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O Sistema Bancário Moçambicano: Efeitos da Reestruturação Bancária na sua competitividade e eficiência

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Projecto Final do Curso ou Tese cujo tema aborda o impacto das reestructurações bancárias após crises bancárias em Moçambique, focalizando o impacto na competitividade e eficiência.

Thesis which abords the impact o the reestruturing of mozambican banks after bank crisis, in the competitiveness and eficiency.

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10/01/2015

Instituto Superior de Transportes e Comunicações Departamento de Economia e Gestão Licenciatura em Gestão e Finanças

Projecto Final de Curso

O Sistema Financeiro Moçambicano: Efeitos da Reestruturação Bancária na sua Competitividade e Eficiência

Supervisor: Dr. Armindo Nhabinde

Candidato: Soraya Coscione

Maputo, 2008

Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária

Declaração de Honra
Eu, Soraya Sarah Fakir Coscione declaro que o presente projecto final de curso é de minha autoria, e nunca foi apresentado para obtenção de qualquer grau académico.

A candidata: (Soraya Coscione)

O Supervisor:
(Dr. Armindo Nhabinde)

Soraya Sarah Fakir Coscione

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária

Soraya Sarah Fakir Coscione O Sistema Financeiro Moçambicano: Efeitos da Reestruturação Bancária na sua Competitividade e Eficiência
Projecto Final do Curso apresentado para a obtenção do título de licenciatura pelo curso de Gestão e Finanças, do Departamento de Economia e Gestão do Instituto Superior de Transportes e Comunicações (ISUTC)

Data: _________________ Resultado: ________________ Examinadores: Presidente: __________________ Assinatura: ___________________ Oponente: ____________________ Assinatura: ____________________ Supervisor: _______________________ Assinatura: _______________________

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária

Dedicatória
Dedico este trabalho ao meu primo que infelizmente já não se encontra mais entre nós: Mauro Faquir

Aos meus pais, Salvatore e Sara Fakir, Fátima Faquir e Sidique Faquir
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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária

Agradecimentos

Ao longo do meu curso, e durante a realização do projecto final de curso recebi apoio de muitas pessoas, amigas, professores, familiares, por isso as palavras serão insuficientes para expressar todo o meu agradecimento a todas as pessoas que estiveram envolvidas neste processo.

Em primeiro lugar, quero agradecer a Allah (Deus) por ter permitido que eu pudesse chegar até onde estou. Em segundo lugar, quero expressar o meu agradecimento ao meu supervisor Dr. Armindo Nhabinde, pelo tempo e paciência que diponibilizou para acompanhar o trabalho por mim realizado, pelas correcções e sugestões que permitiram que eu pudesse apresentar este trabalho, na sua qualidade actual. Agradecer ainda a Dr. Telma Loforte, que disponibilizou muita informação importante para a realização do trabalho, bem como a Associação Moçambicana de Bancos (AMB) pela sua gentileza em fornecer dados, também ao Dr. Adriano Maleiane, que atráves dos seus conselhos conseguiu dar um rumo melhor ao meu trabalho. Quero agradecer de seguida aos meus pais – Sara Fakir e Salvatore Coscione – por terem acreditado em mim, terem apoiado e incentivado a minha vida estudantil, permitindo que eu chegasse até aqui. Agradeço em especial a minha mãe, por ter sido o meu suporte, pelas horas que dispensou durante anos exigindo que eu sempre desse o melhor de mim, que eu sempre me esforçasse mais. Ao meu pai vai o agradecimento por ter sido a minha fonte de inspiração e um exemplo a seguir, bem como um agradecimento a todas as ajudas que dispensou. Agradeço também ao meu irmão – Samir Afzal – que deu-me sempre, ainda que indirectamente, força para que eu continuasse sempre em frente. Visto que os amigos sempre fazem parte da vida de qualquer pessoa, devo deixar um agradecimento especial as minhas amigas que estiveram sempre comigo ao longo dos quatro anos do curso, para ajudar, rir e estudar – Natália Vaz, Catarina Bebe e Inícia Xavier. Deixo também um agradecimento à todos colegas da turma de gestão de 2005, por terem feito parte de uma turma tão única como a nossa. Um agradecimento muito especial, a pessoa que mais força e motivação me deu, mesmo apesar da distância geográfica que nos separa, ao meu namorado. Por fim, e não menos importante, agradeço ao ISUTC e a todos os professores que acompanharam a minha formação académica, mesmo que não tenha sido fácil, porque nada na vida é fácil. Soraya Sarah Fakir Coscione 4

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"A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para a frente."

Soren Kierkegaard Soraya Sarah Fakir Coscione 5

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Resumo
O presente trabalho é elaborado no âmbito da realização do Projecto Final do Curso, sendo que debruça-se sobre o Sistema Financeiro Moçambicano, tendo como enfoque os efeitos da reestruturação bancária na sua performance e eficiência. Reestruturação bancária é a remodelação ou reorganização do sistema bancário decorrente principalmente de duas razões – liberalização financeira e/ou crises bancárias. Visto que o sistema bancário operará segundo uma nova estrutura, isto terá um impacto significativo no que se refere a performance e no principal instrumento criado pelos bancos – o crédito. Ao longo do trabalho serão analisados, a evolução dos indicadores considerados mais importantes para a performance e eficiência do sistema bancário (lucratividade e oferta de crédito), procurando pesquisar o impacto da reestruturação bancária na evolução do sistema bancário moçambicano. Procura-se ainda perceber e descrever quais os factores que influenciaram estes indicadores.

A compilação e análise dos dados obtidos permitiu que se chegasse a conclusão de que a reestruturação bancária foi bem sucedida, visto que permitiu uma maior abertura do sistema bancário moçambicano, bem como uma evolução positiva de alguns indicadores de performance, porém também chega-se a conclusão que embora se tenham verificado melhorias, existe ainda um longo trabalho pela frente de modo a permitir que os resultados atingam níveis de performance e eficiência regionais e internacionais. De facto, o sistema bancário ainda apresenta algumas deficiências e lacunas, sendo que os mais importantes são a elevada concentração geográfica, e os níveis de taxas de juros bastante elevados dificultando o acesso ao crédito. Reconhece-se que existe, actualmente um maior esforço para alargar a rede bancária para as zonas rurais, pelo Banco de Moçambique, através da abertura de um maior número de filiais e agencias deste nas províncias, mas deve-se salientar que ainda existem muitos constangimentos a expansão desta, nomeadamente: Ausência de Infra-estruturas; Elevados custos operacionais e investimento na fase de arranque; Economia rural de dimensão reduzida; Mão-de-obra local sem o perfil exigido. Deste modo, novas medidas devem ser tomadas de modo a continuar a reforma no sector, dentre as quais, no meu ponto de vista são: Fortalecer as normas de supervisão e contabilidade adoptadas de modo a garantir a solidez e expansão do sector bancário; Reformas para tornar o crédito mais acessível; Capacitação e mobilização dos recursos humanos.

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Lista de Siglas e Abreviaturas
BM – Banco de Moçambique BA – Banco Austral BCM – Banco Comercial de Moçambique BPD – Banco Popular de Desenvolvimento SF – Sistema Financeiro SB – Sistema/Sector bancário SFM – Sistema Financeiro Moçambicano RU – Reino Unido EUA – Estados Unidos de América OGE – Orçamento Geral do Estado BC – Banco Central ROA / ROAA – Return on Assets (Retorno sobre o Activo/ Investimento) ROE /ROAE – Return on Equity (Retorno sobre o Património)

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Índice
I. Introdução .................................................................................................................................................... 10 1.2 Delimitação do Tema ............................................................................................................................ 11 1.3. Objectivos ............................................................................................................................................. 11 1.4. Justificativo........................................................................................................................................... 11 1.5. Problema de Estudo .............................................................................................................................. 12 1.6. Hipóteses .............................................................................................................................................. 12 1.7. Metodologia.......................................................................................................................................... 12 1.8. Plano de Trabalho ................................................................................................................................. 12 II. Revisão da Literatura .................................................................................................................................. 14 2.1 Conceitos e Caracterização do Sistema Financeiro ............................................................................... 14 2.1.1 A Intermediação Financeira ........................................................................................................... 17 2.2 Mercado Bancário ................................................................................................................................. 18 2.2.1 Funções dos Bancos Comerciais ................................................................................................... 18 2.2.2 As crises bancárias ......................................................................................................................... 19

2.2.2.1. Externalidades das Crises Bancárias ....................................................................... 20
2.3 Reestruturação Bancária ....................................................................................................................... 21 2.3.2 Experiências de Reestruturações Bancárias .................................................................................. 22

A. B.

Reestruturação do Sistema Bancário Privado Brasileiro............................................ 23 Reestruturação Bancária no Cazaquistão ................................................................... 25

III. O Sistema Financeiro Moçambicano ......................................................................................................... 27 3.1 Moçambique – Contexto Histórico........................................................................................................ 27 3.1.1 O Programa de Reabilitação Económica (PRE) ............................................................................ 29 3.1.2 O período compreendido entre 1992 à 2000 .................................................................................. 29 3.1.3 A Estrutura Actual .......................................................................................................................... 30 IV. Análise dos Efeitos da Reestruturação do Sistema Bancário Moçambicano ............................................ 32 4.1 Avaliação da Performance do sector bancário após a reestruturação .................................................... 32 4.1.1 Critérios de eficiência .................................................................................................................... 33 4.1.2 O sistema Bancário Moçambicano e a oferta de crédito ............................................................... 35

4.1.2.1 Spreads Bancários ..................................................................................................... 38
4.1.3 Qualidade da Carteira de Crédito.................................................................................................. 39 4.1.4 Concentração Bancária .................................................................................................................. 40 4.2. Conclusões dos efeitos da Reestruturação Bancária ............................................................................. 41 V. Conclusões e Recomendações .................................................................................................................... 47 5.1 Conclusões............................................................................................................................................. 47 5.2 Recomendações .................................................................................................................................. 50

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VI. Ficha Bibliográfica .................................................................................................................................... 51 VII. Anexos ..................................................................................................................................................... 54

Índice de Tabelas, Gráficos e Figuras
Tabela 1 – Tipos de sistemas Financeiros .......................................................................................... 16 Tabela 2 – Percentual da lucratividade dos bancos comerciais brasileiros (1994 – 2003) ................ 24 Tabela 3 – Indicadores de Performance ............................................................................................. 33 Tabela 4 – Operadores Financeiros .................................................................................................... 40 Tabela 5 – Distribuição de agências por províncias .......................................................................... 41

Figura 1: O processo de intermediação financeira ............................................................................. 17 Gráfico 1 - Evolução do número de bancos em Moçambique ........................................................... 31 Gráfico 2 – Evolução dos lucros líquidos (1999-2006) ..................................................................... 34 Gráfico 3 – Evolução da Oferta de crédito em Moçambique (2000-2006) ....................................... 35 Gráfico 4 – Comparação entre a evolução da oferta de crédito e dos lucros líquidos no sector bancário moçambicano ...................................................................................................................... 37 Gráfico 5 – Evolução do spread de juros do sector bancário ............................................................. 38 Gráfico 6 – Evolução do rácio de avaliação da qualidade da carteira de crédito .............................. 39 Gráfico 7 – Relação entre o rácio de Transformação e o crescimento dos Spreads .......................... 43 Gráfico 8 – Relação entre a evolução dos spreads de juros e qualidade da carteira de crédito ......... 44 Gráfico 9 – Comparação entre a evolução dos spreads e do custos com provisões .......................... 45 Gráfico 10 – Evolução da solvabilidade ............................................................................................ 46

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I. Introdução
Simples ou complexos, os sistemas financeiros performam a actividade básica de mover os recursos dos agentes que poupam e ofertam temporariamente (agentes superavitários) para os agentes que querem tomar emprestado e investir (agentes deficitários). O funcionamento das economias modernas requer sempre maiores investimentos e por isso as empresas precisam de uma maior necessidade de capitais que a poupança das famílias fornece através dos mercados financeiros. Os sistemas financeiros nunca são estáticos. Estes mudam constantemente, de modo a responder a procura do público, ao desenvolvimento de novas tecnologias, e as mudanças nas leis e regulamentações. A competição nos mercados financeiros força os sistemas financeiros a responder às necessidades do público desenvolvendo melhores e mais convenientes serviços financeiros. O sistema financeiro moçambicano passou por grandes transformações ao longo da história do país. Factores como o abandono da economia socialista para a economia de mercado, em 1987, e as crises bancárias no período de 2000-2001, trouxeram a necessidade de uma adaptação rápida de modo a evitar o colapso do sistema financeiro. A primeira grande reforma decorre em 1992, quando se dá a separação das funções de Banco comercial e central no Banco de Moçambique, e uma primeira tentativa de liberalização dos mercados financeiros. O Banco de Moçambique passou a exercer exclusivamente as actividades referentes a Banco Central, sendo que todas as actividades de banco comercial foram transferidas para o recém formado Banco Comercial de Moçambique (BCM). Com o objectivo de abrir o mercado bancário a investimentos estrangeiros, iniciou-se o processo do saneamento das carteiras de crédito nos bancos comerciais. Após a grave crise bancária de 2000 que abalou o sistema financeiro moçambicano, cujas causas se encontram no elevado volume de crédito mal parado nos dois principais bancos comerciais – Banco Austral e BCM - decorrente do fraco controlo na concessão de empréstimos, no rudimentar sistema de pagamentos, e no ineficiente sistema de supervisão bancária, as autoridades responsáveis foram obrigadas a intervir de modo a evitar uma grave crise financeira. O governo saneou parte das dívidas dos bancos, e finalmente encontrou investidores bancários estrangeiros interessados numa actividade eficiente dos bancos comerciais em questão. Contemporaneamente houve em 1997, o ingresso de novos investidores autorizados no mercado bancário que se traduziu na abertura de uma nova agência bancária, nomeadamente o Banco Comercial de Investimentos (BCI), cujo accionista maioritário era o Grupo Caixa Geral de Depósitos de Portugal. Em 2003, dada a uma fusão por incorporação do Grupo BPI, em Portugal, este transforma-se em BCI Fomento. Soraya Sarah Fakir Coscione 10

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1.2 Delimitação do Tema
a) Temporal A complexidade das mudanças do sistema financeiro moçambicano, levam a impor delimitações aos acontecimentos ocorridos aquandoda crise bancária de 2000 e a consequente reestruturação do sector em 2001 até ao ano de 2006. b) Espacial O trabalho abordará os aspectos ocorridos dentro do sistema financeiro moçambicano, concentrando-se sobre as actividades dos bancos comerciais do país.

1.3. Objectivos
a) Objectivo Geral  Analisar os efeitos da reestruturação bancária na eficiência e competitividade nos bancos comerciais em Moçambique; b) Objectivos Específicos  Descrever o processo de reforma do sector;  Analisar o impacto da reestruturação sobre a solidez dos bancos comerciais em Moçambique;  Avaliar a performance do sistema bancário moçambicano.

1.4. Justificativo
Uma economia sem o sector financeiro eficiente terá muitas dificuldades a crescer. Aliás, segundo alguns economistas, a fraqueza do sector financeiro é uma das causas do fraco desempenho das economias dos países em vias de desenvolvimento (MacKinnon). Moçambique como a maioria dos países em vias de desenvolvimento tem o sistema financeiro pouco desenvolvido, poucos operadores e instrumentos financeiros para suportar a actividade económica. Os operadores financeiros principais, no sistema financeiro moçambicano, são os bancos comerciais e portanto a estabilidade deste sistema depende crucialmente do funcionamento eficiente e eficaz dos bancos comerciais. As crises do passado demonstraram que a ineficiência de um banco comercial pode ameaçar a estabilidade do sistema financeiro.

A análise do desenvolvimento do sistema financeiro moçambicano, a sua história e os problemas que decorreram são o objectivo deste trabalho, pois é através do estudo dos erros e das fraquezas que é possível delinear um sistema financeiro eficiente e eficaz, e compatível com o nível de desenvolvimento económico do pais. Soraya Sarah Fakir Coscione 11

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1.5. Problema de Estudo
Este estudo mostra, com base na informação disponibilizada, o desenvolvimento do sistema bancário moçambicano, buscando assim contextualizar os principais factos ocorridos no período recente e examinar as suas actuais perspectivas. “ Quais os efeitos da reestruturação Bancária no sistema bancário, bem como no desenvolvimento do sistema financeiro em Moçambique”

1.6. Hipóteses
H0: As reformas financeiras aplicadas no país de modo a adequar-se ao desenvolvimento económico tiveram um impacto negativo ou nulo, tanto no SB nacional como no SF moçambicano; H1: As reformas financeiras foram bem sucedidas, demonstrando a capacidade do SFM para adequar-se às novas exigências do mercado

1.7. Metodologia
A metodologia empregue neste trabalho, de acordo com os procedimentos técnicos empregues, desenvolveu-se em duas fases. A primeira fase baseou-se substancialmente na recolha de informações bibliográficas escritas (pesquisa bibliográfica), e realização de entrevistas (pesquisa participante), referentes a história da crise bancária de Moçambique, bem como uma revisão da literatura sobre a relevância do sistema financeiro no desenvolvimento económico. Na segunda fase foram recolhidos dados dos indicadores (pesquisa documental) da actividade bancária para analisar e avaliar o comportamento dos bancos comerciais antes e depois do processo de reestruturação, e sustentar uma das duas hipóteses referidas anteriormente. Do ponto de vista da abordagem pode-se classificar a pesquisa como sendo Qualitativa, e de acordo com os objectivos como sendo Descritiva. No que se refere aos metódos científicos empregues pode-se classificar como Metódo Fenomenológico, onde a principal preocupação é a descrição directa da experiência tal como ela é.

1.8. Plano de Trabalho
O trabalho está estruturado em cinco capítulos cujo conteúdo encontra-se distribuído em conformidade com a descrição que se segue. No primeiro capítulo apresenta-se a introdução do trabalho, que inclui uma apresentação e exposição do tema. No segundo capítulo dedica-se a revisão da literatura, sendo que aqui são abordados todos os aspectos teóricos considerados importantes para a posterior avaliação.

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária O terceiro capítulo traz uma breve descrição da evolução do sistema financeiro moçambicano – das suas origens até as reformas impostas, bem como o período posterior. O quarto capítulo aborda o problema de estudo, ou seja o impacto da reestruturação do sistema bancário moçambicano no desenvolvimento deste. A avaliação faz-se a níveis de performance dos bancos, oferta de crédito. No quinto capitulo são apresentadas as conclusões e as recomendações do trabalho.

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II. Revisão da Literatura
2.1 Conceitos e Caracterização do Sistema Financeiro

A principal função do sistema financeiro é movimentar os fundos emprestáveis dos agentes que poupam (superavitários) para os que obtém emprestado (deficitários) para adquirir bens e/ou serviços, e realizar investimentos para que a economia global cresça e aumente o modo de vida standard das populações. Sem o sistema financeiro e os fundos emprestáveis que o suportam, o crescimento económico seria muito reduzido e limitado, e os bens teriam de ser transaccionados no mercado à vista e as famílias e empresas teriam de se financiar a si próprias. Assim, segundo Peter S. Rose1, o Sistema Financeiro pode ser definido como sendo o conjunto de instituições da economia que auxiliam o encontro dos agentes que possuem poupanças agentes superavitários – com os que necessitam de recursos - agentes deficitários -,cujo principal objectivo é permitir o movimento de fundos emprestáveis entre eles.

Ao mobilizar os fundos dos agentes superavitários para os agentes deficitários, canalizando-os para o sector produtivo, o sistema financeiro possibilita a transferência de recursos económicos no tempo e no espaço, além fronteiras e entre sectores, facilitando também por esta via a gestão de riscos através da diversificação. Os riscos surgem porque os agentes superavitários tem um horizonte de investimento muito curto enquanto que as empresas (agentes deficitários) tem um horizonte longo, assim os intermediários financeiros assumindo parte dos riscos do investimento, tornam possível a diversificação. Nesta ordem de ideias, o SF determina tanto os custos de crédito bem como a quantidade de crédito que estará disponível. Quando o custo do crédito cresce regista-se um decréscimo na actividade económica, à medida que as empresas reduzem a produção. Em contraste, quando o custo do crédito decresce, e os fundos emprestáveis ficam disponíveis mais rapidamente, os gastos totais na economia aumentam, mais empregos são criados e o crescimento económico acelera. Tendo em conta estes aspectos, pode dizer-se que o SF é um dos pilares do desenvolvimento económico das sociedades e, é o espelho do desenvolvimento económico, visto que o custo e a quantidade de crédito são factores-chave para impulsionar o crescimento económico.

1

ROSE, Peter S. ―Money and capital Markets - Financial Institutions and Instruments in a Global Marketplace.‖ In Money and capital Markets - Financial Institutions and Instruments in a Global Marketplace, de Peter S. ROSE, 1. McGraw-Hill, 2000.

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária Para cada instrumento financeiro existe um mercado apropriado no sistema financeiro, de modo que conforme os mecanismos de financiamento mais intensivamente utilizados, podemos caracterizar o sistema financeiro de duas maneiras - Sistemas baseados em mercados de capitais ou Sistemas baseados em intermediários financeiros. No primeiro caso as empresas financiam os investimentos próprios directamente, com recursos aos mercados de capitais (bolsa de valores, etc.), emitindo títulos de dívidas (obrigações) ou títulos de propriedade (acções). No segundo caso predomina o financiamento indirecto da actividade económica das empresas com empréstimos bancários de longo prazo. O mercado neste tipo de sistema é caracterizado por uma forte especialização dos bancos comerciais, bem como uma reduzida participação de instituições financeiras não bancárias. O resumo das principais características destes sistemas está indicado na Tabela 1 abaixo:

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Tabela 1 – Tipos de sistemas Financeiros

Financiamento

Sistema de Mercado de Capitais Directo (emissão de títulos directamente junto ao público poupador

Sistema de Crédito Bancário Privado Indirecto (captação de poupança pelos bancos que as aplicam sob a forma de empréstimos Empréstimos Privada (Bancos Universais)

Sistema de Crédito Bancário Publico Indirecto (bancos público concedem financiamento com base em poupança compulsória ou não) Empréstimos Pública (bancos públicos organizados sob a forma de bancos de desenvolvimento Concentrada (bancos públicos de grande porte)

Instrumento Natureza de Instituição Financeira

Títulos (acções e obrigações) Privada

Estrutura do Sistema Financeiro

Diversificada e segmentada embora com maior tendência no período recente a concentração Desenvolvimento paralelo ao processo de industrialização

Concentrada (predominância dos bancos universais de grande porte; poucas instituições especializadas Desenvolvimento paralelo ao processo de industrialização, mas induzidos com comportamentos específicos Alemanha Debilidade do mercado de capitais

Timing

Desenvolvimento resultante de um esforço de industrialização comandado pelo Estado França e Japão Debilidade do mercado de capitais

Exemplos

Bases

Reino Unido e Estados Unidos Requer o mercado secundário de títulos capaz de dar liquidez aos títulos de longo prazo adquiridos Voltada para a disciplinização do sistema constituídoespontaneamente; Voltada para garantir maiores níveis de concorrência e liquidez no mercado secundário

Regulamentação

Voltada para a indução do sistema a comportamentos específicos. Voltada para a criação de condições de financiamento para o crescimento económico estimulando a formação de corporações lideradas pelos bancos.

Voltada para a criação de um sistema de crédito publico de longo prazo pelo planeamento estatal. No caso japonês, voltada também para a orientação do sistema para áreas consideradas prioritárias

Fonte: (Cavalcante, 2002)

Observando as características de cada tipo de sistema, pode-se observar que cada país evoluiu para diferentes tipos de sistemas sendo a causa principal os acontecimentos históricos e culturais próprias. Por exemplo, segundo Cavalcante (2002), os EUA têm uma história financeira diferente de outros países industrializados, no sentido que sempre existiu uma cultura a favor da competição e, que teme a concentração de poder. Esta cultura levou a um desenvolvimento do sistema bancário enviesado no sentido da fragmentação que remonta ao século XIX. Em conclusão, o percurso do desenvolvimento económico influencia bastante o tipo de sistema financeiro adoptado por cada nação. E, embora actualmente exista uma crescente liberalização económica que visa integrar os sistemas financeiros mundiais, devido a globalização, cada país

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária deve adoptar um tipo de sistema financeiro adequado ao seu desenvolvimento, e moldado de acordo com as suas experiências. 2.1.1 A Intermediação Financeira

As imperfeições nos mercados 2 tornariam as trocas entre os agentes superavitários (agentes económicos que disponibilizam as suas poupanças para o investimento, na expectativa de obterem retornos positivos) e agentes deficitários (agentes que fazem uso dos recursos oferecidos pelos agentes superavitários em investimentos), no caso de contacto directo, mais onerosa, podendo mesmo chegar a inviabilizá-las. Os ―intermediários financeiros‖ surgem, então, como um mecanismo para minimizar tais imperfeições permitindo alocar melhor os recursos, ao efectuar a ponte entre os dois agentes. Ao concentrar os recursos dos agentes superavitários, os intermediários financeiros viabilizam a ampliação das escalas de produção, financiando investimentos de maior vulto. Os intermediários permitem também reduzir o impacto de dois grandes problemas que decorrem do contacto directo entre os agentes – os custos de transacção e os custos de informação. O primeiro, é minimizado graças a especialização dos intermediários, que através dos ganhos das economias de escala, reduzem os custos. No que se refere ao segundo problema, este diz respeito aos custos de assimetria de informação, que traz dois problemas distintos – selecção adversa e risco moral. Os intermediários financeiros podem amenizar os problemas causados pela informação assimétrica, uma vez que estão melhor equipados para distinguir os créditos bons e os créditos duvidosos. Estes permitem ainda conciliar os horizontes temporais distintos entre os dois agentes, isto porque os agentes poupadores não alocam os seus recursos com um horizonte de longo prazo, mas os agentes tomadores de empréstimos (normalmente empresas) tomam empréstimos visando um pagamento a longo prazo, o que traria um desencontro no que se refere a alocação temporal dos recursos.

Figura 1: O processo de intermediação financeira

Agentes Superavitários

Oferta

Intermediários Financeiros

Demanda

Agentes Deficitários

Fonte: Elaboração própria baseado nas aulas da G31 de Sistemas e Mercados Financeiros

2

Falhas no canal de transmissão de informação e distanciamento do mercado competitivo

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2.2 Mercado Bancário
O sistema financeiro é composto por vários intermediários, contudo grande parte da literatura da área apresenta uma certa tendência em colocar os bancos comerciais como sendo os representantes legítimos do sistema financeiro. As instituições bancárias oferecem ao público tanto serviços de depósito como de crédito, assim como uma lista cada vez mais crescente e inovativa dos serviços financeiros. A importância dos bancos comerciais pode ser atribuída ao facto destas permanecerem como o principal meio de efectuar pagamentos, através da verificação de contas (demanda de depósitos), cartões de crédito, e outros. Outro factor que acentua a sua importância é a sua habilidade para criar moeda – Moeda Bancária – através do excesso das reservas que sobram dos depósitos do público. Os bancos são o canal principal para transmissão das políticas monetárias. Por ocuparem uma posição chave nos sistemas de pagamento e crédito das economias capitalistas e serem instituições com fins lucrativos, estas devem estar sempre submetidas ao controlo do Estado por via de uma regulamentação eficiente. Os bancos centrais implementam políticas de modo a afectar as taxas de juro e a quantidade de crédito disponível na economia, alterando principalmente o nível e o crescimento das reservas detidas pelos bancos e outras instituições depositárias. Actualmente, os bancos comerciais são a principal fonte de crédito para consumo (para individuais e famílias), e uma importante fonte de empréstimos a pequenas e médias empresas.

2.2.1 Funções dos Bancos Comerciais “Bancos são agentes de produção indirecta que operam no mercado de crédito desenvolvendo uma actividade de intermediação conjuntamente com a prestação de numerosos serviços diversos.” (Negri, 1984).

Os bancos agem principalmente no mercado monetário, isto é, no campo das negociações de capitais a curto prazo. No entanto, em algumas secções deste também operam nos mercados de capitais, ou seja, no campo de negociações de médio ou longo prazo.

No que se refere as funções, o autor em questão sintetiza em económicas as seguintes funções:  Crédito - a principal actividade dos bancos. Estes recebem sistematicamente depósitos e concedem crédito, estimulando a formação de poupanças e capital, canalizando-as para os agentes

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária deficitários. ―Crédito consiste num mecanismo de empréstimos de fundos com a promessa de pagamentos futuros.” (Rose, 2000)  Monetárias – estas instituições criaram meios de pagamentos que encontraram grande difusão no comércio, levando a criação da chamada Moeda Bancária.  Serviços Financeiros – oferecem aos seus clientes uma gama cada vez mais alargada de serviços ―complementares‖ e ―colaterais‖, o primeiro de carácter tradicionalmente bancário e, a segunda do tipo para bancário (Leasing,Aluguer de cofres, etc.)

Segundo Negri (2000: 22) os bancos desempenham ainda uma função social, ao estimularem as poupanças com campanhas de educação e convencimento direccionadas para as actividades produtivas de modo a facilitar a expansão do sistema económico em geral. Estes constituem o ponto de transmissão das políticas económicas, adoptadas pelas autoridades centrais. Investem também em títulos públicos, financiando deste modo as despesas públicas. No passado e em muitas situações ainda hoje, os bancos comerciais operavam em sectores bem delimitados dos mercados financeiros, criando a distinção entre intermediários bancários e não bancários. Com a liberalização dos mercados financeiros, um dos efeitos da globalização, muitos bancos comerciais engajaram-se nas actividades antes dedicadas aos intermediários não bancários, como as empresas seguradoras, mercado de títulos, etc., sendo assim conhecida como a despecialização dos intermediários financeiros. Este fenómeno ocorre principalmente nos sistemas financeiros mais desenvolvidos, mas também é presente, ainda que de uma forma ainda tímida, nas nos sistemas menos sofisticados, como é o caso do sistema moçambicano, onde já os bancos oferecem produtos não tipicamente bancários.

2.2.2 As crises bancárias

A natureza das actividades bancárias e o papel que é-lhe incumbido de desempenhar oferece a si própria riscos inerentes à actividade bancária, sendo que os bancos não devem ser tratados como apenas mais um tipo de sociedade com o objectivo de lucro. Podem ser apresentadas as seguintes razões para manter a actividade bancária sobre constantes vigilâncias:  Participam da soberania monetária do Estado, na medida que criam dinheiro de crédito e, realizam serviços de pagamentos; Soraya Sarah Fakir Coscione 19

Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária  São instituições altamente endividadas soldadas na confiança do público, de modo que a crise de um banco pode traduzir-se numa crise geral do sistema financeiro, por mais sólido que seja;  O papel de intermediação financeira que desempenha é estratégico, uma vez que é um impulsionador do crescimento económico;  A falência de um banco afecta o funcionamento do sistema bancário, que afecta a quantidade de crédito disponível e as taxas de juros e consequentemente, os investimentos e, o nível de actividade económica  Podem provocar grandes fugas de capital e, agravar problemas de balanço de pagamentos;

As crises bancárias geralmente se manifestam com um problema de liquidez que se pode transformar num problema de solvência do sistema bancário. Porém, as crises bancárias não decorrem sem a conjugação dos factores macroeconómicos e micro económicos (normalmente a vulnerabilidade dos bancos). Esta vulnerabilidade que se conjuga com factores macroeconómicos pode ser explicada pelo facto de as crises ocorrerem, normalmente, no auge dos ciclos económicos, já que existe um estreito vínculo entre os períodos de expansão e, predisposição dos bancos em assumir mais riscos – expandindo o crédito. Assim segundo Corazza: “Crise bancária é um efeito endógeno da crescente fragilidade financeira que se desenvolve ao longo da fase expansiva do ciclo económico.‖

2.2.2.1. Externalidades das Crises Bancárias

As crises bancárias tendem a gerar maiores externalidades negativas para o resto da economia do que outro sector financeiro ou produtivo. Este aspecto distintivo soma-se à vulnerabilidade bancária diante de riscos sistémicos de liquidez.

Segundo Otaviano Canuto e Gilberto Tadeu Lima (1999:5) podem ser identificadas as seguintes externalidades das crises bancárias: 1. O uso de recursos públicos para recapitalização de bancos em dificuldades, particularmente quando a escala dos resgates ultrapassa os limites estritamente monetários, em níveis do balanço do banco central, e passa a exigir aportes orçamentais do governo.

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária 2. O credit crunh, isto é o arrocho quantitativo de crédito e/ou ampliação das margens de spread 3 entre as taxas de captação e aplicação, criando ou amplificando declínio na actividade no lado produtivo da economia. As economias mais afectadas são principalmente as baseadas no crédito bancário – particularmente as emergentes – nas quais os bancos são os maiores detentores de activos financeiros, financiam as actividades financeiras e não financeiras e, carregam grande parte dos títulos da dívida pública. 3. A intensificação dos problemas informacionais e das suas consequências em termos de selecção adversa e risco moral. Durante as crises financeiras, os primeiros a aceitar taxas de juro mais altas serão os menos merecedores de crédito, reduzindo a qualidade de investimentos na economia. Além disso, o próprio processo de resgate de bancos pode reduzir os interesses privados no monitoramento futuro dos comportamentos dos bancos. 4. As relações usuais entre os instrumentos monetários e as metas intermediárias e finais da política monetária são subvertidas em situações de crise bancária, não só no que diz respeito à previsibilidade mínima essencial à política monetária, como também nos limites colocados sobre esta pelas possibilidades de falência bancária. Condições de fragilidade bancária impedem ou limitam o eventual uso de elevação de taxas de juro como instrumento de gestão macroeconómica. 5. Nas economias emergentes, crises bancárias podem implicar fugas de capital e problemas subsequentes de balanço de pagamentos.

2.3 Reestruturação Bancária
Reestruturação Bancária significa dar uma nova estrutura4 ao sistema bancário, de modo que possa adaptar-se às mutações a registar no sistema bancário e financeiro.

Assim, reestruturação significa uma revisão nas normas e procedimentos que regulam o ambiente financeiro e bancário, que se traduzem numa mudança no comportamento dos bancos e na sua forma de competir. Em segundo lugar, significa também uma modernização na supervisão bancária e as regras prudenciais que significa controlar a actividade bancária para que esta não esteja a assumir riscos que possam por em risco o sistema financeiro na sua totalidade. Em terceiro, significa adoptar uma contabilidade adequada e internacionalmente aceite onde o risco é facilmente

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Spread é a margem adicionada à taxa aplicável a um crédito, título ou moeda. Isto pode encarecer ainda mais o custo do crédito comercial. 4 A estrutura inclui a organização e disposição do sistema bancário na economia, bem como da legislação regulamentadora deste.

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária identificado e permita tornar a gestão bancária mais segura e em consequência demonstrações financeiras mais ―saudáveis‖.

De uma forma geral, podem ser identificadas duas principais causas para as reestruturações bancárias: 1. Liberalização Financeira – aquando das transformações das economias planificadas em economias de mercado. Nesta fase a principal preocupação é privatizar as principais instituições económicas no mercado como bancos comerciais e empresas, que antes se encontravam sobre o controle total do Estado. Outra preocupação é a abertura do mercado nacional para atrair investimentos de capitais estrangeiros. 2. Adaptação e Especialização da banca às condições do mercado – o mercado à nível mundial não é mais estático, esta sujeita a grandes modificações. A globalização é um factor cada vez mais responsável pelas mutações nos mercados, sendo que os factores são: a. Desregulamentação dos mercados financeiros; b. Desenvolvimento de novas tecnologias de informação (TI); c. Criação constante de novos instrumentos financeiro;

A primeira fase da reestruturação é causada principalmente pela necessidade de adaptação dos bancos a consequente abertura dos mercados nacionais, e a crescente competitividade no mercado, decorrente de novos investimentos estrangeiros. Por sua vez, a segunda é causada pelos efeitos da globalização, ocorrendo muitas vezes após ameaças de crises bancárias nos sistemas financeiros, demonstrando a fraca diligência face aos factores da globalização acima referidos.

Pode-se considerar ainda uma nova fase, dado ao constante desenvolvimento das tecnologias de Informação (TI). Estes continuam em constante desenvolvimento, e muitas vezes a adopção de uma nova TI implica a reestruturação do sector, com vista a adaptar-se às exigências desse novo sistema.

2.3.2 Experiências de Reestruturações Bancárias

A reestruturação do sistema bancário é um esforço complexo. A insolvência e a rentabilidade degradada devem ser revertidas, o ambiente regulador deve ser modernizado, e as instituições supervisionadas. Estes passos são desenhados para garantir que os restantes bancos mantenham a solidez e qualquer posterior crise bancária não comprometeriam a estabilidade dos sistemas Soraya Sarah Fakir Coscione 22

Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária bancários. Lições importantes foram aprendidas a partir de reestruturações bem sucedidas que foram implementadas tanto por países desenvolvidos como por em vias de desenvolvimento. Serão aqui apresentados dois exemplos, nomeadamente referentes ao caso do Brasil e Kazaquistão. A. Reestruturação do Sistema Bancário Privado Brasileiro O Brasil passou pela experiência da reestruturação bancária na década de 90, após a implementação do Plano Real e o subsequente controle da inflação, levando a perda por parte dos bancos comerciais das receitas inflacionárias, uma das fontes da sua rentabilidade. Segundo MOLINA (2004), o Plano Real afectou o funcionamento dos bancos no Brasil, que se viram impelidos a um rápido esforço em reestruturação interna e reorganização das suas actividades. Primeiramente tiveram de se adaptar a perda das receitas inflacionárias, que apesar de tudo não representou na altura uma redução na queda da rentabilidade bancária explicada pelo incremento de serviços bancários. A manutenção dos níveis de rentabilidade, no entanto não deixou de aumentar a vulnerabilidade do sistema financeiro, especialmente devido ao aumento dos créditos de liquidação duvidosa. Assim, segundo ARIENTI (2007), com a possibilidade da eclosão de uma crise bancária em 1995, o governo brasileiro criou o chamado PROER5 com fim de evitar a crise de insolvência e de possibilitar o processo de reestruturação do sistema bancario. Porém, este programa destinava apenas a instituições privadas e com o objectivo de reduzir ao mínimo a presenças das instituções financeiras controladas pelos governos estaduais , adoptou-se o PROES6. A adopção destes dois planos foram os pontos de partida para o delineamento das primeiras transformações que iriam alterar a configuração do sistema bancário brasileiro: um sistema bancário mais concentrado. A abertura a investimentos estrangeiros no sistema bancário brasileiro levou a uma mudança estrutural devido ao elevado movimento de fusões e aquisições dos bancos brasileiros e bancos estrangeiros, gerando a concentração bancária. Com a entrada de agências bancárias estrangeiras, os bancos nacionais brasileiros adoptaram uma estratégia referente a fusões, aquisições e incorporações entre eles também, com o intuito de se posicionar melhor no mercado e obter economias de escala. No entanto, segundo MOLINA (2004), apesar de um aumento expressivo do capital estrangeiro no segmento dos bancos comerciais, o sistema permaneceu predominantemente brasileiro (nacional). Sendo que a entrada de capitais estrangeiros trouxe por um lado o processo de
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Programa de Estímulo à Reestruturação ao Fortalecimento do Sistema Financeiro (PROER) foi instituído como um mecanismo de financiamento para que instituições saudáveis pudessem absorver bancos em dificuldades. 6 Programa de Incentivo à Redução do Setor Público Estadual na Actividade Bancária (PROES)

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária modernização tecnológico e racionalização administrativa, tornando-o mais competitivo, num ambiente onde as receitas alavancadas pela inflação foram substituídas pelas provinientes dos serviços. Por outro lado, a concentração trouxe como efeito a redução do número de bancos passando de 245 bancos (1993) para 220 bancos (1997).

Análise da performance do sector bancário após a Reestruturação

Analisar o impacto da reestruturação passa por analisar os seus efeitos na lucratividade e na evolução da oferta de crédito no sistema brasileiro. No que se refere a lucratividade do sector, com excepção do ano de 1997 este continuou a apresentar bons níveis de lucratividade como pode ser observado na tabela seguinte:
Tabela 2 – Percentual da lucratividade dos bancos comerciais brasileiros (1994 – 2003)

Discriminação Rentabilidade

1994 14,36

1995 11,87

1996 12,32

1997 8,54

2000 19,2

2001 19,2

2002 27,0

2003 14,7

Fonte: ARIENTI (2007)

Assim, pode-se observar que após a reestruturação os bancos vêm demonstrado um desempenho cada vez mais satisfatório, demonstrando o sucesso da reestruturação. Por sua vez, no que se refere a oferta de crédito, segundo ARIENTI (2007), não ocorreram mudanças visto que se adoptou uma estratégia que previligia a liquidez dos títulos de dívida pública em detrimento do crédito, não indo de encontro com as expectativas do governo brasileiro. Na realidade as expectativas deste eram que o PROER fosse capaz de promover o ajustamento dos bancos, de modo a que estes acabariam por não só expandir suas operações de crédito (como forma de compensar as perdas das receitas inflacionárias) mas também permitiria uma redução nos spreads bancários. O cenário de instabilidade macroeconómica (principalmente a partir da crise asiática em 1998) e o próprio ambiente económico dentro do sector bancário brasileiro levou, no entanto, a que os bancos adoptassem uma estratégia mais conservadora, baseada na redução da oferta de crédito e no aumento das operações com títulos públicos que viabilizou-se graças a política económica adoptada pelo governo. No que diz respeito a evolução do spreads bancários, estes tiveram uma redução substancial, permanecendo, porém, elevados. No entanto OREIRO (2006 apud Arienti, 2007) salienta que são factores macroeconómicos que explicam a manutenção destes spreads elevados, nomeadamente a elevada volatilidade das taxas de juros no Brasil.

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária Assim, a principal lição que pode ser retirada do caso da reestruturação bancária no Brasil é que embora o sistema tenha se consolidado e fortalecido, no que se refere a oferta de crédito não se registaram grandes alterações, não indo de encontra com a expectativa do governo que acreditava que após ao fim da inflação e em resposta a internacionalização e reestruturação do sector o sistema se auto-regularia em direcção ao aumento da oferta de crédito. É de se salientar inclusivé, que esta postura segue a lógica dos bancos, que são agentes económicos que visam obter lucros, tendo aversão ao risco e operado num ambiente marcado pela incerteza procurando conciliar sempre o risco e a lucratividade nas suas decisões de portfólio. Não obstante este facto o PROER parece ter sido bem sucedido tanto na prevenção de corrida bancária, como também na penalização de políticas bancárias inconsistentes. Em suma, pode-se concluir que a abordagem abrangente tomada pela reestruturação bancária no Brasil impidiu uma crise sistêmica que parecia provável e, embora ainda deva ser concluída, a reestruturação produziu importantes mudanças estruturais neste sistema bancário.

B. Reestruturação Bancária no Cazaquistão A reestruturação bancária no Cazaquistão é considerada bem sucedida, ao demonstrar capacidade para gerir as crises bancárias individuais e estabelecer um ambiente operacional favorável para os bancos, onde se implementam de tal modo para evitar uma queda generalizada dos bancos (crise). O Cazaquistão tornou-se independente da Rússia em 1992, porém somente na metade de 1933 tornou-se totalmente independente tanto a nível financeiro com a nível político (o NBK 7 que antes era parte intergrante do Gosbank 8 tornou-se totalmente independente e introduziu a sua própria moeda) sendo que o Governo deu uma grande prioridade a reforma e reestruturação do sistema bancário. Tendo em conta a práticas mais eficazes de reestruturação bancária, este processo no Cazaquistão foi dividido em duas fases: a reestruturação financeira (1992-1995) onde a preocupação primária do governo era a de reverter o colapso generalizado dos grandes bancos estatais e a segunda fase a reestruturação operacional (1995-1997) onde focalizou-se na regulação e mundanças no sistema contabilístico, bem como na supervisão e regras prudenciais. Durante a primeira fase registou-se um incremento substancial no número de instituições bancárias, mas não um incremento na intermediação financeira. As condições macroeconómicas da
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National Bank of Kazakhstan – Banco Nacional do Kazaquistão Banco Central da união Soviética

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária altura formaram um caldeirão para a possibilidade de um colpaso do sistema financeiro do país, sendo que as principais preocupações do governo na altura eram regularizar o licenciamento dos bancos privados, uma vez que existia o receio de estes não estarem bem capitalizados, e a situação dos grandes bancos estatais. Assim o NBK estabeleceu um novo capital mínimo exigido para o estabelecimento de novos bancos. Em 1994, após a adopção deste política, o abrandou-se o licenciamento de novos bancos e iniciou-se uma avaliação sistémica do sistema bancário e, embora o sistema contabilístico e de divulgação fossem ineficientes, o departamento de supervisao do NBK começou o processo de liquidação de bancos considerados não viáveis, resultando na redução do número de bancos. Assim, após a situação de uma eminente crise bancária em 1995, com a situação já revertida e estabilizada o foco do NBK foi de eliminar as deficiências no ambiente operacional do sistema bancário. Assim a reforma das leis reguladoras e do sistema contabilístico e nas regras prudenciais, bem como na supervisão bancária (iniciando com a capacitação do pessoal responsável e das práticas existentes).

Lições retiradas da Reestruturação do Sistema Bancário do Kazaquistão

Como já foi dito acima, o processo de reestruturação do sistema bancário neste país é considerado um sucesso, visto ter promovido a solidez do sistema bancário e ter fornecido um ambiente operacional mais regulado e estável. O número de bancos rentáveis tem aumentado e o de bancos não viáveis reduziu consideravelmente. No entanto, uma das críticas que pode ser feita a este processo é que não se adoptou um plano abrangente na altura envolvendo tanto os problemas financeiros dos bancos como os problemas relacionados com a fraqueza do ambiente regulatório, o que gerou a tomada de políticas um pouco contraditórias9, gerando um distanciamento com o sector privado, não resultando num aumento da intermediação financeira. Logo, a sequência das reformas efectuadas não foi muito eficiente. Assim uma das principais lições a tirar deste processo é que tanto ao aplicar as reformas é necessário combinar as reformas financeiras com as operacionais. Outro factor que pode ser salientado, ainda que não seja necessariamente uma crítica é a existência do chamado síndrome dos bancos ―too big to fail‖10.

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Por exemplo, o licenciamento de novas instituições bancárias para mais tarde sanear as agências consideradas mal capitalizadas. 10 A ideia deste síndrome ou política baseia-se no regulamentação bancária americana, onde maior e mais poderoso banco é "muito grande para (deixar) falhar." Isto pode significar que poderia incentivar a imprudência já que o governo iria pegar as partes que estavam prestes a entrar em falência, ou por outro lado, poderia significar que que os bancos teriam menos incentivo para a gestão de risco dos negócios, uma vez que esperam ser recuperados em caso de fracasso.

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária

III. O Sistema Financeiro Moçambicano
3.1 Moçambique – Contexto Histórico
Moçambique, assim como grande parte do continente africano esteve, até o ano de 1975, sob o regime colonialista. A 25 de Junho de 1975 conquista a independência, transformando-se numa República Popular, com um regime de partido único, até Novembro de 1990, data da entrada em vigor da Constituição que instaurou o regime democrático multipartidário e um sistema de economia de mercado.

No entanto, o período logo a seguir a independência foi um período de grandes turbulências, caracterizado pela debandada em massa da população europeia, entre 1975 e 1976. Esta situação acabou por desequilibrar a evolução económica do país, criando uma grave lacuna de falta de quadros. O país passa a receber um maior apoio dos países socialistas e contar também com a hostilização dos países ―ocidentais‖ no âmbito regional - África do Sul e Rodésia (Zimbabwe). A evolução da situação económica de Moçambique passou a estar intimamente ligada a evolução da situação política, enfrentando situações de:    Saída de técnicos e operários especializados. O analfabetismo atingia 93% da população

com 7 ou mais anos de idade. Escoamento das contas bancárias e bens de equipamento, combatida por recurso ao

endividamento externo e por uma política de nacionalizações. Inundações de 1977-1978 e as secas de 1981-1983 devastaram enormes áreas na região do

Sul do país, onde se produzia 80% do arroz e 20% do açúcar e concentravam-se 70% dos efectivos bovinos do país.  Em Março de 1976, Moçambique implementou a Resolução 253 de 1968 do Conselho de

Segurança das Nações Unidas que decidia a aplicação de sanções contra o regime de Ian Smith. De forma unilateral Moçambique encerrou as fronteiras, fechou os portos, linhas de caminho de ferro e estradas aos produtos de e para a Rodésia. Moçambique tornava-se também na principal base para os guerrilheiros da ZANU, o movimento nacionalista que combatia o regime da Rodésia (Zimbabwe). O preço a pagar por estas posições, foi demasiado alto. Durante o período da duração das sanções, Moçambique sofreu quebra de receitas dos caminhos-de-ferro e portos, das remessas de emigrantes, das receitas de turismo, etc. O exército Rodesiano atacou e criou grupos especiais para a desestabilização de Moçambique, utilizando-os ao mesmo tempo para bloquear a actividade

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária guerrilheira Zimbabueana. Esses grupos, provocaram a destruição de infra-estruturas económicas e sociais, bloqueando o desenvolvimento económico e social de Moçambique. A combinação dos factores acima mencionados constituiu o ―primeiro caldeirão‖ para a primeira crise económica no país independente, caracterizada principalmente por um decréscimo dos níveis de produção dos sectores primário, secundário e, terciário. De modo a colmatar a situação, o Estado viu necessário tomar um conjunto de medidas de reorganização de modo a evitar o colapso total da economia moçambicana. A criação de um Estado baseado nos princípios do Socialismo, levaram a criação de uma economia planificada ou centralizada.

Economia Planificada é um sistema económico onde a produção é previa e racionalmente planeada por especialistas, no qual os meios de produção são propriedades do estado e a actividade económica é controlada pela autoridade central que estabelece metas de produção e, distribui matérias-primas para as unidades de produção. 11

Neste sentido, no sector financeiro foram tomadas medidas que centralizaram o controle, sendo que foram intervencionadas as seguintes instituições: - Instituto de Crédito de Moçambique - Monte Pio de Moçambique - Banco Nacional Ultramarino (que funcionava como uma representação oficial do Banco de Portugal) - Banco Pinto & Sotto Maior.

O Banco Nacional Ultramarino (BNU) transformou-se em Banco de Moçambique (BM) e, o Instituto de Crédito de Moçambique em Banco Popular de Desenvolvimento (BPD), sendo que as restantes duas deixaram de operar. Do período da colonização, apenas o Banco Standard & Totta não sofreu alguma intervenção. Deste modo, até 1989 a principal característica do sistema financeiro moçambicano era o número reduzido de bancos comerciais (apenas três) e, cerca de 95% do negócio bancário representados pelos bancos controlados pelo Estado. Durante os anos 80 e princípio dos anos 90, o sistema bancário funcionava quase como braço operativo do OGE e quase todo o crédito disponível era alocado em empresas estatais não rentáveis.
11

(Wikipedia 2001)

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária As taxas de juro reais eram negativas, os níveis de poupanças baixos e, os bancos haviam acumulado um volume significativo de crédito malparado. 3.1.1 O Programa de Reabilitação Económica (PRE)

Em 1980, o país trocou a sua moeda de Escudo para Metical, que sofreu desvalorizações no final da década pela adesão do país ao FMI. E ainda no inicio desta década, havia sido lançada a campanha de dez anos, denominada de ―Vitória ao Subdesenvolvimento‖. No entanto, esta campanha foi deixada de lado em Janeiro de 1987 e adoptada o PRE – Programa de Reabilitação Económica – que tinha o prazo de duração 3 anos. Este programa visava reverter a situação, cada vez mais degradante da economia e, do desempenho das firmas. Este programa envolvia as seguintes reformas:    Jurídico-Institucional – de modo a liberalizar e, diversificar as actividades do sector,

do mesmo modo que atrai capitais estrangeiros; Políticas Financeiras; Privatização dos bancos estatais e, uma maior abertura no sector financeiro.

A implementação do PRE deveu-se principalmente a necessidade da liberalização da economia. 3.1.2 O período compreendido entre 1992 à 2000

Em termos políticos, este período é caracterizado principalmente pela assinatura, à 4 de Outubro de 1992, do Acordo Geral de Paz, entre o Governo de Moçambique e a Renamo, presididos por Joaquim Chissano e Afonso Dhlakama, na Comunidade de Sant'Egidio, Roma, pondo fim a 16 anos de guerra civil. As primeiras eleições, livres e democráticas, foram realizadas em 1994, ganhas pela Frelimo e por Joaquim Chissano, que se manteve como Presidente da República de Moçambique até o ano de 2004, sendo precedido por Armando Guebuza, o actual chefe de Estado, do mesmo partido. Depois de 1992, um dos principais objectivos do programa de reforma económica do Governo foi a resolução de deficiências e problemas no sector financeiro. Permitiu-se que os bancos estrangeiros investissem em Moçambique, as taxas de juros desregulamentadas. Uma avaliação efectuada pelo governo no período de 1986 à 1990 indicou que o output de todos os sectores da economia nacional estavam a decrescer apesar das políticas tomadas anteriormente.

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária Como resultado tomou-se a decisão de reestruturar o sector empresarial e privatizar as empresas estatais. Em 1992, devido a dificuldade em conciliar as actividades divergentes de Banco Central e Comercial, e a necessidade da criação de um banco central expurgado das funções comerciais, culminaram com a separação das actividades de Banco Comercial e Central do BM. Com a lei 1/92, são separadas as funções do BM que passa a desempenhar apenas a função de Banco Central e regulador do sistema financeiro. Foi também criado, neste âmbito um novo banco comercial – Banco Comercial de Moçambique, SARL (BCM, SARL).No final dos anos 90, permitiu-se a entrada de capital privado, através da privatização das participações maioritárias dos maiores bancos comerciais. Em 1996, o BCM foi adquirido por um grupo de investidores estrangeiros liderados pelo Grupo Mello de Portugal, em 1997 o BPD foi vendido a uma Banco da Malásia e a investidores moçambicanos, sendo que este alterou a sua designação para Banco Austral. Surge em 1997 também um novo banco, o BCI sendo que os accionista eram maioritariamente o Grupo Caixa Geral de Depósitos de Portugal.

No final do ano 2000 uma crise bancária importante atingiu o sistema bancário moçambicano, sendo o BCM – Banco Comercial de Moçambique e o BA – Banco Austral, considerados insolventes. De modo a evitar uma insolvência completa, e um impacto considerável sobre o sistema financeiro moçambicano, o Governo organizou uma operação de resgate (bail-out) com um custo elevado: cerca de USE 128 milhões em 2001, equivalente a 4% do PIB nacional. Esta operação trouxe algumas consequências para a inflação, e também sobre o passivo do Estado. O BA foi posteriormente vendido a uma banco sul-africano, e o stock de empréstimos

problemáticos/insolventes foi transferido para uma conta do Tesouro. O BCM foi posteriormente adquirido pelo grupo BIM.

3.1.3 A Estrutura Actual Dadas as características predominantes do sistema financeiro moçambicano, pode-se dizer que este é baseado no modelo alemão – baseado do crédito bancário privado – sendo que, o mercado de capitais moçambicano é ainda muito pouco desenvolvido. A abertura da bolsa de valores moçambicana só se deu em finais de 1999, resultante das reformas financeiras no país. Não obstante as modificações registadas no sector bancário moçambicano, este é ainda considerado relativamente pequeno – existem 12 bancos comerciais, 11 agências cooperativas e, 58 operador de micro crédito (2006) – assim como bastante concentrado – a maior instituição possui Soraya Sarah Fakir Coscione 30

Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária 40% dos activos totais da banca; 90% dos activos e passivos da banca é possuído por apenas seis instituições nomeadamente: ABC, BA, BCI Fomento, Millenium BIM, BIM e Standard Bank.

Gráfico 1 - Evolução do número de bancos em Moçambique

Adaptado de: Relatório do BPI; Novembro 2007; pg. 33

Para além das características acima referidas, o sistema bancário é ainda geograficamente pouco disperso, visto que metades das agências abertas ao público estão situadas na província ou cidade de Maputo. Cerca de 80% do território nacional não dispõe de qualquer agência bancária, demonstrando a fraca bancarização do país. Uma pesquisa efectuada, identificou como os principais constrangimentos para a expansão da rede bancária: a) Ausência de infra-estruturas (estradas, redes de comunicações, e electricidade) b) Elevados custos operacionais e de investimento na fase de arranque; c) Economia rural de dimensão reduzida; d) Falta de sucursais do BM; e) Mão-de-obra sem o perfil exigido. No entanto, é de se salientar que dado o reconhecimento das autoridades moçambicanas sobre o papel da banca e serviços financeiros, tanto para o crescimento económico bem como para a promoção do emprego, existe um esforço substancial em alargar a rede de balcões do BM para além das principais cidades moçambicanas, com enfoque nas regiões centro e norte do país, de modo a incentivar o investimento bancário nas zonas rurais.

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária

IV. Análise dos Efeitos da Reestruturação do Sistema Bancário Moçambicano
A avaliação dos efeitos da reestruturação do sector bancário moçambicano requer que seja levado em consideração a dupla dimensão das instituições bancárias numa economia capitalista. Por um lado, os bancos são agentes económicos submetidos a lógica da valorização da riqueza num mundo com um ambiente de incerteza, e no qual as decisões são irreversíveis. Compartilham o objectivo comum de qualquer agente económico capitalista – lucro – sendo que deste modo, apresentam uma preferência pela liquidez e expectativas para o futuro norteando as suas estratégias de valorização. Por outro lado, os bancos desempenham um papel estratégico na economia devido ao processo de criação da moeda de crédito, bem como pelo seu papel na promoção do investimento. Assim, a avaliação da performance do sistema bancário moçambicano após a reestruturação bancária, deverá considerar a sua dupla dimensão: por um lado o desempenho do sector como reflexo da sua rentabilidade, bem como da sua evolução; por outro, o impacto da reestruturação sobre o desempenho do seu papel mais importante – o fornecimento do crédito aos agentes económicos – bem como da evolução do risco do crédito no país.

4.1 Avaliação da Performance do sector bancário após a reestruturação
A avaliação da performance do sector bancário passa pela avaliação da lucratividade do sector, bem como a análise da sua evolução ao longo do tempo. A evolução da lucratividade permitirá que se tenha, em parte, uma ideia acerca do desempenho dos bancos no SFM. Os bancos, em geral, têm como as suas receitas os juros sobre os empréstimos, Títulos 12 , prestação de serviços e, equivalência patrimonial. Como despesas, podemos considerar os juros de depósitos e obrigações, provisões para créditos duvidosos, pessoal e custos administrativos, impostos e, participação. Outro factor para avaliar a performance do sistema bancário é a oferta do crédito, visto que este é o principal produto bancário. O crédito representa um activo para os bancos. A oferta deste pode condicionar a actividade bancária devido principalmente ao risco do crédito.

12

Ganhos de capital+juros

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária 4.1.1 Critérios de eficiência

Os bancos em Moçambique, são considerados rentáveis e bem capitalizados, no entanto estão muito vulneráveis face ao risco de crédito no país. Os indicadores de rentabilidade escolhidos para avaliar a performance do sector são os lucros líquidos, ROAA e ROAE. O lucro liquido demonstra o retorno positivo de um investimento feito pela empresa, após a dedução das despesas operacionais e não operacionais. O ROAA (ROA) é um indicador financeiro que mostra, em percentagem, como os activos lucrativos da empresa estão a gerar receitas. Este indicador mostra como a empresa é rentável antes da alavancagem financeira. É muito usado para comparar o desempenho das instituições financeiras (como os bancos), porque a maioria dos activos bancários terá um valor contabilístico que está perto do seus valores de mercado. O ROAE (ROE) é um indicador, também financeiro, percentual que se refere a capacidade de uma empresa agregar valor a ela mesma utilizando os seus próprios recursos, ou seja, o quanto esta consegue crescer usando os seus recursos próprios. Por esta razão este é visto como um dos mais importantes rácios financeiros.
Tabela 3 – Indicadores de Performance

1999 Lucros /Prej. Liquidos (MMZM) ROAA ROAE

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

92.593 -1.711.277 -897.431 548.303 474.322 572.760 940.581 2.302.809 0,45% -9,32% -3,44% 1,79% 1,43% 1,50% 2,06% 3,99% 19,77% -55,61% -118,34% 21,68% 14,41% 14,40% 21,54% 47,73%
Fonte: Relatório de Pesquisa sobre o sector bancário; AMB (2000-2006)

Como se pode observar na tabela acima, o sector bancário moçambicano vem registando melhorias consideráveis no que se refere à rentabilidade do sector bancário em Moçambique. No ano de 2006, o sector registou um ponto máximo de lucros líquidos de 2.302.809 milhares de meticais, o que representou um crescimento de aproximadamente 145% em relação ao ano anterior de 2005 (940.581 milhões). Como se pode observar na tabela, em 2000 o sector apresenta resultados negativos decorrentes da grave crise bancária que se abateu no país. Este resultado negativo foi particularmente afectado pelo avultado prejuízo do BA face ao saneamento da sua carteira de crédito que reduziu substancialmente a margem de juros do balanço.

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33

Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária Ainda em 2001 o resultado se apresenta negativo, sendo ainda resultado da crise bancária no ano anterior, no entanto apresenta uma melhoria de 43 pontos percentuais em relação ao ano anterior. Este resultado negativo decorre da constituição de provisões, resultantes da limpeza das carteiras de crédito dos bancos envolvidos na crise bancária. No ano de 2003, o sector apresentou lucros positivos (474.322) , ainda que menores que em 2002 (548.303), apresentando uma variação negativa de 13,49%. Esta queda nos resultados foi causada por principalmente pela redução significativa das taxa de juro activas, redução (mais uma vez) dos activos de risco com maior retorno na estrutura dos activos remunerados, e a estabilidade do metical face ao dólar no mesmo ano.
Gráfico 2 – Evolução dos lucros líquidos (1999-2006)

Adaptado de: Relatório de Pesquisa sobre o sector bancário; AMB (2000-2006)

Quanto aos indicadores financeiros ROA e ROE, estes também têm vindo a registar crescimentos, reflectindo a melhoria da rentabilidade do sistema bancário moçambicano. Destaque é mais uma vez para o ano de 2000, que tendo um resultado líquido bastante deteriorado apresenta, deste modo os valores de ROA e ROE negativos (-9,32 e -55,61) o que indica uma ineficiente alocação dos recursos nos bancos de Moçambique na altura. O ano de 200113 apresenta também valores negativos decorrentes da reestruturação ao sector bancário que se fez sentir nesse ano,

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Os resultados apresentados aqui para o ano de 2001 estão afectados pelo impacto da reestruturação nas demonstrações financeiras dos bancos privatizados ocorrida nesse mesmo ano.

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária que visava transformar o sector fragilizado para um sector caracterizado por uma maior solidez, controle e eficiente supervisão bancária. Apesar de durante o ano de 2002, este indicadores terem registado melhorias, em 2003 registouse um ligeiro decréscimo, sendo este atribuído, de uma forma geral, às reduções das taxas de juros visto que estes foram investidos a uma taxa de retorno menor que no ano anterior. Não obstante o facto de o sector apresentar graus de rentabilidade considerados elevados, ainda se considera que apresenta valores abaixo dos níveis apresentados por alguns países da região. 4.1.2 O sistema Bancário Moçambicano e a oferta de crédito

O objectivo do governo aquando da liberalização financeira de promover a expansão das operações de crédito, e deste modo através da entrada de novos agentes no mercado resultasse numa redução nos spreads bancários bem como nas taxas de juro. O gráfico 3 demonstra a evolução da oferta de crédito no país, no período em análise, o que permite tirar algumas conclusões no que diz respeito ao papel dos bancos comerciais na oferta de crédito.
Gráfico 3 – Evolução da Oferta de crédito em Moçambique (2000-2006)

Adaptado de: Relatório de Pesquisa sobre o sector bancário; AMB (2000-2006)

No presente gráfico pode-se perceber que o nível de crédito distribuído a economia moçambicana pelos bancos tem vindo a crescer. Nota-se porém que há períodos em que esse crescimento é negativo. Entre o ano de 2000 e 2001 houve um acréscimo de 37% nos níveis de crédito oferecidos a economia sendo que esta foi motivada pelo crescimento económico, que incentiva a procura pelo crédito para o consumo e para Soraya Sarah Fakir Coscione 35

Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária o investimento. Em termos do tipo de moeda estima-se que os créditos em moeda nacional tenham sobrepostos os de moeda estrangeira em 60% até ao ano de 2005, quando se introduziu o Aviso que obrigava as instituições financeiras a constituírem cerca de 50% de provisões do crédito em moeda estrangeira14. Em relação ao ano de 2002 considera-se que o sector bancário registou um crescimento muito pouco acentuado (apenas 5,56%) em relação ao ano anterior. Atribui-se em grande parte esse decréscimo do crédito a depreciação do metical face ao dólar, conjugadas com o ambiente macroeconómico no país. Por sua vez, a estrutura do crédito por moedas modificou-se sendo que a liderança foi transportada para a moeda externa . O ano de 2003 apresenta um ligeiro decréscimo em relação ao ano anterior, tendo registado um decréscimo de 2,7%, sendo que é atribuído ao saneamento aos créditos mal parados, bem como a adopção de medidas mais prudentes por parte dos bancos comerciais e a escassez de projectos de investimentos de risco aceitável para os bancos. Também a crescente dolarização do sector bem como a crescente informação assimétrica na intermediação financeira são factores que afrouxaram o crescimento da oferta do crédito. Aliás no mesmo ano, o crédito em moeda estrangeira registou um acréscimo em 20%, sendo que o crédito em moeda nacional decresceu em 19%, alterando a estrutura da oferta do crédito. Para o ano de 2006 nota-se que a oferta de crédito apresenta um crescimento exponencial variando 22% em relação ao ano de 2005 (desaceleração em relação ao crescimento de 2005) atingindo um saldo de 25.108.963 milhares de MT. O aumento do crédito à economia está associado aos seguintes factores: i. Aumento da procura de crédito, tanto pelas empresas para financiamento de meios

circulantes e para investimento, como por particulares para consumo e aquisição de bens imobiliários; ii. A apreciação do Dólar Americano em relação ao Metical; iii. Aumento de projectos de investimentos de risco aceitável e com maiores retornos.

O aumento da oferta do crédito à economia neste ano (2006) corrobora com o crescimento da rendibilidade do sistema bancário, demonstrada no gráfico 2. O aumento do crédito concedido resultou no crescimento da margem financeira em 24%, que se traduziu também no aumento dos lucros, formando, consequentemente maiores níveis de ROA e ROE.

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AVISO Nº 5/GGBM/2005, do Banco de Moçambique

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária

Gráfico 4 – Comparação entre a evolução da oferta de crédito e dos lucros líquidos no sector bancário moçambicano

Adaptado de: Relatório de Pesquisa sobre o sector bancário; AMB (2000-2006)

O gráfico acima demonstra ainda que, mesmo nos anos em que o sector apresentou quedas na oferta de crédito (2003 e 2004) os lucros líquidos deste continuaram a registar um crescimento (ainda que reduzido), registando apenas uma ligeira queda no ano de 2003, apresentando deste modo a capacidade que o sector bancário tem de se adaptar e procurar novas fontes de rendimento. A alta nas taxas de juros reais alimentou a fraca intermediação financeira. Esta fraca intermediação era também resultado de impedimentos legais e institucionais, por exemplo, falta de capacidade na execução de dívidas através dos tribunais, reduzida informação sobre os devedores, entre mais. De facto, no início da década factores como os tribunais ineficientes, elevado número de procedimentos, atraso na resolução de disputas, são considerados motivos pelos quais existia uma fraca capacidade de fazer valer perante a lei os contratos de crédito. Também os fracos direitos de propriedade, os procedimentos custosos e complexos para transferir e registar propriedade, constituíam um impedimento que o colateral pudesse ser um activo de natureza real. Devido aos constrangimentos apresentados, os bancos optavam por cobrar taxas de juro bastante elevadas e, exigir um colateral também significativo, encarecendo e dificultando o acesso a financiamento de empresas privadas moçambicanas, que muitas vezes se financiavam através de lucros retidos.

O crédito concedido pelo sistema financeiro tem tido um comportamento relativamente heterogéneo desde o início da década em análise. Até finais de 2004, o crédito total concedido a economia registou taxas de crescimento modestas, próximo do zero, ocorrendo numa altura de preferência pelo crédito em moeda estrangeira em detrimento dos financiamentos em meticais. A Soraya Sarah Fakir Coscione 37

Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária introdução do Aviso nº 5/2005 reduziu a exposição dos bancos a credores sem cobertura de riscos adequada (neste caso câmbial) Observando-se um crescimento progressivo do crédito concedido em moeda nacional, e o inverso na moeda externa.

4.1.2.1 Spreads Bancários Os spreads bancários representam a diferença entre a taxa de aplicação nas operações de empréstimos e nas taxas de captação de recursos pelas instituições financeiras. No gráfico abaixo podemos observar a evolução dos spreads bancários, no período em análise no sistema bancário moçambicano.
Gráfico 5 – Evolução do spread de juros do sector bancário

Adaptado de: Relatório de Pesquisa sobre o sector bancário; AMB (2000-2006)

A evolução dos spreads bancários demonstra um comportamento irregular, sendo que no ano de 2002 atinge-se ao pico mais alto com 9,86%. Isto pode ser justificado pelo facto de que as medidas restritivas em relação a política monetária terem-se traduzido numa redução de liquidez resultando num crescimento nas taxas de juros activas – as taxas de empréstimo a 180 dias acresceram 5pp e as de 1 ano em 2pp – tendo como consequência o crescimento dos spreads bancários, visto ainda que as taxas de juros passivas (depósitos) sofreram duas descidas ao longo do mesmo ano. Por sua vez, a queda mais acentuada nos spreads ocorre em 2004 (5,47%), tendo como justificação a tendência decrescente das taxas de juro activas conjugadas com um período de estabilidade do Metical e baixa inflação. Soraya Sarah Fakir Coscione 38

Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária No entanto, apesar de ter registado um decréscimo considerável os spreads bancários ainda são considerados elevados, mesmo para níveis regionais. 4.1.3 Qualidade da Carteira de Crédito

De modo a avaliar a qualidade da carteira de crédito dos bancos comerciais, foi escolhido o rácio crédito vencido e/ou duvidoso/crédito total (%), que demonstra da quantidade do crédito oferecido à economia moçambicana, qual é o volume que se torna crédito moroso. O gráfico 6, demonstrado abaixo demonstra a evolução decrescente deste rácio, no mercado bancário moçambicano.
Gráfico 6 – Evolução do rácio de avaliação da qualidade da carteira de crédito

Adaptado de: Relatório de Pesquisa sobre o sector bancário; AMB (2000-2006)

No gráfico acima pode-se observar que nos anos de 2001 e 2002 o rácio registou um acréscimo. Isto é resultado da crise bancária e das políticas adoptadas pelo BM de modo a orientar o sistema bancário nacional. Após o ano de 2002 tem se registado um decréscimo significativo passando de 15,11% do ano de 2003 para 6,06% em 2004 e 3,03% em 2005, tendo decrescido até ao recorde de 2,78% no ano de 2006, sendo a principal causa desta redução neste índice, os saneamentos na carteira de crédito aliadas a uma gestão mais prudente da carteira de crédito do sistema e a uma política de cedência de créditos mais prudente e criteriosa, bem como a recuperação de créditos mal parados e a reestruturação de créditos mal parados por via do reforço de garantias ou regularização dos juros vencidos. Soraya Sarah Fakir Coscione 39

Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária 4.1.4 Concentração Bancária

Não obstante as reformas impostas ao sector, decorrentes tanto da liberalização financeira bem como da crise bancária, o sistema bancário moçambicano é ainda considerado muito pequeno e bastante concentrado. Logo após a liberalização financeira, o sector bancário registou uma abertura a investimentos estrangeiros, ficando no entanto, os maiores bancos comerciais (na altura) do país – o BCM e o BPD – propriedade maioritária do Governo Moçambicano, tendo sido privatizados através da aquisição de participações maioritárias em 1996 e 1997 respectivamente. Registando-se a crise bancária no país, a grande preocupação das autoridades competentes, para além de controlar a situação de modo a evitar o colapso total do sistema financeiro moçambicano, era abrir ainda mais o sector à investimentos estrangeiros, culminando com a aquisição do BCM pelo Grupo BIM (através da venda das participações do Grupo Mello de Portugal, que também desapareceu) e a venda do BA a um grupo de investidores sul-africanos, transformando-se em Banco Austral - Membro do ABSA. Esta abertura no sistema bancário moçambicano resultou na dominância por investimentos estrangeiros, principalmente o investimento português e sul-africano, do sistema bancário nacional. Ainda que novos bancos tenham surgido decorrente da abertura do mercado bancário, este ainda é bastante concentrado, sendo que é pouco disperso geograficamente, concentrando-se mais nas principais cidades do país – Maputo, Beira e Nampula – e com os maiores bancos comerciais a deterem cerca de 95% da quota de mercado e do total dos activos totais do sistema. Segundo estatísticas até Dezembro de 2006 existiam os seguintes operadores financeiros no país:
Tabela 4 – Operadores Financeiros

Bancos Comerciais Agências Cooperativas Casas de Câmbio Entidades habilitadas ao exer. De Funções de crédito Operadores de micro-crédito Representações de inst. De créd. c/ sede no estrang. Sociedades de Admn. de Compras em Grupo Sociedades de Gestão de Capitais de Risco Sociedades de Investimento Sociedades de Loçacão Financeira

12 11 20 20 58 1 1 1 1 3

Fonte: Relatório do BPI; Novembro 2007; pg. 33

Ainda que o número de operadores financeiros tenha registado acréscimos, cerca de 80% do território nacional não possui qualquer agência bancária, demonstrando a fraca bancarização da Soraya Sarah Fakir Coscione 40

Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária economia moçambicana nas zonas rurais. A tabela seguinte demonstra a distribuição de agências, reforçando o argumento de que não obstante os esforços, a economia moçambicana é ainda pouco bancarizada.
Tabela 5 – Distribuição de agências por províncias

Nº de

Peso

agências (%) Cidade de Maputo 103 45 Província de Maputo 18 8 Gaza 14 6 Inhambane 13 6 Sofala 22 10 Manica 12 5 Tete 8 4 Zambézia 10 4 Nampula 17 7 Cabo delgado 7 3 Niassa 4 2 Total 228 100

Distritos s/ qualquer agência (%) 47 80 81 85 81 80 76 90 57 96

Fonte: Relatório do BPI; Novembro 2007; pg. 34

Como se pode observar acima, a cidade de Maputoocupa o destaque e a preferência das agências bancárias, contribuindo com cerca de 45% no peso total do número de agências, segue-se Sofala, que possui a segunda maior cidade do país – Beira – que contribui com 10% para o peso total. Porém as outras províncias, apresentam percentagem bastante baixas, chegando a apresentar valores como 2% para o volume de bancarização e 96% para a percentagem da província sem qualquer agência bancária, para o caso de Niassa.

4.2. Conclusões dos efeitos da Reestruturação Bancária

Embora obstáculos institucionais continuem a reprimir a intermediação financeira, o país registou progressos substanciais ao promover a liberalização financeira, e a reestruturação bancária nos últimos dez anos. As reformas e a reestruturação bancária implementadas no país focalizavam os seguintes objectivos: i. Fortalecimento do sector bancário e reforço da capacidade do BM em termos de supervisão bancária, bem como da infra-estrutura financeira;

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária ii. Promover a contabilidade financeira e a transparência através da introdução de normas internacionalmente aceites; iii. Fortalecimento da capacidade de gestão da dívida pública;

Dado o papel dominante dos bancos no sistema financeiro moçambicano, e ao seu particular estado de fragilidade no momento em que as reformas foram conduzidas, tornaram-se prioritários os seguintes objectivos: i. Suporte a solidez do sistema bancário promovendo a transparência e divulgação, e reforçar a capacidade de supervisão do BM; ii. Promover o acesso ao crédito, por parte das populações das zonas rurais, bem como por parte das empresas.

4.2.1 Conclusões sobre o diagnóstico do sector bancário Moçambicano
Ainda que continue pequeno e pouco desenvolvido, o sistema financeiro moçambicano prosseguiu um longo caminho desde o fim da guerra civil - envolvendo a transformação de um sistema de economia planificada para um sistema de economia de mercado dos dias actuais. A liberalização financeira ocorrida permitiu a abertura do mercado bancário, dominante no sistema financeiro moçambicano, a investimentos estrangeiros o que resultou num aumento do número de bancos comerciais no país. A primeira fase da liberalização financeira – privatização do mercado bancário – foi afectada e comprometida pela falta de diligência, resultando em recapitalizações custosas após a crise bancária, por parte do governo moçambicano. Após a crise bancária, a reestruturação que se deu tornou o mercado bancário tornou-se dominado por investimentos estrangeiros e bastante concentrado, ainda que tivessem entrado mais agentes bancários no país. Até o ano de 200515 o sistema tornou-se bastante dolarizado, aumentando o risco câmbial suportado pelos bancos comerciais. Com o aumento do volume de provisões, decorrentes do aviso 5/2005 do BM – constituição de provisões de 50% para o crédito em moeda estrangeira – levou a reversão deste facto. De um modo geral, pode-se dizer que a reestruturação bancária foi bem sucedida no que diz respeito ao aumento do número de bancos, mesmo que este número seja ainda considerado pequeno. Deste modo é necessário continuar a trabalhar de modo a atrair mais investimento para o mercado bancário moçambicano. Porém este sucesso é ofuscado por um dos grandes problemas do mercado

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Quando foi introduzido o Aviso nº 5/2005 do BM

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária bancário moçambicano – a fraca dispersão geográfica e a concentração nas principais cidades – o que estimula a fraca bancarização da economia moçambicana.

Como constrangimentos a expansão da banca para as zonas rurais, um inquérito efectuado pelo BM apontou as seguintes razões:       Ausência de infra-estruturas (estradas, redes de comunicação, electricidade, etc.) Elevados custos operacionais e de investimento na fase de arranque; Custos associados a política monetária devido ao coeficiente de reservas obrigatórias (2007); Economia rural de dimensão reduzida; Falta de sucursais do BM; Mão-de-obra local sem o perfil exigido.

No que se refere aos Spreads bancários, ainda que tenham reduzido substancialmente estes ainda são considerados bastante elevados, até para os níveis da região. A razão dos elevados spreads bancários pode ser explicada por factores macroeconómicos ou pelo comportamento de algumas variáveis do sistema bancário, sendo que são aqui destacadas três, nomeadamente: I. O fraco desempenho do rácio de transformação de depósitos em créditos. Porém este só pode considerado numa pequena proporção, visto que o gráfico seguinte demonstra que na verdade, este rácio tem se desenvolvido favoravelmente em relação ao crescimento dos spreads.
Gráfico 7 – Relação entre o rácio de Transformação e o crescimento dos Spreads

Adaptado de: Relatório de Pesquisa sobre o sector bancário; AMB (2000-2006)

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária Observa-se que no ano de 2002 onde o spread é mais elevado (9,86%), o rácio de transformação reduz-se. Ainda que em 2006 tenha sido uma ano positivo para o crescimento do rácio, os spreads continuam a comprometer o seu crescimento, mesmo porque o aumento deste pode ser explicado pelo o aumento de projectos de investimento com risco aceitável para os bancos comerciais

II. O volume da carteira de crédito malparado, o que no entanto não explica, o comportamento dos spreads nos últimos anos (2004-2006) visto que o volume de credito mal parado tem vindo a registar decréscimos consideráveis, não se registando o mesmo com os spreads de juros.
Gráfico 8 – Relação entre a evolução dos spreads de juros e qualidade da carteira de crédito

Adaptado de: Relatório de Pesquisa sobre o sector bancário; AMB (2000-2006)

Como se pode observar no gráfico acima, nos anos de 2000 à 2002, o aumento do rácio justificava o aumento dos spreads, sendo que nesta altura registou-se os saneamentos das carteiras de crédito, e também o abate de muitos créditos mal parados, resultando num aumento dos custos de crédito para os bancos. No entanto, a tendência decrescente do volume de crédito mal parado, não justifica o crescimento dos spreads novamente nos anos de 2005 e 2006.

III. Os elevados custos no mercado bancário, em relação a todos os activos. Por exemplo, usando o rácio Provisões Específicas/Crédito vencido – que reflecte as perdas esperadas na carteira de crédito – pode-se observar um comportamento nas curvas do gráfico abaixo similares:

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária

Gráfico 9 – Comparação entre a evolução dos spreads e do custos com provisões

Adaptado de: Relatório de Pesquisa sobre o sector bancário; AMB (2000-2006)

Os dois gráficos acima apresentam um comportamento semelhante, ambos atingem um pico no ano de 2002 crescem no ano de 2005 novamente. No entanto, este não é o único custo que os bancos têm que incorrer, existem também os custos operacionais e as provisões gerais que podem justificar pequenas divergências, como é o caso do ano de 2006.

Assim, no que se refere aos spreads de juros, pode ser afirmado que não somente factores institucionais concorrem para a manutenção destes a níveis altos, mas também factores macroeconómicos, referentes ao desempenho da economia moçambicana.

No que se refere a solvabilidade os bancos comerciais registaram uma melhoria considerável, demonstrando que os Bancos Comerciais para além de serem lucrativos, são bem capitalizados, o que também demonstra que o BM conseguiu incrementar a sua capacidade de supervisão. O rácio de solvabilidade indica a proporção relativa dos activos da empresa financiados por capitais próprios versus financiados por capitais alheios. Sendo tudo o resto igual, quanto mais elevado este rácio, maior a estabilidade financeira da empresa. Quanto mais baixo, maior a vulnerabilidade. O Acordo de Basileia I (seguido por Moçambique) estabelece que este rácio devese encontrar num mínimo de 8%.

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária

Gráfico 10 – Evolução da solvabilidade

Adaptado de: Banco de Moçambique (2008)

Aqui pode-se perceber que a Reestruturação teve um impacto positivo na melhoria da solvabilidade do sistema bancário moçambicano, que teve um crescimento rápido. A abertura do mercado bancário após a reestruturação bancária de 2001 permitiu uma melhor recapitalização dos bancos moçambicanos, traduzindo-se num crescimento dos níveis de solvabilidade. No entanto, não obstante os elevados níveis de solvabilidade, o facto de Moçambique ainda seguir Basileia I, aquando da criação de um novo acordo Basileia II onde são redefinidos os níveis de solvabilidade para 12%, pode ser considerado uma fragilidade, com capacidade de gerar uma ameaça futura, para o sistema bancário.

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária

V. Conclusões e Recomendações
5.1 Conclusões

Os sistemas financeiros são constituídos por intermediários financeiros cuja principal função é mover os recursos dos agentes superavitários mover os recursos dos agentes superavitários para os agentes tomadores de empréstimos. Embora os sistemas financeiros de todo o mundo tenham se desenvolvido de modo diferente, tornando-se mais complexos e/ou com enfoque num determinado tipo de mercado, o mercado bancário é sem dúvida um dos principais pilares de todos os sistemas financeiros. Ao permitir a passagem de recursos de um agente para o outro, promovendo o investimento na economia e aumentando os níveis de poupança, os bancos tornaram-se alvo de procura e um dos principais motores do desenvolvimento económico. Alexander Hamilton16 (1781) defendeu que os ―bancos são as melhores engenharias económicas alguma vez criadas‖ para promover o desenvolvimento económico. Porém, a actividade bancária assume em si muitos riscos e a instabilidade macroeconómica conjugada com uma pobre supervisão e regulamentação podem levar a uma situação de crise bancária que poderá abalar o sistema financeiro na sua totalidade. Deste modo, reestruturações no sistema bancário são traçadas para impedir a crise, e criar um sistema financeiro mais solído. Exemplos são citados, muitos países passaram por estas reestruturações para evitarem o colapso total de seus sistemas financeiros. Ao longo deste trabalho foram citados os exemplos do Brasil e Cazaquistão, ambos um caso de sucesso mas com lições a aprender. Os efeitos em ambos casos, embora em situações diferentes foram similares no que se refere a manutenção da solidez bancária. No entanto, para o caso do Brasil pode-se salientar o facto de que a reestruturação não conseguiu aumentar a oferta de crédito devido as estratégias adoptadas e no caso do Cazaquistão, a intermediação financeira permanece por crescer principalmente porque não existiu, aquando da reestruturação uma sequência lógica das reformas. O sistema bancário moçambicano mediante a eclosão de uma crise bancária foi obrigado a reestruturar-se, sendo que ao longo deste trabalho foram analisados os seus efeitos, que se traduziram numa remodelação total do sector, visto que, de modo a permitir que o mercado bancário moçambicano fosse mais sólido, houve uma maior abertura dos mercados, permitindo investimentos estrangeiros e a privatização dos dois maiores bancos comerciais da altura.

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Alexander Hamilton (1755-1804) foi o primeiro Secretário do tesouro do EUA.

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária A reestruturação pode ser considerada bem sucedida em termos de: a. Redução do volume de crédito mal parado, o que traduz uma melhoria na supervisão por parte do BM; b. Melhorias de Solvabilidade, sendo que a Banca Moçambicana consegue ultrapassar os limites mínimos exigidos pelo Acordo de Basileia I17, que são de 8%, sendo que no ano de 2006 o índice de solvabilidade atingiu os 13,43%; c. Redução dos Spreads de juros, que embora ainda sejam considerados elevados para níveis internacionais e regionais, estes registaram um tendência decrescente após a reestruturação; d. Melhorias na lucratividade do sector, demonstrados pelos ROA e ROE mais fortes, e aumento nos lucros líquidos dos bancos comerciais. e. Aumento na concorrência do sector, que ainda que se mantenha pequeno registou um aumento do número de bancos e agências bancárias no país;

No entanto, é de notar que ainda que bem sucedida para níveis nacionais, visto que trouxe benefícios, os efeitos da reestruturação não conseguiam igualar os níveis internacionais e regionais, situando-se ainda muito abaixo das expectativas. Também existem certos factores, que embora tenham registado melhorias, são pontos que reprimem o funcionamento do sector no país, e se traduzem numa fraca intermediação financeira, nomeadamente: 1. Os elevados custos de financiamento, ou seja as elevadas taxas de juro18 que impedem que muitos projectos de investimentos sejam realizáveis; 2. A elevada concentração geográfica nas principais cidades do país, sendo que ainda quase cerca de 80% do território nacional é desprovido de qualquer agência bancária; 3. A inexistência de um departamento próprio para gerir o risco de crédito nas instituições financeiras, sendo que o principal meio se mantém a constituição de provisões específicas, aumentando os custos a serem suportados pelos bancos comerciais.

Com vista a cruzar e comparar as experiências referentes ao caso do Brasil e Cazaquistão, podese concluir que as condições macroeconómicas divergentes são factores que levam a resultados também divergentes em alguns pontos.

17

Acordo de Basiléia I (o seguido por Moçambique), oficialmente denominado International Convergence of Capital Measurement and Capital Standards, foi um acordo firmado em 1988, na cidade de Basiléia (Suíça), por iniciativa do Comité da Basiléia e ratificado por mais de 100 países. Este acordo teve como objectivo criar exigências mínimas de capital, que devem ser respeitadas por bancos comerciais, como precaução contra o risco de crédito. 18 A média para as taxas de juro no país é de cerca 20%.

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária No entanto, é de se ressaltar que a reestruturação bancária no país não foi na realidade um plano mas sim uma necessidade mediante a possibilidade de falência dos dois maiores bancos do país, que como o caso do Cazaquistão, eram bancos ―too big to fail‖ (nomeadamente o BCM e o Banco Austral). Diferentemente do Cazaquistão é de ressaltar, no entanto, que o facto de o governo não ter abraçado a reestruturação do sistema bancário, visto como falta de empenho por parte do Governo pelo Banco Mundial, pode ser um factor explicativo da possível falência destes bancos. Segundo o Banco Mundial os governos são muitas vezes passivos numa situação de insolvência bancária, intervindo somente quando o problema se traduz numa iliquidez sistémica. Pode ser notado, mediante estas experiências que tanto o Brasil como o Cazaquistão não chegaram ao ponto de terem de efectuar um bail-out aos principais bancos por terem adoptado uma postura pro-activa, isto é, por terem intervido antes que a situação pudesse ultrapassar as barreiras, resultando numa liquidação dos chamados ―bancos ruins‖ e manutenção dos ―bancos bons‖. Um factor explicativo desta situação, para o caso de Moçambique, pode ser o facto da manutenção de quadros não especializados na gestão de riscos e bancária, bem como na liberalização financeira com a ausência de um quadro de regulamentações bem definidos. Isto é, foi priorizado a liberalização financeira sem ter-se no entanto um eficiente quadro de regulamentações do sistema bancário. Porém, em comum pode ser salientado que em todas as experiências a reestruturação bancária parece ter resultado numa situação de concentração bancária, mediante a adopção da estratégia de fusões e aquisições ou seja a consolidação do sistema bancário, embora os números entre estes países sejam difíceis de serem equiparados com o caso de Moçambique. O caso de Moçambique, embora mais uma vez seja de salientar que os números são difíceis de equiparar, considera-se um sucesso no que se refere no crescimento da oferta de crédito (diferentemente do Brasil). Não obstante as divergências obtidas, e tendo em conta os factores em comum bem como os de sucesso desta reestruturação pode considerar-se esta reestruturação bem sucedida, ao promover melhorias a níveis nacionais no sistema bancário moçambicano, aceitando-se assim a segunda hipótese (H1). É importante dizer, no entanto que ainda existe um grande caminho a percorrer, ou seja, que o processo de reestruturação não chegou ao fim, uma vez que embora tenha melhorado a solidez do sistema bancário moçambicano não foi suficiente para promover o desenvolvimento do sistema para que pudesse atingir níveis regionais e internacionais.

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Sistema Financeiro Moçambicano: Reestruturação Bancária

5.2 Recomendações
As medidas tomadas no âmbito da reestruturação bancária, embora tenham contribuído para aumentar a solidez do sistema bancário nacional, facilitando a entrada de novos agentes bancários e bonificando as carteiras dos bancos comerciais, contribuindo para a redução da instabilidade dos mercados financeiros, representam apenas um primeiro passo face ao desenvolvimento de um sistema financeiro de acordo com as exigências do país. A abrangência, diversificação e acessibilidade, três objectivos traçados pelo governo para o desenvolvimento do sistema financeiro, ainda estão longe de ser alcançados, sobretudo no que diz respeito a abrangência territorial e acessibilidade ao crédito. A restaurada solidez do sistema bancário é o primeiro passo para promover a intermediação financeira. As políticas e as reformas nesta área devem focalizar-se na facilitação do acesso ao crédito, na expansão dos serviços financeiros para as zonas rurais e na redução dos custos da intermediação financeira, o que irá proporcionar o aumento da poupança das famílias e de recursos financeiros para o ambiente de negócios . Entre as demais acções a serem tomadas, com vista a atingir os objectivos delimitados, consideram-se prioritárias as seguintes: 1) Fortalecimento das normas de supervisão e contabilidade para manter a solidez de um sistema bancário em expansão – A introdução de normas internacionalmente aceites de contabilidade e supervisão baseada no risco, no sistema bancário moçambicano, irá facilitar o controle e monitoração da adequação dos capitais nos períodos de forte crescimento de crédito. Ao alargar a adopção das normas internacionalmente aceites para o sector empresarial permitir-se-á também a redução do risco de crédito ao promover a habilidade do sistema bancário em avaliar a qualidade das suas carteiras de empréstimos. 2) Reforço das capacidades e mobilização dos recursos humanos – um dos grandes constrangimentos a expansão das redes bancárias para as zonas rurais, deve-se ao facto da inexistência de quadros técnicos formados na área bancária, visto que a maioria concentra-se nas grandes cidades do país. Deste modo, é necessário adoptar políticas de formação e incentivos para a permanência destes nas províncias. 3) Reforço das leis e regulamentações do sistema jurídico, no que se refere ao sistema financeiro – deverão ser criadas leis adequadas que permitam reduzir o risco de crédito. Os bancos devem ter uma melhor capacidade de cobrança das suas carteira de crédito moroso, o que requer o reforço das capacidades dos tribunais no que se refere a execução de dívidas e redução do elevado número de procedimentos na resolução de disputas.

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VI. Ficha Bibliográfica
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VII. Anexos
Anexo 1 – Dados da Evolução dos principais indicadores utilizados (valores em %) 2000 2,9 19,59 112,26 -1,69 2001 Créd. Liq/Depósitos 41,36 2001 4,16 25,66 113,76 6,34 2002 39,55 2002 9,86 22,39 214,32 13,93 2003 37,5 2003 6,68 15,11 120,88 17,35 2004 36,27 2004 5,47 6,06 141,58 14,52 2005 46,65 2005 6,47 3,03 183,48 14,33 2006 48,53 2006 8,01 2,75 120,08 13,43

Spreads cred. Duv./cred. total Custos de crédito vencido Solvabilidade

Fonte: Relatórios da AMB (2001-2006)

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