direitos humanos

AUTORES: JOSÉ RICARDO CUNHA, CAROLINA DE CAMPOS MELLO E PAULA SPIELER

4ª edição

ROTEIRO De CURSO 2009.1

Sumário

Direitos Humanos
APRESENTAÇÃO.............................................................................................................................................................................03 Aulas...........................................................................................................................................................................................07 AULA 01: INTRODUÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS.............................................................................................................................08 Aula 02: Desenvolvimento histórico dos direitos humanos..................................................................................................15 Aula 03: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos................................................................................18 Aula 04: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos................................................................................26 Aula 05: Os tratados de direitos humanos e a Constituição Federal.....................................................................................30 Aula 06: Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos...............................................................................................................37 Aula 07: Sistema global: mecanismos convencionais e não-convencionais de proteção dos direitos humanos...............44 Aula 08: Sistemas regionais de proteção dos direitos humanos...........................................................................................49 Aula 09: Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos.........................................53 Aula 10: Sistema Interamericano de Direitos Humanos: Estudo de Caso...............................................................................58 Aula 11: Direito Internacional Humanitário e Direito Internacional dos Refugiados.......................................................62 Aula 12: Os direitos civis e políticos: direito à vida................................................................................................................74 Aula 13: Os direitos civis e políticos: direito à liberdade e integridade pessoal.................................................................91 Aula 14: Violência Urbana.........................................................................................................................................................96 Aula 15: Direitos humanos econômicos, sociais e culturais..................................................................................................99 Aula 16: A especificação do sujeito de direitos. Os direitos humanos sob a perspectiva de gênero................................. 104 Aula 17: Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente.................................................................................. 109 Aula 18: Os direitos humanos sob a perspectiva racial........................................................................................................ 114 Aula 19: Direitos Humanos e a questão indígena................................................................................................................... 122 Aula 20: Direitos Humanos e orientação sexual.................................................................................................................... 126 Aula 21: Teatro do Oprimido.................................................................................................................................................... 132 Aula 22: O papel da sociedade civil na promoção e proteção dos direitos humanos.......................................................... 135 Aula 23: Desenvolvimento e Direitos Humanos..................................................................................................................... 137 Aula 24: Tribunal Penal Internacional................................................................................................................................. 141 Aula 25: Direito Humano Pós-11 de setembro......................................................................................................................... 144

direitos humanos

APRESENTAÇÃO
1. Visão Geral

a) Objeto: O curso de direitos humanos tem por objeto a compreensão da realidade contemporânea (ser) por meio do estudo do marco normativo (dever ser) de tais direitos, seja no âmbito internacional, seja no nacional. Assim, o curso será organizado em quatro partes: 1) 2) 3) 4) Introdução ao Estudo dos Direitos Humanos; Proteção Internacional dos Direitos Humanos; Aspectos Sócio-Jurídicos dos Direitos Humanos; e Novos Temas e Novos Atores.

b) Metodologia: Elegeu-se a abordagem crítica como elemento permeador de todo o curso de Direitos Humanos. Procurou-se assim a utilização de diferentes métodos que representem um conjunto de possibilidades, tendo como ponto comum a efetiva participação do aluno. Atividades como role plays, estudos de casos, apresentação de seminários ou mesmo organização de uma oficina do Teatro do Oprimido são sugestões apresentadas como meios de interatividade dos alunos com o conteúdo apresentado. Dessa forma, o curso não se apresenta como uma unidade estanque, com conteúdo “engessado” no espaço e no tempo, mas com a fluidez necessária para a adaptação do programa às questões mais candentes em termos de direitos humanos. Ressalte-se ainda o caráter cooperativo do método que privilegia a interação entre alunos e professores. c) Bibliografia: O curso foi montado com base em temas, não em autores ou “escolas”, o que justifica a extensão da leitura indicada. Todavia, tendo em vista a necessidade de se estabelecer uma bibliografia básica para compor a biblioteca da Escola, foram indicados certos livros que permeiam, na medida do possível, todas as aulas. Sugere-se ainda a utilização de recursos virtuais como fontes de pesquisa, notadamente sites de órgãos e organizações nacionais e internacionais. É também descrita, em todas as aulas, a legislação vigente – sejam os tratados ou normas internas – necessária para a compreensão do assunto abordado.
2. Objetivos

Os principais objetivos do curso são: • • • Apresentar os conceitos fundamentais referentes a direitos humanos; Examinar violações de direitos humanos; Compreender os sistemas internacional, regional e nacional de proteção dos direitos humanos;
FGV DIREITO rio 3

mas visa ainda ao estímulo à criatividade acerca de outras respostas possíveis. habilidades diversas serão avaliadas mediante a proposição de algumas atividades específicas: • • Nos role plays. o estabelecimento de link com assuntos correlatos. É importante ressaltar que tal atividade não se restringe à anunciação de uma resposta correta. A atividade pretende capacitar os alunos na compreensão de posições adversas em tribunais e despertá-los para a necessidade de se chegar a um resultado. a postura crítica. Incentiva-se a participação dos alunos em todas as aulas. é que estes se situem como partes de um processo histórico permeado de avanços e retrocessos. entre outros. No Estudo de Caso. O objetivo final do curso. A contextualização da temática proposta. Todas as aulas são compostas de duas partes: a) Nota ao Professor: trata-se de um roteiro sugestivo de pontos a serem abordados em sala de aula. Do Material Didático O material didático do curso de Direitos Humanos foi elaborado de maneira flexível permitindo tanto ao professor quanto ao aluno a adaptação do programa a questões contemporâneas a sua implementação. A nota apresenta. 3. As aulas serão variadas – algumas mais expositivas. são posturas a serem incentivadas nos alunos. a legislação a ser consultada e os sites pesquisados. o(a) professor(a) contará com o apoio necessário naquilo que é considerado de maior relevância para a compreensão do assunto em pauta. FGV DIREITO rio 4 . serão apresentados posicionamentos a serem defendidos pelos alunos diante de uma situação hipotética. Por meio de elementos como objetivo didático e objetivo programático. os alunos serão convidados a não eternizar de forma acrítica entendimentos pré-estabelecidos e a desenvolver suas capacidades de análise e de prática engajada. os alunos deverão apresentar os principais argumentos que fizeram do caso um paradigma na compreensão de determinado assunto. além de desenvolver a capacidade dos alunos de visualizarem o mundo que os circunda com a “lente” dos direitos humanos. b) Nota ao Aluno: trata-se do conteúdo mínimo que deve ser apreendido como leitura prévia à aula. Por meio da “problematização”. a criatividade e o respeito à opinião alheia. e caberá ao professor a responsabilidade de incentivar o debate sobre os assuntos escolhidos.direitos humanos • Municiar o(a) aluno(a) de instrumentos práticos para a intervenção no mundo contemporâneo. Nesse sentido. ainda. característica essencial ao direito. A atividade pretende incentivar o posicionamento crítico. a bibliografia obrigatória. outras mais abertas à participação e à discussão encadeada pelos alunos –.

0 pontos). Não obstante a preocupação de se contemplar os temas mais atuais em direitos humanos. b) Atividades específicas: role plays. como indicativo de atividades: 1) escolha de um filme a ser debatido conjuntamente pelos três professores. os alunos deverão apresentar um panorama geral sobre e determinada realidade e.direitos humanos • Nos seminários. Ao não encontrar determinado tema entre os propostos neste material didático. Formas de Avaliação Os alunos serão avaliados com base em: a) Participação em aula. desde então. seminários (5. qualquer tentativa de se apresentar determinado aspecto virá acompanhada por alguma perspectiva subjetiva. Desafios e Dificuldades A riqueza dos assuntos e a complexidade do que se pretende alcançar com o curso de “direitos humanos” conduz à necessidade de um recorte temático. estudo de caso. corre-se o risco de certa parcialidade na confecção desse material. por meio de casos concretos. Nesse sentido. o que não lhes confere papel de maior significado. Tendo em vista a opção de contemplar temas e não autores. Tradutori traditori. mister a escolha de conteúdos a serem priorizados em face de outros. diagnosticar as respostas normativas possíveis. 6. Mesmo quando se referirem a temas considerados “clássicos” em direitos humanos.0 pontos). 2) determinação de uma decisão judicial. 5. preferencialmente do FGV DIREITO rio 5 . Aponta-se. o leitor poderá concluir que a sua retirada foi alvo de debate por parte daqueles que contribuíram para a confecção das aulas propostas. Atividades Complementares Atividades em conjunto com outras disciplinas Encontra-se em estudo duas atividades a serem realizadas em conjunto com as disciplinas de Direito Civil (tópico sugerido: Direitos da Personalidade) e Direito Constitucional (tópico sugerido: Direitos Fundamentais). a certeza de que a temática dos direitos humanos conterá sempre novos “capítulos” confere ao presente material didático uma configuração temporal. 4.0 pontos). notadamente na “Unidade IV: Novos Temas e Novos Atores”. c) Avaliação formativa: prova escrita (5. d) Prova final: escrita (10.

Instituto Pro-Bono. Proteção na Constituição de 1988. FASE. Fundação Bento Rubião. Direito Humanitário e Direito dos Refugiados. EMENTA b) Tema: a) Tema: A disciplina Direitos Humanos. João Ricardo Dornelles (Núcleo de Direitos Humanos do Departamento de Direitos da PUC-Rio). dentre outras. Proteção Regional. Especificação dos sujeitos de direito. Projeto Legal. O envolvimento das demais disciplinas é fundamental para demonstrar aos alunos como o instrumental que recebem em cada uma das disciplinas tornase ainda mais dinâmico ao dialogar com as demais. entre outros: Centro de Justiça Global. mantendo. Idéia de gerações e suas críticas. 7. Direitos Civis e Políticos. Tortura Nunca Mais. a consonância com as datas propostas no programa: A violência no Rio de Janeiro Sugere-se o convite a especialistas como Ignácio Cano (Laboratório de Análises da Violência – UERJ). Sociais e Culturais. Principais documentos. Marcelo Freixo (Centro de Justiça Global). Novos temas. Direito Internacional dos Direitos Humanos: Direitos Humanos. O papel da sociedade civil na proteção dos direitos humanos Sugere-se o convite a movimentos sociais e organizações não-governamentais que trabalhem na Advocacia em Direitos Humanos no âmbito nacional e internacional. Novos atores. FGV DIREITO rio 6 . que também possa ser alvo de discussão conjunta pelos três professores. Perspectiva histórica. Violência. Julita Lengruber (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania – CESEC/Universidade Candido Mendes/RJ). Viva-Rio.direitos humanos Supremo Tribunal Federal. Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). Proteção internacional. Realização de Palestras As seguintes palestras serão realizadas em data marcada de acordo com a disponibilidade dos convidados e a conveniência da Escola. São Martinho. Center for Justice and International Law (CEJIL). Polissemia conceitual. Direitos Econômicos. na medida do possível. Universalidade X Relatividade. Comissão Pastoral da Terra (CPT). entre outros.

sociais e culturais. 8. Teatro do Oprimido. Desenvolvimento e Direitos Humanos. Tribunal Penal Internacional. Da regionalização: introdução aos sistemas europeu. A Constituição Federal e a proteção dos direitos humanos. Direitos Humanos econômicos. Universalidade e relatividade cultural dos direitos humanos: role play. Direitos Humanos e a questão étnica. Direito Humanitário e Direito dos Refugiados. Os direitos civis e políticos: role play referente ao direito à vida. Desenvolvimento histórico dos direitos humanos. UNIDADE 2: A PROTEÇÃO INTERNACIONAL DOS DHs 7. 17. O papel da sociedade civil na proteção dos direitos humanos. 25. 24. FGV DIREITO rio 7 . 9. africano e americano. 21. Os direitos civis e políticos. 19. UNIDADE 3: ASPECTOS SÓCIO-JURÍDICOS DOS DHs 12. Sistema Interamericano: estudo de caso (El Amparo Vs. 16. UNIDADE 4: NOVOS TEMAS E NOVOS ATORES 22. Universalidade e relatividade cultural dos direitos humanos: conceitos. 11. Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente. Violência urbana. Venezuela). 15. 23. 3. 4. 2. Direitos Humanos e a questão indígena. Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos. 6. 14. 13. Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos. Sistema global: mecanismos convencionais e extra-convencionais de proteção aos direitos humanos. 18.direitos humanos Aulas UNIDADE 1: INTRODUÇÃO AO ESTUDO DOS DHs 1. 20. Introdução aos direitos humanos: fundamentos e gramática. Direitos Humanos e orientação sexual. Especificação do sujeito de direito: os direitos humanos sob a perspectiva de gênero. Direitos Humanos no contexto pós-11 de setembro de 2001. 10. 5.

revistas e notícias de rádio sobre o incidente. mas gerar discussão sobre o tema. terra. O longa começa com o seqüestro e a partir dele inserimos depoimentos”. Não podemos nos resumir ao ato do seqüestro. Um outro tiro acertou Nascimento. espera-se uma reflexão acerca do seguinte ponto: O que existe em comum entre o filme “Ônibus 174” e os textos a seguir? ÔNIBUS 174 RELEMBRA TRAGÉDIA CARIOCA1 Vencedor do Festival Rio BR deste ano. O cuidado do filme em mostrar os dois lados da moeda aparece na entrevista com a tia de Nascimento. Mas errou o tiro e Nascimento.00. Segundo o relato dela. mas (sim avaliar) o que motiva uma sociedade a agir dessa forma. um policial. A partir daí. passando pelos cartões postais das praias de São Conrado e Vidigal e pela avenida Niemeyer até chegar ao Jardim Botânico. “Nossa preocupação (no filme) não é a de apontar culpados nem soluções. que foi afastado da Política Militar por ter se colocado contra a ação policial no episódio que terminou com a morte da passageira Geísa Firmo Gonçalves e de Sandro Nascimento.com. além de revelar uma extensa pesquisa com jornais.html. onde aconteceu a tragédia. tentando salvar a refém. A tragédia. O filme relata o trágico seqüestro de um ônibus coletivo que resultou na morte da refém e do seqüestrador e foi destaque nos noticiário em 12 de junho de 2000. explicou Padilha em entrevista recente à Reuters. o aluno deverá assistir ao Filme “Ônibus 174” de José Padilha e ler os textos abaixo. o documentário consegue provocar suspense e nostalgia ao utilizar mais de 70 horas de imagens de TV. o documentário Ônibus 174. um dos seqüestradores. de José Padilha. que tirou o romantismo do “Dia dos Namorados” e durou quatro horas. Por meio de textos extraídos de jornais. apesar de a história ser conhecida do público.direitos humanos AULA 01: INTRODUÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS NOTA AO ALUNO Para a primeira aula do Curso de Direitos Humanos. que morreu por asfixia a caminho do hospital.br/ficha/0. esse menino de rua viu a mãe ser Acesso em: 21 de abril de 2005. Disponível em: http://cinema. Tudo isso é mesclado ao depoimento do ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais Rodrigo Pimentel. revistas e artigos de Internet. um plano aéreo mostra o belo percurso do ônibus que trafegava da Favela da Rocinha. mostra a violência das ruas cariocas retratando um seqüestro verídico. Quando Nascimento resolveu se entregar e saiu do ônibus protegido por Geísa.” Logo no início.TICOI677-MNfilmes. 1 FGV DIREITO rio 8 . conforme havia ameaçado.. levou a polícia do Rio a ser duramente criticada pela imprensa e pela opinião pública. atirou na direção do seqüestrador. atirou contra a passageira. “Fizemos questão de manter a fidelidade e a cronologia do episódio.

. numa definição mais ampla – escravidão como condição em que o trabalhador não recebe remuneração e sua vida é totalmente controlada por outros – não só é comum. onde oficialmente não há escravidão há muitos séculos. 16 de outubro de 2000. a resposta seria não. Mauritânia. Paquistão. Segundo o sociólogo britânico Kevin Bales. Bonetti não é um senhor de engenho alagoano. mostra quanto o seqüestro traumatizou os cariocas. como está crescendo. baseada na propriedade privada de uma pessoa. forma extrema de superexploração capitalista. Mas este “não” se refere à forma clássica do fenômeno. há três mil escravas domésticas em Paris e a história se repete em Londres e Zurique. acusado de manter por 20 anos a empregada doméstica Hilda Rosa dos Santos como sua escrava. Para Bales. mas. Revista Isto É. naturalizado americano. legal e garantida pelo Estado. hoje com 42 anos de idade. sendo capaz de se comunicar apenas por escrito. porém. geralmente com meninas compradas e às vezes até “adotadas” em países pobres da Ásia. a Justiça dos EUA condenou a seis anos e meio de prisão e indenização de US$ 110 mil o engenheiro brasileiro René Bonetti. Cerca de um milhão de meninas com menos de 18 anos trabalha de graça como doméstica nas Filipinas. fica a cargo de representar sua mulher no filme. Mas essa nova escravidão pouco tem a ver com nostalgias e atavismos do passado pré-abolição. enquanto imagens da educadora Damiana Nascimento. (. de repente. a escravidão é como a tuberculose: todos pensavam que estava extinta nos países civilizados e em vias de desaparecimento em todo o mundo. Alexandre Magno de Oliveira. crescimento das migrações e redução ao absurdo. Índia e França. tal como consta nos livros de história e de economia política – um modo de produção tradicional. África e América Latina. é a nova escravidão. 2 FGV DIREITO rio 9 .) Muito mais versátil e importante. mas o número da linha mudou de 174 para 158. como em Nova York e Los Angeles. Continua tendo sentido falar de escravidão neste início do terceiro milênio? Para muitos sociólogos sérios. Antônio Luiz Monteiro Coelho da. O percurso ainda existe. A escravidão chega ao Terceiro Milênio2 Em 14 de agosto.. mas um engenheiro eletrônico paulistano que emigrou para trabalhar na mais alta tecnologia: Intelsat.direitos humanos assassinada a facadas quando tinha nove anos e mais tarde escapou de ser morto da chacina da Candelária – uma biografia dura e amarga. Porém. orçado em 600 mil reais. chocam ao demonstrar a real dimensão do ocorrido – ela sofreu um derrame durante o seqüestro e não consegue mais falar. depois Comsat e depois o projeto Sivam. desarticulação das sociedades pré-capitalistas e ex-socialistas pela integração ao mercado mundial. pré-capitalista. que estudou o assunto no Brasil. O viúvo de Geísa. Tailândia. bem inserida no mercado pós-moderno e global e inteiramente criada e reproduzida pelas atuais condições da economia – desemprego tecnológico. novas variedades resistentes a antibióticos aparecem onde menos se espera. Ônibus 174. COSTA. que não pretendem de forma alguma esconder e amenizar os fatos.

que destruiu a economia mineira boliviana. sobretudo no Brás. a viabilidade do negócio passou a depender cada vez mais de trabalho gratuito. 35 mil prostitutas. da remuneração de atividades tradicionais. Voltando ao Brasil. (. higiene e segurança e cumprindo uma jornada que se estende noite adentro. Segundo ela. gás natural). envolvendo. um dos casos de nova escravidão mais conhecidos é o das dezenas de milhares de trabalhadores (às vezes com suas famílias) aliciados por “gatos” no interior de Minas e do Nordeste e levados a empreendimentos em locais isolados para viver em condições precárias de habitação. Quando você faz um churrasco. Bom Retiro e Pari. repetindo a triste odisséia das “polacas” espalhadas pelo mundo como conseqüência da derrocada econômica. O aumento da distância dos centros consumidores (metrópoles. (. Se o trabalhador quer deixar o patrão que o trouxe. Sua vinda resultou da combinação do colapso dos preços das commodities nos anos 80 e 90. nas suas diversas etapas. junto com o acirramento da concorrência no setor têxtil resultante da abertura do mercado brasileiro às importações asiáticas (cuja produção freqüentemente também usa trabalho escravo ou semi-escravo). indústria siderúrgica) e com o menor preço e aumento da disponibilidade de combustíveis alternativos (carvão mineral. fundições. atividade tradicional deslocada para o Norte e Centro-Oeste pelo esgotamento das matas do Sudeste..direitos humanos devido ao acirramento da concorrência pela globalização. bem como churrasqueira e talheres fundidos com o mesmo combustível. tornam-se devedores permanentes e trabalham por abrigo e comida. da guerra e das perseguições anti-semitas dos anos 1920. geralmente tecnologicamente atrasadas. ganham cada uma cerca de US$ 50 mil por ano para seus “donos” mas nada para si mesmas. O colapso da URSS levou uma enxurrada de mulheres empobrecidas e desesperadas da Europa Oriental para trabalhar como escrava-prostitutas para o crime organizado nas capitais da Europa Ocidental. há uma boa probabilidade de estar usando carvão produzido por trabalho escravo. este o considera um FGV DIREITO rio 10 . O patrão costuma exigir fidelidade de pelo menos um ano e às vezes retém seus passaportes.) Em São Paulo. geralmente vendidas muito jovens por algo como US$ 2 mil. há cerca de 100 mil imigrantes bolivianos que trabalham nas confecções de São Paulo. Isto inclui 50 mil nos EUA. iniciando um processo de endividamento e dependência do qual nem todos conseguem se safar. Recentemente. Desconhecendo o valor das compras e o mecanismo de cálculo da produção. bem como moradia e alimentação. a secretária de Estado americana Madeleine Albright chamou a atenção para o tráfico escravo sexual como um dos empreendimentos criminosos que mais crescem no mundo.) Tráfico sexual. um milhão de mulheres e crianças são vendidas por ano em todo o mundo por um total de US$ 6 bilhões. Assim se dá boa parte da produção de carvão vegetal.. mas os grandes mercados para esse tráfico são o Sudeste Asiático (250 mil) e a Europa Oriental (mais de 200 mil).. proíbe-os de sair à rua e fecha-os dentro de casa. mulheres e crianças. Os gastos da viagem – cerca de US$ 150 – são pagos pelo empregador. costurando roupas vendidas nas melhores butiques e publicitadas pelos mais ousados outdoors pós-modernos. Na Tailândia. vetando visitas de terceiros. A escravidão sexual é ainda mais característica do mundo pós-moderno. No Brasil..

br/site/noticias/15552. industriais e de serviços. a 570 quilômetros de Cuiabá. os Guarani-Kaiowá de Nhande Ru Marangatu puderam voltar a produzir alimentos para subsistência. porém. Disponível em: http://www. Crianças indígenas morrem de desnutrição3 A violência de um despejo dos Guarani-Kaiowá seria reforçada pelo atual contexto do estado do Mato Grosso do Sul. a 150 km de Antonio João. estrutura de produção e de alimentos tem levado à morte de crianças indígenas. o trabalho chega a se estender por 15 horas por dia. e a morte de seis crianças com sintomas de desnutrição em aldeias do povo Xavante. Um caso notório é o dos pequenos empresários que no Sudeste Asiático fabricam tênis para a ultramoderna Nike. cobra as despesas da viagem ou o ameaça com o fantasma da Polícia Federal. sete dias por semana. Foram noticiadas recentemente mais seis mortes por desnutrição em duas aldeias do povo Guarani Nhandeva da região do Sul do Mato Grosso do Sul. desde o início de 2005. paraguaios ou mesmo bolivianos. Se forem considerados casos que. têxteis e outros artigos de consumo baratos para todo o mercado global. chineses e outros – mantidos em condições semelhantes em vários trabalhos agrícolas. poderiam ser chamados de semi-escravidão – empregos informais com remuneração muito baixa. sob ameaça de coação física ou policial.direitos humanos “traidor”. milho. Nos EUA. mas ainda é insuficiente. asp?lang=PT&cod=15552. batata. embora conste que os mais hábeis chegam a tirar R$ 400 mensais – ao menos com os patrões coreanos. empresa que desde 1997 tem sido forçada por uma dura campanha de boicote e denúncias a reformular sua política de compras para oferecer melhores condições a fornecedores que tratam melhor seus empregados.adital. A remuneração pode ser tão baixa quanto R$ 30 a R$ 50 mensais. a mortalidade infantil naquela área foi de 87. 3 FGV DIREITO rio 11 .67 em 2004. nos municípios de Japorã e Eldorado. à taxa de mortalidade de Dourados. onde trabalhadores superexplorados fabricam brinquedos. Segundo Kevin Bales. jornadas extremamente longas. banana. o número pode chegar a 200 milhões. na região de Campinápolis. Na terra retomada em outubro do ano passado e hoje ameaçada de reintegração. arroz. bem mais do que a população inteira do Império Romano ou de qualquer sociedade escravista do passado. Foram seis mortes na terra indígena Dourados. como mandioca. feijão. nos dois primeiros meses deste ano. de agosto a novembro. o cinema torna bem conhecida a situação de imigrantes ilegais – mexicanos. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Parece que em vez de uma sociedade de lazer movida pelo trabalho de robôs. Ainda está próxima. o século 21 veio nos trazer a escravidão numa escala que a humanidade jamais conheceu. no Mato Grosso. onde as carências de terra. mas também nessa modalidade. de Acesso em 21 de abril de 2005. como o dos bolivianos do Pari ou as trabalhadoras das subcontratadas da Nike na Indonésia.72 por mil nascidos vivos em 2001 e baixou para 41. o maior foco é a Ásia.com. tidos como mais “generosos” que seus concorrentes brasileiros. sem garantias trabalhistas e com moradia e alimentação controladas pelo empregador-. 27 milhões de pessoas vivem as várias formas de nova escravidão e o número está crescendo. No ponto alto da produção para as vendas do Natal.

eram 56 por mil. demonstram que a preocupação sobre a alimentação e sobre as condições de vida das crianças indígenas não pode se restringir às aldeias de Dourados. Também cresceu a distribuição de alimentos para os indígenas das aldeias da terra indígena Dourados. Em 2004 atingimos a menor taxa de mortalidade infantil em povos indígenas. revelou que nas eleições de outubro/ novembro cerca de 3% dos eleitores receberam oferta de candidatos ou cabos eleitorais para vender o seu voto. Segunda Pesquisa Transparência Brasil sobre compra de votos em eleições populares 4 Pesquisa nacional sobre a prática de compra de votos.direitos humanos 64 óbitos por mil crianças nascidas vivas.transparency. 4 FGV DIREITO rio 12 . Entre os benefícios oferecidos está em primeiro lugar o dinheiro (56%). toda a direção da Funasa transferiu-se para o município e diversas equipes de médicos e nutricionistas passaram a atuar no local. Pesquisa realizada pelo Ibope em novembro de 2002 por Bruno Wilhelm Speck e Claudio Weber Abramo. No MS. Os compradores de votos se dirigem igualmente a eleitores de todas as faixas de renda. A média nacional é de cerca de 25 por mil. de no máximo 3%. mas a taxa é muito alta se comparada com o restante da população brasileira”. A análise dos dados por aldeias mostra um quadro ainda mais preocupante do que aqueles apresentados pela Funasa. Disponível em: http:// www. de 12% de desnutridos e 15% de crianças em risco nutricional. Alexandre Padilha. De acordo com o diretor do Departamento de Saúde Indígena. realizada pelo Ibope para a Transparência Brasil e a União Nacional dos Analistas e Técnicos de Finanças e Controle entre 14 e 17 de novembro de 2002. Em 2002. Percentuais como estes se repetem em todas as aldeias do povo Guarani no Mato Grosso do Sul. “A situação ainda preocupa a todos e nós temos que manter a sociedade e a comunidade indígena mobilizadas para isso. Em Antônio João. de 47 por mil nascidas vivas. dados da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) apontam que 47 das 256 crianças menores de 5 anos atendidas pela Funasa. ou 18% delas. Acesso em: 21 de abril de 2005. apresentam desnutrição. Os dados da pesquisa indicam que uma série de conceitos sobre a compra de votos necessita de revisão: • • O nível de instrução do eleitor tem influência moderada sobre a oferta. que tem divulgado a média de desnutrição do Estado. Outras 52 crianças (20%) estão em situação de risco nutricional. seguido de bens materiais (30%) e favores da administração (11%). tem a taxa em 17%. disse à Agência Brasil. 6% dos eleitores afirmaram que receberam oferta de vender o voto por dinheiro.2% das crianças desnutridas saíram dessa situação nos primeiros meses do ano. Desde a última semana. sem contar os casos de risco nutricional.pdf. realizada após as eleições municipais de 2000. A aldeia Tacuru. dos Guarani Kaiowá. a desnutrição atinge 19% das crianças. 23. aldeias dos povos Terena e Kadiwéu têm um índice mais baixo de desnutrição. por exemplo. Assim. Os números da Funasa (Fundação Nacional de Saúde).org/tilac/ indices/ encuestas/dnld/compra_de_votos_brasil. a média estadual não mostra que em Amambai. responsável pela saúde indígena no Brasil. Em pesquisa anterior deste gênero.

Por outro lado. Trata-se em primeiro lugar de uma comparação entre eleições municipais. Observe-se que. em 2002 nivelou-se com a Sudeste. há diferenças mais significativas quanto à distribuição do fenômeno da compra de votos por idade do eleitor. Segundo a organização. As maiores diferenças se dão entre as regiões do país (Gráfico 8). O artigo 299 criminaliza a mera oferta de compra de voto. se eles mesmos estão praticando abusos. Sudeste e Sul mostram um quadro menos desfavorável. 5 FGV DIREITO rio 13 . Vale a pena lembrar que o código eleitoral define essa transação como crime. diz ong5 Violações dos direitos humanos cometidas pelos Estados Unidos estão minando a lei internacional e erodindo o papel do país no cenário internacional. Porém. afirmou a ONG de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch. Da mesma forma como ocorreu no levantamento relativo às eleições municipais de 2000. com os homens sendo ligeiramente mais assediados do que as mulheres. Além de aferir o volume do “mercado” de votos no Brasil. a pesquisa revela que cerca de 3 milhões de eleitores receberam oferta de vender o seu voto. quando a pesquisa nas últimas eleições incluiu todos os tipos de troca oferecidos (dinheiro. embora ainda com incidência do fenômeno.co. no art. estamos diante de um universo de 3 milhões de infrações criminais ocorridas nas últimas eleições. as pesquisas da Transparência Brasil visam elaborar um indicador para acompanhar o fenômeno ao longo do tempo. os americanos já não podem mais reivindicar que estão defendendo os direitos humanos em outros países. 237. Logo. Com todas as limitações. Eua estão minando direitos humanos no mundo. enquanto em 2000 a região Sul apresentou-se no mesmo nível do Nordeste. bens materiais. e não de uma série histórica sobre o mesmo fenômeno. Disponível em: http://www. A pesquisa referente à compra de voto nas eleições municipais se limitou às ofertas em dinheiro. Acesso em: 21 de abril de 2005. Há pouca diferença entre sexos. seguidas pelo Nordeste. mesmo que não aceita pelo eleitor. a comparação entre as duas pesquisas relatadas referentes às eleições em 2000 e 2002 requer certo cuidado. bbc. e eleições estaduais e nacionais de outro. de um lado.shtml.direitos humanos • • O fenômeno de oferecer algo em troca do voto independe da condição e do tamanho do município.uk/portuguese/noticias/ story/2005/01/050113_direitoshumanosro. em 2002 as regiões Norte/ Centro Oeste mostraram-se as mais vulneráveis. Os eleitores com mais idade são menos sujeitos à oferta do que os mais jovens. serviços públicos). no Iraque. que a interferência de poder econômico e o desvio ou abuso de poder de autoridade serão coibidos e punidos. O código eleitoral de 1965 dispõe. A ONG cobrou a criação de uma comissão independente nos Estados Unidos para examinar o abuso de prisioneiros na prisão de Abu Ghraib.

O grupo. A entidade pede que o governo Bush instale uma comissão totalmente independente. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. 1996. 1992. Também pede a indicação de um promotor especial para determinar o que houve de errado e levar os responsáveis à Justiça. A era dos direitos. a maior organização de defesa dos direitos humanos baseada nos Estados Unidos. diz que as ações dos americanos nestas prisões tiveram um efeito negativo sobre a credibilidade do país como um defensor dos direitos humanos e líder da guerra contra o terrorismo. uma outra entidade. A Human Rights Watch diz que os americanos já não podem mais dizer que sua posição é moralmente correta e liderar como exemplo. disse a ONG. o Worldwatch Institute. Credibilidade O governo americano está no momento investigando denúncias de abusos de prisioneiros no Iraque e também na prisão da base militar de Guantánamo. FGV DIREITO rio 14 . Teoria Geral dos Direitos Humanos. no modelo da que investigou os ataques de 11 de setembro.direitos humanos Na quarta-feira. 1989. Norberto. p. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: ALMEIDA. em Cuba. DORNELLES. O que são direitos humanos? São Paulo: Brasiliense. João Ricardo. Rio de Janeiro: Campus. 1547. Fernando Barcellos de. BOBBIO. A entidade cita as técnicas de interrogatório com coerção em Guantánamo e Abu Ghraib como especialmente prejudiciais. “A adoção de interrogatórios com coerção é parte de um desrespeito mais amplo dos princípios dos direitos humanos em nome do combate ao terrorismo”. havia divulgado um relatório que dizia que a chamada “guerra contra o terrorismo” pode estar perpetuando o ciclo de violência no mundo. para analisar as denúncias de abusos em Abu Ghraib.

O imperador e o papa disputavam a hegemonia suprema em relação a todo o território europeu. durante a Idade Média. do nomos: regra que emana da prudência e da razão.. acordado entre determinados atores sociais e referentes exclusivamente aos limites do poder real em tributar.. uma vez que. Mas afinal. Convém salientar que na passagem do século XI ao século XII (i. a Reforma Protestante é vista como a passagem das prerrogativas estamentais para os direitos do homem. A partir do século XI. foi uma resposta a essa tentativa de reconcentração do poder (limitou a atuação do Estado). há um movimento de reconstrução da unidade política perdida com o feudalismo. Alguns autores vêem nas primeiras instituições democráticas em Atenas – o princípio da primazia da lei (i. a elaboração da Carta Magna. Destacam-se aqui: na Inglaterra. da consagração de direitos comuns a todos os indivíduos – do clero. a sociedade européia se organizava em “ordens” ou “estamentos”. bem como de diversas lutas e revoluções. quando surgem os direitos humanos? O debate sobre o tema conduz sempre ao limite do surgimento do próprio Direito. Dessa forma. por sua vez. enquanto que os reis – até então considerados nobres – reivindicavam os direitos pertencentes à nobreza e ao clero. passagem da Baixa Idade Média para a Alta Idade Média) voltava a tomar força a idéia de limitação do poder dos governantes. É importante salientar que. mas apontar alternativas. Ainda na Idade Antiga. séculos depois. pressuposto do reconhecimento. e não da simples vontade do povo ou dos governantes) e da participação ativa do cidadão nas funções do governo – o primórdio dos direitos políticos.e. o Habeas Corpus Act de 1679 e o Bill of Rights de 1689. Nesse sentido. nobreza e povo. a república romana. a consagração dos direitos humanos é fruto de mudanças ocorridas ao longo do tempo em relação à estrutura da sociedade. FGV DIREITO rio 15 . até a Revolução Francesa. destaque-se: a laicização do Direito Natural a partir de Grócio e o apelo à razão como fundamento do Direito. É nesse contexto em que se formulam as primeiras declarações de Direitos. Outros asseveram sua natureza como meramente contratual.direitos humanos Aula 02: Desenvolvimento histórico dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O desenvolvimento dos direitos humanos foi um processo histórico e gradativo. Dessa forma. Não caberá à aula 02 resolver um embate travado entre pensadores ao longo dos séculos. uma vez que a ruptura da unidade religiosa fez surgir um dos primeiros direitos individuais: o da liberdade de opção religiosa. Dentre as conseqüências da Reforma.e. Alguns autores tratam esse momento como o embrionário dos direitos humanos. a noção de direito subjetivo estava ligada ao conceito de privilégio. Como resultado da difusão do Direito Natural e no contexto das Revoluções Burguesas. instituiu um complexo sistema de controles recíprocos entre os órgãos políticos e um complexo mecanismo que visava a proteção dos direitos individuais. em 1215. são impostos limites ao poder real por meio da linguagem dos direitos.

somente a intervenção estatal é capaz de garanti-los. Os homens são dotados de direitos inatos. Sociais e Culturais.direitos humanos nos Estados Unidos. Consagração dos princípios iluministas: igualdade. e na França. notadamente na Segunda. como o Pacto Internacional de Direitos Civil e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. não dispunha sobre os direitos correlativos dos cidadãos) só tiveram sua plena afirmação com a elaboração da Constituição mexicana (em decorrência da Revolução Mexicana). em 1948. Já os direitos de terceira geração só foram consagrados após a Segunda Guerra Mundial. atende-se para o ponto comum: a insuficiência da abstenção estatal como forma de garantia de direitos. examinamos a luta por direitos humanos em contextos nacionais. liberdade e propriedade. cabendo ao poder estatal declará-los. à educação e à saúde. Entre essas. Art. cabe destaque o momento histórico em que os direitos humanos foram galgados ao patamar internacional. a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. 1789 Fruto da Revolução Francesa – os franceses se viam em uma missão universal de libertação dos povos. É importante ressaltar que ambas as Declarações consagraram os direitos humanos da primeira geração. Tanto a DUDH. a elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). deixou transparente a necessidade de se estabelecerem marcos inderrogáveis de direitos a serem obedecidos por todos os Estados na concertação estabelecida no pós-Guerra. Por mais que o direito humanitário e a Organização Internacional do Trabalho já indicassem a necessidade de uma proteção de direitos que se sobrepusesse aos ordenamentos internos. Todavia. em 1917. uma vez que coloca em cheque a idéia contemporânea de indivisibilidade e interdependência dos direitos. significou um marco da consagração da universalidade dos direitos humanos. conforme demonstrado a seguir: Declaração de Virgínia. a Declaração de Virgínia de 1776. a idéia de gerações – importante como mecanismo de compreensão histórica – merece ser criticada desde esse momento. XVI: baseado na lição clássica de Montesquieu – teoria do governo misto combinada com uma declaração de direitos. Reconhecimento da igualdade entre os indivíduos pela sua própria natureza e do direito à propriedade. Todavia. ambos de FGV DIREITO rio 16 . 1776 Fruto da Revolução Americana – visavam restaurar os antigos direitos de cidadania tendo em vista os abusos do poder monárquico. conforme serão estudados ao longo do curso. ao passo que os direitos humanos de segunda geração (embora a Constituição francesa de 1791 já estipulasse deveres sociais do Estado. Nesse contexto. Em face de alguns direitos. Até o presente momento. com base na idéia de que existem direitos baseados na coletividade. todas inspiradas no direito natural. como é o caso do direito ao trabalho. e da Constituição de Weimar em 1919. as atrocidades cometidas durante as Guerras Mundiais. ambas expressas em um texto escrito (a constituição). Marco do nascimento dos direitos humanos na história.

a qual consagrou os paradigmas da universalidade. Diante do exposto. o final da década de 80 foi marcado pela derrocada do socialismo real. Fábio Konder. pp. Legislação: Constituição Federal de 1988 Declaração de Virgínia de 1776 Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 FGV DIREITO rio 17 . Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. Todavia. 36-66. A afirmação histórica dos direitos humanos. serão estudados na aula referente ao Sistema Global de Proteção dos Direitos Humanos. 1997. Foi nesse contexto que se desenvolveram as grandes conferências da década de 90. São Paulo: Saraiva. No decorrer da década de 90. pp. ganha força o discurso de que os direitos humanos não eram mais discursos dos blocos. 2001.direitos humanos 1966. vale adiantar que a confecção dos dois pactos localiza-se em um contexto de Guerra Fria em que os dois blocos disputavam ideologicamente a concepção de direitos humanos. indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos. Antônio Augusto. LAFER. destacando-se a Conferência de Viena de 1993. questiona-se: Qual é a importância da Carta Magna de 1215? Quais os elementos em comum entre a Declaração de Virgínia e a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão? O que são gerações de direitos? Quais foram os precedentes para a consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: COMPARATO. 31-118. Tratado de direito internacional dos direitos humanos. pp. Volume I. Por sua vez. 2001. Reconstrução dos direitos humanos – um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris. Celso. mas tema que deveria compor a agenda global. 117-145. Rio de Janeiro: Companhia das Letras.

direitos humanos Aula 03: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O CASO Zaíra. conforme sempre o fez. Sua família migrou para o país no começo da década de 1950. 15 anos. a promulgação da referida lei. seu pai ameaça tirá-la da escola caso ela não use o véu. como o uso de véu na escola e na foto da carteira de identidade. Para sua surpresa. é uma das cinco milhões de pessoas muçulmanas que vivem na França. No entanto. a igualdade entre os sexos. pois. resolve usar seu véu no primeiro dia do novo ano letivo. antes da independência de seu país. é expulsa da escola. Ela e sua família são consideradas muçulmanos “fundamentalistas”. estudando as posições a favor e contra a proibição do uso de véu e de qualquer símbolo religioso em escolas públicas. com base no princípio da laicidade do Estado. Zaíra encontra-se dividida: por um lado. com medo das conseqüências das atitudes de seu pai. Isto significa que Zaíra não poderá mais ir à escola usando o véu de acordo com sua religião mulçumana. Zaíra considera que alguns hábitos já fazem parte de sua identidade cultural. Diante disso. assim como a comemoração do Ramadã (período no qual os muçulmanos ficam um mês em jejum). por outro lado. em respeito às crenças religiosas de sua família. Sua mãe. e em decorrência de seu contato com um mundo não-muçulmano. conforme exposto a seguir: Feministas Defendem a igualdade entre os sexos como um dos princípios fundamentais da democracia. sonhando para sua filha um futuro distinto do dela. com receio das represálias que poderia vir a sofrer por parte da comunidade muçulmana. ela admira a liberdade feminina e acredita que poderia ser mais feliz sem as imposições religiosas do islamismo. Zaíra começa a se aprofundar no assunto. também. Em março de 2004. a não-utilização do véu (hiyas) violaria os ensinamentos sagrados do Alcorão. Nesse sentido. e principalmente. Zaíra. comemora. com base na lei em vigor. a Assembléia Nacional da França. conseqüentemente. adotou uma lei que proibiu o uso ou porte de qualquer símbolo religioso pelos alunos nas escolas públicas a partir do próximo ano letivo (setembro de 2004). a radicalização da laicidade é tida como uma forma de assegurar a liberdade da mulher e. Nesse contexto. uma vez que considera tal medida extremamente ofensiva a sua crença religiosa e a sua identidade cultural. o Marrocos. da maneira como foi criada. Desconsertada. FGV DIREITO rio 18 . Dessa forma. em silêncio. lamenta tal proibição. o Primeiro de Moharam (primeiro dia do calendário Islâmico) e o Eid-al-Adha (festa do carneiro que comemora o sacrifício de Abraão). por seguirem todos os ensinamentos e tradições da religião islâmica. Comemora. por sua vez.

é também um dos requisitos para se garantir uma sociedade democrática. Dessa forma. e não uma forma de submissão. A utilização de véu por alunas muçulmanas em escolas públicas. O banimento do véu confirma que há uma perseguição religiosa aos islâmicos desde o 11 de setembro de 2001. tendo em vista não ser peça ornamental e estritamente religiosa. Partido pela liberdade religiosa Defende ser a liberdade de escolha religiosa um princípio basilar de qualquer sociedade democrática. determinando suas próprias vestimentas. Conselho Superior de Educação Defende a laicidade do Estado e o combate ao fundamentalismo religioso como forma de melhorar o acesso à educação. demonstrando tanto a sua devoção e religiosidade quanto a sua obediência a valores tradicionais que compõem a cultura. Trata-se de uma escolha feita pela aluna a seguir os ensinamentos muçulmanos. a proibição da utilização de qualquer símbolo religioso por alunos muçulmanos. tal proibição. Nesse sentido. destaque-se as freiras católicas que cobrem o corpo inteiro e não são incomodadas pela sociedade. FGV DIREITO rio 19 . o uso de véu por alunas muçulmanas representa uma cultura milenar. de quipá e da estrela de Davi pelos judeus e da cruz e de crucifixo por católicos. uma vez que promove e estimula a segregação das religiões. bem como é uma forma válida para se combater o fundamentalismo islâmico. De acordo com a Corte. Corte Européia de Direitos Humanos Defende que a proibição de uso de véus nas escolas públicas por alunas muçulmanas não viola o direito de liberdade religiosa. por ser necessária para assegurar a separação entre Igreja e Estado. bem como a liberdade de expressão. o que é pior. Nesse sentido. tornando a escola em um local de aprendizagem e não de conflito. A imposição de uma proibição dessa dimensão demonstra o autoritarismo do Estado e a violação do princípio do Estado Democrático de Direito.direitos humanos O uso de véu por alunas muçulmanas representa uma submissão da mulher ao homem. católicos e judeus atenta contra tais princípios. o Estado tem que banir tal discriminação. causa separação e discriminação entre os alunos. Partido de Justiça e Desenvolvimento Islâmico Defende a identidade cultural e o direito à liberdade religiosa. limitando os atos dos indivíduos e. Como exemplo.

 São direitos sociais a educação. de 02 de julho de 1986. institui o Programa Nacional de Apoio à Cultura – PRONAC – e dá outras providências. A educação. a honra e a imagem das pessoas.] VIII – ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política. [.direitos humanos Questões: Em primeiro lugar: O Estado francês agiu de forma correta ao adotar e promulgar a referida lei? Se esse caso ocorresse no Brasil (tendo em vista ser um Estado igualmente democrático e laico).º 8. nos termos seguintes: [. Lei n... na forma desta Constituição (grifou-se)... 6.] Art.. a moradia. a segurança. a assistência aos desamparados. a saúde. [.. à liberdade. 215.] Art. punível com reclusão de dois a seis meses e multa de vinte por cento do valor do projeto. direito de todos e dever do Estado e da família.. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.505. Constitui crime. qualquer discriminação de natureza política FGV DIREITO rio 20 . 5º Todos são iguais perante a lei. [. na forma da lei. bem como as posições acima mencionadas para responder tais questões. à igualdade. a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.] VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença... a proteção à maternidade e à infância.313 – Lei Rouanet – de 23 de dezembro de 1991 Restabelece princípio da lei nº 7. sem distinção de qualquer natureza. [..] X – são invioláveis a intimidade.. MATERIAL DE APOIO Legislação: Constituição Federal de 1988 Art. [. os tratados internacionais de direitos humanos (dispostos abaixo). salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa. [.] Art. à segurança e à propriedade. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade.. o Estado brasileiro estaria violando algum princípio fundamental ou direito humano? Utilize a legislação brasileira. 205. fixada em lei. e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. o lazer. a vida privada. o trabalho.. sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional. assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.] Artigo 39º. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa. a previdência social..

[. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade. língua. pelo culto e pela observância. Artigo II. sexo. sem distinção de qualquer espécie.. com sitas a adotá-las. da celebração de ritos. isolada ou coletivamente. [. nascimento. [. religião. Toda pessoa terá direito à liberdade de pensamento. situação. Nos casos expressos em lei. pela prática. 16. Parágrafo único.. tanto pública como privadamente. sem discriminação alguma por motivo de raça. este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença. Art.. aplica-se excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade. Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração. de consciência ou crença. sexo...069.. 2º. O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos: [. pelo ensino. de 13 de julho de 1990 Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. 1º. e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade. Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente. origem nacional ou social. cor. ou qualquer outra condição. opinião política ou de outra natureza. Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. para os efeitos desta Lei.] Artigo XVIII: Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento. consciência e religião. Considera-se criança. individual ou coletivamente. os Estados-partes comprometem-se a tomar as providências necessárias. Declaração Universal dos Direitos Humanos Artigo I. de consciência e de religião.. [. de práticas e do ensino. opinião política ou de qualquer outra natureza. levando em consideração seus respectivos procedimentos constitucionais e as disposições do presente Pacto. religião. em público ou em particular. de atividade intelectual e artística. riqueza..] Art.] III – crença e culto religioso. Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Artigo 2º 1. Os Estados-partes no presente Pacto comprometem-se a garantir a todos os indivíduos que se encontrem em seu território e que estejam sujeitos à sua jurisdição os direitos reconhecidos no presente Pacto. Na ausência de medidas legislativas ou de outra natureza destinadas a tornar efetivos os direitos reconhecidos no presente Pacto. seja de raça. Art.] Artigo 18 1. 2.. a pessoa até doze anos de idade incompletos. por meio do culto.direitos humanos que atente contra a liberdade de expressão. origem nacional ou social.] FGV DIREITO rio 21 . cor. língua. Esse direito implicará a liberdade de Ter ou adotar uma religião ou crença de sua escolha e a liberdade de professar sua religião ou crença. no andamento dos projetos a que se referem esta Lei.. Lei nº 8.

FGV DIREITO rio 22 . regional e internacional e a erradicação de todas as formas de discriminação. sem qualquer forma de discriminação e em plena igualdade perante a lei. Concordam ainda em que a educação deverá capacitar todas as pessoas a participar efetivamente de uma sociedade livre.. origem nacional ou social. são objetivos prioritários da comunidade internacional. a tolerância e a amizade entre todas as nações e entre todos os grupos raciais. A plena participação das mulheres. sua própria vida cultural. de professar e praticar sua própria religião e usar sua própria língua. na vida política. étnicos ou religiosos e promover as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz. é dever dos Estados promover e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais. [. econômicos e culturais. em pé de igualdade e com a mesma ênfase. Os direitos humanos das mulheres e das meninas são inalienáveis e constituem parte integral e indivisível dos direitos humanos universais. assim como diversos contextos históricos. Os Estados Partes do presente Pacto reconhecem o direito de toda pessoa à educação. econômica. [. Todos os direitos humanos são universais. justa e equitativa. Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos. Religiosas e Lingüisticas. cor. Os Estados Partes do presente pacto comprometem-se a garantir que os direitos nele enunciados se exercerão sem discriminação alguma por motivo de raça..] 18. religião. social e cultural nos níveis nacional. civil.. sejam quais forem seus sistemas políticos. situação econômica. Concordam em que a educação deverá visar o pleno desenvolvimento da personalidade humana e do sentido de sua dignidade e fortalecer o respeito pelos direitos humanos e liberdades fundamentais. indivisíveis interdependentes e inter-relacionados. culturais e religiosos. Declaração e Programa de Ação de Viena de 1993 5. em condições de igualdade. a Conferência Mundial sobre os Direitos Humanos reafirma a obrigação dos Estados de garantir a pessoas pertencentes a minorias o pleno e efetivo exercício de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais.] Artigo 13 1.. com base no sexo.. conjuntamente com outros membros de seu grupo. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos de forma global. Étnicas. [. opinião política ou de outra natureza.. língua.] 19. favorecer a compreensão. nascimento ou qualquer outra situação. Embora particularidades nacionais e regionais devam ser levadas em consideração. religiosas ou lingüísticas. as pessoas pertencentes a essas minorias não poderão ser privadas do direito de ter..] 2. sexo.direitos humanos Artigo 27 Nos estados em que haja minorias étnicas. Considerando a importância da promoção e proteção dos direitos das pessoas pertencentes a minorias e a contribuição dessa promoção e proteção à estabilidade política e social dos Estados onde vivem. em conformidade com a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos da Pessoa Pertencentes a Minorais Nacionais. Sociais e Culturais Artigo 2º [..

vários conflitos ocorreram entre pais de alunas e diretores de escolas. A decisão da Corte Européia também pode ter ressonância em casos na Alemanha. Luiza Nagib. Acesso em: 15 out. asp?NOTCod=98021. surgirão no país quando entrar em vigor a lei banindo o uso do véu pelas muçulmanas em escolas públicas. 29. véus e outros símbolos religiosos são permitidos nas escolas do Estado. 48. planejamento. Em uma decisão que pode abrir precedentes. depois do colapso do Império Otomano. Notícias prévias: Corte européia mantém proibição de véu muçulmano6 A proibição do uso de véus pelas alunas muçulmanas em escolas públicas não viola o direito de liberdade religiosa e é uma forma válida de combater o fundamentalismo islâmico. 2004. 2004. é procuradora de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo e autora de “A Paixão no Banco dos Réus”.2003. Disponível em: http://clipping. afirmou a corte. O Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP). 6 ELUF. entre outros livros. Luiza Nagib Eluf. havendo notícias de algumas expulsões em virtude da insistência no uso do véu. principalmente esta Folha. desde que não sejam “invasivos”. de professar e praticar sua própria religião e de usar seu próprio idioma privadamente ou em público.html. terra. disse a Corte Européia de Direitos Humanos hoje.OI333991-EI312.12. De acordo com uma decisão da Justiça em 1989.br/Noticias. Paulo. “Podem se justificar medidas adotadas em universidades para impedir certos movimentos fundamentalistas religiosos de pressionar estudantes que não praticam a religião em questão ou aqueles adeptos de outras religiões”.00.06.gov. Acesso em: 15 out. mas acabou voltando atrás ao se deparar com a oposição dos militares defensores da secularidade do sistema. Em razão da ampla interpretação que a palavra “invasivo” permite. A Turquia é uma sociedade majoritariamente muçulmana que introduziu um sistema de governo secular nos anos 1920..direitos humanos As pessoas pertencentes a minorias têm o direito de desfrutar de sua própria cultura. estudou a possibilidade de colocar fim à proibição do uso do véu. 30.br/mundo/interna/ 0. vem noticiando o intenso debate que se instalou na França a respeito do uso do véu muçulmano por alunas das escolas públicas daquele país. segundo se prevê. Folha de S. a corte com sede em Estrasburgo (França) rejeitou a argumentação apresentada por uma estudante turca impedida de frequentar a faculdade de medicina da Universidade Istambul porque o véu usado por ela violava o código de vestimenta da instituição. integrado pela Turquia. A sentença do tribunal pode ajudar o governo francês a enfrentar os processos que. a ex-estudante de medicina Leyla Sahin foi impedida de realizar uma prova porque estava usando um véu. Foi secretária nacional dos Direitos da Cidadania do Ministério da Justiça (governo Fernando Henrique Cardoso. No caso decidido nesta semana. que é parte do Conselho da Europa. 7 Terra online.com. onde professoras muçulmanas estão apelando contra leis de vários Estados que as impedem de cobrir suas cabeças.2004. As proibições impostas em nome da separação entre Igreja e Estado seriam então consideradas “necessárias em uma sociedade democrática”. atualmente à frente do governo turco e que possui raízes islâmicas. O véu religioso A imprensa brasileira. com toda a liberdade e sem qualquer interferência ou forma de discriminação. Disponível em: http://noticias. 7 FGV DIREITO rio 23 . disse o órgão.

eventualmente. Espanha. para que apresentasse projeto de lei proibindo o uso de véu por meninas muçulmanas nas escolas. estabelece que “ninguém será privado de direitos por motivos de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política”. mas a intolerância maior parece não ser dos países hospedeiros. Nossa Carta Magna. decorrente de imigrações. Impedem-nas de mostrar qualquer parte do corpo. para evitar violações de direitos trazidas pelas próprias religiões aos seus seguidores. De acordo com dados estimados. além da França. pode ocorrer entre nós. opção religiosa com imposição de subalternidade. assinaram o manifesto. Uma pesquisa de opinião sobre o assunto foi divulgada recentemente. tendo apurado que 57% dos franceses apóiam a proibição do uso do véu em escolas e repartições públicas. isolando-se em suas comunidades. assim como a França. criado para evitar discriminações em razão de credo. sendo que o poder político não está vinculado a nenhuma delas. Não se pode confundir convicção pessoal com opressão. inciso VIII. Isso significa que não se pode confundir convicção pessoal com opressão. O dispositivo. É um “uniforme” feminino. setores das igrejas Católica. Tanto as alegações fundamentadas em princípios religiosos quanto as calcadas em hábitos culturais não podem ser admitidas quando se prestarem a restringir ou eliminar direitos. mesmo que com isso elas tenham dificuldades para enxergar. Os usos e costumes de determinados grupos sociais foram utilizados. tampouco é estritamente religioso. Essas populações resistem tenazmente a assimilar os valores ocidentais. O Brasil. afetá-los também. 5º. Hoje. que estigmatiza a mulher. a maior comunidade islâmica da Europa. tendo em vista tratar-se de “um símbolo visível da submissão da mulher”. essas distorções encontram-se desmascaradas internacionalmente. dentre os quais o Brasil. As atrizes Isabelle Adjani e Isabelle Huppert e a designer de moda Sonia Rykiel. por vezes chegando ao absurdo de obrigá-las a cobrir o rosto todo com o uso da burca. O tal “véu” não é peça ornamental. Por essa razão. Trata-se de uma polêmica que. a revista “Elle” francesa divulgou um apelo ao presidente Jacques Chirac. mais cedo ou mais tarde. durante muito tempo. existem na França 5 milhões de muçulmanos. inclusive o cabelo. Protestante e Ortodoxa opuseram-se à proibição. No entanto. dentre outras. temendo restrições que possam. em seu art. os imigrantes. É o que nos assegura a Constituição de 1988. possuem significativa presença muçulmana. opção religiosa com imposição de subalternidade. Escudadas em princípios religiosos. como Alemanha. sem preconceito. também. assinado por mais de 60 mulheres de destaque. deve ser aplicado. as comunidades muçulmanas impõem às mulheres regras extremamente opressivas. Por outro lado. Não falta quem atribua aos europeus a incapacidade de acolher. respirar ou falar. FGV DIREITO rio 24 . Portugal e Inglaterra.direitos humanos A discussão a respeito dos limites das determinações religiosas é de interesse geral e deve ser acompanhada pelos demais países laicos em todo o mundo. outros países do velho continente. para justificar numerosas formas de privar as mulheres de seus direitos fundamentais. é um Estado em que todas as religiões são permitidas e respeitadas.

é importante desestimular o seu uso. Surtiria. criando para elas mecanismos de autodefesa e a possibilidade de outra opção de vida. Diferentemente do que novelas de televisão andaram mostrando. como já se argumentou. O problema do véu está essencialmente ligado ao horror às manifestações do feminino. Não se trata. A proibição de cobrir a cabeça e o corpo tornaria o lamentável véu um símbolo da resistência cultural e religiosa de uma população já segregada. O véu imposto às muçulmanas tem por objetivo impedir que as mulheres se manifestem livremente. Além disso. mas opressão física e intelectual. como seres humanos. Por essa razão. de associar islamismo com terrorismo. o efeito oposto ao desejado.direitos humanos A polêmica que se iniciou na França com relação ao uso do véu islâmico demonstra que chegou o momento de rever princípios e dogmas religiosos usados para tolher as liberdades democráticas de seus seguidores. FGV DIREITO rio 25 . significa que a sexualidade feminina é proibida e “pecaminosa”. assim. que deve ser extirpado. pode ser a melhor saída para esse impasse. não há glamour no uso do véu. No entanto talvez a melhor forma de diminuir a adesão ao véu não seja a proibição legal nem a expulsão da escola de meninas que entendam necessário adotar a vestimenta de seus ancestrais. em terra estrangeira. Fortalecer as mulheres.

10 FGV DIREITO rio 26 . nenhum contra e oito se abstiveram. Na II Conferência Mundial de Direitos Humanos. através da Resolução n. entre 1947 e 1948. Sociais e Culturais. (ii) o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos.1948. assim. a delegação chinesa. 8 A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adotada em 10. conforme as etapas. p. 217 A (III). conseqüentemente. Estados Unidos.direitos humanos Aula 04: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos NOTA AO ALUNO A concepção histórica e culturalmente construída de direitos humanos conduz à imperatividade de que qualquer tentativa de universalização seja fruto de um diálogo entre as diferentes culturas. No entanto. tendo em vista que dos 58 membros das Nações Unidas na época. e que o argumento da diversidade não pode ser utilizado para limitar os direitos humanos. em especial aquele travado entre representantes da China e a de Portugal. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) de 19489 consagrou a universalidade dos direitos humanos e. não aceita o indivíduo como um ser pré-social e. França e Panamá. (iii) adoção de medidas de implementação. O debate entre universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos sempre esteve presente nos foros internacionais. 48 votaram a favor. acirrou-se o debate entre as delegações governamentais. segundo o projeto proposto pela Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. O intuito era estabelecer uma Carta Internacional de Direitos que. bem como pelo fato de não ter havido um consenso desde o início em relação às normas que deveriam ser positivadas. 7. produto do desenvolvimento de cada país. representou um marco na proteção desses direitos. da Assembléia Geral das Nações Unidas. este diálogo intercultural tem sido limitado tanto no momento da consagração da universalidade dos direitos humanos como nos debates ocorridos nos foros internacionais. como se verá a seguir. compreenderia: (i) a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). a delegação portuguesa alegou ser a universalidade compatível com a diversidade cultural. única maneira das normas universais serem realmente efetivas. Contudo. Por outro lado. Monografia de final de curso. Diálogo intercultural dos direitos humanos. O processo de universalização dos direitos humanos. Rachel Herdy. era composto por três etapas8: (i) elaboração de uma declaração universal. a delegação da China sustentou ser o conceito de direitos humanos histórico e cultural. 2003. União das Repúblicas Soviéticas Socialistas. (ii) a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento de 1994 (Cairo). destaquem-se três: (i) a II Conferência Mundial de Direitos Humanos de 1993 (Viena). a efetividade universal de suas normas continua em estágio de implementação. na qual o indivíduo – pré-social – tem direitos inatos cuja proteção foi transferida para o Estado. Filipinas. religiosa e ideológica. de tradição confucionista. Curso de Direito da PUC-Rio. (iii) o Protocolo Adicional ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. realizada em Viena no ano de 1993. defende que cada cultura deve ter seu DE BARROS FRANCISCO. 9 Apenas os representantes dos seguintes Estados participaram da elaboração da redação do projeto da DUDH: Bielorússia. uma vez que houve um número limitado de países que participaram de sua elaboração10. e (iii) a IV Conferência Mundial sobre a Mulher de 1995 (Beijing). Por um lado. (ii) criação de documentos vinculantes. Isto significa que enquanto a delegação portuguesa sustenta uma visão liberal.12. Como exemplo.

cit. realizada em Beijing. a Kafalah do direito islâmico. terá direito à proteção e assistência especiais do Estado. Boaventura de Sousa. a colocação em lares de adoção. a adoção ou. então. sendo este instituto denominado kafalah. em seu artigo 5º. mas sim elementos essenciais ao alcance desta última. III. cabe ressaltar que embora tenham surgido diversas concepções sobre os temas abordados entre as diferentes culturas – como. 2003. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Nesse sentido. 427-461. embora exista o debate entre universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos. FGV DIREITO rio 27 . uma vez que não permitem o diálogo. cuidados alternativos para essas crianças. temporária ou permanentemente privada de seu ambiente familiar. em perspectiva adequada. tendo a Plataforma de Ação de Beijing concluído que as práticas que limitam o exercício dos direitos da mulher não podem ser sustentadas em detrimento da universalidade dos direitos humanos. do qual resultou um artigo baseado na proposta de países islâmicos: artigo 2012. Boaventura de Sousa (org. Os Estados-partes assegurarão. como um elemento constitutivo da própria universalidade dos direitos humanos. Não raro a falta de informação. inter alia.. como exceção. que faz referência expressa à Kafalah do direito islâmico13. O artigo 20 dispõe que: 1. sugere-se que os discursos ‘fundamentalistas’ dos direitos humanos – tanto o universalista quanto o relativista – sejam superados. o exemplo bem sucedido de diálogo intercultural nos trabalhos preparatórios da Convenção sobre os Direitos da Criança. Contudo. Ao se considerar soluções. A tradição islâmica não permite a adoção.”14 11 DE BARROS FRANCISCO. Tratado de direito internacional de direitos humanos. 2003. 14 15 SANTOS. Toda criança. CANÇADO TRINDADE. por exemplo. 335-336. ou o controle – e mesmo o monopólio – da informação por poucos pode gerar dificuldades. sendo inconcebível a imposição de valores ocidentais como universais11. Em se tratando da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento de 1994.11. a colocação em instituições adequadas de proteção para as crianças. Registre-se. Dessa forma. Vol. de forma excepcional. na verdade a diversidade cultural não se opõe à universalidade dos direitos humanos. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. ter confirmado a universalidade dos direitos humanos e a obrigação dos Estados em respeitá-los e promovê-los independentemente de seus sistemas político. se necessário. religiosa. verificar que. espaço para um diálogo intercultural. p. é relevante a proposta de diálogo intercultural sugerida por Boaventura de Sousa Santos15 a fim de compatibilizar tal embate: a hermenêutica diatópica. 1989. mas sim a fortalece. verifica-se que em todas as conferências mundiais tem prevalecido a posição ocidental. 3. Esses cuidados poderão incluir. In: SANTOS. e não como um obstáculo a esta. foi abordada a validade das práticas culturais baseadas na inferioridade da mulher. Para tanto. uma vez que a criança muçulmana tem o direito inalienável de ligação direta com a linhagem paterna. Capítulo XIX. fazendo necessário a criação de espaços para o diálogo intercultural. a discussão permanece em aberto. não havendo. p. bem como à origem étnica. Antonio Augusto. 13 DE BARROS FRANCISCO. é permitido que outra família assuma a obrigação de cuidar da criança que não seja de sua linhagem. 2. A diversidade cultural há que ser vista. fazse necessário a construção de um diálogo intercultural como forma de se atingir a universalidade efetiva dos direitos humanos. p. Já na IV Conferência Mundial sobre a Mulher de 1995. 15. ou cujos interesses exijam que não permaneça nesse meio. Destarte. apesar da Declaração e Programa de Ação de Viena. pp. Convém. prestar-se-á a devida atenção à conveniência de continuidade de educação da criança. Há um denominador comum: todas revelam conhecimento da dignidade humana. Não é certo que as culturas sejam inteiramente impenetráveis ou herméticas. planejamento familiar e direitos reprodutivos – prevaleceu em todos os casos a posição ocidental. 20. em geral. op. que tem por premissa a impossibilidade de se compreender claramente as construções de uma cultura com base nos topos de outra.direitos humanos próprio entendimento do que sejam direitos humanos. 12 A Convenção sobre os Direitos da Criança foi adotada em 20. cultural e lingüística da criança (grifou-se). ocorrida no Cairo. Contudo.). estereótipos e preconceitos. cit. através da Resolução 44/25 das Nações Unidas. Por uma concepção multicultural de Direitos Humanos.. Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo liberal. Nesse contexto. Trata-se de um método que visa a superar as dificuldades encontradas em um diálogo intercultural. de acordo com suas leis nacionais. op. econômico e cultural. Mas universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos são ou não compatíveis? Conforme doutrina de Cançado Trindade: “As culturas não são pedras no caminho da universalidade dos direitos humanos. de 1989. que significa garantia.

por mais que todas as culturas tenham concepções de dignidade humana. 443. baseada em um localismo globalizado. Ibid. Assim. Constatação de diferentes conceitos de dignidade humana.. nem todas têm a percepção em termos de direitos humanos. Contudo. uma vez que a identidade e compreensão do ser humano ocorrem em contato – diálogo – com outro. (iii) constatação de diferentes conceitos de dignidade humana. imposta pela globalização hegemônica. De maneira bem resumida. Superação da tensão universalismorelativismo. não estará interessada no diálogo. (v) aproximação das políticas de diferença e de igualdade. passando da noção de universalidade imperialista. se reconhece sua incompletude. há cinco requisitos para que os direitos humanos possam ser teorizados e aplicados como multiculturais: (i) superação da tensão universalismo-relativismo. o conceito de cada premissa: Premissas 1. indaga-se: (i) Embora tenha sido reafirmada a universalidade dos direitos humanos na Declaração e Programa de Ação de Viena. FGV DIREITO rio 28 ..direitos humanos tal diálogo somente torna-se possível se houver uma mudança na conceituação de direitos humanos. Esta premissa pode ser traduzida da seguinte forma: “temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza. Ter em mente que. segue. mutuamente inteligíveis. por meio do diálogo intercultural. a curiosidade de procurar novas respostas satisfatórias que se traduzam no diálogo intercultural. Há diversas versões de dignidade humana. o cosmopolitismo. se organiza como uma constelação de sentidos locais. Por fim. seja por sua destruição. para uma noção de universalidade construída de baixo para cima. A solução proposta pelo autor é optar pelo reconhecimento da incompletude e pelo diálogo. transformar a concepção de direitos humanos. 458. e que se constitui em redes de referências normativas capacitantes”17. temos o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”16. estará sujeita à conquista cultural. uma vez que é esta que melhor aceitará as particularidades das demais culturas. 5. (iv) percepção da incompletude das culturas. Aproximação das políticas de diferença e de igualdade. tem-se que buscar a versão mais aberta. nem todas as percebem em termos de direitos humanos. desde que não signifique uma conquista cultural. tem-se que o objetivo da proposta de Boaventura de Sousa Santos é. 16 17 Ibid. Após essa breve exposição do tema. O reconhecimento do outro é essencial para a construção de uma identidade multicultural. Conceito Ambos os discursos – o etnocêntrico e aquele que considera as culturas como absolutas e incapazes de questionamento – impedem o diálogo intercultural. 2. 4. em uma abordagem cosmopolita. Contudo. 3. a fim de que seja construída uma concepção multicultural dos direitos humanos que. p. abaixo. por mais que todas as culturas tenham concepções sobre dignidade humana. gera também uma dicotomia: se uma cultura se considera completa.. seja pela absorção. (ii) ter em mente que. assim. Esta gera sentimentos de frustração e descontentamento e. p. Percepção da incompletude das culturas. “em vez de recorrer a falsos universalismos.

PELEG. Nova York: Columbia University Press. 2003. pp. Tratado de direito internacional de direitos humanos. Andrew. Por uma concepção multicultural de Direitos Humanos.). 1995. Legislação: Declaração e Programa de Ação de Viena Declaração Universal dos Direitos Humanos Convenção sobre os Direitos da Criança Atividade Complementar: Filme: Submissão. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. TRINDADE. Tratado de direito internacional de direitos humanos. Diretor: Theo Van Gogh. 2003. Capítulo IV. Negotiating Culture and Human Rights. Duração: 10min. I. 301-349. Boaventura de Sousa (org. Lynda. Ian (eds. In: SANTOS. Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo liberal. a Convenção sobre os Direitos da Criança. Philadelphia: University of Pennsylvania Press. 427-461. Roteirista: Ayaan Hirsi Ali. Ano: 2004. ___________. pp. Abdullahi Ahmed (ed). Antonio Augusto Cançado. III.). Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Vol. Vol. pp. 2001. Leitura acessória: AN-NA’IM.direitos humanos sua efetivação ocorre na prática e de forma igualitária em todos os países? Qual é a proposta de Boaventura de Sousa Santos para que seja construída uma concepção multicultural dos direitos humanos? O que significa o reconhecimento da incompletude da cultura? O que representou. 1997. Boaventura de Sousa. Human Rights in Cross-Cultural Perspectives. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. BELL. NATHAN. FGV DIREITO rio 29 . em termos de diálogo intercultural. de 1989? Um país muçulmano pode alegar respeito a sua cultura como forma de se eximir da responsabilidade de garantir e promover os direitos das mulheres? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: SANTOS. Capítulo XIX. 211-234.

ciente de que sua obra resulta em um marco jurídico que se estende no tempo. 19 Tal redação revelou-se “campo minado” ao longo da recente história constitucional. Tal posicionamento conduz à ilação de que os tratados de direitos humanos podem ser objeto de controle de constitucionalidade e de que lei federal pode vir a revogar tratado já incorporado ao ordenamento jurídico interno. Carolina de Campos. Validade do Decreto-lei n.. 20 FGV DIREITO rio 30 .004.direitos humanos Aula 05: Os tratados de direitos humanos e a Constituição Federal NOTA AO ALUNO A aula de nº 05 tem por objeto o estudo do Direito Constitucional Internacional. Todavia. 15. 72. 427/1969.)”. reconhecido por alguns autores com campo de interação entre as duas áreas do direito. mas também desvendar o modo pelo qual este último reforça os direitos constitucionalmente assegurados. fortalecendo os mecanismos nacionais de proteção dos direitos da pessoa humana. p. disso decorrendo a constitucionalidade e conseqüente validade do Decreto-lei n. Direitos humanos e direito constitucional internacional. No. sob pena de nulidade do título (. mesmo pelas vias ordinárias. Em primeiro lugar..131/95. Ao tratar da dinâmica da relação entre a Constituição Brasileira e o sistema internacional de proteção dos direitos humanos objetiva-se não apenas estudar os dispositivos do Direito Constitucional que buscam disciplinar o Direito Internacional dos Direitos Humanos. No julgamento do leading case após a promulgação da Constituição. que institui o registro obrigatório da Nota Promissória em Repartição Fazendária. parágrafo 2o Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados.1969. o Habeas Corpus nº. a qual garante a possibilidade de extensão do texto constitucional em relação a outros direitos e garantias que não estejam expressos no artigo 5o. São PAULO: Max Limonad. não se sobrepõe ela às leis do País. 2004. Cabe aqui a interpretação de que outros direitos e garantias também possuam hierarquia constitucional. ou ainda. MELO. Flávia.”18 Cabe assim menção às partes do Texto Constitucional que se referem a direitos humanos. Parece clara a opção do legislador constituinte. Embora a Convenção de Genebra que previu uma lei uniforme sobre letras de câmbio e notas promissórias tenha aplicabilidade no direito interno brasileiro. a Constituição faz menção expressa à promoção e proteção dos direitos humanos quando afirma que sua prevalência constitui princípio que rege as relações internacionais do Estado brasileiro (artigo 4º). “Esta interação assume um caráter especial quando estes dois campos do Direito buscam resguardar um mesmo valor – o valor da primazia da pessoa humana – concorrendo na mesma direção e sentido. o STF reafirmou sua jurisprudência. Estado e Sociedade. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. In: Revista Direito. parágrafo 2o a sua “cláusula aberta” ou “cláusula de receptividade”. não é esta a interpretação promovida pelo Supremo Tribunal Federal. 45. de registrar no artigo 5o.01. “O bloco da constitucionalidade e o contexto brasileiro”. Ao apreciar o aparente conflito No julgamento do Recurso Extraordinário no. 427. Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. o tribunal manteve posição firmada desde 197720 de que os tratados possuem status infraconstitucional com equivalência à lei ordinária. Todavia. 18 PIVESAN. a mais importante referência do Texto de 1988 constitui a seguinte: Artigo 5o. o Supremo Tribunal Federal considerou: “Convenção de Genebra – Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas Promissórias – Aval aposto à Nota Promissória não registrada no prazo legal – Impossibilidade de ser o avalista acionado. quando estabelece no artigo 7o do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) que o Brasil propugnará pela formação de um Tribunal Internacional dos Direitos Humanos. Em julgados de toda a década de 90. de 22. propiciando um verdadeiro bloco da constitucionalidade19. 80.

Dessa orientação divergiu o acórdão recorrido. por três quintos dos votos dos respectivos membros. No caso de alguém que não cumpriu o dever de pagar as prestações de seu carro e. conforme seu contrato de alienação fiduciária.”23 Recentemente. em 27. in verbis: Art. É de observar-se. Afinal. no julgamento do RE 253. não derrogou.. Artigo 5o . por ser norma infraconstitucional geral. pois.631/98. em especial dos tratados de direitos humanos. no Habeas Corpus nº 77. item 7. na circunstância descrita considerado infiel e assim passível de prisão civil. inciso VIII da Cons- FGV DIREITO rio 31 . 22 23 Mais recentemente. poderá o Poder Legislativo aprovar determinadas normas contidas nos tratados com status constitucional e outras com de lei federal? O que ocorre com os tratados ratificados até a presente data? O que são “tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos”? A primeira pergunta conduz à necessidade de se registrar alguns comentários acerca do procedimento de incorporação dos tratados em geral. O novo parágrafo do artigo 5o da Constituição Federal estabelece. em cada Casa do Congresso Nacional. veio a trazer duas importantes inovações ao abrigo constitucional aos direitos humanos: elucidou a possibilidade do status constitucional dos tratados de direitos humanos e estabeleceu a federalização das violações de direitos humanos.05. voto vencido. do Pacto de São José da Costa Rica no sentido de derrogar o Decreto-Lei 911/69 no tocante à admissibilidade da prisão civil por infidelidade do depositário em alienação fiduciária em garantia. e diante da emenda. Relator Ministro Moreira Alves. que o parágrafo 2o do artigo 5o.direitos humanos de normas existente entre a Constituição Federal de 1988. A novidade ainda não foi elucidada pela doutrina e jurisprudência.) o Pacto de San José da Costa Rica. serão equivalentes às emendas constitucionais. e o Pacto de San José da Costa Rica22. Alguns autores preferem resolver o aparente conflito de normas por meio de uma regra de hermenêutica específica ao campo dos direitos humanos: a aplicação da norma mais favorável à vítima. mas resultou no afastamento das regras comuns alusivas ao depósito”. Parágrafo 3o. Constituição Federal. e isso porque ainda não se admite tratado internacional com força de emenda constitucional”. de 08 de dezembro de 2004. LXVII. afirmou que “os tratados internacionais não podem transgredir a normatividade emergente da Constituição.071/GO de 29 de maio de 2001. Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados. Inconstitucionalidade da interpretação dada ao artigo 7o. da Constituição não se aplica aos tratados internacionais sobre direitos e garantias fundamentais que ingressaram em nosso ordenamento jurídico após a promulgação da Constituição de 1988. quando do julgamento do RE 206. o Pacto de San José da Costa Rica não implicou a derrogação da Constituição Federal. qual a regra que deve prevalecer: a Constituição Federal ou o Pacto de San José? Recente alteração constitucional. Esse entendimento voltou a ser reafirmado recentemente. salvo a do responsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e a do depositário infiel. as normas infraconstitucionais especiais sobre prisão civil do depositário infiel. além de não disporem de autoridade para restringir a eficácia jurídica das cláusulas constitucionais. Já o Ministro Marco Aurélio. a qual estabelece a permissão de duas forma de prisão civil (depositário infiel e devedor de alimentos – artigo 5o inciso LXVII21). estabeleceu a corte que “nada interfere na questão do depositário infiel em matéria de alienação fiduciária o disposto no parágrafo 7º da Convenção de San José da Costa Rica”. ressaltou que “realmente. em dois turnos.482. restando mais dúvidas do que certezas. não possuem forma para conter ou para delimitar a esfera de abrangência normativa dos preceitos inscritos no texto da Lei Fundamental. é considerado depositário. da mesma Constituição. mais conhecida como Reforma do Poder Judiciário. No tocante ao status constitucional. em julgado de 15 de maio de 2007 (RHC 90759/ MG – Minas Gerais). por fim. ao tratar novamente da prisão do depositário infiel.. a Emenda nº 45. também por decisão do Plenário.98. além de não poder contrapor-se à permissão do artigo 5o. 21 Pacto de San José da Costa Rica ou Convenção Americana de Direitos Humanos. O artigo 84. Ainda. 5o. o qual restringe tal permissão apenas ao devedor de alimentos. o STF negou provimento a um recurso em habeas corpus que questionava a possibilidade do depositário infiel ser preso em virtude do disposto no Pacto de San José da Costa Rica. inciso LXVII: Não há prisão civil por dívida. o Tribunal manteve o posicionamento ao afirmar que “(. a emenda precisou a hierarquia dos tratados de direitos humanos.

direitos humanos

tituição Federal confere ao presidente da República a competência privativa para negociar e celebrar tratados, convenções e atos internacionais, sujeitos ao referendo do Congresso Nacional. Em regra, tal competência é exercida pelo ministro das Relações Exteriores ou pessoa por ele designada para tal. Ainda, de acordo com o artigo 49, inciso I, é de competência exclusiva do Congresso Nacional resolver definitivamente sobre tratados, acordos e atos internacionais. Assim, caberá primeiramente à Câmara dos Deputados, sucedida pelo Senado Federal, a aprovação dos tratados. Em ato discricionário, cabe ao presidente da República o ato da ratificação, consolidado por meio de um decreto, considerado pela jurisprudência do Supremo Tribunal Federal ato fundamental para que o tratado possa surtir efeitos no ordenamento jurídico interno. Em resumo, os tratados seguem os seguintes passos: Negociação e Assinatura pelo Poder Executivo + Aprovação pelo Poder Legislativo + Ratificação pelo Poder Executivo

Ultrapassada a regra geral para a incorporação dos tratados no ordenamento jurídico interno, cabe ressaltar que o legislador constituinte de 2004 deixou transparente a possibilidade de que os tratados venham a ter hierarquia constitucional caso sejam aprovados com o procedimento reservado às emendas constitucionais. Se por um lado não cabe mais dúvida acerca do status, podemos concluir que a inserção de tal norma pode conduzir à ilação de que certos tratados terão hierarquia constitucional e outros não, o que seria uma resolução descabida seja no âmbito do Direito Constitucional ou do Direito Internacional. Afinal, se o Estado brasileiro já ratificou os mais importantes tratados de direitos humanos, qual seria o atual status dos mesmos? Apesar de não constar da Emenda Constitucional nº 45 qualquer menção aos tratados já incorporados à ordem interna, não parece razoável que tais tratados sejam tidos como leis ordinárias e os futuros como normas constitucionais. De acordo com Tarciso dal Maso, “deveria ser admitida hierarquia normativa superior para tratado sobre direitos humanos já ratificado, até porque seria ilógico, por exemplo, que Protocolo Adicional à determinada Convenção, futuramente aprovado pelo procedimento do parágrafo 3o do art. 5o, seja considerado como força de emenda à Constituição e a própria Convenção-quadro não.”24 Também causa estranheza que tenham que ser submetidos a uma nova apreciação, notadamente quando o Estado brasileiro já se pronunciou no âmbito internacional por meio da ratificação dos mesmos. Caberá ao Poder Legislativo o estabelecimento de procedimento específico para a aprovação de tratados de direitos humanos em conformidade com a determinação constitucional, restando ao Poder Judiciário o papel fundamental de reinterpretar a sua jurisprudência para a necessária adequação à norma. Por fim, a resposta à indagação sobre a definição de tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos será obtida ao longo deste curso, uma vez que se pretende estabelecer, com o devido rigor técnico, o que se entende por direitos humanos. Cabe enfatizar, desde então, que os tratados de direitos humanos, compreendidos

JARDIM, Tarciso dal Maso. Afirma o autor a inconstitucionalidade do novo parágrafo inserido no artigo 5o ao estabelecer que “se favorável ao projeto constitucional brasileiro, o STF reconheceria o nível constitucional de todos os tratados que consagrassem direitos e garantias fundamentais, com base no parágrafo 2o do artigo 5o, e declararia o novo parágrafo 3o do artigo 5o como contrário às cláusulas pétreas, pois, nos termos do inc. IV, parágrafo 4o do artigo 60, seria tendente a abolir direitos fundamentais ao aventar hipótese de certos tratados sobre direitos humanos não poderem ter status constitucional a depender do procedimento legislativo adotado.” (página 50)
24

FGV DIREITO rio 32

direitos humanos

como gênero de que são espécies as convenções, devem ser interpretados de forma mais ampla, englobando também direito humanitário e direito dos refugiados. Saliente-se aqui a outra inovação apresentada pela Reforma do Poder Judiciário: a federalização das violações de direitos humanos. De acordo com a nova redação, o artigo 109 passa a contar com a seguinte redação:
“Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar: V-A as causas relativas a direitos humanos a que se refere o § 5º deste artigo; § 5º Nas hipóteses de grave violação de direitos humanos, o Procurador-Geral da República, com a finalidade de assegurar o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil seja parte, poderá suscitar, perante o Superior Tribunal de Justiça, em qualquer fase do inquérito ou processo, incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal.” (NR)

A inovação institucional deve ser entendida sob os seguintes argumentos: Passo definitivo de enfrentamento à impunidade e garantia de proteção à vítima: O pacto federativo brasileiro, especificamente no tocante à repartição das competências entre Poder Judiciário Estadual e Federal, possui no artigo 109 da Constituição referência fundamental. Os temas ali relacionados são de competência da magistratura federal, sendo os demais – a grande maioria – considerados reservados à magistratura estadual. Tal divisão temática acarreta em atribuições distintas também para outros órgãos que atuam perante o Poder Judiciário. Por exemplo, os crimes contra a organização do trabalho, os crimes contra o sistema financeiro e a ordem econômica financeira deverão ser investigados pela Polícia Federal, sendo a eventual denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal perante a Justiça Federal. Todavia, a omissão ou mau funcionamento das instituições estaduais – Poder Executivo (em especial a polícia), Ministério Público, Defensoria Pública, Magistratura – diante de um caso concreto conduziram o legislador a estabelecer que em determinados casos a competência deverá ser transferida para a Justiça Federal de forma a não acarretar uma outra violação de direitos humanos: o direito a um julgamento justo e imparcial e em um prazo razoável. Nesse sentido, o deslocamento de competências veio a reforçar a necessidade de um efetivo funcionamento das instituições estaduais e a garantir o combate à impunidade por parte das instâncias federais em casos específicos e, por conseqüência, que seja ampliada a proteção dos direitos humanos. O federalismo adotado pela Constituição Federal A Constituição brasileira estabelece um federalismo de cooperação25 entre os seus entes – União Federal, Estados, Municípios e Distrito Federal, o que não exclui um exercício cooperativo também em relação à atividade jurisdicional. A federalização das violações de direitos humanos não constitui uma novidade nesse sentido. Cabe lembrar que o artigo 109, parágrafo 3º, da Constituição Federal estabelece que, na ausência de Varas Federais ou Trabalhistas, a Justiça Estadual exerça as competênb)
SCHREIBER, Simone; e COSTA, Flávio Dino de Castro e. “Federalização da competência para julgamento de crimes contra os direitos humanos”. In: Direito Federal: Revista da Associação dos Juízes Federais do Brasil. Ano 21. No. 71. Niterói: Editora Impetus. Julho a setembro de 2002. p. 253.
25

a)

FGV DIREITO rio 33

direitos humanos

cias que pertencem à Justiça Federal e do Trabalho. No intuito de atender à vítima diante de atividade jurisdicional específica, o Judiciário Estadual acaba por exercer a jurisdição sob matéria excluída de sua competência originalmente. Não é de se causar espanto a alternativa de que, diante da ausência ou mau funcionamento da Justiça Estadual, que a Federal exerça a atividade jurisdicional, visando à implementação de um julgamento justo e imparcial. Há de se ressaltar ainda que a Constituição Federal previu remédio federativo muito mais grave para violações de direitos humanos quando, em seu artigo 34, inciso VII, alínea b, possibilitou a intervenção da União nos Estados para assegurar o princípio constitucional sensível dos direitos da pessoa humana. É possível concluir que o constituinte originário criou um caso extremo de chamamento para a União Federal de casos de violação de direitos humanos e o constituinte derivado, por meio da Emenda Constitucional nº 45, estabeleceu uma hipótese mais específica, o deslocamento de competência em um determinado caso. Responsabilidade Internacional A Constituição Federal, em seu artigo 21, inciso I, estabelece que compete à União Federal, manter relações com Estados estrangeiros e participar de organizações internacionais. Nesse sentido, é a União Federal, e não seus Estados-membros, que respondem pela responsabilidade internacional decorrente do descumprimento das obrigações assumidas pelo Estado brasileiro pelos tratados de direitos humanos. Tendo em vista que a soberania é una e indivisível, o Estado Federal não pode alegar razões de ordem organizacional interna como fator excludente de responsabilidade. Os termos dos tratados internacionais dos quais o Estado brasileiro é parte são aplicáveis a todas as suas partes componentes. A responsabilidade internacional acaba implicando para o Estado brasileiro uma situação complexa focalizada em dois pontos: a) a maior parte das violações de direitos humanos encontra correspondência direta com as competências dos Estados-membros da federação; e b) o compromisso do Estado brasileiro com o marco protetivo internacional dos direitos humanos, notadamente após a Constituição de 1988, em consonância com os princípios da dignidade da pessoa humana e com da transparência internacional. Como estudaremos em momento oportuno, tramitam na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) mais de 100 petições contra o Estado brasileiro. Em regra, são raríssimos os casos que apontam à responsabilidade direta da União em face da violação de direitos humanos. Isto posto, é possível afirmar que, na maioria expressiva dos casos, a responsabilidade é do Estado-membro. Observese que boa parte destes casos pendentes na Comissão poderá ser submetida à Corte Interamericana, cuja jurisdição foi reconhecida pelo Brasil em dezembro de 1998, notadamente após a alteração do Regulamento da Comissão que prevê a presunção de encaminhamento dos casos à Corte Interamericana de Direitos Humanos. Nesse sentido, é bem vindo um mecanismo capaz de assegurar o cumprimento dos tratados de direitos humanos em caso dos entes federativos falharem ou não disporem de condições operacionais ou estruturais. Acredita-se que o estabelecimento
FGV DIREITO rio 34
c)

br/ SCON/pesquisar. Qualquer inovação conduz à necessidade de estabelecimento de limites.jsp?b=ACOR&livre=federalização. Legislativo. mais de dois anos antes do instituto de federalização. Disponível em: http://www. inciso III).pgr. “assegurar o devido cumprimento de obrigações decorrentes dos tratados de direitos humanos”). que a República Federativa do Brasil se comprometeu a reprimir em decorrência de tratados internacionais de que seja parte” (art. A alternativa de federalização dos crimes de direitos humanos pode conduzir à disseminação nos entes federados do melhor cumprimento às obrigações decorrentes de tratados de direitos humanos dos quais o Brasil é parte – sob o risco do incidente de deslocamento de competências.26 Acredita-se ainda em um efeito no sentido inverso: a capilarização da promoção dos direitos humanos. União Federal. O impacto de suas ações e omissões no plano internacional pode servir de estímulo ao melhor funcionamento das instituições locais em casos futuros. muito ainda se discutirá para a elucidação dos requisitos de admissibilidade (ex: “grave violação de direitos humanos”.direitos humanos da federalização veio a exercer precisamente esse mecanismo federal que possibilite à União um instrumento nacional para a responsabilidade internacional. Somente a prática permitirá que tais questões sejam preenchidas. FGV DIREITO rio 35 . Incidente de Deslocamento de Competência 2005/0029378-4. mas não constitui solução mágica. e c) a sistemática processual vigente. Nesse sentido.gov.446. Acesso em: 05 de junho de 2006. Judiciário e Ministério Público – e sociedade civil devem conjugar esforços para fazer desse novo dispositivo constitucional um imperativo para a defesa dos direitos humanos. Tal afirmativa afasta as acusações de que tal deslocamento feriria a independência do Poder Judiciário.gov.pdf. A possibilidade de deslocamento de competência ou a federalização das violações constitui avanço institucional significativo em termos da defesa de direitos humanos. Acesso em: 08 de maio de 2004. MATERIAL DE APOIO Casos / Jurisprudência: 26 É importante ressaltar que a Lei no. uma vez que o STJ é o órgão jurisdicional de cúpula entre justiça estadual e federal. 10. Disponível em: http:// www. já previu a possibilidade de que a Polícia Federal investigo infrações penais relativas à violação a direitos humanos.mpf. mediante provocação. d) Dos parâmetros processuais A Emenda Constitucional nº 45 estabelece ainda que o incidente de deslocamento será apreciado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) a pedido do Procurador-Geral da República. IDC 1 / PA. Conclui-se que a possibilidade de deslocamento de competências para violações de direitos humanos encontra-se em perfeita sintonia com: a) os parâmetros do direito internacional por estabelecer mais um grau de subsidiariedade no âmbito interno. Estados – compreendidos aqui pelos Poderes Executivo. OF/Nº 022/04/PR/PA – incidente de deslocamento de competência (caso Irmã Dorothy Stang). de 08 de maio de 2002.br/pgr/asscom/Stang. 1o.stj. É importante ressaltar que tal deslocamento somente pode ser decidido por órgão jurisdicional. b) o ditame constitucional da proteção dos direitos humanos em conformidade com o pacto federativo.

13ª edição. Antônio Augusto. O parágrafo 2º da Constituição Federal” In: TORRES. 2001. Parecer apresentado ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. Belo Horizonte: Editora Del Rey. Teoria dos Direitos Fundamentais. 1999. Rio de Janeiro: Renovar. Legislação: Constituição Federal de 1988 FGV DIREITO rio 36 . Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. Volume I. Leitura acessória: ALBUQUERQUE MELO. George Rodrigo Bandeira. Flávia.). Curso de Direito Internacional Público. Flávia. GALINDO. e PIOVESAN. 401-447.direitos humanos Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. 1997. Da federalização das violações de direitos humanos. Tratados Internacionais de Direitos Humanos e Constituição Brasileira. Ricardo Lobo (org. ______________________. Tratados Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos e Federalização dos Crimes de Direitos Humanos na Reforma do Judiciário. CANÇADO TRINDADE. Rio de Janeiro: Renovar. 2002. pp. Celso. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris.

br/ sedh/dpdh/gpdh/pndh/principal. destaquem-se: (i) Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR). É preciso dizer não à banalização da violência e proteger a existência humana”27. (d) Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência – CONADE. assessorias. Os assassinatos. Órgãos colegiados: (a) Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – CDDPH.direitos humanos Aula 06: Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos NOTA AO ALUNO “Os Direitos Humanos são os direitos de todos e devem ser protegidos em todos Estados e nações. especialmente em um Estado e em uma sociedade que se desejam modernos e democráticos. (iii) Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. os seqüestros. sua composição. (b) Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA.gov. Dentre os principais órgãos. Trata-se do órgão da Presidência da República que tem por atribuições articular e implementar as políticas públicas voltadas para a promoção e implementação dos direitos humanos. Coordenação da Política Nacional de Direitos Humanos.htm. Os direitos humanos são assegurados pela Constituição Federal e por diversos tratados internacionais em que o Brasil é parte. (vii) Defensoria Pública e Ministério Público. Disponível em: http://www. e (e) Conselho Nacional dos Direitos do Idoso – CNDI. Programa Nacional de Direitos Humanos I. de 28 de maio de 2003.mj. (vi) Conselhos Municipais. o crime organizado. abaixo. É nesse contexto que surgem diversos órgãos de proteção dos direitos humanos nos planos nacional. em conformidade com as diretrizes do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH). tais documentos carecem de sentido se não houver mecanismos para garantir e promover os direitos humanos. A SEDH foi criada pela Lei nº 10. No entanto. o extermínio. 2005. atuando preventiva ou punitivamente (no caso de terem ocorrido violações de direitos humanos). o tráfico de drogas e as mortes no trânsito não podem ser consideradas normais. Órgãos executivos: (a) Subsecretaria de Articulação da Política de Direitos Humanos – SAPDH. dando destaque ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH). (ii) Conselhos Nacionais e Estaduais. e (c) Subsecretaria de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos – SPDDH. (iv) Comissões de Direitos Humanos das Assembléias Legislativas. (b) Subsecretaria de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente – SPDCA. 27 Composição Principal atribuição FGV DIREITO rio 37 . Seguem.683. Acesso em: 23 fev. e grupos de trabalho temáticos. as chacinas. (v) Comissões de Direitos Humanos das Câmaras Municipais. estadual e municipal. (c) Conselho Nacional de Combate à Discriminação – CNCD. principal atribuição e programas a serem executados de acordo com o Plano Plurianual 2004-2007: Fatores Definição Órgãos colegiados e executivos. Introdução.

gov.presidencia. (b) constituir comissões de inquéritos para facilitar as investigações.gov.br/sedh/ Conselho Nacional dos Direitos da Mulher – CNDM – www.gov.br/sedh/cddph Conselho Nacional de Combate à Discriminação – CNCD – www.br/sedh/ct/ CONADE Conselho Nacional dos Direitos do Idoso – CNDI – www.br/seppir ou www. (d) Direitos Humanos. Conselhos Gestores e participação política. presidencia. 31 FGV DIREITO rio 38 . mj.. criado pela Lei n. órgão específico da SEDH/PR. como fruto da organização e das lutas sociais. de autoria do então deputado federal Projeto de Lei n. 4715/199430. 4715/ 1994.presidencia. e (e) prestar informações para os organismos internacionais sobre a situação dos direitos humanos no país.br/spmulheres Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência – CONADE – www. 11).br/cnpcp Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial – CNPIR – www. M.gov.direitos humanos Programas a serem executados (Plano Plurianual 20042007)28 (a) Assistência a Vítimas e a Testemunhas Ameaçadas.htm (par. como mecanismos de participação e de legitimidade social iniciam-se no Brasil. Disponível em: http://www. assim. gov.br/sedh/ct/di. 2003.mj.br/seppir Outros órgãos colegiados nacionais: Comitê Nacional para a Educação em Direitos Humanos – CNEDH Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo – CONATRAE Conselhos Estaduais Conselho Estadual de Defesa dos Direitos do Homem e do Cidadão Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher Conselho Estadual dos Direitos do Idoso Conselho Estadual do Consumidor Conselho Estadual de Proteção de Vítimas e Testemunhas 28 Para maiores informações sobre o objetivo de cada programa. pdf. Os conselhos nacionais e estaduais.gov. G. (g) Promoção e Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.mj.gov. oportunidade na qual a Comissão de Trabalho.gov. o qual transforma o CDDPH no Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH). Direito de Todos. 2005. em 13 de maio de 2003. presidencia. (e) Gestão da Política de Direitos Humanos. (f ) Nacional de acessibilidade.br/sedh/cncd Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA – www. Ambos os conselhos têm como meta a promoção e defesa dos direitos humanos.camara. (d) promover estudos para aperfeiçoar a defesa dos direitos humanos. cabe destacar suas principais atividades: (a) receber denúncias de violações de direitos humanos de abrangência nacional e investigá-las em conjunto com as autoridades competentes locais. Cuida-se. 2ª ed. 4319/1964.gov. Em consulta realizada no site da Câmara dos Deputados em dia 23 de fevereiro de 2005. (h) Promoção e Defesa dos Direitos de Pessoas com Deficiência.br/EmConstrucao/pdf/Rel_OrgaoPrograma1. http://www. a lista dos conselhos nacionais e estaduais existentes: Conselhos Nacionais Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – CDDPH – www.br/defaultCab.gov.planalto. por sua vez. de acordo com Gohn29.mj. Acesso em: 23 fev. de Administração e Serviço Público designou um relator.mj.htm. Tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei n. e (i) Proteção da Adoção e Combate ao Seqüestro Internacional.br/internet/proposicoes).gov. 29 GOHN. São Paulo: Cortez. de peça fundamental na proteção dos direitos humanos.gov. a fim de dar maior agilidade às apurações de violações de direitos humanos. planobrasil. o deputado Tarciso Zimmermann (PT-RS). A última ação ocorreu em 15 de setembro de 2004. (c) Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.31 Já a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados foi criada por meio da Resolução n. 231.asp?idserv info=43507&url=http://www. e. Segue.br/sedh/cndi Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária – CNPCP – www. abaixo. (c) atuar por meio de resoluções. durante a “VIII Conferência Nacional dos Direitos Humanos”. (b) Atendimento Socioeducativo do Adolescente em conflito com a lei. Em relação ao CDDPH.gov. 30 Discurso proferido pelo Ministro Nilmário Miranda. acesse o site http://www. mj. verificouse que o projeto de lei encontrava-se sujeito à apreciação do Plenário (http://www2.br/ccivil_03/ Projetos/PL/pl4715.gov.

br/comissoes/ cdhm. Destaquem-se suas principais atribuições: (a) receber denúncias de violações de direitos humanos e encaminhá-las ao órgão competente. a lista dos conselhos municipais do Município do Rio de Janeiro e seus contatos35: Acesso em: 04 junho 2006. acesse o site http://federativo. destacam-se: (a) participar do estabelecimento da política municipal de direitos humanos. Acesso em: 23 fev.32 A Assembléia Legislativa de cada Estado é composta por comissões permanentes e temporárias. (c) colaborar com organizações não-governamentais e internacionais que atuem na defesa dos direitos humanos.gov. camara. parlamentares e entidades de defesa dos direitos humanos.br/enderecos1. 2005. os mesmos continuam sendo peça importante no combate às violações de direitos humanos.org.br/dicas/D102%20%20Pol%C3%ADtica%20muni cipal%20de%20direitos%20hu manos. implementar e avaliar em conjunto as políticas públicas referentes a determinado grupo da sociedade mais vulnerável. Segue. uma vez que desempenha papel fundamental na proteção dos direitos humanos e na promoção da cidadania. o que tornou mais eficiente e rápido o trabalho investigativo intentado pelo legislativo brasileiro. Disponível em: http://www2. abaixo. A comissão de direitos humanos33 consiste em uma das comissões permanentes. podendo ainda haver comissões parlamentares de inquérito. Nesse sentido. Os Conselhos Municipais de Direitos Humanos.dhnet. (b) fiscalizar e acompanhar programas governamentais relativos à proteção dos direitos humanos.gov. FGV DIREITO rio 39 . Ao criar o novo órgão técnico e suprapartidário. motivo pelo qual a Secretaria Especial de Direitos Humanos apóia os conselhos municipais já existentes.obrasocial-rj. concretizou-se uma antiga reivindicação dos movimentos populares. sendo o recebimento de denúncias sua atividade principal. (d) lutar pela garantia e implementação de tais direitos. em 31 de janeiro de 1995. Disponível em: http://www. Embora muitos conselhos municipais não funcionem da maneira como deveriam. a fim de que governo e sociedade civil possam atuar de forma articulada na proposição e no desenvolvimento de ações voltadas para a promoção e a proteção dos direitos humanos.direitos humanos Nilmário Miranda.htm. (b) escutar as vítimas de violações ou seus familiares.br/direitos/brasil/legislativo/cdhcf/cartilha_cdh/19_comissoesassembleia. avaliar e investigar denúncias relativas à ameaça ou violação de direitos humanos. são importantes canais de participação coletiva e de criação de novas relações políticas entre governos e cidadãos por meio de um processo de interlocução permanente. Seus objetivos também são encaminhar denúncias. A sociedade civil deve propor alternativas de políticas públicas. por sua vez. 32 Dispõe acerca de todas as Comissões de Direitos Humanos das Assembléias Legislativas.htm. criar espaços de debates. 33 34 Para maiores informações. e (d) promover pesquisas e estudos relativos à situação dos direitos humanos no respectivo município. Representou um marco na história dos direitos humanos do país. (c) realizar ou patrocinar campanhas e eventos locais com o objetivo de difundir e proteger os direitos humanos. 35 Acesso em: 26 fev. É composta por 23 deputados e 23 suplentes e tem por finalidade investigar violações de direitos humanos. html#parte2. org. são compostos por representantes do governo e da sociedade civil empenhados em discutir. 2005. sugerir projetos e fiscalizar a atuação do Poder Público. (c) opinar sobre proposições e assuntos ligados aos direitos humanos. (b) adotar providências e propor medidas para apurar violações de direitos humanos. bndes. Já as Comissões de Direitos Humanos das Câmaras Municipais também têm caráter permanente e são marcadas pelas seguintes atribuições:34 (a) receber. Dentre suas atividades. penetrar na lógica burocrática estatal para transformá-la e exercer o controle socializado das ações e deliberações governamentais. Disponível em: http://www.

rj. 2205-3798 BIP: 2460. 20560-200 Tel/Fax.2 – Rua Conde de Bonfim. 57 – Ramos – CEP.rj.br Conselho Municipal de Entorpecentes: comen@pcrj.2 – Rua Professor Lacê.1010 – códigos: 4369909/ 4369912/ 4369886/ 4369931/ 4369934 Área de Abrangência: Santo Cristo/ Caju/ Cais do Porto/ Saúde/ centro/ Aeroporto/ Bairro de Fátima/ Castelo/ Praça Mauá/ Rio Comprido/ Estácio/ Cidade Nova/ Catumbi/Triagem/ São Cristovão/ Mangueira/ Benfica/ Paquetá/ Santa Tereza.gov. 20211-260 Tel.rj. Conselho Tutelar de Vila Isabel 3: C.rj.R 2. Conselho Tutelar de Laranjeiras 2: C. Conselho Tutelar de Ramos 5 C.1010 – códigos: 4369923/ 4369924/ 4369929/ 4269901/ 4369930 Área de Abrangência: Méier/ Todos os Santos/ Engenho de Dentro/ Encantado/ São Francisco Xavier/ Rocha/ Piedade/ Abolição/ Consolação/ Riachuelo/ Água Santa/ Sampaio/ Lins/ Engenho Novo/ Complexo do Alemão/ Bonsucesso/ Olaria/ Inhaúma/ Esperança/ Higienópolis/ Maria da Graça/ Jacaré/ Engenho da Rainha/ Tomas Coelho/ Del Castilho/ Jacarezinho/ Vieira/ Fazenda.gov.gov. 22231-130 Tel/fax.direitos humanos • • • • • • • • • • • Conselho Municipal da Criança e do Adolescente: cmdca@pcrj.br Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência: comdef@pcrj.rj.151 – Inhaúma – CEP .R 2. Conselho Tutelar do Méier 4: C.br Conselho Municipal dos Direitos do Negro: condedine@pcrj.gov.1010 – códigos: 4369915/ 4369895/ 4369893/ 4369894/ 4369892 Área de Abrangência: Tijuca/ Praça da Bandeira/ Alto da Boa Vista/ Vila Isabel/ Grajaú/ Andaraí/ Maracanã/ Aldeia Campista. 21060-120 Tel/fax: 2290-4762 BIP: 2460.R 1 – Rua Salvador.gov.A – Estrada Velha da Pavuna.: 2569-5722 BIP: 2460.1/ XIIR.2º andar -Tijuca – CEP. de 9 às 18 horas.: 2502-2431 BIP: 2460. 56 – Laranjeiras – CEP.br Conselho Municipal de Assistência Social: cmas@pcrj. 267.1 – Rua São Salvador.br Conselhos Tutelares: Horário de funcionamento: de 2ª a 6ª feira. para contatos durante o final de semana use o bip Conselho Tutelar do Centro 1: C.: 2502-7122 R.R 3. s/nº – setor 4 (Sambódromo) – Centro – CEP .R 3.20765-170 Tel/Fax.: 2595-7086 BIP: 2460. 180 – Tel/Fax. 3.1010 – códigos: 4369899/ 4369905/ 4369898/ 4369904/ 4369935 Área de Abrangência: Botafogo/ Catete/ Glória/ Cosme Velho/ Flamengo/ Laranjeiras/ Humaitá/ Urca/ Praia Vemelha/ Copacabana/ Leme/ Jardim Botânico/ Ipanema/ Vidigal/ São Conrado/ Rocinha.1010 – códigos: 4369926/ 4369920/ 4369918/ 4369925/ 4369913 FGV DIREITO rio 40 .

: 3390-6420 BIP: 2460. 3.400 – Prédio da Administração./Fax: 3332-3744 BIP: 2460.2 – Rua: Coxilha s/nº – XVIII RA – Campo Grande – CEP.direitos humanos • • • • Área de Abrangência: Ramos/ Maguinhos/ Olaria/ Penha/ Vigário Geral/ Parada de Lucas/ Penha Circular/ Jardim América/ Cordovil/ Bras de Pina/ Ilha do Governador/ Ribeira/ Zumbi/ Cacuia/ Pitangueiras/ Praia da ribeira/ Cocotá/ Bancários/ Tauá/ Galeão/ Moneró/ Portuguesa/ Jardim Guanabara/ Cidade universitária/ Complexo da Maré/ Vila esperança/ Vila do João/ Vila do Pinheiro/ Praia de Ramos/ Timbau/ Maré/ Marcílio Dias/ Baixa do Sapateiro/ Nova Holanda/ Rubens Vaz/ Parque União/ Roquete Pinto/ Conjunto Pinheiro.1 – Rua Oliveira Braga. 21715-000 Tel.3 – CIEP. 211 – Realengo – CEP. Augusto Pinheiro de Carvalho – Rua Xavier Curado.1010 – códigos: 4369919/ 4369896/ 4369890/ 4369908/ 4369907 Área de Abragência: Bangu/ Campo dos Afonsos/ Santíssimo/ Deodoro/ Realengo/ Vila Militar/ Magalhães Bastos/ Padre Miguel/ Senador Camará/ Jardim Sulacap Conselho Tutelar de Campo Grande 9 C.R 3.1010 – códigos: 4369887/ 4369888/ 4369889/ 4369914/ 4369911 Área de Abrangência: Jacarepaguá/ Praça Seca/ Valqueire/ Taguara/ Freguesia/ Anil/ Tanque/ Curicica/ Camorim/ Gardênia Azul/ Cidade de Deus/ Pechincha/ Barra da Tijuca/ Recreio dos Bandeirantes/ Vargem Grande/ Piabas/ Grumari/ Itanhangá. Conselho Tutelar de Madureira 6 C. 22713-370 Telefone: 2446-6508 BIP: 2460. 1733 – Marechal Hermes – CEP. 23085-570 Tel/Fax: 2413-3125 BIP: 2460. Conselho Tutelar de Jacarepaguá 7 C.R 4 – Estrada Rodrigues Caldas. Conselho Tutelar de Bangu 8 C. CEP.R 5. Colônia Juliano Moreira – Jacarepaguá.1010 – códigos: 4369906/ 4369900/ 4369891/ 4369897/ 4369928 Área de Abrangência: Campo Grande/ Santíssimo/ Senador Augusto Vasconcelos/ Mendanha/ Rio da Prata/ Monteiro/ Guaratiba/ Pedra de Gauratiba/ Morro da Pedra/ Praia do Aterro/ Ilha Guaratiba FGV DIREITO rio 41 . 21610-380 Tel/Fax.1010 – códigos: 4369903/ 4369927/ 4369916/ 4369917/ 4369902 Área de Abrangência: Irajá/ Vicente de Carvalho/ Vila da Penha/ Vista Alegre/ Vila Cosmo/ Madureira/ Quintino Bocaiuva/ Bento Ribeiro/ Marechal Hermes/ Engenheiro Leal/ Turiaçu/ Campinho/ Rocha Miranda/ Osvaldo Cruz/ Anchieta/ Ricardo de Albuquerque/ Guadalupe/ Parque Anchieta/ Pavuna/ Coelho Neto/ Acari/ Barros Filho.R5.

por sua vez.) e iniciar procedimentos de investigação. você deve preferencialmente encaminhar a denúncia à Delegacia Especializada de Investigação de Atos Infracionais praticados por Adolescentes. ao passo que cabe ao Ministério Público a defesa da ordem jurídica. exerce outras atividades.br/direitos/brasil/apoio/ mpublico/mpdh. exatamente da maneira como estavam. cível. O Ministério Público.: 3395-0988/Fax. que deverá emitir um Boletim de Ocorrência (B. 75/93 designou o Procurador dos Direitos do Cidadão. Ao receber uma denúncia de violação de direitos humanos. consumidor.3 – Rua: Olavo Bilac. conforme o artigo 129 CF. a Defensoria Pública e o Ministério Público são instituições necessários à atividade jurisdicional do Estado. cujas principais atribuições são36: (a) requisitar informações. as medidas que um indivíduo deve tomar quando presenciar ou souber de uma violação de direitos humanos37: Em caso de crime. Competem à Defensoria Pública a orientação jurídica e a defesa em todos os graus da comunidade carente.R 5. seguem. entre outras) junto ao Judiciário e extrajudicialmente na composição de conflitos. o Defensor Público irá encaminhá-la ao Poder Judiciário ou poderá resolver o conflito entre as partes extrajudicialmente. aos moldes do ombudsmen nórdico. 3395-1445 BIP: 2460. de acordo com o artigo 134 CF. O mesmo site disponibiliza o contato dos órgãos mencionados. como o recebimento de denúncias de violações ou ameaças de direitos humanos. A polícia é a porta de entrada do sistema de garantia de direitos e poderá orientá-lo(a) e fornecer informações relativas ao andamento de sua denúncia.direitos humanos • Conselho Tutelar de Santa Cruz 10 C. do regime democrático e dos interesses coletivos e individuais indisponíveis. No caso de violência cometida contra criança ou adolescente. acesse o site http://www. 2005. bem como possui centros de atendimento ao público. Em uma apertada síntese. (d) notificar violações a direitos individuais. Disponível em: http://www.rndh.dhnet.gov. atua em diversas áreas (criminal. 37 As informações contidas abaixo foram extraídas.html. Sendo assim. Nos casos de atos infracionais praticados por adolescentes. A Defensoria Pública. Entre as formas existentes para a consecução de tais fins. Acesso em: 23 fev.1010 – códigos: 4369910/ 4369922/ 4369933/ 4369932/ 4369921 Área de Abrangência: Santa Cruz/ Paciência/ Sepetiba Considerados Funções Essenciais à Justiça pelo Texto Constitucional. s/n. ambas as instituições têm o dever de proteger os direitos humanos e combater suas violações. coletivos ou sociais.html.O. abaixo. (c) investigar. FGV DIREITO rio 42 .º – Santa Cruz – CEP. com um mandato de dois anos. você também pode procurar o Conselho Tutelar e/ou a Delegacia Especializada em Crimes contra Crianças e Adolescentes. denunciar o fato à polícia. encontra-se o encaminhamento de denúncia de direitos humanos. além do papel tradicional de fiscal da lei e acusador público.br/ denuncia. (b) instaurar inquéritos. do site da Rede Nacional de Direitos Humanos. de preferência junto à delegacia mais próxima. 36 Para maiores informações. a Lei Complementar n. 23570-220 Tel. org. Especificamente no que se refere ao Ministério Público Federal. (e) expedir recomendações aos poderes públicos a fim de que façam cessar violações de direitos humanos.

Pará. ou caso haja suspeita de que a violação tenha sido praticada por agente policial. Você também pode procurar orientação junto à Ordem dos Advogados do Brasil – OAB. Recorrer a serviços de disque-denúncia. você deve preferencialmente encaminhar sua denúncia à Delegacia da Mulher mais próxima ou procurar os conselhos de defesa dos direitos da mulher. Já existem ouvidorias de polícia nos seguintes Estados: São Paulo. além disso.gov. indaga-se: A quem você deve recorrer quando souber de uma violação cometida contra uma criança? Quais são os principais órgãos de proteção e promoção dos direitos humanos no âmbito nacional? Quais são as principais funções da Secretaria Especial dos Direitos Humanos? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: Princípios de Paris.htm. como o Movimento Nacional de Direitos Humanos – MNDH. Pernambuco. Paraná e Espírito Santo. procurar o Ministério Público de seu Estado para fazer sua denúncia. Bahia.br. Importante: Caso sua denúncia tenha sido negligenciada ou colocada em dúvida pelos órgãos policiais. Legislação: Constituição Federal de 1988 FGV DIREITO rio 43 . 2004. Rio de Janeiro.direitos humanos No caso de violência sofrida pela mulher.dhnet. Disponível em: http://www. procurar a Delegacia de Polícia mais próxima. você pode: Contactar a Ouvidoria de Polícia em seu Estado. ainda. org. encaminhar sua denúncia à Polícia Federal pelo e-mail dcs@dpf. Acesso em: 23 fev.br/direitos/brasil/textos/principioparis. Pelo exposto. Procurar orientação junto a conselhos de defesa de direitos humanos e/ou organizações da sociedade em seu município/Estado. Você pode. que tem Seccionais e Comissões de Direitos Humanos em todos os Estados da Federação. Ceará. ou. Rio Grande do Sul. Minas Gerais. Não havendo delegacias especializadas. para toda violação de direitos humanos.

uma vez que rompem com a noção de que o Estado é o único sujeito de Direito Internacional e com a noção de soberania absoluta. e. apenas atesta o reconhecimento de um código comum a ser seguido por todos os Estados. Dessa forma. embora estabeleça a necessidade de proteção e promoção dos “direitos humanos e liberdades fundamentais”. há divergências quanto a sua força vinculante: (i) constitui interpretação autorizada da expressão “direitos humanos”. é dotada de força vinculante. interdependência e indivisibilidade dos direitos humanos. com base no princípio da dignidade da pessoa humana. tem força vinculante. não comportando força vinculante – visão estritamente legalista. sustentava que as duas categorias de direitos 38 PIOVESAN. assim. 164. Capítulo VI. 2002. Flávia. a Organização Internacional do Trabalho e a Liga das Nações. em 1948. bem como da prevalência da posição ocidental.03. sociais e culturais são programáticos e. A DUDH é um marco no Direito Internacional dos Direitos Humanos. Os principais precedentes do processo de internacionalização dos direitos humanos são o Direito Humanitário. (ii) integra o direito costumeiro internacional e/ ou os princípios gerais de direito e. o fato é que houve um processo de “juridicização”38 da DUDH. (ii) promoção dos direitos humanos no âmbito internacional. 2200-A (XXI). Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. p. Contudo. com o intuito de reconstruir os direitos humanos e trazer a dignidade da pessoa humana para o centro das relações entre Estados. que dividia o mundo em capitalismo e socialismo. ao afirmar ser os direitos civis e políticos autoaplicáveis enquanto que os direitos econômicos.01. só entraram em vigor em 03. A criação de dois pactos distintos ocorreu em virtude do contexto da Guerra Fria.12. que. A Carta das Nações Unidas. São Paulo: Max Limonad. A Carta das Nações Unidas consolidou o Direito Internacional dos Direitos Humanos e fez surgir uma nova ordem internacional que. não os define. o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. 39 FGV DIREITO rio 44 . ambos com força obrigatória.1966. por consenso dos Estados. além de definir tais expressões. iniciado em 1949 mas só concluído em 1966.1976 (PIDESC) e 23. a universalidade. da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). por tal motivo. estabelece. com a adoção de dois tratados internacionais. (iii) cooperação internacional nas esferas social e econômica. Contudo. pois admitem intervenções na esfera nacional em prol da proteção dos direitos humanos. com os principais objetivos: (i) manutenção da paz e da segurança internacionais.1976 (PIDCP). assim. colocou a proteção dos direitos humanos em seu centro. constante na Carta das Nações Unidas. em 16. uma vez que. (iii) por ser uma Declaração e não um tratado. demandam realização progressiva. em 1945. uma vez que surgiu após as enormes atrocidades ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial. sendo a DUDH uma declaração e não um tratado. foi criada a Organização das Nações Unidas. dando ensejo à adoção. Seja qual for a posição sustentada. Adotados pela Assembléia Geral através da Resolução n. Sociais e Culturais (PIDESC)39.direitos humanos Aula 07: Sistema global: mecanismos convencionais e não-convencionais de proteção dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O movimento de internacionalização dos direitos humanos é bastante recente na história.

comunicações interestatais40 (ambos dispostos no próprio Pacto) e petições individuais (Protocolo Facultativo)41. A Declaração Universal. Relatórios. por sua vez. estabelecido pela Declaração de Viena de 1993. pela vítima. Comitê de Direitos Humanos (criado pelo Pacto) – sua decisão não tem força vinculante e não há sanção efetiva para o Estado que não a cumpre. sendo os respectivos Comitês análogos ao Comitê de Direitos Humanos criado pelo Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. encaminhar comunicações. Segundo Protocolo: estabelece a abolição da pena de morte. Os mecanismos convencionais são aqueles criados por convenções específicas de direitos humanos. para fins exemplificativos. por oportuno. para que uma petição individual seja interposta. (iii) requerer dos Estados informações sobre determinada situação. Comitê sobre Direitos Econômicos. O projeto do protocolo adicional que prevê a petição individual está em fase de elaboração.direitos humanos não poderiam estar em um só pacto. Quanto à abrangência e sistemáticas de implementação e monitoramento de ambos os Pactos Internacionais. como a tortura (Convenção Internacional contra a Tortura). o quadro. uma vez que é também composto por diversos tratados multilaterais de direitos humanos referentes as violações específicas de direitos. PIDESC Compreende um rol de direitos mais extensos do que o da DUDH. ou seja. O Comitê de Direitos Humanos concluiu que não apenas o indivíduo que sofreu a violação. mas também ong e terceiros podem representá-lo e. pois prevê apenas o mecanismo dos relatórios. Embora haja inúmeros tratados de direitos humanos. tendo em vista que o acesso a este mecanismo é opcional. O sistema global. formam a Carta Internacional dos Direitos Humanos ou International Bill of Rights. 41 Para que um indivíduo possa encaminhar uma petição individual. Amplitude Sistemática de monitoramento Sistemática de implementação Protocolos O sistema global é composto por mecanismos convencionais e mecanismos nãoconvencionais de proteção dos direitos humanos. Dentre as funções do Comitê de Direitos Humanos. Ainda. Protocolo Facultativo: estabelece o mecanismo de petições individuais. o quadro. aos recursos internos) e inexistência de litispendência no plano internacional. juntamente com os dois Pactos. destaquem-se: (i) receber petições individuais. assim. não se restringe à Carta Internacional. faz-se necessário o cumprimento dos requisitos de admissibilidade: prévio esgotamento dos recursos internos (salvo por demora injustificada. abaixo. que o Direito Internacional dos Direitos Humanos é suplementar e paralelo ao direito nacional. a seguir. a discriminação contra as mulheres (Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher). e que os procedimentos internacionais têm natureza subsidiária. comunicações interestatais e relatórios. faz referência a apenas quatro convenções específicas e seus mecanismos convencionais: FGV DIREITO rio 45 . apenas no plano político: power of embarrassment. São auto-aplicáveis. Não tem um Comitê próprio. É peculiar. sendo uma garantia adicional à proteção dos direitos humanos sempre que os instrumentos nacionais sejam omissos. Sociais e Culturais (criado pelo Conselho Econômico e Social). o Estado deve ter ratificado tanto o PIDCP quanto o Protocolo Facultativo. Há também o sistema de indicadores. que inaugura o sistema global de proteção dos direitos humanos. a discriminação racial (Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial). demonstra um breve resumo: PIDCP Compreende um rol de direitos mais extensos do que o da DUDH. Devem ser realizados progressivamente. inexistência do devido processo legal ou impossibilidade de acesso. que tenha sido criado pelo PIDESC. (ii) proferir uma decisão em relação à petição individual que apenas declare que a violação resta caracterizada ou que determine que o Estado repare a violação cometida. 40 O Comitê só poderá apreciar a comunicação interestatal caso os dois Estados envolvidos tiverem feito uma declaração em separado. Ressalte-se.

1989. Notícia de imprensa da ONU relacionada a tal resolução (da Assembléia Geral da ONU. em 26. O governo brasileiro ratificou recentemente (12/01/2007) o Protocolo Facultativo à Convenção contra tortura e outros tratamentos ou penas cruéis. Comitê sobre os Direitos da Criança Somente prevê os relatórios (estabelecido pela Convenção). 10449.12. desumanos ou degradantes.doc. reconhecendo.03. em 18.1987. em 10. 42 É importante ressaltar que os Comitês têm competência para avaliar comunicações que contenham violação a direito disposto apenas na Convenção que o criou.03.direitos humanos Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial42 Sistemática de monitoramento Comitê sobre a Eliminação de Discriminação Racial Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher43 Comitê sobre a Eliminação de Discriminação contra as Mulheres Convenção Internacional contra a Tortura44 Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança45 Comitê contra a Tortura Relatórios. são aqueles decorrentes de resoluções elaboradas por órgãos das Nações Unidas. Quanto ao Brasil. por sua vez. Os mecanismos não-convencionais.1979. segue. só entrou em vigor em 03. só entrou em vigor em 04. a denúncia pode versar sobre qualquer direito humano. Contudo.asp?N ewsID=17811&Cr=rights&Cr1 =council.2006: http://www. Contudo.1981.06. 47 FGV DIREITO rio 46 . tendo em vista que em relação ao último.12. un. de 15. só entrou em vigor em 26. 44/35. 39/46. Há 2 Protocolos Facultativos: sobre Conflito Armado e sobre Prostituição Infantil. Dessa forma. Esses pontos são relevantes. Sistemática de implementação Relatórios.09.1990. 2106 (XX). 43 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n. Contudo.org/News/Press/ docs/2005/ga10449. Caráter inovador: o Comitê pode iniciar uma investigação própria caso receba informações de fortes indícios de tortura.09.org/apps/news/story. petições individuais e realização de investigações in loco (Protocolo)46 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n. Acesso em: 20 março 2006. a seguir. A competência dos Comitês para receber petições individuais está vinculada à declaração feita em separado pelo Estado (no caso da petição individual estar prevista na própria Convenção) ou pela ratificação do Protocolo Facultativo.un. de 15. comunicações interestatais e petições individuais (estabelecidos pela Convenção) Relatórios (estabelecido pela Convenção). como a Assembléia Geral e o Conselho Econômico e Social. Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n. por conseguinte.htm. Contudo. em 20. só entrou em vigor em 02.1965. uma vez que possui posição central no sistema não-convencional de proteção.01. a apresentação de denúncias por indivíduos ou grupos de indivíduos aos Comitês não depende da ratificação de convenções específicas nem de declaração relativa a cláusulas facultativas ou de ratificação de protocolo adicional.1984. 34/180.1969. n. 44 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n. 45 A competência do Comitê só foi ampliada para receber petições individuais e realizar investigações in loco com a adoção do Protocolo Facultativo à Convenção em 1999. 46 A Resolução da Assembléia Geral da ONU ainda não está disponível. mecanismo não-convencional criado pela Assembléia Geral.11. uma vez que demonstram a diferença entre os mecanismos convencionais de proteção dos direitos humanos e os mecanismos não-convencionais.2005) – http:// w w w. a aula deverá destacar que o mesmo só não reconheceu a competência tanto do Comitê de Direitos Humanos. um artigo da ONU referente à Resolução 60/251. Focar-se-á no Conselho de Direitos Humanos (CDH). comunicações interestatais e petições individuais (estabelecidos pela Convenção). Acesso em: 20 março 2006.12. Ainda. a competência do Comitê contra a Tortura para apreciar petições individuais.

direitos humanos

O CDH foi criado em 15 de março de 2006, tendo substituído a Comissão de Direitos Humanos efetivamente a partir de 16 de junho de 2006, data de sua abolição47. A resolução foi aprovada por 170 votos a favor e 4 contra – EUA, Israel, Ilhas Marshall e Palau48. Dentre os avanços trazidos com o estabelecimento do Conselho de Direitos Humanos, destaquem-se: (i) gozo de maior status, já que será um órgão subordinado à Assembléia Geral (enquanto que a Comissão era subordinada ao Conselho Econômico e Social); (ii) um maior número de reuniões ao longo do ano; (iii) constituição por representação geográfica igual; (iv) o direito de votar estará associado com membership. Ressalta-se, ainda, que o Conselho será composto por 47 membros, os quais serão escolhidos por maioria absoluta da Assembléia Geral. O CDH tem as mesmas funções que a extinta Comissão de Direitos Humanos: (i) competência genérica de atuar em quaisquer questões ligadas aos direitos humanos (estabelecida em 1946, no momento de sua criação); e (ii) apreciação de casos específicos de violações de direitos humanos (a partir de 1967). Em relação à apreciação desses casos específicos, o CDH segue dois procedimentos: procedimento 123550 e procedimento 150351 (alterado pela Resolução 2000/3, do Conselho Econômico e Social). O procedimento 1235 autorizou o CDH e a Sub-Comissão para a Promoção e para a Proteção de Direitos Humanos, a examinarem informações relativas às violações sistemáticas de direitos humanos, o que hoje se traduz na realização de um debate público anual e na investigação e análise de casos específicos pelo CDH e pela citada Sub-Comissão. Em se tratando do procedimento 1503, o mesmo foi criado a fim de que fossem examinadas comunicações referentes à violação sistemática de direitos humanos. Com a adoção da Resolução 2000/3, o Grupo de Trabalho sobre Situações é que se tornou o responsável da análise dos casos, elaboração de recomendações, bem como pela decisão de submeter ou não um caso ao CDH. O Grupo de Trabalho sobre Situações, após analisar o caso, poderá enviá-lo ao Conselho de Direitos Humanos, que, por sua vez, poderá adotar uma das seguintes medidas: (i) manter a situação sob análise, requerendo maiores informações do Estado envolvido; (ii) cancelar o estudo da situação sob a Resolução 1503 e iniciar um procedimento público sob a Resolução 1235; (iii) apontar um especialista independente. Destaque-se que ambos os procedimentos possibilitam que o CDH nomeie um Relator Especial com mandato para países específicos. Além dessas funções, o CDH também pode designar relatores temáticos ou grupos de trabalho com o objetivo de examinarem determinadas violações de direitos humanos. Os Grupos de Trabalho, Relatores Especiais e Representantes Especiais desempenham as seguintes atividades: (i) busca e recebimento de informações; (ii) questionar os governos sobre sua legislação e prática doméstica; (iii) envio, aos governos, de alegações sobre casos urgentes a fim de obter um esclarecimento; (iv) aceitar ou recusar o convite feito por determinado país para visitá-lo em virtude da ocorrência de violações referentes ao seu mandato; (vi) realização de visitas; e (vii) relato anual de suas atividades ao Conselho de Direitos Humanos.

48 In ‘historic’ vote, General Assembly creates new UN Human Rights Council. UN News Centre. Disponível em: http://www. un.org/apps/news/stor y. asp?NewsID=17811&Cr=right s&Cr1=council. Acesso em: 20 março 2006.

Criado pela Resolução 1235 do Conselho Econômico e Social, em 6 de junho de 1967.
50

Criado pela Resolução 1503 do Conselho Econômico e Social, em 27 de maio de 1970.
51

FGV DIREITO rio 47

direitos humanos

O Brasil já recebeu a visita dos seguintes relatores especiais52,: Sr. Juan Miguel Petit – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a venda de crianças e prostituição infantil e a utilização de crianças na pornografia; Sra. Asma Jahangir – Relatora Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre execuções sumárias, extrajudiciais ou arbitrárias; Sr. Jean Ziegler – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre o direitos à alimentação; Sr. Doudou Diène – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e formas conexas de intolerância; Sr. Nigel Rodley – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a questão de tortura; Sr. Leandro Despouy – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a independência de juízes e de advogados. Diante do exposto, indaga-se: Como se dá a nomeação de um relator especial? Um indivíduo brasileiro pode encaminhar uma comunicação individual ao Comitê de Direitos Humanos? Tendo em vista a consagração da indivisibilidade dos direitos pela Declaração Universal de Direitos Humanos, por que foram elaborados dois Pactos distintos (Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais)? O que significa a consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos para o indivíduo e para o Estado? Qual é a importância da II Conferência Mundial de Direitos Humanos realizada em Viena, em 1993?
MATERIAL DE APOIO Textos:

Leitura obrigatória: PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. São Paulo: Max Limonad, 2002. Capítulo VI. pp. 163-179 (Cap. VI; itens “a”- “c”); pp. 216-224 (Cap. VI; item “k”). Leitura acessória: TRINDADE, Antonio Augusto Cançado. O direito internacional em um mundo em transformação. Rio de Janeiro: Renovar, 2002. p. 627-670. Legislação: Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Segundo Protocolo ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos referente à Abolição da Pena de Morte Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais Carta das Nações Unidas Declaração Universal de Direitos Humanos Declaração e Programa de Ação de Viena

52 Até a presente data, i.e., novembro de 2004.

FGV DIREITO rio 48

direitos humanos

Aula 08: Sistemas regionais de proteção dos direitos humanos
NOTA AO ALUNO

A par do sistema global de proteção dos direitos humanos, há três sistemas regionais de proteção dos direitos humanos: o sistema europeu, o sistema interamericano e o sistema africano. Os sistemas regionais complementam o sistema global, tendo em vista que têm o mesmo objetivo: a proteção do indivíduo e o combate às violações dos direitos humanos. Sendo assim, o indivíduo que tiver um direito violado, pode optar pelo sistema que melhor lhe favoreça, já que vigora, no âmbito internacional, o princípio da norma mais favorável à vitima. O sistema europeu tem por fundamento a Convenção Européia sobre Direitos Humanos, de 1950. Em 1961, tal Convenção foi complementada pela Carta Social Européia (tendo em vista que dispunha apenas sobre os direitos civis e políticos) e, em 1983, foi emendada pelo Protocolo n. 11, que trouxe inovações fundamentais ao funcionamento do sistema: (i) reestruturação profunda dos mecanismos de controle da Convenção (substituição dos 3 órgãos de decisão – Comissão, Corte e Comitê de Ministros do Conselho da Europa – por um só órgão: a Corte Européia de Direitos Humanos); (ii) funcionamento de uma única Corte, em tempo integral (a nova Corte Européia de Direitos Humanos passou a operar em 1o de novembro de 1998); (iii) assegura o acesso direto à Corte aos indivíduos, i.e., o indivíduo passa a ter ius postulandi. Dessa forma, constata-se que o sistema europeu é o mais avançado no que diz respeito ao reconhecimento da capacidade processual internacional ativa dos indivíduos, uma vez que é o único sistema regional de proteção dos direitos humanos que permite ao indivíduo postular diretamente à Corte. O sistema africano, por sua vez, tem por principal instrumento a Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos, adotada em 1981 e em vigor a partir de 1986, que prevê tanto os direitos civis e políticos quantos os direitos econômicos, sociais e culturais. A referida Carta tem por objetivo priorizar os direitos dos povos. As disposições da Carta relativas aos direitos dos povos demonstram a tendência moderna à coletivização dos direitos do homem. Nesse contexto, tem-se que a Carta apresenta a singularidade de colocar, no mesmo documento, conceitos considerados antagônicos: indivíduo e povo, direitos individuais e direitos coletivos, direitos sociais, econômicos e culturais e direitos civis e políticos. Quanto aos mecanismos de proteção e promoção dos direitos humanos, a Carta Africana estabelece a Comissão Africana de Direitos Humanos e dos Povos, podendo a mesma ser provocada por um Estado-parte ou por indivíduos. Já o protocolo adotado em Ovagadongou (em 9 de junho de 1998), Burina Faso, que entrou em vigor em 25 de janeiro de 2004 (30 dias após o 15o Estado – número mínimo exigido – tê-lo ratificado53), estabelece a Corte Africana de Direitos Humanos e dos Povos como órgão complementar ao labor da Comissão. Em se tratando do sistema interamericano, o mesmo tem como origem a IX Conferência Interamericana54, oportunidade na qual foram aprovadas a Declaração

Acesso em: 25 jan. 2005. Disponível em: http://www. fidh.org/article.php3?id_article=450.
53 54 Realizada em Bogotá, Colômbia, de 30 de março a 2 de maio de 1948.

FGV DIREITO rio 49

respectivamente. abaixo. 25 deles ratificaram a Convenção Americana. Constata-se. a Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem foi a base normativa central do sistema interamericano e. nas próximas duas aulas. a lista dos Estados que a ratificaram57: PAÍSES SIGNATÁRIOS Antigua y Barbuda Argentina Bahamas Barbados Belize Bolívia Brasil Canadá Chile Colômbia Costa Rica Dominica Ecuador El Salvador Estados Unidos Grenada Guatemala Guyana Haiti Honduras Jamaica México Nicarágua Panamá Paraguay FIRMA 02/02/84 06/20/78 11/22/69 11/22/69 11/22/69 11/22/69 11/22/69 06/01/77 07/14/78 11/22/69 11/22/69 09/16/77 11/22/69 11/22/69 11/22/69 RATIFICAÇÃO 08/14/84 11/05/81 06/20/79 07/09/92 08/10/90 05/28/73 03/02/70 06/03/93 12/08/77 06/20/78 07/14/78 04/27/78 09/14/77 09/05/77 07/19/78 03/02/81 09/25/79 05/08/78 08/18/89 A Carta da OEA. com as modificações ocorridas em seu Estatuto. no período que antecede a adoção da Convenção Americana de Direitos Humanos. Disponível em: http://www. até hoje. Em 1959. Em 1965. 55 A Comissão e a Corte serão estudadas. foi adotada em conjunto com a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem na IX Conferência Interamericana. que emendou a Carta da OEA. a Comissão se transformou em um órgão de fiscalização da situação dos direitos humanos nos Estados da OEA.org/juridico/spanish/firmas/b-32. foi aprovado pelo Conselho da OEA o Estatuto da Comissão. o sistema interamericano foi se desenvolvendo lentamente.html. durante a 5ª reunião de consultas dos Ministros de Relações Exteriores realizada em Santiago do Chile. que confirmou ser a promoção dos direitos humanos a função da Comissão.oas. Com a adoção da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção Americana) ou Pacto de San José da Costa Rica. em 1969 (entrou em vigor apenas em 1978). continua sendo a principal base normativa vis-à-vis dos Estados não-partes da Convenção.direitos humanos Americana de Direitos e Deveres do Homem e a Carta da Organização dos Estados Americanos (OEA)55. Acesso em: 03 maio 2004. em vigor desde 13 de dezembro de 1948. FGV DIREITO rio 50 . que dos 34 Estados-membros da OEA. a mesma só se tornou o principal órgão da OEA após a adoção do Protocolo de Buenos Aires em 1967. em maio de 1948. Sendo assim. O primeiro passo foi a criação de um órgão especializado na proteção dos direitos humanos no âmbito da OEA. No entanto. 56 57 Informações obtidas no site oficial da Organização dos Estados Americanos (OEA). Segue. Após a adoção da Carta da OEA e da Declaração Americana. aproximadamente seis meses antes da adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral das Nações Unidas. Em 1960. assim. criou-se a Corte Interamericana de Direitos Humanos e a Comissão passou a ser dotada de novas atribuições56. foi aprovada a proposta de criação de um órgão destinado à promoção dos direitos humanos (mais tarde denominado Comissão Interamericana de Direitos Humanos) até a adoção de uma Convenção Interamericana de Direitos Humanos.

Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (1994). que se limita a prever o “desenvolvimento progressivo” dos mesmos. a Convenção Americana reconhece um catálogo de direitos civis e políticos.direitos humanos Peru República Dominicana San Kitts y Nevis Santa Lucía St. dando um passo adiante no que concerne o disposto no artigo 4. No entanto. reservas (salvo em tempo de guerra). verifica-se a complementaridade entre o mesmo e o sistema interamericano. O segundo Protocolo Adicional à Convenção Americana é relativo à abolição da pena de morte (1990). pergunta-se: por que ambos os sistemas são complementares? Qual o fundamento de haver um sistema interamericano de proteção dos direitos humanos quando já há um sistema de abrangência global? Em relação aos sistemas regionais. Em relação ao sistema global. dos instrumentos de proteção dos direitos humanos? FGV DIREITO rio 51 .6 da Convenção Americana. Nesse sentido. da incorporação. a fim de suprir a lacuna do artigo 26. sociais e culturais. foi elaborado o Protocolo Adicional à Convenção Americana em matéria de Direitos Econômicos. ela restringe ao artigo 26 a consagração dos direitos econômicos. da Corte Africana e da Corte Européia de Direitos Humanos? Qual é a importância. (c) Convenção Interamericana para Prevenir. Há. não admitindo. Sociais e Culturais (ou Protocolo de San Salvador) em 1988 (entrou em vigor em 1999). para o sistema interamericano. indaga-se: Qual é o diferencial do disposto na Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos? Por que o sistema europeu é considerado o mais avançado? Qual é a diferença entre o papel da Corte Interamericana. Vicente & Grenadines Suriname Trinidad & Tobago Uruguay Venezuela 07/27/77 09/07/77 11/22/69 11/22/69 07/12/78 01/21/78 11/12/87 04/03/91 03/26/85 06/23/77 À semelhança do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. (b) Convenção Interamericana sobre Desaparecimento Forçado (1994). Cabe salientar ainda que o sistema interamericano de direitos humanos contemporâneo não se limita à Convenção Americana e aos dois protocolos. pelos Estados. Este Protocolo. e (d) Convenção Interamericana sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Pessoas Portadoras de Deficiências (1999).2 a 4. ao estabelecer que os Estados-partes não podem aplicar em seu território a pena de morte a nenhuma pessoa sujeita a sua jurisdição. deu novo ímpeto à tendência a favor da abolição da pena de morte. Dessa forma. quatro convenções interamericanas “setoriais” mais recentes: (a) Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura (1985). também. portanto.

Capítulo IV. O sistema interamericano de direitos humanos no limiar do novo século: recomendações para o fortalecimento de seu mecanismo de proteção. Flávio Luiz. Flávia. São Paulo: Saraiva. p. PIOVESAN. 2006. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher Convenção Interamericana sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Pessoas Portadoras de Deficiências (1999) FGV DIREITO rio 52 . Antonio Augusto. 72-84. 50-59. 2000. pp. O sistema interamericano de proteção dos direitos humanos e o direito brasileiro. Legislação: Convenção Européia sobre Direitos Humanos e Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem e Convenção Americana sobre Direitos Humanos Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura Convenção Interamericana sobre Desaparecimento Forçado Convenção Interamericana para Prevenir. Direitos humanos e justiça internacional. Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. 103-151.direitos humanos MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. In: GOMES. São Paulo: Editora dos Tribunais. Flávia.

direitos humanos

Aula 09: Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos
NOTA AO ALUNO

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão) originou-se da Resolução VIII da V Reunião de Consulta dos Ministros de Relações Exteriores (Santiago, 1959). Em 1960, foi aprovado pelo Conselho da OEA o Estatuto da Comissão, que confirmou ser a promoção dos direitos humanos a função da Comissão. Em 1965, com as modificações ocorridas em seu Estatuto, a Comissão se transformou em órgão de fiscalização da situação dos direitos humanos nos Estados da OEA. No entanto, a mesma só se tornou o principal órgão da OEA após a adoção do Protocolo de Buenos Aires em 1967, que emendou a Carta da OEA. A Comissão é composta por sete membros eleitos pela Assembléia Geral por um período de 4 anos, podendo ser reeleitos apenas uma vez. Em relação às suas funções, são elas: conciliadora; assessora; crítica; legitimadora; promotora; protetora. Com a adoção da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção) ou Pacto de San José da Costa Rica, em 1969 (entrou em vigor apenas em 1978), a Comissão passou a ser dotada de novas atribuições. Isto significa que, a partir da adoção da Convenção, a Comissão passou a ser tanto o principal órgão da OEA quanto órgão do referido instrumento. Dessa forma, todos os Estados da OEA têm o dever de proteger e promover os direitos humanos, seja por meio do disposto na Carta da OEA e na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (para os Estados-membros da OEA), seja por meio do estabelecido na Convenção (para os Estados-partes). Sendo assim, verifica-se a coexistência de dois sistemas em relação à Comissão: o sistema da OEA e o sistema da Convenção. No entanto, por se tratar de aula referente ao sistema interamericano, focaremos o estudo da Comissão no sistema da Convenção. A Comissão tem competência para examinar comunicações encaminhadas por indivíduo, grupo de indivíduos ou organizações não governamentais, que contenham denúncia de violação a direito consagrado na Convenção, cometida por algum Estado-parte. Isto porque os Estados, ao se tornarem parte da Convenção, aceitam automática e obrigatoriamente a competência da Comissão para apreciar denúncias contra eles. Dessa forma, a comunicação individual é obrigatória e a comunicação interestatal58 é facultativa no sistema interamericano, ao passo que no sistema europeu ocorre o oposto. Em relação ao procedimento da petição perante a Comissão, verificam-se quatro fases: (a) fase da admissibilidade; (b) fase da conciliação; (c) fase do Primeiro Informe; e (d) fase do Segundo Informe ou a propositura de uma ação de responsabilidade internacional perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Dessa forma, pode-se sintetizar a apreciação de uma denúncia pela Comissão da seguinte forma:

58 Em outras palavras, a Comissão só poderá analisar a comunicação interestatal (um Estado denuncia o outro por violação a algum direito humano) quando ambos os Estados, além de terem ratificado a Convenção, declararem expressamente que reconhecem a competência interestatal da Comissão.

FGV DIREITO rio 53

direitos humanos

Recebe denúncia  aprecia sua admissibilidade (i.e., se os seguintes requisitos foram observados: prazo, prévio esgotamento de recursos internos e a inexistência de litispendência internacional)  considera-a admissíve  requer informações ao Governo e à parte  tenta uma solução amistosa  não ocorrendo, a Comissão envia o 1º informe ao Governo, dando-lhe um prazo de 3 meses para cumprir as exigências  Estado não cumpriu  Comissão envia o caso à Corte ou elabora o 2º informe. Ainda, cabe mencionar que a Comissão pode iniciar um caso de oficio (art. 24, Regulamento Comissão), se possuir informações necessárias. Saliente-se, também, a função preventiva exercida pela Comissão. Em decorrência de suas recomendações de caráter geral dirigidas a determinados Estados, ou formuladas em seus relatórios anuais, foram derrogados ou modificados leis, decretos e outros dispositivos que afetam negativamente a vigência dos direitos humanos. Ainda, a função preventiva da Comissão pode ser observada na elaboração de medidas cautelares e, inclusive, ao solicitar à Corte que adote medidas provisórias. Por fim, destaque-se que a par do sistema de petições ou comunicações, dois sistemas também têm um papel fundamental na proteção e promoção dos direitos humanos: (a) o sistema de investigações (observações in loco); (b) o sistema dos relatórios, o que inclui tanto o relatório com recomendações gerais enviado a determinado Estado, quanto os relatórios periódicos apresentados à Assembléia Geral da OEA, que contém, muitas vezes, considerações de caráter doutrinário. A Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte), órgão jurisdicional da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção), realizou suas primeiras reuniões na sede da OEA em Washington, em 29 e 30 de junho de 1979, e instalou-se em sua sede permanente em São José da Costa Rica em 3 de setembro de 1979. Esta instituição judiciária é composta por sete juízes nacionais de Estadosmembros da OEA, escolhidos por título pessoal, e tem por objetivo a aplicação e interpretação da Convenção. Até novembro de 2006, dos 35 Estados-membros da OEA, 24 Estados haviam ratificado a Convenção Americana59, e, dentre estes, 21 reconheceram a competência contenciosa da Corte60. Até julho de 2005, a Corte já havia proferido 127 sentenças, sendo que destas 57 são sentenças de mérito (ou seja, avaliam se evetivamente houve violação)61. A Corte tem duas competências: consultiva e contenciosa. Em relação à competência consultiva, qualquer membro da OEA pode solicitar o parecer da Corte relativo à interpretação da Convenção ou de qualquer outro tratado referente à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos. Ainda, a Corte pode opinar sobre a compatibilidade de preceitos de legislação interna em face dos instrumentos internacionais. Até julho de 2005, a Corte havia emitido 18 pareceres62. Em se tratando de sua competência contenciosa, apenas a Comissão e os Estados-partes (que expressamente reconhecerem a jurisdição da Corte) podem submeter um caso a Corte. Isto significa que o indivíduo depende da Comissão para que seu caso seja apreciado pela Corte, uma vez que ela é a dominus litis absoluto.

Argentina, Barbados, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Dominica, Equador, El Salvador, Granada, Guatemala, Haiti, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai, e Venezuela. Ressalte-se que Trinidad e Tobago denunciou a Convenção em 26 de maio de 1998.
59

Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai, e Venezuela.
60

PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e justiça internacional. São Paulo: Saraiva, 2006. p. 105.
61 62

Ibid., p. 100.

FGV DIREITO rio 54

direitos humanos

Ao longo de sua história, a Corte já possuiu outros três regulamentos (1980, 1991, 1996), estando hoje em vigor o Regulamento de 2000 (a partir de 1 de junho de 2001). As inovações consagradas neste diploma são definidas pelo juiz Cançado Trindade como “o grande salto qualitativo” por considerar a proteção jurisdicional aos direitos humanos a forma mais efetiva de salvaguarda dos direitos humanos. Ao assegurar em seu artigo 23 que “depois de admitida a demanda, as presumidas vítimas, seus familiares ou seus representantes devidamente creditados poderão apresentar suas solicitações, argumentos e provas em forma autônoma durante todo o processo”, a Corte outorgou ao indivíduo o locus standi in judicio. Resta claro que as verdadeiras partes no caso contencioso perante a Corte são os indivíduos demandantes e o Estado demandado, e processualmente, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos como o titular da ação. O processamento do Estado perante a Corte se dá através de seis fases: (a) fase da propositura e exceção preliminar; (b) fase da conciliação; (c) fase probatória; (d) fase decisória; (e) fase das reparações; e (f ) fase de execução da sentença.
FASES TÓPICOS E CASOS - Apenas a Comissão e os Estados-partes da Convenção podem submeter um caso à Corte (art. 61, Convenção). - Citação do Estado. - Prazo para o Estado apresentar exceções preliminares, bem como seu exame pelo presidente da Corte. - Faculdade da Corte para convocar audiência. - Possibilidade do demandante desistir da ação. Se a desistência se der antes da citação, ela será aceita obrigatoriamente. Se ocorrer após a citação, a Corte ouvirá as partes. - Corte arquiva o processo ou continua (passa-se à 2ª fase). - As partes podem fazer um acordo. No entanto, cabe a Corte homologá-lo. - Citar o caso Maqueda (exemplo de acordo homologado pela Corte)63. - A propositura de solução amistosa é uma faculdade da Corte. - Prazo para a contestação. - As provas têm que estar elencadas na petição inicial ou contestação, salvo nas hipóteses previstas no art. 43, do Regulamento da Corte. - Corte pode produzir prova ex officio (art. 44, Regulamento Corte). - Os Estados não podem processar as testemunhas e peritos por suas declarações (art. 50, Regulamento Corte). - A sentença tem força jurídica vinculante e obrigatória. - Exposição dos votos dissidentes e concorrentes. - Não é obrigatória. Ocorrerá apenas quando a sentença de mérito não tratar das reparações (citar o caso Gangaram Panday64). - Excepcionalmente, admite-se aqui a participação do indivíduo de forma autônoma (art. 23, Regulamento Corte65). - Trata-se de uma nova etapa do processo: as partes serão intimadas novamente. - Possibilidade de uma nova conciliação entre as partes. - Há uma variedade de reparações que podem ser fixadas, dentre elas: reconhecimento da responsabilidade, indenização por danos material e moral, obrigação de investigar e punir os agentes responsáveis pelas violações, obrigações de fazer (ex: construir posto médico e escolar – caso Aloeboetoe66),.
63 A Comissão e o governo argentino acordaram pela libertação de Guilhermo Maqueda. Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Maqueda, Resolução de 17 de janeiro de 1995, Série C n. 18, § 27. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/ serie_c/index.html. RAMOS, André de Carvalho. Direitos humanos em juízo. São Paulo: Max Limonad, 2001. Capítulo IV. p. 220-225.

1. Fase da propositura e exceção preliminar

2. Fase da conciliação

3. Fase probatória

4. Fase decisória

Corte condenou o Suriname a pagar determinada quantia aos herdeiros da vítima, como forma de indenização pecuniária aos danos causados. Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Gangaram Panday, Sentença de 21 de janeiro de 1994, Série C n. 16, item 4 do dispositivo da sentença. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/ serie_c/index.html. André de Carvalho Ramos. op. cit.,. p. 168-179.
64 65 Trata-se de uma inovação trazida pelo novo Regulamento da Corte, em vigor a partir de 1º de junho de 2001. Regulamento aprovado pela Corte no seu XLIX período ordinário de sessões, celebrado do dia 16 a 25 de novembro de 2000.

5. Fase das reparações

Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Aloeboetoe e outros, Sentença de 10 de setembro de 1993 (reparações), Série C n. 15, § 20. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/serie_c/index.html. RAMOS, A. op. cit., p. 162-168.
66

FGV DIREITO rio 55

Caso o Estado não cumpra a sentença. . Convenção).2. acesse o site da Corte Interamericana de Direitos Humanos: http://www. há de se concluir que a adesão do Estado brasileiro ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos. A Corte as ordena com base em uma presunção razoável. cabe a Corte indicar o caso em seu relatório à Assembléia Geral da ONU (art. FGV DIREITO rio 56 . 63.O Estado se compromete a cumprir integralmente a pena (art. de modo a evitar danos irreparáveis à vida e integridade pessoal de indivíduos. É importante ressaltar que o Estado brasileiro aceitou a jurisdição da Corte em 10 de dezembro de 1998. a pedido desta última (art. seu dever de cuidar e de prevenir a vulneração da vida e da integridade pessoal. Constam ainda dos procedimentos perante a Corte: dois casos de fundo (Damião Ximenes e Gilson Nogueira) e outra medida provisória (Adolescentes Internos da FEBEM). Convenção). reconhecendo a jurisdicionalização das violações de direitos humanos que engendram sua responsabilidade internacional.or.A indenização se dará pelo processo interno vigente (art. . Fase de execução da sentença .Estado não pode alegar impedimento de direito interno como forma de se eximir do cumprimento da pena. bem como seu dever de regulamentar e fiscalizar o atendimento médico de saúde”68. A primeira sentença da Corte em face do Estado brasileiro foi editada em agosto de 2006. 68. na cidade de Porto Velho. Convenção). Convenção). tanto pendentes ante ela como ainda não submetidos a ela. Estado de Rondônia. neste caso.2.cr/. 65. As medidas provisórias revelam.direitos humanos 6. 68. julho de 2004 e setembro de 2005) também foram publicadas com o mesmo propósito. Diante do exposto. . indaga-se: • • • O procedimento perante a Comissão pode ser renunciado pelo Estado? Qual é a posição da Corte a respeito? Os requisitos que devem ser observados para que uma petição seja admitida pela Comissão comportam exceções? Quais? Quais são os casos em que a Comissão pode adotar medidas cautelares ou requerer que a Corte adote medidas provisórias? Já houve algum caso em que a Corte requereu ao Brasil que adotasse medidas provisórias? Caso positivo. abril de 2004. Em junho de 2002. Quatro outras resoluções (agosto de 2002. Tais medidas têm sido ordenadas em casos de extrema gravidade ou urgência.1. 68 Para ler a sentença na íntegra. assim. no caso do Damião Ximenes. Nos últimos anos. a Corte tem ordenado medidas provisórias de proteção em um número crescente de casos. mas pendentes ante a Comissão. garantiu aos indivíduos uma importante e eficaz esfera complementar de garantia aos direitos humanos sempre que as instituições nacionais se mostrem omissas ou falhas. a Corte determinou que o Estado brasileiro proteja a vida e integridade pessoal dos presos da Casa de Detenção “Urso Branco”. a importante dimensão preventiva da proteção internacional dos direitos humanos. o Estado as cumpriu? Quais foram as conseqüências? 67 Informações atualizadas em 25 de outubro de 2006. Por fim.corteidh.67 A Corte deixou claro que o Brasil “tem responsabilidade internacional por descumprir. em especial com a aceitação da jurisdição da Corte.

In: Direitos Humanos no Brasil 2003. 2001. 85-98. caso El Amparo. p. cabem as seguintes indagações: • • • Há distinção entre sentença estrangeira e internacional? Deverão as sentenças ser examinadas pelo Supremo Tribunal Federal pela concessão do exequatur? Poderão os indivíduos demandantes executar perante a Justiça Federal? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. Flávia. p. caso Gangaram Panday.direitos humanos • • Quantos casos contra o Brasil tramitam perante a Comissão? Qual é a natureza de ambos os informes da Comissão? Tendo em vista a inexistência de qualquer sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos em desfavor do Estado brasileiro. 98-118. Flávia. p. PIOVESAN. Capítulo V. Direitos humanos e justiça internacional. 341-349. 118-145. p. caso Aloeboetoe. Capítulo IV: caso Velásquez Rodriguez. Capítulo VII. 168-179. pp. Responsabilidade internacional do Estado e decisões do Sistema Interamericano em 2003. p. André de Carvalho. 491-515. 220-225. Legislação: Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem Convenção Americana sobre Direitos Humanos Carta da OEA Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Estatuto da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos Estatuto da Corte Interamericana de Direitos Humanos FGV DIREITO rio 57 . CEJIL Brasil. p. 2006. RAMOS. Direitos humanos e justiça internacional. Antônio Augusto. 162-168. São Paulo: Max Limonad. 2006. p. Capítulo III. São Paulo: Saraiva. São Paulo: Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. p. Brasília: Editora Unb. 261-268. 1997. 63-99. O esgotamento de recursos internos no direito internacional. Direitos humanos em juízo. p. pp. São Paulo: Saraiva. 225-232. caso Maqueda. 2003.

mataram 14 dos 16 pescadores. Os dois sobreviventes conseguiram escapar a nado e.602. 24 (igualdade perante a lei) e 25 (proteção judicial). recomendando ao Estado venezuelano que punisse os autores do crime de homicídio praticado contra as vítimas de ‘El Amparo’. levando em consideração o divulgado pela mídia (haveria ocorrido um confronto armado com combatentes colombianos).1 (obrigação de respeitar os direitos) pela morte de 14 dos 16 pescadores. prontamente. o Inspetor chefe do DISIP (Direção dos Serviços de Inteligência e Prevenção) visitou Tovar e lhe informou que havia matado 14 guerrilheiros. Logo após. bem como violação aos artigos 5. Tovar. 29/93.1. foi impossível retirar os sobreviventes à força dali. Tovar começou a sofrer pressões por parte de policiais e militares para entregar os sobreviventes ao Exército. 10. refugiaram-se na fazenda “Buena Vista”. membros do exército e da polícia do CEJAP (Comando Específico José Antonio Páez). Às 11:20 o barco parou e quando os pescadores desembarcavam. além de indenizar os familiares das vítimas. Em 10 de agosto de 1990. o Informe n. Na tarde do dia 29. 8. a Comissão instaurou o caso n.1 (garantias judiciais). conforme o artigo 50 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção). FGV DIREITO rio 58 . que realizavam uma operação militar. que tramitou até o dia 12 de outubro de 1992. No entanto. No dia seguinte. 8. data na qual adotou. 24 e 25 em relação aos dois pescadores que conseguiram fugir. Foi alegada violação aos seguintes artigos da Convenção Americana de Direitos Humanos: 2 (dever de adotar disposições de direito interno). Breve descrição dos fatos Em 29 de outubro de 1988. lhes ofereceu proteção. todos eles em concordância com o artigo 1. em um primeiro momento. que. 16 pescadores do povoado “El Amparo” dirigiamse ao Canal “La Colorada” para participar de um campeonato de pesca. 5 (direito à integridade pessoal). familiares. DO CASO O caso “El Amparo” foi submetido à Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte) pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) em face do Estado da Venezula no dia 14 de janeiro de 1994. localizada a 15km do local dos eventos. 4 (direito à vida).direitos humanos Aula 10: Sistema Interamericano de Direitos Humanos: Estudo de Caso NOTA AO ALUNO 1. Em virtude da presença de grande quantidade de pessoas diante da delegacia. se entregaram ao Comandante da Polícia de “El Amparo”. abordaram Tovar a fim de saber o paradeiro de seus entes que haviam ido pescar no dia 29 e até agora não tinham retornado.

Isoladamente. 2) decide que o Estado venezuelano está obrigado a continuar as investigações acerca dos fatos a que se refere e a sancionar os responsáveis.direitos humanos Em virtude falta do cumprimento. sendo reservado àquele tribunal a faculdade de aprova-lo. na qual assevera que tal exame somente seria possível no exercício de sua competência consultiva. 8. pelo Estado venezuelano. que o estado indenizasse os familiares das vítimas. 8. 5 (direito à integridade pessoal). a Comissão solicitou que fosse declarada a incompatibilidade do art. 24 e 25 em relação aos dois sobreviventes. Por fim. 5. uma ação de responsabilidade internacional contra o referido estado perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte). do Código de Justiça Militar com o objeto da Convenção.1 (obrigação de respeitar os direitos). dentre outras medidas: 1) fixa o valor da indenização aos familiares das vítimas às vítimas sobreviventes. 54. Requereu. Em resumo. do referido Informe.1. a Corte. a Comissão propôs. a Corte não acatou o pedido da Comissão Interamericana de Direitos Humanos sob o argumento de que. o Juiz Antônio Augusto Cançado Trindade expressa seu entendimento de que a Corte deveria ter esclarecido que tem a faculdade de decidir acerca da incompatibilidade entre os artigos do Código de Justiça Militar e a Convenção. Essa ação judicial foi possível tendo em vista que a Venezuela ratificou a Convenção em 9 de agosto de 1977 e reconheceu a competência da Corte em 24 de julho de 1981. em sentença de 18 de janeiro de 1995. tal dispositivo não fora aplicado. Por outro lado. Reiterou-se assim o posicionamento na Opinião Consultiva nº 14. e violação aos arts. argumenta o juiz Antônio Augusto Cançado Trindade que. não sendo necessário o aguardo da ocorrência de um dano. 3) afirma que as reparações serão alvo de acordo entre a CIDH e o Estado. Na sentença de reparações de 14 de setembro de 1996. 4 (direito à vida). em 14 de janeiro de 1994. 24 (igualdade perante a lei) e 25 (proteção judicial). pela morte dos 14 pescadores. a Corte: 1) tomou nota do reconhecimento de responsabilidade efetuado pelo Estado venezuelano. todos eles em concordância com o artigo 1. 2 (dever de adotar disposições de direito interno). 3) declara. em votação não unânime. 2) decide que o Estado está obrigado a reparar os danos e pagar uma justa indenização às vítimas sobrevivente e aos familiares dos falecidos. ainda. FGV DIREITO rio 59 . Breve descrição dos passos processuais Em um breve resumo. que não procedem as reparações não-pecuniárias nem pronunciamento sobre a conformidade do Código de Justiça Militar e a Convenção. alegando o seguinte: violação aos arts.1 (garantias judiciais). a própria existência de um dispositivo legal pode per se criar uma situação que afeta diretamente os direitos protegidos pela Convenção. in casu. incisos 2 e 3. em voto dissidente.

5. Universitas –Centro Universitário de Brasília – UniCEUB. DOS POSICIONAMENTOS PROPOSTOS Dez alunos poderão participar da atividade.html Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. Vol. Antônio Augusto.corteidh.direitos humanos 2. São Paulo: Max Limonad. 6. Estado da Venezuela. Familiares das Vítimas. 3. I. os quais assumirão os seguintes posicionamentos: a) b) c) d) e) Comissão Interamericana de Direitos Humanos. 3. FGV DIREITO rio 60 . 09 – 40. Direitos humanos em juízo. devendo estes ser divididos em cinco grupos. 4. p. Venezuela. Indenização em geral e danos materiais Danos morais Efetuação do pagamento Reparações não pecuniárias Compatibilidade do Código de Justiça Militar com a Convenção Americana Dever de investigar e punir os responsáveis MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: Caso El Amparo Vs. cada grupo deverá construir argumentos acerca dos seguintes pontos: 1. “El nuevo reglamento de la Corte Interamericana de Derechos Humanos (2000): la emancipación del ser humano como sujeto del derecho internacinal de los derechos humanos” in Revista Proteção Internacional da Pessoa Humana. RAMOS. André de Carvalho.or. No 2. e Voto dissidente do Juiz Antônio Augusto Cançado Trindade. DOS ARGUMENTOS Tendo por base as decisões do caso em tela. 2. Disponível em: http://www. Corte Interamericana de Direitos Humanos. 2001.cr/seriec/ index_c.

direitos humanos Legislação: Convenção Americana sobre Direitos Humanos Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos FGV DIREITO rio 61 .

A organização insta os beligerantes a assegurar que todos os que precisem de cuidados – sejam ou não inimigos – devem ter acesso ao atendimento médico. o Direito Internacional Humanitário (DIH).org/Web/por/sitepor0.direitos humanos Aula 11: Direito Internacional Humanitário e Direito Internacional dos Refugiados NOTA AO ALUNO Nascidos em períodos históricos diversos. uma vez que tais vertentes possuem um elemento em comum: a proteção da pessoa humana. tratados Dia 09 de novembro de 2004 Comunicado melha de imprensa nº 04/62 do Comitê Internacional da Cruz Ver- Fallujah/Iraque (CICV) – O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) lembra a todos os envolvidos nos enfrentamentos armados em curso no Iraque que o Direito Internacional Humanitário proíbe agredir ou matar aos civis que não tomem parte diretamente das hostilidades. Milhares de civis iraquianos. conflitos armados. tais particularidades não afastam. incluindo mulheres. O CICV está profundamente preocupado com relatos de que os feridos não estão podendo receber atenção médica adequada.cicr. e sim intensificam sua complementaridade. fugiram de Fallujah buscando refúgio nos arredores da cidade. Doentes e feridos. São conflitos que atingem milhares de pessoas no mesmo momento em que você está lendo esse texto. A realidade do mundo contemporâneo refletida em temas como guerra contra o terrorismo. e o pessoal médico e seus veículos devem poder operar sem entraves em quaisquer circunstâncias. o Direito Internacional dos Refugiados (DIR) e o Direito Internacional dos Direitos Humanos (DIDH) apresentam aplicabilidades e mecanismos de supervisões diferenciados. A organização faz um chamamento às partes para que tomem toda precaução possível poupando os civis e as propriedades civis. abrigo e assistência médica. O CICV permanece comprometido em realizar seu trabalho humanitário no Iraque e insta todas as partes a facilitarem a passagem de suas equipes de ajuda humanitária que levam assistência de maneira neutra aos civis afetados pelo conflito. entre tantos outros. e respeitando o princípio de distinção e proporcionalidade nas operações militares.nsf/html/66LLHJ!OpenDocument FGV DIREITO rio 62 . Iraque: civis devem ser poupados. Eles devem ter garantido o direito de retornar a suas casas o mais cedo possível. Muitos destes deslocados internos precisam de água. Todavia. deslocados. refugiados. crianças e idosos. http://www. conduz à inafastabilidade do estudo do DIH e do DIR. alimentos. As notícias expostas nas seguintes notas não nos contam ocorrências escondidas em algum capítulo da História.

cicr. em terreno. O governo deve também tomar as providências para acabar com a impunidade dos culpados por violações. As operações do CICV são realizadas em cooperação com o Crescente Vermelho Sudanês e outras Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. Neste caso. Por outro lado ele destacou. disse Kellenberger. o Sudão será. velando prioritariamente pelo conhecimento e respeito aos princípios básicos do Direito Internacional Humanitário. onde participa da Cúpula de Nairóbi para Um Mundo Livre de Minas http://www. Com um orçamento de US$ 112 milhões. Kellenberger reconheceu que o acesso às vítimas do conflito armado no Darfur melhorou sensivelmente desde de sua última visita à região. de ambos os lados do conflito. o maior teatro de operações do CICV em todo o mundo.org/web/por/sitepor0. além de artigos de primeira necessidade e socorro médico. Kutum e Zalingei. fronteira entre o Chade e o Sudão.direitos humanos Sudão: presidente do CICV reforça importância do respeito ao Direito Internacional Humanitário Dia 30 de novembro de 2004 Comunicado melha de imprensa nº 04/71 do Comitê Internacional da Cruz Ver- Cartum/Genebra (CICV) – O presidente do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) Jakob Kellenberger terminou hoje uma visita de três dias às cidades de El Fasher.nsf/iwpList4 747E1213A0B72DE90325 6F5F005B3500 FGV DIREITO rio 63 . O presidente do CICV encontrou-se com diversas autoridades do governo sudanês. o presidente do CICV irá ao Quênia. e em toda a cadeia de comando das forças governamentais. que este retorno deve ser absolutamente voluntário e que as condições de segurança para os civis devem ser consideravelmente reforçadas nestas áreas. Kellenberger deixou claro que o CICV seguirá de perto a implementação das recomendações apresentadas. “Penso que o CICV optou por uma boa solução quando decidiu concentrar suas operações de socorro nas regiões rurais com a intenção de evitar novos deslocamentos de populações e facilitar o retorno dos que partiram”. Kellenberger formulou uma série de recomendações destinadas a melhorar a proteção da população civil. em todas as ocasiões. Frente às graves violações do Direito Internacional Humanitário cometidas sob responsabilidade do governo. fornecendo água e alimentos. na região do Darfur. Além de fazer conhecer o Direito Internacional Humanitário e de assegurar o respeito por estas normas. em 2005. Do Sudão. em março de 2004. o CICV presta assistência a meio milhão de pessoas em todo o Sudão. na África.

São mulheres e. A maioria é de africanos e latino-americanos. tem direito a um salário mínimo e medicamentos. Voltar para casa. e que desde 1997 tem uma lei nacional específica na qual se compromete a receber. proteger e ajudar a integrar refugiados. O elo que os une: expulsos por terríveis guerras civis. homens com idade entre 20 e 25 anos. Com a ratificação. A assistente social Denise Orlandi Collus. Segundo o representante no Brasil do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). famílias inteiras de desterrados. Às vezes. A condição pode ser estendida aos familiares e dependentes que se encontrem em território nacional. Aqui. Luis Varese. Com o mesmo perfil.5 mil refugiados que vivem na cidade. pediram refúgio ao governo e tentam reconstruir suas vidas. diz. Já no Brasil. por um período médio de seis meses. 38 anos. Mesmo assim. e no Brasil A primeira barreira que o refugiado enfrenta é a viagem de fuga. mas que ainda não conseguiram o direito de viver em território nacional. “Eles sabem que não serão deportados. CPF e carteira de trabalho e. Só se cometerem uma infração grave. O processo. conta que a maioria dos que não conseguem obter o status permanece no Brasil assim mesmo. cerca de 35% das pessoas que entram com processo para pedir o reconhecimento como refugiado têm essa condição validada. que atravessou quase todo o continente africano fugindo de massacres e guerras civis.direitos humanos Refugiados no Brasil: o lado humano dos conflitos que assolam o mundo em território nacional Por Patrícia Pereira Há 3 mil refugiados no Brasil. é analisado pelo Comitê Nacional para Refugiados (Conare). fornecidos pelo Acnur. como conta neste especial o africano da Costa do Marfim Edmond Kouadio. Outros vagam anos a pé até conseguir embarcar em aviões. em grande parte. vivem com medo”. é preciso provar que se corre risco de vida no país de origem. que trabalha no Sesc Carmo. seria o mesmo que morrer. órgão ligado ao Ministério da Justiça. a pessoa passa a gozar de total liberdade dentro do território nacional. existem pelo menos outros 6 mil refugiados que vivem no Brasil. Barreiras na fuga. ideológicas e religiosas. Para chegar ao País. de 1951. que pode levar seis meses. FGV DIREITO rio 64 . Recebe cédula de identidade de estrangeiro.2 mil dos 1. perseguições políticas. violências étnicas e tribais e outras violações graves de direitos humanos. É preciso ultrapassar a fronteira de sua terra natal para pedir proteção ao governo do Brasil – país signatário do tratado da Convenção de Genebra. Sozinhos em um país estranho e vivendo de forma ilegal. onde são oferecidos programas de apoio a imigrantes e por onde já passaram cerca de 1. para eles. fugiram de seus países de origem e realizaram verdadeiras façanhas para chegar ao Brasil. permanecem com medo da deportação. muitos viajam como clandestinos em cargueiros e enfrentam dias de fome e tensão. em São Paulo. em meio a lembranças de dor e sofrimento.

e o segundo à proteção de certos direitos básicos também em diversas situações de conflitos e violência. San José. o DIH protege a pessoa humana em conflitos armados e o DIDH em todos os tempos. sempre tendo como parâmetro o DIDH. 275. como o colombiano Juan (nome fictício). o DIH pode ser indicado como precursor da internacionalização CANÇADO TRINDADE. por que será que existem normas que regulamentam as condutas perpetuadas nesse período? Haveria uma contradição entre conflito e regras a serem cumpridas? A resposta é não. 1996.htm As duas primeiras notas de imprensa são datadas de novembro de 2004. e que limita. O crescente número de refugiados vindos da América Latina – principalmente Colômbia. Com os papéis em mãos. especificamente aplicável aos conflitos armados. Antônio Augusto. Dificilmente ele consegue exercer no Brasil a profissão que desempenhava antes. a urgência passa a ser conseguir emprego e moradia. adaptar-se aos hábitos dos brasileiros e integrar-se socialmente. Peru e Cuba – nos últimos anos reforça esse grupo. CR: Instituto Interamericano de Direitos Humanos. Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Tendo em vista que a Carta das Nações Unidas legitima expressamente o uso da força em circunstâncias limitadas. http://www. Na Colômbia. Após essa leitura. A boa formação do refugiado acaba às vezes sendo um ponto negativo para a integração. In: CANÇADO TRINDADE. São pessoas com formação universitárias e politizadas. por razões humanitárias. o que dificulta sua entrada no mercado de trabalho”. p. As três vertentes da proteção internacional dos direitos da pessoa humana. a terceira nota reflete um panorama dos refugiados no Brasil.estadao. “Sistemas Internacionais de proteção da pessoa humana: o direito internacional humanitário”. Surge então uma nova barreira: a do preconceito. todavia. Antônio Augusto. notadamente no que se refere à proteção da pessoa humana. organização não-governamental de assistência e proteção aos refugiados ligada à Igreja Católica. PEYTRIGNET.direitos humanos Enquanto aguarda o resultado do processo os refugiados procuram aprender a língua. e SANTIAGO. Para isso. 1997.”71 Se a guerra é o campo do conflito. Direito Internacional Humanitário e Direitos Internacional dos Direitos Humanos: tradicionalmente. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. respectivamente acerca dos conflitos vividos no Iraque e Sudão.br/especial/refugiados. o direito das partes em conflito de escolher livremente os métodos e os meios utilizados na guerra. No Brasil. internacionais ou não-internacionais. cabe a exploração de alguns elementos do DIH e do DIR. que é jornalista e especializou-se em prevenção e administração de desastres. têm a ajuda da Cáritas. responsável por implementar o programa do Acnur em São Paulo e no Rio de Janeiro. “mais recentemente o primeiro temse voltado também para situações de violência em conflitos internos. de 45 anos. Por sua vez. Volume I. Gerard. FGV DIREITO rio 65 . A normatização do conflito visa precisamente à mitigação de seus efeitos e a sua não transformação em uma barbárie absoluta. trabalhava na Cruz Vermelha. 70 71 PEYTRIGNET.com. enfrenta o desemprego e a desilusão das filhas provocada pela queda na qualidade do ensino. Histórico: Como foi estudado na aula 02 – Desenvolvimento Histórico dos Direitos Humanos. “O refugiado é quase sempre visto como bandido ou traficante.). Gerard. evitando que sejam afetados as pessoas e os bens legalmente protegidos. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor.”70 Quais elementos são característicos do DIH? Definição: “trata-se do corpo de normas jurídicas de origem convencional ou consuetudinário. com mulher e quatro filhas. conta Denise. Jaime Ruiz de (orgs. é preciso compreender algumas limitações acordadas pelos Estados de forma a tornar os conflitos armados menos danosos.

realizada também em Genebra. Dunant fundou o Comitê Internacional de Ajuda aos Feridos. sob comando responsável e exercendo controle sobre certa parte do território. A extensão de sua aplicabilidade e a ratificação por parte de 191 países fazem com que o DIH seja denominado muitas vezes de o “Direito de Genebra”. o Protocolo Adicional I amplia a definição de conflito armado internacional por incorporar aqueles nos quais se luta contra regimes de dominação colonial ou contra regimes racistas. A convite do governo suíço. estabeleceu o marco normativo moderno do DIH. a preocupação com as guerras de libertação nacional e a necessidade de regulamentação dos conflitos armados não-internacionais conduziram ao chamamento de uma conferência internacional em 1977. o genebrino Henry Dunant presenciou as atrocidades da batalha de Solferino. • Protocolo Adicional I – em nome do princípio da auto-determinação dos povos. Principais tratados: tal passo não foi suficiente para evitar os resultados trágicos das duas Grandes Guerras Mundiais. Em 1863. Esse esforço normativo é resultado da barbárie vivenciada nos campos de guerra existentes na Europa durante o século XIX. Convenção de Genebra III – protege os prisioneiros de guerra. Convenção de Genebra II – protege os feridos. que.direitos humanos da proteção da pessoa humana. Publicou. Em 1859. tendo sido ratificado por 161 países. e Protocolo Adicional II – disciplina a previsão do artigo 3º comum e sua aplicabilidade a conflitos armados internos. norte da Itália. foi celebrada uma conferência no ano de 1864 que aprovou o Convênio para a proteção dos feridos no campo. O enquadramento moderno é marcado pela Convenção de Genebra de 1864 para melhoramento da condição de feridos no campo. em companhia de outros genebrinos. Era necessário um compromisso mais efetivo por parte dos Estados para o estabelecimento de uma ordem mundial pós-1945. para a elaboração de dois protocolos adicionais às Convenções de Genebra. FGV DIREITO rio 66 • . Por iniciativa do CICR. no qual propõe a criação de entidades de socorro privadas em cada país e a elaboração de um acordo internacional que facilitasse o trabalho das mesmas. o mundo era formado por poucos Estados e não existiam instâncias multilaterais que pudessem monitorar o uso da força. O Protocolo II foi ratificado por 156 países. doentes e náufragos das Forças Armadas no mar. Todavia. em seus 10 artigos. e Convenção de Genebra IV – inaugura a preocupação com a população civil. da qual resultaram os diplomas que constituem a chave-mestra do DIH: • • • • Convenção de Genebra I – protege os feridos e doentes das Forças Armadas em campanha. É importante lembrar que nesse momento. Condições: forças armadas dissidentes ou outros grupos armados organizados. o qual veio a ser chamado logo após de Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). em 1862. entre franceses e austríacos. o livro “Recordações de Solferino”. a Suíça convocou uma conferência em Genebra no ano de 1949.

químicas. Disponível em: http://www. assim como os prisioneiros ou detidos. encontram-se: a) Convenção de 1992 – proibição iwpList104/A586AE20F1419C1 http://www. Dentre os e permitir que façam seu trabalho. sejam Não “proíbe causar aos sofrimentos ou empregar danos excessivos. 145 145 indiscriminadas ou que possuam causarão sofrimento requerido para deixar um O Direito de Nova Iorque características “proíbe aos que combatentes empregar maior armas ao que.org/web/por/sitepor0. a proibição dos ataques indiscriminados e a obrigação tomar medidascivil de precaução a fim de evitar. 72 assim Acesso em: 19 junho 2005.nsf/htmlall/section_ihl_conduct_of_hostilities?OpenDocument.cicr.nsf/iwpList104/846A586AE20F1419C1256DEA00349CD7) . ou incendiárias. laser cegantes extensos. destruição.nsf/ principais tratados constantes do Direito de Nova Iorque.” Acesso 19 de junho de limitados o emprego de certas armas. também denominado “mini-convenção” são aplicáveis a conflitos armados não-internacionais. http://www.” Acesso em: 19 de junho de 2005.org/web/por/sitepor0. sejam combatente fora de combate. estocagem.. 146 146 http://www. Disponível Não atacar o pessoal médico ou humano. minimizar. por natureza. Importante ressaltar que a aplicabilidade de tais normas não está condicionada à declaração formal de guerra. o professor poderá apresentar aos . Em tratados específicos são causem proibidos ou proibidas de acordo com esse único argumento. Tratar com humanidade o adversário que se rende ou é capturado. em qualquer ataques diretos contra pessoas de civis. Disponível em: minimizar. Respeitar os civis e seus bens.cicr.org/web/por/sitepor0. As armas que violam os "ditames da consciência pública" também podem ser indiscriminadas ou que possuam características que causarão sofrimento maior ao requerido para deixar um proibidas defora acordo com esse argumento.cicr.cicr. produção e de armas bacteriológicas e sua destruição.nsf/iwpList104/846A586AE20F1419C1256DEA00349CD7) Acesso em: 19 de junho de 2005. Dentre os 2005. o número de mortos e de feridos entre os civis. bastando o fato de um conflito armado. no corpo humano. o adversário que se rende ou é capturado. ae proibição dos situação ataques Não causar sofrimentos oude danos excessivos. e c) Convenção de 1997 – Tratado de Otawa: de proibição emprego. o professor poderá apresentar Princípios fundamentais: De acordo com gráficos apresentados no site do CI146 De72 acordo com gráficos apresentados no site do CICV146 . oAcesso número de mortos feridos entre danos causados a bens de caráter http://www.cicr. sem discriminação alguma. Está proibido o emprego de armas que danos instalações e as permitir que façam seu trabalho. civil. como biológicas. 256DEA00349CD7). Tratar com humanidade o adversário que se rende ou é Tratar com humanidade capturado. Disponível em: cicr. Disponível em: transferência de minas anti-pessoais a sua destruição.org/Web/por/sitepor0. laser cegantes ou em: incendiárias. encontram-se: a) Convenção de 1992 – proibição destruição. sem discriminação alguma. população civil ou bens de caráter civil.nsf/htmlall/section_ihl_conduct_of_hostilities?OpenDocument. De acordo com gráficos apresentados no site do CICV146.org/Web/por/sitepor0.org/web/por/sitepor0. alunos uma linguagem dos princípios CV é possível enumerar os representativa princípios regedores do DIH: gerais regedores do DIH: aos alunos uma linguagem representativa dos princípios gerais regedores do DIH: Somente podem ser atacados os objetivos militares. Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos náufragos. junhoassim como de os 2005. de armas bacteriológicas e sua b) Convenção de 1993 – proibição de armas químicas e sua principais tratados constantes do destruição. náufragos. b) Convenção 1993 –do proibição deestocagem. armas químicas e sua transferência de minas anti-pessoais e sobre a sua destruição. por natureza. Respeitar os civis e seus bens. ataques diretos contra pessoas civis.” em: e de19 de os civis. Asúnico armas que violam os "ditames da consciência pública" também podem ser Não atacar o pessoal médico ou sanitário nem suas extensos. Por sua vez. produção e 146 FGV DIREITO rio 67 Acesso em: 19 e sobre de junho de 2005. Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos náufragos. assim como os prisioneiros ou detidos. Está proibido o emprego de armas que causem danos combatente de combate. assim como os danos causados a bens de caráter indiscriminados e a obrigação de tomar medidas de precaução a fim de evitar. Direito de Nova Iorque. o Protocolo II e o Artigo 3 comum às Convenções. o duradouros e certas graves ao meio ambiente natural. assim como os prisioneiros ou detidos. duradouros e graves ao meio ambiente natural. Em tratados específicos são proibidos ou como de projéteis que explodem ou secomo alastram facilmente químicas.direitos humanos As convenções e o Protocolo I são aplicáveis a conflitos armados. Somente podem ser atacados os objetivos militares. as biológicas. população ou bens caráter civil. e em qualquer situação civil. o que significa o envolvimento de dois ou mais Estados. Somente podem ser atacados os objetivos militares. Disponível em: como de projéteis que explodem ou se alastram facilmente no corpo em: 19 de junho de em: http://www.cicr.nsf/htmlall/section_ihl_weapons?OpenDocument. sem discriminação alguma. assim limitados emprego de armas.” sanitárioAcesso nem suas instalações http://www. Disponível em: 145 O Direito de Nova Iorque combatentes armas que.org/web/por/sitepor0. e c) Convenção de 1997 – Tratado de Otawa: proibição do emprego.nsf/htmlall/section_ihl_weapons?OpenDocument. 2005.

Considerada a dificuldade de eleição de tal Estado.cicr. unidades e meios forma a compatibiliza-la. é mantido como emblema e sinal distintivo do serviço de saúde dos pelo DIH a duas categorias específicas: Pessoas protegidas: pessoas que. em Assim são tivo. direitos humanos Não atacar o pessoal médico ou sanitário nem suas instalações e permitir que façam seu trabalho. sanitário e religioso. Estabelece ainda que. instituição imparcial capaz de acompanhar a veracidade das alegadas violações ao DIH. a designação de um Estado alheio ao conflito. de infrações às normas de DIH: tendo em vista a necessidade de se estabelecer uma autoridade neutra capaz de arbitrar um conflito armado. Assume ainda a obrigação de adotar medidas preventivas. é também tarefa do Estado estabelecer medidas de repressão.nsf/htmlall/section_ihl_protected_persons_and_property?OpenDocu Igualmente. represálias. vez da cruz vermelha. apenas às normas nele constantes. prisioneiros de guerra. Por fim. o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) acaba por agir como substituto da potência. como a de difusão do conteúdo dos tratados. fundamentais à determinação ment. De acordo com o artigo 38 da Convenção I de Genebra. por meio da nomenclatura ‘Potência Protetora’. Por sua vez. Bens protegidos: aqueles que devem ser protegidos contra Aplicabilidade do DIH: ao assinar um tratado de DIH. as fronteiras estatais diminuem no que concerne a mercadorias.. nunca estiveram tão altas no que concerne a pessoas. merecem tratamento especial por eparte do DIH. seja comum ou militar. o Protocolo I de 1977 convencionou a criação da Comissão Internacional de Apuramento dos Fatos. pessoal fundo branco. formado pela inversão das Cabe ao heráldico professorda chamar à atenção. notadamente penal e processual. notadamente no que se refere às normas de caráter penal 147 de transporte sanitários. estes emblemas igualmente reconhecidos nos termos da presente Convenção. o crescente vermelho ou o leão o sol vermelhos considerados os feridos. serviço e principalmente a capitais. civis. em especial a autorida147 civis e militares. o Estado obriga-se não ataques ou outros atos hostis (destruição. náufragos. Direitos Humanos e Direito dos Refugiados A globalização econômica desnuda um paradoxo: por um lado. em virtude exércitos. Nesse sentido. os são enfermos.org/Web/por/sitepor0.Não causar sofrimentos ou danos excessivos. Disponível em: http://www. mas também a adequar a sua legislação interna de Exemplos de bens protegidos: bens de caráter civil e bens culturais. meio de tais gráficos à relevância concedida cores federais. Vivencia-se hoje um enorme fluxo migracional. Não colocar obstáculos ao pessoal da Cruz Vermelha no desempenho de suas funções. o direito consuetudinário 162 reconheceu. causado muitas vezes pelas próprias decorrências do capitalismo que não encontra nas fronteiras a mesma flexibilidade. para os países que empregam já como sinal distinde em sua condição. em homenagem à Suíça. des Acesso em: 19 de junho de 2005. o sinal cruz vermelha em por fundo branco. deve assegurar medidas de controle. confisco etc .). uma vez que a violação das regras de DIH corresponde à violação de regras de caráter interno. Não colocar obstáculos ao pessoal da Cruz Vermelha no desempenho de suas funções. captura. FGV DIREITO rio 68 . o Estado deve envidar todos os esforços para cessar condutas que afrontam o DIH e deve punir os autores de condutas adversas a esse direito.. seja em tempo de paz ou de guerra. Tal instituição foi consagrada pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas de 1961. comum e militar e processual penal comum e militar. por outro.

). a Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelece que toda pessoa vítima de perseguição tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países. devido ao referido temor. “criado em um contexto de Guerra Fria. 74 FGV DIREITO rio 69 . estabelece que: MELO. se encontra fora do país de sua nacionalidade e que não pode ou. caracteriza-se como subjetiva e individual. A ampliação do conceito também teve palco no continente americana. 267. Guilherme de (orgs. 134 países comprometeram-se com a causa no momento da assinatura da Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 e do Protocolo de 1967. a realidade internacional demonstrou a incapacidade desse conceito jurídico em dar uma resposta a situações fáticas. o que se coaduna perfeitamente à dualidade de sistemas vivenciada no pós-guerra: os refugiados podiam ser vistos como troféus de um sobre o outro. não quer voltar a ele. 73 O Protocolo de 1967 veio justamente a retirar a restrição temporal impressa pela Convenção. concebida no descrito contexto. grupo social ou opiniões políticas.. Em sua terceira conclusão. por ocasião da Declaração de Cartagena de 1984. Estabelece. O termo “refugiado” aplicar-se-á também a toda pessoa que. Originalmente. erigindo a necessidade de revisão do conceito do refúgio. Todavia. em determinadas situações. tendo como base a idéia de perseguição. O Direito Internacional dos Refugiados: uma perspectiva brasileira. por causa de uma agressão exterior. no contorno específico da figura do refugiado. A Convenção estabeleceu a definição clássica de refugiado como qualquer pessoa que: (. Carolina de Campos. A proteção ao refugiado encontra abrigo no marco fundamental dos direitos humanos: assinada em 1948.direitos humanos É claro que o ‘deslocar-se’ faz parte da história. inciso 2: 2. mas foi o final da SegundaGuerra Mundial o marco inaugural para o abrigo internacional a sua proteção. se não tem nacionalidade e se encontra fora do país no qual tinha sua residência habitual em conseqüência de tais acontecimentos não pode ou. entrando em vigor em 1974. uma ocupação ou uma dominação estrangeira ou de acontecimentos que pertubem gravemente a ordem pública em uma parte ou na totalidade de seu país de origem. este conceito tem como centro a questão da perseguição. aprovada em 1969. ou do país de sua nacionalidade. não quer valer-se da proteção desse país ou que.”74 Há de se destacar que a concepção clássica de refúgio. em seu artigo 1. nacionalidade. p. O Direito Internacional dos Refugiados vem galgando importantes passos ao longo de sua história. adaptando-no à realidade regional. e ALMEIDA. está obrigada a abandonar sua residência habitual para buscar refúgio em outro lugar for do seu país de origem ou do país de sua nacionalidade. de janeiro de 195173 e temendo ser perseguida por motivo de raça. Nesse sentido. “Revisitando o conceito de refúgio: perspectivas para um patriotismo constitucional”. A primeira iniciativa de ampliação encontra-se na Convenção da Organização da Unidade Africana.. em virtude desse temor.) em conseqüência de acontecimentos acorridos antes de 1o. In: ARAÚJO. Rio de Janeiro: Renovar. religião. 2001. Nádia de.

op. mas a violação de direitos humanos assume a condição de situação que acarreta refúgio. proteção e solução. FGV DIREITO rio 70 . Por sua vez. 75 76 Idem. interação local. Dentre elas. De acordo com Cançado Trindade. no que concerne à solução duradoura. Afinal. Percebe-se uma clara objetivação do conceito de refúgio. “vem-se passando gradualmente de um critério subjetivo de qualificação de indivíduos. a agressão estrangeira. e dentro das características da situação existente na região. desse modo. Cumpre ressaltar que os países americanos reiteram a perspectiva ampliada do conceito de refúgio no ano de 1994. foram as necessidades de proteção que levaram o ACNUR. violações maciças de direitos humanos e conflitos armados podem ser indicados por fatores determinantes para a saída de determinados grupos de um país. o precedente da Convenção da OUA (artigo 1. destaca-se a integração local. Tanto a concepção africana quanto a americana demonstram como a realidade conduziu a necessidade de adequação da Convenção de 1951. A. deve ser estipulada uma solução considerada duradoura para os refugiados. no pertinente. constituindo campo de implantação concomitante do DIDH e do DIH. p. É precisamente nesse sentido que se constrói a estratégia do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). os conflitos internos.) faz-se necessário encarar a extensão do conceito de refugiado.”75 Os conceitos descritos conduzem ainda à premissa que permeia a presente aula. o DIDH deve contracenar com o DIR em três momentos: prevenção. a definição ou conceito de refugiado recomendável para sua utilização na região é aquela que além de conter os elementos da Convenção de 1951 e do Protocolo de 1967. p. 320. uma década depois de Cartagena. a etapa da proteção tem no princípio do non refoulement sua principal viga.. resta claro que o DIR e o DIDH passam a ter não apenas progressiva interação. parágrafo 2) e a doutrina utilizada nos informes da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Por fim. Esta declaração aprofundou as relações entre o DIR e o DIDH ao tratar de forma mais aprofundada questões deslocamentos forçados. “A visão tradicional concentrava atenção quase que exclusivamente na etapa intermediária de proteção (refúgio). tendo-se em conta.direitos humanos (. Nesse sentido. a violação massiva dos direitos humanos ou outras circunstâncias que tenham perturbado gravemente a ordem pública. cabendo ao Estado CANÇADO TRINDADE.. a um critério objetivo concentrado antes nas necessidades de proteção. reassentamento). o qual deixa de ter a idéia de perseguição como fundamental. a ampliar seu enfoque de modo a abranger também a etapa ‘prévia’ de prevenção e a etapa ‘posterior’ de solução duradoura (repatriação voluntária. segundo as razões que os teriam levado a abandonar seus lares. cabem alguns esclarecimentos: ultrapassada a concessão de refúgio por órgão independente e especializado.cit. A. segurança ou liberdade foram ameaçadas pela violência generalizada. 322. considere também como refugiados as pessoas que fugiram de seus países porque sua vida. nos últimos anos. por ocasião da Declaração de San José.”76 No que se refere à etapa preventiva. Não se pode mais alimentar a compartimentalização da proteção da pessoa humana.

Disponível em: h t t p : / / w w w. o ACNUR assevera que “o número global de refugiados baixou em 4%. o mesmo não se pode dizer dos deslocados. o dado global de pessoas das quais se ocupa o ACNUR. cabem aqui algumas ponderações sobre os refugiados no Brasil. Como ilustrado o terceiro texto inicial da Nota ao Aluno. 79 FGV DIREITO rio 71 .506 274 181 113 3074 Acesso em: 27 de junho de 2005. até que fosse levantada em 1989. Todavia. Por fim. retornados. mesmo em momento anterior à elaboração da Lei nº 9747/97 que abrigou tanto a concepção clássica quanto a ampliada de refugiado. c o m . a d i t a l. incluindo os solicitantes de asilo. o mais baixo em quase 25 anos. br/site/noticias/17275. Cabe também a repatriação. em retrospectiva histórica. como foi o caso de 150 vietnamitas em 1979/80 e 50 famílias Bahai (Irã) em 1986.4 milhões de deslocados internos aumentou para 19. 155 a 159. Tal cláusula fez com que. Fonte: CONARE Acesso em: 27 de junho de 2005.215. o Estado brasileiro aceitou as vítimas da guerra civil angolana com base na Declaração de Cartagena.”77 Por fim. é possível vislumbrar o atual retrato dos refugiados no Brasil: Tabela 1 – Total de Refugiados no Brasil em fevereiro de 200579 (acnur e conare) Continente de procedência África América (América Latina e Caribe) Ásia Europa Total Total  2. apátridas e um total de 6. o Brasil recebe cerca de 1200 angolanos. de 28 de janeiro de 1961. o Brasil recebe hoje milhares de refugiados.2 milhões. pp. op. 77 78 ALMEIDA. ao incorporar a Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951. Entre os anos de 1992 e 1994. Como ressalta Guilherme de Almeida. asp?lang=PT&cod=17275. sendo absolutamente necessária a anuência do refugiado.direitos humanos todas as providências necessárias para o exercício dos direitos humanos por parte dos refugiados. Se o número de refugiados vem diminuído ao longo dos últimos anos. asp?lang=PT&cod=17275. o Decreto nº 50. O diagnóstico das nacionalidades vêm sofrendo alterações ao longo dos anos. apesar do decréscimo. Disponível em: h t t p : / / w w w. há também o reassentamento quando o refugiado vai para um terceiro país. a d i t a l. Originalmente criado com tarefa restritiva aos refugiados. apátridas.2 milhões o total atual. Por mais que as condições que expulsam os refugiados e os deslocados de seus lares possuam o mesmo cerne – afirmativa que encontra respaldo no conceito objetivo de refugiados – somente aquele que cruza a fronteira pode perquirir o status de refúgio. c o m . Interessante ressaltar que. estabelece uma “reserva” geográfica. Em se mais recente Relatório. no ano de 2004. cit.78 De acordo com a tabela abaixo. Mas. alguns grupos fossem recebidos com outro título. a qual estipula o Brasil aceitaria somente refugiados originados do continente europeu. de forma a garantir o princípio do non refoulement. o ACNUR tem desenvolvido diversas atividades que contemplam os deslocados. br/site/noticias/17275. solicitantes de asilo e retornados. nem todas as pessoas que têm que deixar seus lares cruzam as fronteiras. como educação e trabalho. estimandose em 9. G.

FGV DIREITO rio 72 . Vol. O direito internacional dos refugiados: uma perspectiva brasileira. momento de constituição do Comitê Nacional para Refugiados (CONARE). Rio de Janeiro: Renovar. Todavia. itens III e XII). organizações internacionais como o ACNUR tiveram que expandir o universo de grupos sob sua responsabilidade. Diante de todo o exposto. A contabilidade de refugiados e deslocados está recortada a um determinado período histórico. Nádia de. VIII. Guilherme Assis de. torna-se significativo o número de refugiados latinoamericanos. como é o caso dos deslocados. pp. 284-352 (Cap. 1997. notadamente provenientes da Colômbia. Leitura acessória ARAÚJO. Órgão coletivo sediado no Ministério da Justiça. Antonio Augusto. CANÇADO TRINDADE. É certo que a ampliação da definição constitui uma forma de se contemplar grupos que tiveram que deixar seus lares por diferentes razões. voltamos ao objeto desse curso: a efetiva proteção dos direitos humanos. há de se ressaltar que nos últimos anos. Tratado de direito internacional de direitos humanos.direitos humanos Tais números refletem os pedidos de refúgio acolhidos antes e depois de 1998. 1997. VIII. as seguintes perguntas poderão auxiliar o professor na condução da aula: • • • • • • • Quais são as principais interações entre o DIDH. 270-284 (Cap. Fica clara a preponderância de refugiados de origem africana. a elasticidade conceitual deve ser respeitada pela aplicação de medidas preventivas que evitem que refugiados e deslocados tenham que dar início à partida. I. Antonio Augusto. o CONARE é responsável pelo exame das solicitações de refúgio e pela elaboração de políticas públicas para os refugiados. Dentre elas. pp. Tratado de direito internacional de direitos humanos. DIH e DIR? Qual a principal distinção? Porque a guerra deve ser objeto de restrições? Quais os princípios regedores do DIH? O que significa o princípio do non refoulement? Qual é a diferença normativa entre refugiados e deslocados? Quais requisitos devem ser preenchidos para a aquisição do status de refugiado no Brasil? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. Todavia. e ALMEIDA. 2001. itens I e II). Da mesma forma. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Vol. I.

direitos humanos KALSHOVEN. São Paulo: Max Limonad. Buenos Aires: Centro de Apoyo en Comunicación para América – Comitê Internacional de la Cruz Roja. 115 – 146. Restricciones en la coducción de la Guerra. Legislação: Constituição Federal de 1988 Convenções de Genebra de 1949 Protocolos Adicionais de 1977 Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 Atividade Complementar: Filme “O Resgate do Soldado Ryan” de Steven Spielberg. Flávia. Temas de Direitos Humanos. Liesbeth. FGV DIREITO rio 73 . pp. Frits e ZEGVELD. pp. PIOVESAN. Flávia. “O direito de asilo e a proteção internacional dos refugiados”. 21 – 41. In: PIOVESAN. Introducción al derecho internacional humanitario. 2003. 2003.

a hipótese do abate do avião colombiano. colombiano. representantes de organizações e familiares das vítimas. entre outras coisas. nível de vôo. No entanto. foram fotografados por uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) a fim de verificar. ao entrar no sistema informatizado do Departamento de Aviação Civil (DAC). inclusive no Peru. emitindo sinais visuais para o pouso imediato da aeronave. o que causou verdadeira situação de pânico para os pilotos. como medida de intervenção. Santiago Gúzman realiza o transporte de sementes medicinais entre diversas localidades em seu avião de pequeno porte. o avião foi considerado hostil. A impossibilidade de identificação da aeronave e a procedência da Colômbia. por um problema técnico. Ao entrarem no espaço aéreo brasileiro. conduziram-na à condição de suspeita. os disparos foram além de sua finalidade: o avião foi abatido e os tripulantes faleceram. não conseguiu identificar a aeronave. é membro da Associação Amigos das Sementes. Em 20 de outubro de 2004. Tais dados foram enviados a Autoridade de Defesa Aeroespacial que. embora não tivessem percebido. fazendo com que a comunicação fracassasse. tipo de aeronave.direitos humanos Aula 12: Os direitos civis e políticos: direito à vida NOTA AO ALUNO Santiago Gúzman. não conseguiram entender o que lhe era solicitado. foi disparado tiro com o intuito de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo. país reconhecido como importante fonte de substâncias entorpecente. Pelo fato de Gúzman e Gonzales terem prosseguido em sua rota. que possui membros em toda região amazônica. o piloto da FAB tentou contato via rádio. Logo em seguida. Tiveram início as medidas de intervenção: duas aeronaves da FAB aproximaram-se ostensivamente. a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados convocou uma Audiência Pública. Colômbia e Venezuela. na qual foi debatido exaustivamete o assunto. Estado do Pará. Santiago e seu co-piloto. destaque-se: Ministério da Defesa Sustenta que o Estado brasileiro tem o dever de defender sua soberania nacional – um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito – sempre em conformidade com as normas legais. Estiveram presentes autoridades. após ordem do Comandante da Aeronáutica. Dentre os principais argumentos. Gúzman e Gonzáles mantiveram sua rota original. sua matrícula. mas os pilotos. Há mais de 10 anos. quando partia da Colômbia para a Ilha de Marajó. Diante do acontecido. uma das aeronaves da FAB disparou tiros de advertência laterais à aeronave. mais conhecida como Lei do Abate. Dessa forma. FGV DIREITO rio 74 . Em procedimento objeto de registro sonoro. Antônio Gonzales foram as primeiras vítimas da Lei do Tiro de Destruição. Como medida de averiguação.

Assim. conseqüentemente. a falta de habilitação do piloto. o abate ao avião colombiano significa que a pena de morte. além de ser consagrado internacionalmente. Organização pela independência do poder judiciário Sustenta que o abate ao avião colombiano constitui ofensa ao devido processo legal. Questão De que forma a Lei do Tiro de Destruição protege a soberania nacional? O abate do avião colombiano viola o direito à vida? Os tripulantes. nesse caso. Associação Nacional de Empresas Aeroviárias O mau funcionamento do sistema de comunicações. constitui um dos direitos fundamentais do ordenamento jurídico brasileiro. Sendo assim. mas sustenta ser um mal necessário para se combater um mal maior. uma vez que os tripulantes foram condenados sem julgamento e direito à ampla defesa. O Poder Judiciário é o órgão competente para julgar e condenar alguém. e em última conseqüência. milhares de pessoas. pelo uso ou tráfico. o direito à vida. atende não apenas a um interesse público superior e socialmente legítimo como ao princípio constitucional da segurança pública. equipara-se à resistência à prisão. Ademais. se o piloto resolve ignorar sete medidas que visam sua identificação. Defensores dos Direitos Humanos Sustenta que o direito à vida deve ser garantido e promovido em todas as hipóteses. não se opõe ao direito à vida dos tripulantes. desatualização do exame médico. Defensores da Lei e Ordem Argumentam que a lei é importante e necessária pois o consumo de drogas no Brasil e no mundo é uma tragédia cotidiana que mata anualmente.direitos humanos além de estar legalmente prevista. direito consagrado constitucionalmente. uma vez que os mesmos estavam ameaçando a soberania e. a fuga. O Estado deve investir em meios alternativos de controle. vedada expressamente pela Constituição Federal brasileira (salvo em caso de guerra declarada). e não-utilização de fonia para não pagar as tarifas de proteção ao vôo podem ser apontadas como falhas que não devem ter como conseqüência a violação do direito à propriedade das aeronaves. a vida de seus cidadãos. suspeitos de tráfico de drogas. tendo em vista que. não podendo haver decisão extrajudicial. foi aplicada aos 2 tripulantes. O grupo reconhece que a lei é dura e drástica. deveriam ter tido os direitos à ampla defesa e de ser julgados pelo Poder FGV DIREITO rio 75 .

[. 5º..] XXII – executar os serviços de polícia marítima.] Art. nos termos do art... [.] Art. [. [. em processo judicial ou administrativo.] XXXVII – não haverá juízo ou tribunal de exceção. [.. 4º. dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal.. Compete privativamente à União legislar sobre: [.] Art..] VI – defesa da paz.. 84... aeroportuária e de fronteiras. navegação lacustre... LV – aos litigantes.. à segurança e à propriedade.. A Constituição poderá ser emendada mediante proposta: I – de um terço. III – assegurar a defesa nacional.. [. Legislação Constituição Federal de 1988 Art... sem distinção de qualquer natureza.. FGV DIREITO rio 76 . formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal. nos termos seguintes: [..] II – prevalência dos direitos humanos. marítima. 21.. à liberdade.. A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: [.] XXVIII – defesa territorial. defesa marítima..] Art.] X – regime dos portos. [.] III – a dignidade da pessoa humana..direitos humanos Judiciário? Utilize a legislação brasileira (abaixo). 1º.] XLVII – não haverá penas: a) de morte.. aérea e aeroespacial. 22... defesa aeroespacial.] Art. LIV – ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal. Todos são iguais perante a lei.. A República Federativa do Brasil.. salvo em caso de guerra declarada. 60.] II – declarar a guerra e celebrar a paz. à igualdade. Compete à União: [. e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa. [. defesa civil e mobilização nacional (grifou-se). constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: [. bem como as posições acima mencionadas para responder tais questões. [. XIX. com os meios e recursos a ela inerentes... fluvial. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. no mínimo. [.] LIII – ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente..

produzir.. Lei nº 6. de três meses a um ano. [.848. Pena – Reclusão. fabricar.. 25. prescrever. e dá outras providências. preparar. usando moderadamente dos meios necessários. Evadir-se ou tentar evadir-se o preso ou o indivíduo submetido a medida de segurança detentiva. transportar. § 1º. 352. produzir. vende.] IV – os direitos e garantias individuais. adquire. ter em depósito. indevidamente: I – importa ou exporta. fornecer ainda que gratuitamente. a direito seu ou de outrem [. de 7 de dezembro de 1940.. remeter..] Art 12. repele injusta agressão. Art 12. trazer consigo. transportar. além da pena correspondente à violência. Importar ou exportar. Entende-se em legítima defesa quem. fornece ainda que gratuitamente. a consumo substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. fabricar. manifestando-se..direitos humanos II – do Presidente da República.] § 4º – Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: [. II – semeia. atual ou iminente. sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar. trazer consigo. cultiva ou faz a colheita de plantas destinadas à preparação de entorpecente ou de substância que determine dependência física ou psíquica. Código Penal Decreto-lei no 2. de 21 de outubro de 1976 Dispõe sobre medidas de prevenção e repressão ao tráfico ilícito e uso indevido de substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou psíquica. fornecer ainda que gratuitamente. [. transporta.. pela maioria relativa de seus membros. [. produz. Importar ou exportar. expor à venda ou oferecer. e pagamento de 50 (cinqüenta) a 360 (trezentos e sessenta) dias-multa. sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar. adquirir. ter em depósito. cada uma delas.368. remete. prescrever. de qualquer forma. expõe à venda ou oferece. ministrar ou entregar.. preparar. vender. fabrica. tem em depósito.. de qualquer forma. traz consigo ou guarda matéria-prima destinada a preparação de substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. usando de violência contra a pessoa: Pena – detenção. III – de mais da metade das Assembléias Legislativas das unidades da Federação. a consumo substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. expor à venda ou oferecer. de 3 (três) a 15 (quinze) anos.] Legítima defesa Art.. remeter. Nas mesmas penas incorre quem. ministrar ou entregar. vender. guardar.] Evasão mediante violência contra a pessoa Art. guardar. adquirir. FGV DIREITO rio 77 ..

de 30 de junho de 1999 Altera a redação do art 34 da Lei nº 6. IV – para verificação de sua carga no caso de restrição legal (artigo 21) ou de porte proibido de equipamento (parágrafo único do artigo 21). Lei nº 9. ou das autorizações para tal fim.] Art 18.3. FGV DIREITO rio 78 .368. utilizados para a prática dos crimes definidos nesta Lei. transporta. remete. entrando no espaço aéreo brasileiro. de 21 de outubro de 1976.1998) – grifou-se. adquire. embarcações.] Art. II – se. § 1°.. expõe à venda ou oferece. § 1º.565. [. 303. instrumentos e objetos de qualquer natureza.direitos humanos Pena – Reclusão. desrespeitar a obrigatoriedade de pouso em aeroporto internacional. cultiva ou faz a colheita de plantas destinadas à preparação de entorpecente ou de substãncia que determine dependência física ou psíquica. III – para exame dos certificados e outros documentos indispensáveis. vende. II – semeia.. de 19 de dezembro de 1986 (Código Brasileiro de Aeronáutica) Art. § 2°. a aeronave será classificada como hostil. assim como os maquinismos. e pagamento de 50 (cinqüenta) a 360 (trezentos e sessenta) dias-multa. traz consigo ou guarda matéria-prima destinada a preparação de substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica.804. excetuadas as armas. produz. [. fabrica. que dispõe sobre medidas de prevenção e repressão ao tráfico ilícito e uso indevido de substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou psíquica.614. de 3 (três) a 15 (quinze) anos. As penas dos crimes definidos nesta Lei serão aumentadas de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços): I – no caso de tráfico com o exterior ou de extra-territorialidade da lei penal. fazendárias ou da Polícia Federal. utensílios. de 5. fornece ainda que gratuitamente. nos seguintes casos: I – se voar no espaço aéreo brasileiro com infração das convenções ou atos internacionais. após a sua regular apreensão. A aeronave poderá ser detida por autoridades aeronáuticas. ficando sujeita à medida de destruição. ficarão sob custódia da autoridade de polícia judiciária. Nas mesmas penas incorre quem. aeronaves e quaisquer outros meios de transporte. Os veículos.. Lei nº 7. indevidamente: I – importa ou exporta. que serão recolhidas na forma da legislação específica (grifou-se). nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada.. (Parágrafo acrescentado pela Lei nº 9. A autoridade aeronáutica poderá empregar os meios que julgar necessários para compelir a aeronave a efetuar o pouso no aeródromo que lhe for indicado. 34. tem em depósito. V – para averiguação de ilícito. Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos.

. A autoridade mencionada no § 1° responderá por seus atos quando agir com excesso de poder ou com espírito emulatório.. de 5 de março de 1998 Altera a Lei nº 7........... a aeronave será classificada como hostil...... de 19 de dezembro de 1986.... de 19 de dezembro de 1986...565. 1o.565.... Lei nº 9........... A autoridade mencionada no § 1º responderá por seus atos quando agir com excesso de poder ou com espírito emulatório. sem Plano de Vôo aprovado. Este Decreto estabelece os procedimentos a serem seguidos com relação a aeronaves hostis ou suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins. 1º. no uso da atribuição que lhe confere o art....... de 19 de dezembro de 1986........ § 3º...... numerado como § 2º. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.. 2o... nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada (grifou-se)... 84. é considerada aeronave suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins aquela que se enquadre em uma das seguintes situações: I – adentrar o território nacional... para incluir hipótese destruição de aeronave O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o CONGRESSO NACIONAL decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art.......direitos humanos § 3°.... 5 de março de 1998.. inciso IV. que dispõe sobre o Código Brasileiro de Aeronáutica.. 303 da Lei no 7. renumerando-se o atual § 2º como § 3º.............565..” Art......... passa a vigorar acrescido de um parágrafo...... na forma seguinte: “Art...... Brasília. 2o e 3o do art. ou FGV DIREITO rio 79 .. oriunda de regiões reconhecidamente fontes de produção ou distribuição de drogas ilícitas....... 303.565... Art.614. levando em conta que estas podem apresentar ameaça à segurança pública.. 303 da Lei no 7.................. (§ 2°renumerado e alterado pela Lei nº 9. 2º e 3º do art........ ficando sujeito à medida de destruição............ O art.144.1998)... de 5... e tendo em vista o disposto nos §§ 1o. FERNANDO HENRIQUE CARDOSO Decreto nº 5........ DECRETA: Art..... no que concerne às aeronaves hostis ou suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins. Para fins deste Decreto. 2º.... 303 da Lei nº 7...... de 16 de julho de 2004 Regulamenta os §§ 1º............614. § 2º. 177º da Independência e 110º da República.. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA. da Constituição. ......... Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos.3. de 19 de dezembro de 1986..

consistindo na aproximação ostensiva da aeronave de interceptação à aeronave interceptada. intervenção e persuasão. no ar ou em terra. feitos pela aeronave de interceptação. executadas por aeronaves de interceptação. por meio da Publicação de Informação Aeronáutica (AIP Brasil). Art. ou. com munição traçante. III – execução por pilotos e controladores de Defesa Aérea qualificados. As medidas de averiguação visam a determinar ou a confirmar a identidade de uma aeronave. a vigiar o seu comportamento. destinada aos aeroFGV DIREITO rio 80 . A aeronave suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins que não atenda aos procedimentos coercitivos descritos no art. § 2o. ainda. § 3o. com o objetivo de persuadi-la a obedecer às ordens transmitidas. antes de sua vigência. ou não cumprir determinações destes mesmos órgãos. 7o. pela aeronave interceptadora. Art. e V – autorização do Presidente da República ou da autoridade por ele delegada. As aeronaves enquadradas no art. de conhecimento obrigatório dos aeronavegantes. II – registro em gravação das comunicações ou imagens da aplicação dos procedimentos. com a finalidade de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo da aeronave hostil e somente poderá ser utilizada como último recurso e após o cumprimento de todos os procedimentos que previnam a perda de vidas inocentes. 5o. 2o estarão sujeitas às medidas coercitivas de averiguação. 3o será classificada como aeronave hostil e estará sujeita à medida de destruição. com a finalidade de interrogá-la. para ser submetida a medidas de controle no solo. 6 o. de forma progressiva e sempre que a medida anterior não obtiver êxito. segundo os padrões estabelecidos pelo COMDABRA. As medidas de intervenção seguem-se às medidas de averiguação e consistem na determinação à aeronave interceptada para que modifique sua rota com o objetivo de forçar o seu pouso em aeródromo que lhe for determinado. IV – execução sobre áreas não densamente povoadas e relacionadas com rotas presumivelmente utilizadas para o tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins.direitos humanos II – omitir aos órgãos de controle de tráfego aéreo informações necessárias à sua identificação. Art. As medidas de persuasão seguem-se às medidas de intervenção e consistem no disparo de tiros de aviso. Art. A medida de destruição terá que obedecer às seguintes condições: I – emprego dos meios sob controle operacional do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro – COMDABRA. 4o. de maneira que possam ser observados pela tripulação da aeronave interceptada. de acordo com as regras de tráfego aéreo. O teor deste Decreto deverá ser divulgado. Art. 3o. § 1o. A medida de destruição consiste no disparo de tiros. por intermédio de comunicação via rádio ou sinais visuais. se estiver cumprindo rota presumivelmente utilizada para distribuição de drogas ilícitas. com o objetivo de compelir a aeronave suspeita a efetuar o pouso em aeródromo que lhe for indicado e ser submetida a medidas de controle no solo pelas autoridades policiais federais ou estaduais.

que a regulamentou. como a de derrubar uma aeronave em vôo. Art. José Viegas. quando agirem com excesso ou abuso de poder.direitos humanos navegantes e de conhecimento obrigatório para o exercício da atividade aérea no espaço aéreo brasileiro. ao permitir o tiro de abate. Este Decreto entra em vigor noventa dias após a data de sua publicação. a pena de morte. O Ministério da Defesa. 10. e o Presidente da República. 80 FGV DIREITO rio 81 . Art. 12. Disponível em: http:// www. na prática. poderão ser derrubados. 2004. de 05. suspeitos do tráfico de drogas. permitindo a condenação e a execução sumária de todos os passageiros dos pequenos aviões civis. e os pilotos encarregados de sua execução já estiveram em Belém. essa Lei passou desapercebida. “porque se trata de resistência à prisão e as aeronaves somente serão destruídas se os seus pilotos não obedecerem às ordens Artigo escrito por Fernando Lima. da apreciação do Poder Judiciário. antes de sua destruição. a lei não se aplica aos aviões militares. Essa Lei é flagrantemente inconstitucional. Esse Decreto entrará em vigor no próximo dia 18 de outubro. na semana passada. efetuados pela FAB. após o descumprimento de nove procedimentos. pela simples suspeita do tráfico de drogas.2004. por intermédio do Comando da Aeronáutica. que se trate de uma condenação à morte. a pena de morte no Brasil. Art.03. Art. cada qual nos limites de suas atribuições. htm. Notícias prévias Inconstitucionalidade da Lei do Abate80 A Lei nº 9614. introduziu. 16 de julho de 2004. Fica delegada ao Comandante da Aeronáutica a competência para autorizar a aplicação da medida de destruição. Mas será possível excluir. causando a morte do piloto e dos passageiros. nacionais ou estrangeiros. em relação às “aeronaves suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins”. de tão graves conseqüências. a destruição de aeronaves suspeitas de estarem transportando drogas.br/wwwroot/ 02de2004/inconstitucionalidadedaleidoabatefernandolima. O Ministro negou. salvo em caso de guerra declarada (art. porque a nossa Constituição garante o direito à vida e proíbe a pena de morte. ou seja. Como ainda não havia sido regulamentada. pelos pilotos da FAB. mas os aviões clandestinos civis.pro. sem julgamento. sem o devido processo legal. aplicando. deverá adequar toda documentação interna ao disposto neste Decreto. 9o. em 05.07. mas agora o Presidente Lula assinou o Decreto nº 5144. de 16. conforme pretenderam o Congresso Nacional. 11. 183o da Independência e 116o da República. ao aprovar essa Lei. uma decisão. peremptoriamente.07. XLVII). assim. Pior: essa Lei instituiu a execução extrajudicial. com vistas ao seu aprimoramento.2004. Brasília. Acesso em: 08 nov. efetuando os necessários treinamentos. pelos seus atos. 5º. Os procedimentos previstos neste Decreto deverão ser objeto de avaliação periódica.1998. sem o devido processo legal e em tempo de paz? De acordo com o Ministro da Defesa. Art. estabelecendo os procedimentos que deverão ser seguidos. no espaço aéreo brasileiro. As autoridades responsáveis pelos procedimentos relativos à execução da medida de destruição responderão. professor de Direito Constitucional da UNAMA.tex. 8o.

Na minha opinião. portanto. mesmo que a fuga fosse tipificada como crime. que na Colômbia e no Peru. porque seria o mesmo que afirmar que um automóvel cheio de passageiros deveria ser metralhado pelos policiais rodoviários. para apreciar a constitucionalidade da Lei do Abate. certamente. Sei perfeitamente que o assunto é polêmico. os pilotos e passageiros não poderiam ser condenados à morte. Infelizmente. como a missionária americana Verônica Bowers e a sua filha de sete meses. o próprio Presidente nacional da OAB. divulgadas pelo “site” da OAB. A Lei do Abate.2004. Charity. a Bolívia e o Peru. poderá ocorrer que.07. como a Colômbia. incluindo países produtores e exportadores de cocaína. com ou sem lei. que a pretexto de combater os traficantes. 25 do Código Penal). a derrubada de aeronaves. Como se sabe. porque inúmeras aeronaves. no encalço do delinqüente. leis semelhantes à nossa. Evidentemente. porque a fuga. Além disso. sobretudo na Amazônia. Mesmo assim. talvez. coloca em perigo a vida de inocentes. até hoje. ainda. para o “crime” de “exploração ilegal da biodiversidade”. mas acha que não devem ser admitidas exceções (aeronaves militares). embora não estejam transportando drogas. nem ao menos constitui crime. e a floresta amazônica é uma das principais rotas dos traficantes de drogas. nem por isso poderia ser morto o que às vezes acontece. porque a opinião pública será levada a acreditar que essa Lei contribuirá para reduzir a entrada de drogas no País e também para impedir que o nosso espaço aéreo seja transformado em rota do narcotráfico internacional. em busca de drogas. 352 do Código Penal). proibida pela Constituição e considerada cláusula pétrea. pela simples suspeita de tráfico de drogas. o Brasil tem fronteiras com onze países da América do Sul.direitos humanos dos pilotos da FAB”. O Estado tem a obrigação de prender os suspeitos. punida com a pena de morte. por exemplo. se o seu motorista não obedecesse à ordem de parar. ainda. não podendo matá-los. se o motorista tentasse fugir. passa a utilizar os mesmos métodos dos criminosos. poderão deixar de se identificar para os pilotos da FAB. muitos civis inocentes já foram mortos. Por essa razão. por diversas razões. para o competente exame da documentação. o Supremo Tribunal Federal não foi provocado. é assassinato e depõe contra o Brasil. por pressão dos Estados Unidos. de acordo com as suas declarações. somente os aviões que estivessem transportando drogas seriam derrubados. a falta de equipamentos adequados. uma lei autorizando -. embora não exista. também. e parece sugerir que a pena de morte seja aplicada. caso o criminoso atente contra a vida do policial (art. também. que não pode ser alterada nem mesmo através de emenda constitucional. Roberto Busato. a autoridade policial seja obrigada a matá-lo. se não se tratasse de um assunto tão sério. exceto mediante violência contra a pessoa (art. como. além de ser inconstitucional. e muito menos por uma simples suspeita. na hipótese de legítima defesa. em 21. sem direito a defesa e sem julgamento. que também adotaram. matando os seus pilotos e passageiros. Os argumentos seriam ridículos. e de obedecer à ordem de pouso. o Estado FGV DIREITO rio 82 . Para combater o crime. não apenas concorda com a Lei do Abate. No entanto. não seria. Aliás. ou até mesmo do porta-malas. Ressalte-se.

instituído pela Lei nº 7. de 5 de março de 1998. 81 Acesso em: 8 nov.br/Publicacao/Imprensa/ Noticias/3007_abate. Nessas condições. suspeitos de envolvimento com o tráfico de drogas ilícitas. trata dos casos em que uma aeronave pode ser submetida à detenção. do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República e especialistas do Comando da Aeronáutica se reuniu com o objetivo de estudar todos os aspectos pertinentes à regulamentação da Lei do Tiro de Destruição.htm. foi introduzido o parágrafo segundo. a aeronave será classificada como hostil. no seu artigo 303.565. por intermédio de seus representantes legais. nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada. normas internacionais da aviação civil. mil. praticando a Lei de Talião. ficando sujeita à medida de destruição. apelidada pela imprensa de Lei do Abate. desobedecendo ao devido processo legal e afastando o poder de decisão das autoridades devidamente constituídas para jurisdicionar os conflitos e aplicar as sanções previstas nas leis penais. Disponível em: http://www. em apoio às medidas de policiamento do espaço aéreo brasileiro. de 19 de dezembro de 1986. particularmente sobre os movimentos aéreos não regulares. com a seguinte redação: § 2º Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos. a justiça privada e a vingança anárquica. passou a ser imprescindível que o novo dispositivo fosse aplicado dentro de uma moldura de rígidos preceitos de segurança.2004)81 1. A partir de abril de 2003. e modificado pela Lei nº 9. Ademais. A lei em questão introduziu conceitos novos. Desrespeitando a Constituição. do Ministério das Relações Exteriores. tornando-se necessária a definição das expressões meios coercitivos. um grupo de trabalho constituído por integrantes do Ministério da Defesa. por intermédio de um decreto presidencial. que veio preencher uma importante lacuna. Neste artigo. instituiu Lei do Tiro de Destruição.614. à interdição e à apreensão por autoridades aeronáuticas. Todos estes aspectos demandaram a necessidade de regulamentação do citado dispositivo legal.direitos humanos também se subordina ao Direito. tais como procedimentos de interceptação aérea. FGV DIREITO rio 83 .06. aeronave hostil e medida de destruição. 2004. iguala-se aos delinqüentes. do Ministério da Justiça. medidas de integração de procedimentos com os países vizinhos e legislação de países interessados no tema e que mantêm normas específicas sobre responsabilidade civil de seus cidadãos. Histórico O Código Brasileiro de Aeronáutica. a sociedade brasileira. fazendárias ou da Polícia Federal.fab. quando estes tenham apoiado direta ou indiretamente a destruição de aeronave civil. com o pleno esclarecimento dos procedimentos e das condições em que a medida de destruição poderia ser executada. Força Aérea Brasileira Centro de Comunicação Social da Aeronáutica (30.

responsáveis pelo policiamento do espaço aéreo. minimizar riscos de equívocos. oriundas das regiões reconhecidamente produtoras dessas substâncias. como previa a legislação em vigor. as aeronaves de interceptação da Força Aérea Brasileira. A regulamentação. comprovou-se que as principais rotas de entrada de drogas ilícitas em território brasileiro ocorrem por via aérea.direitos humanos 2. que entra em vigor 90 dias após a sua publicação no Diário Oficial da União (em 19 de julho). Decreto Nº 5.144. que ocorreram para integrar os procedimentos de interceptação aérea e. FGV DIREITO rio 84 . Execução Em primeiro lugar. portanto. A questão foi amplamente debatida com outros governos interessados no tema. que transportam a droga para o território brasileiro. como a transferência de efetivos militares para a Amazônia e a modificação da legislação brasileira no sentido de preparar as Forças Armadas para atuar contra os delitos transnacionais fronteiriços. levando em conta a crescente ameaça apresentada pelo narcotráfico para a segurança da sociedade brasileira. 4. Esses entendimentos indicam que a entrada em vigor da regulamentação não trará efeitos adversos ao país. 3. por falta da regulamentação da Lei do Tiro de Destruição. Medidas O Governo Brasileiro. no combate ao tráfico terrestre e fluvial. eram ignoradas por pilotos em vôo clandestinos. caracterizando-se situação similar à resistência à prisão. sendo o SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia) uma grande expressão desse trabalho. decidido a reverter essa situação e aprimorar a defesa do país. Em razão do que prescreve a Carta da ONU sobre o princípio de autodefesa. O texto é resultado de uma série de intercâmbios com países vizinhos. criou instrumentos de dissuasão adequados ao policiamento do espaço aéreo brasileiro. a regulamentação da Lei do Tiro de Destruição aprovada abrange somente o caso de aeronaves suspeitas de envolvimento com o tráfico internacional de drogas. é uma medida imprescindível para combater a criminalidade associada ao tráfico internacional de drogas. Essas seguem para o interior do Brasil (consumo interno) ou para países vizinhos. A regulamentação da Lei do Tiro de Destruição. em suas ordens de identificação e de pouso em pista pré-determinada. vem desenvolvendo uma série de ações. em pequenas aeronaves. Tornou-se necessária uma ação mais eficaz do Estado no combate a esses vôos ilícitos. assinada pelo Presidente da República. com isto. entre outros destinos da rota de exportação. a caminho da Europa e Estados Unidos. Cenário Com a modernização do sistema de defesa aérea e controle do tráfego aéreo brasileiro. o Governo brasileiro considerou necessária apenas a regulamentação da lei para esse aspecto. Em muitas situações. Porém. houve completa desobediência às ordens emitidas pela autoridade. apesar de ter-se chegado ao tiro de advertência.

nome do piloto que normalmente a opera. a aeronave deverá ser considerada como suspeita e submetida a procedimentos específicos. proa e características marcantes. detalhados e seguros. após ter estabelecido com ela contato visual próximo. Caso a aeronave esteja em situação regular. à aeronave interceptada pelo piloto do avião de Defesa Aérea. oriunda de regiões reconhecidamente fontes de produção ou distribuição de drogas ilícitas. endereço. caso esteja trafegando em rota presumivelmente utilizada na distribuição de drogas ilícitas. Passos Caracterizada a aeronave como suspeita. acionadas pelo Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA).5 ou 243 MHz. d) Realização de sinais visuais. serão encarregadas da execução dessas medidas. tipo de aeronave.direitos humanos Antes de ser classificada como hostil e. etc. será realizado apenas o acompanhamento. que é mostrada. As aeronaves de interceptação da Força Aérea Brasileira. ou. dados de qualificação e de localização. validade de exame médico. a vigiar seu comportamento. c) Interrogação na freqüência internacional de emergência. que é a Intervenção. nível de vôo. dados de identificação. ocasião em que os pilotos da aeronave de interceptação. ainda. Engloba os seguintes procedimentos: a) Reconhecimento à Distância. que se dá quando as informações são transmitidas para a Autoridade de Defesa Aeroespacial. São duas as situações em que uma aeronave pode ser considerada suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins: a) a que entrar em território nacional. sem serem percebidos. aplicadas de forma progressiva e sempre que a medida anterior não obtiver êxito. 2º) MEDIDAS DE INTERVENÇÃO – caso o piloto da aeronave suspeita não responda e não atenda a nenhuma das medidas já enumeradas. validade do certificado de aeronavegabilidade. de 121. 1º) MEDIDAS DE AVERIGUAÇÃO primeiro nível das medidas busca determinar ou a confirmar a identidade de uma aeronave. sem plano de vôo aprovado. de acordo com as regras estabelecidas internacionalmente e de conhecimento obrigatório por todo aeronavegante. passa-se ao segundo nível de medidas coercitivas. iniciando pela de VHF 121. e. 5. ou não cumprir determinações dessas mesmas autoridades. fotografam a aeronave interceptada e colhem informações de matrícula. através de uma placa. sujeita à medida de destruição. se considerada hostil. que entrará no sistema informatizado do Departamento de Aviação Civil (DAC) para verificar se a matrícula corresponde ao tipo de aeronave. o nome de seu proprietário. de uma posição discreta.5 MHz. b) Confirmação da Matrícula. portanto. ou b) a que omitir aos órgãos de controle de tráfego aéreo informações necessárias à sua identificação. à medida de destruição. caracterizada pela execução de dois procedimentos: FGV DIREITO rio 85 . licença. ela estará sujeita a três tipos de medidas coercitivas.

quanto por intermédio dos sinais visuais previstos nas normas internacionais e de conhecimento obrigatório. que entrará em execução somente se o piloto da aeronave suspeita não atender a nenhuma das medidas anteriores. 7) Tiros de Advertência. o que significa dizer que tanto os radares quanto as aeronaves de interceptação envolvidas no policiamento do espaço aéreo deverão estar sob controle operacional das autoridades de defesa aérea brasileira.144. lateralmente à aeronave suspeita. 8) Tiro de Destruição Medidas de Averiguação Suspeita Medidas de Intervenção Medidas de Persuasão Hostil Medidas de Destruição MEDIDA DE DESTRUIÇÃO o tiro de destruição deverá atender. previstas pela regulamentação contida no Decreto nº 5. 3º) MEDIDAS DE PERSUASÃO – o terceiro nível das medidas previstas. Somente quando transgredidos os sete procedimentos iniciais é que a aeronave será considerada hostil. b) pouso obrigatório. segundo os padrões estabelecidos pelo Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA). 2) Confirmação de Matrícula. 3) Contato por Rádio na Frequência de Emergência. também determinado pela aeronave interceptadora de forma semelhante à tarefa anterior. b) os procedimentos descritos serão registrados em gravação sonora e/ou visual das comunicações. c) será executado apenas por pilotos e controladores de defesa aérea qualificados. com munição traçante. consiste na realização de tiros de advertência. determinada pela aeronave de interceptação. FGV DIREITO rio 86 . são oito os procedimentos a serem seguidos pelas autoridades de defesa aérea para o policiamento do espaço aéreo. 1) Reconhecimento à Distância. e estará sujeita à medida de destruição. 6) Pouso Obrigatório. d) o procedimento irá ocorrer sobre áreas não densamente povoadas e relacionadas com rotas presumivelmente utilizadas para o tráfico de drogas. a exigências rígidas. 5) Mudança de rota. São elas: a) a sua realização só poderá ocorrer estando todos os meios envolvidos sob controle operacional do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA). assinado pelo Excelentíssimo Senhor Presidente da República e publicado no Diário Oficial do dia 19 de julho. No total. que consiste na realização de disparo de tiros. de forma visível e sem atingi-la. tanto pelo rádio. com a finalidade de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo da aeronave transgressora. obrigatoriamente.direitos humanos a) mudança de rota. de 16 de julho de 2004. feitos pela aeronave de interceptação. 4) Sinais Visuais. em todas as freqüências disponíveis. Situação da aeronave Nível de medida Normal Situação de Normalidade Procedimentos Verificação das condições de vôo da aeronave.

José Viegas. a medida foi anunciada como mais uma ferramenta de combate ao tráfico de drogas e ao contrabando de armas.5 mil votos. mesmo que a aeronave interceptada esteja lotada de criminosos.10. São situações absolutamente díspares”. delega ao Comandante da Aeronáutica a competência para aplicar a medida de destruição. No Brasil. a necessária agilização do processo de tomada da decisão.com. a lei que derruba aviões levanta muitas polêmicas.pop. mas não está sozinho. Lei do abate entra em vigor (17. Em uma enquete realizada pela internet.com. No Congresso.br. O deputado Fernando Gabeira (sem partido-RJ) o acompanha. esses passageiros estariam sendo executados sem ter tido direito a julgamento. A demora de oito anos para conseguir a rubrica presidencial tem explicação: antes de fazer com que a lei entrasse em vigor. Para Suplicy. Existia o temor de que se um cidadão estrangeiro estivesse dentro de um avião destruído pelo governo brasileiro e o país sofresse algum tipo de retaliação militar ou econômica.br/ultimas. em entrevista por e-mail ao Correio. qualquer aeronave que cruzar o céu brasileiro sem se identificar pode ser destruída. no decreto de regulamentação. O país é o terceiro país na América do Sul a adotar a Lei do Abate – os primeiros foram o Peru e a Colômbia. Viegas classificou a Lei do Abate como uma “forma de dissuasão” para coibir o tráfico de drogas. aumentando o flagelo do problema do tráfico no país. por exemplo. O ministro da Defesa. protesta o parlamentar ao lembrar que a lei foi aprovada em 1998 com o apoio de tucanos e petistas. htm?codigo=2618013. É importante ressaltar que a utilização dessa medida extrema somente ocorrerá após terem sido cumpridos todos os procedimentos previstos em lei e que esse será o último recurso para o Estado evitar o ingresso de aeronaves que transportam drogas para o território brasileiro. No entanto. refuta a comparação feita pelo senador Suplicy: “Não há qualquer correspondência entre a regulamentação da medida de destruição e a instituição da pena de morte. 87% dos internautas se posicionaram a favor da medida (é uma forma legítima de defender a soberania) e 13% se disseram contrários ao tiro de destruição (só deveria ser usado em casos de guerra). dispara o senador petista Eduardo Suplicy (SP). que reuniu quase 9.direitos humanos 6. “Para mim isso é a mesma coisa que a pena de morte”. o senador é um dos poucos que reclamam. pelo site www. Acesso em: 8 nov. A lei foi regulamentada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva no dia 19 de julho de 2004. Competência O Excelentíssimo Senhor Presidente. com elevado grau de confiabilidade e segurança. “Oxalá nunca necessitemos utilizar a medida de destruição”. como as ocorridas no Peru em 2000. 82 FGV DIREITO rio 87 . assim. o Palácio do Planalto considerou necessário conversar com países como os Estados Unidos. O parlamentar defende que a lei poderá provocar a morte de muitos inocentes. “A sociedade não foi ouvida”. O ministro esclarece. Disponível em: http://noticias.2004)82 A partir de hoje. possibilitando. que “a medida de destruição é a última de uma série de procedimentos que visam obrigar a aeronave infratora a pousar e submeter-se às medidas de policiamento no solo”. 2004. correioweb.

explica Azambuja. Meanwhile. é que ao ser atingido em um pneu o veículo pode parar em um acostamento.S.” Barnes said. 83 FGV DIREITO rio 88 . “We are working with Peruvian authorities to investigate what happened. Orçada em R$ 280 mil. Alô. alô. no mínimo. a campanha tem o objetivo de informar que como a aeronave deve agir ao ser interceptada por aviões da Força Aérea Brasileira. Cerca de 10 mil cartazes serão distribuídos para os aeroclubes. Não deve existir condescendência nem com aeronaves suspeitas que estiverem com crianças a bordo. Disponível em: http://archives. A intenção da Força Aérea Brasileira não é matar ninguém”. o avião irregular deixava o território brasileiro e adiava a travessia para outro dia. Cada caso será estudado na hora em que acontecer. the Peruvian Air Force and a Baptist missionary group are giving conflicting accounts of events that led to the shooting down of the plane. Faziam até sinais obscenos”. Na maior parte dos casos.02/. salas de tráfego de aeroportos. U. já avião terá que. lembra Azambuja que tem imagens de vídeo com o comportamento dos criminosos. 110 emissoras de rádio AM e FM divulgam a campanha em toda a extensão da fronteira seca brasileira e atingindo 72 cidades. brigadeiro Francisco Azambuja. até o dia 28. Mas os aviões militares no máximo acompanhavam a aeronave suspeita até o pouso. Acesso em: 20 abril 2005. empresas aéreas. Mas nenhum subterfúgio que eles possam usar estará dando salvo-conduto ao traficante ou elemento que está fazendo tráfego ilegal para se salvar”. reconhece. fazer um pouso de emergência. O nosso trabalho é fazer com que a lei seja cumprida. O procedimento de interceptação existe há 24 anos. embassy spokesman Doug Barnes told CNN Saturday. “O desfecho é de responsabilidade exclusiva do comandante da aeronave”. Plane shootdown: Drug intercept flights suspended in Peru – CNN (abril de 2001)83 Drug interception flights in Peru have been suspended until the completion of an investigation into the downing of a missionary plane that killed two of five Americans on board – a 7-month-old girl and her mother. Zombavam de nós. hangares de manutenção. A diferença. afirma.direitos humanos O governo brasileiro garante que o procedimento de abate vai ser cuidadoso. como é chamada a licença para vôo. Desde o último dia 8. “Os traficantes tinham certeza da impunidade. Ele compara o procedimento ao adotado por policiais militares com veículos que não param em uma blitz. acredita o comandante de Defesa Aeroespacial Brasileiro (Condabra). “Os tiros são para obrigar a aeronave a pousar. “Não estamos brincando de fazer policiamento aéreo. A idéia é fazer com que distribuição do material não fique restrita aos aeroportos e atinja pilotos que não têm brevê. sindicatos da aviação e hospitais entre outros pontos de passagem obrigatórios de pilotos e de futuros pilotos. Comandante Todo o piloto que for abastecer o avião receberá um dos 100 mil panfletos com informações sobre a Lei do Abate. cnn. plane.com/2001/US/04/21/peru.

to obtain a visa for the infant. the air force plane fired. embassy in Lima said the U.S. was shot in the legs. “Central aviation authorities had given him a landing slot.S. Loftus said Pilot Kevin Donaldson had been in radio contact with the tower in Iquitos. the statement said. President George Bush said. Pennsylvania. How could he be in contact with the civil authorities and their own military not know about it?” he said. The spokesman at the U. Kevin Donaldson. Charity. reconnaissance plane was working as part of an agreement between the United States and Peru to combat drug trafficking. which sponsored the missionaries. were uninjured. helping the Peruvians detect aircraft used in drug trafficking. said their plane never left Peruvian air space. A statement from the Peruvian Air Force said an unidentified plane. Loftus said he could not confirm that a flight plan had been filed. “Facing such circumstances and. Michigan. which had not filed a flight plan. was near the Peruvian military plane at the time of the incident but was unarmed and did not participate in shooting at the missionaries’ plane. site of the nearest consulate. The family is from Muskegon. It had flown to the border town of Benjamin Constant. it said. “I can’t explain to you the statements of the Peruvian Air Force.S. Cory. but he said that was the usual practice. de Cuellar express sorrow for loss Asked about the incident while attending the Summit of the Americas in Quebec City.m. first located plane A U. The pilot of the civilian plane finally responded after landing in a river near Pevas. After the missionaries’ Cessna 185 did not respond to a command to identify itself. of Geigertown. the U. “I’ll wait to see all the facts before I reach FGV DIREITO rio 89 . at which point the Peruvian Air Force dispatched a rescue plane. Jim. embassy in Lima. reconnaissance plane provided location data for the subsequent intercept mission that was conducted by the Peruvian Air Force.direitos humanos U.S. the statement said. “proceeded to intercept the unknown airship”. The statement said the air force has initiated an investigation. U. 38. said a spokesman for the U. reconnaissance plane. Bush. Bowers’ husband. he said. other than probable confusion until they get their facts sorted out”. in agreement with established procedures. with the assistance of the reconnaissance plane. was detected entering Peruvian air space from Brazil around 10 a. the intercept system was activated”. and had been working in Peru since 1993. “lamenting profoundly the loss of human life”.S. Mission: Plane on safe course Michael Loftus. he said.S. Friday. and their son. 42.S. Killed in the incident were 35-year-old missionary Veronica Bowers and her seven-month-old daughter. president of the Association of Baptists for World Evangelism. State Department. radar and aircraft provide tracking information to the Peruvian Air Force on planes suspected of smuggling illegal drugs in the region”. According to a statement issued by the U. A Cessna A-37B.S. 7. he said. “As part of an agreement. a missionary in Peru since 1983.

muitas vezes ao investigar acidentes com aeronaves de pequeno porte. Sem erros. two lives”.e da Rio Sul Linhas) Nas asas de um projeto pouquíssimo discutido pela sociedade. curiosamente. buscar-se-ia na própria tecnologia um meio de evitar o abate equivocado e irreversível. Disponível em: http://www. São aeronaves que transportam gente através de centenas de quilômetros de território que não conta com qualquer outro meio de transporte. desatualização do exame médico. estamos vivendo a ameaça de termos. teríamos uma clara identificação dos eventuais infratores.asp ?idArea=8&idSubArea=136. As autoridades aeronáuticas ficam sabendo das transgressões. São aeronaves que podem deixar de se identificar para o caça interceptador por uma miríade de razões. Eliminados os aeroportos clandestinos. sem sangue ou tragédias. falta de habilitação do piloto. na região amazônica.com. não estão a serviço do tráfico ou mesmo do contrabando.(…) Tinta neles!84 George Ermakoff (Presidente do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias -SNEA. Exagero? Talvez. por exemplo. Peruvian Prime Minister Javier Perez de Cuellar approached Bush and “expressed his deep regret and offered to help the families in any way he could”. a pena de morte no Brasil. FGV DIREITO rio 90 . Mais: a tecnologia hoje disponível permite identificar e destruir todos os aeroportos clandestinos. sobretudo na Amazônia. que não podem ser punidos com rajadas de metralhadoras ou tiros de canhão: mau funcionamento do sistema de comunicações desses aviões. reduziria drasticamente o número de aeronaves sujeitas à ameaça de derrubada. the Associated Press reports.br/causas/subareas. Muitos dos inúmeros pequenos aviões que cruzam nosso espaço aéreo em regiões ermas. o que eliminaria o principal ponto de apoio das operações aéreas ilegais. sem remorsos. nos centros de lazer: o divertido paint ball. todas elas pecadilhos. virtualmente. mas é o que fica evidente quando vem à luz a chamada Lei do Abate. entre outras. possibilitando sua punição quando aterrissassem. said White House spokesman Gordon Johndroe.direitos humanos any conclusions about blame. E a tecnologia está aí mesmo. Assim. Com certeza. tinta neles! 84 Acesso em: 25 abril 2005.gabeira. Em vez de balas. disponível. e não-utilização de fonia para não pagar as tarifas de proteção ao vôo. A parte de fundamentação da lei não merece reparos: trata-se de proteger o território nacional de aeronaves sem identificação e barrar o tráfico de drogas. uma fiscalização prévia mais rigorosa na frota que voa. que permite à FAB derrubar aviões clandestinos dentro do nosso espaço aéreo e que acaba de merecer uma oportuna ação contrária do deputado Fernando Gabeira. but right now. we mourn for the loss of the life. O problema está nos riscos claramente subjacentes ao texto. que consiste em “balear” com tinta colorida o adversário.

o mecanismo de petição individual. assim. 5o – artigo este destinado aos direitos e garantias fundamentais do indivíduo. 5o. III (proíbe o trabalho escravo ao dispor que “ninguém será submetido a tratamento desumano ou degradante”). Isto significa que o Estado tem a responsabilidade primária pela proteção desses direitos. por mais que preveja ambas as categorias de direitos (direitos civis e políticos e direitos econômicos. sendo os instrumentos internacionais complementares e subsidiários. destaquem-se os artigos da CF a respeito: art. o que corresponde a 51. salientem-se os instrumentos de proteção dos direitos civis e políticos nos sistemas global. ou melhor. no Brasil. caput (assegura o direito à liberdade) e art. regional (mais especificamente no interamericano) e nacional. serão utilizados para superar as deficiências e omissões do sistema nacional. o PIDCP estabelece o Comitê de Direitos Humanos e a sistemática dos relatórios e das comunicações inter-estatais. cabe destacar que um país que tem como fundamentos a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho. sociais e culturais).direitos humanos Aula 13: Os direitos civis e políticos: direito à liberdade e integridade pessoal NOTA AO ALUNO Embora a indivisibilidade dos direitos humanos seja consagrada internacionalmente. Em relação ao primeiro. foram resgatados de cativeiros 4. com exceção do disposto no art. Nesse sentido. a proteção dos direitos civis e políticos sempre foi priorizada ao longo da evolução histórica dos direitos humanos em detrimento da proteção dos direitos econômicos. Isto significa que o indivíduo pode enviar uma petição ao Comitê caso o Estado do qual faça parte tenha ratificado o referido protocolo. O primeiro protocolo ao PIDCP. Em 2003. 26. prevendo. 5º. sociais e culturais. por sua vez. dá especial ênfase à primeira. Quando se fala em trabalho escravo. Já o PIDCP é destinado exclusivamente à proteção dos direitos civis e políticos. cabe abordar dois casos. destina-se à proteção dos direitos civis e políticos. a existência de trabalho escravo confronta diretamente com os direitos humanos. veio a ampliar a proteção de tais direitos. há a Constituição Federal (CF). (ii) caso Damião Ximenes.735 trabalhadores (sendo que quase a metade no estado do Pará). cabe destacar a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) e o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (PIDCP). Nesse contexto. que elenca os referidos direitos em seu art. É importante ressaltar que os instrumentos internacionais de proteção não substituem o sistema nacional. de violação de direitos civis e políticos: (i) trabalho escravo.1% do total dos libertados FGV DIREITO rio 91 . Quanto ao primeiro. Já no âmbito nacional. destaque-se a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção) que. Como instrumentos de proteção dos direitos em tela. Em relação ao sistema interamericano. A DUDH. a violação mais visível em termos de direitos civis e políticos é do direito à liberdade. Nesse sentido.

ao reconhecer em uma reunião oficial da ONU a existência de “formas contemporâneas de escravidão” em seu território.br/agestado/noticias/2004/mar/08/182. mas fracassou: o médico. Estadão. com a roupa rasgada. promotores. com dificuldade de respirar. já que apenas uma pessoa foi condenada até hoje87.org. a fim de que o trabalho escravo não seja uma opção. 90 Aula elaborada em 27 de janeiro de 2005. FGV DIREITO rio 92 .br/asp2/noticia. Damião Ximenes. por oportuno. em 8 de março de 2004. que alterou o artigo 149 do Código Penal – dispõe que “reduzir alguém a condição análoga à de escravo” é crime – mas não aumentou a pena mínima de dois anos para esse tipo de crime. 30 anos à época. o Brasil. entrou para a história das Nações Unidas89. 91 Como a Comissão e a Corte já foram objetos de análise de uma aula anterior. as violações alegadas. com as mão amarradas por trás das costas. Desesperada.803. (b) estabelecimento de uma política social para saber de onde vêm os escravos. foi internado na tarde de 1 de outubro de 1999 na Casa de Repouso Guararapes. que a Brasil reconhece na ONU a existência de trabalho escravo. A vítima já havia sido internada em 1995 no mesmo estabelecimento. Os fatos 85 Para maiores informações. No âmbito internacional. a maioria na região amazônica86.com. o envio do caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão).263 indivíduos85. foi à busca de auxílio. que comporta cerca de 80% dos trabalhadores escravos. acesse o site http://www. conforme exposto a seguir91: 1. é de suma importância destacar os fatos. http://www. Dentre as medidas para acabar com o trabalho escravo. Contudo. (c) concessão de alternativas de vida às pessoas pobres (alfabetização. será que o mero reconhecimento da existência de trabalhadores escravos é suficiente para acabar com a escravidão no país? Quanto ao segundo caso. dizendo. na manhã de 4 de outubro. De acordo com o ministro Nilmário Miranda. o trabalho escravo acabará se a Câmara dos Deputados aprovar a proposta de emenda constitucional (Proposta de Emenda Constitucional nº 438/01). a mãe foi visitá-lo e o encontrou sangrando. a presente aula não aprofundará no estudo do procedimento de um caso perante ambas. responsável pela clínica tratou-a com descaso. Ceará. Idem. e agonizando. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que haja entre 25 e 40 mil trabalhadores escravos no Brasil. 6o da Convenção) proíbem expressamente a escravidão. cabe mencioná-lo tendo em vista se tratar do único caso brasileiro que teve uma decisão emitida pela Corte Interamericana de Direitos Humanos90 (Corte). a responsabilidade do Estado brasileiro. tirar documentos de identidade. 86 87 88 89 Idem. de forma breve.asp?idio ma=PT&noticia=10909. entre outras). Dessa forma. uma vez que nenhum outro país o havia feito. com hematomas. destaquem-se88: (a) instituição de uma Vara Itinerante do Trabalho onde não houver juízes. Ressalte-se.adital. Idem. O art. que estatui o confisco de terras para as propriedades que tenham mão-de-obra escrava.direitos humanos nos últimos oito anos (1995-2003). ter acesso à terra. e sim na análise das violações dos direitos civis e políticos da vítima. 4o da DUDH e o art. que chega a 9. 8o do PIDCP (bem como o art. e quando houver punição para as pessoas que tiram proveito desse tipo de trabalho.htm. que em 11 de dezembro de 2003 foi promulgada a Lei nº 10. a propositura da ação pela Comissão perante a Corte. em virtude da apresentação de um “quadro psicótico”. De acordo com a Comissão e com os peticionários. fiscais e delegados. estadao.

pode cancelar a autorização do ente privado como prestador de serviços de saúde em nome do Estado (arts. 4. Há. Damião Ximenes faleceu 3 dias após sua internação. voltou para sua casa em busca de ajuda e. uma vez que o Sistema Municipal de Auditoria concluiu em seu Relatório 002/99 que havia na instituição evidências de maus tratos. O médico fez constar como causa da morte “parada respiratória” e não ordenou a realização de autópsia. pelo menos. a senhora Irene Ximenes Lopes. Entre março e julho de 2000. denunciando os fatos ocorridos em detrimento de seu irmão. já havia um recado que seu filho havia falecido. O envio do caso Em 22 de novembro de 1999. 2. A propositura da ação Em 30 de setembro de 2004. Dessa forma. enquanto que na outra versão ele havia brigado com outros pacientes. FGV DIREITO rio 93 . irmã de Damião Ximenes. Inconformados. em 4 de outubro de 1999. Já houve. Não é a primeira vez que ocorre uma morte por violência e maus tratos na instituição em tela. que tem como diretor o médico da Casa de Repouso Guararapes. No laudo consta que se trata de “morte real de causa indeterminada”. tendo em vista que o Estado brasileiro não cumpriu as recomendações da Comissão. A responsabilidade do Estado brasileiro A Casa de Repouso Guararapes é uma clínica privada conveniada ao SUS (Sistema Único de Saúde). tortura e abuso sexual de pacientes. uma morte em 1987 e outra em 1991. O Estado. não estando satisfeito com os serviços prestados. que incluíram golpes na cabeça com objetos contundentes. destaquem-se duas: na primeira versão. no âmbito interno. os familiares da vítima levaram o corpo para realização de autópsia no instituto forense de Fortaleza. chegando lá.direitos humanos morte é uma coisa natural da vida. Dentre as versões apresentadas pelos enfermeiros e funcionários da instituição. CF). Dessa forma. apresentou perante a Comissão uma petição contra o Brasil. foi instituída a Junta Interventora da Casa de Repouso Guararapes. 3. Desamparada. a Comissão resolveu enviar o presente caso à Corte. duas ações (uma penal e uma civil) tramitando perante a justiça local. ou melhor. o Estado brasileiro tem o dever de controlar e fiscalizar os serviços prestados pela referida instituição. 196 a 200. Damião havia brigado com enfermeiros.

Assim o fez sob o argumento de que as precárias condições de atendimento psiquiátrico às quais foi submetido Damião Ximenes Lopes não correspondem ao atual grau de evolução e implementação das políticas públicas nessa área e no respeito aos direitos humanos dos pacientes.corteidh. as violações a sua integridade pessoal. acesse o site da Corte Interamericana de Direitos Humanos: http://www.direitos humanos 5. Convenção Americana).1. bem como seu dever de regulamentar e fiscalizar o atendimento médico de saúde”93. e as violações da obrigação de investigar (Relatório n. As violações A Comissão requer que a Corte determine que o Estado brasileiro é responsável pela violação do direito à vida (art. imparcial e efetiva dos fatos relacionados com a morte de Damião Ximenes. Em agosto de 2006. Convenção Americana). 8o. seu dever de cuidar e de prevenir a vulneração da vida e da integridade pessoal. Repare adequadamente os familiares do senhor Damião Ximenes pelas violações de direitos humanos cometidas. indaga-se: Qual é a importância do caso Damião Ximenes? Quais direitos foram violados no caso em tela? Há alguma diferença de 92 Informações atualizadas em 25 de outubro de 2006. 1. FGV DIREITO rio 94 . a Corte proferiu a decisão do caso em tela. Adote as medidas necessárias para evitar que fatos similares ocorram no futuro. 43/03 da Comissão). 25. desumanas ou degradantes. do direito a um recurso efetivo e das garantias judiciais relacionadas com a investigação dos fatos. neste caso. combinados com a violação do dever genérico de garantir e respeitar os direitos consagrados na Convenção (art. à proteção judicial (art. 4o. apesar de seu dever de cuidado como garantidor de seus direitos.cr/. O pedido A Comissão solicita à Corte que ordene ao Estado que: • • • • Efetue uma investigação completa. Convenção Americana). sendo a primeira sentença em face do Estado brasileiro. bem como daqueles originados na tramitação do presente caso perante o sistema interamericano. à integridade pessoal (art.92 A Corte deixou claro que o Brasil “tem responsabilidade internacional por descumprir. 93 Para ler a sentença na íntegra. Convenção Americana). devido à hospitalização do senhor Damião Ximenes em condições cruéis.or. 6. Convenção Americana). Em audiência celebrada em dezembro de 2005. tanto no local dos fatos como em todo o território brasileiro. a seu assassinato. 5o. Expostas as pretensões da aula. incluindo o pagamento efetivo de uma indenização. o Estado brasileiro reconheceu parcialmente a responsabilidade internacional por violação de direitos humanos – referente ao direito à vida e integridade pessoal. Pague as custas e gastos legais incorridos pelos familiares do senhor Damião Ximenes na tramitação do caso no âmbito nacional. às garantias judiciais (art.

“A Litigância de Direitos Humanos no Brasil: Desafios e Perspectivas nos uso dos Sistemas Nacional e Internacional de Proteção”. Temas de Direitos Humanos. Flávia. In: PIOVESAN. São Paulo: Max Limonad. Flávia. 2003 Legislação: Convenção Americana sobre Direitos Humanos Declaração Universal sobre Direitos Humanos Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Constituição Federal FGV DIREITO rio 95 .direitos humanos proteção dos direitos civis e políticos nos documentos mencionados? Quais são os artigos da CF que consagram os direitos civis e políticos? Quais são os direitos violados da pessoa que trabalha em condições análogas à de escravo? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN.

descrédito das ações do governo no combate à violência. perpetuadora da insegurança”94. Disponível em: http://www. a criminalização da pobreza. tal como a exclusão de um número cada vez maior de pessoas da vida econômica. 95 Acesso em: 14 abril 2005. que.org. cumpre destacar a manifestação da violência urbana no Rio de Janeiro como algo rotineiro e. 2. Seguem.pdf. A morte e a violência. 9. em um contexto no qual prevalece a omissão do Poder Público. 96 Expressão utilizada no Relatório do Centro de Justiça Global. sua sistematicidade e banalização ensejam ao menos um sentimento em comum. A guerra pressupõe a existência de um inimigo (no caso seriam os criminosos e suspeitos) que se almeja combater. 5. FGV DIREITO rio 96 . tão visceral à opinião pública. utilizam-se os critérios geográficos e sociais para localizar o inimigo96 94 Centro de Justiça Global 2004. br/portuguese/arquivos/relatorio_rio1. causas do agravamento da violência. ao mesmo tempo. Em nosso Estado. em decorrência da existência de um “poder paralelo”. o século XX. sistematicidade e banalização da violência.org/2005/abril/ibe_026. são naturalizadas.global. criminalização da pobreza. Assim. Esta. conseqüentemente. Disponível em: http://www.lainsignia. p. do acesso ao trabalho. a violência no Rio de Janeiro é caracterizada pela mídia como guerra civil. em 30 de março de 2005. a idéia de que a pessoa é criminosa em virtude do local onde mora e de sua condição social. tem como causa direta a exclusão social. trouxe também conseqüências drásticas. contido justamente no repúdio à sua manifestação como rotina diária. Quanto ao segundo aspecto. do conhecimento popular. embora tenha causado indignação pública. multiplicam-se os relatos de violência. 21. ou melhor. conseqüentemente. Acesso em: 14 abril 2005. mas também aqueles que fazem parte do discurso da mídia e. Por tão enraizada no dia-a-dia dos cidadãos. os tópicos que serão abordados: 1. 4. htm. 3. é considerada natural por grande parte da sociedade e dos governantes95. em especial. por sua vez.. op. Temos como exemplo a chacina ocorrida na Baixada Fluminense. que impõe o terror e a desordem. Falar em violência urbana não é tarefa fácil. uma vez que se trata de tema complexo e. para delimitar o objeto de estudo. Relatório Rio: Violência Policial e Insegurança Pública. trajetória da violência estatal. devem ser levados em consideração pontos essenciais.direitos humanos Aula 14: Violência Urbana NOTA AO ALUNO “A despeito das diferentes visões em relação ao entendimento sobre quem e como se produz a violência no Rio de Janeiro. Em relação ao primeiro tópico. que perpetua a insegurança no Estado. cit. assim. p. embora tenha permitido um aumento da produtividade e da expectativa de vida em alguns países. Dessa forma. abaixo. é fruto das mudanças macro-estruturais propiciadas pela introdução do modelo econômico neoliberal na década de 1980. notadamente policial. para que se possa tanto explicar quanto desmistificar alguns temas. Na região.

os candidatos ao governo do Estado na campanha eleitoral de 1988. É uma questão de Estado e não de polícia”100. O resultado pode ser vislumbrado pelo número muito maior de pessoas mortas em intervenções policiais: 427.2004. Acesso em: 21 abril 2004. que o conceito de segurança deve ser redefinido. bem como a noção de guerra. pesquisador do Centro de Justiça Global. pobre e negro. em detrimento da utilização da opressão e da violência como prática da polícia101.br/artigo_ind. com idade entre 15 e 24 anos e morava em regiões carentes98. Foi o que prometeu Anthony Garotinho. Em se tratando das causas do agravamento da violência no Rio de Janeiro. “legitimam” as violações dos direitos humanos por policiais nesses locais99. houve uma redução em 40% do número de civis mortos pela polícia.10. Constata-se também que a maioria das pessoas assassinadas era jovem. a maioria em condições que sugerem extermínio. o inimigo é caracterizado como pobre e morador de comunidades carentes. FGV DIREITO rio 97 . é a relação entre os mesmos que agrava drasticamente a violência no Estado. Nesse sentido. Quanto ao terceiro tópico.desarme. Ainda em relação aos direitos humanos. 1. assim como sua descartabilidade seria assegurada frente ao corpo social. exe/sys/start. faz-se necessária uma análise em conjunta da exclusão social. SOARES. Isto significa ser de extrema importância mais investimentos nas áreas sociais e mais planejamento na atuação policial. Como conseqüência dessa visão. em decorrência do período no qual se recompensava o policial com um incremento salarial – que variava entre 50 a 150% de seu salário – sempre que fizesse uma vítima letal. 14. 16. Como conseqüência da supressão da “banda podre” da polícia. especialmente no senso comum das classes média e alta”97. ao assumir o poder. p. 30. lainsignia. assim. alterações corporativas que conduziram à exoneração de Luiz Eduardo Soares da Secretaria Estadual de Segurança Pública em 2000 significaram o retorno das velhas políticas de enfrentamento por seu sucessor. A exclusão 97 98 Idem. equiparam criminosos e moradores das comunidades carentes e. A pobreza passa a ser vista como perigo à sociedade e tem como conseqüên­ cia a não observância e consagração da universalidade dos direitos humanos. conseqüentemente. 100 Acesso em: 14 abril 2005.luizeduardosoares.. Nesse contexto. ou melhor. constata-se que a política de segurança pública do Estado não é dirigida a todos os cidadãos e nem está fundada na proteção e garantia universal dos direitos humanos. Luiz Eduardo. Ibid. Acesso em: 14 abril 2005. o conceito de criminalização da pobreza. do sexo masculino. “Geografia da Violência no Rio de Janeiro” in Folha de São Paulo. Isto porque os três itens estão interconectados. 101 102 103 Idem. Disponível em: http://www.direitos humanos desta guerra. 99 Ibid. Disponível em: http://www. php?categoria=seguranca. p. Disponível em: http://www. Nesse sentido.com. de “reabilitar a polícia”. o discurso e ações policiais. uma redução significante do número de policiais mortos e a maior quantidade de apreensão de armas com criminosos até então: 9 mil102. Contudo. segundo os quais o criminoso ou suspeito reside nas favelas e possui “cor e aparência definidas.org/publique/cgi/cgilua. distorcida por essa perspectiva.org/2005/abril/ibe_ 026. de saúde e de lazer. ressalta Marcelo Freixo. acaba por substituir a proteção da vida por práticas cada vez mais violentas. ao passo que em 1999 haviam ocorrido 289 mortes103.htm. do sensacionalismo da mídia e da ação da polícia.htm?infoid=3139 &tpl=printerview&sid=16>. basearam seus discursos na promessa de criarem uma nova polícia e uma nova política de segurança. destaque-se que. a fim de corresponder às exigências atuais: “segurança hoje em dia é política educacional.195 pessoas foram mortas por policiais no Estado do Rio de Janeiro no ano de 2003. corroborando. A atuação policial. entre outros itens.

Disponível em: http://www. DORNELLES. Ignacio. “Geografia da Violência no Rio de Janeiro”. assim como a carência de investimentos. manipulada pelo “Estado na perpetração da violência. Acesso em: 14 abril 2005. portanto. travestida como “resposta” à criminalidade – mas que diz respeito. 2003. A polícia. 30.10. Luiz Eduardo.pdf. que é ainda mais grave quando se materializa em violação dos direitos humanos (quando. mas sim punir os criminosos). por exemplo. tem haver com a falta de transparência das ações públicas na área de segurança. 107 FGV DIREITO rio 98 .br/portuguese/arquivos/relatorio_rio1. treinamentos e capacitação dos policiais. Disponível em: http://www. As principais causas do descrédito das ações do governo no combate à violência. PINHEIRO. Disponível em: http:// www. Violência Urbana. não visa a explicar ou entender as causas do problema para que se possa solucionálos. 2003. de mudanças drásticas e urgentes em toda a política de segurança pública do Rio de Janeiro. Disponível em: http:// www. Acesso em: 21 abril 2004. incute na sociedade um falso clamor por Justiça. Conflito e segurança (entre pombos e falcões).com.com.global. p. Já a mídia. 14. a polícia possa definitivamente transmitir segurança ao invés de medo.direitos humanos social contribui para que muitas pessoas optem por atividades ilícitas como meio de vida.luizeduardosoares. São Paulo: Publifolha. Necessita-se. Guilherme de Assis.htm?infoid=3139 &tpl=printerview&sid=16>. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris. Acesso em: 14 abril 2005. a fim de que. violando. In: Folha de São Paulo.2004.e. Centro de Justiça Global.br/noticias_justica. há uma enorme demanda de certos setores para que a polícia seja violenta. Acesso em: 14 abril 2005. João Ricardo. o policial mata ou tortura alguém. o último tópico. Entrevista.php?categoria=seguranca. Acrescente-se a este fato a questão da impunidade dos policiais.com.org/publique/cgi/cgilua. Paulo Sérgio e ALMEIDA. a ausência de órgãos de monitoramento independentes e a corrupção policial. por sua vez. respectivamente. Acesso em: 14 abril 2005. tem uma tradição de repressão.clippingexpress. clippingexpress. SOARES. Para maiores informações.org. o direito à vida e o direito à integridade física). Em especial. pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da UERJ. 104 105 106 Ibid.br/noticias_justica. seguindo a premissa de “entender menos e punir mais”104 (i.php?id=44834. Idem. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: CANO. exe/sys/start.php?id=44834. um dia. Hoje em dia. leia a entrevista com Ignacio Cano. Disponível em: http://www. que começa com a fundação das primeiras corporações no Brasil para manter sob controle as classes subalternas106. Relatório Rio: Violência Policial e Insegurança Pública. bem como uma ilusão por parte da mesma de que seu trabalho deva ser pautado na violência107.br/artigo_ind. ao etiquetamento penal de suas camadas mais miseráveis”106. em última instância.desarme. Capítulo VII.

criado pelo Conselho Econômico e Social e que tem por principal função o monitoramento da implementação dos direitos econômicos. sociais e culturais (DHESCs) encontra-se na atual agenda internacional dos direitos humanos. se transformam em um importante instrumento de negociação para que haja avanços na proteção dos direitos humanos. e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. sociais e culturais. o PIDESC baseia-se no mecanismo dos relatórios. 110 FGV DIREITO rio 99 . o relatório será analisado pelo Comitê de Direitos Econômicos. cumpre ressaltar que. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. A raiz do tratamento diferenciado das duas categorias de direito encontra-se na decisão tomada pela Assembléia Geral das Nações Unidas. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. negligenciados na esfera internacional. já naquela época. por meio do qual os Estadospartes encaminham relatórios ao Secretário-Geral das Nações Unidas que. diferentemente do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos.direitos humanos Aula 15: Direitos humanos econômicos. Na verdade. os direitos civis e político . encaminhará uma cópia ao Conselho Econômico e Social para apreciação. emitirá suas observações conclusivas que. após analisar o relatório.”108 Em se tratando especificamente do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. 108 109 Comunicação interestatal é aquela através da qual um Estado-parte denuncia a existência de violação de direitos humanos em outro Estado-parte. com medidas de implementação distintas. ao passo que os direitos civis e políticos são auto-aplicáveis. Tal medida se deu em virtude do conflito ideológico que vigorava na época. Isto porque. a Carta Internacional dos Direitos Humanos. De maneira diversa. por sua vez. Vol. Sociais e Culturais contém dispositivos suscetíveis de aplicação a curto prazo. cabe ressaltar seu sistema peculiar de monitoramento. até hoje. Instituído pelo Conselho Econômico e Social da ONU através da Resolução ESC 1985/17. o PIDESC não prevê um mecanismo de comunicação interestatal nem de petição individual109 (através de um protocolo adicional). p. de elaborar dois Pactos Internacionais de Direitos Humanos (1966). Sociais e Culturais110 (Comitê DESC). Sociais e Culturais (PIDESC). I. As recomendações caracterizam-se CANÇADO TRINDADE. muitas vezes. Como leciona Cançado Trindade. voltada às obrigações gerais que vinculam os Estados Partes. bem como em decorrência da preponderância da posição dos países ocidentais. têm força política e moral que. formando. 1997. ambiente este que prioriza. os conflitos entre as duas categorias de direitos nem sempre são claros. em conjunto com a DUDH. assim como não estatui um Comitê como órgão principal de monitoramento. Todavia. tal dicotomia não tinha caráter absoluto. O Comitê DESC. uma vez que os direitos econômicos. cada um voltado a uma categoria de direitos. ao passo que comunicação individual se refere à possibilidade do indivíduo recorrer a instâncias internacionais para reparação ou restauração dos direitos violados. sociais e culturais demandam realização progressiva. sociais e culturais NOTA AO ALUNO A busca por uma proteção mais efetiva dos direitos econômicos. assim. embora não sejam dotadas de força legal. “o Pacto de Direitos Civis e Políticos também prevê a ´possibilidade de realização progressiva´ de certos direitos. Antonio Augusto. que alegavam que ambas as categorias de direitos não poderiam estar no mesmo Pacto. ao longo da história. e talvez a distinção seja antes uma questão de gradação ou de ênfase. 354. em 1951. tendo em vista que os mesmos foram.

cabe mencionar que o Governo Federal apresentou. Como exemplo. Em contrapartida. não havendo. incluindo recomendações e sugestões para sua efetivação. afirmando. sistema africano e sistema interamericano. pela primeira vez. a sociedade civil apresentou um “Informe Alternativo” ao Comitê de Direitos Econômicos. administrativas e judiciárias que são tomadas para efetivar os direitos estabelecidos no PIDESC. foram incorporados alguns direitos à Convenção Européia. saliente-se a ponderação feita pela Corte Européia de Direitos Humanos no caso Airey (1979) de que embora a Convenção Européia sobre Direitos Humanos consagre essencialmente os direitos civis e políticos. por meio da Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos. uma vez que a consagração da indivisibilidade dos direitos humanos fez com que. uma clara distinção entre as duas categorias de direitos.. assim denominado uma vez que o governo federal brasileiro ainda não tinha encaminhado nenhum informe. em 1993.direitos humanos por seu power of embarrassment. tais como os consagrados pelo Protocolo I: direito à propriedade privada (artigo 1) e direito à educação (artigo 2). bem como para apresentar novos dados sobre a situação brasileira. O Comitê de Direitos Econômicos. Em virtude da crescente atenção dada aos DHESCs ao longo dos anos. 111 Saliente-se que em 2000. sociais e culturais no plano internacional. Após a análise dos dois informes. Trata-se de passo de suma importância. Em relação à consagração dos DHESCs no âmbito internacional. 112 113 O Contra Informe foi apresentado durante o 30º Período Ordinário de Sessões (05 a 23 de maio de 2003) do Comitê de Direitos Econômicos. constrangimento político e moral no campo da opinião pública internacional do Estado que viole os direitos humanos. na Comissão de Direitos Humanos da ONU) que. o Comitê DESC emitiu114. assim. 114 FGV DIREITO rio 100 . faz-se extremamente necessário ampliar o sistema de monitoramento dos direitos econômicos. Os DHESCs também podem ser analisados nos três sistemas regionais de proteção dos direitos humanos: sistema europeu. realizada em Viena. que proclamou a indivisibilidade dos direitos humanos.e. que a plena realização dos direitos civis e políticos só seria possível com o gozo dos DHESCs. consistirá em uma forma de ampliação do sistema de monitoramento. em 2001112. i. especificando se as recomendações propostas pelo Comitê DESC foram observadas ou não. Sociais e Culturais. em 1968. Destaque-se. caso seja adotado. em maio de 2003. Sendo assim. Sociais e Culturais das Nações Unidas. Nesse contexto. Em relação ao Brasil111. realizada em Teerã. com quase dez anos de atraso. assim. que a indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos foi reafirmada na II Conferência Internacional sobre Direitos Humanos. ambas as categorias de direitos estivessem no mesmo patamar. é de suma importância ressaltar a I Conferência Mundial sobre Direitos Humanos. O Governo brasileiro apresentou em 2006 um novo informe. pelo qual os Estados-partes devem encaminhar informações acerca das medidas legislativas. desde 1997. a fim de contestar alguns fatos levantados pelo governo federal. Sociais e Culturais (Dhesc Brasil) apresentou em 2003 seu Contra Informe113 (denominado também de Relatório Sombra) ao Comitê DESC. já que prevê o mecanismo de comunicação individual. especificamente. suas observações conclusivas acerca do cumprimento do PIDESC pelo Brasil. seu Primeiro Informe ao Comitê de Direitos Econômicos. o único mecanismo de proteção dos direitos em tela estabelecido pelo PIDESC é a sistemática dos relatórios. por oportuno. Sociais e Culturais. Em relação ao sistema europeu. em virtude da inércia do estado brasileiro. a sociedade civil. O Brasil ratificou o PIDESC em 24. Sociais e Culturais adotou as observações conclusivas em 23 de maio de 2003. último dia de seu 30º Período Ordinário de Sessões. bem como das dificuldades encontradas para a plena realização desses direitos. destaca-se o Protocolo Facultativo ao PIDESC (tramita. muitos deles surtem impactos de natureza social ou econômica.01.1992.

Como exemplo.. cabe mencionar o debate sobre duas categorias intrínsecas aos DHESCs: a progressividade e a exigibilidade. Expressão de um movimento de conscientização para uma proteção mais efetiva aos DHESCs. o caráter fundamental dos DHESCs. As pessoas aceitavam trabalhar no local em virtude de falsas promessas de altos salários e boas condições de trabalho. Acesso em: 04 jan. a Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos prevê um catálogo tanto de direitos civis e políticos (artigos 3 a 14) quanto de direitos econômicos.11289. sofrendo lesões permanentes no olho direito e na mão direita. documento este que entrou em vigor em novembro de 1999. tendo a Comissão Africana de Direitos Humanos e dos Povos um mecanismo de aplicação comum a todos os direitos.000. em seus respectivos âmbitos de competência. o Estado brasileiro comprometeu-se a implementar as ações e as propostas de alterações legislativas contidas no Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo. Embora o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos tenha se concentrado na defesa dos direitos civis e políticos. Em uma ocasião. por oportuno. limitando-se a dispor que os mesmos devem ser realizados progressivamente.htm. bem como de apresentar relatórios periódicos.289115. tanto a Comissão quanto a Corte Interamericana de Direitos Humanos têm reconhecido. quer com seu próprio esforço. cabe destacar que. que trata da situação de José Pereira. em 2003. Ainda no bojo do referido acordo. em 11 de março de 2003.direitos humanos Em se tratando do sistema africano. um menor de idade que trabalhava em condições análogas à de escravo em uma fazenda no sul do Pará. embora a Convenção Americana sobre Direitos Humanos mencione os DHESCs em apenas um artigo. elaborado pela Comissão Especial do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. realizada no dia 18 de setembro de 2003. pagou a vítima o valor de R$ 52. eqüitativas e satisfatórias de trabalho (art. o PIDESC assevera a obrigação do Estado de. chegou-se a uma solução amistosa. 115 116 Idem. o Estado brasileiro. foi gravemente ferido. José Pereira. o direito à seguridade social (artigo 9). e de maneira a aprimorar a legislação nacional que visa a coibir a prática do trabalho escravo no país. Sociais e Culturais (Protocolo de San Salvador). sociais e culturais (artigo 15 a 18). em 1988 foi adotado o Protocolo Adicional à Convenção Americana em matéria de Direitos Econômicos. o direito a condições justas. quer com a assistência e cooperação Relatório Nº 95/03 Jose Pereira – Caso 11. 2005.cidh. 7) e o direito a um meio ambiente sadio (artigo 11). a aula deverá apontar o Caso 11. Disponível em: http://www. capangas atiraram nos trabalhadores que tentavam fugir da fazenda.289 (Brasil). Por fim. e lançado pelo governo brasileiro.00 (cinqüenta e dois mil reais) a título de indenização por danos morais e materiais116. org/annualrep/2003eng/Brazil. Quanto ao sistema interamericano. Saliente-se. Em primeiro lugar.Nesta oportunidade. FGV DIREITO rio 101 . como. O caso em tela foi levado à Comissão em 1994 e. que o referido Protocolo define o alcance de alguns DHESCs. que na época tinha 17 anos. O reconhecimento público da responsabilidade do Estado brasileiro em relação à violação de direitos humanos deu-se na solenidade de instalação da Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo-CONATRAE (criada por Decreto Presidencial de 31 de julho de 2003). o Protocolo de San Salvador dispõe acerca da possibilidade de se enviar petição individual acerca do direito à educação e de alguns aspectos dos direitos sindicais à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão).oas. por exemplo.

agora ele tem uma base positiva que legitima sua ação em nível interno. FGV DIREITO rio 102 . justificar-se-á. no máximo dos recursos disponíveis. Jayme Benvenuto. receberam investidura em mandato eletivo.&l=20&u=http://www. Relator Ministro Celso de Mello. precisamente por constituírem direitos. uma contradição no primeiro exame. tendo em vista a previsão normativa dos DHESCs. stf. por delegação popular. em ordem a viabilizar. compreendidos também os humanos. Os direitos humanos econômicos. Julgamento em 29. Em 29 de abril de 2004. destaque-se que a exigibilidade dos DHESCs pode ser considerada nas esferas nacional (constituições e leis) e internacional (PIDESC). aquele núcleo intangível consubstanciador de um conjunto irredutível de condições mínimas necessárias a uma existência digna e essenciais à própria sobrevivência do indivíduo. aí. 118 119 Ibid. a liberdade de conformação do legislador. importante decisão do Supremo Tribunal Federal acerca dos DHESCs. Nesse contexto. cumpre reconhecer que não se revela absoluta. Como lembra Jayme Benvenuto. 45 – STF. o acesso aos bens cuja fruição lhes haja sido injustamente recusada pelo Estado”. 108. NUME. como decorrência causal de uma injustificável inércia estatal ou de um abusivo comportamento governamental. se tais Poderes do Estado agirem de modo irrazoável ou procederem com a clara intenção de neutralizar. p. Rio de Janeiro: Renovar. mesmo sem examinar diretamente o objeto da ação – veto do Presidente da República a artigo da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2003 que garantia recursos financeiros ao serviço de saúde – uma vez que o Poder Executivo enviou projeto de lei ao Legislativo que restaurou a integridade do artigo. cabe registrar.04. (ii) recursos aqui devem ser entendidos para além dos financeiros. para assegurar progressivamente o pleno exercício dos direitos elencados.2004. 120. p. registra-se ainda muita resistência por parte do Ministério Público e do Judiciário em designar uma tutela efetiva a tais direitos. o Ministro Celso de Mello. naturais e de informação. econômicos e culturais. cabe a análise de alguns desses elementos: (i) a acareação entre o máximo e o disponível. comprometendo-a.br/cgi-bin/nphbrs?d=DESP&n=-julg&s1=45. a qual pode se dar no âmbito administrativo ou judicial. “se ao Judiciário sempre coube a obrigação de solucionar conflitos em relação a todas as matérias que lhe sejam apresentadas. como precedentemente já enfatizado – e até mesmo por razões fundadas em um imperativo ético-jurídico -.gov. tomar medidas. Acesso em: 04 julho 2005. tem-se que uma saída possível e recomendável é o estabelecimento de metas e prazos para a concretização dos DHESCs. 117 LIMA JÚNIOR. nem a de atuação do Poder Executivo. apôs importantes considerações ao Poder Judiciário em relação à implementação dos DHESCs: “Não obstante a formulação e a execução de políticas públicas dependam de opções políticas a cargo daqueles que. devem ser dotados de mecanismos para que seus titulares possam deles usufruir. como é o caso dos direitos trabalhistas e previdenciários. afetando. Disponível em: http://gemini. tecnológicos.”118 Por mais que alguns DHESCs já possuam mecanismos eficientes de proteção perante o Judiciário.asp&Sect1=IMAGE&Sect2 =THESOFF&Sect3=PLURON&S ect6=DESPN&p=1&r=2&f=G. em sede da Argüição de Descumprimento de Direitos Fundamental (ADPF) n. sociais e culturais. É que. Refere-se aqui à exigibilidade dos DHESCs.direitos humanos internacionais. esta denominada justiciabilidade. Todavia. ADPF n. indica para o fato de que progressividade não pode ser entendida como postergação infinita. então. a eficácia dos direitos sociais. Nesse sentido.gov. 45119.br/Jurisprudencia/Jurisp.. Os DHESCs. 2001. por fim. nesse domínio.stf. a todos.117 Dessa forma. a possibilidade de intervenção do Poder Judiciário.

Os direitos humanos econômicos. pp. Sociais e Culturais Declaração Universal de Direitos Humanos Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem Convenção Americana sobre Direitos Humanos Protocolo de San Salvador Convenção Européia sobre Direitos Humanos Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos FGV DIREITO rio 103 . Sociais e Culturais”. I. São Paulo: Max Limonad. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris.direitos humanos Pelo exposto. Alessandra Passos. 2003. Jayme Benvenuto. In: PIOVESAN. Temas de Direitos Humanos. e MARTINS. Rio de Janeiro: Renovar. GOTTI. Antonio Augusto. Legislação: Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos. indaga-se: Um cidadão brasileiro pode enviar um caso relativo à violação do direito à saúde à Comissão Interamericana de Direitos Humanos? Quais são os mecanismos de proteção dos DHESCs existentes no sistema global? O que representa a consagração da indivisibilidade dos direitos humanos para a proteção dos direitos econômicos. sociais e culturais? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. sociais e culturais. pp 353-360. 91-114. 1997. Flávia. Vol. Flávia. Janaína Senne. Leitura acessória: LIMA JÚNIOR. “A proteção Internacional dos Direitos Econômicos. 2001. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. PIOVESAN.

mas ao indivíduo ‘especificado’. dotando alguns sujeitos de direitos também distintos. Seja a Declaração Universal de 1948 ou os Pactos Internacionais de 1966. foram consolidados tratados que tinham como objeto tema específico. As desigualdades de gênero são as diferenças socialmente construídas. 120 FGV DIREITO rio 104 . O sistema internacional passa a reconhecer direitos endereçados às crianças. idade. como. Mais do que isso. aos idosos. e passa a analisa-los com concretude. Desumanos ou Degradantes de 1984 e a Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989. Convenção contra a tortura e outros tratamentos ou Penas Cruéis. Há de se destacar que o sistema geral e o sistema especial de proteção de direitos humanos são necessariamente complementares. passaremos a analisar o processo de especificação dos sujeitos de direitos como decorrência de um outro marco fundamental: a universalidade dos direitos humanos.”120 Ao longo das próximas aulas. às pessoas vítimas de discriminação racial. às mulheres. cabendo a escolha dos direitos humanos das mulheres como o primeiro desses. considerando-se categorizações relativas ao gênero. dentre outros. raça. que merecem proteção especial. por exemplo. a Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW) de 1979.direitos humanos Aula 16: A especificação do sujeito de direitos. nos referimos até o presente momento ao sistema geral de proteção aos direitos humanos. o fato de somente as mulheres poderem menstruar. Todavia. “na medida em que o sistema especial de proteção é voltado. examinaremos alguns desses sujeitos de direito. sociais e culturais. É o que se costuma denominar de processo de especificação do sujeito de direitos. Referimo-nos aqui a sexo como as diferenças entre homens e mulheres dadas pela natureza. 2002. Flávia. como. as PIOVESAN. Os direitos humanos sob a perspectiva de gênero NOTA AO ALUNO Vimos discutindo ao longo das últimas aulas a proteção aos direitos civis e políticos e aos direitos econômicos. Proteção dos direitos da mulher Na compreensão do processo narrado. por exemplo. às pessoas vítimas de tortura. tidas suas diferenças em segundo plano. A partir da presente aula. etnia. Daí apontar-se não mais ao indivíduo genérica e abstratamente considerado. fundamentalmente. O Direito Internacional dos Direitos Humanos deixa de examinar os seres humanos como sujeitos neutros. pessoas crescem em contextos sociais em que papéis sócio-culturais são designados de acordo com as relações de poder estabelecidas em razão do sexo. ao longo das últimas décadas. de Todas as Formas de Discriminação Racial de 1965. São Paulo: Max Limonad. (I) p. 188. ressaltando a indivisibilidade como o marco de compreensão dos direitos humanos. a primeira das especificações refere-se ao fato de que os seres humanos são sexuados. à prevenção da discriminação ou à proteção de pessoas ou grupos de pessoas particularmente vulneráveis. parir e amamentar. etc. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional.

composto 23 peritos. parágrafo 4o. a Convenção estabelece o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher. 2002. De acordo com o artigo 1o. p. PIOVESAN. Os Estados partes comprometem-se a uma dupla obrigação: devem eliminar as formas constantes de discriminação e devem promover a igualdade. o tratado não prevê a possibilidade de comunicações estatais ou do conhecimento de violações de ofício por parte do Comitê. Por outro lado. em 1994. In: PIOVESAN. 122 FGV DIREITO rio 105 . Nesse sentido. (c). gozo. Brasília: AGENDE. Direitos Humanos das mulheres. posteriormente. em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações. independentemente de seu estado civil. tendo sido apresentada denúncia ao artigo 15. a manutenção de normas desiguais ou separadas. e ao artigo 16.. parágrafo 1o. algumas dessas afetando a essência da universalidade dos direitos humanos. social. Em seu artigo 17. da Convenção. Essa distinção é relevante para percebermos que as desigualdades sociais entre homens e mulheres vêm de nossas idéias. essas medidas cessarão quando os objetivos de igualdade de oportunidades e tratamento houverem sido alcançadas. exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento. e toda vez que solicitar o Comitê (artigo 18 Convenção). Flávia. o Comitê emite recomendações a serem cumpridas pelo Estado. Temas de Direitos Humanos. (a). o artigo 4o da CEDAW também prevê a aplicação de medidas de ação afirmativa: a adoção pelos Estados-Partes de medidas especiais de caráter temporário destinadas a acelerar a igualdade de fato entre o homem e a mulher não se considerará discriminação na forma definida nesta Convenção. foi aprovada pela Assembléia Geral da ONU a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW). Em resposta aos relatórios. São Paulo: Max Limonad. dentre eles atualmente a brasileira Silvia Pimentel. cultural e civil ou em qualquer outro campo. qualquer pessoa ou grupos de pessoas que aleguem ser vítimas de violações à Convenção podem apresentar petição ao Comitê. relatório sobre as medidas legislativas. Alice (org.122 A Convenção foi ratificada pelo Estado brasileiro em 1984. econômico. Todavia. no prazo de um ano a partir da entrada em vigor da convenção. em consonância com o quadro constitucional proporcionado pelo Texto de 1988. em 18 de dezembro de 1979. dentre outras. dos direitos humanos e das liberdades fundamentais nos campos político. “Os direitos humanos da mulher na ordem internacional”. discriminação contra a mulher significa toda distinção. Somente a partir da elaboração do Protocolo Facultativo aprovado pela ONU em 1999. de uma construção cultural das desigualdades (gênero) que não se justifica nas diferenças biológicas dadas pela natureza (sexo). como conseqüência. o Governo notificou a Secretaria Geral da ONU para que retirasse as referidas reservas. administrativas. por incompatibilidade com a legislação civil vigente. judiciárias.direitos humanos mulheres cuidarem dos filhos e da casa e os homens trabalharem fora. passando a vigorar em 3 de setembro de 1981. Ao ratificar a Convenção. mas de nenhuma maneira implicará. Flávia.. Tais artigos estabelecem a igualdade entre homens e mulheres no âmbito das relações familiares. (II) p. (g) e (h). Os avanços promovidos pela Convenção foram “freiados” pela constatação de que esse foi o marco normativo de direitos humanos que mais recebeu reservas no âmbito da ONU: ao menos 23 dos 100 Estados-partes realizaram 88 reservas.). 2003. a cada 4 anos. 109. os Estados comprometem-se a submeter a Secretaria-Geral das Nações Unidas. é possível 121 LIBARDONI. exercício pela mulher.121 Nesse sentido. Todavia. eleitos pelos países que ratificaram a Convenção. 210. para exame do Comitê. com base na igualdade do homem e da mulher.

Por fim. a Declaração de Viena de 1993... p. mas novas garantias de proteção. c) o direito a ter acesso a informações e meios seguros. produto da primeira grande conferência mundial de direitos humanos no contexto pós-Guerra Fria. gestação. disponíveis. coerção ou violência. é importante ressaltar alguns temas correlatos. 63. Foi nesse sentido que caminharam as principais conferências referentes a direitos sexuais e reprodutivos. reasseverou a igualdade entre homens e mulheres e conclamou os Estados a promover a ratificação universal da Convenção para a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres e a retirar as reservas que comprometiam a essência do tratado. passando o aborto a ser compreendido como uma questão de saúde pública. Se a Convenção é um “remédio para auxiliar a eliminar a discriminação contra as mulheres. pode-se afirmar que muitas mulheres brasileiras preferem a utilização do Sistema Interamericano de Direitos Humanos por contar com uma instância jurisdicional para verificação da responsabilidade internacional.direitos humanos afirmar que o Protocolo não estabeleceu novos direitos. durante a Conferência do Cairo sobre População e Desenvolvimento. em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações. Direitos Humanos das mulheres. FGV DIREITO rio 106 . 2002. Como seu artigo 4o afirma a necessidade de esgotamento dos recursos internos e a impossibilidade de litispendência internacional como critérios de admissibilidade de uma denúncia. A Declaração e o Plano de Ação de Beijing reafirmam os direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos e recomendam aos Estados a rever as legislações punitivas ao aborto. como os direitos sexuais e reprodutivos e a violência doméstica e familiar contra a mulher. entre tantos outros temas. acessíveis e d) o direito de acesso ao mais elevado padrão de saúde reprodutiva. Alice (org. Em 1994. seu Protocolo Facultativo é a bula que ensina como usar esse remédio. Dia Internacional da Mulher. b) o direito de ter 123 LIBARDONI. os Estados reconheceram os direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos e ainda afirmaram que meninas e mulheres têm o direito a decidir sobre a maternidade. Por sua vez. conclui-se que os direitos reprodutivos incluem: a) o direito de adotar decisões relativas à reprodução sem sofrer discriminação. os Estados reuniram-se na IV Conferência Mundial sobre a Mulher. passam a ser examinados como questões correlatas. percebemos que a tônica foi transferida para direitos inerentes a condição diferenciada das mulheres.). amamentação. direitos sexuais compreendem: a) o direito a decidir livre e responsavelmente sobre sua sexualidade. Concepção. Com base nos instrumentos internacionais citados. em 1995. notadamente no que se refere ao direito ao voto. aborto. contracepção. Brasília: AGENDE.”123 O Brasil assinou o protocolo em 08 de março de 2001. b) o direito de decidir livre e responsavelmente o número de filhos e o intervalo entre seus nascimentos. Por sua vez. o qual foi aprovado pelo Congresso Nacional e ratificado pelo Presidente em setembro de 2002. Desenvolvimento e Paz. Direitos Sexuais e Reprodutivos Se o movimento de mulheres teve início com a busca da igualdade entre homens e mulheres. Mais além do exame dos principais tratados que se referem aos direitos humanos das mulheres.

em 1993. como na esfera privada (no âmbito da família ou unidade doméstica). sem sofrer discriminação. tanto na esfera pública (ocorrida na comunidade). Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. São Paulo: Atlas. Segundo Guilherme Assis de Almeida. op. o que rompe com a tradicional separação entre o espaço público e privado. 247. seqüestro e assédio sexual. Guilherme Assis de. e d) relacionar os tipos de violências possíveis sem ser taxativa: estupro. Tal convenção foi assinada pelo Brasil em 09 de junho de 1994. Direitos Humanos e nãoviolência. O Brasil foi o primeiro Estado a ser acionado perante a Comissão por desrespeito à Convenção do Belém do Pará: tratase mais especificamente do caso Maria da Penha Fernandes. abuso sexual. c) ampliar o âmbito de aplicação dos direitos humanos. a ONU adotou a Declaração sobre a Eliminação da Violência contra a Mulher. 124 PIOVESAN. Importante passo foi o estabelecimento do mecanismo de petições individuais a serem apresentadas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. F. a violência não ocorreria. tortura. e) o direito à privacidade. tendo o Congresso Nacional a aprovado mediante o Decreto Legislativo no. O continente americano desponta na criação de uma convenção regional específica e vinculante para o combate de tal forma de violência. b) explicitar a noção de dano ou sofrimento sexual. comumente denominada Convenção do Belém do Pará. c) o direito a viver livremente sua orientação sexual. de 01 de setembro de 1995 e o Presidente a ratificado em 27 de novembro de 1995. destaca-se o envio de relatórios periódicos à Comissão Interamericana de Mulheres (CIM). d) o direito a receber educa. por isso. caso não o fosse. f ) o direito de acesso às informações e aos meios para desfrutar do mais alto padrão de saúde sexual e g) o direito a fruir do progresso científico e a consentir livremente à experimentação. prostituição forçada. Por sua vez. (II) p. alguns entendem que esta estaria incluída no conceito geral de discriminação. cit. a Convenção inova ao: “a) introduzir o conceito de violência baseada no gênero.. com os devidos cuidados éticos recomendados pelos instrumentos internacionais. em outras palavras. p.direitos humanos controle sobre o seu próprio corpo. é uma violência que é cometida pelo fato de a vítima ser uma mulher. tráfico de mulheres. a qual concebe especificidade a tal violência baseada no gênero. ALMEIDA.” 124 Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher Por mais que a Convenção de 1979 não faça menção expressa à violência doméstica e familiar contra a mulher.áo sexual. coação ou violência. 107. entre outras formas. maus-tratos. 83. aprovada em cidade brasileira e.”125 Dentre as diversas obrigações assumidas pela ratificação. Trata-se da Convenção Interamericana para Prevenir. 125 FGV DIREITO rio 107 . 2001. em conformidade com a Convenção Americana de Direitos Humanos.

direitos humanos MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. 26a edição. XIII. STUDART.). 1999. Flávia. Leitura acessória: LIBARDONI. Heloneida. PIOVESAN. Tratado de direito internacional dos direitos humanos. In: PIOVESAN. pp. 194-202 (Cap. item V. São Paulo: Max Limonad. Temas de Direitos Humanos. 316-318. Petrópolis: editora Vozes. item “g”). Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. 2002. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. pp. 2001. Mulher objeto de cama e mesa. Alice (org. PIOVESAN. Brasília: AGENDE.. (Cap. VI. n. Legislação: Constituição Federal de 1988 Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher e seu Protocolo Facultativo Convenção de Belém do Pará FGV DIREITO rio 108 .. 5). 2002. São Paulo: Max Limonad. Flávia “Os direitos humanos da mulher na Ordem Internacional”. Antônio Augusto. em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações. Direitos Humanos das mulheres. Flávia. Volume II. 2003.

Cumpre ao professor ressaltar a opção brasileira. Tendo em vista o zelo por determinadas questões que afligem crianças em todo o mundo. o constituinte já havia consolidado no Texto Constitucional todo o debate acerca da necessidade de uma proteção especial às crianças e aos adolescentes. Abrangendo tanto direitos civis e políticos quanto direitos econômicos. ao respeito. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). à cultura. à dignidade. a Convenção estabelece. Para o monitoramento das obrigações. além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência. com absoluta prioridade. Todas as ações relativas às crianças. deverá subisidiar e integrar a apresentação do grupo. como regra geral. à liberdade e à convivência familiar e comunitária. ambos assinados pelo Brasil em 2000. adotada em 1989 e vigente desde 1990 é o tratado de direitos humanos que mais se aproxima da ratificação universal. Não há previsão da sistemática de comunicações interestatais e de petições individuais. Considerado um dos documentos que melhor espelha os direitos elencados na Declaração sobre os Direitos da Criança. como estabeleceu a proteção da criança e do adolescente como prioridade absoluta: Art. discriminação. No âmbito interno.069. ao adolescente e ao idoso. clara tanto na Constituição Federal quanto no ECA. É dever da família. Não somente reservou um capítulo à família. 227. o qual recebe relatórios periódicos dos Estados. violência. a Convenção estabelece um princípio regedor de toda a normativa protetiva: o melhor interesse da criança: Artigo 3 1. primordialmente. o ECA constitui um marco na normatização de direitos no Brasil. à educação. em 25 de maio. o direito à vida. dois Protocolos: o Protocolo Facultativo sobre a Venda de Crianças. Lei n. o interessa maior da criança. exploração. levadas a efeito por autoridades administrativas ou órgão legislativos. de designar a denominação de criança aos seres FGV DIREITO rio 109 . da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente. Além de enumerar direitos específicos à criança. de 13 de julho de 1990. à criança. a Convenção estabeleceu ainda o Comitê sobre os Direitos da Criança. Prostituição e Pornografia Infantis e o Protocolo Facultativo sobre o Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados. 8. sociais e culturais.direitos humanos Aula 17: Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente NOTA AO ALUNO A Convenção sobre os Direitos da Criança. à saúde. ao lazer. à alimentação. crueldade e opressão. que criança é o ser humano com menos de 18 anos de idade. foram aprovados pela Assembléia Geral. à profissionalização. devem considerar.

igual em dignidade e respeito a todo adulto. Sendo assim. meses. que precisa de proteção especial em virtude de ser uma pessoa em desenvolvimento. os meios de disciplina e correção não são mais absolutos. já que esta. não há que se falar em melhor interesse da criança. conforme arts. 1º). tendo total liberdade para aplicá-lo o castigo que julgasse pertinente. Discutir a aplicação das normas internacionais e internas exige o recorte de algumas situações que poderão ser abordadas pelo grupo: Maus tratos: muito embora vigore hoje em dia o princípio do melhor interesse da criança. 126 127 128 Idem. mais conhecido como violência doméstica. CP – Expor a perigo a vida ou a saúde de pessoa sob sua autoridade. podendo. a desestruturação da família pode levar a atos violentos e agressivos contra a criança e o adolescente. quer abusando de meios de correção ou disciplina: Pena – detenção. matá-lo126. de quatro a doze anos. Isto porque em uma sociedade na qual o pai tem poder ilimitado em relação ao filho. o pai tinha poder disciplinar absoluto em relação ao filho. “Hoje. guarda ou vigilância. Ao entrar em vigor. de dois meses a um ano. cumpre salientar em primeiro lugar sua configuração como crime. § 1º – Se do fato resulta lesão corporal de natureza grave: Pena – reclusão. para fim de educação. Ressalte-se. dhnet. trata-se de uma conquista recente. No primitivo direito romano. por oportuno. Acesso em: 01 maio 2004. quer sujeitando-a a trabalho excessivo ou inadequado. Implementou a Doutrina Jurídica da Proteção Integral (art. o ECA revogou o Código de Menores. 13 e 245 do ECA. Idem. especificamente. uma vez que predomina na família a “lei do silêncio”128. tal como o Conselho Tutelar. que se exterioriza como abuso de poder disciplinar e de correção. anos). instituído no interesse dos filhos e da família. nesse contexto. § 2º – Se resulta a morte: Pena – reclusão. que está diretamente ligada à evolução histórica do conceito de pátrio poder. o pátrio poder é encarado como complexo de deveres em relação aos pais.org. Todavia. de um a quatro anos. Em relação aos maus tratos. 136. Dispõe o art.direitos humanos humanos até 12 anos incompletos e de adolescente para a idade entre 13 e 18 anos incompletos.br/denunciar/tortura/textos/nilton. do Código Penal (CP): Art.html. quer privando-a de alimentação ou cuidados indispensáveis. Disponível em: http://www. ensino. que todos os cidadãos têm o dever de denunciar os casos de maus tratos de que tenha conhecimento aos Conselhos Tutelares de sua localização. ‘derrubando’ tal nomenclatura e adequando o ordenamento jurídico nacional aos imperativos internacionais e constitucionais. 136. possibilitando a convivência do princípio do melhor interesse com a figura do pátrio poder. designando uma nova condição jurídica à criança e ao adolescente: passa a ser sujeito de direitos. ou multa. havendo denominação até de pátrio-dever”127. não sendo mais considerada como mera extensão da família. inclusive. Foi apenas com o cristianismo e com o desenvolvimento da sociedade que se foi exigindo moderação no uso do poder disciplinar. não tem “voz”. Tais violações não são levadas ao conhecimento de agências oficiais de proteção. tratamento ou custódia. tendo duração variável (dias. FGV DIREITO rio 110 .

direitos humanos § 3º – Aumenta-se a pena de um terço. o pai ou responsável que dá pimenta-do-reino à criança como forma de castigo. Disponível em: http://www. Entre os motivos para a falta de dados a respeito. FGV DIREITO rio 111 . 12 da Convenção sobre os Direitos da Criança possibilita a oitiva da criança nos processos judiciais ou no âmbito administrativo. 129 Acesso em: 01 maio 2004. bem como as seqüelas deixadas na criança e no adolescente que os impossibilitam de denunciar: a vítima não fala e não anda131. Como exemplo de maus tratos. conforme seja adequado. na qualidade de filho ou sob custódia ou vigilância.php. distúrbios de comportamento – 10%. a atuação dos Conselhos Tutelares129. é necessário ainda mais um elemento: expor a perigo a vida ou a saúde da criança ou do adolescente. 45 do ECA referem-se expressamente a hipóteses em que a criança e o adolescente devem ser ouvidos. uma vez que esse tribunal estabelece parâmetros a serem observados pelos Estados-partes da Convenção Americana de Direitos Humanos a respeito dos direitos da criança e do adolescente. por conseguinte. (iii) as principais causas são: alcoolismo – 50%. 130 131 Idem. cerebromente. responsáveis – 14%. Disponível em: http://www.redeamiga. e sujeito passivo a criança ou adolescente que. pai – 33%. salientem-se dados de 1996 sobre São Paulo130: (i) a maior incidência de maus tratos ocorre contra crianças na faixa etária de 0 a 6 anos – 60%.º do art. distúrbios psiquiátricos – 10%. “102. tem-se a predominância da “lei do silêncio”. tornando difícil. Nesse sentido. procurar-se-á o maior acesso do menor. (ii) a autoria das agressões se distribui da seguinte forma: mãe – 43%.br/noticia. é sujeito ativo do crime os pais ou responsáveis pela guarda ou vigilância da vítima. Em conclusão. Paralelamente o § 1. desorganização familiar – 30%. na determinação dos seus direitos.br/n04/doenca/infancia/persona. A Corte Interamericana de Direitos Humanos manifestou-se sobre o tema no contexto da Opinião Consultiva n. dentre os quais a inexistência de dados confiáveis sobre a ocorrência dos mesmos no lar familiar no brasileiro.” Diante da inexistência de regras claras sobre a ponderação do melhor interesse da criança em face de processos administrativos e judiciais. seja no âmbito administrativo. 19. na medida do possível. destaquem-se: o pai ou responsável que coloca o menor de joelhos por longo tempo a ponto de colocar em perigo a saúde da vítima. o aplicador do direito. Os maus tratos contra criança e adolescente são difíceis de serem identificados em virtude de uma série de fatores. Sugere-se a leitura de seu inteiro teor. Tânia da Silva Pereira enumera algumas condições objetivas que podem contribuir para o exercício deste direito de ser ouvido: Acesso em: 01 maio 2004.htm. for submetido a um dos tratamentos estabelecidos no artigo acima. mãe e pai – 10%. 28 e ao art. se o crime é praticado contra pessoa menor de 14 (catorze) anos. Para a configuração do crime. Participação de crianças e adolescentes em processos administrativos e judiciais: o art. deverá levar em conta as condições específicas do menor e seu interesse superior a fim de ajustar a participação deste. Apesar da falta de dados nacionais a respeito. Com esta consideração.org. na análise de seu próprio caso. seja no judicial.org.

tortura e assassinato de ‘menores’ e omissão dos mecanismos do Estado guatemalteco em oferecer o acesso à justiça aos familiares das vítimas. Criar condições que facilitem a expressão espontânea da criança. ou “Niños de la Calle”. Abreu Burelli: “3. Trata-se de caso de seqüestro. Não forçá-los a se exprimirem ou se manifestarem caso não estiverem preparados. constante do Voto concorrente Conjunto dos Juízes A. 8. 7. de 26 de maio de 2001. Rio de Janeiro: Renovar. Sugere-se que o debate ocorra tendo como ponto de partida a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos referente ao caso Villagrán Morales e Outros versus Guatemala. sua oitiva deve representar uma forma de expressar sua opinião e preferência sobre a situação conflitante. 6. Adaptar os procedimentos com vistas a garantir a manifestação autêntica da vontade da criança ou do adolescente.A. a palavra da criança e do adolescente. 3. Cançado Trindade e A. evitando situações de angústia e linguagens técnicas incompreensíveis. 31. FGV DIREITO rio 112 . 2000. Tânia. Cabe destaque a seguinte passagem. referido apenas à proibição da privação arbitrária da vida física. assim como no social. p. Convocá-los a participar dos procedimentos de mediação familiar destinados a solucionar conflitos que envolvam sua pessoa e seus interesses. permitindo-lhe expressar seus interesses e conflitos com maior liberdade. e c) determinam a especial gravidade das práticas sistêmicas de violência contra crianças e adolescentes em situação de risco. 2. Considerar seus sentimentos e pensamentos na solução dos conflitos que lhes digam respeito. Favorecer a intervenção de profissionais especializados que possam interpretar. de maneira apropriada. uma vez que: a) enfatiza a peculiaridade de tais sujeitos no aspecto jurídico. O melhor interesse da criança: um debate interdisciplinar. sociais e culturais. tal depoimento nunca deverá ser prestado na presença dos pais. O direito à vida não pode continuar sendo concebido restritivamente. 4. como foi no passado. político e econômico. realidade cada vez mais presente nas grandes cidades brasileiras. Evitar a convocação da criança e do adolescente como testemunha de um dos pais contra o outro. A decisão constitui um marco na proteção da criança e do adolescente em todo o continente. por ocasião do filme Ônibus 174. Tal ponto retoma a discussão travada na Aula 1. Cremos que há diversos modos de privar uma pessoa arbitrariamente da vida: quando é 132 SILVA PEREIRA. 5. Fornecer à criança e ao jovem todas as informações relativas à sua situação e ao assunto sobre o qual deverá emitir sua opinião . Assumir a “Curadoria Especial” como a alternativa de interferir nos procedimentos para fazer valer os direitos de seu representado.”132 “Meninos de Rua”: uma terceira sugestão de assunto a ser abordado pelo grupo trata dos meninos de rua. 9. de 19 de novembro de 1999. b) destaca a indivisibilidade dos direitos civis e políticos e os direitos econômicos. Cumpre destacar ainda a sentença de reparações.direitos humanos “1.

).cr/seriec/index_ c. atinente à morte de meninos por agentes policias do Estado. SILVA PEREIRA. há a circunstância agravante de que a vida dos meninos já carecida de qualquer sentido. 2002.”134 O estudo de tal decisão apresenta semelhanças intransponíveis com o caso da Chacina da Candelária. Cançado Trindade e A. quer dizer.A.or.cr). DELLORE.or. In: PIOVESAN. São Paulo: Atlas. Disponível em: http://www. São Paulo: Max Limonad. “Os direitos humanos das crianças e dos adolescentes no direito internacional e no direito interno”. 277-297. pp. Direito Internacional dos Direitos Humanos. Tânia. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. 2003.html. e PIROTTA. a qual transferiu o Rio de Janeiro do noticiário internacional de turismo para o de violação de direitos humanos. assim como quando não se evitam as circunstâncias que igualmente conduzem à morte de pessoas como no cas d’espèce.corteidh. os meninos vitimados já se encontravam privados de criar e desenvolver um projeto de vida e de procurar um sentido para sua própria existência. 2000. pp. No presente caso Villagrán Morales versus Guatemala. Leitura acessória: Corte Interamericana de Direitos Humanos. corteidh. 76-86. Flávia. Villagrán Morales vs. Cláudia (orgs. In: ALMEIDA. Voto concorrente Conjunto dos Juízes A. Flávia. de 1990.direitos humanos provocada sua morte diretamente pelo fato do homicídio. Maria Beatriz Pennachi. Temas de Direitos Humanos. Legislação: Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança Constituição Federal Estatuto da Criança e do Adolescente Acesso em: 04 julho 2005. Rio de Janeiro: Renovar. Wilson Ricardo Buquetti. Guilherme de. 134 FGV DIREITO rio 113 . Opinião Consultiva n. de 28 de agosto de 2002 (www. e PERRONE-MOISÉS. “Convenção dos Direitos da Criança”. Abreu Burelli. Guatemala. 17. O melhor interesse da criança:um debate interdisciplinar.

os Estados reuniram-se em duas conferências de reduzida repercussão na sede a própria ONU. social. in casu étnico-cultural. da Convenção. o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação Racial (CERD). No âmbito global. Este é composto por 18 peritos. promulgada em 1965 e que passa a vigorar em 1969. a Convenção criou o seu treaty body. Para que não haja contradição entre esses termos. à manutenção de direitos separados para diferentes grupos raciais e não prossigam após terem sido alcançados os seus objetivos. estando seu cumprimento condicionado à adesão voluntária. em seu artigo 8o. contanto que tais medidas não conduzam. exclusão. eleitos pelos Estados-partes a título pessoal. De acordo com o artigo 1o. Ao ratificar a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial. ambas realizadas durante a Primeira Década de Combate ao Racismo e à Discriminação Racial iniciada em 1973. Por outro lado. gozo ou exercício em um mesmo plano (em igualdade de condição) de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político.direitos humanos Aula 18: Os direitos humanos sob a perspectiva racial NOTA AO ALUNO A Aula 18 destina-se à continuidade do estudo do processo de especificação do sujeito. cor. restrição ou preferência baseada em raça. Para a coordenação de tais mecanismos. os Estados partes comprometem-se a uma dupla obrigação: eliminar as formas constantes de discriminação e promover a igualdade. excluindo do campo das medidas reprovadas pela Convenção as que promovem a discriminação positiva. destacando-se perspectiva racial. logo seguida pela Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial. A Convenção dispõe de 3 mecanismos de monitoramento: apresentação de relatórios. conforme resoluFGV DIREITO rio 114 . dentre os quais se encontra hoje o brasileiro Embaixador Lindgren Alves. Em 1978 e 1983.1 estabelece a conformidade das medidas de discriminação positiva: não serão consideradas discriminação racial as medidas especiais tomadas com o único objetivo de assegurar o progresso adequado de certos grupos raciais ou étnicos ou de indivíduos que necessitem da proteção que possa ser necessária para proporcionar a tias grupos ou indivíduos igual gozo ou exercício de direitos humanos e liberdades fundamentais. Trata-se de um exemplo de implementação do power of embarrasment. descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto ou resultado anular ou restringir o reconhecimento. O CERD emite recomendações no sentido de melhor orientar atuação estatal. cultural ou em qualquer outro campo da vida pública. é importante compreender discriminação como aquela que viola direitos. inerente ao campo da política internacional. comunicações interestatais e comunicações individuais. a Declaração contra a Discriminação Racial (1963) foi um dos primeiros documentos da ONU a retratar a especificação do sujeito. econômico. discriminação racial significa toda distinção. o artigo 1. em conseqüência.

58 ministros de Relações Exteriores e 44 ministros de outras pastas e quase 4 mil representantes de organizações não-governamentais reuniram-se para a Terceira Conferência. xenofobia e intolerância correlata. p. defenderam a definição ALVES.] Isto não implica negação do conceito de raça como motivo de discriminação. In: Os direitos humanos na pós-modernidade. Todavia. José Augusto Lindgren. com o apoio do Brasil. outras polêmicas conduziram a conferência ao risco de esvaziamento. juntamente com as teorias que tentam determinar a existência de raças humanas distintas [. 1o da Convenção (de 1965). FGV DIREITO rio 115 . segundo definidas pelo Art. à discriminação racial. apesar dessa equiparação já ter sido afastada pela própria ONU desde 1991: no acirramento das discussões entre Israel e países árabes. regional e internacional.300 delegados oficiais de 163 países. causas. educação e proteção voltadas para a erradicação do racismo. simbolicamente em pleno solo sul-africano. não restando energia para o debate acerca de outras formas de racismo. sepultado em 1994 com a posse do Nelson Mandela. p. Discriminação Racial. da xenofobia e da intolerância correlata nos níveis nacional. Dentre as polêmicas que permearam o encontro. Medidas de prevenção. De qualquer forma. dentre eles 16 chefes de Estado ou de Governo. Países Africanos e asiáticos. 137. Dentre os temas escalados para a discussão. vingou o posicionamento da ONU. discriminação racial. Estratégias para alcançar a igualdade plena e efetiva. poderia colocar em risco a razão mesma da Conferência. destacam-se: a) a identificação do sionismo como uma forma de racismo. é claro que. que ainda existem em todo o mundo. caso esgarçadas ao extremo. denominada Conferência Mundial de Combate ao Racismo. restou no texto menção ao fato de que os Estados da União Européia rechaçam firmemente qualquer doutrina que proclame a superioridade racial. da discriminação racial. Vítimas de racismo. a afirmação das diferenças culturais protagonizou o debate sobre a tolerância e o enfrentamento à discriminação. assim como medidas [compensatórias] e de outra ordem nos níveis nacional. à xenofobia e à intolerância correlata. regional e internacional. formas e manifestações contemporâneas de racismo. temos: • • • • • Fontes. 2. 124.. Em 2001. O argumento trazido à baila por certas delegações européias. assim como o acompanhamento de sua implementação. correção.direitos humanos ção da Assembléia Geral. Provisão de remédios efetivos. São Paulo: Perspectiva. 2005. e b) as reparações devida pelo regime colonial. Todavia. xenofobia e intolerância correlata. qualquer foro multilateral acabaria por centrar todas as atenções no regime do apartheid da África do Sul. assim como dos tratados que condenam práticas racistas. na cidade de Durban. no contexto desse período. recursos.. discriminação racial. inclusive por meio da cooperação internacional e do fortalecimento das Nações Unidas e outros mecanismos internacionais para o combate ao racismo.135 Nesse primeiro fórum de direitos humanos do século XXI. 135 136 Ibid. “A conferência de Durban contra o racismo e a responsabilidade de todos”. nem negação das manifestações de racismo e discriminação racial.136 A complexidade dos temas tratados não afasta o impasse mesmo em questões essenciais como a existência ou não de raças.. Xenofobia e Discriminações Correlatas.

em condições tão adversas. Estes podem ser utilizados como guias à atuação dos Estados. Ingrid. ou como instrumento semijurídico para cobranças das sociedades aos governos. mudança essa que expressa arrependimento sem acarretar responsabilização internacional. 2002. ativo participante nos trabalhos de Durban: “a verdade é que Durban foi a melhor conferência que se poderia realizar sobre temas tão abrangentes. Muito mais do que isso. o Brasil tem capitaneado liderança nos foros internacionais. os países em desenvolvimento conseguiram a manifestação da Conferência no sentido de que injustiças históricas constituíram a raiz para a pobreza e o subdesenvolvimento. 139. foi para rejeitar a reapresentação extemporânea de propostas superadas) representa. Por outro lado. havendo já apresentado.”138 Mais além do exame dos principais tratados que se referem aos direitos humanos sob a perspectiva racial. Por um lado. os documentos de Durban trazem novos conceitos e compromissos importantes. Direito Internacional dos Direitos Humanos. fato esse que justifica a implementação de metas internacionais baseadas no alívio das dívidas externas. L. a Constituição Federal estabeleceu entre os direitos e garantias fundamentais que: ALVES. já se mostrava cada dia menos favorável ao multilateralismo e à diplomacia parlamentar. O simples fato de ela ter tido seus documentos finais adotados sem voto (a votação havida. transferência de tecnologia. Cláudia (orgs. Guilherme de. Como sintetiza Lindgren Alves.A. foi compactuada a utilização da expressão ‘lamento’ no lugar de ‘desculpas’ pelos fatos do passado. questões referentes à discriminação por orientação sexual. como já dito. um progresso com relação à conferências de 1978 e 1983. FGV DIREITO rio 116 . Crime de racismo 137 CYFER. 138 Em consonância com os parâmetros delineados pela Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Eliminação do Racismo. 35. erradicação da pobreza. internamente ou em ações internacionais. p. Instrumentos básicos. J. a diplomacia brasileira achou por bem a retira da proposta nas duas ocasiões. e PERRONE-MOISÉS. op. São Paulo: Atlas.). etc. “Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965)” In: ALMEIDA. ensejando posicionamento contrário por parte dos Estados Unidos e União Européia. Ao considerar mais traumática a derrota de tal proposta que a não submissão ao voto. como se não bastasse a doxa econômica neoliberal (para falar com Bourdieu) avessa a preocupações sócias.137 Importante ressaltar que foi em Durban que se manifestaram expressamente alguns países. nos anos de 2003 e 2004. no sentido do identificar. liderados pelo Brasil. A tensão do debate conduziu a um termo de compromisso no esforço de não esvaziamento da reunião. porém. p. cit. posicionamento esse que implicaria em compensações. é sempre bom lembrar. resoluções no âmbito da Comissão de Direitos Humanos da ONU que classificam a discriminação por orientação sexual como uma violação de direitos humanos.direitos humanos da escravidão como crime contra a humanidade. nos casos de intolerância correlata. numa situação internacional que. é importante ressaltar alguns temas específicos que poderão ser tratados com mais detalhe pelo grupo responsável pelo Seminário da Aula 18. A partir de então. particularmente para o combate ao racismo estrutural.

a Lei nº 7. cor. De acordo com o Código Penal. persiste a resistência por parte dos órgãos do Ministério Público e do Judiciário em estabelecer a responsabilidade penal pelo crime de racismo. 5º XLII – a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível. de 1(um) a 6 (seis) meses. nos termos da lei. ou multa § 1º O juiz pode deixar de aplicar a pena: I – quando o ofendido. sujeito à pena de reclusão. de 3 (três) meses a 1 (um) ano. § 3º Se a injúria consiste na utilização de elementos referente a raça. 140. tendo-lhe atribuído características excepcionais como a inafiançabilidade e a imprescritibilidade. Importante ressaltar a maneira com que o constituinte admitiu o crime de racismo. Tendo em vista o princípio da legalidade. a iniciativa legislativa não significou necessariamente seu acatamento por parte da jurisprudência. e multa. FGV DIREITO rio 117 .direitos humanos Art. Todavia. de 05 de janeiro de 1989. A pesquisa sobre decisões referentes ao crime de racismo e de injúria que tenha a utilização de elementos referentes à raça. provocou diretamente a injúria. Populações remanescentes de quilombos Outro tema de fundamental importância quando se estuda direitos humanos sob a perspectiva racial no Brasil são as populações remanescentes de quilombos. Talvez pela rigidez com que é tratado o crime de racismo. cor. de forma reprovável. Além do exame perante os tribunais nacionais – Tribunal de Justiça. que consista em outra injúria. ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro: Pena – detenção. a injúria. por sua natureza ou pelo meio empregado. é possível afirmar o crime de racismo é comparado aos crimes de tortura. etnia.716. que . o Decreto-lei nº 2848. etnia. § 2º Se a injúria consiste em violência ou vias de fato. aos crimes definidos como hediondos e à ação armada contra o Estado Democrático de Direito. Em uma análise sistêmica (artigo 5º. além da pena correspondente à violência. II – no caso de retorsão imediata. Incentiva-se a leitura dessa lei. em especial das condutas consideradas típicas pelo legislador. terrorismo. de 07 de dezembro de 1940: Art. se considerem aviltantes: Pena – detenção. religião ou origem. Superior Tribunal de Justiça e Supremo Tribunal Federal – e em instâncias internacionais sugere a dificuldade em se lidar com situações em que é considerado o elemento racial. religião ou origem: Pena – reclusão de um a três anos e multa. desclassificando a conduta para um dos crimes contra a honra. tráfico de entorpecentes. incisos XLIII e XLIV). Injuriar alguém. estabeleceu os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor.

o Decreto n. devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos. reconhecimento. 4887. delimitação. formaram-se em todo o país centros de resistência para os quais se direcionavam escravos fugidos.. e procedimento: cabe à Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura a expedição de certidão referente à autodefinição. Ainda. Tendo como pressuposto a formação multicultural brasileira. delimitação. notadamente durante o século XIX. o qual regulamenta o procedimento para identificação. Por sua vez. consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos. Foi precisamente nesse sentido que o Poder Executivo expediu. a Constituição brasileira determinou que: Art. segundo critérios de auto-atribuição. os grupos étnico-raciais. cumpre ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA. compete à Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida. Cabe especial atenção ao Ato das Disposições Constitucionais Transitórias: Art. A Carta Constitucional criou assim uma titularidade coletiva de propriedade para aqueles que ocupam determinada terra e se reconhecem enquanto remanescentes de quilombos. em celebração ao Dia Nacional da Consciência Negra.. cabe ressaltar: • definição: de acordo com o artigo 2o. demarcação e titulação das terras. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos de que trata o art. do Distrito Federal e dos Municípios. dotados de relações territoriais específicas. portadores de referência à identidade.) § 5o Ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos. A designação geográfica deu origem ao contorno sócio-cultural das populações remanescentes de quilombos.direitos humanos Como se sabe. no dia 20 de novembro de 2003. reconhecimento. com trajetória histórica própria. tomados individualmente ou em conjunto. da Presidência da República (SEPPIR/PR). nos quase se incluem: (. Dentre os pontos mais relevantes dessa normativa. à ação. 216. no processo FGV DIREITO rio 118 • . à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. A assinatura da Lei Áurea não trouxe mudança significativa para a vida de muitos brasileiros que já se viam engajados em um novo contexto social. 68 Aos remanescentes das comunidades de quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial. a identificação. sem prejuízo da competência concorrente dos Estados.

Tal omissão não é por acaso. 26 –A. Diversos quilombos já foram ou encontram-se em vias de regularização.direitos humanos de regularização fundiária. Ironicamente. Políticas de Ação Afirmativa Por mais que os alunos já tenham explorado o tema das Políticas de Ação Afirmativa no bojo da Disciplina Direito Constitucional I. notadamente após a edição do referido decreto. sendo elas atacadas ou defendidas. Sob a administração de George Bush. oficiais e particulares. trata-se de um tema inescapável quando se trata da perspectiva racial.524/2000. O país que primeiro implementou tais políticas sabotou sua discussão durante o evento. De forma inédita. a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional. foi sancionada a Lei nº 10. Alteração curricular Interpretada por alguns como política de ação afirmativa. resgatando a FGV DIREITO rio 119 . Nenhuma linha foi dedicada a tais políticas quando a Aula 18 referiu-se à importância da Conferência de Durban. criando os seguintes novos artigos: Art. e por conseqüência. Em 09 de janeiro de 2003. a intensa participação da sociedade civil brasileira nas conferências regionais e os mais de 200 ativistas nacionais que compareceram a Durban giraram os holofotes do debate nacional em direção às políticas de ação afirmativa. a mídia passou a conceder espaço diário às supostas implicações que teria a aplicação de tais políticas no contexto social brasileiro. foi inescapável a conquista de um lugar ao sol para tais medidas. censurada externamente pelos seus representantes. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio. a qual altera a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e inclui a matéria no currículo oficial da Rede de Ensino. Por mais que tal debate tenha sido ofuscado pelos ataques terroristas às Torres Gêmeas de Nova Iorque. a luta dos negros no Brasil. tais políticas já vinham sendo lentamente desmontadas internamente.639. Trata-se de processo administrativo que visa precisamente à garantia de uma titularidade coletiva no contexto de um país multicultural. o qual prescreveu atribuições e procedimentos próprios. garantir os direitos étnicos e territoriais dos remanescentes das comunidades dos quilombos. torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura § 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos. a implementação do estudo de História e Cultura Afro-brasileira deve ser entendida como um importante passo para a compreensão do Brasil como um Estado multi-étnico e multicultural. mais especificamente em atividade sobre a Lei Estadual do Rio de Janeiro nº 3.

É preciso ter clareza que o art. Flávia. pp. condições oferecidas para aprendizagem. Direito de igualdade racial: aspectos constitucionais. In: PIOVESAN. pp. Luciana. 24-38. LINDGREN ALVES. civis e penais: doutrina e jurisprudência. com fortes repercussões pedagógicas. PIOVESAN. pp. pedagógicas. In: ALMEIDA. Flávia. reconhece-se que. Leitura acessória: CYFER. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. Direito Internacional dos Direitos Humanos. Tantos outros poderiam ser aqui apontados para o debate. Priscila Kei. 2002. sociais. SILVA JR. buscando repara danos. 10. homologado pelo Ministro da Educação em 19 de maio de 2004. mas de ampliar o foco dos currículos escolares para a diversidade cultural. uma vez que devem educar-se enquanto cidadãos atuantes no sei de uma sociedade multicultural e pluriétnica. A relevância do estudo de temas decorrentes da história e cultura afro-brasileira e africana não se restringem à população negra. Legislação: Constituição Federal de 1988 Indica o parecer que “a obrigatoriedade de inclusão de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nos currículos da Educação Básica trata-se de decisão política. Em Parecer nº 003/2004. também as contribuições histórico-culturais dos povos indígenas e dos descendentes de asiáticos. editando assim a Resolução nº 1. de 10 de março de 2004139. “Implementação do Direito à Igualdade”. além de garantir vagas para negros nos bancos escolares. São Paulo: Perspectiva. 2005. que proporciona diariamente. Hédio. à sua identidade e a seus direitos. 113-140. José Augusto. A leitura de tais documentos torna-se importante na medida em que fundamentam razões e efeitos da modificação curricular. capazes de constituir uma nação democrática. Com essa medida. objetivos tácitos e explícitos da educação oferecida pelas escolas. dizem respeito a todos os brasileiros. inclusive na formação de professores. que se repetem há cinco séculos. o Conselho Nacional de Educação manifesta no sentido de regulamentar as alterações advindas da Lei no. e SATO. Guilherme de. cabe ao Poder Público e à sociedade civil a luta para a promoção de uma sociedade sem discriminação. de 17 de junho de 2004. 2002. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como ‘Dia Nacional da Consciência Negra’. São Paulo: Max Limonad. exige que se repensem relações étnico–raciais. 2003. 191-203.” 139 FGV DIREITO rio 120 . São Paulo: Editora Juarez de Oliveira. racial. É importante destacar que não se trata de mudar um foco etnocêntrico marcadamente de raiz européia por um africano. Nesta perspectiva. 26-A acrescido à Lei 9394/1996 provoca bem mais do que inclusão nos novos currículos.639. In: Os direitos humanos na pós-modernidade. São Paulo: Atlas.). em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras. Temas de Direitos Humanos. é preciso valorizar devidamente a história e cultura de seu povo. “A conferência de Durban contra o racismo e a responsabilidade de todos”. Art. e PERRONEMOISÉS. econômica e política pertinentes à História do Brasil.direitos humanos contribuição do povo negro nas áreas social. Cláudia (orgs. Foram aqui expostos alguns temas relacionados à especificação do sujeito de direitos humanos sob a perspectiva racial. ao contrário. Ingrid. “Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965)”. O importante é perceber que. procedimentos de ensino. cabe às escolas incluir no contexto dos estudos e atividades. Instrumentos básicos. muito além da discussão acerca da raça e os métodos para a sua designação. § 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar. além das raízes africana e européia.79-B. social e econômica brasileira.

716/1989 (crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor) Lei nº 10.639/2003 (institui o estudo de História e Cultura Afro-brasileira) FGV DIREITO rio 121 .direitos humanos Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial Declaração e Plano de Ação de Durban Lei nº 7.

3) Organização dos Estados Americanos: tanto a Convenção Americana de Direitos Humanos quanto o Protocolo de San Salvador guardam artigos que são de especial interesse dos povos indígenas. Por sua vez. é aprovada a Convenção 169141. ou ao receber denúncias individuais ou interestatais – se for o caso. Acesso em: 10 março 2005. Promulgada em 19 de abril de 2004.140 2) Organização Internacional do Trabalho: desde o início do século XX. Tendo em vista a peculiaridade do tema para o continente americano. referente aos Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes. Cabe destaque ainda à jurisprudência da Corte 140 Campaña educativa sobre derechos humanos y derechos indígenas: módulos temáticos. a OIT examina casos de trabalho forçado a que são submetidos povos indígenas. A Declaração de Viena de 1993 estabeleceu o compromisso dos Estados em respeitar os direitos humanos e liberdades fundamentais dos povos indígenas. Convenção 169 da OIT. o Conselho Econômico e Social criou o Grupo de Trabalho sobre Populações Indígenas. 41-49. a Comissão de Direitos Humanos estabeleceu um Grupo de Trabalho aberto para elaborar um projeto de declaração. Aos povos indígenas são garantidos direitos específicos. 141 FGV DIREITO rio 122 . ainda não há prazo para a conclusão do documento. 2003. San José: Instituto Interamericano de Derechos Humanos. educação e participação. formado por cinco expertos independentes que são membros da Subcomissão de Promoção e Proteção dos Direitos Humanos (Subcomissão). ao examinarem relatório enviado pelo Estado-parte. Já realizadas 5 reuniões de trabalho. possibilitou-lhes a reivindicação de terra. em 1989. cujos trabalhos ainda não foram encerrados. ocorrida a última em fevereiro de 2005. Em 1957. Em março de 1995.direitos humanos Aula 19: Direitos Humanos e a questão indígena NOTA AO ALUNO Há. tão fundamental ao exercício dos demais direitos. a Conferência-Geral editou a Convenção nº 107 sobre populações indígenas e outras populações tribais e semitribais nos países independentes. Os treaty bodies são criados no intuito de possibilitar o monitoramento dos tratados de direitos humanos. Cumpre registrar que a ausência de um tratado específico não significa a negativa de proteção dos direitos dos povos indígenas. encontra-se em processo de elaboração o Projeto de Declaração Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas.org/pib/portugues/direito/ conv169. correspondente a 11% do território nacional – sendo que 95% das terras se concentram na Amazônia. Não obstante ter sido o primeiro marco protetivo dos direitos indígenas no panorama internacional. O conhecimento de seus direitos. no Brasil. a referida convenção refletiu visão dominante nesse período caracterizada pelo protecionismo estatal e pelo assimilacionismo. a Convenção nº 169 deverá permear toda a aula.shtm#ti.000 cidadãos indígenas. poderá examinar a especificidade da questão indígena. Disponível em: http://www. tendo em vista sua extrema importância para o tema. a qual descredencia qualquer visão integracionista e explicita direitos fundamentais dos povos indígenas como a terra. em torno de 330. em cada um dos âmbitos de proteção: 1) Organização das Nações Unidas: em 1982. pp. população essa configurada por mais de 170 línguas. sobretudo pelo aumento da participação indígena na vida política. saúde.socioambiental.

asp. p. Disponível em: http://www. 143 144 Para maiores informações. 3a) serem imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar. 1993. acesse o site do Conselho Indígena de Roraima. (c) o caso Raposa Serratêm do Sol o quadro. 4) Constituição Federal: a proteção aos índios pode ser considerada um dos pontos mais difíceis e controvertidos do trabalho do constituinte. FGV DIREITO rio 123 . XI CF). a propriedade é inalienável.br/raposaserradosol. Localiza-se a nordeste do Estado de socioambiental. Objetivo Homologação da área contínua. todas necessárias e nenhuma suficiente sozinha. ao longo dos anos. o caso da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. 142 SILVA. os quais possuem direitos originários sobre a terra e. Maú. poderá auxiliar na condução desse ponto específico: Terra Indígena Raposa Serra do Sol144 Terra Indígena Raposa Serra do Sol317 145 Acesso em: 01 julho 2005. (ii) tal propriedade é vinculada à posse permanente dos índios. Cabem aqui algumas considerações: (i) as terras indígenas são consideradas bens da União (artigo 20. mas seexemplo. atividade produtiva. Surumú e a fronteira com a Venezuela. Taurepang e Patamona. cerimonial e comercial – gundo o modo de ser deles.”143 316 . No caso Aloeboetoe vs. que tem estabelecido. indisponível e imprescritível. com as populações vizinhas ressalte-se Nesse contexto normativo. celebram relações de várias naturezas – matrimonial. costumes e tradições. em especial a organização das famílias. Suriname142. Ingarikó. Acesso em: 10 março 2005. o tribunal reconheceu os costume indígena como fonte de direito. modo de utilização. Disponível em: http://www. Porto Alegre: Núcleo de Direitos Indígenas e Sergio Antonio Fabris Editor. importante contribuição para o fortalecimento dos direitos dos povos indígenas. “Terras tradicionalmente ocupadas pelos índios”. José Afonso. 4a) serem necessárias à reprodução física e cultural. In: Os direitos indígenas e a Constituição. 47. (iii) a base do conceito de terras tradicionalmente ocupadas pelos índios encontra-se no artigo 231. abaixo. 2a) serem por eles utilizadas para suas atividades produtivas. 318 Dados gerais É a habitação ancestral dos povos Macuxi.cir. uma vez que retrata de forma bem clara a luta pelo reconhecimento da terra e os obstáculos que os índios que: ultrapassar nesse caminho. de sorte que não se vai tentar definir o que é habitação permanente. a visão do modo de produção capitalista ou socialista.000 habitantes. Disponível em: http://www.org/nsa/ detalhe?id=1886. Wapichana. da cultura deles. corteidh. segundo a visão civilizada. entre os rios Tacutu.cr/seriec/index_ c. Tem uma população estimada em 15. por isso. “fundado em quatro condições. com vistas ao pagamento de indenizações. Miang. parágrafo 1o. tudo segundo seus usos. Roraima. 145 Acesso em: 10 março 2005. a visão do bem-estar do nosso gosto.html.direitos humanos Interamericana de Direitos Humanos. a saber: 1a) serem por eles habitadas em caráter permanente.or.org. ou qualquer das condições ou termos que as compõem.

o Mandado de Segurança foi rejeitado pelos juizes do Superior Tribunal de Justiça.gov. Em 15. argumentando os direitos de ir e vir dos moradores nos referidos núcleos. Disponível em: http://www. Disponível em: http://ef. alterando o que estava disposto no ato normativo anterior. brasiloeste. Disponível em: http://www.2005. FGV DIREITO rio 124 . Fixou a dimensão e limite da área.br/noticia/1363/stf-raposa-serra-dosol. excluindo da área as instalações do 6º Pelotão Especial de Fronteias e reconhecendo a unidade administrativa municipal de Uiramutã.210). Taurepang e Patamona. Tem uma população estimada em 15. voltou a impedir a homologação em área contínua da terra indígena. com pedido de liminar contra o Ministério da Justiça. o presidente Lula assinou decreto homologando a área indígena Raposa Serra do Sol de forma contínua150. No dia 27 de novembro de 2002. Wapixana e Taurepang. Concedida Liminar Parcial ao Mandado de Segurança: o ministro relator Aldir Passarinho suspendeu os efeitos da portaria quanto aos núcleos urbanos e rurais instalados antes da sua expedição. Solicitam que todos mandem uma caneta para o presidente Lula. htm. a fim de anular a Portaria declaratória. Em 03.001/1973 e o Decreto 1. 534. o processo extinto sem julgamento do mérito e a liminar parcialmente revogada. o STF “julgou prejudicadas as ações judiciais ‘pela perda do objeto’. que não seja por falta de caneta!”146. Art.br/guia3/detalhes.05. dentro das terras Raposa Serra do Sol. Acesso em: 30 abril 2005. em 1995. 7º. As comunidades indígenas lutam há mais de 30 anos pelo reconhecimento definitivo da terra aos seus legítimos habitantes. CF. Em 14. justica.000 habitantes. entre os rios Tacutu. O caso no STF Acesso em: 10 março 2005. Trata-se de ato administrativo de competência do presidente da República. Homologação da terra Acesso em: 30 abril 2005. “Se só for preciso uma canetada. Surumú e a fronteira com a Venezuela. Trata-se de uma campanha do Conselho Indígena de Roraima (CIR) em parceria com Rainforest Foundation para pressionar o Governo Federal a homologar a terra. (iii) incentivo a Ongs para a divisão do território entre as comunidades. cit. Miang. a ministra do STF Ellen Gracie suspendeu a Portaria 820/ 98 do Ministério da Justiça147. destacamse: (i) criação do município de Uiramutã. org. A luta Respaldo legal Portaria n.05.775/1996. alvo da contestação”149.direitos humanos Dados gerais Objetivo É a habitação ancestral dos povos Macuxi. Homologação da área contínua. Maú.2005. devido à edição de uma nova portaria do Ministério. 149 150 Idem. 147 148 Portaria n.amazonia. de 13 de abril de 2005 – Define os limites da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. A decisão liminar atendeu a uma Ação Cautelar ajuizada pelo senador Mozarildo Cavalcanti (PPS-RR) e. Art. Macuxi. assim. de n° 534148. juntamente com uma carta requerendo a homologação. op. 820 de 11/12/98 Ação judicial Homologação de Raposa Serra do Sol A campanha 146 Conselho Indígena de Roraima. 231. Ingarikó.01. Convenção 169 da OIT Assinada pelo ex ministro da Justiça Renan Calheiros: declarou ser a Terra Indígena Raposa Serra do Sol posse tradicional permanente dos povos indígenas Ingarikó.2005.br/noticias/2005/ Abril/rls150405homologacao. Dentre os empecilhos criados pelo Governo Estadual para impedir a homologação da terra contínua. É uma fase do procedimento demarcatório das terras indígenas. (ii) criação do Parque Nacional Monte de Roraima e do 6º Pelotão Especial de Fronteiras do Exército Brasileiro. cfm?id=157084&tipo=7&cat_ id=92&subcat_id=1. Localiza-se a nordeste do Estado de Roraima. que poderá fazê-lo por meio de um decreto. O Governo do Estado de Roraima impetrou no STJ Mandado de Segurança (n° 6. conforme dispõe a Lei 6. Wapichana.com.

“Terras tradicionalmente ocupadas pelos índios”. João Pacheco. SILVA. 12 (liberdade de consciência e de religião). em 29 de março de 2004. e enumera todas as medidas que vinham sendo adotadas no sentido da promoção de tais povos indígenas. Os peticionários argumentam que o Estado brasileiro teria violado os artigos 21 (direito à propriedade privada). 1993. Rio de Janeiro: Contra Capa. Por ocasião da homologação da TI Raposa Serra do Sol. 22 (direito de circulação e residência) e 25 (direito à proteção judicial) da Convenção Americana de Direitos Humanos (a “Convenção”) e os direitos I (direito à vida e à integridade da pessoa). MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: Campaña educativa sobre derechos humanos y derechos indígenas: módulos temáticos. José Afonso. In: Os direitos indígenas e a Constituição. Legislação: Constituição Federal Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho FGV DIREITO rio 125 .direitos humanos Processo na CIDH Conselho Indígena de Roraima (CIR) e a Rainforest Foundation protocolaram denúncia contra o Estado brasileiro. uma vez que não teriam sido esgotados os recursos internos. rotinas e saberes coloniais no Brasil contemporâneo. Patamona e Taurepang por não demarcar suas terras e promover a colonização continuada das mesmas. 15-68. 05 (direito à integridade pessoal). 4 (direito à vida). OLIVEIRA. O Estado brasileiro argumenta pela inadmissibilidade do caso. Macuxi. San José: Instituto Interamericano de Derechos Humanos. IX (direito à inviolabilidade de seu domicílio). 2003. “Redimensionando a questão indígena no Brasil: uma etnografia das terras indígenas”. VIII (direito de residência e de trânsito). Wapixana. por supostas violações a direitos e garantias dos povos Ingaricó. In: Indigenismo e territorialização: poderes. a CIDH inseriu nota em sua página na internet por meio da qual manifestava congratulação ao Estado brasileiro pelo Ato Presidencial. 24 (igualdade perante a lei). XVIII (direito à justiça) e XXIII (direito de propriedade) da Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem (a “Declaração”). 1998. pp. pp. 45-50. III (direito à liberdade religiosa e de culto). Porto Alegre: Núcleo de Direitos Indígenas e Sergio Antonio Fabris Editor. II (direito de igualdade perante a lei).

de utilização exclusiva por qualquer co-proprietário. embora constituindo coisa de propriedade comum de todos os condôminos do “Parque Árvores Verdes”. consta labrado um INSTRUMENTO DE ESCRITURA. situado na Av. ainda. Julio Lopes. por CERTIDÃO. FGV DIREITO rio 126 . 2000. Mario Henrique Mendonça. o “Parque Árvores Verdes” contará com um parque de estacionamento de automóveis. esculturas. a parte do terreno ocupada pela projeção de cada um dos 4 (quatro) edifícios será reservada para utilização exclusiva dos co-proprietários das unidades autônomas componentes de cada um. da Cidade do Rio de Janeiro. Artigo 2º – São coisas e partes de propriedade e uso comuns e. assim como tudo que seja proveitoso à totalidade dos condôminos do conjunto. play-ground. bosque. e na forma da lei: Certififica que revendo o Livro n. portanto. Tabelião do 10º Ofício de Notas. República Federativa do Brasil. Artigo 3º – Não obstante o disposto no artigo precedente. sistema de iluminação das partes comuns. as enumeradas no artigo anterior e mais o terreno de todo o “Parque Árvores Verdes”. cujo teor é o seguinte: ESCRITURA de Convenção de Condomínio Geral do “Parque Árvores Verdes”. fontes e lagos. Comarca do Estado do Rio de Janeiro. na forma abaixo: Capítulo I – Dos Conceitos Gerais Artigo 1º – Além dos 4 (quatro) referidos edifícios residenciais. Parágrafo único – A cada um dos 4 (quatro) edifícios que constituirão o “Parque Árvores Verdes” corresponderá uma quota ideal de ¼ da totalidade do terreno. que me é pedido por parte interessada. jardins. piscina. vias internas de circulação. fica estabelecido que. Capítulo II – Da Utilização das Coisas Comuns Artigo 4º – O uso das coisas comuns dispostas no artigo 1º poderá ser feito por qualquer co-proprietário e deverá obedecer aos horários estipulados pelo “Parque Árvores Verdes”. às folhas 50. 3 (três) quadras de tênis. insuscetíveis de divisão ou de alienação destacada da unidade autônoma de cada um ou. 2000.direitos humanos Aula 20: Direitos Humanos e orientação sexual NOTA AO ALUNO Leia os dois casos abaixo: I) Convenção Hipotética de Condomínio CERTIDÃO O BEL. sistema de tratamento de esgoto e central de abastecimento de gás.

calculada a partir da primeira infração. o Plenário da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro reprovou o projeto de Projeto de Lei da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. proposto pelo Deputado Federal Neucimar Fraga (PL-ES).gov. um auxílio para os homossexuais que quiserem a cura para “virar” heterossexuais. Disponível em: http:// www.aids. ligando-os a portadores de desordem psíquica”. o abraço. 151 FGV DIREITO rio 127 . Trata-se da autorização para um programa de reorientação sexual. A resolução de 1999 também impede psicólogos de colaborarem com eventos ou serviços que “proponham tratamentos de cura da homossexualidade” e de “se pronunciarem em meios de comunicação de massa de modo a reforçar o preconceito social existente em relação aos homossexuais. “o CFP (Conselho Federal de Psicologia) já adotou a posição contrária. de nº 717/2003. que foi designado relator na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara. A decisão final da Assembléia não retira a gravidade de que tal projeto de iniciativa do Deputado Estadual Edino Fonseca (PSC). aos quinze (15) dias do mês de fevereiro (02) do ano de dois mil e cinco (2005). Extraída por Certidão. tenha tido pareceres favoráveis por parte da Comissão de Constituição e Justiça e da Comissão de Saúde.. ou seja. indaga-se: A Convenção de Condomínio e o PL de nº 717/2003 violam algum direito humano? Caso afirmativo. Desde 1999. uma resolução do órgão determina que psicólogos não podem tratar a homossexualidade como doença. sendo vedada mãos dadas. Projeto semelhante tramita também no Congresso Nacional. [.] Capítulo VIII – Do Foro Artigo 35 – Fica eleito o foro desta cidade para a solução de qualquer litígio ou controvérsia decorrente da presente Escritura..asp?NOTCod=58452. distúrbio ou perversão. Atualmente aguarda o parecer do deputado Roberto Gouveia (PT-SP). De acordo com a assessoria de imprensa do CFP.direitos humanos § 1º – Fica proibido a demonstração de afetividade por casais homossexuais nos aludidos espaços comuns. II) Programa de Auxílio para “cura de homossexuais” Em 10 de dezembro de 2004. os profissionais não estão proibidos de prestar serviços a pessoas homossexuais desde que o objetivo seja reduzir sofrimentos decorrentes da orientação sexual e que a homossexualidade não seja tratada como doença.151 Diante do exposto. o beijo e qualquer outro ato ou gesto que atente contra os bons costumes ou formação moral e psicológicas das crianças e dos adolescentes. qual? O que dispõem os tratados internacionais de direitos humanos e as leis nacionais a respeito? Acesso em 05 de julho de 2005. § 2º – A não observância do disposto no presente artigo implica na aplicação de multa progressiva. pastor da Assembléia de Deus.br/imprensa/ Noticias. No caso desse projeto.

o Egito. Diante do cenário narrado. os Estados Unidos sinalizaram que se absteriam de votar uma proposta que referisse à sexualidade por não acreditarem que a Comissão constituísse fórum adequado para a discussão da questão. no âmbito da 59ª Sessão da Comissão de Direitos Humanos da ONU. realizada em Durban em 2001. o que possui o combate à discriminação por orientação sexual como uma de suas vertentes de atividade.direitos humanos Diferentemente dos demais grupos que estudamos até agora. Iniciou-se em 2003. foi apresentada uma proposta específica de resolução para o reconhecimento da discriminação por orientação sexual como uma violação a direitos humanos. o Paquistão. Além disso. todavia. nascimento. A postura assumida pelo Estado brasileiro no cenário internacional acarretou implicações internas imediatas: a criação do Conselho Nacional de Combate à Discriminação. não houve maturidade para que a proposta fosse incluída no texto final da Declaração. origem nacional ou social. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade (grifou-se). língua. Tal posição já teria sido gestada durante a Conferência Regional das Américas. 1º – Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. ou qualquer outra condição (grifou-se). Ressalte-se que a proposta brasileira foi a única a não ser votada ao longo de toda a 59ª Sessão. 17 contrários e 10 abstenções. a Discriminação Racial. Como mencionado na aula 18. a diplomacia percebeu que seria mais danoso a reprovação da resolução que a sua não-votação. o que foi aceito por 24 votos a favor. momento em que os Estados pactuaram a necessidade de prevenir e combater a discriminação por orientação sexual. o projeto foi retirado de votação.1 – Todo o homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração sem distinção de qualquer espécie. Cinco Estados muçulmanos obstaculizaram a votação da resolução: Arábia Saudita. a proteção dos direitos dos homossexuais situa-se ainda no marco geral da proteção dos direitos humanos. à medida em que a sessão era conduzida ao final dos trabalhos. Pela primeira vez na sua história. Já em 2004. Assim. no que se refere ao debate sobre a não-discriminação com base na orientação sexual. riqueza. bem como a necessária adoção de medidas de proteção de suas vítimas. assegura a Declaração Universal dos Direitos Humanos que: Art. a proposta foi colocada novamente em pauta. pode-se FGV DIREITO rio 128 . Todavia. através de uma atitude inédita do Brasil. O referido impasse conduziu à proposta da Presidência da Sessão (Líbia) para postergar a apreciação da proposta para 2004. seja de raça. a Xenofobia e Formas Conexas de Intolerâncias. religião. a Líbia e a Malásia apresentaram propostas de alteração visando a eliminação de todas as referências à orientação sexual. contando com amplo respaldo da sociedade civil organizada e de delegações européias. cor. Acompanharam a proposta inicial brasileira o Canadá. realizada em Santiago do Chile. África do Sul e um grupo de dezenove países europeus. Isso posto. opinião política ou de outra natureza. Artigo 2. o Brasil exerceu protagonismo na Conferência Mundial contra o Racismo. sexo. uma importante discussão.

... 152 FGV DIREITO rio 129 . sem preconceitos de origem... uma vez que se recai mais uma vez sobre a proteção geral do princípio da não-discriminação.. tramita no Congresso Nacional Projeto de Emenda Constitucional. sem distinção de qualquer natureza.... XXX – proibição de diferença de salários..... 7º da Constituição: “Art.. educação.. polity... including race. exclusão do direito à saúde... religion.... de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo.. inúmeros relatos de violência.... IV – promover o bem de todos.. sexual orientation...... cor. disability. Além do enorme preconceito de que são vítimas...... 5º – Todos são iguais perante a lei. culture.. orientação sexual. que propõe a alteração dos seguintes artigos: Art. sex.” A omissão em relação à discriminação por orientação sexual não constitui prerrogativa brasileira. mesmo que limitado até o momento à não discriminação.direitos humanos afirmar que se encontra latente no âmbito da ONU uma postura mais abrangente de proteção dos direitos humanos sob a perspectiva de orientação sexual..... ponderações semelhantes podem ser confeccionadas. sexo. orientação sexual.... Acesso em: 27 abril 2005..... não seria arriscado afirmar que a ausência de um tratado não significa omissão das instâncias internacionais em face a violações dos direitos humanos dos homossexuais....... Com vistas a consagrar à discriminação por orientação sexual igual gravidade às demais. à igualdade............. Na esfera interna brasileira.” Art. nos termos seguintes (grifou-se).... à liberdade.. prisão e assassinato... 3º da Constituição: “Art. language and birth” (grifou-se).3 – “The state may not unfairly discriminate directly or indirectly against anyone on one or more grounds. à segurança e à propriedade.. Disponível em: http://www. a Constituição Federal da África do Sul é a única constituição do mundo a garantir o direito à orientação sexual152: Art. 1º – É conferida nova redação ao Inciso IV do art. É importante enfatizar que mais de 70 países ainda proíbem práticas homossexuais e a punem com penas que vão desde a prisão à flagelação pública e morte.. em uma análise comparada..... belief. raça. gender. Cumpre ressaltar que.. tortura.. de autoria da então deputada Marta Suplicy..... conscience.. age.. html?rebookmark=1#9... ethnic or social origin. idade....... O Texto Constitucional estabelece: Art... 7º ... Nesse sentido. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. marital status.....org.. 3º – .. colour.. 9.. idade e quaisquer outras formas de discriminação. pregnancy.. cor ou estado civil..za/html/govdocs/ constitution/saconst02... 2º – É conferida nova redação ao Inciso XXX do art.. alimentação e moradia são comunicados diariamente por parte de experts independentes apontados pela Comissão de Direitos Humanos..

rio.rj. Disponível em: www. É dividido entre os temas Cooperação Internacional.gov.br/pgm/leiorganica/ leiorganica. Designa-se ao Conselho Nacional de Combate à Discriminação papel fundamental de controle das ações que visem ao fim da discriminação. O pluralismo característico da maior parte das sociedades contemporâneas exige que os ordenamentos jurídicos se aperfeiçoem de forma a garantir que as diferenças possam ser reconhecidas e respeitadas. idade. por mais que tal forma não esteja expressa em nosso Texto Constitucional. organiza. sobre a cura da homossexualidade”. sexo.aids. É o caso da Lei Orgânica Municipal do Rio de Janeiro153. estado civil.gov. É também importante perceber que outros marcos normativos internos já têm apresentado sensibilidade à orientação sexual. Direito à Educação. ainda. Acesso em: 6 de julho de 2005.direitos humanos Cabe aqui uma interpretação mais arrojada para afirmar que. “De novo. dentre as quais se encontra a por orientação sexual. ou qualquer particularidade. Comissão Provisória de Trabalho do Conselho Nacional de Combate à Discriminação da Secretaria Especial de Direitos Humanos. 2004. 5º. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: CALLIGARIS. Disponível em: http://www2. Contardo. Direito à Segurança. cabe menção ao lançamento do Brasil Sem Homofobia – Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania Homossexual. por ter cumprido pena ou pelo fato de haver litigado ou estar litigando com órgãos municipais na esfera administrativa ou judicial (grifou-se). lançado em 2004 por iniciativa da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Brasil Sem Homofobia – Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania Homossexual. 153 FGV DIREITO rio 130 .ao e revisão de textos: Cláudio Nascimento Silva e Ivair Augusto Alves dos Santos. Política para as Mulheres e Política contra o Racismo e a Homofobia. § 1º – Ninguém será discriminado. Afinal. a qual estabelece que: Art. como está na norma sul-africana. mental ou sensorial.html#t1c1. Direito à Saúde.br/imprensa/Noticias. etnia. Acesso em: 27 abril 2005. orientação sexual. cor. Elaboração: André Luiz de Figueiredo Lázaro. conduz à ilação de que o respeito a diferenças seja um pressuposto para uma vida digna. o princípio da dignidade da pessoa humana. condição social ou. Mais além do plano legislativo. Política para a Juventude. Conselho Nacional de Combate à Discriminação/Ministério da Saúde. respaldado no artigo 1º da Constituição Federal.asp?NOTCod=60157. Brasília: Ministério da Saúde. Direitos ao Trabalho. prejudicado ou privilegiado em razão de nascimento. Direito à Cultura. a dignidade encontra-se na aceitação do ser nas suas características pessoais. atividade física.

Fabiana Marion.direitos humanos SPENGLER. Legislação: Constituição Federal FGV DIREITO rio 131 . 2003. União homoafetiva: o fim do preconceito. Santa Cruz do Sul: EDUNISC.

Aprendemos a sentir. assim. Esta co-existência é o Teatro Subjetivo. O Teatro do Oprimido oferece aos cidadãos os meios estéticos de analisarem seu passado. sentindo. e a aprender a viver em sociedade através do jogo teatral. cfm?persona=materias&contr ole=112. O teatro se define pela existência simultânea — dentro do mesmo espaço e no mesmo contexto — de espectadores e atores. política. O Teatro Essencial consiste em três elementos principais: Teatro Subjetivo.com. Todo ser humano é teatro! 4. Todo ser humano é capaz de atuar: para que sobreviva. movimentos e expressões físicas. cultural.opalco. Traduzem suas emoções. como a livre participação na sociedade humana entre iguais. a agir. 154 FGV DIREITO rio 132 . desejos e idéias em uma Linguagem Teatral. racial ou sexualmente despossuídos do seu direito ao Diálogo ou. a si mesmo. O objetivo básico do Teatro do Oprimido é o de Humanizar a Humanidade. Acesso em: 14 de maio de 2005. 9. pensando. 7. deve produzir ações e observar o efeito de suas ações sobre o meio exterior. 5. um espaço dentro do espaço: o Espaço Estético. criando. a pensar. pessoa ou espaço. individual ou coletivamente. Oprimidos são aqueles indivíduos ou grupos que são. O Teatro Essencial 3. Teatro Objetivo e Linguagem Teatral. O Teatro do Oprimido ajuda os seres humanos a recuperarem uma linguagem artística que já possuem.br/foco. a energia e o seu desejo de agir são transferidos para essa coisa. na vida diária.direitos humanos Aula 21: Teatro do Oprimido NOTA AO ALUNO Manifesto do Teatro do Oprimido154 Declaração de princípios Preâmbulo 1. Todos os seres humanos utilizam. renunciando momentaneamente à sua capacidade e à sua necessidade de produzir ações. 11. ao invés de esperar por ele. que busca ajudar homens e mulheres a desenvolverem o que já trazem em si mesmos: o teatro. Todo ser humano é capaz de ver a situação e de ver-se. Ser humano é ser teatro: ator e espectador co-existem no mesmo indivíduo. 10. Teatro do Oprimido. diminuídos no exercício desse direito. no contexto do presente. a mesma linguagem que os atores usam no palco: suas vozes e seus corpos. de qualquer forma. e pelo respeito às diferenças e pelo direito de ser respeitado. 6. Disponível em: http:// www. em situação. 8. Teatro do Oprimido é um ensaio para a realidade. 2. econômica. Este é o Teatro Objetivo. Quando um ser humano se limita a observar uma coisa. Jogos e Técnicas Especiais baseadas no Teatro Essencial. para que possam inventar seu futuro. O Teatro do Oprimido é um sistema de Exercícios. pessoa ou espaço. social. agindo. Diálogo é definido como o livre intercâmbio com os Outros.

promovendo a troca entre eles. 14. e o seu desenvolvimento metodológico. política. o TO está sendo amplamente usado em todo o mundo. os cidadãos agem na ficção do teatro para se tornarem. não-violento. por exemplo. depois. e criando um ponto de encontro internacional na Internet. para a inclusão de todos os seres humanos no Diálogo necessário a uma sociedade harmoniosa. psicoterapias. O Teatro do Oprimido é um movimento estético mundial. Em resumo. A ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DO TEATRO DO OPRIMIDO (AITO) 17. 16. Princípios e Objetivos 13. O Teatro do Oprimido está sendo usado em dezenas de países de todo o mundo. É um método de análise. A AITO cumpre este objetivo inter-relacionando os praticantes do Teatro do Oprimido em uma rede mundial. não é dogmático nem coercitivo. O Teatro do Oprimido se baseia no Princípio de que todas as relações humanas deveriam ser de natureza dialógica: entre homens e mulheres. trabalho social. na educação. A AITO é uma organização que coordena e promove o desenvolvimento do Teatro do Oprimido em todo o mundo. programas de alfabetização e na saúde. e respeita todas as culturas. e um meio de tornar as pessoas mais felizes. como um instrumento poderoso para a descoberta de si mesmo e do Outro. também está sendo usado como instrumento para a obtenção da justiça econômica e social. que é o fundamento da verdadeira Democracia. Na realidade. 18. O Teatro do Oprimido procura ativar os cidadãos na tarefa humanística expressa pelo seu próprio nome: teatro do. grupos e nações. estimulando a criação local de Centros do Teatro do Oprimido (CTOs). os diálogos têm a tendência a se transformarem em monólogos que terminam por criarem a relação Opressores-Oprimidos. para clarificar e expressar os desejos dos seus praticantes. artes. como instrumento para modificar as causas que produzem infelicidade e dor. o princípio fundamental do Teatro do Oprimido é o de ajudar e promover a restauração do Diálogo entre os seres humanos. o objetivo mais geral do Teatro do Oprimido é o desenvolvimento dos Direitos Humanos essenciais. mas não a passividade. Nele. aqui relacionados em Anexos. em todos os campos da atividade social como. cultura. Reconhecendo esta realidade. finalmente. que busca a paz. sempre o diálogo deveria prevalecer. para desenvolver todas aquelas características que trazem a Paz. Por causa da sua natureza humanística e democrática. alguns projetos exemplares são apresentados para ilustrar a natureza e o escopo deste Método teatral. raças. concebendo e executando projetos em escala mundial. de acordo com os princípios e os objetivos desta Declaração. FGV DIREITO rio 133 . protagonistas de suas próprias vidas 15. facilitando o treinamento e a multiplicação das técnicas existentes. por e para o oprimido. No Anexo desta Declaração de Princípios. famílias. O Teatro do Oprimido não é uma ideologia nem um partido político. para respeitar as diferenças entre indivíduos e grupos. promovendo e criando condições de trabalho para os CTOs e os seus praticantes.direitos humanos 12.

ctorio.br Site: http://www. A AITO tem os mesmos princípios e objetivos humanísticos e democráticos do Teatro do Oprimido. 20.com.org Demais sites indicados ao longo do texto FGV DIREITO rio 134 . e vai incorporar todas as contribuições de todos aqueles que trabalharem dentro desta Declaração de Princípios.direitos humanos 19. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: Site: http://www.theatreoftheoppressed. A AITO entende que todos aqueles que trabalham usando as várias técnicas do Teatro do Oprimido subscrevem esta mesma Declaração de Princípios.

destacamos as organizações e movimentos da sociedade civil como protagonistas. A partir de então.155 Acresça-se ainda o fator de que. mas algoz na violação de direitos humanos. hoje de maneira irreversível. Em um contexto de globalização. Nesse sentido. Nesse sentido. Destaque-se ainda a experiência do Fórum Social Mundial (FSM). a Rio92. op. Inaugurado no ano de 2001 na cidade de Porto Alegre. o diálogo torna-se muito mais profícuo se precedido pela leitura de alguns argumentos sobre a atuação desses atores. exercendo seu direito à voz. Registre-se que. a sociedade civil vem exercendo papel de destaque nos debates públicos e na mídia no tocante à promoção e proteção dos direitos humanos. Multiplicam-se redes de organizações que pretendem driblar coletivamente as dificuldades e estabelecer agendas. 1997. impulsionada pelas flagrantes violações de direitos humanos vigentes no momento histórico. De fato. A consolidação da sociedade civil brasileira ocorre durante a ditadura militar. esse é um importante ator na promoção e proteção. hoje em sua quinta edição. que se constitui hoje como uma grande arena da sociedade civil. A redemocratização do país conduziu a uma participação social jamais vista nos corredores do Congresso Nacional: verdadeiras caravanas chegavam a Brasília diariamente com vistas a imprimir no Texto Constitucional compromissos com a promoção de direitos humanos. outros atores são fundamentais. tais organizações ganharam paulatinamente. Acesso em: 30 março 2005. na década de 80. 155 156 VIEIRA. serão convidadas organizações não-governamentais e movimentos social que possuam como campo específico de atuação a advocacia em direitos humanos.direitos humanos Aula 22: O papel da sociedade civil na promoção e proteção dos direitos humanos NOTA AO ALUNO Na aula inaugural ao bloco referente aos Novos temas e Novos Atores. em 1988. havia 1208 ONGs no Brasil. Disponível em: http:// www. De forma a aproximar o aluno da realidade da atuação da sociedade civil. Afirmar que o Estado é o principal violador de direitos humanos é simples. respaldo junto aos governos e legitimidade para influenciar nas tomadas de decisão na esfera pública internacional. significou o marco para a visibilidade e referência às ONGs.org.br/ (item: “Perguntas mais Freqüentes”). “se o que está em jogo é o presente e o futuro da democracia. 61 157 ABONG. durante o tradicional Fórum Econômico Mundial de Davos. como as corporações privadas e as organizações não-governamentais. Rio de Janeiro: editora Record. o desafio maior consiste em articular ABONG. A atuação na esfera interna e na arena internacional não constitui tarefas excludentes. Cabe registrar que tais organizações participaram de todas as grandes conferências dos últimos 15 anos. Suíça. a Conferência Mundial do Meio-Ambiente. Ao longo das duas últimas décadas.abong. foi descredenciada a via partidária como a única forma de militância. Cidadania e globalização. FGV DIREITO rio 135 .156 Tais elementos conduzem à compreensão do embrião da sociedade civil em nosso passado recente. Liszt. p. o FSM é realizado sempre no mês de janeiro. cit. sendo que 100 delas tratavam especificamente dos direitos humanos157. No âmbito internacional.

A. cabe ressaltar que tais atores não substituem o Estado. 2000. e DUPREE. Número 1. Edição em Português. a sociedade civil contribui para a efetivação dos direitos humanos. Rio de Janeiro: LPP – Laboratório de Políticas Públicas. In: Sur Revista Internacional de direitos humanos. 2004: 1o Semestre. Número 1. regionais e globais. São Paulo: Sur Rede Universitária de Direitos Humanos. Rio de Janeiro: editora Record. Rio de Janeiro: LPP – Laboratório de Políticas Públicas. etc. Petrópolis. op. 49-69. são necessárias algumas considerações acerca da atuação dessas organizações. homossexuais. negros e negras. 2004: 1o Semestre. pois dão voz a perspectivas e pontos vantajosos que. pela segurança alimentar. como as corporações privadas e as organizações não-governamentais.direitos humanos para reforçar – e não para substituir ou eliminar – processos simultâneos e diversos de democratização do poder em bases locais. a associação e o diálogo devem estar abertos e com um mínimo de intervenção. como mulheres. Buenos Aires: CLACSO. Para que isso se torne realidade. Edição em Português. ao levar a injustiça à esfera pública. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: GÓMEZ.”160 A horizontalidade das redes associativas disponibiliza a informação e o debate entre tais organizações e movimentos. 159 160 ABONG. Liszt. José Maria. “Reflexões acerca da sociedade civil e dos direitos humanos” In: Sur Revista Internacional de direitos humanos. Petrópolis. crianças e adolescentes. bem como pela preservação do meio ambiente. José Maria. Assim. Buenos Aires: CLACSO. Cidadania e globalização. possibilitando uma atuação mais eficaz na promoção e proteção dos direitos humanos.. Contudo. Scott A. destacando dificuldades e avanços. 2000. mas algoz na violação de direitos humanos. o Estado é o um importante ator na promoção e proteção. Como afirma Oscar Vilhena Vieira e A. e DUPREE. Nesse sentido. pp. RJ: Vozes. nacionais. de outro modo. Leitura dos sites indicados ao longo do texto 158 GÓMEZ. outros atores são fundamentais para garantir a observância e efetivação dos direitos humanos. Scott. não seriam ouvidos. VIEIRA. pp. São Paulo: Sur Rede Universitária de Direitos Humanos. cit. Política e democracia em tempos de globalização. muitas organizações não-governamentais e movimentos passaram a se organizar por meio de redes. As ONGs e movimentos sociais devem ser vistos como “outros sujeitos atuando de acordo com as reais necessidades e pelos direitos de diversos segmentos sociais. Dessa forma. “Reflexões acerca da sociedade civil e dos direitos humanos”. etc”159. Política e democracia em tempos de globalização. VIEIRA. Conforme visto anteriormente.. FGV DIREITO rio 136 . Scott DuPree. RJ: Vozes. 49-69. Oscar Vilhena. VIEIRA. Ano 1. “(g)rupos da sociedade civil são bons cães de caça para injustiças. 1997. Oscar Vilhena. Ano 1.”158 Ultrapassada a apresentação histórica que conduziu ao enquadramento contemporâneo.

por dois eminentes acadêmicos: primeiramente por Keba MBaye. só se afirma através de uma disposição ininterrupta para a luta. os direitos humanos e o desenvolvimento com questões mundiais primordiais. na medida em que os quatro quintos da população mundial não mais aceitam o fato de um quinto da população mundial continuar a construir sua riqueza com base em sua pobreza.. 1178. da Comissão de Direitos Humanos. p. em 11 de dezembro de 1969. 1177. seja o direito do indivíduo.. cit. p. Contudo. M. Dois anos após. de acordo com o autor. Mohammed Bedjaoui. Mohammed. It reflects an essential demand of our time since four fifths of the world’s population no longer accept that the remaining fifth should continue to build its wealth on their poverty” (Ibid. que sustentou ser o direito ao desenvolvimento parte da terceira geração de direitos humanos. a CDHNH veio confirmar a existência de tal direito e da igualdade de “…the international dimension of the right to development is nothing other than ‘the right to an equitable share in the economic and social well-being of the world’. pela primeira vez. Paris: Martinus Nijhoff Publisher e UNESCO. pode-se dizer que o direito ao desenvolvimento almeja uma globalização ética e solidária. afirmou a dimensão internacional do direito ao desenvolvimento162.direitos humanos Aula 23: Desenvolvimento e Direitos Humanos NOTA AO ALUNO Todo direito que existe no mundo foi alcançado através da luta. p. 1182). Resolução 4 (XXXIII) de 21 de fevereiro de 1977.Rudolf Von Ihering O conceito de direito ao desenvolvimento surgiu na década de 1960. seus postulados mais importantes tiveram de ser conquistados num combate contra as legiões de opositores. Ela reflete uma demanda crucial de nosso tempo. O direito ao desenvolvimento era uma exigência afirmada pelos países do terceiro mundo. De acordo com Bedjaoui: a dimensão internacional do direito ao desenvolvimento é nada mais que o direito a uma distribuição eqüitativa do bem-estar social e econômico do mundo. em 1969. na qual os Estados desenvolvidos são os detentores da obrigação legal de cooperação. realizada em Teerã. durante a fase de descolonização. em seu relatório final. em 1969. a Declaração sobre o Progresso Social e Desenvolvimento165. que almejavam consolidar sua independência política através de uma liberação econômica161. Chefe de Justiça do Senegal.). Mohammed Bedjaoui (org. todo e qualquer direito.. e somente alguns meses após por Karel Vasak. seja o direito de um povo. 1991.164 BEDJAOUI. proclamou. a existência do direito ao desenvolvimento em 1977167. ao passo que os Estados em desenvolvimento são os possuidores do direito ao desenvolvimento163. 1178. que introduziu o direito ao desenvolvimento como um direito humano. a Conferência Mundial sobre os Direitos Humanos. . ao impor aos países economicamente avançados a obrigação de desenvolver os países menos avançados economicamente. Adotada pela Assembléia Geral através de sua Resolução 2542 (XXIV). The right to Development. tal obrigação tem que ser compreendida no contexto de uma nova lei internacional de solidariedade e cooperação. Foi frente a essa nova necessidade que a Assembléia Geral das Nações Unidas adotou. International Law: Achievements and Prospects. Idem. 167 FGV DIREITO rio 137 . 165 166 BEDJAOUI. no mesmo ano. relacionou. op. Nesse sentido. Ainda. A noção sobre o direito ao desenvolvimento foi abordada pela primeira vez em 1972166. p. A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas (CDHNH). 161 162 163 164 Ibid.

6(3). Finlândia. Isto significa dizer que os Estados devem cooperar entre si para: (i) assegurar o desenvolvimento e eliminar os obstáculos ao mesmo179. Japão. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. FGV DIREITO rio 138 . de acordo com o preâmbulo desta Declaração. que o Estado é o principal responsável pela implementação de condições nacionais e internacionais propícias à realização do direito ao desenvolvimento. 3(3). o Estado deve incentivar a participação popular em todos os campos como forma de realizar plenamente todos os direitos humanos177. social.direitos humanos oportunidades como uma prerrogativa tanto das nações quanto dos indivíduos168. a CDHNH estabeleceu o grupo de trabalho de experts governamentais sobre o direito ao desenvolvimento. (iii) promover o estabelecimento da paz e segurança internacionais181. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. Ressalte-se. Em relação à implementação do direito em tela. da Comissão de Direitos Humanos. A Declaração foi adotada por 146 votos a favor. em 1981. 8(2). Já no plano internacional. 181 Art. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. No plano nacional. 169 Adotada pela Assembléia Geral através de sua Resolução 37/199. 176 Art. Art. individual ou coletivamente. por oportuno. Ainda. conseqüentemente. social e cultural (artigo 22). cultural ou humanitário. Art. levaram a adoção de uma resolução na qual a Assembléia Geral estatuiu o direito ao desenvolvimento como um direito humano inalienável170. em 18 de dezembro de 1982. fazendo com que a CDHNH não conseguisse atingir um acordo unânime na resolução169. em 1986. Os Estados Unidos e mais sete estados do oeste se abstiveram.. Ainda. que no mesmo ano foi adotada a Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos. (ii) fortalecer e garantir os direitos humanos e liberdades individuais180. 5. Artigo 1(1). que a Declaração não apenas estabelece que a pessoa humana é o sujeito central do desenvolvimento171. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. cultural e político174. desfrutando do desenvolvimento econômico. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento.e. 170 171 172 173 174 175 Artigo 2(1). Isto porque. Islândia e Suíça). que dispõe acerca do direito de todos os povos a seu desenvolvimento econômico. a palavra-chave é cooperação. Mais um avanço ocorreu quando. dispõe o artigo 3 (1) da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. Os inúmeros relatórios produzidos. juntamente com alguns debates na CDHNH e na Assembléia Geral das Nações Unidas. bem como tomar todas as medidas necessárias para eliminar as violações de direitos humanos178 e. Art. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. 2(3). bem como eliminar as barreiras existentes176 para sua efetivação. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. 168 Resolução 5 (XXXV) de 2 de março de 1979. O marco do direito ao desenvolvimento foi a adoção. assim como para promover e incentivar o respeito aos direitos humanos e liberdades fundamentais. cooperar com os Estados em desenvolvimento a fim de que estes possam realizar o direito ao desenvolvimento. por oportuno. No entanto. 177 178 Art. Israel. realizar o direito ao desenvolvimento. Tanto a Proclamação de Teerã quanto esta resolução de 1979 tinham uma abordagem estrutural (structural approach). o conteúdo do direito era vago. uma visão que liga os direitos humanos a questões mundiais. um contra (Estados Unidos) e oito abstenções (Reino Unido. da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento pela Assembléia Geral das Nações Unidas. mas também que o direito ao desenvolvimento é um direito humano inalienável de “toda pessoa humana e de todos os povos”172. Artigo 1. 7. 6. Dinamarca. razão pela qual estes devem participar ativamente e se beneficiar do direito ao desenvolvimento173. o Estado deve elaborar políticas nacionais adequadas para o desenvolvimento175. e preâmbulo. França. 179 180 Art. Destaque-se. Artigo 1(1). a cooperação internacional deve ser o meio para se resolver os problemas internacionais de caráter econômico. i. dispõe o artigo 4 da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento que os Estados devem. social.

em 1998. afirma que o direito ao desenvolvimento é um direito fundamental. políticos. 187 Isto porque se entende que a definição de direito ao desenvolvimento estabelecida no preâmbulo da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento é muito vaga. social. parte II. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. água potável. sociais e culturais quanto os direitos civis e políticos189. emprego.htm.. “The right to development is a fundamental right. criou. ao dispor que: “. FGV DIREITO rio 139 . 183 184 Declaração de Viena. op. Apesar do consenso atingido em Viena. por sua vez. este documento tanto reafirmou o teor da Declaração das Nações Unidas sobre o Direito ao Desenvolvimento quanto contribuiu para a inserção definitiva do direito ao desenvolvimento no vocabulário do Direito Internacional positivo dos Direitos Humanos183. justiça e criatividade190. principal documento elaborado pela II Conferência Mundial sobre Direitos Humanos. 10. e cf. Parte I. 2005. passando de Expert Independente sobre o Direito ao Desenvolvimento para Expert Independente sobre Direitos Humanos e Pobreza Extrema. Todos esses direitos são interdependentes – juntamente com o crescimento do produto interno bruto (PIB) e outros recursos financeiros. cit. veio exprimir o consenso entre os Estados de que o direito ao desenvolvimento é “um direito humano universal e inalienável e parte integrante dos direitos humanos fundamentais”182. Portanto. par. Nesse sentido. num contexto de liberdade. Amartya. não se chegou a um consenso acerca da definição do direito ao desenvolvimento. saúde. 182 CANÇADO TRINDADE. 10. 303. par. 188 189 190 Idem. 1182). Arjun Sengupta. org/english/bodies/chr/special/themes. ao dizer que desenvolvimento deve ser visto como um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam191. dignidade e justiça social para os seres humanos. Outra inovação trazida pela Declaração e Programa de Ação de Viena. Disponível em: http://www. Parte I.. para que se alcance esta finalidade. e cf. 10. Assim. que é composto por vários elementos que representam tanto os direitos econômicos. 80. Desenvolvimento como liberdade. justice. par. p. No entanto. progress. 185 186 Parte I. moradia. bem como um grupo de trabalho sobre o tema. com o intuito de que fosse atingido um consenso acerca da definição187 do direito ao desenvolvimento. desenvolvimento e direitos humanos. O Expert Independente. São Paulo: Companhia das Letras. sociais. Tratado de direito internacional dos direitos humanos volume II. A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. sustenta ser o direito ao desenvolvimento um processo no qual todos os direitos humanos e liberdades fundamentais possam ser realizados plenamente. the precondition of liberty. sem qualquer discriminação.ohchr. a precondição de liberdade. técnicos e institucionais – de tal forma que possibilitam o melhoramento das condições de vida de toda população. 8. apesar dos avanços trazidos pelo referido documento. Ainda. pode-se dizer que o direito ao desenvolvimento unifica todos os direitos civis. p. deve-se destacar que a consagração do direito ao desenvolvimento como um direito humano inalienável não é um ponto pacífico entre os doutrinadores. Sengupta sugere que o direito ao desenvolvimento é o melhoramento de um “vetor” dos direitos humanos. que tem como meta acabar com a pobreza e satisfazer as necessidades prioritárias de todos. par. uma boa qualidade de vida para todos os seres humanos é o principal objetivo do direito ao desenvolvimento.direitos humanos A Declaração e Programa de Ação de Viena. M. Sendo assim. 52-55. A nomenclatura do cargo foi alterada. Parte II. Já Amartya Sen vai mais longe. par. 1999. par.. as políticas públicas têm que estar voltadas para a satisfação de necessidades básicas. tal Declaração alertou para o fato de que “a falta de desenvolvimento não pode ser invocada para justificar a redução dos direitos humanos internacionalmente reconhecidos”185 e que todos os obstáculos existentes para a efetivação do direito ao desenvolvimento devem ser eliminados186. and creativity” (BEDJAOUI. o cargo de Expert Independente sobre o Direito ao Desenvolvimento (atual Expert Independente sobre Direitos Humanos e Pobreza Extrema188). No entanto. Antônio Augusto. 72. econômicos e culturais em um conjunto de direitos humanos indivisíveis e interdependentes. como alimentação. Bedjaoui. foi o estabelecimento da interdependência184 entre democracia. 191 SEN. Ainda. educação e seguridade social. Acesso em: 10 jan. que visa ao constante incremento do bemestar de toda a população e de todos os indivíduos com base em sua participação ativa. 2001. progresso. pp. parte I.o desenvolvimento é um processo econômico. tais políticas públicas têm Declaração de Viena. cultural e político abrangente. livre e significativa no desenvolvimento e na distribuição justa dos benefícios daí resultantes”.

1992. Dissertação para a obtenção do título de Mestre em Direitos Humanos pela Sussex University. Right to Development: Improving the Quality of Life. The right to development and structural adjustment programmes – an analysis through the lens of human rights. Leitura acessória: LINDROOS. 1999. p. indaga-se: quando é que foi proclamado o direito ao desenvolvimento? O que se entende pelo referido direito? Quem são os sujeitos ativo e passivo do direito ao desenvolvimento? O que o Estado deve fazer para realizar o direito em tela? A Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento é dotada de força vinculante? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. 2002. 2002. São Paulo. Volume II. Laura Davis. P. Legislação: Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento Declaração e Programa de Ação de Viena 192 DESAI.). S. 303-307. FGV DIREITO rio 140 . sociais e culturais. Anja. 1999. The right to development. tais como o direito ao trabalho.direitos humanos que incluir outros direitos econômicos. Direito ao desenvolvimento.R. PIOVESAN. Texto produzido para o II Colóquio Internacional de Direitos Humanos. pp. Antônio Augusto. p. Helsinki: The Faculty of Law of the University of Helsinki & The Erik Castrén Institute of International Law and Human Rights. 31 apud MATTAR. 22-47. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. 276-283. In: CHOWDURY. Flavia. 6. o acesso a condições justas de trabalho e o direito a se beneficiar do desenvolvimento científico. tecnológico e científico192. (ed.D. Pelo exposto. pp. Brasil. Tratado de direito internacional dos direitos humanos. The Right to Development in International Law. comercial. Holanda: Kluwer Academic Publishers.

crimes de agressão e crimes de guerra. 7 contra. aceita a jurisdição do Tribunal sobre os quatro crimes dispostos no artigo 5º do Estatuto.. com a competência de julgar os indivíduos pela prática de quatro crimes: genocídio. Acesso em: 04 julho 2005. (b) Estado-parte envia o caso ao TPI. crimes contra a humanidade. A inauguração do mesmo se deu em 11 de março de 2003. instaura uma investigação com base em informações recebidas. não o sendo.asp. (b) o estado de nacionalidade do acusado. tenham voluntariamente aceito a jurisdição do tribunal em um caso concreto: (a) o estado em cujo território o crime tenha sido cometido. passando pelos Tribunais de Nuremberg (estabelecido em agosto de 1945) e de Tóquio (estabelecido em janeiro de 1946). ao se tornar parte do Estatuto.e. Sua origem remonta às antigas comissões internacionais ad hoc de investigação (a partir de 1919). durante a Conferência Diplomática dos Plenipotenciários das Nações Unidas. o TPI só entrou em vigor em 1 de julho de 2002. ao longo de 1994. Há três possibilidades de denúncia de um caso ao TPI: (a) Conselho de Segurança remete o caso ao TPI. a jurisdição do TPI é geral e universal. na Haia (Holanda). surgiu a responsabilidade penal internacional do indivíduo. Embora o estabelecimento de uma jurisdição penal internacional só tenha se concretizado em 1998. em 1993. posteriormente. Disponível em: http://untreaty. De maneira diversa. o anseio pela criação de um sistema de monitoramento contínuo da situação dos direitos humanos no mundo é antigo. No entanto. ao passo que o Tribunal ad hoc para Ruanda foi criado para julgar os indivíduos responsáveis por crimes cometidos durante os conflitos internos armados em Ruanda. foram criados os dois tribunais ad hoc – o Tribunal Internacional para a ex-Iugoslávia. 21 abstenções). Nesse contexto (de combate à impunidade e as inúmeras atrocidades cometidas). Pouco a pouco e em decorrência do trabalho da Comissão de Direito Internacional das Nações Unidas. Dessa forma. Atualmente.direitos humanos Aula 24: Tribunal Penal Internacional NOTA AO ALUNO O Tribunal Penal Internacional (TPI) foi criado com a aprovação do Estatuto de Roma (Estatuto) em 17 de julho de 1998 (120 votos a favor. após 60 países terem ratificado ou aderido ao Estatuto. independente e complementar à jurisdição nacional. que a competência do TPI é automática. Trata-se de um marco histórico. ou melhor.org/ENGLISH/bible/englishinternetbible/partI/chapterXVIII/treaty10. un. o TPI. por oportuno. i. 04 de julho de 2005. Isto significa que um Estado. constata-se que ambos os tribunais ad hoc foram estatuídos com limitações espacial e temporal. O Tribunal ad hoc para a ex-Iugoslávia foi criado para julgar os indivíduos responsáveis por graves violações do direito internacional humanitário cometidas a partir de 1991 na ex-Iugoslávia. (c) Promotor atua ex officio. Ressalte-se. Contudo. 193 FGV DIREITO rio 141 . e o Tribunal Internacional para Ruanda. o caso só poderá ser apreciado se um ou mais dos seguintes estados sejam parte do Estatuto ou. o conceito de “crime internacional” ganhou tratamento doutrinário no âmbito da responsabilidade do Estado e. Até a presente data. o TPI comporta 139 assinaturas e 99 ratificações193. em 1994 – e. uma vez que é o primeiro tribunal internacional permanente. em Roma. concomitantemente.

O Estatuto de Roma foi aprovado pelo Congresso Nacional pelo Decreto Legislativo n. Flávia e IKAWA. 4388. (ii) República de Uganda (em 29.2005196. ao contrário do que ocorria nos tribunais ad hoc – tinham que recorrer aos tribunais nacionais para verificar como deveriam aplicar a pena –. Daniela Ribeiro. foi eleito em 21 de abril de 2003.06.07. e o ratificou em 20 de junho de 2002197. No momento. uma Seção de Primeira Instância e uma Seção de Questões Preliminares. uma juíza brasileira. busca-se adaptar a legislação brasileira ao Estatuto de Roma.direitos humanos O Tribunal é composto pelos seguintes órgãos: Presidência. 112. São Paulo: Max Limonad.cpi. Temas de Direitos Humanos. O Estatuto de Roma prevê alguma forma de reparação à vítima? Qual é a exceção em relação à competência automática do TPI? Qual é a relação entre o Conselho de Segurança das Nações Unidas e o TPI? Existe alguma diferença entre a relação mencionada e aquela entre os tribunais ad hoc e o Conselho de Segurança? Quais são as questões suscitadas por doutrinadores e/ou membros do Poder Legislativo quando se discute a adaptação da legislação brasileira ao Estatuto de Roma? 194 195 04 de julho de 2005. pena de reclusão não superior a 30 anos e prisão perpétua.int/ (item: “situations and cases”). e (iii) Darfur.2005). 2003. tendo em vista que o Estatuto de Roma já prevê os tipos que podem ser aplicados.06. Sudão (em 06. Flávia. uma Seção de Apelações. o promotor. Os dois primeiros casos foram enviados ao promotor pelos respectivos governos. Sendo assim. sendo um deles Sylvia Steiner. Em se tratando das penas. Promotoria e Secretaria.03.int/librar y/cases/ N0529273.2004). resolveu abrir a investigação em 3 casos195: (i) República Democrática do Congo (em 23. Pergunta-se: O TPI pode apreciar este caso? Justifique sua resposta com respaldo legal. após a análise dos dados. icc-cpi. Acesso em: 04 julho 2005. os 18 juízes foram eleitos. In: PIOVESAN. 197 FGV DIREITO rio 142 . Disponível em: http://www. O Brasil assinou o Estatuto em 7 de fevereiro de 2000. Já o promotor. 1593 (2005).darfureferral. 196 Leitura obrigatória: PIOVESAN. Diante do exposto. de 25 de setembro de 2002. “O Tribunal Penal Internacional e Direito Brasileiro”. Nenhum caso foi julgado até a presente data194. pdf. Em 7 de fevereiro de 2003. ao passo que o último caso foi enviado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. pergunta-se: • • • • • • Atualmente. icc. o TPI pode aplicá-la diretamente.eng. MATERIAL DE APOIO Textos: Acesso em: 04 julho 2005. o crime de agressão pode ser julgado pelo TPI? Caso negativo. e aprovado pelo Decreto n. por quê? Hipótese: Um indivíduo nacional de um Estado não-parte do Estatuto comete crimes contra a humanidade em um Estado-parte do Estatuto. Disponível em: http://www. de 31. Até o momento. conforme dispõe sua Resolução n. por meio de intensos debates.2004). de 6 de junho de 2002. Luis Moreno Ocampo. dando início as suas atividades em 16 de junho de 2003. há três tipos: prisão provisória.

pp. MAIA. Capítulos III e IV. Marrielle. Antonio Augusto. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Legislação: Estatuto de Roma FGV DIREITO rio 143 . jurisdição e princípio da complementaridade. pp. Tratado de direito internacional de direitos humanos. Belo Horizonte: Del Rey. Tribunal Penal Internacional: aspectos institucionais. 2001.direitos humanos Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. II. 61-107. Vol. 385-400. 1999.

sem qualquer acusação. Tendo por chamada “Não à tortura em Guantánamo!”. até o passado recente. segundo o mesmo panfleto.direitos humanos Aula 25: Direito Humano Pós-11 de setembro NOTA AO ALUNO Os direitos humanos e a reação ao Onze de Setembro: uma retomada de esperanças?198 “Folheto distribuído. aplicada com particular afinco em sua política externa: “nós Texto produzido por José Augusto Lindgren Alves – Diplomata. Acesso em: 04 maio 2005. diante do escritório de Senadora californiana pelo Partido Democrata. (b) humilha deliberadamente soldados capturados. no centro de São Francisco. onde o crime é tão abundante que se inventou a categoria dos “hediondos” e a tortura. mordaças. a lógica dominante era aquela sempre típica dos protestantes puritanos dos Estados Unidos. Mais do que estranho. Disponível em: http:// www.dhnet. os ataques em Nova York e Washington haviam abalado de maneira tão profunda a sociedade norte-americana que qualquer dissensão parecia. por causa da respectiva etnia ou religião. onde os prisioneiros transportados do Afeganistão e fotografados com vendas. Com efeito. havia visitado a base norte-americana em Cuba. em 22 de fevereiro). tudo isso é deveras surpreendente depois do tenebroso Onze de Setembro de 2001. estranho que esses panfletos sejam distribuídos num país que se apresenta como modelo de direitos humanos (o presidente Bush acaba de fazê-lo na China.org. 198 FGV DIREITO rio 144 .htm. falta de patriotismo. a Senadora em questão teria concluído que eles não se encontravam em circunstâncias desumanas. a Anistia Internacional. perguntava: “Você quereria viver num país que: (a) desafia o direito internacional. porém. Tampouco soam incomuns maus tratos de prisioneiros num país como o Brasil. Não obstante essas fotos e informações reiteradas de que os cativos têm sido drogados e sujeitos a privação sensorial para debilitar resistências nos interrogatórios. em condições indescritíveis.br/direitos/ militantes/lindgrenalves/lindgren_11set. no coração da cidade. EUA. era: “You already do” (“Você já vive”). Esta. tão rotineira que sua tipificação como delito parece não ter “pegado”. mulher parlamentar. ou complementação. vivem expostos em celas de alambrado qualificadas por “perito penitenciário” como “basicamente um canil” (sic). capuzes. geralmente admirada. Afigura-se. a situação em Guantánamo não deveria parecer assustadora (embora as fotografias sejam chocantes para qualquer um que as veja). a opinião do secretário de Defesa contra o que têm afirmado a Cruz Vermelha. Endossava. Depois do apoio quase unânime do Congresso ao presidente para que ele pudesse declarar legalmente uma “guerra contra o terrorismo”. membro do Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial da ONU e embaixador designado do Brasil em Sófia (Bulgária). a Human Rights Watch e outras organizações congêneres. Para quem se acostumou à rotina da superpopulação carcerária brasileira. assim. Mais estranho ainda soa que se critique. o panfleto era uma convocação pela seção local da Guilda Nacional de Advogados (ONG de profissionais do direito ativistas dos direitos humanos) para manifestação pública. (d) pune pessoas sem lhes dar oportunidade de defesa?” A resposta. numa cidade “avançada”. (c) mantém presos incomunicáveis por meses. de forma tão veemente. algemas e correntes. em 15 de fevereiro de 2002. em viagem oficial. de posições liberais.

atinentes ao direito à não-interferência em assuntos da vida privada. Foi a exaltação do patriotismo. no país e no exterior. para julgar estrangeiros por ele qualificados de terroristas (o que não foi sequer contemplado para o norte-americano John Walker Lindh. complexado e gratuito. na civilização. ser punidos). pelo qual o Presidente da República “autoriza o estabelecimento” de tribunais militares especiais. Foi ela que fez vista grossa à discriminação contra os estrangeiros no território nacional. a consciência de que a luta contra o terrorismo não pode ser conduzida ao arrepio do direito. Foi ela que propiciou ao governo a adoção de medidas restritivas de liberdades. mais do que o temor de mensagens subliminares. sobre os erros da CIA ao financiar talibãs contra os soviéticos na década de 80. A dissociação norte-americana do direito humanitário que os próprios Estados Unidos haviam FGV DIREITO rio 145 . que aprovou. Talibã apreendido em território afegão. despertaram em muita gente. de rito secreto e sumário. mas julgado nos Estados Unidos por tribunal normal.direitos humanos somos bons. Sem dúvida. por mais de três meses e meio. com arremessos de comida para uma população em fuga para o vizinho Paquistão. de que a barbárie de uns não pode justificar a brutalidade de outros. país pobre e já transbordante de refugiados pashtuns – foragidos que. que modificaram de forma súbita a reação de norte-americanos àquilo que vinha – e vem ainda – ocorrendo. de que. por tempo indeterminado. associado à ânsia de vingança da superpotência ferida contra os idealizadores dos atentados (estes precisam. sem acusação conhecida e sem direito a advogado (alguns já por mais de cem dias). com assistência jurídica e apoio familiar). encontravam as fronteiras fechadas por ordens dos Estados Unidos na fase precedente à operação militar (para impedir a saída de inimigos). do Qatar) em que Bin Laden aparecia. com discurso igual ao do Presidente Bush. como as que permitem a escuta telefônica e a censura de comunicações pela Internet. Foi o patriotismo amortecedor de direitos. que justificou para o povo a recomendação governamental de autocensura à retransmissão de vídeos da estação Al Jazeera (a “CNN” árabe. normalmente sacrossanto porque essencial ao individualismo do país. logo “quem não está comigo está contra mim”. a obsessão patriótica durou. pouco lidos. sim. sem hesitações. por sinal. Qualquer crítica ao Governo na “guerra contra o terrorismo” (e até em outros assuntos) era repudiada como antiamericanismo – quanto mais se feita em defesa de indivíduos descritos como perigosos terroristas! Por mais simplista que fosse. o bombardeio do Afeganistão em ruínas. Nesse ambiente de exaltação belicosa. pela civilização. nada pode fundamentar a rediscussão da tortura como técnica para a obtenção de informações. a sociedade e os meios de comunicação norte-americanos pareciam apoiar em uníssono a interpretação de que os atentados não passavam de atos covardes. O apoio popular ao Presidente chegou a alcançar 95%. obviamente. A discriminação entre nacionais e estrangeiros se revela também no decreto de 16 de dezembro de 2001. todos favoráveis a mudanças nas posições do país. as fotografias dos detidos em Guantánamo e a repulsa que causaram. Ao contrário do que diziam livros sérios. não foram os atos atentatórios aos direitos fundamentais de todos os seres humanos. sem possibilidade de apelação de sentenças. com vigor extraordinário. particularmente estrangeiros. resultantes de um ódio visceral. eles maus”. apenas com os sinais trocados. passíveis de detenção arbitrária.

a agressão verbal à Coréia do Norte tende a prejudicar as negociações bilaterais encetadas). protegidos pela Terceira Convenção de Genebra. por pressão interna. em 29 de janeiro. que ela possa reorientar o governo para o reconhecimento da importância dos direitos humanos. estipula que o eventual indiciado em crime de guerra. ademais de anunciar a disposição de expandir a “guerra contra o terrorismo”. o Irã e a Coréia do Norte como um “eixo do Mal”. estendendo o combate aonde lhe pareça necessário. dedicadas ao exterior. seja julgado por tribunal transparente e imparcial. FGV DIREITO rio 146 . decididos por Washington. uma coisa é certa: os detidos de Guantánamo e o “eixo do Mal” mudaram os noticiários. Os sul-coreanos fizeram manifestações contra o Presidente Bush às vésperas de sua primeira visita a Seul (além de a nação ser a mesma. Bush (v. Contudo. a cobrar o reconhecimento dos detidos em Guantánamo como prisioneiros de guerra. Só tomei conhecimento do panfleto depois da hora marcada. o que realmente vem modificando em profundidade a atitude de norte-americanos e aliados foi o primeiro discurso do presidente George W. Esta impede maus tratos e interrogatórios além do imprescindível para sua identificação. em que deu a convocação de São Francisco à manifestação em favor dos prisioneiros talibãs. por quem antes apoiava a “guerra contra o terrorismo” (v. Bush sobre o “estado da União”. mas não totalmente impossível. Nas páginas de rosto saem agora notícias desagradáveis a Washington (como as de ataques errados e espancamentos de inocentes por tropas no Afeganistão). Não sei. com direito a advogado e recurso contra sentenças. que. O que a conscientização dos media e das pessoas representará de concreto na luta contra o terrorismo é difícil prever. Na preparação do Presidente para o state of the Union. acabem perdendo terreno para o moderado Colin Powell. a análise de Chris Matthews sob o título expressivo de Who hijacked our war? – “Quem seqüestrou nossa guerra?” – no S. européia e asiática. com um mínimo de consistência. D1). em 10/02/2002. muito mais do que as fotografias de Guantánamo e a repulsa que causaram.direitos humanos ajudado a criar (na conferência diplomática de Genebra de 1949) forçava os aliados europeus. os “falcões parecem ter ido além do limite tolerável pelo patriotismo do cidadão comum. por exemplo. Francisco Chronicle. Todavia. agora em crítica mordaz. O mesmo tem sido dito. E que a idéia desse “eixo” com elementos tão díspares não tenha passado de de artifício de apoio à proposta de aumento gigantesco no orçamento militar. p. decorrentes de medidas adotas nessa guerra heterodoxa. Nele. Paulo. Os europeus em geral – inclusive o governo britânico – dissociaramse de possíveis bombardeios contra qualquer desses três países. Pode ser que. francamente. Não é preciso ter o gênio de Immanuel Wallerstein para entender que os atentados do Onze de Setembro deram ainda mais força aos “falcões” da administração George W. A simples fadiga dos assuntos da “guerra contra o terrorismo” não os faria passar tão rapidamente das primeiras páginas de todos os jornais para aquelas menos lidas. Tampouco li nos diários ecos de sua realização (o que me leva a supor ter sido bem reduzida). 17/02/2002. entrevista à Folha de S. afinal. prevê repatriação no término das hostilidades. A7). É ainda improvável.. o Presidente dos Estados Unidos singularizou o Iraque. tem também justificados temores. muitas sobre violações de direitos no país. p. detentor como qualquer pessoa da presunção de inocência. com ou sem autorização externa.

“Fragmentação ou recuperação”. fazendo-o sentir que a observância desses direitos sempre foi e continuará a ser a melhor forma de desfazer condições que conduzem ao terror. In: Política Externa. que. 09 –19. nº 2. Setembro/Outubro/Novembro 2004.” MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: DANNER. LINDGREN ALVES. Tendo em conta o grande peso dos Estados Unidos na disseminação internacional da idéia dos direitos humanos e a importância da sociedade civil norte-americana para sua afirmação dentro dos próprios Estados Unidos (como visto nos anos 50 e 60).direitos humanos atualmente submersos na prioridade da segurança. “A lógica da tortura”. militar e policial – felizmente sem a “doutrina” que conhecemos no Brasil -. Volume 13. ela pode tornar-se antídoto aos malefícios da globalização excludente. de qualquer forma. Mark. In: Política Externa. 2005. A conscientização evidencia. inclusive os direitos econômicos e sociais. Os direitos humanos na pós-modernidade. nº 2. a movimentação que se esboça de novo pelo respeito a tais direitos. Na medida em que ela absorva e propague a interdependência de todos os dispositivos da Declaração Universal de 1948. para a sociedade civil esclarecida e atuante. José Augusto. pp. depois do Onze de Setembro. __________. os direitos fundamentais e o direito internacional humanitário não se acham esquecidos pelo medo ou patriotismo cego. 33 –44. FGV DIREITO rio 147 . Volume 13. São Paulo: Perspectiva. só pode ser positiva. Setembro/Outubro/Novembro 2004. pp.

Ex-consultora do CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais). Trabalhou para diversas instituições de promoção dos direitos humanos. tais como Fundação Ford.org. Professora do grupo de estudos sobre o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos e Coordenadora de Relações Institucionais da Escola de Direito do Rio de Janeiro da FGV. rede de monitoramento das tendências de mudança e continuidade do sistema internacional (http:// rsi. Professora de Direitos Humanos.direitos humanos Paula Spieler Mestre em Relações Internacionais e bacharel em Direito pela PUC-Rio.br/). FGV DIREITO rio 148 . Participou de cursos internacionais sobre direitos humanos promovido pela Universidade de Coimbra e pela Universidade de Columbia. Ex-pesquisadora do grupo de direitos humanos do Radar do Sistema Internacional. Membro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Direitos Humanos.cgee. Anistia Internacional e Justiça Global.

direitos humanos FICHA TÉCNICA Fundação Getulio Vargas Carlos Ivan Simonsen Leal PRESIDENTE FGV DIREITO RIO Joaquim Falcão DIRETOR Fernando Penteado VICE-DIRETOR ADMINISTRATIVO Luís Fernando Schuartz VICE-DIRETOR ACADÊMICO Sérgio Guerra VICE-DIRETOR DE PÓS-GRADUAÇÃO PROFESSOR COORDENADOR DO PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO EM PODER JUDICIÁRIO Luiz Roberto Ayoub Ronaldo Lemos Coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade Evandro Menezes de Carvalho Rogério Barcelos COORDENADOR ACADÊMICO DA GRADUAÇÃO COORDENADOR DE ENSINO DA GRADUAÇÃO Tânia Rangel COORDENADORA DE MATERIAL DIDÁTICO COORDENADORes DO NÚCLEO DE PRÁTICAS JURÍDICAS COORDENADORA DE SECRETARIA DE GRADUAÇÃO COORDENADOR DE FINANÇAS COORDENADORA DE MARKETING ESTRATÉGICO E PLANEJAMENTO Lígia Fabris e Thiago Bottino do Amaral Wania Torres Diogo Pinheiro Milena Brant FGV DIREITO rio 149 .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful