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IMPORTÂNCIA DA NANOTECNOLOGIA NO DESENVOLVIMENTO DE MEDICAMENTO

Conceito de Nanotecnologia

A nanotecnologia compreende um novo paradigma na ciência, em que as dimensões e as propriedades dos materiais são tratadas na escala nanométrica. Tais materiais passam a apresentar novos comportamentos ou propriedades diferentes daquelas observadas em escala macroscópica.

O prefixo “nano” vem do grego “anão” e é utilizado para designar um parte em um bilhão, ou seja, um nanômetro (1 nm ou 10−9 -m) e corresponde a um bilionésimo de um metro. Para se ter uma idéia desse tamanho, 1 nm corresponde a cerca de 10 átomos enfileirados ou ao diâmetro de um nanotubo de carbono. Uma molécula de DNA tem uma dimensão de cerca de 100 nm, um pouco menor que um vírus, por exemplo. Fazendo uma comparação mais simples, pode-se verificar que o diâmetro de um fio de cabelo é 0,1 mm ou cerca de 100.000 nanômetros.

Analisando em termos tecnológicos, uma primeira motivação para o desenvolvimento dessa tecnologia está associada ao fato de que um número cada vez maior de possibilidades venha a ser reunido em sistemas de dimensões muito pequenas, aumentando assim sua compactação, capacidade de operação e eficiência. No entanto, mais que a procura pelo simples benefício direto da redução de tamanho, a grande motivação para o desenvolvimento de objetos e dispositivos nanométricos reside no fato de que novas propriedades físicas e químicas, antes ausentes no material macroscópico, são observadas.

Na verdade, a alteração das propriedades de um material ao atingir a escala nanométrica se deve à combinação de dois fatores: de um lado os efeitos quânticos, oriundos das dimensões nanométricas, e de outro os efeitos superficiais, ocasionados pelo aumento na razão entre a área e o volume. Com isso, a nanotecnologia busca um melhor aproveitamento das novas propriedades desses nanomateriais que são obtidas por meio do controle de propriedades, tamanho e formas adequadas.

Toda essa revolução nas propriedades intrínsecas dos novos materiais abre um grande mercado a ser explorado em nanotecnologia. Praticamente todos os segmentos industriais de grande porte podem se beneficiar e aproveitar dessas vantagens competitivas em seus produtos, podendo-se

destacar as indústrias de polímeros, têxteis, resinas, semicondutores, dispositivos eletrônicos, sensores de precisão, energia, produtos químicos, alimentos, cosméticos e fármacos. O potencial desta nova tecnologia criou um clima de competição científica e tecnológica, movendo recursos humanos e financeiros na indústria mundial. Estima-se que a produção industrial anual excederá a um trilhão de dólares entre 2010 e 2015 e que cerca de 15% dos produtos vendidos apresentarão algum componente que envolva nanotecnologia, requerendo aproximadamente dois milhões de profissionais especializados.

A Utilização de Nanotecnologia em Medicamentos

A nanotecnologia tem invadido o mundo da biomedicina na última

década, com os cientistas cada vez mais usando nanopartículas como veículos

potenciais para entregar drogas aos tecidos específicos.

O grande problema encontrado é a produção ou compreensão como

reproduzir-las fora do ambiente de pesquisa dos laboratórios. Este assunto foi discutido em Londres, no I Workshop Internacional de nanotecnologia em medicamentos realizada pela European Medicines Agency (EMA), agência responsável pelo controle de medicamentos na Europa, o equivalente a FDA americana.

Segundo Simon Holland, diretor da empresa farmacêutica Glaxo Smith Kline entender como se apresenta esta partícula quando as características básicas como tamanho, forma e superfície são um dos maiores desafios para a área.

Indústria Farmacêutica e Oportunidades

Uma das indústrias que mais pode se beneficiar com o advento da nanotecnologia é, indubitavelmente, a indústria farmacêutica. O faturamento do setor farmacêutico, em 2007, foi de aproximadamente 15 bilhões de dólares e, para manutenção desse valor e aumento das receitas, o setor investe altos montantes em pesquisa e desenvolvimento.

Atualmente, o gasto com o desenvolvimento de um novo fármaco é de cerca de meio bilhão de dólares e o tempo empregado para tal desenvolvimento é de dez a 20 anos. Além disso, não se pode esquecer que pesquisa e desenvolvimento envolvem certos riscos, embora em alguns casos estes sejam controlados ou minimizados. Uma das alternativas utilizadas pelas empresas para minimizar custos, prazos de desenvolvimento e risco é o desenvolvimento incremental de fármacos já existente e de eficácia comprovada. Com isso, é possível despender valores entre 50 a 100 milhões de dólares e diminuir o tempo de pesquisa para aproximadamente cinco anos. Além disso, abre espaço para o patenteamento de novas apresentações e novas formulações, oferecendo ao desenvolvedor vantagens competitivas no mercado. Aliando-se ao conceito de desenvolvimento incremental, outro aspecto importante na minimização dos riscos de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) é o desenvolvimento em conjunto com institutos de

pesquisa e, principalmente, com empresas de desenvolvimento de base tecnológica. Uma perspectiva para o desenvolvimento incremental de fármacos consiste na elaboração de uma nova apresentação baseada em Sistemas de Liberação Controlada (SLC) ou drug delivery systems. Os SLC são um exemplo inteligente de como a nanotecnologia efetivamente contribui para a pesquisa, o desenvolvimento e a inovação no setor.

de

Produtos Farmacêuticos

A nanotecnologia, ciência e tecnologia que foca as propriedades especiais dos materiais de tamanho nanométrico, está se tornando um dos mais promissores campos de pesquisa da atualidade. Ela não possui uma tecnologia específica, mas interdisciplinar, baseada na física, química, biologia, engenharias, computação e medicina. Esta pequena grande ciência, como referida por Gary Stix, tem despertado a imaginação de pesquisadores, fabricantes e até mesmo da população, e teve um grande impulso nos EUA, em 2000, após a National Nanotechnology Initiative identificá-la como uma área emergente de interesse nacional.

Nanotecnologia

Aplicada

ao

Desenvolvimento

Reconhecendo sua importância e imenso potencial, muitas agências federais declararam a pesquisa em nanotecnologia como principal prioridade. Assim, os países desenvolvidos têm investido muito em nanotecnologia. Somente os EUA investem em torno de 2 bilhões de dólares por ano.

Há previsão de que o segmento da nanotecnologia atingirá uma movimentação em torno de 1 trilhão de dólares em dez anos. No Brasil, a pesquisa em nanotecnologia ainda está começando. Desde 2001 o governo federal vem estimulando diretamente as pesquisas na área a partir da criação de quatro redes brasileiras de atuação no segmento de nanociência e nanotecnologia. A previsão de investimentos até 2007 era de 80 milhões de reais.

A nanotecnologia teve seu início com o físico Richard Feynman, quando, em 1959, realizou uma conferência no California Institute of Technology, em que afirmou que em um futuro não muito distante os cientistas poderiam manipular átomos e colocá-los onde bem entendessem, desde que as leis da natureza fossem mantidas, possibilitando a construção de novos materiais inexistentes na natureza. Na Universidade de Tóquio, em 1974, o professor Norio Taniguchi, em seu primeiro artigo sobre o assunto, atribuiu o seguinte conceito para nanotecnologia: “A nanotecnologia consiste principalmente no processo de separação, consolidação e deformação dos materiais por um átomo ou uma molécula”. Mais tarde, em 1992, Eric Drexler propôs não somente manipular átomos, mas a construção de nanorobôs, que poderiam criar diferentes objetos e até mesmo identificar e destruir seres vivos nocivos ao corpo humano, como vírus ou bactérias.

O prefixo nano da palavra nanotecnologia, que em grego significa anão, refere-se à dimensão da ordem de magnitude de 10-9 do metro. Embora os limites não sejam rígidos, considera-se que acima de 1μm tem-se o macro mundo e entre 1 e 999nm tem-se o chamado nano mundo, que abrange a nanotecnologia. Nesta faixa de tamanhos, as propriedades dos materiais emergem do comportamento coletivo dos átomos e moléculas que, em conjunto, passam a exibir propriedades químicas, físicas, óticas, magnéticas e elétricas diferentes da sua forma individual. Por exemplo, o aumento da área superficial em partículas de dimensões nanométricas confere aos materiais

maior reatividade e maior penetração nas células. Assim, inspirando-se em fundamentos da natureza, cientistas são capazes de auto-arranjar átomos em estruturas com propriedades controladas e desejadas.

Duas estratégias de fabricação são utilizadas atualmente em nanotecnologia: a denominada top down, na qual estruturas nanométricas são produzidas por meio da quebra de materiais por moagem, nanolitografia ou engenharia de precisão, e a denominada bottom up, a qual permite que nanoestruturas sejam formadas de átomos ou moléculas individuais capazes de se auto arranjar ou organizar . Atualmente, essa última estratégia tem sido particularmente utilizada na indústria farmacêutica, para o desenvolvimento de materiais capazes de encapsular e liberar gradualmente ingredientes ativos. Para esses sistemas serem efetivos os ativos encapsulados devem ser entregues no local apropriado, sua concentração mantida em níveis adequados por longos períodos de tempo, além da prevenção da sua degradação. Nanopartículas podem ser projetadas e produzidas com as características anteriormente citadas, permitindo também maior eficiência de encapsulação e liberação controlada quando comparadas aos sistemas de encapsulação convencionais. Elas são ainda particularmente atrativas por serem pequenas o suficiente para serem injetadas diretamente no sistema circulatório, além de poderem ser administradas por outras vias como pulmonar, nasal, transcutânea, transdérmica e oral.

As principais nanoestruturas utilizadas para encapsulação de ativos são os lipossomas, as ciclodextrinas, as nanopartículas poliméricas e as nanopartículas lipídicas. Os ativos podem ainda estar associados a nanopartículas metálicas, fulerenos, dendrímeros ou nanotubos de carbono. As vantagens destes sistemas

São a melhora da estabilidade química e física dos ativos, melhora da biodisponibilidade, manutenção do ativo no tecido alvo, muitas vezes, possibilitando a penetração deste em zonas corpóreas de difícil acesso, solubilização de ativos hidrofóbicos, redução de efeitos colaterais e da toxicidade, assim como do número de doses e frequência de administração, proporcionando maior conforto do paciente e, Consequentemente, a maior adesão ao tratamento.

Dentre todas as estruturas citadas, como deve ser feita a escolha? Na verdade, não há uma opção estabelecida como ideal para todos os casos. O melhor sistema é definido a partir das características da aplicação específica,

tais como via de administração, local de liberação, propriedades físico-químicas

e estabilidade do ativo, tipo de paciente, viabilidade de custo e de produção

industrial. A seguir serão apresentadas as nanoestruturas mais utilizadas na indústria farmacêutica como carreadores ou veículos de ativos.

Lipossomas

Os lipossomas, também chamados de vesículas lipídicas, são estruturas esféricas, compostas de bicamadas de lipídios que delimitam um compartimento aquoso interno central. Esse tipo de estrutura permite a encapsulação de compostos de naturezas hidrofílica, hidrofóbica e anfifílica, e liberação controlada do conteúdo encapsulado por difusão, através da bicamada lipídica e/ou por erosão da vesícula.

Uma propriedade adicional dessas vesículas é a flexibilidade de variação de suas propriedades por meio de mudanças em sua composição, tamanho e método de preparação, modulando-as para aplicações específicas.

Nos últimos anos, vários tipos de lipossomas foram desenvolvidos para aplicações específicas e diferentes rotas de administração. Dentre os tipos existentes, os mais conhecidos são lipossomas convencionais, polimerizados, Stealth® ou furtivos, bifásicos, imunolipossomas e catiônicos. A seguir alguns dos vários tipos de lipossomas.

Os lipossomas convencionais são compostos de fosfolipídios naturais ou sintéticos (zwiteriônicos ou carregados negativamente) com ou sem colesterol. Quando administrados por rotas parenterais possuem pequeno tempo de circulação na corrente sanguínea, pois se acumulam rapidamente nas células do sistema fagocítico mononuclear ou sistema reticuloendotelial (RES). Devido

a isso, as aplicações terapêuticas mais indicadas para esse tipo de lipossomas são aquelas cujo alvo sejam os macrófagos e órgãos do sistema imunológico.

Os lipossomas polimerizados, geralmente, são compostos de lipídios anfifílicos que apresentam insaturações, as quais constituem os grupos polimerizáveis. A polimerização aumenta a resistência da bicamada lipídica e a

sua estabilidade in vivo, até mesmo para administração por via oral. As vesículas furtivas mantêm-se por maiores períodos de tempo na corrente sanguínea, devido à ligação covalente de moléculas hidrofílicas grandes em sua superfície externa. Esta configuração impede a identificação dos lipossomas pelo RES, por meio da criação de uma barreira estérica altamente hidratada. Em geral, a molécula mais utilizada para este finalidade é o polímero polietilenoglicol (PEG).

O tipo bifásico é adequado para liberação dérmica e mucosal de agentes terapêuticos como proteínas e DNA, sendo seu compartimento central ocupado por uma emulsão. Sua característica marcante é a consistência pastosa. Os imunolipossomas possuem anticorpos específicos ou fragmentos de anticorpos em sua superfície, visando o direcionamento e o aumento da especificidade da ligação. Esse sistema tem sido utilizado principalmente na liberação de fármacos para a terapia de câncer. Configurações lipossomais catiônicas, carregadas positivamente, são mais utilizadas como vetores para a veiculação de material genético. São formadas por moléculas anfifílicas catiônicas simples ou pela combinação com lipídios zwiteriônicos.

Além dos lipossomas já citados, uma nova composição refere-se aos chamados transfersomas ou lipossomas elásticos ou ultradeformáveis, formados por fosfolipídios e tensoativos. Esses últimos fornecem à membrana a característica de elasticidade, facilitando o carreamento dessas estruturas através da pele, inclusive, em alguns casos, alcançando camadas profundas.

Alguns produtos lipossomais aprovados pela Food and Drug Administration (FDA) e comercializados incluem: Ambisome® (anfotericina B lipossomal), indicado para tratamento de infecções fúngicas sistêmicas e para segundo tratamento da leishmaniose, Daunoxome® (daunorrubicina lipossomal), para tratamento de Sarcoma de Kaposi, Doxil® (daunorrubicina em lipossomas furtivos), para Sarcoma de Kaposi, câncer de ovário e de mama, Depocyt® (citarabina lipossomal), para meningite, e Visudyne ® (verteporfina lipossomal), para degeneração macular com tratamento a laser.

Ciclodextrinas

As ciclodextrinas (CD) são moléculas que apresentam a forma de um cone com uma cavidade interior cujo tamanho e forma são determinados pelo número de unidades de glicose. São hidrofílicas externamente, sendo o interior da molécula relativamente apolar em água. Em consequência disto, as ciclodextrinas são capazes de formar complexos de inclusão com substâncias menos polares que a água e que possuem dimensões geométricas correspondentes ao diâmetro de sua cavidade, produzindo alterações nas propriedades físicas e químicas dessas substâncias. São denominadas α, β e γ, de acordo com o número de unidades de glicose. A β, com sete unidades de glicose, é a mais empregada na área farmacêutica devido ao seu menor custo, porém, não pode ser administrada por via parenteral. Moléculas de β – CD com a superfície modificada foram desenvolvidas para aplicação parenteral (por exemplo, hidroxipropil β - CD e sulfobutiléter β - CD).

Nós últimos dez anos vários estudos enfocam a formação de complexos de inclusão em ciclodextrinas, tais como iodometacina, praziqualtel e vários anestésicos. O antiinflamatório piroxicam, atualmente, é comercializado em ciclodextrinas.

e

Nanoesferas

A tecnologia de produção de nanopartículas poliméricas, nanocápsulas e nanoesferas, para carreamento de fármacos hidrofóbicos, surgiu nos anos 1980. Os componentes estruturais das nanopartículas compreendem polímeros tanto de origem natural quanto sintética. Os polímeros naturais são normalmente utilizados em aplicações de curta duração, enquanto os sintéticos podem apresentar liberação controlada por períodos prolongados (anos).

Nanopartículas

Poliméricas

Nanocápsulas

-

As nanoesferas caracterizam-se por possuir um sistema monolítico, ou seja, um único domínio. As nanocápsulas possuem dois domínios, a parede e o núcleo e, em geral, o ativo encontra-se dissolvido no núcleo.

Para aumentar o tempo de liberação em polímeros naturais, são efetuadas reticulações ou ligações cruzadas entre os polímeros. A maior parte dos polímeros naturais utilizados são polissacarídeos tais como alginato, obtida

a partir de algas, ácido hialurônico, obtido principalmente de fontes animais (crista de galo e cordão umbilical), e quitosana, obtida por meio do exoesqueleto de crustáceos, insetos e parede celular de fungos e leveduras.

Adicionalmente, alguns polímeros naturais, tais como a quitosana e o ácido hialurônico, possuem também propriedades mucoadesivas, conferindo- lhes a vantagem de bioadesão a mucosas (ocular, nasal, urinária, gastrointestinal e vaginal), ocasionando maior biodisponibilidade dos ativos administrados.

Dentre os polímeros sintéticos, o mais utilizado em liberação controlada com administração parenteral é o ácido poli D-lático co-glicólico (PLGA), o qual

é seguro e aprovado para uso em humanos. Outros polímeros sintéticos

bastante utilizados são o poli DL-lático (PLA) e a poli ε-caprolactona. Eles não

são tóxicos e a velocidade de degradação pode ser modulada de acordo com a aplicação pretendida. O polímero poli hidroxi butirato (PHB), atualmente produzido no Brasil, é uma das alternativas mais promissoras devido às suas propriedades e baixo custo. Uma desvantagem de alguns polímeros sintéticos é o seu potencial antigênico, podendo apresentar toxicidade quando degradados ou hidrolisados. Exemplos de fármacos comercializados em nanopartículas poliméricas são Lupron Depot e Enantone Depot®, utilizados no tratamento de endometriose, Decapeptil®, Abraxane e Paclitaxel, para câncer, e Pariodel®, como antiinflamatório, etc.

Primeiro Medicamento com Nanotecnologia Começa a ser Testado em Humanos

Remédio Inteligente

Uma equipe de cientistas, engenheiros e médicos dos Estados Unidos afirma estar entusiasmada com os primeiros resultados do primeiro medicamento anticâncer produzido com nanotecnologia.

A droga, chamada BIND-014, é o primeiro de uma classe conhecida

como medicamentos inteligentes que entra na etapa de testes clínicos em humanos.

O nanomedicamento foi projetado para o tratamento de tumores sólidos,

e atua em conjunto com drogas já usadas em quimioterapia.

Medicamento Programável

O estudo mostrou a capacidade do BIND-014 para alcançar um receptor

expresso em tumores, de forma a aumentar a concentração dos medicamentos

quimioterápicos sobre o tumor.

O maior entusiasmo vem do fato de que o tratamento com o

nanomedicamento aumentou notavelmente a eficácia, a segurança e as propriedades farmacológicas do fármaco quimioterapêutico sozinho, o docetaxel (Taxotere).

A pesquisa e o desenvolvimento do primeiro medicamento com nanotecnologia inaugura a chamada nanomedicina, com

A pesquisa e o desenvolvimento do primeiro medicamento com nanotecnologia inaugura a chamada nanomedicina, com as prometidas drogas inteligentes, representando a culminância de mais de uma década de pesquisas.

"O BIND-014 demonstrou, pela primeira vez, que é possível produzir

medicamentos com propriedades orientadas e programáveis, capaz de

concentrar o efeito terapêutico diretamente no local da doença, potencialmente revolucionando como as doenças complexas, como o câncer, podem ser tratadas," disse o Dr. Omid Farokhzad, da Universidade de Harvard.

"As tentativas anteriores de desenvolver nanopartículas direcionáveis não conseguiram chegar à etapa de estudos clínicos em humanos devido à dificuldade de projetar e dimensionar uma partícula que seja capaz de chegar ao local, ficar por longo tempo no organismo, fugir da resposta imunológica e liberar a droga de forma controlada," explica o Dr. Robert Langer, coautor do estudo.

Sistemas de Liberação Controlada (SLC)

Os SLC, utilizados no campo farmacêutico, apresentam outras aplicações em diferentes segmentos, por exemplo, no setor alimentício, que utiliza este conceito para adição de agentes flavorizantes, estabilizantes, conservantes e mascarantes de sabor. A indústria cosmética tanto emprega essa tecnologia para aumento do tempo de vida de componentes ativos instáveis como também para melhorar sua penetração na pele.

Dentre os SLC empregados na indústria farmacêutica, pode-se destacar as tecnologias que estão atingindo o estado da arte como as nanoesferas, as nanocápsulas, os hidróxidos lamelares, os dendrímeros e associações com ciclodextrinas. As nanoesferas apresentam-se como partículas menores que 1 μm e de composição polimérica em que o fármaco ou o princípio ativo do medicamento encontra-se uniformemente distribuído no interior da matriz polimérica. Já as nanocápsulas apresentam um sistema do tipo reservatório em que o fármaco está solubilizado em um solvente, ou não, no interior da cápsula, cuja parede pode ser formada por um ou mais polímeros. A membrana ou parede vai se rompendo e liberando o conteúdo de acordo com a alteração do ambiente. Esta tecnologia permite uma liberação programada ajustar a tal parâmetro as variações de temperatura, força iônica, pressão, atrito e até mesmo choque de pH.

Outros sistemas interessantes são os hidróxidos lamelares ou hidróxidos duplos lamelares, que promovem processos de intercalação de alguns

fármacos entre suas lamelas. Com isso, nesse tipo de SLC o indivíduo pode ingerir via oral o novo medicamento e, ao entrar em contato com o suco gástrico, este sofre um processo ácido-base tendo sua lamela dissolvida. Esse sistema é interessante em casos de tratamento por fármacos que atacam a mucosa gastrointestinal ou substâncias que estimulam a produção excessiva

de suco gástrico, pois a dissolução das lamelas alcalinas, além de auxiliar na neutralização do sistema digestório, promove a liberação do fármaco. No caso dos dendrímeros, os fármacos estão distribuídos entre suas cadeias orgânicas

e sofrem processo de liberação à medida que encontram um ambiente químico apropriado.

Os SLC baseados em ciclodextrinas consistem em uma interação supramolecular do tipo hóspede-hospedeiro entre as moléculas de ciclodextrina

e os fármacos. Esse efeito promove uma melhor solubilização do fármaco em

água (no caso de fármacos insolúveis) e uma liberação posterior no organismo

durante a solubilização do sistema. Para interação entre ciclodextrinas e fármacos, as moléculas ativas têm que apresentar estruturas ou cadeias hidrofóbicas que possam interagir com a cavidade interior de ciclodextrina.

Desempenho dos SLC

A tecnologia de liberação controlada de fármacos representa uma das fronteiras da ciência e da nanotecnologia e envolve aspectos multidisciplinares, podendo contribuir inequivocamente para uma melhoria na saúde humana. O objetivo dos SLC é manter a concentração do fármaco dentro do nível terapêutico por um determinado tempo de tratamento, utilizando-se de uma única dosagem ou um número bem reduzido. Um fármaco convencional apresenta oscilações no nível plasmático e por isso torna-se necessário ingeri- lo várias vezes durante o tratamento. A diferença de concentração plasmática efetiva em função do tempo, comparando-se sistemas convencionais aos de liberação controlada.

Esse processo de liberação lenta, gradativa ou controlada oferece inúmeras vantagens quando comparado ao tratamento com fármacos ou medicamentos convencionais. Dentre essas vantagens destacam-se:

▪▪ Utilização de fármacos de todas as formas, características ou solubilidade variadas;

▪▪ Especificidade de atuação nos alvos, sem a necessidade de sistemas carreadores complexos;

▪▪ A eficácia terapêutica, com liberação controlada e progressiva do fármaco, a partir da desestruturação ou solubilização da matriz;

▪▪ Diminuição significativa dos efeitos colaterais e aumento do tempo de permanência na circulação;

▪▪ Minimização da quantidade de fármacos utilizados, ou seja, maior eficiência ou eficiência equivalente com quantidade reduzida;

▪▪ Aumento da estabilidade de fármacos hidrolisáveis ou facilmente oxidáveis.

Efeitos do Nanomedicamento

Segundo a equipe, o nanomedicamento gerou uma concentração elevada da droga quimioterápica sobre o local do tratamento - um aumento de 100 vezes do docetaxel presente no plasma sanguínea ao longo de 24 horas.

Isto produziu uma eficácia substancialmente maior, além da diminuição dos efeitos colaterais da quimioterapia.

Foi observado também um aumento de até 10 vezes na concentração intratumoral do quimioterápico.

Há indícios de que o nanomedicamento altera significativamente os efeitos biológicos da própria droga, em virtude de mudanças fundamentais em sua farmacologia, incluindo grandes aumentos na concentração no local do tratamento.

Medicamentos em Nanotecnologia

Nanofábrica produz nanocápsulas para medicamentos

objetivo

longamente sonhado pela nanotecnologia.

Minsoung Rhee e seus colegas construíram uma máquina capaz de construir objetos em nanoescala com alta precisão.

Cientistas

do

MIT

estão

transformando

em

realidade

um

E os produtos que saem dessa nanofábrica não são objetos curiosos para demonstração de uma tecnologia futurística, são nanoesferas capazes de transportar medicamentos dentro do corpo humano.

Microfluídica e Nanocarregadores

Os pesquisadores uniram dois conceitos que já estão em uso prático

para criar sua nanolinha de produção.

De um lado, estão os chamados nanocarregadores, partículas microscópicas que transportam medicamentos diretamente para o local onde eles são necessários, evitando os danos colaterais produzidos quando o medicamento entra em contato com áreas sadias do corpo.

Do outro lado estão os biochips, ou chips microfluídicos, verdadeiros

microlaboratórios nos quais as amostras passam por análises químicas ou sofrem reações no interior de microcanais construídos dentro de uma pastilha de vidro.

O que os cientistas fizeram foi demonstrar que os dispositivos

microfluídicos podem ser transformados em fábricas para criar as nanoesferas carregadoras de medicamentos.

Nanofábrica

Para que entrem no corpo humano sem causar danos e sem serem alvejados pelo sistema imunológico, os nanocarregadores devem ter composições e formatos muito precisos.

O novo sistema de produção oferece um algo nível de controle sobre o tamanho e a composição das partículas, permitindo a fabricação de nanopartículas homogêneas em larga escala.

Na linha de produção da nanofábrica, um fluxo do polímero é injetado

através de um canal microfluídico que é controlado em três dimensões.

Isso significa que o polímero não toca as paredes dos canais, permitindo a formação de nanoesferas perfeitas quando o polímero entra em contato com um fluxo de água que viaja na direção oposta.

O sistema usa um solvente orgânico chamado acetonitrila para manter os polímeros longe das paredes e evitar a deformação e a aglomeração das nanoesferas.

Nanocarregadores

O polímero utilizado na composição das nanoesferas é totalmente biodegradável e biocompatível, podendo transportar uma grande variedade de moléculas - os medicamentos - de forma controlada, sem dispararem o alerta do sistema imunológico.

Além do medicamento, que normalmente vai em seu interior, as nanoesferas possuem em sua superfície moléculas que se ligam unicamente a proteínas existentes nas células a serem alvejadas - as células de um tumor, por exemplo.

Depois de liberarem os medicamentos no lugar certo, as nanoesferas são eliminadas pelo organismo.

Regulamentação e Ética Profissional

Os nanomedicamentos apresentam-se como uma revolução no setor farmacêutico no aspecto econômico. Contudo, sua maior contribuição está no tratamento de doenças, no alcance de alvos específicos ou na minimização dos efeitos colaterais. Além disso, a utilização de uma quantidade menor de princípios ativos e um aumento de eficiência pode proporcionar minimização de custos de produção e promover economia de átomos e energia.

Com vistas a isso, os nanomedicamentos podem dar início a um grande passo rumo ao desenvolvimento sustentável e à utilização dos conhecimentos de química verde (green chemistry). Por se tratar de uma tecnologia emergente, são necessários estudos avançados e responsáveis para uma maior compreensão dos benefícios apresentados e eventuais problemas. Não existe qualquer tecnologia, sistema ou processo que não apresente vantagens e desvantagens, daí a importância de estudos sérios e não tendenciosos. Torna-se indispensável a participação do governo na regulamentação dos procedimentos, normas, estudos e no fomento de pesquisa e incentivos à

inovação. Mas o governo não pode caminhar sozinho e por isso é fundamental

o diálogo com institutos de pesquisa, Universidades, empresas de tecnologia e

a própria indústria.

A nanotecnologia, diferentemente de outras tecnologias, não surgiu primeiro do empirismo e posteriormente voltou para o estudo e o entendimento. Essa (nano)tecnologia surgiu do pensamento de cientistas, das idéias de visionários que vislumbravam um mundo melhor. Primeiramente, a nanotecnologia surgiu no “papel” e posteriormente foi para a “bancada”.

Atualmente, a nanotecnologia está sendo conduzida por profissionais, por pesquisadores, por cientistas e por empresários que despendem anos de dedicação ao estudo e aprimoramento desses conceitos. Por isso, a nanotecnologia está sendo lapidada por profissionais. Caso contrário, na mão de amadores, poderia haver inúmeros problemas. Um trabalho sério somente é realizado por profissionais qualificados, com apoio governamental, estudos isentos e, principalmente, fundamentado na ética profissional.

de

Medicamentos

O Brasil já desenvolve seus primeiros medicamentos com

nanotecnologia, uma das abordagens promissoras para a criação de drogas menos tóxicas e mais eficazes. Há 15 anos, surgiram os primeiros grupos de pesquisa no País. Agora, antibióticos, anestésicos e quimioterápicos já são testados.

Brasil

usa

Nanotecnologia

no

Desenvolvimento

Nas terapias nanotecnológicas, o princípio ativo - principal substância do

remédio - fica envolvido por uma "pequena caixa" - o nanocarreador. É como se o medicamento fosse empacotado para ser entregue no órgão no momento adequado, para aumentar as chances de cura.

A nanotecnologia, ciência que procura manipular a matéria no nível dos átomos e das moléculas, é fundamental para construir os nanocarreadores. Muitas vezes, eles têm um diâmetro inferior a cem nanômetros. Para se ter uma idéia, um nanômetro equivale a milionésima parte de um milímetro. Um cabelo humano tem 100 mil nanômetros de espessura.

Resultados

Pacientes com câncer de fígado ou pulmão costumam utilizar um quimioterápico injetável chamado doxorubicina que, ao cair na corrente sanguínea, espalha-se para todo o corpo, prejudicando tecidos sadios. A equipe do pesquisador Anselmo Gomes de Oliveira, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara (SP), colocou o remédio dentro de um nanocarreador construído com um nutriente muito consumido pelas células cancerosas. A maior parte do "alimento envenenado" foi digerida pelas células do tumor, causando sua destruição. A nova técnica diminuiu para um quinto a toxicidade.

Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o pesquisador Sócrates Tabosa do Egito envolveu o antibiótico amoxicilina com uma nanoestrutura magnética. Depois, aplicou uma corrente elétrica no estômago de cobaias infectadas com Helicobacter pylori, bactéria capaz de causar úlceras. O medicamento, administrado por via oral, "estacionou" no órgão e penetrou na sua mucosa, liberando o antibiótico.

O professor Antonio Tedesco, da USP de Ribeirão Preto aprimorou uma terapia para câncer de pele com o uso da nanotecnologia. Uma pomada tópica, em contato com uma fonte de luz vermelha, causa a morte das células cancerosas - o tratamento resultante é mais eficaz no combate a cânceres de pele mais profundos.

Medicamentos

Microscópicos

Uma equipe de pesquisadores brasileiros, coordenada por um farmacêutico, conseguiu desenvolver a liberação controlada do anti-inflamatório Triancinolona, no vítreo, interior do olho, por até mais de um ano, tempo cinco vezes maior que o alcançado por laboratórios multinacionais. O produto é acondicionado em micropartículas e micropellets. A pesquisa está chamando a atenção de cientistas internacionais e da grande indústria.

Brasileiros

Revolucionam

nos

Mais de 500 pessoas, entre cientistas e representantes de laboratórios farmacêuticos multinacionais, lotavam um dos auditórios do Centro de Convenções de Fort Lauderdale (EUA), quando o farmacêutico brasileiro Anselmo Gomes de Oliveira, professor doutor, docente da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp (Universidade Estadual Paulista), campus de Araraquara, apresentou um verdadeiro tesouro científico: o trabalho de pesquisa que ele está coordenando sobre a liberação controlada do antiinflamatório Triancinolona no vítreo (interior do olho). A parte clínica da pesquisa é realizada pelos médicos oftalmolo- gistas José Augusto Cardillo, Fernando Paganelli e Mirian Skaf, do Hospital de Olhos de Araraquara, público municipal.

Vista geral do laboratório de equivalência farmacêutica, na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp, onde

Vista geral do laboratório de equivalência farmacêutica, na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp, onde a maior parte da pesquisa está sendo realizada

O que essa pesquisa, iniciada, há cerca de cinco anos e envolvendo a

mais avançada tecnologia, traz de novo? Traz aquilo com que sonham pesquisadores de todo o mundo: a permanência do principio ativo de um medicamento, num determinado órgão, por longo tempo e de maneira controlada.

O processo de liberação produzido pelo grupo da Unesp/Hospital de

Olhos é cinco vezes maior que o já alcançado pelas grandes indústrias do

Planeta. E mais: as micropartículas que desenvolveram para abrigar o anti- inflamatório Triancinolona são cinco vezes menores que as já existentes e possuem tamanho homogêneo.

A boa nova que tanto encantou os congressistas, em Fort Lauderdale,

vai melhorar a qualidade de vida de portadores de doenças do segmento posterior do olho. A exposição oral do pesquisador brasileiro foi acompanhada, com enorme curiosidade, pelas centenas de cientistas e representantes de indústrias multinacionais presentes. Muitos destes últimos manifestaram interesse em comprar os direitos de comercialização e de continuidade da pesquisa.

Nanotecnologia - A pesquisa, realizada no Laboratório de Tecnologia Farmacêutica da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp, tem na nanotecnologia a sua âncora. A nanotecnologia emprega uma medida equivalente a um trilhão de vezes menor que o metro. Um nanômetro (nm) corresponde a dez elevado a menos nove. Escrevê-lo é fazer um exercício de acuidade, tantos são os zeros necessários: 0,0000000001m. É uma medida invisível a olho nu.

Os tamanhos medidos em nanômetro só passaram a ser conhecidos, a partir dos experimentos com o espalhamento da luz no laser. A ciência farmacêutica, por sua vez, passou a aplicar a nanotecnologia, nos anos 80, dando início a uma revolução na administração de medicamentos no organismo.

A nanotecnologia faz com que um fármaco incorporado num sistema

nano-estruturado consiga atingir doenças, como infecções e inflamações que jamais seriam atingidas, através de medicamentos convencionais. As doenças

do segmento posterior do olho são um exemplo dessas aplicações. Essas doenças são o foco das pesquisas do grupo da Unesp/Hospital de Olhos.

As pesquisas não estão restritas à Triancinolona, mas também aos antibióticos Vancomicina e Ciprofloxacino, com a mesma indicação terapêutica. Para combater as doenças do olho nas quais estão focados os estudos realizados, na Unesp, as nanopartículas, os lipossomas e os micropellets,e m forma de microcilindros de polímero biodegradável associados ao fármaco, são injetados ou implantados, no interior do corpo vítreo e, aí, liberam o antibiótico

ou o anti-inflamatório que combate diretamente as bactérias, ou atua nos tecidos inflamados.

Os micropellets ficam presos entre a conjuntiva e a esclera, liberando, continuamente, substância ativa para o corpo vítreo. Eles são implantados diretamente no local onde se busca o efeito farmacológico, longe da barreira da córnea. Assim, a substância passa a fazer contato com todo o interior do olho.

Esses cilindros ficam liberando substância ativa por um período prolongado, que vai de semanas a mais de um ano. Aliás, este longo e inusitado tempo de liberação é o atrativo da pesquisa, pelos inúmeros benefícios que traz. Uma injeção de Ciprofloxacino e Vancomicina tradicional age, num tempo curto, jamais superior a 12 horas, e são extremamente dolorosas, quando aplicadas no olho.

Essa tecnologia de produção não é nenhuma novidade no universo farmacêutico internacional, diga-se de passagem. O seu domínio na área industrial está restrito, entretanto, a poucas empresas farmacêuticas. A novidade é que nenhuma delas conseguiu obter tão longo tempo de liberação quanto o grupo da Unesp. Isso faz a diferença.

Aplicação Anselmo Gomes, coordenador da pesquisa, informa que consegue desenvolver uma partícula de um micrometro, o que corresponde a um milésimo de milímetro. Para abrigar um miligrama de Triancinolona, são necessárias dezenas de milhares de partículas. Elas são envasadas em ampolas estéreis, na forma de pó seco, no qual é introduzido um líquido dispersante, no momento da aplicação.

Combate implacável - As nanopartículas contendo antibiótico chegam facilmente às células infectadas, que desencadeiam o processo de fagocitose, atraindo para dentro de si exatamente aquele que vai exterminar as bactérias que as devastam. Dá-se, aí, o combate implacável do fármaco com uma eficiência que as formas farmacêuticas, até então conhecidas, não conseguem obter.

Pelo processo convencional, geralmente, os antibióticos não conseguem, em sua inteireza, ultrapassar a membrana celular e atingir as bactérias abrigadas no interior das células. Resultado: a doença vence, porque

os microrganismos multiplicam-se, no interior das células, rompem as suas membranas e extravasam-se para a corrente circulatória.

Uma parte dos microrganismos é novamente fagocitada, iniciando-se um círculo vicioso perigoso “A única maneira de se quebrar este ciclo é colocar o antibiótico, lá no interior das células infectadas. É isso o que faz a nanotecnologia farmacêutica”, explica o professor da Unesp, lembrando a eficácia desse sistema no combate a outras doenças, como a tuberculose.

Mas o foco da pesquisa são as doenças do olho. Há algumas delas, desenvolvidas no segmento posterior do órgão, de difícil combate, tamanha é a dificuldade de o medicamento chegar àquela região ocular. Segundo o farmacêutico pesquisador, de tudo o que se administra de medicamentos, por via sistêmica, apenas cerca de 1% chega à área posterior do olho.

No caso dos colírios, informa ele, o lacrimejamento remove rapidamente a substância ativa da superfície do olho. Além do mais, a córnea, com a sua membrana semipermeável, faz o papel de barreira protetora, não deixando passar cerca de 99% da concentração das substâncias medicamentosas.

Já a administração para efeito sistêmico, via oral ou injetável, não é muito viável em oftalmologia, vez que requer uma dose considerada alta para um aproveitamento pequeno demais, em consequência do fato de a substância ser distribuída por todo o organismo do paciente. Mais: o princípio ativo é rapidamente metabolizado e eliminado. Anselmo Gomes acrescenta que, além dessas inconveniências, as injeções intraoculares são desconfortáveis, dolorosas e podem causar traumatismos irreversíveis ao olho.

As doenças A maioria das doenças do segmento posterior do olho é de difícil tratamento, em razão da dificuldade de se atingir concentrações adequadas de fármacos nessa região. Uma das doenças é a endoftalmite, uma infecção de ambiente hospitalar, contraída, durante o processo operatório.

O tratamento tradicional para o seu combate é a aplicação de dolorosas injeções intravítreo de antibióticos e anti-inflamatórios, mas o reduzido tempo de liberação os torna pouco eficazes. As pesquisas desenvolvidas, em Araraquara, voltam-se ao acondicionamento dos antibióticos Vancomicina e Ciprofloxacino e do anti-inflamatório Triancinolona em micropartículas aplicadas no vítreo, por um período programável que pode chegar a um ano, se

for necessário, mas os estudos indicam que tempos maiores podem ser atingidos.

A uveíte também terá nos pellets um inimigo inclemente. Inflamação crônica da íris que requer dos seus portadores o uso permanente de colírios e outros medicamentos, a uveíte, com essa pesquisa, poderá ser atacada mais diretamente e com um grau de eficácia, até então, desconhecido. Os pellets incorporando corticoides serão usados, ainda, no caso da diabetes, evitando o edema macular que reduz a visão do paciente.

Mas pesquisas do porte das que estão sendo desenvolvidas na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp de Araraquara, voltadas à produção de lipossomas, micro emulsões ou micropartículas contendo antitumorais, antifúngicos sistêmicos, anti-inflamatórios e antibióticos oftalmológicos, ainda são tímidas, no Brasil, segundo o farmacêutico Anselmo Gomes. Poucos grupos de pesquisa estão realizando estudos, utilizando nanotecnologia, dentro de universidades, nesse campo, afirma o pesquisador.

O grupo - O grupo liderado por Anselmo Gomes reúne nove pesquisadores da Unesp, todos farmacêuticos, sendo três mestrandos, três doutorandos e três docentes pesquisadores. Fazem parte da equipe, ainda, dois médicos do Hospital de Olhos de Araraquara e mais um médico e um farmacêutico do Departamento de Oftalmologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

O Segredo é a Liberação Prolongada

O farmacêutico Anselmo Gomes, professor doutor, docente de Farmacotécnica e de Tecnologia Farmacêutica da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, da Universidade Estadual Paulista (FCFAR/Unesp), campus de Araraquara, interior paulista, onde também é o Vice coordenador do Programa de Pós-graduação em Ciências Farmacêuticas, fala à revista PHARMACIA BRASILEIRA do destino dos produtos que resultarão de sua pesquisa e do apoio que a mesma recebe. Explica, ainda, o motivo de o setor privado não investir nesse trabalho. Veja a entrevista.

ENTREVISTA / ANSELMO GOMES DE OLIVEIRA

PHARMACIA BRASILEIRA Quando os produtos advindos dessas pesquisas estarão à disposição dos médicos e da sociedade?

Anselmo Gomes de Oliveira Estamos na fase pré-clínica dos estudos. Já desenvolvemos a tecnologia, fizemos todo o controle da liberação da substância ativa “in vitro” e, agora, estamos usando o modelo animal (coelhos) “in vivo”. A fase clínica (utilização em humanos) deve iniciar- se, posteriormente, talvez, em torno de seis meses. Será desen volvida, na Unifesp e no Hospital de Olhos, aqui, em Araraquara. Estamos usando os antibióticos Vancomicina e Ciprofloxacino e o anti-inflamatório Triancinolona.

É difícil prevermos quando concluiremos a fase clínica da pesquisa, porque teremos que recrutar pacientes que têm os problemas de visão suscetíveis de tratamento e nos submetermos aos rigorosos protocolos clínicos estipulados pelo Comitê de Ética. É uma etapa demorada e que não pode ser atropelada, apressada, porque estamos lidando com pacientes. Se for aplicável, virá a fase de licenciamento do produto junto à ANVISA para uso clínico.

PHARMACIA BRASILEIRA Com quem ficará o direito de produção dos medicamentos?

Anselmo Gomes de Oliveira - Aí, há duas opções: transferir a tecnologia e o direito de produção para a iniciativa privada (contrato de venda), ou produzir o próprio medicamento.

PHARMACIA BRASILEIRA O que mais chama a atenção em sua pesquisa, do ponto de vista científico?

Anselmo Gomes de Oliveira - O que mais impressiona em nosso trabalho, e que é o seu segredo, é o domínio da tecnologia de produção das micropartículas e dos micropellets a qual é responsável pelo efeito de liberação prolongada. Conseguimos um período programável de liberação que ninguém conseguiu, ainda, no mundo inteiro. Grandes laboratórios multinacionais estão interessados em saber o que nós fizemos, para alcançar uma liberação tão prolongada.

PHARMACIA BRASILEIRA Quem apoia a sua pesquisa?

Anselmo Gomes de Oliveira O apoio financeiro que temos o básico vem da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Somos apoiados, ainda, por um programa interno de nossa própria Faculdade, chamado de PADC (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Outros apoios vêm da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento científico e Tecnológico), ambos de bolsas de estudos para os alunos que participam do projeto. Vale salientar que o CNPq ainda nos apoia com auxílio à pesquisa e também com bolsas de produtividade científica para pesquisadores.

PHARMACIA BRASILEIRA Esses apoios são suficientes?

Anselmo Gomes de Oliveira Suficientes, não são. Eles cobrem apenas o mínimo necessário para a gente continuar a pesquisa. Que fique claro que ainda não há nenhum apoio especial.

PHARMACIA BRASILEIRA O setor privado não os apoia?

Anselmo Gomes de Oliveira O problema do setor privado, no Brasil, está no fato de que este tipo de pesquisa envolve alta tecnologia que, normalmente, é explorada pelas multinacionais. Portanto, as multinacionais que aqui estão não nos apoiam, porque elas já desenvolvem as suas pesquisas básicas, em seus países de origem. Já as nossas empresas pequenas, de capital nacional, têm dificuldades de investir num campo que, no futuro, vai requerer ainda mais recursos, para enfrentar a concorrência das multinacionais.

“O que mais impressiona em nosso trabalho é o domínio da tecnologia de produção das micropartículas e dos micropellets a qual é responsável pelo efeito de liberação prolongada. Conseguimos um período programável de liberação que ninguém conseguiu, ainda, no mundo inteiro.”

(Anselmo Gomes de Oliveira, farmacêutico pesquisador).

Tratamento sem Depender da Adesão do Paciente

O médico oftalmologista Fernando Paganelli, do Hospital de Olhos de Araraquara (SP) e associado da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), é um dos médicos responsáveis pela parte clínica da pesquisa com as

micropartículas e micropellets de antibióticos e anti-inflamatórios. Ele concorda com que a pesquisa da qual participa poderá revolucionar o tratamento de algumas doenças do olho. Veja a entrevista.

ENTREVISTA / FERNANDO PAGANELLI

PHARMACIA BRASILEIRA O que virá com o domínio dessa tecnologia e dessa pesquisa dos senhores será uma revolução na aplicação de medicamentos?

Fernando Paganelli Sim, principalmente, no tratamento da uveíte e nos pós- operatórios. Mas em relação à diabetes e à degeneração macular, há uma concorrência muito grande com os laboratórios multinacionais, que dispõem de muitos recursos, enquanto nós carecemos dos mesmos.

PHARMACIA BRASILEIRA Pacientes do SUS poderão ter acesso aos produtos estudados pelos senhores?

Fernando Paganelli Sim. A tecnologia que nós desenvolvemos não permitirá que o produto fique mais encarecido que um produto convencional. Os micropellets são mais caros, porque a sua produção está restrita a poucas empresas, que colocam os preços que querem. Mas nós não temos os mesmos interesses de uma multinacional. Hoje, um implante de pellets custa em torno de U$ 2 mil. Os produtos advindos desta pesquisa, portanto, serão muito mais baratos que uma ampola de Verterporfina, que custa, hoje, R$ 4 mil. Certamente, as micropartículas poderão ser prescritas e dispensadas, no SUS.

PHARMACIA BRASILEIRA Qual a vantagem clínica da utilização das micropartículas na medicina?

Fernando Paganelli A vantagem está no fato de que, com uma única aplicação, consegue-se manter a droga no olho por um tempo programável. Poderemos programar micropartículas ou micropellet para agir, durante 120 dias, por exemplo. E, também, é mais eficaz, porque não depende da adesão do paciente ao tratamento. A regularidade da liberação da droga no olho é muito grande e isso é também uma grande vantagem.

Se alguém pingar uma gota de colírio no olho, a concentração será grande, apenas naquele momento, no segmento anterior, mas, depois, não. Já

com o pellet ou com a micropartícula, a concentração será constante e duradoura. Ou seja, a eficácia independe da adesão ou de outros fatores externos. No pós-cirúrgico, é grande a falta de adesão do paciente, principalmente, quando se refere ao uso de colírios.

“A vantagem é que poderemos programar micropartículas ou micropellets para agir, durante 120 dias, por exemplo. E, também, é mais eficaz, porque não depende da adesão do paciente ao tratamento.”

(Fernando Paganelli, médico pesquisador).

Considerações Finais e Perspectivas

As indústrias que estiverem mais atentas a essa tecnologia e mais bem preparadas poderão encontrar um mercado pouco explorado pela frente, tendo condições de realizar avaliação de mercado adequada, pesquisa, desenvolvimento e inovação diferenciada. Com isso, é possível se tornar líderes de mercado no Brasil e no restante do mundo. Essas perspectivas também estão abertas aos profissionais: químicos, engenheiros, farmacêuticos, bioquímicos, enfermeiros, médicos, pesquisadores etc. São estes os protagonistas desse desenvolvimento. Além disso, também se observa um grande espaço no mercado para novas empresas de desenvolvimento, P&D e de alta tecnologia, assim como para start up, do tipo spin off ou spin out.

Espera-se que a atuação da nanotecnologia no setor farmacêutico traga novos fármacos ou novas apresentações destes, com maior eficiência e menores efeitos colaterais. Acredita-se que seja possível a liberação dos princípios ativos em regiões específicas ou atuação sinergística entre dois ou mais fármacos, o que não seria possível com química tradicional. Além disso, com um maior entendimento e estudo dos SLC espera-se uma maior segurança nos produtos encontrados no mercado e uma melhora na qualidade dos tratamentos.

Pode-se ir além, utilizar a imaginação e a criatividade e, quem sabe, em um futuro não muito distante, exista algum produto no mercado com características once a week, ou seja, se tomaria uma única dose por semana e

não ocorreria o esquecimento e a consequente interrupção do tratamento, de maneira que os maiores beneficiados dessa tecnologia seríamos todos nós.