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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memorístm)
APRESEISTTAQÁO
DAEDipÁOON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanca e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
'.■" visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar. este trabalho assim como a
equipe de Veritalis Splendor que se
encarrega do respectivo site.
Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.
Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
SUMARIO

ASI DoutrinadTm 1,10)

■O Jesús sabia que era Deus? ¿f

o) Paulo VI no Crepúsculo da Vida


UJ

3 A capacidade de maravilhar-se
O
Nova Era (New Age)

O Conceito de Deus na Grecia Pré-Cristá

Pornografía: ameaca á Sociedade

Do Anglicanismo ao Catolicismo
ffl

o
Livros em Estante
<r
a.

ANO XXXIII AGOST01992 363


PERGUNTE E RESPONDEREMOS
AGOSTO 1992
Publicacao mensal
N? 363

Diretor ■ Retponsável:
SUMARIO
Estévao Bettencourt OSB
Autor e Redator de toda a materia "A sá Doutrina (ITm 1,10) 337
publicada neste periódico
No Intimo de Cristo:
Diretor -Administrador:
Jesús sabia que era Deus? 338
D. Hildebrando P Martins OSB A revelacáo de um coracáo:
Paulo VI no Crepúsculo
Administracáo e distribuidlo: da Vida 348
Edicoes Lumen Christi Típicamente humana:
Oom Gerardo, 40 - 5? andar, s/501 A capacidade de maravilhar-se... 354
Tel.: (021) 291-7122
Caixa Postal 2666
Mais urna vez:

20001 - Rio de Janeiro - RJ Nova Era (New Age) 362

"Inquieto 6 o nosso coracáo»."


O conceito de Deus na Grecia
bnpressáo a Encadernacdo
Pré-Cristá 369

Um clamor abalizado:
Pornografía: ameac.a b
"MARQUES-SAKAIVA"
sociedade 377
GRÁFICOS E EDITORES S.A.
Urna comunidade anglicana passa:
Tels (021)273-949» -173-9447
Do Anglicanismo ao
Catolicismo 382
Livros em Estante 383

NO PRÓXIMO NÚMERO:

Os Novos Movimentos Religiosos. - Os Meios de Comunicacio Social: Es-


cola das Massas. - Josefina Bakhita: a escrava glorificada. - Pierre Tous-
saint, ex-escravo santo. - Cristas Suecas e Beneditinas. - Livros em Es
tante.

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

ASSINATURA ANUAL(12números)de P.R.:Cr$ 30.000.00-n?avulsoou atrasado: Cr$ 3.000,00

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1. VALE POSTAL á Agencia Central dos Correios do Rio de Janeiro em nome de Edicóes
"Lumen Christi" Caixa Postal 2666- 20001 - Rio de Janeiro - RJ.
2. CHEQUE NOMINAL CRUZADO, a favor de Edicóes "Lumen Christi" (endereco ácima).
3. OROEM OE PAGAMENTO, no BANCO DO BRASIL, conta N? 31.304-.1 em nome do
MOSTEIRO DE SAO BENTO. pagável na AGENCIA PRACA MAUÁ/RJ n? 0435-9. (Enviar
xeróx da guia de depósito á nossa administracáo, para efeito de ¡dentificacáo do paga
mento).
A Sa Doutrina

Jíi

Em suas cartas pastorais (1/2Tm, Tt), o Apostólo refere-se a prega-


dores de falsas doutrinas que perturbavam as comunidades cristas. Tra-
tava-se de erros na fé. Sao Paulo os rejeita e quer advertir os seus fiéis
recorrendo a urna imagem nunca dantes utilizada pelo Apostólo: a here-
sia é gangrena (gangraina), ao passo que a reta fé é fator de saúde, é a
sS doutrina: "Evita os palavrórios impíos, pois tendem a disseminar
sempre mais a impiedade. A palavra dos (mpios é como urna gangrena
que corroí" (2Tm2,16s).
Gangrena é palavra que só ocorre em 2Tm 2,17 no epistolario
paulino. A metáfora é muito enfática, pois gangrena vem a ser urna ne-
crose de tecidos que tende a se propagar, contaminando sempre novas e
novas células. Tal seria, conforme o Apostólo, a perniciosidade das
doutrinas erróneas; atingem toda a comunidade crista, contagiando os
membros sadios.
Observemos, alias, que as tres epístolas pastorais sao caracteriza
das pela imagem de saúde e doenca da alma para designar respecti
vamente a reta doutrina e as heresias; ver ITm 6,4 (doenca); Tt 1,15
(contaminacao e infeccSo); ITm 4,2 (cauterizacáo). Tal é a importancia
que o Apostólo atribui á reta fé; é condicáo e fator de vigor espiritual; im
plica adesSo á Palavra da Vida (cf. Jo 6,63). Ao contrario, a heresia {= es-
colha de urna ou algumas verdades da fé, e recusa de outras) é mortífera,
portadora de necrose e putrefacáol
Recorrendo a tais imagens, o Apostólo, de ceno modo, fazia eco a
pensadores gregos clássicos: Platáo (+ 348 a. C), por exemplo, afirmava
que a virtude é saúde da alma (República IV 18); Aristóteles (+ 322
a.C.) comparava os vicios a doencas (Ética a Nfcómaco III 7s); os Estoi
cos diziam que a arte de dominar as paixóes é terapia. - Notemos, po-
rém, que, para o Apostólo, o mal nao está apenas nos vicios moráis; ele
já existe quando alguém deturpa a verdade. Tal é o apreco que Sio Paulo
- e, com ele, o Cristianismo - dedica a Verdade, especialmente a Verdade
revelada por Deus ou ¿.Verdade da fé. Pode-se acrescentar que a ima
gem persistiu na literatura crista. Sim; no Apocalipse Sao Joáo verifica
que os adoradores da Besta sao portadores de úlcera maligna e pernicio
sa (cf.Ap 16,2).
Como se vé, os escritores sagrados sio veementes. - Sem dúvida,
em nossos dias muitos sao aqueles que nao créem ou professam Credos
diversos, com sinceridade e candura. NSo os julguemos. Importa, porém,
tomar confidencia do.enorme valor que, segundo o Novo Testamento,
tem a Palavra de Deus confiada aos Apostólos, dos quais Pedro é o Chefe
visCvel. Deturpar tal Palavra significa ameacar de gangrena e necrose a
comunidade fiel.
E.B.

337
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
ANO XXXIII - N? 363 - Agosto de 1992

No fntimo de Cristo:

Jesús sabia que era Deus?

Em slntese: A questáo da consciéncia psicológica de Jesús como


homem é freqüentemente colocada: Jesús, como homem, sabia que estava
unido a segunda Pessoa da SS. Trindade e subsistía por essa Pessoa? Ou
ignorava a sua identídade profunda? Ignorava também o desfecho de sua vi
da, como o ignoravam os Profetas do Antigo Testamento? - Estas questóes
tém suscitado longos estudos e refíexóes; a elas dedicou-se também a Co-
missáo Teológica Internacional, que, após atento exame dos textos do Novo
Testamento, respondeu-lhes em quatro Proposicdes. Estas váo abaixo apre~
sentadas e comentadas: afírmam em Jesús nítida consciéncia do que Ele
mesmo era, e da missSo que, como homem, Lhe competía realizar na térra.

Últimamente tém-se formulado perguntas a respeito do que Jesús,


como homem, sabia ou nao sabia. Assim, por exemplo, indaga-se: Jesús
sabia que era Deus?... Deus feito homem?... Sabia que Ele tinha urna mis-
sáo a cumprir como Salvador, e que daría a sua vida em resgate do gé
nero humano? Ou será que Jesús ignorou até o fim da vida a sua verda-
deira identidade e o alcance da tarefa que o Pai lhe assinalara? Ter-se-á
iludido, como os Profetas podiam iludir-se, a ponto de clamar desespe
rado no alto da Cruz: "Meu Deus, meu Oeus, por que me abandonaste?"
(Me 15,34; SI 22,1s)? Pensava Ele que o Reino de Deus viria plenamente
já na primeira geracáo de seus discípulos, quando na verdade a Igreja é
que continuarla a sua obra, na expectativa da consumacáo do Reino?

Para tais perguntas os teólogos tém procurado as devidas respos


tas, partindo de meticulosa análise dos escritos do Novo Testamento.
Estes, considerados segundo os parámetros da critica moderna, permi-
tem afirmar quatro proposites de grande valor para a solucáo do pro-
i

338
JESÚS SABIA QUE ERA DEUS?

blema, proposites elaboradas pela Comissáo Teológica Internacional1,


que as publicou em 19852. Ei-las:

1. PRIMEIRA PROPOSigÁO:
"ELE TINHA CONSCIÉNCIA DE SER DEUS".
Eis o texto oficial desta Proposicáo:

"A VIDA DE JESÚS ATESTA A CONSCIÉNCIA DA SUA


RELACAO FILIAL COM O PAI. O SEU COMPORTAMENTO E AS
SUAS PALAVRAS, QUE SAO OS DO "SERVIDOR" PERFEITO
IMPLICAM UMA AUTORIDADE QUE SUPERA A DOS ANTIGOS
PROFETAS E QUE PERTENCE A DEUS SO. JESÚS DERIVAVA
ESSA INCOMPARAVEL AUTORIDADE DA SUA SINGULAR RE
LACAO COM DEUS, QUE ELE CHAMAVA 'MEU PAP. ELE TI
NHA CONSCIÉNCIA DE SER O FILHO ÚNICO DE DEUS E
NESTE SENTIDO, DE SER ELE MESMO DEUS".

Esta Proposicáo afirma duas coisas:

1) Jesús tinha a consciéncia de ser Ele mesmo Deus e, por conse-


guinte,

2} Jesús exercia seu ministerio com incomparável autoridade, que


su perava a dos amigos Profetas e toca a Deus só.

Aprofundemos cada urna destas sentencas.

1) A consciéncia de ser Deus... A leitura dos Evangelhos eviden


cia com muita clareza que Jesús tratava Deus como Abbá (cf. Me 14,36),
ou seja, como pai em sentido muito (ntimo ou em sentido único. Por
isto Ele dizia a Madalena: "Subo a meu Pai e vosso Pai" (Jo 20,17); era,
pois, intransferfvel a sua relacáo com o Pai, a tal ponto que Ele afirmava:
"Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece O
Filho senáo o Pai, e ninguém conhece o Pai senáo o Filho e
aquele a quem o Filho O quiser revelar" (Mt 11, 27).

1A Comissño Teológica Internacional compóe-se de eminentes teólo


gos de varias partes do mundo, nomeados pelo Papa. Tem por objetivo estu-
dar as atuais questdes candentes de Teología, de modo que periódicamente
publica um documento relativo a algum problema do momento.
2Em PR 294/1986 foi publicado na íntegra, o texto da Comissáo Teoló
gica Internacional. Neste fascículo, tendo em vista o constante retorno do as-
sunto, sSo transcritas apenas as Proposites com os textos bíblicos que as
fundamentara.

339
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 363/1992

Quando Pedro confessou: "Tu és o Cristo (Messias), o Filho do Deus


vivo", Jesús logo observou: "Bem-aventurado és tu, Simáo, filho de Jo
ñas, porque nao foram a carne e o sangue <= o bom senso humano) que
to revelaram, mas o meu Pai, que está nos céus" (Mt 16,16s).

É de notar o uso enfático da expressáo "Eu sou" por parte de Je


sús. Faz eco ao "Eu sou" (Javé) com que Deus se revelou a Moisés (cf.
Ex 3,14). O Eu que falava e legislava soberanamente em Jesús, tinha a
mesma dignidade do Eu de Javé:

Jo 8, 28: "Quando tiverdes elevado o Filho do Homem, co-


nhecereis que Eu sou".

Jo 8, 57: "Em verdade, em verdade eu vos digo: antes que


Abraáo existisse, Eu sou".

Jo 13, 19: "Eu vo-lo digo agora, antes que acóntela, a fim
de que, quando acontecer, vos creíais que Eu sou".

Jo 8, 24: "Se nao crerdes que Eu sou, morrereis em vossos


pecados".

A fórmula Eu sou, além de fazer ressoar o nome de Javé revelado


em Ex 3, 14-16, evoca passagens do Antigo Testamento (na traducáo
grega dos LXX), em que "Eu sou" significa "Eu sou Deus, o Único Deus";
veja m-se

Is 43, 10: "Possais compreender que Eu sou; antes'de mim


nenhum Deus foi formado e, depois de mim, nao haverá ne-
nhum".

Is 41, 4: "Eu, Javé, sou o primeiro, e com os últimos ainda


serei o mesmo".

Is 48, 12s: "Ouve-me, Jaco, Israel, a quem chamei: Eu sou.


Sou o primeiro e sou também o último. A minha mSo fundou
a térra, a minha destra estendeu os céus".

2) Autoridade de Jesús... Em conseqüéncia, a autoridade que


Jesús atribula a si, é a do próprio Deus:

"Passaráo o céu e a térra. Minhas palavras, porém, nao


passaráo" (Me 13,31).
i

340
JESÚS SABIA QUE ERA DEUS?

A atitude dos homens em relagáo a Jesús decide a salvagáo eterna


dos mesmos:

"Eu vos digo: todo aquele que se declarar por mim diante
dos homens, o Filho do Homem também se declarará por ele
diante dos anjos de Deus; aquele, porém. que me houver rene
gado diante dos homens, será renegado diante dos anjos de
Deus" (Le 12, 8s; cf. Me 8, 38; Mt 10,32).

Para seguir Jesús, é preciso amá-lo mais do que qualquer bem


terreno:

"Aquele que ama pai ou máe mais do que a mim, nao é


digno de mim. E aquele que ama filho ou filha mais do que a
mim, nao é digno de mim... Aquele que acha a sua vida, per-
dé-la-á; mas quem perde a vida por causa de mim, a encontra
rá" (Mt 10, 37. 39).

Nao existe Mestre além de Jesús; cf. Mt 23,8.

c) Os primeiros cristáos sabiam... A Igreja nascente, desde os


seus primeiros anos, e nao em conseqüéncia de um desenvolví mentó
tardío, professava Jesús como Filho do Pai, igual ao Pai em perfeicáo;
veja-se, por exemplo, o hiño litúrgico citado por Sao Paulo na sua epís
tola aos Filipenses (escrita em 63 ou antes):

"Cristo tinha a condicáo divina; mas nao considerou o ser


igual a Deus como algo a que se apegasse ciosamente. Esva-
ziou-se a si mesmo, e assumiu a condicáo de servo, tornando-se
semelhante aos homens... até a morte, e morte de Cruz" (Fl 2,
6-8).

Particularmente significativas sao as "fórmulas de missáo": "Deus


enviou o seu próprio Filho" (Rm 8,3; Gl 4,4).

A filiacáo divina de Jesús está no centro da pregacáo dos Apostó


los, que a deviam entender como explicitacáo do apelativo Abbá (= Pai
muito caro) que Jesús dirigía ao Pai.

341
"PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 363/1992

II. SEGUNDA PROPOSICÁO:

JESÚS, COMO FILHO DE DEUS FEITO


HOMEM, SABIA TER SIDO ENVIADO PELO PAI
PARA DAR A PROPRIA VIDA EM FAVOR DOS HOMENS.

Eis o texto oficial:

"JESÚS SABIA QUAL ERA A FINALIDADE DA SUA MIS-


SÁO: ANUNCIAR O REINO DE DEUS E TORNÁ-LO PRESENTE
NA SUA PESSOA, NOS SEUS ATOS E ÑAS SUAS PALAVRAS,
A FIM DE QUE O MUNDO FOSSE RECONCILIADO COM DEUS
E RENOVADO. LIVREMENTE ELE ACEITOU A VONTADE DO
PAI: DAR A PRÓPRIA VIDA PELA SALVAQÁO DE TODOS OS
HOMENS; ELE SABIA TER SIDO ENVIADO PELO PAI PARA
SERVIR E DAR A PRÓPRIA VIDA 'EM FAVOR DE MUITOS' (Me
14, 24)".

Esta Proposicáo continua os dizeres da anterior: Jesús, além de co-


nhecer sua ¡dentidade transcendental, sabia que, como homem, viera ao
mundo para entregar sua vida pela salvacáo de todos os homens.

Donde se depreende isto?

Sao muitos os dizeres em que Jesús exprime o sentido de sua mis-


sáo:

Me 10,45: "O Filho do Homem nao veio para ser servido,


mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos (= to
dos)".

Ele veio "chamar os pecadores" (Me 2,17), "procurar e salvar o que


estava perdido" {Le 19,10), veio "trazer o fogo sobre a térra" {Le 12,49).

Segundo Sao Joáo, Jesús sabe que "veio" do Pai (Jo 5,43; 8,12.42;
16,28). A sua missáo nao Ihe foi imposta por forca; Ele a abraca espontá
neamente, a ponto de fazer déla o seu alimento (Jo 4,34), a única coisa
que Ihe interessa (Jo 5,30; 6,38).

Afirmando que veio do Pai (cf. Me 2,17; Le 10,16), Jesús implícita


mente professava a sua preexistencia; sim, antes de existir como homem
no mundo. Ele existia junto a Deus, e era Deus, como diz Sao Joáo em
Jo 1,1.18.

A sua missáo redentora, Jesús quis exerce-la em total despoja-


mento de si e de ¡nteresses particulares; quis, sin, assemelhar-se aos
i

342
JESÚS SABIA QUE ERA DEUS?

homens em tudo, exceto no pecado: obedeceu até a morte (cf. Fl 2,6-9;


Hb 5,18), enfrentou as tentagóes que os homens sofrem (Mt 4,1-11; Le
4,1-13). Nao quis recorrer ás legióes angélicas que, na hora do perigo
mortal. Ele poderla obter {cf. Mt 26,53). Quis, como homem, "crescer em
sabedoria, idade e graca" (Le 2,52).

Os primeiros cristáos compreenderam, sem demora, que a filiacáo


divina de Cristo tinha um sentido salvífico. É o que se le ñas epístolas de
Sao Paulo: o aniquilamento do Filho (Fl 2,7) tem em mira o nosso reer-
guimento: tornar-nos justos (2Cor 5,21), ricos (2Cor8,9)1, filhos mediante
o Espirito Santo (Rm 8,14s; Gl 4,5s); veja-se especialmente:

Hb 2,4s: "Já que os filhos tém em comum o sangue e a car


ne, também ele participou igualmente da mesma condicáo, a fim
de, por sua morte, reduzir á impotencia aquele que detinha o
poder da morte, isto é, o diabo. e libertar os que, por meio da
morte, passavam a vida inteira numa situacáo de escravos".

III. TERCEIRA PROPOSICÁO:

JESÚS QUIS FUNDAR A IGREJA PARA CONTINUAR


PELOS SECULOS A SUA MISSÁO SALVÍFICA.
Eis o texto oficial:

"PARA REALIZAR A SUA MISSÁO SALVÍFICA, JESÚS


QUIS REUNIR OS HOMEMS EM VISTA DO REINO E CONVO-
CA-LOS EM TORNO DE SI. EM CONSEQÜÉNCIA. JESÚS REA-
LIZOU ATOS CONCRETOS QUE, TOMADOS EM SEU CON
JUNTO, SO PODEM SER INTERPRETADOS COMO A PREPA-
RACAO DA IGREJA QUE HAVIA DE SER CONSTITUÍDA DEFI
NITIVAMENTE POR OCASIÁO DOS ACONTECIMENTOS DA
PASCOA E DE PENTECOSTÉS. É. POR CONSEGUINTE, NE-
CESSÁRIO AFIRMAR QUE JESÚS QUIS FUNDAR A IGREJA"

1"Aquele que nao conhecera o pecado, Deus o fez pecado por causa
de nos, a fím de que, por ele, nos tomemos justica de Deus" (2Cor 5,21).

"Conheceis a generosidade de Nosso Senhor Jesús Cristo, que por


causa de vos se fez pobre, embora fosse rico, para vos enriquecer com a sua
pobreza" (2Cor 8,9).

343
8 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 363/1992

Esta Proposicáo complementa as anteriores: Jesús nao somente


sabia que era Deus Filho feito homem (1- Proposicáo), vindo ao mundo
para desempenhar uma missáo salvrfica em favor de todos os homens
(2- Proposito); mas também, para desempenhar a sua obra redentora
até o fim dos séculos, quis instituir a sua Igreja (3? Proposicáo).

Nao se pode dizer que Jesús anunciou o fim do mundo para breve
e, por isto, nao pensou em fundar a Igreja. Muito ao contrario: diversos
textos do Evangelho incutem a longa duracáo da obra iniciada por Jesús;
tenhamos em vista:

Mt 13,24-30. 36-43: a parábola do joio e do trigo aceña ¿ pre-


senca de bons e maus no campo do semeador e á paciencia ne-
cessária para aguardar o tempo da messe ou o fim da historia
universal.

As mesmas concep^es sao apresentadas mediante a parábola do


grao de mostarda que cresce lentamente a ponto de tornar-se grande ár-
vore (Mt 13,31 s), a parábola do fermento que, lancado á massa, faz que
ela tome grande volume (Mt 13,33), a parábola da rede que traz á térra
peixes bons e maus, dos quais se fará a triagem (Mt 13,47-49).

Em vista da duracáo de sua obra, Jesús quis convocar os discípu


los, que Ele chamava "pequeño rebanho" (Le 12,32), rebanho do qual Ele
era o pastor (Me 14,27; Jo 10,1-29; Mt 10,16). A convocacáo é apresenta-
da sob a imagem de um chamado para o banquete de nupcias (Le
14,16-24; Me 2,19). Ela dá origem a uma nova familia, da qual Deus
mesmo é o Pai e na qual todos sao irmáos {Mt 23A" Me 3,34 k Os discí
pulos de Jesús constituem a cidade em cima da montanha, visfvel ao
longe {Mt 5,14).

Essa familia convocada ou Convocacáo (Ekklesfa = Igreja) é por


Jesús dotada de uma estrutura que deve garantir a sua boa ordem até
o fim dos tempos. Assim Jesús escolheu os Doze (Me 3,14-19; Mt 10,1-4;
Le 6,12-16), que Ele instruiu e preparou assiduamente para a missáo fu
tura; deu-lhes por Chefe o Apostólo Pedro (Mt 16,16-19; Le 22,31 s; Jo
21,15-17). Além dos doze Apostólos, Jesús chamou 72 discípulos (Le 10,
1-12), que enviou também a pregar. O número 12 é o das tribos de Israel,
que devem ser convocadas, ao passo que 72 (ou 70) é, na Biblia, o nú
mero tradicional das nacóes pagas (cf. Gn 10, 1-32); por conseguinte, o
povo de Deus, inaugurado por Jesús, deve constar de judeus e pagaos
ou, com outras palavras, é aberto a todos os homens (cf. Mt 8,11s).

A Igreja tem também a sua oracáo própria, que Jesús Ihe ensi-
nou: o Pai Nosso {cf. Le 11,2-4). Ela recebeu principalmente o rito da

344
JESÚS SABIA QUE ERA DEUS?

Ceia, centro da Nova Alianza (Le 22,20) e da nova comunidade reunida


em torno da fracáo do pao (Le 22,19).

Aqueles que Jesús convocou, Ele ensinou outrossim um novo mo


do de agir ou urna Ética mais perfeita, diversa da dos antigos escribas
e fariseus (Mt 5,21-48), diversa da dos pagaos (Mt 5,47) e diversa da dos
grandes deste mundo (Le 22,25-27).

No Evangelho segundo Sao Joáo, os discípulos sao simbolizados


pelos ramos da videira que é Cristo, sem o qual nao é possfvel dar fruto
(Jo 15,1-6). É a livre doacáo de Jesús em prol dos seus amigos (Jo 10,18;
15,13) que fundamenta tal comunháo de vida. Os eventos de Páscoa fi-
cam sendo a fonte da Igreja (Jo 19,34); Jesús dizia: "Eu, quando for
exaltado ácima da térra, atrairei todos a mim" (Jo 12,32).

Os primeiros cristáos entenderam o designio de Cristo, professan-


do a conviecáo de que a Igreja é inseparável de Cristo; Ele é a Cabeca do
Corpo que é a Igreja: 1Cor 12,27; 12,12; Cl 1,18; 3,15; Ef 1,22s...

Vé-se, pois, que a historia do Cristianismo se funda sobre a inten-


cáo e a vontade, de Jesús, de fundar a sua Igreja.

IV. QUARTA PROPOSICÁO:

A CONSCIÉNCIA DE CRISTO, SALVADOR DE TODOS


OS HOMENS, IMPLICA EM JESÚS O AMOR
A CADA SER HUMANO.

Eis o texto oficial:

"A CONSCIÉNCIA QUE CRISTO TEM, DE SER ENVIADO


PELO PAI PARA A SALVACÁO DO MUNDO E PARA A CONVO-
CACÁO DE TODOS OS HOMENS NO POVO DE DEUS, IMPLI
CA, DE MODO MISTERIOSO, O AMOR A TODOS OS HOMENS.
DE TAL MODO QUE TODOS PODEMOS DIZER: 'O FILHO DE
DEUS.ME AMOU E SE ENTREGOU POR MIM' (GL 2,20)".

Esta Proposito completa as anteriores: Jesús sabia que era Deus


(1? Proposicáo);... sabia que, como homem, tinha a missio de salvar to
dos os homens mediante a sua morte (2- Proposicáo); Jesús quis fundar
e estruturar a sua Igreja para perpetuar a sua obra até o fim dos séculos
(3- Proposicáo); Jesús amou a cada um dos homens pessoalmente, e nao
globalmente (4? Proposicáo).

345
JO "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 3b3; 1992

Esta última verdade se deduz do zelo de Jesús por todo tipo de ser
humano: os perdidos (Le 15,3-10 e 11-32), os publícanos e os pecadores
(Me 2,15; 7,36-50; Mt 9,1-8; Le 15,1s), os homens e as mulheres (Lc8,2s;
7,11-17; 13,10-17), os doentes (Me 1,29-34), os possessos (Me 1,21-28), os
aflitos (Le 6,21 b), os oprimidos (Mt 11,28).» No dia do juízo universal, será
manifestado até que ponto Jesús se terá identificado com os enfermos,
os famintos, os desnudos, os encarcerados... (Mt 25,31 -46).

Jesús é o Bom Pastor, que dá a vida por suas ovelhas (Jo 10,11);
Ele as conhece (Jo 10,14) e chama cada urna pelo seu nome (Jo 10,3).

Por isto Sao Paulo pode dizer: "Vivo na fé do Filho de Deus, que
me amou e se entregou por m¡m"(GI 2,20).

A respeito dos irmáos de consciéncia fraca, sujeita a escándalos


sem fundamento, escrevia ainda o Apostólo: "Nao fagas perecer por cau
sa do teu alimento alguém pelo qual Cristo morreu" (Rm 14,15; cf.
1Cor8,11;2Cor5,14s).

Esse misterio do amor gratuito e pessoal de Oeus se encontra no


ámago da fé crista: Deus amou a todos e a cada um dos homens de mo
do a dar o seu próprio Filho (Jo 3,16). "Foi assim que conhecemos o
amor: Ele (isto é. Cristo) entregou a sua vida por nos" (1 Jo 3,16).

Precisamente por ter reconhecido esse amor pessoal por cada um,
muitos cristáos se dedicaram ao amor aos mais pobres sem discrimina-
c,áo. E continuam a testemunhar esse amor, que sabe ver Jesús em cada
um "destes meus irmáos menores" (Mt 25,40). "Trata-se de cada no-
mem, porque cada um foi incluido no misterio da Redencáo, e.com cada
um Cristo se uniu para sempre através deste misterio" (Joáo Paulo II,
ene. Redemptor Hominis n? 13).

V. CONCLUSÁO

A questáo da consciéncia de Jesús pode ser discutida de maneira


sutil e complexa com o auxilio da psicologia do consciente, do subcons
ciente e do inconsciente, sem que se chegue a resultado satisfatório. Na
verdade, se cada ser humano tem dificuldade para conhecer exatamente
o que Ihe vai no próprio Intimo e mais dificuldade encontra para conhe
cer o que vai no Intimo de seus contemporáneos, é claro que mais difi-
culdades ainda terá para dizer o que havia no Intimo de Jesús Cristo, que
viveu sua vida mortal há quase dois mil anos.

Por isto verifica-se que é mais sabio examinar atentamente as Es


crituras, que permítem lancar um olhar lúcido sobre aquilo que Jesús sa-
i

346
JESÚS SABIA QUE ERA DEUS? 11

bia a respeito de si mesmo. Deste exame resultam as quatro Proposi?6es


que acabamos de explanar:

1) Jesús sabia que era Deus;

2) Jesús sabia que, feito homem, tinha na térra a missáo de


se entregar pela salvagáo de todos os homens;

3) a fim de assegurar o bom desempenho de sua missáo,


Jesús quis fundar a sua Igreja, que Ele entregou aos Apostólos
e a Pedro, cujos sucessores garantem a incolumidade dessa
obra até o fim dos séculos;

4) ao entregar-se por todos, Jesús viu e amou cada um dos


membros da familia humana, desde os mais aquinhoados até os
mais simples e sofredores.

"GRABAS SEJAM DADAS A DEUS PELO SEU INEFÁVEL


DOM!"

(2Cor9,15)

(Continuagáo da pág. 384)

Ora tais concepcSes sao altamente fantasiosas e gratuitas. A preexis


tencia das almas nao pode ser experimentalmente provada; é contraditada
nao só pela fé católica, mas tambémpela filosofía aristotélico-tomista, que tem
a alma na conta de principio vital do corpo humano; constituí com este um sú-
jeito único de atividades; por conseguíate, nao preexiste ao corpo, nem va-
gueia tora do corpo enquanto vive na Térra. A morte é, sim, a separacáo de
corpo e alma; esta, sendo espiritual e por si ¡mortal, subsiste sem corpo no
além, com plena lucidez e consciéncia, colhendo os frutos da semeadura ter
restre. No ñm dos tempos, a fé ensina que Deus ressuscitará a carne, recom-
pondo assim o ser humano, que nao é um arijo encamado, mas é natural
mente psicossomátíco.

Infelizmente o livro de 'Tía Gisa" carece de base fílosófíco-teológica e


nüo se coaduna com os principios da fé católica, por mais gracioso e delicado
que seja.

E.B.

347
A revelado de um coragáo:

Paulo VI no Crepúsculo da Vida

Eis abaixo as refíexóes de Paulo VI escritas provavelmente no fím de


um retiro espiritual, depois da redagáo de seu testamento. Foram dadas ao
conhecimento do público por D. Macchi, Secretario particular do Pontífice, por
ocasiño do primeiro aniversario de sua morte, ou seja, aos 6 de agosto de
1979.

Revelara um coragáo ardente, que no fím da vida terrestre faz um re-


trospecto e urna prospectiva.

"O tempo de minha partida se aproxima" (2Tm 4,6). "Eu sei que,
para mim, aproxima-se o momento da separacáo" (2Pd 1,14). "É o fim, o
fim chega" (Ez 7,2).

Esta evidencia da precariedade da vida temporal, de seu termo ine-


vitável e cada vez mais próximo se impóe. Nao é sensato fechar os olhos
diante dessa sorte inelutável, diante da desastrosa ruina que ela com
porta, diante da misteriosa metamorfose que se realizará no meu ser,
diante do que se prepara.

Vejo que minha reflexáo se torna, antes de tudo, extremamente


pessoal: Quem sou eu? Que resta de mim? Para onde vou? E, portanto,
extremamente moral: Que devo fazer? Quais sao as minhas responsabili
dades? E vejo também como sao vas as esperanzas relativas a vida pre
sente. Para essa vida há deveres e expectativas momentáneas. As espe
rarlas sao para o que vem depois déla.

Esta lámpada em minhas máos...

E vejo que esta suprema considerado nao se pode fazer em um


monólogo subjetivo, em um drama no qual a obscuridade sobre o desti-
t

348
PAULO VI NO CREPÚSCULO DA VIDA 13

no humano se torna opaca, enquanto cresce a luz. Ela deve ser feita em
diálogo com a realidade divina, de onde venho e para onde vou ¡ndiscuti-
velmente, com a lámpada que o Cristo coloca em nossas máos para a
grande passagem. Senhor, eu creio.

Aproxima-se a hora. Tenho esse pressentimento há algum tempo.


Mais do que a fadiga física, pronta a fraquejar a todo instante, o drama de
minhas responsabilidades parece sugerir, como solugáo providencial,
minha partida deste mundo, a fim de que a Providencia possa manifes-
tar-se e conduzir a Igreja a urna sorte melhor. A Providencia tem tantos
modos de intervir no terrtvel jogo das circunstancias que envolvem mi
nha pobre pessoa! Mas parece bem claro que devo ser chamado a outra
vida para ser substituido por um outro mais válido, que nao esteja preso
pelas dificuldades presentes. "Sou um servo inútil".

Tudo era dom, tudo era belo!

"Caminhai enquanto tendes a luz da vida" (Jo 12,35).

Sim, eu desejaria muito estar na luz, quando chegar o fim. Geral-


mente, se nao é obscurecido pela enfermidade, o fim da vida temporal
tem sua obscura claridade, a das recordares, táo belas, táo atraentes,
táo nostálgicas, que nos dizem táo claramente que sao um passado que
nao voltará mais, que se riem de nos se nos agarramos desesperada
mente a elas. Há urna luz que denuncia a ilusáo de urna vida fundada so
bre bens efémeros e esperanzas engañadoras. Há a luz dos remorsos
obscuros e agora ¡neficazes. Há a luz da sabedoria, que entrevé final
mente a vaidade das coisas e o valor das virtudes que deviam caracterizar
o decorrer da vida. "Vaidade das vaidades". Quanto a mim, eu desejaria
ter, no fim, urna visáo recapituladora e sabia do mundo e da vida. Creio
que essa visáo deveria traduzir-se pela gratidáo. Tudo era dom, tudo era
graca! E como era bela a paisagem que atravessamos! Muito bela, táo
bela que nos deixamos atrair e encantar por ela, quando ela deveria ser
para nos um sinal e um convite.

Cantar esta vida na gloria

Mas, de qualquer modo, parece que nosso adeus deve exprimir-se


em um grande e simples ato de reconhecimentó e mesmo de gratidáo.
Apesar de suas dificuldades, seus misterios obscuros, seus sofrimentos,
sua fatal caducidade, esta vida mortal é algo de muito belo, um prodigio
sempre original e emocionante, um acontecimento que merece ser can
tado na alegría e na gloria: a vida, a vida do homem.

349
14 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 363/1992

Nao menos digno de alegre maravilhamento é o quadro que cerca


a vida do homem. Este mundo imenso, misterioso, magnífico, este uni
verso com mil potencialidades, com mil leis, de mil belezas, de mil pro-
fundezas. Que imagem encantadora!

Que infinita prodigalidade! Diante desse olhar retrospectivo, inva


de-nos o pesar de nao ter admirado suficientemente esse quadro, de nao
ter contemplado as maravilhas da natureza, as surpreendentes riquezas
do macrocosmo e do microcosmo, como elas o mereciam!

Por que nao perscrutei, explorei, admirei suficientemente o quadro


no qual a vida se desenrola? Distracáo imperdoável! Que repreensível
superficialidade!

Devo reconhecer, ao menos no último momento, que este mundo,


que "foi feito por Ele", é maravilhoso. Sim, eu te saúdo e te canto no úl
timo instante, com imensa admiracáo, com gratidáo. Tudo é dom. Por
detrás da vida, da natureza, do universo, há a sabedoria, e, portanto, eu o
digo nesse luminoso adeus (porque sois Vos que no-lo revelastes, Se-*
nhor), há o Amor.

A imagem deste mundo é o projeto, aínda incompreensível na sua


maior parte, de um Deus Criador, que chamamos "Nosso Pai, que estáis
nos céus". Obrigado, meu Deus, obrigado; e gloria a Vos, ó Pai! Lancan-
do este último olhar, tenho consciéncia de que esse cenário fascinante e
misterioso é um reflexo da primeira e única luz. É urna revelacáo natural
de urna riqueza e de urna beleza extraordinarias, que devia ser urna ¡ni-
ciacáo, um preludio, urna antecipacáo, um convite a olhar o sol invislvel,
que "ninguém jamáis viu; o Filho único, que está no seio do, Pai, no-lo
revelou"(Jo1,18).

Pobre vida, que clama por tanta misericordia!

Mas agora, nesse crepúsculo revelador, para além desse último


ocaso, presságio da aurora eterna, um outro pensamento me preocupa: a
sede de aproveitar da décima primeira hora, de fazer algo de importante,
antes que seja muito tarde. Como reparar as ácóes mal feitas? Como re
cuperar o tempo perdido? Como discernir o "único necessário" nessa úl
tima possibilidade de escolha?

Depois da acáo de gracas, o arrependimento. Depois do canto da


gloria ao Deus Criador e Pai, o apelo á misericordia e ao perdáo. Que eu
ao menos saiba apelar por tua bondade, confessar minha falta e, ao
mesmo tempo, reconhecer tua infinita capacidade de me salvar. "Senhor,
tem piedade; ó Cristo, tem piedade; Senhor, tem piedade".
i

350
PAULO VI NO CREPÚSCULO DA VIDA 1j>

Aqui se me apresenta a pobre historia de rninha vida. Vejo-a, de


um lado, tecida de ¡números e extraordinarios beneficios provenientes de
urna indizfvel bondade (é esta que espero contemplar um dia e "cantar
eternamente"); e, de outro lado, atravessada por urna trama de acóes m¡-
seráveis, que prefiro nao lembrar, de tal modo sao elas defeituosas, im-
perfeitas, erradas, estúpidas, ridiculas. "Ó Deus, tu conheces a minha es-
tultfcie" (SI 68,6). Pobre vida miserável, estreita, mesquinha, que clama
por tanta paciencia, reparacáo, por infinita misericordia! S. Agostinho diz,
em sfntese que me parece sempre insuperável: "miseria e misericordia".
A miseria é minha; a misericordia é de Deus. Que eu possa, ao menos
agora, honrar o que tu és, Deus da infinita bondade, invocando, aceitan
do, celebrando a tua doce misericordia.

Fazer alegremente tudo o que queres de mim,


mesmo se isso me custe a vida

E, por fim, um ato de boa vontade: nao olhar mais para tras, mas
fazer de boa vontade, simplesmente, humildemente, fortemente, o dever
indicado petas circunstancias em que me encontró, como sendo a tua
vontade.
V

Fazer logo e bem, alegremente, tudo o que queres de mim agora,


mesmo se isso ultrapasse ¡mensamente as minhas forcas, mesmo se me
custe a vida, finalmente, nessa última hora.

Inclino a cabera e elevo o meu coragáo. Eu me humilho e te exalto,


a Ti, 6 Deus, "cuja natureza é bondade" (S. Leáo). Permite que, nessa úl
tima vigilia, eu te preste homenagem, a Ti, Deus vivo e verdadeiro, que
serás amanhá o meu juiz. Permite que eu te dé o louvor que mais dese-
jas, que te dé o nome que preferes: Pai.

Diante da morte, mestra da filosofía da vida, pensó que, para mim,


como para todos os que tiveram semelhante felicidade, o acontecimento
mais importante dentre todos foi o encontró com o Cristo, que é vida.
Tudo deveria ser aqui meditado de novo, com a ciaridade reveladora que
a luz da morte dá a esse encontró. "De que, com efeito, nos teria válido
nascer se nao para sermos resgatados?" (Precónio da Vigilia de Páscoa).

Essa descoberta do canto pascal é o criterio de tudo que tem rela-


gáo com a vida humana, com seu verdadeiro e único destino, que só tem
sentido no Cristo. "Ó maravilhosa atencáo de teu amor por nos!" Mara-
vilha das maravilhas, o misterio de nossa vida no Cristo. Aqui a fé, a es-
pe ranea, o amor cantam o nascimento e celebram a morte do homem. Eu
creio, espero e amo, em teu nome, Senhor.

351
_16 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 363/1992

A mais ¡limitada confianza

E, depois, pergunto-me também: por que me chamaste? Por que


me escolheste, a mim táo inepto, táo reticente, táo pobre de espirito e de
coracáo? Eu o sei: "Deus escolheu o que é loucura no mundo... para que
criatura alguma possa orgulhar-se diante de Deus" (1Cor 1,27-28). O fato
de eu ter sido escolhido revela duas coisas: minha insignificancia e tua l¡-
berdade, misericordiosa e poderosa. Ela nao se deteve diante das minhas
infidelidades, minha miseria, a possibilidade de eu te trair—

Ponho-me a teu servico, ao servido de teu amor. Eis-me num esta


do de sublimacáo que nao me permite mais recair em minha instintiva
psicología de pobre homem senáo para me lembrar a realidade de meu
ser e para reagir, com a mais ilimitada confianca, dando a devida res-
posta: "Sim, tu sabes que te amo".

Um estado de tensáo me invade e fixa em um ato permanente de


absoluta fidelidade a minha vontade de servir por amor. "Ele amou até o
fim"; "nao permitas que eu seja separado de ti". O crepúsculo da vida
presente, que eu desejaria tranquilo e sereno, deve, ao contrario, ser um
esforco crescente de vigilancia, de dom de si, de espera. É difícil, mas as-
sim é que a morte sela o tempo da peregrinagáo terrestre e langa urna
ponte para o grande encontró com o Cristo na vida eterna. Reúno minhas
últimas forgas e nao retomo o dom total que fiz, pensando em Ti: "Tudo
está consumado".

Um dom de amor á Igreja

Eu te sigo e vejo que nao posso deixar discretamente o cenário


deste mundo. Mil lagos me ligam á familia humana, b comunidade que é
a Igreja. Esses lagos se romperlo por si mesmos, mas nao posso esque-
cer que eles pedem de minha parte um supremo dever. "Piedosa morte".
Terei presente ao espfrito o modo com que Jesús despediu-se do cenarlo
temporal deste mundo... A solidáo de sua morte foi cheia de nossa pre-
senca, foi cheia de amor...

Pego, portanto, ao Senhor, que me dé a graca de fazer de minha


morte próxima um dom de amor á Igreja. Posso dizer que sempre a
amei. O amor da Igreja é que me tirou do meu egoísmo estreito e selva-
' gem e me impeliu a servi-la. Parece-me que foi por ela e por nada mais
que vivi. Mas eu desejaria ter a forga de Iho dizer, como urna confidencia
do coragáo, que se tem a forga de fazer somente no último instante da vi-
da. Desejaria, enfim, abraca-la toda inteira, com sua historia, seu plano
divino, seu destino final, com toda a sua complexidade unitaria, sua con-
i

352
PAULO VI NO CREPÚSCULO DA VIDA 17

sisténcia humana e ¡mperfeita, suas desgranas e seus sofrimentos, suas


fraquezas e as miserias de tantos de seus filhos, seus aspectos menos
simpáticos e seu esforco constante de fidelidade, de amor, de perfeicáo e
de caridade, ela que é o Corpo místico do Cristo.

Eu desejaria abracá-la, saudá-la, amá-la em todos os que a com-


póem, em todos os bispos e sacerdotes que a assistem e a guiam, em to
das as almas que déla vivem e sao sua gloria. Eu desejaria abengoá-la.
Eis por que nao a deixo, nao saio déla, mas me uno e me confundo ainda
mais e melhor com ela. A morte é urna progressáo na comunháo dos
santos. É preciso lembrar aqui a ora?áo final de Jesús (Jo 17): o Pai e os
meus sao um. Diante do mal que há na térra e a possibilidade de eles
serem salvos, na consciéncia suprema de que era minha missáo cha
ma-los, revelar-lhes a verdade, fazer deles filhos de Deus, irmáos entre
si, amá-los com o amor que está em Deus; com o amor que de Deus veio
á humanidade pelo Cristo, com o ministerio da Igreja que me é confiado;
com o amor que foi comunicado: Homens, compreendei-me; eu vos amo
a todos na efusáo do Espirito Santo, da qual, eu, ministro, vos devia fazer
participar. É assim que eu vos olho, vos saúdo, vos abencoo a todos e,
mais cordiatmente, os que me sois mais próximos. A paz esteja convosco.

E que direi á Igreja, á qual devo tudo e que foi minha? As béncáos
de Deus estejam sobre ti; tem consciéncia da tua natureza e da tua mis
sáo; tem consciéncia das verdadeiras e profundas necessidades da hu
manidade e caminha na pobreza, isto é, com liberdade, for?a e amor para
o Cristo.

Amém. O Senhor vem. Amém.

OPÚSCULOS PARA ESCLARECER A FÉ

POR QUE NAO SOU PROTESTANTE? - POR QUE NAO SOU ESPI
RITA? - POR QUE NAO SOU ATEU? - POR QUE SOU CATÓLICO ? - O
FENÓMENO RELIGIOSO: SIM OU NAO? - JESÚS. DEUS E HOMEM? - A
RESSURREICÁO DE JESÚS: HISTORIA OU MITO? - OS MILAGRES DE
JESÚS: FICCÁO OU REAUDADE? - JESÚS SABIA QUE ERA DEUS? -
POR QUE NAO SOU MACOM? - POR QUE NAO SOU ROSA-CRUZ? - OS
NOVOS MOVIMENTOS RELIGIOSOS.

Pedidos sejam feitos a ESCOLA "MATER ECCLESIAE"-CURSOS


POR CORRESPONDENCIA, Caixa Postal 1362,20001 -970 - Rio (RJ).

353
Típicamente humana:

A Capacídade de Maravilhar-se

Em símese: O presente artigo parte da verificagáo de Aristóteles se


gundo a qual o principio de toda filosofía (sabedoria) é o thaumazeinou ad
mirarse. Recorrendo a consideracóes psicológicas e dados da fé, talsenten-
ga é desenvolvida ñas páginas seguintes. Afínal, o maravilhar-se nada mais 6
do que o descubrir que algo de maior e mais nobre cerca o homem e o inter
pela, chamando-o para um diálogo que leva á intuigáo do Infinito. Sem essa
descoberta e sem diálogo subseqüente, a vida humana carece de sentido ou
defínha sob o peso das coisas passageiras.

A capaddade de maravilhar-se é a de reconhecer valores novos,


inesperados e preciosos, que ultrapassam as categorías habituáis do co-
nhecimento deste ou daquele individuo. O maravilhar-se supóe um certo
misterio ou algo de nao compreendido, que leva muitas vezes o homem
a procurar a causa do fenómeno; assim, por exemplo, um relámpago po
de parecer ao observador algo de inesperado, misterioso, cuja causa ele
se póe a procurar; o arco-iris também... Por isto Aristóteles dizia que o
principio de toda Filosofía é o thaumázein ou o admirar-se; com efeito,
observando a si e a natureza que o cerca, o homem concebe urna serie de
interrogares inspiradas pela surpresa e resolve ir ao encalco de respos-
tas que Ihe expliquem o misterio da sua vida e do mundo que o cerca; as
sim elabora o homem seu sistema filosófico ou sua cosmovisáo sapien
cial. A Filosofía procede precisamente de certas indagacóes básicas:
"Quem sou? Donde venho? Para onde vou? Qual o sentido do mundo
que me cerca? Existe urna ordem nesse conjunto? Quem a concebeu?
Quem é o autor de tudo o que vejo? Ou nao existe autor nenhum? O aca
so seria suficiente explicagáo?"

A fé supóe e suscita também o maravilhar-se. A descoberta dos


vestigios de Deus no mundo e na Palavra Revelada desperta admiracáo e
i

354
ACAPACIDADE DE MARAVILHAR-SE 1!9

sur presa, e a penetrarlo do misterio de Deus nao se faz sem o cresci-


mento constante da admiragáo de Deus e de seus designios.

Dada a importancia do marav¡lhar-se, procuraremos refletir sobre


esta atitude, considerando seu papel na existencia do homem e no mun
do de hoje.

1. Maravilhar-se: significado e dificuldades

1.1. Significado

O maravilhar-se é, cortamente, urna das características das crian-


fas; tudo para elas é surpreendente e suscita curiosidade. Mas é também
nota tfpica do espirito de infancia de que fala o Evangelho (cf. Mt 18,3s).
Ainda é de notar que o maravilhar-se também existe nos adultos e vem a
ser precisamente urna das causas do dinamismo do ser humano; é urna
dimensáo essencial do homem, dimensáo sem a qual a pessoa se degra
da e prostra. O ateu Jean Camus referia-se a "essas duas sedes que nao é
possfvel contornar sem que a pessoa se resseque: a sede de amar e a de
admirar" (L'Eté. Paris, N.R.F., p. 156).

Nao obstante, o espirito admirativo é hoje em dia dificultado ou


sufocado por tres traeos da vida contemporánea, que tornam o homem
critico ao excesso, cético, frustrado.»

1.2. O espirito crítico do dentista

Sem dúvida, a metodología científica, muito cultivada em nossos


tempos, aguca e justifica o desejo de tudo verificar, testar e comprovar.
Toda ciencia é urna tentativa de se aproximar da verdade; contudo o
cientista sabe que está sujeito a imprecisóes e perspectivas parciais; dat
ser-lhe legítima e necessária a crítica. Esta, porém, tende a afetar todas as
atitudes do sujeito, sem que este se dé conta disto. A crítica entáo deixa
de ser um método para tornar-se urna atitude permanente, atitude para a
qual somente a desconfianza e a suspeita parecem inteligentes. A pessoa
assim afetada caí no negativismo e na amargura. De tanto derramar áci
do sobre todas as coisas, verifica que nao Ihe resta mais nada.

Pois bem. Nao se pode condenar o espirito crítico vigente na área


das ciencias e em outras paralelas. O homem contemporáneo é mais crí
tico do que seus antepassados. Estes parecem hoje ter sido, de certo mo
do, fatalistas, dispostos a aceitar mais fácilmente a realidade com suas
limitacóes e tragedias. Os amigos sabiam que nao podiam mudar muita

355
JO "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 363/1992

coisa, ao passo que em nossos días, com os recursos da ciencia e da téc


nica, o homem tem consciéncia de poder intervlr para melhor no curso
das coisas. Estas possibilidades de ordem técnica nos tornam mais exi
gentes, mais empreendedores e eficientes na luta contra os flagelos e na
organizado da solidariedade entre nos. - Isto tudo é muito bom; contu-
do, como dito, faz-nos correr o risco de nos tornar constantemente insa-
tisfeitos, portadores de um sentlmento de frustracáo e injustica.

Por isto o senso crítico de nossa geracáo precisa, mais do que nun
ca, de ser temperado pelo senso de surpresa e admiracáo. Enquanto a
critica nos mantém fríos, distantes, descomprometidos, indiferentes, tai-
vez por motivos subjetivos e preconceituosos, a admiracáo implica acó-
Ihida, interesse, disponibilidades

1.3. O espirito critico diante dos noticiarios

Outra fonte do desgaste da nossa capacidade de admirar sao os ca-


nais de informagáo que nos interpelam diariamente. Sabe-se que nao
raro transmitem noticias manipuladas, tendenciosas, deformadas... Mais:
enfatizam mais o mal do que o bem, pois é precisamente o mal trágico e
escandaloso que causa impacto nos ouvintes.

Com efeito. Mesmo que nao caia no masoquismo, o ser humano é


mais fácilmente ¡mpressionado pelo mal do que pelo bem, pelos desas
tres mais do que pelos éxitos. O mal é geralmente mais perceptível, mais
violento, ao passo que o bem costuma proceder em ritmo brando, se
creto e humilde, que nao atrai o olhar, nao motiva o repórter ou o entre-
vistador dos meios de comunicagáo social. Sonriente quem quer'ultrapas-
sar a superficie da realidade, percebe o bem latente; este é como a lenta
ascensáo da seiva vital, ab passo que o mal é como um tiro de revólver. O
bem constrói; o mal destrói; ora requer-se muito mais tempo para edifi
car do que para abater. Estes fatos sao acentuados por urna atitude inata
do intelecto humano; para que algo nos pareca bem sucedido, somos in
clinados a exigir sucesso total, ao passo que urna pequeña brecha ou fa
ina nos dá a ¡mpressüo de derrota. Alias, com razio ensina o axioma filo
sófico: Bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu. O
Bem decorre da convergencia de todos os fatores, ao passo que o mal se
dá quando falha um só.

Verifica-se, pois, que o tipo de informacóes hoje recebidas pelas


familias e os individuos justifica certa atitude crítica, meio-cética e sus-
peitosa. Todavia é preciso nao exagerar. Nao se requer que fechemos os
olhos ao mal, mas é mister que as pessoas saibam fazer o equilibrio e
procurem considerar a realidade com um olhar justo e adequado; nao
i

356
ACAPACIDADE DE MARAVILHAR-SE 21

deixem de dar atencáo também aos tópicos que menos caem sob a vista;
nao percam a capacidade de admirar as Vitorias do amor, da fidelidade o
a porcentagem de bom éxito contida em projetos numerosos. Essa capa
cidade de maravilhar-se fará as vezes de um nao conformismo com o
azedume reinante, de lucidez e de objetividade do olhar observador.

1.4. A mobilizacáo da vontade

A vida dura que a maioria dos cidadáos de hoje tem de levar, exige
forca de vontade. Muitos se sentem constrangidos, esmagados pelas
obrigacóes de cada dia. A vida corre o risco de parecer um tecido de de
veres mais ou menos penosos ou fastidiosos.

Na verdade, nao há como fugir a essa rede de imposicóes do lar, da


escola, da profissáo, da vida pública..., por mais forte que seja a alergia
ou o sentimento de alienagáo daí decorrente. O próprio Evangelho, alias,
exige cumprimento do dever e senso de responsabilidade. - Há quem
queira aliviar o peso do tedio, aliviando as exigencias e responsabilida
des. Isto, porém, em vez de ajudar, prejudica a pessoa humana, pois
contribuí para desfibra-la e tirar-lhe a aspiracáo a elevados ideáis; o ho-
mem fot feito para ultrapassar constantemente a si mesmo (Blaise Pasca I,
+ 1662). De resto, a diminuicáo de exigencias nao acarreta necessaria-
mente dilatacáo do coracáo e alegría interior, pois qualquer exigencia que
fique, por mais leve que seja, poderá sempre sugerir a impressáo de
constrangimento e alienagáo.

Se nao é plenamente humana urna vida que só conheca deveres e


exigencias, pergunta-se: qual a solugáo para a sufocacáo experimentada
pelo homem de hoje? - Está em alimentar a capacidade de ver para além
do momento presente ou de perceber a grandeza de um ideal que se
conquista mediante o empenho da vontade. É preciso que o esforco de
cada día seja motivado nao apenas pela tiranía da lei e da obrigacáo, mas
também, e principalmente, pela intuicáo de urna meta elevada, nobre,
maravilhosa». Em última análise, a percepcáo do transcendental ou a fé
em Deus e seu plano salvífico háo de suscitar e sustentar a ardua luta
de cada dia1. Entáo, sim, esta será fecunda, perdendo seu caráter de es-
magamento e alienacáo, para tornar-se nobilitacáo da pessoa humana.

1Tenha-se em vista o ttvro bíblico do Eclesiastes ou do Coelel É um


escrito amargo, de alguém que parece "cuspir sobre a vida", porque só vé ab
surdo em torno de si (os maus prosperara, enquanto os bons sño marginaliza-
dos). O escritor parece cólico e sarcástíco, julgando a morte melhor do que a
vida e a casa do luto preferfvel á casa em testa (cf. Ecl 7, 1s).

(continua na pág. 358)

357
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 363/1992

1.5. Disto se segué...

a) Donde se vé que o maravilhar-se tende a dilatar o olhar do indi


viduo, fazendo-o ultrapassar o momento presente para considerar o pas-
sado e entrever o futuro. É principalmente a ¡ntuicáo otimista do futuro
que brota desse maravilhamento.

b) Conclui-se também que a capacidade admirativa requer, da parte


do homem, um constante exerclcio de vigilancia para nao se deixar ar-
rastar pela indiferenca, o desánimo, o tedio, o cansaco... Requer que o in
dividuo esteja atento para nao ficar na superficialidade dos fenómenos
ocorrentes, para nao se deixar levar pela leí do menor esforco, nao raro,
preguicoso e mesquinho, para nao acreditar em todos os chavóes do
día...

c) A capacidade admirativa liberta-nos do egocentrismo e impéle


nos á abertura ao que está fora de nos e nos interpela. Por isto ela pode
ser fomentada pelos outros ou por pessoas que nos abram os olhos. Em
particular, aos genulnos artistas toca tal papel; com efeito, o artista tem o
dom de dizer e... nao dizer, de mostrar e... velar, ou de levar o ouvinte
(espectador) a continuar a ¡ntuicáo que determinada poesia, música ou
modelo comega a Ihe transmitir. O artista deve provocar a capacidade
admirativa e o senso intuitivo dos seus clientes.

2. A admiragáo no plano da fé

1. Nao resta dúvida de que todo homem tem, e deve sempre culti
var, a capacidade de maravilhar-se diante dos fenómenos da natureza,
sejam do mikrokósmos (um átomo e sua estrutura, urna flor, um inseto,
um mineral».), sejam do makrokósmos (os espacos siderais e os corpos
celestes que, em número e distancias vertiginosas, neles se movem). Mas

(contínuagSo da pág. 357):

Ora precisamente o autor é tSo cétíco e crítico porque ignora que há ou-
tra vida lúcida após a presente; julga que a morte reduz o ser humano ao es
tado de refaim (sombras), que existem inconscientes no subterráneo cha
mado cheol.A morte nivela bons e maus num estado de soñolencia, impos-
sibifítando a justa sangSo. Ora essa falta de conhecimento de vida postuma
consciente ó que explica a grande amargura do Eclesiastes. Quem sabe que
existe urna retribuigSo postuma, considera com outros olhos os males da vida
presente e concebe coragem para enfrentá-los e superá-los.

A nocño de vida postuma consciente ou de um feliz misterio no além


é imprescindfvel ao bom desenrolar da vida humana.

358
ACAPACIDADE DE MARAVILHAR-SE 23

é principalmente o homem de fé ou aquele que, além do natural, intuí o


sobrenatural ou Deus e seu misterio, que concebe e exerce admiracáo.

Pode-se mesmo dizer, em linguagem crista, que a admiracáo é um


dom do Espirito Santo. É o próprio Deus quem, em última análise, move
e alimenta o senso admirativo do cristáo, á revelia das intemperies que
tendem a abaté-lo. O Espirito de Deus faz compreender que "as coisas
visfveis sao passageiras, ao passo que as coisas ¡nvisfveis sao definitivas"
(2Cor 3,18); faz apreender ñas criaturas sensfveis os sinais das transcen
dental; nao raro as mesmas coisas visíveis tém urna face claro-escura,
que impressiona os olhos, e um retro luminoso, que a fé percebe1. Em
suma, o senso admirativo aproxima o cristáo do olhar de Deus e Ihe dá
parte neste.

1Dois Hvros bíblicos contribuem para corroborar esta afírmagáo:


O livro da Sabedoria.em seus capítulos 2-5, apresenta umquadro
da vida terrestre: os Impíos menosprezam o justo, que nño pactua com suas
orgias e bacanais, e resolvem condená-lo á morte, a ele que se diz "fílho de
Deus".

Morre, pois, o justo e monem também os impíos. No além, o justo é


exaltado por ter guardado (¡delidade ao Senhor, ao passo que os impíos so-
frem tremenda decepgño, percebendo quSo ilusorias eram as suas fontes de
felicidade; sao tidos como insensatos, enquanto o justo, por saber aturar até o
extremo os opróbrios infligidos aos homens fiéis, é sabio.

O Apocalipse se desenvolve em duas linhas paralelas: na térra ocor-


rem calamidades, que suscitam o gemido dos homens, ao passo que, no céu,
a corte celeste canta "Aleluial A Vitoria é do Cordeiro, Senhor da historial"
Este contraste quer dizer que os acontecimentos que parecem calamitosos e
absurdos na tena, estño enquadrados dentro de um plano sabio e santo de
Deus, plano no qual os males sSo ocasiSo para que tire matares bens, plano
que será rematado pela Palavra da Verdade, do Amor ou do próprio Deus... '

Por isto os justos nao se perturbam diante dos males da vida presente.
Esta é assemelhada a um tapete persa: o lado de baixo ó sujo e monótono,
enquanto o lado de cima Ó colorido. Pois bem; os homens na tena olham de
baixo para cima e nao entendem nada, porque estño olhando pelo avesso. Os
justos na gloria olham de cima para baixo e compreendem, porque estño
olhando corretamente. Tratase entño de considerar a historia como Deus a
considera e nao como o limitado olhar humano a pode perceber.

Notemos aínda o livro de Jó: discute a questao do sofrimento do


Justo afíito (por que o homem bom e reto sofre?). Após tongos debates entre

(continuagño da pág. 359)

359
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 363/1992

Tal atitude nada tem que ver com infantilismo si m pió rio, que nao
vé problemas, nem com a satisfacáo abobalhada do palhaco, mas decorre
da consciéncia de que o mundo e sua historia nao resultam de casualida-
de nem do embate de forcas cegas; por conseguinte, por tras dos eventos
sombríos e dolorosos do presente existem a Ordem, a Sabedoria, a Bon-
dade, a Onipoténcia do Criador e Redentor do homem; crer nisto é tor-
nar-se crianza nao no sentido pejorativo da palavra, mas na acepcáo no-
bre que o Evangelho atribuí a este termo (cf. Mt 18,3s).

Notemos ainda que o senso admirativo deve emancipar o cristáo de


toda mediocridade, pois desperta nele elevadas aspiracdes, fazendo-o
almejar tudo que de grande e nobre Deus tenha prometido ao homem,
embora o homem nao o possa conquistar por si só.

"O desejo do infinito em nos caracteriza precisamente o ser humano.


Somos levados, como que por um apelo, a tomar-nos infinitamente mais do
que o que somos. E este 6 o sinal de que somos criados por Deus para tor
nar-nos seus hospedeiros e seus amigos. Esse desejo do infinito, é preciso
nao permitir que ele se fixe ou encaixe em coisa alguma que nSo seja Deus e
seu Reino. Pois desejar infinitamente algo de finito ó o cúmulo do absurdo. AI
está, porém, a nossa constante tentagáo. Eis porque», esse desejo deve ser
incessantemente reorientado para além dele mesmo" (Pierre-Yves Emery, Le
don d'émerveillement.em Collectanea Císterciensia.t 39. 1977/3 p
201). H
2. A admiracáo deve exteriorízar-se em louvor a Oeus, seja público
(litúrgico), seja na intimidada do coracáo. Esse louvor nao há de ser algo
de marginal ou meramente ocasional, mas é essencial, pois o ser hu
mano foi criado para isso e nisso encontra a sua plena realizafáo. Isto
leva a concluir que urna vida consagrada ao louvor de Deus nao está fora
do mundo dos homens, mas é urna baliza imprescindível do mesmo. No
mundo laicizado ou secularizado de hoje, em que se dá importancia qua-
se exclusiva ao agir e produzir, o homem se senté sufocado e esmagado.
Ele vai procurar oxigénio para viver mais propriamente a sua vida huma
na nos lugares em que haja o silencio e a paz necessários para contem
plar e agradecer as maravilhas de Deus. É o que atesta a multiplicidade

(ContinuagSo da pág. 359)

Jó e seus tres amigos, Deus intervém sotenamente».: nao responde direta-


mente as indagagdes de Jó, mas mostra a este a grandeza maravilhosa do
universo, com seus astros, seus continentes e mares, sua flora e sua fauna,
despertando em Jó e no leitor um senso profundo de admiracáo». Pois bem;
quem considera a obra de Deus no mundo, admirase, maravilha-se e.» confia
na sabedoria desse Deus táo grande e poderoso! Ver Jó 38, 1-41,26.
i

360
A CAPACIDADE DE MARAVILHAR-SF. 25

dos recantos de retiro e dos grupos de oracáo em nossos días; fazem


parte do ritmo de vida de qualquer soíiedade.

O conteúdo deste artigo está baseado nao somente em dados da fé,


mas também em observares psicológicas. Pode-se dizer que nao é se-
náo o desdobramento da famosa sentenca de Aristóteles: O principio de
toda reflexáo filosófica ou de toda sophia (sabedoria) é o admirar-se, é o
descobrir que algo de maior e mais nobre cerca o homem e o interpela,
chamando-o para um diálogo que leva á intuigáo do Infinito. Sem essa
descoberta e sem o diálogo subseqüente, a vida humana carece de senti
do ou definha sob o peso das coisas passageiras.

Este artigo muito deve ao de Pierre-Yves Emery: Le don de l'émer-


veillement,e/n Collectanea Cistercensia.t, 39, 1977/3, pp. 194-204.

Pequeña Enciclopedia de Doutrína Social da Igreja,por Fer


nando Bastos de Ávila, SJ. - Ed. Loyola, Sao Paulo 1991, 165 x 235 mm. 456
pp., No Rio. os pedidos seram dirigidos á Av. Pres. Vargas 502, 17* andar
(tone: 233-4295).

O autor ó famoso sociólogo, professor emérito da PUC-RJ, que publica


urna sfntese da Doutrina Social da Igreja sob a forma de verbetes. Cada qual
destes é elaborado com o rigor científico das ciencias humanas e clareza de
estilo, pondo sempre em relevo a perspectiva da fé sobre os problemas so
ciais. As encíclicas sociais dos Papas, desde a Rerum Novarum de Leño
XIII (1891) até a Centesimus Annus de Joño Paulo II (1991) sño apresen-
tadas de maneira sucinta e lúcida. Além disto, encontram-se no como do livro
verbetes de especial atualidade no Brasil contemporáneo, como parlamen
tarismo, presidencialismo, inflacio, corrupgáo, controle da na-
talidade, ecologia... Congratulamo-nos com o autor pela valiosa obra, que
se abre citando palavras do Papa Joáo Paulo II: "Confiar responsavelmente
nesta doutrina (social), mesmo quando alguns procuram semear dúvidas e
desconfianzas sobre ela, estudá-la com seriedade, procurar aplicá-la, ensi-
ná-la, ser fiel a ela é, num filho da Igreja, garantía de autenticidade de seu
compronásso ñas delicadas e exigentes tárelas sociais e de seus esforcos
em favor da libertacSo ou da promogáo de seus irmños*. (Discurso Inaugural
em Puebla).

361
Mais urna vez:

Nova Era (New Age)

Em símese: Nova Era (New Age) é a designagáo de urna corrente


de pensamento e agáo globalizantes (holfsticos). Apregoa o fím da Era de Pei-
xes, tida como a Era Cristi, e o Inicio da Era de Aquárío, na qual urna nova
mentalidade se derramará sobre os homens como agua fíuente. A Nova Era
pretende Instaurar um Govemo Central para o mundo inteiro, com o controle
dos transportes, da distribuigáo de alimentos, das atividades comerciáis, sob
a hégide de um certo Maitreya (Messias, "melhor do que Jesús Cristo"), que
está para aparecer em breve sobre a térra e se manifestará a todos os ho
mens pelo radio e a televisáo.

Compreende-se que essa corrente globalizante queira também instaurar


urna ReligiSo única universal, que deve resultar da fusáo de todas as crengas
religiosas atuais, inclusive do Cristianismo (que estaría fadado a desapare
cer): a mitología antiga, com seus deuses e deusas (a Mie-terra, Gala, espe
cialmente), o panteísmo oriental, as figuras da religiáo hindú (Shiva, Krishna,
Buda...), as divindades do esoterismo, o espiritismo, a mediunidade, as técni
cas psicológicas, a meditagáo transcendental, a Yoga, o curandeirismo, a ma-
gia~ tudo isso 6 nivelado num sincretismo ilógico, que deverá ser imposto a
todos os homens (apesar da declaragSo de liberdade religiosa, feita pelos
mentores da Nova Era).

Como se vé, Nova Era é fuga da realidade e do raciocinio; é concessio


á fantasía simptória e ilógica, que só se explica pelo tato de que dentro do ho-
mem há urna inextíngutvel tempera mística valiosa, mas, no caso presente,
desfígada das luzes da razSo; esta deve saber penetrar os impulsos do ho-
mem, de modo a torna-Ios harmoniosos e construtivos. A Mística irracional
vem a ser devánelo nocivo e desabonador da verdadeira ReligiSo.

O Movimentó dito "Nova Era" (New Age) já foi abordado em PR


354/1991, pp. 518-52 e 360/1992, pp. 235-240. Continua em moda, susci-
i

362
NOVA ERA (NEW AGE) 27

tando sempre interrogacóes diversas. Eis por que nos dispomos a desen
volver as informacóes já transmitidas nos fascículos anteriores, utilizando
para tanto fontes produzidas pelo próprio Movimento (New Age).

É oportuno recordar, antes de explanar a mensagem respectiva,


que o Movimento tem origem em escolas de ocultismo, magia e sabedo-
ria, salientando-se especialmente a Teosofía fundada por Helena Bla-
vatsky (1831 -1891); urna das disclpulas desta "profetisa", a Sra. Alice Bailey
(1880-1949), tornou-se influente mentora da corrente de pensamento
através de mensagens que ela dizia receber, por via mediúnica, de um ti-
betano chamado Ojawal Khul, "mestre da sabedoria"; tais mensagens
constituían"! o "Plano" da Nova Era; deviam ficar secretas até 1975, ano
previsto para a difusáo de Nova Ordem Mundial, encabezada por um
chefe dito "o Cristo da Nova Era". O cronograma parece ter-se cumpri-
do, embora já antes daquela data muitas das idéias professadas pelo Mo
vimento estivessem no ar. Examinemos as principáis linhas doutrinárias
da corrente.

1. Nova Ordem Mundial

1. O grande objetivo da Nova Era é a implantacáo de nova ordem


no mundo, caracterizada pela "consciéncia de grupo" e pelo "espirito de
cooperacáo" (Sinergia). Essa nova ordem implicaria um Novo Governo
Mundial e urna Nova Religiáo Mundial; há interesse em dissolver as na-
cóes como tais em beneficio, pretensamente, da paz da humanidade.
Como objetivos intermediarios, a Nova Era propóe

- criacjio de um sistema económico mundial;

- entrega das propriedades privadas relativas a transporte e produ-


cáo de géneros de primeira necessidade a um Diretório Mundial;

- controle mundial dos assuntos biológicos, como o aumento po-


pulacional e os servicos de saúde;

- obrigacáo de subordinar a vida de cada cidadáo ás normas do


Diretório Mundial;

- servico militar obrigatório em escala mundial (apesar das idéias


pacifistas da Nova Era);

- sistema de impostos mundialmente unificado.

Apesar de seus protestos pacifistas, o Movimento da Nova Era


apoia teses contraditórias, como sao:

- aborto e inseminagáo artificial;

- compulsoria limitacáo da natalidade;

363
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 363/1992

- controle dos nascimentos por eugenética;

- eutanasia, principalmente em relacáo a velhos e inválidos;


- purificado da humanidade, que implica a perseguido a quem
nao concorde com os objetivos da Nova Era.

2. "Nova Era" é o nome que toma a "nova ordem", porque, dizem


os seus adeptos, a era de Peixes está terminando... Conforme a astrolo-
gia, as eras do Zodíaco váo-se sucedendo; deve comecar em breve a Era
do Aquário. Segundo alguns, tal infcio já se deu em 1962. Como quer que
seja, a era dos Peixes é identificada com a era crista, visto que Peixe
(Ichthys, em grego) era, para os cristáos antigos, o símbolo de Jesús
Cristo1. A Era do Aquário realizará o que o seu nome indica: derrama-
mentó de agua sobre o mundo para simbolizar a vinda de novo espirito
ou nova mentalidade. Este espirito provocará nos homens urna "expan-
sáo de consciéncia", com a ajuda de psicotécnicas, ioga, meditacáo... e
esta iluminacáo das mentes possibilitará "urna vida sem dificuldades nem
problemas".

2. Pensamento Holfstico

Os objetivos do Movimento exigem mudancas dos paradigmas e


padrees de pensamento, como acaba de ser dito. O pensamento predo
minante em nossos tempos é o analítico, que tende a distinguir e subdis
tinguir os ramos do saber, suscitando especializacóes cada vez mais
profundas e delimitadas. Ora esta mentalidade deverá ceder, dizem, a
urna visáo "holística", global e globalizante; todas as coisas sao interde-
pendentes urnas das outras; por isto tém que ser consideradas,em rela
cáo com o seu conjunto. Cada individuo humano, em particular, deve
sentir-se parte da natureza e do universo; é um mikrokósmos dentro do
makrokósmos.

Com outras palavras: a mentalidade racional e crítica, que está na


base das pesquisas científicas, deverá ser substituida pelo pensamento

1O simbolismo se explica do seguirte modo:


A palavra ICHTHYS (= peixe, em grego) compóe-se das letras midáis
dos vocábulos de urna proñssSo de fé:

I esous Jesús
Ch ristós Cristo
TH eou de Deus
Y ios Filho
S otér Salvador

364
NOVA ERA (NEW AGE) 29

sintético e pelo método intuitivo, que se baseia em experiencias para psi


cológicas e em premissas que a razáo nao pode comprova r.

Assim a Nova Era quer reconciliar todos os opostos: a ciencia e o


ocultismo, o bem e o mal no plano ético (a distincáo entre pecado e vir-
tude se extinguiría).

Tais mudancas háo de proporcionar ao homem Felicidade. Esta


passa a ser a meta suprema, em lugar do objetivo até hoje prevalente: a
eficiencia, a capacidade de produzir artigos de consumo.

Entende-se que tais tendencias afetam também o setor religioso,


propugnando a slntese de todas as Religióes.

3. A Religiáo Universal

A nova religiáo, apregoada pela Nova Era, sendo urna tentativa de


slntese, é amorfa ou indefinida. Tem seu panteón, no qual se encontram
os deuses da india, o mito de Gaia, a "Máe-Terra", as divindades gregas
Isis, Astarte, Demetra, Hera, as do ocultismo, os esplritos dos antepassa-
dos, os bruxos e outras divindades recém-exaltadas; até mesmo Lucifer
recebe nesse contexto o seu culto. O panteísmo segundo o qual tudo é
Oeus, também é aceito, ao lado do espiritismo e da mediunidade.

A Nova Era anuncia a vinda próxima de urna figura capital, maior e


melhor do que Jesús Cristo, chamada Maitreya, "o educador do mun
do". É designado por diversos nomes: o Messias {da concepgáo judaica),
o quinto Buda (segundo as premissas do Budismo), o Mahdi (no voca
bulario dos muculmanos), o Krishna dos hindus. Será um personagem
plenamente evoluído ou perfeito, também dito "Consciéncia de Cristo",
preparado para atuar como "Diretor do Reino de Deus na Térra". A sua
chegada próxima foi antecipadamente anunciada em muitos países no
dia 25 de abril de 1982, através de páginas inteiras da imprensa. Sua pre-
senca será a garantía de que nao haverá terceira guerra mundial. Ele re-
gerá o Governo central do mundo, controlando as diversas atividades
dos homens. Para se conseguir, na Nova Era, urna licenca para trabalhar
no comercio, pequeño ou grande, será necessário um compromisso de
lealdade a Maitreya. Todo cidadáo da Térra receberá um número, sujeito
a determinada regulamentacáo, e indispensável para qualquer transacáo
financeira; tal número será gravado num cartáo de crédito universal. To
do tipo de dinheiro deverá ser abolido.

Benjamín Creme, líder escocés da Nova Era, é tido como o precur


sor especial de Maitreya. Segundo afirma, Maitreya já estaria vivendo em

365
30 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 363/1992

algum lugar na Térra, lugar que sonriente alguns discípulos conhecem. As


noticias da imprensa, em 1982, atribuiam a Maitreya poderes extraordi
narios; ao chegar, ele divulgaría a sua identidade e entraría em contato
com toda a humanidade através de emissoras de radio e televisáo.

Além de Maitreya, a Nova Era admite gurús, "pessoas prendadas,


capazes de realizar prodigios e maravilhas". O Movimento também tem
suas "Escrituras Sagradas", suas oracóes e mantras, ritos de magia, cu
ras.» Possui seus centros de estudos e culto, como sao a Comunidade
Findhorn na Escocia e o Instituto Esalen, na California (USA).

No tocante ao homem, a Nova Era professa o panteísmo; o homem


seria "Deus" e teria criado Deus conforme a sua própria imagem. Esta
concepcáo está em consonancia com as premissas hollsticas ou globali-
zantes da Nova Era: "tudo é uma coisa só"; por isto o homem é parte da
Divindade.

A morte póe termo a uma encarnagáo e predispóe para outra, se


gundo a lei do Karma. Reencarnando-se, o individuo vai-se aperfeicoan-
do; quando está totalmente desenvolvido, ele se dissolve no Nirvana, on
de já nao há individualidades ou eu, tu e ele. A evolucáo da pessoa hu
mana está, de cedo modo, ligada ao culto de Lucifer. David Spangler, um
dos principáis mentores da Nova Era, que durante tres anos foi co-dire-
tor da Findhorn Community, escreveu em 1978 no seu livro intitulado
"Reflections on the Christ (Reflexóes sobre o Cristo)":

"Lucifer está agindo em todos nos, a fím de nos levar a um estado de


perieigño. Quando entramos numa nova Era, a era da perfeigáo do ser huma
no, cada um de nos, de uma maneira ou de outra, chegará ao ponto que cha
mamos iniciagSo luciférica' (consagragSo a Lucifer). Este é o porteo especial
pelo qual o individuo tem de passar para chegar plenamente á presenga de
sua luz e sua perfeigáo" (citado por Constance E. Cumbey, The Hidden
Dangers of the Rainbow, Shreveport, Luisiana, Huntington House, ¡nc.
1983, p. 139).

O uso de drogas é admitido, na Nova Era, como meio para que as


pessoas se abram a intuicáo da respectiva mensagem; sao tidas como
"instrumentos de transformacáo". Todavía os dirigentes do Movimento
nao recomendam o uso constante de drogas, pois há, segundo eles, ou-
tros meios de chegar á "lluminacáo", entre os quais a meditacáo trans
cendental, as técnicas psicológicas, os mantras, etc.

A Nova Era acolhe também e professa as reivindicacóes do femi


nismo. Preconiza a eliminacáo das diferencas de trata mentó existentes
i

366
NOVA ERA (NEW AGE) 31

entre os sexos. O espirito da Era de Aquário tende a atribuir o predomi


nio ás mulheres; daf a recusa da imagem de Oeus apresentada pelas Es
crituras Sagradas do Cristianismo, como também a rejeicáo do casa
mento e da familia, instituicóes consideradas machistas, fomento do pa
triarcado. Entram em voga a imagem da Máe-Terra e as das deusas do
paganismo.

No contexto eclético e holístico da Nova Era, está claro que tém lu


gar as hipóteses da Ufologia (teorías sobre discos voadores e seres extra-
terrestres).

A nova religiao, vaga e sincretista como é, será obrigatória, pois os


seus adeptos julgam que contribuirá para unir a humanidade. O Cristia
nismo, que professa Jesús Cristo (tido como discípulo de Maitreya na
Nova Era) deverá ser combatido e condenado a desaparecer. Donde se vé
que a Nova Era, embora professe a liberdade religiosa, só a admite den
tro dos padróes formulados pela nova religiáo universal.

Aos 31 de dezembro de 1986, adeptos do Movimento celebraram o


"Día da Cura Mundial" ou o "Instante da Cooperacáo Mundial" em diver
sas partes do mundo. Foi entáo proferida urna "Meditacáo para a Cura
do Mundo", cujo autor bem exprimía a orientacáo da Nova Era:

"Eu sou co-criador com Deus, e o novo céu está chegando, porque a
nova vontade de Deus é expressa através de mim. É verdade, sou o Cristo de
Deus... porque Deus é tudo, e tudo é Deus... A esséncia pura de um amor in
condicional... Eu o vejo irradiando como luz dourada, do centro do meu ser...
Sou a luz do mundo... Da luz do mundo responde agora a única presenga e
torga do universo^ Vejo agora a salvagáo do planeta diante dos meus olhos,
porque todas as idéias falsas sobre a fé e todas as visoes equívocas estSo
dissolvidas".

A. Os sfmbolos da Nova Era

Um dos símbolos mais usados pela Nova Era para exprimir suas
concepcóes é o arco-Iris (geralmente reproduzido apenas pela metade);
significa a ponte entre a alma humana individual e a alma superior ou a
grande Mente Universal (Lucifer?); o arco-Iris aparece em brindes de
propaganda, papel de carta, brinquedos da Nova Era.

A cruz suástica também é adotada como sinal do Movimento. Es-


tórias e lendas a recomendam á veneracáo dos adeptos.

O número 666 (cf. Ap 13,18) também é caro a Nova Era, pois tem
"qualidades sagradas", segundo Alice Bailey; deveria ser usado com

367
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 363/1992

grande freqüéncia a fim de acelerar o progresso da civilizacáo e o ad


vento da Nova Era!

5. Conclusáo
s

Como se vé, Nova Era é um conjunto de proposicóes ecléticas, até


mesmo contraditórias entre si, que vém a ser a expressáo do atual Zeit-
geist (espirito dos tempos atuais). O ¡rracionalismo e o sentimentalismo
tém-se afirmado no setor da Religiáo e da Mística, ocasionando o que se
chama "alta religiáo, sub-religiáo, quase-religiáo, psico-religiáo, pseu-
do-religiáo, para-religiáo..." A confusáo se torna sempre maior entre
aqueles que abandonam as luzes do raciocinio e da lógica quando en
tra m no campo religioso. Se os adeptos de Nova Era usassem um pouco
de senso critico, nao proporiam tal mensagem, que nao tem coeréncia
nem solidez em si mesma, mas é suficiente para mobilizar a fantasía, os
sonhos e a fuga da realidade.

Ao cristáo compete entender a licáo que o fenómeno da Nova Era


Ihe transmite: torne-se sempre mais consciente das verdades que profes-
sa e saiba que sua fidelidade á Boa-Nova confiada por Jesús Cristo á
sua Igreja e a Pedro Ihe valerá a realizagáo dos anseios de urna auténtica
Nova Era.», nao ficticia nem fantasiosa, mas real e plenamente satisfató-
ria... "O que os olhos nao viram, os ouvidos nao ouviram, e o coracáo do
homem jamáis percebeu, eis o que Deus preparou para aqueles que O
amam!"(1Cor2,9).

O Coracfio de María, CoracSo da Igreja, por Bertrand de Margene, S.J.. - Edh


cóesMissóes Consoláis, Apartado 5,2496 Fátima, Portugal, 120x205mm, 93pp.

Este //oto, escrito por grande teólogo trances, visa a aprofundara devocáo popularao
S. CoragSo de María; tal devogáo poderla tomarse meramente sentimental, se nSo se procu-
rasse o fundamento teológico que realmente a sustenta. O autor procura tazedlo explanando
diversos aspectos da veneracáo tributada ao Coracáo de Mana; assim 6 que a considera em
conexSo com a RedencSo realizada por Jesús Cristo, como também em ligacáo com a contí-
nuacSo da obra de Cristo na Igreja, especialmente na S. Eucaristía... Assim a figura de Mana
loma significado marcadamente crístológico e edesiológlco, como realmente deve ser. A
oportunidade do livro ó exposta pelo Pe. Augusto Pascoal i p. 3:

"Os Santos Padres Bzeram questáo de afirmar que María, antas de concebernoseu
ventre purfsslmo, se tomara Máe de Jesús pela té. E isso é ventado, nSo apenas porque
acreditou, mas também porque amou... É aquí que toma sentido o que nos tempos modernos
a piedade crista comecou a referir ao Imaculado Coracáo de Maña: o corac&o, símbolo do
núcleo mais profundo da pessoa, do que ela éedo que desoja ser."

368
'Inquieto é o nosso coracáo..."

O Conceito de Deus na Grecia Pré-Cristá

Em síntese: O presente artigo percorre as escolas de filosofía da


Grecia antíga, pondo em evidencia a precaridade, ora maior, ora menor, das
concepcóes religiosas respectivas. A insuficiencia de tal processo filosófico
fez que o mundo helenístico, antes de Cristo, se voltasse para as vías da as-
cese e da purifícagéo do coragio como meios de encontró com a Divindade;
foi o que ocorreu ñas "religides de misterios". Estas prepararam o advento do
Cristianismo a este mundo; sem dúvida, a mensagem crista, por seu otimis-
mo, ultrapases o que de mais ousado podia o homem conceber antes de
Cristo em materia religiosa.
• • •

^ 0 cristáo só pode lucrar se considera o pensamento religioso pré-


cristáo, pois sonriente assim sobressai a grande e inaudita novidade trazi-
da por Jesús Cristo. Esta se resume em palavras do Apostólo Sao Joáo:

"Ele primeiro nos amou" (i Jo 4,19).

"Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Oeus por


nos: Deus enviou o seu Filho único ao mundo para que vivamos
por ele. Nisto consiste o amor: nao fomos nos que amamos a
Deus, mas foi Ele quem nos amou e nos enviou o seu Filho co
mo vftima de expiacio pelos nossos pecados" (1Jo 4,8b-10).

Sao Paulo, por sua vez, escreve:

"Foi quando aínda éramos traeos que Cristo, no tempo


marcado, morreu pelos fmpios. Difícilmente alguém dá a vida
por um justo; por um homem de bem talvez haja alguém que se
disponha a morrer. Mas Deus demonstra seu amor para conosco
pelo fato de Cristo ter morrído por nos quando éramos ainda
pecadores" (Rm 5,6-8).

369
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 363/1992

O pensamento grego pré-cristáo cansou-se de procurar um con-


ceito de Deus adequado ás aspiracoes do homem. Os gregos renuncia
ra m entáo a buscar Deus por via da razáo ou da filosofía, para o procurar
por via da ascese ou purificacáo do coracáo. Esta atitude concretizou-se
ñas chamadas "religióes de misterios"; preparou a vinda do Cristianismo,
cuja mensagem otimista ultrapassa longe os limites da razáo e as aspira-
góes naturais do coragáo humano.

Temos consciéncia de que o artigo subseqüente, abordando tal as-


sunto, fica em nivel de historia e filosofía que nao é habitual em PR. Co
mo quer que seja, julgamos oportuno publicá-lo, pois também as expla-
nacóes de ordem mais erudita contribuem poderosamente para se com-
preender a mensagem crista.

O CONCEITO DE DEUS NO PENSAMENTO


GREGO ANTERIOR A CRISTO

Quem percorre a literatura grega antiga (poetas, teatrólogos, filó


sofos.»), encontra al descrito o ideal ético do homem helénico. A enanca
de boa familia ensinavam os mestres, desde cedo, a arete (a honra). Esta
compreendia o uso da razáo como guia da conduta humana (phrónesis),
a virilidade ou andréia, o autodominio ou sophrosy'ne, a paciencia ou
capacidade de aturar provacóes (hypomoné, kartería), além da di-
kaiosyne ou justica. Este conjunto de virtudes apresentar-se-ia harmo-
nioso, levando o individuo a kalokagathfa (a beleza aqui mencionada
implicava a beleza física, sinal da beleza da alma). Quem assim vivesse,
seria eudafmonos, feliz; atingiría o ideal da eudaimonía.

0 retrato esbocado é atraente. Apesar de tudo, porém, o homem


grego nao se dava por plenamente satisfeito com tal proposta. Através da
literatura helénica, verifica-se urna nota triste. Com efeito; o oráculo de
Délphos preceituava: gnóthi sea uto n, "conhece-te a ti mesmo". Esse
conhecer-se implicava tomar conhecimento de que o homem é mortal; é
mortal, e nao Deus; somente os deuses sao imortais. Um abismo separa
dos deuses os homens; eles nao sao da mesma estirpe: hen andrón,
hen theón genos (Píndaro, Nemesinas6,1-12, + 439 a.C). Diz Pfndaro
(+ 438 a.C.) explícitamente:

"Nos outros, morías, só desojemos da parte dos deuses bens que nos
estejam proporcionados. Conhegamos bem a nossa estrada, a porgáo que
nos foi assinalada. Nio queiras, 6 alma minha, desejar urna vida sem fim"
(Pitesi ñas 3,59)1.

1Me, phfía psychá, bion athánaton speude.


i

370
CONCEITO DE DEUS NA GRECIA PRÉ-CRISTÁ 35

A felicidade dos homens era finita, a dos deuses sem fim. A tristeza
podia levar á resignacáo, mas também podia suscitar em alguns pensa
dores o desejo de chegar a urna homolosis theoi. A athanas(a(imorta-
lidade) suporia urna theopofesís, um tornar-se Deus. O homem que
nasce, deve morrer; o homem que pertence a um mundo onde tudo é
fluxo e refluxo, deve estar sujeito a esta condicáo. Por conseguinte, ele só
pode atingir a imortalidade, se mudar de condicáo ou de natureza. - Ora
Platáo foi o primeiro pensador que concebeu tal ideal, formulando-o vi
gorosamente.

Vamos, pois, na seqüéncia desta exposicáo, percorrer as escolas fi


losóficas gregas desde Platáo até o inicio da era crista, a fim de examinar
como o homem foi concebendo o seu relacionamento com Deus e a pro
cura da plena felicidade.

1. Platáo (427-347 a.C.)

Segundo Platáo, o conceito do Divino implica o de ser; ora o ser es-


sencial é a Idéia. A Idéia é, por conseguinte, o divino por esséncia. Dentre
as Idéias, há urna que subordina a si todas as demais como fim e, por te
to, é a Idéia primeira ou suprema: é a Idéia do Bem; esta é o Ser por ex
celencia e o Divino por excelencia (República 508a-509c; 517b-c; Ban
quete 21 Oa-c; 211 b-e).

Ora a Idéia, como indica o nome, é objeto de visáo; o que, no


mundo sensfvel, a imagem é para o olho, a Idéia é para a inteligencia no
mundo dos ¡nteligíveis; ela é vista pelo noús, (mente), que a contempla.
Donde se concluí que o sabio, contemplando, assimila o Ser, e adquire
a imortalidade. O homem que se inicia na vida contemplativa, se inicia
também na imortalidade (apathanatismós). Percebe-se assim que a
imortalidade platónica nao é a recompensa de virtudes moráis, nem de
consagracio ritual, mas da contemplacáo (sabe-se, porém, que a con-
templacáo só se adquire mediante disciplina ou ascese, que leva a renun
ciar ás paixóes más)...

Alias, a imortalizacáo do homem nao implica, para Platáo, mudanca


de natureza do homem. Com efeito, entre o nous e a Idéia existe urna
xyngéneia, um parentesco. Sim; o conhecimento nao se dá se, entre o
sujeito que conhece e o objeto que é conhecido, nao existe urna certa
conaturalidade.

Todavia é de notar que a theopofesis é conquista do homem só,


sem auxilio da Divindade. Esta nao chama o homem nem Ihe comunica
algum incentivo, nao se interessa pelo homem, porque talvez nem mes-

371
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 363/1992

mo o conheca: o supremo Inteligfvel pode nao ser Intelecto, segundo


Platáo; o Supremo Inteligfvel é objeto de conhecimento, é causa final,
mas está longe de ser causa eficiente (= Demiurgo). Existem, pois, aspi
rares do homem á Idéia do Bem e do Belo, mas nao há resposta da
parte desta; a Divindade é indiferente S sorte do homem. Este tem que se
esforcar a sos para conseguir seu fim supremo.

Vejamos agora o pensamento de Aristóteles, discípulo de Platáo.

2. Aristóteles (384-322 a.C.)

Na escola de Aristóteles, muito se aperfeicoa o conceito de Deus.


Este é Ato Puro; o Inteligtvel é certamente Intelecto, e Intelecto que está
sempre a pensar ou a exercer a mais nobre atividade possfvel. Esse Ato
Puro atrai o homem e o mundo como causa final; a sua existencia é ne-
cessária, pois a ordem do universo depende dele.

Mas em dois pontos a teología de Aristóteles muito deixa a desejar:

1) Se há relacionamento do homem com Deus, nao o há da parte


de Deus para o homem, como nao o havia no platonismo. O homem pre
cisa de Deus, mas Deus nao precisa do homem. Alias, as premissas de
Aristóteles exigem que Deus nao conheca o homem, mas só conheca a si;
somente Deus é o objeto adequado do conhecimento divino; Ele basta a
s¡ mesmo. Se conhecesse os seres limitados, Ele teria a limitacáo e a fi-
nitude em si mesmo; Ele se rebaixaria!

2) Aristóteles assinala, como fim supremo, ao homem a contempla-


cao: contemplacáo da Causa Final do universo e do relacionamento dos
seres entre si e com o seu Fim Supremo. Assim fazendo, o homem imita
a Deus, que contempla; assemelha-se a Deus, e imortaliza-se tanto
quanto é permitido ao homem. Isto torna o sabio feliz.

Mas - note-se bem - essa contemplacáo só raras vezes, e com difi-


culdade, é possfvel ao homem. Tais momentos felizes e fugazes supóem
um conjunto de circunstancias favoráveis cuja confluencia poucos conse-
guem: saúde, suficiencia de bens materiais, lar agradável, amigos de
confianca, morte as paixóes desordenadas, paz da alma (Ética a Nicó-
maco 1,8,1099b 22ss; X,8,1178b 32-1179ab). Em conseqüencia, confessa
Aristóteles, a contemplacáo, única verdadeira felicidade dos homens, é
privilegio dos sabios,» sabios que, sendo humanos, déla gozam apenas
em lampejos.

Pergunta-se: nem após a morte será dada ao homem a felicidade


de contemplar, como admitía Platáo?
i

372
CONCEITO DE DEUS NA GRECIA PRÉ-CRISTÁ 37

Aristóteles o nega. Em parte alguma de suas obras, ele promete


urna vida ¡mortal postuma. Esta posicáo decorre das premissas do sis
tema. Com efeito; só há imortalidade verdadeira se o nous é pessoal,
pois sou eu, com meus sentimentos e desejos, que quero viver para sem-
pre. Ora Aristóteles julga tal imortalidade pessoal um absurdo. Sim: ou
o nous é pessoal, individual e, portanto, ligado ao corpo, mutável com o
corpo e pereclvel com este (e neste caso nao há imortalidade pessoal); ou
o nous é impessoal, nao ligado ao corpo nem á memoria individual nem
ao eu (é raio de luz, que permite ao nosso espelho, o nous pathetikós,
captar os inteligtveis que os objetos sensfveis encerram); um tal nous
pode durar sempre, mas nao é meu; nao me assegura a imortalidade
pessoal.

Como se vé, também a filosofía de Aristóteles era apta a frustrar


tremendamente os seus discípulos no tocante ao problema da felicidade.

3. O Estoicismo

Após Platáo e Aristóteles, dir-se-ia que o pensamento grego se


cansou; a metafísica de nada adiantara aos filósofos sequiosos de urna
resposta para as aspirares fundamentáis de todo homem á felicidade e á
imortalidade. As correntes filosóficas que se seguem, se voltam princi
palmente para o problema da bem-aventuranca, estudado sem bases
metafísicas; a filosofía se torna disciplina da alma, apta a vencer males
moráis e sedar as dores; os filósofos vém a ser médicos da alma.

É neste contexto que aparece a Estoa ou a filosofía do Pórtico, fun


dada por Zenáo de Cftio (335-263 a.C). O seu ideal é o sabio (sophós)
que cultiva a apátheia (apatía). O sabio estoico é aquele que, mediante o
autodominio, consegue colocar-se ácima de todos os males e dores bem
como ácima de todos os prazeres e alegrías. Para ele, só existe urna des
grana - a acao nao virtuosa -, e só um valor - a virtude. O sabio possui
todas as virtudes porque estáo relacionadas entre si.

Mais precisamente, o mundo inteiro e também os homens sao


animados por um principio universal, chamado pyr(fogo), lógos (razio),
pneúma (espirito). Tal principio é divino, de modo que o estoicismo é
um panteísmo materialista. Disto se segué que ao homem compete viver
segundo o lógos ou a razáo ou a natureza; nisto ele encontra a felicida
de. Mas - diga-se - tal felicidade nao ultrapassa os limites da vida pre
sente; a morte faz o homem voltar aos seus elementos constitutivos; a
alma humana ou o lógos que está no homem, se dissolve no grande to
do.

373
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 363/1992

O Panteísmo estoico aparece, por vezes, mesclado és tradicóes reli


giosas da Grecia; o Deus impessoal da doutrina da escola é assemelhado
a Júpiter, a quem o homem dirige suas preces. A necessidade (anánke)
estoica, que rege o curso dos acontecímentos, é identificada com a Provi
dencia divina e com a bondade de Deus para com os homens. Todavía
tais concepcóes sao incoerentes ou contraditórias na mente de um estoi
co.

A figura do sabio estoico corajoso, desafiador de todos os males,


homem divino, ficou sendo mais teoría do que realidade; os próprios es
toicos confessavam que nao se encontrava tal tipo. Era demasiado artifi
cial.

4. O Epicurismo

Epicuro (341-270 a.C.) é o filósofo do jardim. Com efeito; imagi-


ne-se um pequeño jardim em Atenas, no qual se acha sentado um ho
mem doente, que nao se pode levantar por si. Fala com voz comedida,
semblante suave e tranquilo. Sorri. Alguns jovens discípulos o escutam a
dizer: "Quando alguém é jovem, ó Meneceu, nao deve postergar o filo
sofar; e, quando é anciáo, nao se deve cansar de filosofar. Pois nunca é
cedo demais ou tarde demais para trabalhar na saúde da alma" (Ad Me-
noeceum122).

Epicuro procura a tranqüilidade e a paz, como os estoicos, mas sob


forma de ataraxia, imperturbabilidade assim concebida: Epicuro é
pessimista em relacáo ao mundo; mas nao aspira ao além ou á seme-
Ihanca com a Divindade ¡mortal. É de um pessimismo niilista. O segre-
do da felicidade, portanto, está em retrair-se de todas as atividadfes {tanto
as da alta filosofía como as de ordem técnica) e mortificar todos os dese-
jos para levar uma vida oculta e tranquila; na verdade, qualquer atividade
que o homem empreenda, Ihe causa molestias e fadigas, tirando-lhe a
paz; esta ou a ataraxia so se consegue fugindo de todos os empreendi-
mentos; eis a medicina da alma1 e a forma de vida que imita a ataraxia
dos deuses. Numa carta a Meneceu atribuida a Epicuro, lé-se o seguinte:

"Medita todos estes ensinamentos— Meditaos dia e noite, tudo a sos


e também com um companheiro de virtude. Se o fízeres, nao experimentarás

1Sáo palavras de Epicuro:

"Vaidade é o discurso do fílósofo, se ele nao tende a curar algum dos


males do homem. A medicina é inútil, se ela nao consegue removerás moles
tias do corpo; da mesma forma, a filosofía, se ela nao chega a rechagar um
mal da alma" (fragmento 221,169,14ss Usen).
i

374
CONCEITO DE DE US NA GRECIA PRÉ-CRISTÁ 39

a mínima perturbagáo, nem dormindo nem acordado, e viveras como um Deus


éntreos homens (zései hos theós en anthrópois)" (66,5-10).

'Todas as nossas agóes só visam a afastar o sofrimento e a perturba-


gáo. Este resultado urna vez atingido, dissipa-se o invernó da alma, pois o
homem nao tende mais a alguma coisa que Ihe faga falta nem procura algum
objeto que acarrete a consumagáo da alma e do corpo. Pois nos só experi
mentamos o desejo da volúpia quando tomamos consciéncia do que nos falta;
desde que nao soframos mais, nao há mais necessidade da volúpia" (adMe-
noec, p.62, 8-55).

Alguém que sempre deseja, sempre sofre. Por isto o sabio deve
"considerar seu erro" (aplanes theorfa), o que Ihe é realmente neces-
sário, a fim de se contentar com isso e chegar á autarkéia, auto-suficién-
cia.

0 sabio, entáo, como os deuses, basta a si mesmo; a autarkéia


vem a ser a nova forma de imitar os deuses. Nao há imortalidade para a
alma, pois esta consta de átomos e se dissolve como o corpo; por conse-
guinte, nao deve haver medo nem da morte; esta "nos priva de toda sen-
sibilidade e. por isto, nada é para nos" (Ad Menoec, 60, 15s). "O conhe-
cimento desta verdade nos torna capazes de usufruir desta vida mortal,
suprimindo a perspectiva de urna duracáo infinita e tirando-nos o desejo
da imortalidade" (Ad Menoec, 60,17-20).

Na antiguidade ocidental nao houve escola táo próxima do nirvana


budista!

O epicurismo degenerou em escola hedonista.como o estoicismo,


proclamando as leis da natureza; degenerou em escola cínica ou no ci
nismo (que zombava de todas as convencóes básicas da vida social).

Esta evolucáo do pensamento filosófico, cada vez mais pobre em


concepcóes e respostas, revelou aos poucos, para o homem grego, a fa
lencia da filosofía na tarefa de procurar respostas para as aspiracóes fun
damentáis do homem á vida plena e feliz.

É precisamente como conseqüéncia deste baque da razáo pura que


surge, entre os helenistas do último século pré-cristáo e do primeiro sé-
culo após Cristo, o cultivo de outra vía ou de outra tentativa de resposta:
a via mística concretizada especialmente ñas chamadas "religióes de
misterios".

375
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 363/1992

5. As religióes de misterios

Nos últimos séculos antes de Cristo, surgiram no Oriente próximo e


na Grecia os chamados "cultos de misterios". Estes prometiam a uniáo
com a Oivindade e a participacáo na vida desta, nao mediante pesquisas
teóricas ou elucubrares especulativas, mas através de urna serie de ritos
de inícíacio (drómena) acompanhados de rigorosa ascese, apta a livrar o
homem das paixóes: preces, ablucóes, procissóes, jejuns, banquetes sa
grados culminavam na epoptéia ou na revelacáo, ao mista (iniciado), da
Oivindade ou dos hiera; o mista entrava em hierogamia (Atis) ou numa
cerimónia de adopcáo filial (Eleusis, Sabazio); ele obtinha assim a táo al-
mejada sotería (salvacjio), associado á vida da Divindade ¡mortal. Quem
tivesse visto, nao morreria. Tais cultos exerciam sobre as massas urna
forca de atracáo sempre maior. Destacaram-se especialmente o culto da
frigia Magna Mater Cibele e de Atis, o de Eleusis, o do Oeus persa da
luz Mitra, o das divindades egipcias Isis, Osiris e Serapis.

Tais cultos tém sua origem nos ritos agrarios, destinados a renovar
as forcas da natureza amortecida pelo invernó ou exausta depois da fadi-
ga da germinacáo; essa renovacáo recorría a cerimdnias sacro-mágicas
acompanhadas de dancas, uso de máscaras, clamores e atos licenciosos.
Tais ritos, que, como se dizia, faziam ressuscitar a natureza, foram sendo
oferecidos a iniciados para que deles participassem, tomando parte assim
na morte e na ressurreicáo das divindades identificadas com as forcas da
natureza.

6. Concfusáo ,

Este percurso histórico tem elevada significacáo, principalmente se


colocado como paño de fundo do advento do Cristianismo. Mostra como
este veio corresponder a urna expectativa da humanidade, á qual a filo
sofía ou a razSo pura nao conseguiría satisfazer. Cansados dos exiguos
resultados obtidos através da perquisigáo lógica, os homens se voltavam
para a vida mística, julgando que a Divindade Ihes respondería, se purifi-
cassem o coracáo e seguissem caminhos indicados pelos deuses: espera-
vam que a Divindade se Ihes manifsstasse, urna vez que nao haviam con
seguido descobrir plenamente a sua face por vía da filosofía.

Entende-se que o Cristianismo, sobrevindo em tais circunstancias,


ten ha conseguido favorável acolhida e rápida propagacáo entre os povos
do mundo greco-romano. O caminho tinha-lhe sido aberto; as mentes
dos homens estavam francamente dispostas a ouvir a Palavra vinda do
Alto!

376
Um clamor abalizado:

Pornografía: Ameaca á Sociedade

Em sfntese: O S. Padre Joño Paulo II pronunciou-se, aos 30/01 pp., a


respeito da pornografía, declarando-a "ameaga á sociedade inteira". O texto
de S. Santidade vai abaixo reproduzido em tradugáo portuguesa, com breve
comentario de quatro pontos que parecem mais salientes no discurso: o senti
do da sexualidade humana, liberdadeelicenciosidade, a mulherea.famñia, vA
timas especialmente prejudicadas pela pornografía.

0 S. Padre Joáo Paulo II recebeu, aos 30 de Janeiro pp., os repre


sentantes da Religious Alliance Against Pornography (Alianca Reli
giosa contra a Pornografía), sociedade norte-americana. Tal grupo esti-
vera reunido em Roma com o Pontificio Conselho para a Familia, a fim
de estudar assuntos de ¡nteressecomum.

A seguir, publicaremos urna traducáo da alocucáo de S. Santidade,


da qual procuraremos focalizar mais atentamente quatro pontos salien
tes.

1. Fala Joáo Paulo II...

"Eminencias,

Excelencias,

Senhoras e Senhores,

1. Estou feliz por poder aproveitar esta ocasiáo de encontrar-me


com os membros do Comité de Organizado da Alianca Religiosa contra
a Pornografía. Como grupo inter-religioso, composto de representantes
das comunidades judia, católica, greco-ortodoxa, protestantes e mór-
mon, estáis plenamente habilitados a fazer eco ás preocupacóes de urna

377
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 363/1992

parte importante da sociedade norte-americana referentes a táo grave


problema social. Vosso intercambio com o Pontificio Conselho para a
Famflia ajuda a tomar consciéncia da necessidade urgente de urna coo-
peracáo ativa entre os homens de boa vontade para combaterem a por
nografía e seus efeitos nocivos na vida dos individuos, das familias e da
sociedade.

2. A proliferacáo da literatura pornográfica nao é senáo um indicio


de mais ampia crise de valores moráis que afeta a sociedade contempo
ránea. A pornografía é imoral e, em última análise, anti-social, precisa
mente porque se opóe á verdade da pessoa humana, criada a imagem e á
semelhanca de Oeus (cf. Gn 1, 27s). A pornografía, por sua própria índo
le, renega p auténtico significado da sexualidade humana como dom de
Deus destinado a abrir os individuos ao amor e a fazé-los participar da
obra de Deus mediante a procriagáo responsável. Reduzindo o corpo a
condicáo de instrumento de prazer sensual, a pornografía impede o au
téntico cresci mentó moral e solapa o desenvolví mentó de relacóes ma
duras e sadias. Leva inexoravelmente b exploracáo dos individuos, espe
cialmente dos mais vulneráveis, como se pode verificar, de modo táo trá
gicamente evidente, no caso da pornografía das crianzas.

Como a vossa Alianca quer enfatizar, a extensáo da pornografía


significa seria ameaca para a sociedade em seu conjunto. A vitalidade de
toda sociedade é dimensionada pela sua capacídade de respeitar os im
perativos moráis fundados sobre a verdade objetiva da vocacáo trans
cendental da pessoa humana. Quando urna sociedade exalta a liberdade
pela liberdade e se torna indiferente ás exigencias da verdade, ela acaba
limitando seriamente a liberdade humana real, que outra coisa' nao é se
náo a liberdade interior do espirito. A liberdade desvinculada de seus
fundamentos moráis confunde-se fácilmente com a licenciosidade. Os
efeitos dessa confusáo tornam-se dolorosamente evidentes em muitas
sociedades ocidentais em que se dá crescente comercíalizacáo da sexua
lidade. A producáo pornográfica é atualmente urna industria próspera; a
difusáo da mesma é, por vezes, considerada como a legitima expressáo
de um discurso livre, com o conseqüente aviltamento das pessoas e, em
particular, da mulher.

Todavía o problema é experimentado com igual acume também


nos países em via de desenvolvimento, onde a expansáo da industria
pornográfica é fonte de preocupacóes, precisamente na medida em que
enfraquece os fundamentos moráis táo necessários ao pleno desenvol
vimento de tais sociedades.

3. Begozijo-me por saber que o vosso encontró, no Vaticano, se


deu convo Pontificio Conselho para a Famflia. Geralmente a familia é a

378
PORNOGRAFÍA: AMEACA Á SOCIEDADE 43

primeira meta atingida pela pornografía e por seus efeitos nocivos para
as enancas. Por conseguinte, a familia, como célula prímeira da socieda-
de, deve ser a primeira a obter a vitória na batalha contra esse mal. Faco
votos para que os vossos esforcos por combater a praga da pornografía
ajudem as familias em sua delicada tarefa de formar a consciéncia dos jo-
vens, impregnando-a de profundo respeito á sexualidade e de madura
apreciacáo das virtudes da modestia e da castidade. Ao mesmo tempo,
estou persuadido de que o vosso trabalho ajudará a desenvolver a toma
da de consciéncia da sociedade no tocante á gravidade das questóes éti
cas colocadas pela pornografía; permitirá também urna melhor percep-
cao da necessidade de urna intervencáo decisiva por parte das autorida
des encarregadas de promover o bem comum. Visto que toda agressáo á
familia e á sua integridade é um ataque ao bem da humanidade, é essen-
cial que os direitos da familia sejam claramente reconhecidos e salva
guardados mediante urna legislacáo adequada.

4. Caros amigos, o vosso encontró vem a ser um notável exemplo


de reuniáo de pessoas que créem, reuniáo destinada a vencer um dos
mais temfveis males da sociedade de nosso tempo. Estou convencido de
que, oferecendo o testemunho unánime da sua persuasáo comum relati
va á dignidade do homem criado por Deus, os fiéis dos diversos Credos
contribuiráo grandemente, agora e no futuro, para o crescimento dessa
civilizacáo do amor que está fundamentada sobre os principios de um
humanismo auténtico. Estimulo vossos valiosos esforcos e invoco cor-
dialmente sobre vos todas as abundantes béncáos do Deus todo-podero
so".

2. Comentando...

Quatro pontos parecem merecer especial destaque na alocucáo de


S. Santidade.

2.1. O sentido da sexualidade humana

A sexualidade, no ser humano, difere da dos animáis irracionais


n§o tanto pelos aspectos fisiológicos, mas pelo fato de que está integrada
numa pessoa ou num ser inteligente. Este, em condicóes normáis, con
cebe um ideal nobre, que é a finalidade da sua vida, e póe as suas virtua
lidades a servico desse ideal, procurando assim a sua plena realizacáo.
Por conseguinte, a sexualidade humana está a servico da inteligencia e de
suas metas, e destina-se a tornar mais humano o seu sujeito ou a fazé-lo
viver inteligentemente.

379
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 363/1992

A pornografía, ao contrario, explora a sexualidade de maneira cega


e irracional, degradando o ser humano, em vez de o nobilitar. Está a
servico do lucro financeiro em muitos casos, lucro que explora a fragili-
dade do público e que vai crescendo és custas do vilipendio da pessoa.

A pornografía proporciona um prazer baixo, envenenado, que vicia


os seus clientes e pode levá-los a paixóes obsessivas e criminosas. Mui
tos crimes se ligam á pornografía, como atestam relatos de cidadáos
norte-americanos publicados em PR 344/1991, pp. 36-46; 341/1990, pp.
443-454.

2.2. Liberdade e licenciosidade

É em nome da liberdade que muitos pretendem promover ou "li


berar" a pornografía. - Ora a liberdade é um predicado excelente do ser
humano. Todavía ela nao tem a sua finalidade em si mesma, mas existe
para permitir ao homem a escolha dos meios que o tornem mais homem
e digno. Isto pode ser ilustrado medíante o seguinte exemplo:

Imaginemos alguém que tenha em seu poder urna lámina gilete e


um abridor de latas. Todos usam a primeira para barbear-se e a segunda
para abrir os produtos de conserva. Se, porém, tal pessoa quíser afirmar
sua liberdade, fugindo á norma comum e aplicando a gilete á lata e o
abridor a barba, terá exercido, sim, um ato de liberdade, mas com prejuf-
zo para si mesmo. Vé-se, pois, que a liberdade nao é um fim, mas um
meio para que atinjamos com espontaneidade a finalidade que está im
pregnada na natureza de cada coisa e de cada pessoa (cada ser humano é
naturalmente impelido para os valores da inteligencia e do amor de be
nevolencia, e a liberdade é-lhe dada para que cultive tais valores com
grandeza de ánimo e ideal).

A liberdade desenfreada chama-se "licenciosidade". Em vez de tra-


zer bem-estar e alegría, acaba tornando a pessoa dependente de prazeres
desarrazoados, nocivos ao individuo. É precisamente para esta ilusio da
licenciosidade que os mestres cha mam a atencáo.

2.3. A Mulher

Numa época em que a mulher galga as posicóes mais elevadas da


sociedade em nome de um justo feminismo, é estranho verificar quanto é
explorada - e quanto ela se deixa explorar- pela pornografía; a perspec
tiva do dinheiro pode levá-la a atitudes vis (coisa, alias, que também o
homem pratica). Em nome da nobreza da sua feminilidade, é para dese-
jar que ela imponha respeito. k

380
PORNOGRAFÍA: AMEAQA Á SOCIEDADE 45

2.4. Familia

O Papa toca também as conseqüéncias que a pornografía tem so


bre a familia. Principalmente as crianzas sao vltimas das cenas indecoro
sas que Ihes sao oferecidas subliminarmente, como se fossem modelos
de vida. Mas nao somente as enancas sao prejudicadas; nenhum adulto
está isento da influencia subliminar de escritos e imagens indecorosos, por
mais forte que presuma ser. A tecnología moderna, consciente desse in-
fluxo, conhece métodos requintados de sugestionar e induzir as pessoas
sem que estas o percebam; cf. PR 312/1988, pp. 194-206.

3. Conclusio

Eis os motivos pelos quais nao somente os cristáos, mas também


os judeus, componentes da "Alianca Religiosa contra a Pornografía", se
encontraram em Roma para estudar o problema em foco. No Brasil
existe o Movimento dito "O Amanhá de Nossos Filhos", que vem lutando
junto as autoridades governamentais em prol de melhor qualidade dos
espetáculos de nossos meios de comunicado; trata-se de urna iniciativa
de pessoas bem intencionadas e corajosas, que só poderáo obter algum
éxito se os cidadaos preocupados com o futuro da nova geracáo se jun
ta rem ao Movimento, prestando-lhe adesáo e apoio. Enderezo: Rúa Ma-
ranháo 620, sala 13-C-01240-000 Sao Paulo (SP). Fone: 66-0041.

APÉNDICE
Á guisa de Apéndice, publicamos urna noticia colhida no JORNAL
DO BRASIL de29/04/92, concernente ao livro de José Saramago, que últi
mamente explorou o erotismo e a sensualidade ao abordar a figura de
Jesús Cristo; ver PR 358/1992, pp. 110-124:

Vetado o romance Evangelho segundo Jesús Cristo,


de José Saramago, de concorrer ao Premio Literario Euro-
peu, concedido pela primeira vez em 1990 e do qual podem par
ticipar obras de autores europeus publicadas no ano anterior. O
veto do subsecretario de Estado de Cultura de Portugal, Sousa
Lara, está gerando polémica e protestos em toda a Comunidade
Européia. Sousa Lara justificou sua decisáo afirmando apenas
que o romance nao representa Portugal, explicacáo que só ser-
viu para aumentar a indignacáo. Os meios literarios europeus
consideram antidemocrática a decisáo do conservador' Sousa
Lara e atribuem o veto ás posicóes políticas de Saramago. O
autor preferiu ficar calado. Ñas ediedes de domingo dos jomáis
portugueses, José Saramago limitou-se ao clássico "nao tenho
qualquer declarado a fazer".

381
Urna comunidade anglicana passa

Do Anglicanismo ao Catolicismo

Temos registrado em PR a conversáo de luteranos e anglicanos1 ao


Catolicismo; cf. PR 358/1992, pp. 132-134; 354/1991, pp. 527s.

Segue-se mais um caso recente, ocorrido nos Estados Unidos e di


vulgado pelo periódico "Liaisons Latino-américaines", de margo 1992,
pp. 7s. É desta fonte que extrafmos os dizeres seguintes:

"A paróquia episcopal de Arlington, no Texas, converteu-se ao


Catolicismo. Todos os membros dessa comunidade, posta sob a invoca-
gáoda Virgem María, foram recebidos pelo Bispo católico de Fortti Worth,
no Texas, de quem depende a cidade de Arlington, segundo o mapa
eclesiástico católico. Arlington é parte integrante da metrópole de Dallas,
onde o presidente Kennedy foi assassinado. O Reitor da paróquia episco
pal de Santa María de Arlington, o Rev. Hawkings, de 53 anos, casado e
pai de dois filhos já maiores, será recebido como presbítero e gozará dos
mesmos direitos que os presbíteros católicos.

A conversáo dessa paróquia episcopaliana para a Igreja Católica tem


causas múltiplas. De um lado, o Reitor e seus fiéis julgavam que, por oca-
siáo do Congresso de Phoenix (Arizona), dois Bispos anglicanos que ha-
viam ordenado homossexuais, seriam excomungados. Mas a verdadeira
razio foi a ordenacáo de mulheres para o ministerio sacerdotal e o epis
copado na Comunháo Episcopaliana (Anglicanismo dos Estados Unidos).

O Bispo episcopaliano do lugar declarou que 'ele sofría por essa


separacáo', mas que de modo nenhum ele se oporia a um relaciona-

1Episcopais ou anglicanos sao os cristáos que em 1534 se afastaram


de Roma, sob a chefía do rei Henríque VIII, a quem a Santa Sé nao pode con
ceder o divorcio pleiteado.

382
DO ANGLICANISMO AO CATOLICISMO 47

mentó harmonioso com o Bispo católico. A generosidade do Bispo epis-


copaliano foi tal que doou sua igreja ao Reitor de Santa María e aos res
pectivos fiéis".

Como se vé, as ¡novacóes arbitrarias e o desrespeito ás leis tradi-


cionais do Cristianismo suscitam o mal-estar e o afastamento dos fiéis. O
que ocorre atualmente no Anglicanismo com certa freqüéncia, pode
ocorrer em qualquer denominacáo crista que nao guarde as suas notas
características ou perca a sua identidade. Isto vem a ser encaminhamento
para a autodestruicáo e a morte.

LIVROS EM ESTANTE

O Sentido da Vida e da Morte, pelo Dr. Evalúo Alves D'Assump-


cSo. - Edigáo da Cirplast-Cosmo S/C Ltda., Beta Horizonte 1991, 120 x 180
mm, 87 pp.

O Dr. Evaldo D'Assumpgáo tem-se dedicado aos pacientes termináis e


ao estudo da morte, sendo o fundador e primeiro Presidente da ABRATAN,
Associagáo Brasileira de Tanatologia.

O presente livro trata multo mais da vida do que da morte. Encara o


problema da felicidade e de como a descobrir; para tanto, oferece sugestdes e
normas inspiradas pela Psicología, que tém valor também para o cristáo.

O ponto nevrálgico da obra é o seu primeiro capitulo intitulado "O Senti


do da Vida e da Morte" (pp. 9-25). O autor al entra em duas questóes para as
quais se requerem claras nocóes de Filosofía:

1) Por que incessantemente aspiramos á felicidade nesta vida?-O Dr.


Evaldo responde que isto se deve ao lato de que cada um de nósjá experi-
mentou a felicidade perfeita quando existia só no pensamento de Deus ou an
tes de nascer neste mundo (cf. pp. 19s). Ora talresposta implica algo como a
preexistencia das almas e lembra, de certo modo, o espiritismo (o autor, po-
rém, 6 peremptoriamente contrario á reencarnacSo; cf. pp. 38$).

A/a verdade, devemos dizer que desde toda a eternidade o Criador tem
na sua mente divina o arquetipo, o exemplar ou o modelo de cada um de nos.
Todavía só comegamos a existir realmente no día em que tomos concebidos

383
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 363/1992

no seio de nossa máe. Por conseguirle, nosso anseio de felicidade nao se de


riva de urna experiencia de felicidade pré-terrestre; mas é algo de congénito,
como sBo os anseios de vida, amor, verdade, justíga... Desojamos tais valo
res nao porque os conhegamos com perfeigSo, mas porque correspondem á
índole de nossa natureza; tendemos espontáneamente para o Bem, porque o
Criador deixou o seu sinete em riós óu esse desejo de possuir o Bem e dele
gozar.

2) Ao tratar do após-morte, o autor afirma que do tempo passamos para


a etemidade (pp. 23.34. 49) - o que mais urna vez é falso. Só Deus é eterno;
somente para Deus nao há passado nem futuro. Nos, criaturas, que comega-
mos, conhecemos necessariamente um passado, que se vai desdobrando e
ocasiona o nosso futuro; este ritmo está impregnado em nosso ser. Ninguém
se torna eterno após a morte; feto seria contraditório, pois a etemidade se
opde ao "vir-a-sef; é a posse simultánea de toda a sua existencia. Após a
morte física, portanto, toca-nos a existencia de urna alma sem fím ou ¡mortal,
que necessariamente conhece urna sucessáo de atos psicológicos ou o tem
po psicológico chamado "evo". Entre a etemidade, que 6 de Deus só, e o
tempo, que ó das criaturas, existe o evo, que é das criaturas que
comegaram a existir, mas nao acabario (por serem ¡moríais).

Ás pp. 46 s, o Dr. Evalúo entra na delicada questSo da graga de Deus e


do livre arbitrio do homem: como se conciliam entre si? - O autor nao desee a
pormenores, pois seu Bvro nao é um tratado de Teología, mas pode-se dizer
que "resolve" o problema com simplicidade excessiva.

Em suma, o Bvro é útil na medida em que propóe um aconselhamento


psicológico para que alguém viva em paz. Mas merece serias cestrigóes
quando entra em materia fíosófíca ou teológica.

Gota de Luz, por Gislaine María D'Assumpgáo. Tradugáo castelhana


do original braslleíro intitulado "Pingo de Luz" Qá esgotado). - Buenos Aires
1989, 135 x 190 mm, 40 pp.

A autora lem pós-graduagáo em Psicología Transpessoal e trabaJha em


Psicología Clínica. Como diz a IntrodugSo do Livro (p. 7), tal obra foi inspirada
pelo desojo de explicar a morte aos pequeninos. Conta entáo urna historieta
infantil, que supóe a preexistencia de cada ser terrestre num mundo transcen
dental; os "pingos de Luz" que exlstem no espaco, vém á Térra para aprender
como numa escola, e voltam para o seu lugar de origem mais esclarecidos e
eruditos ou mais luminosos (verpp. 32s). A autora supóe que, mesmo exlstín-
do na Tena, o individuo (pingo deluz=alma, espirito) pode viajar peto espaco,
visitando assim o seu Pal e entes queridos do além.
(continua na pág. 347)

384
ORDINARIO
para celebragio da Eucaristía com o povo
255 edicáo (atualizada)

Tradugáo oficial revisada para o Brasil pela CNBB, aprovada pela


Santa Sé, contando 11 Oracóes Eucarfsticas, inclusive a mais recente
"Para diversas circunstancias" Í8 novembro 91), com acréscimo
de aclamacóes e novos textos. Impressao em 2 cores, com tipos bem
legfveis. 110 págs. Formato de bolso (15 x 11). Cr$ 4.000,00.

1. SAO JOÁO DA CRUZ, O MESTRE DO AMOR


D0M ODILÁO MOURA, OSB.

Obra publicada em comemoracáo do 4? centenario da morte de


Sao Joáo da Cruz. Nela está retratada a personalidade grandiosa do ho-
mem e do santo. A sua doutrina espiritual é analisada com criterio teoló
gico. 0 Doutor da Mística mostra-se na sua auténtica imagem, positiva c
atraente. O livro pode ser considerado urna ¡ntroducáo clara e completa a
mística San Juanista.
Editora G.R.D. - 1991. 167p Cr$ 31.000,00

2. PORQUE CRER? A FÉ E A REVELACÁO.

Por Luiz José de Mesquita. Editora Ave María - Sao Paulo

Cr$ 50.000,00

Dom Estéváo disse deste livro em PR 353/456:


"Denso e Precioso... livro sobre a fé e a Revelacáo Divina. Aborda a com
plexa temática de maneira exaustiva; as suas reflexóes teológicas, filosó
ficas, inspiradas por S. Tomás de Aquino e sua escola, acrescenta urna
coletdnea de textos do Novo Testamento, da tradicáo e do Magisterio da
Igreja atinentes a fé".

3. SAO BENTO E A PROFISSÁO DE MONGE


Por Dom Joáo Evangelista Enout O.S.B. 190 Págs. .. Cr$ 18.000,00
O genio, ou seiaa santidade de um monge da Igreja latina do sáculo VI
(480-547) - SAO BENTO - transformou-o em exemplo vivo, em mes-
tre e em legislador de um estado de vida crista, empenhado na procura
crescente da face e da verdade de Deus, espelhada na trajetória de um
viver humano renascido do sangue redentor de Cristo. - Assim, o dis-
cfpulo de Sao Bento ouve o chamado para fazer-se monge, para assu-
mir a "profissáo de monge".

RENOVÉ QUANTO ANTES SUA ASSINATURA DE PR.


PARA 1992: CrS 30.000.00
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" Ano: 91:
Encadernado em percalina, SSO págs. com índices
(Número limitado de exnmplares)... Cr$ 50.000.00
4S CENTENARIO DE FUNDAQÁO DO MOSTEIRO DE S. BENTO
1590-1990

DOCUMENTOS Vol. I destruido pelos


invasores fran
HISTÓRICOS ceses em 1711.

Vol. II (1688-1793).
500 págs.

Vol. III (1793-1829)


447 págs.

Vol. IV (1829-1906)
580 págs.

VoLV (1907-1921)
438 págs.

desástenlo Vol. VI (1924-1943)


Formato 28 x 19,5 iro
528 págs.

Leitura, Introducáo e índices pelo Prof. Deoclécio Leite Macedo. Apre-


sentagáo pelo Abade do Mosteiro de Sao Bento, D. Inácio Barbosa Ac-
cioly O.S.B. Cada voiume contém valiosas reproducóes de manuscritos,
escrituras de terrenos, plantas origináis dos sáculos XVII e XVIII, ofere-
cendo preciosa contribuicjio aos estudiosos pesquisadores da historia
do Rio de Janeiro, onde está situado o Mosteiro de Sao Bento, fundado
em 1590, que continua, sem interrupcao, presente na "heroica Cidade
de Sio Sebastiáo", louvando o Senhor e formando milhares de jovens
em seu Colegio fundado em 1858. '
(Cada vol. Cr$ 100.000,00.)

RIQUEZAS DA MENSAGEM CRISTA (2^ ed.), por Dom Cirilo Folch


Gomes O.S.B. (falecido a 2/12/83). Teólogo conceituado, autor de um
tratado completo de Teoiogia Dogmática, comentando o Credo do Povo
de Deus, promulgado pelo Papa Paulo VI. Um alentado voiume de 700 p.,
bestseller de nossas Edicóes. Cr$ 58.000.00.

O MISTERIO DO DEUS VIVO, P. Patfoort O.P. O Autor foi exami


nador de D. Cirilo para a conquista da láurea de Doutor em Teoiogia no
Instituto Pontificio Santo Tomás de Aquino em Roma. Para Professores
e Alunos de Teoiogia, é um Tratado de "Deus Uno e Trino", de orienta-
cao tomista e de índole didática. 230 p. Cr$ 38.000,00.

EDigÓES "LUMEN CHRISTI"


Rúa Dom Gerardo, 40-5? andar- Sala 501
Caixa Postal 2666 - Tel.: (021) 291-7122
Rio de Janeiro-RJ
20001-970