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direitos humanos

AUTORES: JOSÉ RICARDO CUNHA, CAROLINA DE CAMPOS MELLO E PAULA SPIELER

4ª edição

ROTEIRO De CURSO 2009.1

Sumário

Direitos Humanos
APRESENTAÇÃO.............................................................................................................................................................................03 Aulas...........................................................................................................................................................................................07 AULA 01: INTRODUÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS.............................................................................................................................08 Aula 02: Desenvolvimento histórico dos direitos humanos..................................................................................................15 Aula 03: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos................................................................................18 Aula 04: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos................................................................................26 Aula 05: Os tratados de direitos humanos e a Constituição Federal.....................................................................................30 Aula 06: Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos...............................................................................................................37 Aula 07: Sistema global: mecanismos convencionais e não-convencionais de proteção dos direitos humanos...............44 Aula 08: Sistemas regionais de proteção dos direitos humanos...........................................................................................49 Aula 09: Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos.........................................53 Aula 10: Sistema Interamericano de Direitos Humanos: Estudo de Caso...............................................................................58 Aula 11: Direito Internacional Humanitário e Direito Internacional dos Refugiados.......................................................62 Aula 12: Os direitos civis e políticos: direito à vida................................................................................................................74 Aula 13: Os direitos civis e políticos: direito à liberdade e integridade pessoal.................................................................91 Aula 14: Violência Urbana.........................................................................................................................................................96 Aula 15: Direitos humanos econômicos, sociais e culturais..................................................................................................99 Aula 16: A especificação do sujeito de direitos. Os direitos humanos sob a perspectiva de gênero................................. 104 Aula 17: Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente.................................................................................. 109 Aula 18: Os direitos humanos sob a perspectiva racial........................................................................................................ 114 Aula 19: Direitos Humanos e a questão indígena................................................................................................................... 122 Aula 20: Direitos Humanos e orientação sexual.................................................................................................................... 126 Aula 21: Teatro do Oprimido.................................................................................................................................................... 132 Aula 22: O papel da sociedade civil na promoção e proteção dos direitos humanos.......................................................... 135 Aula 23: Desenvolvimento e Direitos Humanos..................................................................................................................... 137 Aula 24: Tribunal Penal Internacional................................................................................................................................. 141 Aula 25: Direito Humano Pós-11 de setembro......................................................................................................................... 144

direitos humanos

APRESENTAÇÃO
1. Visão Geral

a) Objeto: O curso de direitos humanos tem por objeto a compreensão da realidade contemporânea (ser) por meio do estudo do marco normativo (dever ser) de tais direitos, seja no âmbito internacional, seja no nacional. Assim, o curso será organizado em quatro partes: 1) 2) 3) 4) Introdução ao Estudo dos Direitos Humanos; Proteção Internacional dos Direitos Humanos; Aspectos Sócio-Jurídicos dos Direitos Humanos; e Novos Temas e Novos Atores.

b) Metodologia: Elegeu-se a abordagem crítica como elemento permeador de todo o curso de Direitos Humanos. Procurou-se assim a utilização de diferentes métodos que representem um conjunto de possibilidades, tendo como ponto comum a efetiva participação do aluno. Atividades como role plays, estudos de casos, apresentação de seminários ou mesmo organização de uma oficina do Teatro do Oprimido são sugestões apresentadas como meios de interatividade dos alunos com o conteúdo apresentado. Dessa forma, o curso não se apresenta como uma unidade estanque, com conteúdo “engessado” no espaço e no tempo, mas com a fluidez necessária para a adaptação do programa às questões mais candentes em termos de direitos humanos. Ressalte-se ainda o caráter cooperativo do método que privilegia a interação entre alunos e professores. c) Bibliografia: O curso foi montado com base em temas, não em autores ou “escolas”, o que justifica a extensão da leitura indicada. Todavia, tendo em vista a necessidade de se estabelecer uma bibliografia básica para compor a biblioteca da Escola, foram indicados certos livros que permeiam, na medida do possível, todas as aulas. Sugere-se ainda a utilização de recursos virtuais como fontes de pesquisa, notadamente sites de órgãos e organizações nacionais e internacionais. É também descrita, em todas as aulas, a legislação vigente – sejam os tratados ou normas internas – necessária para a compreensão do assunto abordado.
2. Objetivos

Os principais objetivos do curso são: • • • Apresentar os conceitos fundamentais referentes a direitos humanos; Examinar violações de direitos humanos; Compreender os sistemas internacional, regional e nacional de proteção dos direitos humanos;
FGV DIREITO rio 3

Do Material Didático O material didático do curso de Direitos Humanos foi elaborado de maneira flexível permitindo tanto ao professor quanto ao aluno a adaptação do programa a questões contemporâneas a sua implementação. a legislação a ser consultada e os sites pesquisados. é que estes se situem como partes de um processo histórico permeado de avanços e retrocessos. A contextualização da temática proposta. ainda. Todas as aulas são compostas de duas partes: a) Nota ao Professor: trata-se de um roteiro sugestivo de pontos a serem abordados em sala de aula. As aulas serão variadas – algumas mais expositivas. o(a) professor(a) contará com o apoio necessário naquilo que é considerado de maior relevância para a compreensão do assunto em pauta. FGV DIREITO rio 4 . A atividade pretende incentivar o posicionamento crítico. entre outros. Nesse sentido. O objetivo final do curso. os alunos deverão apresentar os principais argumentos que fizeram do caso um paradigma na compreensão de determinado assunto. característica essencial ao direito. a bibliografia obrigatória. A nota apresenta. 3.direitos humanos • Municiar o(a) aluno(a) de instrumentos práticos para a intervenção no mundo contemporâneo. mas visa ainda ao estímulo à criatividade acerca de outras respostas possíveis. É importante ressaltar que tal atividade não se restringe à anunciação de uma resposta correta. serão apresentados posicionamentos a serem defendidos pelos alunos diante de uma situação hipotética. além de desenvolver a capacidade dos alunos de visualizarem o mundo que os circunda com a “lente” dos direitos humanos. b) Nota ao Aluno: trata-se do conteúdo mínimo que deve ser apreendido como leitura prévia à aula. A atividade pretende capacitar os alunos na compreensão de posições adversas em tribunais e despertá-los para a necessidade de se chegar a um resultado. a criatividade e o respeito à opinião alheia. Por meio de elementos como objetivo didático e objetivo programático. a postura crítica. os alunos serão convidados a não eternizar de forma acrítica entendimentos pré-estabelecidos e a desenvolver suas capacidades de análise e de prática engajada. No Estudo de Caso. e caberá ao professor a responsabilidade de incentivar o debate sobre os assuntos escolhidos. outras mais abertas à participação e à discussão encadeada pelos alunos –. habilidades diversas serão avaliadas mediante a proposição de algumas atividades específicas: • • Nos role plays. Incentiva-se a participação dos alunos em todas as aulas. são posturas a serem incentivadas nos alunos. Por meio da “problematização”. o estabelecimento de link com assuntos correlatos.

diagnosticar as respostas normativas possíveis. Aponta-se. notadamente na “Unidade IV: Novos Temas e Novos Atores”.0 pontos). Desafios e Dificuldades A riqueza dos assuntos e a complexidade do que se pretende alcançar com o curso de “direitos humanos” conduz à necessidade de um recorte temático. corre-se o risco de certa parcialidade na confecção desse material. d) Prova final: escrita (10. Mesmo quando se referirem a temas considerados “clássicos” em direitos humanos. a certeza de que a temática dos direitos humanos conterá sempre novos “capítulos” confere ao presente material didático uma configuração temporal. os alunos deverão apresentar um panorama geral sobre e determinada realidade e. mister a escolha de conteúdos a serem priorizados em face de outros. o que não lhes confere papel de maior significado. como indicativo de atividades: 1) escolha de um filme a ser debatido conjuntamente pelos três professores. Formas de Avaliação Os alunos serão avaliados com base em: a) Participação em aula. Não obstante a preocupação de se contemplar os temas mais atuais em direitos humanos. 2) determinação de uma decisão judicial.0 pontos).0 pontos). 4. c) Avaliação formativa: prova escrita (5. Tradutori traditori. o leitor poderá concluir que a sua retirada foi alvo de debate por parte daqueles que contribuíram para a confecção das aulas propostas. Tendo em vista a opção de contemplar temas e não autores. Atividades Complementares Atividades em conjunto com outras disciplinas Encontra-se em estudo duas atividades a serem realizadas em conjunto com as disciplinas de Direito Civil (tópico sugerido: Direitos da Personalidade) e Direito Constitucional (tópico sugerido: Direitos Fundamentais). estudo de caso.direitos humanos • Nos seminários. 5. Nesse sentido. 6. preferencialmente do FGV DIREITO rio 5 . seminários (5. b) Atividades específicas: role plays. qualquer tentativa de se apresentar determinado aspecto virá acompanhada por alguma perspectiva subjetiva. por meio de casos concretos. desde então. Ao não encontrar determinado tema entre os propostos neste material didático.

entre outros: Centro de Justiça Global. Violência. Novos atores.direitos humanos Supremo Tribunal Federal. São Martinho. EMENTA b) Tema: a) Tema: A disciplina Direitos Humanos. Tortura Nunca Mais. Center for Justice and International Law (CEJIL). Direitos Civis e Políticos. Direito Internacional dos Direitos Humanos: Direitos Humanos. Julita Lengruber (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania – CESEC/Universidade Candido Mendes/RJ). Direitos Econômicos. O papel da sociedade civil na proteção dos direitos humanos Sugere-se o convite a movimentos sociais e organizações não-governamentais que trabalhem na Advocacia em Direitos Humanos no âmbito nacional e internacional. FASE. Universalidade X Relatividade. Viva-Rio. Direito Humanitário e Direito dos Refugiados. Fundação Bento Rubião. Idéia de gerações e suas críticas. João Ricardo Dornelles (Núcleo de Direitos Humanos do Departamento de Direitos da PUC-Rio). Proteção na Constituição de 1988. Instituto Pro-Bono. Sociais e Culturais. Comissão Pastoral da Terra (CPT). FGV DIREITO rio 6 . Principais documentos. Proteção Regional. a consonância com as datas propostas no programa: A violência no Rio de Janeiro Sugere-se o convite a especialistas como Ignácio Cano (Laboratório de Análises da Violência – UERJ). Perspectiva histórica. na medida do possível. 7. dentre outras. que também possa ser alvo de discussão conjunta pelos três professores. Novos temas. Marcelo Freixo (Centro de Justiça Global). mantendo. Polissemia conceitual. entre outros. Projeto Legal. Realização de Palestras As seguintes palestras serão realizadas em data marcada de acordo com a disponibilidade dos convidados e a conveniência da Escola. Especificação dos sujeitos de direito. Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). Proteção internacional. O envolvimento das demais disciplinas é fundamental para demonstrar aos alunos como o instrumental que recebem em cada uma das disciplinas tornase ainda mais dinâmico ao dialogar com as demais.

23. Direito Humanitário e Direito dos Refugiados. Sistema global: mecanismos convencionais e extra-convencionais de proteção aos direitos humanos. 14. Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos. Direitos Humanos e orientação sexual. 18. Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos. 5. UNIDADE 4: NOVOS TEMAS E NOVOS ATORES 22. Introdução aos direitos humanos: fundamentos e gramática. Especificação do sujeito de direito: os direitos humanos sob a perspectiva de gênero. Universalidade e relatividade cultural dos direitos humanos: conceitos. sociais e culturais. 16. 13. Direitos Humanos no contexto pós-11 de setembro de 2001. 17. Desenvolvimento histórico dos direitos humanos. Direitos Humanos econômicos. Teatro do Oprimido. Desenvolvimento e Direitos Humanos.direitos humanos Aulas UNIDADE 1: INTRODUÇÃO AO ESTUDO DOS DHs 1. 4. UNIDADE 3: ASPECTOS SÓCIO-JURÍDICOS DOS DHs 12. africano e americano. 20. Universalidade e relatividade cultural dos direitos humanos: role play. 25. Violência urbana. UNIDADE 2: A PROTEÇÃO INTERNACIONAL DOS DHs 7. 8. A Constituição Federal e a proteção dos direitos humanos. FGV DIREITO rio 7 . 2. Os direitos civis e políticos: role play referente ao direito à vida. 11. 6. 3. Os direitos civis e políticos. Direitos Humanos e a questão étnica. 19. O papel da sociedade civil na proteção dos direitos humanos. Tribunal Penal Internacional. 9. 10. Sistema Interamericano: estudo de caso (El Amparo Vs. 15. Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente. Direitos Humanos e a questão indígena. Da regionalização: introdução aos sistemas europeu. 24. 21. Venezuela).

levou a polícia do Rio a ser duramente criticada pela imprensa e pela opinião pública. espera-se uma reflexão acerca do seguinte ponto: O que existe em comum entre o filme “Ônibus 174” e os textos a seguir? ÔNIBUS 174 RELEMBRA TRAGÉDIA CARIOCA1 Vencedor do Festival Rio BR deste ano. esse menino de rua viu a mãe ser Acesso em: 21 de abril de 2005.html. que foi afastado da Política Militar por ter se colocado contra a ação policial no episódio que terminou com a morte da passageira Geísa Firmo Gonçalves e de Sandro Nascimento. O longa começa com o seqüestro e a partir dele inserimos depoimentos”.TICOI677-MNfilmes. “Fizemos questão de manter a fidelidade e a cronologia do episódio. A partir daí. além de revelar uma extensa pesquisa com jornais. um dos seqüestradores. conforme havia ameaçado.com. O cuidado do filme em mostrar os dois lados da moeda aparece na entrevista com a tia de Nascimento. mas gerar discussão sobre o tema. Segundo o relato dela. um plano aéreo mostra o belo percurso do ônibus que trafegava da Favela da Rocinha. “Nossa preocupação (no filme) não é a de apontar culpados nem soluções. que morreu por asfixia a caminho do hospital. o documentário Ônibus 174.00. A tragédia. terra. Tudo isso é mesclado ao depoimento do ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais Rodrigo Pimentel.” Logo no início.br/ficha/0. tentando salvar a refém. mas (sim avaliar) o que motiva uma sociedade a agir dessa forma. onde aconteceu a tragédia. atirou na direção do seqüestrador. passando pelos cartões postais das praias de São Conrado e Vidigal e pela avenida Niemeyer até chegar ao Jardim Botânico. Por meio de textos extraídos de jornais. revistas e artigos de Internet. Mas errou o tiro e Nascimento. que tirou o romantismo do “Dia dos Namorados” e durou quatro horas. revistas e notícias de rádio sobre o incidente. atirou contra a passageira.. o aluno deverá assistir ao Filme “Ônibus 174” de José Padilha e ler os textos abaixo. Um outro tiro acertou Nascimento. 1 FGV DIREITO rio 8 .direitos humanos AULA 01: INTRODUÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS NOTA AO ALUNO Para a primeira aula do Curso de Direitos Humanos. Não podemos nos resumir ao ato do seqüestro. apesar de a história ser conhecida do público. um policial. Disponível em: http://cinema. o documentário consegue provocar suspense e nostalgia ao utilizar mais de 70 horas de imagens de TV. mostra a violência das ruas cariocas retratando um seqüestro verídico. explicou Padilha em entrevista recente à Reuters. Quando Nascimento resolveu se entregar e saiu do ônibus protegido por Geísa. de José Padilha. O filme relata o trágico seqüestro de um ônibus coletivo que resultou na morte da refém e do seqüestrador e foi destaque nos noticiário em 12 de junho de 2000.

de repente.) Muito mais versátil e importante. mas o número da linha mudou de 174 para 158. a escravidão é como a tuberculose: todos pensavam que estava extinta nos países civilizados e em vias de desaparecimento em todo o mundo. fica a cargo de representar sua mulher no filme. naturalizado americano. que não pretendem de forma alguma esconder e amenizar os fatos. como está crescendo. chocam ao demonstrar a real dimensão do ocorrido – ela sofreu um derrame durante o seqüestro e não consegue mais falar.direitos humanos assassinada a facadas quando tinha nove anos e mais tarde escapou de ser morto da chacina da Candelária – uma biografia dura e amarga. forma extrema de superexploração capitalista. desarticulação das sociedades pré-capitalistas e ex-socialistas pela integração ao mercado mundial. mostra quanto o seqüestro traumatizou os cariocas. orçado em 600 mil reais. depois Comsat e depois o projeto Sivam. bem inserida no mercado pós-moderno e global e inteiramente criada e reproduzida pelas atuais condições da economia – desemprego tecnológico. O viúvo de Geísa. O percurso ainda existe. A escravidão chega ao Terceiro Milênio2 Em 14 de agosto. geralmente com meninas compradas e às vezes até “adotadas” em países pobres da Ásia. porém. acusado de manter por 20 anos a empregada doméstica Hilda Rosa dos Santos como sua escrava. novas variedades resistentes a antibióticos aparecem onde menos se espera. enquanto imagens da educadora Damiana Nascimento. é a nova escravidão. Continua tendo sentido falar de escravidão neste início do terceiro milênio? Para muitos sociólogos sérios. baseada na propriedade privada de uma pessoa. Índia e França. tal como consta nos livros de história e de economia política – um modo de produção tradicional. a Justiça dos EUA condenou a seis anos e meio de prisão e indenização de US$ 110 mil o engenheiro brasileiro René Bonetti. 16 de outubro de 2000. onde oficialmente não há escravidão há muitos séculos. COSTA. Tailândia. Paquistão. (. como em Nova York e Los Angeles.. Ônibus 174. Mauritânia. a resposta seria não. Mas essa nova escravidão pouco tem a ver com nostalgias e atavismos do passado pré-abolição. 2 FGV DIREITO rio 9 . Cerca de um milhão de meninas com menos de 18 anos trabalha de graça como doméstica nas Filipinas. mas.. legal e garantida pelo Estado. mas um engenheiro eletrônico paulistano que emigrou para trabalhar na mais alta tecnologia: Intelsat. que estudou o assunto no Brasil. Revista Isto É. Antônio Luiz Monteiro Coelho da. Para Bales. Mas este “não” se refere à forma clássica do fenômeno. África e América Latina. Segundo o sociólogo britânico Kevin Bales. Alexandre Magno de Oliveira. numa definição mais ampla – escravidão como condição em que o trabalhador não recebe remuneração e sua vida é totalmente controlada por outros – não só é comum. hoje com 42 anos de idade. Porém. Bonetti não é um senhor de engenho alagoano. sendo capaz de se comunicar apenas por escrito. pré-capitalista. há três mil escravas domésticas em Paris e a história se repete em Londres e Zurique. crescimento das migrações e redução ao absurdo.

mulheres e crianças. Quando você faz um churrasco. indústria siderúrgica) e com o menor preço e aumento da disponibilidade de combustíveis alternativos (carvão mineral. proíbe-os de sair à rua e fecha-os dentro de casa. repetindo a triste odisséia das “polacas” espalhadas pelo mundo como conseqüência da derrocada econômica. da guerra e das perseguições anti-semitas dos anos 1920. Sua vinda resultou da combinação do colapso dos preços das commodities nos anos 80 e 90.. há uma boa probabilidade de estar usando carvão produzido por trabalho escravo. um milhão de mulheres e crianças são vendidas por ano em todo o mundo por um total de US$ 6 bilhões. geralmente vendidas muito jovens por algo como US$ 2 mil. A escravidão sexual é ainda mais característica do mundo pós-moderno. que destruiu a economia mineira boliviana.. Voltando ao Brasil. (. No Brasil. Na Tailândia. iniciando um processo de endividamento e dependência do qual nem todos conseguem se safar. a secretária de Estado americana Madeleine Albright chamou a atenção para o tráfico escravo sexual como um dos empreendimentos criminosos que mais crescem no mundo. atividade tradicional deslocada para o Norte e Centro-Oeste pelo esgotamento das matas do Sudeste. bem como churrasqueira e talheres fundidos com o mesmo combustível. envolvendo. geralmente tecnologicamente atrasadas.. Isto inclui 50 mil nos EUA. Bom Retiro e Pari. (.) Em São Paulo. gás natural). Se o trabalhador quer deixar o patrão que o trouxe. O aumento da distância dos centros consumidores (metrópoles..direitos humanos devido ao acirramento da concorrência pela globalização. O patrão costuma exigir fidelidade de pelo menos um ano e às vezes retém seus passaportes. O colapso da URSS levou uma enxurrada de mulheres empobrecidas e desesperadas da Europa Oriental para trabalhar como escrava-prostitutas para o crime organizado nas capitais da Europa Ocidental. Recentemente. este o considera um FGV DIREITO rio 10 . tornam-se devedores permanentes e trabalham por abrigo e comida.) Tráfico sexual. ganham cada uma cerca de US$ 50 mil por ano para seus “donos” mas nada para si mesmas. Segundo ela. mas os grandes mercados para esse tráfico são o Sudeste Asiático (250 mil) e a Europa Oriental (mais de 200 mil). Desconhecendo o valor das compras e o mecanismo de cálculo da produção. da remuneração de atividades tradicionais. nas suas diversas etapas. a viabilidade do negócio passou a depender cada vez mais de trabalho gratuito. Assim se dá boa parte da produção de carvão vegetal. junto com o acirramento da concorrência no setor têxtil resultante da abertura do mercado brasileiro às importações asiáticas (cuja produção freqüentemente também usa trabalho escravo ou semi-escravo). Os gastos da viagem – cerca de US$ 150 – são pagos pelo empregador. um dos casos de nova escravidão mais conhecidos é o das dezenas de milhares de trabalhadores (às vezes com suas famílias) aliciados por “gatos” no interior de Minas e do Nordeste e levados a empreendimentos em locais isolados para viver em condições precárias de habitação. costurando roupas vendidas nas melhores butiques e publicitadas pelos mais ousados outdoors pós-modernos. higiene e segurança e cumprindo uma jornada que se estende noite adentro. sobretudo no Brás. fundições. bem como moradia e alimentação. vetando visitas de terceiros. 35 mil prostitutas. há cerca de 100 mil imigrantes bolivianos que trabalham nas confecções de São Paulo.

67 em 2004. asp?lang=PT&cod=15552. arroz. empresa que desde 1997 tem sido forçada por uma dura campanha de boicote e denúncias a reformular sua política de compras para oferecer melhores condições a fornecedores que tratam melhor seus empregados. 27 milhões de pessoas vivem as várias formas de nova escravidão e o número está crescendo. a 570 quilômetros de Cuiabá. no Mato Grosso. porém.com. têxteis e outros artigos de consumo baratos para todo o mercado global. desde o início de 2005. a mortalidade infantil naquela área foi de 87. paraguaios ou mesmo bolivianos. 3 FGV DIREITO rio 11 . nos municípios de Japorã e Eldorado. embora conste que os mais hábeis chegam a tirar R$ 400 mensais – ao menos com os patrões coreanos. a 150 km de Antonio João. Disponível em: http://www. cobra as despesas da viagem ou o ameaça com o fantasma da Polícia Federal. No ponto alto da produção para as vendas do Natal. A remuneração pode ser tão baixa quanto R$ 30 a R$ 50 mensais. Foram noticiadas recentemente mais seis mortes por desnutrição em duas aldeias do povo Guarani Nhandeva da região do Sul do Mato Grosso do Sul. como mandioca. Nos EUA. o cinema torna bem conhecida a situação de imigrantes ilegais – mexicanos. mas ainda é insuficiente.direitos humanos “traidor”. batata. sete dias por semana.72 por mil nascidos vivos em 2001 e baixou para 41. sem garantias trabalhistas e com moradia e alimentação controladas pelo empregador-. banana. na região de Campinápolis. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). onde as carências de terra. bem mais do que a população inteira do Império Romano ou de qualquer sociedade escravista do passado. Ainda está próxima. Crianças indígenas morrem de desnutrição3 A violência de um despejo dos Guarani-Kaiowá seria reforçada pelo atual contexto do estado do Mato Grosso do Sul. Segundo Kevin Bales. o trabalho chega a se estender por 15 horas por dia. Parece que em vez de uma sociedade de lazer movida pelo trabalho de robôs. de agosto a novembro. chineses e outros – mantidos em condições semelhantes em vários trabalhos agrícolas. Se forem considerados casos que. como o dos bolivianos do Pari ou as trabalhadoras das subcontratadas da Nike na Indonésia. industriais e de serviços.adital. mas também nessa modalidade. à taxa de mortalidade de Dourados. Um caso notório é o dos pequenos empresários que no Sudeste Asiático fabricam tênis para a ultramoderna Nike. sob ameaça de coação física ou policial. poderiam ser chamados de semi-escravidão – empregos informais com remuneração muito baixa. onde trabalhadores superexplorados fabricam brinquedos. de Acesso em 21 de abril de 2005.br/site/noticias/15552. feijão. milho. Na terra retomada em outubro do ano passado e hoje ameaçada de reintegração. nos dois primeiros meses deste ano. estrutura de produção e de alimentos tem levado à morte de crianças indígenas. o século 21 veio nos trazer a escravidão numa escala que a humanidade jamais conheceu. tidos como mais “generosos” que seus concorrentes brasileiros. os Guarani-Kaiowá de Nhande Ru Marangatu puderam voltar a produzir alimentos para subsistência. Foram seis mortes na terra indígena Dourados. jornadas extremamente longas. o maior foco é a Ásia. o número pode chegar a 200 milhões. e a morte de seis crianças com sintomas de desnutrição em aldeias do povo Xavante.

por exemplo. Em pesquisa anterior deste gênero. de 47 por mil nascidas vivas.pdf. responsável pela saúde indígena no Brasil. seguido de bens materiais (30%) e favores da administração (11%). A análise dos dados por aldeias mostra um quadro ainda mais preocupante do que aqueles apresentados pela Funasa. Alexandre Padilha.transparency. de no máximo 3%. apresentam desnutrição. de 12% de desnutridos e 15% de crianças em risco nutricional. Disponível em: http:// www. Em 2002. que tem divulgado a média de desnutrição do Estado. Em Antônio João. dados da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) apontam que 47 das 256 crianças menores de 5 anos atendidas pela Funasa. tem a taxa em 17%. A média nacional é de cerca de 25 por mil.2% das crianças desnutridas saíram dessa situação nos primeiros meses do ano. No MS. toda a direção da Funasa transferiu-se para o município e diversas equipes de médicos e nutricionistas passaram a atuar no local. demonstram que a preocupação sobre a alimentação e sobre as condições de vida das crianças indígenas não pode se restringir às aldeias de Dourados. Também cresceu a distribuição de alimentos para os indígenas das aldeias da terra indígena Dourados. Assim. Segunda Pesquisa Transparência Brasil sobre compra de votos em eleições populares 4 Pesquisa nacional sobre a prática de compra de votos. Pesquisa realizada pelo Ibope em novembro de 2002 por Bruno Wilhelm Speck e Claudio Weber Abramo. realizada pelo Ibope para a Transparência Brasil e a União Nacional dos Analistas e Técnicos de Finanças e Controle entre 14 e 17 de novembro de 2002. “A situação ainda preocupa a todos e nós temos que manter a sociedade e a comunidade indígena mobilizadas para isso. Outras 52 crianças (20%) estão em situação de risco nutricional. a desnutrição atinge 19% das crianças. 6% dos eleitores afirmaram que receberam oferta de vender o voto por dinheiro. Os compradores de votos se dirigem igualmente a eleitores de todas as faixas de renda. Os dados da pesquisa indicam que uma série de conceitos sobre a compra de votos necessita de revisão: • • O nível de instrução do eleitor tem influência moderada sobre a oferta. De acordo com o diretor do Departamento de Saúde Indígena. disse à Agência Brasil. 4 FGV DIREITO rio 12 . Em 2004 atingimos a menor taxa de mortalidade infantil em povos indígenas. Entre os benefícios oferecidos está em primeiro lugar o dinheiro (56%).org/tilac/ indices/ encuestas/dnld/compra_de_votos_brasil. 23. Acesso em: 21 de abril de 2005. a média estadual não mostra que em Amambai. Desde a última semana. eram 56 por mil. A aldeia Tacuru. sem contar os casos de risco nutricional. realizada após as eleições municipais de 2000. Os números da Funasa (Fundação Nacional de Saúde). mas a taxa é muito alta se comparada com o restante da população brasileira”. dos Guarani Kaiowá.direitos humanos 64 óbitos por mil crianças nascidas vivas. ou 18% delas. aldeias dos povos Terena e Kadiwéu têm um índice mais baixo de desnutrição. Percentuais como estes se repetem em todas as aldeias do povo Guarani no Mato Grosso do Sul. revelou que nas eleições de outubro/ novembro cerca de 3% dos eleitores receberam oferta de candidatos ou cabos eleitorais para vender o seu voto.

direitos humanos • • O fenômeno de oferecer algo em troca do voto independe da condição e do tamanho do município. O código eleitoral de 1965 dispõe. As maiores diferenças se dão entre as regiões do país (Gráfico 8). bens materiais. a pesquisa revela que cerca de 3 milhões de eleitores receberam oferta de vender o seu voto. Logo. e eleições estaduais e nacionais de outro. Disponível em: http://www. Trata-se em primeiro lugar de uma comparação entre eleições municipais. Além de aferir o volume do “mercado” de votos no Brasil. A ONG cobrou a criação de uma comissão independente nos Estados Unidos para examinar o abuso de prisioneiros na prisão de Abu Ghraib. em 2002 as regiões Norte/ Centro Oeste mostraram-se as mais vulneráveis. serviços públicos). A pesquisa referente à compra de voto nas eleições municipais se limitou às ofertas em dinheiro. Sudeste e Sul mostram um quadro menos desfavorável. O artigo 299 criminaliza a mera oferta de compra de voto. afirmou a ONG de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch. há diferenças mais significativas quanto à distribuição do fenômeno da compra de votos por idade do eleitor. 237. no Iraque. Com todas as limitações. Da mesma forma como ocorreu no levantamento relativo às eleições municipais de 2000. se eles mesmos estão praticando abusos.uk/portuguese/noticias/ story/2005/01/050113_direitoshumanosro. com os homens sendo ligeiramente mais assediados do que as mulheres. de um lado. Porém. Segundo a organização. diz ong5 Violações dos direitos humanos cometidas pelos Estados Unidos estão minando a lei internacional e erodindo o papel do país no cenário internacional. Acesso em: 21 de abril de 2005. Eua estão minando direitos humanos no mundo.shtml. que a interferência de poder econômico e o desvio ou abuso de poder de autoridade serão coibidos e punidos. embora ainda com incidência do fenômeno. quando a pesquisa nas últimas eleições incluiu todos os tipos de troca oferecidos (dinheiro. no art. e não de uma série histórica sobre o mesmo fenômeno. as pesquisas da Transparência Brasil visam elaborar um indicador para acompanhar o fenômeno ao longo do tempo. bbc.co. enquanto em 2000 a região Sul apresentou-se no mesmo nível do Nordeste. os americanos já não podem mais reivindicar que estão defendendo os direitos humanos em outros países. Por outro lado. seguidas pelo Nordeste. Vale a pena lembrar que o código eleitoral define essa transação como crime. em 2002 nivelou-se com a Sudeste. Há pouca diferença entre sexos. 5 FGV DIREITO rio 13 . mesmo que não aceita pelo eleitor. Os eleitores com mais idade são menos sujeitos à oferta do que os mais jovens. Observe-se que. a comparação entre as duas pesquisas relatadas referentes às eleições em 2000 e 2002 requer certo cuidado. estamos diante de um universo de 3 milhões de infrações criminais ocorridas nas últimas eleições.

DORNELLES. no modelo da que investigou os ataques de 11 de setembro. 1547. Também pede a indicação de um promotor especial para determinar o que houve de errado e levar os responsáveis à Justiça. diz que as ações dos americanos nestas prisões tiveram um efeito negativo sobre a credibilidade do país como um defensor dos direitos humanos e líder da guerra contra o terrorismo. A era dos direitos. “A adoção de interrogatórios com coerção é parte de um desrespeito mais amplo dos princípios dos direitos humanos em nome do combate ao terrorismo”. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: ALMEIDA. FGV DIREITO rio 14 . uma outra entidade. BOBBIO. A entidade pede que o governo Bush instale uma comissão totalmente independente. p. João Ricardo. O que são direitos humanos? São Paulo: Brasiliense. para analisar as denúncias de abusos em Abu Ghraib. 1989. A Human Rights Watch diz que os americanos já não podem mais dizer que sua posição é moralmente correta e liderar como exemplo. o Worldwatch Institute. Norberto. havia divulgado um relatório que dizia que a chamada “guerra contra o terrorismo” pode estar perpetuando o ciclo de violência no mundo. A entidade cita as técnicas de interrogatório com coerção em Guantánamo e Abu Ghraib como especialmente prejudiciais.direitos humanos Na quarta-feira. disse a ONG. Fernando Barcellos de. a maior organização de defesa dos direitos humanos baseada nos Estados Unidos. em Cuba. 1996. Credibilidade O governo americano está no momento investigando denúncias de abusos de prisioneiros no Iraque e também na prisão da base militar de Guantánamo. Rio de Janeiro: Campus. O grupo. Teoria Geral dos Direitos Humanos. 1992. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris.

Dessa forma. Mas afinal. em 1215. uma vez que. do nomos: regra que emana da prudência e da razão. passagem da Baixa Idade Média para a Alta Idade Média) voltava a tomar força a idéia de limitação do poder dos governantes. Como resultado da difusão do Direito Natural e no contexto das Revoluções Burguesas. até a Revolução Francesa. enquanto que os reis – até então considerados nobres – reivindicavam os direitos pertencentes à nobreza e ao clero. Dessa forma. a sociedade européia se organizava em “ordens” ou “estamentos”. A partir do século XI. Alguns autores vêem nas primeiras instituições democráticas em Atenas – o princípio da primazia da lei (i.e. da consagração de direitos comuns a todos os indivíduos – do clero. Destacam-se aqui: na Inglaterra.. É nesse contexto em que se formulam as primeiras declarações de Direitos. destaque-se: a laicização do Direito Natural a partir de Grócio e o apelo à razão como fundamento do Direito. a consagração dos direitos humanos é fruto de mudanças ocorridas ao longo do tempo em relação à estrutura da sociedade. a elaboração da Carta Magna. são impostos limites ao poder real por meio da linguagem dos direitos. mas apontar alternativas. a noção de direito subjetivo estava ligada ao conceito de privilégio. Ainda na Idade Antiga. durante a Idade Média. a república romana. o Habeas Corpus Act de 1679 e o Bill of Rights de 1689.e. Convém salientar que na passagem do século XI ao século XII (i. FGV DIREITO rio 15 . uma vez que a ruptura da unidade religiosa fez surgir um dos primeiros direitos individuais: o da liberdade de opção religiosa. pressuposto do reconhecimento. a Reforma Protestante é vista como a passagem das prerrogativas estamentais para os direitos do homem. séculos depois. É importante salientar que. e não da simples vontade do povo ou dos governantes) e da participação ativa do cidadão nas funções do governo – o primórdio dos direitos políticos. há um movimento de reconstrução da unidade política perdida com o feudalismo.direitos humanos Aula 02: Desenvolvimento histórico dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O desenvolvimento dos direitos humanos foi um processo histórico e gradativo. quando surgem os direitos humanos? O debate sobre o tema conduz sempre ao limite do surgimento do próprio Direito. Não caberá à aula 02 resolver um embate travado entre pensadores ao longo dos séculos. Alguns autores tratam esse momento como o embrionário dos direitos humanos. instituiu um complexo sistema de controles recíprocos entre os órgãos políticos e um complexo mecanismo que visava a proteção dos direitos individuais. O imperador e o papa disputavam a hegemonia suprema em relação a todo o território europeu. acordado entre determinados atores sociais e referentes exclusivamente aos limites do poder real em tributar. nobreza e povo. bem como de diversas lutas e revoluções. Dentre as conseqüências da Reforma. por sua vez. foi uma resposta a essa tentativa de reconcentração do poder (limitou a atuação do Estado).. Outros asseveram sua natureza como meramente contratual. Nesse sentido.

1776 Fruto da Revolução Americana – visavam restaurar os antigos direitos de cidadania tendo em vista os abusos do poder monárquico. Marco do nascimento dos direitos humanos na história. e na França. liberdade e propriedade. examinamos a luta por direitos humanos em contextos nacionais. Todavia. à educação e à saúde. conforme serão estudados ao longo do curso. Art.direitos humanos nos Estados Unidos. significou um marco da consagração da universalidade dos direitos humanos. Reconhecimento da igualdade entre os indivíduos pela sua própria natureza e do direito à propriedade. ambas expressas em um texto escrito (a constituição). Entre essas. a Declaração de Virgínia de 1776. como o Pacto Internacional de Direitos Civil e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. É importante ressaltar que ambas as Declarações consagraram os direitos humanos da primeira geração. Nesse contexto. ambos de FGV DIREITO rio 16 . XVI: baseado na lição clássica de Montesquieu – teoria do governo misto combinada com uma declaração de direitos. conforme demonstrado a seguir: Declaração de Virgínia. Todavia. as atrocidades cometidas durante as Guerras Mundiais. uma vez que coloca em cheque a idéia contemporânea de indivisibilidade e interdependência dos direitos. ao passo que os direitos humanos de segunda geração (embora a Constituição francesa de 1791 já estipulasse deveres sociais do Estado. cabendo ao poder estatal declará-los. Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Os homens são dotados de direitos inatos. todas inspiradas no direito natural. Até o presente momento. Sociais e Culturais. Consagração dos princípios iluministas: igualdade. atende-se para o ponto comum: a insuficiência da abstenção estatal como forma de garantia de direitos. somente a intervenção estatal é capaz de garanti-los. notadamente na Segunda. e da Constituição de Weimar em 1919. a idéia de gerações – importante como mecanismo de compreensão histórica – merece ser criticada desde esse momento. como é o caso do direito ao trabalho. cabe destaque o momento histórico em que os direitos humanos foram galgados ao patamar internacional. a elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). Tanto a DUDH. deixou transparente a necessidade de se estabelecerem marcos inderrogáveis de direitos a serem obedecidos por todos os Estados na concertação estabelecida no pós-Guerra. em 1948. Por mais que o direito humanitário e a Organização Internacional do Trabalho já indicassem a necessidade de uma proteção de direitos que se sobrepusesse aos ordenamentos internos. Em face de alguns direitos. 1789 Fruto da Revolução Francesa – os franceses se viam em uma missão universal de libertação dos povos. com base na idéia de que existem direitos baseados na coletividade. em 1917. não dispunha sobre os direitos correlativos dos cidadãos) só tiveram sua plena afirmação com a elaboração da Constituição mexicana (em decorrência da Revolução Mexicana). Já os direitos de terceira geração só foram consagrados após a Segunda Guerra Mundial. a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789.

mas tema que deveria compor a agenda global. Rio de Janeiro: Companhia das Letras. indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos. Reconstrução dos direitos humanos – um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt.direitos humanos 1966. Antônio Augusto. Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. No decorrer da década de 90. pp. 36-66. 2001. Todavia. Diante do exposto. Celso. serão estudados na aula referente ao Sistema Global de Proteção dos Direitos Humanos. ganha força o discurso de que os direitos humanos não eram mais discursos dos blocos. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris. Por sua vez. questiona-se: Qual é a importância da Carta Magna de 1215? Quais os elementos em comum entre a Declaração de Virgínia e a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão? O que são gerações de direitos? Quais foram os precedentes para a consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: COMPARATO. o final da década de 80 foi marcado pela derrocada do socialismo real. Volume I. Foi nesse contexto que se desenvolveram as grandes conferências da década de 90. 1997. 117-145. Legislação: Constituição Federal de 1988 Declaração de Virgínia de 1776 Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 FGV DIREITO rio 17 . São Paulo: Saraiva. 2001. LAFER. 31-118. destacando-se a Conferência de Viena de 1993. Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. vale adiantar que a confecção dos dois pactos localiza-se em um contexto de Guerra Fria em que os dois blocos disputavam ideologicamente a concepção de direitos humanos. a qual consagrou os paradigmas da universalidade. pp. pp. Tratado de direito internacional dos direitos humanos.

direitos humanos Aula 03: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O CASO Zaíra. conforme exposto a seguir: Feministas Defendem a igualdade entre os sexos como um dos princípios fundamentais da democracia. com receio das represálias que poderia vir a sofrer por parte da comunidade muçulmana. Zaíra começa a se aprofundar no assunto. uma vez que considera tal medida extremamente ofensiva a sua crença religiosa e a sua identidade cultural. No entanto. também. por outro lado. seu pai ameaça tirá-la da escola caso ela não use o véu. Zaíra encontra-se dividida: por um lado. Dessa forma. Nesse sentido. Zaíra. Em março de 2004. antes da independência de seu país. resolve usar seu véu no primeiro dia do novo ano letivo. da maneira como foi criada. por seguirem todos os ensinamentos e tradições da religião islâmica. com base no princípio da laicidade do Estado. o Marrocos. lamenta tal proibição. Desconsertada. pois. Sua mãe. Diante disso. FGV DIREITO rio 18 . em respeito às crenças religiosas de sua família. Zaíra considera que alguns hábitos já fazem parte de sua identidade cultural. Para sua surpresa. por sua vez. conseqüentemente. conforme sempre o fez. a não-utilização do véu (hiyas) violaria os ensinamentos sagrados do Alcorão. e em decorrência de seu contato com um mundo não-muçulmano. Isto significa que Zaíra não poderá mais ir à escola usando o véu de acordo com sua religião mulçumana. Nesse contexto. é expulsa da escola. 15 anos. Sua família migrou para o país no começo da década de 1950. o Primeiro de Moharam (primeiro dia do calendário Islâmico) e o Eid-al-Adha (festa do carneiro que comemora o sacrifício de Abraão). Comemora. e principalmente. Ela e sua família são consideradas muçulmanos “fundamentalistas”. a igualdade entre os sexos. é uma das cinco milhões de pessoas muçulmanas que vivem na França. a Assembléia Nacional da França. comemora. em silêncio. a radicalização da laicidade é tida como uma forma de assegurar a liberdade da mulher e. a promulgação da referida lei. assim como a comemoração do Ramadã (período no qual os muçulmanos ficam um mês em jejum). sonhando para sua filha um futuro distinto do dela. adotou uma lei que proibiu o uso ou porte de qualquer símbolo religioso pelos alunos nas escolas públicas a partir do próximo ano letivo (setembro de 2004). ela admira a liberdade feminina e acredita que poderia ser mais feliz sem as imposições religiosas do islamismo. como o uso de véu na escola e na foto da carteira de identidade. estudando as posições a favor e contra a proibição do uso de véu e de qualquer símbolo religioso em escolas públicas. com base na lei em vigor. com medo das conseqüências das atitudes de seu pai.

limitando os atos dos indivíduos e. Trata-se de uma escolha feita pela aluna a seguir os ensinamentos muçulmanos. Conselho Superior de Educação Defende a laicidade do Estado e o combate ao fundamentalismo religioso como forma de melhorar o acesso à educação. destaque-se as freiras católicas que cobrem o corpo inteiro e não são incomodadas pela sociedade. o uso de véu por alunas muçulmanas representa uma cultura milenar. De acordo com a Corte. causa separação e discriminação entre os alunos. o que é pior.direitos humanos O uso de véu por alunas muçulmanas representa uma submissão da mulher ao homem. tornando a escola em um local de aprendizagem e não de conflito. demonstrando tanto a sua devoção e religiosidade quanto a sua obediência a valores tradicionais que compõem a cultura. por ser necessária para assegurar a separação entre Igreja e Estado. tendo em vista não ser peça ornamental e estritamente religiosa. Nesse sentido. uma vez que promove e estimula a segregação das religiões. Corte Européia de Direitos Humanos Defende que a proibição de uso de véus nas escolas públicas por alunas muçulmanas não viola o direito de liberdade religiosa. é também um dos requisitos para se garantir uma sociedade democrática. A imposição de uma proibição dessa dimensão demonstra o autoritarismo do Estado e a violação do princípio do Estado Democrático de Direito. Dessa forma. o Estado tem que banir tal discriminação. e não uma forma de submissão. O banimento do véu confirma que há uma perseguição religiosa aos islâmicos desde o 11 de setembro de 2001. tal proibição. Como exemplo. determinando suas próprias vestimentas. de quipá e da estrela de Davi pelos judeus e da cruz e de crucifixo por católicos. FGV DIREITO rio 19 . Partido de Justiça e Desenvolvimento Islâmico Defende a identidade cultural e o direito à liberdade religiosa. católicos e judeus atenta contra tais princípios. a proibição da utilização de qualquer símbolo religioso por alunos muçulmanos. A utilização de véu por alunas muçulmanas em escolas públicas. bem como é uma forma válida para se combater o fundamentalismo islâmico. Nesse sentido. Partido pela liberdade religiosa Defende ser a liberdade de escolha religiosa um princípio basilar de qualquer sociedade democrática. bem como a liberdade de expressão.

505. direito de todos e dever do Estado e da família.º 8. Lei n. a saúde. os tratados internacionais de direitos humanos (dispostos abaixo). salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa..] Artigo 39º. institui o Programa Nacional de Apoio à Cultura – PRONAC – e dá outras providências.. a moradia. MATERIAL DE APOIO Legislação: Constituição Federal de 1988 Art. 215. a honra e a imagem das pessoas.] X – são invioláveis a intimidade. a segurança. [. [.. sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida... seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. nos termos seguintes: [. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida.313 – Lei Rouanet – de 23 de dezembro de 1991 Restabelece princípio da lei nº 7.. 5º Todos são iguais perante a lei. à segurança e à propriedade. a previdência social. fixada em lei. a proteção à maternidade e à infância. [. qualquer discriminação de natureza política FGV DIREITO rio 20 . O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional. a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.] Art.. na forma desta Constituição (grifou-se). A educação. e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. punível com reclusão de dois a seis meses e multa de vinte por cento do valor do projeto... [. a vida privada. assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação... o lazer. à liberdade. [. [. o trabalho. de 02 de julho de 1986. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa. à igualdade.] Art. sem distinção de qualquer natureza.. 6..] Art. na forma da lei. 205. bem como as posições acima mencionadas para responder tais questões. o Estado brasileiro estaria violando algum princípio fundamental ou direito humano? Utilize a legislação brasileira. a assistência aos desamparados. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade.] VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença.direitos humanos Questões: Em primeiro lugar: O Estado francês agiu de forma correta ao adotar e promulgar a referida lei? Se esse caso ocorresse no Brasil (tendo em vista ser um Estado igualmente democrático e laico).] VIII – ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política. São direitos sociais a educação. Constitui crime..

da celebração de ritos. 2. aplica-se excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade. opinião política ou de outra natureza. origem nacional ou social. Artigo II. Art. língua. este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença. de consciência ou crença. Na ausência de medidas legislativas ou de outra natureza destinadas a tornar efetivos os direitos reconhecidos no presente Pacto.. de atividade intelectual e artística. cor.direitos humanos que atente contra a liberdade de expressão. Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. [.069. e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade. Esse direito implicará a liberdade de Ter ou adotar uma religião ou crença de sua escolha e a liberdade de professar sua religião ou crença.. Declaração Universal dos Direitos Humanos Artigo I. 2º.. pelo ensino. 1º. tanto pública como privadamente. 16. sem discriminação alguma por motivo de raça. de consciência e de religião. em público ou em particular. a pessoa até doze anos de idade incompletos. Considera-se criança.] III – crença e culto religioso. para os efeitos desta Lei... Lei nº 8. O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos: [. pelo culto e pela observância. pela prática.] Artigo XVIII: Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento. levando em consideração seus respectivos procedimentos constitucionais e as disposições do presente Pacto. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade. sem distinção de qualquer espécie. Os Estados-partes no presente Pacto comprometem-se a garantir a todos os indivíduos que se encontrem em seu território e que estejam sujeitos à sua jurisdição os direitos reconhecidos no presente Pacto. Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente. seja de raça. religião. opinião política ou de qualquer outra natureza. origem nacional ou social. Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração. os Estados-partes comprometem-se a tomar as providências necessárias. religião. no andamento dos projetos a que se referem esta Lei. individual ou coletivamente. riqueza. situação. consciência e religião.. Art. Parágrafo único.] Art. língua. isolada ou coletivamente. nascimento.. Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Artigo 2º 1. sexo. com sitas a adotá-las. ou qualquer outra condição.. [. Toda pessoa terá direito à liberdade de pensamento.. [. [. de 13 de julho de 1990 Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. sexo. por meio do culto..] Artigo 18 1. de práticas e do ensino. Nos casos expressos em lei. cor.] FGV DIREITO rio 21 .

com base no sexo. Os Estados Partes do presente Pacto reconhecem o direito de toda pessoa à educação. Religiosas e Lingüisticas. língua.] 2. social e cultural nos níveis nacional. nascimento ou qualquer outra situação..] Artigo 13 1. Os Estados Partes do presente pacto comprometem-se a garantir que os direitos nele enunciados se exercerão sem discriminação alguma por motivo de raça. em pé de igualdade e com a mesma ênfase. A plena participação das mulheres. cor. [. a Conferência Mundial sobre os Direitos Humanos reafirma a obrigação dos Estados de garantir a pessoas pertencentes a minorias o pleno e efetivo exercício de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais. Sociais e Culturais Artigo 2º [. Considerando a importância da promoção e proteção dos direitos das pessoas pertencentes a minorias e a contribuição dessa promoção e proteção à estabilidade política e social dos Estados onde vivem. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos de forma global. são objetivos prioritários da comunidade internacional.. opinião política ou de outra natureza. justa e equitativa.] 19.. Concordam em que a educação deverá visar o pleno desenvolvimento da personalidade humana e do sentido de sua dignidade e fortalecer o respeito pelos direitos humanos e liberdades fundamentais. sexo. situação econômica.. indivisíveis interdependentes e inter-relacionados. étnicos ou religiosos e promover as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz. conjuntamente com outros membros de seu grupo. sejam quais forem seus sistemas políticos. culturais e religiosos. Declaração e Programa de Ação de Viena de 1993 5. [. Todos os direitos humanos são universais. sua própria vida cultural. [. Concordam ainda em que a educação deverá capacitar todas as pessoas a participar efetivamente de uma sociedade livre. sem qualquer forma de discriminação e em plena igualdade perante a lei. regional e internacional e a erradicação de todas as formas de discriminação. assim como diversos contextos históricos.. as pessoas pertencentes a essas minorias não poderão ser privadas do direito de ter. econômicos e culturais. Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos. de professar e praticar sua própria religião e usar sua própria língua. religiosas ou lingüísticas. na vida política. em conformidade com a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos da Pessoa Pertencentes a Minorais Nacionais. Os direitos humanos das mulheres e das meninas são inalienáveis e constituem parte integral e indivisível dos direitos humanos universais. favorecer a compreensão. a tolerância e a amizade entre todas as nações e entre todos os grupos raciais.. econômica. em condições de igualdade.direitos humanos Artigo 27 Nos estados em que haja minorias étnicas. origem nacional ou social. religião. é dever dos Estados promover e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais. FGV DIREITO rio 22 . civil. Étnicas..] 18.. Embora particularidades nacionais e regionais devam ser levadas em consideração.

integrado pela Turquia. A decisão da Corte Européia também pode ter ressonância em casos na Alemanha. com toda a liberdade e sem qualquer interferência ou forma de discriminação. entre outros livros. vem noticiando o intenso debate que se instalou na França a respeito do uso do véu muçulmano por alunas das escolas públicas daquele país. planejamento.2003. 2004. O Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP). a ex-estudante de medicina Leyla Sahin foi impedida de realizar uma prova porque estava usando um véu.br/Noticias. Folha de S. atualmente à frente do governo turco e que possui raízes islâmicas. “Podem se justificar medidas adotadas em universidades para impedir certos movimentos fundamentalistas religiosos de pressionar estudantes que não praticam a religião em questão ou aqueles adeptos de outras religiões”. O véu religioso A imprensa brasileira. Foi secretária nacional dos Direitos da Cidadania do Ministério da Justiça (governo Fernando Henrique Cardoso.direitos humanos As pessoas pertencentes a minorias têm o direito de desfrutar de sua própria cultura. 30. havendo notícias de algumas expulsões em virtude da insistência no uso do véu.com. é procuradora de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo e autora de “A Paixão no Banco dos Réus”. As proibições impostas em nome da separação entre Igreja e Estado seriam então consideradas “necessárias em uma sociedade democrática”. disse a Corte Européia de Direitos Humanos hoje. Acesso em: 15 out. mas acabou voltando atrás ao se deparar com a oposição dos militares defensores da secularidade do sistema.OI333991-EI312. 2004. estudou a possibilidade de colocar fim à proibição do uso do véu.06. principalmente esta Folha. Disponível em: http://noticias. desde que não sejam “invasivos”. depois do colapso do Império Otomano.html.2004. 29. de professar e praticar sua própria religião e de usar seu próprio idioma privadamente ou em público. que é parte do Conselho da Europa.12. a corte com sede em Estrasburgo (França) rejeitou a argumentação apresentada por uma estudante turca impedida de frequentar a faculdade de medicina da Universidade Istambul porque o véu usado por ela violava o código de vestimenta da instituição. surgirão no país quando entrar em vigor a lei banindo o uso do véu pelas muçulmanas em escolas públicas. Luiza Nagib Eluf. onde professoras muçulmanas estão apelando contra leis de vários Estados que as impedem de cobrir suas cabeças. A Turquia é uma sociedade majoritariamente muçulmana que introduziu um sistema de governo secular nos anos 1920. 48. asp?NOTCod=98021. terra. segundo se prevê. Disponível em: http://clipping. véus e outros símbolos religiosos são permitidos nas escolas do Estado. Paulo. Notícias prévias: Corte européia mantém proibição de véu muçulmano6 A proibição do uso de véus pelas alunas muçulmanas em escolas públicas não viola o direito de liberdade religiosa e é uma forma válida de combater o fundamentalismo islâmico.br/mundo/interna/ 0. vários conflitos ocorreram entre pais de alunas e diretores de escolas. De acordo com uma decisão da Justiça em 1989.gov. 7 Terra online. A sentença do tribunal pode ajudar o governo francês a enfrentar os processos que. disse o órgão.00. No caso decidido nesta semana. Em razão da ampla interpretação que a palavra “invasivo” permite.. Luiza Nagib. 7 FGV DIREITO rio 23 . afirmou a corte. Em uma decisão que pode abrir precedentes. Acesso em: 15 out. 6 ELUF.

Por essa razão. tendo em vista tratar-se de “um símbolo visível da submissão da mulher”. opção religiosa com imposição de subalternidade. FGV DIREITO rio 24 . também. É o que nos assegura a Constituição de 1988. Os usos e costumes de determinados grupos sociais foram utilizados. As atrizes Isabelle Adjani e Isabelle Huppert e a designer de moda Sonia Rykiel. Isso significa que não se pode confundir convicção pessoal com opressão. em seu art. O tal “véu” não é peça ornamental. Não falta quem atribua aos europeus a incapacidade de acolher. que estigmatiza a mulher. O Brasil. Trata-se de uma polêmica que. para evitar violações de direitos trazidas pelas próprias religiões aos seus seguidores. tendo apurado que 57% dos franceses apóiam a proibição do uso do véu em escolas e repartições públicas. mas a intolerância maior parece não ser dos países hospedeiros. deve ser aplicado. Impedem-nas de mostrar qualquer parte do corpo. Essas populações resistem tenazmente a assimilar os valores ocidentais. existem na França 5 milhões de muçulmanos. respirar ou falar. dentre outras. assim como a França. Protestante e Ortodoxa opuseram-se à proibição. assinaram o manifesto. como Alemanha. Tanto as alegações fundamentadas em princípios religiosos quanto as calcadas em hábitos culturais não podem ser admitidas quando se prestarem a restringir ou eliminar direitos. 5º. estabelece que “ninguém será privado de direitos por motivos de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política”. além da França. as comunidades muçulmanas impõem às mulheres regras extremamente opressivas. Nossa Carta Magna. para que apresentasse projeto de lei proibindo o uso de véu por meninas muçulmanas nas escolas. pode ocorrer entre nós. outros países do velho continente. Espanha. sendo que o poder político não está vinculado a nenhuma delas. opção religiosa com imposição de subalternidade. Não se pode confundir convicção pessoal com opressão. a revista “Elle” francesa divulgou um apelo ao presidente Jacques Chirac. setores das igrejas Católica. assinado por mais de 60 mulheres de destaque. É um “uniforme” feminino. Escudadas em princípios religiosos. inclusive o cabelo. Portugal e Inglaterra. tampouco é estritamente religioso. por vezes chegando ao absurdo de obrigá-las a cobrir o rosto todo com o uso da burca. mais cedo ou mais tarde.direitos humanos A discussão a respeito dos limites das determinações religiosas é de interesse geral e deve ser acompanhada pelos demais países laicos em todo o mundo. possuem significativa presença muçulmana. os imigrantes. criado para evitar discriminações em razão de credo. De acordo com dados estimados. No entanto. para justificar numerosas formas de privar as mulheres de seus direitos fundamentais. Uma pesquisa de opinião sobre o assunto foi divulgada recentemente. decorrente de imigrações. dentre os quais o Brasil. temendo restrições que possam. isolando-se em suas comunidades. sem preconceito. a maior comunidade islâmica da Europa. durante muito tempo. inciso VIII. Hoje. essas distorções encontram-se desmascaradas internacionalmente. O dispositivo. afetá-los também. eventualmente. mesmo que com isso elas tenham dificuldades para enxergar. é um Estado em que todas as religiões são permitidas e respeitadas. Por outro lado.

o efeito oposto ao desejado. em terra estrangeira. A proibição de cobrir a cabeça e o corpo tornaria o lamentável véu um símbolo da resistência cultural e religiosa de uma população já segregada. que deve ser extirpado. é importante desestimular o seu uso. Além disso.direitos humanos A polêmica que se iniciou na França com relação ao uso do véu islâmico demonstra que chegou o momento de rever princípios e dogmas religiosos usados para tolher as liberdades democráticas de seus seguidores. O problema do véu está essencialmente ligado ao horror às manifestações do feminino. criando para elas mecanismos de autodefesa e a possibilidade de outra opção de vida. mas opressão física e intelectual. assim. como seres humanos. Não se trata. FGV DIREITO rio 25 . O véu imposto às muçulmanas tem por objetivo impedir que as mulheres se manifestem livremente. não há glamour no uso do véu. Diferentemente do que novelas de televisão andaram mostrando. No entanto talvez a melhor forma de diminuir a adesão ao véu não seja a proibição legal nem a expulsão da escola de meninas que entendam necessário adotar a vestimenta de seus ancestrais. de associar islamismo com terrorismo. como já se argumentou. Surtiria. significa que a sexualidade feminina é proibida e “pecaminosa”. Fortalecer as mulheres. Por essa razão. pode ser a melhor saída para esse impasse.

O debate entre universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos sempre esteve presente nos foros internacionais. tendo em vista que dos 58 membros das Nações Unidas na época. a efetividade universal de suas normas continua em estágio de implementação. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) de 19489 consagrou a universalidade dos direitos humanos e. Por outro lado. única maneira das normas universais serem realmente efetivas. Isto significa que enquanto a delegação portuguesa sustenta uma visão liberal. na qual o indivíduo – pré-social – tem direitos inatos cuja proteção foi transferida para o Estado. conseqüentemente. uma vez que houve um número limitado de países que participaram de sua elaboração10. Diálogo intercultural dos direitos humanos. Por um lado. de tradição confucionista. da Assembléia Geral das Nações Unidas. Na II Conferência Mundial de Direitos Humanos. (ii) o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. este diálogo intercultural tem sido limitado tanto no momento da consagração da universalidade dos direitos humanos como nos debates ocorridos nos foros internacionais. França e Panamá. Filipinas. 9 Apenas os representantes dos seguintes Estados participaram da elaboração da redação do projeto da DUDH: Bielorússia. não aceita o indivíduo como um ser pré-social e. 217 A (III). Curso de Direito da PUC-Rio. e (iii) a IV Conferência Mundial sobre a Mulher de 1995 (Beijing). 48 votaram a favor. religiosa e ideológica. Estados Unidos. bem como pelo fato de não ter havido um consenso desde o início em relação às normas que deveriam ser positivadas. (ii) a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento de 1994 (Cairo). 8 A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adotada em 10. era composto por três etapas8: (i) elaboração de uma declaração universal.direitos humanos Aula 04: Universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos NOTA AO ALUNO A concepção histórica e culturalmente construída de direitos humanos conduz à imperatividade de que qualquer tentativa de universalização seja fruto de um diálogo entre as diferentes culturas. segundo o projeto proposto pela Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. (ii) criação de documentos vinculantes. a delegação chinesa. acirrou-se o debate entre as delegações governamentais. No entanto. e que o argumento da diversidade não pode ser utilizado para limitar os direitos humanos.12. através da Resolução n. a delegação da China sustentou ser o conceito de direitos humanos histórico e cultural. a delegação portuguesa alegou ser a universalidade compatível com a diversidade cultural. entre 1947 e 1948. como se verá a seguir. em especial aquele travado entre representantes da China e a de Portugal. Contudo. compreenderia: (i) a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). 10 FGV DIREITO rio 26 . defende que cada cultura deve ter seu DE BARROS FRANCISCO. Como exemplo. 2003. O processo de universalização dos direitos humanos. (iii) o Protocolo Adicional ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. O intuito era estabelecer uma Carta Internacional de Direitos que. destaquem-se três: (i) a II Conferência Mundial de Direitos Humanos de 1993 (Viena). Rachel Herdy. Sociais e Culturais. produto do desenvolvimento de cada país. Monografia de final de curso. assim. 7. realizada em Viena no ano de 1993. conforme as etapas. p. (iii) adoção de medidas de implementação.1948. União das Repúblicas Soviéticas Socialistas. representou um marco na proteção desses direitos. nenhum contra e oito se abstiveram.

p. 2003. inter alia. Nesse sentido. 335-336. através da Resolução 44/25 das Nações Unidas. 13 DE BARROS FRANCISCO. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. do qual resultou um artigo baseado na proposta de países islâmicos: artigo 2012. prestar-se-á a devida atenção à conveniência de continuidade de educação da criança. ocorrida no Cairo. em perspectiva adequada. Destarte. como exceção. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. religiosa. op. 2003. planejamento familiar e direitos reprodutivos – prevaleceu em todos os casos a posição ocidental. A tradição islâmica não permite a adoção.. sendo inconcebível a imposição de valores ocidentais como universais11. bem como à origem étnica. a colocação em instituições adequadas de proteção para as crianças. de 1989. Por uma concepção multicultural de Direitos Humanos.”14 11 DE BARROS FRANCISCO. Os Estados-partes assegurarão. cultural e lingüística da criança (grifou-se). estereótipos e preconceitos. 12 A Convenção sobre os Direitos da Criança foi adotada em 20. Tratado de direito internacional de direitos humanos.). 3. que significa garantia. Esses cuidados poderão incluir. e não como um obstáculo a esta. Contudo. cuidados alternativos para essas crianças. Para tanto. não havendo. realizada em Beijing. tendo a Plataforma de Ação de Beijing concluído que as práticas que limitam o exercício dos direitos da mulher não podem ser sustentadas em detrimento da universalidade dos direitos humanos. é relevante a proposta de diálogo intercultural sugerida por Boaventura de Sousa Santos15 a fim de compatibilizar tal embate: a hermenêutica diatópica. então. fazse necessário a construção de um diálogo intercultural como forma de se atingir a universalidade efetiva dos direitos humanos. Já na IV Conferência Mundial sobre a Mulher de 1995. CANÇADO TRINDADE. temporária ou permanentemente privada de seu ambiente familiar. mas sim elementos essenciais ao alcance desta última. sugere-se que os discursos ‘fundamentalistas’ dos direitos humanos – tanto o universalista quanto o relativista – sejam superados. Mas universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos são ou não compatíveis? Conforme doutrina de Cançado Trindade: “As culturas não são pedras no caminho da universalidade dos direitos humanos. foi abordada a validade das práticas culturais baseadas na inferioridade da mulher. Boaventura de Sousa (org. op.direitos humanos próprio entendimento do que sejam direitos humanos. Toda criança. econômico e cultural. p.11. 2. Dessa forma. apesar da Declaração e Programa de Ação de Viena. Nesse contexto. Não é certo que as culturas sejam inteiramente impenetráveis ou herméticas. ou cujos interesses exijam que não permaneça nesse meio. como um elemento constitutivo da própria universalidade dos direitos humanos. Capítulo XIX. o exemplo bem sucedido de diálogo intercultural nos trabalhos preparatórios da Convenção sobre os Direitos da Criança. a Kafalah do direito islâmico. espaço para um diálogo intercultural. 20. Contudo. se necessário. Antonio Augusto. de acordo com suas leis nacionais. uma vez que não permitem o diálogo. 15. fazendo necessário a criação de espaços para o diálogo intercultural. em geral. III. mas sim a fortalece. ter confirmado a universalidade dos direitos humanos e a obrigação dos Estados em respeitá-los e promovê-los independentemente de seus sistemas político. 1989. Ao se considerar soluções. uma vez que a criança muçulmana tem o direito inalienável de ligação direta com a linhagem paterna.. Boaventura de Sousa. pp. de forma excepcional. na verdade a diversidade cultural não se opõe à universalidade dos direitos humanos. cit. sendo este instituto denominado kafalah. cit. verificar que. Vol. a colocação em lares de adoção. Há um denominador comum: todas revelam conhecimento da dignidade humana. Trata-se de um método que visa a superar as dificuldades encontradas em um diálogo intercultural. Em se tratando da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento de 1994. A diversidade cultural há que ser vista. In: SANTOS. 14 15 SANTOS. FGV DIREITO rio 27 . cabe ressaltar que embora tenham surgido diversas concepções sobre os temas abordados entre as diferentes culturas – como. a discussão permanece em aberto. 427-461. por exemplo. Não raro a falta de informação. p. O artigo 20 dispõe que: 1. embora exista o debate entre universalismo e relativismo cultural dos direitos humanos. a adoção ou. que faz referência expressa à Kafalah do direito islâmico13. em seu artigo 5º. Convém. terá direito à proteção e assistência especiais do Estado. é permitido que outra família assuma a obrigação de cuidar da criança que não seja de sua linhagem. ou o controle – e mesmo o monopólio – da informação por poucos pode gerar dificuldades. Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo liberal. verifica-se que em todas as conferências mundiais tem prevalecido a posição ocidental. que tem por premissa a impossibilidade de se compreender claramente as construções de uma cultura com base nos topos de outra. Registre-se.

a fim de que seja construída uma concepção multicultural dos direitos humanos que. FGV DIREITO rio 28 .. Superação da tensão universalismorelativismo. (iii) constatação de diferentes conceitos de dignidade humana. Aproximação das políticas de diferença e de igualdade. por mais que todas as culturas tenham concepções de dignidade humana. e que se constitui em redes de referências normativas capacitantes”17. indaga-se: (i) Embora tenha sido reafirmada a universalidade dos direitos humanos na Declaração e Programa de Ação de Viena. p. transformar a concepção de direitos humanos. abaixo. Assim. 458. uma vez que a identidade e compreensão do ser humano ocorrem em contato – diálogo – com outro. (ii) ter em mente que. há cinco requisitos para que os direitos humanos possam ser teorizados e aplicados como multiculturais: (i) superação da tensão universalismo-relativismo..direitos humanos tal diálogo somente torna-se possível se houver uma mudança na conceituação de direitos humanos. 5. imposta pela globalização hegemônica. Constatação de diferentes conceitos de dignidade humana. O reconhecimento do outro é essencial para a construção de uma identidade multicultural. Após essa breve exposição do tema. seja por sua destruição. em uma abordagem cosmopolita. Contudo. 16 17 Ibid. nem todas as percebem em termos de direitos humanos. o cosmopolitismo. Ibid. “em vez de recorrer a falsos universalismos. (iv) percepção da incompletude das culturas. De maneira bem resumida. A solução proposta pelo autor é optar pelo reconhecimento da incompletude e pelo diálogo. segue. Conceito Ambos os discursos – o etnocêntrico e aquele que considera as culturas como absolutas e incapazes de questionamento – impedem o diálogo intercultural. Ter em mente que. Há diversas versões de dignidade humana. estará sujeita à conquista cultural. temos o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”16. gera também uma dicotomia: se uma cultura se considera completa. não estará interessada no diálogo. baseada em um localismo globalizado. Percepção da incompletude das culturas. assim. por mais que todas as culturas tenham concepções sobre dignidade humana. 443. Contudo. desde que não signifique uma conquista cultural. Por fim. 2. p. 4. se reconhece sua incompletude. passando da noção de universalidade imperialista. o conceito de cada premissa: Premissas 1. se organiza como uma constelação de sentidos locais. (v) aproximação das políticas de diferença e de igualdade. tem-se que buscar a versão mais aberta. Esta gera sentimentos de frustração e descontentamento e.. por meio do diálogo intercultural. tem-se que o objetivo da proposta de Boaventura de Sousa Santos é. seja pela absorção. uma vez que é esta que melhor aceitará as particularidades das demais culturas. Esta premissa pode ser traduzida da seguinte forma: “temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza. nem todas têm a percepção em termos de direitos humanos. mutuamente inteligíveis. a curiosidade de procurar novas respostas satisfatórias que se traduzam no diálogo intercultural. 3. para uma noção de universalidade construída de baixo para cima.

1995. pp. I. Duração: 10min. Capítulo IV. 2003. Roteirista: Ayaan Hirsi Ali. Antonio Augusto Cançado.). Nova York: Columbia University Press. Por uma concepção multicultural de Direitos Humanos. Vol. In: SANTOS. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Legislação: Declaração e Programa de Ação de Viena Declaração Universal dos Direitos Humanos Convenção sobre os Direitos da Criança Atividade Complementar: Filme: Submissão. Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo liberal. Negotiating Culture and Human Rights. pp. Capítulo XIX. 301-349. Lynda. PELEG. ___________. a Convenção sobre os Direitos da Criança. TRINDADE. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Boaventura de Sousa. Diretor: Theo Van Gogh. 2003. Vol. Tratado de direito internacional de direitos humanos. 427-461. Philadelphia: University of Pennsylvania Press.). pp. FGV DIREITO rio 29 . Andrew. Abdullahi Ahmed (ed). 211-234. Human Rights in Cross-Cultural Perspectives. Tratado de direito internacional de direitos humanos. 1997. 2001. Ian (eds. BELL.direitos humanos sua efetivação ocorre na prática e de forma igualitária em todos os países? Qual é a proposta de Boaventura de Sousa Santos para que seja construída uma concepção multicultural dos direitos humanos? O que significa o reconhecimento da incompletude da cultura? O que representou. Ano: 2004. NATHAN. de 1989? Um país muçulmano pode alegar respeito a sua cultura como forma de se eximir da responsabilidade de garantir e promover os direitos das mulheres? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: SANTOS. Boaventura de Sousa (org. III. Leitura acessória: AN-NA’IM. em termos de diálogo intercultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Ao tratar da dinâmica da relação entre a Constituição Brasileira e o sistema internacional de proteção dos direitos humanos objetiva-se não apenas estudar os dispositivos do Direito Constitucional que buscam disciplinar o Direito Internacional dos Direitos Humanos. mesmo pelas vias ordinárias. o Supremo Tribunal Federal considerou: “Convenção de Genebra – Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas Promissórias – Aval aposto à Nota Promissória não registrada no prazo legal – Impossibilidade de ser o avalista acionado. de 22. Validade do Decreto-lei n. 45. São PAULO: Max Limonad. Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Carolina de Campos.01. fortalecendo os mecanismos nacionais de proteção dos direitos da pessoa humana. o Habeas Corpus nº. não é esta a interpretação promovida pelo Supremo Tribunal Federal. Em primeiro lugar. In: Revista Direito. 72. 20 FGV DIREITO rio 30 .004. quando estabelece no artigo 7o do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) que o Brasil propugnará pela formação de um Tribunal Internacional dos Direitos Humanos. Flávia. 427. Estado e Sociedade. parágrafo 2o Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados.”18 Cabe assim menção às partes do Texto Constitucional que se referem a direitos humanos. “O bloco da constitucionalidade e o contexto brasileiro”. No. Todavia. mas também desvendar o modo pelo qual este último reforça os direitos constitucionalmente assegurados. o tribunal manteve posição firmada desde 197720 de que os tratados possuem status infraconstitucional com equivalência à lei ordinária. não se sobrepõe ela às leis do País. parágrafo 2o a sua “cláusula aberta” ou “cláusula de receptividade”. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. “Esta interação assume um caráter especial quando estes dois campos do Direito buscam resguardar um mesmo valor – o valor da primazia da pessoa humana – concorrendo na mesma direção e sentido. No julgamento do leading case após a promulgação da Constituição. 80. ou ainda. propiciando um verdadeiro bloco da constitucionalidade19. reconhecido por alguns autores com campo de interação entre as duas áreas do direito. Em julgados de toda a década de 90. 15. que institui o registro obrigatório da Nota Promissória em Repartição Fazendária.direitos humanos Aula 05: Os tratados de direitos humanos e a Constituição Federal NOTA AO ALUNO A aula de nº 05 tem por objeto o estudo do Direito Constitucional Internacional. 18 PIVESAN. sob pena de nulidade do título (. p. disso decorrendo a constitucionalidade e conseqüente validade do Decreto-lei n. 427/1969. Tal posicionamento conduz à ilação de que os tratados de direitos humanos podem ser objeto de controle de constitucionalidade e de que lei federal pode vir a revogar tratado já incorporado ao ordenamento jurídico interno.131/95.. a mais importante referência do Texto de 1988 constitui a seguinte: Artigo 5o. a qual garante a possibilidade de extensão do texto constitucional em relação a outros direitos e garantias que não estejam expressos no artigo 5o.. Ao apreciar o aparente conflito No julgamento do Recurso Extraordinário no. ciente de que sua obra resulta em um marco jurídico que se estende no tempo. Embora a Convenção de Genebra que previu uma lei uniforme sobre letras de câmbio e notas promissórias tenha aplicabilidade no direito interno brasileiro. de registrar no artigo 5o. a Constituição faz menção expressa à promoção e proteção dos direitos humanos quando afirma que sua prevalência constitui princípio que rege as relações internacionais do Estado brasileiro (artigo 4º).)”. Cabe aqui a interpretação de que outros direitos e garantias também possuam hierarquia constitucional. Parece clara a opção do legislador constituinte. o STF reafirmou sua jurisprudência. Direitos humanos e direito constitucional internacional. 19 Tal redação revelou-se “campo minado” ao longo da recente história constitucional. MELO.1969. 2004. Todavia.

inciso LXVII: Não há prisão civil por dívida.631/98.05. a Emenda nº 45. o STF negou provimento a um recurso em habeas corpus que questionava a possibilidade do depositário infiel ser preso em virtude do disposto no Pacto de San José da Costa Rica. 21 Pacto de San José da Costa Rica ou Convenção Americana de Direitos Humanos. que o parágrafo 2o do artigo 5o. em especial dos tratados de direitos humanos. as normas infraconstitucionais especiais sobre prisão civil do depositário infiel. É de observar-se. é considerado depositário. afirmou que “os tratados internacionais não podem transgredir a normatividade emergente da Constituição. da Constituição não se aplica aos tratados internacionais sobre direitos e garantias fundamentais que ingressaram em nosso ordenamento jurídico após a promulgação da Constituição de 1988. Inconstitucionalidade da interpretação dada ao artigo 7o. do Pacto de São José da Costa Rica no sentido de derrogar o Decreto-Lei 911/69 no tocante à admissibilidade da prisão civil por infidelidade do depositário em alienação fiduciária em garantia. da mesma Constituição. ao tratar novamente da prisão do depositário infiel. o Tribunal manteve o posicionamento ao afirmar que “(. Dessa orientação divergiu o acórdão recorrido. O artigo 84. a emenda precisou a hierarquia dos tratados de direitos humanos. em cada Casa do Congresso Nacional. 5o. de 08 de dezembro de 2004. por ser norma infraconstitucional geral. in verbis: Art. e o Pacto de San José da Costa Rica22. Ainda.482. mas resultou no afastamento das regras comuns alusivas ao depósito”. Artigo 5o . veio a trazer duas importantes inovações ao abrigo constitucional aos direitos humanos: elucidou a possibilidade do status constitucional dos tratados de direitos humanos e estabeleceu a federalização das violações de direitos humanos. em julgado de 15 de maio de 2007 (RHC 90759/ MG – Minas Gerais). voto vencido.direitos humanos de normas existente entre a Constituição Federal de 1988. 22 23 Mais recentemente.. por fim.98. inciso VIII da Cons- FGV DIREITO rio 31 . além de não disporem de autoridade para restringir a eficácia jurídica das cláusulas constitucionais. no Habeas Corpus nº 77.) o Pacto de San José da Costa Rica. LXVII. No tocante ao status constitucional. no julgamento do RE 253. não derrogou.071/GO de 29 de maio de 2001. em 27. o qual restringe tal permissão apenas ao devedor de alimentos. restando mais dúvidas do que certezas. No caso de alguém que não cumpriu o dever de pagar as prestações de seu carro e. qual a regra que deve prevalecer: a Constituição Federal ou o Pacto de San José? Recente alteração constitucional. Parágrafo 3o. Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados. mais conhecida como Reforma do Poder Judiciário. item 7. poderá o Poder Legislativo aprovar determinadas normas contidas nos tratados com status constitucional e outras com de lei federal? O que ocorre com os tratados ratificados até a presente data? O que são “tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos”? A primeira pergunta conduz à necessidade de se registrar alguns comentários acerca do procedimento de incorporação dos tratados em geral. Relator Ministro Moreira Alves. Afinal. salvo a do responsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e a do depositário infiel. não possuem forma para conter ou para delimitar a esfera de abrangência normativa dos preceitos inscritos no texto da Lei Fundamental. Constituição Federal. O novo parágrafo do artigo 5o da Constituição Federal estabelece.”23 Recentemente. ressaltou que “realmente. Alguns autores preferem resolver o aparente conflito de normas por meio de uma regra de hermenêutica específica ao campo dos direitos humanos: a aplicação da norma mais favorável à vítima. pois. em dois turnos.. e isso porque ainda não se admite tratado internacional com força de emenda constitucional”. na circunstância descrita considerado infiel e assim passível de prisão civil. quando do julgamento do RE 206. A novidade ainda não foi elucidada pela doutrina e jurisprudência. e diante da emenda. Já o Ministro Marco Aurélio. estabeleceu a corte que “nada interfere na questão do depositário infiel em matéria de alienação fiduciária o disposto no parágrafo 7º da Convenção de San José da Costa Rica”. o Pacto de San José da Costa Rica não implicou a derrogação da Constituição Federal. a qual estabelece a permissão de duas forma de prisão civil (depositário infiel e devedor de alimentos – artigo 5o inciso LXVII21). por três quintos dos votos dos respectivos membros. Esse entendimento voltou a ser reafirmado recentemente. também por decisão do Plenário. serão equivalentes às emendas constitucionais. além de não poder contrapor-se à permissão do artigo 5o. conforme seu contrato de alienação fiduciária.

direitos humanos

tituição Federal confere ao presidente da República a competência privativa para negociar e celebrar tratados, convenções e atos internacionais, sujeitos ao referendo do Congresso Nacional. Em regra, tal competência é exercida pelo ministro das Relações Exteriores ou pessoa por ele designada para tal. Ainda, de acordo com o artigo 49, inciso I, é de competência exclusiva do Congresso Nacional resolver definitivamente sobre tratados, acordos e atos internacionais. Assim, caberá primeiramente à Câmara dos Deputados, sucedida pelo Senado Federal, a aprovação dos tratados. Em ato discricionário, cabe ao presidente da República o ato da ratificação, consolidado por meio de um decreto, considerado pela jurisprudência do Supremo Tribunal Federal ato fundamental para que o tratado possa surtir efeitos no ordenamento jurídico interno. Em resumo, os tratados seguem os seguintes passos: Negociação e Assinatura pelo Poder Executivo + Aprovação pelo Poder Legislativo + Ratificação pelo Poder Executivo

Ultrapassada a regra geral para a incorporação dos tratados no ordenamento jurídico interno, cabe ressaltar que o legislador constituinte de 2004 deixou transparente a possibilidade de que os tratados venham a ter hierarquia constitucional caso sejam aprovados com o procedimento reservado às emendas constitucionais. Se por um lado não cabe mais dúvida acerca do status, podemos concluir que a inserção de tal norma pode conduzir à ilação de que certos tratados terão hierarquia constitucional e outros não, o que seria uma resolução descabida seja no âmbito do Direito Constitucional ou do Direito Internacional. Afinal, se o Estado brasileiro já ratificou os mais importantes tratados de direitos humanos, qual seria o atual status dos mesmos? Apesar de não constar da Emenda Constitucional nº 45 qualquer menção aos tratados já incorporados à ordem interna, não parece razoável que tais tratados sejam tidos como leis ordinárias e os futuros como normas constitucionais. De acordo com Tarciso dal Maso, “deveria ser admitida hierarquia normativa superior para tratado sobre direitos humanos já ratificado, até porque seria ilógico, por exemplo, que Protocolo Adicional à determinada Convenção, futuramente aprovado pelo procedimento do parágrafo 3o do art. 5o, seja considerado como força de emenda à Constituição e a própria Convenção-quadro não.”24 Também causa estranheza que tenham que ser submetidos a uma nova apreciação, notadamente quando o Estado brasileiro já se pronunciou no âmbito internacional por meio da ratificação dos mesmos. Caberá ao Poder Legislativo o estabelecimento de procedimento específico para a aprovação de tratados de direitos humanos em conformidade com a determinação constitucional, restando ao Poder Judiciário o papel fundamental de reinterpretar a sua jurisprudência para a necessária adequação à norma. Por fim, a resposta à indagação sobre a definição de tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos será obtida ao longo deste curso, uma vez que se pretende estabelecer, com o devido rigor técnico, o que se entende por direitos humanos. Cabe enfatizar, desde então, que os tratados de direitos humanos, compreendidos

JARDIM, Tarciso dal Maso. Afirma o autor a inconstitucionalidade do novo parágrafo inserido no artigo 5o ao estabelecer que “se favorável ao projeto constitucional brasileiro, o STF reconheceria o nível constitucional de todos os tratados que consagrassem direitos e garantias fundamentais, com base no parágrafo 2o do artigo 5o, e declararia o novo parágrafo 3o do artigo 5o como contrário às cláusulas pétreas, pois, nos termos do inc. IV, parágrafo 4o do artigo 60, seria tendente a abolir direitos fundamentais ao aventar hipótese de certos tratados sobre direitos humanos não poderem ter status constitucional a depender do procedimento legislativo adotado.” (página 50)
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como gênero de que são espécies as convenções, devem ser interpretados de forma mais ampla, englobando também direito humanitário e direito dos refugiados. Saliente-se aqui a outra inovação apresentada pela Reforma do Poder Judiciário: a federalização das violações de direitos humanos. De acordo com a nova redação, o artigo 109 passa a contar com a seguinte redação:
“Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar: V-A as causas relativas a direitos humanos a que se refere o § 5º deste artigo; § 5º Nas hipóteses de grave violação de direitos humanos, o Procurador-Geral da República, com a finalidade de assegurar o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil seja parte, poderá suscitar, perante o Superior Tribunal de Justiça, em qualquer fase do inquérito ou processo, incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal.” (NR)

A inovação institucional deve ser entendida sob os seguintes argumentos: Passo definitivo de enfrentamento à impunidade e garantia de proteção à vítima: O pacto federativo brasileiro, especificamente no tocante à repartição das competências entre Poder Judiciário Estadual e Federal, possui no artigo 109 da Constituição referência fundamental. Os temas ali relacionados são de competência da magistratura federal, sendo os demais – a grande maioria – considerados reservados à magistratura estadual. Tal divisão temática acarreta em atribuições distintas também para outros órgãos que atuam perante o Poder Judiciário. Por exemplo, os crimes contra a organização do trabalho, os crimes contra o sistema financeiro e a ordem econômica financeira deverão ser investigados pela Polícia Federal, sendo a eventual denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal perante a Justiça Federal. Todavia, a omissão ou mau funcionamento das instituições estaduais – Poder Executivo (em especial a polícia), Ministério Público, Defensoria Pública, Magistratura – diante de um caso concreto conduziram o legislador a estabelecer que em determinados casos a competência deverá ser transferida para a Justiça Federal de forma a não acarretar uma outra violação de direitos humanos: o direito a um julgamento justo e imparcial e em um prazo razoável. Nesse sentido, o deslocamento de competências veio a reforçar a necessidade de um efetivo funcionamento das instituições estaduais e a garantir o combate à impunidade por parte das instâncias federais em casos específicos e, por conseqüência, que seja ampliada a proteção dos direitos humanos. O federalismo adotado pela Constituição Federal A Constituição brasileira estabelece um federalismo de cooperação25 entre os seus entes – União Federal, Estados, Municípios e Distrito Federal, o que não exclui um exercício cooperativo também em relação à atividade jurisdicional. A federalização das violações de direitos humanos não constitui uma novidade nesse sentido. Cabe lembrar que o artigo 109, parágrafo 3º, da Constituição Federal estabelece que, na ausência de Varas Federais ou Trabalhistas, a Justiça Estadual exerça as competênb)
SCHREIBER, Simone; e COSTA, Flávio Dino de Castro e. “Federalização da competência para julgamento de crimes contra os direitos humanos”. In: Direito Federal: Revista da Associação dos Juízes Federais do Brasil. Ano 21. No. 71. Niterói: Editora Impetus. Julho a setembro de 2002. p. 253.
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cias que pertencem à Justiça Federal e do Trabalho. No intuito de atender à vítima diante de atividade jurisdicional específica, o Judiciário Estadual acaba por exercer a jurisdição sob matéria excluída de sua competência originalmente. Não é de se causar espanto a alternativa de que, diante da ausência ou mau funcionamento da Justiça Estadual, que a Federal exerça a atividade jurisdicional, visando à implementação de um julgamento justo e imparcial. Há de se ressaltar ainda que a Constituição Federal previu remédio federativo muito mais grave para violações de direitos humanos quando, em seu artigo 34, inciso VII, alínea b, possibilitou a intervenção da União nos Estados para assegurar o princípio constitucional sensível dos direitos da pessoa humana. É possível concluir que o constituinte originário criou um caso extremo de chamamento para a União Federal de casos de violação de direitos humanos e o constituinte derivado, por meio da Emenda Constitucional nº 45, estabeleceu uma hipótese mais específica, o deslocamento de competência em um determinado caso. Responsabilidade Internacional A Constituição Federal, em seu artigo 21, inciso I, estabelece que compete à União Federal, manter relações com Estados estrangeiros e participar de organizações internacionais. Nesse sentido, é a União Federal, e não seus Estados-membros, que respondem pela responsabilidade internacional decorrente do descumprimento das obrigações assumidas pelo Estado brasileiro pelos tratados de direitos humanos. Tendo em vista que a soberania é una e indivisível, o Estado Federal não pode alegar razões de ordem organizacional interna como fator excludente de responsabilidade. Os termos dos tratados internacionais dos quais o Estado brasileiro é parte são aplicáveis a todas as suas partes componentes. A responsabilidade internacional acaba implicando para o Estado brasileiro uma situação complexa focalizada em dois pontos: a) a maior parte das violações de direitos humanos encontra correspondência direta com as competências dos Estados-membros da federação; e b) o compromisso do Estado brasileiro com o marco protetivo internacional dos direitos humanos, notadamente após a Constituição de 1988, em consonância com os princípios da dignidade da pessoa humana e com da transparência internacional. Como estudaremos em momento oportuno, tramitam na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) mais de 100 petições contra o Estado brasileiro. Em regra, são raríssimos os casos que apontam à responsabilidade direta da União em face da violação de direitos humanos. Isto posto, é possível afirmar que, na maioria expressiva dos casos, a responsabilidade é do Estado-membro. Observese que boa parte destes casos pendentes na Comissão poderá ser submetida à Corte Interamericana, cuja jurisdição foi reconhecida pelo Brasil em dezembro de 1998, notadamente após a alteração do Regulamento da Comissão que prevê a presunção de encaminhamento dos casos à Corte Interamericana de Direitos Humanos. Nesse sentido, é bem vindo um mecanismo capaz de assegurar o cumprimento dos tratados de direitos humanos em caso dos entes federativos falharem ou não disporem de condições operacionais ou estruturais. Acredita-se que o estabelecimento
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c)

FGV DIREITO rio 35 . Somente a prática permitirá que tais questões sejam preenchidas. Conclui-se que a possibilidade de deslocamento de competências para violações de direitos humanos encontra-se em perfeita sintonia com: a) os parâmetros do direito internacional por estabelecer mais um grau de subsidiariedade no âmbito interno. Acesso em: 08 de maio de 2004. muito ainda se discutirá para a elucidação dos requisitos de admissibilidade (ex: “grave violação de direitos humanos”. “assegurar o devido cumprimento de obrigações decorrentes dos tratados de direitos humanos”).446. mediante provocação. Incidente de Deslocamento de Competência 2005/0029378-4. inciso III).gov.br/pgr/asscom/Stang. já previu a possibilidade de que a Polícia Federal investigo infrações penais relativas à violação a direitos humanos.jsp?b=ACOR&livre=federalização. OF/Nº 022/04/PR/PA – incidente de deslocamento de competência (caso Irmã Dorothy Stang). É importante ressaltar que tal deslocamento somente pode ser decidido por órgão jurisdicional. de 08 de maio de 2002.pgr. b) o ditame constitucional da proteção dos direitos humanos em conformidade com o pacto federativo. O impacto de suas ações e omissões no plano internacional pode servir de estímulo ao melhor funcionamento das instituições locais em casos futuros.mpf. 1o. mas não constitui solução mágica. União Federal. A possibilidade de deslocamento de competência ou a federalização das violações constitui avanço institucional significativo em termos da defesa de direitos humanos.pdf. Disponível em: http:// www.br/ SCON/pesquisar.gov. e c) a sistemática processual vigente. Qualquer inovação conduz à necessidade de estabelecimento de limites. d) Dos parâmetros processuais A Emenda Constitucional nº 45 estabelece ainda que o incidente de deslocamento será apreciado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) a pedido do Procurador-Geral da República. 10. MATERIAL DE APOIO Casos / Jurisprudência: 26 É importante ressaltar que a Lei no. Disponível em: http://www.26 Acredita-se ainda em um efeito no sentido inverso: a capilarização da promoção dos direitos humanos. Estados – compreendidos aqui pelos Poderes Executivo.direitos humanos da federalização veio a exercer precisamente esse mecanismo federal que possibilite à União um instrumento nacional para a responsabilidade internacional. mais de dois anos antes do instituto de federalização. uma vez que o STJ é o órgão jurisdicional de cúpula entre justiça estadual e federal. IDC 1 / PA. Nesse sentido. Acesso em: 05 de junho de 2006. A alternativa de federalização dos crimes de direitos humanos pode conduzir à disseminação nos entes federados do melhor cumprimento às obrigações decorrentes de tratados de direitos humanos dos quais o Brasil é parte – sob o risco do incidente de deslocamento de competências. Judiciário e Ministério Público – e sociedade civil devem conjugar esforços para fazer desse novo dispositivo constitucional um imperativo para a defesa dos direitos humanos. que a República Federativa do Brasil se comprometeu a reprimir em decorrência de tratados internacionais de que seja parte” (art. Tal afirmativa afasta as acusações de que tal deslocamento feriria a independência do Poder Judiciário.stj. Legislativo.

Volume I. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. 401-447. 1999. pp.). George Rodrigo Bandeira. 2001. Rio de Janeiro: Renovar. Flávia. 2002. CANÇADO TRINDADE. Celso. Antônio Augusto. 1997. Da federalização das violações de direitos humanos. Leitura acessória: ALBUQUERQUE MELO. GALINDO. Belo Horizonte: Editora Del Rey. 13ª edição. Curso de Direito Internacional Público. Tratados Internacionais de Direitos Humanos e Constituição Brasileira. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris. ______________________. Parecer apresentado ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. Tratados Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos e Federalização dos Crimes de Direitos Humanos na Reforma do Judiciário. O parágrafo 2º da Constituição Federal” In: TORRES. Legislação: Constituição Federal de 1988 FGV DIREITO rio 36 . Ricardo Lobo (org. Rio de Janeiro: Renovar. e PIOVESAN. Teoria dos Direitos Fundamentais. Flávia.direitos humanos Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN.

estadual e municipal.br/ sedh/dpdh/gpdh/pndh/principal.gov. (vi) Conselhos Municipais.mj. Coordenação da Política Nacional de Direitos Humanos.direitos humanos Aula 06: Órgãos de Proteção dos Direitos Humanos NOTA AO ALUNO “Os Direitos Humanos são os direitos de todos e devem ser protegidos em todos Estados e nações. Acesso em: 23 fev. assessorias. (vii) Defensoria Pública e Ministério Público. atuando preventiva ou punitivamente (no caso de terem ocorrido violações de direitos humanos). É preciso dizer não à banalização da violência e proteger a existência humana”27. abaixo. principal atribuição e programas a serem executados de acordo com o Plano Plurianual 2004-2007: Fatores Definição Órgãos colegiados e executivos. destaquem-se: (i) Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR). Disponível em: http://www. Seguem. (b) Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA. (iv) Comissões de Direitos Humanos das Assembléias Legislativas. as chacinas. No entanto. (ii) Conselhos Nacionais e Estaduais. o tráfico de drogas e as mortes no trânsito não podem ser consideradas normais. e (c) Subsecretaria de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos – SPDDH. Introdução. os seqüestros. Os assassinatos. Dentre os principais órgãos. (v) Comissões de Direitos Humanos das Câmaras Municipais. É nesse contexto que surgem diversos órgãos de proteção dos direitos humanos nos planos nacional. (d) Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência – CONADE. Trata-se do órgão da Presidência da República que tem por atribuições articular e implementar as políticas públicas voltadas para a promoção e implementação dos direitos humanos. Programa Nacional de Direitos Humanos I. A SEDH foi criada pela Lei nº 10. 2005. dando destaque ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH). (b) Subsecretaria de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente – SPDCA. e (e) Conselho Nacional dos Direitos do Idoso – CNDI. Os direitos humanos são assegurados pela Constituição Federal e por diversos tratados internacionais em que o Brasil é parte. especialmente em um Estado e em uma sociedade que se desejam modernos e democráticos. e grupos de trabalho temáticos. em conformidade com as diretrizes do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH).683. Órgãos executivos: (a) Subsecretaria de Articulação da Política de Direitos Humanos – SAPDH. (iii) Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Órgãos colegiados: (a) Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – CDDPH. sua composição. o crime organizado. 27 Composição Principal atribuição FGV DIREITO rio 37 .htm. tais documentos carecem de sentido se não houver mecanismos para garantir e promover os direitos humanos. de 28 de maio de 2003. (c) Conselho Nacional de Combate à Discriminação – CNCD. o extermínio.

htm (par. pdf.gov. e.gov. 4319/1964.gov.asp?idserv info=43507&url=http://www. Os conselhos nacionais e estaduais.camara. por sua vez. planobrasil.mj. São Paulo: Cortez.htm.gov. durante a “VIII Conferência Nacional dos Direitos Humanos”. Disponível em: http://www. de autoria do então deputado federal Projeto de Lei n. oportunidade na qual a Comissão de Trabalho.gov.gov. e (e) prestar informações para os organismos internacionais sobre a situação dos direitos humanos no país. (d) promover estudos para aperfeiçoar a defesa dos direitos humanos. 231. 4715/ 1994. (f ) Nacional de acessibilidade. Ambos os conselhos têm como meta a promoção e defesa dos direitos humanos. Tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei n. (d) Direitos Humanos. a lista dos conselhos nacionais e estaduais existentes: Conselhos Nacionais Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – CDDPH – www. de peça fundamental na proteção dos direitos humanos. G.br/sedh/cndi Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária – CNPCP – www. 2ª ed. 2005. (g) Promoção e Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente. (c) atuar por meio de resoluções.br/ccivil_03/ Projetos/PL/pl4715. (c) Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. de Administração e Serviço Público designou um relator. o deputado Tarciso Zimmermann (PT-RS). 30 Discurso proferido pelo Ministro Nilmário Miranda.gov. 11). 4715/199430. o qual transforma o CDDPH no Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH).br/sedh/cncd Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA – www.planalto. Direito de Todos.br/EmConstrucao/pdf/Rel_OrgaoPrograma1.direitos humanos Programas a serem executados (Plano Plurianual 20042007)28 (a) Assistência a Vítimas e a Testemunhas Ameaçadas.br/seppir ou www.br/sedh/ct/ CONADE Conselho Nacional dos Direitos do Idoso – CNDI – www. Acesso em: 23 fev. como mecanismos de participação e de legitimidade social iniciam-se no Brasil.. Segue. verificouse que o projeto de lei encontrava-se sujeito à apreciação do Plenário (http://www2.mj. (e) Gestão da Política de Direitos Humanos.br/seppir Outros órgãos colegiados nacionais: Comitê Nacional para a Educação em Direitos Humanos – CNEDH Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo – CONATRAE Conselhos Estaduais Conselho Estadual de Defesa dos Direitos do Homem e do Cidadão Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher Conselho Estadual dos Direitos do Idoso Conselho Estadual do Consumidor Conselho Estadual de Proteção de Vítimas e Testemunhas 28 Para maiores informações sobre o objetivo de cada programa.gov.br/sedh/ct/di. abaixo. a fim de dar maior agilidade às apurações de violações de direitos humanos. M. cabe destacar suas principais atividades: (a) receber denúncias de violações de direitos humanos de abrangência nacional e investigá-las em conjunto com as autoridades competentes locais. mj.br/defaultCab. em 13 de maio de 2003.br/sedh/cddph Conselho Nacional de Combate à Discriminação – CNCD – www. como fruto da organização e das lutas sociais. mj. Conselhos Gestores e participação política. de acordo com Gohn29.gov. (b) Atendimento Socioeducativo do Adolescente em conflito com a lei. criado pela Lei n.br/sedh/ Conselho Nacional dos Direitos da Mulher – CNDM – www.gov.mj. 29 GOHN.presidencia. Cuida-se.presidencia.31 Já a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados foi criada por meio da Resolução n.gov. acesse o site http://www. Em consulta realizada no site da Câmara dos Deputados em dia 23 de fevereiro de 2005. (b) constituir comissões de inquéritos para facilitar as investigações.mj.br/spmulheres Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência – CONADE – www. e (i) Proteção da Adoção e Combate ao Seqüestro Internacional. (h) Promoção e Defesa dos Direitos de Pessoas com Deficiência. gov. assim. A última ação ocorreu em 15 de setembro de 2004. Em relação ao CDDPH. 31 FGV DIREITO rio 38 .gov. 2003. órgão específico da SEDH/PR. presidencia.br/internet/proposicoes).gov.br/cnpcp Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial – CNPIR – www. presidencia. http://www.

gov. motivo pelo qual a Secretaria Especial de Direitos Humanos apóia os conselhos municipais já existentes.htm. a lista dos conselhos municipais do Município do Rio de Janeiro e seus contatos35: Acesso em: 04 junho 2006. Destaquem-se suas principais atribuições: (a) receber denúncias de violações de direitos humanos e encaminhá-las ao órgão competente. Seus objetivos também são encaminhar denúncias. Disponível em: http://www. os mesmos continuam sendo peça importante no combate às violações de direitos humanos. a fim de que governo e sociedade civil possam atuar de forma articulada na proposição e no desenvolvimento de ações voltadas para a promoção e a proteção dos direitos humanos. 32 Dispõe acerca de todas as Comissões de Direitos Humanos das Assembléias Legislativas. Os Conselhos Municipais de Direitos Humanos. Segue. abaixo. bndes. camara. org. concretizou-se uma antiga reivindicação dos movimentos populares.htm. Representou um marco na história dos direitos humanos do país.br/dicas/D102%20%20Pol%C3%ADtica%20muni cipal%20de%20direitos%20hu manos. (b) escutar as vítimas de violações ou seus familiares. (c) colaborar com organizações não-governamentais e internacionais que atuem na defesa dos direitos humanos. 2005.obrasocial-rj.br/enderecos1. Já as Comissões de Direitos Humanos das Câmaras Municipais também têm caráter permanente e são marcadas pelas seguintes atribuições:34 (a) receber. Disponível em: http://www. Nesse sentido. por sua vez. sendo o recebimento de denúncias sua atividade principal. parlamentares e entidades de defesa dos direitos humanos.br/direitos/brasil/legislativo/cdhcf/cartilha_cdh/19_comissoesassembleia. 35 Acesso em: 26 fev. (b) adotar providências e propor medidas para apurar violações de direitos humanos. podendo ainda haver comissões parlamentares de inquérito. avaliar e investigar denúncias relativas à ameaça ou violação de direitos humanos. (b) fiscalizar e acompanhar programas governamentais relativos à proteção dos direitos humanos. e (d) promover pesquisas e estudos relativos à situação dos direitos humanos no respectivo município. A comissão de direitos humanos33 consiste em uma das comissões permanentes. html#parte2.br/comissoes/ cdhm. (c) opinar sobre proposições e assuntos ligados aos direitos humanos.direitos humanos Nilmário Miranda. criar espaços de debates. Dentre suas atividades. são compostos por representantes do governo e da sociedade civil empenhados em discutir. A sociedade civil deve propor alternativas de políticas públicas. sugerir projetos e fiscalizar a atuação do Poder Público. É composta por 23 deputados e 23 suplentes e tem por finalidade investigar violações de direitos humanos. uma vez que desempenha papel fundamental na proteção dos direitos humanos e na promoção da cidadania. implementar e avaliar em conjunto as políticas públicas referentes a determinado grupo da sociedade mais vulnerável. Acesso em: 23 fev.dhnet. em 31 de janeiro de 1995. FGV DIREITO rio 39 . são importantes canais de participação coletiva e de criação de novas relações políticas entre governos e cidadãos por meio de um processo de interlocução permanente. (c) realizar ou patrocinar campanhas e eventos locais com o objetivo de difundir e proteger os direitos humanos. Embora muitos conselhos municipais não funcionem da maneira como deveriam.32 A Assembléia Legislativa de cada Estado é composta por comissões permanentes e temporárias. 33 34 Para maiores informações. Ao criar o novo órgão técnico e suprapartidário. Disponível em: http://www2.org. penetrar na lógica burocrática estatal para transformá-la e exercer o controle socializado das ações e deliberações governamentais. acesse o site http://federativo. o que tornou mais eficiente e rápido o trabalho investigativo intentado pelo legislativo brasileiro.gov. 2005. destacam-se: (a) participar do estabelecimento da política municipal de direitos humanos. (d) lutar pela garantia e implementação de tais direitos.

1010 – códigos: 4369926/ 4369920/ 4369918/ 4369925/ 4369913 FGV DIREITO rio 40 . 3.1 – Rua São Salvador.rj.R 1 – Rua Salvador.1/ XIIR.br Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência: comdef@pcrj.A – Estrada Velha da Pavuna.direitos humanos • • • • • • • • • • • Conselho Municipal da Criança e do Adolescente: cmdca@pcrj. 56 – Laranjeiras – CEP. Conselho Tutelar de Ramos 5 C.gov. 57 – Ramos – CEP.: 2502-7122 R. s/nº – setor 4 (Sambódromo) – Centro – CEP .2 – Rua Conde de Bonfim. para contatos durante o final de semana use o bip Conselho Tutelar do Centro 1: C. 2205-3798 BIP: 2460.rj.: 2502-2431 BIP: 2460.2 – Rua Professor Lacê.br Conselhos Tutelares: Horário de funcionamento: de 2ª a 6ª feira.R 2.20765-170 Tel/Fax. 267. 180 – Tel/Fax. 22231-130 Tel/fax.gov. de 9 às 18 horas.rj.2º andar -Tijuca – CEP.1010 – códigos: 4369923/ 4369924/ 4369929/ 4269901/ 4369930 Área de Abrangência: Méier/ Todos os Santos/ Engenho de Dentro/ Encantado/ São Francisco Xavier/ Rocha/ Piedade/ Abolição/ Consolação/ Riachuelo/ Água Santa/ Sampaio/ Lins/ Engenho Novo/ Complexo do Alemão/ Bonsucesso/ Olaria/ Inhaúma/ Esperança/ Higienópolis/ Maria da Graça/ Jacaré/ Engenho da Rainha/ Tomas Coelho/ Del Castilho/ Jacarezinho/ Vieira/ Fazenda.R 3.rj. Conselho Tutelar do Méier 4: C.: 2569-5722 BIP: 2460.R 2.R 3.gov. Conselho Tutelar de Vila Isabel 3: C.gov.1010 – códigos: 4369909/ 4369912/ 4369886/ 4369931/ 4369934 Área de Abrangência: Santo Cristo/ Caju/ Cais do Porto/ Saúde/ centro/ Aeroporto/ Bairro de Fátima/ Castelo/ Praça Mauá/ Rio Comprido/ Estácio/ Cidade Nova/ Catumbi/Triagem/ São Cristovão/ Mangueira/ Benfica/ Paquetá/ Santa Tereza.br Conselho Municipal dos Direitos do Negro: condedine@pcrj.1010 – códigos: 4369915/ 4369895/ 4369893/ 4369894/ 4369892 Área de Abrangência: Tijuca/ Praça da Bandeira/ Alto da Boa Vista/ Vila Isabel/ Grajaú/ Andaraí/ Maracanã/ Aldeia Campista.151 – Inhaúma – CEP .br Conselho Municipal de Entorpecentes: comen@pcrj.gov.rj.: 2595-7086 BIP: 2460. 20560-200 Tel/Fax.br Conselho Municipal de Assistência Social: cmas@pcrj. Conselho Tutelar de Laranjeiras 2: C.1010 – códigos: 4369899/ 4369905/ 4369898/ 4369904/ 4369935 Área de Abrangência: Botafogo/ Catete/ Glória/ Cosme Velho/ Flamengo/ Laranjeiras/ Humaitá/ Urca/ Praia Vemelha/ Copacabana/ Leme/ Jardim Botânico/ Ipanema/ Vidigal/ São Conrado/ Rocinha. 21060-120 Tel/fax: 2290-4762 BIP: 2460. 20211-260 Tel.

23085-570 Tel/Fax: 2413-3125 BIP: 2460.1010 – códigos: 4369887/ 4369888/ 4369889/ 4369914/ 4369911 Área de Abrangência: Jacarepaguá/ Praça Seca/ Valqueire/ Taguara/ Freguesia/ Anil/ Tanque/ Curicica/ Camorim/ Gardênia Azul/ Cidade de Deus/ Pechincha/ Barra da Tijuca/ Recreio dos Bandeirantes/ Vargem Grande/ Piabas/ Grumari/ Itanhangá. Colônia Juliano Moreira – Jacarepaguá./Fax: 3332-3744 BIP: 2460. CEP. 21715-000 Tel.direitos humanos • • • • Área de Abrangência: Ramos/ Maguinhos/ Olaria/ Penha/ Vigário Geral/ Parada de Lucas/ Penha Circular/ Jardim América/ Cordovil/ Bras de Pina/ Ilha do Governador/ Ribeira/ Zumbi/ Cacuia/ Pitangueiras/ Praia da ribeira/ Cocotá/ Bancários/ Tauá/ Galeão/ Moneró/ Portuguesa/ Jardim Guanabara/ Cidade universitária/ Complexo da Maré/ Vila esperança/ Vila do João/ Vila do Pinheiro/ Praia de Ramos/ Timbau/ Maré/ Marcílio Dias/ Baixa do Sapateiro/ Nova Holanda/ Rubens Vaz/ Parque União/ Roquete Pinto/ Conjunto Pinheiro. Augusto Pinheiro de Carvalho – Rua Xavier Curado. Conselho Tutelar de Bangu 8 C.R 3.1 – Rua Oliveira Braga.1010 – códigos: 4369906/ 4369900/ 4369891/ 4369897/ 4369928 Área de Abrangência: Campo Grande/ Santíssimo/ Senador Augusto Vasconcelos/ Mendanha/ Rio da Prata/ Monteiro/ Guaratiba/ Pedra de Gauratiba/ Morro da Pedra/ Praia do Aterro/ Ilha Guaratiba FGV DIREITO rio 41 .R 5. 211 – Realengo – CEP. 21610-380 Tel/Fax.1010 – códigos: 4369919/ 4369896/ 4369890/ 4369908/ 4369907 Área de Abragência: Bangu/ Campo dos Afonsos/ Santíssimo/ Deodoro/ Realengo/ Vila Militar/ Magalhães Bastos/ Padre Miguel/ Senador Camará/ Jardim Sulacap Conselho Tutelar de Campo Grande 9 C. Conselho Tutelar de Madureira 6 C. Conselho Tutelar de Jacarepaguá 7 C.3 – CIEP.400 – Prédio da Administração.2 – Rua: Coxilha s/nº – XVIII RA – Campo Grande – CEP. 3. 1733 – Marechal Hermes – CEP.R5. 22713-370 Telefone: 2446-6508 BIP: 2460.R 4 – Estrada Rodrigues Caldas.1010 – códigos: 4369903/ 4369927/ 4369916/ 4369917/ 4369902 Área de Abrangência: Irajá/ Vicente de Carvalho/ Vila da Penha/ Vista Alegre/ Vila Cosmo/ Madureira/ Quintino Bocaiuva/ Bento Ribeiro/ Marechal Hermes/ Engenheiro Leal/ Turiaçu/ Campinho/ Rocha Miranda/ Osvaldo Cruz/ Anchieta/ Ricardo de Albuquerque/ Guadalupe/ Parque Anchieta/ Pavuna/ Coelho Neto/ Acari/ Barros Filho.: 3390-6420 BIP: 2460.

coletivos ou sociais.rndh. 3395-1445 BIP: 2460. Em uma apertada síntese. do regime democrático e dos interesses coletivos e individuais indisponíveis. (c) investigar. bem como possui centros de atendimento ao público. de preferência junto à delegacia mais próxima. Entre as formas existentes para a consecução de tais fins. A Defensoria Pública. (e) expedir recomendações aos poderes públicos a fim de que façam cessar violações de direitos humanos. 36 Para maiores informações. cível.html. s/n. Especificamente no que se refere ao Ministério Público Federal. org.html. entre outras) junto ao Judiciário e extrajudicialmente na composição de conflitos. por sua vez. como o recebimento de denúncias de violações ou ameaças de direitos humanos. Ao receber uma denúncia de violação de direitos humanos. o Defensor Público irá encaminhá-la ao Poder Judiciário ou poderá resolver o conflito entre as partes extrajudicialmente. aos moldes do ombudsmen nórdico. a Lei Complementar n.º – Santa Cruz – CEP.) e iniciar procedimentos de investigação. do site da Rede Nacional de Direitos Humanos. Sendo assim. com um mandato de dois anos. você também pode procurar o Conselho Tutelar e/ou a Delegacia Especializada em Crimes contra Crianças e Adolescentes. No caso de violência cometida contra criança ou adolescente. O mesmo site disponibiliza o contato dos órgãos mencionados. acesse o site http://www. conforme o artigo 129 CF. que deverá emitir um Boletim de Ocorrência (B.gov. encontra-se o encaminhamento de denúncia de direitos humanos. A polícia é a porta de entrada do sistema de garantia de direitos e poderá orientá-lo(a) e fornecer informações relativas ao andamento de sua denúncia. atua em diversas áreas (criminal. ambas as instituições têm o dever de proteger os direitos humanos e combater suas violações.br/direitos/brasil/apoio/ mpublico/mpdh. FGV DIREITO rio 42 . Acesso em: 23 fev. 2005. exatamente da maneira como estavam. (b) instaurar inquéritos. 23570-220 Tel. de acordo com o artigo 134 CF. seguem.dhnet. a Defensoria Pública e o Ministério Público são instituições necessários à atividade jurisdicional do Estado.direitos humanos • Conselho Tutelar de Santa Cruz 10 C.: 3395-0988/Fax.R 5. exerce outras atividades.3 – Rua: Olavo Bilac. 37 As informações contidas abaixo foram extraídas. você deve preferencialmente encaminhar a denúncia à Delegacia Especializada de Investigação de Atos Infracionais praticados por Adolescentes. denunciar o fato à polícia. O Ministério Público. abaixo. além do papel tradicional de fiscal da lei e acusador público. consumidor. 75/93 designou o Procurador dos Direitos do Cidadão.O. as medidas que um indivíduo deve tomar quando presenciar ou souber de uma violação de direitos humanos37: Em caso de crime. ao passo que cabe ao Ministério Público a defesa da ordem jurídica.1010 – códigos: 4369910/ 4369922/ 4369933/ 4369932/ 4369921 Área de Abrangência: Santa Cruz/ Paciência/ Sepetiba Considerados Funções Essenciais à Justiça pelo Texto Constitucional. Competem à Defensoria Pública a orientação jurídica e a defesa em todos os graus da comunidade carente. cujas principais atribuições são36: (a) requisitar informações. Disponível em: http://www.br/ denuncia. (d) notificar violações a direitos individuais. Nos casos de atos infracionais praticados por adolescentes.

Você também pode procurar orientação junto à Ordem dos Advogados do Brasil – OAB.dhnet. Procurar orientação junto a conselhos de defesa de direitos humanos e/ou organizações da sociedade em seu município/Estado. procurar a Delegacia de Polícia mais próxima. procurar o Ministério Público de seu Estado para fazer sua denúncia.direitos humanos No caso de violência sofrida pela mulher.htm. Acesso em: 23 fev. Pernambuco. Paraná e Espírito Santo. você pode: Contactar a Ouvidoria de Polícia em seu Estado. Pelo exposto. Recorrer a serviços de disque-denúncia. 2004. Ceará. Importante: Caso sua denúncia tenha sido negligenciada ou colocada em dúvida pelos órgãos policiais. Minas Gerais. que tem Seccionais e Comissões de Direitos Humanos em todos os Estados da Federação. você deve preferencialmente encaminhar sua denúncia à Delegacia da Mulher mais próxima ou procurar os conselhos de defesa dos direitos da mulher. Rio de Janeiro. Pará. além disso.br/direitos/brasil/textos/principioparis. org. para toda violação de direitos humanos. Você pode. Disponível em: http://www. indaga-se: A quem você deve recorrer quando souber de uma violação cometida contra uma criança? Quais são os principais órgãos de proteção e promoção dos direitos humanos no âmbito nacional? Quais são as principais funções da Secretaria Especial dos Direitos Humanos? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: Princípios de Paris. Não havendo delegacias especializadas. ou caso haja suspeita de que a violação tenha sido praticada por agente policial.gov.br. como o Movimento Nacional de Direitos Humanos – MNDH. ainda. Já existem ouvidorias de polícia nos seguintes Estados: São Paulo. ou. Bahia. Rio Grande do Sul. encaminhar sua denúncia à Polícia Federal pelo e-mail dcs@dpf. Legislação: Constituição Federal de 1988 FGV DIREITO rio 43 .

é dotada de força vinculante. uma vez que rompem com a noção de que o Estado é o único sujeito de Direito Internacional e com a noção de soberania absoluta. iniciado em 1949 mas só concluído em 1966. com a adoção de dois tratados internacionais. Adotados pela Assembléia Geral através da Resolução n. dando ensejo à adoção. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. (iii) cooperação internacional nas esferas social e econômica. com base no princípio da dignidade da pessoa humana. Sociais e Culturais (PIDESC)39. ambos com força obrigatória. em 1948. (ii) integra o direito costumeiro internacional e/ ou os princípios gerais de direito e. a universalidade. sociais e culturais são programáticos e. São Paulo: Max Limonad. há divergências quanto a sua força vinculante: (i) constitui interpretação autorizada da expressão “direitos humanos”. o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. por consenso dos Estados. uma vez que. (ii) promoção dos direitos humanos no âmbito internacional. a Organização Internacional do Trabalho e a Liga das Nações. 39 FGV DIREITO rio 44 . uma vez que surgiu após as enormes atrocidades ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial. Flávia.12.01. constante na Carta das Nações Unidas. Contudo. Seja qual for a posição sustentada.03. em 1945. A criação de dois pactos distintos ocorreu em virtude do contexto da Guerra Fria. o fato é que houve um processo de “juridicização”38 da DUDH. sustentava que as duas categorias de direitos 38 PIOVESAN. da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). apenas atesta o reconhecimento de um código comum a ser seguido por todos os Estados. tem força vinculante. pois admitem intervenções na esfera nacional em prol da proteção dos direitos humanos. demandam realização progressiva. Capítulo VI. estabelece. por tal motivo. 164. Dessa forma. (iii) por ser uma Declaração e não um tratado. 2002. assim. com o intuito de reconstruir os direitos humanos e trazer a dignidade da pessoa humana para o centro das relações entre Estados. e.1976 (PIDESC) e 23. assim. foi criada a Organização das Nações Unidas. ao afirmar ser os direitos civis e políticos autoaplicáveis enquanto que os direitos econômicos. interdependência e indivisibilidade dos direitos humanos. A Carta das Nações Unidas consolidou o Direito Internacional dos Direitos Humanos e fez surgir uma nova ordem internacional que. com os principais objetivos: (i) manutenção da paz e da segurança internacionais.1976 (PIDCP).direitos humanos Aula 07: Sistema global: mecanismos convencionais e não-convencionais de proteção dos direitos humanos NOTA AO ALUNO O movimento de internacionalização dos direitos humanos é bastante recente na história. Os principais precedentes do processo de internacionalização dos direitos humanos são o Direito Humanitário. 2200-A (XXI).1966. colocou a proteção dos direitos humanos em seu centro. p. além de definir tais expressões. que. não comportando força vinculante – visão estritamente legalista. não os define. A Carta das Nações Unidas. embora estabeleça a necessidade de proteção e promoção dos “direitos humanos e liberdades fundamentais”. bem como da prevalência da posição ocidental. sendo a DUDH uma declaração e não um tratado. A DUDH é um marco no Direito Internacional dos Direitos Humanos. Contudo. que dividia o mundo em capitalismo e socialismo. só entraram em vigor em 03. em 16.

O projeto do protocolo adicional que prevê a petição individual está em fase de elaboração. por sua vez. O Comitê de Direitos Humanos concluiu que não apenas o indivíduo que sofreu a violação. estabelecido pela Declaração de Viena de 1993. que inaugura o sistema global de proteção dos direitos humanos. encaminhar comunicações. faz referência a apenas quatro convenções específicas e seus mecanismos convencionais: FGV DIREITO rio 45 . pois prevê apenas o mecanismo dos relatórios. o quadro. não se restringe à Carta Internacional. É peculiar. uma vez que é também composto por diversos tratados multilaterais de direitos humanos referentes as violações específicas de direitos. destaquem-se: (i) receber petições individuais. Não tem um Comitê próprio. A Declaração Universal. Comitê de Direitos Humanos (criado pelo Pacto) – sua decisão não tem força vinculante e não há sanção efetiva para o Estado que não a cumpre. a seguir. Dentre as funções do Comitê de Direitos Humanos. abaixo. São auto-aplicáveis. 41 Para que um indivíduo possa encaminhar uma petição individual. PIDESC Compreende um rol de direitos mais extensos do que o da DUDH. juntamente com os dois Pactos. faz-se necessário o cumprimento dos requisitos de admissibilidade: prévio esgotamento dos recursos internos (salvo por demora injustificada. comunicações interestatais40 (ambos dispostos no próprio Pacto) e petições individuais (Protocolo Facultativo)41. que o Direito Internacional dos Direitos Humanos é suplementar e paralelo ao direito nacional. e que os procedimentos internacionais têm natureza subsidiária. Embora haja inúmeros tratados de direitos humanos. para que uma petição individual seja interposta. Comitê sobre Direitos Econômicos. Relatórios. sendo os respectivos Comitês análogos ao Comitê de Direitos Humanos criado pelo Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. para fins exemplificativos. Sociais e Culturais (criado pelo Conselho Econômico e Social). aos recursos internos) e inexistência de litispendência no plano internacional. assim. o Estado deve ter ratificado tanto o PIDCP quanto o Protocolo Facultativo. Devem ser realizados progressivamente. demonstra um breve resumo: PIDCP Compreende um rol de direitos mais extensos do que o da DUDH. Há também o sistema de indicadores. tendo em vista que o acesso a este mecanismo é opcional. Ainda. mas também ong e terceiros podem representá-lo e. a discriminação contra as mulheres (Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher). Amplitude Sistemática de monitoramento Sistemática de implementação Protocolos O sistema global é composto por mecanismos convencionais e mecanismos nãoconvencionais de proteção dos direitos humanos. (iii) requerer dos Estados informações sobre determinada situação. a discriminação racial (Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial). Segundo Protocolo: estabelece a abolição da pena de morte.direitos humanos não poderiam estar em um só pacto. por oportuno. pela vítima. ou seja. apenas no plano político: power of embarrassment. O sistema global. (ii) proferir uma decisão em relação à petição individual que apenas declare que a violação resta caracterizada ou que determine que o Estado repare a violação cometida. sendo uma garantia adicional à proteção dos direitos humanos sempre que os instrumentos nacionais sejam omissos. como a tortura (Convenção Internacional contra a Tortura). Quanto à abrangência e sistemáticas de implementação e monitoramento de ambos os Pactos Internacionais. Ressalte-se. Protocolo Facultativo: estabelece o mecanismo de petições individuais. formam a Carta Internacional dos Direitos Humanos ou International Bill of Rights. 40 O Comitê só poderá apreciar a comunicação interestatal caso os dois Estados envolvidos tiverem feito uma declaração em separado. inexistência do devido processo legal ou impossibilidade de acesso. comunicações interestatais e relatórios. o quadro. que tenha sido criado pelo PIDESC. Os mecanismos convencionais são aqueles criados por convenções específicas de direitos humanos.

1990.09.12.1984. 39/46.un. de 15. Acesso em: 20 março 2006. como a Assembléia Geral e o Conselho Econômico e Social. un. 34/180. desumanos ou degradantes. a denúncia pode versar sobre qualquer direito humano. Quanto ao Brasil.12.asp?N ewsID=17811&Cr=rights&Cr1 =council. Contudo. 10449. petições individuais e realização de investigações in loco (Protocolo)46 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n. a competência do Comitê contra a Tortura para apreciar petições individuais. comunicações interestatais e petições individuais (estabelecidos pela Convenção) Relatórios (estabelecido pela Convenção). de 15. em 18. Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n.1969.1981.2005) – http:// w w w. Comitê sobre os Direitos da Criança Somente prevê os relatórios (estabelecido pela Convenção). só entrou em vigor em 26. A competência dos Comitês para receber petições individuais está vinculada à declaração feita em separado pelo Estado (no caso da petição individual estar prevista na própria Convenção) ou pela ratificação do Protocolo Facultativo. em 20. a aula deverá destacar que o mesmo só não reconheceu a competência tanto do Comitê de Direitos Humanos.1979. Esses pontos são relevantes.03. comunicações interestatais e petições individuais (estabelecidos pela Convenção). por conseguinte. reconhecendo. só entrou em vigor em 02. em 10.1965. Contudo. a seguir.01.12. em 26. 45 A competência do Comitê só foi ampliada para receber petições individuais e realizar investigações in loco com a adoção do Protocolo Facultativo à Convenção em 1999. um artigo da ONU referente à Resolução 60/251. tendo em vista que em relação ao último. 44 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n. por sua vez.09. segue. Sistemática de implementação Relatórios.1987. Ainda. 47 FGV DIREITO rio 46 . n. são aqueles decorrentes de resoluções elaboradas por órgãos das Nações Unidas. Há 2 Protocolos Facultativos: sobre Conflito Armado e sobre Prostituição Infantil.1989. só entrou em vigor em 04.org/News/Press/ docs/2005/ga10449. uma vez que possui posição central no sistema não-convencional de proteção. 2106 (XX). só entrou em vigor em 03. Acesso em: 20 março 2006.direitos humanos Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial42 Sistemática de monitoramento Comitê sobre a Eliminação de Discriminação Racial Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher43 Comitê sobre a Eliminação de Discriminação contra as Mulheres Convenção Internacional contra a Tortura44 Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança45 Comitê contra a Tortura Relatórios.06.11.03. mecanismo não-convencional criado pela Assembléia Geral.htm.org/apps/news/story. Contudo. 42 É importante ressaltar que os Comitês têm competência para avaliar comunicações que contenham violação a direito disposto apenas na Convenção que o criou.doc. O governo brasileiro ratificou recentemente (12/01/2007) o Protocolo Facultativo à Convenção contra tortura e outros tratamentos ou penas cruéis.2006: http://www. Os mecanismos não-convencionais. Contudo. Dessa forma. 43 Adotada pela Assembléia Geral através da Resolução n. 44/35. uma vez que demonstram a diferença entre os mecanismos convencionais de proteção dos direitos humanos e os mecanismos não-convencionais. Caráter inovador: o Comitê pode iniciar uma investigação própria caso receba informações de fortes indícios de tortura. 46 A Resolução da Assembléia Geral da ONU ainda não está disponível. Focar-se-á no Conselho de Direitos Humanos (CDH). Notícia de imprensa da ONU relacionada a tal resolução (da Assembléia Geral da ONU. a apresentação de denúncias por indivíduos ou grupos de indivíduos aos Comitês não depende da ratificação de convenções específicas nem de declaração relativa a cláusulas facultativas ou de ratificação de protocolo adicional.

direitos humanos

O CDH foi criado em 15 de março de 2006, tendo substituído a Comissão de Direitos Humanos efetivamente a partir de 16 de junho de 2006, data de sua abolição47. A resolução foi aprovada por 170 votos a favor e 4 contra – EUA, Israel, Ilhas Marshall e Palau48. Dentre os avanços trazidos com o estabelecimento do Conselho de Direitos Humanos, destaquem-se: (i) gozo de maior status, já que será um órgão subordinado à Assembléia Geral (enquanto que a Comissão era subordinada ao Conselho Econômico e Social); (ii) um maior número de reuniões ao longo do ano; (iii) constituição por representação geográfica igual; (iv) o direito de votar estará associado com membership. Ressalta-se, ainda, que o Conselho será composto por 47 membros, os quais serão escolhidos por maioria absoluta da Assembléia Geral. O CDH tem as mesmas funções que a extinta Comissão de Direitos Humanos: (i) competência genérica de atuar em quaisquer questões ligadas aos direitos humanos (estabelecida em 1946, no momento de sua criação); e (ii) apreciação de casos específicos de violações de direitos humanos (a partir de 1967). Em relação à apreciação desses casos específicos, o CDH segue dois procedimentos: procedimento 123550 e procedimento 150351 (alterado pela Resolução 2000/3, do Conselho Econômico e Social). O procedimento 1235 autorizou o CDH e a Sub-Comissão para a Promoção e para a Proteção de Direitos Humanos, a examinarem informações relativas às violações sistemáticas de direitos humanos, o que hoje se traduz na realização de um debate público anual e na investigação e análise de casos específicos pelo CDH e pela citada Sub-Comissão. Em se tratando do procedimento 1503, o mesmo foi criado a fim de que fossem examinadas comunicações referentes à violação sistemática de direitos humanos. Com a adoção da Resolução 2000/3, o Grupo de Trabalho sobre Situações é que se tornou o responsável da análise dos casos, elaboração de recomendações, bem como pela decisão de submeter ou não um caso ao CDH. O Grupo de Trabalho sobre Situações, após analisar o caso, poderá enviá-lo ao Conselho de Direitos Humanos, que, por sua vez, poderá adotar uma das seguintes medidas: (i) manter a situação sob análise, requerendo maiores informações do Estado envolvido; (ii) cancelar o estudo da situação sob a Resolução 1503 e iniciar um procedimento público sob a Resolução 1235; (iii) apontar um especialista independente. Destaque-se que ambos os procedimentos possibilitam que o CDH nomeie um Relator Especial com mandato para países específicos. Além dessas funções, o CDH também pode designar relatores temáticos ou grupos de trabalho com o objetivo de examinarem determinadas violações de direitos humanos. Os Grupos de Trabalho, Relatores Especiais e Representantes Especiais desempenham as seguintes atividades: (i) busca e recebimento de informações; (ii) questionar os governos sobre sua legislação e prática doméstica; (iii) envio, aos governos, de alegações sobre casos urgentes a fim de obter um esclarecimento; (iv) aceitar ou recusar o convite feito por determinado país para visitá-lo em virtude da ocorrência de violações referentes ao seu mandato; (vi) realização de visitas; e (vii) relato anual de suas atividades ao Conselho de Direitos Humanos.

48 In ‘historic’ vote, General Assembly creates new UN Human Rights Council. UN News Centre. Disponível em: http://www. un.org/apps/news/stor y. asp?NewsID=17811&Cr=right s&Cr1=council. Acesso em: 20 março 2006.

Criado pela Resolução 1235 do Conselho Econômico e Social, em 6 de junho de 1967.
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Criado pela Resolução 1503 do Conselho Econômico e Social, em 27 de maio de 1970.
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O Brasil já recebeu a visita dos seguintes relatores especiais52,: Sr. Juan Miguel Petit – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a venda de crianças e prostituição infantil e a utilização de crianças na pornografia; Sra. Asma Jahangir – Relatora Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre execuções sumárias, extrajudiciais ou arbitrárias; Sr. Jean Ziegler – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre o direitos à alimentação; Sr. Doudou Diène – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e formas conexas de intolerância; Sr. Nigel Rodley – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a questão de tortura; Sr. Leandro Despouy – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a independência de juízes e de advogados. Diante do exposto, indaga-se: Como se dá a nomeação de um relator especial? Um indivíduo brasileiro pode encaminhar uma comunicação individual ao Comitê de Direitos Humanos? Tendo em vista a consagração da indivisibilidade dos direitos pela Declaração Universal de Direitos Humanos, por que foram elaborados dois Pactos distintos (Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais)? O que significa a consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos para o indivíduo e para o Estado? Qual é a importância da II Conferência Mundial de Direitos Humanos realizada em Viena, em 1993?
MATERIAL DE APOIO Textos:

Leitura obrigatória: PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. São Paulo: Max Limonad, 2002. Capítulo VI. pp. 163-179 (Cap. VI; itens “a”- “c”); pp. 216-224 (Cap. VI; item “k”). Leitura acessória: TRINDADE, Antonio Augusto Cançado. O direito internacional em um mundo em transformação. Rio de Janeiro: Renovar, 2002. p. 627-670. Legislação: Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Segundo Protocolo ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos referente à Abolição da Pena de Morte Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais Carta das Nações Unidas Declaração Universal de Direitos Humanos Declaração e Programa de Ação de Viena

52 Até a presente data, i.e., novembro de 2004.

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direitos humanos

Aula 08: Sistemas regionais de proteção dos direitos humanos
NOTA AO ALUNO

A par do sistema global de proteção dos direitos humanos, há três sistemas regionais de proteção dos direitos humanos: o sistema europeu, o sistema interamericano e o sistema africano. Os sistemas regionais complementam o sistema global, tendo em vista que têm o mesmo objetivo: a proteção do indivíduo e o combate às violações dos direitos humanos. Sendo assim, o indivíduo que tiver um direito violado, pode optar pelo sistema que melhor lhe favoreça, já que vigora, no âmbito internacional, o princípio da norma mais favorável à vitima. O sistema europeu tem por fundamento a Convenção Européia sobre Direitos Humanos, de 1950. Em 1961, tal Convenção foi complementada pela Carta Social Européia (tendo em vista que dispunha apenas sobre os direitos civis e políticos) e, em 1983, foi emendada pelo Protocolo n. 11, que trouxe inovações fundamentais ao funcionamento do sistema: (i) reestruturação profunda dos mecanismos de controle da Convenção (substituição dos 3 órgãos de decisão – Comissão, Corte e Comitê de Ministros do Conselho da Europa – por um só órgão: a Corte Européia de Direitos Humanos); (ii) funcionamento de uma única Corte, em tempo integral (a nova Corte Européia de Direitos Humanos passou a operar em 1o de novembro de 1998); (iii) assegura o acesso direto à Corte aos indivíduos, i.e., o indivíduo passa a ter ius postulandi. Dessa forma, constata-se que o sistema europeu é o mais avançado no que diz respeito ao reconhecimento da capacidade processual internacional ativa dos indivíduos, uma vez que é o único sistema regional de proteção dos direitos humanos que permite ao indivíduo postular diretamente à Corte. O sistema africano, por sua vez, tem por principal instrumento a Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos, adotada em 1981 e em vigor a partir de 1986, que prevê tanto os direitos civis e políticos quantos os direitos econômicos, sociais e culturais. A referida Carta tem por objetivo priorizar os direitos dos povos. As disposições da Carta relativas aos direitos dos povos demonstram a tendência moderna à coletivização dos direitos do homem. Nesse contexto, tem-se que a Carta apresenta a singularidade de colocar, no mesmo documento, conceitos considerados antagônicos: indivíduo e povo, direitos individuais e direitos coletivos, direitos sociais, econômicos e culturais e direitos civis e políticos. Quanto aos mecanismos de proteção e promoção dos direitos humanos, a Carta Africana estabelece a Comissão Africana de Direitos Humanos e dos Povos, podendo a mesma ser provocada por um Estado-parte ou por indivíduos. Já o protocolo adotado em Ovagadongou (em 9 de junho de 1998), Burina Faso, que entrou em vigor em 25 de janeiro de 2004 (30 dias após o 15o Estado – número mínimo exigido – tê-lo ratificado53), estabelece a Corte Africana de Direitos Humanos e dos Povos como órgão complementar ao labor da Comissão. Em se tratando do sistema interamericano, o mesmo tem como origem a IX Conferência Interamericana54, oportunidade na qual foram aprovadas a Declaração

Acesso em: 25 jan. 2005. Disponível em: http://www. fidh.org/article.php3?id_article=450.
53 54 Realizada em Bogotá, Colômbia, de 30 de março a 2 de maio de 1948.

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oas. foi aprovado pelo Conselho da OEA o Estatuto da Comissão. no período que antecede a adoção da Convenção Americana de Direitos Humanos. a lista dos Estados que a ratificaram57: PAÍSES SIGNATÁRIOS Antigua y Barbuda Argentina Bahamas Barbados Belize Bolívia Brasil Canadá Chile Colômbia Costa Rica Dominica Ecuador El Salvador Estados Unidos Grenada Guatemala Guyana Haiti Honduras Jamaica México Nicarágua Panamá Paraguay FIRMA 02/02/84 06/20/78 11/22/69 11/22/69 11/22/69 11/22/69 11/22/69 06/01/77 07/14/78 11/22/69 11/22/69 09/16/77 11/22/69 11/22/69 11/22/69 RATIFICAÇÃO 08/14/84 11/05/81 06/20/79 07/09/92 08/10/90 05/28/73 03/02/70 06/03/93 12/08/77 06/20/78 07/14/78 04/27/78 09/14/77 09/05/77 07/19/78 03/02/81 09/25/79 05/08/78 08/18/89 A Carta da OEA. respectivamente. Em 1959. Com a adoção da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção Americana) ou Pacto de San José da Costa Rica. No entanto. Disponível em: http://www. com as modificações ocorridas em seu Estatuto. que confirmou ser a promoção dos direitos humanos a função da Comissão. até hoje. criou-se a Corte Interamericana de Direitos Humanos e a Comissão passou a ser dotada de novas atribuições56. a Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem foi a base normativa central do sistema interamericano e. assim. o sistema interamericano foi se desenvolvendo lentamente. nas próximas duas aulas. 25 deles ratificaram a Convenção Americana. durante a 5ª reunião de consultas dos Ministros de Relações Exteriores realizada em Santiago do Chile. em 1969 (entrou em vigor apenas em 1978). em maio de 1948. que emendou a Carta da OEA.html. a mesma só se tornou o principal órgão da OEA após a adoção do Protocolo de Buenos Aires em 1967. FGV DIREITO rio 50 . foi adotada em conjunto com a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem na IX Conferência Interamericana. continua sendo a principal base normativa vis-à-vis dos Estados não-partes da Convenção. que dos 34 Estados-membros da OEA.org/juridico/spanish/firmas/b-32. aproximadamente seis meses antes da adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral das Nações Unidas. Após a adoção da Carta da OEA e da Declaração Americana. Sendo assim. Em 1965. 56 57 Informações obtidas no site oficial da Organização dos Estados Americanos (OEA). foi aprovada a proposta de criação de um órgão destinado à promoção dos direitos humanos (mais tarde denominado Comissão Interamericana de Direitos Humanos) até a adoção de uma Convenção Interamericana de Direitos Humanos. O primeiro passo foi a criação de um órgão especializado na proteção dos direitos humanos no âmbito da OEA. em vigor desde 13 de dezembro de 1948. Acesso em: 03 maio 2004.direitos humanos Americana de Direitos e Deveres do Homem e a Carta da Organização dos Estados Americanos (OEA)55. abaixo. Em 1960. Constata-se. 55 A Comissão e a Corte serão estudadas. a Comissão se transformou em um órgão de fiscalização da situação dos direitos humanos nos Estados da OEA. Segue.

direitos humanos Peru República Dominicana San Kitts y Nevis Santa Lucía St. deu novo ímpeto à tendência a favor da abolição da pena de morte. verifica-se a complementaridade entre o mesmo e o sistema interamericano. da Corte Africana e da Corte Européia de Direitos Humanos? Qual é a importância. quatro convenções interamericanas “setoriais” mais recentes: (a) Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura (1985). Sociais e Culturais (ou Protocolo de San Salvador) em 1988 (entrou em vigor em 1999). sociais e culturais. Em relação ao sistema global. (c) Convenção Interamericana para Prevenir. ao estabelecer que os Estados-partes não podem aplicar em seu território a pena de morte a nenhuma pessoa sujeita a sua jurisdição. Este Protocolo. também. reservas (salvo em tempo de guerra). Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (1994). pergunta-se: por que ambos os sistemas são complementares? Qual o fundamento de haver um sistema interamericano de proteção dos direitos humanos quando já há um sistema de abrangência global? Em relação aos sistemas regionais. Dessa forma. da incorporação. portanto. dos instrumentos de proteção dos direitos humanos? FGV DIREITO rio 51 . ela restringe ao artigo 26 a consagração dos direitos econômicos.6 da Convenção Americana. Vicente & Grenadines Suriname Trinidad & Tobago Uruguay Venezuela 07/27/77 09/07/77 11/22/69 11/22/69 07/12/78 01/21/78 11/12/87 04/03/91 03/26/85 06/23/77 À semelhança do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos.2 a 4. que se limita a prever o “desenvolvimento progressivo” dos mesmos. e (d) Convenção Interamericana sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Pessoas Portadoras de Deficiências (1999). dando um passo adiante no que concerne o disposto no artigo 4. indaga-se: Qual é o diferencial do disposto na Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos? Por que o sistema europeu é considerado o mais avançado? Qual é a diferença entre o papel da Corte Interamericana. a Convenção Americana reconhece um catálogo de direitos civis e políticos. para o sistema interamericano. a fim de suprir a lacuna do artigo 26. foi elaborado o Protocolo Adicional à Convenção Americana em matéria de Direitos Econômicos. Nesse sentido. (b) Convenção Interamericana sobre Desaparecimento Forçado (1994). Cabe salientar ainda que o sistema interamericano de direitos humanos contemporâneo não se limita à Convenção Americana e aos dois protocolos. não admitindo. pelos Estados. Há. O segundo Protocolo Adicional à Convenção Americana é relativo à abolição da pena de morte (1990). No entanto.

O sistema interamericano de proteção dos direitos humanos e o direito brasileiro. 2000. Antonio Augusto. Direitos humanos e justiça internacional. 103-151. São Paulo: Editora dos Tribunais. Flávio Luiz. Legislação: Convenção Européia sobre Direitos Humanos e Carta Africana sobre Direitos Humanos e dos Povos Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem e Convenção Americana sobre Direitos Humanos Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura Convenção Interamericana sobre Desaparecimento Forçado Convenção Interamericana para Prevenir. PIOVESAN. 72-84. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher Convenção Interamericana sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Pessoas Portadoras de Deficiências (1999) FGV DIREITO rio 52 . p. Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. São Paulo: Saraiva. Capítulo IV. Flávia. 50-59. In: GOMES. 2006. Flávia. pp. O sistema interamericano de direitos humanos no limiar do novo século: recomendações para o fortalecimento de seu mecanismo de proteção.direitos humanos MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN.

direitos humanos

Aula 09: Sistema Interamericano: a Comissão e a Corte Interamericanas de Direitos Humanos
NOTA AO ALUNO

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão) originou-se da Resolução VIII da V Reunião de Consulta dos Ministros de Relações Exteriores (Santiago, 1959). Em 1960, foi aprovado pelo Conselho da OEA o Estatuto da Comissão, que confirmou ser a promoção dos direitos humanos a função da Comissão. Em 1965, com as modificações ocorridas em seu Estatuto, a Comissão se transformou em órgão de fiscalização da situação dos direitos humanos nos Estados da OEA. No entanto, a mesma só se tornou o principal órgão da OEA após a adoção do Protocolo de Buenos Aires em 1967, que emendou a Carta da OEA. A Comissão é composta por sete membros eleitos pela Assembléia Geral por um período de 4 anos, podendo ser reeleitos apenas uma vez. Em relação às suas funções, são elas: conciliadora; assessora; crítica; legitimadora; promotora; protetora. Com a adoção da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção) ou Pacto de San José da Costa Rica, em 1969 (entrou em vigor apenas em 1978), a Comissão passou a ser dotada de novas atribuições. Isto significa que, a partir da adoção da Convenção, a Comissão passou a ser tanto o principal órgão da OEA quanto órgão do referido instrumento. Dessa forma, todos os Estados da OEA têm o dever de proteger e promover os direitos humanos, seja por meio do disposto na Carta da OEA e na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (para os Estados-membros da OEA), seja por meio do estabelecido na Convenção (para os Estados-partes). Sendo assim, verifica-se a coexistência de dois sistemas em relação à Comissão: o sistema da OEA e o sistema da Convenção. No entanto, por se tratar de aula referente ao sistema interamericano, focaremos o estudo da Comissão no sistema da Convenção. A Comissão tem competência para examinar comunicações encaminhadas por indivíduo, grupo de indivíduos ou organizações não governamentais, que contenham denúncia de violação a direito consagrado na Convenção, cometida por algum Estado-parte. Isto porque os Estados, ao se tornarem parte da Convenção, aceitam automática e obrigatoriamente a competência da Comissão para apreciar denúncias contra eles. Dessa forma, a comunicação individual é obrigatória e a comunicação interestatal58 é facultativa no sistema interamericano, ao passo que no sistema europeu ocorre o oposto. Em relação ao procedimento da petição perante a Comissão, verificam-se quatro fases: (a) fase da admissibilidade; (b) fase da conciliação; (c) fase do Primeiro Informe; e (d) fase do Segundo Informe ou a propositura de uma ação de responsabilidade internacional perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Dessa forma, pode-se sintetizar a apreciação de uma denúncia pela Comissão da seguinte forma:

58 Em outras palavras, a Comissão só poderá analisar a comunicação interestatal (um Estado denuncia o outro por violação a algum direito humano) quando ambos os Estados, além de terem ratificado a Convenção, declararem expressamente que reconhecem a competência interestatal da Comissão.

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Recebe denúncia  aprecia sua admissibilidade (i.e., se os seguintes requisitos foram observados: prazo, prévio esgotamento de recursos internos e a inexistência de litispendência internacional)  considera-a admissíve  requer informações ao Governo e à parte  tenta uma solução amistosa  não ocorrendo, a Comissão envia o 1º informe ao Governo, dando-lhe um prazo de 3 meses para cumprir as exigências  Estado não cumpriu  Comissão envia o caso à Corte ou elabora o 2º informe. Ainda, cabe mencionar que a Comissão pode iniciar um caso de oficio (art. 24, Regulamento Comissão), se possuir informações necessárias. Saliente-se, também, a função preventiva exercida pela Comissão. Em decorrência de suas recomendações de caráter geral dirigidas a determinados Estados, ou formuladas em seus relatórios anuais, foram derrogados ou modificados leis, decretos e outros dispositivos que afetam negativamente a vigência dos direitos humanos. Ainda, a função preventiva da Comissão pode ser observada na elaboração de medidas cautelares e, inclusive, ao solicitar à Corte que adote medidas provisórias. Por fim, destaque-se que a par do sistema de petições ou comunicações, dois sistemas também têm um papel fundamental na proteção e promoção dos direitos humanos: (a) o sistema de investigações (observações in loco); (b) o sistema dos relatórios, o que inclui tanto o relatório com recomendações gerais enviado a determinado Estado, quanto os relatórios periódicos apresentados à Assembléia Geral da OEA, que contém, muitas vezes, considerações de caráter doutrinário. A Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte), órgão jurisdicional da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção), realizou suas primeiras reuniões na sede da OEA em Washington, em 29 e 30 de junho de 1979, e instalou-se em sua sede permanente em São José da Costa Rica em 3 de setembro de 1979. Esta instituição judiciária é composta por sete juízes nacionais de Estadosmembros da OEA, escolhidos por título pessoal, e tem por objetivo a aplicação e interpretação da Convenção. Até novembro de 2006, dos 35 Estados-membros da OEA, 24 Estados haviam ratificado a Convenção Americana59, e, dentre estes, 21 reconheceram a competência contenciosa da Corte60. Até julho de 2005, a Corte já havia proferido 127 sentenças, sendo que destas 57 são sentenças de mérito (ou seja, avaliam se evetivamente houve violação)61. A Corte tem duas competências: consultiva e contenciosa. Em relação à competência consultiva, qualquer membro da OEA pode solicitar o parecer da Corte relativo à interpretação da Convenção ou de qualquer outro tratado referente à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos. Ainda, a Corte pode opinar sobre a compatibilidade de preceitos de legislação interna em face dos instrumentos internacionais. Até julho de 2005, a Corte havia emitido 18 pareceres62. Em se tratando de sua competência contenciosa, apenas a Comissão e os Estados-partes (que expressamente reconhecerem a jurisdição da Corte) podem submeter um caso a Corte. Isto significa que o indivíduo depende da Comissão para que seu caso seja apreciado pela Corte, uma vez que ela é a dominus litis absoluto.

Argentina, Barbados, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Dominica, Equador, El Salvador, Granada, Guatemala, Haiti, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai, e Venezuela. Ressalte-se que Trinidad e Tobago denunciou a Convenção em 26 de maio de 1998.
59

Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai, e Venezuela.
60

PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e justiça internacional. São Paulo: Saraiva, 2006. p. 105.
61 62

Ibid., p. 100.

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Ao longo de sua história, a Corte já possuiu outros três regulamentos (1980, 1991, 1996), estando hoje em vigor o Regulamento de 2000 (a partir de 1 de junho de 2001). As inovações consagradas neste diploma são definidas pelo juiz Cançado Trindade como “o grande salto qualitativo” por considerar a proteção jurisdicional aos direitos humanos a forma mais efetiva de salvaguarda dos direitos humanos. Ao assegurar em seu artigo 23 que “depois de admitida a demanda, as presumidas vítimas, seus familiares ou seus representantes devidamente creditados poderão apresentar suas solicitações, argumentos e provas em forma autônoma durante todo o processo”, a Corte outorgou ao indivíduo o locus standi in judicio. Resta claro que as verdadeiras partes no caso contencioso perante a Corte são os indivíduos demandantes e o Estado demandado, e processualmente, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos como o titular da ação. O processamento do Estado perante a Corte se dá através de seis fases: (a) fase da propositura e exceção preliminar; (b) fase da conciliação; (c) fase probatória; (d) fase decisória; (e) fase das reparações; e (f ) fase de execução da sentença.
FASES TÓPICOS E CASOS - Apenas a Comissão e os Estados-partes da Convenção podem submeter um caso à Corte (art. 61, Convenção). - Citação do Estado. - Prazo para o Estado apresentar exceções preliminares, bem como seu exame pelo presidente da Corte. - Faculdade da Corte para convocar audiência. - Possibilidade do demandante desistir da ação. Se a desistência se der antes da citação, ela será aceita obrigatoriamente. Se ocorrer após a citação, a Corte ouvirá as partes. - Corte arquiva o processo ou continua (passa-se à 2ª fase). - As partes podem fazer um acordo. No entanto, cabe a Corte homologá-lo. - Citar o caso Maqueda (exemplo de acordo homologado pela Corte)63. - A propositura de solução amistosa é uma faculdade da Corte. - Prazo para a contestação. - As provas têm que estar elencadas na petição inicial ou contestação, salvo nas hipóteses previstas no art. 43, do Regulamento da Corte. - Corte pode produzir prova ex officio (art. 44, Regulamento Corte). - Os Estados não podem processar as testemunhas e peritos por suas declarações (art. 50, Regulamento Corte). - A sentença tem força jurídica vinculante e obrigatória. - Exposição dos votos dissidentes e concorrentes. - Não é obrigatória. Ocorrerá apenas quando a sentença de mérito não tratar das reparações (citar o caso Gangaram Panday64). - Excepcionalmente, admite-se aqui a participação do indivíduo de forma autônoma (art. 23, Regulamento Corte65). - Trata-se de uma nova etapa do processo: as partes serão intimadas novamente. - Possibilidade de uma nova conciliação entre as partes. - Há uma variedade de reparações que podem ser fixadas, dentre elas: reconhecimento da responsabilidade, indenização por danos material e moral, obrigação de investigar e punir os agentes responsáveis pelas violações, obrigações de fazer (ex: construir posto médico e escolar – caso Aloeboetoe66),.
63 A Comissão e o governo argentino acordaram pela libertação de Guilhermo Maqueda. Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Maqueda, Resolução de 17 de janeiro de 1995, Série C n. 18, § 27. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/ serie_c/index.html. RAMOS, André de Carvalho. Direitos humanos em juízo. São Paulo: Max Limonad, 2001. Capítulo IV. p. 220-225.

1. Fase da propositura e exceção preliminar

2. Fase da conciliação

3. Fase probatória

4. Fase decisória

Corte condenou o Suriname a pagar determinada quantia aos herdeiros da vítima, como forma de indenização pecuniária aos danos causados. Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Gangaram Panday, Sentença de 21 de janeiro de 1994, Série C n. 16, item 4 do dispositivo da sentença. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/ serie_c/index.html. André de Carvalho Ramos. op. cit.,. p. 168-179.
64 65 Trata-se de uma inovação trazida pelo novo Regulamento da Corte, em vigor a partir de 1º de junho de 2001. Regulamento aprovado pela Corte no seu XLIX período ordinário de sessões, celebrado do dia 16 a 25 de novembro de 2000.

5. Fase das reparações

Ver in Corte Interamericana de Direitos Humanos, Caso Aloeboetoe e outros, Sentença de 10 de setembro de 1993 (reparações), Série C n. 15, § 20. Acesso em: 27 maio 2004. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/serie_c/index.html. RAMOS, A. op. cit., p. 162-168.
66

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Convenção).direitos humanos 6.corteidh. 63. Tais medidas têm sido ordenadas em casos de extrema gravidade ou urgência.1.2. A Corte as ordena com base em uma presunção razoável. o Estado as cumpriu? Quais foram as conseqüências? 67 Informações atualizadas em 25 de outubro de 2006. Nos últimos anos.O Estado se compromete a cumprir integralmente a pena (art. julho de 2004 e setembro de 2005) também foram publicadas com o mesmo propósito.or. . reconhecendo a jurisdicionalização das violações de direitos humanos que engendram sua responsabilidade internacional. tanto pendentes ante ela como ainda não submetidos a ela.67 A Corte deixou claro que o Brasil “tem responsabilidade internacional por descumprir. seu dever de cuidar e de prevenir a vulneração da vida e da integridade pessoal. a pedido desta última (art. 65.Estado não pode alegar impedimento de direito interno como forma de se eximir do cumprimento da pena. cabe a Corte indicar o caso em seu relatório à Assembléia Geral da ONU (art. Estado de Rondônia.cr/.Caso o Estado não cumpra a sentença. Fase de execução da sentença . a importante dimensão preventiva da proteção internacional dos direitos humanos. garantiu aos indivíduos uma importante e eficaz esfera complementar de garantia aos direitos humanos sempre que as instituições nacionais se mostrem omissas ou falhas. . a Corte determinou que o Estado brasileiro proteja a vida e integridade pessoal dos presos da Casa de Detenção “Urso Branco”. 68 Para ler a sentença na íntegra. abril de 2004. É importante ressaltar que o Estado brasileiro aceitou a jurisdição da Corte em 10 de dezembro de 1998. neste caso.2. As medidas provisórias revelam. 68. A primeira sentença da Corte em face do Estado brasileiro foi editada em agosto de 2006. assim. a Corte tem ordenado medidas provisórias de proteção em um número crescente de casos. bem como seu dever de regulamentar e fiscalizar o atendimento médico de saúde”68. em especial com a aceitação da jurisdição da Corte. há de se concluir que a adesão do Estado brasileiro ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos. Convenção). no caso do Damião Ximenes. .A indenização se dará pelo processo interno vigente (art. Constam ainda dos procedimentos perante a Corte: dois casos de fundo (Damião Ximenes e Gilson Nogueira) e outra medida provisória (Adolescentes Internos da FEBEM). Diante do exposto. de modo a evitar danos irreparáveis à vida e integridade pessoal de indivíduos. Em junho de 2002. Convenção). FGV DIREITO rio 56 . mas pendentes ante a Comissão. Quatro outras resoluções (agosto de 2002. Convenção). na cidade de Porto Velho. acesse o site da Corte Interamericana de Direitos Humanos: http://www. Por fim. indaga-se: • • • O procedimento perante a Comissão pode ser renunciado pelo Estado? Qual é a posição da Corte a respeito? Os requisitos que devem ser observados para que uma petição seja admitida pela Comissão comportam exceções? Quais? Quais são os casos em que a Comissão pode adotar medidas cautelares ou requerer que a Corte adote medidas provisórias? Já houve algum caso em que a Corte requereu ao Brasil que adotasse medidas provisórias? Caso positivo. 68.

118-145. 341-349. p. São Paulo: Saraiva. Antônio Augusto. p. caso El Amparo. 2001. 98-118. André de Carvalho. Capítulo IV: caso Velásquez Rodriguez. 85-98. In: Direitos Humanos no Brasil 2003. pp. Brasília: Editora Unb. pp. 162-168. p. Direitos humanos e justiça internacional. RAMOS. 491-515. São Paulo: Max Limonad.direitos humanos • • Quantos casos contra o Brasil tramitam perante a Comissão? Qual é a natureza de ambos os informes da Comissão? Tendo em vista a inexistência de qualquer sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos em desfavor do Estado brasileiro. Capítulo VII. Responsabilidade internacional do Estado e decisões do Sistema Interamericano em 2003. Direitos humanos em juízo. São Paulo: Saraiva. O esgotamento de recursos internos no direito internacional. São Paulo: Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. Capítulo III. 2003. 2006. Direitos humanos e justiça internacional. Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. p. PIOVESAN. 220-225. 1997. p. 261-268. p. CEJIL Brasil. 63-99. caso Gangaram Panday. Flávia. cabem as seguintes indagações: • • • Há distinção entre sentença estrangeira e internacional? Deverão as sentenças ser examinadas pelo Supremo Tribunal Federal pela concessão do exequatur? Poderão os indivíduos demandantes executar perante a Justiça Federal? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. 168-179. Legislação: Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem Convenção Americana sobre Direitos Humanos Carta da OEA Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Estatuto da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos Estatuto da Corte Interamericana de Direitos Humanos FGV DIREITO rio 57 . p. Flávia. p. 2006. p. caso Aloeboetoe. caso Maqueda. Capítulo V. 225-232.

recomendando ao Estado venezuelano que punisse os autores do crime de homicídio praticado contra as vítimas de ‘El Amparo’. que tramitou até o dia 12 de outubro de 1992. localizada a 15km do local dos eventos. FGV DIREITO rio 58 . familiares. em um primeiro momento. foi impossível retirar os sobreviventes à força dali. 5 (direito à integridade pessoal). a Comissão instaurou o caso n. Em 10 de agosto de 1990. o Inspetor chefe do DISIP (Direção dos Serviços de Inteligência e Prevenção) visitou Tovar e lhe informou que havia matado 14 guerrilheiros. 24 e 25 em relação aos dois pescadores que conseguiram fugir.602. Às 11:20 o barco parou e quando os pescadores desembarcavam. conforme o artigo 50 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção). o Informe n. Em virtude da presença de grande quantidade de pessoas diante da delegacia. Tovar começou a sofrer pressões por parte de policiais e militares para entregar os sobreviventes ao Exército. além de indenizar os familiares das vítimas. Logo após.1. abordaram Tovar a fim de saber o paradeiro de seus entes que haviam ido pescar no dia 29 e até agora não tinham retornado. 4 (direito à vida). 16 pescadores do povoado “El Amparo” dirigiamse ao Canal “La Colorada” para participar de um campeonato de pesca. Na tarde do dia 29. 8. No entanto. 29/93. prontamente. data na qual adotou. 10. Breve descrição dos fatos Em 29 de outubro de 1988. 24 (igualdade perante a lei) e 25 (proteção judicial).1 (garantias judiciais). que. No dia seguinte. se entregaram ao Comandante da Polícia de “El Amparo”. 8.direitos humanos Aula 10: Sistema Interamericano de Direitos Humanos: Estudo de Caso NOTA AO ALUNO 1. bem como violação aos artigos 5. refugiaram-se na fazenda “Buena Vista”. que realizavam uma operação militar. lhes ofereceu proteção.1 (obrigação de respeitar os direitos) pela morte de 14 dos 16 pescadores. Tovar. todos eles em concordância com o artigo 1. membros do exército e da polícia do CEJAP (Comando Específico José Antonio Páez). mataram 14 dos 16 pescadores. Os dois sobreviventes conseguiram escapar a nado e. levando em consideração o divulgado pela mídia (haveria ocorrido um confronto armado com combatentes colombianos). Foi alegada violação aos seguintes artigos da Convenção Americana de Direitos Humanos: 2 (dever de adotar disposições de direito interno). DO CASO O caso “El Amparo” foi submetido à Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte) pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) em face do Estado da Venezula no dia 14 de janeiro de 1994.

alegando o seguinte: violação aos arts. em 14 de janeiro de 1994. 2) decide que o Estado está obrigado a reparar os danos e pagar uma justa indenização às vítimas sobrevivente e aos familiares dos falecidos. Em resumo. a Comissão solicitou que fosse declarada a incompatibilidade do art. dentre outras medidas: 1) fixa o valor da indenização aos familiares das vítimas às vítimas sobreviventes. que o estado indenizasse os familiares das vítimas. 8. sendo reservado àquele tribunal a faculdade de aprova-lo. a Corte.direitos humanos Em virtude falta do cumprimento.1 (obrigação de respeitar os direitos). na qual assevera que tal exame somente seria possível no exercício de sua competência consultiva. Reiterou-se assim o posicionamento na Opinião Consultiva nº 14. e violação aos arts. que não procedem as reparações não-pecuniárias nem pronunciamento sobre a conformidade do Código de Justiça Militar e a Convenção. 4 (direito à vida). a Comissão propôs. 8. FGV DIREITO rio 59 . incisos 2 e 3. em voto dissidente. Essa ação judicial foi possível tendo em vista que a Venezuela ratificou a Convenção em 9 de agosto de 1977 e reconheceu a competência da Corte em 24 de julho de 1981. a própria existência de um dispositivo legal pode per se criar uma situação que afeta diretamente os direitos protegidos pela Convenção. em sentença de 18 de janeiro de 1995. do referido Informe. 3) declara. o Juiz Antônio Augusto Cançado Trindade expressa seu entendimento de que a Corte deveria ter esclarecido que tem a faculdade de decidir acerca da incompatibilidade entre os artigos do Código de Justiça Militar e a Convenção. in casu.1 (garantias judiciais). Breve descrição dos passos processuais Em um breve resumo. a Corte: 1) tomou nota do reconhecimento de responsabilidade efetuado pelo Estado venezuelano. do Código de Justiça Militar com o objeto da Convenção. 24 e 25 em relação aos dois sobreviventes. 5 (direito à integridade pessoal). argumenta o juiz Antônio Augusto Cançado Trindade que.1. pela morte dos 14 pescadores. uma ação de responsabilidade internacional contra o referido estado perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte). 5. Por outro lado. tal dispositivo não fora aplicado. 3) afirma que as reparações serão alvo de acordo entre a CIDH e o Estado. 2 (dever de adotar disposições de direito interno). não sendo necessário o aguardo da ocorrência de um dano. 24 (igualdade perante a lei) e 25 (proteção judicial). Isoladamente. Requereu. em votação não unânime. 54. Por fim. todos eles em concordância com o artigo 1. ainda. 2) decide que o Estado venezuelano está obrigado a continuar as investigações acerca dos fatos a que se refere e a sancionar os responsáveis. Na sentença de reparações de 14 de setembro de 1996. pelo Estado venezuelano. a Corte não acatou o pedido da Comissão Interamericana de Direitos Humanos sob o argumento de que.

No 2. 4. os quais assumirão os seguintes posicionamentos: a) b) c) d) e) Comissão Interamericana de Direitos Humanos. 6.or.cr/seriec/ index_c. Estado da Venezuela. DOS ARGUMENTOS Tendo por base as decisões do caso em tela. devendo estes ser divididos em cinco grupos. DOS POSICIONAMENTOS PROPOSTOS Dez alunos poderão participar da atividade. São Paulo: Max Limonad. cada grupo deverá construir argumentos acerca dos seguintes pontos: 1. 09 – 40. Familiares das Vítimas. Disponível em: http://www. FGV DIREITO rio 60 . 2001. Indenização em geral e danos materiais Danos morais Efetuação do pagamento Reparações não pecuniárias Compatibilidade do Código de Justiça Militar com a Convenção Americana Dever de investigar e punir os responsáveis MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: Caso El Amparo Vs. 3. Universitas –Centro Universitário de Brasília – UniCEUB. “El nuevo reglamento de la Corte Interamericana de Derechos Humanos (2000): la emancipación del ser humano como sujeto del derecho internacinal de los derechos humanos” in Revista Proteção Internacional da Pessoa Humana.html Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. e Voto dissidente do Juiz Antônio Augusto Cançado Trindade. Corte Interamericana de Direitos Humanos. Vol. p. I. 3.corteidh. 5. Venezuela.direitos humanos 2. RAMOS. Antônio Augusto. André de Carvalho. Direitos humanos em juízo. 2.

direitos humanos Legislação: Convenção Americana sobre Direitos Humanos Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos FGV DIREITO rio 61 .

A organização insta os beligerantes a assegurar que todos os que precisem de cuidados – sejam ou não inimigos – devem ter acesso ao atendimento médico.cicr. conflitos armados.org/Web/por/sitepor0. alimentos. tratados Dia 09 de novembro de 2004 Comunicado melha de imprensa nº 04/62 do Comitê Internacional da Cruz Ver- Fallujah/Iraque (CICV) – O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) lembra a todos os envolvidos nos enfrentamentos armados em curso no Iraque que o Direito Internacional Humanitário proíbe agredir ou matar aos civis que não tomem parte diretamente das hostilidades. A realidade do mundo contemporâneo refletida em temas como guerra contra o terrorismo. Milhares de civis iraquianos. conduz à inafastabilidade do estudo do DIH e do DIR. incluindo mulheres. tais particularidades não afastam. As notícias expostas nas seguintes notas não nos contam ocorrências escondidas em algum capítulo da História. Eles devem ter garantido o direito de retornar a suas casas o mais cedo possível. entre tantos outros. Doentes e feridos. A organização faz um chamamento às partes para que tomem toda precaução possível poupando os civis e as propriedades civis. e respeitando o princípio de distinção e proporcionalidade nas operações militares. abrigo e assistência médica. deslocados. o Direito Internacional Humanitário (DIH). Iraque: civis devem ser poupados. São conflitos que atingem milhares de pessoas no mesmo momento em que você está lendo esse texto. uma vez que tais vertentes possuem um elemento em comum: a proteção da pessoa humana. fugiram de Fallujah buscando refúgio nos arredores da cidade. crianças e idosos.nsf/html/66LLHJ!OpenDocument FGV DIREITO rio 62 . O CICV está profundamente preocupado com relatos de que os feridos não estão podendo receber atenção médica adequada. http://www. O CICV permanece comprometido em realizar seu trabalho humanitário no Iraque e insta todas as partes a facilitarem a passagem de suas equipes de ajuda humanitária que levam assistência de maneira neutra aos civis afetados pelo conflito. e sim intensificam sua complementaridade. e o pessoal médico e seus veículos devem poder operar sem entraves em quaisquer circunstâncias. Todavia.direitos humanos Aula 11: Direito Internacional Humanitário e Direito Internacional dos Refugiados NOTA AO ALUNO Nascidos em períodos históricos diversos. refugiados. Muitos destes deslocados internos precisam de água. o Direito Internacional dos Refugiados (DIR) e o Direito Internacional dos Direitos Humanos (DIDH) apresentam aplicabilidades e mecanismos de supervisões diferenciados.

Com um orçamento de US$ 112 milhões. que este retorno deve ser absolutamente voluntário e que as condições de segurança para os civis devem ser consideravelmente reforçadas nestas áreas. em terreno. o presidente do CICV irá ao Quênia. fornecendo água e alimentos. velando prioritariamente pelo conhecimento e respeito aos princípios básicos do Direito Internacional Humanitário. além de artigos de primeira necessidade e socorro médico. Kellenberger reconheceu que o acesso às vítimas do conflito armado no Darfur melhorou sensivelmente desde de sua última visita à região. Kutum e Zalingei. onde participa da Cúpula de Nairóbi para Um Mundo Livre de Minas http://www. As operações do CICV são realizadas em cooperação com o Crescente Vermelho Sudanês e outras Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. Do Sudão. Kellenberger deixou claro que o CICV seguirá de perto a implementação das recomendações apresentadas.org/web/por/sitepor0. Frente às graves violações do Direito Internacional Humanitário cometidas sob responsabilidade do governo. em 2005. na região do Darfur. e em toda a cadeia de comando das forças governamentais. o maior teatro de operações do CICV em todo o mundo.nsf/iwpList4 747E1213A0B72DE90325 6F5F005B3500 FGV DIREITO rio 63 .cicr. fronteira entre o Chade e o Sudão. Além de fazer conhecer o Direito Internacional Humanitário e de assegurar o respeito por estas normas. de ambos os lados do conflito. O presidente do CICV encontrou-se com diversas autoridades do governo sudanês. o Sudão será. em todas as ocasiões. o CICV presta assistência a meio milhão de pessoas em todo o Sudão. O governo deve também tomar as providências para acabar com a impunidade dos culpados por violações. em março de 2004. Kellenberger formulou uma série de recomendações destinadas a melhorar a proteção da população civil. Neste caso. “Penso que o CICV optou por uma boa solução quando decidiu concentrar suas operações de socorro nas regiões rurais com a intenção de evitar novos deslocamentos de populações e facilitar o retorno dos que partiram”. Por outro lado ele destacou. na África.direitos humanos Sudão: presidente do CICV reforça importância do respeito ao Direito Internacional Humanitário Dia 30 de novembro de 2004 Comunicado melha de imprensa nº 04/71 do Comitê Internacional da Cruz Ver- Cartum/Genebra (CICV) – O presidente do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) Jakob Kellenberger terminou hoje uma visita de três dias às cidades de El Fasher. disse Kellenberger.

para eles. homens com idade entre 20 e 25 anos. É preciso ultrapassar a fronteira de sua terra natal para pedir proteção ao governo do Brasil – país signatário do tratado da Convenção de Genebra. Mesmo assim. é preciso provar que se corre risco de vida no país de origem. seria o mesmo que morrer.5 mil refugiados que vivem na cidade. Com a ratificação.2 mil dos 1. Só se cometerem uma infração grave. CPF e carteira de trabalho e. violências étnicas e tribais e outras violações graves de direitos humanos. por um período médio de seis meses. 38 anos. fugiram de seus países de origem e realizaram verdadeiras façanhas para chegar ao Brasil. como conta neste especial o africano da Costa do Marfim Edmond Kouadio. vivem com medo”. Recebe cédula de identidade de estrangeiro. permanecem com medo da deportação. onde são oferecidos programas de apoio a imigrantes e por onde já passaram cerca de 1. cerca de 35% das pessoas que entram com processo para pedir o reconhecimento como refugiado têm essa condição validada. existem pelo menos outros 6 mil refugiados que vivem no Brasil. Com o mesmo perfil. é analisado pelo Comitê Nacional para Refugiados (Conare). que trabalha no Sesc Carmo. Barreiras na fuga. de 1951. Segundo o representante no Brasil do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). proteger e ajudar a integrar refugiados. ideológicas e religiosas. Voltar para casa. Aqui. em São Paulo. Para chegar ao País. famílias inteiras de desterrados. e no Brasil A primeira barreira que o refugiado enfrenta é a viagem de fuga. São mulheres e. Sozinhos em um país estranho e vivendo de forma ilegal. pediram refúgio ao governo e tentam reconstruir suas vidas. A maioria é de africanos e latino-americanos. em meio a lembranças de dor e sofrimento. Luis Varese. “Eles sabem que não serão deportados. A assistente social Denise Orlandi Collus. O processo. Já no Brasil. O elo que os une: expulsos por terríveis guerras civis. perseguições políticas. e que desde 1997 tem uma lei nacional específica na qual se compromete a receber. mas que ainda não conseguiram o direito de viver em território nacional. muitos viajam como clandestinos em cargueiros e enfrentam dias de fome e tensão. tem direito a um salário mínimo e medicamentos. em grande parte. que pode levar seis meses. conta que a maioria dos que não conseguem obter o status permanece no Brasil assim mesmo. FGV DIREITO rio 64 .direitos humanos Refugiados no Brasil: o lado humano dos conflitos que assolam o mundo em território nacional Por Patrícia Pereira Há 3 mil refugiados no Brasil. diz. fornecidos pelo Acnur. que atravessou quase todo o continente africano fugindo de massacres e guerras civis. Às vezes. órgão ligado ao Ministério da Justiça. Outros vagam anos a pé até conseguir embarcar em aviões. A condição pode ser estendida aos familiares e dependentes que se encontrem em território nacional. a pessoa passa a gozar de total liberdade dentro do território nacional.

evitando que sejam afetados as pessoas e os bens legalmente protegidos. “mais recentemente o primeiro temse voltado também para situações de violência em conflitos internos. No Brasil. Volume I. Antônio Augusto. A normatização do conflito visa precisamente à mitigação de seus efeitos e a sua não transformação em uma barbárie absoluta. Para isso. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. CR: Instituto Interamericano de Direitos Humanos. Tendo em vista que a Carta das Nações Unidas legitima expressamente o uso da força em circunstâncias limitadas. cabe a exploração de alguns elementos do DIH e do DIR.”70 Quais elementos são característicos do DIH? Definição: “trata-se do corpo de normas jurídicas de origem convencional ou consuetudinário. 275. todavia. p. São pessoas com formação universitárias e politizadas. Com os papéis em mãos. notadamente no que se refere à proteção da pessoa humana. adaptar-se aos hábitos dos brasileiros e integrar-se socialmente. Após essa leitura. têm a ajuda da Cáritas. Dificilmente ele consegue exercer no Brasil a profissão que desempenhava antes. conta Denise.br/especial/refugiados. de 45 anos. A boa formação do refugiado acaba às vezes sendo um ponto negativo para a integração. “O refugiado é quase sempre visto como bandido ou traficante. Antônio Augusto.). como o colombiano Juan (nome fictício). por razões humanitárias. 1996. “Sistemas Internacionais de proteção da pessoa humana: o direito internacional humanitário”. a terceira nota reflete um panorama dos refugiados no Brasil. 1997. Histórico: Como foi estudado na aula 02 – Desenvolvimento Histórico dos Direitos Humanos. e SANTIAGO. Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor. organização não-governamental de assistência e proteção aos refugiados ligada à Igreja Católica. com mulher e quatro filhas. internacionais ou não-internacionais. enfrenta o desemprego e a desilusão das filhas provocada pela queda na qualidade do ensino. Comitê Internacional da Cruz Vermelha. o DIH protege a pessoa humana em conflitos armados e o DIDH em todos os tempos. Peru e Cuba – nos últimos anos reforça esse grupo. PEYTRIGNET. o direito das partes em conflito de escolher livremente os métodos e os meios utilizados na guerra. San José. In: CANÇADO TRINDADE. Por sua vez.com. O crescente número de refugiados vindos da América Latina – principalmente Colômbia.htm As duas primeiras notas de imprensa são datadas de novembro de 2004. FGV DIREITO rio 65 . o DIH pode ser indicado como precursor da internacionalização CANÇADO TRINDADE. trabalhava na Cruz Vermelha. Na Colômbia. é preciso compreender algumas limitações acordadas pelos Estados de forma a tornar os conflitos armados menos danosos.”71 Se a guerra é o campo do conflito. que é jornalista e especializou-se em prevenção e administração de desastres. responsável por implementar o programa do Acnur em São Paulo e no Rio de Janeiro. respectivamente acerca dos conflitos vividos no Iraque e Sudão. Jaime Ruiz de (orgs.direitos humanos Enquanto aguarda o resultado do processo os refugiados procuram aprender a língua. Surge então uma nova barreira: a do preconceito. Direito Internacional Humanitário e Direitos Internacional dos Direitos Humanos: tradicionalmente. Gerard. e o segundo à proteção de certos direitos básicos também em diversas situações de conflitos e violência. Gerard. e que limita. As três vertentes da proteção internacional dos direitos da pessoa humana.estadao. 70 71 PEYTRIGNET. especificamente aplicável aos conflitos armados. a urgência passa a ser conseguir emprego e moradia. http://www. o que dificulta sua entrada no mercado de trabalho”. por que será que existem normas que regulamentam as condutas perpetuadas nesse período? Haveria uma contradição entre conflito e regras a serem cumpridas? A resposta é não. sempre tendo como parâmetro o DIDH.

no qual propõe a criação de entidades de socorro privadas em cada país e a elaboração de um acordo internacional que facilitasse o trabalho das mesmas. É importante lembrar que nesse momento. A convite do governo suíço. em 1862. e Convenção de Genebra IV – inaugura a preocupação com a população civil. o qual veio a ser chamado logo após de Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). estabeleceu o marco normativo moderno do DIH. O Protocolo II foi ratificado por 156 países. entre franceses e austríacos. a preocupação com as guerras de libertação nacional e a necessidade de regulamentação dos conflitos armados não-internacionais conduziram ao chamamento de uma conferência internacional em 1977. norte da Itália. FGV DIREITO rio 66 • . que. o mundo era formado por poucos Estados e não existiam instâncias multilaterais que pudessem monitorar o uso da força. sob comando responsável e exercendo controle sobre certa parte do território. Por iniciativa do CICR. em seus 10 artigos. o livro “Recordações de Solferino”. e Protocolo Adicional II – disciplina a previsão do artigo 3º comum e sua aplicabilidade a conflitos armados internos. Convenção de Genebra III – protege os prisioneiros de guerra. a Suíça convocou uma conferência em Genebra no ano de 1949. • Protocolo Adicional I – em nome do princípio da auto-determinação dos povos. Principais tratados: tal passo não foi suficiente para evitar os resultados trágicos das duas Grandes Guerras Mundiais. o genebrino Henry Dunant presenciou as atrocidades da batalha de Solferino. Era necessário um compromisso mais efetivo por parte dos Estados para o estabelecimento de uma ordem mundial pós-1945. O enquadramento moderno é marcado pela Convenção de Genebra de 1864 para melhoramento da condição de feridos no campo. em companhia de outros genebrinos. doentes e náufragos das Forças Armadas no mar. foi celebrada uma conferência no ano de 1864 que aprovou o Convênio para a proteção dos feridos no campo. Em 1863. Condições: forças armadas dissidentes ou outros grupos armados organizados. para a elaboração de dois protocolos adicionais às Convenções de Genebra. A extensão de sua aplicabilidade e a ratificação por parte de 191 países fazem com que o DIH seja denominado muitas vezes de o “Direito de Genebra”. tendo sido ratificado por 161 países.direitos humanos da proteção da pessoa humana. realizada também em Genebra. Convenção de Genebra II – protege os feridos. Dunant fundou o Comitê Internacional de Ajuda aos Feridos. Em 1859. Todavia. Publicou. o Protocolo Adicional I amplia a definição de conflito armado internacional por incorporar aqueles nos quais se luta contra regimes de dominação colonial ou contra regimes racistas. Esse esforço normativo é resultado da barbárie vivenciada nos campos de guerra existentes na Europa durante o século XIX. da qual resultaram os diplomas que constituem a chave-mestra do DIH: • • • • Convenção de Genebra I – protege os feridos e doentes das Forças Armadas em campanha.

Direito de Nova Iorque. o adversário que se rende ou é capturado. de armas bacteriológicas e sua b) Convenção de 1993 – proibição de armas químicas e sua principais tratados constantes do destruição. Disponível em: minimizar. no corpo humano. e em qualquer situação civil. Importante ressaltar que a aplicabilidade de tais normas não está condicionada à declaração formal de guerra. ou incendiárias. o professor poderá apresentar aos . produção e de armas bacteriológicas e sua destruição. sem discriminação alguma.org/web/por/sitepor0.cicr.org/Web/por/sitepor0. Em tratados específicos são proibidos ou como de projéteis que explodem ou secomo alastram facilmente químicas. produção e 146 FGV DIREITO rio 67 Acesso em: 19 e sobre de junho de 2005. o número de mortos e de feridos entre os civis. civil. Dentre os 2005. Respeitar os civis e seus bens. Disponível em: cicr. b) Convenção 1993 –do proibição deestocagem. população civil ou bens de caráter civil. laser cegantes extensos.cicr. ataques diretos contra pessoas civis. Em tratados específicos são causem proibidos ou proibidas de acordo com esse único argumento. assim como os danos causados a bens de caráter indiscriminados e a obrigação de tomar medidas de precaução a fim de evitar.” em: e de19 de os civis. 72 assim Acesso em: 19 junho 2005. Respeitar os civis e seus bens. alunos uma linguagem dos princípios CV é possível enumerar os representativa princípios regedores do DIH: gerais regedores do DIH: aos alunos uma linguagem representativa dos princípios gerais regedores do DIH: Somente podem ser atacados os objetivos militares. assim como os prisioneiros ou detidos. Disponível em: transferência de minas anti-pessoais a sua destruição.cicr.org/Web/por/sitepor0. assim como os prisioneiros ou detidos. químicas. Somente podem ser atacados os objetivos militares. Disponível Não atacar o pessoal médico ou humano.nsf/iwpList104/846A586AE20F1419C1256DEA00349CD7) Acesso em: 19 de junho de 2005. encontram-se: a) Convenção de 1992 – proibição iwpList104/A586AE20F1419C1 http://www. em qualquer ataques diretos contra pessoas de civis. oAcesso número de mortos feridos entre danos causados a bens de caráter http://www. assim como os prisioneiros ou detidos. por natureza. junhoassim como de os 2005. o Protocolo II e o Artigo 3 comum às Convenções. o duradouros e certas graves ao meio ambiente natural. minimizar. armas químicas e sua transferência de minas anti-pessoais e sobre a sua destruição. De acordo com gráficos apresentados no site do CICV146.org/web/por/sitepor0.org/web/por/sitepor0.. Somente podem ser atacados os objetivos militares. 2005. Disponível em: 145 O Direito de Nova Iorque combatentes armas que. bastando o fato de um conflito armado. ae proibição dos situação ataques Não causar sofrimentos oude danos excessivos. Está proibido o emprego de armas que danos instalações e as permitir que façam seu trabalho. Está proibido o emprego de armas que causem danos combatente de combate. 145 145 indiscriminadas ou que possuam causarão sofrimento requerido para deixar um O Direito de Nova Iorque características “proíbe aos que combatentes empregar maior armas ao que.direitos humanos As convenções e o Protocolo I são aplicáveis a conflitos armados. destruição. sejam Não “proíbe causar aos sofrimentos ou empregar danos excessivos. Tratar com humanidade o adversário que se rende ou é Tratar com humanidade capturado. sem discriminação alguma. náufragos. 256DEA00349CD7). Asúnico armas que violam os "ditames da consciência pública" também podem ser Não atacar o pessoal médico ou sanitário nem suas extensos. http://www.nsf/iwpList104/846A586AE20F1419C1256DEA00349CD7) . a proibição dos ataques indiscriminados e a obrigação tomar medidascivil de precaução a fim de evitar. o professor poderá apresentar Princípios fundamentais: De acordo com gráficos apresentados no site do CI146 De72 acordo com gráficos apresentados no site do CICV146 . As armas que violam os "ditames da consciência pública" também podem ser indiscriminadas ou que possuam características que causarão sofrimento maior ao requerido para deixar um proibidas defora acordo com esse argumento. Disponível em: como de projéteis que explodem ou se alastram facilmente no corpo em: 19 de junho de em: http://www.” sanitárioAcesso nem suas instalações http://www. e c) Convenção de 1997 – Tratado de Otawa: proibição do emprego. laser cegantes ou em: incendiárias. como biológicas. 146 146 http://www. Por sua vez. o que significa o envolvimento de dois ou mais Estados. sem discriminação alguma.cicr. Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos náufragos.nsf/htmlall/section_ihl_conduct_of_hostilities?OpenDocument. também denominado “mini-convenção” são aplicáveis a conflitos armados não-internacionais. Tratar com humanidade o adversário que se rende ou é capturado.cicr.org/web/por/sitepor0.” Acesso 19 de junho de limitados o emprego de certas armas.nsf/htmlall/section_ihl_conduct_of_hostilities?OpenDocument. assim limitados emprego de armas. Disponível em: http://www.” Acesso em: 19 de junho de 2005. as biológicas.nsf/htmlall/section_ihl_weapons?OpenDocument. duradouros e graves ao meio ambiente natural. população ou bens caráter civil.nsf/htmlall/section_ihl_weapons?OpenDocument. e c) Convenção de 1997 – Tratado de Otawa: de proibição emprego. Dentre os e permitir que façam seu trabalho. encontram-se: a) Convenção de 1992 – proibição destruição. estocagem. Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos Recolher e dar assistência aos feridos aos doentes e aos náufragos.org/web/por/sitepor0.nsf/ principais tratados constantes do Direito de Nova Iorque. por natureza.cicr. sejam combatente fora de combate.

meio de tais gráficos à relevância concedida cores federais. serviço e principalmente a capitais.Não causar sofrimentos ou danos excessivos.nsf/htmlall/section_ihl_protected_persons_and_property?OpenDocu Igualmente. náufragos. unidades e meios forma a compatibiliza-la. o Estado obriga-se não ataques ou outros atos hostis (destruição. Bens protegidos: aqueles que devem ser protegidos contra Aplicabilidade do DIH: ao assinar um tratado de DIH.cicr. De acordo com o artigo 38 da Convenção I de Genebra. causado muitas vezes pelas próprias decorrências do capitalismo que não encontra nas fronteiras a mesma flexibilidade. civis. Direitos Humanos e Direito dos Refugiados A globalização econômica desnuda um paradoxo: por um lado. vez da cruz vermelha. para os países que empregam já como sinal distinde em sua condição. as fronteiras estatais diminuem no que concerne a mercadorias. seja em tempo de paz ou de guerra. direitos humanos Não atacar o pessoal médico ou sanitário nem suas instalações e permitir que façam seu trabalho. Nesse sentido. captura. Por fim. o sinal cruz vermelha em por fundo branco. o Protocolo I de 1977 convencionou a criação da Comissão Internacional de Apuramento dos Fatos.org/Web/por/sitepor0. mas também a adequar a sua legislação interna de Exemplos de bens protegidos: bens de caráter civil e bens culturais. o crescente vermelho ou o leão o sol vermelhos considerados os feridos. FGV DIREITO rio 68 . Não colocar obstáculos ao pessoal da Cruz Vermelha no desempenho de suas funções. merecem tratamento especial por eparte do DIH. seja comum ou militar. Disponível em: http://www. estes emblemas igualmente reconhecidos nos termos da presente Convenção.. sanitário e religioso. instituição imparcial capaz de acompanhar a veracidade das alegadas violações ao DIH.). represálias. a designação de um Estado alheio ao conflito.. des Acesso em: 19 de junho de 2005. notadamente penal e processual. Assume ainda a obrigação de adotar medidas preventivas. de infrações às normas de DIH: tendo em vista a necessidade de se estabelecer uma autoridade neutra capaz de arbitrar um conflito armado. nunca estiveram tão altas no que concerne a pessoas. confisco etc . em virtude exércitos. Vivencia-se hoje um enorme fluxo migracional. prisioneiros de guerra. deve assegurar medidas de controle. Estabelece ainda que. o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) acaba por agir como substituto da potência. em Assim são tivo. o Estado deve envidar todos os esforços para cessar condutas que afrontam o DIH e deve punir os autores de condutas adversas a esse direito. por meio da nomenclatura ‘Potência Protetora’. o direito consuetudinário 162 reconheceu. Por sua vez. é mantido como emblema e sinal distintivo do serviço de saúde dos pelo DIH a duas categorias específicas: Pessoas protegidas: pessoas que. Considerada a dificuldade de eleição de tal Estado. por outro. fundamentais à determinação ment. em especial a autorida147 civis e militares. apenas às normas nele constantes. formado pela inversão das Cabe ao heráldico professorda chamar à atenção. comum e militar e processual penal comum e militar. os são enfermos. Não colocar obstáculos ao pessoal da Cruz Vermelha no desempenho de suas funções. notadamente no que se refere às normas de caráter penal 147 de transporte sanitários. uma vez que a violação das regras de DIH corresponde à violação de regras de caráter interno. como a de difusão do conteúdo dos tratados. Tal instituição foi consagrada pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas de 1961. pessoal fundo branco. é também tarefa do Estado estabelecer medidas de repressão. em homenagem à Suíça.

tendo como base a idéia de perseguição. O termo “refugiado” aplicar-se-á também a toda pessoa que. por causa de uma agressão exterior. não quer voltar a ele. Nádia de. concebida no descrito contexto. uma ocupação ou uma dominação estrangeira ou de acontecimentos que pertubem gravemente a ordem pública em uma parte ou na totalidade de seu país de origem. “criado em um contexto de Guerra Fria.). estabelece que: MELO.”74 Há de se destacar que a concepção clássica de refúgio. grupo social ou opiniões políticas. p. erigindo a necessidade de revisão do conceito do refúgio. está obrigada a abandonar sua residência habitual para buscar refúgio em outro lugar for do seu país de origem ou do país de sua nacionalidade. 2001. mas foi o final da SegundaGuerra Mundial o marco inaugural para o abrigo internacional a sua proteção. A proteção ao refugiado encontra abrigo no marco fundamental dos direitos humanos: assinada em 1948. em virtude desse temor. em seu artigo 1. e ALMEIDA. religião. se não tem nacionalidade e se encontra fora do país no qual tinha sua residência habitual em conseqüência de tais acontecimentos não pode ou. Estabelece. de janeiro de 195173 e temendo ser perseguida por motivo de raça. In: ARAÚJO. por ocasião da Declaração de Cartagena de 1984. não quer valer-se da proteção desse país ou que. o que se coaduna perfeitamente à dualidade de sistemas vivenciada no pós-guerra: os refugiados podiam ser vistos como troféus de um sobre o outro. ou do país de sua nacionalidade. Rio de Janeiro: Renovar.. A primeira iniciativa de ampliação encontra-se na Convenção da Organização da Unidade Africana. nacionalidade. 134 países comprometeram-se com a causa no momento da assinatura da Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 e do Protocolo de 1967. 74 FGV DIREITO rio 69 . “Revisitando o conceito de refúgio: perspectivas para um patriotismo constitucional”. 73 O Protocolo de 1967 veio justamente a retirar a restrição temporal impressa pela Convenção. A ampliação do conceito também teve palco no continente americana. aprovada em 1969. Originalmente. inciso 2: 2.. O Direito Internacional dos Refugiados vem galgando importantes passos ao longo de sua história. O Direito Internacional dos Refugiados: uma perspectiva brasileira.) em conseqüência de acontecimentos acorridos antes de 1o. Em sua terceira conclusão. devido ao referido temor. a realidade internacional demonstrou a incapacidade desse conceito jurídico em dar uma resposta a situações fáticas.direitos humanos É claro que o ‘deslocar-se’ faz parte da história. a Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelece que toda pessoa vítima de perseguição tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países. 267. em determinadas situações. Nesse sentido. caracteriza-se como subjetiva e individual. no contorno específico da figura do refugiado. se encontra fora do país de sua nacionalidade e que não pode ou. entrando em vigor em 1974. este conceito tem como centro a questão da perseguição. Guilherme de (orgs. Todavia. A Convenção estabeleceu a definição clássica de refugiado como qualquer pessoa que: (. Carolina de Campos. adaptando-no à realidade regional.

proteção e solução.”75 Os conceitos descritos conduzem ainda à premissa que permeia a presente aula. considere também como refugiados as pessoas que fugiram de seus países porque sua vida.cit. Não se pode mais alimentar a compartimentalização da proteção da pessoa humana. p. op. e dentro das características da situação existente na região. destaca-se a integração local. a agressão estrangeira. “A visão tradicional concentrava atenção quase que exclusivamente na etapa intermediária de proteção (refúgio). cabem alguns esclarecimentos: ultrapassada a concessão de refúgio por órgão independente e especializado. Nesse sentido. parágrafo 2) e a doutrina utilizada nos informes da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Por fim. a violação massiva dos direitos humanos ou outras circunstâncias que tenham perturbado gravemente a ordem pública. p. 320. Cumpre ressaltar que os países americanos reiteram a perspectiva ampliada do conceito de refúgio no ano de 1994. Por sua vez. segurança ou liberdade foram ameaçadas pela violência generalizada.) faz-se necessário encarar a extensão do conceito de refugiado. o precedente da Convenção da OUA (artigo 1. Esta declaração aprofundou as relações entre o DIR e o DIDH ao tratar de forma mais aprofundada questões deslocamentos forçados. a ampliar seu enfoque de modo a abranger também a etapa ‘prévia’ de prevenção e a etapa ‘posterior’ de solução duradoura (repatriação voluntária. a um critério objetivo concentrado antes nas necessidades de proteção. nos últimos anos.”76 No que se refere à etapa preventiva. FGV DIREITO rio 70 . Percebe-se uma clara objetivação do conceito de refúgio. reassentamento).. De acordo com Cançado Trindade. Afinal. no pertinente. foram as necessidades de proteção que levaram o ACNUR. cabendo ao Estado CANÇADO TRINDADE. violações maciças de direitos humanos e conflitos armados podem ser indicados por fatores determinantes para a saída de determinados grupos de um país. a etapa da proteção tem no princípio do non refoulement sua principal viga. o DIDH deve contracenar com o DIR em três momentos: prevenção. segundo as razões que os teriam levado a abandonar seus lares. resta claro que o DIR e o DIDH passam a ter não apenas progressiva interação. deve ser estipulada uma solução considerada duradoura para os refugiados. interação local. tendo-se em conta. A. A. a definição ou conceito de refugiado recomendável para sua utilização na região é aquela que além de conter os elementos da Convenção de 1951 e do Protocolo de 1967.. Tanto a concepção africana quanto a americana demonstram como a realidade conduziu a necessidade de adequação da Convenção de 1951. no que concerne à solução duradoura. Dentre elas. “vem-se passando gradualmente de um critério subjetivo de qualificação de indivíduos. por ocasião da Declaração de San José.direitos humanos (. uma década depois de Cartagena. 75 76 Idem. constituindo campo de implantação concomitante do DIDH e do DIH. os conflitos internos. o qual deixa de ter a idéia de perseguição como fundamental. É precisamente nesse sentido que se constrói a estratégia do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). desse modo. 322. mas a violação de direitos humanos assume a condição de situação que acarreta refúgio.

2 milhões o total atual. o Estado brasileiro aceitou as vítimas da guerra civil angolana com base na Declaração de Cartagena. cabem aqui algumas ponderações sobre os refugiados no Brasil. Tal cláusula fez com que. Por mais que as condições que expulsam os refugiados e os deslocados de seus lares possuam o mesmo cerne – afirmativa que encontra respaldo no conceito objetivo de refugiados – somente aquele que cruza a fronteira pode perquirir o status de refúgio. nem todas as pessoas que têm que deixar seus lares cruzam as fronteiras. alguns grupos fossem recebidos com outro título. a qual estipula o Brasil aceitaria somente refugiados originados do continente europeu. há também o reassentamento quando o refugiado vai para um terceiro país. o ACNUR assevera que “o número global de refugiados baixou em 4%. o ACNUR tem desenvolvido diversas atividades que contemplam os deslocados. como foi o caso de 150 vietnamitas em 1979/80 e 50 famílias Bahai (Irã) em 1986. Como ressalta Guilherme de Almeida. de forma a garantir o princípio do non refoulement. 79 FGV DIREITO rio 71 . o dado global de pessoas das quais se ocupa o ACNUR. estabelece uma “reserva” geográfica. estimandose em 9. br/site/noticias/17275. asp?lang=PT&cod=17275. apesar do decréscimo. c o m . Em se mais recente Relatório. como educação e trabalho. o Brasil recebe hoje milhares de refugiados. ao incorporar a Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951. a d i t a l.”77 Por fim. Disponível em: h t t p : / / w w w. o mais baixo em quase 25 anos. Se o número de refugiados vem diminuído ao longo dos últimos anos. o mesmo não se pode dizer dos deslocados. pp. G. apátridas e um total de 6. é possível vislumbrar o atual retrato dos refugiados no Brasil: Tabela 1 – Total de Refugiados no Brasil em fevereiro de 200579 (acnur e conare) Continente de procedência África América (América Latina e Caribe) Ásia Europa Total Total  2.78 De acordo com a tabela abaixo. o Brasil recebe cerca de 1200 angolanos. Fonte: CONARE Acesso em: 27 de junho de 2005. Disponível em: h t t p : / / w w w. Todavia. no ano de 2004. sendo absolutamente necessária a anuência do refugiado. Entre os anos de 1992 e 1994. Mas. O diagnóstico das nacionalidades vêm sofrendo alterações ao longo dos anos.direitos humanos todas as providências necessárias para o exercício dos direitos humanos por parte dos refugiados. incluindo os solicitantes de asilo. Cabe também a repatriação. asp?lang=PT&cod=17275. a d i t a l. solicitantes de asilo e retornados. cit. de 28 de janeiro de 1961.4 milhões de deslocados internos aumentou para 19. Como ilustrado o terceiro texto inicial da Nota ao Aluno.215. Interessante ressaltar que.506 274 181 113 3074 Acesso em: 27 de junho de 2005. retornados. Originalmente criado com tarefa restritiva aos refugiados. apátridas. op. até que fosse levantada em 1989. 155 a 159. o Decreto nº 50. br/site/noticias/17275. 77 78 ALMEIDA. c o m . Por fim.2 milhões. mesmo em momento anterior à elaboração da Lei nº 9747/97 que abrigou tanto a concepção clássica quanto a ampliada de refugiado. em retrospectiva histórica.

284-352 (Cap. 1997. torna-se significativo o número de refugiados latinoamericanos. I. FGV DIREITO rio 72 . Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Vol. Antonio Augusto.direitos humanos Tais números refletem os pedidos de refúgio acolhidos antes e depois de 1998. Guilherme Assis de. I. Rio de Janeiro: Renovar. Tratado de direito internacional de direitos humanos. itens I e II). DIH e DIR? Qual a principal distinção? Porque a guerra deve ser objeto de restrições? Quais os princípios regedores do DIH? O que significa o princípio do non refoulement? Qual é a diferença normativa entre refugiados e deslocados? Quais requisitos devem ser preenchidos para a aquisição do status de refugiado no Brasil? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. Tratado de direito internacional de direitos humanos. Órgão coletivo sediado no Ministério da Justiça. 2001. Nádia de. Antonio Augusto. Diante de todo o exposto. A contabilidade de refugiados e deslocados está recortada a um determinado período histórico. e ALMEIDA. organizações internacionais como o ACNUR tiveram que expandir o universo de grupos sob sua responsabilidade. as seguintes perguntas poderão auxiliar o professor na condução da aula: • • • • • • • Quais são as principais interações entre o DIDH. Todavia. há de se ressaltar que nos últimos anos. 270-284 (Cap. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. pp. Leitura acessória ARAÚJO. notadamente provenientes da Colômbia. itens III e XII). O direito internacional dos refugiados: uma perspectiva brasileira. É certo que a ampliação da definição constitui uma forma de se contemplar grupos que tiveram que deixar seus lares por diferentes razões. o CONARE é responsável pelo exame das solicitações de refúgio e pela elaboração de políticas públicas para os refugiados. 1997. voltamos ao objeto desse curso: a efetiva proteção dos direitos humanos. VIII. momento de constituição do Comitê Nacional para Refugiados (CONARE). Todavia. Vol. VIII. como é o caso dos deslocados. Da mesma forma. a elasticidade conceitual deve ser respeitada pela aplicação de medidas preventivas que evitem que refugiados e deslocados tenham que dar início à partida. pp. CANÇADO TRINDADE. Fica clara a preponderância de refugiados de origem africana. Dentre elas.

2003. Flávia. Frits e ZEGVELD. 115 – 146. Liesbeth. São Paulo: Max Limonad. Flávia.direitos humanos KALSHOVEN. Buenos Aires: Centro de Apoyo en Comunicación para América – Comitê Internacional de la Cruz Roja. “O direito de asilo e a proteção internacional dos refugiados”. 2003. pp. FGV DIREITO rio 73 . Restricciones en la coducción de la Guerra. Temas de Direitos Humanos. Legislação: Constituição Federal de 1988 Convenções de Genebra de 1949 Protocolos Adicionais de 1977 Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 Atividade Complementar: Filme “O Resgate do Soldado Ryan” de Steven Spielberg. PIOVESAN. 21 – 41. pp. In: PIOVESAN. Introducción al derecho internacional humanitario.

Santiago e seu co-piloto. mais conhecida como Lei do Abate. mas os pilotos. após ordem do Comandante da Aeronáutica. embora não tivessem percebido. Em procedimento objeto de registro sonoro. Antônio Gonzales foram as primeiras vítimas da Lei do Tiro de Destruição. que possui membros em toda região amazônica. Estiveram presentes autoridades. não conseguiram entender o que lhe era solicitado.direitos humanos Aula 12: Os direitos civis e políticos: direito à vida NOTA AO ALUNO Santiago Gúzman. Santiago Gúzman realiza o transporte de sementes medicinais entre diversas localidades em seu avião de pequeno porte. entre outras coisas. os disparos foram além de sua finalidade: o avião foi abatido e os tripulantes faleceram. quando partia da Colômbia para a Ilha de Marajó. a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados convocou uma Audiência Pública. como medida de intervenção. No entanto. sua matrícula. colombiano. Logo em seguida. destaque-se: Ministério da Defesa Sustenta que o Estado brasileiro tem o dever de defender sua soberania nacional – um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito – sempre em conformidade com as normas legais. inclusive no Peru. representantes de organizações e familiares das vítimas. FGV DIREITO rio 74 . é membro da Associação Amigos das Sementes. foi disparado tiro com o intuito de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo. não conseguiu identificar a aeronave. o que causou verdadeira situação de pânico para os pilotos. conduziram-na à condição de suspeita. A impossibilidade de identificação da aeronave e a procedência da Colômbia. Em 20 de outubro de 2004. uma das aeronaves da FAB disparou tiros de advertência laterais à aeronave. ao entrar no sistema informatizado do Departamento de Aviação Civil (DAC). país reconhecido como importante fonte de substâncias entorpecente. Estado do Pará. por um problema técnico. Colômbia e Venezuela. o piloto da FAB tentou contato via rádio. Pelo fato de Gúzman e Gonzales terem prosseguido em sua rota. nível de vôo. emitindo sinais visuais para o pouso imediato da aeronave. a hipótese do abate do avião colombiano. Como medida de averiguação. foram fotografados por uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) a fim de verificar. Há mais de 10 anos. Tais dados foram enviados a Autoridade de Defesa Aeroespacial que. na qual foi debatido exaustivamete o assunto. Diante do acontecido. Tiveram início as medidas de intervenção: duas aeronaves da FAB aproximaram-se ostensivamente. Gúzman e Gonzáles mantiveram sua rota original. Dentre os principais argumentos. tipo de aeronave. Dessa forma. o avião foi considerado hostil. Ao entrarem no espaço aéreo brasileiro. fazendo com que a comunicação fracassasse.

a fuga. e em última conseqüência. tendo em vista que. vedada expressamente pela Constituição Federal brasileira (salvo em caso de guerra declarada). conseqüentemente. Defensores da Lei e Ordem Argumentam que a lei é importante e necessária pois o consumo de drogas no Brasil e no mundo é uma tragédia cotidiana que mata anualmente. suspeitos de tráfico de drogas. foi aplicada aos 2 tripulantes. constitui um dos direitos fundamentais do ordenamento jurídico brasileiro. O Poder Judiciário é o órgão competente para julgar e condenar alguém. pelo uso ou tráfico. se o piloto resolve ignorar sete medidas que visam sua identificação. e não-utilização de fonia para não pagar as tarifas de proteção ao vôo podem ser apontadas como falhas que não devem ter como conseqüência a violação do direito à propriedade das aeronaves. uma vez que os tripulantes foram condenados sem julgamento e direito à ampla defesa. o abate ao avião colombiano significa que a pena de morte.direitos humanos além de estar legalmente prevista. uma vez que os mesmos estavam ameaçando a soberania e. milhares de pessoas. O Estado deve investir em meios alternativos de controle. nesse caso. O grupo reconhece que a lei é dura e drástica. Associação Nacional de Empresas Aeroviárias O mau funcionamento do sistema de comunicações. atende não apenas a um interesse público superior e socialmente legítimo como ao princípio constitucional da segurança pública. equipara-se à resistência à prisão. a falta de habilitação do piloto. desatualização do exame médico. Assim. deveriam ter tido os direitos à ampla defesa e de ser julgados pelo Poder FGV DIREITO rio 75 . Questão De que forma a Lei do Tiro de Destruição protege a soberania nacional? O abate do avião colombiano viola o direito à vida? Os tripulantes. Defensores dos Direitos Humanos Sustenta que o direito à vida deve ser garantido e promovido em todas as hipóteses. Ademais. não podendo haver decisão extrajudicial. além de ser consagrado internacionalmente. o direito à vida. mas sustenta ser um mal necessário para se combater um mal maior. Sendo assim. a vida de seus cidadãos. direito consagrado constitucionalmente. Organização pela independência do poder judiciário Sustenta que o abate ao avião colombiano constitui ofensa ao devido processo legal. não se opõe ao direito à vida dos tripulantes.

] XXVIII – defesa territorial. [.. [.. à liberdade. [. [.. [. [. Legislação Constituição Federal de 1988 Art. aérea e aeroespacial.] Art. A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: [.direitos humanos Judiciário? Utilize a legislação brasileira (abaixo). [. constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: [..] VI – defesa da paz.. à segurança e à propriedade. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal.. 4º... à igualdade.. Compete à União: [. sem distinção de qualquer natureza.] X – regime dos portos. e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa..] Art. Todos são iguais perante a lei. 84. navegação lacustre. defesa civil e mobilização nacional (grifou-se). defesa aeroespacial. dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal. 60... FGV DIREITO rio 76 .] Art. III – assegurar a defesa nacional.] XXXVII – não haverá juízo ou tribunal de exceção.. LIV – ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal...] XLVII – não haverá penas: a) de morte.. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. 21. fluvial.. com os meios e recursos a ela inerentes. XIX.. A Constituição poderá ser emendada mediante proposta: I – de um terço...] III – a dignidade da pessoa humana. salvo em caso de guerra declarada. [.] Art. em processo judicial ou administrativo. bem como as posições acima mencionadas para responder tais questões.] II – declarar a guerra e celebrar a paz.. no mínimo.] LIII – ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente. aeroportuária e de fronteiras. Compete privativamente à União legislar sobre: [.] Art. 5º. [.... [... 1º.. 22. marítima. LV – aos litigantes.. nos termos seguintes: [.. defesa marítima.] II – prevalência dos direitos humanos. A República Federativa do Brasil.] XXII – executar os serviços de polícia marítima. nos termos do art..

fornece ainda que gratuitamente. produzir. fabricar. expor à venda ou oferecer. remeter. adquirir. de qualquer forma. prescrever. adquirir..368. produzir. sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar. 352. traz consigo ou guarda matéria-prima destinada a preparação de substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. transporta.848.. remeter. Lei nº 6. FGV DIREITO rio 77 . vende. vender. expor à venda ou oferecer.direitos humanos II – do Presidente da República. e pagamento de 50 (cinqüenta) a 360 (trezentos e sessenta) dias-multa. II – semeia. de três meses a um ano.. guardar. guardar... além da pena correspondente à violência. trazer consigo. [. fabricar.] § 4º – Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: [. remete.] Evasão mediante violência contra a pessoa Art. Art 12. Evadir-se ou tentar evadir-se o preso ou o indivíduo submetido a medida de segurança detentiva. pela maioria relativa de seus membros.... trazer consigo. vender. manifestando-se.] Art 12. Pena – Reclusão. fornecer ainda que gratuitamente. prescrever. transportar. tem em depósito. fabrica. preparar. sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar. e dá outras providências. [. ter em depósito. indevidamente: I – importa ou exporta. Importar ou exportar. § 1º. ministrar ou entregar. de 3 (três) a 15 (quinze) anos. atual ou iminente. de 7 de dezembro de 1940. usando de violência contra a pessoa: Pena – detenção. a direito seu ou de outrem [. Entende-se em legítima defesa quem. preparar. cultiva ou faz a colheita de plantas destinadas à preparação de entorpecente ou de substância que determine dependência física ou psíquica. adquire.] Legítima defesa Art. III – de mais da metade das Assembléias Legislativas das unidades da Federação. fornecer ainda que gratuitamente. ter em depósito. a consumo substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. usando moderadamente dos meios necessários. de qualquer forma. repele injusta agressão.. produz. transportar. a consumo substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. Código Penal Decreto-lei no 2.. cada uma delas. de 21 de outubro de 1976 Dispõe sobre medidas de prevenção e repressão ao tráfico ilícito e uso indevido de substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou psíquica. 25. Importar ou exportar. expõe à venda ou oferece.] IV – os direitos e garantias individuais. [. ministrar ou entregar. Nas mesmas penas incorre quem.

34. § 1°. transporta. A aeronave poderá ser detida por autoridades aeronáuticas... utensílios. § 2°. Lei nº 7. de 21 de outubro de 1976. As penas dos crimes definidos nesta Lei serão aumentadas de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços): I – no caso de tráfico com o exterior ou de extra-territorialidade da lei penal. [. Lei nº 9. Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos. que dispõe sobre medidas de prevenção e repressão ao tráfico ilícito e uso indevido de substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou psíquica. fazendárias ou da Polícia Federal. utilizados para a prática dos crimes definidos nesta Lei. que serão recolhidas na forma da legislação específica (grifou-se).368.. de 5. FGV DIREITO rio 78 . desrespeitar a obrigatoriedade de pouso em aeroporto internacional.3. instrumentos e objetos de qualquer natureza. IV – para verificação de sua carga no caso de restrição legal (artigo 21) ou de porte proibido de equipamento (parágrafo único do artigo 21).direitos humanos Pena – Reclusão.1998) – grifou-se. de 30 de junho de 1999 Altera a redação do art 34 da Lei nº 6. II – se. de 3 (três) a 15 (quinze) anos. Os veículos. cultiva ou faz a colheita de plantas destinadas à preparação de entorpecente ou de substãncia que determine dependência física ou psíquica. remete. II – semeia. nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada.614. de 19 de dezembro de 1986 (Código Brasileiro de Aeronáutica) Art.] Art 18. ficarão sob custódia da autoridade de polícia judiciária. Nas mesmas penas incorre quem. traz consigo ou guarda matéria-prima destinada a preparação de substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. adquire. tem em depósito.804. A autoridade aeronáutica poderá empregar os meios que julgar necessários para compelir a aeronave a efetuar o pouso no aeródromo que lhe for indicado. produz.] Art. (Parágrafo acrescentado pela Lei nº 9. III – para exame dos certificados e outros documentos indispensáveis. entrando no espaço aéreo brasileiro. [. V – para averiguação de ilícito. 303. aeronaves e quaisquer outros meios de transporte. § 1º. indevidamente: I – importa ou exporta. ficando sujeita à medida de destruição.565. nos seguintes casos: I – se voar no espaço aéreo brasileiro com infração das convenções ou atos internacionais. após a sua regular apreensão. expõe à venda ou oferece. ou das autorizações para tal fim. vende. fabrica. fornece ainda que gratuitamente. excetuadas as armas. e pagamento de 50 (cinqüenta) a 360 (trezentos e sessenta) dias-multa. a aeronave será classificada como hostil. embarcações. assim como os maquinismos..

da Constituição. 1o. § 3º.........565... 2º.... 2º e 3º do art. inciso IV..... passa a vigorar acrescido de um parágrafo...... 177º da Independência e 110º da República.. numerado como § 2º.... de 19 de dezembro de 1986.. no que concerne às aeronaves hostis ou suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins.565..... de 19 de dezembro de 1986.... § 2º.... O art..... na forma seguinte: “Art........... de 16 de julho de 2004 Regulamenta os §§ 1º.... a aeronave será classificada como hostil... que dispõe sobre o Código Brasileiro de Aeronáutica.... 1º. Brasília........ Este Decreto estabelece os procedimentos a serem seguidos com relação a aeronaves hostis ou suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins. oriunda de regiões reconhecidamente fontes de produção ou distribuição de drogas ilícitas. é considerada aeronave suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins aquela que se enquadre em uma das seguintes situações: I – adentrar o território nacional...614...... de 5.. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA.. para incluir hipótese destruição de aeronave O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o CONGRESSO NACIONAL decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art..565..565. ou FGV DIREITO rio 79 ...144. de 19 de dezembro de 1986.................. FERNANDO HENRIQUE CARDOSO Decreto nº 5. A autoridade mencionada no § 1º responderá por seus atos quando agir com excesso de poder ou com espírito emulatório....1998). 84. 2o... 303 da Lei no 7. Art....direitos humanos § 3°.. renumerando-se o atual § 2º como § 3º.3.. DECRETA: Art.. no uso da atribuição que lhe confere o art.......... de 5 de março de 1998 Altera a Lei nº 7. 303.. levando em conta que estas podem apresentar ameaça à segurança pública...... Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação... ficando sujeito à medida de destruição. ... de 19 de dezembro de 1986.... 303 da Lei nº 7.....614. Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos...... Lei nº 9....... 2o e 3o do art... 303 da Lei no 7.. (§ 2°renumerado e alterado pela Lei nº 9.......... nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada (grifou-se). Para fins deste Decreto... A autoridade mencionada no § 1° responderá por seus atos quando agir com excesso de poder ou com espírito emulatório..... e tendo em vista o disposto nos §§ 1o.. 5 de março de 1998........................ sem Plano de Vôo aprovado......” Art.

A medida de destruição consiste no disparo de tiros.direitos humanos II – omitir aos órgãos de controle de tráfego aéreo informações necessárias à sua identificação. § 1o. antes de sua vigência. intervenção e persuasão. ou não cumprir determinações destes mesmos órgãos. Art. de conhecimento obrigatório dos aeronavegantes. segundo os padrões estabelecidos pelo COMDABRA. destinada aos aeroFGV DIREITO rio 80 . pela aeronave interceptadora. A medida de destruição terá que obedecer às seguintes condições: I – emprego dos meios sob controle operacional do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro – COMDABRA. 2o estarão sujeitas às medidas coercitivas de averiguação. ou. As medidas de persuasão seguem-se às medidas de intervenção e consistem no disparo de tiros de aviso. As medidas de intervenção seguem-se às medidas de averiguação e consistem na determinação à aeronave interceptada para que modifique sua rota com o objetivo de forçar o seu pouso em aeródromo que lhe for determinado. por meio da Publicação de Informação Aeronáutica (AIP Brasil). consistindo na aproximação ostensiva da aeronave de interceptação à aeronave interceptada. 3o será classificada como aeronave hostil e estará sujeita à medida de destruição. 7o. 6 o. Art. de acordo com as regras de tráfego aéreo. Art. Art. 5o. ainda. de maneira que possam ser observados pela tripulação da aeronave interceptada. executadas por aeronaves de interceptação. a vigiar o seu comportamento. As aeronaves enquadradas no art. § 2o. IV – execução sobre áreas não densamente povoadas e relacionadas com rotas presumivelmente utilizadas para o tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins. com munição traçante. 3o. e V – autorização do Presidente da República ou da autoridade por ele delegada. com a finalidade de interrogá-la. II – registro em gravação das comunicações ou imagens da aplicação dos procedimentos. Art. com o objetivo de compelir a aeronave suspeita a efetuar o pouso em aeródromo que lhe for indicado e ser submetida a medidas de controle no solo pelas autoridades policiais federais ou estaduais. para ser submetida a medidas de controle no solo. se estiver cumprindo rota presumivelmente utilizada para distribuição de drogas ilícitas. § 3o. 4o. As medidas de averiguação visam a determinar ou a confirmar a identidade de uma aeronave. com a finalidade de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo da aeronave hostil e somente poderá ser utilizada como último recurso e após o cumprimento de todos os procedimentos que previnam a perda de vidas inocentes. A aeronave suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins que não atenda aos procedimentos coercitivos descritos no art. com o objetivo de persuadi-la a obedecer às ordens transmitidas. III – execução por pilotos e controladores de Defesa Aérea qualificados. feitos pela aeronave de interceptação. por intermédio de comunicação via rádio ou sinais visuais. O teor deste Decreto deverá ser divulgado. de forma progressiva e sempre que a medida anterior não obtiver êxito. no ar ou em terra.

2004. pelos pilotos da FAB. O Ministro negou. estabelecendo os procedimentos que deverão ser seguidos. em 05. introduziu.pro. em relação às “aeronaves suspeitas de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins”. a lei não se aplica aos aviões militares.direitos humanos navegantes e de conhecimento obrigatório para o exercício da atividade aérea no espaço aéreo brasileiro. e os pilotos encarregados de sua execução já estiveram em Belém. com vistas ao seu aprimoramento. assim. Os procedimentos previstos neste Decreto deverão ser objeto de avaliação periódica. Disponível em: http:// www. José Viegas. Notícias prévias Inconstitucionalidade da Lei do Abate80 A Lei nº 9614. uma decisão.tex. Art. a pena de morte. mas os aviões clandestinos civis. permitindo a condenação e a execução sumária de todos os passageiros dos pequenos aviões civis. de 05. por intermédio do Comando da Aeronáutica. que se trate de uma condenação à morte. da apreciação do Poder Judiciário.07. htm. sem o devido processo legal. cada qual nos limites de suas atribuições. quando agirem com excesso ou abuso de poder. conforme pretenderam o Congresso Nacional. “porque se trata de resistência à prisão e as aeronaves somente serão destruídas se os seus pilotos não obedecerem às ordens Artigo escrito por Fernando Lima. Essa Lei é flagrantemente inconstitucional. Acesso em: 08 nov. pela simples suspeita do tráfico de drogas.2004. como a de derrubar uma aeronave em vôo. nacionais ou estrangeiros. a pena de morte no Brasil. mas agora o Presidente Lula assinou o Decreto nº 5144. suspeitos do tráfico de drogas. Art. de 16. que a regulamentou. As autoridades responsáveis pelos procedimentos relativos à execução da medida de destruição responderão. Art. porque a nossa Constituição garante o direito à vida e proíbe a pena de morte. Mas será possível excluir. 16 de julho de 2004.03.07. ao permitir o tiro de abate.br/wwwroot/ 02de2004/inconstitucionalidadedaleidoabatefernandolima. Fica delegada ao Comandante da Aeronáutica a competência para autorizar a aplicação da medida de destruição. aplicando. 2004. de tão graves conseqüências. 10. deverá adequar toda documentação interna ao disposto neste Decreto. causando a morte do piloto e dos passageiros. Art. Este Decreto entra em vigor noventa dias após a data de sua publicação. na prática. sem o devido processo legal e em tempo de paz? De acordo com o Ministro da Defesa. e o Presidente da República. 9o. no espaço aéreo brasileiro.1998. 12. 5º. antes de sua destruição. sem julgamento. salvo em caso de guerra declarada (art. 183o da Independência e 116o da República. XLVII). na semana passada. Brasília. poderão ser derrubados. ou seja. O Ministério da Defesa. Esse Decreto entrará em vigor no próximo dia 18 de outubro. a destruição de aeronaves suspeitas de estarem transportando drogas. efetuando os necessários treinamentos. pelos seus atos. peremptoriamente. Como ainda não havia sido regulamentada. Pior: essa Lei instituiu a execução extrajudicial. ao aprovar essa Lei. 8o. efetuados pela FAB. após o descumprimento de nove procedimentos. Art. professor de Direito Constitucional da UNAMA. 80 FGV DIREITO rio 81 . 11. essa Lei passou desapercebida.

também. mas acha que não devem ser admitidas exceções (aeronaves militares). Infelizmente. ainda. exceto mediante violência contra a pessoa (art. portanto. 352 do Código Penal). como a Colômbia. os pilotos e passageiros não poderiam ser condenados à morte.direitos humanos dos pilotos da FAB”. mesmo que a fuga fosse tipificada como crime. o Estado FGV DIREITO rio 82 . no encalço do delinqüente. por pressão dos Estados Unidos. também. que a pretexto de combater os traficantes. por diversas razões. punida com a pena de morte. somente os aviões que estivessem transportando drogas seriam derrubados. caso o criminoso atente contra a vida do policial (art. como. com ou sem lei. porque inúmeras aeronaves. a derrubada de aeronaves. poderá ocorrer que. Além disso. e de obedecer à ordem de pouso. em 21. embora não exista. matando os seus pilotos e passageiros. e muito menos por uma simples suspeita. a Bolívia e o Peru. até hoje.07. Como se sabe. incluindo países produtores e exportadores de cocaína. por exemplo. o Brasil tem fronteiras com onze países da América do Sul. para apreciar a constitucionalidade da Lei do Abate. para o competente exame da documentação. Os argumentos seriam ridículos. a falta de equipamentos adequados. sem direito a defesa e sem julgamento. coloca em perigo a vida de inocentes. embora não estejam transportando drogas. não apenas concorda com a Lei do Abate. além de ser inconstitucional.2004. a autoridade policial seja obrigada a matá-lo. uma lei autorizando -. Ressalte-se. Por essa razão. que não pode ser alterada nem mesmo através de emenda constitucional. nem ao menos constitui crime. divulgadas pelo “site” da OAB. Para combater o crime. Roberto Busato. porque a fuga. muitos civis inocentes já foram mortos. pela simples suspeita de tráfico de drogas. poderão deixar de se identificar para os pilotos da FAB. como a missionária americana Verônica Bowers e a sua filha de sete meses. ou até mesmo do porta-malas. Aliás. leis semelhantes à nossa. Mesmo assim. para o “crime” de “exploração ilegal da biodiversidade”. Charity. certamente. não podendo matá-los. ainda. No entanto. que na Colômbia e no Peru. é assassinato e depõe contra o Brasil. A Lei do Abate. porque seria o mesmo que afirmar que um automóvel cheio de passageiros deveria ser metralhado pelos policiais rodoviários. Evidentemente. talvez. passa a utilizar os mesmos métodos dos criminosos. que também adotaram. porque a opinião pública será levada a acreditar que essa Lei contribuirá para reduzir a entrada de drogas no País e também para impedir que o nosso espaço aéreo seja transformado em rota do narcotráfico internacional. e a floresta amazônica é uma das principais rotas dos traficantes de drogas. Na minha opinião. Sei perfeitamente que o assunto é polêmico. 25 do Código Penal). se o seu motorista não obedecesse à ordem de parar. e parece sugerir que a pena de morte seja aplicada. o Supremo Tribunal Federal não foi provocado. se não se tratasse de um assunto tão sério. proibida pela Constituição e considerada cláusula pétrea. O Estado tem a obrigação de prender os suspeitos. nem por isso poderia ser morto o que às vezes acontece. sobretudo na Amazônia. se o motorista tentasse fugir. de acordo com as suas declarações. não seria. o próprio Presidente nacional da OAB. na hipótese de legítima defesa. em busca de drogas.

medidas de integração de procedimentos com os países vizinhos e legislação de países interessados no tema e que mantêm normas específicas sobre responsabilidade civil de seus cidadãos. Histórico O Código Brasileiro de Aeronáutica. instituiu Lei do Tiro de Destruição. a sociedade brasileira. foi introduzido o parágrafo segundo. 81 Acesso em: 8 nov. tais como procedimentos de interceptação aérea. apelidada pela imprensa de Lei do Abate. mil.06. Disponível em: http://www. desobedecendo ao devido processo legal e afastando o poder de decisão das autoridades devidamente constituídas para jurisdicionar os conflitos e aplicar as sanções previstas nas leis penais. A partir de abril de 2003. trata dos casos em que uma aeronave pode ser submetida à detenção.br/Publicacao/Imprensa/ Noticias/3007_abate.direitos humanos também se subordina ao Direito. e modificado pela Lei nº 9. que veio preencher uma importante lacuna. um grupo de trabalho constituído por integrantes do Ministério da Defesa. do Ministério das Relações Exteriores. Nessas condições. particularmente sobre os movimentos aéreos não regulares. passou a ser imprescindível que o novo dispositivo fosse aplicado dentro de uma moldura de rígidos preceitos de segurança. instituído pela Lei nº 7. no seu artigo 303. de 5 de março de 1998. de 19 de dezembro de 1986. a aeronave será classificada como hostil. aeronave hostil e medida de destruição. fazendárias ou da Polícia Federal.2004)81 1. Força Aérea Brasileira Centro de Comunicação Social da Aeronáutica (30. por intermédio de seus representantes legais.565. à interdição e à apreensão por autoridades aeronáuticas. do Ministério da Justiça. tornando-se necessária a definição das expressões meios coercitivos. FGV DIREITO rio 83 . com a seguinte redação: § 2º Esgotados os meios coercitivos legalmente previstos. Todos estes aspectos demandaram a necessidade de regulamentação do citado dispositivo legal. por intermédio de um decreto presidencial. praticando a Lei de Talião. a justiça privada e a vingança anárquica. com o pleno esclarecimento dos procedimentos e das condições em que a medida de destruição poderia ser executada. suspeitos de envolvimento com o tráfico de drogas ilícitas. 2004. iguala-se aos delinqüentes. quando estes tenham apoiado direta ou indiretamente a destruição de aeronave civil. Ademais. em apoio às medidas de policiamento do espaço aéreo brasileiro. Neste artigo. normas internacionais da aviação civil. do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República e especialistas do Comando da Aeronáutica se reuniu com o objetivo de estudar todos os aspectos pertinentes à regulamentação da Lei do Tiro de Destruição. Desrespeitando a Constituição.htm.614. ficando sujeita à medida de destruição.fab. nos casos dos incisos do caput deste artigo e após autorização do Presidente da República ou autoridade por ele delegada. A lei em questão introduziu conceitos novos.

Decreto Nº 5. Esses entendimentos indicam que a entrada em vigor da regulamentação não trará efeitos adversos ao país. Em razão do que prescreve a Carta da ONU sobre o princípio de autodefesa.direitos humanos 2. eram ignoradas por pilotos em vôo clandestinos. 3. em pequenas aeronaves. no combate ao tráfico terrestre e fluvial. as aeronaves de interceptação da Força Aérea Brasileira. portanto. que ocorreram para integrar os procedimentos de interceptação aérea e. A regulamentação da Lei do Tiro de Destruição. que entra em vigor 90 dias após a sua publicação no Diário Oficial da União (em 19 de julho). o Governo brasileiro considerou necessária apenas a regulamentação da lei para esse aspecto. Cenário Com a modernização do sistema de defesa aérea e controle do tráfego aéreo brasileiro. Tornou-se necessária uma ação mais eficaz do Estado no combate a esses vôos ilícitos. sendo o SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia) uma grande expressão desse trabalho. apesar de ter-se chegado ao tiro de advertência. é uma medida imprescindível para combater a criminalidade associada ao tráfico internacional de drogas. assinada pelo Presidente da República. caracterizando-se situação similar à resistência à prisão. Essas seguem para o interior do Brasil (consumo interno) ou para países vizinhos. responsáveis pelo policiamento do espaço aéreo. como previa a legislação em vigor. 4. com isto. Execução Em primeiro lugar. houve completa desobediência às ordens emitidas pela autoridade. comprovou-se que as principais rotas de entrada de drogas ilícitas em território brasileiro ocorrem por via aérea. decidido a reverter essa situação e aprimorar a defesa do país. Em muitas situações. Medidas O Governo Brasileiro. FGV DIREITO rio 84 . vem desenvolvendo uma série de ações. A questão foi amplamente debatida com outros governos interessados no tema. Porém. a caminho da Europa e Estados Unidos. que transportam a droga para o território brasileiro. por falta da regulamentação da Lei do Tiro de Destruição. minimizar riscos de equívocos. levando em conta a crescente ameaça apresentada pelo narcotráfico para a segurança da sociedade brasileira. O texto é resultado de uma série de intercâmbios com países vizinhos. A regulamentação. como a transferência de efetivos militares para a Amazônia e a modificação da legislação brasileira no sentido de preparar as Forças Armadas para atuar contra os delitos transnacionais fronteiriços. em suas ordens de identificação e de pouso em pista pré-determinada. oriundas das regiões reconhecidamente produtoras dessas substâncias. criou instrumentos de dissuasão adequados ao policiamento do espaço aéreo brasileiro.144. entre outros destinos da rota de exportação. a regulamentação da Lei do Tiro de Destruição aprovada abrange somente o caso de aeronaves suspeitas de envolvimento com o tráfico internacional de drogas.

Caso a aeronave esteja em situação regular. que é mostrada. ela estará sujeita a três tipos de medidas coercitivas. sujeita à medida de destruição. de uma posição discreta. tipo de aeronave. ou. validade do certificado de aeronavegabilidade. 5. passa-se ao segundo nível de medidas coercitivas. e. dados de identificação. proa e características marcantes.5 ou 243 MHz. se considerada hostil. ainda. iniciando pela de VHF 121. fotografam a aeronave interceptada e colhem informações de matrícula. dados de qualificação e de localização. que entrará no sistema informatizado do Departamento de Aviação Civil (DAC) para verificar se a matrícula corresponde ao tipo de aeronave. nome do piloto que normalmente a opera. através de uma placa. validade de exame médico. caracterizada pela execução de dois procedimentos: FGV DIREITO rio 85 . caso esteja trafegando em rota presumivelmente utilizada na distribuição de drogas ilícitas. que é a Intervenção. nível de vôo. a aeronave deverá ser considerada como suspeita e submetida a procedimentos específicos. sem plano de vôo aprovado. que se dá quando as informações são transmitidas para a Autoridade de Defesa Aeroespacial. serão encarregadas da execução dessas medidas. ou b) a que omitir aos órgãos de controle de tráfego aéreo informações necessárias à sua identificação. sem serem percebidos. oriunda de regiões reconhecidamente fontes de produção ou distribuição de drogas ilícitas. Passos Caracterizada a aeronave como suspeita. de acordo com as regras estabelecidas internacionalmente e de conhecimento obrigatório por todo aeronavegante. acionadas pelo Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA). ou não cumprir determinações dessas mesmas autoridades. 2º) MEDIDAS DE INTERVENÇÃO – caso o piloto da aeronave suspeita não responda e não atenda a nenhuma das medidas já enumeradas. c) Interrogação na freqüência internacional de emergência. será realizado apenas o acompanhamento. 1º) MEDIDAS DE AVERIGUAÇÃO primeiro nível das medidas busca determinar ou a confirmar a identidade de uma aeronave. aplicadas de forma progressiva e sempre que a medida anterior não obtiver êxito. à medida de destruição. licença. São duas as situações em que uma aeronave pode ser considerada suspeita de tráfico de substâncias entorpecentes e drogas afins: a) a que entrar em território nacional. d) Realização de sinais visuais. o nome de seu proprietário.5 MHz. As aeronaves de interceptação da Força Aérea Brasileira. endereço. Engloba os seguintes procedimentos: a) Reconhecimento à Distância. ocasião em que os pilotos da aeronave de interceptação. à aeronave interceptada pelo piloto do avião de Defesa Aérea. de 121. após ter estabelecido com ela contato visual próximo. b) Confirmação da Matrícula. etc.direitos humanos Antes de ser classificada como hostil e. detalhados e seguros. a vigiar seu comportamento. portanto.

tanto pelo rádio. 4) Sinais Visuais. 5) Mudança de rota. 3) Contato por Rádio na Frequência de Emergência. com a finalidade de provocar danos e impedir o prosseguimento do vôo da aeronave transgressora. com munição traçante. Somente quando transgredidos os sete procedimentos iniciais é que a aeronave será considerada hostil. que consiste na realização de disparo de tiros. 2) Confirmação de Matrícula. 3º) MEDIDAS DE PERSUASÃO – o terceiro nível das medidas previstas. determinada pela aeronave de interceptação. FGV DIREITO rio 86 . segundo os padrões estabelecidos pelo Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA). lateralmente à aeronave suspeita. No total. assinado pelo Excelentíssimo Senhor Presidente da República e publicado no Diário Oficial do dia 19 de julho. em todas as freqüências disponíveis. d) o procedimento irá ocorrer sobre áreas não densamente povoadas e relacionadas com rotas presumivelmente utilizadas para o tráfico de drogas. 7) Tiros de Advertência. b) os procedimentos descritos serão registrados em gravação sonora e/ou visual das comunicações. c) será executado apenas por pilotos e controladores de defesa aérea qualificados. obrigatoriamente. b) pouso obrigatório. também determinado pela aeronave interceptadora de forma semelhante à tarefa anterior.direitos humanos a) mudança de rota. 6) Pouso Obrigatório. são oito os procedimentos a serem seguidos pelas autoridades de defesa aérea para o policiamento do espaço aéreo. 1) Reconhecimento à Distância. que entrará em execução somente se o piloto da aeronave suspeita não atender a nenhuma das medidas anteriores. e estará sujeita à medida de destruição. previstas pela regulamentação contida no Decreto nº 5. a exigências rígidas. São elas: a) a sua realização só poderá ocorrer estando todos os meios envolvidos sob controle operacional do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA). quanto por intermédio dos sinais visuais previstos nas normas internacionais e de conhecimento obrigatório. feitos pela aeronave de interceptação. o que significa dizer que tanto os radares quanto as aeronaves de interceptação envolvidas no policiamento do espaço aéreo deverão estar sob controle operacional das autoridades de defesa aérea brasileira. 8) Tiro de Destruição Medidas de Averiguação Suspeita Medidas de Intervenção Medidas de Persuasão Hostil Medidas de Destruição MEDIDA DE DESTRUIÇÃO o tiro de destruição deverá atender. Situação da aeronave Nível de medida Normal Situação de Normalidade Procedimentos Verificação das condições de vôo da aeronave. de 16 de julho de 2004.144. consiste na realização de tiros de advertência. de forma visível e sem atingi-la.

em entrevista por e-mail ao Correio. No Congresso.pop. O país é o terceiro país na América do Sul a adotar a Lei do Abate – os primeiros foram o Peru e a Colômbia. No entanto. Existia o temor de que se um cidadão estrangeiro estivesse dentro de um avião destruído pelo governo brasileiro e o país sofresse algum tipo de retaliação militar ou econômica.com. No Brasil. como as ocorridas no Peru em 2000.com. “A sociedade não foi ouvida”. “Oxalá nunca necessitemos utilizar a medida de destruição”. São situações absolutamente díspares”. refuta a comparação feita pelo senador Suplicy: “Não há qualquer correspondência entre a regulamentação da medida de destruição e a instituição da pena de morte.direitos humanos 6. O ministro da Defesa. o Palácio do Planalto considerou necessário conversar com países como os Estados Unidos. O deputado Fernando Gabeira (sem partido-RJ) o acompanha. A lei foi regulamentada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva no dia 19 de julho de 2004. É importante ressaltar que a utilização dessa medida extrema somente ocorrerá após terem sido cumpridos todos os procedimentos previstos em lei e que esse será o último recurso para o Estado evitar o ingresso de aeronaves que transportam drogas para o território brasileiro. htm?codigo=2618013. que reuniu quase 9. pelo site www. assim.10. a lei que derruba aviões levanta muitas polêmicas. Em uma enquete realizada pela internet.br. a necessária agilização do processo de tomada da decisão. A demora de oito anos para conseguir a rubrica presidencial tem explicação: antes de fazer com que a lei entrasse em vigor. José Viegas. com elevado grau de confiabilidade e segurança. delega ao Comandante da Aeronáutica a competência para aplicar a medida de destruição. 2004. esses passageiros estariam sendo executados sem ter tido direito a julgamento. a medida foi anunciada como mais uma ferramenta de combate ao tráfico de drogas e ao contrabando de armas. Viegas classificou a Lei do Abate como uma “forma de dissuasão” para coibir o tráfico de drogas. por exemplo. dispara o senador petista Eduardo Suplicy (SP). mesmo que a aeronave interceptada esteja lotada de criminosos. qualquer aeronave que cruzar o céu brasileiro sem se identificar pode ser destruída. “Para mim isso é a mesma coisa que a pena de morte”. Acesso em: 8 nov. correioweb. protesta o parlamentar ao lembrar que a lei foi aprovada em 1998 com o apoio de tucanos e petistas.2004)82 A partir de hoje. que “a medida de destruição é a última de uma série de procedimentos que visam obrigar a aeronave infratora a pousar e submeter-se às medidas de policiamento no solo”. Competência O Excelentíssimo Senhor Presidente. mas não está sozinho. O parlamentar defende que a lei poderá provocar a morte de muitos inocentes. Para Suplicy. Lei do abate entra em vigor (17. O ministro esclarece. aumentando o flagelo do problema do tráfico no país. Disponível em: http://noticias. 87% dos internautas se posicionaram a favor da medida (é uma forma legítima de defender a soberania) e 13% se disseram contrários ao tiro de destruição (só deveria ser usado em casos de guerra). possibilitando.5 mil votos. 82 FGV DIREITO rio 87 . o senador é um dos poucos que reclamam.br/ultimas. no decreto de regulamentação.

afirma. cnn. fazer um pouso de emergência. 110 emissoras de rádio AM e FM divulgam a campanha em toda a extensão da fronteira seca brasileira e atingindo 72 cidades.02/. the Peruvian Air Force and a Baptist missionary group are giving conflicting accounts of events that led to the shooting down of the plane. U.S.com/2001/US/04/21/peru. “Não estamos brincando de fazer policiamento aéreo. Na maior parte dos casos. o avião irregular deixava o território brasileiro e adiava a travessia para outro dia. Comandante Todo o piloto que for abastecer o avião receberá um dos 100 mil panfletos com informações sobre a Lei do Abate. acredita o comandante de Defesa Aeroespacial Brasileiro (Condabra). alô. explica Azambuja.direitos humanos O governo brasileiro garante que o procedimento de abate vai ser cuidadoso. já avião terá que. salas de tráfego de aeroportos. empresas aéreas. 83 FGV DIREITO rio 88 . O procedimento de interceptação existe há 24 anos. lembra Azambuja que tem imagens de vídeo com o comportamento dos criminosos. “Os tiros são para obrigar a aeronave a pousar. a campanha tem o objetivo de informar que como a aeronave deve agir ao ser interceptada por aviões da Força Aérea Brasileira. “We are working with Peruvian authorities to investigate what happened. Cada caso será estudado na hora em que acontecer. brigadeiro Francisco Azambuja. Acesso em: 20 abril 2005. O nosso trabalho é fazer com que a lei seja cumprida. embassy spokesman Doug Barnes told CNN Saturday. A intenção da Força Aérea Brasileira não é matar ninguém”. Mas nenhum subterfúgio que eles possam usar estará dando salvo-conduto ao traficante ou elemento que está fazendo tráfego ilegal para se salvar”. Mas os aviões militares no máximo acompanhavam a aeronave suspeita até o pouso. plane. Desde o último dia 8. “Os traficantes tinham certeza da impunidade. como é chamada a licença para vôo. Zombavam de nós. Cerca de 10 mil cartazes serão distribuídos para os aeroclubes. Meanwhile. no mínimo. hangares de manutenção. Não deve existir condescendência nem com aeronaves suspeitas que estiverem com crianças a bordo. reconhece. até o dia 28.” Barnes said. sindicatos da aviação e hospitais entre outros pontos de passagem obrigatórios de pilotos e de futuros pilotos. Ele compara o procedimento ao adotado por policiais militares com veículos que não param em uma blitz. Plane shootdown: Drug intercept flights suspended in Peru – CNN (abril de 2001)83 Drug interception flights in Peru have been suspended until the completion of an investigation into the downing of a missionary plane that killed two of five Americans on board – a 7-month-old girl and her mother. Orçada em R$ 280 mil. Alô. Disponível em: http://archives. Faziam até sinais obscenos”. A diferença. é que ao ser atingido em um pneu o veículo pode parar em um acostamento. A idéia é fazer com que distribuição do material não fique restrita aos aeroportos e atinja pilotos que não têm brevê. “O desfecho é de responsabilidade exclusiva do comandante da aeronave”.

42. reconnaissance plane provided location data for the subsequent intercept mission that was conducted by the Peruvian Air Force.direitos humanos U. Charity. Loftus said he could not confirm that a flight plan had been filed.S. he said. president of the Association of Baptists for World Evangelism. at which point the Peruvian Air Force dispatched a rescue plane. said a spokesman for the U. and their son. site of the nearest consulate. The spokesman at the U. “proceeded to intercept the unknown airship”. de Cuellar express sorrow for loss Asked about the incident while attending the Summit of the Americas in Quebec City. “I can’t explain to you the statements of the Peruvian Air Force. was near the Peruvian military plane at the time of the incident but was unarmed and did not participate in shooting at the missionaries’ plane. Cory. The family is from Muskegon. but he said that was the usual practice. Pennsylvania.m. reconnaissance plane was working as part of an agreement between the United States and Peru to combat drug trafficking. “As part of an agreement. embassy in Lima said the U. first located plane A U.S. How could he be in contact with the civil authorities and their own military not know about it?” he said. which had not filed a flight plan. was shot in the legs. Killed in the incident were 35-year-old missionary Veronica Bowers and her seven-month-old daughter. reconnaissance plane. with the assistance of the reconnaissance plane. The pilot of the civilian plane finally responded after landing in a river near Pevas. “lamenting profoundly the loss of human life”. State Department. Michigan. the air force plane fired. was detected entering Peruvian air space from Brazil around 10 a. of Geigertown. the U. the statement said. the intercept system was activated”. A Cessna A-37B. were uninjured. embassy in Lima.S. U. It had flown to the border town of Benjamin Constant. Friday. 38. he said. President George Bush said. other than probable confusion until they get their facts sorted out”. The statement said the air force has initiated an investigation. “I’ll wait to see all the facts before I reach FGV DIREITO rio 89 . Kevin Donaldson. Mission: Plane on safe course Michael Loftus. helping the Peruvians detect aircraft used in drug trafficking. After the missionaries’ Cessna 185 did not respond to a command to identify itself. Bowers’ husband. he said. A statement from the Peruvian Air Force said an unidentified plane. “Facing such circumstances and. radar and aircraft provide tracking information to the Peruvian Air Force on planes suspected of smuggling illegal drugs in the region”.S. According to a statement issued by the U. Jim.S. said their plane never left Peruvian air space. 7. in agreement with established procedures. Loftus said Pilot Kevin Donaldson had been in radio contact with the tower in Iquitos. the statement said. a missionary in Peru since 1983. and had been working in Peru since 1993.S. Bush. it said.S. which sponsored the missionaries.S. to obtain a visa for the infant. “Central aviation authorities had given him a landing slot.

a pena de morte no Brasil. we mourn for the loss of the life. que consiste em “balear” com tinta colorida o adversário. the Associated Press reports. Sem erros. São aeronaves que podem deixar de se identificar para o caça interceptador por uma miríade de razões. Peruvian Prime Minister Javier Perez de Cuellar approached Bush and “expressed his deep regret and offered to help the families in any way he could”. muitas vezes ao investigar acidentes com aeronaves de pequeno porte. FGV DIREITO rio 90 . sem remorsos. Disponível em: http://www. Com certeza. teríamos uma clara identificação dos eventuais infratores. Mais: a tecnologia hoje disponível permite identificar e destruir todos os aeroportos clandestinos. falta de habilitação do piloto. que não podem ser punidos com rajadas de metralhadoras ou tiros de canhão: mau funcionamento do sistema de comunicações desses aviões.br/causas/subareas. Em vez de balas. As autoridades aeronáuticas ficam sabendo das transgressões. todas elas pecadilhos. mas é o que fica evidente quando vem à luz a chamada Lei do Abate. Assim. Eliminados os aeroportos clandestinos. por exemplo. possibilitando sua punição quando aterrissassem. two lives”.asp ?idArea=8&idSubArea=136. disponível. e não-utilização de fonia para não pagar as tarifas de proteção ao vôo. desatualização do exame médico.gabeira. buscar-se-ia na própria tecnologia um meio de evitar o abate equivocado e irreversível. A parte de fundamentação da lei não merece reparos: trata-se de proteger o território nacional de aeronaves sem identificação e barrar o tráfico de drogas. O problema está nos riscos claramente subjacentes ao texto.e da Rio Sul Linhas) Nas asas de um projeto pouquíssimo discutido pela sociedade. E a tecnologia está aí mesmo. tinta neles! 84 Acesso em: 25 abril 2005. nos centros de lazer: o divertido paint ball. sem sangue ou tragédias. que permite à FAB derrubar aviões clandestinos dentro do nosso espaço aéreo e que acaba de merecer uma oportuna ação contrária do deputado Fernando Gabeira. Exagero? Talvez.(…) Tinta neles!84 George Ermakoff (Presidente do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias -SNEA. Muitos dos inúmeros pequenos aviões que cruzam nosso espaço aéreo em regiões ermas. não estão a serviço do tráfico ou mesmo do contrabando.direitos humanos any conclusions about blame. but right now. uma fiscalização prévia mais rigorosa na frota que voa. na região amazônica. estamos vivendo a ameaça de termos. São aeronaves que transportam gente através de centenas de quilômetros de território que não conta com qualquer outro meio de transporte. said White House spokesman Gordon Johndroe. sobretudo na Amazônia.com. o que eliminaria o principal ponto de apoio das operações aéreas ilegais. reduziria drasticamente o número de aeronaves sujeitas à ameaça de derrubada. virtualmente. entre outras. curiosamente.

destina-se à proteção dos direitos civis e políticos. Quando se fala em trabalho escravo. por mais que preveja ambas as categorias de direitos (direitos civis e políticos e direitos econômicos. a proteção dos direitos civis e políticos sempre foi priorizada ao longo da evolução histórica dos direitos humanos em detrimento da proteção dos direitos econômicos. 5o. (ii) caso Damião Ximenes. Isto significa que o indivíduo pode enviar uma petição ao Comitê caso o Estado do qual faça parte tenha ratificado o referido protocolo. veio a ampliar a proteção de tais direitos. destaquem-se os artigos da CF a respeito: art. foram resgatados de cativeiros 4. salientem-se os instrumentos de proteção dos direitos civis e políticos nos sistemas global. o que corresponde a 51. cabe abordar dois casos. prevendo. de violação de direitos civis e políticos: (i) trabalho escravo. Nesse contexto. a violação mais visível em termos de direitos civis e políticos é do direito à liberdade. Nesse sentido. no Brasil. O primeiro protocolo ao PIDCP. ou melhor. Isto significa que o Estado tem a responsabilidade primária pela proteção desses direitos. há a Constituição Federal (CF). Quanto ao primeiro. Em 2003. Em relação ao sistema interamericano. serão utilizados para superar as deficiências e omissões do sistema nacional. por sua vez. o PIDCP estabelece o Comitê de Direitos Humanos e a sistemática dos relatórios e das comunicações inter-estatais. Já o PIDCP é destinado exclusivamente à proteção dos direitos civis e políticos. 26. caput (assegura o direito à liberdade) e art.direitos humanos Aula 13: Os direitos civis e políticos: direito à liberdade e integridade pessoal NOTA AO ALUNO Embora a indivisibilidade dos direitos humanos seja consagrada internacionalmente. sendo os instrumentos internacionais complementares e subsidiários. assim.735 trabalhadores (sendo que quase a metade no estado do Pará). É importante ressaltar que os instrumentos internacionais de proteção não substituem o sistema nacional. com exceção do disposto no art. a existência de trabalho escravo confronta diretamente com os direitos humanos. 5o – artigo este destinado aos direitos e garantias fundamentais do indivíduo. sociais e culturais). 5º. que elenca os referidos direitos em seu art. cabe destacar que um país que tem como fundamentos a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho. cabe destacar a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) e o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (PIDCP). Em relação ao primeiro. A DUDH. o mecanismo de petição individual. Nesse sentido. destaque-se a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Convenção) que. dá especial ênfase à primeira. regional (mais especificamente no interamericano) e nacional. III (proíbe o trabalho escravo ao dispor que “ninguém será submetido a tratamento desumano ou degradante”). Já no âmbito nacional.1% do total dos libertados FGV DIREITO rio 91 . sociais e culturais. Como instrumentos de proteção dos direitos em tela.

Desesperada. acesse o site http://www. em 8 de março de 2004. que alterou o artigo 149 do Código Penal – dispõe que “reduzir alguém a condição análoga à de escravo” é crime – mas não aumentou a pena mínima de dois anos para esse tipo de crime. Ressalte-se. o trabalho escravo acabará se a Câmara dos Deputados aprovar a proposta de emenda constitucional (Proposta de Emenda Constitucional nº 438/01). 6o da Convenção) proíbem expressamente a escravidão. (b) estabelecimento de uma política social para saber de onde vêm os escravos. destaquem-se88: (a) instituição de uma Vara Itinerante do Trabalho onde não houver juízes. 8o do PIDCP (bem como o art.br/asp2/noticia. com hematomas. (c) concessão de alternativas de vida às pessoas pobres (alfabetização. na manhã de 4 de outubro.asp?idio ma=PT&noticia=10909. a maioria na região amazônica86. 30 anos à época. ter acesso à terra. que em 11 de dezembro de 2003 foi promulgada a Lei nº 10. o Brasil. mas fracassou: o médico.br/agestado/noticias/2004/mar/08/182.803. De acordo com a Comissão e com os peticionários. entre outras). Dentre as medidas para acabar com o trabalho escravo. é de suma importância destacar os fatos. 4o da DUDH e o art. conforme exposto a seguir91: 1. Os fatos 85 Para maiores informações. entrou para a história das Nações Unidas89. foi à busca de auxílio. estadao. Estadão. com as mão amarradas por trás das costas. No âmbito internacional. 90 Aula elaborada em 27 de janeiro de 2005. 91 Como a Comissão e a Corte já foram objetos de análise de uma aula anterior. a responsabilidade do Estado brasileiro. FGV DIREITO rio 92 . Idem. de forma breve. o envio do caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão). por oportuno. uma vez que nenhum outro país o havia feito. ao reconhecer em uma reunião oficial da ONU a existência de “formas contemporâneas de escravidão” em seu território. que chega a 9. já que apenas uma pessoa foi condenada até hoje87. será que o mero reconhecimento da existência de trabalhadores escravos é suficiente para acabar com a escravidão no país? Quanto ao segundo caso. De acordo com o ministro Nilmário Miranda.org. que a Brasil reconhece na ONU a existência de trabalho escravo. em virtude da apresentação de um “quadro psicótico”.com. com dificuldade de respirar. a mãe foi visitá-lo e o encontrou sangrando. que estatui o confisco de terras para as propriedades que tenham mão-de-obra escrava. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que haja entre 25 e 40 mil trabalhadores escravos no Brasil. as violações alegadas. e sim na análise das violações dos direitos civis e políticos da vítima. que comporta cerca de 80% dos trabalhadores escravos. 86 87 88 89 Idem. a presente aula não aprofundará no estudo do procedimento de um caso perante ambas.adital. foi internado na tarde de 1 de outubro de 1999 na Casa de Repouso Guararapes. O art.direitos humanos nos últimos oito anos (1995-2003). fiscais e delegados. Contudo. a propositura da ação pela Comissão perante a Corte. A vítima já havia sido internada em 1995 no mesmo estabelecimento. com a roupa rasgada.263 indivíduos85. Ceará. http://www. responsável pela clínica tratou-a com descaso. promotores. Dessa forma. e agonizando.htm. dizendo. Idem. tirar documentos de identidade. a fim de que o trabalho escravo não seja uma opção. e quando houver punição para as pessoas que tiram proveito desse tipo de trabalho. cabe mencioná-lo tendo em vista se tratar do único caso brasileiro que teve uma decisão emitida pela Corte Interamericana de Direitos Humanos90 (Corte). Damião Ximenes.

No laudo consta que se trata de “morte real de causa indeterminada”. os familiares da vítima levaram o corpo para realização de autópsia no instituto forense de Fortaleza. uma vez que o Sistema Municipal de Auditoria concluiu em seu Relatório 002/99 que havia na instituição evidências de maus tratos. A responsabilidade do Estado brasileiro A Casa de Repouso Guararapes é uma clínica privada conveniada ao SUS (Sistema Único de Saúde). Dentre as versões apresentadas pelos enfermeiros e funcionários da instituição.direitos humanos morte é uma coisa natural da vida. A propositura da ação Em 30 de setembro de 2004. O Estado. no âmbito interno. enquanto que na outra versão ele havia brigado com outros pacientes. tortura e abuso sexual de pacientes. 2. denunciando os fatos ocorridos em detrimento de seu irmão. Há. duas ações (uma penal e uma civil) tramitando perante a justiça local. Não é a primeira vez que ocorre uma morte por violência e maus tratos na instituição em tela. apresentou perante a Comissão uma petição contra o Brasil. a Comissão resolveu enviar o presente caso à Corte. Inconformados. uma morte em 1987 e outra em 1991. o Estado brasileiro tem o dever de controlar e fiscalizar os serviços prestados pela referida instituição. Dessa forma. voltou para sua casa em busca de ajuda e. Damião Ximenes faleceu 3 dias após sua internação. a senhora Irene Ximenes Lopes. chegando lá. não estando satisfeito com os serviços prestados. 4. Damião havia brigado com enfermeiros. FGV DIREITO rio 93 . pelo menos. ou melhor. Desamparada. já havia um recado que seu filho havia falecido. destaquem-se duas: na primeira versão. que tem como diretor o médico da Casa de Repouso Guararapes. O envio do caso Em 22 de novembro de 1999. irmã de Damião Ximenes. Entre março e julho de 2000. 3. CF). foi instituída a Junta Interventora da Casa de Repouso Guararapes. Dessa forma. O médico fez constar como causa da morte “parada respiratória” e não ordenou a realização de autópsia. Já houve. 196 a 200. em 4 de outubro de 1999. tendo em vista que o Estado brasileiro não cumpriu as recomendações da Comissão. que incluíram golpes na cabeça com objetos contundentes. pode cancelar a autorização do ente privado como prestador de serviços de saúde em nome do Estado (arts.

Convenção Americana). seu dever de cuidar e de prevenir a vulneração da vida e da integridade pessoal. à integridade pessoal (art. O pedido A Comissão solicita à Corte que ordene ao Estado que: • • • • Efetue uma investigação completa.cr/.1. 5o. neste caso. desumanas ou degradantes. indaga-se: Qual é a importância do caso Damião Ximenes? Quais direitos foram violados no caso em tela? Há alguma diferença de 92 Informações atualizadas em 25 de outubro de 2006. bem como seu dever de regulamentar e fiscalizar o atendimento médico de saúde”93. Em audiência celebrada em dezembro de 2005.92 A Corte deixou claro que o Brasil “tem responsabilidade internacional por descumprir.or. combinados com a violação do dever genérico de garantir e respeitar os direitos consagrados na Convenção (art. Pague as custas e gastos legais incorridos pelos familiares do senhor Damião Ximenes na tramitação do caso no âmbito nacional. e as violações da obrigação de investigar (Relatório n. Em agosto de 2006. Assim o fez sob o argumento de que as precárias condições de atendimento psiquiátrico às quais foi submetido Damião Ximenes Lopes não correspondem ao atual grau de evolução e implementação das políticas públicas nessa área e no respeito aos direitos humanos dos pacientes. tanto no local dos fatos como em todo o território brasileiro. acesse o site da Corte Interamericana de Direitos Humanos: http://www. Convenção Americana). Convenção Americana). 4o. FGV DIREITO rio 94 . bem como daqueles originados na tramitação do presente caso perante o sistema interamericano. a seu assassinato. Convenção Americana). do direito a um recurso efetivo e das garantias judiciais relacionadas com a investigação dos fatos. devido à hospitalização do senhor Damião Ximenes em condições cruéis. à proteção judicial (art. 8o. apesar de seu dever de cuidado como garantidor de seus direitos. as violações a sua integridade pessoal. imparcial e efetiva dos fatos relacionados com a morte de Damião Ximenes. a Corte proferiu a decisão do caso em tela. 1.corteidh. às garantias judiciais (art. Convenção Americana). incluindo o pagamento efetivo de uma indenização.direitos humanos 5. Expostas as pretensões da aula. 6. 43/03 da Comissão). o Estado brasileiro reconheceu parcialmente a responsabilidade internacional por violação de direitos humanos – referente ao direito à vida e integridade pessoal. As violações A Comissão requer que a Corte determine que o Estado brasileiro é responsável pela violação do direito à vida (art. Repare adequadamente os familiares do senhor Damião Ximenes pelas violações de direitos humanos cometidas. 25. sendo a primeira sentença em face do Estado brasileiro. Adote as medidas necessárias para evitar que fatos similares ocorram no futuro. 93 Para ler a sentença na íntegra.

In: PIOVESAN. Flávia. Flávia.direitos humanos proteção dos direitos civis e políticos nos documentos mencionados? Quais são os artigos da CF que consagram os direitos civis e políticos? Quais são os direitos violados da pessoa que trabalha em condições análogas à de escravo? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. “A Litigância de Direitos Humanos no Brasil: Desafios e Perspectivas nos uso dos Sistemas Nacional e Internacional de Proteção”. São Paulo: Max Limonad. 2003 Legislação: Convenção Americana sobre Direitos Humanos Declaração Universal sobre Direitos Humanos Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Constituição Federal FGV DIREITO rio 95 . Temas de Direitos Humanos.

5. em especial. 9. Disponível em: http://www. perpetuadora da insegurança”94. que perpetua a insegurança no Estado. conseqüentemente. do conhecimento popular.org/2005/abril/ibe_026.direitos humanos Aula 14: Violência Urbana NOTA AO ALUNO “A despeito das diferentes visões em relação ao entendimento sobre quem e como se produz a violência no Rio de Janeiro. devem ser levados em consideração pontos essenciais. A guerra pressupõe a existência de um inimigo (no caso seriam os criminosos e suspeitos) que se almeja combater. os tópicos que serão abordados: 1. Por tão enraizada no dia-a-dia dos cidadãos. é considerada natural por grande parte da sociedade e dos governantes95. mas também aqueles que fazem parte do discurso da mídia e. ou melhor. p. uma vez que se trata de tema complexo e. por sua vez. utilizam-se os critérios geográficos e sociais para localizar o inimigo96 94 Centro de Justiça Global 2004.. abaixo. sistematicidade e banalização da violência. Temos como exemplo a chacina ocorrida na Baixada Fluminense. 4. Falar em violência urbana não é tarefa fácil. FGV DIREITO rio 96 . tão visceral à opinião pública.global. ao mesmo tempo. Esta. tem como causa direta a exclusão social. para delimitar o objeto de estudo. criminalização da pobreza. para que se possa tanto explicar quanto desmistificar alguns temas. Disponível em: http://www. que. contido justamente no repúdio à sua manifestação como rotina diária. assim. trouxe também conseqüências drásticas. 95 Acesso em: 14 abril 2005. 96 Expressão utilizada no Relatório do Centro de Justiça Global. br/portuguese/arquivos/relatorio_rio1. em decorrência da existência de um “poder paralelo”. Assim. cumpre destacar a manifestação da violência urbana no Rio de Janeiro como algo rotineiro e. Dessa forma. htm. Acesso em: 14 abril 2005. sua sistematicidade e banalização ensejam ao menos um sentimento em comum. 21. do acesso ao trabalho. em 30 de março de 2005. a criminalização da pobreza. que impõe o terror e a desordem. embora tenha permitido um aumento da produtividade e da expectativa de vida em alguns países. 3. em um contexto no qual prevalece a omissão do Poder Público. a violência no Rio de Janeiro é caracterizada pela mídia como guerra civil. embora tenha causado indignação pública. Em nosso Estado. notadamente policial. são naturalizadas. op. p. a idéia de que a pessoa é criminosa em virtude do local onde mora e de sua condição social. descrédito das ações do governo no combate à violência. trajetória da violência estatal. Quanto ao segundo aspecto. cit. multiplicam-se os relatos de violência. Seguem. A morte e a violência. tal como a exclusão de um número cada vez maior de pessoas da vida econômica. Relatório Rio: Violência Policial e Insegurança Pública. Em relação ao primeiro tópico. o século XX. Na região. causas do agravamento da violência. é fruto das mudanças macro-estruturais propiciadas pela introdução do modelo econômico neoliberal na década de 1980. conseqüentemente.org. 2.lainsignia.pdf.

2004. pesquisador do Centro de Justiça Global.10. Disponível em: http://www. 16. basearam seus discursos na promessa de criarem uma nova polícia e uma nova política de segurança. Foi o que prometeu Anthony Garotinho. os candidatos ao governo do Estado na campanha eleitoral de 1988. Em se tratando das causas do agravamento da violência no Rio de Janeiro. distorcida por essa perspectiva. Ibid. A pobreza passa a ser vista como perigo à sociedade e tem como conseqüên­ cia a não observância e consagração da universalidade dos direitos humanos. a maioria em condições que sugerem extermínio. SOARES. Acesso em: 14 abril 2005..org/publique/cgi/cgilua. Nesse sentido.br/artigo_ind.org/2005/abril/ibe_ 026. do sensacionalismo da mídia e da ação da polícia. especialmente no senso comum das classes média e alta”97. 30. lainsignia. destaque-se que.htm. A exclusão 97 98 Idem. entre outros itens. que o conceito de segurança deve ser redefinido. corroborando. Isto significa ser de extrema importância mais investimentos nas áreas sociais e mais planejamento na atuação policial.direitos humanos desta guerra. ao passo que em 1999 haviam ocorrido 289 mortes103. de “reabilitar a polícia”. exe/sys/start. de saúde e de lazer. FGV DIREITO rio 97 . p. do sexo masculino. É uma questão de Estado e não de polícia”100. “Geografia da Violência no Rio de Janeiro” in Folha de São Paulo. Ainda em relação aos direitos humanos.com. 101 102 103 Idem. Como conseqüência dessa visão. em detrimento da utilização da opressão e da violência como prática da polícia101. O resultado pode ser vislumbrado pelo número muito maior de pessoas mortas em intervenções policiais: 427. A atuação policial. alterações corporativas que conduziram à exoneração de Luiz Eduardo Soares da Secretaria Estadual de Segurança Pública em 2000 significaram o retorno das velhas políticas de enfrentamento por seu sucessor. 1. uma redução significante do número de policiais mortos e a maior quantidade de apreensão de armas com criminosos até então: 9 mil102. Constata-se também que a maioria das pessoas assassinadas era jovem. Disponível em: http://www. 100 Acesso em: 14 abril 2005. conseqüentemente. Como conseqüência da supressão da “banda podre” da polícia. Quanto ao terceiro tópico. “legitimam” as violações dos direitos humanos por policiais nesses locais99.htm?infoid=3139 &tpl=printerview&sid=16>. faz-se necessária uma análise em conjunta da exclusão social. o conceito de criminalização da pobreza. Luiz Eduardo.luizeduardosoares. pobre e negro. ao assumir o poder. assim como sua descartabilidade seria assegurada frente ao corpo social.195 pessoas foram mortas por policiais no Estado do Rio de Janeiro no ano de 2003. o inimigo é caracterizado como pobre e morador de comunidades carentes. houve uma redução em 40% do número de civis mortos pela polícia. o discurso e ações policiais. bem como a noção de guerra. acaba por substituir a proteção da vida por práticas cada vez mais violentas. Contudo. Nesse sentido.desarme. p. assim. Disponível em: http://www. ou melhor. constata-se que a política de segurança pública do Estado não é dirigida a todos os cidadãos e nem está fundada na proteção e garantia universal dos direitos humanos. 99 Ibid. 14. segundo os quais o criminoso ou suspeito reside nas favelas e possui “cor e aparência definidas. equiparam criminosos e moradores das comunidades carentes e. ressalta Marcelo Freixo. a fim de corresponder às exigências atuais: “segurança hoje em dia é política educacional. Nesse contexto. Isto porque os três itens estão interconectados. em decorrência do período no qual se recompensava o policial com um incremento salarial – que variava entre 50 a 150% de seu salário – sempre que fizesse uma vítima letal. é a relação entre os mesmos que agrava drasticamente a violência no Estado. php?categoria=seguranca. Acesso em: 21 abril 2004. com idade entre 15 e 24 anos e morava em regiões carentes98.

Necessita-se. Disponível em: http://www.2004.com. Acesso em: 14 abril 2005. A polícia. 107 FGV DIREITO rio 98 . Luiz Eduardo. portanto. 104 105 106 Ibid. Em especial. Já a mídia. 2003. Acesso em: 21 abril 2004.global. Entrevista. a ausência de órgãos de monitoramento independentes e a corrupção policial. de mudanças drásticas e urgentes em toda a política de segurança pública do Rio de Janeiro. treinamentos e capacitação dos policiais. 14.desarme. o policial mata ou tortura alguém. Ignacio. SOARES. Hoje em dia.direitos humanos social contribui para que muitas pessoas optem por atividades ilícitas como meio de vida. em última instância.php?id=44834. violando. Violência Urbana. tem haver com a falta de transparência das ações públicas na área de segurança. exe/sys/start. leia a entrevista com Ignacio Cano.clippingexpress. Acesso em: 14 abril 2005. seguindo a premissa de “entender menos e punir mais”104 (i.pdf. respectivamente. DORNELLES. o último tópico. clippingexpress. travestida como “resposta” à criminalidade – mas que diz respeito. Disponível em: http:// www. mas sim punir os criminosos). o direito à vida e o direito à integridade física).br/noticias_justica. PINHEIRO. Disponível em: http://www.htm?infoid=3139 &tpl=printerview&sid=16>. João Ricardo.com.br/artigo_ind.org/publique/cgi/cgilua. há uma enorme demanda de certos setores para que a polícia seja violenta. Acesso em: 14 abril 2005. Guilherme de Assis.php?id=44834. a fim de que. Capítulo VII. p. Disponível em: http://www. Conflito e segurança (entre pombos e falcões).br/noticias_justica.com. não visa a explicar ou entender as causas do problema para que se possa solucionálos. São Paulo: Publifolha. Acesso em: 14 abril 2005. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: CANO. Idem. ao etiquetamento penal de suas camadas mais miseráveis”106.org. Paulo Sérgio e ALMEIDA. Acrescente-se a este fato a questão da impunidade dos policiais. As principais causas do descrédito das ações do governo no combate à violência. que começa com a fundação das primeiras corporações no Brasil para manter sob controle as classes subalternas106. 2003. Para maiores informações. por exemplo.luizeduardosoares. por sua vez. Centro de Justiça Global. a polícia possa definitivamente transmitir segurança ao invés de medo. bem como uma ilusão por parte da mesma de que seu trabalho deva ser pautado na violência107. pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da UERJ. Disponível em: http:// www.php?categoria=seguranca.br/portuguese/arquivos/relatorio_rio1. tem uma tradição de repressão. assim como a carência de investimentos.10. incute na sociedade um falso clamor por Justiça.e. In: Folha de São Paulo. um dia. manipulada pelo “Estado na perpetração da violência. “Geografia da Violência no Rio de Janeiro”. Relatório Rio: Violência Policial e Insegurança Pública. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris. 30. que é ainda mais grave quando se materializa em violação dos direitos humanos (quando.

Tal medida se deu em virtude do conflito ideológico que vigorava na época. muitas vezes. criado pelo Conselho Econômico e Social e que tem por principal função o monitoramento da implementação dos direitos econômicos. tendo em vista que os mesmos foram. cabe ressaltar seu sistema peculiar de monitoramento. Como leciona Cançado Trindade. sociais e culturais demandam realização progressiva. em conjunto com a DUDH. p. 1997. 110 FGV DIREITO rio 99 . 108 109 Comunicação interestatal é aquela através da qual um Estado-parte denuncia a existência de violação de direitos humanos em outro Estado-parte. ao passo que comunicação individual se refere à possibilidade do indivíduo recorrer a instâncias internacionais para reparação ou restauração dos direitos violados. assim. Na verdade. se transformam em um importante instrumento de negociação para que haja avanços na proteção dos direitos humanos. diferentemente do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. ambiente este que prioriza. os conflitos entre as duas categorias de direitos nem sempre são claros. De maneira diversa. e talvez a distinção seja antes uma questão de gradação ou de ênfase. sociais e culturais (DHESCs) encontra-se na atual agenda internacional dos direitos humanos. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. A raiz do tratamento diferenciado das duas categorias de direito encontra-se na decisão tomada pela Assembléia Geral das Nações Unidas. encaminhará uma cópia ao Conselho Econômico e Social para apreciação. formando. I. assim como não estatui um Comitê como órgão principal de monitoramento. por meio do qual os Estadospartes encaminham relatórios ao Secretário-Geral das Nações Unidas que. com medidas de implementação distintas. o PIDESC baseia-se no mecanismo dos relatórios. ao longo da história. emitirá suas observações conclusivas que. ao passo que os direitos civis e políticos são auto-aplicáveis. voltada às obrigações gerais que vinculam os Estados Partes. e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. o relatório será analisado pelo Comitê de Direitos Econômicos. sociais e culturais. Todavia. Isto porque. As recomendações caracterizam-se CANÇADO TRINDADE. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. após analisar o relatório. já naquela época. cada um voltado a uma categoria de direitos. têm força política e moral que. Sociais e Culturais (PIDESC). uma vez que os direitos econômicos. que alegavam que ambas as categorias de direitos não poderiam estar no mesmo Pacto. Antonio Augusto. de elaborar dois Pactos Internacionais de Direitos Humanos (1966). Vol. em 1951. Instituído pelo Conselho Econômico e Social da ONU através da Resolução ESC 1985/17. cumpre ressaltar que. O Comitê DESC. Sociais e Culturais110 (Comitê DESC). sociais e culturais NOTA AO ALUNO A busca por uma proteção mais efetiva dos direitos econômicos. por sua vez. o PIDESC não prevê um mecanismo de comunicação interestatal nem de petição individual109 (através de um protocolo adicional). embora não sejam dotadas de força legal. os direitos civis e político . até hoje.direitos humanos Aula 15: Direitos humanos econômicos. negligenciados na esfera internacional. a Carta Internacional dos Direitos Humanos. 354. bem como em decorrência da preponderância da posição dos países ocidentais. “o Pacto de Direitos Civis e Políticos também prevê a ´possibilidade de realização progressiva´ de certos direitos. tal dicotomia não tinha caráter absoluto.”108 Em se tratando especificamente do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. Sociais e Culturais contém dispositivos suscetíveis de aplicação a curto prazo.

Em relação à consagração dos DHESCs no âmbito internacional. Sociais e Culturais (Dhesc Brasil) apresentou em 2003 seu Contra Informe113 (denominado também de Relatório Sombra) ao Comitê DESC.. especificamente. Sociais e Culturais adotou as observações conclusivas em 23 de maio de 2003. desde 1997. bem como para apresentar novos dados sobre a situação brasileira.01. Sociais e Culturais das Nações Unidas. Em relação ao sistema europeu. Após a análise dos dois informes. por meio da Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos. Em contrapartida.e. na Comissão de Direitos Humanos da ONU) que. realizada em Viena. O Brasil ratificou o PIDESC em 24. o único mecanismo de proteção dos direitos em tela estabelecido pelo PIDESC é a sistemática dos relatórios. Como exemplo. muitos deles surtem impactos de natureza social ou econômica. que a indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos foi reafirmada na II Conferência Internacional sobre Direitos Humanos. pela primeira vez. em 2001112. tais como os consagrados pelo Protocolo I: direito à propriedade privada (artigo 1) e direito à educação (artigo 2). em 1993. em virtude da inércia do estado brasileiro. 112 113 O Contra Informe foi apresentado durante o 30º Período Ordinário de Sessões (05 a 23 de maio de 2003) do Comitê de Direitos Econômicos. sistema africano e sistema interamericano. a fim de contestar alguns fatos levantados pelo governo federal. i. especificando se as recomendações propostas pelo Comitê DESC foram observadas ou não. suas observações conclusivas acerca do cumprimento do PIDESC pelo Brasil. faz-se extremamente necessário ampliar o sistema de monitoramento dos direitos econômicos. Sociais e Culturais. em 1968. pelo qual os Estados-partes devem encaminhar informações acerca das medidas legislativas. com quase dez anos de atraso. último dia de seu 30º Período Ordinário de Sessões. afirmando. Em virtude da crescente atenção dada aos DHESCs ao longo dos anos. O Comitê de Direitos Econômicos. realizada em Teerã. Em relação ao Brasil111. ambas as categorias de direitos estivessem no mesmo patamar. uma vez que a consagração da indivisibilidade dos direitos humanos fez com que. foram incorporados alguns direitos à Convenção Européia. constrangimento político e moral no campo da opinião pública internacional do Estado que viole os direitos humanos. já que prevê o mecanismo de comunicação individual. que proclamou a indivisibilidade dos direitos humanos. bem como das dificuldades encontradas para a plena realização desses direitos. Sendo assim. a sociedade civil apresentou um “Informe Alternativo” ao Comitê de Direitos Econômicos. que a plena realização dos direitos civis e políticos só seria possível com o gozo dos DHESCs. Destaque-se. cabe mencionar que o Governo Federal apresentou. caso seja adotado. assim.1992. assim. incluindo recomendações e sugestões para sua efetivação. uma clara distinção entre as duas categorias de direitos. administrativas e judiciárias que são tomadas para efetivar os direitos estabelecidos no PIDESC. não havendo. saliente-se a ponderação feita pela Corte Européia de Direitos Humanos no caso Airey (1979) de que embora a Convenção Européia sobre Direitos Humanos consagre essencialmente os direitos civis e políticos. o Comitê DESC emitiu114. a sociedade civil. 111 Saliente-se que em 2000. assim denominado uma vez que o governo federal brasileiro ainda não tinha encaminhado nenhum informe. seu Primeiro Informe ao Comitê de Direitos Econômicos. é de suma importância ressaltar a I Conferência Mundial sobre Direitos Humanos. 114 FGV DIREITO rio 100 .direitos humanos por seu power of embarrassment. consistirá em uma forma de ampliação do sistema de monitoramento. em maio de 2003. Nesse contexto. O Governo brasileiro apresentou em 2006 um novo informe. por oportuno. destaca-se o Protocolo Facultativo ao PIDESC (tramita. sociais e culturais no plano internacional. Trata-se de passo de suma importância. Os DHESCs também podem ser analisados nos três sistemas regionais de proteção dos direitos humanos: sistema europeu. Sociais e Culturais.

quer com seu próprio esforço. sofrendo lesões permanentes no olho direito e na mão direita. capangas atiraram nos trabalhadores que tentavam fugir da fazenda. eqüitativas e satisfatórias de trabalho (art. o Estado brasileiro comprometeu-se a implementar as ações e as propostas de alterações legislativas contidas no Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo. Sociais e Culturais (Protocolo de San Salvador). Quanto ao sistema interamericano. o direito à seguridade social (artigo 9). que o referido Protocolo define o alcance de alguns DHESCs. embora a Convenção Americana sobre Direitos Humanos mencione os DHESCs em apenas um artigo. em seus respectivos âmbitos de competência.289 (Brasil). em 1988 foi adotado o Protocolo Adicional à Convenção Americana em matéria de Direitos Econômicos. o Estado brasileiro. quer com a assistência e cooperação Relatório Nº 95/03 Jose Pereira – Caso 11.oas. Saliente-se.11289. 115 116 Idem. José Pereira. Expressão de um movimento de conscientização para uma proteção mais efetiva aos DHESCs. e lançado pelo governo brasileiro. Embora o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos tenha se concentrado na defesa dos direitos civis e políticos. o caráter fundamental dos DHESCs. Em uma ocasião.289115. um menor de idade que trabalhava em condições análogas à de escravo em uma fazenda no sul do Pará. em 2003. tendo a Comissão Africana de Direitos Humanos e dos Povos um mecanismo de aplicação comum a todos os direitos. sociais e culturais (artigo 15 a 18).cidh. cabe destacar que. Como exemplo. que trata da situação de José Pereira. org/annualrep/2003eng/Brazil.direitos humanos Em se tratando do sistema africano. cabe mencionar o debate sobre duas categorias intrínsecas aos DHESCs: a progressividade e a exigibilidade. e de maneira a aprimorar a legislação nacional que visa a coibir a prática do trabalho escravo no país. a aula deverá apontar o Caso 11. As pessoas aceitavam trabalhar no local em virtude de falsas promessas de altos salários e boas condições de trabalho. O caso em tela foi levado à Comissão em 1994 e. FGV DIREITO rio 101 . elaborado pela Comissão Especial do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana.htm. o Protocolo de San Salvador dispõe acerca da possibilidade de se enviar petição individual acerca do direito à educação e de alguns aspectos dos direitos sindicais à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão). o direito a condições justas. O reconhecimento público da responsabilidade do Estado brasileiro em relação à violação de direitos humanos deu-se na solenidade de instalação da Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo-CONATRAE (criada por Decreto Presidencial de 31 de julho de 2003). Acesso em: 04 jan. que na época tinha 17 anos. tanto a Comissão quanto a Corte Interamericana de Direitos Humanos têm reconhecido.. bem como de apresentar relatórios periódicos.000. a Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos prevê um catálogo tanto de direitos civis e políticos (artigos 3 a 14) quanto de direitos econômicos. 7) e o direito a um meio ambiente sadio (artigo 11). documento este que entrou em vigor em novembro de 1999. Disponível em: http://www. Por fim. Ainda no bojo do referido acordo.00 (cinqüenta e dois mil reais) a título de indenização por danos morais e materiais116. Em primeiro lugar. o PIDESC assevera a obrigação do Estado de.Nesta oportunidade. como. chegou-se a uma solução amistosa. realizada no dia 18 de setembro de 2003. pagou a vítima o valor de R$ 52. 2005. em 11 de março de 2003. por oportuno. foi gravemente ferido. limitando-se a dispor que os mesmos devem ser realizados progressivamente. por exemplo.

&l=20&u=http://www. Os direitos humanos econômicos.. compreendidos também os humanos. 117 LIMA JÚNIOR. Em 29 de abril de 2004. devem ser dotados de mecanismos para que seus titulares possam deles usufruir. 45119. cumpre reconhecer que não se revela absoluta.2004. Refere-se aqui à exigibilidade dos DHESCs. naturais e de informação. 118 119 Ibid. importante decisão do Supremo Tribunal Federal acerca dos DHESCs.gov.117 Dessa forma. tomar medidas. Os DHESCs. aí. econômicos e culturais. nesse domínio. para assegurar progressivamente o pleno exercício dos direitos elencados.04. p. o acesso aos bens cuja fruição lhes haja sido injustamente recusada pelo Estado”. receberam investidura em mandato eletivo. uma contradição no primeiro exame. o Ministro Celso de Mello.”118 Por mais que alguns DHESCs já possuam mecanismos eficientes de proteção perante o Judiciário. a possibilidade de intervenção do Poder Judiciário. p. no máximo dos recursos disponíveis. Jayme Benvenuto. a todos. destaque-se que a exigibilidade dos DHESCs pode ser considerada nas esferas nacional (constituições e leis) e internacional (PIDESC). indica para o fato de que progressividade não pode ser entendida como postergação infinita. a eficácia dos direitos sociais. Julgamento em 29. precisamente por constituírem direitos. comprometendo-a.br/cgi-bin/nphbrs?d=DESP&n=-julg&s1=45. então. por delegação popular. “se ao Judiciário sempre coube a obrigação de solucionar conflitos em relação a todas as matérias que lhe sejam apresentadas. como precedentemente já enfatizado – e até mesmo por razões fundadas em um imperativo ético-jurídico -. É que. 2001. afetando. esta denominada justiciabilidade. Nesse contexto. NUME. cabe a análise de alguns desses elementos: (i) a acareação entre o máximo e o disponível. tecnológicos.gov. 108.direitos humanos internacionais. como decorrência causal de uma injustificável inércia estatal ou de um abusivo comportamento governamental. 120.br/Jurisprudencia/Jurisp. ADPF n.stf. justificar-se-á. Nesse sentido. nem a de atuação do Poder Executivo. agora ele tem uma base positiva que legitima sua ação em nível interno. (ii) recursos aqui devem ser entendidos para além dos financeiros. como é o caso dos direitos trabalhistas e previdenciários. stf. Relator Ministro Celso de Mello. FGV DIREITO rio 102 . Como lembra Jayme Benvenuto. tendo em vista a previsão normativa dos DHESCs. aquele núcleo intangível consubstanciador de um conjunto irredutível de condições mínimas necessárias a uma existência digna e essenciais à própria sobrevivência do indivíduo. cabe registrar. tem-se que uma saída possível e recomendável é o estabelecimento de metas e prazos para a concretização dos DHESCs. a liberdade de conformação do legislador. Todavia. em ordem a viabilizar. Acesso em: 04 julho 2005.asp&Sect1=IMAGE&Sect2 =THESOFF&Sect3=PLURON&S ect6=DESPN&p=1&r=2&f=G. sociais e culturais. se tais Poderes do Estado agirem de modo irrazoável ou procederem com a clara intenção de neutralizar. 45 – STF. apôs importantes considerações ao Poder Judiciário em relação à implementação dos DHESCs: “Não obstante a formulação e a execução de políticas públicas dependam de opções políticas a cargo daqueles que. mesmo sem examinar diretamente o objeto da ação – veto do Presidente da República a artigo da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2003 que garantia recursos financeiros ao serviço de saúde – uma vez que o Poder Executivo enviou projeto de lei ao Legislativo que restaurou a integridade do artigo. registra-se ainda muita resistência por parte do Ministério Público e do Judiciário em designar uma tutela efetiva a tais direitos. Rio de Janeiro: Renovar. em sede da Argüição de Descumprimento de Direitos Fundamental (ADPF) n. por fim. Disponível em: http://gemini. a qual pode se dar no âmbito administrativo ou judicial.

Flávia. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. Leitura acessória: LIMA JÚNIOR. pp. 2001. Alessandra Passos. indaga-se: Um cidadão brasileiro pode enviar um caso relativo à violação do direito à saúde à Comissão Interamericana de Direitos Humanos? Quais são os mecanismos de proteção dos DHESCs existentes no sistema global? O que representa a consagração da indivisibilidade dos direitos humanos para a proteção dos direitos econômicos. 1997. Legislação: Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos.direitos humanos Pelo exposto. “A proteção Internacional dos Direitos Econômicos. sociais e culturais? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. In: PIOVESAN. Flávia. Janaína Senne. Temas de Direitos Humanos. 91-114. PIOVESAN. Vol. sociais e culturais. Os direitos humanos econômicos. São Paulo: Max Limonad. Sociais e Culturais Declaração Universal de Direitos Humanos Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem Convenção Americana sobre Direitos Humanos Protocolo de San Salvador Convenção Européia sobre Direitos Humanos Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos FGV DIREITO rio 103 . Sociais e Culturais”. e MARTINS. I. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. 2003. GOTTI. Antonio Augusto. pp 353-360. Jayme Benvenuto. Rio de Janeiro: Renovar.

de Todas as Formas de Discriminação Racial de 1965. examinaremos alguns desses sujeitos de direito. dentre outros. fundamentalmente. passaremos a analisar o processo de especificação dos sujeitos de direitos como decorrência de um outro marco fundamental: a universalidade dos direitos humanos. a primeira das especificações refere-se ao fato de que os seres humanos são sexuados. Todavia. (I) p. por exemplo. Convenção contra a tortura e outros tratamentos ou Penas Cruéis. Proteção dos direitos da mulher Na compreensão do processo narrado. aos idosos. pessoas crescem em contextos sociais em que papéis sócio-culturais são designados de acordo com as relações de poder estabelecidas em razão do sexo. A partir da presente aula. e passa a analisa-los com concretude. nos referimos até o presente momento ao sistema geral de proteção aos direitos humanos. Referimo-nos aqui a sexo como as diferenças entre homens e mulheres dadas pela natureza. como. as PIOVESAN. idade. parir e amamentar. Daí apontar-se não mais ao indivíduo genérica e abstratamente considerado. o fato de somente as mulheres poderem menstruar. 2002. etc. As desigualdades de gênero são as diferenças socialmente construídas. Há de se destacar que o sistema geral e o sistema especial de proteção de direitos humanos são necessariamente complementares. dotando alguns sujeitos de direitos também distintos. que merecem proteção especial. É o que se costuma denominar de processo de especificação do sujeito de direitos.”120 Ao longo das próximas aulas. às pessoas vítimas de discriminação racial. tidas suas diferenças em segundo plano. à prevenção da discriminação ou à proteção de pessoas ou grupos de pessoas particularmente vulneráveis. considerando-se categorizações relativas ao gênero.direitos humanos Aula 16: A especificação do sujeito de direitos. “na medida em que o sistema especial de proteção é voltado. Os direitos humanos sob a perspectiva de gênero NOTA AO ALUNO Vimos discutindo ao longo das últimas aulas a proteção aos direitos civis e políticos e aos direitos econômicos. etnia. Seja a Declaração Universal de 1948 ou os Pactos Internacionais de 1966. sociais e culturais. O sistema internacional passa a reconhecer direitos endereçados às crianças. cabendo a escolha dos direitos humanos das mulheres como o primeiro desses. ao longo das últimas décadas. às mulheres. 120 FGV DIREITO rio 104 . Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. por exemplo. como. São Paulo: Max Limonad. Mais do que isso. a Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW) de 1979. Flávia. às pessoas vítimas de tortura. mas ao indivíduo ‘especificado’. ressaltando a indivisibilidade como o marco de compreensão dos direitos humanos. Desumanos ou Degradantes de 1984 e a Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989. O Direito Internacional dos Direitos Humanos deixa de examinar os seres humanos como sujeitos neutros. raça. foram consolidados tratados que tinham como objeto tema específico. 188.

Temas de Direitos Humanos.121 Nesse sentido. a manutenção de normas desiguais ou separadas. o artigo 4o da CEDAW também prevê a aplicação de medidas de ação afirmativa: a adoção pelos Estados-Partes de medidas especiais de caráter temporário destinadas a acelerar a igualdade de fato entre o homem e a mulher não se considerará discriminação na forma definida nesta Convenção. para exame do Comitê. o tratado não prevê a possibilidade de comunicações estatais ou do conhecimento de violações de ofício por parte do Comitê. Todavia. o Comitê emite recomendações a serem cumpridas pelo Estado. Nesse sentido. parágrafo 1o. Em resposta aos relatórios. por incompatibilidade com a legislação civil vigente. “Os direitos humanos da mulher na ordem internacional”. posteriormente. De acordo com o artigo 1o.. como conseqüência. administrativas. passando a vigorar em 3 de setembro de 1981. tendo sido apresentada denúncia ao artigo 15. da Convenção. Os avanços promovidos pela Convenção foram “freiados” pela constatação de que esse foi o marco normativo de direitos humanos que mais recebeu reservas no âmbito da ONU: ao menos 23 dos 100 Estados-partes realizaram 88 reservas. Todavia. no prazo de um ano a partir da entrada em vigor da convenção. Flávia. algumas dessas afetando a essência da universalidade dos direitos humanos. em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações. é possível 121 LIBARDONI. mas de nenhuma maneira implicará. PIOVESAN. judiciárias. Em seu artigo 17. os Estados comprometem-se a submeter a Secretaria-Geral das Nações Unidas. em 1994. Flávia. (a).). qualquer pessoa ou grupos de pessoas que aleguem ser vítimas de violações à Convenção podem apresentar petição ao Comitê.direitos humanos mulheres cuidarem dos filhos e da casa e os homens trabalharem fora. composto 23 peritos. foi aprovada pela Assembléia Geral da ONU a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW). Brasília: AGENDE. 2002. e ao artigo 16. Tais artigos estabelecem a igualdade entre homens e mulheres no âmbito das relações familiares. exercício pela mulher. essas medidas cessarão quando os objetivos de igualdade de oportunidades e tratamento houverem sido alcançadas. cultural e civil ou em qualquer outro campo. a Convenção estabelece o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher. (II) p. eleitos pelos países que ratificaram a Convenção. em 18 de dezembro de 1979. p. dentre outras. In: PIOVESAN. em consonância com o quadro constitucional proporcionado pelo Texto de 1988. de uma construção cultural das desigualdades (gênero) que não se justifica nas diferenças biológicas dadas pela natureza (sexo). Somente a partir da elaboração do Protocolo Facultativo aprovado pela ONU em 1999. Os Estados partes comprometem-se a uma dupla obrigação: devem eliminar as formas constantes de discriminação e devem promover a igualdade. Por outro lado. dos direitos humanos e das liberdades fundamentais nos campos político. com base na igualdade do homem e da mulher. independentemente de seu estado civil. 109. Direitos Humanos das mulheres. 2003. (c). Essa distinção é relevante para percebermos que as desigualdades sociais entre homens e mulheres vêm de nossas idéias. social. (g) e (h). o Governo notificou a Secretaria Geral da ONU para que retirasse as referidas reservas. 210. relatório sobre as medidas legislativas. discriminação contra a mulher significa toda distinção.. gozo. a cada 4 anos. 122 FGV DIREITO rio 105 .122 A Convenção foi ratificada pelo Estado brasileiro em 1984. dentre eles atualmente a brasileira Silvia Pimentel. parágrafo 4o. e toda vez que solicitar o Comitê (artigo 18 Convenção). Ao ratificar a Convenção. São Paulo: Max Limonad. exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento. Alice (org. econômico.

os Estados reconheceram os direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos e ainda afirmaram que meninas e mulheres têm o direito a decidir sobre a maternidade. é importante ressaltar alguns temas correlatos. acessíveis e d) o direito de acesso ao mais elevado padrão de saúde reprodutiva. a Declaração de Viena de 1993. entre tantos outros temas.. o qual foi aprovado pelo Congresso Nacional e ratificado pelo Presidente em setembro de 2002. Por sua vez. gestação. aborto. Com base nos instrumentos internacionais citados.direitos humanos afirmar que o Protocolo não estabeleceu novos direitos. 63.”123 O Brasil assinou o protocolo em 08 de março de 2001. Direitos Humanos das mulheres. disponíveis. em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações. pode-se afirmar que muitas mulheres brasileiras preferem a utilização do Sistema Interamericano de Direitos Humanos por contar com uma instância jurisdicional para verificação da responsabilidade internacional. Se a Convenção é um “remédio para auxiliar a eliminar a discriminação contra as mulheres. durante a Conferência do Cairo sobre População e Desenvolvimento. Desenvolvimento e Paz. passando o aborto a ser compreendido como uma questão de saúde pública. passam a ser examinados como questões correlatas. Mais além do exame dos principais tratados que se referem aos direitos humanos das mulheres. Foi nesse sentido que caminharam as principais conferências referentes a direitos sexuais e reprodutivos. coerção ou violência. em 1995.. conclui-se que os direitos reprodutivos incluem: a) o direito de adotar decisões relativas à reprodução sem sofrer discriminação. FGV DIREITO rio 106 . b) o direito de decidir livre e responsavelmente o número de filhos e o intervalo entre seus nascimentos. c) o direito a ter acesso a informações e meios seguros. Como seu artigo 4o afirma a necessidade de esgotamento dos recursos internos e a impossibilidade de litispendência internacional como critérios de admissibilidade de uma denúncia. 2002. Concepção. reasseverou a igualdade entre homens e mulheres e conclamou os Estados a promover a ratificação universal da Convenção para a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres e a retirar as reservas que comprometiam a essência do tratado. mas novas garantias de proteção. Alice (org. Brasília: AGENDE. produto da primeira grande conferência mundial de direitos humanos no contexto pós-Guerra Fria. contracepção. amamentação. os Estados reuniram-se na IV Conferência Mundial sobre a Mulher. Em 1994. Por sua vez. Direitos Sexuais e Reprodutivos Se o movimento de mulheres teve início com a busca da igualdade entre homens e mulheres. A Declaração e o Plano de Ação de Beijing reafirmam os direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos e recomendam aos Estados a rever as legislações punitivas ao aborto. Por fim. p. notadamente no que se refere ao direito ao voto. como os direitos sexuais e reprodutivos e a violência doméstica e familiar contra a mulher.). Dia Internacional da Mulher. percebemos que a tônica foi transferida para direitos inerentes a condição diferenciada das mulheres. direitos sexuais compreendem: a) o direito a decidir livre e responsavelmente sobre sua sexualidade. seu Protocolo Facultativo é a bula que ensina como usar esse remédio. b) o direito de ter 123 LIBARDONI.

como na esfera privada (no âmbito da família ou unidade doméstica). 124 PIOVESAN. é uma violência que é cometida pelo fato de a vítima ser uma mulher. com os devidos cuidados éticos recomendados pelos instrumentos internacionais. 83. em 1993. Segundo Guilherme Assis de Almeida. aprovada em cidade brasileira e. b) explicitar a noção de dano ou sofrimento sexual. op. d) o direito a receber educa. ALMEIDA. em conformidade com a Convenção Americana de Direitos Humanos. cit. Trata-se da Convenção Interamericana para Prevenir. f ) o direito de acesso às informações e aos meios para desfrutar do mais alto padrão de saúde sexual e g) o direito a fruir do progresso científico e a consentir livremente à experimentação. comumente denominada Convenção do Belém do Pará. tortura. maus-tratos. a qual concebe especificidade a tal violência baseada no gênero. tanto na esfera pública (ocorrida na comunidade). Direitos Humanos e nãoviolência. 247. tráfico de mulheres. Guilherme Assis de. caso não o fosse. seqüestro e assédio sexual. O continente americano desponta na criação de uma convenção regional específica e vinculante para o combate de tal forma de violência. sem sofrer discriminação. 125 FGV DIREITO rio 107 . (II) p. Importante passo foi o estabelecimento do mecanismo de petições individuais a serem apresentadas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. tendo o Congresso Nacional a aprovado mediante o Decreto Legislativo no. p. coação ou violência. prostituição forçada. c) o direito a viver livremente sua orientação sexual. abuso sexual. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. entre outras formas. por isso.. a ONU adotou a Declaração sobre a Eliminação da Violência contra a Mulher. e d) relacionar os tipos de violências possíveis sem ser taxativa: estupro. de 01 de setembro de 1995 e o Presidente a ratificado em 27 de novembro de 1995. Tal convenção foi assinada pelo Brasil em 09 de junho de 1994. alguns entendem que esta estaria incluída no conceito geral de discriminação. a violência não ocorreria. Por sua vez.áo sexual. em outras palavras. O Brasil foi o primeiro Estado a ser acionado perante a Comissão por desrespeito à Convenção do Belém do Pará: tratase mais especificamente do caso Maria da Penha Fernandes. destaca-se o envio de relatórios periódicos à Comissão Interamericana de Mulheres (CIM). 107. F.direitos humanos controle sobre o seu próprio corpo. São Paulo: Atlas. 2001.” 124 Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher Por mais que a Convenção de 1979 não faça menção expressa à violência doméstica e familiar contra a mulher. a Convenção inova ao: “a) introduzir o conceito de violência baseada no gênero. o que rompe com a tradicional separação entre o espaço público e privado. e) o direito à privacidade.”125 Dentre as diversas obrigações assumidas pela ratificação. c) ampliar o âmbito de aplicação dos direitos humanos.

2003. Alice (org. PIOVESAN. item “g”). Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Petrópolis: editora Vozes. Legislação: Constituição Federal de 1988 Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher e seu Protocolo Facultativo Convenção de Belém do Pará FGV DIREITO rio 108 . 194-202 (Cap.. Brasília: AGENDE. Flávia “Os direitos humanos da mulher na Ordem Internacional”. 2001. item V. em outras palavras: subsídios para capacitação de mulheres e organizações. pp. Mulher objeto de cama e mesa. 2002. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. Flávia. 26a edição.. São Paulo: Max Limonad. São Paulo: Max Limonad. (Cap. Heloneida. 1999. Flávia. 2002. 5). Tratado de direito internacional dos direitos humanos. In: PIOVESAN. Volume II. 316-318. PIOVESAN. Temas de Direitos Humanos.). Leitura acessória: LIBARDONI. STUDART. Direitos Humanos das mulheres. Antônio Augusto. pp.direitos humanos MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. n. VI. XIII.

de 13 de julho de 1990. foram aprovados pela Assembléia Geral. da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente. à criança. à educação. o direito à vida. ambos assinados pelo Brasil em 2000. como regra geral. além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência. crueldade e opressão. à dignidade. Prostituição e Pornografia Infantis e o Protocolo Facultativo sobre o Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados. É dever da família. Não há previsão da sistemática de comunicações interestatais e de petições individuais. de designar a denominação de criança aos seres FGV DIREITO rio 109 . que criança é o ser humano com menos de 18 anos de idade. o ECA constitui um marco na normatização de direitos no Brasil. à profissionalização. clara tanto na Constituição Federal quanto no ECA. com absoluta prioridade. o interessa maior da criança. primordialmente. à liberdade e à convivência familiar e comunitária. à alimentação. a Convenção estabelece um princípio regedor de toda a normativa protetiva: o melhor interesse da criança: Artigo 3 1. ao adolescente e ao idoso. Cumpre ao professor ressaltar a opção brasileira. Abrangendo tanto direitos civis e políticos quanto direitos econômicos. a Convenção estabelece. o qual recebe relatórios periódicos dos Estados. deverá subisidiar e integrar a apresentação do grupo. No âmbito interno. Todas as ações relativas às crianças. ao respeito. violência. Tendo em vista o zelo por determinadas questões que afligem crianças em todo o mundo.069.direitos humanos Aula 17: Direitos Humanos e a questão da criança e do adolescente NOTA AO ALUNO A Convenção sobre os Direitos da Criança. como estabeleceu a proteção da criança e do adolescente como prioridade absoluta: Art. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). exploração. Além de enumerar direitos específicos à criança. Não somente reservou um capítulo à família. o constituinte já havia consolidado no Texto Constitucional todo o debate acerca da necessidade de uma proteção especial às crianças e aos adolescentes. 227. devem considerar. à saúde. Lei n. levadas a efeito por autoridades administrativas ou órgão legislativos. à cultura. sociais e culturais. 8. adotada em 1989 e vigente desde 1990 é o tratado de direitos humanos que mais se aproxima da ratificação universal. discriminação. Considerado um dos documentos que melhor espelha os direitos elencados na Declaração sobre os Direitos da Criança. a Convenção estabeleceu ainda o Comitê sobre os Direitos da Criança. Para o monitoramento das obrigações. dois Protocolos: o Protocolo Facultativo sobre a Venda de Crianças. em 25 de maio. ao lazer.

Ressalte-se. tendo duração variável (dias.html. Todavia.br/denunciar/tortura/textos/nilton. uma vez que predomina na família a “lei do silêncio”128. trata-se de uma conquista recente. mais conhecido como violência doméstica. podendo. anos). tendo total liberdade para aplicá-lo o castigo que julgasse pertinente. CP – Expor a perigo a vida ou a saúde de pessoa sob sua autoridade. 136. por oportuno. havendo denominação até de pátrio-dever”127. Ao entrar em vigor. não há que se falar em melhor interesse da criança. já que esta. No primitivo direito romano. o pai tinha poder disciplinar absoluto em relação ao filho. o ECA revogou o Código de Menores. instituído no interesse dos filhos e da família. § 1º – Se do fato resulta lesão corporal de natureza grave: Pena – reclusão. Implementou a Doutrina Jurídica da Proteção Integral (art. não sendo mais considerada como mera extensão da família. a desestruturação da família pode levar a atos violentos e agressivos contra a criança e o adolescente. que está diretamente ligada à evolução histórica do conceito de pátrio poder. especificamente. 136. ‘derrubando’ tal nomenclatura e adequando o ordenamento jurídico nacional aos imperativos internacionais e constitucionais. conforme arts. Isto porque em uma sociedade na qual o pai tem poder ilimitado em relação ao filho. matá-lo126. tal como o Conselho Tutelar. que se exterioriza como abuso de poder disciplinar e de correção. Sendo assim. Dispõe o art.org. Discutir a aplicação das normas internacionais e internas exige o recorte de algumas situações que poderão ser abordadas pelo grupo: Maus tratos: muito embora vigore hoje em dia o princípio do melhor interesse da criança. FGV DIREITO rio 110 . Foi apenas com o cristianismo e com o desenvolvimento da sociedade que se foi exigindo moderação no uso do poder disciplinar. possibilitando a convivência do princípio do melhor interesse com a figura do pátrio poder. quer sujeitando-a a trabalho excessivo ou inadequado. de um a quatro anos. do Código Penal (CP): Art. tratamento ou custódia.direitos humanos humanos até 12 anos incompletos e de adolescente para a idade entre 13 e 18 anos incompletos. Em relação aos maus tratos. 13 e 245 do ECA. que precisa de proteção especial em virtude de ser uma pessoa em desenvolvimento. de dois meses a um ano. quer privando-a de alimentação ou cuidados indispensáveis. designando uma nova condição jurídica à criança e ao adolescente: passa a ser sujeito de direitos. cumpre salientar em primeiro lugar sua configuração como crime. 126 127 128 Idem. inclusive. os meios de disciplina e correção não são mais absolutos. “Hoje. 1º). não tem “voz”. dhnet. guarda ou vigilância. de quatro a doze anos. igual em dignidade e respeito a todo adulto. § 2º – Se resulta a morte: Pena – reclusão. que todos os cidadãos têm o dever de denunciar os casos de maus tratos de que tenha conhecimento aos Conselhos Tutelares de sua localização. quer abusando de meios de correção ou disciplina: Pena – detenção. Disponível em: http://www. nesse contexto. Acesso em: 01 maio 2004. ou multa. o pátrio poder é encarado como complexo de deveres em relação aos pais. ensino. meses. Idem. para fim de educação. Tais violações não são levadas ao conhecimento de agências oficiais de proteção.

br/noticia. e sujeito passivo a criança ou adolescente que. Os maus tratos contra criança e adolescente são difíceis de serem identificados em virtude de uma série de fatores. cerebromente. A Corte Interamericana de Direitos Humanos manifestou-se sobre o tema no contexto da Opinião Consultiva n. (ii) a autoria das agressões se distribui da seguinte forma: mãe – 43%. 12 da Convenção sobre os Direitos da Criança possibilita a oitiva da criança nos processos judiciais ou no âmbito administrativo. Entre os motivos para a falta de dados a respeito. tem-se a predominância da “lei do silêncio”. a atuação dos Conselhos Tutelares129. conforme seja adequado.º do art. Como exemplo de maus tratos. Para a configuração do crime. Participação de crianças e adolescentes em processos administrativos e judiciais: o art. Tânia da Silva Pereira enumera algumas condições objetivas que podem contribuir para o exercício deste direito de ser ouvido: Acesso em: 01 maio 2004. por conseguinte. seja no judicial. Apesar da falta de dados nacionais a respeito. na determinação dos seus direitos. deverá levar em conta as condições específicas do menor e seu interesse superior a fim de ajustar a participação deste.php. é necessário ainda mais um elemento: expor a perigo a vida ou a saúde da criança ou do adolescente. se o crime é praticado contra pessoa menor de 14 (catorze) anos. desorganização familiar – 30%. Sugere-se a leitura de seu inteiro teor. Paralelamente o § 1. salientem-se dados de 1996 sobre São Paulo130: (i) a maior incidência de maus tratos ocorre contra crianças na faixa etária de 0 a 6 anos – 60%.br/n04/doenca/infancia/persona. o aplicador do direito. 129 Acesso em: 01 maio 2004. Nesse sentido. distúrbios psiquiátricos – 10%. uma vez que esse tribunal estabelece parâmetros a serem observados pelos Estados-partes da Convenção Americana de Direitos Humanos a respeito dos direitos da criança e do adolescente. na análise de seu próprio caso.org. 19. 28 e ao art.” Diante da inexistência de regras claras sobre a ponderação do melhor interesse da criança em face de processos administrativos e judiciais. Disponível em: http://www. é sujeito ativo do crime os pais ou responsáveis pela guarda ou vigilância da vítima. dentre os quais a inexistência de dados confiáveis sobre a ocorrência dos mesmos no lar familiar no brasileiro. responsáveis – 14%. na medida do possível.direitos humanos § 3º – Aumenta-se a pena de um terço. (iii) as principais causas são: alcoolismo – 50%. distúrbios de comportamento – 10%.htm. “102. seja no âmbito administrativo. destaquem-se: o pai ou responsável que coloca o menor de joelhos por longo tempo a ponto de colocar em perigo a saúde da vítima.org. 45 do ECA referem-se expressamente a hipóteses em que a criança e o adolescente devem ser ouvidos. Com esta consideração. Em conclusão. procurar-se-á o maior acesso do menor. for submetido a um dos tratamentos estabelecidos no artigo acima. o pai ou responsável que dá pimenta-do-reino à criança como forma de castigo. mãe e pai – 10%. bem como as seqüelas deixadas na criança e no adolescente que os impossibilitam de denunciar: a vítima não fala e não anda131. 130 131 Idem. Disponível em: http://www.redeamiga. pai – 33%. tornando difícil. na qualidade de filho ou sob custódia ou vigilância. FGV DIREITO rio 111 .

tal depoimento nunca deverá ser prestado na presença dos pais. O melhor interesse da criança: um debate interdisciplinar. e c) determinam a especial gravidade das práticas sistêmicas de violência contra crianças e adolescentes em situação de risco. p.”132 “Meninos de Rua”: uma terceira sugestão de assunto a ser abordado pelo grupo trata dos meninos de rua. 8. tortura e assassinato de ‘menores’ e omissão dos mecanismos do Estado guatemalteco em oferecer o acesso à justiça aos familiares das vítimas. permitindo-lhe expressar seus interesses e conflitos com maior liberdade. político e econômico. de 19 de novembro de 1999. Cançado Trindade e A. FGV DIREITO rio 112 . a palavra da criança e do adolescente. Adaptar os procedimentos com vistas a garantir a manifestação autêntica da vontade da criança ou do adolescente. Sugere-se que o debate ocorra tendo como ponto de partida a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos referente ao caso Villagrán Morales e Outros versus Guatemala. b) destaca a indivisibilidade dos direitos civis e políticos e os direitos econômicos. evitando situações de angústia e linguagens técnicas incompreensíveis. 6. como foi no passado. 31. Não forçá-los a se exprimirem ou se manifestarem caso não estiverem preparados. Abreu Burelli: “3. realidade cada vez mais presente nas grandes cidades brasileiras. Evitar a convocação da criança e do adolescente como testemunha de um dos pais contra o outro. Tânia. Criar condições que facilitem a expressão espontânea da criança. O direito à vida não pode continuar sendo concebido restritivamente. 2000. A decisão constitui um marco na proteção da criança e do adolescente em todo o continente. Rio de Janeiro: Renovar. de 26 de maio de 2001. Convocá-los a participar dos procedimentos de mediação familiar destinados a solucionar conflitos que envolvam sua pessoa e seus interesses.A. de maneira apropriada. constante do Voto concorrente Conjunto dos Juízes A. 3. Favorecer a intervenção de profissionais especializados que possam interpretar. sua oitiva deve representar uma forma de expressar sua opinião e preferência sobre a situação conflitante.direitos humanos “1. Assumir a “Curadoria Especial” como a alternativa de interferir nos procedimentos para fazer valer os direitos de seu representado. Cumpre destacar ainda a sentença de reparações. Fornecer à criança e ao jovem todas as informações relativas à sua situação e ao assunto sobre o qual deverá emitir sua opinião . Considerar seus sentimentos e pensamentos na solução dos conflitos que lhes digam respeito. Tal ponto retoma a discussão travada na Aula 1. ou “Niños de la Calle”. por ocasião do filme Ônibus 174. 9. referido apenas à proibição da privação arbitrária da vida física. uma vez que: a) enfatiza a peculiaridade de tais sujeitos no aspecto jurídico. 4. 5. Cabe destaque a seguinte passagem. sociais e culturais. Cremos que há diversos modos de privar uma pessoa arbitrariamente da vida: quando é 132 SILVA PEREIRA. 7. assim como no social. Trata-se de caso de seqüestro. 2.

MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. In: PIOVESAN. Villagrán Morales vs. 2000. SILVA PEREIRA.). a qual transferiu o Rio de Janeiro do noticiário internacional de turismo para o de violação de direitos humanos. assim como quando não se evitam as circunstâncias que igualmente conduzem à morte de pessoas como no cas d’espèce. os meninos vitimados já se encontravam privados de criar e desenvolver um projeto de vida e de procurar um sentido para sua própria existência. atinente à morte de meninos por agentes policias do Estado.”134 O estudo de tal decisão apresenta semelhanças intransponíveis com o caso da Chacina da Candelária. 2002. Guatemala. há a circunstância agravante de que a vida dos meninos já carecida de qualquer sentido. 277-297. No presente caso Villagrán Morales versus Guatemala. Direito Internacional dos Direitos Humanos. Cláudia (orgs. quer dizer. Temas de Direitos Humanos. Guilherme de.or.direitos humanos provocada sua morte diretamente pelo fato do homicídio. Rio de Janeiro: Renovar. pp. Voto concorrente Conjunto dos Juízes A. Disponível em: http://www.cr/seriec/index_ c. Wilson Ricardo Buquetti. Legislação: Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança Constituição Federal Estatuto da Criança e do Adolescente Acesso em: 04 julho 2005. São Paulo: Atlas. e PERRONE-MOISÉS. Cançado Trindade e A. “Convenção dos Direitos da Criança”. 17. O melhor interesse da criança:um debate interdisciplinar. Flávia. DELLORE. 2003. de 1990. 134 FGV DIREITO rio 113 .corteidh. Tânia. São Paulo: Max Limonad.or. de 28 de agosto de 2002 (www. Flávia. “Os direitos humanos das crianças e dos adolescentes no direito internacional e no direito interno”.cr). corteidh. Maria Beatriz Pennachi. Abreu Burelli.html. 76-86.A. In: ALMEIDA. Leitura acessória: Corte Interamericana de Direitos Humanos. Opinião Consultiva n. pp. e PIROTTA.

o artigo 1.direitos humanos Aula 18: Os direitos humanos sob a perspectiva racial NOTA AO ALUNO A Aula 18 destina-se à continuidade do estudo do processo de especificação do sujeito. A Convenção dispõe de 3 mecanismos de monitoramento: apresentação de relatórios. econômico. Para a coordenação de tais mecanismos. discriminação racial significa toda distinção. dentre os quais se encontra hoje o brasileiro Embaixador Lindgren Alves. descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto ou resultado anular ou restringir o reconhecimento. Ao ratificar a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial. inerente ao campo da política internacional. os Estados partes comprometem-se a uma dupla obrigação: eliminar as formas constantes de discriminação e promover a igualdade. cor. Em 1978 e 1983. a Declaração contra a Discriminação Racial (1963) foi um dos primeiros documentos da ONU a retratar a especificação do sujeito. conforme resoluFGV DIREITO rio 114 .1 estabelece a conformidade das medidas de discriminação positiva: não serão consideradas discriminação racial as medidas especiais tomadas com o único objetivo de assegurar o progresso adequado de certos grupos raciais ou étnicos ou de indivíduos que necessitem da proteção que possa ser necessária para proporcionar a tias grupos ou indivíduos igual gozo ou exercício de direitos humanos e liberdades fundamentais. Trata-se de um exemplo de implementação do power of embarrasment. é importante compreender discriminação como aquela que viola direitos. restrição ou preferência baseada em raça. contanto que tais medidas não conduzam. social. No âmbito global. em seu artigo 8o. os Estados reuniram-se em duas conferências de reduzida repercussão na sede a própria ONU. exclusão. logo seguida pela Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial. Este é composto por 18 peritos. in casu étnico-cultural. em conseqüência. da Convenção. o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação Racial (CERD). Por outro lado. O CERD emite recomendações no sentido de melhor orientar atuação estatal. gozo ou exercício em um mesmo plano (em igualdade de condição) de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político. Para que não haja contradição entre esses termos. estando seu cumprimento condicionado à adesão voluntária. a Convenção criou o seu treaty body. comunicações interestatais e comunicações individuais. destacando-se perspectiva racial. De acordo com o artigo 1o. eleitos pelos Estados-partes a título pessoal. promulgada em 1965 e que passa a vigorar em 1969. à manutenção de direitos separados para diferentes grupos raciais e não prossigam após terem sido alcançados os seus objetivos. ambas realizadas durante a Primeira Década de Combate ao Racismo e à Discriminação Racial iniciada em 1973. cultural ou em qualquer outro campo da vida pública. excluindo do campo das medidas reprovadas pela Convenção as que promovem a discriminação positiva.

José Augusto Lindgren. Vítimas de racismo. segundo definidas pelo Art. inclusive por meio da cooperação internacional e do fortalecimento das Nações Unidas e outros mecanismos internacionais para o combate ao racismo. juntamente com as teorias que tentam determinar a existência de raças humanas distintas [. defenderam a definição ALVES. Dentre os temas escalados para a discussão. p. 135 136 Ibid. e b) as reparações devida pelo regime colonial. 124. à xenofobia e à intolerância correlata. Todavia. restou no texto menção ao fato de que os Estados da União Européia rechaçam firmemente qualquer doutrina que proclame a superioridade racial. denominada Conferência Mundial de Combate ao Racismo. Dentre as polêmicas que permearam o encontro.. simbolicamente em pleno solo sul-africano. no contexto desse período. Todavia. outras polêmicas conduziram a conferência ao risco de esvaziamento. FGV DIREITO rio 115 . “A conferência de Durban contra o racismo e a responsabilidade de todos”. que ainda existem em todo o mundo.135 Nesse primeiro fórum de direitos humanos do século XXI. Provisão de remédios efetivos. nem negação das manifestações de racismo e discriminação racial. Discriminação Racial. Países Africanos e asiáticos. correção. regional e internacional. não restando energia para o debate acerca de outras formas de racismo.] Isto não implica negação do conceito de raça como motivo de discriminação. da discriminação racial. na cidade de Durban. Xenofobia e Discriminações Correlatas. temos: • • • • • Fontes.136 A complexidade dos temas tratados não afasta o impasse mesmo em questões essenciais como a existência ou não de raças.300 delegados oficiais de 163 países. 137. regional e internacional. p. a afirmação das diferenças culturais protagonizou o debate sobre a tolerância e o enfrentamento à discriminação. educação e proteção voltadas para a erradicação do racismo. 58 ministros de Relações Exteriores e 44 ministros de outras pastas e quase 4 mil representantes de organizações não-governamentais reuniram-se para a Terceira Conferência. 2. à discriminação racial. xenofobia e intolerância correlata. formas e manifestações contemporâneas de racismo. poderia colocar em risco a razão mesma da Conferência. com o apoio do Brasil. assim como o acompanhamento de sua implementação. qualquer foro multilateral acabaria por centrar todas as atenções no regime do apartheid da África do Sul. caso esgarçadas ao extremo. vingou o posicionamento da ONU. destacam-se: a) a identificação do sionismo como uma forma de racismo. São Paulo: Perspectiva. 2005. assim como dos tratados que condenam práticas racistas. In: Os direitos humanos na pós-modernidade. dentre eles 16 chefes de Estado ou de Governo.. 1o da Convenção (de 1965). da xenofobia e da intolerância correlata nos níveis nacional. discriminação racial.. é claro que. O argumento trazido à baila por certas delegações européias. De qualquer forma. discriminação racial. causas.direitos humanos ção da Assembléia Geral. Em 2001. assim como medidas [compensatórias] e de outra ordem nos níveis nacional. recursos. apesar dessa equiparação já ter sido afastada pela própria ONU desde 1991: no acirramento das discussões entre Israel e países árabes. xenofobia e intolerância correlata. Estratégias para alcançar a igualdade plena e efetiva. Medidas de prevenção. sepultado em 1994 com a posse do Nelson Mandela.

Ingrid. um progresso com relação à conferências de 1978 e 1983. numa situação internacional que. porém. havendo já apresentado. “Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965)” In: ALMEIDA. op. como se não bastasse a doxa econômica neoliberal (para falar com Bourdieu) avessa a preocupações sócias. O simples fato de ela ter tido seus documentos finais adotados sem voto (a votação havida. no sentido do identificar. foi para rejeitar a reapresentação extemporânea de propostas superadas) representa. 2002. ensejando posicionamento contrário por parte dos Estados Unidos e União Européia. J. FGV DIREITO rio 116 .”138 Mais além do exame dos principais tratados que se referem aos direitos humanos sob a perspectiva racial. já se mostrava cada dia menos favorável ao multilateralismo e à diplomacia parlamentar. Crime de racismo 137 CYFER. Muito mais do que isso. em condições tão adversas.A. 35. L. a diplomacia brasileira achou por bem a retira da proposta nas duas ocasiões. os países em desenvolvimento conseguiram a manifestação da Conferência no sentido de que injustiças históricas constituíram a raiz para a pobreza e o subdesenvolvimento. particularmente para o combate ao racismo estrutural. p. p. Guilherme de. posicionamento esse que implicaria em compensações. internamente ou em ações internacionais.137 Importante ressaltar que foi em Durban que se manifestaram expressamente alguns países. Estes podem ser utilizados como guias à atuação dos Estados. Instrumentos básicos. ou como instrumento semijurídico para cobranças das sociedades aos governos. transferência de tecnologia. é importante ressaltar alguns temas específicos que poderão ser tratados com mais detalhe pelo grupo responsável pelo Seminário da Aula 18. fato esse que justifica a implementação de metas internacionais baseadas no alívio das dívidas externas. Ao considerar mais traumática a derrota de tal proposta que a não submissão ao voto. foi compactuada a utilização da expressão ‘lamento’ no lugar de ‘desculpas’ pelos fatos do passado. cit. a Constituição Federal estabeleceu entre os direitos e garantias fundamentais que: ALVES. etc. liderados pelo Brasil. ativo participante nos trabalhos de Durban: “a verdade é que Durban foi a melhor conferência que se poderia realizar sobre temas tão abrangentes. erradicação da pobreza.). São Paulo: Atlas. resoluções no âmbito da Comissão de Direitos Humanos da ONU que classificam a discriminação por orientação sexual como uma violação de direitos humanos. Como sintetiza Lindgren Alves. questões referentes à discriminação por orientação sexual. os documentos de Durban trazem novos conceitos e compromissos importantes. mudança essa que expressa arrependimento sem acarretar responsabilização internacional. o Brasil tem capitaneado liderança nos foros internacionais. Por outro lado. Direito Internacional dos Direitos Humanos. 139. e PERRONE-MOISÉS. nos casos de intolerância correlata. 138 Em consonância com os parâmetros delineados pela Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Eliminação do Racismo. A partir de então. como já dito. é sempre bom lembrar.direitos humanos da escravidão como crime contra a humanidade. Por um lado. nos anos de 2003 e 2004. Cláudia (orgs. A tensão do debate conduziu a um termo de compromisso no esforço de não esvaziamento da reunião.

Talvez pela rigidez com que é tratado o crime de racismo. sujeito à pena de reclusão. religião ou origem. a iniciativa legislativa não significou necessariamente seu acatamento por parte da jurisprudência. Além do exame perante os tribunais nacionais – Tribunal de Justiça. desclassificando a conduta para um dos crimes contra a honra. que consista em outra injúria. aos crimes definidos como hediondos e à ação armada contra o Estado Democrático de Direito.direitos humanos Art.716. Importante ressaltar a maneira com que o constituinte admitiu o crime de racismo. além da pena correspondente à violência. § 2º Se a injúria consiste em violência ou vias de fato. ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro: Pena – detenção. de 1(um) a 6 (seis) meses. Em uma análise sistêmica (artigo 5º. FGV DIREITO rio 117 . incisos XLIII e XLIV). provocou diretamente a injúria. Incentiva-se a leitura dessa lei. II – no caso de retorsão imediata. que . persiste a resistência por parte dos órgãos do Ministério Público e do Judiciário em estabelecer a responsabilidade penal pelo crime de racismo. de 05 de janeiro de 1989. Superior Tribunal de Justiça e Supremo Tribunal Federal – e em instâncias internacionais sugere a dificuldade em se lidar com situações em que é considerado o elemento racial. o Decreto-lei nº 2848. De acordo com o Código Penal. nos termos da lei. 5º XLII – a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível. é possível afirmar o crime de racismo é comparado aos crimes de tortura. se considerem aviltantes: Pena – detenção. de forma reprovável. tendo-lhe atribuído características excepcionais como a inafiançabilidade e a imprescritibilidade. religião ou origem: Pena – reclusão de um a três anos e multa. etnia. § 3º Se a injúria consiste na utilização de elementos referente a raça. e multa. Todavia. estabeleceu os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. 140. cor. Populações remanescentes de quilombos Outro tema de fundamental importância quando se estuda direitos humanos sob a perspectiva racial no Brasil são as populações remanescentes de quilombos. por sua natureza ou pelo meio empregado. ou multa § 1º O juiz pode deixar de aplicar a pena: I – quando o ofendido. Injuriar alguém. tráfico de entorpecentes. de 07 de dezembro de 1940: Art. terrorismo. A pesquisa sobre decisões referentes ao crime de racismo e de injúria que tenha a utilização de elementos referentes à raça. a injúria. cor. a Lei nº 7. em especial das condutas consideradas típicas pelo legislador. de 3 (três) meses a 1 (um) ano. Tendo em vista o princípio da legalidade. etnia.

o Decreto n. reconhecimento. reconhecimento. notadamente durante o século XIX. à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. delimitação. formaram-se em todo o país centros de resistência para os quais se direcionavam escravos fugidos. em celebração ao Dia Nacional da Consciência Negra.) § 5o Ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos. com trajetória histórica própria.direitos humanos Como se sabe. segundo critérios de auto-atribuição. Tendo como pressuposto a formação multicultural brasileira. 4887. e procedimento: cabe à Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura a expedição de certidão referente à autodefinição. 68 Aos remanescentes das comunidades de quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva. a identificação. sem prejuízo da competência concorrente dos Estados. compete à Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida. demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos de que trata o art. os grupos étnico-raciais. devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos. tomados individualmente ou em conjunto. o qual regulamenta o procedimento para identificação. Por sua vez. cabe ressaltar: • definição: de acordo com o artigo 2o. Cabe especial atenção ao Ato das Disposições Constitucionais Transitórias: Art. nos quase se incluem: (. Dentre os pontos mais relevantes dessa normativa. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial. demarcação e titulação das terras. à ação. 216. A designação geográfica deu origem ao contorno sócio-cultural das populações remanescentes de quilombos.. do Distrito Federal e dos Municípios. da Presidência da República (SEPPIR/PR). cumpre ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA. no dia 20 de novembro de 2003. no processo FGV DIREITO rio 118 • . A Carta Constitucional criou assim uma titularidade coletiva de propriedade para aqueles que ocupam determinada terra e se reconhecem enquanto remanescentes de quilombos. A assinatura da Lei Áurea não trouxe mudança significativa para a vida de muitos brasileiros que já se viam engajados em um novo contexto social. Ainda. Foi precisamente nesse sentido que o Poder Executivo expediu.. delimitação. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. portadores de referência à identidade. dotados de relações territoriais específicas. a Constituição brasileira determinou que: Art. consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos.

a mídia passou a conceder espaço diário às supostas implicações que teria a aplicação de tais políticas no contexto social brasileiro. Trata-se de processo administrativo que visa precisamente à garantia de uma titularidade coletiva no contexto de um país multicultural. Nenhuma linha foi dedicada a tais políticas quando a Aula 18 referiu-se à importância da Conferência de Durban. Políticas de Ação Afirmativa Por mais que os alunos já tenham explorado o tema das Políticas de Ação Afirmativa no bojo da Disciplina Direito Constitucional I. notadamente após a edição do referido decreto. o qual prescreveu atribuições e procedimentos próprios. criando os seguintes novos artigos: Art. resgatando a FGV DIREITO rio 119 . trata-se de um tema inescapável quando se trata da perspectiva racial. a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional. 26 –A. a qual altera a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e inclui a matéria no currículo oficial da Rede de Ensino. Tal omissão não é por acaso. Em 09 de janeiro de 2003. oficiais e particulares. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio.direitos humanos de regularização fundiária.639. garantir os direitos étnicos e territoriais dos remanescentes das comunidades dos quilombos. foi inescapável a conquista de um lugar ao sol para tais medidas. tais políticas já vinham sendo lentamente desmontadas internamente. a implementação do estudo de História e Cultura Afro-brasileira deve ser entendida como um importante passo para a compreensão do Brasil como um Estado multi-étnico e multicultural.524/2000. foi sancionada a Lei nº 10. a intensa participação da sociedade civil brasileira nas conferências regionais e os mais de 200 ativistas nacionais que compareceram a Durban giraram os holofotes do debate nacional em direção às políticas de ação afirmativa. mais especificamente em atividade sobre a Lei Estadual do Rio de Janeiro nº 3. De forma inédita. a luta dos negros no Brasil. Alteração curricular Interpretada por alguns como política de ação afirmativa. censurada externamente pelos seus representantes. Por mais que tal debate tenha sido ofuscado pelos ataques terroristas às Torres Gêmeas de Nova Iorque. Ironicamente. torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura § 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos. sendo elas atacadas ou defendidas. e por conseqüência. Sob a administração de George Bush. O país que primeiro implementou tais políticas sabotou sua discussão durante o evento. Diversos quilombos já foram ou encontram-se em vias de regularização.

24-38. ao contrário. à sua identidade e a seus direitos. mas de ampliar o foco dos currículos escolares para a diversidade cultural. Instrumentos básicos. que proporciona diariamente. o Conselho Nacional de Educação manifesta no sentido de regulamentar as alterações advindas da Lei no.79-B. pp. de 10 de março de 2004139. Flávia. 2003. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como ‘Dia Nacional da Consciência Negra’. Direito de igualdade racial: aspectos constitucionais. É importante destacar que não se trata de mudar um foco etnocêntrico marcadamente de raiz européia por um africano. PIOVESAN. de 17 de junho de 2004. objetivos tácitos e explícitos da educação oferecida pelas escolas. também as contribuições histórico-culturais dos povos indígenas e dos descendentes de asiáticos. inclusive na formação de professores. Foram aqui expostos alguns temas relacionados à especificação do sujeito de direitos humanos sob a perspectiva racial.direitos humanos contribuição do povo negro nas áreas social. civis e penais: doutrina e jurisprudência. e PERRONEMOISÉS. “Implementação do Direito à Igualdade”. São Paulo: Perspectiva.639. homologado pelo Ministro da Educação em 19 de maio de 2004. reconhece-se que. Em Parecer nº 003/2004. É preciso ter clareza que o art. Temas de Direitos Humanos. “Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965)”. com fortes repercussões pedagógicas. pedagógicas.). In: ALMEIDA. Luciana. buscando repara danos. SILVA JR. sociais. capazes de constituir uma nação democrática. cabe ao Poder Público e à sociedade civil a luta para a promoção de uma sociedade sem discriminação. 113-140. uma vez que devem educar-se enquanto cidadãos atuantes no sei de uma sociedade multicultural e pluriétnica. São Paulo: Max Limonad. 2005.” 139 FGV DIREITO rio 120 . que se repetem há cinco séculos. é preciso valorizar devidamente a história e cultura de seu povo. Direito Internacional dos Direitos Humanos. Art. Tantos outros poderiam ser aqui apontados para o debate. Legislação: Constituição Federal de 1988 Indica o parecer que “a obrigatoriedade de inclusão de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nos currículos da Educação Básica trata-se de decisão política. pp. social e econômica brasileira. São Paulo: Atlas. Ingrid. 10. Hédio. Com essa medida. 191-203. editando assim a Resolução nº 1. José Augusto. cabe às escolas incluir no contexto dos estudos e atividades. Leitura acessória: CYFER. 26-A acrescido à Lei 9394/1996 provoca bem mais do que inclusão nos novos currículos. econômica e política pertinentes à História do Brasil. Priscila Kei. “A conferência de Durban contra o racismo e a responsabilidade de todos”. 2002. procedimentos de ensino. dizem respeito a todos os brasileiros. condições oferecidas para aprendizagem. O importante é perceber que. In: Os direitos humanos na pós-modernidade. A leitura de tais documentos torna-se importante na medida em que fundamentam razões e efeitos da modificação curricular. além de garantir vagas para negros nos bancos escolares. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira. pp. Nesta perspectiva. In: PIOVESAN. § 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar. muito além da discussão acerca da raça e os métodos para a sua designação. A relevância do estudo de temas decorrentes da história e cultura afro-brasileira e africana não se restringem à população negra. Cláudia (orgs. exige que se repensem relações étnico–raciais. racial. Flávia. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: PIOVESAN. LINDGREN ALVES. 2002. em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras. além das raízes africana e européia. Guilherme de. e SATO.

639/2003 (institui o estudo de História e Cultura Afro-brasileira) FGV DIREITO rio 121 .716/1989 (crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor) Lei nº 10.direitos humanos Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial Declaração e Plano de Ação de Durban Lei nº 7.

em 1989. Os treaty bodies são criados no intuito de possibilitar o monitoramento dos tratados de direitos humanos. Não obstante ter sido o primeiro marco protetivo dos direitos indígenas no panorama internacional. ainda não há prazo para a conclusão do documento. sobretudo pelo aumento da participação indígena na vida política. poderá examinar a especificidade da questão indígena. Em 1957. Cabe destaque ainda à jurisprudência da Corte 140 Campaña educativa sobre derechos humanos y derechos indígenas: módulos temáticos. a referida convenção refletiu visão dominante nesse período caracterizada pelo protecionismo estatal e pelo assimilacionismo. 2003. a Comissão de Direitos Humanos estabeleceu um Grupo de Trabalho aberto para elaborar um projeto de declaração. educação e participação. 3) Organização dos Estados Americanos: tanto a Convenção Americana de Direitos Humanos quanto o Protocolo de San Salvador guardam artigos que são de especial interesse dos povos indígenas. San José: Instituto Interamericano de Derechos Humanos. Já realizadas 5 reuniões de trabalho. saúde. a OIT examina casos de trabalho forçado a que são submetidos povos indígenas. a Convenção nº 169 deverá permear toda a aula. é aprovada a Convenção 169141. ao examinarem relatório enviado pelo Estado-parte.000 cidadãos indígenas. Aos povos indígenas são garantidos direitos específicos. 141 FGV DIREITO rio 122 . o Conselho Econômico e Social criou o Grupo de Trabalho sobre Populações Indígenas.140 2) Organização Internacional do Trabalho: desde o início do século XX. ou ao receber denúncias individuais ou interestatais – se for o caso. a qual descredencia qualquer visão integracionista e explicita direitos fundamentais dos povos indígenas como a terra. correspondente a 11% do território nacional – sendo que 95% das terras se concentram na Amazônia. tão fundamental ao exercício dos demais direitos. Cumpre registrar que a ausência de um tratado específico não significa a negativa de proteção dos direitos dos povos indígenas.shtm#ti. Por sua vez. a Conferência-Geral editou a Convenção nº 107 sobre populações indígenas e outras populações tribais e semitribais nos países independentes.direitos humanos Aula 19: Direitos Humanos e a questão indígena NOTA AO ALUNO Há. em torno de 330. Acesso em: 10 março 2005. Tendo em vista a peculiaridade do tema para o continente americano. pp.org/pib/portugues/direito/ conv169. formado por cinco expertos independentes que são membros da Subcomissão de Promoção e Proteção dos Direitos Humanos (Subcomissão). A Declaração de Viena de 1993 estabeleceu o compromisso dos Estados em respeitar os direitos humanos e liberdades fundamentais dos povos indígenas. no Brasil. encontra-se em processo de elaboração o Projeto de Declaração Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas. tendo em vista sua extrema importância para o tema. referente aos Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes.socioambiental. Em março de 1995. O conhecimento de seus direitos. população essa configurada por mais de 170 línguas. Disponível em: http://www. em cada um dos âmbitos de proteção: 1) Organização das Nações Unidas: em 1982. 41-49. Promulgada em 19 de abril de 2004. cujos trabalhos ainda não foram encerrados. Convenção 169 da OIT. ocorrida a última em fevereiro de 2005. possibilitou-lhes a reivindicação de terra.

a saber: 1a) serem por eles habitadas em caráter permanente. “Terras tradicionalmente ocupadas pelos índios”. corteidh.”143 316 . 3a) serem imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar. acesse o site do Conselho Indígena de Roraima. por isso. o tribunal reconheceu os costume indígena como fonte de direito. “fundado em quatro condições. costumes e tradições. cerimonial e comercial – gundo o modo de ser deles. a visão do bem-estar do nosso gosto. Roraima. Surumú e a fronteira com a Venezuela. 4a) serem necessárias à reprodução física e cultural. modo de utilização. (iii) a base do conceito de terras tradicionalmente ocupadas pelos índios encontra-se no artigo 231.asp. que tem estabelecido. indisponível e imprescritível. 4) Constituição Federal: a proteção aos índios pode ser considerada um dos pontos mais difíceis e controvertidos do trabalho do constituinte. 318 Dados gerais É a habitação ancestral dos povos Macuxi. 143 144 Para maiores informações. Porto Alegre: Núcleo de Direitos Indígenas e Sergio Antonio Fabris Editor.cr/seriec/index_ c. poderá auxiliar na condução desse ponto específico: Terra Indígena Raposa Serra do Sol144 Terra Indígena Raposa Serra do Sol317 145 Acesso em: 01 julho 2005. os quais possuem direitos originários sobre a terra e. Acesso em: 10 março 2005. o caso da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Suriname142. da cultura deles. Tem uma população estimada em 15.or. Disponível em: http://www. p. Localiza-se a nordeste do Estado de socioambiental. ou qualquer das condições ou termos que as compõem. atividade produtiva. segundo a visão civilizada. No caso Aloeboetoe vs. de sorte que não se vai tentar definir o que é habitação permanente. XI CF). com as populações vizinhas ressalte-se Nesse contexto normativo. Wapichana. Objetivo Homologação da área contínua. (c) o caso Raposa Serratêm do Sol o quadro.000 habitantes. tudo segundo seus usos.org/nsa/ detalhe?id=1886. celebram relações de várias naturezas – matrimonial.html. Taurepang e Patamona. 47.cir.org. Maú. (ii) tal propriedade é vinculada à posse permanente dos índios. em especial a organização das famílias. a propriedade é inalienável. 1993. 142 SILVA. a visão do modo de produção capitalista ou socialista. mas seexemplo. importante contribuição para o fortalecimento dos direitos dos povos indígenas. com vistas ao pagamento de indenizações.br/raposaserradosol. 145 Acesso em: 10 março 2005. FGV DIREITO rio 123 . In: Os direitos indígenas e a Constituição. todas necessárias e nenhuma suficiente sozinha. 2a) serem por eles utilizadas para suas atividades produtivas. Miang. uma vez que retrata de forma bem clara a luta pelo reconhecimento da terra e os obstáculos que os índios que: ultrapassar nesse caminho. entre os rios Tacutu. Ingarikó.direitos humanos Interamericana de Direitos Humanos. Cabem aqui algumas considerações: (i) as terras indígenas são consideradas bens da União (artigo 20. Disponível em: http://www. abaixo. ao longo dos anos. José Afonso. Disponível em: http://www. parágrafo 1o.

Em 15. Homologação da área contínua. de 13 de abril de 2005 – Define os limites da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. A decisão liminar atendeu a uma Ação Cautelar ajuizada pelo senador Mozarildo Cavalcanti (PPS-RR) e. Disponível em: http://ef.05. No dia 27 de novembro de 2002. Acesso em: 30 abril 2005. Ingarikó. op. argumentando os direitos de ir e vir dos moradores nos referidos núcleos. FGV DIREITO rio 124 . brasiloeste.br/guia3/detalhes. O caso no STF Acesso em: 10 março 2005. Art. Trata-se de uma campanha do Conselho Indígena de Roraima (CIR) em parceria com Rainforest Foundation para pressionar o Governo Federal a homologar a terra.05. devido à edição de uma nova portaria do Ministério. conforme dispõe a Lei 6. o STF “julgou prejudicadas as ações judiciais ‘pela perda do objeto’.com. org. 147 148 Portaria n. A luta Respaldo legal Portaria n.775/1996. de n° 534148. destacamse: (i) criação do município de Uiramutã. cit. Miang. Em 03. 231. (iii) incentivo a Ongs para a divisão do território entre as comunidades. entre os rios Tacutu. Disponível em: http://www. Convenção 169 da OIT Assinada pelo ex ministro da Justiça Renan Calheiros: declarou ser a Terra Indígena Raposa Serra do Sol posse tradicional permanente dos povos indígenas Ingarikó. 534. alvo da contestação”149. cfm?id=157084&tipo=7&cat_ id=92&subcat_id=1.br/noticia/1363/stf-raposa-serra-dosol. assim. O Governo do Estado de Roraima impetrou no STJ Mandado de Segurança (n° 6. Concedida Liminar Parcial ao Mandado de Segurança: o ministro relator Aldir Passarinho suspendeu os efeitos da portaria quanto aos núcleos urbanos e rurais instalados antes da sua expedição. Wapixana e Taurepang. dentro das terras Raposa Serra do Sol.gov. Solicitam que todos mandem uma caneta para o presidente Lula. “Se só for preciso uma canetada.2005. Trata-se de ato administrativo de competência do presidente da República. a fim de anular a Portaria declaratória. Surumú e a fronteira com a Venezuela. Macuxi. excluindo da área as instalações do 6º Pelotão Especial de Fronteias e reconhecendo a unidade administrativa municipal de Uiramutã.2005. o processo extinto sem julgamento do mérito e a liminar parcialmente revogada. juntamente com uma carta requerendo a homologação. Fixou a dimensão e limite da área. em 1995. Em 14. 7º.01.amazonia. Tem uma população estimada em 15. 149 150 Idem.210). o presidente Lula assinou decreto homologando a área indígena Raposa Serra do Sol de forma contínua150. Art. justica. htm. voltou a impedir a homologação em área contínua da terra indígena.direitos humanos Dados gerais Objetivo É a habitação ancestral dos povos Macuxi. As comunidades indígenas lutam há mais de 30 anos pelo reconhecimento definitivo da terra aos seus legítimos habitantes. com pedido de liminar contra o Ministério da Justiça.000 habitantes. o Mandado de Segurança foi rejeitado pelos juizes do Superior Tribunal de Justiça. (ii) criação do Parque Nacional Monte de Roraima e do 6º Pelotão Especial de Fronteiras do Exército Brasileiro. Dentre os empecilhos criados pelo Governo Estadual para impedir a homologação da terra contínua. alterando o que estava disposto no ato normativo anterior. Disponível em: http://www. CF. Localiza-se a nordeste do Estado de Roraima. Wapichana. Maú.br/noticias/2005/ Abril/rls150405homologacao. a ministra do STF Ellen Gracie suspendeu a Portaria 820/ 98 do Ministério da Justiça147.001/1973 e o Decreto 1. que poderá fazê-lo por meio de um decreto.2005. que não seja por falta de caneta!”146. É uma fase do procedimento demarcatório das terras indígenas. Homologação da terra Acesso em: 30 abril 2005. 820 de 11/12/98 Ação judicial Homologação de Raposa Serra do Sol A campanha 146 Conselho Indígena de Roraima. Taurepang e Patamona.

SILVA. e enumera todas as medidas que vinham sendo adotadas no sentido da promoção de tais povos indígenas. por supostas violações a direitos e garantias dos povos Ingaricó. O Estado brasileiro argumenta pela inadmissibilidade do caso. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: Campaña educativa sobre derechos humanos y derechos indígenas: módulos temáticos. 45-50. 1993.direitos humanos Processo na CIDH Conselho Indígena de Roraima (CIR) e a Rainforest Foundation protocolaram denúncia contra o Estado brasileiro. 05 (direito à integridade pessoal). Macuxi. Porto Alegre: Núcleo de Direitos Indígenas e Sergio Antonio Fabris Editor. In: Os direitos indígenas e a Constituição. José Afonso. a CIDH inseriu nota em sua página na internet por meio da qual manifestava congratulação ao Estado brasileiro pelo Ato Presidencial. III (direito à liberdade religiosa e de culto). VIII (direito de residência e de trânsito). Wapixana. 1998. 12 (liberdade de consciência e de religião). Por ocasião da homologação da TI Raposa Serra do Sol. uma vez que não teriam sido esgotados os recursos internos. “Terras tradicionalmente ocupadas pelos índios”. pp. João Pacheco. 22 (direito de circulação e residência) e 25 (direito à proteção judicial) da Convenção Americana de Direitos Humanos (a “Convenção”) e os direitos I (direito à vida e à integridade da pessoa). XVIII (direito à justiça) e XXIII (direito de propriedade) da Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem (a “Declaração”). 2003. rotinas e saberes coloniais no Brasil contemporâneo. San José: Instituto Interamericano de Derechos Humanos. Patamona e Taurepang por não demarcar suas terras e promover a colonização continuada das mesmas. Legislação: Constituição Federal Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho FGV DIREITO rio 125 . Rio de Janeiro: Contra Capa. pp. In: Indigenismo e territorialização: poderes. IX (direito à inviolabilidade de seu domicílio). 15-68. “Redimensionando a questão indígena no Brasil: uma etnografia das terras indígenas”. II (direito de igualdade perante a lei). 24 (igualdade perante a lei). 4 (direito à vida). em 29 de março de 2004. Os peticionários argumentam que o Estado brasileiro teria violado os artigos 21 (direito à propriedade privada). OLIVEIRA.

cujo teor é o seguinte: ESCRITURA de Convenção de Condomínio Geral do “Parque Árvores Verdes”. assim como tudo que seja proveitoso à totalidade dos condôminos do conjunto. na forma abaixo: Capítulo I – Dos Conceitos Gerais Artigo 1º – Além dos 4 (quatro) referidos edifícios residenciais. Tabelião do 10º Ofício de Notas. vias internas de circulação. Artigo 2º – São coisas e partes de propriedade e uso comuns e. esculturas. jardins. piscina. 2000. da Cidade do Rio de Janeiro.direitos humanos Aula 20: Direitos Humanos e orientação sexual NOTA AO ALUNO Leia os dois casos abaixo: I) Convenção Hipotética de Condomínio CERTIDÃO O BEL. às folhas 50. Artigo 3º – Não obstante o disposto no artigo precedente. Parágrafo único – A cada um dos 4 (quatro) edifícios que constituirão o “Parque Árvores Verdes” corresponderá uma quota ideal de ¼ da totalidade do terreno. bosque. Comarca do Estado do Rio de Janeiro. Capítulo II – Da Utilização das Coisas Comuns Artigo 4º – O uso das coisas comuns dispostas no artigo 1º poderá ser feito por qualquer co-proprietário e deverá obedecer aos horários estipulados pelo “Parque Árvores Verdes”. de utilização exclusiva por qualquer co-proprietário. portanto. sistema de iluminação das partes comuns. a parte do terreno ocupada pela projeção de cada um dos 4 (quatro) edifícios será reservada para utilização exclusiva dos co-proprietários das unidades autônomas componentes de cada um. fontes e lagos. situado na Av. e na forma da lei: Certififica que revendo o Livro n. República Federativa do Brasil. play-ground. 3 (três) quadras de tênis. FGV DIREITO rio 126 . sistema de tratamento de esgoto e central de abastecimento de gás. ainda. que me é pedido por parte interessada. 2000. Julio Lopes. insuscetíveis de divisão ou de alienação destacada da unidade autônoma de cada um ou. as enumeradas no artigo anterior e mais o terreno de todo o “Parque Árvores Verdes”. o “Parque Árvores Verdes” contará com um parque de estacionamento de automóveis. embora constituindo coisa de propriedade comum de todos os condôminos do “Parque Árvores Verdes”. por CERTIDÃO. fica estabelecido que. Mario Henrique Mendonça. consta labrado um INSTRUMENTO DE ESCRITURA.

“o CFP (Conselho Federal de Psicologia) já adotou a posição contrária. 151 FGV DIREITO rio 127 . uma resolução do órgão determina que psicólogos não podem tratar a homossexualidade como doença. Desde 1999. proposto pelo Deputado Federal Neucimar Fraga (PL-ES). ou seja. sendo vedada mãos dadas.. ligando-os a portadores de desordem psíquica”. que foi designado relator na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara. o beijo e qualquer outro ato ou gesto que atente contra os bons costumes ou formação moral e psicológicas das crianças e dos adolescentes. distúrbio ou perversão. Projeto semelhante tramita também no Congresso Nacional.direitos humanos § 1º – Fica proibido a demonstração de afetividade por casais homossexuais nos aludidos espaços comuns.aids. aos quinze (15) dias do mês de fevereiro (02) do ano de dois mil e cinco (2005).] Capítulo VIII – Do Foro Artigo 35 – Fica eleito o foro desta cidade para a solução de qualquer litígio ou controvérsia decorrente da presente Escritura. II) Programa de Auxílio para “cura de homossexuais” Em 10 de dezembro de 2004. indaga-se: A Convenção de Condomínio e o PL de nº 717/2003 violam algum direito humano? Caso afirmativo.gov. pastor da Assembléia de Deus. tenha tido pareceres favoráveis por parte da Comissão de Constituição e Justiça e da Comissão de Saúde. No caso desse projeto. um auxílio para os homossexuais que quiserem a cura para “virar” heterossexuais. De acordo com a assessoria de imprensa do CFP. o abraço. § 2º – A não observância do disposto no presente artigo implica na aplicação de multa progressiva. Disponível em: http:// www. A decisão final da Assembléia não retira a gravidade de que tal projeto de iniciativa do Deputado Estadual Edino Fonseca (PSC).br/imprensa/ Noticias. Atualmente aguarda o parecer do deputado Roberto Gouveia (PT-SP). os profissionais não estão proibidos de prestar serviços a pessoas homossexuais desde que o objetivo seja reduzir sofrimentos decorrentes da orientação sexual e que a homossexualidade não seja tratada como doença. Extraída por Certidão. calculada a partir da primeira infração. o Plenário da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro reprovou o projeto de Projeto de Lei da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.. A resolução de 1999 também impede psicólogos de colaborarem com eventos ou serviços que “proponham tratamentos de cura da homossexualidade” e de “se pronunciarem em meios de comunicação de massa de modo a reforçar o preconceito social existente em relação aos homossexuais.151 Diante do exposto.asp?NOTCod=58452. Trata-se da autorização para um programa de reorientação sexual. qual? O que dispõem os tratados internacionais de direitos humanos e as leis nacionais a respeito? Acesso em 05 de julho de 2005. de nº 717/2003. [.

África do Sul e um grupo de dezenove países europeus. contando com amplo respaldo da sociedade civil organizada e de delegações européias. Iniciou-se em 2003. língua. sexo. O referido impasse conduziu à proposta da Presidência da Sessão (Líbia) para postergar a apreciação da proposta para 2004. 1º – Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. no âmbito da 59ª Sessão da Comissão de Direitos Humanos da ONU. nascimento. momento em que os Estados pactuaram a necessidade de prevenir e combater a discriminação por orientação sexual. Já em 2004. seja de raça. Diante do cenário narrado. Ressalte-se que a proposta brasileira foi a única a não ser votada ao longo de toda a 59ª Sessão. todavia. o Egito. o que possui o combate à discriminação por orientação sexual como uma de suas vertentes de atividade. riqueza. a proteção dos direitos dos homossexuais situa-se ainda no marco geral da proteção dos direitos humanos. Tal posição já teria sido gestada durante a Conferência Regional das Américas. realizada em Durban em 2001. a Líbia e a Malásia apresentaram propostas de alteração visando a eliminação de todas as referências à orientação sexual. opinião política ou de outra natureza. Assim. Pela primeira vez na sua história. Artigo 2. a Xenofobia e Formas Conexas de Intolerâncias. foi apresentada uma proposta específica de resolução para o reconhecimento da discriminação por orientação sexual como uma violação a direitos humanos. à medida em que a sessão era conduzida ao final dos trabalhos. o Paquistão. bem como a necessária adoção de medidas de proteção de suas vítimas. no que se refere ao debate sobre a não-discriminação com base na orientação sexual. realizada em Santiago do Chile. uma importante discussão. pode-se FGV DIREITO rio 128 . o Brasil exerceu protagonismo na Conferência Mundial contra o Racismo. origem nacional ou social.1 – Todo o homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração sem distinção de qualquer espécie. através de uma atitude inédita do Brasil. Além disso. a proposta foi colocada novamente em pauta. não houve maturidade para que a proposta fosse incluída no texto final da Declaração. religião. assegura a Declaração Universal dos Direitos Humanos que: Art. A postura assumida pelo Estado brasileiro no cenário internacional acarretou implicações internas imediatas: a criação do Conselho Nacional de Combate à Discriminação. a Discriminação Racial. Todavia. os Estados Unidos sinalizaram que se absteriam de votar uma proposta que referisse à sexualidade por não acreditarem que a Comissão constituísse fórum adequado para a discussão da questão. 17 contrários e 10 abstenções. cor. Como mencionado na aula 18.direitos humanos Diferentemente dos demais grupos que estudamos até agora. Acompanharam a proposta inicial brasileira o Canadá. o que foi aceito por 24 votos a favor. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade (grifou-se). a diplomacia percebeu que seria mais danoso a reprovação da resolução que a sua não-votação. Isso posto. o projeto foi retirado de votação. ou qualquer outra condição (grifou-se). Cinco Estados muçulmanos obstaculizaram a votação da resolução: Arábia Saudita.

de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo. 9... religion. 152 FGV DIREITO rio 129 ... sex. cor ou estado civil.. sexual orientation.. à liberdade.... 5º – Todos são iguais perante a lei... IV – promover o bem de todos... uma vez que se recai mais uma vez sobre a proteção geral do princípio da não-discriminação. pregnancy.... mesmo que limitado até o momento à não discriminação. Acesso em: 27 abril 2005... sexo.... inúmeros relatos de violência.” Art. ethnic or social origin. colour.. tortura...... alimentação e moradia são comunicados diariamente por parte de experts independentes apontados pela Comissão de Direitos Humanos. cor.3 – “The state may not unfairly discriminate directly or indirectly against anyone on one or more grounds. conscience. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. age.... Além do enorme preconceito de que são vítimas.. Disponível em: http://www.. 1º – É conferida nova redação ao Inciso IV do art. à segurança e à propriedade... não seria arriscado afirmar que a ausência de um tratado não significa omissão das instâncias internacionais em face a violações dos direitos humanos dos homossexuais... que propõe a alteração dos seguintes artigos: Art. 7º .. language and birth” (grifou-se)....... idade e quaisquer outras formas de discriminação.. ponderações semelhantes podem ser confeccionadas..... tramita no Congresso Nacional Projeto de Emenda Constitucional.. idade. Na esfera interna brasileira.. html?rebookmark=1#9. 2º – É conferida nova redação ao Inciso XXX do art...... em uma análise comparada.... Cumpre ressaltar que....direitos humanos afirmar que se encontra latente no âmbito da ONU uma postura mais abrangente de proteção dos direitos humanos sob a perspectiva de orientação sexual.. exclusão do direito à saúde. sem distinção de qualquer natureza.....” A omissão em relação à discriminação por orientação sexual não constitui prerrogativa brasileira. nos termos seguintes (grifou-se). gender........ culture. XXX – proibição de diferença de salários..... disability.org.. É importante enfatizar que mais de 70 países ainda proíbem práticas homossexuais e a punem com penas que vão desde a prisão à flagelação pública e morte.za/html/govdocs/ constitution/saconst02. 7º da Constituição: “Art.. sem preconceitos de origem... 3º – ... marital status. 3º da Constituição: “Art.. à igualdade. orientação sexual... a Constituição Federal da África do Sul é a única constituição do mundo a garantir o direito à orientação sexual152: Art..... educação....... Com vistas a consagrar à discriminação por orientação sexual igual gravidade às demais. Nesse sentido.. de autoria da então deputada Marta Suplicy... polity... O Texto Constitucional estabelece: Art.... prisão e assassinato... raça. orientação sexual... belief. including race......

rio. idade. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: CALLIGARIS. Designa-se ao Conselho Nacional de Combate à Discriminação papel fundamental de controle das ações que visem ao fim da discriminação. sobre a cura da homossexualidade”.br/imprensa/Noticias. dentre as quais se encontra a por orientação sexual.aids. o princípio da dignidade da pessoa humana. Direito à Saúde. 5º. É dividido entre os temas Cooperação Internacional.gov. ainda. cabe menção ao lançamento do Brasil Sem Homofobia – Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania Homossexual. por mais que tal forma não esteja expressa em nosso Texto Constitucional. Direito à Educação.html#t1c1. É também importante perceber que outros marcos normativos internos já têm apresentado sensibilidade à orientação sexual. mental ou sensorial. condição social ou.br/pgm/leiorganica/ leiorganica.direitos humanos Cabe aqui uma interpretação mais arrojada para afirmar que. orientação sexual. É o caso da Lei Orgânica Municipal do Rio de Janeiro153. O pluralismo característico da maior parte das sociedades contemporâneas exige que os ordenamentos jurídicos se aperfeiçoem de forma a garantir que as diferenças possam ser reconhecidas e respeitadas.gov. a qual estabelece que: Art. Direito à Cultura. ou qualquer particularidade. lançado em 2004 por iniciativa da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Política para as Mulheres e Política contra o Racismo e a Homofobia. 2004. cor. Conselho Nacional de Combate à Discriminação/Ministério da Saúde.asp?NOTCod=60157. “De novo. Direitos ao Trabalho. Disponível em: http://www2. por ter cumprido pena ou pelo fato de haver litigado ou estar litigando com órgãos municipais na esfera administrativa ou judicial (grifou-se). a dignidade encontra-se na aceitação do ser nas suas características pessoais. Direito à Segurança. Elaboração: André Luiz de Figueiredo Lázaro. estado civil. Afinal.ao e revisão de textos: Cláudio Nascimento Silva e Ivair Augusto Alves dos Santos. prejudicado ou privilegiado em razão de nascimento. Disponível em: www. Comissão Provisória de Trabalho do Conselho Nacional de Combate à Discriminação da Secretaria Especial de Direitos Humanos. Brasil Sem Homofobia – Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania Homossexual. respaldado no artigo 1º da Constituição Federal. etnia. conduz à ilação de que o respeito a diferenças seja um pressuposto para uma vida digna. sexo.rj. atividade física. 153 FGV DIREITO rio 130 . Acesso em: 6 de julho de 2005. Acesso em: 27 abril 2005. § 1º – Ninguém será discriminado. Brasília: Ministério da Saúde. como está na norma sul-africana. Política para a Juventude. organiza. Contardo. Mais além do plano legislativo.

2003. Santa Cruz do Sul: EDUNISC. União homoafetiva: o fim do preconceito. Fabiana Marion. Legislação: Constituição Federal FGV DIREITO rio 131 .direitos humanos SPENGLER.

a pensar. a energia e o seu desejo de agir são transferidos para essa coisa. O Teatro Essencial consiste em três elementos principais: Teatro Subjetivo. Todo ser humano é teatro! 4. criando. deve produzir ações e observar o efeito de suas ações sobre o meio exterior. O Teatro do Oprimido oferece aos cidadãos os meios estéticos de analisarem seu passado. um espaço dentro do espaço: o Espaço Estético. cultural. Todo ser humano é capaz de atuar: para que sobreviva. O teatro se define pela existência simultânea — dentro do mesmo espaço e no mesmo contexto — de espectadores e atores. de qualquer forma. 11. Diálogo é definido como o livre intercâmbio com os Outros. pessoa ou espaço.opalco. Teatro do Oprimido é um ensaio para a realidade. Todo ser humano é capaz de ver a situação e de ver-se. e a aprender a viver em sociedade através do jogo teatral. 6. individual ou coletivamente. sentindo. assim. movimentos e expressões físicas. 2. política. racial ou sexualmente despossuídos do seu direito ao Diálogo ou. O Teatro do Oprimido ajuda os seres humanos a recuperarem uma linguagem artística que já possuem. 154 FGV DIREITO rio 132 . econômica. Disponível em: http:// www.br/foco. pessoa ou espaço. 7. Traduzem suas emoções. Teatro Objetivo e Linguagem Teatral. O objetivo básico do Teatro do Oprimido é o de Humanizar a Humanidade. que busca ajudar homens e mulheres a desenvolverem o que já trazem em si mesmos: o teatro. desejos e idéias em uma Linguagem Teatral. e pelo respeito às diferenças e pelo direito de ser respeitado. Quando um ser humano se limita a observar uma coisa.direitos humanos Aula 21: Teatro do Oprimido NOTA AO ALUNO Manifesto do Teatro do Oprimido154 Declaração de princípios Preâmbulo 1. ao invés de esperar por ele. para que possam inventar seu futuro. Este é o Teatro Objetivo. 10.com. 8. pensando. agindo. Acesso em: 14 de maio de 2005. O Teatro Essencial 3. a agir. renunciando momentaneamente à sua capacidade e à sua necessidade de produzir ações. O Teatro do Oprimido é um sistema de Exercícios. cfm?persona=materias&contr ole=112. 9. em situação. Ser humano é ser teatro: ator e espectador co-existem no mesmo indivíduo. a si mesmo. como a livre participação na sociedade humana entre iguais. 5. Aprendemos a sentir. Teatro do Oprimido. no contexto do presente. diminuídos no exercício desse direito. social. Todos os seres humanos utilizam. Esta co-existência é o Teatro Subjetivo. Jogos e Técnicas Especiais baseadas no Teatro Essencial. a mesma linguagem que os atores usam no palco: suas vozes e seus corpos. Oprimidos são aqueles indivíduos ou grupos que são. na vida diária.

Nele. que busca a paz. e respeita todas as culturas. promovendo e criando condições de trabalho para os CTOs e os seus praticantes. protagonistas de suas próprias vidas 15. A ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DO TEATRO DO OPRIMIDO (AITO) 17. política. grupos e nações. Reconhecendo esta realidade. É um método de análise. psicoterapias. e criando um ponto de encontro internacional na Internet. para respeitar as diferenças entre indivíduos e grupos. os diálogos têm a tendência a se transformarem em monólogos que terminam por criarem a relação Opressores-Oprimidos. Por causa da sua natureza humanística e democrática. No Anexo desta Declaração de Princípios. mas não a passividade. estimulando a criação local de Centros do Teatro do Oprimido (CTOs). como instrumento para modificar as causas que produzem infelicidade e dor. que é o fundamento da verdadeira Democracia. O Teatro do Oprimido procura ativar os cidadãos na tarefa humanística expressa pelo seu próprio nome: teatro do. 16. promovendo a troca entre eles. os cidadãos agem na ficção do teatro para se tornarem. Princípios e Objetivos 13. artes. não-violento. não é dogmático nem coercitivo. alguns projetos exemplares são apresentados para ilustrar a natureza e o escopo deste Método teatral. facilitando o treinamento e a multiplicação das técnicas existentes. 18. FGV DIREITO rio 133 . sempre o diálogo deveria prevalecer. A AITO é uma organização que coordena e promove o desenvolvimento do Teatro do Oprimido em todo o mundo. na educação. para clarificar e expressar os desejos dos seus praticantes. depois. o princípio fundamental do Teatro do Oprimido é o de ajudar e promover a restauração do Diálogo entre os seres humanos. O Teatro do Oprimido é um movimento estético mundial. A AITO cumpre este objetivo inter-relacionando os praticantes do Teatro do Oprimido em uma rede mundial. O Teatro do Oprimido se baseia no Princípio de que todas as relações humanas deveriam ser de natureza dialógica: entre homens e mulheres. O Teatro do Oprimido está sendo usado em dezenas de países de todo o mundo. também está sendo usado como instrumento para a obtenção da justiça econômica e social. 14. o objetivo mais geral do Teatro do Oprimido é o desenvolvimento dos Direitos Humanos essenciais. Na realidade. para desenvolver todas aquelas características que trazem a Paz. e um meio de tornar as pessoas mais felizes. em todos os campos da atividade social como. para a inclusão de todos os seres humanos no Diálogo necessário a uma sociedade harmoniosa. programas de alfabetização e na saúde. como um instrumento poderoso para a descoberta de si mesmo e do Outro.direitos humanos 12. finalmente. cultura. raças. concebendo e executando projetos em escala mundial. aqui relacionados em Anexos. e o seu desenvolvimento metodológico. por exemplo. O Teatro do Oprimido não é uma ideologia nem um partido político. de acordo com os princípios e os objetivos desta Declaração. famílias. o TO está sendo amplamente usado em todo o mundo. por e para o oprimido. trabalho social. Em resumo.

br Site: http://www. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: Site: http://www. 20.theatreoftheoppressed. A AITO tem os mesmos princípios e objetivos humanísticos e democráticos do Teatro do Oprimido.direitos humanos 19.ctorio. e vai incorporar todas as contribuições de todos aqueles que trabalharem dentro desta Declaração de Princípios.com.org Demais sites indicados ao longo do texto FGV DIREITO rio 134 . A AITO entende que todos aqueles que trabalham usando as várias técnicas do Teatro do Oprimido subscrevem esta mesma Declaração de Princípios.

A redemocratização do país conduziu a uma participação social jamais vista nos corredores do Congresso Nacional: verdadeiras caravanas chegavam a Brasília diariamente com vistas a imprimir no Texto Constitucional compromissos com a promoção de direitos humanos. Em um contexto de globalização.org. a Rio92. impulsionada pelas flagrantes violações de direitos humanos vigentes no momento histórico. o diálogo torna-se muito mais profícuo se precedido pela leitura de alguns argumentos sobre a atuação desses atores. Acesso em: 30 março 2005. op. Rio de Janeiro: editora Record.br/ (item: “Perguntas mais Freqüentes”). Afirmar que o Estado é o principal violador de direitos humanos é simples. Multiplicam-se redes de organizações que pretendem driblar coletivamente as dificuldades e estabelecer agendas. mas algoz na violação de direitos humanos. Destaque-se ainda a experiência do Fórum Social Mundial (FSM). Nesse sentido. 61 157 ABONG. na década de 80. hoje de maneira irreversível. Cabe registrar que tais organizações participaram de todas as grandes conferências dos últimos 15 anos. Ao longo das duas últimas décadas. Liszt. durante o tradicional Fórum Econômico Mundial de Davos. FGV DIREITO rio 135 . Nesse sentido.156 Tais elementos conduzem à compreensão do embrião da sociedade civil em nosso passado recente. 1997. Disponível em: http:// www.155 Acresça-se ainda o fator de que. De forma a aproximar o aluno da realidade da atuação da sociedade civil. foi descredenciada a via partidária como a única forma de militância.abong. hoje em sua quinta edição. serão convidadas organizações não-governamentais e movimentos social que possuam como campo específico de atuação a advocacia em direitos humanos. A consolidação da sociedade civil brasileira ocorre durante a ditadura militar. Inaugurado no ano de 2001 na cidade de Porto Alegre. Registre-se que. respaldo junto aos governos e legitimidade para influenciar nas tomadas de decisão na esfera pública internacional. exercendo seu direito à voz. outros atores são fundamentais. sendo que 100 delas tratavam especificamente dos direitos humanos157. A partir de então. tais organizações ganharam paulatinamente. “se o que está em jogo é o presente e o futuro da democracia. que se constitui hoje como uma grande arena da sociedade civil. havia 1208 ONGs no Brasil. como as corporações privadas e as organizações não-governamentais. o desafio maior consiste em articular ABONG. cit. No âmbito internacional. 155 156 VIEIRA. destacamos as organizações e movimentos da sociedade civil como protagonistas. esse é um importante ator na promoção e proteção. Suíça. De fato.direitos humanos Aula 22: O papel da sociedade civil na promoção e proteção dos direitos humanos NOTA AO ALUNO Na aula inaugural ao bloco referente aos Novos temas e Novos Atores. p. A atuação na esfera interna e na arena internacional não constitui tarefas excludentes. Cidadania e globalização. em 1988. significou o marco para a visibilidade e referência às ONGs. a sociedade civil vem exercendo papel de destaque nos debates públicos e na mídia no tocante à promoção e proteção dos direitos humanos. o FSM é realizado sempre no mês de janeiro. a Conferência Mundial do Meio-Ambiente.

pois dão voz a perspectivas e pontos vantajosos que. destacando dificuldades e avanços. regionais e globais. 2004: 1o Semestre. Petrópolis. Liszt. Oscar Vilhena. mas algoz na violação de direitos humanos. bem como pela preservação do meio ambiente. 2004: 1o Semestre. São Paulo: Sur Rede Universitária de Direitos Humanos. Ano 1. 1997. São Paulo: Sur Rede Universitária de Direitos Humanos. Para que isso se torne realidade. a associação e o diálogo devem estar abertos e com um mínimo de intervenção. Cidadania e globalização. Nesse sentido. VIEIRA. possibilitando uma atuação mais eficaz na promoção e proteção dos direitos humanos. de outro modo. Ano 1. Leitura dos sites indicados ao longo do texto 158 GÓMEZ.. pp. Número 1. muitas organizações não-governamentais e movimentos passaram a se organizar por meio de redes. “Reflexões acerca da sociedade civil e dos direitos humanos” In: Sur Revista Internacional de direitos humanos. não seriam ouvidos. Buenos Aires: CLACSO.”158 Ultrapassada a apresentação histórica que conduziu ao enquadramento contemporâneo..direitos humanos para reforçar – e não para substituir ou eliminar – processos simultâneos e diversos de democratização do poder em bases locais. Contudo. As ONGs e movimentos sociais devem ser vistos como “outros sujeitos atuando de acordo com as reais necessidades e pelos direitos de diversos segmentos sociais. José Maria. Oscar Vilhena. a sociedade civil contribui para a efetivação dos direitos humanos. etc”159. Rio de Janeiro: LPP – Laboratório de Políticas Públicas. VIEIRA. cit. Como afirma Oscar Vilhena Vieira e A. VIEIRA. Edição em Português. Dessa forma. FGV DIREITO rio 136 . crianças e adolescentes. etc. são necessárias algumas considerações acerca da atuação dessas organizações. Assim. e DUPREE. negros e negras. Rio de Janeiro: editora Record. cabe ressaltar que tais atores não substituem o Estado. RJ: Vozes. como mulheres. Scott.”160 A horizontalidade das redes associativas disponibiliza a informação e o debate entre tais organizações e movimentos. Política e democracia em tempos de globalização. Política e democracia em tempos de globalização. José Maria. pp. Edição em Português. MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: GÓMEZ. 49-69. ao levar a injustiça à esfera pública. “Reflexões acerca da sociedade civil e dos direitos humanos”. outros atores são fundamentais para garantir a observância e efetivação dos direitos humanos. Número 1. 49-69. op. Conforme visto anteriormente. Rio de Janeiro: LPP – Laboratório de Políticas Públicas. 2000. Scott A. Scott DuPree. In: Sur Revista Internacional de direitos humanos. como as corporações privadas e as organizações não-governamentais. Petrópolis. homossexuais. pela segurança alimentar. 159 160 ABONG. e DUPREE. RJ: Vozes. 2000. nacionais. A. “(g)rupos da sociedade civil são bons cães de caça para injustiças. o Estado é o um importante ator na promoção e proteção. Buenos Aires: CLACSO.

que introduziu o direito ao desenvolvimento como um direito humano. Mohammed Bedjaoui. tal obrigação tem que ser compreendida no contexto de uma nova lei internacional de solidariedade e cooperação. na qual os Estados desenvolvidos são os detentores da obrigação legal de cooperação. que sustentou ser o direito ao desenvolvimento parte da terceira geração de direitos humanos. 1182). International Law: Achievements and Prospects. Dois anos após.Rudolf Von Ihering O conceito de direito ao desenvolvimento surgiu na década de 1960. . seja o direito de um povo. Adotada pela Assembléia Geral através de sua Resolução 2542 (XXIV). pode-se dizer que o direito ao desenvolvimento almeja uma globalização ética e solidária. 161 162 163 164 Ibid. na medida em que os quatro quintos da população mundial não mais aceitam o fato de um quinto da população mundial continuar a construir sua riqueza com base em sua pobreza. em 1969. p. que almejavam consolidar sua independência política através de uma liberação econômica161. no mesmo ano. a Declaração sobre o Progresso Social e Desenvolvimento165. Contudo. Resolução 4 (XXXIII) de 21 de fevereiro de 1977. relacionou.. 1991. afirmou a dimensão internacional do direito ao desenvolvimento162. p. a CDHNH veio confirmar a existência de tal direito e da igualdade de “…the international dimension of the right to development is nothing other than ‘the right to an equitable share in the economic and social well-being of the world’. De acordo com Bedjaoui: a dimensão internacional do direito ao desenvolvimento é nada mais que o direito a uma distribuição eqüitativa do bem-estar social e econômico do mundo. Nesse sentido. Mohammed Bedjaoui (org. Foi frente a essa nova necessidade que a Assembléia Geral das Nações Unidas adotou. em 11 de dezembro de 1969. p. os direitos humanos e o desenvolvimento com questões mundiais primordiais. A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas (CDHNH). da Comissão de Direitos Humanos. Chefe de Justiça do Senegal. pela primeira vez. a existência do direito ao desenvolvimento em 1977167. em seu relatório final. cit. 1178. por dois eminentes acadêmicos: primeiramente por Keba MBaye. ao impor aos países economicamente avançados a obrigação de desenvolver os países menos avançados economicamente. seja o direito do indivíduo.164 BEDJAOUI. 167 FGV DIREITO rio 137 . It reflects an essential demand of our time since four fifths of the world’s population no longer accept that the remaining fifth should continue to build its wealth on their poverty” (Ibid. Ainda. O direito ao desenvolvimento era uma exigência afirmada pelos países do terceiro mundo. proclamou. The right to Development. em 1969. Idem.). e somente alguns meses após por Karel Vasak. 1177. durante a fase de descolonização. todo e qualquer direito. realizada em Teerã. M. ao passo que os Estados em desenvolvimento são os possuidores do direito ao desenvolvimento163. 1178.direitos humanos Aula 23: Desenvolvimento e Direitos Humanos NOTA AO ALUNO Todo direito que existe no mundo foi alcançado através da luta. A noção sobre o direito ao desenvolvimento foi abordada pela primeira vez em 1972166. só se afirma através de uma disposição ininterrupta para a luta. p.. Paris: Martinus Nijhoff Publisher e UNESCO. de acordo com o autor.. Ela reflete uma demanda crucial de nosso tempo. Mohammed. 165 166 BEDJAOUI. seus postulados mais importantes tiveram de ser conquistados num combate contra as legiões de opositores. a Conferência Mundial sobre os Direitos Humanos. op.

Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. Dinamarca. Destaque-se. Tanto a Proclamação de Teerã quanto esta resolução de 1979 tinham uma abordagem estrutural (structural approach). que dispõe acerca do direito de todos os povos a seu desenvolvimento econômico. No entanto. 170 171 172 173 174 175 Artigo 2(1). Islândia e Suíça). No plano nacional. razão pela qual estes devem participar ativamente e se beneficiar do direito ao desenvolvimento173. 6(3). que no mesmo ano foi adotada a Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos. mas também que o direito ao desenvolvimento é um direito humano inalienável de “toda pessoa humana e de todos os povos”172. da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento pela Assembléia Geral das Nações Unidas. Isto porque. dispõe o artigo 4 da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento que os Estados devem. 6. 2(3). realizar o direito ao desenvolvimento. a cooperação internacional deve ser o meio para se resolver os problemas internacionais de caráter econômico. um contra (Estados Unidos) e oito abstenções (Reino Unido. cultural e político174. Finlândia. 8(2). da Comissão de Direitos Humanos. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. O marco do direito ao desenvolvimento foi a adoção. o Estado deve incentivar a participação popular em todos os campos como forma de realizar plenamente todos os direitos humanos177. conseqüentemente. 177 178 Art. Artigo 1(1). Os Estados Unidos e mais sete estados do oeste se abstiveram.direitos humanos oportunidades como uma prerrogativa tanto das nações quanto dos indivíduos168. Os inúmeros relatórios produzidos. que o Estado é o principal responsável pela implementação de condições nacionais e internacionais propícias à realização do direito ao desenvolvimento. em 1986. Art. juntamente com alguns debates na CDHNH e na Assembléia Geral das Nações Unidas. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. bem como eliminar as barreiras existentes176 para sua efetivação. social e cultural (artigo 22). social. desfrutando do desenvolvimento econômico. uma visão que liga os direitos humanos a questões mundiais. que a Declaração não apenas estabelece que a pessoa humana é o sujeito central do desenvolvimento171. Mais um avanço ocorreu quando. fazendo com que a CDHNH não conseguisse atingir um acordo unânime na resolução169. 5. a CDHNH estabeleceu o grupo de trabalho de experts governamentais sobre o direito ao desenvolvimento. Já no plano internacional. Ressalte-se.e. 169 Adotada pela Assembléia Geral através de sua Resolução 37/199. levaram a adoção de uma resolução na qual a Assembléia Geral estatuiu o direito ao desenvolvimento como um direito humano inalienável170. a palavra-chave é cooperação. Art. França. individual ou coletivamente. A Declaração foi adotada por 146 votos a favor. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. 176 Art. cultural ou humanitário. FGV DIREITO rio 138 . Ainda. em 1981. 3(3). Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. cooperar com os Estados em desenvolvimento a fim de que estes possam realizar o direito ao desenvolvimento. 181 Art. (iii) promover o estabelecimento da paz e segurança internacionais181. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. de acordo com o preâmbulo desta Declaração. por oportuno. Isto significa dizer que os Estados devem cooperar entre si para: (i) assegurar o desenvolvimento e eliminar os obstáculos ao mesmo179. Em relação à implementação do direito em tela. Japão. Ainda. o Estado deve elaborar políticas nacionais adequadas para o desenvolvimento175. 168 Resolução 5 (XXXV) de 2 de março de 1979. por oportuno. o conteúdo do direito era vago. Art. (ii) fortalecer e garantir os direitos humanos e liberdades individuais180. Artigo 1. Artigo 1(1).. 7. Israel. bem como tomar todas as medidas necessárias para eliminar as violações de direitos humanos178 e. 179 180 Art. assim como para promover e incentivar o respeito aos direitos humanos e liberdades fundamentais. dispõe o artigo 3 (1) da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. e preâmbulo. social. i. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. em 18 de dezembro de 1982.

que tem como meta acabar com a pobreza e satisfazer as necessidades prioritárias de todos. 303. 80. 185 186 Parte I. dignidade e justiça social para os seres humanos. Sengupta sugere que o direito ao desenvolvimento é o melhoramento de um “vetor” dos direitos humanos. A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. par.htm. por sua vez. Ainda. 183 184 Declaração de Viena. 1182). apesar dos avanços trazidos pelo referido documento.o desenvolvimento é um processo econômico. Apesar do consenso atingido em Viena. A nomenclatura do cargo foi alterada. the precondition of liberty. Amartya. passando de Expert Independente sobre o Direito ao Desenvolvimento para Expert Independente sobre Direitos Humanos e Pobreza Extrema. progress.ohchr. social. emprego. livre e significativa no desenvolvimento e na distribuição justa dos benefícios daí resultantes”. “The right to development is a fundamental right. Parte I.. moradia. cultural e político abrangente. cit. No entanto. 10. bem como um grupo de trabalho sobre o tema. saúde. 182 CANÇADO TRINDADE. com o intuito de que fosse atingido um consenso acerca da definição187 do direito ao desenvolvimento. M. para que se alcance esta finalidade. este documento tanto reafirmou o teor da Declaração das Nações Unidas sobre o Direito ao Desenvolvimento quanto contribuiu para a inserção definitiva do direito ao desenvolvimento no vocabulário do Direito Internacional positivo dos Direitos Humanos183. Já Amartya Sen vai mais longe. parte I. progresso. e cf. sustenta ser o direito ao desenvolvimento um processo no qual todos os direitos humanos e liberdades fundamentais possam ser realizados plenamente. ao dispor que: “. O Expert Independente. Todos esses direitos são interdependentes – juntamente com o crescimento do produto interno bruto (PIB) e outros recursos financeiros. 187 Isto porque se entende que a definição de direito ao desenvolvimento estabelecida no preâmbulo da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento é muito vaga. par. justiça e criatividade190. Ainda.direitos humanos A Declaração e Programa de Ação de Viena. não se chegou a um consenso acerca da definição do direito ao desenvolvimento. op. 2001. 52-55. num contexto de liberdade. par. FGV DIREITO rio 139 . educação e seguridade social. 2005. que visa ao constante incremento do bemestar de toda a população e de todos os indivíduos com base em sua participação ativa. 10. No entanto. Antônio Augusto. Arjun Sengupta. pp. 1999. Portanto. parte II. Outra inovação trazida pela Declaração e Programa de Ação de Viena. econômicos e culturais em um conjunto de direitos humanos indivisíveis e interdependentes. Tratado de direito internacional dos direitos humanos volume II. uma boa qualidade de vida para todos os seres humanos é o principal objetivo do direito ao desenvolvimento. Sendo assim. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. como alimentação. que é composto por vários elementos que representam tanto os direitos econômicos. Bedjaoui. Desenvolvimento como liberdade. 10. 191 SEN. veio exprimir o consenso entre os Estados de que o direito ao desenvolvimento é “um direito humano universal e inalienável e parte integrante dos direitos humanos fundamentais”182. p. as políticas públicas têm que estar voltadas para a satisfação de necessidades básicas. justice. água potável. Assim. e cf. 8. criou. and creativity” (BEDJAOUI. afirma que o direito ao desenvolvimento é um direito fundamental. p. políticos. 188 189 190 Idem. desenvolvimento e direitos humanos.. pode-se dizer que o direito ao desenvolvimento unifica todos os direitos civis. Nesse sentido. Acesso em: 10 jan. Parte I. Disponível em: http://www. par. foi o estabelecimento da interdependência184 entre democracia. São Paulo: Companhia das Letras. sociais. 72. a precondição de liberdade. par. técnicos e institucionais – de tal forma que possibilitam o melhoramento das condições de vida de toda população. Parte II. tal Declaração alertou para o fato de que “a falta de desenvolvimento não pode ser invocada para justificar a redução dos direitos humanos internacionalmente reconhecidos”185 e que todos os obstáculos existentes para a efetivação do direito ao desenvolvimento devem ser eliminados186. sem qualquer discriminação. o cargo de Expert Independente sobre o Direito ao Desenvolvimento (atual Expert Independente sobre Direitos Humanos e Pobreza Extrema188). principal documento elaborado pela II Conferência Mundial sobre Direitos Humanos. par. ao dizer que desenvolvimento deve ser visto como um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam191. sociais e culturais quanto os direitos civis e políticos189. tais políticas públicas têm Declaração de Viena.. org/english/bodies/chr/special/themes. deve-se destacar que a consagração do direito ao desenvolvimento como um direito humano inalienável não é um ponto pacífico entre os doutrinadores. em 1998.

Leitura acessória: LINDROOS. The Right to Development in International Law. The right to development and structural adjustment programmes – an analysis through the lens of human rights. São Paulo. Helsinki: The Faculty of Law of the University of Helsinki & The Erik Castrén Institute of International Law and Human Rights. PIOVESAN. pp. tecnológico e científico192. The right to development.direitos humanos que incluir outros direitos econômicos. FGV DIREITO rio 140 . Brasil. p. tais como o direito ao trabalho. Laura Davis. 303-307. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. 6. pp. Texto produzido para o II Colóquio Internacional de Direitos Humanos. Dissertação para a obtenção do título de Mestre em Direitos Humanos pela Sussex University. 2002. sociais e culturais. In: CHOWDURY. Direito ao desenvolvimento. Legislação: Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento Declaração e Programa de Ação de Viena 192 DESAI. 276-283. 31 apud MATTAR. Right to Development: Improving the Quality of Life. comercial. 1992. Volume II. 22-47. Antônio Augusto.D. Tratado de direito internacional dos direitos humanos. S. 2002. P.). (ed. indaga-se: quando é que foi proclamado o direito ao desenvolvimento? O que se entende pelo referido direito? Quem são os sujeitos ativo e passivo do direito ao desenvolvimento? O que o Estado deve fazer para realizar o direito em tela? A Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento é dotada de força vinculante? MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura obrigatória: CANÇADO TRINDADE. p. Flavia. o acesso a condições justas de trabalho e o direito a se beneficiar do desenvolvimento científico. Anja. 1999. 1999. Holanda: Kluwer Academic Publishers. Pelo exposto.R.

que a competência do TPI é automática. em 1994 – e. (b) o estado de nacionalidade do acusado. O Tribunal ad hoc para a ex-Iugoslávia foi criado para julgar os indivíduos responsáveis por graves violações do direito internacional humanitário cometidas a partir de 1991 na ex-Iugoslávia. surgiu a responsabilidade penal internacional do indivíduo. crimes de agressão e crimes de guerra. 193 FGV DIREITO rio 141 . De maneira diversa. posteriormente. concomitantemente. após 60 países terem ratificado ou aderido ao Estatuto. aceita a jurisdição do Tribunal sobre os quatro crimes dispostos no artigo 5º do Estatuto. foram criados os dois tribunais ad hoc – o Tribunal Internacional para a ex-Iugoslávia. i. A inauguração do mesmo se deu em 11 de março de 2003. o caso só poderá ser apreciado se um ou mais dos seguintes estados sejam parte do Estatuto ou. Contudo.. em 1993. Sua origem remonta às antigas comissões internacionais ad hoc de investigação (a partir de 1919). a jurisdição do TPI é geral e universal. o anseio pela criação de um sistema de monitoramento contínuo da situação dos direitos humanos no mundo é antigo. un. o TPI só entrou em vigor em 1 de julho de 2002. No entanto. Pouco a pouco e em decorrência do trabalho da Comissão de Direito Internacional das Nações Unidas. ou melhor. Até a presente data. o TPI. Acesso em: 04 julho 2005. ao longo de 1994. Disponível em: http://untreaty.org/ENGLISH/bible/englishinternetbible/partI/chapterXVIII/treaty10. ao passo que o Tribunal ad hoc para Ruanda foi criado para julgar os indivíduos responsáveis por crimes cometidos durante os conflitos internos armados em Ruanda. 04 de julho de 2005. em Roma. ao se tornar parte do Estatuto. o TPI comporta 139 assinaturas e 99 ratificações193. crimes contra a humanidade. passando pelos Tribunais de Nuremberg (estabelecido em agosto de 1945) e de Tóquio (estabelecido em janeiro de 1946). 21 abstenções). Nesse contexto (de combate à impunidade e as inúmeras atrocidades cometidas). tenham voluntariamente aceito a jurisdição do tribunal em um caso concreto: (a) o estado em cujo território o crime tenha sido cometido. na Haia (Holanda). o conceito de “crime internacional” ganhou tratamento doutrinário no âmbito da responsabilidade do Estado e. instaura uma investigação com base em informações recebidas. durante a Conferência Diplomática dos Plenipotenciários das Nações Unidas. Trata-se de um marco histórico. (b) Estado-parte envia o caso ao TPI. 7 contra. (c) Promotor atua ex officio. Dessa forma. constata-se que ambos os tribunais ad hoc foram estatuídos com limitações espacial e temporal. Ressalte-se. Há três possibilidades de denúncia de um caso ao TPI: (a) Conselho de Segurança remete o caso ao TPI. com a competência de julgar os indivíduos pela prática de quatro crimes: genocídio. por oportuno.asp. Isto significa que um Estado. Embora o estabelecimento de uma jurisdição penal internacional só tenha se concretizado em 1998.e. independente e complementar à jurisdição nacional. não o sendo. e o Tribunal Internacional para Ruanda.direitos humanos Aula 24: Tribunal Penal Internacional NOTA AO ALUNO O Tribunal Penal Internacional (TPI) foi criado com a aprovação do Estatuto de Roma (Estatuto) em 17 de julho de 1998 (120 votos a favor. Atualmente. uma vez que é o primeiro tribunal internacional permanente.

foi eleito em 21 de abril de 2003. Temas de Direitos Humanos.03. 4388. O Brasil assinou o Estatuto em 7 de fevereiro de 2000. busca-se adaptar a legislação brasileira ao Estatuto de Roma. uma Seção de Primeira Instância e uma Seção de Questões Preliminares.2005196. tendo em vista que o Estatuto de Roma já prevê os tipos que podem ser aplicados. conforme dispõe sua Resolução n. resolveu abrir a investigação em 3 casos195: (i) República Democrática do Congo (em 23.2005). Disponível em: http://www. dando início as suas atividades em 16 de junho de 2003. Em se tratando das penas. 1593 (2005). In: PIOVESAN. de 31.06.2004).06. Flávia e IKAWA. o promotor. Luis Moreno Ocampo.07. há três tipos: prisão provisória. Já o promotor.int/librar y/cases/ N0529273. por meio de intensos debates. ao passo que o último caso foi enviado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. pena de reclusão não superior a 30 anos e prisão perpétua. Sudão (em 06. Sendo assim.eng.int/ (item: “situations and cases”). Diante do exposto. o TPI pode aplicá-la diretamente. os 18 juízes foram eleitos. e o ratificou em 20 de junho de 2002197. Pergunta-se: O TPI pode apreciar este caso? Justifique sua resposta com respaldo legal. ao contrário do que ocorria nos tribunais ad hoc – tinham que recorrer aos tribunais nacionais para verificar como deveriam aplicar a pena –.darfureferral.2004). após a análise dos dados. O Estatuto de Roma foi aprovado pelo Congresso Nacional pelo Decreto Legislativo n. pdf. Flávia. São Paulo: Max Limonad.direitos humanos O Tribunal é composto pelos seguintes órgãos: Presidência. No momento. por quê? Hipótese: Um indivíduo nacional de um Estado não-parte do Estatuto comete crimes contra a humanidade em um Estado-parte do Estatuto. de 6 de junho de 2002. 196 Leitura obrigatória: PIOVESAN. de 25 de setembro de 2002. Em 7 de fevereiro de 2003. Nenhum caso foi julgado até a presente data194.cpi. e aprovado pelo Decreto n. O Estatuto de Roma prevê alguma forma de reparação à vítima? Qual é a exceção em relação à competência automática do TPI? Qual é a relação entre o Conselho de Segurança das Nações Unidas e o TPI? Existe alguma diferença entre a relação mencionada e aquela entre os tribunais ad hoc e o Conselho de Segurança? Quais são as questões suscitadas por doutrinadores e/ou membros do Poder Legislativo quando se discute a adaptação da legislação brasileira ao Estatuto de Roma? 194 195 04 de julho de 2005. Disponível em: http://www. icc-cpi. “O Tribunal Penal Internacional e Direito Brasileiro”. uma juíza brasileira. Acesso em: 04 julho 2005. o crime de agressão pode ser julgado pelo TPI? Caso negativo. 197 FGV DIREITO rio 142 . e (iii) Darfur. MATERIAL DE APOIO Textos: Acesso em: 04 julho 2005. sendo um deles Sylvia Steiner. Promotoria e Secretaria. Até o momento. 2003. 112. (ii) República de Uganda (em 29. Daniela Ribeiro. icc. Os dois primeiros casos foram enviados ao promotor pelos respectivos governos. uma Seção de Apelações. pergunta-se: • • • • • • Atualmente.

MAIA. 61-107. Legislação: Estatuto de Roma FGV DIREITO rio 143 . jurisdição e princípio da complementaridade. pp. 385-400. Antonio Augusto. II. pp. Tribunal Penal Internacional: aspectos institucionais. Belo Horizonte: Del Rey. Marrielle. 2001.direitos humanos Leitura acessória: CANÇADO TRINDADE. Capítulos III e IV. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. 1999. Vol. Tratado de direito internacional de direitos humanos.

(b) humilha deliberadamente soldados capturados.org. Mais do que estranho. vivem expostos em celas de alambrado qualificadas por “perito penitenciário” como “basicamente um canil” (sic). 198 FGV DIREITO rio 144 . EUA. no coração da cidade.dhnet. diante do escritório de Senadora californiana pelo Partido Democrata. onde os prisioneiros transportados do Afeganistão e fotografados com vendas. de forma tão veemente. havia visitado a base norte-americana em Cuba. mulher parlamentar. em viagem oficial. Disponível em: http:// www. os ataques em Nova York e Washington haviam abalado de maneira tão profunda a sociedade norte-americana que qualquer dissensão parecia.htm. sem qualquer acusação. ou complementação. numa cidade “avançada”. em 15 de fevereiro de 2002. (c) mantém presos incomunicáveis por meses. Tampouco soam incomuns maus tratos de prisioneiros num país como o Brasil.direitos humanos Aula 25: Direito Humano Pós-11 de setembro NOTA AO ALUNO Os direitos humanos e a reação ao Onze de Setembro: uma retomada de esperanças?198 “Folheto distribuído. estranho que esses panfletos sejam distribuídos num país que se apresenta como modelo de direitos humanos (o presidente Bush acaba de fazê-lo na China. Acesso em: 04 maio 2005. Afigura-se. capuzes. porém.br/direitos/ militantes/lindgrenalves/lindgren_11set. no centro de São Francisco. em condições indescritíveis. de posições liberais. a lógica dominante era aquela sempre típica dos protestantes puritanos dos Estados Unidos. Não obstante essas fotos e informações reiteradas de que os cativos têm sido drogados e sujeitos a privação sensorial para debilitar resistências nos interrogatórios. aplicada com particular afinco em sua política externa: “nós Texto produzido por José Augusto Lindgren Alves – Diplomata. Mais estranho ainda soa que se critique. falta de patriotismo. a opinião do secretário de Defesa contra o que têm afirmado a Cruz Vermelha. a situação em Guantánamo não deveria parecer assustadora (embora as fotografias sejam chocantes para qualquer um que as veja). a Anistia Internacional. Com efeito. (d) pune pessoas sem lhes dar oportunidade de defesa?” A resposta. segundo o mesmo panfleto. Esta. Endossava. Para quem se acostumou à rotina da superpopulação carcerária brasileira. Depois do apoio quase unânime do Congresso ao presidente para que ele pudesse declarar legalmente uma “guerra contra o terrorismo”. mordaças. o panfleto era uma convocação pela seção local da Guilda Nacional de Advogados (ONG de profissionais do direito ativistas dos direitos humanos) para manifestação pública. era: “You already do” (“Você já vive”). a Human Rights Watch e outras organizações congêneres. por causa da respectiva etnia ou religião. onde o crime é tão abundante que se inventou a categoria dos “hediondos” e a tortura. tão rotineira que sua tipificação como delito parece não ter “pegado”. assim. Tendo por chamada “Não à tortura em Guantánamo!”. geralmente admirada. em 22 de fevereiro). membro do Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial da ONU e embaixador designado do Brasil em Sófia (Bulgária). tudo isso é deveras surpreendente depois do tenebroso Onze de Setembro de 2001. perguntava: “Você quereria viver num país que: (a) desafia o direito internacional. algemas e correntes. a Senadora em questão teria concluído que eles não se encontravam em circunstâncias desumanas. até o passado recente.

normalmente sacrossanto porque essencial ao individualismo do país.direitos humanos somos bons. no país e no exterior. passíveis de detenção arbitrária. a sociedade e os meios de comunicação norte-americanos pareciam apoiar em uníssono a interpretação de que os atentados não passavam de atos covardes. por sinal. todos favoráveis a mudanças nas posições do país. que justificou para o povo a recomendação governamental de autocensura à retransmissão de vídeos da estação Al Jazeera (a “CNN” árabe. Foi o patriotismo amortecedor de direitos. pouco lidos. sem possibilidade de apelação de sentenças. A dissociação norte-americana do direito humanitário que os próprios Estados Unidos haviam FGV DIREITO rio 145 . particularmente estrangeiros. a consciência de que a luta contra o terrorismo não pode ser conduzida ao arrepio do direito. Foi a exaltação do patriotismo. com arremessos de comida para uma população em fuga para o vizinho Paquistão. O apoio popular ao Presidente chegou a alcançar 95%. para julgar estrangeiros por ele qualificados de terroristas (o que não foi sequer contemplado para o norte-americano John Walker Lindh. mais do que o temor de mensagens subliminares. sobre os erros da CIA ao financiar talibãs contra os soviéticos na década de 80. resultantes de um ódio visceral. por mais de três meses e meio. nada pode fundamentar a rediscussão da tortura como técnica para a obtenção de informações. as fotografias dos detidos em Guantánamo e a repulsa que causaram. de que. Nesse ambiente de exaltação belicosa. mas julgado nos Estados Unidos por tribunal normal. ser punidos). A discriminação entre nacionais e estrangeiros se revela também no decreto de 16 de dezembro de 2001. a obsessão patriótica durou. sim. encontravam as fronteiras fechadas por ordens dos Estados Unidos na fase precedente à operação militar (para impedir a saída de inimigos). obviamente. eles maus”. pela civilização. Talibã apreendido em território afegão. Ao contrário do que diziam livros sérios. do Qatar) em que Bin Laden aparecia. Qualquer crítica ao Governo na “guerra contra o terrorismo” (e até em outros assuntos) era repudiada como antiamericanismo – quanto mais se feita em defesa de indivíduos descritos como perigosos terroristas! Por mais simplista que fosse. despertaram em muita gente. como as que permitem a escuta telefônica e a censura de comunicações pela Internet. complexado e gratuito. o bombardeio do Afeganistão em ruínas. que aprovou. que modificaram de forma súbita a reação de norte-americanos àquilo que vinha – e vem ainda – ocorrendo. apenas com os sinais trocados. por tempo indeterminado. sem hesitações. pelo qual o Presidente da República “autoriza o estabelecimento” de tribunais militares especiais. de que a barbárie de uns não pode justificar a brutalidade de outros. atinentes ao direito à não-interferência em assuntos da vida privada. de rito secreto e sumário. com assistência jurídica e apoio familiar). com vigor extraordinário. com discurso igual ao do Presidente Bush. país pobre e já transbordante de refugiados pashtuns – foragidos que. na civilização. sem acusação conhecida e sem direito a advogado (alguns já por mais de cem dias). não foram os atos atentatórios aos direitos fundamentais de todos os seres humanos. Sem dúvida. Foi ela que fez vista grossa à discriminação contra os estrangeiros no território nacional. associado à ânsia de vingança da superpotência ferida contra os idealizadores dos atentados (estes precisam. Foi ela que propiciou ao governo a adoção de medidas restritivas de liberdades. logo “quem não está comigo está contra mim”.

Só tomei conhecimento do panfleto depois da hora marcada.direitos humanos ajudado a criar (na conferência diplomática de Genebra de 1949) forçava os aliados europeus. que. com um mínimo de consistência. com ou sem autorização externa. Paulo. a agressão verbal à Coréia do Norte tende a prejudicar as negociações bilaterais encetadas). p. em 29 de janeiro. p. Pode ser que. em que deu a convocação de São Francisco à manifestação em favor dos prisioneiros talibãs. estendendo o combate aonde lhe pareça necessário. por exemplo. Os europeus em geral – inclusive o governo britânico – dissociaramse de possíveis bombardeios contra qualquer desses três países. E que a idéia desse “eixo” com elementos tão díspares não tenha passado de de artifício de apoio à proposta de aumento gigantesco no orçamento militar. Os sul-coreanos fizeram manifestações contra o Presidente Bush às vésperas de sua primeira visita a Seul (além de a nação ser a mesma. com direito a advogado e recurso contra sentenças. muitas sobre violações de direitos no país. decididos por Washington. seja julgado por tribunal transparente e imparcial. A simples fadiga dos assuntos da “guerra contra o terrorismo” não os faria passar tão rapidamente das primeiras páginas de todos os jornais para aquelas menos lidas. o Presidente dos Estados Unidos singularizou o Iraque. afinal. decorrentes de medidas adotas nessa guerra heterodoxa. Bush sobre o “estado da União”. européia e asiática. mas não totalmente impossível.. o que realmente vem modificando em profundidade a atitude de norte-americanos e aliados foi o primeiro discurso do presidente George W. ademais de anunciar a disposição de expandir a “guerra contra o terrorismo”. entrevista à Folha de S. 17/02/2002. protegidos pela Terceira Convenção de Genebra. Não é preciso ter o gênio de Immanuel Wallerstein para entender que os atentados do Onze de Setembro deram ainda mais força aos “falcões” da administração George W. por quem antes apoiava a “guerra contra o terrorismo” (v. o Irã e a Coréia do Norte como um “eixo do Mal”. Tampouco li nos diários ecos de sua realização (o que me leva a supor ter sido bem reduzida). dedicadas ao exterior. Não sei. A7). Contudo. O mesmo tem sido dito. estipula que o eventual indiciado em crime de guerra. agora em crítica mordaz. Bush (v. Nele. Esta impede maus tratos e interrogatórios além do imprescindível para sua identificação. É ainda improvável. prevê repatriação no término das hostilidades. francamente. a cobrar o reconhecimento dos detidos em Guantánamo como prisioneiros de guerra. Na preparação do Presidente para o state of the Union. acabem perdendo terreno para o moderado Colin Powell. FGV DIREITO rio 146 . por pressão interna. O que a conscientização dos media e das pessoas representará de concreto na luta contra o terrorismo é difícil prever. Francisco Chronicle. que ela possa reorientar o governo para o reconhecimento da importância dos direitos humanos. tem também justificados temores. em 10/02/2002. Nas páginas de rosto saem agora notícias desagradáveis a Washington (como as de ataques errados e espancamentos de inocentes por tropas no Afeganistão). detentor como qualquer pessoa da presunção de inocência. uma coisa é certa: os detidos de Guantánamo e o “eixo do Mal” mudaram os noticiários. a análise de Chris Matthews sob o título expressivo de Who hijacked our war? – “Quem seqüestrou nossa guerra?” – no S. D1). muito mais do que as fotografias de Guantánamo e a repulsa que causaram. Todavia. os “falcões parecem ter ido além do limite tolerável pelo patriotismo do cidadão comum.

inclusive os direitos econômicos e sociais. Volume 13. Os direitos humanos na pós-modernidade. A conscientização evidencia. Mark. “Fragmentação ou recuperação”. nº 2. Setembro/Outubro/Novembro 2004. LINDGREN ALVES.” MATERIAL DE APOIO Textos: Leitura acessória: DANNER. Tendo em conta o grande peso dos Estados Unidos na disseminação internacional da idéia dos direitos humanos e a importância da sociedade civil norte-americana para sua afirmação dentro dos próprios Estados Unidos (como visto nos anos 50 e 60). Setembro/Outubro/Novembro 2004. fazendo-o sentir que a observância desses direitos sempre foi e continuará a ser a melhor forma de desfazer condições que conduzem ao terror. que.direitos humanos atualmente submersos na prioridade da segurança. Volume 13. militar e policial – felizmente sem a “doutrina” que conhecemos no Brasil -. ela pode tornar-se antídoto aos malefícios da globalização excludente. depois do Onze de Setembro. pp. para a sociedade civil esclarecida e atuante. 09 –19. Na medida em que ela absorva e propague a interdependência de todos os dispositivos da Declaração Universal de 1948. só pode ser positiva. In: Política Externa. José Augusto. “A lógica da tortura”. FGV DIREITO rio 147 . pp. de qualquer forma. os direitos fundamentais e o direito internacional humanitário não se acham esquecidos pelo medo ou patriotismo cego. nº 2. 33 –44. In: Política Externa. São Paulo: Perspectiva. a movimentação que se esboça de novo pelo respeito a tais direitos. 2005. __________.

direitos humanos Paula Spieler Mestre em Relações Internacionais e bacharel em Direito pela PUC-Rio. Professora do grupo de estudos sobre o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos e Coordenadora de Relações Institucionais da Escola de Direito do Rio de Janeiro da FGV. FGV DIREITO rio 148 . Participou de cursos internacionais sobre direitos humanos promovido pela Universidade de Coimbra e pela Universidade de Columbia. Membro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Direitos Humanos. tais como Fundação Ford.org. Ex-consultora do CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais). Professora de Direitos Humanos. Ex-pesquisadora do grupo de direitos humanos do Radar do Sistema Internacional. Anistia Internacional e Justiça Global. rede de monitoramento das tendências de mudança e continuidade do sistema internacional (http:// rsi.cgee. Trabalhou para diversas instituições de promoção dos direitos humanos.br/).

direitos humanos FICHA TÉCNICA Fundação Getulio Vargas Carlos Ivan Simonsen Leal PRESIDENTE FGV DIREITO RIO Joaquim Falcão DIRETOR Fernando Penteado VICE-DIRETOR ADMINISTRATIVO Luís Fernando Schuartz VICE-DIRETOR ACADÊMICO Sérgio Guerra VICE-DIRETOR DE PÓS-GRADUAÇÃO PROFESSOR COORDENADOR DO PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO EM PODER JUDICIÁRIO Luiz Roberto Ayoub Ronaldo Lemos Coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade Evandro Menezes de Carvalho Rogério Barcelos COORDENADOR ACADÊMICO DA GRADUAÇÃO COORDENADOR DE ENSINO DA GRADUAÇÃO Tânia Rangel COORDENADORA DE MATERIAL DIDÁTICO COORDENADORes DO NÚCLEO DE PRÁTICAS JURÍDICAS COORDENADORA DE SECRETARIA DE GRADUAÇÃO COORDENADOR DE FINANÇAS COORDENADORA DE MARKETING ESTRATÉGICO E PLANEJAMENTO Lígia Fabris e Thiago Bottino do Amaral Wania Torres Diogo Pinheiro Milena Brant FGV DIREITO rio 149 .

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