Você está na página 1de 54

Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESEÍsrTAQÁO
DA EDipÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
' visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste site Pergunte e
Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar. este trabalho assim como a
equipe de Verítatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Estevao Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Estevao Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaca
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
<
D
SUMAR 10

Deus e a Ciencia

'° A Beatif¡cacao de Mons. Escrivá

Por que nao sou Protestante?

T"A Vida continua além da Morte" por T. de Oliveira e S. Paseto

Aborto Eugénico

Que é a Ordem dos Cavaleiros de Malta?

Livros em Estante

O
te
Q.

ANO XXXIII ABRIL 1992 359


ERGUNTE E RESPONDEREMOS ABRIL 1992
Publicarlo mensal
N5 359

liretor-Responsável: SUMARIO
Estévao Bettencourt OSB
Autor e Redator de toda a materia
"Estivo morto, mas eis que
publicada neste periódico
vivo" {Ap 1,18) 145
liretor-Administrador: E os avancos da ciencia contemporánea?
D. Hildebrando P. Martins OSB
Deus e a Ciencia 146

■dministracSo e distribuido: Mais um Santo que surge:


Edicóes Lumen Christi A Beatificacáo de Mons. Escrivá.. 156
Dom Gerardo, 40 - 5? andar, s/501
Tel.: (021) 291-7122 Diálogo Interconfessional:
Caixa Postal 2666 Por que nao sou Protestante?.... 166
20001 — Rio de Janeiro — RJ
A Parapsicología faia:
"A Vida Continua além da Morte"
Impressáo o Errcad8ma;áo (Oliveira-Paseto) 173

O valor da vida humana:


Aborto Eugénico 181

"MARQUES-SARAJVA" Dissipando mal-entendidos:


GRÁFICOS E EDITORES S.A. Que é a Ordem dos Cavaleiros
Tels.: IOZt)273-9*9B - 273-9**7
de Malta? 185

NO PRÓXIMO NÚMERO:

500 anos de América. - Por que nao sou espirita? - Igreja Universal do
Reino de Deus.- Nova Era e suas facetas.

COM APROVAQÁO ECLESIÁSTICA

ASSINATURAANUAU12 números)deP.R.:Cr$ 15.000,00-n*avuJsoou atrasado: Cr$ 1.500,00

Pagamento (á escolha)
1. VALE POSTAL á ¡ Agencia Central dos. Correios do Rio de Janeiro em nome de
Edicóes "Lumen Christi" Caixa Postah 2666 - 20001 - Rio de Janeiro - RJ.
■*2,...CHEQ1JE NOMINAL CRUZADO, a favor de Edicóes "Lumen Christi" (endereco
. aK «
acmK f i
<3- ORDEM DE PAGAMENTO, no BANCO DO BRASIL, conta N? 31.304-1 em nome'
do MOSTEIR'O DE SAO BENTO. pagável na AGENCIA PRACA MAUÁ/RJ
n? 0435-9. (Enviar xeróx da guia de depósito á nossa admimstrapao. para efeito de
identificacáo do pagamento).
"ESTIVE MORTO, MAIS EIS QUE VIVO"
(Ap1,18)

O Apocalipse fornece ao cristáo urna visáo da historia chela de sím


bolos. Alguns destes, tomados ao pé da letra, assustam; sSo, porém,
imagens das tribulacóes aturadas por aqueles que querem ser fiéis ao
Senhor até a morte. Todavia o Apocalipse aprésente as intemperies da
historia sob a figura do Cristo-Reí, figura que abre o livro. Eis, por exem-
plo, o que se lé em Ap 1,18:
"Nao temas! Eu sou o Primeiro e o Último, o Vívente; esti-
ve morto, mas eis que estou vivo pelos sáculos dos séculos, e
tenho as chaves da Morte e da regilo dos mortos."
Cristo é o Vívente.- - Como? - É aquete que pass'ou pela morte».
morte que todos os homens sempre repudiaram, pois parece ser destral-
9§o associada a lagrimas e sofrímentos (cf. Ap 21,4). Cristo, porém, pode
dizer: "Libertei-me da morte, sacudí o seu jugo, venci-a~" A morte ten-
tou absorver Jesús, mas Ele escapou, levando consigo as chaves da re-
giáo dos mortos.
Ora esta vitória de Cristo é comunicada a todos os discípulos ou
a todos aqueles que com Cristo comungam como ramos do mesmo tron
co de vldeira (cf. Jo 15,1 -5).
Considerada nesta perspectiva, a historia toma oütro sentido: com
todos os seus flagelos, ela está contida ñas máos do Cristo, que o Apoca
lipse descreve com tragos de Imperador. Com efeito; em Ap 19,11.16 o
Senhor Jesús monta um cávalo ¿raneo, símbolo que ao autor dó Apoca
lipse podia lembrar o Equus Maximus, o Cávalo Máximo, erguido por
Domiciano no Forum de Roma em 90/91, ou também récordava as moe-
das que representavam o Imperador a cávalo. Cristo veste um manto,
sobre o qual se lé: "Reí dos Reis e Senhor dos Senhores"; é o manto dos
Imperadores Romanos, que tinham também a sua ¡nscricáo. Cristo traz
ñas máos sete estrelas (Ap 1,16), que na antigúidade eram os sinais do
poder dos Césares; os Imperadores as mandavam gravar ñas moedas ao
lado da sua efigie. Mais ainda: o Cristo caminha em meio a sete candela
bros (Ap 2,1); este símbolo era usual entre os judeus, mas nao tinha sen
tido messiánico; no Apocalipse tal imagem faz alusSo aos candelabros
que ocorriam no culto imperial: cercavam as estatuas dos Imperadores1
ou apareciam ñas moedas ao lado do busto do monarca.
Estes dizeres do Apocalipse voltam á mente do cristáo no período
de Páscoa, contribuindo assim para reconfortar os que caminham ñas
estradas deste mundo. É em demanda da VIDA, e da VIDA PLENA, que
caminham com Cristo.

"EU ESTIVE MORTO, MAIS EIS QUE VIVOI"


E.B.

1No templo dedicado ao culto do Imperador Domiciano em Éfeso, en-


contrava-se entronizada urna estatua do monarca quatro vezes malor do que
o tamanho natural, entre candelabros, altares e as ¡nscricóes do¡
vfncla da Asia Menor. BIBLIOTBC
CENT? A
145
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
Ano XXXIII - N? 359 - Abril de 1992

E os avancos da ciencia contemporánea?

DEUS E A CIENCIA

Em sfntese: Jean Guitton, Grichka e Igor Bogdanov publicaram re-


centemente urn lívro Intitulado "Dieu et la Sclence" (Deus e a Ciencia). Atra-
vés de páginas eruditas, mostram como o progresso da ciencia leva a re
constituir as fases de origem do universo, atrás das quals deve haver uma
Inteligencia Suprema e Poderosa responsável pela maravilhosa ordem que
reina no processo evolutivo da energía inicial Cada instante, desde o big
bang ou a grande explosáo originaria, foi dlmenslonado com precisSo vertigi
nosa; cada biüonésimo de segundo e de milímetro teve sua Importancia nessa
historia. Qualquer desvio, por mals insignificante que parecesse, teria impedi
do o surto dos minoráis que compOem as estrelas, os planetas e as galaxias;
conseqüentemente nSo se teriam constituido as amaleóos para que a vida - e
a vida humana - aparecesse sobre a Térra. O infinitamente grande e o infini
tamente pequeño, pálidamente esbogados pelos autores do livro, dio teste-
munho da existencia do Criador, comprovando-se asslm o queja dizla Pas-
teur: "A pouca ciencia afasta de Deus, mas a multa ciencia aproxima de
Deus."

No século XIX nSo era raro dizer-se que a ciencia e a fá nSo se coa-
dunam entra si; a ciencia parecía refutar as proposites da fé e relegar a
religiSo para o plano do obscurantismo e da ignorancia. - O mesmo nao
se dá em nossos dias. As conclusoes de dentistas de roñóme tém mos
trado que a própria ciencia insinúa a existencia de uma Inteligencia Su-
perior, responsável pela ordem do universo; a reconstituifáo da origem e
do desenvolvimento da materia tem aborto os horizontes e levado o no-'
mem a reconhecer o misterio da natureza, expressáo do misterio de um
Ser Supremo, que é o próprio Deus.

146
DEUSE A CIENCIA

Verdade é que os dentistas propóem teorías muito diversas para


explicar este ou aquele fenómeno do passado ou do presente do univer
so; a ciencia autentica é cautelosa e sabe que avanca em terreno nunca
dantes palmilhado, estando, por isto, sujeita a se reformar ou reformular
constantemente. Há, porém, grandes certezas que parecem perpassar as
sucessivas descobertas feitas pelos dentistas.

Entre outros livros que procuram levar ao grande público o conhe-


cimento do atual estado da ciencia, está o de Jean Guítton, notável inte
lectual francés, que escreve, em colaboracáo com doís dentistas russos:
Grichka e Igor Bogdanov, o livro: Dieu et la Science (Deus e a Ci&nda),
Editions Bernard Grasset, París, 1991. Do ponto de vista filosófico-teoló-
gico, a obra deixa a desejar em alguns pontos, pois nao observa a dis-
tincio entre materia, espirito criado e inteligencia humana; usa de lin
guagem falha aos olhos da Filosofía, embora Jean Guitton seja um bom
cristáo, fiel a sua fé católica. Como quer que seja, a obra tem o valor de
descrever, em linguagem relativamente fácil, os fenómenos de origem do
universo e fazer entrever assim a existencia de Deus Criador.
De tal livro extrairemos alguns tópicos mais atinentes ao propósito
de coadunar ciencia e fé entre si.

1. Recuando na historia».

O livro procede sob a forma de diálogo entre Jean Guitton, filósofo,


e os dois cientistas russos, de modo que tenclona ser um confronto entre
os dados positivos da experimentacáo e o raciocinio, interessado em ex
plicar esses dados.

Jean Guitton comeca apontando urna chave de ferro que se en-


contra sobre a sua escrevaninha, e pergunta: "Se eu pudesse refazer a
historia dos átomos que a compóern, até onde deveria eu recuar? E que é
que eu entSo encontrarla?" (p. 38).

Segue-se o desenrolar dessa historia sob a pena dos dois cientistas


e de Guitton.

1) "Há urnas centenas de anos essa chave estava encravada, sob


a forma de um minério bruto, no coracSo de urna rocha" (p. 38). Antes
que um golpe de picareta extralsse tal chave, estava ali, como prisioneiro
cegó, já havía blindes de anos.

Por conseguinte, o metal da chave é tSo antigo quanto a própria


Térra, ou seja, tem a idade de quatro bilhóes e meio de anos aproxima
damente.

1!47
4 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 359/1992

2) Af, porém, nao termina o retrocesso. Pode-se prosseguir a pes


quisa até a época em que a Térra e o Sol aínda nao existiam. O metal da
chave encontrava-se entáo a flutuar no espaco entre as estrelas, sob a
forma de urna nuvem que continha átomos de ferro e de elementos pe
sados necessárlos á formacáo do nosso sistema solar. Isto terá ocorrido
há oito ou dez blindes de anos.

3) Pergunta-se agora: donde vlnha essa nuvem?

4) Provlnha de urna estrela, sim. Há dez ou doze bilhóes de anos,


um Sol (existente antes do nosso) explodiu, dando origem a ¡mensas nu-
vens de hidrogénio, que se condensaram, aqueceram e acabaram por in-
candescer, formando as primeiras estrelas-gigantes. Estas sSo compará-
veis a gigantescos fornos destinados a fabricar núcleos de elementos pe
sados necessários ó ascensáo da materia para estados mais e mais com
plexos.

Ao cabo de sua existencia relativamente breve - apenas algumas


dezenas de milhóes de anos -, essas estrelas-gigantes explodiram, pro-
jetando no espaco os elementos que serviram para fabricar outras estre
las menores, ditas "estrelas de segunda geracáo", asslm como os seus
planetas e os metáis que estes contém.

5) Em conseqüéncia, vé-se que urna simples chave hoje existente


contém toda a historia do universo, historia que comecou há bilhóes de
anos antes da formacáo do nosso sistema solar, historia que vai do infi
nitamente pequeño ao infinitamente grande ou do átomo ás estrelas. -
Mas pergunta-se: seria possfvel ainda recuar, ultrapassando o periodo
em que se formaram as primeiras estrelas-gigantes?

6) A concepcáo mecanicista do universo proposta pela Física de


Newton está fundada sobre a idéia de que a realidade comporta duas coi
sas fundamentáis: corpos sólidos e um espaco vazio. Na vida cotidiana
esta concepcáo funciona sem diflculdade: os conceitos de espaco vazio e
de corpos sólidos fazem parte do nosso modo de pensar e de apreender
o mundo físico. A realidade cotidiana pode ser considerada como "urna
regiáo de dimensóes medias, em que as regras da Ffsica clássica con ti-
nuam a ter aplicacáo".

Ora tudo muda se passamos para o estudo do infinitamente pe


queño e de seus últimos elementos constitutivos. Foi somente no comeco
deste sáculo, grecas á descoberta das substancias radioatlvas, que os
dentistas compreenderam a natureza dos átomos; eles nao sao glóbulos
indivisfveis, mas compóem-se de partículas ainda menores. Na llnha das

148
DEUS E A CIENCIA

experiencias de Rutherford, as pesquisas de Heisenberg e dos físicos


quSnticos demonstram que os constitutivos dos átomos - eletrónios,
protónios, neutrdnios e as dezenas de outros elementos ¡nfranucleares
que foram mais tarde descobertos - nao manifestam nenhuma das pro-
priedades atribuidas aos objetos ffsicos. As partículas elementares nao se
comportam como partículas sólidas; parecem conduzir-se como campos
de energia. - O estudo deste mundo infinitamente pequeño leva a ver
nao somente que o universo é mais estranho do que o imaginamos, mas,
sim, muito mais estranho do que nos o podemos imaginar.

7) Sim. Chega-se assim á origem do próprio universo, há quinze


bilhóes de anos. Que ocorreu entáo?

8) A Física moderna ensina que o universo nasceu de gigantesca


explosáo (big bang), que provocou a expansáo da materia como ainda
pode ser observada em nossos dias. Notemos que as galaxias (nuvens
formadas por centenas de bilhóes de estrelas) se vio afastando umas das
outras sob o afeito dessa explosáo inicial. Calculando a velocidade com
que se afastam as galaxias umas das outras, pode-se deduzir o momento
primordial em que elas estavam conglomeradas num certo ponto, que t¡-
nha tamanho menor do que urna cabeca de alfinete.

Mais precisamente: os astrofísicos julgam que a energia inicial so-


freu a grande explosáo nos primeiros bilionésimos de segundo que se
seguiram á sua origem. Mais explícitamente: a 10"43 de segundo da
existencia do cerne do universo, tudo o que hoje existe (galaxias, plane
tas, Térra, árvores, flores, a chave.»), tudo estava comido numa esfera de
pequenez inimaginável ou da pequenez de 10*33 de centímetro, ou seja,
bilhóes de bilhóes de bilhóes de vezes menor do que o núcleo de um
átomo1.

9) A densidade e o calor desse universo originario atingiam cifras


que a mente humana mal pode conceber: a temperatura de 1032 graus (1
seguido de 33 zeros).

Com essa temperatura, a energia do universo que nascia, era


monstruosa. Quanto a essa energia, era constituida de urna "sopa" de
partículas primitivas, indiferenciadas entre si, que interagiam todas da
mesma maneira.

Tal época é a mais surpreendente de toda a historia do universo. Os


acontecimentos se precipitaram em ritmo alucinante, a tal ponto que

10 diámetro do núcleo de um átomo mede apenas 10"13 de centímetro.

149
6 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 359/1992

multo mais coisas ocorreram nesses bilionésimos de segundo do que nos


bllhfies de anos que se seguirán). Em um segmento de tempo fabulosa
mente breve, ocupando a extensfio de 10*35 a 10*32 ¿e segundo, o uni
verso dilatou-se na proporcáo de 1050. O seu diámetro, que era menor
do que o de um núcleo de átomo, passou a ser o de urna mac3 de 10 cm
de diámetro. Essa expansáo vertiginosa era muito mais importante do
que a subseqüente; de entáo a nossos dias, o volume do universo au-
mentou em termos relativamente fracos, ou seja, um bilháo de vezes
apenas.

10) Detivemo-nos na fase em que o universo era do tamanho de


urna maca; o relógio do cosmo dava-lhe a idade de 10"32 de segundo.
Em tal época so existia um tipo de partícula, d qual os astrofísicos dáo o
nome de "partícula X"; era a partícula originaria, da qual procederían!
todas as domáis; a macS do universo era perfectamente homogénea: nao
era mais do que um campo de forcas, que nao continha a mínima parcela
de materia.

Ora precisamente na idade de 10"31 de segundo, algo de impor


tante se produziu: as partículas X deram origem ás primeiras partículas
de materia - os quarks1, os eletronios, os fotonios, os neutrínos e as an
tipartículas. O universo toma entlo as dimensSes de um grande baláo. As
partículas ai existentes sofrem flutuacóes de densidade, que causam irre
gularidades de toda especie. Esses movlmentos irregulares é que deram
origem, bem mais tarde, ás galaxias, As estrelas e aos planetas.

11) Nos bilionésimos de segundo subseqúentes, o universo vai-se


dilatando assombrosamente: passou a medir 300 metros de urna extre-
mídade ¿ outra, tendo- em seu interior trevas absolutas e temperaturas
inconcebfveis.

Na idade de 10"11 de segundo, a forca eletrofraca dividiu-se em


duas torgas distintas: a interacáo eíetromagnética e a for$a fraca. Os foto
nios nfio puderam mais ser confundidos com outras partículas, como os
quarks, os gluóes e os leptónios; as quatro forjas fundamentáis tiveram
assim origem.

Entre 10*11 e 10"5 de segundo, a diferenciacáo prosseguiu. Os


quarks se associaram em neutronios e protónios e a maioria das anti
partículas desapareceu para dar lugar as partículas do universo atual.

' Os quarka tém este nome, porque tais partículas exlstem em grupos
de tres, como os famosos quarks Inventados por James Joyce no seu ro
mance Finnegans Wak&

150
DEUSE A CIENCIA

12) Por ocasiSo de 10'3 de segundo ou da décima milésima fracáo


de segundo, as partículas elementares tlveram origem dentro de um es
pado que acabava de se por em ordem. O universo continuou a se dilatar
e esfríar. Aproximadamente 200 segundos apds o instante original, as
partículas elementares se juntaram para formar os isótopos dos núcleos
de hidrogénio e de helio. Assim o mundo que hoje conhecemos, come-
cou a tomar suas primeiras linhas básicas.

13) Toda a historia que acaba de ser descrita, durou tres minutos e
vinte segundos. A partir daf, a evolucáo será muito mals lenta. Durante
milhoes de anos o universo inteiro será banhado de radiacóes e de um
plasma de gas turbilhonante.

Aos 100 milhóes de anos, as primeiras estrelas se formaram em


¡mensos turbilhóes de gas. Foi no ámago délas que os átomos de hidro
génio e helio se fundiram para dar origem aos elementos pesados que
entraram na constituido da Térra bilhdes de anos depois.

Trata-se, portento, de realidades vertiginosamente possantes e


concatenadas. Os astrofísicos perguntam: que é que explica o surto do
universo ou, melhor, da energia inicial que expiodtu no big bang, com
todo o código de informacóes subseqüentes? Para tal pergunta, eles nao
tém resposta. Detém-se perplexos diante do Muro de Planck ou diante
daquele 10"43 de segundo em que se deu a explosSo, sem poder dizer o
que houve antes. Para tras do Muro de Planck, há, para os cíentistas, o
misterio total.

Continuaremos a refletir sobre o assunto sob o título seguinte.

2. Acaso ou Inteligencia Criadora?

A explanacSo até aqui desenvolvida evidencia que a historia do uni


verso é a de urna energia indiferenciada que traz em si a tendencia a se
organizar espontáneamente em sistemas sempre mais heterogéneos. A
evolucjto é orientada da unidade para a diversidade, realizando ordem a
partir da desordem, elaborando estruturas cada vez mais complexas...

Pergunta-se, porém: por que a natureza produz ordem? - A per


gunta ¡mpóe-se com-insistencia se se leva em conta que o universo pare
ce ter sido minuciosamente disposto a fim de permitir o surto da materia
com todas as suas micro e macroconstelacóes. Se as leis físicas nao tives-
sem sido rigorosamente o que elas foram e sao, "nao estaríamos aqui
para falar délas" (Hubert Reeves, astrofísico). Mais: se urna das grandes

151
8 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 359/1992

constantes universais (por exemplo, a constante da gravitado, a veloci-


dade da luz ou a constante de Planck) tivesse sofrido, ñas suas origens,
urna ínfima alterado, o universo nSo terla possibilidade de abrigar seres
vivos e inteligentes; talvez mesmo nunca teria aparecido.

Ora a preclsáo vertiginosa, infinitamente grande e infinitamente pe-


quena, do universo será resultado do acaso ou deve-se á vontade de urna
Causa Prímeira, de urna Inteligencia, que transcende a nossa realidade?
Existe um plano universal, do qual cada elemento foi minuciosamente
calculado? Existe urna ordem subjacente atrás daquilo que a nossa igno
rancia chama "o acaso"?

É o que vamos examinar ñas páginas seguintes.

2.1. Observando de perto...

1. Consideremos um floco de nevé. Pequeño como é, obedece a leis


matemáticas e físicas de surpreendente sutileza, dando lugar a figuras
geométricas diferentes urnas das outras: cristais e policristais, agulhas,
dentrites, plaquetas, colunas™ O mais maravilhoso é que cada floco de
nevé é único no mundo; flutuando durante urna hora no vento, foi sub-
metido a varias influencias: as da temperatura, da umidade, das impure
zas da atmosfera'., que contribuiram para imprimir ao floco a sua confi-
guracáo típica e singular; a forma final de um floco contém a historia de
todas as condicóes atmosféricas que ele atravessou. Examinando, porém,
de perto esse floco, verificamos nele urna bela ordem, um equilibrio deli
cado entre as forcas de estabilidade e de instabilidade ou urna ¡nteracáo
fecunda entre forcas da escala atómica. Donde vem esse equilibrio? Qual
a orígem dessa simetría?

2. Eis urna experiencia significativa, que suscita as mesmas interro


gares.

Imaginemos urna placa fotográfica sobre a qual se projetam raios


de luz ou fotdníos provenientes de determinada fonte. Entre esta fontee
a placa fotográfica coloca-se urna tela portadora de duas fendas verticais
paralelas entre si. Se alguém projeta as partículas luminosas urna por
urna na direcio das fendas, ó-lhe impossível dizer qual fenda a partícula
vai atravessar nem em que ponto preciso da placa fotográfica ela se vai
colocar. Por conseguinte, os movimentos e a trajetória de cada partícula
luminosa sSo para nos Imprevisíveis.- Todavía, apds um milheiro de lan
ces aproximadamente, verifica-se que os fotonios nio imprimem urna
mancha qualquer sobre a placa fotográfica. O conjunto das partículas
projetadas urna após a outra oferece urna figura perfeitamente estrutura-

152
DEUSE A CIENCIA 9

da. Tal figura, em seu conjunto, era plenamente previsivo!. Com outras
palavras: a (ndole aleatoria do comportamiento de cada partícula ¡solada
incluia, na verdade, urna grande ordem e harmonía multo elevada, que
nao podíamos imaginar.

Tal experiencia significa que o universo nao decorre do acaso, mas


é fruto de diversos graus de ordem e harmonía, cuja hierarquia nos com
pete decifrar. Os elementos postos inicialmente em turbulencia e desor-
dem que nao podemos compreender, parecem, ao final das cont'as, mo
vidos por algo que os especialistas chamaram "o Estranh.0 Atraente".

2.2. Formulando hipóteses...

Os astrofísicos afirmam que toda a realidade pousa sobre urnas


tantas (menos de quinze) constantes cosmológicas: a constante da gravi
tado, a da velocidade da luz, a do zero absoluto, a constante de Planck...
Conhecemos o valor de cada urna dessas constantes com notável preci-
sáo.

Ora, se urna só dessas constantes tivesse sido modificada (por pou-


co que fosse) no inicio da historia do universo, este, como o conhecemos
hoja, nao teria podido aparecer.

Exemplo impressionante é o da densidade inicial do universo: se


esta se tivesse afastado (por pouco que fosse) do seu valor crítico desde
10*35 de segundo após o big bang, o universo nao se teria constituido.
Foi a precisáo das dimensóes iniciáis, combinadas entre si, sem a mínima
oscilacáo, que permitiu o desencadeamento de todas as fases subse-
qüentes.

Outro exemplo dessa fantástica harmonía: se aumentássemqs de


1% apenas a intensidade da forca nuclear que controla a coesáo do nú
cleo do átomo, extinguiríamos a possibilidade de que os núcleos de hi-
drogénio ficassem livres; eles se combinariam com outros protónios e
neutrónios para formar núcleos pesados. Em conseqüéncia, o hidrogé-
nio, deixando de existir, já nao se poderla combinar com os átomos de
oxigénio para produzir a agua indispensável ao surto da vida. - Se, ao
contrario, diminuissemos em grau mínimo a forca nuclear, tornar-se-ia
imposslvel a fusáo dos núcleos de hidrogenio. E, sem essa fusSo nuclear,
nao haveria sois, nem fontes de energia, nem vida.

Ainda outro exemplo: se a forca da gravidade tivesse sido mais fra-


ca por ocasiáo da formacáo do universo, as nuvens primitivas de hidro
genio nunca teriam podido condensar-se para atingir o limiar crítico da

153
10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 359/1992

fusáo nuclear: as estrelas nunca se teriam acendido. Mas também a hi-


pótese contraria seria infeliz: um poder atrativo da gravidade mais forte
teria provocado um auténtico embalo das reagoes nucleares; as estrelas
se teriam incendiado furiosamente, para morrer táo depressa que a vida
nem teria tido o tempo de se desenvolver.

Mais: algo de semelhante se dá com a forca eletromagnética. Se a


aumentássemos muito levemente, reforjaríamos a ligagáo entre o eletró-
nio e o núcleo; em conseqüencia, as reagoes químicas que resultam da
transferencia dos eletrónios para outros núcleos já nao seriam possíveis.
Uma grande quantidade de elementos nao se poderiam formar; em tal
universo, as moléculas de ADN nao teriam condicóes de aparecer.

Todos estes exemplos mostram unánimemente que, se se modifica,


em grau mínimo que seja, o valor dos parámetros considerados, extin
guimos toda possibilidade de origem da vida. Por conseguinte, as cons
tantes fundamentáis da natureza e as condicóes iniciáis, que permitiram o
surto da vida, parecem ter sido dimensionadas com precisáo vertiginosa.

Em confirmacáo, notemos ainda o seguinte: se o teor de expansáo


do universo tivesse sofrido um desvio da ordem de 10'4u, a materia ini
cial se teria espalhado no universo vazio; nao teriam aparecido as gala
xias, as estrelas e a vida. Para se ter uma pálida idéia da inconcebível fir
meza com que o universo foi dimensionado, imaginemos a proeza que se
exigiría de um jogador de golf, que, posto na Térra, quisesse lanzar a sua
bola para dentro de um buraco existente em algum ponto do planeta
Marte I

2.3. Cottctusüo

Estas ponderagóes suscitam a forte convicgáo de que nem as gala


xias nem os bilhóes de estrelas nem os planetas nem a própria vida sao
apenas um acídente ou uma flutuagio do acaso. O mundo que hoje co-
nhecemos, nao apareceu um belo dia, e nao em outro, simplesmente
porque um par de dados cósmicos rolou de maneira bem sucedida. Só
pode pensar assim quem nao conhega a realidade dos números atrás
apontados!...

Para corroborar esta conclusáo, os matemáticos conseguiram fabri


car computadores que geram números aleatorios (casuais); sao máquinas
destinadas a "produzir o acaso". E verificaran) que esses computadores
deveriam calcular durante bilhóes de bilhóes de bilhóes de anos... antes
que ocorresse uma combinagáo de números comparável aqueles que
permitiram a eclosüo do universo e da vida. Com outras palavras: a pro-
babilidade matemática de que o universo tenha sido gerado pelo acaso, é
praticamente nula.

154
DEUS E A CIENCIA 11_

Donde se vé que a existencia do universo - e do universo com o


quadro necessário ao surto da vida - estava minuciosamente programa
da desde o inicio, ou desde o Tempo de Planck ou o Muro de Planck. Tu-
do o que hoje existe, desde as estrelas até as chaves de casa e as árvores
do jardim, já existia em germen no minúsculo universo originario.

É o que lembra o principió antrópico, emitido em 1974 pelo astrofí


sico inglés Brandon Cárter. Segundo este dentista, "o universo possui,
muito exatamente, as propriedades exigidas para ser o habitat de um
ser dotado de inteligencia". As coisas sao o que elas sao, simplesmente
porque nao poderiam ter sido diferentes; nao há lugar, na realidade, para
um universo diferente daquele no qual fomos colocados.

3. Palavra final

Estes poucos traeos de ciencia e reflexáo extraídos do livro de Jean


Guitton e G. e I. Bogdanov possibilitam, de certo modo, chegar a Deus ou
á conclusáo de que existe um Ser Superior, dotado de Inteligencia, Sabe-
doria e Amor perfeitíssimos, autor dos cálculos que o homem vai refa-
zendo aos poucos, e Criador da energía inicial, á qual incutiu as forcas e
leis, precisamente definidas, de sua evolupáo. Tal Ser Superior - Deus -
conhece os misterios do universo e rege a sua historia. Foi Ele que,
quando o mundo irracional estava devidamente arrumado e organizado,
houve por bem criar a alma humana (espiritual ou ¡material) e infundi-la
ao organismo do vívente primata, que se tornou o ser humano''. Este (o
homem) é o ponto de chegada da evolucáo da materia, associando em si
mesmo materia e espirito, e fazendo a mediacáo entre o mundo inferior e
o Criador. O homem assim originado deve ser objeto de grande carinho
da parte do Criador; para ele foi preparado o cenário que o cerca, a fim
de que, contemplando-o com inteligencia e profundidade, descubra os
vestigios do Criador e glorifique o Senhor Deus, que o fez, o conserva e o
chama á plenitude da vida.

1A fé católica permite que se professe a origem do corpo humano por


evolugSo da materia viva irracional. Esta, quando atingiu as condigóes devi
das, recebeu por infusáo a alma humana diretamente criada por Deus - o que
deu origem a existencia do homem sobre a Térra. A alma humana, sendo es
piritual, nao pode serproduto da materia em evolugao, ao passo que o corpo
humano, sendo material, pode ser oriundo da materia preexistente.
Todavía a fé católica nño define como verdade dogmática nenhuma teo
ría a respeito da origem do homem, desde que se salvaguarde a diferenga en
tre corpo e alma ou entre materia e espirito.

155.
Mais um Santo que surge:

A BEATIFICAQÁO DE MONS. ESCRIVÁ

E m símese Quando alguém morre em fama de santidade e o povo de


Deus (Hierarquia e laicato) toma consdéncia desse fato, a Igreja pode abrir
urna serie de Processos para investigar se a fama é justificada: ouvem-se
testemunhas, examlnam-se os escritos e os jeitos do(a) Servo(a) de Deus
com intuito critico, a ñm de que neo haja precipitado ou engaño na conclusáo
decisiva. Caso esta seja favorável ao reconhedmento da santidade do(a)
Servo(a) de Deus, a Igreja aguarda a realizacáo de um auténtico milagro,
comprovado por serio exame de dentistas e teólogos. Desde que se verifique
a ocorrénda de genuino portento (geralmente a cura de doenga grave irrever-
sfvel), obtído por intercessño do(a) Servo(a) de Deus, a Igreja julga ter os si-
nais da Providencia suficientes para declarar Bem-aventurado(a) tal fílho(a)
seu(sua). teto Implica que doravante se Ihe possa prestar culto de veneracáo
e peer publicamente suas preces junto ao Paido Céu. Após a BeatifícacSo há
normalmente a CanonlzagSo ou InscrigSo de taljusto no catálogo dos Santos;
a Canonizagáo supóe mais um milagre e nova pericia.

Ora Mons. Josemaria Escrivá, Fundador do Opus Deí, é um Servo de


Deus que, após os devidos exames canónicos e médicos, será beatificado
aos 17/05 pt. - O artigo que se segué, foi entregue a PR por representantes
do Opus Del no Brasil, IrmSos a quem a nossa revista agradece vivamente a
cotaboragSo. Vém af narrados os trámites do processo de BeatifícagSo de
Mons. Escrivá.

Em funfáo da reforma iniciada em 1969 por Paulo VI e continuada


por Jofio Paulo II em 1983, as Causas de Canonizado recentes podem
concluir-se bem mais rápidamente que em tempos passados. Dessa for
ma o Povo de Deus tem como exemplo figuras mais atuais, que respon-
dem á sensibllidade contemporánea.

156
beatificaqáode'mons. escrivá 13

Todas as Causas de Canonizarlo percorrem um itinerario em que


se sucedem: a) urna fase preliminar, dedicada á verificado da existen
cia das condicóes indispensáveis para empreender a investigacáo; b) urna
fase ínstrutória, para a coleta das pravas testemunhais e documentáis;
c) urna fase de estudo, em que as pravas s3o sujeitas ao exame da
Congregado pontificia competente. 0 ato conclusivo desse primeiro
momento fundamental da Causa é representado pelo Decreto sobre a
Heroicidade das Virtudes. O segundo momento compreende a ins-
trutória relativa ao milagre, a correspondente fase de estudo e o De
creto super miro (sobre o milagre).

A causa de Canonizado de Mons. Josemaria Escrivá inclui-se nes-


se quadro. A Beatificado, anunciada para o dia 17 de maio de 1992, terá
lugar 17 anos a pos a morte do Bem-aventurado.

1. Fase preliminar

O Fundador do Opus Oei* faleceu em Roma em 26 de junho de


1975. Naquele tempo - e hoje também - a Causa só podía ser introduzida
cinco anos a pos a morte do Servo de Deus, para permitir urna suficiente
certeza da consistencia da fama de santidade.

A Causa do Fundador do Opus Dei foi introduzida em 19 de feve-


reiro de 1981, quase seis anos após sua morte. A evidencia de sua fama
de santidade parecia tanglvel. Chegaram a Santa Sé cerca de 6.000 cartas
postulatórias, de mais de cem países. Dirigiram-se nesse sentido ao
Santo Padre, pedindo a introducto da Causa, entre outros, 69 Cardeais,
24 Arcebispos, 987 Bispos (mais de um terco do episcopado mundial) e
41 Superiores de Ordens e Congregares Religiosas, além de numerosos
Chefes de Estado e de Governo, expoentes do mundo da cultura, da cien
cia, e de muitfssimas pessoas das classes sociais mais humildes.

Em dois volumes de mais de 800 páginas, recolheram-se urna serie


de testemunhos da fama de santidade em vida e depois da morte. Um
dos Consultores Teólogos, a quem foi confiado o estudo da Causa, escre-
veu:

"Um estudo sólido e convincente do qual emerge a profundidade e a


amplitude do impacto da figura do Servo de Deus na Igreja. É realmente inu-

' Opus Dei = Obra de Deus, escola de espiritualidade, aborta a sacer


dotes e lelgos. (Nota da Redagño),

157
14 "PÉRGUNTE E RESPONDEREMOS" 359/1992

sitada a riqueza dos testemunhos, que vSo desde altas personalidades da hie-
rarquia eclesiástica - Papas, Canjeáis, Bispos -eda sodedade civil, até um
grande número de sacerdotes, Religiosos e leigos de todos os continentes"
(1).

Em volume de 672 páginas, foram apresentadas 1.500 narracóes,


assinadas, de favores atribuidos á ¡ntercessáo de Mons. Escrivá, selecio-
nadas entre aproximadamente 10.000, nos tres primeiros anos após a sua
morte.

Alguns artigos que a ¡mprensa internacional havia dedicado ao


Fundador do Opus Dei por ocasiSo do quarto aniversario do seu faieci-
mento, foram recolhidos em um volume de 600 páginas. Entre outros, o
Cardeal Albino Luciani, um mes antes de ser eleito Papa, exaltava a ori-
ginalidade do seu contributo a espiritualidade crista (2). O Cardeal Pá
rente o comparava aos grandes fundadores, como Sao Bento e Sao Fran
cisco (3). O Cardeal Agnelo Rossi definía o Servo de Deus como um
"testemunho excepcional" da rnissáo salvffica universal da Igreja (4). O
Cardeal Carberry, de- Saint Louis, declarava que o Fundador do Opus
Dei foi "um dos herofs do nosso século" (5). E o Cardeal Otunga, de
Nairobi, nao hesitava em defini-lo como "um dos maiores santos de to
dos os tem pos" (6).

Estas breves mostras sao suficientes para testemunhar que a Causa


de Canonizacáo de Mons. Josemaria Escrivá constituí urna resposta da
Igreja a um desejo muito generalizado no povo de Deus. NSo parece
pretensioso, portento, afirmar que a sua Beatificacáo já próxima será
fonte de beneficios espirituais para toda a comunidade eclesial. As noti
cias dos frutos de vida crista que em toda a parte sao atribuidos á sua in-
tercessao, constituem já'uma clara demonstracáo disso.

2. Fase instrutória

No mes de maio de 1981 foram instruidos dois processos instrutó


nos sobre a vida e as virtudes, um em Roma e outro em Madri. Alguns
dados mostram a amplitude excepcional desse trabalho, que se estendeu
por seis anos e meio. Em 980 sessóes foram entrevistadas 92 testemu-
nhas de visu, capazas de informar sobre a vida de Mons. Escrivá desde a
sua Infancia ata a morte. Entre eles quatro Cardeais, quatro Arcebispos,
sete Bispos, vinte e oito sacerdotes e cinco Religiosos.

Mais de 50% das testemunhas nao pertencem ao Opus Dei, per-


centual bastante superior ao exigido pela normativa em vigor e que asse-

158
BEATIFICACÁO DE MONS. ESCRIVÁ 15

gura a necessária neutralidade do aparato probatorio. Os Tribunais ecle


siásticos receberam informa;óes também de onze ex-membros do Opus
Dei, e a Postulacáo* fez questáo de que fossem ouvidas algumas teste-
munhas manifestamente contrarias.

Assim se pronunciaram os Consultores Teólogos:

"Temos entre as máos urna extraordinaria quantidade de dados, que


nos ajudam a amadurecer um jufzo seguro sobre um personagem de estatura
excepcional" (7).

"A concordancia e a explicitude dos testemunhos sobre o heroísmo af-


cangado pelo Servo de Deus tém um caráter probatorio definitivo" (8).

Os escritos do Servo de Deus chegam a 13.000 páginas em 71 vo-


lumes. O estudo critico de tais escritos foi confiado pelos Tribunais a
quatro Teólogos Censores. Eis algumas das suas conclusóes:

"Escrivá possui a torca dos clássicos, a tempera de um Padre da Igre-

"Pode-se reconhecer que estes escritos foram precursores e antecipa-


ram as mais importantes decisdes do Vaticano II (...). Apresentaram o ideal da
vida crista comum, em um contato direto com o Evangelho, de urna forma que
ató agora nunca havia aparecido na historia da Igreja" (10).

"O Fundador do Opus Dei aparece neles (nos escritos) como urna
personalidade de urna profundidade espiritual abissal, destinada a deixar um
rasto inapagável na vida e na historia da Igreja" (11).

3. Fase de estudo

Em 3 de abril de 1987 foi decretada a validada dos processos. Sob a


guia e o controle do Relator designado, o Revmo. Pe. Ambrosio Eszer,
O.P., urna equipe de especialistas em Teología, Historia da Igreja e Di-
reito Canónico, coordenados pelo Postulador e com o auxilio de especia
listas em informática, pós-se a elaborar a "Positio super vita et virtu-
tibus", ou seja, a exposicáo sistemática das provas surgidas dos proces
sos e das pesquisas histórico-documentais sobre a vida do Servo de
Deus.

'Comissáo encarregada de levar adiante o processo. (N.d.R.)

159
16 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 359/1992

A "Positio" consta de quatro volumes, com um total de 6.000 pági


nas, e contém: a "Inforrnatio", o "Sumario" dos depoimentos proces-
suais, a "Biografía documentada" e o "Estudo crítico sobre a heroicidade
das virtudes". A Biografía reconstrói em 1.500 páginas o desenvolví-
mentó da trajetória terrena do Servo de Deus seguindo o método histéri
co-crítico, isto é, fundamentando cada afirmacáo através de urna análise
e de um confronto rigoroso das fontes. Também o Estudo crítico sobre
as virtudes se desenvolve segundo o método científico. O exame de cada
virtude é conduzido em cerca de 1.000 páginas, segundo urna rigorosa
análise teológica. Os Consultores Teólogos reconheceram que deste mo
do a verifícacáo da heroicidade foi elevada "ao máximo grau de certeza
analítica" (12). Eis alguns dos julzos expressados pelos Consultores acer
ca da qualidade da "Positio":

'Tratase de um trabalho precioso (~.), como tatvez nunca tenha sido


enfrentado e realizado ató hoje sobre um Servo de Deus" (13).

"Havendo terminado o trabalho, parece-me que as virtudes do Servo de


Deus sSo nio apenas narradas e provadas á luz do día, mas a sua originan-
dade como estilo de vida em si e como exemplo para os outros - "luceat lux
vestrai" - enriquece a hagiografía crista com urna estrela de primeira gran
deza" (14).

A "Positio" foi entregue á Congregacáo em junho de 1988 e con


fiada por esta ao estudo dos Consultores Teólogos. Um ano e dois meses
depois, em 19 de setembro de 1989, teve lugar o Congresso dos Consul
tores, presididos pelo Promotor Geral da Fé, Mons. Antonio Petti, que se
pronunciou favorável á heroicidade das virtudes. Os consultores exprés-
saram-se também sobre a oportunidade da Causa. Surgiu daí a convic-
cáo de que um rápido pronunciamento formal acerca da heroicidade das
virtudes estaria em perfeita sintonía com a orientacao pastoral da recente
reforma da Causa dos Santos, visando a oferecer á imitacáo dos fiéis o
exemplo de figuras particularmente atuais (15).

Atualmente está abolido o limite de cinqüenta anos que o Código


de 1917 determinava ser necessárío desde a morte do Servo de Deus até
a decía racio das virtudes heroicas (16). Mesmo no antigo regime, tal li
mite era objeto habitual de dispensa. Assim, por exemplo, Santa Francis
ca Saveria Cabrinl foi beatificada apenas 21 años após a sua morte, en-
quanto a Beatifícacáo de Santa Teresa do Menino Jesús se deu 25 anos
após o seu falecimento e a Canonizacáo apenas dois anos e meio mais
tarde. Procedimentos táo rápidos seriam ainda mais abreviados hoje.
Naquele tempo instruiam-se dois processos, escritos e transcritos intei-
ramente á máo, e a Postulacáo devia preparar duas "Positiones" de for-

160
BEATIFICACÁO DE MONS. ESCRIVÁ 17

ma que o tempo para as declarares era pelo menos o dobro com res-
peito á sistemática atual.

O juízo dos Consultores com respeito a oportunídade da Causa é


explícito. Eis algumas das afirmacóes:

"Considero providencial que a Causa deste Servo de Deus cheque a


sua conclusño em um tempo excepcionalmente rápido, menos de quinze anos
após a sua morte, para que perante os graves fenómenos, de que somos es
pectadores, se erga esta figura de apostólo intrépido e fidelíssimo á Igreja. To
das as difículdades que em um primeiro momento me parecía entrever, e que
poderiam suscitar alguma perplexidade, vi-as desfazer-se como a nevé ao
sor (17). '

"Fica-se admirado perante a figura polifacética e gigantesca do Servo


de Deus e surge espontáneamente o agradecimento á Providencia por ter re
servado a este secuto, que chega ao seu fim, a presenca de um sacerdote
e fundador que encarnasse plenamente um dos ensinamentos fundamentáis
do Vaticano II, isto é, a vocacSo universal á santidade, e déla se tomasse um
apostólo e um exemplo incomparável" (18).

"Tatvez nao nos engañemos ao dizer que se trata da Causa do maior


apostato deste nosso secuto" (19).

"Um modelo acabado e atraente da santidade de que tem necessidade


o mundo contemporáneo" (20).

4. Decreto sobre a herotcidade das virtudes

No mesmo sentido pronunciou-se a Congregado ordinaria dos


Cardeais e dos Bispos na reuniáo de 20 marco de 1990, em que foi Rela
tor o Exmo. Card. Edouard Gagnon.

Acolhendo pareceres táo unánimes, o Santo Padre Joao Paulo II


promulgou o Decreto sobre a Heroicidade das Virtudes em 9 de abril de
1990. O documento, além de sublinhar "a prodigiosa fecundidade" do
apostolado do Servo de Deus, evidencia "o seu contributo á promocáo
do laicato", define-o como "um exemplo ¡mperecível de zelo pela forma-
cao dos sacerdotes" e compara os seus escritos ás "obras clássicas da es-
piritualidade", reafirmando a atualidade do exemplo e da mensagem de
Mons. Escrivá:

161
18 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 359/1992

"Esta mensagem de santificagáo eme a partir das realidades terrenas


revelase providencialmente atual para a situagSo espiritual da nossa época.
Com efeito, nos nossos dias, ao mesmo tempo que sSo exaltados os valores
humanos, percebe-se tambóm urna forte propensáo para urna visáo imánente
do mundo, entendido como realidade separada de Deus. E esta mensagem
convida os crist&os a procurar a uniáo com Deus através do trabalho cotidia
no, que constituí urna obrigagáo e urna fonte perene da dignidade do homem
na tena. Rea patente, por isso, a adequaeño desta mensagem ás circunstan
cias do nosso tempo, e parece além disso destinada a perdurar de modo ¡nal-
terável, como fonte inesgotável de luz espiritual, por cima de quaisquer vicis-
situdes históricas.

Regnare Christum volumusl Esta foi a grande asplragáo do servo de


Deus, que também se pode descrever assim: colocar Cristo no Cume de
todas as atividades humanas. O servigo eclesial de Josemaría Escrivá
suscitou um Impulso ascensional para Deus em homens imersos ñas realida
des temporais, de todos os ambientes e profíssóes, de acordó com aquetas
palavras do Senhor - Et ego. si exaltatus fuero a térra, omnia traham
ad melpsum (lo 12£2 Vg) -, ñas quals o Servo de Deus vía compendiado o
núcleo do fenómeno pastoral do Opus Del".

Muitas Missas de acáo de gracas pela promulgado do Decreto fo-


ram celebradas em todo o mundo, com significativa participacáo da hte-
rarquia eclesiástica: ¡ntervieram mais de 15 Cerdeáis, bem como 140
Nuncios Apostólicos, Arcebispos e Bispos. Mais de urna centena de Ordi
narios locáis expressou por escrito a sua satisfago e a esperanza de urna
rápida Beatificacáo. Contam-se ás centenas de milhares os fiéis que esti-
veram presentes ñas diversas localidades.

5. Reconhecimento de um
milagre atribuido á intercessáo
do venerável Escrivá

A reforma de 1983 conservou a prava do milagre como condicao


para a Beatificacáo, limitando-se, com respeito ao Código de 1917, a re-
duzir a apenas um o número de milagros exigidos (21).

O processo super miro - sobre o milagre - é sempre instruido em


estreita concomitancia temporal com o evento prodigioso, para evitar
que o transcurso do tempo deteriore as pravas.

O milagre escolhido para a Beatificacáo do Venerável Josemaría


Escrivá verificou-se em 1976, cerca de um ano após a sua morte. Trata-se

162
BEATIFICACÁO DE MONS. ESCRIVÁ 19

da cura repentina, perfeita e duradoura da lrm§ Concepción Boullón Ru


bio, de urna doenca cujo diagnóstico foi descrito pela Junta Médica da
Congregado das Causas dos Santos, como: "Lipocalcinogranulomatose
tumoral com localizares múltiplas, dolorosas e invalidantes, com volu-
me máximo de urna laranja a nivel do ombro esquerdo; estado caquético
em paciente com úlcera gástrica e hernia do hiato complicada por grave
anemia hipocrómica".

A Irma Concepción era urna Carmelita da Caridade de 70 anos e re


sidía no Convento de Sao Lourenco do Escorial, perto deMadrl. Chegada
já b beira da morte por causa do desenvolvimento das suas diversas pa
tologías, inesperadamente, em urna noite de junho de 1976, curou-se de
modo completo. Juntamente com o tumor, ficou curada de todos os ou-
tros disturbios, e reassumiu as suas atividades normáis. Nao Ihe foi mi
nistrada nenhuma terapia.

Sobre esta cura, a Curia Arquiepiscopal de Madri, com a autoriza


rá o da Congregado, instruiu um processo canónico em 1982; o Decreto
de validade foi emanado da Congregacjío em fins de 1984. Naquela oca-
siáo, os Processos sobre as virtudes do Servo de Deus estavam aínda em
andamento. A Congregacáo iniciou o procedimiento para o exame médi
co e teológico; haviam transcorrido oito anos desde a celebrado do pro
cesso.

A Sessáo da Consultoria Médica sobre o possível milagre deu-se


em 30 de junho de 1990, e a do Congresso dos Consultores Teólogos em
14 de julho de 1990, ambas com resultado favorável unánime. A Congre
gado ordinaria dos Cardeais e dos Bispos, reunida em 18 de junho de
1991, pronunciou-se também com voto positivo unánime. A leitura do
Decreto sobre o milagre teve lugar em 6 de julho de 1991.

O andamento temporal desta última fase nao é regulado pela lei e


varía em dependencia de fatores diversos. Se o fato prodigioso se deu
durante o desenvolvimento do processo sobre as virtudes, o seu exame é
iniciado ¡mediatamente depois do Decreto e dura normalmente cerca de
um ano. Este tempo pode ser menor (se, por exemplo, a exigencia de se
proceder á Beatificado por ocasiáo de urna viagem papal pede maior ra
pidez), ou maior (no caso, por exemplo, de surgir a necessidade de com
pletar a documentado ou de ouvir as testemunhas). É obvio que, no caso
em que nSo se dé o milagre, entre o Decreto sobre as virtudes e o De
creto sobre o milagre podem passar também muitos anos.

O Decreto pontificio sobre a heroicidade das virtudes do Fundador


do Opus Dei sublinhava a universalidade da sua fama de santidade e a

163
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 359/1992

definía como "um verdadeiro fenómeno de piedade popular". Confir


mando a extensSo da difusáo de tal devocáo, o Decreto sobre o milagre
se refere a "dezenas de milhares de favores, espirituaís e materiais, al-
guns dos quais claramente extraordinarios" que sao atribuidos ao Vene-
rável Josemaria Escrivá e demonstram a profundidade da confianca no
"seu poder de intercessáo junto a Deus".

A Postulado do Opus Dei recolheu, em dois volumes que totali-


zam 1.200 páginas, a documentacáo de outras vinte curas atribuidas ao
Fundador do Opus Dei e declaradas científicamente inexplicáveis nos
estudos feitos por especialistas. Mas, além dessas interven?óes prodigio
sas, conservam-se na Postulacáo mais de 75.000 relatos assinados, pro
venientes de todo o mundo, de gracas obtidas mediante a ¡ntercessáo do
Venerável Escrivá: narracóes vivíssimas de conversóes, decisóes firmes
de dedicacáo total a Deus, vocacóes sacerdotais e religiosas, reconcilia
res com Deus á beira da morte, familias reunidas depois de tongas dis
cordias, situacóes moráis complicadas resolvidas de maneira feliz e está-
vel. Enfim, urna figura sacerdotal que desperta em ¡numeras almas a
confianca na misericordia paterna de Deus e o desejo eficaz de servir á
Igreja. Bem disse o Consultor, descreyendo este fenómeno:

"Se se leva em considerado a fama de santídade, confirmada com si-


nals quase incontáveis em todas as partes do mundo, a Igreja se está interes-
sando por alguém que, além de ser urna grande figura de santo, é um grande
taumaturgo como nos lempos mais luminosos da sua historia" (22).

NOTAS

(1) Relatio et Vota Congressus peculiaris su per virtutibus, 19


septembris 1989 habiti, Roma 1989, pp. 121-122.
(2) Cfr. A. LUCIANI, Cercando Dio nel lavoro quotidiano, in "II
Gazzetino", Veneza, 25-VII-1978.
(3) Cfr. P. PÁRENTE, As raizas da espiritualidade do Fundador do
Opus Dei, in "L'Osservatore Romano", 24-VI-1979.
(4) A. ROSSI, Mensagem universal de Mons. Escrivá, in "O Estado
de Sao Paulo", Sao Paulo, 27-VI-1976.
(5) J. CARBERRY, The work of God, in "The Priest", Huntington, ju-
nho 1979.
(6) Testemunho difundido na imprensa, Nairobi, 21 -VI-1979.
(7) Relatio et Vota, cit., p.5.
(8) Ibid.pp. 115-116.
<9) Informatio, Voti di Teologi Censori, p.43.

164
BEATIFICADO DE MONS. ESCRIVÁ 21

(10) Ibid, p.54.


(11) lb¡d,p.126.
(12) Relatio et Vota.cit., p.119.
(13) lb¡d, p.101.
(14) Ibid, p.79.
(15) Cfr. Relatio et Vota.cit., p.206.
(16) Cfr. Código de Direito Canónico (1917). can. 2101.
(17) Relatio et Vota, cit., pp.43-44.
(18) Ibid, p.69.
(19) Ibid, p.5.
(20) Ibid, p.207.
(21) Cfr. Código de Direito Canónico (1917), e Regulamento, art.
26, par. 1.
(22) Relatio et Vota Congressus pecultaris super virtutibus. cit.,
p.69.

O Problema de Todos, pelo Pe. Joáo M. Gardenal S.J. - Edicáo


prdpria, 120 x 175 mm, 168pp. - Pedidos ao IPA, Caixa postal 188, CEP
29300 Cachoeiro do Itapemirim (ES). Fone: (027) 522-3466.

O Pe. Joáo Gardenal é mostré de espiritualidade, experimentado na


pregagáo de Retiros e na orientagáo dos fiéis, tanto no Brasil como na india e
em outras partes do mundo.

Entrega ao público um livro de iniciagáo á vida crista, comegando pela


existencia de Deus e terminando com um incentivo á devogSo ao S. CoragSo
de Jesús, símbolo do Amor que primeiro nos amou (cf. Uo 4,19). O autor per-
corre as diversas etapas da vida Cristi, considerando sempre as objegdes
que comumente sao feitas á Divlndade de Jesús Cristo, ao Sacramento da
Igreja, á prática sacramental dos fiéis, á necessidade de oragáo... Considera
também a Moral católica em seus diversos aspectos: justiga social, castidade
e sexualidade, amor ao próximo... Mostra o papel da vlrgem María na vida de
devogSo do cristáo. A linguagem do autor ó muíto simples e clara, recorrendo
a numerosos exempbs Orados da vida dos Santos e de grandes figuras mas-
culinas e femininas da historia, de modo que a leitura se toma agradável e
proveitosa. Especialmente interessantes sao as observagóes que o Pe. Gar
denal tece em resposta aos que tém difículdade para se confessar (pp.
97-107), como também as ponderagdes sobre castidade e vida sexual; cita
textos de médicos que dissipam a Idéia de que a castidade faz mal á saúde,
evidenciando, ao contrario, que é benéfica ao trabaiho Intelectual e a outras
atividades do individuo humano (cf. pp. 110-120):

(continua na p. 180)

165
Diálogo interconfessional:

POR QUE NAO SOU PROTESTANTE?

Em sfntese: O artigo seguirte aponta as grandes razQes pelas quais o


Protestantismo se toma inaceltável ao cristSo que refuta um pouco. O subje
tivismo ou a falta de parámetros ojetlvos, garantidos pelo próprío Espirito
Santo (cf. Jo 14, 26; 16, 13s) é o principal ponto fraco ou o calcanhar de Aqui
las do Protestantismo; ésto se segué a divisio do mesmq em centenas e
centenas de denominagóes diversas, cada qual com suas doutrinas e práti-
cas, ás vezes contraditórias ou mesmo hostis entre si. O Protestantismo as-
sim se afasta cada vez mais da Biblia e das suas raizas (paradoxol), levado
peto fervor subjetivo de seus "profetas", que apresentam um curanderismo
barato ou um profetismo fantasioso ou aínda um retorno ao Anttgo Testamento
com menosprezo do Novo. - Essa dilulgáo do Protestantismo e a parda dos
valores típicos do Cristianismo estío na lógica do principal fundador - Lulero
-, que apregoava o llvre exame da Biblia ou a leitura da Biblia sob as luzes
exclusivas da inspirac&o pessoal de cada crente; cada qual tira do Uvro Sa
grado o que bem Ihe parece ou Irte apraz.

Os protestantes vém espalhando folhetos intitulados "Razóes por


que nSo sou católico romano". Argüecn os católicos de cometer erros
quanto ás imagens, o culto da Virgem Santíssima, a Eucaristía, o Papa...
S3o panfletos de índole superficial, inspirados por preconceitos que desfi-
gurarn os fatos. Na verdade, porém, muitos fiéis católicos se deixam im-
pressionar por tais escritos e pedem respostas para as objecóes que lé-
em. A fim de atender a esta demanda, redlgimos o livro "Diálogo Ecu
ménico" (Ed. Lumen Christi, C.p. 2666 - 20001 Rio, RJ) e o Curso de Diá
logo Ecuménico por Correspondencia (C.p. 1362,20001 Rio, RJ). Contudo
a experiencia ensina que é oportuno multiplicar os meios de informacáo
para os católicos. Daí a redacSo das páginas subseqüentes, que recoló-
cam a questSo das "razóos por que..". Tentaremos asslm por em evldén-

166
POR QUE NAO SOU PROTESTANTE? 23

da alguns tópicos que poderáo servir aos ¡nteressados no diálogo ecu


ménico.

1. Seis Razóes...

1.1. Somente a Biblia...

Os protestantes afirmam que seguem somente a Biblia como nor


ma de fé.

Acontece, porém, que a Biblia utilizada pelos protestantes é urna


só; em portugués, vem a ser a traducao de Ferreirá de Almeida. Por que
entáo nao concordam entre si no tocante a pontos importantes (ver n-1.2
abaixo)? E por que nao constituem urna só comunidad? crista, em vez de
serem centenas e centenas de donominacóes separadas (e até hostis) en-.
tre si?

- A razio disto é que, além da Biblia, seguem outra fonte de fé e


disciplina... fonte esta que explica as divergencias do Protestantismo.

Tal fonte, chamamo-la Tradicáo oral; é esta que dá vida e atuali-


dade á letra do texto. A Tradicáo oral do Catolicismo comeca corr» Cristo
e os Apostólos, ao passo que as tradicóes oráis dos protestantes come-
cam com Lutero (1517), Calvino (1541), Knox (1567), Wesley (1739), Jose-
phSm¡th(1830)...

Entre Cristo e os Apostólos, de um lado, e os fundadores humanos


das denominacóes protestantes, do outro lado, nao há como hesitar: só
se pode optar pelos ensinamentos de Cristo e dos Apostólos, deixando
de lado os "profetas" posteriores.

1.2. Contradicóes

O fato de que nao seguem somente a Biblia, explica as contradicóes


do Protestantismo:

- algumas denominacóes batizam enancas; outras nao as batizam;


- algumas observam o domingo; outras, o sábado;
- algumas tém "bispos"; outras nao os tém;
- algumas tém hierarquia; outras entregam o governo da comuni
dade a própria congregacáo (congregacionalistas);
- algumas fazem cálculos precisos para definir a data do fim do
mundo - o que para elas é essencial. Outras nao se preocupam
com isto.

167
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 359/1992

Vé-se assim que a mensagem bíblica é relida e reinterpretada di


versamente pelos diversos fundadores dos ramos protestantes, que desta
maneira dio origem a tradigóes diferentes e decisivas.

Ademáis todos os protestantes dizem que a Biblia contém 39 livros


do Antigo Testamento, e 27 do Novo Testamento, baseando-se nao na
Bfblia mesma (que nao define o seu catálogo), mas únicamente na Tradi-
93o oral dos judeus de Jamnia reunidos em Sfnodo no ano 100 d. C.

- todos os protestantes afirmam que tais livros sao inspirados por


Deus, baseando-se nao na Bfblia (que nao o diz), mas únicamente na
Tradicáo oral.

Onde está, pois, a coeréncia dos protestantes? Pelo seu modo de


proceder, afirmam o que negam com os labios; reconhecem que a Biblia
nao basta como fonte de fé. É a Tradicáo oral que entrega e credencia a
Biblia.

1.3. Afina I a Biblia...: sim ou nao?

Há passagens da Bfblia que os fundadores do Protestantismo no


século XVI nao aceitaram como tais; por isto sao desviadas do seu senti
do original muito evidente:

a) a Eucaristía... Jesús disse claramente: "Isto é o meu corpo" (Mt


26, 26) e "Isto é o meu sangue" (Mt 26, 28). Em Jo 6,51 Jesús também
afirma:

"O pSo que eu darei, é a mlnha carne para a vida do mundo".

Aos judeus que zombavam, o Senhor tornou a afirmar:

"Em verdade, em verdade vos digo: se nao comentes a carne do Filho


do Homem e nao bebentes o seu sangue, nSo terete a vida em vos. Quem
come a mlnha carne e bebe o meu sangue, tem a vida eterna eeuo ressus-
citarei no último día. Pois a minha carne 6 verdaderamente urna comida e o
meu sangue ó verdadeiramente urna bebida."

Se assim é, por que é que "os seguidores da Bfblia" nao aceitam


a real presenca de Cristo no pao e no vinho consagrados?

b) Jesús disse ao Apostólo Pedro: "Tu és Pedro (Kepha) e sobre


esta Pedra (Kepha) edificare! a minha Igreja" (Mt 16,18).

168
POR QUE NAO SOU PROTESTANTE? 25

Disse mais a Pedro: "Simáo, Simáo,... eu roguei por ti, a fim de que
tua fé nao desfalega. E tu, voltando-te, confirma teus irmáos" (Le 22,31 s).

Ainda a Pedro: "Apascenta as minhas ovelhas" (Jo 21,17).

Apesar de táo explícitas palavras de Jesús, os protestantes nao re-


conhecem o primado de Pedro! Por que será?

c) Jesús entregou aos Apostólos a faculdade de perdoar ou nao


perdoar os pecados - o que supóe a confissáo dos mesmos para que o
ministro possa discernir e agir em nome de Jesús:

"Recebe! o Espirito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados,


ser-lhes-So perdoados; aqueles a quem nao os perdoardes, nao serSo per-
doados."

Apesar disto, os protestantes nao aceitam o sacramento do perdáo


e da recontiliacáo!

d) Jesús disse que edificaría a sua Igreja ("a minha Igreja", Mt


16,18) sobre Pedro. - As denominacóes protestantes sio construidas so
bre Lutero, Calvino, Knox, Westey... Antes desses fundadores, que sao
dos séculos XVI e seguintes, nao existia o Luteranismo, o Calvinismo
(presbiterianismo), o Metodismo, o Mormonismo, o Adventismo... Entre
Cristo e estas denominacóes há um hiato... Somente a Igreja Católica re
monta até Cristo.

e) O Apostólo Sao Paulo, referíndo-se ao seu elevado entendi


miento da mensagem crista, recomenda a vida una ou indivisa para
homens e mulheres:

"Dou um conselho como homem que, pela misericordia do Senhor, é


digno de conñanga... O lempo se fez curto. Resta, pois, que aqueles que tém
esposa, sejam como se nSo a tivessem; aqueles que choram, como se nao
chorassem; aqueles que se regozijam, como se nSo se regozijassem; aqueles
que compram, como se nio possufssem; aqueles que usam deste mundo,
como se nao usassem plenamente. Pois passa a figura deste mundo.

Eu quisera que eslivésseis isentos de preocupagOes. Quem nio tem


esposa, cuida das coisas do Senhor e do modo de agradar ao Senhor. Quem
tem esposa, cuida das coisas do mundo e do modo de agradar á esposa, e ti
ca dividido. Da mesma forma a muiher nao casada e a virgem cuidam das
coisas do Senhor, a fim de serem santas de como e de espirito. Mas a muiher
casada cuida das coisas do mundo: procura como agradar ao marido".

169
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"359/1992

Ora os protestantes nunca citam tal texto quando se referem ao ce


libato e á virgindade consagrada a Deus. É estranho, dado que eles que-
rem em tudo seguir a Biblia.

1.4. Esfacelamento

Jesús prometeu á sua Igreja que estaría com ela até o fim dos tem-
pos (Mt 28,20); prometeu também aos Apostólos o dom do Espirito
Santo para que aprofundassem a mensagem do Evangelho (cf. Jo 14,26;
16,13s). - Nao obstante, os protestantes se afastam da Igreja assim assis-
tida por Cristo e pelo Espirito Santo para fundar novas "Igrejas". Sao
instituicSes meramente humanas, que se váo dividindo, subdividindo e
esfacelando cada vez mais; empobrecem e puiverizam sempre mais a
mensagem do Evangelho, reduzindo-a

- ora a sistema de curas (curanderismo), milagres... servlco ao


homem (Casa da Bencáo, Igreja Socorrista, Ciencia Crista...);

- ora a um retorno ao Antigo Testamento, com empalideclmento


do Novo; assim os ramos adventistas...;

- ora a um preludio de nova "revelacáo", que já n§o é crista. Tal é


o caso dos Mórmons, que sobrepóem á Biblia o Livro de Mór-
mon; tal é o caso das Testemunhas de Jeová, que negam a Di-
vindade de Cristo, a SS. Trindade e toda a concepcáo crista da
historia.

1.5 Deteriorado da Biblia

O fato de so quererem seguir a Biblia (que na realidade é ¡nsepará-


vel da TradicSo oral, que a bercou e a acompanha), tem como conse-
qüéncia o subjetivismo dos intérpretes protestantes. Alguns entram pelos
caminhos do racionalismo e vém a ser os mais ousados dilapidadores ou
roedores das Escrituras (tal é o caso de Bultmann, Marxsen, Harnack,
Reimarus, Baur...). Outros preferem adotar cegamente o sentido literal,
sem o discernimento dos expressionismos próprlos dos amigos semitas -
o que distorco, de outro modo, a genufna mensagem bíblica.

Isto acontece, porque faltam ao Protestantismo os criterios da Tra-


dicSo ("o que sempre, em toda a parte e por todos os fiéis fot professa-
do"), criterios estes que o magisterio da Igreja, assistido pelo Espirito

170
POR QUE NAO SOU PROTESTANTE? 27

Santo, propóe aos fiéis e estudiosos, a fim de que nao se desviem do reto
entendimento do texto sagrado.

1. 6. Mal-entendidos

Quem lé um folheto protestante dirigido contra as práticas da Igreja


Católica (venerado, nao adoracáo, das imagens, da Virgem Santíssima,
celibato...), lamenta o baixo nivel das argumentares: sao imprecisas, va
gas, ou mesmo tendenciosas; afir mam gratuitamente sem provar as suas
acusacóes; nao raro baseiam-se em premissas falsas, datas ficticias, ana
cronismos; cf. PR 357/1992, pp. 60-74.

As dificuldades assim levantadas pelos protestantes dissipam-se


desde que se estudem com mais predsáo a Biblia e as antigás tradigóes
do Cristianismo. Vé-se entáo que as expressóes da fé e do culto da Igreja
Católica nao sao senáo o desabrochamento homogéneo das virtualidades
do Evangelho; sob a acáo do Espirito Santo, o grao de mostarda trazido
por Cristo á térra tornou-se grande árvore, sem perder a sua identidade
(cf. Mt 13,31s); vida é desdobramento de potencialidades homogéneo.
Seria falso querer fazer disso um argumento contra a autenticidade do
Catolicismo. Está claro que houve e pode haver aberracóes; estas, porém,
nao sao padráo para se julgar a índole própria do Catolicismo.

2. Conclusáo

A grande razáo pela qual o Protestantismo se torna inaceitável ao


cristáo que reflete, é o subjetivismo que o impregna visceraImente. A
falta de referenciais objetivos e seguros, garantidos pelo próprio Espirito
Santo (cf. Jo 14, 26; 16,13s), é o principal ponto fraco ou o calcanhar de
Aquiles do Protestantismo. Disto se segué a divisio do mesmo em cen
tenas e centenas de denominagóes diversas, cada qual com suas doutri-
nas e práticas, ás vezes contraditórias ou mesmo hostis entre si.

O Protestantismo assim se afasta cada vez mais da Biblia e das ral-


zes do Cristianismo (paradoxo!), levado pelo fervor subjetivo dos seus
"profetas", que apresentam um curanderismo barato (por vezes, caro!)
ou um profetismo fantasioso ou ainda um retorno ao Amigo Testamento
com menosprezo do Novo.

Esta diluicáo do Protestantismo e a perda dos valores típicos do


Cristianismo estáo na lógica do principal fundador - Martínho Lutero -,
que apregoava o livre exame da Biblia ou a leltura da Biblia sob as luzes

171
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 359/1992

exclusivas da inspiracáo subjetiva de cada crente; cada qual tira das Es


crituras "o que bem Ihe parece ou Ihe apraz"!1

O texto deste artigo foi publicado sob forma de opúsculo ("Por


que nio sou protestante?") pela Escola "Mater Ecclesiae". Pedidos ¿
Caixa Postal 1362,20001 Río (RJ).

A mesma Escola publicou também os opúsculos "Por que nfio


sou espirita?" e "Por que nfio sou ateu?". Pedidos ao mesmo en
derezo.

1Este procedimento exegétíco chega a tal ponto que há, entre os disi
dentes protestantes, aqueles que nSo querem mals celebrar o seu aniversario
natalicio.

Porqué?

- Porque Satomio afirma: "Mals vale visitar a casa em luto do que a


casa em testa. Mals vale o día da morte do que o día do nastímento" (Ed
7,1s). AISm disto, a Biblia refere que os dols homens que na historia sagrada
celebran o seu aniversario sBo o Farad do Eglto eorel Herodes Antipas; am
bos, porém, cometeram um assassfnio no día da testa: o Farad mandou enfor'
caroseu padelro-mor (cf. Qn 40,20-22) eorel Herodes Antipas mandou de-
gotarJoSo Batista (cf. Me 6,17-29).

Será que tais textos devem realmente Induzlr a rejeitar a celebragáo do


aniversario natalicio? Celebrá-ío acarreta homlcfOo? é prolbldo pela Biblia ?

172
A Parapsicología fala:

"A VIDA CONTINUA ALÉM DA MORTE"

por T. de Olivéira e S. Paseto

Em sfntese O livro de Tarsizo de OHveira e Siriei Paseto manifesta a


boa intengSo de dissipar o horror da morte que existe em multas pessoas. 7b-
davia procura tazedlo mediante argumentos assaz subjetivos; além do qué,
apresenta ¡acunas em materia de Filosofía e Teología: os conceitos de ser
humano, tempo e eternldade, vida, energía, materia deixam multo a desejár.
No tocante á própria Parapsicología os autores parecem nSo levar em conta
suficiente o poder da sugestSo e a enorme capaddade de prqjecSo subjetiva
que a sugestSo moblliza sem que o Individuo o perceba.

O livro "A Vida continua além da Morte" se deve a dois autores re


sidentes em Santa Catarina. O Prof. Tarsizo de Oliveira é o fundador do
Centro de Estudos Parapsicológicos em Florianópoiis, da Associacáo de
Parapsicología e das Clínicas Famo. Como parapsicólogo, tem-se dedica
do ao tratamento de doencas psicossomáticas. - Quanto á Prof9 Siriei
Paseto, é Coordenadora do Departamento de Psicorientologia da Asso
ciacáo Catarinense de Parapsicología. Publicaram o livro em foco1,-que
tenta mostrar o que acontece antes e depois da morte e durante a própria
morte. Os autores consideram urna temática que é cortamente delicada,
conjugando entre si aspectos psicológicos, parapsicológicos, filosóficos e
teológicos. Examinemos e comentemos o livro.

I. O conteúdo da obra

Os autores querem dissipar o medo da morte, incutindo a idéia de


que esta vem a ser a plenitude da vida:

1A vida continua além da morte. Editora Mercado Aberto, Porto


Alegre, 1990 (Ved.).

173
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"359/1992

"A morte se aprésenla como a situagáo em que o ser humano tem o pri-
vilégto do desenvoMmento de todas as suas (acuidades, atingindo por exce
lencia o ponto máximo de sua vida, através da qual poderá chegar a urna
perfeita maturidade espiritual, onde todas as suas características psíquicas e
mentáis, tanto as cognitivas como as volitivas e afetivas, podem ser exercidas
em sua plenitude, sem os condidonamentos exteriores e suas limitagóes hu
manas. É o momento em que o ser humanó tem a posslbilidade, através de
seus méritos, de atingir a plenitude de sua realizagáo. Antes, o mesmo tinha
limitagóes de toda ordem, através dos conceitos e dos condicionamentos
tanto hereditarios como psicológicos, adquiridos durante a educagSo, sem ta
lar na ignorancia, falta de conhecimentos mais profundos a respeito das coi
sas de Deus" (p. 34).

Como é que os autores sabem o que ensinam?

- Recorrem a depoimentos de pessoas que passaram pela morte


aparente e voltaram ao pleno gozo de suas torcas ou - mais estranho -
delxaram mensagens que outras pessoas captaram por psicografla. Com
outras palavras: segundo T. de Oliveira e S. Paseto, as pessoas que estáo
em estado de morte aparente, podem transmitir a outras o que Ihes vai
na alma; as mensagens assim emitidas sao captadas pelo subconsciente
de familiares e amigos do paciente, e estes, por sua vez, podem reprodu-
zir tais mensagens, fazendo-as passar do seu subconsciente para o cons
ciente; o fenómeno de reproduzir as mensagens de moribundos é cha-
mado pelo dois autores "psicografia":

"A psicografía, que quer dizer escrita do psiquismo ou escrita mental, é


o resultado de urna captagáo telepática de pessoas vivas que captaram da
mesma forma de alguém que estava no estáglo de morte aparente. Portanto,
sempre que é reproduzida urna mensagem pslcografada, o psicógrafo está
escrevendo algo que aflora do seu subconsciente ou que está captando do
subconsciente de outras pessoas, nao havendo, dessa forma, nenhuma co-
municagáo com o espirito do morto, como algumas pessoas querem supor,
mas comunicagSo de vivos para vivos" (pp. 42s).

Como se vé, os autores recusam a necromancia ou a consulta aos


mortos ou a comunicacio dos mortos com os vivos, como a admite o Es
piritismo. Neste ponto conservam fidelidade ao Cristianismo.

Eís um espécimen de mensagem psicografada dirigida pelo esposo


moribundo á esposa viva e aflita:

"Sinto-me como a lagarta que se transforma em borboleta, como a


crianca que deseja e luía para nascer. Fago \¡m estorgo enorme para ir, para

174
"A VIDA CONTINUA ALÉM DA MORTE" 31

ouvir, para refletlr, mas tudo voltado para mim mesmo. Estou em estado de in-
trospecgSo, revivendo todos os relacionamentos. Sou eu mesmo, só, mas na
companhia de todas as pessoas que conheci.

Quería te explicar, mas tenho plena consciéncia de que nSo sabes o


que eu sinto. Se estivesses entendendo, querida, saberías por lúa própria ex
periencia o que é ver a luz pela primeira vez, o que é falar e ouvir pela primeira
vez.

Eu me sinto vitoríoso, vitorioso de mim mesmo. Sinto'-me único, absolu


to, harmonioso e principalmente completo e feliz. Só agora consigo sentir-me
totalmente.

Querida, eu sei que para ti está sendo um momento diñcfíimo, mas,


compreende-me, para mim é vital, 6 fundamental. Eu nunca chegaria até mim
mesmo se nao fosse por esse caminho. Nao é doloroso como estás pensan
do e deixando transparecer; para mim é o verdadeiro estado de graga. NSo
quero que sofras, pois eu nao estou sofrendo. Continuo tendo objetivos, nSo
acabei, como estás pensando. Eu cresci, sou bem maior do que já fui. NSo
estou morrendo da forma como estás pensando. É por amor, só por amor, que
estou lutando para confortar a tita dor. Pois, se nao existisse o amor, eujá te
na me libertado...

Conñrmo e afirmo o meu grande e eterno amor, porque agora sei e te


nho certeza que ele é eterno" (pp. 45s).

Em atguns casos os pacientes dizem que passam por um túnel, en-


contram um ser de luz, sentem-se felizes,... mas de repente sao chama
dos a voltar ao corpo na térra.

"Fui internado no hospital, gravemente enfermo. Sentía dores em todo o


corpo e tonturas. Os médicos nao sabiam bem o que eu tinha. O médico me
enviou para exames para ver se descobriam. Durante os exames, aplicaram
urna droga que me fez estremecer e sentí que estava morrendo. Neste mo
mento, percebl um túnel e, ao mesmo tempo, urna luz. Mentalmente a impres-
sao que tínha era de que a luz falava, mas tinha certeza que tudo isso se pas-
sava em minha mente. O que sentía era que eu estava em um julgamento on
de toda a minha vida era recapitulada mentalmente. Sentí um peso enorme ao
concluir que a minha vida nSo tora voltada para o amor, a candado e para o
próximo. Foi nesse momento que a luz desapareceu e, ao seguir pelo túnel,
apenas escuridáo e isoiamento. Sentí um desejo enorme de ter vivido de outra
forma. Neste momento, voltei a ouvir a voz do médico que dizia estar eu rea-
gindo. A experiencia foi muito válida para que eupudesse reconstruir a minha
vida interior" (p.32).

175
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 359/1992

Comentam os autores:

"É muito comum as pessoas durante este estáglo terem a sensagáo de


estar passando por um túnel. Uns relatam como um túnel longo e escuro no
inicio e com uma luz muito forte em seu final. Em todos os casos pesquisados
em que aparece a luz, esta é de um brilho indescritfvel e nao prejudica os
olhos ou ofusca, nem impede de ver outras coisas ao redor; isso porque sen-
tem que tudo o que estSo vendo nño é através dos olhos físicos, mas atravós
da mente. Em todos os casos, a sensagáo é de que a luz representa um ser
de luz, do qual emana amor e paz. Mesmo que as descricóes a respeito da
luz, sejam invariáveis, o que déla emana varia de Individuo para individuo, mas
a maioria identifica a luz com Cristo ou, slmplesmente, com Deus. Podemos
definir que o diálogo que, em muitos casos, aparece com o ser de luz é um
diálogo mental" (pp. 33s).

Logo a pos a morte o individuo se encontra face-a-face com Deus...:

"Sabemos que todo ser humano, após o estágio de morte aparente, se


encontrará face a face com Deus e com Cristo ressusdtado. Mesmo que du
rante toda a sua vida nao tenha ouvido falar deles, Ihes é ofereclda a chance
de optarpor Deus e por Cristo.

Os pagaos teráo a oportunidade desse desenvolvlmento, tambóm


aqueles que, durante a sua vida, nao chegaram ao desenvolvimento da cons-
ciencia e da liberdade, ou seja:

Os debéis mentáis, que tambóm teráo a sua oportunidade de encontró


com Deus. Nao querendo contrariar conceitos religiosos, mas com o objetivo
de esclarecer a muitos a respeito do assunto, podemos afirmar que a mesma
chance ocorre com os milhóes de seres humanos que morreram antes de
nascer, seja por motivos'naturais ou mesmo pelo grande número de abortos
que acontecem pelo mundo intelro. Também as vñimas de acldentes catastró
ficos que, com suas mortes repentinas, truncam bruscamente a vida, aparen
temente se/77 ter qualquer momento de preparagáo, essas tém a mesma
chance como as domáis" (pp. 36$).

Os autores afirmam outrossim que a ressurreicáo se dá por ocasiao


da morte; cada qual, ao morrer, chega ao fím dos tempos ou fim do
mundo. Cf. p. 23.

Expostas as principáis linhas doutrinárias do livro em foco, refuta


rnos a respeito. Verdade é que o pensamento dos dois autores nem sem-
pre é preciso; falta-lhes um pouco de rigor lógico ao concatenar e expri
mir suas idéias; cf. pp. 36 (final). 23 (confuso).

176
"A VIDA CONTINUA ALÉM DA MORTE" 33

2. Comentando...

É muito oportuna e louvável a intencáo, dos autores, de mostrar


que a morte nao é um fim, um truncamente, mas, sim, urna passagem
para vida melhor e mais plena. Isto 6 auténticamente cristáo.

Acontece, porém, que, para incutir esta grande verdade, os autores


apelam para argumentos experimentáis muito subjetivos e discutfveis;
querem saber demais no tocante ao que se dá na hora da morte e depois.
Com afeito...

2.1. Psicog rafia

As mensagens atribuidas a moribundos e captadas por familiares e


amigos podem ser simples projecóes ou expressdes dos afetos desses
familiares e amigos. Nada garante que tenham realidade objetiva ou que
sejam comunicacóes feitas pelos moribundos. É preciso nao esquecer o
poder da sugestáo: quando alguém eré que pode receber mensagem de
outra pessoa, inventa (sem o saber) tal mensagem. Por isto o recurso á
psicografia é falho; nao pode ser aduzido como prova do bem-estar dos
moribundos.

A imagem do túnel pelo qual a alma do moribundo passaría num


vóo fora do corpo parece corresponder a um arquetipo cpngénito do psi
quismo humano; para chegar á luz, deve haver um canal que nao seja de
luz e que faca a mediacáo entre a penumbra da térra e a plena luz do além.
A Dra. Elizabeth Kübler-Ross averígüou a existencia de tal imagem em
depoimentos de seus pacientes postos em estado de coma e restituidos á
saúde; tal imagem nao passa de projecáo do psiquismo humano, e carece
de realidade objetiva, pois nao podemos conceber que o além seja confi
gurado segundo a arquitetura do aquém, com seu túnel, seu jardim, sua
fonte de luz, suas muralhas...; a outra vida n§o se dará num cenário ma
terial comparável ao presente, em reedicáo revista, melhorada e aumen
tada... A propósito já foi publicado um comentario em PR 216/1977, pp.
501 -506 (comentario do artigo "Vida apos a Vida" de Raymond Moody
Jr).

2.2. Retrocognicáo, Simulcognicáo e Precognicáo

Segundo T. de Oliveira e S. Paseto, a pessoa em estado de morte


aparente goza de conhecimentos dilatados, abrangendo o seu passado, o
seu présente e o seu futuro; cf. p. 37. - Como se pode provar esta tese?

177
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 359/1992

- Realmente nenhum dado experimental e nenhum raciocinio


a provam. Há, sim, teólogos que julgam que, na hora da morte, a pessoa
recebe de Deus urna luz especial para poder fazer, com clareza nunca
antes atingida, sua opcáo decisiva e definitiva por Deus ou contra Deus.
Esta sentenca nao é aceita por outros bons teólogos, que a tém por gra
tuita ou arbitraria; na verdade, é paradoxal imaginar que alguóm, sofren
do o declínio de sua lucidez de mente pela arteriosclerose e outros acha
ques, possa repentinamente gozar de perspicacia de mente nunca antes
alcancada; toda a vida do homem deve ser vivida de maneira táo cons
ciente quanto possi)7el, de modo que cada ato humano seja responsável
e possa ser levado a serio. É durante a vida inteira que a pessoa deve
exercitar-se para comparecer diante do Juiz Divino; é isto que dá grande
za aos atos mais comezinhos.

O momento da morte é grande e importante, porque decisivo.


Cremos que Deus assiste a cada qual naquela hora com as gracas neces-
sárias; mas esse momento nao é senáo a etapa final de urna caminhada,
que deve ser, toda ela, homogénea ou urna opcáo cada vez mais cons
ciente por Cristo e o Pai. Nao queiramos saber muita coisa a respeito da
quele transe; podemos dizer que ele terá as características que cada qual
tiver preparado; quem tiver vivido com Deus, poderá sentir-se feliz por
chegar ao termo final de sua caminhada; quem tiver vivido longe de
Deus, talvez se assuste enormemente ao perceber a chegada da hora
derradeira.

2.3. Encontró face-a-face com Deus

O encontró face-a-face com Deus ou a visáo direta de Deus é a


própría bem-aventuranca celeste, premio dado aqueles que viveram e
morreram com Deus neste mundo. Por isto nao se pode afirmar que,
após o estágio de morte aparente, todo ser humano gozará desse encon
tró. - Dizemos, em perspectiva crista, que após a morte, todo individuo
passa pelo julzo particular, a luz de Deus o ilumina para que possa avaliar
a sua vida terrestre com toda a objetividade e veracidade possível; reco-
nhece com nitidez tudo o que fez de bom e menos bom e aceita natural
mente a sentenca daf decorrente. Isto, porém, nSo 6 visáo de Deus fa
ce-a-face.

Tambóm ó de notar que após a morte nfio é possível converter-se


do mal para o bem ou více-versa. A morte estabiliza o homem na sua úl
tima opcáo. É certó que o Senhor Deus dá a cada qual, no decorrer da vi
da terrestre, as gracas necessárias para que opte sempre pelo melhor e
colha copiosos frutos na hora da morte.

178
"A VIDA CONTINUA ALÉM DA MORTE" 35

Além do mais, nao se pode admitir que a alma humana se separe


do corpo antes da morte e vagueie pelo espaco.contemplandooseu cor
po submetido a tratamento médico ou penetrando em jardim suave e
luminoso. A alma humana é o principio vital do corpo; sem alma, este
simplesmente nao vive, de modo que mesmo as pessoas postas em coma
e morte aparente tém sua alma presente no corpo; a separacio de corpo
e alma só se dá na hora da morte; nao há retorno da alma ao corpo
mortal.

2.4. Antropología

A antropología suposta pelos dois autores nao distingue clara


mente entre corpo e alma. Estes seriam apenas duas facetas de um bloco
monolítico, segundo se depreende dos dizeres da p. 23 ("a plenitude da
realizacio do ser humano corpo-alma"). Por conseguinte, a ressurrei-
cáo seria a própria morte tida como "total desenvolvimento das possibi-
lidades da natureza humana sem limitacóes" (p. 23). Esta concepto an
tropológica, porém, está em contradicho com aquela perspectiva de alma
que sai do corpo, passa por um túnel, entra num jardim luminoso, etc.
{pp. 32s). - Os autores nao chegaram á clareza de conceitos neste ponto
(como, alias, também em outros pontos relacionados com a Filosofía e a
Teologia).

Dizer que no momento da morte cada qual vive o fim dos tempos
ou o fim do mundo é erróneo, pois após a morte a alma humana experi
mentará ainda a noció de futuro; ela estará nio num regime de eternida-
de, mas no regime do evo, do qual temos tratado repetidamente em PR;
cf. 275/1984, pp. 274-281; 257/1981, pp. 243-245.

Após a morte a alma, sendo espiritual e ¡mortal, subsiste sem corpo


e aguarda o fim dos tempos, quando Cristo há de vir glorioso para julgar
todos os homens e se dará a ressurreicáo universal.

Alias, os dois autores empregam com facilidade despropositada a


palavra "eterna". Assim á p. 21 afirma: "a energía é eterna". Ora só Deus
é eterno; nenhuma criatura é eterna, nem pode vir a ser eterna (o que
seria contraditqrio). Á p. 22 escrevem: "Nada termina, mas tudo se
transforma; a existencia é provisoria, mas a vida é eterna". Ora observa
mos que somonte a vida de Deus é eterna, porque só ela nao teve come-
co e nSo terá fim; a nossa vida nSo é eterna, porque teve comeco; visto
que nSo terá fim, é vida ¡mortal ou eviterna {nio vida eterna).

Á p. 22 os autores asseveram que "existe urna continuídade de vida


desde as partículas subatómicas. Deste modo nio podemos fazer divisáo

179
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 359/1992

entre materia, e vida".- Eis mitro ponto falho: a vida tem suas proprieda-
des básicas, que só se ericontram nos vegetáis e nos animáis (irracionais
e racionáis): nutricio, crescimento, reproducáo, capacidade de se restau
rar quando losada. Ora nenhum mineral possul tais particularidades; por
isto a vida nao existe nos minoráis. A vida depende de um principio vital
próprio, que pode ser material (nos vegetáis e nos animáis irracionais) ou
¡material, espiritual (no ser humano).

Eis algumas reflexóes que nos sugere o livro de T. de Oliveíra e S.


Paseto. Reconhecemos a boa intencáo dos dois autores, mas podemos
afirmar que em materia de Filosofía e Teologia apresentam (acunas se
rias. No tocante á própria Parapsicologia parecem nao levar em conta
suficiente o poder da sugestáo e a enorme capacidade de projecáo subje
tiva que a sugestáo mobiliza, sem que o individuo tenha consciéncia dis-
so.

Continuagio da p. 165:

"Nao existem enfermedades causadas pela prática da casti-


dade, ao passo que existem muitas causadas pelo vicio oposto"
(p. 113). "Todos os homens, e mais aínda os jovens, podem
provar os beneficios ¡mediatos da castidade. Sei-o por ter visto
muitíssimos jovens reduzidos ao limite de suas forcas, a demen
cia e a paralisia pelo desenfreado uso do 9exo" (p. 114).

Vale a pena reaicar aínda um tópico do fím do livro, em que o autor quer
incitar o leitor a por máos á obraje, principalmente no tocante á salvag&o eter
na: "Santo Expedito, ñas imagens que o representam, leva na máo urna cruz
com a palavra HOJE e aos pos um corvo, figura do diabo, que tem um cariño
no bico com a palavra AMANHÁ. Hoje 6 a palavra que salva, AMANHÁ a que
condena" (p. 164).

APRENDE COM AS ONDAS

RECUA. MAS PARA VOLTAR, PARA INSISTIR SEM CAN-


SACO. SEM DESISTENCIA. NOITE E DÍA. ENQUANTO A MÁO
DIVINA NAO DER SI NAL E TIVER SIDO ATINGIDA A PLENI-
TUDE DAS GRANDES AGUAS VIVAS.

D. HÉLDER CÁMARA

180
O valor da vida humana:

ABORTO EUGÉNICO?

O Conselho Federal de Medicina está propondo urna alteracáo no


Código Penal do Brasil, alteracáo que reconhece como legítimo o aborto
eugénico ou a eliminacáo de um nascituro tido como deficiente. Quem a
praticasse, nao sofreria sancóes penáis; a ¡ntervencáo seria solicitada peta
genitora da enanca, ciente de estar grávida de um feto anómalo.

Visto que tal proposta é iníqua, pois tende a legalizar um homicidio,


um grupo de 75 Professores da Faculdade de Medicina da Universidade
Federal Fluminense escreveu ao Conselho Federal de Medicina a carta
que, a seguir, transcrevemos. O movimento de repudio é encabecado
pelo Prof. Dr. Herbert Práxedes, Professor Titular do Departamento de
Medicina Clínica da Universidade Federal Fluminense. A este benemérito
docente agradecemos a atitude corajosa assim como o envió da copia da
carta que passamos a apresentar.

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE


CENTRO DE CIENCIAS DA SAÚDE
FACULDADE DE MEDICINA

AOS DIRIGENTES DO CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA

Niterói, 20 de dezembro 1991

Prezados colegas.

Os que abaixo assinam este documento, professores da Faculdade


de Medicina da Universidade Federal Fluminense, vém á sua presenca,
usando da faculdade democrática de divergir, se posicionarem quanto

181
38 "PERGUNTEE RESPONDEREMOS"359/1992

á iniciativa dos atuais ocupantes da direcáo do CFM' frente ao aborto


eugenico.

É funcáo precipua dos Conselhos de Medicina, Federal ou Regio-


nais, cumprir e fazer cumprir o Código de Ética Médica. É vedado ao mé
dico participar de quaisquer atos que visem á destruicáo ou degradadlo
de um ser humano. É obrigacáo dos Conselhos impedir que o médico
participe de atos desse tipo e, se ele o fizer, estará sujeito ás penas pre
vistas em lei. Isto é muito claro em varios artigos do CEM2 e por isso,
obviamente, nenhum deles atribui ao médico a execucáo de penas capi-
tais. E o aborto é urna pena capital. Qual a razáo para, ao arrepio do CEM
vigente, a diregáo do CFM resolver propor para o médico funcáo táo ma
cabra como a eliminacáo ¡ntra-útero de inocentes deficientes físicos?

Incoerentemente, no mesmo número do Jornal do CFM em que


isto é divulgado, outra materia condena com veeméncia a intengáo de ser
submetido a plebiscito o retorno da pena de morte para os crimes deno
minados de hediondos. Trágico paradoxo, propor a pena de morte intra-
útero para os que, sem culpa, foram gerados de forma defeituosa, quan-
do se faz urna catilínária contra a mesma pena para os seqüestradores,
estupradores, assaltantes e homicidas de varias designares!

A possibilidade de ser aplicada a um inocente é um dos motivos


que faz com que nos também nos oponhamos a qualquer forma de pena
capital, e o aborto, qualquer que seja a desculpa para sua indicagáo, é a
pior délas. Ao suposto réu, inimputável de qualquer culpa e, por sua con-
dicáo especial, incapaz de se defender, é negado julgamento, júrí, juiz,
advogado de defesa ou apelac.io, mas oferecido um médico que, contra
riando os principios básicos da Medicina, é travestido na sua antftese,
"doublé" de juiz e carrasco, que se encarregará de exterminá-lo.

A violencia tem na própria violencia seu "feed-back", e o aborto é


sua forma mais abjeta.

Numa época em que o pensamento ecológico domina os meios de


comunicacáo e todos se preocupam com os destinos das baleias, das fo
cas e dos micos leáo-dourados, os diretores do CFM vém propor urna
ecología ao contrarío, em que sao eliminados os seres humanos mais fra-
cos. Fazer abortar um ser humano porque ele será hemoftlico, falcémico,
talassémico, portador de Síndrome de Down ou de erro inato do meta-

* CFM = Consetho Federal de Medicina (Nota da fíedacáo),

2CEM = Código de Etica Médica (N.d.R.).

182
ABORTO EUGÉNICO? 39

bolismo passará a ser um ato ecológico no admiravel mundo novo dos


diretores do CFM?

É proposta a extensáo da ¡mpunibilidade do aborto para as gesta-


(oes cujos "produtos da concepgáo (leia-se: seres humanos) sejam por
tadores de condicóes capazes de determinar alteragáo patológica incom-
patfvel com a vida ou a plenitude de vida e sua integracáo com a socieda-
de".

Se a alteragáo é grave suficiente para ser incompátlvel com a vida,


por que o aborto? Quanto ao condicionamento b "compatibilidade da
plenitude da vida e sua integracáo á sociedade", para que a alguém seja
permitido viver, temos que extendé-lo a todos os deficientes físicos - de
causa congénita ou adquirida -, que devem ser considerados cidadáos de
segunda categoría, pois, se estáo vivos, os primoiros o devem a urna se
lecto genética nao suficientemente adequada e abrangente que, inexora-
velmente os teria eliminado por "sua ¡ncapacidade de ¡ntegracáo com a
sociedade". Quanto aos demais, pode ser questáo apenas de tempo.
Quando se inicia desrespeitando a vida humana por nascer, o desrespeito
seguinte nao tem mais limite.

Em passado nao táo remoto, um pintor de paredes austríaco elimi-


nou mais de 100 mil deficientes físicos e mentáis, também nao capazes,
segundo ele, de plenitude da vida e urna integracáo completa á sociedade
de entáo. Os resultados aínda hoje fazem corar de vergonha seus conci-
dadáos, a quem prometeu urna raga superior e um Estado que duraría
mil anos.

Nao reconhecemos nos atuais e eventuais ocupantes da diregáo do


CFM o direito de, em nosso nome, propor tal vilania. Nao tendo havido
consulta ampia a todos os médicos para que se manifestassem livre-
mente, com que direito o CFM, consultando apenas os CRM, arvorou-se
em defensor de tese táo anti-médica, táo anti-humana? Consideramos
que os atuais diretores do Conselho Federal de Medicina exorbitaram de
suas fungóes, atropelaram o Código de Etica Médica e desviaram de suas
atribuigóes legáis o CFM ao propor o aborto genético, pena capital para
os deficientes descobertos ¡ntra-útero.

Ainda que a muitos interesse que, da imagem do médico, sejam re


tiradas as auréolas do sacrificio, abnegagáo e doagáo, próprias do caráter
quase sacerdotal inerente á sua missáo, ainda que venha exatamente dos
atuais diretores do CFM - supostos guardiáes da Moral médica -, a pro-
posta do absurdo, qual seja, a eliminacáo preventiva, por nos médicos,

183
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 359/1992

dos deficientes físicos, aínda assim reafirmamos, com todas as nossas


forcas, em primeiro lugar a nossos pacientes - com quem temos nosso
compromisso maior -, aos diretores do CFM e so resto da nacáo, que
somos fiéis ao nosso juramento. Que ao médico, muito especialmente a
ele, aplica-se o "Nao matarás)": Nunca um inocente, jamáis um defi
ciente!

Reafirmamos - o que científicamente é obvio - que a vida humana


cometa com a concopcáo e que, a partir daf, o ser humano passa a ser
portador de direitos inalienáveis, o maior dos quais é a vida. Nos nos re
belamos contra a iniciativa dos atuais e eventuais ocupantes da direcáo
do CFM, que rebaixa e reduz o concepto a um eufémico "produto da
concepcáo" - descartável, se está imperfeito -, e o médico, a um "remo-
vedor" desse "produto".

A proposícáo dos diretores do CFM é inaceitável por ser imoral e


ilegal, ao propor a mais macabra forma de "apartheíd":

"MATE HOJE O DEFICIENTE FÍSICO DE AMANHÁ1'

Atenciosamente,

Dr. Herbert Práxedes


Professor Titular do Departamento de
Medicina Clínica da U.F.F. e os demais
subscritos deste documento

=ZCONHECA MELHOR A SUA FÉ! Z=ZZ=

CURSOS POR CORRESPONDENCIA


1) Sagrada Escritura, 2) IniciacSo Teológica, 3) Teología Moral, 4)
Historia da Igreja, 5) Liturgia, 6) Diálogo Ecuménico, 7) Ocultismo, 8)
Parábolas e páginas difíceis do Evangelho, 9) Doutrina Social da Igreja
(Novol).
Inscricóes em qualquer época do ano. Dura?áo do curso a criterio
do cursista, que pode levar o tempo necessário para estudar. No fím do
curso confere-se certificado.
InformacSes sejam solicitadas á Escola "Mater Ecclesiae"
Rúa Benjamín Constant, 23,3- andar
20241 Rio de Janeiro (RJ)
ou Caixa Postal 1362 - 20001 Rio (RJ)

Fone: (021) 242-4552 ou 292-3132, ramal 314.

184
Dissipando mal-entendidos:

QUE É A ORDEM DOS


CAVALEIROS DE MALTA?

Em símese: A Ordem dos Cavalelros de Malta ó a continuacáo de


urna Ordem medieval destinada a tratar, em hospitais, os cristSos peregrinos
da Tena Santa e defender os lugares sagrados contra as Incursóes de mu-
cutmanos. Adqulriu com o tempo o grau de potencia Intemacionalmente reco-
nhecida como Estado Soberano, privilegio que conserva até hoje, de modo
que goza do dimito de enviar e recebar representantes diplomáticos. A Ordem
que, em suas origens ou desde 1113, Mía sede na Palestina, foidelá deslo
cada em 1291, quando os cristSos tiveram que deixara Térra Santa em virtu-
de da derrota final dos cruzados. Passou entáo a ter sede de govemo central
na ilha de Rhodes (a partir de 1310); tomada esta ilha pelos turcos em 1523,
os Cavateiros receberam do Imperador Carlos V a Ilha de Malta como sede;
donde o nome de "Cavaleiros de Malta" que Ihes toca. Em 1798foram recha-
gados daf por NapoleSo Bonaparte em campanha contra o Egito, e finalmente
obtiveram da Santa Sé a concessSo de sua atual sede em Roma, no comeco
do sáculo XIX.

Atualmente a Ordem conserva aínda títubs e insignias da Idade Media e


do sáculo XVI. Mas perdeu suas fínaBdades militares; executaservicos de ín
dole atual e multo útil, como sño as obras sódo-educativas mantidas pela Or
dem em diversos países do mundo, inclusive no Brasil.

De vez em quando o público é interpelado por noticias da Ordem


dos Cavaleiros de Malta.- Para nao poucas pessoas, é algo de esotérico,
identificado com a Ordem Renovada do Templo (cf. PR 256/1981, pp.174-
189) ou com a própría Maconaria. Ora nada disto é verdade. A Ordem
dos Cavaleiros de Malta ó urna instituicüo católica, de mensagem e ativi-
dades patentes ao grande público, devendo ser claramente diferenciada
de organizábaos que tenham nome semelhante. Alias, a desígnacáo ofi
cial e completa de tal sociedade é a seguinte: Soberana Ordem Militar

185
42 "PERGUNTEE RESPONDEREMOS" 359/1992

Hospitalera de SSo Joáo de Jorusalém de Rhodes e de Malta. Os diver


sos tópicos deste título tornar-se-So evidentes a medida que formos de-
senvolvendo o histórico da Ordem ñas páginas subseqüentes.

1. Um pouco de historia

A Ordem simplesmente dita "dos Cavaleiros de Malta" tem sua


orlgem na Idade Media ou, mais precisamente, na época das Cruzadas.1

Em 1099 a Primeíra Cruzada tomou Jerusalém. Fundou-se entáo


na Cidade Santa urna comunidade monástica dedicada a Sao Joáo Ba
tista, que tinha por finalldade administrar urna hospedaría e um hospital
para os peregrinos que iam é Térra Santa; o seu servido era bem definido
pelas circunstancias do momento. Tal comunidade estava originaria
mente filiada aos mongos beneditinos; em breve, porém, tornou-se urna
organizado independente, aínda sob o seu prirneiro Gráo-Mestre, o
Bem-aventurado Gerardo (+1120).

Aos 15/02/1113, o Papa Pascoal II assinou urna Bula2 dirigida a


Gerardo, pela qual aprovava a Instltuicáo do Hospital de Sao Joáo; coló-
cava-a diretamente sob a protecáo da Santa Sé e Ihe concedía o direito
de eleger livremente os seus dirigentes, os sucessores de Gerardo, sem a
intervencáo de alguma outra autoridade, eclesiástica ou leiga. Em virtude
desta determinado pontificia, corroborada por outros documentos pa
páis, o Hospital tornou-se urna Ordem Religiosa dentro da Igreja, dire
tamente subordinada ao Sumo Pontífice.

Após a fundacáó do Reino de Jerusalém pelos cruzados, a situado


política da Térra Santa obrigou os mongos do Hospital a assumir a defe-

1As Cruzadas, em número de dez, fóram facanhas bélicas desuñadas a


libertar o Santo Sepulcro de Cristo, que caira em mios dos mugulmanos. Fo-
ram empreendlmento Inspirado pela fé da época. Para um medieval, era dever
de consdéncla lutarpara reaver os lugares santos da Térra de Israel. Houve,
sem dúvlda, excessos e desvirtuamentos dessas facanhas por parte dos reís
e nobres como também por parte da soldadesca, que cederam a ínteresses
pessoals, vftimas da fragiüdade humana. Todavía nao se pode delxar de reco-
nhecer a bravura dos cavaleiros que partídparam das cruzadas.

bola (bulla) de metal portadora do seto pontificio. Atualmente as Bulas pontifi


cias podem ser soladas apenas com lacre cemum.

186
ORDEM DOS CAVALEIROS DE MALTA 43

sa militar dos doentes e peregrinos, assim como dos territorios cristáos,


que os cruzados haviam subtrafdo ao dominio dos muculmanos. Desta
maneira, já sob o segundo Mestre Geral, Freí Raimundo do Puy, a Ordem
do Hospital de Sao JoSo assumlu a nota adicional de Ordem de Cavalel-
ros, pois na Idade Media o soldado ardoroso, defensor das tradigóes pa
trias, era cavaleiro. Os monges-militares de Sao Joáo ficavam ligados
pelos votos monásticos de pobreza, castidade e obediencia, e exerciam
suas funcóes junto aos cristáos assistindo-lhes ñas necessídades« defen-
dendo-as das ¡ncursóes de estranhos. Tinham, pois, duas finalidades:
obsequium pauperum.o servigo dos pobres ou ativíflade hospitalar, e
a tuítio fidei, a protegáo da fé ou dos fiéis e de seus territorios.

Frei Raymundo do Puy, também chamado "Mestre da Ordem",


sancionou a primeira Regra de vida dos confrades, e consagrou a cruz
branca octogonal (de oito ángulos) como emblema da Ordem até nossos
dias; donde o nome de "Cruz de Malta" que Ihe toca.

Em 1291, porém, o último reduto dos cristáos na Térra Santa, bu


seja, a cidade de Sao Joáo de Acre, caiu em máos dos muculmanos. Por
isto a Ordem teve que se deslocar para a ilha de Chipre.

Af situada, a Ordem exerceu soberanía ou independencia em rela-


cSo a todos os Estados da época, mantendo suas forcas armadas, e fazen-
. do guerra, quando o julgava oportuno. Este direito decorria dos docu
mentos pontificios e do Regimentó interno da Ordem.

Em 1310 os Cavaleiros conquístaram a ilha de Rhodes, estendendo


a sua soberanía; isto Ihes valeu o nome de "Cavaleiros de Rhodes". A
importancia deste avanco estava no fato de que Rhodes era um baluarte
de defesa dos cristáos frente ao poderío naval dos muculmanos; tornara-
se ponto estratégico no Mediterráneo oriental.

De entáo por diante era evidente a necessidade de urna frota para


defender os cristáos. A Ordem encarregou-se de monté-la com certo
aparato bélico, que Ihe permitía patrulhar os mares orientáis e travar va
rios e famosos combates. Particípou das Cruzadas na Sfria e no Egito e
socorreu o reino cristáo da Armenia (Cilícia) contra os ataques dos mu
culmanos.

A Ordem foi crescendo e se estendendo por diversos territorios da


Europa, de modo que no comeco do século XIV tinha sete Provincias ou
"Línguas": a Provenca, a Alvernia, a Franca, a Italia, Aragáo (Navarra),
Inglaterra (com Escocia e Irlanda) e Alemanha. Em 1462 Castela e Portu
gal separaram-se da Llngua de Aragáo, formando a oitava Lfngua. No

187
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 359/1992

sáculo XVI, a Ltngua da Inglaterra foi supressa; mais tarde, porém, em


1782, foi provisoriamente restaurada como Língua Anglo-Bávara.

A Ordem era governada por um Gráo-Mestre com seu Conselho;


cunhava a sua própria moeda e mantinha relacóes diplomáticas com ou-
tros Estados. O Gráo-Mestre era dito "Príncipe de Rhodes".

Após ter resistido repetidamente aos muculmanos, finalmente os


Cavaleiros tiveram que abandonar Rhodes. Vencidos na véspera de Natal
de 1522, deixaram a ilha a 1e de Janeiro de 1523. Nos sete anos seguintes,
embora a Ordem mantivesse sua soberanía internacional, nao tinha ter
ritorio. Tal situacáo acabou quando o Imperador do Sacro Imperio Ger
mánico, Carlos V (que era também rei da Sicilia) houve por bem entregar
á Ordem as ilhas de Malta, Gozo e Comino, assim como Trípoli, na África
do Norte. Aos 26 de outubro de 1530 o Gráo-Mestre Frei Fiiipe de Villiers
de risle-Adam tomou posse de Malta com a aprovacáo do Papa Cle
mente Vil. A Ordem se comprometía a manter neutralidade ñas guerras
que ocorressem entre povos cristáos.

A necessldade de defender os cristáos continuava nos séculos


XVI/XVII. Os turcos atacaram Malta, pondo-lhe cerrado cerco de 18/05 a
08/09/1565; acabaram por sofrer derrota por parte dos Cavaleiros, chefia-
dos pelo heroico Gráo-Mestre Frei Joáo de la Vallette, que deu o nome á
capital de Malta: Valletta. O declfnio do poder naval turco datou precisa
mente de 1565. A frota da Ordem de Sao Joáo (ou "de Malta", como co-
mecou a ser chamada) tornou-se urna das mais poderosas do mar Me
diterráneo e tomou parte na destruicáo final do poderío marítimo turco
na grande batalha de Lepanto (1571).

Em 1607 e, de novo, em 1620 o Gráo-Mestre recebeu o titulo de


"Príncipe do Santo Imperio". Em 1630 a Santa Sé outorgou-lhe urna
dignidade equivalente á de Cardeal da Santa Igreja Romana com o de-
signativo de "Eminencia".

Em 1798 Napoleáo Bonaparte, em campanha contra o Eglto, ocu-


pou a ilha de Malta, déla expulsando a Ordem. Os Cavaleiros ficaram
mais urna vez sem sede. Esta situacáo deu margem ao "golpe de Estado
Russo" (1798-1803): o Imperador Paulo I, da Rússla, embora ortodoxo
separado de Roma, mostrara-se amigo da Ordem e, por ¡sto, obteve de
alguns Cavaleiros residentes naquele país, o privilegio de ser por eles
proclamado "Gráo-Mestre da Ordem", substituindo o Gráo-Mestre Frei
Ferdinando von Hompesch, constrangido a deixar Malta aos franceses.
Esta proclamacáo de um nao-católico casado como Gráo-Mestre de urna
Ordem Religiosa católica foi ilegal e nunca reconhecida pela Santa Sé.

188
ORDEM DOS CAVALEIROS DE MALTA 45

NSo obstante, fo¡ aceita por muitos Cavaleiros e alguns Governos estran-
geiros, de modo que atualmente Paulo I, da Rússia, é considerado um
Gráo-Mestre de facto, mas nao de fu re (de direito). O czar seu suces-
sor, Alexandre I, compreendeu o impasse e contribuiu para que Ordem
tivesse seu chefe legítimo; em 1803 foi eleito Gráo-Mestre Freí Joáp Ba
tista Tommasi.

Entrementes os ingleses ocuparam Malta em 1801. - Reconhece-


ram os direitos da Ordem sobre a ilha mediante o Tratado de Amiens
(1802), mas os Cavaleiros nao mais puderam estabelecer-se ali. Em con-
seqüéncia tiveram sede temporaria em Messina, Cat&nia e Ferrara, até a
Ordem se estabelecer definitivamente em Roma, onde possui, em regime
extraterritorial1, o Palacio de Malta (68 Vía Condotti) e urna Villa sobre o
Aventino.

Desde 1879 o regime da Ordem tomou estrutura estável: os seus


Gráo-Mestres gozam de honras cardinaltcias. As atividades da Ordem
sao de (ndole caritativa, esparsas por diversas partes do mundo e parti
cularmente úteis durante as duas guerras mundiais do século XX
(1914-18 e 1939-1945). A Ordem dá especial assistdncia ás vítimas dos
desastres naturais (endientes, secas, terremotos) e das guerras.

Como se vé, a Ordem de Malta hoje existente é a continuacio inin-


terrupta da Ordem do Hospital de Sao JoSo, reconhecida pela Santa Sé
em 1113. É a única Ordem Religiosa da Igreja Católica que guarda as in
signias dos Cavaleiros militares (embora seus membros nao exercam fun-
cóes militares). A Ordem nunca deixou de ser reconhecida pela assem-
bléia das nacóes como soberana e independente de toda autoridade leí-
ga; em conseqüéncia é sujeito de Direito Internacional Público e rnantém
relacóes diplomáticas, mediante representantes oficialmente credencia-
dos, com os seguintes países:

Europa: Austria, Espanha, Italia, Malta, Portugal, Sao Marinho,


Vaticano;

América Latina: Argentina, Bolivia, Brasil, Chile, Colombia, Costa


Rica, Cuba, El Salvador, Equador, Guatemala, Haiti, Honduras, Nicara
gua, Panamá, Paraguai, Perú, República Dominicana, Uruguai, Venezue
la;

Asia: Líbano, Filipinas, Tailandia;

1lsto ó. nio subordinado ao Govemo da Italia.

189
46 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"359/1992

África: Berrín, Burkina Faso, Camaróes, República Centro-africana,


Comores, Costa do Marfim, Egito, Etiopia, Gabáo, Guinéia, Libéria, Mali,
Marrocos, Mauritania, llhas Mauricio, Nigeria, Senegal, Somalia, Togo,
Zaire.

A Ordem mantém delegados outrossim na Bélgica, na Franca, no


Principado de Monaco, na Alemanha e na Sulca, assim como junto ao
Conselho da Europa, á UNESCO, é FAO e a certas organizacóes interna-
cionais em Genebra.

O Gráo-Mestre traz os títulos de "Eminencia e Alteza" ou "Alteza


Eminentísima", e é reconhecido internacionalmente como Chefe de Es
tado, a quem sao devidas as honras soberanas.

O Santo Padre o Papa é o Superior da Ordem, assim como de to


das as diversas Ordens Religiosas. Tem como representante junto aos
Cavaleiros um Cardeal, dito Cardinalis Patronus.

2. Atividades da Ordem

A Ordem de Malta publica os seus Anuarios, nos quais expóe, entre


outras coisas, o rol de seus trabalhos e obras em varios países do mundo.

Através desses catálogos, o estudioso é informado de que a Ordem


mantém Dispensarios, Ambulatorios, Creches, Escolas.» ou financia
obras em varios pontos do Brasil, como Río de Janeiro, Sao Paulo, Para
ná, Salvador, Brasilia, Sao Luis do Maranháo, Amapá, Belém do Para,
lina de Marajó... Além disto, estao sob o patrocinio do Gráo-Mestre da
Ordem

- o Banco da Providencia, da Arquidiocese do Rio de Janeiro;

- a Fundacáo "Patronato de Acción contra la Lepra", na Guatemala;

- o Dispensario "Villa Malta" (Welfare Free Clinic), em Asmara (E-


tiópia);

- o Dispensario San Lorenzo em Assuncáo (Paraguai);

- o Corpo de Ambulancia "Servicio de Emergencia Malta" (SEMA),


no Paraguai;

190
ORDEM DOS CAVALEIROS DE MALTA 47

- o Corpo de Ambulancia "Secourístes de la Croix de Malte", no


Grao-Ducado do Luxemburgo;

- o Centro de Diagnose e Terapia "Clínica Antonio Hercolani", em


Bolonha (Italia);

- A Fundacáo "Pergami Belluzzi Baldi", Centro Socio-Educativo de


Cegos Indigentes, em Bolonha;

- o Jardim de infancia "Istituto Macchi di Cellere", em Aprilia (La


tina);

- o Jardim de Infancia María Mancinelli, em Pretola de Perugia (I-


tália).

Como se vé, a Ordem dos Cavaleiros de Malta é a representante de


um passado da Igreja digno de muito respeito. Se perdeu sua finalidade
medieval, condizente com séculos idos, assumiu tarefas valiosas em nos-
sos dias. Guarda aínda títulos e insignias outrora recebidos ou adquiri
dos, que os respectivos membros nao querem abolir, pois recordam o
seu passado glorioso.

Estévio Bettencourt O.S.B.

Conhega a Biblia, por Ivo Stomiolo e Euclides Balancín. - Ed. Pauli


nas, Sao Paulo 1987 (& edlcáo), 130 x 200 mm, 240 pp.

Este Ovro recolhe os artigos que os autores publicaram no folhéto "O


DOMINGO" nos anos de 1984-1985, com o acrésclmo de perguntas para re-
ñexáo pessoal ou em grupos. ExpSe muito brevemente o conteúdo de cada Ih
vro da Biblia, oferecendo urna leve pincelada da sua mensagenx

A obra comeca por algumas nocóes Introdutórias na Biblia, entre as


quals desojamos destacar a apresentacáo do Canon Bíblico ou a questio do
porqué a Biblia protestante nao tem sete livrvs do Antígo Testamento (Tb, Jt,
Sb, Br, Eclo, VSMc) que a Biblia católica tem e que sito chamados "deutero-
canónicos". Os autores responden) que "a Igreja Católica considera canóni
cos tambóm alguns livrvs que fomm acresce/tíados á tradugño grega do Anti-
go Testamento feita pelos judeus em Alexandria e que nao constavam da Bi
blia hebraica ou dos Judeus da Palestina" (cf. pp. 22s). - Ora deve-se dizer
que o Canon da Biblia dos Judeus (o Antígo Testamento) só se fírmou e fechou

191
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 359/1992

definitivamente em 100 d. C. aproximadamente no Sínodo dos rabinos de


Jámnia ou Jabnes; por conseguíate, nSo se pode dizer que os sete livros
mencionados foram acrescentados á Biblia hebraica, pois eram ¡idos petos ¡u-
deus da Palestina antes }& de Cristo como livros piedosos; só se fez a delimi
tado entre livros piedosos e livros canónicos (= integrantes de um catálogo
definido) no Sínodo de Jámnia. Tenha-se em vista especialmente o Eclesiásti
co: o prólogo respectivo nos diz que o Svro fol escrito em hebraico porumju-
deu da Palestina que tínha urna escola de Sabedoria emJerusalém (cf. Prólo
go 1-14; Eclo 50, 27; 51, 23). Por conseguinte, o Eclesiástico fol escrito em
Jerusalém e em hebraico; o neto do autor traduziu-o para o grego; o livro, po-
rém, partencia á biblioteca sagrada dos judeus da Palestina. Em Jámnla, o
Canon dos judeus fol delimitado, fícando excluidos os deuterocanónicos. Em
Alexandria, porém, nüo houve tal truncamento. Ora os autores do Novo Tes
tamento (Sao Mateus, Sao Marcos, Sao Lucas, SSo Paulo...) adotaram o texto
grego de Alexandria (pois escreviam em grego), de modo que este fícou sen
do, após hesitacdes entre os doutores cristáos, o texto oñcial da Igreja: em
393 o Concho regional de Nipona delinlu o Canon ampio (incluindo os sete li
vros deuterocanónicos).

Em seus capítulos fináis (pp. 231-240) os autores dissertam sobre a


leitura ingenua, crítica, social», da Biblia, nem sempre acertadamente. As pp.
237s, por exempto, julgam que a pobreza material como tal ó condigno para se
entender a Biblia - o que redunda em dividir o povo de Deus em ricos (inca-
pazes de perceber a mensagem de Deus) e simples ou pobres (habilitados
a tanto). Ora a fé nos diz que nao sao as categorías socials que permiten) ou
nao compreender a Biblia, mas ó a pureza de coracSo (cf. Mt 5,8), que pode
ser encontrada em qualquer classe social, desde que honesta.

O livro, portanto, ó redigido em perspectiva acentuadamente horizontal,


sociológica, que prejudica o seu conteúdo. Falta nSo raro o aspecto transcen
dental e propriamente teológico dos livros sagrados.

E.B.

192
PARA O NOVO ANO LETIVO:

Que livros adotar para os Cursos de Teología e Liturgia?


A "Lumen Christi" oferece as seguintes obras:

1. RIQUEZAS DA MENSAGEM CRISTA (22 ed.), por Dom Cirilo


Folch Gomes O.S.8. Teólogo conceituado, autor de um tratado
completo de Teología Dogmática, comentando o Credo do Povo
de Deus, promulgado pelo Papa Paulo VI. Um alentado volume
de 700 p., best seller de nossas Edigóes Cr$ 25.000,00

2. O MISTERIO DO DEUS VIVO, P. Patfoort O.P. O Autor foi exa


minador de D. Cirilo para a conquista da láurea de Doutor em
Teología no Instituto Pontificio Santo Tomás de Aquino em
Roma. Para Professores e Alunos de Teologia, é um Tratado de
"Deus Uno e Trino", de oríentacáo tomista e de fndole didáti-
ca. 230 p. - . . . CrS 15.000,00

3. LITURGIA PARA O POVO DE DEUS, (4* ed., 1988), pelo Sale-


siano Don Cario Fiore, tradu?áo de D. Hildebrando P. Martins
OSB. Edicáo ampliada e atualizada, apresenta em linguagern
simples toda a doutrina da Constituicáo Litúrgica do Vat. II. E
um breve manual para uso de Seminarios, Noviciados, Colegios,
Grupos de reflexáo, Retiros etc., 216 p.- CrS 10.500,00

4. QUADROS MURÁIS, Formato grande. Para aulas, círculos,


portas de Igreja e saldes Paroquiais. Em cores.
1 - ESTRUTURA GERAL DA MISSA CrS 4.500 00
2-0 ANO LITÚRGICO CrS 4.500,00

5. 3? EdiQáo de:
DIALOGO ECUMÉNICO, Temas controvertidos.
Seu Autor, D. Estéváo Bettencourt, considera os principáis pon
tos da clássica controversia entre Católicos e Protestantes, pro
curando mostrar que a discussáo no plano teológico perdeu
muito de sua razáo, de ser, pois, nao raro, versa mais sobre pa-
lavras do que sobre conceitos ou proposites - 380 páginas.
SUMARIO: 1. O catálogo bíblico: livros canónicos e livros apó
crifos - 2. Somente a Escritura? - 3. Somente a fé? Nao as
obras? - 4. A SS. Trindade. Fórmula paga? - 5. O primado de
Pedro - 6. Eucaristía: Sacrificio e Sacramento - 7. A Confissáo
dos pecados. - 8. O Purgatorio - 9. As indulgencias - 10. Maria,
Vírgem e Máe - 11. Jesús teve irmáos? -12.0 Culto aos Santos
- 13. E as ¡magens sagradas? - 14. Alterado o Decálogo - 15. Sá
bado ou Domingo? - 16.666 (Ap. 13.18) - 17. Vocé sabe quando?
- 18. Seita e Espirito sectario - 19. Apéndice geral. - 304
págs CrS 15.000,00

* Prefos sujeitos a alteracáo.


ASAIR

ORDINARIO
para celebrado da Eucaristía com o povo
25S edigáo (atualizada)

Tradugáo oficial revisada para o Brasil pela CNBB, aprovada


pela Santa Sé, contendo 11 Oragóes Eucarísticas, inclusive a tnais
recente "Para diversas circunstancias" (8 novembro 91), com
acréscimo de aclamac,óes e novos textos. Impressáo em tipos bem
legíveis. 110 págs. Formato de bolso (15 x 11).

Publicacóes da Escala Teológica da Congregado Beneditina


do Brasil:

COLETÁNEA (Tomo I)- Organizada por O. Emanuel de Almeida


e D. Matías de Medeiros.

Este livro contém 16 estudos sobre os mais diversos ramos do


saber (Historia, Biblia, Teología Dogmática, Teología Ecuménica, Li
turgia, Direito Canónico, Pedagogia e Literatura). Os temas desta
obra tém por autores varios professores de Teologia, entre ex-alu-
nos e admiradores, publicados em homenagem a D. Estéváo Betten-
court por ocasiáo de seus 70 anos de vida. A obra apresenta também
urna lista completa dos livros e artigos de D. Estéváo. - 332
págs Cr$ 17.000,00

(Tomo II) - Em homenagem a D. Abade Inácio Accioly e D.


Cirilo Folch Gomes, comemorando os 400 anos de fundacáo do
Mosteiro de S. Bento (1590-1990) do Rio de Janeiro. - Contém este
Tomo II 21 estudos sobre os mais variados temas.-340 págs.-1991.
Cr$ 19.500,00

RENOVÉ QUANTO ANTES SUA ASSINATURA DE P.R.

PARA 1992: Cr$ 15.000,00

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" Anos: 90 e 91:


Encadernados em percalina, 590 págs. com (ndices
(Número limitado de exemplares)... CrS 30.000,00 cada um.