direitos humanos

AUTORES: JOSÉ RICARDO CUNHA, CAROLINA DE CAMPOS MELLO E PAULA SPIELER

4ª edição

ROTEIRO De CURSO 2009.1

Sumário

Direitos Humanos
APRESENTAÇÃO.............................................................................................................................................................................03 Aulas...........................................................................................................................................................................................07 AULA 01: INTRODUÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS.............................................................................................................................08 Aula 02: Desenvolvimento histórico dos direitos humanos..................................................................................................15 Aula 03: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos................................................................................18 Aula 04: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos................................................................................26 Aula 05: Os tratados de direitos humanos e a Constituição Federal.....................................................................................30 Aula 06: Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos...............................................................................................................37 Aula 07: Sistema global: mecanismos convencionais e não-convencionais de proteção dos direitos humanos...............44 Aula 08: Sistemas regionais de proteção dos direitos humanos...........................................................................................49 Aula 09: Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos.........................................53 Aula 10: Sistema Interamericano de Direitos Humanos: Estudo de Caso...............................................................................58 Aula 11: Direito Internacional Humanitário e Direito Internacional dos Refugiados.......................................................62 Aula 12: Os direitos civis e políticos: direito à vida................................................................................................................74 Aula 13: Os direitos civis e políticos: direito à liberdade e integridade pessoal.................................................................91 Aula 14: Violência Urbana.........................................................................................................................................................96 Aula 15: Direitos humanos econômicos, sociais e culturais..................................................................................................99 Aula 16: A especificação do sujeito de direitos. Os direitos humanos sob a perspectiva de gênero................................. 104 Aula 17: Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente.................................................................................. 109 Aula 18: Os direitos humanos sob a perspectiva racial........................................................................................................ 114 Aula 19: Direitos Humanos e a questão indígena................................................................................................................... 122 Aula 20: Direitos Humanos e orientação sexual.................................................................................................................... 126 Aula 21: Teatro do Oprimido.................................................................................................................................................... 132 Aula 22: O papel da sociedade civil na promoção e proteção dos direitos humanos.......................................................... 135 Aula 23: Desenvolvimento e Direitos Humanos..................................................................................................................... 137 Aula 24: Tribunal Penal Internacional................................................................................................................................. 141 Aula 25: Direito Humano Pós-11 de setembro......................................................................................................................... 144

direitos humanos

APRESENTAÇÃO
1. Visão Geral

a) Objeto: O curso de direitos humanos tem por objeto a compreensão da realidade contemporânea (ser) por meio do estudo do marco normativo (dever ser) de tais direitos, seja no âmbito internacional, seja no nacional. Assim, o curso será organizado em quatro partes: 1) 2) 3) 4) Introdução ao Estudo dos Direitos Humanos; Proteção Internacional dos Direitos Humanos; Aspectos Sócio-Jurídicos dos Direitos Humanos; e Novos Temas e Novos Atores.

b) Metodologia: Elegeu-se a abordagem crítica como elemento permeador de todo o curso de Direitos Humanos. Procurou-se assim a utilização de diferentes métodos que representem um conjunto de possibilidades, tendo como ponto comum a efetiva participação do aluno. Atividades como role plays, estudos de casos, apresentação de seminários ou mesmo organização de uma oficina do Teatro do Oprimido são sugestões apresentadas como meios de interatividade dos alunos com o conteúdo apresentado. Dessa forma, o curso não se apresenta como uma unidade estanque, com conteúdo “engessado” no espaço e no tempo, mas com a fluidez necessária para a adaptação do programa às questões mais candentes em termos de direitos humanos. Ressalte-se ainda o caráter cooperativo do método que privilegia a interação entre alunos e professores. c) Bibliografia: O curso foi montado com base em temas, não em autores ou “escolas”, o que justifica a extensão da leitura indicada. Todavia, tendo em vista a necessidade de se estabelecer uma bibliografia básica para compor a biblioteca da Escola, foram indicados certos livros que permeiam, na medida do possível, todas as aulas. Sugere-se ainda a utilização de recursos virtuais como fontes de pesquisa, notadamente sites de órgãos e organizações nacionais e internacionais. É também descrita, em todas as aulas, a legislação vigente – sejam os tratados ou normas internas – necessária para a compreensão do assunto abordado.
2. Objetivos

Os principais objetivos do curso são: • • • Apresentar os conceitos fundamentais referentes a direitos humanos; Examinar violações de direitos humanos; Compreender os sistemas internacional, regional e nacional de proteção dos direitos humanos;
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FGV DIREITO rio 4 . habilidades diversas serão avaliadas mediante a proposição de algumas atividades específicas: • • Nos role plays. ainda. outras mais abertas à participação e à discussão encadeada pelos alunos –. Por meio da “problematização”. característica essencial ao direito. e caberá ao professor a responsabilidade de incentivar o debate sobre os assuntos escolhidos. são posturas a serem incentivadas nos alunos. a postura crítica. serão apresentados posicionamentos a serem defendidos pelos alunos diante de uma situação hipotética. As aulas serão variadas – algumas mais expositivas. Por meio de elementos como objetivo didático e objetivo programático. mas visa ainda ao estímulo à criatividade acerca de outras respostas possíveis. A contextualização da temática proposta. A nota apresenta. os alunos serão convidados a não eternizar de forma acrítica entendimentos pré-estabelecidos e a desenvolver suas capacidades de análise e de prática engajada. o(a) professor(a) contará com o apoio necessário naquilo que é considerado de maior relevância para a compreensão do assunto em pauta. é que estes se situem como partes de um processo histórico permeado de avanços e retrocessos. 3. Todas as aulas são compostas de duas partes: a) Nota ao Professor: trata-se de um roteiro sugestivo de pontos a serem abordados em sala de aula. o estabelecimento de link com assuntos correlatos. Nesse sentido. os alunos deverão apresentar os principais argumentos que fizeram do caso um paradigma na compreensão de determinado assunto. É importante ressaltar que tal atividade não se restringe à anunciação de uma resposta correta. Do Material Didático O material didático do curso de Direitos Humanos foi elaborado de maneira flexível permitindo tanto ao professor quanto ao aluno a adaptação do programa a questões contemporâneas a sua implementação. entre outros. A atividade pretende capacitar os alunos na compreensão de posições adversas em tribunais e despertá-los para a necessidade de se chegar a um resultado. No Estudo de Caso. a bibliografia obrigatória. O objetivo final do curso. b) Nota ao Aluno: trata-se do conteúdo mínimo que deve ser apreendido como leitura prévia à aula. Incentiva-se a participação dos alunos em todas as aulas. a criatividade e o respeito à opinião alheia. a legislação a ser consultada e os sites pesquisados. além de desenvolver a capacidade dos alunos de visualizarem o mundo que os circunda com a “lente” dos direitos humanos.direitos humanos • Municiar o(a) aluno(a) de instrumentos práticos para a intervenção no mundo contemporâneo. A atividade pretende incentivar o posicionamento crítico.

c) Avaliação formativa: prova escrita (5. 5. Formas de Avaliação Os alunos serão avaliados com base em: a) Participação em aula. seminários (5. Tradutori traditori. Ao não encontrar determinado tema entre os propostos neste material didático. b) Atividades específicas: role plays. diagnosticar as respostas normativas possíveis.0 pontos). Mesmo quando se referirem a temas considerados “clássicos” em direitos humanos. corre-se o risco de certa parcialidade na confecção desse material. Aponta-se. qualquer tentativa de se apresentar determinado aspecto virá acompanhada por alguma perspectiva subjetiva. os alunos deverão apresentar um panorama geral sobre e determinada realidade e. por meio de casos concretos. 2) determinação de uma decisão judicial. 6.0 pontos). mister a escolha de conteúdos a serem priorizados em face de outros. d) Prova final: escrita (10. Atividades Complementares Atividades em conjunto com outras disciplinas Encontra-se em estudo duas atividades a serem realizadas em conjunto com as disciplinas de Direito Civil (tópico sugerido: Direitos da Personalidade) e Direito Constitucional (tópico sugerido: Direitos Fundamentais).direitos humanos • Nos seminários. Não obstante a preocupação de se contemplar os temas mais atuais em direitos humanos. como indicativo de atividades: 1) escolha de um filme a ser debatido conjuntamente pelos três professores. o que não lhes confere papel de maior significado. a certeza de que a temática dos direitos humanos conterá sempre novos “capítulos” confere ao presente material didático uma configuração temporal. preferencialmente do FGV DIREITO rio 5 . 4.0 pontos). notadamente na “Unidade IV: Novos Temas e Novos Atores”. Nesse sentido. Desafios e Dificuldades A riqueza dos assuntos e a complexidade do que se pretende alcançar com o curso de “direitos humanos” conduz à necessidade de um recorte temático. Tendo em vista a opção de contemplar temas e não autores. o leitor poderá concluir que a sua retirada foi alvo de debate por parte daqueles que contribuíram para a confecção das aulas propostas. estudo de caso. desde então.

7. que também possa ser alvo de discussão conjunta pelos três professores. Principais documentos. mantendo. Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). Proteção na Constituição de 1988. Instituto Pro-Bono. Sociais e Culturais. Direitos Civis e Políticos. Fundação Bento Rubião. Center for Justice and International Law (CEJIL). João Ricardo Dornelles (Núcleo de Direitos Humanos do Departamento de Direitos da PUC-Rio). Marcelo Freixo (Centro de Justiça Global). Novos temas. FGV DIREITO rio 6 . na medida do possível. O papel da sociedade civil na proteção dos direitos humanos Sugere-se o convite a movimentos sociais e organizações não-governamentais que trabalhem na Advocacia em Direitos Humanos no âmbito nacional e internacional. Perspectiva histórica.direitos humanos Supremo Tribunal Federal. Novos atores. Polissemia conceitual. EMENTA b) Tema: a) Tema: A disciplina Direitos Humanos. dentre outras. Universalidade X Relatividade. Viva-Rio. Tortura Nunca Mais. Proteção internacional. Projeto Legal. Violência. Comissão Pastoral da Terra (CPT). entre outros: Centro de Justiça Global. Especificação dos sujeitos de direito. Idéia de gerações e suas críticas. Direito Humanitário e Direito dos Refugiados. a consonância com as datas propostas no programa: A violência no Rio de Janeiro Sugere-se o convite a especialistas como Ignácio Cano (Laboratório de Análises da Violência – UERJ). entre outros. Direito Internacional dos Direitos Humanos: Direitos Humanos. São Martinho. FASE. Realização de Palestras As seguintes palestras serão realizadas em data marcada de acordo com a disponibilidade dos convidados e a conveniência da Escola. Julita Lengruber (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania – CESEC/Universidade Candido Mendes/RJ). Direitos Econômicos. O envolvimento das demais disciplinas é fundamental para demonstrar aos alunos como o instrumental que recebem em cada uma das disciplinas tornase ainda mais dinâmico ao dialogar com as demais. Proteção Regional.

2. 17. 21. Sistema global: mecanismos convencionais e extra-convencionais de proteção aos direitos humanos. A Constituição Federal e a proteção dos direitos humanos. 23. Direitos Humanos e a questão étnica. Sistema Interamericano: estudo de caso (El Amparo Vs. Os direitos civis e políticos: role play referente ao direito à vida. Introdução aos direitos humanos: fundamentos e gramática. 3. sociais e culturais. 16. 20. 25. 5. Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos. Violência urbana. Direitos Humanos e a questão indígena. 8. O papel da sociedade civil na proteção dos direitos humanos. Direitos Humanos e orientação sexual. UNIDADE 3: ASPECTOS SÓCIO-JURÍDICOS DOS DHs 12.direitos humanos Aulas UNIDADE 1: INTRODUÇÃO AO ESTUDO DOS DHs 1. Tribunal Penal Internacional. UNIDADE 4: NOVOS TEMAS E NOVOS ATORES 22. Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos. 19. 14. Teatro do Oprimido. africano e americano. 6. UNIDADE 2: A PROTEÇÃO INTERNACIONAL DOS DHs 7. 10. 11. Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente. 15. 13. Especificação do sujeito de direito: os direitos humanos sob a perspectiva de gênero. 18. Direito Humanitário e Direito dos Refugiados. 9. FGV DIREITO rio 7 . Desenvolvimento e Direitos Humanos. 4. Universalidade e relatividade cultural dos direitos humanos: conceitos. Venezuela). Os direitos civis e políticos. Da regionalização: introdução aos sistemas europeu. Universalidade e relatividade cultural dos direitos humanos: role play. Desenvolvimento histórico dos direitos humanos. 24. Direitos Humanos econômicos. Direitos Humanos no contexto pós-11 de setembro de 2001.

de José Padilha. revistas e artigos de Internet. o documentário consegue provocar suspense e nostalgia ao utilizar mais de 70 horas de imagens de TV.00.TICOI677-MNfilmes. Segundo o relato dela. O filme relata o trágico seqüestro de um ônibus coletivo que resultou na morte da refém e do seqüestrador e foi destaque nos noticiário em 12 de junho de 2000. mas gerar discussão sobre o tema. 1 FGV DIREITO rio 8 . apesar de a história ser conhecida do público. além de revelar uma extensa pesquisa com jornais. onde aconteceu a tragédia. Tudo isso é mesclado ao depoimento do ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais Rodrigo Pimentel. esse menino de rua viu a mãe ser Acesso em: 21 de abril de 2005. atirou na direção do seqüestrador. O cuidado do filme em mostrar os dois lados da moeda aparece na entrevista com a tia de Nascimento. tentando salvar a refém. O longa começa com o seqüestro e a partir dele inserimos depoimentos”. que morreu por asfixia a caminho do hospital. A partir daí. Quando Nascimento resolveu se entregar e saiu do ônibus protegido por Geísa. conforme havia ameaçado. mas (sim avaliar) o que motiva uma sociedade a agir dessa forma. um policial. um dos seqüestradores.com. Não podemos nos resumir ao ato do seqüestro. espera-se uma reflexão acerca do seguinte ponto: O que existe em comum entre o filme “Ônibus 174” e os textos a seguir? ÔNIBUS 174 RELEMBRA TRAGÉDIA CARIOCA1 Vencedor do Festival Rio BR deste ano. que tirou o romantismo do “Dia dos Namorados” e durou quatro horas. “Nossa preocupação (no filme) não é a de apontar culpados nem soluções. mostra a violência das ruas cariocas retratando um seqüestro verídico. “Fizemos questão de manter a fidelidade e a cronologia do episódio. Disponível em: http://cinema. Mas errou o tiro e Nascimento.direitos humanos AULA 01: INTRODUÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS NOTA AO ALUNO Para a primeira aula do Curso de Direitos Humanos. levou a polícia do Rio a ser duramente criticada pela imprensa e pela opinião pública. Por meio de textos extraídos de jornais. Um outro tiro acertou Nascimento. um plano aéreo mostra o belo percurso do ônibus que trafegava da Favela da Rocinha. explicou Padilha em entrevista recente à Reuters. passando pelos cartões postais das praias de São Conrado e Vidigal e pela avenida Niemeyer até chegar ao Jardim Botânico.br/ficha/0. o aluno deverá assistir ao Filme “Ônibus 174” de José Padilha e ler os textos abaixo. que foi afastado da Política Militar por ter se colocado contra a ação policial no episódio que terminou com a morte da passageira Geísa Firmo Gonçalves e de Sandro Nascimento.html. atirou contra a passageira.. o documentário Ônibus 174. terra. A tragédia.” Logo no início. revistas e notícias de rádio sobre o incidente.

enquanto imagens da educadora Damiana Nascimento. Paquistão. que estudou o assunto no Brasil. há três mil escravas domésticas em Paris e a história se repete em Londres e Zurique. COSTA.) Muito mais versátil e importante. (. chocam ao demonstrar a real dimensão do ocorrido – ela sofreu um derrame durante o seqüestro e não consegue mais falar. Mas essa nova escravidão pouco tem a ver com nostalgias e atavismos do passado pré-abolição. mas um engenheiro eletrônico paulistano que emigrou para trabalhar na mais alta tecnologia: Intelsat. crescimento das migrações e redução ao absurdo. a escravidão é como a tuberculose: todos pensavam que estava extinta nos países civilizados e em vias de desaparecimento em todo o mundo. Tailândia. Segundo o sociólogo britânico Kevin Bales. a resposta seria não. desarticulação das sociedades pré-capitalistas e ex-socialistas pela integração ao mercado mundial. numa definição mais ampla – escravidão como condição em que o trabalhador não recebe remuneração e sua vida é totalmente controlada por outros – não só é comum. legal e garantida pelo Estado. mas. a Justiça dos EUA condenou a seis anos e meio de prisão e indenização de US$ 110 mil o engenheiro brasileiro René Bonetti. como está crescendo. Revista Isto É. O percurso ainda existe. O viúvo de Geísa.. que não pretendem de forma alguma esconder e amenizar os fatos.direitos humanos assassinada a facadas quando tinha nove anos e mais tarde escapou de ser morto da chacina da Candelária – uma biografia dura e amarga. Índia e França. 16 de outubro de 2000. tal como consta nos livros de história e de economia política – um modo de produção tradicional. Continua tendo sentido falar de escravidão neste início do terceiro milênio? Para muitos sociólogos sérios. Para Bales. mas o número da linha mudou de 174 para 158. Mas este “não” se refere à forma clássica do fenômeno. Alexandre Magno de Oliveira.. novas variedades resistentes a antibióticos aparecem onde menos se espera. depois Comsat e depois o projeto Sivam. de repente. Cerca de um milhão de meninas com menos de 18 anos trabalha de graça como doméstica nas Filipinas. porém. Antônio Luiz Monteiro Coelho da. A escravidão chega ao Terceiro Milênio2 Em 14 de agosto. mostra quanto o seqüestro traumatizou os cariocas. forma extrema de superexploração capitalista. Mauritânia. acusado de manter por 20 anos a empregada doméstica Hilda Rosa dos Santos como sua escrava. fica a cargo de representar sua mulher no filme. naturalizado americano. onde oficialmente não há escravidão há muitos séculos. sendo capaz de se comunicar apenas por escrito. baseada na propriedade privada de uma pessoa. orçado em 600 mil reais. Porém. Ônibus 174. 2 FGV DIREITO rio 9 . pré-capitalista. é a nova escravidão. África e América Latina. bem inserida no mercado pós-moderno e global e inteiramente criada e reproduzida pelas atuais condições da economia – desemprego tecnológico. hoje com 42 anos de idade. geralmente com meninas compradas e às vezes até “adotadas” em países pobres da Ásia. como em Nova York e Los Angeles. Bonetti não é um senhor de engenho alagoano.

da guerra e das perseguições anti-semitas dos anos 1920. geralmente tecnologicamente atrasadas. sobretudo no Brás. repetindo a triste odisséia das “polacas” espalhadas pelo mundo como conseqüência da derrocada econômica. ganham cada uma cerca de US$ 50 mil por ano para seus “donos” mas nada para si mesmas. um dos casos de nova escravidão mais conhecidos é o das dezenas de milhares de trabalhadores (às vezes com suas famílias) aliciados por “gatos” no interior de Minas e do Nordeste e levados a empreendimentos em locais isolados para viver em condições precárias de habitação. Segundo ela. iniciando um processo de endividamento e dependência do qual nem todos conseguem se safar. nas suas diversas etapas. O colapso da URSS levou uma enxurrada de mulheres empobrecidas e desesperadas da Europa Oriental para trabalhar como escrava-prostitutas para o crime organizado nas capitais da Europa Ocidental.) Em São Paulo. higiene e segurança e cumprindo uma jornada que se estende noite adentro. envolvendo. geralmente vendidas muito jovens por algo como US$ 2 mil. junto com o acirramento da concorrência no setor têxtil resultante da abertura do mercado brasileiro às importações asiáticas (cuja produção freqüentemente também usa trabalho escravo ou semi-escravo). há cerca de 100 mil imigrantes bolivianos que trabalham nas confecções de São Paulo. um milhão de mulheres e crianças são vendidas por ano em todo o mundo por um total de US$ 6 bilhões. que destruiu a economia mineira boliviana. mas os grandes mercados para esse tráfico são o Sudeste Asiático (250 mil) e a Europa Oriental (mais de 200 mil).. (. fundições.. O patrão costuma exigir fidelidade de pelo menos um ano e às vezes retém seus passaportes. Sua vinda resultou da combinação do colapso dos preços das commodities nos anos 80 e 90. Se o trabalhador quer deixar o patrão que o trouxe. Os gastos da viagem – cerca de US$ 150 – são pagos pelo empregador. gás natural). tornam-se devedores permanentes e trabalham por abrigo e comida. 35 mil prostitutas.. Na Tailândia. proíbe-os de sair à rua e fecha-os dentro de casa. há uma boa probabilidade de estar usando carvão produzido por trabalho escravo. a secretária de Estado americana Madeleine Albright chamou a atenção para o tráfico escravo sexual como um dos empreendimentos criminosos que mais crescem no mundo.. Voltando ao Brasil. (. bem como moradia e alimentação. da remuneração de atividades tradicionais. bem como churrasqueira e talheres fundidos com o mesmo combustível. Quando você faz um churrasco. a viabilidade do negócio passou a depender cada vez mais de trabalho gratuito. Desconhecendo o valor das compras e o mecanismo de cálculo da produção. vetando visitas de terceiros. atividade tradicional deslocada para o Norte e Centro-Oeste pelo esgotamento das matas do Sudeste. mulheres e crianças. O aumento da distância dos centros consumidores (metrópoles. No Brasil. Assim se dá boa parte da produção de carvão vegetal.) Tráfico sexual.direitos humanos devido ao acirramento da concorrência pela globalização. indústria siderúrgica) e com o menor preço e aumento da disponibilidade de combustíveis alternativos (carvão mineral. Isto inclui 50 mil nos EUA. costurando roupas vendidas nas melhores butiques e publicitadas pelos mais ousados outdoors pós-modernos. Recentemente. este o considera um FGV DIREITO rio 10 . Bom Retiro e Pari. A escravidão sexual é ainda mais característica do mundo pós-moderno.

Nos EUA. estrutura de produção e de alimentos tem levado à morte de crianças indígenas. o século 21 veio nos trazer a escravidão numa escala que a humanidade jamais conheceu. empresa que desde 1997 tem sido forçada por uma dura campanha de boicote e denúncias a reformular sua política de compras para oferecer melhores condições a fornecedores que tratam melhor seus empregados. Segundo Kevin Bales. a mortalidade infantil naquela área foi de 87.72 por mil nascidos vivos em 2001 e baixou para 41. chineses e outros – mantidos em condições semelhantes em vários trabalhos agrícolas.br/site/noticias/15552. Se forem considerados casos que.com. tidos como mais “generosos” que seus concorrentes brasileiros. sem garantias trabalhistas e com moradia e alimentação controladas pelo empregador-. No ponto alto da produção para as vendas do Natal. na região de Campinápolis. o número pode chegar a 200 milhões. embora conste que os mais hábeis chegam a tirar R$ 400 mensais – ao menos com os patrões coreanos. Um caso notório é o dos pequenos empresários que no Sudeste Asiático fabricam tênis para a ultramoderna Nike. Foram seis mortes na terra indígena Dourados. batata. sete dias por semana. nos municípios de Japorã e Eldorado. desde o início de 2005. feijão. o trabalho chega a se estender por 15 horas por dia. Na terra retomada em outubro do ano passado e hoje ameaçada de reintegração. Parece que em vez de uma sociedade de lazer movida pelo trabalho de robôs.67 em 2004. onde as carências de terra. o maior foco é a Ásia. nos dois primeiros meses deste ano. mas ainda é insuficiente. no Mato Grosso. a 150 km de Antonio João.adital. jornadas extremamente longas. Foram noticiadas recentemente mais seis mortes por desnutrição em duas aldeias do povo Guarani Nhandeva da região do Sul do Mato Grosso do Sul. o cinema torna bem conhecida a situação de imigrantes ilegais – mexicanos. a 570 quilômetros de Cuiabá. Crianças indígenas morrem de desnutrição3 A violência de um despejo dos Guarani-Kaiowá seria reforçada pelo atual contexto do estado do Mato Grosso do Sul. mas também nessa modalidade. poderiam ser chamados de semi-escravidão – empregos informais com remuneração muito baixa. industriais e de serviços. 3 FGV DIREITO rio 11 . onde trabalhadores superexplorados fabricam brinquedos. os Guarani-Kaiowá de Nhande Ru Marangatu puderam voltar a produzir alimentos para subsistência.direitos humanos “traidor”. bem mais do que a população inteira do Império Romano ou de qualquer sociedade escravista do passado. 27 milhões de pessoas vivem as várias formas de nova escravidão e o número está crescendo. Disponível em: http://www. asp?lang=PT&cod=15552. à taxa de mortalidade de Dourados. paraguaios ou mesmo bolivianos. como o dos bolivianos do Pari ou as trabalhadoras das subcontratadas da Nike na Indonésia. de agosto a novembro. porém. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). arroz. cobra as despesas da viagem ou o ameaça com o fantasma da Polícia Federal. e a morte de seis crianças com sintomas de desnutrição em aldeias do povo Xavante. como mandioca. Ainda está próxima. banana. de Acesso em 21 de abril de 2005. milho. têxteis e outros artigos de consumo baratos para todo o mercado global. A remuneração pode ser tão baixa quanto R$ 30 a R$ 50 mensais. sob ameaça de coação física ou policial.

Os dados da pesquisa indicam que uma série de conceitos sobre a compra de votos necessita de revisão: • • O nível de instrução do eleitor tem influência moderada sobre a oferta. Os números da Funasa (Fundação Nacional de Saúde). Pesquisa realizada pelo Ibope em novembro de 2002 por Bruno Wilhelm Speck e Claudio Weber Abramo. 23. Assim. sem contar os casos de risco nutricional.transparency. Disponível em: http:// www. De acordo com o diretor do Departamento de Saúde Indígena. Desde a última semana. “A situação ainda preocupa a todos e nós temos que manter a sociedade e a comunidade indígena mobilizadas para isso. A análise dos dados por aldeias mostra um quadro ainda mais preocupante do que aqueles apresentados pela Funasa. que tem divulgado a média de desnutrição do Estado. No MS. Os compradores de votos se dirigem igualmente a eleitores de todas as faixas de renda. dados da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) apontam que 47 das 256 crianças menores de 5 anos atendidas pela Funasa. toda a direção da Funasa transferiu-se para o município e diversas equipes de médicos e nutricionistas passaram a atuar no local. tem a taxa em 17%. dos Guarani Kaiowá. Outras 52 crianças (20%) estão em situação de risco nutricional. responsável pela saúde indígena no Brasil. realizada após as eleições municipais de 2000.org/tilac/ indices/ encuestas/dnld/compra_de_votos_brasil. Alexandre Padilha.direitos humanos 64 óbitos por mil crianças nascidas vivas. disse à Agência Brasil. de 47 por mil nascidas vivas. Também cresceu a distribuição de alimentos para os indígenas das aldeias da terra indígena Dourados. 4 FGV DIREITO rio 12 . A média nacional é de cerca de 25 por mil. Percentuais como estes se repetem em todas as aldeias do povo Guarani no Mato Grosso do Sul. por exemplo. revelou que nas eleições de outubro/ novembro cerca de 3% dos eleitores receberam oferta de candidatos ou cabos eleitorais para vender o seu voto. Segunda Pesquisa Transparência Brasil sobre compra de votos em eleições populares 4 Pesquisa nacional sobre a prática de compra de votos. eram 56 por mil. demonstram que a preocupação sobre a alimentação e sobre as condições de vida das crianças indígenas não pode se restringir às aldeias de Dourados. realizada pelo Ibope para a Transparência Brasil e a União Nacional dos Analistas e Técnicos de Finanças e Controle entre 14 e 17 de novembro de 2002. mas a taxa é muito alta se comparada com o restante da população brasileira”. Entre os benefícios oferecidos está em primeiro lugar o dinheiro (56%). a desnutrição atinge 19% das crianças. Em Antônio João. de 12% de desnutridos e 15% de crianças em risco nutricional. Em pesquisa anterior deste gênero. seguido de bens materiais (30%) e favores da administração (11%). Em 2004 atingimos a menor taxa de mortalidade infantil em povos indígenas. Em 2002.2% das crianças desnutridas saíram dessa situação nos primeiros meses do ano. apresentam desnutrição. ou 18% delas. A aldeia Tacuru. 6% dos eleitores afirmaram que receberam oferta de vender o voto por dinheiro. Acesso em: 21 de abril de 2005. aldeias dos povos Terena e Kadiwéu têm um índice mais baixo de desnutrição. a média estadual não mostra que em Amambai.pdf. de no máximo 3%.

Porém.uk/portuguese/noticias/ story/2005/01/050113_direitoshumanosro. de um lado. Vale a pena lembrar que o código eleitoral define essa transação como crime. bens materiais. a pesquisa revela que cerca de 3 milhões de eleitores receberam oferta de vender o seu voto. Os eleitores com mais idade são menos sujeitos à oferta do que os mais jovens. no art. Eua estão minando direitos humanos no mundo. 5 FGV DIREITO rio 13 . e eleições estaduais e nacionais de outro. Trata-se em primeiro lugar de uma comparação entre eleições municipais. Sudeste e Sul mostram um quadro menos desfavorável.co. Além de aferir o volume do “mercado” de votos no Brasil. as pesquisas da Transparência Brasil visam elaborar um indicador para acompanhar o fenômeno ao longo do tempo. serviços públicos). há diferenças mais significativas quanto à distribuição do fenômeno da compra de votos por idade do eleitor. e não de uma série histórica sobre o mesmo fenômeno. Da mesma forma como ocorreu no levantamento relativo às eleições municipais de 2000. com os homens sendo ligeiramente mais assediados do que as mulheres. quando a pesquisa nas últimas eleições incluiu todos os tipos de troca oferecidos (dinheiro. O artigo 299 criminaliza a mera oferta de compra de voto. embora ainda com incidência do fenômeno. afirmou a ONG de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch. no Iraque. que a interferência de poder econômico e o desvio ou abuso de poder de autoridade serão coibidos e punidos. A ONG cobrou a criação de uma comissão independente nos Estados Unidos para examinar o abuso de prisioneiros na prisão de Abu Ghraib. Por outro lado. Há pouca diferença entre sexos. a comparação entre as duas pesquisas relatadas referentes às eleições em 2000 e 2002 requer certo cuidado. em 2002 nivelou-se com a Sudeste. 237.direitos humanos • • O fenômeno de oferecer algo em troca do voto independe da condição e do tamanho do município. O código eleitoral de 1965 dispõe. Logo. se eles mesmos estão praticando abusos. Acesso em: 21 de abril de 2005. Com todas as limitações. enquanto em 2000 a região Sul apresentou-se no mesmo nível do Nordeste.shtml. bbc. As maiores diferenças se dão entre as regiões do país (Gráfico 8). seguidas pelo Nordeste. Observe-se que. Disponível em: http://www. estamos diante de um universo de 3 milhões de infrações criminais ocorridas nas últimas eleições. diz ong5 Violações dos direitos humanos cometidas pelos Estados Unidos estão minando a lei internacional e erodindo o papel do país no cenário internacional. A pesquisa referente à compra de voto nas eleições municipais se limitou às ofertas em dinheiro. Segundo a organização. os americanos já não podem mais reivindicar que estão defendendo os direitos humanos em outros países. mesmo que não aceita pelo eleitor. em 2002 as regiões Norte/ Centro Oeste mostraram-se as mais vulneráveis.

1989. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. disse a ONG. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: ALMEIDA. 1547. Também pede a indicação de um promotor especial para determinar o que houve de errado e levar os responsáveis à Justiça. no modelo da que investigou os ataques de 11 de setembro. O que são direitos humanos? São Paulo: Brasiliense. O grupo. A entidade pede que o governo Bush instale uma comissão totalmente independente. Norberto. BOBBIO. “A adoção de interrogatórios com coerção é parte de um desrespeito mais amplo dos princípios dos direitos humanos em nome do combate ao terrorismo”. Teoria Geral dos Direitos Humanos. o Worldwatch Institute. A Human Rights Watch diz que os americanos já não podem mais dizer que sua posição é moralmente correta e liderar como exemplo. 1992. Credibilidade O governo americano está no momento investigando denúncias de abusos de prisioneiros no Iraque e também na prisão da base militar de Guantánamo. p. FGV DIREITO rio 14 . DORNELLES. para analisar as denúncias de abusos em Abu Ghraib. A era dos direitos. João Ricardo. Fernando Barcellos de.direitos humanos Na quarta-feira. uma outra entidade. 1996. a maior organização de defesa dos direitos humanos baseada nos Estados Unidos. havia divulgado um relatório que dizia que a chamada “guerra contra o terrorismo” pode estar perpetuando o ciclo de violência no mundo. em Cuba. diz que as ações dos americanos nestas prisões tiveram um efeito negativo sobre a credibilidade do país como um defensor dos direitos humanos e líder da guerra contra o terrorismo. Rio de Janeiro: Campus. A entidade cita as técnicas de interrogatório com coerção em Guantánamo e Abu Ghraib como especialmente prejudiciais.

são impostos limites ao poder real por meio da linguagem dos direitos. foi uma resposta a essa tentativa de reconcentração do poder (limitou a atuação do Estado). Como resultado da difusão do Direito Natural e no contexto das Revoluções Burguesas.e. A partir do século XI. a sociedade européia se organizava em “ordens” ou “estamentos”. nobreza e povo. acordado entre determinados atores sociais e referentes exclusivamente aos limites do poder real em tributar. Destacam-se aqui: na Inglaterra. da consagração de direitos comuns a todos os indivíduos – do clero. há um movimento de reconstrução da unidade política perdida com o feudalismo. a elaboração da Carta Magna. o Habeas Corpus Act de 1679 e o Bill of Rights de 1689. por sua vez. Convém salientar que na passagem do século XI ao século XII (i. a Reforma Protestante é vista como a passagem das prerrogativas estamentais para os direitos do homem. Dentre as conseqüências da Reforma.direitos humanos Aula 02: Desenvolvimento histórico dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O desenvolvimento dos direitos humanos foi um processo histórico e gradativo.. Mas afinal. enquanto que os reis – até então considerados nobres – reivindicavam os direitos pertencentes à nobreza e ao clero. Alguns autores tratam esse momento como o embrionário dos direitos humanos. em 1215. e não da simples vontade do povo ou dos governantes) e da participação ativa do cidadão nas funções do governo – o primórdio dos direitos políticos.e. Nesse sentido.. a república romana. passagem da Baixa Idade Média para a Alta Idade Média) voltava a tomar força a idéia de limitação do poder dos governantes. quando surgem os direitos humanos? O debate sobre o tema conduz sempre ao limite do surgimento do próprio Direito. uma vez que a ruptura da unidade religiosa fez surgir um dos primeiros direitos individuais: o da liberdade de opção religiosa. pressuposto do reconhecimento. Dessa forma. Ainda na Idade Antiga. É importante salientar que. instituiu um complexo sistema de controles recíprocos entre os órgãos políticos e um complexo mecanismo que visava a proteção dos direitos individuais. durante a Idade Média. Outros asseveram sua natureza como meramente contratual. destaque-se: a laicização do Direito Natural a partir de Grócio e o apelo à razão como fundamento do Direito. a consagração dos direitos humanos é fruto de mudanças ocorridas ao longo do tempo em relação à estrutura da sociedade. mas apontar alternativas. até a Revolução Francesa. bem como de diversas lutas e revoluções. uma vez que. O imperador e o papa disputavam a hegemonia suprema em relação a todo o território europeu. Dessa forma. FGV DIREITO rio 15 . Não caberá à aula 02 resolver um embate travado entre pensadores ao longo dos séculos. do nomos: regra que emana da prudência e da razão. Alguns autores vêem nas primeiras instituições democráticas em Atenas – o princípio da primazia da lei (i. a noção de direito subjetivo estava ligada ao conceito de privilégio. séculos depois. É nesse contexto em que se formulam as primeiras declarações de Direitos.

somente a intervenção estatal é capaz de garanti-los. ao passo que os direitos humanos de segunda geração (embora a Constituição francesa de 1791 já estipulasse deveres sociais do Estado. Sociais e Culturais. ambas expressas em um texto escrito (a constituição). Todavia. significou um marco da consagração da universalidade dos direitos humanos. conforme demonstrado a seguir: Declaração de Virgínia. 1776 Fruto da Revolução Americana – visavam restaurar os antigos direitos de cidadania tendo em vista os abusos do poder monárquico. a idéia de gerações – importante como mecanismo de compreensão histórica – merece ser criticada desde esse momento. em 1917. não dispunha sobre os direitos correlativos dos cidadãos) só tiveram sua plena afirmação com a elaboração da Constituição mexicana (em decorrência da Revolução Mexicana). cabendo ao poder estatal declará-los. à educação e à saúde. a elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). Nesse contexto. Até o presente momento. como é o caso do direito ao trabalho. a Declaração de Virgínia de 1776. liberdade e propriedade. Todavia. Em face de alguns direitos. como o Pacto Internacional de Direitos Civil e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. ambos de FGV DIREITO rio 16 . e na França. É importante ressaltar que ambas as Declarações consagraram os direitos humanos da primeira geração. Consagração dos princípios iluministas: igualdade.direitos humanos nos Estados Unidos. uma vez que coloca em cheque a idéia contemporânea de indivisibilidade e interdependência dos direitos. Reconhecimento da igualdade entre os indivíduos pela sua própria natureza e do direito à propriedade. deixou transparente a necessidade de se estabelecerem marcos inderrogáveis de direitos a serem obedecidos por todos os Estados na concertação estabelecida no pós-Guerra. Tanto a DUDH. Por mais que o direito humanitário e a Organização Internacional do Trabalho já indicassem a necessidade de uma proteção de direitos que se sobrepusesse aos ordenamentos internos. Já os direitos de terceira geração só foram consagrados após a Segunda Guerra Mundial. atende-se para o ponto comum: a insuficiência da abstenção estatal como forma de garantia de direitos. todas inspiradas no direito natural. cabe destaque o momento histórico em que os direitos humanos foram galgados ao patamar internacional. examinamos a luta por direitos humanos em contextos nacionais. e da Constituição de Weimar em 1919. notadamente na Segunda. as atrocidades cometidas durante as Guerras Mundiais. Marco do nascimento dos direitos humanos na história. 1789 Fruto da Revolução Francesa – os franceses se viam em uma missão universal de libertação dos povos. com base na idéia de que existem direitos baseados na coletividade. Os homens são dotados de direitos inatos. Art. a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. em 1948. conforme serão estudados ao longo do curso. Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Entre essas. XVI: baseado na lição clássica de Montesquieu – teoria do governo misto combinada com uma declaração de direitos.

Legislação: Constituição Federal de 1988 Declaração de Virgínia de 1776 Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 FGV DIREITO rio 17 . São Paulo: Saraiva. o final da década de 80 foi marcado pela derrocada do socialismo real. 2001. Por sua vez. 2001. Todavia. Tratado de direito internacional dos direitos humanos. vale adiantar que a confecção dos dois pactos localiza-se em um contexto de Guerra Fria em que os dois blocos disputavam ideologicamente a concepção de direitos humanos. Foi nesse contexto que se desenvolveram as grandes conferências da década de 90. Celso. pp. Antônio Augusto. No decorrer da década de 90. A afirmação histórica dos direitos humanos. questiona-se: Qual é a importância da Carta Magna de 1215? Quais os elementos em comum entre a Declaração de Virgínia e a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão? O que são gerações de direitos? Quais foram os precedentes para a consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: COMPARATO. ganha força o discurso de que os direitos humanos não eram mais discursos dos blocos. mas tema que deveria compor a agenda global. indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos. Volume I.direitos humanos 1966. destacando-se a Conferência de Viena de 1993. LAFER. Reconstrução dos direitos humanos – um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. 1997. Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. serão estudados na aula referente ao Sistema Global de Proteção dos Direitos Humanos. Rio de Janeiro: Companhia das Letras. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris. a qual consagrou os paradigmas da universalidade. 36-66. Fábio Konder. Diante do exposto. 117-145. pp. pp. 31-118.

a Assembléia Nacional da França. lamenta tal proibição. Zaíra considera que alguns hábitos já fazem parte de sua identidade cultural. uma vez que considera tal medida extremamente ofensiva a sua crença religiosa e a sua identidade cultural. assim como a comemoração do Ramadã (período no qual os muçulmanos ficam um mês em jejum). a igualdade entre os sexos. pois. por outro lado. Diante disso. o Marrocos. como o uso de véu na escola e na foto da carteira de identidade. Em março de 2004. sonhando para sua filha um futuro distinto do dela. resolve usar seu véu no primeiro dia do novo ano letivo. Dessa forma. com receio das represálias que poderia vir a sofrer por parte da comunidade muçulmana. com base na lei em vigor. 15 anos. Isto significa que Zaíra não poderá mais ir à escola usando o véu de acordo com sua religião mulçumana. Nesse sentido. conseqüentemente. a promulgação da referida lei. antes da independência de seu país. em silêncio. e principalmente. conforme sempre o fez. e em decorrência de seu contato com um mundo não-muçulmano. adotou uma lei que proibiu o uso ou porte de qualquer símbolo religioso pelos alunos nas escolas públicas a partir do próximo ano letivo (setembro de 2004). seu pai ameaça tirá-la da escola caso ela não use o véu. Zaíra.direitos humanos Aula 03: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O CASO Zaíra. Zaíra encontra-se dividida: por um lado. ela admira a liberdade feminina e acredita que poderia ser mais feliz sem as imposições religiosas do islamismo. a não-utilização do véu (hiyas) violaria os ensinamentos sagrados do Alcorão. com base no princípio da laicidade do Estado. estudando as posições a favor e contra a proibição do uso de véu e de qualquer símbolo religioso em escolas públicas. é expulsa da escola. FGV DIREITO rio 18 . Sua mãe. comemora. Zaíra começa a se aprofundar no assunto. também. Comemora. por seguirem todos os ensinamentos e tradições da religião islâmica. o Primeiro de Moharam (primeiro dia do calendário Islâmico) e o Eid-al-Adha (festa do carneiro que comemora o sacrifício de Abraão). Nesse contexto. Sua família migrou para o país no começo da década de 1950. a radicalização da laicidade é tida como uma forma de assegurar a liberdade da mulher e. com medo das conseqüências das atitudes de seu pai. é uma das cinco milhões de pessoas muçulmanas que vivem na França. No entanto. da maneira como foi criada. por sua vez. em respeito às crenças religiosas de sua família. conforme exposto a seguir: Feministas Defendem a igualdade entre os sexos como um dos princípios fundamentais da democracia. Desconsertada. Para sua surpresa. Ela e sua família são consideradas muçulmanos “fundamentalistas”.

Nesse sentido. O banimento do véu confirma que há uma perseguição religiosa aos islâmicos desde o 11 de setembro de 2001. o Estado tem que banir tal discriminação. Partido pela liberdade religiosa Defende ser a liberdade de escolha religiosa um princípio basilar de qualquer sociedade democrática. católicos e judeus atenta contra tais princípios. uma vez que promove e estimula a segregação das religiões. destaque-se as freiras católicas que cobrem o corpo inteiro e não são incomodadas pela sociedade. bem como a liberdade de expressão. causa separação e discriminação entre os alunos. o que é pior. A imposição de uma proibição dessa dimensão demonstra o autoritarismo do Estado e a violação do princípio do Estado Democrático de Direito. Conselho Superior de Educação Defende a laicidade do Estado e o combate ao fundamentalismo religioso como forma de melhorar o acesso à educação.direitos humanos O uso de véu por alunas muçulmanas representa uma submissão da mulher ao homem. limitando os atos dos indivíduos e. e não uma forma de submissão. tendo em vista não ser peça ornamental e estritamente religiosa. FGV DIREITO rio 19 . determinando suas próprias vestimentas. Nesse sentido. Partido de Justiça e Desenvolvimento Islâmico Defende a identidade cultural e o direito à liberdade religiosa. de quipá e da estrela de Davi pelos judeus e da cruz e de crucifixo por católicos. bem como é uma forma válida para se combater o fundamentalismo islâmico. a proibição da utilização de qualquer símbolo religioso por alunos muçulmanos. é também um dos requisitos para se garantir uma sociedade democrática. Dessa forma. por ser necessária para assegurar a separação entre Igreja e Estado. o uso de véu por alunas muçulmanas representa uma cultura milenar. demonstrando tanto a sua devoção e religiosidade quanto a sua obediência a valores tradicionais que compõem a cultura. A utilização de véu por alunas muçulmanas em escolas públicas. tal proibição. Trata-se de uma escolha feita pela aluna a seguir os ensinamentos muçulmanos. tornando a escola em um local de aprendizagem e não de conflito. Como exemplo. Corte Européia de Direitos Humanos Defende que a proibição de uso de véus nas escolas públicas por alunas muçulmanas não viola o direito de liberdade religiosa. De acordo com a Corte.

] VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença. salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa.. sem distinção de qualquer natureza. a proteção aos locais de culto e a suas liturgias. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. o trabalho. bem como as posições acima mencionadas para responder tais questões. a saúde. [.] Art. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. [. São direitos sociais a educação. 5º Todos são iguais perante a lei.. a previdência social.313 – Lei Rouanet – de 23 de dezembro de 1991 Restabelece princípio da lei nº 7.. a assistência aos desamparados. [. Lei n. a moradia. 6.] Artigo 39º.] Art. o lazer.. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa... direito de todos e dever do Estado e da família. de 02 de julho de 1986. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida. na forma desta Constituição (grifou-se). MATERIAL DE APOIO Legislação: Constituição Federal de 1988 Art. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional..] Art. A educação. institui o Programa Nacional de Apoio à Cultura – PRONAC – e dá outras providências. na forma da lei. [.] VIII – ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política. a proteção à maternidade e à infância. Constitui crime. e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação. o Estado brasileiro estaria violando algum princípio fundamental ou direito humano? Utilize a legislação brasileira. a honra e a imagem das pessoas. [...505... 205... à segurança e à propriedade.] X – são invioláveis a intimidade. punível com reclusão de dois a seis meses e multa de vinte por cento do valor do projeto. a vida privada. qualquer discriminação de natureza política FGV DIREITO rio 20 . os tratados internacionais de direitos humanos (dispostos abaixo). 215. fixada em lei.º 8. [. nos termos seguintes: [. à liberdade. a segurança.. à igualdade.direitos humanos Questões: Em primeiro lugar: O Estado francês agiu de forma correta ao adotar e promulgar a referida lei? Se esse caso ocorresse no Brasil (tendo em vista ser um Estado igualmente democrático e laico).

de atividade intelectual e artística. [. religião.. Art. 16. tanto pública como privadamente. sexo. sexo.. língua.direitos humanos que atente contra a liberdade de expressão. e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade. riqueza.] Art. Os Estados-partes no presente Pacto comprometem-se a garantir a todos os indivíduos que se encontrem em seu território e que estejam sujeitos à sua jurisdição os direitos reconhecidos no presente Pacto. de consciência ou crença. isolada ou coletivamente.] FGV DIREITO rio 21 . no andamento dos projetos a que se referem esta Lei. Parágrafo único.069. Na ausência de medidas legislativas ou de outra natureza destinadas a tornar efetivos os direitos reconhecidos no presente Pacto. em público ou em particular. para os efeitos desta Lei. cor. Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração. origem nacional ou social. consciência e religião. de consciência e de religião. com sitas a adotá-las. origem nacional ou social. Esse direito implicará a liberdade de Ter ou adotar uma religião ou crença de sua escolha e a liberdade de professar sua religião ou crença.] III – crença e culto religioso. 2º. língua. 1º. aplica-se excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade.. O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos: [. cor. 2. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade. [.] Artigo XVIII: Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento. este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença.. individual ou coletivamente. situação. Art. opinião política ou de qualquer outra natureza. os Estados-partes comprometem-se a tomar as providências necessárias. Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos.. Artigo II.] Artigo 18 1... por meio do culto.. a pessoa até doze anos de idade incompletos. pelo ensino. pelo culto e pela observância. nascimento. levando em consideração seus respectivos procedimentos constitucionais e as disposições do presente Pacto. [. Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente.. Lei nº 8. Nos casos expressos em lei. sem distinção de qualquer espécie. Considera-se criança. de 13 de julho de 1990 Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. religião. sem discriminação alguma por motivo de raça. opinião política ou de outra natureza. Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Artigo 2º 1. pela prática. [. da celebração de ritos.. ou qualquer outra condição. Toda pessoa terá direito à liberdade de pensamento. seja de raça. Declaração Universal dos Direitos Humanos Artigo I. de práticas e do ensino.

econômica.. justa e equitativa. culturais e religiosos. a tolerância e a amizade entre todas as nações e entre todos os grupos raciais. [. favorecer a compreensão. religiosas ou lingüísticas. Todos os direitos humanos são universais.. étnicos ou religiosos e promover as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.] 19. conjuntamente com outros membros de seu grupo. Embora particularidades nacionais e regionais devam ser levadas em consideração. religião. Os direitos humanos das mulheres e das meninas são inalienáveis e constituem parte integral e indivisível dos direitos humanos universais. Sociais e Culturais Artigo 2º [. com base no sexo. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos de forma global. indivisíveis interdependentes e inter-relacionados.] 2. sexo.. regional e internacional e a erradicação de todas as formas de discriminação. língua.. Os Estados Partes do presente pacto comprometem-se a garantir que os direitos nele enunciados se exercerão sem discriminação alguma por motivo de raça.] 18. Considerando a importância da promoção e proteção dos direitos das pessoas pertencentes a minorias e a contribuição dessa promoção e proteção à estabilidade política e social dos Estados onde vivem.. opinião política ou de outra natureza. cor. econômicos e culturais. Étnicas. em pé de igualdade e com a mesma ênfase.. nascimento ou qualquer outra situação.. em conformidade com a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos da Pessoa Pertencentes a Minorais Nacionais. sem qualquer forma de discriminação e em plena igualdade perante a lei. Concordam ainda em que a educação deverá capacitar todas as pessoas a participar efetivamente de uma sociedade livre. situação econômica.] Artigo 13 1. assim como diversos contextos históricos. as pessoas pertencentes a essas minorias não poderão ser privadas do direito de ter. social e cultural nos níveis nacional. é dever dos Estados promover e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais. sua própria vida cultural. Os Estados Partes do presente Pacto reconhecem o direito de toda pessoa à educação. FGV DIREITO rio 22 . Concordam em que a educação deverá visar o pleno desenvolvimento da personalidade humana e do sentido de sua dignidade e fortalecer o respeito pelos direitos humanos e liberdades fundamentais. a Conferência Mundial sobre os Direitos Humanos reafirma a obrigação dos Estados de garantir a pessoas pertencentes a minorias o pleno e efetivo exercício de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais. civil. sejam quais forem seus sistemas políticos. em condições de igualdade. [. Declaração e Programa de Ação de Viena de 1993 5. Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos. são objetivos prioritários da comunidade internacional. origem nacional ou social. A plena participação das mulheres.direitos humanos Artigo 27 Nos estados em que haja minorias étnicas. Religiosas e Lingüisticas.. de professar e praticar sua própria religião e usar sua própria língua. na vida política. [.

br/Noticias. onde professoras muçulmanas estão apelando contra leis de vários Estados que as impedem de cobrir suas cabeças. mas acabou voltando atrás ao se deparar com a oposição dos militares defensores da secularidade do sistema. Em razão da ampla interpretação que a palavra “invasivo” permite.com. Luiza Nagib. principalmente esta Folha. Luiza Nagib Eluf. De acordo com uma decisão da Justiça em 1989. 29. Folha de S. Disponível em: http://clipping. 7 Terra online. Acesso em: 15 out. atualmente à frente do governo turco e que possui raízes islâmicas.06. vários conflitos ocorreram entre pais de alunas e diretores de escolas.direitos humanos As pessoas pertencentes a minorias têm o direito de desfrutar de sua própria cultura.OI333991-EI312. 2004.2003. planejamento. que é parte do Conselho da Europa. A Turquia é uma sociedade majoritariamente muçulmana que introduziu um sistema de governo secular nos anos 1920.00.gov. Paulo.br/mundo/interna/ 0. disse a Corte Européia de Direitos Humanos hoje. a corte com sede em Estrasburgo (França) rejeitou a argumentação apresentada por uma estudante turca impedida de frequentar a faculdade de medicina da Universidade Istambul porque o véu usado por ela violava o código de vestimenta da instituição. vem noticiando o intenso debate que se instalou na França a respeito do uso do véu muçulmano por alunas das escolas públicas daquele país. 7 FGV DIREITO rio 23 . surgirão no país quando entrar em vigor a lei banindo o uso do véu pelas muçulmanas em escolas públicas. Em uma decisão que pode abrir precedentes. A sentença do tribunal pode ajudar o governo francês a enfrentar os processos que. asp?NOTCod=98021. O Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP).2004. 30. integrado pela Turquia. O véu religioso A imprensa brasileira.12. havendo notícias de algumas expulsões em virtude da insistência no uso do véu. Notícias prévias: Corte européia mantém proibição de véu muçulmano6 A proibição do uso de véus pelas alunas muçulmanas em escolas públicas não viola o direito de liberdade religiosa e é uma forma válida de combater o fundamentalismo islâmico. desde que não sejam “invasivos”.html. entre outros livros.. terra. véus e outros símbolos religiosos são permitidos nas escolas do Estado. a ex-estudante de medicina Leyla Sahin foi impedida de realizar uma prova porque estava usando um véu. No caso decidido nesta semana. 6 ELUF. Disponível em: http://noticias. Acesso em: 15 out. 2004. segundo se prevê. 48. disse o órgão. As proibições impostas em nome da separação entre Igreja e Estado seriam então consideradas “necessárias em uma sociedade democrática”. A decisão da Corte Européia também pode ter ressonância em casos na Alemanha. é procuradora de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo e autora de “A Paixão no Banco dos Réus”. Foi secretária nacional dos Direitos da Cidadania do Ministério da Justiça (governo Fernando Henrique Cardoso. com toda a liberdade e sem qualquer interferência ou forma de discriminação. depois do colapso do Império Otomano. estudou a possibilidade de colocar fim à proibição do uso do véu. de professar e praticar sua própria religião e de usar seu próprio idioma privadamente ou em público. afirmou a corte. “Podem se justificar medidas adotadas em universidades para impedir certos movimentos fundamentalistas religiosos de pressionar estudantes que não praticam a religião em questão ou aqueles adeptos de outras religiões”.

por vezes chegando ao absurdo de obrigá-las a cobrir o rosto todo com o uso da burca. é um Estado em que todas as religiões são permitidas e respeitadas. dentre os quais o Brasil. eventualmente. para que apresentasse projeto de lei proibindo o uso de véu por meninas muçulmanas nas escolas. mais cedo ou mais tarde. Não falta quem atribua aos europeus a incapacidade de acolher. As atrizes Isabelle Adjani e Isabelle Huppert e a designer de moda Sonia Rykiel. deve ser aplicado. Trata-se de uma polêmica que. durante muito tempo. Portugal e Inglaterra. Impedem-nas de mostrar qualquer parte do corpo. Uma pesquisa de opinião sobre o assunto foi divulgada recentemente. respirar ou falar. possuem significativa presença muçulmana. a revista “Elle” francesa divulgou um apelo ao presidente Jacques Chirac. inclusive o cabelo. os imigrantes. temendo restrições que possam.direitos humanos A discussão a respeito dos limites das determinações religiosas é de interesse geral e deve ser acompanhada pelos demais países laicos em todo o mundo. 5º. Por essa razão. essas distorções encontram-se desmascaradas internacionalmente. No entanto. Tanto as alegações fundamentadas em princípios religiosos quanto as calcadas em hábitos culturais não podem ser admitidas quando se prestarem a restringir ou eliminar direitos. Essas populações resistem tenazmente a assimilar os valores ocidentais. opção religiosa com imposição de subalternidade. afetá-los também. isolando-se em suas comunidades. Hoje. como Alemanha. Isso significa que não se pode confundir convicção pessoal com opressão. pode ocorrer entre nós. inciso VIII. O tal “véu” não é peça ornamental. criado para evitar discriminações em razão de credo. sendo que o poder político não está vinculado a nenhuma delas. Por outro lado. É o que nos assegura a Constituição de 1988. Nossa Carta Magna. que estigmatiza a mulher. as comunidades muçulmanas impõem às mulheres regras extremamente opressivas. mas a intolerância maior parece não ser dos países hospedeiros. FGV DIREITO rio 24 . De acordo com dados estimados. Espanha. Não se pode confundir convicção pessoal com opressão. assinado por mais de 60 mulheres de destaque. O Brasil. Os usos e costumes de determinados grupos sociais foram utilizados. outros países do velho continente. É um “uniforme” feminino. tendo apurado que 57% dos franceses apóiam a proibição do uso do véu em escolas e repartições públicas. assinaram o manifesto. para evitar violações de direitos trazidas pelas próprias religiões aos seus seguidores. setores das igrejas Católica. estabelece que “ninguém será privado de direitos por motivos de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política”. Escudadas em princípios religiosos. além da França. sem preconceito. decorrente de imigrações. dentre outras. existem na França 5 milhões de muçulmanos. tampouco é estritamente religioso. O dispositivo. Protestante e Ortodoxa opuseram-se à proibição. assim como a França. também. a maior comunidade islâmica da Europa. para justificar numerosas formas de privar as mulheres de seus direitos fundamentais. tendo em vista tratar-se de “um símbolo visível da submissão da mulher”. opção religiosa com imposição de subalternidade. mesmo que com isso elas tenham dificuldades para enxergar. em seu art.

assim. de associar islamismo com terrorismo. como seres humanos. não há glamour no uso do véu. Fortalecer as mulheres. mas opressão física e intelectual. em terra estrangeira. Além disso.direitos humanos A polêmica que se iniciou na França com relação ao uso do véu islâmico demonstra que chegou o momento de rever princípios e dogmas religiosos usados para tolher as liberdades democráticas de seus seguidores. é importante desestimular o seu uso. A proibição de cobrir a cabeça e o corpo tornaria o lamentável véu um símbolo da resistência cultural e religiosa de uma população já segregada. o efeito oposto ao desejado. No entanto talvez a melhor forma de diminuir a adesão ao véu não seja a proibição legal nem a expulsão da escola de meninas que entendam necessário adotar a vestimenta de seus ancestrais. Por essa razão. Não se trata. Diferentemente do que novelas de televisão andaram mostrando. pode ser a melhor saída para esse impasse. Surtiria. O véu imposto às muçulmanas tem por objetivo impedir que as mulheres se manifestem livremente. como já se argumentou. FGV DIREITO rio 25 . que deve ser extirpado. O problema do véu está essencialmente ligado ao horror às manifestações do feminino. criando para elas mecanismos de autodefesa e a possibilidade de outra opção de vida. significa que a sexualidade feminina é proibida e “pecaminosa”.

1948. 8 A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adotada em 10. O intuito era estabelecer uma Carta Internacional de Direitos que. da Assembléia Geral das Nações Unidas. em especial aquele travado entre representantes da China e a de Portugal. e que o argumento da diversidade não pode ser utilizado para limitar os direitos humanos. (ii) o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. como se verá a seguir. religiosa e ideológica. defende que cada cultura deve ter seu DE BARROS FRANCISCO. França e Panamá. a delegação portuguesa alegou ser a universalidade compatível com a diversidade cultural. tendo em vista que dos 58 membros das Nações Unidas na época. Rachel Herdy. Estados Unidos. a delegação chinesa. 9 Apenas os representantes dos seguintes Estados participaram da elaboração da redação do projeto da DUDH: Bielorússia. segundo o projeto proposto pela Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. Como exemplo. realizada em Viena no ano de 1993. na qual o indivíduo – pré-social – tem direitos inatos cuja proteção foi transferida para o Estado. p. acirrou-se o debate entre as delegações governamentais. O processo de universalização dos direitos humanos. (ii) a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento de 1994 (Cairo). produto do desenvolvimento de cada país. compreenderia: (i) a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). uma vez que houve um número limitado de países que participaram de sua elaboração10. Por um lado. era composto por três etapas8: (i) elaboração de uma declaração universal. destaquem-se três: (i) a II Conferência Mundial de Direitos Humanos de 1993 (Viena). entre 1947 e 1948. No entanto. conforme as etapas. única maneira das normas universais serem realmente efetivas. União das Repúblicas Soviéticas Socialistas. assim. Por outro lado. Monografia de final de curso. 217 A (III). este diálogo intercultural tem sido limitado tanto no momento da consagração da universalidade dos direitos humanos como nos debates ocorridos nos foros internacionais. (iii) o Protocolo Adicional ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. 2003. 10 FGV DIREITO rio 26 . Na II Conferência Mundial de Direitos Humanos. a delegação da China sustentou ser o conceito de direitos humanos histórico e cultural. O debate entre universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos sempre esteve presente nos foros internacionais. representou um marco na proteção desses direitos. bem como pelo fato de não ter havido um consenso desde o início em relação às normas que deveriam ser positivadas. 7. conseqüentemente. a efetividade universal de suas normas continua em estágio de implementação.direitos humanos Aula 04: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos NOTA AO ALUNO A concepção histórica e culturalmente construída de direitos humanos conduz à imperatividade de que qualquer tentativa de universalização seja fruto de um diálogo entre as diferentes culturas. (iii) adoção de medidas de implementação. nenhum contra e oito se abstiveram. Isto significa que enquanto a delegação portuguesa sustenta uma visão liberal. e (iii) a IV Conferência Mundial sobre a Mulher de 1995 (Beijing). não aceita o indivíduo como um ser pré-social e. Sociais e Culturais. de tradição confucionista. Diálogo intercultural dos direitos humanos. Filipinas. (ii) criação de documentos vinculantes. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) de 19489 consagrou a universalidade dos direitos humanos e. 48 votaram a favor.12. Contudo. Curso de Direito da PUC-Rio. através da Resolução n.

espaço para um diálogo intercultural. cit. ter confirmado a universalidade dos direitos humanos e a obrigação dos Estados em respeitá-los e promovê-los independentemente de seus sistemas político. Nesse sentido. Não raro a falta de informação.. planejamento familiar e direitos reprodutivos – prevaleceu em todos os casos a posição ocidental. Para tanto. mas sim a fortalece. In: SANTOS. Boaventura de Sousa. verifica-se que em todas as conferências mundiais tem prevalecido a posição ocidental. de 1989. a discussão permanece em aberto. tendo a Plataforma de Ação de Beijing concluído que as práticas que limitam o exercício dos direitos da mulher não podem ser sustentadas em detrimento da universalidade dos direitos humanos. prestar-se-á a devida atenção à conveniência de continuidade de educação da criança. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. III. Em se tratando da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento de 1994. 427-461. como um elemento constitutivo da própria universalidade dos direitos humanos. em geral. e não como um obstáculo a esta. p. Vol. A diversidade cultural há que ser vista. fazse necessário a construção de um diálogo intercultural como forma de se atingir a universalidade efetiva dos direitos humanos. 335-336. p. fazendo necessário a criação de espaços para o diálogo intercultural. 15. 2. Já na IV Conferência Mundial sobre a Mulher de 1995. Boaventura de Sousa (org. Nesse contexto. ocorrida no Cairo. é relevante a proposta de diálogo intercultural sugerida por Boaventura de Sousa Santos15 a fim de compatibilizar tal embate: a hermenêutica diatópica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. que significa garantia. Esses cuidados poderão incluir. Registre-se. FGV DIREITO rio 27 . o exemplo bem sucedido de diálogo intercultural nos trabalhos preparatórios da Convenção sobre os Direitos da Criança. não havendo. 3. temporária ou permanentemente privada de seu ambiente familiar. 2003.). Há um denominador comum: todas revelam conhecimento da dignidade humana. cit. verificar que. cultural e lingüística da criança (grifou-se). 12 A Convenção sobre os Direitos da Criança foi adotada em 20. que faz referência expressa à Kafalah do direito islâmico13. 2003. Contudo. 14 15 SANTOS. estereótipos e preconceitos. uma vez que não permitem o diálogo. sendo este instituto denominado kafalah. sendo inconcebível a imposição de valores ocidentais como universais11. CANÇADO TRINDADE. ou o controle – e mesmo o monopólio – da informação por poucos pode gerar dificuldades. Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo liberal. então. apesar da Declaração e Programa de Ação de Viena. terá direito à proteção e assistência especiais do Estado.. como exceção. é permitido que outra família assuma a obrigação de cuidar da criança que não seja de sua linhagem. O artigo 20 dispõe que: 1. Antonio Augusto. p. cabe ressaltar que embora tenham surgido diversas concepções sobre os temas abordados entre as diferentes culturas – como. através da Resolução 44/25 das Nações Unidas. em perspectiva adequada. se necessário. 20. sugere-se que os discursos ‘fundamentalistas’ dos direitos humanos – tanto o universalista quanto o relativista – sejam superados. religiosa. Os Estados-partes assegurarão.direitos humanos próprio entendimento do que sejam direitos humanos. Tratado de direito internacional de direitos humanos. op. cuidados alternativos para essas crianças. Toda criança. Não é certo que as culturas sejam inteiramente impenetráveis ou herméticas. por exemplo. do qual resultou um artigo baseado na proposta de países islâmicos: artigo 2012. inter alia. mas sim elementos essenciais ao alcance desta última. Convém. Trata-se de um método que visa a superar as dificuldades encontradas em um diálogo intercultural. a colocação em lares de adoção. Dessa forma. ou cujos interesses exijam que não permaneça nesse meio. foi abordada a validade das práticas culturais baseadas na inferioridade da mulher. A tradição islâmica não permite a adoção.11. Ao se considerar soluções. bem como à origem étnica. Contudo. Destarte. em seu artigo 5º. uma vez que a criança muçulmana tem o direito inalienável de ligação direta com a linhagem paterna. realizada em Beijing. a adoção ou. 1989. de forma excepcional. embora exista o debate entre universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos. Mas universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos são ou não compatíveis? Conforme doutrina de Cançado Trindade: “As culturas não são pedras no caminho da universalidade dos direitos humanos. pp. op. Capítulo XIX. que tem por premissa a impossibilidade de se compreender claramente as construções de uma cultura com base nos topos de outra.”14 11 DE BARROS FRANCISCO. a Kafalah do direito islâmico. 13 DE BARROS FRANCISCO. a colocação em instituições adequadas de proteção para as crianças. Por uma concepção multicultural de Direitos Humanos. de acordo com suas leis nacionais. econômico e cultural. na verdade a diversidade cultural não se opõe à universalidade dos direitos humanos.

Por fim. Aproximação das políticas de diferença e de igualdade. abaixo. 16 17 Ibid. Contudo. (iv) percepção da incompletude das culturas. uma vez que é esta que melhor aceitará as particularidades das demais culturas. seja por sua destruição. o conceito de cada premissa: Premissas 1. o cosmopolitismo. e que se constitui em redes de referências normativas capacitantes”17. gera também uma dicotomia: se uma cultura se considera completa.. se reconhece sua incompletude. (ii) ter em mente que. “em vez de recorrer a falsos universalismos. 443. por mais que todas as culturas tenham concepções de dignidade humana. Esta premissa pode ser traduzida da seguinte forma: “temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza. Esta gera sentimentos de frustração e descontentamento e. imposta pela globalização hegemônica. desde que não signifique uma conquista cultural. A solução proposta pelo autor é optar pelo reconhecimento da incompletude e pelo diálogo. a curiosidade de procurar novas respostas satisfatórias que se traduzam no diálogo intercultural. mutuamente inteligíveis. Constatação de diferentes conceitos de dignidade humana. a fim de que seja construída uma concepção multicultural dos direitos humanos que. uma vez que a identidade e compreensão do ser humano ocorrem em contato – diálogo – com outro. 2. estará sujeita à conquista cultural. temos o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”16. se organiza como uma constelação de sentidos locais. baseada em um localismo globalizado. há cinco requisitos para que os direitos humanos possam ser teorizados e aplicados como multiculturais: (i) superação da tensão universalismo-relativismo. tem-se que o objetivo da proposta de Boaventura de Sousa Santos é. p. O reconhecimento do outro é essencial para a construção de uma identidade multicultural. De maneira bem resumida. 3. Assim. Ter em mente que. segue. (v) aproximação das políticas de diferença e de igualdade. 5. para uma noção de universalidade construída de baixo para cima. seja pela absorção. por meio do diálogo intercultural. passando da noção de universalidade imperialista.direitos humanos tal diálogo somente torna-se possível se houver uma mudança na conceituação de direitos humanos. Contudo. Conceito Ambos os discursos – o etnocêntrico e aquele que considera as culturas como absolutas e incapazes de questionamento – impedem o diálogo intercultural. Ibid.. (iii) constatação de diferentes conceitos de dignidade humana. 458. Percepção da incompletude das culturas. Após essa breve exposição do tema. 4. não estará interessada no diálogo. indaga-se: (i) Embora tenha sido reafirmada a universalidade dos direitos humanos na Declaração e Programa de Ação de Viena. tem-se que buscar a versão mais aberta. em uma abordagem cosmopolita. Superação da tensão universalismorelativismo. nem todas têm a percepção em termos de direitos humanos. p. Há diversas versões de dignidade humana. nem todas as percebem em termos de direitos humanos. FGV DIREITO rio 28 . por mais que todas as culturas tenham concepções sobre dignidade humana. transformar a concepção de direitos humanos.. assim.

Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. de 1989? Um país muçulmano pode alegar respeito a sua cultura como forma de se eximir da responsabilidade de garantir e promover os direitos das mulheres? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: SANTOS. 301-349. Legislação: Declaração e Programa de Ação de Viena Declaração Universal dos Direitos Humanos Convenção sobre os Direitos da Criança Atividade Complementar: Filme: Submissão. em termos de diálogo intercultural. Capítulo IV. Por uma concepção multicultural de Direitos Humanos. 2001. Antonio Augusto Cançado. 2003. Vol. Diretor: Theo Van Gogh. Capítulo XIX. Ian (eds. PELEG. Lynda. ___________. Nova York: Columbia University Press. Philadelphia: University of Pennsylvania Press. Roteirista: Ayaan Hirsi Ali. pp. FGV DIREITO rio 29 . TRINDADE. Abdullahi Ahmed (ed). Tratado de direito internacional de direitos humanos. a Convenção sobre os Direitos da Criança. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. 211-234. 427-461. pp. Ano: 2004. III. In: SANTOS. Duração: 10min. NATHAN. I. 1995. Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo liberal. Boaventura de Sousa. Andrew. Tratado de direito internacional de direitos humanos.direitos humanos sua efetivação ocorre na prática e de forma igualitária em todos os países? Qual é a proposta de Boaventura de Sousa Santos para que seja construída uma concepção multicultural dos direitos humanos? O que significa o reconhecimento da incompletude da cultura? O que representou. 2003. Leitura acessória: AN-NA’IM. Vol. 1997.). Negotiating Culture and Human Rights.). pp. Boaventura de Sousa (org. BELL. Human Rights in Cross-Cultural Perspectives.

004. o Habeas Corpus nº. de registrar no artigo 5o. São PAULO: Max Limonad. In: Revista Direito. 45. disso decorrendo a constitucionalidade e conseqüente validade do Decreto-lei n. 15. 2004. ciente de que sua obra resulta em um marco jurídico que se estende no tempo. 427.01. 427/1969.. reconhecido por alguns autores com campo de interação entre as duas áreas do direito. Embora a Convenção de Genebra que previu uma lei uniforme sobre letras de câmbio e notas promissórias tenha aplicabilidade no direito interno brasileiro. sob pena de nulidade do título (.131/95. Cabe aqui a interpretação de que outros direitos e garantias também possuam hierarquia constitucional. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. propiciando um verdadeiro bloco da constitucionalidade19. “Esta interação assume um caráter especial quando estes dois campos do Direito buscam resguardar um mesmo valor – o valor da primazia da pessoa humana – concorrendo na mesma direção e sentido. mas também desvendar o modo pelo qual este último reforça os direitos constitucionalmente assegurados. fortalecendo os mecanismos nacionais de proteção dos direitos da pessoa humana. mesmo pelas vias ordinárias. Parece clara a opção do legislador constituinte. Em julgados de toda a década de 90. “O bloco da constitucionalidade e o contexto brasileiro”. 19 Tal redação revelou-se “campo minado” ao longo da recente história constitucional.1969.)”. que institui o registro obrigatório da Nota Promissória em Repartição Fazendária. a qual garante a possibilidade de extensão do texto constitucional em relação a outros direitos e garantias que não estejam expressos no artigo 5o. o tribunal manteve posição firmada desde 197720 de que os tratados possuem status infraconstitucional com equivalência à lei ordinária. 18 PIVESAN.. Estado e Sociedade. Carolina de Campos.direitos humanos Aula 05: Os tratados de direitos humanos e a Constituição Federal NOTA AO ALUNO A aula de nº 05 tem por objeto o estudo do Direito Constitucional Internacional. parágrafo 2o a sua “cláusula aberta” ou “cláusula de receptividade”. Em primeiro lugar. não se sobrepõe ela às leis do País. Direitos humanos e direito constitucional internacional. Todavia. parágrafo 2o Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados. Tal posicionamento conduz à ilação de que os tratados de direitos humanos podem ser objeto de controle de constitucionalidade e de que lei federal pode vir a revogar tratado já incorporado ao ordenamento jurídico interno. a Constituição faz menção expressa à promoção e proteção dos direitos humanos quando afirma que sua prevalência constitui princípio que rege as relações internacionais do Estado brasileiro (artigo 4º). a mais importante referência do Texto de 1988 constitui a seguinte: Artigo 5o. No julgamento do leading case após a promulgação da Constituição. MELO. Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. de 22. o Supremo Tribunal Federal considerou: “Convenção de Genebra – Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas Promissórias – Aval aposto à Nota Promissória não registrada no prazo legal – Impossibilidade de ser o avalista acionado. 80. Todavia. o STF reafirmou sua jurisprudência. quando estabelece no artigo 7o do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) que o Brasil propugnará pela formação de um Tribunal Internacional dos Direitos Humanos. Validade do Decreto-lei n. não é esta a interpretação promovida pelo Supremo Tribunal Federal. p.”18 Cabe assim menção às partes do Texto Constitucional que se referem a direitos humanos. 72. No. 20 FGV DIREITO rio 30 . Ao apreciar o aparente conflito No julgamento do Recurso Extraordinário no. Ao tratar da dinâmica da relação entre a Constituição Brasileira e o sistema internacional de proteção dos direitos humanos objetiva-se não apenas estudar os dispositivos do Direito Constitucional que buscam disciplinar o Direito Internacional dos Direitos Humanos. Flávia. ou ainda.

071/GO de 29 de maio de 2001. o qual restringe tal permissão apenas ao devedor de alimentos. mas resultou no afastamento das regras comuns alusivas ao depósito”. em julgado de 15 de maio de 2007 (RHC 90759/ MG – Minas Gerais). não derrogou. da Constituição não se aplica aos tratados internacionais sobre direitos e garantias fundamentais que ingressaram em nosso ordenamento jurídico após a promulgação da Constituição de 1988. Parágrafo 3o. no julgamento do RE 253. conforme seu contrato de alienação fiduciária.05.) o Pacto de San José da Costa Rica. também por decisão do Plenário. afirmou que “os tratados internacionais não podem transgredir a normatividade emergente da Constituição. o Tribunal manteve o posicionamento ao afirmar que “(. de 08 de dezembro de 2004. no Habeas Corpus nº 77. restando mais dúvidas do que certezas. que o parágrafo 2o do artigo 5o.482.. O novo parágrafo do artigo 5o da Constituição Federal estabelece. inciso LXVII: Não há prisão civil por dívida. Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados. Artigo 5o . Constituição Federal. estabeleceu a corte que “nada interfere na questão do depositário infiel em matéria de alienação fiduciária o disposto no parágrafo 7º da Convenção de San José da Costa Rica”. poderá o Poder Legislativo aprovar determinadas normas contidas nos tratados com status constitucional e outras com de lei federal? O que ocorre com os tratados ratificados até a presente data? O que são “tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos”? A primeira pergunta conduz à necessidade de se registrar alguns comentários acerca do procedimento de incorporação dos tratados em geral. voto vencido. qual a regra que deve prevalecer: a Constituição Federal ou o Pacto de San José? Recente alteração constitucional.631/98.direitos humanos de normas existente entre a Constituição Federal de 1988. além de não poder contrapor-se à permissão do artigo 5o. o Pacto de San José da Costa Rica não implicou a derrogação da Constituição Federal. não possuem forma para conter ou para delimitar a esfera de abrangência normativa dos preceitos inscritos no texto da Lei Fundamental. Relator Ministro Moreira Alves. mais conhecida como Reforma do Poder Judiciário. e o Pacto de San José da Costa Rica22. Alguns autores preferem resolver o aparente conflito de normas por meio de uma regra de hermenêutica específica ao campo dos direitos humanos: a aplicação da norma mais favorável à vítima. em dois turnos. Dessa orientação divergiu o acórdão recorrido. É de observar-se. O artigo 84. em 27. in verbis: Art. do Pacto de São José da Costa Rica no sentido de derrogar o Decreto-Lei 911/69 no tocante à admissibilidade da prisão civil por infidelidade do depositário em alienação fiduciária em garantia. No tocante ao status constitucional.98. salvo a do responsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e a do depositário infiel. a emenda precisou a hierarquia dos tratados de direitos humanos. a Emenda nº 45. ressaltou que “realmente. pois. por fim. na circunstância descrita considerado infiel e assim passível de prisão civil. 5o. em cada Casa do Congresso Nacional. por três quintos dos votos dos respectivos membros. quando do julgamento do RE 206. Esse entendimento voltou a ser reafirmado recentemente. Afinal. A novidade ainda não foi elucidada pela doutrina e jurisprudência. veio a trazer duas importantes inovações ao abrigo constitucional aos direitos humanos: elucidou a possibilidade do status constitucional dos tratados de direitos humanos e estabeleceu a federalização das violações de direitos humanos. e isso porque ainda não se admite tratado internacional com força de emenda constitucional”. Ainda. a qual estabelece a permissão de duas forma de prisão civil (depositário infiel e devedor de alimentos – artigo 5o inciso LXVII21). Inconstitucionalidade da interpretação dada ao artigo 7o. inciso VIII da Cons- FGV DIREITO rio 31 . serão equivalentes às emendas constitucionais. em especial dos tratados de direitos humanos. 21 Pacto de San José da Costa Rica ou Convenção Americana de Direitos Humanos. da mesma Constituição. 22 23 Mais recentemente.. por ser norma infraconstitucional geral. as normas infraconstitucionais especiais sobre prisão civil do depositário infiel. é considerado depositário. ao tratar novamente da prisão do depositário infiel. e diante da emenda. além de não disporem de autoridade para restringir a eficácia jurídica das cláusulas constitucionais. No caso de alguém que não cumpriu o dever de pagar as prestações de seu carro e. o STF negou provimento a um recurso em habeas corpus que questionava a possibilidade do depositário infiel ser preso em virtude do disposto no Pacto de San José da Costa Rica.”23 Recentemente. item 7. Já o Ministro Marco Aurélio. LXVII.

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tituição Federal confere ao presidente da República a competência privativa para negociar e celebrar tratados, convenções e atos internacionais, sujeitos ao referendo do Congresso Nacional. Em regra, tal competência é exercida pelo ministro das Relações Exteriores ou pessoa por ele designada para tal. Ainda, de acordo com o artigo 49, inciso I, é de competência exclusiva do Congresso Nacional resolver definitivamente sobre tratados, acordos e atos internacionais. Assim, caberá primeiramente à Câmara dos Deputados, sucedida pelo Senado Federal, a aprovação dos tratados. Em ato discricionário, cabe ao presidente da República o ato da ratificação, consolidado por meio de um decreto, considerado pela jurisprudência do Supremo Tribunal Federal ato fundamental para que o tratado possa surtir efeitos no ordenamento jurídico interno. Em resumo, os tratados seguem os seguintes passos: Negociação e Assinatura pelo Poder Executivo + Aprovação pelo Poder Legislativo + Ratificação pelo Poder Executivo

Ultrapassada a regra geral para a incorporação dos tratados no ordenamento jurídico interno, cabe ressaltar que o legislador constituinte de 2004 deixou transparente a possibilidade de que os tratados venham a ter hierarquia constitucional caso sejam aprovados com o procedimento reservado às emendas constitucionais. Se por um lado não cabe mais dúvida acerca do status, podemos concluir que a inserção de tal norma pode conduzir à ilação de que certos tratados terão hierarquia constitucional e outros não, o que seria uma resolução descabida seja no âmbito do Direito Constitucional ou do Direito Internacional. Afinal, se o Estado brasileiro já ratificou os mais importantes tratados de direitos humanos, qual seria o atual status dos mesmos? Apesar de não constar da Emenda Constitucional nº 45 qualquer menção aos tratados já incorporados à ordem interna, não parece razoável que tais tratados sejam tidos como leis ordinárias e os futuros como normas constitucionais. De acordo com Tarciso dal Maso, “deveria ser admitida hierarquia normativa superior para tratado sobre direitos humanos já ratificado, até porque seria ilógico, por exemplo, que Protocolo Adicional à determinada Convenção, futuramente aprovado pelo procedimento do parágrafo 3o do art. 5o, seja considerado como força de emenda à Constituição e a própria Convenção-quadro não.”24 Também causa estranheza que tenham que ser submetidos a uma nova apreciação, notadamente quando o Estado brasileiro já se pronunciou no âmbito internacional por meio da ratificação dos mesmos. Caberá ao Poder Legislativo o estabelecimento de procedimento específico para a aprovação de tratados de direitos humanos em conformidade com a determinação constitucional, restando ao Poder Judiciário o papel fundamental de reinterpretar a sua jurisprudência para a necessária adequação à norma. Por fim, a resposta à indagação sobre a definição de tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos será obtida ao longo deste curso, uma vez que se pretende estabelecer, com o devido rigor técnico, o que se entende por direitos humanos. Cabe enfatizar, desde então, que os tratados de direitos humanos, compreendidos

JARDIM, Tarciso dal Maso. Afirma o autor a inconstitucionalidade do novo parágrafo inserido no artigo 5o ao estabelecer que “se favorável ao projeto constitucional brasileiro, o STF reconheceria o nível constitucional de todos os tratados que consagrassem direitos e garantias fundamentais, com base no parágrafo 2o do artigo 5o, e declararia o novo parágrafo 3o do artigo 5o como contrário às cláusulas pétreas, pois, nos termos do inc. IV, parágrafo 4o do artigo 60, seria tendente a abolir direitos fundamentais ao aventar hipótese de certos tratados sobre direitos humanos não poderem ter status constitucional a depender do procedimento legislativo adotado.” (página 50)
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como gênero de que são espécies as convenções, devem ser interpretados de forma mais ampla, englobando também direito humanitário e direito dos refugiados. Saliente-se aqui a outra inovação apresentada pela Reforma do Poder Judiciário: a federalização das violações de direitos humanos. De acordo com a nova redação, o artigo 109 passa a contar com a seguinte redação:
“Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar: V-A as causas relativas a direitos humanos a que se refere o § 5º deste artigo; § 5º Nas hipóteses de grave violação de direitos humanos, o Procurador-Geral da República, com a finalidade de assegurar o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil seja parte, poderá suscitar, perante o Superior Tribunal de Justiça, em qualquer fase do inquérito ou processo, incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal.” (NR)

A inovação institucional deve ser entendida sob os seguintes argumentos: Passo definitivo de enfrentamento à impunidade e garantia de proteção à vítima: O pacto federativo brasileiro, especificamente no tocante à repartição das competências entre Poder Judiciário Estadual e Federal, possui no artigo 109 da Constituição referência fundamental. Os temas ali relacionados são de competência da magistratura federal, sendo os demais – a grande maioria – considerados reservados à magistratura estadual. Tal divisão temática acarreta em atribuições distintas também para outros órgãos que atuam perante o Poder Judiciário. Por exemplo, os crimes contra a organização do trabalho, os crimes contra o sistema financeiro e a ordem econômica financeira deverão ser investigados pela Polícia Federal, sendo a eventual denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal perante a Justiça Federal. Todavia, a omissão ou mau funcionamento das instituições estaduais – Poder Executivo (em especial a polícia), Ministério Público, Defensoria Pública, Magistratura – diante de um caso concreto conduziram o legislador a estabelecer que em determinados casos a competência deverá ser transferida para a Justiça Federal de forma a não acarretar uma outra violação de direitos humanos: o direito a um julgamento justo e imparcial e em um prazo razoável. Nesse sentido, o deslocamento de competências veio a reforçar a necessidade de um efetivo funcionamento das instituições estaduais e a garantir o combate à impunidade por parte das instâncias federais em casos específicos e, por conseqüência, que seja ampliada a proteção dos direitos humanos. O federalismo adotado pela Constituição Federal A Constituição brasileira estabelece um federalismo de cooperação25 entre os seus entes – União Federal, Estados, Municípios e Distrito Federal, o que não exclui um exercício cooperativo também em relação à atividade jurisdicional. A federalização das violações de direitos humanos não constitui uma novidade nesse sentido. Cabe lembrar que o artigo 109, parágrafo 3º, da Constituição Federal estabelece que, na ausência de Varas Federais ou Trabalhistas, a Justiça Estadual exerça as competênb)
SCHREIBER, Simone; e COSTA, Flávio Dino de Castro e. “Federalização da competência para julgamento de crimes contra os direitos humanos”. In: Direito Federal: Revista da Associação dos Juízes Federais do Brasil. Ano 21. No. 71. Niterói: Editora Impetus. Julho a setembro de 2002. p. 253.
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cias que pertencem à Justiça Federal e do Trabalho. No intuito de atender à vítima diante de atividade jurisdicional específica, o Judiciário Estadual acaba por exercer a jurisdição sob matéria excluída de sua competência originalmente. Não é de se causar espanto a alternativa de que, diante da ausência ou mau funcionamento da Justiça Estadual, que a Federal exerça a atividade jurisdicional, visando à implementação de um julgamento justo e imparcial. Há de se ressaltar ainda que a Constituição Federal previu remédio federativo muito mais grave para violações de direitos humanos quando, em seu artigo 34, inciso VII, alínea b, possibilitou a intervenção da União nos Estados para assegurar o princípio constitucional sensível dos direitos da pessoa humana. É possível concluir que o constituinte originário criou um caso extremo de chamamento para a União Federal de casos de violação de direitos humanos e o constituinte derivado, por meio da Emenda Constitucional nº 45, estabeleceu uma hipótese mais específica, o deslocamento de competência em um determinado caso. Responsabilidade Internacional A Constituição Federal, em seu artigo 21, inciso I, estabelece que compete à União Federal, manter relações com Estados estrangeiros e participar de organizações internacionais. Nesse sentido, é a União Federal, e não seus Estados-membros, que respondem pela responsabilidade internacional decorrente do descumprimento das obrigações assumidas pelo Estado brasileiro pelos tratados de direitos humanos. Tendo em vista que a soberania é una e indivisível, o Estado Federal não pode alegar razões de ordem organizacional interna como fator excludente de responsabilidade. Os termos dos tratados internacionais dos quais o Estado brasileiro é parte são aplicáveis a todas as suas partes componentes. A responsabilidade internacional acaba implicando para o Estado brasileiro uma situação complexa focalizada em dois pontos: a) a maior parte das violações de direitos humanos encontra correspondência direta com as competências dos Estados-membros da federação; e b) o compromisso do Estado brasileiro com o marco protetivo internacional dos direitos humanos, notadamente após a Constituição de 1988, em consonância com os princípios da dignidade da pessoa humana e com da transparência internacional. Como estudaremos em momento oportuno, tramitam na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) mais de 100 petições contra o Estado brasileiro. Em regra, são raríssimos os casos que apontam à responsabilidade direta da União em face da violação de direitos humanos. Isto posto, é possível afirmar que, na maioria expressiva dos casos, a responsabilidade é do Estado-membro. Observese que boa parte destes casos pendentes na Comissão poderá ser submetida à Corte Interamericana, cuja jurisdição foi reconhecida pelo Brasil em dezembro de 1998, notadamente após a alteração do Regulamento da Comissão que prevê a presunção de encaminhamento dos casos à Corte Interamericana de Direitos Humanos. Nesse sentido, é bem vindo um mecanismo capaz de assegurar o cumprimento dos tratados de direitos humanos em caso dos entes federativos falharem ou não disporem de condições operacionais ou estruturais. Acredita-se que o estabelecimento
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“assegurar o devido cumprimento de obrigações decorrentes dos tratados de direitos humanos”). Disponível em: http://www.pdf. FGV DIREITO rio 35 . inciso III). Legislativo. Conclui-se que a possibilidade de deslocamento de competências para violações de direitos humanos encontra-se em perfeita sintonia com: a) os parâmetros do direito internacional por estabelecer mais um grau de subsidiariedade no âmbito interno. muito ainda se discutirá para a elucidação dos requisitos de admissibilidade (ex: “grave violação de direitos humanos”. OF/Nº 022/04/PR/PA – incidente de deslocamento de competência (caso Irmã Dorothy Stang). Tal afirmativa afasta as acusações de que tal deslocamento feriria a independência do Poder Judiciário.br/ SCON/pesquisar. Somente a prática permitirá que tais questões sejam preenchidas. e c) a sistemática processual vigente. MATERIAL DE APOIO Casos / Jurisprudência: 26 É importante ressaltar que a Lei no. Acesso em: 08 de maio de 2004. Estados – compreendidos aqui pelos Poderes Executivo. já previu a possibilidade de que a Polícia Federal investigo infrações penais relativas à violação a direitos humanos. 10.direitos humanos da federalização veio a exercer precisamente esse mecanismo federal que possibilite à União um instrumento nacional para a responsabilidade internacional. A alternativa de federalização dos crimes de direitos humanos pode conduzir à disseminação nos entes federados do melhor cumprimento às obrigações decorrentes de tratados de direitos humanos dos quais o Brasil é parte – sob o risco do incidente de deslocamento de competências. que a República Federativa do Brasil se comprometeu a reprimir em decorrência de tratados internacionais de que seja parte” (art. A possibilidade de deslocamento de competência ou a federalização das violações constitui avanço institucional significativo em termos da defesa de direitos humanos. b) o ditame constitucional da proteção dos direitos humanos em conformidade com o pacto federativo.pgr.br/pgr/asscom/Stang.mpf.446. Acesso em: 05 de junho de 2006. d) Dos parâmetros processuais A Emenda Constitucional nº 45 estabelece ainda que o incidente de deslocamento será apreciado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) a pedido do Procurador-Geral da República. 1o. mediante provocação. Qualquer inovação conduz à necessidade de estabelecimento de limites.stj. Disponível em: http:// www. Incidente de Deslocamento de Competência 2005/0029378-4. É importante ressaltar que tal deslocamento somente pode ser decidido por órgão jurisdicional. IDC 1 / PA. uma vez que o STJ é o órgão jurisdicional de cúpula entre justiça estadual e federal.26 Acredita-se ainda em um efeito no sentido inverso: a capilarização da promoção dos direitos humanos. Nesse sentido.gov. União Federal.jsp?b=ACOR&livre=federalização. mais de dois anos antes do instituto de federalização. mas não constitui solução mágica. Judiciário e Ministério Público – e sociedade civil devem conjugar esforços para fazer desse novo dispositivo constitucional um imperativo para a defesa dos direitos humanos.gov. de 08 de maio de 2002. O impacto de suas ações e omissões no plano internacional pode servir de estímulo ao melhor funcionamento das instituições locais em casos futuros.

2002. Da federalização das violações de direitos humanos. Tratados Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos e Federalização dos Crimes de Direitos Humanos na Reforma do Judiciário. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. Parecer apresentado ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana.). Rio de Janeiro: Renovar. Ricardo Lobo (org. 2001. 1997. Teoria dos Direitos Fundamentais. Celso. Legislação: Constituição Federal de 1988 FGV DIREITO rio 36 . Volume I. pp. Belo Horizonte: Editora Del Rey. 401-447.direitos humanos Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. 13ª edição. Leitura acessória: ALBUQUERQUE MELO. Curso de Direito Internacional Público. CANÇADO TRINDADE. GALINDO. George Rodrigo Bandeira. e PIOVESAN. Flávia. O parágrafo 2º da Constituição Federal” In: TORRES. Antônio Augusto. Rio de Janeiro: Renovar. Tratados Internacionais de Direitos Humanos e Constituição Brasileira. ______________________. Flávia. 1999. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris.

Acesso em: 23 fev. destaquem-se: (i) Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR). principal atribuição e programas a serem executados de acordo com o Plano Plurianual 2004-2007: Fatores Definição Órgãos colegiados e executivos. (vii) Defensoria Pública e Ministério Público. atuando preventiva ou punitivamente (no caso de terem ocorrido violações de direitos humanos). o extermínio. 2005. (ii) Conselhos Nacionais e Estaduais. (c) Conselho Nacional de Combate à Discriminação – CNCD. estadual e municipal. os seqüestros. Dentre os principais órgãos. e (e) Conselho Nacional dos Direitos do Idoso – CNDI. (b) Subsecretaria de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente – SPDCA. É nesse contexto que surgem diversos órgãos de proteção dos direitos humanos nos planos nacional. de 28 de maio de 2003.683. as chacinas.direitos humanos Aula 06: Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos NOTA AO ALUNO “Os Direitos Humanos são os direitos de todos e devem ser protegidos em todos Estados e nações. Disponível em: http://www. (b) Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA. (d) Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência – CONADE. Coordenação da Política Nacional de Direitos Humanos. Órgãos executivos: (a) Subsecretaria de Articulação da Política de Direitos Humanos – SAPDH.htm. Os assassinatos. dando destaque ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH). Trata-se do órgão da Presidência da República que tem por atribuições articular e implementar as políticas públicas voltadas para a promoção e implementação dos direitos humanos. assessorias. especialmente em um Estado e em uma sociedade que se desejam modernos e democráticos. em conformidade com as diretrizes do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH). e (c) Subsecretaria de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos – SPDDH. É preciso dizer não à banalização da violência e proteger a existência humana”27. o tráfico de drogas e as mortes no trânsito não podem ser consideradas normais. (iv) Comissões de Direitos Humanos das Assembléias Legislativas.br/ sedh/dpdh/gpdh/pndh/principal. sua composição. (v) Comissões de Direitos Humanos das Câmaras Municipais. abaixo. A SEDH foi criada pela Lei nº 10. (vi) Conselhos Municipais. (iii) Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. e grupos de trabalho temáticos. Seguem.mj. Os direitos humanos são assegurados pela Constituição Federal e por diversos tratados internacionais em que o Brasil é parte. tais documentos carecem de sentido se não houver mecanismos para garantir e promover os direitos humanos.gov. 27 Composição Principal atribuição FGV DIREITO rio 37 . o crime organizado. Programa Nacional de Direitos Humanos I. No entanto. Órgãos colegiados: (a) Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – CDDPH. Introdução.

htm.gov. acesse o site http://www. M. presidencia.br/sedh/cddph Conselho Nacional de Combate à Discriminação – CNCD – www. como mecanismos de participação e de legitimidade social iniciam-se no Brasil.gov. oportunidade na qual a Comissão de Trabalho. pdf.31 Já a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados foi criada por meio da Resolução n. presidencia. Ambos os conselhos têm como meta a promoção e defesa dos direitos humanos.br/sedh/cndi Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária – CNPCP – www. (e) Gestão da Política de Direitos Humanos. 4715/ 1994. de peça fundamental na proteção dos direitos humanos. e. G. (g) Promoção e Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente. em 13 de maio de 2003. abaixo. 31 FGV DIREITO rio 38 . (c) atuar por meio de resoluções.gov.presidencia. (b) Atendimento Socioeducativo do Adolescente em conflito com a lei. (d) promover estudos para aperfeiçoar a defesa dos direitos humanos.gov. Acesso em: 23 fev.gov.br/seppir ou www. de autoria do então deputado federal Projeto de Lei n.gov.br/spmulheres Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência – CONADE – www.presidencia. como fruto da organização e das lutas sociais. 11).asp?idserv info=43507&url=http://www. cabe destacar suas principais atividades: (a) receber denúncias de violações de direitos humanos de abrangência nacional e investigá-las em conjunto com as autoridades competentes locais. verificouse que o projeto de lei encontrava-se sujeito à apreciação do Plenário (http://www2.gov. a fim de dar maior agilidade às apurações de violações de direitos humanos.mj. órgão específico da SEDH/PR. (c) Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.planalto. 2003.br/EmConstrucao/pdf/Rel_OrgaoPrograma1. a lista dos conselhos nacionais e estaduais existentes: Conselhos Nacionais Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – CDDPH – www. 2005. o qual transforma o CDDPH no Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH). 2ª ed.gov. (d) Direitos Humanos. e (e) prestar informações para os organismos internacionais sobre a situação dos direitos humanos no país.mj.br/sedh/ct/ CONADE Conselho Nacional dos Direitos do Idoso – CNDI – www.direitos humanos Programas a serem executados (Plano Plurianual 20042007)28 (a) Assistência a Vítimas e a Testemunhas Ameaçadas. Tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei n. de Administração e Serviço Público designou um relator.. o deputado Tarciso Zimmermann (PT-RS). Cuida-se.mj. durante a “VIII Conferência Nacional dos Direitos Humanos”.br/cnpcp Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial – CNPIR – www. Direito de Todos. (f ) Nacional de acessibilidade.br/sedh/cncd Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA – www.camara. (h) Promoção e Defesa dos Direitos de Pessoas com Deficiência. e (i) Proteção da Adoção e Combate ao Seqüestro Internacional. Conselhos Gestores e participação política. 29 GOHN. Os conselhos nacionais e estaduais.br/internet/proposicoes). mj.htm (par.gov. mj. por sua vez. Disponível em: http://www. criado pela Lei n. (b) constituir comissões de inquéritos para facilitar as investigações. 30 Discurso proferido pelo Ministro Nilmário Miranda. de acordo com Gohn29.gov. assim.br/defaultCab.br/sedh/ct/di. A última ação ocorreu em 15 de setembro de 2004. 4319/1964. gov. Segue.br/sedh/ Conselho Nacional dos Direitos da Mulher – CNDM – www.mj. planobrasil.gov.gov. http://www. São Paulo: Cortez. 231. 4715/199430.br/seppir Outros órgãos colegiados nacionais: Comitê Nacional para a Educação em Direitos Humanos – CNEDH Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo – CONATRAE Conselhos Estaduais Conselho Estadual de Defesa dos Direitos do Homem e do Cidadão Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher Conselho Estadual dos Direitos do Idoso Conselho Estadual do Consumidor Conselho Estadual de Proteção de Vítimas e Testemunhas 28 Para maiores informações sobre o objetivo de cada programa.gov. Em relação ao CDDPH.br/ccivil_03/ Projetos/PL/pl4715. Em consulta realizada no site da Câmara dos Deputados em dia 23 de fevereiro de 2005.

Disponível em: http://www. uma vez que desempenha papel fundamental na proteção dos direitos humanos e na promoção da cidadania. A sociedade civil deve propor alternativas de políticas públicas. a lista dos conselhos municipais do Município do Rio de Janeiro e seus contatos35: Acesso em: 04 junho 2006. FGV DIREITO rio 39 . motivo pelo qual a Secretaria Especial de Direitos Humanos apóia os conselhos municipais já existentes. e (d) promover pesquisas e estudos relativos à situação dos direitos humanos no respectivo município. (c) realizar ou patrocinar campanhas e eventos locais com o objetivo de difundir e proteger os direitos humanos. Representou um marco na história dos direitos humanos do país. por sua vez.obrasocial-rj. podendo ainda haver comissões parlamentares de inquérito. Dentre suas atividades. os mesmos continuam sendo peça importante no combate às violações de direitos humanos.direitos humanos Nilmário Miranda. avaliar e investigar denúncias relativas à ameaça ou violação de direitos humanos. são importantes canais de participação coletiva e de criação de novas relações políticas entre governos e cidadãos por meio de um processo de interlocução permanente. sendo o recebimento de denúncias sua atividade principal. concretizou-se uma antiga reivindicação dos movimentos populares. 2005.32 A Assembléia Legislativa de cada Estado é composta por comissões permanentes e temporárias. A comissão de direitos humanos33 consiste em uma das comissões permanentes. (b) adotar providências e propor medidas para apurar violações de direitos humanos. criar espaços de debates. (b) fiscalizar e acompanhar programas governamentais relativos à proteção dos direitos humanos.gov. Acesso em: 23 fev. 2005. Segue. abaixo. são compostos por representantes do governo e da sociedade civil empenhados em discutir. (c) colaborar com organizações não-governamentais e internacionais que atuem na defesa dos direitos humanos. bndes. (b) escutar as vítimas de violações ou seus familiares. Destaquem-se suas principais atribuições: (a) receber denúncias de violações de direitos humanos e encaminhá-las ao órgão competente.br/comissoes/ cdhm.dhnet. org. 35 Acesso em: 26 fev. acesse o site http://federativo. 33 34 Para maiores informações.htm. Embora muitos conselhos municipais não funcionem da maneira como deveriam.br/direitos/brasil/legislativo/cdhcf/cartilha_cdh/19_comissoesassembleia. (d) lutar pela garantia e implementação de tais direitos. (c) opinar sobre proposições e assuntos ligados aos direitos humanos. Seus objetivos também são encaminhar denúncias. em 31 de janeiro de 1995.org.htm. implementar e avaliar em conjunto as políticas públicas referentes a determinado grupo da sociedade mais vulnerável. sugerir projetos e fiscalizar a atuação do Poder Público. Nesse sentido. Disponível em: http://www. a fim de que governo e sociedade civil possam atuar de forma articulada na proposição e no desenvolvimento de ações voltadas para a promoção e a proteção dos direitos humanos. o que tornou mais eficiente e rápido o trabalho investigativo intentado pelo legislativo brasileiro. É composta por 23 deputados e 23 suplentes e tem por finalidade investigar violações de direitos humanos. 32 Dispõe acerca de todas as Comissões de Direitos Humanos das Assembléias Legislativas. Já as Comissões de Direitos Humanos das Câmaras Municipais também têm caráter permanente e são marcadas pelas seguintes atribuições:34 (a) receber. destacam-se: (a) participar do estabelecimento da política municipal de direitos humanos. penetrar na lógica burocrática estatal para transformá-la e exercer o controle socializado das ações e deliberações governamentais. Os Conselhos Municipais de Direitos Humanos.br/dicas/D102%20%20Pol%C3%ADtica%20muni cipal%20de%20direitos%20hu manos. camara. html#parte2.gov. Ao criar o novo órgão técnico e suprapartidário. parlamentares e entidades de defesa dos direitos humanos. Disponível em: http://www2.br/enderecos1.

: 2502-2431 BIP: 2460.R 2.1010 – códigos: 4369915/ 4369895/ 4369893/ 4369894/ 4369892 Área de Abrangência: Tijuca/ Praça da Bandeira/ Alto da Boa Vista/ Vila Isabel/ Grajaú/ Andaraí/ Maracanã/ Aldeia Campista. Conselho Tutelar do Méier 4: C.2º andar -Tijuca – CEP.rj.: 2569-5722 BIP: 2460.rj. 20560-200 Tel/Fax.1010 – códigos: 4369926/ 4369920/ 4369918/ 4369925/ 4369913 FGV DIREITO rio 40 .: 2502-7122 R.rj. Conselho Tutelar de Ramos 5 C. 2205-3798 BIP: 2460.gov.: 2595-7086 BIP: 2460. de 9 às 18 horas.20765-170 Tel/Fax.1010 – códigos: 4369909/ 4369912/ 4369886/ 4369931/ 4369934 Área de Abrangência: Santo Cristo/ Caju/ Cais do Porto/ Saúde/ centro/ Aeroporto/ Bairro de Fátima/ Castelo/ Praça Mauá/ Rio Comprido/ Estácio/ Cidade Nova/ Catumbi/Triagem/ São Cristovão/ Mangueira/ Benfica/ Paquetá/ Santa Tereza. para contatos durante o final de semana use o bip Conselho Tutelar do Centro 1: C.br Conselho Municipal de Entorpecentes: comen@pcrj. 20211-260 Tel.R 3.br Conselhos Tutelares: Horário de funcionamento: de 2ª a 6ª feira. 22231-130 Tel/fax.gov. 267.br Conselho Municipal dos Direitos do Negro: condedine@pcrj. 56 – Laranjeiras – CEP.rj.gov. Conselho Tutelar de Laranjeiras 2: C.R 1 – Rua Salvador. 180 – Tel/Fax.gov.1010 – códigos: 4369923/ 4369924/ 4369929/ 4269901/ 4369930 Área de Abrangência: Méier/ Todos os Santos/ Engenho de Dentro/ Encantado/ São Francisco Xavier/ Rocha/ Piedade/ Abolição/ Consolação/ Riachuelo/ Água Santa/ Sampaio/ Lins/ Engenho Novo/ Complexo do Alemão/ Bonsucesso/ Olaria/ Inhaúma/ Esperança/ Higienópolis/ Maria da Graça/ Jacaré/ Engenho da Rainha/ Tomas Coelho/ Del Castilho/ Jacarezinho/ Vieira/ Fazenda. Conselho Tutelar de Vila Isabel 3: C.151 – Inhaúma – CEP .direitos humanos • • • • • • • • • • • Conselho Municipal da Criança e do Adolescente: cmdca@pcrj. s/nº – setor 4 (Sambódromo) – Centro – CEP . 3.A – Estrada Velha da Pavuna.gov.1/ XIIR.br Conselho Municipal de Assistência Social: cmas@pcrj.br Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência: comdef@pcrj.R 2.2 – Rua Professor Lacê.2 – Rua Conde de Bonfim.rj. 21060-120 Tel/fax: 2290-4762 BIP: 2460.1 – Rua São Salvador.R 3. 57 – Ramos – CEP.1010 – códigos: 4369899/ 4369905/ 4369898/ 4369904/ 4369935 Área de Abrangência: Botafogo/ Catete/ Glória/ Cosme Velho/ Flamengo/ Laranjeiras/ Humaitá/ Urca/ Praia Vemelha/ Copacabana/ Leme/ Jardim Botânico/ Ipanema/ Vidigal/ São Conrado/ Rocinha.

direitos humanos • • • • Área de Abrangência: Ramos/ Maguinhos/ Olaria/ Penha/ Vigário Geral/ Parada de Lucas/ Penha Circular/ Jardim América/ Cordovil/ Bras de Pina/ Ilha do Governador/ Ribeira/ Zumbi/ Cacuia/ Pitangueiras/ Praia da ribeira/ Cocotá/ Bancários/ Tauá/ Galeão/ Moneró/ Portuguesa/ Jardim Guanabara/ Cidade universitária/ Complexo da Maré/ Vila esperança/ Vila do João/ Vila do Pinheiro/ Praia de Ramos/ Timbau/ Maré/ Marcílio Dias/ Baixa do Sapateiro/ Nova Holanda/ Rubens Vaz/ Parque União/ Roquete Pinto/ Conjunto Pinheiro.: 3390-6420 BIP: 2460.1010 – códigos: 4369919/ 4369896/ 4369890/ 4369908/ 4369907 Área de Abragência: Bangu/ Campo dos Afonsos/ Santíssimo/ Deodoro/ Realengo/ Vila Militar/ Magalhães Bastos/ Padre Miguel/ Senador Camará/ Jardim Sulacap Conselho Tutelar de Campo Grande 9 C. 21610-380 Tel/Fax. 211 – Realengo – CEP. Conselho Tutelar de Madureira 6 C.1010 – códigos: 4369903/ 4369927/ 4369916/ 4369917/ 4369902 Área de Abrangência: Irajá/ Vicente de Carvalho/ Vila da Penha/ Vista Alegre/ Vila Cosmo/ Madureira/ Quintino Bocaiuva/ Bento Ribeiro/ Marechal Hermes/ Engenheiro Leal/ Turiaçu/ Campinho/ Rocha Miranda/ Osvaldo Cruz/ Anchieta/ Ricardo de Albuquerque/ Guadalupe/ Parque Anchieta/ Pavuna/ Coelho Neto/ Acari/ Barros Filho. Colônia Juliano Moreira – Jacarepaguá. CEP.1010 – códigos: 4369887/ 4369888/ 4369889/ 4369914/ 4369911 Área de Abrangência: Jacarepaguá/ Praça Seca/ Valqueire/ Taguara/ Freguesia/ Anil/ Tanque/ Curicica/ Camorim/ Gardênia Azul/ Cidade de Deus/ Pechincha/ Barra da Tijuca/ Recreio dos Bandeirantes/ Vargem Grande/ Piabas/ Grumari/ Itanhangá. Conselho Tutelar de Bangu 8 C.R 5.R5. 3.1 – Rua Oliveira Braga.400 – Prédio da Administração.2 – Rua: Coxilha s/nº – XVIII RA – Campo Grande – CEP. Augusto Pinheiro de Carvalho – Rua Xavier Curado.1010 – códigos: 4369906/ 4369900/ 4369891/ 4369897/ 4369928 Área de Abrangência: Campo Grande/ Santíssimo/ Senador Augusto Vasconcelos/ Mendanha/ Rio da Prata/ Monteiro/ Guaratiba/ Pedra de Gauratiba/ Morro da Pedra/ Praia do Aterro/ Ilha Guaratiba FGV DIREITO rio 41 . 23085-570 Tel/Fax: 2413-3125 BIP: 2460. 21715-000 Tel.R 4 – Estrada Rodrigues Caldas. 1733 – Marechal Hermes – CEP. 22713-370 Telefone: 2446-6508 BIP: 2460.3 – CIEP./Fax: 3332-3744 BIP: 2460.R 3. Conselho Tutelar de Jacarepaguá 7 C.

O Ministério Público. você também pode procurar o Conselho Tutelar e/ou a Delegacia Especializada em Crimes contra Crianças e Adolescentes. (c) investigar. as medidas que um indivíduo deve tomar quando presenciar ou souber de uma violação de direitos humanos37: Em caso de crime. acesse o site http://www. do regime democrático e dos interesses coletivos e individuais indisponíveis.º – Santa Cruz – CEP. Em uma apertada síntese.gov. 2005.html. o Defensor Público irá encaminhá-la ao Poder Judiciário ou poderá resolver o conflito entre as partes extrajudicialmente.direitos humanos • Conselho Tutelar de Santa Cruz 10 C. 23570-220 Tel. bem como possui centros de atendimento ao público.rndh. (e) expedir recomendações aos poderes públicos a fim de que façam cessar violações de direitos humanos. A Defensoria Pública. encontra-se o encaminhamento de denúncia de direitos humanos. cujas principais atribuições são36: (a) requisitar informações. 37 As informações contidas abaixo foram extraídas. Acesso em: 23 fev.1010 – códigos: 4369910/ 4369922/ 4369933/ 4369932/ 4369921 Área de Abrangência: Santa Cruz/ Paciência/ Sepetiba Considerados Funções Essenciais à Justiça pelo Texto Constitucional. de preferência junto à delegacia mais próxima.O. exerce outras atividades.br/ denuncia. s/n. 36 Para maiores informações. consumidor.R 5.dhnet. exatamente da maneira como estavam. Entre as formas existentes para a consecução de tais fins.html. denunciar o fato à polícia. Sendo assim.br/direitos/brasil/apoio/ mpublico/mpdh. seguem. 75/93 designou o Procurador dos Direitos do Cidadão. abaixo. ao passo que cabe ao Ministério Público a defesa da ordem jurídica. aos moldes do ombudsmen nórdico. (b) instaurar inquéritos. Nos casos de atos infracionais praticados por adolescentes. por sua vez. a Lei Complementar n. coletivos ou sociais.3 – Rua: Olavo Bilac. como o recebimento de denúncias de violações ou ameaças de direitos humanos. FGV DIREITO rio 42 . Competem à Defensoria Pública a orientação jurídica e a defesa em todos os graus da comunidade carente. Especificamente no que se refere ao Ministério Público Federal.: 3395-0988/Fax. org. ambas as instituições têm o dever de proteger os direitos humanos e combater suas violações. conforme o artigo 129 CF. Ao receber uma denúncia de violação de direitos humanos. de acordo com o artigo 134 CF. 3395-1445 BIP: 2460. Disponível em: http://www. A polícia é a porta de entrada do sistema de garantia de direitos e poderá orientá-lo(a) e fornecer informações relativas ao andamento de sua denúncia. cível. entre outras) junto ao Judiciário e extrajudicialmente na composição de conflitos. No caso de violência cometida contra criança ou adolescente. que deverá emitir um Boletim de Ocorrência (B.) e iniciar procedimentos de investigação. com um mandato de dois anos. (d) notificar violações a direitos individuais. além do papel tradicional de fiscal da lei e acusador público. do site da Rede Nacional de Direitos Humanos. atua em diversas áreas (criminal. você deve preferencialmente encaminhar a denúncia à Delegacia Especializada de Investigação de Atos Infracionais praticados por Adolescentes. O mesmo site disponibiliza o contato dos órgãos mencionados. a Defensoria Pública e o Ministério Público são instituições necessários à atividade jurisdicional do Estado.

Ceará. org. procurar a Delegacia de Polícia mais próxima. Pelo exposto.br/direitos/brasil/textos/principioparis.htm. Pernambuco. Rio Grande do Sul. indaga-se: A quem você deve recorrer quando souber de uma violação cometida contra uma criança? Quais são os principais órgãos de proteção e promoção dos direitos humanos no âmbito nacional? Quais são as principais funções da Secretaria Especial dos Direitos Humanos? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: Princípios de Paris. ainda. Importante: Caso sua denúncia tenha sido negligenciada ou colocada em dúvida pelos órgãos policiais. Rio de Janeiro. ou caso haja suspeita de que a violação tenha sido praticada por agente policial. Legislação: Constituição Federal de 1988 FGV DIREITO rio 43 . Bahia. Acesso em: 23 fev.gov. que tem Seccionais e Comissões de Direitos Humanos em todos os Estados da Federação. procurar o Ministério Público de seu Estado para fazer sua denúncia. Minas Gerais. Procurar orientação junto a conselhos de defesa de direitos humanos e/ou organizações da sociedade em seu município/Estado. Não havendo delegacias especializadas. 2004. Recorrer a serviços de disque-denúncia. você pode: Contactar a Ouvidoria de Polícia em seu Estado.dhnet. para toda violação de direitos humanos. encaminhar sua denúncia à Polícia Federal pelo e-mail dcs@dpf. Paraná e Espírito Santo. Pará. Já existem ouvidorias de polícia nos seguintes Estados: São Paulo. você deve preferencialmente encaminhar sua denúncia à Delegacia da Mulher mais próxima ou procurar os conselhos de defesa dos direitos da mulher.br.direitos humanos No caso de violência sofrida pela mulher. Disponível em: http://www. além disso. como o Movimento Nacional de Direitos Humanos – MNDH. Você também pode procurar orientação junto à Ordem dos Advogados do Brasil – OAB. Você pode. ou.

a universalidade. com o intuito de reconstruir os direitos humanos e trazer a dignidade da pessoa humana para o centro das relações entre Estados.1976 (PIDCP). da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). por tal motivo. A Carta das Nações Unidas. em 1945. por consenso dos Estados. o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. com os principais objetivos: (i) manutenção da paz e da segurança internacionais. uma vez que surgiu após as enormes atrocidades ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial. embora estabeleça a necessidade de proteção e promoção dos “direitos humanos e liberdades fundamentais”. assim. que. assim. com base no princípio da dignidade da pessoa humana. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. sociais e culturais são programáticos e. foi criada a Organização das Nações Unidas. interdependência e indivisibilidade dos direitos humanos. (ii) integra o direito costumeiro internacional e/ ou os princípios gerais de direito e. ambos com força obrigatória.1976 (PIDESC) e 23. Seja qual for a posição sustentada. não os define.03. demandam realização progressiva. São Paulo: Max Limonad. não comportando força vinculante – visão estritamente legalista.direitos humanos Aula 07: Sistema global: mecanismos convencionais e não-convencionais de proteção dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O movimento de internacionalização dos direitos humanos é bastante recente na história. com a adoção de dois tratados internacionais. apenas atesta o reconhecimento de um código comum a ser seguido por todos os Estados. Dessa forma. a Organização Internacional do Trabalho e a Liga das Nações. (iii) por ser uma Declaração e não um tratado. só entraram em vigor em 03. há divergências quanto a sua força vinculante: (i) constitui interpretação autorizada da expressão “direitos humanos”. Sociais e Culturais (PIDESC)39.12. além de definir tais expressões. ao afirmar ser os direitos civis e políticos autoaplicáveis enquanto que os direitos econômicos. em 16. dando ensejo à adoção. A Carta das Nações Unidas consolidou o Direito Internacional dos Direitos Humanos e fez surgir uma nova ordem internacional que. Os principais precedentes do processo de internacionalização dos direitos humanos são o Direito Humanitário. 2002.1966. 39 FGV DIREITO rio 44 . uma vez que rompem com a noção de que o Estado é o único sujeito de Direito Internacional e com a noção de soberania absoluta. colocou a proteção dos direitos humanos em seu centro. Adotados pela Assembléia Geral através da Resolução n. estabelece.01. o fato é que houve um processo de “juridicização”38 da DUDH. Contudo. bem como da prevalência da posição ocidental. pois admitem intervenções na esfera nacional em prol da proteção dos direitos humanos. que dividia o mundo em capitalismo e socialismo. e. é dotada de força vinculante. A DUDH é um marco no Direito Internacional dos Direitos Humanos. sendo a DUDH uma declaração e não um tratado. Capítulo VI. iniciado em 1949 mas só concluído em 1966. (ii) promoção dos direitos humanos no âmbito internacional. p. tem força vinculante. Flávia. 164. (iii) cooperação internacional nas esferas social e econômica. constante na Carta das Nações Unidas. uma vez que. sustentava que as duas categorias de direitos 38 PIOVESAN. em 1948. Contudo. A criação de dois pactos distintos ocorreu em virtude do contexto da Guerra Fria. 2200-A (XXI).

que o Direito Internacional dos Direitos Humanos é suplementar e paralelo ao direito nacional. estabelecido pela Declaração de Viena de 1993. como a tortura (Convenção Internacional contra a Tortura). pela vítima. o Estado deve ter ratificado tanto o PIDCP quanto o Protocolo Facultativo. Sociais e Culturais (criado pelo Conselho Econômico e Social). Os mecanismos convencionais são aqueles criados por convenções específicas de direitos humanos. por oportuno. Segundo Protocolo: estabelece a abolição da pena de morte. Comitê sobre Direitos Econômicos. o quadro. faz-se necessário o cumprimento dos requisitos de admissibilidade: prévio esgotamento dos recursos internos (salvo por demora injustificada. pois prevê apenas o mecanismo dos relatórios. Não tem um Comitê próprio. inexistência do devido processo legal ou impossibilidade de acesso. juntamente com os dois Pactos. PIDESC Compreende um rol de direitos mais extensos do que o da DUDH. Dentre as funções do Comitê de Direitos Humanos. sendo os respectivos Comitês análogos ao Comitê de Direitos Humanos criado pelo Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. Devem ser realizados progressivamente. Amplitude Sistemática de monitoramento Sistemática de implementação Protocolos O sistema global é composto por mecanismos convencionais e mecanismos nãoconvencionais de proteção dos direitos humanos. para que uma petição individual seja interposta. para fins exemplificativos. que tenha sido criado pelo PIDESC. comunicações interestatais e relatórios. a seguir. Ressalte-se. Quanto à abrangência e sistemáticas de implementação e monitoramento de ambos os Pactos Internacionais. que inaugura o sistema global de proteção dos direitos humanos. 40 O Comitê só poderá apreciar a comunicação interestatal caso os dois Estados envolvidos tiverem feito uma declaração em separado. demonstra um breve resumo: PIDCP Compreende um rol de direitos mais extensos do que o da DUDH. O projeto do protocolo adicional que prevê a petição individual está em fase de elaboração. destaquem-se: (i) receber petições individuais. (iii) requerer dos Estados informações sobre determinada situação. São auto-aplicáveis. Há também o sistema de indicadores. uma vez que é também composto por diversos tratados multilaterais de direitos humanos referentes as violações específicas de direitos. por sua vez. o quadro. O sistema global. O Comitê de Direitos Humanos concluiu que não apenas o indivíduo que sofreu a violação. Embora haja inúmeros tratados de direitos humanos. aos recursos internos) e inexistência de litispendência no plano internacional. Ainda. Relatórios. É peculiar. (ii) proferir uma decisão em relação à petição individual que apenas declare que a violação resta caracterizada ou que determine que o Estado repare a violação cometida. mas também ong e terceiros podem representá-lo e. Protocolo Facultativo: estabelece o mecanismo de petições individuais. tendo em vista que o acesso a este mecanismo é opcional. encaminhar comunicações. assim. faz referência a apenas quatro convenções específicas e seus mecanismos convencionais: FGV DIREITO rio 45 . a discriminação racial (Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial). formam a Carta Internacional dos Direitos Humanos ou International Bill of Rights. sendo uma garantia adicional à proteção dos direitos humanos sempre que os instrumentos nacionais sejam omissos. e que os procedimentos internacionais têm natureza subsidiária. 41 Para que um indivíduo possa encaminhar uma petição individual. ou seja. a discriminação contra as mulheres (Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher). comunicações interestatais40 (ambos dispostos no próprio Pacto) e petições individuais (Protocolo Facultativo)41. Comitê de Direitos Humanos (criado pelo Pacto) – sua decisão não tem força vinculante e não há sanção efetiva para o Estado que não a cumpre. A Declaração Universal. não se restringe à Carta Internacional.direitos humanos não poderiam estar em um só pacto. abaixo. apenas no plano político: power of embarrassment.

Quanto ao Brasil. de 15.09.01. como a Assembléia Geral e o Conselho Econômico e Social. a denúncia pode versar sobre qualquer direito humano. 45 A competência do Comitê só foi ampliada para receber petições individuais e realizar investigações in loco com a adoção do Protocolo Facultativo à Convenção em 1999.1990. comunicações interestatais e petições individuais (estabelecidos pela Convenção). em 26. a competência do Comitê contra a Tortura para apreciar petições individuais. reconhecendo.12. A competência dos Comitês para receber petições individuais está vinculada à declaração feita em separado pelo Estado (no caso da petição individual estar prevista na própria Convenção) ou pela ratificação do Protocolo Facultativo. desumanos ou degradantes. Contudo. 44/35. Ainda.doc.asp?N ewsID=17811&Cr=rights&Cr1 =council. 42 É importante ressaltar que os Comitês têm competência para avaliar comunicações que contenham violação a direito disposto apenas na Convenção que o criou. Acesso em: 20 março 2006. Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n. 34/180. só entrou em vigor em 04.direitos humanos Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial42 Sistemática de monitoramento Comitê sobre a Eliminação de Discriminação Racial Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher43 Comitê sobre a Eliminação de Discriminação contra as Mulheres Convenção Internacional contra a Tortura44 Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança45 Comitê contra a Tortura Relatórios. Os mecanismos não-convencionais. O governo brasileiro ratificou recentemente (12/01/2007) o Protocolo Facultativo à Convenção contra tortura e outros tratamentos ou penas cruéis.1969. uma vez que demonstram a diferença entre os mecanismos convencionais de proteção dos direitos humanos e os mecanismos não-convencionais. um artigo da ONU referente à Resolução 60/251. em 20. 47 FGV DIREITO rio 46 .06.1965. só entrou em vigor em 03. de 15.12. Há 2 Protocolos Facultativos: sobre Conflito Armado e sobre Prostituição Infantil. em 10. 2106 (XX). Focar-se-á no Conselho de Direitos Humanos (CDH). Acesso em: 20 março 2006. em 18.1979. un. segue. a seguir. 39/46. mecanismo não-convencional criado pela Assembléia Geral.1981.2005) – http:// w w w. comunicações interestatais e petições individuais (estabelecidos pela Convenção) Relatórios (estabelecido pela Convenção). petições individuais e realização de investigações in loco (Protocolo)46 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n. só entrou em vigor em 02. são aqueles decorrentes de resoluções elaboradas por órgãos das Nações Unidas.11. 46 A Resolução da Assembléia Geral da ONU ainda não está disponível.1987. Sistemática de implementação Relatórios. Caráter inovador: o Comitê pode iniciar uma investigação própria caso receba informações de fortes indícios de tortura.htm. Contudo.1989. Comitê sobre os Direitos da Criança Somente prevê os relatórios (estabelecido pela Convenção). Esses pontos são relevantes. só entrou em vigor em 26.un. n. 43 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n. a aula deverá destacar que o mesmo só não reconheceu a competência tanto do Comitê de Direitos Humanos.org/apps/news/story. Contudo. uma vez que possui posição central no sistema não-convencional de proteção. a apresentação de denúncias por indivíduos ou grupos de indivíduos aos Comitês não depende da ratificação de convenções específicas nem de declaração relativa a cláusulas facultativas ou de ratificação de protocolo adicional.2006: http://www.03. tendo em vista que em relação ao último. Dessa forma.org/News/Press/ docs/2005/ga10449.1984. 44 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n. 10449. Notícia de imprensa da ONU relacionada a tal resolução (da Assembléia Geral da ONU.12.09. por conseguinte.03. Contudo. por sua vez.

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O CDH foi criado em 15 de março de 2006, tendo substituído a Comissão de Direitos Humanos efetivamente a partir de 16 de junho de 2006, data de sua abolição47. A resolução foi aprovada por 170 votos a favor e 4 contra – EUA, Israel, Ilhas Marshall e Palau48. Dentre os avanços trazidos com o estabelecimento do Conselho de Direitos Humanos, destaquem-se: (i) gozo de maior status, já que será um órgão subordinado à Assembléia Geral (enquanto que a Comissão era subordinada ao Conselho Econômico e Social); (ii) um maior número de reuniões ao longo do ano; (iii) constituição por representação geográfica igual; (iv) o direito de votar estará associado com membership. Ressalta-se, ainda, que o Conselho será composto por 47 membros, os quais serão escolhidos por maioria absoluta da Assembléia Geral. O CDH tem as mesmas funções que a extinta Comissão de Direitos Humanos: (i) competência genérica de atuar em quaisquer questões ligadas aos direitos humanos (estabelecida em 1946, no momento de sua criação); e (ii) apreciação de casos específicos de violações de direitos humanos (a partir de 1967). Em relação à apreciação desses casos específicos, o CDH segue dois procedimentos: procedimento 123550 e procedimento 150351 (alterado pela Resolução 2000/3, do Conselho Econômico e Social). O procedimento 1235 autorizou o CDH e a Sub-Comissão para a Promoção e para a Proteção de Direitos Humanos, a examinarem informações relativas às violações sistemáticas de direitos humanos, o que hoje se traduz na realização de um debate público anual e na investigação e análise de casos específicos pelo CDH e pela citada Sub-Comissão. Em se tratando do procedimento 1503, o mesmo foi criado a fim de que fossem examinadas comunicações referentes à violação sistemática de direitos humanos. Com a adoção da Resolução 2000/3, o Grupo de Trabalho sobre Situações é que se tornou o responsável da análise dos casos, elaboração de recomendações, bem como pela decisão de submeter ou não um caso ao CDH. O Grupo de Trabalho sobre Situações, após analisar o caso, poderá enviá-lo ao Conselho de Direitos Humanos, que, por sua vez, poderá adotar uma das seguintes medidas: (i) manter a situação sob análise, requerendo maiores informações do Estado envolvido; (ii) cancelar o estudo da situação sob a Resolução 1503 e iniciar um procedimento público sob a Resolução 1235; (iii) apontar um especialista independente. Destaque-se que ambos os procedimentos possibilitam que o CDH nomeie um Relator Especial com mandato para países específicos. Além dessas funções, o CDH também pode designar relatores temáticos ou grupos de trabalho com o objetivo de examinarem determinadas violações de direitos humanos. Os Grupos de Trabalho, Relatores Especiais e Representantes Especiais desempenham as seguintes atividades: (i) busca e recebimento de informações; (ii) questionar os governos sobre sua legislação e prática doméstica; (iii) envio, aos governos, de alegações sobre casos urgentes a fim de obter um esclarecimento; (iv) aceitar ou recusar o convite feito por determinado país para visitá-lo em virtude da ocorrência de violações referentes ao seu mandato; (vi) realização de visitas; e (vii) relato anual de suas atividades ao Conselho de Direitos Humanos.

48 In ‘historic’ vote, General Assembly creates new UN Human Rights Council. UN News Centre. Disponível em: http://www. un.org/apps/news/stor y. asp?NewsID=17811&Cr=right s&Cr1=council. Acesso em: 20 março 2006.

Criado pela Resolução 1235 do Conselho Econômico e Social, em 6 de junho de 1967.
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Criado pela Resolução 1503 do Conselho Econômico e Social, em 27 de maio de 1970.
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O Brasil já recebeu a visita dos seguintes relatores especiais52,: Sr. Juan Miguel Petit – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a venda de crianças e prostituição infantil e a utilização de crianças na pornografia; Sra. Asma Jahangir – Relatora Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre execuções sumárias, extrajudiciais ou arbitrárias; Sr. Jean Ziegler – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre o direitos à alimentação; Sr. Doudou Diène – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e formas conexas de intolerância; Sr. Nigel Rodley – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a questão de tortura; Sr. Leandro Despouy – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a independência de juízes e de advogados. Diante do exposto, indaga-se: Como se dá a nomeação de um relator especial? Um indivíduo brasileiro pode encaminhar uma comunicação individual ao Comitê de Direitos Humanos? Tendo em vista a consagração da indivisibilidade dos direitos pela Declaração Universal de Direitos Humanos, por que foram elaborados dois Pactos distintos (Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais)? O que significa a consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos para o indivíduo e para o Estado? Qual é a importância da II Conferência Mundial de Direitos Humanos realizada em Viena, em 1993?
MATERIAL DE APOIO Textos:

Leitura obrigatória: PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. São Paulo: Max Limonad, 2002. Capítulo VI. pp. 163-179 (Cap. VI; itens “a”- “c”); pp. 216-224 (Cap. VI; item “k”). Leitura acessória: TRINDADE, Antonio Augusto Cançado. O direito internacional em um mundo em transformação. Rio de Janeiro: Renovar, 2002. p. 627-670. Legislação: Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Segundo Protocolo ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos referente à Abolição da Pena de Morte Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais Carta das Nações Unidas Declaração Universal de Direitos Humanos Declaração e Programa de Ação de Viena

52 Até a presente data, i.e., novembro de 2004.

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Aula 08: Sistemas regionais de proteção dos direitos humanos
NOTA AO ALUNO

A par do sistema global de proteção dos direitos humanos, há três sistemas regionais de proteção dos direitos humanos: o sistema europeu, o sistema interamericano e o sistema africano. Os sistemas regionais complementam o sistema global, tendo em vista que têm o mesmo objetivo: a proteção do indivíduo e o combate às violações dos direitos humanos. Sendo assim, o indivíduo que tiver um direito violado, pode optar pelo sistema que melhor lhe favoreça, já que vigora, no âmbito internacional, o princípio da norma mais favorável à vitima. O sistema europeu tem por fundamento a Convenção Européia sobre Direitos Humanos, de 1950. Em 1961, tal Convenção foi complementada pela Carta Social Européia (tendo em vista que dispunha apenas sobre os direitos civis e políticos) e, em 1983, foi emendada pelo Protocolo n. 11, que trouxe inovações fundamentais ao funcionamento do sistema: (i) reestruturação profunda dos mecanismos de controle da Convenção (substituição dos 3 órgãos de decisão – Comissão, Corte e Comitê de Ministros do Conselho da Europa – por um só órgão: a Corte Européia de Direitos Humanos); (ii) funcionamento de uma única Corte, em tempo integral (a nova Corte Européia de Direitos Humanos passou a operar em 1o de novembro de 1998); (iii) assegura o acesso direto à Corte aos indivíduos, i.e., o indivíduo passa a ter ius postulandi. Dessa forma, constata-se que o sistema europeu é o mais avançado no que diz respeito ao reconhecimento da capacidade processual internacional ativa dos indivíduos, uma vez que é o único sistema regional de proteção dos direitos humanos que permite ao indivíduo postular diretamente à Corte. O sistema africano, por sua vez, tem por principal instrumento a Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos, adotada em 1981 e em vigor a partir de 1986, que prevê tanto os direitos civis e políticos quantos os direitos econômicos, sociais e culturais. A referida Carta tem por objetivo priorizar os direitos dos povos. As disposições da Carta relativas aos direitos dos povos demonstram a tendência moderna à coletivização dos direitos do homem. Nesse contexto, tem-se que a Carta apresenta a singularidade de colocar, no mesmo documento, conceitos considerados antagônicos: indivíduo e povo, direitos individuais e direitos coletivos, direitos sociais, econômicos e culturais e direitos civis e políticos. Quanto aos mecanismos de proteção e promoção dos direitos humanos, a Carta Africana estabelece a Comissão Africana de Direitos Humanos e dos Povos, podendo a mesma ser provocada por um Estado-parte ou por indivíduos. Já o protocolo adotado em Ovagadongou (em 9 de junho de 1998), Burina Faso, que entrou em vigor em 25 de janeiro de 2004 (30 dias após o 15o Estado – número mínimo exigido – tê-lo ratificado53), estabelece a Corte Africana de Direitos Humanos e dos Povos como órgão complementar ao labor da Comissão. Em se tratando do sistema interamericano, o mesmo tem como origem a IX Conferência Interamericana54, oportunidade na qual foram aprovadas a Declaração

Acesso em: 25 jan. 2005. Disponível em: http://www. fidh.org/article.php3?id_article=450.
53 54 Realizada em Bogotá, Colômbia, de 30 de março a 2 de maio de 1948.

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em 1969 (entrou em vigor apenas em 1978). aproximadamente seis meses antes da adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral das Nações Unidas. em maio de 1948. que confirmou ser a promoção dos direitos humanos a função da Comissão.org/juridico/spanish/firmas/b-32. com as modificações ocorridas em seu Estatuto. O primeiro passo foi a criação de um órgão especializado na proteção dos direitos humanos no âmbito da OEA. FGV DIREITO rio 50 . assim. criou-se a Corte Interamericana de Direitos Humanos e a Comissão passou a ser dotada de novas atribuições56.oas. a lista dos Estados que a ratificaram57: PAÍSES SIGNATÁRIOS Antigua y Barbuda Argentina Bahamas Barbados Belize Bolívia Brasil Canadá Chile Colômbia Costa Rica Dominica Ecuador El Salvador Estados Unidos Grenada Guatemala Guyana Haiti Honduras Jamaica México Nicarágua Panamá Paraguay FIRMA 02/02/84 06/20/78 11/22/69 11/22/69 11/22/69 11/22/69 11/22/69 06/01/77 07/14/78 11/22/69 11/22/69 09/16/77 11/22/69 11/22/69 11/22/69 RATIFICAÇÃO 08/14/84 11/05/81 06/20/79 07/09/92 08/10/90 05/28/73 03/02/70 06/03/93 12/08/77 06/20/78 07/14/78 04/27/78 09/14/77 09/05/77 07/19/78 03/02/81 09/25/79 05/08/78 08/18/89 A Carta da OEA. Em 1960. Segue. Disponível em: http://www. Constata-se. foi adotada em conjunto com a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem na IX Conferência Interamericana. respectivamente. foi aprovado pelo Conselho da OEA o Estatuto da Comissão. No entanto. Acesso em: 03 maio 2004. 56 57 Informações obtidas no site oficial da Organização dos Estados Americanos (OEA). Em 1965. 55 A Comissão e a Corte serão estudadas. no período que antecede a adoção da Convenção Americana de Direitos Humanos. continua sendo a principal base normativa vis-à-vis dos Estados não-partes da Convenção. durante a 5ª reunião de consultas dos Ministros de Relações Exteriores realizada em Santiago do Chile.html.direitos humanos Americana de Direitos e Deveres do Homem e a Carta da Organização dos Estados Americanos (OEA)55. que dos 34 Estados-membros da OEA. Sendo assim. Após a adoção da Carta da OEA e da Declaração Americana. foi aprovada a proposta de criação de um órgão destinado à promoção dos direitos humanos (mais tarde denominado Comissão Interamericana de Direitos Humanos) até a adoção de uma Convenção Interamericana de Direitos Humanos. que emendou a Carta da OEA. Com a adoção da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção Americana) ou Pacto de San José da Costa Rica. a mesma só se tornou o principal órgão da OEA após a adoção do Protocolo de Buenos Aires em 1967. até hoje. a Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem foi a base normativa central do sistema interamericano e. Em 1959. nas próximas duas aulas. a Comissão se transformou em um órgão de fiscalização da situação dos direitos humanos nos Estados da OEA. 25 deles ratificaram a Convenção Americana. abaixo. em vigor desde 13 de dezembro de 1948. o sistema interamericano foi se desenvolvendo lentamente.

da Corte Africana e da Corte Européia de Direitos Humanos? Qual é a importância.direitos humanos Peru República Dominicana San Kitts y Nevis Santa Lucía St. Dessa forma. a Convenção Americana reconhece um catálogo de direitos civis e políticos. ao estabelecer que os Estados-partes não podem aplicar em seu território a pena de morte a nenhuma pessoa sujeita a sua jurisdição. foi elaborado o Protocolo Adicional à Convenção Americana em matéria de Direitos Econômicos. da incorporação. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (1994). Há. pelos Estados. que se limita a prever o “desenvolvimento progressivo” dos mesmos. reservas (salvo em tempo de guerra). Nesse sentido. dos instrumentos de proteção dos direitos humanos? FGV DIREITO rio 51 . também. Este Protocolo. sociais e culturais. Cabe salientar ainda que o sistema interamericano de direitos humanos contemporâneo não se limita à Convenção Americana e aos dois protocolos. deu novo ímpeto à tendência a favor da abolição da pena de morte.2 a 4. (c) Convenção Interamericana para Prevenir. pergunta-se: por que ambos os sistemas são complementares? Qual o fundamento de haver um sistema interamericano de proteção dos direitos humanos quando já há um sistema de abrangência global? Em relação aos sistemas regionais. a fim de suprir a lacuna do artigo 26. Em relação ao sistema global. quatro convenções interamericanas “setoriais” mais recentes: (a) Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura (1985). O segundo Protocolo Adicional à Convenção Americana é relativo à abolição da pena de morte (1990). ela restringe ao artigo 26 a consagração dos direitos econômicos. não admitindo. (b) Convenção Interamericana sobre Desaparecimento Forçado (1994). Vicente & Grenadines Suriname Trinidad & Tobago Uruguay Venezuela 07/27/77 09/07/77 11/22/69 11/22/69 07/12/78 01/21/78 11/12/87 04/03/91 03/26/85 06/23/77 À semelhança do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos.6 da Convenção Americana. portanto. para o sistema interamericano. indaga-se: Qual é o diferencial do disposto na Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos? Por que o sistema europeu é considerado o mais avançado? Qual é a diferença entre o papel da Corte Interamericana. Sociais e Culturais (ou Protocolo de San Salvador) em 1988 (entrou em vigor em 1999). verifica-se a complementaridade entre o mesmo e o sistema interamericano. e (d) Convenção Interamericana sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Pessoas Portadoras de Deficiências (1999). No entanto. dando um passo adiante no que concerne o disposto no artigo 4.

p. 2006. PIOVESAN. Legislação: Convenção Européia sobre Direitos Humanos e Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem e Convenção Americana sobre Direitos Humanos Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura Convenção Interamericana sobre Desaparecimento Forçado Convenção Interamericana para Prevenir. Capítulo IV. São Paulo: Saraiva.direitos humanos MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. Flávio Luiz. In: GOMES. Flávia. 2000. O sistema interamericano de proteção dos direitos humanos e o direito brasileiro. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher Convenção Interamericana sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Pessoas Portadoras de Deficiências (1999) FGV DIREITO rio 52 . Direitos humanos e justiça internacional. 103-151. São Paulo: Editora dos Tribunais. Antonio Augusto. pp. 72-84. 50-59. O sistema interamericano de direitos humanos no limiar do novo século: recomendações para o fortalecimento de seu mecanismo de proteção. Flávia. Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE.

direitos humanos

Aula 09: Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos
NOTA AO ALUNO

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão) originou-se da Resolução VIII da V Reunião de Consulta dos Ministros de Relações Exteriores (Santiago, 1959). Em 1960, foi aprovado pelo Conselho da OEA o Estatuto da Comissão, que confirmou ser a promoção dos direitos humanos a função da Comissão. Em 1965, com as modificações ocorridas em seu Estatuto, a Comissão se transformou em órgão de fiscalização da situação dos direitos humanos nos Estados da OEA. No entanto, a mesma só se tornou o principal órgão da OEA após a adoção do Protocolo de Buenos Aires em 1967, que emendou a Carta da OEA. A Comissão é composta por sete membros eleitos pela Assembléia Geral por um período de 4 anos, podendo ser reeleitos apenas uma vez. Em relação às suas funções, são elas: conciliadora; assessora; crítica; legitimadora; promotora; protetora. Com a adoção da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção) ou Pacto de San José da Costa Rica, em 1969 (entrou em vigor apenas em 1978), a Comissão passou a ser dotada de novas atribuições. Isto significa que, a partir da adoção da Convenção, a Comissão passou a ser tanto o principal órgão da OEA quanto órgão do referido instrumento. Dessa forma, todos os Estados da OEA têm o dever de proteger e promover os direitos humanos, seja por meio do disposto na Carta da OEA e na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (para os Estados-membros da OEA), seja por meio do estabelecido na Convenção (para os Estados-partes). Sendo assim, verifica-se a coexistência de dois sistemas em relação à Comissão: o sistema da OEA e o sistema da Convenção. No entanto, por se tratar de aula referente ao sistema interamericano, focaremos o estudo da Comissão no sistema da Convenção. A Comissão tem competência para examinar comunicações encaminhadas por indivíduo, grupo de indivíduos ou organizações não governamentais, que contenham denúncia de violação a direito consagrado na Convenção, cometida por algum Estado-parte. Isto porque os Estados, ao se tornarem parte da Convenção, aceitam automática e obrigatoriamente a competência da Comissão para apreciar denúncias contra eles. Dessa forma, a comunicação individual é obrigatória e a comunicação interestatal58 é facultativa no sistema interamericano, ao passo que no sistema europeu ocorre o oposto. Em relação ao procedimento da petição perante a Comissão, verificam-se quatro fases: (a) fase da admissibilidade; (b) fase da conciliação; (c) fase do Primeiro Informe; e (d) fase do Segundo Informe ou a propositura de uma ação de responsabilidade internacional perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Dessa forma, pode-se sintetizar a apreciação de uma denúncia pela Comissão da seguinte forma:

58 Em outras palavras, a Comissão só poderá analisar a comunicação interestatal (um Estado denuncia o outro por violação a algum direito humano) quando ambos os Estados, além de terem ratificado a Convenção, declararem expressamente que reconhecem a competência interestatal da Comissão.

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Recebe denúncia  aprecia sua admissibilidade (i.e., se os seguintes requisitos foram observados: prazo, prévio esgotamento de recursos internos e a inexistência de litispendência internacional)  considera-a admissíve  requer informações ao Governo e à parte  tenta uma solução amistosa  não ocorrendo, a Comissão envia o 1º informe ao Governo, dando-lhe um prazo de 3 meses para cumprir as exigências  Estado não cumpriu  Comissão envia o caso à Corte ou elabora o 2º informe. Ainda, cabe mencionar que a Comissão pode iniciar um caso de oficio (art. 24, Regulamento Comissão), se possuir informações necessárias. Saliente-se, também, a função preventiva exercida pela Comissão. Em decorrência de suas recomendações de caráter geral dirigidas a determinados Estados, ou formuladas em seus relatórios anuais, foram derrogados ou modificados leis, decretos e outros dispositivos que afetam negativamente a vigência dos direitos humanos. Ainda, a função preventiva da Comissão pode ser observada na elaboração de medidas cautelares e, inclusive, ao solicitar à Corte que adote medidas provisórias. Por fim, destaque-se que a par do sistema de petições ou comunicações, dois sistemas também têm um papel fundamental na proteção e promoção dos direitos humanos: (a) o sistema de investigações (observações in loco); (b) o sistema dos relatórios, o que inclui tanto o relatório com recomendações gerais enviado a determinado Estado, quanto os relatórios periódicos apresentados à Assembléia Geral da OEA, que contém, muitas vezes, considerações de caráter doutrinário. A Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte), órgão jurisdicional da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção), realizou suas primeiras reuniões na sede da OEA em Washington, em 29 e 30 de junho de 1979, e instalou-se em sua sede permanente em São José da Costa Rica em 3 de setembro de 1979. Esta instituição judiciária é composta por sete juízes nacionais de Estadosmembros da OEA, escolhidos por título pessoal, e tem por objetivo a aplicação e interpretação da Convenção. Até novembro de 2006, dos 35 Estados-membros da OEA, 24 Estados haviam ratificado a Convenção Americana59, e, dentre estes, 21 reconheceram a competência contenciosa da Corte60. Até julho de 2005, a Corte já havia proferido 127 sentenças, sendo que destas 57 são sentenças de mérito (ou seja, avaliam se evetivamente houve violação)61. A Corte tem duas competências: consultiva e contenciosa. Em relação à competência consultiva, qualquer membro da OEA pode solicitar o parecer da Corte relativo à interpretação da Convenção ou de qualquer outro tratado referente à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos. Ainda, a Corte pode opinar sobre a compatibilidade de preceitos de legislação interna em face dos instrumentos internacionais. Até julho de 2005, a Corte havia emitido 18 pareceres62. Em se tratando de sua competência contenciosa, apenas a Comissão e os Estados-partes (que expressamente reconhecerem a jurisdição da Corte) podem submeter um caso a Corte. Isto significa que o indivíduo depende da Comissão para que seu caso seja apreciado pela Corte, uma vez que ela é a dominus litis absoluto.

Argentina, Barbados, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Dominica, Equador, El Salvador, Granada, Guatemala, Haiti, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai, e Venezuela. Ressalte-se que Trinidad e Tobago denunciou a Convenção em 26 de maio de 1998.
59

Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai, e Venezuela.
60

PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e justiça internacional. São Paulo: Saraiva, 2006. p. 105.
61 62

Ibid., p. 100.

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Ao longo de sua história, a Corte já possuiu outros três regulamentos (1980, 1991, 1996), estando hoje em vigor o Regulamento de 2000 (a partir de 1 de junho de 2001). As inovações consagradas neste diploma são definidas pelo juiz Cançado Trindade como “o grande salto qualitativo” por considerar a proteção jurisdicional aos direitos humanos a forma mais efetiva de salvaguarda dos direitos humanos. Ao assegurar em seu artigo 23 que “depois de admitida a demanda, as presumidas vítimas, seus familiares ou seus representantes devidamente creditados poderão apresentar suas solicitações, argumentos e provas em forma autônoma durante todo o processo”, a Corte outorgou ao indivíduo o locus standi in judicio. Resta claro que as verdadeiras partes no caso contencioso perante a Corte são os indivíduos demandantes e o Estado demandado, e processualmente, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos como o titular da ação. O processamento do Estado perante a Corte se dá através de seis fases: (a) fase da propositura e exceção preliminar; (b) fase da conciliação; (c) fase probatória; (d) fase decisória; (e) fase das reparações; e (f ) fase de execução da sentença.
FASES TÓPICOS E CASOS - Apenas a Comissão e os Estados-partes da Convenção podem submeter um caso à Corte (art. 61, Convenção). - Citação do Estado. - Prazo para o Estado apresentar exceções preliminares, bem como seu exame pelo presidente da Corte. - Faculdade da Corte para convocar audiência. - Possibilidade do demandante desistir da ação. Se a desistência se der antes da citação, ela será aceita obrigatoriamente. Se ocorrer após a citação, a Corte ouvirá as partes. - Corte arquiva o processo ou continua (passa-se à 2ª fase). - As partes podem fazer um acordo. No entanto, cabe a Corte homologá-lo. - Citar o caso Maqueda (exemplo de acordo homologado pela Corte)63. - A propositura de solução amistosa é uma faculdade da Corte. - Prazo para a contestação. - As provas têm que estar elencadas na petição inicial ou contestação, salvo nas hipóteses previstas no art. 43, do Regulamento da Corte. - Corte pode produzir prova ex officio (art. 44, Regulamento Corte). - Os Estados não podem processar as testemunhas e peritos por suas declarações (art. 50, Regulamento Corte). - A sentença tem força jurídica vinculante e obrigatória. - Exposição dos votos dissidentes e concorrentes. - Não é obrigatória. Ocorrerá apenas quando a sentença de mérito não tratar das reparações (citar o caso Gangaram Panday64). - Excepcionalmente, admite-se aqui a participação do indivíduo de forma autônoma (art. 23, Regulamento Corte65). - Trata-se de uma nova etapa do processo: as partes serão intimadas novamente. - Possibilidade de uma nova conciliação entre as partes. - Há uma variedade de reparações que podem ser fixadas, dentre elas: reconhecimento da responsabilidade, indenização por danos material e moral, obrigação de investigar e punir os agentes responsáveis pelas violações, obrigações de fazer (ex: construir posto médico e escolar – caso Aloeboetoe66),.
63 A Comissão e o governo argentino acordaram pela libertação de Guilhermo Maqueda. Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Maqueda, Resolução de 17 de janeiro de 1995, Série C n. 18, § 27. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/ serie_c/index.html. RAMOS, André de Carvalho. Direitos humanos em juízo. São Paulo: Max Limonad, 2001. Capítulo IV. p. 220-225.

1. Fase da propositura e exceção preliminar

2. Fase da conciliação

3. Fase probatória

4. Fase decisória

Corte condenou o Suriname a pagar determinada quantia aos herdeiros da vítima, como forma de indenização pecuniária aos danos causados. Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Gangaram Panday, Sentença de 21 de janeiro de 1994, Série C n. 16, item 4 do dispositivo da sentença. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/ serie_c/index.html. André de Carvalho Ramos. op. cit.,. p. 168-179.
64 65 Trata-se de uma inovação trazida pelo novo Regulamento da Corte, em vigor a partir de 1º de junho de 2001. Regulamento aprovado pela Corte no seu XLIX período ordinário de sessões, celebrado do dia 16 a 25 de novembro de 2000.

5. Fase das reparações

Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Aloeboetoe e outros, Sentença de 10 de setembro de 1993 (reparações), Série C n. 15, § 20. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/serie_c/index.html. RAMOS, A. op. cit., p. 162-168.
66

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Estado não pode alegar impedimento de direito interno como forma de se eximir do cumprimento da pena.O Estado se compromete a cumprir integralmente a pena (art. indaga-se: • • • O procedimento perante a Comissão pode ser renunciado pelo Estado? Qual é a posição da Corte a respeito? Os requisitos que devem ser observados para que uma petição seja admitida pela Comissão comportam exceções? Quais? Quais são os casos em que a Comissão pode adotar medidas cautelares ou requerer que a Corte adote medidas provisórias? Já houve algum caso em que a Corte requereu ao Brasil que adotasse medidas provisórias? Caso positivo. 68. a importante dimensão preventiva da proteção internacional dos direitos humanos.2. tanto pendentes ante ela como ainda não submetidos a ela.2. 68. Nos últimos anos. Estado de Rondônia. julho de 2004 e setembro de 2005) também foram publicadas com o mesmo propósito. Quatro outras resoluções (agosto de 2002. de modo a evitar danos irreparáveis à vida e integridade pessoal de indivíduos.or. Diante do exposto. A Corte as ordena com base em uma presunção razoável.67 A Corte deixou claro que o Brasil “tem responsabilidade internacional por descumprir. a pedido desta última (art. Tais medidas têm sido ordenadas em casos de extrema gravidade ou urgência. Constam ainda dos procedimentos perante a Corte: dois casos de fundo (Damião Ximenes e Gilson Nogueira) e outra medida provisória (Adolescentes Internos da FEBEM). no caso do Damião Ximenes. FGV DIREITO rio 56 . A primeira sentença da Corte em face do Estado brasileiro foi editada em agosto de 2006. Convenção). . . reconhecendo a jurisdicionalização das violações de direitos humanos que engendram sua responsabilidade internacional. Convenção). Por fim. há de se concluir que a adesão do Estado brasileiro ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos. a Corte tem ordenado medidas provisórias de proteção em um número crescente de casos. mas pendentes ante a Comissão. abril de 2004. Fase de execução da sentença .1. a Corte determinou que o Estado brasileiro proteja a vida e integridade pessoal dos presos da Casa de Detenção “Urso Branco”. o Estado as cumpriu? Quais foram as conseqüências? 67 Informações atualizadas em 25 de outubro de 2006.cr/. neste caso. seu dever de cuidar e de prevenir a vulneração da vida e da integridade pessoal. assim.A indenização se dará pelo processo interno vigente (art.Caso o Estado não cumpra a sentença. Convenção). garantiu aos indivíduos uma importante e eficaz esfera complementar de garantia aos direitos humanos sempre que as instituições nacionais se mostrem omissas ou falhas. 63. bem como seu dever de regulamentar e fiscalizar o atendimento médico de saúde”68. cabe a Corte indicar o caso em seu relatório à Assembléia Geral da ONU (art. Convenção). 68 Para ler a sentença na íntegra. É importante ressaltar que o Estado brasileiro aceitou a jurisdição da Corte em 10 de dezembro de 1998.direitos humanos 6. Em junho de 2002. . na cidade de Porto Velho. em especial com a aceitação da jurisdição da Corte.corteidh. 65. As medidas provisórias revelam. acesse o site da Corte Interamericana de Direitos Humanos: http://www.

2006. 491-515. São Paulo: Saraiva. p. São Paulo: Saraiva. Direitos humanos e justiça internacional. 341-349. Capítulo IV: caso Velásquez Rodriguez. Legislação: Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem Convenção Americana sobre Direitos Humanos Carta da OEA Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Estatuto da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos Estatuto da Corte Interamericana de Direitos Humanos FGV DIREITO rio 57 . caso Gangaram Panday. Responsabilidade internacional do Estado e decisões do Sistema Interamericano em 2003. caso El Amparo. p. p. O esgotamento de recursos internos no direito internacional. Direitos humanos em juízo. CEJIL Brasil. 118-145. p. 220-225. In: Direitos Humanos no Brasil 2003. 98-118. 225-232. pp. Antônio Augusto. Capítulo V. 1997. Direitos humanos e justiça internacional. 162-168. 2003. 2006. p. caso Maqueda. Flávia. p. 63-99. 261-268. RAMOS. Capítulo III.direitos humanos • • Quantos casos contra o Brasil tramitam perante a Comissão? Qual é a natureza de ambos os informes da Comissão? Tendo em vista a inexistência de qualquer sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos em desfavor do Estado brasileiro. Capítulo VII. p. p. São Paulo: Max Limonad. pp. caso Aloeboetoe. Brasília: Editora Unb. São Paulo: Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. André de Carvalho. 2001. cabem as seguintes indagações: • • • Há distinção entre sentença estrangeira e internacional? Deverão as sentenças ser examinadas pelo Supremo Tribunal Federal pela concessão do exequatur? Poderão os indivíduos demandantes executar perante a Justiça Federal? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. p. 85-98. Flávia. PIOVESAN. Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. 168-179.

que realizavam uma operação militar. Tovar começou a sofrer pressões por parte de policiais e militares para entregar os sobreviventes ao Exército. 24 (igualdade perante a lei) e 25 (proteção judicial). 10. 8. levando em consideração o divulgado pela mídia (haveria ocorrido um confronto armado com combatentes colombianos). se entregaram ao Comandante da Polícia de “El Amparo”. Foi alegada violação aos seguintes artigos da Convenção Americana de Direitos Humanos: 2 (dever de adotar disposições de direito interno). localizada a 15km do local dos eventos. Tovar. lhes ofereceu proteção.1 (garantias judiciais). Às 11:20 o barco parou e quando os pescadores desembarcavam.602. que. Breve descrição dos fatos Em 29 de outubro de 1988.direitos humanos Aula 10: Sistema Interamericano de Direitos Humanos: Estudo de Caso NOTA AO ALUNO 1. foi impossível retirar os sobreviventes à força dali. 24 e 25 em relação aos dois pescadores que conseguiram fugir. bem como violação aos artigos 5. FGV DIREITO rio 58 . DO CASO O caso “El Amparo” foi submetido à Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte) pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) em face do Estado da Venezula no dia 14 de janeiro de 1994. membros do exército e da polícia do CEJAP (Comando Específico José Antonio Páez). a Comissão instaurou o caso n. Em 10 de agosto de 1990.1.1 (obrigação de respeitar os direitos) pela morte de 14 dos 16 pescadores. Logo após. 5 (direito à integridade pessoal). data na qual adotou. 16 pescadores do povoado “El Amparo” dirigiamse ao Canal “La Colorada” para participar de um campeonato de pesca. prontamente. refugiaram-se na fazenda “Buena Vista”. todos eles em concordância com o artigo 1. No entanto. abordaram Tovar a fim de saber o paradeiro de seus entes que haviam ido pescar no dia 29 e até agora não tinham retornado. o Inspetor chefe do DISIP (Direção dos Serviços de Inteligência e Prevenção) visitou Tovar e lhe informou que havia matado 14 guerrilheiros. o Informe n. em um primeiro momento. familiares. 8. mataram 14 dos 16 pescadores. 29/93. Em virtude da presença de grande quantidade de pessoas diante da delegacia. que tramitou até o dia 12 de outubro de 1992. recomendando ao Estado venezuelano que punisse os autores do crime de homicídio praticado contra as vítimas de ‘El Amparo’. conforme o artigo 50 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção). No dia seguinte. Na tarde do dia 29. além de indenizar os familiares das vítimas. Os dois sobreviventes conseguiram escapar a nado e. 4 (direito à vida).

Em resumo. a própria existência de um dispositivo legal pode per se criar uma situação que afeta diretamente os direitos protegidos pela Convenção. o Juiz Antônio Augusto Cançado Trindade expressa seu entendimento de que a Corte deveria ter esclarecido que tem a faculdade de decidir acerca da incompatibilidade entre os artigos do Código de Justiça Militar e a Convenção. alegando o seguinte: violação aos arts. 2) decide que o Estado está obrigado a reparar os danos e pagar uma justa indenização às vítimas sobrevivente e aos familiares dos falecidos. argumenta o juiz Antônio Augusto Cançado Trindade que. in casu. sendo reservado àquele tribunal a faculdade de aprova-lo. Reiterou-se assim o posicionamento na Opinião Consultiva nº 14. e violação aos arts. em votação não unânime. que o estado indenizasse os familiares das vítimas. 24 e 25 em relação aos dois sobreviventes. não sendo necessário o aguardo da ocorrência de um dano. em 14 de janeiro de 1994. 54. do Código de Justiça Militar com o objeto da Convenção. a Corte. a Comissão solicitou que fosse declarada a incompatibilidade do art. do referido Informe. uma ação de responsabilidade internacional contra o referido estado perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte). dentre outras medidas: 1) fixa o valor da indenização aos familiares das vítimas às vítimas sobreviventes. que não procedem as reparações não-pecuniárias nem pronunciamento sobre a conformidade do Código de Justiça Militar e a Convenção. Na sentença de reparações de 14 de setembro de 1996. ainda. Essa ação judicial foi possível tendo em vista que a Venezuela ratificou a Convenção em 9 de agosto de 1977 e reconheceu a competência da Corte em 24 de julho de 1981. pelo Estado venezuelano. Breve descrição dos passos processuais Em um breve resumo. Por fim. a Comissão propôs.1 (garantias judiciais). 2 (dever de adotar disposições de direito interno). Isoladamente. Por outro lado. todos eles em concordância com o artigo 1. pela morte dos 14 pescadores. 4 (direito à vida). na qual assevera que tal exame somente seria possível no exercício de sua competência consultiva.direitos humanos Em virtude falta do cumprimento. em sentença de 18 de janeiro de 1995.1. 3) declara. 24 (igualdade perante a lei) e 25 (proteção judicial). 2) decide que o Estado venezuelano está obrigado a continuar as investigações acerca dos fatos a que se refere e a sancionar os responsáveis. 5. 5 (direito à integridade pessoal). Requereu. incisos 2 e 3. 8. a Corte: 1) tomou nota do reconhecimento de responsabilidade efetuado pelo Estado venezuelano.1 (obrigação de respeitar os direitos). 8. tal dispositivo não fora aplicado. a Corte não acatou o pedido da Comissão Interamericana de Direitos Humanos sob o argumento de que. 3) afirma que as reparações serão alvo de acordo entre a CIDH e o Estado. em voto dissidente. FGV DIREITO rio 59 .

09 – 40. p. 3. 5. No 2. Antônio Augusto. DOS POSICIONAMENTOS PROPOSTOS Dez alunos poderão participar da atividade. Corte Interamericana de Direitos Humanos. Direitos humanos em juízo. 2. 2001. e Voto dissidente do Juiz Antônio Augusto Cançado Trindade.or. Vol. Universitas –Centro Universitário de Brasília – UniCEUB.corteidh. os quais assumirão os seguintes posicionamentos: a) b) c) d) e) Comissão Interamericana de Direitos Humanos. devendo estes ser divididos em cinco grupos. cada grupo deverá construir argumentos acerca dos seguintes pontos: 1. André de Carvalho. 6. DOS ARGUMENTOS Tendo por base as decisões do caso em tela.direitos humanos 2. FGV DIREITO rio 60 . I. Indenização em geral e danos materiais Danos morais Efetuação do pagamento Reparações não pecuniárias Compatibilidade do Código de Justiça Militar com a Convenção Americana Dever de investigar e punir os responsáveis MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: Caso El Amparo Vs.html Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. RAMOS.cr/seriec/ index_c. Venezuela. 4. “El nuevo reglamento de la Corte Interamericana de Derechos Humanos (2000): la emancipación del ser humano como sujeto del derecho internacinal de los derechos humanos” in Revista Proteção Internacional da Pessoa Humana. Disponível em: http://www. Estado da Venezuela. 3. Familiares das Vítimas. São Paulo: Max Limonad.

direitos humanos Legislação: Convenção Americana sobre Direitos Humanos Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos FGV DIREITO rio 61 .

conflitos armados. A realidade do mundo contemporâneo refletida em temas como guerra contra o terrorismo. Todavia. o Direito Internacional dos Refugiados (DIR) e o Direito Internacional dos Direitos Humanos (DIDH) apresentam aplicabilidades e mecanismos de supervisões diferenciados. conduz à inafastabilidade do estudo do DIH e do DIR.org/Web/por/sitepor0. Eles devem ter garantido o direito de retornar a suas casas o mais cedo possível. fugiram de Fallujah buscando refúgio nos arredores da cidade. incluindo mulheres. Doentes e feridos.nsf/html/66LLHJ!OpenDocument FGV DIREITO rio 62 . São conflitos que atingem milhares de pessoas no mesmo momento em que você está lendo esse texto. e sim intensificam sua complementaridade. refugiados. As notícias expostas nas seguintes notas não nos contam ocorrências escondidas em algum capítulo da História. deslocados. tratados Dia 09 de novembro de 2004 Comunicado melha de imprensa nº 04/62 do Comitê Internacional da Cruz Ver- Fallujah/Iraque (CICV) – O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) lembra a todos os envolvidos nos enfrentamentos armados em curso no Iraque que o Direito Internacional Humanitário proíbe agredir ou matar aos civis que não tomem parte diretamente das hostilidades. A organização faz um chamamento às partes para que tomem toda precaução possível poupando os civis e as propriedades civis. http://www. o Direito Internacional Humanitário (DIH).cicr. tais particularidades não afastam. abrigo e assistência médica. A organização insta os beligerantes a assegurar que todos os que precisem de cuidados – sejam ou não inimigos – devem ter acesso ao atendimento médico. uma vez que tais vertentes possuem um elemento em comum: a proteção da pessoa humana. alimentos. O CICV está profundamente preocupado com relatos de que os feridos não estão podendo receber atenção médica adequada. O CICV permanece comprometido em realizar seu trabalho humanitário no Iraque e insta todas as partes a facilitarem a passagem de suas equipes de ajuda humanitária que levam assistência de maneira neutra aos civis afetados pelo conflito. entre tantos outros. Muitos destes deslocados internos precisam de água. e o pessoal médico e seus veículos devem poder operar sem entraves em quaisquer circunstâncias. Iraque: civis devem ser poupados. e respeitando o princípio de distinção e proporcionalidade nas operações militares.direitos humanos Aula 11: Direito Internacional Humanitário e Direito Internacional dos Refugiados NOTA AO ALUNO Nascidos em períodos históricos diversos. crianças e idosos. Milhares de civis iraquianos.

o CICV presta assistência a meio milhão de pessoas em todo o Sudão. fornecendo água e alimentos. e em toda a cadeia de comando das forças governamentais. em março de 2004. fronteira entre o Chade e o Sudão. em todas as ocasiões. As operações do CICV são realizadas em cooperação com o Crescente Vermelho Sudanês e outras Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. na região do Darfur. Kellenberger reconheceu que o acesso às vítimas do conflito armado no Darfur melhorou sensivelmente desde de sua última visita à região. o Sudão será. Com um orçamento de US$ 112 milhões. Por outro lado ele destacou. além de artigos de primeira necessidade e socorro médico. onde participa da Cúpula de Nairóbi para Um Mundo Livre de Minas http://www. Além de fazer conhecer o Direito Internacional Humanitário e de assegurar o respeito por estas normas. Do Sudão.org/web/por/sitepor0. o presidente do CICV irá ao Quênia.cicr. Kutum e Zalingei. O presidente do CICV encontrou-se com diversas autoridades do governo sudanês. O governo deve também tomar as providências para acabar com a impunidade dos culpados por violações. que este retorno deve ser absolutamente voluntário e que as condições de segurança para os civis devem ser consideravelmente reforçadas nestas áreas. Frente às graves violações do Direito Internacional Humanitário cometidas sob responsabilidade do governo.nsf/iwpList4 747E1213A0B72DE90325 6F5F005B3500 FGV DIREITO rio 63 . “Penso que o CICV optou por uma boa solução quando decidiu concentrar suas operações de socorro nas regiões rurais com a intenção de evitar novos deslocamentos de populações e facilitar o retorno dos que partiram”. na África. de ambos os lados do conflito.direitos humanos Sudão: presidente do CICV reforça importância do respeito ao Direito Internacional Humanitário Dia 30 de novembro de 2004 Comunicado melha de imprensa nº 04/71 do Comitê Internacional da Cruz Ver- Cartum/Genebra (CICV) – O presidente do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) Jakob Kellenberger terminou hoje uma visita de três dias às cidades de El Fasher. em 2005. Neste caso. Kellenberger deixou claro que o CICV seguirá de perto a implementação das recomendações apresentadas. Kellenberger formulou uma série de recomendações destinadas a melhorar a proteção da população civil. o maior teatro de operações do CICV em todo o mundo. em terreno. disse Kellenberger. velando prioritariamente pelo conhecimento e respeito aos princípios básicos do Direito Internacional Humanitário.

É preciso ultrapassar a fronteira de sua terra natal para pedir proteção ao governo do Brasil – país signatário do tratado da Convenção de Genebra. FGV DIREITO rio 64 . Recebe cédula de identidade de estrangeiro. Só se cometerem uma infração grave. perseguições políticas.2 mil dos 1. em meio a lembranças de dor e sofrimento. famílias inteiras de desterrados. Outros vagam anos a pé até conseguir embarcar em aviões. Com o mesmo perfil. Às vezes. CPF e carteira de trabalho e. Sozinhos em um país estranho e vivendo de forma ilegal. Para chegar ao País. permanecem com medo da deportação. e que desde 1997 tem uma lei nacional específica na qual se compromete a receber. é preciso provar que se corre risco de vida no país de origem. a pessoa passa a gozar de total liberdade dentro do território nacional. mas que ainda não conseguiram o direito de viver em território nacional. A maioria é de africanos e latino-americanos. São mulheres e. e no Brasil A primeira barreira que o refugiado enfrenta é a viagem de fuga. de 1951. existem pelo menos outros 6 mil refugiados que vivem no Brasil. pediram refúgio ao governo e tentam reconstruir suas vidas. Aqui. homens com idade entre 20 e 25 anos. A assistente social Denise Orlandi Collus. que trabalha no Sesc Carmo. O processo. violências étnicas e tribais e outras violações graves de direitos humanos. 38 anos. ideológicas e religiosas. por um período médio de seis meses. seria o mesmo que morrer. fornecidos pelo Acnur. que atravessou quase todo o continente africano fugindo de massacres e guerras civis. tem direito a um salário mínimo e medicamentos. Com a ratificação. conta que a maioria dos que não conseguem obter o status permanece no Brasil assim mesmo. A condição pode ser estendida aos familiares e dependentes que se encontrem em território nacional. para eles.5 mil refugiados que vivem na cidade. “Eles sabem que não serão deportados. Voltar para casa. vivem com medo”. cerca de 35% das pessoas que entram com processo para pedir o reconhecimento como refugiado têm essa condição validada. diz. Segundo o representante no Brasil do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). em São Paulo. que pode levar seis meses. proteger e ajudar a integrar refugiados. Barreiras na fuga. onde são oferecidos programas de apoio a imigrantes e por onde já passaram cerca de 1. Mesmo assim.direitos humanos Refugiados no Brasil: o lado humano dos conflitos que assolam o mundo em território nacional Por Patrícia Pereira Há 3 mil refugiados no Brasil. muitos viajam como clandestinos em cargueiros e enfrentam dias de fome e tensão. Luis Varese. em grande parte. como conta neste especial o africano da Costa do Marfim Edmond Kouadio. O elo que os une: expulsos por terríveis guerras civis. Já no Brasil. órgão ligado ao Ministério da Justiça. fugiram de seus países de origem e realizaram verdadeiras façanhas para chegar ao Brasil. é analisado pelo Comitê Nacional para Refugiados (Conare).

A normatização do conflito visa precisamente à mitigação de seus efeitos e a sua não transformação em uma barbárie absoluta. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. adaptar-se aos hábitos dos brasileiros e integrar-se socialmente. evitando que sejam afetados as pessoas e os bens legalmente protegidos. Jaime Ruiz de (orgs. Dificilmente ele consegue exercer no Brasil a profissão que desempenhava antes. A boa formação do refugiado acaba às vezes sendo um ponto negativo para a integração. têm a ajuda da Cáritas.br/especial/refugiados. 1997.estadao. In: CANÇADO TRINDADE. As três vertentes da proteção internacional dos direitos da pessoa humana. Na Colômbia.direitos humanos Enquanto aguarda o resultado do processo os refugiados procuram aprender a língua. de 45 anos. Antônio Augusto. Direito Internacional Humanitário e Direitos Internacional dos Direitos Humanos: tradicionalmente. e que limita. Antônio Augusto. organização não-governamental de assistência e proteção aos refugiados ligada à Igreja Católica.). San José. São pessoas com formação universitárias e politizadas. trabalhava na Cruz Vermelha. especificamente aplicável aos conflitos armados. é preciso compreender algumas limitações acordadas pelos Estados de forma a tornar os conflitos armados menos danosos. Para isso. Surge então uma nova barreira: a do preconceito. Gerard. “Sistemas Internacionais de proteção da pessoa humana: o direito internacional humanitário”. CR: Instituto Interamericano de Direitos Humanos. a urgência passa a ser conseguir emprego e moradia.htm As duas primeiras notas de imprensa são datadas de novembro de 2004. o DIH protege a pessoa humana em conflitos armados e o DIDH em todos os tempos. respectivamente acerca dos conflitos vividos no Iraque e Sudão. 70 71 PEYTRIGNET. Histórico: Como foi estudado na aula 02 – Desenvolvimento Histórico dos Direitos Humanos. por que será que existem normas que regulamentam as condutas perpetuadas nesse período? Haveria uma contradição entre conflito e regras a serem cumpridas? A resposta é não. Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Tendo em vista que a Carta das Nações Unidas legitima expressamente o uso da força em circunstâncias limitadas. No Brasil. o direito das partes em conflito de escolher livremente os métodos e os meios utilizados na guerra. http://www. Por sua vez. cabe a exploração de alguns elementos do DIH e do DIR. PEYTRIGNET. 275. O crescente número de refugiados vindos da América Latina – principalmente Colômbia.”71 Se a guerra é o campo do conflito. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor. “O refugiado é quase sempre visto como bandido ou traficante. responsável por implementar o programa do Acnur em São Paulo e no Rio de Janeiro. sempre tendo como parâmetro o DIDH. todavia. Peru e Cuba – nos últimos anos reforça esse grupo. notadamente no que se refere à proteção da pessoa humana. e SANTIAGO. “mais recentemente o primeiro temse voltado também para situações de violência em conflitos internos. internacionais ou não-internacionais. que é jornalista e especializou-se em prevenção e administração de desastres. e o segundo à proteção de certos direitos básicos também em diversas situações de conflitos e violência. FGV DIREITO rio 65 . o DIH pode ser indicado como precursor da internacionalização CANÇADO TRINDADE.”70 Quais elementos são característicos do DIH? Definição: “trata-se do corpo de normas jurídicas de origem convencional ou consuetudinário. a terceira nota reflete um panorama dos refugiados no Brasil. o que dificulta sua entrada no mercado de trabalho”. Após essa leitura. como o colombiano Juan (nome fictício). com mulher e quatro filhas. enfrenta o desemprego e a desilusão das filhas provocada pela queda na qualidade do ensino. por razões humanitárias.com. p. Com os papéis em mãos. 1996. Gerard. conta Denise. Volume I.

foi celebrada uma conferência no ano de 1864 que aprovou o Convênio para a proteção dos feridos no campo. A convite do governo suíço. em companhia de outros genebrinos. Esse esforço normativo é resultado da barbárie vivenciada nos campos de guerra existentes na Europa durante o século XIX. sob comando responsável e exercendo controle sobre certa parte do território. o Protocolo Adicional I amplia a definição de conflito armado internacional por incorporar aqueles nos quais se luta contra regimes de dominação colonial ou contra regimes racistas. Todavia. Convenção de Genebra II – protege os feridos. Era necessário um compromisso mais efetivo por parte dos Estados para o estabelecimento de uma ordem mundial pós-1945. o genebrino Henry Dunant presenciou as atrocidades da batalha de Solferino. O enquadramento moderno é marcado pela Convenção de Genebra de 1864 para melhoramento da condição de feridos no campo. realizada também em Genebra. norte da Itália. A extensão de sua aplicabilidade e a ratificação por parte de 191 países fazem com que o DIH seja denominado muitas vezes de o “Direito de Genebra”. em seus 10 artigos. e Convenção de Genebra IV – inaugura a preocupação com a população civil. É importante lembrar que nesse momento. o qual veio a ser chamado logo após de Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). que. Convenção de Genebra III – protege os prisioneiros de guerra. para a elaboração de dois protocolos adicionais às Convenções de Genebra. Dunant fundou o Comitê Internacional de Ajuda aos Feridos.direitos humanos da proteção da pessoa humana. a preocupação com as guerras de libertação nacional e a necessidade de regulamentação dos conflitos armados não-internacionais conduziram ao chamamento de uma conferência internacional em 1977. Em 1863. FGV DIREITO rio 66 • . a Suíça convocou uma conferência em Genebra no ano de 1949. no qual propõe a criação de entidades de socorro privadas em cada país e a elaboração de um acordo internacional que facilitasse o trabalho das mesmas. Por iniciativa do CICR. da qual resultaram os diplomas que constituem a chave-mestra do DIH: • • • • Convenção de Genebra I – protege os feridos e doentes das Forças Armadas em campanha. e Protocolo Adicional II – disciplina a previsão do artigo 3º comum e sua aplicabilidade a conflitos armados internos. O Protocolo II foi ratificado por 156 países. • Protocolo Adicional I – em nome do princípio da auto-determinação dos povos. doentes e náufragos das Forças Armadas no mar. estabeleceu o marco normativo moderno do DIH. Publicou. tendo sido ratificado por 161 países. Principais tratados: tal passo não foi suficiente para evitar os resultados trágicos das duas Grandes Guerras Mundiais. o mundo era formado por poucos Estados e não existiam instâncias multilaterais que pudessem monitorar o uso da força. o livro “Recordações de Solferino”. em 1862. Em 1859. entre franceses e austríacos. Condições: forças armadas dissidentes ou outros grupos armados organizados.

duradouros e graves ao meio ambiente natural.cicr. assim como os prisioneiros ou detidos. sem discriminação alguma. Somente podem ser atacados os objetivos militares. armas químicas e sua transferência de minas anti-pessoais e sobre a sua destruição. Disponível em: transferência de minas anti-pessoais a sua destruição.” sanitárioAcesso nem suas instalações http://www.org/Web/por/sitepor0. em qualquer ataques diretos contra pessoas de civis. Está proibido o emprego de armas que causem danos combatente de combate. produção e de armas bacteriológicas e sua destruição. 2005. 72 assim Acesso em: 19 junho 2005. as biológicas.direitos humanos As convenções e o Protocolo I são aplicáveis a conflitos armados.org/Web/por/sitepor0.nsf/iwpList104/846A586AE20F1419C1256DEA00349CD7) Acesso em: 19 de junho de 2005. e em qualquer situação civil.org/web/por/sitepor0. De acordo com gráficos apresentados no site do CICV146. Disponível em: 145 O Direito de Nova Iorque combatentes armas que. encontram-se: a) Convenção de 1992 – proibição destruição.nsf/htmlall/section_ihl_weapons?OpenDocument.cicr. junhoassim como de os 2005. Disponível Não atacar o pessoal médico ou humano.” Acesso em: 19 de junho de 2005. o professor poderá apresentar aos . o Protocolo II e o Artigo 3 comum às Convenções.cicr. por natureza.nsf/iwpList104/846A586AE20F1419C1256DEA00349CD7) . assim como os prisioneiros ou detidos. 145 145 indiscriminadas ou que possuam causarão sofrimento requerido para deixar um O Direito de Nova Iorque características “proíbe aos que combatentes empregar maior armas ao que. Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos náufragos. Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos náufragos. Tratar com humanidade o adversário que se rende ou é capturado.nsf/ principais tratados constantes do Direito de Nova Iorque.org/web/por/sitepor0. bastando o fato de um conflito armado. por natureza.org/web/por/sitepor0. Disponível em: como de projéteis que explodem ou se alastram facilmente no corpo em: 19 de junho de em: http://www. oAcesso número de mortos feridos entre danos causados a bens de caráter http://www. laser cegantes extensos. encontram-se: a) Convenção de 1992 – proibição iwpList104/A586AE20F1419C1 http://www. sem discriminação alguma. população civil ou bens de caráter civil.cicr.nsf/htmlall/section_ihl_weapons?OpenDocument. estocagem. ae proibição dos situação ataques Não causar sofrimentos oude danos excessivos. como biológicas. ataques diretos contra pessoas civis. sejam combatente fora de combate. assim como os danos causados a bens de caráter indiscriminados e a obrigação de tomar medidas de precaução a fim de evitar. de armas bacteriológicas e sua b) Convenção de 1993 – proibição de armas químicas e sua principais tratados constantes do destruição. Respeitar os civis e seus bens. assim limitados emprego de armas.org/web/por/sitepor0. Tratar com humanidade o adversário que se rende ou é Tratar com humanidade capturado.” Acesso 19 de junho de limitados o emprego de certas armas. Está proibido o emprego de armas que danos instalações e as permitir que façam seu trabalho. Importante ressaltar que a aplicabilidade de tais normas não está condicionada à declaração formal de guerra. Em tratados específicos são causem proibidos ou proibidas de acordo com esse único argumento.cicr. http://www. Por sua vez. ou incendiárias. o professor poderá apresentar Princípios fundamentais: De acordo com gráficos apresentados no site do CI146 De72 acordo com gráficos apresentados no site do CICV146 . Em tratados específicos são proibidos ou como de projéteis que explodem ou secomo alastram facilmente químicas.org/web/por/sitepor0. Direito de Nova Iorque. Disponível em: cicr. b) Convenção 1993 –do proibição deestocagem. químicas.cicr. o duradouros e certas graves ao meio ambiente natural. o adversário que se rende ou é capturado. população ou bens caráter civil. Dentre os e permitir que façam seu trabalho. náufragos.nsf/htmlall/section_ihl_conduct_of_hostilities?OpenDocument. Asúnico armas que violam os "ditames da consciência pública" também podem ser Não atacar o pessoal médico ou sanitário nem suas extensos. assim como os prisioneiros ou detidos. no corpo humano. destruição. Somente podem ser atacados os objetivos militares. produção e 146 FGV DIREITO rio 67 Acesso em: 19 e sobre de junho de 2005. Respeitar os civis e seus bens. As armas que violam os "ditames da consciência pública" também podem ser indiscriminadas ou que possuam características que causarão sofrimento maior ao requerido para deixar um proibidas defora acordo com esse argumento. e c) Convenção de 1997 – Tratado de Otawa: de proibição emprego. o número de mortos e de feridos entre os civis. também denominado “mini-convenção” são aplicáveis a conflitos armados não-internacionais. minimizar. sejam Não “proíbe causar aos sofrimentos ou empregar danos excessivos. sem discriminação alguma. Disponível em: http://www. 146 146 http://www.” em: e de19 de os civis. 256DEA00349CD7). Disponível em: minimizar. alunos uma linguagem dos princípios CV é possível enumerar os representativa princípios regedores do DIH: gerais regedores do DIH: aos alunos uma linguagem representativa dos princípios gerais regedores do DIH: Somente podem ser atacados os objetivos militares. laser cegantes ou em: incendiárias. Dentre os 2005. a proibição dos ataques indiscriminados e a obrigação tomar medidascivil de precaução a fim de evitar. e c) Convenção de 1997 – Tratado de Otawa: proibição do emprego.. civil. o que significa o envolvimento de dois ou mais Estados.nsf/htmlall/section_ihl_conduct_of_hostilities?OpenDocument.

nsf/htmlall/section_ihl_protected_persons_and_property?OpenDocu Igualmente.org/Web/por/sitepor0.. o Estado obriga-se não ataques ou outros atos hostis (destruição. Por sua vez. des Acesso em: 19 de junho de 2005. os são enfermos. De acordo com o artigo 38 da Convenção I de Genebra. mas também a adequar a sua legislação interna de Exemplos de bens protegidos: bens de caráter civil e bens culturais. Direitos Humanos e Direito dos Refugiados A globalização econômica desnuda um paradoxo: por um lado. Não colocar obstáculos ao pessoal da Cruz Vermelha no desempenho de suas funções. vez da cruz vermelha.. Estabelece ainda que. Vivencia-se hoje um enorme fluxo migracional. Não colocar obstáculos ao pessoal da Cruz Vermelha no desempenho de suas funções. o sinal cruz vermelha em por fundo branco. seja em tempo de paz ou de guerra. deve assegurar medidas de controle. merecem tratamento especial por eparte do DIH. Tal instituição foi consagrada pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas de 1961. represálias. seja comum ou militar. o Estado deve envidar todos os esforços para cessar condutas que afrontam o DIH e deve punir os autores de condutas adversas a esse direito. em Assim são tivo. para os países que empregam já como sinal distinde em sua condição. em homenagem à Suíça. apenas às normas nele constantes. as fronteiras estatais diminuem no que concerne a mercadorias. direitos humanos Não atacar o pessoal médico ou sanitário nem suas instalações e permitir que façam seu trabalho. Considerada a dificuldade de eleição de tal Estado. por meio da nomenclatura ‘Potência Protetora’. comum e militar e processual penal comum e militar. notadamente no que se refere às normas de caráter penal 147 de transporte sanitários. em virtude exércitos. captura. confisco etc .).Não causar sofrimentos ou danos excessivos. civis. o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) acaba por agir como substituto da potência. estes emblemas igualmente reconhecidos nos termos da presente Convenção. a designação de um Estado alheio ao conflito. Por fim. o direito consuetudinário 162 reconheceu. por outro. o Protocolo I de 1977 convencionou a criação da Comissão Internacional de Apuramento dos Fatos. sanitário e religioso. meio de tais gráficos à relevância concedida cores federais. fundamentais à determinação ment.cicr. unidades e meios forma a compatibiliza-la. como a de difusão do conteúdo dos tratados. náufragos. é também tarefa do Estado estabelecer medidas de repressão. formado pela inversão das Cabe ao heráldico professorda chamar à atenção. o crescente vermelho ou o leão o sol vermelhos considerados os feridos. prisioneiros de guerra. notadamente penal e processual. é mantido como emblema e sinal distintivo do serviço de saúde dos pelo DIH a duas categorias específicas: Pessoas protegidas: pessoas que. causado muitas vezes pelas próprias decorrências do capitalismo que não encontra nas fronteiras a mesma flexibilidade. nunca estiveram tão altas no que concerne a pessoas. Nesse sentido. serviço e principalmente a capitais. Assume ainda a obrigação de adotar medidas preventivas. em especial a autorida147 civis e militares. uma vez que a violação das regras de DIH corresponde à violação de regras de caráter interno. Bens protegidos: aqueles que devem ser protegidos contra Aplicabilidade do DIH: ao assinar um tratado de DIH. pessoal fundo branco. instituição imparcial capaz de acompanhar a veracidade das alegadas violações ao DIH. FGV DIREITO rio 68 . Disponível em: http://www. de infrações às normas de DIH: tendo em vista a necessidade de se estabelecer uma autoridade neutra capaz de arbitrar um conflito armado.

). inciso 2: 2. em virtude desse temor. 267. e ALMEIDA. a Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelece que toda pessoa vítima de perseguição tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.. Em sua terceira conclusão. 2001. se encontra fora do país de sua nacionalidade e que não pode ou. ou do país de sua nacionalidade. A ampliação do conceito também teve palco no continente americana. nacionalidade. grupo social ou opiniões políticas. 134 países comprometeram-se com a causa no momento da assinatura da Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 e do Protocolo de 1967. “criado em um contexto de Guerra Fria. Todavia. A Convenção estabeleceu a definição clássica de refugiado como qualquer pessoa que: (. Carolina de Campos. O Direito Internacional dos Refugiados: uma perspectiva brasileira. tendo como base a idéia de perseguição. 74 FGV DIREITO rio 69 . por ocasião da Declaração de Cartagena de 1984. Estabelece. O Direito Internacional dos Refugiados vem galgando importantes passos ao longo de sua história.direitos humanos É claro que o ‘deslocar-se’ faz parte da história. o que se coaduna perfeitamente à dualidade de sistemas vivenciada no pós-guerra: os refugiados podiam ser vistos como troféus de um sobre o outro. adaptando-no à realidade regional.”74 Há de se destacar que a concepção clássica de refúgio. Nádia de. In: ARAÚJO.) em conseqüência de acontecimentos acorridos antes de 1o. Guilherme de (orgs. Originalmente. A primeira iniciativa de ampliação encontra-se na Convenção da Organização da Unidade Africana. concebida no descrito contexto. caracteriza-se como subjetiva e individual. este conceito tem como centro a questão da perseguição. não quer valer-se da proteção desse país ou que. de janeiro de 195173 e temendo ser perseguida por motivo de raça. em seu artigo 1. está obrigada a abandonar sua residência habitual para buscar refúgio em outro lugar for do seu país de origem ou do país de sua nacionalidade. O termo “refugiado” aplicar-se-á também a toda pessoa que. não quer voltar a ele. Rio de Janeiro: Renovar. em determinadas situações. entrando em vigor em 1974. estabelece que: MELO.. a realidade internacional demonstrou a incapacidade desse conceito jurídico em dar uma resposta a situações fáticas. por causa de uma agressão exterior. erigindo a necessidade de revisão do conceito do refúgio. religião. devido ao referido temor. se não tem nacionalidade e se encontra fora do país no qual tinha sua residência habitual em conseqüência de tais acontecimentos não pode ou. uma ocupação ou uma dominação estrangeira ou de acontecimentos que pertubem gravemente a ordem pública em uma parte ou na totalidade de seu país de origem. “Revisitando o conceito de refúgio: perspectivas para um patriotismo constitucional”. 73 O Protocolo de 1967 veio justamente a retirar a restrição temporal impressa pela Convenção. Nesse sentido. no contorno específico da figura do refugiado. A proteção ao refugiado encontra abrigo no marco fundamental dos direitos humanos: assinada em 1948. mas foi o final da SegundaGuerra Mundial o marco inaugural para o abrigo internacional a sua proteção. p. aprovada em 1969.

deve ser estipulada uma solução considerada duradoura para os refugiados. a violação massiva dos direitos humanos ou outras circunstâncias que tenham perturbado gravemente a ordem pública. tendo-se em conta.direitos humanos (. constituindo campo de implantação concomitante do DIDH e do DIH. Esta declaração aprofundou as relações entre o DIR e o DIDH ao tratar de forma mais aprofundada questões deslocamentos forçados. Tanto a concepção africana quanto a americana demonstram como a realidade conduziu a necessidade de adequação da Convenção de 1951. cabem alguns esclarecimentos: ultrapassada a concessão de refúgio por órgão independente e especializado. a definição ou conceito de refugiado recomendável para sua utilização na região é aquela que além de conter os elementos da Convenção de 1951 e do Protocolo de 1967. FGV DIREITO rio 70 . Por sua vez. parágrafo 2) e a doutrina utilizada nos informes da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. uma década depois de Cartagena.cit. A. “vem-se passando gradualmente de um critério subjetivo de qualificação de indivíduos. por ocasião da Declaração de San José. Afinal. o DIDH deve contracenar com o DIR em três momentos: prevenção. a um critério objetivo concentrado antes nas necessidades de proteção. a ampliar seu enfoque de modo a abranger também a etapa ‘prévia’ de prevenção e a etapa ‘posterior’ de solução duradoura (repatriação voluntária. Por fim. 75 76 Idem. cabendo ao Estado CANÇADO TRINDADE. destaca-se a integração local. op. reassentamento). considere também como refugiados as pessoas que fugiram de seus países porque sua vida. A. De acordo com Cançado Trindade. a agressão estrangeira. desse modo. proteção e solução. violações maciças de direitos humanos e conflitos armados podem ser indicados por fatores determinantes para a saída de determinados grupos de um país.”75 Os conceitos descritos conduzem ainda à premissa que permeia a presente aula. Nesse sentido. 322. Dentre elas. É precisamente nesse sentido que se constrói a estratégia do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). o precedente da Convenção da OUA (artigo 1. nos últimos anos.. 320. mas a violação de direitos humanos assume a condição de situação que acarreta refúgio.”76 No que se refere à etapa preventiva. a etapa da proteção tem no princípio do non refoulement sua principal viga. p.. resta claro que o DIR e o DIDH passam a ter não apenas progressiva interação. interação local. e dentro das características da situação existente na região. o qual deixa de ter a idéia de perseguição como fundamental. Percebe-se uma clara objetivação do conceito de refúgio. no que concerne à solução duradoura. Cumpre ressaltar que os países americanos reiteram a perspectiva ampliada do conceito de refúgio no ano de 1994.) faz-se necessário encarar a extensão do conceito de refugiado. segurança ou liberdade foram ameaçadas pela violência generalizada. os conflitos internos. p. segundo as razões que os teriam levado a abandonar seus lares. “A visão tradicional concentrava atenção quase que exclusivamente na etapa intermediária de proteção (refúgio). foram as necessidades de proteção que levaram o ACNUR. no pertinente. Não se pode mais alimentar a compartimentalização da proteção da pessoa humana.

Como ilustrado o terceiro texto inicial da Nota ao Aluno. o ACNUR tem desenvolvido diversas atividades que contemplam os deslocados.2 milhões o total atual. o Brasil recebe hoje milhares de refugiados. Entre os anos de 1992 e 1994. a qual estipula o Brasil aceitaria somente refugiados originados do continente europeu. apesar do decréscimo. Mas. retornados. cabem aqui algumas ponderações sobre os refugiados no Brasil. o Estado brasileiro aceitou as vítimas da guerra civil angolana com base na Declaração de Cartagena. como educação e trabalho. c o m . o mesmo não se pode dizer dos deslocados. pp. Originalmente criado com tarefa restritiva aos refugiados. G.4 milhões de deslocados internos aumentou para 19. c o m . Por mais que as condições que expulsam os refugiados e os deslocados de seus lares possuam o mesmo cerne – afirmativa que encontra respaldo no conceito objetivo de refugiados – somente aquele que cruza a fronteira pode perquirir o status de refúgio. de 28 de janeiro de 1961. 155 a 159.78 De acordo com a tabela abaixo. como foi o caso de 150 vietnamitas em 1979/80 e 50 famílias Bahai (Irã) em 1986. Tal cláusula fez com que. apátridas e um total de 6. Disponível em: h t t p : / / w w w.215. O diagnóstico das nacionalidades vêm sofrendo alterações ao longo dos anos. até que fosse levantada em 1989. o Decreto nº 50. 79 FGV DIREITO rio 71 . em retrospectiva histórica. op. nem todas as pessoas que têm que deixar seus lares cruzam as fronteiras. o mais baixo em quase 25 anos. cit. estimandose em 9. asp?lang=PT&cod=17275. Por fim. o Brasil recebe cerca de 1200 angolanos. de forma a garantir o princípio do non refoulement. apátridas. o dado global de pessoas das quais se ocupa o ACNUR. Como ressalta Guilherme de Almeida.”77 Por fim. mesmo em momento anterior à elaboração da Lei nº 9747/97 que abrigou tanto a concepção clássica quanto a ampliada de refugiado. há também o reassentamento quando o refugiado vai para um terceiro país. Fonte: CONARE Acesso em: 27 de junho de 2005. asp?lang=PT&cod=17275. ao incorporar a Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951. Cabe também a repatriação. br/site/noticias/17275. estabelece uma “reserva” geográfica. o ACNUR assevera que “o número global de refugiados baixou em 4%. incluindo os solicitantes de asilo. é possível vislumbrar o atual retrato dos refugiados no Brasil: Tabela 1 – Total de Refugiados no Brasil em fevereiro de 200579 (acnur e conare) Continente de procedência África América (América Latina e Caribe) Ásia Europa Total Total  2.direitos humanos todas as providências necessárias para o exercício dos direitos humanos por parte dos refugiados. solicitantes de asilo e retornados. alguns grupos fossem recebidos com outro título. a d i t a l.2 milhões. Interessante ressaltar que. Em se mais recente Relatório. Todavia. sendo absolutamente necessária a anuência do refugiado.506 274 181 113 3074 Acesso em: 27 de junho de 2005. no ano de 2004. Se o número de refugiados vem diminuído ao longo dos últimos anos. 77 78 ALMEIDA. a d i t a l. Disponível em: h t t p : / / w w w. br/site/noticias/17275.

I. Rio de Janeiro: Renovar. há de se ressaltar que nos últimos anos. momento de constituição do Comitê Nacional para Refugiados (CONARE). como é o caso dos deslocados. VIII. A contabilidade de refugiados e deslocados está recortada a um determinado período histórico. Guilherme Assis de. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. DIH e DIR? Qual a principal distinção? Porque a guerra deve ser objeto de restrições? Quais os princípios regedores do DIH? O que significa o princípio do non refoulement? Qual é a diferença normativa entre refugiados e deslocados? Quais requisitos devem ser preenchidos para a aquisição do status de refugiado no Brasil? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. 284-352 (Cap. itens III e XII). Tratado de direito internacional de direitos humanos. Órgão coletivo sediado no Ministério da Justiça. VIII. CANÇADO TRINDADE. o CONARE é responsável pelo exame das solicitações de refúgio e pela elaboração de políticas públicas para os refugiados. 270-284 (Cap. Antonio Augusto. Fica clara a preponderância de refugiados de origem africana. I. e ALMEIDA. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Diante de todo o exposto. notadamente provenientes da Colômbia. Da mesma forma. Todavia. É certo que a ampliação da definição constitui uma forma de se contemplar grupos que tiveram que deixar seus lares por diferentes razões. Leitura acessória ARAÚJO. Vol. voltamos ao objeto desse curso: a efetiva proteção dos direitos humanos. FGV DIREITO rio 72 . 1997. Vol. a elasticidade conceitual deve ser respeitada pela aplicação de medidas preventivas que evitem que refugiados e deslocados tenham que dar início à partida. itens I e II). Nádia de. torna-se significativo o número de refugiados latinoamericanos. 1997. pp. O direito internacional dos refugiados: uma perspectiva brasileira. Tratado de direito internacional de direitos humanos. Todavia. as seguintes perguntas poderão auxiliar o professor na condução da aula: • • • • • • • Quais são as principais interações entre o DIDH. organizações internacionais como o ACNUR tiveram que expandir o universo de grupos sob sua responsabilidade. Antonio Augusto.direitos humanos Tais números refletem os pedidos de refúgio acolhidos antes e depois de 1998. 2001. Dentre elas. pp.

FGV DIREITO rio 73 . Flávia. pp. Legislação: Constituição Federal de 1988 Convenções de Genebra de 1949 Protocolos Adicionais de 1977 Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 Atividade Complementar: Filme “O Resgate do Soldado Ryan” de Steven Spielberg. pp. Buenos Aires: Centro de Apoyo en Comunicación para América – Comitê Internacional de la Cruz Roja. 115 – 146. 2003. Liesbeth. Temas de Direitos Humanos. Restricciones en la coducción de la Guerra. Frits e ZEGVELD. “O direito de asilo e a proteção internacional dos refugiados”. 2003.direitos humanos KALSHOVEN. São Paulo: Max Limonad. In: PIOVESAN. 21 – 41. PIOVESAN. Flávia. Introducción al derecho internacional humanitario.

inclusive no Peru. embora não tivessem percebido. FGV DIREITO rio 74 . Dessa forma. Tais dados foram enviados a Autoridade de Defesa Aeroespacial que. Diante do acontecido. Ao entrarem no espaço aéreo brasileiro. mas os pilotos. a hipótese do abate do avião colombiano. mais conhecida como Lei do Abate. que possui membros em toda região amazônica. Há mais de 10 anos. quando partia da Colômbia para a Ilha de Marajó. Gúzman e Gonzáles mantiveram sua rota original. Estiveram presentes autoridades. destaque-se: Ministério da Defesa Sustenta que o Estado brasileiro tem o dever de defender sua soberania nacional – um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito – sempre em conformidade com as normas legais. não conseguiu identificar a aeronave. não conseguiram entender o que lhe era solicitado. colombiano. A impossibilidade de identificação da aeronave e a procedência da Colômbia. Santiago e seu co-piloto. Tiveram início as medidas de intervenção: duas aeronaves da FAB aproximaram-se ostensivamente. uma das aeronaves da FAB disparou tiros de advertência laterais à aeronave. é membro da Associação Amigos das Sementes. Antônio Gonzales foram as primeiras vítimas da Lei do Tiro de Destruição. país reconhecido como importante fonte de substâncias entorpecente. a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados convocou uma Audiência Pública. fazendo com que a comunicação fracassasse. Logo em seguida. na qual foi debatido exaustivamete o assunto.direitos humanos Aula 12: Os direitos civis e políticos: direito à vida NOTA AO ALUNO Santiago Gúzman. Santiago Gúzman realiza o transporte de sementes medicinais entre diversas localidades em seu avião de pequeno porte. o avião foi considerado hostil. Dentre os principais argumentos. o que causou verdadeira situação de pânico para os pilotos. como medida de intervenção. entre outras coisas. No entanto. Pelo fato de Gúzman e Gonzales terem prosseguido em sua rota. emitindo sinais visuais para o pouso imediato da aeronave. por um problema técnico. ao entrar no sistema informatizado do Departamento de Aviação Civil (DAC). Em 20 de outubro de 2004. conduziram-na à condição de suspeita. representantes de organizações e familiares das vítimas. foram fotografados por uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) a fim de verificar. Estado do Pará. Colômbia e Venezuela. os disparos foram além de sua finalidade: o avião foi abatido e os tripulantes faleceram. Em procedimento objeto de registro sonoro. nível de vôo. o piloto da FAB tentou contato via rádio. foi disparado tiro com o intuito de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo. tipo de aeronave. sua matrícula. após ordem do Comandante da Aeronáutica. Como medida de averiguação.

constitui um dos direitos fundamentais do ordenamento jurídico brasileiro. Organização pela independência do poder judiciário Sustenta que o abate ao avião colombiano constitui ofensa ao devido processo legal. a vida de seus cidadãos. a falta de habilitação do piloto. e em última conseqüência. uma vez que os tripulantes foram condenados sem julgamento e direito à ampla defesa. O grupo reconhece que a lei é dura e drástica. a fuga. e não-utilização de fonia para não pagar as tarifas de proteção ao vôo podem ser apontadas como falhas que não devem ter como conseqüência a violação do direito à propriedade das aeronaves. pelo uso ou tráfico. Assim. não se opõe ao direito à vida dos tripulantes. atende não apenas a um interesse público superior e socialmente legítimo como ao princípio constitucional da segurança pública. suspeitos de tráfico de drogas. milhares de pessoas. Questão De que forma a Lei do Tiro de Destruição protege a soberania nacional? O abate do avião colombiano viola o direito à vida? Os tripulantes. uma vez que os mesmos estavam ameaçando a soberania e. O Poder Judiciário é o órgão competente para julgar e condenar alguém. nesse caso. conseqüentemente. mas sustenta ser um mal necessário para se combater um mal maior. Defensores dos Direitos Humanos Sustenta que o direito à vida deve ser garantido e promovido em todas as hipóteses.direitos humanos além de estar legalmente prevista. deveriam ter tido os direitos à ampla defesa e de ser julgados pelo Poder FGV DIREITO rio 75 . foi aplicada aos 2 tripulantes. direito consagrado constitucionalmente. O Estado deve investir em meios alternativos de controle. o direito à vida. não podendo haver decisão extrajudicial. equipara-se à resistência à prisão. se o piloto resolve ignorar sete medidas que visam sua identificação. além de ser consagrado internacionalmente. o abate ao avião colombiano significa que a pena de morte. Associação Nacional de Empresas Aeroviárias O mau funcionamento do sistema de comunicações. tendo em vista que. vedada expressamente pela Constituição Federal brasileira (salvo em caso de guerra declarada). Ademais. Sendo assim. desatualização do exame médico. Defensores da Lei e Ordem Argumentam que a lei é importante e necessária pois o consumo de drogas no Brasil e no mundo é uma tragédia cotidiana que mata anualmente.

A Constituição poderá ser emendada mediante proposta: I – de um terço. constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: [.] Art. aérea e aeroespacial. Compete à União: [. aeroportuária e de fronteiras.. [. à liberdade. navegação lacustre. à segurança e à propriedade. LV – aos litigantes. nos termos do art..] Art. 22. defesa civil e mobilização nacional (grifou-se). 5º. Todos são iguais perante a lei.... Legislação Constituição Federal de 1988 Art. bem como as posições acima mencionadas para responder tais questões....] Art. defesa marítima.. [..] Art. 84. dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal. [.] X – regime dos portos.] XXXVII – não haverá juízo ou tribunal de exceção..] XXII – executar os serviços de polícia marítima. fluvial.. 21. Compete privativamente à União legislar sobre: [...] XXVIII – defesa territorial..] II – declarar a guerra e celebrar a paz.... e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa. 1º. com os meios e recursos a ela inerentes. marítima. [.. A República Federativa do Brasil. 60. à igualdade...] III – a dignidade da pessoa humana. A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: [... em processo judicial ou administrativo. [. [. [. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. [. no mínimo. [..] LIII – ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente.. salvo em caso de guerra declarada.direitos humanos Judiciário? Utilize a legislação brasileira (abaixo).. LIV – ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal..] VI – defesa da paz. XIX.] II – prevalência dos direitos humanos.. 4º. FGV DIREITO rio 76 . [.] XLVII – não haverá penas: a) de morte. nos termos seguintes: [.. sem distinção de qualquer natureza. III – assegurar a defesa nacional.] Art. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal. defesa aeroespacial..

Art 12. prescrever. pela maioria relativa de seus membros. prescrever. fabricar. ter em depósito. Pena – Reclusão. adquirir.] IV – os direitos e garantias individuais. produzir. sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar. adquire.368. § 1º.. [. Importar ou exportar. sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar. Entende-se em legítima defesa quem.] Legítima defesa Art.. transportar. expor à venda ou oferecer. a direito seu ou de outrem [. fornecer ainda que gratuitamente. guardar. produz. transportar... de 7 de dezembro de 1940. fornecer ainda que gratuitamente. tem em depósito. preparar. vende. adquirir. a consumo substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica.. usando moderadamente dos meios necessários. a consumo substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. vender. III – de mais da metade das Assembléias Legislativas das unidades da Federação.848. Nas mesmas penas incorre quem. II – semeia. ministrar ou entregar. Importar ou exportar. trazer consigo. vender. transporta.. ministrar ou entregar. de três meses a um ano. Evadir-se ou tentar evadir-se o preso ou o indivíduo submetido a medida de segurança detentiva. fabrica. usando de violência contra a pessoa: Pena – detenção. indevidamente: I – importa ou exporta. de qualquer forma. Código Penal Decreto-lei no 2. FGV DIREITO rio 77 .] § 4º – Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: [. fabricar. produzir. trazer consigo. e pagamento de 50 (cinqüenta) a 360 (trezentos e sessenta) dias-multa.. guardar. fornece ainda que gratuitamente.. ter em depósito. repele injusta agressão. [. remeter. remete. além da pena correspondente à violência.direitos humanos II – do Presidente da República. remeter. de qualquer forma. de 21 de outubro de 1976 Dispõe sobre medidas de prevenção e repressão ao tráfico ilícito e uso indevido de substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou psíquica. atual ou iminente. cultiva ou faz a colheita de plantas destinadas à preparação de entorpecente ou de substância que determine dependência física ou psíquica. Lei nº 6. 25. expõe à venda ou oferece. de 3 (três) a 15 (quinze) anos.] Art 12. cada uma delas. [. preparar. e dá outras providências. manifestando-se.] Evasão mediante violência contra a pessoa Art. 352.. expor à venda ou oferecer. traz consigo ou guarda matéria-prima destinada a preparação de substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica..

Lei nº 7. fornece ainda que gratuitamente. excetuadas as armas. IV – para verificação de sua carga no caso de restrição legal (artigo 21) ou de porte proibido de equipamento (parágrafo único do artigo 21). fazendárias ou da Polícia Federal.1998) – grifou-se.. transporta. 34. A aeronave poderá ser detida por autoridades aeronáuticas. nos seguintes casos: I – se voar no espaço aéreo brasileiro com infração das convenções ou atos internacionais. [. instrumentos e objetos de qualquer natureza. produz. cultiva ou faz a colheita de plantas destinadas à preparação de entorpecente ou de substãncia que determine dependência física ou psíquica. remete.] Art. 303. § 1°. a aeronave será classificada como hostil. de 5.. Nas mesmas penas incorre quem. Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos. utensílios. V – para averiguação de ilícito. assim como os maquinismos. § 1º. e pagamento de 50 (cinqüenta) a 360 (trezentos e sessenta) dias-multa. ficarão sob custódia da autoridade de polícia judiciária.. Lei nº 9. expõe à venda ou oferece. adquire. III – para exame dos certificados e outros documentos indispensáveis.. de 21 de outubro de 1976. II – se. fabrica.direitos humanos Pena – Reclusão. nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada. de 3 (três) a 15 (quinze) anos. [. ou das autorizações para tal fim. (Parágrafo acrescentado pela Lei nº 9. utilizados para a prática dos crimes definidos nesta Lei. que dispõe sobre medidas de prevenção e repressão ao tráfico ilícito e uso indevido de substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou psíquica. que serão recolhidas na forma da legislação específica (grifou-se). após a sua regular apreensão. II – semeia. entrando no espaço aéreo brasileiro.] Art 18. de 19 de dezembro de 1986 (Código Brasileiro de Aeronáutica) Art. embarcações. tem em depósito. de 30 de junho de 1999 Altera a redação do art 34 da Lei nº 6. Os veículos. traz consigo ou guarda matéria-prima destinada a preparação de substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. indevidamente: I – importa ou exporta.565.3. A autoridade aeronáutica poderá empregar os meios que julgar necessários para compelir a aeronave a efetuar o pouso no aeródromo que lhe for indicado.614.368. aeronaves e quaisquer outros meios de transporte. FGV DIREITO rio 78 . desrespeitar a obrigatoriedade de pouso em aeroporto internacional.804. vende. As penas dos crimes definidos nesta Lei serão aumentadas de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços): I – no caso de tráfico com o exterior ou de extra-territorialidade da lei penal. § 2°. ficando sujeita à medida de destruição.

e tendo em vista o disposto nos §§ 1o....... (§ 2°renumerado e alterado pela Lei nº 9...... de 16 de julho de 2004 Regulamenta os §§ 1º. 2º e 3º do art.. 303 da Lei no 7... no que concerne às aeronaves hostis ou suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins.565. de 19 de dezembro de 1986..... de 19 de dezembro de 1986... oriunda de regiões reconhecidamente fontes de produção ou distribuição de drogas ilícitas.. 303... de 5... inciso IV. 2o e 3o do art...... O PRESIDENTE DA REPÚBLICA.... A autoridade mencionada no § 1º responderá por seus atos quando agir com excesso de poder ou com espírito emulatório... § 3º... da Constituição......... 5 de março de 1998.1998).565.. no uso da atribuição que lhe confere o art..... § 2º. 303 da Lei nº 7. a aeronave será classificada como hostil.. que dispõe sobre o Código Brasileiro de Aeronáutica...... é considerada aeronave suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins aquela que se enquadre em uma das seguintes situações: I – adentrar o território nacional. sem Plano de Vôo aprovado.......... Lei nº 9. Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos.....144........ renumerando-se o atual § 2º como § 3º... ficando sujeito à medida de destruição...direitos humanos § 3°.. ou FGV DIREITO rio 79 .. Brasília......... A autoridade mencionada no § 1° responderá por seus atos quando agir com excesso de poder ou com espírito emulatório.614.... 2º...565...” Art... nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada (grifou-se)....... 2o... Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação........ de 19 de dezembro de 1986........ numerado como § 2º...565. de 19 de dezembro de 1986................. ...614..... para incluir hipótese destruição de aeronave O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o CONGRESSO NACIONAL decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art.. O art.... FERNANDO HENRIQUE CARDOSO Decreto nº 5. Este Decreto estabelece os procedimentos a serem seguidos com relação a aeronaves hostis ou suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins... de 5 de março de 1998 Altera a Lei nº 7... Art... na forma seguinte: “Art. DECRETA: Art.. 177º da Independência e 110º da República..... levando em conta que estas podem apresentar ameaça à segurança pública. Para fins deste Decreto....... passa a vigorar acrescido de um parágrafo... 1º.......... 303 da Lei no 7.... 1o.3...... 84.......

§ 1o. antes de sua vigência. A aeronave suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins que não atenda aos procedimentos coercitivos descritos no art. de conhecimento obrigatório dos aeronavegantes.direitos humanos II – omitir aos órgãos de controle de tráfego aéreo informações necessárias à sua identificação. IV – execução sobre áreas não densamente povoadas e relacionadas com rotas presumivelmente utilizadas para o tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins. e V – autorização do Presidente da República ou da autoridade por ele delegada. Art. a vigiar o seu comportamento. por intermédio de comunicação via rádio ou sinais visuais. feitos pela aeronave de interceptação. 2o estarão sujeitas às medidas coercitivas de averiguação. § 3o. Art. com a finalidade de interrogá-la. pela aeronave interceptadora. A medida de destruição consiste no disparo de tiros. Art. As aeronaves enquadradas no art. 7o. ainda. III – execução por pilotos e controladores de Defesa Aérea qualificados. II – registro em gravação das comunicações ou imagens da aplicação dos procedimentos. no ar ou em terra. Art. se estiver cumprindo rota presumivelmente utilizada para distribuição de drogas ilícitas. com a finalidade de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo da aeronave hostil e somente poderá ser utilizada como último recurso e após o cumprimento de todos os procedimentos que previnam a perda de vidas inocentes. 4o. O teor deste Decreto deverá ser divulgado. ou. de acordo com as regras de tráfego aéreo. com o objetivo de persuadi-la a obedecer às ordens transmitidas. As medidas de intervenção seguem-se às medidas de averiguação e consistem na determinação à aeronave interceptada para que modifique sua rota com o objetivo de forçar o seu pouso em aeródromo que lhe for determinado. para ser submetida a medidas de controle no solo. § 2o. 3o será classificada como aeronave hostil e estará sujeita à medida de destruição. As medidas de persuasão seguem-se às medidas de intervenção e consistem no disparo de tiros de aviso. executadas por aeronaves de interceptação. A medida de destruição terá que obedecer às seguintes condições: I – emprego dos meios sob controle operacional do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro – COMDABRA. consistindo na aproximação ostensiva da aeronave de interceptação à aeronave interceptada. de maneira que possam ser observados pela tripulação da aeronave interceptada. Art. 5o. As medidas de averiguação visam a determinar ou a confirmar a identidade de uma aeronave. de forma progressiva e sempre que a medida anterior não obtiver êxito. com o objetivo de compelir a aeronave suspeita a efetuar o pouso em aeródromo que lhe for indicado e ser submetida a medidas de controle no solo pelas autoridades policiais federais ou estaduais. segundo os padrões estabelecidos pelo COMDABRA. 3o. com munição traçante. por meio da Publicação de Informação Aeronáutica (AIP Brasil). intervenção e persuasão. ou não cumprir determinações destes mesmos órgãos. 6 o. destinada aos aeroFGV DIREITO rio 80 .

As autoridades responsáveis pelos procedimentos relativos à execução da medida de destruição responderão. sem o devido processo legal. de tão graves conseqüências. 8o. na semana passada. O Ministro negou. a destruição de aeronaves suspeitas de estarem transportando drogas. efetuando os necessários treinamentos. Art. após o descumprimento de nove procedimentos. Art. sem o devido processo legal e em tempo de paz? De acordo com o Ministro da Defesa. de 16. e o Presidente da República. ou seja. Notícias prévias Inconstitucionalidade da Lei do Abate80 A Lei nº 9614. Esse Decreto entrará em vigor no próximo dia 18 de outubro. em 05. assim. ao aprovar essa Lei. causando a morte do piloto e dos passageiros. mas os aviões clandestinos civis. 16 de julho de 2004. deverá adequar toda documentação interna ao disposto neste Decreto. porque a nossa Constituição garante o direito à vida e proíbe a pena de morte. de 05. na prática. Essa Lei é flagrantemente inconstitucional. XLVII).2004. a lei não se aplica aos aviões militares. htm.07.br/wwwroot/ 02de2004/inconstitucionalidadedaleidoabatefernandolima. Os procedimentos previstos neste Decreto deverão ser objeto de avaliação periódica. Acesso em: 08 nov.1998. salvo em caso de guerra declarada (art. uma decisão. quando agirem com excesso ou abuso de poder. Como ainda não havia sido regulamentada. José Viegas. poderão ser derrubados. introduziu. como a de derrubar uma aeronave em vôo. que a regulamentou. Art. efetuados pela FAB. 12. pelos pilotos da FAB.07. permitindo a condenação e a execução sumária de todos os passageiros dos pequenos aviões civis. O Ministério da Defesa. com vistas ao seu aprimoramento. estabelecendo os procedimentos que deverão ser seguidos. suspeitos do tráfico de drogas. no espaço aéreo brasileiro. Pior: essa Lei instituiu a execução extrajudicial. Este Decreto entra em vigor noventa dias após a data de sua publicação. ao permitir o tiro de abate. Art. 80 FGV DIREITO rio 81 . conforme pretenderam o Congresso Nacional. em relação às “aeronaves suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins”. Fica delegada ao Comandante da Aeronáutica a competência para autorizar a aplicação da medida de destruição. sem julgamento.direitos humanos navegantes e de conhecimento obrigatório para o exercício da atividade aérea no espaço aéreo brasileiro. “porque se trata de resistência à prisão e as aeronaves somente serão destruídas se os seus pilotos não obedecerem às ordens Artigo escrito por Fernando Lima. antes de sua destruição. mas agora o Presidente Lula assinou o Decreto nº 5144. Brasília. nacionais ou estrangeiros. cada qual nos limites de suas atribuições. a pena de morte no Brasil.tex. 9o.2004. 183o da Independência e 116o da República. Disponível em: http:// www. por intermédio do Comando da Aeronáutica. 2004.pro. peremptoriamente. pelos seus atos. Art. pela simples suspeita do tráfico de drogas. 11. 10. a pena de morte. professor de Direito Constitucional da UNAMA.03. 5º. aplicando. e os pilotos encarregados de sua execução já estiveram em Belém. essa Lei passou desapercebida. da apreciação do Poder Judiciário. que se trate de uma condenação à morte. Mas será possível excluir.

porque seria o mesmo que afirmar que um automóvel cheio de passageiros deveria ser metralhado pelos policiais rodoviários. a derrubada de aeronaves. pela simples suspeita de tráfico de drogas. não podendo matá-los.direitos humanos dos pilotos da FAB”. uma lei autorizando -. a autoridade policial seja obrigada a matá-lo.2004. caso o criminoso atente contra a vida do policial (art. somente os aviões que estivessem transportando drogas seriam derrubados. mesmo que a fuga fosse tipificada como crime. Como se sabe. também. se não se tratasse de um assunto tão sério. e muito menos por uma simples suspeita. o Supremo Tribunal Federal não foi provocado. o Brasil tem fronteiras com onze países da América do Sul. ainda. na hipótese de legítima defesa. Aliás. 352 do Código Penal). que a pretexto de combater os traficantes. Evidentemente. sobretudo na Amazônia. Os argumentos seriam ridículos. que também adotaram. Ressalte-se. os pilotos e passageiros não poderiam ser condenados à morte. o Estado FGV DIREITO rio 82 . como a Colômbia. nem ao menos constitui crime. exceto mediante violência contra a pessoa (art. Sei perfeitamente que o assunto é polêmico. passa a utilizar os mesmos métodos dos criminosos. muitos civis inocentes já foram mortos. porque a fuga. de acordo com as suas declarações. para o “crime” de “exploração ilegal da biodiversidade”. talvez. ou até mesmo do porta-malas. portanto. a falta de equipamentos adequados. poderá ocorrer que. sem direito a defesa e sem julgamento. Além disso. por pressão dos Estados Unidos. Charity. até hoje. embora não estejam transportando drogas. certamente. Por essa razão. Roberto Busato. incluindo países produtores e exportadores de cocaína. se o seu motorista não obedecesse à ordem de parar. por diversas razões. para apreciar a constitucionalidade da Lei do Abate. como. leis semelhantes à nossa. No entanto. com ou sem lei. ainda. em busca de drogas. se o motorista tentasse fugir. Infelizmente. a Bolívia e o Peru. não seria. proibida pela Constituição e considerada cláusula pétrea. Na minha opinião. que não pode ser alterada nem mesmo através de emenda constitucional. A Lei do Abate. punida com a pena de morte. porque a opinião pública será levada a acreditar que essa Lei contribuirá para reduzir a entrada de drogas no País e também para impedir que o nosso espaço aéreo seja transformado em rota do narcotráfico internacional. coloca em perigo a vida de inocentes. matando os seus pilotos e passageiros. no encalço do delinqüente. não apenas concorda com a Lei do Abate. embora não exista. é assassinato e depõe contra o Brasil. que na Colômbia e no Peru. O Estado tem a obrigação de prender os suspeitos. mas acha que não devem ser admitidas exceções (aeronaves militares). 25 do Código Penal). e parece sugerir que a pena de morte seja aplicada.07. o próprio Presidente nacional da OAB. nem por isso poderia ser morto o que às vezes acontece. porque inúmeras aeronaves. em 21. poderão deixar de se identificar para os pilotos da FAB. para o competente exame da documentação. divulgadas pelo “site” da OAB. e a floresta amazônica é uma das principais rotas dos traficantes de drogas. também. Para combater o crime. além de ser inconstitucional. Mesmo assim. como a missionária americana Verônica Bowers e a sua filha de sete meses. por exemplo. e de obedecer à ordem de pouso.

fazendárias ou da Polícia Federal. um grupo de trabalho constituído por integrantes do Ministério da Defesa. Ademais. do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República e especialistas do Comando da Aeronáutica se reuniu com o objetivo de estudar todos os aspectos pertinentes à regulamentação da Lei do Tiro de Destruição. apelidada pela imprensa de Lei do Abate. aeronave hostil e medida de destruição. medidas de integração de procedimentos com os países vizinhos e legislação de países interessados no tema e que mantêm normas específicas sobre responsabilidade civil de seus cidadãos. foi introduzido o parágrafo segundo. Neste artigo.direitos humanos também se subordina ao Direito. do Ministério das Relações Exteriores. tornando-se necessária a definição das expressões meios coercitivos. 81 Acesso em: 8 nov. trata dos casos em que uma aeronave pode ser submetida à detenção. iguala-se aos delinqüentes. mil. FGV DIREITO rio 83 . a sociedade brasileira. Desrespeitando a Constituição. por intermédio de um decreto presidencial.fab. praticando a Lei de Talião. A lei em questão introduziu conceitos novos. em apoio às medidas de policiamento do espaço aéreo brasileiro. quando estes tenham apoiado direta ou indiretamente a destruição de aeronave civil. por intermédio de seus representantes legais. A partir de abril de 2003. de 5 de março de 1998. Todos estes aspectos demandaram a necessidade de regulamentação do citado dispositivo legal. que veio preencher uma importante lacuna. a aeronave será classificada como hostil. à interdição e à apreensão por autoridades aeronáuticas. de 19 de dezembro de 1986. suspeitos de envolvimento com o tráfico de drogas ilícitas. Nessas condições. nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada. tais como procedimentos de interceptação aérea. Disponível em: http://www. e modificado pela Lei nº 9. Força Aérea Brasileira Centro de Comunicação Social da Aeronáutica (30. instituído pela Lei nº 7. instituiu Lei do Tiro de Destruição. ficando sujeita à medida de destruição.2004)81 1. passou a ser imprescindível que o novo dispositivo fosse aplicado dentro de uma moldura de rígidos preceitos de segurança.htm.br/Publicacao/Imprensa/ Noticias/3007_abate. do Ministério da Justiça.614.06. Histórico O Código Brasileiro de Aeronáutica. particularmente sobre os movimentos aéreos não regulares. a justiça privada e a vingança anárquica. no seu artigo 303.565. com o pleno esclarecimento dos procedimentos e das condições em que a medida de destruição poderia ser executada. desobedecendo ao devido processo legal e afastando o poder de decisão das autoridades devidamente constituídas para jurisdicionar os conflitos e aplicar as sanções previstas nas leis penais. normas internacionais da aviação civil. com a seguinte redação: § 2º Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos. 2004.

levando em conta a crescente ameaça apresentada pelo narcotráfico para a segurança da sociedade brasileira. em suas ordens de identificação e de pouso em pista pré-determinada. comprovou-se que as principais rotas de entrada de drogas ilícitas em território brasileiro ocorrem por via aérea. oriundas das regiões reconhecidamente produtoras dessas substâncias. assinada pelo Presidente da República. O texto é resultado de uma série de intercâmbios com países vizinhos. a regulamentação da Lei do Tiro de Destruição aprovada abrange somente o caso de aeronaves suspeitas de envolvimento com o tráfico internacional de drogas. Em razão do que prescreve a Carta da ONU sobre o princípio de autodefesa. A regulamentação da Lei do Tiro de Destruição. as aeronaves de interceptação da Força Aérea Brasileira. Essas seguem para o interior do Brasil (consumo interno) ou para países vizinhos. em pequenas aeronaves. decidido a reverter essa situação e aprimorar a defesa do país. A questão foi amplamente debatida com outros governos interessados no tema. minimizar riscos de equívocos. vem desenvolvendo uma série de ações. que entra em vigor 90 dias após a sua publicação no Diário Oficial da União (em 19 de julho). Medidas O Governo Brasileiro. entre outros destinos da rota de exportação. é uma medida imprescindível para combater a criminalidade associada ao tráfico internacional de drogas. portanto.144. responsáveis pelo policiamento do espaço aéreo. 4. que ocorreram para integrar os procedimentos de interceptação aérea e. apesar de ter-se chegado ao tiro de advertência. A regulamentação. como previa a legislação em vigor. Cenário Com a modernização do sistema de defesa aérea e controle do tráfego aéreo brasileiro. caracterizando-se situação similar à resistência à prisão. sendo o SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia) uma grande expressão desse trabalho. eram ignoradas por pilotos em vôo clandestinos. Esses entendimentos indicam que a entrada em vigor da regulamentação não trará efeitos adversos ao país. FGV DIREITO rio 84 . Execução Em primeiro lugar. Porém. Decreto Nº 5. como a transferência de efetivos militares para a Amazônia e a modificação da legislação brasileira no sentido de preparar as Forças Armadas para atuar contra os delitos transnacionais fronteiriços. Em muitas situações. 3. a caminho da Europa e Estados Unidos. com isto. criou instrumentos de dissuasão adequados ao policiamento do espaço aéreo brasileiro. o Governo brasileiro considerou necessária apenas a regulamentação da lei para esse aspecto. houve completa desobediência às ordens emitidas pela autoridade. no combate ao tráfico terrestre e fluvial. por falta da regulamentação da Lei do Tiro de Destruição.direitos humanos 2. Tornou-se necessária uma ação mais eficaz do Estado no combate a esses vôos ilícitos. que transportam a droga para o território brasileiro.

ou não cumprir determinações dessas mesmas autoridades.5 ou 243 MHz. que é mostrada. o nome de seu proprietário. de acordo com as regras estabelecidas internacionalmente e de conhecimento obrigatório por todo aeronavegante. c) Interrogação na freqüência internacional de emergência. São duas as situações em que uma aeronave pode ser considerada suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins: a) a que entrar em território nacional. b) Confirmação da Matrícula. através de uma placa. 1º) MEDIDAS DE AVERIGUAÇÃO primeiro nível das medidas busca determinar ou a confirmar a identidade de uma aeronave.direitos humanos Antes de ser classificada como hostil e. passa-se ao segundo nível de medidas coercitivas. portanto. caso esteja trafegando em rota presumivelmente utilizada na distribuição de drogas ilícitas. dados de identificação. 2º) MEDIDAS DE INTERVENÇÃO – caso o piloto da aeronave suspeita não responda e não atenda a nenhuma das medidas já enumeradas. nível de vôo. nome do piloto que normalmente a opera. sem serem percebidos. que entrará no sistema informatizado do Departamento de Aviação Civil (DAC) para verificar se a matrícula corresponde ao tipo de aeronave. Engloba os seguintes procedimentos: a) Reconhecimento à Distância. oriunda de regiões reconhecidamente fontes de produção ou distribuição de drogas ilícitas. que se dá quando as informações são transmitidas para a Autoridade de Defesa Aeroespacial. Passos Caracterizada a aeronave como suspeita. se considerada hostil. proa e características marcantes. dados de qualificação e de localização. e. à aeronave interceptada pelo piloto do avião de Defesa Aérea. de uma posição discreta. ocasião em que os pilotos da aeronave de interceptação. serão encarregadas da execução dessas medidas. caracterizada pela execução de dois procedimentos: FGV DIREITO rio 85 . fotografam a aeronave interceptada e colhem informações de matrícula. sem plano de vôo aprovado. de 121. acionadas pelo Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA). validade do certificado de aeronavegabilidade. d) Realização de sinais visuais. validade de exame médico. ela estará sujeita a três tipos de medidas coercitivas. licença. a aeronave deverá ser considerada como suspeita e submetida a procedimentos específicos. ou. Caso a aeronave esteja em situação regular. à medida de destruição. que é a Intervenção. endereço. ainda. As aeronaves de interceptação da Força Aérea Brasileira. sujeita à medida de destruição. tipo de aeronave. detalhados e seguros. após ter estabelecido com ela contato visual próximo. etc.5 MHz. será realizado apenas o acompanhamento. 5. iniciando pela de VHF 121. ou b) a que omitir aos órgãos de controle de tráfego aéreo informações necessárias à sua identificação. aplicadas de forma progressiva e sempre que a medida anterior não obtiver êxito. a vigiar seu comportamento.

direitos humanos a) mudança de rota.144. 2) Confirmação de Matrícula. com a finalidade de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo da aeronave transgressora. de 16 de julho de 2004. são oito os procedimentos a serem seguidos pelas autoridades de defesa aérea para o policiamento do espaço aéreo. em todas as freqüências disponíveis. Situação da aeronave Nível de medida Normal Situação de Normalidade Procedimentos Verificação das condições de vôo da aeronave. lateralmente à aeronave suspeita. 4) Sinais Visuais. 8) Tiro de Destruição Medidas de Averiguação Suspeita Medidas de Intervenção Medidas de Persuasão Hostil Medidas de Destruição MEDIDA DE DESTRUIÇÃO o tiro de destruição deverá atender. 3) Contato por Rádio na Frequência de Emergência. consiste na realização de tiros de advertência. previstas pela regulamentação contida no Decreto nº 5. b) pouso obrigatório. 3º) MEDIDAS DE PERSUASÃO – o terceiro nível das medidas previstas. Somente quando transgredidos os sete procedimentos iniciais é que a aeronave será considerada hostil. 6) Pouso Obrigatório. quanto por intermédio dos sinais visuais previstos nas normas internacionais e de conhecimento obrigatório. obrigatoriamente. 7) Tiros de Advertência. que entrará em execução somente se o piloto da aeronave suspeita não atender a nenhuma das medidas anteriores. com munição traçante. d) o procedimento irá ocorrer sobre áreas não densamente povoadas e relacionadas com rotas presumivelmente utilizadas para o tráfico de drogas. 5) Mudança de rota. 1) Reconhecimento à Distância. FGV DIREITO rio 86 . feitos pela aeronave de interceptação. o que significa dizer que tanto os radares quanto as aeronaves de interceptação envolvidas no policiamento do espaço aéreo deverão estar sob controle operacional das autoridades de defesa aérea brasileira. assinado pelo Excelentíssimo Senhor Presidente da República e publicado no Diário Oficial do dia 19 de julho. segundo os padrões estabelecidos pelo Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA). determinada pela aeronave de interceptação. São elas: a) a sua realização só poderá ocorrer estando todos os meios envolvidos sob controle operacional do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA). b) os procedimentos descritos serão registrados em gravação sonora e/ou visual das comunicações. de forma visível e sem atingi-la. No total. também determinado pela aeronave interceptadora de forma semelhante à tarefa anterior. a exigências rígidas. c) será executado apenas por pilotos e controladores de defesa aérea qualificados. tanto pelo rádio. e estará sujeita à medida de destruição. que consiste na realização de disparo de tiros.

José Viegas. assim. É importante ressaltar que a utilização dessa medida extrema somente ocorrerá após terem sido cumpridos todos os procedimentos previstos em lei e que esse será o último recurso para o Estado evitar o ingresso de aeronaves que transportam drogas para o território brasileiro. que reuniu quase 9. o senador é um dos poucos que reclamam. esses passageiros estariam sendo executados sem ter tido direito a julgamento. No Brasil. delega ao Comandante da Aeronáutica a competência para aplicar a medida de destruição. possibilitando. o Palácio do Planalto considerou necessário conversar com países como os Estados Unidos. protesta o parlamentar ao lembrar que a lei foi aprovada em 1998 com o apoio de tucanos e petistas.com. a lei que derruba aviões levanta muitas polêmicas. 87% dos internautas se posicionaram a favor da medida (é uma forma legítima de defender a soberania) e 13% se disseram contrários ao tiro de destruição (só deveria ser usado em casos de guerra). Em uma enquete realizada pela internet. O ministro da Defesa. a necessária agilização do processo de tomada da decisão. A lei foi regulamentada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva no dia 19 de julho de 2004. em entrevista por e-mail ao Correio. O ministro esclarece. Para Suplicy. O país é o terceiro país na América do Sul a adotar a Lei do Abate – os primeiros foram o Peru e a Colômbia. htm?codigo=2618013. refuta a comparação feita pelo senador Suplicy: “Não há qualquer correspondência entre a regulamentação da medida de destruição e a instituição da pena de morte. como as ocorridas no Peru em 2000.com. Lei do abate entra em vigor (17. “A sociedade não foi ouvida”.10. qualquer aeronave que cruzar o céu brasileiro sem se identificar pode ser destruída. que “a medida de destruição é a última de uma série de procedimentos que visam obrigar a aeronave infratora a pousar e submeter-se às medidas de policiamento no solo”.br/ultimas. No entanto. Disponível em: http://noticias. dispara o senador petista Eduardo Suplicy (SP).br. pelo site www. mas não está sozinho. São situações absolutamente díspares”. com elevado grau de confiabilidade e segurança. “Oxalá nunca necessitemos utilizar a medida de destruição”. a medida foi anunciada como mais uma ferramenta de combate ao tráfico de drogas e ao contrabando de armas. Acesso em: 8 nov. Viegas classificou a Lei do Abate como uma “forma de dissuasão” para coibir o tráfico de drogas.pop. 82 FGV DIREITO rio 87 . mesmo que a aeronave interceptada esteja lotada de criminosos. por exemplo. 2004. no decreto de regulamentação. Existia o temor de que se um cidadão estrangeiro estivesse dentro de um avião destruído pelo governo brasileiro e o país sofresse algum tipo de retaliação militar ou econômica. O parlamentar defende que a lei poderá provocar a morte de muitos inocentes. No Congresso. A demora de oito anos para conseguir a rubrica presidencial tem explicação: antes de fazer com que a lei entrasse em vigor.direitos humanos 6. “Para mim isso é a mesma coisa que a pena de morte”.5 mil votos.2004)82 A partir de hoje. O deputado Fernando Gabeira (sem partido-RJ) o acompanha. Competência O Excelentíssimo Senhor Presidente. aumentando o flagelo do problema do tráfico no país. correioweb.

afirma. Não deve existir condescendência nem com aeronaves suspeitas que estiverem com crianças a bordo. salas de tráfego de aeroportos. sindicatos da aviação e hospitais entre outros pontos de passagem obrigatórios de pilotos e de futuros pilotos. Na maior parte dos casos. como é chamada a licença para vôo. 83 FGV DIREITO rio 88 . Orçada em R$ 280 mil. “Os traficantes tinham certeza da impunidade.direitos humanos O governo brasileiro garante que o procedimento de abate vai ser cuidadoso. the Peruvian Air Force and a Baptist missionary group are giving conflicting accounts of events that led to the shooting down of the plane. Faziam até sinais obscenos”. Acesso em: 20 abril 2005.com/2001/US/04/21/peru. hangares de manutenção. Ele compara o procedimento ao adotado por policiais militares com veículos que não param em uma blitz. Plane shootdown: Drug intercept flights suspended in Peru – CNN (abril de 2001)83 Drug interception flights in Peru have been suspended until the completion of an investigation into the downing of a missionary plane that killed two of five Americans on board – a 7-month-old girl and her mother. fazer um pouso de emergência. “O desfecho é de responsabilidade exclusiva do comandante da aeronave”. Disponível em: http://archives. A intenção da Força Aérea Brasileira não é matar ninguém”. Cerca de 10 mil cartazes serão distribuídos para os aeroclubes. brigadeiro Francisco Azambuja. Mas os aviões militares no máximo acompanhavam a aeronave suspeita até o pouso. empresas aéreas. Alô. explica Azambuja. Desde o último dia 8. acredita o comandante de Defesa Aeroespacial Brasileiro (Condabra). cnn. A diferença. U. o avião irregular deixava o território brasileiro e adiava a travessia para outro dia. O procedimento de interceptação existe há 24 anos.S. reconhece. plane. Cada caso será estudado na hora em que acontecer. 110 emissoras de rádio AM e FM divulgam a campanha em toda a extensão da fronteira seca brasileira e atingindo 72 cidades.” Barnes said. Comandante Todo o piloto que for abastecer o avião receberá um dos 100 mil panfletos com informações sobre a Lei do Abate. lembra Azambuja que tem imagens de vídeo com o comportamento dos criminosos. já avião terá que.02/. Mas nenhum subterfúgio que eles possam usar estará dando salvo-conduto ao traficante ou elemento que está fazendo tráfego ilegal para se salvar”. “Os tiros são para obrigar a aeronave a pousar. Zombavam de nós. A idéia é fazer com que distribuição do material não fique restrita aos aeroportos e atinja pilotos que não têm brevê. alô. O nosso trabalho é fazer com que a lei seja cumprida. até o dia 28. Meanwhile. embassy spokesman Doug Barnes told CNN Saturday. “Não estamos brincando de fazer policiamento aéreo. a campanha tem o objetivo de informar que como a aeronave deve agir ao ser interceptada por aviões da Força Aérea Brasileira. é que ao ser atingido em um pneu o veículo pode parar em um acostamento. “We are working with Peruvian authorities to investigate what happened. no mínimo.

the statement said. the air force plane fired. in agreement with established procedures. first located plane A U. reconnaissance plane provided location data for the subsequent intercept mission that was conducted by the Peruvian Air Force. the statement said. 42. “Facing such circumstances and. The family is from Muskegon. Mission: Plane on safe course Michael Loftus. said a spokesman for the U. embassy in Lima said the U. “As part of an agreement. “lamenting profoundly the loss of human life”. of Geigertown. reconnaissance plane. According to a statement issued by the U. and had been working in Peru since 1993.direitos humanos U. “I can’t explain to you the statements of the Peruvian Air Force. were uninjured.S. 38. helping the Peruvians detect aircraft used in drug trafficking. was near the Peruvian military plane at the time of the incident but was unarmed and did not participate in shooting at the missionaries’ plane. which had not filed a flight plan. it said. Jim. a missionary in Peru since 1983. It had flown to the border town of Benjamin Constant. The pilot of the civilian plane finally responded after landing in a river near Pevas. 7.S. other than probable confusion until they get their facts sorted out”. President George Bush said. at which point the Peruvian Air Force dispatched a rescue plane. Loftus said he could not confirm that a flight plan had been filed.S.S.S. the U. “I’ll wait to see all the facts before I reach FGV DIREITO rio 89 . he said. but he said that was the usual practice.m. said their plane never left Peruvian air space. How could he be in contact with the civil authorities and their own military not know about it?” he said. A statement from the Peruvian Air Force said an unidentified plane. Pennsylvania. Bowers’ husband. radar and aircraft provide tracking information to the Peruvian Air Force on planes suspected of smuggling illegal drugs in the region”. de Cuellar express sorrow for loss Asked about the incident while attending the Summit of the Americas in Quebec City. embassy in Lima. was detected entering Peruvian air space from Brazil around 10 a. which sponsored the missionaries. Bush. Michigan. Kevin Donaldson. site of the nearest consulate. The statement said the air force has initiated an investigation. Cory. the intercept system was activated”. Loftus said Pilot Kevin Donaldson had been in radio contact with the tower in Iquitos. The spokesman at the U. Killed in the incident were 35-year-old missionary Veronica Bowers and her seven-month-old daughter. U.S. and their son. reconnaissance plane was working as part of an agreement between the United States and Peru to combat drug trafficking. he said. Charity. president of the Association of Baptists for World Evangelism. with the assistance of the reconnaissance plane. After the missionaries’ Cessna 185 did not respond to a command to identify itself. was shot in the legs.S. A Cessna A-37B. “proceeded to intercept the unknown airship”. Friday.S. State Department. he said. to obtain a visa for the infant. “Central aviation authorities had given him a landing slot.

Sem erros.(…) Tinta neles!84 George Ermakoff (Presidente do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias -SNEA. São aeronaves que transportam gente através de centenas de quilômetros de território que não conta com qualquer outro meio de transporte. que permite à FAB derrubar aviões clandestinos dentro do nosso espaço aéreo e que acaba de merecer uma oportuna ação contrária do deputado Fernando Gabeira. O problema está nos riscos claramente subjacentes ao texto. nos centros de lazer: o divertido paint ball. tinta neles! 84 Acesso em: 25 abril 2005. Com certeza.direitos humanos any conclusions about blame. a pena de morte no Brasil. Muitos dos inúmeros pequenos aviões que cruzam nosso espaço aéreo em regiões ermas. curiosamente. e não-utilização de fonia para não pagar as tarifas de proteção ao vôo. Mais: a tecnologia hoje disponível permite identificar e destruir todos os aeroportos clandestinos. but right now. o que eliminaria o principal ponto de apoio das operações aéreas ilegais. buscar-se-ia na própria tecnologia um meio de evitar o abate equivocado e irreversível. disponível. virtualmente. falta de habilitação do piloto. Eliminados os aeroportos clandestinos. São aeronaves que podem deixar de se identificar para o caça interceptador por uma miríade de razões. said White House spokesman Gordon Johndroe. sem sangue ou tragédias. por exemplo. na região amazônica. As autoridades aeronáuticas ficam sabendo das transgressões. Em vez de balas. E a tecnologia está aí mesmo. Disponível em: http://www. sobretudo na Amazônia. entre outras.e da Rio Sul Linhas) Nas asas de um projeto pouquíssimo discutido pela sociedade. muitas vezes ao investigar acidentes com aeronaves de pequeno porte. uma fiscalização prévia mais rigorosa na frota que voa. the Associated Press reports. A parte de fundamentação da lei não merece reparos: trata-se de proteger o território nacional de aeronaves sem identificação e barrar o tráfico de drogas. FGV DIREITO rio 90 . estamos vivendo a ameaça de termos. todas elas pecadilhos.br/causas/subareas. we mourn for the loss of the life.gabeira. reduziria drasticamente o número de aeronaves sujeitas à ameaça de derrubada. two lives”. sem remorsos. não estão a serviço do tráfico ou mesmo do contrabando. desatualização do exame médico. possibilitando sua punição quando aterrissassem. mas é o que fica evidente quando vem à luz a chamada Lei do Abate. Assim.asp ?idArea=8&idSubArea=136. Peruvian Prime Minister Javier Perez de Cuellar approached Bush and “expressed his deep regret and offered to help the families in any way he could”. Exagero? Talvez. que consiste em “balear” com tinta colorida o adversário.com. teríamos uma clara identificação dos eventuais infratores. que não podem ser punidos com rajadas de metralhadoras ou tiros de canhão: mau funcionamento do sistema de comunicações desses aviões.

veio a ampliar a proteção de tais direitos. por sua vez. destina-se à proteção dos direitos civis e políticos. Em relação ao sistema interamericano. a violação mais visível em termos de direitos civis e políticos é do direito à liberdade. dá especial ênfase à primeira. É importante ressaltar que os instrumentos internacionais de proteção não substituem o sistema nacional.735 trabalhadores (sendo que quase a metade no estado do Pará). de violação de direitos civis e políticos: (i) trabalho escravo. o PIDCP estabelece o Comitê de Direitos Humanos e a sistemática dos relatórios e das comunicações inter-estatais. serão utilizados para superar as deficiências e omissões do sistema nacional. sendo os instrumentos internacionais complementares e subsidiários. Quanto ao primeiro. O primeiro protocolo ao PIDCP. sociais e culturais. que elenca os referidos direitos em seu art. 5o. A DUDH. o que corresponde a 51. (ii) caso Damião Ximenes. ou melhor. assim. a existência de trabalho escravo confronta diretamente com os direitos humanos. prevendo. salientem-se os instrumentos de proteção dos direitos civis e políticos nos sistemas global. Já no âmbito nacional. com exceção do disposto no art. 5º. Em 2003. cabe destacar que um país que tem como fundamentos a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho. regional (mais especificamente no interamericano) e nacional. caput (assegura o direito à liberdade) e art. destaque-se a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção) que. Quando se fala em trabalho escravo. Nesse sentido. Como instrumentos de proteção dos direitos em tela. cabe abordar dois casos. sociais e culturais). por mais que preveja ambas as categorias de direitos (direitos civis e políticos e direitos econômicos. 26. Nesse contexto. a proteção dos direitos civis e políticos sempre foi priorizada ao longo da evolução histórica dos direitos humanos em detrimento da proteção dos direitos econômicos. Isto significa que o indivíduo pode enviar uma petição ao Comitê caso o Estado do qual faça parte tenha ratificado o referido protocolo. Em relação ao primeiro. Já o PIDCP é destinado exclusivamente à proteção dos direitos civis e políticos. Isto significa que o Estado tem a responsabilidade primária pela proteção desses direitos. o mecanismo de petição individual. há a Constituição Federal (CF). cabe destacar a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) e o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (PIDCP). foram resgatados de cativeiros 4. III (proíbe o trabalho escravo ao dispor que “ninguém será submetido a tratamento desumano ou degradante”).direitos humanos Aula 13: Os direitos civis e políticos: direito à liberdade e integridade pessoal NOTA AO ALUNO Embora a indivisibilidade dos direitos humanos seja consagrada internacionalmente. destaquem-se os artigos da CF a respeito: art. no Brasil. 5o – artigo este destinado aos direitos e garantias fundamentais do indivíduo.1% do total dos libertados FGV DIREITO rio 91 . Nesse sentido.

A vítima já havia sido internada em 1995 no mesmo estabelecimento. a presente aula não aprofundará no estudo do procedimento de um caso perante ambas. foi à busca de auxílio. 4o da DUDH e o art. que estatui o confisco de terras para as propriedades que tenham mão-de-obra escrava.br/agestado/noticias/2004/mar/08/182. o envio do caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão). fiscais e delegados.htm.direitos humanos nos últimos oito anos (1995-2003). foi internado na tarde de 1 de outubro de 1999 na Casa de Repouso Guararapes. com dificuldade de respirar. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que haja entre 25 e 40 mil trabalhadores escravos no Brasil. entrou para a história das Nações Unidas89. FGV DIREITO rio 92 . e agonizando. http://www. 90 Aula elaborada em 27 de janeiro de 2005. conforme exposto a seguir91: 1. estadao. 8o do PIDCP (bem como o art. mas fracassou: o médico. Idem. e sim na análise das violações dos direitos civis e políticos da vítima. Desesperada. o Brasil. promotores. já que apenas uma pessoa foi condenada até hoje87. na manhã de 4 de outubro. 91 Como a Comissão e a Corte já foram objetos de análise de uma aula anterior. é de suma importância destacar os fatos. Idem. a fim de que o trabalho escravo não seja uma opção. a maioria na região amazônica86. com a roupa rasgada. Damião Ximenes. 6o da Convenção) proíbem expressamente a escravidão. cabe mencioná-lo tendo em vista se tratar do único caso brasileiro que teve uma decisão emitida pela Corte Interamericana de Direitos Humanos90 (Corte).org.adital. que alterou o artigo 149 do Código Penal – dispõe que “reduzir alguém a condição análoga à de escravo” é crime – mas não aumentou a pena mínima de dois anos para esse tipo de crime. 30 anos à época. a propositura da ação pela Comissão perante a Corte. o trabalho escravo acabará se a Câmara dos Deputados aprovar a proposta de emenda constitucional (Proposta de Emenda Constitucional nº 438/01). 86 87 88 89 Idem. De acordo com o ministro Nilmário Miranda. com hematomas. Dessa forma. será que o mero reconhecimento da existência de trabalhadores escravos é suficiente para acabar com a escravidão no país? Quanto ao segundo caso. em 8 de março de 2004. a responsabilidade do Estado brasileiro. Estadão. ao reconhecer em uma reunião oficial da ONU a existência de “formas contemporâneas de escravidão” em seu território. por oportuno. uma vez que nenhum outro país o havia feito. em virtude da apresentação de um “quadro psicótico”. De acordo com a Comissão e com os peticionários.br/asp2/noticia. Ceará. e quando houver punição para as pessoas que tiram proveito desse tipo de trabalho. O art. entre outras). Contudo. No âmbito internacional. ter acesso à terra. com as mão amarradas por trás das costas. dizendo. (b) estabelecimento de uma política social para saber de onde vêm os escravos. as violações alegadas. Os fatos 85 Para maiores informações. Dentre as medidas para acabar com o trabalho escravo. responsável pela clínica tratou-a com descaso. que a Brasil reconhece na ONU a existência de trabalho escravo. destaquem-se88: (a) instituição de uma Vara Itinerante do Trabalho onde não houver juízes.com. a mãe foi visitá-lo e o encontrou sangrando. de forma breve. que chega a 9. que comporta cerca de 80% dos trabalhadores escravos.803. (c) concessão de alternativas de vida às pessoas pobres (alfabetização. acesse o site http://www. tirar documentos de identidade.263 indivíduos85. Ressalte-se. que em 11 de dezembro de 2003 foi promulgada a Lei nº 10.asp?idio ma=PT&noticia=10909.

não estando satisfeito com os serviços prestados. no âmbito interno. pelo menos. tendo em vista que o Estado brasileiro não cumpriu as recomendações da Comissão. a Comissão resolveu enviar o presente caso à Corte. irmã de Damião Ximenes. os familiares da vítima levaram o corpo para realização de autópsia no instituto forense de Fortaleza. voltou para sua casa em busca de ajuda e.direitos humanos morte é uma coisa natural da vida. O médico fez constar como causa da morte “parada respiratória” e não ordenou a realização de autópsia. CF). FGV DIREITO rio 93 . 3. A responsabilidade do Estado brasileiro A Casa de Repouso Guararapes é uma clínica privada conveniada ao SUS (Sistema Único de Saúde). Desamparada. enquanto que na outra versão ele havia brigado com outros pacientes. uma vez que o Sistema Municipal de Auditoria concluiu em seu Relatório 002/99 que havia na instituição evidências de maus tratos. destaquem-se duas: na primeira versão. Há. Inconformados. chegando lá. duas ações (uma penal e uma civil) tramitando perante a justiça local. a senhora Irene Ximenes Lopes. pode cancelar a autorização do ente privado como prestador de serviços de saúde em nome do Estado (arts. Dessa forma. apresentou perante a Comissão uma petição contra o Brasil. em 4 de outubro de 1999. Dentre as versões apresentadas pelos enfermeiros e funcionários da instituição. denunciando os fatos ocorridos em detrimento de seu irmão. 196 a 200. 2. 4. tortura e abuso sexual de pacientes. A propositura da ação Em 30 de setembro de 2004. o Estado brasileiro tem o dever de controlar e fiscalizar os serviços prestados pela referida instituição. O envio do caso Em 22 de novembro de 1999. Dessa forma. Não é a primeira vez que ocorre uma morte por violência e maus tratos na instituição em tela. ou melhor. O Estado. uma morte em 1987 e outra em 1991. Já houve. que tem como diretor o médico da Casa de Repouso Guararapes. foi instituída a Junta Interventora da Casa de Repouso Guararapes. que incluíram golpes na cabeça com objetos contundentes. Damião Ximenes faleceu 3 dias após sua internação. No laudo consta que se trata de “morte real de causa indeterminada”. Entre março e julho de 2000. já havia um recado que seu filho havia falecido. Damião havia brigado com enfermeiros.

às garantias judiciais (art. Convenção Americana).or.direitos humanos 5. Assim o fez sob o argumento de que as precárias condições de atendimento psiquiátrico às quais foi submetido Damião Ximenes Lopes não correspondem ao atual grau de evolução e implementação das políticas públicas nessa área e no respeito aos direitos humanos dos pacientes. devido à hospitalização do senhor Damião Ximenes em condições cruéis. bem como daqueles originados na tramitação do presente caso perante o sistema interamericano. a Corte proferiu a decisão do caso em tela.corteidh. à proteção judicial (art. Convenção Americana). desumanas ou degradantes. combinados com a violação do dever genérico de garantir e respeitar os direitos consagrados na Convenção (art. Convenção Americana). e as violações da obrigação de investigar (Relatório n. 93 Para ler a sentença na íntegra. Repare adequadamente os familiares do senhor Damião Ximenes pelas violações de direitos humanos cometidas. Adote as medidas necessárias para evitar que fatos similares ocorram no futuro. acesse o site da Corte Interamericana de Direitos Humanos: http://www. as violações a sua integridade pessoal. Convenção Americana). indaga-se: Qual é a importância do caso Damião Ximenes? Quais direitos foram violados no caso em tela? Há alguma diferença de 92 Informações atualizadas em 25 de outubro de 2006. 43/03 da Comissão).92 A Corte deixou claro que o Brasil “tem responsabilidade internacional por descumprir. seu dever de cuidar e de prevenir a vulneração da vida e da integridade pessoal. Expostas as pretensões da aula. O pedido A Comissão solicita à Corte que ordene ao Estado que: • • • • Efetue uma investigação completa. Em agosto de 2006. 1. As violações A Comissão requer que a Corte determine que o Estado brasileiro é responsável pela violação do direito à vida (art. 5o. apesar de seu dever de cuidado como garantidor de seus direitos. Em audiência celebrada em dezembro de 2005. 6. do direito a um recurso efetivo e das garantias judiciais relacionadas com a investigação dos fatos. Convenção Americana).cr/.1. tanto no local dos fatos como em todo o território brasileiro. FGV DIREITO rio 94 . neste caso. 4o. 8o. imparcial e efetiva dos fatos relacionados com a morte de Damião Ximenes. Pague as custas e gastos legais incorridos pelos familiares do senhor Damião Ximenes na tramitação do caso no âmbito nacional. a seu assassinato. incluindo o pagamento efetivo de uma indenização. sendo a primeira sentença em face do Estado brasileiro. 25. o Estado brasileiro reconheceu parcialmente a responsabilidade internacional por violação de direitos humanos – referente ao direito à vida e integridade pessoal. à integridade pessoal (art. bem como seu dever de regulamentar e fiscalizar o atendimento médico de saúde”93.

direitos humanos proteção dos direitos civis e políticos nos documentos mencionados? Quais são os artigos da CF que consagram os direitos civis e políticos? Quais são os direitos violados da pessoa que trabalha em condições análogas à de escravo? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. Flávia. São Paulo: Max Limonad. “A Litigância de Direitos Humanos no Brasil: Desafios e Perspectivas nos uso dos Sistemas Nacional e Internacional de Proteção”. In: PIOVESAN. 2003 Legislação: Convenção Americana sobre Direitos Humanos Declaração Universal sobre Direitos Humanos Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Constituição Federal FGV DIREITO rio 95 . Flávia. Temas de Direitos Humanos.

4. 5. do conhecimento popular. FGV DIREITO rio 96 . ou melhor. tem como causa direta a exclusão social. htm. 96 Expressão utilizada no Relatório do Centro de Justiça Global. descrédito das ações do governo no combate à violência. tão visceral à opinião pública. do acesso ao trabalho. 9. Disponível em: http://www. Acesso em: 14 abril 2005. conseqüentemente. cit. o século XX. Dessa forma. trajetória da violência estatal. p.global. utilizam-se os critérios geográficos e sociais para localizar o inimigo96 94 Centro de Justiça Global 2004. cumpre destacar a manifestação da violência urbana no Rio de Janeiro como algo rotineiro e. 95 Acesso em: 14 abril 2005. em 30 de março de 2005. 3. a criminalização da pobreza. em decorrência da existência de um “poder paralelo”. multiplicam-se os relatos de violência. que perpetua a insegurança no Estado. por sua vez.direitos humanos Aula 14: Violência Urbana NOTA AO ALUNO “A despeito das diferentes visões em relação ao entendimento sobre quem e como se produz a violência no Rio de Janeiro. é fruto das mudanças macro-estruturais propiciadas pela introdução do modelo econômico neoliberal na década de 1980. Falar em violência urbana não é tarefa fácil. são naturalizadas. Disponível em: http://www. Temos como exemplo a chacina ocorrida na Baixada Fluminense. embora tenha causado indignação pública..org/2005/abril/ibe_026. Seguem. Esta. Quanto ao segundo aspecto. Por tão enraizada no dia-a-dia dos cidadãos. notadamente policial.org. Relatório Rio: Violência Policial e Insegurança Pública. que impõe o terror e a desordem. a idéia de que a pessoa é criminosa em virtude do local onde mora e de sua condição social. que. Em relação ao primeiro tópico. 2. ao mesmo tempo. uma vez que se trata de tema complexo e. criminalização da pobreza. devem ser levados em consideração pontos essenciais.lainsignia. A morte e a violência. Assim. br/portuguese/arquivos/relatorio_rio1. Na região. para que se possa tanto explicar quanto desmistificar alguns temas.pdf. a violência no Rio de Janeiro é caracterizada pela mídia como guerra civil. Em nosso Estado. trouxe também conseqüências drásticas. para delimitar o objeto de estudo. A guerra pressupõe a existência de um inimigo (no caso seriam os criminosos e suspeitos) que se almeja combater. em um contexto no qual prevalece a omissão do Poder Público. abaixo. assim. tal como a exclusão de um número cada vez maior de pessoas da vida econômica. sistematicidade e banalização da violência. em especial. conseqüentemente. mas também aqueles que fazem parte do discurso da mídia e. os tópicos que serão abordados: 1. p. causas do agravamento da violência. sua sistematicidade e banalização ensejam ao menos um sentimento em comum. contido justamente no repúdio à sua manifestação como rotina diária. 21. op. é considerada natural por grande parte da sociedade e dos governantes95. perpetuadora da insegurança”94. embora tenha permitido um aumento da produtividade e da expectativa de vida em alguns países.

Isto significa ser de extrema importância mais investimentos nas áreas sociais e mais planejamento na atuação policial. de “reabilitar a polícia”. Nesse sentido. ou melhor. do sexo masculino. Ainda em relação aos direitos humanos. Disponível em: http://www. lainsignia. acaba por substituir a proteção da vida por práticas cada vez mais violentas. Disponível em: http://www.br/artigo_ind. ressalta Marcelo Freixo. Como conseqüência dessa visão. O resultado pode ser vislumbrado pelo número muito maior de pessoas mortas em intervenções policiais: 427.luizeduardosoares. assim como sua descartabilidade seria assegurada frente ao corpo social. houve uma redução em 40% do número de civis mortos pela polícia. Disponível em: http://www. Nesse sentido. 101 102 103 Idem. que o conceito de segurança deve ser redefinido. Ibid.10.htm. Isto porque os três itens estão interconectados. em detrimento da utilização da opressão e da violência como prática da polícia101. entre outros itens. pesquisador do Centro de Justiça Global. do sensacionalismo da mídia e da ação da polícia. ao passo que em 1999 haviam ocorrido 289 mortes103. “Geografia da Violência no Rio de Janeiro” in Folha de São Paulo. Como conseqüência da supressão da “banda podre” da polícia.direitos humanos desta guerra. SOARES. A exclusão 97 98 Idem. uma redução significante do número de policiais mortos e a maior quantidade de apreensão de armas com criminosos até então: 9 mil102.com. 14. segundo os quais o criminoso ou suspeito reside nas favelas e possui “cor e aparência definidas. 99 Ibid. bem como a noção de guerra. A atuação policial. p. em decorrência do período no qual se recompensava o policial com um incremento salarial – que variava entre 50 a 150% de seu salário – sempre que fizesse uma vítima letal. Foi o que prometeu Anthony Garotinho. Constata-se também que a maioria das pessoas assassinadas era jovem. A pobreza passa a ser vista como perigo à sociedade e tem como conseqüên­ cia a não observância e consagração da universalidade dos direitos humanos. exe/sys/start. Em se tratando das causas do agravamento da violência no Rio de Janeiro. É uma questão de Estado e não de polícia”100. Nesse contexto. o conceito de criminalização da pobreza. de saúde e de lazer.. 1. equiparam criminosos e moradores das comunidades carentes e. “legitimam” as violações dos direitos humanos por policiais nesses locais99. com idade entre 15 e 24 anos e morava em regiões carentes98. ao assumir o poder. assim. Contudo. especialmente no senso comum das classes média e alta”97. Quanto ao terceiro tópico. destaque-se que.org/publique/cgi/cgilua. o discurso e ações policiais. Acesso em: 14 abril 2005. p. php?categoria=seguranca. os candidatos ao governo do Estado na campanha eleitoral de 1988. Acesso em: 21 abril 2004. corroborando. basearam seus discursos na promessa de criarem uma nova polícia e uma nova política de segurança. constata-se que a política de segurança pública do Estado não é dirigida a todos os cidadãos e nem está fundada na proteção e garantia universal dos direitos humanos. 16. a fim de corresponder às exigências atuais: “segurança hoje em dia é política educacional.2004. distorcida por essa perspectiva.desarme.htm?infoid=3139 &tpl=printerview&sid=16>. faz-se necessária uma análise em conjunta da exclusão social. Luiz Eduardo.org/2005/abril/ibe_ 026. pobre e negro. conseqüentemente. 30. alterações corporativas que conduziram à exoneração de Luiz Eduardo Soares da Secretaria Estadual de Segurança Pública em 2000 significaram o retorno das velhas políticas de enfrentamento por seu sucessor. FGV DIREITO rio 97 . 100 Acesso em: 14 abril 2005. é a relação entre os mesmos que agrava drasticamente a violência no Estado.195 pessoas foram mortas por policiais no Estado do Rio de Janeiro no ano de 2003. a maioria em condições que sugerem extermínio. o inimigo é caracterizado como pobre e morador de comunidades carentes.

Entrevista. respectivamente. PINHEIRO. Disponível em: http:// www. Ignacio.direitos humanos social contribui para que muitas pessoas optem por atividades ilícitas como meio de vida.com. Acesso em: 21 abril 2004. Disponível em: http://www. SOARES. não visa a explicar ou entender as causas do problema para que se possa solucionálos. Centro de Justiça Global.br/artigo_ind.clippingexpress. Em especial. Conflito e segurança (entre pombos e falcões). João Ricardo.br/noticias_justica. 2003. o direito à vida e o direito à integridade física). em última instância. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris. p. Paulo Sérgio e ALMEIDA.br/noticias_justica. Acesso em: 14 abril 2005.global. bem como uma ilusão por parte da mesma de que seu trabalho deva ser pautado na violência107. a ausência de órgãos de monitoramento independentes e a corrupção policial.org. “Geografia da Violência no Rio de Janeiro”. Luiz Eduardo.php?id=44834.php?id=44834. Necessita-se. 2003. 107 FGV DIREITO rio 98 . As principais causas do descrédito das ações do governo no combate à violência. pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da UERJ. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: CANO. leia a entrevista com Ignacio Cano. há uma enorme demanda de certos setores para que a polícia seja violenta.br/portuguese/arquivos/relatorio_rio1. seguindo a premissa de “entender menos e punir mais”104 (i. 104 105 106 Ibid. que é ainda mais grave quando se materializa em violação dos direitos humanos (quando.10. Idem. Para maiores informações. Acrescente-se a este fato a questão da impunidade dos policiais. travestida como “resposta” à criminalidade – mas que diz respeito. 14. DORNELLES. 30. treinamentos e capacitação dos policiais.com. portanto. Disponível em: http://www. In: Folha de São Paulo. Violência Urbana. a polícia possa definitivamente transmitir segurança ao invés de medo.desarme. por sua vez. Acesso em: 14 abril 2005. Relatório Rio: Violência Policial e Insegurança Pública. que começa com a fundação das primeiras corporações no Brasil para manter sob controle as classes subalternas106. São Paulo: Publifolha. o policial mata ou tortura alguém. Disponível em: http:// www. Disponível em: http://www. incute na sociedade um falso clamor por Justiça. clippingexpress. Acesso em: 14 abril 2005.luizeduardosoares. violando. Capítulo VII.e.2004. assim como a carência de investimentos. exe/sys/start. Já a mídia.com. Hoje em dia. tem haver com a falta de transparência das ações públicas na área de segurança.php?categoria=seguranca. tem uma tradição de repressão. Guilherme de Assis.pdf. um dia. por exemplo. a fim de que. Acesso em: 14 abril 2005. manipulada pelo “Estado na perpetração da violência. mas sim punir os criminosos). o último tópico. de mudanças drásticas e urgentes em toda a política de segurança pública do Rio de Janeiro.htm?infoid=3139 &tpl=printerview&sid=16>. A polícia.org/publique/cgi/cgilua. ao etiquetamento penal de suas camadas mais miseráveis”106.

ambiente este que prioriza. negligenciados na esfera internacional. Na verdade. ao longo da história. uma vez que os direitos econômicos. até hoje. o PIDESC não prevê um mecanismo de comunicação interestatal nem de petição individual109 (através de um protocolo adicional).direitos humanos Aula 15: Direitos humanos econômicos. sociais e culturais demandam realização progressiva. o relatório será analisado pelo Comitê de Direitos Econômicos. O Comitê DESC. Todavia. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. voltada às obrigações gerais que vinculam os Estados Partes. sociais e culturais NOTA AO ALUNO A busca por uma proteção mais efetiva dos direitos econômicos. de elaborar dois Pactos Internacionais de Direitos Humanos (1966). por sua vez. bem como em decorrência da preponderância da posição dos países ocidentais. criado pelo Conselho Econômico e Social e que tem por principal função o monitoramento da implementação dos direitos econômicos. tal dicotomia não tinha caráter absoluto. Isto porque. os direitos civis e político . I. muitas vezes. os conflitos entre as duas categorias de direitos nem sempre são claros. que alegavam que ambas as categorias de direitos não poderiam estar no mesmo Pacto. sociais e culturais. p. cada um voltado a uma categoria de direitos. se transformam em um importante instrumento de negociação para que haja avanços na proteção dos direitos humanos. assim. Sociais e Culturais (PIDESC). A raiz do tratamento diferenciado das duas categorias de direito encontra-se na decisão tomada pela Assembléia Geral das Nações Unidas. Sociais e Culturais contém dispositivos suscetíveis de aplicação a curto prazo. tendo em vista que os mesmos foram. 110 FGV DIREITO rio 99 . com medidas de implementação distintas. em 1951. Tal medida se deu em virtude do conflito ideológico que vigorava na época. assim como não estatui um Comitê como órgão principal de monitoramento. Como leciona Cançado Trindade. emitirá suas observações conclusivas que. ao passo que comunicação individual se refere à possibilidade do indivíduo recorrer a instâncias internacionais para reparação ou restauração dos direitos violados. por meio do qual os Estadospartes encaminham relatórios ao Secretário-Geral das Nações Unidas que. têm força política e moral que.”108 Em se tratando especificamente do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. ao passo que os direitos civis e políticos são auto-aplicáveis. De maneira diversa. cumpre ressaltar que. 354. a Carta Internacional dos Direitos Humanos. 1997. “o Pacto de Direitos Civis e Políticos também prevê a ´possibilidade de realização progressiva´ de certos direitos. Instituído pelo Conselho Econômico e Social da ONU através da Resolução ESC 1985/17. 108 109 Comunicação interestatal é aquela através da qual um Estado-parte denuncia a existência de violação de direitos humanos em outro Estado-parte. após analisar o relatório. Sociais e Culturais110 (Comitê DESC). Vol. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. embora não sejam dotadas de força legal. e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. cabe ressaltar seu sistema peculiar de monitoramento. encaminhará uma cópia ao Conselho Econômico e Social para apreciação. sociais e culturais (DHESCs) encontra-se na atual agenda internacional dos direitos humanos. diferentemente do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. em conjunto com a DUDH. Antonio Augusto. formando. e talvez a distinção seja antes uma questão de gradação ou de ênfase. já naquela época. As recomendações caracterizam-se CANÇADO TRINDADE. o PIDESC baseia-se no mecanismo dos relatórios.

especificamente. por meio da Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos. saliente-se a ponderação feita pela Corte Européia de Direitos Humanos no caso Airey (1979) de que embora a Convenção Européia sobre Direitos Humanos consagre essencialmente os direitos civis e políticos.. pelo qual os Estados-partes devem encaminhar informações acerca das medidas legislativas. uma clara distinção entre as duas categorias de direitos. que proclamou a indivisibilidade dos direitos humanos. ambas as categorias de direitos estivessem no mesmo patamar. Sociais e Culturais adotou as observações conclusivas em 23 de maio de 2003. 112 113 O Contra Informe foi apresentado durante o 30º Período Ordinário de Sessões (05 a 23 de maio de 2003) do Comitê de Direitos Econômicos. Trata-se de passo de suma importância. O Governo brasileiro apresentou em 2006 um novo informe. Como exemplo. Sociais e Culturais. desde 1997. já que prevê o mecanismo de comunicação individual. sistema africano e sistema interamericano. Destaque-se. a fim de contestar alguns fatos levantados pelo governo federal. por oportuno. muitos deles surtem impactos de natureza social ou econômica. cabe mencionar que o Governo Federal apresentou. em 2001112. Sendo assim. pela primeira vez. Sociais e Culturais das Nações Unidas.01. o Comitê DESC emitiu114. foram incorporados alguns direitos à Convenção Européia. Em relação ao Brasil111. afirmando. assim. caso seja adotado. com quase dez anos de atraso. Em relação à consagração dos DHESCs no âmbito internacional. que a indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos foi reafirmada na II Conferência Internacional sobre Direitos Humanos. a sociedade civil apresentou um “Informe Alternativo” ao Comitê de Direitos Econômicos. faz-se extremamente necessário ampliar o sistema de monitoramento dos direitos econômicos. incluindo recomendações e sugestões para sua efetivação. O Comitê de Direitos Econômicos. sociais e culturais no plano internacional. é de suma importância ressaltar a I Conferência Mundial sobre Direitos Humanos. realizada em Viena. 114 FGV DIREITO rio 100 . não havendo. em 1968. suas observações conclusivas acerca do cumprimento do PIDESC pelo Brasil. constrangimento político e moral no campo da opinião pública internacional do Estado que viole os direitos humanos. Após a análise dos dois informes. assim. Em relação ao sistema europeu.e. Em virtude da crescente atenção dada aos DHESCs ao longo dos anos. Em contrapartida. Nesse contexto. O Brasil ratificou o PIDESC em 24. na Comissão de Direitos Humanos da ONU) que. destaca-se o Protocolo Facultativo ao PIDESC (tramita.1992. em maio de 2003. que a plena realização dos direitos civis e políticos só seria possível com o gozo dos DHESCs. especificando se as recomendações propostas pelo Comitê DESC foram observadas ou não. Sociais e Culturais. Sociais e Culturais (Dhesc Brasil) apresentou em 2003 seu Contra Informe113 (denominado também de Relatório Sombra) ao Comitê DESC. em virtude da inércia do estado brasileiro. tais como os consagrados pelo Protocolo I: direito à propriedade privada (artigo 1) e direito à educação (artigo 2). em 1993.direitos humanos por seu power of embarrassment. bem como para apresentar novos dados sobre a situação brasileira. Os DHESCs também podem ser analisados nos três sistemas regionais de proteção dos direitos humanos: sistema europeu. seu Primeiro Informe ao Comitê de Direitos Econômicos. a sociedade civil. consistirá em uma forma de ampliação do sistema de monitoramento. último dia de seu 30º Período Ordinário de Sessões. bem como das dificuldades encontradas para a plena realização desses direitos. uma vez que a consagração da indivisibilidade dos direitos humanos fez com que. assim denominado uma vez que o governo federal brasileiro ainda não tinha encaminhado nenhum informe. o único mecanismo de proteção dos direitos em tela estabelecido pelo PIDESC é a sistemática dos relatórios. i. 111 Saliente-se que em 2000. realizada em Teerã. administrativas e judiciárias que são tomadas para efetivar os direitos estabelecidos no PIDESC.

000. tanto a Comissão quanto a Corte Interamericana de Direitos Humanos têm reconhecido. que trata da situação de José Pereira. em 11 de março de 2003. Em primeiro lugar. o Estado brasileiro comprometeu-se a implementar as ações e as propostas de alterações legislativas contidas no Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo. o caráter fundamental dos DHESCs. sofrendo lesões permanentes no olho direito e na mão direita. pagou a vítima o valor de R$ 52. limitando-se a dispor que os mesmos devem ser realizados progressivamente. o Protocolo de San Salvador dispõe acerca da possibilidade de se enviar petição individual acerca do direito à educação e de alguns aspectos dos direitos sindicais à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão). por exemplo. o PIDESC assevera a obrigação do Estado de. O reconhecimento público da responsabilidade do Estado brasileiro em relação à violação de direitos humanos deu-se na solenidade de instalação da Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo-CONATRAE (criada por Decreto Presidencial de 31 de julho de 2003). quer com a assistência e cooperação Relatório Nº 95/03 Jose Pereira – Caso 11. capangas atiraram nos trabalhadores que tentavam fugir da fazenda. que na época tinha 17 anos.289115. Disponível em: http://www. Ainda no bojo do referido acordo. foi gravemente ferido. bem como de apresentar relatórios periódicos. documento este que entrou em vigor em novembro de 1999. chegou-se a uma solução amistosa.oas. O caso em tela foi levado à Comissão em 1994 e. em seus respectivos âmbitos de competência. Saliente-se. José Pereira. cabe mencionar o debate sobre duas categorias intrínsecas aos DHESCs: a progressividade e a exigibilidade. e lançado pelo governo brasileiro. e de maneira a aprimorar a legislação nacional que visa a coibir a prática do trabalho escravo no país. Por fim. Como exemplo. eqüitativas e satisfatórias de trabalho (art.. o direito à seguridade social (artigo 9).11289. cabe destacar que.00 (cinqüenta e dois mil reais) a título de indenização por danos morais e materiais116. Quanto ao sistema interamericano. como. em 1988 foi adotado o Protocolo Adicional à Convenção Americana em matéria de Direitos Econômicos. As pessoas aceitavam trabalhar no local em virtude de falsas promessas de altos salários e boas condições de trabalho. a Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos prevê um catálogo tanto de direitos civis e políticos (artigos 3 a 14) quanto de direitos econômicos. um menor de idade que trabalhava em condições análogas à de escravo em uma fazenda no sul do Pará.direitos humanos Em se tratando do sistema africano. o Estado brasileiro. a aula deverá apontar o Caso 11. Acesso em: 04 jan. tendo a Comissão Africana de Direitos Humanos e dos Povos um mecanismo de aplicação comum a todos os direitos. Sociais e Culturais (Protocolo de San Salvador). Em uma ocasião. por oportuno. org/annualrep/2003eng/Brazil. elaborado pela Comissão Especial do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. realizada no dia 18 de setembro de 2003.htm. o direito a condições justas.cidh. embora a Convenção Americana sobre Direitos Humanos mencione os DHESCs em apenas um artigo. FGV DIREITO rio 101 . Expressão de um movimento de conscientização para uma proteção mais efetiva aos DHESCs. em 2003. sociais e culturais (artigo 15 a 18). quer com seu próprio esforço. 7) e o direito a um meio ambiente sadio (artigo 11). 2005. Embora o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos tenha se concentrado na defesa dos direitos civis e políticos.289 (Brasil). 115 116 Idem.Nesta oportunidade. que o referido Protocolo define o alcance de alguns DHESCs.

a eficácia dos direitos sociais. a liberdade de conformação do legislador. stf.gov. naturais e de informação.2004. (ii) recursos aqui devem ser entendidos para além dos financeiros. importante decisão do Supremo Tribunal Federal acerca dos DHESCs. p. 118 119 Ibid. no máximo dos recursos disponíveis. Nesse sentido. registra-se ainda muita resistência por parte do Ministério Público e do Judiciário em designar uma tutela efetiva a tais direitos. tendo em vista a previsão normativa dos DHESCs. se tais Poderes do Estado agirem de modo irrazoável ou procederem com a clara intenção de neutralizar. Todavia. precisamente por constituírem direitos. 45119. a qual pode se dar no âmbito administrativo ou judicial.br/cgi-bin/nphbrs?d=DESP&n=-julg&s1=45. tecnológicos.”118 Por mais que alguns DHESCs já possuam mecanismos eficientes de proteção perante o Judiciário. Nesse contexto. 120. Rio de Janeiro: Renovar. aí. comprometendo-a. econômicos e culturais. Disponível em: http://gemini. NUME. como é o caso dos direitos trabalhistas e previdenciários. Os direitos humanos econômicos. destaque-se que a exigibilidade dos DHESCs pode ser considerada nas esferas nacional (constituições e leis) e internacional (PIDESC). agora ele tem uma base positiva que legitima sua ação em nível interno. a todos. Os DHESCs. indica para o fato de que progressividade não pode ser entendida como postergação infinita. “se ao Judiciário sempre coube a obrigação de solucionar conflitos em relação a todas as matérias que lhe sejam apresentadas. o Ministro Celso de Mello. 45 – STF. tem-se que uma saída possível e recomendável é o estabelecimento de metas e prazos para a concretização dos DHESCs. a possibilidade de intervenção do Poder Judiciário. Em 29 de abril de 2004. 117 LIMA JÚNIOR. como precedentemente já enfatizado – e até mesmo por razões fundadas em um imperativo ético-jurídico -.04. afetando. então. É que.br/Jurisprudencia/Jurisp. esta denominada justiciabilidade. em sede da Argüição de Descumprimento de Direitos Fundamental (ADPF) n. nesse domínio. por delegação popular.. cumpre reconhecer que não se revela absoluta. receberam investidura em mandato eletivo.asp&Sect1=IMAGE&Sect2 =THESOFF&Sect3=PLURON&S ect6=DESPN&p=1&r=2&f=G. cabe registrar. Jayme Benvenuto. ADPF n. devem ser dotados de mecanismos para que seus titulares possam deles usufruir. mesmo sem examinar diretamente o objeto da ação – veto do Presidente da República a artigo da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2003 que garantia recursos financeiros ao serviço de saúde – uma vez que o Poder Executivo enviou projeto de lei ao Legislativo que restaurou a integridade do artigo. p. sociais e culturais. Como lembra Jayme Benvenuto.117 Dessa forma. o acesso aos bens cuja fruição lhes haja sido injustamente recusada pelo Estado”. Relator Ministro Celso de Mello. para assegurar progressivamente o pleno exercício dos direitos elencados. Julgamento em 29. apôs importantes considerações ao Poder Judiciário em relação à implementação dos DHESCs: “Não obstante a formulação e a execução de políticas públicas dependam de opções políticas a cargo daqueles que. por fim.&l=20&u=http://www. como decorrência causal de uma injustificável inércia estatal ou de um abusivo comportamento governamental. em ordem a viabilizar. Refere-se aqui à exigibilidade dos DHESCs.stf. compreendidos também os humanos. aquele núcleo intangível consubstanciador de um conjunto irredutível de condições mínimas necessárias a uma existência digna e essenciais à própria sobrevivência do indivíduo. nem a de atuação do Poder Executivo. 108.direitos humanos internacionais. tomar medidas. uma contradição no primeiro exame. FGV DIREITO rio 102 . cabe a análise de alguns desses elementos: (i) a acareação entre o máximo e o disponível. justificar-se-á.gov. Acesso em: 04 julho 2005. 2001.

2001. pp. I. Sociais e Culturais Declaração Universal de Direitos Humanos Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem Convenção Americana sobre Direitos Humanos Protocolo de San Salvador Convenção Européia sobre Direitos Humanos Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos FGV DIREITO rio 103 . Sociais e Culturais”. Os direitos humanos econômicos. Flávia. Rio de Janeiro: Renovar. In: PIOVESAN. GOTTI. 1997. e MARTINS. Leitura acessória: LIMA JÚNIOR. Flávia. pp 353-360. Antonio Augusto. sociais e culturais? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. 91-114. Janaína Senne. São Paulo: Max Limonad. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. Jayme Benvenuto. Alessandra Passos.direitos humanos Pelo exposto. “A proteção Internacional dos Direitos Econômicos. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Temas de Direitos Humanos. Legislação: Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos. indaga-se: Um cidadão brasileiro pode enviar um caso relativo à violação do direito à saúde à Comissão Interamericana de Direitos Humanos? Quais são os mecanismos de proteção dos DHESCs existentes no sistema global? O que representa a consagração da indivisibilidade dos direitos humanos para a proteção dos direitos econômicos. 2003. Vol. PIOVESAN. sociais e culturais.

por exemplo. a Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW) de 1979. as PIOVESAN. às pessoas vítimas de discriminação racial. O Direito Internacional dos Direitos Humanos deixa de examinar os seres humanos como sujeitos neutros. dotando alguns sujeitos de direitos também distintos. raça. Todavia. 120 FGV DIREITO rio 104 . O sistema internacional passa a reconhecer direitos endereçados às crianças. etnia. dentre outros. Seja a Declaração Universal de 1948 ou os Pactos Internacionais de 1966.direitos humanos Aula 16: A especificação do sujeito de direitos.”120 Ao longo das próximas aulas. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. As desigualdades de gênero são as diferenças socialmente construídas. 2002. o fato de somente as mulheres poderem menstruar. por exemplo. nos referimos até o presente momento ao sistema geral de proteção aos direitos humanos. de Todas as Formas de Discriminação Racial de 1965. Há de se destacar que o sistema geral e o sistema especial de proteção de direitos humanos são necessariamente complementares. passaremos a analisar o processo de especificação dos sujeitos de direitos como decorrência de um outro marco fundamental: a universalidade dos direitos humanos. considerando-se categorizações relativas ao gênero. (I) p. Os direitos humanos sob a perspectiva de gênero NOTA AO ALUNO Vimos discutindo ao longo das últimas aulas a proteção aos direitos civis e políticos e aos direitos econômicos. Desumanos ou Degradantes de 1984 e a Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989. É o que se costuma denominar de processo de especificação do sujeito de direitos. Convenção contra a tortura e outros tratamentos ou Penas Cruéis. cabendo a escolha dos direitos humanos das mulheres como o primeiro desses. 188. Proteção dos direitos da mulher Na compreensão do processo narrado. mas ao indivíduo ‘especificado’. pessoas crescem em contextos sociais em que papéis sócio-culturais são designados de acordo com as relações de poder estabelecidas em razão do sexo. A partir da presente aula. Flávia. ressaltando a indivisibilidade como o marco de compreensão dos direitos humanos. parir e amamentar. aos idosos. Mais do que isso. às mulheres. como. que merecem proteção especial. como. Daí apontar-se não mais ao indivíduo genérica e abstratamente considerado. a primeira das especificações refere-se ao fato de que os seres humanos são sexuados. tidas suas diferenças em segundo plano. examinaremos alguns desses sujeitos de direito. às pessoas vítimas de tortura. “na medida em que o sistema especial de proteção é voltado. sociais e culturais. São Paulo: Max Limonad. e passa a analisa-los com concretude. à prevenção da discriminação ou à proteção de pessoas ou grupos de pessoas particularmente vulneráveis. foram consolidados tratados que tinham como objeto tema específico. ao longo das últimas décadas. Referimo-nos aqui a sexo como as diferenças entre homens e mulheres dadas pela natureza. idade. etc. fundamentalmente.

em 18 de dezembro de 1979. Essa distinção é relevante para percebermos que as desigualdades sociais entre homens e mulheres vêm de nossas idéias. dos direitos humanos e das liberdades fundamentais nos campos político. In: PIOVESAN. Os avanços promovidos pela Convenção foram “freiados” pela constatação de que esse foi o marco normativo de direitos humanos que mais recebeu reservas no âmbito da ONU: ao menos 23 dos 100 Estados-partes realizaram 88 reservas. qualquer pessoa ou grupos de pessoas que aleguem ser vítimas de violações à Convenção podem apresentar petição ao Comitê.122 A Convenção foi ratificada pelo Estado brasileiro em 1984. foi aprovada pela Assembléia Geral da ONU a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW). (a). Todavia. no prazo de um ano a partir da entrada em vigor da convenção. 109. como conseqüência. o Governo notificou a Secretaria Geral da ONU para que retirasse as referidas reservas. Alice (org. o artigo 4o da CEDAW também prevê a aplicação de medidas de ação afirmativa: a adoção pelos Estados-Partes de medidas especiais de caráter temporário destinadas a acelerar a igualdade de fato entre o homem e a mulher não se considerará discriminação na forma definida nesta Convenção. Ao ratificar a Convenção. de uma construção cultural das desigualdades (gênero) que não se justifica nas diferenças biológicas dadas pela natureza (sexo). para exame do Comitê. Somente a partir da elaboração do Protocolo Facultativo aprovado pela ONU em 1999. o Comitê emite recomendações a serem cumpridas pelo Estado.. De acordo com o artigo 1o.direitos humanos mulheres cuidarem dos filhos e da casa e os homens trabalharem fora. em consonância com o quadro constitucional proporcionado pelo Texto de 1988. 2003. eleitos pelos países que ratificaram a Convenção. econômico.. e ao artigo 16. o tratado não prevê a possibilidade de comunicações estatais ou do conhecimento de violações de ofício por parte do Comitê. com base na igualdade do homem e da mulher. Tais artigos estabelecem a igualdade entre homens e mulheres no âmbito das relações familiares. da Convenção. (g) e (h). a Convenção estabelece o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher. exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento. composto 23 peritos. Direitos Humanos das mulheres. São Paulo: Max Limonad. Todavia. (II) p. é possível 121 LIBARDONI. gozo.121 Nesse sentido. independentemente de seu estado civil. os Estados comprometem-se a submeter a Secretaria-Geral das Nações Unidas. Por outro lado. por incompatibilidade com a legislação civil vigente. essas medidas cessarão quando os objetivos de igualdade de oportunidades e tratamento houverem sido alcançadas. Temas de Direitos Humanos. Flávia. administrativas. e toda vez que solicitar o Comitê (artigo 18 Convenção). a manutenção de normas desiguais ou separadas. Em resposta aos relatórios. parágrafo 4o. Brasília: AGENDE. exercício pela mulher. posteriormente. discriminação contra a mulher significa toda distinção. p.). social. 2002. Em seu artigo 17. relatório sobre as medidas legislativas. algumas dessas afetando a essência da universalidade dos direitos humanos. 122 FGV DIREITO rio 105 . mas de nenhuma maneira implicará. a cada 4 anos. judiciárias. em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações. (c). Nesse sentido. dentre eles atualmente a brasileira Silvia Pimentel. 210. tendo sido apresentada denúncia ao artigo 15. em 1994. PIOVESAN. Flávia. parágrafo 1o. Os Estados partes comprometem-se a uma dupla obrigação: devem eliminar as formas constantes de discriminação e devem promover a igualdade. passando a vigorar em 3 de setembro de 1981. cultural e civil ou em qualquer outro campo. “Os direitos humanos da mulher na ordem internacional”. dentre outras.

). Alice (org. Como seu artigo 4o afirma a necessidade de esgotamento dos recursos internos e a impossibilidade de litispendência internacional como critérios de admissibilidade de uma denúncia. Concepção.”123 O Brasil assinou o protocolo em 08 de março de 2001. b) o direito de decidir livre e responsavelmente o número de filhos e o intervalo entre seus nascimentos. FGV DIREITO rio 106 . gestação. em 1995. passam a ser examinados como questões correlatas. o qual foi aprovado pelo Congresso Nacional e ratificado pelo Presidente em setembro de 2002. Desenvolvimento e Paz.direitos humanos afirmar que o Protocolo não estabeleceu novos direitos. c) o direito a ter acesso a informações e meios seguros. contracepção. os Estados reconheceram os direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos e ainda afirmaram que meninas e mulheres têm o direito a decidir sobre a maternidade. notadamente no que se refere ao direito ao voto. é importante ressaltar alguns temas correlatos. coerção ou violência. Direitos Sexuais e Reprodutivos Se o movimento de mulheres teve início com a busca da igualdade entre homens e mulheres.. Em 1994. Dia Internacional da Mulher. acessíveis e d) o direito de acesso ao mais elevado padrão de saúde reprodutiva. Por fim. disponíveis. mas novas garantias de proteção. Por sua vez. Com base nos instrumentos internacionais citados. percebemos que a tônica foi transferida para direitos inerentes a condição diferenciada das mulheres. conclui-se que os direitos reprodutivos incluem: a) o direito de adotar decisões relativas à reprodução sem sofrer discriminação. aborto. a Declaração de Viena de 1993. 2002. como os direitos sexuais e reprodutivos e a violência doméstica e familiar contra a mulher. pode-se afirmar que muitas mulheres brasileiras preferem a utilização do Sistema Interamericano de Direitos Humanos por contar com uma instância jurisdicional para verificação da responsabilidade internacional.. durante a Conferência do Cairo sobre População e Desenvolvimento. seu Protocolo Facultativo é a bula que ensina como usar esse remédio. passando o aborto a ser compreendido como uma questão de saúde pública. Se a Convenção é um “remédio para auxiliar a eliminar a discriminação contra as mulheres. p. b) o direito de ter 123 LIBARDONI. reasseverou a igualdade entre homens e mulheres e conclamou os Estados a promover a ratificação universal da Convenção para a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres e a retirar as reservas que comprometiam a essência do tratado. Direitos Humanos das mulheres. Mais além do exame dos principais tratados que se referem aos direitos humanos das mulheres. entre tantos outros temas. Foi nesse sentido que caminharam as principais conferências referentes a direitos sexuais e reprodutivos. Por sua vez. direitos sexuais compreendem: a) o direito a decidir livre e responsavelmente sobre sua sexualidade. os Estados reuniram-se na IV Conferência Mundial sobre a Mulher. A Declaração e o Plano de Ação de Beijing reafirmam os direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos e recomendam aos Estados a rever as legislações punitivas ao aborto. em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações. produto da primeira grande conferência mundial de direitos humanos no contexto pós-Guerra Fria. Brasília: AGENDE. amamentação. 63.

aprovada em cidade brasileira e. seqüestro e assédio sexual. destaca-se o envio de relatórios periódicos à Comissão Interamericana de Mulheres (CIM). d) o direito a receber educa. c) o direito a viver livremente sua orientação sexual. caso não o fosse. 124 PIOVESAN. São Paulo: Atlas. de 01 de setembro de 1995 e o Presidente a ratificado em 27 de novembro de 1995. com os devidos cuidados éticos recomendados pelos instrumentos internacionais. tanto na esfera pública (ocorrida na comunidade). p. tortura. op. o que rompe com a tradicional separação entre o espaço público e privado. c) ampliar o âmbito de aplicação dos direitos humanos. O Brasil foi o primeiro Estado a ser acionado perante a Comissão por desrespeito à Convenção do Belém do Pará: tratase mais especificamente do caso Maria da Penha Fernandes. 2001. comumente denominada Convenção do Belém do Pará. 247. O continente americano desponta na criação de uma convenção regional específica e vinculante para o combate de tal forma de violência. a violência não ocorreria.direitos humanos controle sobre o seu próprio corpo. em outras palavras. 107. Tal convenção foi assinada pelo Brasil em 09 de junho de 1994. por isso. cit. f ) o direito de acesso às informações e aos meios para desfrutar do mais alto padrão de saúde sexual e g) o direito a fruir do progresso científico e a consentir livremente à experimentação.áo sexual. Trata-se da Convenção Interamericana para Prevenir. a Convenção inova ao: “a) introduzir o conceito de violência baseada no gênero. (II) p. ALMEIDA. e d) relacionar os tipos de violências possíveis sem ser taxativa: estupro. alguns entendem que esta estaria incluída no conceito geral de discriminação. coação ou violência.”125 Dentre as diversas obrigações assumidas pela ratificação. em conformidade com a Convenção Americana de Direitos Humanos. maus-tratos. 125 FGV DIREITO rio 107 . a ONU adotou a Declaração sobre a Eliminação da Violência contra a Mulher. Importante passo foi o estabelecimento do mecanismo de petições individuais a serem apresentadas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Por sua vez. é uma violência que é cometida pelo fato de a vítima ser uma mulher. sem sofrer discriminação. a qual concebe especificidade a tal violência baseada no gênero. em 1993. b) explicitar a noção de dano ou sofrimento sexual.” 124 Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher Por mais que a Convenção de 1979 não faça menção expressa à violência doméstica e familiar contra a mulher. Segundo Guilherme Assis de Almeida. entre outras formas. tendo o Congresso Nacional a aprovado mediante o Decreto Legislativo no. abuso sexual. e) o direito à privacidade. Direitos Humanos e nãoviolência. F. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. 83. Guilherme Assis de. tráfico de mulheres. prostituição forçada. como na esfera privada (no âmbito da família ou unidade doméstica)..

Legislação: Constituição Federal de 1988 Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher e seu Protocolo Facultativo Convenção de Belém do Pará FGV DIREITO rio 108 . 2002. n. 194-202 (Cap. 5). item V. São Paulo: Max Limonad. Heloneida. Antônio Augusto. Mulher objeto de cama e mesa. PIOVESAN. Petrópolis: editora Vozes. (Cap. XIII. Direitos Humanos das mulheres. Brasília: AGENDE.. 316-318. item “g”). STUDART. In: PIOVESAN. Flávia “Os direitos humanos da mulher na Ordem Internacional”. PIOVESAN. 1999. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. Alice (org. 2002. 26a edição.direitos humanos MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. VI. Tratado de direito internacional dos direitos humanos. 2001. pp. Flávia. 2003. Volume II. São Paulo: Max Limonad. pp. Temas de Direitos Humanos. Leitura acessória: LIBARDONI.). em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações..

Tendo em vista o zelo por determinadas questões que afligem crianças em todo o mundo. deverá subisidiar e integrar a apresentação do grupo. como regra geral. Não há previsão da sistemática de comunicações interestatais e de petições individuais. o interessa maior da criança. 8. à saúde. levadas a efeito por autoridades administrativas ou órgão legislativos. Para o monitoramento das obrigações. além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência. à educação. o qual recebe relatórios periódicos dos Estados. ao respeito. à cultura. a Convenção estabeleceu ainda o Comitê sobre os Direitos da Criança. discriminação. a Convenção estabelece. Cumpre ao professor ressaltar a opção brasileira. à alimentação. como estabeleceu a proteção da criança e do adolescente como prioridade absoluta: Art. que criança é o ser humano com menos de 18 anos de idade. à liberdade e à convivência familiar e comunitária. ambos assinados pelo Brasil em 2000. de designar a denominação de criança aos seres FGV DIREITO rio 109 . Além de enumerar direitos específicos à criança. Prostituição e Pornografia Infantis e o Protocolo Facultativo sobre o Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados. Não somente reservou um capítulo à família. à criança. Todas as ações relativas às crianças. em 25 de maio. dois Protocolos: o Protocolo Facultativo sobre a Venda de Crianças. 227. adotada em 1989 e vigente desde 1990 é o tratado de direitos humanos que mais se aproxima da ratificação universal. da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente. exploração.069. de 13 de julho de 1990. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). primordialmente. o constituinte já havia consolidado no Texto Constitucional todo o debate acerca da necessidade de uma proteção especial às crianças e aos adolescentes. No âmbito interno. Lei n. o direito à vida. devem considerar. É dever da família. o ECA constitui um marco na normatização de direitos no Brasil. Abrangendo tanto direitos civis e políticos quanto direitos econômicos.direitos humanos Aula 17: Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente NOTA AO ALUNO A Convenção sobre os Direitos da Criança. sociais e culturais. a Convenção estabelece um princípio regedor de toda a normativa protetiva: o melhor interesse da criança: Artigo 3 1. crueldade e opressão. ao adolescente e ao idoso. clara tanto na Constituição Federal quanto no ECA. com absoluta prioridade. à dignidade. à profissionalização. foram aprovados pela Assembléia Geral. Considerado um dos documentos que melhor espelha os direitos elencados na Declaração sobre os Direitos da Criança. violência. ao lazer.

tendo total liberdade para aplicá-lo o castigo que julgasse pertinente.org. § 2º – Se resulta a morte: Pena – reclusão. Disponível em: http://www. tendo duração variável (dias. que todos os cidadãos têm o dever de denunciar os casos de maus tratos de que tenha conhecimento aos Conselhos Tutelares de sua localização. 126 127 128 Idem.html. inclusive. por oportuno. 13 e 245 do ECA. igual em dignidade e respeito a todo adulto. cumpre salientar em primeiro lugar sua configuração como crime. quer abusando de meios de correção ou disciplina: Pena – detenção. Discutir a aplicação das normas internacionais e internas exige o recorte de algumas situações que poderão ser abordadas pelo grupo: Maus tratos: muito embora vigore hoje em dia o princípio do melhor interesse da criança. não tem “voz”. uma vez que predomina na família a “lei do silêncio”128. Ressalte-se. de um a quatro anos. que precisa de proteção especial em virtude de ser uma pessoa em desenvolvimento. não há que se falar em melhor interesse da criança. Foi apenas com o cristianismo e com o desenvolvimento da sociedade que se foi exigindo moderação no uso do poder disciplinar. Em relação aos maus tratos.br/denunciar/tortura/textos/nilton. Sendo assim. Tais violações não são levadas ao conhecimento de agências oficiais de proteção. podendo. de quatro a doze anos. não sendo mais considerada como mera extensão da família. Idem. “Hoje. especificamente. quer sujeitando-a a trabalho excessivo ou inadequado. que se exterioriza como abuso de poder disciplinar e de correção. conforme arts. tratamento ou custódia. a desestruturação da família pode levar a atos violentos e agressivos contra a criança e o adolescente. 136. anos). quer privando-a de alimentação ou cuidados indispensáveis. os meios de disciplina e correção não são mais absolutos. de dois meses a um ano. FGV DIREITO rio 110 . instituído no interesse dos filhos e da família. trata-se de uma conquista recente. meses. havendo denominação até de pátrio-dever”127. ou multa. Acesso em: 01 maio 2004. nesse contexto. tal como o Conselho Tutelar. § 1º – Se do fato resulta lesão corporal de natureza grave: Pena – reclusão. o pátrio poder é encarado como complexo de deveres em relação aos pais.direitos humanos humanos até 12 anos incompletos e de adolescente para a idade entre 13 e 18 anos incompletos. 1º). matá-lo126. CP – Expor a perigo a vida ou a saúde de pessoa sob sua autoridade. designando uma nova condição jurídica à criança e ao adolescente: passa a ser sujeito de direitos. Todavia. o ECA revogou o Código de Menores. Isto porque em uma sociedade na qual o pai tem poder ilimitado em relação ao filho. do Código Penal (CP): Art. Implementou a Doutrina Jurídica da Proteção Integral (art. que está diretamente ligada à evolução histórica do conceito de pátrio poder. já que esta. guarda ou vigilância. ensino. o pai tinha poder disciplinar absoluto em relação ao filho. No primitivo direito romano. mais conhecido como violência doméstica. possibilitando a convivência do princípio do melhor interesse com a figura do pátrio poder. Dispõe o art. Ao entrar em vigor. 136. dhnet. para fim de educação. ‘derrubando’ tal nomenclatura e adequando o ordenamento jurídico nacional aos imperativos internacionais e constitucionais.

direitos humanos § 3º – Aumenta-se a pena de um terço. 12 da Convenção sobre os Direitos da Criança possibilita a oitiva da criança nos processos judiciais ou no âmbito administrativo. Participação de crianças e adolescentes em processos administrativos e judiciais: o art. seja no âmbito administrativo. o pai ou responsável que dá pimenta-do-reino à criança como forma de castigo.redeamiga. distúrbios psiquiátricos – 10%. conforme seja adequado. pai – 33%. se o crime é praticado contra pessoa menor de 14 (catorze) anos. uma vez que esse tribunal estabelece parâmetros a serem observados pelos Estados-partes da Convenção Americana de Direitos Humanos a respeito dos direitos da criança e do adolescente. salientem-se dados de 1996 sobre São Paulo130: (i) a maior incidência de maus tratos ocorre contra crianças na faixa etária de 0 a 6 anos – 60%.br/noticia. Os maus tratos contra criança e adolescente são difíceis de serem identificados em virtude de uma série de fatores. tem-se a predominância da “lei do silêncio”. Entre os motivos para a falta de dados a respeito. 129 Acesso em: 01 maio 2004. “102. (ii) a autoria das agressões se distribui da seguinte forma: mãe – 43%. na análise de seu próprio caso. por conseguinte.htm.php. a atuação dos Conselhos Tutelares129. Disponível em: http://www. 28 e ao art. bem como as seqüelas deixadas na criança e no adolescente que os impossibilitam de denunciar: a vítima não fala e não anda131. Para a configuração do crime. (iii) as principais causas são: alcoolismo – 50%. Sugere-se a leitura de seu inteiro teor. Nesse sentido. distúrbios de comportamento – 10%. é necessário ainda mais um elemento: expor a perigo a vida ou a saúde da criança ou do adolescente. destaquem-se: o pai ou responsável que coloca o menor de joelhos por longo tempo a ponto de colocar em perigo a saúde da vítima. 19. cerebromente.º do art. Apesar da falta de dados nacionais a respeito. responsáveis – 14%. for submetido a um dos tratamentos estabelecidos no artigo acima. mãe e pai – 10%. 130 131 Idem. e sujeito passivo a criança ou adolescente que. é sujeito ativo do crime os pais ou responsáveis pela guarda ou vigilância da vítima. na medida do possível. FGV DIREITO rio 111 .” Diante da inexistência de regras claras sobre a ponderação do melhor interesse da criança em face de processos administrativos e judiciais. 45 do ECA referem-se expressamente a hipóteses em que a criança e o adolescente devem ser ouvidos. seja no judicial.br/n04/doenca/infancia/persona. procurar-se-á o maior acesso do menor. tornando difícil. Paralelamente o § 1. Com esta consideração. dentre os quais a inexistência de dados confiáveis sobre a ocorrência dos mesmos no lar familiar no brasileiro. o aplicador do direito.org. na qualidade de filho ou sob custódia ou vigilância. Disponível em: http://www.org. Como exemplo de maus tratos. desorganização familiar – 30%. Em conclusão. A Corte Interamericana de Direitos Humanos manifestou-se sobre o tema no contexto da Opinião Consultiva n. na determinação dos seus direitos. Tânia da Silva Pereira enumera algumas condições objetivas que podem contribuir para o exercício deste direito de ser ouvido: Acesso em: 01 maio 2004. deverá levar em conta as condições específicas do menor e seu interesse superior a fim de ajustar a participação deste.

referido apenas à proibição da privação arbitrária da vida física. realidade cada vez mais presente nas grandes cidades brasileiras. 7.”132 “Meninos de Rua”: uma terceira sugestão de assunto a ser abordado pelo grupo trata dos meninos de rua. 6. Evitar a convocação da criança e do adolescente como testemunha de um dos pais contra o outro. Criar condições que facilitem a expressão espontânea da criança. sociais e culturais. FGV DIREITO rio 112 . Convocá-los a participar dos procedimentos de mediação familiar destinados a solucionar conflitos que envolvam sua pessoa e seus interesses. Trata-se de caso de seqüestro. Assumir a “Curadoria Especial” como a alternativa de interferir nos procedimentos para fazer valer os direitos de seu representado. político e econômico. tortura e assassinato de ‘menores’ e omissão dos mecanismos do Estado guatemalteco em oferecer o acesso à justiça aos familiares das vítimas. A decisão constitui um marco na proteção da criança e do adolescente em todo o continente.A. Cumpre destacar ainda a sentença de reparações. ou “Niños de la Calle”. Tânia. por ocasião do filme Ônibus 174. Favorecer a intervenção de profissionais especializados que possam interpretar. O melhor interesse da criança: um debate interdisciplinar. a palavra da criança e do adolescente. evitando situações de angústia e linguagens técnicas incompreensíveis. Cabe destaque a seguinte passagem. permitindo-lhe expressar seus interesses e conflitos com maior liberdade. 31. de maneira apropriada. 2.direitos humanos “1. O direito à vida não pode continuar sendo concebido restritivamente. Cremos que há diversos modos de privar uma pessoa arbitrariamente da vida: quando é 132 SILVA PEREIRA. Rio de Janeiro: Renovar. 9. constante do Voto concorrente Conjunto dos Juízes A. assim como no social. Considerar seus sentimentos e pensamentos na solução dos conflitos que lhes digam respeito. Tal ponto retoma a discussão travada na Aula 1. Fornecer à criança e ao jovem todas as informações relativas à sua situação e ao assunto sobre o qual deverá emitir sua opinião . de 19 de novembro de 1999. Adaptar os procedimentos com vistas a garantir a manifestação autêntica da vontade da criança ou do adolescente. tal depoimento nunca deverá ser prestado na presença dos pais. uma vez que: a) enfatiza a peculiaridade de tais sujeitos no aspecto jurídico. b) destaca a indivisibilidade dos direitos civis e políticos e os direitos econômicos. sua oitiva deve representar uma forma de expressar sua opinião e preferência sobre a situação conflitante. Sugere-se que o debate ocorra tendo como ponto de partida a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos referente ao caso Villagrán Morales e Outros versus Guatemala. 4. 5. 8. Abreu Burelli: “3. 3. Não forçá-los a se exprimirem ou se manifestarem caso não estiverem preparados. p. Cançado Trindade e A. como foi no passado. de 26 de maio de 2001. e c) determinam a especial gravidade das práticas sistêmicas de violência contra crianças e adolescentes em situação de risco. 2000.

Voto concorrente Conjunto dos Juízes A. “Convenção dos Direitos da Criança”. Tânia. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. In: PIOVESAN. pp. e PIROTTA.or. 2002. “Os direitos humanos das crianças e dos adolescentes no direito internacional e no direito interno”. Flávia. Temas de Direitos Humanos. Rio de Janeiro: Renovar. Legislação: Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança Constituição Federal Estatuto da Criança e do Adolescente Acesso em: 04 julho 2005. Villagrán Morales vs.direitos humanos provocada sua morte diretamente pelo fato do homicídio. os meninos vitimados já se encontravam privados de criar e desenvolver um projeto de vida e de procurar um sentido para sua própria existência.html. 2003. Cláudia (orgs. há a circunstância agravante de que a vida dos meninos já carecida de qualquer sentido. 277-297.cr). assim como quando não se evitam as circunstâncias que igualmente conduzem à morte de pessoas como no cas d’espèce. 134 FGV DIREITO rio 113 . São Paulo: Max Limonad. 76-86. corteidh. Flávia.or.). SILVA PEREIRA. O melhor interesse da criança:um debate interdisciplinar. Cançado Trindade e A. quer dizer. Opinião Consultiva n. de 1990. atinente à morte de meninos por agentes policias do Estado.corteidh. Maria Beatriz Pennachi. Guatemala. Direito Internacional dos Direitos Humanos. 2000. São Paulo: Atlas. DELLORE. Leitura acessória: Corte Interamericana de Direitos Humanos. Abreu Burelli. e PERRONE-MOISÉS. Wilson Ricardo Buquetti. 17. de 28 de agosto de 2002 (www. Disponível em: http://www. a qual transferiu o Rio de Janeiro do noticiário internacional de turismo para o de violação de direitos humanos. Guilherme de. pp. No presente caso Villagrán Morales versus Guatemala.cr/seriec/index_ c.A.”134 O estudo de tal decisão apresenta semelhanças intransponíveis com o caso da Chacina da Candelária. In: ALMEIDA.

dentre os quais se encontra hoje o brasileiro Embaixador Lindgren Alves. inerente ao campo da política internacional. discriminação racial significa toda distinção. promulgada em 1965 e que passa a vigorar em 1969. No âmbito global. descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto ou resultado anular ou restringir o reconhecimento. os Estados partes comprometem-se a uma dupla obrigação: eliminar as formas constantes de discriminação e promover a igualdade.1 estabelece a conformidade das medidas de discriminação positiva: não serão consideradas discriminação racial as medidas especiais tomadas com o único objetivo de assegurar o progresso adequado de certos grupos raciais ou étnicos ou de indivíduos que necessitem da proteção que possa ser necessária para proporcionar a tias grupos ou indivíduos igual gozo ou exercício de direitos humanos e liberdades fundamentais. é importante compreender discriminação como aquela que viola direitos. à manutenção de direitos separados para diferentes grupos raciais e não prossigam após terem sido alcançados os seus objetivos. Para que não haja contradição entre esses termos. De acordo com o artigo 1o. cor. em seu artigo 8o. o artigo 1. o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação Racial (CERD). in casu étnico-cultural. a Convenção criou o seu treaty body. exclusão. da Convenção. comunicações interestatais e comunicações individuais. os Estados reuniram-se em duas conferências de reduzida repercussão na sede a própria ONU. eleitos pelos Estados-partes a título pessoal. Para a coordenação de tais mecanismos. A Convenção dispõe de 3 mecanismos de monitoramento: apresentação de relatórios. Por outro lado. O CERD emite recomendações no sentido de melhor orientar atuação estatal. logo seguida pela Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial. conforme resoluFGV DIREITO rio 114 . gozo ou exercício em um mesmo plano (em igualdade de condição) de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político. excluindo do campo das medidas reprovadas pela Convenção as que promovem a discriminação positiva. em conseqüência. destacando-se perspectiva racial. a Declaração contra a Discriminação Racial (1963) foi um dos primeiros documentos da ONU a retratar a especificação do sujeito. Em 1978 e 1983. Trata-se de um exemplo de implementação do power of embarrasment. contanto que tais medidas não conduzam. Ao ratificar a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial. cultural ou em qualquer outro campo da vida pública. econômico. restrição ou preferência baseada em raça. ambas realizadas durante a Primeira Década de Combate ao Racismo e à Discriminação Racial iniciada em 1973. estando seu cumprimento condicionado à adesão voluntária. Este é composto por 18 peritos.direitos humanos Aula 18: Os direitos humanos sob a perspectiva racial NOTA AO ALUNO A Aula 18 destina-se à continuidade do estudo do processo de especificação do sujeito. social.

136 A complexidade dos temas tratados não afasta o impasse mesmo em questões essenciais como a existência ou não de raças. 137. regional e internacional. restou no texto menção ao fato de que os Estados da União Européia rechaçam firmemente qualquer doutrina que proclame a superioridade racial. nem negação das manifestações de racismo e discriminação racial. FGV DIREITO rio 115 . Todavia.. 58 ministros de Relações Exteriores e 44 ministros de outras pastas e quase 4 mil representantes de organizações não-governamentais reuniram-se para a Terceira Conferência. Em 2001. defenderam a definição ALVES. na cidade de Durban. e b) as reparações devida pelo regime colonial. não restando energia para o debate acerca de outras formas de racismo. educação e proteção voltadas para a erradicação do racismo. qualquer foro multilateral acabaria por centrar todas as atenções no regime do apartheid da África do Sul. segundo definidas pelo Art. causas.. 2005. discriminação racial. 1o da Convenção (de 1965). dentre eles 16 chefes de Estado ou de Governo. 124. regional e internacional. temos: • • • • • Fontes. da discriminação racial. Estratégias para alcançar a igualdade plena e efetiva. Discriminação Racial. p. 135 136 Ibid. p. correção. José Augusto Lindgren. denominada Conferência Mundial de Combate ao Racismo. Vítimas de racismo. assim como o acompanhamento de sua implementação. De qualquer forma. destacam-se: a) a identificação do sionismo como uma forma de racismo. discriminação racial. outras polêmicas conduziram a conferência ao risco de esvaziamento. recursos. 2. São Paulo: Perspectiva. xenofobia e intolerância correlata.] Isto não implica negação do conceito de raça como motivo de discriminação. Dentre os temas escalados para a discussão. com o apoio do Brasil. Provisão de remédios efetivos. xenofobia e intolerância correlata. no contexto desse período.135 Nesse primeiro fórum de direitos humanos do século XXI. “A conferência de Durban contra o racismo e a responsabilidade de todos”. apesar dessa equiparação já ter sido afastada pela própria ONU desde 1991: no acirramento das discussões entre Israel e países árabes. sepultado em 1994 com a posse do Nelson Mandela. Dentre as polêmicas que permearam o encontro. Países Africanos e asiáticos. à discriminação racial. juntamente com as teorias que tentam determinar a existência de raças humanas distintas [. da xenofobia e da intolerância correlata nos níveis nacional. Medidas de prevenção. inclusive por meio da cooperação internacional e do fortalecimento das Nações Unidas e outros mecanismos internacionais para o combate ao racismo. formas e manifestações contemporâneas de racismo. poderia colocar em risco a razão mesma da Conferência. assim como dos tratados que condenam práticas racistas. Todavia. que ainda existem em todo o mundo. caso esgarçadas ao extremo. assim como medidas [compensatórias] e de outra ordem nos níveis nacional. à xenofobia e à intolerância correlata. vingou o posicionamento da ONU. a afirmação das diferenças culturais protagonizou o debate sobre a tolerância e o enfrentamento à discriminação.direitos humanos ção da Assembléia Geral. In: Os direitos humanos na pós-modernidade. O argumento trazido à baila por certas delegações européias. é claro que.. simbolicamente em pleno solo sul-africano. Xenofobia e Discriminações Correlatas.300 delegados oficiais de 163 países.

FGV DIREITO rio 116 . e PERRONE-MOISÉS. Como sintetiza Lindgren Alves. o Brasil tem capitaneado liderança nos foros internacionais. 35. foi compactuada a utilização da expressão ‘lamento’ no lugar de ‘desculpas’ pelos fatos do passado. os documentos de Durban trazem novos conceitos e compromissos importantes. erradicação da pobreza. J. ou como instrumento semijurídico para cobranças das sociedades aos governos. resoluções no âmbito da Comissão de Direitos Humanos da ONU que classificam a discriminação por orientação sexual como uma violação de direitos humanos. etc. Por um lado. Guilherme de. como se não bastasse a doxa econômica neoliberal (para falar com Bourdieu) avessa a preocupações sócias. porém. O simples fato de ela ter tido seus documentos finais adotados sem voto (a votação havida. havendo já apresentado. numa situação internacional que. nos anos de 2003 e 2004. posicionamento esse que implicaria em compensações. fato esse que justifica a implementação de metas internacionais baseadas no alívio das dívidas externas. 138 Em consonância com os parâmetros delineados pela Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Eliminação do Racismo. é sempre bom lembrar. Direito Internacional dos Direitos Humanos. ensejando posicionamento contrário por parte dos Estados Unidos e União Européia. 139. A tensão do debate conduziu a um termo de compromisso no esforço de não esvaziamento da reunião. já se mostrava cada dia menos favorável ao multilateralismo e à diplomacia parlamentar. Instrumentos básicos. nos casos de intolerância correlata. particularmente para o combate ao racismo estrutural. op. transferência de tecnologia.”138 Mais além do exame dos principais tratados que se referem aos direitos humanos sob a perspectiva racial. ativo participante nos trabalhos de Durban: “a verdade é que Durban foi a melhor conferência que se poderia realizar sobre temas tão abrangentes. “Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965)” In: ALMEIDA. é importante ressaltar alguns temas específicos que poderão ser tratados com mais detalhe pelo grupo responsável pelo Seminário da Aula 18. um progresso com relação à conferências de 1978 e 1983. Ingrid. Muito mais do que isso. Crime de racismo 137 CYFER. em condições tão adversas.direitos humanos da escravidão como crime contra a humanidade. foi para rejeitar a reapresentação extemporânea de propostas superadas) representa.A. Por outro lado. p. cit. internamente ou em ações internacionais. a Constituição Federal estabeleceu entre os direitos e garantias fundamentais que: ALVES.137 Importante ressaltar que foi em Durban que se manifestaram expressamente alguns países. A partir de então. São Paulo: Atlas. mudança essa que expressa arrependimento sem acarretar responsabilização internacional. L. no sentido do identificar. liderados pelo Brasil. p. Cláudia (orgs. 2002. questões referentes à discriminação por orientação sexual. como já dito. os países em desenvolvimento conseguiram a manifestação da Conferência no sentido de que injustiças históricas constituíram a raiz para a pobreza e o subdesenvolvimento. Estes podem ser utilizados como guias à atuação dos Estados. a diplomacia brasileira achou por bem a retira da proposta nas duas ocasiões.). Ao considerar mais traumática a derrota de tal proposta que a não submissão ao voto.

religião ou origem. estabeleceu os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor.716. Talvez pela rigidez com que é tratado o crime de racismo. a Lei nº 7. de 3 (três) meses a 1 (um) ano. Incentiva-se a leitura dessa lei. Todavia.direitos humanos Art. § 3º Se a injúria consiste na utilização de elementos referente a raça. 140. se considerem aviltantes: Pena – detenção. tráfico de entorpecentes. em especial das condutas consideradas típicas pelo legislador. além da pena correspondente à violência. De acordo com o Código Penal. A pesquisa sobre decisões referentes ao crime de racismo e de injúria que tenha a utilização de elementos referentes à raça. cor. ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro: Pena – detenção. persiste a resistência por parte dos órgãos do Ministério Público e do Judiciário em estabelecer a responsabilidade penal pelo crime de racismo. religião ou origem: Pena – reclusão de um a três anos e multa. Em uma análise sistêmica (artigo 5º. desclassificando a conduta para um dos crimes contra a honra. de 1(um) a 6 (seis) meses. sujeito à pena de reclusão. Além do exame perante os tribunais nacionais – Tribunal de Justiça. incisos XLIII e XLIV). Superior Tribunal de Justiça e Supremo Tribunal Federal – e em instâncias internacionais sugere a dificuldade em se lidar com situações em que é considerado o elemento racial. Populações remanescentes de quilombos Outro tema de fundamental importância quando se estuda direitos humanos sob a perspectiva racial no Brasil são as populações remanescentes de quilombos. de 07 de dezembro de 1940: Art. a iniciativa legislativa não significou necessariamente seu acatamento por parte da jurisprudência. aos crimes definidos como hediondos e à ação armada contra o Estado Democrático de Direito. etnia. etnia. § 2º Se a injúria consiste em violência ou vias de fato. que consista em outra injúria. de forma reprovável. Tendo em vista o princípio da legalidade. terrorismo. e multa. 5º XLII – a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível. por sua natureza ou pelo meio empregado. que . o Decreto-lei nº 2848. tendo-lhe atribuído características excepcionais como a inafiançabilidade e a imprescritibilidade. Importante ressaltar a maneira com que o constituinte admitiu o crime de racismo. II – no caso de retorsão imediata. provocou diretamente a injúria. FGV DIREITO rio 117 . de 05 de janeiro de 1989. cor. é possível afirmar o crime de racismo é comparado aos crimes de tortura. a injúria. nos termos da lei. ou multa § 1º O juiz pode deixar de aplicar a pena: I – quando o ofendido. Injuriar alguém.

com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida. devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos. do Distrito Federal e dos Municípios. demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos de que trata o art. Tendo como pressuposto a formação multicultural brasileira. reconhecimento. Ainda. e procedimento: cabe à Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura a expedição de certidão referente à autodefinição. o qual regulamenta o procedimento para identificação. com trajetória histórica própria. 4887. consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos.. Dentre os pontos mais relevantes dessa normativa. reconhecimento. Cabe especial atenção ao Ato das Disposições Constitucionais Transitórias: Art. os grupos étnico-raciais.) § 5o Ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos. Por sua vez. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial. notadamente durante o século XIX. no dia 20 de novembro de 2003. à ação. o Decreto n. nos quase se incluem: (. à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. 68 Aos remanescentes das comunidades de quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva. A Carta Constitucional criou assim uma titularidade coletiva de propriedade para aqueles que ocupam determinada terra e se reconhecem enquanto remanescentes de quilombos. tomados individualmente ou em conjunto. sem prejuízo da competência concorrente dos Estados. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. da Presidência da República (SEPPIR/PR). em celebração ao Dia Nacional da Consciência Negra. A designação geográfica deu origem ao contorno sócio-cultural das populações remanescentes de quilombos. Foi precisamente nesse sentido que o Poder Executivo expediu. dotados de relações territoriais específicas. compete à Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. delimitação. portadores de referência à identidade. no processo FGV DIREITO rio 118 • . demarcação e titulação das terras. a Constituição brasileira determinou que: Art. cabe ressaltar: • definição: de acordo com o artigo 2o. cumpre ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA. a identificação. formaram-se em todo o país centros de resistência para os quais se direcionavam escravos fugidos..direitos humanos Como se sabe. delimitação. segundo critérios de auto-atribuição. A assinatura da Lei Áurea não trouxe mudança significativa para a vida de muitos brasileiros que já se viam engajados em um novo contexto social. 216.

a luta dos negros no Brasil. Políticas de Ação Afirmativa Por mais que os alunos já tenham explorado o tema das Políticas de Ação Afirmativa no bojo da Disciplina Direito Constitucional I. resgatando a FGV DIREITO rio 119 . a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional. a mídia passou a conceder espaço diário às supostas implicações que teria a aplicação de tais políticas no contexto social brasileiro. torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura § 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos. De forma inédita. a intensa participação da sociedade civil brasileira nas conferências regionais e os mais de 200 ativistas nacionais que compareceram a Durban giraram os holofotes do debate nacional em direção às políticas de ação afirmativa. trata-se de um tema inescapável quando se trata da perspectiva racial. e por conseqüência. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio. Alteração curricular Interpretada por alguns como política de ação afirmativa. garantir os direitos étnicos e territoriais dos remanescentes das comunidades dos quilombos. Por mais que tal debate tenha sido ofuscado pelos ataques terroristas às Torres Gêmeas de Nova Iorque. criando os seguintes novos artigos: Art. censurada externamente pelos seus representantes. foi inescapável a conquista de um lugar ao sol para tais medidas. a qual altera a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e inclui a matéria no currículo oficial da Rede de Ensino. O país que primeiro implementou tais políticas sabotou sua discussão durante o evento. tais políticas já vinham sendo lentamente desmontadas internamente.direitos humanos de regularização fundiária. foi sancionada a Lei nº 10. sendo elas atacadas ou defendidas. 26 –A. a implementação do estudo de História e Cultura Afro-brasileira deve ser entendida como um importante passo para a compreensão do Brasil como um Estado multi-étnico e multicultural. Trata-se de processo administrativo que visa precisamente à garantia de uma titularidade coletiva no contexto de um país multicultural. Nenhuma linha foi dedicada a tais políticas quando a Aula 18 referiu-se à importância da Conferência de Durban. notadamente após a edição do referido decreto. mais especificamente em atividade sobre a Lei Estadual do Rio de Janeiro nº 3. o qual prescreveu atribuições e procedimentos próprios. Em 09 de janeiro de 2003. Tal omissão não é por acaso. oficiais e particulares. Diversos quilombos já foram ou encontram-se em vias de regularização.639.524/2000. Sob a administração de George Bush. Ironicamente.

racial. A leitura de tais documentos torna-se importante na medida em que fundamentam razões e efeitos da modificação curricular. São Paulo: Max Limonad. Guilherme de. à sua identidade e a seus direitos. o Conselho Nacional de Educação manifesta no sentido de regulamentar as alterações advindas da Lei no. In: PIOVESAN. São Paulo: Perspectiva. Hédio.639. PIOVESAN. homologado pelo Ministro da Educação em 19 de maio de 2004. é preciso valorizar devidamente a história e cultura de seu povo. que se repetem há cinco séculos. São Paulo: Atlas. pp. José Augusto. pp. § 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar. editando assim a Resolução nº 1. também as contribuições histórico-culturais dos povos indígenas e dos descendentes de asiáticos. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira. mas de ampliar o foco dos currículos escolares para a diversidade cultural. “Implementação do Direito à Igualdade”. Cláudia (orgs. Leitura acessória: CYFER. cabe ao Poder Público e à sociedade civil a luta para a promoção de uma sociedade sem discriminação. condições oferecidas para aprendizagem. Temas de Direitos Humanos. 26-A acrescido à Lei 9394/1996 provoca bem mais do que inclusão nos novos currículos. Com essa medida. 191-203. reconhece-se que. 2005. 2002. Direito de igualdade racial: aspectos constitucionais. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN.direitos humanos contribuição do povo negro nas áreas social.” 139 FGV DIREITO rio 120 . Direito Internacional dos Direitos Humanos. Instrumentos básicos. além de garantir vagas para negros nos bancos escolares. A relevância do estudo de temas decorrentes da história e cultura afro-brasileira e africana não se restringem à população negra.). que proporciona diariamente. É preciso ter clareza que o art. Legislação: Constituição Federal de 1988 Indica o parecer que “a obrigatoriedade de inclusão de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nos currículos da Educação Básica trata-se de decisão política. procedimentos de ensino. cabe às escolas incluir no contexto dos estudos e atividades. 24-38. “A conferência de Durban contra o racismo e a responsabilidade de todos”. Flávia. SILVA JR. LINDGREN ALVES. e PERRONEMOISÉS. Luciana. com fortes repercussões pedagógicas. Flávia. Art. econômica e política pertinentes à História do Brasil. É importante destacar que não se trata de mudar um foco etnocêntrico marcadamente de raiz européia por um africano. dizem respeito a todos os brasileiros. pedagógicas. exige que se repensem relações étnico–raciais. além das raízes africana e européia. em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras. Nesta perspectiva. “Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965)”. Foram aqui expostos alguns temas relacionados à especificação do sujeito de direitos humanos sob a perspectiva racial. capazes de constituir uma nação democrática. In: ALMEIDA. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como ‘Dia Nacional da Consciência Negra’.79-B. inclusive na formação de professores. Ingrid. O importante é perceber que. objetivos tácitos e explícitos da educação oferecida pelas escolas. Priscila Kei. de 17 de junho de 2004. buscando repara danos. uma vez que devem educar-se enquanto cidadãos atuantes no sei de uma sociedade multicultural e pluriétnica. de 10 de março de 2004139. social e econômica brasileira. 113-140. Tantos outros poderiam ser aqui apontados para o debate. Em Parecer nº 003/2004. 10. In: Os direitos humanos na pós-modernidade. 2003. pp. muito além da discussão acerca da raça e os métodos para a sua designação. sociais. civis e penais: doutrina e jurisprudência. 2002. e SATO. ao contrário.

direitos humanos Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial Declaração e Plano de Ação de Durban Lei nº 7.716/1989 (crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor) Lei nº 10.639/2003 (institui o estudo de História e Cultura Afro-brasileira) FGV DIREITO rio 121 .

ou ao receber denúncias individuais ou interestatais – se for o caso. pp. em torno de 330. em 1989. encontra-se em processo de elaboração o Projeto de Declaração Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Em março de 1995. Os treaty bodies são criados no intuito de possibilitar o monitoramento dos tratados de direitos humanos. cujos trabalhos ainda não foram encerrados. população essa configurada por mais de 170 línguas. Cabe destaque ainda à jurisprudência da Corte 140 Campaña educativa sobre derechos humanos y derechos indígenas: módulos temáticos. o Conselho Econômico e Social criou o Grupo de Trabalho sobre Populações Indígenas. saúde. a qual descredencia qualquer visão integracionista e explicita direitos fundamentais dos povos indígenas como a terra. a OIT examina casos de trabalho forçado a que são submetidos povos indígenas. a Comissão de Direitos Humanos estabeleceu um Grupo de Trabalho aberto para elaborar um projeto de declaração. A Declaração de Viena de 1993 estabeleceu o compromisso dos Estados em respeitar os direitos humanos e liberdades fundamentais dos povos indígenas. 2003.org/pib/portugues/direito/ conv169. ocorrida a última em fevereiro de 2005. a Conferência-Geral editou a Convenção nº 107 sobre populações indígenas e outras populações tribais e semitribais nos países independentes. no Brasil. em cada um dos âmbitos de proteção: 1) Organização das Nações Unidas: em 1982. formado por cinco expertos independentes que são membros da Subcomissão de Promoção e Proteção dos Direitos Humanos (Subcomissão). San José: Instituto Interamericano de Derechos Humanos. tão fundamental ao exercício dos demais direitos. Não obstante ter sido o primeiro marco protetivo dos direitos indígenas no panorama internacional. referente aos Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes. possibilitou-lhes a reivindicação de terra. 3) Organização dos Estados Americanos: tanto a Convenção Americana de Direitos Humanos quanto o Protocolo de San Salvador guardam artigos que são de especial interesse dos povos indígenas. Convenção 169 da OIT.direitos humanos Aula 19: Direitos Humanos e a questão indígena NOTA AO ALUNO Há. Acesso em: 10 março 2005. Já realizadas 5 reuniões de trabalho.140 2) Organização Internacional do Trabalho: desde o início do século XX. a referida convenção refletiu visão dominante nesse período caracterizada pelo protecionismo estatal e pelo assimilacionismo. Tendo em vista a peculiaridade do tema para o continente americano. correspondente a 11% do território nacional – sendo que 95% das terras se concentram na Amazônia. poderá examinar a especificidade da questão indígena. tendo em vista sua extrema importância para o tema. Cumpre registrar que a ausência de um tratado específico não significa a negativa de proteção dos direitos dos povos indígenas. 141 FGV DIREITO rio 122 . 41-49. a Convenção nº 169 deverá permear toda a aula. Aos povos indígenas são garantidos direitos específicos. ao examinarem relatório enviado pelo Estado-parte. sobretudo pelo aumento da participação indígena na vida política.shtm#ti. Disponível em: http://www. Por sua vez. ainda não há prazo para a conclusão do documento. educação e participação. O conhecimento de seus direitos.socioambiental. Em 1957. é aprovada a Convenção 169141. Promulgada em 19 de abril de 2004.000 cidadãos indígenas.

org. Wapichana. ou qualquer das condições ou termos que as compõem. Ingarikó. segundo a visão civilizada. poderá auxiliar na condução desse ponto específico: Terra Indígena Raposa Serra do Sol144 Terra Indígena Raposa Serra do Sol317 145 Acesso em: 01 julho 2005.or.cr/seriec/index_ c. da cultura deles. os quais possuem direitos originários sobre a terra e. 4) Constituição Federal: a proteção aos índios pode ser considerada um dos pontos mais difíceis e controvertidos do trabalho do constituinte. FGV DIREITO rio 123 . a propriedade é inalienável. Tem uma população estimada em 15. 3a) serem imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar. mas seexemplo. Miang. atividade produtiva. XI CF). Acesso em: 10 março 2005. Surumú e a fronteira com a Venezuela.direitos humanos Interamericana de Direitos Humanos. a visão do bem-estar do nosso gosto. 1993. Porto Alegre: Núcleo de Direitos Indígenas e Sergio Antonio Fabris Editor. Disponível em: http://www. (ii) tal propriedade é vinculada à posse permanente dos índios.br/raposaserradosol. 318 Dados gerais É a habitação ancestral dos povos Macuxi. ao longo dos anos. Roraima.”143 316 . No caso Aloeboetoe vs. 47. 145 Acesso em: 10 março 2005. uma vez que retrata de forma bem clara a luta pelo reconhecimento da terra e os obstáculos que os índios que: ultrapassar nesse caminho. celebram relações de várias naturezas – matrimonial. a visão do modo de produção capitalista ou socialista. Disponível em: http://www. Maú. p. 142 SILVA. entre os rios Tacutu. acesse o site do Conselho Indígena de Roraima. 4a) serem necessárias à reprodução física e cultural. (iii) a base do conceito de terras tradicionalmente ocupadas pelos índios encontra-se no artigo 231. a saber: 1a) serem por eles habitadas em caráter permanente. “Terras tradicionalmente ocupadas pelos índios”. 2a) serem por eles utilizadas para suas atividades produtivas. indisponível e imprescritível. de sorte que não se vai tentar definir o que é habitação permanente. Disponível em: http://www.org/nsa/ detalhe?id=1886. Objetivo Homologação da área contínua. Suriname142.cir. o tribunal reconheceu os costume indígena como fonte de direito. que tem estabelecido. Localiza-se a nordeste do Estado de socioambiental. tudo segundo seus usos. 143 144 Para maiores informações. o caso da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Taurepang e Patamona. “fundado em quatro condições. José Afonso.000 habitantes. por isso.asp.html. todas necessárias e nenhuma suficiente sozinha. cerimonial e comercial – gundo o modo de ser deles. corteidh. em especial a organização das famílias. parágrafo 1o. In: Os direitos indígenas e a Constituição. modo de utilização. Cabem aqui algumas considerações: (i) as terras indígenas são consideradas bens da União (artigo 20. (c) o caso Raposa Serratêm do Sol o quadro. importante contribuição para o fortalecimento dos direitos dos povos indígenas. costumes e tradições. com vistas ao pagamento de indenizações. abaixo. com as populações vizinhas ressalte-se Nesse contexto normativo.

com pedido de liminar contra o Ministério da Justiça. Concedida Liminar Parcial ao Mandado de Segurança: o ministro relator Aldir Passarinho suspendeu os efeitos da portaria quanto aos núcleos urbanos e rurais instalados antes da sua expedição.2005. 231.775/1996. O Governo do Estado de Roraima impetrou no STJ Mandado de Segurança (n° 6. op.br/guia3/detalhes. A luta Respaldo legal Portaria n. Tem uma população estimada em 15. Wapixana e Taurepang. Convenção 169 da OIT Assinada pelo ex ministro da Justiça Renan Calheiros: declarou ser a Terra Indígena Raposa Serra do Sol posse tradicional permanente dos povos indígenas Ingarikó. voltou a impedir a homologação em área contínua da terra indígena. a ministra do STF Ellen Gracie suspendeu a Portaria 820/ 98 do Ministério da Justiça147. htm.05. Trata-se de ato administrativo de competência do presidente da República. É uma fase do procedimento demarcatório das terras indígenas.01. que poderá fazê-lo por meio de um decreto. 147 148 Portaria n. Acesso em: 30 abril 2005. entre os rios Tacutu. Em 03. Disponível em: http://www. Miang. FGV DIREITO rio 124 . o presidente Lula assinou decreto homologando a área indígena Raposa Serra do Sol de forma contínua150. Fixou a dimensão e limite da área. 7º. o STF “julgou prejudicadas as ações judiciais ‘pela perda do objeto’. Localiza-se a nordeste do Estado de Roraima.210).000 habitantes. Em 14. CF. Homologação da terra Acesso em: 30 abril 2005. dentro das terras Raposa Serra do Sol.direitos humanos Dados gerais Objetivo É a habitação ancestral dos povos Macuxi. assim. cit. Dentre os empecilhos criados pelo Governo Estadual para impedir a homologação da terra contínua. brasiloeste. Wapichana. juntamente com uma carta requerendo a homologação. justica. Disponível em: http://www. Solicitam que todos mandem uma caneta para o presidente Lula. conforme dispõe a Lei 6. (iii) incentivo a Ongs para a divisão do território entre as comunidades. No dia 27 de novembro de 2002. argumentando os direitos de ir e vir dos moradores nos referidos núcleos. A decisão liminar atendeu a uma Ação Cautelar ajuizada pelo senador Mozarildo Cavalcanti (PPS-RR) e. 820 de 11/12/98 Ação judicial Homologação de Raposa Serra do Sol A campanha 146 Conselho Indígena de Roraima. “Se só for preciso uma canetada.amazonia. em 1995. Disponível em: http://ef. Art. Maú.br/noticias/2005/ Abril/rls150405homologacao. As comunidades indígenas lutam há mais de 30 anos pelo reconhecimento definitivo da terra aos seus legítimos habitantes.001/1973 e o Decreto 1. Homologação da área contínua.br/noticia/1363/stf-raposa-serra-dosol. cfm?id=157084&tipo=7&cat_ id=92&subcat_id=1.gov. Em 15. destacamse: (i) criação do município de Uiramutã. excluindo da área as instalações do 6º Pelotão Especial de Fronteias e reconhecendo a unidade administrativa municipal de Uiramutã. Ingarikó. Surumú e a fronteira com a Venezuela.com. alvo da contestação”149.2005. 534. que não seja por falta de caneta!”146. 149 150 Idem. alterando o que estava disposto no ato normativo anterior.2005. o Mandado de Segurança foi rejeitado pelos juizes do Superior Tribunal de Justiça. Trata-se de uma campanha do Conselho Indígena de Roraima (CIR) em parceria com Rainforest Foundation para pressionar o Governo Federal a homologar a terra. Macuxi.05. Art. a fim de anular a Portaria declaratória. org. o processo extinto sem julgamento do mérito e a liminar parcialmente revogada. devido à edição de uma nova portaria do Ministério. Taurepang e Patamona. (ii) criação do Parque Nacional Monte de Roraima e do 6º Pelotão Especial de Fronteiras do Exército Brasileiro. de n° 534148. O caso no STF Acesso em: 10 março 2005. de 13 de abril de 2005 – Define os limites da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

“Redimensionando a questão indígena no Brasil: uma etnografia das terras indígenas”. 45-50. O Estado brasileiro argumenta pela inadmissibilidade do caso. In: Os direitos indígenas e a Constituição. VIII (direito de residência e de trânsito). 1993. 15-68. e enumera todas as medidas que vinham sendo adotadas no sentido da promoção de tais povos indígenas.direitos humanos Processo na CIDH Conselho Indígena de Roraima (CIR) e a Rainforest Foundation protocolaram denúncia contra o Estado brasileiro. pp. Legislação: Constituição Federal Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho FGV DIREITO rio 125 . SILVA. a CIDH inseriu nota em sua página na internet por meio da qual manifestava congratulação ao Estado brasileiro pelo Ato Presidencial. XVIII (direito à justiça) e XXIII (direito de propriedade) da Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem (a “Declaração”). 1998. José Afonso. pp. II (direito de igualdade perante a lei). Macuxi. rotinas e saberes coloniais no Brasil contemporâneo. III (direito à liberdade religiosa e de culto). em 29 de março de 2004. OLIVEIRA. uma vez que não teriam sido esgotados os recursos internos. 24 (igualdade perante a lei). por supostas violações a direitos e garantias dos povos Ingaricó. In: Indigenismo e territorialização: poderes. Porto Alegre: Núcleo de Direitos Indígenas e Sergio Antonio Fabris Editor. 22 (direito de circulação e residência) e 25 (direito à proteção judicial) da Convenção Americana de Direitos Humanos (a “Convenção”) e os direitos I (direito à vida e à integridade da pessoa). Os peticionários argumentam que o Estado brasileiro teria violado os artigos 21 (direito à propriedade privada). 4 (direito à vida). Por ocasião da homologação da TI Raposa Serra do Sol. 2003. IX (direito à inviolabilidade de seu domicílio). 05 (direito à integridade pessoal). Rio de Janeiro: Contra Capa. João Pacheco. “Terras tradicionalmente ocupadas pelos índios”. 12 (liberdade de consciência e de religião). Wapixana. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: Campaña educativa sobre derechos humanos y derechos indígenas: módulos temáticos. Patamona e Taurepang por não demarcar suas terras e promover a colonização continuada das mesmas. San José: Instituto Interamericano de Derechos Humanos.

que me é pedido por parte interessada. sistema de tratamento de esgoto e central de abastecimento de gás. consta labrado um INSTRUMENTO DE ESCRITURA. portanto. Artigo 2º – São coisas e partes de propriedade e uso comuns e. jardins. bosque. Parágrafo único – A cada um dos 4 (quatro) edifícios que constituirão o “Parque Árvores Verdes” corresponderá uma quota ideal de ¼ da totalidade do terreno. cujo teor é o seguinte: ESCRITURA de Convenção de Condomínio Geral do “Parque Árvores Verdes”. República Federativa do Brasil. e na forma da lei: Certififica que revendo o Livro n. às folhas 50. Artigo 3º – Não obstante o disposto no artigo precedente. Comarca do Estado do Rio de Janeiro. Capítulo II – Da Utilização das Coisas Comuns Artigo 4º – O uso das coisas comuns dispostas no artigo 1º poderá ser feito por qualquer co-proprietário e deverá obedecer aos horários estipulados pelo “Parque Árvores Verdes”. a parte do terreno ocupada pela projeção de cada um dos 4 (quatro) edifícios será reservada para utilização exclusiva dos co-proprietários das unidades autônomas componentes de cada um. assim como tudo que seja proveitoso à totalidade dos condôminos do conjunto. 2000. esculturas. ainda. Mario Henrique Mendonça. 2000. por CERTIDÃO. na forma abaixo: Capítulo I – Dos Conceitos Gerais Artigo 1º – Além dos 4 (quatro) referidos edifícios residenciais. as enumeradas no artigo anterior e mais o terreno de todo o “Parque Árvores Verdes”. Julio Lopes. 3 (três) quadras de tênis. insuscetíveis de divisão ou de alienação destacada da unidade autônoma de cada um ou. piscina. situado na Av.direitos humanos Aula 20: Direitos Humanos e orientação sexual NOTA AO ALUNO Leia os dois casos abaixo: I) Convenção Hipotética de Condomínio CERTIDÃO O BEL. fica estabelecido que. da Cidade do Rio de Janeiro. play-ground. de utilização exclusiva por qualquer co-proprietário. embora constituindo coisa de propriedade comum de todos os condôminos do “Parque Árvores Verdes”. vias internas de circulação. o “Parque Árvores Verdes” contará com um parque de estacionamento de automóveis. Tabelião do 10º Ofício de Notas. FGV DIREITO rio 126 . fontes e lagos. sistema de iluminação das partes comuns.

indaga-se: A Convenção de Condomínio e o PL de nº 717/2003 violam algum direito humano? Caso afirmativo. § 2º – A não observância do disposto no presente artigo implica na aplicação de multa progressiva.] Capítulo VIII – Do Foro Artigo 35 – Fica eleito o foro desta cidade para a solução de qualquer litígio ou controvérsia decorrente da presente Escritura. Disponível em: http:// www. o beijo e qualquer outro ato ou gesto que atente contra os bons costumes ou formação moral e psicológicas das crianças e dos adolescentes. calculada a partir da primeira infração. aos quinze (15) dias do mês de fevereiro (02) do ano de dois mil e cinco (2005). A resolução de 1999 também impede psicólogos de colaborarem com eventos ou serviços que “proponham tratamentos de cura da homossexualidade” e de “se pronunciarem em meios de comunicação de massa de modo a reforçar o preconceito social existente em relação aos homossexuais. o abraço. sendo vedada mãos dadas. II) Programa de Auxílio para “cura de homossexuais” Em 10 de dezembro de 2004. distúrbio ou perversão..gov.151 Diante do exposto. proposto pelo Deputado Federal Neucimar Fraga (PL-ES). pastor da Assembléia de Deus. Trata-se da autorização para um programa de reorientação sexual.asp?NOTCod=58452. que foi designado relator na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara. 151 FGV DIREITO rio 127 . Desde 1999. No caso desse projeto. uma resolução do órgão determina que psicólogos não podem tratar a homossexualidade como doença. [. um auxílio para os homossexuais que quiserem a cura para “virar” heterossexuais. Projeto semelhante tramita também no Congresso Nacional. qual? O que dispõem os tratados internacionais de direitos humanos e as leis nacionais a respeito? Acesso em 05 de julho de 2005.aids.. de nº 717/2003. De acordo com a assessoria de imprensa do CFP. “o CFP (Conselho Federal de Psicologia) já adotou a posição contrária. A decisão final da Assembléia não retira a gravidade de que tal projeto de iniciativa do Deputado Estadual Edino Fonseca (PSC). o Plenário da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro reprovou o projeto de Projeto de Lei da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. ligando-os a portadores de desordem psíquica”.br/imprensa/ Noticias. ou seja. Extraída por Certidão. os profissionais não estão proibidos de prestar serviços a pessoas homossexuais desde que o objetivo seja reduzir sofrimentos decorrentes da orientação sexual e que a homossexualidade não seja tratada como doença.direitos humanos § 1º – Fica proibido a demonstração de afetividade por casais homossexuais nos aludidos espaços comuns. Atualmente aguarda o parecer do deputado Roberto Gouveia (PT-SP). tenha tido pareceres favoráveis por parte da Comissão de Constituição e Justiça e da Comissão de Saúde.

Diante do cenário narrado. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade (grifou-se). à medida em que a sessão era conduzida ao final dos trabalhos. 17 contrários e 10 abstenções. não houve maturidade para que a proposta fosse incluída no texto final da Declaração. língua. seja de raça. todavia. no âmbito da 59ª Sessão da Comissão de Direitos Humanos da ONU. ou qualquer outra condição (grifou-se). Iniciou-se em 2003. realizada em Santiago do Chile. foi apresentada uma proposta específica de resolução para o reconhecimento da discriminação por orientação sexual como uma violação a direitos humanos. o Paquistão. pode-se FGV DIREITO rio 128 . origem nacional ou social. Como mencionado na aula 18. contando com amplo respaldo da sociedade civil organizada e de delegações européias. Tal posição já teria sido gestada durante a Conferência Regional das Américas. os Estados Unidos sinalizaram que se absteriam de votar uma proposta que referisse à sexualidade por não acreditarem que a Comissão constituísse fórum adequado para a discussão da questão. Além disso. 1º – Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. o projeto foi retirado de votação. sexo. a diplomacia percebeu que seria mais danoso a reprovação da resolução que a sua não-votação. a Líbia e a Malásia apresentaram propostas de alteração visando a eliminação de todas as referências à orientação sexual. O referido impasse conduziu à proposta da Presidência da Sessão (Líbia) para postergar a apreciação da proposta para 2004. riqueza. opinião política ou de outra natureza. Todavia. nascimento. através de uma atitude inédita do Brasil. o Egito. Já em 2004. a Xenofobia e Formas Conexas de Intolerâncias. A postura assumida pelo Estado brasileiro no cenário internacional acarretou implicações internas imediatas: a criação do Conselho Nacional de Combate à Discriminação. cor. no que se refere ao debate sobre a não-discriminação com base na orientação sexual. África do Sul e um grupo de dezenove países europeus. momento em que os Estados pactuaram a necessidade de prevenir e combater a discriminação por orientação sexual. Cinco Estados muçulmanos obstaculizaram a votação da resolução: Arábia Saudita.1 – Todo o homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração sem distinção de qualquer espécie. Acompanharam a proposta inicial brasileira o Canadá. o que possui o combate à discriminação por orientação sexual como uma de suas vertentes de atividade. Artigo 2. a proteção dos direitos dos homossexuais situa-se ainda no marco geral da proteção dos direitos humanos.direitos humanos Diferentemente dos demais grupos que estudamos até agora. Pela primeira vez na sua história. Ressalte-se que a proposta brasileira foi a única a não ser votada ao longo de toda a 59ª Sessão. o Brasil exerceu protagonismo na Conferência Mundial contra o Racismo. realizada em Durban em 2001. Isso posto. religião. bem como a necessária adoção de medidas de proteção de suas vítimas. uma importante discussão. a Discriminação Racial. Assim. o que foi aceito por 24 votos a favor. assegura a Declaração Universal dos Direitos Humanos que: Art. a proposta foi colocada novamente em pauta.

..... culture. 1º – É conferida nova redação ao Inciso IV do art.. de autoria da então deputada Marta Suplicy.direitos humanos afirmar que se encontra latente no âmbito da ONU uma postura mais abrangente de proteção dos direitos humanos sob a perspectiva de orientação sexual.....” A omissão em relação à discriminação por orientação sexual não constitui prerrogativa brasileira.. raça.. uma vez que se recai mais uma vez sobre a proteção geral do princípio da não-discriminação.... 3º da Constituição: “Art..... ponderações semelhantes podem ser confeccionadas. nos termos seguintes (grifou-se). Acesso em: 27 abril 2005.. orientação sexual.... tramita no Congresso Nacional Projeto de Emenda Constitucional.. conscience.. à igualdade.. belief....... ethnic or social origin... educação.......... em uma análise comparada... disability. html?rebookmark=1#9. 9. cor.. age..... a Constituição Federal da África do Sul é a única constituição do mundo a garantir o direito à orientação sexual152: Art.. Cumpre ressaltar que.. 7º .. orientação sexual.... não seria arriscado afirmar que a ausência de um tratado não significa omissão das instâncias internacionais em face a violações dos direitos humanos dos homossexuais. sex. 5º – Todos são iguais perante a lei. including race. Disponível em: http://www. 3º – .” Art. prisão e assassinato...... XXX – proibição de diferença de salários... 7º da Constituição: “Art... Nesse sentido.. IV – promover o bem de todos. idade. pregnancy.... inúmeros relatos de violência......... Com vistas a consagrar à discriminação por orientação sexual igual gravidade às demais. mesmo que limitado até o momento à não discriminação. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida... alimentação e moradia são comunicados diariamente por parte de experts independentes apontados pela Comissão de Direitos Humanos.. 152 FGV DIREITO rio 129 . 2º – É conferida nova redação ao Inciso XXX do art.... sexo... à liberdade.. idade e quaisquer outras formas de discriminação. O Texto Constitucional estabelece: Art... Além do enorme preconceito de que são vítimas.. gender. religion... cor ou estado civil.. polity.... marital status. language and birth” (grifou-se).. É importante enfatizar que mais de 70 países ainda proíbem práticas homossexuais e a punem com penas que vão desde a prisão à flagelação pública e morte. sem distinção de qualquer natureza. colour..... que propõe a alteração dos seguintes artigos: Art.. sexual orientation. à segurança e à propriedade.org...3 – “The state may not unfairly discriminate directly or indirectly against anyone on one or more grounds..za/html/govdocs/ constitution/saconst02.. tortura. Na esfera interna brasileira. exclusão do direito à saúde..... de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo... sem preconceitos de origem...

O pluralismo característico da maior parte das sociedades contemporâneas exige que os ordenamentos jurídicos se aperfeiçoem de forma a garantir que as diferenças possam ser reconhecidas e respeitadas.br/pgm/leiorganica/ leiorganica. ainda.direitos humanos Cabe aqui uma interpretação mais arrojada para afirmar que. orientação sexual.html#t1c1. Mais além do plano legislativo. Direito à Cultura. Direitos ao Trabalho. Acesso em: 27 abril 2005. conduz à ilação de que o respeito a diferenças seja um pressuposto para uma vida digna. 153 FGV DIREITO rio 130 . condição social ou. rio. mental ou sensorial.ao e revisão de textos: Cláudio Nascimento Silva e Ivair Augusto Alves dos Santos. Política para as Mulheres e Política contra o Racismo e a Homofobia. dentre as quais se encontra a por orientação sexual. É também importante perceber que outros marcos normativos internos já têm apresentado sensibilidade à orientação sexual. estado civil. como está na norma sul-africana. lançado em 2004 por iniciativa da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República.gov. organiza. Brasil Sem Homofobia – Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania Homossexual. Direito à Educação. prejudicado ou privilegiado em razão de nascimento. sobre a cura da homossexualidade”. É o caso da Lei Orgânica Municipal do Rio de Janeiro153. cor.asp?NOTCod=60157. por ter cumprido pena ou pelo fato de haver litigado ou estar litigando com órgãos municipais na esfera administrativa ou judicial (grifou-se). a dignidade encontra-se na aceitação do ser nas suas características pessoais. por mais que tal forma não esteja expressa em nosso Texto Constitucional.br/imprensa/Noticias. É dividido entre os temas Cooperação Internacional. Elaboração: André Luiz de Figueiredo Lázaro. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: CALLIGARIS. Disponível em: www. Acesso em: 6 de julho de 2005.gov. a qual estabelece que: Art. cabe menção ao lançamento do Brasil Sem Homofobia – Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania Homossexual. ou qualquer particularidade.aids. Direito à Saúde. Comissão Provisória de Trabalho do Conselho Nacional de Combate à Discriminação da Secretaria Especial de Direitos Humanos. Afinal. Direito à Segurança. respaldado no artigo 1º da Constituição Federal. sexo. Disponível em: http://www2. Designa-se ao Conselho Nacional de Combate à Discriminação papel fundamental de controle das ações que visem ao fim da discriminação. o princípio da dignidade da pessoa humana. 5º. “De novo. atividade física. etnia. § 1º – Ninguém será discriminado. idade. Conselho Nacional de Combate à Discriminação/Ministério da Saúde. 2004. Brasília: Ministério da Saúde. Política para a Juventude.rj. Contardo.

2003. Santa Cruz do Sul: EDUNISC. União homoafetiva: o fim do preconceito.direitos humanos SPENGLER. Legislação: Constituição Federal FGV DIREITO rio 131 . Fabiana Marion.

O Teatro Essencial 3.direitos humanos Aula 21: Teatro do Oprimido NOTA AO ALUNO Manifesto do Teatro do Oprimido154 Declaração de princípios Preâmbulo 1. a si mesmo. Quando um ser humano se limita a observar uma coisa. a energia e o seu desejo de agir são transferidos para essa coisa. 8. ao invés de esperar por ele. e pelo respeito às diferenças e pelo direito de ser respeitado. Teatro do Oprimido. Todo ser humano é capaz de ver a situação e de ver-se. um espaço dentro do espaço: o Espaço Estético. Ser humano é ser teatro: ator e espectador co-existem no mesmo indivíduo. Teatro do Oprimido é um ensaio para a realidade. criando. Disponível em: http:// www. a pensar. movimentos e expressões físicas. desejos e idéias em uma Linguagem Teatral. a agir. deve produzir ações e observar o efeito de suas ações sobre o meio exterior. sentindo. O Teatro do Oprimido oferece aos cidadãos os meios estéticos de analisarem seu passado. individual ou coletivamente. O objetivo básico do Teatro do Oprimido é o de Humanizar a Humanidade. Oprimidos são aqueles indivíduos ou grupos que são. agindo. O Teatro do Oprimido ajuda os seres humanos a recuperarem uma linguagem artística que já possuem. que busca ajudar homens e mulheres a desenvolverem o que já trazem em si mesmos: o teatro. racial ou sexualmente despossuídos do seu direito ao Diálogo ou. 11. Teatro Objetivo e Linguagem Teatral. O Teatro Essencial consiste em três elementos principais: Teatro Subjetivo.br/foco. na vida diária. Diálogo é definido como o livre intercâmbio com os Outros. pessoa ou espaço. renunciando momentaneamente à sua capacidade e à sua necessidade de produzir ações. em situação. 6. Aprendemos a sentir. como a livre participação na sociedade humana entre iguais. política. Esta co-existência é o Teatro Subjetivo. 154 FGV DIREITO rio 132 . social. econômica. e a aprender a viver em sociedade através do jogo teatral. no contexto do presente. 5.com. Jogos e Técnicas Especiais baseadas no Teatro Essencial. diminuídos no exercício desse direito. Traduzem suas emoções. a mesma linguagem que os atores usam no palco: suas vozes e seus corpos. cultural. cfm?persona=materias&contr ole=112.opalco. pessoa ou espaço. O teatro se define pela existência simultânea — dentro do mesmo espaço e no mesmo contexto — de espectadores e atores. para que possam inventar seu futuro. Este é o Teatro Objetivo. Todos os seres humanos utilizam. 2. Todo ser humano é teatro! 4. Todo ser humano é capaz de atuar: para que sobreviva. de qualquer forma. pensando. 9. 7. assim. O Teatro do Oprimido é um sistema de Exercícios. 10. Acesso em: 14 de maio de 2005.

Reconhecendo esta realidade. os cidadãos agem na ficção do teatro para se tornarem. de acordo com os princípios e os objetivos desta Declaração. psicoterapias. e respeita todas as culturas. concebendo e executando projetos em escala mundial. cultura. finalmente. promovendo a troca entre eles. grupos e nações. para respeitar as diferenças entre indivíduos e grupos. e criando um ponto de encontro internacional na Internet. e um meio de tornar as pessoas mais felizes. os diálogos têm a tendência a se transformarem em monólogos que terminam por criarem a relação Opressores-Oprimidos. não-violento. o TO está sendo amplamente usado em todo o mundo. programas de alfabetização e na saúde. política. mas não a passividade. para desenvolver todas aquelas características que trazem a Paz. A AITO cumpre este objetivo inter-relacionando os praticantes do Teatro do Oprimido em uma rede mundial. É um método de análise. o princípio fundamental do Teatro do Oprimido é o de ajudar e promover a restauração do Diálogo entre os seres humanos. depois. como instrumento para modificar as causas que produzem infelicidade e dor. Nele. para a inclusão de todos os seres humanos no Diálogo necessário a uma sociedade harmoniosa. O Teatro do Oprimido procura ativar os cidadãos na tarefa humanística expressa pelo seu próprio nome: teatro do. por exemplo. estimulando a criação local de Centros do Teatro do Oprimido (CTOs). Em resumo. famílias. facilitando o treinamento e a multiplicação das técnicas existentes. O Teatro do Oprimido é um movimento estético mundial. FGV DIREITO rio 133 . como um instrumento poderoso para a descoberta de si mesmo e do Outro. O Teatro do Oprimido não é uma ideologia nem um partido político. A ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DO TEATRO DO OPRIMIDO (AITO) 17. também está sendo usado como instrumento para a obtenção da justiça econômica e social. alguns projetos exemplares são apresentados para ilustrar a natureza e o escopo deste Método teatral. No Anexo desta Declaração de Princípios. Por causa da sua natureza humanística e democrática. Princípios e Objetivos 13. para clarificar e expressar os desejos dos seus praticantes. e o seu desenvolvimento metodológico. aqui relacionados em Anexos. sempre o diálogo deveria prevalecer. 14. A AITO é uma organização que coordena e promove o desenvolvimento do Teatro do Oprimido em todo o mundo. Na realidade. que busca a paz. 18. promovendo e criando condições de trabalho para os CTOs e os seus praticantes. O Teatro do Oprimido se baseia no Princípio de que todas as relações humanas deveriam ser de natureza dialógica: entre homens e mulheres. O Teatro do Oprimido está sendo usado em dezenas de países de todo o mundo. artes. por e para o oprimido.direitos humanos 12. trabalho social. na educação. protagonistas de suas próprias vidas 15. 16. que é o fundamento da verdadeira Democracia. o objetivo mais geral do Teatro do Oprimido é o desenvolvimento dos Direitos Humanos essenciais. não é dogmático nem coercitivo. em todos os campos da atividade social como. raças.

20. A AITO entende que todos aqueles que trabalham usando as várias técnicas do Teatro do Oprimido subscrevem esta mesma Declaração de Princípios.org Demais sites indicados ao longo do texto FGV DIREITO rio 134 .theatreoftheoppressed.direitos humanos 19. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: Site: http://www.br Site: http://www.ctorio. e vai incorporar todas as contribuições de todos aqueles que trabalharem dentro desta Declaração de Princípios. A AITO tem os mesmos princípios e objetivos humanísticos e democráticos do Teatro do Oprimido.com.

p. De fato. o FSM é realizado sempre no mês de janeiro. cit. Ao longo das duas últimas décadas. Multiplicam-se redes de organizações que pretendem driblar coletivamente as dificuldades e estabelecer agendas.org. A consolidação da sociedade civil brasileira ocorre durante a ditadura militar. Rio de Janeiro: editora Record. hoje de maneira irreversível. a Conferência Mundial do Meio-Ambiente. esse é um importante ator na promoção e proteção. Inaugurado no ano de 2001 na cidade de Porto Alegre. sendo que 100 delas tratavam especificamente dos direitos humanos157. respaldo junto aos governos e legitimidade para influenciar nas tomadas de decisão na esfera pública internacional. “se o que está em jogo é o presente e o futuro da democracia. Cabe registrar que tais organizações participaram de todas as grandes conferências dos últimos 15 anos. destacamos as organizações e movimentos da sociedade civil como protagonistas. Liszt. Suíça.156 Tais elementos conduzem à compreensão do embrião da sociedade civil em nosso passado recente. A partir de então. impulsionada pelas flagrantes violações de direitos humanos vigentes no momento histórico. Disponível em: http:// www. A redemocratização do país conduziu a uma participação social jamais vista nos corredores do Congresso Nacional: verdadeiras caravanas chegavam a Brasília diariamente com vistas a imprimir no Texto Constitucional compromissos com a promoção de direitos humanos. mas algoz na violação de direitos humanos. hoje em sua quinta edição. a sociedade civil vem exercendo papel de destaque nos debates públicos e na mídia no tocante à promoção e proteção dos direitos humanos. 61 157 ABONG. Cidadania e globalização.abong. havia 1208 ONGs no Brasil. Acesso em: 30 março 2005. Destaque-se ainda a experiência do Fórum Social Mundial (FSM). No âmbito internacional. que se constitui hoje como uma grande arena da sociedade civil. o diálogo torna-se muito mais profícuo se precedido pela leitura de alguns argumentos sobre a atuação desses atores. Nesse sentido. Nesse sentido. 1997. serão convidadas organizações não-governamentais e movimentos social que possuam como campo específico de atuação a advocacia em direitos humanos. Em um contexto de globalização. Afirmar que o Estado é o principal violador de direitos humanos é simples.155 Acresça-se ainda o fator de que. Registre-se que. foi descredenciada a via partidária como a única forma de militância. como as corporações privadas e as organizações não-governamentais. 155 156 VIEIRA. em 1988. significou o marco para a visibilidade e referência às ONGs. De forma a aproximar o aluno da realidade da atuação da sociedade civil. a Rio92. A atuação na esfera interna e na arena internacional não constitui tarefas excludentes. durante o tradicional Fórum Econômico Mundial de Davos.br/ (item: “Perguntas mais Freqüentes”). exercendo seu direito à voz. na década de 80. FGV DIREITO rio 135 . outros atores são fundamentais.direitos humanos Aula 22: O papel da sociedade civil na promoção e proteção dos direitos humanos NOTA AO ALUNO Na aula inaugural ao bloco referente aos Novos temas e Novos Atores. o desafio maior consiste em articular ABONG. tais organizações ganharam paulatinamente. op.

Política e democracia em tempos de globalização. Ano 1. regionais e globais. mas algoz na violação de direitos humanos. negros e negras. RJ: Vozes.. 159 160 ABONG. Número 1. Como afirma Oscar Vilhena Vieira e A. “Reflexões acerca da sociedade civil e dos direitos humanos”. pela segurança alimentar. Nesse sentido. possibilitando uma atuação mais eficaz na promoção e proteção dos direitos humanos. Rio de Janeiro: editora Record. Contudo. como as corporações privadas e as organizações não-governamentais.”158 Ultrapassada a apresentação histórica que conduziu ao enquadramento contemporâneo. Dessa forma. etc. não seriam ouvidos. cabe ressaltar que tais atores não substituem o Estado. como mulheres. e DUPREE.. Oscar Vilhena. pois dão voz a perspectivas e pontos vantajosos que. Cidadania e globalização. 2004: 1o Semestre. “Reflexões acerca da sociedade civil e dos direitos humanos” In: Sur Revista Internacional de direitos humanos. RJ: Vozes. 1997. 49-69. VIEIRA. homossexuais. muitas organizações não-governamentais e movimentos passaram a se organizar por meio de redes. FGV DIREITO rio 136 . Oscar Vilhena. Petrópolis. a sociedade civil contribui para a efetivação dos direitos humanos. Número 1. pp. Ano 1. Buenos Aires: CLACSO. José Maria. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: GÓMEZ. são necessárias algumas considerações acerca da atuação dessas organizações. In: Sur Revista Internacional de direitos humanos. de outro modo. VIEIRA. pp. Conforme visto anteriormente. VIEIRA. crianças e adolescentes. o Estado é o um importante ator na promoção e proteção. Leitura dos sites indicados ao longo do texto 158 GÓMEZ. São Paulo: Sur Rede Universitária de Direitos Humanos. Edição em Português. a associação e o diálogo devem estar abertos e com um mínimo de intervenção. 2004: 1o Semestre. Scott A. Scott. destacando dificuldades e avanços. Petrópolis. 2000.”160 A horizontalidade das redes associativas disponibiliza a informação e o debate entre tais organizações e movimentos. bem como pela preservação do meio ambiente. José Maria. Rio de Janeiro: LPP – Laboratório de Políticas Públicas. Liszt. cit. Para que isso se torne realidade. Edição em Português. As ONGs e movimentos sociais devem ser vistos como “outros sujeitos atuando de acordo com as reais necessidades e pelos direitos de diversos segmentos sociais. ao levar a injustiça à esfera pública. São Paulo: Sur Rede Universitária de Direitos Humanos. outros atores são fundamentais para garantir a observância e efetivação dos direitos humanos. etc”159. Assim. Buenos Aires: CLACSO. A. op. Rio de Janeiro: LPP – Laboratório de Políticas Públicas. “(g)rupos da sociedade civil são bons cães de caça para injustiças. nacionais. 49-69. Política e democracia em tempos de globalização. Scott DuPree. 2000. e DUPREE.direitos humanos para reforçar – e não para substituir ou eliminar – processos simultâneos e diversos de democratização do poder em bases locais.

Ainda. só se afirma através de uma disposição ininterrupta para a luta. realizada em Teerã.Rudolf Von Ihering O conceito de direito ao desenvolvimento surgiu na década de 1960. p. que sustentou ser o direito ao desenvolvimento parte da terceira geração de direitos humanos. a CDHNH veio confirmar a existência de tal direito e da igualdade de “…the international dimension of the right to development is nothing other than ‘the right to an equitable share in the economic and social well-being of the world’. a Conferência Mundial sobre os Direitos Humanos. Nesse sentido. a Declaração sobre o Progresso Social e Desenvolvimento165. De acordo com Bedjaoui: a dimensão internacional do direito ao desenvolvimento é nada mais que o direito a uma distribuição eqüitativa do bem-estar social e econômico do mundo. O direito ao desenvolvimento era uma exigência afirmada pelos países do terceiro mundo. da Comissão de Direitos Humanos. e somente alguns meses após por Karel Vasak. proclamou. ao impor aos países economicamente avançados a obrigação de desenvolver os países menos avançados economicamente. todo e qualquer direito. os direitos humanos e o desenvolvimento com questões mundiais primordiais. Idem. It reflects an essential demand of our time since four fifths of the world’s population no longer accept that the remaining fifth should continue to build its wealth on their poverty” (Ibid. seus postulados mais importantes tiveram de ser conquistados num combate contra as legiões de opositores. relacionou.direitos humanos Aula 23: Desenvolvimento e Direitos Humanos NOTA AO ALUNO Todo direito que existe no mundo foi alcançado através da luta.164 BEDJAOUI.. cit. p. seja o direito do indivíduo. na qual os Estados desenvolvidos são os detentores da obrigação legal de cooperação. Mohammed. Foi frente a essa nova necessidade que a Assembléia Geral das Nações Unidas adotou. International Law: Achievements and Prospects. The right to Development. ao passo que os Estados em desenvolvimento são os possuidores do direito ao desenvolvimento163. 1178. p. pela primeira vez. 1177.. p.. Dois anos após. A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas (CDHNH). afirmou a dimensão internacional do direito ao desenvolvimento162. Resolução 4 (XXXIII) de 21 de fevereiro de 1977. que introduziu o direito ao desenvolvimento como um direito humano. Adotada pela Assembléia Geral através de sua Resolução 2542 (XXIV). em seu relatório final. que almejavam consolidar sua independência política através de uma liberação econômica161. . M. Chefe de Justiça do Senegal. op. 161 162 163 164 Ibid. A noção sobre o direito ao desenvolvimento foi abordada pela primeira vez em 1972166. Ela reflete uma demanda crucial de nosso tempo. Contudo. 1178. de acordo com o autor. Paris: Martinus Nijhoff Publisher e UNESCO. Mohammed Bedjaoui (org. no mesmo ano. 1182). a existência do direito ao desenvolvimento em 1977167. tal obrigação tem que ser compreendida no contexto de uma nova lei internacional de solidariedade e cooperação. seja o direito de um povo. Mohammed Bedjaoui. 1991. por dois eminentes acadêmicos: primeiramente por Keba MBaye. pode-se dizer que o direito ao desenvolvimento almeja uma globalização ética e solidária. em 1969. 167 FGV DIREITO rio 137 . durante a fase de descolonização. 165 166 BEDJAOUI. em 1969.). em 11 de dezembro de 1969. na medida em que os quatro quintos da população mundial não mais aceitam o fato de um quinto da população mundial continuar a construir sua riqueza com base em sua pobreza.

a CDHNH estabeleceu o grupo de trabalho de experts governamentais sobre o direito ao desenvolvimento. 170 171 172 173 174 175 Artigo 2(1). Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. social. Em relação à implementação do direito em tela. 181 Art. realizar o direito ao desenvolvimento. juntamente com alguns debates na CDHNH e na Assembléia Geral das Nações Unidas. 177 178 Art. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. o Estado deve incentivar a participação popular em todos os campos como forma de realizar plenamente todos os direitos humanos177. da Comissão de Direitos Humanos. uma visão que liga os direitos humanos a questões mundiais. 168 Resolução 5 (XXXV) de 2 de março de 1979. 5. No plano nacional. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. desfrutando do desenvolvimento econômico. conseqüentemente. da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento pela Assembléia Geral das Nações Unidas. um contra (Estados Unidos) e oito abstenções (Reino Unido. social. assim como para promover e incentivar o respeito aos direitos humanos e liberdades fundamentais. que a Declaração não apenas estabelece que a pessoa humana é o sujeito central do desenvolvimento171.e. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. Isto porque. Ainda. Tanto a Proclamação de Teerã quanto esta resolução de 1979 tinham uma abordagem estrutural (structural approach). em 1981. 6(3). Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. Artigo 1(1). dispõe o artigo 4 da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento que os Estados devem. que no mesmo ano foi adotada a Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos. Mais um avanço ocorreu quando. 169 Adotada pela Assembléia Geral através de sua Resolução 37/199. de acordo com o preâmbulo desta Declaração. França. Finlândia. i. social e cultural (artigo 22). por oportuno. (ii) fortalecer e garantir os direitos humanos e liberdades individuais180. Ressalte-se. Artigo 1. que dispõe acerca do direito de todos os povos a seu desenvolvimento econômico. O marco do direito ao desenvolvimento foi a adoção. Os inúmeros relatórios produzidos. cultural e político174. Artigo 1(1). dispõe o artigo 3 (1) da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. individual ou coletivamente. a cooperação internacional deve ser o meio para se resolver os problemas internacionais de caráter econômico. cooperar com os Estados em desenvolvimento a fim de que estes possam realizar o direito ao desenvolvimento. razão pela qual estes devem participar ativamente e se beneficiar do direito ao desenvolvimento173. 176 Art. 7. em 18 de dezembro de 1982. e preâmbulo. 6. que o Estado é o principal responsável pela implementação de condições nacionais e internacionais propícias à realização do direito ao desenvolvimento. Os Estados Unidos e mais sete estados do oeste se abstiveram. Art. Destaque-se. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. A Declaração foi adotada por 146 votos a favor. Israel. levaram a adoção de uma resolução na qual a Assembléia Geral estatuiu o direito ao desenvolvimento como um direito humano inalienável170. Art. 179 180 Art. Islândia e Suíça).. Já no plano internacional. fazendo com que a CDHNH não conseguisse atingir um acordo unânime na resolução169. 2(3). Japão. Dinamarca. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento.direitos humanos oportunidades como uma prerrogativa tanto das nações quanto dos indivíduos168. FGV DIREITO rio 138 . a palavra-chave é cooperação. o conteúdo do direito era vago. Art. Ainda. cultural ou humanitário. 3(3). mas também que o direito ao desenvolvimento é um direito humano inalienável de “toda pessoa humana e de todos os povos”172. por oportuno. No entanto. bem como tomar todas as medidas necessárias para eliminar as violações de direitos humanos178 e. Isto significa dizer que os Estados devem cooperar entre si para: (i) assegurar o desenvolvimento e eliminar os obstáculos ao mesmo179. em 1986. bem como eliminar as barreiras existentes176 para sua efetivação. 8(2). (iii) promover o estabelecimento da paz e segurança internacionais181. o Estado deve elaborar políticas nacionais adequadas para o desenvolvimento175.

Bedjaoui. São Paulo: Companhia das Letras. 80. principal documento elaborado pela II Conferência Mundial sobre Direitos Humanos. foi o estabelecimento da interdependência184 entre democracia. 1999. Desenvolvimento como liberdade. Arjun Sengupta. 183 184 Declaração de Viena. 10. justice. Nesse sentido. criou. 185 186 Parte I. saúde. Antônio Augusto. como alimentação. p. Parte I. políticos. progress. veio exprimir o consenso entre os Estados de que o direito ao desenvolvimento é “um direito humano universal e inalienável e parte integrante dos direitos humanos fundamentais”182.htm.. Sengupta sugere que o direito ao desenvolvimento é o melhoramento de um “vetor” dos direitos humanos. Parte I. No entanto. par. moradia. sociais. o cargo de Expert Independente sobre o Direito ao Desenvolvimento (atual Expert Independente sobre Direitos Humanos e Pobreza Extrema188). O Expert Independente.ohchr. Ainda. uma boa qualidade de vida para todos os seres humanos é o principal objetivo do direito ao desenvolvimento. 2005. 10. 2001. técnicos e institucionais – de tal forma que possibilitam o melhoramento das condições de vida de toda população. passando de Expert Independente sobre o Direito ao Desenvolvimento para Expert Independente sobre Direitos Humanos e Pobreza Extrema. 8. pp. p. par. 303. progresso. cit. e cf. cultural e político abrangente. dignidade e justiça social para os seres humanos. Sendo assim. pode-se dizer que o direito ao desenvolvimento unifica todos os direitos civis. parte II. FGV DIREITO rio 139 . justiça e criatividade190. 187 Isto porque se entende que a definição de direito ao desenvolvimento estabelecida no preâmbulo da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento é muito vaga. M. the precondition of liberty. par. tal Declaração alertou para o fato de que “a falta de desenvolvimento não pode ser invocada para justificar a redução dos direitos humanos internacionalmente reconhecidos”185 e que todos os obstáculos existentes para a efetivação do direito ao desenvolvimento devem ser eliminados186. 191 SEN. No entanto. desenvolvimento e direitos humanos.o desenvolvimento é um processo econômico. emprego. num contexto de liberdade. por sua vez. parte I. par. 182 CANÇADO TRINDADE. Todos esses direitos são interdependentes – juntamente com o crescimento do produto interno bruto (PIB) e outros recursos financeiros. este documento tanto reafirmou o teor da Declaração das Nações Unidas sobre o Direito ao Desenvolvimento quanto contribuiu para a inserção definitiva do direito ao desenvolvimento no vocabulário do Direito Internacional positivo dos Direitos Humanos183. 188 189 190 Idem. A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. que tem como meta acabar com a pobreza e satisfazer as necessidades prioritárias de todos. em 1998. Acesso em: 10 jan. Tratado de direito internacional dos direitos humanos volume II. 52-55.direitos humanos A Declaração e Programa de Ação de Viena. Parte II. apesar dos avanços trazidos pelo referido documento. econômicos e culturais em um conjunto de direitos humanos indivisíveis e interdependentes. e cf. tais políticas públicas têm Declaração de Viena. que visa ao constante incremento do bemestar de toda a população e de todos os indivíduos com base em sua participação ativa. Ainda.. as políticas públicas têm que estar voltadas para a satisfação de necessidades básicas. que é composto por vários elementos que representam tanto os direitos econômicos. ao dizer que desenvolvimento deve ser visto como um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam191. água potável. 1182). Outra inovação trazida pela Declaração e Programa de Ação de Viena. para que se alcance esta finalidade. 10. and creativity” (BEDJAOUI. par. org/english/bodies/chr/special/themes. deve-se destacar que a consagração do direito ao desenvolvimento como um direito humano inalienável não é um ponto pacífico entre os doutrinadores. bem como um grupo de trabalho sobre o tema. sociais e culturais quanto os direitos civis e políticos189. op. Amartya. não se chegou a um consenso acerca da definição do direito ao desenvolvimento. educação e seguridade social. A nomenclatura do cargo foi alterada. par. ao dispor que: “. Assim. a precondição de liberdade. 72. Disponível em: http://www. sustenta ser o direito ao desenvolvimento um processo no qual todos os direitos humanos e liberdades fundamentais possam ser realizados plenamente. Apesar do consenso atingido em Viena. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. afirma que o direito ao desenvolvimento é um direito fundamental. Já Amartya Sen vai mais longe. com o intuito de que fosse atingido um consenso acerca da definição187 do direito ao desenvolvimento. social. livre e significativa no desenvolvimento e na distribuição justa dos benefícios daí resultantes”. “The right to development is a fundamental right.. sem qualquer discriminação. Portanto.

2002. sociais e culturais. Legislação: Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento Declaração e Programa de Ação de Viena 192 DESAI. Helsinki: The Faculty of Law of the University of Helsinki & The Erik Castrén Institute of International Law and Human Rights. FGV DIREITO rio 140 . Direito ao desenvolvimento. 1999.). Flavia. Right to Development: Improving the Quality of Life. The right to development. Anja. Leitura acessória: LINDROOS. Brasil. p. Laura Davis. 276-283.R. Volume II. 31 apud MATTAR. 303-307. p. S. 1992. Pelo exposto. pp. pp. 2002. Dissertação para a obtenção do título de Mestre em Direitos Humanos pela Sussex University. 1999. tecnológico e científico192. comercial. São Paulo. Texto produzido para o II Colóquio Internacional de Direitos Humanos. The Right to Development in International Law.D. The right to development and structural adjustment programmes – an analysis through the lens of human rights. PIOVESAN. In: CHOWDURY. tais como o direito ao trabalho. (ed. 6. 22-47. P. Tratado de direito internacional dos direitos humanos.direitos humanos que incluir outros direitos econômicos. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Antônio Augusto. o acesso a condições justas de trabalho e o direito a se beneficiar do desenvolvimento científico. Holanda: Kluwer Academic Publishers. indaga-se: quando é que foi proclamado o direito ao desenvolvimento? O que se entende pelo referido direito? Quem são os sujeitos ativo e passivo do direito ao desenvolvimento? O que o Estado deve fazer para realizar o direito em tela? A Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento é dotada de força vinculante? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE.

direitos humanos Aula 24: Tribunal Penal Internacional NOTA AO ALUNO O Tribunal Penal Internacional (TPI) foi criado com a aprovação do Estatuto de Roma (Estatuto) em 17 de julho de 1998 (120 votos a favor. O Tribunal ad hoc para a ex-Iugoslávia foi criado para julgar os indivíduos responsáveis por graves violações do direito internacional humanitário cometidas a partir de 1991 na ex-Iugoslávia.asp. foram criados os dois tribunais ad hoc – o Tribunal Internacional para a ex-Iugoslávia. Nesse contexto (de combate à impunidade e as inúmeras atrocidades cometidas). que a competência do TPI é automática. ou melhor. a jurisdição do TPI é geral e universal. aceita a jurisdição do Tribunal sobre os quatro crimes dispostos no artigo 5º do Estatuto. concomitantemente. tenham voluntariamente aceito a jurisdição do tribunal em um caso concreto: (a) o estado em cujo território o crime tenha sido cometido. Contudo. não o sendo. Há três possibilidades de denúncia de um caso ao TPI: (a) Conselho de Segurança remete o caso ao TPI. na Haia (Holanda). ao passo que o Tribunal ad hoc para Ruanda foi criado para julgar os indivíduos responsáveis por crimes cometidos durante os conflitos internos armados em Ruanda. crimes contra a humanidade. durante a Conferência Diplomática dos Plenipotenciários das Nações Unidas. posteriormente. o TPI. 193 FGV DIREITO rio 141 . ao se tornar parte do Estatuto. por oportuno. após 60 países terem ratificado ou aderido ao Estatuto. uma vez que é o primeiro tribunal internacional permanente. Dessa forma. o TPI só entrou em vigor em 1 de julho de 2002. Disponível em: http://untreaty. (c) Promotor atua ex officio. i. De maneira diversa. ao longo de 1994. crimes de agressão e crimes de guerra. 04 de julho de 2005. em 1993. Acesso em: 04 julho 2005. Até a presente data. independente e complementar à jurisdição nacional. em Roma. un. o conceito de “crime internacional” ganhou tratamento doutrinário no âmbito da responsabilidade do Estado e. constata-se que ambos os tribunais ad hoc foram estatuídos com limitações espacial e temporal. instaura uma investigação com base em informações recebidas. (b) Estado-parte envia o caso ao TPI. No entanto. Pouco a pouco e em decorrência do trabalho da Comissão de Direito Internacional das Nações Unidas. o TPI comporta 139 assinaturas e 99 ratificações193. o anseio pela criação de um sistema de monitoramento contínuo da situação dos direitos humanos no mundo é antigo. Atualmente. com a competência de julgar os indivíduos pela prática de quatro crimes: genocídio. e o Tribunal Internacional para Ruanda. em 1994 – e. Trata-se de um marco histórico. Embora o estabelecimento de uma jurisdição penal internacional só tenha se concretizado em 1998. Sua origem remonta às antigas comissões internacionais ad hoc de investigação (a partir de 1919). o caso só poderá ser apreciado se um ou mais dos seguintes estados sejam parte do Estatuto ou..e.org/ENGLISH/bible/englishinternetbible/partI/chapterXVIII/treaty10. (b) o estado de nacionalidade do acusado. A inauguração do mesmo se deu em 11 de março de 2003. 7 contra. Isto significa que um Estado. 21 abstenções). passando pelos Tribunais de Nuremberg (estabelecido em agosto de 1945) e de Tóquio (estabelecido em janeiro de 1946). Ressalte-se. surgiu a responsabilidade penal internacional do indivíduo.

sendo um deles Sylvia Steiner. e (iii) Darfur. o crime de agressão pode ser julgado pelo TPI? Caso negativo. foi eleito em 21 de abril de 2003. O Brasil assinou o Estatuto em 7 de fevereiro de 2000. Em se tratando das penas. No momento.int/ (item: “situations and cases”). Disponível em: http://www. os 18 juízes foram eleitos. Luis Moreno Ocampo. 2003. ao contrário do que ocorria nos tribunais ad hoc – tinham que recorrer aos tribunais nacionais para verificar como deveriam aplicar a pena –. Até o momento. dando início as suas atividades em 16 de junho de 2003. 197 FGV DIREITO rio 142 . e aprovado pelo Decreto n. 4388. e o ratificou em 20 de junho de 2002197. Acesso em: 04 julho 2005. Pergunta-se: O TPI pode apreciar este caso? Justifique sua resposta com respaldo legal. uma Seção de Primeira Instância e uma Seção de Questões Preliminares.cpi.2005).03. Daniela Ribeiro.06. pdf. Promotoria e Secretaria. icc-cpi. MATERIAL DE APOIO Textos: Acesso em: 04 julho 2005. icc. Disponível em: http://www. In: PIOVESAN. há três tipos: prisão provisória.eng. pena de reclusão não superior a 30 anos e prisão perpétua. o promotor. “O Tribunal Penal Internacional e Direito Brasileiro”. busca-se adaptar a legislação brasileira ao Estatuto de Roma.int/librar y/cases/ N0529273. Nenhum caso foi julgado até a presente data194. conforme dispõe sua Resolução n. resolveu abrir a investigação em 3 casos195: (i) República Democrática do Congo (em 23. após a análise dos dados. São Paulo: Max Limonad. Flávia e IKAWA. 112. O Estatuto de Roma foi aprovado pelo Congresso Nacional pelo Decreto Legislativo n.2004). Já o promotor.2005196. por quê? Hipótese: Um indivíduo nacional de um Estado não-parte do Estatuto comete crimes contra a humanidade em um Estado-parte do Estatuto. tendo em vista que o Estatuto de Roma já prevê os tipos que podem ser aplicados. Em 7 de fevereiro de 2003. Flávia. ao passo que o último caso foi enviado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.07. O Estatuto de Roma prevê alguma forma de reparação à vítima? Qual é a exceção em relação à competência automática do TPI? Qual é a relação entre o Conselho de Segurança das Nações Unidas e o TPI? Existe alguma diferença entre a relação mencionada e aquela entre os tribunais ad hoc e o Conselho de Segurança? Quais são as questões suscitadas por doutrinadores e/ou membros do Poder Legislativo quando se discute a adaptação da legislação brasileira ao Estatuto de Roma? 194 195 04 de julho de 2005. uma Seção de Apelações. Temas de Direitos Humanos. o TPI pode aplicá-la diretamente. de 25 de setembro de 2002. Sendo assim. Os dois primeiros casos foram enviados ao promotor pelos respectivos governos. de 6 de junho de 2002. uma juíza brasileira. Sudão (em 06.darfureferral. 196 Leitura obrigatória: PIOVESAN.06. por meio de intensos debates. 1593 (2005).2004). pergunta-se: • • • • • • Atualmente. de 31.direitos humanos O Tribunal é composto pelos seguintes órgãos: Presidência. (ii) República de Uganda (em 29. Diante do exposto.

Tratado de direito internacional de direitos humanos. 1999. 2001. 61-107. II. Capítulos III e IV. Antonio Augusto. pp. pp. 385-400. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Belo Horizonte: Del Rey. MAIA. Legislação: Estatuto de Roma FGV DIREITO rio 143 . Vol. Tribunal Penal Internacional: aspectos institucionais. Marrielle.direitos humanos Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. jurisdição e princípio da complementaridade.

Disponível em: http:// www. de forma tão veemente. onde os prisioneiros transportados do Afeganistão e fotografados com vendas. membro do Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial da ONU e embaixador designado do Brasil em Sófia (Bulgária). no centro de São Francisco. algemas e correntes. aplicada com particular afinco em sua política externa: “nós Texto produzido por José Augusto Lindgren Alves – Diplomata. a Senadora em questão teria concluído que eles não se encontravam em circunstâncias desumanas. tudo isso é deveras surpreendente depois do tenebroso Onze de Setembro de 2001.org. vivem expostos em celas de alambrado qualificadas por “perito penitenciário” como “basicamente um canil” (sic). Tampouco soam incomuns maus tratos de prisioneiros num país como o Brasil. Mais estranho ainda soa que se critique. a opinião do secretário de Defesa contra o que têm afirmado a Cruz Vermelha. por causa da respectiva etnia ou religião. mordaças. Mais do que estranho. a situação em Guantánamo não deveria parecer assustadora (embora as fotografias sejam chocantes para qualquer um que as veja). geralmente admirada. em 22 de fevereiro). no coração da cidade. (c) mantém presos incomunicáveis por meses. havia visitado a base norte-americana em Cuba. Acesso em: 04 maio 2005. falta de patriotismo. a lógica dominante era aquela sempre típica dos protestantes puritanos dos Estados Unidos. em viagem oficial. Esta. porém. 198 FGV DIREITO rio 144 . ou complementação. Não obstante essas fotos e informações reiteradas de que os cativos têm sido drogados e sujeitos a privação sensorial para debilitar resistências nos interrogatórios. sem qualquer acusação. capuzes. tão rotineira que sua tipificação como delito parece não ter “pegado”. estranho que esses panfletos sejam distribuídos num país que se apresenta como modelo de direitos humanos (o presidente Bush acaba de fazê-lo na China. a Human Rights Watch e outras organizações congêneres. Depois do apoio quase unânime do Congresso ao presidente para que ele pudesse declarar legalmente uma “guerra contra o terrorismo”. a Anistia Internacional. onde o crime é tão abundante que se inventou a categoria dos “hediondos” e a tortura. os ataques em Nova York e Washington haviam abalado de maneira tão profunda a sociedade norte-americana que qualquer dissensão parecia. perguntava: “Você quereria viver num país que: (a) desafia o direito internacional. (b) humilha deliberadamente soldados capturados. em condições indescritíveis. em 15 de fevereiro de 2002.dhnet. numa cidade “avançada”. diante do escritório de Senadora californiana pelo Partido Democrata. Afigura-se. o panfleto era uma convocação pela seção local da Guilda Nacional de Advogados (ONG de profissionais do direito ativistas dos direitos humanos) para manifestação pública. de posições liberais. assim. segundo o mesmo panfleto. até o passado recente. (d) pune pessoas sem lhes dar oportunidade de defesa?” A resposta. Tendo por chamada “Não à tortura em Guantánamo!”. era: “You already do” (“Você já vive”). mulher parlamentar.br/direitos/ militantes/lindgrenalves/lindgren_11set.direitos humanos Aula 25: Direito Humano Pós-11 de setembro NOTA AO ALUNO Os direitos humanos e a reação ao Onze de Setembro: uma retomada de esperanças?198 “Folheto distribuído. Com efeito. EUA.htm. Endossava. Para quem se acostumou à rotina da superpopulação carcerária brasileira.

que justificou para o povo a recomendação governamental de autocensura à retransmissão de vídeos da estação Al Jazeera (a “CNN” árabe. que modificaram de forma súbita a reação de norte-americanos àquilo que vinha – e vem ainda – ocorrendo. para julgar estrangeiros por ele qualificados de terroristas (o que não foi sequer contemplado para o norte-americano John Walker Lindh. Foi ela que propiciou ao governo a adoção de medidas restritivas de liberdades. Sem dúvida. passíveis de detenção arbitrária. eles maus”. do Qatar) em que Bin Laden aparecia. Qualquer crítica ao Governo na “guerra contra o terrorismo” (e até em outros assuntos) era repudiada como antiamericanismo – quanto mais se feita em defesa de indivíduos descritos como perigosos terroristas! Por mais simplista que fosse. sem hesitações. complexado e gratuito. ser punidos). Nesse ambiente de exaltação belicosa. não foram os atos atentatórios aos direitos fundamentais de todos os seres humanos. atinentes ao direito à não-interferência em assuntos da vida privada. de que. como as que permitem a escuta telefônica e a censura de comunicações pela Internet. obviamente. a obsessão patriótica durou.direitos humanos somos bons. apenas com os sinais trocados. despertaram em muita gente. por mais de três meses e meio. a sociedade e os meios de comunicação norte-americanos pareciam apoiar em uníssono a interpretação de que os atentados não passavam de atos covardes. o bombardeio do Afeganistão em ruínas. A discriminação entre nacionais e estrangeiros se revela também no decreto de 16 de dezembro de 2001. de rito secreto e sumário. sem acusação conhecida e sem direito a advogado (alguns já por mais de cem dias). resultantes de um ódio visceral. sim. logo “quem não está comigo está contra mim”. com vigor extraordinário. mais do que o temor de mensagens subliminares. normalmente sacrossanto porque essencial ao individualismo do país. com discurso igual ao do Presidente Bush. todos favoráveis a mudanças nas posições do país. país pobre e já transbordante de refugiados pashtuns – foragidos que. pelo qual o Presidente da República “autoriza o estabelecimento” de tribunais militares especiais. particularmente estrangeiros. de que a barbárie de uns não pode justificar a brutalidade de outros. A dissociação norte-americana do direito humanitário que os próprios Estados Unidos haviam FGV DIREITO rio 145 . que aprovou. com assistência jurídica e apoio familiar). Foi o patriotismo amortecedor de direitos. encontravam as fronteiras fechadas por ordens dos Estados Unidos na fase precedente à operação militar (para impedir a saída de inimigos). Ao contrário do que diziam livros sérios. nada pode fundamentar a rediscussão da tortura como técnica para a obtenção de informações. com arremessos de comida para uma população em fuga para o vizinho Paquistão. Foi a exaltação do patriotismo. Talibã apreendido em território afegão. O apoio popular ao Presidente chegou a alcançar 95%. por sinal. na civilização. Foi ela que fez vista grossa à discriminação contra os estrangeiros no território nacional. pela civilização. sem possibilidade de apelação de sentenças. por tempo indeterminado. mas julgado nos Estados Unidos por tribunal normal. associado à ânsia de vingança da superpotência ferida contra os idealizadores dos atentados (estes precisam. pouco lidos. sobre os erros da CIA ao financiar talibãs contra os soviéticos na década de 80. a consciência de que a luta contra o terrorismo não pode ser conduzida ao arrepio do direito. no país e no exterior. as fotografias dos detidos em Guantánamo e a repulsa que causaram.

Bush sobre o “estado da União”. Esta impede maus tratos e interrogatórios além do imprescindível para sua identificação. Os sul-coreanos fizeram manifestações contra o Presidente Bush às vésperas de sua primeira visita a Seul (além de a nação ser a mesma. 17/02/2002. muitas sobre violações de direitos no país. Contudo. Só tomei conhecimento do panfleto depois da hora marcada. agora em crítica mordaz. francamente. O que a conscientização dos media e das pessoas representará de concreto na luta contra o terrorismo é difícil prever. Pode ser que. p. o que realmente vem modificando em profundidade a atitude de norte-americanos e aliados foi o primeiro discurso do presidente George W. por quem antes apoiava a “guerra contra o terrorismo” (v. seja julgado por tribunal transparente e imparcial. Não é preciso ter o gênio de Immanuel Wallerstein para entender que os atentados do Onze de Setembro deram ainda mais força aos “falcões” da administração George W. estipula que o eventual indiciado em crime de guerra. Tampouco li nos diários ecos de sua realização (o que me leva a supor ter sido bem reduzida).. Os europeus em geral – inclusive o governo britânico – dissociaramse de possíveis bombardeios contra qualquer desses três países. protegidos pela Terceira Convenção de Genebra. ademais de anunciar a disposição de expandir a “guerra contra o terrorismo”. E que a idéia desse “eixo” com elementos tão díspares não tenha passado de de artifício de apoio à proposta de aumento gigantesco no orçamento militar. os “falcões parecem ter ido além do limite tolerável pelo patriotismo do cidadão comum. Não sei. prevê repatriação no término das hostilidades. Na preparação do Presidente para o state of the Union. A simples fadiga dos assuntos da “guerra contra o terrorismo” não os faria passar tão rapidamente das primeiras páginas de todos os jornais para aquelas menos lidas. a agressão verbal à Coréia do Norte tende a prejudicar as negociações bilaterais encetadas). É ainda improvável. em 10/02/2002. européia e asiática. D1). Todavia. Paulo. afinal. uma coisa é certa: os detidos de Guantánamo e o “eixo do Mal” mudaram os noticiários. o Irã e a Coréia do Norte como um “eixo do Mal”. entrevista à Folha de S. Bush (v. Nele. muito mais do que as fotografias de Guantánamo e a repulsa que causaram. por pressão interna. O mesmo tem sido dito. em que deu a convocação de São Francisco à manifestação em favor dos prisioneiros talibãs. tem também justificados temores. o Presidente dos Estados Unidos singularizou o Iraque. A7). estendendo o combate aonde lhe pareça necessário. dedicadas ao exterior. detentor como qualquer pessoa da presunção de inocência. a análise de Chris Matthews sob o título expressivo de Who hijacked our war? – “Quem seqüestrou nossa guerra?” – no S. com direito a advogado e recurso contra sentenças. por exemplo. p. que ela possa reorientar o governo para o reconhecimento da importância dos direitos humanos. em 29 de janeiro. decididos por Washington. acabem perdendo terreno para o moderado Colin Powell. com um mínimo de consistência. a cobrar o reconhecimento dos detidos em Guantánamo como prisioneiros de guerra. mas não totalmente impossível.direitos humanos ajudado a criar (na conferência diplomática de Genebra de 1949) forçava os aliados europeus. Francisco Chronicle. decorrentes de medidas adotas nessa guerra heterodoxa. Nas páginas de rosto saem agora notícias desagradáveis a Washington (como as de ataques errados e espancamentos de inocentes por tropas no Afeganistão). que. FGV DIREITO rio 146 . com ou sem autorização externa.

Volume 13. José Augusto. pp. “A lógica da tortura”. fazendo-o sentir que a observância desses direitos sempre foi e continuará a ser a melhor forma de desfazer condições que conduzem ao terror. Tendo em conta o grande peso dos Estados Unidos na disseminação internacional da idéia dos direitos humanos e a importância da sociedade civil norte-americana para sua afirmação dentro dos próprios Estados Unidos (como visto nos anos 50 e 60). depois do Onze de Setembro. ela pode tornar-se antídoto aos malefícios da globalização excludente. 2005. A conscientização evidencia. a movimentação que se esboça de novo pelo respeito a tais direitos. militar e policial – felizmente sem a “doutrina” que conhecemos no Brasil -. só pode ser positiva. Volume 13. In: Política Externa. São Paulo: Perspectiva. para a sociedade civil esclarecida e atuante. __________. 09 –19.” MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: DANNER. de qualquer forma. In: Política Externa. nº 2. nº 2. pp. FGV DIREITO rio 147 . os direitos fundamentais e o direito internacional humanitário não se acham esquecidos pelo medo ou patriotismo cego. Mark. Na medida em que ela absorva e propague a interdependência de todos os dispositivos da Declaração Universal de 1948. 33 –44. que. LINDGREN ALVES. inclusive os direitos econômicos e sociais. Os direitos humanos na pós-modernidade.direitos humanos atualmente submersos na prioridade da segurança. Setembro/Outubro/Novembro 2004. Setembro/Outubro/Novembro 2004. “Fragmentação ou recuperação”.

Anistia Internacional e Justiça Global. FGV DIREITO rio 148 . tais como Fundação Ford. Professora de Direitos Humanos. rede de monitoramento das tendências de mudança e continuidade do sistema internacional (http:// rsi. Membro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Direitos Humanos. Professora do grupo de estudos sobre o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos e Coordenadora de Relações Institucionais da Escola de Direito do Rio de Janeiro da FGV. Participou de cursos internacionais sobre direitos humanos promovido pela Universidade de Coimbra e pela Universidade de Columbia.cgee.org.br/). Trabalhou para diversas instituições de promoção dos direitos humanos.direitos humanos Paula Spieler Mestre em Relações Internacionais e bacharel em Direito pela PUC-Rio. Ex-consultora do CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais). Ex-pesquisadora do grupo de direitos humanos do Radar do Sistema Internacional.

direitos humanos FICHA TÉCNICA Fundação Getulio Vargas Carlos Ivan Simonsen Leal PRESIDENTE FGV DIREITO RIO Joaquim Falcão DIRETOR Fernando Penteado VICE-DIRETOR ADMINISTRATIVO Luís Fernando Schuartz VICE-DIRETOR ACADÊMICO Sérgio Guerra VICE-DIRETOR DE PÓS-GRADUAÇÃO PROFESSOR COORDENADOR DO PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO EM PODER JUDICIÁRIO Luiz Roberto Ayoub Ronaldo Lemos Coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade Evandro Menezes de Carvalho Rogério Barcelos COORDENADOR ACADÊMICO DA GRADUAÇÃO COORDENADOR DE ENSINO DA GRADUAÇÃO Tânia Rangel COORDENADORA DE MATERIAL DIDÁTICO COORDENADORes DO NÚCLEO DE PRÁTICAS JURÍDICAS COORDENADORA DE SECRETARIA DE GRADUAÇÃO COORDENADOR DE FINANÇAS COORDENADORA DE MARKETING ESTRATÉGICO E PLANEJAMENTO Lígia Fabris e Thiago Bottino do Amaral Wania Torres Diogo Pinheiro Milena Brant FGV DIREITO rio 149 .

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