte. pelo menos. Inconformados. Desamparada. uma vez que o Sistema Municipal de Auditoria concluiu em seu Relatório 002/99 que havia na instituição evidências de maus tratos.

43/03 da Comissão). 93 Para ler a sentença na íntegra. tanto no local dos fatos como em todo o território brasileiro. Em audiência celebrada em dezembro de 2005. Convenção Americana). indaga-se: Qual é a importância do caso Damião Ximenes? Quais direitos foram violados no caso em tela? Há alguma diferença de 92 Informações atualizadas em 25 de outubro de 2006.cr/. acesse o site da Corte Interamericana de Direitos Humanos: http://www. incluindo o pagamento efetivo de uma indenização. imparcial e efetiva dos fatos relacionados com a morte de Damião Ximenes. 8o. Pague as custas e gastos legais incorridos pelos familiares do senhor Damião Ximenes na tramitação do caso no âmbito nacional. 4o. 6. e as violações da obrigação de investigar (Relatório n. do direito a um recurso efetivo e das garantias judiciais relacionadas com a investigação dos fatos. sendo a primeira sentença em face do Estado brasileiro. Assim o fez sob o argumento de que as precárias condições de atendimento psiquiátrico às quais foi submetido Damião Ximenes Lopes não correspondem ao atual grau de evolução e implementação das políticas públicas nessa área e no respeito aos direitos humanos dos pacientes.or. à proteção judicial (art. desumanas ou degradantes.1. bem como seu dever de regulamentar e fiscalizar o atendimento médico de saúde”93. o Estado brasileiro reconheceu parcialmente a responsabilidade internacional por violação de direitos humanos – referente ao direito à vida e integridade pessoal. Repare adequadamente os familiares do senhor Damião Ximenes pelas violações de direitos humanos cometidas. Convenção Americana). neste caso.corteidh. a Corte proferiu a decisão do caso em tela. 1. 25. Convenção Americana). seu dever de cuidar e de prevenir a vulneração da vida e da integridade pessoal. combinados com a violação do dever genérico de garantir e respeitar os direitos consagrados na Convenção (art. Convenção Americana). Expostas as pretensões da aula.direitos humanos 5.92 A Corte deixou claro que o Brasil “tem responsabilidade internacional por descumprir. 5o. apesar de seu dever de cuidado como garantidor de seus direitos. a seu assassinato. As violações A Comissão requer que a Corte determine que o Estado brasileiro é responsável pela violação do direito à vida (art. às garantias judiciais (art. à integridade pessoal (art. devido à hospitalização do senhor Damião Ximenes em condições cruéis. O pedido A Comissão solicita à Corte que ordene ao Estado que: • • • • Efetue uma investigação completa. Adote as medidas necessárias para evitar que fatos similares ocorram no futuro. Em agosto de 2006. FGV DIREITO rio 94 . bem como daqueles originados na tramitação do presente caso perante o sistema interamericano. as violações a sua integridade pessoal. Convenção Americana).

In: PIOVESAN. “A Litigância de Direitos Humanos no Brasil: Desafios e Perspectivas nos uso dos Sistemas Nacional e Internacional de Proteção”. São Paulo: Max Limonad. Flávia.direitos humanos proteção dos direitos civis e políticos nos documentos mencionados? Quais são os artigos da CF que consagram os direitos civis e políticos? Quais são os direitos violados da pessoa que trabalha em condições análogas à de escravo? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. Flávia. 2003 Legislação: Convenção Americana sobre Direitos Humanos Declaração Universal sobre Direitos Humanos Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Constituição Federal FGV DIREITO rio 95 . Temas de Direitos Humanos.

Esta. mas também aqueles que fazem parte do discurso da mídia e. uma vez que se trata de tema complexo e.direitos humanos Aula 14: Violência Urbana NOTA AO ALUNO “A despeito das diferentes visões em relação ao entendimento sobre quem e como se produz a violência no Rio de Janeiro. conseqüentemente. htm. Disponível em: http://www. 4. para delimitar o objeto de estudo. é considerada natural por grande parte da sociedade e dos governantes95. Disponível em: http://www. Quanto ao segundo aspecto. Por tão enraizada no dia-a-dia dos cidadãos. ao mesmo tempo. que perpetua a insegurança no Estado. tal como a exclusão de um número cada vez maior de pessoas da vida econômica. é fruto das mudanças macro-estruturais propiciadas pela introdução do modelo econômico neoliberal na década de 1980. 95 Acesso em: 14 abril 2005. Acesso em: 14 abril 2005. são naturalizadas. tem como causa direta a exclusão social. tão visceral à opinião pública. br/portuguese/arquivos/relatorio_rio1. que. notadamente policial. assim. perpetuadora da insegurança”94. conseqüentemente. 96 Expressão utilizada no Relatório do Centro de Justiça Global. criminalização da pobreza. Temos como exemplo a chacina ocorrida na Baixada Fluminense. 21. A guerra pressupõe a existência de um inimigo (no caso seriam os criminosos e suspeitos) que se almeja combater. a violência no Rio de Janeiro é caracterizada pela mídia como guerra civil. em um contexto no qual prevalece a omissão do Poder Público. Em nosso Estado. a criminalização da pobreza. sua sistematicidade e banalização ensejam ao menos um sentimento em comum. trajetória da violência estatal. sistematicidade e banalização da violência. Falar em violência urbana não é tarefa fácil. do conhecimento popular. Assim. para que se possa tanto explicar quanto desmistificar alguns temas. abaixo.. descrédito das ações do governo no combate à violência. os tópicos que serão abordados: 1. trouxe também conseqüências drásticas. em 30 de março de 2005. Em relação ao primeiro tópico. ou melhor. por sua vez. contido justamente no repúdio à sua manifestação como rotina diária. devem ser levados em consideração pontos essenciais. 5. que impõe o terror e a desordem. o século XX. cit. cumpre destacar a manifestação da violência urbana no Rio de Janeiro como algo rotineiro e. a idéia de que a pessoa é criminosa em virtude do local onde mora e de sua condição social. p. Seguem. 2.global. embora tenha causado indignação pública. p. utilizam-se os critérios geográficos e sociais para localizar o inimigo96 94 Centro de Justiça Global 2004.org/2005/abril/ibe_026. Na região. do acesso ao trabalho.org.lainsignia. causas do agravamento da violência. multiplicam-se os relatos de violência. FGV DIREITO rio 96 . 9.pdf. embora tenha permitido um aumento da produtividade e da expectativa de vida em alguns países. op. em decorrência da existência de um “poder paralelo”. Relatório Rio: Violência Policial e Insegurança Pública. 3. em especial. A morte e a violência. Dessa forma.

Acesso em: 14 abril 2005. especialmente no senso comum das classes média e alta”97.direitos humanos desta guerra. ao assumir o poder. assim.desarme. uma redução significante do número de policiais mortos e a maior quantidade de apreensão de armas com criminosos até então: 9 mil102. 14. Disponível em: http://www. Constata-se também que a maioria das pessoas assassinadas era jovem. Foi o que prometeu Anthony Garotinho. com idade entre 15 e 24 anos e morava em regiões carentes98. Acesso em: 21 abril 2004. Nesse sentido. constata-se que a política de segurança pública do Estado não é dirigida a todos os cidadãos e nem está fundada na proteção e garantia universal dos direitos humanos. Isto significa ser de extrema importância mais investimentos nas áreas sociais e mais planejamento na atuação policial. 16. “Geografia da Violência no Rio de Janeiro” in Folha de São Paulo. Disponível em: http://www. Disponível em: http://www. Nesse contexto.org/publique/cgi/cgilua. do sexo masculino.luizeduardosoares.195 pessoas foram mortas por policiais no Estado do Rio de Janeiro no ano de 2003. houve uma redução em 40% do número de civis mortos pela polícia. p. destaque-se que. conseqüentemente.br/artigo_ind. 99 Ibid. que o conceito de segurança deve ser redefinido. Ainda em relação aos direitos humanos. bem como a noção de guerra. lainsignia. Como conseqüência da supressão da “banda podre” da polícia. Isto porque os três itens estão interconectados.org/2005/abril/ibe_ 026. Nesse sentido.htm?infoid=3139 &tpl=printerview&sid=16>. FGV DIREITO rio 97 . ressalta Marcelo Freixo. em detrimento da utilização da opressão e da violência como prática da polícia101. a fim de corresponder às exigências atuais: “segurança hoje em dia é política educacional. A pobreza passa a ser vista como perigo à sociedade e tem como conseqüên­ cia a não observância e consagração da universalidade dos direitos humanos. “legitimam” as violações dos direitos humanos por policiais nesses locais99.2004. alterações corporativas que conduziram à exoneração de Luiz Eduardo Soares da Secretaria Estadual de Segurança Pública em 2000 significaram o retorno das velhas políticas de enfrentamento por seu sucessor. distorcida por essa perspectiva. A exclusão 97 98 Idem. faz-se necessária uma análise em conjunta da exclusão social.10. p. do sensacionalismo da mídia e da ação da polícia. 1. o discurso e ações policiais. é a relação entre os mesmos que agrava drasticamente a violência no Estado. Em se tratando das causas do agravamento da violência no Rio de Janeiro. É uma questão de Estado e não de polícia”100. Quanto ao terceiro tópico. o conceito de criminalização da pobreza. Ibid. exe/sys/start. equiparam criminosos e moradores das comunidades carentes e. Contudo. entre outros itens. O resultado pode ser vislumbrado pelo número muito maior de pessoas mortas em intervenções policiais: 427. de saúde e de lazer. 101 102 103 Idem. ou melhor. SOARES. pesquisador do Centro de Justiça Global. 100 Acesso em: 14 abril 2005. ao passo que em 1999 haviam ocorrido 289 mortes103. basearam seus discursos na promessa de criarem uma nova polícia e uma nova política de segurança. corroborando. de “reabilitar a polícia”.com. 30. php?categoria=seguranca. o inimigo é caracterizado como pobre e morador de comunidades carentes. Como conseqüência dessa visão. pobre e negro. a maioria em condições que sugerem extermínio. os candidatos ao governo do Estado na campanha eleitoral de 1988.htm. A atuação policial. Luiz Eduardo. em decorrência do período no qual se recompensava o policial com um incremento salarial – que variava entre 50 a 150% de seu salário – sempre que fizesse uma vítima letal. assim como sua descartabilidade seria assegurada frente ao corpo social. segundo os quais o criminoso ou suspeito reside nas favelas e possui “cor e aparência definidas.. acaba por substituir a proteção da vida por práticas cada vez mais violentas.

assim como a carência de investimentos. Em especial. por sua vez. clippingexpress. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: CANO.br/artigo_ind. Centro de Justiça Global. Para maiores informações. tem haver com a falta de transparência das ações públicas na área de segurança. o policial mata ou tortura alguém.org. Capítulo VII. 2003.10. Entrevista. A polícia.com. “Geografia da Violência no Rio de Janeiro”.desarme. em última instância. Já a mídia. PINHEIRO. pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da UERJ. não visa a explicar ou entender as causas do problema para que se possa solucionálos. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris. Acrescente-se a este fato a questão da impunidade dos policiais. violando. SOARES. que é ainda mais grave quando se materializa em violação dos direitos humanos (quando. a fim de que.com. 2003. In: Folha de São Paulo.global. Acesso em: 21 abril 2004.com.org/publique/cgi/cgilua. Disponível em: http://www. portanto.php?id=44834. DORNELLES. 14. mas sim punir os criminosos). ao etiquetamento penal de suas camadas mais miseráveis”106. Disponível em: http://www. Luiz Eduardo. seguindo a premissa de “entender menos e punir mais”104 (i. 30. respectivamente.br/noticias_justica. 104 105 106 Ibid.e. Acesso em: 14 abril 2005.2004. manipulada pelo “Estado na perpetração da violência. Disponível em: http:// www.php?id=44834.htm?infoid=3139 &tpl=printerview&sid=16>. Conflito e segurança (entre pombos e falcões). treinamentos e capacitação dos policiais. João Ricardo.clippingexpress. p. Acesso em: 14 abril 2005. Acesso em: 14 abril 2005.php?categoria=seguranca. exe/sys/start. Hoje em dia.pdf. leia a entrevista com Ignacio Cano.br/portuguese/arquivos/relatorio_rio1. tem uma tradição de repressão. Acesso em: 14 abril 2005. As principais causas do descrédito das ações do governo no combate à violência. Relatório Rio: Violência Policial e Insegurança Pública. Idem. Paulo Sérgio e ALMEIDA. o direito à vida e o direito à integridade física). travestida como “resposta” à criminalidade – mas que diz respeito. Disponível em: http:// www.direitos humanos social contribui para que muitas pessoas optem por atividades ilícitas como meio de vida. Ignacio.br/noticias_justica. incute na sociedade um falso clamor por Justiça. de mudanças drásticas e urgentes em toda a política de segurança pública do Rio de Janeiro.luizeduardosoares. há uma enorme demanda de certos setores para que a polícia seja violenta. Disponível em: http://www. por exemplo. a ausência de órgãos de monitoramento independentes e a corrupção policial. 107 FGV DIREITO rio 98 . que começa com a fundação das primeiras corporações no Brasil para manter sob controle as classes subalternas106. Guilherme de Assis. São Paulo: Publifolha. o último tópico. a polícia possa definitivamente transmitir segurança ao invés de medo. Necessita-se. bem como uma ilusão por parte da mesma de que seu trabalho deva ser pautado na violência107. Violência Urbana. um dia.

têm força política e moral que. O Comitê DESC. sociais e culturais NOTA AO ALUNO A busca por uma proteção mais efetiva dos direitos econômicos. embora não sejam dotadas de força legal. cabe ressaltar seu sistema peculiar de monitoramento. As recomendações caracterizam-se CANÇADO TRINDADE. criado pelo Conselho Econômico e Social e que tem por principal função o monitoramento da implementação dos direitos econômicos. tal dicotomia não tinha caráter absoluto. sociais e culturais (DHESCs) encontra-se na atual agenda internacional dos direitos humanos. tendo em vista que os mesmos foram. assim. Instituído pelo Conselho Econômico e Social da ONU através da Resolução ESC 1985/17. I. Tal medida se deu em virtude do conflito ideológico que vigorava na época. negligenciados na esfera internacional. Na verdade. “o Pacto de Direitos Civis e Políticos também prevê a ´possibilidade de realização progressiva´ de certos direitos. diferentemente do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. Sociais e Culturais110 (Comitê DESC). após analisar o relatório. o relatório será analisado pelo Comitê de Direitos Econômicos. com medidas de implementação distintas. Antonio Augusto. já naquela época. por meio do qual os Estadospartes encaminham relatórios ao Secretário-Geral das Nações Unidas que. Vol. p. ao longo da história. cada um voltado a uma categoria de direitos. em 1951. se transformam em um importante instrumento de negociação para que haja avanços na proteção dos direitos humanos. ambiente este que prioriza. cumpre ressaltar que. encaminhará uma cópia ao Conselho Econômico e Social para apreciação. Sociais e Culturais (PIDESC). assim como não estatui um Comitê como órgão principal de monitoramento. A raiz do tratamento diferenciado das duas categorias de direito encontra-se na decisão tomada pela Assembléia Geral das Nações Unidas. Como leciona Cançado Trindade. formando. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. 110 FGV DIREITO rio 99 . ao passo que os direitos civis e políticos são auto-aplicáveis. Isto porque. 354. bem como em decorrência da preponderância da posição dos países ocidentais. em conjunto com a DUDH. 1997. que alegavam que ambas as categorias de direitos não poderiam estar no mesmo Pacto. o PIDESC não prevê um mecanismo de comunicação interestatal nem de petição individual109 (através de um protocolo adicional). os direitos civis e político . emitirá suas observações conclusivas que. uma vez que os direitos econômicos. 108 109 Comunicação interestatal é aquela através da qual um Estado-parte denuncia a existência de violação de direitos humanos em outro Estado-parte. até hoje. o PIDESC baseia-se no mecanismo dos relatórios. voltada às obrigações gerais que vinculam os Estados Partes. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. os conflitos entre as duas categorias de direitos nem sempre são claros. ao passo que comunicação individual se refere à possibilidade do indivíduo recorrer a instâncias internacionais para reparação ou restauração dos direitos violados.direitos humanos Aula 15: Direitos humanos econômicos. Sociais e Culturais contém dispositivos suscetíveis de aplicação a curto prazo. a Carta Internacional dos Direitos Humanos. e talvez a distinção seja antes uma questão de gradação ou de ênfase. por sua vez. De maneira diversa. de elaborar dois Pactos Internacionais de Direitos Humanos (1966).”108 Em se tratando especificamente do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. sociais e culturais. muitas vezes. Todavia. sociais e culturais demandam realização progressiva.

em 2001112. em 1993. destaca-se o Protocolo Facultativo ao PIDESC (tramita. cabe mencionar que o Governo Federal apresentou. a sociedade civil apresentou um “Informe Alternativo” ao Comitê de Direitos Econômicos. assim. bem como para apresentar novos dados sobre a situação brasileira.1992. por oportuno. Destaque-se. Os DHESCs também podem ser analisados nos três sistemas regionais de proteção dos direitos humanos: sistema europeu. seu Primeiro Informe ao Comitê de Direitos Econômicos. que proclamou a indivisibilidade dos direitos humanos. a sociedade civil. realizada em Teerã.. Após a análise dos dois informes. especificando se as recomendações propostas pelo Comitê DESC foram observadas ou não. pela primeira vez. em maio de 2003. assim denominado uma vez que o governo federal brasileiro ainda não tinha encaminhado nenhum informe. Em contrapartida. O Brasil ratificou o PIDESC em 24. faz-se extremamente necessário ampliar o sistema de monitoramento dos direitos econômicos. 112 113 O Contra Informe foi apresentado durante o 30º Período Ordinário de Sessões (05 a 23 de maio de 2003) do Comitê de Direitos Econômicos. muitos deles surtem impactos de natureza social ou econômica. não havendo. assim. 111 Saliente-se que em 2000. que a indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos foi reafirmada na II Conferência Internacional sobre Direitos Humanos. desde 1997. consistirá em uma forma de ampliação do sistema de monitoramento. em 1968. saliente-se a ponderação feita pela Corte Européia de Direitos Humanos no caso Airey (1979) de que embora a Convenção Européia sobre Direitos Humanos consagre essencialmente os direitos civis e políticos. caso seja adotado. constrangimento político e moral no campo da opinião pública internacional do Estado que viole os direitos humanos. o único mecanismo de proteção dos direitos em tela estabelecido pelo PIDESC é a sistemática dos relatórios. que a plena realização dos direitos civis e políticos só seria possível com o gozo dos DHESCs. Em relação ao sistema europeu. Sociais e Culturais adotou as observações conclusivas em 23 de maio de 2003. foram incorporados alguns direitos à Convenção Européia. sistema africano e sistema interamericano. O Comitê de Direitos Econômicos. Em relação à consagração dos DHESCs no âmbito internacional. Sociais e Culturais das Nações Unidas. realizada em Viena. é de suma importância ressaltar a I Conferência Mundial sobre Direitos Humanos.e. sociais e culturais no plano internacional. suas observações conclusivas acerca do cumprimento do PIDESC pelo Brasil. último dia de seu 30º Período Ordinário de Sessões. administrativas e judiciárias que são tomadas para efetivar os direitos estabelecidos no PIDESC. tais como os consagrados pelo Protocolo I: direito à propriedade privada (artigo 1) e direito à educação (artigo 2). Em virtude da crescente atenção dada aos DHESCs ao longo dos anos. o Comitê DESC emitiu114. já que prevê o mecanismo de comunicação individual. uma vez que a consagração da indivisibilidade dos direitos humanos fez com que. ambas as categorias de direitos estivessem no mesmo patamar. afirmando. uma clara distinção entre as duas categorias de direitos. por meio da Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos. Como exemplo. especificamente. Sociais e Culturais (Dhesc Brasil) apresentou em 2003 seu Contra Informe113 (denominado também de Relatório Sombra) ao Comitê DESC. Sociais e Culturais.01. Sendo assim. a fim de contestar alguns fatos levantados pelo governo federal. Sociais e Culturais. 114 FGV DIREITO rio 100 . com quase dez anos de atraso. Nesse contexto. na Comissão de Direitos Humanos da ONU) que. bem como das dificuldades encontradas para a plena realização desses direitos. Em relação ao Brasil111. em virtude da inércia do estado brasileiro.direitos humanos por seu power of embarrassment. pelo qual os Estados-partes devem encaminhar informações acerca das medidas legislativas. incluindo recomendações e sugestões para sua efetivação. i. O Governo brasileiro apresentou em 2006 um novo informe. Trata-se de passo de suma importância.

quer com a assistência e cooperação Relatório Nº 95/03 Jose Pereira – Caso 11.289115. org/annualrep/2003eng/Brazil.11289. chegou-se a uma solução amistosa. por oportuno. o PIDESC assevera a obrigação do Estado de. em 1988 foi adotado o Protocolo Adicional à Convenção Americana em matéria de Direitos Econômicos. o direito a condições justas. Como exemplo. o Estado brasileiro comprometeu-se a implementar as ações e as propostas de alterações legislativas contidas no Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo. Acesso em: 04 jan. o Estado brasileiro. que na época tinha 17 anos. e de maneira a aprimorar a legislação nacional que visa a coibir a prática do trabalho escravo no país. 7) e o direito a um meio ambiente sadio (artigo 11). cabe destacar que. embora a Convenção Americana sobre Direitos Humanos mencione os DHESCs em apenas um artigo. FGV DIREITO rio 101 . um menor de idade que trabalhava em condições análogas à de escravo em uma fazenda no sul do Pará. foi gravemente ferido. Saliente-se.00 (cinqüenta e dois mil reais) a título de indenização por danos morais e materiais116. Em uma ocasião. a Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos prevê um catálogo tanto de direitos civis e políticos (artigos 3 a 14) quanto de direitos econômicos. limitando-se a dispor que os mesmos devem ser realizados progressivamente. o Protocolo de San Salvador dispõe acerca da possibilidade de se enviar petição individual acerca do direito à educação e de alguns aspectos dos direitos sindicais à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão)..htm. e lançado pelo governo brasileiro. tendo a Comissão Africana de Direitos Humanos e dos Povos um mecanismo de aplicação comum a todos os direitos. em 2003. As pessoas aceitavam trabalhar no local em virtude de falsas promessas de altos salários e boas condições de trabalho. que o referido Protocolo define o alcance de alguns DHESCs. 2005. Embora o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos tenha se concentrado na defesa dos direitos civis e políticos. por exemplo. eqüitativas e satisfatórias de trabalho (art. realizada no dia 18 de setembro de 2003. Por fim. como. o direito à seguridade social (artigo 9). documento este que entrou em vigor em novembro de 1999. a aula deverá apontar o Caso 11. Em primeiro lugar. pagou a vítima o valor de R$ 52. sociais e culturais (artigo 15 a 18). o caráter fundamental dos DHESCs. José Pereira. elaborado pela Comissão Especial do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. quer com seu próprio esforço.Nesta oportunidade.direitos humanos Em se tratando do sistema africano.oas. em seus respectivos âmbitos de competência. O caso em tela foi levado à Comissão em 1994 e. tanto a Comissão quanto a Corte Interamericana de Direitos Humanos têm reconhecido. que trata da situação de José Pereira.000. 115 116 Idem. Disponível em: http://www.289 (Brasil). capangas atiraram nos trabalhadores que tentavam fugir da fazenda. Ainda no bojo do referido acordo. cabe mencionar o debate sobre duas categorias intrínsecas aos DHESCs: a progressividade e a exigibilidade.cidh. Quanto ao sistema interamericano. sofrendo lesões permanentes no olho direito e na mão direita. bem como de apresentar relatórios periódicos. Sociais e Culturais (Protocolo de San Salvador). O reconhecimento público da responsabilidade do Estado brasileiro em relação à violação de direitos humanos deu-se na solenidade de instalação da Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo-CONATRAE (criada por Decreto Presidencial de 31 de julho de 2003). Expressão de um movimento de conscientização para uma proteção mais efetiva aos DHESCs. em 11 de março de 2003.

Os direitos humanos econômicos. NUME.2004. esta denominada justiciabilidade. importante decisão do Supremo Tribunal Federal acerca dos DHESCs. receberam investidura em mandato eletivo. cumpre reconhecer que não se revela absoluta. Os DHESCs. p. para assegurar progressivamente o pleno exercício dos direitos elencados. a eficácia dos direitos sociais. indica para o fato de que progressividade não pode ser entendida como postergação infinita. Nesse contexto. “se ao Judiciário sempre coube a obrigação de solucionar conflitos em relação a todas as matérias que lhe sejam apresentadas. FGV DIREITO rio 102 . por fim. comprometendo-a. devem ser dotados de mecanismos para que seus titulares possam deles usufruir. stf. 118 119 Ibid. tem-se que uma saída possível e recomendável é o estabelecimento de metas e prazos para a concretização dos DHESCs. compreendidos também os humanos. 45119. como decorrência causal de uma injustificável inércia estatal ou de um abusivo comportamento governamental. nem a de atuação do Poder Executivo. aí. a todos. 117 LIMA JÚNIOR. aquele núcleo intangível consubstanciador de um conjunto irredutível de condições mínimas necessárias a uma existência digna e essenciais à própria sobrevivência do indivíduo. afetando. o Ministro Celso de Mello.”118 Por mais que alguns DHESCs já possuam mecanismos eficientes de proteção perante o Judiciário. destaque-se que a exigibilidade dos DHESCs pode ser considerada nas esferas nacional (constituições e leis) e internacional (PIDESC). nesse domínio. ADPF n. 45 – STF. a liberdade de conformação do legislador. justificar-se-á. (ii) recursos aqui devem ser entendidos para além dos financeiros.br/cgi-bin/nphbrs?d=DESP&n=-julg&s1=45. no máximo dos recursos disponíveis.117 Dessa forma. Rio de Janeiro: Renovar. tecnológicos.. como precedentemente já enfatizado – e até mesmo por razões fundadas em um imperativo ético-jurídico -. Refere-se aqui à exigibilidade dos DHESCs. tendo em vista a previsão normativa dos DHESCs.gov.asp&Sect1=IMAGE&Sect2 =THESOFF&Sect3=PLURON&S ect6=DESPN&p=1&r=2&f=G. agora ele tem uma base positiva que legitima sua ação em nível interno.&l=20&u=http://www. p. se tais Poderes do Estado agirem de modo irrazoável ou procederem com a clara intenção de neutralizar. 120. registra-se ainda muita resistência por parte do Ministério Público e do Judiciário em designar uma tutela efetiva a tais direitos. econômicos e culturais. então.gov. 108. Acesso em: 04 julho 2005. a qual pode se dar no âmbito administrativo ou judicial.stf. Disponível em: http://gemini. naturais e de informação. mesmo sem examinar diretamente o objeto da ação – veto do Presidente da República a artigo da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2003 que garantia recursos financeiros ao serviço de saúde – uma vez que o Poder Executivo enviou projeto de lei ao Legislativo que restaurou a integridade do artigo. Como lembra Jayme Benvenuto. apôs importantes considerações ao Poder Judiciário em relação à implementação dos DHESCs: “Não obstante a formulação e a execução de políticas públicas dependam de opções políticas a cargo daqueles que. sociais e culturais. tomar medidas. por delegação popular.direitos humanos internacionais. Relator Ministro Celso de Mello. Julgamento em 29. Nesse sentido. em ordem a viabilizar. o acesso aos bens cuja fruição lhes haja sido injustamente recusada pelo Estado”. Jayme Benvenuto. É que. precisamente por constituírem direitos. Todavia. 2001.04. como é o caso dos direitos trabalhistas e previdenciários. a possibilidade de intervenção do Poder Judiciário. em sede da Argüição de Descumprimento de Direitos Fundamental (ADPF) n. cabe registrar. uma contradição no primeiro exame.br/Jurisprudencia/Jurisp. Em 29 de abril de 2004. cabe a análise de alguns desses elementos: (i) a acareação entre o máximo e o disponível.

Flávia. Jayme Benvenuto. “A proteção Internacional dos Direitos Econômicos.direitos humanos Pelo exposto. Antonio Augusto. 1997. Sociais e Culturais”. GOTTI. sociais e culturais. indaga-se: Um cidadão brasileiro pode enviar um caso relativo à violação do direito à saúde à Comissão Interamericana de Direitos Humanos? Quais são os mecanismos de proteção dos DHESCs existentes no sistema global? O que representa a consagração da indivisibilidade dos direitos humanos para a proteção dos direitos econômicos. Alessandra Passos. Leitura acessória: LIMA JÚNIOR. Vol. e MARTINS. Sociais e Culturais Declaração Universal de Direitos Humanos Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem Convenção Americana sobre Direitos Humanos Protocolo de San Salvador Convenção Européia sobre Direitos Humanos Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos FGV DIREITO rio 103 . sociais e culturais? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. Temas de Direitos Humanos. PIOVESAN. 2001. Flávia. 91-114. pp 353-360. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. In: PIOVESAN. São Paulo: Max Limonad. Os direitos humanos econômicos. pp. Rio de Janeiro: Renovar. Janaína Senne. Legislação: Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos. 2003. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. I.

aos idosos. às mulheres. raça. cabendo a escolha dos direitos humanos das mulheres como o primeiro desses. (I) p. como. e passa a analisa-los com concretude. O sistema internacional passa a reconhecer direitos endereçados às crianças. Convenção contra a tortura e outros tratamentos ou Penas Cruéis. a primeira das especificações refere-se ao fato de que os seres humanos são sexuados. como. ao longo das últimas décadas. à prevenção da discriminação ou à proteção de pessoas ou grupos de pessoas particularmente vulneráveis. 120 FGV DIREITO rio 104 . Referimo-nos aqui a sexo como as diferenças entre homens e mulheres dadas pela natureza. mas ao indivíduo ‘especificado’. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. Proteção dos direitos da mulher Na compreensão do processo narrado. nos referimos até o presente momento ao sistema geral de proteção aos direitos humanos. às pessoas vítimas de discriminação racial. idade. sociais e culturais. o fato de somente as mulheres poderem menstruar. passaremos a analisar o processo de especificação dos sujeitos de direitos como decorrência de um outro marco fundamental: a universalidade dos direitos humanos. 2002. Mais do que isso. “na medida em que o sistema especial de proteção é voltado. às pessoas vítimas de tortura.direitos humanos Aula 16: A especificação do sujeito de direitos. que merecem proteção especial. Seja a Declaração Universal de 1948 ou os Pactos Internacionais de 1966. fundamentalmente. examinaremos alguns desses sujeitos de direito. Há de se destacar que o sistema geral e o sistema especial de proteção de direitos humanos são necessariamente complementares. Desumanos ou Degradantes de 1984 e a Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989. pessoas crescem em contextos sociais em que papéis sócio-culturais são designados de acordo com as relações de poder estabelecidas em razão do sexo. Todavia. É o que se costuma denominar de processo de especificação do sujeito de direitos. etc.”120 Ao longo das próximas aulas. por exemplo. foram consolidados tratados que tinham como objeto tema específico. As desigualdades de gênero são as diferenças socialmente construídas. etnia. considerando-se categorizações relativas ao gênero. tidas suas diferenças em segundo plano. 188. A partir da presente aula. de Todas as Formas de Discriminação Racial de 1965. ressaltando a indivisibilidade como o marco de compreensão dos direitos humanos. dotando alguns sujeitos de direitos também distintos. por exemplo. O Direito Internacional dos Direitos Humanos deixa de examinar os seres humanos como sujeitos neutros. Os direitos humanos sob a perspectiva de gênero NOTA AO ALUNO Vimos discutindo ao longo das últimas aulas a proteção aos direitos civis e políticos e aos direitos econômicos. Flávia. a Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW) de 1979. Daí apontar-se não mais ao indivíduo genérica e abstratamente considerado. dentre outros. São Paulo: Max Limonad. parir e amamentar. as PIOVESAN.

Os avanços promovidos pela Convenção foram “freiados” pela constatação de que esse foi o marco normativo de direitos humanos que mais recebeu reservas no âmbito da ONU: ao menos 23 dos 100 Estados-partes realizaram 88 reservas. PIOVESAN. gozo. e ao artigo 16. Todavia. 2002. o artigo 4o da CEDAW também prevê a aplicação de medidas de ação afirmativa: a adoção pelos Estados-Partes de medidas especiais de caráter temporário destinadas a acelerar a igualdade de fato entre o homem e a mulher não se considerará discriminação na forma definida nesta Convenção. Brasília: AGENDE. Em seu artigo 17. 122 FGV DIREITO rio 105 .). o Comitê emite recomendações a serem cumpridas pelo Estado.. Somente a partir da elaboração do Protocolo Facultativo aprovado pela ONU em 1999. Por outro lado. administrativas. exercício pela mulher. a Convenção estabelece o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher. com base na igualdade do homem e da mulher. judiciárias. Tais artigos estabelecem a igualdade entre homens e mulheres no âmbito das relações familiares. Direitos Humanos das mulheres. o tratado não prevê a possibilidade de comunicações estatais ou do conhecimento de violações de ofício por parte do Comitê. o Governo notificou a Secretaria Geral da ONU para que retirasse as referidas reservas.direitos humanos mulheres cuidarem dos filhos e da casa e os homens trabalharem fora. tendo sido apresentada denúncia ao artigo 15. Flávia. algumas dessas afetando a essência da universalidade dos direitos humanos. a manutenção de normas desiguais ou separadas. (c). de uma construção cultural das desigualdades (gênero) que não se justifica nas diferenças biológicas dadas pela natureza (sexo). parágrafo 4o. da Convenção.121 Nesse sentido. Essa distinção é relevante para percebermos que as desigualdades sociais entre homens e mulheres vêm de nossas idéias. em 18 de dezembro de 1979. São Paulo: Max Limonad. In: PIOVESAN. em 1994. Alice (org. mas de nenhuma maneira implicará. 109. Flávia. qualquer pessoa ou grupos de pessoas que aleguem ser vítimas de violações à Convenção podem apresentar petição ao Comitê. Temas de Direitos Humanos. De acordo com o artigo 1o. Os Estados partes comprometem-se a uma dupla obrigação: devem eliminar as formas constantes de discriminação e devem promover a igualdade. 2003. a cada 4 anos. (a). os Estados comprometem-se a submeter a Secretaria-Geral das Nações Unidas. discriminação contra a mulher significa toda distinção. eleitos pelos países que ratificaram a Convenção. essas medidas cessarão quando os objetivos de igualdade de oportunidades e tratamento houverem sido alcançadas. Todavia. independentemente de seu estado civil. foi aprovada pela Assembléia Geral da ONU a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW). exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento. no prazo de um ano a partir da entrada em vigor da convenção. social. dos direitos humanos e das liberdades fundamentais nos campos político. e toda vez que solicitar o Comitê (artigo 18 Convenção). em consonância com o quadro constitucional proporcionado pelo Texto de 1988. (g) e (h). econômico. (II) p. é possível 121 LIBARDONI. p. passando a vigorar em 3 de setembro de 1981. “Os direitos humanos da mulher na ordem internacional”. dentre eles atualmente a brasileira Silvia Pimentel. 210. cultural e civil ou em qualquer outro campo. posteriormente.. para exame do Comitê. dentre outras. como conseqüência. em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações. relatório sobre as medidas legislativas. composto 23 peritos. por incompatibilidade com a legislação civil vigente.122 A Convenção foi ratificada pelo Estado brasileiro em 1984. Ao ratificar a Convenção. Nesse sentido. Em resposta aos relatórios. parágrafo 1o.

em 1995. b) o direito de decidir livre e responsavelmente o número de filhos e o intervalo entre seus nascimentos. pode-se afirmar que muitas mulheres brasileiras preferem a utilização do Sistema Interamericano de Direitos Humanos por contar com uma instância jurisdicional para verificação da responsabilidade internacional. A Declaração e o Plano de Ação de Beijing reafirmam os direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos e recomendam aos Estados a rever as legislações punitivas ao aborto. disponíveis. 63. aborto. percebemos que a tônica foi transferida para direitos inerentes a condição diferenciada das mulheres. Por sua vez. b) o direito de ter 123 LIBARDONI. Direitos Sexuais e Reprodutivos Se o movimento de mulheres teve início com a busca da igualdade entre homens e mulheres.direitos humanos afirmar que o Protocolo não estabeleceu novos direitos. entre tantos outros temas. coerção ou violência. Com base nos instrumentos internacionais citados. mas novas garantias de proteção. Se a Convenção é um “remédio para auxiliar a eliminar a discriminação contra as mulheres. como os direitos sexuais e reprodutivos e a violência doméstica e familiar contra a mulher. p. 2002. seu Protocolo Facultativo é a bula que ensina como usar esse remédio. Brasília: AGENDE. conclui-se que os direitos reprodutivos incluem: a) o direito de adotar decisões relativas à reprodução sem sofrer discriminação. amamentação. contracepção. gestação. é importante ressaltar alguns temas correlatos. a Declaração de Viena de 1993. Mais além do exame dos principais tratados que se referem aos direitos humanos das mulheres. durante a Conferência do Cairo sobre População e Desenvolvimento. notadamente no que se refere ao direito ao voto. Concepção. c) o direito a ter acesso a informações e meios seguros. FGV DIREITO rio 106 .. passam a ser examinados como questões correlatas. reasseverou a igualdade entre homens e mulheres e conclamou os Estados a promover a ratificação universal da Convenção para a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres e a retirar as reservas que comprometiam a essência do tratado. Foi nesse sentido que caminharam as principais conferências referentes a direitos sexuais e reprodutivos. Por sua vez. direitos sexuais compreendem: a) o direito a decidir livre e responsavelmente sobre sua sexualidade. Alice (org. Por fim. Como seu artigo 4o afirma a necessidade de esgotamento dos recursos internos e a impossibilidade de litispendência internacional como critérios de admissibilidade de uma denúncia. Dia Internacional da Mulher.”123 O Brasil assinou o protocolo em 08 de março de 2001. acessíveis e d) o direito de acesso ao mais elevado padrão de saúde reprodutiva. os Estados reuniram-se na IV Conferência Mundial sobre a Mulher. passando o aborto a ser compreendido como uma questão de saúde pública.). Direitos Humanos das mulheres. os Estados reconheceram os direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos e ainda afirmaram que meninas e mulheres têm o direito a decidir sobre a maternidade. Desenvolvimento e Paz. em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações. o qual foi aprovado pelo Congresso Nacional e ratificado pelo Presidente em setembro de 2002. Em 1994. produto da primeira grande conferência mundial de direitos humanos no contexto pós-Guerra Fria..

em 1993. por isso. tortura. F. tendo o Congresso Nacional a aprovado mediante o Decreto Legislativo no. tanto na esfera pública (ocorrida na comunidade). op. Direitos Humanos e nãoviolência. e) o direito à privacidade. (II) p.”125 Dentre as diversas obrigações assumidas pela ratificação. coação ou violência. alguns entendem que esta estaria incluída no conceito geral de discriminação. entre outras formas. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. abuso sexual. tráfico de mulheres. 124 PIOVESAN.direitos humanos controle sobre o seu próprio corpo. O Brasil foi o primeiro Estado a ser acionado perante a Comissão por desrespeito à Convenção do Belém do Pará: tratase mais especificamente do caso Maria da Penha Fernandes.” 124 Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher Por mais que a Convenção de 1979 não faça menção expressa à violência doméstica e familiar contra a mulher. c) o direito a viver livremente sua orientação sexual. c) ampliar o âmbito de aplicação dos direitos humanos. cit. é uma violência que é cometida pelo fato de a vítima ser uma mulher. f ) o direito de acesso às informações e aos meios para desfrutar do mais alto padrão de saúde sexual e g) o direito a fruir do progresso científico e a consentir livremente à experimentação. a ONU adotou a Declaração sobre a Eliminação da Violência contra a Mulher. com os devidos cuidados éticos recomendados pelos instrumentos internacionais. 107.. a Convenção inova ao: “a) introduzir o conceito de violência baseada no gênero. Guilherme Assis de. Importante passo foi o estabelecimento do mecanismo de petições individuais a serem apresentadas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Segundo Guilherme Assis de Almeida. 125 FGV DIREITO rio 107 . prostituição forçada. São Paulo: Atlas. ALMEIDA. em conformidade com a Convenção Americana de Direitos Humanos. a violência não ocorreria. como na esfera privada (no âmbito da família ou unidade doméstica). em outras palavras. o que rompe com a tradicional separação entre o espaço público e privado. Tal convenção foi assinada pelo Brasil em 09 de junho de 1994. de 01 de setembro de 1995 e o Presidente a ratificado em 27 de novembro de 1995. e d) relacionar os tipos de violências possíveis sem ser taxativa: estupro. 247. seqüestro e assédio sexual. 2001. maus-tratos. destaca-se o envio de relatórios periódicos à Comissão Interamericana de Mulheres (CIM). 83. sem sofrer discriminação. p. O continente americano desponta na criação de uma convenção regional específica e vinculante para o combate de tal forma de violência. Trata-se da Convenção Interamericana para Prevenir. b) explicitar a noção de dano ou sofrimento sexual. a qual concebe especificidade a tal violência baseada no gênero. aprovada em cidade brasileira e. caso não o fosse.áo sexual. d) o direito a receber educa. Por sua vez. comumente denominada Convenção do Belém do Pará.

. Leitura acessória: LIBARDONI. 5). São Paulo: Max Limonad. In: PIOVESAN. Petrópolis: editora Vozes. item “g”). Heloneida. Temas de Direitos Humanos. 2002. Legislação: Constituição Federal de 1988 Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher e seu Protocolo Facultativo Convenção de Belém do Pará FGV DIREITO rio 108 . STUDART. 2003. VI. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Direitos Humanos das mulheres. Antônio Augusto. Alice (org. Volume II. em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações. Brasília: AGENDE.). 2002. pp. pp. 1999. Flávia. n. (Cap. 194-202 (Cap.direitos humanos MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. PIOVESAN. Flávia. Mulher objeto de cama e mesa. 26a edição. São Paulo: Max Limonad. Flávia “Os direitos humanos da mulher na Ordem Internacional”. XIII. PIOVESAN. 2001.. item V. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. 316-318. Tratado de direito internacional dos direitos humanos.

direitos humanos Aula 17: Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente NOTA AO ALUNO A Convenção sobre os Direitos da Criança. Tendo em vista o zelo por determinadas questões que afligem crianças em todo o mundo. dois Protocolos: o Protocolo Facultativo sobre a Venda de Crianças. Para o monitoramento das obrigações. Cumpre ao professor ressaltar a opção brasileira. à profissionalização. à dignidade. à criança. com absoluta prioridade. que criança é o ser humano com menos de 18 anos de idade. a Convenção estabelece um princípio regedor de toda a normativa protetiva: o melhor interesse da criança: Artigo 3 1. além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência. o direito à vida. ambos assinados pelo Brasil em 2000. Além de enumerar direitos específicos à criança. em 25 de maio. o constituinte já havia consolidado no Texto Constitucional todo o debate acerca da necessidade de uma proteção especial às crianças e aos adolescentes.069. Não somente reservou um capítulo à família. ao respeito. ao adolescente e ao idoso. de designar a denominação de criança aos seres FGV DIREITO rio 109 . o qual recebe relatórios periódicos dos Estados. crueldade e opressão. É dever da família. como estabeleceu a proteção da criança e do adolescente como prioridade absoluta: Art. adotada em 1989 e vigente desde 1990 é o tratado de direitos humanos que mais se aproxima da ratificação universal. discriminação. o interessa maior da criança. à alimentação. 8. clara tanto na Constituição Federal quanto no ECA. Abrangendo tanto direitos civis e políticos quanto direitos econômicos. No âmbito interno. o ECA constitui um marco na normatização de direitos no Brasil. como regra geral. da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente. ao lazer. à cultura. à educação. Todas as ações relativas às crianças. levadas a efeito por autoridades administrativas ou órgão legislativos. devem considerar. exploração. deverá subisidiar e integrar a apresentação do grupo. à saúde. de 13 de julho de 1990. foram aprovados pela Assembléia Geral. Considerado um dos documentos que melhor espelha os direitos elencados na Declaração sobre os Direitos da Criança. violência. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). sociais e culturais. primordialmente. Não há previsão da sistemática de comunicações interestatais e de petições individuais. 227. à liberdade e à convivência familiar e comunitária. Prostituição e Pornografia Infantis e o Protocolo Facultativo sobre o Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados. a Convenção estabelece. a Convenção estabeleceu ainda o Comitê sobre os Direitos da Criança. Lei n.

do Código Penal (CP): Art. Isto porque em uma sociedade na qual o pai tem poder ilimitado em relação ao filho. § 2º – Se resulta a morte: Pena – reclusão. de quatro a doze anos. Idem. instituído no interesse dos filhos e da família. para fim de educação. Ao entrar em vigor. não tem “voz”. ou multa. “Hoje. cumpre salientar em primeiro lugar sua configuração como crime. que precisa de proteção especial em virtude de ser uma pessoa em desenvolvimento. de dois meses a um ano. Sendo assim. os meios de disciplina e correção não são mais absolutos. Todavia. mais conhecido como violência doméstica. 13 e 245 do ECA. Acesso em: 01 maio 2004. que se exterioriza como abuso de poder disciplinar e de correção. 126 127 128 Idem. não sendo mais considerada como mera extensão da família. que está diretamente ligada à evolução histórica do conceito de pátrio poder. por oportuno. anos). trata-se de uma conquista recente. tal como o Conselho Tutelar. meses. a desestruturação da família pode levar a atos violentos e agressivos contra a criança e o adolescente. especificamente. que todos os cidadãos têm o dever de denunciar os casos de maus tratos de que tenha conhecimento aos Conselhos Tutelares de sua localização. possibilitando a convivência do princípio do melhor interesse com a figura do pátrio poder. guarda ou vigilância. § 1º – Se do fato resulta lesão corporal de natureza grave: Pena – reclusão. 136. ‘derrubando’ tal nomenclatura e adequando o ordenamento jurídico nacional aos imperativos internacionais e constitucionais. inclusive. No primitivo direito romano. quer privando-a de alimentação ou cuidados indispensáveis. já que esta. dhnet. podendo. o pai tinha poder disciplinar absoluto em relação ao filho. 1º). tratamento ou custódia.direitos humanos humanos até 12 anos incompletos e de adolescente para a idade entre 13 e 18 anos incompletos.html. Em relação aos maus tratos. Foi apenas com o cristianismo e com o desenvolvimento da sociedade que se foi exigindo moderação no uso do poder disciplinar. nesse contexto. de um a quatro anos. o ECA revogou o Código de Menores. Discutir a aplicação das normas internacionais e internas exige o recorte de algumas situações que poderão ser abordadas pelo grupo: Maus tratos: muito embora vigore hoje em dia o princípio do melhor interesse da criança. tendo duração variável (dias. 136.org. conforme arts. FGV DIREITO rio 110 . designando uma nova condição jurídica à criança e ao adolescente: passa a ser sujeito de direitos. não há que se falar em melhor interesse da criança. tendo total liberdade para aplicá-lo o castigo que julgasse pertinente. Dispõe o art. uma vez que predomina na família a “lei do silêncio”128. havendo denominação até de pátrio-dever”127. o pátrio poder é encarado como complexo de deveres em relação aos pais.br/denunciar/tortura/textos/nilton. Ressalte-se. CP – Expor a perigo a vida ou a saúde de pessoa sob sua autoridade. Implementou a Doutrina Jurídica da Proteção Integral (art. Tais violações não são levadas ao conhecimento de agências oficiais de proteção. igual em dignidade e respeito a todo adulto. quer abusando de meios de correção ou disciplina: Pena – detenção. matá-lo126. quer sujeitando-a a trabalho excessivo ou inadequado. Disponível em: http://www. ensino.

(iii) as principais causas são: alcoolismo – 50%. na medida do possível. tem-se a predominância da “lei do silêncio”. o pai ou responsável que dá pimenta-do-reino à criança como forma de castigo. FGV DIREITO rio 111 . uma vez que esse tribunal estabelece parâmetros a serem observados pelos Estados-partes da Convenção Americana de Direitos Humanos a respeito dos direitos da criança e do adolescente. for submetido a um dos tratamentos estabelecidos no artigo acima. “102. Participação de crianças e adolescentes em processos administrativos e judiciais: o art.direitos humanos § 3º – Aumenta-se a pena de um terço. Entre os motivos para a falta de dados a respeito. conforme seja adequado.htm. 129 Acesso em: 01 maio 2004. Tânia da Silva Pereira enumera algumas condições objetivas que podem contribuir para o exercício deste direito de ser ouvido: Acesso em: 01 maio 2004. seja no âmbito administrativo. por conseguinte. Apesar da falta de dados nacionais a respeito. tornando difícil. Com esta consideração. salientem-se dados de 1996 sobre São Paulo130: (i) a maior incidência de maus tratos ocorre contra crianças na faixa etária de 0 a 6 anos – 60%.php.br/n04/doenca/infancia/persona.br/noticia. 45 do ECA referem-se expressamente a hipóteses em que a criança e o adolescente devem ser ouvidos.org. cerebromente. distúrbios psiquiátricos – 10%. dentre os quais a inexistência de dados confiáveis sobre a ocorrência dos mesmos no lar familiar no brasileiro. Nesse sentido.º do art. Os maus tratos contra criança e adolescente são difíceis de serem identificados em virtude de uma série de fatores. responsáveis – 14%. desorganização familiar – 30%. e sujeito passivo a criança ou adolescente que. na análise de seu próprio caso. (ii) a autoria das agressões se distribui da seguinte forma: mãe – 43%. bem como as seqüelas deixadas na criança e no adolescente que os impossibilitam de denunciar: a vítima não fala e não anda131. destaquem-se: o pai ou responsável que coloca o menor de joelhos por longo tempo a ponto de colocar em perigo a saúde da vítima. é sujeito ativo do crime os pais ou responsáveis pela guarda ou vigilância da vítima. deverá levar em conta as condições específicas do menor e seu interesse superior a fim de ajustar a participação deste. é necessário ainda mais um elemento: expor a perigo a vida ou a saúde da criança ou do adolescente. Paralelamente o § 1. seja no judicial.org. Disponível em: http://www. 19. 130 131 Idem. A Corte Interamericana de Direitos Humanos manifestou-se sobre o tema no contexto da Opinião Consultiva n. na determinação dos seus direitos. a atuação dos Conselhos Tutelares129. na qualidade de filho ou sob custódia ou vigilância. Disponível em: http://www. se o crime é praticado contra pessoa menor de 14 (catorze) anos. 28 e ao art. pai – 33%. Sugere-se a leitura de seu inteiro teor.redeamiga.” Diante da inexistência de regras claras sobre a ponderação do melhor interesse da criança em face de processos administrativos e judiciais. 12 da Convenção sobre os Direitos da Criança possibilita a oitiva da criança nos processos judiciais ou no âmbito administrativo. distúrbios de comportamento – 10%. Em conclusão. o aplicador do direito. Como exemplo de maus tratos. procurar-se-á o maior acesso do menor. Para a configuração do crime. mãe e pai – 10%.

por ocasião do filme Ônibus 174. Adaptar os procedimentos com vistas a garantir a manifestação autêntica da vontade da criança ou do adolescente. 3. 4. Cremos que há diversos modos de privar uma pessoa arbitrariamente da vida: quando é 132 SILVA PEREIRA. p. de 26 de maio de 2001. evitando situações de angústia e linguagens técnicas incompreensíveis. Evitar a convocação da criança e do adolescente como testemunha de um dos pais contra o outro. Tal ponto retoma a discussão travada na Aula 1. 8. Trata-se de caso de seqüestro. b) destaca a indivisibilidade dos direitos civis e políticos e os direitos econômicos. Cançado Trindade e A.”132 “Meninos de Rua”: uma terceira sugestão de assunto a ser abordado pelo grupo trata dos meninos de rua. FGV DIREITO rio 112 . O direito à vida não pode continuar sendo concebido restritivamente. Sugere-se que o debate ocorra tendo como ponto de partida a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos referente ao caso Villagrán Morales e Outros versus Guatemala. Criar condições que facilitem a expressão espontânea da criança. como foi no passado. Cabe destaque a seguinte passagem. Convocá-los a participar dos procedimentos de mediação familiar destinados a solucionar conflitos que envolvam sua pessoa e seus interesses. político e econômico. ou “Niños de la Calle”. 9. Favorecer a intervenção de profissionais especializados que possam interpretar. 2. 5. tal depoimento nunca deverá ser prestado na presença dos pais. uma vez que: a) enfatiza a peculiaridade de tais sujeitos no aspecto jurídico. 2000. assim como no social. constante do Voto concorrente Conjunto dos Juízes A. Rio de Janeiro: Renovar. e c) determinam a especial gravidade das práticas sistêmicas de violência contra crianças e adolescentes em situação de risco. Considerar seus sentimentos e pensamentos na solução dos conflitos que lhes digam respeito. de 19 de novembro de 1999. tortura e assassinato de ‘menores’ e omissão dos mecanismos do Estado guatemalteco em oferecer o acesso à justiça aos familiares das vítimas. Cumpre destacar ainda a sentença de reparações. Não forçá-los a se exprimirem ou se manifestarem caso não estiverem preparados. Abreu Burelli: “3.A. 6. realidade cada vez mais presente nas grandes cidades brasileiras. a palavra da criança e do adolescente. Assumir a “Curadoria Especial” como a alternativa de interferir nos procedimentos para fazer valer os direitos de seu representado. O melhor interesse da criança: um debate interdisciplinar. referido apenas à proibição da privação arbitrária da vida física. de maneira apropriada. sua oitiva deve representar uma forma de expressar sua opinião e preferência sobre a situação conflitante. A decisão constitui um marco na proteção da criança e do adolescente em todo o continente.direitos humanos “1. sociais e culturais. Fornecer à criança e ao jovem todas as informações relativas à sua situação e ao assunto sobre o qual deverá emitir sua opinião . 7. permitindo-lhe expressar seus interesses e conflitos com maior liberdade. 31. Tânia.

Opinião Consultiva n. Disponível em: http://www. In: ALMEIDA. Abreu Burelli. atinente à morte de meninos por agentes policias do Estado. Tânia. de 1990. Leitura acessória: Corte Interamericana de Direitos Humanos. SILVA PEREIRA. Flávia. 2002. Flávia. Villagrán Morales vs. Temas de Direitos Humanos.cr). Direito Internacional dos Direitos Humanos. e PIROTTA. pp. 2003. 17. DELLORE. No presente caso Villagrán Morales versus Guatemala. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN.or. 2000. Voto concorrente Conjunto dos Juízes A. Guatemala. há a circunstância agravante de que a vida dos meninos já carecida de qualquer sentido. de 28 de agosto de 2002 (www. Maria Beatriz Pennachi. Guilherme de.html. quer dizer. 76-86. a qual transferiu o Rio de Janeiro do noticiário internacional de turismo para o de violação de direitos humanos. “Convenção dos Direitos da Criança”. assim como quando não se evitam as circunstâncias que igualmente conduzem à morte de pessoas como no cas d’espèce. Cançado Trindade e A.corteidh.A. O melhor interesse da criança:um debate interdisciplinar. “Os direitos humanos das crianças e dos adolescentes no direito internacional e no direito interno”. Cláudia (orgs. São Paulo: Max Limonad. pp. São Paulo: Atlas. Legislação: Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança Constituição Federal Estatuto da Criança e do Adolescente Acesso em: 04 julho 2005. corteidh. 277-297.). Rio de Janeiro: Renovar. os meninos vitimados já se encontravam privados de criar e desenvolver um projeto de vida e de procurar um sentido para sua própria existência.direitos humanos provocada sua morte diretamente pelo fato do homicídio. In: PIOVESAN.or.cr/seriec/index_ c. 134 FGV DIREITO rio 113 .”134 O estudo de tal decisão apresenta semelhanças intransponíveis com o caso da Chacina da Candelária. Wilson Ricardo Buquetti. e PERRONE-MOISÉS.

a Convenção criou o seu treaty body. A Convenção dispõe de 3 mecanismos de monitoramento: apresentação de relatórios. a Declaração contra a Discriminação Racial (1963) foi um dos primeiros documentos da ONU a retratar a especificação do sujeito. os Estados reuniram-se em duas conferências de reduzida repercussão na sede a própria ONU. gozo ou exercício em um mesmo plano (em igualdade de condição) de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político. dentre os quais se encontra hoje o brasileiro Embaixador Lindgren Alves. restrição ou preferência baseada em raça. in casu étnico-cultural. Para a coordenação de tais mecanismos. os Estados partes comprometem-se a uma dupla obrigação: eliminar as formas constantes de discriminação e promover a igualdade. destacando-se perspectiva racial. De acordo com o artigo 1o. é importante compreender discriminação como aquela que viola direitos. o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação Racial (CERD). em seu artigo 8o. Ao ratificar a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial. descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto ou resultado anular ou restringir o reconhecimento. estando seu cumprimento condicionado à adesão voluntária. em conseqüência. promulgada em 1965 e que passa a vigorar em 1969.1 estabelece a conformidade das medidas de discriminação positiva: não serão consideradas discriminação racial as medidas especiais tomadas com o único objetivo de assegurar o progresso adequado de certos grupos raciais ou étnicos ou de indivíduos que necessitem da proteção que possa ser necessária para proporcionar a tias grupos ou indivíduos igual gozo ou exercício de direitos humanos e liberdades fundamentais. inerente ao campo da política internacional. logo seguida pela Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial. à manutenção de direitos separados para diferentes grupos raciais e não prossigam após terem sido alcançados os seus objetivos. Por outro lado. discriminação racial significa toda distinção. cultural ou em qualquer outro campo da vida pública. conforme resoluFGV DIREITO rio 114 . O CERD emite recomendações no sentido de melhor orientar atuação estatal. Trata-se de um exemplo de implementação do power of embarrasment. o artigo 1. exclusão. cor. Para que não haja contradição entre esses termos. econômico. Este é composto por 18 peritos. excluindo do campo das medidas reprovadas pela Convenção as que promovem a discriminação positiva. comunicações interestatais e comunicações individuais. ambas realizadas durante a Primeira Década de Combate ao Racismo e à Discriminação Racial iniciada em 1973.direitos humanos Aula 18: Os direitos humanos sob a perspectiva racial NOTA AO ALUNO A Aula 18 destina-se à continuidade do estudo do processo de especificação do sujeito. social. contanto que tais medidas não conduzam. No âmbito global. da Convenção. eleitos pelos Estados-partes a título pessoal. Em 1978 e 1983.

correção. dentre eles 16 chefes de Estado ou de Governo. da discriminação racial. p. São Paulo: Perspectiva. Vítimas de racismo.136 A complexidade dos temas tratados não afasta o impasse mesmo em questões essenciais como a existência ou não de raças. In: Os direitos humanos na pós-modernidade. p. da xenofobia e da intolerância correlata nos níveis nacional. Provisão de remédios efetivos. Todavia. discriminação racial. defenderam a definição ALVES. juntamente com as teorias que tentam determinar a existência de raças humanas distintas [. é claro que. 2005. no contexto desse período. José Augusto Lindgren. destacam-se: a) a identificação do sionismo como uma forma de racismo. “A conferência de Durban contra o racismo e a responsabilidade de todos”. recursos. caso esgarçadas ao extremo. 2. com o apoio do Brasil. segundo definidas pelo Art. educação e proteção voltadas para a erradicação do racismo. 137. Xenofobia e Discriminações Correlatas. Em 2001. xenofobia e intolerância correlata. temos: • • • • • Fontes. não restando energia para o debate acerca de outras formas de racismo. Todavia. 135 136 Ibid. poderia colocar em risco a razão mesma da Conferência. Dentre as polêmicas que permearam o encontro. xenofobia e intolerância correlata. a afirmação das diferenças culturais protagonizou o debate sobre a tolerância e o enfrentamento à discriminação. Medidas de prevenção. O argumento trazido à baila por certas delegações européias. à xenofobia e à intolerância correlata. nem negação das manifestações de racismo e discriminação racial.. formas e manifestações contemporâneas de racismo. discriminação racial. De qualquer forma. Dentre os temas escalados para a discussão. outras polêmicas conduziram a conferência ao risco de esvaziamento. assim como o acompanhamento de sua implementação. assim como dos tratados que condenam práticas racistas... qualquer foro multilateral acabaria por centrar todas as atenções no regime do apartheid da África do Sul. assim como medidas [compensatórias] e de outra ordem nos níveis nacional. Discriminação Racial.300 delegados oficiais de 163 países. Países Africanos e asiáticos. Estratégias para alcançar a igualdade plena e efetiva. denominada Conferência Mundial de Combate ao Racismo. 124. inclusive por meio da cooperação internacional e do fortalecimento das Nações Unidas e outros mecanismos internacionais para o combate ao racismo. 1o da Convenção (de 1965).direitos humanos ção da Assembléia Geral. à discriminação racial.] Isto não implica negação do conceito de raça como motivo de discriminação. simbolicamente em pleno solo sul-africano.135 Nesse primeiro fórum de direitos humanos do século XXI. regional e internacional. na cidade de Durban. 58 ministros de Relações Exteriores e 44 ministros de outras pastas e quase 4 mil representantes de organizações não-governamentais reuniram-se para a Terceira Conferência. regional e internacional. FGV DIREITO rio 115 . e b) as reparações devida pelo regime colonial. restou no texto menção ao fato de que os Estados da União Européia rechaçam firmemente qualquer doutrina que proclame a superioridade racial. sepultado em 1994 com a posse do Nelson Mandela. apesar dessa equiparação já ter sido afastada pela própria ONU desde 1991: no acirramento das discussões entre Israel e países árabes. vingou o posicionamento da ONU. causas. que ainda existem em todo o mundo.

como já dito. foi compactuada a utilização da expressão ‘lamento’ no lugar de ‘desculpas’ pelos fatos do passado. mudança essa que expressa arrependimento sem acarretar responsabilização internacional. p. numa situação internacional que. ensejando posicionamento contrário por parte dos Estados Unidos e União Européia. é importante ressaltar alguns temas específicos que poderão ser tratados com mais detalhe pelo grupo responsável pelo Seminário da Aula 18. como se não bastasse a doxa econômica neoliberal (para falar com Bourdieu) avessa a preocupações sócias. e PERRONE-MOISÉS. etc. Ingrid.”138 Mais além do exame dos principais tratados que se referem aos direitos humanos sob a perspectiva racial. J. 139. p. cit. ou como instrumento semijurídico para cobranças das sociedades aos governos. porém. já se mostrava cada dia menos favorável ao multilateralismo e à diplomacia parlamentar. L. Instrumentos básicos. internamente ou em ações internacionais. Crime de racismo 137 CYFER. particularmente para o combate ao racismo estrutural. Estes podem ser utilizados como guias à atuação dos Estados. a diplomacia brasileira achou por bem a retira da proposta nas duas ocasiões. 138 Em consonância com os parâmetros delineados pela Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Eliminação do Racismo.A. nos casos de intolerância correlata. Cláudia (orgs. em condições tão adversas. Por outro lado. resoluções no âmbito da Comissão de Direitos Humanos da ONU que classificam a discriminação por orientação sexual como uma violação de direitos humanos. 35. Ao considerar mais traumática a derrota de tal proposta que a não submissão ao voto. “Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965)” In: ALMEIDA. São Paulo: Atlas. fato esse que justifica a implementação de metas internacionais baseadas no alívio das dívidas externas. A tensão do debate conduziu a um termo de compromisso no esforço de não esvaziamento da reunião. Muito mais do que isso.direitos humanos da escravidão como crime contra a humanidade. A partir de então. havendo já apresentado. a Constituição Federal estabeleceu entre os direitos e garantias fundamentais que: ALVES. os documentos de Durban trazem novos conceitos e compromissos importantes. nos anos de 2003 e 2004. é sempre bom lembrar. O simples fato de ela ter tido seus documentos finais adotados sem voto (a votação havida. Guilherme de. Por um lado. Direito Internacional dos Direitos Humanos. foi para rejeitar a reapresentação extemporânea de propostas superadas) representa. Como sintetiza Lindgren Alves. liderados pelo Brasil. questões referentes à discriminação por orientação sexual. o Brasil tem capitaneado liderança nos foros internacionais.137 Importante ressaltar que foi em Durban que se manifestaram expressamente alguns países. ativo participante nos trabalhos de Durban: “a verdade é que Durban foi a melhor conferência que se poderia realizar sobre temas tão abrangentes. os países em desenvolvimento conseguiram a manifestação da Conferência no sentido de que injustiças históricas constituíram a raiz para a pobreza e o subdesenvolvimento. 2002. erradicação da pobreza. no sentido do identificar. transferência de tecnologia. um progresso com relação à conferências de 1978 e 1983. FGV DIREITO rio 116 . op. posicionamento esse que implicaria em compensações.).

Tendo em vista o princípio da legalidade. Em uma análise sistêmica (artigo 5º.716. de forma reprovável. Talvez pela rigidez com que é tratado o crime de racismo. de 05 de janeiro de 1989. em especial das condutas consideradas típicas pelo legislador. e multa. § 2º Se a injúria consiste em violência ou vias de fato. terrorismo. nos termos da lei. 5º XLII – a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível. FGV DIREITO rio 117 . de 07 de dezembro de 1940: Art. estabeleceu os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. Importante ressaltar a maneira com que o constituinte admitiu o crime de racismo. sujeito à pena de reclusão. além da pena correspondente à violência. De acordo com o Código Penal. II – no caso de retorsão imediata. Populações remanescentes de quilombos Outro tema de fundamental importância quando se estuda direitos humanos sob a perspectiva racial no Brasil são as populações remanescentes de quilombos. de 1(um) a 6 (seis) meses. aos crimes definidos como hediondos e à ação armada contra o Estado Democrático de Direito. Além do exame perante os tribunais nacionais – Tribunal de Justiça. cor. etnia. o Decreto-lei nº 2848. 140. religião ou origem: Pena – reclusão de um a três anos e multa. que . desclassificando a conduta para um dos crimes contra a honra. cor. que consista em outra injúria. ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro: Pena – detenção. A pesquisa sobre decisões referentes ao crime de racismo e de injúria que tenha a utilização de elementos referentes à raça. se considerem aviltantes: Pena – detenção. é possível afirmar o crime de racismo é comparado aos crimes de tortura. etnia. tráfico de entorpecentes. por sua natureza ou pelo meio empregado. persiste a resistência por parte dos órgãos do Ministério Público e do Judiciário em estabelecer a responsabilidade penal pelo crime de racismo. de 3 (três) meses a 1 (um) ano. Injuriar alguém. a Lei nº 7. provocou diretamente a injúria. incisos XLIII e XLIV). a injúria. tendo-lhe atribuído características excepcionais como a inafiançabilidade e a imprescritibilidade. ou multa § 1º O juiz pode deixar de aplicar a pena: I – quando o ofendido. Todavia. religião ou origem. Superior Tribunal de Justiça e Supremo Tribunal Federal – e em instâncias internacionais sugere a dificuldade em se lidar com situações em que é considerado o elemento racial. Incentiva-se a leitura dessa lei.direitos humanos Art. § 3º Se a injúria consiste na utilização de elementos referente a raça. a iniciativa legislativa não significou necessariamente seu acatamento por parte da jurisprudência.

4887. compete à Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Dentre os pontos mais relevantes dessa normativa. à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos. 68 Aos remanescentes das comunidades de quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva. 216. A assinatura da Lei Áurea não trouxe mudança significativa para a vida de muitos brasileiros que já se viam engajados em um novo contexto social. Foi precisamente nesse sentido que o Poder Executivo expediu. Por sua vez.direitos humanos Como se sabe. portadores de referência à identidade. Ainda. tomados individualmente ou em conjunto. os grupos étnico-raciais. dotados de relações territoriais específicas. segundo critérios de auto-atribuição. A designação geográfica deu origem ao contorno sócio-cultural das populações remanescentes de quilombos. Tendo como pressuposto a formação multicultural brasileira. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial. no dia 20 de novembro de 2003. do Distrito Federal e dos Municípios. a Constituição brasileira determinou que: Art. consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos. a identificação. delimitação. no processo FGV DIREITO rio 118 • . demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos de que trata o art. em celebração ao Dia Nacional da Consciência Negra. Cabe especial atenção ao Ato das Disposições Constitucionais Transitórias: Art.. cumpre ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA. reconhecimento. da Presidência da República (SEPPIR/PR). com trajetória histórica própria. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. formaram-se em todo o país centros de resistência para os quais se direcionavam escravos fugidos. nos quase se incluem: (. e procedimento: cabe à Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura a expedição de certidão referente à autodefinição. com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida.) § 5o Ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos. A Carta Constitucional criou assim uma titularidade coletiva de propriedade para aqueles que ocupam determinada terra e se reconhecem enquanto remanescentes de quilombos. reconhecimento.. o Decreto n. delimitação. à ação. o qual regulamenta o procedimento para identificação. sem prejuízo da competência concorrente dos Estados. cabe ressaltar: • definição: de acordo com o artigo 2o. notadamente durante o século XIX. demarcação e titulação das terras.

Tal omissão não é por acaso. foi sancionada a Lei nº 10. notadamente após a edição do referido decreto. Diversos quilombos já foram ou encontram-se em vias de regularização. sendo elas atacadas ou defendidas. a qual altera a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e inclui a matéria no currículo oficial da Rede de Ensino. a luta dos negros no Brasil. criando os seguintes novos artigos: Art. Por mais que tal debate tenha sido ofuscado pelos ataques terroristas às Torres Gêmeas de Nova Iorque. Sob a administração de George Bush. a intensa participação da sociedade civil brasileira nas conferências regionais e os mais de 200 ativistas nacionais que compareceram a Durban giraram os holofotes do debate nacional em direção às políticas de ação afirmativa. Em 09 de janeiro de 2003. a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional. mais especificamente em atividade sobre a Lei Estadual do Rio de Janeiro nº 3.524/2000. Nenhuma linha foi dedicada a tais políticas quando a Aula 18 referiu-se à importância da Conferência de Durban. oficiais e particulares. foi inescapável a conquista de um lugar ao sol para tais medidas. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio. a implementação do estudo de História e Cultura Afro-brasileira deve ser entendida como um importante passo para a compreensão do Brasil como um Estado multi-étnico e multicultural. Alteração curricular Interpretada por alguns como política de ação afirmativa. 26 –A. De forma inédita. resgatando a FGV DIREITO rio 119 . torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura § 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos. Ironicamente.639. Políticas de Ação Afirmativa Por mais que os alunos já tenham explorado o tema das Políticas de Ação Afirmativa no bojo da Disciplina Direito Constitucional I. a mídia passou a conceder espaço diário às supostas implicações que teria a aplicação de tais políticas no contexto social brasileiro. Trata-se de processo administrativo que visa precisamente à garantia de uma titularidade coletiva no contexto de um país multicultural. censurada externamente pelos seus representantes. trata-se de um tema inescapável quando se trata da perspectiva racial. o qual prescreveu atribuições e procedimentos próprios. tais políticas já vinham sendo lentamente desmontadas internamente. O país que primeiro implementou tais políticas sabotou sua discussão durante o evento. garantir os direitos étnicos e territoriais dos remanescentes das comunidades dos quilombos.direitos humanos de regularização fundiária. e por conseqüência.

ao contrário. Flávia. exige que se repensem relações étnico–raciais. Foram aqui expostos alguns temas relacionados à especificação do sujeito de direitos humanos sob a perspectiva racial. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como ‘Dia Nacional da Consciência Negra’. Nesta perspectiva. em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras. pp. Legislação: Constituição Federal de 1988 Indica o parecer que “a obrigatoriedade de inclusão de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nos currículos da Educação Básica trata-se de decisão política. é preciso valorizar devidamente a história e cultura de seu povo. Direito de igualdade racial: aspectos constitucionais. Cláudia (orgs. de 17 de junho de 2004. procedimentos de ensino. Guilherme de. São Paulo: Atlas. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira. e PERRONEMOISÉS. além das raízes africana e européia. que se repetem há cinco séculos. de 10 de março de 2004139. dizem respeito a todos os brasileiros. Ingrid. 2002. 26-A acrescido à Lei 9394/1996 provoca bem mais do que inclusão nos novos currículos. 24-38. civis e penais: doutrina e jurisprudência. econômica e política pertinentes à História do Brasil. racial. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. PIOVESAN. José Augusto. A leitura de tais documentos torna-se importante na medida em que fundamentam razões e efeitos da modificação curricular. inclusive na formação de professores. Instrumentos básicos. 2005. § 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar. cabe ao Poder Público e à sociedade civil a luta para a promoção de uma sociedade sem discriminação. 10. É importante destacar que não se trata de mudar um foco etnocêntrico marcadamente de raiz européia por um africano. com fortes repercussões pedagógicas. Priscila Kei. uma vez que devem educar-se enquanto cidadãos atuantes no sei de uma sociedade multicultural e pluriétnica. 2003. social e econômica brasileira. Leitura acessória: CYFER. o Conselho Nacional de Educação manifesta no sentido de regulamentar as alterações advindas da Lei no. O importante é perceber que. reconhece-se que. Em Parecer nº 003/2004. LINDGREN ALVES. que proporciona diariamente. “Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965)”. É preciso ter clareza que o art.639. Luciana. e SATO. In: Os direitos humanos na pós-modernidade. mas de ampliar o foco dos currículos escolares para a diversidade cultural. à sua identidade e a seus direitos. cabe às escolas incluir no contexto dos estudos e atividades. 2002. buscando repara danos. pp. condições oferecidas para aprendizagem. também as contribuições histórico-culturais dos povos indígenas e dos descendentes de asiáticos. Direito Internacional dos Direitos Humanos. além de garantir vagas para negros nos bancos escolares. editando assim a Resolução nº 1. Temas de Direitos Humanos. In: PIOVESAN. pp. 113-140. SILVA JR. “Implementação do Direito à Igualdade”. “A conferência de Durban contra o racismo e a responsabilidade de todos”. Tantos outros poderiam ser aqui apontados para o debate.). Hédio. Com essa medida. São Paulo: Perspectiva. São Paulo: Max Limonad. capazes de constituir uma nação democrática. Art.” 139 FGV DIREITO rio 120 . Flávia. homologado pelo Ministro da Educação em 19 de maio de 2004.79-B. objetivos tácitos e explícitos da educação oferecida pelas escolas. sociais. pedagógicas. muito além da discussão acerca da raça e os métodos para a sua designação.direitos humanos contribuição do povo negro nas áreas social. 191-203. In: ALMEIDA. A relevância do estudo de temas decorrentes da história e cultura afro-brasileira e africana não se restringem à população negra.

716/1989 (crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor) Lei nº 10.direitos humanos Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial Declaração e Plano de Ação de Durban Lei nº 7.639/2003 (institui o estudo de História e Cultura Afro-brasileira) FGV DIREITO rio 121 .

Os treaty bodies são criados no intuito de possibilitar o monitoramento dos tratados de direitos humanos. a OIT examina casos de trabalho forçado a que são submetidos povos indígenas. educação e participação. A Declaração de Viena de 1993 estabeleceu o compromisso dos Estados em respeitar os direitos humanos e liberdades fundamentais dos povos indígenas. Cabe destaque ainda à jurisprudência da Corte 140 Campaña educativa sobre derechos humanos y derechos indígenas: módulos temáticos. O conhecimento de seus direitos. sobretudo pelo aumento da participação indígena na vida política. tão fundamental ao exercício dos demais direitos. em 1989. Em 1957.socioambiental. a Comissão de Direitos Humanos estabeleceu um Grupo de Trabalho aberto para elaborar um projeto de declaração. a Convenção nº 169 deverá permear toda a aula. 2003. correspondente a 11% do território nacional – sendo que 95% das terras se concentram na Amazônia. encontra-se em processo de elaboração o Projeto de Declaração Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Cumpre registrar que a ausência de um tratado específico não significa a negativa de proteção dos direitos dos povos indígenas. pp.000 cidadãos indígenas. no Brasil. 41-49. Não obstante ter sido o primeiro marco protetivo dos direitos indígenas no panorama internacional. Acesso em: 10 março 2005.direitos humanos Aula 19: Direitos Humanos e a questão indígena NOTA AO ALUNO Há. San José: Instituto Interamericano de Derechos Humanos. ao examinarem relatório enviado pelo Estado-parte. poderá examinar a especificidade da questão indígena. 141 FGV DIREITO rio 122 . Disponível em: http://www. Por sua vez. a qual descredencia qualquer visão integracionista e explicita direitos fundamentais dos povos indígenas como a terra. o Conselho Econômico e Social criou o Grupo de Trabalho sobre Populações Indígenas. referente aos Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes. Tendo em vista a peculiaridade do tema para o continente americano. cujos trabalhos ainda não foram encerrados. a Conferência-Geral editou a Convenção nº 107 sobre populações indígenas e outras populações tribais e semitribais nos países independentes. Aos povos indígenas são garantidos direitos específicos. ainda não há prazo para a conclusão do documento. Convenção 169 da OIT. população essa configurada por mais de 170 línguas. ocorrida a última em fevereiro de 2005.org/pib/portugues/direito/ conv169. 3) Organização dos Estados Americanos: tanto a Convenção Americana de Direitos Humanos quanto o Protocolo de San Salvador guardam artigos que são de especial interesse dos povos indígenas. tendo em vista sua extrema importância para o tema. em torno de 330. possibilitou-lhes a reivindicação de terra.shtm#ti. em cada um dos âmbitos de proteção: 1) Organização das Nações Unidas: em 1982. a referida convenção refletiu visão dominante nesse período caracterizada pelo protecionismo estatal e pelo assimilacionismo. ou ao receber denúncias individuais ou interestatais – se for o caso. Já realizadas 5 reuniões de trabalho.140 2) Organização Internacional do Trabalho: desde o início do século XX. Promulgada em 19 de abril de 2004. é aprovada a Convenção 169141. saúde. formado por cinco expertos independentes que são membros da Subcomissão de Promoção e Proteção dos Direitos Humanos (Subcomissão). Em março de 1995.

Disponível em: http://www. corteidh. todas necessárias e nenhuma suficiente sozinha. Roraima. por isso.or. ao longo dos anos. o caso da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.direitos humanos Interamericana de Direitos Humanos. parágrafo 1o. abaixo. Cabem aqui algumas considerações: (i) as terras indígenas são consideradas bens da União (artigo 20. Disponível em: http://www. importante contribuição para o fortalecimento dos direitos dos povos indígenas. entre os rios Tacutu. Tem uma população estimada em 15. Localiza-se a nordeste do Estado de socioambiental. 3a) serem imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar. modo de utilização. 318 Dados gerais É a habitação ancestral dos povos Macuxi. de sorte que não se vai tentar definir o que é habitação permanente. a saber: 1a) serem por eles habitadas em caráter permanente. ou qualquer das condições ou termos que as compõem. costumes e tradições. (ii) tal propriedade é vinculada à posse permanente dos índios. a visão do bem-estar do nosso gosto. Objetivo Homologação da área contínua. Maú. o tribunal reconheceu os costume indígena como fonte de direito.br/raposaserradosol. Disponível em: http://www. 142 SILVA. segundo a visão civilizada. 4) Constituição Federal: a proteção aos índios pode ser considerada um dos pontos mais difíceis e controvertidos do trabalho do constituinte. atividade produtiva. Taurepang e Patamona.asp. poderá auxiliar na condução desse ponto específico: Terra Indígena Raposa Serra do Sol144 Terra Indígena Raposa Serra do Sol317 145 Acesso em: 01 julho 2005. Porto Alegre: Núcleo de Direitos Indígenas e Sergio Antonio Fabris Editor.cir.”143 316 . “fundado em quatro condições. p. celebram relações de várias naturezas – matrimonial. uma vez que retrata de forma bem clara a luta pelo reconhecimento da terra e os obstáculos que os índios que: ultrapassar nesse caminho. José Afonso. os quais possuem direitos originários sobre a terra e. com as populações vizinhas ressalte-se Nesse contexto normativo. da cultura deles. 1993. 143 144 Para maiores informações. Miang. In: Os direitos indígenas e a Constituição. Ingarikó. 145 Acesso em: 10 março 2005. Surumú e a fronteira com a Venezuela. (iii) a base do conceito de terras tradicionalmente ocupadas pelos índios encontra-se no artigo 231. mas seexemplo. cerimonial e comercial – gundo o modo de ser deles. em especial a organização das famílias. 2a) serem por eles utilizadas para suas atividades produtivas. 4a) serem necessárias à reprodução física e cultural.org/nsa/ detalhe?id=1886. com vistas ao pagamento de indenizações. (c) o caso Raposa Serratêm do Sol o quadro. Wapichana. acesse o site do Conselho Indígena de Roraima. a propriedade é inalienável. indisponível e imprescritível.org. tudo segundo seus usos.html. 47.000 habitantes.cr/seriec/index_ c. Acesso em: 10 março 2005. XI CF). Suriname142. No caso Aloeboetoe vs. a visão do modo de produção capitalista ou socialista. “Terras tradicionalmente ocupadas pelos índios”. que tem estabelecido. FGV DIREITO rio 123 .

Surumú e a fronteira com a Venezuela.2005. É uma fase do procedimento demarcatório das terras indígenas. Convenção 169 da OIT Assinada pelo ex ministro da Justiça Renan Calheiros: declarou ser a Terra Indígena Raposa Serra do Sol posse tradicional permanente dos povos indígenas Ingarikó.com. Homologação da área contínua. 820 de 11/12/98 Ação judicial Homologação de Raposa Serra do Sol A campanha 146 Conselho Indígena de Roraima.000 habitantes. 147 148 Portaria n. cfm?id=157084&tipo=7&cat_ id=92&subcat_id=1. Em 15.210).gov. CF.2005. Miang. Dentre os empecilhos criados pelo Governo Estadual para impedir a homologação da terra contínua. voltou a impedir a homologação em área contínua da terra indígena. Art. “Se só for preciso uma canetada.05. devido à edição de uma nova portaria do Ministério.001/1973 e o Decreto 1. (ii) criação do Parque Nacional Monte de Roraima e do 6º Pelotão Especial de Fronteiras do Exército Brasileiro. A decisão liminar atendeu a uma Ação Cautelar ajuizada pelo senador Mozarildo Cavalcanti (PPS-RR) e.direitos humanos Dados gerais Objetivo É a habitação ancestral dos povos Macuxi.amazonia.775/1996. Em 03. destacamse: (i) criação do município de Uiramutã. excluindo da área as instalações do 6º Pelotão Especial de Fronteias e reconhecendo a unidade administrativa municipal de Uiramutã. Localiza-se a nordeste do Estado de Roraima. htm. o presidente Lula assinou decreto homologando a área indígena Raposa Serra do Sol de forma contínua150. Disponível em: http://www. Ingarikó. 231. cit. Fixou a dimensão e limite da área. o Mandado de Segurança foi rejeitado pelos juizes do Superior Tribunal de Justiça. (iii) incentivo a Ongs para a divisão do território entre as comunidades. Acesso em: 30 abril 2005. a ministra do STF Ellen Gracie suspendeu a Portaria 820/ 98 do Ministério da Justiça147. No dia 27 de novembro de 2002. O Governo do Estado de Roraima impetrou no STJ Mandado de Segurança (n° 6. Trata-se de uma campanha do Conselho Indígena de Roraima (CIR) em parceria com Rainforest Foundation para pressionar o Governo Federal a homologar a terra. Concedida Liminar Parcial ao Mandado de Segurança: o ministro relator Aldir Passarinho suspendeu os efeitos da portaria quanto aos núcleos urbanos e rurais instalados antes da sua expedição. Wapixana e Taurepang.01. juntamente com uma carta requerendo a homologação. Macuxi. As comunidades indígenas lutam há mais de 30 anos pelo reconhecimento definitivo da terra aos seus legítimos habitantes. FGV DIREITO rio 124 . conforme dispõe a Lei 6. Trata-se de ato administrativo de competência do presidente da República. entre os rios Tacutu. com pedido de liminar contra o Ministério da Justiça.br/noticia/1363/stf-raposa-serra-dosol. Em 14.br/noticias/2005/ Abril/rls150405homologacao. Art. Disponível em: http://www. a fim de anular a Portaria declaratória. Solicitam que todos mandem uma caneta para o presidente Lula. O caso no STF Acesso em: 10 março 2005.05. Taurepang e Patamona.br/guia3/detalhes. o STF “julgou prejudicadas as ações judiciais ‘pela perda do objeto’. Wapichana. Tem uma população estimada em 15. alvo da contestação”149. assim. o processo extinto sem julgamento do mérito e a liminar parcialmente revogada. Homologação da terra Acesso em: 30 abril 2005. Maú. 7º. 149 150 Idem. justica. 534. brasiloeste. op. alterando o que estava disposto no ato normativo anterior. argumentando os direitos de ir e vir dos moradores nos referidos núcleos. dentro das terras Raposa Serra do Sol. de 13 de abril de 2005 – Define os limites da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. de n° 534148. Disponível em: http://ef. org. A luta Respaldo legal Portaria n. que poderá fazê-lo por meio de um decreto. em 1995. que não seja por falta de caneta!”146.2005.

OLIVEIRA. III (direito à liberdade religiosa e de culto). Os peticionários argumentam que o Estado brasileiro teria violado os artigos 21 (direito à propriedade privada). II (direito de igualdade perante a lei). VIII (direito de residência e de trânsito). In: Os direitos indígenas e a Constituição. 24 (igualdade perante a lei). 1993. João Pacheco. 15-68. IX (direito à inviolabilidade de seu domicílio). SILVA. Rio de Janeiro: Contra Capa. uma vez que não teriam sido esgotados os recursos internos. 1998. O Estado brasileiro argumenta pela inadmissibilidade do caso. rotinas e saberes coloniais no Brasil contemporâneo. pp. “Redimensionando a questão indígena no Brasil: uma etnografia das terras indígenas”. XVIII (direito à justiça) e XXIII (direito de propriedade) da Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem (a “Declaração”). 45-50. 05 (direito à integridade pessoal). Por ocasião da homologação da TI Raposa Serra do Sol. José Afonso. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: Campaña educativa sobre derechos humanos y derechos indígenas: módulos temáticos. 4 (direito à vida). 12 (liberdade de consciência e de religião). 2003. Porto Alegre: Núcleo de Direitos Indígenas e Sergio Antonio Fabris Editor. Patamona e Taurepang por não demarcar suas terras e promover a colonização continuada das mesmas. por supostas violações a direitos e garantias dos povos Ingaricó. e enumera todas as medidas que vinham sendo adotadas no sentido da promoção de tais povos indígenas.direitos humanos Processo na CIDH Conselho Indígena de Roraima (CIR) e a Rainforest Foundation protocolaram denúncia contra o Estado brasileiro. Macuxi. In: Indigenismo e territorialização: poderes. a CIDH inseriu nota em sua página na internet por meio da qual manifestava congratulação ao Estado brasileiro pelo Ato Presidencial. 22 (direito de circulação e residência) e 25 (direito à proteção judicial) da Convenção Americana de Direitos Humanos (a “Convenção”) e os direitos I (direito à vida e à integridade da pessoa). Legislação: Constituição Federal Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho FGV DIREITO rio 125 . pp. em 29 de março de 2004. San José: Instituto Interamericano de Derechos Humanos. Wapixana. “Terras tradicionalmente ocupadas pelos índios”.

Capítulo II – Da Utilização das Coisas Comuns Artigo 4º – O uso das coisas comuns dispostas no artigo 1º poderá ser feito por qualquer co-proprietário e deverá obedecer aos horários estipulados pelo “Parque Árvores Verdes”. Artigo 2º – São coisas e partes de propriedade e uso comuns e. play-ground. na forma abaixo: Capítulo I – Dos Conceitos Gerais Artigo 1º – Além dos 4 (quatro) referidos edifícios residenciais. esculturas. Artigo 3º – Não obstante o disposto no artigo precedente. da Cidade do Rio de Janeiro. o “Parque Árvores Verdes” contará com um parque de estacionamento de automóveis. situado na Av. fontes e lagos. insuscetíveis de divisão ou de alienação destacada da unidade autônoma de cada um ou. Comarca do Estado do Rio de Janeiro. sistema de tratamento de esgoto e central de abastecimento de gás. Tabelião do 10º Ofício de Notas.direitos humanos Aula 20: Direitos Humanos e orientação sexual NOTA AO ALUNO Leia os dois casos abaixo: I) Convenção Hipotética de Condomínio CERTIDÃO O BEL. Julio Lopes. fica estabelecido que. Parágrafo único – A cada um dos 4 (quatro) edifícios que constituirão o “Parque Árvores Verdes” corresponderá uma quota ideal de ¼ da totalidade do terreno. portanto. vias internas de circulação. embora constituindo coisa de propriedade comum de todos os condôminos do “Parque Árvores Verdes”. sistema de iluminação das partes comuns. por CERTIDÃO. 3 (três) quadras de tênis. assim como tudo que seja proveitoso à totalidade dos condôminos do conjunto. que me é pedido por parte interessada. FGV DIREITO rio 126 . 2000. bosque. consta labrado um INSTRUMENTO DE ESCRITURA. piscina. 2000. jardins. as enumeradas no artigo anterior e mais o terreno de todo o “Parque Árvores Verdes”. de utilização exclusiva por qualquer co-proprietário. a parte do terreno ocupada pela projeção de cada um dos 4 (quatro) edifícios será reservada para utilização exclusiva dos co-proprietários das unidades autônomas componentes de cada um. e na forma da lei: Certififica que revendo o Livro n. República Federativa do Brasil. às folhas 50. ainda. Mario Henrique Mendonça. cujo teor é o seguinte: ESCRITURA de Convenção de Condomínio Geral do “Parque Árvores Verdes”.

asp?NOTCod=58452.gov. o abraço.151 Diante do exposto.] Capítulo VIII – Do Foro Artigo 35 – Fica eleito o foro desta cidade para a solução de qualquer litígio ou controvérsia decorrente da presente Escritura.direitos humanos § 1º – Fica proibido a demonstração de afetividade por casais homossexuais nos aludidos espaços comuns. sendo vedada mãos dadas. de nº 717/2003. A resolução de 1999 também impede psicólogos de colaborarem com eventos ou serviços que “proponham tratamentos de cura da homossexualidade” e de “se pronunciarem em meios de comunicação de massa de modo a reforçar o preconceito social existente em relação aos homossexuais. 151 FGV DIREITO rio 127 . qual? O que dispõem os tratados internacionais de direitos humanos e as leis nacionais a respeito? Acesso em 05 de julho de 2005.. Desde 1999. II) Programa de Auxílio para “cura de homossexuais” Em 10 de dezembro de 2004.. De acordo com a assessoria de imprensa do CFP. calculada a partir da primeira infração. Projeto semelhante tramita também no Congresso Nacional. o Plenário da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro reprovou o projeto de Projeto de Lei da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. os profissionais não estão proibidos de prestar serviços a pessoas homossexuais desde que o objetivo seja reduzir sofrimentos decorrentes da orientação sexual e que a homossexualidade não seja tratada como doença. [. que foi designado relator na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara. indaga-se: A Convenção de Condomínio e o PL de nº 717/2003 violam algum direito humano? Caso afirmativo. No caso desse projeto. proposto pelo Deputado Federal Neucimar Fraga (PL-ES).br/imprensa/ Noticias. Atualmente aguarda o parecer do deputado Roberto Gouveia (PT-SP). o beijo e qualquer outro ato ou gesto que atente contra os bons costumes ou formação moral e psicológicas das crianças e dos adolescentes. “o CFP (Conselho Federal de Psicologia) já adotou a posição contrária. Trata-se da autorização para um programa de reorientação sexual. pastor da Assembléia de Deus. uma resolução do órgão determina que psicólogos não podem tratar a homossexualidade como doença. Disponível em: http:// www. ou seja. § 2º – A não observância do disposto no presente artigo implica na aplicação de multa progressiva. distúrbio ou perversão.aids. aos quinze (15) dias do mês de fevereiro (02) do ano de dois mil e cinco (2005). ligando-os a portadores de desordem psíquica”. Extraída por Certidão. um auxílio para os homossexuais que quiserem a cura para “virar” heterossexuais. A decisão final da Assembléia não retira a gravidade de que tal projeto de iniciativa do Deputado Estadual Edino Fonseca (PSC). tenha tido pareceres favoráveis por parte da Comissão de Constituição e Justiça e da Comissão de Saúde.

através de uma atitude inédita do Brasil. seja de raça. Cinco Estados muçulmanos obstaculizaram a votação da resolução: Arábia Saudita. todavia. Como mencionado na aula 18.direitos humanos Diferentemente dos demais grupos que estudamos até agora. uma importante discussão. a Discriminação Racial. realizada em Durban em 2001. a proteção dos direitos dos homossexuais situa-se ainda no marco geral da proteção dos direitos humanos. Acompanharam a proposta inicial brasileira o Canadá. assegura a Declaração Universal dos Direitos Humanos que: Art. os Estados Unidos sinalizaram que se absteriam de votar uma proposta que referisse à sexualidade por não acreditarem que a Comissão constituísse fórum adequado para a discussão da questão. 17 contrários e 10 abstenções. Tal posição já teria sido gestada durante a Conferência Regional das Américas. 1º – Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. a diplomacia percebeu que seria mais danoso a reprovação da resolução que a sua não-votação. O referido impasse conduziu à proposta da Presidência da Sessão (Líbia) para postergar a apreciação da proposta para 2004. o Brasil exerceu protagonismo na Conferência Mundial contra o Racismo. opinião política ou de outra natureza. Todavia. o Paquistão. A postura assumida pelo Estado brasileiro no cenário internacional acarretou implicações internas imediatas: a criação do Conselho Nacional de Combate à Discriminação. a proposta foi colocada novamente em pauta. a Líbia e a Malásia apresentaram propostas de alteração visando a eliminação de todas as referências à orientação sexual. foi apresentada uma proposta específica de resolução para o reconhecimento da discriminação por orientação sexual como uma violação a direitos humanos. o que possui o combate à discriminação por orientação sexual como uma de suas vertentes de atividade. bem como a necessária adoção de medidas de proteção de suas vítimas. riqueza. à medida em que a sessão era conduzida ao final dos trabalhos. Pela primeira vez na sua história. contando com amplo respaldo da sociedade civil organizada e de delegações européias.1 – Todo o homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração sem distinção de qualquer espécie. pode-se FGV DIREITO rio 128 . Artigo 2. o Egito. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade (grifou-se). cor. Além disso. nascimento. língua. momento em que os Estados pactuaram a necessidade de prevenir e combater a discriminação por orientação sexual. África do Sul e um grupo de dezenove países europeus. no que se refere ao debate sobre a não-discriminação com base na orientação sexual. o projeto foi retirado de votação. Assim. não houve maturidade para que a proposta fosse incluída no texto final da Declaração. origem nacional ou social. Isso posto. a Xenofobia e Formas Conexas de Intolerâncias. Já em 2004. religião. sexo. Diante do cenário narrado. realizada em Santiago do Chile. Iniciou-se em 2003. no âmbito da 59ª Sessão da Comissão de Direitos Humanos da ONU. o que foi aceito por 24 votos a favor. ou qualquer outra condição (grifou-se). Ressalte-se que a proposta brasileira foi a única a não ser votada ao longo de toda a 59ª Sessão.

IV – promover o bem de todos.. disability. idade e quaisquer outras formas de discriminação....... tramita no Congresso Nacional Projeto de Emenda Constitucional. raça......... cor ou estado civil.... à igualdade. Nesse sentido. uma vez que se recai mais uma vez sobre a proteção geral do princípio da não-discriminação... É importante enfatizar que mais de 70 países ainda proíbem práticas homossexuais e a punem com penas que vão desde a prisão à flagelação pública e morte..” Art...... age.. nos termos seguintes (grifou-se). Disponível em: http://www. colour...... 152 FGV DIREITO rio 129 . a Constituição Federal da África do Sul é a única constituição do mundo a garantir o direito à orientação sexual152: Art. conscience...... Cumpre ressaltar que.. cor. marital status...... tortura.. 2º – É conferida nova redação ao Inciso XXX do art.. idade.. mesmo que limitado até o momento à não discriminação. não seria arriscado afirmar que a ausência de um tratado não significa omissão das instâncias internacionais em face a violações dos direitos humanos dos homossexuais.. alimentação e moradia são comunicados diariamente por parte de experts independentes apontados pela Comissão de Direitos Humanos.. exclusão do direito à saúde..direitos humanos afirmar que se encontra latente no âmbito da ONU uma postura mais abrangente de proteção dos direitos humanos sob a perspectiva de orientação sexual. à segurança e à propriedade.. sexual orientation..... garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. XXX – proibição de diferença de salários. culture. 3º – .. sem preconceitos de origem.za/html/govdocs/ constitution/saconst02... 1º – É conferida nova redação ao Inciso IV do art....... Além do enorme preconceito de que são vítimas. à liberdade. 5º – Todos são iguais perante a lei..... orientação sexual.. de autoria da então deputada Marta Suplicy...... sexo....... de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo. em uma análise comparada. 3º da Constituição: “Art.. belief.... que propõe a alteração dos seguintes artigos: Art... 9.. religion. language and birth” (grifou-se)..3 – “The state may not unfairly discriminate directly or indirectly against anyone on one or more grounds. Acesso em: 27 abril 2005... ethnic or social origin. gender.... html?rebookmark=1#9.. educação.. prisão e assassinato..... 7º da Constituição: “Art. ponderações semelhantes podem ser confeccionadas. orientação sexual... inúmeros relatos de violência. Com vistas a consagrar à discriminação por orientação sexual igual gravidade às demais.. Na esfera interna brasileira.. sex.. including race.. O Texto Constitucional estabelece: Art. sem distinção de qualquer natureza.. pregnancy.org..... 7º ... polity..” A omissão em relação à discriminação por orientação sexual não constitui prerrogativa brasileira..

direitos humanos Cabe aqui uma interpretação mais arrojada para afirmar que.rj. § 1º – Ninguém será discriminado. por ter cumprido pena ou pelo fato de haver litigado ou estar litigando com órgãos municipais na esfera administrativa ou judicial (grifou-se).gov. atividade física. Elaboração: André Luiz de Figueiredo Lázaro. sexo. 5º. Direito à Segurança. Política para a Juventude. a dignidade encontra-se na aceitação do ser nas suas características pessoais. É dividido entre os temas Cooperação Internacional. estado civil. por mais que tal forma não esteja expressa em nosso Texto Constitucional. prejudicado ou privilegiado em razão de nascimento. Conselho Nacional de Combate à Discriminação/Ministério da Saúde. rio. É também importante perceber que outros marcos normativos internos já têm apresentado sensibilidade à orientação sexual. Designa-se ao Conselho Nacional de Combate à Discriminação papel fundamental de controle das ações que visem ao fim da discriminação. como está na norma sul-africana. “De novo. Direito à Educação. Mais além do plano legislativo. idade. cabe menção ao lançamento do Brasil Sem Homofobia – Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania Homossexual. O pluralismo característico da maior parte das sociedades contemporâneas exige que os ordenamentos jurídicos se aperfeiçoem de forma a garantir que as diferenças possam ser reconhecidas e respeitadas.gov. ainda. Afinal. ou qualquer particularidade. etnia. Disponível em: www. Comissão Provisória de Trabalho do Conselho Nacional de Combate à Discriminação da Secretaria Especial de Direitos Humanos. Acesso em: 6 de julho de 2005. o princípio da dignidade da pessoa humana. cor. Direito à Saúde.asp?NOTCod=60157. Brasil Sem Homofobia – Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania Homossexual. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: CALLIGARIS. respaldado no artigo 1º da Constituição Federal. lançado em 2004 por iniciativa da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. condição social ou. mental ou sensorial.br/pgm/leiorganica/ leiorganica.aids. 2004. Acesso em: 27 abril 2005. Direitos ao Trabalho.br/imprensa/Noticias. orientação sexual. a qual estabelece que: Art. Direito à Cultura. É o caso da Lei Orgânica Municipal do Rio de Janeiro153. organiza. Brasília: Ministério da Saúde. 153 FGV DIREITO rio 130 . Contardo.ao e revisão de textos: Cláudio Nascimento Silva e Ivair Augusto Alves dos Santos. Disponível em: http://www2. sobre a cura da homossexualidade”. dentre as quais se encontra a por orientação sexual. conduz à ilação de que o respeito a diferenças seja um pressuposto para uma vida digna. Política para as Mulheres e Política contra o Racismo e a Homofobia.html#t1c1.

direitos humanos SPENGLER. União homoafetiva: o fim do preconceito. Santa Cruz do Sul: EDUNISC. Fabiana Marion. Legislação: Constituição Federal FGV DIREITO rio 131 . 2003.

O objetivo básico do Teatro do Oprimido é o de Humanizar a Humanidade. O Teatro do Oprimido oferece aos cidadãos os meios estéticos de analisarem seu passado. a mesma linguagem que os atores usam no palco: suas vozes e seus corpos. a si mesmo. pensando. Disponível em: http:// www. O Teatro Essencial 3. 6. renunciando momentaneamente à sua capacidade e à sua necessidade de produzir ações. Oprimidos são aqueles indivíduos ou grupos que são. como a livre participação na sociedade humana entre iguais. 154 FGV DIREITO rio 132 . 2. e a aprender a viver em sociedade através do jogo teatral. Todo ser humano é capaz de ver a situação e de ver-se. Acesso em: 14 de maio de 2005. ao invés de esperar por ele. criando. no contexto do presente. um espaço dentro do espaço: o Espaço Estético. Quando um ser humano se limita a observar uma coisa. para que possam inventar seu futuro. de qualquer forma. diminuídos no exercício desse direito. O Teatro do Oprimido ajuda os seres humanos a recuperarem uma linguagem artística que já possuem. 7. desejos e idéias em uma Linguagem Teatral. Traduzem suas emoções. 8. sentindo. 11. política. Todos os seres humanos utilizam. Teatro do Oprimido é um ensaio para a realidade. Jogos e Técnicas Especiais baseadas no Teatro Essencial.direitos humanos Aula 21: Teatro do Oprimido NOTA AO ALUNO Manifesto do Teatro do Oprimido154 Declaração de princípios Preâmbulo 1. Teatro do Oprimido. pessoa ou espaço. econômica. Aprendemos a sentir. Ser humano é ser teatro: ator e espectador co-existem no mesmo indivíduo. que busca ajudar homens e mulheres a desenvolverem o que já trazem em si mesmos: o teatro. deve produzir ações e observar o efeito de suas ações sobre o meio exterior. em situação. Todo ser humano é capaz de atuar: para que sobreviva.br/foco. agindo. O Teatro do Oprimido é um sistema de Exercícios. movimentos e expressões físicas. Diálogo é definido como o livre intercâmbio com os Outros. 9. O teatro se define pela existência simultânea — dentro do mesmo espaço e no mesmo contexto — de espectadores e atores. racial ou sexualmente despossuídos do seu direito ao Diálogo ou. Teatro Objetivo e Linguagem Teatral. O Teatro Essencial consiste em três elementos principais: Teatro Subjetivo. assim. 5. social. Este é o Teatro Objetivo.opalco. pessoa ou espaço. Esta co-existência é o Teatro Subjetivo. Todo ser humano é teatro! 4. a energia e o seu desejo de agir são transferidos para essa coisa. cfm?persona=materias&contr ole=112. individual ou coletivamente. a pensar. cultural. e pelo respeito às diferenças e pelo direito de ser respeitado. a agir.com. 10. na vida diária.

na educação. O Teatro do Oprimido está sendo usado em dezenas de países de todo o mundo. programas de alfabetização e na saúde. também está sendo usado como instrumento para a obtenção da justiça econômica e social. famílias. 18. e um meio de tornar as pessoas mais felizes. Na realidade. Reconhecendo esta realidade. 16. como instrumento para modificar as causas que produzem infelicidade e dor. É um método de análise. para clarificar e expressar os desejos dos seus praticantes. depois. O Teatro do Oprimido é um movimento estético mundial. que busca a paz. promovendo e criando condições de trabalho para os CTOs e os seus praticantes. Por causa da sua natureza humanística e democrática. A ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DO TEATRO DO OPRIMIDO (AITO) 17. não-violento. artes. concebendo e executando projetos em escala mundial. e criando um ponto de encontro internacional na Internet. para desenvolver todas aquelas características que trazem a Paz. alguns projetos exemplares são apresentados para ilustrar a natureza e o escopo deste Método teatral. trabalho social. No Anexo desta Declaração de Princípios. de acordo com os princípios e os objetivos desta Declaração. cultura.direitos humanos 12. política. por e para o oprimido. mas não a passividade. facilitando o treinamento e a multiplicação das técnicas existentes. por exemplo. promovendo a troca entre eles. como um instrumento poderoso para a descoberta de si mesmo e do Outro. Em resumo. os diálogos têm a tendência a se transformarem em monólogos que terminam por criarem a relação Opressores-Oprimidos. grupos e nações. FGV DIREITO rio 133 . Princípios e Objetivos 13. e o seu desenvolvimento metodológico. e respeita todas as culturas. finalmente. os cidadãos agem na ficção do teatro para se tornarem. 14. em todos os campos da atividade social como. não é dogmático nem coercitivo. A AITO é uma organização que coordena e promove o desenvolvimento do Teatro do Oprimido em todo o mundo. para a inclusão de todos os seres humanos no Diálogo necessário a uma sociedade harmoniosa. aqui relacionados em Anexos. O Teatro do Oprimido não é uma ideologia nem um partido político. estimulando a criação local de Centros do Teatro do Oprimido (CTOs). psicoterapias. raças. para respeitar as diferenças entre indivíduos e grupos. que é o fundamento da verdadeira Democracia. O Teatro do Oprimido procura ativar os cidadãos na tarefa humanística expressa pelo seu próprio nome: teatro do. Nele. O Teatro do Oprimido se baseia no Princípio de que todas as relações humanas deveriam ser de natureza dialógica: entre homens e mulheres. o objetivo mais geral do Teatro do Oprimido é o desenvolvimento dos Direitos Humanos essenciais. o TO está sendo amplamente usado em todo o mundo. o princípio fundamental do Teatro do Oprimido é o de ajudar e promover a restauração do Diálogo entre os seres humanos. protagonistas de suas próprias vidas 15. A AITO cumpre este objetivo inter-relacionando os praticantes do Teatro do Oprimido em uma rede mundial. sempre o diálogo deveria prevalecer.

MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: Site: http://www.direitos humanos 19.theatreoftheoppressed. e vai incorporar todas as contribuições de todos aqueles que trabalharem dentro desta Declaração de Princípios. 20.org Demais sites indicados ao longo do texto FGV DIREITO rio 134 .br Site: http://www. A AITO tem os mesmos princípios e objetivos humanísticos e democráticos do Teatro do Oprimido.ctorio.com. A AITO entende que todos aqueles que trabalham usando as várias técnicas do Teatro do Oprimido subscrevem esta mesma Declaração de Princípios.

significou o marco para a visibilidade e referência às ONGs. 1997. a Rio92. a sociedade civil vem exercendo papel de destaque nos debates públicos e na mídia no tocante à promoção e proteção dos direitos humanos. hoje de maneira irreversível. que se constitui hoje como uma grande arena da sociedade civil. 61 157 ABONG. Afirmar que o Estado é o principal violador de direitos humanos é simples. p. cit. destacamos as organizações e movimentos da sociedade civil como protagonistas. Cabe registrar que tais organizações participaram de todas as grandes conferências dos últimos 15 anos. A atuação na esfera interna e na arena internacional não constitui tarefas excludentes. o diálogo torna-se muito mais profícuo se precedido pela leitura de alguns argumentos sobre a atuação desses atores.org. Rio de Janeiro: editora Record. A partir de então. impulsionada pelas flagrantes violações de direitos humanos vigentes no momento histórico. em 1988. na década de 80. Multiplicam-se redes de organizações que pretendem driblar coletivamente as dificuldades e estabelecer agendas. havia 1208 ONGs no Brasil. Destaque-se ainda a experiência do Fórum Social Mundial (FSM). op. durante o tradicional Fórum Econômico Mundial de Davos. Ao longo das duas últimas décadas.direitos humanos Aula 22: O papel da sociedade civil na promoção e proteção dos direitos humanos NOTA AO ALUNO Na aula inaugural ao bloco referente aos Novos temas e Novos Atores. Nesse sentido. Acesso em: 30 março 2005. esse é um importante ator na promoção e proteção. Disponível em: http:// www.156 Tais elementos conduzem à compreensão do embrião da sociedade civil em nosso passado recente. outros atores são fundamentais. o desafio maior consiste em articular ABONG. serão convidadas organizações não-governamentais e movimentos social que possuam como campo específico de atuação a advocacia em direitos humanos. De forma a aproximar o aluno da realidade da atuação da sociedade civil. a Conferência Mundial do Meio-Ambiente. Registre-se que. Em um contexto de globalização. Nesse sentido. foi descredenciada a via partidária como a única forma de militância. o FSM é realizado sempre no mês de janeiro. A redemocratização do país conduziu a uma participação social jamais vista nos corredores do Congresso Nacional: verdadeiras caravanas chegavam a Brasília diariamente com vistas a imprimir no Texto Constitucional compromissos com a promoção de direitos humanos. Inaugurado no ano de 2001 na cidade de Porto Alegre. exercendo seu direito à voz.br/ (item: “Perguntas mais Freqüentes”). como as corporações privadas e as organizações não-governamentais. A consolidação da sociedade civil brasileira ocorre durante a ditadura militar. FGV DIREITO rio 135 . De fato. 155 156 VIEIRA. Cidadania e globalização.abong. tais organizações ganharam paulatinamente. Suíça. hoje em sua quinta edição. mas algoz na violação de direitos humanos. respaldo junto aos governos e legitimidade para influenciar nas tomadas de decisão na esfera pública internacional. Liszt. “se o que está em jogo é o presente e o futuro da democracia.155 Acresça-se ainda o fator de que. No âmbito internacional. sendo que 100 delas tratavam especificamente dos direitos humanos157.

RJ: Vozes. VIEIRA. Liszt. Ano 1. não seriam ouvidos. são necessárias algumas considerações acerca da atuação dessas organizações. destacando dificuldades e avanços. Política e democracia em tempos de globalização. Conforme visto anteriormente. Scott. Para que isso se torne realidade. “Reflexões acerca da sociedade civil e dos direitos humanos” In: Sur Revista Internacional de direitos humanos. 2004: 1o Semestre. Buenos Aires: CLACSO. negros e negras. crianças e adolescentes. In: Sur Revista Internacional de direitos humanos. ao levar a injustiça à esfera pública. Rio de Janeiro: editora Record. A.”158 Ultrapassada a apresentação histórica que conduziu ao enquadramento contemporâneo. 2004: 1o Semestre. Oscar Vilhena. José Maria. Scott A. a associação e o diálogo devem estar abertos e com um mínimo de intervenção. pp. pela segurança alimentar. Ano 1. “Reflexões acerca da sociedade civil e dos direitos humanos”. o Estado é o um importante ator na promoção e proteção.”160 A horizontalidade das redes associativas disponibiliza a informação e o debate entre tais organizações e movimentos. Oscar Vilhena. RJ: Vozes.. Contudo. Número 1. São Paulo: Sur Rede Universitária de Direitos Humanos. VIEIRA. op. e DUPREE. como mulheres. mas algoz na violação de direitos humanos. cit. pois dão voz a perspectivas e pontos vantajosos que. Número 1. São Paulo: Sur Rede Universitária de Direitos Humanos. As ONGs e movimentos sociais devem ser vistos como “outros sujeitos atuando de acordo com as reais necessidades e pelos direitos de diversos segmentos sociais. cabe ressaltar que tais atores não substituem o Estado. de outro modo. Nesse sentido. Petrópolis. Rio de Janeiro: LPP – Laboratório de Políticas Públicas. e DUPREE. 49-69. Buenos Aires: CLACSO. homossexuais. Edição em Português. Como afirma Oscar Vilhena Vieira e A. “(g)rupos da sociedade civil são bons cães de caça para injustiças. Política e democracia em tempos de globalização. Dessa forma. FGV DIREITO rio 136 . a sociedade civil contribui para a efetivação dos direitos humanos.direitos humanos para reforçar – e não para substituir ou eliminar – processos simultâneos e diversos de democratização do poder em bases locais. bem como pela preservação do meio ambiente. Assim. VIEIRA. nacionais. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: GÓMEZ. como as corporações privadas e as organizações não-governamentais. Scott DuPree. muitas organizações não-governamentais e movimentos passaram a se organizar por meio de redes. Leitura dos sites indicados ao longo do texto 158 GÓMEZ. Cidadania e globalização. 2000. possibilitando uma atuação mais eficaz na promoção e proteção dos direitos humanos. outros atores são fundamentais para garantir a observância e efetivação dos direitos humanos. 2000.. etc. Petrópolis. 1997. etc”159. Edição em Português. 49-69. pp. Rio de Janeiro: LPP – Laboratório de Políticas Públicas. 159 160 ABONG. José Maria. regionais e globais.

A noção sobre o direito ao desenvolvimento foi abordada pela primeira vez em 1972166.. Mohammed Bedjaoui (org. seja o direito do indivíduo. A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas (CDHNH). no mesmo ano. em seu relatório final. Paris: Martinus Nijhoff Publisher e UNESCO. todo e qualquer direito. ao impor aos países economicamente avançados a obrigação de desenvolver os países menos avançados economicamente. de acordo com o autor. Mohammed Bedjaoui.direitos humanos Aula 23: Desenvolvimento e Direitos Humanos NOTA AO ALUNO Todo direito que existe no mundo foi alcançado através da luta. p. os direitos humanos e o desenvolvimento com questões mundiais primordiais. The right to Development. que almejavam consolidar sua independência política através de uma liberação econômica161. que sustentou ser o direito ao desenvolvimento parte da terceira geração de direitos humanos. na medida em que os quatro quintos da população mundial não mais aceitam o fato de um quinto da população mundial continuar a construir sua riqueza com base em sua pobreza. 1178. cit. op.Rudolf Von Ihering O conceito de direito ao desenvolvimento surgiu na década de 1960. que introduziu o direito ao desenvolvimento como um direito humano. a CDHNH veio confirmar a existência de tal direito e da igualdade de “…the international dimension of the right to development is nothing other than ‘the right to an equitable share in the economic and social well-being of the world’. Nesse sentido. 1177. Resolução 4 (XXXIII) de 21 de fevereiro de 1977. a Conferência Mundial sobre os Direitos Humanos. pode-se dizer que o direito ao desenvolvimento almeja uma globalização ética e solidária. relacionou. por dois eminentes acadêmicos: primeiramente por Keba MBaye. Contudo. da Comissão de Direitos Humanos. O direito ao desenvolvimento era uma exigência afirmada pelos países do terceiro mundo. . em 1969. Ela reflete uma demanda crucial de nosso tempo. proclamou. 161 162 163 164 Ibid. Chefe de Justiça do Senegal. a existência do direito ao desenvolvimento em 1977167. Dois anos após. afirmou a dimensão internacional do direito ao desenvolvimento162. a Declaração sobre o Progresso Social e Desenvolvimento165. realizada em Teerã. seus postulados mais importantes tiveram de ser conquistados num combate contra as legiões de opositores. p. ao passo que os Estados em desenvolvimento são os possuidores do direito ao desenvolvimento163. tal obrigação tem que ser compreendida no contexto de uma nova lei internacional de solidariedade e cooperação. De acordo com Bedjaoui: a dimensão internacional do direito ao desenvolvimento é nada mais que o direito a uma distribuição eqüitativa do bem-estar social e econômico do mundo. só se afirma através de uma disposição ininterrupta para a luta. It reflects an essential demand of our time since four fifths of the world’s population no longer accept that the remaining fifth should continue to build its wealth on their poverty” (Ibid. 1182). Foi frente a essa nova necessidade que a Assembléia Geral das Nações Unidas adotou.164 BEDJAOUI..). M. 1991. Mohammed. em 11 de dezembro de 1969. na qual os Estados desenvolvidos são os detentores da obrigação legal de cooperação. Adotada pela Assembléia Geral através de sua Resolução 2542 (XXIV). 1178. em 1969. p. International Law: Achievements and Prospects. Idem. pela primeira vez. durante a fase de descolonização. 167 FGV DIREITO rio 137 . 165 166 BEDJAOUI. Ainda. e somente alguns meses após por Karel Vasak.. p. seja o direito de um povo.

Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. 8(2). Já no plano internacional. a cooperação internacional deve ser o meio para se resolver os problemas internacionais de caráter econômico.e. No entanto. 3(3). Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. conseqüentemente. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. uma visão que liga os direitos humanos a questões mundiais. a CDHNH estabeleceu o grupo de trabalho de experts governamentais sobre o direito ao desenvolvimento. cooperar com os Estados em desenvolvimento a fim de que estes possam realizar o direito ao desenvolvimento. realizar o direito ao desenvolvimento. razão pela qual estes devem participar ativamente e se beneficiar do direito ao desenvolvimento173. Israel. 181 Art. bem como eliminar as barreiras existentes176 para sua efetivação. Artigo 1. fazendo com que a CDHNH não conseguisse atingir um acordo unânime na resolução169. que no mesmo ano foi adotada a Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos. o Estado deve elaborar políticas nacionais adequadas para o desenvolvimento175. (ii) fortalecer e garantir os direitos humanos e liberdades individuais180. Tanto a Proclamação de Teerã quanto esta resolução de 1979 tinham uma abordagem estrutural (structural approach). O marco do direito ao desenvolvimento foi a adoção. a palavra-chave é cooperação. 6.. social. Destaque-se. Os Estados Unidos e mais sete estados do oeste se abstiveram. Art. dispõe o artigo 4 da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento que os Estados devem. 5. Artigo 1(1). Art. Ainda. dispõe o artigo 3 (1) da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. Islândia e Suíça). i. em 18 de dezembro de 1982. por oportuno. Art. de acordo com o preâmbulo desta Declaração. por oportuno. bem como tomar todas as medidas necessárias para eliminar as violações de direitos humanos178 e. 177 178 Art. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. social. 7. que o Estado é o principal responsável pela implementação de condições nacionais e internacionais propícias à realização do direito ao desenvolvimento. 168 Resolução 5 (XXXV) de 2 de março de 1979.direitos humanos oportunidades como uma prerrogativa tanto das nações quanto dos indivíduos168. Dinamarca. Mais um avanço ocorreu quando. No plano nacional. que dispõe acerca do direito de todos os povos a seu desenvolvimento econômico. Em relação à implementação do direito em tela. 176 Art. o Estado deve incentivar a participação popular em todos os campos como forma de realizar plenamente todos os direitos humanos177. 179 180 Art. Ressalte-se. A Declaração foi adotada por 146 votos a favor. 169 Adotada pela Assembléia Geral através de sua Resolução 37/199. um contra (Estados Unidos) e oito abstenções (Reino Unido. individual ou coletivamente. juntamente com alguns debates na CDHNH e na Assembléia Geral das Nações Unidas. da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento pela Assembléia Geral das Nações Unidas. em 1981. levaram a adoção de uma resolução na qual a Assembléia Geral estatuiu o direito ao desenvolvimento como um direito humano inalienável170. em 1986. Isto significa dizer que os Estados devem cooperar entre si para: (i) assegurar o desenvolvimento e eliminar os obstáculos ao mesmo179. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. que a Declaração não apenas estabelece que a pessoa humana é o sujeito central do desenvolvimento171. Finlândia. 6(3). Japão. Artigo 1(1). mas também que o direito ao desenvolvimento é um direito humano inalienável de “toda pessoa humana e de todos os povos”172. França. o conteúdo do direito era vago. cultural e político174. Isto porque. Ainda. e preâmbulo. Os inúmeros relatórios produzidos. desfrutando do desenvolvimento econômico. 170 171 172 173 174 175 Artigo 2(1). cultural ou humanitário. social e cultural (artigo 22). da Comissão de Direitos Humanos. 2(3). assim como para promover e incentivar o respeito aos direitos humanos e liberdades fundamentais. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. FGV DIREITO rio 138 . (iii) promover o estabelecimento da paz e segurança internacionais181.

p. que visa ao constante incremento do bemestar de toda a população e de todos os indivíduos com base em sua participação ativa. tal Declaração alertou para o fato de que “a falta de desenvolvimento não pode ser invocada para justificar a redução dos direitos humanos internacionalmente reconhecidos”185 e que todos os obstáculos existentes para a efetivação do direito ao desenvolvimento devem ser eliminados186. veio exprimir o consenso entre os Estados de que o direito ao desenvolvimento é “um direito humano universal e inalienável e parte integrante dos direitos humanos fundamentais”182. Tratado de direito internacional dos direitos humanos volume II. cit. Bedjaoui. 191 SEN. Acesso em: 10 jan. par. bem como um grupo de trabalho sobre o tema. como alimentação. Já Amartya Sen vai mais longe. sustenta ser o direito ao desenvolvimento um processo no qual todos os direitos humanos e liberdades fundamentais possam ser realizados plenamente. por sua vez. políticos. pode-se dizer que o direito ao desenvolvimento unifica todos os direitos civis. cultural e político abrangente. progresso. 303. 10. A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. moradia. 182 CANÇADO TRINDADE. que é composto por vários elementos que representam tanto os direitos econômicos. 80. 2005. e cf.direitos humanos A Declaração e Programa de Ação de Viena. No entanto. “The right to development is a fundamental right.ohchr. Outra inovação trazida pela Declaração e Programa de Ação de Viena. apesar dos avanços trazidos pelo referido documento. tais políticas públicas têm Declaração de Viena. as políticas públicas têm que estar voltadas para a satisfação de necessidades básicas. sem qualquer discriminação. desenvolvimento e direitos humanos. Assim. Disponível em: http://www. sociais. água potável. emprego. Todos esses direitos são interdependentes – juntamente com o crescimento do produto interno bruto (PIB) e outros recursos financeiros. com o intuito de que fosse atingido um consenso acerca da definição187 do direito ao desenvolvimento. principal documento elaborado pela II Conferência Mundial sobre Direitos Humanos. Parte I. 1999. e cf. pp. A nomenclatura do cargo foi alterada. par. the precondition of liberty. O Expert Independente. Ainda. p. passando de Expert Independente sobre o Direito ao Desenvolvimento para Expert Independente sobre Direitos Humanos e Pobreza Extrema. criou. livre e significativa no desenvolvimento e na distribuição justa dos benefícios daí resultantes”. dignidade e justiça social para os seres humanos. Parte I. justiça e criatividade190. 10. and creativity” (BEDJAOUI. par. op. foi o estabelecimento da interdependência184 entre democracia. org/english/bodies/chr/special/themes. Ainda. ao dizer que desenvolvimento deve ser visto como um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam191. par. Sendo assim. social.htm.. a precondição de liberdade. São Paulo: Companhia das Letras. não se chegou a um consenso acerca da definição do direito ao desenvolvimento. deve-se destacar que a consagração do direito ao desenvolvimento como um direito humano inalienável não é um ponto pacífico entre os doutrinadores. que tem como meta acabar com a pobreza e satisfazer as necessidades prioritárias de todos. saúde. técnicos e institucionais – de tal forma que possibilitam o melhoramento das condições de vida de toda população. em 1998. Antônio Augusto. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. FGV DIREITO rio 139 . Nesse sentido. 10. 8. 1182). Amartya. par. 72. 185 186 Parte I. par. sociais e culturais quanto os direitos civis e políticos189. num contexto de liberdade. Portanto. este documento tanto reafirmou o teor da Declaração das Nações Unidas sobre o Direito ao Desenvolvimento quanto contribuiu para a inserção definitiva do direito ao desenvolvimento no vocabulário do Direito Internacional positivo dos Direitos Humanos183. No entanto.. M. para que se alcance esta finalidade. Arjun Sengupta.o desenvolvimento é um processo econômico. parte I. progress.. 188 189 190 Idem. Apesar do consenso atingido em Viena. 2001. parte II. econômicos e culturais em um conjunto de direitos humanos indivisíveis e interdependentes. Sengupta sugere que o direito ao desenvolvimento é o melhoramento de um “vetor” dos direitos humanos. 187 Isto porque se entende que a definição de direito ao desenvolvimento estabelecida no preâmbulo da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento é muito vaga. uma boa qualidade de vida para todos os seres humanos é o principal objetivo do direito ao desenvolvimento. Desenvolvimento como liberdade. ao dispor que: “. 183 184 Declaração de Viena. o cargo de Expert Independente sobre o Direito ao Desenvolvimento (atual Expert Independente sobre Direitos Humanos e Pobreza Extrema188). justice. Parte II. 52-55. educação e seguridade social. afirma que o direito ao desenvolvimento é um direito fundamental.

31 apud MATTAR. Flavia. In: CHOWDURY. 2002. Brasil. 22-47. (ed. 2002. Legislação: Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento Declaração e Programa de Ação de Viena 192 DESAI. The right to development. tais como o direito ao trabalho. Texto produzido para o II Colóquio Internacional de Direitos Humanos. FGV DIREITO rio 140 . São Paulo. S. Anja.direitos humanos que incluir outros direitos econômicos. 276-283. 1999. Pelo exposto. pp. P. The right to development and structural adjustment programmes – an analysis through the lens of human rights. Antônio Augusto. Volume II. p. indaga-se: quando é que foi proclamado o direito ao desenvolvimento? O que se entende pelo referido direito? Quem são os sujeitos ativo e passivo do direito ao desenvolvimento? O que o Estado deve fazer para realizar o direito em tela? A Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento é dotada de força vinculante? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. tecnológico e científico192. PIOVESAN. 1999. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Tratado de direito internacional dos direitos humanos. o acesso a condições justas de trabalho e o direito a se beneficiar do desenvolvimento científico. Holanda: Kluwer Academic Publishers. The Right to Development in International Law. comercial. 6. sociais e culturais. Laura Davis. Helsinki: The Faculty of Law of the University of Helsinki & The Erik Castrén Institute of International Law and Human Rights.D. 1992. p. Direito ao desenvolvimento.R. pp. 303-307. Right to Development: Improving the Quality of Life.). Leitura acessória: LINDROOS. Dissertação para a obtenção do título de Mestre em Direitos Humanos pela Sussex University.

por oportuno. un. Sua origem remonta às antigas comissões internacionais ad hoc de investigação (a partir de 1919). (b) Estado-parte envia o caso ao TPI. não o sendo. ou melhor. durante a Conferência Diplomática dos Plenipotenciários das Nações Unidas. que a competência do TPI é automática.e. independente e complementar à jurisdição nacional. uma vez que é o primeiro tribunal internacional permanente. o caso só poderá ser apreciado se um ou mais dos seguintes estados sejam parte do Estatuto ou. foram criados os dois tribunais ad hoc – o Tribunal Internacional para a ex-Iugoslávia. Dessa forma. Nesse contexto (de combate à impunidade e as inúmeras atrocidades cometidas). e o Tribunal Internacional para Ruanda. aceita a jurisdição do Tribunal sobre os quatro crimes dispostos no artigo 5º do Estatuto. o conceito de “crime internacional” ganhou tratamento doutrinário no âmbito da responsabilidade do Estado e. em 1993. Acesso em: 04 julho 2005. (b) o estado de nacionalidade do acusado. surgiu a responsabilidade penal internacional do indivíduo. Trata-se de um marco histórico. em 1994 – e.. ao se tornar parte do Estatuto. Embora o estabelecimento de uma jurisdição penal internacional só tenha se concretizado em 1998. O Tribunal ad hoc para a ex-Iugoslávia foi criado para julgar os indivíduos responsáveis por graves violações do direito internacional humanitário cometidas a partir de 1991 na ex-Iugoslávia. 7 contra. De maneira diversa. o TPI comporta 139 assinaturas e 99 ratificações193. (c) Promotor atua ex officio. Até a presente data. Disponível em: http://untreaty. A inauguração do mesmo se deu em 11 de março de 2003. No entanto. após 60 países terem ratificado ou aderido ao Estatuto.asp. Contudo. 193 FGV DIREITO rio 141 . constata-se que ambos os tribunais ad hoc foram estatuídos com limitações espacial e temporal. Pouco a pouco e em decorrência do trabalho da Comissão de Direito Internacional das Nações Unidas. com a competência de julgar os indivíduos pela prática de quatro crimes: genocídio. concomitantemente. a jurisdição do TPI é geral e universal. Ressalte-se.org/ENGLISH/bible/englishinternetbible/partI/chapterXVIII/treaty10. ao passo que o Tribunal ad hoc para Ruanda foi criado para julgar os indivíduos responsáveis por crimes cometidos durante os conflitos internos armados em Ruanda. Isto significa que um Estado. 21 abstenções). i. em Roma. posteriormente. Atualmente. tenham voluntariamente aceito a jurisdição do tribunal em um caso concreto: (a) o estado em cujo território o crime tenha sido cometido. na Haia (Holanda). ao longo de 1994. o TPI só entrou em vigor em 1 de julho de 2002. o TPI.direitos humanos Aula 24: Tribunal Penal Internacional NOTA AO ALUNO O Tribunal Penal Internacional (TPI) foi criado com a aprovação do Estatuto de Roma (Estatuto) em 17 de julho de 1998 (120 votos a favor. o anseio pela criação de um sistema de monitoramento contínuo da situação dos direitos humanos no mundo é antigo. crimes de agressão e crimes de guerra. crimes contra a humanidade. passando pelos Tribunais de Nuremberg (estabelecido em agosto de 1945) e de Tóquio (estabelecido em janeiro de 1946). Há três possibilidades de denúncia de um caso ao TPI: (a) Conselho de Segurança remete o caso ao TPI. 04 de julho de 2005. instaura uma investigação com base em informações recebidas.

sendo um deles Sylvia Steiner. o TPI pode aplicá-la diretamente.2005). São Paulo: Max Limonad. MATERIAL DE APOIO Textos: Acesso em: 04 julho 2005. Temas de Direitos Humanos. Acesso em: 04 julho 2005. conforme dispõe sua Resolução n. resolveu abrir a investigação em 3 casos195: (i) República Democrática do Congo (em 23. O Brasil assinou o Estatuto em 7 de fevereiro de 2000. e (iii) Darfur. os 18 juízes foram eleitos. 112. e aprovado pelo Decreto n. Disponível em: http://www. Nenhum caso foi julgado até a presente data194. Até o momento. 2003. uma juíza brasileira. dando início as suas atividades em 16 de junho de 2003.2005196. há três tipos: prisão provisória. 1593 (2005).2004). O Estatuto de Roma prevê alguma forma de reparação à vítima? Qual é a exceção em relação à competência automática do TPI? Qual é a relação entre o Conselho de Segurança das Nações Unidas e o TPI? Existe alguma diferença entre a relação mencionada e aquela entre os tribunais ad hoc e o Conselho de Segurança? Quais são as questões suscitadas por doutrinadores e/ou membros do Poder Legislativo quando se discute a adaptação da legislação brasileira ao Estatuto de Roma? 194 195 04 de julho de 2005.03. de 6 de junho de 2002. e o ratificou em 20 de junho de 2002197.darfureferral. uma Seção de Apelações. Em se tratando das penas. Pergunta-se: O TPI pode apreciar este caso? Justifique sua resposta com respaldo legal. por quê? Hipótese: Um indivíduo nacional de um Estado não-parte do Estatuto comete crimes contra a humanidade em um Estado-parte do Estatuto. ao contrário do que ocorria nos tribunais ad hoc – tinham que recorrer aos tribunais nacionais para verificar como deveriam aplicar a pena –. de 25 de setembro de 2002.06. Os dois primeiros casos foram enviados ao promotor pelos respectivos governos. Diante do exposto.direitos humanos O Tribunal é composto pelos seguintes órgãos: Presidência. Flávia.06. Em 7 de fevereiro de 2003. 4388.07. busca-se adaptar a legislação brasileira ao Estatuto de Roma. Promotoria e Secretaria. Sudão (em 06. por meio de intensos debates.2004). Flávia e IKAWA. após a análise dos dados. icc-cpi. o crime de agressão pode ser julgado pelo TPI? Caso negativo. uma Seção de Primeira Instância e uma Seção de Questões Preliminares. Sendo assim. icc. No momento.cpi. Daniela Ribeiro. “O Tribunal Penal Internacional e Direito Brasileiro”. pdf. pergunta-se: • • • • • • Atualmente. 197 FGV DIREITO rio 142 . tendo em vista que o Estatuto de Roma já prevê os tipos que podem ser aplicados.eng. In: PIOVESAN. foi eleito em 21 de abril de 2003. O Estatuto de Roma foi aprovado pelo Congresso Nacional pelo Decreto Legislativo n.int/ (item: “situations and cases”). 196 Leitura obrigatória: PIOVESAN. pena de reclusão não superior a 30 anos e prisão perpétua. Luis Moreno Ocampo. (ii) República de Uganda (em 29. Disponível em: http://www. Já o promotor.int/librar y/cases/ N0529273. ao passo que o último caso foi enviado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. de 31. o promotor.

Marrielle. 2001. Capítulos III e IV. pp. Tratado de direito internacional de direitos humanos. Vol. Belo Horizonte: Del Rey. II. pp. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Antonio Augusto. 385-400. 61-107. Legislação: Estatuto de Roma FGV DIREITO rio 143 . MAIA. jurisdição e princípio da complementaridade. Tribunal Penal Internacional: aspectos institucionais. 1999.direitos humanos Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE.

até o passado recente. capuzes. a Senadora em questão teria concluído que eles não se encontravam em circunstâncias desumanas. em condições indescritíveis. membro do Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial da ONU e embaixador designado do Brasil em Sófia (Bulgária). vivem expostos em celas de alambrado qualificadas por “perito penitenciário” como “basicamente um canil” (sic). era: “You already do” (“Você já vive”). numa cidade “avançada”. geralmente admirada. de forma tão veemente. (b) humilha deliberadamente soldados capturados. em 22 de fevereiro). algemas e correntes. 198 FGV DIREITO rio 144 . no coração da cidade. Para quem se acostumou à rotina da superpopulação carcerária brasileira.br/direitos/ militantes/lindgrenalves/lindgren_11set. onde o crime é tão abundante que se inventou a categoria dos “hediondos” e a tortura. mordaças. onde os prisioneiros transportados do Afeganistão e fotografados com vendas. por causa da respectiva etnia ou religião. Mais estranho ainda soa que se critique. falta de patriotismo. os ataques em Nova York e Washington haviam abalado de maneira tão profunda a sociedade norte-americana que qualquer dissensão parecia. em 15 de fevereiro de 2002. Disponível em: http:// www. aplicada com particular afinco em sua política externa: “nós Texto produzido por José Augusto Lindgren Alves – Diplomata. (d) pune pessoas sem lhes dar oportunidade de defesa?” A resposta.dhnet. sem qualquer acusação. segundo o mesmo panfleto. (c) mantém presos incomunicáveis por meses. a opinião do secretário de Defesa contra o que têm afirmado a Cruz Vermelha. Esta. Não obstante essas fotos e informações reiteradas de que os cativos têm sido drogados e sujeitos a privação sensorial para debilitar resistências nos interrogatórios. ou complementação. o panfleto era uma convocação pela seção local da Guilda Nacional de Advogados (ONG de profissionais do direito ativistas dos direitos humanos) para manifestação pública. assim. a Human Rights Watch e outras organizações congêneres. Endossava. tudo isso é deveras surpreendente depois do tenebroso Onze de Setembro de 2001. Depois do apoio quase unânime do Congresso ao presidente para que ele pudesse declarar legalmente uma “guerra contra o terrorismo”. diante do escritório de Senadora californiana pelo Partido Democrata.direitos humanos Aula 25: Direito Humano Pós-11 de setembro NOTA AO ALUNO Os direitos humanos e a reação ao Onze de Setembro: uma retomada de esperanças?198 “Folheto distribuído. a situação em Guantánamo não deveria parecer assustadora (embora as fotografias sejam chocantes para qualquer um que as veja). Com efeito. Tampouco soam incomuns maus tratos de prisioneiros num país como o Brasil. a lógica dominante era aquela sempre típica dos protestantes puritanos dos Estados Unidos. mulher parlamentar. a Anistia Internacional. havia visitado a base norte-americana em Cuba. no centro de São Francisco. tão rotineira que sua tipificação como delito parece não ter “pegado”.org. de posições liberais. Afigura-se. EUA.htm. Tendo por chamada “Não à tortura em Guantánamo!”. em viagem oficial. Mais do que estranho. porém. estranho que esses panfletos sejam distribuídos num país que se apresenta como modelo de direitos humanos (o presidente Bush acaba de fazê-lo na China. Acesso em: 04 maio 2005. perguntava: “Você quereria viver num país que: (a) desafia o direito internacional.

passíveis de detenção arbitrária. A dissociação norte-americana do direito humanitário que os próprios Estados Unidos haviam FGV DIREITO rio 145 . O apoio popular ao Presidente chegou a alcançar 95%. que modificaram de forma súbita a reação de norte-americanos àquilo que vinha – e vem ainda – ocorrendo. de que. normalmente sacrossanto porque essencial ao individualismo do país. nada pode fundamentar a rediscussão da tortura como técnica para a obtenção de informações. Foi a exaltação do patriotismo. por sinal. com vigor extraordinário. que aprovou. Talibã apreendido em território afegão. particularmente estrangeiros. sem hesitações. a obsessão patriótica durou. pelo qual o Presidente da República “autoriza o estabelecimento” de tribunais militares especiais. mais do que o temor de mensagens subliminares. do Qatar) em que Bin Laden aparecia. como as que permitem a escuta telefônica e a censura de comunicações pela Internet. no país e no exterior. sim. Foi ela que fez vista grossa à discriminação contra os estrangeiros no território nacional. para julgar estrangeiros por ele qualificados de terroristas (o que não foi sequer contemplado para o norte-americano John Walker Lindh. com discurso igual ao do Presidente Bush. o bombardeio do Afeganistão em ruínas.direitos humanos somos bons. Qualquer crítica ao Governo na “guerra contra o terrorismo” (e até em outros assuntos) era repudiada como antiamericanismo – quanto mais se feita em defesa de indivíduos descritos como perigosos terroristas! Por mais simplista que fosse. todos favoráveis a mudanças nas posições do país. com arremessos de comida para uma população em fuga para o vizinho Paquistão. associado à ânsia de vingança da superpotência ferida contra os idealizadores dos atentados (estes precisam. por mais de três meses e meio. na civilização. não foram os atos atentatórios aos direitos fundamentais de todos os seres humanos. obviamente. resultantes de um ódio visceral. a sociedade e os meios de comunicação norte-americanos pareciam apoiar em uníssono a interpretação de que os atentados não passavam de atos covardes. de rito secreto e sumário. ser punidos). Nesse ambiente de exaltação belicosa. logo “quem não está comigo está contra mim”. apenas com os sinais trocados. Foi ela que propiciou ao governo a adoção de medidas restritivas de liberdades. a consciência de que a luta contra o terrorismo não pode ser conduzida ao arrepio do direito. que justificou para o povo a recomendação governamental de autocensura à retransmissão de vídeos da estação Al Jazeera (a “CNN” árabe. Sem dúvida. com assistência jurídica e apoio familiar). pela civilização. eles maus”. Ao contrário do que diziam livros sérios. de que a barbárie de uns não pode justificar a brutalidade de outros. sem possibilidade de apelação de sentenças. encontravam as fronteiras fechadas por ordens dos Estados Unidos na fase precedente à operação militar (para impedir a saída de inimigos). sem acusação conhecida e sem direito a advogado (alguns já por mais de cem dias). mas julgado nos Estados Unidos por tribunal normal. A discriminação entre nacionais e estrangeiros se revela também no decreto de 16 de dezembro de 2001. complexado e gratuito. país pobre e já transbordante de refugiados pashtuns – foragidos que. por tempo indeterminado. despertaram em muita gente. as fotografias dos detidos em Guantánamo e a repulsa que causaram. pouco lidos. sobre os erros da CIA ao financiar talibãs contra os soviéticos na década de 80. atinentes ao direito à não-interferência em assuntos da vida privada. Foi o patriotismo amortecedor de direitos.

p. o Presidente dos Estados Unidos singularizou o Iraque. 17/02/2002. uma coisa é certa: os detidos de Guantánamo e o “eixo do Mal” mudaram os noticiários. D1). em 29 de janeiro. os “falcões parecem ter ido além do limite tolerável pelo patriotismo do cidadão comum. É ainda improvável. decididos por Washington. Os europeus em geral – inclusive o governo britânico – dissociaramse de possíveis bombardeios contra qualquer desses três países. ademais de anunciar a disposição de expandir a “guerra contra o terrorismo”. o que realmente vem modificando em profundidade a atitude de norte-americanos e aliados foi o primeiro discurso do presidente George W. Todavia. p. Contudo. O mesmo tem sido dito. estendendo o combate aonde lhe pareça necessário. Nele. Paulo. A simples fadiga dos assuntos da “guerra contra o terrorismo” não os faria passar tão rapidamente das primeiras páginas de todos os jornais para aquelas menos lidas. A7). Só tomei conhecimento do panfleto depois da hora marcada. Não é preciso ter o gênio de Immanuel Wallerstein para entender que os atentados do Onze de Setembro deram ainda mais força aos “falcões” da administração George W. Os sul-coreanos fizeram manifestações contra o Presidente Bush às vésperas de sua primeira visita a Seul (além de a nação ser a mesma. E que a idéia desse “eixo” com elementos tão díspares não tenha passado de de artifício de apoio à proposta de aumento gigantesco no orçamento militar. Francisco Chronicle. Tampouco li nos diários ecos de sua realização (o que me leva a supor ter sido bem reduzida). a agressão verbal à Coréia do Norte tende a prejudicar as negociações bilaterais encetadas). com direito a advogado e recurso contra sentenças. O que a conscientização dos media e das pessoas representará de concreto na luta contra o terrorismo é difícil prever. estipula que o eventual indiciado em crime de guerra. em 10/02/2002. protegidos pela Terceira Convenção de Genebra. muitas sobre violações de direitos no país. por exemplo.direitos humanos ajudado a criar (na conferência diplomática de Genebra de 1949) forçava os aliados europeus. com ou sem autorização externa. detentor como qualquer pessoa da presunção de inocência. afinal. decorrentes de medidas adotas nessa guerra heterodoxa. Nas páginas de rosto saem agora notícias desagradáveis a Washington (como as de ataques errados e espancamentos de inocentes por tropas no Afeganistão). com um mínimo de consistência. seja julgado por tribunal transparente e imparcial. a cobrar o reconhecimento dos detidos em Guantánamo como prisioneiros de guerra. Não sei. mas não totalmente impossível. dedicadas ao exterior. muito mais do que as fotografias de Guantánamo e a repulsa que causaram. a análise de Chris Matthews sob o título expressivo de Who hijacked our war? – “Quem seqüestrou nossa guerra?” – no S. acabem perdendo terreno para o moderado Colin Powell. Bush sobre o “estado da União”. em que deu a convocação de São Francisco à manifestação em favor dos prisioneiros talibãs. Pode ser que. Na preparação do Presidente para o state of the Union. FGV DIREITO rio 146 . entrevista à Folha de S. por pressão interna. tem também justificados temores. por quem antes apoiava a “guerra contra o terrorismo” (v. agora em crítica mordaz. o Irã e a Coréia do Norte como um “eixo do Mal”. prevê repatriação no término das hostilidades. que. que ela possa reorientar o governo para o reconhecimento da importância dos direitos humanos. Esta impede maus tratos e interrogatórios além do imprescindível para sua identificação. francamente.. Bush (v. européia e asiática.

Setembro/Outubro/Novembro 2004. pp. __________. nº 2. “Fragmentação ou recuperação”. para a sociedade civil esclarecida e atuante. A conscientização evidencia. Volume 13. Na medida em que ela absorva e propague a interdependência de todos os dispositivos da Declaração Universal de 1948. Os direitos humanos na pós-modernidade. José Augusto. militar e policial – felizmente sem a “doutrina” que conhecemos no Brasil -. nº 2. 09 –19. In: Política Externa. que. LINDGREN ALVES. “A lógica da tortura”.direitos humanos atualmente submersos na prioridade da segurança. ela pode tornar-se antídoto aos malefícios da globalização excludente. São Paulo: Perspectiva. os direitos fundamentais e o direito internacional humanitário não se acham esquecidos pelo medo ou patriotismo cego. FGV DIREITO rio 147 . Tendo em conta o grande peso dos Estados Unidos na disseminação internacional da idéia dos direitos humanos e a importância da sociedade civil norte-americana para sua afirmação dentro dos próprios Estados Unidos (como visto nos anos 50 e 60). depois do Onze de Setembro. 33 –44. In: Política Externa. Volume 13. pp. Mark. só pode ser positiva. 2005.” MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: DANNER. a movimentação que se esboça de novo pelo respeito a tais direitos. de qualquer forma. inclusive os direitos econômicos e sociais. fazendo-o sentir que a observância desses direitos sempre foi e continuará a ser a melhor forma de desfazer condições que conduzem ao terror. Setembro/Outubro/Novembro 2004.

Anistia Internacional e Justiça Global. Professora do grupo de estudos sobre o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos e Coordenadora de Relações Institucionais da Escola de Direito do Rio de Janeiro da FGV. Membro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Direitos Humanos. Participou de cursos internacionais sobre direitos humanos promovido pela Universidade de Coimbra e pela Universidade de Columbia.direitos humanos Paula Spieler Mestre em Relações Internacionais e bacharel em Direito pela PUC-Rio.org. Ex-consultora do CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais). Trabalhou para diversas instituições de promoção dos direitos humanos.br/). rede de monitoramento das tendências de mudança e continuidade do sistema internacional (http:// rsi. tais como Fundação Ford.cgee. Professora de Direitos Humanos. Ex-pesquisadora do grupo de direitos humanos do Radar do Sistema Internacional. FGV DIREITO rio 148 .

direitos humanos FICHA TÉCNICA Fundação Getulio Vargas Carlos Ivan Simonsen Leal PRESIDENTE FGV DIREITO RIO Joaquim Falcão DIRETOR Fernando Penteado VICE-DIRETOR ADMINISTRATIVO Luís Fernando Schuartz VICE-DIRETOR ACADÊMICO Sérgio Guerra VICE-DIRETOR DE PÓS-GRADUAÇÃO PROFESSOR COORDENADOR DO PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO EM PODER JUDICIÁRIO Luiz Roberto Ayoub Ronaldo Lemos Coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade Evandro Menezes de Carvalho Rogério Barcelos COORDENADOR ACADÊMICO DA GRADUAÇÃO COORDENADOR DE ENSINO DA GRADUAÇÃO Tânia Rangel COORDENADORA DE MATERIAL DIDÁTICO COORDENADORes DO NÚCLEO DE PRÁTICAS JURÍDICAS COORDENADORA DE SECRETARIA DE GRADUAÇÃO COORDENADOR DE FINANÇAS COORDENADORA DE MARKETING ESTRATÉGICO E PLANEJAMENTO Lígia Fabris e Thiago Bottino do Amaral Wania Torres Diogo Pinheiro Milena Brant FGV DIREITO rio 149 .