direitos humanos

AUTORES: JOSÉ RICARDO CUNHA, CAROLINA DE CAMPOS MELLO E PAULA SPIELER

4ª edição

ROTEIRO De CURSO 2009.1

Sumário

Direitos Humanos
APRESENTAÇÃO.............................................................................................................................................................................03 Aulas...........................................................................................................................................................................................07 AULA 01: INTRODUÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS.............................................................................................................................08 Aula 02: Desenvolvimento histórico dos direitos humanos..................................................................................................15 Aula 03: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos................................................................................18 Aula 04: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos................................................................................26 Aula 05: Os tratados de direitos humanos e a Constituição Federal.....................................................................................30 Aula 06: Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos...............................................................................................................37 Aula 07: Sistema global: mecanismos convencionais e não-convencionais de proteção dos direitos humanos...............44 Aula 08: Sistemas regionais de proteção dos direitos humanos...........................................................................................49 Aula 09: Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos.........................................53 Aula 10: Sistema Interamericano de Direitos Humanos: Estudo de Caso...............................................................................58 Aula 11: Direito Internacional Humanitário e Direito Internacional dos Refugiados.......................................................62 Aula 12: Os direitos civis e políticos: direito à vida................................................................................................................74 Aula 13: Os direitos civis e políticos: direito à liberdade e integridade pessoal.................................................................91 Aula 14: Violência Urbana.........................................................................................................................................................96 Aula 15: Direitos humanos econômicos, sociais e culturais..................................................................................................99 Aula 16: A especificação do sujeito de direitos. Os direitos humanos sob a perspectiva de gênero................................. 104 Aula 17: Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente.................................................................................. 109 Aula 18: Os direitos humanos sob a perspectiva racial........................................................................................................ 114 Aula 19: Direitos Humanos e a questão indígena................................................................................................................... 122 Aula 20: Direitos Humanos e orientação sexual.................................................................................................................... 126 Aula 21: Teatro do Oprimido.................................................................................................................................................... 132 Aula 22: O papel da sociedade civil na promoção e proteção dos direitos humanos.......................................................... 135 Aula 23: Desenvolvimento e Direitos Humanos..................................................................................................................... 137 Aula 24: Tribunal Penal Internacional................................................................................................................................. 141 Aula 25: Direito Humano Pós-11 de setembro......................................................................................................................... 144

direitos humanos

APRESENTAÇÃO
1. Visão Geral

a) Objeto: O curso de direitos humanos tem por objeto a compreensão da realidade contemporânea (ser) por meio do estudo do marco normativo (dever ser) de tais direitos, seja no âmbito internacional, seja no nacional. Assim, o curso será organizado em quatro partes: 1) 2) 3) 4) Introdução ao Estudo dos Direitos Humanos; Proteção Internacional dos Direitos Humanos; Aspectos Sócio-Jurídicos dos Direitos Humanos; e Novos Temas e Novos Atores.

b) Metodologia: Elegeu-se a abordagem crítica como elemento permeador de todo o curso de Direitos Humanos. Procurou-se assim a utilização de diferentes métodos que representem um conjunto de possibilidades, tendo como ponto comum a efetiva participação do aluno. Atividades como role plays, estudos de casos, apresentação de seminários ou mesmo organização de uma oficina do Teatro do Oprimido são sugestões apresentadas como meios de interatividade dos alunos com o conteúdo apresentado. Dessa forma, o curso não se apresenta como uma unidade estanque, com conteúdo “engessado” no espaço e no tempo, mas com a fluidez necessária para a adaptação do programa às questões mais candentes em termos de direitos humanos. Ressalte-se ainda o caráter cooperativo do método que privilegia a interação entre alunos e professores. c) Bibliografia: O curso foi montado com base em temas, não em autores ou “escolas”, o que justifica a extensão da leitura indicada. Todavia, tendo em vista a necessidade de se estabelecer uma bibliografia básica para compor a biblioteca da Escola, foram indicados certos livros que permeiam, na medida do possível, todas as aulas. Sugere-se ainda a utilização de recursos virtuais como fontes de pesquisa, notadamente sites de órgãos e organizações nacionais e internacionais. É também descrita, em todas as aulas, a legislação vigente – sejam os tratados ou normas internas – necessária para a compreensão do assunto abordado.
2. Objetivos

Os principais objetivos do curso são: • • • Apresentar os conceitos fundamentais referentes a direitos humanos; Examinar violações de direitos humanos; Compreender os sistemas internacional, regional e nacional de proteção dos direitos humanos;
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a bibliografia obrigatória. Todas as aulas são compostas de duas partes: a) Nota ao Professor: trata-se de um roteiro sugestivo de pontos a serem abordados em sala de aula. 3. É importante ressaltar que tal atividade não se restringe à anunciação de uma resposta correta. As aulas serão variadas – algumas mais expositivas. os alunos serão convidados a não eternizar de forma acrítica entendimentos pré-estabelecidos e a desenvolver suas capacidades de análise e de prática engajada. A contextualização da temática proposta. os alunos deverão apresentar os principais argumentos que fizeram do caso um paradigma na compreensão de determinado assunto. Incentiva-se a participação dos alunos em todas as aulas. habilidades diversas serão avaliadas mediante a proposição de algumas atividades específicas: • • Nos role plays. ainda. O objetivo final do curso. a legislação a ser consultada e os sites pesquisados. A atividade pretende capacitar os alunos na compreensão de posições adversas em tribunais e despertá-los para a necessidade de se chegar a um resultado. Por meio da “problematização”. Do Material Didático O material didático do curso de Direitos Humanos foi elaborado de maneira flexível permitindo tanto ao professor quanto ao aluno a adaptação do programa a questões contemporâneas a sua implementação. o estabelecimento de link com assuntos correlatos.direitos humanos • Municiar o(a) aluno(a) de instrumentos práticos para a intervenção no mundo contemporâneo. a postura crítica. serão apresentados posicionamentos a serem defendidos pelos alunos diante de uma situação hipotética. b) Nota ao Aluno: trata-se do conteúdo mínimo que deve ser apreendido como leitura prévia à aula. Nesse sentido. A nota apresenta. mas visa ainda ao estímulo à criatividade acerca de outras respostas possíveis. são posturas a serem incentivadas nos alunos. é que estes se situem como partes de um processo histórico permeado de avanços e retrocessos. Por meio de elementos como objetivo didático e objetivo programático. A atividade pretende incentivar o posicionamento crítico. a criatividade e o respeito à opinião alheia. entre outros. No Estudo de Caso. além de desenvolver a capacidade dos alunos de visualizarem o mundo que os circunda com a “lente” dos direitos humanos. o(a) professor(a) contará com o apoio necessário naquilo que é considerado de maior relevância para a compreensão do assunto em pauta. outras mais abertas à participação e à discussão encadeada pelos alunos –. e caberá ao professor a responsabilidade de incentivar o debate sobre os assuntos escolhidos. FGV DIREITO rio 4 . característica essencial ao direito.

Desafios e Dificuldades A riqueza dos assuntos e a complexidade do que se pretende alcançar com o curso de “direitos humanos” conduz à necessidade de um recorte temático. Nesse sentido. Mesmo quando se referirem a temas considerados “clássicos” em direitos humanos. 2) determinação de uma decisão judicial. Atividades Complementares Atividades em conjunto com outras disciplinas Encontra-se em estudo duas atividades a serem realizadas em conjunto com as disciplinas de Direito Civil (tópico sugerido: Direitos da Personalidade) e Direito Constitucional (tópico sugerido: Direitos Fundamentais). o leitor poderá concluir que a sua retirada foi alvo de debate por parte daqueles que contribuíram para a confecção das aulas propostas. os alunos deverão apresentar um panorama geral sobre e determinada realidade e. Aponta-se. 6.0 pontos). mister a escolha de conteúdos a serem priorizados em face de outros. seminários (5. c) Avaliação formativa: prova escrita (5. preferencialmente do FGV DIREITO rio 5 . por meio de casos concretos.0 pontos). qualquer tentativa de se apresentar determinado aspecto virá acompanhada por alguma perspectiva subjetiva. Tendo em vista a opção de contemplar temas e não autores. a certeza de que a temática dos direitos humanos conterá sempre novos “capítulos” confere ao presente material didático uma configuração temporal. b) Atividades específicas: role plays. como indicativo de atividades: 1) escolha de um filme a ser debatido conjuntamente pelos três professores. desde então.0 pontos). estudo de caso. Ao não encontrar determinado tema entre os propostos neste material didático. d) Prova final: escrita (10. corre-se o risco de certa parcialidade na confecção desse material. o que não lhes confere papel de maior significado. 5. 4. Tradutori traditori. diagnosticar as respostas normativas possíveis. Não obstante a preocupação de se contemplar os temas mais atuais em direitos humanos.direitos humanos • Nos seminários. Formas de Avaliação Os alunos serão avaliados com base em: a) Participação em aula. notadamente na “Unidade IV: Novos Temas e Novos Atores”.

Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). que também possa ser alvo de discussão conjunta pelos três professores. Polissemia conceitual. Direito Internacional dos Direitos Humanos: Direitos Humanos. Principais documentos. entre outros: Centro de Justiça Global. a consonância com as datas propostas no programa: A violência no Rio de Janeiro Sugere-se o convite a especialistas como Ignácio Cano (Laboratório de Análises da Violência – UERJ). Direitos Econômicos. Sociais e Culturais. Proteção internacional. FASE. 7. Comissão Pastoral da Terra (CPT). Fundação Bento Rubião. Violência. Direito Humanitário e Direito dos Refugiados. Universalidade X Relatividade. Center for Justice and International Law (CEJIL). Projeto Legal. Novos atores. na medida do possível. Proteção Regional. Especificação dos sujeitos de direito. Instituto Pro-Bono. O envolvimento das demais disciplinas é fundamental para demonstrar aos alunos como o instrumental que recebem em cada uma das disciplinas tornase ainda mais dinâmico ao dialogar com as demais. dentre outras. João Ricardo Dornelles (Núcleo de Direitos Humanos do Departamento de Direitos da PUC-Rio). Julita Lengruber (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania – CESEC/Universidade Candido Mendes/RJ). Proteção na Constituição de 1988. Novos temas. O papel da sociedade civil na proteção dos direitos humanos Sugere-se o convite a movimentos sociais e organizações não-governamentais que trabalhem na Advocacia em Direitos Humanos no âmbito nacional e internacional. São Martinho. FGV DIREITO rio 6 . Idéia de gerações e suas críticas. Perspectiva histórica.direitos humanos Supremo Tribunal Federal. Viva-Rio. Realização de Palestras As seguintes palestras serão realizadas em data marcada de acordo com a disponibilidade dos convidados e a conveniência da Escola. EMENTA b) Tema: a) Tema: A disciplina Direitos Humanos. entre outros. Marcelo Freixo (Centro de Justiça Global). Tortura Nunca Mais. Direitos Civis e Políticos. mantendo.

UNIDADE 2: A PROTEÇÃO INTERNACIONAL DOS DHs 7. 15. 9. 11. Direitos Humanos e a questão indígena. Desenvolvimento histórico dos direitos humanos. Violência urbana. Sistema Interamericano: estudo de caso (El Amparo Vs. 25. 23. Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos. 10. 24. Tribunal Penal Internacional. UNIDADE 4: NOVOS TEMAS E NOVOS ATORES 22. 6. Direitos Humanos e a questão étnica. 4. 8. Teatro do Oprimido.direitos humanos Aulas UNIDADE 1: INTRODUÇÃO AO ESTUDO DOS DHs 1. Direitos Humanos no contexto pós-11 de setembro de 2001. 19. Direitos Humanos econômicos. 13. 20. A Constituição Federal e a proteção dos direitos humanos. 5. Universalidade e relatividade cultural dos direitos humanos: conceitos. Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente. Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos. 3. UNIDADE 3: ASPECTOS SÓCIO-JURÍDICOS DOS DHs 12. Introdução aos direitos humanos: fundamentos e gramática. 16. Venezuela). sociais e culturais. 17. 14. O papel da sociedade civil na proteção dos direitos humanos. Os direitos civis e políticos: role play referente ao direito à vida. Especificação do sujeito de direito: os direitos humanos sob a perspectiva de gênero. africano e americano. Sistema global: mecanismos convencionais e extra-convencionais de proteção aos direitos humanos. 2. Universalidade e relatividade cultural dos direitos humanos: role play. Desenvolvimento e Direitos Humanos. Da regionalização: introdução aos sistemas europeu. Direito Humanitário e Direito dos Refugiados. Os direitos civis e políticos. FGV DIREITO rio 7 . Direitos Humanos e orientação sexual. 21. 18.

mas (sim avaliar) o que motiva uma sociedade a agir dessa forma. mas gerar discussão sobre o tema. um dos seqüestradores. atirou na direção do seqüestrador. A partir daí.direitos humanos AULA 01: INTRODUÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS NOTA AO ALUNO Para a primeira aula do Curso de Direitos Humanos. levou a polícia do Rio a ser duramente criticada pela imprensa e pela opinião pública..TICOI677-MNfilmes. um policial. Por meio de textos extraídos de jornais. Mas errou o tiro e Nascimento. que tirou o romantismo do “Dia dos Namorados” e durou quatro horas. um plano aéreo mostra o belo percurso do ônibus que trafegava da Favela da Rocinha.” Logo no início. que morreu por asfixia a caminho do hospital. Segundo o relato dela. mostra a violência das ruas cariocas retratando um seqüestro verídico. terra. explicou Padilha em entrevista recente à Reuters. além de revelar uma extensa pesquisa com jornais. atirou contra a passageira. O filme relata o trágico seqüestro de um ônibus coletivo que resultou na morte da refém e do seqüestrador e foi destaque nos noticiário em 12 de junho de 2000. passando pelos cartões postais das praias de São Conrado e Vidigal e pela avenida Niemeyer até chegar ao Jardim Botânico. “Fizemos questão de manter a fidelidade e a cronologia do episódio. Tudo isso é mesclado ao depoimento do ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais Rodrigo Pimentel. revistas e artigos de Internet.html. revistas e notícias de rádio sobre o incidente. O cuidado do filme em mostrar os dois lados da moeda aparece na entrevista com a tia de Nascimento. o documentário consegue provocar suspense e nostalgia ao utilizar mais de 70 horas de imagens de TV. o documentário Ônibus 174. que foi afastado da Política Militar por ter se colocado contra a ação policial no episódio que terminou com a morte da passageira Geísa Firmo Gonçalves e de Sandro Nascimento. O longa começa com o seqüestro e a partir dele inserimos depoimentos”. onde aconteceu a tragédia. de José Padilha. Um outro tiro acertou Nascimento. Quando Nascimento resolveu se entregar e saiu do ônibus protegido por Geísa. “Nossa preocupação (no filme) não é a de apontar culpados nem soluções. espera-se uma reflexão acerca do seguinte ponto: O que existe em comum entre o filme “Ônibus 174” e os textos a seguir? ÔNIBUS 174 RELEMBRA TRAGÉDIA CARIOCA1 Vencedor do Festival Rio BR deste ano. tentando salvar a refém. o aluno deverá assistir ao Filme “Ônibus 174” de José Padilha e ler os textos abaixo. 1 FGV DIREITO rio 8 . Não podemos nos resumir ao ato do seqüestro. A tragédia.br/ficha/0.00.com. conforme havia ameaçado. esse menino de rua viu a mãe ser Acesso em: 21 de abril de 2005. apesar de a história ser conhecida do público. Disponível em: http://cinema.

como em Nova York e Los Angeles. naturalizado americano. porém. mas. numa definição mais ampla – escravidão como condição em que o trabalhador não recebe remuneração e sua vida é totalmente controlada por outros – não só é comum. forma extrema de superexploração capitalista. Porém. Alexandre Magno de Oliveira. baseada na propriedade privada de uma pessoa. COSTA. depois Comsat e depois o projeto Sivam. mostra quanto o seqüestro traumatizou os cariocas. Tailândia. África e América Latina. acusado de manter por 20 anos a empregada doméstica Hilda Rosa dos Santos como sua escrava. crescimento das migrações e redução ao absurdo. Mas essa nova escravidão pouco tem a ver com nostalgias e atavismos do passado pré-abolição. 2 FGV DIREITO rio 9 . geralmente com meninas compradas e às vezes até “adotadas” em países pobres da Ásia. novas variedades resistentes a antibióticos aparecem onde menos se espera. fica a cargo de representar sua mulher no filme. mas o número da linha mudou de 174 para 158. de repente. Mas este “não” se refere à forma clássica do fenômeno. sendo capaz de se comunicar apenas por escrito. Mauritânia.. desarticulação das sociedades pré-capitalistas e ex-socialistas pela integração ao mercado mundial. O percurso ainda existe. a escravidão é como a tuberculose: todos pensavam que estava extinta nos países civilizados e em vias de desaparecimento em todo o mundo. O viúvo de Geísa. bem inserida no mercado pós-moderno e global e inteiramente criada e reproduzida pelas atuais condições da economia – desemprego tecnológico. onde oficialmente não há escravidão há muitos séculos. orçado em 600 mil reais. Para Bales. (. A escravidão chega ao Terceiro Milênio2 Em 14 de agosto. Cerca de um milhão de meninas com menos de 18 anos trabalha de graça como doméstica nas Filipinas. que estudou o assunto no Brasil.) Muito mais versátil e importante.direitos humanos assassinada a facadas quando tinha nove anos e mais tarde escapou de ser morto da chacina da Candelária – uma biografia dura e amarga. Revista Isto É. legal e garantida pelo Estado. Antônio Luiz Monteiro Coelho da. Índia e França. pré-capitalista. enquanto imagens da educadora Damiana Nascimento. tal como consta nos livros de história e de economia política – um modo de produção tradicional. a Justiça dos EUA condenou a seis anos e meio de prisão e indenização de US$ 110 mil o engenheiro brasileiro René Bonetti. Bonetti não é um senhor de engenho alagoano. chocam ao demonstrar a real dimensão do ocorrido – ela sofreu um derrame durante o seqüestro e não consegue mais falar. que não pretendem de forma alguma esconder e amenizar os fatos. 16 de outubro de 2000.. há três mil escravas domésticas em Paris e a história se repete em Londres e Zurique. mas um engenheiro eletrônico paulistano que emigrou para trabalhar na mais alta tecnologia: Intelsat. Continua tendo sentido falar de escravidão neste início do terceiro milênio? Para muitos sociólogos sérios. Ônibus 174. Segundo o sociólogo britânico Kevin Bales. como está crescendo. a resposta seria não. hoje com 42 anos de idade. Paquistão. é a nova escravidão.

indústria siderúrgica) e com o menor preço e aumento da disponibilidade de combustíveis alternativos (carvão mineral. tornam-se devedores permanentes e trabalham por abrigo e comida. envolvendo. há uma boa probabilidade de estar usando carvão produzido por trabalho escravo.. Voltando ao Brasil. Desconhecendo o valor das compras e o mecanismo de cálculo da produção. repetindo a triste odisséia das “polacas” espalhadas pelo mundo como conseqüência da derrocada econômica. ganham cada uma cerca de US$ 50 mil por ano para seus “donos” mas nada para si mesmas. costurando roupas vendidas nas melhores butiques e publicitadas pelos mais ousados outdoors pós-modernos. Na Tailândia. que destruiu a economia mineira boliviana. O patrão costuma exigir fidelidade de pelo menos um ano e às vezes retém seus passaportes. mulheres e crianças. Assim se dá boa parte da produção de carvão vegetal. a secretária de Estado americana Madeleine Albright chamou a atenção para o tráfico escravo sexual como um dos empreendimentos criminosos que mais crescem no mundo.. higiene e segurança e cumprindo uma jornada que se estende noite adentro. A escravidão sexual é ainda mais característica do mundo pós-moderno. (. O colapso da URSS levou uma enxurrada de mulheres empobrecidas e desesperadas da Europa Oriental para trabalhar como escrava-prostitutas para o crime organizado nas capitais da Europa Ocidental. Isto inclui 50 mil nos EUA. sobretudo no Brás.. fundições. mas os grandes mercados para esse tráfico são o Sudeste Asiático (250 mil) e a Europa Oriental (mais de 200 mil). um milhão de mulheres e crianças são vendidas por ano em todo o mundo por um total de US$ 6 bilhões. geralmente tecnologicamente atrasadas.. vetando visitas de terceiros. a viabilidade do negócio passou a depender cada vez mais de trabalho gratuito. junto com o acirramento da concorrência no setor têxtil resultante da abertura do mercado brasileiro às importações asiáticas (cuja produção freqüentemente também usa trabalho escravo ou semi-escravo). O aumento da distância dos centros consumidores (metrópoles. há cerca de 100 mil imigrantes bolivianos que trabalham nas confecções de São Paulo. Bom Retiro e Pari. este o considera um FGV DIREITO rio 10 . Segundo ela. 35 mil prostitutas. Os gastos da viagem – cerca de US$ 150 – são pagos pelo empregador. atividade tradicional deslocada para o Norte e Centro-Oeste pelo esgotamento das matas do Sudeste. iniciando um processo de endividamento e dependência do qual nem todos conseguem se safar.direitos humanos devido ao acirramento da concorrência pela globalização. Sua vinda resultou da combinação do colapso dos preços das commodities nos anos 80 e 90.) Em São Paulo. Se o trabalhador quer deixar o patrão que o trouxe. geralmente vendidas muito jovens por algo como US$ 2 mil. Quando você faz um churrasco.) Tráfico sexual. bem como churrasqueira e talheres fundidos com o mesmo combustível. nas suas diversas etapas. (. um dos casos de nova escravidão mais conhecidos é o das dezenas de milhares de trabalhadores (às vezes com suas famílias) aliciados por “gatos” no interior de Minas e do Nordeste e levados a empreendimentos em locais isolados para viver em condições precárias de habitação. da remuneração de atividades tradicionais. da guerra e das perseguições anti-semitas dos anos 1920. gás natural). Recentemente. bem como moradia e alimentação. proíbe-os de sair à rua e fecha-os dentro de casa. No Brasil.

arroz. Parece que em vez de uma sociedade de lazer movida pelo trabalho de robôs. no Mato Grosso. Segundo Kevin Bales. Nos EUA. mas ainda é insuficiente. o número pode chegar a 200 milhões. estrutura de produção e de alimentos tem levado à morte de crianças indígenas. sob ameaça de coação física ou policial. a mortalidade infantil naquela área foi de 87.br/site/noticias/15552. na região de Campinápolis. Foram seis mortes na terra indígena Dourados. industriais e de serviços. jornadas extremamente longas. asp?lang=PT&cod=15552. Se forem considerados casos que. o trabalho chega a se estender por 15 horas por dia. como mandioca. a 570 quilômetros de Cuiabá. onde trabalhadores superexplorados fabricam brinquedos. bem mais do que a população inteira do Império Romano ou de qualquer sociedade escravista do passado.72 por mil nascidos vivos em 2001 e baixou para 41. têxteis e outros artigos de consumo baratos para todo o mercado global. sete dias por semana. 27 milhões de pessoas vivem as várias formas de nova escravidão e o número está crescendo. Foram noticiadas recentemente mais seis mortes por desnutrição em duas aldeias do povo Guarani Nhandeva da região do Sul do Mato Grosso do Sul. Na terra retomada em outubro do ano passado e hoje ameaçada de reintegração. Ainda está próxima. Crianças indígenas morrem de desnutrição3 A violência de um despejo dos Guarani-Kaiowá seria reforçada pelo atual contexto do estado do Mato Grosso do Sul. e a morte de seis crianças com sintomas de desnutrição em aldeias do povo Xavante. cobra as despesas da viagem ou o ameaça com o fantasma da Polícia Federal. nos municípios de Japorã e Eldorado. sem garantias trabalhistas e com moradia e alimentação controladas pelo empregador-. paraguaios ou mesmo bolivianos. empresa que desde 1997 tem sido forçada por uma dura campanha de boicote e denúncias a reformular sua política de compras para oferecer melhores condições a fornecedores que tratam melhor seus empregados. o cinema torna bem conhecida a situação de imigrantes ilegais – mexicanos. desde o início de 2005. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). onde as carências de terra. embora conste que os mais hábeis chegam a tirar R$ 400 mensais – ao menos com os patrões coreanos. No ponto alto da produção para as vendas do Natal. a 150 km de Antonio João. à taxa de mortalidade de Dourados. banana. o maior foco é a Ásia. milho. porém. mas também nessa modalidade. poderiam ser chamados de semi-escravidão – empregos informais com remuneração muito baixa. batata. feijão.direitos humanos “traidor”. 3 FGV DIREITO rio 11 . Disponível em: http://www.67 em 2004. nos dois primeiros meses deste ano.adital. tidos como mais “generosos” que seus concorrentes brasileiros.com. de agosto a novembro. de Acesso em 21 de abril de 2005. como o dos bolivianos do Pari ou as trabalhadoras das subcontratadas da Nike na Indonésia. os Guarani-Kaiowá de Nhande Ru Marangatu puderam voltar a produzir alimentos para subsistência. o século 21 veio nos trazer a escravidão numa escala que a humanidade jamais conheceu. Um caso notório é o dos pequenos empresários que no Sudeste Asiático fabricam tênis para a ultramoderna Nike. A remuneração pode ser tão baixa quanto R$ 30 a R$ 50 mensais. chineses e outros – mantidos em condições semelhantes em vários trabalhos agrícolas.

revelou que nas eleições de outubro/ novembro cerca de 3% dos eleitores receberam oferta de candidatos ou cabos eleitorais para vender o seu voto. Em Antônio João. Disponível em: http:// www. De acordo com o diretor do Departamento de Saúde Indígena.org/tilac/ indices/ encuestas/dnld/compra_de_votos_brasil. por exemplo. Em pesquisa anterior deste gênero. seguido de bens materiais (30%) e favores da administração (11%).transparency. aldeias dos povos Terena e Kadiwéu têm um índice mais baixo de desnutrição. “A situação ainda preocupa a todos e nós temos que manter a sociedade e a comunidade indígena mobilizadas para isso. Alexandre Padilha. 6% dos eleitores afirmaram que receberam oferta de vender o voto por dinheiro. mas a taxa é muito alta se comparada com o restante da população brasileira”. 23. a média estadual não mostra que em Amambai. Também cresceu a distribuição de alimentos para os indígenas das aldeias da terra indígena Dourados. A aldeia Tacuru. demonstram que a preocupação sobre a alimentação e sobre as condições de vida das crianças indígenas não pode se restringir às aldeias de Dourados. Assim. de 12% de desnutridos e 15% de crianças em risco nutricional. Acesso em: 21 de abril de 2005. Os números da Funasa (Fundação Nacional de Saúde). apresentam desnutrição. disse à Agência Brasil. toda a direção da Funasa transferiu-se para o município e diversas equipes de médicos e nutricionistas passaram a atuar no local. Pesquisa realizada pelo Ibope em novembro de 2002 por Bruno Wilhelm Speck e Claudio Weber Abramo. que tem divulgado a média de desnutrição do Estado. A análise dos dados por aldeias mostra um quadro ainda mais preocupante do que aqueles apresentados pela Funasa. de 47 por mil nascidas vivas. Em 2002. Segunda Pesquisa Transparência Brasil sobre compra de votos em eleições populares 4 Pesquisa nacional sobre a prática de compra de votos. Entre os benefícios oferecidos está em primeiro lugar o dinheiro (56%). Percentuais como estes se repetem em todas as aldeias do povo Guarani no Mato Grosso do Sul. responsável pela saúde indígena no Brasil. ou 18% delas. sem contar os casos de risco nutricional. a desnutrição atinge 19% das crianças.2% das crianças desnutridas saíram dessa situação nos primeiros meses do ano. 4 FGV DIREITO rio 12 . No MS. realizada pelo Ibope para a Transparência Brasil e a União Nacional dos Analistas e Técnicos de Finanças e Controle entre 14 e 17 de novembro de 2002. dos Guarani Kaiowá. Os dados da pesquisa indicam que uma série de conceitos sobre a compra de votos necessita de revisão: • • O nível de instrução do eleitor tem influência moderada sobre a oferta. dados da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) apontam que 47 das 256 crianças menores de 5 anos atendidas pela Funasa. realizada após as eleições municipais de 2000. de no máximo 3%. Outras 52 crianças (20%) estão em situação de risco nutricional. tem a taxa em 17%. Em 2004 atingimos a menor taxa de mortalidade infantil em povos indígenas.direitos humanos 64 óbitos por mil crianças nascidas vivas. Desde a última semana. eram 56 por mil.pdf. A média nacional é de cerca de 25 por mil. Os compradores de votos se dirigem igualmente a eleitores de todas as faixas de renda.

Segundo a organização. Acesso em: 21 de abril de 2005. com os homens sendo ligeiramente mais assediados do que as mulheres. embora ainda com incidência do fenômeno. bens materiais. Além de aferir o volume do “mercado” de votos no Brasil. Por outro lado. bbc. se eles mesmos estão praticando abusos.uk/portuguese/noticias/ story/2005/01/050113_direitoshumanosro. Porém. Com todas as limitações. Os eleitores com mais idade são menos sujeitos à oferta do que os mais jovens. enquanto em 2000 a região Sul apresentou-se no mesmo nível do Nordeste. Logo. serviços públicos). seguidas pelo Nordeste. que a interferência de poder econômico e o desvio ou abuso de poder de autoridade serão coibidos e punidos. no art. diz ong5 Violações dos direitos humanos cometidas pelos Estados Unidos estão minando a lei internacional e erodindo o papel do país no cenário internacional. e eleições estaduais e nacionais de outro. Sudeste e Sul mostram um quadro menos desfavorável. a comparação entre as duas pesquisas relatadas referentes às eleições em 2000 e 2002 requer certo cuidado. em 2002 nivelou-se com a Sudeste. Vale a pena lembrar que o código eleitoral define essa transação como crime. há diferenças mais significativas quanto à distribuição do fenômeno da compra de votos por idade do eleitor. Eua estão minando direitos humanos no mundo. e não de uma série histórica sobre o mesmo fenômeno. As maiores diferenças se dão entre as regiões do país (Gráfico 8). Trata-se em primeiro lugar de uma comparação entre eleições municipais. 5 FGV DIREITO rio 13 . O código eleitoral de 1965 dispõe. Há pouca diferença entre sexos. as pesquisas da Transparência Brasil visam elaborar um indicador para acompanhar o fenômeno ao longo do tempo.direitos humanos • • O fenômeno de oferecer algo em troca do voto independe da condição e do tamanho do município. A pesquisa referente à compra de voto nas eleições municipais se limitou às ofertas em dinheiro. 237. estamos diante de um universo de 3 milhões de infrações criminais ocorridas nas últimas eleições. quando a pesquisa nas últimas eleições incluiu todos os tipos de troca oferecidos (dinheiro. no Iraque. O artigo 299 criminaliza a mera oferta de compra de voto.shtml.co. de um lado. mesmo que não aceita pelo eleitor. a pesquisa revela que cerca de 3 milhões de eleitores receberam oferta de vender o seu voto. A ONG cobrou a criação de uma comissão independente nos Estados Unidos para examinar o abuso de prisioneiros na prisão de Abu Ghraib. afirmou a ONG de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch. os americanos já não podem mais reivindicar que estão defendendo os direitos humanos em outros países. em 2002 as regiões Norte/ Centro Oeste mostraram-se as mais vulneráveis. Observe-se que. Disponível em: http://www. Da mesma forma como ocorreu no levantamento relativo às eleições municipais de 2000.

1996. A era dos direitos. FGV DIREITO rio 14 . DORNELLES. A entidade pede que o governo Bush instale uma comissão totalmente independente. uma outra entidade. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: ALMEIDA. O que são direitos humanos? São Paulo: Brasiliense. 1992. A Human Rights Watch diz que os americanos já não podem mais dizer que sua posição é moralmente correta e liderar como exemplo. Norberto. o Worldwatch Institute. “A adoção de interrogatórios com coerção é parte de um desrespeito mais amplo dos princípios dos direitos humanos em nome do combate ao terrorismo”. O grupo. 1547. para analisar as denúncias de abusos em Abu Ghraib. Credibilidade O governo americano está no momento investigando denúncias de abusos de prisioneiros no Iraque e também na prisão da base militar de Guantánamo. em Cuba. Fernando Barcellos de. diz que as ações dos americanos nestas prisões tiveram um efeito negativo sobre a credibilidade do país como um defensor dos direitos humanos e líder da guerra contra o terrorismo. 1989. no modelo da que investigou os ataques de 11 de setembro. BOBBIO. João Ricardo. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. a maior organização de defesa dos direitos humanos baseada nos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Campus. Teoria Geral dos Direitos Humanos. p. Também pede a indicação de um promotor especial para determinar o que houve de errado e levar os responsáveis à Justiça.direitos humanos Na quarta-feira. A entidade cita as técnicas de interrogatório com coerção em Guantánamo e Abu Ghraib como especialmente prejudiciais. havia divulgado um relatório que dizia que a chamada “guerra contra o terrorismo” pode estar perpetuando o ciclo de violência no mundo. disse a ONG.

instituiu um complexo sistema de controles recíprocos entre os órgãos políticos e um complexo mecanismo que visava a proteção dos direitos individuais. acordado entre determinados atores sociais e referentes exclusivamente aos limites do poder real em tributar. são impostos limites ao poder real por meio da linguagem dos direitos. Dentre as conseqüências da Reforma. há um movimento de reconstrução da unidade política perdida com o feudalismo. da consagração de direitos comuns a todos os indivíduos – do clero. até a Revolução Francesa. a república romana. A partir do século XI. Alguns autores tratam esse momento como o embrionário dos direitos humanos. O imperador e o papa disputavam a hegemonia suprema em relação a todo o território europeu. É nesse contexto em que se formulam as primeiras declarações de Direitos. É importante salientar que. a elaboração da Carta Magna. a noção de direito subjetivo estava ligada ao conceito de privilégio. Mas afinal. Não caberá à aula 02 resolver um embate travado entre pensadores ao longo dos séculos. a sociedade européia se organizava em “ordens” ou “estamentos”. e não da simples vontade do povo ou dos governantes) e da participação ativa do cidadão nas funções do governo – o primórdio dos direitos políticos. Dessa forma. bem como de diversas lutas e revoluções. nobreza e povo..e. Outros asseveram sua natureza como meramente contratual. o Habeas Corpus Act de 1679 e o Bill of Rights de 1689. a consagração dos direitos humanos é fruto de mudanças ocorridas ao longo do tempo em relação à estrutura da sociedade. Convém salientar que na passagem do século XI ao século XII (i. Dessa forma. pressuposto do reconhecimento. a Reforma Protestante é vista como a passagem das prerrogativas estamentais para os direitos do homem. destaque-se: a laicização do Direito Natural a partir de Grócio e o apelo à razão como fundamento do Direito. uma vez que. quando surgem os direitos humanos? O debate sobre o tema conduz sempre ao limite do surgimento do próprio Direito. FGV DIREITO rio 15 .e. em 1215.. Ainda na Idade Antiga. uma vez que a ruptura da unidade religiosa fez surgir um dos primeiros direitos individuais: o da liberdade de opção religiosa. por sua vez. passagem da Baixa Idade Média para a Alta Idade Média) voltava a tomar força a idéia de limitação do poder dos governantes. durante a Idade Média.direitos humanos Aula 02: Desenvolvimento histórico dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O desenvolvimento dos direitos humanos foi um processo histórico e gradativo. foi uma resposta a essa tentativa de reconcentração do poder (limitou a atuação do Estado). Alguns autores vêem nas primeiras instituições democráticas em Atenas – o princípio da primazia da lei (i. Nesse sentido. do nomos: regra que emana da prudência e da razão. mas apontar alternativas. enquanto que os reis – até então considerados nobres – reivindicavam os direitos pertencentes à nobreza e ao clero. Destacam-se aqui: na Inglaterra. séculos depois. Como resultado da difusão do Direito Natural e no contexto das Revoluções Burguesas.

Nesse contexto. somente a intervenção estatal é capaz de garanti-los. uma vez que coloca em cheque a idéia contemporânea de indivisibilidade e interdependência dos direitos. Já os direitos de terceira geração só foram consagrados após a Segunda Guerra Mundial. atende-se para o ponto comum: a insuficiência da abstenção estatal como forma de garantia de direitos. Sociais e Culturais. com base na idéia de que existem direitos baseados na coletividade. conforme serão estudados ao longo do curso. significou um marco da consagração da universalidade dos direitos humanos. a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. 1789 Fruto da Revolução Francesa – os franceses se viam em uma missão universal de libertação dos povos. todas inspiradas no direito natural. à educação e à saúde. Tanto a DUDH. cabe destaque o momento histórico em que os direitos humanos foram galgados ao patamar internacional. examinamos a luta por direitos humanos em contextos nacionais. ao passo que os direitos humanos de segunda geração (embora a Constituição francesa de 1791 já estipulasse deveres sociais do Estado. 1776 Fruto da Revolução Americana – visavam restaurar os antigos direitos de cidadania tendo em vista os abusos do poder monárquico. a Declaração de Virgínia de 1776. a elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). conforme demonstrado a seguir: Declaração de Virgínia. Todavia.direitos humanos nos Estados Unidos. liberdade e propriedade. É importante ressaltar que ambas as Declarações consagraram os direitos humanos da primeira geração. deixou transparente a necessidade de se estabelecerem marcos inderrogáveis de direitos a serem obedecidos por todos os Estados na concertação estabelecida no pós-Guerra. ambas expressas em um texto escrito (a constituição). Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. não dispunha sobre os direitos correlativos dos cidadãos) só tiveram sua plena afirmação com a elaboração da Constituição mexicana (em decorrência da Revolução Mexicana). em 1948. notadamente na Segunda. ambos de FGV DIREITO rio 16 . e na França. e da Constituição de Weimar em 1919. Consagração dos princípios iluministas: igualdade. Art. Entre essas. Até o presente momento. Em face de alguns direitos. XVI: baseado na lição clássica de Montesquieu – teoria do governo misto combinada com uma declaração de direitos. Reconhecimento da igualdade entre os indivíduos pela sua própria natureza e do direito à propriedade. como o Pacto Internacional de Direitos Civil e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. Os homens são dotados de direitos inatos. a idéia de gerações – importante como mecanismo de compreensão histórica – merece ser criticada desde esse momento. Por mais que o direito humanitário e a Organização Internacional do Trabalho já indicassem a necessidade de uma proteção de direitos que se sobrepusesse aos ordenamentos internos. cabendo ao poder estatal declará-los. Todavia. como é o caso do direito ao trabalho. em 1917. as atrocidades cometidas durante as Guerras Mundiais. Marco do nascimento dos direitos humanos na história.

direitos humanos 1966. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris. Antônio Augusto. Reconstrução dos direitos humanos – um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. 1997. Rio de Janeiro: Companhia das Letras. A afirmação histórica dos direitos humanos. 2001. 2001. Tratado de direito internacional dos direitos humanos. o final da década de 80 foi marcado pela derrocada do socialismo real. Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. Todavia. serão estudados na aula referente ao Sistema Global de Proteção dos Direitos Humanos. Diante do exposto. vale adiantar que a confecção dos dois pactos localiza-se em um contexto de Guerra Fria em que os dois blocos disputavam ideologicamente a concepção de direitos humanos. Legislação: Constituição Federal de 1988 Declaração de Virgínia de 1776 Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 FGV DIREITO rio 17 . questiona-se: Qual é a importância da Carta Magna de 1215? Quais os elementos em comum entre a Declaração de Virgínia e a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão? O que são gerações de direitos? Quais foram os precedentes para a consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: COMPARATO. pp. 31-118. Foi nesse contexto que se desenvolveram as grandes conferências da década de 90. LAFER. São Paulo: Saraiva. pp. Por sua vez. ganha força o discurso de que os direitos humanos não eram mais discursos dos blocos. destacando-se a Conferência de Viena de 1993. No decorrer da década de 90. mas tema que deveria compor a agenda global. indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos. 36-66. pp. Fábio Konder. a qual consagrou os paradigmas da universalidade. 117-145. Volume I. Celso.

em silêncio. antes da independência de seu país. FGV DIREITO rio 18 . por outro lado. e em decorrência de seu contato com um mundo não-muçulmano. o Primeiro de Moharam (primeiro dia do calendário Islâmico) e o Eid-al-Adha (festa do carneiro que comemora o sacrifício de Abraão). o Marrocos. assim como a comemoração do Ramadã (período no qual os muçulmanos ficam um mês em jejum). conseqüentemente. Isto significa que Zaíra não poderá mais ir à escola usando o véu de acordo com sua religião mulçumana. a igualdade entre os sexos.direitos humanos Aula 03: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O CASO Zaíra. Dessa forma. No entanto. Sua família migrou para o país no começo da década de 1950. Em março de 2004. comemora. Nesse contexto. por sua vez. com base no princípio da laicidade do Estado. Desconsertada. uma vez que considera tal medida extremamente ofensiva a sua crença religiosa e a sua identidade cultural. resolve usar seu véu no primeiro dia do novo ano letivo. ela admira a liberdade feminina e acredita que poderia ser mais feliz sem as imposições religiosas do islamismo. com base na lei em vigor. Zaíra encontra-se dividida: por um lado. Sua mãe. conforme sempre o fez. com receio das represálias que poderia vir a sofrer por parte da comunidade muçulmana. 15 anos. é uma das cinco milhões de pessoas muçulmanas que vivem na França. Zaíra considera que alguns hábitos já fazem parte de sua identidade cultural. estudando as posições a favor e contra a proibição do uso de véu e de qualquer símbolo religioso em escolas públicas. a Assembléia Nacional da França. a não-utilização do véu (hiyas) violaria os ensinamentos sagrados do Alcorão. a promulgação da referida lei. Comemora. também. Nesse sentido. em respeito às crenças religiosas de sua família. adotou uma lei que proibiu o uso ou porte de qualquer símbolo religioso pelos alunos nas escolas públicas a partir do próximo ano letivo (setembro de 2004). Diante disso. Zaíra começa a se aprofundar no assunto. lamenta tal proibição. seu pai ameaça tirá-la da escola caso ela não use o véu. Para sua surpresa. Ela e sua família são consideradas muçulmanos “fundamentalistas”. a radicalização da laicidade é tida como uma forma de assegurar a liberdade da mulher e. sonhando para sua filha um futuro distinto do dela. com medo das conseqüências das atitudes de seu pai. Zaíra. da maneira como foi criada. é expulsa da escola. e principalmente. conforme exposto a seguir: Feministas Defendem a igualdade entre os sexos como um dos princípios fundamentais da democracia. como o uso de véu na escola e na foto da carteira de identidade. por seguirem todos os ensinamentos e tradições da religião islâmica. pois.

causa separação e discriminação entre os alunos. é também um dos requisitos para se garantir uma sociedade democrática. bem como a liberdade de expressão. o Estado tem que banir tal discriminação. e não uma forma de submissão. O banimento do véu confirma que há uma perseguição religiosa aos islâmicos desde o 11 de setembro de 2001. bem como é uma forma válida para se combater o fundamentalismo islâmico. determinando suas próprias vestimentas.direitos humanos O uso de véu por alunas muçulmanas representa uma submissão da mulher ao homem. Corte Européia de Direitos Humanos Defende que a proibição de uso de véus nas escolas públicas por alunas muçulmanas não viola o direito de liberdade religiosa. Partido pela liberdade religiosa Defende ser a liberdade de escolha religiosa um princípio basilar de qualquer sociedade democrática. uma vez que promove e estimula a segregação das religiões. Dessa forma. tendo em vista não ser peça ornamental e estritamente religiosa. destaque-se as freiras católicas que cobrem o corpo inteiro e não são incomodadas pela sociedade. o que é pior. Partido de Justiça e Desenvolvimento Islâmico Defende a identidade cultural e o direito à liberdade religiosa. FGV DIREITO rio 19 . o uso de véu por alunas muçulmanas representa uma cultura milenar. tornando a escola em um local de aprendizagem e não de conflito. Conselho Superior de Educação Defende a laicidade do Estado e o combate ao fundamentalismo religioso como forma de melhorar o acesso à educação. Nesse sentido. demonstrando tanto a sua devoção e religiosidade quanto a sua obediência a valores tradicionais que compõem a cultura. Como exemplo. de quipá e da estrela de Davi pelos judeus e da cruz e de crucifixo por católicos. limitando os atos dos indivíduos e. a proibição da utilização de qualquer símbolo religioso por alunos muçulmanos. A utilização de véu por alunas muçulmanas em escolas públicas. Trata-se de uma escolha feita pela aluna a seguir os ensinamentos muçulmanos. tal proibição. por ser necessária para assegurar a separação entre Igreja e Estado. A imposição de uma proibição dessa dimensão demonstra o autoritarismo do Estado e a violação do princípio do Estado Democrático de Direito. católicos e judeus atenta contra tais princípios. Nesse sentido. De acordo com a Corte.

] Art. na forma desta Constituição (grifou-se).direitos humanos Questões: Em primeiro lugar: O Estado francês agiu de forma correta ao adotar e promulgar a referida lei? Se esse caso ocorresse no Brasil (tendo em vista ser um Estado igualmente democrático e laico). fixada em lei..] VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença.] VIII – ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política. a moradia. a proteção aos locais de culto e a suas liturgias. Lei n. e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. o trabalho. MATERIAL DE APOIO Legislação: Constituição Federal de 1988 Art. a honra e a imagem das pessoas. [. bem como as posições acima mencionadas para responder tais questões. 215.. a previdência social... A educação. nos termos seguintes: [. sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. 205.. o Estado brasileiro estaria violando algum princípio fundamental ou direito humano? Utilize a legislação brasileira. a assistência aos desamparados.. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. 6.505. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. sem distinção de qualquer natureza. à igualdade. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa. [.313 – Lei Rouanet – de 23 de dezembro de 1991 Restabelece princípio da lei nº 7. assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação. [..] X – são invioláveis a intimidade. a vida privada. qualquer discriminação de natureza política FGV DIREITO rio 20 . Constitui crime. 5º Todos são iguais perante a lei.] Art. o lazer. à segurança e à propriedade. São direitos sociais a educação.. os tratados internacionais de direitos humanos (dispostos abaixo). a saúde.. salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa.] Art. à liberdade..º 8. a proteção à maternidade e à infância. institui o Programa Nacional de Apoio à Cultura – PRONAC – e dá outras providências..] Artigo 39º. na forma da lei. [. direito de todos e dever do Estado e da família. [. de 02 de julho de 1986. a segurança.. punível com reclusão de dois a seis meses e multa de vinte por cento do valor do projeto. [...

Lei nº 8... Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Artigo 2º 1. de atividade intelectual e artística. no andamento dos projetos a que se referem esta Lei.direitos humanos que atente contra a liberdade de expressão. os Estados-partes comprometem-se a tomar as providências necessárias. origem nacional ou social. religião. Toda pessoa terá direito à liberdade de pensamento. [. sem discriminação alguma por motivo de raça. tanto pública como privadamente. a pessoa até doze anos de idade incompletos. O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos: [. cor. e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade. pelo culto e pela observância. isolada ou coletivamente. origem nacional ou social. Artigo II. Considera-se criança. Esse direito implicará a liberdade de Ter ou adotar uma religião ou crença de sua escolha e a liberdade de professar sua religião ou crença. consciência e religião. sexo. sexo. [. Art.] Artigo XVIII: Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento. de consciência e de religião.] Artigo 18 1. aplica-se excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade. seja de raça. por meio do culto. opinião política ou de outra natureza. com sitas a adotá-las. Na ausência de medidas legislativas ou de outra natureza destinadas a tornar efetivos os direitos reconhecidos no presente Pacto. para os efeitos desta Lei. língua. nascimento. ou qualquer outra condição. de consciência ou crença... levando em consideração seus respectivos procedimentos constitucionais e as disposições do presente Pacto. da celebração de ritos. 2. [.. Parágrafo único.. este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença..] III – crença e culto religioso. Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente.] FGV DIREITO rio 21 . Nos casos expressos em lei. sem distinção de qualquer espécie. 2º. cor. religião. de 13 de julho de 1990 Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. opinião política ou de qualquer outra natureza. riqueza.. 1º... situação. Os Estados-partes no presente Pacto comprometem-se a garantir a todos os indivíduos que se encontrem em seu território e que estejam sujeitos à sua jurisdição os direitos reconhecidos no presente Pacto. 16. Declaração Universal dos Direitos Humanos Artigo I.069. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade. [. individual ou coletivamente. língua. de práticas e do ensino. Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração.] Art. pela prática. Art. Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. pelo ensino. em público ou em particular.

. sexo.] 19. Os Estados Partes do presente Pacto reconhecem o direito de toda pessoa à educação. Considerando a importância da promoção e proteção dos direitos das pessoas pertencentes a minorias e a contribuição dessa promoção e proteção à estabilidade política e social dos Estados onde vivem. econômicos e culturais. religião. as pessoas pertencentes a essas minorias não poderão ser privadas do direito de ter. com base no sexo. Embora particularidades nacionais e regionais devam ser levadas em consideração. é dever dos Estados promover e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais. conjuntamente com outros membros de seu grupo.direitos humanos Artigo 27 Nos estados em que haja minorias étnicas. língua.. assim como diversos contextos históricos. Sociais e Culturais Artigo 2º [. de professar e praticar sua própria religião e usar sua própria língua. econômica. sem qualquer forma de discriminação e em plena igualdade perante a lei. cor.. culturais e religiosos. favorecer a compreensão. indivisíveis interdependentes e inter-relacionados. sua própria vida cultural. religiosas ou lingüísticas. na vida política. origem nacional ou social. [. sejam quais forem seus sistemas políticos. Declaração e Programa de Ação de Viena de 1993 5. étnicos ou religiosos e promover as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz. a Conferência Mundial sobre os Direitos Humanos reafirma a obrigação dos Estados de garantir a pessoas pertencentes a minorias o pleno e efetivo exercício de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais. Religiosas e Lingüisticas. [. [.. social e cultural nos níveis nacional. Étnicas. FGV DIREITO rio 22 . civil. são objetivos prioritários da comunidade internacional. a tolerância e a amizade entre todas as nações e entre todos os grupos raciais. A plena participação das mulheres. Concordam em que a educação deverá visar o pleno desenvolvimento da personalidade humana e do sentido de sua dignidade e fortalecer o respeito pelos direitos humanos e liberdades fundamentais. Os direitos humanos das mulheres e das meninas são inalienáveis e constituem parte integral e indivisível dos direitos humanos universais.. opinião política ou de outra natureza. nascimento ou qualquer outra situação. situação econômica..] Artigo 13 1. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos de forma global. Todos os direitos humanos são universais. em conformidade com a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos da Pessoa Pertencentes a Minorais Nacionais..] 2. Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos. regional e internacional e a erradicação de todas as formas de discriminação. em condições de igualdade. justa e equitativa.] 18.. Os Estados Partes do presente pacto comprometem-se a garantir que os direitos nele enunciados se exercerão sem discriminação alguma por motivo de raça. Concordam ainda em que a educação deverá capacitar todas as pessoas a participar efetivamente de uma sociedade livre. em pé de igualdade e com a mesma ênfase.

surgirão no país quando entrar em vigor a lei banindo o uso do véu pelas muçulmanas em escolas públicas. entre outros livros.gov.html. 7 FGV DIREITO rio 23 .direitos humanos As pessoas pertencentes a minorias têm o direito de desfrutar de sua própria cultura. 29.br/Noticias. 30. que é parte do Conselho da Europa. Em uma decisão que pode abrir precedentes. onde professoras muçulmanas estão apelando contra leis de vários Estados que as impedem de cobrir suas cabeças. No caso decidido nesta semana. 48. 2004. é procuradora de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo e autora de “A Paixão no Banco dos Réus”. com toda a liberdade e sem qualquer interferência ou forma de discriminação. Foi secretária nacional dos Direitos da Cidadania do Ministério da Justiça (governo Fernando Henrique Cardoso.00. afirmou a corte. asp?NOTCod=98021. 7 Terra online. Notícias prévias: Corte européia mantém proibição de véu muçulmano6 A proibição do uso de véus pelas alunas muçulmanas em escolas públicas não viola o direito de liberdade religiosa e é uma forma válida de combater o fundamentalismo islâmico. depois do colapso do Império Otomano. terra. 6 ELUF. A Turquia é uma sociedade majoritariamente muçulmana que introduziu um sistema de governo secular nos anos 1920.. a corte com sede em Estrasburgo (França) rejeitou a argumentação apresentada por uma estudante turca impedida de frequentar a faculdade de medicina da Universidade Istambul porque o véu usado por ela violava o código de vestimenta da instituição. Luiza Nagib Eluf. vem noticiando o intenso debate que se instalou na França a respeito do uso do véu muçulmano por alunas das escolas públicas daquele país.12. disse a Corte Européia de Direitos Humanos hoje. principalmente esta Folha. As proibições impostas em nome da separação entre Igreja e Estado seriam então consideradas “necessárias em uma sociedade democrática”. Paulo. De acordo com uma decisão da Justiça em 1989.br/mundo/interna/ 0. vários conflitos ocorreram entre pais de alunas e diretores de escolas. segundo se prevê. desde que não sejam “invasivos”. disse o órgão. Disponível em: http://noticias. estudou a possibilidade de colocar fim à proibição do uso do véu. atualmente à frente do governo turco e que possui raízes islâmicas. véus e outros símbolos religiosos são permitidos nas escolas do Estado. O véu religioso A imprensa brasileira. havendo notícias de algumas expulsões em virtude da insistência no uso do véu. integrado pela Turquia. Disponível em: http://clipping.OI333991-EI312. A sentença do tribunal pode ajudar o governo francês a enfrentar os processos que. Acesso em: 15 out. “Podem se justificar medidas adotadas em universidades para impedir certos movimentos fundamentalistas religiosos de pressionar estudantes que não praticam a religião em questão ou aqueles adeptos de outras religiões”.2004. Acesso em: 15 out. mas acabou voltando atrás ao se deparar com a oposição dos militares defensores da secularidade do sistema. 2004. O Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP). Folha de S.com. a ex-estudante de medicina Leyla Sahin foi impedida de realizar uma prova porque estava usando um véu.06. Em razão da ampla interpretação que a palavra “invasivo” permite.2003. planejamento. A decisão da Corte Européia também pode ter ressonância em casos na Alemanha. Luiza Nagib. de professar e praticar sua própria religião e de usar seu próprio idioma privadamente ou em público.

setores das igrejas Católica. existem na França 5 milhões de muçulmanos. O tal “véu” não é peça ornamental. tendo em vista tratar-se de “um símbolo visível da submissão da mulher”. os imigrantes. dentre outras. tendo apurado que 57% dos franceses apóiam a proibição do uso do véu em escolas e repartições públicas. afetá-los também. O Brasil. para que apresentasse projeto de lei proibindo o uso de véu por meninas muçulmanas nas escolas. criado para evitar discriminações em razão de credo. para justificar numerosas formas de privar as mulheres de seus direitos fundamentais. mas a intolerância maior parece não ser dos países hospedeiros. deve ser aplicado. De acordo com dados estimados. dentre os quais o Brasil. Essas populações resistem tenazmente a assimilar os valores ocidentais. assinaram o manifesto.direitos humanos A discussão a respeito dos limites das determinações religiosas é de interesse geral e deve ser acompanhada pelos demais países laicos em todo o mundo. Portugal e Inglaterra. FGV DIREITO rio 24 . O dispositivo. além da França. É o que nos assegura a Constituição de 1988. Impedem-nas de mostrar qualquer parte do corpo. Escudadas em princípios religiosos. que estigmatiza a mulher. inciso VIII. sem preconceito. por vezes chegando ao absurdo de obrigá-las a cobrir o rosto todo com o uso da burca. Os usos e costumes de determinados grupos sociais foram utilizados. essas distorções encontram-se desmascaradas internacionalmente. Trata-se de uma polêmica que. em seu art. Não se pode confundir convicção pessoal com opressão. temendo restrições que possam. é um Estado em que todas as religiões são permitidas e respeitadas. como Alemanha. respirar ou falar. No entanto. opção religiosa com imposição de subalternidade. Não falta quem atribua aos europeus a incapacidade de acolher. Nossa Carta Magna. Isso significa que não se pode confundir convicção pessoal com opressão. Protestante e Ortodoxa opuseram-se à proibição. também. a revista “Elle” francesa divulgou um apelo ao presidente Jacques Chirac. mesmo que com isso elas tenham dificuldades para enxergar. Espanha. inclusive o cabelo. estabelece que “ninguém será privado de direitos por motivos de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política”. É um “uniforme” feminino. eventualmente. durante muito tempo. sendo que o poder político não está vinculado a nenhuma delas. possuem significativa presença muçulmana. tampouco é estritamente religioso. assim como a França. assinado por mais de 60 mulheres de destaque. as comunidades muçulmanas impõem às mulheres regras extremamente opressivas. outros países do velho continente. Uma pesquisa de opinião sobre o assunto foi divulgada recentemente. Por essa razão. isolando-se em suas comunidades. decorrente de imigrações. Hoje. Por outro lado. opção religiosa com imposição de subalternidade. Tanto as alegações fundamentadas em princípios religiosos quanto as calcadas em hábitos culturais não podem ser admitidas quando se prestarem a restringir ou eliminar direitos. para evitar violações de direitos trazidas pelas próprias religiões aos seus seguidores. mais cedo ou mais tarde. a maior comunidade islâmica da Europa. As atrizes Isabelle Adjani e Isabelle Huppert e a designer de moda Sonia Rykiel. pode ocorrer entre nós. 5º.

O problema do véu está essencialmente ligado ao horror às manifestações do feminino. como já se argumentou. não há glamour no uso do véu. Diferentemente do que novelas de televisão andaram mostrando. de associar islamismo com terrorismo. em terra estrangeira. pode ser a melhor saída para esse impasse. que deve ser extirpado. O véu imposto às muçulmanas tem por objetivo impedir que as mulheres se manifestem livremente. No entanto talvez a melhor forma de diminuir a adesão ao véu não seja a proibição legal nem a expulsão da escola de meninas que entendam necessário adotar a vestimenta de seus ancestrais. Fortalecer as mulheres. FGV DIREITO rio 25 . Surtiria. A proibição de cobrir a cabeça e o corpo tornaria o lamentável véu um símbolo da resistência cultural e religiosa de uma população já segregada. mas opressão física e intelectual. é importante desestimular o seu uso. significa que a sexualidade feminina é proibida e “pecaminosa”. Não se trata. Além disso. assim. criando para elas mecanismos de autodefesa e a possibilidade de outra opção de vida. o efeito oposto ao desejado. como seres humanos. Por essa razão.direitos humanos A polêmica que se iniciou na França com relação ao uso do véu islâmico demonstra que chegou o momento de rever princípios e dogmas religiosos usados para tolher as liberdades democráticas de seus seguidores.

(ii) o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. na qual o indivíduo – pré-social – tem direitos inatos cuja proteção foi transferida para o Estado. assim. Rachel Herdy. defende que cada cultura deve ter seu DE BARROS FRANCISCO. 8 A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adotada em 10. (ii) a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento de 1994 (Cairo). realizada em Viena no ano de 1993. e que o argumento da diversidade não pode ser utilizado para limitar os direitos humanos. representou um marco na proteção desses direitos. Monografia de final de curso. tendo em vista que dos 58 membros das Nações Unidas na época. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) de 19489 consagrou a universalidade dos direitos humanos e. Diálogo intercultural dos direitos humanos. uma vez que houve um número limitado de países que participaram de sua elaboração10. nenhum contra e oito se abstiveram. como se verá a seguir. Filipinas. segundo o projeto proposto pela Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. única maneira das normas universais serem realmente efetivas. Por outro lado. (iii) o Protocolo Adicional ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. a delegação da China sustentou ser o conceito de direitos humanos histórico e cultural. 7. O processo de universalização dos direitos humanos. Na II Conferência Mundial de Direitos Humanos. União das Repúblicas Soviéticas Socialistas. 48 votaram a favor. No entanto. a delegação portuguesa alegou ser a universalidade compatível com a diversidade cultural. França e Panamá.12. não aceita o indivíduo como um ser pré-social e. a efetividade universal de suas normas continua em estágio de implementação. de tradição confucionista. O intuito era estabelecer uma Carta Internacional de Direitos que. Sociais e Culturais. através da Resolução n. Estados Unidos. (iii) adoção de medidas de implementação. destaquem-se três: (i) a II Conferência Mundial de Direitos Humanos de 1993 (Viena). entre 1947 e 1948. em especial aquele travado entre representantes da China e a de Portugal. conseqüentemente. Curso de Direito da PUC-Rio. p. Contudo. era composto por três etapas8: (i) elaboração de uma declaração universal. 217 A (III). 9 Apenas os representantes dos seguintes Estados participaram da elaboração da redação do projeto da DUDH: Bielorússia. conforme as etapas.direitos humanos Aula 04: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos NOTA AO ALUNO A concepção histórica e culturalmente construída de direitos humanos conduz à imperatividade de que qualquer tentativa de universalização seja fruto de um diálogo entre as diferentes culturas. acirrou-se o debate entre as delegações governamentais. produto do desenvolvimento de cada país. da Assembléia Geral das Nações Unidas. 2003. Como exemplo. e (iii) a IV Conferência Mundial sobre a Mulher de 1995 (Beijing). Isto significa que enquanto a delegação portuguesa sustenta uma visão liberal. este diálogo intercultural tem sido limitado tanto no momento da consagração da universalidade dos direitos humanos como nos debates ocorridos nos foros internacionais. bem como pelo fato de não ter havido um consenso desde o início em relação às normas que deveriam ser positivadas. a delegação chinesa. Por um lado. O debate entre universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos sempre esteve presente nos foros internacionais. (ii) criação de documentos vinculantes.1948. 10 FGV DIREITO rio 26 . religiosa e ideológica. compreenderia: (i) a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH).

a Kafalah do direito islâmico. a colocação em lares de adoção. Em se tratando da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento de 1994. é permitido que outra família assuma a obrigação de cuidar da criança que não seja de sua linhagem. religiosa. sendo inconcebível a imposição de valores ocidentais como universais11. de forma excepcional. Ao se considerar soluções. de 1989. tendo a Plataforma de Ação de Beijing concluído que as práticas que limitam o exercício dos direitos da mulher não podem ser sustentadas em detrimento da universalidade dos direitos humanos. CANÇADO TRINDADE. mas sim a fortalece. 14 15 SANTOS. pp. realizada em Beijing. 15. como um elemento constitutivo da própria universalidade dos direitos humanos. Antonio Augusto. 335-336. e não como um obstáculo a esta. por exemplo. 427-461. Capítulo XIX. bem como à origem étnica. a colocação em instituições adequadas de proteção para as crianças. op. FGV DIREITO rio 27 . terá direito à proteção e assistência especiais do Estado. p. 2003. que faz referência expressa à Kafalah do direito islâmico13. em perspectiva adequada. ocorrida no Cairo. Dessa forma.”14 11 DE BARROS FRANCISCO. Os Estados-partes assegurarão. em geral. de acordo com suas leis nacionais. apesar da Declaração e Programa de Ação de Viena. uma vez que a criança muçulmana tem o direito inalienável de ligação direta com a linhagem paterna. In: SANTOS. verificar que. Boaventura de Sousa (org. planejamento familiar e direitos reprodutivos – prevaleceu em todos os casos a posição ocidental. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. que significa garantia. op. Vol. 2003. Para tanto. estereótipos e preconceitos. a adoção ou. ou cujos interesses exijam que não permaneça nesse meio. Contudo. na verdade a diversidade cultural não se opõe à universalidade dos direitos humanos. não havendo.. ter confirmado a universalidade dos direitos humanos e a obrigação dos Estados em respeitá-los e promovê-los independentemente de seus sistemas político. ou o controle – e mesmo o monopólio – da informação por poucos pode gerar dificuldades. sendo este instituto denominado kafalah. Não raro a falta de informação. cultural e lingüística da criança (grifou-se). Mas universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos são ou não compatíveis? Conforme doutrina de Cançado Trindade: “As culturas não são pedras no caminho da universalidade dos direitos humanos. cit. então. cit. sugere-se que os discursos ‘fundamentalistas’ dos direitos humanos – tanto o universalista quanto o relativista – sejam superados. Destarte. espaço para um diálogo intercultural. uma vez que não permitem o diálogo. foi abordada a validade das práticas culturais baseadas na inferioridade da mulher. 3. 13 DE BARROS FRANCISCO. Convém. temporária ou permanentemente privada de seu ambiente familiar. A tradição islâmica não permite a adoção..). verifica-se que em todas as conferências mundiais tem prevalecido a posição ocidental. Toda criança. Já na IV Conferência Mundial sobre a Mulher de 1995. econômico e cultural. Há um denominador comum: todas revelam conhecimento da dignidade humana. O artigo 20 dispõe que: 1. é relevante a proposta de diálogo intercultural sugerida por Boaventura de Sousa Santos15 a fim de compatibilizar tal embate: a hermenêutica diatópica. do qual resultou um artigo baseado na proposta de países islâmicos: artigo 2012. p. Boaventura de Sousa. Contudo. 2. fazendo necessário a criação de espaços para o diálogo intercultural. Trata-se de um método que visa a superar as dificuldades encontradas em um diálogo intercultural. fazse necessário a construção de um diálogo intercultural como forma de se atingir a universalidade efetiva dos direitos humanos. Nesse sentido. Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo liberal. através da Resolução 44/25 das Nações Unidas. cabe ressaltar que embora tenham surgido diversas concepções sobre os temas abordados entre as diferentes culturas – como. Esses cuidados poderão incluir. o exemplo bem sucedido de diálogo intercultural nos trabalhos preparatórios da Convenção sobre os Direitos da Criança. Não é certo que as culturas sejam inteiramente impenetráveis ou herméticas. a discussão permanece em aberto. embora exista o debate entre universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos. 20. III. se necessário.direitos humanos próprio entendimento do que sejam direitos humanos. que tem por premissa a impossibilidade de se compreender claramente as construções de uma cultura com base nos topos de outra. Por uma concepção multicultural de Direitos Humanos. 1989. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. 12 A Convenção sobre os Direitos da Criança foi adotada em 20. Nesse contexto. como exceção. Tratado de direito internacional de direitos humanos. em seu artigo 5º.11. Registre-se. A diversidade cultural há que ser vista. inter alia. cuidados alternativos para essas crianças. prestar-se-á a devida atenção à conveniência de continuidade de educação da criança. mas sim elementos essenciais ao alcance desta última. p.

por meio do diálogo intercultural. por mais que todas as culturas tenham concepções de dignidade humana. tem-se que o objetivo da proposta de Boaventura de Sousa Santos é. seja por sua destruição. assim. imposta pela globalização hegemônica. Esta premissa pode ser traduzida da seguinte forma: “temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza. Ter em mente que. Superação da tensão universalismorelativismo. em uma abordagem cosmopolita. 5. (ii) ter em mente que. transformar a concepção de direitos humanos. indaga-se: (i) Embora tenha sido reafirmada a universalidade dos direitos humanos na Declaração e Programa de Ação de Viena. não estará interessada no diálogo. por mais que todas as culturas tenham concepções sobre dignidade humana. (iv) percepção da incompletude das culturas. 4. a fim de que seja construída uma concepção multicultural dos direitos humanos que. baseada em um localismo globalizado. “em vez de recorrer a falsos universalismos. Por fim. segue. O reconhecimento do outro é essencial para a construção de uma identidade multicultural. Conceito Ambos os discursos – o etnocêntrico e aquele que considera as culturas como absolutas e incapazes de questionamento – impedem o diálogo intercultural. há cinco requisitos para que os direitos humanos possam ser teorizados e aplicados como multiculturais: (i) superação da tensão universalismo-relativismo. uma vez que é esta que melhor aceitará as particularidades das demais culturas. a curiosidade de procurar novas respostas satisfatórias que se traduzam no diálogo intercultural. seja pela absorção. Percepção da incompletude das culturas. uma vez que a identidade e compreensão do ser humano ocorrem em contato – diálogo – com outro. A solução proposta pelo autor é optar pelo reconhecimento da incompletude e pelo diálogo. desde que não signifique uma conquista cultural. (v) aproximação das políticas de diferença e de igualdade. o conceito de cada premissa: Premissas 1. Após essa breve exposição do tema. Esta gera sentimentos de frustração e descontentamento e. 3. Contudo. se reconhece sua incompletude. Ibid. se organiza como uma constelação de sentidos locais. FGV DIREITO rio 28 . para uma noção de universalidade construída de baixo para cima. nem todas têm a percepção em termos de direitos humanos. tem-se que buscar a versão mais aberta... 458. estará sujeita à conquista cultural. temos o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”16. mutuamente inteligíveis. 443. nem todas as percebem em termos de direitos humanos. passando da noção de universalidade imperialista. (iii) constatação de diferentes conceitos de dignidade humana.. 2. Há diversas versões de dignidade humana. De maneira bem resumida. gera também uma dicotomia: se uma cultura se considera completa. Assim. p. o cosmopolitismo. p. abaixo.direitos humanos tal diálogo somente torna-se possível se houver uma mudança na conceituação de direitos humanos. Contudo. Aproximação das políticas de diferença e de igualdade. 16 17 Ibid. e que se constitui em redes de referências normativas capacitantes”17. Constatação de diferentes conceitos de dignidade humana.

Capítulo IV. 427-461. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. de 1989? Um país muçulmano pode alegar respeito a sua cultura como forma de se eximir da responsabilidade de garantir e promover os direitos das mulheres? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: SANTOS. PELEG. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2001. 1997. a Convenção sobre os Direitos da Criança. 1995. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris.). III. pp. Negotiating Culture and Human Rights. Boaventura de Sousa (org. 2003. 2003. Antonio Augusto Cançado.). Boaventura de Sousa. 301-349. Andrew. In: SANTOS. Tratado de direito internacional de direitos humanos. Philadelphia: University of Pennsylvania Press.direitos humanos sua efetivação ocorre na prática e de forma igualitária em todos os países? Qual é a proposta de Boaventura de Sousa Santos para que seja construída uma concepção multicultural dos direitos humanos? O que significa o reconhecimento da incompletude da cultura? O que representou. Duração: 10min. pp. em termos de diálogo intercultural. Por uma concepção multicultural de Direitos Humanos. pp. Diretor: Theo Van Gogh. Ano: 2004. Abdullahi Ahmed (ed). Roteirista: Ayaan Hirsi Ali. BELL. Ian (eds. I. Capítulo XIX. Vol. 211-234. ___________. Vol. Human Rights in Cross-Cultural Perspectives. Legislação: Declaração e Programa de Ação de Viena Declaração Universal dos Direitos Humanos Convenção sobre os Direitos da Criança Atividade Complementar: Filme: Submissão. TRINDADE. Leitura acessória: AN-NA’IM. Lynda. Tratado de direito internacional de direitos humanos. Nova York: Columbia University Press. FGV DIREITO rio 29 . Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo liberal. NATHAN.

o STF reafirmou sua jurisprudência. Em primeiro lugar. MELO. Todavia. Estado e Sociedade. ciente de que sua obra resulta em um marco jurídico que se estende no tempo. fortalecendo os mecanismos nacionais de proteção dos direitos da pessoa humana. Embora a Convenção de Genebra que previu uma lei uniforme sobre letras de câmbio e notas promissórias tenha aplicabilidade no direito interno brasileiro. “O bloco da constitucionalidade e o contexto brasileiro”. a Constituição faz menção expressa à promoção e proteção dos direitos humanos quando afirma que sua prevalência constitui princípio que rege as relações internacionais do Estado brasileiro (artigo 4º).direitos humanos Aula 05: Os tratados de direitos humanos e a Constituição Federal NOTA AO ALUNO A aula de nº 05 tem por objeto o estudo do Direito Constitucional Internacional. 45. Ao apreciar o aparente conflito No julgamento do Recurso Extraordinário no. 427/1969. São PAULO: Max Limonad. Carolina de Campos. 15. 427. Parece clara a opção do legislador constituinte. In: Revista Direito. que institui o registro obrigatório da Nota Promissória em Repartição Fazendária. Flávia. 2004. ou ainda. 18 PIVESAN. 20 FGV DIREITO rio 30 .131/95..”18 Cabe assim menção às partes do Texto Constitucional que se referem a direitos humanos. não se sobrepõe ela às leis do País. 72.)”. parágrafo 2o Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados. o Habeas Corpus nº. p. de registrar no artigo 5o. 80. No julgamento do leading case após a promulgação da Constituição. Tal posicionamento conduz à ilação de que os tratados de direitos humanos podem ser objeto de controle de constitucionalidade e de que lei federal pode vir a revogar tratado já incorporado ao ordenamento jurídico interno. No. de 22. Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. a qual garante a possibilidade de extensão do texto constitucional em relação a outros direitos e garantias que não estejam expressos no artigo 5o. propiciando um verdadeiro bloco da constitucionalidade19. sob pena de nulidade do título (. “Esta interação assume um caráter especial quando estes dois campos do Direito buscam resguardar um mesmo valor – o valor da primazia da pessoa humana – concorrendo na mesma direção e sentido. Em julgados de toda a década de 90. a mais importante referência do Texto de 1988 constitui a seguinte: Artigo 5o. não é esta a interpretação promovida pelo Supremo Tribunal Federal. mas também desvendar o modo pelo qual este último reforça os direitos constitucionalmente assegurados. quando estabelece no artigo 7o do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) que o Brasil propugnará pela formação de um Tribunal Internacional dos Direitos Humanos. o Supremo Tribunal Federal considerou: “Convenção de Genebra – Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas Promissórias – Aval aposto à Nota Promissória não registrada no prazo legal – Impossibilidade de ser o avalista acionado. mesmo pelas vias ordinárias. Cabe aqui a interpretação de que outros direitos e garantias também possuam hierarquia constitucional. parágrafo 2o a sua “cláusula aberta” ou “cláusula de receptividade”. o tribunal manteve posição firmada desde 197720 de que os tratados possuem status infraconstitucional com equivalência à lei ordinária. Ao tratar da dinâmica da relação entre a Constituição Brasileira e o sistema internacional de proteção dos direitos humanos objetiva-se não apenas estudar os dispositivos do Direito Constitucional que buscam disciplinar o Direito Internacional dos Direitos Humanos. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte.01. 19 Tal redação revelou-se “campo minado” ao longo da recente história constitucional. Validade do Decreto-lei n. disso decorrendo a constitucionalidade e conseqüente validade do Decreto-lei n. reconhecido por alguns autores com campo de interação entre as duas áreas do direito. Direitos humanos e direito constitucional internacional. Todavia.1969..004.

também por decisão do Plenário. Já o Ministro Marco Aurélio. Relator Ministro Moreira Alves.. que o parágrafo 2o do artigo 5o. em especial dos tratados de direitos humanos. Parágrafo 3o. Dessa orientação divergiu o acórdão recorrido. quando do julgamento do RE 206.) o Pacto de San José da Costa Rica. No tocante ao status constitucional. O novo parágrafo do artigo 5o da Constituição Federal estabelece. por fim.05. da Constituição não se aplica aos tratados internacionais sobre direitos e garantias fundamentais que ingressaram em nosso ordenamento jurídico após a promulgação da Constituição de 1988. por três quintos dos votos dos respectivos membros.. poderá o Poder Legislativo aprovar determinadas normas contidas nos tratados com status constitucional e outras com de lei federal? O que ocorre com os tratados ratificados até a presente data? O que são “tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos”? A primeira pergunta conduz à necessidade de se registrar alguns comentários acerca do procedimento de incorporação dos tratados em geral. Ainda. pois. ressaltou que “realmente. serão equivalentes às emendas constitucionais. Afinal. em 27. no julgamento do RE 253. Artigo 5o . a Emenda nº 45. No caso de alguém que não cumpriu o dever de pagar as prestações de seu carro e. na circunstância descrita considerado infiel e assim passível de prisão civil. a emenda precisou a hierarquia dos tratados de direitos humanos. as normas infraconstitucionais especiais sobre prisão civil do depositário infiel. Inconstitucionalidade da interpretação dada ao artigo 7o. item 7. Constituição Federal. o STF negou provimento a um recurso em habeas corpus que questionava a possibilidade do depositário infiel ser preso em virtude do disposto no Pacto de San José da Costa Rica. em cada Casa do Congresso Nacional. ao tratar novamente da prisão do depositário infiel. mais conhecida como Reforma do Poder Judiciário. o Tribunal manteve o posicionamento ao afirmar que “(.direitos humanos de normas existente entre a Constituição Federal de 1988. além de não disporem de autoridade para restringir a eficácia jurídica das cláusulas constitucionais. Alguns autores preferem resolver o aparente conflito de normas por meio de uma regra de hermenêutica específica ao campo dos direitos humanos: a aplicação da norma mais favorável à vítima. de 08 de dezembro de 2004. voto vencido. veio a trazer duas importantes inovações ao abrigo constitucional aos direitos humanos: elucidou a possibilidade do status constitucional dos tratados de direitos humanos e estabeleceu a federalização das violações de direitos humanos.”23 Recentemente. 5o.98. a qual estabelece a permissão de duas forma de prisão civil (depositário infiel e devedor de alimentos – artigo 5o inciso LXVII21). qual a regra que deve prevalecer: a Constituição Federal ou o Pacto de San José? Recente alteração constitucional. o Pacto de San José da Costa Rica não implicou a derrogação da Constituição Federal. o qual restringe tal permissão apenas ao devedor de alimentos.631/98. do Pacto de São José da Costa Rica no sentido de derrogar o Decreto-Lei 911/69 no tocante à admissibilidade da prisão civil por infidelidade do depositário em alienação fiduciária em garantia. in verbis: Art. O artigo 84. 21 Pacto de San José da Costa Rica ou Convenção Americana de Direitos Humanos. é considerado depositário. e isso porque ainda não se admite tratado internacional com força de emenda constitucional”. mas resultou no afastamento das regras comuns alusivas ao depósito”. Esse entendimento voltou a ser reafirmado recentemente. além de não poder contrapor-se à permissão do artigo 5o. inciso VIII da Cons- FGV DIREITO rio 31 . afirmou que “os tratados internacionais não podem transgredir a normatividade emergente da Constituição. Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados. e diante da emenda. restando mais dúvidas do que certezas. 22 23 Mais recentemente. da mesma Constituição. não derrogou. em dois turnos. salvo a do responsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e a do depositário infiel. por ser norma infraconstitucional geral. em julgado de 15 de maio de 2007 (RHC 90759/ MG – Minas Gerais). A novidade ainda não foi elucidada pela doutrina e jurisprudência.071/GO de 29 de maio de 2001. e o Pacto de San José da Costa Rica22. no Habeas Corpus nº 77. estabeleceu a corte que “nada interfere na questão do depositário infiel em matéria de alienação fiduciária o disposto no parágrafo 7º da Convenção de San José da Costa Rica”. LXVII. conforme seu contrato de alienação fiduciária.482. não possuem forma para conter ou para delimitar a esfera de abrangência normativa dos preceitos inscritos no texto da Lei Fundamental. É de observar-se. inciso LXVII: Não há prisão civil por dívida.

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tituição Federal confere ao presidente da República a competência privativa para negociar e celebrar tratados, convenções e atos internacionais, sujeitos ao referendo do Congresso Nacional. Em regra, tal competência é exercida pelo ministro das Relações Exteriores ou pessoa por ele designada para tal. Ainda, de acordo com o artigo 49, inciso I, é de competência exclusiva do Congresso Nacional resolver definitivamente sobre tratados, acordos e atos internacionais. Assim, caberá primeiramente à Câmara dos Deputados, sucedida pelo Senado Federal, a aprovação dos tratados. Em ato discricionário, cabe ao presidente da República o ato da ratificação, consolidado por meio de um decreto, considerado pela jurisprudência do Supremo Tribunal Federal ato fundamental para que o tratado possa surtir efeitos no ordenamento jurídico interno. Em resumo, os tratados seguem os seguintes passos: Negociação e Assinatura pelo Poder Executivo + Aprovação pelo Poder Legislativo + Ratificação pelo Poder Executivo

Ultrapassada a regra geral para a incorporação dos tratados no ordenamento jurídico interno, cabe ressaltar que o legislador constituinte de 2004 deixou transparente a possibilidade de que os tratados venham a ter hierarquia constitucional caso sejam aprovados com o procedimento reservado às emendas constitucionais. Se por um lado não cabe mais dúvida acerca do status, podemos concluir que a inserção de tal norma pode conduzir à ilação de que certos tratados terão hierarquia constitucional e outros não, o que seria uma resolução descabida seja no âmbito do Direito Constitucional ou do Direito Internacional. Afinal, se o Estado brasileiro já ratificou os mais importantes tratados de direitos humanos, qual seria o atual status dos mesmos? Apesar de não constar da Emenda Constitucional nº 45 qualquer menção aos tratados já incorporados à ordem interna, não parece razoável que tais tratados sejam tidos como leis ordinárias e os futuros como normas constitucionais. De acordo com Tarciso dal Maso, “deveria ser admitida hierarquia normativa superior para tratado sobre direitos humanos já ratificado, até porque seria ilógico, por exemplo, que Protocolo Adicional à determinada Convenção, futuramente aprovado pelo procedimento do parágrafo 3o do art. 5o, seja considerado como força de emenda à Constituição e a própria Convenção-quadro não.”24 Também causa estranheza que tenham que ser submetidos a uma nova apreciação, notadamente quando o Estado brasileiro já se pronunciou no âmbito internacional por meio da ratificação dos mesmos. Caberá ao Poder Legislativo o estabelecimento de procedimento específico para a aprovação de tratados de direitos humanos em conformidade com a determinação constitucional, restando ao Poder Judiciário o papel fundamental de reinterpretar a sua jurisprudência para a necessária adequação à norma. Por fim, a resposta à indagação sobre a definição de tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos será obtida ao longo deste curso, uma vez que se pretende estabelecer, com o devido rigor técnico, o que se entende por direitos humanos. Cabe enfatizar, desde então, que os tratados de direitos humanos, compreendidos

JARDIM, Tarciso dal Maso. Afirma o autor a inconstitucionalidade do novo parágrafo inserido no artigo 5o ao estabelecer que “se favorável ao projeto constitucional brasileiro, o STF reconheceria o nível constitucional de todos os tratados que consagrassem direitos e garantias fundamentais, com base no parágrafo 2o do artigo 5o, e declararia o novo parágrafo 3o do artigo 5o como contrário às cláusulas pétreas, pois, nos termos do inc. IV, parágrafo 4o do artigo 60, seria tendente a abolir direitos fundamentais ao aventar hipótese de certos tratados sobre direitos humanos não poderem ter status constitucional a depender do procedimento legislativo adotado.” (página 50)
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como gênero de que são espécies as convenções, devem ser interpretados de forma mais ampla, englobando também direito humanitário e direito dos refugiados. Saliente-se aqui a outra inovação apresentada pela Reforma do Poder Judiciário: a federalização das violações de direitos humanos. De acordo com a nova redação, o artigo 109 passa a contar com a seguinte redação:
“Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar: V-A as causas relativas a direitos humanos a que se refere o § 5º deste artigo; § 5º Nas hipóteses de grave violação de direitos humanos, o Procurador-Geral da República, com a finalidade de assegurar o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil seja parte, poderá suscitar, perante o Superior Tribunal de Justiça, em qualquer fase do inquérito ou processo, incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal.” (NR)

A inovação institucional deve ser entendida sob os seguintes argumentos: Passo definitivo de enfrentamento à impunidade e garantia de proteção à vítima: O pacto federativo brasileiro, especificamente no tocante à repartição das competências entre Poder Judiciário Estadual e Federal, possui no artigo 109 da Constituição referência fundamental. Os temas ali relacionados são de competência da magistratura federal, sendo os demais – a grande maioria – considerados reservados à magistratura estadual. Tal divisão temática acarreta em atribuições distintas também para outros órgãos que atuam perante o Poder Judiciário. Por exemplo, os crimes contra a organização do trabalho, os crimes contra o sistema financeiro e a ordem econômica financeira deverão ser investigados pela Polícia Federal, sendo a eventual denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal perante a Justiça Federal. Todavia, a omissão ou mau funcionamento das instituições estaduais – Poder Executivo (em especial a polícia), Ministério Público, Defensoria Pública, Magistratura – diante de um caso concreto conduziram o legislador a estabelecer que em determinados casos a competência deverá ser transferida para a Justiça Federal de forma a não acarretar uma outra violação de direitos humanos: o direito a um julgamento justo e imparcial e em um prazo razoável. Nesse sentido, o deslocamento de competências veio a reforçar a necessidade de um efetivo funcionamento das instituições estaduais e a garantir o combate à impunidade por parte das instâncias federais em casos específicos e, por conseqüência, que seja ampliada a proteção dos direitos humanos. O federalismo adotado pela Constituição Federal A Constituição brasileira estabelece um federalismo de cooperação25 entre os seus entes – União Federal, Estados, Municípios e Distrito Federal, o que não exclui um exercício cooperativo também em relação à atividade jurisdicional. A federalização das violações de direitos humanos não constitui uma novidade nesse sentido. Cabe lembrar que o artigo 109, parágrafo 3º, da Constituição Federal estabelece que, na ausência de Varas Federais ou Trabalhistas, a Justiça Estadual exerça as competênb)
SCHREIBER, Simone; e COSTA, Flávio Dino de Castro e. “Federalização da competência para julgamento de crimes contra os direitos humanos”. In: Direito Federal: Revista da Associação dos Juízes Federais do Brasil. Ano 21. No. 71. Niterói: Editora Impetus. Julho a setembro de 2002. p. 253.
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cias que pertencem à Justiça Federal e do Trabalho. No intuito de atender à vítima diante de atividade jurisdicional específica, o Judiciário Estadual acaba por exercer a jurisdição sob matéria excluída de sua competência originalmente. Não é de se causar espanto a alternativa de que, diante da ausência ou mau funcionamento da Justiça Estadual, que a Federal exerça a atividade jurisdicional, visando à implementação de um julgamento justo e imparcial. Há de se ressaltar ainda que a Constituição Federal previu remédio federativo muito mais grave para violações de direitos humanos quando, em seu artigo 34, inciso VII, alínea b, possibilitou a intervenção da União nos Estados para assegurar o princípio constitucional sensível dos direitos da pessoa humana. É possível concluir que o constituinte originário criou um caso extremo de chamamento para a União Federal de casos de violação de direitos humanos e o constituinte derivado, por meio da Emenda Constitucional nº 45, estabeleceu uma hipótese mais específica, o deslocamento de competência em um determinado caso. Responsabilidade Internacional A Constituição Federal, em seu artigo 21, inciso I, estabelece que compete à União Federal, manter relações com Estados estrangeiros e participar de organizações internacionais. Nesse sentido, é a União Federal, e não seus Estados-membros, que respondem pela responsabilidade internacional decorrente do descumprimento das obrigações assumidas pelo Estado brasileiro pelos tratados de direitos humanos. Tendo em vista que a soberania é una e indivisível, o Estado Federal não pode alegar razões de ordem organizacional interna como fator excludente de responsabilidade. Os termos dos tratados internacionais dos quais o Estado brasileiro é parte são aplicáveis a todas as suas partes componentes. A responsabilidade internacional acaba implicando para o Estado brasileiro uma situação complexa focalizada em dois pontos: a) a maior parte das violações de direitos humanos encontra correspondência direta com as competências dos Estados-membros da federação; e b) o compromisso do Estado brasileiro com o marco protetivo internacional dos direitos humanos, notadamente após a Constituição de 1988, em consonância com os princípios da dignidade da pessoa humana e com da transparência internacional. Como estudaremos em momento oportuno, tramitam na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) mais de 100 petições contra o Estado brasileiro. Em regra, são raríssimos os casos que apontam à responsabilidade direta da União em face da violação de direitos humanos. Isto posto, é possível afirmar que, na maioria expressiva dos casos, a responsabilidade é do Estado-membro. Observese que boa parte destes casos pendentes na Comissão poderá ser submetida à Corte Interamericana, cuja jurisdição foi reconhecida pelo Brasil em dezembro de 1998, notadamente após a alteração do Regulamento da Comissão que prevê a presunção de encaminhamento dos casos à Corte Interamericana de Direitos Humanos. Nesse sentido, é bem vindo um mecanismo capaz de assegurar o cumprimento dos tratados de direitos humanos em caso dos entes federativos falharem ou não disporem de condições operacionais ou estruturais. Acredita-se que o estabelecimento
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c)

stj. Acesso em: 08 de maio de 2004. e c) a sistemática processual vigente. União Federal. inciso III). muito ainda se discutirá para a elucidação dos requisitos de admissibilidade (ex: “grave violação de direitos humanos”. Disponível em: http:// www.br/ SCON/pesquisar. A possibilidade de deslocamento de competência ou a federalização das violações constitui avanço institucional significativo em termos da defesa de direitos humanos. Qualquer inovação conduz à necessidade de estabelecimento de limites.jsp?b=ACOR&livre=federalização. Estados – compreendidos aqui pelos Poderes Executivo. A alternativa de federalização dos crimes de direitos humanos pode conduzir à disseminação nos entes federados do melhor cumprimento às obrigações decorrentes de tratados de direitos humanos dos quais o Brasil é parte – sob o risco do incidente de deslocamento de competências. O impacto de suas ações e omissões no plano internacional pode servir de estímulo ao melhor funcionamento das instituições locais em casos futuros. Nesse sentido.446. Acesso em: 05 de junho de 2006. MATERIAL DE APOIO Casos / Jurisprudência: 26 É importante ressaltar que a Lei no.direitos humanos da federalização veio a exercer precisamente esse mecanismo federal que possibilite à União um instrumento nacional para a responsabilidade internacional.pgr. Incidente de Deslocamento de Competência 2005/0029378-4. OF/Nº 022/04/PR/PA – incidente de deslocamento de competência (caso Irmã Dorothy Stang). 1o. É importante ressaltar que tal deslocamento somente pode ser decidido por órgão jurisdicional.26 Acredita-se ainda em um efeito no sentido inverso: a capilarização da promoção dos direitos humanos. Somente a prática permitirá que tais questões sejam preenchidas. já previu a possibilidade de que a Polícia Federal investigo infrações penais relativas à violação a direitos humanos. Tal afirmativa afasta as acusações de que tal deslocamento feriria a independência do Poder Judiciário. 10. de 08 de maio de 2002.gov. “assegurar o devido cumprimento de obrigações decorrentes dos tratados de direitos humanos”). uma vez que o STJ é o órgão jurisdicional de cúpula entre justiça estadual e federal.gov. Legislativo. Disponível em: http://www. mediante provocação. Conclui-se que a possibilidade de deslocamento de competências para violações de direitos humanos encontra-se em perfeita sintonia com: a) os parâmetros do direito internacional por estabelecer mais um grau de subsidiariedade no âmbito interno. Judiciário e Ministério Público – e sociedade civil devem conjugar esforços para fazer desse novo dispositivo constitucional um imperativo para a defesa dos direitos humanos.mpf. d) Dos parâmetros processuais A Emenda Constitucional nº 45 estabelece ainda que o incidente de deslocamento será apreciado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) a pedido do Procurador-Geral da República.pdf. mais de dois anos antes do instituto de federalização. b) o ditame constitucional da proteção dos direitos humanos em conformidade com o pacto federativo.br/pgr/asscom/Stang. mas não constitui solução mágica. que a República Federativa do Brasil se comprometeu a reprimir em decorrência de tratados internacionais de que seja parte” (art. FGV DIREITO rio 35 . IDC 1 / PA.

Legislação: Constituição Federal de 1988 FGV DIREITO rio 36 . Tratados Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos e Federalização dos Crimes de Direitos Humanos na Reforma do Judiciário. Rio de Janeiro: Renovar. Rio de Janeiro: Renovar. Antônio Augusto.direitos humanos Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. Celso. ______________________. 1999. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. Flávia. 2001. Ricardo Lobo (org. Parecer apresentado ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. Volume I. Curso de Direito Internacional Público. CANÇADO TRINDADE. e PIOVESAN. Tratados Internacionais de Direitos Humanos e Constituição Brasileira. 2002. 1997. GALINDO. O parágrafo 2º da Constituição Federal” In: TORRES. Belo Horizonte: Editora Del Rey. Leitura acessória: ALBUQUERQUE MELO. Da federalização das violações de direitos humanos. Teoria dos Direitos Fundamentais. pp. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris. 13ª edição. Flávia. 401-447. George Rodrigo Bandeira.).

Órgãos colegiados: (a) Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – CDDPH. Disponível em: http://www. (iv) Comissões de Direitos Humanos das Assembléias Legislativas. (ii) Conselhos Nacionais e Estaduais. Acesso em: 23 fev. o tráfico de drogas e as mortes no trânsito não podem ser consideradas normais. estadual e municipal. e (c) Subsecretaria de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos – SPDDH.direitos humanos Aula 06: Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos NOTA AO ALUNO “Os Direitos Humanos são os direitos de todos e devem ser protegidos em todos Estados e nações. Os assassinatos. Dentre os principais órgãos. (b) Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA. (vi) Conselhos Municipais. Introdução. (d) Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência – CONADE. 2005. o extermínio. atuando preventiva ou punitivamente (no caso de terem ocorrido violações de direitos humanos). dando destaque ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH).gov. Seguem. 27 Composição Principal atribuição FGV DIREITO rio 37 . destaquem-se: (i) Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR). as chacinas.683. e (e) Conselho Nacional dos Direitos do Idoso – CNDI. A SEDH foi criada pela Lei nº 10. (vii) Defensoria Pública e Ministério Público. Órgãos executivos: (a) Subsecretaria de Articulação da Política de Direitos Humanos – SAPDH. especialmente em um Estado e em uma sociedade que se desejam modernos e democráticos. assessorias. Programa Nacional de Direitos Humanos I. os seqüestros.htm. em conformidade com as diretrizes do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH). É nesse contexto que surgem diversos órgãos de proteção dos direitos humanos nos planos nacional. e grupos de trabalho temáticos. (iii) Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.br/ sedh/dpdh/gpdh/pndh/principal. (v) Comissões de Direitos Humanos das Câmaras Municipais. tais documentos carecem de sentido se não houver mecanismos para garantir e promover os direitos humanos. (c) Conselho Nacional de Combate à Discriminação – CNCD. Coordenação da Política Nacional de Direitos Humanos. abaixo. sua composição. de 28 de maio de 2003. É preciso dizer não à banalização da violência e proteger a existência humana”27. o crime organizado. Trata-se do órgão da Presidência da República que tem por atribuições articular e implementar as políticas públicas voltadas para a promoção e implementação dos direitos humanos. No entanto. (b) Subsecretaria de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente – SPDCA. principal atribuição e programas a serem executados de acordo com o Plano Plurianual 2004-2007: Fatores Definição Órgãos colegiados e executivos.mj. Os direitos humanos são assegurados pela Constituição Federal e por diversos tratados internacionais em que o Brasil é parte.

gov.gov. cabe destacar suas principais atividades: (a) receber denúncias de violações de direitos humanos de abrangência nacional e investigá-las em conjunto com as autoridades competentes locais.mj. São Paulo: Cortez. 29 GOHN.htm (par. e (i) Proteção da Adoção e Combate ao Seqüestro Internacional. M.presidencia. presidencia. em 13 de maio de 2003. Em consulta realizada no site da Câmara dos Deputados em dia 23 de fevereiro de 2005.gov. Direito de Todos. (f ) Nacional de acessibilidade. durante a “VIII Conferência Nacional dos Direitos Humanos”.gov.br/sedh/cndi Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária – CNPCP – www. 30 Discurso proferido pelo Ministro Nilmário Miranda. 2005. 2003. pdf. oportunidade na qual a Comissão de Trabalho.br/sedh/cddph Conselho Nacional de Combate à Discriminação – CNCD – www. A última ação ocorreu em 15 de setembro de 2004. verificouse que o projeto de lei encontrava-se sujeito à apreciação do Plenário (http://www2.gov.htm. gov. como fruto da organização e das lutas sociais.gov. (h) Promoção e Defesa dos Direitos de Pessoas com Deficiência.gov. Cuida-se.gov.gov. a lista dos conselhos nacionais e estaduais existentes: Conselhos Nacionais Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – CDDPH – www.31 Já a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados foi criada por meio da Resolução n. G.gov. Ambos os conselhos têm como meta a promoção e defesa dos direitos humanos. Os conselhos nacionais e estaduais. 11). a fim de dar maior agilidade às apurações de violações de direitos humanos. e.gov. (c) Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. criado pela Lei n.gov. 2ª ed. 4715/199430. presidencia. (g) Promoção e Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente. (d) promover estudos para aperfeiçoar a defesa dos direitos humanos. (c) atuar por meio de resoluções. Acesso em: 23 fev.br/seppir Outros órgãos colegiados nacionais: Comitê Nacional para a Educação em Direitos Humanos – CNEDH Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo – CONATRAE Conselhos Estaduais Conselho Estadual de Defesa dos Direitos do Homem e do Cidadão Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher Conselho Estadual dos Direitos do Idoso Conselho Estadual do Consumidor Conselho Estadual de Proteção de Vítimas e Testemunhas 28 Para maiores informações sobre o objetivo de cada programa. acesse o site http://www.presidencia. 31 FGV DIREITO rio 38 . de Administração e Serviço Público designou um relator. abaixo. (b) constituir comissões de inquéritos para facilitar as investigações. mj. órgão específico da SEDH/PR.br/seppir ou www. http://www.mj. Conselhos Gestores e participação política.planalto.camara.br/sedh/ Conselho Nacional dos Direitos da Mulher – CNDM – www. Em relação ao CDDPH. planobrasil.br/sedh/cncd Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA – www. 4715/ 1994. mj.direitos humanos Programas a serem executados (Plano Plurianual 20042007)28 (a) Assistência a Vítimas e a Testemunhas Ameaçadas. assim. (b) Atendimento Socioeducativo do Adolescente em conflito com a lei. 231. Disponível em: http://www. Segue. o qual transforma o CDDPH no Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH). de acordo com Gohn29. Tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei n.mj.br/ccivil_03/ Projetos/PL/pl4715. de autoria do então deputado federal Projeto de Lei n.br/defaultCab.br/spmulheres Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência – CONADE – www. e (e) prestar informações para os organismos internacionais sobre a situação dos direitos humanos no país. 4319/1964. por sua vez. de peça fundamental na proteção dos direitos humanos.br/sedh/ct/ CONADE Conselho Nacional dos Direitos do Idoso – CNDI – www.gov.br/sedh/ct/di.mj.br/internet/proposicoes). (e) Gestão da Política de Direitos Humanos. o deputado Tarciso Zimmermann (PT-RS). como mecanismos de participação e de legitimidade social iniciam-se no Brasil.asp?idserv info=43507&url=http://www.br/cnpcp Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial – CNPIR – www.br/EmConstrucao/pdf/Rel_OrgaoPrograma1.. (d) Direitos Humanos.

em 31 de janeiro de 1995. bndes. Disponível em: http://www2. sugerir projetos e fiscalizar a atuação do Poder Público. Seus objetivos também são encaminhar denúncias. são importantes canais de participação coletiva e de criação de novas relações políticas entre governos e cidadãos por meio de um processo de interlocução permanente. Disponível em: http://www. (b) fiscalizar e acompanhar programas governamentais relativos à proteção dos direitos humanos. implementar e avaliar em conjunto as políticas públicas referentes a determinado grupo da sociedade mais vulnerável. camara. Representou um marco na história dos direitos humanos do país. parlamentares e entidades de defesa dos direitos humanos. podendo ainda haver comissões parlamentares de inquérito. destacam-se: (a) participar do estabelecimento da política municipal de direitos humanos. Dentre suas atividades.dhnet.htm. FGV DIREITO rio 39 .obrasocial-rj. 2005. Embora muitos conselhos municipais não funcionem da maneira como deveriam. html#parte2. Disponível em: http://www.br/enderecos1. sendo o recebimento de denúncias sua atividade principal. uma vez que desempenha papel fundamental na proteção dos direitos humanos e na promoção da cidadania. Nesse sentido. Destaquem-se suas principais atribuições: (a) receber denúncias de violações de direitos humanos e encaminhá-las ao órgão competente. criar espaços de debates. avaliar e investigar denúncias relativas à ameaça ou violação de direitos humanos.br/comissoes/ cdhm. (b) escutar as vítimas de violações ou seus familiares. 35 Acesso em: 26 fev. org.direitos humanos Nilmário Miranda. 32 Dispõe acerca de todas as Comissões de Direitos Humanos das Assembléias Legislativas. Os Conselhos Municipais de Direitos Humanos. 2005.32 A Assembléia Legislativa de cada Estado é composta por comissões permanentes e temporárias. A sociedade civil deve propor alternativas de políticas públicas. os mesmos continuam sendo peça importante no combate às violações de direitos humanos. É composta por 23 deputados e 23 suplentes e tem por finalidade investigar violações de direitos humanos. motivo pelo qual a Secretaria Especial de Direitos Humanos apóia os conselhos municipais já existentes. abaixo. e (d) promover pesquisas e estudos relativos à situação dos direitos humanos no respectivo município. A comissão de direitos humanos33 consiste em uma das comissões permanentes. Acesso em: 23 fev. Ao criar o novo órgão técnico e suprapartidário. o que tornou mais eficiente e rápido o trabalho investigativo intentado pelo legislativo brasileiro. (d) lutar pela garantia e implementação de tais direitos. (c) colaborar com organizações não-governamentais e internacionais que atuem na defesa dos direitos humanos. Já as Comissões de Direitos Humanos das Câmaras Municipais também têm caráter permanente e são marcadas pelas seguintes atribuições:34 (a) receber. a lista dos conselhos municipais do Município do Rio de Janeiro e seus contatos35: Acesso em: 04 junho 2006.br/direitos/brasil/legislativo/cdhcf/cartilha_cdh/19_comissoesassembleia. 33 34 Para maiores informações. concretizou-se uma antiga reivindicação dos movimentos populares. por sua vez. penetrar na lógica burocrática estatal para transformá-la e exercer o controle socializado das ações e deliberações governamentais. a fim de que governo e sociedade civil possam atuar de forma articulada na proposição e no desenvolvimento de ações voltadas para a promoção e a proteção dos direitos humanos.org. são compostos por representantes do governo e da sociedade civil empenhados em discutir. (c) realizar ou patrocinar campanhas e eventos locais com o objetivo de difundir e proteger os direitos humanos. (c) opinar sobre proposições e assuntos ligados aos direitos humanos. acesse o site http://federativo.gov.htm.br/dicas/D102%20%20Pol%C3%ADtica%20muni cipal%20de%20direitos%20hu manos. (b) adotar providências e propor medidas para apurar violações de direitos humanos. Segue.gov.

: 2595-7086 BIP: 2460.1010 – códigos: 4369909/ 4369912/ 4369886/ 4369931/ 4369934 Área de Abrangência: Santo Cristo/ Caju/ Cais do Porto/ Saúde/ centro/ Aeroporto/ Bairro de Fátima/ Castelo/ Praça Mauá/ Rio Comprido/ Estácio/ Cidade Nova/ Catumbi/Triagem/ São Cristovão/ Mangueira/ Benfica/ Paquetá/ Santa Tereza.rj.R 3.: 2569-5722 BIP: 2460. Conselho Tutelar de Laranjeiras 2: C. 56 – Laranjeiras – CEP.R 2.br Conselho Municipal de Assistência Social: cmas@pcrj.gov.1010 – códigos: 4369899/ 4369905/ 4369898/ 4369904/ 4369935 Área de Abrangência: Botafogo/ Catete/ Glória/ Cosme Velho/ Flamengo/ Laranjeiras/ Humaitá/ Urca/ Praia Vemelha/ Copacabana/ Leme/ Jardim Botânico/ Ipanema/ Vidigal/ São Conrado/ Rocinha.gov. para contatos durante o final de semana use o bip Conselho Tutelar do Centro 1: C.2 – Rua Professor Lacê. Conselho Tutelar de Vila Isabel 3: C. 180 – Tel/Fax. 57 – Ramos – CEP.direitos humanos • • • • • • • • • • • Conselho Municipal da Criança e do Adolescente: cmdca@pcrj.br Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência: comdef@pcrj. 3.gov. 267.2 – Rua Conde de Bonfim.1010 – códigos: 4369926/ 4369920/ 4369918/ 4369925/ 4369913 FGV DIREITO rio 40 .1 – Rua São Salvador. 20560-200 Tel/Fax.1010 – códigos: 4369923/ 4369924/ 4369929/ 4269901/ 4369930 Área de Abrangência: Méier/ Todos os Santos/ Engenho de Dentro/ Encantado/ São Francisco Xavier/ Rocha/ Piedade/ Abolição/ Consolação/ Riachuelo/ Água Santa/ Sampaio/ Lins/ Engenho Novo/ Complexo do Alemão/ Bonsucesso/ Olaria/ Inhaúma/ Esperança/ Higienópolis/ Maria da Graça/ Jacaré/ Engenho da Rainha/ Tomas Coelho/ Del Castilho/ Jacarezinho/ Vieira/ Fazenda. 20211-260 Tel.gov.br Conselho Municipal de Entorpecentes: comen@pcrj.1010 – códigos: 4369915/ 4369895/ 4369893/ 4369894/ 4369892 Área de Abrangência: Tijuca/ Praça da Bandeira/ Alto da Boa Vista/ Vila Isabel/ Grajaú/ Andaraí/ Maracanã/ Aldeia Campista. s/nº – setor 4 (Sambódromo) – Centro – CEP .R 2.151 – Inhaúma – CEP .br Conselho Municipal dos Direitos do Negro: condedine@pcrj. 2205-3798 BIP: 2460.rj.gov.: 2502-7122 R.20765-170 Tel/Fax.: 2502-2431 BIP: 2460.rj.2º andar -Tijuca – CEP. 21060-120 Tel/fax: 2290-4762 BIP: 2460. de 9 às 18 horas.1/ XIIR.R 3.A – Estrada Velha da Pavuna.rj. 22231-130 Tel/fax. Conselho Tutelar de Ramos 5 C.rj.R 1 – Rua Salvador. Conselho Tutelar do Méier 4: C.br Conselhos Tutelares: Horário de funcionamento: de 2ª a 6ª feira.

21715-000 Tel. Augusto Pinheiro de Carvalho – Rua Xavier Curado.1010 – códigos: 4369906/ 4369900/ 4369891/ 4369897/ 4369928 Área de Abrangência: Campo Grande/ Santíssimo/ Senador Augusto Vasconcelos/ Mendanha/ Rio da Prata/ Monteiro/ Guaratiba/ Pedra de Gauratiba/ Morro da Pedra/ Praia do Aterro/ Ilha Guaratiba FGV DIREITO rio 41 .1010 – códigos: 4369887/ 4369888/ 4369889/ 4369914/ 4369911 Área de Abrangência: Jacarepaguá/ Praça Seca/ Valqueire/ Taguara/ Freguesia/ Anil/ Tanque/ Curicica/ Camorim/ Gardênia Azul/ Cidade de Deus/ Pechincha/ Barra da Tijuca/ Recreio dos Bandeirantes/ Vargem Grande/ Piabas/ Grumari/ Itanhangá. 21610-380 Tel/Fax.R 4 – Estrada Rodrigues Caldas.1 – Rua Oliveira Braga.: 3390-6420 BIP: 2460.direitos humanos • • • • Área de Abrangência: Ramos/ Maguinhos/ Olaria/ Penha/ Vigário Geral/ Parada de Lucas/ Penha Circular/ Jardim América/ Cordovil/ Bras de Pina/ Ilha do Governador/ Ribeira/ Zumbi/ Cacuia/ Pitangueiras/ Praia da ribeira/ Cocotá/ Bancários/ Tauá/ Galeão/ Moneró/ Portuguesa/ Jardim Guanabara/ Cidade universitária/ Complexo da Maré/ Vila esperança/ Vila do João/ Vila do Pinheiro/ Praia de Ramos/ Timbau/ Maré/ Marcílio Dias/ Baixa do Sapateiro/ Nova Holanda/ Rubens Vaz/ Parque União/ Roquete Pinto/ Conjunto Pinheiro. 1733 – Marechal Hermes – CEP.2 – Rua: Coxilha s/nº – XVIII RA – Campo Grande – CEP.R5.R 3. Colônia Juliano Moreira – Jacarepaguá. Conselho Tutelar de Madureira 6 C.400 – Prédio da Administração. 22713-370 Telefone: 2446-6508 BIP: 2460.1010 – códigos: 4369919/ 4369896/ 4369890/ 4369908/ 4369907 Área de Abragência: Bangu/ Campo dos Afonsos/ Santíssimo/ Deodoro/ Realengo/ Vila Militar/ Magalhães Bastos/ Padre Miguel/ Senador Camará/ Jardim Sulacap Conselho Tutelar de Campo Grande 9 C. CEP./Fax: 3332-3744 BIP: 2460. 23085-570 Tel/Fax: 2413-3125 BIP: 2460. Conselho Tutelar de Bangu 8 C.R 5. 211 – Realengo – CEP.1010 – códigos: 4369903/ 4369927/ 4369916/ 4369917/ 4369902 Área de Abrangência: Irajá/ Vicente de Carvalho/ Vila da Penha/ Vista Alegre/ Vila Cosmo/ Madureira/ Quintino Bocaiuva/ Bento Ribeiro/ Marechal Hermes/ Engenheiro Leal/ Turiaçu/ Campinho/ Rocha Miranda/ Osvaldo Cruz/ Anchieta/ Ricardo de Albuquerque/ Guadalupe/ Parque Anchieta/ Pavuna/ Coelho Neto/ Acari/ Barros Filho. Conselho Tutelar de Jacarepaguá 7 C.3 – CIEP. 3.

além do papel tradicional de fiscal da lei e acusador público. Especificamente no que se refere ao Ministério Público Federal. que deverá emitir um Boletim de Ocorrência (B. coletivos ou sociais. FGV DIREITO rio 42 . Sendo assim. a Defensoria Pública e o Ministério Público são instituições necessários à atividade jurisdicional do Estado. Entre as formas existentes para a consecução de tais fins. cível. Disponível em: http://www.º – Santa Cruz – CEP. A polícia é a porta de entrada do sistema de garantia de direitos e poderá orientá-lo(a) e fornecer informações relativas ao andamento de sua denúncia. de preferência junto à delegacia mais próxima. exerce outras atividades. a Lei Complementar n. denunciar o fato à polícia. No caso de violência cometida contra criança ou adolescente. consumidor. 36 Para maiores informações. Acesso em: 23 fev. 3395-1445 BIP: 2460. você também pode procurar o Conselho Tutelar e/ou a Delegacia Especializada em Crimes contra Crianças e Adolescentes. Ao receber uma denúncia de violação de direitos humanos. s/n. Nos casos de atos infracionais praticados por adolescentes. ao passo que cabe ao Ministério Público a defesa da ordem jurídica.html. Competem à Defensoria Pública a orientação jurídica e a defesa em todos os graus da comunidade carente. (e) expedir recomendações aos poderes públicos a fim de que façam cessar violações de direitos humanos. 37 As informações contidas abaixo foram extraídas.R 5.rndh. O Ministério Público. bem como possui centros de atendimento ao público.html. ambas as instituições têm o dever de proteger os direitos humanos e combater suas violações. acesse o site http://www. O mesmo site disponibiliza o contato dos órgãos mencionados. (b) instaurar inquéritos. (c) investigar. com um mandato de dois anos.br/direitos/brasil/apoio/ mpublico/mpdh.: 3395-0988/Fax. encontra-se o encaminhamento de denúncia de direitos humanos.) e iniciar procedimentos de investigação. A Defensoria Pública. 2005. Em uma apertada síntese. seguem.gov. cujas principais atribuições são36: (a) requisitar informações. de acordo com o artigo 134 CF.dhnet.3 – Rua: Olavo Bilac. as medidas que um indivíduo deve tomar quando presenciar ou souber de uma violação de direitos humanos37: Em caso de crime.1010 – códigos: 4369910/ 4369922/ 4369933/ 4369932/ 4369921 Área de Abrangência: Santa Cruz/ Paciência/ Sepetiba Considerados Funções Essenciais à Justiça pelo Texto Constitucional. entre outras) junto ao Judiciário e extrajudicialmente na composição de conflitos. 23570-220 Tel. exatamente da maneira como estavam. o Defensor Público irá encaminhá-la ao Poder Judiciário ou poderá resolver o conflito entre as partes extrajudicialmente. org. você deve preferencialmente encaminhar a denúncia à Delegacia Especializada de Investigação de Atos Infracionais praticados por Adolescentes. do regime democrático e dos interesses coletivos e individuais indisponíveis. por sua vez. conforme o artigo 129 CF. aos moldes do ombudsmen nórdico. atua em diversas áreas (criminal.direitos humanos • Conselho Tutelar de Santa Cruz 10 C. do site da Rede Nacional de Direitos Humanos.br/ denuncia. abaixo.O. 75/93 designou o Procurador dos Direitos do Cidadão. (d) notificar violações a direitos individuais. como o recebimento de denúncias de violações ou ameaças de direitos humanos.

Você pode. 2004. Pernambuco. Procurar orientação junto a conselhos de defesa de direitos humanos e/ou organizações da sociedade em seu município/Estado.gov. para toda violação de direitos humanos. procurar o Ministério Público de seu Estado para fazer sua denúncia. que tem Seccionais e Comissões de Direitos Humanos em todos os Estados da Federação. Bahia.htm. Disponível em: http://www. Você também pode procurar orientação junto à Ordem dos Advogados do Brasil – OAB. Recorrer a serviços de disque-denúncia. além disso. você pode: Contactar a Ouvidoria de Polícia em seu Estado.direitos humanos No caso de violência sofrida pela mulher.br. Ceará. org. Legislação: Constituição Federal de 1988 FGV DIREITO rio 43 . indaga-se: A quem você deve recorrer quando souber de uma violação cometida contra uma criança? Quais são os principais órgãos de proteção e promoção dos direitos humanos no âmbito nacional? Quais são as principais funções da Secretaria Especial dos Direitos Humanos? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: Princípios de Paris.br/direitos/brasil/textos/principioparis. encaminhar sua denúncia à Polícia Federal pelo e-mail dcs@dpf. você deve preferencialmente encaminhar sua denúncia à Delegacia da Mulher mais próxima ou procurar os conselhos de defesa dos direitos da mulher. procurar a Delegacia de Polícia mais próxima. ou caso haja suspeita de que a violação tenha sido praticada por agente policial. Acesso em: 23 fev. como o Movimento Nacional de Direitos Humanos – MNDH. Pelo exposto. Minas Gerais.dhnet. ainda. ou. Já existem ouvidorias de polícia nos seguintes Estados: São Paulo. Não havendo delegacias especializadas. Paraná e Espírito Santo. Rio de Janeiro. Pará. Rio Grande do Sul. Importante: Caso sua denúncia tenha sido negligenciada ou colocada em dúvida pelos órgãos policiais.

São Paulo: Max Limonad. 164. 2200-A (XXI). A Carta das Nações Unidas. a Organização Internacional do Trabalho e a Liga das Nações. por tal motivo. A criação de dois pactos distintos ocorreu em virtude do contexto da Guerra Fria. Sociais e Culturais (PIDESC)39.direitos humanos Aula 07: Sistema global: mecanismos convencionais e não-convencionais de proteção dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O movimento de internacionalização dos direitos humanos é bastante recente na história.01. Seja qual for a posição sustentada. apenas atesta o reconhecimento de um código comum a ser seguido por todos os Estados. uma vez que rompem com a noção de que o Estado é o único sujeito de Direito Internacional e com a noção de soberania absoluta. em 1945.03. 39 FGV DIREITO rio 44 . o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. com a adoção de dois tratados internacionais. ambos com força obrigatória. dando ensejo à adoção.1976 (PIDCP). o fato é que houve um processo de “juridicização”38 da DUDH. da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). com o intuito de reconstruir os direitos humanos e trazer a dignidade da pessoa humana para o centro das relações entre Estados. 2002. (ii) promoção dos direitos humanos no âmbito internacional. Contudo. (iii) cooperação internacional nas esferas social e econômica. assim. só entraram em vigor em 03. não os define. p. Capítulo VI. há divergências quanto a sua força vinculante: (i) constitui interpretação autorizada da expressão “direitos humanos”. Adotados pela Assembléia Geral através da Resolução n. ao afirmar ser os direitos civis e políticos autoaplicáveis enquanto que os direitos econômicos. uma vez que surgiu após as enormes atrocidades ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial. colocou a proteção dos direitos humanos em seu centro. em 16. e. pois admitem intervenções na esfera nacional em prol da proteção dos direitos humanos. a universalidade. assim. demandam realização progressiva. é dotada de força vinculante. constante na Carta das Nações Unidas. além de definir tais expressões. (ii) integra o direito costumeiro internacional e/ ou os princípios gerais de direito e.1966. interdependência e indivisibilidade dos direitos humanos. que dividia o mundo em capitalismo e socialismo. (iii) por ser uma Declaração e não um tratado. A Carta das Nações Unidas consolidou o Direito Internacional dos Direitos Humanos e fez surgir uma nova ordem internacional que. embora estabeleça a necessidade de proteção e promoção dos “direitos humanos e liberdades fundamentais”.12. tem força vinculante. com os principais objetivos: (i) manutenção da paz e da segurança internacionais. sendo a DUDH uma declaração e não um tratado. em 1948. Dessa forma. por consenso dos Estados. com base no princípio da dignidade da pessoa humana. iniciado em 1949 mas só concluído em 1966. uma vez que. Flávia. sociais e culturais são programáticos e. não comportando força vinculante – visão estritamente legalista. bem como da prevalência da posição ocidental. Os principais precedentes do processo de internacionalização dos direitos humanos são o Direito Humanitário.1976 (PIDESC) e 23. sustentava que as duas categorias de direitos 38 PIOVESAN. estabelece. foi criada a Organização das Nações Unidas. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. A DUDH é um marco no Direito Internacional dos Direitos Humanos. que. Contudo.

Amplitude Sistemática de monitoramento Sistemática de implementação Protocolos O sistema global é composto por mecanismos convencionais e mecanismos nãoconvencionais de proteção dos direitos humanos. comunicações interestatais40 (ambos dispostos no próprio Pacto) e petições individuais (Protocolo Facultativo)41. Ainda. Devem ser realizados progressivamente. faz-se necessário o cumprimento dos requisitos de admissibilidade: prévio esgotamento dos recursos internos (salvo por demora injustificada. Sociais e Culturais (criado pelo Conselho Econômico e Social). que o Direito Internacional dos Direitos Humanos é suplementar e paralelo ao direito nacional. 40 O Comitê só poderá apreciar a comunicação interestatal caso os dois Estados envolvidos tiverem feito uma declaração em separado. não se restringe à Carta Internacional. que tenha sido criado pelo PIDESC. o quadro. a discriminação racial (Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial). pela vítima. juntamente com os dois Pactos. abaixo. por oportuno. por sua vez. Não tem um Comitê próprio. Embora haja inúmeros tratados de direitos humanos. Relatórios. como a tortura (Convenção Internacional contra a Tortura). que inaugura o sistema global de proteção dos direitos humanos. o Estado deve ter ratificado tanto o PIDCP quanto o Protocolo Facultativo. mas também ong e terceiros podem representá-lo e. São auto-aplicáveis. inexistência do devido processo legal ou impossibilidade de acesso. O Comitê de Direitos Humanos concluiu que não apenas o indivíduo que sofreu a violação. ou seja. Segundo Protocolo: estabelece a abolição da pena de morte. assim. PIDESC Compreende um rol de direitos mais extensos do que o da DUDH. (ii) proferir uma decisão em relação à petição individual que apenas declare que a violação resta caracterizada ou que determine que o Estado repare a violação cometida. Quanto à abrangência e sistemáticas de implementação e monitoramento de ambos os Pactos Internacionais. formam a Carta Internacional dos Direitos Humanos ou International Bill of Rights. pois prevê apenas o mecanismo dos relatórios.direitos humanos não poderiam estar em um só pacto. para fins exemplificativos. Há também o sistema de indicadores. aos recursos internos) e inexistência de litispendência no plano internacional. (iii) requerer dos Estados informações sobre determinada situação. O sistema global. tendo em vista que o acesso a este mecanismo é opcional. É peculiar. O projeto do protocolo adicional que prevê a petição individual está em fase de elaboração. Comitê de Direitos Humanos (criado pelo Pacto) – sua decisão não tem força vinculante e não há sanção efetiva para o Estado que não a cumpre. Dentre as funções do Comitê de Direitos Humanos. sendo uma garantia adicional à proteção dos direitos humanos sempre que os instrumentos nacionais sejam omissos. Protocolo Facultativo: estabelece o mecanismo de petições individuais. uma vez que é também composto por diversos tratados multilaterais de direitos humanos referentes as violações específicas de direitos. demonstra um breve resumo: PIDCP Compreende um rol de direitos mais extensos do que o da DUDH. o quadro. sendo os respectivos Comitês análogos ao Comitê de Direitos Humanos criado pelo Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. destaquem-se: (i) receber petições individuais. apenas no plano político: power of embarrassment. a discriminação contra as mulheres (Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher). 41 Para que um indivíduo possa encaminhar uma petição individual. a seguir. para que uma petição individual seja interposta. A Declaração Universal. Os mecanismos convencionais são aqueles criados por convenções específicas de direitos humanos. faz referência a apenas quatro convenções específicas e seus mecanismos convencionais: FGV DIREITO rio 45 . comunicações interestatais e relatórios. e que os procedimentos internacionais têm natureza subsidiária. Ressalte-se. estabelecido pela Declaração de Viena de 1993. encaminhar comunicações. Comitê sobre Direitos Econômicos.

um artigo da ONU referente à Resolução 60/251.org/News/Press/ docs/2005/ga10449. mecanismo não-convencional criado pela Assembléia Geral. só entrou em vigor em 03. Sistemática de implementação Relatórios. Contudo. Comitê sobre os Direitos da Criança Somente prevê os relatórios (estabelecido pela Convenção). 44/35. 39/46. de 15. A competência dos Comitês para receber petições individuais está vinculada à declaração feita em separado pelo Estado (no caso da petição individual estar prevista na própria Convenção) ou pela ratificação do Protocolo Facultativo. 10449. Contudo.1990.01. segue. uma vez que possui posição central no sistema não-convencional de proteção.2005) – http:// w w w.htm.1984.org/apps/news/story. 46 A Resolução da Assembléia Geral da ONU ainda não está disponível. de 15. Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n. por conseguinte.1965.un.12. Contudo. Notícia de imprensa da ONU relacionada a tal resolução (da Assembléia Geral da ONU.asp?N ewsID=17811&Cr=rights&Cr1 =council.1969. Acesso em: 20 março 2006. em 26. tendo em vista que em relação ao último. petições individuais e realização de investigações in loco (Protocolo)46 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n. O governo brasileiro ratificou recentemente (12/01/2007) o Protocolo Facultativo à Convenção contra tortura e outros tratamentos ou penas cruéis.06. uma vez que demonstram a diferença entre os mecanismos convencionais de proteção dos direitos humanos e os mecanismos não-convencionais. 43 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n.1981. a seguir. em 18. Esses pontos são relevantes. 47 FGV DIREITO rio 46 . un.2006: http://www. em 10. Quanto ao Brasil.direitos humanos Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial42 Sistemática de monitoramento Comitê sobre a Eliminação de Discriminação Racial Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher43 Comitê sobre a Eliminação de Discriminação contra as Mulheres Convenção Internacional contra a Tortura44 Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança45 Comitê contra a Tortura Relatórios. a apresentação de denúncias por indivíduos ou grupos de indivíduos aos Comitês não depende da ratificação de convenções específicas nem de declaração relativa a cláusulas facultativas ou de ratificação de protocolo adicional.09. 2106 (XX). comunicações interestatais e petições individuais (estabelecidos pela Convenção) Relatórios (estabelecido pela Convenção). só entrou em vigor em 04. Caráter inovador: o Comitê pode iniciar uma investigação própria caso receba informações de fortes indícios de tortura.11. a denúncia pode versar sobre qualquer direito humano.12. Contudo.03. a competência do Comitê contra a Tortura para apreciar petições individuais. como a Assembléia Geral e o Conselho Econômico e Social. 44 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n.1979. Ainda. por sua vez.03.12. a aula deverá destacar que o mesmo só não reconheceu a competência tanto do Comitê de Direitos Humanos.09. Os mecanismos não-convencionais. reconhecendo. 42 É importante ressaltar que os Comitês têm competência para avaliar comunicações que contenham violação a direito disposto apenas na Convenção que o criou. Acesso em: 20 março 2006. Há 2 Protocolos Facultativos: sobre Conflito Armado e sobre Prostituição Infantil.1989. são aqueles decorrentes de resoluções elaboradas por órgãos das Nações Unidas. 45 A competência do Comitê só foi ampliada para receber petições individuais e realizar investigações in loco com a adoção do Protocolo Facultativo à Convenção em 1999. só entrou em vigor em 02. comunicações interestatais e petições individuais (estabelecidos pela Convenção).1987. Dessa forma.doc. desumanos ou degradantes. n. 34/180. só entrou em vigor em 26. em 20. Focar-se-á no Conselho de Direitos Humanos (CDH).

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O CDH foi criado em 15 de março de 2006, tendo substituído a Comissão de Direitos Humanos efetivamente a partir de 16 de junho de 2006, data de sua abolição47. A resolução foi aprovada por 170 votos a favor e 4 contra – EUA, Israel, Ilhas Marshall e Palau48. Dentre os avanços trazidos com o estabelecimento do Conselho de Direitos Humanos, destaquem-se: (i) gozo de maior status, já que será um órgão subordinado à Assembléia Geral (enquanto que a Comissão era subordinada ao Conselho Econômico e Social); (ii) um maior número de reuniões ao longo do ano; (iii) constituição por representação geográfica igual; (iv) o direito de votar estará associado com membership. Ressalta-se, ainda, que o Conselho será composto por 47 membros, os quais serão escolhidos por maioria absoluta da Assembléia Geral. O CDH tem as mesmas funções que a extinta Comissão de Direitos Humanos: (i) competência genérica de atuar em quaisquer questões ligadas aos direitos humanos (estabelecida em 1946, no momento de sua criação); e (ii) apreciação de casos específicos de violações de direitos humanos (a partir de 1967). Em relação à apreciação desses casos específicos, o CDH segue dois procedimentos: procedimento 123550 e procedimento 150351 (alterado pela Resolução 2000/3, do Conselho Econômico e Social). O procedimento 1235 autorizou o CDH e a Sub-Comissão para a Promoção e para a Proteção de Direitos Humanos, a examinarem informações relativas às violações sistemáticas de direitos humanos, o que hoje se traduz na realização de um debate público anual e na investigação e análise de casos específicos pelo CDH e pela citada Sub-Comissão. Em se tratando do procedimento 1503, o mesmo foi criado a fim de que fossem examinadas comunicações referentes à violação sistemática de direitos humanos. Com a adoção da Resolução 2000/3, o Grupo de Trabalho sobre Situações é que se tornou o responsável da análise dos casos, elaboração de recomendações, bem como pela decisão de submeter ou não um caso ao CDH. O Grupo de Trabalho sobre Situações, após analisar o caso, poderá enviá-lo ao Conselho de Direitos Humanos, que, por sua vez, poderá adotar uma das seguintes medidas: (i) manter a situação sob análise, requerendo maiores informações do Estado envolvido; (ii) cancelar o estudo da situação sob a Resolução 1503 e iniciar um procedimento público sob a Resolução 1235; (iii) apontar um especialista independente. Destaque-se que ambos os procedimentos possibilitam que o CDH nomeie um Relator Especial com mandato para países específicos. Além dessas funções, o CDH também pode designar relatores temáticos ou grupos de trabalho com o objetivo de examinarem determinadas violações de direitos humanos. Os Grupos de Trabalho, Relatores Especiais e Representantes Especiais desempenham as seguintes atividades: (i) busca e recebimento de informações; (ii) questionar os governos sobre sua legislação e prática doméstica; (iii) envio, aos governos, de alegações sobre casos urgentes a fim de obter um esclarecimento; (iv) aceitar ou recusar o convite feito por determinado país para visitá-lo em virtude da ocorrência de violações referentes ao seu mandato; (vi) realização de visitas; e (vii) relato anual de suas atividades ao Conselho de Direitos Humanos.

48 In ‘historic’ vote, General Assembly creates new UN Human Rights Council. UN News Centre. Disponível em: http://www. un.org/apps/news/stor y. asp?NewsID=17811&Cr=right s&Cr1=council. Acesso em: 20 março 2006.

Criado pela Resolução 1235 do Conselho Econômico e Social, em 6 de junho de 1967.
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Criado pela Resolução 1503 do Conselho Econômico e Social, em 27 de maio de 1970.
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O Brasil já recebeu a visita dos seguintes relatores especiais52,: Sr. Juan Miguel Petit – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a venda de crianças e prostituição infantil e a utilização de crianças na pornografia; Sra. Asma Jahangir – Relatora Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre execuções sumárias, extrajudiciais ou arbitrárias; Sr. Jean Ziegler – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre o direitos à alimentação; Sr. Doudou Diène – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e formas conexas de intolerância; Sr. Nigel Rodley – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a questão de tortura; Sr. Leandro Despouy – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a independência de juízes e de advogados. Diante do exposto, indaga-se: Como se dá a nomeação de um relator especial? Um indivíduo brasileiro pode encaminhar uma comunicação individual ao Comitê de Direitos Humanos? Tendo em vista a consagração da indivisibilidade dos direitos pela Declaração Universal de Direitos Humanos, por que foram elaborados dois Pactos distintos (Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais)? O que significa a consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos para o indivíduo e para o Estado? Qual é a importância da II Conferência Mundial de Direitos Humanos realizada em Viena, em 1993?
MATERIAL DE APOIO Textos:

Leitura obrigatória: PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. São Paulo: Max Limonad, 2002. Capítulo VI. pp. 163-179 (Cap. VI; itens “a”- “c”); pp. 216-224 (Cap. VI; item “k”). Leitura acessória: TRINDADE, Antonio Augusto Cançado. O direito internacional em um mundo em transformação. Rio de Janeiro: Renovar, 2002. p. 627-670. Legislação: Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Segundo Protocolo ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos referente à Abolição da Pena de Morte Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais Carta das Nações Unidas Declaração Universal de Direitos Humanos Declaração e Programa de Ação de Viena

52 Até a presente data, i.e., novembro de 2004.

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Aula 08: Sistemas regionais de proteção dos direitos humanos
NOTA AO ALUNO

A par do sistema global de proteção dos direitos humanos, há três sistemas regionais de proteção dos direitos humanos: o sistema europeu, o sistema interamericano e o sistema africano. Os sistemas regionais complementam o sistema global, tendo em vista que têm o mesmo objetivo: a proteção do indivíduo e o combate às violações dos direitos humanos. Sendo assim, o indivíduo que tiver um direito violado, pode optar pelo sistema que melhor lhe favoreça, já que vigora, no âmbito internacional, o princípio da norma mais favorável à vitima. O sistema europeu tem por fundamento a Convenção Européia sobre Direitos Humanos, de 1950. Em 1961, tal Convenção foi complementada pela Carta Social Européia (tendo em vista que dispunha apenas sobre os direitos civis e políticos) e, em 1983, foi emendada pelo Protocolo n. 11, que trouxe inovações fundamentais ao funcionamento do sistema: (i) reestruturação profunda dos mecanismos de controle da Convenção (substituição dos 3 órgãos de decisão – Comissão, Corte e Comitê de Ministros do Conselho da Europa – por um só órgão: a Corte Européia de Direitos Humanos); (ii) funcionamento de uma única Corte, em tempo integral (a nova Corte Européia de Direitos Humanos passou a operar em 1o de novembro de 1998); (iii) assegura o acesso direto à Corte aos indivíduos, i.e., o indivíduo passa a ter ius postulandi. Dessa forma, constata-se que o sistema europeu é o mais avançado no que diz respeito ao reconhecimento da capacidade processual internacional ativa dos indivíduos, uma vez que é o único sistema regional de proteção dos direitos humanos que permite ao indivíduo postular diretamente à Corte. O sistema africano, por sua vez, tem por principal instrumento a Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos, adotada em 1981 e em vigor a partir de 1986, que prevê tanto os direitos civis e políticos quantos os direitos econômicos, sociais e culturais. A referida Carta tem por objetivo priorizar os direitos dos povos. As disposições da Carta relativas aos direitos dos povos demonstram a tendência moderna à coletivização dos direitos do homem. Nesse contexto, tem-se que a Carta apresenta a singularidade de colocar, no mesmo documento, conceitos considerados antagônicos: indivíduo e povo, direitos individuais e direitos coletivos, direitos sociais, econômicos e culturais e direitos civis e políticos. Quanto aos mecanismos de proteção e promoção dos direitos humanos, a Carta Africana estabelece a Comissão Africana de Direitos Humanos e dos Povos, podendo a mesma ser provocada por um Estado-parte ou por indivíduos. Já o protocolo adotado em Ovagadongou (em 9 de junho de 1998), Burina Faso, que entrou em vigor em 25 de janeiro de 2004 (30 dias após o 15o Estado – número mínimo exigido – tê-lo ratificado53), estabelece a Corte Africana de Direitos Humanos e dos Povos como órgão complementar ao labor da Comissão. Em se tratando do sistema interamericano, o mesmo tem como origem a IX Conferência Interamericana54, oportunidade na qual foram aprovadas a Declaração

Acesso em: 25 jan. 2005. Disponível em: http://www. fidh.org/article.php3?id_article=450.
53 54 Realizada em Bogotá, Colômbia, de 30 de março a 2 de maio de 1948.

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em vigor desde 13 de dezembro de 1948. abaixo. criou-se a Corte Interamericana de Direitos Humanos e a Comissão passou a ser dotada de novas atribuições56. que emendou a Carta da OEA. continua sendo a principal base normativa vis-à-vis dos Estados não-partes da Convenção. Após a adoção da Carta da OEA e da Declaração Americana. respectivamente. Em 1959. a Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem foi a base normativa central do sistema interamericano e.direitos humanos Americana de Direitos e Deveres do Homem e a Carta da Organização dos Estados Americanos (OEA)55. Disponível em: http://www. no período que antecede a adoção da Convenção Americana de Direitos Humanos. foi adotada em conjunto com a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem na IX Conferência Interamericana. aproximadamente seis meses antes da adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral das Nações Unidas. até hoje. Com a adoção da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção Americana) ou Pacto de San José da Costa Rica. Segue.org/juridico/spanish/firmas/b-32.html. durante a 5ª reunião de consultas dos Ministros de Relações Exteriores realizada em Santiago do Chile. a lista dos Estados que a ratificaram57: PAÍSES SIGNATÁRIOS Antigua y Barbuda Argentina Bahamas Barbados Belize Bolívia Brasil Canadá Chile Colômbia Costa Rica Dominica Ecuador El Salvador Estados Unidos Grenada Guatemala Guyana Haiti Honduras Jamaica México Nicarágua Panamá Paraguay FIRMA 02/02/84 06/20/78 11/22/69 11/22/69 11/22/69 11/22/69 11/22/69 06/01/77 07/14/78 11/22/69 11/22/69 09/16/77 11/22/69 11/22/69 11/22/69 RATIFICAÇÃO 08/14/84 11/05/81 06/20/79 07/09/92 08/10/90 05/28/73 03/02/70 06/03/93 12/08/77 06/20/78 07/14/78 04/27/78 09/14/77 09/05/77 07/19/78 03/02/81 09/25/79 05/08/78 08/18/89 A Carta da OEA. com as modificações ocorridas em seu Estatuto. 25 deles ratificaram a Convenção Americana. a Comissão se transformou em um órgão de fiscalização da situação dos direitos humanos nos Estados da OEA. Acesso em: 03 maio 2004. assim. a mesma só se tornou o principal órgão da OEA após a adoção do Protocolo de Buenos Aires em 1967. FGV DIREITO rio 50 . No entanto. foi aprovada a proposta de criação de um órgão destinado à promoção dos direitos humanos (mais tarde denominado Comissão Interamericana de Direitos Humanos) até a adoção de uma Convenção Interamericana de Direitos Humanos. o sistema interamericano foi se desenvolvendo lentamente. Sendo assim. Constata-se.oas. 55 A Comissão e a Corte serão estudadas. que dos 34 Estados-membros da OEA. nas próximas duas aulas. que confirmou ser a promoção dos direitos humanos a função da Comissão. em maio de 1948. 56 57 Informações obtidas no site oficial da Organização dos Estados Americanos (OEA). Em 1960. Em 1965. foi aprovado pelo Conselho da OEA o Estatuto da Comissão. em 1969 (entrou em vigor apenas em 1978). O primeiro passo foi a criação de um órgão especializado na proteção dos direitos humanos no âmbito da OEA.

2 a 4. Sociais e Culturais (ou Protocolo de San Salvador) em 1988 (entrou em vigor em 1999). quatro convenções interamericanas “setoriais” mais recentes: (a) Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura (1985). ela restringe ao artigo 26 a consagração dos direitos econômicos. Nesse sentido. da Corte Africana e da Corte Européia de Direitos Humanos? Qual é a importância. No entanto. também. foi elaborado o Protocolo Adicional à Convenção Americana em matéria de Direitos Econômicos. que se limita a prever o “desenvolvimento progressivo” dos mesmos. (c) Convenção Interamericana para Prevenir. (b) Convenção Interamericana sobre Desaparecimento Forçado (1994). e (d) Convenção Interamericana sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Pessoas Portadoras de Deficiências (1999). para o sistema interamericano. ao estabelecer que os Estados-partes não podem aplicar em seu território a pena de morte a nenhuma pessoa sujeita a sua jurisdição. Cabe salientar ainda que o sistema interamericano de direitos humanos contemporâneo não se limita à Convenção Americana e aos dois protocolos. Há. não admitindo. Este Protocolo. O segundo Protocolo Adicional à Convenção Americana é relativo à abolição da pena de morte (1990). a Convenção Americana reconhece um catálogo de direitos civis e políticos. deu novo ímpeto à tendência a favor da abolição da pena de morte. Dessa forma. portanto. Em relação ao sistema global. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (1994). a fim de suprir a lacuna do artigo 26. indaga-se: Qual é o diferencial do disposto na Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos? Por que o sistema europeu é considerado o mais avançado? Qual é a diferença entre o papel da Corte Interamericana. dos instrumentos de proteção dos direitos humanos? FGV DIREITO rio 51 . da incorporação. sociais e culturais. verifica-se a complementaridade entre o mesmo e o sistema interamericano.6 da Convenção Americana. pelos Estados. pergunta-se: por que ambos os sistemas são complementares? Qual o fundamento de haver um sistema interamericano de proteção dos direitos humanos quando já há um sistema de abrangência global? Em relação aos sistemas regionais. Vicente & Grenadines Suriname Trinidad & Tobago Uruguay Venezuela 07/27/77 09/07/77 11/22/69 11/22/69 07/12/78 01/21/78 11/12/87 04/03/91 03/26/85 06/23/77 À semelhança do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. reservas (salvo em tempo de guerra).direitos humanos Peru República Dominicana San Kitts y Nevis Santa Lucía St. dando um passo adiante no que concerne o disposto no artigo 4.

Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. 72-84. Antonio Augusto. 50-59. Direitos humanos e justiça internacional. Flávia. Capítulo IV. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher Convenção Interamericana sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Pessoas Portadoras de Deficiências (1999) FGV DIREITO rio 52 . Flávio Luiz. PIOVESAN. Flávia. 103-151. O sistema interamericano de direitos humanos no limiar do novo século: recomendações para o fortalecimento de seu mecanismo de proteção. In: GOMES. 2000. São Paulo: Editora dos Tribunais. São Paulo: Saraiva. O sistema interamericano de proteção dos direitos humanos e o direito brasileiro. 2006. Legislação: Convenção Européia sobre Direitos Humanos e Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem e Convenção Americana sobre Direitos Humanos Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura Convenção Interamericana sobre Desaparecimento Forçado Convenção Interamericana para Prevenir. pp.direitos humanos MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. p.

direitos humanos

Aula 09: Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos
NOTA AO ALUNO

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão) originou-se da Resolução VIII da V Reunião de Consulta dos Ministros de Relações Exteriores (Santiago, 1959). Em 1960, foi aprovado pelo Conselho da OEA o Estatuto da Comissão, que confirmou ser a promoção dos direitos humanos a função da Comissão. Em 1965, com as modificações ocorridas em seu Estatuto, a Comissão se transformou em órgão de fiscalização da situação dos direitos humanos nos Estados da OEA. No entanto, a mesma só se tornou o principal órgão da OEA após a adoção do Protocolo de Buenos Aires em 1967, que emendou a Carta da OEA. A Comissão é composta por sete membros eleitos pela Assembléia Geral por um período de 4 anos, podendo ser reeleitos apenas uma vez. Em relação às suas funções, são elas: conciliadora; assessora; crítica; legitimadora; promotora; protetora. Com a adoção da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção) ou Pacto de San José da Costa Rica, em 1969 (entrou em vigor apenas em 1978), a Comissão passou a ser dotada de novas atribuições. Isto significa que, a partir da adoção da Convenção, a Comissão passou a ser tanto o principal órgão da OEA quanto órgão do referido instrumento. Dessa forma, todos os Estados da OEA têm o dever de proteger e promover os direitos humanos, seja por meio do disposto na Carta da OEA e na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (para os Estados-membros da OEA), seja por meio do estabelecido na Convenção (para os Estados-partes). Sendo assim, verifica-se a coexistência de dois sistemas em relação à Comissão: o sistema da OEA e o sistema da Convenção. No entanto, por se tratar de aula referente ao sistema interamericano, focaremos o estudo da Comissão no sistema da Convenção. A Comissão tem competência para examinar comunicações encaminhadas por indivíduo, grupo de indivíduos ou organizações não governamentais, que contenham denúncia de violação a direito consagrado na Convenção, cometida por algum Estado-parte. Isto porque os Estados, ao se tornarem parte da Convenção, aceitam automática e obrigatoriamente a competência da Comissão para apreciar denúncias contra eles. Dessa forma, a comunicação individual é obrigatória e a comunicação interestatal58 é facultativa no sistema interamericano, ao passo que no sistema europeu ocorre o oposto. Em relação ao procedimento da petição perante a Comissão, verificam-se quatro fases: (a) fase da admissibilidade; (b) fase da conciliação; (c) fase do Primeiro Informe; e (d) fase do Segundo Informe ou a propositura de uma ação de responsabilidade internacional perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Dessa forma, pode-se sintetizar a apreciação de uma denúncia pela Comissão da seguinte forma:

58 Em outras palavras, a Comissão só poderá analisar a comunicação interestatal (um Estado denuncia o outro por violação a algum direito humano) quando ambos os Estados, além de terem ratificado a Convenção, declararem expressamente que reconhecem a competência interestatal da Comissão.

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Recebe denúncia  aprecia sua admissibilidade (i.e., se os seguintes requisitos foram observados: prazo, prévio esgotamento de recursos internos e a inexistência de litispendência internacional)  considera-a admissíve  requer informações ao Governo e à parte  tenta uma solução amistosa  não ocorrendo, a Comissão envia o 1º informe ao Governo, dando-lhe um prazo de 3 meses para cumprir as exigências  Estado não cumpriu  Comissão envia o caso à Corte ou elabora o 2º informe. Ainda, cabe mencionar que a Comissão pode iniciar um caso de oficio (art. 24, Regulamento Comissão), se possuir informações necessárias. Saliente-se, também, a função preventiva exercida pela Comissão. Em decorrência de suas recomendações de caráter geral dirigidas a determinados Estados, ou formuladas em seus relatórios anuais, foram derrogados ou modificados leis, decretos e outros dispositivos que afetam negativamente a vigência dos direitos humanos. Ainda, a função preventiva da Comissão pode ser observada na elaboração de medidas cautelares e, inclusive, ao solicitar à Corte que adote medidas provisórias. Por fim, destaque-se que a par do sistema de petições ou comunicações, dois sistemas também têm um papel fundamental na proteção e promoção dos direitos humanos: (a) o sistema de investigações (observações in loco); (b) o sistema dos relatórios, o que inclui tanto o relatório com recomendações gerais enviado a determinado Estado, quanto os relatórios periódicos apresentados à Assembléia Geral da OEA, que contém, muitas vezes, considerações de caráter doutrinário. A Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte), órgão jurisdicional da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção), realizou suas primeiras reuniões na sede da OEA em Washington, em 29 e 30 de junho de 1979, e instalou-se em sua sede permanente em São José da Costa Rica em 3 de setembro de 1979. Esta instituição judiciária é composta por sete juízes nacionais de Estadosmembros da OEA, escolhidos por título pessoal, e tem por objetivo a aplicação e interpretação da Convenção. Até novembro de 2006, dos 35 Estados-membros da OEA, 24 Estados haviam ratificado a Convenção Americana59, e, dentre estes, 21 reconheceram a competência contenciosa da Corte60. Até julho de 2005, a Corte já havia proferido 127 sentenças, sendo que destas 57 são sentenças de mérito (ou seja, avaliam se evetivamente houve violação)61. A Corte tem duas competências: consultiva e contenciosa. Em relação à competência consultiva, qualquer membro da OEA pode solicitar o parecer da Corte relativo à interpretação da Convenção ou de qualquer outro tratado referente à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos. Ainda, a Corte pode opinar sobre a compatibilidade de preceitos de legislação interna em face dos instrumentos internacionais. Até julho de 2005, a Corte havia emitido 18 pareceres62. Em se tratando de sua competência contenciosa, apenas a Comissão e os Estados-partes (que expressamente reconhecerem a jurisdição da Corte) podem submeter um caso a Corte. Isto significa que o indivíduo depende da Comissão para que seu caso seja apreciado pela Corte, uma vez que ela é a dominus litis absoluto.

Argentina, Barbados, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Dominica, Equador, El Salvador, Granada, Guatemala, Haiti, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai, e Venezuela. Ressalte-se que Trinidad e Tobago denunciou a Convenção em 26 de maio de 1998.
59

Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai, e Venezuela.
60

PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e justiça internacional. São Paulo: Saraiva, 2006. p. 105.
61 62

Ibid., p. 100.

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Ao longo de sua história, a Corte já possuiu outros três regulamentos (1980, 1991, 1996), estando hoje em vigor o Regulamento de 2000 (a partir de 1 de junho de 2001). As inovações consagradas neste diploma são definidas pelo juiz Cançado Trindade como “o grande salto qualitativo” por considerar a proteção jurisdicional aos direitos humanos a forma mais efetiva de salvaguarda dos direitos humanos. Ao assegurar em seu artigo 23 que “depois de admitida a demanda, as presumidas vítimas, seus familiares ou seus representantes devidamente creditados poderão apresentar suas solicitações, argumentos e provas em forma autônoma durante todo o processo”, a Corte outorgou ao indivíduo o locus standi in judicio. Resta claro que as verdadeiras partes no caso contencioso perante a Corte são os indivíduos demandantes e o Estado demandado, e processualmente, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos como o titular da ação. O processamento do Estado perante a Corte se dá através de seis fases: (a) fase da propositura e exceção preliminar; (b) fase da conciliação; (c) fase probatória; (d) fase decisória; (e) fase das reparações; e (f ) fase de execução da sentença.
FASES TÓPICOS E CASOS - Apenas a Comissão e os Estados-partes da Convenção podem submeter um caso à Corte (art. 61, Convenção). - Citação do Estado. - Prazo para o Estado apresentar exceções preliminares, bem como seu exame pelo presidente da Corte. - Faculdade da Corte para convocar audiência. - Possibilidade do demandante desistir da ação. Se a desistência se der antes da citação, ela será aceita obrigatoriamente. Se ocorrer após a citação, a Corte ouvirá as partes. - Corte arquiva o processo ou continua (passa-se à 2ª fase). - As partes podem fazer um acordo. No entanto, cabe a Corte homologá-lo. - Citar o caso Maqueda (exemplo de acordo homologado pela Corte)63. - A propositura de solução amistosa é uma faculdade da Corte. - Prazo para a contestação. - As provas têm que estar elencadas na petição inicial ou contestação, salvo nas hipóteses previstas no art. 43, do Regulamento da Corte. - Corte pode produzir prova ex officio (art. 44, Regulamento Corte). - Os Estados não podem processar as testemunhas e peritos por suas declarações (art. 50, Regulamento Corte). - A sentença tem força jurídica vinculante e obrigatória. - Exposição dos votos dissidentes e concorrentes. - Não é obrigatória. Ocorrerá apenas quando a sentença de mérito não tratar das reparações (citar o caso Gangaram Panday64). - Excepcionalmente, admite-se aqui a participação do indivíduo de forma autônoma (art. 23, Regulamento Corte65). - Trata-se de uma nova etapa do processo: as partes serão intimadas novamente. - Possibilidade de uma nova conciliação entre as partes. - Há uma variedade de reparações que podem ser fixadas, dentre elas: reconhecimento da responsabilidade, indenização por danos material e moral, obrigação de investigar e punir os agentes responsáveis pelas violações, obrigações de fazer (ex: construir posto médico e escolar – caso Aloeboetoe66),.
63 A Comissão e o governo argentino acordaram pela libertação de Guilhermo Maqueda. Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Maqueda, Resolução de 17 de janeiro de 1995, Série C n. 18, § 27. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/ serie_c/index.html. RAMOS, André de Carvalho. Direitos humanos em juízo. São Paulo: Max Limonad, 2001. Capítulo IV. p. 220-225.

1. Fase da propositura e exceção preliminar

2. Fase da conciliação

3. Fase probatória

4. Fase decisória

Corte condenou o Suriname a pagar determinada quantia aos herdeiros da vítima, como forma de indenização pecuniária aos danos causados. Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Gangaram Panday, Sentença de 21 de janeiro de 1994, Série C n. 16, item 4 do dispositivo da sentença. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/ serie_c/index.html. André de Carvalho Ramos. op. cit.,. p. 168-179.
64 65 Trata-se de uma inovação trazida pelo novo Regulamento da Corte, em vigor a partir de 1º de junho de 2001. Regulamento aprovado pela Corte no seu XLIX período ordinário de sessões, celebrado do dia 16 a 25 de novembro de 2000.

5. Fase das reparações

Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Aloeboetoe e outros, Sentença de 10 de setembro de 1993 (reparações), Série C n. 15, § 20. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/serie_c/index.html. RAMOS, A. op. cit., p. 162-168.
66

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68. Em junho de 2002. Convenção). reconhecendo a jurisdicionalização das violações de direitos humanos que engendram sua responsabilidade internacional. seu dever de cuidar e de prevenir a vulneração da vida e da integridade pessoal. FGV DIREITO rio 56 . .2. bem como seu dever de regulamentar e fiscalizar o atendimento médico de saúde”68. há de se concluir que a adesão do Estado brasileiro ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos. . a importante dimensão preventiva da proteção internacional dos direitos humanos. Tais medidas têm sido ordenadas em casos de extrema gravidade ou urgência. indaga-se: • • • O procedimento perante a Comissão pode ser renunciado pelo Estado? Qual é a posição da Corte a respeito? Os requisitos que devem ser observados para que uma petição seja admitida pela Comissão comportam exceções? Quais? Quais são os casos em que a Comissão pode adotar medidas cautelares ou requerer que a Corte adote medidas provisórias? Já houve algum caso em que a Corte requereu ao Brasil que adotasse medidas provisórias? Caso positivo. a pedido desta última (art. na cidade de Porto Velho. o Estado as cumpriu? Quais foram as conseqüências? 67 Informações atualizadas em 25 de outubro de 2006.2. de modo a evitar danos irreparáveis à vida e integridade pessoal de indivíduos. em especial com a aceitação da jurisdição da Corte. neste caso. no caso do Damião Ximenes. julho de 2004 e setembro de 2005) também foram publicadas com o mesmo propósito. mas pendentes ante a Comissão.Caso o Estado não cumpra a sentença. abril de 2004.cr/. 63. As medidas provisórias revelam. Convenção). 65. Fase de execução da sentença .1. A Corte as ordena com base em uma presunção razoável.67 A Corte deixou claro que o Brasil “tem responsabilidade internacional por descumprir. A primeira sentença da Corte em face do Estado brasileiro foi editada em agosto de 2006.direitos humanos 6. Estado de Rondônia. . 68 Para ler a sentença na íntegra. a Corte determinou que o Estado brasileiro proteja a vida e integridade pessoal dos presos da Casa de Detenção “Urso Branco”. tanto pendentes ante ela como ainda não submetidos a ela.corteidh.Estado não pode alegar impedimento de direito interno como forma de se eximir do cumprimento da pena. É importante ressaltar que o Estado brasileiro aceitou a jurisdição da Corte em 10 de dezembro de 1998. Convenção). garantiu aos indivíduos uma importante e eficaz esfera complementar de garantia aos direitos humanos sempre que as instituições nacionais se mostrem omissas ou falhas. Constam ainda dos procedimentos perante a Corte: dois casos de fundo (Damião Ximenes e Gilson Nogueira) e outra medida provisória (Adolescentes Internos da FEBEM). assim. cabe a Corte indicar o caso em seu relatório à Assembléia Geral da ONU (art.O Estado se compromete a cumprir integralmente a pena (art. Quatro outras resoluções (agosto de 2002. Por fim. Nos últimos anos. 68.A indenização se dará pelo processo interno vigente (art. a Corte tem ordenado medidas provisórias de proteção em um número crescente de casos. acesse o site da Corte Interamericana de Direitos Humanos: http://www.or. Convenção). Diante do exposto.

direitos humanos • • Quantos casos contra o Brasil tramitam perante a Comissão? Qual é a natureza de ambos os informes da Comissão? Tendo em vista a inexistência de qualquer sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos em desfavor do Estado brasileiro. Antônio Augusto. p. Flávia. 118-145. caso Aloeboetoe. p. p. caso Gangaram Panday. caso Maqueda. 220-225. São Paulo: Saraiva. p. Responsabilidade internacional do Estado e decisões do Sistema Interamericano em 2003. 261-268. CEJIL Brasil. Capítulo VII. Capítulo V. Flávia. 85-98. p. 2006. 341-349. 491-515. caso El Amparo. São Paulo: Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. 63-99. 225-232. In: Direitos Humanos no Brasil 2003. 1997. p. 168-179. p. 2006. cabem as seguintes indagações: • • • Há distinção entre sentença estrangeira e internacional? Deverão as sentenças ser examinadas pelo Supremo Tribunal Federal pela concessão do exequatur? Poderão os indivíduos demandantes executar perante a Justiça Federal? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. 162-168. Capítulo IV: caso Velásquez Rodriguez. RAMOS. 2003. O esgotamento de recursos internos no direito internacional. Capítulo III. Direitos humanos em juízo. São Paulo: Max Limonad. Brasília: Editora Unb. Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. pp. Legislação: Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem Convenção Americana sobre Direitos Humanos Carta da OEA Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Estatuto da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos Estatuto da Corte Interamericana de Direitos Humanos FGV DIREITO rio 57 . 2001. 98-118. p. pp. Direitos humanos e justiça internacional. André de Carvalho. São Paulo: Saraiva. PIOVESAN. Direitos humanos e justiça internacional. p.

localizada a 15km do local dos eventos. prontamente. bem como violação aos artigos 5. lhes ofereceu proteção. Em virtude da presença de grande quantidade de pessoas diante da delegacia. refugiaram-se na fazenda “Buena Vista”. a Comissão instaurou o caso n. 16 pescadores do povoado “El Amparo” dirigiamse ao Canal “La Colorada” para participar de um campeonato de pesca. foi impossível retirar os sobreviventes à força dali. Foi alegada violação aos seguintes artigos da Convenção Americana de Direitos Humanos: 2 (dever de adotar disposições de direito interno).direitos humanos Aula 10: Sistema Interamericano de Direitos Humanos: Estudo de Caso NOTA AO ALUNO 1.602. que realizavam uma operação militar. Tovar. membros do exército e da polícia do CEJAP (Comando Específico José Antonio Páez). Os dois sobreviventes conseguiram escapar a nado e. 10. todos eles em concordância com o artigo 1. No dia seguinte. Na tarde do dia 29. que. DO CASO O caso “El Amparo” foi submetido à Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte) pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) em face do Estado da Venezula no dia 14 de janeiro de 1994. familiares. 5 (direito à integridade pessoal). se entregaram ao Comandante da Polícia de “El Amparo”. em um primeiro momento. No entanto. abordaram Tovar a fim de saber o paradeiro de seus entes que haviam ido pescar no dia 29 e até agora não tinham retornado. 8. 4 (direito à vida). Às 11:20 o barco parou e quando os pescadores desembarcavam. Tovar começou a sofrer pressões por parte de policiais e militares para entregar os sobreviventes ao Exército.1 (garantias judiciais).1. além de indenizar os familiares das vítimas. o Inspetor chefe do DISIP (Direção dos Serviços de Inteligência e Prevenção) visitou Tovar e lhe informou que havia matado 14 guerrilheiros. Breve descrição dos fatos Em 29 de outubro de 1988. Em 10 de agosto de 1990. conforme o artigo 50 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção). que tramitou até o dia 12 de outubro de 1992. 24 (igualdade perante a lei) e 25 (proteção judicial). levando em consideração o divulgado pela mídia (haveria ocorrido um confronto armado com combatentes colombianos). 8. FGV DIREITO rio 58 . Logo após. 29/93. mataram 14 dos 16 pescadores. o Informe n. data na qual adotou. 24 e 25 em relação aos dois pescadores que conseguiram fugir.1 (obrigação de respeitar os direitos) pela morte de 14 dos 16 pescadores. recomendando ao Estado venezuelano que punisse os autores do crime de homicídio praticado contra as vítimas de ‘El Amparo’.

ainda. 24 (igualdade perante a lei) e 25 (proteção judicial).1 (garantias judiciais).1 (obrigação de respeitar os direitos). argumenta o juiz Antônio Augusto Cançado Trindade que. 3) declara.1. Isoladamente. 2 (dever de adotar disposições de direito interno). incisos 2 e 3. 24 e 25 em relação aos dois sobreviventes. 4 (direito à vida). dentre outras medidas: 1) fixa o valor da indenização aos familiares das vítimas às vítimas sobreviventes. 5 (direito à integridade pessoal). sendo reservado àquele tribunal a faculdade de aprova-lo. a Comissão solicitou que fosse declarada a incompatibilidade do art. em sentença de 18 de janeiro de 1995. 8. a Corte. Reiterou-se assim o posicionamento na Opinião Consultiva nº 14. 2) decide que o Estado está obrigado a reparar os danos e pagar uma justa indenização às vítimas sobrevivente e aos familiares dos falecidos. Por outro lado. Na sentença de reparações de 14 de setembro de 1996. pelo Estado venezuelano. não sendo necessário o aguardo da ocorrência de um dano. Requereu. que não procedem as reparações não-pecuniárias nem pronunciamento sobre a conformidade do Código de Justiça Militar e a Convenção. Por fim. e violação aos arts. a própria existência de um dispositivo legal pode per se criar uma situação que afeta diretamente os direitos protegidos pela Convenção. do referido Informe. FGV DIREITO rio 59 . Breve descrição dos passos processuais Em um breve resumo. em 14 de janeiro de 1994. Essa ação judicial foi possível tendo em vista que a Venezuela ratificou a Convenção em 9 de agosto de 1977 e reconheceu a competência da Corte em 24 de julho de 1981. 8. na qual assevera que tal exame somente seria possível no exercício de sua competência consultiva. 2) decide que o Estado venezuelano está obrigado a continuar as investigações acerca dos fatos a que se refere e a sancionar os responsáveis. 5. a Comissão propôs. tal dispositivo não fora aplicado. uma ação de responsabilidade internacional contra o referido estado perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte). o Juiz Antônio Augusto Cançado Trindade expressa seu entendimento de que a Corte deveria ter esclarecido que tem a faculdade de decidir acerca da incompatibilidade entre os artigos do Código de Justiça Militar e a Convenção. Em resumo. in casu. 54. pela morte dos 14 pescadores. em votação não unânime. a Corte não acatou o pedido da Comissão Interamericana de Direitos Humanos sob o argumento de que.direitos humanos Em virtude falta do cumprimento. em voto dissidente. todos eles em concordância com o artigo 1. alegando o seguinte: violação aos arts. que o estado indenizasse os familiares das vítimas. a Corte: 1) tomou nota do reconhecimento de responsabilidade efetuado pelo Estado venezuelano. do Código de Justiça Militar com o objeto da Convenção. 3) afirma que as reparações serão alvo de acordo entre a CIDH e o Estado.

5.or. “El nuevo reglamento de la Corte Interamericana de Derechos Humanos (2000): la emancipación del ser humano como sujeto del derecho internacinal de los derechos humanos” in Revista Proteção Internacional da Pessoa Humana.corteidh. Vol. Venezuela. e Voto dissidente do Juiz Antônio Augusto Cançado Trindade. São Paulo: Max Limonad. Direitos humanos em juízo. 6. DOS ARGUMENTOS Tendo por base as decisões do caso em tela. RAMOS. Disponível em: http://www. p. devendo estes ser divididos em cinco grupos. Familiares das Vítimas. I. 3. 2001.cr/seriec/ index_c. Corte Interamericana de Direitos Humanos. FGV DIREITO rio 60 . os quais assumirão os seguintes posicionamentos: a) b) c) d) e) Comissão Interamericana de Direitos Humanos. 2. André de Carvalho. Universitas –Centro Universitário de Brasília – UniCEUB. Antônio Augusto. 4. Indenização em geral e danos materiais Danos morais Efetuação do pagamento Reparações não pecuniárias Compatibilidade do Código de Justiça Militar com a Convenção Americana Dever de investigar e punir os responsáveis MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: Caso El Amparo Vs. cada grupo deverá construir argumentos acerca dos seguintes pontos: 1.direitos humanos 2. 09 – 40.html Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. No 2. 3. Estado da Venezuela. DOS POSICIONAMENTOS PROPOSTOS Dez alunos poderão participar da atividade.

direitos humanos Legislação: Convenção Americana sobre Direitos Humanos Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos FGV DIREITO rio 61 .

e sim intensificam sua complementaridade. crianças e idosos. tais particularidades não afastam. São conflitos que atingem milhares de pessoas no mesmo momento em que você está lendo esse texto. alimentos. tratados Dia 09 de novembro de 2004 Comunicado melha de imprensa nº 04/62 do Comitê Internacional da Cruz Ver- Fallujah/Iraque (CICV) – O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) lembra a todos os envolvidos nos enfrentamentos armados em curso no Iraque que o Direito Internacional Humanitário proíbe agredir ou matar aos civis que não tomem parte diretamente das hostilidades. Doentes e feridos. o Direito Internacional Humanitário (DIH). As notícias expostas nas seguintes notas não nos contam ocorrências escondidas em algum capítulo da História. A realidade do mundo contemporâneo refletida em temas como guerra contra o terrorismo. http://www. conflitos armados.nsf/html/66LLHJ!OpenDocument FGV DIREITO rio 62 . Iraque: civis devem ser poupados. Todavia. incluindo mulheres. deslocados. refugiados. fugiram de Fallujah buscando refúgio nos arredores da cidade. o Direito Internacional dos Refugiados (DIR) e o Direito Internacional dos Direitos Humanos (DIDH) apresentam aplicabilidades e mecanismos de supervisões diferenciados. O CICV permanece comprometido em realizar seu trabalho humanitário no Iraque e insta todas as partes a facilitarem a passagem de suas equipes de ajuda humanitária que levam assistência de maneira neutra aos civis afetados pelo conflito. e o pessoal médico e seus veículos devem poder operar sem entraves em quaisquer circunstâncias. conduz à inafastabilidade do estudo do DIH e do DIR.direitos humanos Aula 11: Direito Internacional Humanitário e Direito Internacional dos Refugiados NOTA AO ALUNO Nascidos em períodos históricos diversos. O CICV está profundamente preocupado com relatos de que os feridos não estão podendo receber atenção médica adequada.cicr. A organização insta os beligerantes a assegurar que todos os que precisem de cuidados – sejam ou não inimigos – devem ter acesso ao atendimento médico. abrigo e assistência médica.org/Web/por/sitepor0. Muitos destes deslocados internos precisam de água. e respeitando o princípio de distinção e proporcionalidade nas operações militares. A organização faz um chamamento às partes para que tomem toda precaução possível poupando os civis e as propriedades civis. uma vez que tais vertentes possuem um elemento em comum: a proteção da pessoa humana. Eles devem ter garantido o direito de retornar a suas casas o mais cedo possível. entre tantos outros. Milhares de civis iraquianos.

disse Kellenberger. Com um orçamento de US$ 112 milhões.direitos humanos Sudão: presidente do CICV reforça importância do respeito ao Direito Internacional Humanitário Dia 30 de novembro de 2004 Comunicado melha de imprensa nº 04/71 do Comitê Internacional da Cruz Ver- Cartum/Genebra (CICV) – O presidente do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) Jakob Kellenberger terminou hoje uma visita de três dias às cidades de El Fasher. em todas as ocasiões.org/web/por/sitepor0. As operações do CICV são realizadas em cooperação com o Crescente Vermelho Sudanês e outras Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. o Sudão será. Frente às graves violações do Direito Internacional Humanitário cometidas sob responsabilidade do governo. em março de 2004. velando prioritariamente pelo conhecimento e respeito aos princípios básicos do Direito Internacional Humanitário. além de artigos de primeira necessidade e socorro médico. Do Sudão. onde participa da Cúpula de Nairóbi para Um Mundo Livre de Minas http://www. Kellenberger reconheceu que o acesso às vítimas do conflito armado no Darfur melhorou sensivelmente desde de sua última visita à região. fornecendo água e alimentos. na região do Darfur. o presidente do CICV irá ao Quênia. Kellenberger formulou uma série de recomendações destinadas a melhorar a proteção da população civil. Além de fazer conhecer o Direito Internacional Humanitário e de assegurar o respeito por estas normas. que este retorno deve ser absolutamente voluntário e que as condições de segurança para os civis devem ser consideravelmente reforçadas nestas áreas. Por outro lado ele destacou. de ambos os lados do conflito. o maior teatro de operações do CICV em todo o mundo.cicr.nsf/iwpList4 747E1213A0B72DE90325 6F5F005B3500 FGV DIREITO rio 63 . Kellenberger deixou claro que o CICV seguirá de perto a implementação das recomendações apresentadas. e em toda a cadeia de comando das forças governamentais. Neste caso. em 2005. Kutum e Zalingei. em terreno. “Penso que o CICV optou por uma boa solução quando decidiu concentrar suas operações de socorro nas regiões rurais com a intenção de evitar novos deslocamentos de populações e facilitar o retorno dos que partiram”. na África. O presidente do CICV encontrou-se com diversas autoridades do governo sudanês. o CICV presta assistência a meio milhão de pessoas em todo o Sudão. fronteira entre o Chade e o Sudão. O governo deve também tomar as providências para acabar com a impunidade dos culpados por violações.

mas que ainda não conseguiram o direito de viver em território nacional. diz. Voltar para casa. por um período médio de seis meses. a pessoa passa a gozar de total liberdade dentro do território nacional. “Eles sabem que não serão deportados. é preciso provar que se corre risco de vida no país de origem. vivem com medo”. São mulheres e. Outros vagam anos a pé até conseguir embarcar em aviões. seria o mesmo que morrer.2 mil dos 1. Com o mesmo perfil. como conta neste especial o africano da Costa do Marfim Edmond Kouadio. Recebe cédula de identidade de estrangeiro. em meio a lembranças de dor e sofrimento. tem direito a um salário mínimo e medicamentos. que trabalha no Sesc Carmo. e que desde 1997 tem uma lei nacional específica na qual se compromete a receber. ideológicas e religiosas. Só se cometerem uma infração grave. Com a ratificação. Aqui. que atravessou quase todo o continente africano fugindo de massacres e guerras civis. Mesmo assim. homens com idade entre 20 e 25 anos. conta que a maioria dos que não conseguem obter o status permanece no Brasil assim mesmo. Segundo o representante no Brasil do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). cerca de 35% das pessoas que entram com processo para pedir o reconhecimento como refugiado têm essa condição validada. perseguições políticas. e no Brasil A primeira barreira que o refugiado enfrenta é a viagem de fuga. O processo. fugiram de seus países de origem e realizaram verdadeiras façanhas para chegar ao Brasil. A condição pode ser estendida aos familiares e dependentes que se encontrem em território nacional. Luis Varese. órgão ligado ao Ministério da Justiça. onde são oferecidos programas de apoio a imigrantes e por onde já passaram cerca de 1. que pode levar seis meses. fornecidos pelo Acnur. É preciso ultrapassar a fronteira de sua terra natal para pedir proteção ao governo do Brasil – país signatário do tratado da Convenção de Genebra. é analisado pelo Comitê Nacional para Refugiados (Conare). Sozinhos em um país estranho e vivendo de forma ilegal. de 1951. FGV DIREITO rio 64 . existem pelo menos outros 6 mil refugiados que vivem no Brasil. para eles. O elo que os une: expulsos por terríveis guerras civis. em grande parte. famílias inteiras de desterrados. Barreiras na fuga. Para chegar ao País. proteger e ajudar a integrar refugiados. A maioria é de africanos e latino-americanos. Às vezes. em São Paulo. A assistente social Denise Orlandi Collus.direitos humanos Refugiados no Brasil: o lado humano dos conflitos que assolam o mundo em território nacional Por Patrícia Pereira Há 3 mil refugiados no Brasil. pediram refúgio ao governo e tentam reconstruir suas vidas. 38 anos. CPF e carteira de trabalho e.5 mil refugiados que vivem na cidade. muitos viajam como clandestinos em cargueiros e enfrentam dias de fome e tensão. Já no Brasil. violências étnicas e tribais e outras violações graves de direitos humanos. permanecem com medo da deportação.

evitando que sejam afetados as pessoas e os bens legalmente protegidos. Tendo em vista que a Carta das Nações Unidas legitima expressamente o uso da força em circunstâncias limitadas. O crescente número de refugiados vindos da América Latina – principalmente Colômbia. FGV DIREITO rio 65 . com mulher e quatro filhas.br/especial/refugiados. Por sua vez. especificamente aplicável aos conflitos armados. As três vertentes da proteção internacional dos direitos da pessoa humana. São pessoas com formação universitárias e politizadas. responsável por implementar o programa do Acnur em São Paulo e no Rio de Janeiro. Direito Internacional Humanitário e Direitos Internacional dos Direitos Humanos: tradicionalmente. 275. Com os papéis em mãos.com. Dificilmente ele consegue exercer no Brasil a profissão que desempenhava antes. In: CANÇADO TRINDADE. e o segundo à proteção de certos direitos básicos também em diversas situações de conflitos e violência. San José. Peru e Cuba – nos últimos anos reforça esse grupo. “mais recentemente o primeiro temse voltado também para situações de violência em conflitos internos. CR: Instituto Interamericano de Direitos Humanos. que é jornalista e especializou-se em prevenção e administração de desastres. a urgência passa a ser conseguir emprego e moradia. No Brasil. como o colombiano Juan (nome fictício). 70 71 PEYTRIGNET. a terceira nota reflete um panorama dos refugiados no Brasil. e que limita. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. internacionais ou não-internacionais. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor. de 45 anos.”71 Se a guerra é o campo do conflito. o DIH protege a pessoa humana em conflitos armados e o DIDH em todos os tempos. o DIH pode ser indicado como precursor da internacionalização CANÇADO TRINDADE. http://www. Gerard. “Sistemas Internacionais de proteção da pessoa humana: o direito internacional humanitário”. sempre tendo como parâmetro o DIDH. conta Denise. enfrenta o desemprego e a desilusão das filhas provocada pela queda na qualidade do ensino. Para isso. Gerard.estadao. notadamente no que se refere à proteção da pessoa humana. e SANTIAGO. Após essa leitura. adaptar-se aos hábitos dos brasileiros e integrar-se socialmente.”70 Quais elementos são característicos do DIH? Definição: “trata-se do corpo de normas jurídicas de origem convencional ou consuetudinário. Na Colômbia. Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Jaime Ruiz de (orgs.htm As duas primeiras notas de imprensa são datadas de novembro de 2004. é preciso compreender algumas limitações acordadas pelos Estados de forma a tornar os conflitos armados menos danosos. Histórico: Como foi estudado na aula 02 – Desenvolvimento Histórico dos Direitos Humanos. “O refugiado é quase sempre visto como bandido ou traficante. respectivamente acerca dos conflitos vividos no Iraque e Sudão. todavia. organização não-governamental de assistência e proteção aos refugiados ligada à Igreja Católica. Antônio Augusto. trabalhava na Cruz Vermelha. 1996. Surge então uma nova barreira: a do preconceito. Antônio Augusto.direitos humanos Enquanto aguarda o resultado do processo os refugiados procuram aprender a língua. o que dificulta sua entrada no mercado de trabalho”. têm a ajuda da Cáritas. p. A normatização do conflito visa precisamente à mitigação de seus efeitos e a sua não transformação em uma barbárie absoluta. A boa formação do refugiado acaba às vezes sendo um ponto negativo para a integração. cabe a exploração de alguns elementos do DIH e do DIR. Volume I.). o direito das partes em conflito de escolher livremente os métodos e os meios utilizados na guerra. PEYTRIGNET. por que será que existem normas que regulamentam as condutas perpetuadas nesse período? Haveria uma contradição entre conflito e regras a serem cumpridas? A resposta é não. Comitê Internacional da Cruz Vermelha. 1997. por razões humanitárias.

Por iniciativa do CICR. É importante lembrar que nesse momento. o genebrino Henry Dunant presenciou as atrocidades da batalha de Solferino.direitos humanos da proteção da pessoa humana. e Convenção de Genebra IV – inaugura a preocupação com a população civil. A convite do governo suíço. a preocupação com as guerras de libertação nacional e a necessidade de regulamentação dos conflitos armados não-internacionais conduziram ao chamamento de uma conferência internacional em 1977. Condições: forças armadas dissidentes ou outros grupos armados organizados. Esse esforço normativo é resultado da barbárie vivenciada nos campos de guerra existentes na Europa durante o século XIX. em companhia de outros genebrinos. A extensão de sua aplicabilidade e a ratificação por parte de 191 países fazem com que o DIH seja denominado muitas vezes de o “Direito de Genebra”. Convenção de Genebra II – protege os feridos. entre franceses e austríacos. Publicou. sob comando responsável e exercendo controle sobre certa parte do território. realizada também em Genebra. doentes e náufragos das Forças Armadas no mar. o mundo era formado por poucos Estados e não existiam instâncias multilaterais que pudessem monitorar o uso da força. Em 1859. o livro “Recordações de Solferino”. o qual veio a ser chamado logo após de Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). estabeleceu o marco normativo moderno do DIH. foi celebrada uma conferência no ano de 1864 que aprovou o Convênio para a proteção dos feridos no campo. O enquadramento moderno é marcado pela Convenção de Genebra de 1864 para melhoramento da condição de feridos no campo. Convenção de Genebra III – protege os prisioneiros de guerra. o Protocolo Adicional I amplia a definição de conflito armado internacional por incorporar aqueles nos quais se luta contra regimes de dominação colonial ou contra regimes racistas. norte da Itália. Era necessário um compromisso mais efetivo por parte dos Estados para o estabelecimento de uma ordem mundial pós-1945. em seus 10 artigos. FGV DIREITO rio 66 • . para a elaboração de dois protocolos adicionais às Convenções de Genebra. que. a Suíça convocou uma conferência em Genebra no ano de 1949. Principais tratados: tal passo não foi suficiente para evitar os resultados trágicos das duas Grandes Guerras Mundiais. Em 1863. Dunant fundou o Comitê Internacional de Ajuda aos Feridos. e Protocolo Adicional II – disciplina a previsão do artigo 3º comum e sua aplicabilidade a conflitos armados internos. tendo sido ratificado por 161 países. no qual propõe a criação de entidades de socorro privadas em cada país e a elaboração de um acordo internacional que facilitasse o trabalho das mesmas. O Protocolo II foi ratificado por 156 países. em 1862. • Protocolo Adicional I – em nome do princípio da auto-determinação dos povos. da qual resultaram os diplomas que constituem a chave-mestra do DIH: • • • • Convenção de Genebra I – protege os feridos e doentes das Forças Armadas em campanha. Todavia.

duradouros e graves ao meio ambiente natural. oAcesso número de mortos feridos entre danos causados a bens de caráter http://www.org/Web/por/sitepor0. minimizar. sem discriminação alguma. Por sua vez. o adversário que se rende ou é capturado. laser cegantes extensos. Respeitar os civis e seus bens. sejam combatente fora de combate. população civil ou bens de caráter civil.org/Web/por/sitepor0. Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos náufragos. químicas. ataques diretos contra pessoas civis. Em tratados específicos são proibidos ou como de projéteis que explodem ou secomo alastram facilmente químicas.org/web/por/sitepor0. encontram-se: a) Convenção de 1992 – proibição iwpList104/A586AE20F1419C1 http://www. população ou bens caráter civil. também denominado “mini-convenção” são aplicáveis a conflitos armados não-internacionais. Somente podem ser atacados os objetivos militares.nsf/htmlall/section_ihl_conduct_of_hostilities?OpenDocument.nsf/htmlall/section_ihl_weapons?OpenDocument. o professor poderá apresentar Princípios fundamentais: De acordo com gráficos apresentados no site do CI146 De72 acordo com gráficos apresentados no site do CICV146 . o Protocolo II e o Artigo 3 comum às Convenções.” Acesso em: 19 de junho de 2005. sejam Não “proíbe causar aos sofrimentos ou empregar danos excessivos. 72 assim Acesso em: 19 junho 2005. as biológicas. estocagem. assim limitados emprego de armas. As armas que violam os "ditames da consciência pública" também podem ser indiscriminadas ou que possuam características que causarão sofrimento maior ao requerido para deixar um proibidas defora acordo com esse argumento. Respeitar os civis e seus bens. Disponível em: como de projéteis que explodem ou se alastram facilmente no corpo em: 19 de junho de em: http://www. Importante ressaltar que a aplicabilidade de tais normas não está condicionada à declaração formal de guerra. Tratar com humanidade o adversário que se rende ou é Tratar com humanidade capturado. Disponível em: transferência de minas anti-pessoais a sua destruição. armas químicas e sua transferência de minas anti-pessoais e sobre a sua destruição. encontram-se: a) Convenção de 1992 – proibição destruição.org/web/por/sitepor0. assim como os prisioneiros ou detidos. assim como os prisioneiros ou detidos. destruição. Disponível em: 145 O Direito de Nova Iorque combatentes armas que.nsf/iwpList104/846A586AE20F1419C1256DEA00349CD7) . o que significa o envolvimento de dois ou mais Estados. produção e de armas bacteriológicas e sua destruição.nsf/iwpList104/846A586AE20F1419C1256DEA00349CD7) Acesso em: 19 de junho de 2005. alunos uma linguagem dos princípios CV é possível enumerar os representativa princípios regedores do DIH: gerais regedores do DIH: aos alunos uma linguagem representativa dos princípios gerais regedores do DIH: Somente podem ser atacados os objetivos militares. laser cegantes ou em: incendiárias. assim como os prisioneiros ou detidos.” em: e de19 de os civis.cicr. bastando o fato de um conflito armado. 2005. produção e 146 FGV DIREITO rio 67 Acesso em: 19 e sobre de junho de 2005. Disponível em: cicr. http://www. Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos náufragos. sem discriminação alguma.. e c) Convenção de 1997 – Tratado de Otawa: proibição do emprego. sem discriminação alguma. Disponível Não atacar o pessoal médico ou humano. o duradouros e certas graves ao meio ambiente natural.nsf/htmlall/section_ihl_weapons?OpenDocument. Está proibido o emprego de armas que causem danos combatente de combate. civil. de armas bacteriológicas e sua b) Convenção de 1993 – proibição de armas químicas e sua principais tratados constantes do destruição.org/web/por/sitepor0.cicr. Direito de Nova Iorque. 145 145 indiscriminadas ou que possuam causarão sofrimento requerido para deixar um O Direito de Nova Iorque características “proíbe aos que combatentes empregar maior armas ao que. Em tratados específicos são causem proibidos ou proibidas de acordo com esse único argumento.” sanitárioAcesso nem suas instalações http://www.nsf/htmlall/section_ihl_conduct_of_hostilities?OpenDocument.cicr. ae proibição dos situação ataques Não causar sofrimentos oude danos excessivos. Somente podem ser atacados os objetivos militares.cicr.org/web/por/sitepor0.nsf/ principais tratados constantes do Direito de Nova Iorque.” Acesso 19 de junho de limitados o emprego de certas armas. Está proibido o emprego de armas que danos instalações e as permitir que façam seu trabalho. e em qualquer situação civil. Dentre os e permitir que façam seu trabalho. De acordo com gráficos apresentados no site do CICV146.org/web/por/sitepor0.cicr. 256DEA00349CD7). Tratar com humanidade o adversário que se rende ou é capturado. Disponível em: http://www.cicr. 146 146 http://www. no corpo humano. em qualquer ataques diretos contra pessoas de civis.direitos humanos As convenções e o Protocolo I são aplicáveis a conflitos armados. Disponível em: minimizar. junhoassim como de os 2005. b) Convenção 1993 –do proibição deestocagem. por natureza. e c) Convenção de 1997 – Tratado de Otawa: de proibição emprego. Asúnico armas que violam os "ditames da consciência pública" também podem ser Não atacar o pessoal médico ou sanitário nem suas extensos. Dentre os 2005. como biológicas. o professor poderá apresentar aos . o número de mortos e de feridos entre os civis. assim como os danos causados a bens de caráter indiscriminados e a obrigação de tomar medidas de precaução a fim de evitar. a proibição dos ataques indiscriminados e a obrigação tomar medidascivil de precaução a fim de evitar. por natureza. ou incendiárias. náufragos.

deve assegurar medidas de controle. civis. meio de tais gráficos à relevância concedida cores federais. em Assim são tivo. Direitos Humanos e Direito dos Refugiados A globalização econômica desnuda um paradoxo: por um lado.. o Estado deve envidar todos os esforços para cessar condutas que afrontam o DIH e deve punir os autores de condutas adversas a esse direito. represálias. nunca estiveram tão altas no que concerne a pessoas. o sinal cruz vermelha em por fundo branco. Por fim. Não colocar obstáculos ao pessoal da Cruz Vermelha no desempenho de suas funções. Nesse sentido. causado muitas vezes pelas próprias decorrências do capitalismo que não encontra nas fronteiras a mesma flexibilidade. Vivencia-se hoje um enorme fluxo migracional. por meio da nomenclatura ‘Potência Protetora’.). Disponível em: http://www. seja comum ou militar. notadamente penal e processual. captura. apenas às normas nele constantes. sanitário e religioso. para os países que empregam já como sinal distinde em sua condição. Por sua vez. Não colocar obstáculos ao pessoal da Cruz Vermelha no desempenho de suas funções. por outro. FGV DIREITO rio 68 . as fronteiras estatais diminuem no que concerne a mercadorias. Assume ainda a obrigação de adotar medidas preventivas. o Protocolo I de 1977 convencionou a criação da Comissão Internacional de Apuramento dos Fatos. serviço e principalmente a capitais. em virtude exércitos. pessoal fundo branco. em homenagem à Suíça. merecem tratamento especial por eparte do DIH. de infrações às normas de DIH: tendo em vista a necessidade de se estabelecer uma autoridade neutra capaz de arbitrar um conflito armado. des Acesso em: 19 de junho de 2005. o direito consuetudinário 162 reconheceu.nsf/htmlall/section_ihl_protected_persons_and_property?OpenDocu Igualmente. como a de difusão do conteúdo dos tratados. fundamentais à determinação ment. instituição imparcial capaz de acompanhar a veracidade das alegadas violações ao DIH. o Estado obriga-se não ataques ou outros atos hostis (destruição. De acordo com o artigo 38 da Convenção I de Genebra. estes emblemas igualmente reconhecidos nos termos da presente Convenção. náufragos.cicr. Considerada a dificuldade de eleição de tal Estado. Tal instituição foi consagrada pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas de 1961.Não causar sofrimentos ou danos excessivos. é mantido como emblema e sinal distintivo do serviço de saúde dos pelo DIH a duas categorias específicas: Pessoas protegidas: pessoas que. Bens protegidos: aqueles que devem ser protegidos contra Aplicabilidade do DIH: ao assinar um tratado de DIH. vez da cruz vermelha. mas também a adequar a sua legislação interna de Exemplos de bens protegidos: bens de caráter civil e bens culturais. o crescente vermelho ou o leão o sol vermelhos considerados os feridos. é também tarefa do Estado estabelecer medidas de repressão.. prisioneiros de guerra. confisco etc . unidades e meios forma a compatibiliza-la. em especial a autorida147 civis e militares. a designação de um Estado alheio ao conflito. comum e militar e processual penal comum e militar. seja em tempo de paz ou de guerra. o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) acaba por agir como substituto da potência. direitos humanos Não atacar o pessoal médico ou sanitário nem suas instalações e permitir que façam seu trabalho. uma vez que a violação das regras de DIH corresponde à violação de regras de caráter interno. os são enfermos. formado pela inversão das Cabe ao heráldico professorda chamar à atenção. notadamente no que se refere às normas de caráter penal 147 de transporte sanitários.org/Web/por/sitepor0. Estabelece ainda que.

não quer valer-se da proteção desse país ou que. aprovada em 1969. mas foi o final da SegundaGuerra Mundial o marco inaugural para o abrigo internacional a sua proteção. 134 países comprometeram-se com a causa no momento da assinatura da Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 e do Protocolo de 1967. está obrigada a abandonar sua residência habitual para buscar refúgio em outro lugar for do seu país de origem ou do país de sua nacionalidade. o que se coaduna perfeitamente à dualidade de sistemas vivenciada no pós-guerra: os refugiados podiam ser vistos como troféus de um sobre o outro.) em conseqüência de acontecimentos acorridos antes de 1o. A proteção ao refugiado encontra abrigo no marco fundamental dos direitos humanos: assinada em 1948.). Rio de Janeiro: Renovar. nacionalidade. A ampliação do conceito também teve palco no continente americana. A Convenção estabeleceu a definição clássica de refugiado como qualquer pessoa que: (. adaptando-no à realidade regional. estabelece que: MELO. por causa de uma agressão exterior.. de janeiro de 195173 e temendo ser perseguida por motivo de raça. se não tem nacionalidade e se encontra fora do país no qual tinha sua residência habitual em conseqüência de tais acontecimentos não pode ou. e ALMEIDA. Guilherme de (orgs. inciso 2: 2. entrando em vigor em 1974. caracteriza-se como subjetiva e individual. 73 O Protocolo de 1967 veio justamente a retirar a restrição temporal impressa pela Convenção. Originalmente. Estabelece. se encontra fora do país de sua nacionalidade e que não pode ou. Carolina de Campos. em virtude desse temor. Todavia. Nesse sentido. 267. uma ocupação ou uma dominação estrangeira ou de acontecimentos que pertubem gravemente a ordem pública em uma parte ou na totalidade de seu país de origem. a realidade internacional demonstrou a incapacidade desse conceito jurídico em dar uma resposta a situações fáticas. devido ao referido temor. ou do país de sua nacionalidade. tendo como base a idéia de perseguição. In: ARAÚJO. este conceito tem como centro a questão da perseguição. “criado em um contexto de Guerra Fria. concebida no descrito contexto. em determinadas situações. 74 FGV DIREITO rio 69 .. a Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelece que toda pessoa vítima de perseguição tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.”74 Há de se destacar que a concepção clássica de refúgio. A primeira iniciativa de ampliação encontra-se na Convenção da Organização da Unidade Africana.direitos humanos É claro que o ‘deslocar-se’ faz parte da história. O termo “refugiado” aplicar-se-á também a toda pessoa que. Em sua terceira conclusão. p. no contorno específico da figura do refugiado. Nádia de. em seu artigo 1. grupo social ou opiniões políticas. “Revisitando o conceito de refúgio: perspectivas para um patriotismo constitucional”. religião. O Direito Internacional dos Refugiados: uma perspectiva brasileira. erigindo a necessidade de revisão do conceito do refúgio. por ocasião da Declaração de Cartagena de 1984. O Direito Internacional dos Refugiados vem galgando importantes passos ao longo de sua história. não quer voltar a ele. 2001.

cabem alguns esclarecimentos: ultrapassada a concessão de refúgio por órgão independente e especializado. foram as necessidades de proteção que levaram o ACNUR. o precedente da Convenção da OUA (artigo 1. mas a violação de direitos humanos assume a condição de situação que acarreta refúgio. os conflitos internos. op. A..cit. desse modo. p. cabendo ao Estado CANÇADO TRINDADE.) faz-se necessário encarar a extensão do conceito de refugiado. Cumpre ressaltar que os países americanos reiteram a perspectiva ampliada do conceito de refúgio no ano de 1994. Tanto a concepção africana quanto a americana demonstram como a realidade conduziu a necessidade de adequação da Convenção de 1951.”75 Os conceitos descritos conduzem ainda à premissa que permeia a presente aula. Por fim. a agressão estrangeira. segundo as razões que os teriam levado a abandonar seus lares. e dentro das características da situação existente na região. uma década depois de Cartagena. constituindo campo de implantação concomitante do DIDH e do DIH. considere também como refugiados as pessoas que fugiram de seus países porque sua vida. por ocasião da Declaração de San José. parágrafo 2) e a doutrina utilizada nos informes da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. 320. a etapa da proteção tem no princípio do non refoulement sua principal viga. Esta declaração aprofundou as relações entre o DIR e o DIDH ao tratar de forma mais aprofundada questões deslocamentos forçados. 75 76 Idem. a um critério objetivo concentrado antes nas necessidades de proteção. a violação massiva dos direitos humanos ou outras circunstâncias que tenham perturbado gravemente a ordem pública. p. “A visão tradicional concentrava atenção quase que exclusivamente na etapa intermediária de proteção (refúgio). Percebe-se uma clara objetivação do conceito de refúgio. o DIDH deve contracenar com o DIR em três momentos: prevenção. a ampliar seu enfoque de modo a abranger também a etapa ‘prévia’ de prevenção e a etapa ‘posterior’ de solução duradoura (repatriação voluntária. a definição ou conceito de refugiado recomendável para sua utilização na região é aquela que além de conter os elementos da Convenção de 1951 e do Protocolo de 1967. reassentamento). no pertinente. nos últimos anos. Por sua vez. De acordo com Cançado Trindade. Afinal. É precisamente nesse sentido que se constrói a estratégia do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).. violações maciças de direitos humanos e conflitos armados podem ser indicados por fatores determinantes para a saída de determinados grupos de um país. proteção e solução. Não se pode mais alimentar a compartimentalização da proteção da pessoa humana.”76 No que se refere à etapa preventiva. o qual deixa de ter a idéia de perseguição como fundamental. 322. deve ser estipulada uma solução considerada duradoura para os refugiados. FGV DIREITO rio 70 . tendo-se em conta. “vem-se passando gradualmente de um critério subjetivo de qualificação de indivíduos.direitos humanos (. A. Dentre elas. Nesse sentido. no que concerne à solução duradoura. destaca-se a integração local. resta claro que o DIR e o DIDH passam a ter não apenas progressiva interação. interação local. segurança ou liberdade foram ameaçadas pela violência generalizada.

br/site/noticias/17275. a d i t a l. apátridas. até que fosse levantada em 1989. Se o número de refugiados vem diminuído ao longo dos últimos anos. há também o reassentamento quando o refugiado vai para um terceiro país. de forma a garantir o princípio do non refoulement. o Estado brasileiro aceitou as vítimas da guerra civil angolana com base na Declaração de Cartagena. o ACNUR tem desenvolvido diversas atividades que contemplam os deslocados. o mesmo não se pode dizer dos deslocados. retornados.506 274 181 113 3074 Acesso em: 27 de junho de 2005. mesmo em momento anterior à elaboração da Lei nº 9747/97 que abrigou tanto a concepção clássica quanto a ampliada de refugiado. é possível vislumbrar o atual retrato dos refugiados no Brasil: Tabela 1 – Total de Refugiados no Brasil em fevereiro de 200579 (acnur e conare) Continente de procedência África América (América Latina e Caribe) Ásia Europa Total Total  2. Em se mais recente Relatório. pp. Entre os anos de 1992 e 1994. Como ilustrado o terceiro texto inicial da Nota ao Aluno.4 milhões de deslocados internos aumentou para 19. c o m . asp?lang=PT&cod=17275. apesar do decréscimo.2 milhões.215. o mais baixo em quase 25 anos. Por mais que as condições que expulsam os refugiados e os deslocados de seus lares possuam o mesmo cerne – afirmativa que encontra respaldo no conceito objetivo de refugiados – somente aquele que cruza a fronteira pode perquirir o status de refúgio. como educação e trabalho. sendo absolutamente necessária a anuência do refugiado. o dado global de pessoas das quais se ocupa o ACNUR. Disponível em: h t t p : / / w w w. nem todas as pessoas que têm que deixar seus lares cruzam as fronteiras.”77 Por fim. a qual estipula o Brasil aceitaria somente refugiados originados do continente europeu. incluindo os solicitantes de asilo. c o m . a d i t a l. no ano de 2004. br/site/noticias/17275. de 28 de janeiro de 1961.2 milhões o total atual. asp?lang=PT&cod=17275. Disponível em: h t t p : / / w w w. o Decreto nº 50. O diagnóstico das nacionalidades vêm sofrendo alterações ao longo dos anos. G. apátridas e um total de 6. estimandose em 9. Fonte: CONARE Acesso em: 27 de junho de 2005. op. Por fim. cabem aqui algumas ponderações sobre os refugiados no Brasil. Tal cláusula fez com que. o Brasil recebe hoje milhares de refugiados. Mas. Interessante ressaltar que. ao incorporar a Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951. Cabe também a repatriação.78 De acordo com a tabela abaixo. Como ressalta Guilherme de Almeida. solicitantes de asilo e retornados. o Brasil recebe cerca de 1200 angolanos. alguns grupos fossem recebidos com outro título. cit. como foi o caso de 150 vietnamitas em 1979/80 e 50 famílias Bahai (Irã) em 1986. em retrospectiva histórica. estabelece uma “reserva” geográfica. Todavia.direitos humanos todas as providências necessárias para o exercício dos direitos humanos por parte dos refugiados. o ACNUR assevera que “o número global de refugiados baixou em 4%. 79 FGV DIREITO rio 71 . 77 78 ALMEIDA. Originalmente criado com tarefa restritiva aos refugiados. 155 a 159.

Guilherme Assis de. Rio de Janeiro: Renovar. 1997. É certo que a ampliação da definição constitui uma forma de se contemplar grupos que tiveram que deixar seus lares por diferentes razões. pp. pp. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. momento de constituição do Comitê Nacional para Refugiados (CONARE). notadamente provenientes da Colômbia. Tratado de direito internacional de direitos humanos. Todavia. Nádia de. Diante de todo o exposto. 2001. VIII. Leitura acessória ARAÚJO. itens III e XII). Da mesma forma. Antonio Augusto. organizações internacionais como o ACNUR tiveram que expandir o universo de grupos sob sua responsabilidade. Tratado de direito internacional de direitos humanos. FGV DIREITO rio 72 . VIII. 270-284 (Cap. DIH e DIR? Qual a principal distinção? Porque a guerra deve ser objeto de restrições? Quais os princípios regedores do DIH? O que significa o princípio do non refoulement? Qual é a diferença normativa entre refugiados e deslocados? Quais requisitos devem ser preenchidos para a aquisição do status de refugiado no Brasil? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. voltamos ao objeto desse curso: a efetiva proteção dos direitos humanos. I. I. e ALMEIDA. Dentre elas.direitos humanos Tais números refletem os pedidos de refúgio acolhidos antes e depois de 1998. o CONARE é responsável pelo exame das solicitações de refúgio e pela elaboração de políticas públicas para os refugiados. CANÇADO TRINDADE. 284-352 (Cap. O direito internacional dos refugiados: uma perspectiva brasileira. Vol. itens I e II). 1997. A contabilidade de refugiados e deslocados está recortada a um determinado período histórico. torna-se significativo o número de refugiados latinoamericanos. Vol. como é o caso dos deslocados. as seguintes perguntas poderão auxiliar o professor na condução da aula: • • • • • • • Quais são as principais interações entre o DIDH. a elasticidade conceitual deve ser respeitada pela aplicação de medidas preventivas que evitem que refugiados e deslocados tenham que dar início à partida. Órgão coletivo sediado no Ministério da Justiça. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Antonio Augusto. Todavia. Fica clara a preponderância de refugiados de origem africana. há de se ressaltar que nos últimos anos.

Legislação: Constituição Federal de 1988 Convenções de Genebra de 1949 Protocolos Adicionais de 1977 Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 Atividade Complementar: Filme “O Resgate do Soldado Ryan” de Steven Spielberg. Flávia. São Paulo: Max Limonad. Temas de Direitos Humanos. 21 – 41.direitos humanos KALSHOVEN. Buenos Aires: Centro de Apoyo en Comunicación para América – Comitê Internacional de la Cruz Roja. 2003. Flávia. “O direito de asilo e a proteção internacional dos refugiados”. Restricciones en la coducción de la Guerra. FGV DIREITO rio 73 . Introducción al derecho internacional humanitario. PIOVESAN. Frits e ZEGVELD. In: PIOVESAN. Liesbeth. 2003. 115 – 146. pp. pp.

mais conhecida como Lei do Abate. não conseguiu identificar a aeronave. mas os pilotos. Colômbia e Venezuela. Estiveram presentes autoridades. ao entrar no sistema informatizado do Departamento de Aviação Civil (DAC). foi disparado tiro com o intuito de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo. Tais dados foram enviados a Autoridade de Defesa Aeroespacial que. país reconhecido como importante fonte de substâncias entorpecente. Pelo fato de Gúzman e Gonzales terem prosseguido em sua rota. emitindo sinais visuais para o pouso imediato da aeronave. inclusive no Peru. Logo em seguida. nível de vôo. na qual foi debatido exaustivamete o assunto. Como medida de averiguação. Há mais de 10 anos. que possui membros em toda região amazônica. o avião foi considerado hostil. Gúzman e Gonzáles mantiveram sua rota original. por um problema técnico. foram fotografados por uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) a fim de verificar.direitos humanos Aula 12: Os direitos civis e políticos: direito à vida NOTA AO ALUNO Santiago Gúzman. os disparos foram além de sua finalidade: o avião foi abatido e os tripulantes faleceram. é membro da Associação Amigos das Sementes. Santiago Gúzman realiza o transporte de sementes medicinais entre diversas localidades em seu avião de pequeno porte. tipo de aeronave. colombiano. A impossibilidade de identificação da aeronave e a procedência da Colômbia. Santiago e seu co-piloto. No entanto. a hipótese do abate do avião colombiano. destaque-se: Ministério da Defesa Sustenta que o Estado brasileiro tem o dever de defender sua soberania nacional – um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito – sempre em conformidade com as normas legais. a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados convocou uma Audiência Pública. Antônio Gonzales foram as primeiras vítimas da Lei do Tiro de Destruição. entre outras coisas. após ordem do Comandante da Aeronáutica. quando partia da Colômbia para a Ilha de Marajó. Tiveram início as medidas de intervenção: duas aeronaves da FAB aproximaram-se ostensivamente. uma das aeronaves da FAB disparou tiros de advertência laterais à aeronave. Estado do Pará. embora não tivessem percebido. o piloto da FAB tentou contato via rádio. Em procedimento objeto de registro sonoro. Ao entrarem no espaço aéreo brasileiro. Em 20 de outubro de 2004. sua matrícula. fazendo com que a comunicação fracassasse. FGV DIREITO rio 74 . representantes de organizações e familiares das vítimas. não conseguiram entender o que lhe era solicitado. Dessa forma. Diante do acontecido. Dentre os principais argumentos. o que causou verdadeira situação de pânico para os pilotos. conduziram-na à condição de suspeita. como medida de intervenção.

não se opõe ao direito à vida dos tripulantes. vedada expressamente pela Constituição Federal brasileira (salvo em caso de guerra declarada). milhares de pessoas. constitui um dos direitos fundamentais do ordenamento jurídico brasileiro. Ademais. a falta de habilitação do piloto. não podendo haver decisão extrajudicial. a vida de seus cidadãos. uma vez que os mesmos estavam ameaçando a soberania e. o direito à vida. O Poder Judiciário é o órgão competente para julgar e condenar alguém. mas sustenta ser um mal necessário para se combater um mal maior. deveriam ter tido os direitos à ampla defesa e de ser julgados pelo Poder FGV DIREITO rio 75 . O grupo reconhece que a lei é dura e drástica. atende não apenas a um interesse público superior e socialmente legítimo como ao princípio constitucional da segurança pública. Sendo assim. Defensores da Lei e Ordem Argumentam que a lei é importante e necessária pois o consumo de drogas no Brasil e no mundo é uma tragédia cotidiana que mata anualmente. desatualização do exame médico. e não-utilização de fonia para não pagar as tarifas de proteção ao vôo podem ser apontadas como falhas que não devem ter como conseqüência a violação do direito à propriedade das aeronaves. direito consagrado constitucionalmente. pelo uso ou tráfico. além de ser consagrado internacionalmente.direitos humanos além de estar legalmente prevista. a fuga. Defensores dos Direitos Humanos Sustenta que o direito à vida deve ser garantido e promovido em todas as hipóteses. uma vez que os tripulantes foram condenados sem julgamento e direito à ampla defesa. tendo em vista que. Assim. Organização pela independência do poder judiciário Sustenta que o abate ao avião colombiano constitui ofensa ao devido processo legal. o abate ao avião colombiano significa que a pena de morte. equipara-se à resistência à prisão. Associação Nacional de Empresas Aeroviárias O mau funcionamento do sistema de comunicações. e em última conseqüência. O Estado deve investir em meios alternativos de controle. suspeitos de tráfico de drogas. se o piloto resolve ignorar sete medidas que visam sua identificação. Questão De que forma a Lei do Tiro de Destruição protege a soberania nacional? O abate do avião colombiano viola o direito à vida? Os tripulantes. conseqüentemente. nesse caso. foi aplicada aos 2 tripulantes.

[..] III – a dignidade da pessoa humana. em processo judicial ou administrativo. bem como as posições acima mencionadas para responder tais questões. dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal.] XXXVII – não haverá juízo ou tribunal de exceção.. LIV – ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida.direitos humanos Judiciário? Utilize a legislação brasileira (abaixo). navegação lacustre. [. fluvial. Compete à União: [..] VI – defesa da paz. 60. defesa civil e mobilização nacional (grifou-se).. A República Federativa do Brasil.] Art.. no mínimo. [. 1º... sem distinção de qualquer natureza. 4º. 84.. à segurança e à propriedade. [....] Art. à igualdade. III – assegurar a defesa nacional. à liberdade.. [.. salvo em caso de guerra declarada.. [. marítima..] X – regime dos portos.] LIII – ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente.. 22.. FGV DIREITO rio 76 .] II – declarar a guerra e celebrar a paz.. Compete privativamente à União legislar sobre: [. defesa aeroespacial. aérea e aeroespacial..... A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: [. nos termos seguintes: [.] Art. A Constituição poderá ser emendada mediante proposta: I – de um terço. Todos são iguais perante a lei..] Art. [. [.] XXVIII – defesa territorial.] II – prevalência dos direitos humanos. LV – aos litigantes. 21.] XXII – executar os serviços de polícia marítima. com os meios e recursos a ela inerentes. constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: [. nos termos do art. 5º. XIX..] Art.. aeroportuária e de fronteiras.. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal. [. Legislação Constituição Federal de 1988 Art..] XLVII – não haverá penas: a) de morte.. e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa.. [.. defesa marítima.

prescrever. Lei nº 6. de 21 de outubro de 1976 Dispõe sobre medidas de prevenção e repressão ao tráfico ilícito e uso indevido de substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou psíquica. FGV DIREITO rio 77 . 352. transportar. pela maioria relativa de seus membros.] IV – os direitos e garantias individuais. fabricar. atual ou iminente. manifestando-se. guardar. remeter. transportar. de 7 de dezembro de 1940. ministrar ou entregar... III – de mais da metade das Assembléias Legislativas das unidades da Federação.. produzir. fornecer ainda que gratuitamente. Entende-se em legítima defesa quem. Importar ou exportar. remeter. sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar. fornecer ainda que gratuitamente. de 3 (três) a 15 (quinze) anos. e dá outras providências. guardar. adquirir..direitos humanos II – do Presidente da República. usando de violência contra a pessoa: Pena – detenção. expor à venda ou oferecer. Pena – Reclusão. 25. Evadir-se ou tentar evadir-se o preso ou o indivíduo submetido a medida de segurança detentiva. [. [. trazer consigo. ter em depósito. Código Penal Decreto-lei no 2. preparar. [. a direito seu ou de outrem [. expõe à venda ou oferece. de qualquer forma. ter em depósito. a consumo substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. preparar. traz consigo ou guarda matéria-prima destinada a preparação de substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica.] Legítima defesa Art. remete. vende. usando moderadamente dos meios necessários. transporta. tem em depósito. Art 12. trazer consigo. de três meses a um ano.. Nas mesmas penas incorre quem. adquirir.368.848.. Importar ou exportar. prescrever. fabricar.. e pagamento de 50 (cinqüenta) a 360 (trezentos e sessenta) dias-multa. ministrar ou entregar. indevidamente: I – importa ou exporta.] Art 12. cada uma delas. sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar. § 1º. fabrica. produz. fornece ainda que gratuitamente... expor à venda ou oferecer. repele injusta agressão. II – semeia. produzir. vender. cultiva ou faz a colheita de plantas destinadas à preparação de entorpecente ou de substância que determine dependência física ou psíquica. adquire. a consumo substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. de qualquer forma. vender.] Evasão mediante violência contra a pessoa Art..] § 4º – Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: [. além da pena correspondente à violência.

fazendárias ou da Polícia Federal. que serão recolhidas na forma da legislação específica (grifou-se). nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada. II – se. IV – para verificação de sua carga no caso de restrição legal (artigo 21) ou de porte proibido de equipamento (parágrafo único do artigo 21).565. Nas mesmas penas incorre quem. utilizados para a prática dos crimes definidos nesta Lei.1998) – grifou-se. § 1º. de 30 de junho de 1999 Altera a redação do art 34 da Lei nº 6. expõe à venda ou oferece. fornece ainda que gratuitamente. cultiva ou faz a colheita de plantas destinadas à preparação de entorpecente ou de substãncia que determine dependência física ou psíquica. (Parágrafo acrescentado pela Lei nº 9. a aeronave será classificada como hostil.. § 1°.direitos humanos Pena – Reclusão.614. produz. III – para exame dos certificados e outros documentos indispensáveis. traz consigo ou guarda matéria-prima destinada a preparação de substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. 34.] Art 18. assim como os maquinismos. que dispõe sobre medidas de prevenção e repressão ao tráfico ilícito e uso indevido de substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou psíquica.. Os veículos. [. Lei nº 7. tem em depósito. vende. 303. indevidamente: I – importa ou exporta. desrespeitar a obrigatoriedade de pouso em aeroporto internacional. V – para averiguação de ilícito. aeronaves e quaisquer outros meios de transporte. § 2°. A aeronave poderá ser detida por autoridades aeronáuticas. adquire. ficando sujeita à medida de destruição. remete. embarcações.3. [. ou das autorizações para tal fim. excetuadas as armas. As penas dos crimes definidos nesta Lei serão aumentadas de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços): I – no caso de tráfico com o exterior ou de extra-territorialidade da lei penal. A autoridade aeronáutica poderá empregar os meios que julgar necessários para compelir a aeronave a efetuar o pouso no aeródromo que lhe for indicado. Lei nº 9. Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos. transporta. entrando no espaço aéreo brasileiro. e pagamento de 50 (cinqüenta) a 360 (trezentos e sessenta) dias-multa. II – semeia.804. ficarão sob custódia da autoridade de polícia judiciária. instrumentos e objetos de qualquer natureza. fabrica. de 21 de outubro de 1976. utensílios. nos seguintes casos: I – se voar no espaço aéreo brasileiro com infração das convenções ou atos internacionais.] Art.. FGV DIREITO rio 78 . após a sua regular apreensão.368. de 19 de dezembro de 1986 (Código Brasileiro de Aeronáutica) Art.. de 3 (três) a 15 (quinze) anos. de 5.

... de 19 de dezembro de 1986. sem Plano de Vôo aprovado. Lei nº 9.. de 16 de julho de 2004 Regulamenta os §§ 1º... da Constituição. a aeronave será classificada como hostil.... Este Decreto estabelece os procedimentos a serem seguidos com relação a aeronaves hostis ou suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins......... de 19 de dezembro de 1986. FERNANDO HENRIQUE CARDOSO Decreto nº 5..144... 303 da Lei no 7.............. 1º.. Para fins deste Decreto.... no que concerne às aeronaves hostis ou suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins......... 177º da Independência e 110º da República... § 2º.direitos humanos § 3°... numerado como § 2º........... de 5 de março de 1998 Altera a Lei nº 7.565. ficando sujeito à medida de destruição.... 2º..... 5 de março de 1998.... 2º e 3º do art... oriunda de regiões reconhecidamente fontes de produção ou distribuição de drogas ilícitas. renumerando-se o atual § 2º como § 3º. 84......565...614. para incluir hipótese destruição de aeronave O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o CONGRESSO NACIONAL decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art.......... e tendo em vista o disposto nos §§ 1o.. Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos..... Art...... de 19 de dezembro de 1986. .. 303... § 3º.... que dispõe sobre o Código Brasileiro de Aeronáutica.......... DECRETA: Art............... 2o e 3o do art... A autoridade mencionada no § 1º responderá por seus atos quando agir com excesso de poder ou com espírito emulatório....565..... passa a vigorar acrescido de um parágrafo.... 1o......614. O art.... O PRESIDENTE DA REPÚBLICA... é considerada aeronave suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins aquela que se enquadre em uma das seguintes situações: I – adentrar o território nacional. inciso IV.... no uso da atribuição que lhe confere o art......1998). ou FGV DIREITO rio 79 ...3.. A autoridade mencionada no § 1° responderá por seus atos quando agir com excesso de poder ou com espírito emulatório...565.. na forma seguinte: “Art. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.......” Art. 303 da Lei no 7... Brasília........ levando em conta que estas podem apresentar ameaça à segurança pública.. 2o. nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada (grifou-se)... (§ 2°renumerado e alterado pela Lei nº 9.... de 19 de dezembro de 1986.. 303 da Lei nº 7....... de 5..

As aeronaves enquadradas no art. antes de sua vigência. 3o.direitos humanos II – omitir aos órgãos de controle de tráfego aéreo informações necessárias à sua identificação. O teor deste Decreto deverá ser divulgado. com o objetivo de compelir a aeronave suspeita a efetuar o pouso em aeródromo que lhe for indicado e ser submetida a medidas de controle no solo pelas autoridades policiais federais ou estaduais. III – execução por pilotos e controladores de Defesa Aérea qualificados. II – registro em gravação das comunicações ou imagens da aplicação dos procedimentos. feitos pela aeronave de interceptação. As medidas de intervenção seguem-se às medidas de averiguação e consistem na determinação à aeronave interceptada para que modifique sua rota com o objetivo de forçar o seu pouso em aeródromo que lhe for determinado. A medida de destruição consiste no disparo de tiros. Art. destinada aos aeroFGV DIREITO rio 80 . com o objetivo de persuadi-la a obedecer às ordens transmitidas. 4o. ainda. As medidas de averiguação visam a determinar ou a confirmar a identidade de uma aeronave. com a finalidade de interrogá-la. de conhecimento obrigatório dos aeronavegantes. 3o será classificada como aeronave hostil e estará sujeita à medida de destruição. Art. com munição traçante. As medidas de persuasão seguem-se às medidas de intervenção e consistem no disparo de tiros de aviso. executadas por aeronaves de interceptação. 7o. ou. § 2o. 5o. consistindo na aproximação ostensiva da aeronave de interceptação à aeronave interceptada. de acordo com as regras de tráfego aéreo. e V – autorização do Presidente da República ou da autoridade por ele delegada. A medida de destruição terá que obedecer às seguintes condições: I – emprego dos meios sob controle operacional do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro – COMDABRA. segundo os padrões estabelecidos pelo COMDABRA. intervenção e persuasão. no ar ou em terra. para ser submetida a medidas de controle no solo. ou não cumprir determinações destes mesmos órgãos. de maneira que possam ser observados pela tripulação da aeronave interceptada. A aeronave suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins que não atenda aos procedimentos coercitivos descritos no art. § 3o. pela aeronave interceptadora. com a finalidade de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo da aeronave hostil e somente poderá ser utilizada como último recurso e após o cumprimento de todos os procedimentos que previnam a perda de vidas inocentes. se estiver cumprindo rota presumivelmente utilizada para distribuição de drogas ilícitas. IV – execução sobre áreas não densamente povoadas e relacionadas com rotas presumivelmente utilizadas para o tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins. § 1o. por intermédio de comunicação via rádio ou sinais visuais. Art. a vigiar o seu comportamento. Art. 6 o. 2o estarão sujeitas às medidas coercitivas de averiguação. Art. de forma progressiva e sempre que a medida anterior não obtiver êxito. por meio da Publicação de Informação Aeronáutica (AIP Brasil).

pro.tex. Art. a pena de morte no Brasil. ao aprovar essa Lei. “porque se trata de resistência à prisão e as aeronaves somente serão destruídas se os seus pilotos não obedecerem às ordens Artigo escrito por Fernando Lima. sem o devido processo legal e em tempo de paz? De acordo com o Ministro da Defesa. Mas será possível excluir.2004. aplicando. introduziu.1998. mas agora o Presidente Lula assinou o Decreto nº 5144. ao permitir o tiro de abate.07. Esse Decreto entrará em vigor no próximo dia 18 de outubro. efetuados pela FAB. 80 FGV DIREITO rio 81 . causando a morte do piloto e dos passageiros. estabelecendo os procedimentos que deverão ser seguidos. Art. e o Presidente da República. cada qual nos limites de suas atribuições. antes de sua destruição. permitindo a condenação e a execução sumária de todos os passageiros dos pequenos aviões civis. quando agirem com excesso ou abuso de poder. htm. ou seja. José Viegas. na semana passada. Art. Notícias prévias Inconstitucionalidade da Lei do Abate80 A Lei nº 9614.br/wwwroot/ 02de2004/inconstitucionalidadedaleidoabatefernandolima. que a regulamentou. Disponível em: http:// www. e os pilotos encarregados de sua execução já estiveram em Belém. sem julgamento. 8o.07.03. 11. nacionais ou estrangeiros. suspeitos do tráfico de drogas. assim. Como ainda não havia sido regulamentada. de tão graves conseqüências. na prática.2004. O Ministro negou. da apreciação do Poder Judiciário. pelos pilotos da FAB. Essa Lei é flagrantemente inconstitucional. sem o devido processo legal. em 05. Pior: essa Lei instituiu a execução extrajudicial. com vistas ao seu aprimoramento. que se trate de uma condenação à morte. 5º. de 05. 10. deverá adequar toda documentação interna ao disposto neste Decreto. a destruição de aeronaves suspeitas de estarem transportando drogas. Art. em relação às “aeronaves suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins”. essa Lei passou desapercebida. de 16. pela simples suspeita do tráfico de drogas. como a de derrubar uma aeronave em vôo. XLVII). no espaço aéreo brasileiro. 12. conforme pretenderam o Congresso Nacional. 16 de julho de 2004. professor de Direito Constitucional da UNAMA. 2004. poderão ser derrubados. 183o da Independência e 116o da República.direitos humanos navegantes e de conhecimento obrigatório para o exercício da atividade aérea no espaço aéreo brasileiro. salvo em caso de guerra declarada (art. após o descumprimento de nove procedimentos. 9o. uma decisão. Art. a pena de morte. Este Decreto entra em vigor noventa dias após a data de sua publicação. por intermédio do Comando da Aeronáutica. O Ministério da Defesa. a lei não se aplica aos aviões militares. Acesso em: 08 nov. Fica delegada ao Comandante da Aeronáutica a competência para autorizar a aplicação da medida de destruição. Os procedimentos previstos neste Decreto deverão ser objeto de avaliação periódica. As autoridades responsáveis pelos procedimentos relativos à execução da medida de destruição responderão. efetuando os necessários treinamentos. peremptoriamente. Brasília. porque a nossa Constituição garante o direito à vida e proíbe a pena de morte. pelos seus atos. mas os aviões clandestinos civis.

para o competente exame da documentação. 352 do Código Penal). No entanto. ainda.2004. até hoje. para apreciar a constitucionalidade da Lei do Abate. que não pode ser alterada nem mesmo através de emenda constitucional. o Brasil tem fronteiras com onze países da América do Sul. além de ser inconstitucional. embora não estejam transportando drogas. Mesmo assim. por diversas razões. a autoridade policial seja obrigada a matá-lo. Por essa razão. em busca de drogas.direitos humanos dos pilotos da FAB”. e muito menos por uma simples suspeita. o Supremo Tribunal Federal não foi provocado. 25 do Código Penal). a derrubada de aeronaves. não apenas concorda com a Lei do Abate. e de obedecer à ordem de pouso. é assassinato e depõe contra o Brasil. em 21. exceto mediante violência contra a pessoa (art. mas acha que não devem ser admitidas exceções (aeronaves militares). nem ao menos constitui crime. por pressão dos Estados Unidos. passa a utilizar os mesmos métodos dos criminosos. Aliás. Como se sabe. os pilotos e passageiros não poderiam ser condenados à morte. Sei perfeitamente que o assunto é polêmico. com ou sem lei. a Bolívia e o Peru. o próprio Presidente nacional da OAB. ou até mesmo do porta-malas. Além disso. porque a opinião pública será levada a acreditar que essa Lei contribuirá para reduzir a entrada de drogas no País e também para impedir que o nosso espaço aéreo seja transformado em rota do narcotráfico internacional. e parece sugerir que a pena de morte seja aplicada. de acordo com as suas declarações. muitos civis inocentes já foram mortos. e a floresta amazônica é uma das principais rotas dos traficantes de drogas. Roberto Busato. porque a fuga. sem direito a defesa e sem julgamento. não seria. porque inúmeras aeronaves. se o motorista tentasse fugir. portanto. se não se tratasse de um assunto tão sério. Charity. certamente.07. como a Colômbia. Evidentemente. O Estado tem a obrigação de prender os suspeitos. Os argumentos seriam ridículos. como a missionária americana Verônica Bowers e a sua filha de sete meses. poderá ocorrer que. divulgadas pelo “site” da OAB. porque seria o mesmo que afirmar que um automóvel cheio de passageiros deveria ser metralhado pelos policiais rodoviários. poderão deixar de se identificar para os pilotos da FAB. leis semelhantes à nossa. matando os seus pilotos e passageiros. não podendo matá-los. coloca em perigo a vida de inocentes. nem por isso poderia ser morto o que às vezes acontece. para o “crime” de “exploração ilegal da biodiversidade”. também. no encalço do delinqüente. o Estado FGV DIREITO rio 82 . ainda. embora não exista. também. por exemplo. Para combater o crime. que a pretexto de combater os traficantes. sobretudo na Amazônia. que na Colômbia e no Peru. proibida pela Constituição e considerada cláusula pétrea. Infelizmente. se o seu motorista não obedecesse à ordem de parar. como. punida com a pena de morte. incluindo países produtores e exportadores de cocaína. pela simples suspeita de tráfico de drogas. Ressalte-se. caso o criminoso atente contra a vida do policial (art. a falta de equipamentos adequados. talvez. uma lei autorizando -. somente os aviões que estivessem transportando drogas seriam derrubados. A Lei do Abate. na hipótese de legítima defesa. que também adotaram. Na minha opinião. mesmo que a fuga fosse tipificada como crime.

iguala-se aos delinqüentes. Todos estes aspectos demandaram a necessidade de regulamentação do citado dispositivo legal. e modificado pela Lei nº 9. por intermédio de um decreto presidencial. particularmente sobre os movimentos aéreos não regulares. apelidada pela imprensa de Lei do Abate. por intermédio de seus representantes legais.direitos humanos também se subordina ao Direito.2004)81 1.06.fab. à interdição e à apreensão por autoridades aeronáuticas.565. um grupo de trabalho constituído por integrantes do Ministério da Defesa. a justiça privada e a vingança anárquica. fazendárias ou da Polícia Federal. a aeronave será classificada como hostil. de 19 de dezembro de 1986. Disponível em: http://www. do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República e especialistas do Comando da Aeronáutica se reuniu com o objetivo de estudar todos os aspectos pertinentes à regulamentação da Lei do Tiro de Destruição. Nessas condições. tornando-se necessária a definição das expressões meios coercitivos. Desrespeitando a Constituição. quando estes tenham apoiado direta ou indiretamente a destruição de aeronave civil. que veio preencher uma importante lacuna. do Ministério das Relações Exteriores. mil. passou a ser imprescindível que o novo dispositivo fosse aplicado dentro de uma moldura de rígidos preceitos de segurança. do Ministério da Justiça. A lei em questão introduziu conceitos novos. Histórico O Código Brasileiro de Aeronáutica. Neste artigo. ficando sujeita à medida de destruição. instituído pela Lei nº 7.br/Publicacao/Imprensa/ Noticias/3007_abate. medidas de integração de procedimentos com os países vizinhos e legislação de países interessados no tema e que mantêm normas específicas sobre responsabilidade civil de seus cidadãos. suspeitos de envolvimento com o tráfico de drogas ilícitas. normas internacionais da aviação civil. 2004. no seu artigo 303. a sociedade brasileira. aeronave hostil e medida de destruição. Ademais. nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada. Força Aérea Brasileira Centro de Comunicação Social da Aeronáutica (30. A partir de abril de 2003. de 5 de março de 1998. instituiu Lei do Tiro de Destruição. tais como procedimentos de interceptação aérea. 81 Acesso em: 8 nov. praticando a Lei de Talião. FGV DIREITO rio 83 .614. com o pleno esclarecimento dos procedimentos e das condições em que a medida de destruição poderia ser executada. trata dos casos em que uma aeronave pode ser submetida à detenção. desobedecendo ao devido processo legal e afastando o poder de decisão das autoridades devidamente constituídas para jurisdicionar os conflitos e aplicar as sanções previstas nas leis penais. foi introduzido o parágrafo segundo. em apoio às medidas de policiamento do espaço aéreo brasileiro.htm. com a seguinte redação: § 2º Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos.

direitos humanos 2. houve completa desobediência às ordens emitidas pela autoridade. Decreto Nº 5. 4. caracterizando-se situação similar à resistência à prisão. O texto é resultado de uma série de intercâmbios com países vizinhos. responsáveis pelo policiamento do espaço aéreo. Esses entendimentos indicam que a entrada em vigor da regulamentação não trará efeitos adversos ao país. apesar de ter-se chegado ao tiro de advertência. assinada pelo Presidente da República. Em muitas situações. criou instrumentos de dissuasão adequados ao policiamento do espaço aéreo brasileiro. entre outros destinos da rota de exportação. FGV DIREITO rio 84 . Porém. que entra em vigor 90 dias após a sua publicação no Diário Oficial da União (em 19 de julho). que transportam a droga para o território brasileiro. o Governo brasileiro considerou necessária apenas a regulamentação da lei para esse aspecto. A questão foi amplamente debatida com outros governos interessados no tema. Cenário Com a modernização do sistema de defesa aérea e controle do tráfego aéreo brasileiro. minimizar riscos de equívocos. A regulamentação da Lei do Tiro de Destruição. portanto. por falta da regulamentação da Lei do Tiro de Destruição. 3. vem desenvolvendo uma série de ações. Medidas O Governo Brasileiro. é uma medida imprescindível para combater a criminalidade associada ao tráfico internacional de drogas.144. as aeronaves de interceptação da Força Aérea Brasileira. Tornou-se necessária uma ação mais eficaz do Estado no combate a esses vôos ilícitos. como a transferência de efetivos militares para a Amazônia e a modificação da legislação brasileira no sentido de preparar as Forças Armadas para atuar contra os delitos transnacionais fronteiriços. no combate ao tráfico terrestre e fluvial. oriundas das regiões reconhecidamente produtoras dessas substâncias. em pequenas aeronaves. com isto. que ocorreram para integrar os procedimentos de interceptação aérea e. Em razão do que prescreve a Carta da ONU sobre o princípio de autodefesa. comprovou-se que as principais rotas de entrada de drogas ilícitas em território brasileiro ocorrem por via aérea. sendo o SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia) uma grande expressão desse trabalho. levando em conta a crescente ameaça apresentada pelo narcotráfico para a segurança da sociedade brasileira. Execução Em primeiro lugar. eram ignoradas por pilotos em vôo clandestinos. A regulamentação. em suas ordens de identificação e de pouso em pista pré-determinada. Essas seguem para o interior do Brasil (consumo interno) ou para países vizinhos. decidido a reverter essa situação e aprimorar a defesa do país. a caminho da Europa e Estados Unidos. a regulamentação da Lei do Tiro de Destruição aprovada abrange somente o caso de aeronaves suspeitas de envolvimento com o tráfico internacional de drogas. como previa a legislação em vigor.

Engloba os seguintes procedimentos: a) Reconhecimento à Distância. ou b) a que omitir aos órgãos de controle de tráfego aéreo informações necessárias à sua identificação. que é a Intervenção. se considerada hostil. ela estará sujeita a três tipos de medidas coercitivas. nome do piloto que normalmente a opera. caracterizada pela execução de dois procedimentos: FGV DIREITO rio 85 . que é mostrada. validade do certificado de aeronavegabilidade. caso esteja trafegando em rota presumivelmente utilizada na distribuição de drogas ilícitas. o nome de seu proprietário. aplicadas de forma progressiva e sempre que a medida anterior não obtiver êxito. ou não cumprir determinações dessas mesmas autoridades. serão encarregadas da execução dessas medidas. através de uma placa. que entrará no sistema informatizado do Departamento de Aviação Civil (DAC) para verificar se a matrícula corresponde ao tipo de aeronave. a vigiar seu comportamento. Caso a aeronave esteja em situação regular. iniciando pela de VHF 121. d) Realização de sinais visuais.5 ou 243 MHz. à medida de destruição.5 MHz. proa e características marcantes. Passos Caracterizada a aeronave como suspeita. b) Confirmação da Matrícula. ocasião em que os pilotos da aeronave de interceptação. que se dá quando as informações são transmitidas para a Autoridade de Defesa Aeroespacial. passa-se ao segundo nível de medidas coercitivas. c) Interrogação na freqüência internacional de emergência. licença. e. 2º) MEDIDAS DE INTERVENÇÃO – caso o piloto da aeronave suspeita não responda e não atenda a nenhuma das medidas já enumeradas. fotografam a aeronave interceptada e colhem informações de matrícula. sem plano de vôo aprovado. de acordo com as regras estabelecidas internacionalmente e de conhecimento obrigatório por todo aeronavegante. a aeronave deverá ser considerada como suspeita e submetida a procedimentos específicos. oriunda de regiões reconhecidamente fontes de produção ou distribuição de drogas ilícitas. de uma posição discreta.direitos humanos Antes de ser classificada como hostil e. São duas as situações em que uma aeronave pode ser considerada suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins: a) a que entrar em território nacional. nível de vôo. detalhados e seguros. endereço. ou. à aeronave interceptada pelo piloto do avião de Defesa Aérea. acionadas pelo Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA). etc. validade de exame médico. sujeita à medida de destruição. portanto. ainda. sem serem percebidos. de 121. As aeronaves de interceptação da Força Aérea Brasileira. 5. 1º) MEDIDAS DE AVERIGUAÇÃO primeiro nível das medidas busca determinar ou a confirmar a identidade de uma aeronave. será realizado apenas o acompanhamento. tipo de aeronave. após ter estabelecido com ela contato visual próximo. dados de identificação. dados de qualificação e de localização.

também determinado pela aeronave interceptadora de forma semelhante à tarefa anterior. consiste na realização de tiros de advertência. assinado pelo Excelentíssimo Senhor Presidente da República e publicado no Diário Oficial do dia 19 de julho. 8) Tiro de Destruição Medidas de Averiguação Suspeita Medidas de Intervenção Medidas de Persuasão Hostil Medidas de Destruição MEDIDA DE DESTRUIÇÃO o tiro de destruição deverá atender. previstas pela regulamentação contida no Decreto nº 5. determinada pela aeronave de interceptação. quanto por intermédio dos sinais visuais previstos nas normas internacionais e de conhecimento obrigatório. com a finalidade de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo da aeronave transgressora. 4) Sinais Visuais. que entrará em execução somente se o piloto da aeronave suspeita não atender a nenhuma das medidas anteriores. obrigatoriamente. FGV DIREITO rio 86 . d) o procedimento irá ocorrer sobre áreas não densamente povoadas e relacionadas com rotas presumivelmente utilizadas para o tráfico de drogas. 7) Tiros de Advertência. tanto pelo rádio. de forma visível e sem atingi-la. são oito os procedimentos a serem seguidos pelas autoridades de defesa aérea para o policiamento do espaço aéreo. de 16 de julho de 2004.direitos humanos a) mudança de rota. em todas as freqüências disponíveis. lateralmente à aeronave suspeita. 6) Pouso Obrigatório. 2) Confirmação de Matrícula. No total. 3º) MEDIDAS DE PERSUASÃO – o terceiro nível das medidas previstas. e estará sujeita à medida de destruição. segundo os padrões estabelecidos pelo Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA). 1) Reconhecimento à Distância. 5) Mudança de rota. o que significa dizer que tanto os radares quanto as aeronaves de interceptação envolvidas no policiamento do espaço aéreo deverão estar sob controle operacional das autoridades de defesa aérea brasileira.144. 3) Contato por Rádio na Frequência de Emergência. que consiste na realização de disparo de tiros. São elas: a) a sua realização só poderá ocorrer estando todos os meios envolvidos sob controle operacional do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA). b) pouso obrigatório. a exigências rígidas. c) será executado apenas por pilotos e controladores de defesa aérea qualificados. Somente quando transgredidos os sete procedimentos iniciais é que a aeronave será considerada hostil. com munição traçante. feitos pela aeronave de interceptação. Situação da aeronave Nível de medida Normal Situação de Normalidade Procedimentos Verificação das condições de vôo da aeronave. b) os procedimentos descritos serão registrados em gravação sonora e/ou visual das comunicações.

por exemplo.com. o senador é um dos poucos que reclamam. o Palácio do Planalto considerou necessário conversar com países como os Estados Unidos. O país é o terceiro país na América do Sul a adotar a Lei do Abate – os primeiros foram o Peru e a Colômbia. esses passageiros estariam sendo executados sem ter tido direito a julgamento. a lei que derruba aviões levanta muitas polêmicas. Acesso em: 8 nov. Viegas classificou a Lei do Abate como uma “forma de dissuasão” para coibir o tráfico de drogas. “Oxalá nunca necessitemos utilizar a medida de destruição”. protesta o parlamentar ao lembrar que a lei foi aprovada em 1998 com o apoio de tucanos e petistas.5 mil votos. dispara o senador petista Eduardo Suplicy (SP). A lei foi regulamentada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva no dia 19 de julho de 2004. refuta a comparação feita pelo senador Suplicy: “Não há qualquer correspondência entre a regulamentação da medida de destruição e a instituição da pena de morte. em entrevista por e-mail ao Correio. delega ao Comandante da Aeronáutica a competência para aplicar a medida de destruição. “A sociedade não foi ouvida”.pop.2004)82 A partir de hoje. 82 FGV DIREITO rio 87 . mas não está sozinho. que “a medida de destruição é a última de uma série de procedimentos que visam obrigar a aeronave infratora a pousar e submeter-se às medidas de policiamento no solo”. Competência O Excelentíssimo Senhor Presidente. São situações absolutamente díspares”. É importante ressaltar que a utilização dessa medida extrema somente ocorrerá após terem sido cumpridos todos os procedimentos previstos em lei e que esse será o último recurso para o Estado evitar o ingresso de aeronaves que transportam drogas para o território brasileiro. como as ocorridas no Peru em 2000. Disponível em: http://noticias. No Congresso. no decreto de regulamentação. O deputado Fernando Gabeira (sem partido-RJ) o acompanha. “Para mim isso é a mesma coisa que a pena de morte”. O ministro da Defesa. 2004. a medida foi anunciada como mais uma ferramenta de combate ao tráfico de drogas e ao contrabando de armas. A demora de oito anos para conseguir a rubrica presidencial tem explicação: antes de fazer com que a lei entrasse em vigor. O parlamentar defende que a lei poderá provocar a morte de muitos inocentes. Para Suplicy.10. a necessária agilização do processo de tomada da decisão. Lei do abate entra em vigor (17.com. que reuniu quase 9. Em uma enquete realizada pela internet. mesmo que a aeronave interceptada esteja lotada de criminosos. O ministro esclarece. htm?codigo=2618013. José Viegas. possibilitando. assim. qualquer aeronave que cruzar o céu brasileiro sem se identificar pode ser destruída. pelo site www. 87% dos internautas se posicionaram a favor da medida (é uma forma legítima de defender a soberania) e 13% se disseram contrários ao tiro de destruição (só deveria ser usado em casos de guerra). No Brasil.br.direitos humanos 6.br/ultimas. No entanto. aumentando o flagelo do problema do tráfico no país. correioweb. Existia o temor de que se um cidadão estrangeiro estivesse dentro de um avião destruído pelo governo brasileiro e o país sofresse algum tipo de retaliação militar ou econômica. com elevado grau de confiabilidade e segurança.

embassy spokesman Doug Barnes told CNN Saturday. A intenção da Força Aérea Brasileira não é matar ninguém”. A diferença. empresas aéreas. 110 emissoras de rádio AM e FM divulgam a campanha em toda a extensão da fronteira seca brasileira e atingindo 72 cidades.direitos humanos O governo brasileiro garante que o procedimento de abate vai ser cuidadoso. O procedimento de interceptação existe há 24 anos. afirma. lembra Azambuja que tem imagens de vídeo com o comportamento dos criminosos. Meanwhile.com/2001/US/04/21/peru. Comandante Todo o piloto que for abastecer o avião receberá um dos 100 mil panfletos com informações sobre a Lei do Abate. Na maior parte dos casos. “O desfecho é de responsabilidade exclusiva do comandante da aeronave”. Zombavam de nós. Cada caso será estudado na hora em que acontecer. salas de tráfego de aeroportos. hangares de manutenção. já avião terá que. até o dia 28. Disponível em: http://archives. sindicatos da aviação e hospitais entre outros pontos de passagem obrigatórios de pilotos e de futuros pilotos. cnn. como é chamada a licença para vôo. reconhece. explica Azambuja. Faziam até sinais obscenos”. Ele compara o procedimento ao adotado por policiais militares com veículos que não param em uma blitz. brigadeiro Francisco Azambuja. Não deve existir condescendência nem com aeronaves suspeitas que estiverem com crianças a bordo.” Barnes said. no mínimo. “Os traficantes tinham certeza da impunidade. alô. 83 FGV DIREITO rio 88 . Acesso em: 20 abril 2005. “We are working with Peruvian authorities to investigate what happened. A idéia é fazer com que distribuição do material não fique restrita aos aeroportos e atinja pilotos que não têm brevê. “Não estamos brincando de fazer policiamento aéreo.S. O nosso trabalho é fazer com que a lei seja cumprida. é que ao ser atingido em um pneu o veículo pode parar em um acostamento. Cerca de 10 mil cartazes serão distribuídos para os aeroclubes. o avião irregular deixava o território brasileiro e adiava a travessia para outro dia. Plane shootdown: Drug intercept flights suspended in Peru – CNN (abril de 2001)83 Drug interception flights in Peru have been suspended until the completion of an investigation into the downing of a missionary plane that killed two of five Americans on board – a 7-month-old girl and her mother. Mas nenhum subterfúgio que eles possam usar estará dando salvo-conduto ao traficante ou elemento que está fazendo tráfego ilegal para se salvar”. the Peruvian Air Force and a Baptist missionary group are giving conflicting accounts of events that led to the shooting down of the plane. Mas os aviões militares no máximo acompanhavam a aeronave suspeita até o pouso. Alô. Orçada em R$ 280 mil.02/. Desde o último dia 8. acredita o comandante de Defesa Aeroespacial Brasileiro (Condabra). U. “Os tiros são para obrigar a aeronave a pousar. a campanha tem o objetivo de informar que como a aeronave deve agir ao ser interceptada por aviões da Força Aérea Brasileira. fazer um pouso de emergência. plane.

was near the Peruvian military plane at the time of the incident but was unarmed and did not participate in shooting at the missionaries’ plane.S. reconnaissance plane provided location data for the subsequent intercept mission that was conducted by the Peruvian Air Force. “Central aviation authorities had given him a landing slot. embassy in Lima. After the missionaries’ Cessna 185 did not respond to a command to identify itself. the U.S. Friday. were uninjured. reconnaissance plane. Mission: Plane on safe course Michael Loftus. Pennsylvania. of Geigertown.S. Jim. he said. at which point the Peruvian Air Force dispatched a rescue plane. and had been working in Peru since 1993. was detected entering Peruvian air space from Brazil around 10 a. but he said that was the usual practice. “I can’t explain to you the statements of the Peruvian Air Force. “I’ll wait to see all the facts before I reach FGV DIREITO rio 89 . U. It had flown to the border town of Benjamin Constant. with the assistance of the reconnaissance plane. said their plane never left Peruvian air space. embassy in Lima said the U. and their son. the statement said. Charity.direitos humanos U.m. 42. Bowers’ husband. State Department. “proceeded to intercept the unknown airship”. According to a statement issued by the U. helping the Peruvians detect aircraft used in drug trafficking. was shot in the legs. other than probable confusion until they get their facts sorted out”. The pilot of the civilian plane finally responded after landing in a river near Pevas. the intercept system was activated”. first located plane A U. The statement said the air force has initiated an investigation. a missionary in Peru since 1983. in agreement with established procedures. 7. de Cuellar express sorrow for loss Asked about the incident while attending the Summit of the Americas in Quebec City. “Facing such circumstances and.S. Bush. Loftus said Pilot Kevin Donaldson had been in radio contact with the tower in Iquitos. to obtain a visa for the infant.S. Michigan. site of the nearest consulate. the air force plane fired. Loftus said he could not confirm that a flight plan had been filed. which had not filed a flight plan. he said. it said. which sponsored the missionaries. A Cessna A-37B. “As part of an agreement. reconnaissance plane was working as part of an agreement between the United States and Peru to combat drug trafficking.S. president of the Association of Baptists for World Evangelism. The family is from Muskegon.S. How could he be in contact with the civil authorities and their own military not know about it?” he said. said a spokesman for the U. “lamenting profoundly the loss of human life”. he said. radar and aircraft provide tracking information to the Peruvian Air Force on planes suspected of smuggling illegal drugs in the region”. Kevin Donaldson. Cory. A statement from the Peruvian Air Force said an unidentified plane.S. The spokesman at the U. President George Bush said. 38. the statement said. Killed in the incident were 35-year-old missionary Veronica Bowers and her seven-month-old daughter.

direitos humanos any conclusions about blame. Eliminados os aeroportos clandestinos. Exagero? Talvez. que permite à FAB derrubar aviões clandestinos dentro do nosso espaço aéreo e que acaba de merecer uma oportuna ação contrária do deputado Fernando Gabeira. E a tecnologia está aí mesmo. Disponível em: http://www. possibilitando sua punição quando aterrissassem. buscar-se-ia na própria tecnologia um meio de evitar o abate equivocado e irreversível. two lives”. a pena de morte no Brasil. virtualmente. disponível. entre outras. said White House spokesman Gordon Johndroe. the Associated Press reports. Sem erros. falta de habilitação do piloto. teríamos uma clara identificação dos eventuais infratores. uma fiscalização prévia mais rigorosa na frota que voa. Muitos dos inúmeros pequenos aviões que cruzam nosso espaço aéreo em regiões ermas. não estão a serviço do tráfico ou mesmo do contrabando. o que eliminaria o principal ponto de apoio das operações aéreas ilegais. reduziria drasticamente o número de aeronaves sujeitas à ameaça de derrubada. but right now. As autoridades aeronáuticas ficam sabendo das transgressões. sobretudo na Amazônia. mas é o que fica evidente quando vem à luz a chamada Lei do Abate. todas elas pecadilhos. estamos vivendo a ameaça de termos. que não podem ser punidos com rajadas de metralhadoras ou tiros de canhão: mau funcionamento do sistema de comunicações desses aviões. Peruvian Prime Minister Javier Perez de Cuellar approached Bush and “expressed his deep regret and offered to help the families in any way he could”. Em vez de balas. que consiste em “balear” com tinta colorida o adversário. sem sangue ou tragédias. we mourn for the loss of the life. Com certeza. sem remorsos.e da Rio Sul Linhas) Nas asas de um projeto pouquíssimo discutido pela sociedade. nos centros de lazer: o divertido paint ball. e não-utilização de fonia para não pagar as tarifas de proteção ao vôo.gabeira.com. FGV DIREITO rio 90 . tinta neles! 84 Acesso em: 25 abril 2005.(…) Tinta neles!84 George Ermakoff (Presidente do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias -SNEA. muitas vezes ao investigar acidentes com aeronaves de pequeno porte. por exemplo.br/causas/subareas. São aeronaves que podem deixar de se identificar para o caça interceptador por uma miríade de razões. São aeronaves que transportam gente através de centenas de quilômetros de território que não conta com qualquer outro meio de transporte. curiosamente. na região amazônica.asp ?idArea=8&idSubArea=136. O problema está nos riscos claramente subjacentes ao texto. desatualização do exame médico. Mais: a tecnologia hoje disponível permite identificar e destruir todos os aeroportos clandestinos. Assim. A parte de fundamentação da lei não merece reparos: trata-se de proteger o território nacional de aeronaves sem identificação e barrar o tráfico de drogas.

a proteção dos direitos civis e políticos sempre foi priorizada ao longo da evolução histórica dos direitos humanos em detrimento da proteção dos direitos econômicos. há a Constituição Federal (CF). Já o PIDCP é destinado exclusivamente à proteção dos direitos civis e políticos. o PIDCP estabelece o Comitê de Direitos Humanos e a sistemática dos relatórios e das comunicações inter-estatais. Em 2003. serão utilizados para superar as deficiências e omissões do sistema nacional. por sua vez. Nesse sentido. regional (mais especificamente no interamericano) e nacional. sociais e culturais. Nesse contexto. no Brasil. Isto significa que o indivíduo pode enviar uma petição ao Comitê caso o Estado do qual faça parte tenha ratificado o referido protocolo. sociais e culturais). dá especial ênfase à primeira. 26. ou melhor. com exceção do disposto no art. A DUDH. destaque-se a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção) que. cabe abordar dois casos.735 trabalhadores (sendo que quase a metade no estado do Pará). Quando se fala em trabalho escravo. o mecanismo de petição individual. prevendo. cabe destacar a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) e o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (PIDCP). (ii) caso Damião Ximenes. foram resgatados de cativeiros 4. Em relação ao sistema interamericano. Já no âmbito nacional. caput (assegura o direito à liberdade) e art. assim. veio a ampliar a proteção de tais direitos. Isto significa que o Estado tem a responsabilidade primária pela proteção desses direitos. Nesse sentido. o que corresponde a 51. O primeiro protocolo ao PIDCP. destina-se à proteção dos direitos civis e políticos. 5º. destaquem-se os artigos da CF a respeito: art. sendo os instrumentos internacionais complementares e subsidiários.direitos humanos Aula 13: Os direitos civis e políticos: direito à liberdade e integridade pessoal NOTA AO ALUNO Embora a indivisibilidade dos direitos humanos seja consagrada internacionalmente. cabe destacar que um país que tem como fundamentos a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho. por mais que preveja ambas as categorias de direitos (direitos civis e políticos e direitos econômicos. Em relação ao primeiro. de violação de direitos civis e políticos: (i) trabalho escravo. Como instrumentos de proteção dos direitos em tela. a violação mais visível em termos de direitos civis e políticos é do direito à liberdade. 5o – artigo este destinado aos direitos e garantias fundamentais do indivíduo. 5o.1% do total dos libertados FGV DIREITO rio 91 . salientem-se os instrumentos de proteção dos direitos civis e políticos nos sistemas global. III (proíbe o trabalho escravo ao dispor que “ninguém será submetido a tratamento desumano ou degradante”). a existência de trabalho escravo confronta diretamente com os direitos humanos. É importante ressaltar que os instrumentos internacionais de proteção não substituem o sistema nacional. que elenca os referidos direitos em seu art. Quanto ao primeiro.

htm. 91 Como a Comissão e a Corte já foram objetos de análise de uma aula anterior. a fim de que o trabalho escravo não seja uma opção. Os fatos 85 Para maiores informações. mas fracassou: o médico. foi à busca de auxílio. http://www. O art. uma vez que nenhum outro país o havia feito. De acordo com a Comissão e com os peticionários. e agonizando. o trabalho escravo acabará se a Câmara dos Deputados aprovar a proposta de emenda constitucional (Proposta de Emenda Constitucional nº 438/01). foi internado na tarde de 1 de outubro de 1999 na Casa de Repouso Guararapes.org.263 indivíduos85. Dessa forma. que chega a 9. que estatui o confisco de terras para as propriedades que tenham mão-de-obra escrava. entre outras). Contudo. com dificuldade de respirar. tirar documentos de identidade. que em 11 de dezembro de 2003 foi promulgada a Lei nº 10. que a Brasil reconhece na ONU a existência de trabalho escravo. já que apenas uma pessoa foi condenada até hoje87. entrou para a história das Nações Unidas89. a presente aula não aprofundará no estudo do procedimento de um caso perante ambas. 86 87 88 89 Idem. o envio do caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão). 90 Aula elaborada em 27 de janeiro de 2005. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que haja entre 25 e 40 mil trabalhadores escravos no Brasil. em 8 de março de 2004. a propositura da ação pela Comissão perante a Corte. Idem. responsável pela clínica tratou-a com descaso. ter acesso à terra. cabe mencioná-lo tendo em vista se tratar do único caso brasileiro que teve uma decisão emitida pela Corte Interamericana de Direitos Humanos90 (Corte). Desesperada. Idem. 4o da DUDH e o art. e quando houver punição para as pessoas que tiram proveito desse tipo de trabalho. a maioria na região amazônica86.asp?idio ma=PT&noticia=10909. a responsabilidade do Estado brasileiro. com a roupa rasgada. de forma breve. que comporta cerca de 80% dos trabalhadores escravos. as violações alegadas. fiscais e delegados. e sim na análise das violações dos direitos civis e políticos da vítima.direitos humanos nos últimos oito anos (1995-2003).br/agestado/noticias/2004/mar/08/182. que alterou o artigo 149 do Código Penal – dispõe que “reduzir alguém a condição análoga à de escravo” é crime – mas não aumentou a pena mínima de dois anos para esse tipo de crime. é de suma importância destacar os fatos. FGV DIREITO rio 92 . No âmbito internacional. Ressalte-se.adital. ao reconhecer em uma reunião oficial da ONU a existência de “formas contemporâneas de escravidão” em seu território. o Brasil. 30 anos à época. estadao. a mãe foi visitá-lo e o encontrou sangrando. Ceará.com. (b) estabelecimento de uma política social para saber de onde vêm os escravos. Estadão. De acordo com o ministro Nilmário Miranda. com as mão amarradas por trás das costas. acesse o site http://www.803. promotores. 6o da Convenção) proíbem expressamente a escravidão. 8o do PIDCP (bem como o art. será que o mero reconhecimento da existência de trabalhadores escravos é suficiente para acabar com a escravidão no país? Quanto ao segundo caso. com hematomas. destaquem-se88: (a) instituição de uma Vara Itinerante do Trabalho onde não houver juízes. (c) concessão de alternativas de vida às pessoas pobres (alfabetização. na manhã de 4 de outubro. Damião Ximenes. A vítima já havia sido internada em 1995 no mesmo estabelecimento. em virtude da apresentação de um “quadro psicótico”. por oportuno. conforme exposto a seguir91: 1.br/asp2/noticia. Dentre as medidas para acabar com o trabalho escravo. dizendo.

chegando lá. 2. Dentre as versões apresentadas pelos enfermeiros e funcionários da instituição. no âmbito interno. voltou para sua casa em busca de ajuda e. pelo menos. FGV DIREITO rio 93 . 3. os familiares da vítima levaram o corpo para realização de autópsia no instituto forense de Fortaleza. já havia um recado que seu filho havia falecido. tendo em vista que o Estado brasileiro não cumpriu as recomendações da Comissão. duas ações (uma penal e uma civil) tramitando perante a justiça local. Não é a primeira vez que ocorre uma morte por violência e maus tratos na instituição em tela. ou melhor. O Estado. Já houve.direitos humanos morte é uma coisa natural da vida. apresentou perante a Comissão uma petição contra o Brasil. Entre março e julho de 2000. irmã de Damião Ximenes. Há. No laudo consta que se trata de “morte real de causa indeterminada”. tortura e abuso sexual de pacientes. O médico fez constar como causa da morte “parada respiratória” e não ordenou a realização de autópsia. Damião Ximenes faleceu 3 dias após sua internação. 4. Damião havia brigado com enfermeiros. A propositura da ação Em 30 de setembro de 2004. em 4 de outubro de 1999. O envio do caso Em 22 de novembro de 1999. 196 a 200. foi instituída a Junta Interventora da Casa de Repouso Guararapes. uma vez que o Sistema Municipal de Auditoria concluiu em seu Relatório 002/99 que havia na instituição evidências de maus tratos. a senhora Irene Ximenes Lopes. denunciando os fatos ocorridos em detrimento de seu irmão. enquanto que na outra versão ele havia brigado com outros pacientes. Inconformados. não estando satisfeito com os serviços prestados. que incluíram golpes na cabeça com objetos contundentes. destaquem-se duas: na primeira versão. uma morte em 1987 e outra em 1991. que tem como diretor o médico da Casa de Repouso Guararapes. Desamparada. pode cancelar a autorização do ente privado como prestador de serviços de saúde em nome do Estado (arts. Dessa forma. o Estado brasileiro tem o dever de controlar e fiscalizar os serviços prestados pela referida instituição. A responsabilidade do Estado brasileiro A Casa de Repouso Guararapes é uma clínica privada conveniada ao SUS (Sistema Único de Saúde). a Comissão resolveu enviar o presente caso à Corte. Dessa forma. CF).

Repare adequadamente os familiares do senhor Damião Ximenes pelas violações de direitos humanos cometidas. Convenção Americana). as violações a sua integridade pessoal. o Estado brasileiro reconheceu parcialmente a responsabilidade internacional por violação de direitos humanos – referente ao direito à vida e integridade pessoal. incluindo o pagamento efetivo de uma indenização. Convenção Americana).92 A Corte deixou claro que o Brasil “tem responsabilidade internacional por descumprir. Convenção Americana). 5o. 43/03 da Comissão). seu dever de cuidar e de prevenir a vulneração da vida e da integridade pessoal. sendo a primeira sentença em face do Estado brasileiro. a Corte proferiu a decisão do caso em tela. Em agosto de 2006. Assim o fez sob o argumento de que as precárias condições de atendimento psiquiátrico às quais foi submetido Damião Ximenes Lopes não correspondem ao atual grau de evolução e implementação das políticas públicas nessa área e no respeito aos direitos humanos dos pacientes. As violações A Comissão requer que a Corte determine que o Estado brasileiro é responsável pela violação do direito à vida (art. imparcial e efetiva dos fatos relacionados com a morte de Damião Ximenes. e as violações da obrigação de investigar (Relatório n. neste caso. Adote as medidas necessárias para evitar que fatos similares ocorram no futuro. às garantias judiciais (art. 25. O pedido A Comissão solicita à Corte que ordene ao Estado que: • • • • Efetue uma investigação completa. 6.cr/. 1. à integridade pessoal (art. combinados com a violação do dever genérico de garantir e respeitar os direitos consagrados na Convenção (art. bem como seu dever de regulamentar e fiscalizar o atendimento médico de saúde”93. desumanas ou degradantes. Convenção Americana). apesar de seu dever de cuidado como garantidor de seus direitos. Em audiência celebrada em dezembro de 2005.or. bem como daqueles originados na tramitação do presente caso perante o sistema interamericano. 8o. indaga-se: Qual é a importância do caso Damião Ximenes? Quais direitos foram violados no caso em tela? Há alguma diferença de 92 Informações atualizadas em 25 de outubro de 2006.corteidh. do direito a um recurso efetivo e das garantias judiciais relacionadas com a investigação dos fatos. Expostas as pretensões da aula. tanto no local dos fatos como em todo o território brasileiro. acesse o site da Corte Interamericana de Direitos Humanos: http://www. à proteção judicial (art. Pague as custas e gastos legais incorridos pelos familiares do senhor Damião Ximenes na tramitação do caso no âmbito nacional. 93 Para ler a sentença na íntegra.direitos humanos 5. Convenção Americana). devido à hospitalização do senhor Damião Ximenes em condições cruéis. a seu assassinato. FGV DIREITO rio 94 . 4o.1.

Flávia. 2003 Legislação: Convenção Americana sobre Direitos Humanos Declaração Universal sobre Direitos Humanos Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Constituição Federal FGV DIREITO rio 95 . In: PIOVESAN. São Paulo: Max Limonad.direitos humanos proteção dos direitos civis e políticos nos documentos mencionados? Quais são os artigos da CF que consagram os direitos civis e políticos? Quais são os direitos violados da pessoa que trabalha em condições análogas à de escravo? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. Flávia. Temas de Direitos Humanos. “A Litigância de Direitos Humanos no Brasil: Desafios e Perspectivas nos uso dos Sistemas Nacional e Internacional de Proteção”.

trajetória da violência estatal. op. multiplicam-se os relatos de violência. é fruto das mudanças macro-estruturais propiciadas pela introdução do modelo econômico neoliberal na década de 1980. criminalização da pobreza. os tópicos que serão abordados: 1. mas também aqueles que fazem parte do discurso da mídia e. Esta. 9. assim. Acesso em: 14 abril 2005. Relatório Rio: Violência Policial e Insegurança Pública. cit. para delimitar o objeto de estudo. Em nosso Estado. Disponível em: http://www. em decorrência da existência de um “poder paralelo”. br/portuguese/arquivos/relatorio_rio1.org. para que se possa tanto explicar quanto desmistificar alguns temas. htm.global. Disponível em: http://www.pdf. Falar em violência urbana não é tarefa fácil. 95 Acesso em: 14 abril 2005. Na região.org/2005/abril/ibe_026. notadamente policial. 2. conseqüentemente. conseqüentemente. abaixo. Temos como exemplo a chacina ocorrida na Baixada Fluminense. 5. a criminalização da pobreza. 4. FGV DIREITO rio 96 . uma vez que se trata de tema complexo e. em um contexto no qual prevalece a omissão do Poder Público. a violência no Rio de Janeiro é caracterizada pela mídia como guerra civil. é considerada natural por grande parte da sociedade e dos governantes95. causas do agravamento da violência. Em relação ao primeiro tópico. que. sua sistematicidade e banalização ensejam ao menos um sentimento em comum. tal como a exclusão de um número cada vez maior de pessoas da vida econômica. trouxe também conseqüências drásticas. embora tenha permitido um aumento da produtividade e da expectativa de vida em alguns países. a idéia de que a pessoa é criminosa em virtude do local onde mora e de sua condição social. 3. embora tenha causado indignação pública. devem ser levados em consideração pontos essenciais. Quanto ao segundo aspecto. utilizam-se os critérios geográficos e sociais para localizar o inimigo96 94 Centro de Justiça Global 2004. Seguem. contido justamente no repúdio à sua manifestação como rotina diária.direitos humanos Aula 14: Violência Urbana NOTA AO ALUNO “A despeito das diferentes visões em relação ao entendimento sobre quem e como se produz a violência no Rio de Janeiro. que perpetua a insegurança no Estado. 21. A morte e a violência. em especial. A guerra pressupõe a existência de um inimigo (no caso seriam os criminosos e suspeitos) que se almeja combater. tão visceral à opinião pública. perpetuadora da insegurança”94. tem como causa direta a exclusão social. ao mesmo tempo. do acesso ao trabalho. são naturalizadas. em 30 de março de 2005. sistematicidade e banalização da violência. Por tão enraizada no dia-a-dia dos cidadãos. por sua vez. descrédito das ações do governo no combate à violência. Dessa forma. ou melhor. que impõe o terror e a desordem. cumpre destacar a manifestação da violência urbana no Rio de Janeiro como algo rotineiro e.. 96 Expressão utilizada no Relatório do Centro de Justiça Global. Assim. do conhecimento popular.lainsignia. p. o século XX. p.

Acesso em: 21 abril 2004. basearam seus discursos na promessa de criarem uma nova polícia e uma nova política de segurança. Nesse sentido. A atuação policial. Como conseqüência dessa visão.. 1.htm?infoid=3139 &tpl=printerview&sid=16>. o conceito de criminalização da pobreza. É uma questão de Estado e não de polícia”100. destaque-se que. Isto porque os três itens estão interconectados. o inimigo é caracterizado como pobre e morador de comunidades carentes. segundo os quais o criminoso ou suspeito reside nas favelas e possui “cor e aparência definidas. pobre e negro.br/artigo_ind. A pobreza passa a ser vista como perigo à sociedade e tem como conseqüên­ cia a não observância e consagração da universalidade dos direitos humanos. 99 Ibid.luizeduardosoares. Nesse sentido. a maioria em condições que sugerem extermínio. distorcida por essa perspectiva. do sexo masculino.com. do sensacionalismo da mídia e da ação da polícia. 100 Acesso em: 14 abril 2005. Luiz Eduardo. assim. especialmente no senso comum das classes média e alta”97. de saúde e de lazer.195 pessoas foram mortas por policiais no Estado do Rio de Janeiro no ano de 2003. corroborando. SOARES. Isto significa ser de extrema importância mais investimentos nas áreas sociais e mais planejamento na atuação policial. de “reabilitar a polícia”. com idade entre 15 e 24 anos e morava em regiões carentes98. conseqüentemente. 16. os candidatos ao governo do Estado na campanha eleitoral de 1988. Disponível em: http://www. em detrimento da utilização da opressão e da violência como prática da polícia101. p. 30. assim como sua descartabilidade seria assegurada frente ao corpo social. FGV DIREITO rio 97 . “legitimam” as violações dos direitos humanos por policiais nesses locais99. Quanto ao terceiro tópico.org/publique/cgi/cgilua.org/2005/abril/ibe_ 026. O resultado pode ser vislumbrado pelo número muito maior de pessoas mortas em intervenções policiais: 427. Contudo. houve uma redução em 40% do número de civis mortos pela polícia. faz-se necessária uma análise em conjunta da exclusão social. lainsignia. Disponível em: http://www. acaba por substituir a proteção da vida por práticas cada vez mais violentas. Como conseqüência da supressão da “banda podre” da polícia. “Geografia da Violência no Rio de Janeiro” in Folha de São Paulo.htm.10. exe/sys/start. php?categoria=seguranca. p. pesquisador do Centro de Justiça Global. ou melhor. Foi o que prometeu Anthony Garotinho. Ibid. Nesse contexto. bem como a noção de guerra. Ainda em relação aos direitos humanos. Em se tratando das causas do agravamento da violência no Rio de Janeiro. equiparam criminosos e moradores das comunidades carentes e. 101 102 103 Idem.2004.direitos humanos desta guerra. Acesso em: 14 abril 2005. é a relação entre os mesmos que agrava drasticamente a violência no Estado. ao assumir o poder. que o conceito de segurança deve ser redefinido. constata-se que a política de segurança pública do Estado não é dirigida a todos os cidadãos e nem está fundada na proteção e garantia universal dos direitos humanos. Constata-se também que a maioria das pessoas assassinadas era jovem. o discurso e ações policiais. ressalta Marcelo Freixo. uma redução significante do número de policiais mortos e a maior quantidade de apreensão de armas com criminosos até então: 9 mil102. alterações corporativas que conduziram à exoneração de Luiz Eduardo Soares da Secretaria Estadual de Segurança Pública em 2000 significaram o retorno das velhas políticas de enfrentamento por seu sucessor.desarme. ao passo que em 1999 haviam ocorrido 289 mortes103. 14. Disponível em: http://www. a fim de corresponder às exigências atuais: “segurança hoje em dia é política educacional. entre outros itens. A exclusão 97 98 Idem. em decorrência do período no qual se recompensava o policial com um incremento salarial – que variava entre 50 a 150% de seu salário – sempre que fizesse uma vítima letal.

não visa a explicar ou entender as causas do problema para que se possa solucionálos. Acesso em: 14 abril 2005.org/publique/cgi/cgilua.org. Ignacio. Disponível em: http://www. Luiz Eduardo. violando. bem como uma ilusão por parte da mesma de que seu trabalho deva ser pautado na violência107. ao etiquetamento penal de suas camadas mais miseráveis”106. 30. 104 105 106 Ibid. Hoje em dia.br/portuguese/arquivos/relatorio_rio1. travestida como “resposta” à criminalidade – mas que diz respeito. As principais causas do descrédito das ações do governo no combate à violência. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: CANO. a ausência de órgãos de monitoramento independentes e a corrupção policial. SOARES. o último tópico. tem uma tradição de repressão. o policial mata ou tortura alguém. 2003. Entrevista.global. treinamentos e capacitação dos policiais.desarme.direitos humanos social contribui para que muitas pessoas optem por atividades ilícitas como meio de vida. Guilherme de Assis. de mudanças drásticas e urgentes em toda a política de segurança pública do Rio de Janeiro. São Paulo: Publifolha.php?id=44834. clippingexpress. p. em última instância. Em especial. Violência Urbana. leia a entrevista com Ignacio Cano. Para maiores informações. Conflito e segurança (entre pombos e falcões). Acesso em: 14 abril 2005. pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da UERJ. Acesso em: 14 abril 2005. a polícia possa definitivamente transmitir segurança ao invés de medo.br/artigo_ind.com.luizeduardosoares. Já a mídia. respectivamente.10.com. Disponível em: http://www. Necessita-se. Acesso em: 14 abril 2005. 107 FGV DIREITO rio 98 . por sua vez. A polícia. DORNELLES. Acrescente-se a este fato a questão da impunidade dos policiais. In: Folha de São Paulo. 14. o direito à vida e o direito à integridade física).br/noticias_justica. Paulo Sérgio e ALMEIDA. Acesso em: 21 abril 2004. PINHEIRO. Capítulo VII.e. assim como a carência de investimentos. a fim de que. mas sim punir os criminosos). 2003. há uma enorme demanda de certos setores para que a polícia seja violenta. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris. exe/sys/start. tem haver com a falta de transparência das ações públicas na área de segurança.pdf.clippingexpress. que é ainda mais grave quando se materializa em violação dos direitos humanos (quando.com. Centro de Justiça Global. seguindo a premissa de “entender menos e punir mais”104 (i. por exemplo.php?id=44834. incute na sociedade um falso clamor por Justiça. manipulada pelo “Estado na perpetração da violência.php?categoria=seguranca.htm?infoid=3139 &tpl=printerview&sid=16>. que começa com a fundação das primeiras corporações no Brasil para manter sob controle as classes subalternas106. Relatório Rio: Violência Policial e Insegurança Pública.2004. Disponível em: http:// www. Disponível em: http://www. “Geografia da Violência no Rio de Janeiro”. Idem. João Ricardo. Disponível em: http:// www.br/noticias_justica. portanto. um dia.

emitirá suas observações conclusivas que. Sociais e Culturais110 (Comitê DESC). bem como em decorrência da preponderância da posição dos países ocidentais. diferentemente do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Vol. tendo em vista que os mesmos foram. encaminhará uma cópia ao Conselho Econômico e Social para apreciação. se transformam em um importante instrumento de negociação para que haja avanços na proteção dos direitos humanos. As recomendações caracterizam-se CANÇADO TRINDADE. assim como não estatui um Comitê como órgão principal de monitoramento. de elaborar dois Pactos Internacionais de Direitos Humanos (1966). já naquela época. 354. Tal medida se deu em virtude do conflito ideológico que vigorava na época. assim. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. cumpre ressaltar que. Sociais e Culturais contém dispositivos suscetíveis de aplicação a curto prazo. o PIDESC baseia-se no mecanismo dos relatórios. que alegavam que ambas as categorias de direitos não poderiam estar no mesmo Pacto. I. por sua vez. após analisar o relatório. sociais e culturais demandam realização progressiva. p. ao passo que os direitos civis e políticos são auto-aplicáveis. sociais e culturais NOTA AO ALUNO A busca por uma proteção mais efetiva dos direitos econômicos. 108 109 Comunicação interestatal é aquela através da qual um Estado-parte denuncia a existência de violação de direitos humanos em outro Estado-parte. Instituído pelo Conselho Econômico e Social da ONU através da Resolução ESC 1985/17. Isto porque. voltada às obrigações gerais que vinculam os Estados Partes. os conflitos entre as duas categorias de direitos nem sempre são claros. ao longo da história. a Carta Internacional dos Direitos Humanos. sociais e culturais. o PIDESC não prevê um mecanismo de comunicação interestatal nem de petição individual109 (através de um protocolo adicional). Sociais e Culturais (PIDESC). têm força política e moral que. o relatório será analisado pelo Comitê de Direitos Econômicos. Todavia. negligenciados na esfera internacional. “o Pacto de Direitos Civis e Políticos também prevê a ´possibilidade de realização progressiva´ de certos direitos. 110 FGV DIREITO rio 99 . Como leciona Cançado Trindade. De maneira diversa. em conjunto com a DUDH. com medidas de implementação distintas. muitas vezes. O Comitê DESC. formando.direitos humanos Aula 15: Direitos humanos econômicos. e talvez a distinção seja antes uma questão de gradação ou de ênfase. uma vez que os direitos econômicos. sociais e culturais (DHESCs) encontra-se na atual agenda internacional dos direitos humanos. cabe ressaltar seu sistema peculiar de monitoramento. os direitos civis e político . em 1951. Na verdade.”108 Em se tratando especificamente do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. cada um voltado a uma categoria de direitos. criado pelo Conselho Econômico e Social e que tem por principal função o monitoramento da implementação dos direitos econômicos. até hoje. A raiz do tratamento diferenciado das duas categorias de direito encontra-se na decisão tomada pela Assembléia Geral das Nações Unidas. ao passo que comunicação individual se refere à possibilidade do indivíduo recorrer a instâncias internacionais para reparação ou restauração dos direitos violados. ambiente este que prioriza. 1997. tal dicotomia não tinha caráter absoluto. embora não sejam dotadas de força legal. Antonio Augusto. por meio do qual os Estadospartes encaminham relatórios ao Secretário-Geral das Nações Unidas que.

assim. consistirá em uma forma de ampliação do sistema de monitoramento. em 1993. Sociais e Culturais. pelo qual os Estados-partes devem encaminhar informações acerca das medidas legislativas. em 2001112. 112 113 O Contra Informe foi apresentado durante o 30º Período Ordinário de Sessões (05 a 23 de maio de 2003) do Comitê de Direitos Econômicos. em virtude da inércia do estado brasileiro. Após a análise dos dois informes. Os DHESCs também podem ser analisados nos três sistemas regionais de proteção dos direitos humanos: sistema europeu. a sociedade civil. Sociais e Culturais adotou as observações conclusivas em 23 de maio de 2003. desde 1997. em maio de 2003. Destaque-se. O Brasil ratificou o PIDESC em 24. seu Primeiro Informe ao Comitê de Direitos Econômicos. 111 Saliente-se que em 2000.. o único mecanismo de proteção dos direitos em tela estabelecido pelo PIDESC é a sistemática dos relatórios. O Comitê de Direitos Econômicos. cabe mencionar que o Governo Federal apresentou. especificando se as recomendações propostas pelo Comitê DESC foram observadas ou não. i. muitos deles surtem impactos de natureza social ou econômica. tais como os consagrados pelo Protocolo I: direito à propriedade privada (artigo 1) e direito à educação (artigo 2). Em contrapartida. sociais e culturais no plano internacional.e. suas observações conclusivas acerca do cumprimento do PIDESC pelo Brasil. destaca-se o Protocolo Facultativo ao PIDESC (tramita. foram incorporados alguns direitos à Convenção Européia. Sendo assim. faz-se extremamente necessário ampliar o sistema de monitoramento dos direitos econômicos. assim. já que prevê o mecanismo de comunicação individual. Em relação ao Brasil111. administrativas e judiciárias que são tomadas para efetivar os direitos estabelecidos no PIDESC. que proclamou a indivisibilidade dos direitos humanos. realizada em Teerã. uma clara distinção entre as duas categorias de direitos.1992. último dia de seu 30º Período Ordinário de Sessões. o Comitê DESC emitiu114. afirmando. constrangimento político e moral no campo da opinião pública internacional do Estado que viole os direitos humanos. caso seja adotado.01. uma vez que a consagração da indivisibilidade dos direitos humanos fez com que. a sociedade civil apresentou um “Informe Alternativo” ao Comitê de Direitos Econômicos. na Comissão de Direitos Humanos da ONU) que. por oportuno. saliente-se a ponderação feita pela Corte Européia de Direitos Humanos no caso Airey (1979) de que embora a Convenção Européia sobre Direitos Humanos consagre essencialmente os direitos civis e políticos. Sociais e Culturais (Dhesc Brasil) apresentou em 2003 seu Contra Informe113 (denominado também de Relatório Sombra) ao Comitê DESC. pela primeira vez. Trata-se de passo de suma importância. bem como das dificuldades encontradas para a plena realização desses direitos. Em virtude da crescente atenção dada aos DHESCs ao longo dos anos. assim denominado uma vez que o governo federal brasileiro ainda não tinha encaminhado nenhum informe. Nesse contexto.direitos humanos por seu power of embarrassment. em 1968. que a indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos foi reafirmada na II Conferência Internacional sobre Direitos Humanos. é de suma importância ressaltar a I Conferência Mundial sobre Direitos Humanos. Sociais e Culturais das Nações Unidas. ambas as categorias de direitos estivessem no mesmo patamar. O Governo brasileiro apresentou em 2006 um novo informe. com quase dez anos de atraso. Em relação ao sistema europeu. especificamente. Em relação à consagração dos DHESCs no âmbito internacional. Sociais e Culturais. não havendo. realizada em Viena. a fim de contestar alguns fatos levantados pelo governo federal. que a plena realização dos direitos civis e políticos só seria possível com o gozo dos DHESCs. incluindo recomendações e sugestões para sua efetivação. bem como para apresentar novos dados sobre a situação brasileira. sistema africano e sistema interamericano. 114 FGV DIREITO rio 100 . Como exemplo. por meio da Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos.

chegou-se a uma solução amistosa.11289.289115. FGV DIREITO rio 101 . como. e lançado pelo governo brasileiro. um menor de idade que trabalhava em condições análogas à de escravo em uma fazenda no sul do Pará. o direito à seguridade social (artigo 9). Sociais e Culturais (Protocolo de San Salvador). José Pereira.htm. o direito a condições justas. tanto a Comissão quanto a Corte Interamericana de Direitos Humanos têm reconhecido. eqüitativas e satisfatórias de trabalho (art. Em primeiro lugar. que o referido Protocolo define o alcance de alguns DHESCs. em 11 de março de 2003. por exemplo. elaborado pela Comissão Especial do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. Expressão de um movimento de conscientização para uma proteção mais efetiva aos DHESCs.289 (Brasil). documento este que entrou em vigor em novembro de 1999. quer com seu próprio esforço. em 1988 foi adotado o Protocolo Adicional à Convenção Americana em matéria de Direitos Econômicos. Ainda no bojo do referido acordo. Acesso em: 04 jan. Disponível em: http://www. O reconhecimento público da responsabilidade do Estado brasileiro em relação à violação de direitos humanos deu-se na solenidade de instalação da Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo-CONATRAE (criada por Decreto Presidencial de 31 de julho de 2003). o caráter fundamental dos DHESCs. limitando-se a dispor que os mesmos devem ser realizados progressivamente. o Estado brasileiro comprometeu-se a implementar as ações e as propostas de alterações legislativas contidas no Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo. Por fim. tendo a Comissão Africana de Direitos Humanos e dos Povos um mecanismo de aplicação comum a todos os direitos.Nesta oportunidade. o PIDESC assevera a obrigação do Estado de. 2005. quer com a assistência e cooperação Relatório Nº 95/03 Jose Pereira – Caso 11. sociais e culturais (artigo 15 a 18). a Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos prevê um catálogo tanto de direitos civis e políticos (artigos 3 a 14) quanto de direitos econômicos. Embora o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos tenha se concentrado na defesa dos direitos civis e políticos.direitos humanos Em se tratando do sistema africano. cabe destacar que. em 2003. sofrendo lesões permanentes no olho direito e na mão direita. Em uma ocasião. que trata da situação de José Pereira. Como exemplo. pagou a vítima o valor de R$ 52. foi gravemente ferido. cabe mencionar o debate sobre duas categorias intrínsecas aos DHESCs: a progressividade e a exigibilidade. As pessoas aceitavam trabalhar no local em virtude de falsas promessas de altos salários e boas condições de trabalho. por oportuno. a aula deverá apontar o Caso 11. bem como de apresentar relatórios periódicos. Quanto ao sistema interamericano. Saliente-se. 7) e o direito a um meio ambiente sadio (artigo 11).00 (cinqüenta e dois mil reais) a título de indenização por danos morais e materiais116. 115 116 Idem. capangas atiraram nos trabalhadores que tentavam fugir da fazenda.oas.000. em seus respectivos âmbitos de competência. embora a Convenção Americana sobre Direitos Humanos mencione os DHESCs em apenas um artigo. que na época tinha 17 anos. org/annualrep/2003eng/Brazil. o Estado brasileiro.cidh. e de maneira a aprimorar a legislação nacional que visa a coibir a prática do trabalho escravo no país. realizada no dia 18 de setembro de 2003. o Protocolo de San Salvador dispõe acerca da possibilidade de se enviar petição individual acerca do direito à educação e de alguns aspectos dos direitos sindicais à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão). O caso em tela foi levado à Comissão em 1994 e..

120.2004. em ordem a viabilizar. 117 LIMA JÚNIOR.direitos humanos internacionais. justificar-se-á.br/cgi-bin/nphbrs?d=DESP&n=-julg&s1=45. Todavia. como precedentemente já enfatizado – e até mesmo por razões fundadas em um imperativo ético-jurídico -. devem ser dotados de mecanismos para que seus titulares possam deles usufruir. a todos. precisamente por constituírem direitos. então. nesse domínio.gov. NUME. FGV DIREITO rio 102 . 2001. a eficácia dos direitos sociais. Nesse sentido. Nesse contexto.&l=20&u=http://www. naturais e de informação. (ii) recursos aqui devem ser entendidos para além dos financeiros. Os DHESCs. por delegação popular. a liberdade de conformação do legislador. importante decisão do Supremo Tribunal Federal acerca dos DHESCs. aquele núcleo intangível consubstanciador de um conjunto irredutível de condições mínimas necessárias a uma existência digna e essenciais à própria sobrevivência do indivíduo.asp&Sect1=IMAGE&Sect2 =THESOFF&Sect3=PLURON&S ect6=DESPN&p=1&r=2&f=G. como decorrência causal de uma injustificável inércia estatal ou de um abusivo comportamento governamental. p.”118 Por mais que alguns DHESCs já possuam mecanismos eficientes de proteção perante o Judiciário. para assegurar progressivamente o pleno exercício dos direitos elencados. Jayme Benvenuto. 118 119 Ibid. p. tecnológicos. 45 – STF. uma contradição no primeiro exame. indica para o fato de que progressividade não pode ser entendida como postergação infinita. a qual pode se dar no âmbito administrativo ou judicial.br/Jurisprudencia/Jurisp. É que. Julgamento em 29.117 Dessa forma. 45119. cabe a análise de alguns desses elementos: (i) a acareação entre o máximo e o disponível. stf. Refere-se aqui à exigibilidade dos DHESCs. nem a de atuação do Poder Executivo. no máximo dos recursos disponíveis. tendo em vista a previsão normativa dos DHESCs. Os direitos humanos econômicos.stf. afetando. econômicos e culturais. comprometendo-a.04. tomar medidas. o Ministro Celso de Mello. cumpre reconhecer que não se revela absoluta. Em 29 de abril de 2004. aí. se tais Poderes do Estado agirem de modo irrazoável ou procederem com a clara intenção de neutralizar. apôs importantes considerações ao Poder Judiciário em relação à implementação dos DHESCs: “Não obstante a formulação e a execução de políticas públicas dependam de opções políticas a cargo daqueles que. esta denominada justiciabilidade. tem-se que uma saída possível e recomendável é o estabelecimento de metas e prazos para a concretização dos DHESCs. Relator Ministro Celso de Mello. o acesso aos bens cuja fruição lhes haja sido injustamente recusada pelo Estado”. registra-se ainda muita resistência por parte do Ministério Público e do Judiciário em designar uma tutela efetiva a tais direitos.gov. em sede da Argüição de Descumprimento de Direitos Fundamental (ADPF) n. receberam investidura em mandato eletivo. sociais e culturais. “se ao Judiciário sempre coube a obrigação de solucionar conflitos em relação a todas as matérias que lhe sejam apresentadas. agora ele tem uma base positiva que legitima sua ação em nível interno. Acesso em: 04 julho 2005. por fim. 108. compreendidos também os humanos. a possibilidade de intervenção do Poder Judiciário. destaque-se que a exigibilidade dos DHESCs pode ser considerada nas esferas nacional (constituições e leis) e internacional (PIDESC).. como é o caso dos direitos trabalhistas e previdenciários. Como lembra Jayme Benvenuto. ADPF n. Disponível em: http://gemini. Rio de Janeiro: Renovar. mesmo sem examinar diretamente o objeto da ação – veto do Presidente da República a artigo da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2003 que garantia recursos financeiros ao serviço de saúde – uma vez que o Poder Executivo enviou projeto de lei ao Legislativo que restaurou a integridade do artigo. cabe registrar.

Flávia. 1997. Sociais e Culturais Declaração Universal de Direitos Humanos Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem Convenção Americana sobre Direitos Humanos Protocolo de San Salvador Convenção Européia sobre Direitos Humanos Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos FGV DIREITO rio 103 . Leitura acessória: LIMA JÚNIOR. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. 91-114. In: PIOVESAN. indaga-se: Um cidadão brasileiro pode enviar um caso relativo à violação do direito à saúde à Comissão Interamericana de Direitos Humanos? Quais são os mecanismos de proteção dos DHESCs existentes no sistema global? O que representa a consagração da indivisibilidade dos direitos humanos para a proteção dos direitos econômicos. Antonio Augusto. GOTTI. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Temas de Direitos Humanos. I. Jayme Benvenuto. Flávia. “A proteção Internacional dos Direitos Econômicos. Janaína Senne. pp 353-360. sociais e culturais? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. Rio de Janeiro: Renovar. Sociais e Culturais”. Os direitos humanos econômicos. São Paulo: Max Limonad. 2003. PIOVESAN. Alessandra Passos. 2001.direitos humanos Pelo exposto. Vol. sociais e culturais. Legislação: Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos. e MARTINS. pp.

dentre outros. Os direitos humanos sob a perspectiva de gênero NOTA AO ALUNO Vimos discutindo ao longo das últimas aulas a proteção aos direitos civis e políticos e aos direitos econômicos. 2002. 188. parir e amamentar. São Paulo: Max Limonad. Há de se destacar que o sistema geral e o sistema especial de proteção de direitos humanos são necessariamente complementares. idade. etnia. dotando alguns sujeitos de direitos também distintos. por exemplo. Proteção dos direitos da mulher Na compreensão do processo narrado. A partir da presente aula. como. Flávia. ressaltando a indivisibilidade como o marco de compreensão dos direitos humanos. a Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW) de 1979. cabendo a escolha dos direitos humanos das mulheres como o primeiro desses. ao longo das últimas décadas. examinaremos alguns desses sujeitos de direito. às pessoas vítimas de tortura. passaremos a analisar o processo de especificação dos sujeitos de direitos como decorrência de um outro marco fundamental: a universalidade dos direitos humanos. foram consolidados tratados que tinham como objeto tema específico. “na medida em que o sistema especial de proteção é voltado.direitos humanos Aula 16: A especificação do sujeito de direitos. às mulheres. o fato de somente as mulheres poderem menstruar.”120 Ao longo das próximas aulas. Daí apontar-se não mais ao indivíduo genérica e abstratamente considerado. a primeira das especificações refere-se ao fato de que os seres humanos são sexuados. Todavia. O Direito Internacional dos Direitos Humanos deixa de examinar os seres humanos como sujeitos neutros. à prevenção da discriminação ou à proteção de pessoas ou grupos de pessoas particularmente vulneráveis. etc. e passa a analisa-los com concretude. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. raça. fundamentalmente. tidas suas diferenças em segundo plano. 120 FGV DIREITO rio 104 . Referimo-nos aqui a sexo como as diferenças entre homens e mulheres dadas pela natureza. aos idosos. as PIOVESAN. que merecem proteção especial. Mais do que isso. às pessoas vítimas de discriminação racial. O sistema internacional passa a reconhecer direitos endereçados às crianças. sociais e culturais. Convenção contra a tortura e outros tratamentos ou Penas Cruéis. por exemplo. nos referimos até o presente momento ao sistema geral de proteção aos direitos humanos. (I) p. mas ao indivíduo ‘especificado’. Desumanos ou Degradantes de 1984 e a Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989. como. Seja a Declaração Universal de 1948 ou os Pactos Internacionais de 1966. É o que se costuma denominar de processo de especificação do sujeito de direitos. de Todas as Formas de Discriminação Racial de 1965. pessoas crescem em contextos sociais em que papéis sócio-culturais são designados de acordo com as relações de poder estabelecidas em razão do sexo. considerando-se categorizações relativas ao gênero. As desigualdades de gênero são as diferenças socialmente construídas.

parágrafo 1o. o artigo 4o da CEDAW também prevê a aplicação de medidas de ação afirmativa: a adoção pelos Estados-Partes de medidas especiais de caráter temporário destinadas a acelerar a igualdade de fato entre o homem e a mulher não se considerará discriminação na forma definida nesta Convenção. dentre outras.direitos humanos mulheres cuidarem dos filhos e da casa e os homens trabalharem fora. parágrafo 4o. 2002. Temas de Direitos Humanos. 210. econômico. Essa distinção é relevante para percebermos que as desigualdades sociais entre homens e mulheres vêm de nossas idéias. por incompatibilidade com a legislação civil vigente. em 1994. foi aprovada pela Assembléia Geral da ONU a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW). (II) p.122 A Convenção foi ratificada pelo Estado brasileiro em 1984. Direitos Humanos das mulheres. De acordo com o artigo 1o. p. “Os direitos humanos da mulher na ordem internacional”. relatório sobre as medidas legislativas.121 Nesse sentido. mas de nenhuma maneira implicará. Todavia. da Convenção. (a). o tratado não prevê a possibilidade de comunicações estatais ou do conhecimento de violações de ofício por parte do Comitê. social. Tais artigos estabelecem a igualdade entre homens e mulheres no âmbito das relações familiares. Em resposta aos relatórios. 2003. eleitos pelos países que ratificaram a Convenção. Por outro lado.. a Convenção estabelece o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher. no prazo de um ano a partir da entrada em vigor da convenção. essas medidas cessarão quando os objetivos de igualdade de oportunidades e tratamento houverem sido alcançadas. Flávia. exercício pela mulher. Ao ratificar a Convenção. o Governo notificou a Secretaria Geral da ONU para que retirasse as referidas reservas. dentre eles atualmente a brasileira Silvia Pimentel. Somente a partir da elaboração do Protocolo Facultativo aprovado pela ONU em 1999. e toda vez que solicitar o Comitê (artigo 18 Convenção). Nesse sentido. qualquer pessoa ou grupos de pessoas que aleguem ser vítimas de violações à Convenção podem apresentar petição ao Comitê. posteriormente. a manutenção de normas desiguais ou separadas. em 18 de dezembro de 1979. 122 FGV DIREITO rio 105 . de uma construção cultural das desigualdades (gênero) que não se justifica nas diferenças biológicas dadas pela natureza (sexo). (c). tendo sido apresentada denúncia ao artigo 15. Brasília: AGENDE. judiciárias. em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações. exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento. cultural e civil ou em qualquer outro campo. dos direitos humanos e das liberdades fundamentais nos campos político. administrativas. 109. para exame do Comitê. gozo. discriminação contra a mulher significa toda distinção. São Paulo: Max Limonad. algumas dessas afetando a essência da universalidade dos direitos humanos.. e ao artigo 16. passando a vigorar em 3 de setembro de 1981. os Estados comprometem-se a submeter a Secretaria-Geral das Nações Unidas. Os avanços promovidos pela Convenção foram “freiados” pela constatação de que esse foi o marco normativo de direitos humanos que mais recebeu reservas no âmbito da ONU: ao menos 23 dos 100 Estados-partes realizaram 88 reservas. em consonância com o quadro constitucional proporcionado pelo Texto de 1988. é possível 121 LIBARDONI. composto 23 peritos. a cada 4 anos. com base na igualdade do homem e da mulher. Os Estados partes comprometem-se a uma dupla obrigação: devem eliminar as formas constantes de discriminação e devem promover a igualdade. como conseqüência. independentemente de seu estado civil. PIOVESAN. (g) e (h). In: PIOVESAN. Todavia. Em seu artigo 17.). Flávia. Alice (org. o Comitê emite recomendações a serem cumpridas pelo Estado.

). Com base nos instrumentos internacionais citados. coerção ou violência. Direitos Humanos das mulheres. a Declaração de Viena de 1993.. 63. direitos sexuais compreendem: a) o direito a decidir livre e responsavelmente sobre sua sexualidade. Mais além do exame dos principais tratados que se referem aos direitos humanos das mulheres. passando o aborto a ser compreendido como uma questão de saúde pública. Por fim. os Estados reuniram-se na IV Conferência Mundial sobre a Mulher. amamentação. disponíveis. b) o direito de ter 123 LIBARDONI. o qual foi aprovado pelo Congresso Nacional e ratificado pelo Presidente em setembro de 2002. Dia Internacional da Mulher. A Declaração e o Plano de Ação de Beijing reafirmam os direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos e recomendam aos Estados a rever as legislações punitivas ao aborto. Concepção. como os direitos sexuais e reprodutivos e a violência doméstica e familiar contra a mulher. Em 1994. acessíveis e d) o direito de acesso ao mais elevado padrão de saúde reprodutiva. gestação.”123 O Brasil assinou o protocolo em 08 de março de 2001. c) o direito a ter acesso a informações e meios seguros. Por sua vez. Como seu artigo 4o afirma a necessidade de esgotamento dos recursos internos e a impossibilidade de litispendência internacional como critérios de admissibilidade de uma denúncia. FGV DIREITO rio 106 . Alice (org. mas novas garantias de proteção. contracepção.direitos humanos afirmar que o Protocolo não estabeleceu novos direitos. durante a Conferência do Cairo sobre População e Desenvolvimento. em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações. p. Foi nesse sentido que caminharam as principais conferências referentes a direitos sexuais e reprodutivos. Direitos Sexuais e Reprodutivos Se o movimento de mulheres teve início com a busca da igualdade entre homens e mulheres. conclui-se que os direitos reprodutivos incluem: a) o direito de adotar decisões relativas à reprodução sem sofrer discriminação.. reasseverou a igualdade entre homens e mulheres e conclamou os Estados a promover a ratificação universal da Convenção para a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres e a retirar as reservas que comprometiam a essência do tratado. em 1995. entre tantos outros temas. notadamente no que se refere ao direito ao voto. Se a Convenção é um “remédio para auxiliar a eliminar a discriminação contra as mulheres. Desenvolvimento e Paz. passam a ser examinados como questões correlatas. pode-se afirmar que muitas mulheres brasileiras preferem a utilização do Sistema Interamericano de Direitos Humanos por contar com uma instância jurisdicional para verificação da responsabilidade internacional. é importante ressaltar alguns temas correlatos. percebemos que a tônica foi transferida para direitos inerentes a condição diferenciada das mulheres. Brasília: AGENDE. produto da primeira grande conferência mundial de direitos humanos no contexto pós-Guerra Fria. os Estados reconheceram os direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos e ainda afirmaram que meninas e mulheres têm o direito a decidir sobre a maternidade. 2002. aborto. b) o direito de decidir livre e responsavelmente o número de filhos e o intervalo entre seus nascimentos. seu Protocolo Facultativo é a bula que ensina como usar esse remédio. Por sua vez.

Importante passo foi o estabelecimento do mecanismo de petições individuais a serem apresentadas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. com os devidos cuidados éticos recomendados pelos instrumentos internacionais. sem sofrer discriminação. 2001. maus-tratos. f ) o direito de acesso às informações e aos meios para desfrutar do mais alto padrão de saúde sexual e g) o direito a fruir do progresso científico e a consentir livremente à experimentação. o que rompe com a tradicional separação entre o espaço público e privado. c) ampliar o âmbito de aplicação dos direitos humanos. p. seqüestro e assédio sexual.direitos humanos controle sobre o seu próprio corpo. 124 PIOVESAN. de 01 de setembro de 1995 e o Presidente a ratificado em 27 de novembro de 1995. O continente americano desponta na criação de uma convenção regional específica e vinculante para o combate de tal forma de violência. Direitos Humanos e nãoviolência. é uma violência que é cometida pelo fato de a vítima ser uma mulher. op. aprovada em cidade brasileira e. em 1993. b) explicitar a noção de dano ou sofrimento sexual. entre outras formas. e d) relacionar os tipos de violências possíveis sem ser taxativa: estupro. tanto na esfera pública (ocorrida na comunidade). caso não o fosse. cit. 83. Por sua vez. e) o direito à privacidade.” 124 Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher Por mais que a Convenção de 1979 não faça menção expressa à violência doméstica e familiar contra a mulher. ALMEIDA. a violência não ocorreria. 247. F. c) o direito a viver livremente sua orientação sexual. 107. em outras palavras. São Paulo: Atlas. abuso sexual. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. O Brasil foi o primeiro Estado a ser acionado perante a Comissão por desrespeito à Convenção do Belém do Pará: tratase mais especificamente do caso Maria da Penha Fernandes. a qual concebe especificidade a tal violência baseada no gênero.”125 Dentre as diversas obrigações assumidas pela ratificação. tortura. Segundo Guilherme Assis de Almeida. a ONU adotou a Declaração sobre a Eliminação da Violência contra a Mulher. tendo o Congresso Nacional a aprovado mediante o Decreto Legislativo no. por isso. tráfico de mulheres. Tal convenção foi assinada pelo Brasil em 09 de junho de 1994. em conformidade com a Convenção Americana de Direitos Humanos. a Convenção inova ao: “a) introduzir o conceito de violência baseada no gênero.. 125 FGV DIREITO rio 107 . comumente denominada Convenção do Belém do Pará. Guilherme Assis de. como na esfera privada (no âmbito da família ou unidade doméstica). coação ou violência. alguns entendem que esta estaria incluída no conceito geral de discriminação. (II) p. prostituição forçada. Trata-se da Convenção Interamericana para Prevenir. d) o direito a receber educa. destaca-se o envio de relatórios periódicos à Comissão Interamericana de Mulheres (CIM).áo sexual.

2002. 2001. São Paulo: Max Limonad.direitos humanos MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. Brasília: AGENDE. Mulher objeto de cama e mesa. STUDART.. n. Heloneida. XIII.). 194-202 (Cap. Flávia “Os direitos humanos da mulher na Ordem Internacional”. (Cap. Flávia. PIOVESAN. In: PIOVESAN. item “g”). Legislação: Constituição Federal de 1988 Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher e seu Protocolo Facultativo Convenção de Belém do Pará FGV DIREITO rio 108 .. 26a edição. 1999. pp. item V. Tratado de direito internacional dos direitos humanos. Antônio Augusto. Direitos Humanos das mulheres. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Petrópolis: editora Vozes. 2003. pp. 2002. 316-318. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. Volume II. PIOVESAN. Leitura acessória: LIBARDONI. VI. São Paulo: Max Limonad. Flávia. Temas de Direitos Humanos. 5). em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações. Alice (org.

Tendo em vista o zelo por determinadas questões que afligem crianças em todo o mundo. a Convenção estabelece um princípio regedor de toda a normativa protetiva: o melhor interesse da criança: Artigo 3 1. Além de enumerar direitos específicos à criança. No âmbito interno. Abrangendo tanto direitos civis e políticos quanto direitos econômicos. à dignidade. o qual recebe relatórios periódicos dos Estados. Cumpre ao professor ressaltar a opção brasileira. da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente. Não somente reservou um capítulo à família. a Convenção estabeleceu ainda o Comitê sobre os Direitos da Criança. o interessa maior da criança. de designar a denominação de criança aos seres FGV DIREITO rio 109 .direitos humanos Aula 17: Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente NOTA AO ALUNO A Convenção sobre os Direitos da Criança. Para o monitoramento das obrigações. discriminação. como estabeleceu a proteção da criança e do adolescente como prioridade absoluta: Art. primordialmente. o constituinte já havia consolidado no Texto Constitucional todo o debate acerca da necessidade de uma proteção especial às crianças e aos adolescentes. adotada em 1989 e vigente desde 1990 é o tratado de direitos humanos que mais se aproxima da ratificação universal. à saúde. Todas as ações relativas às crianças. ao lazer. à alimentação. à criança. que criança é o ser humano com menos de 18 anos de idade. deverá subisidiar e integrar a apresentação do grupo. É dever da família. à profissionalização. levadas a efeito por autoridades administrativas ou órgão legislativos. além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência. sociais e culturais. à liberdade e à convivência familiar e comunitária. a Convenção estabelece. Não há previsão da sistemática de comunicações interestatais e de petições individuais. exploração. em 25 de maio. ao adolescente e ao idoso. o ECA constitui um marco na normatização de direitos no Brasil. foram aprovados pela Assembléia Geral. dois Protocolos: o Protocolo Facultativo sobre a Venda de Crianças. crueldade e opressão. ao respeito. clara tanto na Constituição Federal quanto no ECA. o direito à vida.069. 227. à educação. como regra geral. 8. violência. Considerado um dos documentos que melhor espelha os direitos elencados na Declaração sobre os Direitos da Criança. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). ambos assinados pelo Brasil em 2000. devem considerar. com absoluta prioridade. de 13 de julho de 1990. Lei n. à cultura. Prostituição e Pornografia Infantis e o Protocolo Facultativo sobre o Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados.

instituído no interesse dos filhos e da família.org. 1º). CP – Expor a perigo a vida ou a saúde de pessoa sob sua autoridade. 136. Ressalte-se.html. FGV DIREITO rio 110 . do Código Penal (CP): Art. meses. ou multa. 13 e 245 do ECA. ensino. Disponível em: http://www. uma vez que predomina na família a “lei do silêncio”128. podendo. de um a quatro anos. especificamente. por oportuno. que está diretamente ligada à evolução histórica do conceito de pátrio poder. “Hoje. não há que se falar em melhor interesse da criança. anos). mais conhecido como violência doméstica. quer privando-a de alimentação ou cuidados indispensáveis. não tem “voz”. § 2º – Se resulta a morte: Pena – reclusão. designando uma nova condição jurídica à criança e ao adolescente: passa a ser sujeito de direitos. cumpre salientar em primeiro lugar sua configuração como crime. conforme arts. Foi apenas com o cristianismo e com o desenvolvimento da sociedade que se foi exigindo moderação no uso do poder disciplinar. Tais violações não são levadas ao conhecimento de agências oficiais de proteção. Isto porque em uma sociedade na qual o pai tem poder ilimitado em relação ao filho. Idem. não sendo mais considerada como mera extensão da família. Acesso em: 01 maio 2004. Discutir a aplicação das normas internacionais e internas exige o recorte de algumas situações que poderão ser abordadas pelo grupo: Maus tratos: muito embora vigore hoje em dia o princípio do melhor interesse da criança.br/denunciar/tortura/textos/nilton. nesse contexto. Em relação aos maus tratos. para fim de educação. igual em dignidade e respeito a todo adulto. dhnet. tal como o Conselho Tutelar. Dispõe o art. § 1º – Se do fato resulta lesão corporal de natureza grave: Pena – reclusão. 136. guarda ou vigilância. 126 127 128 Idem. No primitivo direito romano. matá-lo126. Ao entrar em vigor. que todos os cidadãos têm o dever de denunciar os casos de maus tratos de que tenha conhecimento aos Conselhos Tutelares de sua localização. o ECA revogou o Código de Menores.direitos humanos humanos até 12 anos incompletos e de adolescente para a idade entre 13 e 18 anos incompletos. ‘derrubando’ tal nomenclatura e adequando o ordenamento jurídico nacional aos imperativos internacionais e constitucionais. o pátrio poder é encarado como complexo de deveres em relação aos pais. inclusive. que precisa de proteção especial em virtude de ser uma pessoa em desenvolvimento. a desestruturação da família pode levar a atos violentos e agressivos contra a criança e o adolescente. os meios de disciplina e correção não são mais absolutos. tendo duração variável (dias. Sendo assim. Implementou a Doutrina Jurídica da Proteção Integral (art. de dois meses a um ano. trata-se de uma conquista recente. o pai tinha poder disciplinar absoluto em relação ao filho. que se exterioriza como abuso de poder disciplinar e de correção. já que esta. tratamento ou custódia. Todavia. de quatro a doze anos. quer abusando de meios de correção ou disciplina: Pena – detenção. havendo denominação até de pátrio-dever”127. quer sujeitando-a a trabalho excessivo ou inadequado. possibilitando a convivência do princípio do melhor interesse com a figura do pátrio poder. tendo total liberdade para aplicá-lo o castigo que julgasse pertinente.

e sujeito passivo a criança ou adolescente que. salientem-se dados de 1996 sobre São Paulo130: (i) a maior incidência de maus tratos ocorre contra crianças na faixa etária de 0 a 6 anos – 60%. bem como as seqüelas deixadas na criança e no adolescente que os impossibilitam de denunciar: a vítima não fala e não anda131. na determinação dos seus direitos. Com esta consideração. Disponível em: http://www. seja no âmbito administrativo. (iii) as principais causas são: alcoolismo – 50%.br/noticia. é necessário ainda mais um elemento: expor a perigo a vida ou a saúde da criança ou do adolescente.” Diante da inexistência de regras claras sobre a ponderação do melhor interesse da criança em face de processos administrativos e judiciais. 19. uma vez que esse tribunal estabelece parâmetros a serem observados pelos Estados-partes da Convenção Americana de Direitos Humanos a respeito dos direitos da criança e do adolescente. A Corte Interamericana de Direitos Humanos manifestou-se sobre o tema no contexto da Opinião Consultiva n. destaquem-se: o pai ou responsável que coloca o menor de joelhos por longo tempo a ponto de colocar em perigo a saúde da vítima.redeamiga. Para a configuração do crime. tornando difícil. FGV DIREITO rio 111 . mãe e pai – 10%. distúrbios psiquiátricos – 10%. procurar-se-á o maior acesso do menor.php. “102. o pai ou responsável que dá pimenta-do-reino à criança como forma de castigo. Como exemplo de maus tratos. na qualidade de filho ou sob custódia ou vigilância. a atuação dos Conselhos Tutelares129. Paralelamente o § 1.direitos humanos § 3º – Aumenta-se a pena de um terço. 12 da Convenção sobre os Direitos da Criança possibilita a oitiva da criança nos processos judiciais ou no âmbito administrativo. desorganização familiar – 30%. Apesar da falta de dados nacionais a respeito. é sujeito ativo do crime os pais ou responsáveis pela guarda ou vigilância da vítima. for submetido a um dos tratamentos estabelecidos no artigo acima.br/n04/doenca/infancia/persona. pai – 33%. tem-se a predominância da “lei do silêncio”. 130 131 Idem. Sugere-se a leitura de seu inteiro teor. deverá levar em conta as condições específicas do menor e seu interesse superior a fim de ajustar a participação deste. (ii) a autoria das agressões se distribui da seguinte forma: mãe – 43%.org. 129 Acesso em: 01 maio 2004. 28 e ao art. distúrbios de comportamento – 10%. se o crime é praticado contra pessoa menor de 14 (catorze) anos. o aplicador do direito.º do art. por conseguinte. na análise de seu próprio caso. na medida do possível. Em conclusão. Entre os motivos para a falta de dados a respeito. responsáveis – 14%. Os maus tratos contra criança e adolescente são difíceis de serem identificados em virtude de uma série de fatores. Nesse sentido. 45 do ECA referem-se expressamente a hipóteses em que a criança e o adolescente devem ser ouvidos.org. cerebromente. Tânia da Silva Pereira enumera algumas condições objetivas que podem contribuir para o exercício deste direito de ser ouvido: Acesso em: 01 maio 2004. Participação de crianças e adolescentes em processos administrativos e judiciais: o art. dentre os quais a inexistência de dados confiáveis sobre a ocorrência dos mesmos no lar familiar no brasileiro.htm. Disponível em: http://www. conforme seja adequado. seja no judicial.

4. Assumir a “Curadoria Especial” como a alternativa de interferir nos procedimentos para fazer valer os direitos de seu representado. Evitar a convocação da criança e do adolescente como testemunha de um dos pais contra o outro.A. de maneira apropriada. evitando situações de angústia e linguagens técnicas incompreensíveis. tortura e assassinato de ‘menores’ e omissão dos mecanismos do Estado guatemalteco em oferecer o acesso à justiça aos familiares das vítimas. político e econômico. Cabe destaque a seguinte passagem. Criar condições que facilitem a expressão espontânea da criança. 8. constante do Voto concorrente Conjunto dos Juízes A. O melhor interesse da criança: um debate interdisciplinar. 3. Considerar seus sentimentos e pensamentos na solução dos conflitos que lhes digam respeito. sua oitiva deve representar uma forma de expressar sua opinião e preferência sobre a situação conflitante. sociais e culturais.”132 “Meninos de Rua”: uma terceira sugestão de assunto a ser abordado pelo grupo trata dos meninos de rua. Adaptar os procedimentos com vistas a garantir a manifestação autêntica da vontade da criança ou do adolescente. realidade cada vez mais presente nas grandes cidades brasileiras. Trata-se de caso de seqüestro. Abreu Burelli: “3. FGV DIREITO rio 112 . p. Cumpre destacar ainda a sentença de reparações. Sugere-se que o debate ocorra tendo como ponto de partida a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos referente ao caso Villagrán Morales e Outros versus Guatemala. assim como no social. Não forçá-los a se exprimirem ou se manifestarem caso não estiverem preparados. Favorecer a intervenção de profissionais especializados que possam interpretar. referido apenas à proibição da privação arbitrária da vida física. Tal ponto retoma a discussão travada na Aula 1. O direito à vida não pode continuar sendo concebido restritivamente. Convocá-los a participar dos procedimentos de mediação familiar destinados a solucionar conflitos que envolvam sua pessoa e seus interesses. permitindo-lhe expressar seus interesses e conflitos com maior liberdade. b) destaca a indivisibilidade dos direitos civis e políticos e os direitos econômicos. 2. por ocasião do filme Ônibus 174. como foi no passado. 5. A decisão constitui um marco na proteção da criança e do adolescente em todo o continente. 9. e c) determinam a especial gravidade das práticas sistêmicas de violência contra crianças e adolescentes em situação de risco. Rio de Janeiro: Renovar. 2000. uma vez que: a) enfatiza a peculiaridade de tais sujeitos no aspecto jurídico. Cançado Trindade e A. de 19 de novembro de 1999. tal depoimento nunca deverá ser prestado na presença dos pais. Fornecer à criança e ao jovem todas as informações relativas à sua situação e ao assunto sobre o qual deverá emitir sua opinião . de 26 de maio de 2001. 7. 6.direitos humanos “1. a palavra da criança e do adolescente. 31. Tânia. Cremos que há diversos modos de privar uma pessoa arbitrariamente da vida: quando é 132 SILVA PEREIRA. ou “Niños de la Calle”.

pp. quer dizer. Wilson Ricardo Buquetti. os meninos vitimados já se encontravam privados de criar e desenvolver um projeto de vida e de procurar um sentido para sua própria existência. Cançado Trindade e A. SILVA PEREIRA. Maria Beatriz Pennachi. 17. há a circunstância agravante de que a vida dos meninos já carecida de qualquer sentido. Rio de Janeiro: Renovar.”134 O estudo de tal decisão apresenta semelhanças intransponíveis com o caso da Chacina da Candelária. Villagrán Morales vs. a qual transferiu o Rio de Janeiro do noticiário internacional de turismo para o de violação de direitos humanos. Cláudia (orgs. “Convenção dos Direitos da Criança”. 2003. Abreu Burelli. 76-86. 2000. Direito Internacional dos Direitos Humanos. atinente à morte de meninos por agentes policias do Estado. 134 FGV DIREITO rio 113 . Temas de Direitos Humanos. Tânia. DELLORE.or. Disponível em: http://www.or. Flávia. de 1990. Opinião Consultiva n.html. Legislação: Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança Constituição Federal Estatuto da Criança e do Adolescente Acesso em: 04 julho 2005.A.).cr). São Paulo: Atlas. 277-297. In: PIOVESAN. 2002. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. O melhor interesse da criança:um debate interdisciplinar. Voto concorrente Conjunto dos Juízes A.direitos humanos provocada sua morte diretamente pelo fato do homicídio. de 28 de agosto de 2002 (www.cr/seriec/index_ c. “Os direitos humanos das crianças e dos adolescentes no direito internacional e no direito interno”.corteidh. pp. São Paulo: Max Limonad. Guilherme de. e PERRONE-MOISÉS. Leitura acessória: Corte Interamericana de Direitos Humanos. assim como quando não se evitam as circunstâncias que igualmente conduzem à morte de pessoas como no cas d’espèce. corteidh. e PIROTTA. In: ALMEIDA. Guatemala. Flávia. No presente caso Villagrán Morales versus Guatemala.

em seu artigo 8o. De acordo com o artigo 1o. conforme resoluFGV DIREITO rio 114 . Em 1978 e 1983. descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto ou resultado anular ou restringir o reconhecimento. No âmbito global. a Declaração contra a Discriminação Racial (1963) foi um dos primeiros documentos da ONU a retratar a especificação do sujeito. dentre os quais se encontra hoje o brasileiro Embaixador Lindgren Alves. cor. restrição ou preferência baseada em raça. comunicações interestatais e comunicações individuais. gozo ou exercício em um mesmo plano (em igualdade de condição) de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político. Ao ratificar a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial. Trata-se de um exemplo de implementação do power of embarrasment. o artigo 1. discriminação racial significa toda distinção. os Estados partes comprometem-se a uma dupla obrigação: eliminar as formas constantes de discriminação e promover a igualdade.direitos humanos Aula 18: Os direitos humanos sob a perspectiva racial NOTA AO ALUNO A Aula 18 destina-se à continuidade do estudo do processo de especificação do sujeito. promulgada em 1965 e que passa a vigorar em 1969. a Convenção criou o seu treaty body. in casu étnico-cultural. logo seguida pela Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial. contanto que tais medidas não conduzam. em conseqüência. exclusão. cultural ou em qualquer outro campo da vida pública. ambas realizadas durante a Primeira Década de Combate ao Racismo e à Discriminação Racial iniciada em 1973. Este é composto por 18 peritos. social. inerente ao campo da política internacional. A Convenção dispõe de 3 mecanismos de monitoramento: apresentação de relatórios. estando seu cumprimento condicionado à adesão voluntária. Para a coordenação de tais mecanismos. o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação Racial (CERD). O CERD emite recomendações no sentido de melhor orientar atuação estatal. excluindo do campo das medidas reprovadas pela Convenção as que promovem a discriminação positiva. da Convenção. econômico.1 estabelece a conformidade das medidas de discriminação positiva: não serão consideradas discriminação racial as medidas especiais tomadas com o único objetivo de assegurar o progresso adequado de certos grupos raciais ou étnicos ou de indivíduos que necessitem da proteção que possa ser necessária para proporcionar a tias grupos ou indivíduos igual gozo ou exercício de direitos humanos e liberdades fundamentais. é importante compreender discriminação como aquela que viola direitos. Por outro lado. à manutenção de direitos separados para diferentes grupos raciais e não prossigam após terem sido alcançados os seus objetivos. os Estados reuniram-se em duas conferências de reduzida repercussão na sede a própria ONU. destacando-se perspectiva racial. eleitos pelos Estados-partes a título pessoal. Para que não haja contradição entre esses termos.

Dentre as polêmicas que permearam o encontro. assim como o acompanhamento de sua implementação. à xenofobia e à intolerância correlata. é claro que. segundo definidas pelo Art. In: Os direitos humanos na pós-modernidade. poderia colocar em risco a razão mesma da Conferência. Dentre os temas escalados para a discussão. educação e proteção voltadas para a erradicação do racismo. Em 2001. que ainda existem em todo o mundo. 135 136 Ibid. restou no texto menção ao fato de que os Estados da União Européia rechaçam firmemente qualquer doutrina que proclame a superioridade racial. no contexto desse período. nem negação das manifestações de racismo e discriminação racial. xenofobia e intolerância correlata. juntamente com as teorias que tentam determinar a existência de raças humanas distintas [.136 A complexidade dos temas tratados não afasta o impasse mesmo em questões essenciais como a existência ou não de raças. outras polêmicas conduziram a conferência ao risco de esvaziamento. da discriminação racial..135 Nesse primeiro fórum de direitos humanos do século XXI. simbolicamente em pleno solo sul-africano. Vítimas de racismo. “A conferência de Durban contra o racismo e a responsabilidade de todos”. O argumento trazido à baila por certas delegações européias. Medidas de prevenção. São Paulo: Perspectiva. dentre eles 16 chefes de Estado ou de Governo. regional e internacional.direitos humanos ção da Assembléia Geral. temos: • • • • • Fontes. a afirmação das diferenças culturais protagonizou o debate sobre a tolerância e o enfrentamento à discriminação.. assim como dos tratados que condenam práticas racistas. assim como medidas [compensatórias] e de outra ordem nos níveis nacional. Discriminação Racial. denominada Conferência Mundial de Combate ao Racismo. causas. Estratégias para alcançar a igualdade plena e efetiva. FGV DIREITO rio 115 . De qualquer forma. Xenofobia e Discriminações Correlatas. à discriminação racial. vingou o posicionamento da ONU. Provisão de remédios efetivos. 2. inclusive por meio da cooperação internacional e do fortalecimento das Nações Unidas e outros mecanismos internacionais para o combate ao racismo. e b) as reparações devida pelo regime colonial. destacam-se: a) a identificação do sionismo como uma forma de racismo. 2005. apesar dessa equiparação já ter sido afastada pela própria ONU desde 1991: no acirramento das discussões entre Israel e países árabes. 124. na cidade de Durban. 58 ministros de Relações Exteriores e 44 ministros de outras pastas e quase 4 mil representantes de organizações não-governamentais reuniram-se para a Terceira Conferência. defenderam a definição ALVES. qualquer foro multilateral acabaria por centrar todas as atenções no regime do apartheid da África do Sul. 1o da Convenção (de 1965). com o apoio do Brasil.300 delegados oficiais de 163 países. Todavia.. da xenofobia e da intolerância correlata nos níveis nacional. regional e internacional.] Isto não implica negação do conceito de raça como motivo de discriminação. formas e manifestações contemporâneas de racismo. xenofobia e intolerância correlata. p. sepultado em 1994 com a posse do Nelson Mandela. recursos. José Augusto Lindgren. 137. não restando energia para o debate acerca de outras formas de racismo. Países Africanos e asiáticos. discriminação racial. p. correção. Todavia. caso esgarçadas ao extremo. discriminação racial.

A partir de então. e PERRONE-MOISÉS. Estes podem ser utilizados como guias à atuação dos Estados. Crime de racismo 137 CYFER. ou como instrumento semijurídico para cobranças das sociedades aos governos. “Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965)” In: ALMEIDA. os países em desenvolvimento conseguiram a manifestação da Conferência no sentido de que injustiças históricas constituíram a raiz para a pobreza e o subdesenvolvimento. já se mostrava cada dia menos favorável ao multilateralismo e à diplomacia parlamentar. é importante ressaltar alguns temas específicos que poderão ser tratados com mais detalhe pelo grupo responsável pelo Seminário da Aula 18.A. posicionamento esse que implicaria em compensações. foi compactuada a utilização da expressão ‘lamento’ no lugar de ‘desculpas’ pelos fatos do passado. L. nos anos de 2003 e 2004. FGV DIREITO rio 116 .”138 Mais além do exame dos principais tratados que se referem aos direitos humanos sob a perspectiva racial. Ao considerar mais traumática a derrota de tal proposta que a não submissão ao voto. transferência de tecnologia. Por outro lado. no sentido do identificar. 35.direitos humanos da escravidão como crime contra a humanidade. fato esse que justifica a implementação de metas internacionais baseadas no alívio das dívidas externas. erradicação da pobreza. mudança essa que expressa arrependimento sem acarretar responsabilização internacional. nos casos de intolerância correlata. porém. questões referentes à discriminação por orientação sexual. Ingrid. numa situação internacional que. um progresso com relação à conferências de 1978 e 1983. A tensão do debate conduziu a um termo de compromisso no esforço de não esvaziamento da reunião. ensejando posicionamento contrário por parte dos Estados Unidos e União Européia. como se não bastasse a doxa econômica neoliberal (para falar com Bourdieu) avessa a preocupações sócias. Por um lado. como já dito. Direito Internacional dos Direitos Humanos. Como sintetiza Lindgren Alves. é sempre bom lembrar. J.). São Paulo: Atlas. resoluções no âmbito da Comissão de Direitos Humanos da ONU que classificam a discriminação por orientação sexual como uma violação de direitos humanos. Cláudia (orgs. etc. 2002. em condições tão adversas. Guilherme de. Muito mais do que isso. p. havendo já apresentado. 139. a diplomacia brasileira achou por bem a retira da proposta nas duas ocasiões. 138 Em consonância com os parâmetros delineados pela Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Eliminação do Racismo. particularmente para o combate ao racismo estrutural. op. O simples fato de ela ter tido seus documentos finais adotados sem voto (a votação havida. p. a Constituição Federal estabeleceu entre os direitos e garantias fundamentais que: ALVES. internamente ou em ações internacionais. ativo participante nos trabalhos de Durban: “a verdade é que Durban foi a melhor conferência que se poderia realizar sobre temas tão abrangentes. o Brasil tem capitaneado liderança nos foros internacionais. liderados pelo Brasil. Instrumentos básicos. cit. foi para rejeitar a reapresentação extemporânea de propostas superadas) representa.137 Importante ressaltar que foi em Durban que se manifestaram expressamente alguns países. os documentos de Durban trazem novos conceitos e compromissos importantes.

etnia. persiste a resistência por parte dos órgãos do Ministério Público e do Judiciário em estabelecer a responsabilidade penal pelo crime de racismo. de 1(um) a 6 (seis) meses. que . se considerem aviltantes: Pena – detenção. tendo-lhe atribuído características excepcionais como a inafiançabilidade e a imprescritibilidade. ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro: Pena – detenção. Populações remanescentes de quilombos Outro tema de fundamental importância quando se estuda direitos humanos sob a perspectiva racial no Brasil são as populações remanescentes de quilombos. estabeleceu os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. ou multa § 1º O juiz pode deixar de aplicar a pena: I – quando o ofendido. § 2º Se a injúria consiste em violência ou vias de fato. em especial das condutas consideradas típicas pelo legislador. de 07 de dezembro de 1940: Art. de forma reprovável.direitos humanos Art. 5º XLII – a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível. religião ou origem. desclassificando a conduta para um dos crimes contra a honra. Talvez pela rigidez com que é tratado o crime de racismo. De acordo com o Código Penal. por sua natureza ou pelo meio empregado. § 3º Se a injúria consiste na utilização de elementos referente a raça. de 3 (três) meses a 1 (um) ano. incisos XLIII e XLIV).716. Injuriar alguém. Incentiva-se a leitura dessa lei. cor. Em uma análise sistêmica (artigo 5º. Superior Tribunal de Justiça e Supremo Tribunal Federal – e em instâncias internacionais sugere a dificuldade em se lidar com situações em que é considerado o elemento racial. e multa. aos crimes definidos como hediondos e à ação armada contra o Estado Democrático de Direito. a iniciativa legislativa não significou necessariamente seu acatamento por parte da jurisprudência. sujeito à pena de reclusão. Tendo em vista o princípio da legalidade. FGV DIREITO rio 117 . religião ou origem: Pena – reclusão de um a três anos e multa. que consista em outra injúria. cor. Importante ressaltar a maneira com que o constituinte admitiu o crime de racismo. a injúria. é possível afirmar o crime de racismo é comparado aos crimes de tortura. nos termos da lei. Além do exame perante os tribunais nacionais – Tribunal de Justiça. Todavia. 140. etnia. o Decreto-lei nº 2848. de 05 de janeiro de 1989. II – no caso de retorsão imediata. provocou diretamente a injúria. além da pena correspondente à violência. A pesquisa sobre decisões referentes ao crime de racismo e de injúria que tenha a utilização de elementos referentes à raça. terrorismo. tráfico de entorpecentes. a Lei nº 7.

reconhecimento. da Presidência da República (SEPPIR/PR). formaram-se em todo o país centros de resistência para os quais se direcionavam escravos fugidos. o qual regulamenta o procedimento para identificação. cabe ressaltar: • definição: de acordo com o artigo 2o. devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos. Ainda. demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos de que trata o art.direitos humanos Como se sabe. o Decreto n. cumpre ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA. e procedimento: cabe à Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura a expedição de certidão referente à autodefinição. delimitação. 68 Aos remanescentes das comunidades de quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva. Foi precisamente nesse sentido que o Poder Executivo expediu. reconhecimento. delimitação. do Distrito Federal e dos Municípios. dotados de relações territoriais específicas.) § 5o Ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos. no processo FGV DIREITO rio 118 • . com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida. a Constituição brasileira determinou que: Art. 4887. os grupos étnico-raciais. A Carta Constitucional criou assim uma titularidade coletiva de propriedade para aqueles que ocupam determinada terra e se reconhecem enquanto remanescentes de quilombos. Cabe especial atenção ao Ato das Disposições Constitucionais Transitórias: Art. compete à Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. tomados individualmente ou em conjunto. Dentre os pontos mais relevantes dessa normativa.. à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. sem prejuízo da competência concorrente dos Estados. Tendo como pressuposto a formação multicultural brasileira. à ação. em celebração ao Dia Nacional da Consciência Negra. consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos. com trajetória histórica própria. nos quase se incluem: (. notadamente durante o século XIX. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial. A designação geográfica deu origem ao contorno sócio-cultural das populações remanescentes de quilombos. demarcação e titulação das terras. no dia 20 de novembro de 2003. a identificação. segundo critérios de auto-atribuição. A assinatura da Lei Áurea não trouxe mudança significativa para a vida de muitos brasileiros que já se viam engajados em um novo contexto social. 216. portadores de referência à identidade. Por sua vez.

Trata-se de processo administrativo que visa precisamente à garantia de uma titularidade coletiva no contexto de um país multicultural. resgatando a FGV DIREITO rio 119 . torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura § 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos.639. o qual prescreveu atribuições e procedimentos próprios. De forma inédita. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio. sendo elas atacadas ou defendidas. a intensa participação da sociedade civil brasileira nas conferências regionais e os mais de 200 ativistas nacionais que compareceram a Durban giraram os holofotes do debate nacional em direção às políticas de ação afirmativa. Políticas de Ação Afirmativa Por mais que os alunos já tenham explorado o tema das Políticas de Ação Afirmativa no bojo da Disciplina Direito Constitucional I. censurada externamente pelos seus representantes. Sob a administração de George Bush. a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional. garantir os direitos étnicos e territoriais dos remanescentes das comunidades dos quilombos.direitos humanos de regularização fundiária. foi sancionada a Lei nº 10. trata-se de um tema inescapável quando se trata da perspectiva racial. Alteração curricular Interpretada por alguns como política de ação afirmativa. Em 09 de janeiro de 2003. Por mais que tal debate tenha sido ofuscado pelos ataques terroristas às Torres Gêmeas de Nova Iorque. 26 –A. oficiais e particulares. a implementação do estudo de História e Cultura Afro-brasileira deve ser entendida como um importante passo para a compreensão do Brasil como um Estado multi-étnico e multicultural. notadamente após a edição do referido decreto. foi inescapável a conquista de um lugar ao sol para tais medidas. Ironicamente.524/2000. O país que primeiro implementou tais políticas sabotou sua discussão durante o evento. mais especificamente em atividade sobre a Lei Estadual do Rio de Janeiro nº 3. a qual altera a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e inclui a matéria no currículo oficial da Rede de Ensino. tais políticas já vinham sendo lentamente desmontadas internamente. a luta dos negros no Brasil. Nenhuma linha foi dedicada a tais políticas quando a Aula 18 referiu-se à importância da Conferência de Durban. Diversos quilombos já foram ou encontram-se em vias de regularização. e por conseqüência. criando os seguintes novos artigos: Art. a mídia passou a conceder espaço diário às supostas implicações que teria a aplicação de tais políticas no contexto social brasileiro. Tal omissão não é por acaso.

inclusive na formação de professores. São Paulo: Atlas. “A conferência de Durban contra o racismo e a responsabilidade de todos”. e SATO. pp. condições oferecidas para aprendizagem. A leitura de tais documentos torna-se importante na medida em que fundamentam razões e efeitos da modificação curricular. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira. homologado pelo Ministro da Educação em 19 de maio de 2004. além de garantir vagas para negros nos bancos escolares. em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras. “Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965)”. pp. “Implementação do Direito à Igualdade”. É importante destacar que não se trata de mudar um foco etnocêntrico marcadamente de raiz européia por um africano. exige que se repensem relações étnico–raciais. também as contribuições histórico-culturais dos povos indígenas e dos descendentes de asiáticos. Guilherme de. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. de 10 de março de 2004139. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como ‘Dia Nacional da Consciência Negra’. objetivos tácitos e explícitos da educação oferecida pelas escolas. Priscila Kei. procedimentos de ensino. É preciso ter clareza que o art. pedagógicas. dizem respeito a todos os brasileiros. 2002. de 17 de junho de 2004. além das raízes africana e européia. SILVA JR. ao contrário. Nesta perspectiva. mas de ampliar o foco dos currículos escolares para a diversidade cultural. editando assim a Resolução nº 1. muito além da discussão acerca da raça e os métodos para a sua designação. civis e penais: doutrina e jurisprudência. racial. 26-A acrescido à Lei 9394/1996 provoca bem mais do que inclusão nos novos currículos. 113-140. Tantos outros poderiam ser aqui apontados para o debate. com fortes repercussões pedagógicas. 2002. O importante é perceber que. capazes de constituir uma nação democrática. sociais. 2003. Hédio. Foram aqui expostos alguns temas relacionados à especificação do sujeito de direitos humanos sob a perspectiva racial. é preciso valorizar devidamente a história e cultura de seu povo. 191-203. Em Parecer nº 003/2004. § 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar. 10.79-B. Temas de Direitos Humanos.). A relevância do estudo de temas decorrentes da história e cultura afro-brasileira e africana não se restringem à população negra. que proporciona diariamente. Art. Leitura acessória: CYFER. Flávia. reconhece-se que. José Augusto. econômica e política pertinentes à História do Brasil. e PERRONEMOISÉS. In: ALMEIDA. que se repetem há cinco séculos. social e econômica brasileira. à sua identidade e a seus direitos. In: PIOVESAN. PIOVESAN. In: Os direitos humanos na pós-modernidade.direitos humanos contribuição do povo negro nas áreas social. 2005. o Conselho Nacional de Educação manifesta no sentido de regulamentar as alterações advindas da Lei no. Luciana. LINDGREN ALVES. Com essa medida.639. uma vez que devem educar-se enquanto cidadãos atuantes no sei de uma sociedade multicultural e pluriétnica. 24-38. Flávia. Direito Internacional dos Direitos Humanos. São Paulo: Max Limonad.” 139 FGV DIREITO rio 120 . pp. cabe ao Poder Público e à sociedade civil a luta para a promoção de uma sociedade sem discriminação. São Paulo: Perspectiva. buscando repara danos. cabe às escolas incluir no contexto dos estudos e atividades. Ingrid. Instrumentos básicos. Cláudia (orgs. Legislação: Constituição Federal de 1988 Indica o parecer que “a obrigatoriedade de inclusão de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nos currículos da Educação Básica trata-se de decisão política. Direito de igualdade racial: aspectos constitucionais.

639/2003 (institui o estudo de História e Cultura Afro-brasileira) FGV DIREITO rio 121 .716/1989 (crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor) Lei nº 10.direitos humanos Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial Declaração e Plano de Ação de Durban Lei nº 7.

Convenção 169 da OIT. Os treaty bodies são criados no intuito de possibilitar o monitoramento dos tratados de direitos humanos. população essa configurada por mais de 170 línguas. Cabe destaque ainda à jurisprudência da Corte 140 Campaña educativa sobre derechos humanos y derechos indígenas: módulos temáticos. A Declaração de Viena de 1993 estabeleceu o compromisso dos Estados em respeitar os direitos humanos e liberdades fundamentais dos povos indígenas. ao examinarem relatório enviado pelo Estado-parte. saúde. sobretudo pelo aumento da participação indígena na vida política. San José: Instituto Interamericano de Derechos Humanos. Em março de 1995. Acesso em: 10 março 2005.socioambiental.org/pib/portugues/direito/ conv169. pp. Por sua vez. 2003. Em 1957. a qual descredencia qualquer visão integracionista e explicita direitos fundamentais dos povos indígenas como a terra. a OIT examina casos de trabalho forçado a que são submetidos povos indígenas. poderá examinar a especificidade da questão indígena. em torno de 330. Já realizadas 5 reuniões de trabalho. ou ao receber denúncias individuais ou interestatais – se for o caso. 41-49. tão fundamental ao exercício dos demais direitos. formado por cinco expertos independentes que são membros da Subcomissão de Promoção e Proteção dos Direitos Humanos (Subcomissão). em cada um dos âmbitos de proteção: 1) Organização das Nações Unidas: em 1982. a Convenção nº 169 deverá permear toda a aula. em 1989.140 2) Organização Internacional do Trabalho: desde o início do século XX. é aprovada a Convenção 169141. correspondente a 11% do território nacional – sendo que 95% das terras se concentram na Amazônia. Aos povos indígenas são garantidos direitos específicos.000 cidadãos indígenas. encontra-se em processo de elaboração o Projeto de Declaração Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas. possibilitou-lhes a reivindicação de terra. cujos trabalhos ainda não foram encerrados. Cumpre registrar que a ausência de um tratado específico não significa a negativa de proteção dos direitos dos povos indígenas.direitos humanos Aula 19: Direitos Humanos e a questão indígena NOTA AO ALUNO Há. a Comissão de Direitos Humanos estabeleceu um Grupo de Trabalho aberto para elaborar um projeto de declaração. ocorrida a última em fevereiro de 2005. no Brasil. o Conselho Econômico e Social criou o Grupo de Trabalho sobre Populações Indígenas. 3) Organização dos Estados Americanos: tanto a Convenção Americana de Direitos Humanos quanto o Protocolo de San Salvador guardam artigos que são de especial interesse dos povos indígenas. a referida convenção refletiu visão dominante nesse período caracterizada pelo protecionismo estatal e pelo assimilacionismo. Não obstante ter sido o primeiro marco protetivo dos direitos indígenas no panorama internacional. Disponível em: http://www. educação e participação. tendo em vista sua extrema importância para o tema. 141 FGV DIREITO rio 122 . a Conferência-Geral editou a Convenção nº 107 sobre populações indígenas e outras populações tribais e semitribais nos países independentes. Tendo em vista a peculiaridade do tema para o continente americano. O conhecimento de seus direitos. Promulgada em 19 de abril de 2004.shtm#ti. ainda não há prazo para a conclusão do documento. referente aos Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes.

or. costumes e tradições. o tribunal reconheceu os costume indígena como fonte de direito. Ingarikó. por isso. a propriedade é inalienável.org/nsa/ detalhe?id=1886. Objetivo Homologação da área contínua. 47. ou qualquer das condições ou termos que as compõem. “Terras tradicionalmente ocupadas pelos índios”. José Afonso.”143 316 . com vistas ao pagamento de indenizações. Surumú e a fronteira com a Venezuela. entre os rios Tacutu. 145 Acesso em: 10 março 2005. Porto Alegre: Núcleo de Direitos Indígenas e Sergio Antonio Fabris Editor.org. atividade produtiva. importante contribuição para o fortalecimento dos direitos dos povos indígenas. a saber: 1a) serem por eles habitadas em caráter permanente. p. Suriname142. segundo a visão civilizada. 143 144 Para maiores informações. Taurepang e Patamona.asp. Disponível em: http://www. Roraima. No caso Aloeboetoe vs. 2a) serem por eles utilizadas para suas atividades produtivas. tudo segundo seus usos. de sorte que não se vai tentar definir o que é habitação permanente. 142 SILVA. Disponível em: http://www. acesse o site do Conselho Indígena de Roraima. com as populações vizinhas ressalte-se Nesse contexto normativo.cr/seriec/index_ c. que tem estabelecido. cerimonial e comercial – gundo o modo de ser deles. a visão do bem-estar do nosso gosto.direitos humanos Interamericana de Direitos Humanos. Acesso em: 10 março 2005. os quais possuem direitos originários sobre a terra e. da cultura deles. Miang. em especial a organização das famílias. Cabem aqui algumas considerações: (i) as terras indígenas são consideradas bens da União (artigo 20.br/raposaserradosol. 1993. abaixo. corteidh. 4a) serem necessárias à reprodução física e cultural. 3a) serem imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar. todas necessárias e nenhuma suficiente sozinha. 318 Dados gerais É a habitação ancestral dos povos Macuxi.000 habitantes. In: Os direitos indígenas e a Constituição. ao longo dos anos. (ii) tal propriedade é vinculada à posse permanente dos índios. FGV DIREITO rio 123 . mas seexemplo.html. Localiza-se a nordeste do Estado de socioambiental. modo de utilização. XI CF). (iii) a base do conceito de terras tradicionalmente ocupadas pelos índios encontra-se no artigo 231. o caso da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. celebram relações de várias naturezas – matrimonial. Tem uma população estimada em 15. Maú.cir. (c) o caso Raposa Serratêm do Sol o quadro. indisponível e imprescritível. parágrafo 1o. a visão do modo de produção capitalista ou socialista. uma vez que retrata de forma bem clara a luta pelo reconhecimento da terra e os obstáculos que os índios que: ultrapassar nesse caminho. 4) Constituição Federal: a proteção aos índios pode ser considerada um dos pontos mais difíceis e controvertidos do trabalho do constituinte. Disponível em: http://www. “fundado em quatro condições. Wapichana. poderá auxiliar na condução desse ponto específico: Terra Indígena Raposa Serra do Sol144 Terra Indígena Raposa Serra do Sol317 145 Acesso em: 01 julho 2005.

Wapichana. A luta Respaldo legal Portaria n.br/noticia/1363/stf-raposa-serra-dosol. Macuxi. 534. que não seja por falta de caneta!”146.001/1973 e o Decreto 1. o processo extinto sem julgamento do mérito e a liminar parcialmente revogada. Trata-se de ato administrativo de competência do presidente da República. o STF “julgou prejudicadas as ações judiciais ‘pela perda do objeto’. Taurepang e Patamona. É uma fase do procedimento demarcatório das terras indígenas.000 habitantes. argumentando os direitos de ir e vir dos moradores nos referidos núcleos. o Mandado de Segurança foi rejeitado pelos juizes do Superior Tribunal de Justiça. Tem uma população estimada em 15. No dia 27 de novembro de 2002.gov. conforme dispõe a Lei 6. “Se só for preciso uma canetada.br/noticias/2005/ Abril/rls150405homologacao.direitos humanos Dados gerais Objetivo É a habitação ancestral dos povos Macuxi.br/guia3/detalhes. em 1995. dentro das terras Raposa Serra do Sol. Ingarikó. voltou a impedir a homologação em área contínua da terra indígena. Concedida Liminar Parcial ao Mandado de Segurança: o ministro relator Aldir Passarinho suspendeu os efeitos da portaria quanto aos núcleos urbanos e rurais instalados antes da sua expedição. alvo da contestação”149. Convenção 169 da OIT Assinada pelo ex ministro da Justiça Renan Calheiros: declarou ser a Terra Indígena Raposa Serra do Sol posse tradicional permanente dos povos indígenas Ingarikó. 231. (iii) incentivo a Ongs para a divisão do território entre as comunidades. Localiza-se a nordeste do Estado de Roraima. cfm?id=157084&tipo=7&cat_ id=92&subcat_id=1.01. Em 14. Em 15. Maú. excluindo da área as instalações do 6º Pelotão Especial de Fronteias e reconhecendo a unidade administrativa municipal de Uiramutã. Surumú e a fronteira com a Venezuela. destacamse: (i) criação do município de Uiramutã. de n° 534148. a fim de anular a Portaria declaratória. O Governo do Estado de Roraima impetrou no STJ Mandado de Segurança (n° 6. As comunidades indígenas lutam há mais de 30 anos pelo reconhecimento definitivo da terra aos seus legítimos habitantes.com. alterando o que estava disposto no ato normativo anterior. entre os rios Tacutu. Acesso em: 30 abril 2005. Disponível em: http://www. Dentre os empecilhos criados pelo Governo Estadual para impedir a homologação da terra contínua. com pedido de liminar contra o Ministério da Justiça. de 13 de abril de 2005 – Define os limites da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.05. Solicitam que todos mandem uma caneta para o presidente Lula.2005. O caso no STF Acesso em: 10 março 2005. 7º. justica. Disponível em: http://ef.05. Fixou a dimensão e limite da área. (ii) criação do Parque Nacional Monte de Roraima e do 6º Pelotão Especial de Fronteiras do Exército Brasileiro. 820 de 11/12/98 Ação judicial Homologação de Raposa Serra do Sol A campanha 146 Conselho Indígena de Roraima. Art. Disponível em: http://www. Miang. 147 148 Portaria n. 149 150 Idem. assim. devido à edição de uma nova portaria do Ministério. CF. htm.2005. Trata-se de uma campanha do Conselho Indígena de Roraima (CIR) em parceria com Rainforest Foundation para pressionar o Governo Federal a homologar a terra.amazonia. org. Wapixana e Taurepang. Em 03.210). Art. A decisão liminar atendeu a uma Ação Cautelar ajuizada pelo senador Mozarildo Cavalcanti (PPS-RR) e. FGV DIREITO rio 124 . op. Homologação da área contínua. que poderá fazê-lo por meio de um decreto.2005. brasiloeste. o presidente Lula assinou decreto homologando a área indígena Raposa Serra do Sol de forma contínua150. Homologação da terra Acesso em: 30 abril 2005. a ministra do STF Ellen Gracie suspendeu a Portaria 820/ 98 do Ministério da Justiça147.775/1996. cit. juntamente com uma carta requerendo a homologação.

In: Indigenismo e territorialização: poderes. 05 (direito à integridade pessoal). uma vez que não teriam sido esgotados os recursos internos. XVIII (direito à justiça) e XXIII (direito de propriedade) da Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem (a “Declaração”). SILVA. Macuxi. Rio de Janeiro: Contra Capa. Legislação: Constituição Federal Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho FGV DIREITO rio 125 . OLIVEIRA. III (direito à liberdade religiosa e de culto). In: Os direitos indígenas e a Constituição. San José: Instituto Interamericano de Derechos Humanos.direitos humanos Processo na CIDH Conselho Indígena de Roraima (CIR) e a Rainforest Foundation protocolaram denúncia contra o Estado brasileiro. 22 (direito de circulação e residência) e 25 (direito à proteção judicial) da Convenção Americana de Direitos Humanos (a “Convenção”) e os direitos I (direito à vida e à integridade da pessoa). Por ocasião da homologação da TI Raposa Serra do Sol. Porto Alegre: Núcleo de Direitos Indígenas e Sergio Antonio Fabris Editor. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: Campaña educativa sobre derechos humanos y derechos indígenas: módulos temáticos. 45-50. pp. a CIDH inseriu nota em sua página na internet por meio da qual manifestava congratulação ao Estado brasileiro pelo Ato Presidencial. em 29 de março de 2004. e enumera todas as medidas que vinham sendo adotadas no sentido da promoção de tais povos indígenas. pp. José Afonso. 1993. Os peticionários argumentam que o Estado brasileiro teria violado os artigos 21 (direito à propriedade privada). II (direito de igualdade perante a lei). 1998. VIII (direito de residência e de trânsito). O Estado brasileiro argumenta pela inadmissibilidade do caso. “Redimensionando a questão indígena no Brasil: uma etnografia das terras indígenas”. Wapixana. 4 (direito à vida). João Pacheco. 24 (igualdade perante a lei). Patamona e Taurepang por não demarcar suas terras e promover a colonização continuada das mesmas. 15-68. por supostas violações a direitos e garantias dos povos Ingaricó. 2003. 12 (liberdade de consciência e de religião). IX (direito à inviolabilidade de seu domicílio). “Terras tradicionalmente ocupadas pelos índios”. rotinas e saberes coloniais no Brasil contemporâneo.

Capítulo II – Da Utilização das Coisas Comuns Artigo 4º – O uso das coisas comuns dispostas no artigo 1º poderá ser feito por qualquer co-proprietário e deverá obedecer aos horários estipulados pelo “Parque Árvores Verdes”. FGV DIREITO rio 126 . vias internas de circulação. República Federativa do Brasil. insuscetíveis de divisão ou de alienação destacada da unidade autônoma de cada um ou. piscina. jardins. que me é pedido por parte interessada. situado na Av. sistema de tratamento de esgoto e central de abastecimento de gás. de utilização exclusiva por qualquer co-proprietário. cujo teor é o seguinte: ESCRITURA de Convenção de Condomínio Geral do “Parque Árvores Verdes”. sistema de iluminação das partes comuns. fontes e lagos. bosque. Mario Henrique Mendonça. e na forma da lei: Certififica que revendo o Livro n. as enumeradas no artigo anterior e mais o terreno de todo o “Parque Árvores Verdes”. assim como tudo que seja proveitoso à totalidade dos condôminos do conjunto. Artigo 2º – São coisas e partes de propriedade e uso comuns e. portanto. play-ground. Artigo 3º – Não obstante o disposto no artigo precedente. 2000. às folhas 50. esculturas. Parágrafo único – A cada um dos 4 (quatro) edifícios que constituirão o “Parque Árvores Verdes” corresponderá uma quota ideal de ¼ da totalidade do terreno. Julio Lopes. na forma abaixo: Capítulo I – Dos Conceitos Gerais Artigo 1º – Além dos 4 (quatro) referidos edifícios residenciais. 3 (três) quadras de tênis. Tabelião do 10º Ofício de Notas. da Cidade do Rio de Janeiro. consta labrado um INSTRUMENTO DE ESCRITURA. 2000. fica estabelecido que. Comarca do Estado do Rio de Janeiro. embora constituindo coisa de propriedade comum de todos os condôminos do “Parque Árvores Verdes”. por CERTIDÃO. ainda.direitos humanos Aula 20: Direitos Humanos e orientação sexual NOTA AO ALUNO Leia os dois casos abaixo: I) Convenção Hipotética de Condomínio CERTIDÃO O BEL. a parte do terreno ocupada pela projeção de cada um dos 4 (quatro) edifícios será reservada para utilização exclusiva dos co-proprietários das unidades autônomas componentes de cada um. o “Parque Árvores Verdes” contará com um parque de estacionamento de automóveis.

151 FGV DIREITO rio 127 .asp?NOTCod=58452. o abraço. Atualmente aguarda o parecer do deputado Roberto Gouveia (PT-SP). distúrbio ou perversão. De acordo com a assessoria de imprensa do CFP. sendo vedada mãos dadas. os profissionais não estão proibidos de prestar serviços a pessoas homossexuais desde que o objetivo seja reduzir sofrimentos decorrentes da orientação sexual e que a homossexualidade não seja tratada como doença.gov. qual? O que dispõem os tratados internacionais de direitos humanos e as leis nacionais a respeito? Acesso em 05 de julho de 2005. No caso desse projeto. de nº 717/2003. A resolução de 1999 também impede psicólogos de colaborarem com eventos ou serviços que “proponham tratamentos de cura da homossexualidade” e de “se pronunciarem em meios de comunicação de massa de modo a reforçar o preconceito social existente em relação aos homossexuais. A decisão final da Assembléia não retira a gravidade de que tal projeto de iniciativa do Deputado Estadual Edino Fonseca (PSC). § 2º – A não observância do disposto no presente artigo implica na aplicação de multa progressiva. proposto pelo Deputado Federal Neucimar Fraga (PL-ES). indaga-se: A Convenção de Condomínio e o PL de nº 717/2003 violam algum direito humano? Caso afirmativo. o Plenário da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro reprovou o projeto de Projeto de Lei da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.] Capítulo VIII – Do Foro Artigo 35 – Fica eleito o foro desta cidade para a solução de qualquer litígio ou controvérsia decorrente da presente Escritura. “o CFP (Conselho Federal de Psicologia) já adotou a posição contrária. ligando-os a portadores de desordem psíquica”. II) Programa de Auxílio para “cura de homossexuais” Em 10 de dezembro de 2004. Trata-se da autorização para um programa de reorientação sexual. ou seja. o beijo e qualquer outro ato ou gesto que atente contra os bons costumes ou formação moral e psicológicas das crianças e dos adolescentes. um auxílio para os homossexuais que quiserem a cura para “virar” heterossexuais..direitos humanos § 1º – Fica proibido a demonstração de afetividade por casais homossexuais nos aludidos espaços comuns. que foi designado relator na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara.br/imprensa/ Noticias.aids. pastor da Assembléia de Deus. [. uma resolução do órgão determina que psicólogos não podem tratar a homossexualidade como doença. Disponível em: http:// www.151 Diante do exposto.. Desde 1999. calculada a partir da primeira infração. tenha tido pareceres favoráveis por parte da Comissão de Constituição e Justiça e da Comissão de Saúde. aos quinze (15) dias do mês de fevereiro (02) do ano de dois mil e cinco (2005). Projeto semelhante tramita também no Congresso Nacional. Extraída por Certidão.

realizada em Santiago do Chile. Já em 2004. Como mencionado na aula 18. a Discriminação Racial. realizada em Durban em 2001. riqueza. cor. bem como a necessária adoção de medidas de proteção de suas vítimas. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade (grifou-se). Diante do cenário narrado. Todavia. o projeto foi retirado de votação. através de uma atitude inédita do Brasil. momento em que os Estados pactuaram a necessidade de prevenir e combater a discriminação por orientação sexual. o Brasil exerceu protagonismo na Conferência Mundial contra o Racismo. os Estados Unidos sinalizaram que se absteriam de votar uma proposta que referisse à sexualidade por não acreditarem que a Comissão constituísse fórum adequado para a discussão da questão. a diplomacia percebeu que seria mais danoso a reprovação da resolução que a sua não-votação. língua. Cinco Estados muçulmanos obstaculizaram a votação da resolução: Arábia Saudita. A postura assumida pelo Estado brasileiro no cenário internacional acarretou implicações internas imediatas: a criação do Conselho Nacional de Combate à Discriminação. Além disso. Isso posto.1 – Todo o homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração sem distinção de qualquer espécie. não houve maturidade para que a proposta fosse incluída no texto final da Declaração. a Líbia e a Malásia apresentaram propostas de alteração visando a eliminação de todas as referências à orientação sexual. todavia. O referido impasse conduziu à proposta da Presidência da Sessão (Líbia) para postergar a apreciação da proposta para 2004. a proteção dos direitos dos homossexuais situa-se ainda no marco geral da proteção dos direitos humanos. Assim. no âmbito da 59ª Sessão da Comissão de Direitos Humanos da ONU. pode-se FGV DIREITO rio 128 . foi apresentada uma proposta específica de resolução para o reconhecimento da discriminação por orientação sexual como uma violação a direitos humanos. assegura a Declaração Universal dos Direitos Humanos que: Art. religião. a proposta foi colocada novamente em pauta. origem nacional ou social. 1º – Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. no que se refere ao debate sobre a não-discriminação com base na orientação sexual. Tal posição já teria sido gestada durante a Conferência Regional das Américas. uma importante discussão. seja de raça. sexo. o Paquistão. ou qualquer outra condição (grifou-se). nascimento. África do Sul e um grupo de dezenove países europeus. o Egito. 17 contrários e 10 abstenções.direitos humanos Diferentemente dos demais grupos que estudamos até agora. Pela primeira vez na sua história. a Xenofobia e Formas Conexas de Intolerâncias. o que foi aceito por 24 votos a favor. Acompanharam a proposta inicial brasileira o Canadá. Ressalte-se que a proposta brasileira foi a única a não ser votada ao longo de toda a 59ª Sessão. contando com amplo respaldo da sociedade civil organizada e de delegações européias. Artigo 2. Iniciou-se em 2003. o que possui o combate à discriminação por orientação sexual como uma de suas vertentes de atividade. opinião política ou de outra natureza. à medida em que a sessão era conduzida ao final dos trabalhos.

.” Art... 7º da Constituição: “Art. alimentação e moradia são comunicados diariamente por parte de experts independentes apontados pela Comissão de Direitos Humanos..... mesmo que limitado até o momento à não discriminação. gender.... 7º ..... IV – promover o bem de todos.. à igualdade. age... Disponível em: http://www.... tramita no Congresso Nacional Projeto de Emenda Constitucional.. Além do enorme preconceito de que são vítimas... a Constituição Federal da África do Sul é a única constituição do mundo a garantir o direito à orientação sexual152: Art.... inúmeros relatos de violência...... O Texto Constitucional estabelece: Art.. 152 FGV DIREITO rio 129 .. raça... não seria arriscado afirmar que a ausência de um tratado não significa omissão das instâncias internacionais em face a violações dos direitos humanos dos homossexuais.. religion. nos termos seguintes (grifou-se)........ cor.direitos humanos afirmar que se encontra latente no âmbito da ONU uma postura mais abrangente de proteção dos direitos humanos sob a perspectiva de orientação sexual.. sem preconceitos de origem....... ethnic or social origin. de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo. html?rebookmark=1#9.... prisão e assassinato.... à segurança e à propriedade. orientação sexual..3 – “The state may not unfairly discriminate directly or indirectly against anyone on one or more grounds. 3º – . pregnancy.. idade.. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida.. sexo. culture.. 3º da Constituição: “Art..za/html/govdocs/ constitution/saconst02. polity.. uma vez que se recai mais uma vez sobre a proteção geral do princípio da não-discriminação. conscience. ponderações semelhantes podem ser confeccionadas.. belief... sex. 9. em uma análise comparada.... Acesso em: 27 abril 2005..... 5º – Todos são iguais perante a lei.. sexual orientation... Com vistas a consagrar à discriminação por orientação sexual igual gravidade às demais... language and birth” (grifou-se). disability....... Nesse sentido.. including race.. 2º – É conferida nova redação ao Inciso XXX do art..” A omissão em relação à discriminação por orientação sexual não constitui prerrogativa brasileira...org... É importante enfatizar que mais de 70 países ainda proíbem práticas homossexuais e a punem com penas que vão desde a prisão à flagelação pública e morte. orientação sexual..... à liberdade.. cor ou estado civil. exclusão do direito à saúde. educação. colour. tortura. que propõe a alteração dos seguintes artigos: Art... 1º – É conferida nova redação ao Inciso IV do art...... XXX – proibição de diferença de salários... marital status..... de autoria da então deputada Marta Suplicy.. idade e quaisquer outras formas de discriminação. sem distinção de qualquer natureza.. Na esfera interna brasileira. Cumpre ressaltar que...

prejudicado ou privilegiado em razão de nascimento. 2004. Acesso em: 27 abril 2005. Comissão Provisória de Trabalho do Conselho Nacional de Combate à Discriminação da Secretaria Especial de Direitos Humanos. estado civil. o princípio da dignidade da pessoa humana. cabe menção ao lançamento do Brasil Sem Homofobia – Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania Homossexual. É o caso da Lei Orgânica Municipal do Rio de Janeiro153.gov. Acesso em: 6 de julho de 2005.rj. orientação sexual. como está na norma sul-africana. “De novo. a dignidade encontra-se na aceitação do ser nas suas características pessoais. Designa-se ao Conselho Nacional de Combate à Discriminação papel fundamental de controle das ações que visem ao fim da discriminação. Brasil Sem Homofobia – Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania Homossexual. Disponível em: www.direitos humanos Cabe aqui uma interpretação mais arrojada para afirmar que. 5º. 153 FGV DIREITO rio 130 . Contardo.aids. Elaboração: André Luiz de Figueiredo Lázaro. Direito à Educação. mental ou sensorial. atividade física. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: CALLIGARIS. ou qualquer particularidade. É também importante perceber que outros marcos normativos internos já têm apresentado sensibilidade à orientação sexual.br/imprensa/Noticias. § 1º – Ninguém será discriminado. a qual estabelece que: Art. Afinal. Direito à Saúde. Brasília: Ministério da Saúde. O pluralismo característico da maior parte das sociedades contemporâneas exige que os ordenamentos jurídicos se aperfeiçoem de forma a garantir que as diferenças possam ser reconhecidas e respeitadas.html#t1c1. sobre a cura da homossexualidade”. É dividido entre os temas Cooperação Internacional. lançado em 2004 por iniciativa da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. condição social ou. Disponível em: http://www2.gov. organiza.asp?NOTCod=60157.br/pgm/leiorganica/ leiorganica. rio. Direito à Segurança. conduz à ilação de que o respeito a diferenças seja um pressuposto para uma vida digna.ao e revisão de textos: Cláudio Nascimento Silva e Ivair Augusto Alves dos Santos. Direito à Cultura. por ter cumprido pena ou pelo fato de haver litigado ou estar litigando com órgãos municipais na esfera administrativa ou judicial (grifou-se). Mais além do plano legislativo. ainda. sexo. Política para a Juventude. idade. dentre as quais se encontra a por orientação sexual. respaldado no artigo 1º da Constituição Federal. Conselho Nacional de Combate à Discriminação/Ministério da Saúde. Direitos ao Trabalho. etnia. Política para as Mulheres e Política contra o Racismo e a Homofobia. por mais que tal forma não esteja expressa em nosso Texto Constitucional. cor.

2003.direitos humanos SPENGLER. Legislação: Constituição Federal FGV DIREITO rio 131 . Fabiana Marion. Santa Cruz do Sul: EDUNISC. União homoafetiva: o fim do preconceito.

deve produzir ações e observar o efeito de suas ações sobre o meio exterior. Este é o Teatro Objetivo. agindo.com. no contexto do presente. pessoa ou espaço. 2. em situação. O objetivo básico do Teatro do Oprimido é o de Humanizar a Humanidade. movimentos e expressões físicas. cultural. diminuídos no exercício desse direito. social. a mesma linguagem que os atores usam no palco: suas vozes e seus corpos. O Teatro Essencial consiste em três elementos principais: Teatro Subjetivo. Todo ser humano é capaz de atuar: para que sobreviva. Todo ser humano é teatro! 4. 9. um espaço dentro do espaço: o Espaço Estético. 5. Quando um ser humano se limita a observar uma coisa. O Teatro do Oprimido oferece aos cidadãos os meios estéticos de analisarem seu passado. Diálogo é definido como o livre intercâmbio com os Outros.br/foco. racial ou sexualmente despossuídos do seu direito ao Diálogo ou. a energia e o seu desejo de agir são transferidos para essa coisa. 11. Disponível em: http:// www. e pelo respeito às diferenças e pelo direito de ser respeitado. desejos e idéias em uma Linguagem Teatral. O Teatro do Oprimido ajuda os seres humanos a recuperarem uma linguagem artística que já possuem. sentindo. Ser humano é ser teatro: ator e espectador co-existem no mesmo indivíduo. O Teatro do Oprimido é um sistema de Exercícios. Acesso em: 14 de maio de 2005. econômica. a si mesmo. de qualquer forma. a pensar. Todos os seres humanos utilizam. Oprimidos são aqueles indivíduos ou grupos que são. Todo ser humano é capaz de ver a situação e de ver-se. na vida diária. Jogos e Técnicas Especiais baseadas no Teatro Essencial. 7. Traduzem suas emoções. pessoa ou espaço. O Teatro Essencial 3.direitos humanos Aula 21: Teatro do Oprimido NOTA AO ALUNO Manifesto do Teatro do Oprimido154 Declaração de princípios Preâmbulo 1. 154 FGV DIREITO rio 132 . 10. Teatro do Oprimido. assim. como a livre participação na sociedade humana entre iguais. Esta co-existência é o Teatro Subjetivo. renunciando momentaneamente à sua capacidade e à sua necessidade de produzir ações. 6. 8. Teatro do Oprimido é um ensaio para a realidade. Teatro Objetivo e Linguagem Teatral. criando. O teatro se define pela existência simultânea — dentro do mesmo espaço e no mesmo contexto — de espectadores e atores. para que possam inventar seu futuro. Aprendemos a sentir.opalco. que busca ajudar homens e mulheres a desenvolverem o que já trazem em si mesmos: o teatro. a agir. cfm?persona=materias&contr ole=112. individual ou coletivamente. ao invés de esperar por ele. pensando. e a aprender a viver em sociedade através do jogo teatral. política.

de acordo com os princípios e os objetivos desta Declaração. concebendo e executando projetos em escala mundial. como um instrumento poderoso para a descoberta de si mesmo e do Outro. aqui relacionados em Anexos. como instrumento para modificar as causas que produzem infelicidade e dor. trabalho social. mas não a passividade. e respeita todas as culturas. depois.direitos humanos 12. por e para o oprimido. para clarificar e expressar os desejos dos seus praticantes. e um meio de tornar as pessoas mais felizes. O Teatro do Oprimido se baseia no Princípio de que todas as relações humanas deveriam ser de natureza dialógica: entre homens e mulheres. O Teatro do Oprimido é um movimento estético mundial. o princípio fundamental do Teatro do Oprimido é o de ajudar e promover a restauração do Diálogo entre os seres humanos. Reconhecendo esta realidade. grupos e nações. alguns projetos exemplares são apresentados para ilustrar a natureza e o escopo deste Método teatral. também está sendo usado como instrumento para a obtenção da justiça econômica e social. O Teatro do Oprimido está sendo usado em dezenas de países de todo o mundo. O Teatro do Oprimido procura ativar os cidadãos na tarefa humanística expressa pelo seu próprio nome: teatro do. A AITO cumpre este objetivo inter-relacionando os praticantes do Teatro do Oprimido em uma rede mundial. finalmente. artes. sempre o diálogo deveria prevalecer. não-violento. Em resumo. No Anexo desta Declaração de Princípios. o objetivo mais geral do Teatro do Oprimido é o desenvolvimento dos Direitos Humanos essenciais. É um método de análise. estimulando a criação local de Centros do Teatro do Oprimido (CTOs). protagonistas de suas próprias vidas 15. e criando um ponto de encontro internacional na Internet. facilitando o treinamento e a multiplicação das técnicas existentes. os diálogos têm a tendência a se transformarem em monólogos que terminam por criarem a relação Opressores-Oprimidos. cultura. famílias. FGV DIREITO rio 133 . A AITO é uma organização que coordena e promove o desenvolvimento do Teatro do Oprimido em todo o mundo. 16. que é o fundamento da verdadeira Democracia. programas de alfabetização e na saúde. o TO está sendo amplamente usado em todo o mundo. para respeitar as diferenças entre indivíduos e grupos. os cidadãos agem na ficção do teatro para se tornarem. e o seu desenvolvimento metodológico. para a inclusão de todos os seres humanos no Diálogo necessário a uma sociedade harmoniosa. política. Por causa da sua natureza humanística e democrática. não é dogmático nem coercitivo. na educação. que busca a paz. por exemplo. O Teatro do Oprimido não é uma ideologia nem um partido político. Nele. promovendo a troca entre eles. 18. A ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DO TEATRO DO OPRIMIDO (AITO) 17. em todos os campos da atividade social como. Na realidade. para desenvolver todas aquelas características que trazem a Paz. promovendo e criando condições de trabalho para os CTOs e os seus praticantes. 14. psicoterapias. raças. Princípios e Objetivos 13.

theatreoftheoppressed.com. A AITO tem os mesmos princípios e objetivos humanísticos e democráticos do Teatro do Oprimido.br Site: http://www.ctorio. A AITO entende que todos aqueles que trabalham usando as várias técnicas do Teatro do Oprimido subscrevem esta mesma Declaração de Princípios.org Demais sites indicados ao longo do texto FGV DIREITO rio 134 . 20. e vai incorporar todas as contribuições de todos aqueles que trabalharem dentro desta Declaração de Princípios. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: Site: http://www.direitos humanos 19.

hoje de maneira irreversível. A consolidação da sociedade civil brasileira ocorre durante a ditadura militar. exercendo seu direito à voz. outros atores são fundamentais. A redemocratização do país conduziu a uma participação social jamais vista nos corredores do Congresso Nacional: verdadeiras caravanas chegavam a Brasília diariamente com vistas a imprimir no Texto Constitucional compromissos com a promoção de direitos humanos. que se constitui hoje como uma grande arena da sociedade civil. A partir de então. sendo que 100 delas tratavam especificamente dos direitos humanos157.direitos humanos Aula 22: O papel da sociedade civil na promoção e proteção dos direitos humanos NOTA AO ALUNO Na aula inaugural ao bloco referente aos Novos temas e Novos Atores.abong. p. serão convidadas organizações não-governamentais e movimentos social que possuam como campo específico de atuação a advocacia em direitos humanos. Nesse sentido. na década de 80. hoje em sua quinta edição. A atuação na esfera interna e na arena internacional não constitui tarefas excludentes. De fato.br/ (item: “Perguntas mais Freqüentes”). como as corporações privadas e as organizações não-governamentais. Suíça. 61 157 ABONG. Disponível em: http:// www. op. Ao longo das duas últimas décadas. esse é um importante ator na promoção e proteção. o desafio maior consiste em articular ABONG. No âmbito internacional. cit. havia 1208 ONGs no Brasil.156 Tais elementos conduzem à compreensão do embrião da sociedade civil em nosso passado recente. tais organizações ganharam paulatinamente. foi descredenciada a via partidária como a única forma de militância. Multiplicam-se redes de organizações que pretendem driblar coletivamente as dificuldades e estabelecer agendas. 1997. 155 156 VIEIRA. Liszt. Acesso em: 30 março 2005. respaldo junto aos governos e legitimidade para influenciar nas tomadas de decisão na esfera pública internacional. FGV DIREITO rio 135 .155 Acresça-se ainda o fator de que. Cabe registrar que tais organizações participaram de todas as grandes conferências dos últimos 15 anos. o FSM é realizado sempre no mês de janeiro. mas algoz na violação de direitos humanos. em 1988.org. a Rio92. significou o marco para a visibilidade e referência às ONGs. Destaque-se ainda a experiência do Fórum Social Mundial (FSM). Inaugurado no ano de 2001 na cidade de Porto Alegre. destacamos as organizações e movimentos da sociedade civil como protagonistas. a sociedade civil vem exercendo papel de destaque nos debates públicos e na mídia no tocante à promoção e proteção dos direitos humanos. Em um contexto de globalização. Registre-se que. o diálogo torna-se muito mais profícuo se precedido pela leitura de alguns argumentos sobre a atuação desses atores. impulsionada pelas flagrantes violações de direitos humanos vigentes no momento histórico. Nesse sentido. Cidadania e globalização. “se o que está em jogo é o presente e o futuro da democracia. De forma a aproximar o aluno da realidade da atuação da sociedade civil. Rio de Janeiro: editora Record. Afirmar que o Estado é o principal violador de direitos humanos é simples. durante o tradicional Fórum Econômico Mundial de Davos. a Conferência Mundial do Meio-Ambiente.

Ano 1. muitas organizações não-governamentais e movimentos passaram a se organizar por meio de redes. como as corporações privadas e as organizações não-governamentais. Dessa forma. Rio de Janeiro: LPP – Laboratório de Políticas Públicas. etc”159. Liszt. Nesse sentido.”158 Ultrapassada a apresentação histórica que conduziu ao enquadramento contemporâneo. de outro modo. ao levar a injustiça à esfera pública. o Estado é o um importante ator na promoção e proteção. Número 1. As ONGs e movimentos sociais devem ser vistos como “outros sujeitos atuando de acordo com as reais necessidades e pelos direitos de diversos segmentos sociais. São Paulo: Sur Rede Universitária de Direitos Humanos. destacando dificuldades e avanços. 49-69. etc. VIEIRA. cabe ressaltar que tais atores não substituem o Estado. “(g)rupos da sociedade civil são bons cães de caça para injustiças. 1997. Para que isso se torne realidade. homossexuais. Oscar Vilhena. Rio de Janeiro: LPP – Laboratório de Políticas Públicas. pois dão voz a perspectivas e pontos vantajosos que. cit. Número 1. Cidadania e globalização. RJ: Vozes. pela segurança alimentar. Petrópolis. negros e negras. Petrópolis. “Reflexões acerca da sociedade civil e dos direitos humanos” In: Sur Revista Internacional de direitos humanos. Política e democracia em tempos de globalização. José Maria. In: Sur Revista Internacional de direitos humanos. São Paulo: Sur Rede Universitária de Direitos Humanos. 2004: 1o Semestre. Buenos Aires: CLACSO. Leitura dos sites indicados ao longo do texto 158 GÓMEZ. op. 2000. 159 160 ABONG. VIEIRA. RJ: Vozes. possibilitando uma atuação mais eficaz na promoção e proteção dos direitos humanos. regionais e globais. Edição em Português. Contudo. Scott DuPree. e DUPREE. mas algoz na violação de direitos humanos. Edição em Português. 2000. Rio de Janeiro: editora Record. a associação e o diálogo devem estar abertos e com um mínimo de intervenção. 2004: 1o Semestre.. Como afirma Oscar Vilhena Vieira e A. outros atores são fundamentais para garantir a observância e efetivação dos direitos humanos. A. são necessárias algumas considerações acerca da atuação dessas organizações.”160 A horizontalidade das redes associativas disponibiliza a informação e o debate entre tais organizações e movimentos. VIEIRA. FGV DIREITO rio 136 . “Reflexões acerca da sociedade civil e dos direitos humanos”. Oscar Vilhena. nacionais.. Conforme visto anteriormente. pp. Assim. bem como pela preservação do meio ambiente. Política e democracia em tempos de globalização. crianças e adolescentes. não seriam ouvidos. Scott A. José Maria. e DUPREE. pp. 49-69. Scott. Buenos Aires: CLACSO. como mulheres. a sociedade civil contribui para a efetivação dos direitos humanos. Ano 1.direitos humanos para reforçar – e não para substituir ou eliminar – processos simultâneos e diversos de democratização do poder em bases locais. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: GÓMEZ.

1177. op. ao passo que os Estados em desenvolvimento são os possuidores do direito ao desenvolvimento163.164 BEDJAOUI. a Declaração sobre o Progresso Social e Desenvolvimento165. que almejavam consolidar sua independência política através de uma liberação econômica161. em 1969. que introduziu o direito ao desenvolvimento como um direito humano. It reflects an essential demand of our time since four fifths of the world’s population no longer accept that the remaining fifth should continue to build its wealth on their poverty” (Ibid. seja o direito de um povo. 1991. na medida em que os quatro quintos da população mundial não mais aceitam o fato de um quinto da população mundial continuar a construir sua riqueza com base em sua pobreza. Contudo. Foi frente a essa nova necessidade que a Assembléia Geral das Nações Unidas adotou. Mohammed.direitos humanos Aula 23: Desenvolvimento e Direitos Humanos NOTA AO ALUNO Todo direito que existe no mundo foi alcançado através da luta. Idem. p. 167 FGV DIREITO rio 137 . durante a fase de descolonização. só se afirma através de uma disposição ininterrupta para a luta. realizada em Teerã. 1182). em 1969. Ainda. De acordo com Bedjaoui: a dimensão internacional do direito ao desenvolvimento é nada mais que o direito a uma distribuição eqüitativa do bem-estar social e econômico do mundo. p. da Comissão de Direitos Humanos. 165 166 BEDJAOUI. 1178. seja o direito do indivíduo. Paris: Martinus Nijhoff Publisher e UNESCO. Mohammed Bedjaoui. Chefe de Justiça do Senegal. p. Mohammed Bedjaoui (org. A noção sobre o direito ao desenvolvimento foi abordada pela primeira vez em 1972166. Resolução 4 (XXXIII) de 21 de fevereiro de 1977. a Conferência Mundial sobre os Direitos Humanos. pela primeira vez. cit. tal obrigação tem que ser compreendida no contexto de uma nova lei internacional de solidariedade e cooperação.. . O direito ao desenvolvimento era uma exigência afirmada pelos países do terceiro mundo. Dois anos após... no mesmo ano. que sustentou ser o direito ao desenvolvimento parte da terceira geração de direitos humanos. 161 162 163 164 Ibid. seus postulados mais importantes tiveram de ser conquistados num combate contra as legiões de opositores. pode-se dizer que o direito ao desenvolvimento almeja uma globalização ética e solidária. Ela reflete uma demanda crucial de nosso tempo. na qual os Estados desenvolvidos são os detentores da obrigação legal de cooperação. de acordo com o autor. em seu relatório final. por dois eminentes acadêmicos: primeiramente por Keba MBaye. a existência do direito ao desenvolvimento em 1977167. International Law: Achievements and Prospects. Nesse sentido. proclamou. os direitos humanos e o desenvolvimento com questões mundiais primordiais. A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas (CDHNH). em 11 de dezembro de 1969. afirmou a dimensão internacional do direito ao desenvolvimento162. The right to Development. 1178. a CDHNH veio confirmar a existência de tal direito e da igualdade de “…the international dimension of the right to development is nothing other than ‘the right to an equitable share in the economic and social well-being of the world’. e somente alguns meses após por Karel Vasak.).Rudolf Von Ihering O conceito de direito ao desenvolvimento surgiu na década de 1960. ao impor aos países economicamente avançados a obrigação de desenvolver os países menos avançados economicamente. relacionou. M. todo e qualquer direito. p. Adotada pela Assembléia Geral através de sua Resolução 2542 (XXIV).

Artigo 1. por oportuno. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. 6. que a Declaração não apenas estabelece que a pessoa humana é o sujeito central do desenvolvimento171. que o Estado é o principal responsável pela implementação de condições nacionais e internacionais propícias à realização do direito ao desenvolvimento. FGV DIREITO rio 138 . Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. de acordo com o preâmbulo desta Declaração. i. (iii) promover o estabelecimento da paz e segurança internacionais181. 177 178 Art. Isto porque. A Declaração foi adotada por 146 votos a favor. 2(3). 176 Art. Art. Art. um contra (Estados Unidos) e oito abstenções (Reino Unido. em 1981. Finlândia. Islândia e Suíça). cultural ou humanitário. No entanto. Isto significa dizer que os Estados devem cooperar entre si para: (i) assegurar o desenvolvimento e eliminar os obstáculos ao mesmo179. 5. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. cooperar com os Estados em desenvolvimento a fim de que estes possam realizar o direito ao desenvolvimento. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. França. mas também que o direito ao desenvolvimento é um direito humano inalienável de “toda pessoa humana e de todos os povos”172. o Estado deve elaborar políticas nacionais adequadas para o desenvolvimento175. cultural e político174. Israel. desfrutando do desenvolvimento econômico. O marco do direito ao desenvolvimento foi a adoção. a CDHNH estabeleceu o grupo de trabalho de experts governamentais sobre o direito ao desenvolvimento. Destaque-se. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. razão pela qual estes devem participar ativamente e se beneficiar do direito ao desenvolvimento173. (ii) fortalecer e garantir os direitos humanos e liberdades individuais180. a palavra-chave é cooperação. Ainda. da Comissão de Direitos Humanos. social. Ressalte-se.e. 8(2).direitos humanos oportunidades como uma prerrogativa tanto das nações quanto dos indivíduos168. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. 181 Art. e preâmbulo. Ainda. 169 Adotada pela Assembléia Geral através de sua Resolução 37/199. levaram a adoção de uma resolução na qual a Assembléia Geral estatuiu o direito ao desenvolvimento como um direito humano inalienável170. em 1986. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. conseqüentemente.. dispõe o artigo 4 da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento que os Estados devem. No plano nacional. realizar o direito ao desenvolvimento. Mais um avanço ocorreu quando. Artigo 1(1). bem como tomar todas as medidas necessárias para eliminar as violações de direitos humanos178 e. juntamente com alguns debates na CDHNH e na Assembléia Geral das Nações Unidas. individual ou coletivamente. Os inúmeros relatórios produzidos. da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento pela Assembléia Geral das Nações Unidas. assim como para promover e incentivar o respeito aos direitos humanos e liberdades fundamentais. social. o conteúdo do direito era vago. bem como eliminar as barreiras existentes176 para sua efetivação. social e cultural (artigo 22). fazendo com que a CDHNH não conseguisse atingir um acordo unânime na resolução169. uma visão que liga os direitos humanos a questões mundiais. 7. Os Estados Unidos e mais sete estados do oeste se abstiveram. Dinamarca. o Estado deve incentivar a participação popular em todos os campos como forma de realizar plenamente todos os direitos humanos177. Tanto a Proclamação de Teerã quanto esta resolução de 1979 tinham uma abordagem estrutural (structural approach). Em relação à implementação do direito em tela. Já no plano internacional. 6(3). que no mesmo ano foi adotada a Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos. 170 171 172 173 174 175 Artigo 2(1). por oportuno. Artigo 1(1). a cooperação internacional deve ser o meio para se resolver os problemas internacionais de caráter econômico. dispõe o artigo 3 (1) da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. em 18 de dezembro de 1982. 179 180 Art. 168 Resolução 5 (XXXV) de 2 de março de 1979. Art. que dispõe acerca do direito de todos os povos a seu desenvolvimento econômico. Japão. 3(3).

sociais. tais políticas públicas têm Declaração de Viena. emprego. Já Amartya Sen vai mais longe. parte I. que é composto por vários elementos que representam tanto os direitos econômicos. 183 184 Declaração de Viena. apesar dos avanços trazidos pelo referido documento. deve-se destacar que a consagração do direito ao desenvolvimento como um direito humano inalienável não é um ponto pacífico entre os doutrinadores. Ainda. A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. Ainda. Tratado de direito internacional dos direitos humanos volume II. 185 186 Parte I. foi o estabelecimento da interdependência184 entre democracia. em 1998.. justiça e criatividade190. que tem como meta acabar com a pobreza e satisfazer as necessidades prioritárias de todos. técnicos e institucionais – de tal forma que possibilitam o melhoramento das condições de vida de toda população. 10. 188 189 190 Idem.o desenvolvimento é um processo econômico. que visa ao constante incremento do bemestar de toda a população e de todos os indivíduos com base em sua participação ativa. água potável. social. políticos. 10. ao dizer que desenvolvimento deve ser visto como um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam191. par. tal Declaração alertou para o fato de que “a falta de desenvolvimento não pode ser invocada para justificar a redução dos direitos humanos internacionalmente reconhecidos”185 e que todos os obstáculos existentes para a efetivação do direito ao desenvolvimento devem ser eliminados186.. Apesar do consenso atingido em Viena. A nomenclatura do cargo foi alterada. op. M. 191 SEN. desenvolvimento e direitos humanos. bem como um grupo de trabalho sobre o tema. No entanto. uma boa qualidade de vida para todos os seres humanos é o principal objetivo do direito ao desenvolvimento. livre e significativa no desenvolvimento e na distribuição justa dos benefícios daí resultantes”. O Expert Independente. Outra inovação trazida pela Declaração e Programa de Ação de Viena. Sendo assim. 182 CANÇADO TRINDADE. Arjun Sengupta.ohchr. par. 10. por sua vez. e cf. saúde. este documento tanto reafirmou o teor da Declaração das Nações Unidas sobre o Direito ao Desenvolvimento quanto contribuiu para a inserção definitiva do direito ao desenvolvimento no vocabulário do Direito Internacional positivo dos Direitos Humanos183. sem qualquer discriminação. passando de Expert Independente sobre o Direito ao Desenvolvimento para Expert Independente sobre Direitos Humanos e Pobreza Extrema. Portanto. progress. progresso. Parte I. não se chegou a um consenso acerca da definição do direito ao desenvolvimento. Todos esses direitos são interdependentes – juntamente com o crescimento do produto interno bruto (PIB) e outros recursos financeiros. 8.htm. Disponível em: http://www. Antônio Augusto. 187 Isto porque se entende que a definição de direito ao desenvolvimento estabelecida no preâmbulo da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento é muito vaga. moradia. par. 80. FGV DIREITO rio 139 . p. como alimentação. as políticas públicas têm que estar voltadas para a satisfação de necessidades básicas. justice. par. cultural e político abrangente. Nesse sentido. veio exprimir o consenso entre os Estados de que o direito ao desenvolvimento é “um direito humano universal e inalienável e parte integrante dos direitos humanos fundamentais”182. par. Sengupta sugere que o direito ao desenvolvimento é o melhoramento de um “vetor” dos direitos humanos. Acesso em: 10 jan. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. para que se alcance esta finalidade. 2001. Bedjaoui.. 2005. par. 1182). sociais e culturais quanto os direitos civis e políticos189. econômicos e culturais em um conjunto de direitos humanos indivisíveis e interdependentes. e cf. com o intuito de que fosse atingido um consenso acerca da definição187 do direito ao desenvolvimento. dignidade e justiça social para os seres humanos. 1999. 303. cit. educação e seguridade social. “The right to development is a fundamental right. Assim. o cargo de Expert Independente sobre o Direito ao Desenvolvimento (atual Expert Independente sobre Direitos Humanos e Pobreza Extrema188). Parte II.direitos humanos A Declaração e Programa de Ação de Viena. pode-se dizer que o direito ao desenvolvimento unifica todos os direitos civis. Amartya. 52-55. the precondition of liberty. Desenvolvimento como liberdade. ao dispor que: “. No entanto. 72. sustenta ser o direito ao desenvolvimento um processo no qual todos os direitos humanos e liberdades fundamentais possam ser realizados plenamente. principal documento elaborado pela II Conferência Mundial sobre Direitos Humanos. parte II. pp. p. criou. São Paulo: Companhia das Letras. a precondição de liberdade. Parte I. and creativity” (BEDJAOUI. num contexto de liberdade. afirma que o direito ao desenvolvimento é um direito fundamental. org/english/bodies/chr/special/themes.

Laura Davis. 2002. indaga-se: quando é que foi proclamado o direito ao desenvolvimento? O que se entende pelo referido direito? Quem são os sujeitos ativo e passivo do direito ao desenvolvimento? O que o Estado deve fazer para realizar o direito em tela? A Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento é dotada de força vinculante? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. tais como o direito ao trabalho. pp. Brasil. Direito ao desenvolvimento. 22-47. S. Dissertação para a obtenção do título de Mestre em Direitos Humanos pela Sussex University. Holanda: Kluwer Academic Publishers. The right to development. The right to development and structural adjustment programmes – an analysis through the lens of human rights. 1992. The Right to Development in International Law. Pelo exposto. comercial. Leitura acessória: LINDROOS. p. sociais e culturais. Anja. Legislação: Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento Declaração e Programa de Ação de Viena 192 DESAI. Antônio Augusto. p. tecnológico e científico192.R. Texto produzido para o II Colóquio Internacional de Direitos Humanos. In: CHOWDURY. 2002. São Paulo. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. pp. 1999. Helsinki: The Faculty of Law of the University of Helsinki & The Erik Castrén Institute of International Law and Human Rights. PIOVESAN. 6. 31 apud MATTAR. Volume II. Flavia.). P. 276-283. 303-307. 1999. Right to Development: Improving the Quality of Life.D. Tratado de direito internacional dos direitos humanos. (ed. o acesso a condições justas de trabalho e o direito a se beneficiar do desenvolvimento científico.direitos humanos que incluir outros direitos econômicos. FGV DIREITO rio 140 .

e. Embora o estabelecimento de uma jurisdição penal internacional só tenha se concretizado em 1998. independente e complementar à jurisdição nacional. concomitantemente. passando pelos Tribunais de Nuremberg (estabelecido em agosto de 1945) e de Tóquio (estabelecido em janeiro de 1946). a jurisdição do TPI é geral e universal. durante a Conferência Diplomática dos Plenipotenciários das Nações Unidas. (b) o estado de nacionalidade do acusado. que a competência do TPI é automática. 7 contra. (c) Promotor atua ex officio. Há três possibilidades de denúncia de um caso ao TPI: (a) Conselho de Segurança remete o caso ao TPI. un. na Haia (Holanda). A inauguração do mesmo se deu em 11 de março de 2003. No entanto. Pouco a pouco e em decorrência do trabalho da Comissão de Direito Internacional das Nações Unidas. surgiu a responsabilidade penal internacional do indivíduo. o caso só poderá ser apreciado se um ou mais dos seguintes estados sejam parte do Estatuto ou. Nesse contexto (de combate à impunidade e as inúmeras atrocidades cometidas). Disponível em: http://untreaty.asp. constata-se que ambos os tribunais ad hoc foram estatuídos com limitações espacial e temporal. em 1993. tenham voluntariamente aceito a jurisdição do tribunal em um caso concreto: (a) o estado em cujo território o crime tenha sido cometido. Acesso em: 04 julho 2005. (b) Estado-parte envia o caso ao TPI. posteriormente. instaura uma investigação com base em informações recebidas. após 60 países terem ratificado ou aderido ao Estatuto. crimes contra a humanidade. 193 FGV DIREITO rio 141 . com a competência de julgar os indivíduos pela prática de quatro crimes: genocídio. Sua origem remonta às antigas comissões internacionais ad hoc de investigação (a partir de 1919). ao passo que o Tribunal ad hoc para Ruanda foi criado para julgar os indivíduos responsáveis por crimes cometidos durante os conflitos internos armados em Ruanda. 21 abstenções). De maneira diversa. por oportuno.direitos humanos Aula 24: Tribunal Penal Internacional NOTA AO ALUNO O Tribunal Penal Internacional (TPI) foi criado com a aprovação do Estatuto de Roma (Estatuto) em 17 de julho de 1998 (120 votos a favor. o TPI.. Ressalte-se. Contudo. aceita a jurisdição do Tribunal sobre os quatro crimes dispostos no artigo 5º do Estatuto. o TPI só entrou em vigor em 1 de julho de 2002. em Roma. i. crimes de agressão e crimes de guerra. o TPI comporta 139 assinaturas e 99 ratificações193. Isto significa que um Estado. O Tribunal ad hoc para a ex-Iugoslávia foi criado para julgar os indivíduos responsáveis por graves violações do direito internacional humanitário cometidas a partir de 1991 na ex-Iugoslávia. em 1994 – e. foram criados os dois tribunais ad hoc – o Tribunal Internacional para a ex-Iugoslávia. 04 de julho de 2005. Até a presente data. o conceito de “crime internacional” ganhou tratamento doutrinário no âmbito da responsabilidade do Estado e. e o Tribunal Internacional para Ruanda. ao se tornar parte do Estatuto.org/ENGLISH/bible/englishinternetbible/partI/chapterXVIII/treaty10. Dessa forma. ao longo de 1994. uma vez que é o primeiro tribunal internacional permanente. ou melhor. o anseio pela criação de um sistema de monitoramento contínuo da situação dos direitos humanos no mundo é antigo. não o sendo. Atualmente. Trata-se de um marco histórico.

Temas de Direitos Humanos. O Brasil assinou o Estatuto em 7 de fevereiro de 2000. por quê? Hipótese: Um indivíduo nacional de um Estado não-parte do Estatuto comete crimes contra a humanidade em um Estado-parte do Estatuto. Luis Moreno Ocampo. Promotoria e Secretaria. uma Seção de Apelações. Acesso em: 04 julho 2005. São Paulo: Max Limonad. 197 FGV DIREITO rio 142 . Pergunta-se: O TPI pode apreciar este caso? Justifique sua resposta com respaldo legal.06. Sudão (em 06. Nenhum caso foi julgado até a presente data194. Diante do exposto. Flávia. 112. foi eleito em 21 de abril de 2003.06. de 25 de setembro de 2002. O Estatuto de Roma foi aprovado pelo Congresso Nacional pelo Decreto Legislativo n. Daniela Ribeiro. o promotor. ao contrário do que ocorria nos tribunais ad hoc – tinham que recorrer aos tribunais nacionais para verificar como deveriam aplicar a pena –. resolveu abrir a investigação em 3 casos195: (i) República Democrática do Congo (em 23.eng. (ii) República de Uganda (em 29. após a análise dos dados. Flávia e IKAWA. 2003.cpi.int/librar y/cases/ N0529273. e aprovado pelo Decreto n. tendo em vista que o Estatuto de Roma já prevê os tipos que podem ser aplicados. pena de reclusão não superior a 30 anos e prisão perpétua. uma Seção de Primeira Instância e uma Seção de Questões Preliminares. icc-cpi. icc.07.int/ (item: “situations and cases”). o TPI pode aplicá-la diretamente.2004).2005). O Estatuto de Roma prevê alguma forma de reparação à vítima? Qual é a exceção em relação à competência automática do TPI? Qual é a relação entre o Conselho de Segurança das Nações Unidas e o TPI? Existe alguma diferença entre a relação mencionada e aquela entre os tribunais ad hoc e o Conselho de Segurança? Quais são as questões suscitadas por doutrinadores e/ou membros do Poder Legislativo quando se discute a adaptação da legislação brasileira ao Estatuto de Roma? 194 195 04 de julho de 2005. busca-se adaptar a legislação brasileira ao Estatuto de Roma. 196 Leitura obrigatória: PIOVESAN. uma juíza brasileira.direitos humanos O Tribunal é composto pelos seguintes órgãos: Presidência. In: PIOVESAN. de 6 de junho de 2002. 4388. Disponível em: http://www. dando início as suas atividades em 16 de junho de 2003. Disponível em: http://www. 1593 (2005). há três tipos: prisão provisória. o crime de agressão pode ser julgado pelo TPI? Caso negativo. Os dois primeiros casos foram enviados ao promotor pelos respectivos governos.darfureferral. Já o promotor.2005196. sendo um deles Sylvia Steiner. pergunta-se: • • • • • • Atualmente. e o ratificou em 20 de junho de 2002197.2004). conforme dispõe sua Resolução n. “O Tribunal Penal Internacional e Direito Brasileiro”. Sendo assim. MATERIAL DE APOIO Textos: Acesso em: 04 julho 2005. Até o momento. por meio de intensos debates. ao passo que o último caso foi enviado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. No momento. de 31. os 18 juízes foram eleitos.03. pdf. e (iii) Darfur. Em se tratando das penas. Em 7 de fevereiro de 2003.

II. 61-107. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Marrielle. MAIA. 2001. Tratado de direito internacional de direitos humanos. Vol. Tribunal Penal Internacional: aspectos institucionais. pp. Capítulos III e IV.direitos humanos Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. Belo Horizonte: Del Rey. pp. 385-400. 1999. Legislação: Estatuto de Roma FGV DIREITO rio 143 . Antonio Augusto. jurisdição e princípio da complementaridade.

sem qualquer acusação. perguntava: “Você quereria viver num país que: (a) desafia o direito internacional. numa cidade “avançada”. Não obstante essas fotos e informações reiteradas de que os cativos têm sido drogados e sujeitos a privação sensorial para debilitar resistências nos interrogatórios. mordaças. em 22 de fevereiro). por causa da respectiva etnia ou religião. de forma tão veemente. a Senadora em questão teria concluído que eles não se encontravam em circunstâncias desumanas. em 15 de fevereiro de 2002. Afigura-se. Para quem se acostumou à rotina da superpopulação carcerária brasileira. no centro de São Francisco. havia visitado a base norte-americana em Cuba. diante do escritório de Senadora californiana pelo Partido Democrata. falta de patriotismo. a lógica dominante era aquela sempre típica dos protestantes puritanos dos Estados Unidos. membro do Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial da ONU e embaixador designado do Brasil em Sófia (Bulgária). tudo isso é deveras surpreendente depois do tenebroso Onze de Setembro de 2001. (c) mantém presos incomunicáveis por meses.dhnet. de posições liberais. em condições indescritíveis. Esta. mulher parlamentar. a opinião do secretário de Defesa contra o que têm afirmado a Cruz Vermelha. tão rotineira que sua tipificação como delito parece não ter “pegado”. a situação em Guantánamo não deveria parecer assustadora (embora as fotografias sejam chocantes para qualquer um que as veja). Mais do que estranho. onde o crime é tão abundante que se inventou a categoria dos “hediondos” e a tortura. no coração da cidade. porém. capuzes. Tendo por chamada “Não à tortura em Guantánamo!”. Acesso em: 04 maio 2005. Mais estranho ainda soa que se critique. o panfleto era uma convocação pela seção local da Guilda Nacional de Advogados (ONG de profissionais do direito ativistas dos direitos humanos) para manifestação pública. aplicada com particular afinco em sua política externa: “nós Texto produzido por José Augusto Lindgren Alves – Diplomata.direitos humanos Aula 25: Direito Humano Pós-11 de setembro NOTA AO ALUNO Os direitos humanos e a reação ao Onze de Setembro: uma retomada de esperanças?198 “Folheto distribuído. Com efeito. (b) humilha deliberadamente soldados capturados. vivem expostos em celas de alambrado qualificadas por “perito penitenciário” como “basicamente um canil” (sic). geralmente admirada. era: “You already do” (“Você já vive”). segundo o mesmo panfleto. Depois do apoio quase unânime do Congresso ao presidente para que ele pudesse declarar legalmente uma “guerra contra o terrorismo”. estranho que esses panfletos sejam distribuídos num país que se apresenta como modelo de direitos humanos (o presidente Bush acaba de fazê-lo na China. Disponível em: http:// www.br/direitos/ militantes/lindgrenalves/lindgren_11set. os ataques em Nova York e Washington haviam abalado de maneira tão profunda a sociedade norte-americana que qualquer dissensão parecia. Tampouco soam incomuns maus tratos de prisioneiros num país como o Brasil. a Human Rights Watch e outras organizações congêneres. onde os prisioneiros transportados do Afeganistão e fotografados com vendas. algemas e correntes.htm.org. assim. em viagem oficial. até o passado recente. Endossava. EUA. 198 FGV DIREITO rio 144 . (d) pune pessoas sem lhes dar oportunidade de defesa?” A resposta. ou complementação. a Anistia Internacional.

Foi ela que fez vista grossa à discriminação contra os estrangeiros no território nacional. todos favoráveis a mudanças nas posições do país. Talibã apreendido em território afegão. A dissociação norte-americana do direito humanitário que os próprios Estados Unidos haviam FGV DIREITO rio 145 . sim. sem hesitações. que aprovou. sobre os erros da CIA ao financiar talibãs contra os soviéticos na década de 80. com discurso igual ao do Presidente Bush. apenas com os sinais trocados. pouco lidos. mas julgado nos Estados Unidos por tribunal normal.direitos humanos somos bons. de que a barbárie de uns não pode justificar a brutalidade de outros. que modificaram de forma súbita a reação de norte-americanos àquilo que vinha – e vem ainda – ocorrendo. não foram os atos atentatórios aos direitos fundamentais de todos os seres humanos. atinentes ao direito à não-interferência em assuntos da vida privada. complexado e gratuito. encontravam as fronteiras fechadas por ordens dos Estados Unidos na fase precedente à operação militar (para impedir a saída de inimigos). para julgar estrangeiros por ele qualificados de terroristas (o que não foi sequer contemplado para o norte-americano John Walker Lindh. com arremessos de comida para uma população em fuga para o vizinho Paquistão. a consciência de que a luta contra o terrorismo não pode ser conduzida ao arrepio do direito. Ao contrário do que diziam livros sérios. Foi o patriotismo amortecedor de direitos. eles maus”. que justificou para o povo a recomendação governamental de autocensura à retransmissão de vídeos da estação Al Jazeera (a “CNN” árabe. ser punidos). particularmente estrangeiros. mais do que o temor de mensagens subliminares. associado à ânsia de vingança da superpotência ferida contra os idealizadores dos atentados (estes precisam. A discriminação entre nacionais e estrangeiros se revela também no decreto de 16 de dezembro de 2001. do Qatar) em que Bin Laden aparecia. por sinal. no país e no exterior. Sem dúvida. de rito secreto e sumário. passíveis de detenção arbitrária. com assistência jurídica e apoio familiar). pela civilização. normalmente sacrossanto porque essencial ao individualismo do país. a obsessão patriótica durou. sem acusação conhecida e sem direito a advogado (alguns já por mais de cem dias). sem possibilidade de apelação de sentenças. logo “quem não está comigo está contra mim”. nada pode fundamentar a rediscussão da tortura como técnica para a obtenção de informações. despertaram em muita gente. com vigor extraordinário. Nesse ambiente de exaltação belicosa. resultantes de um ódio visceral. obviamente. como as que permitem a escuta telefônica e a censura de comunicações pela Internet. na civilização. a sociedade e os meios de comunicação norte-americanos pareciam apoiar em uníssono a interpretação de que os atentados não passavam de atos covardes. pelo qual o Presidente da República “autoriza o estabelecimento” de tribunais militares especiais. Foi ela que propiciou ao governo a adoção de medidas restritivas de liberdades. de que. por mais de três meses e meio. Foi a exaltação do patriotismo. Qualquer crítica ao Governo na “guerra contra o terrorismo” (e até em outros assuntos) era repudiada como antiamericanismo – quanto mais se feita em defesa de indivíduos descritos como perigosos terroristas! Por mais simplista que fosse. país pobre e já transbordante de refugiados pashtuns – foragidos que. as fotografias dos detidos em Guantánamo e a repulsa que causaram. O apoio popular ao Presidente chegou a alcançar 95%. por tempo indeterminado. o bombardeio do Afeganistão em ruínas.

que. detentor como qualquer pessoa da presunção de inocência. dedicadas ao exterior. por exemplo. os “falcões parecem ter ido além do limite tolerável pelo patriotismo do cidadão comum. Contudo. Paulo. francamente. 17/02/2002. decididos por Washington. Todavia. E que a idéia desse “eixo” com elementos tão díspares não tenha passado de de artifício de apoio à proposta de aumento gigantesco no orçamento militar. tem também justificados temores. muito mais do que as fotografias de Guantánamo e a repulsa que causaram. em que deu a convocação de São Francisco à manifestação em favor dos prisioneiros talibãs. prevê repatriação no término das hostilidades. protegidos pela Terceira Convenção de Genebra. que ela possa reorientar o governo para o reconhecimento da importância dos direitos humanos. Nele. estendendo o combate aonde lhe pareça necessário. p. Pode ser que. o Irã e a Coréia do Norte como um “eixo do Mal”. em 29 de janeiro. É ainda improvável. com direito a advogado e recurso contra sentenças. entrevista à Folha de S. A simples fadiga dos assuntos da “guerra contra o terrorismo” não os faria passar tão rapidamente das primeiras páginas de todos os jornais para aquelas menos lidas. Bush sobre o “estado da União”. Não é preciso ter o gênio de Immanuel Wallerstein para entender que os atentados do Onze de Setembro deram ainda mais força aos “falcões” da administração George W. o Presidente dos Estados Unidos singularizou o Iraque. Esta impede maus tratos e interrogatórios além do imprescindível para sua identificação.direitos humanos ajudado a criar (na conferência diplomática de Genebra de 1949) forçava os aliados europeus. a análise de Chris Matthews sob o título expressivo de Who hijacked our war? – “Quem seqüestrou nossa guerra?” – no S. seja julgado por tribunal transparente e imparcial. com ou sem autorização externa. Francisco Chronicle. com um mínimo de consistência. uma coisa é certa: os detidos de Guantánamo e o “eixo do Mal” mudaram os noticiários. ademais de anunciar a disposição de expandir a “guerra contra o terrorismo”. por pressão interna. Os europeus em geral – inclusive o governo britânico – dissociaramse de possíveis bombardeios contra qualquer desses três países. acabem perdendo terreno para o moderado Colin Powell. a agressão verbal à Coréia do Norte tende a prejudicar as negociações bilaterais encetadas). A7). Bush (v. européia e asiática. afinal. decorrentes de medidas adotas nessa guerra heterodoxa. O que a conscientização dos media e das pessoas representará de concreto na luta contra o terrorismo é difícil prever. em 10/02/2002. o que realmente vem modificando em profundidade a atitude de norte-americanos e aliados foi o primeiro discurso do presidente George W. Tampouco li nos diários ecos de sua realização (o que me leva a supor ter sido bem reduzida). Só tomei conhecimento do panfleto depois da hora marcada. FGV DIREITO rio 146 . Não sei. a cobrar o reconhecimento dos detidos em Guantánamo como prisioneiros de guerra. O mesmo tem sido dito. estipula que o eventual indiciado em crime de guerra. D1). mas não totalmente impossível. Na preparação do Presidente para o state of the Union.. agora em crítica mordaz. muitas sobre violações de direitos no país. Nas páginas de rosto saem agora notícias desagradáveis a Washington (como as de ataques errados e espancamentos de inocentes por tropas no Afeganistão). Os sul-coreanos fizeram manifestações contra o Presidente Bush às vésperas de sua primeira visita a Seul (além de a nação ser a mesma. por quem antes apoiava a “guerra contra o terrorismo” (v. p.

A conscientização evidencia. inclusive os direitos econômicos e sociais. pp.direitos humanos atualmente submersos na prioridade da segurança. ela pode tornar-se antídoto aos malefícios da globalização excludente. para a sociedade civil esclarecida e atuante. Os direitos humanos na pós-modernidade. Mark. Setembro/Outubro/Novembro 2004. In: Política Externa. Na medida em que ela absorva e propague a interdependência de todos os dispositivos da Declaração Universal de 1948. 09 –19. In: Política Externa.” MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: DANNER. os direitos fundamentais e o direito internacional humanitário não se acham esquecidos pelo medo ou patriotismo cego. de qualquer forma. 2005. 33 –44. Setembro/Outubro/Novembro 2004. nº 2. depois do Onze de Setembro. Volume 13. “A lógica da tortura”. __________. pp. LINDGREN ALVES. militar e policial – felizmente sem a “doutrina” que conhecemos no Brasil -. a movimentação que se esboça de novo pelo respeito a tais direitos. FGV DIREITO rio 147 . que. só pode ser positiva. nº 2. “Fragmentação ou recuperação”. Tendo em conta o grande peso dos Estados Unidos na disseminação internacional da idéia dos direitos humanos e a importância da sociedade civil norte-americana para sua afirmação dentro dos próprios Estados Unidos (como visto nos anos 50 e 60). Volume 13. São Paulo: Perspectiva. José Augusto. fazendo-o sentir que a observância desses direitos sempre foi e continuará a ser a melhor forma de desfazer condições que conduzem ao terror.

FGV DIREITO rio 148 .direitos humanos Paula Spieler Mestre em Relações Internacionais e bacharel em Direito pela PUC-Rio. rede de monitoramento das tendências de mudança e continuidade do sistema internacional (http:// rsi. Participou de cursos internacionais sobre direitos humanos promovido pela Universidade de Coimbra e pela Universidade de Columbia. Anistia Internacional e Justiça Global. Professora do grupo de estudos sobre o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos e Coordenadora de Relações Institucionais da Escola de Direito do Rio de Janeiro da FGV. Ex-consultora do CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais). Trabalhou para diversas instituições de promoção dos direitos humanos.org. Membro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Direitos Humanos.br/). tais como Fundação Ford. Ex-pesquisadora do grupo de direitos humanos do Radar do Sistema Internacional. Professora de Direitos Humanos.cgee.

direitos humanos FICHA TÉCNICA Fundação Getulio Vargas Carlos Ivan Simonsen Leal PRESIDENTE FGV DIREITO RIO Joaquim Falcão DIRETOR Fernando Penteado VICE-DIRETOR ADMINISTRATIVO Luís Fernando Schuartz VICE-DIRETOR ACADÊMICO Sérgio Guerra VICE-DIRETOR DE PÓS-GRADUAÇÃO PROFESSOR COORDENADOR DO PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO EM PODER JUDICIÁRIO Luiz Roberto Ayoub Ronaldo Lemos Coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade Evandro Menezes de Carvalho Rogério Barcelos COORDENADOR ACADÊMICO DA GRADUAÇÃO COORDENADOR DE ENSINO DA GRADUAÇÃO Tânia Rangel COORDENADORA DE MATERIAL DIDÁTICO COORDENADORes DO NÚCLEO DE PRÁTICAS JURÍDICAS COORDENADORA DE SECRETARIA DE GRADUAÇÃO COORDENADOR DE FINANÇAS COORDENADORA DE MARKETING ESTRATÉGICO E PLANEJAMENTO Lígia Fabris e Thiago Bottino do Amaral Wania Torres Diogo Pinheiro Milena Brant FGV DIREITO rio 149 .

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