Direitos Humanos (FGV).pdf

direitos humanos

AUTORES: JOSÉ RICARDO CUNHA, CAROLINA DE CAMPOS MELLO E PAULA SPIELER

4ª edição

ROTEIRO De CURSO 2009.1

Sumário

Direitos Humanos
APRESENTAÇÃO.............................................................................................................................................................................03 Aulas...........................................................................................................................................................................................07 AULA 01: INTRODUÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS.............................................................................................................................08 Aula 02: Desenvolvimento histórico dos direitos humanos..................................................................................................15 Aula 03: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos................................................................................18 Aula 04: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos................................................................................26 Aula 05: Os tratados de direitos humanos e a Constituição Federal.....................................................................................30 Aula 06: Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos...............................................................................................................37 Aula 07: Sistema global: mecanismos convencionais e não-convencionais de proteção dos direitos humanos...............44 Aula 08: Sistemas regionais de proteção dos direitos humanos...........................................................................................49 Aula 09: Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos.........................................53 Aula 10: Sistema Interamericano de Direitos Humanos: Estudo de Caso...............................................................................58 Aula 11: Direito Internacional Humanitário e Direito Internacional dos Refugiados.......................................................62 Aula 12: Os direitos civis e políticos: direito à vida................................................................................................................74 Aula 13: Os direitos civis e políticos: direito à liberdade e integridade pessoal.................................................................91 Aula 14: Violência Urbana.........................................................................................................................................................96 Aula 15: Direitos humanos econômicos, sociais e culturais..................................................................................................99 Aula 16: A especificação do sujeito de direitos. Os direitos humanos sob a perspectiva de gênero................................. 104 Aula 17: Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente.................................................................................. 109 Aula 18: Os direitos humanos sob a perspectiva racial........................................................................................................ 114 Aula 19: Direitos Humanos e a questão indígena................................................................................................................... 122 Aula 20: Direitos Humanos e orientação sexual.................................................................................................................... 126 Aula 21: Teatro do Oprimido.................................................................................................................................................... 132 Aula 22: O papel da sociedade civil na promoção e proteção dos direitos humanos.......................................................... 135 Aula 23: Desenvolvimento e Direitos Humanos..................................................................................................................... 137 Aula 24: Tribunal Penal Internacional................................................................................................................................. 141 Aula 25: Direito Humano Pós-11 de setembro......................................................................................................................... 144

direitos humanos

APRESENTAÇÃO
1. Visão Geral

a) Objeto: O curso de direitos humanos tem por objeto a compreensão da realidade contemporânea (ser) por meio do estudo do marco normativo (dever ser) de tais direitos, seja no âmbito internacional, seja no nacional. Assim, o curso será organizado em quatro partes: 1) 2) 3) 4) Introdução ao Estudo dos Direitos Humanos; Proteção Internacional dos Direitos Humanos; Aspectos Sócio-Jurídicos dos Direitos Humanos; e Novos Temas e Novos Atores.

b) Metodologia: Elegeu-se a abordagem crítica como elemento permeador de todo o curso de Direitos Humanos. Procurou-se assim a utilização de diferentes métodos que representem um conjunto de possibilidades, tendo como ponto comum a efetiva participação do aluno. Atividades como role plays, estudos de casos, apresentação de seminários ou mesmo organização de uma oficina do Teatro do Oprimido são sugestões apresentadas como meios de interatividade dos alunos com o conteúdo apresentado. Dessa forma, o curso não se apresenta como uma unidade estanque, com conteúdo “engessado” no espaço e no tempo, mas com a fluidez necessária para a adaptação do programa às questões mais candentes em termos de direitos humanos. Ressalte-se ainda o caráter cooperativo do método que privilegia a interação entre alunos e professores. c) Bibliografia: O curso foi montado com base em temas, não em autores ou “escolas”, o que justifica a extensão da leitura indicada. Todavia, tendo em vista a necessidade de se estabelecer uma bibliografia básica para compor a biblioteca da Escola, foram indicados certos livros que permeiam, na medida do possível, todas as aulas. Sugere-se ainda a utilização de recursos virtuais como fontes de pesquisa, notadamente sites de órgãos e organizações nacionais e internacionais. É também descrita, em todas as aulas, a legislação vigente – sejam os tratados ou normas internas – necessária para a compreensão do assunto abordado.
2. Objetivos

Os principais objetivos do curso são: • • • Apresentar os conceitos fundamentais referentes a direitos humanos; Examinar violações de direitos humanos; Compreender os sistemas internacional, regional e nacional de proteção dos direitos humanos;
FGV DIREITO rio 3

o estabelecimento de link com assuntos correlatos. Nesse sentido. o(a) professor(a) contará com o apoio necessário naquilo que é considerado de maior relevância para a compreensão do assunto em pauta. e caberá ao professor a responsabilidade de incentivar o debate sobre os assuntos escolhidos. a bibliografia obrigatória. Do Material Didático O material didático do curso de Direitos Humanos foi elaborado de maneira flexível permitindo tanto ao professor quanto ao aluno a adaptação do programa a questões contemporâneas a sua implementação. é que estes se situem como partes de um processo histórico permeado de avanços e retrocessos. mas visa ainda ao estímulo à criatividade acerca de outras respostas possíveis. A nota apresenta. a criatividade e o respeito à opinião alheia. a legislação a ser consultada e os sites pesquisados. serão apresentados posicionamentos a serem defendidos pelos alunos diante de uma situação hipotética. os alunos deverão apresentar os principais argumentos que fizeram do caso um paradigma na compreensão de determinado assunto. Incentiva-se a participação dos alunos em todas as aulas. O objetivo final do curso. Todas as aulas são compostas de duas partes: a) Nota ao Professor: trata-se de um roteiro sugestivo de pontos a serem abordados em sala de aula. 3. são posturas a serem incentivadas nos alunos. ainda. entre outros. A contextualização da temática proposta. FGV DIREITO rio 4 . A atividade pretende incentivar o posicionamento crítico. As aulas serão variadas – algumas mais expositivas. além de desenvolver a capacidade dos alunos de visualizarem o mundo que os circunda com a “lente” dos direitos humanos. a postura crítica. É importante ressaltar que tal atividade não se restringe à anunciação de uma resposta correta. os alunos serão convidados a não eternizar de forma acrítica entendimentos pré-estabelecidos e a desenvolver suas capacidades de análise e de prática engajada. No Estudo de Caso. habilidades diversas serão avaliadas mediante a proposição de algumas atividades específicas: • • Nos role plays. Por meio de elementos como objetivo didático e objetivo programático. Por meio da “problematização”. característica essencial ao direito. b) Nota ao Aluno: trata-se do conteúdo mínimo que deve ser apreendido como leitura prévia à aula.direitos humanos • Municiar o(a) aluno(a) de instrumentos práticos para a intervenção no mundo contemporâneo. outras mais abertas à participação e à discussão encadeada pelos alunos –. A atividade pretende capacitar os alunos na compreensão de posições adversas em tribunais e despertá-los para a necessidade de se chegar a um resultado.

diagnosticar as respostas normativas possíveis. mister a escolha de conteúdos a serem priorizados em face de outros. notadamente na “Unidade IV: Novos Temas e Novos Atores”. por meio de casos concretos. qualquer tentativa de se apresentar determinado aspecto virá acompanhada por alguma perspectiva subjetiva. Ao não encontrar determinado tema entre os propostos neste material didático.0 pontos). 4. corre-se o risco de certa parcialidade na confecção desse material.0 pontos). o que não lhes confere papel de maior significado. 2) determinação de uma decisão judicial. Mesmo quando se referirem a temas considerados “clássicos” em direitos humanos. preferencialmente do FGV DIREITO rio 5 . Nesse sentido. os alunos deverão apresentar um panorama geral sobre e determinada realidade e.0 pontos). Não obstante a preocupação de se contemplar os temas mais atuais em direitos humanos. Atividades Complementares Atividades em conjunto com outras disciplinas Encontra-se em estudo duas atividades a serem realizadas em conjunto com as disciplinas de Direito Civil (tópico sugerido: Direitos da Personalidade) e Direito Constitucional (tópico sugerido: Direitos Fundamentais). b) Atividades específicas: role plays. 5. c) Avaliação formativa: prova escrita (5. Desafios e Dificuldades A riqueza dos assuntos e a complexidade do que se pretende alcançar com o curso de “direitos humanos” conduz à necessidade de um recorte temático. Formas de Avaliação Os alunos serão avaliados com base em: a) Participação em aula. 6. d) Prova final: escrita (10. desde então. Tradutori traditori. Tendo em vista a opção de contemplar temas e não autores. a certeza de que a temática dos direitos humanos conterá sempre novos “capítulos” confere ao presente material didático uma configuração temporal. como indicativo de atividades: 1) escolha de um filme a ser debatido conjuntamente pelos três professores. estudo de caso. seminários (5. o leitor poderá concluir que a sua retirada foi alvo de debate por parte daqueles que contribuíram para a confecção das aulas propostas. Aponta-se.direitos humanos • Nos seminários.

7.direitos humanos Supremo Tribunal Federal. Julita Lengruber (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania – CESEC/Universidade Candido Mendes/RJ). Direitos Civis e Políticos. Realização de Palestras As seguintes palestras serão realizadas em data marcada de acordo com a disponibilidade dos convidados e a conveniência da Escola. na medida do possível. Principais documentos. Proteção na Constituição de 1988. Proteção Regional. Projeto Legal. FGV DIREITO rio 6 . Direitos Econômicos. FASE. Perspectiva histórica. Polissemia conceitual. que também possa ser alvo de discussão conjunta pelos três professores. Especificação dos sujeitos de direito. dentre outras. O papel da sociedade civil na proteção dos direitos humanos Sugere-se o convite a movimentos sociais e organizações não-governamentais que trabalhem na Advocacia em Direitos Humanos no âmbito nacional e internacional. Fundação Bento Rubião. entre outros: Centro de Justiça Global. Instituto Pro-Bono. João Ricardo Dornelles (Núcleo de Direitos Humanos do Departamento de Direitos da PUC-Rio). Universalidade X Relatividade. EMENTA b) Tema: a) Tema: A disciplina Direitos Humanos. Idéia de gerações e suas críticas. Viva-Rio. Violência. Novos atores. Marcelo Freixo (Centro de Justiça Global). Center for Justice and International Law (CEJIL). Direito Humanitário e Direito dos Refugiados. Proteção internacional. Comissão Pastoral da Terra (CPT). a consonância com as datas propostas no programa: A violência no Rio de Janeiro Sugere-se o convite a especialistas como Ignácio Cano (Laboratório de Análises da Violência – UERJ). O envolvimento das demais disciplinas é fundamental para demonstrar aos alunos como o instrumental que recebem em cada uma das disciplinas tornase ainda mais dinâmico ao dialogar com as demais. Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). Direito Internacional dos Direitos Humanos: Direitos Humanos. Sociais e Culturais. Novos temas. entre outros. São Martinho. Tortura Nunca Mais. mantendo.

Teatro do Oprimido. 9. UNIDADE 2: A PROTEÇÃO INTERNACIONAL DOS DHs 7. Direitos Humanos no contexto pós-11 de setembro de 2001. africano e americano.direitos humanos Aulas UNIDADE 1: INTRODUÇÃO AO ESTUDO DOS DHs 1. Venezuela). 13. 25. 18. Da regionalização: introdução aos sistemas europeu. 6. 5. O papel da sociedade civil na proteção dos direitos humanos. Sistema Interamericano: estudo de caso (El Amparo Vs. 19. 16. Desenvolvimento e Direitos Humanos. Direitos Humanos e orientação sexual. 10. Os direitos civis e políticos. 4. Direitos Humanos econômicos. 17. Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos. Violência urbana. Especificação do sujeito de direito: os direitos humanos sob a perspectiva de gênero. 20. 2. Direito Humanitário e Direito dos Refugiados. 8. sociais e culturais. 23. 24. Desenvolvimento histórico dos direitos humanos. 15. Tribunal Penal Internacional. Direitos Humanos e a questão indígena. Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente. 3. Universalidade e relatividade cultural dos direitos humanos: conceitos. 11. UNIDADE 3: ASPECTOS SÓCIO-JURÍDICOS DOS DHs 12. Os direitos civis e políticos: role play referente ao direito à vida. UNIDADE 4: NOVOS TEMAS E NOVOS ATORES 22. Sistema global: mecanismos convencionais e extra-convencionais de proteção aos direitos humanos. A Constituição Federal e a proteção dos direitos humanos. Direitos Humanos e a questão étnica. Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos. 14. FGV DIREITO rio 7 . Introdução aos direitos humanos: fundamentos e gramática. Universalidade e relatividade cultural dos direitos humanos: role play. 21.

mas (sim avaliar) o que motiva uma sociedade a agir dessa forma.00. esse menino de rua viu a mãe ser Acesso em: 21 de abril de 2005. revistas e notícias de rádio sobre o incidente.. Mas errou o tiro e Nascimento. um policial. Um outro tiro acertou Nascimento. mostra a violência das ruas cariocas retratando um seqüestro verídico. explicou Padilha em entrevista recente à Reuters. atirou na direção do seqüestrador. que tirou o romantismo do “Dia dos Namorados” e durou quatro horas. Segundo o relato dela. Disponível em: http://cinema. A tragédia. Quando Nascimento resolveu se entregar e saiu do ônibus protegido por Geísa. Não podemos nos resumir ao ato do seqüestro. atirou contra a passageira.TICOI677-MNfilmes. revistas e artigos de Internet. o aluno deverá assistir ao Filme “Ônibus 174” de José Padilha e ler os textos abaixo. O filme relata o trágico seqüestro de um ônibus coletivo que resultou na morte da refém e do seqüestrador e foi destaque nos noticiário em 12 de junho de 2000. Tudo isso é mesclado ao depoimento do ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais Rodrigo Pimentel. espera-se uma reflexão acerca do seguinte ponto: O que existe em comum entre o filme “Ônibus 174” e os textos a seguir? ÔNIBUS 174 RELEMBRA TRAGÉDIA CARIOCA1 Vencedor do Festival Rio BR deste ano. 1 FGV DIREITO rio 8 . tentando salvar a refém. conforme havia ameaçado. terra. o documentário Ônibus 174. levou a polícia do Rio a ser duramente criticada pela imprensa e pela opinião pública. “Nossa preocupação (no filme) não é a de apontar culpados nem soluções. mas gerar discussão sobre o tema. o documentário consegue provocar suspense e nostalgia ao utilizar mais de 70 horas de imagens de TV. Por meio de textos extraídos de jornais.br/ficha/0.direitos humanos AULA 01: INTRODUÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS NOTA AO ALUNO Para a primeira aula do Curso de Direitos Humanos. que foi afastado da Política Militar por ter se colocado contra a ação policial no episódio que terminou com a morte da passageira Geísa Firmo Gonçalves e de Sandro Nascimento. O longa começa com o seqüestro e a partir dele inserimos depoimentos”. onde aconteceu a tragédia. passando pelos cartões postais das praias de São Conrado e Vidigal e pela avenida Niemeyer até chegar ao Jardim Botânico.” Logo no início. O cuidado do filme em mostrar os dois lados da moeda aparece na entrevista com a tia de Nascimento. que morreu por asfixia a caminho do hospital.html. além de revelar uma extensa pesquisa com jornais. de José Padilha. “Fizemos questão de manter a fidelidade e a cronologia do episódio. A partir daí.com. apesar de a história ser conhecida do público. um dos seqüestradores. um plano aéreo mostra o belo percurso do ônibus que trafegava da Favela da Rocinha.

chocam ao demonstrar a real dimensão do ocorrido – ela sofreu um derrame durante o seqüestro e não consegue mais falar. bem inserida no mercado pós-moderno e global e inteiramente criada e reproduzida pelas atuais condições da economia – desemprego tecnológico. Revista Isto É. enquanto imagens da educadora Damiana Nascimento. pré-capitalista. de repente. Para Bales. Índia e França.) Muito mais versátil e importante.direitos humanos assassinada a facadas quando tinha nove anos e mais tarde escapou de ser morto da chacina da Candelária – uma biografia dura e amarga. Antônio Luiz Monteiro Coelho da. mas o número da linha mudou de 174 para 158.. tal como consta nos livros de história e de economia política – um modo de produção tradicional. (. acusado de manter por 20 anos a empregada doméstica Hilda Rosa dos Santos como sua escrava. hoje com 42 anos de idade. Cerca de um milhão de meninas com menos de 18 anos trabalha de graça como doméstica nas Filipinas. depois Comsat e depois o projeto Sivam. Segundo o sociólogo britânico Kevin Bales. que não pretendem de forma alguma esconder e amenizar os fatos. Tailândia. onde oficialmente não há escravidão há muitos séculos. Ônibus 174. sendo capaz de se comunicar apenas por escrito. legal e garantida pelo Estado. O percurso ainda existe. desarticulação das sociedades pré-capitalistas e ex-socialistas pela integração ao mercado mundial. naturalizado americano. Alexandre Magno de Oliveira. há três mil escravas domésticas em Paris e a história se repete em Londres e Zurique. Mas essa nova escravidão pouco tem a ver com nostalgias e atavismos do passado pré-abolição. Mauritânia. é a nova escravidão. fica a cargo de representar sua mulher no filme. mostra quanto o seqüestro traumatizou os cariocas. O viúvo de Geísa. COSTA. a Justiça dos EUA condenou a seis anos e meio de prisão e indenização de US$ 110 mil o engenheiro brasileiro René Bonetti. A escravidão chega ao Terceiro Milênio2 Em 14 de agosto. África e América Latina. 2 FGV DIREITO rio 9 . crescimento das migrações e redução ao absurdo. baseada na propriedade privada de uma pessoa. que estudou o assunto no Brasil. Continua tendo sentido falar de escravidão neste início do terceiro milênio? Para muitos sociólogos sérios.. 16 de outubro de 2000. como está crescendo. Porém. forma extrema de superexploração capitalista. Mas este “não” se refere à forma clássica do fenômeno. Bonetti não é um senhor de engenho alagoano. mas um engenheiro eletrônico paulistano que emigrou para trabalhar na mais alta tecnologia: Intelsat. a resposta seria não. numa definição mais ampla – escravidão como condição em que o trabalhador não recebe remuneração e sua vida é totalmente controlada por outros – não só é comum. mas. como em Nova York e Los Angeles. Paquistão. porém. a escravidão é como a tuberculose: todos pensavam que estava extinta nos países civilizados e em vias de desaparecimento em todo o mundo. novas variedades resistentes a antibióticos aparecem onde menos se espera. geralmente com meninas compradas e às vezes até “adotadas” em países pobres da Ásia. orçado em 600 mil reais.

bem como churrasqueira e talheres fundidos com o mesmo combustível. repetindo a triste odisséia das “polacas” espalhadas pelo mundo como conseqüência da derrocada econômica. a viabilidade do negócio passou a depender cada vez mais de trabalho gratuito. Desconhecendo o valor das compras e o mecanismo de cálculo da produção.. Segundo ela. Assim se dá boa parte da produção de carvão vegetal. atividade tradicional deslocada para o Norte e Centro-Oeste pelo esgotamento das matas do Sudeste. Os gastos da viagem – cerca de US$ 150 – são pagos pelo empregador. mas os grandes mercados para esse tráfico são o Sudeste Asiático (250 mil) e a Europa Oriental (mais de 200 mil). A escravidão sexual é ainda mais característica do mundo pós-moderno.) Em São Paulo. higiene e segurança e cumprindo uma jornada que se estende noite adentro. O colapso da URSS levou uma enxurrada de mulheres empobrecidas e desesperadas da Europa Oriental para trabalhar como escrava-prostitutas para o crime organizado nas capitais da Europa Ocidental. ganham cada uma cerca de US$ 50 mil por ano para seus “donos” mas nada para si mesmas. (. da remuneração de atividades tradicionais. vetando visitas de terceiros. costurando roupas vendidas nas melhores butiques e publicitadas pelos mais ousados outdoors pós-modernos. um milhão de mulheres e crianças são vendidas por ano em todo o mundo por um total de US$ 6 bilhões. 35 mil prostitutas. bem como moradia e alimentação. O patrão costuma exigir fidelidade de pelo menos um ano e às vezes retém seus passaportes. junto com o acirramento da concorrência no setor têxtil resultante da abertura do mercado brasileiro às importações asiáticas (cuja produção freqüentemente também usa trabalho escravo ou semi-escravo). da guerra e das perseguições anti-semitas dos anos 1920. Voltando ao Brasil. gás natural). Bom Retiro e Pari. indústria siderúrgica) e com o menor preço e aumento da disponibilidade de combustíveis alternativos (carvão mineral.) Tráfico sexual. Recentemente. a secretária de Estado americana Madeleine Albright chamou a atenção para o tráfico escravo sexual como um dos empreendimentos criminosos que mais crescem no mundo. que destruiu a economia mineira boliviana.. nas suas diversas etapas. este o considera um FGV DIREITO rio 10 . há uma boa probabilidade de estar usando carvão produzido por trabalho escravo. sobretudo no Brás. geralmente vendidas muito jovens por algo como US$ 2 mil.direitos humanos devido ao acirramento da concorrência pela globalização. Sua vinda resultou da combinação do colapso dos preços das commodities nos anos 80 e 90. Na Tailândia. Se o trabalhador quer deixar o patrão que o trouxe. proíbe-os de sair à rua e fecha-os dentro de casa.. envolvendo. Quando você faz um churrasco. um dos casos de nova escravidão mais conhecidos é o das dezenas de milhares de trabalhadores (às vezes com suas famílias) aliciados por “gatos” no interior de Minas e do Nordeste e levados a empreendimentos em locais isolados para viver em condições precárias de habitação. (.. iniciando um processo de endividamento e dependência do qual nem todos conseguem se safar. há cerca de 100 mil imigrantes bolivianos que trabalham nas confecções de São Paulo. Isto inclui 50 mil nos EUA. fundições. No Brasil. mulheres e crianças. geralmente tecnologicamente atrasadas. O aumento da distância dos centros consumidores (metrópoles. tornam-se devedores permanentes e trabalham por abrigo e comida.

batata. como mandioca. de Acesso em 21 de abril de 2005. o maior foco é a Ásia. cobra as despesas da viagem ou o ameaça com o fantasma da Polícia Federal. o cinema torna bem conhecida a situação de imigrantes ilegais – mexicanos. Um caso notório é o dos pequenos empresários que no Sudeste Asiático fabricam tênis para a ultramoderna Nike. Parece que em vez de uma sociedade de lazer movida pelo trabalho de robôs. sem garantias trabalhistas e com moradia e alimentação controladas pelo empregador-. a mortalidade infantil naquela área foi de 87. onde as carências de terra. de agosto a novembro. e a morte de seis crianças com sintomas de desnutrição em aldeias do povo Xavante. a 570 quilômetros de Cuiabá. os Guarani-Kaiowá de Nhande Ru Marangatu puderam voltar a produzir alimentos para subsistência. Se forem considerados casos que.com. asp?lang=PT&cod=15552. paraguaios ou mesmo bolivianos. No ponto alto da produção para as vendas do Natal. Crianças indígenas morrem de desnutrição3 A violência de um despejo dos Guarani-Kaiowá seria reforçada pelo atual contexto do estado do Mato Grosso do Sul. chineses e outros – mantidos em condições semelhantes em vários trabalhos agrícolas. 27 milhões de pessoas vivem as várias formas de nova escravidão e o número está crescendo. milho. A remuneração pode ser tão baixa quanto R$ 30 a R$ 50 mensais.72 por mil nascidos vivos em 2001 e baixou para 41. no Mato Grosso. mas também nessa modalidade. sete dias por semana. Foram seis mortes na terra indígena Dourados. poderiam ser chamados de semi-escravidão – empregos informais com remuneração muito baixa. o trabalho chega a se estender por 15 horas por dia. o número pode chegar a 200 milhões. embora conste que os mais hábeis chegam a tirar R$ 400 mensais – ao menos com os patrões coreanos. têxteis e outros artigos de consumo baratos para todo o mercado global. desde o início de 2005. o século 21 veio nos trazer a escravidão numa escala que a humanidade jamais conheceu. industriais e de serviços. arroz. nos municípios de Japorã e Eldorado. banana. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). porém. 3 FGV DIREITO rio 11 .67 em 2004. nos dois primeiros meses deste ano. Disponível em: http://www. onde trabalhadores superexplorados fabricam brinquedos. Nos EUA. como o dos bolivianos do Pari ou as trabalhadoras das subcontratadas da Nike na Indonésia. jornadas extremamente longas. Ainda está próxima. na região de Campinápolis. estrutura de produção e de alimentos tem levado à morte de crianças indígenas.br/site/noticias/15552. tidos como mais “generosos” que seus concorrentes brasileiros. Segundo Kevin Bales. à taxa de mortalidade de Dourados. Na terra retomada em outubro do ano passado e hoje ameaçada de reintegração. sob ameaça de coação física ou policial. mas ainda é insuficiente.direitos humanos “traidor”. empresa que desde 1997 tem sido forçada por uma dura campanha de boicote e denúncias a reformular sua política de compras para oferecer melhores condições a fornecedores que tratam melhor seus empregados. Foram noticiadas recentemente mais seis mortes por desnutrição em duas aldeias do povo Guarani Nhandeva da região do Sul do Mato Grosso do Sul. feijão. a 150 km de Antonio João. bem mais do que a população inteira do Império Romano ou de qualquer sociedade escravista do passado.adital.

Em 2004 atingimos a menor taxa de mortalidade infantil em povos indígenas. Assim. responsável pela saúde indígena no Brasil. Pesquisa realizada pelo Ibope em novembro de 2002 por Bruno Wilhelm Speck e Claudio Weber Abramo. 6% dos eleitores afirmaram que receberam oferta de vender o voto por dinheiro. mas a taxa é muito alta se comparada com o restante da população brasileira”. tem a taxa em 17%. A aldeia Tacuru. a desnutrição atinge 19% das crianças. realizada após as eleições municipais de 2000. Os compradores de votos se dirigem igualmente a eleitores de todas as faixas de renda. “A situação ainda preocupa a todos e nós temos que manter a sociedade e a comunidade indígena mobilizadas para isso.direitos humanos 64 óbitos por mil crianças nascidas vivas. Segunda Pesquisa Transparência Brasil sobre compra de votos em eleições populares 4 Pesquisa nacional sobre a prática de compra de votos. de no máximo 3%. revelou que nas eleições de outubro/ novembro cerca de 3% dos eleitores receberam oferta de candidatos ou cabos eleitorais para vender o seu voto. De acordo com o diretor do Departamento de Saúde Indígena.pdf. Alexandre Padilha. de 47 por mil nascidas vivas. apresentam desnutrição. Disponível em: http:// www. que tem divulgado a média de desnutrição do Estado. 4 FGV DIREITO rio 12 . A análise dos dados por aldeias mostra um quadro ainda mais preocupante do que aqueles apresentados pela Funasa. Os dados da pesquisa indicam que uma série de conceitos sobre a compra de votos necessita de revisão: • • O nível de instrução do eleitor tem influência moderada sobre a oferta. No MS. de 12% de desnutridos e 15% de crianças em risco nutricional. Em 2002. aldeias dos povos Terena e Kadiwéu têm um índice mais baixo de desnutrição. Os números da Funasa (Fundação Nacional de Saúde). Em pesquisa anterior deste gênero.transparency. Desde a última semana.org/tilac/ indices/ encuestas/dnld/compra_de_votos_brasil. dados da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) apontam que 47 das 256 crianças menores de 5 anos atendidas pela Funasa. disse à Agência Brasil. sem contar os casos de risco nutricional. 23. seguido de bens materiais (30%) e favores da administração (11%). demonstram que a preocupação sobre a alimentação e sobre as condições de vida das crianças indígenas não pode se restringir às aldeias de Dourados. Em Antônio João. a média estadual não mostra que em Amambai. Entre os benefícios oferecidos está em primeiro lugar o dinheiro (56%).2% das crianças desnutridas saíram dessa situação nos primeiros meses do ano. dos Guarani Kaiowá. Percentuais como estes se repetem em todas as aldeias do povo Guarani no Mato Grosso do Sul. Acesso em: 21 de abril de 2005. A média nacional é de cerca de 25 por mil. Outras 52 crianças (20%) estão em situação de risco nutricional. eram 56 por mil. ou 18% delas. Também cresceu a distribuição de alimentos para os indígenas das aldeias da terra indígena Dourados. por exemplo. toda a direção da Funasa transferiu-se para o município e diversas equipes de médicos e nutricionistas passaram a atuar no local. realizada pelo Ibope para a Transparência Brasil e a União Nacional dos Analistas e Técnicos de Finanças e Controle entre 14 e 17 de novembro de 2002.

5 FGV DIREITO rio 13 . enquanto em 2000 a região Sul apresentou-se no mesmo nível do Nordeste. Logo. de um lado. O artigo 299 criminaliza a mera oferta de compra de voto. Os eleitores com mais idade são menos sujeitos à oferta do que os mais jovens. Eua estão minando direitos humanos no mundo.co. Observe-se que. bens materiais. Trata-se em primeiro lugar de uma comparação entre eleições municipais. Além de aferir o volume do “mercado” de votos no Brasil. com os homens sendo ligeiramente mais assediados do que as mulheres.shtml. Vale a pena lembrar que o código eleitoral define essa transação como crime. a comparação entre as duas pesquisas relatadas referentes às eleições em 2000 e 2002 requer certo cuidado. no Iraque. há diferenças mais significativas quanto à distribuição do fenômeno da compra de votos por idade do eleitor. serviços públicos). que a interferência de poder econômico e o desvio ou abuso de poder de autoridade serão coibidos e punidos. se eles mesmos estão praticando abusos. A ONG cobrou a criação de uma comissão independente nos Estados Unidos para examinar o abuso de prisioneiros na prisão de Abu Ghraib. no art. bbc. seguidas pelo Nordeste. a pesquisa revela que cerca de 3 milhões de eleitores receberam oferta de vender o seu voto. Sudeste e Sul mostram um quadro menos desfavorável. Por outro lado. embora ainda com incidência do fenômeno. O código eleitoral de 1965 dispõe. As maiores diferenças se dão entre as regiões do país (Gráfico 8). Disponível em: http://www. diz ong5 Violações dos direitos humanos cometidas pelos Estados Unidos estão minando a lei internacional e erodindo o papel do país no cenário internacional. Da mesma forma como ocorreu no levantamento relativo às eleições municipais de 2000. em 2002 nivelou-se com a Sudeste. Segundo a organização. mesmo que não aceita pelo eleitor. e eleições estaduais e nacionais de outro. Com todas as limitações. e não de uma série histórica sobre o mesmo fenômeno. estamos diante de um universo de 3 milhões de infrações criminais ocorridas nas últimas eleições. 237. Acesso em: 21 de abril de 2005.uk/portuguese/noticias/ story/2005/01/050113_direitoshumanosro. Porém. A pesquisa referente à compra de voto nas eleições municipais se limitou às ofertas em dinheiro. as pesquisas da Transparência Brasil visam elaborar um indicador para acompanhar o fenômeno ao longo do tempo. os americanos já não podem mais reivindicar que estão defendendo os direitos humanos em outros países. afirmou a ONG de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch. quando a pesquisa nas últimas eleições incluiu todos os tipos de troca oferecidos (dinheiro.direitos humanos • • O fenômeno de oferecer algo em troca do voto independe da condição e do tamanho do município. Há pouca diferença entre sexos. em 2002 as regiões Norte/ Centro Oeste mostraram-se as mais vulneráveis.

para analisar as denúncias de abusos em Abu Ghraib. “A adoção de interrogatórios com coerção é parte de um desrespeito mais amplo dos princípios dos direitos humanos em nome do combate ao terrorismo”. Teoria Geral dos Direitos Humanos. Fernando Barcellos de. A entidade cita as técnicas de interrogatório com coerção em Guantánamo e Abu Ghraib como especialmente prejudiciais. O grupo. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: ALMEIDA. diz que as ações dos americanos nestas prisões tiveram um efeito negativo sobre a credibilidade do país como um defensor dos direitos humanos e líder da guerra contra o terrorismo. no modelo da que investigou os ataques de 11 de setembro. A era dos direitos. o Worldwatch Institute. a maior organização de defesa dos direitos humanos baseada nos Estados Unidos. 1989. 1547. disse a ONG. p. uma outra entidade. A Human Rights Watch diz que os americanos já não podem mais dizer que sua posição é moralmente correta e liderar como exemplo. BOBBIO.direitos humanos Na quarta-feira. João Ricardo. Credibilidade O governo americano está no momento investigando denúncias de abusos de prisioneiros no Iraque e também na prisão da base militar de Guantánamo. em Cuba. Norberto. DORNELLES. Também pede a indicação de um promotor especial para determinar o que houve de errado e levar os responsáveis à Justiça. 1992. O que são direitos humanos? São Paulo: Brasiliense. havia divulgado um relatório que dizia que a chamada “guerra contra o terrorismo” pode estar perpetuando o ciclo de violência no mundo. 1996. Rio de Janeiro: Campus. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. FGV DIREITO rio 14 . A entidade pede que o governo Bush instale uma comissão totalmente independente.

. O imperador e o papa disputavam a hegemonia suprema em relação a todo o território europeu. passagem da Baixa Idade Média para a Alta Idade Média) voltava a tomar força a idéia de limitação do poder dos governantes. acordado entre determinados atores sociais e referentes exclusivamente aos limites do poder real em tributar. Outros asseveram sua natureza como meramente contratual. Não caberá à aula 02 resolver um embate travado entre pensadores ao longo dos séculos. quando surgem os direitos humanos? O debate sobre o tema conduz sempre ao limite do surgimento do próprio Direito. uma vez que. em 1215. o Habeas Corpus Act de 1679 e o Bill of Rights de 1689.. Alguns autores vêem nas primeiras instituições democráticas em Atenas – o princípio da primazia da lei (i.e. Alguns autores tratam esse momento como o embrionário dos direitos humanos. destaque-se: a laicização do Direito Natural a partir de Grócio e o apelo à razão como fundamento do Direito. bem como de diversas lutas e revoluções. É nesse contexto em que se formulam as primeiras declarações de Direitos. enquanto que os reis – até então considerados nobres – reivindicavam os direitos pertencentes à nobreza e ao clero. foi uma resposta a essa tentativa de reconcentração do poder (limitou a atuação do Estado). a consagração dos direitos humanos é fruto de mudanças ocorridas ao longo do tempo em relação à estrutura da sociedade. a república romana. FGV DIREITO rio 15 . Dessa forma. mas apontar alternativas. da consagração de direitos comuns a todos os indivíduos – do clero. É importante salientar que. até a Revolução Francesa. Destacam-se aqui: na Inglaterra. por sua vez. durante a Idade Média. há um movimento de reconstrução da unidade política perdida com o feudalismo. a elaboração da Carta Magna. pressuposto do reconhecimento. nobreza e povo.e. a noção de direito subjetivo estava ligada ao conceito de privilégio. Como resultado da difusão do Direito Natural e no contexto das Revoluções Burguesas. são impostos limites ao poder real por meio da linguagem dos direitos. Mas afinal. a sociedade européia se organizava em “ordens” ou “estamentos”. Dentre as conseqüências da Reforma. uma vez que a ruptura da unidade religiosa fez surgir um dos primeiros direitos individuais: o da liberdade de opção religiosa. a Reforma Protestante é vista como a passagem das prerrogativas estamentais para os direitos do homem. séculos depois. Convém salientar que na passagem do século XI ao século XII (i. Dessa forma. do nomos: regra que emana da prudência e da razão.direitos humanos Aula 02: Desenvolvimento histórico dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O desenvolvimento dos direitos humanos foi um processo histórico e gradativo. Nesse sentido. Ainda na Idade Antiga. A partir do século XI. instituiu um complexo sistema de controles recíprocos entre os órgãos políticos e um complexo mecanismo que visava a proteção dos direitos individuais. e não da simples vontade do povo ou dos governantes) e da participação ativa do cidadão nas funções do governo – o primórdio dos direitos políticos.

examinamos a luta por direitos humanos em contextos nacionais. Art. liberdade e propriedade. Todavia. Já os direitos de terceira geração só foram consagrados após a Segunda Guerra Mundial. cabendo ao poder estatal declará-los. Até o presente momento. com base na idéia de que existem direitos baseados na coletividade. Nesse contexto. 1776 Fruto da Revolução Americana – visavam restaurar os antigos direitos de cidadania tendo em vista os abusos do poder monárquico. como o Pacto Internacional de Direitos Civil e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. Por mais que o direito humanitário e a Organização Internacional do Trabalho já indicassem a necessidade de uma proteção de direitos que se sobrepusesse aos ordenamentos internos. e na França. notadamente na Segunda. Em face de alguns direitos. significou um marco da consagração da universalidade dos direitos humanos.direitos humanos nos Estados Unidos. ao passo que os direitos humanos de segunda geração (embora a Constituição francesa de 1791 já estipulasse deveres sociais do Estado. Consagração dos princípios iluministas: igualdade. em 1917. ambas expressas em um texto escrito (a constituição). Reconhecimento da igualdade entre os indivíduos pela sua própria natureza e do direito à propriedade. somente a intervenção estatal é capaz de garanti-los. Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. como é o caso do direito ao trabalho. Tanto a DUDH. atende-se para o ponto comum: a insuficiência da abstenção estatal como forma de garantia de direitos. 1789 Fruto da Revolução Francesa – os franceses se viam em uma missão universal de libertação dos povos. É importante ressaltar que ambas as Declarações consagraram os direitos humanos da primeira geração. ambos de FGV DIREITO rio 16 . conforme demonstrado a seguir: Declaração de Virgínia. Todavia. e da Constituição de Weimar em 1919. Entre essas. Marco do nascimento dos direitos humanos na história. conforme serão estudados ao longo do curso. todas inspiradas no direito natural. cabe destaque o momento histórico em que os direitos humanos foram galgados ao patamar internacional. as atrocidades cometidas durante as Guerras Mundiais. a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. Sociais e Culturais. deixou transparente a necessidade de se estabelecerem marcos inderrogáveis de direitos a serem obedecidos por todos os Estados na concertação estabelecida no pós-Guerra. em 1948. a Declaração de Virgínia de 1776. uma vez que coloca em cheque a idéia contemporânea de indivisibilidade e interdependência dos direitos. não dispunha sobre os direitos correlativos dos cidadãos) só tiveram sua plena afirmação com a elaboração da Constituição mexicana (em decorrência da Revolução Mexicana). a idéia de gerações – importante como mecanismo de compreensão histórica – merece ser criticada desde esse momento. XVI: baseado na lição clássica de Montesquieu – teoria do governo misto combinada com uma declaração de direitos. a elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). à educação e à saúde. Os homens são dotados de direitos inatos.

pp. 36-66. mas tema que deveria compor a agenda global. destacando-se a Conferência de Viena de 1993. 117-145. Todavia. No decorrer da década de 90. 2001. o final da década de 80 foi marcado pela derrocada do socialismo real. 1997. Legislação: Constituição Federal de 1988 Declaração de Virgínia de 1776 Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 FGV DIREITO rio 17 . São Paulo: Saraiva. Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. Volume I. serão estudados na aula referente ao Sistema Global de Proteção dos Direitos Humanos. Antônio Augusto. 2001. ganha força o discurso de que os direitos humanos não eram mais discursos dos blocos. pp. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris. Tratado de direito internacional dos direitos humanos. 31-118. Foi nesse contexto que se desenvolveram as grandes conferências da década de 90. Por sua vez. Celso. Reconstrução dos direitos humanos – um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. a qual consagrou os paradigmas da universalidade. vale adiantar que a confecção dos dois pactos localiza-se em um contexto de Guerra Fria em que os dois blocos disputavam ideologicamente a concepção de direitos humanos. Diante do exposto. Fábio Konder. Rio de Janeiro: Companhia das Letras. A afirmação histórica dos direitos humanos. questiona-se: Qual é a importância da Carta Magna de 1215? Quais os elementos em comum entre a Declaração de Virgínia e a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão? O que são gerações de direitos? Quais foram os precedentes para a consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: COMPARATO. indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos.direitos humanos 1966. pp. LAFER.

FGV DIREITO rio 18 . em silêncio. sonhando para sua filha um futuro distinto do dela. Comemora. com base no princípio da laicidade do Estado. conforme exposto a seguir: Feministas Defendem a igualdade entre os sexos como um dos princípios fundamentais da democracia. No entanto. Sua mãe. por seguirem todos os ensinamentos e tradições da religião islâmica. Para sua surpresa. antes da independência de seu país. Dessa forma. uma vez que considera tal medida extremamente ofensiva a sua crença religiosa e a sua identidade cultural. como o uso de véu na escola e na foto da carteira de identidade. com medo das conseqüências das atitudes de seu pai. ela admira a liberdade feminina e acredita que poderia ser mais feliz sem as imposições religiosas do islamismo. por sua vez. e em decorrência de seu contato com um mundo não-muçulmano. da maneira como foi criada. com base na lei em vigor. Diante disso. assim como a comemoração do Ramadã (período no qual os muçulmanos ficam um mês em jejum). Em março de 2004. Zaíra considera que alguns hábitos já fazem parte de sua identidade cultural. seu pai ameaça tirá-la da escola caso ela não use o véu. com receio das represálias que poderia vir a sofrer por parte da comunidade muçulmana. lamenta tal proibição. o Primeiro de Moharam (primeiro dia do calendário Islâmico) e o Eid-al-Adha (festa do carneiro que comemora o sacrifício de Abraão). a promulgação da referida lei. a igualdade entre os sexos. Zaíra começa a se aprofundar no assunto. Nesse sentido. é expulsa da escola. resolve usar seu véu no primeiro dia do novo ano letivo. também. e principalmente. Zaíra. a radicalização da laicidade é tida como uma forma de assegurar a liberdade da mulher e. conseqüentemente. estudando as posições a favor e contra a proibição do uso de véu e de qualquer símbolo religioso em escolas públicas.direitos humanos Aula 03: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O CASO Zaíra. em respeito às crenças religiosas de sua família. Nesse contexto. a Assembléia Nacional da França. conforme sempre o fez. adotou uma lei que proibiu o uso ou porte de qualquer símbolo religioso pelos alunos nas escolas públicas a partir do próximo ano letivo (setembro de 2004). Sua família migrou para o país no começo da década de 1950. Zaíra encontra-se dividida: por um lado. por outro lado. Ela e sua família são consideradas muçulmanos “fundamentalistas”. a não-utilização do véu (hiyas) violaria os ensinamentos sagrados do Alcorão. Isto significa que Zaíra não poderá mais ir à escola usando o véu de acordo com sua religião mulçumana. o Marrocos. pois. 15 anos. comemora. é uma das cinco milhões de pessoas muçulmanas que vivem na França. Desconsertada.

Corte Européia de Direitos Humanos Defende que a proibição de uso de véus nas escolas públicas por alunas muçulmanas não viola o direito de liberdade religiosa.direitos humanos O uso de véu por alunas muçulmanas representa uma submissão da mulher ao homem. FGV DIREITO rio 19 . Nesse sentido. Trata-se de uma escolha feita pela aluna a seguir os ensinamentos muçulmanos. é também um dos requisitos para se garantir uma sociedade democrática. Partido pela liberdade religiosa Defende ser a liberdade de escolha religiosa um princípio basilar de qualquer sociedade democrática. Partido de Justiça e Desenvolvimento Islâmico Defende a identidade cultural e o direito à liberdade religiosa. bem como a liberdade de expressão. demonstrando tanto a sua devoção e religiosidade quanto a sua obediência a valores tradicionais que compõem a cultura. tal proibição. limitando os atos dos indivíduos e. Nesse sentido. determinando suas próprias vestimentas. De acordo com a Corte. tornando a escola em um local de aprendizagem e não de conflito. por ser necessária para assegurar a separação entre Igreja e Estado. de quipá e da estrela de Davi pelos judeus e da cruz e de crucifixo por católicos. uma vez que promove e estimula a segregação das religiões. o que é pior. Como exemplo. a proibição da utilização de qualquer símbolo religioso por alunos muçulmanos. O banimento do véu confirma que há uma perseguição religiosa aos islâmicos desde o 11 de setembro de 2001. Conselho Superior de Educação Defende a laicidade do Estado e o combate ao fundamentalismo religioso como forma de melhorar o acesso à educação. tendo em vista não ser peça ornamental e estritamente religiosa. Dessa forma. católicos e judeus atenta contra tais princípios. o Estado tem que banir tal discriminação. destaque-se as freiras católicas que cobrem o corpo inteiro e não são incomodadas pela sociedade. causa separação e discriminação entre os alunos. o uso de véu por alunas muçulmanas representa uma cultura milenar. e não uma forma de submissão. A utilização de véu por alunas muçulmanas em escolas públicas. bem como é uma forma válida para se combater o fundamentalismo islâmico. A imposição de uma proibição dessa dimensão demonstra o autoritarismo do Estado e a violação do princípio do Estado Democrático de Direito.

] VIII – ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política. de 02 de julho de 1986. 205. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.. 5º Todos são iguais perante a lei. assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação... O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional. [. o lazer. MATERIAL DE APOIO Legislação: Constituição Federal de 1988 Art.] Artigo 39º.] Art. a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.º 8. o Estado brasileiro estaria violando algum princípio fundamental ou direito humano? Utilize a legislação brasileira.. [. direito de todos e dever do Estado e da família. a moradia. a segurança..] Art.. institui o Programa Nacional de Apoio à Cultura – PRONAC – e dá outras providências. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. na forma da lei. a proteção à maternidade e à infância.. [. A educação. Constitui crime. Lei n. punível com reclusão de dois a seis meses e multa de vinte por cento do valor do projeto. os tratados internacionais de direitos humanos (dispostos abaixo).] Art. à igualdade. sem distinção de qualquer natureza. 215. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. 6. a vida privada... a previdência social. à liberdade. e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa.] VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença. bem como as posições acima mencionadas para responder tais questões. a saúde. sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida. na forma desta Constituição (grifou-se). a honra e a imagem das pessoas. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa. à segurança e à propriedade.505. a assistência aos desamparados. o trabalho.313 – Lei Rouanet – de 23 de dezembro de 1991 Restabelece princípio da lei nº 7. qualquer discriminação de natureza política FGV DIREITO rio 20 . [...direitos humanos Questões: Em primeiro lugar: O Estado francês agiu de forma correta ao adotar e promulgar a referida lei? Se esse caso ocorresse no Brasil (tendo em vista ser um Estado igualmente democrático e laico). fixada em lei..] X – são invioláveis a intimidade. nos termos seguintes: [. [... São direitos sociais a educação. [.

Lei nº 8.. [.] Art. isolada ou coletivamente. de práticas e do ensino. Toda pessoa terá direito à liberdade de pensamento. origem nacional ou social. seja de raça. Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Considera-se criança. ou qualquer outra condição. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade. religião. 2º. por meio do culto. de consciência ou crença. os Estados-partes comprometem-se a tomar as providências necessárias. pelo ensino. este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença. 1º. pela prática. Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente. de consciência e de religião. origem nacional ou social. Art. Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração. opinião política ou de qualquer outra natureza. Artigo II. sem distinção de qualquer espécie. aplica-se excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade. cor. Na ausência de medidas legislativas ou de outra natureza destinadas a tornar efetivos os direitos reconhecidos no presente Pacto. 2.. da celebração de ritos..] III – crença e culto religioso..] Artigo 18 1.] FGV DIREITO rio 21 . em público ou em particular... individual ou coletivamente. a pessoa até doze anos de idade incompletos. cor. Art. língua. riqueza. e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade. 16. Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Artigo 2º 1. no andamento dos projetos a que se referem esta Lei. opinião política ou de outra natureza. com sitas a adotá-las. de atividade intelectual e artística. Parágrafo único. [.. Declaração Universal dos Direitos Humanos Artigo I. nascimento. O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos: [. consciência e religião. para os efeitos desta Lei.. Esse direito implicará a liberdade de Ter ou adotar uma religião ou crença de sua escolha e a liberdade de professar sua religião ou crença. [. sexo. [. língua.direitos humanos que atente contra a liberdade de expressão. sexo.] Artigo XVIII: Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento. pelo culto e pela observância.. Os Estados-partes no presente Pacto comprometem-se a garantir a todos os indivíduos que se encontrem em seu território e que estejam sujeitos à sua jurisdição os direitos reconhecidos no presente Pacto. sem discriminação alguma por motivo de raça. Nos casos expressos em lei. tanto pública como privadamente.. religião.069. levando em consideração seus respectivos procedimentos constitucionais e as disposições do presente Pacto. situação. de 13 de julho de 1990 Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências.

. de professar e praticar sua própria religião e usar sua própria língua. econômicos e culturais.. culturais e religiosos.. Os Estados Partes do presente Pacto reconhecem o direito de toda pessoa à educação. Todos os direitos humanos são universais. Étnicas. a tolerância e a amizade entre todas as nações e entre todos os grupos raciais.. FGV DIREITO rio 22 . religiosas ou lingüísticas. [. Os Estados Partes do presente pacto comprometem-se a garantir que os direitos nele enunciados se exercerão sem discriminação alguma por motivo de raça. em pé de igualdade e com a mesma ênfase. sejam quais forem seus sistemas políticos. indivisíveis interdependentes e inter-relacionados. a Conferência Mundial sobre os Direitos Humanos reafirma a obrigação dos Estados de garantir a pessoas pertencentes a minorias o pleno e efetivo exercício de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais. com base no sexo. Considerando a importância da promoção e proteção dos direitos das pessoas pertencentes a minorias e a contribuição dessa promoção e proteção à estabilidade política e social dos Estados onde vivem. regional e internacional e a erradicação de todas as formas de discriminação.] 19. situação econômica. justa e equitativa. Os direitos humanos das mulheres e das meninas são inalienáveis e constituem parte integral e indivisível dos direitos humanos universais. social e cultural nos níveis nacional. sexo... na vida política. A plena participação das mulheres. favorecer a compreensão. sem qualquer forma de discriminação e em plena igualdade perante a lei. Declaração e Programa de Ação de Viena de 1993 5. conjuntamente com outros membros de seu grupo.. [. religião. cor. Sociais e Culturais Artigo 2º [. nascimento ou qualquer outra situação.] Artigo 13 1. Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos. sua própria vida cultural. é dever dos Estados promover e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais. assim como diversos contextos históricos. as pessoas pertencentes a essas minorias não poderão ser privadas do direito de ter. língua. opinião política ou de outra natureza. Concordam em que a educação deverá visar o pleno desenvolvimento da personalidade humana e do sentido de sua dignidade e fortalecer o respeito pelos direitos humanos e liberdades fundamentais. são objetivos prioritários da comunidade internacional. Embora particularidades nacionais e regionais devam ser levadas em consideração. origem nacional ou social.. Religiosas e Lingüisticas.] 18. em condições de igualdade. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos de forma global. étnicos ou religiosos e promover as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.direitos humanos Artigo 27 Nos estados em que haja minorias étnicas. em conformidade com a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos da Pessoa Pertencentes a Minorais Nacionais. [. econômica. civil. Concordam ainda em que a educação deverá capacitar todas as pessoas a participar efetivamente de uma sociedade livre.] 2.

Notícias prévias: Corte européia mantém proibição de véu muçulmano6 A proibição do uso de véus pelas alunas muçulmanas em escolas públicas não viola o direito de liberdade religiosa e é uma forma válida de combater o fundamentalismo islâmico.2003.com. Acesso em: 15 out. principalmente esta Folha. integrado pela Turquia. havendo notícias de algumas expulsões em virtude da insistência no uso do véu. 2004. asp?NOTCod=98021. Disponível em: http://noticias.2004. mas acabou voltando atrás ao se deparar com a oposição dos militares defensores da secularidade do sistema. de professar e praticar sua própria religião e de usar seu próprio idioma privadamente ou em público. A Turquia é uma sociedade majoritariamente muçulmana que introduziu um sistema de governo secular nos anos 1920. Luiza Nagib Eluf. vários conflitos ocorreram entre pais de alunas e diretores de escolas.12.direitos humanos As pessoas pertencentes a minorias têm o direito de desfrutar de sua própria cultura. “Podem se justificar medidas adotadas em universidades para impedir certos movimentos fundamentalistas religiosos de pressionar estudantes que não praticam a religião em questão ou aqueles adeptos de outras religiões”. segundo se prevê. 48. estudou a possibilidade de colocar fim à proibição do uso do véu. A sentença do tribunal pode ajudar o governo francês a enfrentar os processos que. As proibições impostas em nome da separação entre Igreja e Estado seriam então consideradas “necessárias em uma sociedade democrática”. entre outros livros. atualmente à frente do governo turco e que possui raízes islâmicas. De acordo com uma decisão da Justiça em 1989.OI333991-EI312. 7 Terra online. desde que não sejam “invasivos”. onde professoras muçulmanas estão apelando contra leis de vários Estados que as impedem de cobrir suas cabeças. disse a Corte Européia de Direitos Humanos hoje. com toda a liberdade e sem qualquer interferência ou forma de discriminação. véus e outros símbolos religiosos são permitidos nas escolas do Estado. Acesso em: 15 out.br/mundo/interna/ 0. Foi secretária nacional dos Direitos da Cidadania do Ministério da Justiça (governo Fernando Henrique Cardoso. Luiza Nagib. No caso decidido nesta semana. 29. O véu religioso A imprensa brasileira. disse o órgão. afirmou a corte. 30. depois do colapso do Império Otomano. Disponível em: http://clipping.06. é procuradora de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo e autora de “A Paixão no Banco dos Réus”. Folha de S.html. A decisão da Corte Européia também pode ter ressonância em casos na Alemanha. 2004.00.. que é parte do Conselho da Europa. O Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP).gov. Paulo.br/Noticias. Em razão da ampla interpretação que a palavra “invasivo” permite. surgirão no país quando entrar em vigor a lei banindo o uso do véu pelas muçulmanas em escolas públicas. terra. vem noticiando o intenso debate que se instalou na França a respeito do uso do véu muçulmano por alunas das escolas públicas daquele país. Em uma decisão que pode abrir precedentes. 6 ELUF. a ex-estudante de medicina Leyla Sahin foi impedida de realizar uma prova porque estava usando um véu. a corte com sede em Estrasburgo (França) rejeitou a argumentação apresentada por uma estudante turca impedida de frequentar a faculdade de medicina da Universidade Istambul porque o véu usado por ela violava o código de vestimenta da instituição. planejamento. 7 FGV DIREITO rio 23 .

Uma pesquisa de opinião sobre o assunto foi divulgada recentemente. temendo restrições que possam. É o que nos assegura a Constituição de 1988. inciso VIII. tampouco é estritamente religioso. os imigrantes. Não falta quem atribua aos europeus a incapacidade de acolher. Por outro lado. setores das igrejas Católica. outros países do velho continente. Essas populações resistem tenazmente a assimilar os valores ocidentais. pode ocorrer entre nós. Por essa razão. dentre os quais o Brasil. assinaram o manifesto. Não se pode confundir convicção pessoal com opressão. para que apresentasse projeto de lei proibindo o uso de véu por meninas muçulmanas nas escolas. além da França. Impedem-nas de mostrar qualquer parte do corpo. afetá-los também. O dispositivo. inclusive o cabelo. tendo em vista tratar-se de “um símbolo visível da submissão da mulher”. possuem significativa presença muçulmana. Protestante e Ortodoxa opuseram-se à proibição. a maior comunidade islâmica da Europa. eventualmente. Os usos e costumes de determinados grupos sociais foram utilizados. durante muito tempo. É um “uniforme” feminino. sendo que o poder político não está vinculado a nenhuma delas. isolando-se em suas comunidades. por vezes chegando ao absurdo de obrigá-las a cobrir o rosto todo com o uso da burca. essas distorções encontram-se desmascaradas internacionalmente. assinado por mais de 60 mulheres de destaque. estabelece que “ninguém será privado de direitos por motivos de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política”. Isso significa que não se pode confundir convicção pessoal com opressão. No entanto. também. para evitar violações de direitos trazidas pelas próprias religiões aos seus seguidores. respirar ou falar. sem preconceito. Tanto as alegações fundamentadas em princípios religiosos quanto as calcadas em hábitos culturais não podem ser admitidas quando se prestarem a restringir ou eliminar direitos. FGV DIREITO rio 24 . em seu art. para justificar numerosas formas de privar as mulheres de seus direitos fundamentais. opção religiosa com imposição de subalternidade. que estigmatiza a mulher. Nossa Carta Magna. opção religiosa com imposição de subalternidade. O tal “véu” não é peça ornamental. criado para evitar discriminações em razão de credo. Trata-se de uma polêmica que. mesmo que com isso elas tenham dificuldades para enxergar. 5º. decorrente de imigrações. tendo apurado que 57% dos franceses apóiam a proibição do uso do véu em escolas e repartições públicas. a revista “Elle” francesa divulgou um apelo ao presidente Jacques Chirac. as comunidades muçulmanas impõem às mulheres regras extremamente opressivas. como Alemanha. mas a intolerância maior parece não ser dos países hospedeiros. As atrizes Isabelle Adjani e Isabelle Huppert e a designer de moda Sonia Rykiel.direitos humanos A discussão a respeito dos limites das determinações religiosas é de interesse geral e deve ser acompanhada pelos demais países laicos em todo o mundo. Espanha. é um Estado em que todas as religiões são permitidas e respeitadas. dentre outras. deve ser aplicado. assim como a França. existem na França 5 milhões de muçulmanos. O Brasil. Hoje. Portugal e Inglaterra. Escudadas em princípios religiosos. mais cedo ou mais tarde. De acordo com dados estimados.

Além disso. Diferentemente do que novelas de televisão andaram mostrando. não há glamour no uso do véu. criando para elas mecanismos de autodefesa e a possibilidade de outra opção de vida. em terra estrangeira.direitos humanos A polêmica que se iniciou na França com relação ao uso do véu islâmico demonstra que chegou o momento de rever princípios e dogmas religiosos usados para tolher as liberdades democráticas de seus seguidores. como já se argumentou. No entanto talvez a melhor forma de diminuir a adesão ao véu não seja a proibição legal nem a expulsão da escola de meninas que entendam necessário adotar a vestimenta de seus ancestrais. Por essa razão. O problema do véu está essencialmente ligado ao horror às manifestações do feminino. como seres humanos. é importante desestimular o seu uso. Surtiria. O véu imposto às muçulmanas tem por objetivo impedir que as mulheres se manifestem livremente. mas opressão física e intelectual. A proibição de cobrir a cabeça e o corpo tornaria o lamentável véu um símbolo da resistência cultural e religiosa de uma população já segregada. Não se trata. o efeito oposto ao desejado. assim. de associar islamismo com terrorismo. Fortalecer as mulheres. pode ser a melhor saída para esse impasse. significa que a sexualidade feminina é proibida e “pecaminosa”. FGV DIREITO rio 25 . que deve ser extirpado.

O debate entre universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos sempre esteve presente nos foros internacionais. Rachel Herdy. a delegação chinesa. este diálogo intercultural tem sido limitado tanto no momento da consagração da universalidade dos direitos humanos como nos debates ocorridos nos foros internacionais. na qual o indivíduo – pré-social – tem direitos inatos cuja proteção foi transferida para o Estado. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) de 19489 consagrou a universalidade dos direitos humanos e. Por um lado. não aceita o indivíduo como um ser pré-social e. Diálogo intercultural dos direitos humanos. Filipinas. 48 votaram a favor. única maneira das normas universais serem realmente efetivas. Curso de Direito da PUC-Rio. entre 1947 e 1948. acirrou-se o debate entre as delegações governamentais. a efetividade universal de suas normas continua em estágio de implementação. conforme as etapas. através da Resolução n.12. Sociais e Culturais. 217 A (III). e que o argumento da diversidade não pode ser utilizado para limitar os direitos humanos. segundo o projeto proposto pela Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. era composto por três etapas8: (i) elaboração de uma declaração universal. Por outro lado. e (iii) a IV Conferência Mundial sobre a Mulher de 1995 (Beijing). 7. No entanto. (ii) a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento de 1994 (Cairo). p.direitos humanos Aula 04: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos NOTA AO ALUNO A concepção histórica e culturalmente construída de direitos humanos conduz à imperatividade de que qualquer tentativa de universalização seja fruto de um diálogo entre as diferentes culturas. produto do desenvolvimento de cada país. da Assembléia Geral das Nações Unidas. 8 A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adotada em 10. nenhum contra e oito se abstiveram. em especial aquele travado entre representantes da China e a de Portugal. compreenderia: (i) a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). (iii) adoção de medidas de implementação. O intuito era estabelecer uma Carta Internacional de Direitos que. Na II Conferência Mundial de Direitos Humanos. (ii) o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. realizada em Viena no ano de 1993. religiosa e ideológica. Monografia de final de curso. conseqüentemente. Contudo. (iii) o Protocolo Adicional ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. 9 Apenas os representantes dos seguintes Estados participaram da elaboração da redação do projeto da DUDH: Bielorússia.1948. de tradição confucionista. (ii) criação de documentos vinculantes. como se verá a seguir. União das Repúblicas Soviéticas Socialistas. a delegação da China sustentou ser o conceito de direitos humanos histórico e cultural. O processo de universalização dos direitos humanos. defende que cada cultura deve ter seu DE BARROS FRANCISCO. Como exemplo. 2003. destaquem-se três: (i) a II Conferência Mundial de Direitos Humanos de 1993 (Viena). uma vez que houve um número limitado de países que participaram de sua elaboração10. Estados Unidos. Isto significa que enquanto a delegação portuguesa sustenta uma visão liberal. tendo em vista que dos 58 membros das Nações Unidas na época. 10 FGV DIREITO rio 26 . bem como pelo fato de não ter havido um consenso desde o início em relação às normas que deveriam ser positivadas. a delegação portuguesa alegou ser a universalidade compatível com a diversidade cultural. representou um marco na proteção desses direitos. assim. França e Panamá.

verificar que. 20. é permitido que outra família assuma a obrigação de cuidar da criança que não seja de sua linhagem. Esses cuidados poderão incluir.direitos humanos próprio entendimento do que sejam direitos humanos. 335-336. Já na IV Conferência Mundial sobre a Mulher de 1995. fazse necessário a construção de um diálogo intercultural como forma de se atingir a universalidade efetiva dos direitos humanos. realizada em Beijing. op. Boaventura de Sousa (org.). inter alia. 2003. a colocação em lares de adoção. sendo este instituto denominado kafalah. FGV DIREITO rio 27 . 13 DE BARROS FRANCISCO. planejamento familiar e direitos reprodutivos – prevaleceu em todos os casos a posição ocidental. que tem por premissa a impossibilidade de se compreender claramente as construções de uma cultura com base nos topos de outra. A diversidade cultural há que ser vista. sugere-se que os discursos ‘fundamentalistas’ dos direitos humanos – tanto o universalista quanto o relativista – sejam superados. não havendo. então. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. em geral.. através da Resolução 44/25 das Nações Unidas. estereótipos e preconceitos. Toda criança. 15. Boaventura de Sousa. CANÇADO TRINDADE. fazendo necessário a criação de espaços para o diálogo intercultural. In: SANTOS. ocorrida no Cairo. p. econômico e cultural. 1989. Para tanto. op. cultural e lingüística da criança (grifou-se). apesar da Declaração e Programa de Ação de Viena. Convém. como exceção. uma vez que a criança muçulmana tem o direito inalienável de ligação direta com a linhagem paterna. que significa garantia. a colocação em instituições adequadas de proteção para as crianças. 3. 2. A tradição islâmica não permite a adoção. foi abordada a validade das práticas culturais baseadas na inferioridade da mulher. 12 A Convenção sobre os Direitos da Criança foi adotada em 20. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Trata-se de um método que visa a superar as dificuldades encontradas em um diálogo intercultural. em perspectiva adequada. pp. verifica-se que em todas as conferências mundiais tem prevalecido a posição ocidental. que faz referência expressa à Kafalah do direito islâmico13. Vol. ou o controle – e mesmo o monopólio – da informação por poucos pode gerar dificuldades.. Contudo. Registre-se. na verdade a diversidade cultural não se opõe à universalidade dos direitos humanos. III. Em se tratando da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento de 1994. Tratado de direito internacional de direitos humanos. cit. religiosa. Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo liberal. de forma excepcional. tendo a Plataforma de Ação de Beijing concluído que as práticas que limitam o exercício dos direitos da mulher não podem ser sustentadas em detrimento da universalidade dos direitos humanos. terá direito à proteção e assistência especiais do Estado. Destarte. Mas universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos são ou não compatíveis? Conforme doutrina de Cançado Trindade: “As culturas não são pedras no caminho da universalidade dos direitos humanos.”14 11 DE BARROS FRANCISCO. temporária ou permanentemente privada de seu ambiente familiar. Ao se considerar soluções. a adoção ou. de acordo com suas leis nacionais. e não como um obstáculo a esta. Não raro a falta de informação. Há um denominador comum: todas revelam conhecimento da dignidade humana. ou cujos interesses exijam que não permaneça nesse meio. se necessário. o exemplo bem sucedido de diálogo intercultural nos trabalhos preparatórios da Convenção sobre os Direitos da Criança. por exemplo. Contudo. Dessa forma. 427-461. cit. sendo inconcebível a imposição de valores ocidentais como universais11.11. Antonio Augusto. Capítulo XIX. Nesse sentido. é relevante a proposta de diálogo intercultural sugerida por Boaventura de Sousa Santos15 a fim de compatibilizar tal embate: a hermenêutica diatópica. Por uma concepção multicultural de Direitos Humanos. em seu artigo 5º. p. p. mas sim elementos essenciais ao alcance desta última. 2003. uma vez que não permitem o diálogo. Não é certo que as culturas sejam inteiramente impenetráveis ou herméticas. do qual resultou um artigo baseado na proposta de países islâmicos: artigo 2012. prestar-se-á a devida atenção à conveniência de continuidade de educação da criança. de 1989. como um elemento constitutivo da própria universalidade dos direitos humanos. espaço para um diálogo intercultural. Nesse contexto. embora exista o debate entre universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos. bem como à origem étnica. ter confirmado a universalidade dos direitos humanos e a obrigação dos Estados em respeitá-los e promovê-los independentemente de seus sistemas político. cuidados alternativos para essas crianças. a Kafalah do direito islâmico. cabe ressaltar que embora tenham surgido diversas concepções sobre os temas abordados entre as diferentes culturas – como. 14 15 SANTOS. a discussão permanece em aberto. O artigo 20 dispõe que: 1. mas sim a fortalece. Os Estados-partes assegurarão.

3. tem-se que buscar a versão mais aberta. em uma abordagem cosmopolita. a fim de que seja construída uma concepção multicultural dos direitos humanos que. uma vez que a identidade e compreensão do ser humano ocorrem em contato – diálogo – com outro. tem-se que o objetivo da proposta de Boaventura de Sousa Santos é. Contudo. há cinco requisitos para que os direitos humanos possam ser teorizados e aplicados como multiculturais: (i) superação da tensão universalismo-relativismo. o conceito de cada premissa: Premissas 1. assim. Ibid. imposta pela globalização hegemônica.. baseada em um localismo globalizado. a curiosidade de procurar novas respostas satisfatórias que se traduzam no diálogo intercultural. Esta gera sentimentos de frustração e descontentamento e. nem todas as percebem em termos de direitos humanos. seja por sua destruição. 443. não estará interessada no diálogo. “em vez de recorrer a falsos universalismos. para uma noção de universalidade construída de baixo para cima.. (ii) ter em mente que. se reconhece sua incompletude. (v) aproximação das políticas de diferença e de igualdade. abaixo. (iii) constatação de diferentes conceitos de dignidade humana. p. uma vez que é esta que melhor aceitará as particularidades das demais culturas. Constatação de diferentes conceitos de dignidade humana. De maneira bem resumida. 2. estará sujeita à conquista cultural. Assim. se organiza como uma constelação de sentidos locais. O reconhecimento do outro é essencial para a construção de uma identidade multicultural. nem todas têm a percepção em termos de direitos humanos. p. Ter em mente que. indaga-se: (i) Embora tenha sido reafirmada a universalidade dos direitos humanos na Declaração e Programa de Ação de Viena. desde que não signifique uma conquista cultural.direitos humanos tal diálogo somente torna-se possível se houver uma mudança na conceituação de direitos humanos. por mais que todas as culturas tenham concepções de dignidade humana. 4. temos o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”16. 16 17 Ibid. Há diversas versões de dignidade humana. transformar a concepção de direitos humanos. segue. Percepção da incompletude das culturas. passando da noção de universalidade imperialista. seja pela absorção. Contudo.. Esta premissa pode ser traduzida da seguinte forma: “temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza. Conceito Ambos os discursos – o etnocêntrico e aquele que considera as culturas como absolutas e incapazes de questionamento – impedem o diálogo intercultural. Superação da tensão universalismorelativismo. o cosmopolitismo. FGV DIREITO rio 28 . e que se constitui em redes de referências normativas capacitantes”17. gera também uma dicotomia: se uma cultura se considera completa. 458. mutuamente inteligíveis. (iv) percepção da incompletude das culturas. por meio do diálogo intercultural. Após essa breve exposição do tema. Por fim. Aproximação das políticas de diferença e de igualdade. 5. por mais que todas as culturas tenham concepções sobre dignidade humana. A solução proposta pelo autor é optar pelo reconhecimento da incompletude e pelo diálogo.

Abdullahi Ahmed (ed). Ian (eds. FGV DIREITO rio 29 .direitos humanos sua efetivação ocorre na prática e de forma igualitária em todos os países? Qual é a proposta de Boaventura de Sousa Santos para que seja construída uma concepção multicultural dos direitos humanos? O que significa o reconhecimento da incompletude da cultura? O que representou. 2003. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Boaventura de Sousa (org. 427-461. Andrew. Ano: 2004. Negotiating Culture and Human Rights. Vol. TRINDADE. Diretor: Theo Van Gogh. Boaventura de Sousa. Antonio Augusto Cançado. Capítulo IV. Duração: 10min. Human Rights in Cross-Cultural Perspectives. Nova York: Columbia University Press.). ___________. Philadelphia: University of Pennsylvania Press. BELL. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. 1995. PELEG. 211-234. NATHAN. de 1989? Um país muçulmano pode alegar respeito a sua cultura como forma de se eximir da responsabilidade de garantir e promover os direitos das mulheres? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: SANTOS. 2003. Tratado de direito internacional de direitos humanos. pp. Leitura acessória: AN-NA’IM. pp. a Convenção sobre os Direitos da Criança. Legislação: Declaração e Programa de Ação de Viena Declaração Universal dos Direitos Humanos Convenção sobre os Direitos da Criança Atividade Complementar: Filme: Submissão. III.). Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo liberal. 301-349. Roteirista: Ayaan Hirsi Ali. em termos de diálogo intercultural. Lynda. Vol. Por uma concepção multicultural de Direitos Humanos. 2001. Tratado de direito internacional de direitos humanos. 1997. In: SANTOS. I. Capítulo XIX. pp.

propiciando um verdadeiro bloco da constitucionalidade19. sob pena de nulidade do título (. Em julgados de toda a década de 90. de registrar no artigo 5o. Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. MELO. 20 FGV DIREITO rio 30 . disso decorrendo a constitucionalidade e conseqüente validade do Decreto-lei n. Direitos humanos e direito constitucional internacional.. não é esta a interpretação promovida pelo Supremo Tribunal Federal. São PAULO: Max Limonad. Em primeiro lugar.1969.direitos humanos Aula 05: Os tratados de direitos humanos e a Constituição Federal NOTA AO ALUNO A aula de nº 05 tem por objeto o estudo do Direito Constitucional Internacional. a qual garante a possibilidade de extensão do texto constitucional em relação a outros direitos e garantias que não estejam expressos no artigo 5o. Todavia. fortalecendo os mecanismos nacionais de proteção dos direitos da pessoa humana. que institui o registro obrigatório da Nota Promissória em Repartição Fazendária. reconhecido por alguns autores com campo de interação entre as duas áreas do direito. No julgamento do leading case após a promulgação da Constituição. “O bloco da constitucionalidade e o contexto brasileiro”. de 22. 45.004.”18 Cabe assim menção às partes do Texto Constitucional que se referem a direitos humanos. In: Revista Direito. Cabe aqui a interpretação de que outros direitos e garantias também possuam hierarquia constitucional. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. 19 Tal redação revelou-se “campo minado” ao longo da recente história constitucional. Ao apreciar o aparente conflito No julgamento do Recurso Extraordinário no. o tribunal manteve posição firmada desde 197720 de que os tratados possuem status infraconstitucional com equivalência à lei ordinária. Tal posicionamento conduz à ilação de que os tratados de direitos humanos podem ser objeto de controle de constitucionalidade e de que lei federal pode vir a revogar tratado já incorporado ao ordenamento jurídico interno. quando estabelece no artigo 7o do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) que o Brasil propugnará pela formação de um Tribunal Internacional dos Direitos Humanos. a Constituição faz menção expressa à promoção e proteção dos direitos humanos quando afirma que sua prevalência constitui princípio que rege as relações internacionais do Estado brasileiro (artigo 4º). 15. ou ainda. o Supremo Tribunal Federal considerou: “Convenção de Genebra – Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas Promissórias – Aval aposto à Nota Promissória não registrada no prazo legal – Impossibilidade de ser o avalista acionado. o STF reafirmou sua jurisprudência. parágrafo 2o a sua “cláusula aberta” ou “cláusula de receptividade”. a mais importante referência do Texto de 1988 constitui a seguinte: Artigo 5o.)”. p. Todavia. Carolina de Campos.131/95. ciente de que sua obra resulta em um marco jurídico que se estende no tempo.. 72. Validade do Decreto-lei n. 427. 18 PIVESAN. 2004. Parece clara a opção do legislador constituinte. 427/1969. não se sobrepõe ela às leis do País. o Habeas Corpus nº.01. Estado e Sociedade. mesmo pelas vias ordinárias. Embora a Convenção de Genebra que previu uma lei uniforme sobre letras de câmbio e notas promissórias tenha aplicabilidade no direito interno brasileiro. Ao tratar da dinâmica da relação entre a Constituição Brasileira e o sistema internacional de proteção dos direitos humanos objetiva-se não apenas estudar os dispositivos do Direito Constitucional que buscam disciplinar o Direito Internacional dos Direitos Humanos. 80. Flávia. mas também desvendar o modo pelo qual este último reforça os direitos constitucionalmente assegurados. parágrafo 2o Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados. “Esta interação assume um caráter especial quando estes dois campos do Direito buscam resguardar um mesmo valor – o valor da primazia da pessoa humana – concorrendo na mesma direção e sentido. No.

. afirmou que “os tratados internacionais não podem transgredir a normatividade emergente da Constituição. A novidade ainda não foi elucidada pela doutrina e jurisprudência. Inconstitucionalidade da interpretação dada ao artigo 7o. não derrogou. da mesma Constituição. também por decisão do Plenário. mas resultou no afastamento das regras comuns alusivas ao depósito”. O novo parágrafo do artigo 5o da Constituição Federal estabelece. por três quintos dos votos dos respectivos membros. na circunstância descrita considerado infiel e assim passível de prisão civil. LXVII. Já o Ministro Marco Aurélio. o STF negou provimento a um recurso em habeas corpus que questionava a possibilidade do depositário infiel ser preso em virtude do disposto no Pacto de San José da Costa Rica. e isso porque ainda não se admite tratado internacional com força de emenda constitucional”. em julgado de 15 de maio de 2007 (RHC 90759/ MG – Minas Gerais). Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados. Relator Ministro Moreira Alves.05. restando mais dúvidas do que certezas. e diante da emenda. 22 23 Mais recentemente.482. Alguns autores preferem resolver o aparente conflito de normas por meio de uma regra de hermenêutica específica ao campo dos direitos humanos: a aplicação da norma mais favorável à vítima. Dessa orientação divergiu o acórdão recorrido. da Constituição não se aplica aos tratados internacionais sobre direitos e garantias fundamentais que ingressaram em nosso ordenamento jurídico após a promulgação da Constituição de 1988. item 7. em especial dos tratados de direitos humanos. em 27. Artigo 5o . Esse entendimento voltou a ser reafirmado recentemente. do Pacto de São José da Costa Rica no sentido de derrogar o Decreto-Lei 911/69 no tocante à admissibilidade da prisão civil por infidelidade do depositário em alienação fiduciária em garantia. salvo a do responsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e a do depositário infiel. em cada Casa do Congresso Nacional. e o Pacto de San José da Costa Rica22. o Tribunal manteve o posicionamento ao afirmar que “(.) o Pacto de San José da Costa Rica. por fim. quando do julgamento do RE 206.071/GO de 29 de maio de 2001.98. No caso de alguém que não cumpriu o dever de pagar as prestações de seu carro e. 21 Pacto de San José da Costa Rica ou Convenção Americana de Direitos Humanos. inciso LXVII: Não há prisão civil por dívida. a qual estabelece a permissão de duas forma de prisão civil (depositário infiel e devedor de alimentos – artigo 5o inciso LXVII21). o Pacto de San José da Costa Rica não implicou a derrogação da Constituição Federal. as normas infraconstitucionais especiais sobre prisão civil do depositário infiel. poderá o Poder Legislativo aprovar determinadas normas contidas nos tratados com status constitucional e outras com de lei federal? O que ocorre com os tratados ratificados até a presente data? O que são “tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos”? A primeira pergunta conduz à necessidade de se registrar alguns comentários acerca do procedimento de incorporação dos tratados em geral. no julgamento do RE 253. Afinal. é considerado depositário. Ainda. veio a trazer duas importantes inovações ao abrigo constitucional aos direitos humanos: elucidou a possibilidade do status constitucional dos tratados de direitos humanos e estabeleceu a federalização das violações de direitos humanos. voto vencido. É de observar-se. conforme seu contrato de alienação fiduciária. o qual restringe tal permissão apenas ao devedor de alimentos. inciso VIII da Cons- FGV DIREITO rio 31 . ressaltou que “realmente. em dois turnos. Parágrafo 3o. a emenda precisou a hierarquia dos tratados de direitos humanos. não possuem forma para conter ou para delimitar a esfera de abrangência normativa dos preceitos inscritos no texto da Lei Fundamental. ao tratar novamente da prisão do depositário infiel. serão equivalentes às emendas constitucionais. No tocante ao status constitucional.direitos humanos de normas existente entre a Constituição Federal de 1988. pois. Constituição Federal. de 08 de dezembro de 2004. a Emenda nº 45. in verbis: Art. 5o. que o parágrafo 2o do artigo 5o.631/98. além de não disporem de autoridade para restringir a eficácia jurídica das cláusulas constitucionais. O artigo 84. mais conhecida como Reforma do Poder Judiciário. por ser norma infraconstitucional geral.”23 Recentemente. no Habeas Corpus nº 77. qual a regra que deve prevalecer: a Constituição Federal ou o Pacto de San José? Recente alteração constitucional. além de não poder contrapor-se à permissão do artigo 5o.. estabeleceu a corte que “nada interfere na questão do depositário infiel em matéria de alienação fiduciária o disposto no parágrafo 7º da Convenção de San José da Costa Rica”.

direitos humanos

tituição Federal confere ao presidente da República a competência privativa para negociar e celebrar tratados, convenções e atos internacionais, sujeitos ao referendo do Congresso Nacional. Em regra, tal competência é exercida pelo ministro das Relações Exteriores ou pessoa por ele designada para tal. Ainda, de acordo com o artigo 49, inciso I, é de competência exclusiva do Congresso Nacional resolver definitivamente sobre tratados, acordos e atos internacionais. Assim, caberá primeiramente à Câmara dos Deputados, sucedida pelo Senado Federal, a aprovação dos tratados. Em ato discricionário, cabe ao presidente da República o ato da ratificação, consolidado por meio de um decreto, considerado pela jurisprudência do Supremo Tribunal Federal ato fundamental para que o tratado possa surtir efeitos no ordenamento jurídico interno. Em resumo, os tratados seguem os seguintes passos: Negociação e Assinatura pelo Poder Executivo + Aprovação pelo Poder Legislativo + Ratificação pelo Poder Executivo

Ultrapassada a regra geral para a incorporação dos tratados no ordenamento jurídico interno, cabe ressaltar que o legislador constituinte de 2004 deixou transparente a possibilidade de que os tratados venham a ter hierarquia constitucional caso sejam aprovados com o procedimento reservado às emendas constitucionais. Se por um lado não cabe mais dúvida acerca do status, podemos concluir que a inserção de tal norma pode conduzir à ilação de que certos tratados terão hierarquia constitucional e outros não, o que seria uma resolução descabida seja no âmbito do Direito Constitucional ou do Direito Internacional. Afinal, se o Estado brasileiro já ratificou os mais importantes tratados de direitos humanos, qual seria o atual status dos mesmos? Apesar de não constar da Emenda Constitucional nº 45 qualquer menção aos tratados já incorporados à ordem interna, não parece razoável que tais tratados sejam tidos como leis ordinárias e os futuros como normas constitucionais. De acordo com Tarciso dal Maso, “deveria ser admitida hierarquia normativa superior para tratado sobre direitos humanos já ratificado, até porque seria ilógico, por exemplo, que Protocolo Adicional à determinada Convenção, futuramente aprovado pelo procedimento do parágrafo 3o do art. 5o, seja considerado como força de emenda à Constituição e a própria Convenção-quadro não.”24 Também causa estranheza que tenham que ser submetidos a uma nova apreciação, notadamente quando o Estado brasileiro já se pronunciou no âmbito internacional por meio da ratificação dos mesmos. Caberá ao Poder Legislativo o estabelecimento de procedimento específico para a aprovação de tratados de direitos humanos em conformidade com a determinação constitucional, restando ao Poder Judiciário o papel fundamental de reinterpretar a sua jurisprudência para a necessária adequação à norma. Por fim, a resposta à indagação sobre a definição de tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos será obtida ao longo deste curso, uma vez que se pretende estabelecer, com o devido rigor técnico, o que se entende por direitos humanos. Cabe enfatizar, desde então, que os tratados de direitos humanos, compreendidos

JARDIM, Tarciso dal Maso. Afirma o autor a inconstitucionalidade do novo parágrafo inserido no artigo 5o ao estabelecer que “se favorável ao projeto constitucional brasileiro, o STF reconheceria o nível constitucional de todos os tratados que consagrassem direitos e garantias fundamentais, com base no parágrafo 2o do artigo 5o, e declararia o novo parágrafo 3o do artigo 5o como contrário às cláusulas pétreas, pois, nos termos do inc. IV, parágrafo 4o do artigo 60, seria tendente a abolir direitos fundamentais ao aventar hipótese de certos tratados sobre direitos humanos não poderem ter status constitucional a depender do procedimento legislativo adotado.” (página 50)
24

FGV DIREITO rio 32

direitos humanos

como gênero de que são espécies as convenções, devem ser interpretados de forma mais ampla, englobando também direito humanitário e direito dos refugiados. Saliente-se aqui a outra inovação apresentada pela Reforma do Poder Judiciário: a federalização das violações de direitos humanos. De acordo com a nova redação, o artigo 109 passa a contar com a seguinte redação:
“Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar: V-A as causas relativas a direitos humanos a que se refere o § 5º deste artigo; § 5º Nas hipóteses de grave violação de direitos humanos, o Procurador-Geral da República, com a finalidade de assegurar o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil seja parte, poderá suscitar, perante o Superior Tribunal de Justiça, em qualquer fase do inquérito ou processo, incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal.” (NR)

A inovação institucional deve ser entendida sob os seguintes argumentos: Passo definitivo de enfrentamento à impunidade e garantia de proteção à vítima: O pacto federativo brasileiro, especificamente no tocante à repartição das competências entre Poder Judiciário Estadual e Federal, possui no artigo 109 da Constituição referência fundamental. Os temas ali relacionados são de competência da magistratura federal, sendo os demais – a grande maioria – considerados reservados à magistratura estadual. Tal divisão temática acarreta em atribuições distintas também para outros órgãos que atuam perante o Poder Judiciário. Por exemplo, os crimes contra a organização do trabalho, os crimes contra o sistema financeiro e a ordem econômica financeira deverão ser investigados pela Polícia Federal, sendo a eventual denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal perante a Justiça Federal. Todavia, a omissão ou mau funcionamento das instituições estaduais – Poder Executivo (em especial a polícia), Ministério Público, Defensoria Pública, Magistratura – diante de um caso concreto conduziram o legislador a estabelecer que em determinados casos a competência deverá ser transferida para a Justiça Federal de forma a não acarretar uma outra violação de direitos humanos: o direito a um julgamento justo e imparcial e em um prazo razoável. Nesse sentido, o deslocamento de competências veio a reforçar a necessidade de um efetivo funcionamento das instituições estaduais e a garantir o combate à impunidade por parte das instâncias federais em casos específicos e, por conseqüência, que seja ampliada a proteção dos direitos humanos. O federalismo adotado pela Constituição Federal A Constituição brasileira estabelece um federalismo de cooperação25 entre os seus entes – União Federal, Estados, Municípios e Distrito Federal, o que não exclui um exercício cooperativo também em relação à atividade jurisdicional. A federalização das violações de direitos humanos não constitui uma novidade nesse sentido. Cabe lembrar que o artigo 109, parágrafo 3º, da Constituição Federal estabelece que, na ausência de Varas Federais ou Trabalhistas, a Justiça Estadual exerça as competênb)
SCHREIBER, Simone; e COSTA, Flávio Dino de Castro e. “Federalização da competência para julgamento de crimes contra os direitos humanos”. In: Direito Federal: Revista da Associação dos Juízes Federais do Brasil. Ano 21. No. 71. Niterói: Editora Impetus. Julho a setembro de 2002. p. 253.
25

a)

FGV DIREITO rio 33

direitos humanos

cias que pertencem à Justiça Federal e do Trabalho. No intuito de atender à vítima diante de atividade jurisdicional específica, o Judiciário Estadual acaba por exercer a jurisdição sob matéria excluída de sua competência originalmente. Não é de se causar espanto a alternativa de que, diante da ausência ou mau funcionamento da Justiça Estadual, que a Federal exerça a atividade jurisdicional, visando à implementação de um julgamento justo e imparcial. Há de se ressaltar ainda que a Constituição Federal previu remédio federativo muito mais grave para violações de direitos humanos quando, em seu artigo 34, inciso VII, alínea b, possibilitou a intervenção da União nos Estados para assegurar o princípio constitucional sensível dos direitos da pessoa humana. É possível concluir que o constituinte originário criou um caso extremo de chamamento para a União Federal de casos de violação de direitos humanos e o constituinte derivado, por meio da Emenda Constitucional nº 45, estabeleceu uma hipótese mais específica, o deslocamento de competência em um determinado caso. Responsabilidade Internacional A Constituição Federal, em seu artigo 21, inciso I, estabelece que compete à União Federal, manter relações com Estados estrangeiros e participar de organizações internacionais. Nesse sentido, é a União Federal, e não seus Estados-membros, que respondem pela responsabilidade internacional decorrente do descumprimento das obrigações assumidas pelo Estado brasileiro pelos tratados de direitos humanos. Tendo em vista que a soberania é una e indivisível, o Estado Federal não pode alegar razões de ordem organizacional interna como fator excludente de responsabilidade. Os termos dos tratados internacionais dos quais o Estado brasileiro é parte são aplicáveis a todas as suas partes componentes. A responsabilidade internacional acaba implicando para o Estado brasileiro uma situação complexa focalizada em dois pontos: a) a maior parte das violações de direitos humanos encontra correspondência direta com as competências dos Estados-membros da federação; e b) o compromisso do Estado brasileiro com o marco protetivo internacional dos direitos humanos, notadamente após a Constituição de 1988, em consonância com os princípios da dignidade da pessoa humana e com da transparência internacional. Como estudaremos em momento oportuno, tramitam na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) mais de 100 petições contra o Estado brasileiro. Em regra, são raríssimos os casos que apontam à responsabilidade direta da União em face da violação de direitos humanos. Isto posto, é possível afirmar que, na maioria expressiva dos casos, a responsabilidade é do Estado-membro. Observese que boa parte destes casos pendentes na Comissão poderá ser submetida à Corte Interamericana, cuja jurisdição foi reconhecida pelo Brasil em dezembro de 1998, notadamente após a alteração do Regulamento da Comissão que prevê a presunção de encaminhamento dos casos à Corte Interamericana de Direitos Humanos. Nesse sentido, é bem vindo um mecanismo capaz de assegurar o cumprimento dos tratados de direitos humanos em caso dos entes federativos falharem ou não disporem de condições operacionais ou estruturais. Acredita-se que o estabelecimento
FGV DIREITO rio 34
c)

O impacto de suas ações e omissões no plano internacional pode servir de estímulo ao melhor funcionamento das instituições locais em casos futuros.direitos humanos da federalização veio a exercer precisamente esse mecanismo federal que possibilite à União um instrumento nacional para a responsabilidade internacional. É importante ressaltar que tal deslocamento somente pode ser decidido por órgão jurisdicional.gov. MATERIAL DE APOIO Casos / Jurisprudência: 26 É importante ressaltar que a Lei no.446. 1o. Tal afirmativa afasta as acusações de que tal deslocamento feriria a independência do Poder Judiciário. uma vez que o STJ é o órgão jurisdicional de cúpula entre justiça estadual e federal. Judiciário e Ministério Público – e sociedade civil devem conjugar esforços para fazer desse novo dispositivo constitucional um imperativo para a defesa dos direitos humanos. que a República Federativa do Brasil se comprometeu a reprimir em decorrência de tratados internacionais de que seja parte” (art. A possibilidade de deslocamento de competência ou a federalização das violações constitui avanço institucional significativo em termos da defesa de direitos humanos. OF/Nº 022/04/PR/PA – incidente de deslocamento de competência (caso Irmã Dorothy Stang).mpf. Somente a prática permitirá que tais questões sejam preenchidas. União Federal. Nesse sentido. A alternativa de federalização dos crimes de direitos humanos pode conduzir à disseminação nos entes federados do melhor cumprimento às obrigações decorrentes de tratados de direitos humanos dos quais o Brasil é parte – sob o risco do incidente de deslocamento de competências.26 Acredita-se ainda em um efeito no sentido inverso: a capilarização da promoção dos direitos humanos. FGV DIREITO rio 35 . IDC 1 / PA. “assegurar o devido cumprimento de obrigações decorrentes dos tratados de direitos humanos”). Incidente de Deslocamento de Competência 2005/0029378-4. mediante provocação. Qualquer inovação conduz à necessidade de estabelecimento de limites. já previu a possibilidade de que a Polícia Federal investigo infrações penais relativas à violação a direitos humanos. mas não constitui solução mágica. Estados – compreendidos aqui pelos Poderes Executivo.gov. Legislativo. 10. de 08 de maio de 2002.jsp?b=ACOR&livre=federalização.pdf.stj. Acesso em: 05 de junho de 2006. Disponível em: http://www. Conclui-se que a possibilidade de deslocamento de competências para violações de direitos humanos encontra-se em perfeita sintonia com: a) os parâmetros do direito internacional por estabelecer mais um grau de subsidiariedade no âmbito interno.pgr. Disponível em: http:// www. e c) a sistemática processual vigente. d) Dos parâmetros processuais A Emenda Constitucional nº 45 estabelece ainda que o incidente de deslocamento será apreciado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) a pedido do Procurador-Geral da República.br/pgr/asscom/Stang. inciso III). Acesso em: 08 de maio de 2004. mais de dois anos antes do instituto de federalização. muito ainda se discutirá para a elucidação dos requisitos de admissibilidade (ex: “grave violação de direitos humanos”.br/ SCON/pesquisar. b) o ditame constitucional da proteção dos direitos humanos em conformidade com o pacto federativo.

direitos humanos Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. CANÇADO TRINDADE. Flávia. Antônio Augusto. Ricardo Lobo (org. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. Volume I.). Belo Horizonte: Editora Del Rey. Rio de Janeiro: Renovar. pp. Flávia. Tratados Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos e Federalização dos Crimes de Direitos Humanos na Reforma do Judiciário. Da federalização das violações de direitos humanos. 13ª edição. 2002. Celso. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris. ______________________. Parecer apresentado ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. 1999. O parágrafo 2º da Constituição Federal” In: TORRES. Tratados Internacionais de Direitos Humanos e Constituição Brasileira. GALINDO. Leitura acessória: ALBUQUERQUE MELO. Curso de Direito Internacional Público. 1997. e PIOVESAN. Teoria dos Direitos Fundamentais. Rio de Janeiro: Renovar. 2001. George Rodrigo Bandeira. 401-447. Legislação: Constituição Federal de 1988 FGV DIREITO rio 36 .

tais documentos carecem de sentido se não houver mecanismos para garantir e promover os direitos humanos. Introdução. É nesse contexto que surgem diversos órgãos de proteção dos direitos humanos nos planos nacional.mj. de 28 de maio de 2003. A SEDH foi criada pela Lei nº 10. e (e) Conselho Nacional dos Direitos do Idoso – CNDI.gov. (b) Subsecretaria de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente – SPDCA. Programa Nacional de Direitos Humanos I. (v) Comissões de Direitos Humanos das Câmaras Municipais. e grupos de trabalho temáticos. principal atribuição e programas a serem executados de acordo com o Plano Plurianual 2004-2007: Fatores Definição Órgãos colegiados e executivos. o extermínio. atuando preventiva ou punitivamente (no caso de terem ocorrido violações de direitos humanos).direitos humanos Aula 06: Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos NOTA AO ALUNO “Os Direitos Humanos são os direitos de todos e devem ser protegidos em todos Estados e nações. Acesso em: 23 fev. sua composição. dando destaque ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH). (iv) Comissões de Direitos Humanos das Assembléias Legislativas. estadual e municipal. Órgãos executivos: (a) Subsecretaria de Articulação da Política de Direitos Humanos – SAPDH. especialmente em um Estado e em uma sociedade que se desejam modernos e democráticos. Disponível em: http://www. Trata-se do órgão da Presidência da República que tem por atribuições articular e implementar as políticas públicas voltadas para a promoção e implementação dos direitos humanos. (c) Conselho Nacional de Combate à Discriminação – CNCD. e (c) Subsecretaria de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos – SPDDH. Órgãos colegiados: (a) Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – CDDPH. Dentre os principais órgãos. abaixo. É preciso dizer não à banalização da violência e proteger a existência humana”27. destaquem-se: (i) Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR). assessorias. em conformidade com as diretrizes do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH). No entanto. Os assassinatos. os seqüestros. o crime organizado. (d) Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência – CONADE. (ii) Conselhos Nacionais e Estaduais. (iii) Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.htm. (b) Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA. Seguem. Coordenação da Política Nacional de Direitos Humanos. (vi) Conselhos Municipais. as chacinas. o tráfico de drogas e as mortes no trânsito não podem ser consideradas normais. 27 Composição Principal atribuição FGV DIREITO rio 37 . 2005. Os direitos humanos são assegurados pela Constituição Federal e por diversos tratados internacionais em que o Brasil é parte.br/ sedh/dpdh/gpdh/pndh/principal.683. (vii) Defensoria Pública e Ministério Público.

Acesso em: 23 fev.31 Já a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados foi criada por meio da Resolução n.camara.gov. presidencia. mj.asp?idserv info=43507&url=http://www.gov. mj. 4715/ 1994. (c) atuar por meio de resoluções.br/sedh/ct/ CONADE Conselho Nacional dos Direitos do Idoso – CNDI – www. Conselhos Gestores e participação política. Em relação ao CDDPH. M.presidencia. a lista dos conselhos nacionais e estaduais existentes: Conselhos Nacionais Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – CDDPH – www.gov. (d) Direitos Humanos. (b) constituir comissões de inquéritos para facilitar as investigações.gov. abaixo.br/sedh/ct/di.br/sedh/ Conselho Nacional dos Direitos da Mulher – CNDM – www. e (e) prestar informações para os organismos internacionais sobre a situação dos direitos humanos no país.presidencia. (f ) Nacional de acessibilidade. São Paulo: Cortez.gov. 2ª ed. cabe destacar suas principais atividades: (a) receber denúncias de violações de direitos humanos de abrangência nacional e investigá-las em conjunto com as autoridades competentes locais.mj. como mecanismos de participação e de legitimidade social iniciam-se no Brasil.br/spmulheres Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência – CONADE – www. o deputado Tarciso Zimmermann (PT-RS). o qual transforma o CDDPH no Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH). (d) promover estudos para aperfeiçoar a defesa dos direitos humanos. de peça fundamental na proteção dos direitos humanos. Cuida-se.br/sedh/cncd Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA – www. de Administração e Serviço Público designou um relator. durante a “VIII Conferência Nacional dos Direitos Humanos”.gov. pdf. órgão específico da SEDH/PR. 2003.gov. 31 FGV DIREITO rio 38 . http://www. 231. G.br/sedh/cddph Conselho Nacional de Combate à Discriminação – CNCD – www. Ambos os conselhos têm como meta a promoção e defesa dos direitos humanos. 2005. por sua vez.gov.br/internet/proposicoes).htm. em 13 de maio de 2003. e. presidencia.direitos humanos Programas a serem executados (Plano Plurianual 20042007)28 (a) Assistência a Vítimas e a Testemunhas Ameaçadas.br/seppir ou www. Os conselhos nacionais e estaduais. 29 GOHN.br/seppir Outros órgãos colegiados nacionais: Comitê Nacional para a Educação em Direitos Humanos – CNEDH Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo – CONATRAE Conselhos Estaduais Conselho Estadual de Defesa dos Direitos do Homem e do Cidadão Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher Conselho Estadual dos Direitos do Idoso Conselho Estadual do Consumidor Conselho Estadual de Proteção de Vítimas e Testemunhas 28 Para maiores informações sobre o objetivo de cada programa.mj.gov.mj. (g) Promoção e Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.gov.mj. assim. de autoria do então deputado federal Projeto de Lei n. 4319/1964.. e (i) Proteção da Adoção e Combate ao Seqüestro Internacional.br/EmConstrucao/pdf/Rel_OrgaoPrograma1.planalto.gov. 30 Discurso proferido pelo Ministro Nilmário Miranda. Tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei n. A última ação ocorreu em 15 de setembro de 2004. gov.br/ccivil_03/ Projetos/PL/pl4715. Segue. acesse o site http://www. planobrasil. oportunidade na qual a Comissão de Trabalho. (h) Promoção e Defesa dos Direitos de Pessoas com Deficiência.gov. Em consulta realizada no site da Câmara dos Deputados em dia 23 de fevereiro de 2005. 11). criado pela Lei n. 4715/199430.br/sedh/cndi Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária – CNPCP – www. (c) Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. (b) Atendimento Socioeducativo do Adolescente em conflito com a lei. Disponível em: http://www.br/defaultCab.br/cnpcp Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial – CNPIR – www.gov. de acordo com Gohn29.htm (par. Direito de Todos. verificouse que o projeto de lei encontrava-se sujeito à apreciação do Plenário (http://www2. como fruto da organização e das lutas sociais. (e) Gestão da Política de Direitos Humanos. a fim de dar maior agilidade às apurações de violações de direitos humanos.

são importantes canais de participação coletiva e de criação de novas relações políticas entre governos e cidadãos por meio de um processo de interlocução permanente. Os Conselhos Municipais de Direitos Humanos. e (d) promover pesquisas e estudos relativos à situação dos direitos humanos no respectivo município.br/direitos/brasil/legislativo/cdhcf/cartilha_cdh/19_comissoesassembleia. 35 Acesso em: 26 fev. Disponível em: http://www2. por sua vez. em 31 de janeiro de 1995. são compostos por representantes do governo e da sociedade civil empenhados em discutir. Representou um marco na história dos direitos humanos do país. É composta por 23 deputados e 23 suplentes e tem por finalidade investigar violações de direitos humanos. Disponível em: http://www.br/enderecos1. 32 Dispõe acerca de todas as Comissões de Direitos Humanos das Assembléias Legislativas. (c) colaborar com organizações não-governamentais e internacionais que atuem na defesa dos direitos humanos. sendo o recebimento de denúncias sua atividade principal. (b) fiscalizar e acompanhar programas governamentais relativos à proteção dos direitos humanos.br/dicas/D102%20%20Pol%C3%ADtica%20muni cipal%20de%20direitos%20hu manos. sugerir projetos e fiscalizar a atuação do Poder Público.htm.gov. Acesso em: 23 fev. acesse o site http://federativo. Disponível em: http://www. A sociedade civil deve propor alternativas de políticas públicas. os mesmos continuam sendo peça importante no combate às violações de direitos humanos. (c) opinar sobre proposições e assuntos ligados aos direitos humanos. (c) realizar ou patrocinar campanhas e eventos locais com o objetivo de difundir e proteger os direitos humanos. a lista dos conselhos municipais do Município do Rio de Janeiro e seus contatos35: Acesso em: 04 junho 2006. Nesse sentido. avaliar e investigar denúncias relativas à ameaça ou violação de direitos humanos. Ao criar o novo órgão técnico e suprapartidário.gov. parlamentares e entidades de defesa dos direitos humanos. 2005.htm. Destaquem-se suas principais atribuições: (a) receber denúncias de violações de direitos humanos e encaminhá-las ao órgão competente. Seus objetivos também são encaminhar denúncias. html#parte2. 2005. uma vez que desempenha papel fundamental na proteção dos direitos humanos e na promoção da cidadania. FGV DIREITO rio 39 .direitos humanos Nilmário Miranda. destacam-se: (a) participar do estabelecimento da política municipal de direitos humanos.obrasocial-rj. abaixo. a fim de que governo e sociedade civil possam atuar de forma articulada na proposição e no desenvolvimento de ações voltadas para a promoção e a proteção dos direitos humanos. o que tornou mais eficiente e rápido o trabalho investigativo intentado pelo legislativo brasileiro. podendo ainda haver comissões parlamentares de inquérito. penetrar na lógica burocrática estatal para transformá-la e exercer o controle socializado das ações e deliberações governamentais. Embora muitos conselhos municipais não funcionem da maneira como deveriam. 33 34 Para maiores informações. concretizou-se uma antiga reivindicação dos movimentos populares. A comissão de direitos humanos33 consiste em uma das comissões permanentes. bndes. motivo pelo qual a Secretaria Especial de Direitos Humanos apóia os conselhos municipais já existentes. criar espaços de debates.br/comissoes/ cdhm. Já as Comissões de Direitos Humanos das Câmaras Municipais também têm caráter permanente e são marcadas pelas seguintes atribuições:34 (a) receber. implementar e avaliar em conjunto as políticas públicas referentes a determinado grupo da sociedade mais vulnerável.dhnet. camara.32 A Assembléia Legislativa de cada Estado é composta por comissões permanentes e temporárias. Segue. org. (d) lutar pela garantia e implementação de tais direitos. (b) adotar providências e propor medidas para apurar violações de direitos humanos.org. (b) escutar as vítimas de violações ou seus familiares. Dentre suas atividades.

180 – Tel/Fax.gov. Conselho Tutelar do Méier 4: C.2 – Rua Professor Lacê.R 3.1010 – códigos: 4369923/ 4369924/ 4369929/ 4269901/ 4369930 Área de Abrangência: Méier/ Todos os Santos/ Engenho de Dentro/ Encantado/ São Francisco Xavier/ Rocha/ Piedade/ Abolição/ Consolação/ Riachuelo/ Água Santa/ Sampaio/ Lins/ Engenho Novo/ Complexo do Alemão/ Bonsucesso/ Olaria/ Inhaúma/ Esperança/ Higienópolis/ Maria da Graça/ Jacaré/ Engenho da Rainha/ Tomas Coelho/ Del Castilho/ Jacarezinho/ Vieira/ Fazenda.: 2502-2431 BIP: 2460.rj. 20560-200 Tel/Fax.: 2502-7122 R.rj.1/ XIIR.: 2569-5722 BIP: 2460.br Conselhos Tutelares: Horário de funcionamento: de 2ª a 6ª feira.R 2. Conselho Tutelar de Vila Isabel 3: C.R 3. de 9 às 18 horas. Conselho Tutelar de Laranjeiras 2: C.rj.: 2595-7086 BIP: 2460.gov. 22231-130 Tel/fax.br Conselho Municipal de Assistência Social: cmas@pcrj.20765-170 Tel/Fax.gov. s/nº – setor 4 (Sambódromo) – Centro – CEP .rj. 20211-260 Tel.br Conselho Municipal de Entorpecentes: comen@pcrj.1010 – códigos: 4369915/ 4369895/ 4369893/ 4369894/ 4369892 Área de Abrangência: Tijuca/ Praça da Bandeira/ Alto da Boa Vista/ Vila Isabel/ Grajaú/ Andaraí/ Maracanã/ Aldeia Campista.A – Estrada Velha da Pavuna.1010 – códigos: 4369926/ 4369920/ 4369918/ 4369925/ 4369913 FGV DIREITO rio 40 . 3.direitos humanos • • • • • • • • • • • Conselho Municipal da Criança e do Adolescente: cmdca@pcrj.R 2. Conselho Tutelar de Ramos 5 C.2º andar -Tijuca – CEP.R 1 – Rua Salvador.2 – Rua Conde de Bonfim.gov. 21060-120 Tel/fax: 2290-4762 BIP: 2460. para contatos durante o final de semana use o bip Conselho Tutelar do Centro 1: C. 56 – Laranjeiras – CEP.1010 – códigos: 4369909/ 4369912/ 4369886/ 4369931/ 4369934 Área de Abrangência: Santo Cristo/ Caju/ Cais do Porto/ Saúde/ centro/ Aeroporto/ Bairro de Fátima/ Castelo/ Praça Mauá/ Rio Comprido/ Estácio/ Cidade Nova/ Catumbi/Triagem/ São Cristovão/ Mangueira/ Benfica/ Paquetá/ Santa Tereza.1010 – códigos: 4369899/ 4369905/ 4369898/ 4369904/ 4369935 Área de Abrangência: Botafogo/ Catete/ Glória/ Cosme Velho/ Flamengo/ Laranjeiras/ Humaitá/ Urca/ Praia Vemelha/ Copacabana/ Leme/ Jardim Botânico/ Ipanema/ Vidigal/ São Conrado/ Rocinha.1 – Rua São Salvador. 2205-3798 BIP: 2460.gov.151 – Inhaúma – CEP . 267.br Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência: comdef@pcrj.rj.br Conselho Municipal dos Direitos do Negro: condedine@pcrj. 57 – Ramos – CEP.

Conselho Tutelar de Jacarepaguá 7 C. Conselho Tutelar de Madureira 6 C.400 – Prédio da Administração. 1733 – Marechal Hermes – CEP.2 – Rua: Coxilha s/nº – XVIII RA – Campo Grande – CEP.1 – Rua Oliveira Braga.1010 – códigos: 4369919/ 4369896/ 4369890/ 4369908/ 4369907 Área de Abragência: Bangu/ Campo dos Afonsos/ Santíssimo/ Deodoro/ Realengo/ Vila Militar/ Magalhães Bastos/ Padre Miguel/ Senador Camará/ Jardim Sulacap Conselho Tutelar de Campo Grande 9 C.1010 – códigos: 4369887/ 4369888/ 4369889/ 4369914/ 4369911 Área de Abrangência: Jacarepaguá/ Praça Seca/ Valqueire/ Taguara/ Freguesia/ Anil/ Tanque/ Curicica/ Camorim/ Gardênia Azul/ Cidade de Deus/ Pechincha/ Barra da Tijuca/ Recreio dos Bandeirantes/ Vargem Grande/ Piabas/ Grumari/ Itanhangá.: 3390-6420 BIP: 2460.1010 – códigos: 4369906/ 4369900/ 4369891/ 4369897/ 4369928 Área de Abrangência: Campo Grande/ Santíssimo/ Senador Augusto Vasconcelos/ Mendanha/ Rio da Prata/ Monteiro/ Guaratiba/ Pedra de Gauratiba/ Morro da Pedra/ Praia do Aterro/ Ilha Guaratiba FGV DIREITO rio 41 . Augusto Pinheiro de Carvalho – Rua Xavier Curado.R 5. Colônia Juliano Moreira – Jacarepaguá. 21715-000 Tel. 22713-370 Telefone: 2446-6508 BIP: 2460. CEP. 211 – Realengo – CEP.R5.direitos humanos • • • • Área de Abrangência: Ramos/ Maguinhos/ Olaria/ Penha/ Vigário Geral/ Parada de Lucas/ Penha Circular/ Jardim América/ Cordovil/ Bras de Pina/ Ilha do Governador/ Ribeira/ Zumbi/ Cacuia/ Pitangueiras/ Praia da ribeira/ Cocotá/ Bancários/ Tauá/ Galeão/ Moneró/ Portuguesa/ Jardim Guanabara/ Cidade universitária/ Complexo da Maré/ Vila esperança/ Vila do João/ Vila do Pinheiro/ Praia de Ramos/ Timbau/ Maré/ Marcílio Dias/ Baixa do Sapateiro/ Nova Holanda/ Rubens Vaz/ Parque União/ Roquete Pinto/ Conjunto Pinheiro.3 – CIEP.1010 – códigos: 4369903/ 4369927/ 4369916/ 4369917/ 4369902 Área de Abrangência: Irajá/ Vicente de Carvalho/ Vila da Penha/ Vista Alegre/ Vila Cosmo/ Madureira/ Quintino Bocaiuva/ Bento Ribeiro/ Marechal Hermes/ Engenheiro Leal/ Turiaçu/ Campinho/ Rocha Miranda/ Osvaldo Cruz/ Anchieta/ Ricardo de Albuquerque/ Guadalupe/ Parque Anchieta/ Pavuna/ Coelho Neto/ Acari/ Barros Filho. 23085-570 Tel/Fax: 2413-3125 BIP: 2460. 21610-380 Tel/Fax.R 4 – Estrada Rodrigues Caldas.R 3. 3./Fax: 3332-3744 BIP: 2460. Conselho Tutelar de Bangu 8 C.

consumidor. (e) expedir recomendações aos poderes públicos a fim de que façam cessar violações de direitos humanos. Entre as formas existentes para a consecução de tais fins. Acesso em: 23 fev. você deve preferencialmente encaminhar a denúncia à Delegacia Especializada de Investigação de Atos Infracionais praticados por Adolescentes.) e iniciar procedimentos de investigação. 37 As informações contidas abaixo foram extraídas.direitos humanos • Conselho Tutelar de Santa Cruz 10 C. Ao receber uma denúncia de violação de direitos humanos. 75/93 designou o Procurador dos Direitos do Cidadão. encontra-se o encaminhamento de denúncia de direitos humanos. coletivos ou sociais. cujas principais atribuições são36: (a) requisitar informações. as medidas que um indivíduo deve tomar quando presenciar ou souber de uma violação de direitos humanos37: Em caso de crime. Especificamente no que se refere ao Ministério Público Federal. (b) instaurar inquéritos. de acordo com o artigo 134 CF. 36 Para maiores informações. a Lei Complementar n. 2005. abaixo. o Defensor Público irá encaminhá-la ao Poder Judiciário ou poderá resolver o conflito entre as partes extrajudicialmente.R 5. por sua vez. do regime democrático e dos interesses coletivos e individuais indisponíveis. org.gov. 3395-1445 BIP: 2460. 23570-220 Tel. a Defensoria Pública e o Ministério Público são instituições necessários à atividade jurisdicional do Estado. (c) investigar. seguem. denunciar o fato à polícia.br/ denuncia.html.1010 – códigos: 4369910/ 4369922/ 4369933/ 4369932/ 4369921 Área de Abrangência: Santa Cruz/ Paciência/ Sepetiba Considerados Funções Essenciais à Justiça pelo Texto Constitucional. além do papel tradicional de fiscal da lei e acusador público. atua em diversas áreas (criminal. conforme o artigo 129 CF.3 – Rua: Olavo Bilac. A Defensoria Pública. bem como possui centros de atendimento ao público. O Ministério Público. Nos casos de atos infracionais praticados por adolescentes. de preferência junto à delegacia mais próxima. O mesmo site disponibiliza o contato dos órgãos mencionados.br/direitos/brasil/apoio/ mpublico/mpdh.rndh.: 3395-0988/Fax. exatamente da maneira como estavam.html. exerce outras atividades. do site da Rede Nacional de Direitos Humanos.O. Competem à Defensoria Pública a orientação jurídica e a defesa em todos os graus da comunidade carente. Sendo assim.º – Santa Cruz – CEP. ambas as instituições têm o dever de proteger os direitos humanos e combater suas violações.dhnet. No caso de violência cometida contra criança ou adolescente. como o recebimento de denúncias de violações ou ameaças de direitos humanos. A polícia é a porta de entrada do sistema de garantia de direitos e poderá orientá-lo(a) e fornecer informações relativas ao andamento de sua denúncia. Disponível em: http://www. Em uma apertada síntese. que deverá emitir um Boletim de Ocorrência (B. s/n. acesse o site http://www. entre outras) junto ao Judiciário e extrajudicialmente na composição de conflitos. ao passo que cabe ao Ministério Público a defesa da ordem jurídica. (d) notificar violações a direitos individuais. você também pode procurar o Conselho Tutelar e/ou a Delegacia Especializada em Crimes contra Crianças e Adolescentes. aos moldes do ombudsmen nórdico. com um mandato de dois anos. cível. FGV DIREITO rio 42 .

Rio de Janeiro. Ceará. org.direitos humanos No caso de violência sofrida pela mulher. 2004. encaminhar sua denúncia à Polícia Federal pelo e-mail dcs@dpf. para toda violação de direitos humanos. Pará. Você também pode procurar orientação junto à Ordem dos Advogados do Brasil – OAB. procurar o Ministério Público de seu Estado para fazer sua denúncia.htm. Importante: Caso sua denúncia tenha sido negligenciada ou colocada em dúvida pelos órgãos policiais. Não havendo delegacias especializadas. Pelo exposto.gov.br/direitos/brasil/textos/principioparis. você deve preferencialmente encaminhar sua denúncia à Delegacia da Mulher mais próxima ou procurar os conselhos de defesa dos direitos da mulher. Paraná e Espírito Santo. como o Movimento Nacional de Direitos Humanos – MNDH. Acesso em: 23 fev. procurar a Delegacia de Polícia mais próxima. Minas Gerais. além disso. ainda. você pode: Contactar a Ouvidoria de Polícia em seu Estado.br. Rio Grande do Sul. Legislação: Constituição Federal de 1988 FGV DIREITO rio 43 . indaga-se: A quem você deve recorrer quando souber de uma violação cometida contra uma criança? Quais são os principais órgãos de proteção e promoção dos direitos humanos no âmbito nacional? Quais são as principais funções da Secretaria Especial dos Direitos Humanos? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: Princípios de Paris. Você pode.dhnet. Bahia. Procurar orientação junto a conselhos de defesa de direitos humanos e/ou organizações da sociedade em seu município/Estado. Já existem ouvidorias de polícia nos seguintes Estados: São Paulo. Recorrer a serviços de disque-denúncia. ou. Disponível em: http://www. Pernambuco. ou caso haja suspeita de que a violação tenha sido praticada por agente policial. que tem Seccionais e Comissões de Direitos Humanos em todos os Estados da Federação.

Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. estabelece. uma vez que rompem com a noção de que o Estado é o único sujeito de Direito Internacional e com a noção de soberania absoluta. com os principais objetivos: (i) manutenção da paz e da segurança internacionais. que. e. assim. Contudo. (ii) promoção dos direitos humanos no âmbito internacional. por consenso dos Estados. ambos com força obrigatória. Dessa forma. 2200-A (XXI). sustentava que as duas categorias de direitos 38 PIOVESAN. a Organização Internacional do Trabalho e a Liga das Nações. em 16. não comportando força vinculante – visão estritamente legalista.03. com a adoção de dois tratados internacionais. embora estabeleça a necessidade de proteção e promoção dos “direitos humanos e liberdades fundamentais”. com base no princípio da dignidade da pessoa humana.01. só entraram em vigor em 03. que dividia o mundo em capitalismo e socialismo. ao afirmar ser os direitos civis e políticos autoaplicáveis enquanto que os direitos econômicos. Sociais e Culturais (PIDESC)39. p. apenas atesta o reconhecimento de um código comum a ser seguido por todos os Estados. colocou a proteção dos direitos humanos em seu centro. com o intuito de reconstruir os direitos humanos e trazer a dignidade da pessoa humana para o centro das relações entre Estados. iniciado em 1949 mas só concluído em 1966. em 1945. não os define. além de definir tais expressões. o fato é que houve um processo de “juridicização”38 da DUDH. dando ensejo à adoção. há divergências quanto a sua força vinculante: (i) constitui interpretação autorizada da expressão “direitos humanos”. 39 FGV DIREITO rio 44 . A Carta das Nações Unidas. uma vez que surgiu após as enormes atrocidades ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial. (iii) cooperação internacional nas esferas social e econômica. foi criada a Organização das Nações Unidas.1976 (PIDCP). é dotada de força vinculante. (iii) por ser uma Declaração e não um tratado. São Paulo: Max Limonad. Adotados pela Assembléia Geral através da Resolução n. interdependência e indivisibilidade dos direitos humanos. constante na Carta das Nações Unidas. sociais e culturais são programáticos e. em 1948. assim. 164. Flávia. Seja qual for a posição sustentada. (ii) integra o direito costumeiro internacional e/ ou os princípios gerais de direito e. Contudo. tem força vinculante.1976 (PIDESC) e 23. A DUDH é um marco no Direito Internacional dos Direitos Humanos. pois admitem intervenções na esfera nacional em prol da proteção dos direitos humanos. bem como da prevalência da posição ocidental. Os principais precedentes do processo de internacionalização dos direitos humanos são o Direito Humanitário. Capítulo VI. 2002. uma vez que. por tal motivo. A Carta das Nações Unidas consolidou o Direito Internacional dos Direitos Humanos e fez surgir uma nova ordem internacional que.12.1966. o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. A criação de dois pactos distintos ocorreu em virtude do contexto da Guerra Fria. a universalidade.direitos humanos Aula 07: Sistema global: mecanismos convencionais e não-convencionais de proteção dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O movimento de internacionalização dos direitos humanos é bastante recente na história. da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). sendo a DUDH uma declaração e não um tratado. demandam realização progressiva.

o Estado deve ter ratificado tanto o PIDCP quanto o Protocolo Facultativo. Segundo Protocolo: estabelece a abolição da pena de morte. (ii) proferir uma decisão em relação à petição individual que apenas declare que a violação resta caracterizada ou que determine que o Estado repare a violação cometida. faz referência a apenas quatro convenções específicas e seus mecanismos convencionais: FGV DIREITO rio 45 . a discriminação contra as mulheres (Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher). Há também o sistema de indicadores. Dentre as funções do Comitê de Direitos Humanos. a seguir. Os mecanismos convencionais são aqueles criados por convenções específicas de direitos humanos. O projeto do protocolo adicional que prevê a petição individual está em fase de elaboração. Amplitude Sistemática de monitoramento Sistemática de implementação Protocolos O sistema global é composto por mecanismos convencionais e mecanismos nãoconvencionais de proteção dos direitos humanos. inexistência do devido processo legal ou impossibilidade de acesso. 41 Para que um indivíduo possa encaminhar uma petição individual. Comitê sobre Direitos Econômicos. encaminhar comunicações. A Declaração Universal. 40 O Comitê só poderá apreciar a comunicação interestatal caso os dois Estados envolvidos tiverem feito uma declaração em separado. uma vez que é também composto por diversos tratados multilaterais de direitos humanos referentes as violações específicas de direitos. abaixo. como a tortura (Convenção Internacional contra a Tortura). mas também ong e terceiros podem representá-lo e. o quadro. Ressalte-se. Relatórios. comunicações interestatais40 (ambos dispostos no próprio Pacto) e petições individuais (Protocolo Facultativo)41. ou seja. É peculiar. Sociais e Culturais (criado pelo Conselho Econômico e Social). a discriminação racial (Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial). sendo uma garantia adicional à proteção dos direitos humanos sempre que os instrumentos nacionais sejam omissos. não se restringe à Carta Internacional. assim. para que uma petição individual seja interposta. (iii) requerer dos Estados informações sobre determinada situação. para fins exemplificativos. formam a Carta Internacional dos Direitos Humanos ou International Bill of Rights. sendo os respectivos Comitês análogos ao Comitê de Direitos Humanos criado pelo Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. apenas no plano político: power of embarrassment. estabelecido pela Declaração de Viena de 1993.direitos humanos não poderiam estar em um só pacto. o quadro. O Comitê de Direitos Humanos concluiu que não apenas o indivíduo que sofreu a violação. que tenha sido criado pelo PIDESC. O sistema global. faz-se necessário o cumprimento dos requisitos de admissibilidade: prévio esgotamento dos recursos internos (salvo por demora injustificada. São auto-aplicáveis. e que os procedimentos internacionais têm natureza subsidiária. Quanto à abrangência e sistemáticas de implementação e monitoramento de ambos os Pactos Internacionais. Protocolo Facultativo: estabelece o mecanismo de petições individuais. aos recursos internos) e inexistência de litispendência no plano internacional. Ainda. pois prevê apenas o mecanismo dos relatórios. que inaugura o sistema global de proteção dos direitos humanos. Comitê de Direitos Humanos (criado pelo Pacto) – sua decisão não tem força vinculante e não há sanção efetiva para o Estado que não a cumpre. Embora haja inúmeros tratados de direitos humanos. demonstra um breve resumo: PIDCP Compreende um rol de direitos mais extensos do que o da DUDH. pela vítima. que o Direito Internacional dos Direitos Humanos é suplementar e paralelo ao direito nacional. Devem ser realizados progressivamente. PIDESC Compreende um rol de direitos mais extensos do que o da DUDH. Não tem um Comitê próprio. por sua vez. destaquem-se: (i) receber petições individuais. por oportuno. comunicações interestatais e relatórios. tendo em vista que o acesso a este mecanismo é opcional. juntamente com os dois Pactos.

por conseguinte. Ainda.htm. por sua vez. 45 A competência do Comitê só foi ampliada para receber petições individuais e realizar investigações in loco com a adoção do Protocolo Facultativo à Convenção em 1999. 2106 (XX). Notícia de imprensa da ONU relacionada a tal resolução (da Assembléia Geral da ONU. são aqueles decorrentes de resoluções elaboradas por órgãos das Nações Unidas. a aula deverá destacar que o mesmo só não reconheceu a competência tanto do Comitê de Direitos Humanos.1979. comunicações interestatais e petições individuais (estabelecidos pela Convenção) Relatórios (estabelecido pela Convenção). Dessa forma.12.2006: http://www.org/apps/news/story. em 20.12. Acesso em: 20 março 2006. de 15. Quanto ao Brasil. Contudo. a seguir. 44 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n.doc.01. Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n. Contudo. Contudo.direitos humanos Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial42 Sistemática de monitoramento Comitê sobre a Eliminação de Discriminação Racial Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher43 Comitê sobre a Eliminação de Discriminação contra as Mulheres Convenção Internacional contra a Tortura44 Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança45 Comitê contra a Tortura Relatórios. em 26. n. O governo brasileiro ratificou recentemente (12/01/2007) o Protocolo Facultativo à Convenção contra tortura e outros tratamentos ou penas cruéis.06. em 10.03. A competência dos Comitês para receber petições individuais está vinculada à declaração feita em separado pelo Estado (no caso da petição individual estar prevista na própria Convenção) ou pela ratificação do Protocolo Facultativo. só entrou em vigor em 03. mecanismo não-convencional criado pela Assembléia Geral. 44/35. 43 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n. Há 2 Protocolos Facultativos: sobre Conflito Armado e sobre Prostituição Infantil. 42 É importante ressaltar que os Comitês têm competência para avaliar comunicações que contenham violação a direito disposto apenas na Convenção que o criou.2005) – http:// w w w.1987. desumanos ou degradantes. só entrou em vigor em 04. a denúncia pode versar sobre qualquer direito humano. tendo em vista que em relação ao último. 46 A Resolução da Assembléia Geral da ONU ainda não está disponível. Caráter inovador: o Comitê pode iniciar uma investigação própria caso receba informações de fortes indícios de tortura.03. segue. uma vez que possui posição central no sistema não-convencional de proteção. em 18. 10449. 39/46. a competência do Comitê contra a Tortura para apreciar petições individuais. petições individuais e realização de investigações in loco (Protocolo)46 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n. como a Assembléia Geral e o Conselho Econômico e Social.09. comunicações interestatais e petições individuais (estabelecidos pela Convenção). uma vez que demonstram a diferença entre os mecanismos convencionais de proteção dos direitos humanos e os mecanismos não-convencionais.1990. Focar-se-á no Conselho de Direitos Humanos (CDH). Comitê sobre os Direitos da Criança Somente prevê os relatórios (estabelecido pela Convenção). un.1965. reconhecendo. um artigo da ONU referente à Resolução 60/251. só entrou em vigor em 02. Acesso em: 20 março 2006.un. Contudo.1984.1981. Os mecanismos não-convencionais. 47 FGV DIREITO rio 46 .1989. a apresentação de denúncias por indivíduos ou grupos de indivíduos aos Comitês não depende da ratificação de convenções específicas nem de declaração relativa a cláusulas facultativas ou de ratificação de protocolo adicional. só entrou em vigor em 26. 34/180.org/News/Press/ docs/2005/ga10449. de 15.12.1969. Esses pontos são relevantes.11.asp?N ewsID=17811&Cr=rights&Cr1 =council.09. Sistemática de implementação Relatórios.

direitos humanos

O CDH foi criado em 15 de março de 2006, tendo substituído a Comissão de Direitos Humanos efetivamente a partir de 16 de junho de 2006, data de sua abolição47. A resolução foi aprovada por 170 votos a favor e 4 contra – EUA, Israel, Ilhas Marshall e Palau48. Dentre os avanços trazidos com o estabelecimento do Conselho de Direitos Humanos, destaquem-se: (i) gozo de maior status, já que será um órgão subordinado à Assembléia Geral (enquanto que a Comissão era subordinada ao Conselho Econômico e Social); (ii) um maior número de reuniões ao longo do ano; (iii) constituição por representação geográfica igual; (iv) o direito de votar estará associado com membership. Ressalta-se, ainda, que o Conselho será composto por 47 membros, os quais serão escolhidos por maioria absoluta da Assembléia Geral. O CDH tem as mesmas funções que a extinta Comissão de Direitos Humanos: (i) competência genérica de atuar em quaisquer questões ligadas aos direitos humanos (estabelecida em 1946, no momento de sua criação); e (ii) apreciação de casos específicos de violações de direitos humanos (a partir de 1967). Em relação à apreciação desses casos específicos, o CDH segue dois procedimentos: procedimento 123550 e procedimento 150351 (alterado pela Resolução 2000/3, do Conselho Econômico e Social). O procedimento 1235 autorizou o CDH e a Sub-Comissão para a Promoção e para a Proteção de Direitos Humanos, a examinarem informações relativas às violações sistemáticas de direitos humanos, o que hoje se traduz na realização de um debate público anual e na investigação e análise de casos específicos pelo CDH e pela citada Sub-Comissão. Em se tratando do procedimento 1503, o mesmo foi criado a fim de que fossem examinadas comunicações referentes à violação sistemática de direitos humanos. Com a adoção da Resolução 2000/3, o Grupo de Trabalho sobre Situações é que se tornou o responsável da análise dos casos, elaboração de recomendações, bem como pela decisão de submeter ou não um caso ao CDH. O Grupo de Trabalho sobre Situações, após analisar o caso, poderá enviá-lo ao Conselho de Direitos Humanos, que, por sua vez, poderá adotar uma das seguintes medidas: (i) manter a situação sob análise, requerendo maiores informações do Estado envolvido; (ii) cancelar o estudo da situação sob a Resolução 1503 e iniciar um procedimento público sob a Resolução 1235; (iii) apontar um especialista independente. Destaque-se que ambos os procedimentos possibilitam que o CDH nomeie um Relator Especial com mandato para países específicos. Além dessas funções, o CDH também pode designar relatores temáticos ou grupos de trabalho com o objetivo de examinarem determinadas violações de direitos humanos. Os Grupos de Trabalho, Relatores Especiais e Representantes Especiais desempenham as seguintes atividades: (i) busca e recebimento de informações; (ii) questionar os governos sobre sua legislação e prática doméstica; (iii) envio, aos governos, de alegações sobre casos urgentes a fim de obter um esclarecimento; (iv) aceitar ou recusar o convite feito por determinado país para visitá-lo em virtude da ocorrência de violações referentes ao seu mandato; (vi) realização de visitas; e (vii) relato anual de suas atividades ao Conselho de Direitos Humanos.

48 In ‘historic’ vote, General Assembly creates new UN Human Rights Council. UN News Centre. Disponível em: http://www. un.org/apps/news/stor y. asp?NewsID=17811&Cr=right s&Cr1=council. Acesso em: 20 março 2006.

Criado pela Resolução 1235 do Conselho Econômico e Social, em 6 de junho de 1967.
50

Criado pela Resolução 1503 do Conselho Econômico e Social, em 27 de maio de 1970.
51

FGV DIREITO rio 47

direitos humanos

O Brasil já recebeu a visita dos seguintes relatores especiais52,: Sr. Juan Miguel Petit – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a venda de crianças e prostituição infantil e a utilização de crianças na pornografia; Sra. Asma Jahangir – Relatora Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre execuções sumárias, extrajudiciais ou arbitrárias; Sr. Jean Ziegler – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre o direitos à alimentação; Sr. Doudou Diène – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e formas conexas de intolerância; Sr. Nigel Rodley – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a questão de tortura; Sr. Leandro Despouy – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a independência de juízes e de advogados. Diante do exposto, indaga-se: Como se dá a nomeação de um relator especial? Um indivíduo brasileiro pode encaminhar uma comunicação individual ao Comitê de Direitos Humanos? Tendo em vista a consagração da indivisibilidade dos direitos pela Declaração Universal de Direitos Humanos, por que foram elaborados dois Pactos distintos (Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais)? O que significa a consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos para o indivíduo e para o Estado? Qual é a importância da II Conferência Mundial de Direitos Humanos realizada em Viena, em 1993?
MATERIAL DE APOIO Textos:

Leitura obrigatória: PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. São Paulo: Max Limonad, 2002. Capítulo VI. pp. 163-179 (Cap. VI; itens “a”- “c”); pp. 216-224 (Cap. VI; item “k”). Leitura acessória: TRINDADE, Antonio Augusto Cançado. O direito internacional em um mundo em transformação. Rio de Janeiro: Renovar, 2002. p. 627-670. Legislação: Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Segundo Protocolo ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos referente à Abolição da Pena de Morte Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais Carta das Nações Unidas Declaração Universal de Direitos Humanos Declaração e Programa de Ação de Viena

52 Até a presente data, i.e., novembro de 2004.

FGV DIREITO rio 48

direitos humanos

Aula 08: Sistemas regionais de proteção dos direitos humanos
NOTA AO ALUNO

A par do sistema global de proteção dos direitos humanos, há três sistemas regionais de proteção dos direitos humanos: o sistema europeu, o sistema interamericano e o sistema africano. Os sistemas regionais complementam o sistema global, tendo em vista que têm o mesmo objetivo: a proteção do indivíduo e o combate às violações dos direitos humanos. Sendo assim, o indivíduo que tiver um direito violado, pode optar pelo sistema que melhor lhe favoreça, já que vigora, no âmbito internacional, o princípio da norma mais favorável à vitima. O sistema europeu tem por fundamento a Convenção Européia sobre Direitos Humanos, de 1950. Em 1961, tal Convenção foi complementada pela Carta Social Européia (tendo em vista que dispunha apenas sobre os direitos civis e políticos) e, em 1983, foi emendada pelo Protocolo n. 11, que trouxe inovações fundamentais ao funcionamento do sistema: (i) reestruturação profunda dos mecanismos de controle da Convenção (substituição dos 3 órgãos de decisão – Comissão, Corte e Comitê de Ministros do Conselho da Europa – por um só órgão: a Corte Européia de Direitos Humanos); (ii) funcionamento de uma única Corte, em tempo integral (a nova Corte Européia de Direitos Humanos passou a operar em 1o de novembro de 1998); (iii) assegura o acesso direto à Corte aos indivíduos, i.e., o indivíduo passa a ter ius postulandi. Dessa forma, constata-se que o sistema europeu é o mais avançado no que diz respeito ao reconhecimento da capacidade processual internacional ativa dos indivíduos, uma vez que é o único sistema regional de proteção dos direitos humanos que permite ao indivíduo postular diretamente à Corte. O sistema africano, por sua vez, tem por principal instrumento a Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos, adotada em 1981 e em vigor a partir de 1986, que prevê tanto os direitos civis e políticos quantos os direitos econômicos, sociais e culturais. A referida Carta tem por objetivo priorizar os direitos dos povos. As disposições da Carta relativas aos direitos dos povos demonstram a tendência moderna à coletivização dos direitos do homem. Nesse contexto, tem-se que a Carta apresenta a singularidade de colocar, no mesmo documento, conceitos considerados antagônicos: indivíduo e povo, direitos individuais e direitos coletivos, direitos sociais, econômicos e culturais e direitos civis e políticos. Quanto aos mecanismos de proteção e promoção dos direitos humanos, a Carta Africana estabelece a Comissão Africana de Direitos Humanos e dos Povos, podendo a mesma ser provocada por um Estado-parte ou por indivíduos. Já o protocolo adotado em Ovagadongou (em 9 de junho de 1998), Burina Faso, que entrou em vigor em 25 de janeiro de 2004 (30 dias após o 15o Estado – número mínimo exigido – tê-lo ratificado53), estabelece a Corte Africana de Direitos Humanos e dos Povos como órgão complementar ao labor da Comissão. Em se tratando do sistema interamericano, o mesmo tem como origem a IX Conferência Interamericana54, oportunidade na qual foram aprovadas a Declaração

Acesso em: 25 jan. 2005. Disponível em: http://www. fidh.org/article.php3?id_article=450.
53 54 Realizada em Bogotá, Colômbia, de 30 de março a 2 de maio de 1948.

FGV DIREITO rio 49

FGV DIREITO rio 50 . aproximadamente seis meses antes da adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral das Nações Unidas. continua sendo a principal base normativa vis-à-vis dos Estados não-partes da Convenção. assim. Em 1965. criou-se a Corte Interamericana de Direitos Humanos e a Comissão passou a ser dotada de novas atribuições56. Sendo assim. No entanto. em 1969 (entrou em vigor apenas em 1978). abaixo.oas. que dos 34 Estados-membros da OEA. a Comissão se transformou em um órgão de fiscalização da situação dos direitos humanos nos Estados da OEA. foi aprovada a proposta de criação de um órgão destinado à promoção dos direitos humanos (mais tarde denominado Comissão Interamericana de Direitos Humanos) até a adoção de uma Convenção Interamericana de Direitos Humanos. durante a 5ª reunião de consultas dos Ministros de Relações Exteriores realizada em Santiago do Chile. Após a adoção da Carta da OEA e da Declaração Americana. até hoje. Em 1960. a lista dos Estados que a ratificaram57: PAÍSES SIGNATÁRIOS Antigua y Barbuda Argentina Bahamas Barbados Belize Bolívia Brasil Canadá Chile Colômbia Costa Rica Dominica Ecuador El Salvador Estados Unidos Grenada Guatemala Guyana Haiti Honduras Jamaica México Nicarágua Panamá Paraguay FIRMA 02/02/84 06/20/78 11/22/69 11/22/69 11/22/69 11/22/69 11/22/69 06/01/77 07/14/78 11/22/69 11/22/69 09/16/77 11/22/69 11/22/69 11/22/69 RATIFICAÇÃO 08/14/84 11/05/81 06/20/79 07/09/92 08/10/90 05/28/73 03/02/70 06/03/93 12/08/77 06/20/78 07/14/78 04/27/78 09/14/77 09/05/77 07/19/78 03/02/81 09/25/79 05/08/78 08/18/89 A Carta da OEA. em maio de 1948. Constata-se. Acesso em: 03 maio 2004. O primeiro passo foi a criação de um órgão especializado na proteção dos direitos humanos no âmbito da OEA. Segue. a mesma só se tornou o principal órgão da OEA após a adoção do Protocolo de Buenos Aires em 1967. com as modificações ocorridas em seu Estatuto. Em 1959. 25 deles ratificaram a Convenção Americana. Disponível em: http://www. que emendou a Carta da OEA.html. foi aprovado pelo Conselho da OEA o Estatuto da Comissão.direitos humanos Americana de Direitos e Deveres do Homem e a Carta da Organização dos Estados Americanos (OEA)55. nas próximas duas aulas. Com a adoção da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção Americana) ou Pacto de San José da Costa Rica. o sistema interamericano foi se desenvolvendo lentamente. em vigor desde 13 de dezembro de 1948. no período que antecede a adoção da Convenção Americana de Direitos Humanos. 56 57 Informações obtidas no site oficial da Organização dos Estados Americanos (OEA). foi adotada em conjunto com a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem na IX Conferência Interamericana.org/juridico/spanish/firmas/b-32. respectivamente. a Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem foi a base normativa central do sistema interamericano e. 55 A Comissão e a Corte serão estudadas. que confirmou ser a promoção dos direitos humanos a função da Comissão.

quatro convenções interamericanas “setoriais” mais recentes: (a) Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura (1985). a fim de suprir a lacuna do artigo 26. dos instrumentos de proteção dos direitos humanos? FGV DIREITO rio 51 . da incorporação. (c) Convenção Interamericana para Prevenir. que se limita a prever o “desenvolvimento progressivo” dos mesmos. Há. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (1994). Vicente & Grenadines Suriname Trinidad & Tobago Uruguay Venezuela 07/27/77 09/07/77 11/22/69 11/22/69 07/12/78 01/21/78 11/12/87 04/03/91 03/26/85 06/23/77 À semelhança do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. dando um passo adiante no que concerne o disposto no artigo 4. O segundo Protocolo Adicional à Convenção Americana é relativo à abolição da pena de morte (1990). Sociais e Culturais (ou Protocolo de San Salvador) em 1988 (entrou em vigor em 1999). verifica-se a complementaridade entre o mesmo e o sistema interamericano.2 a 4. portanto. sociais e culturais. Este Protocolo.direitos humanos Peru República Dominicana San Kitts y Nevis Santa Lucía St. ela restringe ao artigo 26 a consagração dos direitos econômicos. Nesse sentido. pelos Estados. da Corte Africana e da Corte Européia de Direitos Humanos? Qual é a importância. também. No entanto. não admitindo. Dessa forma. indaga-se: Qual é o diferencial do disposto na Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos? Por que o sistema europeu é considerado o mais avançado? Qual é a diferença entre o papel da Corte Interamericana. reservas (salvo em tempo de guerra). para o sistema interamericano. Cabe salientar ainda que o sistema interamericano de direitos humanos contemporâneo não se limita à Convenção Americana e aos dois protocolos. (b) Convenção Interamericana sobre Desaparecimento Forçado (1994). foi elaborado o Protocolo Adicional à Convenção Americana em matéria de Direitos Econômicos.6 da Convenção Americana. Em relação ao sistema global. e (d) Convenção Interamericana sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Pessoas Portadoras de Deficiências (1999). deu novo ímpeto à tendência a favor da abolição da pena de morte. a Convenção Americana reconhece um catálogo de direitos civis e políticos. ao estabelecer que os Estados-partes não podem aplicar em seu território a pena de morte a nenhuma pessoa sujeita a sua jurisdição. pergunta-se: por que ambos os sistemas são complementares? Qual o fundamento de haver um sistema interamericano de proteção dos direitos humanos quando já há um sistema de abrangência global? Em relação aos sistemas regionais.

103-151. O sistema interamericano de direitos humanos no limiar do novo século: recomendações para o fortalecimento de seu mecanismo de proteção. Capítulo IV. Flávia. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher Convenção Interamericana sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Pessoas Portadoras de Deficiências (1999) FGV DIREITO rio 52 . PIOVESAN. Flávia. Antonio Augusto. p. Direitos humanos e justiça internacional. Legislação: Convenção Européia sobre Direitos Humanos e Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem e Convenção Americana sobre Direitos Humanos Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura Convenção Interamericana sobre Desaparecimento Forçado Convenção Interamericana para Prevenir. 2000.direitos humanos MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. São Paulo: Editora dos Tribunais. O sistema interamericano de proteção dos direitos humanos e o direito brasileiro. São Paulo: Saraiva. 2006. Flávio Luiz. 50-59. 72-84. In: GOMES. pp.

direitos humanos

Aula 09: Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos
NOTA AO ALUNO

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão) originou-se da Resolução VIII da V Reunião de Consulta dos Ministros de Relações Exteriores (Santiago, 1959). Em 1960, foi aprovado pelo Conselho da OEA o Estatuto da Comissão, que confirmou ser a promoção dos direitos humanos a função da Comissão. Em 1965, com as modificações ocorridas em seu Estatuto, a Comissão se transformou em órgão de fiscalização da situação dos direitos humanos nos Estados da OEA. No entanto, a mesma só se tornou o principal órgão da OEA após a adoção do Protocolo de Buenos Aires em 1967, que emendou a Carta da OEA. A Comissão é composta por sete membros eleitos pela Assembléia Geral por um período de 4 anos, podendo ser reeleitos apenas uma vez. Em relação às suas funções, são elas: conciliadora; assessora; crítica; legitimadora; promotora; protetora. Com a adoção da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção) ou Pacto de San José da Costa Rica, em 1969 (entrou em vigor apenas em 1978), a Comissão passou a ser dotada de novas atribuições. Isto significa que, a partir da adoção da Convenção, a Comissão passou a ser tanto o principal órgão da OEA quanto órgão do referido instrumento. Dessa forma, todos os Estados da OEA têm o dever de proteger e promover os direitos humanos, seja por meio do disposto na Carta da OEA e na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (para os Estados-membros da OEA), seja por meio do estabelecido na Convenção (para os Estados-partes). Sendo assim, verifica-se a coexistência de dois sistemas em relação à Comissão: o sistema da OEA e o sistema da Convenção. No entanto, por se tratar de aula referente ao sistema interamericano, focaremos o estudo da Comissão no sistema da Convenção. A Comissão tem competência para examinar comunicações encaminhadas por indivíduo, grupo de indivíduos ou organizações não governamentais, que contenham denúncia de violação a direito consagrado na Convenção, cometida por algum Estado-parte. Isto porque os Estados, ao se tornarem parte da Convenção, aceitam automática e obrigatoriamente a competência da Comissão para apreciar denúncias contra eles. Dessa forma, a comunicação individual é obrigatória e a comunicação interestatal58 é facultativa no sistema interamericano, ao passo que no sistema europeu ocorre o oposto. Em relação ao procedimento da petição perante a Comissão, verificam-se quatro fases: (a) fase da admissibilidade; (b) fase da conciliação; (c) fase do Primeiro Informe; e (d) fase do Segundo Informe ou a propositura de uma ação de responsabilidade internacional perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Dessa forma, pode-se sintetizar a apreciação de uma denúncia pela Comissão da seguinte forma:

58 Em outras palavras, a Comissão só poderá analisar a comunicação interestatal (um Estado denuncia o outro por violação a algum direito humano) quando ambos os Estados, além de terem ratificado a Convenção, declararem expressamente que reconhecem a competência interestatal da Comissão.

FGV DIREITO rio 53

direitos humanos

Recebe denúncia  aprecia sua admissibilidade (i.e., se os seguintes requisitos foram observados: prazo, prévio esgotamento de recursos internos e a inexistência de litispendência internacional)  considera-a admissíve  requer informações ao Governo e à parte  tenta uma solução amistosa  não ocorrendo, a Comissão envia o 1º informe ao Governo, dando-lhe um prazo de 3 meses para cumprir as exigências  Estado não cumpriu  Comissão envia o caso à Corte ou elabora o 2º informe. Ainda, cabe mencionar que a Comissão pode iniciar um caso de oficio (art. 24, Regulamento Comissão), se possuir informações necessárias. Saliente-se, também, a função preventiva exercida pela Comissão. Em decorrência de suas recomendações de caráter geral dirigidas a determinados Estados, ou formuladas em seus relatórios anuais, foram derrogados ou modificados leis, decretos e outros dispositivos que afetam negativamente a vigência dos direitos humanos. Ainda, a função preventiva da Comissão pode ser observada na elaboração de medidas cautelares e, inclusive, ao solicitar à Corte que adote medidas provisórias. Por fim, destaque-se que a par do sistema de petições ou comunicações, dois sistemas também têm um papel fundamental na proteção e promoção dos direitos humanos: (a) o sistema de investigações (observações in loco); (b) o sistema dos relatórios, o que inclui tanto o relatório com recomendações gerais enviado a determinado Estado, quanto os relatórios periódicos apresentados à Assembléia Geral da OEA, que contém, muitas vezes, considerações de caráter doutrinário. A Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte), órgão jurisdicional da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção), realizou suas primeiras reuniões na sede da OEA em Washington, em 29 e 30 de junho de 1979, e instalou-se em sua sede permanente em São José da Costa Rica em 3 de setembro de 1979. Esta instituição judiciária é composta por sete juízes nacionais de Estadosmembros da OEA, escolhidos por título pessoal, e tem por objetivo a aplicação e interpretação da Convenção. Até novembro de 2006, dos 35 Estados-membros da OEA, 24 Estados haviam ratificado a Convenção Americana59, e, dentre estes, 21 reconheceram a competência contenciosa da Corte60. Até julho de 2005, a Corte já havia proferido 127 sentenças, sendo que destas 57 são sentenças de mérito (ou seja, avaliam se evetivamente houve violação)61. A Corte tem duas competências: consultiva e contenciosa. Em relação à competência consultiva, qualquer membro da OEA pode solicitar o parecer da Corte relativo à interpretação da Convenção ou de qualquer outro tratado referente à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos. Ainda, a Corte pode opinar sobre a compatibilidade de preceitos de legislação interna em face dos instrumentos internacionais. Até julho de 2005, a Corte havia emitido 18 pareceres62. Em se tratando de sua competência contenciosa, apenas a Comissão e os Estados-partes (que expressamente reconhecerem a jurisdição da Corte) podem submeter um caso a Corte. Isto significa que o indivíduo depende da Comissão para que seu caso seja apreciado pela Corte, uma vez que ela é a dominus litis absoluto.

Argentina, Barbados, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Dominica, Equador, El Salvador, Granada, Guatemala, Haiti, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai, e Venezuela. Ressalte-se que Trinidad e Tobago denunciou a Convenção em 26 de maio de 1998.
59

Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai, e Venezuela.
60

PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e justiça internacional. São Paulo: Saraiva, 2006. p. 105.
61 62

Ibid., p. 100.

FGV DIREITO rio 54

direitos humanos

Ao longo de sua história, a Corte já possuiu outros três regulamentos (1980, 1991, 1996), estando hoje em vigor o Regulamento de 2000 (a partir de 1 de junho de 2001). As inovações consagradas neste diploma são definidas pelo juiz Cançado Trindade como “o grande salto qualitativo” por considerar a proteção jurisdicional aos direitos humanos a forma mais efetiva de salvaguarda dos direitos humanos. Ao assegurar em seu artigo 23 que “depois de admitida a demanda, as presumidas vítimas, seus familiares ou seus representantes devidamente creditados poderão apresentar suas solicitações, argumentos e provas em forma autônoma durante todo o processo”, a Corte outorgou ao indivíduo o locus standi in judicio. Resta claro que as verdadeiras partes no caso contencioso perante a Corte são os indivíduos demandantes e o Estado demandado, e processualmente, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos como o titular da ação. O processamento do Estado perante a Corte se dá através de seis fases: (a) fase da propositura e exceção preliminar; (b) fase da conciliação; (c) fase probatória; (d) fase decisória; (e) fase das reparações; e (f ) fase de execução da sentença.
FASES TÓPICOS E CASOS - Apenas a Comissão e os Estados-partes da Convenção podem submeter um caso à Corte (art. 61, Convenção). - Citação do Estado. - Prazo para o Estado apresentar exceções preliminares, bem como seu exame pelo presidente da Corte. - Faculdade da Corte para convocar audiência. - Possibilidade do demandante desistir da ação. Se a desistência se der antes da citação, ela será aceita obrigatoriamente. Se ocorrer após a citação, a Corte ouvirá as partes. - Corte arquiva o processo ou continua (passa-se à 2ª fase). - As partes podem fazer um acordo. No entanto, cabe a Corte homologá-lo. - Citar o caso Maqueda (exemplo de acordo homologado pela Corte)63. - A propositura de solução amistosa é uma faculdade da Corte. - Prazo para a contestação. - As provas têm que estar elencadas na petição inicial ou contestação, salvo nas hipóteses previstas no art. 43, do Regulamento da Corte. - Corte pode produzir prova ex officio (art. 44, Regulamento Corte). - Os Estados não podem processar as testemunhas e peritos por suas declarações (art. 50, Regulamento Corte). - A sentença tem força jurídica vinculante e obrigatória. - Exposição dos votos dissidentes e concorrentes. - Não é obrigatória. Ocorrerá apenas quando a sentença de mérito não tratar das reparações (citar o caso Gangaram Panday64). - Excepcionalmente, admite-se aqui a participação do indivíduo de forma autônoma (art. 23, Regulamento Corte65). - Trata-se de uma nova etapa do processo: as partes serão intimadas novamente. - Possibilidade de uma nova conciliação entre as partes. - Há uma variedade de reparações que podem ser fixadas, dentre elas: reconhecimento da responsabilidade, indenização por danos material e moral, obrigação de investigar e punir os agentes responsáveis pelas violações, obrigações de fazer (ex: construir posto médico e escolar – caso Aloeboetoe66),.
63 A Comissão e o governo argentino acordaram pela libertação de Guilhermo Maqueda. Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Maqueda, Resolução de 17 de janeiro de 1995, Série C n. 18, § 27. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/ serie_c/index.html. RAMOS, André de Carvalho. Direitos humanos em juízo. São Paulo: Max Limonad, 2001. Capítulo IV. p. 220-225.

1. Fase da propositura e exceção preliminar

2. Fase da conciliação

3. Fase probatória

4. Fase decisória

Corte condenou o Suriname a pagar determinada quantia aos herdeiros da vítima, como forma de indenização pecuniária aos danos causados. Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Gangaram Panday, Sentença de 21 de janeiro de 1994, Série C n. 16, item 4 do dispositivo da sentença. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/ serie_c/index.html. André de Carvalho Ramos. op. cit.,. p. 168-179.
64 65 Trata-se de uma inovação trazida pelo novo Regulamento da Corte, em vigor a partir de 1º de junho de 2001. Regulamento aprovado pela Corte no seu XLIX período ordinário de sessões, celebrado do dia 16 a 25 de novembro de 2000.

5. Fase das reparações

Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Aloeboetoe e outros, Sentença de 10 de setembro de 1993 (reparações), Série C n. 15, § 20. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/serie_c/index.html. RAMOS, A. op. cit., p. 162-168.
66

FGV DIREITO rio 55

Convenção). 63. julho de 2004 e setembro de 2005) também foram publicadas com o mesmo propósito. Fase de execução da sentença . Quatro outras resoluções (agosto de 2002. 65. no caso do Damião Ximenes. Por fim.cr/. reconhecendo a jurisdicionalização das violações de direitos humanos que engendram sua responsabilidade internacional. abril de 2004. 68. Diante do exposto.O Estado se compromete a cumprir integralmente a pena (art.A indenização se dará pelo processo interno vigente (art. Constam ainda dos procedimentos perante a Corte: dois casos de fundo (Damião Ximenes e Gilson Nogueira) e outra medida provisória (Adolescentes Internos da FEBEM). . Tais medidas têm sido ordenadas em casos de extrema gravidade ou urgência. garantiu aos indivíduos uma importante e eficaz esfera complementar de garantia aos direitos humanos sempre que as instituições nacionais se mostrem omissas ou falhas. . É importante ressaltar que o Estado brasileiro aceitou a jurisdição da Corte em 10 de dezembro de 1998. As medidas provisórias revelam. A primeira sentença da Corte em face do Estado brasileiro foi editada em agosto de 2006. 68. indaga-se: • • • O procedimento perante a Comissão pode ser renunciado pelo Estado? Qual é a posição da Corte a respeito? Os requisitos que devem ser observados para que uma petição seja admitida pela Comissão comportam exceções? Quais? Quais são os casos em que a Comissão pode adotar medidas cautelares ou requerer que a Corte adote medidas provisórias? Já houve algum caso em que a Corte requereu ao Brasil que adotasse medidas provisórias? Caso positivo. mas pendentes ante a Comissão. seu dever de cuidar e de prevenir a vulneração da vida e da integridade pessoal.2. A Corte as ordena com base em uma presunção razoável. a Corte determinou que o Estado brasileiro proteja a vida e integridade pessoal dos presos da Casa de Detenção “Urso Branco”. Convenção). acesse o site da Corte Interamericana de Direitos Humanos: http://www. assim.2.direitos humanos 6. há de se concluir que a adesão do Estado brasileiro ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos. em especial com a aceitação da jurisdição da Corte.Estado não pode alegar impedimento de direito interno como forma de se eximir do cumprimento da pena. bem como seu dever de regulamentar e fiscalizar o atendimento médico de saúde”68. na cidade de Porto Velho. neste caso. Nos últimos anos.corteidh. o Estado as cumpriu? Quais foram as conseqüências? 67 Informações atualizadas em 25 de outubro de 2006. . tanto pendentes ante ela como ainda não submetidos a ela.or. 68 Para ler a sentença na íntegra. Convenção). de modo a evitar danos irreparáveis à vida e integridade pessoal de indivíduos. cabe a Corte indicar o caso em seu relatório à Assembléia Geral da ONU (art. Convenção). FGV DIREITO rio 56 .1. a Corte tem ordenado medidas provisórias de proteção em um número crescente de casos.Caso o Estado não cumpra a sentença. a pedido desta última (art. a importante dimensão preventiva da proteção internacional dos direitos humanos. Estado de Rondônia.67 A Corte deixou claro que o Brasil “tem responsabilidade internacional por descumprir. Em junho de 2002.

Responsabilidade internacional do Estado e decisões do Sistema Interamericano em 2003. p. PIOVESAN. 85-98. Flávia. In: Direitos Humanos no Brasil 2003. 98-118. caso Aloeboetoe. Capítulo V. 168-179. 341-349. RAMOS. Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. 2006. São Paulo: Saraiva. Capítulo IV: caso Velásquez Rodriguez. caso Maqueda. p. São Paulo: Saraiva. p. caso Gangaram Panday. p. São Paulo: Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. pp. CEJIL Brasil. Antônio Augusto. cabem as seguintes indagações: • • • Há distinção entre sentença estrangeira e internacional? Deverão as sentenças ser examinadas pelo Supremo Tribunal Federal pela concessão do exequatur? Poderão os indivíduos demandantes executar perante a Justiça Federal? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. Brasília: Editora Unb. Capítulo VII. p. 2006. Capítulo III. Direitos humanos e justiça internacional. 220-225. Direitos humanos e justiça internacional. 118-145. p. 63-99.direitos humanos • • Quantos casos contra o Brasil tramitam perante a Comissão? Qual é a natureza de ambos os informes da Comissão? Tendo em vista a inexistência de qualquer sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos em desfavor do Estado brasileiro. pp. Flávia. caso El Amparo. 2001. p. 261-268. p. 225-232. São Paulo: Max Limonad. Direitos humanos em juízo. O esgotamento de recursos internos no direito internacional. Legislação: Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem Convenção Americana sobre Direitos Humanos Carta da OEA Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Estatuto da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos Estatuto da Corte Interamericana de Direitos Humanos FGV DIREITO rio 57 . 162-168. 2003. 491-515. André de Carvalho. p. 1997.

1 (garantias judiciais).602. lhes ofereceu proteção. 16 pescadores do povoado “El Amparo” dirigiamse ao Canal “La Colorada” para participar de um campeonato de pesca. data na qual adotou. o Inspetor chefe do DISIP (Direção dos Serviços de Inteligência e Prevenção) visitou Tovar e lhe informou que havia matado 14 guerrilheiros. a Comissão instaurou o caso n. recomendando ao Estado venezuelano que punisse os autores do crime de homicídio praticado contra as vítimas de ‘El Amparo’. refugiaram-se na fazenda “Buena Vista”. Os dois sobreviventes conseguiram escapar a nado e. Em 10 de agosto de 1990. todos eles em concordância com o artigo 1. se entregaram ao Comandante da Polícia de “El Amparo”. em um primeiro momento. Logo após. mataram 14 dos 16 pescadores. Às 11:20 o barco parou e quando os pescadores desembarcavam. que realizavam uma operação militar. 10. além de indenizar os familiares das vítimas. Tovar. abordaram Tovar a fim de saber o paradeiro de seus entes que haviam ido pescar no dia 29 e até agora não tinham retornado. Foi alegada violação aos seguintes artigos da Convenção Americana de Direitos Humanos: 2 (dever de adotar disposições de direito interno). que.1. 8. levando em consideração o divulgado pela mídia (haveria ocorrido um confronto armado com combatentes colombianos). No entanto. familiares. conforme o artigo 50 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção). DO CASO O caso “El Amparo” foi submetido à Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte) pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) em face do Estado da Venezula no dia 14 de janeiro de 1994. 5 (direito à integridade pessoal). 24 e 25 em relação aos dois pescadores que conseguiram fugir. Tovar começou a sofrer pressões por parte de policiais e militares para entregar os sobreviventes ao Exército. No dia seguinte.1 (obrigação de respeitar os direitos) pela morte de 14 dos 16 pescadores.direitos humanos Aula 10: Sistema Interamericano de Direitos Humanos: Estudo de Caso NOTA AO ALUNO 1. que tramitou até o dia 12 de outubro de 1992. 8. 29/93. Em virtude da presença de grande quantidade de pessoas diante da delegacia. 4 (direito à vida). localizada a 15km do local dos eventos. Na tarde do dia 29. foi impossível retirar os sobreviventes à força dali. prontamente. bem como violação aos artigos 5. FGV DIREITO rio 58 . o Informe n. membros do exército e da polícia do CEJAP (Comando Específico José Antonio Páez). Breve descrição dos fatos Em 29 de outubro de 1988. 24 (igualdade perante a lei) e 25 (proteção judicial).

2) decide que o Estado está obrigado a reparar os danos e pagar uma justa indenização às vítimas sobrevivente e aos familiares dos falecidos. a Comissão solicitou que fosse declarada a incompatibilidade do art. pela morte dos 14 pescadores. pelo Estado venezuelano.direitos humanos Em virtude falta do cumprimento. a própria existência de um dispositivo legal pode per se criar uma situação que afeta diretamente os direitos protegidos pela Convenção. que não procedem as reparações não-pecuniárias nem pronunciamento sobre a conformidade do Código de Justiça Militar e a Convenção. FGV DIREITO rio 59 . o Juiz Antônio Augusto Cançado Trindade expressa seu entendimento de que a Corte deveria ter esclarecido que tem a faculdade de decidir acerca da incompatibilidade entre os artigos do Código de Justiça Militar e a Convenção. 8. 54. sendo reservado àquele tribunal a faculdade de aprova-lo. Isoladamente. a Corte não acatou o pedido da Comissão Interamericana de Direitos Humanos sob o argumento de que. do Código de Justiça Militar com o objeto da Convenção. argumenta o juiz Antônio Augusto Cançado Trindade que. na qual assevera que tal exame somente seria possível no exercício de sua competência consultiva. 3) declara. Reiterou-se assim o posicionamento na Opinião Consultiva nº 14.1. in casu. Na sentença de reparações de 14 de setembro de 1996. Em resumo. em voto dissidente.1 (garantias judiciais).1 (obrigação de respeitar os direitos). não sendo necessário o aguardo da ocorrência de um dano. todos eles em concordância com o artigo 1. 2) decide que o Estado venezuelano está obrigado a continuar as investigações acerca dos fatos a que se refere e a sancionar os responsáveis. a Corte: 1) tomou nota do reconhecimento de responsabilidade efetuado pelo Estado venezuelano. 5. em votação não unânime. 4 (direito à vida). a Comissão propôs. uma ação de responsabilidade internacional contra o referido estado perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte). ainda. que o estado indenizasse os familiares das vítimas. dentre outras medidas: 1) fixa o valor da indenização aos familiares das vítimas às vítimas sobreviventes. em sentença de 18 de janeiro de 1995. do referido Informe. 8. incisos 2 e 3. 3) afirma que as reparações serão alvo de acordo entre a CIDH e o Estado. Por outro lado. Por fim. tal dispositivo não fora aplicado. e violação aos arts. Requereu. 24 (igualdade perante a lei) e 25 (proteção judicial). 5 (direito à integridade pessoal). Essa ação judicial foi possível tendo em vista que a Venezuela ratificou a Convenção em 9 de agosto de 1977 e reconheceu a competência da Corte em 24 de julho de 1981. em 14 de janeiro de 1994. 2 (dever de adotar disposições de direito interno). a Corte. 24 e 25 em relação aos dois sobreviventes. Breve descrição dos passos processuais Em um breve resumo. alegando o seguinte: violação aos arts.

3. Corte Interamericana de Direitos Humanos.cr/seriec/ index_c.direitos humanos 2. p. Vol. FGV DIREITO rio 60 . 2001. os quais assumirão os seguintes posicionamentos: a) b) c) d) e) Comissão Interamericana de Direitos Humanos. 3. Universitas –Centro Universitário de Brasília – UniCEUB. Familiares das Vítimas. Disponível em: http://www. DOS ARGUMENTOS Tendo por base as decisões do caso em tela. RAMOS. Direitos humanos em juízo. “El nuevo reglamento de la Corte Interamericana de Derechos Humanos (2000): la emancipación del ser humano como sujeto del derecho internacinal de los derechos humanos” in Revista Proteção Internacional da Pessoa Humana. Estado da Venezuela. Indenização em geral e danos materiais Danos morais Efetuação do pagamento Reparações não pecuniárias Compatibilidade do Código de Justiça Militar com a Convenção Americana Dever de investigar e punir os responsáveis MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: Caso El Amparo Vs. André de Carvalho. DOS POSICIONAMENTOS PROPOSTOS Dez alunos poderão participar da atividade. Venezuela. Antônio Augusto. e Voto dissidente do Juiz Antônio Augusto Cançado Trindade. cada grupo deverá construir argumentos acerca dos seguintes pontos: 1.html Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. No 2. 4. devendo estes ser divididos em cinco grupos. 5. 09 – 40. 2. 6. São Paulo: Max Limonad.corteidh.or. I.

direitos humanos Legislação: Convenção Americana sobre Direitos Humanos Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos FGV DIREITO rio 61 .

As notícias expostas nas seguintes notas não nos contam ocorrências escondidas em algum capítulo da História. Eles devem ter garantido o direito de retornar a suas casas o mais cedo possível. crianças e idosos. Todavia. e respeitando o princípio de distinção e proporcionalidade nas operações militares.cicr. tais particularidades não afastam. tratados Dia 09 de novembro de 2004 Comunicado melha de imprensa nº 04/62 do Comitê Internacional da Cruz Ver- Fallujah/Iraque (CICV) – O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) lembra a todos os envolvidos nos enfrentamentos armados em curso no Iraque que o Direito Internacional Humanitário proíbe agredir ou matar aos civis que não tomem parte diretamente das hostilidades. entre tantos outros. Doentes e feridos. http://www. Muitos destes deslocados internos precisam de água. uma vez que tais vertentes possuem um elemento em comum: a proteção da pessoa humana.nsf/html/66LLHJ!OpenDocument FGV DIREITO rio 62 . alimentos. Milhares de civis iraquianos. e sim intensificam sua complementaridade. e o pessoal médico e seus veículos devem poder operar sem entraves em quaisquer circunstâncias. Iraque: civis devem ser poupados. A organização insta os beligerantes a assegurar que todos os que precisem de cuidados – sejam ou não inimigos – devem ter acesso ao atendimento médico. O CICV está profundamente preocupado com relatos de que os feridos não estão podendo receber atenção médica adequada. São conflitos que atingem milhares de pessoas no mesmo momento em que você está lendo esse texto. conduz à inafastabilidade do estudo do DIH e do DIR. refugiados. conflitos armados. deslocados. o Direito Internacional dos Refugiados (DIR) e o Direito Internacional dos Direitos Humanos (DIDH) apresentam aplicabilidades e mecanismos de supervisões diferenciados. O CICV permanece comprometido em realizar seu trabalho humanitário no Iraque e insta todas as partes a facilitarem a passagem de suas equipes de ajuda humanitária que levam assistência de maneira neutra aos civis afetados pelo conflito. abrigo e assistência médica. o Direito Internacional Humanitário (DIH).direitos humanos Aula 11: Direito Internacional Humanitário e Direito Internacional dos Refugiados NOTA AO ALUNO Nascidos em períodos históricos diversos. A realidade do mundo contemporâneo refletida em temas como guerra contra o terrorismo. incluindo mulheres. fugiram de Fallujah buscando refúgio nos arredores da cidade.org/Web/por/sitepor0. A organização faz um chamamento às partes para que tomem toda precaução possível poupando os civis e as propriedades civis.

em terreno. O presidente do CICV encontrou-se com diversas autoridades do governo sudanês.cicr.nsf/iwpList4 747E1213A0B72DE90325 6F5F005B3500 FGV DIREITO rio 63 . Neste caso. o Sudão será. disse Kellenberger. Kutum e Zalingei. velando prioritariamente pelo conhecimento e respeito aos princípios básicos do Direito Internacional Humanitário. Do Sudão. O governo deve também tomar as providências para acabar com a impunidade dos culpados por violações. fronteira entre o Chade e o Sudão. em todas as ocasiões. que este retorno deve ser absolutamente voluntário e que as condições de segurança para os civis devem ser consideravelmente reforçadas nestas áreas. na região do Darfur. Kellenberger formulou uma série de recomendações destinadas a melhorar a proteção da população civil. Frente às graves violações do Direito Internacional Humanitário cometidas sob responsabilidade do governo. Com um orçamento de US$ 112 milhões. o presidente do CICV irá ao Quênia. Kellenberger reconheceu que o acesso às vítimas do conflito armado no Darfur melhorou sensivelmente desde de sua última visita à região. fornecendo água e alimentos. o maior teatro de operações do CICV em todo o mundo. onde participa da Cúpula de Nairóbi para Um Mundo Livre de Minas http://www. Por outro lado ele destacou. Além de fazer conhecer o Direito Internacional Humanitário e de assegurar o respeito por estas normas. de ambos os lados do conflito. além de artigos de primeira necessidade e socorro médico. o CICV presta assistência a meio milhão de pessoas em todo o Sudão. em 2005. na África. e em toda a cadeia de comando das forças governamentais. em março de 2004. As operações do CICV são realizadas em cooperação com o Crescente Vermelho Sudanês e outras Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. “Penso que o CICV optou por uma boa solução quando decidiu concentrar suas operações de socorro nas regiões rurais com a intenção de evitar novos deslocamentos de populações e facilitar o retorno dos que partiram”.direitos humanos Sudão: presidente do CICV reforça importância do respeito ao Direito Internacional Humanitário Dia 30 de novembro de 2004 Comunicado melha de imprensa nº 04/71 do Comitê Internacional da Cruz Ver- Cartum/Genebra (CICV) – O presidente do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) Jakob Kellenberger terminou hoje uma visita de três dias às cidades de El Fasher.org/web/por/sitepor0. Kellenberger deixou claro que o CICV seguirá de perto a implementação das recomendações apresentadas.

conta que a maioria dos que não conseguem obter o status permanece no Brasil assim mesmo. Mesmo assim. e que desde 1997 tem uma lei nacional específica na qual se compromete a receber. Com a ratificação. fornecidos pelo Acnur. CPF e carteira de trabalho e. O elo que os une: expulsos por terríveis guerras civis. Aqui. A maioria é de africanos e latino-americanos. cerca de 35% das pessoas que entram com processo para pedir o reconhecimento como refugiado têm essa condição validada. seria o mesmo que morrer. que pode levar seis meses.5 mil refugiados que vivem na cidade. A condição pode ser estendida aos familiares e dependentes que se encontrem em território nacional. Luis Varese. A assistente social Denise Orlandi Collus. por um período médio de seis meses. vivem com medo”. Só se cometerem uma infração grave. pediram refúgio ao governo e tentam reconstruir suas vidas. famílias inteiras de desterrados. É preciso ultrapassar a fronteira de sua terra natal para pedir proteção ao governo do Brasil – país signatário do tratado da Convenção de Genebra.direitos humanos Refugiados no Brasil: o lado humano dos conflitos que assolam o mundo em território nacional Por Patrícia Pereira Há 3 mil refugiados no Brasil. homens com idade entre 20 e 25 anos. Segundo o representante no Brasil do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). muitos viajam como clandestinos em cargueiros e enfrentam dias de fome e tensão. ideológicas e religiosas. a pessoa passa a gozar de total liberdade dentro do território nacional. proteger e ajudar a integrar refugiados. Com o mesmo perfil. Sozinhos em um país estranho e vivendo de forma ilegal. como conta neste especial o africano da Costa do Marfim Edmond Kouadio. para eles. FGV DIREITO rio 64 . Às vezes. “Eles sabem que não serão deportados. Recebe cédula de identidade de estrangeiro.2 mil dos 1. Barreiras na fuga. São mulheres e. existem pelo menos outros 6 mil refugiados que vivem no Brasil. Outros vagam anos a pé até conseguir embarcar em aviões. mas que ainda não conseguiram o direito de viver em território nacional. perseguições políticas. fugiram de seus países de origem e realizaram verdadeiras façanhas para chegar ao Brasil. 38 anos. que trabalha no Sesc Carmo. diz. e no Brasil A primeira barreira que o refugiado enfrenta é a viagem de fuga. em São Paulo. violências étnicas e tribais e outras violações graves de direitos humanos. Já no Brasil. Para chegar ao País. órgão ligado ao Ministério da Justiça. onde são oferecidos programas de apoio a imigrantes e por onde já passaram cerca de 1. é analisado pelo Comitê Nacional para Refugiados (Conare). que atravessou quase todo o continente africano fugindo de massacres e guerras civis. Voltar para casa. é preciso provar que se corre risco de vida no país de origem. permanecem com medo da deportação. em grande parte. O processo. em meio a lembranças de dor e sofrimento. de 1951. tem direito a um salário mínimo e medicamentos.

1996. o direito das partes em conflito de escolher livremente os métodos e os meios utilizados na guerra. Para isso. evitando que sejam afetados as pessoas e os bens legalmente protegidos. que é jornalista e especializou-se em prevenção e administração de desastres. trabalhava na Cruz Vermelha. As três vertentes da proteção internacional dos direitos da pessoa humana.). a urgência passa a ser conseguir emprego e moradia. 1997. Por sua vez. “O refugiado é quase sempre visto como bandido ou traficante. de 45 anos. como o colombiano Juan (nome fictício).”71 Se a guerra é o campo do conflito. sempre tendo como parâmetro o DIDH. o que dificulta sua entrada no mercado de trabalho”. responsável por implementar o programa do Acnur em São Paulo e no Rio de Janeiro. internacionais ou não-internacionais. o DIH protege a pessoa humana em conflitos armados e o DIDH em todos os tempos. é preciso compreender algumas limitações acordadas pelos Estados de forma a tornar os conflitos armados menos danosos. In: CANÇADO TRINDADE. Comitê Internacional da Cruz Vermelha. A normatização do conflito visa precisamente à mitigação de seus efeitos e a sua não transformação em uma barbárie absoluta. Jaime Ruiz de (orgs. O crescente número de refugiados vindos da América Latina – principalmente Colômbia.estadao. Gerard. por razões humanitárias. “Sistemas Internacionais de proteção da pessoa humana: o direito internacional humanitário”.br/especial/refugiados.htm As duas primeiras notas de imprensa são datadas de novembro de 2004. Direito Internacional Humanitário e Direitos Internacional dos Direitos Humanos: tradicionalmente. a terceira nota reflete um panorama dos refugiados no Brasil. respectivamente acerca dos conflitos vividos no Iraque e Sudão. Peru e Cuba – nos últimos anos reforça esse grupo. enfrenta o desemprego e a desilusão das filhas provocada pela queda na qualidade do ensino. 70 71 PEYTRIGNET. e o segundo à proteção de certos direitos básicos também em diversas situações de conflitos e violência. Antônio Augusto. http://www. p. Dificilmente ele consegue exercer no Brasil a profissão que desempenhava antes. “mais recentemente o primeiro temse voltado também para situações de violência em conflitos internos. cabe a exploração de alguns elementos do DIH e do DIR. San José. e SANTIAGO. e que limita. São pessoas com formação universitárias e politizadas. notadamente no que se refere à proteção da pessoa humana. Volume I. Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.com. todavia. têm a ajuda da Cáritas. FGV DIREITO rio 65 . No Brasil. conta Denise. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. Com os papéis em mãos. Surge então uma nova barreira: a do preconceito. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor. PEYTRIGNET. Após essa leitura. com mulher e quatro filhas. organização não-governamental de assistência e proteção aos refugiados ligada à Igreja Católica. Histórico: Como foi estudado na aula 02 – Desenvolvimento Histórico dos Direitos Humanos. 275. adaptar-se aos hábitos dos brasileiros e integrar-se socialmente. especificamente aplicável aos conflitos armados.”70 Quais elementos são característicos do DIH? Definição: “trata-se do corpo de normas jurídicas de origem convencional ou consuetudinário. Gerard.direitos humanos Enquanto aguarda o resultado do processo os refugiados procuram aprender a língua. Tendo em vista que a Carta das Nações Unidas legitima expressamente o uso da força em circunstâncias limitadas. por que será que existem normas que regulamentam as condutas perpetuadas nesse período? Haveria uma contradição entre conflito e regras a serem cumpridas? A resposta é não. A boa formação do refugiado acaba às vezes sendo um ponto negativo para a integração. Antônio Augusto. o DIH pode ser indicado como precursor da internacionalização CANÇADO TRINDADE. Na Colômbia. CR: Instituto Interamericano de Direitos Humanos.

É importante lembrar que nesse momento. A convite do governo suíço. em 1862. Por iniciativa do CICR. Publicou. e Protocolo Adicional II – disciplina a previsão do artigo 3º comum e sua aplicabilidade a conflitos armados internos. Esse esforço normativo é resultado da barbárie vivenciada nos campos de guerra existentes na Europa durante o século XIX. Principais tratados: tal passo não foi suficiente para evitar os resultados trágicos das duas Grandes Guerras Mundiais. que. o qual veio a ser chamado logo após de Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). Era necessário um compromisso mais efetivo por parte dos Estados para o estabelecimento de uma ordem mundial pós-1945. Convenção de Genebra II – protege os feridos. para a elaboração de dois protocolos adicionais às Convenções de Genebra. e Convenção de Genebra IV – inaugura a preocupação com a população civil. sob comando responsável e exercendo controle sobre certa parte do território. no qual propõe a criação de entidades de socorro privadas em cada país e a elaboração de um acordo internacional que facilitasse o trabalho das mesmas. • Protocolo Adicional I – em nome do princípio da auto-determinação dos povos. Em 1859. a Suíça convocou uma conferência em Genebra no ano de 1949. foi celebrada uma conferência no ano de 1864 que aprovou o Convênio para a proteção dos feridos no campo. tendo sido ratificado por 161 países. Convenção de Genebra III – protege os prisioneiros de guerra. o livro “Recordações de Solferino”. doentes e náufragos das Forças Armadas no mar. A extensão de sua aplicabilidade e a ratificação por parte de 191 países fazem com que o DIH seja denominado muitas vezes de o “Direito de Genebra”. a preocupação com as guerras de libertação nacional e a necessidade de regulamentação dos conflitos armados não-internacionais conduziram ao chamamento de uma conferência internacional em 1977. estabeleceu o marco normativo moderno do DIH. em seus 10 artigos. Todavia. norte da Itália. realizada também em Genebra. da qual resultaram os diplomas que constituem a chave-mestra do DIH: • • • • Convenção de Genebra I – protege os feridos e doentes das Forças Armadas em campanha. o Protocolo Adicional I amplia a definição de conflito armado internacional por incorporar aqueles nos quais se luta contra regimes de dominação colonial ou contra regimes racistas. Dunant fundou o Comitê Internacional de Ajuda aos Feridos. entre franceses e austríacos. Em 1863. Condições: forças armadas dissidentes ou outros grupos armados organizados. FGV DIREITO rio 66 • . o genebrino Henry Dunant presenciou as atrocidades da batalha de Solferino. O enquadramento moderno é marcado pela Convenção de Genebra de 1864 para melhoramento da condição de feridos no campo. em companhia de outros genebrinos. O Protocolo II foi ratificado por 156 países. o mundo era formado por poucos Estados e não existiam instâncias multilaterais que pudessem monitorar o uso da força.direitos humanos da proteção da pessoa humana.

Por sua vez. Respeitar os civis e seus bens. Está proibido o emprego de armas que danos instalações e as permitir que façam seu trabalho. assim como os prisioneiros ou detidos. Está proibido o emprego de armas que causem danos combatente de combate.. por natureza.cicr. a proibição dos ataques indiscriminados e a obrigação tomar medidascivil de precaução a fim de evitar. produção e de armas bacteriológicas e sua destruição. no corpo humano.cicr. estocagem.nsf/htmlall/section_ihl_weapons?OpenDocument.nsf/htmlall/section_ihl_conduct_of_hostilities?OpenDocument.” Acesso 19 de junho de limitados o emprego de certas armas. ataques diretos contra pessoas civis.direitos humanos As convenções e o Protocolo I são aplicáveis a conflitos armados.org/web/por/sitepor0. as biológicas. encontram-se: a) Convenção de 1992 – proibição destruição. assim como os danos causados a bens de caráter indiscriminados e a obrigação de tomar medidas de precaução a fim de evitar. Disponível em: http://www. Disponível em: 145 O Direito de Nova Iorque combatentes armas que. 145 145 indiscriminadas ou que possuam causarão sofrimento requerido para deixar um O Direito de Nova Iorque características “proíbe aos que combatentes empregar maior armas ao que. como biológicas. em qualquer ataques diretos contra pessoas de civis. duradouros e graves ao meio ambiente natural. o que significa o envolvimento de dois ou mais Estados.org/web/por/sitepor0. Disponível em: cicr. o Protocolo II e o Artigo 3 comum às Convenções. Asúnico armas que violam os "ditames da consciência pública" também podem ser Não atacar o pessoal médico ou sanitário nem suas extensos.org/Web/por/sitepor0. de armas bacteriológicas e sua b) Convenção de 1993 – proibição de armas químicas e sua principais tratados constantes do destruição. o adversário que se rende ou é capturado. Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos náufragos. civil. Somente podem ser atacados os objetivos militares. Respeitar os civis e seus bens. Dentre os e permitir que façam seu trabalho. também denominado “mini-convenção” são aplicáveis a conflitos armados não-internacionais. Tratar com humanidade o adversário que se rende ou é capturado. e c) Convenção de 1997 – Tratado de Otawa: proibição do emprego. oAcesso número de mortos feridos entre danos causados a bens de caráter http://www. Disponível Não atacar o pessoal médico ou humano. o número de mortos e de feridos entre os civis. As armas que violam os "ditames da consciência pública" também podem ser indiscriminadas ou que possuam características que causarão sofrimento maior ao requerido para deixar um proibidas defora acordo com esse argumento. 72 assim Acesso em: 19 junho 2005.org/Web/por/sitepor0. assim como os prisioneiros ou detidos. Direito de Nova Iorque. Disponível em: transferência de minas anti-pessoais a sua destruição. Somente podem ser atacados os objetivos militares. por natureza.cicr. Tratar com humanidade o adversário que se rende ou é Tratar com humanidade capturado. ou incendiárias. sejam Não “proíbe causar aos sofrimentos ou empregar danos excessivos. náufragos. http://www. produção e 146 FGV DIREITO rio 67 Acesso em: 19 e sobre de junho de 2005.cicr. o professor poderá apresentar aos .org/web/por/sitepor0. Disponível em: minimizar. Em tratados específicos são causem proibidos ou proibidas de acordo com esse único argumento. armas químicas e sua transferência de minas anti-pessoais e sobre a sua destruição. químicas. população civil ou bens de caráter civil.nsf/ principais tratados constantes do Direito de Nova Iorque.” em: e de19 de os civis.nsf/iwpList104/846A586AE20F1419C1256DEA00349CD7) . sem discriminação alguma. b) Convenção 1993 –do proibição deestocagem.nsf/htmlall/section_ihl_weapons?OpenDocument. minimizar.nsf/htmlall/section_ihl_conduct_of_hostilities?OpenDocument. o duradouros e certas graves ao meio ambiente natural.cicr. 2005. 256DEA00349CD7).” sanitárioAcesso nem suas instalações http://www. Dentre os 2005. Importante ressaltar que a aplicabilidade de tais normas não está condicionada à declaração formal de guerra. 146 146 http://www. Disponível em: como de projéteis que explodem ou se alastram facilmente no corpo em: 19 de junho de em: http://www. ae proibição dos situação ataques Não causar sofrimentos oude danos excessivos. Em tratados específicos são proibidos ou como de projéteis que explodem ou secomo alastram facilmente químicas. e c) Convenção de 1997 – Tratado de Otawa: de proibição emprego. encontram-se: a) Convenção de 1992 – proibição iwpList104/A586AE20F1419C1 http://www. junhoassim como de os 2005. alunos uma linguagem dos princípios CV é possível enumerar os representativa princípios regedores do DIH: gerais regedores do DIH: aos alunos uma linguagem representativa dos princípios gerais regedores do DIH: Somente podem ser atacados os objetivos militares. sejam combatente fora de combate.cicr. bastando o fato de um conflito armado.org/web/por/sitepor0. De acordo com gráficos apresentados no site do CICV146. assim limitados emprego de armas. laser cegantes ou em: incendiárias.org/web/por/sitepor0.nsf/iwpList104/846A586AE20F1419C1256DEA00349CD7) Acesso em: 19 de junho de 2005. sem discriminação alguma. laser cegantes extensos. destruição. Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos náufragos. e em qualquer situação civil. assim como os prisioneiros ou detidos.” Acesso em: 19 de junho de 2005. população ou bens caráter civil. sem discriminação alguma. o professor poderá apresentar Princípios fundamentais: De acordo com gráficos apresentados no site do CI146 De72 acordo com gráficos apresentados no site do CICV146 .

org/Web/por/sitepor0. notadamente penal e processual. Disponível em: http://www. é também tarefa do Estado estabelecer medidas de repressão. em Assim são tivo. comum e militar e processual penal comum e militar. o sinal cruz vermelha em por fundo branco. Não colocar obstáculos ao pessoal da Cruz Vermelha no desempenho de suas funções. instituição imparcial capaz de acompanhar a veracidade das alegadas violações ao DIH. de infrações às normas de DIH: tendo em vista a necessidade de se estabelecer uma autoridade neutra capaz de arbitrar um conflito armado. Tal instituição foi consagrada pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas de 1961. serviço e principalmente a capitais. FGV DIREITO rio 68 . o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) acaba por agir como substituto da potência. em virtude exércitos. para os países que empregam já como sinal distinde em sua condição. prisioneiros de guerra. Estabelece ainda que.. por meio da nomenclatura ‘Potência Protetora’. o crescente vermelho ou o leão o sol vermelhos considerados os feridos. o direito consuetudinário 162 reconheceu. em especial a autorida147 civis e militares. o Estado obriga-se não ataques ou outros atos hostis (destruição. Por sua vez. meio de tais gráficos à relevância concedida cores federais. Bens protegidos: aqueles que devem ser protegidos contra Aplicabilidade do DIH: ao assinar um tratado de DIH. em homenagem à Suíça. Nesse sentido. seja comum ou militar. as fronteiras estatais diminuem no que concerne a mercadorias. o Estado deve envidar todos os esforços para cessar condutas que afrontam o DIH e deve punir os autores de condutas adversas a esse direito. os são enfermos. uma vez que a violação das regras de DIH corresponde à violação de regras de caráter interno..). merecem tratamento especial por eparte do DIH. estes emblemas igualmente reconhecidos nos termos da presente Convenção. sanitário e religioso. apenas às normas nele constantes. confisco etc . Assume ainda a obrigação de adotar medidas preventivas. De acordo com o artigo 38 da Convenção I de Genebra. a designação de um Estado alheio ao conflito. notadamente no que se refere às normas de caráter penal 147 de transporte sanitários.cicr. mas também a adequar a sua legislação interna de Exemplos de bens protegidos: bens de caráter civil e bens culturais. Vivencia-se hoje um enorme fluxo migracional. o Protocolo I de 1977 convencionou a criação da Comissão Internacional de Apuramento dos Fatos. formado pela inversão das Cabe ao heráldico professorda chamar à atenção. é mantido como emblema e sinal distintivo do serviço de saúde dos pelo DIH a duas categorias específicas: Pessoas protegidas: pessoas que. Considerada a dificuldade de eleição de tal Estado.nsf/htmlall/section_ihl_protected_persons_and_property?OpenDocu Igualmente. Não colocar obstáculos ao pessoal da Cruz Vermelha no desempenho de suas funções. captura. des Acesso em: 19 de junho de 2005. represálias. causado muitas vezes pelas próprias decorrências do capitalismo que não encontra nas fronteiras a mesma flexibilidade. náufragos. por outro. unidades e meios forma a compatibiliza-la. seja em tempo de paz ou de guerra. civis. vez da cruz vermelha. fundamentais à determinação ment. Por fim. direitos humanos Não atacar o pessoal médico ou sanitário nem suas instalações e permitir que façam seu trabalho. nunca estiveram tão altas no que concerne a pessoas. como a de difusão do conteúdo dos tratados. deve assegurar medidas de controle.Não causar sofrimentos ou danos excessivos. pessoal fundo branco. Direitos Humanos e Direito dos Refugiados A globalização econômica desnuda um paradoxo: por um lado.

de janeiro de 195173 e temendo ser perseguida por motivo de raça. devido ao referido temor. aprovada em 1969. Estabelece. Todavia. inciso 2: 2. O termo “refugiado” aplicar-se-á também a toda pessoa que. grupo social ou opiniões políticas. em virtude desse temor. O Direito Internacional dos Refugiados: uma perspectiva brasileira.”74 Há de se destacar que a concepção clássica de refúgio. nacionalidade. Nádia de. está obrigada a abandonar sua residência habitual para buscar refúgio em outro lugar for do seu país de origem ou do país de sua nacionalidade.). caracteriza-se como subjetiva e individual. e ALMEIDA. “criado em um contexto de Guerra Fria. Rio de Janeiro: Renovar. estabelece que: MELO. A Convenção estabeleceu a definição clássica de refugiado como qualquer pessoa que: (. entrando em vigor em 1974. Nesse sentido. Guilherme de (orgs. ou do país de sua nacionalidade. em determinadas situações. religião. o que se coaduna perfeitamente à dualidade de sistemas vivenciada no pós-guerra: os refugiados podiam ser vistos como troféus de um sobre o outro. adaptando-no à realidade regional. em seu artigo 1. A ampliação do conceito também teve palco no continente americana. uma ocupação ou uma dominação estrangeira ou de acontecimentos que pertubem gravemente a ordem pública em uma parte ou na totalidade de seu país de origem. 134 países comprometeram-se com a causa no momento da assinatura da Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 e do Protocolo de 1967. erigindo a necessidade de revisão do conceito do refúgio. A proteção ao refugiado encontra abrigo no marco fundamental dos direitos humanos: assinada em 1948. por ocasião da Declaração de Cartagena de 1984. A primeira iniciativa de ampliação encontra-se na Convenção da Organização da Unidade Africana.direitos humanos É claro que o ‘deslocar-se’ faz parte da história. O Direito Internacional dos Refugiados vem galgando importantes passos ao longo de sua história. este conceito tem como centro a questão da perseguição. Originalmente. no contorno específico da figura do refugiado.. 267. p. Em sua terceira conclusão. mas foi o final da SegundaGuerra Mundial o marco inaugural para o abrigo internacional a sua proteção. 74 FGV DIREITO rio 69 . se encontra fora do país de sua nacionalidade e que não pode ou.. se não tem nacionalidade e se encontra fora do país no qual tinha sua residência habitual em conseqüência de tais acontecimentos não pode ou. a Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelece que toda pessoa vítima de perseguição tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países. concebida no descrito contexto. por causa de uma agressão exterior. não quer voltar a ele. 73 O Protocolo de 1967 veio justamente a retirar a restrição temporal impressa pela Convenção. 2001. Carolina de Campos. não quer valer-se da proteção desse país ou que. In: ARAÚJO. a realidade internacional demonstrou a incapacidade desse conceito jurídico em dar uma resposta a situações fáticas.) em conseqüência de acontecimentos acorridos antes de 1o. “Revisitando o conceito de refúgio: perspectivas para um patriotismo constitucional”. tendo como base a idéia de perseguição.

violações maciças de direitos humanos e conflitos armados podem ser indicados por fatores determinantes para a saída de determinados grupos de um país. foram as necessidades de proteção que levaram o ACNUR. desse modo. “A visão tradicional concentrava atenção quase que exclusivamente na etapa intermediária de proteção (refúgio). p. no que concerne à solução duradoura. mas a violação de direitos humanos assume a condição de situação que acarreta refúgio. proteção e solução. 322. Percebe-se uma clara objetivação do conceito de refúgio. parágrafo 2) e a doutrina utilizada nos informes da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. A. FGV DIREITO rio 70 . uma década depois de Cartagena. os conflitos internos. e dentro das características da situação existente na região.”76 No que se refere à etapa preventiva. interação local. Tanto a concepção africana quanto a americana demonstram como a realidade conduziu a necessidade de adequação da Convenção de 1951. Não se pode mais alimentar a compartimentalização da proteção da pessoa humana. Afinal. p. cabendo ao Estado CANÇADO TRINDADE. Dentre elas.) faz-se necessário encarar a extensão do conceito de refugiado. Por sua vez. a definição ou conceito de refugiado recomendável para sua utilização na região é aquela que além de conter os elementos da Convenção de 1951 e do Protocolo de 1967. a etapa da proteção tem no princípio do non refoulement sua principal viga. Cumpre ressaltar que os países americanos reiteram a perspectiva ampliada do conceito de refúgio no ano de 1994. a ampliar seu enfoque de modo a abranger também a etapa ‘prévia’ de prevenção e a etapa ‘posterior’ de solução duradoura (repatriação voluntária. Esta declaração aprofundou as relações entre o DIR e o DIDH ao tratar de forma mais aprofundada questões deslocamentos forçados. É precisamente nesse sentido que se constrói a estratégia do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). segurança ou liberdade foram ameaçadas pela violência generalizada. destaca-se a integração local. 320. nos últimos anos. De acordo com Cançado Trindade. op. segundo as razões que os teriam levado a abandonar seus lares. o DIDH deve contracenar com o DIR em três momentos: prevenção. A. “vem-se passando gradualmente de um critério subjetivo de qualificação de indivíduos. tendo-se em conta. Nesse sentido. a um critério objetivo concentrado antes nas necessidades de proteção. 75 76 Idem. constituindo campo de implantação concomitante do DIDH e do DIH. o qual deixa de ter a idéia de perseguição como fundamental. cabem alguns esclarecimentos: ultrapassada a concessão de refúgio por órgão independente e especializado. por ocasião da Declaração de San José. a violação massiva dos direitos humanos ou outras circunstâncias que tenham perturbado gravemente a ordem pública. resta claro que o DIR e o DIDH passam a ter não apenas progressiva interação. o precedente da Convenção da OUA (artigo 1. considere também como refugiados as pessoas que fugiram de seus países porque sua vida.”75 Os conceitos descritos conduzem ainda à premissa que permeia a presente aula.. a agressão estrangeira. Por fim.cit. deve ser estipulada uma solução considerada duradoura para os refugiados. reassentamento). no pertinente..direitos humanos (.

de 28 de janeiro de 1961. nem todas as pessoas que têm que deixar seus lares cruzam as fronteiras. o Estado brasileiro aceitou as vítimas da guerra civil angolana com base na Declaração de Cartagena. O diagnóstico das nacionalidades vêm sofrendo alterações ao longo dos anos. br/site/noticias/17275. Tal cláusula fez com que. até que fosse levantada em 1989. 79 FGV DIREITO rio 71 . estimandose em 9. a d i t a l. Por mais que as condições que expulsam os refugiados e os deslocados de seus lares possuam o mesmo cerne – afirmativa que encontra respaldo no conceito objetivo de refugiados – somente aquele que cruza a fronteira pode perquirir o status de refúgio. incluindo os solicitantes de asilo. 155 a 159.78 De acordo com a tabela abaixo. Disponível em: h t t p : / / w w w. Fonte: CONARE Acesso em: 27 de junho de 2005. ao incorporar a Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951.215. Disponível em: h t t p : / / w w w. Originalmente criado com tarefa restritiva aos refugiados. Entre os anos de 1992 e 1994. o mesmo não se pode dizer dos deslocados. em retrospectiva histórica. como educação e trabalho. o Brasil recebe cerca de 1200 angolanos. Por fim. Interessante ressaltar que. é possível vislumbrar o atual retrato dos refugiados no Brasil: Tabela 1 – Total de Refugiados no Brasil em fevereiro de 200579 (acnur e conare) Continente de procedência África América (América Latina e Caribe) Ásia Europa Total Total  2. c o m .2 milhões. cit. o Brasil recebe hoje milhares de refugiados. asp?lang=PT&cod=17275.2 milhões o total atual. op. Como ilustrado o terceiro texto inicial da Nota ao Aluno.”77 Por fim. Como ressalta Guilherme de Almeida. Todavia. G. retornados. o dado global de pessoas das quais se ocupa o ACNUR. a qual estipula o Brasil aceitaria somente refugiados originados do continente europeu. Se o número de refugiados vem diminuído ao longo dos últimos anos. no ano de 2004. apesar do decréscimo. asp?lang=PT&cod=17275. como foi o caso de 150 vietnamitas em 1979/80 e 50 famílias Bahai (Irã) em 1986. solicitantes de asilo e retornados. 77 78 ALMEIDA. o ACNUR tem desenvolvido diversas atividades que contemplam os deslocados. Mas.direitos humanos todas as providências necessárias para o exercício dos direitos humanos por parte dos refugiados. apátridas e um total de 6. o mais baixo em quase 25 anos. cabem aqui algumas ponderações sobre os refugiados no Brasil. br/site/noticias/17275.506 274 181 113 3074 Acesso em: 27 de junho de 2005. o Decreto nº 50.4 milhões de deslocados internos aumentou para 19. de forma a garantir o princípio do non refoulement. mesmo em momento anterior à elaboração da Lei nº 9747/97 que abrigou tanto a concepção clássica quanto a ampliada de refugiado. sendo absolutamente necessária a anuência do refugiado. a d i t a l. estabelece uma “reserva” geográfica. há também o reassentamento quando o refugiado vai para um terceiro país. Cabe também a repatriação. c o m . apátridas. alguns grupos fossem recebidos com outro título. pp. o ACNUR assevera que “o número global de refugiados baixou em 4%. Em se mais recente Relatório.

torna-se significativo o número de refugiados latinoamericanos. 284-352 (Cap. 270-284 (Cap. Órgão coletivo sediado no Ministério da Justiça. voltamos ao objeto desse curso: a efetiva proteção dos direitos humanos. Todavia.direitos humanos Tais números refletem os pedidos de refúgio acolhidos antes e depois de 1998. itens III e XII). 2001. Fica clara a preponderância de refugiados de origem africana. DIH e DIR? Qual a principal distinção? Porque a guerra deve ser objeto de restrições? Quais os princípios regedores do DIH? O que significa o princípio do non refoulement? Qual é a diferença normativa entre refugiados e deslocados? Quais requisitos devem ser preenchidos para a aquisição do status de refugiado no Brasil? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. O direito internacional dos refugiados: uma perspectiva brasileira. pp. as seguintes perguntas poderão auxiliar o professor na condução da aula: • • • • • • • Quais são as principais interações entre o DIDH. É certo que a ampliação da definição constitui uma forma de se contemplar grupos que tiveram que deixar seus lares por diferentes razões. Nádia de. Rio de Janeiro: Renovar. notadamente provenientes da Colômbia. A contabilidade de refugiados e deslocados está recortada a um determinado período histórico. VIII. Antonio Augusto. I. Vol. o CONARE é responsável pelo exame das solicitações de refúgio e pela elaboração de políticas públicas para os refugiados. 1997. I. Guilherme Assis de. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. pp. CANÇADO TRINDADE. como é o caso dos deslocados. organizações internacionais como o ACNUR tiveram que expandir o universo de grupos sob sua responsabilidade. Antonio Augusto. Leitura acessória ARAÚJO. Da mesma forma. 1997. Vol. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Todavia. VIII. há de se ressaltar que nos últimos anos. Tratado de direito internacional de direitos humanos. itens I e II). momento de constituição do Comitê Nacional para Refugiados (CONARE). a elasticidade conceitual deve ser respeitada pela aplicação de medidas preventivas que evitem que refugiados e deslocados tenham que dar início à partida. Tratado de direito internacional de direitos humanos. FGV DIREITO rio 72 . e ALMEIDA. Dentre elas. Diante de todo o exposto.

Frits e ZEGVELD. pp. São Paulo: Max Limonad. 115 – 146. Liesbeth. PIOVESAN. 21 – 41. Buenos Aires: Centro de Apoyo en Comunicación para América – Comitê Internacional de la Cruz Roja. pp. Flávia. FGV DIREITO rio 73 . Temas de Direitos Humanos. Introducción al derecho internacional humanitario. 2003. Legislação: Constituição Federal de 1988 Convenções de Genebra de 1949 Protocolos Adicionais de 1977 Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 Atividade Complementar: Filme “O Resgate do Soldado Ryan” de Steven Spielberg.direitos humanos KALSHOVEN. In: PIOVESAN. Restricciones en la coducción de la Guerra. 2003. “O direito de asilo e a proteção internacional dos refugiados”. Flávia.

não conseguiram entender o que lhe era solicitado. ao entrar no sistema informatizado do Departamento de Aviação Civil (DAC). No entanto. Santiago Gúzman realiza o transporte de sementes medicinais entre diversas localidades em seu avião de pequeno porte. FGV DIREITO rio 74 . sua matrícula. Ao entrarem no espaço aéreo brasileiro. tipo de aeronave. país reconhecido como importante fonte de substâncias entorpecente. Santiago e seu co-piloto. quando partia da Colômbia para a Ilha de Marajó. Gúzman e Gonzáles mantiveram sua rota original. Antônio Gonzales foram as primeiras vítimas da Lei do Tiro de Destruição. foram fotografados por uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) a fim de verificar. que possui membros em toda região amazônica. Estiveram presentes autoridades. Logo em seguida. inclusive no Peru. Estado do Pará. Dessa forma. o que causou verdadeira situação de pânico para os pilotos. Em 20 de outubro de 2004. Dentre os principais argumentos. o piloto da FAB tentou contato via rádio. foi disparado tiro com o intuito de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo. uma das aeronaves da FAB disparou tiros de advertência laterais à aeronave. Tais dados foram enviados a Autoridade de Defesa Aeroespacial que. A impossibilidade de identificação da aeronave e a procedência da Colômbia. Tiveram início as medidas de intervenção: duas aeronaves da FAB aproximaram-se ostensivamente. na qual foi debatido exaustivamete o assunto. destaque-se: Ministério da Defesa Sustenta que o Estado brasileiro tem o dever de defender sua soberania nacional – um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito – sempre em conformidade com as normas legais. conduziram-na à condição de suspeita. entre outras coisas. Em procedimento objeto de registro sonoro. mas os pilotos. representantes de organizações e familiares das vítimas. Pelo fato de Gúzman e Gonzales terem prosseguido em sua rota. por um problema técnico. é membro da Associação Amigos das Sementes. emitindo sinais visuais para o pouso imediato da aeronave.direitos humanos Aula 12: Os direitos civis e políticos: direito à vida NOTA AO ALUNO Santiago Gúzman. a hipótese do abate do avião colombiano. mais conhecida como Lei do Abate. fazendo com que a comunicação fracassasse. Há mais de 10 anos. a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados convocou uma Audiência Pública. nível de vôo. não conseguiu identificar a aeronave. o avião foi considerado hostil. Diante do acontecido. como medida de intervenção. embora não tivessem percebido. Colômbia e Venezuela. Como medida de averiguação. os disparos foram além de sua finalidade: o avião foi abatido e os tripulantes faleceram. após ordem do Comandante da Aeronáutica. colombiano.

uma vez que os tripulantes foram condenados sem julgamento e direito à ampla defesa. uma vez que os mesmos estavam ameaçando a soberania e. Ademais. foi aplicada aos 2 tripulantes.direitos humanos além de estar legalmente prevista. conseqüentemente. a falta de habilitação do piloto. Questão De que forma a Lei do Tiro de Destruição protege a soberania nacional? O abate do avião colombiano viola o direito à vida? Os tripulantes. nesse caso. pelo uso ou tráfico. O grupo reconhece que a lei é dura e drástica. vedada expressamente pela Constituição Federal brasileira (salvo em caso de guerra declarada). desatualização do exame médico. e não-utilização de fonia para não pagar as tarifas de proteção ao vôo podem ser apontadas como falhas que não devem ter como conseqüência a violação do direito à propriedade das aeronaves. direito consagrado constitucionalmente. não se opõe ao direito à vida dos tripulantes. O Poder Judiciário é o órgão competente para julgar e condenar alguém. se o piloto resolve ignorar sete medidas que visam sua identificação. além de ser consagrado internacionalmente. Associação Nacional de Empresas Aeroviárias O mau funcionamento do sistema de comunicações. Organização pela independência do poder judiciário Sustenta que o abate ao avião colombiano constitui ofensa ao devido processo legal. atende não apenas a um interesse público superior e socialmente legítimo como ao princípio constitucional da segurança pública. o abate ao avião colombiano significa que a pena de morte. milhares de pessoas. o direito à vida. tendo em vista que. não podendo haver decisão extrajudicial. mas sustenta ser um mal necessário para se combater um mal maior. Defensores da Lei e Ordem Argumentam que a lei é importante e necessária pois o consumo de drogas no Brasil e no mundo é uma tragédia cotidiana que mata anualmente. Assim. a vida de seus cidadãos. suspeitos de tráfico de drogas. a fuga. e em última conseqüência. deveriam ter tido os direitos à ampla defesa e de ser julgados pelo Poder FGV DIREITO rio 75 . equipara-se à resistência à prisão. Sendo assim. constitui um dos direitos fundamentais do ordenamento jurídico brasileiro. Defensores dos Direitos Humanos Sustenta que o direito à vida deve ser garantido e promovido em todas as hipóteses. O Estado deve investir em meios alternativos de controle.

.] II – declarar a guerra e celebrar a paz... salvo em caso de guerra declarada.. LV – aos litigantes. [.. [. [. 84..] VI – defesa da paz.] II – prevalência dos direitos humanos... 4º. defesa aeroespacial. bem como as posições acima mencionadas para responder tais questões.] XXII – executar os serviços de polícia marítima. 21. [. A República Federativa do Brasil...] LIII – ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente.. aeroportuária e de fronteiras. à segurança e à propriedade. constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: [. aérea e aeroespacial.] Art. em processo judicial ou administrativo.. [. [. 22.. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida... fluvial. [.. FGV DIREITO rio 76 .] XXXVII – não haverá juízo ou tribunal de exceção. [. defesa civil e mobilização nacional (grifou-se).. 5º.] XXVIII – defesa territorial. [.] Art. marítima...direitos humanos Judiciário? Utilize a legislação brasileira (abaixo).. nos termos do art..] XLVII – não haverá penas: a) de morte.] X – regime dos portos. navegação lacustre.. LIV – ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal. no mínimo.. à igualdade. Compete privativamente à União legislar sobre: [. A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: [. dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal.. defesa marítima. [.. sem distinção de qualquer natureza. Todos são iguais perante a lei...] III – a dignidade da pessoa humana.] Art. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal.] Art. Legislação Constituição Federal de 1988 Art. Compete à União: [. com os meios e recursos a ela inerentes. A Constituição poderá ser emendada mediante proposta: I – de um terço. III – assegurar a defesa nacional. 60.. à liberdade. e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa. XIX.] Art. 1º. nos termos seguintes: [...

expor à venda ou oferecer. Lei nº 6. de qualquer forma. usando moderadamente dos meios necessários. a consumo substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. ter em depósito.848. adquirir. manifestando-se. ter em depósito. remeter. Entende-se em legítima defesa quem.] Legítima defesa Art.. ministrar ou entregar. 25. guardar. Evadir-se ou tentar evadir-se o preso ou o indivíduo submetido a medida de segurança detentiva. e pagamento de 50 (cinqüenta) a 360 (trezentos e sessenta) dias-multa.. prescrever.. de 21 de outubro de 1976 Dispõe sobre medidas de prevenção e repressão ao tráfico ilícito e uso indevido de substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou psíquica. indevidamente: I – importa ou exporta. a consumo substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. pela maioria relativa de seus membros. guardar. adquirir. fabricar.. transportar. § 1º. produzir. fornece ainda que gratuitamente. fornecer ainda que gratuitamente. vende.] Art 12. preparar. fabricar.. de qualquer forma. sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar. traz consigo ou guarda matéria-prima destinada a preparação de substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica.] IV – os direitos e garantias individuais. II – semeia. remeter. de 7 de dezembro de 1940. vender. preparar.. transporta. adquire.. repele injusta agressão. produz. remete. Importar ou exportar.direitos humanos II – do Presidente da República. de 3 (três) a 15 (quinze) anos. Pena – Reclusão. tem em depósito. vender. atual ou iminente. sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar. produzir.] § 4º – Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: [. de três meses a um ano. trazer consigo. FGV DIREITO rio 77 .368. [. [. expõe à venda ou oferece. Nas mesmas penas incorre quem. cada uma delas. usando de violência contra a pessoa: Pena – detenção. Art 12. [. além da pena correspondente à violência. Código Penal Decreto-lei no 2. e dá outras providências. prescrever. trazer consigo...] Evasão mediante violência contra a pessoa Art.. fabrica. 352. expor à venda ou oferecer. Importar ou exportar. cultiva ou faz a colheita de plantas destinadas à preparação de entorpecente ou de substância que determine dependência física ou psíquica. III – de mais da metade das Assembléias Legislativas das unidades da Federação. a direito seu ou de outrem [. fornecer ainda que gratuitamente. ministrar ou entregar. transportar.

e pagamento de 50 (cinqüenta) a 360 (trezentos e sessenta) dias-multa. expõe à venda ou oferece. utilizados para a prática dos crimes definidos nesta Lei.] Art 18. (Parágrafo acrescentado pela Lei nº 9. embarcações. traz consigo ou guarda matéria-prima destinada a preparação de substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. [. de 21 de outubro de 1976. A autoridade aeronáutica poderá empregar os meios que julgar necessários para compelir a aeronave a efetuar o pouso no aeródromo que lhe for indicado.. entrando no espaço aéreo brasileiro.] Art. utensílios. de 5.1998) – grifou-se. 34. IV – para verificação de sua carga no caso de restrição legal (artigo 21) ou de porte proibido de equipamento (parágrafo único do artigo 21). III – para exame dos certificados e outros documentos indispensáveis. transporta. [. indevidamente: I – importa ou exporta.3. As penas dos crimes definidos nesta Lei serão aumentadas de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços): I – no caso de tráfico com o exterior ou de extra-territorialidade da lei penal. adquire. Lei nº 7. ficarão sob custódia da autoridade de polícia judiciária. Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos.368. 303. nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada. V – para averiguação de ilícito. § 1°. remete. que serão recolhidas na forma da legislação específica (grifou-se). após a sua regular apreensão. Nas mesmas penas incorre quem. ficando sujeita à medida de destruição. § 1º. fornece ainda que gratuitamente. fazendárias ou da Polícia Federal. a aeronave será classificada como hostil.804. excetuadas as armas. aeronaves e quaisquer outros meios de transporte. produz. § 2°.. vende.565. assim como os maquinismos.direitos humanos Pena – Reclusão. Lei nº 9. de 19 de dezembro de 1986 (Código Brasileiro de Aeronáutica) Art. II – se. de 3 (três) a 15 (quinze) anos. A aeronave poderá ser detida por autoridades aeronáuticas. tem em depósito. Os veículos.. instrumentos e objetos de qualquer natureza. ou das autorizações para tal fim.614. cultiva ou faz a colheita de plantas destinadas à preparação de entorpecente ou de substãncia que determine dependência física ou psíquica. de 30 de junho de 1999 Altera a redação do art 34 da Lei nº 6.. fabrica. II – semeia. desrespeitar a obrigatoriedade de pouso em aeroporto internacional. FGV DIREITO rio 78 . nos seguintes casos: I – se voar no espaço aéreo brasileiro com infração das convenções ou atos internacionais. que dispõe sobre medidas de prevenção e repressão ao tráfico ilícito e uso indevido de substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou psíquica.

.. de 19 de dezembro de 1986..... passa a vigorar acrescido de um parágrafo.614.... O PRESIDENTE DA REPÚBLICA.... DECRETA: Art.... da Constituição.... 5 de março de 1998. é considerada aeronave suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins aquela que se enquadre em uma das seguintes situações: I – adentrar o território nacional........ de 19 de dezembro de 1986..... Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos. de 19 de dezembro de 1986..... renumerando-se o atual § 2º como § 3º........ 303 da Lei no 7.. 177º da Independência e 110º da República..... 303 da Lei no 7..3.614.... § 3º.. inciso IV.. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação...” Art..... no uso da atribuição que lhe confere o art. 1o.. para incluir hipótese destruição de aeronave O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o CONGRESSO NACIONAL decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art. A autoridade mencionada no § 1° responderá por seus atos quando agir com excesso de poder ou com espírito emulatório... 1º...565.. nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada (grifou-se)..... a aeronave será classificada como hostil..direitos humanos § 3°...... Lei nº 9.. 303.565... sem Plano de Vôo aprovado. FERNANDO HENRIQUE CARDOSO Decreto nº 5... de 16 de julho de 2004 Regulamenta os §§ 1º... 2º....1998)........... A autoridade mencionada no § 1º responderá por seus atos quando agir com excesso de poder ou com espírito emulatório.... oriunda de regiões reconhecidamente fontes de produção ou distribuição de drogas ilícitas. Para fins deste Decreto............ de 5 de março de 1998 Altera a Lei nº 7... numerado como § 2º.. (§ 2°renumerado e alterado pela Lei nº 9.... O art...............565... .. Brasília. 84....144.............. Art....... ficando sujeito à medida de destruição... que dispõe sobre o Código Brasileiro de Aeronáutica.... Este Decreto estabelece os procedimentos a serem seguidos com relação a aeronaves hostis ou suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins... levando em conta que estas podem apresentar ameaça à segurança pública. no que concerne às aeronaves hostis ou suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins....... § 2º... na forma seguinte: “Art.. 2o e 3o do art........ ou FGV DIREITO rio 79 ..... e tendo em vista o disposto nos §§ 1o. 2o... de 19 de dezembro de 1986.... de 5.... 2º e 3º do art.565.. 303 da Lei nº 7....

com munição traçante. IV – execução sobre áreas não densamente povoadas e relacionadas com rotas presumivelmente utilizadas para o tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins. III – execução por pilotos e controladores de Defesa Aérea qualificados. As medidas de averiguação visam a determinar ou a confirmar a identidade de uma aeronave. Art. pela aeronave interceptadora. executadas por aeronaves de interceptação. Art. consistindo na aproximação ostensiva da aeronave de interceptação à aeronave interceptada. de conhecimento obrigatório dos aeronavegantes. com o objetivo de persuadi-la a obedecer às ordens transmitidas. A medida de destruição consiste no disparo de tiros. e V – autorização do Presidente da República ou da autoridade por ele delegada. por intermédio de comunicação via rádio ou sinais visuais. § 3o. para ser submetida a medidas de controle no solo. com a finalidade de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo da aeronave hostil e somente poderá ser utilizada como último recurso e após o cumprimento de todos os procedimentos que previnam a perda de vidas inocentes. feitos pela aeronave de interceptação. As medidas de persuasão seguem-se às medidas de intervenção e consistem no disparo de tiros de aviso. ou não cumprir determinações destes mesmos órgãos. A aeronave suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins que não atenda aos procedimentos coercitivos descritos no art. 6 o. por meio da Publicação de Informação Aeronáutica (AIP Brasil). 7o. II – registro em gravação das comunicações ou imagens da aplicação dos procedimentos. se estiver cumprindo rota presumivelmente utilizada para distribuição de drogas ilícitas. § 1o. destinada aos aeroFGV DIREITO rio 80 . A medida de destruição terá que obedecer às seguintes condições: I – emprego dos meios sob controle operacional do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro – COMDABRA. 3o será classificada como aeronave hostil e estará sujeita à medida de destruição. com o objetivo de compelir a aeronave suspeita a efetuar o pouso em aeródromo que lhe for indicado e ser submetida a medidas de controle no solo pelas autoridades policiais federais ou estaduais. antes de sua vigência. ou. de acordo com as regras de tráfego aéreo. de maneira que possam ser observados pela tripulação da aeronave interceptada. Art. segundo os padrões estabelecidos pelo COMDABRA. 4o. 2o estarão sujeitas às medidas coercitivas de averiguação. com a finalidade de interrogá-la. Art. no ar ou em terra. intervenção e persuasão. 3o. O teor deste Decreto deverá ser divulgado. As medidas de intervenção seguem-se às medidas de averiguação e consistem na determinação à aeronave interceptada para que modifique sua rota com o objetivo de forçar o seu pouso em aeródromo que lhe for determinado. § 2o. de forma progressiva e sempre que a medida anterior não obtiver êxito. ainda. 5o. As aeronaves enquadradas no art. a vigiar o seu comportamento.direitos humanos II – omitir aos órgãos de controle de tráfego aéreo informações necessárias à sua identificação. Art.

a pena de morte no Brasil. Art.1998. suspeitos do tráfico de drogas. XLVII). Notícias prévias Inconstitucionalidade da Lei do Abate80 A Lei nº 9614. ao aprovar essa Lei. Essa Lei é flagrantemente inconstitucional. de 16. ou seja. aplicando. a lei não se aplica aos aviões militares. quando agirem com excesso ou abuso de poder. Pior: essa Lei instituiu a execução extrajudicial. 12. conforme pretenderam o Congresso Nacional. pelos pilotos da FAB. Disponível em: http:// www. essa Lei passou desapercebida. de tão graves conseqüências. cada qual nos limites de suas atribuições. porque a nossa Constituição garante o direito à vida e proíbe a pena de morte. em relação às “aeronaves suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins”.pro. 16 de julho de 2004. 2004. Art.direitos humanos navegantes e de conhecimento obrigatório para o exercício da atividade aérea no espaço aéreo brasileiro. 8o. estabelecendo os procedimentos que deverão ser seguidos. a destruição de aeronaves suspeitas de estarem transportando drogas. José Viegas. 10. após o descumprimento de nove procedimentos. Fica delegada ao Comandante da Aeronáutica a competência para autorizar a aplicação da medida de destruição. no espaço aéreo brasileiro. na prática. “porque se trata de resistência à prisão e as aeronaves somente serão destruídas se os seus pilotos não obedecerem às ordens Artigo escrito por Fernando Lima. Esse Decreto entrará em vigor no próximo dia 18 de outubro. deverá adequar toda documentação interna ao disposto neste Decreto.07. professor de Direito Constitucional da UNAMA. mas agora o Presidente Lula assinou o Decreto nº 5144. a pena de morte.03. antes de sua destruição. mas os aviões clandestinos civis. salvo em caso de guerra declarada (art. introduziu.07. permitindo a condenação e a execução sumária de todos os passageiros dos pequenos aviões civis.tex. da apreciação do Poder Judiciário. sem o devido processo legal. e os pilotos encarregados de sua execução já estiveram em Belém. 9o. htm. assim. 5º. em 05. causando a morte do piloto e dos passageiros. Art. Art. Brasília. 11. Como ainda não havia sido regulamentada. efetuados pela FAB. O Ministro negou. nacionais ou estrangeiros. uma decisão. 183o da Independência e 116o da República. poderão ser derrubados. 80 FGV DIREITO rio 81 . peremptoriamente. As autoridades responsáveis pelos procedimentos relativos à execução da medida de destruição responderão. como a de derrubar uma aeronave em vôo. ao permitir o tiro de abate. na semana passada. efetuando os necessários treinamentos. que se trate de uma condenação à morte. Os procedimentos previstos neste Decreto deverão ser objeto de avaliação periódica. O Ministério da Defesa. pelos seus atos.2004. Este Decreto entra em vigor noventa dias após a data de sua publicação. que a regulamentou. Art.2004. e o Presidente da República. Mas será possível excluir. sem o devido processo legal e em tempo de paz? De acordo com o Ministro da Defesa. com vistas ao seu aprimoramento. sem julgamento. pela simples suspeita do tráfico de drogas. Acesso em: 08 nov.br/wwwroot/ 02de2004/inconstitucionalidadedaleidoabatefernandolima. de 05. por intermédio do Comando da Aeronáutica.

não podendo matá-los. que na Colômbia e no Peru. Aliás. se o seu motorista não obedecesse à ordem de parar. Evidentemente. no encalço do delinqüente. por pressão dos Estados Unidos. se não se tratasse de um assunto tão sério. Os argumentos seriam ridículos. porque a opinião pública será levada a acreditar que essa Lei contribuirá para reduzir a entrada de drogas no País e também para impedir que o nosso espaço aéreo seja transformado em rota do narcotráfico internacional. certamente. o Brasil tem fronteiras com onze países da América do Sul. porque a fuga. poderá ocorrer que. também. embora não estejam transportando drogas. o Supremo Tribunal Federal não foi provocado. como. mas acha que não devem ser admitidas exceções (aeronaves militares). que a pretexto de combater os traficantes. portanto. e parece sugerir que a pena de morte seja aplicada. Mesmo assim. como a missionária americana Verônica Bowers e a sua filha de sete meses. a Bolívia e o Peru. uma lei autorizando -. a autoridade policial seja obrigada a matá-lo. os pilotos e passageiros não poderiam ser condenados à morte. mesmo que a fuga fosse tipificada como crime. Infelizmente. não seria. nem ao menos constitui crime. como a Colômbia. muitos civis inocentes já foram mortos. por exemplo. o próprio Presidente nacional da OAB. Além disso. que também adotaram. em 21. Para combater o crime. Na minha opinião. se o motorista tentasse fugir. a derrubada de aeronaves. Sei perfeitamente que o assunto é polêmico. 25 do Código Penal). A Lei do Abate. também. divulgadas pelo “site” da OAB. de acordo com as suas declarações. 352 do Código Penal). punida com a pena de morte. nem por isso poderia ser morto o que às vezes acontece. Charity. Roberto Busato. somente os aviões que estivessem transportando drogas seriam derrubados. exceto mediante violência contra a pessoa (art. e a floresta amazônica é uma das principais rotas dos traficantes de drogas. pela simples suspeita de tráfico de drogas. caso o criminoso atente contra a vida do policial (art. Como se sabe. coloca em perigo a vida de inocentes. proibida pela Constituição e considerada cláusula pétrea. talvez. O Estado tem a obrigação de prender os suspeitos. que não pode ser alterada nem mesmo através de emenda constitucional. passa a utilizar os mesmos métodos dos criminosos.07. não apenas concorda com a Lei do Abate. além de ser inconstitucional. sobretudo na Amazônia. em busca de drogas. No entanto. para o “crime” de “exploração ilegal da biodiversidade”. para o competente exame da documentação. até hoje. na hipótese de legítima defesa. ou até mesmo do porta-malas. ainda. a falta de equipamentos adequados. e muito menos por uma simples suspeita. matando os seus pilotos e passageiros. Por essa razão. embora não exista. Ressalte-se. o Estado FGV DIREITO rio 82 . incluindo países produtores e exportadores de cocaína. leis semelhantes à nossa. ainda.2004. é assassinato e depõe contra o Brasil. poderão deixar de se identificar para os pilotos da FAB. por diversas razões. com ou sem lei.direitos humanos dos pilotos da FAB”. e de obedecer à ordem de pouso. porque seria o mesmo que afirmar que um automóvel cheio de passageiros deveria ser metralhado pelos policiais rodoviários. sem direito a defesa e sem julgamento. porque inúmeras aeronaves. para apreciar a constitucionalidade da Lei do Abate.

fazendárias ou da Polícia Federal. do Ministério da Justiça.565.2004)81 1. a aeronave será classificada como hostil. nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada. particularmente sobre os movimentos aéreos não regulares. Neste artigo. FGV DIREITO rio 83 . a justiça privada e a vingança anárquica.br/Publicacao/Imprensa/ Noticias/3007_abate. com a seguinte redação: § 2º Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos. Desrespeitando a Constituição. desobedecendo ao devido processo legal e afastando o poder de decisão das autoridades devidamente constituídas para jurisdicionar os conflitos e aplicar as sanções previstas nas leis penais. do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República e especialistas do Comando da Aeronáutica se reuniu com o objetivo de estudar todos os aspectos pertinentes à regulamentação da Lei do Tiro de Destruição. Todos estes aspectos demandaram a necessidade de regulamentação do citado dispositivo legal. praticando a Lei de Talião. medidas de integração de procedimentos com os países vizinhos e legislação de países interessados no tema e que mantêm normas específicas sobre responsabilidade civil de seus cidadãos. tais como procedimentos de interceptação aérea.06. 81 Acesso em: 8 nov. 2004. ficando sujeita à medida de destruição. instituiu Lei do Tiro de Destruição. A lei em questão introduziu conceitos novos. tornando-se necessária a definição das expressões meios coercitivos. por intermédio de um decreto presidencial. apelidada pela imprensa de Lei do Abate. à interdição e à apreensão por autoridades aeronáuticas. com o pleno esclarecimento dos procedimentos e das condições em que a medida de destruição poderia ser executada. instituído pela Lei nº 7. Força Aérea Brasileira Centro de Comunicação Social da Aeronáutica (30. quando estes tenham apoiado direta ou indiretamente a destruição de aeronave civil. de 19 de dezembro de 1986. mil. no seu artigo 303.fab. Ademais. aeronave hostil e medida de destruição. normas internacionais da aviação civil. e modificado pela Lei nº 9. Histórico O Código Brasileiro de Aeronáutica. suspeitos de envolvimento com o tráfico de drogas ilícitas. Nessas condições. do Ministério das Relações Exteriores. foi introduzido o parágrafo segundo. por intermédio de seus representantes legais.htm. passou a ser imprescindível que o novo dispositivo fosse aplicado dentro de uma moldura de rígidos preceitos de segurança. em apoio às medidas de policiamento do espaço aéreo brasileiro. um grupo de trabalho constituído por integrantes do Ministério da Defesa. Disponível em: http://www. A partir de abril de 2003. iguala-se aos delinqüentes.direitos humanos também se subordina ao Direito.614. trata dos casos em que uma aeronave pode ser submetida à detenção. que veio preencher uma importante lacuna. de 5 de março de 1998. a sociedade brasileira.

Essas seguem para o interior do Brasil (consumo interno) ou para países vizinhos. com isto. Em muitas situações. apesar de ter-se chegado ao tiro de advertência. Execução Em primeiro lugar. O texto é resultado de uma série de intercâmbios com países vizinhos. 4. que entra em vigor 90 dias após a sua publicação no Diário Oficial da União (em 19 de julho). é uma medida imprescindível para combater a criminalidade associada ao tráfico internacional de drogas. A questão foi amplamente debatida com outros governos interessados no tema. houve completa desobediência às ordens emitidas pela autoridade. a regulamentação da Lei do Tiro de Destruição aprovada abrange somente o caso de aeronaves suspeitas de envolvimento com o tráfico internacional de drogas. decidido a reverter essa situação e aprimorar a defesa do país. Tornou-se necessária uma ação mais eficaz do Estado no combate a esses vôos ilícitos. por falta da regulamentação da Lei do Tiro de Destruição. oriundas das regiões reconhecidamente produtoras dessas substâncias. A regulamentação. minimizar riscos de equívocos. A regulamentação da Lei do Tiro de Destruição. comprovou-se que as principais rotas de entrada de drogas ilícitas em território brasileiro ocorrem por via aérea. como a transferência de efetivos militares para a Amazônia e a modificação da legislação brasileira no sentido de preparar as Forças Armadas para atuar contra os delitos transnacionais fronteiriços. que transportam a droga para o território brasileiro. vem desenvolvendo uma série de ações. Esses entendimentos indicam que a entrada em vigor da regulamentação não trará efeitos adversos ao país. no combate ao tráfico terrestre e fluvial. as aeronaves de interceptação da Força Aérea Brasileira. em suas ordens de identificação e de pouso em pista pré-determinada. eram ignoradas por pilotos em vôo clandestinos.direitos humanos 2. Em razão do que prescreve a Carta da ONU sobre o princípio de autodefesa.144. o Governo brasileiro considerou necessária apenas a regulamentação da lei para esse aspecto. levando em conta a crescente ameaça apresentada pelo narcotráfico para a segurança da sociedade brasileira. responsáveis pelo policiamento do espaço aéreo. Cenário Com a modernização do sistema de defesa aérea e controle do tráfego aéreo brasileiro. criou instrumentos de dissuasão adequados ao policiamento do espaço aéreo brasileiro. entre outros destinos da rota de exportação. Medidas O Governo Brasileiro. Decreto Nº 5. que ocorreram para integrar os procedimentos de interceptação aérea e. caracterizando-se situação similar à resistência à prisão. assinada pelo Presidente da República. a caminho da Europa e Estados Unidos. portanto. 3. sendo o SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia) uma grande expressão desse trabalho. Porém. FGV DIREITO rio 84 . como previa a legislação em vigor. em pequenas aeronaves.

São duas as situações em que uma aeronave pode ser considerada suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins: a) a que entrar em território nacional.direitos humanos Antes de ser classificada como hostil e. Engloba os seguintes procedimentos: a) Reconhecimento à Distância. sem serem percebidos. a vigiar seu comportamento. e. sujeita à medida de destruição. nome do piloto que normalmente a opera. tipo de aeronave. oriunda de regiões reconhecidamente fontes de produção ou distribuição de drogas ilícitas. ocasião em que os pilotos da aeronave de interceptação. 1º) MEDIDAS DE AVERIGUAÇÃO primeiro nível das medidas busca determinar ou a confirmar a identidade de uma aeronave. As aeronaves de interceptação da Força Aérea Brasileira. ainda. após ter estabelecido com ela contato visual próximo. o nome de seu proprietário. que é a Intervenção. etc. sem plano de vôo aprovado. dados de qualificação e de localização. à aeronave interceptada pelo piloto do avião de Defesa Aérea. que é mostrada. endereço. detalhados e seguros. que se dá quando as informações são transmitidas para a Autoridade de Defesa Aeroespacial.5 ou 243 MHz. b) Confirmação da Matrícula. ou não cumprir determinações dessas mesmas autoridades. nível de vôo. caracterizada pela execução de dois procedimentos: FGV DIREITO rio 85 . de acordo com as regras estabelecidas internacionalmente e de conhecimento obrigatório por todo aeronavegante. através de uma placa. ou. iniciando pela de VHF 121. de uma posição discreta. serão encarregadas da execução dessas medidas. a aeronave deverá ser considerada como suspeita e submetida a procedimentos específicos. d) Realização de sinais visuais. fotografam a aeronave interceptada e colhem informações de matrícula. ou b) a que omitir aos órgãos de controle de tráfego aéreo informações necessárias à sua identificação. validade de exame médico. Passos Caracterizada a aeronave como suspeita. Caso a aeronave esteja em situação regular. aplicadas de forma progressiva e sempre que a medida anterior não obtiver êxito. que entrará no sistema informatizado do Departamento de Aviação Civil (DAC) para verificar se a matrícula corresponde ao tipo de aeronave. c) Interrogação na freqüência internacional de emergência. dados de identificação. 5. à medida de destruição. validade do certificado de aeronavegabilidade. caso esteja trafegando em rota presumivelmente utilizada na distribuição de drogas ilícitas. de 121. licença. se considerada hostil. proa e características marcantes. ela estará sujeita a três tipos de medidas coercitivas. portanto. passa-se ao segundo nível de medidas coercitivas.5 MHz. acionadas pelo Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA). 2º) MEDIDAS DE INTERVENÇÃO – caso o piloto da aeronave suspeita não responda e não atenda a nenhuma das medidas já enumeradas. será realizado apenas o acompanhamento.

de 16 de julho de 2004. 6) Pouso Obrigatório. Somente quando transgredidos os sete procedimentos iniciais é que a aeronave será considerada hostil. d) o procedimento irá ocorrer sobre áreas não densamente povoadas e relacionadas com rotas presumivelmente utilizadas para o tráfico de drogas. c) será executado apenas por pilotos e controladores de defesa aérea qualificados. b) os procedimentos descritos serão registrados em gravação sonora e/ou visual das comunicações. que consiste na realização de disparo de tiros. de forma visível e sem atingi-la. previstas pela regulamentação contida no Decreto nº 5. e estará sujeita à medida de destruição. o que significa dizer que tanto os radares quanto as aeronaves de interceptação envolvidas no policiamento do espaço aéreo deverão estar sob controle operacional das autoridades de defesa aérea brasileira. b) pouso obrigatório. consiste na realização de tiros de advertência. Situação da aeronave Nível de medida Normal Situação de Normalidade Procedimentos Verificação das condições de vôo da aeronave. 1) Reconhecimento à Distância. obrigatoriamente. 2) Confirmação de Matrícula. tanto pelo rádio. com a finalidade de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo da aeronave transgressora. assinado pelo Excelentíssimo Senhor Presidente da República e publicado no Diário Oficial do dia 19 de julho. com munição traçante. determinada pela aeronave de interceptação.144. são oito os procedimentos a serem seguidos pelas autoridades de defesa aérea para o policiamento do espaço aéreo.direitos humanos a) mudança de rota. 5) Mudança de rota. 8) Tiro de Destruição Medidas de Averiguação Suspeita Medidas de Intervenção Medidas de Persuasão Hostil Medidas de Destruição MEDIDA DE DESTRUIÇÃO o tiro de destruição deverá atender. também determinado pela aeronave interceptadora de forma semelhante à tarefa anterior. quanto por intermédio dos sinais visuais previstos nas normas internacionais e de conhecimento obrigatório. lateralmente à aeronave suspeita. 3º) MEDIDAS DE PERSUASÃO – o terceiro nível das medidas previstas. São elas: a) a sua realização só poderá ocorrer estando todos os meios envolvidos sob controle operacional do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA). a exigências rígidas. em todas as freqüências disponíveis. que entrará em execução somente se o piloto da aeronave suspeita não atender a nenhuma das medidas anteriores. segundo os padrões estabelecidos pelo Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA). feitos pela aeronave de interceptação. FGV DIREITO rio 86 . 4) Sinais Visuais. No total. 3) Contato por Rádio na Frequência de Emergência. 7) Tiros de Advertência.

pop. No entanto. No Congresso. Em uma enquete realizada pela internet. correioweb. que “a medida de destruição é a última de uma série de procedimentos que visam obrigar a aeronave infratora a pousar e submeter-se às medidas de policiamento no solo”. O ministro esclarece.10. O deputado Fernando Gabeira (sem partido-RJ) o acompanha. No Brasil. É importante ressaltar que a utilização dessa medida extrema somente ocorrerá após terem sido cumpridos todos os procedimentos previstos em lei e que esse será o último recurso para o Estado evitar o ingresso de aeronaves que transportam drogas para o território brasileiro. mesmo que a aeronave interceptada esteja lotada de criminosos. 2004. O parlamentar defende que a lei poderá provocar a morte de muitos inocentes. htm?codigo=2618013. a lei que derruba aviões levanta muitas polêmicas.br. aumentando o flagelo do problema do tráfico no país. o Palácio do Planalto considerou necessário conversar com países como os Estados Unidos. 87% dos internautas se posicionaram a favor da medida (é uma forma legítima de defender a soberania) e 13% se disseram contrários ao tiro de destruição (só deveria ser usado em casos de guerra). Viegas classificou a Lei do Abate como uma “forma de dissuasão” para coibir o tráfico de drogas. o senador é um dos poucos que reclamam. 82 FGV DIREITO rio 87 . por exemplo. com elevado grau de confiabilidade e segurança. dispara o senador petista Eduardo Suplicy (SP). Acesso em: 8 nov. Disponível em: http://noticias.com. em entrevista por e-mail ao Correio. O país é o terceiro país na América do Sul a adotar a Lei do Abate – os primeiros foram o Peru e a Colômbia. O ministro da Defesa. assim.com. possibilitando. Competência O Excelentíssimo Senhor Presidente. A lei foi regulamentada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva no dia 19 de julho de 2004. Para Suplicy.br/ultimas. qualquer aeronave que cruzar o céu brasileiro sem se identificar pode ser destruída. a necessária agilização do processo de tomada da decisão. no decreto de regulamentação. Existia o temor de que se um cidadão estrangeiro estivesse dentro de um avião destruído pelo governo brasileiro e o país sofresse algum tipo de retaliação militar ou econômica. pelo site www. que reuniu quase 9. “Para mim isso é a mesma coisa que a pena de morte”. A demora de oito anos para conseguir a rubrica presidencial tem explicação: antes de fazer com que a lei entrasse em vigor. a medida foi anunciada como mais uma ferramenta de combate ao tráfico de drogas e ao contrabando de armas. “A sociedade não foi ouvida”.direitos humanos 6. José Viegas. como as ocorridas no Peru em 2000. Lei do abate entra em vigor (17. refuta a comparação feita pelo senador Suplicy: “Não há qualquer correspondência entre a regulamentação da medida de destruição e a instituição da pena de morte.5 mil votos.2004)82 A partir de hoje. São situações absolutamente díspares”. “Oxalá nunca necessitemos utilizar a medida de destruição”. mas não está sozinho. delega ao Comandante da Aeronáutica a competência para aplicar a medida de destruição. protesta o parlamentar ao lembrar que a lei foi aprovada em 1998 com o apoio de tucanos e petistas. esses passageiros estariam sendo executados sem ter tido direito a julgamento.

“We are working with Peruvian authorities to investigate what happened. brigadeiro Francisco Azambuja. embassy spokesman Doug Barnes told CNN Saturday. Disponível em: http://archives.direitos humanos O governo brasileiro garante que o procedimento de abate vai ser cuidadoso. cnn. “O desfecho é de responsabilidade exclusiva do comandante da aeronave”. Mas os aviões militares no máximo acompanhavam a aeronave suspeita até o pouso. Plane shootdown: Drug intercept flights suspended in Peru – CNN (abril de 2001)83 Drug interception flights in Peru have been suspended until the completion of an investigation into the downing of a missionary plane that killed two of five Americans on board – a 7-month-old girl and her mother. acredita o comandante de Defesa Aeroespacial Brasileiro (Condabra). reconhece. Meanwhile. sindicatos da aviação e hospitais entre outros pontos de passagem obrigatórios de pilotos e de futuros pilotos. salas de tráfego de aeroportos. Cerca de 10 mil cartazes serão distribuídos para os aeroclubes. plane. no mínimo. Alô. Comandante Todo o piloto que for abastecer o avião receberá um dos 100 mil panfletos com informações sobre a Lei do Abate. 110 emissoras de rádio AM e FM divulgam a campanha em toda a extensão da fronteira seca brasileira e atingindo 72 cidades. fazer um pouso de emergência. 83 FGV DIREITO rio 88 . Mas nenhum subterfúgio que eles possam usar estará dando salvo-conduto ao traficante ou elemento que está fazendo tráfego ilegal para se salvar”. é que ao ser atingido em um pneu o veículo pode parar em um acostamento. Acesso em: 20 abril 2005. Na maior parte dos casos. “Os tiros são para obrigar a aeronave a pousar. alô. Faziam até sinais obscenos”. lembra Azambuja que tem imagens de vídeo com o comportamento dos criminosos.S. até o dia 28.com/2001/US/04/21/peru. “Os traficantes tinham certeza da impunidade. como é chamada a licença para vôo. O procedimento de interceptação existe há 24 anos. já avião terá que.” Barnes said. Ele compara o procedimento ao adotado por policiais militares com veículos que não param em uma blitz. afirma. explica Azambuja. a campanha tem o objetivo de informar que como a aeronave deve agir ao ser interceptada por aviões da Força Aérea Brasileira. O nosso trabalho é fazer com que a lei seja cumprida. Não deve existir condescendência nem com aeronaves suspeitas que estiverem com crianças a bordo. A intenção da Força Aérea Brasileira não é matar ninguém”. U. Orçada em R$ 280 mil. o avião irregular deixava o território brasileiro e adiava a travessia para outro dia. Zombavam de nós. “Não estamos brincando de fazer policiamento aéreo.02/. A diferença. hangares de manutenção. Cada caso será estudado na hora em que acontecer. empresas aéreas. Desde o último dia 8. A idéia é fazer com que distribuição do material não fique restrita aos aeroportos e atinja pilotos que não têm brevê. the Peruvian Air Force and a Baptist missionary group are giving conflicting accounts of events that led to the shooting down of the plane.

de Cuellar express sorrow for loss Asked about the incident while attending the Summit of the Americas in Quebec City. he said. with the assistance of the reconnaissance plane. Cory. Loftus said Pilot Kevin Donaldson had been in radio contact with the tower in Iquitos.S. Bowers’ husband. in agreement with established procedures.S. said their plane never left Peruvian air space. the intercept system was activated”. he said. “As part of an agreement. After the missionaries’ Cessna 185 did not respond to a command to identify itself. he said. at which point the Peruvian Air Force dispatched a rescue plane.S. reconnaissance plane. a missionary in Peru since 1983. Bush. U. “Facing such circumstances and.S. of Geigertown.S. 42. According to a statement issued by the U. The pilot of the civilian plane finally responded after landing in a river near Pevas. “I’ll wait to see all the facts before I reach FGV DIREITO rio 89 . The statement said the air force has initiated an investigation. helping the Peruvians detect aircraft used in drug trafficking. Jim. “Central aviation authorities had given him a landing slot. reconnaissance plane was working as part of an agreement between the United States and Peru to combat drug trafficking. to obtain a visa for the infant. Killed in the incident were 35-year-old missionary Veronica Bowers and her seven-month-old daughter. 38. first located plane A U.S.m. embassy in Lima said the U. the air force plane fired. The family is from Muskegon. was shot in the legs. radar and aircraft provide tracking information to the Peruvian Air Force on planes suspected of smuggling illegal drugs in the region”. site of the nearest consulate.direitos humanos U. the statement said. which had not filed a flight plan. How could he be in contact with the civil authorities and their own military not know about it?” he said. reconnaissance plane provided location data for the subsequent intercept mission that was conducted by the Peruvian Air Force. other than probable confusion until they get their facts sorted out”. the statement said. and their son. Mission: Plane on safe course Michael Loftus. President George Bush said. Charity. which sponsored the missionaries. Michigan. Pennsylvania. and had been working in Peru since 1993. “I can’t explain to you the statements of the Peruvian Air Force. were uninjured. was near the Peruvian military plane at the time of the incident but was unarmed and did not participate in shooting at the missionaries’ plane. 7. “lamenting profoundly the loss of human life”. but he said that was the usual practice. was detected entering Peruvian air space from Brazil around 10 a. State Department. Kevin Donaldson. Friday.S. president of the Association of Baptists for World Evangelism. said a spokesman for the U. Loftus said he could not confirm that a flight plan had been filed. It had flown to the border town of Benjamin Constant. A statement from the Peruvian Air Force said an unidentified plane. embassy in Lima. “proceeded to intercept the unknown airship”. A Cessna A-37B. it said. the U. The spokesman at the U.S.

we mourn for the loss of the life. muitas vezes ao investigar acidentes com aeronaves de pequeno porte. Eliminados os aeroportos clandestinos. uma fiscalização prévia mais rigorosa na frota que voa. FGV DIREITO rio 90 . Mais: a tecnologia hoje disponível permite identificar e destruir todos os aeroportos clandestinos. O problema está nos riscos claramente subjacentes ao texto. Sem erros. E a tecnologia está aí mesmo. entre outras. tinta neles! 84 Acesso em: 25 abril 2005. São aeronaves que transportam gente através de centenas de quilômetros de território que não conta com qualquer outro meio de transporte. teríamos uma clara identificação dos eventuais infratores. não estão a serviço do tráfico ou mesmo do contrabando. mas é o que fica evidente quando vem à luz a chamada Lei do Abate. por exemplo. todas elas pecadilhos. Muitos dos inúmeros pequenos aviões que cruzam nosso espaço aéreo em regiões ermas. a pena de morte no Brasil.gabeira. buscar-se-ia na própria tecnologia um meio de evitar o abate equivocado e irreversível. possibilitando sua punição quando aterrissassem. sem remorsos. que permite à FAB derrubar aviões clandestinos dentro do nosso espaço aéreo e que acaba de merecer uma oportuna ação contrária do deputado Fernando Gabeira. Peruvian Prime Minister Javier Perez de Cuellar approached Bush and “expressed his deep regret and offered to help the families in any way he could”. Disponível em: http://www. Com certeza. desatualização do exame médico. sem sangue ou tragédias. the Associated Press reports. reduziria drasticamente o número de aeronaves sujeitas à ameaça de derrubada.e da Rio Sul Linhas) Nas asas de um projeto pouquíssimo discutido pela sociedade. na região amazônica. disponível. Exagero? Talvez. but right now. estamos vivendo a ameaça de termos. São aeronaves que podem deixar de se identificar para o caça interceptador por uma miríade de razões. o que eliminaria o principal ponto de apoio das operações aéreas ilegais. que não podem ser punidos com rajadas de metralhadoras ou tiros de canhão: mau funcionamento do sistema de comunicações desses aviões.(…) Tinta neles!84 George Ermakoff (Presidente do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias -SNEA. said White House spokesman Gordon Johndroe.direitos humanos any conclusions about blame.com. curiosamente. e não-utilização de fonia para não pagar as tarifas de proteção ao vôo.asp ?idArea=8&idSubArea=136. As autoridades aeronáuticas ficam sabendo das transgressões. que consiste em “balear” com tinta colorida o adversário. sobretudo na Amazônia. virtualmente. Em vez de balas. nos centros de lazer: o divertido paint ball. two lives”.br/causas/subareas. Assim. A parte de fundamentação da lei não merece reparos: trata-se de proteger o território nacional de aeronaves sem identificação e barrar o tráfico de drogas. falta de habilitação do piloto.

assim. Nesse sentido. de violação de direitos civis e políticos: (i) trabalho escravo. no Brasil. Quando se fala em trabalho escravo. ou melhor. O primeiro protocolo ao PIDCP. cabe abordar dois casos. por mais que preveja ambas as categorias de direitos (direitos civis e políticos e direitos econômicos. o que corresponde a 51. III (proíbe o trabalho escravo ao dispor que “ninguém será submetido a tratamento desumano ou degradante”). veio a ampliar a proteção de tais direitos. cabe destacar que um país que tem como fundamentos a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho. Quanto ao primeiro. Isto significa que o indivíduo pode enviar uma petição ao Comitê caso o Estado do qual faça parte tenha ratificado o referido protocolo. 5o. 5o – artigo este destinado aos direitos e garantias fundamentais do indivíduo. Em relação ao primeiro. A DUDH.735 trabalhadores (sendo que quase a metade no estado do Pará). caput (assegura o direito à liberdade) e art. o mecanismo de petição individual. sociais e culturais). por sua vez. Em relação ao sistema interamericano. É importante ressaltar que os instrumentos internacionais de proteção não substituem o sistema nacional. prevendo. o PIDCP estabelece o Comitê de Direitos Humanos e a sistemática dos relatórios e das comunicações inter-estatais. a existência de trabalho escravo confronta diretamente com os direitos humanos. destina-se à proteção dos direitos civis e políticos. sociais e culturais. Nesse contexto.1% do total dos libertados FGV DIREITO rio 91 . Já o PIDCP é destinado exclusivamente à proteção dos direitos civis e políticos. a violação mais visível em termos de direitos civis e políticos é do direito à liberdade. Nesse sentido. (ii) caso Damião Ximenes. salientem-se os instrumentos de proteção dos direitos civis e políticos nos sistemas global. há a Constituição Federal (CF). dá especial ênfase à primeira.direitos humanos Aula 13: Os direitos civis e políticos: direito à liberdade e integridade pessoal NOTA AO ALUNO Embora a indivisibilidade dos direitos humanos seja consagrada internacionalmente. Isto significa que o Estado tem a responsabilidade primária pela proteção desses direitos. cabe destacar a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) e o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (PIDCP). 26. sendo os instrumentos internacionais complementares e subsidiários. que elenca os referidos direitos em seu art. regional (mais especificamente no interamericano) e nacional. Como instrumentos de proteção dos direitos em tela. Em 2003. destaquem-se os artigos da CF a respeito: art. Já no âmbito nacional. 5º. destaque-se a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção) que. a proteção dos direitos civis e políticos sempre foi priorizada ao longo da evolução histórica dos direitos humanos em detrimento da proteção dos direitos econômicos. foram resgatados de cativeiros 4. com exceção do disposto no art. serão utilizados para superar as deficiências e omissões do sistema nacional.

br/asp2/noticia. estadao. a maioria na região amazônica86. 30 anos à época. com hematomas. Dessa forma. foi à busca de auxílio. O art. De acordo com o ministro Nilmário Miranda. (c) concessão de alternativas de vida às pessoas pobres (alfabetização. Idem. http://www. FGV DIREITO rio 92 . Idem.com. o trabalho escravo acabará se a Câmara dos Deputados aprovar a proposta de emenda constitucional (Proposta de Emenda Constitucional nº 438/01). Ressalte-se. ao reconhecer em uma reunião oficial da ONU a existência de “formas contemporâneas de escravidão” em seu território. em 8 de março de 2004.br/agestado/noticias/2004/mar/08/182. que em 11 de dezembro de 2003 foi promulgada a Lei nº 10. que estatui o confisco de terras para as propriedades que tenham mão-de-obra escrava. conforme exposto a seguir91: 1. que alterou o artigo 149 do Código Penal – dispõe que “reduzir alguém a condição análoga à de escravo” é crime – mas não aumentou a pena mínima de dois anos para esse tipo de crime. a presente aula não aprofundará no estudo do procedimento de um caso perante ambas. acesse o site http://www. tirar documentos de identidade. cabe mencioná-lo tendo em vista se tratar do único caso brasileiro que teve uma decisão emitida pela Corte Interamericana de Direitos Humanos90 (Corte). mas fracassou: o médico. entrou para a história das Nações Unidas89.263 indivíduos85. ter acesso à terra. a mãe foi visitá-lo e o encontrou sangrando. que comporta cerca de 80% dos trabalhadores escravos. com as mão amarradas por trás das costas.htm. uma vez que nenhum outro país o havia feito. em virtude da apresentação de um “quadro psicótico”. Ceará. 86 87 88 89 Idem. entre outras).org. Desesperada. Os fatos 85 Para maiores informações. o Brasil. com a roupa rasgada. de forma breve. De acordo com a Comissão e com os peticionários. 4o da DUDH e o art. será que o mero reconhecimento da existência de trabalhadores escravos é suficiente para acabar com a escravidão no país? Quanto ao segundo caso. que a Brasil reconhece na ONU a existência de trabalho escravo. 8o do PIDCP (bem como o art. a responsabilidade do Estado brasileiro. Dentre as medidas para acabar com o trabalho escravo. e agonizando.asp?idio ma=PT&noticia=10909. Damião Ximenes. é de suma importância destacar os fatos. a propositura da ação pela Comissão perante a Corte. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que haja entre 25 e 40 mil trabalhadores escravos no Brasil. destaquem-se88: (a) instituição de uma Vara Itinerante do Trabalho onde não houver juízes. No âmbito internacional. (b) estabelecimento de uma política social para saber de onde vêm os escravos. promotores. e quando houver punição para as pessoas que tiram proveito desse tipo de trabalho. e sim na análise das violações dos direitos civis e políticos da vítima. 91 Como a Comissão e a Corte já foram objetos de análise de uma aula anterior. já que apenas uma pessoa foi condenada até hoje87. que chega a 9.803. dizendo. Contudo. fiscais e delegados. foi internado na tarde de 1 de outubro de 1999 na Casa de Repouso Guararapes. A vítima já havia sido internada em 1995 no mesmo estabelecimento. as violações alegadas.direitos humanos nos últimos oito anos (1995-2003).adital. na manhã de 4 de outubro. 90 Aula elaborada em 27 de janeiro de 2005. responsável pela clínica tratou-a com descaso. Estadão. a fim de que o trabalho escravo não seja uma opção. com dificuldade de respirar. 6o da Convenção) proíbem expressamente a escravidão. por oportuno. o envio do caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão).

196 a 200. ou melhor. Há. foi instituída a Junta Interventora da Casa de Repouso Guararapes. tortura e abuso sexual de pacientes. 2. que incluíram golpes na cabeça com objetos contundentes.direitos humanos morte é uma coisa natural da vida. Não é a primeira vez que ocorre uma morte por violência e maus tratos na instituição em tela. O médico fez constar como causa da morte “parada respiratória” e não ordenou a realização de autópsia. A propositura da ação Em 30 de setembro de 2004. Já houve. No laudo consta que se trata de “morte real de causa indeterminada”. Damião Ximenes faleceu 3 dias após sua internação. Desamparada. Damião havia brigado com enfermeiros. irmã de Damião Ximenes. que tem como diretor o médico da Casa de Repouso Guararapes. Dessa forma. O envio do caso Em 22 de novembro de 1999. apresentou perante a Comissão uma petição contra o Brasil. tendo em vista que o Estado brasileiro não cumpriu as recomendações da Comissão. 3. destaquem-se duas: na primeira versão. Inconformados. a senhora Irene Ximenes Lopes. chegando lá. CF). a Comissão resolveu enviar o presente caso à Corte. duas ações (uma penal e uma civil) tramitando perante a justiça local. não estando satisfeito com os serviços prestados. pelo menos. O Estado. Entre março e julho de 2000. Dentre as versões apresentadas pelos enfermeiros e funcionários da instituição. em 4 de outubro de 1999. denunciando os fatos ocorridos em detrimento de seu irmão. já havia um recado que seu filho havia falecido. os familiares da vítima levaram o corpo para realização de autópsia no instituto forense de Fortaleza. enquanto que na outra versão ele havia brigado com outros pacientes. no âmbito interno. uma morte em 1987 e outra em 1991. o Estado brasileiro tem o dever de controlar e fiscalizar os serviços prestados pela referida instituição. A responsabilidade do Estado brasileiro A Casa de Repouso Guararapes é uma clínica privada conveniada ao SUS (Sistema Único de Saúde). pode cancelar a autorização do ente privado como prestador de serviços de saúde em nome do Estado (arts. 4. Dessa forma. FGV DIREITO rio 93 . uma vez que o Sistema Municipal de Auditoria concluiu em seu Relatório 002/99 que havia na instituição evidências de maus tratos. voltou para sua casa em busca de ajuda e.

sendo a primeira sentença em face do Estado brasileiro. Convenção Americana).or. combinados com a violação do dever genérico de garantir e respeitar os direitos consagrados na Convenção (art. à proteção judicial (art.direitos humanos 5. e as violações da obrigação de investigar (Relatório n. imparcial e efetiva dos fatos relacionados com a morte de Damião Ximenes. incluindo o pagamento efetivo de uma indenização. 1. O pedido A Comissão solicita à Corte que ordene ao Estado que: • • • • Efetue uma investigação completa. seu dever de cuidar e de prevenir a vulneração da vida e da integridade pessoal. 43/03 da Comissão).cr/. tanto no local dos fatos como em todo o território brasileiro. Convenção Americana). Em agosto de 2006. Convenção Americana). Em audiência celebrada em dezembro de 2005.1.92 A Corte deixou claro que o Brasil “tem responsabilidade internacional por descumprir. as violações a sua integridade pessoal. Convenção Americana). Adote as medidas necessárias para evitar que fatos similares ocorram no futuro. à integridade pessoal (art. Assim o fez sob o argumento de que as precárias condições de atendimento psiquiátrico às quais foi submetido Damião Ximenes Lopes não correspondem ao atual grau de evolução e implementação das políticas públicas nessa área e no respeito aos direitos humanos dos pacientes. 25. 8o. Expostas as pretensões da aula. As violações A Comissão requer que a Corte determine que o Estado brasileiro é responsável pela violação do direito à vida (art. apesar de seu dever de cuidado como garantidor de seus direitos. 4o. FGV DIREITO rio 94 . bem como seu dever de regulamentar e fiscalizar o atendimento médico de saúde”93. o Estado brasileiro reconheceu parcialmente a responsabilidade internacional por violação de direitos humanos – referente ao direito à vida e integridade pessoal. a Corte proferiu a decisão do caso em tela. indaga-se: Qual é a importância do caso Damião Ximenes? Quais direitos foram violados no caso em tela? Há alguma diferença de 92 Informações atualizadas em 25 de outubro de 2006. Repare adequadamente os familiares do senhor Damião Ximenes pelas violações de direitos humanos cometidas. bem como daqueles originados na tramitação do presente caso perante o sistema interamericano. do direito a um recurso efetivo e das garantias judiciais relacionadas com a investigação dos fatos. desumanas ou degradantes. a seu assassinato. às garantias judiciais (art. 6. 93 Para ler a sentença na íntegra. Pague as custas e gastos legais incorridos pelos familiares do senhor Damião Ximenes na tramitação do caso no âmbito nacional. acesse o site da Corte Interamericana de Direitos Humanos: http://www. neste caso. Convenção Americana). 5o. devido à hospitalização do senhor Damião Ximenes em condições cruéis.corteidh.

São Paulo: Max Limonad. Temas de Direitos Humanos. 2003 Legislação: Convenção Americana sobre Direitos Humanos Declaração Universal sobre Direitos Humanos Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Constituição Federal FGV DIREITO rio 95 . Flávia. “A Litigância de Direitos Humanos no Brasil: Desafios e Perspectivas nos uso dos Sistemas Nacional e Internacional de Proteção”. In: PIOVESAN.direitos humanos proteção dos direitos civis e políticos nos documentos mencionados? Quais são os artigos da CF que consagram os direitos civis e políticos? Quais são os direitos violados da pessoa que trabalha em condições análogas à de escravo? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. Flávia.

contido justamente no repúdio à sua manifestação como rotina diária. Por tão enraizada no dia-a-dia dos cidadãos. Acesso em: 14 abril 2005. Disponível em: http://www. 9. Em relação ao primeiro tópico. notadamente policial. p. trouxe também conseqüências drásticas. 2. em 30 de março de 2005. a criminalização da pobreza. devem ser levados em consideração pontos essenciais. uma vez que se trata de tema complexo e. tal como a exclusão de um número cada vez maior de pessoas da vida econômica. multiplicam-se os relatos de violência. 96 Expressão utilizada no Relatório do Centro de Justiça Global.org/2005/abril/ibe_026. Seguem. 21. htm. mas também aqueles que fazem parte do discurso da mídia e. a violência no Rio de Janeiro é caracterizada pela mídia como guerra civil. Falar em violência urbana não é tarefa fácil. 5. criminalização da pobreza.lainsignia. do conhecimento popular.. Em nosso Estado. sua sistematicidade e banalização ensejam ao menos um sentimento em comum. abaixo. são naturalizadas. o século XX. A guerra pressupõe a existência de um inimigo (no caso seriam os criminosos e suspeitos) que se almeja combater. Temos como exemplo a chacina ocorrida na Baixada Fluminense. sistematicidade e banalização da violência. Dessa forma. tão visceral à opinião pública. cumpre destacar a manifestação da violência urbana no Rio de Janeiro como algo rotineiro e. em um contexto no qual prevalece a omissão do Poder Público. embora tenha causado indignação pública. A morte e a violência. que. causas do agravamento da violência. Esta. 3. perpetuadora da insegurança”94. Assim. FGV DIREITO rio 96 . utilizam-se os critérios geográficos e sociais para localizar o inimigo96 94 Centro de Justiça Global 2004. descrédito das ações do governo no combate à violência. os tópicos que serão abordados: 1.direitos humanos Aula 14: Violência Urbana NOTA AO ALUNO “A despeito das diferentes visões em relação ao entendimento sobre quem e como se produz a violência no Rio de Janeiro. 95 Acesso em: 14 abril 2005. 4. trajetória da violência estatal. ao mesmo tempo. Disponível em: http://www. br/portuguese/arquivos/relatorio_rio1.global. em decorrência da existência de um “poder paralelo”. tem como causa direta a exclusão social. por sua vez. cit. assim. ou melhor. que perpetua a insegurança no Estado. Relatório Rio: Violência Policial e Insegurança Pública. conseqüentemente.org. é fruto das mudanças macro-estruturais propiciadas pela introdução do modelo econômico neoliberal na década de 1980. para que se possa tanto explicar quanto desmistificar alguns temas. p. Na região. do acesso ao trabalho.pdf. embora tenha permitido um aumento da produtividade e da expectativa de vida em alguns países. Quanto ao segundo aspecto. conseqüentemente. que impõe o terror e a desordem. é considerada natural por grande parte da sociedade e dos governantes95. para delimitar o objeto de estudo. a idéia de que a pessoa é criminosa em virtude do local onde mora e de sua condição social. em especial. op.

destaque-se que. os candidatos ao governo do Estado na campanha eleitoral de 1988. Nesse sentido. ou melhor. “legitimam” as violações dos direitos humanos por policiais nesses locais99. equiparam criminosos e moradores das comunidades carentes e.. o discurso e ações policiais. Como conseqüência dessa visão.br/artigo_ind. FGV DIREITO rio 97 . lainsignia. Ainda em relação aos direitos humanos. houve uma redução em 40% do número de civis mortos pela polícia. pesquisador do Centro de Justiça Global.2004. 100 Acesso em: 14 abril 2005. em detrimento da utilização da opressão e da violência como prática da polícia101. Nesse contexto.desarme. assim. Constata-se também que a maioria das pessoas assassinadas era jovem. do sexo masculino. uma redução significante do número de policiais mortos e a maior quantidade de apreensão de armas com criminosos até então: 9 mil102. de saúde e de lazer. php?categoria=seguranca. SOARES. 16. alterações corporativas que conduziram à exoneração de Luiz Eduardo Soares da Secretaria Estadual de Segurança Pública em 2000 significaram o retorno das velhas políticas de enfrentamento por seu sucessor. A atuação policial. a fim de corresponder às exigências atuais: “segurança hoje em dia é política educacional. 99 Ibid. Isto significa ser de extrema importância mais investimentos nas áreas sociais e mais planejamento na atuação policial. Disponível em: http://www. Nesse sentido.org/2005/abril/ibe_ 026. É uma questão de Estado e não de polícia”100. Luiz Eduardo. ressalta Marcelo Freixo. ao passo que em 1999 haviam ocorrido 289 mortes103. segundo os quais o criminoso ou suspeito reside nas favelas e possui “cor e aparência definidas. Acesso em: 21 abril 2004.10. Quanto ao terceiro tópico. “Geografia da Violência no Rio de Janeiro” in Folha de São Paulo. O resultado pode ser vislumbrado pelo número muito maior de pessoas mortas em intervenções policiais: 427. é a relação entre os mesmos que agrava drasticamente a violência no Estado. Contudo. exe/sys/start. Disponível em: http://www.com. corroborando. faz-se necessária uma análise em conjunta da exclusão social. a maioria em condições que sugerem extermínio.195 pessoas foram mortas por policiais no Estado do Rio de Janeiro no ano de 2003. Foi o que prometeu Anthony Garotinho. pobre e negro. Isto porque os três itens estão interconectados. o conceito de criminalização da pobreza. 1. p. o inimigo é caracterizado como pobre e morador de comunidades carentes. acaba por substituir a proteção da vida por práticas cada vez mais violentas. com idade entre 15 e 24 anos e morava em regiões carentes98. A exclusão 97 98 Idem. especialmente no senso comum das classes média e alta”97. 14.htm?infoid=3139 &tpl=printerview&sid=16>. do sensacionalismo da mídia e da ação da polícia.direitos humanos desta guerra.luizeduardosoares. p. Ibid. Como conseqüência da supressão da “banda podre” da polícia. basearam seus discursos na promessa de criarem uma nova polícia e uma nova política de segurança. 101 102 103 Idem. que o conceito de segurança deve ser redefinido. bem como a noção de guerra. constata-se que a política de segurança pública do Estado não é dirigida a todos os cidadãos e nem está fundada na proteção e garantia universal dos direitos humanos. assim como sua descartabilidade seria assegurada frente ao corpo social. entre outros itens. conseqüentemente. em decorrência do período no qual se recompensava o policial com um incremento salarial – que variava entre 50 a 150% de seu salário – sempre que fizesse uma vítima letal. Acesso em: 14 abril 2005. Em se tratando das causas do agravamento da violência no Rio de Janeiro. de “reabilitar a polícia”. ao assumir o poder. 30. A pobreza passa a ser vista como perigo à sociedade e tem como conseqüên­ cia a não observância e consagração da universalidade dos direitos humanos.org/publique/cgi/cgilua.htm. distorcida por essa perspectiva. Disponível em: http://www.

Relatório Rio: Violência Policial e Insegurança Pública.php?categoria=seguranca. manipulada pelo “Estado na perpetração da violência. há uma enorme demanda de certos setores para que a polícia seja violenta. que começa com a fundação das primeiras corporações no Brasil para manter sob controle as classes subalternas106. Acesso em: 14 abril 2005. pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da UERJ. Acesso em: 14 abril 2005.global.org.direitos humanos social contribui para que muitas pessoas optem por atividades ilícitas como meio de vida. clippingexpress. Acesso em: 21 abril 2004. por exemplo. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris. o direito à vida e o direito à integridade física). Luiz Eduardo.luizeduardosoares. Ignacio. Violência Urbana. Conflito e segurança (entre pombos e falcões). As principais causas do descrédito das ações do governo no combate à violência. mas sim punir os criminosos). “Geografia da Violência no Rio de Janeiro”. Disponível em: http:// www.desarme. não visa a explicar ou entender as causas do problema para que se possa solucionálos.clippingexpress.com. Para maiores informações. o policial mata ou tortura alguém. a ausência de órgãos de monitoramento independentes e a corrupção policial. João Ricardo.com.br/noticias_justica.10.br/noticias_justica. respectivamente. Necessita-se. Disponível em: http://www. a polícia possa definitivamente transmitir segurança ao invés de medo.br/portuguese/arquivos/relatorio_rio1. um dia. p. treinamentos e capacitação dos policiais. Entrevista. In: Folha de São Paulo. assim como a carência de investimentos.org/publique/cgi/cgilua. Disponível em: http://www. 104 105 106 Ibid.com. 14. Guilherme de Assis. exe/sys/start. São Paulo: Publifolha. em última instância.php?id=44834. Disponível em: http://www. Disponível em: http:// www. Já a mídia. Acrescente-se a este fato a questão da impunidade dos policiais. leia a entrevista com Ignacio Cano. de mudanças drásticas e urgentes em toda a política de segurança pública do Rio de Janeiro. tem uma tradição de repressão. Acesso em: 14 abril 2005.br/artigo_ind. violando. SOARES. travestida como “resposta” à criminalidade – mas que diz respeito. 2003. Em especial.e. Hoje em dia. PINHEIRO. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: CANO. Paulo Sérgio e ALMEIDA. o último tópico. Centro de Justiça Global.htm?infoid=3139 &tpl=printerview&sid=16>. 30. A polícia. Capítulo VII. 2003. Acesso em: 14 abril 2005. Idem.php?id=44834. que é ainda mais grave quando se materializa em violação dos direitos humanos (quando.2004. 107 FGV DIREITO rio 98 .pdf. ao etiquetamento penal de suas camadas mais miseráveis”106. portanto. a fim de que. bem como uma ilusão por parte da mesma de que seu trabalho deva ser pautado na violência107. incute na sociedade um falso clamor por Justiça. seguindo a premissa de “entender menos e punir mais”104 (i. tem haver com a falta de transparência das ações públicas na área de segurança. DORNELLES. por sua vez.

“o Pacto de Direitos Civis e Políticos também prevê a ´possibilidade de realização progressiva´ de certos direitos. ao passo que os direitos civis e políticos são auto-aplicáveis. As recomendações caracterizam-se CANÇADO TRINDADE. sociais e culturais NOTA AO ALUNO A busca por uma proteção mais efetiva dos direitos econômicos. em conjunto com a DUDH. formando. cada um voltado a uma categoria de direitos. e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. a Carta Internacional dos Direitos Humanos. voltada às obrigações gerais que vinculam os Estados Partes. Isto porque. ao passo que comunicação individual se refere à possibilidade do indivíduo recorrer a instâncias internacionais para reparação ou restauração dos direitos violados. se transformam em um importante instrumento de negociação para que haja avanços na proteção dos direitos humanos. o PIDESC baseia-se no mecanismo dos relatórios. Tal medida se deu em virtude do conflito ideológico que vigorava na época. assim como não estatui um Comitê como órgão principal de monitoramento. o relatório será analisado pelo Comitê de Direitos Econômicos. têm força política e moral que. sociais e culturais (DHESCs) encontra-se na atual agenda internacional dos direitos humanos. os conflitos entre as duas categorias de direitos nem sempre são claros. bem como em decorrência da preponderância da posição dos países ocidentais. Sociais e Culturais (PIDESC).direitos humanos Aula 15: Direitos humanos econômicos. cabe ressaltar seu sistema peculiar de monitoramento. cumpre ressaltar que. Como leciona Cançado Trindade. o PIDESC não prevê um mecanismo de comunicação interestatal nem de petição individual109 (através de um protocolo adicional). diferentemente do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. ambiente este que prioriza. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. de elaborar dois Pactos Internacionais de Direitos Humanos (1966). Sociais e Culturais contém dispositivos suscetíveis de aplicação a curto prazo. 110 FGV DIREITO rio 99 . por meio do qual os Estadospartes encaminham relatórios ao Secretário-Geral das Nações Unidas que. sociais e culturais. Sociais e Culturais110 (Comitê DESC). com medidas de implementação distintas. Antonio Augusto. até hoje. que alegavam que ambas as categorias de direitos não poderiam estar no mesmo Pacto. I. assim. ao longo da história. uma vez que os direitos econômicos. Instituído pelo Conselho Econômico e Social da ONU através da Resolução ESC 1985/17. criado pelo Conselho Econômico e Social e que tem por principal função o monitoramento da implementação dos direitos econômicos. encaminhará uma cópia ao Conselho Econômico e Social para apreciação. sociais e culturais demandam realização progressiva. e talvez a distinção seja antes uma questão de gradação ou de ênfase. tendo em vista que os mesmos foram.”108 Em se tratando especificamente do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. negligenciados na esfera internacional. após analisar o relatório. 108 109 Comunicação interestatal é aquela através da qual um Estado-parte denuncia a existência de violação de direitos humanos em outro Estado-parte. tal dicotomia não tinha caráter absoluto. p. A raiz do tratamento diferenciado das duas categorias de direito encontra-se na decisão tomada pela Assembléia Geral das Nações Unidas. em 1951. por sua vez. 354. embora não sejam dotadas de força legal. já naquela época. 1997. Todavia. muitas vezes. emitirá suas observações conclusivas que. O Comitê DESC. De maneira diversa. Na verdade. os direitos civis e político . Vol.

Nesse contexto. com quase dez anos de atraso. em 2001112. que a indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos foi reafirmada na II Conferência Internacional sobre Direitos Humanos. bem como para apresentar novos dados sobre a situação brasileira. último dia de seu 30º Período Ordinário de Sessões. realizada em Viena. especificamente. Como exemplo. destaca-se o Protocolo Facultativo ao PIDESC (tramita. bem como das dificuldades encontradas para a plena realização desses direitos. já que prevê o mecanismo de comunicação individual. Sociais e Culturais. ambas as categorias de direitos estivessem no mesmo patamar. uma clara distinção entre as duas categorias de direitos. afirmando. Sendo assim. Sociais e Culturais. 111 Saliente-se que em 2000. uma vez que a consagração da indivisibilidade dos direitos humanos fez com que. i. seu Primeiro Informe ao Comitê de Direitos Econômicos.. O Brasil ratificou o PIDESC em 24. desde 1997. a sociedade civil. caso seja adotado. Em contrapartida. O Governo brasileiro apresentou em 2006 um novo informe.direitos humanos por seu power of embarrassment. tais como os consagrados pelo Protocolo I: direito à propriedade privada (artigo 1) e direito à educação (artigo 2). saliente-se a ponderação feita pela Corte Européia de Direitos Humanos no caso Airey (1979) de que embora a Convenção Européia sobre Direitos Humanos consagre essencialmente os direitos civis e políticos. pela primeira vez. a sociedade civil apresentou um “Informe Alternativo” ao Comitê de Direitos Econômicos. Após a análise dos dois informes. constrangimento político e moral no campo da opinião pública internacional do Estado que viole os direitos humanos. em virtude da inércia do estado brasileiro. é de suma importância ressaltar a I Conferência Mundial sobre Direitos Humanos. especificando se as recomendações propostas pelo Comitê DESC foram observadas ou não. Trata-se de passo de suma importância. Em virtude da crescente atenção dada aos DHESCs ao longo dos anos. assim. não havendo. Em relação ao sistema europeu. o único mecanismo de proteção dos direitos em tela estabelecido pelo PIDESC é a sistemática dos relatórios. consistirá em uma forma de ampliação do sistema de monitoramento. foram incorporados alguns direitos à Convenção Européia. Sociais e Culturais (Dhesc Brasil) apresentou em 2003 seu Contra Informe113 (denominado também de Relatório Sombra) ao Comitê DESC. Sociais e Culturais das Nações Unidas. cabe mencionar que o Governo Federal apresentou. Em relação ao Brasil111. por meio da Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos. Destaque-se. assim denominado uma vez que o governo federal brasileiro ainda não tinha encaminhado nenhum informe. suas observações conclusivas acerca do cumprimento do PIDESC pelo Brasil. em 1968. 114 FGV DIREITO rio 100 . Em relação à consagração dos DHESCs no âmbito internacional. Sociais e Culturais adotou as observações conclusivas em 23 de maio de 2003. 112 113 O Contra Informe foi apresentado durante o 30º Período Ordinário de Sessões (05 a 23 de maio de 2003) do Comitê de Direitos Econômicos. em maio de 2003. por oportuno. que proclamou a indivisibilidade dos direitos humanos. faz-se extremamente necessário ampliar o sistema de monitoramento dos direitos econômicos. em 1993. a fim de contestar alguns fatos levantados pelo governo federal. o Comitê DESC emitiu114. pelo qual os Estados-partes devem encaminhar informações acerca das medidas legislativas. assim. sociais e culturais no plano internacional. sistema africano e sistema interamericano.e. incluindo recomendações e sugestões para sua efetivação. realizada em Teerã.1992. O Comitê de Direitos Econômicos. na Comissão de Direitos Humanos da ONU) que. administrativas e judiciárias que são tomadas para efetivar os direitos estabelecidos no PIDESC. Os DHESCs também podem ser analisados nos três sistemas regionais de proteção dos direitos humanos: sistema europeu. muitos deles surtem impactos de natureza social ou econômica.01. que a plena realização dos direitos civis e políticos só seria possível com o gozo dos DHESCs.

FGV DIREITO rio 101 . o PIDESC assevera a obrigação do Estado de. Disponível em: http://www.direitos humanos Em se tratando do sistema africano. que na época tinha 17 anos.11289. eqüitativas e satisfatórias de trabalho (art. cabe mencionar o debate sobre duas categorias intrínsecas aos DHESCs: a progressividade e a exigibilidade. 115 116 Idem. a aula deverá apontar o Caso 11. org/annualrep/2003eng/Brazil. bem como de apresentar relatórios periódicos.htm. sociais e culturais (artigo 15 a 18). Em primeiro lugar. realizada no dia 18 de setembro de 2003. por exemplo. o Protocolo de San Salvador dispõe acerca da possibilidade de se enviar petição individual acerca do direito à educação e de alguns aspectos dos direitos sindicais à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão). em 2003. um menor de idade que trabalhava em condições análogas à de escravo em uma fazenda no sul do Pará. Quanto ao sistema interamericano. o caráter fundamental dos DHESCs. por oportuno. Expressão de um movimento de conscientização para uma proteção mais efetiva aos DHESCs. chegou-se a uma solução amistosa. elaborado pela Comissão Especial do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. Em uma ocasião. As pessoas aceitavam trabalhar no local em virtude de falsas promessas de altos salários e boas condições de trabalho. em 1988 foi adotado o Protocolo Adicional à Convenção Americana em matéria de Direitos Econômicos. Sociais e Culturais (Protocolo de San Salvador).oas. embora a Convenção Americana sobre Direitos Humanos mencione os DHESCs em apenas um artigo. o Estado brasileiro comprometeu-se a implementar as ações e as propostas de alterações legislativas contidas no Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo. 7) e o direito a um meio ambiente sadio (artigo 11).000. que o referido Protocolo define o alcance de alguns DHESCs. em seus respectivos âmbitos de competência. tanto a Comissão quanto a Corte Interamericana de Direitos Humanos têm reconhecido. Como exemplo. Embora o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos tenha se concentrado na defesa dos direitos civis e políticos. Ainda no bojo do referido acordo. que trata da situação de José Pereira. o direito à seguridade social (artigo 9). foi gravemente ferido. o Estado brasileiro. Acesso em: 04 jan. pagou a vítima o valor de R$ 52. limitando-se a dispor que os mesmos devem ser realizados progressivamente. documento este que entrou em vigor em novembro de 1999. em 11 de março de 2003. quer com seu próprio esforço. cabe destacar que. sofrendo lesões permanentes no olho direito e na mão direita. José Pereira.00 (cinqüenta e dois mil reais) a título de indenização por danos morais e materiais116. O caso em tela foi levado à Comissão em 1994 e.cidh. a Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos prevê um catálogo tanto de direitos civis e políticos (artigos 3 a 14) quanto de direitos econômicos. como.. O reconhecimento público da responsabilidade do Estado brasileiro em relação à violação de direitos humanos deu-se na solenidade de instalação da Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo-CONATRAE (criada por Decreto Presidencial de 31 de julho de 2003). tendo a Comissão Africana de Direitos Humanos e dos Povos um mecanismo de aplicação comum a todos os direitos. o direito a condições justas.Nesta oportunidade. 2005. Por fim.289 (Brasil). e lançado pelo governo brasileiro.289115. Saliente-se. quer com a assistência e cooperação Relatório Nº 95/03 Jose Pereira – Caso 11. capangas atiraram nos trabalhadores que tentavam fugir da fazenda. e de maneira a aprimorar a legislação nacional que visa a coibir a prática do trabalho escravo no país.

naturais e de informação. p.gov. “se ao Judiciário sempre coube a obrigação de solucionar conflitos em relação a todas as matérias que lhe sejam apresentadas. como precedentemente já enfatizado – e até mesmo por razões fundadas em um imperativo ético-jurídico -.gov. então. a eficácia dos direitos sociais. agora ele tem uma base positiva que legitima sua ação em nível interno. 2001.. Rio de Janeiro: Renovar. tendo em vista a previsão normativa dos DHESCs. aquele núcleo intangível consubstanciador de um conjunto irredutível de condições mínimas necessárias a uma existência digna e essenciais à própria sobrevivência do indivíduo. nem a de atuação do Poder Executivo. registra-se ainda muita resistência por parte do Ministério Público e do Judiciário em designar uma tutela efetiva a tais direitos. em ordem a viabilizar. uma contradição no primeiro exame. como decorrência causal de uma injustificável inércia estatal ou de um abusivo comportamento governamental. tomar medidas. Jayme Benvenuto. sociais e culturais. aí. tecnológicos.br/Jurisprudencia/Jurisp. importante decisão do Supremo Tribunal Federal acerca dos DHESCs. em sede da Argüição de Descumprimento de Direitos Fundamental (ADPF) n. por delegação popular. cumpre reconhecer que não se revela absoluta. Relator Ministro Celso de Mello. Disponível em: http://gemini. tem-se que uma saída possível e recomendável é o estabelecimento de metas e prazos para a concretização dos DHESCs. (ii) recursos aqui devem ser entendidos para além dos financeiros. esta denominada justiciabilidade. mesmo sem examinar diretamente o objeto da ação – veto do Presidente da República a artigo da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2003 que garantia recursos financeiros ao serviço de saúde – uma vez que o Poder Executivo enviou projeto de lei ao Legislativo que restaurou a integridade do artigo. por fim. Em 29 de abril de 2004. cabe registrar.117 Dessa forma. indica para o fato de que progressividade não pode ser entendida como postergação infinita. Os DHESCs. Nesse sentido.”118 Por mais que alguns DHESCs já possuam mecanismos eficientes de proteção perante o Judiciário. o acesso aos bens cuja fruição lhes haja sido injustamente recusada pelo Estado”. 118 119 Ibid. Todavia. 45119. como é o caso dos direitos trabalhistas e previdenciários. receberam investidura em mandato eletivo.stf. 120. 108. Julgamento em 29. econômicos e culturais.&l=20&u=http://www. nesse domínio. apôs importantes considerações ao Poder Judiciário em relação à implementação dos DHESCs: “Não obstante a formulação e a execução de políticas públicas dependam de opções políticas a cargo daqueles que. a todos.04. É que.br/cgi-bin/nphbrs?d=DESP&n=-julg&s1=45.2004.asp&Sect1=IMAGE&Sect2 =THESOFF&Sect3=PLURON&S ect6=DESPN&p=1&r=2&f=G. no máximo dos recursos disponíveis. para assegurar progressivamente o pleno exercício dos direitos elencados. ADPF n.direitos humanos internacionais. Acesso em: 04 julho 2005. Como lembra Jayme Benvenuto. a possibilidade de intervenção do Poder Judiciário. se tais Poderes do Estado agirem de modo irrazoável ou procederem com a clara intenção de neutralizar. Os direitos humanos econômicos. a liberdade de conformação do legislador. Nesse contexto. FGV DIREITO rio 102 . Refere-se aqui à exigibilidade dos DHESCs. comprometendo-a. 117 LIMA JÚNIOR. devem ser dotados de mecanismos para que seus titulares possam deles usufruir. NUME. stf. cabe a análise de alguns desses elementos: (i) a acareação entre o máximo e o disponível. o Ministro Celso de Mello. a qual pode se dar no âmbito administrativo ou judicial. p. destaque-se que a exigibilidade dos DHESCs pode ser considerada nas esferas nacional (constituições e leis) e internacional (PIDESC). afetando. justificar-se-á. 45 – STF. compreendidos também os humanos. precisamente por constituírem direitos.

2001. Flávia.direitos humanos Pelo exposto. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. I. Temas de Direitos Humanos. Leitura acessória: LIMA JÚNIOR. Legislação: Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos. Antonio Augusto. Jayme Benvenuto. GOTTI. São Paulo: Max Limonad. Flávia. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Vol. sociais e culturais? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. Sociais e Culturais Declaração Universal de Direitos Humanos Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem Convenção Americana sobre Direitos Humanos Protocolo de San Salvador Convenção Européia sobre Direitos Humanos Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos FGV DIREITO rio 103 . “A proteção Internacional dos Direitos Econômicos. PIOVESAN. Sociais e Culturais”. indaga-se: Um cidadão brasileiro pode enviar um caso relativo à violação do direito à saúde à Comissão Interamericana de Direitos Humanos? Quais são os mecanismos de proteção dos DHESCs existentes no sistema global? O que representa a consagração da indivisibilidade dos direitos humanos para a proteção dos direitos econômicos. pp. pp 353-360. 1997. 2003. Os direitos humanos econômicos. Janaína Senne. e MARTINS. In: PIOVESAN. Rio de Janeiro: Renovar. 91-114. Alessandra Passos. sociais e culturais.

às pessoas vítimas de tortura. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. etnia. A partir da presente aula. foram consolidados tratados que tinham como objeto tema específico. Os direitos humanos sob a perspectiva de gênero NOTA AO ALUNO Vimos discutindo ao longo das últimas aulas a proteção aos direitos civis e políticos e aos direitos econômicos. As desigualdades de gênero são as diferenças socialmente construídas. Mais do que isso. nos referimos até o presente momento ao sistema geral de proteção aos direitos humanos. sociais e culturais. “na medida em que o sistema especial de proteção é voltado. Daí apontar-se não mais ao indivíduo genérica e abstratamente considerado. como. e passa a analisa-los com concretude. por exemplo. como. à prevenção da discriminação ou à proteção de pessoas ou grupos de pessoas particularmente vulneráveis. às mulheres. Seja a Declaração Universal de 1948 ou os Pactos Internacionais de 1966. por exemplo. Referimo-nos aqui a sexo como as diferenças entre homens e mulheres dadas pela natureza. Há de se destacar que o sistema geral e o sistema especial de proteção de direitos humanos são necessariamente complementares.direitos humanos Aula 16: A especificação do sujeito de direitos. O sistema internacional passa a reconhecer direitos endereçados às crianças. o fato de somente as mulheres poderem menstruar.”120 Ao longo das próximas aulas. Todavia. etc. Desumanos ou Degradantes de 1984 e a Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989. Proteção dos direitos da mulher Na compreensão do processo narrado. ao longo das últimas décadas. mas ao indivíduo ‘especificado’. São Paulo: Max Limonad. É o que se costuma denominar de processo de especificação do sujeito de direitos. idade. fundamentalmente. parir e amamentar. que merecem proteção especial. pessoas crescem em contextos sociais em que papéis sócio-culturais são designados de acordo com as relações de poder estabelecidas em razão do sexo. considerando-se categorizações relativas ao gênero. O Direito Internacional dos Direitos Humanos deixa de examinar os seres humanos como sujeitos neutros. examinaremos alguns desses sujeitos de direito. passaremos a analisar o processo de especificação dos sujeitos de direitos como decorrência de um outro marco fundamental: a universalidade dos direitos humanos. as PIOVESAN. de Todas as Formas de Discriminação Racial de 1965. raça. tidas suas diferenças em segundo plano. ressaltando a indivisibilidade como o marco de compreensão dos direitos humanos. (I) p. cabendo a escolha dos direitos humanos das mulheres como o primeiro desses. a Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW) de 1979. dentre outros. Flávia. dotando alguns sujeitos de direitos também distintos. 2002. 188. 120 FGV DIREITO rio 104 . Convenção contra a tortura e outros tratamentos ou Penas Cruéis. às pessoas vítimas de discriminação racial. aos idosos. a primeira das especificações refere-se ao fato de que os seres humanos são sexuados.

Os Estados partes comprometem-se a uma dupla obrigação: devem eliminar as formas constantes de discriminação e devem promover a igualdade. composto 23 peritos. o artigo 4o da CEDAW também prevê a aplicação de medidas de ação afirmativa: a adoção pelos Estados-Partes de medidas especiais de caráter temporário destinadas a acelerar a igualdade de fato entre o homem e a mulher não se considerará discriminação na forma definida nesta Convenção. qualquer pessoa ou grupos de pessoas que aleguem ser vítimas de violações à Convenção podem apresentar petição ao Comitê. dos direitos humanos e das liberdades fundamentais nos campos político. de uma construção cultural das desigualdades (gênero) que não se justifica nas diferenças biológicas dadas pela natureza (sexo). judiciárias. parágrafo 4o. Por outro lado. exercício pela mulher.. In: PIOVESAN. com base na igualdade do homem e da mulher. independentemente de seu estado civil. da Convenção. passando a vigorar em 3 de setembro de 1981. essas medidas cessarão quando os objetivos de igualdade de oportunidades e tratamento houverem sido alcançadas. p. administrativas. PIOVESAN. 122 FGV DIREITO rio 105 . social. Brasília: AGENDE.122 A Convenção foi ratificada pelo Estado brasileiro em 1984.). a manutenção de normas desiguais ou separadas. em 18 de dezembro de 1979. De acordo com o artigo 1o. parágrafo 1o. Em resposta aos relatórios. os Estados comprometem-se a submeter a Secretaria-Geral das Nações Unidas. Em seu artigo 17. eleitos pelos países que ratificaram a Convenção. algumas dessas afetando a essência da universalidade dos direitos humanos. Alice (org. Flávia. econômico. mas de nenhuma maneira implicará. para exame do Comitê. Ao ratificar a Convenção. Direitos Humanos das mulheres. cultural e civil ou em qualquer outro campo. Todavia. Somente a partir da elaboração do Protocolo Facultativo aprovado pela ONU em 1999. dentre eles atualmente a brasileira Silvia Pimentel. posteriormente.121 Nesse sentido. gozo. Todavia. 109. Flávia. por incompatibilidade com a legislação civil vigente. em 1994. Os avanços promovidos pela Convenção foram “freiados” pela constatação de que esse foi o marco normativo de direitos humanos que mais recebeu reservas no âmbito da ONU: ao menos 23 dos 100 Estados-partes realizaram 88 reservas. discriminação contra a mulher significa toda distinção. (a). 210. “Os direitos humanos da mulher na ordem internacional”. dentre outras. São Paulo: Max Limonad. o Comitê emite recomendações a serem cumpridas pelo Estado. o Governo notificou a Secretaria Geral da ONU para que retirasse as referidas reservas. 2002. e toda vez que solicitar o Comitê (artigo 18 Convenção). (c). 2003. em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações. o tratado não prevê a possibilidade de comunicações estatais ou do conhecimento de violações de ofício por parte do Comitê. a cada 4 anos. e ao artigo 16. Tais artigos estabelecem a igualdade entre homens e mulheres no âmbito das relações familiares. (g) e (h). Temas de Direitos Humanos. foi aprovada pela Assembléia Geral da ONU a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW). como conseqüência. a Convenção estabelece o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher. relatório sobre as medidas legislativas. Essa distinção é relevante para percebermos que as desigualdades sociais entre homens e mulheres vêm de nossas idéias. (II) p. é possível 121 LIBARDONI.direitos humanos mulheres cuidarem dos filhos e da casa e os homens trabalharem fora. tendo sido apresentada denúncia ao artigo 15. exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento. em consonância com o quadro constitucional proporcionado pelo Texto de 1988.. Nesse sentido. no prazo de um ano a partir da entrada em vigor da convenção.

acessíveis e d) o direito de acesso ao mais elevado padrão de saúde reprodutiva.. p.). mas novas garantias de proteção. FGV DIREITO rio 106 . notadamente no que se refere ao direito ao voto. Alice (org. os Estados reconheceram os direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos e ainda afirmaram que meninas e mulheres têm o direito a decidir sobre a maternidade. Concepção. durante a Conferência do Cairo sobre População e Desenvolvimento. como os direitos sexuais e reprodutivos e a violência doméstica e familiar contra a mulher. passando o aborto a ser compreendido como uma questão de saúde pública. Por sua vez. passam a ser examinados como questões correlatas. é importante ressaltar alguns temas correlatos. contracepção. percebemos que a tônica foi transferida para direitos inerentes a condição diferenciada das mulheres. Dia Internacional da Mulher. Como seu artigo 4o afirma a necessidade de esgotamento dos recursos internos e a impossibilidade de litispendência internacional como critérios de admissibilidade de uma denúncia. 63. disponíveis. Direitos Sexuais e Reprodutivos Se o movimento de mulheres teve início com a busca da igualdade entre homens e mulheres. Em 1994. os Estados reuniram-se na IV Conferência Mundial sobre a Mulher. amamentação. entre tantos outros temas.. Se a Convenção é um “remédio para auxiliar a eliminar a discriminação contra as mulheres. Foi nesse sentido que caminharam as principais conferências referentes a direitos sexuais e reprodutivos. Mais além do exame dos principais tratados que se referem aos direitos humanos das mulheres. reasseverou a igualdade entre homens e mulheres e conclamou os Estados a promover a ratificação universal da Convenção para a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres e a retirar as reservas que comprometiam a essência do tratado. b) o direito de ter 123 LIBARDONI. Com base nos instrumentos internacionais citados. 2002. Por fim. c) o direito a ter acesso a informações e meios seguros. Direitos Humanos das mulheres.direitos humanos afirmar que o Protocolo não estabeleceu novos direitos. em 1995. aborto. produto da primeira grande conferência mundial de direitos humanos no contexto pós-Guerra Fria. coerção ou violência. seu Protocolo Facultativo é a bula que ensina como usar esse remédio. o qual foi aprovado pelo Congresso Nacional e ratificado pelo Presidente em setembro de 2002. Brasília: AGENDE. Desenvolvimento e Paz. em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações. direitos sexuais compreendem: a) o direito a decidir livre e responsavelmente sobre sua sexualidade. Por sua vez.”123 O Brasil assinou o protocolo em 08 de março de 2001. a Declaração de Viena de 1993. A Declaração e o Plano de Ação de Beijing reafirmam os direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos e recomendam aos Estados a rever as legislações punitivas ao aborto. b) o direito de decidir livre e responsavelmente o número de filhos e o intervalo entre seus nascimentos. conclui-se que os direitos reprodutivos incluem: a) o direito de adotar decisões relativas à reprodução sem sofrer discriminação. gestação. pode-se afirmar que muitas mulheres brasileiras preferem a utilização do Sistema Interamericano de Direitos Humanos por contar com uma instância jurisdicional para verificação da responsabilidade internacional.

maus-tratos. 2001. a Convenção inova ao: “a) introduzir o conceito de violência baseada no gênero. destaca-se o envio de relatórios periódicos à Comissão Interamericana de Mulheres (CIM). e d) relacionar os tipos de violências possíveis sem ser taxativa: estupro.. ALMEIDA. tráfico de mulheres. Direitos Humanos e nãoviolência. b) explicitar a noção de dano ou sofrimento sexual.áo sexual. op. o que rompe com a tradicional separação entre o espaço público e privado. Tal convenção foi assinada pelo Brasil em 09 de junho de 1994.”125 Dentre as diversas obrigações assumidas pela ratificação. por isso. d) o direito a receber educa. Por sua vez. prostituição forçada. Trata-se da Convenção Interamericana para Prevenir. seqüestro e assédio sexual. cit.” 124 Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher Por mais que a Convenção de 1979 não faça menção expressa à violência doméstica e familiar contra a mulher. com os devidos cuidados éticos recomendados pelos instrumentos internacionais. a qual concebe especificidade a tal violência baseada no gênero. tanto na esfera pública (ocorrida na comunidade). de 01 de setembro de 1995 e o Presidente a ratificado em 27 de novembro de 1995. comumente denominada Convenção do Belém do Pará. 247. a violência não ocorreria. Guilherme Assis de. (II) p. coação ou violência. e) o direito à privacidade. 124 PIOVESAN. F. São Paulo: Atlas. tendo o Congresso Nacional a aprovado mediante o Decreto Legislativo no. entre outras formas. a ONU adotou a Declaração sobre a Eliminação da Violência contra a Mulher. 83. aprovada em cidade brasileira e. c) o direito a viver livremente sua orientação sexual. f ) o direito de acesso às informações e aos meios para desfrutar do mais alto padrão de saúde sexual e g) o direito a fruir do progresso científico e a consentir livremente à experimentação. como na esfera privada (no âmbito da família ou unidade doméstica).direitos humanos controle sobre o seu próprio corpo. alguns entendem que esta estaria incluída no conceito geral de discriminação. abuso sexual. O Brasil foi o primeiro Estado a ser acionado perante a Comissão por desrespeito à Convenção do Belém do Pará: tratase mais especificamente do caso Maria da Penha Fernandes. 125 FGV DIREITO rio 107 . é uma violência que é cometida pelo fato de a vítima ser uma mulher. c) ampliar o âmbito de aplicação dos direitos humanos. sem sofrer discriminação. caso não o fosse. Importante passo foi o estabelecimento do mecanismo de petições individuais a serem apresentadas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. 107. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. Segundo Guilherme Assis de Almeida. em outras palavras. p. O continente americano desponta na criação de uma convenção regional específica e vinculante para o combate de tal forma de violência. em 1993. tortura. em conformidade com a Convenção Americana de Direitos Humanos.

2002. PIOVESAN.. item “g”). Alice (org. STUDART. Legislação: Constituição Federal de 1988 Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher e seu Protocolo Facultativo Convenção de Belém do Pará FGV DIREITO rio 108 . 2002. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. São Paulo: Max Limonad. 2001. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. Direitos Humanos das mulheres. Leitura acessória: LIBARDONI. 26a edição. (Cap. pp. VI. pp. 1999. item V. Brasília: AGENDE. Petrópolis: editora Vozes. 316-318. In: PIOVESAN.direitos humanos MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. 5). Flávia “Os direitos humanos da mulher na Ordem Internacional”. Volume II. Antônio Augusto. XIII. Tratado de direito internacional dos direitos humanos. Flávia. Temas de Direitos Humanos. Flávia. 194-202 (Cap. em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações. São Paulo: Max Limonad. Mulher objeto de cama e mesa.).. 2003. Heloneida. n. PIOVESAN.

primordialmente. com absoluta prioridade. da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente. o qual recebe relatórios periódicos dos Estados. violência. à profissionalização. ao adolescente e ao idoso. clara tanto na Constituição Federal quanto no ECA. a Convenção estabelece um princípio regedor de toda a normativa protetiva: o melhor interesse da criança: Artigo 3 1. à cultura. levadas a efeito por autoridades administrativas ou órgão legislativos. No âmbito interno. à educação. deverá subisidiar e integrar a apresentação do grupo. o direito à vida. em 25 de maio. como regra geral. 8. de 13 de julho de 1990. É dever da família. Lei n. à saúde. ambos assinados pelo Brasil em 2000. a Convenção estabelece. Para o monitoramento das obrigações. à alimentação. ao lazer. Não somente reservou um capítulo à família. Cumpre ao professor ressaltar a opção brasileira. o interessa maior da criança. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). o ECA constitui um marco na normatização de direitos no Brasil. 227. que criança é o ser humano com menos de 18 anos de idade. a Convenção estabeleceu ainda o Comitê sobre os Direitos da Criança. o constituinte já havia consolidado no Texto Constitucional todo o debate acerca da necessidade de uma proteção especial às crianças e aos adolescentes. crueldade e opressão. ao respeito. dois Protocolos: o Protocolo Facultativo sobre a Venda de Crianças. foram aprovados pela Assembléia Geral. adotada em 1989 e vigente desde 1990 é o tratado de direitos humanos que mais se aproxima da ratificação universal. Não há previsão da sistemática de comunicações interestatais e de petições individuais. devem considerar.direitos humanos Aula 17: Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente NOTA AO ALUNO A Convenção sobre os Direitos da Criança. exploração. Abrangendo tanto direitos civis e políticos quanto direitos econômicos. à dignidade. Todas as ações relativas às crianças. Prostituição e Pornografia Infantis e o Protocolo Facultativo sobre o Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados. como estabeleceu a proteção da criança e do adolescente como prioridade absoluta: Art. de designar a denominação de criança aos seres FGV DIREITO rio 109 . discriminação. sociais e culturais.069. Além de enumerar direitos específicos à criança. à liberdade e à convivência familiar e comunitária. à criança. Tendo em vista o zelo por determinadas questões que afligem crianças em todo o mundo. Considerado um dos documentos que melhor espelha os direitos elencados na Declaração sobre os Direitos da Criança. além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência.

designando uma nova condição jurídica à criança e ao adolescente: passa a ser sujeito de direitos. ensino. cumpre salientar em primeiro lugar sua configuração como crime. especificamente.direitos humanos humanos até 12 anos incompletos e de adolescente para a idade entre 13 e 18 anos incompletos. não há que se falar em melhor interesse da criança. possibilitando a convivência do princípio do melhor interesse com a figura do pátrio poder. podendo. de um a quatro anos. a desestruturação da família pode levar a atos violentos e agressivos contra a criança e o adolescente. não tem “voz”. uma vez que predomina na família a “lei do silêncio”128. de quatro a doze anos. trata-se de uma conquista recente. 126 127 128 Idem. o pátrio poder é encarado como complexo de deveres em relação aos pais. dhnet. instituído no interesse dos filhos e da família.html. tal como o Conselho Tutelar. havendo denominação até de pátrio-dever”127. Em relação aos maus tratos. 136. tendo duração variável (dias. que está diretamente ligada à evolução histórica do conceito de pátrio poder. igual em dignidade e respeito a todo adulto. quer privando-a de alimentação ou cuidados indispensáveis. quer abusando de meios de correção ou disciplina: Pena – detenção. que todos os cidadãos têm o dever de denunciar os casos de maus tratos de que tenha conhecimento aos Conselhos Tutelares de sua localização. mais conhecido como violência doméstica. Discutir a aplicação das normas internacionais e internas exige o recorte de algumas situações que poderão ser abordadas pelo grupo: Maus tratos: muito embora vigore hoje em dia o princípio do melhor interesse da criança. guarda ou vigilância. para fim de educação. o pai tinha poder disciplinar absoluto em relação ao filho. do Código Penal (CP): Art. tratamento ou custódia. anos). Tais violações não são levadas ao conhecimento de agências oficiais de proteção. ou multa. Ao entrar em vigor. CP – Expor a perigo a vida ou a saúde de pessoa sob sua autoridade. § 2º – Se resulta a morte: Pena – reclusão. “Hoje. que precisa de proteção especial em virtude de ser uma pessoa em desenvolvimento. inclusive. Sendo assim. Implementou a Doutrina Jurídica da Proteção Integral (art. FGV DIREITO rio 110 . 1º). conforme arts. ‘derrubando’ tal nomenclatura e adequando o ordenamento jurídico nacional aos imperativos internacionais e constitucionais. Acesso em: 01 maio 2004. meses.org. Isto porque em uma sociedade na qual o pai tem poder ilimitado em relação ao filho. Idem. não sendo mais considerada como mera extensão da família. já que esta. por oportuno.br/denunciar/tortura/textos/nilton. matá-lo126. Foi apenas com o cristianismo e com o desenvolvimento da sociedade que se foi exigindo moderação no uso do poder disciplinar. Dispõe o art. No primitivo direito romano. os meios de disciplina e correção não são mais absolutos. Disponível em: http://www. que se exterioriza como abuso de poder disciplinar e de correção. Ressalte-se. nesse contexto. 136. Todavia. quer sujeitando-a a trabalho excessivo ou inadequado. de dois meses a um ano. tendo total liberdade para aplicá-lo o castigo que julgasse pertinente. 13 e 245 do ECA. § 1º – Se do fato resulta lesão corporal de natureza grave: Pena – reclusão. o ECA revogou o Código de Menores.

se o crime é praticado contra pessoa menor de 14 (catorze) anos. seja no judicial. tem-se a predominância da “lei do silêncio”. na qualidade de filho ou sob custódia ou vigilância. Sugere-se a leitura de seu inteiro teor. FGV DIREITO rio 111 . o aplicador do direito.htm. 28 e ao art. procurar-se-á o maior acesso do menor. tornando difícil. Com esta consideração. deverá levar em conta as condições específicas do menor e seu interesse superior a fim de ajustar a participação deste. na análise de seu próprio caso.org. seja no âmbito administrativo. 45 do ECA referem-se expressamente a hipóteses em que a criança e o adolescente devem ser ouvidos. desorganização familiar – 30%. Apesar da falta de dados nacionais a respeito. pai – 33%. uma vez que esse tribunal estabelece parâmetros a serem observados pelos Estados-partes da Convenção Americana de Direitos Humanos a respeito dos direitos da criança e do adolescente. 19. mãe e pai – 10%. Para a configuração do crime. distúrbios psiquiátricos – 10%. bem como as seqüelas deixadas na criança e no adolescente que os impossibilitam de denunciar: a vítima não fala e não anda131. na medida do possível. Em conclusão.” Diante da inexistência de regras claras sobre a ponderação do melhor interesse da criança em face de processos administrativos e judiciais. e sujeito passivo a criança ou adolescente que. Como exemplo de maus tratos. Disponível em: http://www.direitos humanos § 3º – Aumenta-se a pena de um terço.redeamiga. conforme seja adequado.br/n04/doenca/infancia/persona. dentre os quais a inexistência de dados confiáveis sobre a ocorrência dos mesmos no lar familiar no brasileiro. Paralelamente o § 1. por conseguinte. distúrbios de comportamento – 10%. (ii) a autoria das agressões se distribui da seguinte forma: mãe – 43%. Entre os motivos para a falta de dados a respeito. o pai ou responsável que dá pimenta-do-reino à criança como forma de castigo. Tânia da Silva Pereira enumera algumas condições objetivas que podem contribuir para o exercício deste direito de ser ouvido: Acesso em: 01 maio 2004. Os maus tratos contra criança e adolescente são difíceis de serem identificados em virtude de uma série de fatores. Participação de crianças e adolescentes em processos administrativos e judiciais: o art.º do art.org. é sujeito ativo do crime os pais ou responsáveis pela guarda ou vigilância da vítima.php. a atuação dos Conselhos Tutelares129. é necessário ainda mais um elemento: expor a perigo a vida ou a saúde da criança ou do adolescente. Nesse sentido. 12 da Convenção sobre os Direitos da Criança possibilita a oitiva da criança nos processos judiciais ou no âmbito administrativo. cerebromente. for submetido a um dos tratamentos estabelecidos no artigo acima. destaquem-se: o pai ou responsável que coloca o menor de joelhos por longo tempo a ponto de colocar em perigo a saúde da vítima. A Corte Interamericana de Direitos Humanos manifestou-se sobre o tema no contexto da Opinião Consultiva n. (iii) as principais causas são: alcoolismo – 50%. “102. na determinação dos seus direitos. salientem-se dados de 1996 sobre São Paulo130: (i) a maior incidência de maus tratos ocorre contra crianças na faixa etária de 0 a 6 anos – 60%. 129 Acesso em: 01 maio 2004. 130 131 Idem. responsáveis – 14%.br/noticia. Disponível em: http://www.

O melhor interesse da criança: um debate interdisciplinar. Favorecer a intervenção de profissionais especializados que possam interpretar. 2. referido apenas à proibição da privação arbitrária da vida física. sua oitiva deve representar uma forma de expressar sua opinião e preferência sobre a situação conflitante. 4. e c) determinam a especial gravidade das práticas sistêmicas de violência contra crianças e adolescentes em situação de risco. Fornecer à criança e ao jovem todas as informações relativas à sua situação e ao assunto sobre o qual deverá emitir sua opinião . de maneira apropriada. Criar condições que facilitem a expressão espontânea da criança. a palavra da criança e do adolescente. Tânia.A. político e econômico. Cumpre destacar ainda a sentença de reparações. Cançado Trindade e A. como foi no passado. sociais e culturais. uma vez que: a) enfatiza a peculiaridade de tais sujeitos no aspecto jurídico. Adaptar os procedimentos com vistas a garantir a manifestação autêntica da vontade da criança ou do adolescente. tortura e assassinato de ‘menores’ e omissão dos mecanismos do Estado guatemalteco em oferecer o acesso à justiça aos familiares das vítimas.direitos humanos “1. tal depoimento nunca deverá ser prestado na presença dos pais. realidade cada vez mais presente nas grandes cidades brasileiras. p. Cabe destaque a seguinte passagem. de 19 de novembro de 1999. Abreu Burelli: “3. de 26 de maio de 2001. 2000. 6. Trata-se de caso de seqüestro. ou “Niños de la Calle”. O direito à vida não pode continuar sendo concebido restritivamente. Tal ponto retoma a discussão travada na Aula 1. assim como no social. 3. 7. Não forçá-los a se exprimirem ou se manifestarem caso não estiverem preparados. Convocá-los a participar dos procedimentos de mediação familiar destinados a solucionar conflitos que envolvam sua pessoa e seus interesses. Considerar seus sentimentos e pensamentos na solução dos conflitos que lhes digam respeito. Evitar a convocação da criança e do adolescente como testemunha de um dos pais contra o outro. FGV DIREITO rio 112 . evitando situações de angústia e linguagens técnicas incompreensíveis. 31. por ocasião do filme Ônibus 174. 9. 5. Cremos que há diversos modos de privar uma pessoa arbitrariamente da vida: quando é 132 SILVA PEREIRA. Assumir a “Curadoria Especial” como a alternativa de interferir nos procedimentos para fazer valer os direitos de seu representado. b) destaca a indivisibilidade dos direitos civis e políticos e os direitos econômicos. 8.”132 “Meninos de Rua”: uma terceira sugestão de assunto a ser abordado pelo grupo trata dos meninos de rua. A decisão constitui um marco na proteção da criança e do adolescente em todo o continente. Rio de Janeiro: Renovar. permitindo-lhe expressar seus interesses e conflitos com maior liberdade. Sugere-se que o debate ocorra tendo como ponto de partida a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos referente ao caso Villagrán Morales e Outros versus Guatemala. constante do Voto concorrente Conjunto dos Juízes A.

17. O melhor interesse da criança:um debate interdisciplinar. os meninos vitimados já se encontravam privados de criar e desenvolver um projeto de vida e de procurar um sentido para sua própria existência. Flávia.). In: PIOVESAN. Direito Internacional dos Direitos Humanos. Abreu Burelli. quer dizer. 2003. assim como quando não se evitam as circunstâncias que igualmente conduzem à morte de pessoas como no cas d’espèce. pp. Tânia. Temas de Direitos Humanos.A. 134 FGV DIREITO rio 113 . 76-86. Voto concorrente Conjunto dos Juízes A.or.cr). Wilson Ricardo Buquetti.”134 O estudo de tal decisão apresenta semelhanças intransponíveis com o caso da Chacina da Candelária. de 28 de agosto de 2002 (www. In: ALMEIDA. “Os direitos humanos das crianças e dos adolescentes no direito internacional e no direito interno”. “Convenção dos Direitos da Criança”. 2002. Guatemala. Maria Beatriz Pennachi. São Paulo: Max Limonad.or. corteidh. e PERRONE-MOISÉS. Guilherme de. 277-297.html. há a circunstância agravante de que a vida dos meninos já carecida de qualquer sentido.direitos humanos provocada sua morte diretamente pelo fato do homicídio. pp. São Paulo: Atlas. Villagrán Morales vs.cr/seriec/index_ c. Legislação: Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança Constituição Federal Estatuto da Criança e do Adolescente Acesso em: 04 julho 2005. Cançado Trindade e A. Leitura acessória: Corte Interamericana de Direitos Humanos. Flávia. No presente caso Villagrán Morales versus Guatemala. a qual transferiu o Rio de Janeiro do noticiário internacional de turismo para o de violação de direitos humanos. atinente à morte de meninos por agentes policias do Estado.corteidh. e PIROTTA. Disponível em: http://www. Cláudia (orgs. Opinião Consultiva n. 2000. Rio de Janeiro: Renovar. de 1990. SILVA PEREIRA. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. DELLORE.

excluindo do campo das medidas reprovadas pela Convenção as que promovem a discriminação positiva. o artigo 1. contanto que tais medidas não conduzam. discriminação racial significa toda distinção. o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação Racial (CERD). cor. a Declaração contra a Discriminação Racial (1963) foi um dos primeiros documentos da ONU a retratar a especificação do sujeito. conforme resoluFGV DIREITO rio 114 . De acordo com o artigo 1o. econômico. descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto ou resultado anular ou restringir o reconhecimento. cultural ou em qualquer outro campo da vida pública. destacando-se perspectiva racial. exclusão. é importante compreender discriminação como aquela que viola direitos. da Convenção. Ao ratificar a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial. Trata-se de um exemplo de implementação do power of embarrasment. dentre os quais se encontra hoje o brasileiro Embaixador Lindgren Alves. os Estados reuniram-se em duas conferências de reduzida repercussão na sede a própria ONU. em seu artigo 8o.1 estabelece a conformidade das medidas de discriminação positiva: não serão consideradas discriminação racial as medidas especiais tomadas com o único objetivo de assegurar o progresso adequado de certos grupos raciais ou étnicos ou de indivíduos que necessitem da proteção que possa ser necessária para proporcionar a tias grupos ou indivíduos igual gozo ou exercício de direitos humanos e liberdades fundamentais. Em 1978 e 1983. logo seguida pela Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial. A Convenção dispõe de 3 mecanismos de monitoramento: apresentação de relatórios. social. em conseqüência. in casu étnico-cultural. comunicações interestatais e comunicações individuais. estando seu cumprimento condicionado à adesão voluntária. Este é composto por 18 peritos.direitos humanos Aula 18: Os direitos humanos sob a perspectiva racial NOTA AO ALUNO A Aula 18 destina-se à continuidade do estudo do processo de especificação do sujeito. promulgada em 1965 e que passa a vigorar em 1969. a Convenção criou o seu treaty body. eleitos pelos Estados-partes a título pessoal. Para que não haja contradição entre esses termos. gozo ou exercício em um mesmo plano (em igualdade de condição) de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político. Para a coordenação de tais mecanismos. restrição ou preferência baseada em raça. No âmbito global. inerente ao campo da política internacional. ambas realizadas durante a Primeira Década de Combate ao Racismo e à Discriminação Racial iniciada em 1973. O CERD emite recomendações no sentido de melhor orientar atuação estatal. os Estados partes comprometem-se a uma dupla obrigação: eliminar as formas constantes de discriminação e promover a igualdade. Por outro lado. à manutenção de direitos separados para diferentes grupos raciais e não prossigam após terem sido alcançados os seus objetivos.

à discriminação racial. denominada Conferência Mundial de Combate ao Racismo. 58 ministros de Relações Exteriores e 44 ministros de outras pastas e quase 4 mil representantes de organizações não-governamentais reuniram-se para a Terceira Conferência. 2. destacam-se: a) a identificação do sionismo como uma forma de racismo. outras polêmicas conduziram a conferência ao risco de esvaziamento. restou no texto menção ao fato de que os Estados da União Européia rechaçam firmemente qualquer doutrina que proclame a superioridade racial. simbolicamente em pleno solo sul-africano. p. da xenofobia e da intolerância correlata nos níveis nacional. segundo definidas pelo Art. vingou o posicionamento da ONU. Medidas de prevenção. Discriminação Racial. formas e manifestações contemporâneas de racismo. dentre eles 16 chefes de Estado ou de Governo. Todavia. 135 136 Ibid. correção. 137. 1o da Convenção (de 1965). apesar dessa equiparação já ter sido afastada pela própria ONU desde 1991: no acirramento das discussões entre Israel e países árabes.direitos humanos ção da Assembléia Geral. discriminação racial. Todavia. xenofobia e intolerância correlata. no contexto desse período.. não restando energia para o debate acerca de outras formas de racismo.. é claro que. Países Africanos e asiáticos. In: Os direitos humanos na pós-modernidade. qualquer foro multilateral acabaria por centrar todas as atenções no regime do apartheid da África do Sul. Xenofobia e Discriminações Correlatas. De qualquer forma. à xenofobia e à intolerância correlata. na cidade de Durban. Provisão de remédios efetivos. “A conferência de Durban contra o racismo e a responsabilidade de todos”. caso esgarçadas ao extremo. xenofobia e intolerância correlata. defenderam a definição ALVES. educação e proteção voltadas para a erradicação do racismo. a afirmação das diferenças culturais protagonizou o debate sobre a tolerância e o enfrentamento à discriminação. Dentre os temas escalados para a discussão. Estratégias para alcançar a igualdade plena e efetiva.136 A complexidade dos temas tratados não afasta o impasse mesmo em questões essenciais como a existência ou não de raças.135 Nesse primeiro fórum de direitos humanos do século XXI. São Paulo: Perspectiva. juntamente com as teorias que tentam determinar a existência de raças humanas distintas [. assim como dos tratados que condenam práticas racistas. nem negação das manifestações de racismo e discriminação racial.] Isto não implica negação do conceito de raça como motivo de discriminação. recursos. e b) as reparações devida pelo regime colonial. Vítimas de racismo. José Augusto Lindgren. FGV DIREITO rio 115 . assim como o acompanhamento de sua implementação. que ainda existem em todo o mundo. Dentre as polêmicas que permearam o encontro. poderia colocar em risco a razão mesma da Conferência. causas. regional e internacional. O argumento trazido à baila por certas delegações européias. 124. 2005. sepultado em 1994 com a posse do Nelson Mandela. da discriminação racial.300 delegados oficiais de 163 países. temos: • • • • • Fontes. inclusive por meio da cooperação internacional e do fortalecimento das Nações Unidas e outros mecanismos internacionais para o combate ao racismo. regional e internacional. discriminação racial. Em 2001. com o apoio do Brasil. p. assim como medidas [compensatórias] e de outra ordem nos níveis nacional..

questões referentes à discriminação por orientação sexual. o Brasil tem capitaneado liderança nos foros internacionais. Por um lado. Por outro lado. L. nos anos de 2003 e 2004. A tensão do debate conduziu a um termo de compromisso no esforço de não esvaziamento da reunião. erradicação da pobreza. p. p. a diplomacia brasileira achou por bem a retira da proposta nas duas ocasiões. Como sintetiza Lindgren Alves. no sentido do identificar. ensejando posicionamento contrário por parte dos Estados Unidos e União Européia. já se mostrava cada dia menos favorável ao multilateralismo e à diplomacia parlamentar.direitos humanos da escravidão como crime contra a humanidade. fato esse que justifica a implementação de metas internacionais baseadas no alívio das dívidas externas. havendo já apresentado. resoluções no âmbito da Comissão de Direitos Humanos da ONU que classificam a discriminação por orientação sexual como uma violação de direitos humanos. Guilherme de. como já dito. em condições tão adversas. 139. numa situação internacional que. A partir de então. é sempre bom lembrar. internamente ou em ações internacionais. Ao considerar mais traumática a derrota de tal proposta que a não submissão ao voto. etc. Instrumentos básicos. São Paulo: Atlas. como se não bastasse a doxa econômica neoliberal (para falar com Bourdieu) avessa a preocupações sócias. nos casos de intolerância correlata. particularmente para o combate ao racismo estrutural. Crime de racismo 137 CYFER. um progresso com relação à conferências de 1978 e 1983. ativo participante nos trabalhos de Durban: “a verdade é que Durban foi a melhor conferência que se poderia realizar sobre temas tão abrangentes. mudança essa que expressa arrependimento sem acarretar responsabilização internacional. Muito mais do que isso. e PERRONE-MOISÉS. Cláudia (orgs. J. foi para rejeitar a reapresentação extemporânea de propostas superadas) representa. cit. os países em desenvolvimento conseguiram a manifestação da Conferência no sentido de que injustiças históricas constituíram a raiz para a pobreza e o subdesenvolvimento. Direito Internacional dos Direitos Humanos.137 Importante ressaltar que foi em Durban que se manifestaram expressamente alguns países. FGV DIREITO rio 116 . 138 Em consonância com os parâmetros delineados pela Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Eliminação do Racismo. foi compactuada a utilização da expressão ‘lamento’ no lugar de ‘desculpas’ pelos fatos do passado.A. liderados pelo Brasil. posicionamento esse que implicaria em compensações. os documentos de Durban trazem novos conceitos e compromissos importantes. “Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965)” In: ALMEIDA. 2002. a Constituição Federal estabeleceu entre os direitos e garantias fundamentais que: ALVES. ou como instrumento semijurídico para cobranças das sociedades aos governos. é importante ressaltar alguns temas específicos que poderão ser tratados com mais detalhe pelo grupo responsável pelo Seminário da Aula 18. Ingrid. Estes podem ser utilizados como guias à atuação dos Estados.). op.”138 Mais além do exame dos principais tratados que se referem aos direitos humanos sob a perspectiva racial. O simples fato de ela ter tido seus documentos finais adotados sem voto (a votação havida. transferência de tecnologia. 35. porém.

provocou diretamente a injúria. Injuriar alguém. religião ou origem: Pena – reclusão de um a três anos e multa. Tendo em vista o princípio da legalidade. se considerem aviltantes: Pena – detenção. religião ou origem. de 07 de dezembro de 1940: Art.direitos humanos Art. § 2º Se a injúria consiste em violência ou vias de fato. FGV DIREITO rio 117 . Populações remanescentes de quilombos Outro tema de fundamental importância quando se estuda direitos humanos sob a perspectiva racial no Brasil são as populações remanescentes de quilombos. de forma reprovável. tendo-lhe atribuído características excepcionais como a inafiançabilidade e a imprescritibilidade. etnia. Incentiva-se a leitura dessa lei. Importante ressaltar a maneira com que o constituinte admitiu o crime de racismo. que . tráfico de entorpecentes. é possível afirmar o crime de racismo é comparado aos crimes de tortura. a injúria. § 3º Se a injúria consiste na utilização de elementos referente a raça. terrorismo. o Decreto-lei nº 2848. cor. e multa. ou multa § 1º O juiz pode deixar de aplicar a pena: I – quando o ofendido. por sua natureza ou pelo meio empregado. que consista em outra injúria. Além do exame perante os tribunais nacionais – Tribunal de Justiça. desclassificando a conduta para um dos crimes contra a honra. etnia. em especial das condutas consideradas típicas pelo legislador. aos crimes definidos como hediondos e à ação armada contra o Estado Democrático de Direito. Em uma análise sistêmica (artigo 5º. Talvez pela rigidez com que é tratado o crime de racismo. de 3 (três) meses a 1 (um) ano. Superior Tribunal de Justiça e Supremo Tribunal Federal – e em instâncias internacionais sugere a dificuldade em se lidar com situações em que é considerado o elemento racial. a iniciativa legislativa não significou necessariamente seu acatamento por parte da jurisprudência. a Lei nº 7. II – no caso de retorsão imediata. A pesquisa sobre decisões referentes ao crime de racismo e de injúria que tenha a utilização de elementos referentes à raça. Todavia. sujeito à pena de reclusão. de 05 de janeiro de 1989. De acordo com o Código Penal. cor.716. além da pena correspondente à violência. ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro: Pena – detenção. nos termos da lei. estabeleceu os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. 5º XLII – a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível. incisos XLIII e XLIV). de 1(um) a 6 (seis) meses. 140. persiste a resistência por parte dos órgãos do Ministério Público e do Judiciário em estabelecer a responsabilidade penal pelo crime de racismo.

no dia 20 de novembro de 2003. a identificação. A Carta Constitucional criou assim uma titularidade coletiva de propriedade para aqueles que ocupam determinada terra e se reconhecem enquanto remanescentes de quilombos. do Distrito Federal e dos Municípios. em celebração ao Dia Nacional da Consciência Negra. portadores de referência à identidade. no processo FGV DIREITO rio 118 • . reconhecimento. notadamente durante o século XIX. compete à Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. da Presidência da República (SEPPIR/PR). Foi precisamente nesse sentido que o Poder Executivo expediu. nos quase se incluem: (. Tendo como pressuposto a formação multicultural brasileira. 68 Aos remanescentes das comunidades de quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva. a Constituição brasileira determinou que: Art. A assinatura da Lei Áurea não trouxe mudança significativa para a vida de muitos brasileiros que já se viam engajados em um novo contexto social. e procedimento: cabe à Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura a expedição de certidão referente à autodefinição. Por sua vez. 4887. dotados de relações territoriais específicas. Ainda.direitos humanos Como se sabe. delimitação.. à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. demarcação e titulação das terras. A designação geográfica deu origem ao contorno sócio-cultural das populações remanescentes de quilombos. à ação. demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos de que trata o art. formaram-se em todo o país centros de resistência para os quais se direcionavam escravos fugidos. segundo critérios de auto-atribuição. Dentre os pontos mais relevantes dessa normativa. com trajetória histórica própria. Cabe especial atenção ao Ato das Disposições Constitucionais Transitórias: Art. 216. os grupos étnico-raciais. sem prejuízo da competência concorrente dos Estados. consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos. o qual regulamenta o procedimento para identificação. devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos. tomados individualmente ou em conjunto. cabe ressaltar: • definição: de acordo com o artigo 2o.. o Decreto n.) § 5o Ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos. reconhecimento. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial. delimitação. cumpre ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA. com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida.

foi inescapável a conquista de um lugar ao sol para tais medidas. mais especificamente em atividade sobre a Lei Estadual do Rio de Janeiro nº 3. Diversos quilombos já foram ou encontram-se em vias de regularização. Nenhuma linha foi dedicada a tais políticas quando a Aula 18 referiu-se à importância da Conferência de Durban. Sob a administração de George Bush. a qual altera a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e inclui a matéria no currículo oficial da Rede de Ensino. Em 09 de janeiro de 2003. oficiais e particulares. tais políticas já vinham sendo lentamente desmontadas internamente. a implementação do estudo de História e Cultura Afro-brasileira deve ser entendida como um importante passo para a compreensão do Brasil como um Estado multi-étnico e multicultural. a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional. resgatando a FGV DIREITO rio 119 . a luta dos negros no Brasil. 26 –A. garantir os direitos étnicos e territoriais dos remanescentes das comunidades dos quilombos. Trata-se de processo administrativo que visa precisamente à garantia de uma titularidade coletiva no contexto de um país multicultural. Por mais que tal debate tenha sido ofuscado pelos ataques terroristas às Torres Gêmeas de Nova Iorque. censurada externamente pelos seus representantes. e por conseqüência. trata-se de um tema inescapável quando se trata da perspectiva racial. De forma inédita. sendo elas atacadas ou defendidas. torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura § 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos.639. Políticas de Ação Afirmativa Por mais que os alunos já tenham explorado o tema das Políticas de Ação Afirmativa no bojo da Disciplina Direito Constitucional I. o qual prescreveu atribuições e procedimentos próprios. a mídia passou a conceder espaço diário às supostas implicações que teria a aplicação de tais políticas no contexto social brasileiro. O país que primeiro implementou tais políticas sabotou sua discussão durante o evento.direitos humanos de regularização fundiária. Tal omissão não é por acaso.524/2000. Alteração curricular Interpretada por alguns como política de ação afirmativa. Ironicamente. a intensa participação da sociedade civil brasileira nas conferências regionais e os mais de 200 ativistas nacionais que compareceram a Durban giraram os holofotes do debate nacional em direção às políticas de ação afirmativa. notadamente após a edição do referido decreto. foi sancionada a Lei nº 10. criando os seguintes novos artigos: Art. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio.

é preciso valorizar devidamente a história e cultura de seu povo. civis e penais: doutrina e jurisprudência. Luciana. Temas de Direitos Humanos. Guilherme de. objetivos tácitos e explícitos da educação oferecida pelas escolas. Leitura acessória: CYFER.79-B. pedagógicas. em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras. que proporciona diariamente. inclusive na formação de professores. O importante é perceber que. com fortes repercussões pedagógicas. In: PIOVESAN. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira. 2002. “A conferência de Durban contra o racismo e a responsabilidade de todos”. José Augusto. Flávia. condições oferecidas para aprendizagem. e SATO. editando assim a Resolução nº 1. “Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965)”. In: Os direitos humanos na pós-modernidade. Em Parecer nº 003/2004. LINDGREN ALVES. sociais. Legislação: Constituição Federal de 1988 Indica o parecer que “a obrigatoriedade de inclusão de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nos currículos da Educação Básica trata-se de decisão política. homologado pelo Ministro da Educação em 19 de maio de 2004. 113-140. Flávia. além das raízes africana e européia. racial. e PERRONEMOISÉS. cabe às escolas incluir no contexto dos estudos e atividades. 2005. 24-38. 10. cabe ao Poder Público e à sociedade civil a luta para a promoção de uma sociedade sem discriminação. SILVA JR. exige que se repensem relações étnico–raciais. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. também as contribuições histórico-culturais dos povos indígenas e dos descendentes de asiáticos. capazes de constituir uma nação democrática.).639. pp.direitos humanos contribuição do povo negro nas áreas social. buscando repara danos. uma vez que devem educar-se enquanto cidadãos atuantes no sei de uma sociedade multicultural e pluriétnica. § 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar. São Paulo: Perspectiva. 26-A acrescido à Lei 9394/1996 provoca bem mais do que inclusão nos novos currículos. A relevância do estudo de temas decorrentes da história e cultura afro-brasileira e africana não se restringem à população negra. econômica e política pertinentes à História do Brasil. Direito de igualdade racial: aspectos constitucionais. além de garantir vagas para negros nos bancos escolares. dizem respeito a todos os brasileiros. à sua identidade e a seus direitos. In: ALMEIDA. São Paulo: Atlas. o Conselho Nacional de Educação manifesta no sentido de regulamentar as alterações advindas da Lei no. reconhece-se que. Cláudia (orgs. Priscila Kei. Tantos outros poderiam ser aqui apontados para o debate. ao contrário. Hédio. Ingrid.” 139 FGV DIREITO rio 120 . A leitura de tais documentos torna-se importante na medida em que fundamentam razões e efeitos da modificação curricular. muito além da discussão acerca da raça e os métodos para a sua designação. que se repetem há cinco séculos. “Implementação do Direito à Igualdade”. de 17 de junho de 2004. mas de ampliar o foco dos currículos escolares para a diversidade cultural. 2003. Foram aqui expostos alguns temas relacionados à especificação do sujeito de direitos humanos sob a perspectiva racial. procedimentos de ensino. É preciso ter clareza que o art. É importante destacar que não se trata de mudar um foco etnocêntrico marcadamente de raiz européia por um africano. Nesta perspectiva. Com essa medida. Direito Internacional dos Direitos Humanos. de 10 de março de 2004139. Instrumentos básicos. Art. social e econômica brasileira. 2002. 191-203. PIOVESAN. pp. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como ‘Dia Nacional da Consciência Negra’. pp. São Paulo: Max Limonad.

716/1989 (crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor) Lei nº 10.639/2003 (institui o estudo de História e Cultura Afro-brasileira) FGV DIREITO rio 121 .direitos humanos Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial Declaração e Plano de Ação de Durban Lei nº 7.

população essa configurada por mais de 170 línguas. cujos trabalhos ainda não foram encerrados. correspondente a 11% do território nacional – sendo que 95% das terras se concentram na Amazônia. educação e participação. a Convenção nº 169 deverá permear toda a aula. Por sua vez. 41-49. formado por cinco expertos independentes que são membros da Subcomissão de Promoção e Proteção dos Direitos Humanos (Subcomissão). Em março de 1995.000 cidadãos indígenas. Promulgada em 19 de abril de 2004. Convenção 169 da OIT. Disponível em: http://www. a Conferência-Geral editou a Convenção nº 107 sobre populações indígenas e outras populações tribais e semitribais nos países independentes. em 1989.140 2) Organização Internacional do Trabalho: desde o início do século XX. no Brasil. referente aos Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes.org/pib/portugues/direito/ conv169. tão fundamental ao exercício dos demais direitos. ao examinarem relatório enviado pelo Estado-parte. 141 FGV DIREITO rio 122 . possibilitou-lhes a reivindicação de terra. 3) Organização dos Estados Americanos: tanto a Convenção Americana de Direitos Humanos quanto o Protocolo de San Salvador guardam artigos que são de especial interesse dos povos indígenas. a qual descredencia qualquer visão integracionista e explicita direitos fundamentais dos povos indígenas como a terra. Já realizadas 5 reuniões de trabalho.shtm#ti. O conhecimento de seus direitos. tendo em vista sua extrema importância para o tema. poderá examinar a especificidade da questão indígena. Aos povos indígenas são garantidos direitos específicos. Cabe destaque ainda à jurisprudência da Corte 140 Campaña educativa sobre derechos humanos y derechos indígenas: módulos temáticos. encontra-se em processo de elaboração o Projeto de Declaração Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas. saúde. em cada um dos âmbitos de proteção: 1) Organização das Nações Unidas: em 1982. a OIT examina casos de trabalho forçado a que são submetidos povos indígenas. ou ao receber denúncias individuais ou interestatais – se for o caso. San José: Instituto Interamericano de Derechos Humanos. é aprovada a Convenção 169141. ocorrida a última em fevereiro de 2005. Os treaty bodies são criados no intuito de possibilitar o monitoramento dos tratados de direitos humanos. ainda não há prazo para a conclusão do documento. o Conselho Econômico e Social criou o Grupo de Trabalho sobre Populações Indígenas.direitos humanos Aula 19: Direitos Humanos e a questão indígena NOTA AO ALUNO Há.socioambiental. 2003. Tendo em vista a peculiaridade do tema para o continente americano. Não obstante ter sido o primeiro marco protetivo dos direitos indígenas no panorama internacional. a Comissão de Direitos Humanos estabeleceu um Grupo de Trabalho aberto para elaborar um projeto de declaração. sobretudo pelo aumento da participação indígena na vida política. Acesso em: 10 março 2005. pp. a referida convenção refletiu visão dominante nesse período caracterizada pelo protecionismo estatal e pelo assimilacionismo. Em 1957. em torno de 330. A Declaração de Viena de 1993 estabeleceu o compromisso dos Estados em respeitar os direitos humanos e liberdades fundamentais dos povos indígenas. Cumpre registrar que a ausência de um tratado específico não significa a negativa de proteção dos direitos dos povos indígenas.

tudo segundo seus usos. indisponível e imprescritível. 142 SILVA. In: Os direitos indígenas e a Constituição. o caso da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Disponível em: http://www.000 habitantes. “fundado em quatro condições. a visão do bem-estar do nosso gosto. 145 Acesso em: 10 março 2005. celebram relações de várias naturezas – matrimonial. modo de utilização. XI CF). parágrafo 1o. (ii) tal propriedade é vinculada à posse permanente dos índios. 1993. com as populações vizinhas ressalte-se Nesse contexto normativo.cr/seriec/index_ c. poderá auxiliar na condução desse ponto específico: Terra Indígena Raposa Serra do Sol144 Terra Indígena Raposa Serra do Sol317 145 Acesso em: 01 julho 2005. costumes e tradições. de sorte que não se vai tentar definir o que é habitação permanente. Tem uma população estimada em 15. segundo a visão civilizada. Miang. cerimonial e comercial – gundo o modo de ser deles.br/raposaserradosol.direitos humanos Interamericana de Direitos Humanos. corteidh. abaixo. a saber: 1a) serem por eles habitadas em caráter permanente. Roraima. Cabem aqui algumas considerações: (i) as terras indígenas são consideradas bens da União (artigo 20. 318 Dados gerais É a habitação ancestral dos povos Macuxi. mas seexemplo.asp. importante contribuição para o fortalecimento dos direitos dos povos indígenas. Surumú e a fronteira com a Venezuela. Taurepang e Patamona. os quais possuem direitos originários sobre a terra e. Wapichana. com vistas ao pagamento de indenizações. Ingarikó.org. ao longo dos anos. Suriname142.”143 316 .or. 3a) serem imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar. Objetivo Homologação da área contínua. que tem estabelecido. o tribunal reconheceu os costume indígena como fonte de direito. José Afonso. “Terras tradicionalmente ocupadas pelos índios”.cir. Disponível em: http://www. todas necessárias e nenhuma suficiente sozinha. (iii) a base do conceito de terras tradicionalmente ocupadas pelos índios encontra-se no artigo 231. 4) Constituição Federal: a proteção aos índios pode ser considerada um dos pontos mais difíceis e controvertidos do trabalho do constituinte. p. 4a) serem necessárias à reprodução física e cultural. da cultura deles. (c) o caso Raposa Serratêm do Sol o quadro. No caso Aloeboetoe vs. FGV DIREITO rio 123 . Localiza-se a nordeste do Estado de socioambiental. atividade produtiva. acesse o site do Conselho Indígena de Roraima. Acesso em: 10 março 2005. ou qualquer das condições ou termos que as compõem. Porto Alegre: Núcleo de Direitos Indígenas e Sergio Antonio Fabris Editor.html. a propriedade é inalienável. 47. Maú. a visão do modo de produção capitalista ou socialista. por isso. uma vez que retrata de forma bem clara a luta pelo reconhecimento da terra e os obstáculos que os índios que: ultrapassar nesse caminho.org/nsa/ detalhe?id=1886. em especial a organização das famílias. Disponível em: http://www. 143 144 Para maiores informações. entre os rios Tacutu. 2a) serem por eles utilizadas para suas atividades produtivas.

br/noticias/2005/ Abril/rls150405homologacao. cfm?id=157084&tipo=7&cat_ id=92&subcat_id=1.2005. (iii) incentivo a Ongs para a divisão do território entre as comunidades. argumentando os direitos de ir e vir dos moradores nos referidos núcleos. em 1995. que não seja por falta de caneta!”146. Surumú e a fronteira com a Venezuela. 231. FGV DIREITO rio 124 . Macuxi. excluindo da área as instalações do 6º Pelotão Especial de Fronteias e reconhecendo a unidade administrativa municipal de Uiramutã. cit. Concedida Liminar Parcial ao Mandado de Segurança: o ministro relator Aldir Passarinho suspendeu os efeitos da portaria quanto aos núcleos urbanos e rurais instalados antes da sua expedição. Em 14. Em 03. a ministra do STF Ellen Gracie suspendeu a Portaria 820/ 98 do Ministério da Justiça147. entre os rios Tacutu. Disponível em: http://www. É uma fase do procedimento demarcatório das terras indígenas. Art. Maú. dentro das terras Raposa Serra do Sol. CF. O caso no STF Acesso em: 10 março 2005. Dentre os empecilhos criados pelo Governo Estadual para impedir a homologação da terra contínua. As comunidades indígenas lutam há mais de 30 anos pelo reconhecimento definitivo da terra aos seus legítimos habitantes. juntamente com uma carta requerendo a homologação. Homologação da terra Acesso em: 30 abril 2005. A decisão liminar atendeu a uma Ação Cautelar ajuizada pelo senador Mozarildo Cavalcanti (PPS-RR) e. 534. alterando o que estava disposto no ato normativo anterior. Art.br/noticia/1363/stf-raposa-serra-dosol. Trata-se de uma campanha do Conselho Indígena de Roraima (CIR) em parceria com Rainforest Foundation para pressionar o Governo Federal a homologar a terra. Wapixana e Taurepang. assim. (ii) criação do Parque Nacional Monte de Roraima e do 6º Pelotão Especial de Fronteiras do Exército Brasileiro.br/guia3/detalhes.05. Fixou a dimensão e limite da área. Homologação da área contínua. Disponível em: http://www. A luta Respaldo legal Portaria n. htm.210). alvo da contestação”149. a fim de anular a Portaria declaratória. org.2005.amazonia.001/1973 e o Decreto 1. de 13 de abril de 2005 – Define os limites da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. o Mandado de Segurança foi rejeitado pelos juizes do Superior Tribunal de Justiça. Solicitam que todos mandem uma caneta para o presidente Lula. conforme dispõe a Lei 6. Trata-se de ato administrativo de competência do presidente da República. o presidente Lula assinou decreto homologando a área indígena Raposa Serra do Sol de forma contínua150. que poderá fazê-lo por meio de um decreto. Miang. No dia 27 de novembro de 2002. 820 de 11/12/98 Ação judicial Homologação de Raposa Serra do Sol A campanha 146 Conselho Indígena de Roraima. Tem uma população estimada em 15. voltou a impedir a homologação em área contínua da terra indígena.05. Disponível em: http://ef.gov. Localiza-se a nordeste do Estado de Roraima.775/1996. devido à edição de uma nova portaria do Ministério.com. O Governo do Estado de Roraima impetrou no STJ Mandado de Segurança (n° 6. Taurepang e Patamona. o processo extinto sem julgamento do mérito e a liminar parcialmente revogada. 147 148 Portaria n. Ingarikó.direitos humanos Dados gerais Objetivo É a habitação ancestral dos povos Macuxi. Acesso em: 30 abril 2005. o STF “julgou prejudicadas as ações judiciais ‘pela perda do objeto’. 7º. Convenção 169 da OIT Assinada pelo ex ministro da Justiça Renan Calheiros: declarou ser a Terra Indígena Raposa Serra do Sol posse tradicional permanente dos povos indígenas Ingarikó. brasiloeste. 149 150 Idem. com pedido de liminar contra o Ministério da Justiça. Em 15. op.01.000 habitantes. justica. de n° 534148. “Se só for preciso uma canetada.2005. Wapichana. destacamse: (i) criação do município de Uiramutã.

José Afonso. VIII (direito de residência e de trânsito). pp. O Estado brasileiro argumenta pela inadmissibilidade do caso. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: Campaña educativa sobre derechos humanos y derechos indígenas: módulos temáticos. e enumera todas as medidas que vinham sendo adotadas no sentido da promoção de tais povos indígenas. uma vez que não teriam sido esgotados os recursos internos. por supostas violações a direitos e garantias dos povos Ingaricó. pp. Rio de Janeiro: Contra Capa. SILVA. San José: Instituto Interamericano de Derechos Humanos. Os peticionários argumentam que o Estado brasileiro teria violado os artigos 21 (direito à propriedade privada). II (direito de igualdade perante a lei). Macuxi. In: Indigenismo e territorialização: poderes. Patamona e Taurepang por não demarcar suas terras e promover a colonização continuada das mesmas. em 29 de março de 2004. III (direito à liberdade religiosa e de culto). 4 (direito à vida). Wapixana. Porto Alegre: Núcleo de Direitos Indígenas e Sergio Antonio Fabris Editor. João Pacheco. a CIDH inseriu nota em sua página na internet por meio da qual manifestava congratulação ao Estado brasileiro pelo Ato Presidencial. 22 (direito de circulação e residência) e 25 (direito à proteção judicial) da Convenção Americana de Direitos Humanos (a “Convenção”) e os direitos I (direito à vida e à integridade da pessoa). XVIII (direito à justiça) e XXIII (direito de propriedade) da Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem (a “Declaração”). 24 (igualdade perante a lei). “Redimensionando a questão indígena no Brasil: uma etnografia das terras indígenas”. 12 (liberdade de consciência e de religião). Por ocasião da homologação da TI Raposa Serra do Sol. IX (direito à inviolabilidade de seu domicílio). 05 (direito à integridade pessoal). rotinas e saberes coloniais no Brasil contemporâneo. Legislação: Constituição Federal Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho FGV DIREITO rio 125 .direitos humanos Processo na CIDH Conselho Indígena de Roraima (CIR) e a Rainforest Foundation protocolaram denúncia contra o Estado brasileiro. 2003. OLIVEIRA. In: Os direitos indígenas e a Constituição. 45-50. 1993. 1998. 15-68. “Terras tradicionalmente ocupadas pelos índios”.

2000. Tabelião do 10º Ofício de Notas. o “Parque Árvores Verdes” contará com um parque de estacionamento de automóveis. FGV DIREITO rio 126 . cujo teor é o seguinte: ESCRITURA de Convenção de Condomínio Geral do “Parque Árvores Verdes”. fontes e lagos. sistema de tratamento de esgoto e central de abastecimento de gás. esculturas. embora constituindo coisa de propriedade comum de todos os condôminos do “Parque Árvores Verdes”. 3 (três) quadras de tênis. Parágrafo único – A cada um dos 4 (quatro) edifícios que constituirão o “Parque Árvores Verdes” corresponderá uma quota ideal de ¼ da totalidade do terreno. Artigo 3º – Não obstante o disposto no artigo precedente. fica estabelecido que. Artigo 2º – São coisas e partes de propriedade e uso comuns e. bosque. a parte do terreno ocupada pela projeção de cada um dos 4 (quatro) edifícios será reservada para utilização exclusiva dos co-proprietários das unidades autônomas componentes de cada um. portanto. Mario Henrique Mendonça. sistema de iluminação das partes comuns. na forma abaixo: Capítulo I – Dos Conceitos Gerais Artigo 1º – Além dos 4 (quatro) referidos edifícios residenciais. ainda. situado na Av. às folhas 50. consta labrado um INSTRUMENTO DE ESCRITURA. por CERTIDÃO. Julio Lopes. jardins. da Cidade do Rio de Janeiro. Capítulo II – Da Utilização das Coisas Comuns Artigo 4º – O uso das coisas comuns dispostas no artigo 1º poderá ser feito por qualquer co-proprietário e deverá obedecer aos horários estipulados pelo “Parque Árvores Verdes”. República Federativa do Brasil. piscina. vias internas de circulação. Comarca do Estado do Rio de Janeiro. assim como tudo que seja proveitoso à totalidade dos condôminos do conjunto. de utilização exclusiva por qualquer co-proprietário. que me é pedido por parte interessada. 2000. e na forma da lei: Certififica que revendo o Livro n. as enumeradas no artigo anterior e mais o terreno de todo o “Parque Árvores Verdes”. play-ground. insuscetíveis de divisão ou de alienação destacada da unidade autônoma de cada um ou.direitos humanos Aula 20: Direitos Humanos e orientação sexual NOTA AO ALUNO Leia os dois casos abaixo: I) Convenção Hipotética de Condomínio CERTIDÃO O BEL.

Projeto semelhante tramita também no Congresso Nacional. que foi designado relator na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara. qual? O que dispõem os tratados internacionais de direitos humanos e as leis nacionais a respeito? Acesso em 05 de julho de 2005. A decisão final da Assembléia não retira a gravidade de que tal projeto de iniciativa do Deputado Estadual Edino Fonseca (PSC). calculada a partir da primeira infração. Desde 1999. tenha tido pareceres favoráveis por parte da Comissão de Constituição e Justiça e da Comissão de Saúde. os profissionais não estão proibidos de prestar serviços a pessoas homossexuais desde que o objetivo seja reduzir sofrimentos decorrentes da orientação sexual e que a homossexualidade não seja tratada como doença.151 Diante do exposto. o beijo e qualquer outro ato ou gesto que atente contra os bons costumes ou formação moral e psicológicas das crianças e dos adolescentes.direitos humanos § 1º – Fica proibido a demonstração de afetividade por casais homossexuais nos aludidos espaços comuns.asp?NOTCod=58452. ou seja.aids. indaga-se: A Convenção de Condomínio e o PL de nº 717/2003 violam algum direito humano? Caso afirmativo. A resolução de 1999 também impede psicólogos de colaborarem com eventos ou serviços que “proponham tratamentos de cura da homossexualidade” e de “se pronunciarem em meios de comunicação de massa de modo a reforçar o preconceito social existente em relação aos homossexuais. distúrbio ou perversão.] Capítulo VIII – Do Foro Artigo 35 – Fica eleito o foro desta cidade para a solução de qualquer litígio ou controvérsia decorrente da presente Escritura.. “o CFP (Conselho Federal de Psicologia) já adotou a posição contrária.br/imprensa/ Noticias. Trata-se da autorização para um programa de reorientação sexual. Atualmente aguarda o parecer do deputado Roberto Gouveia (PT-SP). § 2º – A não observância do disposto no presente artigo implica na aplicação de multa progressiva. De acordo com a assessoria de imprensa do CFP. II) Programa de Auxílio para “cura de homossexuais” Em 10 de dezembro de 2004.. proposto pelo Deputado Federal Neucimar Fraga (PL-ES). 151 FGV DIREITO rio 127 . Extraída por Certidão. aos quinze (15) dias do mês de fevereiro (02) do ano de dois mil e cinco (2005). ligando-os a portadores de desordem psíquica”. o Plenário da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro reprovou o projeto de Projeto de Lei da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. sendo vedada mãos dadas. Disponível em: http:// www. um auxílio para os homossexuais que quiserem a cura para “virar” heterossexuais. [. No caso desse projeto. o abraço. uma resolução do órgão determina que psicólogos não podem tratar a homossexualidade como doença. pastor da Assembléia de Deus.gov. de nº 717/2003.

São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade (grifou-se). uma importante discussão. a Xenofobia e Formas Conexas de Intolerâncias. a proteção dos direitos dos homossexuais situa-se ainda no marco geral da proteção dos direitos humanos. o que foi aceito por 24 votos a favor. bem como a necessária adoção de medidas de proteção de suas vítimas. através de uma atitude inédita do Brasil. o Egito. pode-se FGV DIREITO rio 128 . O referido impasse conduziu à proposta da Presidência da Sessão (Líbia) para postergar a apreciação da proposta para 2004. Cinco Estados muçulmanos obstaculizaram a votação da resolução: Arábia Saudita. Acompanharam a proposta inicial brasileira o Canadá. Todavia. não houve maturidade para que a proposta fosse incluída no texto final da Declaração. sexo. Pela primeira vez na sua história. cor. origem nacional ou social. realizada em Durban em 2001. realizada em Santiago do Chile. a diplomacia percebeu que seria mais danoso a reprovação da resolução que a sua não-votação.direitos humanos Diferentemente dos demais grupos que estudamos até agora. a proposta foi colocada novamente em pauta. contando com amplo respaldo da sociedade civil organizada e de delegações européias. Tal posição já teria sido gestada durante a Conferência Regional das Américas. foi apresentada uma proposta específica de resolução para o reconhecimento da discriminação por orientação sexual como uma violação a direitos humanos. no âmbito da 59ª Sessão da Comissão de Direitos Humanos da ONU. o Brasil exerceu protagonismo na Conferência Mundial contra o Racismo. ou qualquer outra condição (grifou-se). o que possui o combate à discriminação por orientação sexual como uma de suas vertentes de atividade. língua. no que se refere ao debate sobre a não-discriminação com base na orientação sexual.1 – Todo o homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração sem distinção de qualquer espécie. Diante do cenário narrado. A postura assumida pelo Estado brasileiro no cenário internacional acarretou implicações internas imediatas: a criação do Conselho Nacional de Combate à Discriminação. Assim. religião. o projeto foi retirado de votação. África do Sul e um grupo de dezenove países europeus. o Paquistão. Ressalte-se que a proposta brasileira foi a única a não ser votada ao longo de toda a 59ª Sessão. os Estados Unidos sinalizaram que se absteriam de votar uma proposta que referisse à sexualidade por não acreditarem que a Comissão constituísse fórum adequado para a discussão da questão. assegura a Declaração Universal dos Direitos Humanos que: Art. 17 contrários e 10 abstenções. Já em 2004. a Discriminação Racial. seja de raça. Como mencionado na aula 18. riqueza. Além disso. Isso posto. opinião política ou de outra natureza. a Líbia e a Malásia apresentaram propostas de alteração visando a eliminação de todas as referências à orientação sexual. nascimento. momento em que os Estados pactuaram a necessidade de prevenir e combater a discriminação por orientação sexual. 1º – Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Artigo 2. todavia. à medida em que a sessão era conduzida ao final dos trabalhos. Iniciou-se em 2003.

. 2º – É conferida nova redação ao Inciso XXX do art. html?rebookmark=1#9. 3º da Constituição: “Art......... O Texto Constitucional estabelece: Art.. prisão e assassinato.. à liberdade. a Constituição Federal da África do Sul é a única constituição do mundo a garantir o direito à orientação sexual152: Art. Nesse sentido... raça..org.. que propõe a alteração dos seguintes artigos: Art.. religion... garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida.. Com vistas a consagrar à discriminação por orientação sexual igual gravidade às demais.. 5º – Todos são iguais perante a lei... à segurança e à propriedade. 3º – . alimentação e moradia são comunicados diariamente por parte de experts independentes apontados pela Comissão de Direitos Humanos.... nos termos seguintes (grifou-se)... Acesso em: 27 abril 2005.......... 7º . ponderações semelhantes podem ser confeccionadas.. Na esfera interna brasileira. de autoria da então deputada Marta Suplicy.. language and birth” (grifou-se).. 9... cor... É importante enfatizar que mais de 70 países ainda proíbem práticas homossexuais e a punem com penas que vão desde a prisão à flagelação pública e morte.. orientação sexual. idade.... belief. de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo.. conscience. exclusão do direito à saúde. cor ou estado civil. colour.” A omissão em relação à discriminação por orientação sexual não constitui prerrogativa brasileira........ sexual orientation. XXX – proibição de diferença de salários.za/html/govdocs/ constitution/saconst02....3 – “The state may not unfairly discriminate directly or indirectly against anyone on one or more grounds. educação. tramita no Congresso Nacional Projeto de Emenda Constitucional................. sex.... mesmo que limitado até o momento à não discriminação. uma vez que se recai mais uma vez sobre a proteção geral do princípio da não-discriminação. pregnancy...... não seria arriscado afirmar que a ausência de um tratado não significa omissão das instâncias internacionais em face a violações dos direitos humanos dos homossexuais. marital status. 7º da Constituição: “Art.... em uma análise comparada. sem distinção de qualquer natureza.. orientação sexual. Além do enorme preconceito de que são vítimas... idade e quaisquer outras formas de discriminação. Disponível em: http://www.direitos humanos afirmar que se encontra latente no âmbito da ONU uma postura mais abrangente de proteção dos direitos humanos sob a perspectiva de orientação sexual... age. Cumpre ressaltar que... à igualdade. 1º – É conferida nova redação ao Inciso IV do art. gender..... ethnic or social origin.. inúmeros relatos de violência. polity.. tortura. sexo.... IV – promover o bem de todos.....” Art..... 152 FGV DIREITO rio 129 . culture.. disability.. sem preconceitos de origem... including race.

Designa-se ao Conselho Nacional de Combate à Discriminação papel fundamental de controle das ações que visem ao fim da discriminação. Disponível em: www. sexo. lançado em 2004 por iniciativa da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. respaldado no artigo 1º da Constituição Federal. Elaboração: André Luiz de Figueiredo Lázaro.gov. a dignidade encontra-se na aceitação do ser nas suas características pessoais. Acesso em: 27 abril 2005. Contardo. É o caso da Lei Orgânica Municipal do Rio de Janeiro153. a qual estabelece que: Art. § 1º – Ninguém será discriminado. Brasília: Ministério da Saúde. prejudicado ou privilegiado em razão de nascimento. condição social ou. Política para as Mulheres e Política contra o Racismo e a Homofobia. idade. organiza. Direito à Saúde. orientação sexual. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: CALLIGARIS.rj. É também importante perceber que outros marcos normativos internos já têm apresentado sensibilidade à orientação sexual.direitos humanos Cabe aqui uma interpretação mais arrojada para afirmar que. ou qualquer particularidade. Brasil Sem Homofobia – Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania Homossexual. Direito à Educação. 5º. ainda. Direito à Segurança. Acesso em: 6 de julho de 2005. mental ou sensorial. etnia. por ter cumprido pena ou pelo fato de haver litigado ou estar litigando com órgãos municipais na esfera administrativa ou judicial (grifou-se). conduz à ilação de que o respeito a diferenças seja um pressuposto para uma vida digna. Afinal. É dividido entre os temas Cooperação Internacional. como está na norma sul-africana.asp?NOTCod=60157. 2004. O pluralismo característico da maior parte das sociedades contemporâneas exige que os ordenamentos jurídicos se aperfeiçoem de forma a garantir que as diferenças possam ser reconhecidas e respeitadas. Política para a Juventude.html#t1c1. atividade física. Disponível em: http://www2. por mais que tal forma não esteja expressa em nosso Texto Constitucional.gov. o princípio da dignidade da pessoa humana. Direito à Cultura.br/imprensa/Noticias. rio. Mais além do plano legislativo. 153 FGV DIREITO rio 130 .ao e revisão de textos: Cláudio Nascimento Silva e Ivair Augusto Alves dos Santos. cabe menção ao lançamento do Brasil Sem Homofobia – Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania Homossexual. cor.aids.br/pgm/leiorganica/ leiorganica. sobre a cura da homossexualidade”. Conselho Nacional de Combate à Discriminação/Ministério da Saúde. dentre as quais se encontra a por orientação sexual. Direitos ao Trabalho. “De novo. Comissão Provisória de Trabalho do Conselho Nacional de Combate à Discriminação da Secretaria Especial de Direitos Humanos. estado civil.

Fabiana Marion. Santa Cruz do Sul: EDUNISC. 2003. Legislação: Constituição Federal FGV DIREITO rio 131 .direitos humanos SPENGLER. União homoafetiva: o fim do preconceito.

10. O Teatro Essencial 3. pessoa ou espaço. Teatro Objetivo e Linguagem Teatral. Todo ser humano é capaz de ver a situação e de ver-se. 6. 154 FGV DIREITO rio 132 . Diálogo é definido como o livre intercâmbio com os Outros. 11. Teatro do Oprimido é um ensaio para a realidade. Acesso em: 14 de maio de 2005. O Teatro do Oprimido oferece aos cidadãos os meios estéticos de analisarem seu passado. em situação. política. a pensar. 8. criando.br/foco. ao invés de esperar por ele. diminuídos no exercício desse direito. 5. econômica. Disponível em: http:// www. Todo ser humano é capaz de atuar: para que sobreviva. Jogos e Técnicas Especiais baseadas no Teatro Essencial. Este é o Teatro Objetivo. de qualquer forma. O Teatro Essencial consiste em três elementos principais: Teatro Subjetivo. na vida diária. Traduzem suas emoções. cfm?persona=materias&contr ole=112. a mesma linguagem que os atores usam no palco: suas vozes e seus corpos. O objetivo básico do Teatro do Oprimido é o de Humanizar a Humanidade. Quando um ser humano se limita a observar uma coisa. individual ou coletivamente. e a aprender a viver em sociedade através do jogo teatral. 2. deve produzir ações e observar o efeito de suas ações sobre o meio exterior. a si mesmo. Aprendemos a sentir. social.opalco. assim. pensando. que busca ajudar homens e mulheres a desenvolverem o que já trazem em si mesmos: o teatro. 7. a energia e o seu desejo de agir são transferidos para essa coisa. como a livre participação na sociedade humana entre iguais. Todos os seres humanos utilizam. desejos e idéias em uma Linguagem Teatral. Teatro do Oprimido. agindo. O teatro se define pela existência simultânea — dentro do mesmo espaço e no mesmo contexto — de espectadores e atores. sentindo. a agir. renunciando momentaneamente à sua capacidade e à sua necessidade de produzir ações. Esta co-existência é o Teatro Subjetivo. Ser humano é ser teatro: ator e espectador co-existem no mesmo indivíduo. pessoa ou espaço. um espaço dentro do espaço: o Espaço Estético. no contexto do presente. Oprimidos são aqueles indivíduos ou grupos que são. 9. Todo ser humano é teatro! 4.com. movimentos e expressões físicas. O Teatro do Oprimido ajuda os seres humanos a recuperarem uma linguagem artística que já possuem. para que possam inventar seu futuro. cultural. O Teatro do Oprimido é um sistema de Exercícios.direitos humanos Aula 21: Teatro do Oprimido NOTA AO ALUNO Manifesto do Teatro do Oprimido154 Declaração de princípios Preâmbulo 1. e pelo respeito às diferenças e pelo direito de ser respeitado. racial ou sexualmente despossuídos do seu direito ao Diálogo ou.

No Anexo desta Declaração de Princípios. os cidadãos agem na ficção do teatro para se tornarem. não é dogmático nem coercitivo. programas de alfabetização e na saúde. O Teatro do Oprimido se baseia no Princípio de que todas as relações humanas deveriam ser de natureza dialógica: entre homens e mulheres. FGV DIREITO rio 133 . 18. Nele. O Teatro do Oprimido procura ativar os cidadãos na tarefa humanística expressa pelo seu próprio nome: teatro do. O Teatro do Oprimido não é uma ideologia nem um partido político. para clarificar e expressar os desejos dos seus praticantes. para a inclusão de todos os seres humanos no Diálogo necessário a uma sociedade harmoniosa. para respeitar as diferenças entre indivíduos e grupos. na educação. A AITO cumpre este objetivo inter-relacionando os praticantes do Teatro do Oprimido em uma rede mundial. mas não a passividade. em todos os campos da atividade social como. alguns projetos exemplares são apresentados para ilustrar a natureza e o escopo deste Método teatral. Na realidade. famílias. artes. e respeita todas as culturas. grupos e nações. psicoterapias. como um instrumento poderoso para a descoberta de si mesmo e do Outro. que é o fundamento da verdadeira Democracia. trabalho social. concebendo e executando projetos em escala mundial. política. e um meio de tornar as pessoas mais felizes. e criando um ponto de encontro internacional na Internet. depois. protagonistas de suas próprias vidas 15. que busca a paz. por e para o oprimido. o princípio fundamental do Teatro do Oprimido é o de ajudar e promover a restauração do Diálogo entre os seres humanos. 16. A ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DO TEATRO DO OPRIMIDO (AITO) 17. O Teatro do Oprimido é um movimento estético mundial. não-violento. o TO está sendo amplamente usado em todo o mundo. como instrumento para modificar as causas que produzem infelicidade e dor. cultura. promovendo e criando condições de trabalho para os CTOs e os seus praticantes. 14. de acordo com os princípios e os objetivos desta Declaração. aqui relacionados em Anexos. e o seu desenvolvimento metodológico. O Teatro do Oprimido está sendo usado em dezenas de países de todo o mundo. os diálogos têm a tendência a se transformarem em monólogos que terminam por criarem a relação Opressores-Oprimidos. promovendo a troca entre eles. A AITO é uma organização que coordena e promove o desenvolvimento do Teatro do Oprimido em todo o mundo. Por causa da sua natureza humanística e democrática. também está sendo usado como instrumento para a obtenção da justiça econômica e social. estimulando a criação local de Centros do Teatro do Oprimido (CTOs). para desenvolver todas aquelas características que trazem a Paz. finalmente. Reconhecendo esta realidade. Em resumo. É um método de análise. por exemplo. raças. o objetivo mais geral do Teatro do Oprimido é o desenvolvimento dos Direitos Humanos essenciais. sempre o diálogo deveria prevalecer.direitos humanos 12. Princípios e Objetivos 13. facilitando o treinamento e a multiplicação das técnicas existentes.

ctorio. 20.org Demais sites indicados ao longo do texto FGV DIREITO rio 134 .com.br Site: http://www.theatreoftheoppressed. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: Site: http://www. e vai incorporar todas as contribuições de todos aqueles que trabalharem dentro desta Declaração de Princípios.direitos humanos 19. A AITO entende que todos aqueles que trabalham usando as várias técnicas do Teatro do Oprimido subscrevem esta mesma Declaração de Princípios. A AITO tem os mesmos princípios e objetivos humanísticos e democráticos do Teatro do Oprimido.

155 Acresça-se ainda o fator de que. op. em 1988. esse é um importante ator na promoção e proteção.direitos humanos Aula 22: O papel da sociedade civil na promoção e proteção dos direitos humanos NOTA AO ALUNO Na aula inaugural ao bloco referente aos Novos temas e Novos Atores. 155 156 VIEIRA. foi descredenciada a via partidária como a única forma de militância. Cidadania e globalização. Suíça. sendo que 100 delas tratavam especificamente dos direitos humanos157. a Conferência Mundial do Meio-Ambiente. Em um contexto de globalização. o diálogo torna-se muito mais profícuo se precedido pela leitura de alguns argumentos sobre a atuação desses atores. Ao longo das duas últimas décadas. outros atores são fundamentais. tais organizações ganharam paulatinamente.156 Tais elementos conduzem à compreensão do embrião da sociedade civil em nosso passado recente.br/ (item: “Perguntas mais Freqüentes”). Disponível em: http:// www. hoje de maneira irreversível. o FSM é realizado sempre no mês de janeiro. A consolidação da sociedade civil brasileira ocorre durante a ditadura militar. que se constitui hoje como uma grande arena da sociedade civil. mas algoz na violação de direitos humanos.abong. destacamos as organizações e movimentos da sociedade civil como protagonistas. Cabe registrar que tais organizações participaram de todas as grandes conferências dos últimos 15 anos. 61 157 ABONG. No âmbito internacional. Nesse sentido. significou o marco para a visibilidade e referência às ONGs. Destaque-se ainda a experiência do Fórum Social Mundial (FSM). na década de 80. A atuação na esfera interna e na arena internacional não constitui tarefas excludentes. Registre-se que. A partir de então. Afirmar que o Estado é o principal violador de direitos humanos é simples. Rio de Janeiro: editora Record. serão convidadas organizações não-governamentais e movimentos social que possuam como campo específico de atuação a advocacia em direitos humanos. De fato. “se o que está em jogo é o presente e o futuro da democracia. A redemocratização do país conduziu a uma participação social jamais vista nos corredores do Congresso Nacional: verdadeiras caravanas chegavam a Brasília diariamente com vistas a imprimir no Texto Constitucional compromissos com a promoção de direitos humanos. hoje em sua quinta edição. Liszt. havia 1208 ONGs no Brasil. Acesso em: 30 março 2005. Inaugurado no ano de 2001 na cidade de Porto Alegre. durante o tradicional Fórum Econômico Mundial de Davos. impulsionada pelas flagrantes violações de direitos humanos vigentes no momento histórico. De forma a aproximar o aluno da realidade da atuação da sociedade civil. p. respaldo junto aos governos e legitimidade para influenciar nas tomadas de decisão na esfera pública internacional. FGV DIREITO rio 135 . o desafio maior consiste em articular ABONG. como as corporações privadas e as organizações não-governamentais. a sociedade civil vem exercendo papel de destaque nos debates públicos e na mídia no tocante à promoção e proteção dos direitos humanos. exercendo seu direito à voz. 1997. Nesse sentido. a Rio92.org. cit. Multiplicam-se redes de organizações que pretendem driblar coletivamente as dificuldades e estabelecer agendas.

159 160 ABONG. são necessárias algumas considerações acerca da atuação dessas organizações. “(g)rupos da sociedade civil são bons cães de caça para injustiças. não seriam ouvidos. Cidadania e globalização. Rio de Janeiro: LPP – Laboratório de Políticas Públicas. nacionais. Rio de Janeiro: LPP – Laboratório de Políticas Públicas.direitos humanos para reforçar – e não para substituir ou eliminar – processos simultâneos e diversos de democratização do poder em bases locais. etc. cabe ressaltar que tais atores não substituem o Estado. 2000. o Estado é o um importante ator na promoção e proteção. Conforme visto anteriormente.. Para que isso se torne realidade. Ano 1. Política e democracia em tempos de globalização. 49-69. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: GÓMEZ. muitas organizações não-governamentais e movimentos passaram a se organizar por meio de redes. negros e negras. Leitura dos sites indicados ao longo do texto 158 GÓMEZ. pela segurança alimentar. 2004: 1o Semestre. e DUPREE. pp. Buenos Aires: CLACSO. São Paulo: Sur Rede Universitária de Direitos Humanos. “Reflexões acerca da sociedade civil e dos direitos humanos”. etc”159. Política e democracia em tempos de globalização. Petrópolis. Dessa forma. pois dão voz a perspectivas e pontos vantajosos que. 1997. de outro modo. outros atores são fundamentais para garantir a observância e efetivação dos direitos humanos. Contudo. crianças e adolescentes. As ONGs e movimentos sociais devem ser vistos como “outros sujeitos atuando de acordo com as reais necessidades e pelos direitos de diversos segmentos sociais. Scott A. Edição em Português.”160 A horizontalidade das redes associativas disponibiliza a informação e o debate entre tais organizações e movimentos. FGV DIREITO rio 136 . op. bem como pela preservação do meio ambiente. como as corporações privadas e as organizações não-governamentais. São Paulo: Sur Rede Universitária de Direitos Humanos. Scott. Número 1. VIEIRA. 2004: 1o Semestre. Liszt. Assim. Nesse sentido. VIEIRA. Edição em Português. homossexuais. pp. a sociedade civil contribui para a efetivação dos direitos humanos. 2000. Oscar Vilhena. RJ: Vozes. destacando dificuldades e avanços. “Reflexões acerca da sociedade civil e dos direitos humanos” In: Sur Revista Internacional de direitos humanos. In: Sur Revista Internacional de direitos humanos. Ano 1. regionais e globais. possibilitando uma atuação mais eficaz na promoção e proteção dos direitos humanos. ao levar a injustiça à esfera pública. 49-69. Petrópolis. RJ: Vozes. Rio de Janeiro: editora Record. a associação e o diálogo devem estar abertos e com um mínimo de intervenção.. Buenos Aires: CLACSO. José Maria. VIEIRA. e DUPREE. cit. mas algoz na violação de direitos humanos. como mulheres. A. Scott DuPree. José Maria.”158 Ultrapassada a apresentação histórica que conduziu ao enquadramento contemporâneo. Oscar Vilhena. Número 1. Como afirma Oscar Vilhena Vieira e A.

p. a existência do direito ao desenvolvimento em 1977167. durante a fase de descolonização. It reflects an essential demand of our time since four fifths of the world’s population no longer accept that the remaining fifth should continue to build its wealth on their poverty” (Ibid. Mohammed Bedjaoui (org. e somente alguns meses após por Karel Vasak. da Comissão de Direitos Humanos. 1178. pode-se dizer que o direito ao desenvolvimento almeja uma globalização ética e solidária. na medida em que os quatro quintos da população mundial não mais aceitam o fato de um quinto da população mundial continuar a construir sua riqueza com base em sua pobreza. ao passo que os Estados em desenvolvimento são os possuidores do direito ao desenvolvimento163. Ela reflete uma demanda crucial de nosso tempo. de acordo com o autor. A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas (CDHNH).). 1178. em 1969. 167 FGV DIREITO rio 137 . p. que sustentou ser o direito ao desenvolvimento parte da terceira geração de direitos humanos. no mesmo ano. 1991. a CDHNH veio confirmar a existência de tal direito e da igualdade de “…the international dimension of the right to development is nothing other than ‘the right to an equitable share in the economic and social well-being of the world’. afirmou a dimensão internacional do direito ao desenvolvimento162. Idem. De acordo com Bedjaoui: a dimensão internacional do direito ao desenvolvimento é nada mais que o direito a uma distribuição eqüitativa do bem-estar social e econômico do mundo. Ainda. O direito ao desenvolvimento era uma exigência afirmada pelos países do terceiro mundo. os direitos humanos e o desenvolvimento com questões mundiais primordiais. p. por dois eminentes acadêmicos: primeiramente por Keba MBaye.164 BEDJAOUI. A noção sobre o direito ao desenvolvimento foi abordada pela primeira vez em 1972166.Rudolf Von Ihering O conceito de direito ao desenvolvimento surgiu na década de 1960. seja o direito de um povo. que almejavam consolidar sua independência política através de uma liberação econômica161. International Law: Achievements and Prospects. 165 166 BEDJAOUI. cit.. Contudo. em 1969. em 11 de dezembro de 1969. Foi frente a essa nova necessidade que a Assembléia Geral das Nações Unidas adotou. a Conferência Mundial sobre os Direitos Humanos. Nesse sentido. a Declaração sobre o Progresso Social e Desenvolvimento165. op. todo e qualquer direito. Adotada pela Assembléia Geral através de sua Resolução 2542 (XXIV). . tal obrigação tem que ser compreendida no contexto de uma nova lei internacional de solidariedade e cooperação. Paris: Martinus Nijhoff Publisher e UNESCO.. proclamou.direitos humanos Aula 23: Desenvolvimento e Direitos Humanos NOTA AO ALUNO Todo direito que existe no mundo foi alcançado através da luta. seja o direito do indivíduo. relacionou. The right to Development. na qual os Estados desenvolvidos são os detentores da obrigação legal de cooperação. em seu relatório final. Mohammed. que introduziu o direito ao desenvolvimento como um direito humano. 1182). 161 162 163 164 Ibid. p.. ao impor aos países economicamente avançados a obrigação de desenvolver os países menos avançados economicamente. Dois anos após. pela primeira vez. realizada em Teerã. M. Mohammed Bedjaoui. Chefe de Justiça do Senegal. Resolução 4 (XXXIII) de 21 de fevereiro de 1977. só se afirma através de uma disposição ininterrupta para a luta. seus postulados mais importantes tiveram de ser conquistados num combate contra as legiões de opositores. 1177.

Artigo 1(1). Japão. O marco do direito ao desenvolvimento foi a adoção. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. 170 171 172 173 174 175 Artigo 2(1). Os Estados Unidos e mais sete estados do oeste se abstiveram. França. Já no plano internacional. dispõe o artigo 3 (1) da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. Isto significa dizer que os Estados devem cooperar entre si para: (i) assegurar o desenvolvimento e eliminar os obstáculos ao mesmo179. 181 Art. que o Estado é o principal responsável pela implementação de condições nacionais e internacionais propícias à realização do direito ao desenvolvimento. 2(3). que a Declaração não apenas estabelece que a pessoa humana é o sujeito central do desenvolvimento171. por oportuno. Destaque-se. bem como eliminar as barreiras existentes176 para sua efetivação. individual ou coletivamente. Isto porque. Finlândia. Dinamarca. Ressalte-se. por oportuno. 5. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. FGV DIREITO rio 138 . Art. (iii) promover o estabelecimento da paz e segurança internacionais181. 6(3). a palavra-chave é cooperação. Tanto a Proclamação de Teerã quanto esta resolução de 1979 tinham uma abordagem estrutural (structural approach). Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. Art. da Comissão de Direitos Humanos. 7. o conteúdo do direito era vago.direitos humanos oportunidades como uma prerrogativa tanto das nações quanto dos indivíduos168. em 1986. 8(2). 177 178 Art. Artigo 1. que dispõe acerca do direito de todos os povos a seu desenvolvimento econômico. razão pela qual estes devem participar ativamente e se beneficiar do direito ao desenvolvimento173. cultural e político174. desfrutando do desenvolvimento econômico. 168 Resolução 5 (XXXV) de 2 de março de 1979. 169 Adotada pela Assembléia Geral através de sua Resolução 37/199. Mais um avanço ocorreu quando. social. Art. mas também que o direito ao desenvolvimento é um direito humano inalienável de “toda pessoa humana e de todos os povos”172. da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento pela Assembléia Geral das Nações Unidas. Ainda.. a cooperação internacional deve ser o meio para se resolver os problemas internacionais de caráter econômico. A Declaração foi adotada por 146 votos a favor. Ainda. levaram a adoção de uma resolução na qual a Assembléia Geral estatuiu o direito ao desenvolvimento como um direito humano inalienável170. No entanto. Em relação à implementação do direito em tela. 6. de acordo com o preâmbulo desta Declaração.e. Artigo 1(1). No plano nacional. assim como para promover e incentivar o respeito aos direitos humanos e liberdades fundamentais. que no mesmo ano foi adotada a Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos. cultural ou humanitário. cooperar com os Estados em desenvolvimento a fim de que estes possam realizar o direito ao desenvolvimento. Islândia e Suíça). fazendo com que a CDHNH não conseguisse atingir um acordo unânime na resolução169. juntamente com alguns debates na CDHNH e na Assembléia Geral das Nações Unidas. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. 179 180 Art. 3(3). em 18 de dezembro de 1982. realizar o direito ao desenvolvimento. um contra (Estados Unidos) e oito abstenções (Reino Unido. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. Os inúmeros relatórios produzidos. o Estado deve incentivar a participação popular em todos os campos como forma de realizar plenamente todos os direitos humanos177. i. e preâmbulo. uma visão que liga os direitos humanos a questões mundiais. bem como tomar todas as medidas necessárias para eliminar as violações de direitos humanos178 e. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. (ii) fortalecer e garantir os direitos humanos e liberdades individuais180. social. em 1981. Israel. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. social e cultural (artigo 22). dispõe o artigo 4 da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento que os Estados devem. a CDHNH estabeleceu o grupo de trabalho de experts governamentais sobre o direito ao desenvolvimento. 176 Art. conseqüentemente. o Estado deve elaborar políticas nacionais adequadas para o desenvolvimento175.

and creativity” (BEDJAOUI. criou. Sengupta sugere que o direito ao desenvolvimento é o melhoramento de um “vetor” dos direitos humanos. uma boa qualidade de vida para todos os seres humanos é o principal objetivo do direito ao desenvolvimento. emprego.o desenvolvimento é um processo econômico. sem qualquer discriminação. Parte I. No entanto. técnicos e institucionais – de tal forma que possibilitam o melhoramento das condições de vida de toda população. tais políticas públicas têm Declaração de Viena. Apesar do consenso atingido em Viena. Amartya. Ainda. água potável. 303. Parte I. M.. 1999. Todos esses direitos são interdependentes – juntamente com o crescimento do produto interno bruto (PIB) e outros recursos financeiros. educação e seguridade social. 2001.. Acesso em: 10 jan. as políticas públicas têm que estar voltadas para a satisfação de necessidades básicas. cit. p. pp. par. parte II. São Paulo: Companhia das Letras. Portanto. 1182). ao dispor que: “. 8. Nesse sentido. que visa ao constante incremento do bemestar de toda a população e de todos os indivíduos com base em sua participação ativa. veio exprimir o consenso entre os Estados de que o direito ao desenvolvimento é “um direito humano universal e inalienável e parte integrante dos direitos humanos fundamentais”182.. 2005. parte I. par. sociais. Outra inovação trazida pela Declaração e Programa de Ação de Viena. “The right to development is a fundamental right. e cf. políticos. o cargo de Expert Independente sobre o Direito ao Desenvolvimento (atual Expert Independente sobre Direitos Humanos e Pobreza Extrema188). A nomenclatura do cargo foi alterada. sustenta ser o direito ao desenvolvimento um processo no qual todos os direitos humanos e liberdades fundamentais possam ser realizados plenamente. este documento tanto reafirmou o teor da Declaração das Nações Unidas sobre o Direito ao Desenvolvimento quanto contribuiu para a inserção definitiva do direito ao desenvolvimento no vocabulário do Direito Internacional positivo dos Direitos Humanos183. pode-se dizer que o direito ao desenvolvimento unifica todos os direitos civis. apesar dos avanços trazidos pelo referido documento. desenvolvimento e direitos humanos. saúde. 10. 80. bem como um grupo de trabalho sobre o tema. 187 Isto porque se entende que a definição de direito ao desenvolvimento estabelecida no preâmbulo da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento é muito vaga. econômicos e culturais em um conjunto de direitos humanos indivisíveis e interdependentes. sociais e culturais quanto os direitos civis e políticos189. num contexto de liberdade. the precondition of liberty. org/english/bodies/chr/special/themes. Ainda. principal documento elaborado pela II Conferência Mundial sobre Direitos Humanos. Já Amartya Sen vai mais longe. Tratado de direito internacional dos direitos humanos volume II. FGV DIREITO rio 139 . No entanto. ao dizer que desenvolvimento deve ser visto como um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam191. Arjun Sengupta. deve-se destacar que a consagração do direito ao desenvolvimento como um direito humano inalienável não é um ponto pacífico entre os doutrinadores. p. em 1998.ohchr. par. e cf. cultural e político abrangente. 183 184 Declaração de Viena. 52-55. que é composto por vários elementos que representam tanto os direitos econômicos. Bedjaoui. Assim. passando de Expert Independente sobre o Direito ao Desenvolvimento para Expert Independente sobre Direitos Humanos e Pobreza Extrema. 185 186 Parte I. 191 SEN. foi o estabelecimento da interdependência184 entre democracia. 188 189 190 Idem.direitos humanos A Declaração e Programa de Ação de Viena. não se chegou a um consenso acerca da definição do direito ao desenvolvimento. op.htm. Antônio Augusto. para que se alcance esta finalidade. par. 72. 10. dignidade e justiça social para os seres humanos. justiça e criatividade190. 10. como alimentação. moradia. por sua vez. com o intuito de que fosse atingido um consenso acerca da definição187 do direito ao desenvolvimento. progress. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. 182 CANÇADO TRINDADE. Sendo assim. progresso. a precondição de liberdade. A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. afirma que o direito ao desenvolvimento é um direito fundamental. O Expert Independente. justice. Parte II. que tem como meta acabar com a pobreza e satisfazer as necessidades prioritárias de todos. par. par. Disponível em: http://www. social. Desenvolvimento como liberdade. livre e significativa no desenvolvimento e na distribuição justa dos benefícios daí resultantes”. tal Declaração alertou para o fato de que “a falta de desenvolvimento não pode ser invocada para justificar a redução dos direitos humanos internacionalmente reconhecidos”185 e que todos os obstáculos existentes para a efetivação do direito ao desenvolvimento devem ser eliminados186.

Tratado de direito internacional dos direitos humanos. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Direito ao desenvolvimento. tais como o direito ao trabalho. S. 1992. pp. indaga-se: quando é que foi proclamado o direito ao desenvolvimento? O que se entende pelo referido direito? Quem são os sujeitos ativo e passivo do direito ao desenvolvimento? O que o Estado deve fazer para realizar o direito em tela? A Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento é dotada de força vinculante? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. (ed. p. Flavia. Leitura acessória: LINDROOS. Anja. The right to development and structural adjustment programmes – an analysis through the lens of human rights. Texto produzido para o II Colóquio Internacional de Direitos Humanos. FGV DIREITO rio 140 .R. Antônio Augusto. The right to development. P. Holanda: Kluwer Academic Publishers. Laura Davis. 303-307. tecnológico e científico192. Brasil. In: CHOWDURY. Legislação: Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento Declaração e Programa de Ação de Viena 192 DESAI. 276-283. PIOVESAN. 2002. sociais e culturais. 22-47. o acesso a condições justas de trabalho e o direito a se beneficiar do desenvolvimento científico. 1999. São Paulo. The Right to Development in International Law. p. Right to Development: Improving the Quality of Life. Helsinki: The Faculty of Law of the University of Helsinki & The Erik Castrén Institute of International Law and Human Rights. 1999. Dissertação para a obtenção do título de Mestre em Direitos Humanos pela Sussex University. 31 apud MATTAR.direitos humanos que incluir outros direitos econômicos. pp. comercial. 6.D. 2002.). Pelo exposto. Volume II.

direitos humanos Aula 24: Tribunal Penal Internacional NOTA AO ALUNO O Tribunal Penal Internacional (TPI) foi criado com a aprovação do Estatuto de Roma (Estatuto) em 17 de julho de 1998 (120 votos a favor. Contudo. crimes de agressão e crimes de guerra. O Tribunal ad hoc para a ex-Iugoslávia foi criado para julgar os indivíduos responsáveis por graves violações do direito internacional humanitário cometidas a partir de 1991 na ex-Iugoslávia. aceita a jurisdição do Tribunal sobre os quatro crimes dispostos no artigo 5º do Estatuto. (c) Promotor atua ex officio. Nesse contexto (de combate à impunidade e as inúmeras atrocidades cometidas). o anseio pela criação de um sistema de monitoramento contínuo da situação dos direitos humanos no mundo é antigo. Embora o estabelecimento de uma jurisdição penal internacional só tenha se concretizado em 1998.asp. o conceito de “crime internacional” ganhou tratamento doutrinário no âmbito da responsabilidade do Estado e. Trata-se de um marco histórico. uma vez que é o primeiro tribunal internacional permanente. o caso só poderá ser apreciado se um ou mais dos seguintes estados sejam parte do Estatuto ou. não o sendo. durante a Conferência Diplomática dos Plenipotenciários das Nações Unidas. Há três possibilidades de denúncia de um caso ao TPI: (a) Conselho de Segurança remete o caso ao TPI. tenham voluntariamente aceito a jurisdição do tribunal em um caso concreto: (a) o estado em cujo território o crime tenha sido cometido. em 1993. crimes contra a humanidade. após 60 países terem ratificado ou aderido ao Estatuto. independente e complementar à jurisdição nacional. (b) Estado-parte envia o caso ao TPI. o TPI. Dessa forma. i. Isto significa que um Estado. em Roma. com a competência de julgar os indivíduos pela prática de quatro crimes: genocídio. 04 de julho de 2005. passando pelos Tribunais de Nuremberg (estabelecido em agosto de 1945) e de Tóquio (estabelecido em janeiro de 1946).. o TPI comporta 139 assinaturas e 99 ratificações193. A inauguração do mesmo se deu em 11 de março de 2003. Ressalte-se. instaura uma investigação com base em informações recebidas. ao passo que o Tribunal ad hoc para Ruanda foi criado para julgar os indivíduos responsáveis por crimes cometidos durante os conflitos internos armados em Ruanda. que a competência do TPI é automática. Sua origem remonta às antigas comissões internacionais ad hoc de investigação (a partir de 1919). 193 FGV DIREITO rio 141 . ou melhor. surgiu a responsabilidade penal internacional do indivíduo. foram criados os dois tribunais ad hoc – o Tribunal Internacional para a ex-Iugoslávia. Disponível em: http://untreaty. Atualmente. 7 contra. un. em 1994 – e.org/ENGLISH/bible/englishinternetbible/partI/chapterXVIII/treaty10. posteriormente. (b) o estado de nacionalidade do acusado. ao longo de 1994. Pouco a pouco e em decorrência do trabalho da Comissão de Direito Internacional das Nações Unidas. Até a presente data. ao se tornar parte do Estatuto. por oportuno. concomitantemente. constata-se que ambos os tribunais ad hoc foram estatuídos com limitações espacial e temporal. na Haia (Holanda). No entanto.e. o TPI só entrou em vigor em 1 de julho de 2002. De maneira diversa. 21 abstenções). Acesso em: 04 julho 2005. a jurisdição do TPI é geral e universal. e o Tribunal Internacional para Ruanda.

o promotor. de 31. por meio de intensos debates.int/ (item: “situations and cases”). São Paulo: Max Limonad.06. os 18 juízes foram eleitos. 4388.2005). após a análise dos dados. Disponível em: http://www. de 25 de setembro de 2002. Em 7 de fevereiro de 2003. Promotoria e Secretaria. Acesso em: 04 julho 2005. foi eleito em 21 de abril de 2003. o crime de agressão pode ser julgado pelo TPI? Caso negativo. por quê? Hipótese: Um indivíduo nacional de um Estado não-parte do Estatuto comete crimes contra a humanidade em um Estado-parte do Estatuto. Flávia e IKAWA. Até o momento. ao contrário do que ocorria nos tribunais ad hoc – tinham que recorrer aos tribunais nacionais para verificar como deveriam aplicar a pena –. e (iii) Darfur.03. uma Seção de Primeira Instância e uma Seção de Questões Preliminares. Já o promotor. O Brasil assinou o Estatuto em 7 de fevereiro de 2000. pena de reclusão não superior a 30 anos e prisão perpétua. busca-se adaptar a legislação brasileira ao Estatuto de Roma. uma Seção de Apelações. ao passo que o último caso foi enviado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. o TPI pode aplicá-la diretamente. pdf. O Estatuto de Roma foi aprovado pelo Congresso Nacional pelo Decreto Legislativo n. In: PIOVESAN. Daniela Ribeiro. No momento. 112. 197 FGV DIREITO rio 142 . tendo em vista que o Estatuto de Roma já prevê os tipos que podem ser aplicados. icc. Em se tratando das penas.eng.2004). e o ratificou em 20 de junho de 2002197.darfureferral. Flávia. e aprovado pelo Decreto n. icc-cpi. há três tipos: prisão provisória. Temas de Direitos Humanos. Luis Moreno Ocampo. 196 Leitura obrigatória: PIOVESAN.07. Pergunta-se: O TPI pode apreciar este caso? Justifique sua resposta com respaldo legal.06. 2003. Diante do exposto. 1593 (2005).2005196.cpi. uma juíza brasileira. dando início as suas atividades em 16 de junho de 2003. MATERIAL DE APOIO Textos: Acesso em: 04 julho 2005. (ii) República de Uganda (em 29. de 6 de junho de 2002. conforme dispõe sua Resolução n. sendo um deles Sylvia Steiner.int/librar y/cases/ N0529273. Nenhum caso foi julgado até a presente data194. resolveu abrir a investigação em 3 casos195: (i) República Democrática do Congo (em 23. O Estatuto de Roma prevê alguma forma de reparação à vítima? Qual é a exceção em relação à competência automática do TPI? Qual é a relação entre o Conselho de Segurança das Nações Unidas e o TPI? Existe alguma diferença entre a relação mencionada e aquela entre os tribunais ad hoc e o Conselho de Segurança? Quais são as questões suscitadas por doutrinadores e/ou membros do Poder Legislativo quando se discute a adaptação da legislação brasileira ao Estatuto de Roma? 194 195 04 de julho de 2005. Sendo assim. Sudão (em 06. pergunta-se: • • • • • • Atualmente. Os dois primeiros casos foram enviados ao promotor pelos respectivos governos.2004).direitos humanos O Tribunal é composto pelos seguintes órgãos: Presidência. “O Tribunal Penal Internacional e Direito Brasileiro”. Disponível em: http://www.

1999. Belo Horizonte: Del Rey. pp. 2001.direitos humanos Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. Tratado de direito internacional de direitos humanos. 385-400. MAIA. Tribunal Penal Internacional: aspectos institucionais. Antonio Augusto. Vol. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. pp. 61-107. Marrielle. Legislação: Estatuto de Roma FGV DIREITO rio 143 . II. jurisdição e princípio da complementaridade. Capítulos III e IV.

Tampouco soam incomuns maus tratos de prisioneiros num país como o Brasil. onde o crime é tão abundante que se inventou a categoria dos “hediondos” e a tortura. capuzes. perguntava: “Você quereria viver num país que: (a) desafia o direito internacional. algemas e correntes. Depois do apoio quase unânime do Congresso ao presidente para que ele pudesse declarar legalmente uma “guerra contra o terrorismo”. os ataques em Nova York e Washington haviam abalado de maneira tão profunda a sociedade norte-americana que qualquer dissensão parecia. falta de patriotismo. a Human Rights Watch e outras organizações congêneres. assim. em condições indescritíveis. por causa da respectiva etnia ou religião. Endossava. no centro de São Francisco. mulher parlamentar. numa cidade “avançada”. em viagem oficial. Disponível em: http:// www. ou complementação.org. 198 FGV DIREITO rio 144 . Afigura-se. sem qualquer acusação. Mais do que estranho. porém. geralmente admirada. (d) pune pessoas sem lhes dar oportunidade de defesa?” A resposta. diante do escritório de Senadora californiana pelo Partido Democrata. a opinião do secretário de Defesa contra o que têm afirmado a Cruz Vermelha. a situação em Guantánamo não deveria parecer assustadora (embora as fotografias sejam chocantes para qualquer um que as veja). Esta. estranho que esses panfletos sejam distribuídos num país que se apresenta como modelo de direitos humanos (o presidente Bush acaba de fazê-lo na China. (c) mantém presos incomunicáveis por meses. havia visitado a base norte-americana em Cuba. Acesso em: 04 maio 2005. onde os prisioneiros transportados do Afeganistão e fotografados com vendas. Tendo por chamada “Não à tortura em Guantánamo!”. em 22 de fevereiro). mordaças. aplicada com particular afinco em sua política externa: “nós Texto produzido por José Augusto Lindgren Alves – Diplomata.direitos humanos Aula 25: Direito Humano Pós-11 de setembro NOTA AO ALUNO Os direitos humanos e a reação ao Onze de Setembro: uma retomada de esperanças?198 “Folheto distribuído. membro do Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial da ONU e embaixador designado do Brasil em Sófia (Bulgária). até o passado recente. era: “You already do” (“Você já vive”). no coração da cidade. a Senadora em questão teria concluído que eles não se encontravam em circunstâncias desumanas. de posições liberais.dhnet. (b) humilha deliberadamente soldados capturados. tão rotineira que sua tipificação como delito parece não ter “pegado”.htm. tudo isso é deveras surpreendente depois do tenebroso Onze de Setembro de 2001.br/direitos/ militantes/lindgrenalves/lindgren_11set. de forma tão veemente. em 15 de fevereiro de 2002. Para quem se acostumou à rotina da superpopulação carcerária brasileira. EUA. Não obstante essas fotos e informações reiteradas de que os cativos têm sido drogados e sujeitos a privação sensorial para debilitar resistências nos interrogatórios. o panfleto era uma convocação pela seção local da Guilda Nacional de Advogados (ONG de profissionais do direito ativistas dos direitos humanos) para manifestação pública. a Anistia Internacional. vivem expostos em celas de alambrado qualificadas por “perito penitenciário” como “basicamente um canil” (sic). Mais estranho ainda soa que se critique. segundo o mesmo panfleto. Com efeito. a lógica dominante era aquela sempre típica dos protestantes puritanos dos Estados Unidos.

a sociedade e os meios de comunicação norte-americanos pareciam apoiar em uníssono a interpretação de que os atentados não passavam de atos covardes. ser punidos). com assistência jurídica e apoio familiar). mas julgado nos Estados Unidos por tribunal normal. Talibã apreendido em território afegão. todos favoráveis a mudanças nas posições do país. o bombardeio do Afeganistão em ruínas. que aprovou. associado à ânsia de vingança da superpotência ferida contra os idealizadores dos atentados (estes precisam. despertaram em muita gente. com discurso igual ao do Presidente Bush. Foi ela que propiciou ao governo a adoção de medidas restritivas de liberdades. encontravam as fronteiras fechadas por ordens dos Estados Unidos na fase precedente à operação militar (para impedir a saída de inimigos). atinentes ao direito à não-interferência em assuntos da vida privada. país pobre e já transbordante de refugiados pashtuns – foragidos que. com arremessos de comida para uma população em fuga para o vizinho Paquistão. com vigor extraordinário.direitos humanos somos bons. que justificou para o povo a recomendação governamental de autocensura à retransmissão de vídeos da estação Al Jazeera (a “CNN” árabe. Foi o patriotismo amortecedor de direitos. Nesse ambiente de exaltação belicosa. nada pode fundamentar a rediscussão da tortura como técnica para a obtenção de informações. resultantes de um ódio visceral. Qualquer crítica ao Governo na “guerra contra o terrorismo” (e até em outros assuntos) era repudiada como antiamericanismo – quanto mais se feita em defesa de indivíduos descritos como perigosos terroristas! Por mais simplista que fosse. por mais de três meses e meio. sem hesitações. eles maus”. apenas com os sinais trocados. normalmente sacrossanto porque essencial ao individualismo do país. sem possibilidade de apelação de sentenças. sobre os erros da CIA ao financiar talibãs contra os soviéticos na década de 80. na civilização. O apoio popular ao Presidente chegou a alcançar 95%. como as que permitem a escuta telefônica e a censura de comunicações pela Internet. a consciência de que a luta contra o terrorismo não pode ser conduzida ao arrepio do direito. sim. A dissociação norte-americana do direito humanitário que os próprios Estados Unidos haviam FGV DIREITO rio 145 . complexado e gratuito. não foram os atos atentatórios aos direitos fundamentais de todos os seres humanos. por tempo indeterminado. mais do que o temor de mensagens subliminares. de que. Sem dúvida. no país e no exterior. Foi a exaltação do patriotismo. logo “quem não está comigo está contra mim”. as fotografias dos detidos em Guantánamo e a repulsa que causaram. Foi ela que fez vista grossa à discriminação contra os estrangeiros no território nacional. A discriminação entre nacionais e estrangeiros se revela também no decreto de 16 de dezembro de 2001. de que a barbárie de uns não pode justificar a brutalidade de outros. por sinal. para julgar estrangeiros por ele qualificados de terroristas (o que não foi sequer contemplado para o norte-americano John Walker Lindh. de rito secreto e sumário. pouco lidos. do Qatar) em que Bin Laden aparecia. pelo qual o Presidente da República “autoriza o estabelecimento” de tribunais militares especiais. sem acusação conhecida e sem direito a advogado (alguns já por mais de cem dias). particularmente estrangeiros. que modificaram de forma súbita a reação de norte-americanos àquilo que vinha – e vem ainda – ocorrendo. pela civilização. obviamente. a obsessão patriótica durou. Ao contrário do que diziam livros sérios. passíveis de detenção arbitrária.

muitas sobre violações de direitos no país. entrevista à Folha de S. E que a idéia desse “eixo” com elementos tão díspares não tenha passado de de artifício de apoio à proposta de aumento gigantesco no orçamento militar. Pode ser que. FGV DIREITO rio 146 .. A7). D1). em 29 de janeiro. o que realmente vem modificando em profundidade a atitude de norte-americanos e aliados foi o primeiro discurso do presidente George W. agora em crítica mordaz. o Irã e a Coréia do Norte como um “eixo do Mal”. que ela possa reorientar o governo para o reconhecimento da importância dos direitos humanos. decorrentes de medidas adotas nessa guerra heterodoxa. Nas páginas de rosto saem agora notícias desagradáveis a Washington (como as de ataques errados e espancamentos de inocentes por tropas no Afeganistão). o Presidente dos Estados Unidos singularizou o Iraque. européia e asiática. Tampouco li nos diários ecos de sua realização (o que me leva a supor ter sido bem reduzida). com um mínimo de consistência. Francisco Chronicle. francamente. Não é preciso ter o gênio de Immanuel Wallerstein para entender que os atentados do Onze de Setembro deram ainda mais força aos “falcões” da administração George W. Contudo. tem também justificados temores. prevê repatriação no término das hostilidades. Paulo. a análise de Chris Matthews sob o título expressivo de Who hijacked our war? – “Quem seqüestrou nossa guerra?” – no S. afinal. acabem perdendo terreno para o moderado Colin Powell.direitos humanos ajudado a criar (na conferência diplomática de Genebra de 1949) forçava os aliados europeus. seja julgado por tribunal transparente e imparcial. O mesmo tem sido dito. Não sei. Nele. com direito a advogado e recurso contra sentenças. Os europeus em geral – inclusive o governo britânico – dissociaramse de possíveis bombardeios contra qualquer desses três países. por quem antes apoiava a “guerra contra o terrorismo” (v. p. que. O que a conscientização dos media e das pessoas representará de concreto na luta contra o terrorismo é difícil prever. Na preparação do Presidente para o state of the Union. a agressão verbal à Coréia do Norte tende a prejudicar as negociações bilaterais encetadas). estipula que o eventual indiciado em crime de guerra. em que deu a convocação de São Francisco à manifestação em favor dos prisioneiros talibãs. Todavia. p. dedicadas ao exterior. Bush sobre o “estado da União”. Bush (v. 17/02/2002. protegidos pela Terceira Convenção de Genebra. estendendo o combate aonde lhe pareça necessário. Só tomei conhecimento do panfleto depois da hora marcada. a cobrar o reconhecimento dos detidos em Guantánamo como prisioneiros de guerra. decididos por Washington. por pressão interna. A simples fadiga dos assuntos da “guerra contra o terrorismo” não os faria passar tão rapidamente das primeiras páginas de todos os jornais para aquelas menos lidas. uma coisa é certa: os detidos de Guantánamo e o “eixo do Mal” mudaram os noticiários. em 10/02/2002. Esta impede maus tratos e interrogatórios além do imprescindível para sua identificação. os “falcões parecem ter ido além do limite tolerável pelo patriotismo do cidadão comum. muito mais do que as fotografias de Guantánamo e a repulsa que causaram. com ou sem autorização externa. detentor como qualquer pessoa da presunção de inocência. ademais de anunciar a disposição de expandir a “guerra contra o terrorismo”. por exemplo. mas não totalmente impossível. É ainda improvável. Os sul-coreanos fizeram manifestações contra o Presidente Bush às vésperas de sua primeira visita a Seul (além de a nação ser a mesma.

pp. inclusive os direitos econômicos e sociais. Mark. ela pode tornar-se antídoto aos malefícios da globalização excludente. Volume 13. pp. “A lógica da tortura”. 09 –19. de qualquer forma. nº 2. Setembro/Outubro/Novembro 2004. FGV DIREITO rio 147 . Volume 13. “Fragmentação ou recuperação”. LINDGREN ALVES. 2005. depois do Onze de Setembro. os direitos fundamentais e o direito internacional humanitário não se acham esquecidos pelo medo ou patriotismo cego. Os direitos humanos na pós-modernidade. fazendo-o sentir que a observância desses direitos sempre foi e continuará a ser a melhor forma de desfazer condições que conduzem ao terror. que.” MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: DANNER. __________. José Augusto. Na medida em que ela absorva e propague a interdependência de todos os dispositivos da Declaração Universal de 1948. só pode ser positiva. In: Política Externa. nº 2. para a sociedade civil esclarecida e atuante. A conscientização evidencia. Setembro/Outubro/Novembro 2004. a movimentação que se esboça de novo pelo respeito a tais direitos. In: Política Externa.direitos humanos atualmente submersos na prioridade da segurança. Tendo em conta o grande peso dos Estados Unidos na disseminação internacional da idéia dos direitos humanos e a importância da sociedade civil norte-americana para sua afirmação dentro dos próprios Estados Unidos (como visto nos anos 50 e 60). 33 –44. militar e policial – felizmente sem a “doutrina” que conhecemos no Brasil -. São Paulo: Perspectiva.

tais como Fundação Ford. Professora de Direitos Humanos. rede de monitoramento das tendências de mudança e continuidade do sistema internacional (http:// rsi. Trabalhou para diversas instituições de promoção dos direitos humanos. Participou de cursos internacionais sobre direitos humanos promovido pela Universidade de Coimbra e pela Universidade de Columbia. Ex-pesquisadora do grupo de direitos humanos do Radar do Sistema Internacional. FGV DIREITO rio 148 .direitos humanos Paula Spieler Mestre em Relações Internacionais e bacharel em Direito pela PUC-Rio.cgee. Membro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Direitos Humanos. Ex-consultora do CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais). Professora do grupo de estudos sobre o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos e Coordenadora de Relações Institucionais da Escola de Direito do Rio de Janeiro da FGV.org. Anistia Internacional e Justiça Global.br/).

direitos humanos FICHA TÉCNICA Fundação Getulio Vargas Carlos Ivan Simonsen Leal PRESIDENTE FGV DIREITO RIO Joaquim Falcão DIRETOR Fernando Penteado VICE-DIRETOR ADMINISTRATIVO Luís Fernando Schuartz VICE-DIRETOR ACADÊMICO Sérgio Guerra VICE-DIRETOR DE PÓS-GRADUAÇÃO PROFESSOR COORDENADOR DO PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO EM PODER JUDICIÁRIO Luiz Roberto Ayoub Ronaldo Lemos Coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade Evandro Menezes de Carvalho Rogério Barcelos COORDENADOR ACADÊMICO DA GRADUAÇÃO COORDENADOR DE ENSINO DA GRADUAÇÃO Tânia Rangel COORDENADORA DE MATERIAL DIDÁTICO COORDENADORes DO NÚCLEO DE PRÁTICAS JURÍDICAS COORDENADORA DE SECRETARIA DE GRADUAÇÃO COORDENADOR DE FINANÇAS COORDENADORA DE MARKETING ESTRATÉGICO E PLANEJAMENTO Lígia Fabris e Thiago Bottino do Amaral Wania Torres Diogo Pinheiro Milena Brant FGV DIREITO rio 149 .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful