direitos humanos

AUTORES: JOSÉ RICARDO CUNHA, CAROLINA DE CAMPOS MELLO E PAULA SPIELER

4ª edição

ROTEIRO De CURSO 2009.1

Sumário

Direitos Humanos
APRESENTAÇÃO.............................................................................................................................................................................03 Aulas...........................................................................................................................................................................................07 AULA 01: INTRODUÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS.............................................................................................................................08 Aula 02: Desenvolvimento histórico dos direitos humanos..................................................................................................15 Aula 03: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos................................................................................18 Aula 04: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos................................................................................26 Aula 05: Os tratados de direitos humanos e a Constituição Federal.....................................................................................30 Aula 06: Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos...............................................................................................................37 Aula 07: Sistema global: mecanismos convencionais e não-convencionais de proteção dos direitos humanos...............44 Aula 08: Sistemas regionais de proteção dos direitos humanos...........................................................................................49 Aula 09: Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos.........................................53 Aula 10: Sistema Interamericano de Direitos Humanos: Estudo de Caso...............................................................................58 Aula 11: Direito Internacional Humanitário e Direito Internacional dos Refugiados.......................................................62 Aula 12: Os direitos civis e políticos: direito à vida................................................................................................................74 Aula 13: Os direitos civis e políticos: direito à liberdade e integridade pessoal.................................................................91 Aula 14: Violência Urbana.........................................................................................................................................................96 Aula 15: Direitos humanos econômicos, sociais e culturais..................................................................................................99 Aula 16: A especificação do sujeito de direitos. Os direitos humanos sob a perspectiva de gênero................................. 104 Aula 17: Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente.................................................................................. 109 Aula 18: Os direitos humanos sob a perspectiva racial........................................................................................................ 114 Aula 19: Direitos Humanos e a questão indígena................................................................................................................... 122 Aula 20: Direitos Humanos e orientação sexual.................................................................................................................... 126 Aula 21: Teatro do Oprimido.................................................................................................................................................... 132 Aula 22: O papel da sociedade civil na promoção e proteção dos direitos humanos.......................................................... 135 Aula 23: Desenvolvimento e Direitos Humanos..................................................................................................................... 137 Aula 24: Tribunal Penal Internacional................................................................................................................................. 141 Aula 25: Direito Humano Pós-11 de setembro......................................................................................................................... 144

direitos humanos

APRESENTAÇÃO
1. Visão Geral

a) Objeto: O curso de direitos humanos tem por objeto a compreensão da realidade contemporânea (ser) por meio do estudo do marco normativo (dever ser) de tais direitos, seja no âmbito internacional, seja no nacional. Assim, o curso será organizado em quatro partes: 1) 2) 3) 4) Introdução ao Estudo dos Direitos Humanos; Proteção Internacional dos Direitos Humanos; Aspectos Sócio-Jurídicos dos Direitos Humanos; e Novos Temas e Novos Atores.

b) Metodologia: Elegeu-se a abordagem crítica como elemento permeador de todo o curso de Direitos Humanos. Procurou-se assim a utilização de diferentes métodos que representem um conjunto de possibilidades, tendo como ponto comum a efetiva participação do aluno. Atividades como role plays, estudos de casos, apresentação de seminários ou mesmo organização de uma oficina do Teatro do Oprimido são sugestões apresentadas como meios de interatividade dos alunos com o conteúdo apresentado. Dessa forma, o curso não se apresenta como uma unidade estanque, com conteúdo “engessado” no espaço e no tempo, mas com a fluidez necessária para a adaptação do programa às questões mais candentes em termos de direitos humanos. Ressalte-se ainda o caráter cooperativo do método que privilegia a interação entre alunos e professores. c) Bibliografia: O curso foi montado com base em temas, não em autores ou “escolas”, o que justifica a extensão da leitura indicada. Todavia, tendo em vista a necessidade de se estabelecer uma bibliografia básica para compor a biblioteca da Escola, foram indicados certos livros que permeiam, na medida do possível, todas as aulas. Sugere-se ainda a utilização de recursos virtuais como fontes de pesquisa, notadamente sites de órgãos e organizações nacionais e internacionais. É também descrita, em todas as aulas, a legislação vigente – sejam os tratados ou normas internas – necessária para a compreensão do assunto abordado.
2. Objetivos

Os principais objetivos do curso são: • • • Apresentar os conceitos fundamentais referentes a direitos humanos; Examinar violações de direitos humanos; Compreender os sistemas internacional, regional e nacional de proteção dos direitos humanos;
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Todas as aulas são compostas de duas partes: a) Nota ao Professor: trata-se de um roteiro sugestivo de pontos a serem abordados em sala de aula. Do Material Didático O material didático do curso de Direitos Humanos foi elaborado de maneira flexível permitindo tanto ao professor quanto ao aluno a adaptação do programa a questões contemporâneas a sua implementação. a legislação a ser consultada e os sites pesquisados.direitos humanos • Municiar o(a) aluno(a) de instrumentos práticos para a intervenção no mundo contemporâneo. A nota apresenta. No Estudo de Caso. são posturas a serem incentivadas nos alunos. Por meio da “problematização”. É importante ressaltar que tal atividade não se restringe à anunciação de uma resposta correta. entre outros. As aulas serão variadas – algumas mais expositivas. b) Nota ao Aluno: trata-se do conteúdo mínimo que deve ser apreendido como leitura prévia à aula. outras mais abertas à participação e à discussão encadeada pelos alunos –. A contextualização da temática proposta. Incentiva-se a participação dos alunos em todas as aulas. o(a) professor(a) contará com o apoio necessário naquilo que é considerado de maior relevância para a compreensão do assunto em pauta. a postura crítica. habilidades diversas serão avaliadas mediante a proposição de algumas atividades específicas: • • Nos role plays. característica essencial ao direito. serão apresentados posicionamentos a serem defendidos pelos alunos diante de uma situação hipotética. Nesse sentido. O objetivo final do curso. além de desenvolver a capacidade dos alunos de visualizarem o mundo que os circunda com a “lente” dos direitos humanos. A atividade pretende capacitar os alunos na compreensão de posições adversas em tribunais e despertá-los para a necessidade de se chegar a um resultado. 3. é que estes se situem como partes de um processo histórico permeado de avanços e retrocessos. FGV DIREITO rio 4 . a criatividade e o respeito à opinião alheia. a bibliografia obrigatória. A atividade pretende incentivar o posicionamento crítico. Por meio de elementos como objetivo didático e objetivo programático. os alunos deverão apresentar os principais argumentos que fizeram do caso um paradigma na compreensão de determinado assunto. ainda. os alunos serão convidados a não eternizar de forma acrítica entendimentos pré-estabelecidos e a desenvolver suas capacidades de análise e de prática engajada. e caberá ao professor a responsabilidade de incentivar o debate sobre os assuntos escolhidos. o estabelecimento de link com assuntos correlatos. mas visa ainda ao estímulo à criatividade acerca de outras respostas possíveis.

Nesse sentido. diagnosticar as respostas normativas possíveis.0 pontos). Não obstante a preocupação de se contemplar os temas mais atuais em direitos humanos. 4. seminários (5. 2) determinação de uma decisão judicial. como indicativo de atividades: 1) escolha de um filme a ser debatido conjuntamente pelos três professores. preferencialmente do FGV DIREITO rio 5 . Desafios e Dificuldades A riqueza dos assuntos e a complexidade do que se pretende alcançar com o curso de “direitos humanos” conduz à necessidade de um recorte temático. por meio de casos concretos. d) Prova final: escrita (10. Tradutori traditori. Aponta-se. 6. Ao não encontrar determinado tema entre os propostos neste material didático. o leitor poderá concluir que a sua retirada foi alvo de debate por parte daqueles que contribuíram para a confecção das aulas propostas.0 pontos). estudo de caso. Tendo em vista a opção de contemplar temas e não autores. b) Atividades específicas: role plays. qualquer tentativa de se apresentar determinado aspecto virá acompanhada por alguma perspectiva subjetiva.0 pontos). o que não lhes confere papel de maior significado. Atividades Complementares Atividades em conjunto com outras disciplinas Encontra-se em estudo duas atividades a serem realizadas em conjunto com as disciplinas de Direito Civil (tópico sugerido: Direitos da Personalidade) e Direito Constitucional (tópico sugerido: Direitos Fundamentais). mister a escolha de conteúdos a serem priorizados em face de outros. corre-se o risco de certa parcialidade na confecção desse material. Mesmo quando se referirem a temas considerados “clássicos” em direitos humanos. 5. Formas de Avaliação Os alunos serão avaliados com base em: a) Participação em aula. a certeza de que a temática dos direitos humanos conterá sempre novos “capítulos” confere ao presente material didático uma configuração temporal. notadamente na “Unidade IV: Novos Temas e Novos Atores”. os alunos deverão apresentar um panorama geral sobre e determinada realidade e.direitos humanos • Nos seminários. desde então. c) Avaliação formativa: prova escrita (5.

que também possa ser alvo de discussão conjunta pelos três professores. Fundação Bento Rubião. Center for Justice and International Law (CEJIL). Projeto Legal. Comissão Pastoral da Terra (CPT). Direito Humanitário e Direito dos Refugiados. Especificação dos sujeitos de direito. Violência. entre outros. a consonância com as datas propostas no programa: A violência no Rio de Janeiro Sugere-se o convite a especialistas como Ignácio Cano (Laboratório de Análises da Violência – UERJ). mantendo. O envolvimento das demais disciplinas é fundamental para demonstrar aos alunos como o instrumental que recebem em cada uma das disciplinas tornase ainda mais dinâmico ao dialogar com as demais. Novos temas. Universalidade X Relatividade.direitos humanos Supremo Tribunal Federal. Realização de Palestras As seguintes palestras serão realizadas em data marcada de acordo com a disponibilidade dos convidados e a conveniência da Escola. Direito Internacional dos Direitos Humanos: Direitos Humanos. 7. na medida do possível. Sociais e Culturais. Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). Idéia de gerações e suas críticas. Instituto Pro-Bono. Principais documentos. Viva-Rio. Proteção Regional. EMENTA b) Tema: a) Tema: A disciplina Direitos Humanos. Direitos Econômicos. João Ricardo Dornelles (Núcleo de Direitos Humanos do Departamento de Direitos da PUC-Rio). dentre outras. Proteção internacional. entre outros: Centro de Justiça Global. Marcelo Freixo (Centro de Justiça Global). Perspectiva histórica. Direitos Civis e Políticos. Proteção na Constituição de 1988. Polissemia conceitual. O papel da sociedade civil na proteção dos direitos humanos Sugere-se o convite a movimentos sociais e organizações não-governamentais que trabalhem na Advocacia em Direitos Humanos no âmbito nacional e internacional. FGV DIREITO rio 6 . Julita Lengruber (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania – CESEC/Universidade Candido Mendes/RJ). São Martinho. Tortura Nunca Mais. Novos atores. FASE.

23. 14. Desenvolvimento e Direitos Humanos. africano e americano. Direito Humanitário e Direito dos Refugiados. Especificação do sujeito de direito: os direitos humanos sob a perspectiva de gênero. A Constituição Federal e a proteção dos direitos humanos. UNIDADE 2: A PROTEÇÃO INTERNACIONAL DOS DHs 7. Direitos Humanos e orientação sexual. Sistema global: mecanismos convencionais e extra-convencionais de proteção aos direitos humanos. 21. 19. Direitos Humanos e a questão étnica. 5. UNIDADE 3: ASPECTOS SÓCIO-JURÍDICOS DOS DHs 12. Direitos Humanos no contexto pós-11 de setembro de 2001. Universalidade e relatividade cultural dos direitos humanos: conceitos. 17. Direitos Humanos econômicos. 15. Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos. 8. 20. UNIDADE 4: NOVOS TEMAS E NOVOS ATORES 22. sociais e culturais. Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos. 9. Teatro do Oprimido. Venezuela). Da regionalização: introdução aos sistemas europeu. Os direitos civis e políticos. 2. FGV DIREITO rio 7 . 25. Introdução aos direitos humanos: fundamentos e gramática. Sistema Interamericano: estudo de caso (El Amparo Vs. 4. 16. Tribunal Penal Internacional. 6. 24. 18. Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente. 3. 13. O papel da sociedade civil na proteção dos direitos humanos. Violência urbana. 11. Os direitos civis e políticos: role play referente ao direito à vida. Desenvolvimento histórico dos direitos humanos. Direitos Humanos e a questão indígena. Universalidade e relatividade cultural dos direitos humanos: role play.direitos humanos Aulas UNIDADE 1: INTRODUÇÃO AO ESTUDO DOS DHs 1. 10.

um dos seqüestradores.direitos humanos AULA 01: INTRODUÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS NOTA AO ALUNO Para a primeira aula do Curso de Direitos Humanos. revistas e artigos de Internet. o documentário Ônibus 174. mostra a violência das ruas cariocas retratando um seqüestro verídico. atirou contra a passageira. Um outro tiro acertou Nascimento.com. que foi afastado da Política Militar por ter se colocado contra a ação policial no episódio que terminou com a morte da passageira Geísa Firmo Gonçalves e de Sandro Nascimento. A partir daí. um policial. Disponível em: http://cinema.html. O filme relata o trágico seqüestro de um ônibus coletivo que resultou na morte da refém e do seqüestrador e foi destaque nos noticiário em 12 de junho de 2000. que tirou o romantismo do “Dia dos Namorados” e durou quatro horas. mas gerar discussão sobre o tema. “Fizemos questão de manter a fidelidade e a cronologia do episódio. O cuidado do filme em mostrar os dois lados da moeda aparece na entrevista com a tia de Nascimento. de José Padilha. O longa começa com o seqüestro e a partir dele inserimos depoimentos”. o documentário consegue provocar suspense e nostalgia ao utilizar mais de 70 horas de imagens de TV. 1 FGV DIREITO rio 8 . Por meio de textos extraídos de jornais.br/ficha/0. terra. atirou na direção do seqüestrador.00.” Logo no início. Segundo o relato dela. que morreu por asfixia a caminho do hospital. A tragédia. Não podemos nos resumir ao ato do seqüestro. esse menino de rua viu a mãe ser Acesso em: 21 de abril de 2005. “Nossa preocupação (no filme) não é a de apontar culpados nem soluções.TICOI677-MNfilmes. tentando salvar a refém. passando pelos cartões postais das praias de São Conrado e Vidigal e pela avenida Niemeyer até chegar ao Jardim Botânico. onde aconteceu a tragédia. explicou Padilha em entrevista recente à Reuters.. além de revelar uma extensa pesquisa com jornais. o aluno deverá assistir ao Filme “Ônibus 174” de José Padilha e ler os textos abaixo. apesar de a história ser conhecida do público. levou a polícia do Rio a ser duramente criticada pela imprensa e pela opinião pública. um plano aéreo mostra o belo percurso do ônibus que trafegava da Favela da Rocinha. revistas e notícias de rádio sobre o incidente. Mas errou o tiro e Nascimento. espera-se uma reflexão acerca do seguinte ponto: O que existe em comum entre o filme “Ônibus 174” e os textos a seguir? ÔNIBUS 174 RELEMBRA TRAGÉDIA CARIOCA1 Vencedor do Festival Rio BR deste ano. Quando Nascimento resolveu se entregar e saiu do ônibus protegido por Geísa. Tudo isso é mesclado ao depoimento do ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais Rodrigo Pimentel. mas (sim avaliar) o que motiva uma sociedade a agir dessa forma. conforme havia ameaçado.

. Porém. Segundo o sociólogo britânico Kevin Bales. baseada na propriedade privada de uma pessoa. África e América Latina. COSTA. depois Comsat e depois o projeto Sivam. como em Nova York e Los Angeles.direitos humanos assassinada a facadas quando tinha nove anos e mais tarde escapou de ser morto da chacina da Candelária – uma biografia dura e amarga. O percurso ainda existe. que não pretendem de forma alguma esconder e amenizar os fatos. há três mil escravas domésticas em Paris e a história se repete em Londres e Zurique. Cerca de um milhão de meninas com menos de 18 anos trabalha de graça como doméstica nas Filipinas. mas. como está crescendo. (. Alexandre Magno de Oliveira. chocam ao demonstrar a real dimensão do ocorrido – ela sofreu um derrame durante o seqüestro e não consegue mais falar. mas um engenheiro eletrônico paulistano que emigrou para trabalhar na mais alta tecnologia: Intelsat. pré-capitalista. Continua tendo sentido falar de escravidão neste início do terceiro milênio? Para muitos sociólogos sérios. legal e garantida pelo Estado. Ônibus 174. é a nova escravidão. Revista Isto É. Índia e França. sendo capaz de se comunicar apenas por escrito. fica a cargo de representar sua mulher no filme. Bonetti não é um senhor de engenho alagoano. Para Bales. crescimento das migrações e redução ao absurdo. Mas essa nova escravidão pouco tem a ver com nostalgias e atavismos do passado pré-abolição. a escravidão é como a tuberculose: todos pensavam que estava extinta nos países civilizados e em vias de desaparecimento em todo o mundo. Paquistão. tal como consta nos livros de história e de economia política – um modo de produção tradicional. O viúvo de Geísa. onde oficialmente não há escravidão há muitos séculos. a resposta seria não. Antônio Luiz Monteiro Coelho da. enquanto imagens da educadora Damiana Nascimento. hoje com 42 anos de idade. acusado de manter por 20 anos a empregada doméstica Hilda Rosa dos Santos como sua escrava. de repente. mostra quanto o seqüestro traumatizou os cariocas. Tailândia.) Muito mais versátil e importante. A escravidão chega ao Terceiro Milênio2 Em 14 de agosto. 16 de outubro de 2000. a Justiça dos EUA condenou a seis anos e meio de prisão e indenização de US$ 110 mil o engenheiro brasileiro René Bonetti. mas o número da linha mudou de 174 para 158. novas variedades resistentes a antibióticos aparecem onde menos se espera. porém. bem inserida no mercado pós-moderno e global e inteiramente criada e reproduzida pelas atuais condições da economia – desemprego tecnológico.. 2 FGV DIREITO rio 9 . geralmente com meninas compradas e às vezes até “adotadas” em países pobres da Ásia. desarticulação das sociedades pré-capitalistas e ex-socialistas pela integração ao mercado mundial. que estudou o assunto no Brasil. Mas este “não” se refere à forma clássica do fenômeno. Mauritânia. naturalizado americano. numa definição mais ampla – escravidão como condição em que o trabalhador não recebe remuneração e sua vida é totalmente controlada por outros – não só é comum. orçado em 600 mil reais. forma extrema de superexploração capitalista.

a viabilidade do negócio passou a depender cada vez mais de trabalho gratuito. 35 mil prostitutas. (. um dos casos de nova escravidão mais conhecidos é o das dezenas de milhares de trabalhadores (às vezes com suas famílias) aliciados por “gatos” no interior de Minas e do Nordeste e levados a empreendimentos em locais isolados para viver em condições precárias de habitação.) Tráfico sexual. O colapso da URSS levou uma enxurrada de mulheres empobrecidas e desesperadas da Europa Oriental para trabalhar como escrava-prostitutas para o crime organizado nas capitais da Europa Ocidental. Voltando ao Brasil.. a secretária de Estado americana Madeleine Albright chamou a atenção para o tráfico escravo sexual como um dos empreendimentos criminosos que mais crescem no mundo. há uma boa probabilidade de estar usando carvão produzido por trabalho escravo. Assim se dá boa parte da produção de carvão vegetal.. atividade tradicional deslocada para o Norte e Centro-Oeste pelo esgotamento das matas do Sudeste. bem como moradia e alimentação. da remuneração de atividades tradicionais. gás natural). tornam-se devedores permanentes e trabalham por abrigo e comida. Na Tailândia. Isto inclui 50 mil nos EUA. No Brasil. mas os grandes mercados para esse tráfico são o Sudeste Asiático (250 mil) e a Europa Oriental (mais de 200 mil). um milhão de mulheres e crianças são vendidas por ano em todo o mundo por um total de US$ 6 bilhões. higiene e segurança e cumprindo uma jornada que se estende noite adentro. ganham cada uma cerca de US$ 50 mil por ano para seus “donos” mas nada para si mesmas. Bom Retiro e Pari. há cerca de 100 mil imigrantes bolivianos que trabalham nas confecções de São Paulo. Recentemente. Os gastos da viagem – cerca de US$ 150 – são pagos pelo empregador. repetindo a triste odisséia das “polacas” espalhadas pelo mundo como conseqüência da derrocada econômica.. envolvendo. geralmente tecnologicamente atrasadas.) Em São Paulo. da guerra e das perseguições anti-semitas dos anos 1920. bem como churrasqueira e talheres fundidos com o mesmo combustível. este o considera um FGV DIREITO rio 10 . Desconhecendo o valor das compras e o mecanismo de cálculo da produção. indústria siderúrgica) e com o menor preço e aumento da disponibilidade de combustíveis alternativos (carvão mineral. O aumento da distância dos centros consumidores (metrópoles.direitos humanos devido ao acirramento da concorrência pela globalização. proíbe-os de sair à rua e fecha-os dentro de casa. A escravidão sexual é ainda mais característica do mundo pós-moderno. Quando você faz um churrasco. nas suas diversas etapas. junto com o acirramento da concorrência no setor têxtil resultante da abertura do mercado brasileiro às importações asiáticas (cuja produção freqüentemente também usa trabalho escravo ou semi-escravo). fundições. (. vetando visitas de terceiros. geralmente vendidas muito jovens por algo como US$ 2 mil.. Segundo ela. sobretudo no Brás. iniciando um processo de endividamento e dependência do qual nem todos conseguem se safar. mulheres e crianças. Se o trabalhador quer deixar o patrão que o trouxe. O patrão costuma exigir fidelidade de pelo menos um ano e às vezes retém seus passaportes. Sua vinda resultou da combinação do colapso dos preços das commodities nos anos 80 e 90. que destruiu a economia mineira boliviana. costurando roupas vendidas nas melhores butiques e publicitadas pelos mais ousados outdoors pós-modernos.

industriais e de serviços. Um caso notório é o dos pequenos empresários que no Sudeste Asiático fabricam tênis para a ultramoderna Nike. poderiam ser chamados de semi-escravidão – empregos informais com remuneração muito baixa. os Guarani-Kaiowá de Nhande Ru Marangatu puderam voltar a produzir alimentos para subsistência. sem garantias trabalhistas e com moradia e alimentação controladas pelo empregador-. feijão. sete dias por semana. Crianças indígenas morrem de desnutrição3 A violência de um despejo dos Guarani-Kaiowá seria reforçada pelo atual contexto do estado do Mato Grosso do Sul. a 150 km de Antonio João. nos dois primeiros meses deste ano. 27 milhões de pessoas vivem as várias formas de nova escravidão e o número está crescendo. chineses e outros – mantidos em condições semelhantes em vários trabalhos agrícolas. e a morte de seis crianças com sintomas de desnutrição em aldeias do povo Xavante. o número pode chegar a 200 milhões. de agosto a novembro. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi).72 por mil nascidos vivos em 2001 e baixou para 41. Parece que em vez de uma sociedade de lazer movida pelo trabalho de robôs. Segundo Kevin Bales. a mortalidade infantil naquela área foi de 87. o trabalho chega a se estender por 15 horas por dia. onde trabalhadores superexplorados fabricam brinquedos. como o dos bolivianos do Pari ou as trabalhadoras das subcontratadas da Nike na Indonésia. de Acesso em 21 de abril de 2005. têxteis e outros artigos de consumo baratos para todo o mercado global.direitos humanos “traidor”.adital. embora conste que os mais hábeis chegam a tirar R$ 400 mensais – ao menos com os patrões coreanos. à taxa de mortalidade de Dourados. Na terra retomada em outubro do ano passado e hoje ameaçada de reintegração. banana. bem mais do que a população inteira do Império Romano ou de qualquer sociedade escravista do passado. onde as carências de terra. no Mato Grosso. o século 21 veio nos trazer a escravidão numa escala que a humanidade jamais conheceu. estrutura de produção e de alimentos tem levado à morte de crianças indígenas. empresa que desde 1997 tem sido forçada por uma dura campanha de boicote e denúncias a reformular sua política de compras para oferecer melhores condições a fornecedores que tratam melhor seus empregados.br/site/noticias/15552. milho. A remuneração pode ser tão baixa quanto R$ 30 a R$ 50 mensais.67 em 2004. 3 FGV DIREITO rio 11 . a 570 quilômetros de Cuiabá. jornadas extremamente longas. sob ameaça de coação física ou policial. o cinema torna bem conhecida a situação de imigrantes ilegais – mexicanos. como mandioca. mas ainda é insuficiente. Foram seis mortes na terra indígena Dourados. asp?lang=PT&cod=15552. Nos EUA. tidos como mais “generosos” que seus concorrentes brasileiros. desde o início de 2005. na região de Campinápolis. mas também nessa modalidade. arroz.com. Se forem considerados casos que. nos municípios de Japorã e Eldorado. o maior foco é a Ásia. Disponível em: http://www. Ainda está próxima. No ponto alto da produção para as vendas do Natal. cobra as despesas da viagem ou o ameaça com o fantasma da Polícia Federal. batata. paraguaios ou mesmo bolivianos. Foram noticiadas recentemente mais seis mortes por desnutrição em duas aldeias do povo Guarani Nhandeva da região do Sul do Mato Grosso do Sul. porém.

Em pesquisa anterior deste gênero. Em 2002. de 12% de desnutridos e 15% de crianças em risco nutricional. 6% dos eleitores afirmaram que receberam oferta de vender o voto por dinheiro. dos Guarani Kaiowá. Também cresceu a distribuição de alimentos para os indígenas das aldeias da terra indígena Dourados. Alexandre Padilha. apresentam desnutrição. demonstram que a preocupação sobre a alimentação e sobre as condições de vida das crianças indígenas não pode se restringir às aldeias de Dourados. “A situação ainda preocupa a todos e nós temos que manter a sociedade e a comunidade indígena mobilizadas para isso. 23. realizada após as eleições municipais de 2000. que tem divulgado a média de desnutrição do Estado. Disponível em: http:// www. Acesso em: 21 de abril de 2005. toda a direção da Funasa transferiu-se para o município e diversas equipes de médicos e nutricionistas passaram a atuar no local. Assim. Os compradores de votos se dirigem igualmente a eleitores de todas as faixas de renda. Segunda Pesquisa Transparência Brasil sobre compra de votos em eleições populares 4 Pesquisa nacional sobre a prática de compra de votos. sem contar os casos de risco nutricional. eram 56 por mil. De acordo com o diretor do Departamento de Saúde Indígena. Os números da Funasa (Fundação Nacional de Saúde). disse à Agência Brasil. a desnutrição atinge 19% das crianças.2% das crianças desnutridas saíram dessa situação nos primeiros meses do ano. revelou que nas eleições de outubro/ novembro cerca de 3% dos eleitores receberam oferta de candidatos ou cabos eleitorais para vender o seu voto. A aldeia Tacuru.org/tilac/ indices/ encuestas/dnld/compra_de_votos_brasil. dados da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) apontam que 47 das 256 crianças menores de 5 anos atendidas pela Funasa. por exemplo.transparency. responsável pela saúde indígena no Brasil. Percentuais como estes se repetem em todas as aldeias do povo Guarani no Mato Grosso do Sul. aldeias dos povos Terena e Kadiwéu têm um índice mais baixo de desnutrição. 4 FGV DIREITO rio 12 . Os dados da pesquisa indicam que uma série de conceitos sobre a compra de votos necessita de revisão: • • O nível de instrução do eleitor tem influência moderada sobre a oferta. Em Antônio João.pdf.direitos humanos 64 óbitos por mil crianças nascidas vivas. ou 18% delas. tem a taxa em 17%. Entre os benefícios oferecidos está em primeiro lugar o dinheiro (56%). mas a taxa é muito alta se comparada com o restante da população brasileira”. Pesquisa realizada pelo Ibope em novembro de 2002 por Bruno Wilhelm Speck e Claudio Weber Abramo. A análise dos dados por aldeias mostra um quadro ainda mais preocupante do que aqueles apresentados pela Funasa. de 47 por mil nascidas vivas. Desde a última semana. a média estadual não mostra que em Amambai. seguido de bens materiais (30%) e favores da administração (11%). No MS. Outras 52 crianças (20%) estão em situação de risco nutricional. A média nacional é de cerca de 25 por mil. realizada pelo Ibope para a Transparência Brasil e a União Nacional dos Analistas e Técnicos de Finanças e Controle entre 14 e 17 de novembro de 2002. de no máximo 3%. Em 2004 atingimos a menor taxa de mortalidade infantil em povos indígenas.

enquanto em 2000 a região Sul apresentou-se no mesmo nível do Nordeste. Além de aferir o volume do “mercado” de votos no Brasil. e não de uma série histórica sobre o mesmo fenômeno. Porém. O código eleitoral de 1965 dispõe. Os eleitores com mais idade são menos sujeitos à oferta do que os mais jovens. bens materiais. em 2002 as regiões Norte/ Centro Oeste mostraram-se as mais vulneráveis. Há pouca diferença entre sexos. A ONG cobrou a criação de uma comissão independente nos Estados Unidos para examinar o abuso de prisioneiros na prisão de Abu Ghraib. Vale a pena lembrar que o código eleitoral define essa transação como crime. seguidas pelo Nordeste. As maiores diferenças se dão entre as regiões do país (Gráfico 8). que a interferência de poder econômico e o desvio ou abuso de poder de autoridade serão coibidos e punidos.direitos humanos • • O fenômeno de oferecer algo em troca do voto independe da condição e do tamanho do município. em 2002 nivelou-se com a Sudeste. quando a pesquisa nas últimas eleições incluiu todos os tipos de troca oferecidos (dinheiro. com os homens sendo ligeiramente mais assediados do que as mulheres. de um lado. embora ainda com incidência do fenômeno. há diferenças mais significativas quanto à distribuição do fenômeno da compra de votos por idade do eleitor. Segundo a organização. Por outro lado. os americanos já não podem mais reivindicar que estão defendendo os direitos humanos em outros países. no art. Com todas as limitações. A pesquisa referente à compra de voto nas eleições municipais se limitou às ofertas em dinheiro. Acesso em: 21 de abril de 2005. se eles mesmos estão praticando abusos. Eua estão minando direitos humanos no mundo. afirmou a ONG de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch. Observe-se que. 237. bbc. e eleições estaduais e nacionais de outro. no Iraque. estamos diante de um universo de 3 milhões de infrações criminais ocorridas nas últimas eleições. Sudeste e Sul mostram um quadro menos desfavorável.uk/portuguese/noticias/ story/2005/01/050113_direitoshumanosro. as pesquisas da Transparência Brasil visam elaborar um indicador para acompanhar o fenômeno ao longo do tempo. mesmo que não aceita pelo eleitor. Trata-se em primeiro lugar de uma comparação entre eleições municipais. 5 FGV DIREITO rio 13 . Da mesma forma como ocorreu no levantamento relativo às eleições municipais de 2000. Disponível em: http://www. serviços públicos). O artigo 299 criminaliza a mera oferta de compra de voto. diz ong5 Violações dos direitos humanos cometidas pelos Estados Unidos estão minando a lei internacional e erodindo o papel do país no cenário internacional.co.shtml. a comparação entre as duas pesquisas relatadas referentes às eleições em 2000 e 2002 requer certo cuidado. a pesquisa revela que cerca de 3 milhões de eleitores receberam oferta de vender o seu voto. Logo.

Rio de Janeiro: Campus. 1989. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: ALMEIDA. DORNELLES.direitos humanos Na quarta-feira. Teoria Geral dos Direitos Humanos. Também pede a indicação de um promotor especial para determinar o que houve de errado e levar os responsáveis à Justiça. a maior organização de defesa dos direitos humanos baseada nos Estados Unidos. havia divulgado um relatório que dizia que a chamada “guerra contra o terrorismo” pode estar perpetuando o ciclo de violência no mundo. em Cuba. 1996. O que são direitos humanos? São Paulo: Brasiliense. o Worldwatch Institute. BOBBIO. p. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. A Human Rights Watch diz que os americanos já não podem mais dizer que sua posição é moralmente correta e liderar como exemplo. diz que as ações dos americanos nestas prisões tiveram um efeito negativo sobre a credibilidade do país como um defensor dos direitos humanos e líder da guerra contra o terrorismo. João Ricardo. 1992. para analisar as denúncias de abusos em Abu Ghraib. no modelo da que investigou os ataques de 11 de setembro. Fernando Barcellos de. 1547. A entidade cita as técnicas de interrogatório com coerção em Guantánamo e Abu Ghraib como especialmente prejudiciais. disse a ONG. A era dos direitos. Norberto. A entidade pede que o governo Bush instale uma comissão totalmente independente. Credibilidade O governo americano está no momento investigando denúncias de abusos de prisioneiros no Iraque e também na prisão da base militar de Guantánamo. O grupo. FGV DIREITO rio 14 . “A adoção de interrogatórios com coerção é parte de um desrespeito mais amplo dos princípios dos direitos humanos em nome do combate ao terrorismo”. uma outra entidade.

Outros asseveram sua natureza como meramente contratual. bem como de diversas lutas e revoluções. instituiu um complexo sistema de controles recíprocos entre os órgãos políticos e um complexo mecanismo que visava a proteção dos direitos individuais.direitos humanos Aula 02: Desenvolvimento histórico dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O desenvolvimento dos direitos humanos foi um processo histórico e gradativo. a república romana.e. acordado entre determinados atores sociais e referentes exclusivamente aos limites do poder real em tributar. Alguns autores tratam esse momento como o embrionário dos direitos humanos. a elaboração da Carta Magna. mas apontar alternativas. uma vez que a ruptura da unidade religiosa fez surgir um dos primeiros direitos individuais: o da liberdade de opção religiosa. a Reforma Protestante é vista como a passagem das prerrogativas estamentais para os direitos do homem. Não caberá à aula 02 resolver um embate travado entre pensadores ao longo dos séculos. Ainda na Idade Antiga. destaque-se: a laicização do Direito Natural a partir de Grócio e o apelo à razão como fundamento do Direito. Alguns autores vêem nas primeiras instituições democráticas em Atenas – o princípio da primazia da lei (i. É nesse contexto em que se formulam as primeiras declarações de Direitos. nobreza e povo. uma vez que.. Mas afinal. a consagração dos direitos humanos é fruto de mudanças ocorridas ao longo do tempo em relação à estrutura da sociedade. da consagração de direitos comuns a todos os indivíduos – do clero. quando surgem os direitos humanos? O debate sobre o tema conduz sempre ao limite do surgimento do próprio Direito.. são impostos limites ao poder real por meio da linguagem dos direitos. a sociedade européia se organizava em “ordens” ou “estamentos”. Como resultado da difusão do Direito Natural e no contexto das Revoluções Burguesas. o Habeas Corpus Act de 1679 e o Bill of Rights de 1689. e não da simples vontade do povo ou dos governantes) e da participação ativa do cidadão nas funções do governo – o primórdio dos direitos políticos. enquanto que os reis – até então considerados nobres – reivindicavam os direitos pertencentes à nobreza e ao clero. Destacam-se aqui: na Inglaterra. É importante salientar que. durante a Idade Média. até a Revolução Francesa. em 1215. Dentre as conseqüências da Reforma. pressuposto do reconhecimento. Dessa forma. FGV DIREITO rio 15 .e. foi uma resposta a essa tentativa de reconcentração do poder (limitou a atuação do Estado). a noção de direito subjetivo estava ligada ao conceito de privilégio. por sua vez. do nomos: regra que emana da prudência e da razão. O imperador e o papa disputavam a hegemonia suprema em relação a todo o território europeu. séculos depois. A partir do século XI. Dessa forma. Nesse sentido. Convém salientar que na passagem do século XI ao século XII (i. há um movimento de reconstrução da unidade política perdida com o feudalismo. passagem da Baixa Idade Média para a Alta Idade Média) voltava a tomar força a idéia de limitação do poder dos governantes.

a elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). como o Pacto Internacional de Direitos Civil e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. Sociais e Culturais. e na França. 1789 Fruto da Revolução Francesa – os franceses se viam em uma missão universal de libertação dos povos. significou um marco da consagração da universalidade dos direitos humanos. Reconhecimento da igualdade entre os indivíduos pela sua própria natureza e do direito à propriedade. examinamos a luta por direitos humanos em contextos nacionais. as atrocidades cometidas durante as Guerras Mundiais. Tanto a DUDH. somente a intervenção estatal é capaz de garanti-los. Os homens são dotados de direitos inatos. Consagração dos princípios iluministas: igualdade. 1776 Fruto da Revolução Americana – visavam restaurar os antigos direitos de cidadania tendo em vista os abusos do poder monárquico. à educação e à saúde. cabe destaque o momento histórico em que os direitos humanos foram galgados ao patamar internacional. não dispunha sobre os direitos correlativos dos cidadãos) só tiveram sua plena afirmação com a elaboração da Constituição mexicana (em decorrência da Revolução Mexicana). XVI: baseado na lição clássica de Montesquieu – teoria do governo misto combinada com uma declaração de direitos. Art. Por mais que o direito humanitário e a Organização Internacional do Trabalho já indicassem a necessidade de uma proteção de direitos que se sobrepusesse aos ordenamentos internos. com base na idéia de que existem direitos baseados na coletividade. Em face de alguns direitos. em 1948. ambos de FGV DIREITO rio 16 . a idéia de gerações – importante como mecanismo de compreensão histórica – merece ser criticada desde esse momento. e da Constituição de Weimar em 1919. ambas expressas em um texto escrito (a constituição). a Declaração de Virgínia de 1776. a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. deixou transparente a necessidade de se estabelecerem marcos inderrogáveis de direitos a serem obedecidos por todos os Estados na concertação estabelecida no pós-Guerra. notadamente na Segunda. como é o caso do direito ao trabalho. Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. todas inspiradas no direito natural. Entre essas. Nesse contexto. atende-se para o ponto comum: a insuficiência da abstenção estatal como forma de garantia de direitos. ao passo que os direitos humanos de segunda geração (embora a Constituição francesa de 1791 já estipulasse deveres sociais do Estado. Todavia. liberdade e propriedade. Já os direitos de terceira geração só foram consagrados após a Segunda Guerra Mundial. É importante ressaltar que ambas as Declarações consagraram os direitos humanos da primeira geração. Marco do nascimento dos direitos humanos na história. Até o presente momento. conforme demonstrado a seguir: Declaração de Virgínia. uma vez que coloca em cheque a idéia contemporânea de indivisibilidade e interdependência dos direitos. Todavia.direitos humanos nos Estados Unidos. conforme serão estudados ao longo do curso. em 1917. cabendo ao poder estatal declará-los.

117-145. a qual consagrou os paradigmas da universalidade. Celso. A afirmação histórica dos direitos humanos. 1997. Legislação: Constituição Federal de 1988 Declaração de Virgínia de 1776 Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 FGV DIREITO rio 17 . serão estudados na aula referente ao Sistema Global de Proteção dos Direitos Humanos. No decorrer da década de 90. Tratado de direito internacional dos direitos humanos. questiona-se: Qual é a importância da Carta Magna de 1215? Quais os elementos em comum entre a Declaração de Virgínia e a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão? O que são gerações de direitos? Quais foram os precedentes para a consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: COMPARATO. pp. LAFER. o final da década de 80 foi marcado pela derrocada do socialismo real. pp.direitos humanos 1966. destacando-se a Conferência de Viena de 1993. mas tema que deveria compor a agenda global. 31-118. ganha força o discurso de que os direitos humanos não eram mais discursos dos blocos. Por sua vez. São Paulo: Saraiva. vale adiantar que a confecção dos dois pactos localiza-se em um contexto de Guerra Fria em que os dois blocos disputavam ideologicamente a concepção de direitos humanos. Todavia. Antônio Augusto. Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. Reconstrução dos direitos humanos – um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris. 36-66. Fábio Konder. pp. 2001. Rio de Janeiro: Companhia das Letras. 2001. Diante do exposto. indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos. Foi nesse contexto que se desenvolveram as grandes conferências da década de 90. Volume I.

antes da independência de seu país. em silêncio. por sua vez. e em decorrência de seu contato com um mundo não-muçulmano. resolve usar seu véu no primeiro dia do novo ano letivo. Desconsertada. ela admira a liberdade feminina e acredita que poderia ser mais feliz sem as imposições religiosas do islamismo. por outro lado. com receio das represálias que poderia vir a sofrer por parte da comunidade muçulmana. Sua família migrou para o país no começo da década de 1950. é uma das cinco milhões de pessoas muçulmanas que vivem na França. Zaíra considera que alguns hábitos já fazem parte de sua identidade cultural. estudando as posições a favor e contra a proibição do uso de véu e de qualquer símbolo religioso em escolas públicas. Em março de 2004. Sua mãe. 15 anos. Zaíra. No entanto. o Marrocos. uma vez que considera tal medida extremamente ofensiva a sua crença religiosa e a sua identidade cultural. comemora. da maneira como foi criada. com base na lei em vigor. por seguirem todos os ensinamentos e tradições da religião islâmica. o Primeiro de Moharam (primeiro dia do calendário Islâmico) e o Eid-al-Adha (festa do carneiro que comemora o sacrifício de Abraão). pois. Para sua surpresa. Ela e sua família são consideradas muçulmanos “fundamentalistas”. conforme sempre o fez. conforme exposto a seguir: Feministas Defendem a igualdade entre os sexos como um dos princípios fundamentais da democracia. a promulgação da referida lei. Dessa forma. Nesse sentido. Diante disso. é expulsa da escola. a igualdade entre os sexos. assim como a comemoração do Ramadã (período no qual os muçulmanos ficam um mês em jejum). sonhando para sua filha um futuro distinto do dela. lamenta tal proibição.direitos humanos Aula 03: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O CASO Zaíra. Zaíra começa a se aprofundar no assunto. conseqüentemente. FGV DIREITO rio 18 . também. e principalmente. como o uso de véu na escola e na foto da carteira de identidade. adotou uma lei que proibiu o uso ou porte de qualquer símbolo religioso pelos alunos nas escolas públicas a partir do próximo ano letivo (setembro de 2004). a Assembléia Nacional da França. seu pai ameaça tirá-la da escola caso ela não use o véu. Nesse contexto. Isto significa que Zaíra não poderá mais ir à escola usando o véu de acordo com sua religião mulçumana. a não-utilização do véu (hiyas) violaria os ensinamentos sagrados do Alcorão. Zaíra encontra-se dividida: por um lado. com base no princípio da laicidade do Estado. com medo das conseqüências das atitudes de seu pai. em respeito às crenças religiosas de sua família. a radicalização da laicidade é tida como uma forma de assegurar a liberdade da mulher e. Comemora.

Trata-se de uma escolha feita pela aluna a seguir os ensinamentos muçulmanos. A imposição de uma proibição dessa dimensão demonstra o autoritarismo do Estado e a violação do princípio do Estado Democrático de Direito. e não uma forma de submissão. O banimento do véu confirma que há uma perseguição religiosa aos islâmicos desde o 11 de setembro de 2001. de quipá e da estrela de Davi pelos judeus e da cruz e de crucifixo por católicos. De acordo com a Corte. bem como é uma forma válida para se combater o fundamentalismo islâmico. por ser necessária para assegurar a separação entre Igreja e Estado. causa separação e discriminação entre os alunos. FGV DIREITO rio 19 . Dessa forma. tendo em vista não ser peça ornamental e estritamente religiosa. o uso de véu por alunas muçulmanas representa uma cultura milenar. Corte Européia de Direitos Humanos Defende que a proibição de uso de véus nas escolas públicas por alunas muçulmanas não viola o direito de liberdade religiosa. Nesse sentido. Conselho Superior de Educação Defende a laicidade do Estado e o combate ao fundamentalismo religioso como forma de melhorar o acesso à educação. limitando os atos dos indivíduos e. Nesse sentido. tornando a escola em um local de aprendizagem e não de conflito. Partido de Justiça e Desenvolvimento Islâmico Defende a identidade cultural e o direito à liberdade religiosa. demonstrando tanto a sua devoção e religiosidade quanto a sua obediência a valores tradicionais que compõem a cultura.direitos humanos O uso de véu por alunas muçulmanas representa uma submissão da mulher ao homem. o que é pior. A utilização de véu por alunas muçulmanas em escolas públicas. Como exemplo. o Estado tem que banir tal discriminação. católicos e judeus atenta contra tais princípios. é também um dos requisitos para se garantir uma sociedade democrática. Partido pela liberdade religiosa Defende ser a liberdade de escolha religiosa um princípio basilar de qualquer sociedade democrática. bem como a liberdade de expressão. a proibição da utilização de qualquer símbolo religioso por alunos muçulmanos. tal proibição. determinando suas próprias vestimentas. uma vez que promove e estimula a segregação das religiões. destaque-se as freiras católicas que cobrem o corpo inteiro e não são incomodadas pela sociedade.

215. salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa. na forma da lei.] Art. [. à liberdade. à igualdade.] Artigo 39º.direitos humanos Questões: Em primeiro lugar: O Estado francês agiu de forma correta ao adotar e promulgar a referida lei? Se esse caso ocorresse no Brasil (tendo em vista ser um Estado igualmente democrático e laico). a saúde.313 – Lei Rouanet – de 23 de dezembro de 1991 Restabelece princípio da lei nº 7.] X – são invioláveis a intimidade. bem como as posições acima mencionadas para responder tais questões. A educação. o trabalho.] VIII – ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política.. MATERIAL DE APOIO Legislação: Constituição Federal de 1988 Art.] VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença. o Estado brasileiro estaria violando algum princípio fundamental ou direito humano? Utilize a legislação brasileira... de 02 de julho de 1986..º 8. 6..] Art. a assistência aos desamparados. [. [. à segurança e à propriedade.. a previdência social.] Art. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Constitui crime.. os tratados internacionais de direitos humanos (dispostos abaixo).. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. punível com reclusão de dois a seis meses e multa de vinte por cento do valor do projeto. o lazer. [. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. fixada em lei. e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. São direitos sociais a educação. assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação. institui o Programa Nacional de Apoio à Cultura – PRONAC – e dá outras providências.505. Lei n. a segurança.. a honra e a imagem das pessoas.. 5º Todos são iguais perante a lei. 205.. a proteção à maternidade e à infância. sem distinção de qualquer natureza. a moradia. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa. qualquer discriminação de natureza política FGV DIREITO rio 20 . [. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional. na forma desta Constituição (grifou-se).. a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.. sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida. direito de todos e dever do Estado e da família. a vida privada. nos termos seguintes: [.. [.

Os Estados-partes no presente Pacto comprometem-se a garantir a todos os indivíduos que se encontrem em seu território e que estejam sujeitos à sua jurisdição os direitos reconhecidos no presente Pacto. de consciência e de religião. Parágrafo único. de 13 de julho de 1990 Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. sexo... religião. sem discriminação alguma por motivo de raça. Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração. 16. opinião política ou de outra natureza. isolada ou coletivamente. de consciência ou crença.069. tanto pública como privadamente. consciência e religião.] FGV DIREITO rio 21 .] Artigo XVIII: Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento.. Declaração Universal dos Direitos Humanos Artigo I. levando em consideração seus respectivos procedimentos constitucionais e as disposições do presente Pacto. O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos: [. Na ausência de medidas legislativas ou de outra natureza destinadas a tornar efetivos os direitos reconhecidos no presente Pacto. Nos casos expressos em lei. cor. ou qualquer outra condição. 2.. Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos.. da celebração de ritos. de práticas e do ensino. para os efeitos desta Lei. individual ou coletivamente. língua. Considera-se criança. este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença. [. em público ou em particular. Lei nº 8. Artigo II. riqueza. língua. Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente. 1º...] Artigo 18 1. origem nacional ou social. [. sexo. religião. pelo ensino.. 2º. a pessoa até doze anos de idade incompletos. origem nacional ou social.. Toda pessoa terá direito à liberdade de pensamento. opinião política ou de qualquer outra natureza. situação..] III – crença e culto religioso. com sitas a adotá-las. no andamento dos projetos a que se referem esta Lei. os Estados-partes comprometem-se a tomar as providências necessárias.] Art. Esse direito implicará a liberdade de Ter ou adotar uma religião ou crença de sua escolha e a liberdade de professar sua religião ou crença. nascimento. pela prática. aplica-se excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade. sem distinção de qualquer espécie. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.direitos humanos que atente contra a liberdade de expressão. seja de raça. Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Artigo 2º 1. de atividade intelectual e artística. e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade. [. [. Art. pelo culto e pela observância. cor. por meio do culto. Art.

étnicos ou religiosos e promover as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz. civil.. conjuntamente com outros membros de seu grupo. são objetivos prioritários da comunidade internacional. Os direitos humanos das mulheres e das meninas são inalienáveis e constituem parte integral e indivisível dos direitos humanos universais. [. assim como diversos contextos históricos. é dever dos Estados promover e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais. favorecer a compreensão. em pé de igualdade e com a mesma ênfase.. Os Estados Partes do presente Pacto reconhecem o direito de toda pessoa à educação.direitos humanos Artigo 27 Nos estados em que haja minorias étnicas.] 19.] 18. Concordam ainda em que a educação deverá capacitar todas as pessoas a participar efetivamente de uma sociedade livre.. de professar e praticar sua própria religião e usar sua própria língua. situação econômica. Os Estados Partes do presente pacto comprometem-se a garantir que os direitos nele enunciados se exercerão sem discriminação alguma por motivo de raça. justa e equitativa.. a Conferência Mundial sobre os Direitos Humanos reafirma a obrigação dos Estados de garantir a pessoas pertencentes a minorias o pleno e efetivo exercício de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais. nascimento ou qualquer outra situação. Étnicas. indivisíveis interdependentes e inter-relacionados... Considerando a importância da promoção e proteção dos direitos das pessoas pertencentes a minorias e a contribuição dessa promoção e proteção à estabilidade política e social dos Estados onde vivem. social e cultural nos níveis nacional. opinião política ou de outra natureza. Declaração e Programa de Ação de Viena de 1993 5. regional e internacional e a erradicação de todas as formas de discriminação. A plena participação das mulheres. língua. religião. FGV DIREITO rio 22 . A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos de forma global. sejam quais forem seus sistemas políticos. Religiosas e Lingüisticas. Concordam em que a educação deverá visar o pleno desenvolvimento da personalidade humana e do sentido de sua dignidade e fortalecer o respeito pelos direitos humanos e liberdades fundamentais.. econômica. origem nacional ou social. sexo. Sociais e Culturais Artigo 2º [. com base no sexo. culturais e religiosos. em conformidade com a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos da Pessoa Pertencentes a Minorais Nacionais. em condições de igualdade. [. Todos os direitos humanos são universais. as pessoas pertencentes a essas minorias não poderão ser privadas do direito de ter. [. Embora particularidades nacionais e regionais devam ser levadas em consideração.] Artigo 13 1.. a tolerância e a amizade entre todas as nações e entre todos os grupos raciais. econômicos e culturais. na vida política. Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos. sua própria vida cultural.] 2. sem qualquer forma de discriminação e em plena igualdade perante a lei. cor. religiosas ou lingüísticas.

A decisão da Corte Européia também pode ter ressonância em casos na Alemanha. asp?NOTCod=98021. integrado pela Turquia. a ex-estudante de medicina Leyla Sahin foi impedida de realizar uma prova porque estava usando um véu. Acesso em: 15 out. 29. segundo se prevê. véus e outros símbolos religiosos são permitidos nas escolas do Estado.00. Paulo. No caso decidido nesta semana. Foi secretária nacional dos Direitos da Cidadania do Ministério da Justiça (governo Fernando Henrique Cardoso. Luiza Nagib Eluf. que é parte do Conselho da Europa. 2004. surgirão no país quando entrar em vigor a lei banindo o uso do véu pelas muçulmanas em escolas públicas. disse o órgão. entre outros livros. Luiza Nagib.2004.html. Folha de S.com. O Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP). estudou a possibilidade de colocar fim à proibição do uso do véu. depois do colapso do Império Otomano. onde professoras muçulmanas estão apelando contra leis de vários Estados que as impedem de cobrir suas cabeças. terra. afirmou a corte. 6 ELUF.2003. “Podem se justificar medidas adotadas em universidades para impedir certos movimentos fundamentalistas religiosos de pressionar estudantes que não praticam a religião em questão ou aqueles adeptos de outras religiões”.br/mundo/interna/ 0. com toda a liberdade e sem qualquer interferência ou forma de discriminação. principalmente esta Folha. De acordo com uma decisão da Justiça em 1989. A sentença do tribunal pode ajudar o governo francês a enfrentar os processos que. Notícias prévias: Corte européia mantém proibição de véu muçulmano6 A proibição do uso de véus pelas alunas muçulmanas em escolas públicas não viola o direito de liberdade religiosa e é uma forma válida de combater o fundamentalismo islâmico. 30.06. vários conflitos ocorreram entre pais de alunas e diretores de escolas. atualmente à frente do governo turco e que possui raízes islâmicas.gov. desde que não sejam “invasivos”.OI333991-EI312.. Acesso em: 15 out. de professar e praticar sua própria religião e de usar seu próprio idioma privadamente ou em público. havendo notícias de algumas expulsões em virtude da insistência no uso do véu. vem noticiando o intenso debate que se instalou na França a respeito do uso do véu muçulmano por alunas das escolas públicas daquele país. a corte com sede em Estrasburgo (França) rejeitou a argumentação apresentada por uma estudante turca impedida de frequentar a faculdade de medicina da Universidade Istambul porque o véu usado por ela violava o código de vestimenta da instituição. 7 FGV DIREITO rio 23 . As proibições impostas em nome da separação entre Igreja e Estado seriam então consideradas “necessárias em uma sociedade democrática”. O véu religioso A imprensa brasileira.12. é procuradora de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo e autora de “A Paixão no Banco dos Réus”. planejamento. Disponível em: http://noticias. 48. Disponível em: http://clipping. disse a Corte Européia de Direitos Humanos hoje. 2004. mas acabou voltando atrás ao se deparar com a oposição dos militares defensores da secularidade do sistema. A Turquia é uma sociedade majoritariamente muçulmana que introduziu um sistema de governo secular nos anos 1920. Em razão da ampla interpretação que a palavra “invasivo” permite.direitos humanos As pessoas pertencentes a minorias têm o direito de desfrutar de sua própria cultura. Em uma decisão que pode abrir precedentes. 7 Terra online.br/Noticias.

a maior comunidade islâmica da Europa. Os usos e costumes de determinados grupos sociais foram utilizados. 5º.direitos humanos A discussão a respeito dos limites das determinações religiosas é de interesse geral e deve ser acompanhada pelos demais países laicos em todo o mundo. deve ser aplicado. Tanto as alegações fundamentadas em princípios religiosos quanto as calcadas em hábitos culturais não podem ser admitidas quando se prestarem a restringir ou eliminar direitos. para que apresentasse projeto de lei proibindo o uso de véu por meninas muçulmanas nas escolas. opção religiosa com imposição de subalternidade. O Brasil. No entanto. respirar ou falar. setores das igrejas Católica. O dispositivo. para justificar numerosas formas de privar as mulheres de seus direitos fundamentais. pode ocorrer entre nós. que estigmatiza a mulher. assinaram o manifesto. opção religiosa com imposição de subalternidade. Portugal e Inglaterra. como Alemanha. Essas populações resistem tenazmente a assimilar os valores ocidentais. isolando-se em suas comunidades. possuem significativa presença muçulmana. também. Isso significa que não se pode confundir convicção pessoal com opressão. criado para evitar discriminações em razão de credo. dentre outras. Por essa razão. Uma pesquisa de opinião sobre o assunto foi divulgada recentemente. em seu art. temendo restrições que possam. inciso VIII. Hoje. As atrizes Isabelle Adjani e Isabelle Huppert e a designer de moda Sonia Rykiel. os imigrantes. essas distorções encontram-se desmascaradas internacionalmente. O tal “véu” não é peça ornamental. Trata-se de uma polêmica que. assinado por mais de 60 mulheres de destaque. Escudadas em princípios religiosos. É um “uniforme” feminino. mas a intolerância maior parece não ser dos países hospedeiros. Impedem-nas de mostrar qualquer parte do corpo. mais cedo ou mais tarde. Não falta quem atribua aos europeus a incapacidade de acolher. por vezes chegando ao absurdo de obrigá-las a cobrir o rosto todo com o uso da burca. sem preconceito. De acordo com dados estimados. sendo que o poder político não está vinculado a nenhuma delas. assim como a França. para evitar violações de direitos trazidas pelas próprias religiões aos seus seguidores. eventualmente. outros países do velho continente. Por outro lado. durante muito tempo. a revista “Elle” francesa divulgou um apelo ao presidente Jacques Chirac. tampouco é estritamente religioso. FGV DIREITO rio 24 . Não se pode confundir convicção pessoal com opressão. dentre os quais o Brasil. decorrente de imigrações. as comunidades muçulmanas impõem às mulheres regras extremamente opressivas. afetá-los também. existem na França 5 milhões de muçulmanos. além da França. inclusive o cabelo. Protestante e Ortodoxa opuseram-se à proibição. mesmo que com isso elas tenham dificuldades para enxergar. É o que nos assegura a Constituição de 1988. estabelece que “ninguém será privado de direitos por motivos de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política”. é um Estado em que todas as religiões são permitidas e respeitadas. Espanha. Nossa Carta Magna. tendo apurado que 57% dos franceses apóiam a proibição do uso do véu em escolas e repartições públicas. tendo em vista tratar-se de “um símbolo visível da submissão da mulher”.

Diferentemente do que novelas de televisão andaram mostrando. Surtiria. como seres humanos. é importante desestimular o seu uso. de associar islamismo com terrorismo. O problema do véu está essencialmente ligado ao horror às manifestações do feminino. que deve ser extirpado. pode ser a melhor saída para esse impasse. O véu imposto às muçulmanas tem por objetivo impedir que as mulheres se manifestem livremente. o efeito oposto ao desejado. mas opressão física e intelectual. assim.direitos humanos A polêmica que se iniciou na França com relação ao uso do véu islâmico demonstra que chegou o momento de rever princípios e dogmas religiosos usados para tolher as liberdades democráticas de seus seguidores. em terra estrangeira. como já se argumentou. A proibição de cobrir a cabeça e o corpo tornaria o lamentável véu um símbolo da resistência cultural e religiosa de uma população já segregada. FGV DIREITO rio 25 . Não se trata. criando para elas mecanismos de autodefesa e a possibilidade de outra opção de vida. Fortalecer as mulheres. Por essa razão. No entanto talvez a melhor forma de diminuir a adesão ao véu não seja a proibição legal nem a expulsão da escola de meninas que entendam necessário adotar a vestimenta de seus ancestrais. não há glamour no uso do véu. significa que a sexualidade feminina é proibida e “pecaminosa”. Além disso.

O debate entre universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos sempre esteve presente nos foros internacionais. conforme as etapas. assim. este diálogo intercultural tem sido limitado tanto no momento da consagração da universalidade dos direitos humanos como nos debates ocorridos nos foros internacionais. a delegação portuguesa alegou ser a universalidade compatível com a diversidade cultural. Filipinas. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) de 19489 consagrou a universalidade dos direitos humanos e. bem como pelo fato de não ter havido um consenso desde o início em relação às normas que deveriam ser positivadas.1948. única maneira das normas universais serem realmente efetivas. Monografia de final de curso. da Assembléia Geral das Nações Unidas. 7. segundo o projeto proposto pela Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. 8 A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adotada em 10. (ii) o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. a delegação chinesa.12. como se verá a seguir. Por um lado. (ii) a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento de 1994 (Cairo). (iii) o Protocolo Adicional ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. não aceita o indivíduo como um ser pré-social e. em especial aquele travado entre representantes da China e a de Portugal. realizada em Viena no ano de 1993. Isto significa que enquanto a delegação portuguesa sustenta uma visão liberal. (ii) criação de documentos vinculantes. 10 FGV DIREITO rio 26 . de tradição confucionista. Rachel Herdy. Por outro lado. Diálogo intercultural dos direitos humanos. tendo em vista que dos 58 membros das Nações Unidas na época. Sociais e Culturais. através da Resolução n. representou um marco na proteção desses direitos. No entanto. 2003. União das Repúblicas Soviéticas Socialistas. 217 A (III). e (iii) a IV Conferência Mundial sobre a Mulher de 1995 (Beijing). O processo de universalização dos direitos humanos. produto do desenvolvimento de cada país. compreenderia: (i) a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). era composto por três etapas8: (i) elaboração de uma declaração universal. entre 1947 e 1948. defende que cada cultura deve ter seu DE BARROS FRANCISCO. Na II Conferência Mundial de Direitos Humanos. 48 votaram a favor. e que o argumento da diversidade não pode ser utilizado para limitar os direitos humanos. destaquem-se três: (i) a II Conferência Mundial de Direitos Humanos de 1993 (Viena). (iii) adoção de medidas de implementação. nenhum contra e oito se abstiveram. acirrou-se o debate entre as delegações governamentais. uma vez que houve um número limitado de países que participaram de sua elaboração10. a delegação da China sustentou ser o conceito de direitos humanos histórico e cultural. Contudo.direitos humanos Aula 04: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos NOTA AO ALUNO A concepção histórica e culturalmente construída de direitos humanos conduz à imperatividade de que qualquer tentativa de universalização seja fruto de um diálogo entre as diferentes culturas. Como exemplo. Estados Unidos. na qual o indivíduo – pré-social – tem direitos inatos cuja proteção foi transferida para o Estado. a efetividade universal de suas normas continua em estágio de implementação. O intuito era estabelecer uma Carta Internacional de Direitos que. 9 Apenas os representantes dos seguintes Estados participaram da elaboração da redação do projeto da DUDH: Bielorússia. conseqüentemente. França e Panamá. religiosa e ideológica. p. Curso de Direito da PUC-Rio.

uma vez que não permitem o diálogo. p. 335-336. então. cabe ressaltar que embora tenham surgido diversas concepções sobre os temas abordados entre as diferentes culturas – como. em geral. 12 A Convenção sobre os Direitos da Criança foi adotada em 20. cultural e lingüística da criança (grifou-se). Dessa forma. terá direito à proteção e assistência especiais do Estado. na verdade a diversidade cultural não se opõe à universalidade dos direitos humanos. realizada em Beijing. 2003. verificar que. estereótipos e preconceitos. a discussão permanece em aberto. uma vez que a criança muçulmana tem o direito inalienável de ligação direta com a linhagem paterna. planejamento familiar e direitos reprodutivos – prevaleceu em todos os casos a posição ocidental. a colocação em instituições adequadas de proteção para as crianças. em perspectiva adequada. é relevante a proposta de diálogo intercultural sugerida por Boaventura de Sousa Santos15 a fim de compatibilizar tal embate: a hermenêutica diatópica. religiosa. se necessário. tendo a Plataforma de Ação de Beijing concluído que as práticas que limitam o exercício dos direitos da mulher não podem ser sustentadas em detrimento da universalidade dos direitos humanos. Antonio Augusto. ou cujos interesses exijam que não permaneça nesse meio. Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo liberal. In: SANTOS. Para tanto. Por uma concepção multicultural de Direitos Humanos. econômico e cultural. ter confirmado a universalidade dos direitos humanos e a obrigação dos Estados em respeitá-los e promovê-los independentemente de seus sistemas político. Tratado de direito internacional de direitos humanos. Destarte. a Kafalah do direito islâmico. Mas universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos são ou não compatíveis? Conforme doutrina de Cançado Trindade: “As culturas não são pedras no caminho da universalidade dos direitos humanos. Contudo. Boaventura de Sousa (org. Já na IV Conferência Mundial sobre a Mulher de 1995. Não é certo que as culturas sejam inteiramente impenetráveis ou herméticas. e não como um obstáculo a esta. apesar da Declaração e Programa de Ação de Viena. 3. 2. espaço para um diálogo intercultural. CANÇADO TRINDADE. III. como exceção. sendo este instituto denominado kafalah.”14 11 DE BARROS FRANCISCO.. op. não havendo. o exemplo bem sucedido de diálogo intercultural nos trabalhos preparatórios da Convenção sobre os Direitos da Criança. FGV DIREITO rio 27 . Convém. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. mas sim a fortalece. sendo inconcebível a imposição de valores ocidentais como universais11. fazse necessário a construção de um diálogo intercultural como forma de se atingir a universalidade efetiva dos direitos humanos. a colocação em lares de adoção. Ao se considerar soluções. cit. de acordo com suas leis nacionais. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. foi abordada a validade das práticas culturais baseadas na inferioridade da mulher. como um elemento constitutivo da própria universalidade dos direitos humanos. a adoção ou. bem como à origem étnica. p.. que tem por premissa a impossibilidade de se compreender claramente as construções de uma cultura com base nos topos de outra. que faz referência expressa à Kafalah do direito islâmico13. 20. Vol. ocorrida no Cairo. Em se tratando da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento de 1994. O artigo 20 dispõe que: 1. Contudo. Boaventura de Sousa. 427-461. Há um denominador comum: todas revelam conhecimento da dignidade humana. pp. Os Estados-partes assegurarão. que significa garantia. A diversidade cultural há que ser vista. 15. prestar-se-á a devida atenção à conveniência de continuidade de educação da criança. embora exista o debate entre universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos. Esses cuidados poderão incluir. op. cuidados alternativos para essas crianças. p.). verifica-se que em todas as conferências mundiais tem prevalecido a posição ocidental. mas sim elementos essenciais ao alcance desta última. de forma excepcional. A tradição islâmica não permite a adoção. 1989. cit. temporária ou permanentemente privada de seu ambiente familiar.direitos humanos próprio entendimento do que sejam direitos humanos. 13 DE BARROS FRANCISCO. através da Resolução 44/25 das Nações Unidas. fazendo necessário a criação de espaços para o diálogo intercultural. por exemplo. inter alia. 2003. Não raro a falta de informação. 14 15 SANTOS. do qual resultou um artigo baseado na proposta de países islâmicos: artigo 2012. Capítulo XIX. em seu artigo 5º. Registre-se. Nesse contexto. ou o controle – e mesmo o monopólio – da informação por poucos pode gerar dificuldades. é permitido que outra família assuma a obrigação de cuidar da criança que não seja de sua linhagem. Toda criança. Nesse sentido. Trata-se de um método que visa a superar as dificuldades encontradas em um diálogo intercultural. de 1989. sugere-se que os discursos ‘fundamentalistas’ dos direitos humanos – tanto o universalista quanto o relativista – sejam superados.11.

gera também uma dicotomia: se uma cultura se considera completa. uma vez que é esta que melhor aceitará as particularidades das demais culturas. Conceito Ambos os discursos – o etnocêntrico e aquele que considera as culturas como absolutas e incapazes de questionamento – impedem o diálogo intercultural. Após essa breve exposição do tema. a fim de que seja construída uma concepção multicultural dos direitos humanos que. 5. tem-se que o objetivo da proposta de Boaventura de Sousa Santos é. por mais que todas as culturas tenham concepções de dignidade humana. estará sujeita à conquista cultural. passando da noção de universalidade imperialista. De maneira bem resumida. Esta gera sentimentos de frustração e descontentamento e. transformar a concepção de direitos humanos. tem-se que buscar a versão mais aberta. se organiza como uma constelação de sentidos locais. Há diversas versões de dignidade humana. p. seja por sua destruição. “em vez de recorrer a falsos universalismos. em uma abordagem cosmopolita. Ter em mente que. uma vez que a identidade e compreensão do ser humano ocorrem em contato – diálogo – com outro. desde que não signifique uma conquista cultural. o cosmopolitismo. nem todas as percebem em termos de direitos humanos. a curiosidade de procurar novas respostas satisfatórias que se traduzam no diálogo intercultural. temos o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”16. Aproximação das políticas de diferença e de igualdade. por mais que todas as culturas tenham concepções sobre dignidade humana. Constatação de diferentes conceitos de dignidade humana. abaixo. por meio do diálogo intercultural. (ii) ter em mente que. há cinco requisitos para que os direitos humanos possam ser teorizados e aplicados como multiculturais: (i) superação da tensão universalismo-relativismo. Contudo. 4. indaga-se: (i) Embora tenha sido reafirmada a universalidade dos direitos humanos na Declaração e Programa de Ação de Viena. A solução proposta pelo autor é optar pelo reconhecimento da incompletude e pelo diálogo. mutuamente inteligíveis. 3. p. Percepção da incompletude das culturas. seja pela absorção. não estará interessada no diálogo.. nem todas têm a percepção em termos de direitos humanos. baseada em um localismo globalizado. e que se constitui em redes de referências normativas capacitantes”17. Superação da tensão universalismorelativismo. para uma noção de universalidade construída de baixo para cima. assim. 458. O reconhecimento do outro é essencial para a construção de uma identidade multicultural. se reconhece sua incompletude. Por fim.. Contudo. FGV DIREITO rio 28 . Esta premissa pode ser traduzida da seguinte forma: “temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza. Assim.direitos humanos tal diálogo somente torna-se possível se houver uma mudança na conceituação de direitos humanos. 16 17 Ibid. 2.. (iii) constatação de diferentes conceitos de dignidade humana. 443. imposta pela globalização hegemônica. Ibid. (iv) percepção da incompletude das culturas. o conceito de cada premissa: Premissas 1. (v) aproximação das políticas de diferença e de igualdade. segue.

a Convenção sobre os Direitos da Criança. pp. Human Rights in Cross-Cultural Perspectives. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 301-349. em termos de diálogo intercultural. 211-234. Philadelphia: University of Pennsylvania Press. Capítulo IV. Ian (eds. Legislação: Declaração e Programa de Ação de Viena Declaração Universal dos Direitos Humanos Convenção sobre os Direitos da Criança Atividade Complementar: Filme: Submissão. pp. Leitura acessória: AN-NA’IM. BELL. I. 427-461. Vol. PELEG. Tratado de direito internacional de direitos humanos.direitos humanos sua efetivação ocorre na prática e de forma igualitária em todos os países? Qual é a proposta de Boaventura de Sousa Santos para que seja construída uma concepção multicultural dos direitos humanos? O que significa o reconhecimento da incompletude da cultura? O que representou. pp. NATHAN. 2001. Vol. Boaventura de Sousa. Abdullahi Ahmed (ed). Por uma concepção multicultural de Direitos Humanos. Roteirista: Ayaan Hirsi Ali. 1995. ___________. de 1989? Um país muçulmano pode alegar respeito a sua cultura como forma de se eximir da responsabilidade de garantir e promover os direitos das mulheres? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: SANTOS.). III. Boaventura de Sousa (org. Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo liberal. Lynda. Tratado de direito internacional de direitos humanos. TRINDADE. Capítulo XIX. FGV DIREITO rio 29 . 2003. Duração: 10min. Diretor: Theo Van Gogh. Andrew. Antonio Augusto Cançado. 1997. Nova York: Columbia University Press. In: SANTOS. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Negotiating Culture and Human Rights. Ano: 2004. 2003.).

20 FGV DIREITO rio 30 . quando estabelece no artigo 7o do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) que o Brasil propugnará pela formação de um Tribunal Internacional dos Direitos Humanos. o Supremo Tribunal Federal considerou: “Convenção de Genebra – Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas Promissórias – Aval aposto à Nota Promissória não registrada no prazo legal – Impossibilidade de ser o avalista acionado. No. Flávia. Direitos humanos e direito constitucional internacional. 427. propiciando um verdadeiro bloco da constitucionalidade19. que institui o registro obrigatório da Nota Promissória em Repartição Fazendária. não se sobrepõe ela às leis do País. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. “O bloco da constitucionalidade e o contexto brasileiro”.)”.004. Cabe aqui a interpretação de que outros direitos e garantias também possuam hierarquia constitucional.131/95. o tribunal manteve posição firmada desde 197720 de que os tratados possuem status infraconstitucional com equivalência à lei ordinária. Ao apreciar o aparente conflito No julgamento do Recurso Extraordinário no.. Em julgados de toda a década de 90. Todavia. Embora a Convenção de Genebra que previu uma lei uniforme sobre letras de câmbio e notas promissórias tenha aplicabilidade no direito interno brasileiro..direitos humanos Aula 05: Os tratados de direitos humanos e a Constituição Federal NOTA AO ALUNO A aula de nº 05 tem por objeto o estudo do Direito Constitucional Internacional. 18 PIVESAN. Parece clara a opção do legislador constituinte. fortalecendo os mecanismos nacionais de proteção dos direitos da pessoa humana. 45. Ao tratar da dinâmica da relação entre a Constituição Brasileira e o sistema internacional de proteção dos direitos humanos objetiva-se não apenas estudar os dispositivos do Direito Constitucional que buscam disciplinar o Direito Internacional dos Direitos Humanos. 19 Tal redação revelou-se “campo minado” ao longo da recente história constitucional. parágrafo 2o a sua “cláusula aberta” ou “cláusula de receptividade”.”18 Cabe assim menção às partes do Texto Constitucional que se referem a direitos humanos. No julgamento do leading case após a promulgação da Constituição. Tal posicionamento conduz à ilação de que os tratados de direitos humanos podem ser objeto de controle de constitucionalidade e de que lei federal pode vir a revogar tratado já incorporado ao ordenamento jurídico interno. Estado e Sociedade. 15. ciente de que sua obra resulta em um marco jurídico que se estende no tempo. mesmo pelas vias ordinárias. MELO. mas também desvendar o modo pelo qual este último reforça os direitos constitucionalmente assegurados.1969. 427/1969. de registrar no artigo 5o. Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. 80. Validade do Decreto-lei n. reconhecido por alguns autores com campo de interação entre as duas áreas do direito. “Esta interação assume um caráter especial quando estes dois campos do Direito buscam resguardar um mesmo valor – o valor da primazia da pessoa humana – concorrendo na mesma direção e sentido. Em primeiro lugar. 2004. de 22. disso decorrendo a constitucionalidade e conseqüente validade do Decreto-lei n. ou ainda.01. In: Revista Direito. a qual garante a possibilidade de extensão do texto constitucional em relação a outros direitos e garantias que não estejam expressos no artigo 5o. Carolina de Campos. sob pena de nulidade do título (. São PAULO: Max Limonad. não é esta a interpretação promovida pelo Supremo Tribunal Federal. Todavia. a mais importante referência do Texto de 1988 constitui a seguinte: Artigo 5o. p. parágrafo 2o Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados. o Habeas Corpus nº. a Constituição faz menção expressa à promoção e proteção dos direitos humanos quando afirma que sua prevalência constitui princípio que rege as relações internacionais do Estado brasileiro (artigo 4º). o STF reafirmou sua jurisprudência. 72.

e diante da emenda. Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados. Afinal. veio a trazer duas importantes inovações ao abrigo constitucional aos direitos humanos: elucidou a possibilidade do status constitucional dos tratados de direitos humanos e estabeleceu a federalização das violações de direitos humanos. Constituição Federal. o Tribunal manteve o posicionamento ao afirmar que “(. inciso VIII da Cons- FGV DIREITO rio 31 . in verbis: Art. em 27. Artigo 5o .) o Pacto de San José da Costa Rica. Já o Ministro Marco Aurélio. a qual estabelece a permissão de duas forma de prisão civil (depositário infiel e devedor de alimentos – artigo 5o inciso LXVII21). ressaltou que “realmente. e isso porque ainda não se admite tratado internacional com força de emenda constitucional”. da Constituição não se aplica aos tratados internacionais sobre direitos e garantias fundamentais que ingressaram em nosso ordenamento jurídico após a promulgação da Constituição de 1988.. a Emenda nº 45. O artigo 84. não possuem forma para conter ou para delimitar a esfera de abrangência normativa dos preceitos inscritos no texto da Lei Fundamental. afirmou que “os tratados internacionais não podem transgredir a normatividade emergente da Constituição. conforme seu contrato de alienação fiduciária. Alguns autores preferem resolver o aparente conflito de normas por meio de uma regra de hermenêutica específica ao campo dos direitos humanos: a aplicação da norma mais favorável à vítima. do Pacto de São José da Costa Rica no sentido de derrogar o Decreto-Lei 911/69 no tocante à admissibilidade da prisão civil por infidelidade do depositário em alienação fiduciária em garantia. ao tratar novamente da prisão do depositário infiel. da mesma Constituição. 5o. inciso LXVII: Não há prisão civil por dívida.98. não derrogou. No caso de alguém que não cumpriu o dever de pagar as prestações de seu carro e.. a emenda precisou a hierarquia dos tratados de direitos humanos. o qual restringe tal permissão apenas ao devedor de alimentos. por fim. no Habeas Corpus nº 77. é considerado depositário. Parágrafo 3o. também por decisão do Plenário.071/GO de 29 de maio de 2001.direitos humanos de normas existente entre a Constituição Federal de 1988. em cada Casa do Congresso Nacional. O novo parágrafo do artigo 5o da Constituição Federal estabelece. que o parágrafo 2o do artigo 5o. É de observar-se. LXVII.05.”23 Recentemente. além de não poder contrapor-se à permissão do artigo 5o. mais conhecida como Reforma do Poder Judiciário. item 7. Esse entendimento voltou a ser reafirmado recentemente. 22 23 Mais recentemente. salvo a do responsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e a do depositário infiel. estabeleceu a corte que “nada interfere na questão do depositário infiel em matéria de alienação fiduciária o disposto no parágrafo 7º da Convenção de San José da Costa Rica”. no julgamento do RE 253. restando mais dúvidas do que certezas. 21 Pacto de San José da Costa Rica ou Convenção Americana de Direitos Humanos. e o Pacto de San José da Costa Rica22. o Pacto de San José da Costa Rica não implicou a derrogação da Constituição Federal.482. além de não disporem de autoridade para restringir a eficácia jurídica das cláusulas constitucionais. serão equivalentes às emendas constitucionais. o STF negou provimento a um recurso em habeas corpus que questionava a possibilidade do depositário infiel ser preso em virtude do disposto no Pacto de San José da Costa Rica. poderá o Poder Legislativo aprovar determinadas normas contidas nos tratados com status constitucional e outras com de lei federal? O que ocorre com os tratados ratificados até a presente data? O que são “tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos”? A primeira pergunta conduz à necessidade de se registrar alguns comentários acerca do procedimento de incorporação dos tratados em geral. as normas infraconstitucionais especiais sobre prisão civil do depositário infiel. em julgado de 15 de maio de 2007 (RHC 90759/ MG – Minas Gerais). No tocante ao status constitucional. Inconstitucionalidade da interpretação dada ao artigo 7o. em dois turnos. mas resultou no afastamento das regras comuns alusivas ao depósito”. Dessa orientação divergiu o acórdão recorrido. por três quintos dos votos dos respectivos membros. de 08 de dezembro de 2004. A novidade ainda não foi elucidada pela doutrina e jurisprudência. Relator Ministro Moreira Alves.631/98. voto vencido. por ser norma infraconstitucional geral. quando do julgamento do RE 206. pois. qual a regra que deve prevalecer: a Constituição Federal ou o Pacto de San José? Recente alteração constitucional. em especial dos tratados de direitos humanos. na circunstância descrita considerado infiel e assim passível de prisão civil. Ainda.

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tituição Federal confere ao presidente da República a competência privativa para negociar e celebrar tratados, convenções e atos internacionais, sujeitos ao referendo do Congresso Nacional. Em regra, tal competência é exercida pelo ministro das Relações Exteriores ou pessoa por ele designada para tal. Ainda, de acordo com o artigo 49, inciso I, é de competência exclusiva do Congresso Nacional resolver definitivamente sobre tratados, acordos e atos internacionais. Assim, caberá primeiramente à Câmara dos Deputados, sucedida pelo Senado Federal, a aprovação dos tratados. Em ato discricionário, cabe ao presidente da República o ato da ratificação, consolidado por meio de um decreto, considerado pela jurisprudência do Supremo Tribunal Federal ato fundamental para que o tratado possa surtir efeitos no ordenamento jurídico interno. Em resumo, os tratados seguem os seguintes passos: Negociação e Assinatura pelo Poder Executivo + Aprovação pelo Poder Legislativo + Ratificação pelo Poder Executivo

Ultrapassada a regra geral para a incorporação dos tratados no ordenamento jurídico interno, cabe ressaltar que o legislador constituinte de 2004 deixou transparente a possibilidade de que os tratados venham a ter hierarquia constitucional caso sejam aprovados com o procedimento reservado às emendas constitucionais. Se por um lado não cabe mais dúvida acerca do status, podemos concluir que a inserção de tal norma pode conduzir à ilação de que certos tratados terão hierarquia constitucional e outros não, o que seria uma resolução descabida seja no âmbito do Direito Constitucional ou do Direito Internacional. Afinal, se o Estado brasileiro já ratificou os mais importantes tratados de direitos humanos, qual seria o atual status dos mesmos? Apesar de não constar da Emenda Constitucional nº 45 qualquer menção aos tratados já incorporados à ordem interna, não parece razoável que tais tratados sejam tidos como leis ordinárias e os futuros como normas constitucionais. De acordo com Tarciso dal Maso, “deveria ser admitida hierarquia normativa superior para tratado sobre direitos humanos já ratificado, até porque seria ilógico, por exemplo, que Protocolo Adicional à determinada Convenção, futuramente aprovado pelo procedimento do parágrafo 3o do art. 5o, seja considerado como força de emenda à Constituição e a própria Convenção-quadro não.”24 Também causa estranheza que tenham que ser submetidos a uma nova apreciação, notadamente quando o Estado brasileiro já se pronunciou no âmbito internacional por meio da ratificação dos mesmos. Caberá ao Poder Legislativo o estabelecimento de procedimento específico para a aprovação de tratados de direitos humanos em conformidade com a determinação constitucional, restando ao Poder Judiciário o papel fundamental de reinterpretar a sua jurisprudência para a necessária adequação à norma. Por fim, a resposta à indagação sobre a definição de tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos será obtida ao longo deste curso, uma vez que se pretende estabelecer, com o devido rigor técnico, o que se entende por direitos humanos. Cabe enfatizar, desde então, que os tratados de direitos humanos, compreendidos

JARDIM, Tarciso dal Maso. Afirma o autor a inconstitucionalidade do novo parágrafo inserido no artigo 5o ao estabelecer que “se favorável ao projeto constitucional brasileiro, o STF reconheceria o nível constitucional de todos os tratados que consagrassem direitos e garantias fundamentais, com base no parágrafo 2o do artigo 5o, e declararia o novo parágrafo 3o do artigo 5o como contrário às cláusulas pétreas, pois, nos termos do inc. IV, parágrafo 4o do artigo 60, seria tendente a abolir direitos fundamentais ao aventar hipótese de certos tratados sobre direitos humanos não poderem ter status constitucional a depender do procedimento legislativo adotado.” (página 50)
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como gênero de que são espécies as convenções, devem ser interpretados de forma mais ampla, englobando também direito humanitário e direito dos refugiados. Saliente-se aqui a outra inovação apresentada pela Reforma do Poder Judiciário: a federalização das violações de direitos humanos. De acordo com a nova redação, o artigo 109 passa a contar com a seguinte redação:
“Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar: V-A as causas relativas a direitos humanos a que se refere o § 5º deste artigo; § 5º Nas hipóteses de grave violação de direitos humanos, o Procurador-Geral da República, com a finalidade de assegurar o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil seja parte, poderá suscitar, perante o Superior Tribunal de Justiça, em qualquer fase do inquérito ou processo, incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal.” (NR)

A inovação institucional deve ser entendida sob os seguintes argumentos: Passo definitivo de enfrentamento à impunidade e garantia de proteção à vítima: O pacto federativo brasileiro, especificamente no tocante à repartição das competências entre Poder Judiciário Estadual e Federal, possui no artigo 109 da Constituição referência fundamental. Os temas ali relacionados são de competência da magistratura federal, sendo os demais – a grande maioria – considerados reservados à magistratura estadual. Tal divisão temática acarreta em atribuições distintas também para outros órgãos que atuam perante o Poder Judiciário. Por exemplo, os crimes contra a organização do trabalho, os crimes contra o sistema financeiro e a ordem econômica financeira deverão ser investigados pela Polícia Federal, sendo a eventual denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal perante a Justiça Federal. Todavia, a omissão ou mau funcionamento das instituições estaduais – Poder Executivo (em especial a polícia), Ministério Público, Defensoria Pública, Magistratura – diante de um caso concreto conduziram o legislador a estabelecer que em determinados casos a competência deverá ser transferida para a Justiça Federal de forma a não acarretar uma outra violação de direitos humanos: o direito a um julgamento justo e imparcial e em um prazo razoável. Nesse sentido, o deslocamento de competências veio a reforçar a necessidade de um efetivo funcionamento das instituições estaduais e a garantir o combate à impunidade por parte das instâncias federais em casos específicos e, por conseqüência, que seja ampliada a proteção dos direitos humanos. O federalismo adotado pela Constituição Federal A Constituição brasileira estabelece um federalismo de cooperação25 entre os seus entes – União Federal, Estados, Municípios e Distrito Federal, o que não exclui um exercício cooperativo também em relação à atividade jurisdicional. A federalização das violações de direitos humanos não constitui uma novidade nesse sentido. Cabe lembrar que o artigo 109, parágrafo 3º, da Constituição Federal estabelece que, na ausência de Varas Federais ou Trabalhistas, a Justiça Estadual exerça as competênb)
SCHREIBER, Simone; e COSTA, Flávio Dino de Castro e. “Federalização da competência para julgamento de crimes contra os direitos humanos”. In: Direito Federal: Revista da Associação dos Juízes Federais do Brasil. Ano 21. No. 71. Niterói: Editora Impetus. Julho a setembro de 2002. p. 253.
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cias que pertencem à Justiça Federal e do Trabalho. No intuito de atender à vítima diante de atividade jurisdicional específica, o Judiciário Estadual acaba por exercer a jurisdição sob matéria excluída de sua competência originalmente. Não é de se causar espanto a alternativa de que, diante da ausência ou mau funcionamento da Justiça Estadual, que a Federal exerça a atividade jurisdicional, visando à implementação de um julgamento justo e imparcial. Há de se ressaltar ainda que a Constituição Federal previu remédio federativo muito mais grave para violações de direitos humanos quando, em seu artigo 34, inciso VII, alínea b, possibilitou a intervenção da União nos Estados para assegurar o princípio constitucional sensível dos direitos da pessoa humana. É possível concluir que o constituinte originário criou um caso extremo de chamamento para a União Federal de casos de violação de direitos humanos e o constituinte derivado, por meio da Emenda Constitucional nº 45, estabeleceu uma hipótese mais específica, o deslocamento de competência em um determinado caso. Responsabilidade Internacional A Constituição Federal, em seu artigo 21, inciso I, estabelece que compete à União Federal, manter relações com Estados estrangeiros e participar de organizações internacionais. Nesse sentido, é a União Federal, e não seus Estados-membros, que respondem pela responsabilidade internacional decorrente do descumprimento das obrigações assumidas pelo Estado brasileiro pelos tratados de direitos humanos. Tendo em vista que a soberania é una e indivisível, o Estado Federal não pode alegar razões de ordem organizacional interna como fator excludente de responsabilidade. Os termos dos tratados internacionais dos quais o Estado brasileiro é parte são aplicáveis a todas as suas partes componentes. A responsabilidade internacional acaba implicando para o Estado brasileiro uma situação complexa focalizada em dois pontos: a) a maior parte das violações de direitos humanos encontra correspondência direta com as competências dos Estados-membros da federação; e b) o compromisso do Estado brasileiro com o marco protetivo internacional dos direitos humanos, notadamente após a Constituição de 1988, em consonância com os princípios da dignidade da pessoa humana e com da transparência internacional. Como estudaremos em momento oportuno, tramitam na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) mais de 100 petições contra o Estado brasileiro. Em regra, são raríssimos os casos que apontam à responsabilidade direta da União em face da violação de direitos humanos. Isto posto, é possível afirmar que, na maioria expressiva dos casos, a responsabilidade é do Estado-membro. Observese que boa parte destes casos pendentes na Comissão poderá ser submetida à Corte Interamericana, cuja jurisdição foi reconhecida pelo Brasil em dezembro de 1998, notadamente após a alteração do Regulamento da Comissão que prevê a presunção de encaminhamento dos casos à Corte Interamericana de Direitos Humanos. Nesse sentido, é bem vindo um mecanismo capaz de assegurar o cumprimento dos tratados de direitos humanos em caso dos entes federativos falharem ou não disporem de condições operacionais ou estruturais. Acredita-se que o estabelecimento
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pgr.gov. IDC 1 / PA. É importante ressaltar que tal deslocamento somente pode ser decidido por órgão jurisdicional.br/ SCON/pesquisar. A possibilidade de deslocamento de competência ou a federalização das violações constitui avanço institucional significativo em termos da defesa de direitos humanos. Somente a prática permitirá que tais questões sejam preenchidas. Acesso em: 08 de maio de 2004. b) o ditame constitucional da proteção dos direitos humanos em conformidade com o pacto federativo. FGV DIREITO rio 35 . A alternativa de federalização dos crimes de direitos humanos pode conduzir à disseminação nos entes federados do melhor cumprimento às obrigações decorrentes de tratados de direitos humanos dos quais o Brasil é parte – sob o risco do incidente de deslocamento de competências. “assegurar o devido cumprimento de obrigações decorrentes dos tratados de direitos humanos”). Disponível em: http://www. 1o. Conclui-se que a possibilidade de deslocamento de competências para violações de direitos humanos encontra-se em perfeita sintonia com: a) os parâmetros do direito internacional por estabelecer mais um grau de subsidiariedade no âmbito interno.26 Acredita-se ainda em um efeito no sentido inverso: a capilarização da promoção dos direitos humanos.stj. d) Dos parâmetros processuais A Emenda Constitucional nº 45 estabelece ainda que o incidente de deslocamento será apreciado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) a pedido do Procurador-Geral da República.jsp?b=ACOR&livre=federalização. que a República Federativa do Brasil se comprometeu a reprimir em decorrência de tratados internacionais de que seja parte” (art. 10. União Federal. de 08 de maio de 2002. Estados – compreendidos aqui pelos Poderes Executivo. e c) a sistemática processual vigente. mediante provocação. mas não constitui solução mágica. Judiciário e Ministério Público – e sociedade civil devem conjugar esforços para fazer desse novo dispositivo constitucional um imperativo para a defesa dos direitos humanos. Tal afirmativa afasta as acusações de que tal deslocamento feriria a independência do Poder Judiciário. uma vez que o STJ é o órgão jurisdicional de cúpula entre justiça estadual e federal. Qualquer inovação conduz à necessidade de estabelecimento de limites.direitos humanos da federalização veio a exercer precisamente esse mecanismo federal que possibilite à União um instrumento nacional para a responsabilidade internacional.pdf. OF/Nº 022/04/PR/PA – incidente de deslocamento de competência (caso Irmã Dorothy Stang). inciso III).br/pgr/asscom/Stang. Legislativo. Incidente de Deslocamento de Competência 2005/0029378-4. muito ainda se discutirá para a elucidação dos requisitos de admissibilidade (ex: “grave violação de direitos humanos”. O impacto de suas ações e omissões no plano internacional pode servir de estímulo ao melhor funcionamento das instituições locais em casos futuros.gov. Nesse sentido. Acesso em: 05 de junho de 2006.mpf. mais de dois anos antes do instituto de federalização.446. Disponível em: http:// www. já previu a possibilidade de que a Polícia Federal investigo infrações penais relativas à violação a direitos humanos. MATERIAL DE APOIO Casos / Jurisprudência: 26 É importante ressaltar que a Lei no.

Volume I. Tratados Internacionais de Direitos Humanos e Constituição Brasileira. Ricardo Lobo (org. Da federalização das violações de direitos humanos. 2001. Curso de Direito Internacional Público. pp.direitos humanos Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. Antônio Augusto. Parecer apresentado ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. e PIOVESAN. GALINDO. Legislação: Constituição Federal de 1988 FGV DIREITO rio 36 . George Rodrigo Bandeira. Leitura acessória: ALBUQUERQUE MELO. Belo Horizonte: Editora Del Rey. 1999. Tratados Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos e Federalização dos Crimes de Direitos Humanos na Reforma do Judiciário. O parágrafo 2º da Constituição Federal” In: TORRES. Rio de Janeiro: Renovar.). ______________________. 401-447. 13ª edição. 1997. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris. 2002. Teoria dos Direitos Fundamentais. CANÇADO TRINDADE. Rio de Janeiro: Renovar. Flávia. Flávia. Celso.

estadual e municipal. (iii) Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.htm. abaixo. o extermínio. Acesso em: 23 fev. (vi) Conselhos Municipais. e (c) Subsecretaria de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos – SPDDH. Coordenação da Política Nacional de Direitos Humanos. Órgãos executivos: (a) Subsecretaria de Articulação da Política de Direitos Humanos – SAPDH. No entanto. o crime organizado. Seguem. em conformidade com as diretrizes do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH). (ii) Conselhos Nacionais e Estaduais. e (e) Conselho Nacional dos Direitos do Idoso – CNDI. Disponível em: http://www. as chacinas. tais documentos carecem de sentido se não houver mecanismos para garantir e promover os direitos humanos. o tráfico de drogas e as mortes no trânsito não podem ser consideradas normais. (d) Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência – CONADE. Os direitos humanos são assegurados pela Constituição Federal e por diversos tratados internacionais em que o Brasil é parte. (c) Conselho Nacional de Combate à Discriminação – CNCD. atuando preventiva ou punitivamente (no caso de terem ocorrido violações de direitos humanos).gov. Os assassinatos. Órgãos colegiados: (a) Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – CDDPH. 2005. 27 Composição Principal atribuição FGV DIREITO rio 37 . A SEDH foi criada pela Lei nº 10. (v) Comissões de Direitos Humanos das Câmaras Municipais. Programa Nacional de Direitos Humanos I. Dentre os principais órgãos.direitos humanos Aula 06: Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos NOTA AO ALUNO “Os Direitos Humanos são os direitos de todos e devem ser protegidos em todos Estados e nações.br/ sedh/dpdh/gpdh/pndh/principal. especialmente em um Estado e em uma sociedade que se desejam modernos e democráticos. É nesse contexto que surgem diversos órgãos de proteção dos direitos humanos nos planos nacional. principal atribuição e programas a serem executados de acordo com o Plano Plurianual 2004-2007: Fatores Definição Órgãos colegiados e executivos. (b) Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA. (b) Subsecretaria de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente – SPDCA. É preciso dizer não à banalização da violência e proteger a existência humana”27.mj.683. e grupos de trabalho temáticos. Trata-se do órgão da Presidência da República que tem por atribuições articular e implementar as políticas públicas voltadas para a promoção e implementação dos direitos humanos. Introdução. assessorias. (vii) Defensoria Pública e Ministério Público. destaquem-se: (i) Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR). de 28 de maio de 2003. (iv) Comissões de Direitos Humanos das Assembléias Legislativas. dando destaque ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH). sua composição. os seqüestros.

Cuida-se. a fim de dar maior agilidade às apurações de violações de direitos humanos. mj.camara. e (e) prestar informações para os organismos internacionais sobre a situação dos direitos humanos no país. (c) Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. 2005.gov. assim. 11).br/EmConstrucao/pdf/Rel_OrgaoPrograma1. http://www.gov. mj. acesse o site http://www.. a lista dos conselhos nacionais e estaduais existentes: Conselhos Nacionais Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – CDDPH – www. Ambos os conselhos têm como meta a promoção e defesa dos direitos humanos. (d) Direitos Humanos. verificouse que o projeto de lei encontrava-se sujeito à apreciação do Plenário (http://www2. por sua vez. o deputado Tarciso Zimmermann (PT-RS).gov. 2003. órgão específico da SEDH/PR. em 13 de maio de 2003. São Paulo: Cortez. 31 FGV DIREITO rio 38 .gov.br/sedh/ct/di.mj. presidencia.br/sedh/ct/ CONADE Conselho Nacional dos Direitos do Idoso – CNDI – www. (b) constituir comissões de inquéritos para facilitar as investigações. de acordo com Gohn29.asp?idserv info=43507&url=http://www. Acesso em: 23 fev.br/sedh/cndi Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária – CNPCP – www.mj. 4319/1964. Conselhos Gestores e participação política. de peça fundamental na proteção dos direitos humanos.br/sedh/cncd Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA – www. de Administração e Serviço Público designou um relator.gov. Os conselhos nacionais e estaduais. 4715/ 1994.gov.br/seppir Outros órgãos colegiados nacionais: Comitê Nacional para a Educação em Direitos Humanos – CNEDH Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo – CONATRAE Conselhos Estaduais Conselho Estadual de Defesa dos Direitos do Homem e do Cidadão Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher Conselho Estadual dos Direitos do Idoso Conselho Estadual do Consumidor Conselho Estadual de Proteção de Vítimas e Testemunhas 28 Para maiores informações sobre o objetivo de cada programa. presidencia. 231.gov. de autoria do então deputado federal Projeto de Lei n. Tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei n. G.gov. e. 4715/199430. (b) Atendimento Socioeducativo do Adolescente em conflito com a lei.gov. (g) Promoção e Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.br/ccivil_03/ Projetos/PL/pl4715.htm. pdf. (e) Gestão da Política de Direitos Humanos. criado pela Lei n. gov. durante a “VIII Conferência Nacional dos Direitos Humanos”. como mecanismos de participação e de legitimidade social iniciam-se no Brasil.br/internet/proposicoes).planalto. (c) atuar por meio de resoluções. 2ª ed. 29 GOHN.mj. (f ) Nacional de acessibilidade.direitos humanos Programas a serem executados (Plano Plurianual 20042007)28 (a) Assistência a Vítimas e a Testemunhas Ameaçadas. Em relação ao CDDPH. oportunidade na qual a Comissão de Trabalho. o qual transforma o CDDPH no Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH).gov.br/sedh/ Conselho Nacional dos Direitos da Mulher – CNDM – www. planobrasil.br/defaultCab. como fruto da organização e das lutas sociais.gov. M. A última ação ocorreu em 15 de setembro de 2004.br/spmulheres Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência – CONADE – www.gov. Direito de Todos. e (i) Proteção da Adoção e Combate ao Seqüestro Internacional.br/cnpcp Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial – CNPIR – www. Segue. Em consulta realizada no site da Câmara dos Deputados em dia 23 de fevereiro de 2005.31 Já a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados foi criada por meio da Resolução n. cabe destacar suas principais atividades: (a) receber denúncias de violações de direitos humanos de abrangência nacional e investigá-las em conjunto com as autoridades competentes locais. (h) Promoção e Defesa dos Direitos de Pessoas com Deficiência.presidencia.br/sedh/cddph Conselho Nacional de Combate à Discriminação – CNCD – www. 30 Discurso proferido pelo Ministro Nilmário Miranda.presidencia. Disponível em: http://www.htm (par.mj. abaixo.gov.br/seppir ou www. (d) promover estudos para aperfeiçoar a defesa dos direitos humanos.

a lista dos conselhos municipais do Município do Rio de Janeiro e seus contatos35: Acesso em: 04 junho 2006. acesse o site http://federativo. A comissão de direitos humanos33 consiste em uma das comissões permanentes. abaixo. html#parte2. (b) adotar providências e propor medidas para apurar violações de direitos humanos. 2005.htm. podendo ainda haver comissões parlamentares de inquérito. penetrar na lógica burocrática estatal para transformá-la e exercer o controle socializado das ações e deliberações governamentais. Destaquem-se suas principais atribuições: (a) receber denúncias de violações de direitos humanos e encaminhá-las ao órgão competente. Representou um marco na história dos direitos humanos do país. são compostos por representantes do governo e da sociedade civil empenhados em discutir. o que tornou mais eficiente e rápido o trabalho investigativo intentado pelo legislativo brasileiro. uma vez que desempenha papel fundamental na proteção dos direitos humanos e na promoção da cidadania. camara. implementar e avaliar em conjunto as políticas públicas referentes a determinado grupo da sociedade mais vulnerável. sendo o recebimento de denúncias sua atividade principal.htm. Os Conselhos Municipais de Direitos Humanos. a fim de que governo e sociedade civil possam atuar de forma articulada na proposição e no desenvolvimento de ações voltadas para a promoção e a proteção dos direitos humanos.dhnet. Embora muitos conselhos municipais não funcionem da maneira como deveriam. É composta por 23 deputados e 23 suplentes e tem por finalidade investigar violações de direitos humanos. bndes. (d) lutar pela garantia e implementação de tais direitos.gov.obrasocial-rj. (c) realizar ou patrocinar campanhas e eventos locais com o objetivo de difundir e proteger os direitos humanos. org. FGV DIREITO rio 39 . e (d) promover pesquisas e estudos relativos à situação dos direitos humanos no respectivo município.32 A Assembléia Legislativa de cada Estado é composta por comissões permanentes e temporárias. (c) colaborar com organizações não-governamentais e internacionais que atuem na defesa dos direitos humanos. Segue. concretizou-se uma antiga reivindicação dos movimentos populares. (c) opinar sobre proposições e assuntos ligados aos direitos humanos. 35 Acesso em: 26 fev. (b) escutar as vítimas de violações ou seus familiares. parlamentares e entidades de defesa dos direitos humanos. são importantes canais de participação coletiva e de criação de novas relações políticas entre governos e cidadãos por meio de um processo de interlocução permanente.org. Disponível em: http://www2.gov. Dentre suas atividades. Já as Comissões de Direitos Humanos das Câmaras Municipais também têm caráter permanente e são marcadas pelas seguintes atribuições:34 (a) receber. por sua vez. destacam-se: (a) participar do estabelecimento da política municipal de direitos humanos. 2005. avaliar e investigar denúncias relativas à ameaça ou violação de direitos humanos. 33 34 Para maiores informações. em 31 de janeiro de 1995. Disponível em: http://www. (b) fiscalizar e acompanhar programas governamentais relativos à proteção dos direitos humanos.br/enderecos1. motivo pelo qual a Secretaria Especial de Direitos Humanos apóia os conselhos municipais já existentes. 32 Dispõe acerca de todas as Comissões de Direitos Humanos das Assembléias Legislativas.br/direitos/brasil/legislativo/cdhcf/cartilha_cdh/19_comissoesassembleia. criar espaços de debates.br/dicas/D102%20%20Pol%C3%ADtica%20muni cipal%20de%20direitos%20hu manos. Ao criar o novo órgão técnico e suprapartidário. Seus objetivos também são encaminhar denúncias. Disponível em: http://www. A sociedade civil deve propor alternativas de políticas públicas. Acesso em: 23 fev. os mesmos continuam sendo peça importante no combate às violações de direitos humanos. sugerir projetos e fiscalizar a atuação do Poder Público.direitos humanos Nilmário Miranda. Nesse sentido.br/comissoes/ cdhm.

Conselho Tutelar de Ramos 5 C.2 – Rua Professor Lacê.: 2595-7086 BIP: 2460.2 – Rua Conde de Bonfim.gov. 3.1010 – códigos: 4369915/ 4369895/ 4369893/ 4369894/ 4369892 Área de Abrangência: Tijuca/ Praça da Bandeira/ Alto da Boa Vista/ Vila Isabel/ Grajaú/ Andaraí/ Maracanã/ Aldeia Campista. 180 – Tel/Fax.br Conselho Municipal dos Direitos do Negro: condedine@pcrj.: 2569-5722 BIP: 2460. 56 – Laranjeiras – CEP.1010 – códigos: 4369899/ 4369905/ 4369898/ 4369904/ 4369935 Área de Abrangência: Botafogo/ Catete/ Glória/ Cosme Velho/ Flamengo/ Laranjeiras/ Humaitá/ Urca/ Praia Vemelha/ Copacabana/ Leme/ Jardim Botânico/ Ipanema/ Vidigal/ São Conrado/ Rocinha.direitos humanos • • • • • • • • • • • Conselho Municipal da Criança e do Adolescente: cmdca@pcrj.R 1 – Rua Salvador.R 3.1010 – códigos: 4369909/ 4369912/ 4369886/ 4369931/ 4369934 Área de Abrangência: Santo Cristo/ Caju/ Cais do Porto/ Saúde/ centro/ Aeroporto/ Bairro de Fátima/ Castelo/ Praça Mauá/ Rio Comprido/ Estácio/ Cidade Nova/ Catumbi/Triagem/ São Cristovão/ Mangueira/ Benfica/ Paquetá/ Santa Tereza.1010 – códigos: 4369923/ 4369924/ 4369929/ 4269901/ 4369930 Área de Abrangência: Méier/ Todos os Santos/ Engenho de Dentro/ Encantado/ São Francisco Xavier/ Rocha/ Piedade/ Abolição/ Consolação/ Riachuelo/ Água Santa/ Sampaio/ Lins/ Engenho Novo/ Complexo do Alemão/ Bonsucesso/ Olaria/ Inhaúma/ Esperança/ Higienópolis/ Maria da Graça/ Jacaré/ Engenho da Rainha/ Tomas Coelho/ Del Castilho/ Jacarezinho/ Vieira/ Fazenda.gov.2º andar -Tijuca – CEP. Conselho Tutelar de Vila Isabel 3: C.A – Estrada Velha da Pavuna.br Conselho Municipal de Entorpecentes: comen@pcrj.rj.br Conselho Municipal de Assistência Social: cmas@pcrj. 2205-3798 BIP: 2460.20765-170 Tel/Fax.: 2502-7122 R.1 – Rua São Salvador. 20560-200 Tel/Fax.R 2.: 2502-2431 BIP: 2460.br Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência: comdef@pcrj.1010 – códigos: 4369926/ 4369920/ 4369918/ 4369925/ 4369913 FGV DIREITO rio 40 .rj. 20211-260 Tel. 22231-130 Tel/fax. Conselho Tutelar do Méier 4: C.R 3.rj. Conselho Tutelar de Laranjeiras 2: C. 267. s/nº – setor 4 (Sambódromo) – Centro – CEP .R 2. 57 – Ramos – CEP.1/ XIIR.rj.gov.gov. 21060-120 Tel/fax: 2290-4762 BIP: 2460.br Conselhos Tutelares: Horário de funcionamento: de 2ª a 6ª feira. para contatos durante o final de semana use o bip Conselho Tutelar do Centro 1: C.151 – Inhaúma – CEP .gov.rj. de 9 às 18 horas.

R 5. 3./Fax: 3332-3744 BIP: 2460. 23085-570 Tel/Fax: 2413-3125 BIP: 2460. 211 – Realengo – CEP. 22713-370 Telefone: 2446-6508 BIP: 2460.R 3. 1733 – Marechal Hermes – CEP.2 – Rua: Coxilha s/nº – XVIII RA – Campo Grande – CEP. Conselho Tutelar de Madureira 6 C. 21715-000 Tel. Conselho Tutelar de Jacarepaguá 7 C.R 4 – Estrada Rodrigues Caldas. 21610-380 Tel/Fax.1010 – códigos: 4369906/ 4369900/ 4369891/ 4369897/ 4369928 Área de Abrangência: Campo Grande/ Santíssimo/ Senador Augusto Vasconcelos/ Mendanha/ Rio da Prata/ Monteiro/ Guaratiba/ Pedra de Gauratiba/ Morro da Pedra/ Praia do Aterro/ Ilha Guaratiba FGV DIREITO rio 41 .1 – Rua Oliveira Braga.R5. Conselho Tutelar de Bangu 8 C.1010 – códigos: 4369919/ 4369896/ 4369890/ 4369908/ 4369907 Área de Abragência: Bangu/ Campo dos Afonsos/ Santíssimo/ Deodoro/ Realengo/ Vila Militar/ Magalhães Bastos/ Padre Miguel/ Senador Camará/ Jardim Sulacap Conselho Tutelar de Campo Grande 9 C. Augusto Pinheiro de Carvalho – Rua Xavier Curado.3 – CIEP.1010 – códigos: 4369903/ 4369927/ 4369916/ 4369917/ 4369902 Área de Abrangência: Irajá/ Vicente de Carvalho/ Vila da Penha/ Vista Alegre/ Vila Cosmo/ Madureira/ Quintino Bocaiuva/ Bento Ribeiro/ Marechal Hermes/ Engenheiro Leal/ Turiaçu/ Campinho/ Rocha Miranda/ Osvaldo Cruz/ Anchieta/ Ricardo de Albuquerque/ Guadalupe/ Parque Anchieta/ Pavuna/ Coelho Neto/ Acari/ Barros Filho. CEP. Colônia Juliano Moreira – Jacarepaguá.direitos humanos • • • • Área de Abrangência: Ramos/ Maguinhos/ Olaria/ Penha/ Vigário Geral/ Parada de Lucas/ Penha Circular/ Jardim América/ Cordovil/ Bras de Pina/ Ilha do Governador/ Ribeira/ Zumbi/ Cacuia/ Pitangueiras/ Praia da ribeira/ Cocotá/ Bancários/ Tauá/ Galeão/ Moneró/ Portuguesa/ Jardim Guanabara/ Cidade universitária/ Complexo da Maré/ Vila esperança/ Vila do João/ Vila do Pinheiro/ Praia de Ramos/ Timbau/ Maré/ Marcílio Dias/ Baixa do Sapateiro/ Nova Holanda/ Rubens Vaz/ Parque União/ Roquete Pinto/ Conjunto Pinheiro.400 – Prédio da Administração.: 3390-6420 BIP: 2460.1010 – códigos: 4369887/ 4369888/ 4369889/ 4369914/ 4369911 Área de Abrangência: Jacarepaguá/ Praça Seca/ Valqueire/ Taguara/ Freguesia/ Anil/ Tanque/ Curicica/ Camorim/ Gardênia Azul/ Cidade de Deus/ Pechincha/ Barra da Tijuca/ Recreio dos Bandeirantes/ Vargem Grande/ Piabas/ Grumari/ Itanhangá.

1010 – códigos: 4369910/ 4369922/ 4369933/ 4369932/ 4369921 Área de Abrangência: Santa Cruz/ Paciência/ Sepetiba Considerados Funções Essenciais à Justiça pelo Texto Constitucional. do regime democrático e dos interesses coletivos e individuais indisponíveis. Sendo assim. Entre as formas existentes para a consecução de tais fins. ambas as instituições têm o dever de proteger os direitos humanos e combater suas violações. 36 Para maiores informações. O Ministério Público. A polícia é a porta de entrada do sistema de garantia de direitos e poderá orientá-lo(a) e fornecer informações relativas ao andamento de sua denúncia. as medidas que um indivíduo deve tomar quando presenciar ou souber de uma violação de direitos humanos37: Em caso de crime. a Defensoria Pública e o Ministério Público são instituições necessários à atividade jurisdicional do Estado. Acesso em: 23 fev. ao passo que cabe ao Ministério Público a defesa da ordem jurídica. cujas principais atribuições são36: (a) requisitar informações. cível. acesse o site http://www. conforme o artigo 129 CF. Nos casos de atos infracionais praticados por adolescentes. entre outras) junto ao Judiciário e extrajudicialmente na composição de conflitos. s/n. aos moldes do ombudsmen nórdico. a Lei Complementar n. como o recebimento de denúncias de violações ou ameaças de direitos humanos. de preferência junto à delegacia mais próxima. A Defensoria Pública. Em uma apertada síntese. (b) instaurar inquéritos.R 5. 3395-1445 BIP: 2460. 2005.gov. org.br/ denuncia. 75/93 designou o Procurador dos Direitos do Cidadão.html. Especificamente no que se refere ao Ministério Público Federal.O.3 – Rua: Olavo Bilac.dhnet. bem como possui centros de atendimento ao público.br/direitos/brasil/apoio/ mpublico/mpdh. Disponível em: http://www. o Defensor Público irá encaminhá-la ao Poder Judiciário ou poderá resolver o conflito entre as partes extrajudicialmente.: 3395-0988/Fax. que deverá emitir um Boletim de Ocorrência (B.direitos humanos • Conselho Tutelar de Santa Cruz 10 C. Competem à Defensoria Pública a orientação jurídica e a defesa em todos os graus da comunidade carente.html. atua em diversas áreas (criminal. além do papel tradicional de fiscal da lei e acusador público. coletivos ou sociais.rndh.) e iniciar procedimentos de investigação. (c) investigar. você deve preferencialmente encaminhar a denúncia à Delegacia Especializada de Investigação de Atos Infracionais praticados por Adolescentes. você também pode procurar o Conselho Tutelar e/ou a Delegacia Especializada em Crimes contra Crianças e Adolescentes. (e) expedir recomendações aos poderes públicos a fim de que façam cessar violações de direitos humanos. encontra-se o encaminhamento de denúncia de direitos humanos. denunciar o fato à polícia. O mesmo site disponibiliza o contato dos órgãos mencionados. de acordo com o artigo 134 CF. FGV DIREITO rio 42 . com um mandato de dois anos. por sua vez. seguem. exerce outras atividades. 37 As informações contidas abaixo foram extraídas. 23570-220 Tel. No caso de violência cometida contra criança ou adolescente. do site da Rede Nacional de Direitos Humanos. abaixo. exatamente da maneira como estavam. consumidor.º – Santa Cruz – CEP. (d) notificar violações a direitos individuais. Ao receber uma denúncia de violação de direitos humanos.

encaminhar sua denúncia à Polícia Federal pelo e-mail dcs@dpf. Pernambuco. você deve preferencialmente encaminhar sua denúncia à Delegacia da Mulher mais próxima ou procurar os conselhos de defesa dos direitos da mulher. 2004. Recorrer a serviços de disque-denúncia. Rio Grande do Sul. indaga-se: A quem você deve recorrer quando souber de uma violação cometida contra uma criança? Quais são os principais órgãos de proteção e promoção dos direitos humanos no âmbito nacional? Quais são as principais funções da Secretaria Especial dos Direitos Humanos? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: Princípios de Paris. Legislação: Constituição Federal de 1988 FGV DIREITO rio 43 . Importante: Caso sua denúncia tenha sido negligenciada ou colocada em dúvida pelos órgãos policiais. Bahia. procurar o Ministério Público de seu Estado para fazer sua denúncia. Já existem ouvidorias de polícia nos seguintes Estados: São Paulo. ou caso haja suspeita de que a violação tenha sido praticada por agente policial. Procurar orientação junto a conselhos de defesa de direitos humanos e/ou organizações da sociedade em seu município/Estado. que tem Seccionais e Comissões de Direitos Humanos em todos os Estados da Federação. Acesso em: 23 fev. para toda violação de direitos humanos. Disponível em: http://www. Pelo exposto. procurar a Delegacia de Polícia mais próxima. Você também pode procurar orientação junto à Ordem dos Advogados do Brasil – OAB. ainda. Você pode. Ceará. org.htm. como o Movimento Nacional de Direitos Humanos – MNDH. Não havendo delegacias especializadas. Pará.br/direitos/brasil/textos/principioparis. Rio de Janeiro.direitos humanos No caso de violência sofrida pela mulher. Paraná e Espírito Santo.br.gov.dhnet. além disso. Minas Gerais. você pode: Contactar a Ouvidoria de Polícia em seu Estado. ou.

A DUDH é um marco no Direito Internacional dos Direitos Humanos. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. sustentava que as duas categorias de direitos 38 PIOVESAN.01. é dotada de força vinculante. demandam realização progressiva. que dividia o mundo em capitalismo e socialismo. Flávia. Os principais precedentes do processo de internacionalização dos direitos humanos são o Direito Humanitário. assim. além de definir tais expressões. bem como da prevalência da posição ocidental. tem força vinculante. 2002. 39 FGV DIREITO rio 44 . constante na Carta das Nações Unidas. 2200-A (XXI). Contudo. A Carta das Nações Unidas. ambos com força obrigatória. Capítulo VI. e. uma vez que. A Carta das Nações Unidas consolidou o Direito Internacional dos Direitos Humanos e fez surgir uma nova ordem internacional que. estabelece. a universalidade. (iii) cooperação internacional nas esferas social e econômica. sendo a DUDH uma declaração e não um tratado. o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. por tal motivo.1976 (PIDESC) e 23. em 16. Adotados pela Assembléia Geral através da Resolução n. iniciado em 1949 mas só concluído em 1966. da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). uma vez que surgiu após as enormes atrocidades ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial. ao afirmar ser os direitos civis e políticos autoaplicáveis enquanto que os direitos econômicos. só entraram em vigor em 03.03. em 1948. interdependência e indivisibilidade dos direitos humanos. com os principais objetivos: (i) manutenção da paz e da segurança internacionais. com o intuito de reconstruir os direitos humanos e trazer a dignidade da pessoa humana para o centro das relações entre Estados. por consenso dos Estados. sociais e culturais são programáticos e. o fato é que houve um processo de “juridicização”38 da DUDH. (ii) integra o direito costumeiro internacional e/ ou os princípios gerais de direito e. 164. pois admitem intervenções na esfera nacional em prol da proteção dos direitos humanos. p. uma vez que rompem com a noção de que o Estado é o único sujeito de Direito Internacional e com a noção de soberania absoluta. São Paulo: Max Limonad. embora estabeleça a necessidade de proteção e promoção dos “direitos humanos e liberdades fundamentais”. que. a Organização Internacional do Trabalho e a Liga das Nações. foi criada a Organização das Nações Unidas. Dessa forma. Sociais e Culturais (PIDESC)39. Seja qual for a posição sustentada. A criação de dois pactos distintos ocorreu em virtude do contexto da Guerra Fria. não os define. não comportando força vinculante – visão estritamente legalista.1976 (PIDCP). há divergências quanto a sua força vinculante: (i) constitui interpretação autorizada da expressão “direitos humanos”. com a adoção de dois tratados internacionais.direitos humanos Aula 07: Sistema global: mecanismos convencionais e não-convencionais de proteção dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O movimento de internacionalização dos direitos humanos é bastante recente na história. (iii) por ser uma Declaração e não um tratado. assim. (ii) promoção dos direitos humanos no âmbito internacional. Contudo. em 1945. com base no princípio da dignidade da pessoa humana. dando ensejo à adoção. colocou a proteção dos direitos humanos em seu centro.1966. apenas atesta o reconhecimento de um código comum a ser seguido por todos os Estados.12.

para que uma petição individual seja interposta. apenas no plano político: power of embarrassment. por oportuno. uma vez que é também composto por diversos tratados multilaterais de direitos humanos referentes as violações específicas de direitos. Segundo Protocolo: estabelece a abolição da pena de morte. Comitê sobre Direitos Econômicos. ou seja. O sistema global. Os mecanismos convencionais são aqueles criados por convenções específicas de direitos humanos. Relatórios. como a tortura (Convenção Internacional contra a Tortura). encaminhar comunicações. inexistência do devido processo legal ou impossibilidade de acesso. Ressalte-se. assim. comunicações interestatais40 (ambos dispostos no próprio Pacto) e petições individuais (Protocolo Facultativo)41. Não tem um Comitê próprio. o quadro. São auto-aplicáveis. A Declaração Universal. O projeto do protocolo adicional que prevê a petição individual está em fase de elaboração. sendo uma garantia adicional à proteção dos direitos humanos sempre que os instrumentos nacionais sejam omissos. para fins exemplificativos. pela vítima. 40 O Comitê só poderá apreciar a comunicação interestatal caso os dois Estados envolvidos tiverem feito uma declaração em separado. aos recursos internos) e inexistência de litispendência no plano internacional. (ii) proferir uma decisão em relação à petição individual que apenas declare que a violação resta caracterizada ou que determine que o Estado repare a violação cometida. Protocolo Facultativo: estabelece o mecanismo de petições individuais. que inaugura o sistema global de proteção dos direitos humanos. Dentre as funções do Comitê de Direitos Humanos. Devem ser realizados progressivamente. O Comitê de Direitos Humanos concluiu que não apenas o indivíduo que sofreu a violação. estabelecido pela Declaração de Viena de 1993. o Estado deve ter ratificado tanto o PIDCP quanto o Protocolo Facultativo. por sua vez. comunicações interestatais e relatórios. Embora haja inúmeros tratados de direitos humanos. Amplitude Sistemática de monitoramento Sistemática de implementação Protocolos O sistema global é composto por mecanismos convencionais e mecanismos nãoconvencionais de proteção dos direitos humanos. demonstra um breve resumo: PIDCP Compreende um rol de direitos mais extensos do que o da DUDH.direitos humanos não poderiam estar em um só pacto. não se restringe à Carta Internacional. faz referência a apenas quatro convenções específicas e seus mecanismos convencionais: FGV DIREITO rio 45 . destaquem-se: (i) receber petições individuais. juntamente com os dois Pactos. Sociais e Culturais (criado pelo Conselho Econômico e Social). tendo em vista que o acesso a este mecanismo é opcional. sendo os respectivos Comitês análogos ao Comitê de Direitos Humanos criado pelo Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. Há também o sistema de indicadores. PIDESC Compreende um rol de direitos mais extensos do que o da DUDH. pois prevê apenas o mecanismo dos relatórios. Quanto à abrangência e sistemáticas de implementação e monitoramento de ambos os Pactos Internacionais. formam a Carta Internacional dos Direitos Humanos ou International Bill of Rights. que o Direito Internacional dos Direitos Humanos é suplementar e paralelo ao direito nacional. mas também ong e terceiros podem representá-lo e. 41 Para que um indivíduo possa encaminhar uma petição individual. É peculiar. Comitê de Direitos Humanos (criado pelo Pacto) – sua decisão não tem força vinculante e não há sanção efetiva para o Estado que não a cumpre. abaixo. a seguir. Ainda. o quadro. que tenha sido criado pelo PIDESC. (iii) requerer dos Estados informações sobre determinada situação. faz-se necessário o cumprimento dos requisitos de admissibilidade: prévio esgotamento dos recursos internos (salvo por demora injustificada. a discriminação racial (Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial). a discriminação contra as mulheres (Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher). e que os procedimentos internacionais têm natureza subsidiária.

un.1987. como a Assembléia Geral e o Conselho Econômico e Social. tendo em vista que em relação ao último.06.03. Sistemática de implementação Relatórios.2006: http://www. uma vez que possui posição central no sistema não-convencional de proteção.12.1981. 45 A competência do Comitê só foi ampliada para receber petições individuais e realizar investigações in loco com a adoção do Protocolo Facultativo à Convenção em 1999. 47 FGV DIREITO rio 46 . 10449. petições individuais e realização de investigações in loco (Protocolo)46 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n.11.org/News/Press/ docs/2005/ga10449.1969.asp?N ewsID=17811&Cr=rights&Cr1 =council.htm. em 18. a apresentação de denúncias por indivíduos ou grupos de indivíduos aos Comitês não depende da ratificação de convenções específicas nem de declaração relativa a cláusulas facultativas ou de ratificação de protocolo adicional. n. de 15. Os mecanismos não-convencionais. desumanos ou degradantes. Caráter inovador: o Comitê pode iniciar uma investigação própria caso receba informações de fortes indícios de tortura. só entrou em vigor em 02. por conseguinte.1990.org/apps/news/story.12. só entrou em vigor em 03. só entrou em vigor em 26.09. um artigo da ONU referente à Resolução 60/251. Contudo. em 26. de 15. 34/180. Há 2 Protocolos Facultativos: sobre Conflito Armado e sobre Prostituição Infantil. comunicações interestatais e petições individuais (estabelecidos pela Convenção). Focar-se-á no Conselho de Direitos Humanos (CDH). Dessa forma.doc. Notícia de imprensa da ONU relacionada a tal resolução (da Assembléia Geral da ONU. Quanto ao Brasil. 46 A Resolução da Assembléia Geral da ONU ainda não está disponível. só entrou em vigor em 04.2005) – http:// w w w. a denúncia pode versar sobre qualquer direito humano. Esses pontos são relevantes.1984.1965. uma vez que demonstram a diferença entre os mecanismos convencionais de proteção dos direitos humanos e os mecanismos não-convencionais. Ainda.09. 44 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n. Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n.03. 42 É importante ressaltar que os Comitês têm competência para avaliar comunicações que contenham violação a direito disposto apenas na Convenção que o criou.1979. segue. Comitê sobre os Direitos da Criança Somente prevê os relatórios (estabelecido pela Convenção). são aqueles decorrentes de resoluções elaboradas por órgãos das Nações Unidas. Acesso em: 20 março 2006.12. 2106 (XX). a aula deverá destacar que o mesmo só não reconheceu a competência tanto do Comitê de Direitos Humanos. comunicações interestatais e petições individuais (estabelecidos pela Convenção) Relatórios (estabelecido pela Convenção). 43 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n. Contudo.01. Contudo.1989.un. a competência do Comitê contra a Tortura para apreciar petições individuais. A competência dos Comitês para receber petições individuais está vinculada à declaração feita em separado pelo Estado (no caso da petição individual estar prevista na própria Convenção) ou pela ratificação do Protocolo Facultativo.direitos humanos Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial42 Sistemática de monitoramento Comitê sobre a Eliminação de Discriminação Racial Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher43 Comitê sobre a Eliminação de Discriminação contra as Mulheres Convenção Internacional contra a Tortura44 Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança45 Comitê contra a Tortura Relatórios. em 10. Acesso em: 20 março 2006. 39/46. a seguir. por sua vez. reconhecendo. em 20. mecanismo não-convencional criado pela Assembléia Geral. 44/35. Contudo. O governo brasileiro ratificou recentemente (12/01/2007) o Protocolo Facultativo à Convenção contra tortura e outros tratamentos ou penas cruéis.

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O CDH foi criado em 15 de março de 2006, tendo substituído a Comissão de Direitos Humanos efetivamente a partir de 16 de junho de 2006, data de sua abolição47. A resolução foi aprovada por 170 votos a favor e 4 contra – EUA, Israel, Ilhas Marshall e Palau48. Dentre os avanços trazidos com o estabelecimento do Conselho de Direitos Humanos, destaquem-se: (i) gozo de maior status, já que será um órgão subordinado à Assembléia Geral (enquanto que a Comissão era subordinada ao Conselho Econômico e Social); (ii) um maior número de reuniões ao longo do ano; (iii) constituição por representação geográfica igual; (iv) o direito de votar estará associado com membership. Ressalta-se, ainda, que o Conselho será composto por 47 membros, os quais serão escolhidos por maioria absoluta da Assembléia Geral. O CDH tem as mesmas funções que a extinta Comissão de Direitos Humanos: (i) competência genérica de atuar em quaisquer questões ligadas aos direitos humanos (estabelecida em 1946, no momento de sua criação); e (ii) apreciação de casos específicos de violações de direitos humanos (a partir de 1967). Em relação à apreciação desses casos específicos, o CDH segue dois procedimentos: procedimento 123550 e procedimento 150351 (alterado pela Resolução 2000/3, do Conselho Econômico e Social). O procedimento 1235 autorizou o CDH e a Sub-Comissão para a Promoção e para a Proteção de Direitos Humanos, a examinarem informações relativas às violações sistemáticas de direitos humanos, o que hoje se traduz na realização de um debate público anual e na investigação e análise de casos específicos pelo CDH e pela citada Sub-Comissão. Em se tratando do procedimento 1503, o mesmo foi criado a fim de que fossem examinadas comunicações referentes à violação sistemática de direitos humanos. Com a adoção da Resolução 2000/3, o Grupo de Trabalho sobre Situações é que se tornou o responsável da análise dos casos, elaboração de recomendações, bem como pela decisão de submeter ou não um caso ao CDH. O Grupo de Trabalho sobre Situações, após analisar o caso, poderá enviá-lo ao Conselho de Direitos Humanos, que, por sua vez, poderá adotar uma das seguintes medidas: (i) manter a situação sob análise, requerendo maiores informações do Estado envolvido; (ii) cancelar o estudo da situação sob a Resolução 1503 e iniciar um procedimento público sob a Resolução 1235; (iii) apontar um especialista independente. Destaque-se que ambos os procedimentos possibilitam que o CDH nomeie um Relator Especial com mandato para países específicos. Além dessas funções, o CDH também pode designar relatores temáticos ou grupos de trabalho com o objetivo de examinarem determinadas violações de direitos humanos. Os Grupos de Trabalho, Relatores Especiais e Representantes Especiais desempenham as seguintes atividades: (i) busca e recebimento de informações; (ii) questionar os governos sobre sua legislação e prática doméstica; (iii) envio, aos governos, de alegações sobre casos urgentes a fim de obter um esclarecimento; (iv) aceitar ou recusar o convite feito por determinado país para visitá-lo em virtude da ocorrência de violações referentes ao seu mandato; (vi) realização de visitas; e (vii) relato anual de suas atividades ao Conselho de Direitos Humanos.

48 In ‘historic’ vote, General Assembly creates new UN Human Rights Council. UN News Centre. Disponível em: http://www. un.org/apps/news/stor y. asp?NewsID=17811&Cr=right s&Cr1=council. Acesso em: 20 março 2006.

Criado pela Resolução 1235 do Conselho Econômico e Social, em 6 de junho de 1967.
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Criado pela Resolução 1503 do Conselho Econômico e Social, em 27 de maio de 1970.
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O Brasil já recebeu a visita dos seguintes relatores especiais52,: Sr. Juan Miguel Petit – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a venda de crianças e prostituição infantil e a utilização de crianças na pornografia; Sra. Asma Jahangir – Relatora Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre execuções sumárias, extrajudiciais ou arbitrárias; Sr. Jean Ziegler – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre o direitos à alimentação; Sr. Doudou Diène – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e formas conexas de intolerância; Sr. Nigel Rodley – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a questão de tortura; Sr. Leandro Despouy – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a independência de juízes e de advogados. Diante do exposto, indaga-se: Como se dá a nomeação de um relator especial? Um indivíduo brasileiro pode encaminhar uma comunicação individual ao Comitê de Direitos Humanos? Tendo em vista a consagração da indivisibilidade dos direitos pela Declaração Universal de Direitos Humanos, por que foram elaborados dois Pactos distintos (Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais)? O que significa a consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos para o indivíduo e para o Estado? Qual é a importância da II Conferência Mundial de Direitos Humanos realizada em Viena, em 1993?
MATERIAL DE APOIO Textos:

Leitura obrigatória: PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. São Paulo: Max Limonad, 2002. Capítulo VI. pp. 163-179 (Cap. VI; itens “a”- “c”); pp. 216-224 (Cap. VI; item “k”). Leitura acessória: TRINDADE, Antonio Augusto Cançado. O direito internacional em um mundo em transformação. Rio de Janeiro: Renovar, 2002. p. 627-670. Legislação: Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Segundo Protocolo ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos referente à Abolição da Pena de Morte Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais Carta das Nações Unidas Declaração Universal de Direitos Humanos Declaração e Programa de Ação de Viena

52 Até a presente data, i.e., novembro de 2004.

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Aula 08: Sistemas regionais de proteção dos direitos humanos
NOTA AO ALUNO

A par do sistema global de proteção dos direitos humanos, há três sistemas regionais de proteção dos direitos humanos: o sistema europeu, o sistema interamericano e o sistema africano. Os sistemas regionais complementam o sistema global, tendo em vista que têm o mesmo objetivo: a proteção do indivíduo e o combate às violações dos direitos humanos. Sendo assim, o indivíduo que tiver um direito violado, pode optar pelo sistema que melhor lhe favoreça, já que vigora, no âmbito internacional, o princípio da norma mais favorável à vitima. O sistema europeu tem por fundamento a Convenção Européia sobre Direitos Humanos, de 1950. Em 1961, tal Convenção foi complementada pela Carta Social Européia (tendo em vista que dispunha apenas sobre os direitos civis e políticos) e, em 1983, foi emendada pelo Protocolo n. 11, que trouxe inovações fundamentais ao funcionamento do sistema: (i) reestruturação profunda dos mecanismos de controle da Convenção (substituição dos 3 órgãos de decisão – Comissão, Corte e Comitê de Ministros do Conselho da Europa – por um só órgão: a Corte Européia de Direitos Humanos); (ii) funcionamento de uma única Corte, em tempo integral (a nova Corte Européia de Direitos Humanos passou a operar em 1o de novembro de 1998); (iii) assegura o acesso direto à Corte aos indivíduos, i.e., o indivíduo passa a ter ius postulandi. Dessa forma, constata-se que o sistema europeu é o mais avançado no que diz respeito ao reconhecimento da capacidade processual internacional ativa dos indivíduos, uma vez que é o único sistema regional de proteção dos direitos humanos que permite ao indivíduo postular diretamente à Corte. O sistema africano, por sua vez, tem por principal instrumento a Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos, adotada em 1981 e em vigor a partir de 1986, que prevê tanto os direitos civis e políticos quantos os direitos econômicos, sociais e culturais. A referida Carta tem por objetivo priorizar os direitos dos povos. As disposições da Carta relativas aos direitos dos povos demonstram a tendência moderna à coletivização dos direitos do homem. Nesse contexto, tem-se que a Carta apresenta a singularidade de colocar, no mesmo documento, conceitos considerados antagônicos: indivíduo e povo, direitos individuais e direitos coletivos, direitos sociais, econômicos e culturais e direitos civis e políticos. Quanto aos mecanismos de proteção e promoção dos direitos humanos, a Carta Africana estabelece a Comissão Africana de Direitos Humanos e dos Povos, podendo a mesma ser provocada por um Estado-parte ou por indivíduos. Já o protocolo adotado em Ovagadongou (em 9 de junho de 1998), Burina Faso, que entrou em vigor em 25 de janeiro de 2004 (30 dias após o 15o Estado – número mínimo exigido – tê-lo ratificado53), estabelece a Corte Africana de Direitos Humanos e dos Povos como órgão complementar ao labor da Comissão. Em se tratando do sistema interamericano, o mesmo tem como origem a IX Conferência Interamericana54, oportunidade na qual foram aprovadas a Declaração

Acesso em: 25 jan. 2005. Disponível em: http://www. fidh.org/article.php3?id_article=450.
53 54 Realizada em Bogotá, Colômbia, de 30 de março a 2 de maio de 1948.

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Acesso em: 03 maio 2004. a Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem foi a base normativa central do sistema interamericano e. Em 1959. que confirmou ser a promoção dos direitos humanos a função da Comissão. respectivamente. Segue. abaixo.html.oas. assim.org/juridico/spanish/firmas/b-32. Constata-se. com as modificações ocorridas em seu Estatuto. em maio de 1948. Em 1965. a lista dos Estados que a ratificaram57: PAÍSES SIGNATÁRIOS Antigua y Barbuda Argentina Bahamas Barbados Belize Bolívia Brasil Canadá Chile Colômbia Costa Rica Dominica Ecuador El Salvador Estados Unidos Grenada Guatemala Guyana Haiti Honduras Jamaica México Nicarágua Panamá Paraguay FIRMA 02/02/84 06/20/78 11/22/69 11/22/69 11/22/69 11/22/69 11/22/69 06/01/77 07/14/78 11/22/69 11/22/69 09/16/77 11/22/69 11/22/69 11/22/69 RATIFICAÇÃO 08/14/84 11/05/81 06/20/79 07/09/92 08/10/90 05/28/73 03/02/70 06/03/93 12/08/77 06/20/78 07/14/78 04/27/78 09/14/77 09/05/77 07/19/78 03/02/81 09/25/79 05/08/78 08/18/89 A Carta da OEA. Após a adoção da Carta da OEA e da Declaração Americana. durante a 5ª reunião de consultas dos Ministros de Relações Exteriores realizada em Santiago do Chile. em 1969 (entrou em vigor apenas em 1978). que emendou a Carta da OEA. Sendo assim. No entanto. foi adotada em conjunto com a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem na IX Conferência Interamericana. Com a adoção da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção Americana) ou Pacto de San José da Costa Rica. 55 A Comissão e a Corte serão estudadas. até hoje. a mesma só se tornou o principal órgão da OEA após a adoção do Protocolo de Buenos Aires em 1967. aproximadamente seis meses antes da adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral das Nações Unidas. que dos 34 Estados-membros da OEA. no período que antecede a adoção da Convenção Americana de Direitos Humanos. continua sendo a principal base normativa vis-à-vis dos Estados não-partes da Convenção. 25 deles ratificaram a Convenção Americana. O primeiro passo foi a criação de um órgão especializado na proteção dos direitos humanos no âmbito da OEA. foi aprovado pelo Conselho da OEA o Estatuto da Comissão. FGV DIREITO rio 50 . o sistema interamericano foi se desenvolvendo lentamente. Disponível em: http://www. nas próximas duas aulas.direitos humanos Americana de Direitos e Deveres do Homem e a Carta da Organização dos Estados Americanos (OEA)55. foi aprovada a proposta de criação de um órgão destinado à promoção dos direitos humanos (mais tarde denominado Comissão Interamericana de Direitos Humanos) até a adoção de uma Convenção Interamericana de Direitos Humanos. em vigor desde 13 de dezembro de 1948. a Comissão se transformou em um órgão de fiscalização da situação dos direitos humanos nos Estados da OEA. 56 57 Informações obtidas no site oficial da Organização dos Estados Americanos (OEA). criou-se a Corte Interamericana de Direitos Humanos e a Comissão passou a ser dotada de novas atribuições56. Em 1960.

Nesse sentido. Há. a Convenção Americana reconhece um catálogo de direitos civis e políticos. da Corte Africana e da Corte Européia de Direitos Humanos? Qual é a importância. Cabe salientar ainda que o sistema interamericano de direitos humanos contemporâneo não se limita à Convenção Americana e aos dois protocolos. da incorporação. quatro convenções interamericanas “setoriais” mais recentes: (a) Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura (1985). e (d) Convenção Interamericana sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Pessoas Portadoras de Deficiências (1999). Dessa forma.2 a 4. pergunta-se: por que ambos os sistemas são complementares? Qual o fundamento de haver um sistema interamericano de proteção dos direitos humanos quando já há um sistema de abrangência global? Em relação aos sistemas regionais. para o sistema interamericano. não admitindo. dos instrumentos de proteção dos direitos humanos? FGV DIREITO rio 51 . que se limita a prever o “desenvolvimento progressivo” dos mesmos. ela restringe ao artigo 26 a consagração dos direitos econômicos. reservas (salvo em tempo de guerra). Sociais e Culturais (ou Protocolo de San Salvador) em 1988 (entrou em vigor em 1999). (b) Convenção Interamericana sobre Desaparecimento Forçado (1994). dando um passo adiante no que concerne o disposto no artigo 4. (c) Convenção Interamericana para Prevenir. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (1994). deu novo ímpeto à tendência a favor da abolição da pena de morte. também. verifica-se a complementaridade entre o mesmo e o sistema interamericano. Em relação ao sistema global. foi elaborado o Protocolo Adicional à Convenção Americana em matéria de Direitos Econômicos. portanto. indaga-se: Qual é o diferencial do disposto na Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos? Por que o sistema europeu é considerado o mais avançado? Qual é a diferença entre o papel da Corte Interamericana. Este Protocolo.direitos humanos Peru República Dominicana San Kitts y Nevis Santa Lucía St. ao estabelecer que os Estados-partes não podem aplicar em seu território a pena de morte a nenhuma pessoa sujeita a sua jurisdição. pelos Estados. a fim de suprir a lacuna do artigo 26.6 da Convenção Americana. O segundo Protocolo Adicional à Convenção Americana é relativo à abolição da pena de morte (1990). sociais e culturais. Vicente & Grenadines Suriname Trinidad & Tobago Uruguay Venezuela 07/27/77 09/07/77 11/22/69 11/22/69 07/12/78 01/21/78 11/12/87 04/03/91 03/26/85 06/23/77 À semelhança do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. No entanto.

In: GOMES. Flávia. São Paulo: Editora dos Tribunais. Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. Flávio Luiz. PIOVESAN. Legislação: Convenção Européia sobre Direitos Humanos e Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem e Convenção Americana sobre Direitos Humanos Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura Convenção Interamericana sobre Desaparecimento Forçado Convenção Interamericana para Prevenir. Antonio Augusto. 2006. Flávia. 103-151. 2000. 72-84. 50-59. p. O sistema interamericano de direitos humanos no limiar do novo século: recomendações para o fortalecimento de seu mecanismo de proteção. pp.direitos humanos MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher Convenção Interamericana sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Pessoas Portadoras de Deficiências (1999) FGV DIREITO rio 52 . Direitos humanos e justiça internacional. São Paulo: Saraiva. O sistema interamericano de proteção dos direitos humanos e o direito brasileiro. Capítulo IV.

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Aula 09: Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos
NOTA AO ALUNO

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão) originou-se da Resolução VIII da V Reunião de Consulta dos Ministros de Relações Exteriores (Santiago, 1959). Em 1960, foi aprovado pelo Conselho da OEA o Estatuto da Comissão, que confirmou ser a promoção dos direitos humanos a função da Comissão. Em 1965, com as modificações ocorridas em seu Estatuto, a Comissão se transformou em órgão de fiscalização da situação dos direitos humanos nos Estados da OEA. No entanto, a mesma só se tornou o principal órgão da OEA após a adoção do Protocolo de Buenos Aires em 1967, que emendou a Carta da OEA. A Comissão é composta por sete membros eleitos pela Assembléia Geral por um período de 4 anos, podendo ser reeleitos apenas uma vez. Em relação às suas funções, são elas: conciliadora; assessora; crítica; legitimadora; promotora; protetora. Com a adoção da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção) ou Pacto de San José da Costa Rica, em 1969 (entrou em vigor apenas em 1978), a Comissão passou a ser dotada de novas atribuições. Isto significa que, a partir da adoção da Convenção, a Comissão passou a ser tanto o principal órgão da OEA quanto órgão do referido instrumento. Dessa forma, todos os Estados da OEA têm o dever de proteger e promover os direitos humanos, seja por meio do disposto na Carta da OEA e na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (para os Estados-membros da OEA), seja por meio do estabelecido na Convenção (para os Estados-partes). Sendo assim, verifica-se a coexistência de dois sistemas em relação à Comissão: o sistema da OEA e o sistema da Convenção. No entanto, por se tratar de aula referente ao sistema interamericano, focaremos o estudo da Comissão no sistema da Convenção. A Comissão tem competência para examinar comunicações encaminhadas por indivíduo, grupo de indivíduos ou organizações não governamentais, que contenham denúncia de violação a direito consagrado na Convenção, cometida por algum Estado-parte. Isto porque os Estados, ao se tornarem parte da Convenção, aceitam automática e obrigatoriamente a competência da Comissão para apreciar denúncias contra eles. Dessa forma, a comunicação individual é obrigatória e a comunicação interestatal58 é facultativa no sistema interamericano, ao passo que no sistema europeu ocorre o oposto. Em relação ao procedimento da petição perante a Comissão, verificam-se quatro fases: (a) fase da admissibilidade; (b) fase da conciliação; (c) fase do Primeiro Informe; e (d) fase do Segundo Informe ou a propositura de uma ação de responsabilidade internacional perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Dessa forma, pode-se sintetizar a apreciação de uma denúncia pela Comissão da seguinte forma:

58 Em outras palavras, a Comissão só poderá analisar a comunicação interestatal (um Estado denuncia o outro por violação a algum direito humano) quando ambos os Estados, além de terem ratificado a Convenção, declararem expressamente que reconhecem a competência interestatal da Comissão.

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Recebe denúncia  aprecia sua admissibilidade (i.e., se os seguintes requisitos foram observados: prazo, prévio esgotamento de recursos internos e a inexistência de litispendência internacional)  considera-a admissíve  requer informações ao Governo e à parte  tenta uma solução amistosa  não ocorrendo, a Comissão envia o 1º informe ao Governo, dando-lhe um prazo de 3 meses para cumprir as exigências  Estado não cumpriu  Comissão envia o caso à Corte ou elabora o 2º informe. Ainda, cabe mencionar que a Comissão pode iniciar um caso de oficio (art. 24, Regulamento Comissão), se possuir informações necessárias. Saliente-se, também, a função preventiva exercida pela Comissão. Em decorrência de suas recomendações de caráter geral dirigidas a determinados Estados, ou formuladas em seus relatórios anuais, foram derrogados ou modificados leis, decretos e outros dispositivos que afetam negativamente a vigência dos direitos humanos. Ainda, a função preventiva da Comissão pode ser observada na elaboração de medidas cautelares e, inclusive, ao solicitar à Corte que adote medidas provisórias. Por fim, destaque-se que a par do sistema de petições ou comunicações, dois sistemas também têm um papel fundamental na proteção e promoção dos direitos humanos: (a) o sistema de investigações (observações in loco); (b) o sistema dos relatórios, o que inclui tanto o relatório com recomendações gerais enviado a determinado Estado, quanto os relatórios periódicos apresentados à Assembléia Geral da OEA, que contém, muitas vezes, considerações de caráter doutrinário. A Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte), órgão jurisdicional da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção), realizou suas primeiras reuniões na sede da OEA em Washington, em 29 e 30 de junho de 1979, e instalou-se em sua sede permanente em São José da Costa Rica em 3 de setembro de 1979. Esta instituição judiciária é composta por sete juízes nacionais de Estadosmembros da OEA, escolhidos por título pessoal, e tem por objetivo a aplicação e interpretação da Convenção. Até novembro de 2006, dos 35 Estados-membros da OEA, 24 Estados haviam ratificado a Convenção Americana59, e, dentre estes, 21 reconheceram a competência contenciosa da Corte60. Até julho de 2005, a Corte já havia proferido 127 sentenças, sendo que destas 57 são sentenças de mérito (ou seja, avaliam se evetivamente houve violação)61. A Corte tem duas competências: consultiva e contenciosa. Em relação à competência consultiva, qualquer membro da OEA pode solicitar o parecer da Corte relativo à interpretação da Convenção ou de qualquer outro tratado referente à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos. Ainda, a Corte pode opinar sobre a compatibilidade de preceitos de legislação interna em face dos instrumentos internacionais. Até julho de 2005, a Corte havia emitido 18 pareceres62. Em se tratando de sua competência contenciosa, apenas a Comissão e os Estados-partes (que expressamente reconhecerem a jurisdição da Corte) podem submeter um caso a Corte. Isto significa que o indivíduo depende da Comissão para que seu caso seja apreciado pela Corte, uma vez que ela é a dominus litis absoluto.

Argentina, Barbados, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Dominica, Equador, El Salvador, Granada, Guatemala, Haiti, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai, e Venezuela. Ressalte-se que Trinidad e Tobago denunciou a Convenção em 26 de maio de 1998.
59

Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai, e Venezuela.
60

PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e justiça internacional. São Paulo: Saraiva, 2006. p. 105.
61 62

Ibid., p. 100.

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Ao longo de sua história, a Corte já possuiu outros três regulamentos (1980, 1991, 1996), estando hoje em vigor o Regulamento de 2000 (a partir de 1 de junho de 2001). As inovações consagradas neste diploma são definidas pelo juiz Cançado Trindade como “o grande salto qualitativo” por considerar a proteção jurisdicional aos direitos humanos a forma mais efetiva de salvaguarda dos direitos humanos. Ao assegurar em seu artigo 23 que “depois de admitida a demanda, as presumidas vítimas, seus familiares ou seus representantes devidamente creditados poderão apresentar suas solicitações, argumentos e provas em forma autônoma durante todo o processo”, a Corte outorgou ao indivíduo o locus standi in judicio. Resta claro que as verdadeiras partes no caso contencioso perante a Corte são os indivíduos demandantes e o Estado demandado, e processualmente, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos como o titular da ação. O processamento do Estado perante a Corte se dá através de seis fases: (a) fase da propositura e exceção preliminar; (b) fase da conciliação; (c) fase probatória; (d) fase decisória; (e) fase das reparações; e (f ) fase de execução da sentença.
FASES TÓPICOS E CASOS - Apenas a Comissão e os Estados-partes da Convenção podem submeter um caso à Corte (art. 61, Convenção). - Citação do Estado. - Prazo para o Estado apresentar exceções preliminares, bem como seu exame pelo presidente da Corte. - Faculdade da Corte para convocar audiência. - Possibilidade do demandante desistir da ação. Se a desistência se der antes da citação, ela será aceita obrigatoriamente. Se ocorrer após a citação, a Corte ouvirá as partes. - Corte arquiva o processo ou continua (passa-se à 2ª fase). - As partes podem fazer um acordo. No entanto, cabe a Corte homologá-lo. - Citar o caso Maqueda (exemplo de acordo homologado pela Corte)63. - A propositura de solução amistosa é uma faculdade da Corte. - Prazo para a contestação. - As provas têm que estar elencadas na petição inicial ou contestação, salvo nas hipóteses previstas no art. 43, do Regulamento da Corte. - Corte pode produzir prova ex officio (art. 44, Regulamento Corte). - Os Estados não podem processar as testemunhas e peritos por suas declarações (art. 50, Regulamento Corte). - A sentença tem força jurídica vinculante e obrigatória. - Exposição dos votos dissidentes e concorrentes. - Não é obrigatória. Ocorrerá apenas quando a sentença de mérito não tratar das reparações (citar o caso Gangaram Panday64). - Excepcionalmente, admite-se aqui a participação do indivíduo de forma autônoma (art. 23, Regulamento Corte65). - Trata-se de uma nova etapa do processo: as partes serão intimadas novamente. - Possibilidade de uma nova conciliação entre as partes. - Há uma variedade de reparações que podem ser fixadas, dentre elas: reconhecimento da responsabilidade, indenização por danos material e moral, obrigação de investigar e punir os agentes responsáveis pelas violações, obrigações de fazer (ex: construir posto médico e escolar – caso Aloeboetoe66),.
63 A Comissão e o governo argentino acordaram pela libertação de Guilhermo Maqueda. Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Maqueda, Resolução de 17 de janeiro de 1995, Série C n. 18, § 27. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/ serie_c/index.html. RAMOS, André de Carvalho. Direitos humanos em juízo. São Paulo: Max Limonad, 2001. Capítulo IV. p. 220-225.

1. Fase da propositura e exceção preliminar

2. Fase da conciliação

3. Fase probatória

4. Fase decisória

Corte condenou o Suriname a pagar determinada quantia aos herdeiros da vítima, como forma de indenização pecuniária aos danos causados. Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Gangaram Panday, Sentença de 21 de janeiro de 1994, Série C n. 16, item 4 do dispositivo da sentença. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/ serie_c/index.html. André de Carvalho Ramos. op. cit.,. p. 168-179.
64 65 Trata-se de uma inovação trazida pelo novo Regulamento da Corte, em vigor a partir de 1º de junho de 2001. Regulamento aprovado pela Corte no seu XLIX período ordinário de sessões, celebrado do dia 16 a 25 de novembro de 2000.

5. Fase das reparações

Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Aloeboetoe e outros, Sentença de 10 de setembro de 1993 (reparações), Série C n. 15, § 20. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/serie_c/index.html. RAMOS, A. op. cit., p. 162-168.
66

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68. 68. tanto pendentes ante ela como ainda não submetidos a ela. no caso do Damião Ximenes. Quatro outras resoluções (agosto de 2002. Fase de execução da sentença . bem como seu dever de regulamentar e fiscalizar o atendimento médico de saúde”68. Diante do exposto. há de se concluir que a adesão do Estado brasileiro ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos. 68 Para ler a sentença na íntegra. a Corte determinou que o Estado brasileiro proteja a vida e integridade pessoal dos presos da Casa de Detenção “Urso Branco”. Em junho de 2002. .or. de modo a evitar danos irreparáveis à vida e integridade pessoal de indivíduos. em especial com a aceitação da jurisdição da Corte. . seu dever de cuidar e de prevenir a vulneração da vida e da integridade pessoal. A Corte as ordena com base em uma presunção razoável. Nos últimos anos.Caso o Estado não cumpra a sentença. abril de 2004. indaga-se: • • • O procedimento perante a Comissão pode ser renunciado pelo Estado? Qual é a posição da Corte a respeito? Os requisitos que devem ser observados para que uma petição seja admitida pela Comissão comportam exceções? Quais? Quais são os casos em que a Comissão pode adotar medidas cautelares ou requerer que a Corte adote medidas provisórias? Já houve algum caso em que a Corte requereu ao Brasil que adotasse medidas provisórias? Caso positivo. a pedido desta última (art.direitos humanos 6. É importante ressaltar que o Estado brasileiro aceitou a jurisdição da Corte em 10 de dezembro de 1998. FGV DIREITO rio 56 .cr/. 65. Convenção).Estado não pode alegar impedimento de direito interno como forma de se eximir do cumprimento da pena. A primeira sentença da Corte em face do Estado brasileiro foi editada em agosto de 2006. neste caso. a importante dimensão preventiva da proteção internacional dos direitos humanos.corteidh. Constam ainda dos procedimentos perante a Corte: dois casos de fundo (Damião Ximenes e Gilson Nogueira) e outra medida provisória (Adolescentes Internos da FEBEM). acesse o site da Corte Interamericana de Direitos Humanos: http://www. garantiu aos indivíduos uma importante e eficaz esfera complementar de garantia aos direitos humanos sempre que as instituições nacionais se mostrem omissas ou falhas. As medidas provisórias revelam. assim.A indenização se dará pelo processo interno vigente (art. Por fim. cabe a Corte indicar o caso em seu relatório à Assembléia Geral da ONU (art. o Estado as cumpriu? Quais foram as conseqüências? 67 Informações atualizadas em 25 de outubro de 2006. Convenção).2. julho de 2004 e setembro de 2005) também foram publicadas com o mesmo propósito.O Estado se compromete a cumprir integralmente a pena (art. .1. 63. reconhecendo a jurisdicionalização das violações de direitos humanos que engendram sua responsabilidade internacional.67 A Corte deixou claro que o Brasil “tem responsabilidade internacional por descumprir.2. Convenção). Estado de Rondônia. mas pendentes ante a Comissão. a Corte tem ordenado medidas provisórias de proteção em um número crescente de casos. na cidade de Porto Velho. Tais medidas têm sido ordenadas em casos de extrema gravidade ou urgência. Convenção).

direitos humanos • • Quantos casos contra o Brasil tramitam perante a Comissão? Qual é a natureza de ambos os informes da Comissão? Tendo em vista a inexistência de qualquer sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos em desfavor do Estado brasileiro. 63-99. 2003. 2001. p. 162-168. Direitos humanos em juízo. p. Responsabilidade internacional do Estado e decisões do Sistema Interamericano em 2003. 2006. Capítulo IV: caso Velásquez Rodriguez. p. Flávia. O esgotamento de recursos internos no direito internacional. p. p. Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. Direitos humanos e justiça internacional. Antônio Augusto. 98-118. pp. 2006. p. Capítulo III. caso Gangaram Panday. pp. São Paulo: Saraiva. Direitos humanos e justiça internacional. 225-232. 1997. São Paulo: Saraiva. 261-268. São Paulo: Max Limonad. 85-98. RAMOS. p. 220-225. cabem as seguintes indagações: • • • Há distinção entre sentença estrangeira e internacional? Deverão as sentenças ser examinadas pelo Supremo Tribunal Federal pela concessão do exequatur? Poderão os indivíduos demandantes executar perante a Justiça Federal? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. caso El Amparo. Legislação: Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem Convenção Americana sobre Direitos Humanos Carta da OEA Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Estatuto da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos Estatuto da Corte Interamericana de Direitos Humanos FGV DIREITO rio 57 . p. caso Maqueda. Brasília: Editora Unb. Flávia. 341-349. Capítulo VII. CEJIL Brasil. 168-179. Capítulo V. 118-145. André de Carvalho. 491-515. p. São Paulo: Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. caso Aloeboetoe. In: Direitos Humanos no Brasil 2003. PIOVESAN.

Foi alegada violação aos seguintes artigos da Convenção Americana de Direitos Humanos: 2 (dever de adotar disposições de direito interno). em um primeiro momento. prontamente. levando em consideração o divulgado pela mídia (haveria ocorrido um confronto armado com combatentes colombianos). localizada a 15km do local dos eventos. 29/93. No entanto. No dia seguinte. recomendando ao Estado venezuelano que punisse os autores do crime de homicídio praticado contra as vítimas de ‘El Amparo’. 8. membros do exército e da polícia do CEJAP (Comando Específico José Antonio Páez). Às 11:20 o barco parou e quando os pescadores desembarcavam. a Comissão instaurou o caso n. além de indenizar os familiares das vítimas. 24 (igualdade perante a lei) e 25 (proteção judicial).1 (obrigação de respeitar os direitos) pela morte de 14 dos 16 pescadores. 5 (direito à integridade pessoal). lhes ofereceu proteção. conforme o artigo 50 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção). abordaram Tovar a fim de saber o paradeiro de seus entes que haviam ido pescar no dia 29 e até agora não tinham retornado. data na qual adotou. Logo após.1. Os dois sobreviventes conseguiram escapar a nado e. que realizavam uma operação militar. mataram 14 dos 16 pescadores. foi impossível retirar os sobreviventes à força dali. 10. bem como violação aos artigos 5. Na tarde do dia 29. o Informe n. DO CASO O caso “El Amparo” foi submetido à Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte) pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) em face do Estado da Venezula no dia 14 de janeiro de 1994. 16 pescadores do povoado “El Amparo” dirigiamse ao Canal “La Colorada” para participar de um campeonato de pesca. Tovar começou a sofrer pressões por parte de policiais e militares para entregar os sobreviventes ao Exército. que tramitou até o dia 12 de outubro de 1992.direitos humanos Aula 10: Sistema Interamericano de Direitos Humanos: Estudo de Caso NOTA AO ALUNO 1. 24 e 25 em relação aos dois pescadores que conseguiram fugir. FGV DIREITO rio 58 . familiares. todos eles em concordância com o artigo 1. Tovar. Em virtude da presença de grande quantidade de pessoas diante da delegacia. se entregaram ao Comandante da Polícia de “El Amparo”. Em 10 de agosto de 1990. 4 (direito à vida). que. refugiaram-se na fazenda “Buena Vista”.1 (garantias judiciais). 8.602. o Inspetor chefe do DISIP (Direção dos Serviços de Inteligência e Prevenção) visitou Tovar e lhe informou que havia matado 14 guerrilheiros. Breve descrição dos fatos Em 29 de outubro de 1988.

2) decide que o Estado venezuelano está obrigado a continuar as investigações acerca dos fatos a que se refere e a sancionar os responsáveis. em voto dissidente. tal dispositivo não fora aplicado. Por fim. em 14 de janeiro de 1994. a própria existência de um dispositivo legal pode per se criar uma situação que afeta diretamente os direitos protegidos pela Convenção. dentre outras medidas: 1) fixa o valor da indenização aos familiares das vítimas às vítimas sobreviventes. a Corte. sendo reservado àquele tribunal a faculdade de aprova-lo. o Juiz Antônio Augusto Cançado Trindade expressa seu entendimento de que a Corte deveria ter esclarecido que tem a faculdade de decidir acerca da incompatibilidade entre os artigos do Código de Justiça Militar e a Convenção. argumenta o juiz Antônio Augusto Cançado Trindade que. 3) declara. 5. Requereu. alegando o seguinte: violação aos arts.1 (garantias judiciais). Na sentença de reparações de 14 de setembro de 1996. Em resumo.1. em sentença de 18 de janeiro de 1995. 54. 8. 4 (direito à vida). a Comissão propôs. pelo Estado venezuelano. 3) afirma que as reparações serão alvo de acordo entre a CIDH e o Estado. Breve descrição dos passos processuais Em um breve resumo. a Corte não acatou o pedido da Comissão Interamericana de Direitos Humanos sob o argumento de que. que não procedem as reparações não-pecuniárias nem pronunciamento sobre a conformidade do Código de Justiça Militar e a Convenção. e violação aos arts. 8. 24 (igualdade perante a lei) e 25 (proteção judicial). Isoladamente. 24 e 25 em relação aos dois sobreviventes. na qual assevera que tal exame somente seria possível no exercício de sua competência consultiva. incisos 2 e 3. todos eles em concordância com o artigo 1. Por outro lado.direitos humanos Em virtude falta do cumprimento. in casu. a Corte: 1) tomou nota do reconhecimento de responsabilidade efetuado pelo Estado venezuelano. que o estado indenizasse os familiares das vítimas. 2) decide que o Estado está obrigado a reparar os danos e pagar uma justa indenização às vítimas sobrevivente e aos familiares dos falecidos. em votação não unânime. uma ação de responsabilidade internacional contra o referido estado perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte).1 (obrigação de respeitar os direitos). pela morte dos 14 pescadores. Reiterou-se assim o posicionamento na Opinião Consultiva nº 14. a Comissão solicitou que fosse declarada a incompatibilidade do art. ainda. do Código de Justiça Militar com o objeto da Convenção. 5 (direito à integridade pessoal). Essa ação judicial foi possível tendo em vista que a Venezuela ratificou a Convenção em 9 de agosto de 1977 e reconheceu a competência da Corte em 24 de julho de 1981. não sendo necessário o aguardo da ocorrência de um dano. 2 (dever de adotar disposições de direito interno). FGV DIREITO rio 59 . do referido Informe.

I. 3. 4. Estado da Venezuela. FGV DIREITO rio 60 . cada grupo deverá construir argumentos acerca dos seguintes pontos: 1. 5. Vol. Antônio Augusto.html Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. DOS ARGUMENTOS Tendo por base as decisões do caso em tela.cr/seriec/ index_c. 09 – 40. 6. “El nuevo reglamento de la Corte Interamericana de Derechos Humanos (2000): la emancipación del ser humano como sujeto del derecho internacinal de los derechos humanos” in Revista Proteção Internacional da Pessoa Humana. Universitas –Centro Universitário de Brasília – UniCEUB. Corte Interamericana de Direitos Humanos. DOS POSICIONAMENTOS PROPOSTOS Dez alunos poderão participar da atividade. Familiares das Vítimas. RAMOS. André de Carvalho. e Voto dissidente do Juiz Antônio Augusto Cançado Trindade. os quais assumirão os seguintes posicionamentos: a) b) c) d) e) Comissão Interamericana de Direitos Humanos.corteidh. 2001. devendo estes ser divididos em cinco grupos. Direitos humanos em juízo. Indenização em geral e danos materiais Danos morais Efetuação do pagamento Reparações não pecuniárias Compatibilidade do Código de Justiça Militar com a Convenção Americana Dever de investigar e punir os responsáveis MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: Caso El Amparo Vs. Venezuela. São Paulo: Max Limonad.direitos humanos 2. Disponível em: http://www. No 2. 2. 3.or. p.

direitos humanos Legislação: Convenção Americana sobre Direitos Humanos Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos FGV DIREITO rio 61 .

crianças e idosos. O CICV permanece comprometido em realizar seu trabalho humanitário no Iraque e insta todas as partes a facilitarem a passagem de suas equipes de ajuda humanitária que levam assistência de maneira neutra aos civis afetados pelo conflito. e respeitando o princípio de distinção e proporcionalidade nas operações militares.org/Web/por/sitepor0. o Direito Internacional dos Refugiados (DIR) e o Direito Internacional dos Direitos Humanos (DIDH) apresentam aplicabilidades e mecanismos de supervisões diferenciados. abrigo e assistência médica. A organização faz um chamamento às partes para que tomem toda precaução possível poupando os civis e as propriedades civis. uma vez que tais vertentes possuem um elemento em comum: a proteção da pessoa humana. incluindo mulheres.nsf/html/66LLHJ!OpenDocument FGV DIREITO rio 62 . http://www. e sim intensificam sua complementaridade. conduz à inafastabilidade do estudo do DIH e do DIR.direitos humanos Aula 11: Direito Internacional Humanitário e Direito Internacional dos Refugiados NOTA AO ALUNO Nascidos em períodos históricos diversos. alimentos. conflitos armados. tratados Dia 09 de novembro de 2004 Comunicado melha de imprensa nº 04/62 do Comitê Internacional da Cruz Ver- Fallujah/Iraque (CICV) – O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) lembra a todos os envolvidos nos enfrentamentos armados em curso no Iraque que o Direito Internacional Humanitário proíbe agredir ou matar aos civis que não tomem parte diretamente das hostilidades. refugiados. deslocados. Muitos destes deslocados internos precisam de água. fugiram de Fallujah buscando refúgio nos arredores da cidade. o Direito Internacional Humanitário (DIH).cicr. Eles devem ter garantido o direito de retornar a suas casas o mais cedo possível. e o pessoal médico e seus veículos devem poder operar sem entraves em quaisquer circunstâncias. tais particularidades não afastam. Doentes e feridos. Todavia. Milhares de civis iraquianos. A realidade do mundo contemporâneo refletida em temas como guerra contra o terrorismo. O CICV está profundamente preocupado com relatos de que os feridos não estão podendo receber atenção médica adequada. São conflitos que atingem milhares de pessoas no mesmo momento em que você está lendo esse texto. As notícias expostas nas seguintes notas não nos contam ocorrências escondidas em algum capítulo da História. A organização insta os beligerantes a assegurar que todos os que precisem de cuidados – sejam ou não inimigos – devem ter acesso ao atendimento médico. entre tantos outros. Iraque: civis devem ser poupados.

em março de 2004. em 2005. “Penso que o CICV optou por uma boa solução quando decidiu concentrar suas operações de socorro nas regiões rurais com a intenção de evitar novos deslocamentos de populações e facilitar o retorno dos que partiram”. Neste caso. disse Kellenberger. o CICV presta assistência a meio milhão de pessoas em todo o Sudão. velando prioritariamente pelo conhecimento e respeito aos princípios básicos do Direito Internacional Humanitário. e em toda a cadeia de comando das forças governamentais. onde participa da Cúpula de Nairóbi para Um Mundo Livre de Minas http://www. além de artigos de primeira necessidade e socorro médico. Com um orçamento de US$ 112 milhões.nsf/iwpList4 747E1213A0B72DE90325 6F5F005B3500 FGV DIREITO rio 63 .cicr. o maior teatro de operações do CICV em todo o mundo. Além de fazer conhecer o Direito Internacional Humanitário e de assegurar o respeito por estas normas. em todas as ocasiões. Do Sudão. na África. o presidente do CICV irá ao Quênia.org/web/por/sitepor0. O presidente do CICV encontrou-se com diversas autoridades do governo sudanês. de ambos os lados do conflito. Frente às graves violações do Direito Internacional Humanitário cometidas sob responsabilidade do governo. Kellenberger reconheceu que o acesso às vítimas do conflito armado no Darfur melhorou sensivelmente desde de sua última visita à região. fornecendo água e alimentos. em terreno. o Sudão será. O governo deve também tomar as providências para acabar com a impunidade dos culpados por violações. fronteira entre o Chade e o Sudão. Kutum e Zalingei. na região do Darfur. que este retorno deve ser absolutamente voluntário e que as condições de segurança para os civis devem ser consideravelmente reforçadas nestas áreas. Por outro lado ele destacou. Kellenberger formulou uma série de recomendações destinadas a melhorar a proteção da população civil. Kellenberger deixou claro que o CICV seguirá de perto a implementação das recomendações apresentadas. As operações do CICV são realizadas em cooperação com o Crescente Vermelho Sudanês e outras Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho.direitos humanos Sudão: presidente do CICV reforça importância do respeito ao Direito Internacional Humanitário Dia 30 de novembro de 2004 Comunicado melha de imprensa nº 04/71 do Comitê Internacional da Cruz Ver- Cartum/Genebra (CICV) – O presidente do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) Jakob Kellenberger terminou hoje uma visita de três dias às cidades de El Fasher.

A maioria é de africanos e latino-americanos. para eles. Aqui.2 mil dos 1. Luis Varese. existem pelo menos outros 6 mil refugiados que vivem no Brasil. Sozinhos em um país estranho e vivendo de forma ilegal. Barreiras na fuga. que atravessou quase todo o continente africano fugindo de massacres e guerras civis. a pessoa passa a gozar de total liberdade dentro do território nacional. fornecidos pelo Acnur. “Eles sabem que não serão deportados. famílias inteiras de desterrados. é analisado pelo Comitê Nacional para Refugiados (Conare). homens com idade entre 20 e 25 anos. órgão ligado ao Ministério da Justiça. CPF e carteira de trabalho e. que pode levar seis meses. Mesmo assim. ideológicas e religiosas. conta que a maioria dos que não conseguem obter o status permanece no Brasil assim mesmo. diz. Já no Brasil. é preciso provar que se corre risco de vida no país de origem. Recebe cédula de identidade de estrangeiro. proteger e ajudar a integrar refugiados. e no Brasil A primeira barreira que o refugiado enfrenta é a viagem de fuga. São mulheres e. Outros vagam anos a pé até conseguir embarcar em aviões. 38 anos. O elo que os une: expulsos por terríveis guerras civis. violências étnicas e tribais e outras violações graves de direitos humanos. tem direito a um salário mínimo e medicamentos. Só se cometerem uma infração grave. A assistente social Denise Orlandi Collus. vivem com medo”. cerca de 35% das pessoas que entram com processo para pedir o reconhecimento como refugiado têm essa condição validada. fugiram de seus países de origem e realizaram verdadeiras façanhas para chegar ao Brasil. É preciso ultrapassar a fronteira de sua terra natal para pedir proteção ao governo do Brasil – país signatário do tratado da Convenção de Genebra. Voltar para casa. perseguições políticas. em grande parte. Às vezes. Para chegar ao País. em São Paulo. de 1951. FGV DIREITO rio 64 . por um período médio de seis meses. A condição pode ser estendida aos familiares e dependentes que se encontrem em território nacional. Com a ratificação. pediram refúgio ao governo e tentam reconstruir suas vidas. O processo.5 mil refugiados que vivem na cidade. seria o mesmo que morrer. em meio a lembranças de dor e sofrimento. mas que ainda não conseguiram o direito de viver em território nacional. Segundo o representante no Brasil do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). Com o mesmo perfil. e que desde 1997 tem uma lei nacional específica na qual se compromete a receber. como conta neste especial o africano da Costa do Marfim Edmond Kouadio. permanecem com medo da deportação.direitos humanos Refugiados no Brasil: o lado humano dos conflitos que assolam o mundo em território nacional Por Patrícia Pereira Há 3 mil refugiados no Brasil. que trabalha no Sesc Carmo. onde são oferecidos programas de apoio a imigrantes e por onde já passaram cerca de 1. muitos viajam como clandestinos em cargueiros e enfrentam dias de fome e tensão.

notadamente no que se refere à proteção da pessoa humana. todavia. com mulher e quatro filhas. cabe a exploração de alguns elementos do DIH e do DIR.direitos humanos Enquanto aguarda o resultado do processo os refugiados procuram aprender a língua. o DIH protege a pessoa humana em conflitos armados e o DIDH em todos os tempos. sempre tendo como parâmetro o DIDH. enfrenta o desemprego e a desilusão das filhas provocada pela queda na qualidade do ensino. O crescente número de refugiados vindos da América Latina – principalmente Colômbia.”71 Se a guerra é o campo do conflito. http://www. Jaime Ruiz de (orgs. Surge então uma nova barreira: a do preconceito. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor. organização não-governamental de assistência e proteção aos refugiados ligada à Igreja Católica. 275. Com os papéis em mãos. Antônio Augusto.). p. trabalhava na Cruz Vermelha. Antônio Augusto. Peru e Cuba – nos últimos anos reforça esse grupo. Gerard.htm As duas primeiras notas de imprensa são datadas de novembro de 2004. responsável por implementar o programa do Acnur em São Paulo e no Rio de Janeiro. é preciso compreender algumas limitações acordadas pelos Estados de forma a tornar os conflitos armados menos danosos. FGV DIREITO rio 65 . conta Denise. e o segundo à proteção de certos direitos básicos também em diversas situações de conflitos e violência. Gerard. Histórico: Como foi estudado na aula 02 – Desenvolvimento Histórico dos Direitos Humanos. PEYTRIGNET. CR: Instituto Interamericano de Direitos Humanos. A normatização do conflito visa precisamente à mitigação de seus efeitos e a sua não transformação em uma barbárie absoluta. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. Comitê Internacional da Cruz Vermelha. o direito das partes em conflito de escolher livremente os métodos e os meios utilizados na guerra. In: CANÇADO TRINDADE. As três vertentes da proteção internacional dos direitos da pessoa humana. e SANTIAGO. “O refugiado é quase sempre visto como bandido ou traficante.br/especial/refugiados. adaptar-se aos hábitos dos brasileiros e integrar-se socialmente. Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. “Sistemas Internacionais de proteção da pessoa humana: o direito internacional humanitário”. o que dificulta sua entrada no mercado de trabalho”. de 45 anos. especificamente aplicável aos conflitos armados. evitando que sejam afetados as pessoas e os bens legalmente protegidos. Dificilmente ele consegue exercer no Brasil a profissão que desempenhava antes. por que será que existem normas que regulamentam as condutas perpetuadas nesse período? Haveria uma contradição entre conflito e regras a serem cumpridas? A resposta é não. San José.estadao. respectivamente acerca dos conflitos vividos no Iraque e Sudão. a terceira nota reflete um panorama dos refugiados no Brasil. por razões humanitárias. a urgência passa a ser conseguir emprego e moradia. Volume I.”70 Quais elementos são característicos do DIH? Definição: “trata-se do corpo de normas jurídicas de origem convencional ou consuetudinário. “mais recentemente o primeiro temse voltado também para situações de violência em conflitos internos. Tendo em vista que a Carta das Nações Unidas legitima expressamente o uso da força em circunstâncias limitadas. internacionais ou não-internacionais. como o colombiano Juan (nome fictício). Direito Internacional Humanitário e Direitos Internacional dos Direitos Humanos: tradicionalmente. 1996. que é jornalista e especializou-se em prevenção e administração de desastres. o DIH pode ser indicado como precursor da internacionalização CANÇADO TRINDADE. têm a ajuda da Cáritas. 1997. São pessoas com formação universitárias e politizadas. 70 71 PEYTRIGNET. Por sua vez.com. No Brasil. Na Colômbia. Para isso. e que limita. Após essa leitura. A boa formação do refugiado acaba às vezes sendo um ponto negativo para a integração.

O enquadramento moderno é marcado pela Convenção de Genebra de 1864 para melhoramento da condição de feridos no campo. o genebrino Henry Dunant presenciou as atrocidades da batalha de Solferino. em companhia de outros genebrinos. Por iniciativa do CICR.direitos humanos da proteção da pessoa humana. a preocupação com as guerras de libertação nacional e a necessidade de regulamentação dos conflitos armados não-internacionais conduziram ao chamamento de uma conferência internacional em 1977. Convenção de Genebra II – protege os feridos. É importante lembrar que nesse momento. Era necessário um compromisso mais efetivo por parte dos Estados para o estabelecimento de uma ordem mundial pós-1945. a Suíça convocou uma conferência em Genebra no ano de 1949. estabeleceu o marco normativo moderno do DIH. Esse esforço normativo é resultado da barbárie vivenciada nos campos de guerra existentes na Europa durante o século XIX. o Protocolo Adicional I amplia a definição de conflito armado internacional por incorporar aqueles nos quais se luta contra regimes de dominação colonial ou contra regimes racistas. e Protocolo Adicional II – disciplina a previsão do artigo 3º comum e sua aplicabilidade a conflitos armados internos. que. sob comando responsável e exercendo controle sobre certa parte do território. o qual veio a ser chamado logo após de Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). O Protocolo II foi ratificado por 156 países. norte da Itália. Principais tratados: tal passo não foi suficiente para evitar os resultados trágicos das duas Grandes Guerras Mundiais. em seus 10 artigos. FGV DIREITO rio 66 • . doentes e náufragos das Forças Armadas no mar. realizada também em Genebra. e Convenção de Genebra IV – inaugura a preocupação com a população civil. o livro “Recordações de Solferino”. no qual propõe a criação de entidades de socorro privadas em cada país e a elaboração de um acordo internacional que facilitasse o trabalho das mesmas. Publicou. Em 1859. Condições: forças armadas dissidentes ou outros grupos armados organizados. Em 1863. em 1862. da qual resultaram os diplomas que constituem a chave-mestra do DIH: • • • • Convenção de Genebra I – protege os feridos e doentes das Forças Armadas em campanha. tendo sido ratificado por 161 países. Todavia. A convite do governo suíço. Dunant fundou o Comitê Internacional de Ajuda aos Feridos. o mundo era formado por poucos Estados e não existiam instâncias multilaterais que pudessem monitorar o uso da força. Convenção de Genebra III – protege os prisioneiros de guerra. • Protocolo Adicional I – em nome do princípio da auto-determinação dos povos. para a elaboração de dois protocolos adicionais às Convenções de Genebra. A extensão de sua aplicabilidade e a ratificação por parte de 191 países fazem com que o DIH seja denominado muitas vezes de o “Direito de Genebra”. foi celebrada uma conferência no ano de 1864 que aprovou o Convênio para a proteção dos feridos no campo. entre franceses e austríacos.

cicr. Disponível em: 145 O Direito de Nova Iorque combatentes armas que. assim como os danos causados a bens de caráter indiscriminados e a obrigação de tomar medidas de precaução a fim de evitar. de armas bacteriológicas e sua b) Convenção de 1993 – proibição de armas químicas e sua principais tratados constantes do destruição.cicr. assim limitados emprego de armas. 256DEA00349CD7).nsf/htmlall/section_ihl_conduct_of_hostilities?OpenDocument. Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos náufragos. oAcesso número de mortos feridos entre danos causados a bens de caráter http://www.cicr. também denominado “mini-convenção” são aplicáveis a conflitos armados não-internacionais. Em tratados específicos são causem proibidos ou proibidas de acordo com esse único argumento. encontram-se: a) Convenção de 1992 – proibição iwpList104/A586AE20F1419C1 http://www. Disponível em: cicr. produção e 146 FGV DIREITO rio 67 Acesso em: 19 e sobre de junho de 2005. Respeitar os civis e seus bens. 2005. ou incendiárias. população ou bens caráter civil.nsf/iwpList104/846A586AE20F1419C1256DEA00349CD7) Acesso em: 19 de junho de 2005.” em: e de19 de os civis. armas químicas e sua transferência de minas anti-pessoais e sobre a sua destruição. assim como os prisioneiros ou detidos. Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos náufragos. químicas. em qualquer ataques diretos contra pessoas de civis. o professor poderá apresentar Princípios fundamentais: De acordo com gráficos apresentados no site do CI146 De72 acordo com gráficos apresentados no site do CICV146 .” sanitárioAcesso nem suas instalações http://www. Tratar com humanidade o adversário que se rende ou é Tratar com humanidade capturado. De acordo com gráficos apresentados no site do CICV146. como biológicas.cicr. b) Convenção 1993 –do proibição deestocagem..org/web/por/sitepor0. e em qualquer situação civil. o professor poderá apresentar aos . Disponível em: como de projéteis que explodem ou se alastram facilmente no corpo em: 19 de junho de em: http://www. estocagem. 146 146 http://www. Somente podem ser atacados os objetivos militares. sejam combatente fora de combate. e c) Convenção de 1997 – Tratado de Otawa: de proibição emprego. por natureza. o adversário que se rende ou é capturado.cicr. no corpo humano.org/web/por/sitepor0.org/web/por/sitepor0. junhoassim como de os 2005. bastando o fato de um conflito armado.nsf/htmlall/section_ihl_conduct_of_hostilities?OpenDocument.nsf/htmlall/section_ihl_weapons?OpenDocument. sem discriminação alguma.org/Web/por/sitepor0.org/web/por/sitepor0. náufragos. destruição.direitos humanos As convenções e o Protocolo I são aplicáveis a conflitos armados.nsf/ principais tratados constantes do Direito de Nova Iorque. Disponível em: http://www. população civil ou bens de caráter civil. Disponível em: minimizar. e c) Convenção de 1997 – Tratado de Otawa: proibição do emprego. encontram-se: a) Convenção de 1992 – proibição destruição. o Protocolo II e o Artigo 3 comum às Convenções. minimizar. ataques diretos contra pessoas civis. assim como os prisioneiros ou detidos. sejam Não “proíbe causar aos sofrimentos ou empregar danos excessivos.nsf/iwpList104/846A586AE20F1419C1256DEA00349CD7) . Dentre os e permitir que façam seu trabalho. Asúnico armas que violam os "ditames da consciência pública" também podem ser Não atacar o pessoal médico ou sanitário nem suas extensos. 72 assim Acesso em: 19 junho 2005. Direito de Nova Iorque.” Acesso em: 19 de junho de 2005.org/web/por/sitepor0. laser cegantes ou em: incendiárias. Em tratados específicos são proibidos ou como de projéteis que explodem ou secomo alastram facilmente químicas. o que significa o envolvimento de dois ou mais Estados.org/Web/por/sitepor0. As armas que violam os "ditames da consciência pública" também podem ser indiscriminadas ou que possuam características que causarão sofrimento maior ao requerido para deixar um proibidas defora acordo com esse argumento. Por sua vez. Está proibido o emprego de armas que causem danos combatente de combate. o número de mortos e de feridos entre os civis. ae proibição dos situação ataques Não causar sofrimentos oude danos excessivos. sem discriminação alguma. Tratar com humanidade o adversário que se rende ou é capturado. Disponível Não atacar o pessoal médico ou humano.nsf/htmlall/section_ihl_weapons?OpenDocument.cicr. alunos uma linguagem dos princípios CV é possível enumerar os representativa princípios regedores do DIH: gerais regedores do DIH: aos alunos uma linguagem representativa dos princípios gerais regedores do DIH: Somente podem ser atacados os objetivos militares. o duradouros e certas graves ao meio ambiente natural. a proibição dos ataques indiscriminados e a obrigação tomar medidascivil de precaução a fim de evitar. Respeitar os civis e seus bens. 145 145 indiscriminadas ou que possuam causarão sofrimento requerido para deixar um O Direito de Nova Iorque características “proíbe aos que combatentes empregar maior armas ao que. produção e de armas bacteriológicas e sua destruição. Está proibido o emprego de armas que danos instalações e as permitir que façam seu trabalho. sem discriminação alguma. Importante ressaltar que a aplicabilidade de tais normas não está condicionada à declaração formal de guerra. assim como os prisioneiros ou detidos. por natureza. Somente podem ser atacados os objetivos militares. duradouros e graves ao meio ambiente natural.” Acesso 19 de junho de limitados o emprego de certas armas. as biológicas. http://www. Disponível em: transferência de minas anti-pessoais a sua destruição. civil. Dentre os 2005. laser cegantes extensos.

Nesse sentido. deve assegurar medidas de controle. vez da cruz vermelha. Estabelece ainda que. Tal instituição foi consagrada pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas de 1961. o sinal cruz vermelha em por fundo branco. Disponível em: http://www. as fronteiras estatais diminuem no que concerne a mercadorias. uma vez que a violação das regras de DIH corresponde à violação de regras de caráter interno.Não causar sofrimentos ou danos excessivos. Por fim. unidades e meios forma a compatibiliza-la. meio de tais gráficos à relevância concedida cores federais. de infrações às normas de DIH: tendo em vista a necessidade de se estabelecer uma autoridade neutra capaz de arbitrar um conflito armado. náufragos. Assume ainda a obrigação de adotar medidas preventivas.. notadamente penal e processual. causado muitas vezes pelas próprias decorrências do capitalismo que não encontra nas fronteiras a mesma flexibilidade. os são enfermos. por outro.cicr. como a de difusão do conteúdo dos tratados. confisco etc . por meio da nomenclatura ‘Potência Protetora’. serviço e principalmente a capitais. fundamentais à determinação ment. Direitos Humanos e Direito dos Refugiados A globalização econômica desnuda um paradoxo: por um lado. Considerada a dificuldade de eleição de tal Estado. pessoal fundo branco. seja comum ou militar. nunca estiveram tão altas no que concerne a pessoas. o Protocolo I de 1977 convencionou a criação da Comissão Internacional de Apuramento dos Fatos. Vivencia-se hoje um enorme fluxo migracional. o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) acaba por agir como substituto da potência. Não colocar obstáculos ao pessoal da Cruz Vermelha no desempenho de suas funções. para os países que empregam já como sinal distinde em sua condição. estes emblemas igualmente reconhecidos nos termos da presente Convenção.. seja em tempo de paz ou de guerra. des Acesso em: 19 de junho de 2005. notadamente no que se refere às normas de caráter penal 147 de transporte sanitários. prisioneiros de guerra. De acordo com o artigo 38 da Convenção I de Genebra. Bens protegidos: aqueles que devem ser protegidos contra Aplicabilidade do DIH: ao assinar um tratado de DIH. sanitário e religioso. em Assim são tivo. represálias. em homenagem à Suíça. em virtude exércitos.nsf/htmlall/section_ihl_protected_persons_and_property?OpenDocu Igualmente. instituição imparcial capaz de acompanhar a veracidade das alegadas violações ao DIH. formado pela inversão das Cabe ao heráldico professorda chamar à atenção. Não colocar obstáculos ao pessoal da Cruz Vermelha no desempenho de suas funções. direitos humanos Não atacar o pessoal médico ou sanitário nem suas instalações e permitir que façam seu trabalho. civis. captura. mas também a adequar a sua legislação interna de Exemplos de bens protegidos: bens de caráter civil e bens culturais. o crescente vermelho ou o leão o sol vermelhos considerados os feridos. o Estado deve envidar todos os esforços para cessar condutas que afrontam o DIH e deve punir os autores de condutas adversas a esse direito.). FGV DIREITO rio 68 . comum e militar e processual penal comum e militar. o direito consuetudinário 162 reconheceu. é mantido como emblema e sinal distintivo do serviço de saúde dos pelo DIH a duas categorias específicas: Pessoas protegidas: pessoas que. o Estado obriga-se não ataques ou outros atos hostis (destruição.org/Web/por/sitepor0. é também tarefa do Estado estabelecer medidas de repressão. Por sua vez. apenas às normas nele constantes. merecem tratamento especial por eparte do DIH. em especial a autorida147 civis e militares. a designação de um Estado alheio ao conflito.

A ampliação do conceito também teve palco no continente americana.. A proteção ao refugiado encontra abrigo no marco fundamental dos direitos humanos: assinada em 1948. A Convenção estabeleceu a definição clássica de refugiado como qualquer pessoa que: (. 74 FGV DIREITO rio 69 . Todavia. p. e ALMEIDA.) em conseqüência de acontecimentos acorridos antes de 1o. está obrigada a abandonar sua residência habitual para buscar refúgio em outro lugar for do seu país de origem ou do país de sua nacionalidade. 2001. Nádia de. tendo como base a idéia de perseguição. se encontra fora do país de sua nacionalidade e que não pode ou. se não tem nacionalidade e se encontra fora do país no qual tinha sua residência habitual em conseqüência de tais acontecimentos não pode ou. 134 países comprometeram-se com a causa no momento da assinatura da Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 e do Protocolo de 1967. a Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelece que toda pessoa vítima de perseguição tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países. não quer valer-se da proteção desse país ou que.direitos humanos É claro que o ‘deslocar-se’ faz parte da história. O termo “refugiado” aplicar-se-á também a toda pessoa que. em determinadas situações. In: ARAÚJO. “Revisitando o conceito de refúgio: perspectivas para um patriotismo constitucional”. o que se coaduna perfeitamente à dualidade de sistemas vivenciada no pós-guerra: os refugiados podiam ser vistos como troféus de um sobre o outro. Em sua terceira conclusão. 73 O Protocolo de 1967 veio justamente a retirar a restrição temporal impressa pela Convenção. religião. erigindo a necessidade de revisão do conceito do refúgio. uma ocupação ou uma dominação estrangeira ou de acontecimentos que pertubem gravemente a ordem pública em uma parte ou na totalidade de seu país de origem. em virtude desse temor. A primeira iniciativa de ampliação encontra-se na Convenção da Organização da Unidade Africana. de janeiro de 195173 e temendo ser perseguida por motivo de raça. inciso 2: 2. Rio de Janeiro: Renovar. no contorno específico da figura do refugiado. aprovada em 1969. O Direito Internacional dos Refugiados: uma perspectiva brasileira. estabelece que: MELO. grupo social ou opiniões políticas. entrando em vigor em 1974. por ocasião da Declaração de Cartagena de 1984. devido ao referido temor. Carolina de Campos. Nesse sentido. Originalmente. Guilherme de (orgs. Estabelece. O Direito Internacional dos Refugiados vem galgando importantes passos ao longo de sua história. “criado em um contexto de Guerra Fria. a realidade internacional demonstrou a incapacidade desse conceito jurídico em dar uma resposta a situações fáticas..). nacionalidade.”74 Há de se destacar que a concepção clássica de refúgio. por causa de uma agressão exterior. adaptando-no à realidade regional. mas foi o final da SegundaGuerra Mundial o marco inaugural para o abrigo internacional a sua proteção. ou do país de sua nacionalidade. caracteriza-se como subjetiva e individual. não quer voltar a ele. em seu artigo 1. este conceito tem como centro a questão da perseguição. concebida no descrito contexto. 267.

cit. 75 76 Idem. e dentro das características da situação existente na região. Nesse sentido. parágrafo 2) e a doutrina utilizada nos informes da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Não se pode mais alimentar a compartimentalização da proteção da pessoa humana. Percebe-se uma clara objetivação do conceito de refúgio. p. violações maciças de direitos humanos e conflitos armados podem ser indicados por fatores determinantes para a saída de determinados grupos de um país. A.direitos humanos (. Por fim. mas a violação de direitos humanos assume a condição de situação que acarreta refúgio. 320. cabem alguns esclarecimentos: ultrapassada a concessão de refúgio por órgão independente e especializado. por ocasião da Declaração de San José. o qual deixa de ter a idéia de perseguição como fundamental. Dentre elas. no que concerne à solução duradoura. interação local.”76 No que se refere à etapa preventiva. deve ser estipulada uma solução considerada duradoura para os refugiados. nos últimos anos. É precisamente nesse sentido que se constrói a estratégia do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). segundo as razões que os teriam levado a abandonar seus lares. segurança ou liberdade foram ameaçadas pela violência generalizada. Esta declaração aprofundou as relações entre o DIR e o DIDH ao tratar de forma mais aprofundada questões deslocamentos forçados. considere também como refugiados as pessoas que fugiram de seus países porque sua vida. “vem-se passando gradualmente de um critério subjetivo de qualificação de indivíduos. op. Afinal. foram as necessidades de proteção que levaram o ACNUR. o DIDH deve contracenar com o DIR em três momentos: prevenção. proteção e solução. Cumpre ressaltar que os países americanos reiteram a perspectiva ampliada do conceito de refúgio no ano de 1994. tendo-se em conta.. a um critério objetivo concentrado antes nas necessidades de proteção. reassentamento). De acordo com Cançado Trindade. 322. desse modo. uma década depois de Cartagena. “A visão tradicional concentrava atenção quase que exclusivamente na etapa intermediária de proteção (refúgio). a violação massiva dos direitos humanos ou outras circunstâncias que tenham perturbado gravemente a ordem pública. destaca-se a integração local. no pertinente. cabendo ao Estado CANÇADO TRINDADE. a ampliar seu enfoque de modo a abranger também a etapa ‘prévia’ de prevenção e a etapa ‘posterior’ de solução duradoura (repatriação voluntária. Por sua vez. A. resta claro que o DIR e o DIDH passam a ter não apenas progressiva interação. constituindo campo de implantação concomitante do DIDH e do DIH. a agressão estrangeira. p.. o precedente da Convenção da OUA (artigo 1. a etapa da proteção tem no princípio do non refoulement sua principal viga.) faz-se necessário encarar a extensão do conceito de refugiado. a definição ou conceito de refugiado recomendável para sua utilização na região é aquela que além de conter os elementos da Convenção de 1951 e do Protocolo de 1967. Tanto a concepção africana quanto a americana demonstram como a realidade conduziu a necessidade de adequação da Convenção de 1951. FGV DIREITO rio 70 . os conflitos internos.”75 Os conceitos descritos conduzem ainda à premissa que permeia a presente aula.

o Estado brasileiro aceitou as vítimas da guerra civil angolana com base na Declaração de Cartagena. Por fim.78 De acordo com a tabela abaixo. br/site/noticias/17275. Mas. o mesmo não se pode dizer dos deslocados. Originalmente criado com tarefa restritiva aos refugiados. Disponível em: h t t p : / / w w w. Disponível em: h t t p : / / w w w. Por mais que as condições que expulsam os refugiados e os deslocados de seus lares possuam o mesmo cerne – afirmativa que encontra respaldo no conceito objetivo de refugiados – somente aquele que cruza a fronteira pode perquirir o status de refúgio. há também o reassentamento quando o refugiado vai para um terceiro país.506 274 181 113 3074 Acesso em: 27 de junho de 2005. retornados. op. o Brasil recebe hoje milhares de refugiados. sendo absolutamente necessária a anuência do refugiado. apátridas. G. no ano de 2004. a qual estipula o Brasil aceitaria somente refugiados originados do continente europeu. nem todas as pessoas que têm que deixar seus lares cruzam as fronteiras. o ACNUR assevera que “o número global de refugiados baixou em 4%. o dado global de pessoas das quais se ocupa o ACNUR. apesar do decréscimo. é possível vislumbrar o atual retrato dos refugiados no Brasil: Tabela 1 – Total de Refugiados no Brasil em fevereiro de 200579 (acnur e conare) Continente de procedência África América (América Latina e Caribe) Ásia Europa Total Total  2. 79 FGV DIREITO rio 71 .”77 Por fim. solicitantes de asilo e retornados. Como ilustrado o terceiro texto inicial da Nota ao Aluno. o ACNUR tem desenvolvido diversas atividades que contemplam os deslocados. Como ressalta Guilherme de Almeida. Cabe também a repatriação. em retrospectiva histórica. asp?lang=PT&cod=17275. O diagnóstico das nacionalidades vêm sofrendo alterações ao longo dos anos. ao incorporar a Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951.2 milhões. Se o número de refugiados vem diminuído ao longo dos últimos anos. c o m .4 milhões de deslocados internos aumentou para 19. o Decreto nº 50. incluindo os solicitantes de asilo. c o m . pp. 155 a 159.2 milhões o total atual. Todavia. alguns grupos fossem recebidos com outro título.215. o Brasil recebe cerca de 1200 angolanos. cabem aqui algumas ponderações sobre os refugiados no Brasil. br/site/noticias/17275.direitos humanos todas as providências necessárias para o exercício dos direitos humanos por parte dos refugiados. até que fosse levantada em 1989. Fonte: CONARE Acesso em: 27 de junho de 2005. apátridas e um total de 6. como educação e trabalho. como foi o caso de 150 vietnamitas em 1979/80 e 50 famílias Bahai (Irã) em 1986. estabelece uma “reserva” geográfica. asp?lang=PT&cod=17275. Tal cláusula fez com que. estimandose em 9. Entre os anos de 1992 e 1994. a d i t a l. o mais baixo em quase 25 anos. Em se mais recente Relatório. de forma a garantir o princípio do non refoulement. a d i t a l. cit. 77 78 ALMEIDA. de 28 de janeiro de 1961. mesmo em momento anterior à elaboração da Lei nº 9747/97 que abrigou tanto a concepção clássica quanto a ampliada de refugiado. Interessante ressaltar que.

É certo que a ampliação da definição constitui uma forma de se contemplar grupos que tiveram que deixar seus lares por diferentes razões. Guilherme Assis de. Tratado de direito internacional de direitos humanos. como é o caso dos deslocados. Vol. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Diante de todo o exposto. 2001. I. VIII. VIII. Nádia de. Órgão coletivo sediado no Ministério da Justiça. as seguintes perguntas poderão auxiliar o professor na condução da aula: • • • • • • • Quais são as principais interações entre o DIDH. Antonio Augusto. o CONARE é responsável pelo exame das solicitações de refúgio e pela elaboração de políticas públicas para os refugiados. há de se ressaltar que nos últimos anos. pp. momento de constituição do Comitê Nacional para Refugiados (CONARE). 1997. voltamos ao objeto desse curso: a efetiva proteção dos direitos humanos. a elasticidade conceitual deve ser respeitada pela aplicação de medidas preventivas que evitem que refugiados e deslocados tenham que dar início à partida. A contabilidade de refugiados e deslocados está recortada a um determinado período histórico.direitos humanos Tais números refletem os pedidos de refúgio acolhidos antes e depois de 1998. itens I e II). Tratado de direito internacional de direitos humanos. e ALMEIDA. notadamente provenientes da Colômbia. Dentre elas. pp. Rio de Janeiro: Renovar. Todavia. FGV DIREITO rio 72 . organizações internacionais como o ACNUR tiveram que expandir o universo de grupos sob sua responsabilidade. 1997. I. Todavia. O direito internacional dos refugiados: uma perspectiva brasileira. DIH e DIR? Qual a principal distinção? Porque a guerra deve ser objeto de restrições? Quais os princípios regedores do DIH? O que significa o princípio do non refoulement? Qual é a diferença normativa entre refugiados e deslocados? Quais requisitos devem ser preenchidos para a aquisição do status de refugiado no Brasil? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. 270-284 (Cap. Vol. Leitura acessória ARAÚJO. Fica clara a preponderância de refugiados de origem africana. itens III e XII). 284-352 (Cap. CANÇADO TRINDADE. Da mesma forma. Antonio Augusto. torna-se significativo o número de refugiados latinoamericanos.

pp. “O direito de asilo e a proteção internacional dos refugiados”. Buenos Aires: Centro de Apoyo en Comunicación para América – Comitê Internacional de la Cruz Roja. Introducción al derecho internacional humanitario. 2003. Frits e ZEGVELD. PIOVESAN. Legislação: Constituição Federal de 1988 Convenções de Genebra de 1949 Protocolos Adicionais de 1977 Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 Atividade Complementar: Filme “O Resgate do Soldado Ryan” de Steven Spielberg. Temas de Direitos Humanos. Flávia. Restricciones en la coducción de la Guerra.direitos humanos KALSHOVEN. In: PIOVESAN. FGV DIREITO rio 73 . Flávia. São Paulo: Max Limonad. 115 – 146. pp. 2003. 21 – 41. Liesbeth.

Diante do acontecido. Dentre os principais argumentos. não conseguiram entender o que lhe era solicitado. destaque-se: Ministério da Defesa Sustenta que o Estado brasileiro tem o dever de defender sua soberania nacional – um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito – sempre em conformidade com as normas legais. a hipótese do abate do avião colombiano. embora não tivessem percebido. é membro da Associação Amigos das Sementes. após ordem do Comandante da Aeronáutica. tipo de aeronave. nível de vôo. foi disparado tiro com o intuito de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo. a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados convocou uma Audiência Pública. Santiago e seu co-piloto. foram fotografados por uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) a fim de verificar. não conseguiu identificar a aeronave. que possui membros em toda região amazônica. ao entrar no sistema informatizado do Departamento de Aviação Civil (DAC). Em 20 de outubro de 2004. conduziram-na à condição de suspeita. Ao entrarem no espaço aéreo brasileiro. sua matrícula. por um problema técnico. quando partia da Colômbia para a Ilha de Marajó. mais conhecida como Lei do Abate. na qual foi debatido exaustivamete o assunto. FGV DIREITO rio 74 . A impossibilidade de identificação da aeronave e a procedência da Colômbia. inclusive no Peru. fazendo com que a comunicação fracassasse. Tais dados foram enviados a Autoridade de Defesa Aeroespacial que.direitos humanos Aula 12: Os direitos civis e políticos: direito à vida NOTA AO ALUNO Santiago Gúzman. colombiano. Santiago Gúzman realiza o transporte de sementes medicinais entre diversas localidades em seu avião de pequeno porte. Há mais de 10 anos. Estado do Pará. Antônio Gonzales foram as primeiras vítimas da Lei do Tiro de Destruição. entre outras coisas. Dessa forma. emitindo sinais visuais para o pouso imediato da aeronave. Colômbia e Venezuela. mas os pilotos. uma das aeronaves da FAB disparou tiros de advertência laterais à aeronave. No entanto. Pelo fato de Gúzman e Gonzales terem prosseguido em sua rota. Estiveram presentes autoridades. Logo em seguida. o avião foi considerado hostil. representantes de organizações e familiares das vítimas. o piloto da FAB tentou contato via rádio. Tiveram início as medidas de intervenção: duas aeronaves da FAB aproximaram-se ostensivamente. o que causou verdadeira situação de pânico para os pilotos. Gúzman e Gonzáles mantiveram sua rota original. país reconhecido como importante fonte de substâncias entorpecente. os disparos foram além de sua finalidade: o avião foi abatido e os tripulantes faleceram. como medida de intervenção. Como medida de averiguação. Em procedimento objeto de registro sonoro.

o abate ao avião colombiano significa que a pena de morte. foi aplicada aos 2 tripulantes. O Estado deve investir em meios alternativos de controle. não se opõe ao direito à vida dos tripulantes. tendo em vista que. a fuga. e em última conseqüência. além de ser consagrado internacionalmente. não podendo haver decisão extrajudicial. Defensores dos Direitos Humanos Sustenta que o direito à vida deve ser garantido e promovido em todas as hipóteses. O grupo reconhece que a lei é dura e drástica.direitos humanos além de estar legalmente prevista. Ademais. direito consagrado constitucionalmente. Questão De que forma a Lei do Tiro de Destruição protege a soberania nacional? O abate do avião colombiano viola o direito à vida? Os tripulantes. Sendo assim. suspeitos de tráfico de drogas. e não-utilização de fonia para não pagar as tarifas de proteção ao vôo podem ser apontadas como falhas que não devem ter como conseqüência a violação do direito à propriedade das aeronaves. Defensores da Lei e Ordem Argumentam que a lei é importante e necessária pois o consumo de drogas no Brasil e no mundo é uma tragédia cotidiana que mata anualmente. uma vez que os tripulantes foram condenados sem julgamento e direito à ampla defesa. conseqüentemente. milhares de pessoas. mas sustenta ser um mal necessário para se combater um mal maior. O Poder Judiciário é o órgão competente para julgar e condenar alguém. o direito à vida. desatualização do exame médico. vedada expressamente pela Constituição Federal brasileira (salvo em caso de guerra declarada). uma vez que os mesmos estavam ameaçando a soberania e. a vida de seus cidadãos. Assim. Associação Nacional de Empresas Aeroviárias O mau funcionamento do sistema de comunicações. Organização pela independência do poder judiciário Sustenta que o abate ao avião colombiano constitui ofensa ao devido processo legal. pelo uso ou tráfico. deveriam ter tido os direitos à ampla defesa e de ser julgados pelo Poder FGV DIREITO rio 75 . se o piloto resolve ignorar sete medidas que visam sua identificação. atende não apenas a um interesse público superior e socialmente legítimo como ao princípio constitucional da segurança pública. a falta de habilitação do piloto. nesse caso. constitui um dos direitos fundamentais do ordenamento jurídico brasileiro. equipara-se à resistência à prisão.

[.... [. [. nos termos seguintes: [.. com os meios e recursos a ela inerentes. Legislação Constituição Federal de 1988 Art. 4º.] Art. A Constituição poderá ser emendada mediante proposta: I – de um terço. à igualdade. nos termos do art.. aérea e aeroespacial. [.. bem como as posições acima mencionadas para responder tais questões... à liberdade. no mínimo. Todos são iguais perante a lei.] II – declarar a guerra e celebrar a paz.. em processo judicial ou administrativo.] XXVIII – defesa territorial....] XXXVII – não haverá juízo ou tribunal de exceção... A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: [. [. à segurança e à propriedade. 5º. e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa. defesa aeroespacial.. [. fluvial. defesa marítima.] XXII – executar os serviços de polícia marítima.] VI – defesa da paz. FGV DIREITO rio 76 . [. 22. [. [.. sem distinção de qualquer natureza.] Art.... 1º. 84. navegação lacustre. LIV – ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal. defesa civil e mobilização nacional (grifou-se). salvo em caso de guerra declarada.] Art.. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal.. constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: [. marítima..direitos humanos Judiciário? Utilize a legislação brasileira (abaixo). aeroportuária e de fronteiras...... Compete à União: [.] X – regime dos portos. XIX. A República Federativa do Brasil. Compete privativamente à União legislar sobre: [. dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal.] Art. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. 60. LV – aos litigantes.] II – prevalência dos direitos humanos. [. 21...] III – a dignidade da pessoa humana. III – assegurar a defesa nacional.] Art..] LIII – ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente.] XLVII – não haverá penas: a) de morte.

guardar. além da pena correspondente à violência. adquire. remeter. III – de mais da metade das Assembléias Legislativas das unidades da Federação. manifestando-se. e pagamento de 50 (cinqüenta) a 360 (trezentos e sessenta) dias-multa. cada uma delas.848. fabricar. expor à venda ou oferecer. FGV DIREITO rio 77 .. ter em depósito. § 1º... vender. fabricar. Importar ou exportar. fornecer ainda que gratuitamente. vender. fabrica. traz consigo ou guarda matéria-prima destinada a preparação de substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar. [.. ministrar ou entregar.. a consumo substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. vende. remeter. e dá outras providências. 25. 352.. expor à venda ou oferecer. Código Penal Decreto-lei no 2. transporta. cultiva ou faz a colheita de plantas destinadas à preparação de entorpecente ou de substância que determine dependência física ou psíquica.. de 3 (três) a 15 (quinze) anos. Art 12. tem em depósito. repele injusta agressão. trazer consigo.] Legítima defesa Art. indevidamente: I – importa ou exporta. Lei nº 6. remete. expõe à venda ou oferece. a direito seu ou de outrem [. de qualquer forma. trazer consigo. de três meses a um ano. de 7 de dezembro de 1940. [. II – semeia. produzir. usando moderadamente dos meios necessários.] Evasão mediante violência contra a pessoa Art. preparar. de qualquer forma. prescrever.. preparar.. Pena – Reclusão. ministrar ou entregar. usando de violência contra a pessoa: Pena – detenção. transportar.] § 4º – Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: [.] IV – os direitos e garantias individuais. [.368. guardar.] Art 12. fornecer ainda que gratuitamente. de 21 de outubro de 1976 Dispõe sobre medidas de prevenção e repressão ao tráfico ilícito e uso indevido de substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou psíquica. fornece ainda que gratuitamente. a consumo substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. pela maioria relativa de seus membros. prescrever. Importar ou exportar. produzir. adquirir. Evadir-se ou tentar evadir-se o preso ou o indivíduo submetido a medida de segurança detentiva.direitos humanos II – do Presidente da República. produz. atual ou iminente. Nas mesmas penas incorre quem. ter em depósito. sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar. adquirir. transportar.. Entende-se em legítima defesa quem.

[. A autoridade aeronáutica poderá empregar os meios que julgar necessários para compelir a aeronave a efetuar o pouso no aeródromo que lhe for indicado. fornece ainda que gratuitamente. remete.] Art 18. fazendárias ou da Polícia Federal. utensílios. Nas mesmas penas incorre quem.direitos humanos Pena – Reclusão.] Art. ou das autorizações para tal fim. a aeronave será classificada como hostil.. aeronaves e quaisquer outros meios de transporte.804. de 30 de junho de 1999 Altera a redação do art 34 da Lei nº 6. expõe à venda ou oferece. indevidamente: I – importa ou exporta. utilizados para a prática dos crimes definidos nesta Lei. produz. [. após a sua regular apreensão.. de 3 (três) a 15 (quinze) anos. A aeronave poderá ser detida por autoridades aeronáuticas.. 303. Lei nº 7. Lei nº 9.614. de 19 de dezembro de 1986 (Código Brasileiro de Aeronáutica) Art. nos seguintes casos: I – se voar no espaço aéreo brasileiro com infração das convenções ou atos internacionais. de 21 de outubro de 1976. § 2°. excetuadas as armas. IV – para verificação de sua carga no caso de restrição legal (artigo 21) ou de porte proibido de equipamento (parágrafo único do artigo 21).. fabrica. instrumentos e objetos de qualquer natureza. Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos. II – se.565.368. FGV DIREITO rio 78 . § 1°. 34. ficando sujeita à medida de destruição. V – para averiguação de ilícito. traz consigo ou guarda matéria-prima destinada a preparação de substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. transporta. ficarão sob custódia da autoridade de polícia judiciária. tem em depósito. de 5. que serão recolhidas na forma da legislação específica (grifou-se). desrespeitar a obrigatoriedade de pouso em aeroporto internacional. vende. entrando no espaço aéreo brasileiro. (Parágrafo acrescentado pela Lei nº 9. assim como os maquinismos. cultiva ou faz a colheita de plantas destinadas à preparação de entorpecente ou de substãncia que determine dependência física ou psíquica. § 1º.3. embarcações. que dispõe sobre medidas de prevenção e repressão ao tráfico ilícito e uso indevido de substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou psíquica. Os veículos. nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada. adquire.1998) – grifou-se. As penas dos crimes definidos nesta Lei serão aumentadas de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços): I – no caso de tráfico com o exterior ou de extra-territorialidade da lei penal. II – semeia. e pagamento de 50 (cinqüenta) a 360 (trezentos e sessenta) dias-multa. III – para exame dos certificados e outros documentos indispensáveis.

..... 2o. 303 da Lei no 7.......... Para fins deste Decreto........ de 5...... levando em conta que estas podem apresentar ameaça à segurança pública.....” Art........... de 19 de dezembro de 1986.. no uso da atribuição que lhe confere o art..... 303.. 303 da Lei no 7..... O art. 177º da Independência e 110º da República... passa a vigorar acrescido de um parágrafo.... ou FGV DIREITO rio 79 . 2º e 3º do art..1998). 1o. numerado como § 2º.... da Constituição.... a aeronave será classificada como hostil. de 19 de dezembro de 1986... na forma seguinte: “Art.............144. de 5 de março de 1998 Altera a Lei nº 7..565... que dispõe sobre o Código Brasileiro de Aeronáutica... 2o e 3o do art. FERNANDO HENRIQUE CARDOSO Decreto nº 5... 2º. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. . é considerada aeronave suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins aquela que se enquadre em uma das seguintes situações: I – adentrar o território nacional....565.. inciso IV.....614..... Este Decreto estabelece os procedimentos a serem seguidos com relação a aeronaves hostis ou suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins.565..... O PRESIDENTE DA REPÚBLICA.. Brasília...... 84............ para incluir hipótese destruição de aeronave O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o CONGRESSO NACIONAL decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art.. Art....... renumerando-se o atual § 2º como § 3º. § 2º....... A autoridade mencionada no § 1º responderá por seus atos quando agir com excesso de poder ou com espírito emulatório. nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada (grifou-se).. sem Plano de Vôo aprovado..614. ficando sujeito à medida de destruição..3............ de 16 de julho de 2004 Regulamenta os §§ 1º..direitos humanos § 3°...... 1º.565.. DECRETA: Art... de 19 de dezembro de 1986... Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos. 303 da Lei nº 7. § 3º.. no que concerne às aeronaves hostis ou suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins... oriunda de regiões reconhecidamente fontes de produção ou distribuição de drogas ilícitas..... 5 de março de 1998..... A autoridade mencionada no § 1° responderá por seus atos quando agir com excesso de poder ou com espírito emulatório... e tendo em vista o disposto nos §§ 1o......... Lei nº 9. de 19 de dezembro de 1986......... (§ 2°renumerado e alterado pela Lei nº 9.........

de maneira que possam ser observados pela tripulação da aeronave interceptada. feitos pela aeronave de interceptação. intervenção e persuasão.direitos humanos II – omitir aos órgãos de controle de tráfego aéreo informações necessárias à sua identificação. executadas por aeronaves de interceptação. segundo os padrões estabelecidos pelo COMDABRA. Art. com munição traçante. Art. As aeronaves enquadradas no art. com a finalidade de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo da aeronave hostil e somente poderá ser utilizada como último recurso e após o cumprimento de todos os procedimentos que previnam a perda de vidas inocentes. Art. 3o. com o objetivo de compelir a aeronave suspeita a efetuar o pouso em aeródromo que lhe for indicado e ser submetida a medidas de controle no solo pelas autoridades policiais federais ou estaduais. por intermédio de comunicação via rádio ou sinais visuais. II – registro em gravação das comunicações ou imagens da aplicação dos procedimentos. ou não cumprir determinações destes mesmos órgãos. 6 o. 7o. IV – execução sobre áreas não densamente povoadas e relacionadas com rotas presumivelmente utilizadas para o tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins. 3o será classificada como aeronave hostil e estará sujeita à medida de destruição. § 1o. A medida de destruição consiste no disparo de tiros. com a finalidade de interrogá-la. de conhecimento obrigatório dos aeronavegantes. § 2o. III – execução por pilotos e controladores de Defesa Aérea qualificados. § 3o. antes de sua vigência. se estiver cumprindo rota presumivelmente utilizada para distribuição de drogas ilícitas. ou. e V – autorização do Presidente da República ou da autoridade por ele delegada. a vigiar o seu comportamento. ainda. destinada aos aeroFGV DIREITO rio 80 . 5o. no ar ou em terra. com o objetivo de persuadi-la a obedecer às ordens transmitidas. para ser submetida a medidas de controle no solo. 2o estarão sujeitas às medidas coercitivas de averiguação. consistindo na aproximação ostensiva da aeronave de interceptação à aeronave interceptada. Art. por meio da Publicação de Informação Aeronáutica (AIP Brasil). pela aeronave interceptadora. de acordo com as regras de tráfego aéreo. de forma progressiva e sempre que a medida anterior não obtiver êxito. O teor deste Decreto deverá ser divulgado. As medidas de persuasão seguem-se às medidas de intervenção e consistem no disparo de tiros de aviso. Art. A medida de destruição terá que obedecer às seguintes condições: I – emprego dos meios sob controle operacional do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro – COMDABRA. As medidas de averiguação visam a determinar ou a confirmar a identidade de uma aeronave. 4o. A aeronave suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins que não atenda aos procedimentos coercitivos descritos no art. As medidas de intervenção seguem-se às medidas de averiguação e consistem na determinação à aeronave interceptada para que modifique sua rota com o objetivo de forçar o seu pouso em aeródromo que lhe for determinado.

de 05. “porque se trata de resistência à prisão e as aeronaves somente serão destruídas se os seus pilotos não obedecerem às ordens Artigo escrito por Fernando Lima. que a regulamentou. Fica delegada ao Comandante da Aeronáutica a competência para autorizar a aplicação da medida de destruição. Art. a pena de morte.03. O Ministro negou. quando agirem com excesso ou abuso de poder. htm. Mas será possível excluir. Art.07. a pena de morte no Brasil. Acesso em: 08 nov. 5º. Art.2004. aplicando. na prática. Os procedimentos previstos neste Decreto deverão ser objeto de avaliação periódica. no espaço aéreo brasileiro. essa Lei passou desapercebida. a lei não se aplica aos aviões militares. poderão ser derrubados. conforme pretenderam o Congresso Nacional. José Viegas. pelos seus atos. salvo em caso de guerra declarada (art. na semana passada. Esse Decreto entrará em vigor no próximo dia 18 de outubro.pro. peremptoriamente. permitindo a condenação e a execução sumária de todos os passageiros dos pequenos aviões civis. pelos pilotos da FAB. Art. Disponível em: http:// www. a destruição de aeronaves suspeitas de estarem transportando drogas. Como ainda não havia sido regulamentada. 183o da Independência e 116o da República. como a de derrubar uma aeronave em vôo. ao aprovar essa Lei. 10. professor de Direito Constitucional da UNAMA. de 16.tex. 2004. efetuando os necessários treinamentos. antes de sua destruição. 16 de julho de 2004. nacionais ou estrangeiros. introduziu.2004. Pior: essa Lei instituiu a execução extrajudicial. 8o. XLVII). sem o devido processo legal e em tempo de paz? De acordo com o Ministro da Defesa. em 05. 11. causando a morte do piloto e dos passageiros. Essa Lei é flagrantemente inconstitucional. 12. suspeitos do tráfico de drogas. ao permitir o tiro de abate.direitos humanos navegantes e de conhecimento obrigatório para o exercício da atividade aérea no espaço aéreo brasileiro. porque a nossa Constituição garante o direito à vida e proíbe a pena de morte.1998. 9o. assim. mas os aviões clandestinos civis. sem o devido processo legal. Este Decreto entra em vigor noventa dias após a data de sua publicação. cada qual nos limites de suas atribuições. com vistas ao seu aprimoramento. em relação às “aeronaves suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins”. deverá adequar toda documentação interna ao disposto neste Decreto. efetuados pela FAB. sem julgamento.br/wwwroot/ 02de2004/inconstitucionalidadedaleidoabatefernandolima. pela simples suspeita do tráfico de drogas. da apreciação do Poder Judiciário. O Ministério da Defesa. 80 FGV DIREITO rio 81 . Art. após o descumprimento de nove procedimentos. mas agora o Presidente Lula assinou o Decreto nº 5144. estabelecendo os procedimentos que deverão ser seguidos. de tão graves conseqüências. ou seja. que se trate de uma condenação à morte. e o Presidente da República. e os pilotos encarregados de sua execução já estiveram em Belém. por intermédio do Comando da Aeronáutica.07. Notícias prévias Inconstitucionalidade da Lei do Abate80 A Lei nº 9614. Brasília. uma decisão. As autoridades responsáveis pelos procedimentos relativos à execução da medida de destruição responderão.

a derrubada de aeronaves. embora não estejam transportando drogas. Mesmo assim. e de obedecer à ordem de pouso. que não pode ser alterada nem mesmo através de emenda constitucional. poderão deixar de se identificar para os pilotos da FAB. mesmo que a fuga fosse tipificada como crime. porque a opinião pública será levada a acreditar que essa Lei contribuirá para reduzir a entrada de drogas no País e também para impedir que o nosso espaço aéreo seja transformado em rota do narcotráfico internacional. Os argumentos seriam ridículos. Sei perfeitamente que o assunto é polêmico. também. que também adotaram. caso o criminoso atente contra a vida do policial (art. como. Para combater o crime. não podendo matá-los. ainda. para o competente exame da documentação. coloca em perigo a vida de inocentes. 352 do Código Penal). e parece sugerir que a pena de morte seja aplicada. porque a fuga. certamente. ou até mesmo do porta-malas. Evidentemente. Aliás. como a missionária americana Verônica Bowers e a sua filha de sete meses. sem direito a defesa e sem julgamento. passa a utilizar os mesmos métodos dos criminosos. a Bolívia e o Peru. sobretudo na Amazônia. se não se tratasse de um assunto tão sério. como a Colômbia. a falta de equipamentos adequados. leis semelhantes à nossa. mas acha que não devem ser admitidas exceções (aeronaves militares). para o “crime” de “exploração ilegal da biodiversidade”. a autoridade policial seja obrigada a matá-lo. porque inúmeras aeronaves. por pressão dos Estados Unidos. nem por isso poderia ser morto o que às vezes acontece. para apreciar a constitucionalidade da Lei do Abate.2004. o Supremo Tribunal Federal não foi provocado. não apenas concorda com a Lei do Abate. divulgadas pelo “site” da OAB. nem ao menos constitui crime. até hoje. talvez. O Estado tem a obrigação de prender os suspeitos. Além disso. 25 do Código Penal). o Estado FGV DIREITO rio 82 . No entanto. Charity. além de ser inconstitucional. poderá ocorrer que. no encalço do delinqüente. pela simples suspeita de tráfico de drogas. proibida pela Constituição e considerada cláusula pétrea. e a floresta amazônica é uma das principais rotas dos traficantes de drogas. que a pretexto de combater os traficantes. porque seria o mesmo que afirmar que um automóvel cheio de passageiros deveria ser metralhado pelos policiais rodoviários. também. muitos civis inocentes já foram mortos.direitos humanos dos pilotos da FAB”. ainda. punida com a pena de morte. A Lei do Abate. exceto mediante violência contra a pessoa (art. por diversas razões. e muito menos por uma simples suspeita. se o motorista tentasse fugir. Por essa razão. somente os aviões que estivessem transportando drogas seriam derrubados. Infelizmente. o Brasil tem fronteiras com onze países da América do Sul. os pilotos e passageiros não poderiam ser condenados à morte. Na minha opinião. na hipótese de legítima defesa. uma lei autorizando -. em busca de drogas. Roberto Busato. o próprio Presidente nacional da OAB. em 21. incluindo países produtores e exportadores de cocaína. Como se sabe. é assassinato e depõe contra o Brasil.07. por exemplo. matando os seus pilotos e passageiros. que na Colômbia e no Peru. portanto. se o seu motorista não obedecesse à ordem de parar. Ressalte-se. de acordo com as suas declarações. com ou sem lei. embora não exista. não seria.

medidas de integração de procedimentos com os países vizinhos e legislação de países interessados no tema e que mantêm normas específicas sobre responsabilidade civil de seus cidadãos. ficando sujeita à medida de destruição. desobedecendo ao devido processo legal e afastando o poder de decisão das autoridades devidamente constituídas para jurisdicionar os conflitos e aplicar as sanções previstas nas leis penais. normas internacionais da aviação civil. Força Aérea Brasileira Centro de Comunicação Social da Aeronáutica (30.06. com o pleno esclarecimento dos procedimentos e das condições em que a medida de destruição poderia ser executada. Histórico O Código Brasileiro de Aeronáutica. por intermédio de seus representantes legais. de 5 de março de 1998.br/Publicacao/Imprensa/ Noticias/3007_abate.565. e modificado pela Lei nº 9. particularmente sobre os movimentos aéreos não regulares. apelidada pela imprensa de Lei do Abate. Neste artigo. Disponível em: http://www. quando estes tenham apoiado direta ou indiretamente a destruição de aeronave civil. suspeitos de envolvimento com o tráfico de drogas ilícitas. Nessas condições. praticando a Lei de Talião. a sociedade brasileira. 81 Acesso em: 8 nov. aeronave hostil e medida de destruição. mil. do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República e especialistas do Comando da Aeronáutica se reuniu com o objetivo de estudar todos os aspectos pertinentes à regulamentação da Lei do Tiro de Destruição.614. trata dos casos em que uma aeronave pode ser submetida à detenção. A partir de abril de 2003. instituiu Lei do Tiro de Destruição. fazendárias ou da Polícia Federal. Ademais. passou a ser imprescindível que o novo dispositivo fosse aplicado dentro de uma moldura de rígidos preceitos de segurança. A lei em questão introduziu conceitos novos. foi introduzido o parágrafo segundo. tais como procedimentos de interceptação aérea.2004)81 1. de 19 de dezembro de 1986. a aeronave será classificada como hostil. 2004. Desrespeitando a Constituição. um grupo de trabalho constituído por integrantes do Ministério da Defesa. à interdição e à apreensão por autoridades aeronáuticas.direitos humanos também se subordina ao Direito. por intermédio de um decreto presidencial. em apoio às medidas de policiamento do espaço aéreo brasileiro. tornando-se necessária a definição das expressões meios coercitivos. iguala-se aos delinqüentes. do Ministério das Relações Exteriores. com a seguinte redação: § 2º Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos. nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada. que veio preencher uma importante lacuna.htm. a justiça privada e a vingança anárquica. Todos estes aspectos demandaram a necessidade de regulamentação do citado dispositivo legal. do Ministério da Justiça. instituído pela Lei nº 7. FGV DIREITO rio 83 . no seu artigo 303.fab.

Execução Em primeiro lugar. Esses entendimentos indicam que a entrada em vigor da regulamentação não trará efeitos adversos ao país.direitos humanos 2. Em razão do que prescreve a Carta da ONU sobre o princípio de autodefesa. que transportam a droga para o território brasileiro. A questão foi amplamente debatida com outros governos interessados no tema. decidido a reverter essa situação e aprimorar a defesa do país. entre outros destinos da rota de exportação. no combate ao tráfico terrestre e fluvial. levando em conta a crescente ameaça apresentada pelo narcotráfico para a segurança da sociedade brasileira. A regulamentação. Em muitas situações. o Governo brasileiro considerou necessária apenas a regulamentação da lei para esse aspecto. eram ignoradas por pilotos em vôo clandestinos. portanto. caracterizando-se situação similar à resistência à prisão. houve completa desobediência às ordens emitidas pela autoridade. Essas seguem para o interior do Brasil (consumo interno) ou para países vizinhos. apesar de ter-se chegado ao tiro de advertência. Medidas O Governo Brasileiro. em pequenas aeronaves. assinada pelo Presidente da República. Tornou-se necessária uma ação mais eficaz do Estado no combate a esses vôos ilícitos. que ocorreram para integrar os procedimentos de interceptação aérea e. a regulamentação da Lei do Tiro de Destruição aprovada abrange somente o caso de aeronaves suspeitas de envolvimento com o tráfico internacional de drogas. criou instrumentos de dissuasão adequados ao policiamento do espaço aéreo brasileiro. é uma medida imprescindível para combater a criminalidade associada ao tráfico internacional de drogas. 3. como a transferência de efetivos militares para a Amazônia e a modificação da legislação brasileira no sentido de preparar as Forças Armadas para atuar contra os delitos transnacionais fronteiriços. por falta da regulamentação da Lei do Tiro de Destruição. que entra em vigor 90 dias após a sua publicação no Diário Oficial da União (em 19 de julho). Porém. sendo o SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia) uma grande expressão desse trabalho. com isto.144. em suas ordens de identificação e de pouso em pista pré-determinada. vem desenvolvendo uma série de ações. 4. como previa a legislação em vigor. minimizar riscos de equívocos. O texto é resultado de uma série de intercâmbios com países vizinhos. Decreto Nº 5. oriundas das regiões reconhecidamente produtoras dessas substâncias. a caminho da Europa e Estados Unidos. responsáveis pelo policiamento do espaço aéreo. comprovou-se que as principais rotas de entrada de drogas ilícitas em território brasileiro ocorrem por via aérea. as aeronaves de interceptação da Força Aérea Brasileira. Cenário Com a modernização do sistema de defesa aérea e controle do tráfego aéreo brasileiro. FGV DIREITO rio 84 . A regulamentação da Lei do Tiro de Destruição.

à medida de destruição. serão encarregadas da execução dessas medidas. ela estará sujeita a três tipos de medidas coercitivas. aplicadas de forma progressiva e sempre que a medida anterior não obtiver êxito. que entrará no sistema informatizado do Departamento de Aviação Civil (DAC) para verificar se a matrícula corresponde ao tipo de aeronave.direitos humanos Antes de ser classificada como hostil e. a vigiar seu comportamento. endereço. passa-se ao segundo nível de medidas coercitivas. validade de exame médico.5 ou 243 MHz. etc. validade do certificado de aeronavegabilidade. sem serem percebidos. e. o nome de seu proprietário. proa e características marcantes. detalhados e seguros. ou b) a que omitir aos órgãos de controle de tráfego aéreo informações necessárias à sua identificação. de 121. sujeita à medida de destruição. caso esteja trafegando em rota presumivelmente utilizada na distribuição de drogas ilícitas. 1º) MEDIDAS DE AVERIGUAÇÃO primeiro nível das medidas busca determinar ou a confirmar a identidade de uma aeronave. nome do piloto que normalmente a opera. a aeronave deverá ser considerada como suspeita e submetida a procedimentos específicos. ou. iniciando pela de VHF 121. nível de vôo. de uma posição discreta. após ter estabelecido com ela contato visual próximo. 5. de acordo com as regras estabelecidas internacionalmente e de conhecimento obrigatório por todo aeronavegante. d) Realização de sinais visuais. Caso a aeronave esteja em situação regular. ainda. portanto. acionadas pelo Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA). dados de identificação. será realizado apenas o acompanhamento. se considerada hostil. b) Confirmação da Matrícula. As aeronaves de interceptação da Força Aérea Brasileira.5 MHz. sem plano de vôo aprovado. fotografam a aeronave interceptada e colhem informações de matrícula. tipo de aeronave. São duas as situações em que uma aeronave pode ser considerada suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins: a) a que entrar em território nacional. Passos Caracterizada a aeronave como suspeita. licença. ou não cumprir determinações dessas mesmas autoridades. oriunda de regiões reconhecidamente fontes de produção ou distribuição de drogas ilícitas. 2º) MEDIDAS DE INTERVENÇÃO – caso o piloto da aeronave suspeita não responda e não atenda a nenhuma das medidas já enumeradas. dados de qualificação e de localização. que se dá quando as informações são transmitidas para a Autoridade de Defesa Aeroespacial. c) Interrogação na freqüência internacional de emergência. que é a Intervenção. que é mostrada. ocasião em que os pilotos da aeronave de interceptação. Engloba os seguintes procedimentos: a) Reconhecimento à Distância. caracterizada pela execução de dois procedimentos: FGV DIREITO rio 85 . através de uma placa. à aeronave interceptada pelo piloto do avião de Defesa Aérea.

FGV DIREITO rio 86 . Somente quando transgredidos os sete procedimentos iniciais é que a aeronave será considerada hostil. São elas: a) a sua realização só poderá ocorrer estando todos os meios envolvidos sob controle operacional do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA). 2) Confirmação de Matrícula. No total. previstas pela regulamentação contida no Decreto nº 5. c) será executado apenas por pilotos e controladores de defesa aérea qualificados. 7) Tiros de Advertência. em todas as freqüências disponíveis. 1) Reconhecimento à Distância. d) o procedimento irá ocorrer sobre áreas não densamente povoadas e relacionadas com rotas presumivelmente utilizadas para o tráfico de drogas. também determinado pela aeronave interceptadora de forma semelhante à tarefa anterior. 5) Mudança de rota. b) os procedimentos descritos serão registrados em gravação sonora e/ou visual das comunicações. quanto por intermédio dos sinais visuais previstos nas normas internacionais e de conhecimento obrigatório. que entrará em execução somente se o piloto da aeronave suspeita não atender a nenhuma das medidas anteriores. e estará sujeita à medida de destruição. 8) Tiro de Destruição Medidas de Averiguação Suspeita Medidas de Intervenção Medidas de Persuasão Hostil Medidas de Destruição MEDIDA DE DESTRUIÇÃO o tiro de destruição deverá atender. com munição traçante. tanto pelo rádio. obrigatoriamente. o que significa dizer que tanto os radares quanto as aeronaves de interceptação envolvidas no policiamento do espaço aéreo deverão estar sob controle operacional das autoridades de defesa aérea brasileira. a exigências rígidas. Situação da aeronave Nível de medida Normal Situação de Normalidade Procedimentos Verificação das condições de vôo da aeronave. de 16 de julho de 2004. consiste na realização de tiros de advertência.144. feitos pela aeronave de interceptação. 3) Contato por Rádio na Frequência de Emergência. 6) Pouso Obrigatório. b) pouso obrigatório. 3º) MEDIDAS DE PERSUASÃO – o terceiro nível das medidas previstas. determinada pela aeronave de interceptação.direitos humanos a) mudança de rota. 4) Sinais Visuais. de forma visível e sem atingi-la. lateralmente à aeronave suspeita. com a finalidade de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo da aeronave transgressora. que consiste na realização de disparo de tiros. segundo os padrões estabelecidos pelo Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA). são oito os procedimentos a serem seguidos pelas autoridades de defesa aérea para o policiamento do espaço aéreo. assinado pelo Excelentíssimo Senhor Presidente da República e publicado no Diário Oficial do dia 19 de julho.

br/ultimas. Acesso em: 8 nov. Para Suplicy. pelo site www.direitos humanos 6. 2004.com. em entrevista por e-mail ao Correio.br. “Oxalá nunca necessitemos utilizar a medida de destruição”.2004)82 A partir de hoje. “A sociedade não foi ouvida”. protesta o parlamentar ao lembrar que a lei foi aprovada em 1998 com o apoio de tucanos e petistas. O país é o terceiro país na América do Sul a adotar a Lei do Abate – os primeiros foram o Peru e a Colômbia. o Palácio do Planalto considerou necessário conversar com países como os Estados Unidos. O deputado Fernando Gabeira (sem partido-RJ) o acompanha. No entanto. o senador é um dos poucos que reclamam. 87% dos internautas se posicionaram a favor da medida (é uma forma legítima de defender a soberania) e 13% se disseram contrários ao tiro de destruição (só deveria ser usado em casos de guerra). a medida foi anunciada como mais uma ferramenta de combate ao tráfico de drogas e ao contrabando de armas. delega ao Comandante da Aeronáutica a competência para aplicar a medida de destruição. no decreto de regulamentação. possibilitando. correioweb. que reuniu quase 9. qualquer aeronave que cruzar o céu brasileiro sem se identificar pode ser destruída. É importante ressaltar que a utilização dessa medida extrema somente ocorrerá após terem sido cumpridos todos os procedimentos previstos em lei e que esse será o último recurso para o Estado evitar o ingresso de aeronaves que transportam drogas para o território brasileiro. No Congresso. “Para mim isso é a mesma coisa que a pena de morte”. A demora de oito anos para conseguir a rubrica presidencial tem explicação: antes de fazer com que a lei entrasse em vigor. O ministro esclarece. mesmo que a aeronave interceptada esteja lotada de criminosos. A lei foi regulamentada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva no dia 19 de julho de 2004. a necessária agilização do processo de tomada da decisão. htm?codigo=2618013. refuta a comparação feita pelo senador Suplicy: “Não há qualquer correspondência entre a regulamentação da medida de destruição e a instituição da pena de morte. a lei que derruba aviões levanta muitas polêmicas. dispara o senador petista Eduardo Suplicy (SP). por exemplo.pop. No Brasil. Disponível em: http://noticias. assim. Lei do abate entra em vigor (17. Viegas classificou a Lei do Abate como uma “forma de dissuasão” para coibir o tráfico de drogas. aumentando o flagelo do problema do tráfico no país. O ministro da Defesa. esses passageiros estariam sendo executados sem ter tido direito a julgamento.com. Em uma enquete realizada pela internet. que “a medida de destruição é a última de uma série de procedimentos que visam obrigar a aeronave infratora a pousar e submeter-se às medidas de policiamento no solo”. mas não está sozinho. Competência O Excelentíssimo Senhor Presidente. O parlamentar defende que a lei poderá provocar a morte de muitos inocentes. como as ocorridas no Peru em 2000. Existia o temor de que se um cidadão estrangeiro estivesse dentro de um avião destruído pelo governo brasileiro e o país sofresse algum tipo de retaliação militar ou econômica.5 mil votos. São situações absolutamente díspares”. com elevado grau de confiabilidade e segurança.10. 82 FGV DIREITO rio 87 . José Viegas.

Ele compara o procedimento ao adotado por policiais militares com veículos que não param em uma blitz. o avião irregular deixava o território brasileiro e adiava a travessia para outro dia. Disponível em: http://archives. Cada caso será estudado na hora em que acontecer. reconhece. no mínimo. fazer um pouso de emergência.S. afirma. Orçada em R$ 280 mil. empresas aéreas. U. A idéia é fazer com que distribuição do material não fique restrita aos aeroportos e atinja pilotos que não têm brevê. the Peruvian Air Force and a Baptist missionary group are giving conflicting accounts of events that led to the shooting down of the plane. plane. Zombavam de nós.direitos humanos O governo brasileiro garante que o procedimento de abate vai ser cuidadoso. A intenção da Força Aérea Brasileira não é matar ninguém”. Meanwhile. “Os tiros são para obrigar a aeronave a pousar. como é chamada a licença para vôo. Comandante Todo o piloto que for abastecer o avião receberá um dos 100 mil panfletos com informações sobre a Lei do Abate.com/2001/US/04/21/peru. é que ao ser atingido em um pneu o veículo pode parar em um acostamento. Alô. a campanha tem o objetivo de informar que como a aeronave deve agir ao ser interceptada por aviões da Força Aérea Brasileira. brigadeiro Francisco Azambuja. “We are working with Peruvian authorities to investigate what happened. sindicatos da aviação e hospitais entre outros pontos de passagem obrigatórios de pilotos e de futuros pilotos. salas de tráfego de aeroportos.” Barnes said. O nosso trabalho é fazer com que a lei seja cumprida. 110 emissoras de rádio AM e FM divulgam a campanha em toda a extensão da fronteira seca brasileira e atingindo 72 cidades. Desde o último dia 8. lembra Azambuja que tem imagens de vídeo com o comportamento dos criminosos. alô. explica Azambuja. “O desfecho é de responsabilidade exclusiva do comandante da aeronave”. Não deve existir condescendência nem com aeronaves suspeitas que estiverem com crianças a bordo. embassy spokesman Doug Barnes told CNN Saturday. acredita o comandante de Defesa Aeroespacial Brasileiro (Condabra).02/. cnn. “Os traficantes tinham certeza da impunidade. Mas os aviões militares no máximo acompanhavam a aeronave suspeita até o pouso. Na maior parte dos casos. Cerca de 10 mil cartazes serão distribuídos para os aeroclubes. 83 FGV DIREITO rio 88 . Plane shootdown: Drug intercept flights suspended in Peru – CNN (abril de 2001)83 Drug interception flights in Peru have been suspended until the completion of an investigation into the downing of a missionary plane that killed two of five Americans on board – a 7-month-old girl and her mother. já avião terá que. O procedimento de interceptação existe há 24 anos. hangares de manutenção. “Não estamos brincando de fazer policiamento aéreo. Faziam até sinais obscenos”. Acesso em: 20 abril 2005. Mas nenhum subterfúgio que eles possam usar estará dando salvo-conduto ao traficante ou elemento que está fazendo tráfego ilegal para se salvar”. até o dia 28. A diferença.

it said. said their plane never left Peruvian air space.S. the statement said. in agreement with established procedures. After the missionaries’ Cessna 185 did not respond to a command to identify itself. State Department. at which point the Peruvian Air Force dispatched a rescue plane. President George Bush said. 38. other than probable confusion until they get their facts sorted out”. and their son. the statement said. to obtain a visa for the infant. which sponsored the missionaries. U. The family is from Muskegon.S. said a spokesman for the U. the U. Bowers’ husband. helping the Peruvians detect aircraft used in drug trafficking. “lamenting profoundly the loss of human life”. 7.S. was shot in the legs. The spokesman at the U.S. reconnaissance plane provided location data for the subsequent intercept mission that was conducted by the Peruvian Air Force. the intercept system was activated”. “I can’t explain to you the statements of the Peruvian Air Force. site of the nearest consulate.direitos humanos U. he said. Mission: Plane on safe course Michael Loftus. Michigan. “proceeded to intercept the unknown airship”.m. he said. A Cessna A-37B. The statement said the air force has initiated an investigation. Friday. “Facing such circumstances and. Loftus said Pilot Kevin Donaldson had been in radio contact with the tower in Iquitos. reconnaissance plane was working as part of an agreement between the United States and Peru to combat drug trafficking. first located plane A U. he said.S. embassy in Lima said the U.S. was near the Peruvian military plane at the time of the incident but was unarmed and did not participate in shooting at the missionaries’ plane. a missionary in Peru since 1983.S. 42. Jim. de Cuellar express sorrow for loss Asked about the incident while attending the Summit of the Americas in Quebec City. reconnaissance plane. the air force plane fired. Pennsylvania. A statement from the Peruvian Air Force said an unidentified plane. embassy in Lima. which had not filed a flight plan. and had been working in Peru since 1993. Loftus said he could not confirm that a flight plan had been filed. with the assistance of the reconnaissance plane. but he said that was the usual practice. “Central aviation authorities had given him a landing slot. were uninjured. of Geigertown. Kevin Donaldson. How could he be in contact with the civil authorities and their own military not know about it?” he said. It had flown to the border town of Benjamin Constant. The pilot of the civilian plane finally responded after landing in a river near Pevas. Charity.S. was detected entering Peruvian air space from Brazil around 10 a. Killed in the incident were 35-year-old missionary Veronica Bowers and her seven-month-old daughter. “I’ll wait to see all the facts before I reach FGV DIREITO rio 89 . president of the Association of Baptists for World Evangelism. Cory. “As part of an agreement. According to a statement issued by the U. Bush. radar and aircraft provide tracking information to the Peruvian Air Force on planes suspected of smuggling illegal drugs in the region”.

sobretudo na Amazônia. As autoridades aeronáuticas ficam sabendo das transgressões. todas elas pecadilhos. Em vez de balas. falta de habilitação do piloto. the Associated Press reports. teríamos uma clara identificação dos eventuais infratores.com. a pena de morte no Brasil. but right now. o que eliminaria o principal ponto de apoio das operações aéreas ilegais. tinta neles! 84 Acesso em: 25 abril 2005. buscar-se-ia na própria tecnologia um meio de evitar o abate equivocado e irreversível.e da Rio Sul Linhas) Nas asas de um projeto pouquíssimo discutido pela sociedade. entre outras. curiosamente. Sem erros. na região amazônica. Eliminados os aeroportos clandestinos.direitos humanos any conclusions about blame. FGV DIREITO rio 90 . sem sangue ou tragédias. e não-utilização de fonia para não pagar as tarifas de proteção ao vôo. O problema está nos riscos claramente subjacentes ao texto.br/causas/subareas. São aeronaves que podem deixar de se identificar para o caça interceptador por uma miríade de razões. Exagero? Talvez. said White House spokesman Gordon Johndroe. we mourn for the loss of the life. Assim. por exemplo. nos centros de lazer: o divertido paint ball. A parte de fundamentação da lei não merece reparos: trata-se de proteger o território nacional de aeronaves sem identificação e barrar o tráfico de drogas.asp ?idArea=8&idSubArea=136. estamos vivendo a ameaça de termos. Com certeza. que não podem ser punidos com rajadas de metralhadoras ou tiros de canhão: mau funcionamento do sistema de comunicações desses aviões. desatualização do exame médico. Peruvian Prime Minister Javier Perez de Cuellar approached Bush and “expressed his deep regret and offered to help the families in any way he could”. possibilitando sua punição quando aterrissassem. reduziria drasticamente o número de aeronaves sujeitas à ameaça de derrubada. mas é o que fica evidente quando vem à luz a chamada Lei do Abate. uma fiscalização prévia mais rigorosa na frota que voa. Mais: a tecnologia hoje disponível permite identificar e destruir todos os aeroportos clandestinos. que consiste em “balear” com tinta colorida o adversário. virtualmente. Muitos dos inúmeros pequenos aviões que cruzam nosso espaço aéreo em regiões ermas. Disponível em: http://www. muitas vezes ao investigar acidentes com aeronaves de pequeno porte.(…) Tinta neles!84 George Ermakoff (Presidente do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias -SNEA. que permite à FAB derrubar aviões clandestinos dentro do nosso espaço aéreo e que acaba de merecer uma oportuna ação contrária do deputado Fernando Gabeira. E a tecnologia está aí mesmo. sem remorsos. São aeronaves que transportam gente através de centenas de quilômetros de território que não conta com qualquer outro meio de transporte. não estão a serviço do tráfico ou mesmo do contrabando. two lives”.gabeira. disponível.

5o. Em relação ao primeiro. Isto significa que o indivíduo pode enviar uma petição ao Comitê caso o Estado do qual faça parte tenha ratificado o referido protocolo. serão utilizados para superar as deficiências e omissões do sistema nacional. O primeiro protocolo ao PIDCP. 5º. veio a ampliar a proteção de tais direitos. por sua vez. (ii) caso Damião Ximenes.735 trabalhadores (sendo que quase a metade no estado do Pará). de violação de direitos civis e políticos: (i) trabalho escravo. Como instrumentos de proteção dos direitos em tela. com exceção do disposto no art. destaque-se a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção) que. cabe destacar a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) e o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (PIDCP). Nesse contexto. Nesse sentido. Isto significa que o Estado tem a responsabilidade primária pela proteção desses direitos. A DUDH. Já no âmbito nacional. a violação mais visível em termos de direitos civis e políticos é do direito à liberdade. por mais que preveja ambas as categorias de direitos (direitos civis e políticos e direitos econômicos. destina-se à proteção dos direitos civis e políticos. o que corresponde a 51. caput (assegura o direito à liberdade) e art. a existência de trabalho escravo confronta diretamente com os direitos humanos. sociais e culturais. Já o PIDCP é destinado exclusivamente à proteção dos direitos civis e políticos. foram resgatados de cativeiros 4. regional (mais especificamente no interamericano) e nacional. 26. o mecanismo de petição individual. há a Constituição Federal (CF). prevendo. 5o – artigo este destinado aos direitos e garantias fundamentais do indivíduo.direitos humanos Aula 13: Os direitos civis e políticos: direito à liberdade e integridade pessoal NOTA AO ALUNO Embora a indivisibilidade dos direitos humanos seja consagrada internacionalmente. assim. no Brasil. sendo os instrumentos internacionais complementares e subsidiários. Em 2003. o PIDCP estabelece o Comitê de Direitos Humanos e a sistemática dos relatórios e das comunicações inter-estatais. dá especial ênfase à primeira. Quanto ao primeiro. salientem-se os instrumentos de proteção dos direitos civis e políticos nos sistemas global. cabe abordar dois casos. III (proíbe o trabalho escravo ao dispor que “ninguém será submetido a tratamento desumano ou degradante”). ou melhor.1% do total dos libertados FGV DIREITO rio 91 . Em relação ao sistema interamericano. É importante ressaltar que os instrumentos internacionais de proteção não substituem o sistema nacional. cabe destacar que um país que tem como fundamentos a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho. Nesse sentido. a proteção dos direitos civis e políticos sempre foi priorizada ao longo da evolução histórica dos direitos humanos em detrimento da proteção dos direitos econômicos. Quando se fala em trabalho escravo. sociais e culturais). destaquem-se os artigos da CF a respeito: art. que elenca os referidos direitos em seu art.

responsável pela clínica tratou-a com descaso. ao reconhecer em uma reunião oficial da ONU a existência de “formas contemporâneas de escravidão” em seu território. já que apenas uma pessoa foi condenada até hoje87. dizendo. 86 87 88 89 Idem. http://www. entrou para a história das Nações Unidas89. acesse o site http://www. uma vez que nenhum outro país o havia feito. Idem. que em 11 de dezembro de 2003 foi promulgada a Lei nº 10. Ceará. O art. Dentre as medidas para acabar com o trabalho escravo.asp?idio ma=PT&noticia=10909.adital. 30 anos à época. fiscais e delegados. em virtude da apresentação de um “quadro psicótico”. Os fatos 85 Para maiores informações. estadao. que a Brasil reconhece na ONU a existência de trabalho escravo. A vítima já havia sido internada em 1995 no mesmo estabelecimento. mas fracassou: o médico. que estatui o confisco de terras para as propriedades que tenham mão-de-obra escrava.htm. (b) estabelecimento de uma política social para saber de onde vêm os escravos. No âmbito internacional. 8o do PIDCP (bem como o art. Idem. as violações alegadas.803. a propositura da ação pela Comissão perante a Corte. com dificuldade de respirar. será que o mero reconhecimento da existência de trabalhadores escravos é suficiente para acabar com a escravidão no país? Quanto ao segundo caso. e quando houver punição para as pessoas que tiram proveito desse tipo de trabalho. é de suma importância destacar os fatos. com hematomas. 90 Aula elaborada em 27 de janeiro de 2005. a mãe foi visitá-lo e o encontrou sangrando. e sim na análise das violações dos direitos civis e políticos da vítima. a responsabilidade do Estado brasileiro. foi internado na tarde de 1 de outubro de 1999 na Casa de Repouso Guararapes. o Brasil. 91 Como a Comissão e a Corte já foram objetos de análise de uma aula anterior.direitos humanos nos últimos oito anos (1995-2003). De acordo com o ministro Nilmário Miranda. Ressalte-se. a maioria na região amazônica86. Estadão. FGV DIREITO rio 92 . entre outras). destaquem-se88: (a) instituição de uma Vara Itinerante do Trabalho onde não houver juízes. ter acesso à terra. cabe mencioná-lo tendo em vista se tratar do único caso brasileiro que teve uma decisão emitida pela Corte Interamericana de Direitos Humanos90 (Corte). conforme exposto a seguir91: 1. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que haja entre 25 e 40 mil trabalhadores escravos no Brasil. Desesperada. que comporta cerca de 80% dos trabalhadores escravos. (c) concessão de alternativas de vida às pessoas pobres (alfabetização.263 indivíduos85. por oportuno.br/agestado/noticias/2004/mar/08/182. que chega a 9. com as mão amarradas por trás das costas. Damião Ximenes. foi à busca de auxílio. em 8 de março de 2004. na manhã de 4 de outubro. Dessa forma.com. com a roupa rasgada. o trabalho escravo acabará se a Câmara dos Deputados aprovar a proposta de emenda constitucional (Proposta de Emenda Constitucional nº 438/01). 4o da DUDH e o art. 6o da Convenção) proíbem expressamente a escravidão. Contudo.org. tirar documentos de identidade. a presente aula não aprofundará no estudo do procedimento de um caso perante ambas. De acordo com a Comissão e com os peticionários. de forma breve. o envio do caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão). promotores. e agonizando. a fim de que o trabalho escravo não seja uma opção.br/asp2/noticia. que alterou o artigo 149 do Código Penal – dispõe que “reduzir alguém a condição análoga à de escravo” é crime – mas não aumentou a pena mínima de dois anos para esse tipo de crime.

uma morte em 1987 e outra em 1991. irmã de Damião Ximenes. 4. a senhora Irene Ximenes Lopes. duas ações (uma penal e uma civil) tramitando perante a justiça local. os familiares da vítima levaram o corpo para realização de autópsia no instituto forense de Fortaleza. Dentre as versões apresentadas pelos enfermeiros e funcionários da instituição. voltou para sua casa em busca de ajuda e. pode cancelar a autorização do ente privado como prestador de serviços de saúde em nome do Estado (arts. que incluíram golpes na cabeça com objetos contundentes. Inconformados. já havia um recado que seu filho havia falecido. Já houve. 3. O médico fez constar como causa da morte “parada respiratória” e não ordenou a realização de autópsia. 2. 196 a 200. Dessa forma. A propositura da ação Em 30 de setembro de 2004.direitos humanos morte é uma coisa natural da vida. no âmbito interno. O Estado. Entre março e julho de 2000. tortura e abuso sexual de pacientes. CF). FGV DIREITO rio 93 . No laudo consta que se trata de “morte real de causa indeterminada”. não estando satisfeito com os serviços prestados. Desamparada. enquanto que na outra versão ele havia brigado com outros pacientes. uma vez que o Sistema Municipal de Auditoria concluiu em seu Relatório 002/99 que havia na instituição evidências de maus tratos. tendo em vista que o Estado brasileiro não cumpriu as recomendações da Comissão. denunciando os fatos ocorridos em detrimento de seu irmão. destaquem-se duas: na primeira versão. apresentou perante a Comissão uma petição contra o Brasil. Há. Damião Ximenes faleceu 3 dias após sua internação. o Estado brasileiro tem o dever de controlar e fiscalizar os serviços prestados pela referida instituição. ou melhor. em 4 de outubro de 1999. a Comissão resolveu enviar o presente caso à Corte. Dessa forma. foi instituída a Junta Interventora da Casa de Repouso Guararapes. A responsabilidade do Estado brasileiro A Casa de Repouso Guararapes é uma clínica privada conveniada ao SUS (Sistema Único de Saúde). que tem como diretor o médico da Casa de Repouso Guararapes. Damião havia brigado com enfermeiros. Não é a primeira vez que ocorre uma morte por violência e maus tratos na instituição em tela. O envio do caso Em 22 de novembro de 1999. chegando lá. pelo menos.

combinados com a violação do dever genérico de garantir e respeitar os direitos consagrados na Convenção (art. sendo a primeira sentença em face do Estado brasileiro. bem como seu dever de regulamentar e fiscalizar o atendimento médico de saúde”93. o Estado brasileiro reconheceu parcialmente a responsabilidade internacional por violação de direitos humanos – referente ao direito à vida e integridade pessoal. Pague as custas e gastos legais incorridos pelos familiares do senhor Damião Ximenes na tramitação do caso no âmbito nacional. As violações A Comissão requer que a Corte determine que o Estado brasileiro é responsável pela violação do direito à vida (art. acesse o site da Corte Interamericana de Direitos Humanos: http://www. 6. à integridade pessoal (art.cr/. imparcial e efetiva dos fatos relacionados com a morte de Damião Ximenes. 1. apesar de seu dever de cuidado como garantidor de seus direitos. Repare adequadamente os familiares do senhor Damião Ximenes pelas violações de direitos humanos cometidas. 93 Para ler a sentença na íntegra. a Corte proferiu a decisão do caso em tela. tanto no local dos fatos como em todo o território brasileiro. O pedido A Comissão solicita à Corte que ordene ao Estado que: • • • • Efetue uma investigação completa. FGV DIREITO rio 94 . as violações a sua integridade pessoal. Em audiência celebrada em dezembro de 2005.or. neste caso. 43/03 da Comissão). 25. incluindo o pagamento efetivo de uma indenização. devido à hospitalização do senhor Damião Ximenes em condições cruéis. Convenção Americana). Assim o fez sob o argumento de que as precárias condições de atendimento psiquiátrico às quais foi submetido Damião Ximenes Lopes não correspondem ao atual grau de evolução e implementação das políticas públicas nessa área e no respeito aos direitos humanos dos pacientes.direitos humanos 5. Expostas as pretensões da aula. Convenção Americana).92 A Corte deixou claro que o Brasil “tem responsabilidade internacional por descumprir. seu dever de cuidar e de prevenir a vulneração da vida e da integridade pessoal.corteidh. Convenção Americana). indaga-se: Qual é a importância do caso Damião Ximenes? Quais direitos foram violados no caso em tela? Há alguma diferença de 92 Informações atualizadas em 25 de outubro de 2006. Convenção Americana). 4o. 8o. do direito a um recurso efetivo e das garantias judiciais relacionadas com a investigação dos fatos. e as violações da obrigação de investigar (Relatório n. à proteção judicial (art. desumanas ou degradantes. às garantias judiciais (art. bem como daqueles originados na tramitação do presente caso perante o sistema interamericano. 5o. Em agosto de 2006. a seu assassinato.1. Adote as medidas necessárias para evitar que fatos similares ocorram no futuro. Convenção Americana).

Flávia.direitos humanos proteção dos direitos civis e políticos nos documentos mencionados? Quais são os artigos da CF que consagram os direitos civis e políticos? Quais são os direitos violados da pessoa que trabalha em condições análogas à de escravo? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. In: PIOVESAN. “A Litigância de Direitos Humanos no Brasil: Desafios e Perspectivas nos uso dos Sistemas Nacional e Internacional de Proteção”. 2003 Legislação: Convenção Americana sobre Direitos Humanos Declaração Universal sobre Direitos Humanos Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Constituição Federal FGV DIREITO rio 95 . São Paulo: Max Limonad. Temas de Direitos Humanos. Flávia.

conseqüentemente. embora tenha permitido um aumento da produtividade e da expectativa de vida em alguns países. em especial. Quanto ao segundo aspecto. mas também aqueles que fazem parte do discurso da mídia e. que. Dessa forma. para delimitar o objeto de estudo. 9. br/portuguese/arquivos/relatorio_rio1. sua sistematicidade e banalização ensejam ao menos um sentimento em comum. do acesso ao trabalho. o século XX. Em nosso Estado. Por tão enraizada no dia-a-dia dos cidadãos. 2. em um contexto no qual prevalece a omissão do Poder Público. perpetuadora da insegurança”94. A guerra pressupõe a existência de um inimigo (no caso seriam os criminosos e suspeitos) que se almeja combater.lainsignia. a violência no Rio de Janeiro é caracterizada pela mídia como guerra civil. Seguem. embora tenha causado indignação pública. Relatório Rio: Violência Policial e Insegurança Pública.. em 30 de março de 2005. Na região. 4. tal como a exclusão de um número cada vez maior de pessoas da vida econômica. é considerada natural por grande parte da sociedade e dos governantes95. por sua vez.org/2005/abril/ibe_026. que impõe o terror e a desordem. htm. em decorrência da existência de um “poder paralelo”. Assim. trajetória da violência estatal. A morte e a violência. 5. Falar em violência urbana não é tarefa fácil. Disponível em: http://www. uma vez que se trata de tema complexo e. op. Temos como exemplo a chacina ocorrida na Baixada Fluminense. devem ser levados em consideração pontos essenciais. contido justamente no repúdio à sua manifestação como rotina diária. é fruto das mudanças macro-estruturais propiciadas pela introdução do modelo econômico neoliberal na década de 1980. a criminalização da pobreza. 96 Expressão utilizada no Relatório do Centro de Justiça Global.pdf. do conhecimento popular. FGV DIREITO rio 96 . p. sistematicidade e banalização da violência. Acesso em: 14 abril 2005. multiplicam-se os relatos de violência. criminalização da pobreza. 95 Acesso em: 14 abril 2005. abaixo. assim. notadamente policial. Disponível em: http://www. ao mesmo tempo. Esta. tem como causa direta a exclusão social.org. trouxe também conseqüências drásticas. os tópicos que serão abordados: 1. ou melhor. causas do agravamento da violência. utilizam-se os critérios geográficos e sociais para localizar o inimigo96 94 Centro de Justiça Global 2004. 21. conseqüentemente. para que se possa tanto explicar quanto desmistificar alguns temas. cit. Em relação ao primeiro tópico.global. tão visceral à opinião pública. descrédito das ações do governo no combate à violência. que perpetua a insegurança no Estado. cumpre destacar a manifestação da violência urbana no Rio de Janeiro como algo rotineiro e. p. são naturalizadas. a idéia de que a pessoa é criminosa em virtude do local onde mora e de sua condição social.direitos humanos Aula 14: Violência Urbana NOTA AO ALUNO “A despeito das diferentes visões em relação ao entendimento sobre quem e como se produz a violência no Rio de Janeiro. 3.

Disponível em: http://www. A atuação policial.195 pessoas foram mortas por policiais no Estado do Rio de Janeiro no ano de 2003. faz-se necessária uma análise em conjunta da exclusão social. Como conseqüência dessa visão. Nesse contexto. FGV DIREITO rio 97 . conseqüentemente. em decorrência do período no qual se recompensava o policial com um incremento salarial – que variava entre 50 a 150% de seu salário – sempre que fizesse uma vítima letal. assim. Isto porque os três itens estão interconectados. p. php?categoria=seguranca. Nesse sentido. destaque-se que. que o conceito de segurança deve ser redefinido. SOARES.desarme.direitos humanos desta guerra. Em se tratando das causas do agravamento da violência no Rio de Janeiro.2004. Ainda em relação aos direitos humanos. 1. A pobreza passa a ser vista como perigo à sociedade e tem como conseqüên­ cia a não observância e consagração da universalidade dos direitos humanos. acaba por substituir a proteção da vida por práticas cada vez mais violentas. do sexo masculino. 30. pobre e negro. de saúde e de lazer. Nesse sentido.com. a maioria em condições que sugerem extermínio. os candidatos ao governo do Estado na campanha eleitoral de 1988.org/publique/cgi/cgilua. ao passo que em 1999 haviam ocorrido 289 mortes103. Disponível em: http://www. a fim de corresponder às exigências atuais: “segurança hoje em dia é política educacional. basearam seus discursos na promessa de criarem uma nova polícia e uma nova política de segurança. Quanto ao terceiro tópico. 16. Foi o que prometeu Anthony Garotinho. 14. o inimigo é caracterizado como pobre e morador de comunidades carentes. Disponível em: http://www. ou melhor.. Como conseqüência da supressão da “banda podre” da polícia. “Geografia da Violência no Rio de Janeiro” in Folha de São Paulo. 100 Acesso em: 14 abril 2005. assim como sua descartabilidade seria assegurada frente ao corpo social. Acesso em: 21 abril 2004. “legitimam” as violações dos direitos humanos por policiais nesses locais99.htm. equiparam criminosos e moradores das comunidades carentes e. é a relação entre os mesmos que agrava drasticamente a violência no Estado. p. Ibid. Acesso em: 14 abril 2005. especialmente no senso comum das classes média e alta”97.luizeduardosoares. de “reabilitar a polícia”. com idade entre 15 e 24 anos e morava em regiões carentes98. exe/sys/start. segundo os quais o criminoso ou suspeito reside nas favelas e possui “cor e aparência definidas. Contudo. Constata-se também que a maioria das pessoas assassinadas era jovem. bem como a noção de guerra. alterações corporativas que conduziram à exoneração de Luiz Eduardo Soares da Secretaria Estadual de Segurança Pública em 2000 significaram o retorno das velhas políticas de enfrentamento por seu sucessor. lainsignia. distorcida por essa perspectiva. corroborando. o conceito de criminalização da pobreza. ressalta Marcelo Freixo. ao assumir o poder. constata-se que a política de segurança pública do Estado não é dirigida a todos os cidadãos e nem está fundada na proteção e garantia universal dos direitos humanos. 99 Ibid.org/2005/abril/ibe_ 026. A exclusão 97 98 Idem.htm?infoid=3139 &tpl=printerview&sid=16>. houve uma redução em 40% do número de civis mortos pela polícia. entre outros itens. do sensacionalismo da mídia e da ação da polícia.10. O resultado pode ser vislumbrado pelo número muito maior de pessoas mortas em intervenções policiais: 427. Isto significa ser de extrema importância mais investimentos nas áreas sociais e mais planejamento na atuação policial. É uma questão de Estado e não de polícia”100. pesquisador do Centro de Justiça Global. 101 102 103 Idem. Luiz Eduardo. em detrimento da utilização da opressão e da violência como prática da polícia101.br/artigo_ind. o discurso e ações policiais. uma redução significante do número de policiais mortos e a maior quantidade de apreensão de armas com criminosos até então: 9 mil102.

desarme. p. portanto.luizeduardosoares. bem como uma ilusão por parte da mesma de que seu trabalho deva ser pautado na violência107. travestida como “resposta” à criminalidade – mas que diz respeito. em última instância. Acesso em: 21 abril 2004. o último tópico.php?id=44834. SOARES. incute na sociedade um falso clamor por Justiça.br/noticias_justica. manipulada pelo “Estado na perpetração da violência. Relatório Rio: Violência Policial e Insegurança Pública. clippingexpress.clippingexpress.php?id=44834. a fim de que.global. treinamentos e capacitação dos policiais. tem uma tradição de repressão. a polícia possa definitivamente transmitir segurança ao invés de medo. Centro de Justiça Global.org. 14. 2003. PINHEIRO.htm?infoid=3139 &tpl=printerview&sid=16>. João Ricardo. As principais causas do descrédito das ações do governo no combate à violência. Disponível em: http://www. de mudanças drásticas e urgentes em toda a política de segurança pública do Rio de Janeiro. leia a entrevista com Ignacio Cano. Acrescente-se a este fato a questão da impunidade dos policiais. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris.com. Disponível em: http://www.pdf. Luiz Eduardo. Hoje em dia. Necessita-se. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: CANO.com. Em especial. 30. ao etiquetamento penal de suas camadas mais miseráveis”106.e.php?categoria=seguranca.br/artigo_ind. seguindo a premissa de “entender menos e punir mais”104 (i. Violência Urbana.br/portuguese/arquivos/relatorio_rio1. Ignacio. In: Folha de São Paulo. 2003. tem haver com a falta de transparência das ações públicas na área de segurança. Disponível em: http:// www. Acesso em: 14 abril 2005. Já a mídia. Conflito e segurança (entre pombos e falcões). pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da UERJ.2004. o policial mata ou tortura alguém. assim como a carência de investimentos. “Geografia da Violência no Rio de Janeiro”. o direito à vida e o direito à integridade física). São Paulo: Publifolha. mas sim punir os criminosos).10. DORNELLES. que começa com a fundação das primeiras corporações no Brasil para manter sob controle as classes subalternas106. 104 105 106 Ibid. Guilherme de Assis. Capítulo VII. a ausência de órgãos de monitoramento independentes e a corrupção policial. Disponível em: http:// www. 107 FGV DIREITO rio 98 . não visa a explicar ou entender as causas do problema para que se possa solucionálos. um dia. há uma enorme demanda de certos setores para que a polícia seja violenta.direitos humanos social contribui para que muitas pessoas optem por atividades ilícitas como meio de vida. Disponível em: http://www. Para maiores informações.br/noticias_justica. Acesso em: 14 abril 2005. Acesso em: 14 abril 2005. que é ainda mais grave quando se materializa em violação dos direitos humanos (quando. Entrevista. A polícia. por exemplo. exe/sys/start. violando. por sua vez. Paulo Sérgio e ALMEIDA. Idem.com. Acesso em: 14 abril 2005. respectivamente.org/publique/cgi/cgilua.

assim.”108 Em se tratando especificamente do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. muitas vezes. 110 FGV DIREITO rio 99 . com medidas de implementação distintas. ambiente este que prioriza. Isto porque. em 1951. bem como em decorrência da preponderância da posição dos países ocidentais. uma vez que os direitos econômicos. cada um voltado a uma categoria de direitos. o relatório será analisado pelo Comitê de Direitos Econômicos. A raiz do tratamento diferenciado das duas categorias de direito encontra-se na decisão tomada pela Assembléia Geral das Nações Unidas. e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. “o Pacto de Direitos Civis e Políticos também prevê a ´possibilidade de realização progressiva´ de certos direitos. que alegavam que ambas as categorias de direitos não poderiam estar no mesmo Pacto. tal dicotomia não tinha caráter absoluto. o PIDESC não prevê um mecanismo de comunicação interestatal nem de petição individual109 (através de um protocolo adicional). Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. os direitos civis e político . sociais e culturais NOTA AO ALUNO A busca por uma proteção mais efetiva dos direitos econômicos. ao passo que comunicação individual se refere à possibilidade do indivíduo recorrer a instâncias internacionais para reparação ou restauração dos direitos violados.direitos humanos Aula 15: Direitos humanos econômicos. ao longo da história. Sociais e Culturais (PIDESC). 1997. p. o PIDESC baseia-se no mecanismo dos relatórios. O Comitê DESC. e talvez a distinção seja antes uma questão de gradação ou de ênfase. criado pelo Conselho Econômico e Social e que tem por principal função o monitoramento da implementação dos direitos econômicos. I. por meio do qual os Estadospartes encaminham relatórios ao Secretário-Geral das Nações Unidas que. sociais e culturais. têm força política e moral que. Na verdade. formando. assim como não estatui um Comitê como órgão principal de monitoramento. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. os conflitos entre as duas categorias de direitos nem sempre são claros. As recomendações caracterizam-se CANÇADO TRINDADE. Sociais e Culturais contém dispositivos suscetíveis de aplicação a curto prazo. em conjunto com a DUDH. se transformam em um importante instrumento de negociação para que haja avanços na proteção dos direitos humanos. sociais e culturais demandam realização progressiva. embora não sejam dotadas de força legal. a Carta Internacional dos Direitos Humanos. por sua vez. sociais e culturais (DHESCs) encontra-se na atual agenda internacional dos direitos humanos. 354. diferentemente do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. cabe ressaltar seu sistema peculiar de monitoramento. após analisar o relatório. voltada às obrigações gerais que vinculam os Estados Partes. Tal medida se deu em virtude do conflito ideológico que vigorava na época. Todavia. até hoje. Sociais e Culturais110 (Comitê DESC). Vol. Como leciona Cançado Trindade. tendo em vista que os mesmos foram. encaminhará uma cópia ao Conselho Econômico e Social para apreciação. negligenciados na esfera internacional. já naquela época. ao passo que os direitos civis e políticos são auto-aplicáveis. Instituído pelo Conselho Econômico e Social da ONU através da Resolução ESC 1985/17. 108 109 Comunicação interestatal é aquela através da qual um Estado-parte denuncia a existência de violação de direitos humanos em outro Estado-parte. cumpre ressaltar que. De maneira diversa. de elaborar dois Pactos Internacionais de Direitos Humanos (1966). Antonio Augusto. emitirá suas observações conclusivas que.

consistirá em uma forma de ampliação do sistema de monitoramento. cabe mencionar que o Governo Federal apresentou. a sociedade civil. a sociedade civil apresentou um “Informe Alternativo” ao Comitê de Direitos Econômicos. muitos deles surtem impactos de natureza social ou econômica. Em relação à consagração dos DHESCs no âmbito internacional. pela primeira vez. tais como os consagrados pelo Protocolo I: direito à propriedade privada (artigo 1) e direito à educação (artigo 2). foram incorporados alguns direitos à Convenção Européia.direitos humanos por seu power of embarrassment. 112 113 O Contra Informe foi apresentado durante o 30º Período Ordinário de Sessões (05 a 23 de maio de 2003) do Comitê de Direitos Econômicos. por oportuno. destaca-se o Protocolo Facultativo ao PIDESC (tramita. a fim de contestar alguns fatos levantados pelo governo federal. Nesse contexto. uma clara distinção entre as duas categorias de direitos. bem como para apresentar novos dados sobre a situação brasileira. não havendo. afirmando.e. desde 1997. Os DHESCs também podem ser analisados nos três sistemas regionais de proteção dos direitos humanos: sistema europeu. Sociais e Culturais. Destaque-se. Em virtude da crescente atenção dada aos DHESCs ao longo dos anos. Sociais e Culturais adotou as observações conclusivas em 23 de maio de 2003. ambas as categorias de direitos estivessem no mesmo patamar. em 2001112. O Brasil ratificou o PIDESC em 24. assim. caso seja adotado. assim. suas observações conclusivas acerca do cumprimento do PIDESC pelo Brasil. Em relação ao Brasil111. bem como das dificuldades encontradas para a plena realização desses direitos. é de suma importância ressaltar a I Conferência Mundial sobre Direitos Humanos.01. seu Primeiro Informe ao Comitê de Direitos Econômicos. Como exemplo. que proclamou a indivisibilidade dos direitos humanos. realizada em Viena. Em contrapartida. faz-se extremamente necessário ampliar o sistema de monitoramento dos direitos econômicos. 111 Saliente-se que em 2000. O Comitê de Direitos Econômicos. o Comitê DESC emitiu114. especificamente. realizada em Teerã. em 1993. por meio da Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos. na Comissão de Direitos Humanos da ONU) que. 114 FGV DIREITO rio 100 . Após a análise dos dois informes. administrativas e judiciárias que são tomadas para efetivar os direitos estabelecidos no PIDESC. saliente-se a ponderação feita pela Corte Européia de Direitos Humanos no caso Airey (1979) de que embora a Convenção Européia sobre Direitos Humanos consagre essencialmente os direitos civis e políticos. o único mecanismo de proteção dos direitos em tela estabelecido pelo PIDESC é a sistemática dos relatórios. Sendo assim. com quase dez anos de atraso. Sociais e Culturais. uma vez que a consagração da indivisibilidade dos direitos humanos fez com que. constrangimento político e moral no campo da opinião pública internacional do Estado que viole os direitos humanos. i. Sociais e Culturais (Dhesc Brasil) apresentou em 2003 seu Contra Informe113 (denominado também de Relatório Sombra) ao Comitê DESC. em maio de 2003. assim denominado uma vez que o governo federal brasileiro ainda não tinha encaminhado nenhum informe. Sociais e Culturais das Nações Unidas. em virtude da inércia do estado brasileiro. Trata-se de passo de suma importância. Em relação ao sistema europeu. que a indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos foi reafirmada na II Conferência Internacional sobre Direitos Humanos. especificando se as recomendações propostas pelo Comitê DESC foram observadas ou não. incluindo recomendações e sugestões para sua efetivação. último dia de seu 30º Período Ordinário de Sessões.1992. sistema africano e sistema interamericano. em 1968. que a plena realização dos direitos civis e políticos só seria possível com o gozo dos DHESCs. sociais e culturais no plano internacional.. já que prevê o mecanismo de comunicação individual. pelo qual os Estados-partes devem encaminhar informações acerca das medidas legislativas. O Governo brasileiro apresentou em 2006 um novo informe.

o Estado brasileiro comprometeu-se a implementar as ações e as propostas de alterações legislativas contidas no Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo. a aula deverá apontar o Caso 11. Quanto ao sistema interamericano. em seus respectivos âmbitos de competência.oas. O reconhecimento público da responsabilidade do Estado brasileiro em relação à violação de direitos humanos deu-se na solenidade de instalação da Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo-CONATRAE (criada por Decreto Presidencial de 31 de julho de 2003). elaborado pela Comissão Especial do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. como. limitando-se a dispor que os mesmos devem ser realizados progressivamente. por oportuno. 7) e o direito a um meio ambiente sadio (artigo 11). realizada no dia 18 de setembro de 2003. que trata da situação de José Pereira. em 2003. 115 116 Idem. que o referido Protocolo define o alcance de alguns DHESCs. Por fim.000. o Protocolo de San Salvador dispõe acerca da possibilidade de se enviar petição individual acerca do direito à educação e de alguns aspectos dos direitos sindicais à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão). quer com a assistência e cooperação Relatório Nº 95/03 Jose Pereira – Caso 11.Nesta oportunidade. em 1988 foi adotado o Protocolo Adicional à Convenção Americana em matéria de Direitos Econômicos. cabe mencionar o debate sobre duas categorias intrínsecas aos DHESCs: a progressividade e a exigibilidade. o caráter fundamental dos DHESCs. o direito à seguridade social (artigo 9). embora a Convenção Americana sobre Direitos Humanos mencione os DHESCs em apenas um artigo. 2005.. em 11 de março de 2003. Disponível em: http://www. tendo a Comissão Africana de Direitos Humanos e dos Povos um mecanismo de aplicação comum a todos os direitos.289 (Brasil). Expressão de um movimento de conscientização para uma proteção mais efetiva aos DHESCs. chegou-se a uma solução amistosa. foi gravemente ferido. Embora o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos tenha se concentrado na defesa dos direitos civis e políticos. Em primeiro lugar. pagou a vítima o valor de R$ 52.cidh. José Pereira. quer com seu próprio esforço. eqüitativas e satisfatórias de trabalho (art.direitos humanos Em se tratando do sistema africano. a Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos prevê um catálogo tanto de direitos civis e políticos (artigos 3 a 14) quanto de direitos econômicos. Como exemplo. capangas atiraram nos trabalhadores que tentavam fugir da fazenda. tanto a Comissão quanto a Corte Interamericana de Direitos Humanos têm reconhecido. cabe destacar que. o direito a condições justas.289115.11289. por exemplo. Acesso em: 04 jan. Em uma ocasião. Saliente-se.00 (cinqüenta e dois mil reais) a título de indenização por danos morais e materiais116. o PIDESC assevera a obrigação do Estado de.htm. sociais e culturais (artigo 15 a 18). bem como de apresentar relatórios periódicos. sofrendo lesões permanentes no olho direito e na mão direita. um menor de idade que trabalhava em condições análogas à de escravo em uma fazenda no sul do Pará. e lançado pelo governo brasileiro. As pessoas aceitavam trabalhar no local em virtude de falsas promessas de altos salários e boas condições de trabalho. Ainda no bojo do referido acordo. e de maneira a aprimorar a legislação nacional que visa a coibir a prática do trabalho escravo no país. FGV DIREITO rio 101 . O caso em tela foi levado à Comissão em 1994 e. que na época tinha 17 anos. documento este que entrou em vigor em novembro de 1999. org/annualrep/2003eng/Brazil. o Estado brasileiro. Sociais e Culturais (Protocolo de San Salvador).

a liberdade de conformação do legislador. como decorrência causal de uma injustificável inércia estatal ou de um abusivo comportamento governamental. registra-se ainda muita resistência por parte do Ministério Público e do Judiciário em designar uma tutela efetiva a tais direitos. destaque-se que a exigibilidade dos DHESCs pode ser considerada nas esferas nacional (constituições e leis) e internacional (PIDESC). aquele núcleo intangível consubstanciador de um conjunto irredutível de condições mínimas necessárias a uma existência digna e essenciais à própria sobrevivência do indivíduo. afetando. Refere-se aqui à exigibilidade dos DHESCs.”118 Por mais que alguns DHESCs já possuam mecanismos eficientes de proteção perante o Judiciário. agora ele tem uma base positiva que legitima sua ação em nível interno. a eficácia dos direitos sociais. 108. tem-se que uma saída possível e recomendável é o estabelecimento de metas e prazos para a concretização dos DHESCs. em ordem a viabilizar. cumpre reconhecer que não se revela absoluta. em sede da Argüição de Descumprimento de Direitos Fundamental (ADPF) n. Nesse sentido. nem a de atuação do Poder Executivo. 45119. Rio de Janeiro: Renovar. Os DHESCs. para assegurar progressivamente o pleno exercício dos direitos elencados.. ADPF n. 2001.br/cgi-bin/nphbrs?d=DESP&n=-julg&s1=45. se tais Poderes do Estado agirem de modo irrazoável ou procederem com a clara intenção de neutralizar. a todos.direitos humanos internacionais. compreendidos também os humanos. econômicos e culturais. no máximo dos recursos disponíveis. receberam investidura em mandato eletivo. esta denominada justiciabilidade. p.asp&Sect1=IMAGE&Sect2 =THESOFF&Sect3=PLURON&S ect6=DESPN&p=1&r=2&f=G. Disponível em: http://gemini. por delegação popular. Os direitos humanos econômicos. o Ministro Celso de Mello.stf. como é o caso dos direitos trabalhistas e previdenciários.2004. indica para o fato de que progressividade não pode ser entendida como postergação infinita. Como lembra Jayme Benvenuto. cabe registrar. uma contradição no primeiro exame. comprometendo-a. importante decisão do Supremo Tribunal Federal acerca dos DHESCs. tecnológicos. devem ser dotados de mecanismos para que seus titulares possam deles usufruir. FGV DIREITO rio 102 . nesse domínio. sociais e culturais. p. mesmo sem examinar diretamente o objeto da ação – veto do Presidente da República a artigo da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2003 que garantia recursos financeiros ao serviço de saúde – uma vez que o Poder Executivo enviou projeto de lei ao Legislativo que restaurou a integridade do artigo. naturais e de informação.br/Jurisprudencia/Jurisp. o acesso aos bens cuja fruição lhes haja sido injustamente recusada pelo Estado”. justificar-se-á. Acesso em: 04 julho 2005. (ii) recursos aqui devem ser entendidos para além dos financeiros.gov.117 Dessa forma. Todavia. aí.&l=20&u=http://www.04. apôs importantes considerações ao Poder Judiciário em relação à implementação dos DHESCs: “Não obstante a formulação e a execução de políticas públicas dependam de opções políticas a cargo daqueles que. como precedentemente já enfatizado – e até mesmo por razões fundadas em um imperativo ético-jurídico -. tomar medidas. 45 – STF. 118 119 Ibid. a possibilidade de intervenção do Poder Judiciário. “se ao Judiciário sempre coube a obrigação de solucionar conflitos em relação a todas as matérias que lhe sejam apresentadas. stf.gov. a qual pode se dar no âmbito administrativo ou judicial. Em 29 de abril de 2004. precisamente por constituírem direitos. Relator Ministro Celso de Mello. então. Nesse contexto. Jayme Benvenuto. NUME. É que. cabe a análise de alguns desses elementos: (i) a acareação entre o máximo e o disponível. tendo em vista a previsão normativa dos DHESCs. 117 LIMA JÚNIOR. por fim. Julgamento em 29. 120.

Sociais e Culturais Declaração Universal de Direitos Humanos Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem Convenção Americana sobre Direitos Humanos Protocolo de San Salvador Convenção Européia sobre Direitos Humanos Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos FGV DIREITO rio 103 . “A proteção Internacional dos Direitos Econômicos. Leitura acessória: LIMA JÚNIOR. Flávia. sociais e culturais? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. Vol. indaga-se: Um cidadão brasileiro pode enviar um caso relativo à violação do direito à saúde à Comissão Interamericana de Direitos Humanos? Quais são os mecanismos de proteção dos DHESCs existentes no sistema global? O que representa a consagração da indivisibilidade dos direitos humanos para a proteção dos direitos econômicos. Legislação: Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos. 91-114. GOTTI. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Antonio Augusto. 1997. 2003. pp 353-360. 2001. Flávia. Jayme Benvenuto. Rio de Janeiro: Renovar. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. Temas de Direitos Humanos. Janaína Senne. Os direitos humanos econômicos. sociais e culturais. e MARTINS.direitos humanos Pelo exposto. São Paulo: Max Limonad. Alessandra Passos. PIOVESAN. In: PIOVESAN. pp. Sociais e Culturais”. I.

Referimo-nos aqui a sexo como as diferenças entre homens e mulheres dadas pela natureza. etc. “na medida em que o sistema especial de proteção é voltado. Seja a Declaração Universal de 1948 ou os Pactos Internacionais de 1966. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. 188. considerando-se categorizações relativas ao gênero. Proteção dos direitos da mulher Na compreensão do processo narrado. às pessoas vítimas de tortura.”120 Ao longo das próximas aulas. as PIOVESAN. O sistema internacional passa a reconhecer direitos endereçados às crianças. raça. foram consolidados tratados que tinham como objeto tema específico. As desigualdades de gênero são as diferenças socialmente construídas. pessoas crescem em contextos sociais em que papéis sócio-culturais são designados de acordo com as relações de poder estabelecidas em razão do sexo. à prevenção da discriminação ou à proteção de pessoas ou grupos de pessoas particularmente vulneráveis. de Todas as Formas de Discriminação Racial de 1965. Os direitos humanos sob a perspectiva de gênero NOTA AO ALUNO Vimos discutindo ao longo das últimas aulas a proteção aos direitos civis e políticos e aos direitos econômicos.direitos humanos Aula 16: A especificação do sujeito de direitos. por exemplo. Convenção contra a tortura e outros tratamentos ou Penas Cruéis. ao longo das últimas décadas. nos referimos até o presente momento ao sistema geral de proteção aos direitos humanos. Desumanos ou Degradantes de 1984 e a Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989. às mulheres. sociais e culturais. às pessoas vítimas de discriminação racial. Daí apontar-se não mais ao indivíduo genérica e abstratamente considerado. como. a primeira das especificações refere-se ao fato de que os seres humanos são sexuados. a Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW) de 1979. 120 FGV DIREITO rio 104 . 2002. tidas suas diferenças em segundo plano. passaremos a analisar o processo de especificação dos sujeitos de direitos como decorrência de um outro marco fundamental: a universalidade dos direitos humanos. como. e passa a analisa-los com concretude. Flávia. etnia. (I) p. São Paulo: Max Limonad. Há de se destacar que o sistema geral e o sistema especial de proteção de direitos humanos são necessariamente complementares. É o que se costuma denominar de processo de especificação do sujeito de direitos. que merecem proteção especial. dentre outros. aos idosos. parir e amamentar. Mais do que isso. por exemplo. examinaremos alguns desses sujeitos de direito. Todavia. A partir da presente aula. dotando alguns sujeitos de direitos também distintos. O Direito Internacional dos Direitos Humanos deixa de examinar os seres humanos como sujeitos neutros. fundamentalmente. ressaltando a indivisibilidade como o marco de compreensão dos direitos humanos. idade. cabendo a escolha dos direitos humanos das mulheres como o primeiro desses. o fato de somente as mulheres poderem menstruar. mas ao indivíduo ‘especificado’.

Alice (org. eleitos pelos países que ratificaram a Convenção. para exame do Comitê. o tratado não prevê a possibilidade de comunicações estatais ou do conhecimento de violações de ofício por parte do Comitê.). Os Estados partes comprometem-se a uma dupla obrigação: devem eliminar as formas constantes de discriminação e devem promover a igualdade. a cada 4 anos. no prazo de um ano a partir da entrada em vigor da convenção. Temas de Direitos Humanos. 109.. De acordo com o artigo 1o. o artigo 4o da CEDAW também prevê a aplicação de medidas de ação afirmativa: a adoção pelos Estados-Partes de medidas especiais de caráter temporário destinadas a acelerar a igualdade de fato entre o homem e a mulher não se considerará discriminação na forma definida nesta Convenção. (g) e (h). p. Brasília: AGENDE. PIOVESAN. em 18 de dezembro de 1979. parágrafo 1o. dos direitos humanos e das liberdades fundamentais nos campos político. independentemente de seu estado civil. 2003.122 A Convenção foi ratificada pelo Estado brasileiro em 1984. Em resposta aos relatórios. os Estados comprometem-se a submeter a Secretaria-Geral das Nações Unidas. de uma construção cultural das desigualdades (gênero) que não se justifica nas diferenças biológicas dadas pela natureza (sexo). mas de nenhuma maneira implicará. Flávia. social. administrativas. exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento. por incompatibilidade com a legislação civil vigente. (a). posteriormente. (II) p. In: PIOVESAN. o Governo notificou a Secretaria Geral da ONU para que retirasse as referidas reservas. econômico. composto 23 peritos. como conseqüência. e ao artigo 16. e toda vez que solicitar o Comitê (artigo 18 Convenção). 210. Todavia. 122 FGV DIREITO rio 105 . cultural e civil ou em qualquer outro campo. Direitos Humanos das mulheres. passando a vigorar em 3 de setembro de 1981. Os avanços promovidos pela Convenção foram “freiados” pela constatação de que esse foi o marco normativo de direitos humanos que mais recebeu reservas no âmbito da ONU: ao menos 23 dos 100 Estados-partes realizaram 88 reservas. (c). exercício pela mulher. tendo sido apresentada denúncia ao artigo 15. “Os direitos humanos da mulher na ordem internacional”. dentre outras.. a manutenção de normas desiguais ou separadas. Por outro lado. Flávia.121 Nesse sentido. Em seu artigo 17. Nesse sentido. algumas dessas afetando a essência da universalidade dos direitos humanos. com base na igualdade do homem e da mulher. relatório sobre as medidas legislativas. essas medidas cessarão quando os objetivos de igualdade de oportunidades e tratamento houverem sido alcançadas. Todavia. em consonância com o quadro constitucional proporcionado pelo Texto de 1988.direitos humanos mulheres cuidarem dos filhos e da casa e os homens trabalharem fora. Essa distinção é relevante para percebermos que as desigualdades sociais entre homens e mulheres vêm de nossas idéias. São Paulo: Max Limonad. em 1994. foi aprovada pela Assembléia Geral da ONU a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW). em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações. parágrafo 4o. dentre eles atualmente a brasileira Silvia Pimentel. Tais artigos estabelecem a igualdade entre homens e mulheres no âmbito das relações familiares. judiciárias. da Convenção. qualquer pessoa ou grupos de pessoas que aleguem ser vítimas de violações à Convenção podem apresentar petição ao Comitê. é possível 121 LIBARDONI. Somente a partir da elaboração do Protocolo Facultativo aprovado pela ONU em 1999. gozo. Ao ratificar a Convenção. 2002. o Comitê emite recomendações a serem cumpridas pelo Estado. a Convenção estabelece o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher. discriminação contra a mulher significa toda distinção.

). Direitos Sexuais e Reprodutivos Se o movimento de mulheres teve início com a busca da igualdade entre homens e mulheres. gestação. amamentação. os Estados reuniram-se na IV Conferência Mundial sobre a Mulher. produto da primeira grande conferência mundial de direitos humanos no contexto pós-Guerra Fria.. FGV DIREITO rio 106 . Como seu artigo 4o afirma a necessidade de esgotamento dos recursos internos e a impossibilidade de litispendência internacional como critérios de admissibilidade de uma denúncia. como os direitos sexuais e reprodutivos e a violência doméstica e familiar contra a mulher. Mais além do exame dos principais tratados que se referem aos direitos humanos das mulheres. seu Protocolo Facultativo é a bula que ensina como usar esse remédio. 63. reasseverou a igualdade entre homens e mulheres e conclamou os Estados a promover a ratificação universal da Convenção para a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres e a retirar as reservas que comprometiam a essência do tratado. passam a ser examinados como questões correlatas. mas novas garantias de proteção.”123 O Brasil assinou o protocolo em 08 de março de 2001. Alice (org. acessíveis e d) o direito de acesso ao mais elevado padrão de saúde reprodutiva. em 1995. percebemos que a tônica foi transferida para direitos inerentes a condição diferenciada das mulheres. c) o direito a ter acesso a informações e meios seguros. a Declaração de Viena de 1993. em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações. contracepção. A Declaração e o Plano de Ação de Beijing reafirmam os direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos e recomendam aos Estados a rever as legislações punitivas ao aborto. Desenvolvimento e Paz. p. direitos sexuais compreendem: a) o direito a decidir livre e responsavelmente sobre sua sexualidade. b) o direito de decidir livre e responsavelmente o número de filhos e o intervalo entre seus nascimentos. pode-se afirmar que muitas mulheres brasileiras preferem a utilização do Sistema Interamericano de Direitos Humanos por contar com uma instância jurisdicional para verificação da responsabilidade internacional. Foi nesse sentido que caminharam as principais conferências referentes a direitos sexuais e reprodutivos. 2002. entre tantos outros temas. é importante ressaltar alguns temas correlatos. notadamente no que se refere ao direito ao voto. o qual foi aprovado pelo Congresso Nacional e ratificado pelo Presidente em setembro de 2002. Dia Internacional da Mulher. Concepção. Em 1994. coerção ou violência. Se a Convenção é um “remédio para auxiliar a eliminar a discriminação contra as mulheres. passando o aborto a ser compreendido como uma questão de saúde pública. Por sua vez. Direitos Humanos das mulheres. durante a Conferência do Cairo sobre População e Desenvolvimento..direitos humanos afirmar que o Protocolo não estabeleceu novos direitos. os Estados reconheceram os direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos e ainda afirmaram que meninas e mulheres têm o direito a decidir sobre a maternidade. b) o direito de ter 123 LIBARDONI. aborto. conclui-se que os direitos reprodutivos incluem: a) o direito de adotar decisões relativas à reprodução sem sofrer discriminação. Por fim. Brasília: AGENDE. Por sua vez. disponíveis. Com base nos instrumentos internacionais citados.

a qual concebe especificidade a tal violência baseada no gênero.. São Paulo: Atlas. aprovada em cidade brasileira e. destaca-se o envio de relatórios periódicos à Comissão Interamericana de Mulheres (CIM). caso não o fosse. tráfico de mulheres. O continente americano desponta na criação de uma convenção regional específica e vinculante para o combate de tal forma de violência. maus-tratos. em conformidade com a Convenção Americana de Direitos Humanos. O Brasil foi o primeiro Estado a ser acionado perante a Comissão por desrespeito à Convenção do Belém do Pará: tratase mais especificamente do caso Maria da Penha Fernandes. com os devidos cuidados éticos recomendados pelos instrumentos internacionais. Direitos Humanos e nãoviolência. f ) o direito de acesso às informações e aos meios para desfrutar do mais alto padrão de saúde sexual e g) o direito a fruir do progresso científico e a consentir livremente à experimentação. 2001. em outras palavras. em 1993. o que rompe com a tradicional separação entre o espaço público e privado. prostituição forçada. c) o direito a viver livremente sua orientação sexual. Trata-se da Convenção Interamericana para Prevenir. abuso sexual. seqüestro e assédio sexual. entre outras formas. a Convenção inova ao: “a) introduzir o conceito de violência baseada no gênero. F. como na esfera privada (no âmbito da família ou unidade doméstica). Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. tendo o Congresso Nacional a aprovado mediante o Decreto Legislativo no. sem sofrer discriminação.” 124 Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher Por mais que a Convenção de 1979 não faça menção expressa à violência doméstica e familiar contra a mulher. op. tortura. (II) p. Tal convenção foi assinada pelo Brasil em 09 de junho de 1994. tanto na esfera pública (ocorrida na comunidade). Segundo Guilherme Assis de Almeida. 124 PIOVESAN. de 01 de setembro de 1995 e o Presidente a ratificado em 27 de novembro de 1995. 83. comumente denominada Convenção do Belém do Pará.direitos humanos controle sobre o seu próprio corpo. e) o direito à privacidade. ALMEIDA. a violência não ocorreria. c) ampliar o âmbito de aplicação dos direitos humanos.”125 Dentre as diversas obrigações assumidas pela ratificação.áo sexual. e d) relacionar os tipos de violências possíveis sem ser taxativa: estupro. é uma violência que é cometida pelo fato de a vítima ser uma mulher. Importante passo foi o estabelecimento do mecanismo de petições individuais a serem apresentadas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. 125 FGV DIREITO rio 107 . 107. cit. a ONU adotou a Declaração sobre a Eliminação da Violência contra a Mulher. alguns entendem que esta estaria incluída no conceito geral de discriminação. por isso. b) explicitar a noção de dano ou sofrimento sexual. Guilherme Assis de. coação ou violência. d) o direito a receber educa. p. Por sua vez. 247.

item “g”). n. 2002. PIOVESAN. STUDART.. 2001. Direitos Humanos das mulheres. In: PIOVESAN. 194-202 (Cap. 2003. 5). São Paulo: Max Limonad.). São Paulo: Max Limonad. Petrópolis: editora Vozes.direitos humanos MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. item V. XIII. (Cap. Flávia. Volume II. Heloneida. VI. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Flávia “Os direitos humanos da mulher na Ordem Internacional”. 316-318. Mulher objeto de cama e mesa. em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações.. Leitura acessória: LIBARDONI. 1999. Legislação: Constituição Federal de 1988 Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher e seu Protocolo Facultativo Convenção de Belém do Pará FGV DIREITO rio 108 . Tratado de direito internacional dos direitos humanos. pp. Flávia. 26a edição. Temas de Direitos Humanos. Alice (org. 2002. Brasília: AGENDE. PIOVESAN. Antônio Augusto. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. pp.

Para o monitoramento das obrigações. à criança. a Convenção estabeleceu ainda o Comitê sobre os Direitos da Criança. a Convenção estabelece um princípio regedor de toda a normativa protetiva: o melhor interesse da criança: Artigo 3 1. deverá subisidiar e integrar a apresentação do grupo. Todas as ações relativas às crianças. Tendo em vista o zelo por determinadas questões que afligem crianças em todo o mundo. à saúde. à liberdade e à convivência familiar e comunitária. Lei n. à cultura. Além de enumerar direitos específicos à criança. como estabeleceu a proteção da criança e do adolescente como prioridade absoluta: Art. Abrangendo tanto direitos civis e políticos quanto direitos econômicos. de designar a denominação de criança aos seres FGV DIREITO rio 109 . foram aprovados pela Assembléia Geral. em 25 de maio.direitos humanos Aula 17: Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente NOTA AO ALUNO A Convenção sobre os Direitos da Criança. dois Protocolos: o Protocolo Facultativo sobre a Venda de Crianças. 227. ao respeito. à educação. No âmbito interno. ao adolescente e ao idoso. que criança é o ser humano com menos de 18 anos de idade. primordialmente. violência. ambos assinados pelo Brasil em 2000. Não somente reservou um capítulo à família. 8. discriminação. devem considerar. Considerado um dos documentos que melhor espelha os direitos elencados na Declaração sobre os Direitos da Criança. à profissionalização. Não há previsão da sistemática de comunicações interestatais e de petições individuais. ao lazer. o constituinte já havia consolidado no Texto Constitucional todo o debate acerca da necessidade de uma proteção especial às crianças e aos adolescentes. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). levadas a efeito por autoridades administrativas ou órgão legislativos. o ECA constitui um marco na normatização de direitos no Brasil. da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente. além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência. como regra geral. sociais e culturais. de 13 de julho de 1990.069. o qual recebe relatórios periódicos dos Estados. à dignidade. com absoluta prioridade. Prostituição e Pornografia Infantis e o Protocolo Facultativo sobre o Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados. crueldade e opressão. É dever da família. à alimentação. Cumpre ao professor ressaltar a opção brasileira. adotada em 1989 e vigente desde 1990 é o tratado de direitos humanos que mais se aproxima da ratificação universal. o direito à vida. exploração. clara tanto na Constituição Federal quanto no ECA. o interessa maior da criança. a Convenção estabelece.

‘derrubando’ tal nomenclatura e adequando o ordenamento jurídico nacional aos imperativos internacionais e constitucionais. a desestruturação da família pode levar a atos violentos e agressivos contra a criança e o adolescente. Sendo assim. podendo. Dispõe o art. Em relação aos maus tratos. os meios de disciplina e correção não são mais absolutos. tendo duração variável (dias. instituído no interesse dos filhos e da família. Todavia. uma vez que predomina na família a “lei do silêncio”128. tal como o Conselho Tutelar. Disponível em: http://www.br/denunciar/tortura/textos/nilton. Isto porque em uma sociedade na qual o pai tem poder ilimitado em relação ao filho. inclusive. que precisa de proteção especial em virtude de ser uma pessoa em desenvolvimento. tratamento ou custódia.org. meses. 136. Tais violações não são levadas ao conhecimento de agências oficiais de proteção. possibilitando a convivência do princípio do melhor interesse com a figura do pátrio poder. quer abusando de meios de correção ou disciplina: Pena – detenção. anos). o ECA revogou o Código de Menores. 1º). o pátrio poder é encarado como complexo de deveres em relação aos pais. Discutir a aplicação das normas internacionais e internas exige o recorte de algumas situações que poderão ser abordadas pelo grupo: Maus tratos: muito embora vigore hoje em dia o princípio do melhor interesse da criança. por oportuno. Implementou a Doutrina Jurídica da Proteção Integral (art. o pai tinha poder disciplinar absoluto em relação ao filho. tendo total liberdade para aplicá-lo o castigo que julgasse pertinente. Foi apenas com o cristianismo e com o desenvolvimento da sociedade que se foi exigindo moderação no uso do poder disciplinar. que se exterioriza como abuso de poder disciplinar e de correção. não há que se falar em melhor interesse da criança. conforme arts. para fim de educação. quer sujeitando-a a trabalho excessivo ou inadequado. de dois meses a um ano. designando uma nova condição jurídica à criança e ao adolescente: passa a ser sujeito de direitos. § 1º – Se do fato resulta lesão corporal de natureza grave: Pena – reclusão. § 2º – Se resulta a morte: Pena – reclusão. de um a quatro anos. igual em dignidade e respeito a todo adulto. Acesso em: 01 maio 2004. 13 e 245 do ECA. de quatro a doze anos. já que esta. ou multa. não sendo mais considerada como mera extensão da família. “Hoje. 126 127 128 Idem. CP – Expor a perigo a vida ou a saúde de pessoa sob sua autoridade. Ao entrar em vigor. FGV DIREITO rio 110 . No primitivo direito romano. guarda ou vigilância. quer privando-a de alimentação ou cuidados indispensáveis.direitos humanos humanos até 12 anos incompletos e de adolescente para a idade entre 13 e 18 anos incompletos. cumpre salientar em primeiro lugar sua configuração como crime. que está diretamente ligada à evolução histórica do conceito de pátrio poder. matá-lo126. Ressalte-se. especificamente. do Código Penal (CP): Art. havendo denominação até de pátrio-dever”127. dhnet. nesse contexto. ensino. não tem “voz”. mais conhecido como violência doméstica. Idem. 136. trata-se de uma conquista recente. que todos os cidadãos têm o dever de denunciar os casos de maus tratos de que tenha conhecimento aos Conselhos Tutelares de sua localização.html.

o aplicador do direito. desorganização familiar – 30%. bem como as seqüelas deixadas na criança e no adolescente que os impossibilitam de denunciar: a vítima não fala e não anda131. na determinação dos seus direitos. 130 131 Idem. Para a configuração do crime. Os maus tratos contra criança e adolescente são difíceis de serem identificados em virtude de uma série de fatores. Apesar da falta de dados nacionais a respeito. na análise de seu próprio caso. Disponível em: http://www. procurar-se-á o maior acesso do menor. Em conclusão. Com esta consideração. destaquem-se: o pai ou responsável que coloca o menor de joelhos por longo tempo a ponto de colocar em perigo a saúde da vítima. cerebromente. tornando difícil. (iii) as principais causas são: alcoolismo – 50%. mãe e pai – 10%. deverá levar em conta as condições específicas do menor e seu interesse superior a fim de ajustar a participação deste. e sujeito passivo a criança ou adolescente que. na qualidade de filho ou sob custódia ou vigilância. se o crime é praticado contra pessoa menor de 14 (catorze) anos. o pai ou responsável que dá pimenta-do-reino à criança como forma de castigo.redeamiga. pai – 33%. 45 do ECA referem-se expressamente a hipóteses em que a criança e o adolescente devem ser ouvidos. Como exemplo de maus tratos. Nesse sentido. “102. na medida do possível. tem-se a predominância da “lei do silêncio”. Disponível em: http://www.htm. Paralelamente o § 1. responsáveis – 14%.º do art.direitos humanos § 3º – Aumenta-se a pena de um terço. Participação de crianças e adolescentes em processos administrativos e judiciais: o art. Tânia da Silva Pereira enumera algumas condições objetivas que podem contribuir para o exercício deste direito de ser ouvido: Acesso em: 01 maio 2004. seja no âmbito administrativo. por conseguinte. Entre os motivos para a falta de dados a respeito. seja no judicial. Sugere-se a leitura de seu inteiro teor.org.br/n04/doenca/infancia/persona. for submetido a um dos tratamentos estabelecidos no artigo acima. A Corte Interamericana de Direitos Humanos manifestou-se sobre o tema no contexto da Opinião Consultiva n.br/noticia. é necessário ainda mais um elemento: expor a perigo a vida ou a saúde da criança ou do adolescente. uma vez que esse tribunal estabelece parâmetros a serem observados pelos Estados-partes da Convenção Americana de Direitos Humanos a respeito dos direitos da criança e do adolescente. distúrbios de comportamento – 10%. 19. (ii) a autoria das agressões se distribui da seguinte forma: mãe – 43%. 12 da Convenção sobre os Direitos da Criança possibilita a oitiva da criança nos processos judiciais ou no âmbito administrativo. 28 e ao art.” Diante da inexistência de regras claras sobre a ponderação do melhor interesse da criança em face de processos administrativos e judiciais. FGV DIREITO rio 111 . é sujeito ativo do crime os pais ou responsáveis pela guarda ou vigilância da vítima. dentre os quais a inexistência de dados confiáveis sobre a ocorrência dos mesmos no lar familiar no brasileiro. 129 Acesso em: 01 maio 2004. distúrbios psiquiátricos – 10%. conforme seja adequado. salientem-se dados de 1996 sobre São Paulo130: (i) a maior incidência de maus tratos ocorre contra crianças na faixa etária de 0 a 6 anos – 60%.org.php. a atuação dos Conselhos Tutelares129.

2000. assim como no social.”132 “Meninos de Rua”: uma terceira sugestão de assunto a ser abordado pelo grupo trata dos meninos de rua. 8. tortura e assassinato de ‘menores’ e omissão dos mecanismos do Estado guatemalteco em oferecer o acesso à justiça aos familiares das vítimas. 4. 31. permitindo-lhe expressar seus interesses e conflitos com maior liberdade. político e econômico. Considerar seus sentimentos e pensamentos na solução dos conflitos que lhes digam respeito. Convocá-los a participar dos procedimentos de mediação familiar destinados a solucionar conflitos que envolvam sua pessoa e seus interesses. O direito à vida não pode continuar sendo concebido restritivamente. de 19 de novembro de 1999. Fornecer à criança e ao jovem todas as informações relativas à sua situação e ao assunto sobre o qual deverá emitir sua opinião . Sugere-se que o debate ocorra tendo como ponto de partida a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos referente ao caso Villagrán Morales e Outros versus Guatemala. 7. Trata-se de caso de seqüestro. Assumir a “Curadoria Especial” como a alternativa de interferir nos procedimentos para fazer valer os direitos de seu representado. de maneira apropriada. O melhor interesse da criança: um debate interdisciplinar. Tânia. evitando situações de angústia e linguagens técnicas incompreensíveis. tal depoimento nunca deverá ser prestado na presença dos pais. b) destaca a indivisibilidade dos direitos civis e políticos e os direitos econômicos. Não forçá-los a se exprimirem ou se manifestarem caso não estiverem preparados. FGV DIREITO rio 112 . Adaptar os procedimentos com vistas a garantir a manifestação autêntica da vontade da criança ou do adolescente. 9.A. Favorecer a intervenção de profissionais especializados que possam interpretar. Evitar a convocação da criança e do adolescente como testemunha de um dos pais contra o outro. Cremos que há diversos modos de privar uma pessoa arbitrariamente da vida: quando é 132 SILVA PEREIRA. Criar condições que facilitem a expressão espontânea da criança.direitos humanos “1. sua oitiva deve representar uma forma de expressar sua opinião e preferência sobre a situação conflitante. 3. sociais e culturais. como foi no passado. ou “Niños de la Calle”. uma vez que: a) enfatiza a peculiaridade de tais sujeitos no aspecto jurídico. a palavra da criança e do adolescente. 6. Tal ponto retoma a discussão travada na Aula 1. Rio de Janeiro: Renovar. Abreu Burelli: “3. p. referido apenas à proibição da privação arbitrária da vida física. Cançado Trindade e A. Cumpre destacar ainda a sentença de reparações. por ocasião do filme Ônibus 174. de 26 de maio de 2001. realidade cada vez mais presente nas grandes cidades brasileiras. A decisão constitui um marco na proteção da criança e do adolescente em todo o continente. 2. Cabe destaque a seguinte passagem. e c) determinam a especial gravidade das práticas sistêmicas de violência contra crianças e adolescentes em situação de risco. 5. constante do Voto concorrente Conjunto dos Juízes A.

Guilherme de. Wilson Ricardo Buquetti. Cláudia (orgs. Legislação: Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança Constituição Federal Estatuto da Criança e do Adolescente Acesso em: 04 julho 2005. assim como quando não se evitam as circunstâncias que igualmente conduzem à morte de pessoas como no cas d’espèce. Villagrán Morales vs.direitos humanos provocada sua morte diretamente pelo fato do homicídio. Abreu Burelli. “Os direitos humanos das crianças e dos adolescentes no direito internacional e no direito interno”. Rio de Janeiro: Renovar. 277-297. a qual transferiu o Rio de Janeiro do noticiário internacional de turismo para o de violação de direitos humanos. SILVA PEREIRA.cr). Guatemala. Flávia. Direito Internacional dos Direitos Humanos. atinente à morte de meninos por agentes policias do Estado. e PIROTTA. Maria Beatriz Pennachi. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. São Paulo: Atlas. Disponível em: http://www. pp.html.or. Temas de Direitos Humanos. Flávia. há a circunstância agravante de que a vida dos meninos já carecida de qualquer sentido. “Convenção dos Direitos da Criança”.cr/seriec/index_ c.or. quer dizer. Cançado Trindade e A. DELLORE.corteidh. O melhor interesse da criança:um debate interdisciplinar. In: PIOVESAN. de 28 de agosto de 2002 (www. 76-86. 134 FGV DIREITO rio 113 . de 1990. Leitura acessória: Corte Interamericana de Direitos Humanos. Opinião Consultiva n. Voto concorrente Conjunto dos Juízes A. No presente caso Villagrán Morales versus Guatemala. os meninos vitimados já se encontravam privados de criar e desenvolver um projeto de vida e de procurar um sentido para sua própria existência. São Paulo: Max Limonad.). 17. e PERRONE-MOISÉS. pp. In: ALMEIDA. corteidh. 2000. 2002.A.”134 O estudo de tal decisão apresenta semelhanças intransponíveis com o caso da Chacina da Candelária. Tânia. 2003.

logo seguida pela Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial.1 estabelece a conformidade das medidas de discriminação positiva: não serão consideradas discriminação racial as medidas especiais tomadas com o único objetivo de assegurar o progresso adequado de certos grupos raciais ou étnicos ou de indivíduos que necessitem da proteção que possa ser necessária para proporcionar a tias grupos ou indivíduos igual gozo ou exercício de direitos humanos e liberdades fundamentais. à manutenção de direitos separados para diferentes grupos raciais e não prossigam após terem sido alcançados os seus objetivos. in casu étnico-cultural. Trata-se de um exemplo de implementação do power of embarrasment. eleitos pelos Estados-partes a título pessoal. descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto ou resultado anular ou restringir o reconhecimento. Para a coordenação de tais mecanismos. é importante compreender discriminação como aquela que viola direitos. social. No âmbito global. Em 1978 e 1983. cor. Por outro lado. promulgada em 1965 e que passa a vigorar em 1969. em conseqüência. Para que não haja contradição entre esses termos. exclusão.direitos humanos Aula 18: Os direitos humanos sob a perspectiva racial NOTA AO ALUNO A Aula 18 destina-se à continuidade do estudo do processo de especificação do sujeito. cultural ou em qualquer outro campo da vida pública. da Convenção. ambas realizadas durante a Primeira Década de Combate ao Racismo e à Discriminação Racial iniciada em 1973. O CERD emite recomendações no sentido de melhor orientar atuação estatal. contanto que tais medidas não conduzam. inerente ao campo da política internacional. o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação Racial (CERD). a Declaração contra a Discriminação Racial (1963) foi um dos primeiros documentos da ONU a retratar a especificação do sujeito. A Convenção dispõe de 3 mecanismos de monitoramento: apresentação de relatórios. restrição ou preferência baseada em raça. Este é composto por 18 peritos. a Convenção criou o seu treaty body. De acordo com o artigo 1o. destacando-se perspectiva racial. excluindo do campo das medidas reprovadas pela Convenção as que promovem a discriminação positiva. o artigo 1. em seu artigo 8o. Ao ratificar a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial. gozo ou exercício em um mesmo plano (em igualdade de condição) de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político. econômico. comunicações interestatais e comunicações individuais. estando seu cumprimento condicionado à adesão voluntária. conforme resoluFGV DIREITO rio 114 . discriminação racial significa toda distinção. dentre os quais se encontra hoje o brasileiro Embaixador Lindgren Alves. os Estados partes comprometem-se a uma dupla obrigação: eliminar as formas constantes de discriminação e promover a igualdade. os Estados reuniram-se em duas conferências de reduzida repercussão na sede a própria ONU.

educação e proteção voltadas para a erradicação do racismo. à xenofobia e à intolerância correlata. 58 ministros de Relações Exteriores e 44 ministros de outras pastas e quase 4 mil representantes de organizações não-governamentais reuniram-se para a Terceira Conferência. Xenofobia e Discriminações Correlatas.300 delegados oficiais de 163 países. na cidade de Durban. temos: • • • • • Fontes. com o apoio do Brasil. dentre eles 16 chefes de Estado ou de Governo. Países Africanos e asiáticos. no contexto desse período. não restando energia para o debate acerca de outras formas de racismo. p. a afirmação das diferenças culturais protagonizou o debate sobre a tolerância e o enfrentamento à discriminação. Em 2001. e b) as reparações devida pelo regime colonial. São Paulo: Perspectiva. que ainda existem em todo o mundo. destacam-se: a) a identificação do sionismo como uma forma de racismo. Provisão de remédios efetivos. p. defenderam a definição ALVES. vingou o posicionamento da ONU.. qualquer foro multilateral acabaria por centrar todas as atenções no regime do apartheid da África do Sul. correção.. segundo definidas pelo Art. recursos. 137. xenofobia e intolerância correlata. 124. da xenofobia e da intolerância correlata nos níveis nacional. Medidas de prevenção. assim como o acompanhamento de sua implementação. denominada Conferência Mundial de Combate ao Racismo. xenofobia e intolerância correlata. Estratégias para alcançar a igualdade plena e efetiva. nem negação das manifestações de racismo e discriminação racial.136 A complexidade dos temas tratados não afasta o impasse mesmo em questões essenciais como a existência ou não de raças. discriminação racial. Todavia. assim como medidas [compensatórias] e de outra ordem nos níveis nacional. José Augusto Lindgren. regional e internacional. restou no texto menção ao fato de que os Estados da União Européia rechaçam firmemente qualquer doutrina que proclame a superioridade racial. à discriminação racial. “A conferência de Durban contra o racismo e a responsabilidade de todos”. Vítimas de racismo. causas. Todavia. sepultado em 1994 com a posse do Nelson Mandela. caso esgarçadas ao extremo. O argumento trazido à baila por certas delegações européias. 1o da Convenção (de 1965). De qualquer forma. apesar dessa equiparação já ter sido afastada pela própria ONU desde 1991: no acirramento das discussões entre Israel e países árabes. Dentre as polêmicas que permearam o encontro. juntamente com as teorias que tentam determinar a existência de raças humanas distintas [. FGV DIREITO rio 115 . outras polêmicas conduziram a conferência ao risco de esvaziamento. simbolicamente em pleno solo sul-africano. 2005..135 Nesse primeiro fórum de direitos humanos do século XXI. regional e internacional.direitos humanos ção da Assembléia Geral.] Isto não implica negação do conceito de raça como motivo de discriminação. é claro que. poderia colocar em risco a razão mesma da Conferência. formas e manifestações contemporâneas de racismo. 135 136 Ibid. assim como dos tratados que condenam práticas racistas. inclusive por meio da cooperação internacional e do fortalecimento das Nações Unidas e outros mecanismos internacionais para o combate ao racismo. In: Os direitos humanos na pós-modernidade. Dentre os temas escalados para a discussão. Discriminação Racial. da discriminação racial. 2. discriminação racial.

transferência de tecnologia. em condições tão adversas. numa situação internacional que. no sentido do identificar. FGV DIREITO rio 116 . fato esse que justifica a implementação de metas internacionais baseadas no alívio das dívidas externas. L. a Constituição Federal estabeleceu entre os direitos e garantias fundamentais que: ALVES. liderados pelo Brasil. resoluções no âmbito da Comissão de Direitos Humanos da ONU que classificam a discriminação por orientação sexual como uma violação de direitos humanos. internamente ou em ações internacionais. é importante ressaltar alguns temas específicos que poderão ser tratados com mais detalhe pelo grupo responsável pelo Seminário da Aula 18.”138 Mais além do exame dos principais tratados que se referem aos direitos humanos sob a perspectiva racial. 35. mudança essa que expressa arrependimento sem acarretar responsabilização internacional. nos casos de intolerância correlata. A partir de então.direitos humanos da escravidão como crime contra a humanidade. particularmente para o combate ao racismo estrutural.137 Importante ressaltar que foi em Durban que se manifestaram expressamente alguns países. posicionamento esse que implicaria em compensações. já se mostrava cada dia menos favorável ao multilateralismo e à diplomacia parlamentar. o Brasil tem capitaneado liderança nos foros internacionais. O simples fato de ela ter tido seus documentos finais adotados sem voto (a votação havida. Ingrid. Guilherme de. cit. os países em desenvolvimento conseguiram a manifestação da Conferência no sentido de que injustiças históricas constituíram a raiz para a pobreza e o subdesenvolvimento.A. os documentos de Durban trazem novos conceitos e compromissos importantes. porém. e PERRONE-MOISÉS. ensejando posicionamento contrário por parte dos Estados Unidos e União Européia. nos anos de 2003 e 2004. Por um lado. 138 Em consonância com os parâmetros delineados pela Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Eliminação do Racismo. como já dito. Estes podem ser utilizados como guias à atuação dos Estados. Ao considerar mais traumática a derrota de tal proposta que a não submissão ao voto. foi para rejeitar a reapresentação extemporânea de propostas superadas) representa. foi compactuada a utilização da expressão ‘lamento’ no lugar de ‘desculpas’ pelos fatos do passado. ou como instrumento semijurídico para cobranças das sociedades aos governos. J. erradicação da pobreza. Direito Internacional dos Direitos Humanos. 2002. Instrumentos básicos. São Paulo: Atlas. Como sintetiza Lindgren Alves. havendo já apresentado. Crime de racismo 137 CYFER. p. a diplomacia brasileira achou por bem a retira da proposta nas duas ocasiões. op. p. como se não bastasse a doxa econômica neoliberal (para falar com Bourdieu) avessa a preocupações sócias. 139. questões referentes à discriminação por orientação sexual. Por outro lado. A tensão do debate conduziu a um termo de compromisso no esforço de não esvaziamento da reunião. um progresso com relação à conferências de 1978 e 1983. ativo participante nos trabalhos de Durban: “a verdade é que Durban foi a melhor conferência que se poderia realizar sobre temas tão abrangentes. “Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965)” In: ALMEIDA.). etc. Cláudia (orgs. é sempre bom lembrar. Muito mais do que isso.

tendo-lhe atribuído características excepcionais como a inafiançabilidade e a imprescritibilidade. A pesquisa sobre decisões referentes ao crime de racismo e de injúria que tenha a utilização de elementos referentes à raça. Além do exame perante os tribunais nacionais – Tribunal de Justiça. cor. a iniciativa legislativa não significou necessariamente seu acatamento por parte da jurisprudência. ou multa § 1º O juiz pode deixar de aplicar a pena: I – quando o ofendido. Tendo em vista o princípio da legalidade. 140. Todavia. a injúria. II – no caso de retorsão imediata. 5º XLII – a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível. Importante ressaltar a maneira com que o constituinte admitiu o crime de racismo. Superior Tribunal de Justiça e Supremo Tribunal Federal – e em instâncias internacionais sugere a dificuldade em se lidar com situações em que é considerado o elemento racial. além da pena correspondente à violência. sujeito à pena de reclusão. FGV DIREITO rio 117 . de 1(um) a 6 (seis) meses. etnia. religião ou origem: Pena – reclusão de um a três anos e multa. que . religião ou origem. de 07 de dezembro de 1940: Art. a Lei nº 7. de 05 de janeiro de 1989. em especial das condutas consideradas típicas pelo legislador. por sua natureza ou pelo meio empregado. e multa. Populações remanescentes de quilombos Outro tema de fundamental importância quando se estuda direitos humanos sob a perspectiva racial no Brasil são as populações remanescentes de quilombos. Em uma análise sistêmica (artigo 5º. de 3 (três) meses a 1 (um) ano. de forma reprovável. incisos XLIII e XLIV). persiste a resistência por parte dos órgãos do Ministério Público e do Judiciário em estabelecer a responsabilidade penal pelo crime de racismo. provocou diretamente a injúria. Incentiva-se a leitura dessa lei. o Decreto-lei nº 2848. desclassificando a conduta para um dos crimes contra a honra. § 2º Se a injúria consiste em violência ou vias de fato. tráfico de entorpecentes. se considerem aviltantes: Pena – detenção. que consista em outra injúria.716. etnia. estabeleceu os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. Injuriar alguém. é possível afirmar o crime de racismo é comparado aos crimes de tortura. terrorismo. ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro: Pena – detenção. Talvez pela rigidez com que é tratado o crime de racismo. nos termos da lei. § 3º Se a injúria consiste na utilização de elementos referente a raça. cor. aos crimes definidos como hediondos e à ação armada contra o Estado Democrático de Direito.direitos humanos Art. De acordo com o Código Penal.

A Carta Constitucional criou assim uma titularidade coletiva de propriedade para aqueles que ocupam determinada terra e se reconhecem enquanto remanescentes de quilombos. nos quase se incluem: (. a Constituição brasileira determinou que: Art. reconhecimento. devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial. com trajetória histórica própria. à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. do Distrito Federal e dos Municípios. os grupos étnico-raciais.direitos humanos Como se sabe. formaram-se em todo o país centros de resistência para os quais se direcionavam escravos fugidos. sem prejuízo da competência concorrente dos Estados. o qual regulamenta o procedimento para identificação.) § 5o Ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos. Por sua vez. tomados individualmente ou em conjunto. demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos de que trata o art. e procedimento: cabe à Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura a expedição de certidão referente à autodefinição. Tendo como pressuposto a formação multicultural brasileira. reconhecimento. a identificação. Dentre os pontos mais relevantes dessa normativa. da Presidência da República (SEPPIR/PR). 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. A designação geográfica deu origem ao contorno sócio-cultural das populações remanescentes de quilombos. consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos. no dia 20 de novembro de 2003. Cabe especial atenção ao Ato das Disposições Constitucionais Transitórias: Art. demarcação e titulação das terras. cabe ressaltar: • definição: de acordo com o artigo 2o. em celebração ao Dia Nacional da Consciência Negra. portadores de referência à identidade. 68 Aos remanescentes das comunidades de quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva. 216. segundo critérios de auto-atribuição. compete à Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.. cumpre ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA. 4887. notadamente durante o século XIX. dotados de relações territoriais específicas. com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida. Foi precisamente nesse sentido que o Poder Executivo expediu. à ação. A assinatura da Lei Áurea não trouxe mudança significativa para a vida de muitos brasileiros que já se viam engajados em um novo contexto social. delimitação. Ainda. no processo FGV DIREITO rio 118 • . o Decreto n. delimitação..

sendo elas atacadas ou defendidas. a implementação do estudo de História e Cultura Afro-brasileira deve ser entendida como um importante passo para a compreensão do Brasil como um Estado multi-étnico e multicultural. a luta dos negros no Brasil. De forma inédita. 26 –A. Em 09 de janeiro de 2003. Nenhuma linha foi dedicada a tais políticas quando a Aula 18 referiu-se à importância da Conferência de Durban. garantir os direitos étnicos e territoriais dos remanescentes das comunidades dos quilombos. Políticas de Ação Afirmativa Por mais que os alunos já tenham explorado o tema das Políticas de Ação Afirmativa no bojo da Disciplina Direito Constitucional I. a mídia passou a conceder espaço diário às supostas implicações que teria a aplicação de tais políticas no contexto social brasileiro. censurada externamente pelos seus representantes. Trata-se de processo administrativo que visa precisamente à garantia de uma titularidade coletiva no contexto de um país multicultural.524/2000.direitos humanos de regularização fundiária. Tal omissão não é por acaso. torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura § 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos. a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional. a qual altera a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e inclui a matéria no currículo oficial da Rede de Ensino. criando os seguintes novos artigos: Art. mais especificamente em atividade sobre a Lei Estadual do Rio de Janeiro nº 3. O país que primeiro implementou tais políticas sabotou sua discussão durante o evento.639. Sob a administração de George Bush. foi sancionada a Lei nº 10. Alteração curricular Interpretada por alguns como política de ação afirmativa. Por mais que tal debate tenha sido ofuscado pelos ataques terroristas às Torres Gêmeas de Nova Iorque. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio. notadamente após a edição do referido decreto. tais políticas já vinham sendo lentamente desmontadas internamente. e por conseqüência. Diversos quilombos já foram ou encontram-se em vias de regularização. trata-se de um tema inescapável quando se trata da perspectiva racial. oficiais e particulares. a intensa participação da sociedade civil brasileira nas conferências regionais e os mais de 200 ativistas nacionais que compareceram a Durban giraram os holofotes do debate nacional em direção às políticas de ação afirmativa. foi inescapável a conquista de um lugar ao sol para tais medidas. o qual prescreveu atribuições e procedimentos próprios. resgatando a FGV DIREITO rio 119 . Ironicamente.

objetivos tácitos e explícitos da educação oferecida pelas escolas. dizem respeito a todos os brasileiros. 10.). reconhece-se que. Temas de Direitos Humanos. In: PIOVESAN.639. pp. Leitura acessória: CYFER. é preciso valorizar devidamente a história e cultura de seu povo. também as contribuições histórico-culturais dos povos indígenas e dos descendentes de asiáticos. em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras. 113-140. 2003. mas de ampliar o foco dos currículos escolares para a diversidade cultural. São Paulo: Perspectiva. Cláudia (orgs. que se repetem há cinco séculos. procedimentos de ensino. LINDGREN ALVES. ao contrário. uma vez que devem educar-se enquanto cidadãos atuantes no sei de uma sociedade multicultural e pluriétnica. “Implementação do Direito à Igualdade”. Ingrid. à sua identidade e a seus direitos. de 10 de março de 2004139. Legislação: Constituição Federal de 1988 Indica o parecer que “a obrigatoriedade de inclusão de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nos currículos da Educação Básica trata-se de decisão política. e PERRONEMOISÉS. Direito de igualdade racial: aspectos constitucionais. O importante é perceber que. Hédio. pedagógicas. além de garantir vagas para negros nos bancos escolares. A leitura de tais documentos torna-se importante na medida em que fundamentam razões e efeitos da modificação curricular. de 17 de junho de 2004. além das raízes africana e européia. São Paulo: Atlas. sociais. Luciana. In: Os direitos humanos na pós-modernidade. inclusive na formação de professores. São Paulo: Max Limonad. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. editando assim a Resolução nº 1. o Conselho Nacional de Educação manifesta no sentido de regulamentar as alterações advindas da Lei no. Flávia. Direito Internacional dos Direitos Humanos.direitos humanos contribuição do povo negro nas áreas social. cabe ao Poder Público e à sociedade civil a luta para a promoção de uma sociedade sem discriminação. Flávia. buscando repara danos. Em Parecer nº 003/2004. cabe às escolas incluir no contexto dos estudos e atividades. condições oferecidas para aprendizagem. “Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965)”. Guilherme de.79-B. Priscila Kei. exige que se repensem relações étnico–raciais. 191-203. civis e penais: doutrina e jurisprudência. Instrumentos básicos. com fortes repercussões pedagógicas. que proporciona diariamente. e SATO. 2002. Com essa medida. SILVA JR. 26-A acrescido à Lei 9394/1996 provoca bem mais do que inclusão nos novos currículos. José Augusto. “A conferência de Durban contra o racismo e a responsabilidade de todos”. Foram aqui expostos alguns temas relacionados à especificação do sujeito de direitos humanos sob a perspectiva racial. PIOVESAN. pp. Art. capazes de constituir uma nação democrática. É importante destacar que não se trata de mudar um foco etnocêntrico marcadamente de raiz européia por um africano. A relevância do estudo de temas decorrentes da história e cultura afro-brasileira e africana não se restringem à população negra. É preciso ter clareza que o art. Tantos outros poderiam ser aqui apontados para o debate. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira. 24-38. homologado pelo Ministro da Educação em 19 de maio de 2004. 2005. § 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar. In: ALMEIDA. 2002. pp.” 139 FGV DIREITO rio 120 . O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como ‘Dia Nacional da Consciência Negra’. muito além da discussão acerca da raça e os métodos para a sua designação. Nesta perspectiva. social e econômica brasileira. econômica e política pertinentes à História do Brasil. racial.

639/2003 (institui o estudo de História e Cultura Afro-brasileira) FGV DIREITO rio 121 .716/1989 (crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor) Lei nº 10.direitos humanos Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial Declaração e Plano de Ação de Durban Lei nº 7.

ainda não há prazo para a conclusão do documento. Promulgada em 19 de abril de 2004. em 1989. 141 FGV DIREITO rio 122 . encontra-se em processo de elaboração o Projeto de Declaração Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Já realizadas 5 reuniões de trabalho.140 2) Organização Internacional do Trabalho: desde o início do século XX. é aprovada a Convenção 169141. 2003. possibilitou-lhes a reivindicação de terra.direitos humanos Aula 19: Direitos Humanos e a questão indígena NOTA AO ALUNO Há. saúde. ao examinarem relatório enviado pelo Estado-parte. a qual descredencia qualquer visão integracionista e explicita direitos fundamentais dos povos indígenas como a terra. em cada um dos âmbitos de proteção: 1) Organização das Nações Unidas: em 1982. tão fundamental ao exercício dos demais direitos. pp. referente aos Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes.org/pib/portugues/direito/ conv169. Por sua vez. Cabe destaque ainda à jurisprudência da Corte 140 Campaña educativa sobre derechos humanos y derechos indígenas: módulos temáticos.000 cidadãos indígenas. a Conferência-Geral editou a Convenção nº 107 sobre populações indígenas e outras populações tribais e semitribais nos países independentes. a Comissão de Direitos Humanos estabeleceu um Grupo de Trabalho aberto para elaborar um projeto de declaração. Aos povos indígenas são garantidos direitos específicos. o Conselho Econômico e Social criou o Grupo de Trabalho sobre Populações Indígenas. Em 1957. Tendo em vista a peculiaridade do tema para o continente americano. a Convenção nº 169 deverá permear toda a aula. A Declaração de Viena de 1993 estabeleceu o compromisso dos Estados em respeitar os direitos humanos e liberdades fundamentais dos povos indígenas. educação e participação. população essa configurada por mais de 170 línguas. a OIT examina casos de trabalho forçado a que são submetidos povos indígenas. em torno de 330. no Brasil. Os treaty bodies são criados no intuito de possibilitar o monitoramento dos tratados de direitos humanos. 41-49.shtm#ti. formado por cinco expertos independentes que são membros da Subcomissão de Promoção e Proteção dos Direitos Humanos (Subcomissão). Não obstante ter sido o primeiro marco protetivo dos direitos indígenas no panorama internacional. cujos trabalhos ainda não foram encerrados. 3) Organização dos Estados Americanos: tanto a Convenção Americana de Direitos Humanos quanto o Protocolo de San Salvador guardam artigos que são de especial interesse dos povos indígenas. Acesso em: 10 março 2005. correspondente a 11% do território nacional – sendo que 95% das terras se concentram na Amazônia. Cumpre registrar que a ausência de um tratado específico não significa a negativa de proteção dos direitos dos povos indígenas. poderá examinar a especificidade da questão indígena. tendo em vista sua extrema importância para o tema.socioambiental. sobretudo pelo aumento da participação indígena na vida política. a referida convenção refletiu visão dominante nesse período caracterizada pelo protecionismo estatal e pelo assimilacionismo. O conhecimento de seus direitos. ou ao receber denúncias individuais ou interestatais – se for o caso. San José: Instituto Interamericano de Derechos Humanos. Em março de 1995. Convenção 169 da OIT. Disponível em: http://www. ocorrida a última em fevereiro de 2005.

ao longo dos anos. In: Os direitos indígenas e a Constituição. poderá auxiliar na condução desse ponto específico: Terra Indígena Raposa Serra do Sol144 Terra Indígena Raposa Serra do Sol317 145 Acesso em: 01 julho 2005. a visão do bem-estar do nosso gosto. XI CF). por isso. costumes e tradições. Miang. mas seexemplo.html. atividade produtiva. o caso da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Ingarikó. FGV DIREITO rio 123 . com as populações vizinhas ressalte-se Nesse contexto normativo. o tribunal reconheceu os costume indígena como fonte de direito. 142 SILVA. entre os rios Tacutu. a propriedade é inalienável. importante contribuição para o fortalecimento dos direitos dos povos indígenas. Roraima. 2a) serem por eles utilizadas para suas atividades produtivas. Wapichana. Objetivo Homologação da área contínua. indisponível e imprescritível.cr/seriec/index_ c.000 habitantes. modo de utilização. parágrafo 1o. a visão do modo de produção capitalista ou socialista. 3a) serem imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar. 1993. segundo a visão civilizada. Tem uma população estimada em 15. No caso Aloeboetoe vs. “Terras tradicionalmente ocupadas pelos índios”. José Afonso. de sorte que não se vai tentar definir o que é habitação permanente. Disponível em: http://www. 4) Constituição Federal: a proteção aos índios pode ser considerada um dos pontos mais difíceis e controvertidos do trabalho do constituinte.”143 316 . 318 Dados gerais É a habitação ancestral dos povos Macuxi. Surumú e a fronteira com a Venezuela. os quais possuem direitos originários sobre a terra e. “fundado em quatro condições. em especial a organização das famílias.asp. tudo segundo seus usos. todas necessárias e nenhuma suficiente sozinha. uma vez que retrata de forma bem clara a luta pelo reconhecimento da terra e os obstáculos que os índios que: ultrapassar nesse caminho.or. Disponível em: http://www. cerimonial e comercial – gundo o modo de ser deles. com vistas ao pagamento de indenizações. Porto Alegre: Núcleo de Direitos Indígenas e Sergio Antonio Fabris Editor. 145 Acesso em: 10 março 2005. Disponível em: http://www.br/raposaserradosol. ou qualquer das condições ou termos que as compõem. corteidh.org/nsa/ detalhe?id=1886. Acesso em: 10 março 2005. a saber: 1a) serem por eles habitadas em caráter permanente. Taurepang e Patamona. (ii) tal propriedade é vinculada à posse permanente dos índios. Localiza-se a nordeste do Estado de socioambiental. acesse o site do Conselho Indígena de Roraima. que tem estabelecido. Cabem aqui algumas considerações: (i) as terras indígenas são consideradas bens da União (artigo 20. da cultura deles.org. Suriname142. p.direitos humanos Interamericana de Direitos Humanos. celebram relações de várias naturezas – matrimonial. abaixo. (c) o caso Raposa Serratêm do Sol o quadro. (iii) a base do conceito de terras tradicionalmente ocupadas pelos índios encontra-se no artigo 231. 143 144 Para maiores informações.cir. 47. Maú. 4a) serem necessárias à reprodução física e cultural.

Em 14. Disponível em: http://ef. Fixou a dimensão e limite da área. 149 150 Idem. Solicitam que todos mandem uma caneta para o presidente Lula. conforme dispõe a Lei 6. “Se só for preciso uma canetada. em 1995. Homologação da terra Acesso em: 30 abril 2005. O caso no STF Acesso em: 10 março 2005. FGV DIREITO rio 124 .br/guia3/detalhes. excluindo da área as instalações do 6º Pelotão Especial de Fronteias e reconhecendo a unidade administrativa municipal de Uiramutã. destacamse: (i) criação do município de Uiramutã. Concedida Liminar Parcial ao Mandado de Segurança: o ministro relator Aldir Passarinho suspendeu os efeitos da portaria quanto aos núcleos urbanos e rurais instalados antes da sua expedição. Disponível em: http://www. Art. alvo da contestação”149. cit. voltou a impedir a homologação em área contínua da terra indígena. O Governo do Estado de Roraima impetrou no STJ Mandado de Segurança (n° 6. dentro das terras Raposa Serra do Sol.2005. A decisão liminar atendeu a uma Ação Cautelar ajuizada pelo senador Mozarildo Cavalcanti (PPS-RR) e. Ingarikó. devido à edição de uma nova portaria do Ministério. argumentando os direitos de ir e vir dos moradores nos referidos núcleos. Em 15. a ministra do STF Ellen Gracie suspendeu a Portaria 820/ 98 do Ministério da Justiça147. Surumú e a fronteira com a Venezuela.br/noticias/2005/ Abril/rls150405homologacao. Miang. 534.com. juntamente com uma carta requerendo a homologação. 147 148 Portaria n.gov. 820 de 11/12/98 Ação judicial Homologação de Raposa Serra do Sol A campanha 146 Conselho Indígena de Roraima. Maú. brasiloeste. o Mandado de Segurança foi rejeitado pelos juizes do Superior Tribunal de Justiça. o presidente Lula assinou decreto homologando a área indígena Raposa Serra do Sol de forma contínua150. Art. Disponível em: http://www. CF.01. Dentre os empecilhos criados pelo Governo Estadual para impedir a homologação da terra contínua. cfm?id=157084&tipo=7&cat_ id=92&subcat_id=1. Taurepang e Patamona. com pedido de liminar contra o Ministério da Justiça.775/1996. Macuxi. que poderá fazê-lo por meio de um decreto. alterando o que estava disposto no ato normativo anterior. a fim de anular a Portaria declaratória. o STF “julgou prejudicadas as ações judiciais ‘pela perda do objeto’. (ii) criação do Parque Nacional Monte de Roraima e do 6º Pelotão Especial de Fronteiras do Exército Brasileiro. de 13 de abril de 2005 – Define os limites da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. As comunidades indígenas lutam há mais de 30 anos pelo reconhecimento definitivo da terra aos seus legítimos habitantes. Wapixana e Taurepang. de n° 534148. Localiza-se a nordeste do Estado de Roraima. htm. Trata-se de uma campanha do Conselho Indígena de Roraima (CIR) em parceria com Rainforest Foundation para pressionar o Governo Federal a homologar a terra. justica. que não seja por falta de caneta!”146. Acesso em: 30 abril 2005.amazonia. Em 03.05. A luta Respaldo legal Portaria n.000 habitantes. o processo extinto sem julgamento do mérito e a liminar parcialmente revogada. entre os rios Tacutu. Convenção 169 da OIT Assinada pelo ex ministro da Justiça Renan Calheiros: declarou ser a Terra Indígena Raposa Serra do Sol posse tradicional permanente dos povos indígenas Ingarikó. org. Trata-se de ato administrativo de competência do presidente da República. op.001/1973 e o Decreto 1.05.210). É uma fase do procedimento demarcatório das terras indígenas.br/noticia/1363/stf-raposa-serra-dosol. 7º.direitos humanos Dados gerais Objetivo É a habitação ancestral dos povos Macuxi. 231. Wapichana. No dia 27 de novembro de 2002.2005. (iii) incentivo a Ongs para a divisão do território entre as comunidades. Homologação da área contínua.2005. assim. Tem uma população estimada em 15.

José Afonso. In: Indigenismo e territorialização: poderes. 4 (direito à vida). San José: Instituto Interamericano de Derechos Humanos. Legislação: Constituição Federal Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho FGV DIREITO rio 125 .direitos humanos Processo na CIDH Conselho Indígena de Roraima (CIR) e a Rainforest Foundation protocolaram denúncia contra o Estado brasileiro. 45-50. II (direito de igualdade perante a lei). rotinas e saberes coloniais no Brasil contemporâneo. In: Os direitos indígenas e a Constituição. por supostas violações a direitos e garantias dos povos Ingaricó. SILVA. 24 (igualdade perante a lei). O Estado brasileiro argumenta pela inadmissibilidade do caso. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: Campaña educativa sobre derechos humanos y derechos indígenas: módulos temáticos. 2003. 05 (direito à integridade pessoal). pp. a CIDH inseriu nota em sua página na internet por meio da qual manifestava congratulação ao Estado brasileiro pelo Ato Presidencial. 22 (direito de circulação e residência) e 25 (direito à proteção judicial) da Convenção Americana de Direitos Humanos (a “Convenção”) e os direitos I (direito à vida e à integridade da pessoa). “Redimensionando a questão indígena no Brasil: uma etnografia das terras indígenas”. 15-68. pp. 12 (liberdade de consciência e de religião). IX (direito à inviolabilidade de seu domicílio). OLIVEIRA. João Pacheco. 1993. em 29 de março de 2004. uma vez que não teriam sido esgotados os recursos internos. “Terras tradicionalmente ocupadas pelos índios”. Macuxi. 1998. Por ocasião da homologação da TI Raposa Serra do Sol. Rio de Janeiro: Contra Capa. III (direito à liberdade religiosa e de culto). Wapixana. VIII (direito de residência e de trânsito). Os peticionários argumentam que o Estado brasileiro teria violado os artigos 21 (direito à propriedade privada). Patamona e Taurepang por não demarcar suas terras e promover a colonização continuada das mesmas. XVIII (direito à justiça) e XXIII (direito de propriedade) da Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem (a “Declaração”). e enumera todas as medidas que vinham sendo adotadas no sentido da promoção de tais povos indígenas. Porto Alegre: Núcleo de Direitos Indígenas e Sergio Antonio Fabris Editor.

sistema de iluminação das partes comuns. assim como tudo que seja proveitoso à totalidade dos condôminos do conjunto. Artigo 3º – Não obstante o disposto no artigo precedente. 2000. situado na Av. embora constituindo coisa de propriedade comum de todos os condôminos do “Parque Árvores Verdes”. na forma abaixo: Capítulo I – Dos Conceitos Gerais Artigo 1º – Além dos 4 (quatro) referidos edifícios residenciais. Artigo 2º – São coisas e partes de propriedade e uso comuns e. as enumeradas no artigo anterior e mais o terreno de todo o “Parque Árvores Verdes”. 3 (três) quadras de tênis. de utilização exclusiva por qualquer co-proprietário. portanto. por CERTIDÃO. vias internas de circulação. Capítulo II – Da Utilização das Coisas Comuns Artigo 4º – O uso das coisas comuns dispostas no artigo 1º poderá ser feito por qualquer co-proprietário e deverá obedecer aos horários estipulados pelo “Parque Árvores Verdes”. Mario Henrique Mendonça. ainda. cujo teor é o seguinte: ESCRITURA de Convenção de Condomínio Geral do “Parque Árvores Verdes”. o “Parque Árvores Verdes” contará com um parque de estacionamento de automóveis. e na forma da lei: Certififica que revendo o Livro n. piscina. Parágrafo único – A cada um dos 4 (quatro) edifícios que constituirão o “Parque Árvores Verdes” corresponderá uma quota ideal de ¼ da totalidade do terreno. consta labrado um INSTRUMENTO DE ESCRITURA. FGV DIREITO rio 126 . a parte do terreno ocupada pela projeção de cada um dos 4 (quatro) edifícios será reservada para utilização exclusiva dos co-proprietários das unidades autônomas componentes de cada um. da Cidade do Rio de Janeiro. Comarca do Estado do Rio de Janeiro. fontes e lagos. bosque. sistema de tratamento de esgoto e central de abastecimento de gás. esculturas. jardins. Tabelião do 10º Ofício de Notas. que me é pedido por parte interessada. play-ground. 2000. às folhas 50. fica estabelecido que. insuscetíveis de divisão ou de alienação destacada da unidade autônoma de cada um ou.direitos humanos Aula 20: Direitos Humanos e orientação sexual NOTA AO ALUNO Leia os dois casos abaixo: I) Convenção Hipotética de Condomínio CERTIDÃO O BEL. Julio Lopes. República Federativa do Brasil.

asp?NOTCod=58452. qual? O que dispõem os tratados internacionais de direitos humanos e as leis nacionais a respeito? Acesso em 05 de julho de 2005. Extraída por Certidão. ou seja.. calculada a partir da primeira infração. o abraço. aos quinze (15) dias do mês de fevereiro (02) do ano de dois mil e cinco (2005). No caso desse projeto. distúrbio ou perversão. uma resolução do órgão determina que psicólogos não podem tratar a homossexualidade como doença. ligando-os a portadores de desordem psíquica”. sendo vedada mãos dadas. de nº 717/2003.] Capítulo VIII – Do Foro Artigo 35 – Fica eleito o foro desta cidade para a solução de qualquer litígio ou controvérsia decorrente da presente Escritura. II) Programa de Auxílio para “cura de homossexuais” Em 10 de dezembro de 2004. indaga-se: A Convenção de Condomínio e o PL de nº 717/2003 violam algum direito humano? Caso afirmativo.br/imprensa/ Noticias. A decisão final da Assembléia não retira a gravidade de que tal projeto de iniciativa do Deputado Estadual Edino Fonseca (PSC). A resolução de 1999 também impede psicólogos de colaborarem com eventos ou serviços que “proponham tratamentos de cura da homossexualidade” e de “se pronunciarem em meios de comunicação de massa de modo a reforçar o preconceito social existente em relação aos homossexuais. § 2º – A não observância do disposto no presente artigo implica na aplicação de multa progressiva..aids. Desde 1999. tenha tido pareceres favoráveis por parte da Comissão de Constituição e Justiça e da Comissão de Saúde. “o CFP (Conselho Federal de Psicologia) já adotou a posição contrária. Disponível em: http:// www. [. 151 FGV DIREITO rio 127 .direitos humanos § 1º – Fica proibido a demonstração de afetividade por casais homossexuais nos aludidos espaços comuns. que foi designado relator na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara. um auxílio para os homossexuais que quiserem a cura para “virar” heterossexuais. pastor da Assembléia de Deus. o Plenário da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro reprovou o projeto de Projeto de Lei da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. proposto pelo Deputado Federal Neucimar Fraga (PL-ES). Atualmente aguarda o parecer do deputado Roberto Gouveia (PT-SP). De acordo com a assessoria de imprensa do CFP.151 Diante do exposto. os profissionais não estão proibidos de prestar serviços a pessoas homossexuais desde que o objetivo seja reduzir sofrimentos decorrentes da orientação sexual e que a homossexualidade não seja tratada como doença.gov. o beijo e qualquer outro ato ou gesto que atente contra os bons costumes ou formação moral e psicológicas das crianças e dos adolescentes. Trata-se da autorização para um programa de reorientação sexual. Projeto semelhante tramita também no Congresso Nacional.

São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade (grifou-se). bem como a necessária adoção de medidas de proteção de suas vítimas. seja de raça. Pela primeira vez na sua história. Todavia. foi apresentada uma proposta específica de resolução para o reconhecimento da discriminação por orientação sexual como uma violação a direitos humanos. opinião política ou de outra natureza. Cinco Estados muçulmanos obstaculizaram a votação da resolução: Arábia Saudita. A postura assumida pelo Estado brasileiro no cenário internacional acarretou implicações internas imediatas: a criação do Conselho Nacional de Combate à Discriminação. Diante do cenário narrado. religião. os Estados Unidos sinalizaram que se absteriam de votar uma proposta que referisse à sexualidade por não acreditarem que a Comissão constituísse fórum adequado para a discussão da questão. o Egito. pode-se FGV DIREITO rio 128 . riqueza. a Discriminação Racial. África do Sul e um grupo de dezenove países europeus. contando com amplo respaldo da sociedade civil organizada e de delegações européias. a proposta foi colocada novamente em pauta. o Brasil exerceu protagonismo na Conferência Mundial contra o Racismo. no que se refere ao debate sobre a não-discriminação com base na orientação sexual. realizada em Durban em 2001. Artigo 2. a Xenofobia e Formas Conexas de Intolerâncias. cor. a diplomacia percebeu que seria mais danoso a reprovação da resolução que a sua não-votação. Tal posição já teria sido gestada durante a Conferência Regional das Américas. o que foi aceito por 24 votos a favor. não houve maturidade para que a proposta fosse incluída no texto final da Declaração. no âmbito da 59ª Sessão da Comissão de Direitos Humanos da ONU. o Paquistão. Como mencionado na aula 18.direitos humanos Diferentemente dos demais grupos que estudamos até agora. nascimento. o projeto foi retirado de votação.1 – Todo o homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração sem distinção de qualquer espécie. realizada em Santiago do Chile. origem nacional ou social. Acompanharam a proposta inicial brasileira o Canadá. Ressalte-se que a proposta brasileira foi a única a não ser votada ao longo de toda a 59ª Sessão. 17 contrários e 10 abstenções. através de uma atitude inédita do Brasil. sexo. uma importante discussão. 1º – Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Iniciou-se em 2003. à medida em que a sessão era conduzida ao final dos trabalhos. assegura a Declaração Universal dos Direitos Humanos que: Art. todavia. língua. ou qualquer outra condição (grifou-se). a proteção dos direitos dos homossexuais situa-se ainda no marco geral da proteção dos direitos humanos. a Líbia e a Malásia apresentaram propostas de alteração visando a eliminação de todas as referências à orientação sexual. O referido impasse conduziu à proposta da Presidência da Sessão (Líbia) para postergar a apreciação da proposta para 2004. o que possui o combate à discriminação por orientação sexual como uma de suas vertentes de atividade. Além disso. Isso posto. Assim. Já em 2004. momento em que os Estados pactuaram a necessidade de prevenir e combater a discriminação por orientação sexual.

. conscience.. prisão e assassinato......” Art. Cumpre ressaltar que.. 9.. belief. sem preconceitos de origem... tramita no Congresso Nacional Projeto de Emenda Constitucional. 7º da Constituição: “Art. disability....direitos humanos afirmar que se encontra latente no âmbito da ONU uma postura mais abrangente de proteção dos direitos humanos sob a perspectiva de orientação sexual..... que propõe a alteração dos seguintes artigos: Art... a Constituição Federal da África do Sul é a única constituição do mundo a garantir o direito à orientação sexual152: Art.... uma vez que se recai mais uma vez sobre a proteção geral do princípio da não-discriminação. culture. Na esfera interna brasileira. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida... IV – promover o bem de todos... à igualdade.. 5º – Todos são iguais perante a lei.org. à liberdade......... inúmeros relatos de violência. XXX – proibição de diferença de salários........ ponderações semelhantes podem ser confeccionadas... de autoria da então deputada Marta Suplicy. 7º ..... Disponível em: http://www. 1º – É conferida nova redação ao Inciso IV do art.. html?rebookmark=1#9. ethnic or social origin... exclusão do direito à saúde.... sex.... sexual orientation. idade e quaisquer outras formas de discriminação.za/html/govdocs/ constitution/saconst02.. não seria arriscado afirmar que a ausência de um tratado não significa omissão das instâncias internacionais em face a violações dos direitos humanos dos homossexuais. gender. 3º da Constituição: “Art.. marital status... à segurança e à propriedade.. 3º – ... language and birth” (grifou-se)... including race...” A omissão em relação à discriminação por orientação sexual não constitui prerrogativa brasileira. Nesse sentido. em uma análise comparada. de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo. sexo.. Com vistas a consagrar à discriminação por orientação sexual igual gravidade às demais. Além do enorme preconceito de que são vítimas...... age.. É importante enfatizar que mais de 70 países ainda proíbem práticas homossexuais e a punem com penas que vão desde a prisão à flagelação pública e morte.. polity.... mesmo que limitado até o momento à não discriminação..... cor.... educação. cor ou estado civil. alimentação e moradia são comunicados diariamente por parte de experts independentes apontados pela Comissão de Direitos Humanos.... sem distinção de qualquer natureza... raça. O Texto Constitucional estabelece: Art........ orientação sexual.. pregnancy... colour. idade. Acesso em: 27 abril 2005... 2º – É conferida nova redação ao Inciso XXX do art. religion...3 – “The state may not unfairly discriminate directly or indirectly against anyone on one or more grounds. orientação sexual.. 152 FGV DIREITO rio 129 ...... tortura. nos termos seguintes (grifou-se)..

etnia. condição social ou. idade. 2004. Direito à Saúde. Direito à Cultura. É dividido entre os temas Cooperação Internacional. É também importante perceber que outros marcos normativos internos já têm apresentado sensibilidade à orientação sexual. Acesso em: 27 abril 2005. Brasil Sem Homofobia – Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania Homossexual. É o caso da Lei Orgânica Municipal do Rio de Janeiro153. lançado em 2004 por iniciativa da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República.direitos humanos Cabe aqui uma interpretação mais arrojada para afirmar que. Conselho Nacional de Combate à Discriminação/Ministério da Saúde. a dignidade encontra-se na aceitação do ser nas suas características pessoais.br/imprensa/Noticias. o princípio da dignidade da pessoa humana.br/pgm/leiorganica/ leiorganica.html#t1c1. ou qualquer particularidade. cor. Disponível em: http://www2. orientação sexual. rio. Direito à Educação. Política para as Mulheres e Política contra o Racismo e a Homofobia. a qual estabelece que: Art.gov. 5º. § 1º – Ninguém será discriminado. Afinal.rj. sobre a cura da homossexualidade”. Disponível em: www. Brasília: Ministério da Saúde. respaldado no artigo 1º da Constituição Federal. Política para a Juventude. atividade física. dentre as quais se encontra a por orientação sexual. como está na norma sul-africana. Direitos ao Trabalho. por mais que tal forma não esteja expressa em nosso Texto Constitucional. conduz à ilação de que o respeito a diferenças seja um pressuposto para uma vida digna. Mais além do plano legislativo. 153 FGV DIREITO rio 130 .ao e revisão de textos: Cláudio Nascimento Silva e Ivair Augusto Alves dos Santos. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: CALLIGARIS. O pluralismo característico da maior parte das sociedades contemporâneas exige que os ordenamentos jurídicos se aperfeiçoem de forma a garantir que as diferenças possam ser reconhecidas e respeitadas. Acesso em: 6 de julho de 2005. mental ou sensorial. cabe menção ao lançamento do Brasil Sem Homofobia – Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania Homossexual. Direito à Segurança. Contardo.gov. Designa-se ao Conselho Nacional de Combate à Discriminação papel fundamental de controle das ações que visem ao fim da discriminação.asp?NOTCod=60157. “De novo. estado civil. ainda.aids. Elaboração: André Luiz de Figueiredo Lázaro. Comissão Provisória de Trabalho do Conselho Nacional de Combate à Discriminação da Secretaria Especial de Direitos Humanos. por ter cumprido pena ou pelo fato de haver litigado ou estar litigando com órgãos municipais na esfera administrativa ou judicial (grifou-se). organiza. sexo. prejudicado ou privilegiado em razão de nascimento.

2003. Legislação: Constituição Federal FGV DIREITO rio 131 . Fabiana Marion.direitos humanos SPENGLER. Santa Cruz do Sul: EDUNISC. União homoafetiva: o fim do preconceito.

cfm?persona=materias&contr ole=112. O Teatro do Oprimido é um sistema de Exercícios. a si mesmo. no contexto do presente. como a livre participação na sociedade humana entre iguais.br/foco. O teatro se define pela existência simultânea — dentro do mesmo espaço e no mesmo contexto — de espectadores e atores. Diálogo é definido como o livre intercâmbio com os Outros. 11. 6. a agir. política. 7. 10. Acesso em: 14 de maio de 2005. O Teatro do Oprimido ajuda os seres humanos a recuperarem uma linguagem artística que já possuem. Todo ser humano é capaz de atuar: para que sobreviva. 5. Traduzem suas emoções. racial ou sexualmente despossuídos do seu direito ao Diálogo ou. em situação. assim. Ser humano é ser teatro: ator e espectador co-existem no mesmo indivíduo. a energia e o seu desejo de agir são transferidos para essa coisa. Aprendemos a sentir. pessoa ou espaço. diminuídos no exercício desse direito.com. desejos e idéias em uma Linguagem Teatral. agindo. Este é o Teatro Objetivo. Teatro do Oprimido. cultural. que busca ajudar homens e mulheres a desenvolverem o que já trazem em si mesmos: o teatro. O objetivo básico do Teatro do Oprimido é o de Humanizar a Humanidade. deve produzir ações e observar o efeito de suas ações sobre o meio exterior. e a aprender a viver em sociedade através do jogo teatral. pessoa ou espaço.opalco.direitos humanos Aula 21: Teatro do Oprimido NOTA AO ALUNO Manifesto do Teatro do Oprimido154 Declaração de princípios Preâmbulo 1. de qualquer forma. criando. sentindo. O Teatro do Oprimido oferece aos cidadãos os meios estéticos de analisarem seu passado. a mesma linguagem que os atores usam no palco: suas vozes e seus corpos. movimentos e expressões físicas. 8. Jogos e Técnicas Especiais baseadas no Teatro Essencial. O Teatro Essencial 3. social. O Teatro Essencial consiste em três elementos principais: Teatro Subjetivo. ao invés de esperar por ele. 154 FGV DIREITO rio 132 . Todo ser humano é capaz de ver a situação e de ver-se. pensando. na vida diária. individual ou coletivamente. 2. um espaço dentro do espaço: o Espaço Estético. econômica. renunciando momentaneamente à sua capacidade e à sua necessidade de produzir ações. a pensar. Oprimidos são aqueles indivíduos ou grupos que são. Quando um ser humano se limita a observar uma coisa. Esta co-existência é o Teatro Subjetivo. 9. Disponível em: http:// www. e pelo respeito às diferenças e pelo direito de ser respeitado. para que possam inventar seu futuro. Todo ser humano é teatro! 4. Todos os seres humanos utilizam. Teatro Objetivo e Linguagem Teatral. Teatro do Oprimido é um ensaio para a realidade.

para desenvolver todas aquelas características que trazem a Paz. O Teatro do Oprimido está sendo usado em dezenas de países de todo o mundo. não é dogmático nem coercitivo. para a inclusão de todos os seres humanos no Diálogo necessário a uma sociedade harmoniosa. Princípios e Objetivos 13. cultura. como um instrumento poderoso para a descoberta de si mesmo e do Outro. trabalho social. estimulando a criação local de Centros do Teatro do Oprimido (CTOs). grupos e nações. A AITO cumpre este objetivo inter-relacionando os praticantes do Teatro do Oprimido em uma rede mundial. não-violento. para clarificar e expressar os desejos dos seus praticantes. famílias. que busca a paz. por exemplo. O Teatro do Oprimido procura ativar os cidadãos na tarefa humanística expressa pelo seu próprio nome: teatro do. na educação. Em resumo. 14. alguns projetos exemplares são apresentados para ilustrar a natureza e o escopo deste Método teatral. promovendo e criando condições de trabalho para os CTOs e os seus praticantes. A AITO é uma organização que coordena e promove o desenvolvimento do Teatro do Oprimido em todo o mundo. facilitando o treinamento e a multiplicação das técnicas existentes. como instrumento para modificar as causas que produzem infelicidade e dor. e respeita todas as culturas. concebendo e executando projetos em escala mundial. programas de alfabetização e na saúde. psicoterapias. para respeitar as diferenças entre indivíduos e grupos. protagonistas de suas próprias vidas 15. 18. o TO está sendo amplamente usado em todo o mundo. os diálogos têm a tendência a se transformarem em monólogos que terminam por criarem a relação Opressores-Oprimidos. e criando um ponto de encontro internacional na Internet. Por causa da sua natureza humanística e democrática. o princípio fundamental do Teatro do Oprimido é o de ajudar e promover a restauração do Diálogo entre os seres humanos. finalmente. raças. 16. Reconhecendo esta realidade. artes. O Teatro do Oprimido não é uma ideologia nem um partido político. mas não a passividade. No Anexo desta Declaração de Princípios. e um meio de tornar as pessoas mais felizes. A ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DO TEATRO DO OPRIMIDO (AITO) 17. Na realidade. FGV DIREITO rio 133 . o objetivo mais geral do Teatro do Oprimido é o desenvolvimento dos Direitos Humanos essenciais. em todos os campos da atividade social como. É um método de análise. também está sendo usado como instrumento para a obtenção da justiça econômica e social. aqui relacionados em Anexos. depois. Nele. promovendo a troca entre eles. os cidadãos agem na ficção do teatro para se tornarem. sempre o diálogo deveria prevalecer.direitos humanos 12. O Teatro do Oprimido é um movimento estético mundial. política. que é o fundamento da verdadeira Democracia. O Teatro do Oprimido se baseia no Princípio de que todas as relações humanas deveriam ser de natureza dialógica: entre homens e mulheres. de acordo com os princípios e os objetivos desta Declaração. e o seu desenvolvimento metodológico. por e para o oprimido.

e vai incorporar todas as contribuições de todos aqueles que trabalharem dentro desta Declaração de Princípios.direitos humanos 19.ctorio.theatreoftheoppressed. A AITO tem os mesmos princípios e objetivos humanísticos e democráticos do Teatro do Oprimido.br Site: http://www. A AITO entende que todos aqueles que trabalham usando as várias técnicas do Teatro do Oprimido subscrevem esta mesma Declaração de Princípios. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: Site: http://www.com. 20.org Demais sites indicados ao longo do texto FGV DIREITO rio 134 .

De fato. De forma a aproximar o aluno da realidade da atuação da sociedade civil. Cidadania e globalização. a Conferência Mundial do Meio-Ambiente.direitos humanos Aula 22: O papel da sociedade civil na promoção e proteção dos direitos humanos NOTA AO ALUNO Na aula inaugural ao bloco referente aos Novos temas e Novos Atores. como as corporações privadas e as organizações não-governamentais. outros atores são fundamentais. op.156 Tais elementos conduzem à compreensão do embrião da sociedade civil em nosso passado recente. impulsionada pelas flagrantes violações de direitos humanos vigentes no momento histórico. Acesso em: 30 março 2005. a Rio92. a sociedade civil vem exercendo papel de destaque nos debates públicos e na mídia no tocante à promoção e proteção dos direitos humanos. Disponível em: http:// www.br/ (item: “Perguntas mais Freqüentes”). serão convidadas organizações não-governamentais e movimentos social que possuam como campo específico de atuação a advocacia em direitos humanos. foi descredenciada a via partidária como a única forma de militância. 61 157 ABONG. Nesse sentido. em 1988.abong. Suíça. o diálogo torna-se muito mais profícuo se precedido pela leitura de alguns argumentos sobre a atuação desses atores. tais organizações ganharam paulatinamente. cit. o FSM é realizado sempre no mês de janeiro. Ao longo das duas últimas décadas. durante o tradicional Fórum Econômico Mundial de Davos. significou o marco para a visibilidade e referência às ONGs. o desafio maior consiste em articular ABONG. Registre-se que. Afirmar que o Estado é o principal violador de direitos humanos é simples. No âmbito internacional. Nesse sentido. 155 156 VIEIRA. Em um contexto de globalização. na década de 80. exercendo seu direito à voz. hoje de maneira irreversível. Destaque-se ainda a experiência do Fórum Social Mundial (FSM). Rio de Janeiro: editora Record. havia 1208 ONGs no Brasil. A atuação na esfera interna e na arena internacional não constitui tarefas excludentes.155 Acresça-se ainda o fator de que. 1997. sendo que 100 delas tratavam especificamente dos direitos humanos157. mas algoz na violação de direitos humanos. A consolidação da sociedade civil brasileira ocorre durante a ditadura militar. que se constitui hoje como uma grande arena da sociedade civil. FGV DIREITO rio 135 . Cabe registrar que tais organizações participaram de todas as grandes conferências dos últimos 15 anos. destacamos as organizações e movimentos da sociedade civil como protagonistas. Inaugurado no ano de 2001 na cidade de Porto Alegre. esse é um importante ator na promoção e proteção. “se o que está em jogo é o presente e o futuro da democracia. A redemocratização do país conduziu a uma participação social jamais vista nos corredores do Congresso Nacional: verdadeiras caravanas chegavam a Brasília diariamente com vistas a imprimir no Texto Constitucional compromissos com a promoção de direitos humanos. respaldo junto aos governos e legitimidade para influenciar nas tomadas de decisão na esfera pública internacional. hoje em sua quinta edição. Multiplicam-se redes de organizações que pretendem driblar coletivamente as dificuldades e estabelecer agendas. Liszt.org. p. A partir de então.

Política e democracia em tempos de globalização. Scott. A. e DUPREE. Conforme visto anteriormente. 2004: 1o Semestre. Leitura dos sites indicados ao longo do texto 158 GÓMEZ. Número 1. 49-69. regionais e globais.direitos humanos para reforçar – e não para substituir ou eliminar – processos simultâneos e diversos de democratização do poder em bases locais. não seriam ouvidos.. Cidadania e globalização. Rio de Janeiro: editora Record. Buenos Aires: CLACSO. 1997. 2004: 1o Semestre. Ano 1. op. “(g)rupos da sociedade civil são bons cães de caça para injustiças. cit. VIEIRA. e DUPREE. homossexuais. Contudo. RJ: Vozes. crianças e adolescentes. In: Sur Revista Internacional de direitos humanos. São Paulo: Sur Rede Universitária de Direitos Humanos. muitas organizações não-governamentais e movimentos passaram a se organizar por meio de redes. Oscar Vilhena. Edição em Português. de outro modo. a associação e o diálogo devem estar abertos e com um mínimo de intervenção. Rio de Janeiro: LPP – Laboratório de Políticas Públicas. pp. 159 160 ABONG.”160 A horizontalidade das redes associativas disponibiliza a informação e o debate entre tais organizações e movimentos. nacionais. VIEIRA. São Paulo: Sur Rede Universitária de Direitos Humanos. Liszt. Assim. Buenos Aires: CLACSO. bem como pela preservação do meio ambiente. são necessárias algumas considerações acerca da atuação dessas organizações. Política e democracia em tempos de globalização. a sociedade civil contribui para a efetivação dos direitos humanos. pela segurança alimentar. José Maria. Dessa forma. Scott A. como as corporações privadas e as organizações não-governamentais. VIEIRA. Petrópolis. negros e negras. etc”159. 2000. outros atores são fundamentais para garantir a observância e efetivação dos direitos humanos. como mulheres. Ano 1. Nesse sentido. FGV DIREITO rio 136 . MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: GÓMEZ. o Estado é o um importante ator na promoção e proteção. Como afirma Oscar Vilhena Vieira e A. 2000. destacando dificuldades e avanços. Rio de Janeiro: LPP – Laboratório de Políticas Públicas. As ONGs e movimentos sociais devem ser vistos como “outros sujeitos atuando de acordo com as reais necessidades e pelos direitos de diversos segmentos sociais. José Maria. mas algoz na violação de direitos humanos. 49-69. Oscar Vilhena.”158 Ultrapassada a apresentação histórica que conduziu ao enquadramento contemporâneo. “Reflexões acerca da sociedade civil e dos direitos humanos” In: Sur Revista Internacional de direitos humanos. Edição em Português. Scott DuPree. Petrópolis. Número 1. possibilitando uma atuação mais eficaz na promoção e proteção dos direitos humanos. pois dão voz a perspectivas e pontos vantajosos que. RJ: Vozes. etc. “Reflexões acerca da sociedade civil e dos direitos humanos”. Para que isso se torne realidade.. cabe ressaltar que tais atores não substituem o Estado. pp. ao levar a injustiça à esfera pública.

167 FGV DIREITO rio 137 .). proclamou. De acordo com Bedjaoui: a dimensão internacional do direito ao desenvolvimento é nada mais que o direito a uma distribuição eqüitativa do bem-estar social e econômico do mundo. op. Mohammed Bedjaoui. que introduziu o direito ao desenvolvimento como um direito humano. ao passo que os Estados em desenvolvimento são os possuidores do direito ao desenvolvimento163. 165 166 BEDJAOUI. por dois eminentes acadêmicos: primeiramente por Keba MBaye. na qual os Estados desenvolvidos são os detentores da obrigação legal de cooperação. ao impor aos países economicamente avançados a obrigação de desenvolver os países menos avançados economicamente.. que almejavam consolidar sua independência política através de uma liberação econômica161. os direitos humanos e o desenvolvimento com questões mundiais primordiais. e somente alguns meses após por Karel Vasak. Nesse sentido. Foi frente a essa nova necessidade que a Assembléia Geral das Nações Unidas adotou. 1177. em seu relatório final. 1991. em 1969. International Law: Achievements and Prospects. A noção sobre o direito ao desenvolvimento foi abordada pela primeira vez em 1972166. . Dois anos após. Mohammed. tal obrigação tem que ser compreendida no contexto de uma nova lei internacional de solidariedade e cooperação. a Declaração sobre o Progresso Social e Desenvolvimento165.Rudolf Von Ihering O conceito de direito ao desenvolvimento surgiu na década de 1960. todo e qualquer direito. 161 162 163 164 Ibid. afirmou a dimensão internacional do direito ao desenvolvimento162.. Ainda. relacionou. Adotada pela Assembléia Geral através de sua Resolução 2542 (XXIV). pode-se dizer que o direito ao desenvolvimento almeja uma globalização ética e solidária. seja o direito de um povo. seus postulados mais importantes tiveram de ser conquistados num combate contra as legiões de opositores. só se afirma através de uma disposição ininterrupta para a luta. em 11 de dezembro de 1969. Ela reflete uma demanda crucial de nosso tempo. A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas (CDHNH). a CDHNH veio confirmar a existência de tal direito e da igualdade de “…the international dimension of the right to development is nothing other than ‘the right to an equitable share in the economic and social well-being of the world’. na medida em que os quatro quintos da população mundial não mais aceitam o fato de um quinto da população mundial continuar a construir sua riqueza com base em sua pobreza. 1178.direitos humanos Aula 23: Desenvolvimento e Direitos Humanos NOTA AO ALUNO Todo direito que existe no mundo foi alcançado através da luta. realizada em Teerã. It reflects an essential demand of our time since four fifths of the world’s population no longer accept that the remaining fifth should continue to build its wealth on their poverty” (Ibid. Resolução 4 (XXXIII) de 21 de fevereiro de 1977. cit. Paris: Martinus Nijhoff Publisher e UNESCO. em 1969. Idem. p. Chefe de Justiça do Senegal. seja o direito do indivíduo. de acordo com o autor. pela primeira vez. p. que sustentou ser o direito ao desenvolvimento parte da terceira geração de direitos humanos. Mohammed Bedjaoui (org. durante a fase de descolonização. p. 1178. O direito ao desenvolvimento era uma exigência afirmada pelos países do terceiro mundo.. da Comissão de Direitos Humanos. p. 1182). a existência do direito ao desenvolvimento em 1977167. M. no mesmo ano. Contudo.164 BEDJAOUI. The right to Development. a Conferência Mundial sobre os Direitos Humanos.

A Declaração foi adotada por 146 votos a favor. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. mas também que o direito ao desenvolvimento é um direito humano inalienável de “toda pessoa humana e de todos os povos”172. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. Islândia e Suíça). realizar o direito ao desenvolvimento. 3(3). Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. Tanto a Proclamação de Teerã quanto esta resolução de 1979 tinham uma abordagem estrutural (structural approach). o Estado deve elaborar políticas nacionais adequadas para o desenvolvimento175. cooperar com os Estados em desenvolvimento a fim de que estes possam realizar o direito ao desenvolvimento. em 18 de dezembro de 1982. 2(3). i. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. bem como eliminar as barreiras existentes176 para sua efetivação. a cooperação internacional deve ser o meio para se resolver os problemas internacionais de caráter econômico. de acordo com o preâmbulo desta Declaração.. 179 180 Art. Japão. a CDHNH estabeleceu o grupo de trabalho de experts governamentais sobre o direito ao desenvolvimento. FGV DIREITO rio 138 . a palavra-chave é cooperação. Já no plano internacional. O marco do direito ao desenvolvimento foi a adoção. (iii) promover o estabelecimento da paz e segurança internacionais181. dispõe o artigo 3 (1) da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. que no mesmo ano foi adotada a Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos. Os inúmeros relatórios produzidos. por oportuno. da Comissão de Direitos Humanos. social. França. No plano nacional.e. Artigo 1. 7. Art. em 1981. 176 Art. em 1986. 6. Dinamarca. bem como tomar todas as medidas necessárias para eliminar as violações de direitos humanos178 e. Os Estados Unidos e mais sete estados do oeste se abstiveram. cultural e político174. 169 Adotada pela Assembléia Geral através de sua Resolução 37/199. social e cultural (artigo 22). Destaque-se. razão pela qual estes devem participar ativamente e se beneficiar do direito ao desenvolvimento173. uma visão que liga os direitos humanos a questões mundiais. da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento pela Assembléia Geral das Nações Unidas. desfrutando do desenvolvimento econômico. 177 178 Art. assim como para promover e incentivar o respeito aos direitos humanos e liberdades fundamentais. 168 Resolução 5 (XXXV) de 2 de março de 1979. conseqüentemente. Art. o Estado deve incentivar a participação popular em todos os campos como forma de realizar plenamente todos os direitos humanos177. Isto significa dizer que os Estados devem cooperar entre si para: (i) assegurar o desenvolvimento e eliminar os obstáculos ao mesmo179. individual ou coletivamente. Mais um avanço ocorreu quando. fazendo com que a CDHNH não conseguisse atingir um acordo unânime na resolução169. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. Israel. que o Estado é o principal responsável pela implementação de condições nacionais e internacionais propícias à realização do direito ao desenvolvimento. Artigo 1(1). Isto porque. Ainda. Ainda. 5. o conteúdo do direito era vago. cultural ou humanitário. Finlândia. Art. Ressalte-se. e preâmbulo. dispõe o artigo 4 da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento que os Estados devem. juntamente com alguns debates na CDHNH e na Assembléia Geral das Nações Unidas. por oportuno. No entanto. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. (ii) fortalecer e garantir os direitos humanos e liberdades individuais180. 170 171 172 173 174 175 Artigo 2(1). levaram a adoção de uma resolução na qual a Assembléia Geral estatuiu o direito ao desenvolvimento como um direito humano inalienável170. 6(3). que dispõe acerca do direito de todos os povos a seu desenvolvimento econômico. Artigo 1(1). 8(2).direitos humanos oportunidades como uma prerrogativa tanto das nações quanto dos indivíduos168. social. Em relação à implementação do direito em tela. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. que a Declaração não apenas estabelece que a pessoa humana é o sujeito central do desenvolvimento171. um contra (Estados Unidos) e oito abstenções (Reino Unido. 181 Art.

num contexto de liberdade. tal Declaração alertou para o fato de que “a falta de desenvolvimento não pode ser invocada para justificar a redução dos direitos humanos internacionalmente reconhecidos”185 e que todos os obstáculos existentes para a efetivação do direito ao desenvolvimento devem ser eliminados186. 183 184 Declaração de Viena. M. 187 Isto porque se entende que a definição de direito ao desenvolvimento estabelecida no preâmbulo da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento é muito vaga.o desenvolvimento é um processo econômico. para que se alcance esta finalidade. o cargo de Expert Independente sobre o Direito ao Desenvolvimento (atual Expert Independente sobre Direitos Humanos e Pobreza Extrema188). que tem como meta acabar com a pobreza e satisfazer as necessidades prioritárias de todos. Acesso em: 10 jan. sociais e culturais quanto os direitos civis e políticos189. Parte I. sociais. 303. par. Parte II. 10. pode-se dizer que o direito ao desenvolvimento unifica todos os direitos civis. op. tais políticas públicas têm Declaração de Viena. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. dignidade e justiça social para os seres humanos. cultural e político abrangente. 8. afirma que o direito ao desenvolvimento é um direito fundamental. 80. Sendo assim. em 1998. cit. criou. Nesse sentido. p. 1999. par. que é composto por vários elementos que representam tanto os direitos econômicos. políticos. and creativity” (BEDJAOUI. justice. Apesar do consenso atingido em Viena. Disponível em: http://www. e cf. Bedjaoui. 1182). parte II. 52-55.direitos humanos A Declaração e Programa de Ação de Viena. técnicos e institucionais – de tal forma que possibilitam o melhoramento das condições de vida de toda população. Sengupta sugere que o direito ao desenvolvimento é o melhoramento de um “vetor” dos direitos humanos. veio exprimir o consenso entre os Estados de que o direito ao desenvolvimento é “um direito humano universal e inalienável e parte integrante dos direitos humanos fundamentais”182. água potável. social.ohchr. passando de Expert Independente sobre o Direito ao Desenvolvimento para Expert Independente sobre Direitos Humanos e Pobreza Extrema. Ainda. por sua vez. par. 72. 185 186 Parte I. 10. principal documento elaborado pela II Conferência Mundial sobre Direitos Humanos. este documento tanto reafirmou o teor da Declaração das Nações Unidas sobre o Direito ao Desenvolvimento quanto contribuiu para a inserção definitiva do direito ao desenvolvimento no vocabulário do Direito Internacional positivo dos Direitos Humanos183. 191 SEN. 182 CANÇADO TRINDADE. ao dispor que: “. FGV DIREITO rio 139 . bem como um grupo de trabalho sobre o tema. Parte I. Portanto. A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. Desenvolvimento como liberdade. apesar dos avanços trazidos pelo referido documento. não se chegou a um consenso acerca da definição do direito ao desenvolvimento. saúde. progresso. par. Assim. econômicos e culturais em um conjunto de direitos humanos indivisíveis e interdependentes. No entanto. 188 189 190 Idem. sustenta ser o direito ao desenvolvimento um processo no qual todos os direitos humanos e liberdades fundamentais possam ser realizados plenamente. “The right to development is a fundamental right.. Amartya. desenvolvimento e direitos humanos. justiça e criatividade190. que visa ao constante incremento do bemestar de toda a população e de todos os indivíduos com base em sua participação ativa. parte I. p. São Paulo: Companhia das Letras. par. pp. Ainda. uma boa qualidade de vida para todos os seres humanos é o principal objetivo do direito ao desenvolvimento. No entanto.htm. emprego. como alimentação. moradia. ao dizer que desenvolvimento deve ser visto como um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam191. livre e significativa no desenvolvimento e na distribuição justa dos benefícios daí resultantes”. as políticas públicas têm que estar voltadas para a satisfação de necessidades básicas. Antônio Augusto. sem qualquer discriminação. 2001. O Expert Independente. Já Amartya Sen vai mais longe. A nomenclatura do cargo foi alterada. educação e seguridade social. par. progress. org/english/bodies/chr/special/themes. Outra inovação trazida pela Declaração e Programa de Ação de Viena. a precondição de liberdade. 10. 2005. the precondition of liberty. Arjun Sengupta. Tratado de direito internacional dos direitos humanos volume II. Todos esses direitos são interdependentes – juntamente com o crescimento do produto interno bruto (PIB) e outros recursos financeiros. e cf... com o intuito de que fosse atingido um consenso acerca da definição187 do direito ao desenvolvimento. deve-se destacar que a consagração do direito ao desenvolvimento como um direito humano inalienável não é um ponto pacífico entre os doutrinadores. foi o estabelecimento da interdependência184 entre democracia.

Holanda: Kluwer Academic Publishers. p. The Right to Development in International Law. p.direitos humanos que incluir outros direitos econômicos. P. Legislação: Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento Declaração e Programa de Ação de Viena 192 DESAI. PIOVESAN. The right to development. Brasil. (ed. The right to development and structural adjustment programmes – an analysis through the lens of human rights. 1999. 6. 1999. Direito ao desenvolvimento. indaga-se: quando é que foi proclamado o direito ao desenvolvimento? O que se entende pelo referido direito? Quem são os sujeitos ativo e passivo do direito ao desenvolvimento? O que o Estado deve fazer para realizar o direito em tela? A Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento é dotada de força vinculante? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. São Paulo. comercial.D. tecnológico e científico192. Tratado de direito internacional dos direitos humanos.R. 2002. pp. Right to Development: Improving the Quality of Life. 1992. 31 apud MATTAR. 303-307. In: CHOWDURY. Volume II. o acesso a condições justas de trabalho e o direito a se beneficiar do desenvolvimento científico. Flavia. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. 22-47. sociais e culturais. Antônio Augusto. Leitura acessória: LINDROOS. tais como o direito ao trabalho. pp. Laura Davis. Pelo exposto. Anja. FGV DIREITO rio 140 . Helsinki: The Faculty of Law of the University of Helsinki & The Erik Castrén Institute of International Law and Human Rights. 276-283.). Dissertação para a obtenção do título de Mestre em Direitos Humanos pela Sussex University. Texto produzido para o II Colóquio Internacional de Direitos Humanos. 2002. S.

o conceito de “crime internacional” ganhou tratamento doutrinário no âmbito da responsabilidade do Estado e. e o Tribunal Internacional para Ruanda. em 1993.. ou melhor. Ressalte-se.asp. Isto significa que um Estado. que a competência do TPI é automática.org/ENGLISH/bible/englishinternetbible/partI/chapterXVIII/treaty10. concomitantemente. Nesse contexto (de combate à impunidade e as inúmeras atrocidades cometidas). durante a Conferência Diplomática dos Plenipotenciários das Nações Unidas. constata-se que ambos os tribunais ad hoc foram estatuídos com limitações espacial e temporal. ao se tornar parte do Estatuto. Dessa forma. não o sendo. em 1994 – e. O Tribunal ad hoc para a ex-Iugoslávia foi criado para julgar os indivíduos responsáveis por graves violações do direito internacional humanitário cometidas a partir de 1991 na ex-Iugoslávia. instaura uma investigação com base em informações recebidas. com a competência de julgar os indivíduos pela prática de quatro crimes: genocídio. (b) Estado-parte envia o caso ao TPI. Disponível em: http://untreaty. o TPI só entrou em vigor em 1 de julho de 2002. na Haia (Holanda). Há três possibilidades de denúncia de um caso ao TPI: (a) Conselho de Segurança remete o caso ao TPI. ao longo de 1994. após 60 países terem ratificado ou aderido ao Estatuto. por oportuno. Trata-se de um marco histórico. uma vez que é o primeiro tribunal internacional permanente. 7 contra. 193 FGV DIREITO rio 141 . o TPI comporta 139 assinaturas e 99 ratificações193. em Roma. Embora o estabelecimento de uma jurisdição penal internacional só tenha se concretizado em 1998. Acesso em: 04 julho 2005. independente e complementar à jurisdição nacional. o caso só poderá ser apreciado se um ou mais dos seguintes estados sejam parte do Estatuto ou. Sua origem remonta às antigas comissões internacionais ad hoc de investigação (a partir de 1919). tenham voluntariamente aceito a jurisdição do tribunal em um caso concreto: (a) o estado em cujo território o crime tenha sido cometido. i. (c) Promotor atua ex officio.direitos humanos Aula 24: Tribunal Penal Internacional NOTA AO ALUNO O Tribunal Penal Internacional (TPI) foi criado com a aprovação do Estatuto de Roma (Estatuto) em 17 de julho de 1998 (120 votos a favor. Pouco a pouco e em decorrência do trabalho da Comissão de Direito Internacional das Nações Unidas. ao passo que o Tribunal ad hoc para Ruanda foi criado para julgar os indivíduos responsáveis por crimes cometidos durante os conflitos internos armados em Ruanda. passando pelos Tribunais de Nuremberg (estabelecido em agosto de 1945) e de Tóquio (estabelecido em janeiro de 1946). Atualmente. surgiu a responsabilidade penal internacional do indivíduo. A inauguração do mesmo se deu em 11 de março de 2003.e. posteriormente. foram criados os dois tribunais ad hoc – o Tribunal Internacional para a ex-Iugoslávia. o TPI. 04 de julho de 2005. De maneira diversa. Contudo. o anseio pela criação de um sistema de monitoramento contínuo da situação dos direitos humanos no mundo é antigo. a jurisdição do TPI é geral e universal. 21 abstenções). crimes de agressão e crimes de guerra. crimes contra a humanidade. aceita a jurisdição do Tribunal sobre os quatro crimes dispostos no artigo 5º do Estatuto. un. Até a presente data. No entanto. (b) o estado de nacionalidade do acusado.

2003. Temas de Direitos Humanos. O Estatuto de Roma prevê alguma forma de reparação à vítima? Qual é a exceção em relação à competência automática do TPI? Qual é a relação entre o Conselho de Segurança das Nações Unidas e o TPI? Existe alguma diferença entre a relação mencionada e aquela entre os tribunais ad hoc e o Conselho de Segurança? Quais são as questões suscitadas por doutrinadores e/ou membros do Poder Legislativo quando se discute a adaptação da legislação brasileira ao Estatuto de Roma? 194 195 04 de julho de 2005. Em 7 de fevereiro de 2003. O Brasil assinou o Estatuto em 7 de fevereiro de 2000. uma Seção de Primeira Instância e uma Seção de Questões Preliminares. icc-cpi. Acesso em: 04 julho 2005. No momento.03. 196 Leitura obrigatória: PIOVESAN. São Paulo: Max Limonad. e (iii) Darfur. os 18 juízes foram eleitos. Disponível em: http://www. MATERIAL DE APOIO Textos: Acesso em: 04 julho 2005.2004). o promotor.07. de 25 de setembro de 2002. Promotoria e Secretaria. Nenhum caso foi julgado até a presente data194. 4388.cpi. Sendo assim.int/ (item: “situations and cases”). após a análise dos dados. ao passo que o último caso foi enviado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. o TPI pode aplicá-la diretamente. de 31. Os dois primeiros casos foram enviados ao promotor pelos respectivos governos. Em se tratando das penas. foi eleito em 21 de abril de 2003.06. O Estatuto de Roma foi aprovado pelo Congresso Nacional pelo Decreto Legislativo n. por quê? Hipótese: Um indivíduo nacional de um Estado não-parte do Estatuto comete crimes contra a humanidade em um Estado-parte do Estatuto.int/librar y/cases/ N0529273. pena de reclusão não superior a 30 anos e prisão perpétua. Disponível em: http://www. ao contrário do que ocorria nos tribunais ad hoc – tinham que recorrer aos tribunais nacionais para verificar como deveriam aplicar a pena –. Já o promotor.06. Diante do exposto. uma juíza brasileira. Pergunta-se: O TPI pode apreciar este caso? Justifique sua resposta com respaldo legal. resolveu abrir a investigação em 3 casos195: (i) República Democrática do Congo (em 23. conforme dispõe sua Resolução n. por meio de intensos debates. “O Tribunal Penal Internacional e Direito Brasileiro”. dando início as suas atividades em 16 de junho de 2003. o crime de agressão pode ser julgado pelo TPI? Caso negativo. há três tipos: prisão provisória. pergunta-se: • • • • • • Atualmente. busca-se adaptar a legislação brasileira ao Estatuto de Roma. 197 FGV DIREITO rio 142 . e aprovado pelo Decreto n.2005196. pdf. icc. In: PIOVESAN. Flávia. (ii) República de Uganda (em 29.eng. 112. Flávia e IKAWA.darfureferral. de 6 de junho de 2002.2004). Até o momento. Daniela Ribeiro. Sudão (em 06. Luis Moreno Ocampo. uma Seção de Apelações.direitos humanos O Tribunal é composto pelos seguintes órgãos: Presidência.2005). sendo um deles Sylvia Steiner. tendo em vista que o Estatuto de Roma já prevê os tipos que podem ser aplicados. 1593 (2005). e o ratificou em 20 de junho de 2002197.

pp. Belo Horizonte: Del Rey. Tratado de direito internacional de direitos humanos. MAIA. jurisdição e princípio da complementaridade. 61-107. 1999. Antonio Augusto. 385-400. 2001.direitos humanos Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. Legislação: Estatuto de Roma FGV DIREITO rio 143 . pp. Capítulos III e IV. II. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Tribunal Penal Internacional: aspectos institucionais. Marrielle. Vol.

mordaças. sem qualquer acusação. era: “You already do” (“Você já vive”). Esta. numa cidade “avançada”. falta de patriotismo. Com efeito. Afigura-se.br/direitos/ militantes/lindgrenalves/lindgren_11set. a Senadora em questão teria concluído que eles não se encontravam em circunstâncias desumanas. (c) mantém presos incomunicáveis por meses.htm. diante do escritório de Senadora californiana pelo Partido Democrata. ou complementação. de forma tão veemente. 198 FGV DIREITO rio 144 . até o passado recente. aplicada com particular afinco em sua política externa: “nós Texto produzido por José Augusto Lindgren Alves – Diplomata. Tampouco soam incomuns maus tratos de prisioneiros num país como o Brasil. onde os prisioneiros transportados do Afeganistão e fotografados com vendas. EUA. a situação em Guantánamo não deveria parecer assustadora (embora as fotografias sejam chocantes para qualquer um que as veja). geralmente admirada. Disponível em: http:// www. de posições liberais. Acesso em: 04 maio 2005. Não obstante essas fotos e informações reiteradas de que os cativos têm sido drogados e sujeitos a privação sensorial para debilitar resistências nos interrogatórios. o panfleto era uma convocação pela seção local da Guilda Nacional de Advogados (ONG de profissionais do direito ativistas dos direitos humanos) para manifestação pública. a Human Rights Watch e outras organizações congêneres. vivem expostos em celas de alambrado qualificadas por “perito penitenciário” como “basicamente um canil” (sic). tão rotineira que sua tipificação como delito parece não ter “pegado”. Mais estranho ainda soa que se critique.direitos humanos Aula 25: Direito Humano Pós-11 de setembro NOTA AO ALUNO Os direitos humanos e a reação ao Onze de Setembro: uma retomada de esperanças?198 “Folheto distribuído.org. Depois do apoio quase unânime do Congresso ao presidente para que ele pudesse declarar legalmente uma “guerra contra o terrorismo”. em viagem oficial. em condições indescritíveis. no coração da cidade. os ataques em Nova York e Washington haviam abalado de maneira tão profunda a sociedade norte-americana que qualquer dissensão parecia. no centro de São Francisco. Tendo por chamada “Não à tortura em Guantánamo!”. membro do Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial da ONU e embaixador designado do Brasil em Sófia (Bulgária). perguntava: “Você quereria viver num país que: (a) desafia o direito internacional. a opinião do secretário de Defesa contra o que têm afirmado a Cruz Vermelha. em 15 de fevereiro de 2002. mulher parlamentar.dhnet. em 22 de fevereiro). (d) pune pessoas sem lhes dar oportunidade de defesa?” A resposta. assim. a Anistia Internacional. algemas e correntes. estranho que esses panfletos sejam distribuídos num país que se apresenta como modelo de direitos humanos (o presidente Bush acaba de fazê-lo na China. tudo isso é deveras surpreendente depois do tenebroso Onze de Setembro de 2001. segundo o mesmo panfleto. (b) humilha deliberadamente soldados capturados. Endossava. por causa da respectiva etnia ou religião. Para quem se acostumou à rotina da superpopulação carcerária brasileira. a lógica dominante era aquela sempre típica dos protestantes puritanos dos Estados Unidos. havia visitado a base norte-americana em Cuba. porém. capuzes. Mais do que estranho. onde o crime é tão abundante que se inventou a categoria dos “hediondos” e a tortura.

logo “quem não está comigo está contra mim”. que modificaram de forma súbita a reação de norte-americanos àquilo que vinha – e vem ainda – ocorrendo. sobre os erros da CIA ao financiar talibãs contra os soviéticos na década de 80. a sociedade e os meios de comunicação norte-americanos pareciam apoiar em uníssono a interpretação de que os atentados não passavam de atos covardes. que justificou para o povo a recomendação governamental de autocensura à retransmissão de vídeos da estação Al Jazeera (a “CNN” árabe. eles maus”. A discriminação entre nacionais e estrangeiros se revela também no decreto de 16 de dezembro de 2001. por tempo indeterminado. na civilização. mais do que o temor de mensagens subliminares. por mais de três meses e meio. mas julgado nos Estados Unidos por tribunal normal. Foi ela que fez vista grossa à discriminação contra os estrangeiros no território nacional. no país e no exterior. que aprovou. pelo qual o Presidente da República “autoriza o estabelecimento” de tribunais militares especiais.direitos humanos somos bons. país pobre e já transbordante de refugiados pashtuns – foragidos que. complexado e gratuito. todos favoráveis a mudanças nas posições do país. do Qatar) em que Bin Laden aparecia. resultantes de um ódio visceral. sem acusação conhecida e sem direito a advogado (alguns já por mais de cem dias). para julgar estrangeiros por ele qualificados de terroristas (o que não foi sequer contemplado para o norte-americano John Walker Lindh. de rito secreto e sumário. Foi o patriotismo amortecedor de direitos. ser punidos). como as que permitem a escuta telefônica e a censura de comunicações pela Internet. Talibã apreendido em território afegão. a consciência de que a luta contra o terrorismo não pode ser conduzida ao arrepio do direito. o bombardeio do Afeganistão em ruínas. com discurso igual ao do Presidente Bush. Sem dúvida. sim. a obsessão patriótica durou. com assistência jurídica e apoio familiar). sem possibilidade de apelação de sentenças. sem hesitações. Foi ela que propiciou ao governo a adoção de medidas restritivas de liberdades. Qualquer crítica ao Governo na “guerra contra o terrorismo” (e até em outros assuntos) era repudiada como antiamericanismo – quanto mais se feita em defesa de indivíduos descritos como perigosos terroristas! Por mais simplista que fosse. normalmente sacrossanto porque essencial ao individualismo do país. obviamente. por sinal. atinentes ao direito à não-interferência em assuntos da vida privada. A dissociação norte-americana do direito humanitário que os próprios Estados Unidos haviam FGV DIREITO rio 145 . nada pode fundamentar a rediscussão da tortura como técnica para a obtenção de informações. associado à ânsia de vingança da superpotência ferida contra os idealizadores dos atentados (estes precisam. Foi a exaltação do patriotismo. com arremessos de comida para uma população em fuga para o vizinho Paquistão. particularmente estrangeiros. de que a barbárie de uns não pode justificar a brutalidade de outros. as fotografias dos detidos em Guantánamo e a repulsa que causaram. Ao contrário do que diziam livros sérios. não foram os atos atentatórios aos direitos fundamentais de todos os seres humanos. pela civilização. pouco lidos. despertaram em muita gente. encontravam as fronteiras fechadas por ordens dos Estados Unidos na fase precedente à operação militar (para impedir a saída de inimigos). de que. apenas com os sinais trocados. Nesse ambiente de exaltação belicosa. O apoio popular ao Presidente chegou a alcançar 95%. passíveis de detenção arbitrária. com vigor extraordinário.

Esta impede maus tratos e interrogatórios além do imprescindível para sua identificação. Paulo. Bush (v. Nas páginas de rosto saem agora notícias desagradáveis a Washington (como as de ataques errados e espancamentos de inocentes por tropas no Afeganistão). Tampouco li nos diários ecos de sua realização (o que me leva a supor ter sido bem reduzida). acabem perdendo terreno para o moderado Colin Powell. O mesmo tem sido dito. a análise de Chris Matthews sob o título expressivo de Who hijacked our war? – “Quem seqüestrou nossa guerra?” – no S. Não é preciso ter o gênio de Immanuel Wallerstein para entender que os atentados do Onze de Setembro deram ainda mais força aos “falcões” da administração George W. decididos por Washington. Nele. muitas sobre violações de direitos no país. em 10/02/2002. agora em crítica mordaz. Contudo. O que a conscientização dos media e das pessoas representará de concreto na luta contra o terrorismo é difícil prever. seja julgado por tribunal transparente e imparcial. Pode ser que. que ela possa reorientar o governo para o reconhecimento da importância dos direitos humanos. dedicadas ao exterior. tem também justificados temores. com ou sem autorização externa. por exemplo. em que deu a convocação de São Francisco à manifestação em favor dos prisioneiros talibãs. estendendo o combate aonde lhe pareça necessário. É ainda improvável. francamente. A simples fadiga dos assuntos da “guerra contra o terrorismo” não os faria passar tão rapidamente das primeiras páginas de todos os jornais para aquelas menos lidas. Francisco Chronicle. Na preparação do Presidente para o state of the Union. p. decorrentes de medidas adotas nessa guerra heterodoxa. A7). protegidos pela Terceira Convenção de Genebra. Os sul-coreanos fizeram manifestações contra o Presidente Bush às vésperas de sua primeira visita a Seul (além de a nação ser a mesma. Todavia. uma coisa é certa: os detidos de Guantánamo e o “eixo do Mal” mudaram os noticiários. por pressão interna. por quem antes apoiava a “guerra contra o terrorismo” (v. a agressão verbal à Coréia do Norte tende a prejudicar as negociações bilaterais encetadas). detentor como qualquer pessoa da presunção de inocência. 17/02/2002. prevê repatriação no término das hostilidades. p. com direito a advogado e recurso contra sentenças. o que realmente vem modificando em profundidade a atitude de norte-americanos e aliados foi o primeiro discurso do presidente George W. o Irã e a Coréia do Norte como um “eixo do Mal”. muito mais do que as fotografias de Guantánamo e a repulsa que causaram. com um mínimo de consistência. que.direitos humanos ajudado a criar (na conferência diplomática de Genebra de 1949) forçava os aliados europeus. mas não totalmente impossível. Não sei. os “falcões parecem ter ido além do limite tolerável pelo patriotismo do cidadão comum. Os europeus em geral – inclusive o governo britânico – dissociaramse de possíveis bombardeios contra qualquer desses três países. FGV DIREITO rio 146 . o Presidente dos Estados Unidos singularizou o Iraque. estipula que o eventual indiciado em crime de guerra. ademais de anunciar a disposição de expandir a “guerra contra o terrorismo”. D1). Só tomei conhecimento do panfleto depois da hora marcada. entrevista à Folha de S.. em 29 de janeiro. E que a idéia desse “eixo” com elementos tão díspares não tenha passado de de artifício de apoio à proposta de aumento gigantesco no orçamento militar. européia e asiática. afinal. Bush sobre o “estado da União”. a cobrar o reconhecimento dos detidos em Guantánamo como prisioneiros de guerra.

A conscientização evidencia. Setembro/Outubro/Novembro 2004.direitos humanos atualmente submersos na prioridade da segurança. só pode ser positiva. pp. Mark. Tendo em conta o grande peso dos Estados Unidos na disseminação internacional da idéia dos direitos humanos e a importância da sociedade civil norte-americana para sua afirmação dentro dos próprios Estados Unidos (como visto nos anos 50 e 60). Os direitos humanos na pós-modernidade. os direitos fundamentais e o direito internacional humanitário não se acham esquecidos pelo medo ou patriotismo cego. Na medida em que ela absorva e propague a interdependência de todos os dispositivos da Declaração Universal de 1948. ela pode tornar-se antídoto aos malefícios da globalização excludente. para a sociedade civil esclarecida e atuante.” MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: DANNER. In: Política Externa. José Augusto. fazendo-o sentir que a observância desses direitos sempre foi e continuará a ser a melhor forma de desfazer condições que conduzem ao terror. que. “Fragmentação ou recuperação”. militar e policial – felizmente sem a “doutrina” que conhecemos no Brasil -. 09 –19. de qualquer forma. nº 2. São Paulo: Perspectiva. inclusive os direitos econômicos e sociais. __________. In: Política Externa. 33 –44. pp. Volume 13. depois do Onze de Setembro. Setembro/Outubro/Novembro 2004. FGV DIREITO rio 147 . “A lógica da tortura”. Volume 13. 2005. LINDGREN ALVES. nº 2. a movimentação que se esboça de novo pelo respeito a tais direitos.

FGV DIREITO rio 148 . Professora do grupo de estudos sobre o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos e Coordenadora de Relações Institucionais da Escola de Direito do Rio de Janeiro da FGV.cgee.direitos humanos Paula Spieler Mestre em Relações Internacionais e bacharel em Direito pela PUC-Rio. Ex-consultora do CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais). rede de monitoramento das tendências de mudança e continuidade do sistema internacional (http:// rsi. Professora de Direitos Humanos. Anistia Internacional e Justiça Global. tais como Fundação Ford. Participou de cursos internacionais sobre direitos humanos promovido pela Universidade de Coimbra e pela Universidade de Columbia. Ex-pesquisadora do grupo de direitos humanos do Radar do Sistema Internacional.br/). Membro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Direitos Humanos. Trabalhou para diversas instituições de promoção dos direitos humanos.org.

direitos humanos FICHA TÉCNICA Fundação Getulio Vargas Carlos Ivan Simonsen Leal PRESIDENTE FGV DIREITO RIO Joaquim Falcão DIRETOR Fernando Penteado VICE-DIRETOR ADMINISTRATIVO Luís Fernando Schuartz VICE-DIRETOR ACADÊMICO Sérgio Guerra VICE-DIRETOR DE PÓS-GRADUAÇÃO PROFESSOR COORDENADOR DO PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO EM PODER JUDICIÁRIO Luiz Roberto Ayoub Ronaldo Lemos Coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade Evandro Menezes de Carvalho Rogério Barcelos COORDENADOR ACADÊMICO DA GRADUAÇÃO COORDENADOR DE ENSINO DA GRADUAÇÃO Tânia Rangel COORDENADORA DE MATERIAL DIDÁTICO COORDENADORes DO NÚCLEO DE PRÁTICAS JURÍDICAS COORDENADORA DE SECRETARIA DE GRADUAÇÃO COORDENADOR DE FINANÇAS COORDENADORA DE MARKETING ESTRATÉGICO E PLANEJAMENTO Lígia Fabris e Thiago Bottino do Amaral Wania Torres Diogo Pinheiro Milena Brant FGV DIREITO rio 149 .

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