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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoharrt)
APRESENTAQÁO
DA EDIpÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
'.'■" visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propde aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
IL vista cristáo a fim de que as dúvidas se
, dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Verítatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
^^^^^^^^H ANO XXXIV

■^^^^^H^^H MAIO
■^^^^^^^^H 1993

SUMARIO
Causa da nossa alegría

"Sei, mas nao me conformo"

"Aborto. Um guia para tomar decisoes éticas"


(0
UJ A Arte Mahikari

o Profecías de fim do mundo

i
Os comerciáis da TV

UJ 0 domingo: por qué?


_J
OD
O Stephen Hawking: "Deus, Eu e a Ciencia"
(Y*

Q. Grupo Cristao Sao Francisco de Assis


PERGUNTE E RESPONDEREMOS MAIO 1993
Publicábalo mensal N9 372

Diretor- Responsável SUMARIO


Estéváo Bettencourt OSB
Autor e Redator de toda a materia
publicada nes'te periódico Causa da nojsa alegría 193
Deus e o mal:
Oiretor-Administrador: "Se¡, mas nao me conformo" 194
D. Hildebrando P. Martins OSB Ambiguo e capcioso:
"Aborto. Um guia para tormar
AdministracSo e distribuicáo: decisoes óticas". porC.D.D 203
Edicóes Lumen Christi Nova Associacao Religiosa:
Dom Gerardo. 40 • 5? andar, s/501 A Arte Mahikari 211
Tel.: (0211 291-7122 Pululam
Caixa Postal 2666 Profecías de fim do mundo 221
20001-970 -- Rio de Janeiro - RJ O Tema do Dia:
FAX (021) 263-5679 Os comerciáis da TV 227
Um Documento Pastoral:
Impfessao e Encademafao
O domingo: por qué? 231
Um Genio fala:
Stephen Hawking: "Deus, Eu e
a Ciencia" 235
•MARQUESSARA/VA" Insidioso:
GRÁFICOS E EDITORES S.A. Grupo CristSo Sao Francisco de
Telt.: (0211 273-9498 ■ 273-9447
Assis 240

NO PRÓXIMO NUMERO

Nulidade de Casamento. - Novo Rito de Batismo? — Eutanasia Volunta


ria ... Eutanasia Involuntaria. — "Historia" (J.R. dos Santos). — AOrdem
DeMolay. — Santo Antonio de Categeró. — Preservativo ou Prevengao?

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA


ASSINATURA ANUAL 112 números) ds P.R.: Cr$ 250.000.00 - n? avulto ou atrasado Cr$ 25.000.00

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a Revista.
UNISANIU5 - r AM S

CAUSA DA NOSSA ALEGRÍA

É necessário ao homem procurar alegría..., nao alegría superficial e


ilusoria, mas urna alegría profunda e fundamentada. Para quem tem fé, es
ta se encontra principalmente nos valores transcendentais, que nao passam.

Diz-se — e isto ressoa freqüentemente no mes de maio — que María é


"causa da nossa alegría". Por qué? — A mais de um título:

Já a saudacao que o anjo dirigiu a María, ao anunciar-lhe a Encarna-


cao do Verbo, foi Chaire, Mariám, alegra-te... María podía alegrar-se, como
a filha de Siao em Sofonias 3,14, porque o Senhor Deus iría ter com ela e
se faria homem nascendo de suas pun'ssimas entranhas. María havia de co
laborar, de modo muito íntimo, com o Messias na obra da Redencao do
mundo, a mais preciosa obra de Deus. Daí ser ela chamada a sentír-se san
tamente alegre; cf. Le 1, 28.

Urna vez Mae do Verbo Encarnado, María levou a exultacao á casa de


Isabel. Sim; Joao Batista, no seio de sua mae, reconheceu o Messias presen
te no seio de María e proclamou-0 pelos labios de Isabel (cf. Le 1,43).

Mais: ao inaugurar a sua vida pública, Jesús quis dar um sinal de sua
gloria, e o deu... por intercessao de María (cf. Jo 2,1-12). Ñas bodas de Ca
na, a Mae solícita tomou parte na aflicao do jovem esposo, ao qual faltava
o vinho de praxe na festa, e pediu a Jssus que interviesse. Jesús o fez por
tentosamente, após ter notado que estava antecipando a sua grande Hora
a pedido de María; cf. Jo 2,4. Por conseguinte, María está no inicio do mi
nisterio público de Jesús como Mae atenta as necessidades dos homens; é a
Mae providente e zelosa, á prece da qual Jesús atende.

E, no fim da vida pública do Senhor, María aparece de novo, desta


vez ao pé da Cruz; Ela entao é solenemente constituida Mae de todos os
homens, pois, na pessoa de Joao, Jesús Ihe entrega a humanidade ¡nteira;
cf. Jo 19, 25-27. Por esta sua maternidade espiritual, María se torna a No
va Eva (nome que quer dizer."Mae dos viventes"; cf. Gn 3,20). Os crístaos
sabem assim que ha no céu quem os acompanhe com olhar e intercessao
de Mae; a própría Mae de Deus feito homem é a Mae de todos os homens.
Mae é sinal de ded¡cacao e amor.

Tais sao os motivos pelos quais se pode afirmar que "María é causa da
nossa alegría". Possa esta alegría habitar no coracao de cada fiel, mesmo
em horas tempestuosas e difíceis! Que o olhar filial para María seja alentó
e reconforto para todos, poís em María se encontram a ternura e o amor
maternos em grau singular.

E.B.

193
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

ANO XXXIV - N? 372 - Maio de 1993

Deus e o mal:

'SEI, MAS NAO ME CONFORMO'

Em si'ntese: O mal ou a infelicidade dos homens no mundo é, nao ra


ro, motivo de perplexidade e de desafio a Deus. O artigo considera, em ter
mos filosóficos (aptos a falar a qualquer leitor), o que é o mal e como
Deus se comporta frente ao mal que decorre das limitacoes das criaturas.
Se Deus quis criar (e Ele o quis para comunicar a sua perfeicao a outros se
res), Ele só podía criar seres limitadamente perfeitos, pois um ser ilimita
damente perfeito seria outro Deus — o que vem a ser um absurdo. Deus,
porém, nunca permitiría o mal que as criaturas cometem se nao tivesse re-
cursos em sua sabedoria para tirar dos males bens aínda maiores (S. Agos-
tinho).

A mentalidade antropocéntrica dificulta ao homem de ho/'e compre'


ender o relacionamento da criatura com o Criador. O verdadeiro enfoque
é teocéntrico, pois o homem é pequeño demais para bastar a si; Ele foi fei-
to para se consumar em outrem ou no Bem Supremo Infinito, único capaz
de saciar sua capacidade de Absoluto e de Infinito.

* * *

Está constantemente em discussao a questao do mal (f ísico e moral)


no mundo. Assume varias modalidades, urna das quais foi recentemente re-
colocada aos olhos do público num periódico de Curitiba:

Se Deus existe e é bom, devia ter feito o homem feliz, ¡sentó de do-
eneas, lutos, miserias, fome. "Se dependesse de mim, teria criado a mim e
a eles nao apenas bons, como tao bons que nem vontade nem capacidade
para o mal possuíssemos. Pois nao é inteiramente bom quem sequer pode
fazer o mal...

Grito, diante da dor universal e da ilusao com que a suportamos, o


mesmo que a poetisa diante do trespasse dos bons e belos sabios: 'Sei que

194
"SEI, MAS NAO ME CONFORMO"

assim é, mas nao o aceito e sobretodo nao me conformo1.' " fGazeta do


Povo, Curítiba. 13/12/92).

A conseqüéncia que Emir Caluf, autor das palavras ácima, tira é que
afinal nem Deus nem deuses existem!

O problema nao é novo, mas, visto que volta sempre á baila, será
abordado mais urna vez ñas páginas seguintes. O assunto, alias, já foi
considerado em PR 247/1980, pp. 304-306; 297/1987, pp. 61-69.

1. DEUS E O MAL: COMO EXPLICAR?

1) Antes do mais, coloca-se a pérgunta: este mundo, aparentemente


desarrumado como é, que origem terá tido? Veio do acaso? é eterno?
Tem um Criador?

A resposta nao é difícil.

a) O acaso nao é sujeito que produza seus efeitos. É simplesmente o


nome que damos á nossa ignorancia; quando ocorre um acontecimento cu
jas causas nao conhecemos, dizemos que se deu por acaso. De resto, ao la
do das falhas que verificamos no mundp, existe tao estupenda ordem {ima-
ginem-se o "infinitamente" grande do cosmos e o "infinitamente" peque-
no do átomo) que este mundo exige uma Inteligencia que o tenha planeja-
do e I he tenha dado existencia; o "jogo de roleta" da natureza nunca ex
plicaría a realidade de uma só molécula de ADN.

b) Se o mundo fosse eterno ou sem principio, seria Absoluto, seria, o


próprío Deus. Ora isto é contraditório, porque este mundo é marcado pela
dependencia, a mudanca e a contingencia ..., notas que se opoem aos con-
ceitos de Absoluto e de Eterno.

c) Resta, pois, dizer que este mundo tem um Criador. Supoe um Ser,
fonte de todas as perfeicoes nele existentes, Ser incriado, infinitamente
perfeito, que é a causa adequada e necessária para explicara realidade do
cosmos.

2) O mundo foi criado por amor. Nenhum interesse particular pode


ter movido Deus a criar. Por definicao. Ele é perfeito e feliz. Se tirou do
nada as criaturas, fé-lo únicamente para dar-lhes parte na sua vida e cumu-
lá-las de bens. Um famoso axioma neoplatónico reza: "O bem é difusivo
de si", isto é, todo ser bom tende a comunicar a sua bondade a outros, pa
ra fazé-los felizes. - Nao há outra explicacao plausível para a existencia
do mundo.

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"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

3) Há agora urna importante observacao: Deus criou cada ser perfeito


na sua linha própria, isto é, fez o mineral perfeito como mineral, o vegetal
perfeito como tal, o homem perfeito como homem. Todavia nenhuma des-
sas criaturas é perfeita de modo absoluto - nem o pode ser - porque fo-
ram todas tiradas do nada e sao constantemente ameacadas a cair no nada.
Urna criatura incapaz de falhar seria Deus. Só Deus, por ser o Absoluto, é
isento de falhas por sua própria natureza, ao passo que a criatura, pelo fa-
to mesmo de ser criatura, é falível. Assim, por exemplo, a violeta é perfei
ta como violeta, mas nao conhece, nao fala e está sujeita a murchar. O ho
mem é perfeito como homem, mas está sujeito ás falhas do raciocinio,
ao fmpeto das paixoes.

4) Isto explica que, no mundo presente, haja falhas e desgracas:

— a natureza irracional conhece suas falhas: enchentes, secas, incen


dios, terremotos, criancas que nascem deficientes... Isto tudo se explica
pelo exercício mesmo das leis naturais: evaporacao provocada pelo calor,
onda de frió que liquefaz o vapor de agua, donde aguaceiro...; fai'sca de
raio que cai numa floresta, donde incendio...; ¡mperfeita combinacao dos
genes de urna crianca...

- o homem como criatura racional também falha, porque pode fazer


mau uso da sua liberdade, provocando furtos, morticinios, guerras, donde
procedem a peste, a fome, a miseria...

5) o Senhor Deus nao quer intervir no mundo, coibindo ou teleguian-


do, a todo momento, as criaturas para que nunca falhem. Isto daria origem
a um mundo artificia! ou de marionetes, como alguns preconizam. Se deu
a liberdade do homem, o Criador quer respeitá-la, deixando que se exerca,
pois a liberdade é um dom que dignifica o homem, elevando-o ácima da
categoría dos robos automáticos. Em linguagem precisa, devemos dizer:
Deus nao quer o mau procedimento do homem nem os males em geral,
mas Ele os permite, porque decorrem da natureza mesma das criaturas;
Deus só quer o bem.

6) Deus, porém, nao é mero espectador do curso da historia. Diz S.


Agostinho que Ele nunca permitiría os males se nao soubesse tirar do mal
bens ainda maiores'; Ele tem recursos para fazer que os males redundem

1 "O Deus todo poderoso..., por ser soberanamente bom, nunca permitiría
que algum mal acontecesse em suas obras se nao fosse bastante poderoso e
bom para tirar do próprio mal o bem" f Enquirídio 71, 3).

"Deus julgou melhor tirar do mal o bem do que nao permitir a exis~
téncia de mal nenhum" fEnquirfdio 27).

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"SEI. MAS NAO ME CONFORMO"

em bens para o homem. Isto é tao verídico que já os gregos pré-cristaos


afirmavam: Pathos mathos, sofrimento é escola, é educacao. Pela dor, mui
tos e muitos individuos superam seu egoísmo e se tornam mais compreen-
sivos, mais dedicados aos outros. Esta verdade se tornou evidente ao máxi
mo quando Deus permitiu o pecado dos primeiros país; este acarretou de-
sordem para a humanidade, mas também foi ocasiao para que o próprio
Filho de Deus assumisse a natureza humana e, morrendo na Cruz, transfi-
gurasse a dor e a morte, merecendo assim para os homens he ranea rnuito
mais rica do que aqueta perdida pelos primeiros pais.

Este designio de Deus frente á liberdade e aos males das criaturas é


esbocado pela S. Escritura desde as suas primeiras páginas. Assim, por
exemplo, disse José, vendido por seus irrnaos a mercadores estrangeiros e
levado para o Egito:

"Nao fostes vos que me mandastes para cá; foi Deus... O mal que vos
queríais fazer-me, o designio de Deus o mudou em bem, a fim de cumprir
o que.se realiza boje: salvar a vida de um povo numeroso" (Gn 45,8;50,20).

Sao Paulo comenta: "Nos sabemos que Deus coopera em tudo para o
bem daqueles que o amam" (Rm 8, 28).

Os Santos sempre tiveram a conviccao desta verdade, como se depre-


ende dos seguintes testemunhos:

Sao Tomás Moro, pouco antes do seu martirio, consolava sua filha,
dizendo: "Nada pode acontecer fora do designio de Deus. Ora tudo o que
Deus quer, por pior que nos paraca, é o que há de melhor para nos" (Carta
á sua filha).

Lady Julián of Norwich ese revé: "Compreendi, pois, pela graca de


Deus, que era preciso que eu me ativesse firmemente á fé, e acreditasse
com nao menor firmeza que todas as coisas se voltarao para o bem. E verás
que todas as coisas se tomarao boas (thou shalt see thyself that all manner
of thing shall be well)" (Revelacoes 32).

7) Está claro que Deus podía ter criado um mundo diferente do nos-
so, talvez com menos incidentes. Se Ele quis o que existe. Ele o quis sabia
mente. — De resto, deve-se afastar o conceito de "o melhor mundo possí-
vel" ou de um mundo bom em grau superlativo. Tal nocao é absurda, co
mo absurdo é o conceito de "o moví mentó mais rápido possível". Com
efeito; o mundo é um conjunto de seres finitos ou limitados; ora qualquer
conjunto de seres finitos é suscetível de tornar-se mais perfeito; sempre se
Irte poderá acrescentar algum grau de perfeicSo; nunca, porém, se chegará

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"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

ao auge da perfeicao, pois esta só existe em Deus e nao resulta da soma de


parcelas de perfeipao; toda soma de seres finitos é finita e pode sempre re-
ceber um acréscimo.

Em conseqüéncia, vé-se que a nocao de "o melhor mundo possfvel"


é absurda. Deus quis o mundo que conhecemos, e escapa á inteligencia hu
mana saber por que escolheu este e nao outro modelo de criatura. Ver o
Apéndice a este artigo, pp. 200-202.

8) Em última análise, faz-se mister ainda dizer o que é o mal, pois


erróneas nocoes a respeito dificultam o entendimento da questSo. O mal
nao é um ser, mas é precisamente a carencia de um ser devido; é a ausencia
de algo que nao deveria estar ausente. Paralelamente as trevas nao sao um
ser, urna energía negra, como a luz é energía branca; mas as trevas sao a au
sencia de luz; basta retirar a luz, para que naja trevas. Assim, por exemplo,
a cegueira é um mal no homem, porque é a falta de visao numa criatura a
quem compete ter olhos; mas a falta de olhos numa pedra nao é um mal,
porque nao toca á pedra ter visao. O pecado é um mal, porque significa
urna ac3o humana que carece de harmonía com o seu Fim Supremo.

Existem dois tipos de mal:

— o mal físico: o que ocorre entre as criaturas irracionais ou também


na corporeidade do homem: enchentes, secas, incendios naturais, genoti
pos defeituosos...

— o mal moral: o que decorre do mau uso da liberdade humana e que


nos chamamos pecado.

O mal, como nao-ser ou como ausencia, nao tem causa direta (o nao-
ser nlo precisa de causa direta para existir). O mal só pode ter causa indi-
reta, e esta só pode ser a criatura; sim, sonriente a criatura é capaz de pro-
duzir um efeito inacabado ou carente da perfeicáo que Ihe é devida. Em
conseqüéncia, Deus nunca pode ser causa do mal; isto é metafísicamente
¡mpossível. Ocorre, porém, que Deus quis criar seres limitadamente perfei-
tos, cíente de que falhariam, mas o Criador envolveu tais falhas no seu pla
no de amor, determinando fazer dos próprios males das criaturas a ocasiSo
de maior crescimento na escala do bem. Ele preferiu criar a nao criar, e
criar com grande liberalidade seres livres e dignos, aos quais levaría o reme
dio no tempo oportuno. Este designio de Deus é um fato; a criatura nao
tem como discutir, pois admitir um Deus omisso, injusto ou maldoso é in-
coeréncia, visto que Deus por definicáo é sumamente perfeito. Ou Ele é
santo em grau máximo, ou nao existe. Resta, pois, em última análise ado
rar o plano de Deus e fazer-lhe um ato de confianza irrestrita, pois é certo

198
"SEI. MAS NAO ME CONFORMO"

que Deus nao pode errar nem se engañar. Sao Paulo diz em termos conci
sos e eloqüentes:

"Quem és tu, ó homem, para discu tires com Deus? Acaso dirá a obra
ao seu artífice: 'Por que me fizeste assim?'" (fím 9, 20).

Passemos agora a duas observacoes fináis.

2. REFLEXOES FINÁIS

A problemática das relapdes do homem com Deus em nossos tempos


é perturbada por causa de duas concepcSes falsas muito presentes á rnen-
talidade moderna:

2.1. Antropocentrismo

Desde o sáculo XVI (Renascimento, Reforma protestante) e pelos sé-


culos seguintes, com Descartes, Hume, Kant, Augusto Comte, ... o pensa-
rnento filosófico tende a fazer do homem o centro ou referencial de toda
cosmovisao; sería o criterio dos valores; nos últimos decenios nem mesmo
o homem em geral, mas o eu de cada um vem a ser esse eixo de referencias.

Dir-se-ia que a filosofía contemporánea volta á tese do sofista Protá-


goras grego (sáculo V a.C): "0 homem é a medida de todas as coisas, da-
quelas que sao por aquilo que sao, e daquelas que nao sao por aquilo que
nao sao". Para Protágoras, o único criterio é somente o homem, o homem
individual: "Tal como cada coisa aparece para mim, tal é ela para mim; tal
como aparece para ti, tal é para ti". Sendo assim, ninguém está no erro,
mas todos estao com a verdade (com a sua verdade).

Este modo de pensar antropocéntrico, individualista e relativista tem


suas incidencias sobre a própria religiosidade do homem moderno. Desde
Lutero, é dito ao cristao que ele a sos pode fazer o livre exame da Biblia;
tirará desta as conclusoes que Ihe parecerem retas e fundará seu Cristianis
mo próprio. Em nossos dias, tal atitude, freqüente como é, tem dado ori-
gem a múltiplas correntes religiosas e até ao ateísmo.

Muito diferente é a concepcao que os antigos e medievais professa-


vam (e ainda hoje professam numerosos cristaos): Deus é o grande referen
cial do pensamento e o criterio dos valores. O objetivo da vida humana é
dar gloria a Deus — o que nao pode deixar de redundar na plena realizacao
do próprio bem. O Evangelho, alias, incute freqüentemente essa atitude: o
homem deve perder sua vida temporal, mortal, para ganhar a vida ¡mortal
(cf. Mt 16, 25; Jo 12, 34s); deve abaixar-se para ser exaltado (cf. Le 14,

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'PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

11); deve servir para ser servido (cf. Me 10,42-45); deve cair na térra e
morrer como o grao de trigo para dar muito fruto (cf. Jo 12,24). O Missal
Romano acrescenta em urna de suas orapoes: "Deus, a quem conhecer é
viver, a quem serviré reinar..."

Isto nao implica masoquismo nem derrotismo, mas significa que o


homem é um ser relativo a Deus, e nao um ser absoluto; ele tem que re
nunciar a tudo oque o possa afastarde Deus, para se encontrar renovado em
Deus. Sonriente em Deus, o homem encontra sua explicacao, sua razio de
ser e sua finalidade, porque só Deus é o Bem Infinito, ao qual todo ser na
turalmente aspira; o homem é pequeño dema¡s para bastar a si; ele nao
pode deixar de se entediar e de definhar, se se fecha em si mesmo. — Esta
verdade, que assusta e pode encontrar resistencia, contém o segredo da
plena consumacao do ser humano. Quem a tenta viver, descobre que ai
está a verdadeira sabedoria.

2.2. O conceito de felicidade

A primeira vista, felicidade parece significar saúde, dinheiro, amigos,


bem-estar temporal, e infelicidade... precisamente o contrario. — Aos pbu-
cos, porém, todo homem verifica que plena saúde e muitos bens materiais
aínda deixam o sujeito frustrado; sao bol has de sabao, pois desfalecem ce
do ou tarde. A fonte da verdadeira felicidade está dentro e nao fora do ho
mem; está nos valores éticos e principalmente na descoberta de Deus, o
Bem Infinito; Este é o único capaz de satisfazer cabalmente á capacidade
de Infinito que todos trazem dentro de si. Está claro que saúde e bens ma
teriais podem contribuir para dar certa felicidade ao homem; mas é de crer
que a Providencia Divina, em sua sabedoria, sabe ministrar os seus dons de
tal modo que cada qual, dentro do seu quadro de vida, encontré alegría e
estimulo, independentemente deste ou daquele tipo de valor material. Seja
aqui lembrado o famoso axioma: "Mais vale ser do que ter". As vezes o ter
dificulta o ser; só Deus sabe o que a cada um convém para que seja sempre
mais, usando os bens desta vida.
Se o conceito de felicidade derivada do ser for mais e mais compreen-
dido e aceito, o antropocentrismo irá cedendo ao senso de transcendencia
e de Absoluto, que é a fonte da verdadeira alegría.

A propósito pódese recomendar a excelente obra de Charles Journet:


La Mal. Essai Théologique. Desclée de Brouwer 1961.

APÉNDICE

Aqui seja colocada famosa questao já ligeiramente abordada no corpo


do artigo, a fim de se Ihe dar mais ampia explanacao:

200
"SEI. MAS NAO ME CONFORMO" 9

Se Deus é todo-poderoso e infinitamente bom, por que nao criou um


mundo melhor do que o nosso?

Respondemos por partes:

1) É certo que Deus é todo-poderoso. Se nao o fosse, nao seria Deus.


Ele so nao pode fazer coisas absurdas (círculo quadrado, montan has sem
vales...), porque tais coisas nao tém sentido em si mesmas (os seus termos
se destroem mutuamente).

2) É certo que Deus também é infinitamente bom; caso contrario,


nao seria Deus. Por definicao, Deus é a fonte de toda perfeicao.

3) Entao, observa-se, deveria fazer um mundo melhor do que o nos-


so. Se Ele o podia fazer. Ele também o devia fazer.

— Notemos que certamente Deus podia fazer um mundo melhor do


que o nosso; poderia estar intervindo a todo momento para corrigir o
curso erróneo das criaturas.1

Quanto a dever fazer, é de observar que Deus a nada é obrigado; o


que Ele faz, é feito gratuitamente; Ele Iivremente comunica as suas perfei-
coes, como Ele quer. Deus só poderia ser tido como mau se tivesse feito
um mundo em que o mal dissesse a última palavra, um mundo em que o
absurdo triunfasse de modo geral, um mundo em que só houvesse joio, e
nao trigo. Ora podemos dizer que, esse mundo mau, presa indiscutida do
mal, Deus nao o fez; em nosso mundo, o mal é a outra face ou o reverso
do bem; é a ocasiao do triunfo do bem, é como o joio que cresce com o'
trigo (joio semeado pelo adversario) e que nao deve ser i arrancado para
nao prejudicar o trigo (cf. Mt 13,28-30). Deus estava obrigado, por súa

1 Muito oportunas sSo as ref/exdes deJacques Marítain:


"O sistema soiar nao é urna máquina, como também nao oéo univer
so. Resulta da tonga evolucao histórica de urna muitidao de fatores postós
em interacao, nao de antemao unificados... Sem dúvida, a Causaprímeira
inteligente dirige essa evolucSo histórica segundo o seu plano criador, mas
Deus nao é um re/ojoeiro, um fabricante de relógios; é um Criador de na-
turezas. O mundo nao é um relógio, mas urna república de naturezas; e a
infalível causa/idade Divina, pelo fato mesmo de ser transcendente, faz
que os acontecimentos ocorram segundo a sua índole própria: de modo
necessário, os acontecimentos necessários; de modo contingente, os acon
tecimentos contingentes; de modo fortuito, os acontecimentos fortuitos"
(Raison et Raisons, París 1947, p. 62).

201
10 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

perfeicao, apenas a fazer um mundo no qual o mal nao dissesse a última


palavra.

Colocado este principio, observamos que é ¡mpossível a nos definir


quai o mundo em que o bem triunfe melhor sobre o mal. O mal existirá
sempre, pois decorre das limitacoes (físicas e moráis) das criaturas. Pois
bem; em que proporcao (ou dose) o mal deveria ou nao devena existir
no mundo? É pergunta para a qual nao temos resposta. O conceito de "o
melhor mundo possível" é absurdo, como o é o conceito de "o movimen
tó mais rápido possi'vel", segundo já foi dito. Qualquer tipo de mundo em
que naja mésela de bem e mal, poderia ser discutido como sendo (aínda e
apesar de tudo) inadequado á Bondade Divina. O que sabemos, é que o
mundo presente foi por Deus tido como oportuno; nao queiramos censu
rar o Criador por causa disto, pois este mundo é certamente o campo em
que o bem e o mal se def rontam, com a certeza de que o Bem diz e dirá
a última palavra. Imaginar outro tipo de certame entre o Bem e o mal é,
da nossa parte, pretensáo que nao tem fim, é perda de tempo.

* * *

(continuapao da pág. 240)

4) A oferta de um Curso Bíblico por correspondencia no fim do fas


cículo em estilo protestante, visto que, para o protestante, ser cristao se
resume em ler a Biblia e procurar pola em prática, sem recurso aos sacra
mentos (o grande sacramento da Igreja Corpo de Cristo, os sete sacra
mentos...)

5} O Curso prometido no filheto é remetido a quem o pede; vem


num envelope da Imprensa Batista do Brasil — o que o identifica plena
mente. 0 folheto do "Grupo Cristao Sao Francisco de Assis" parece ser
urna artimanha destinada a ludibriar os católicos.

Pois bem. Importa nao só aos católicos, mas a todo homem honesto
denunciar o caráter de mentira e falsidade do livreto em foco. Os protes
tantes nao aceitam os santos, mas, como lobos revestidos de peles de ove-
Ihas (cf. Mt 7,15), fingem ser devotos de Sao Francisco de Assis somente
para aliciar o povo de boa fé ou incauto. Bem diz o Senhor Jesús que a
mentira é o artificio típico de Satanás, Ele que "é mentiroso e pai da men
tira, homicida desde o principio" (cf. Jo 8, 44).

Querer propagar o Evangelho na base da mentira e do dolo nao é cris


tao, nao é fazer a obra de Cristo, mas é satánico. O Senhor Jesús é "o ca-

(continua na pág. 230)

202
Ambiguo e capcioso:

"ABORTO. UM GUIA PARA


TOMAR DECISOES ÉTICAS"

por C.D.D.

Em símese: O aborto está sempre em foco. Últimamente foipublica


do no Brasil um folheto-guia para ajudar as mulheres a se decidir em favor
do aborto; tem por editora a Sociedade dita "Católicas pelo Direito a De
cidir", Sociedade norte-americana ramificada no Uruguai, onde se imprí-
mem livros da Sociedade em portugués. Tal Diretório-guia é capcioso, pois
parecem falar mulheres católicas a católicas dentro do zelo da ortodoxia
católica. Na verdade, porém, o opúsculo aprésenla a doutrína abortista
com verniz de ética católica, ou se/a, utilizando conceitos católicos esva-
ziados de seu sentido (tal se dá com "magisterio da Igreja, definigoes pa
páis, consciéncia, pessoa..."). 0 artigo subseqüente tenta por em re/evo os
sofismas de tal livro.

* * *

Existe, fundada nos Estados Unidos e ramificada no Uruguai, urna


Sociedade de Senhoras que se dizem católicas e propugnam, mediante im-
pressos e palestras, a liceidade do aborto. Tem o nome de "Católicas pelo
Direito a Decidir" (CDD). Empenham-se, com ardor, por tentar conciliar
fé católica e prática do aborto - o que aparece, de modo especial, num
fascículo intitulado: "Aborto. Um Guia para tomar Decisoes Éticas", da
autoría de Marjorie Reiley Maguí re e Daniel C. Maguí re (traducao de Paulo
Fróes a partir do inglés). Visto que os arrazoados deste impresso podem le
var muitos leitores a falsas conclusdes, examinaremos, ñas páginas subse-
qüentes, as suas principáis linhas.

1. APRESENTAQÁO

Na segunda capa do panfleto em foco, lé-se a Apresentacao seguinte:

"Católicas pelo Direito de Decidir e Catholics for a Free Choice sao


organizagoes com fins educativos e de promocao de idéias no Brasil, na
América Latina e nos Estados Unidos. Apoiam o direito da muiher a rece-
ber do Estado, no plano legal ou jurídico, a devida atengao á saúde repro-

203
12 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

dutora, ao ptanejamento familiar e ao aborto. Também trabalham em pro!


da reducao da incidencia do aborto e do aumento das opcoes das muiheres
perante a gestacao e a educacao dos fiihos, defendendo o desenvolvimento
de programas sociais e económicos nSo só para as muiheres, mas também
para as suas familias e os seus fiihos".

A presidente da Associacao é a Sra. Francés Kissling, com sede em


Washington e filial em Montevideo. Entre as suas colaboradoras está a Sra.
Rose-Marie Murara, brasileira conhecida por suas obras em prol da mulher
na sociedade contemporánea.

Além de opúsculos, a Sociedade em foco publica um boletim dito


"Aportes. Servico de Documentacao e Informapao de Católicas pelo Direi-
to a Decidir", publicado em Montevideo em língua portuguesa. Em tal bo
letim encontra-se enunciada entre as finalidades da CDD a seguinte: "CDD
é urna alternativa concreta pela liberdade de opcao dentro da Igreja Cató
lica", o que certamente é muito significativo, mas nao menos capcioso.

Percorramos os sucessivos itens do arrazoado de "Aborto. Guia para


Tomar Decisoes Éticas".

2. O ABORTO É HOMICIDIO?

O que impressiona na leitura do fascículo, é o fato de que, dizendo-se


católicas, as senhoras interessadas propugnam urna doutrina que evidente
mente contraria nao só os principios do Catolicismo, mas também os da
lei natural; utilizam nocoes de Teología Moral manipulando-as ou esvazian-
do-as de modo a chegar a conclusoes opostas áquelas da Teología Moral
Católica.

Como se compreende, a premissa básica para justificar o aborto con


sistirá em negar que o feto, desde o primeiro instante de sua concepcao, é
verdadeiro ser humano, dotado de alma ¡mortal e sujeito de todos os direi-
tos que tocam á pessoa humana. Como justificam tal negativa?

2.1. O feto é pessoa?

Já esta pergunta, como vem formulada á p. 5 do fascículo, é capcio


sa. Com efeito, "pessoa", no linguajar comum, lembra um ser consciente,
falante, que ocupa seu lugar ao sol... Ora, segundo a Filosofía perene, pes
soa é simplesmente "todo individuo de natureza racional", ou seja, todo
individuo que nao seja irracional (macaco, planta, mineral...); o ser huma
no, independentemente de sua estatura, de sua saúde, de sua posicáo so-

204
__. "ABORTO. UM GUIA PARA DECISÓES ÉTICAS" 13

cial..., pelo fato mesmo de ser um óvulo fecundado por um espermatozoi


de, já é pessoa, embora nao tenha personal idade ou pleno desabrochamen-
to de suas características de ser humano.

As mais recentes pesquisas biológicas levam á conclusao de que o fe


to, desde a fecundacao do óvulo, é auténtico ser humano, portador da pro-
gramacao que o fará aparecer como enanca formada, desde que se Ihe
déem as condipoes de desenvolvimiento necessárias. Principalmente o Dr.
Jeróme Lejeune se tem destacado neste setor de investigacoes; cf. PR
305/1987, pp. 457-461.

Nao compete á Igreja definir quando comeca a vida humana, ao con


trario do que pensam as autoridades do opúsculo. O assunto é da aleada
das ciencias biológicas. A Moral católica se baseia na real idade apurada pe
las ciencias contemporáneas. Alias, mesmo outrora, quando seduvidava a
respeito do momento em que tem inicio a vida humana, a Igreja afirmava,
com base na realidade, que o feto é um ser humano em potencial; pouco
¡mportam as etapas de sua evolucao, pois desde a fecundapao é certo que
se tornará individuo da especie humana e nao de outra.

2.2. Razoes Alegadas

0 texto em foco, recusando as evidentes conclusoes da Genética, re


corre a outras sentencas, a fim de negar ao feto os diré ¡tos de pessoa. A
título de ilustracao, sejam enunciadas:

1) "O feto se transforma em pessoa guando se torna 'viável', ou seja,


guando nao depende do claustro materno para a manutencao de sua vida.
Este conceito tere sido importante na decisao, tomada pelo Supremo Tri
bunal dos Estados Unidos, de legalizar o aborto naguele país" fp.6).

— Ora quem aceita tal arrazoado, poderá dizer que deixa de ser pes
soa todo individuo que venha a precisar de me ¡os extraordinarios (tenda
de oxigénio, transfuslo de sangue...) para subsistir. Caitamente nao é a in
dependencia em relapao a subsidios que faz a identidade da pessoa; esta
será sempre dependente de múltiplos fatores ("claustros matemos") para
poder subsistir e desenvolver-se.

2) "A mulher tem de acolher voluntariamente a vida gue carrega con


sigo, e consentir com a gravidez antes gue essa vida seja considerada por
Deus como urna pessoa... Antes é urna forma de vida preciosa e be/a, mas
nao urna pessoa" (p. 6).

— É absurdo condicionar o ser pessoa á atitude subjetiva da genitora.


Cada qual tem sua esséncia ou identidade por razoes intrínsecas ao indiví-

205
14 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

dúo e nao por fato res extrínsecos. Nao é o ser benquisto que faz alguém
ser pessoa; muito menos a aceitacao da mae condiciona a criacao e a in-
fusao da alma por Deus. Os criterios subjetivos sao oscilantes, a tal ponto
que se poderia perguntar: se a genitora aceita a sua gravidez e depois a abo
mina, o feto se toma pessoa e sucessivamente deixa de ser pessoa?

2.3. Justificativas para matar?

O opúsculo refere que há razoes para matar a vida humana, como


ocorre, por exemplo, nos casos de legítima defesa. Ora, alegam os autores,
aínda que o feto seja considerado pessoa, poderá haver razoes para elimi-
ná-lo. Tais seriam:

1) urna mulher nlo tem a obrigacao de oferecer sustento ao filho em


seu útero, como nao está obrigada a doar um órgao a um párente ou a um
desconhecido para salvar-lhe a vida.

— Evidentemente a comparacao é falha. A mulher que concebe urna


crianca, traz em seu seio alguém que é seu filho (desejado ou nao); por
conseguinte... alguém que Ihe está relacionado como nenhuma outra cria
tura. Além do qué, para salvar a vida de um adulto, há outros varios adul
tos, ao passo que, para alimentar a vida de urna crianca em gestacao, só
existe a mae. Donde se vé que o paralelo nao procede.

2) "Se vocé acredita que a sua própría vida ou seus próprios va/ores
estarao seriamente ameacados, caso a gestacao continué, tem justificativa
para pór-ihe fim".
— Ueste caso, há recurso aos valores da mae supostamente ameacados
pela crianca. Se entio é lícito matar o filho, será lícito a tal mulher matar
todos os outros individuos que ameacam seriamente os seus valores pró
prios: matar, por exemplo, o(a) rival que impede a promocao no exercício
da profissao, matar o(a) vizinho(a) que incomoda ou que perturba a tran-
qüilidade do lar, matar quem Ihe dificulta tal ou tal casamento... Vé-se que
tal criterio, subjetivo como é, leva á plena dissolucao dos costumes.

Os autores aínda perguntam se o feto senté dor. — Respondem relati-


vizando as reacSes da enanca maltratada pelas práticas abortivas: "como
nao tem um sistema nervoso nem funcSes cerebrais muito desenvolvidas,
sua reacio é comparável á dos reinos animal e vegetal, como o movimento
de um planeta em direcao á luz ou da ameba quando tocada".

— Esta resposta legitimaria outros tipos de "morte indolor", como se


riam aqueles que a eutanasia procura proporcionar. — NSo é o ser indolor
ou o ser pouco doloroso que justifica tirar a vida de alguém.

Passemos a outro item do fascículo.

206
"ABORTO. UM GUIA PARA DECISOES ÉTICAS" 15

3. "COMO CATÓLICA, GOSTARIA DE CONHECER OS


ENSINAMENTOS DA IGREJA SOBRE O ABORTO"

O i'tem assim intitulado (p.8) é capcioso. A resposta aparentemente


apresenta a doutrina católica, quando na verdade diz o contrario da
mesma.

O pensamento católico a respeito é muito simples, a saber: o aborto


é a extincao da vida de um ser humano.1 Ora a lei de Deus, configurada na
lei natural (que todos os homens podem reconhecer e geralmente reconhe-
cem), proibe matar o inocente. Por conseguinte, o aborto é um morticinio
que ofende a lei natural (sancionada na Decálogo); por isto a Igreja o con
dena. — A proibicao do aborto nao depende de legislacao positiva ou de
determinacao de algum Papa ou Concilio; é anterior a qualquer lei positi
va e válida para católicos e nao católicos (visto que a própria lei natural,
universal como é, a proibe).

Ora os autores do panfleto se perdem em considerares inúteis, de-


turpándo a doutrina da Igreja. Alegam que

- nenhum Papa se pronunciou ex cathedra contra o aborto. - Res


pondemos que isto nao é necessário, porque a lei de Deus explícitamente
condena o homicidio <= aborto);

- todos os membros da Igreja, e nao apenas os Papas e os Bispos, sao


partes integrantes do seu magisterio. — Esta afirmacSo é absurda: magiste
rio supoe discipulato; no caso, porém, todos seriam mestres sem discípu
los. Além do mais, a alegacao é falsa, visto que na Igreja há diversos minis
terios instituidos pelo próprio Cristo, destinados a exercer funcoes especi
ficas; cf. Ef 4,11s. Entre esses servicos há o dos doutores ou o ministerio
do magisterio, ao qual corresponde um carisma próprio, reservado aos Bis
pos em geral e ao Papa (Bispo de Roma) em particular; cf. Constituiclo
Oei Verbum n? 8. A doutrina da Igreja é o eco da Boa-Nova trazida por
Cristo aos homens; por isto ela nao é definida pelo voto da maioria, mas
por instancias que gozam de especial assisténcia do Senhor para tanto;

- é impossível que um Papa se pronuncie sobre questoes de Moral,


porque a Moral envolve sempre aspectos pessoais e contingentes, que nao
é possível prever a partir de urna cátedra. — Respondemos: a Moral tem
sempre dois aspectos correlativos entre si — o objetivo (a lei como tal, com

1 Quem quiser, acrescente:... de um ser humano em potencial. Será sem


pre de um auténtico ser humano.

207
16 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

seu valor universal) e o subjetivo (o sujeito da lei e as circunstancias em que


se acha). 0 primeiro aspecto, sendo objetivo, pode e deve ser materia de
legislapao da Igreja; a esta compete explicitar homogéneamente a Lei de
Oeus, evitando confusao e desorientacao entre os fiéis. O outro aspecto, o
subjetivo, está aos cuidados da consciéncia de cada individuo, como se di
rá a seguir. Isto, porém, nao quer dizer que a consciéncia seja autónoma;
a ela compete, de um lado, considerar a Lei de Deus (e da Igreja) objetiva
e, de outro lado, as circunstancias contingentes que cercam o sujeito da
Lei, proferindoumditame sincero que seja a bússola da conduta da pessoa.

4. QUE É A CONSCIÉNCIA?

Esta pergunta formulada á p.9 do folheto recebe urna resposta assaz


confusa; basta notar duas afirmacoes contraditórias dentro do mesmo
inciso:

"Muitos acreditan) que a consciéncia constitua um guia inato perante


o bem e o mal. Consideram-na como urna especie de voz interna que pode
mos ouvir quando a sintonizamos devidamente. Nao nascemos com o que
se considera consciéncia; temos que formá-la" (p. 9).

Pergunta-se em conseqüéncia: a consciéncia é inata ou nao?

A p. 8 encontra-se a seguinte afirmacao:

"Nunca pecamos quando seguimos os difames da nossa consciéncia,


inclusive quando a maioria dos membros da Igreja reprova tal atitude".

A sentertca é ambigua. Em verdade, a consciéncia é a faculdade que,


em vista da lei objetiva, de um lado, e as circunstancias concretas, de outro
lado, orienta o comportamento humano, mostrando ao individuo a obriga-
cao de nao agir ou agir, de agir deste ou daquele modo. Visto que a cons
ciéncia nao é autónoma, mas é a intérprete da Lei de Deus para cada caso,
ela tem que se informar ou tem que ser formada. Com efeito; pode haver
consciéncia verídica ou reta e consciéncia errónea, mal orientada. Daí as
regras que todo individuo deve observar em relacao á consciéncia:

1) Todos tém a obrigacao de empregar os meios oportunos para pos-


suir urna consciéncia verídica ou reta. — Esta norma é importante, pois a
consciéncia é a bússola que indica o Norte da conduta humana; se ela nao
é verídica ou reta, indica falso Norte com o perigo de desastre para o agen
te. Ora, como ninguém em viagem quer incorrer num precipicio, também
na vida moral ninguém há de querer incidir em culpa moral por negligencia

208
"ABORTO. UM GUIA PARA DECISÓES ÉTICAS" V7

ou culpa sua. Donde se segué a necessidade imperiosa, para todo homem,


de procurar ter urna consciéncia esclarecida e bem informada, que profira
ditames verídicos e retos.

2) Todos estao obrigados a observar estritamente os preceitos e as


proibicóes de sua consciéncia, desde que esta seja a) verídica ou b) incul
padamente errónea.

A obrigacao de obedecer á consciéncia verídica é obvia. A conscién


cia verídica é a que faz a api ¡cacao fiel da lei a situacao precisa em que a
pessoa se acha. Quanto á consciéncia errónea, distingue-se a culpadamente
errónea e a inculpadamente errónea. A primeira é a que erra por negligen
cia e descaso; a segunda é a que erra de boa fé, sem suspeitar que está no
erro. Ora diz-se que a consciéncia inculpadamente errónea obriga a pessoa,
porque esta nao sabe que está errando; ao contrario, imagina estar no reto-
alvitre, por ¡sto a pessoa tem o dever de segui-la. No caso da consciéncia
culpadamente errónea, a pessoa sabe que se descuidou de informar-se e,
por isto, deve desconfiar do ditame que a consciéncia Ihe propSe.

Aplicando isto ao aborto, afirmamos: se alguém, de boa fé, julga


tranquilamente e sem suspeita do contrario, que o aborto nao é homici
dio, nao peca se o comete. Se, porém, tem dúvidas a respe ito e, nao obs
tante, o comete, está falhando porque aceita o risco de estar matando al
guém. Ora pergunta-se: quantas sao as pessoas que cometem um aborto
tranquilamente? Toda mulher, por mals que se queira tranquilizar, sente-se
violentada quando pratica aborto, e esse constrangimento Ihe causa um
trauma que perdura anos... O sentimento de culpa que persegue tal mu
lher, é sinal de que ela percebe quanto o aborto é contrario ás leis da
natureza.

Alias, o crime do aborto é tao grave que o Código de Djreito Canó


nico inflige a excomunhao a quem o pratica, como também a quem cola
bora na execucao do aborto (médico, enfermeiras, marido...); cf. canon
n? 1398.

Segue-se a necessidade de se fazer da consciéncia urna instancia se


gura e lúcida na orientacao do comportamento humano.

5. QUE ACONTECE AO FETO APOS A MORTE?

Os autores do fascículo oferecem respostas pouco nítidas e coerentes:

1) 0 feto que morre, nao é pessoa. Portanto nao tem vida postuma.
Acaba-se com a morte física, como os animáis acabam. — Tal tese é inacei-
tável; seria identificar o feto humano com o de um animal infra-humano.

209
18 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

2) "Os fetos vao para um lugar chamado 'limbo' " (p. 10). - Antes
do mais, notemos que nao há lugares no além; donde nem o céu nem o in
ferno nem o limbo sao lugares. O limbo seria um estado em que as crian-
cinhas mortas sem Batismo gozariam de feiicidade meramente natural ou
da visao de Deus tal como pode ser alcancada pela criatura nao elevada á
ordem sobrenatural. Hoje em dia tal teoría, que nunca foi de fé, é prete
rida pelos teólogos em favor da afirmativa de que toda enanca morta antes
do uso da razao goza da feiicidade celeste (visao de Deus face-a-face),
mesmo que nao tenha sido batizada, porque Deus tem recursos para sálva
la indepentemente dos sacramentos. Esta doutrína, porém, nao exime de
culpa a muiher que comete o aborto. Esta castiga a si e nao á crianca, pois
todo pecado é, antes do mais, punicao para quem o comete.

6. REFLEXÁO FINAL

O panfleto é especialmente nocivo, pois parecem falar autoras católi


cas a leitoras católicas com aparente zelo de manter fidelidade aos princi
pios católicos. Deturpam, porém, a doutrína católica ou, melhor, apresen-
tam um modo de pensar anticatólico revestido do verniz de pseudocato-
licismo.

O eixo de tal pensamento é antropocéntrico, ficando os interesses de


cada muiher como criterio para aferir a liceidade ou nao da prática do
aborto e do comportamento sexual em geral. Ora o pensamento cristao é
teocéntrico, e nao antropocéntrico. Ele professa que Deus Pai nos fala
por meio de Jesús Cristo na sua Igreja. O amor á Igreja como Corpo de
Cristo (cf. 1Cor 12,27) e sacramento da salvacao é vivo e entranhado em
todo auténtico cristao. Sao Joao Crisóstomo (t407) exprime belamente
o porqué dessa fidelidade á Igreja nos seguintes termos:

"Nao te afastes da /greja, pois nada há de mais forte do que a igreja.


A toa esperanca é a Igreja; o teu refugio é a Igreja. Mais elevada do que o
céu e mais ampia do que a térra é a Igreja. E/a nunca envelhece, mas sem-
pre guarda o seu vigor" (Homilía a respeito de Eutrópio 6, PG 52,402).

210
Nova Associacao Religiosa:

AARTEMAHIKARI

Em sfntese: A Arte Mahikañéuma correóte religiosa de menos de


trinta anos de idade. Oriunda no Japao por efeito de "revelacoes" feitas
a Sukuinushi-Sama entre 1959 e 1967, existe no SuI do Brasil. Professa a
existencia da Luz Divina, que é aplicada aos enfermos e carentes por impo-
sicao de maos fakiyomey,- a cura pelo okiyome é chamada Arte Mahikari.
As molestias, em 80% dos casos, sao tidas como "encostos" ou maleficios
provocados por espiritos malvados, que pairam em torno do homem e nele
penetram. A humanidade tem-se pervertido a ponto de se ver na iminéncia
de úm Baiismo de Fogo, que incluirá catástrofes gigantescas; salvar-se-ao
talvez 20% dos homens existentes na época. Para evitar os graves flagelos,
a Arte Mahikari recomenda a mudanca de vida e a aplicacao da Luz Divi
na. A reencarnacao, após 200 ou 300 anos de existencia no astral, é consi
derada como muito possfvel, podendo ocorrer em corpo de animal irracio
nal; o homem pode reencarnarse como mulher e vice-versa.

O conceito de Deus é muito confuso na teología Mahikari, f¡cando


entre panteísmo e politeísmo (falase de "deuses auxiliares").
Tais crencas sao absolutamente incompatíveis com a fé crista.
* * *

0 Japao tem sido fecundo na criapao de correntes religiosas novas:


além do Johrei {Igreja Messiánica Mundial), do Seicho-No-lé, da Perfect
Liberty, existe também no Brasil (especialmente no Sul do país), a associa-
cáo religiosa dita Arte Mahikari, que tem sua cosmovisao própria.
A seguir, examinaremos as características dessa córrante e Ihe propo-
remos alguns comentarios.

1. ARTE MAHIKARI: QUE É?

1.1. O Fundador

O fundador da córreme é o japonés Sukuinushi-Sama (Kootama


Okada), já falecido. Fo¡ militar. Após a segunda guerra mundial (1939-45),

211
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

tornou-se empresario, sempre alheio á religiao. Por um motivo particular


viu-se em apuros e suplicou a protecao divina; diz ter entao recebido revé-
lacoes diversas, que I he mostravam como salvar o mundo ameacado de
iminentes catástrofes. A sua mensagem se resume nos seguintes termos:
"Purifique a alma humana através da imposicao das maos para salvar a hu-
manidade, pois o dia do Jui'zo Final está se aproximando". As revelapoes
que o Fundador diz ter recebido do alto, se encontram colecionadas no
livro dito "Sagrado Goseigen", sendo a primeira datada de 27/02/1959
(5 horas da manha) e a última datada de 25/01/1967 (3 horas da madruga
da}1 . Este livro faz as vezes de Biblia da nova comente, que conta menos
de trinta anos de existencia no Japao e pouco mais de doze anos no Brasil.
Sukuinushi-Sama julga-se, sem dúvida, superior a Jesús Cristo e a todos os
mestres religiosos da historia. Nao acreditar nesse "profeta" ou desprezá-lo
significa desrespeitar o próprio Deus (mensagem de dezembro de 1965).

O autor chega a insinuar que ele é o Espi'rito da Verdade prometido


por Jesús aos Apostólos (cf. Jo 16,13):

"Parece que meus predecessores, como Moisés, Buda e Jesús, aperce-


beram-se da existencia dos misterios dos céus, mas em suas respectivas
épocas nao Ihes fora permitido transmiti-los claramente a humanidade.
Pode-se entrever, de certa forma, a difícil posicao deles pelos diálogos
mantidos com os discípulos...

Jesús respondeu...: 'Quando vier o Espirito da Verdade, ele vos dirá


toda a Verdade' (Jo 16,13)" fGoseigen. p. 4).

A nova corrente chama-se Arte Mahikari. Arte... porque urna de suas


principáis tarefas é impor as maos (okiyome) para que se comunique ao
homem a Luz Verdadeira e Pura, Luz Divina (chamada Mahikari); esta
Luz cura a pessoa de suas enfermidades físicas e pode presérvala das emi
nentes catástrofes (Batismo de Fogo), que estao para se desencadear sobre
o mundo.

A filha do fundador, chamada Oshienushi-Sama (Keiju Okada) é tida


como a sucessora de seu pai na propagacao da Arte Mahikari, indicada pe
lo próprio Deus.

1 fíeferindo-se ao inicio de suas "revelacoes", diz o fundador:


"As 5 horas da manha do dia 27 de fevereiro de 1959, voltei a mim
depois de cinco dias de inconsciencia causada por urna forte febre, quando
recebi a primeira revelacao concernente á fundacao de urna organizacao.
Este acontecimento nao é explicável pelos conhecimentos científicos de
hoje. Foi um momento verdaderamente misterioso, maravilhoso, de co-
muntcacao. de acolhida dapalavra divina" fGoseigen, p.2).

212
ARTEMAHIKARI 21

Examinemos agora as principáis linhas da mensagem Mahikari.1

1.2. Deus e o Homem

O conceito de Deus é assaz confuso.

De um lado, afirma-se que Deusé único. Tal nocao, porém, é explica


da em sentido panteísta assaz grosseiro:

"Deus SU é naturalmente único. Porém, existem no universo muitos


deuses que estao constantemente estendendo sua protecao á humanidade.
No Japao, desde a antigüidade, existem varios deuses que corresponden)
aos anjos do Cristianismo, chamándose a Deus apenas de Deus Criador.
Esses anjos ou deuses sao apenas uma fracao do Espirito de Deus Supremo
e cada qual tem uma missao a cumprír em varios campos; sao intermedia
rios entre o Deus Supremo, os Homens e os Espíritus que estao no mundo
espiritual em intensa atividade. O Deus Supremo se encontra no ápice e,
a seguir, vém os deuses, formando um corpo piramidal" /'MR, p. 38).

Como se vé, o conceito é obscuro. Falar de fracao do Espirito de


Deus é contraditório, porque o espirito nao tem partes materiais quantita-
tivas, que possam fracionar-se. Mais: se os anjos sao parcelas de Deus, sao
a própria Divindade — o que redunda em politeísmo ou em panteísmo.

Procurando em outras páginas do MR ou do GSG, nao se chega a


maior clareza a respe¡to de quem seja Deus, conforme Sukuinushi-Sama.
0 próprio homem é tido como fracao do Espirito de Deus:

"Quando o Grande Deus MIROKU (Senhor SU), criando o fogo-ver-


tical e a água-horizontal, criou o vosso HINAGATA2 de homem e estava
para fazer surgir o corpo físico, fracionou o TAMASHII de Deus3, ex-
traiu a natureza espiritual de OHO-AMATSU KAMI e os concedeu... Por-
tanto, sendo vos, homens, originariamente fracao do Espirito de Deus, sois
os amados filhos de Deus" /GSG, p.81).

1 Basear-nos-emos no compendio Goseigen (alias, difícil e obscuro em va


rias de suas páginas), citado como GSG, e, principa/mente, na sintese
"Mahikari Responde", em que 55 perguntas sao colocadas e elucidadas
(citada como MR).

2 Hinagata = molde espiritual que distingue as especies e dá orígem ao


corpo físico (G/ossário de GSG).

3 Tamashi = espirito principal, a fracao do Espirito divino concedida ao


homem (ibidem).

213
22 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

Conseqüentemente "um día os homens conseguirao realizar o que


Deus realiza" (GSG, p.82).

Outra estranha afirmacSo, de índole antropomórfica, é a que se lé


áp. 157deGSG:

"Deus, durante os bifhoes de anos da criacao de toda a existencia,


veio Se lapidando através de sacrificios e mais sacrificios. Após a criacao
do mundo espiritual, criou o mundo astral e, depois, este mundo... Nesses
trabalhos, Deus, Ele mesmo, buscou o seu próprio desenvolvimento, repe-
tindo o sacrificio, o projeto e a criacao. Deus educou-Se e os Deuses
Filhos...

Fez descobrir meios para os Grandes Deuses transformarem-Se em


varios Deuses, e até mesmo em homens carnais".

É difi'cil compreender o que este texto quer dizer, pois nao ressalva o
conceito de Deus, que é o Absoluto, o Eterno, o Necessárío, o Ser Perfei-
tíssimo.

Ainda merece destaque o seguinte trecho, cujo sentido lógico se faz


desejar:

"Moisés, Buda (Gautama) e Jesús... sao deuses com corpo físico, que
foram enviados com a missao de espiarem o Mundo Divino... 0 seu inte
rior é Deus com corpo espiritual e o seu exterior, um corpo físico...

Portanto, Eles sao homens e sao Deuses, sao beuses e nao sao ho
mens, sao homens e sao Deuses" fGSG, pp. 98s).

Passemos a outro ítem.

1.3. OMundo Visível

Sukuinushi-Sarna julga que os homens na Térra "estSo rodeados por


espíritos cheios de rancor, odio, inveja e outros sentí mentos negativos.
Tais espíritos penetram diretamente no nosso organismo ou permanecen*!
ñas proximidades, sendo capazes de controlar livremente a nossa vontade,
a nossa mente, e o nosso corpo, acarretando conseqüéncias nefastas"
(MR, p. 10).

Com outras palavras: existem espíritos vagantes que "encostam" nos


homens; fazem-no ou por odio e inveja ou por saudades. Quando movidos
por odio, visam a descontrolar a vida do individuo. Quando levados por

214
ARTE MAHIKARI 23

saudades, nao tém intencao maldosa, mas nao conseguem esquecer o ente
querido ou querem fazer-lhe algum pedido; nao obstante, prejudicam-no.
Assim é que no mínimo 80% das doencas sao provocadas por espíritos
do além. Ver MR, p. 10.

E quais as raoes desta infestacao?

"A human¡dade afastou-se demais de Deus e suas leis; através dos ci


clos de encarnacoes e mutacoes, prosseguiu acumulando pecados que ma
cula ram completamente a sua alma" (MR, p. 11). Por isto é que há espi
rites de pessoas falecidas que no além guardam odio e rancor, maltratando
os terrestres; por isto também os terrestres merecem esses maus tratos,
pois estao impuros.

Para nos defender dos espíritos maus (possessores), existem espíri


tos bons, protetores, que estao sempre junto de nos, mas nao se incorpo-
ram em nos.

1.4. O Okiyome (imposicao das maos)

Para nos livrar de doencas e infelicidades e levar-nos á purif¡cacao, é


preciso que recorramos ao okiyome ou imposicao das míos; este "reme
dio" é um dos grandes valores revelados a Sukuinushi-Sama e mantido
oculto aos mestres anteriores. A ¡mpqsicao das maos comunica, através do
omitama1, á Verdadeira Luz ou a Luz Divina, que amolece e derrete os
acúmulos de toxinas, possibilitando sua eliminacao do organismo; sao as
sim purificados a alma, o corpo espiritual, o astral e o material.

A Arte Mahikari consiste precisamente na imposicao das maos que


confere urna Luz divina de forca extraordinaria; "faz com que os espíri
tos que vinham agindo ás ocultas se manifestem, ao mesmo tempo que os
purifica para que deixem de praticar atos maléficos, conduzindo-os á ver
dadeira salvapao" (M R, p. 13).

A Arte Mahikari é a "Super-Religiao", a "Religiao da Humanidade"


(MR. p. 27).

1.5.0 Futuro Próximo

Em 1962 a humanidade entrou "na fase perigosa e de violentas trans-


formacoes. A esta fase chamamos de 'Era do Batismo de Fogo', na qual

1 Omitama é urna especie de medalha especialmente preparada, que rece


be a Luz Infinita; esta, passando pelas células espirítuais do possuidordo
Omitama, é irradiada pela palma de sua mao.

215
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

ocorrerao fenómenos de gigantescas proporcoes, como nao acontecem há


milhoes de anos, tais como: violentos abalos císmicos, impetuosas erup-
coes vulcánicas, enchentes de grandes proporcoes, submersao de térras,
etc. Urna era de terror, jamáis experimentada pela humanidade, está pres
tes a acontecer, mas nao nos foi ensinado que haverá extincao total da hu
manidade" (MR, pp. 41 s). Somente 20% da populacao conseguirá sobrevi-
ver. Haverá, além do mais, a guerra do Harmagedon, que a futuróloga
americana Jeanne Dickson descreveu minuciosamente.1

Por ora toca aos homens desejosos de salvacao reconhecer a existen


cia da Divindade e obedecer ás suas leis.

1.6. Que acontece após a morte?

O homem consta de tres corpos: o físico, o espiritual e o astral, coor


denados pelo espirito. Morrer significa a morte das células físicas ou do
corpo físico. "O espirito e os corpos espiritual e astral seguem para o mun
do astral. Neste o espirito e seus dois corpos sao submetidos a um treina-
mento durante 200 ou 300 anos, que visa a fazé-los esquecer-se de todos
os apegos que mantinham no mundo material. Somente após obter o total
desapego, o individuo pode voltar a este mundo reencamando-se: o espiri
to pode nao somente assumir o corpo físico de um ser humano, mas tam-
bém o de um animal irracional; o tipo de reencarnacao depende da gravi-
dade dos pecados acumulados ñas encarnacoes anteriores. Pode também
um espirito de homem reencamar-se em corpo de mulher, e vice-versa.

O mundo astral, onde se encontram os espíritos desencarnados, com-


preende locáis próprios para aqueles que sao puros (Paraíso), para aqueles
que se encontram em processo de purif¡cacao e para outros espíritos...
Existem 181 nfveis espirituais, correspondentes á 4a, á 5a, á 6a e á 7a di-
mensao.

Através de repetidas encarnacoes o individuo adquire grande perfei-


c3o e a vida eterna.

A péssoa que deseje conhecer o que houve na sua encarnacao ante


rior, pedirá que Ihe imponham as maos; poderá entao manifestar-se um
espirito que desvendará toda a verdade" (MR, p. 40).
1.7. O Culto dos Antepassados

"Cada ser humano está ligado aos seus pais e antepassados por ondas
espirituais. Assim as pessoas cu/os antepassados estejam sofrendo no mun
do espiritual, receberao sua influencia" (MR, p. 37).

1 A respeito de previsoes de "videntes", confira o Apéndice deste artigo.

216
ARTEMAHIKARI 25

Daí se segué a necessidade de se venerarem os antepassados; eles exer-


cerao sobre nos influencia benéfica. Para tanto, "é necessário um oratorio,
que tem o sentido de urna casa, um lar para os antepassados, onde sao
ofertados os alimentos e 'ilhais' (plaquetas especiáis com os nomes dos an
tepassados), que servem de elementos de ligacao espiritual com os descen
dentes. Após a morte... é difícil esquecer o hábito de alimentarse, portan-
to se senté fome" (MR, p. 37).

De modo semelhante, para ligar-se a Deus, nao basta a orácáo. é ne


cessário que o homem tenha um elemento de ligacao com a Divindade,
que é o Goshintai, quadro representativo de Deus...

Sao estes os principáis pontos da mensagem da Arte Mahikari. Pro


curemos refletir sobre a mesma.

2. REFLETINDO...

Proporemos tres observacoes:

2.1. Revelacoes...

A Arte Mahikari se enquadra dentro de um mecanismo psicológico


muito freqüente em nossos días.

O mundo vai mal: há escándalos, guerras, violencias, fome... Nao se


vé solucao humana satisfatória. Daí o recurso espontáneo de certos "pro
fetas" a revelacoes que desvendam o futuro e apontam urna saída, ainda
que precaria, para seus seguidores. Haverá graves castigos, catástrofes apo
calípticas, devidas ao pecado. Todavía o "profeta" vé urna solucao a ele
revelada; propSe entao explicacoes e respostas de índole mágica, um tanto
irracionais, mas aceitas pelo público sem espirito crítico porque propor-
cionam um aparente alivio e consolo.

Semelhante processo verifica-se nao somente em ámbito japonés do


tado de suas tradicoes próprias, mas também dentro do Cristianismo, ñas
correntes dos adventistas, das testemunhas de Jeová, dos pentecostais ra
dicáis...1

A profecía assim revelada ao vidente ou fundador da Arte Mahikari


só pode ser tida como melhor do que qualquer outra, como superior aos
vaticinios anteriores, para conseguir impor-se como algo de inédito e aba-

1 Ver a propósito o artigo deste fascículo, pp. 221-226.

217
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

lizado. Por isto Sukuinushi-Sama se julga mais prendado do que Moisés, Bu-
da e Jesús Cristo. Nisto há urna megalomania, talvez inconsciente; o "pro
feta" faz sucesso e se deixa empolgar pela sua mensagem.

De resto, o fenómeno de "revelacoes" minuciosas (e confusas, pouco


lógicas) da parte de Deus ou de um Ser do além é algo de nao raro em nos-
sos dias. Tem características suspeitas: o extraordinario e milagroso se
torna ordinario e familiar, vem quase "por encomenda"; além do qué, o
linguajar mal concatenado é pouco digno do Senhor Deus.

Eis a prímeira razao por que se poe em xeque a Arte Mahikari; é um


sistema de consolacao mágica, que o senso crítico objetivo e sereno ques-
tiona seriamente.

2.2. Deus e o Homem

A Arte Mahikari é servico ao homem e antropocéntrica. Vem a ser


mesmo um sistema curandeiro, pois pretende indicar as mais profundas
causas das doencas — os pecados — e propoe um remedio religioso para
80% ou mais das molestias físicas do ser humano. Ora a religiao é, antes do
mais, adoracao e louvor a Deus, a cujo servico o homem se coloca com
amor e entrega confiante, sabendo que a gloria de Deus implica a plena
realizacao do homem.

Na Arte Mahikari ficam muito confusos os conceitos de Deus e do


homem.

O uso dos vocábulos Deus SU (Criador) e Deuses auxiliares é ambi


guo. O fundador fala de criacao e criaturas (GSG, pp. 70, 110,111,120),
mas, ao mesmo tempo, insinúa emanaclo e evoluclo da Divindade. Um
Deus que se educa, que faz sacrificios e se lapida, já nao é Deus segundo a
definicao estrita desta palavra; Deus é o Ser Perfeitíssimo, Absoluto,
Eterno, Imutável... Verifica-se assim que as "revelacoes" feitas ao funda
dor carecem de rigor lógico.

Quanto ao ser humano, tem tres corpos (o físico, o astral e o espiri


tual) e um espirito; é portador de urna parcela da Divindade — o que re
dunda em panteísmo.

A existencia do homem é concebida, á semelnanea do que acontece


no espiritismo e na Umbanda, como infestada por espíritos mausvingati-
vos. A Arte Mahikari admite espíritos encostados, como o espiritismo kar-
decista e a Umbanda.

218
ARTE MAHIKARI 27

A cura por meio da Luz Divina é elemento japonés, que ocorre para
lelamente no Johrei ou no Messianismo Mundial de Meishu-Sama. Nesta
perspectiva, Deus emite radiacoes e efluvios quase magnéticos, como se
fosse urna fonte de energía quantitativa, dimensional.

Ocorre, porém, que a teología da Arte Mahikari é muito mais primiti


va do que a das tres outras religioes japonesas existentes no Brasil: o Joh
rei, o Seicho-No-lé e a Perfect Liberty. O pensamento de Sukuinushi-Sama
é certamente menos elaborado e perspicaz do que o dos tres out'ros funda
dores japoneses.

A tese da reencarnacao já foi abordada repetidamente em PR; ver,


por exemplo, PR 321/1989, pp. 91-95. A Arte Mahikari tenta prová-la a
partir de experiencias de regressao em sonó hipnótico (cf. MR, p. 36). Ora
a Parapsicologia explica fácilmente os depoimentos assim colhidos como
sendo enredos construidos a partir de fatos vividos pelo próprio paciente
no decorrer desta vida mesma. Nao há prava de reencarnacao. Ao contra
rio, deve-se opor a esta tese urna seria objecio: conforme a lei do karma,
toda pessoa doente, pobre e aflita seria um(a) pecador(a) que na vida pre
sente estaria expiando pecados da encarnacao anterior; ao contrario, todo
individuo sadio e rico seria pessoa muito virtuosa que estaria recebendo o
premio de suas virtudes. Ora tais conclusoes sao absurdas.

2.3. Arte Mahikari e Cristianismo

Para Sukuinushi-Sama, o Cristianismo, o xintofsmo e o budismo se


desvirtuaram (cf. GSG, p. 88). Nao obstante, a Arte afirma que é possfvel
alguém receber o okiyome e permanecer na sua religiao de origem (cf.
MR, pp. 29s). — Verificamos, porém, a radical ¡ncompatibilidade entre a
Arte Mahikari e o Cristianismo; basta levar em conta os pontos doutriná-
ríos da Arte para averiguar que nao se compatibilizam, em absoluto, com
a mensagem crista; aqueta é pantei'sta ou quicé politeísta, ao passo que es
ta é estritamente monoteísta. A tese da reencarnacao nao se coaduna com
a perspectiva de ressurreicao dos corpos professada pelo Cristianismo. Este
nao pode admitir Luz Divina no sentido de radiacoes energéticas terapéu
ticas. Mais: o Cristianismo é rigorosamente teocéntrico; ensina a caridade
como conseqüénciadoamora Deus, que nos amou primeiro (cf. Uo 4,19).

O pecado do homem é absolvido em virtude do sangue de Jesús Cris


to, que requer do fiel a conversao do coracao e a comunhao com Cristo
mediante a vivencia sacramental.

Em suma, sao totalmente incompatíveis entre si a Arte Mahikari e o


Cristianismo. — Possam os cristaos compenetrar-se de que na mensagem

219
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

de sua fé encontram copiosamente tudo quanto de bom e belo Ihes seja


oferecido por profetas que nao compartilham o Evangelho!

* * *

APÉNDICE

A propósito de visoes e profecías de futurólogos contemporáneos,


transcrevemos o seguinte registro, publicado no jornal o LUTADOR,
24-30/01/93, p. 7:

DE REPENTE

• AS PRE VISOES FU RADAS - I. "Fantástico", da TV Globo, último


de 92, mostrou previsoes de astrólogos, tarólogos e buziólogos para 93. Na
maioría, obvias, como as dificuldades económico-financeiras do povo bra-
sileiro. Salvo essas obvias, nunca acertam. Como nao previram NADA dos
grandes acontecimentos de 92, nem mesmo o rumoroso caso do "impeach-
ment" do Presidente Collor. "Fantástica" enganacao anual.

• AS PREVISOES FURADAS - II. Vidente Vera Lucia Alves disse ao


programa de Goulart de Andrade, "Comando da Madrugada", SBT, de
15/8/92, que "nao haverá nada com o Collor", que "quando faltarem 2 ou
3 dias para encerrar a CPI do PC, Collor exibirá um trunfo muito grande e
vencerá a situacao"; que "ele nao será impedido como Presidente, vai até
o f im do mandato..."

• AS PREVISOES FURADAS - III. A certa altura da busca do corpo


de Ulisses Guimaraes, no mar, apareceu um médium que, com toda a
cobertura de urna TV, iría orientar os mergulhedores. Cansaram-se esses
mergulhadores da orientacao que teria vindo do além. Ficou tudo aquém
mesmo e o corpo nao foi encontrado.

• AS PREVISOES FURADAS - IV. Astróloga Rosángela Xavier Ro


cha, no "JO Onze e Meia" de 23/9/92, fez urna grande revelacao: "Itamar
já fói Presidente em outra vida, na Atlántida." (Comentar, para qué?)
(Se vocé se der ao trabalho de ir anotando (e guardando) as previ
soes desses videntes ou ocultistas, a lista das "previsoes furadas" vai en-
cher urna página de jornal. Experimente este ano.)

220
Pululam

PROFECÍAS DE FIM DO MUNDO

Em síntese: As páginas subseqüentes reproduzem cinco espécimens


de "profecías" relativas a catástrofes iminentes e fim do mundo. Algu-
mas dessas predicoes deviam cumprir-se em 1992, 1993... Visto que nada
do previsto ocorreu em 1992, verificase, pela experiencia mesma, que tais
vaticinios nao merecem crédito e nao devem perturbar a mente do públi
co. - A ingratidao dos tempos presentes leva espontáneamente multas pes-
soas a dizer: "So Deus dará um ¡eito" e a procurar imaginar como é que
Deus dará um "jeito".

•k * *

Tém-se multiplicado as "profecías" de catástrofes e fim do mundo


com data marcada e descríelo minuciosa dos acontecimentos termináis.
Muitas tém em vista o ano 2000 como fatídico. Algumas, porém, também
definiram datas precisas de 1992... Todavía atualmente pode-se verificar
quanto eram falsas tais profecías atinentes a 1992, poís nada ocorreu do
que foi predito.

A fim de evidenciar melhor como os videntes e "profetas" podem


engañar a si e ao público em geral, apresentaremos cinco espécimens desses
estranhos vaticinios.

1. "ALTO CLAMOR"

"Alto Clamor" é urna corrente protestante, que diz "nao ter cor de-
nominacional", ¡sto é, nao se filiar nem aos batistas, nem aos presbiteria
nos, nem aos metodistas... Osseusmembros léem a Biblia a seu modo, ge-
ralmente em clima de pavor por causa da presumida iminéncia do fim
do mundo.

"Alto Clamor" publicou em 1992 um folheto cuja página de rosto di-


zia: "A Última Chance... A Contagem Regressiva Já Comecou". A explici-
tacao desta advertencia seria a seguinte:

221
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

No comeco de 1992 podia-se dizer que a Conferencia de Paz para o


Oriente Medio (judeus e árabes) estava para fracassar. Em conseqüéncia,
urna guerra sem precedentes na historia mundial seria detonada a qualquer
momento contra Israel. O protagonista dessa guerra seria Gog ou a Rússia
(conforme os intérpretes de "Alto Clamor" ao fazerem a le ¡tura de Ez 38,1-
-39,29),... a ñússia vi'tima de crise económica e política muito seria. Os
exércitos de varias nacoes liderados pela Rússia deviam atacar Israel pelos
ares e por térra, havendo milhoes de soldados no cerco a Jerusalém. Esta
finalmente deveria ceder ao si'tio. A data precisa da queda da Cidade Santa
devia ser calculada a partir de 1? de junho de 1992; acrescentando-se a
este dia mais 120 dias (presumidamente indicados por textos bíblicos in
terpretados cabalísticamente), concluia-se que a rendicao de Jerusalém se
daria a 28 de setembro de 1992!

Assim vencidos, os judeus haviam de clamar a Deus, e o Messias havia


de destruir os exércitos invasores mediante doencas mortais, chuvas tor-
renciais, pedras, fogo e enxofre.

Aos 12 de outubro de 1992, o Espirito Santo de Deus pousaria sobre


os seguidores do Messias; a Térra de Israel, vivificada pelo Espirito, tornar-
se-ia um novo Éden, florescendo da noite para o dia; haveria equilibrio
ecológico; os animáis selvagens comeriam apenas ervas. Seguir-se-ia um pe
ríodo de sete anos, nos quais os remanescentes de Israel habitarlo em ten-
das e a humanidade toda terá a última oportunidade de se posicionardo
lado de Deus; Israel se tornará o centro de intensa pregacao do Evangelho
para o mundo inteiro, o que levará muitos povos a aderir ao Senhor Deus
e ao seu Messias.

Ao cabo dos sete anos, isto é, a partir de 1999, haverá um ano de


grande tribulacao. O povo de Deus será perseguido e lancado em prisoes.
No auge das dores, quando os fiéis seguidores de Jesús estiverem para ser
exterminados, Jesús Cristo intervirá, manifestando-se a todos os povos no
dia 14 de outubro de 2000, vindo das nuvens do céu com grande poder.
Todos os que morrerem na fé de Jesús, ressuscitarao e serao levados aos
céus com os fiéis que estiverem vivos para, juntos, reinarem nos céus com
o Messias por mil anos.

Entrementes a Térra será coberta por trevas; toda vida cessará aquí.
No final do milenio, a Cidade Santa, a nova Jerusalém, descera da parte
de Deus, linda como urna noiva adornada para o seu noivo. Jesús Cristo
restabelecerá o Edén sobre a Térra, e reinará para todo o sempre com os
seus remidos no nosso planeta.

Como se vé, os acontecimentos previstos para 1992, básicos para to


do o resto da profecía, nao se cumpriram. Isto evidencia quanto há de fan
tasioso nessas profecías e quao pouco crédito elas merecem.

222
PROFECÍAS DE FIM DO MUNDO

2. O PROFETA BANGIK HA

Deus prometeu que no fim dos tempos admoestará os homens por


meio de jovens profetas, provenientes de pequeños grupos, tidos como
pouco importantes. Entre esses mensageiros, está Bang-lk Ha, que prega
no mundo inteiro desde agosto de 1990, quando tinha quinze anos de
idade. A partir dos treze anos, Bang-lk Ha foi preparado por Deus median
te palavras e oracoes; Deus o elevou em espirito ao céu varias vezes para
I he revelar seus misterios e Ihe ordenar que execute quanto está escrito
no Apocalipse; Bang-lk Ha se comunica constantemente com Deus, como
Samuel, Elias... Ao ouvirem Bang-lk Ha, muitos pastores caem de joelhos
e rasgam seus coracoes por arrependimento.

Ora, dizia Bang-lk Ha que em outubro de 1992 haveria o arrebata-


mento, aos céus, de pessoas justas e santas. Terminaría entao o pen'odo
da Igreja (pen'odo da graca) e comecaria sobre a Térra um septenio de
grandes tribuíales: nessa fase Deus eliminaría da superficie da Térra pes
soas impenitentes; Satanás, soltó sobre a Térra, tentaría penetrar aqueles
que nao tivessem o selo de Deus; os mares se tornariam sangue, a agua se
tornaría veneno, o Sol e a Lúa se escureceriam; haveria muitos terremotos,
pragas, guerras, fome e granizo com fogo. Um homem chamado Anticristo
se elevaría ao poder (seria o líder do Mercado Comum Europeu ou da Eu
ropa Unida); destruiría cristaos e israelitas e colocaría a sua marca (o nú
mero 666) em muitas pessoas.

Depois disto, viria o Cristo sobre a Térra, e, a partir do ano 2000, rei
naría em bonanca sobre o nosso planeta durante um milenio... A profecía
para ai!

Mais urna vez, verifica-se que as predicSes feitas para 1992 nao se
cumpriram; o ano de 1993 nao é diferente dos anteriores. Isto tudo mani-
festa bem como é perda de tempo estar cedendo a tais profecías.

3. "DÍA DO ARREBATAMENTO" EM 11/12/1992

Lé-se no JORNAL DO BRASIL de 12/12/1992:

Pregador ó preso por gerar pánico

RECIFE - A pregacao feita por um pastor evangélico, em um debate


de radio, de que as "pessoas puras e enancas" seriam "levadas por Deus"
no dia 11 de dezembro causou pánico em Caruaru, municipio de 200 mil
habitantes, a 135 km do Recife. Centenas de pessoas cercaram a radio Li-

223 .
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

berdade, local do programa, e tentaram linchar o pastor Elifas Levi Ferrei-


ra da Silva, autor da pregacao. Para conter a multidao, foi preciso a ínter-
vencao das policías civil e militar. O delegado Ademar Cándido prendeu o
pregador nos estudios e o levou algemado para a delegacia. A multidao,
calculada em 500 pessoas segundo a PM, o seguiu até lá, numa distancia
de 300 metros, aos gritos de "lincha, lincha". O pregador foi acusado de
"causar pánico com falso alarme", crime previsto no artigo 41 da Lei de
Contravencoes Penáis. No inicio da noite ele foi libertado mediante o pa
gamento de urna fianca de Cr$ 150 mil.

Há um ano o pastor Elifas - que é da "Igreja Missao Boas Novas" —


vem fazendo essa pregacao, tanto no seu templo quanto num programa de
urna hora que ele apresenta todos os domingos, as 6 horas da manha, em
outra emissora. O nome do programa: "Contagem regressiva". Sua teoría
é de que 11 de dezembro será o "Día do Arrebatamento", em que os pu
ros e enancas, "segundo a Biblia", seriam arrebatados por Deus. De acor-
do com o delegado Ademar, já havia pessoas na cidade se desfazendo dos
bens por acreditar na "profecía" do pastor. "Ele é um maluco, e numa
regiao carente materialmente e com um povo de muita fé, ele poderia
acabar levando algumas pessoas ao suicidio", justificou o delegado, que
também proibiu as pregacoes.

As "chamadas" para o debate de ontem sobre o "Día do Arrebata


mento" comecaram a ser veiculadas pela Radio Liberdade na terca-feira
passada, criando urna grande expectativa na cidade.

Sem comentarios!

4. "JESÚS ESTA VOLTANDO!!!"

No JORNAL DO BRASIL de 19/11/1992, p. 15 encontra-se o se-


guinte anuncio:

JESÚS ESTÁ VOLTANDO!!!


Informe-se e Prepare-se!

Mas antes de JESÚS CRISTO voltar, está vindo o Maastricht, o Mai-


tréia da Nova Era, com a Marca da Besta, o 666. o DOMINGO do ANTI-
CRISTO de Babilonia,emoposicao ao SÁBADO, o Selo do DEUS JEOVÁ.
Muito em breve nao mais teremos:
Liberdade de Imprensa
Liberdade Religiosa

224
profecías de fim do mundo 33

Liberdade de Discurso
Liberdade de Consciéncia

Instituto de Evangelizarlo Crista


Caixa Postal 2597
70279-970 Brasilia - DF

5. PIM DE ATIVIDADES

Aínda o JORNAL DO BRASIL, em sua edicSode 3/11/1992, publi-


cou a seguinte noti'cia:

Perdao pela falha

A seita sul-coreana Dami, que anunciou o fim do mundo para quarta-


feira da semana passada, decretou o fim de suas atividades. Um porta-voz
da igreja missionária disse que os principáis pastores farao um pronuncia-
mentó pedindo desculpas pela "falha na interpretacao da Biblia" que le-
vou-os a prever o apocalipse.

6. REFLEXÁO FINAL

Poder-se-iam multiplicar as amostragens de "profecías" relativas a


flagelos iminentes e próximo fim do mundo.

A experiencia mostra que sao falsas.

Por que entao pululam de tal maneira?

— Pode-se dizer que correspondem a uma necessidade psicológica do


ser humano. Visto que a situacao geral do Brasil e do mundo nao é próspe
ra, conturbada como está por guerras, fome, desemprego, miseria..., e na
falta de uma proposta de solucao racional, lógica, científica..., os homens
sentem-se impelidos a procurar no mundo mágico uma imaginosa consola-
cao e aparentes solucSes radicáis, que ponham termo ao- mal-estar geral.
A proximidade do ano 2000, que encerra um período definido, catalisa
a fantasía, provocando a procura de algo que corresponda ao fim do segun
do milenio. Como algumas páginas da Biblia (especialmente no Apoca
lipse) sao redigidas em estilo simbolista (que deve ser entendido segundo
criterios lingüísticos, históricos, arqueológicos, e nao segundo o subjetivis
mo do leitor), o recurso á Biblia é obvio e dá aparente garantía e solidez
as profecias.

225
34 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

O cristao reconhece tal mecanismo psicológico, que, alias, se exerceu


periódicamente no decorrer da historia, particularmente ñas épocas infeli-
zes (é entao espontáneo dizer: "Só Deus dá um jeito!"). Por isto o cristao
nao perde sua serenidade diante das "profecías catastróficas". Sabe que
Jesús se recusou peremptoriamente a revelar a data do fim dos tempos
(cf. At 1,7). Por isto o cristao entrega seu futuro a Deus e á sua Providen
cia, e, em vez de perder tempo com "profecías" fantasiosas, procura tra-
balhar com afinco em prol do Reino de Deus. É isto que importa: é do
cumplimento das nossas tarefas que o Senhor como Juiz nos pedirá con-
tas, qualquer que seja a data de sua segunda vinda (alias, mais premente
do que a data da parusia do Senhor é a data do encontró de cada ser hu
mano com o Senhor no fim da sua caminhada terrestre).

Pode-se lembrar o caso dos fiéis de Tessalónica: assustados pela predi-


cao de iminente catástrofe e do retorno de Jesús, olhavam curiosamente
para o céu a fim de desvendar os sinais precursores; enquanto assim proce-
diam, nao trabalhavam, nao ganhavam seu pao, de modo que, na hora de
comer, se entregavam ao roubo e a outros vicios; daí a ordem do Apostó
lo: "Quem nao trabalha, nao coma" |2Ts 3, 10-12).

Possa a experiencia abrir os olhos de quantos se deixam impressionar


por "profecías" nao credenciadas!

* * *

Sagrado Coracao do Homem, pelo Pe. Paschoal Rangel. — Ed. "O Lu-
tador", Pea. Pe. Julio María 1, CEP 31740-240 Be/o Horizonte (MG),
1993, 125x200mm, 134 pp.
Este livro é precioso. Redigido em estilo de meditacoes sobre cada
urna das invocacoes da Ladainha do Sagrado Coracao de Jesús, contém
profunda sabedoría teológica, fugindo do que se podería chamar "o estilo
de elucubracoes sentimentais". O autor, que é bom e conhecido teólogo,
logo no seu Prefacio declara que quis utilizar os olhos da inteligencia e
também os do coracao para penetrar no misterio do Deus feito homem
(p. 10). Executou fielmente o seu propósito, dando ao leitora ocasiao de
um encontró mais íntimo e pessoal com Jesús Cristo sobre sólidas bases
teológicas. Alias, dizem os mestres de espiritualidade que é necessárío vol-
tarmos sempre a considerar a humanidade de Jesús, pois é por ela que pas-
samos a descobrir Deus Filho e, mediante Deus Filho. Deus Pal Possa o
Espirito Santo iluminar as mentes dos leitores de tal livro, especialmente
no próximo mes de junho, dedicado ao Sagrado Coracao de Jesusl O títu
lo do livro nao é muito feliz, como reconhece o autor (p. 12); podará ser
alterado, se o público sugerir algo de melhor.

E.B.

226 . >
O Tema do Día:

OS COMERCIÁIS DA TV

Em sfntese: O Bispo Mons. Jacques Fihey, de Coutances et Avran-


ches (Franca), faz significativo comentario de um comercial emitido pelos
meios de comunicacao social da Franca. Mostra como os valores humanos
básicos sao conculcados em troca de dinheiro. A marca de automóvel Re-
nault 19 valería mais do que a esposa, pois o cidadao apresentado pelo
vídeo tem quatro casamentos sucessivos, mas absoluta fidelidade á sua
Renault 19. — 0 articulista faz sobressair a importancia dos meios de co
mún/cacao, que maispenetram e viofentam o público do que um conferen
cista ou um professor; este é nítidamente "um vendedor de idéias", que
chama a atencao do ouvinte por sua identidade, ao passo que os instru
mentos mecánicos nao parecem agressivos e, sim, "simpáticos".

Mons. Fihey observa ainda que, porefeito de seu protesto, a Renault


retirou do ar o comercial em foco.

■k * *

0 Bispo de Coutances et Avranches (Franca), Mons. Jacques Fihey,


Presidente da Comissao Episcopal de Opiniao Pública na Franca, publicou
um notável comentario a um tipo de propaganda comercial emitido pelos
meios de comunicacao social da Franca: o flash mostrava um homem que
contraiu quatro un ¡oes conjugáis sucessivas, mas conservou-se sempre fiel á
Renault 19, marca de seu carro.

A propósito escreveu Mons. Jacques Fihey:

"Um comercial nos mostra quatro casamentos sucessivos, mas urna


grande fidelidade é Renault 19. Se este comercial é engenhoso, é também
lamentável. A intencao ó mostrar que a Renault 19 pode durar. Ela insinúa
também que a mudanca de esposa ao longo da vida é normal. Isto nao é
dito. É mostrado - o que ó muito mais insidioso, é certo que Renault
nao quer fazer prédicas em favor do divorcio. Mas faz talvez coisa pior:
dé a crer que o divorcio se tornou natural e evidente. Reagi diante desse
comercial. Eu Ihes confio as minhas reflexoes.

227
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

A publicidade comercial tem o poder de nos fazer engotir, sem dor,


idéias de todo tipo. Estamos alertas diante de um discurso, mas nao diante
de um comercial. O mundo que nos ó proposto, penetra silenciosamente
em nos e modela nossa própria concepcao do mundo, da vida, do homem.
Tenhamos, ao menos, consciéncia disto. E saibamos reagir, quando as ima-
gens nao correspondem ao que nos pensamos em nosso fntimo.

O divorcio tornou-se, para alguns, tao natural que falam de divorciar


se como se isto nao tivesse conseqüéncias. Quando troco de carro, nao dei-
xo alguém em apuros. Quem se divorcia e casa de novo, deixa muitas vezes
em apuros o seu cónjuge e, sempre, causa problemas aos filhos. Comparar
troca de carro e troca de esposa parece-me rebaixar clamorosamente o ma
trimonio e o(a) consorte abandonado(a). Que desprezo para com a mu-
Iher! Os homens trocam de mulher mais freqüentemente do que de mode
lo de carro; cansam-se da esposa, nao, porém, da Renault 19.

Em suma, os que programaram e aceitaram esse comercial, talvez nao


tenham percebido todo o seu alcance... Por certo, pensaram mais na efica
cia económica da mensagem do que nos seus efeitos sociais... Isto também
é significativo. Os fabricantes de carros se preocupam com poluir menos a
natureza e o ar que respiramos. Tanto melhor. Estariam bem inspirados se
se empenhassem em nao poluir a sociedade numa de suas realidades fun
damentáis".

O Sr. Bispo observa ainda que enviou tal texto ao Sr. Louis Schweit-
zer, P.-D.G. da Renault. E recebeu deste uma carta dizendo que o comer
cial fora retirado do ar.

(Noticias colhidas no Boletim SNOP da Conferencia Episcopal da


Franca, n° 898,29/1/93, p. 1).

COMENTANDO...

Este texto nos sugere algumas reflexoes:

1) Mais uma vez é posto em foco o enorme potencial persuasivo dos


meios de común ¡cacao social. Penetram no público e o "catequizam" de
maneira subliminar e sorrateira, sem que a pessoa se sinta devassada ou
violentada. Ao contrario, diante de uma conferencia ou uma aula, o ouvi ri
te ou o aluno mais fácilmente se poe em atitude de crítica; percebe que
outra pessoa Ihe quer vender idéias que talvez cor^ariem as suas; daí
maior facilidade e espontaneidade para replicar, defender-se, autoafir-
mar-se.

228
OS COMERCIÁIS DA TV 37

Um livro, urna ¡magem nao tém o semblante de urna pessoa intrusa;


parecem ser um instrumento que o usuario domina e utiliza a seu gosto,
quando na verdade pode estar sendo dominado por esses "inofensivos" e
"simpáticos" instrumentos.

2) A especie de alienacao e subserviéncia produzida pela televisáo foi


pesquisada nos Estados Unidos. Verificou-se que o assistir á televisáo en
gorda o telespectador, porque reduz a atividade metabólica, responsável
pela queima de calorías. É o que se lé no JORNAL DO BRASIL, 10/2/93,
p. 12:

UMA GERACÁO DE GORDINHOS

25'/ DAS CRIANpAS NOS EUA SAO OBESAS

MEDIA: 24 HORAS POR SEMANA DIANTE DA TV

A UMENTO DE OBESIDADE EXTREMA EM


CRIANQAS DE 6 A 11 ANOS: 98'/,

Pesquisa constata que ver televisáo engorda

WASHINGTON - Um estudo feito na Universidade Estadual de


Memphis mostra que assistir televisáo engorda porque reduz a atividade
metabólica, responsável pela queima de calorías. Segundo o estudo, publi
cado na revista médica Pediatrics, os espectadores de tevé queimam calo
rías mais lentamente do que as pessoas que ficam sentadas sem ligar o
aparelho.

Foram testadas 15 meninas com peso ácima do nórmale 16 compe


so normal, com oito a i2 anos. Elas assistiram a programacao no hospital.
Os pesquisadores monitoraram continuamente os gases inalados e expeli
dos pelas meninas. As medicoes revelam a velocidade com que o organis
mo gasta energía.

Para surpresa dos pesquisadores, as meninas de peso normal tiveram


urna queda de 12% na taxa metabólica enquanto assistiam tevé, enquanto
as meninas gordas tiveram queda de 16%. Desligada a tevé, as taxas dos
dois grupos subiram.

Os pesquisadores nao sabem por que a atividade metabólica decaí


quando se assiste televisáo. "Assistir tevé poderla deixar as enancas num
estado de profundo re/axamento similar ao obtido com a ioga", especula
a pesquisidora Mary Shelton.

229
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

As changas assistem tevé durante cerca de 24 horas semanais. Nos úl


timos 15 anos houve um aumento de 54% de obesidade e de 98% de obesi-
dade extrema em criancas de 6 a 11 anos. Como o estudo observou meni
nas que assistiam a urna programacao nao violenta, outros trabalhos devem
ser feitos para comparar alteracoes na taxa metabólica em programacbes
mais movimentadas, além de repetir os testes em meninos e adultos.

3) Os interesses comerciáis sobrepujam cada vez mais os valores mo


ráis na escala da sociedade. A honra, a dignidade, a fidelidade, a responsa-
bilidade sao hoje em dia fácilmente trocadas por dinheiro, que parece va
ler mais do que os valores éticos. A maior vítima dessa inversao é o pró-
prio homem, que sacrifica a si e aos seus semelhantes em troca da conquis
ta de boinas de sabao. 0 homem se degrada, e talvez mais ainda a muí he r,
prestando-se esta ao papel de coisa que se aluga e, depois, se joga fora co
mo objeto descartável.

4) Tem enorme importancia a reacao do público aos desmandos dos


meios de común ¡cacao social. Estes dependem do beneplácito da socieda
de para sobreviver e prosperar; se o IBOPE diminui, correm risco de subsis
tencia e véem-se obrigados a mudar de rumo. Infelizmente, porém, nota-se
que o público se mostra muito inerte e passivo diante das ofensas que os
mfdia ¡he incutem; as pessoas lamentam os abusos, mas nao tomam provi
dencia alguma para remediar. Mais eficaz do que chorar os males é escre-
ver breve e simples carta de protesto aos responsáveis pelos programas
deletérios; urna boa "chuva de cartas" nao pode deixar de intimidar os
comunicadores e publicitarios, pois faz cambalear o seu pedestal e os obri-
ga a repensar o seu trabalho, procurando orientacao mais sadia e constru-
tiva. É para desejar que nosso público se manifesté mais vezes e mais ve-
ementemente junto aos produtores de programas e comerciáis abusivos.

Que as pessoas de bom senso abram os olhos e se decidam a respon


der ao desafio de nosso mundo publicitario!
• * *

(continuacao da pág. 202)

minho, a Verdade e a Vida" (Jo 14,6); veio ao mundo para dar testemu-
nho da Verdade (Jo 18,37).

De resto, nao é este o primeiro caso em que se verifica o uso de men


tira, calúnias e dolo por parte do protestantismo, a fim dé atrair prosélitos.
Dir-se-ia que os protestantes estáo muito mais preocupados com a difusio
do seu partido ou da sua curióla do que com a do Reino de Oeus, que é
Amor, Verdade e Fraternidade. O caráter insidioso e falso (falsamente
arquitetado) da pregacao protestante é diabólico e nao evangélico.

Estévao Bettencourt O.S.B.

230
Um Documento Pastoral:

O DOMINGO: POR QUÉ?

Em síntese: O Cardeal Danneels, de Malines-Bruxelas (Bélgica), ¡ñau-


gurou o Ano do Domingo (1992-93) na Bélgica mediante uma Carta Pasto
ral, em que lembra o valor do domingo tanto no plano meramente huma
no e familiar quanto no plano da fé. O ritmo de um dia diferente após
seis días de trabalho é vital para o ser humano e para a familia; sem reen
contró consigo e com os familiares no domingo, o ser humano corre o ris
co de se desfigurar. Principa/mente o domingo é o dia do encontró com o
Senhor, que se faz por excelencia na Eucaristía; esta é fonte de renovacao
da vida; é reabastecimento do cristao para que possa reassumir suas tarefas
semanais com o vigor e a coragem que só os valores eternos Ihes podem
comunicar.

* * *

Reproduzimos, em traducao portuguesa, uma Carta do Cardeal God-


fried Daneels, Arcebispo de Malines-Bruxelas, datada de dezembro de
1992, a respeito do domingo e seu significado. É de notar, alias, que o
episcopado belga declarou Ano do Domingo o ano que vai de dezembro
(Advento) 1992 a novembro (Cristo-Rei) 1993, desejando, desta maneira,
reavivar nos fiéis a consciéncia do valor do domingo como Dia do Senhor.

O texto foi extraído de SNOP (Boletim da Conferencia dos Bispos


da Franca) n° 892, 11/12/1992, p. 7.

1.0 TEXTO

"Um Ano do Domingo.


O domingo é táo importante?

Nao se parece cada vez mais com os outros dias?

Será coisa tao grave permitir que sua imagem se empalideca?

Todos os dias nao sao igualmente válidos para que sejamos felizes?

231
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

— Apesar de tudo, o domingo é muito importante. E nao sonriente


para os cristaos; também para o mundo inteiro. Porque o domingo nao é
somente um dia para Deus. Ele existe também para o homem. Alias, o seu
predecessor - o sábado judeu - foi a primeira 'regulamentacao social' de
urna comunidade. O domingo é tanto para Deus quanto para o homem.
Alias, Deus e o homem tém interesses comuns em tudo.

O domingo existe para a coletividade: tem um significado social, é


um dia de repouso, urna proteclo contra as perturbacoes dos ritmos na-
turais do trabalho e do repouso da vida individual e comunitaria. Numa
época de atividades super-excitantes e de stress — muitas vezes também de
um 'alcoolismo do trabalho' —, devemos estar protegidos de nos mesmos.
O dia de repouso nos é proposto já por urna razio de saúde pública. Todos
sabem que, se nao assumirmos o repouso todos juntos - aínda que alguns
fiquem a servico da comunidade por necessidade —, o repouso se tornará
impossível. O domingo é um dia em que devemos 'encontrarnos de modo
diferente' do que ocorre nos outros dias. A variacao nos dias da semana
é indispensável para o equilibrio do homem. Ela relativiza a febre do tra
balho e dá todo o seu sentido aos dias úteis da semana.

O domingo existe também para a familia. É um dia de convivencia,


para corroborar os lagos afetivos, para dar lugar aos outros, para que os fa
miliares escutem uns aos outros. Durante a semana, a familia se reduz
freqüentemente a comer, dormir e trocar de roupa. é certo que, para algu-
mas familias, o domingo será um dia de sofrimento: encontrar-se, ás vezes,
é doloroso. Há divergencias de opiniao e discordias. Há domingos dilacera
dos para os filhos de casáis separados, que passam o fim de semana ora
em casa do pai, ora em casa da mae. Mas é também o dia em que se pode
ultrapassar o sofrimento pelo diálogo, o perdao e a paciencia. Foi, alias, no
domingo de Páscoa que o Senhor confiou o ministerio do perdao aos seus
apostólos.

Enfim, o domingo é o dia do Senhor. No domingo, os cristaos se reú-


nem para se reencontrar junto de Deus, para escutar a sua Palavra e para
receber o Corpo e o Sangue de Cristo na Eucaristía. Nos somos todos
aguardados, porque precisamos uns dos outros como de pao. Antes do
mais, porque nenhuma vida de fé pode ser duradoura, se ela fica encerrada
numa piedade pessoal do coracüo.

Algumas pessoas dizem: 'Rezo melhor sozinho(a) em casa'. Está com-


provado que um fiel na"o se pode sustentar a sos. Um cristao solitario está
em perigo de morte. Algumas vezes dirao: .'Isso para nada me serve'. Mas
será esta a auténtica questao? Nao devemos nos colocar também a pergun-
ta: 'Será que eu para nada sirvo aos outros?' Se eu nSo estou presente, tor-

232
O DOMINGO: POR QUÉ? 41

na-se impossível aos outros celebrar plenamente. A Eucaristía dominical


nao é um grande super-mercado no qual vou fazer minhas compras, é urna
casa de familia, onde um lugar á mesa fica vazio se eu estou ausente. To
dos sabemos que urna festa de familia nao será plenamente feliz ou será
talvez um fracasso, se um irmao ou urna irma convidados estiverem au
sentes.

Por conseguinte, o Ano do Domingo nao há de ser um ano como os


outros. Tratase de Deus e do homem. Alias, é isto que seencontragrava
do nos muráis: 'Domingo, um tempo para Deus, um tempo para o ho
mem'. Eu vos desejo, de coracao um ano tal!"

2. REFLETINDO...

O cardeal Danneels toca um ponto nevrálgico da vida contemporá


nea: o vilipendio do domingo, que muitos querem transformar em dia de
lucro comercial ou em dia que mais merguihe o ser humano na corrida em
demanda do prazer sensivel e de valores ilusorios.

0 autor da Carta usa urna linguagem que toque até as pessoas mais
afastadas da prática religiosa, lembrando que

1) o domingo nao é só de interesse religioso, mas também de interes-


se humano — pessoal e familiar. Se nao se respe¡ta o domingo como dia
diferente, dia de lazer sadio e, principalmente de reencontró da pessoa
consigo mesma e com seus familiares, entra em perigo a própria autentici-
dade do ser humano; perdendo a sua ¡ntimidade e os vínculos da familia,
a pessoa corre o risco de se desfigurar.

2) Além disto (em linguagem estritamente teológica, diriamos: áci


ma de tudo), o domingo é o dia do Senhor, o dia da Páscoa, o dia da vi-
tória da Vida sobre a Morte, o dia em que urna vida nova é oferecida ou
corroborada no cristao, o dia em que um sopro de eternidade bafeja o
coráceo humano para que continué sua caminhada semanal com mais fir
meza e coragem. Daí a importancia da Missa dominical, que vale nao só
pelos sentimentos que desperté ou nao desperté no cristao, mas vale tam
bém porque é um tomar-se presente a Deus de modo especial pela fé, pelo
desejo de resposta aos anseios mais profundos do ser humano. É outrossim
o encontró dos membros da Igreja, que sao solidarios entre si; se alguém
julga que nada pode receber dos seus irmaos (coisa muito difícil!), pense
que ao menos poderá dar aos seus semelhantes, que o aguardam fraternal
mente.

233
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

3) Á guisa de complemento, acrescentamos outra advertencia sobre o


mesmo assunto, proveniente do Bispo de Amiens (Franca), Mons. Jac-
ques Noyer:

"Urna evolucao que aos poucos apagasse o domingo para fazer dele
um dia como os demais, seria trágica para nossas familias, nossas cidades,
nosso país.

Se, para oferecer um domingo de qualidade á maioria da populacao,


temos de aceitar que alguns trabalhem, isto deve ocorrer dentro de condi-
coes e limites precisos.

A tradicao crista deu é nossa sociedade esse 'dia do Senhor', que é,


ao mesmo tempo, dia de festa, de vida em familia e de oracao. Ho/e o do
mingo nao pertence apenas aos cristaos. Ele quer ser um dia de liberdade
e de repouso. Quer responder as exigencias da convivencia social. Quer
tornar a vida humana mais humana.

Nao o deixemos desaparecer.

Amiens, 22 de outubro de 1992"

(extraído do Boletim SNOP, n? 889, 20/11/1992, p. 1).

* * *

CURSOS POR CORRESPONDENCIA

Cursos de S. Escritura, Iniciacao Teológica, Teología Moral, Liturgia,


Historia da Igreja, Diálogo Ecuménico, Parábolas e Páginas Difíceis do
Evangelho, Ooutrina Social da Igreja, Ocultismo, Escatologia.. (Novíssimos).

Além destes Cursos, a Escola "Mater Ecclesiae" oferece doze opúscu


los: "Porque nao sou protestante?", "Porque nao sou espirita?", "Porque
nao sou Macom?", "Por que nao sou Rosa-Cruz?", "Por que nao sou
ateu?", "Os Novos Movimentos Religiosos", "0 Fenómeno Rei;n¡oso:Sim
ou Nao?", "Jesús sabia que era Deus?", "A RessurreicSo de Je^u.. to ou
Historia?", "Os Milagros de Jesús: Ficcáo ou Realidade?", "Jesús Cristo:
Deus e Homem?".

ESCOLA "MATER ECCLESIAE" Caixa postal 1362,20001-970• RIO (RJ).

234
Um genio fala:

STEPHEN HAWKING:
"DEUS, EUE A CIENCIA'

Em sfrítese: Stephen Hawking, um dos maiores físicos teóricos de


nossos tempos, é pessoa que perdeu grande parte das suas funcoes moto
ras, mas possui talento intelectual perfeitamente lúcido e ativo. A sua tra-
jetona biográfica e científica foi reconstituida em filme intitulado "Breve
Historia do Tempo"; este filme compreende relatos autobiográficos, como
também a narracao de reminiscencias da mae e de amigos de Stephen
Hawking. Do texto do filme vao, a seguir, extraídosalguns segmentos dos
mais significativos, que evidencian) como a própria molestia foi um incen
tivo para que o jovem Hawking se dedicasse mais ao estudo e se tornasse
o sabio que ele ho/'e é... Um sabio que, educado na fé crista, atuafmente
parece estar alheio á religiao, mas nao excluí a possibilidade de descobrir
os vestigios de Deus através de suas pesquisas na historia do universo.
* * *

Stephen Hawking é um dos maiores fi'sicos teóricos da atualidade.


Celebrizou-se especialmente pelo seu livro "Urna Breve Historia do Tem
po. Do Big Bang aos Buracos Negros". Em suas elucubracoes nSo se furta
a falar de Deus. Últimamente o editor Errol Morris resolveu produzirum
filme com o mesmo título, em que apresenta traeos da vida e do pensa-
mento do grande dentista. Desse filme alguns textos foram publicados
pela revista francesa "Sciences et Avenir", fevereiro 1993, pp. 18-20.

A figura de Stephen Hawking se imp5e á consideracSo e á admiracao


de quem o conhece, porque é homem genial por sua inteligencia, mas de
corpo franzino e sofrido, afetado em seüs ñervos motores. Estes dados
aparecerao melhor nos episodios seguintes, que foram recolhidos e tradu-
zidos a partir de "Sciences et Avenir" (n? citado).

1. BIOGRAFÍA E GENIALIDADE

1.1. Hawking e Galileu

"Nasci aos 8 de Janeiro de 1942, trezentos anos exatamente após a


morte de Galileu. É claro que nao sou o único nessas condicSes: calculei

235
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993 -

que cerca de duzentas mil pessoas nasceram nessa mesma data. Nao sei
quantas dentre elas se interessaram mais tarde pela astronomía. Nasci em
Oxford, se bem que naquela época meus pais morassem em Londres.
Oxford era um lugar ideal para dar á luz durante a guerra: os alemaes ha-
viam aceito nao bombardear Oxford e Cambridge, se os británicos poupas-
sem Heidelberg e Gottingen. Na medida em que me lembro, eu era um me
nino normal, nao muito propenso a aprender mediante a leitura. Eu era
principalmente ¡nteressado pela mane ira como as coisas funcionavam.
Quando eu tinha doze anos, um dos meus colegas apostou com um amigo,
valendo urna caixa de bombons, que eu jamáis chegaria a algo. Nao sei se o
perdedor cumpriu o que prometerá por aposta; e, se o cumpriu, nao sei
em que sentido..."
(Stephen Hawking)

1.2. Primeiro Premio de Catecismo


(Isobel Hawking, mae de Stephen)

"Durante o seu primeiro ano na Escola St. Albans, creio que Stephen
pertencia ao rol dos tres últimos alunos da turma. Perguntei-lhe por que
estudava tao pouco, e respondeu que estava longe de ser o único. Na ver-
dade, ele cacoava desmedidamente do estudo. Embora nao fosse bom alu
no, ele n3o deixava de ser tido como muito inteligente pelos seus profes-
sores. Em determinado ano, ele recebeu o primeiro premio de Catecismo,
o Divinity Prize, o que nao era surpreendente, pois o seu pai Ihe lia os rela
tos bíblicos desde a adolescencia. Stephen os sabia todos de cor. Era mui
to i nteressado pela religiao, mas creio que hoje ele quase nao a pratica".

1.3. O problema da xfcara de cha


(John Me Clenahan, amigo de infancia)

"Stephen e eu nos conhecemos quando tmhamos dez anos. Um día


levantamos urna questao: quando o seu cha está muito quente, ele esfria
mais rápidamente se logo se Ihe acrescenta o leite ou, ao contrarío, mais
vale esperar e só depois misturar-lhe o leite? Eu nao conseguía equacionar
o problema. Mas para Stephen isto se deu sem demora, como por ilümi-
nacao. Lembro-me muito precisamente da discussao: conforme a lei de
Stefan (nao confundir com Stephen!), todo corpo quente difunde calor
em cota proporcional á quarta potencia da sua temperatura absoluta.
Stephen daí concluiu que, quanto mais tongamente se deixasse o cha nao
diluido pelo leite, tanto mais rápidamente ele esfriaria. Por conseguinte,
era preciso acrescentar o leite no fim de um período de espera, e nao
logo de inicio".

236
STEPHEN HAWKING: "DEUS. EU E A CIENCIA" 45

1.4. Físico á revelia


(Stephen Hawking)

"Meu pai quería que eu estudasse Medicina. Mas eu considerava a


biología muito descritiva, nao bastante fundamental. Eu quería dedi-
car-me á Matemática. Conseqüéncia: entrei no curso de Física na Univer-
sidade de Oxford. Naquela época, a displicencia pelo estudo estava mui
to em moda em Oxford. Era preciso ser brilhante sem fazer esforcos.
Trabalhar duro para conquistar urna menpao honrosa era totalmente
desacreditado. O programa de Física fora elaborado de tal modo que se
podia fácilmente deixar de estudar até a época do exame final. Calculei
ter estudado cerca de mil horas em tres anos — o que faz urna media de
urna hora diaria aproximadamente. Nao me sinto ufano por ter assim
procedido; apenas descrevo minha atitude de entao, que eu compartilha-
va com a maioria dos meus colegas. Estávamos penetrados pelo tedio e
pelo sentimento de que nada havia que merecesse um esforco. No tercei-
ro ano de Universidade, pedi ao Ministerio da Inglaterra um cargo de fun
cionario público. Mas no dia previsto esqueci-me de apresentar-me para
prestar exame. Nao fora essa distracao, sem dúvida eu te ría feito carreira
no funcionalismo civil".

1.5. Aluno brilhante, mas preguicoso


(Robert Berman, ex-professor de Stephen em Oxford)

"Quando conheci Stephen, ele aínda nao tinha dezessete anos. Pres-
tou com brilhantismo seu exame de admissao, em particular o de Física.
Na solene argüicao oral, á qual assistiam naquela época o Diretor dos
Estudos, o professor principal, assim como outros colegas, todos perce-
beram ¡mediatamente que Stephen seria um aluno excepcional; sem pro
blema recebeu a bolsa para estudar Física. Ele foi, sem hesitacao, o mais
brilhante aluno que eu jamáis tive. Talvez nao ten ha sido tao feliz nos seus
exames fináis quanto certos alunos que eu tive depois; acontece, porém,
que estes nao eram apenas inteligentes, haviam também trabalhado dura
mente. Stephen era realmente dotado, de modo que quase nao estudava".

1.6. O anuncio da molestia


(Derek Powney, um colega de Oxford)

"Um dia, quando eu visitava Oxford, procurava desesperadamente


alguém com quem me sentasse á mesa para al mocar, quando de repente
Stephen apareceu. Ele se ofereceu generosamente para compraras bebidas.
Trouxe-as e colocou-as sobre a mesa.

Num momento em que ele ia depositar o seu copo de cerveja sobre a


mesa, deixou-o cair. Eu Ihe grítei que nao era hora para se sujar. Mas ele
me contou que passara duas semanas no Hospital, onde fora submetido a

237
46 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 372/1993

urna serie de exames. Os médicos descobriram que ele estava enfermo. Ele
me contou entao muito tranquilamente que estava para perder aos poucos
o uso do seu corpo e que, no estágio final da doenca, ele se parecería com
urna especie de legume, ao passo que o cerebro continuaría a funcionar
perfeitamente. Tornar-se-ia entao incapaz de comunicar-se com o resto do
mundo.

Disseram-lhe que sua doenca era incurável, mas nao se podía prever se
morrena dentro de seis meses ou vinte anos. Fiquei totalmente arrasado —
o que certamente nao era reconfortante para Stephen. Eu sabia perfeita
mente que ele nao tinha fé e isto me parecía aínda mais terrível, porque
ele devia estar sempre perguntando a si mesmo: por que eu? Mas parecía
aceitar tudo sem excecao. Creio que foí a partir desse momento que co-
mecou a se dedicar seriamente ao estudo".

1.7. A Escola da Física Teórica


(Stephen Hawking)

"A molestia comecou a se agravar rápidamente e minhas pesquisas


pareciam comprometidas, pois eu julgava que nao viveria até concluir o
doutorado. Com o passar do tempo, o mal se estabilizou. Eu comecava a
compreender a teoría de Einstein e a admitir adiantar os meus trabalhos.
Mas o que modificou tudo, foi meu noivado com Jane Wilde, que eu havía
encontrado na época em que descobriram a minha doenca. Ela me deu um
por que viver. Para que eu me casasse, precisava de um emprego, e, para
que conseguisse emprego, precisava de concluir o meu doutorado. Eís por
que eu me pus a estudar seriamente, pela prímeira vez, na vida e, para
grande surpresa minha, isso me ajudou. Minha outra grande sorte era a es
cola de Física Teórica, área puramente cerebral, que n2o exige alguma
proeza física".

1.8. A Forca do Espirito


(Isobel Hawking)

"Ele mesmo diz que nunca teria chegado aonde está hoje se nSo tives-
se caído doente. Creio que a observacao é verídica. Como dizia Samuel
Johnson, o fato de vocé saber que será enforcado na próxima madrugada
Ihe confere um extraordinario poder de concentracSo. A doenca certamen-
te nao é um bem, mas para Stephen é um mal menor, pois ele tem a Capa-
cidade de viver intensamente dentro da sua cabeca. Ele acredita ñas possi
bil idades quase infinitas do espirito humano".

1.9.0 Pensamento de Deus


(Stephen Hawiking)

"Se descobrirmos urna teoría completa a respeito da origem do uni


verso, ela deverá ser compreensível a todas as pessoas e nao apenas a um

238
STEPHEN HAWKING: "DEUS. EU E A CIENCIA" 47

punhado de dentistas. Entao todos nos, filósofos, cientistas e até gente da


rúa, seremos capazes de tomar parte na cliscussáo sobre por que existe o
universo e por que existimos nos. Se encontrarmos a resposta a estas per-
guntas, haverá o triunfo supremo da razao humana. Naquele momento co-
nheceremos o pensamento de Deus".

A tais dizeres acrescentemos breves comentarios:

2. COMENTANDO...

Tres pontos podem vir á baila após a leitura dos traeos biográficos de
Stephen Hawking:

2.1. Ciencia e Fé

Stephen foi educado na fé crista; mostrava grande interesse pela Reli-


giSo, mesrrro quando nao o manifestava pelo estudo. Depois afastou-se da
prática religiosa. Quando atingido pela doenca, parece nao tertido fé. Esta
ficava latente talvez, e té-I o-á ajudado a manter-se intrépido. Hawking está
disposto a reconhecer o pensamento de Deus, caso Este se Ihe torne evi
dente através dos estudos. Um grande dentista pode também ser um ho-
mem de fé, como comprovam tantqs nomes famosos e como o próprio
Stephen Hawking admite.

2.2. A Molestia

A molestia, sem deixar de ser penosa, foi certamente benéfica para


St. Hawking. Acuado pelo duro golpe, passou a levar os estudos a serio,
coisa que talvez nao tivesse feito em caso de boa saúde. Confirma-se o que
já os antigos gregosdiziam: Pathos mathos, o sofrimento é escola, é educa-
pao. A historia conhece numerosos episodios que o ¡lustram. A Providen
cia Divina dispensa os seus dons com grande sabedoria, permitindo que
dos males decorram bens muito grandes.

2.3. Uma pessoa amiga

A presenca de Jane Wilde no momento mais agudo da crise foi salutar


para Stephen Hawking. Verifica-se mais uma vez o papel inestimável de
uma pessoa amiga para levantar o ánimo de quem sofre e até provocar uma
guiñada na vida do enfermo; "ela me deu um por que viver". Na verdade,
as criaturas só podem dar tal presente, porque transmitem o que Deus Ihes
inspirou; Ele é a fonte de todo bem, de toda razSo de viver. Possa Stephen
Hawking chegar ao termo de sua evolucSo científico-religiosa!

239
Insidioso:

GRUPO
SAO FRANCISCO DE ASSIS

Está-se espalhando em comunidades paroquiais católicas urn livreto


que em sua contra-capa traz os dizeres "Grupo Cristao Sao Francisco de
Assis", como se fosse este o remetente. Seria remetente católico, visto que
sao os católicos que veneram Sao Francisco de Assis. Todavia os dizeres do
impresso sao típicamente protestantes: equivalem a um convite, redigido
na base de textos bíblicos, para que o leitor aceite Jesús Cristo e "envolva-
se com outros crentes numa igreja onde se prega a mensagem de Jesús
Cristo" (frase final do livreto).

Tal impresso supoe que o leitor seja um pecador que nao aderiu a Je
sús Cristo. lncita-o a "convidar Cristo pessoalmente para entrar em sua vi
da e crer nele como Senhor da mesma"; conseqüentemente agregar-se-á
um grupo de crentes. Nao há, porém, urna referencia aos sacramentos (Ba-
tismo. Eucaristía...) nem á Virgem Ssma., nem á Igreja (com letra maiúscula).

Para quem o considera de perto, tal livreto é evidentemente de orí-


gem protestante; pretende atrair os católicos para o protestantismo, valen-
do-se do título "Grupo Cristao Sao Francisco de Assis", como se o convite
fosse feito por católicos a católicos. Os indicios pelos quais se depreende a
índole protestante do livreto, sao os seguintes:

1) conteúdo doutrinário, resumido atrás: nenhuma referencia aos ele


mentos mais típicos do Cristianismo, além da Biblia: nem Batismo, nem
Eucaristía, nem a Igreja fundada por Cristo e entregue a Pedro (cf. Mt 16,
16-19), nem a Virgem MSe María Ssma.;

2) citacoes bíblicas no estilo do protestantismo: Jo 1:12; Apocalipse


3:20; Romanos 5:8... Os católicos nao usam dois pontos para separar ca
pítulo de versículo, mas servem-se de vírgula: 1,12 ... 3,20 ... 5,8 ...

3) O endereco da Editora é: Sociedade Brasileira de Folhetos, com


copyright nos Estados Unidos, é dos Estados Unidos que tem vindo para o
Brasil a propaganda protestante.
(continua napág. 202)

240
EDigOES "LUMEN CHRISTl"

3? edicao em latim-
portugués, com anota-
cóes por D. JoSo
Enout. A Regra que
Sao Bento escreveu no
século VI continua vi
va em todos os mos-
teiros do nosso tem-
po, aos quais nao fal-

BENTO
tam vocacoes para

monges e monjas.
210págs. 1992.
LAT1M-PORTUGUÉS
Cr$ 250.000.00.

1. CONCORDANCIA DA REGRA DE S. BENTO. A. de Vou


gué — Apresentacao de Dom Abade Paulo Rocha, OSB. Cim
bra 1988. 860p.
Um dos instrumentos eficazes para o estudo da Regra de S.
Bento sao as CONCORDANTIAE que, de modo fácil e rápi
do, permitem-nos encontrar e conhecer as palavras e senten-
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2. SANTO AGOSTINHO - ESCRITOS MONÁSTICOS. Cim
bra, 1991. Principáis textos monásticos de Santo Agostinho,
187p Cr$ 290.000,00
3. HISTORIA DOS MONGES DO EGITO. Cimbra, 1990. É um
documento anónimo, escrito cerca do ano 400. 130p Cr$ 440.000,00
4. INICIACÁO A HISTORIA MONÁSTICA (notas, esquemas e
mapas) 1? de urna serie. 2aedicto com textos monásticos em
apéndice. 1985. lOOp CrS 200.000,00
5. INICIACÁO A HISTORIA MONÁSTICA (notas, esquemas e
mapas) 2? de urna serie, 1984.145p CrS 260.000,00
6. SAO GREGORIO DE NISSA: O DESIGNIO DE DEUS E VI
DA DE SANTA MACRINA. Publ¡cacao da Cimbra, 1992,
100p CrS 440.000,00
7. VIDA DE SANTO HONORIO (Sermao de Santo Hilario) e
vida dos Pes. do Jura. Cimbra. 1987. 125p CrS 325.000,00
8. VIDA DE S. PACÓMIO - SEGUNDO A TRADIQÁO COP
RA. Cimbra, 410p 1989: CrS 580.000.00
9. SAO BENTO E A VIDA MONÁSTICA. D. Claude J. Nesmy.
162p. 1962. Colecao Mestres Espirituais CrS 120.000,00
10. BENTO DE NÚRSIA - PAI DO MONAQUISMO OCIDEN-
TA... por Walter Nigg. Editorial A.O. de Braga Portugal e Ed.
Loyola. Livro com ilustracóes. 120p CrS 296.000,00
11. ANUARIO BENEDITINO-CISTERCIENSE DO BRASIL.
Cimbra, 1992. 21 Op CrS 325.000,00
12. ESTATUTO DOS OBLATOS DA CONGREGACÁO BENE-
DITINA DO BRASIL. D. Estévlo Bettencourt. OSB. 32p.
1991 Cr$ 50.000.00

Pedidos somente pelo Reembolso Postal — Precos sujeitos a alteracdes.


Álbum com 110 págs. coloridas (30 x 23), texto histórico-ex-
plicativo documentado, de autoría de D. Mateus Rocha O.S.B.
- Em 5 llnguas, volume separado (portugués, espanhol, fran
cés, inglés e alemáo). No prego, sujeito a alteracáo, vai inclui
do o porte do correio.

RENOVÉ SUA ASSINATURA DE P.R.: Cr$ 250.000.00.


Ano de 1992: encadernado em percal ¡na. 590 págs.
com índices: Ci$ 500.000.00.