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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESErsTTAQÁO
DA EDIpÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanza a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
':" visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
¥_ vista cristáo a fim de que as dúvidas se
,. dissipem e a vivencia católica se fortaleca
"J* no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaca
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
ANO XXXV

MARCO

1994

en SUMARIO
<

"Atendido por causa da sua Reverencia"


ui
O A Cruz, símbolo pagao?
00
UJ
3 Ainda o caso Galileu
O
O Papa e o Comunismo

A Reproducao Assexual do Ser Humano


UJ
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ffl Ainda o Aborto
O
ce
a. A Legiáo da Boa Vontade
PERGUNTE E RESPONDEREMOS
MARCO 1994
Publicapao mensal N°382

Diretor-Responsável SUMARIO
Estévao Bettencourt QSB
Autor e Redator de toda a materia "Atendido por causa da sua Reverencia" 97
• publicada neste periódico
Grande equívoco:
I Diretor-Administrador: A Cruz, símbolo pagao? 98
D. Hildebrando P. Martins OSB
Os pingos nos ii:
Aínda o caso Galileu 107
Administracáo e distribuicao:
Edigoes "Lumen Christi" Entrevista rumorosa:
Rúa Dom Gerardo, 40 - 5? andar - sala 501 O Papa e o Comunismo 129
Tel.: (021) 291-7122 Os primeiros clones humanos:
Fax (021) 263-5679 A Reproducao Assexual do ser Humano. 134

Ainda o Aborto 139


Endereco para correspondencia:
Ed. "Lumen Christi" Ecumenismo?
Caixa Postal 2666 A Legiaoda Boa Vontade 140
Cep 20001-970 - Rio de Janeiro - RJ

Impressao e Encademncno

"MA RQUES SA fíA I VA "


GRÁFICOS E EDITORESS.A.
Tels.: 1021) 273-9498 / 273-9447

NO PRÓXIMO NÚMERO: ,

Milagre é possfvel? — Curas Milagrosas em Lourdes. — "A Inquisicao em seu


Mundo"(Joao B.Gonzaga). - Enigmas e Misterios: os Anjos. — A Televisa*o e suas
influencias.

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

ASSINATURA ANUAL PARA 1994


(12 números) CR$ 6.000,00 - nP avulso ou atrasado CR$ 600,00

.O pagamento poderá ser á sua escolha:.


1. Enviar EM CARTA cheque nominal ao Mosteiro de Sao Bento do Rio de Janeiro, cruza
do, anotando no verso: "VÁLIDO SOMENTE PARA DEPÓSITO na conta do favoreci
do" e, onde consta "C6d. da Ag. e o N? da C/C", anotar: 0229 - 02011469-5.
2. Depósito no BANCO DO B RASI L, Ag. 0435-9 Rio C/C 0031-304-1 do Mosteiro de S. Ben
to do Rio de Janeiro, enviando a seguir xerox da guia de depósito paita nosso controle.
3. VALE POSTAL pagável na Ag. Central 52004 - Cep 20001-970 - Rio.
Sendo novo Assinante, é favor enviar carta com nome e endereco legíveis.
Sendo renovacao, anotar no VP nome e enderepo em que está recebendo a Revista.
K" '.■ ■■-■
^ á. r-- "í
'ATENDIDO POR CAUSA DA SUA
REVERENCIA"
(Hb 5,7)
¡L-UilL-J
O mes de margo terminará com a celebracao da Semana mais Santa do
ano: 28/03 a 03/04. . . é semana de paradoxo, pois nela se celebram a
morte e a ressurreicao de Jesús ou a morte que nao foi morte, mas passagem
para a vida. — Um texto da epístola aos Hebreus (5,7) é apto a explanar o
misterio: o autor sagrado recorda a agonia de Jesús no Horto das Oliveiras,
em meio a clamores e lágrimas e. . . ousa dizer que Jesús, tendo pedido ao
Pai a isencao da morte de Cruz, foi atendido por causa da sua reverencia
•' • ■ •' 'T¿ •.;•-"? *■-,
E espontáneo perguntarmos: como foi atendido, se n3o foi poupado da
crucif ixao dolorosa? — A resposta é importante.

No Horto das Oliveiras, Jesús pediu que o cálice passasse sem que Ele o
bebesse, mas acrescentou: "Faca-se, porém, a Tuavontade, ó Pai, e nao a
minha" (Le 22,42). Tal é, alias, o modelo da oracao de todovcristSo: "nao
sabemos o que pedir como convém" (Rm 8,26); podemos,, porém, sugerir
ao Pai tudo o que nos pareca útil e conveniente, mas facamo-lo sempre com
Jesús e como Jesús, subordinando nossos anseios aos santos designios do
Pai (é isioquese chama "pedir ém nprnede JesusV; cfr Jó Í6,23). Urna tal
orac3o nunca é perdida; será sempre atendida, como foi atendida a de Jésus:
se Ele nao recebeu a dispensa da morte dé Criiz'.'rnas.a átravessou, ganhou
mais do que a graca de morrer sem violencia; sim, átrá'vés dé sua morte na
Cruz, Jesús venceu á morte, ressuscitando e tornahdó-se o Senhor dos vivos
e dos mortos. É Ele quem afirma no Apoca I ipser "Eü sou o Primelro e o
Ultimo, o Vívente; estive morto, mas eis'que estou vivo pelos secutas dos
sáculos e tenho as chaves da Morte e da regiao dos monos". (Ap 1,18).

O Apocalipse apresenta o Cordeiro tendo ñas maoso Iivro dos designios


de Deus sobre a humanidade; é o Senhor da historia, mas traz as chagas da
sua Paixao; está de pé como que imolado (cf. Ap 5,6). Era tal dignidade
que o Pai havia reservado para Jesús como homem; se nao Ihe deu aquilo
que o bpm^senso humano sugería, deu-lhe algo de muíto.mais valioso.

Considérandb'tal modelo,.o cristáo sei«nteirecónfóiítado'.f!NSo:lhe'!fáltam


ocasiSes dél'padecer como Jesús; Ele qüis déscer- até íbc«ytremo Jdasrnossas
dores e pedir o que qualquer criatura humana; na ahgústiá>lpediria.>Efntais
circunstancias; oicristíojrezará^com-JesusítEjesteja certo de>que^isua prece
nao será.perdida,pois,se o Pai naalheconceder o quesugére.tháede Ihe dar
muito rnais ainda, ou,seja,a.participap3o noreinado de,Cristo,iqueesteve
morto, mas vive pelos sáculos!

é a oracao com Cristo, filial e perseverante, que transíigúra'a' Cruz e a


torna Arvore da Vida. . ' '

97
((I
'PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
ANO XXXV - N° 382 - Marco de 1994

Grande equívoco:

■ ■ ' ■ ..Ll :.

A CRUZ, SÍMBOLO PAGÁO?

Em sintese: A cruzysímbolo muito caro aos cristaos, é repudiada pe


las Testemunhas de Jeová como algo de pagSo e abominável. O artigo pre
sente mostra quao inconsistente é a argumentado dos jeovistas; procede
na base de preconceitóse distor^So de textos bíblicos. Além do qué, é de
se notar que nos primeírós decenios dáCohgregágao dasTesiémunhas ou
se/a, de 1891 até 1931f^SoBiecláa^'forre de Vigía"\tihba por distintivo
seu urna cruz latina atr^vessada^poi tima coroa real e cercada de folhas de
louro; as Testemunhas usayam¿al símbolo na /apela, e cada número da sua
revista oficialMatch Tower (Torre,de Vigía) trazia na capa tal símbolo.
Na Escritura Sagrada^na literatura crista amiga e na arqueología en-
contram-se eloqüentes testemunhosdeque a cruz com quatro ou tres bra
cos fe nao urna estacawuvm poste de tortura; como dizem as. Testemu
nhas) foi o instrumento do suplicio de Jesús e se tornou a insignia mais
característica dos cristSos/ ^ >A'■■'■■ ■■■■■ <'<■■'. ■ :■ .-.-„ .,-\

As Testemunhas dé déo^que já nao 'slo cristóbs (poís nao recónhe-


cem Jesús Cristo.corn9.(Deus.e1Homem,nern,a SS. Tr¡ndade),.entre os te
mas de sua pregacap, jncluem^pposicao ao^sinárda Cruz como sefosse
um srmbolo pagao. .Ora.flrecisarne'nte Lo^ Primeiro,Catecismo ensina que o
«mal distmtivondo cristSo3é;r«onforme íoda arXradicao bíblica e pos-bíbli
ca, o sinal da Cruz. As-Testemunhas saoltantoonais agressivas quanto me
nos argumentos-téni para fundamentar ascuas sentencas.
ii 'jí<'. ■}'

O assunto "Cruz,S¡nal do CristSo" ja* foi abordado em PR 307/1987


pp. 545s e 351/1991, pp. 364-374. Visto/pbrém. qué constantes solicita-
qOes de esclarecimento nos ocorrem, voltaremos a considerá-lo has páginas
seguintes, acrescentando novos dados ao que ja' foi exposto.

98
A CRUZ. SILBÓLO PAGAO?

1.OBJECÓES

Consideraremos quatro das varias objecoes levantadas pelas Testemu-


nhas contra a estima da Cruz.

D^As Testemunhas afirmam que Jesús n3o pendeu de urna Cruz, mas
de um "poste de tortura" ou de urna estaca fincada no solo.tendo as maos
atadas ao topo dessa estaca. A fim de o sustentar, apelam para

Dt 21,22: "Quando alguém tiver cometido um críme que mereja a


pena de morte, formorto e suspenso a urna árvore, seu cadáver nao poderá
permanecer na árvore a noite; tu o sepultarás no mesmo día pois o que for
suspenso será um maldito de Deus".

Js 10,26: "Josué feriu e m'atou os inimigos, e os fez suspender em


cinco árvores, ñas quais ficaram suspensos até a tarde".
A propósito destes textos notemos:

Os judeus penduravam a árvores os cadáveres dos criminosos ja mor-


tos; nSo havia estacas ou árvores para homens ainda vivos; é, alias o que se
depreende dos próprios textos bíblicos. Esta observacao é válida para dissi-
par a idéia de que Jesús tenha sido supliciado como teriam feito os iudeus
(estes nao faziam pender de postes ou estacas homens vivos).
Ademáis deve-se chamar a atencao ainda para o fato de que a tradu-
cao bíblica dos LXX realizada em 200 a.C. em Alexandria (Egito) verteu o
termo hebraico 'es (estaca ou árvore) por xylon dídymon, lenho duplo ou
geminado, o que mostra que em ambiente de cultura helenística o instru
mento mortal nao era urna estaca ou urna árvore, mas era a cruz de dois
bracos.

2) As Testemunhas raciocinam do seguinte modo:


"No antigo Israel, judeus infiéis choravam a morte do falso deus Ta-
muz. Jeo\d disse que aquilo que eles faziam era detestavel (Ez 8,14s).
Compreende-se melhor esta sentenca de Jeová quando se descobre que,
históricamente, Tamuz ná"o era mais que outro nome de Nimrod,o rebelde'
pos-diluviano, que se declarou contra Jeová. O símbolo de Tamuz era a
cruz. Venerando-a, honra-se Nimrod (cf. Gn 10,8-10)" (Racionamos fa-
zendo uso das Escrituras, pp. 88s).

Respondemos que a aproximacao desse fato do Antigo Testamento


com a morte de Cristo é muito vaga e artificial. Quando o livro do Gn
10,8-10 se refere a Nimrod, nao diz que era inimigo de Javé nem que o seu
símbolo era a cruz; de resto, Nimrod é urna figura que os eruditos n3o
identificaram com precisao (ver A. van den Born, Dicionário Encidopédi-

99
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 382/1994

co da Biblia,verbete Nimrod). Quanto a Tamuz, n§o há fundamentos para


identificá-lo com Nimrod; muito menos se pode dizer que o símbolo de
Tamuz era a cruz; ver o mesmo Dicionário, verbete Tamuz.

3) As Testemunhas se comprazem outrossim em citar a Enciclopedia


Británica, onde se Ié:

"Varios objetos marcados com cruzes de diversos tipos e que se refe-


rem a um período muito anterior á era crista, tém sido encontrados quase
em todas as partes do mundo amigo, india. Siria, Pérsia e Egito tém forne-
cido inumeráveis exemplos desta natureza... O uso da cruz, como símbo
lo religioso dos tempos pré-crístSos e entre ospovos nao-crístSos, talvezpos-
sa ser considerado quase universal e, em muitos casos, era associado com
qualquer forma de adoracSo á natureza" (fascículo citado, p. 86).

As Testemunhas, porém, nlo citam o resto do verbete da Enciclope


dia Británica, que diz:

"A morte de Cristo sobre urna cruz conferíu necessariamente um sig


nificado novo a um sinal que até entao tinhasido associado com um mun
do religioso nSo só nao-cristao, mas normalmente radical e contrario a
este" fThe Encyclopedia Britannica, vof. 6, 1946, p. 754).

4) Constantino, Imperador Romano de 313 a 337, terá introduzido o


símbolo pagSo da cruz na iconografía crista.

Respondemos, reconhecendo que Constantino era um adorador do


Sol em seus primeiros tempos de vida pública. 0 seu biógrafo, Eusébio de
Cesaréia, narra que em 28/10/312 teve urna visSo da Cruz 'no céu, diante
da ponte Mflvia em Roma, quando se aprestava para enfrentar seu adver
sario Maxéncio. Ao lado da cruz se encontravam as palavras "Com este si
nal vencerás!" (en toutoi nika); na noite seguinte, Cristo terá aparecido a
Constantino com o mesmo sinal da Cruz e Ihe terá ordenado que fizesse
um estandarte ou urna bandeira como monograma de Cristo (X atravessa-
dópor.urh R grego), o que rnais tarde, tomou o nome de labarum:

7\
ou

: O relato de Eusébio de Cesaréia é controvertido. Como quer que seja,


ná*o é do tempo de Constantino que data a veneracao da Cruz por parte

1 Em grego. Cristo se escreve XPISTÚS.- os antigás crístSos colocavam o P dentro do X.

100
A CRUZ. SILBÓLO PAGAO?

dos cristSos, como se depreende de quanto já dissemos em PR 351/1991,


pp. 370-374 e aínda diremos a seguir.

2. LINGÜISTICA E ARQUEOLOGÍA

Jesús foi condenado por Póncio Pilatos sob a pressao dos fariseus. ..
e condenado á morte segundo o estilo romano, more romanorum; Pilatos
nao se preocupava com as prescribes do Deuteronómio e as interpreta-
coes dos rabinos. Ora a crucifixao era usual entre os romanos, adotada já
por povos mais antigos. Com efeito; os persas, nos sáculos V/IV a.C. a apli-
cavam; o costume passou para o Imperio de Alexandre Magno, que em
331 venceu os persas, dando origem á cultura helenística. Os cartaginenses
puniam os reis nacionais e estrangeiros com a cruz. Parece que foram eles
que transmitiram o costume aos romanos; estes, por sua vez, o fizeram
chegar á Palestina, nos tempos de Alexandre Janeu (67 a.C), reí de Judá
impregnado de cultura helenística. Os romanos aplicavam o suplicio da
cruz aos piratas, bandidos e rebeldes; era dito supplicium servi le, porque
destinado originariamente aos escravos; aplicavam-no, porém, ocasional
mente, aos cidadaos romanos, apesar dos protestos de Cicero.

Examinemos as modalidades de cruz e crucifixao vigentes entre os ro


manos.

Estes conheciam

— a crux immissa ou capitata, com quatro bracos:a haste vertical pas-


sava além da horizontal; esta forma ficou conhecida como crux latina;
— a crux commissa, em forma de T, com tres bracos, sem a cabeca;

— a crux decussata ou cruz de S. André, em forma de X, letra esta


que exprimía o número dez (decem, donde decussata). N2o parece ter sido
usada em execucoes oficiáis.

O braco vertical era chamado stipes ou staticulum; ficava plantado na


térra no lugar determinado para as execucoes, pelo menos ñas cidades do
Imperio que tinham tribunal. Um tal lugar existia também em Jerusalém,
capital de urna provincia turbulenta, onde a crucifixao era um meio im
portante para coibir as revoltas da populacao.
O braco horizontal era chamado patibulum,. nome que^indicava a
tranca ou a barra de madeira que fechava a porta da casa por dentro; ti
rada aquela barra, a porta patebat, isto é, abría-se. Essa barra era usada
para punir'fescravos. No caso de crucifixá"o, o cruciarius ou o condenado á
I. cruz, partindo do tribunal ou da prisao, carregava seu patibulum posto so
bre os seus ombros (horizontalmente, atrás da nuca); as maós pausadas
por cima do madeiro eram amarradas á barra com cordas; as pontas das
• cordas eram seguradas por um soldado, que ia á frente do condenado e
' que "o conduzia para onde ele nao quería" (cf. Jo 21,18).

mi
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"382/1994

A cruz podia trazer um titulus, que indicava a causa da condenacao,


como se deu no caso de Jesús. Esse letreiro foi colocado por cima da cabe-
ca de Jesús (cf. Mt 27,37), o que bem evidencia que Jesús estava pregado
a uma cruz capitata; se tivesse sido preso a um poste, o letreiro estaria áci
ma de suas maos, nao "em cima de sua cabeca".

0 fato de que os romanos usavam cruzes, com stipes ou patibulum, e


nao estacas, é ampia mente documentado por testemunhos literarios e ar
queológicos. Plauto (254-184 a.C), teatrólogo romano, escreveu a come
dia Mostellaria, que narra uma crucifixao; fala explicitamente do patibu
lum, carregado pela vi'tima até o lugar da execucao; o relato de Plauto
muito se assemelha ao dos Evangelhos. Firmfcio Materno, orador pagao
feito cristao no século IV, refere que o condenado era "pregado ao patí
bulo, e erguido na cruz".

Quanto á palavra grega staurós, que geralmente se traduz por cruz,


ocorre mais de 40 vezes no Novo Testamento, ao passo que xylon (ma-
deiro, cruz) cinco vezes apenas.

As Testemunhas de Jeova' alegam que staurós significa poste,estaca,


e nao cruz. Que dizer a propósito?

O poeta grego Hornero, seis sáculos antes de Cristo, usa realmente


staurós no sentido de estaca. Podia ser um poste para fins pacíficos, como
os da construcáo civil, mas podia também ser instrumento de tortura. Co
mo tal, foi o poste (staurós) usado pelos romanos, tendo dois bracos.

Em latim poste ou estaca se diz palus, adminiculum (quando usado


como apoio), vallus (quando servía de palicada, cercando os acampamen
tos militares). Para designar a tortura em estaca, os latinos diziam ad pa-
lum adlisare, fígere in palum, e nao crucifigere. As primeiras traducoes
latinas do Novo Testamento, feitas no século II, sempre traduz¡ram stau
rós por crux, e nunca por palus (estaca).

Passemos agora a historia dos primeiros séculos do Cristianismo.

3. NOS PRIMEIROS SÉCULOS

3.1. Em Herculano

A mais antiga representacao da cruz .crista com seus quatro bracos


data do século I. Com efeito, em Herculano, cidade soterrada pelas lavas
do Vesúvio em 79 d.C, foi encontrada, no ano de 1939, a marca de uma
cruz sobre uma parede de estuque, na parte reservada aos eteravos de uma
casa nobre. Em volta da cruz, aínda estavam os pregos que sustentavam a
porta ou a cortina que escondía o si'mbolo cr¡sta"o. Após longo e cuidadoso
A CRUZ. SlKlBOLQ PAGAO?

exame, o professor A. Maiuri, diretordasescavacoes.garantiu quesetratava


de urna cruz crista*; apesar das objecSes levantadas contra esta conclusao,
fica sendo a mais aceita. Isto quer dizer que cerca de quarenta anos após a
Ascensao do Senhor havia no sul da Italia urna igreja doméstica em Her-
culano. Alias, em 61, Sao Paulo desembarcou na cidade de Puzzuoli,onde
encontrou alguns cristaos (cf. At 28,14), com os quais ficou urna semana;
dai' ser verossfmil que ñas vizinhancas, ou seja, em Pompéia e Herculano
(cidades destruidas pelo Vesúvio em 24/08/79) houvesse também peque
ñas comunidades cristas.

3.2. Em Pompéia

Em Pompéia encontrou-se o "quadrado mágico", que parece ser ou-


tra reminiscencia dos crista"os, que cultuavam ás ocultas o Deus crucifica
do. Com efeito, o quadrado mágico comp6e-se de cinco letras, dispostas
em cinco linhas:
S A T O R

A R E P O

TENET

O P ERA

ROTAS
*

As palavras podem ser lidas da esquerda para a direita ou da direita


para a esquerda, de cima para baixoou.de baixo para cima; daf resulta um
criptograma, ou urna escrita que revela e.vela. Observe-se que a palavra
TENET ocorre no centro dafigura tanto emsuadimensao vertical.quanto
na horizontal; forma urna cruz e parece referir-se ao fato de que Deus
tenet (tem firmemente em suas maos) a criacao. — As cinco palavras po
dem ser assim traduzidas: . Ji-ii'
. •'"■■ ■ ■ ■■■".'!• ' '■' \ i ¡oc: éa
0SEMEAD.0R ,. , . ,, ... . O39ir
.
AREPd ;; .. - . ;. 7 ..^uk6;.
segura ".;..: 777-
CUIDADOSAMENTE 7, 7, [Uíl\
as rodas r.( ¡ .,,;;,i^ei!
As rodas significariam, no caso, o carro ou o arado (muitas vezés rríir-
; nido de itpdas na antiguidade). L •,:.-■■.
y V - (■■-'..'

i Os pesquisadores julgaram que tal quadrado podia ainda conter ulte-


¡ rior segredo; daf a procura de algum outro sentido oculto. A descoberta
í foi efetuada por dois eruditos, umalemao (Félix Grosser) e outro éscan-
: dinavo (Siqurd Agrell), que estudaram o assunto independentemente um
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 382/1994

do outro. Ambos em 1925 publicaram o resultado de suas pesquisas: as


25 letras formam dois PATER NOSTER, que se cruzam sobre a letra N.
Os dois A e O que sobram evocam o símbolo de Cristo, que no Apocalip-
se diz: "Eu sou o Alfa e o Omega" (1,8). Donde se segué esta figura:

P
A
ATO
E
R
PATERNÓSTER
O
OSA
T
E
R

Os estudiosos aceitaram, em grande escala, a conclusao dos dois pes


quisa dores. Alias, no plano das estatfst¡cas há urna probabilidade infinite
simal de que as letras do palíndromo (conjunto de letras que podem ser li-
das em ambos os sentidos) formem por mero acaso a figura que Grosser e
Agrell descobríram. Verificou-se assim a antiguidade da comunidade crista
de Pompéia, que expressava a sua fé através de sinais polivalentes, tendo
por base a Cruz de Cristo. Ainda em Pompéia, no ano de 1936 (novem-
bro), os arqueólogos acharam as letras ANO, cujo sentido foi ilustrado
pelo do quadrado mágico: Neo centro onde se encontrara os bracos da
Cruz, e as letras A e O s3o as que anunciam ser Jesús o comeco e o fim. Es-
tava assim confirmada a interpretacao do quadrado mágico. > . ' ■. ■

Restava (e resta) ainda saber mais precisamente o que quer dizer


AREPO: há quem julgue ser nome próprio, mas há também quem o tradu-
za por ARADO (valendo-se de urna antiga traducao do criptograma para o
grego e também de um vocábulo célticoxonhecido no mundo latino). A
traducao de AREPO por arado correspondería bem ao fato de que o arado
era, nos primeiros séculos cristSos, um símbolo da cruz (símbolo que reve-
lava e também velava aos olhos dos pagSos, para os quais a cruz era ininte-
ligfvel ou mesmo abominável). Conseqüentemente, a traducao do cripto
grama seria:

O SEMEADOR (= CRISTO)
NO ARADO {= SOBRE A CRUZ)
MANTÉM(=TENET) ■,.... ,
COMSEU SACRIFICIO (= OPERA)
AS RODAS (DA HISTORIA DOS HOMENS E DO MUNDO)

104
A CRUZ. SlKlBOLO PAGAO?

Existem também aqueles que ¡nterpretam AREPO como a ligacao das


iniciáis da fórmula defé: AETERNUS REDEMPTOR ET PASTOR OMNI-
POTENS.

I ndependentemente das traducoes, o quadrado mágico de Pompéia


significa que na segunda metade do século I (antes de 79 ou mesmo na dé
cada de 60) já havia no su I da Italia

1) urna comunidade crista que cultuava a Cruz de quatro bracos e


usava as letras Alfa e Omega, presentes no Apocalipse;

2) essa comunidade conhecia urna traducao latina da Oracao ensina-


da por Jesús.

3.3. No Palatino

Em Í856 descobriu-se sobre a colina do Palatino em Roma um grafi


to singular: apresenta um devoto ajoelhado diante de um burro pendente
ná"o de um poste, mas com as patas dianteiras estendidas e pregadas sobre
urna cruz claramente tracada. O desenho é ilustrado pelos dizeres: "Alexá
menos adora Deus" (em grego). é urna sátira á devocao que os cristaos tri-
butavam á Cruz de Cristo; a Redencao pela Cruz seria loucura e escándalo,
- como diz S3o Paulo em 1Cor 1,23.

3.4. Na Literatura Crista

Safo Justino (t 165) observa que Moisés a orar com os bracos abertos
(cf. Ex 17,10-12) era figura de Jesús intercedendo pela humanidade, pre
gado á Cruz (Diálogo com Trifao 90,4).

O mesmo escritor menciona a imagem da Cruz presente em varios ele


mentos naturais.e em artefatos que cercam o homem:.. ... . v,

.... <;:"Efa>:(a'cruz) é o maior símbolo do poder de Cristo, assim como apa


rece também ñas coisas que caem sob o nosso olhar. Observai/defáió/se
há em tudo o que existe no universo algo que se faga ou se possa fnanter
sem esta figura. NSo se pode su/car o mar, se aque/e troféu que se chama
vela nao permanecer íntegro sobre a nave; nao se araaterra^sémfaquele
símbolo; os que cavam a térra e os artesaos nao podem realizar seu traba-
i Iho se naoAJsam instrumentos que refletem essa figura. Em hada'á'figura
humana drfere dos animáis irracionais a nSo ser porque é ereta e pode es-
tender os bracos. . . Mesmo as insignias com as quais marcháis em público
e que constituís como sinal de vosso imperio e de vosso poder, se bem que
fagáis isso sem estar conscientes. . ." (citado por V. Messorí, Padeceu sob
Póncio Pilatos?, p. 342).)

105
ojo "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 382/1994

,. ■. Tertuliano (t 220 aproximadamente) afirma que os cristSos, quando


rezam com os bracos erguidos á altura dos ombros e com as maos abertas,
realizam o gesto de Jesús sobre o patíbulo e acrescenta: "Até mesmo os
pássaros dos céus, acordando de manhS mu'rto cedo, se dirigem na direcSo
,do céu e, abrindo as asas em forma de cruz, dizem algo que parece urna ora-
cao" (De Oratione, 29,4).

Outros testemunhos poderiam ser citados. Passamos, porém, a urna


observado final.

r 4. A HISTORIA DA CRUZ ENTRE AS TESTEMUNHAS

Charles Taze Russell (1852-1916) é o fundador das Testemunhas de


Jeová. Comerciante, filiado á denominado adventista, refez o cálculo da
data da segunda vinda de Cristo, sem, porém, acertar. Foi condenado por
urh tribunal norte-americano, porque afirmara conhecer grego e hebraico,
mas foi comprovado que ignorava estas I fnguas. Russell afirmou varias pro-
posicoes que os dirigentes posteriores das Testemunhas nao ousam repetir;
por isto, os escritos de Russell nao sao reimpressos pelos mentores supre
mos tía CongregacSo. Ora, entre os traeos iniciáis da historia das Testemu
nhas está algo que os crentes nao conhecern porque foi censurado; com
efeito, de 1891 a 1931 o símbolo da Sociedade "Torre de Vigia"era pre
cisamente urna cruz latina, atravessada por urna coroa regia, sendo todo o
conjunto cercado por foi has de louro! Os Estudiosos da Biblia (título ori
ginario das Testemunhas) levavam na lapela essa cruz, que estava também
sobre á capa de cada número da1 revista Watch Tower, revista oficial da
Cóngregacao. Na verdadeí foi somente em..1937 que J. F. Rutherford, pre
sidente da 'Torre de Vigía", descobriu que a cruz era "um símbolo babi
lónico e satánicamente pagSq".

Vé-se assim quao arbitraria e inconsistente é a aversao das Testemu-


nhasrao.símbolo da Cruz.^Este>continua sendo o mais auténtico sinal dos
cristSos, exprimindo a transíiguracao da dor e da morte desde que Cristo
a tornou a nova árvoreda vida! . :

•^wA propósito, ver ■■ - • . .«:>.

>^,MESSORI,VITTORIO, Padeceu sob Póncio Pilatos? - Ed. Santuá-


río¿ Aparecida (Caixa Postal 04, Aparecida T2570-970).

106
Os pingos nos ii:

AÍNDA O CASO GALILEU

Em síntBse: Apresentamos um artigo do Prof. Dr. Joaquín) Blessmann


sobre o caso Gal¡leu. Revé a historia; recoloca os dois processos contra
Galileu em seu contexto próprio; refere pormenores importantes, que sao
geralmente desconhecidos, e assim, numa visSo imparcial, possibilita ao leí-
tor melhor entendimento do famoso episodio. Na verdade, para compreen-
der fatos pretéritos, nao há melhor alvitre do que a reconstituido dos
parámetros ou do senso comum que norteavam as concepcoes dos homens
da respectiva época.

Agradecemos cordialmente ao Prof. Joaquim Blessmann a sua valiosa


co/aboracao. O autor é Engenheiro Civil; Professor Adjunto Aposentado
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul;Mestre e Doutor em Cien
cias pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA);Membro da Acade
mia Nacional de Engenharia do Brasil; Membro Correspondente da congé
nere Academia da Argentina. — Endereco: R. Gabriel Mascare/o, 85 -
90840-740-PortoAlegre (RS) - Fone:(051)249-2738.

* * *

1.0 MITO

Tres sáculos e meio de urna publicidade distorcida e laicista f izeram


nascer o mito de que Galileu foi um "mártir da ciencia e da liberdade de
pensamento e a Igreja a costumeira inimiga da liberdade e do progresso hu
mano", comenta Cintra (1). Também transcrevemos o seguinte trecho,
retirado de obra de Massara (2), página 28: "Nao se tratou de um confuto
entre ciencia e religiao, entre razao e fé, como urna certa literatura laica,
claramente interessada, tem feito crer; mas de urna crise interna do orga
nismo eclesiástico".

Alias, n3o é a única distorcSo histórica. Há mu ¡tas. Monumental, é


por exemplo, a que apresenta a Idade Media como urna época de obscuran
tismo e estagnacSo, o que ná*o corresponde á realidade. Parece haver urna
tendencia de cada época denegrir a que veio ¡mediatamente antes. Pense-

107
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 382/1994

se, por exemplo, na Renascenca. Ou, atualmente, a atitude de mu ¡tos cató


licos, com suas críticas por vezes contundentes á Igreja de antes do Conci
lio Vaticano II. Parece que se baseiam em urna afirmacao de Cristo, conve
nientemente deturpada: "Eu estarei convosco até a consumacao dos sé-
culos, porém só a partir do Concilio Vaticano II..."

A seguir, reproduziremos afirmacSes erróneas sobre o caso Galileu,


que conseguimos coletar. Algumas délas serSo refutadas logo após serem
enunciadas. As demais, no decorrer deste trabalho.

— "Galileu foi condenado na Idade Media." Esta vai até meados do


sáculo XV. Ora, Galileu nasceu em 1564. Ou seja, cerca de um sé-
culo após o término da Idade Media.

— "Galileu foi condenado por dizer que a Térra era redonda." Ora, já
na antiga Grecia isto era admitido por mu ¡tos. Por exemplo, Pitá-
goras (sáculo VI a.C.) e seus discípulos falavam da ésféricidade da
Térra, da Lúa e do Sol, bem como da rotacao da Térra. E na Euro
pa a ésféricidade da Térra já tinha defensores quatro sáculos antes
de Galileu. Urna prova concreta já tinha sido dada pela expedicao
de círcunavegacSo da Térra, comandada por Fernao de Magalhaes,
em1521.

— "Galileu teve Copérnico como discípulo." Ora, Copérnico faleceu


em 1543. Galileu nasceu 21 anos depois, em 1564.

— "Galileu foi o autor da teoría heliocéntrica." Ora, o sistema helio


céntrico deve-se a Aristarco de Samos, no sáculo III a.C, cerca de
1.900 anos antes de Galileu publicar e defender suas concepcoes
astronómicas.

•:. — "Galileu foi-condenado porque,defendía o sistema.heliocéntrico."


■ -Nao,.ele foi condenado pelo modo como o defendía.: >

Outras afirmacSes erróneas, que .tentaremos esclarecer neste trabalho,


sao as seguintes: Galileu foi torturado, cegado, aprisionado em urna mas-
morra, queimado vivo.condenado por heresia.

Se quisermos analisar corretamente, e com a máxima isencao de áni


mo possível, fatos ocorridos em outra época, é necessário que nos ponha-
mos a pensar com a mentalidade, os costumes e, importante, com os co-
nhecimentos e o "senso comum" daquela época. Por isto, o capítulo "O
Ambiente".

108
AÍNDA O CASO GALILEU 13.

2. O AMBIENTE

2.1. A Filosofía

Eram, principalmente, as de: a) Aristóteles e b) Sao Tomás de Aquino.

a) Aristóteles

Partia da observacao dos tatos naturais, e a partir daí raciocina e che-


ga a um conjunto de principios gerais que permitam a compreensao do
mundo material. Adota a astronomía geocéntrica, com a Térra", esférica e
imóvel, no centro do universo. No mundo celeste, separado da Térra pela
esfera lunar, reina a perfeicao. Na Térra, a imperfeicao, com a geracao, al-
teracao e corrupcao dos corpos, formados por quatro elementos básicos:
térra, agua, ar e fogo. . ,.

Antes de Galileu, na Idade Media, muitos filósofos e teólogos admi-


tiam as idéias físico-astronómicas de Aristóteles, porém sem vinculá-las
diretamente á Filosofía. Infelizmente, os aristotélicos da Renascenca con-
fundiram Filosofia e ciencia. ''•'■' ' '

b) S§o Tomás de Aquino ■ '

Na Suma Teológica, S3o Tomás de Aquino deixa bem claro que a rea-
lidade física, o fenómeno observado, é urna coisa; e outrá sao as teorías
científicas que tentam explicá-lo: "Urna teoría deve salvar as aparéncias
sensíveis" (istó é, deve estar de acordó com o que aparece aos sentidos';
com a realidade física). "Isto, entretanto, nao constituí urna prová sufi
ciente e decisiva, porque talvez pudéssemos salvar as aparéncias sehsfveis
com urna teoria diferente e mais simples"!' ' • ■ •• ":'ú °lVO' n"J
Em outras palavras, urna teoría científica nao pretende corresponder
á realidade, mas apenas explicá-la. Exemplifiqüemos: «■-'■>-!'-'--t-)V fi»>'^--
— A teoría do continuo, na engenharia. Admiterse,<na"engenhariai
que a materia é continua, sem fal has, fissuras, vazios, poros; espa-
eos entre cristais ou moléculas, é mais do que evidente que is
to nao corresponde á realidade. Masas teorías baseadas'íieste pos
tulado explicam satisfatoriamente o comportamento dos materiais
e facilitam enormemente os cálculos, quer se'trate de \imá ponte,
torre, barragem ou outra estrutura qualquer, quer se trate.do^movi-
mento e de forcas existentes nos líquidos e gases;, tais como:5us-
tentacao de um aviSo, bolas com "efeito"o(futebol-, ténis.tping-
pong) e mesmo no movimento do sangue ñas veias e arterias, etc.).
14 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 382/1994

— Isaac Newton: "Tudo se passa como se a materia atraísse a materia


na razao direta das massas e na razáo inversa dos quadrados das
distancias" (gravitacao universal). Note:se a modestia do verdadei-
ro cientista. Nao afirma, categórico: "a materia atrai a materia...",
mas, modestamente, sugere que "tudo se passa como se..."

— Oven Gingerich (Ref. 3, pág. 91), astrónomo de Harvard: "Os áto


mos, como os imaginamos, nao podem ser comprovados de um
modo absoluto. O máximo que podemos dizer, é que o universo
age como se fosse feito de átomos". Novamente, um modesto "co
mo se", indicando que se pretende explicara realidade, sem a pre-
tensao de afirmar que é assim e ná*o pode ser diferente.

— O mesmo vale para o mundo psfquico:uma teoría pode explicar o


comportamento humano, mas nada assegura que ela dé a razSo real
deste comportamento. E aqui pensó ñas teorías de Freud e de ou-
tros, confutantes entre elas; cada autor rejeita explicacoes diferen
tes da sua, a qual, no seu entender, exprime a própria realidade.

2.2. A Astronomía

a — Sistema geocéntrico

é o sistema mais antigo, cuja origem é incerta. Na antiguidade apre-


sentaram-no, entre outros, Hiparco (190 a 120 a.C). No sáculo II de nossa
era, o grego Claudio Ptoiomeu fez melhoramentos na hipótese de Hiparco,
mostrando, por suas observacoes, que as órbitas dos planetas nao podem
ser circulares, como queriam Hiparco e Aristóteles, entre outros (o círculo
era símbolo da perfeicao). A Térra, imóvel, ocupa o centro do universo.
Em torno déla giram, na seguinte ordem: Lúa, Mercurio, Venus, Sol, Mar
te, Júpiter e Saturno.

Esta concepcSo perdurou ná"o só na Antiguidade, mas também por


toda a Idade Media; em parte pela adesSo de Aristóteles ao geocentrismo,
em parte pelas objec5es postas ao heliocentrismo, como veremos mais
adiante.

b - Sistema heliocéntrico

Aristarco de Samos (sáculo III a.C.) foi o primeiro a adotar e ensinar


o sistema heliocéntrico. De acordó com Aristarco, o Sol está imóvel no
centro do universo, e á sua volta os planetas descrevem órbitas circulares;
as estrelas fixas encontram-se em urna esfera cristalina. Avalidu que as dis
tancias entre as estrelas eram extraordinariamente superiores á distancia
entre Sol e Térra.
aínda o caso galileu 15

N3o havia provas convincentes de que a realidade estivesse de acordó


com esta teoría, mas ela justificava plenamente a regularidade do movi-
mento dos planetas. Por outro lado, havia argumentos de peso contra ela,
baseados nos conhecimentos e no "bom senso" da época, proveniente da
observacao de fenómenos naturais. O argumento de maior importancia
(creio que muitas pessoas, mesmo nos tempos atuais, nao sabem como o
refutar) é o seguinte:

Se a Térra gira em torno do Sol, é necessário que também gire em


torno de si, para produzir o dia e a noite. Se ela gira em torno de si, deve
haver um movimento relativo terra-ar e, portanto, para quem está parado
na superficie da Térra, um vento com a mesma velocidade. Se estou an
dando a cávalo, pensavam, quanto mais rápido andar o cávalo, mais veloz
o vento que sentirei, devido ao movimento relativo cavalo-ar. Se estou pa
rado, nao sobre o cávalo, mas sim na superficie da Térra, e ela está "cor-
rendo" em sua rotacSo, deverei sentir um vento correspondente. E qual a
velocidade deste vento? Os gregos já tinham feito o cálculo. Mais precisa
mente, Eratóstenes, medindo a diferenca de latitude entre Siena (atual-
mente, Assuan) e Alexandria, e medindo a distancia entre estas duascida-
des, determinou a circunferencia da Térra, no Equador. Foi concluido
que, se a Térra girasse sobre si mesma, a velocidade no Equador seria de
cerca de 400 m/s (1.440 km/h). E esta seria a velocidade do vento causado
pela rotacao da Térra, velocidade essa suficiente para destruir florestas,
veiculos, construcoes, etc. (Na realidade, a velocidade é ainda maior:
1.670 km/h.) Este vento n§o existe. Logo: a Térra nao pode ter o movi
mento de rotacao requerido pelo sistema heliocéntrico para formar dias e
noites.

Outro argumento contra o sistema heliocéntrico exporemos a seguir:

Se urna pedra for atirada verticalmente para cima, enquanto ela sobe
e desee, a Térra se desloca e a pedra chocar-se-á com o terreno em um pon
to afastado do ponto de lancamento. Se, após seu lancamento, a pedra le
var dez segundos para chocar-se com o terreno, no Equador ela estaría a
quatro quilómetros a oeste de seu ponto de lancamento! Repito o comen
tario feito ácima: hoje em dia, quantos saberao explicar por que isto nao
acontece?

Por estas e outras dificuldades, a teoría heliocéntrica foi abandonada,


voltando a ser apresentada muitos sáculos depois por Nicolaus Copérnico,
; nascido em Toruñ, Polonia, em 14/02/1493, e falecido em Frauenburg,
Polonia, em 24/05/1543.

\ Copérnico estudou astronomía e matemática na Universidade de Cra-


[ cóvia e, por tres anos, Direito Canónico em Bolonha, Italia. Também fre-

t 111
j6 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 382/1994

qüentou as Universidades de Roma, Pádua e Ferrara. Em 1501 aceitou o


posto de cdnego da Catedral de Frauenburg, cidade onde fez suas obser-
vacoes astronómicas.

Reintroduziu o sistema heliocéntrico de Aristarco, com modifica-


c5es, em dois trabalhos:

— em 1530: "Comentarios sobre as Hipóteses da Constituicao do Mo-


vimento Celeste";

- em 1543: "Sobre a Revolucao dos Corpos Celestes".

Este último trabalho foi dedicado ao Papa Paulo III, que aceitou a
dedicatoria, sem problemas. E, mais aínda, o sistema proposto por Copér-
nico foi usado pela Igreja para reformar o calendario litúrgico, permitindo
prever a data da Páscoa e, a partir déla, as demais datas do ano litúrgico.
O sistema geocéntrico de Ptolomeu havia levado a erros cumulativos im
portantes. Os cálculos para definir as datas litúrgicas foram enormemente
simplificados com o sistema heliocéntrico. Estes cálculos foram feitos pelo
jesuíta e matemático Clavius.

Segundo Copérnico, o Sol ocupa o centro do sistema planetario. Em


torno dele os planetas giram em órbitas circulares, na seguinte ordem: Mer
curio, Venus, Térra, Marte, Júpiter e Saturno.

c — Sistema misto

Proposto por Tucho Brahe (1571-1630), astrónomo'dinamarqués.


Tornou-se conhecido e admirado pelas medidas precisas querealizou, com
instrumentos adequados, construidos por ele mesmo com muita perfeicao.

O seu sistema é considerado por alguns autores como um sistema


"conciliatorio". No centro do universo, a Térra, imóvel. A sua volta giram
a Lúa e o Sol. Os demais planetas giram em torno do Sol, acompanhando-
o em seu movimento em torno da Térra. A distancia, a esfera das estrelas.

2.3. Os Eclesiásticos e a Astronomía

Embora a maioria dos eclesiásticos estivesse de acordó com a teoría


geocéntrica, havia Cardeais e outros eclesiásticos adeptos do sistema de
Copérnico ou defensores de Galileu. Citamos uns poucos:

— O beneditino Castelli (filósofo e teólogo) diz, referindo-se ao sis


tema geocéntrico, defendido por Aristóteles: "Aristóteles errou
nessa, como em mu ¡tas outras coisas" (Ref. 4, pág. 24).

112
aínda o caso galileu

— O Cardeal Maffeo Barberini op6s-se a que Galileu fosse declarado


herético, bem como o Cardeal Caetani (Ref. 4, pág. 24).

— O mesmo Barberini, como Papa Urbano VIII, declarou ao Cardeal


Zolfer que a Igreja nao tinha condenado, nem estava por condenar,
a teoria heliocéntrica como herética, mas apenas como temeraria
(Ref. 4, pág. 24).

— Riccardi, Mestre do S. Palacio, está convencido de que o helio-


centrismo nao é materia de fé e de que, de forma alguma, convém
comprometer nele as Escrituras (Ref. 4, pág. 24).

— Em 1632, na iminéncia do segundo processo, Castelli professa sua


fé copernicana a V. Maculano, Mestre do S. Palacio e Comissário
do S. Oficio (Ref. 4, pág. 24).

— Relembramos que o sistema heliocéntrico foi usado para a reforma


do calendario litúrgico.

2.4. A Interpretacao da Biblia

Desde os Santos Padres dos primeiros sáculos do Cristianismo, ja


eram conhecidos outros sentidos, além do estritamente literal, ao ser in
terpretada a Biblia. Henri de Lubac ("Exégése médiévale, Aubier, Paris,
1962, conforme Ref. 1, pág. 18) destaca que na exegese medieval se pro
cedía á leitura da Sagrada Escritura segundo os quatro sentidos: literal,
histórico, alegórico e moral.

Entretanto, no tempo de Galileu a interpretacao da Biblia era feita


de modo mais n'gido e, em geral, atendo-se exageradamente ao sentido li
teral do texto. Como causa principal desse modo de proceder, está o pro
testantismo, que, desde o manifestó de Lutero, em 1517, vinha promul
gando a livre interpretado da Biblia. Para evitar os males que estavam sen
do causados á fé crista por este modo de proceder, a Igreja passou a se fi-
xar mais no sentido literal das palavras, enquanto nao houvesse motivos
fortes que desaconselhassem tal proceder.

Lembramos aqui o principio da consciéncia possível, da sociología:


"Todo pensamento é socialmente condicionado e limitado. Devido aos
condicionamientos que limitam a vísao da realidade, há um limite máximo
que o conhecimento ou a compreensao de um individuo, um grupo, urna
classe social ou toda urna época pode atingir. . . Outros fatores condicio
nantes que integram o conceito de consciéncia possivel sao a religiao, o
pensamento científico, as ideologias, as solidariedades étnicas e nacionais,
o gosto artistico, etc., que limitam o campo da consciéncia para toda urna
comunidade humana e até mesmo para urna época. Cada época possui pa-

11?
18 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 382/1994

radigmas que condicionam sua cosmovisSo cientCfica e sua praxis concre


ta" (Ref. 5, pág. 19-20).

Naquela época, com o exiguo desenvolvimento das ciencias naturais,


as Escrituras eram usadas também para explicacoes cienti'f icas. Sem o co-
nhecimento dos géneros literarios dos antigos orientáis, do sentido correto
de certas palavras, os teólogos interpretavam a Biblia literalmente, o que,
alias, é um principio da hermenéutica: "Nao é lícito abandonar o sentido
literal de um texto, sem que haja evidentes indicios de que é metafórico"
(Ref. 6, pág. 268). Por exemplo, no caso de existirem argumentos de peso
a favor de urna hipótese científica.

Além do qué, a ¡nterpretacao literal de certos trechos da Biblia (que


apontavam para o geocentrismo) estava de acordó com o bom senso geral
da época, que via o movimento do Sol e da Lúa, bem como com os filóso
fos aristotélicos e com a quase totalidade dos astrónomos. Antes de Gali-
leu. Aristarco e Copérnico já haviam lancado a hipótese do heliocentrismo,
mas sem qualquer argumento convincente. E sem que alguém tivesse re
futado o forte argumento contrario á rotacao da Térra: "e o vento, senho-
res, o vento de 1.440 km/h oriundo da rotacSo da Térra?".

Citamos aqui D. Estévao Bettencourt (Ref. 6, pág. 270): "Para esta-


belecer a atual teoría planetaria, milhares de sabios e estudiosos contribuí-
ram; assim as hipóteses de Copernicus, as medidas científicas de Tycho, as
observacSes de Galileu, as leis formuladas por Kepler. . . Ainda durante
cerca de cem anos depois de Galileu os argumentos antigos em favor do
geocentrismo continuaram a ter peso mais forte na opiniao publica do que
as razSes aduzidas por Copérnico e Galileu em favor do heliocentrismo":

Continuamos citando D. Estévao Bettencourt (Ref. 6, pág. 271 ou


Ref. 7, pág. 428):

"A fim de ilustrar quSo arduo devia ser a um crístao imbuido da


mentalidade dos séculos XVI/XVII admitir o heliocentrismo, seja aqui
observada a atitude dos autores protestantes diante do novo sistema:

Lutero (t1546) julgava que as idéias de Copérnico eram idéias de lou-


co, que tornavam confusa a astronomía.

Melancton, companheiro de Lutero, declarava que tal sistema era fan


tasmagoría e significava a rebordosa das ciencias.

Kepler (1571-1530), astrónomo protestante contemporáneo de Gali


leu, teve que deixar sua térra, o Wurttemberg, por causa de suas idéias co-
pernicanas.

114
aínda o caso galileu

Em 1659, o Superintendente Geral de Wittemberg, Calovius, pnocla-


mava altamente que a razao se deve calar quando a Escritura falou; verifi
ca va com prazer que os teólogos protestantes, até o último, rejeitavam a
teoría de que a Térra se move.

Em 1662, a Faculdade de Teología protestante da Universidade de


Estrasburgo afirmou estar o sistema de Copérnico em contradicho com a
S. Escritura.

Em 1679, a Faculdade de Teología protestante de Upsala (Suécia)


condenou Nils Celsius por ter defendido o sistema de Copérnicus,

Ainda no século XVIII, a oposicao luterana contra o sistema deCo-


pémicus era forte: em 1774 o pastor Kohlreiff, de Ratzeburg, pregava
enérgicamente que "a teoría do heliocentrismo era abominável invencao
do diabo".

2.5. A Inquisicao

Só a leitura desta palavra ja' costuma causar mal-estar, por ser geral-
mente associada a terror, tortura, fogueira, morte. Nem tanto assim, em-
bora nao se possa dizer que a Inquisicao tratava de amenidades.

• Houve excessos, e graves, principalmente nos pai'ses onde o poder ci


vil passou a comandar. Nem tudo é justificável, mesmo sem a intromissao
do poder civil, que transformava a Inquisicao em um órgao de interesse
político, principalmente na Espanha e Portugal, a partir do século XVI.

Entretanto, procuremos entender os fatos e pensar com a mentalida-


de daquela época, de acordó com o principio da consciéncia possfvel, que
comentamos anteriormente. Na época feudal, profano e sagrado eram muí-
to unidos; por assim dizer, as duas faces de urna mesma moeda. Desvíos
doutrinários afetavam a vida social. "De certa forma", diz Cintra (1),"a
Inquisicao foi a reacáo de defesa de urna sociedade para a qual a preser
vado da fé era ta*o importante como a saúde ou os direitos humanos para
a sociedade atual... Embora tenha havido episodios deploráveis, a Inquisi-
cá*o representou um claro progresso com relacao aos tribunais e julgamen-
tos da época, como reconhecem muitos juristas atuais:era o tribunal mais
justo e brando do seu tempo" (o grifo é nosso). "Ela introduziu a justica
regular, evitando que a justica leiga ou mesmo a revolta popular infligís-
sem os p¡oreS|Cast¡gos aos suspeitos de heresia. Muitas vezes foi a autori-
dade eclesiástica quem interveio para subtrair á furia da multidao os que
esta considerava heréticos, embora nem sempre conseguisse evitar que con
denados á prisSo fossem retirados e conduzidos á fogueira pela populacao
furiosa e amotinada, que se queixava da 'fraqueza e excessiva brandura' do
bispo. Todos esses aspectos ajudam-nos a nSo julgar com tanta severidade

115
20 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 382/1994

instituicoes de outras épocas e mentalidades, ao mesmo tempo que nos le-


vam a considerar que o nosso tempo também nao está isento de coisas pio-
res: guerras, campos de concentracao, gulags, racismos, colonialismos, ex-
ploracóes, etc."

Faremos outras citacoes, que confirmam as palavras de Cintra:

— Revista Crítica Histórica {Ref. 8, pág. 68): "Com o passar dos anos
e com a multiplicacao das pesquisas de arquivo, foram aparecendo cada
vez mais elogios á racionalidade dos procedimentos e á brandura dos tribu-
nais dá Inquisicao, que se revela nao mais como urna entidade demoníaca,
mas como urna instituicao dotada de regras racionáis e capaz de moderar
o uso da tortura e desencorajar a denuncia e a delacáo".

— Luigi Firpo, historiador laicista, com acesso aos tribunais do Santo


Oficio (Ref. 8, pág. 68): "Compareceram diante daquele tribunal mais de-
linqüentes comuns, pessoas culpadas de atos que o direito moderno consi
dera crimes, do que acusados de crimes de opiniao e paladinos da líber-
dade de pensamento. As prisoes de hoje sao verdadeiros infernos se com
paradas com as tüo difamadas celas da Inquisicao. Naturalmente, a Inquisi
cao nao era um agradável clube para conversas amenas, mas fornecia garan
tías jurídicas inexistentes nos tribunais civis daquela época" (O grifo é
nosso).

— Gustav Henningsen, historiador dinamarqués (Ref. 8, pa'g. 70):


"Ao contrario de todas as instituicoes da época, a Inquisicao nao recorría
normalmente á tortura." ... "A Inquisicao introduziu um principio de
transparencia, de moderacao e de direito onde o poder político e o povo
queriam proceder á justica sumaria e exemplar." ... "A populacao católi
ca nao temia o Santo Oficio, como mu ¡tos historiadores quiseram demons
trar. Os inquisidores ná"o eram monstros nem torturadores, mas teólogos
e juristas respeitados e estimados".

"Ñas ¡grejas protestantes predominava um zelo intransigente, refor


eado pelo fundamentalismo bíblico que ascaracterizava." ... "Os protes
tantes criticavam a moderacao do Santo Oficio." Alias, diga-se de passa-
gem, a Igreja foi responsabilizada por grande parte dos crimes efogueiras
perpetuados pelos protestantes.

— D. Estévao Bettencourt (Ref. 9, pág. 498): "Mais de urna vez a


Santa Sé ¡nterveio para moderar o zelo e punir os excessos dos inquisido
res. Todo inquisidor que abusasse comprovadamente do seu ministerio era
deposto do cargo".
t

— Boulanger (Ref. 10, pa'g. 515): "Foi sobretudo na Espanha que a


Inquisicao deixou as mais profundas e tristes recordacSes. Instituida no

116
AÍNDA O CASO GALILEU 21

sáculo XIII, segundo as formas canónicas, foi modificada no fim do sé-


culo XV por Fernando V e Isabel. Sob seu influxo a Inquisicao converteu-
se, por assim dizer, numa ¡nstituicao do Estado, onde entrava mais polí
tica que religiao". Destacou-se, por sua excessiva severidade, o inquisidor
dominicano Tomás de Torquemada.

- Boulanger (Ref. 10, pág. 519): "O código penal da Idade Media era
em geral muito mais rigoroso que o da Inquisicao. As atrocidades (torturas
e morte pelo fogo) da legislacao criminal da época tinham por finaiidade
impedir a repeticao dos crimes, ¡ncutindo o terror com exemplos espanto
sos aqueles povos dif icéis de governar e de costumes violentos".

Lembremos, outrossim, que modos de agir de épocas passadas pare-


cem, no presente, atrocidades ou vingancas, mas foram, dentro do ambien
te entao vigente, melhoramentos para a sociedade,abrandamentos de cos
tumes bárbaros. Por exemplo, a conhecida "leí do taliao", que transportou
para o dominio da punicáo urna exigencia de justica, graduando a pena de
acordó com o daño produzido ("olho por olho, dente por dente"). Antes
déla, a vinganca dependía da ira do vingador: a um dente arrancado pode-
ría corresponder urna cabeca arrancada...

. 2.6. O índex

Era urna lista de publicacoes que continham doutrinas erróneas, con


trarias á fé e á moral cristas. Por essa raza o, as publicacoes contidas no
índex nao podiam ser lidas pelos católicos.

Houve exageras e excessos de rigor, mas o principio é perfeitamente


válido, e aplicado ainda hoje em dia em mu ¡tos países civilizados, nos
quais há censura de programas de TV, pecas de teatro, publicacSes, filmes,
etc., tendo em vista a salvaguarda de principios éticos e de respeitoa con-
viccoes religiosas. Ná"o sao, por exemplo, os filmes classificados por idade,
para evitar deformacoes no desenvolvimento psíquico e moral das pessoas?

Porventura deixaria urna mié veneno ao alcance de seus f ilhos? Pode-


ria entSo a Igreja, como míe que é dos católicos, deixar ao alcance de seus
filhos publicacoes que fossem nocivas á sua saúde espiritual?

Está a mataría da populacho brasileira, atualmente, satisfeita com a


deseducacao promovida pela televisa o? Nao está desprezando e agredindo
as mais caras tradicoes da familia brasileira, os bons costumes, a morali-
dade, os principios éticos? Nao está minando o caráter de nossa juventu-
de? Nao se pedem medidas que proibam programas que levam á dissolucao
dos valores moráis, éticos e religiosos?

117
22 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 382/1994

Acrescente-se ainda que pessoas de sólida formacSo espiritual tinham


permissao para ler publicares listadas no índex.

Atualmente nao temos o índex, mas temos publicacoes serias, como


Pergunte e Responderemos, que analisam e recomendam ou desaconse-
Iham a leitura de certas publicacoes, as quais nada de útil apresentam e
podem causar confusSo e desvíos de fé e Moral em pessoas com deficien
cias em sua formacao espiritual.

3. OS PROCESSOS

3.1. O primeiro Processo (1616)

Galileu soube de um aparelho inventado por um holandés que permi


tía ver objetos afastados com nitidez (telescopio). A partir dessas ¡nforma-
coes construiu um telescopio com melhores características e com ele fez
mu ¡tas descobertas, tais como:

— as manchas do Sol (que nao é, pois, o corpo perfeito descrito por


Aristóteles);

— as crátera? da Lúa (que, portante», na"o é a esfera lisa, perfeita, ad


mitida por Aristóteles);

— a Via Láctea éconstituida por um grande número de estrelas;

— Júpiter possui Lúas (Galileu descobriu quatro), o que demonstrava


que a Térra nao era o centro de tudo;

— Venus tem fases como a Lúa; pelo que, muito provavelmente, de-
veria girar em torno do Sol.

Estas descobertas foram publicadas em 1610 e trouxeram urna gran


de popularidade a Galileu. Entre os que o cumprimentaram e admiravam
seu trabalho, estavam o astrónomo Kepler e o matemático jesuíta Clavius
(já citado em2.2.b).

Por outro lado, os aristotélicos reagiram violentamente, inclusive du-


vidando da competencia de Galileu como pesquisador: manchas solares e
relevo da Lúa dever-se-iam a sujeira ñas lentes do telescopio; outras desco
bertas na*o passariam de ilusSes de ótica.

Em 1611 Galileu esteve em Roma e foi muito homenageado por den


tistas e nobres. Foi recebido como membro da Academia de* Lincei. Os je
suítas (muitos dos quais eram professores e astrónomos) dedicaram-lhe
urna festa académica no Colegio Romano, com a presenca de condes, du-
AÍNDA O CASO GALI LEU 23

ques, muitos prelados e alguns Cardeais. O próprio Papa Paulo V conce-


deu-lhe audiencia.

Os problemas comecaram com a publ ¡cacao do livro "Contro il moto


della térra" (Contra o movimento da Térra), do teólogo Ludovico delle
Colombe, neste mesmo ano (1611). Ludovico elogiava Galileu, mas citava
trechos da Bfolia e argumentos dos Santos Padres para demonstrar a tese
geocéntrica. Eis algumas das citacSes: Salmo 103,5 - "Fundaste a térra
em bases sólidas, que sSo eternamente inabaláveis"; Eclesiastes 1, 4-5 —
"Urna geracao passa, outra vem; mas a Térra sempre subsiste. O sol se le
vanta, o sol se p5e; apressa-se a voltar ao seu lugar".

O problema é que Galileu, em vez de responder com argumentos fí


sicos, usou argumentos bíblicos, citando outro trecho que parece defender
a tese contraria: Salmo 95,9 — "Diante d'Ele estremece a térra inteira".

E assim a disputa, que deveria ser de caráter científico, passou para a


exegese e a teología. Os debates se multiplicaram. O beneditino Castelli,
professor na Universidade de Pisa, defendía a opiniao de Galileu. Estees-
creveu diversas cartas, dirigidas, entre outros, ao próprio Castelli, a Clavius
e ao Cardeal Belarmino, defendendo-se. Da carta a Castelli transcrevemos
um trecho, pela posipao correta assumida por Galileu, no que diz respeito
á interpretado da Biblia (Ref. 2, pág. 111):

"A Escritura nao se engaña, mas sim os seus intérpretes e comenta


dores, de varias maneiras, entre as quais urna gravíssima e freqüentíssima,
quando querem fixar-se sempre no puro sentido literal, pois assim apare-
cerSo nao só diversas contradicoes, mas também graves erros e heresias; se
ria necessário dar a Deus pés e maos, e olhos, e também coisas corpóreas
e humanas, como cólera, arrependimento, odio, esquecimento do passado
e ignorancia do futuro. Donde, assim como na Escritura se encontram
muitas proposicoes falsas quanto ao sentido nu das palavras, mas assim
postas para se acomodarem ao numeroso vulgo, assim... é necessário que
os sabios comentadores apresentem o verdadeiro sentido."

O dominicano Lorini enviou á Sagrada Congregacao do índex (Inqui-


sicao Romana) urna copia dessa carta, que tinha sido difundida por meio
de copias. A carta foi examinada, qualificada favoravelmente e o caso en
cerrado.

Entretanto, Galileu insistía em debater no terreno exegético-escr¡tu


rístico, abandonando as razSes científicas do sistema astronómico que de
fendía. Quería forear urna decisao urgente da Sagrada Congregacao para
que certas passagens da Escritura fossem interpretadas de modo diferente
do usual havia sáculos.

11O
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 382/1994

Foi advertido para que deixasse o lado teológico da questao e usasse


apenas argumentos das ciencias naturais para justificar o sistema heliocén
trico.

Foscarini (Carmelita, Provincial da Calabria) publica em 1615 obra


em que defende a opíniSo de Copérnico.

O Cardeal Belarmino recomenda prudencia a Galileu e a Foscarini:


que nao apresentassem o sistema heliocéntrico como verdade definitiva
(o que nao existe na ciencia; nesta, nada é definitivo) e que nao forcassem
reinterpretacoes da Sagrada Escritura, enquanto nao houvesse provas de-
monstrativas do novo sistema. Eis trechos de sua carta (Ref. 2 páq 163
a 165):

"Urna coisa é sustentar o movimento da Térra e a estabilidade do Sol


como h¡pótese, e isso está mu ito bem dito e nSo tem perigo algum.. ., eé
tudo quanto deveria bastar ao matemático."

E maisádiante, na mesma carta:

"Quando fosse verdaderamente demonstrado que o Sol está nocen-


tro do mundo e a Térra no terceiro céu, e que o Sol nao circunda a Térra,
mas sim a Térra circunda o Sol, entao seria necessário com muitas conside-
racoes explicar as Escrituras, e antes de afirmar ser falso o que dizem,
admitir, pelo contrario, que sao coisas que nao podemos entender. Por
mim, nao acreditare/' que se/a possível tal demonstracao, até que me se/a
apresentada." '

0 fato é que Galileu ná"o dispunha de alguma prova concreta ou con


vincente. A prova em que insistía, do fluxo e refluxo das mares, estava er
rada. As mares sa*o causadas pela forca gravitacional da Lúa e do Sol. Ade
máis, se fossem causadas pela rotacao da Térra, deveria haver só urna maré
por dia, e nao duas.

Acenou, como prova, para os ventos alisios, mas nao pode quantifi-
ficar o fenómeno. E a( estava certo, pois o desvio para o Oeste dos ventos
que sopram para o Equador em ambos os hemisferios é causado pela rota-
c3o da Térra.

Em conclusSo: nao tinha provas cientff icas. Como vimos, tentou pro
var suas idéias por meio da Biblia. Somente muito mais tarde, em 1851, é
que Foucault conseguiu provar o movimento de rotacao da Térra, com um
péndulo dependurado do teto do Panteón de París, que oscila em um pla
no f ixo enquanto a Térra gira.

120
AÍNDA O CASO GAL!LEU 25

Entrementes, o padre dominicano Caccini fazia varios ataquesaos ma


temáticos e aos adeptos de Galileu. O primeiro destes ataques aconteceu
por ocasiio de um sermao sobre o milagre de Josué (em que o Sol teria pa
rado); ver Js 10,7-15. Caccini foi chamadoa Roma para explicar os ataques
a Galileu. Caccini aproveita a ocasiao para, junto com outros, pressionar o
Santo Oficio, para que Gaiileu fosse condenado.

Galileu continua, com seu estilo polémico, a discutir. Diz a Enciclo


pedia Mirador Internacional (verbete Galileu) que Galileu era "de um esti
lo de grande vivacidade, freqüentemente irónico e mordaz, pojs era um
temperamento polémico". Eis exemplos (de outras fontes, citadas neste
trbalho) de seu estilo de argumentar, nada científico: recorría aos vocábu
los "idiotas, bufos, hipócritas, impostores, ignorantes, estúpidos, ani
máis".

Em 24/01/1616, em sessá*o do Santo Oficio, os consultores apresen-


tam seu parecer sobre a controversia. Qualif icam duas proposicoes:

19 — Sol fixo. é considerada falsa e absurda do ponto de vista filo


sófico e formalmente herética, por estar em contradicao com
varias passagens da Sagrada Escritura, de acordó com o sentido
literal e a interpretado córreme dos Padres da Igreja.

29 — Rotacao da Térra e translacao em torno do Sol. Falsa e absur


da, do ponto de vista filosófico, e errónea na fé.

No dia seguinte, há urna reunía o dos Cardeais, sob a presidencia do


Papa Paulo V, para avaliar o parecer dos consultores e pronunciar urna de-
cis5o. Foram tomadas duas medidas:

19—0 Cardeal Belarmino é encarregado de, em audiencia parti


cular, convencer Galileu de abandonar a teoría copernicana.
Galileu nega-se a tal. Recebe, entao, de Belarmino, diante de
um comissário da Inquisícao e de outras pessoas, o preceito
formal de nao sustentar, ensinar ou defender tal teoría. Galileu
promete obediencia. Nao houve processo formal, nem senten-
9a, abjuracao ou penitencia.

29 — Por decreto da Sagrada Congregacáo do índex, foram proibi-


dos os livros de Copérnico, de Foscarini e, de forma geral, dos
qi^e defendiam o sistema heliocéntrico. Nenhuma referencia
nem á obra nem ao nome de Galileu.

Observe-se que a obra de Copérnico, ja' com 80 anos, até entao tinha
sido deixada pela Igreja Católica á livre discussao, e havia eclesiásticos que
a defendiam. E nela baseou-se a reforma do calendario, ja' referida.

121
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 382/1994

O que provocou, depois de tanto tempo, sua proibicSo, foi a atitude


de Gal i leu, querendo impor como certa, verdadeira, urna teoría para a qual
n3o tinha provas objetivas. Pelo contrario, insistía em urna prova falsa,
a das mares. E jamáis ele ou outro contemporáneo conseguiu explicar o
paradoxo do vento de 1.440 km/h, na linha do Equador, que "devena"
existir em virtude da rotacao da Térra. Galileu, lancando mao de raz8es
exegéticas e insistindo em urna reinterpretacSo da Biblia, acá bou forcando
urna decisao imatura e lamentável da Sagrada Congregado do índex.

é de destacar que, em 11/03/1616, Paulo V recebeu Galileu em au


diencia particular. Considera-o um verdadeiro filho da Igreja e reconhece
a retidSo das ¡ntengoes de Galileu, dizendo-lhe que nada temesse de seus
caluniadores.

3.2. O Segundo Processo (1633)

Em novembro de 1618 apareceram tres cometas na Europa. Foi o es-


topim para recomecarem as discussoes, com Galileu violento no fafarcomo
antes.

Entre 1624 e 1630 Galileu escreve um novo Iivro, "Diálogo sobre os


dois Sistemas Máximos dq Mundo, o Ptolomaico e o Copernicano". Gali
leu comunicara ao Papa Urbano VIII que pretendia escrever esse livro. O
Papa o apoiara, aconselhando-o, porém, a nao entrar em confuto com o
Santo Oficio e a tratar o sistema de Copérnico como hipótese. Urna reco-
mendacao perfeitamente correta para os dias atuais, pois agor,a é ponto pa
cífico que em ciencia nada é definitivo.

Em maio de 1630 Galileu vai a Roma para obter o necessário "Impri


ma tur". O encarregado de examinar seu livro. Pe. Riccardi, era amigo pes-
soal de Galileu. Concluiu que eram necessárias algumas correcoes:

1? — Mudar o título, que era "Diálogo sobre as mares", porque des-


tacava muito o único argumento (e errado) de Galileu para
provar o sistema copernicano.

29 — Alterar algumas passagens.

3? — Alterar o prefacio, de modo a nao apresentar o sistema helio


céntrico como verdade segura, mas sim como hipótese.

Diante disso, Galileu resolveu imprimir o livro em Florenca. Riccardi


concordou, desde que Galileu Ihe trouxesse o primeiro exempjar da obra,
com as devidas correcSes, para receber o "Imprimatur".Galileu argumenta
com a peste, que dificultava a comunicacao entre as duas cidades. Mais

122
AÍNDA O CASO GALILEU 27

urna vez, cede Riccardi, concordando com o exame da obra em Florenca,


bastando enviar a Roma o título e o Prefacio.

Em Florenca, Galileu consegue que o revisor seja outro amigo seu,


Stefani, que foi induzido a pensar que a obra já tinha sido aprovada em
Roma. Stefani concedeu a autorizarlo. O título e o prefacio foram envia
dos a Roma para aprovacao e o livro foi publicado em 1631.

Quando Riccardi recebeu um exemplar da obra completa, viu com


surpresa que, antes da aprovapSo florentina, figurava a sua. E sem nenhu-
ma correcao no corpo do livro: o sistema copernicano era apresentado em
toda a obra, exceto no Prefacio, como verdade incontroversa.

Urbano VIII, pressionado pelos inimigos de Galileu, e considerando


a desobediencia formal á proibicao de 1616, passou o assunto á Inquisi
cao.

A comissSo encarregada de examinar a obra grupou a censura em oito


pontos, esclarecendo nas conclusoes que todos eles podiam ser corrigidos
(as mares como falsa prova, apresentar o sistema copernicano apenas co
mo hipótese, etc.). Mas, acrescentava, a desobediencia era um agravante
bastante serio (o grifo é nosso, pois as conclusoes da comissao mostram
.que o problema era, básicamente, disciplinar).

Galileu, chamado a Roma para julgamento, depois de varios adla


mentos (doenca, velhice, peste, ¡nundacoes, foram os motivos alegados),
lá chega em 12/02/1633. Hospedou-se inicialmente no palacio do Embai-
xador de Florenca; depois passou a residir no edificio da Inquisicao, em
aposentos do Fiscal da Inquisicao, "cómodos e abertos" (nada de aprisio-
namento em masmorras, "a p3o e agua", como diz urna das lendas).

Foi submetido a quatro interrogatorios:

— No primeiro negou que houvesse defendido o sistema heliocéntri


co em seu livro.

— No segundo declarou que, relendo o livro, reparara queem alguns


trechos o leitor podía realmente pensar que ele defendía tal sis
tema.

— No terceiro desculpou-se por desobedecer á proibicao de 1616,


afirmando que a advertencia tinha sido verbal e que nao se recor-
dava de urna ordem para ele em particular.

— No quarto e último interrogatorio (em 21/06/1633), quando Ihe


perguntaram solenemente se defendía o sistema copernicano, res-
pondeu negativamente.

123
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 382/1994

No dia seguinte, em Decreto do Santo Oficio, é publicada a sen tenga,


na qual consta: ".. . é absolvido da suspeicao de heresia, desde que abjure,
maldiga e deteste ditos erros e heresias.. . ". Galileu i ouviu de pé e com a
cabeca descoberta a leitura de sua condenacao (tres anos de prisao; recita-
cao semanal dos sete salmos penitenciáis, por tres anos). Depois, de joe-
Ihos e com urna mao sobre os Evangelhos, assinou um ato de abjuracao, no
qual declarava que era "justamente suspeito de heresia".

Nesta ocasiao, Galileu teria exclamado, batendo com o pé no chao:


"e puré si mu ove" (e todavía se move). Lenda inverossímil, dadas as cir
cunstancias (estava de joelhos). E urna fantasía queapareceu pela primeira
vez em 1757 (mais de um sáculo depois), em obra de Baretti.

Além das penas pessoais, também foi proibido o lívro de Galileu.

No dia seguinte, a sen tenga é comutada pelo Papa. Galileu vai viver
no palacio do Embaixador de Florenca e depois passa para a casa do Arce-
bispo Piccolomini, seu discípulo e admirador, em urna especie de prisao
domiciliar. Foi-lhe permitido voltar a Florenca em 10/12/1633, cinco me
ses e oito días depois da condenacao.

Como se vé, nada de condenacao por heresia, torturas, fogueira, etc.


é verdade que durante o processo, em virtude de suas evasivas, foi amea-
cado de tortura, de acordó com os trámites processuais. Por outra, a tor
tura nunca era infligida a pessoas idosas ou enfermas. Galileu estaría ¡sen
tó por ambas as condicoes. ,

Da Referencia 11, página 284, citamos: "Embora reconhecamos que


o segundo processo teve, como grávame, a vaidade e a ¡nsinceridade de
Galileu, devemos todavía lamentar profundamente a primeira condenacao
de 1616 como inquietante erro judicial, e como ¿ibuso de poder direta-
mente catastrófico em suas conseqüéncias" (proibicao das obras de Copér-
nico).

Em 1637 fica cegó. Em 1638 publica o lívro "Diálogo das duas novas
ciencias", que sao a Resistencia dos Materiais e a Mecánica Racional, bási
cas para va'rios ramos da engenharia.

Morre em 08/01/1642, assistido por um sacerdote, como bom cató


lico.

124
AÍNDA O CASO GALILEU 29

4. COMENTARIOS

a — Mu ¡tos dos comentarios a seguir sao retirados da obra de Cin


tra (1).

— O episodio de Galileu é lamentável, mas compreensi'vel, se levar-


mos em considerado o ambiente, costumes e mentalidades vigentes na-
quela época.

— A imagem Galileu versus Igreja, ou ciencia versus Igréja, foi criada


por pensadores anti-católicos dos sáculos XVIII e XIX, para apresentar a
Igreja como ¡nimiga da ciencia, do progresso e da raza o. Mu ¡tos eclesiásti
cos estudavam sistemáticamente astronomía e varios deles vinham defen-
dendo o sistema heliocéntrico mesmo antes de Galileu, como o próprio
Copérnico, qué era cónego.

— A Igreja nao quería proíbir que se discutisse o sistema de Copér


nico, mas apenas solicitava que nao fosse apresentado como ¡ ncon testa-
vel, enquanto nao houvesse provas decisivas. O argumento das mares, que
Galileu apresentou como prova máxima, era falso.

— Alias, como já ti'nhamos comentado, pela atual filosofía da cien


cia, nada é definitivo em ciencia; mesmo as teorías mais "badaladas" po-
dem cair. Um exemplo é a famosa teoria do evolucionismo, de Darwin.
Pelos conhecimentos atuais, nao há "elos perdidos". O que aconteceu
foram mutacoes fortes, mudancas bruscas que geraram novas especies,
cuja estábilidade está cada vez mais comprovada. Urna especie aparece
"súbitamente" e se mantém praticamente inalterada, até desaparecer.
Sobre evolucionismo recomendamos a obra de Cintra (12), urna excelen
te e resumida apresentacao do tema.

Outros exemplos temos na própria astronomía, com as diversas teo


rías sobre a formacao dos planetas, sobre o universo em expansao, em
contraca o, pulsante, etc.

— Parte do acontecido deve-se ao caráter de Galileu, polémico, ris


pido, agressivo, e ao fato de ter difundido prematuramente suas conclu-
s5es científicas, sem provas suficientes.

— rtouve também um erro grave por parte de representantes da Igre


ja, que se ¡ntrometeram em materia exclusivamente científica e condena
ra m um sistema astronómico, no processo de 1616.

b — Do filósofo cético-agnóstico Paúl Feyerabend citamos (Ref. 13,


pág. 64): "No tempo de Galileu, a Igreja se manteve mais fiel á razao do
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 382/1994

que o próprio Galileu e levou em considerado também as conseqüéncias


éticas e sociais da doutrina de Galileu. O processo contra Galileu era justo
e racional".

c — Palavras do físico Nicola Cabibbo, presidente do Instituto Nacio


nal de Física Nuclear da Italia (Ref. 14, pág. 29): "Se examinarmos o pro
cesso, vemos que Galileu nao foi condenado pelas suas teses científicas,
mas porque tentava fazer teología. 0 próprio Galileu afirmava, errando:
visto que a Térra gira em torno do Sol, devemos mudar a Sagrada Escritu
ra. Nesse caso, quando Newton descobriu a gravitacao universal e Ein-
stein a relatividade, deveríamos ter mudado de novo os textos sagrados".

d — Filósofo laico Emanuele Severino, falando sobre a reabilitacao


de Galileu pela Igreja (Ref. 15, pág. 33): "recitando o 'mea culpa' sobre
Galileu, a Igreja atribuí á ciencia um valor absoluto justamente hoje, quan
do a ciencia reconhece que ná*o tem verdades absolutas e indiscutfveis. E
estranho que nSo levem em conta as consideracSes do Cardeal Belarmino,
que aconselhou Galileu a expor as suas teorias em forma de hipótese e
nao de verdades absolutas. A postura de Belarmino era muito mais moder
na, com urna consciéncia crítica do saber científico superior á de Ga
lileu".

e - Em 03/07/1981, o Papa JoSo Paulo II nomeou urna comissao de


teólogos, cientistas e historiadores, a fim de aprofundarem o exame do
caso Galileu. Os resultados foram apresentados após onze anos, em
31/10/1992. Neste mesmo dia, 350? aniversario da morte de Galileu, rea-
lizou-se sessao solene da Pontificia Academia de Ciencias. Do discurso que
entao proferiu JoSo Paulo II extraímos osseguintes trechos (16):

"Galileu rejeitou a sugestSo de apresentar o sistema de Copérnico co


mo urna hipótese, até ser confirmado por provas irrefutáveis. Tratava-se
de urna exigencia do método experimental, do qual ele foi o iniciador ge
nial." fisto é, Galileu errou em seu próprio terreno.)

"O problema que os teólogos da época se puseram era o da compa-


tibilidade do heliocentrismo e da Escritura. A ciencia nova, com os seus
métodos e a liberdade de investigacao que e/es supdem, obrigava os teólo
gos a interrogarem-se sobre os seus próprios criterios de interpretacSo da
Escritura. A maioria nSo o soube fazer. Paradoxafmente, Galileu, fiel sin
cero, mostrou-se sobre este ponto mais perspicaz do que os seus adver
sarios teólogos. Se a Escritura nSo pode errar, escreve ele a Benedetto Cas-
telli (em 1613), a/guns dos seus intérpretes e comentaristas o podem e de
multas maneiras. Também é conhecida a sua carta á Cristina de Lorena
(em 1615), que é como que um pequeño tratado de hermenéutica bíbli
ca."

19R
AÍNDA O CASO GALILEU 31_

"A maioria dos teólogos nao percebia a distincao formal entre a Es


critura Sagrada e a sua interpretacSo, o que os levou a transpor indevida-
mente para o campo da doutrina da fé úma questao, de fato relevante, da
investigacao científica."

"Recordemos a frase célebre atribuida a Baronio: O Espirito Santo


quer nos dizer como se vai para o céu; nao como vai o céu."

"Belarmino, que tinha percebido o que estava realmente em jogo no


debate, considerava que, diante de eventuais provas científicas do moví-
mentó orbital da Térra ao redor do Sol, devfamos interpretar, com urna
grande circunspecto, toda a passagem da Biblia que parece afirmar que a
Térra é imóvel, e 'dizer que nao o compreendemos, antes de afirmar que
é falso o que se demonstra' (Carta ao Pe. A. Fosearini, 12/04/1615)".

f — Joao Paulo II recordou um fato histórico pouco conhecido: Ga


lileu já tinha sido reabilitado por Bento XIV em 1741, com a concessao
do "Imprimatur" á primeira edica*o das obras completas de Galileu. Em
1757, as obras científicas favoráveis á teoría heliocéntrica foram retiradas
do índex de livros proibidos. Em 1822, Pió Vil determinou que o "Impri
matur" podia ser dado também aos estudos que apresentavam a teoría co-
pernicana como tese.

g — Destacando alguns pontos do quefoi apresentado neste trabalho,


diremos que a condenacao de Galileu foi devida ao modo como ele defen-
teu o sistema heliocéntrico. Quis prová-lo com argumentos bíblicos (¡nci-
dindo no erro que condenava em seus oponentes, ele, o criador da expe
riencia científica), errou no argumento das mares e insistiu na necessidade
de urna pronta re interpretacSo de certos trechos da Biblia. A condenacao
de 1633 deveu-se á desobediencia de Galileu ao compromisso assumido em
1616. Neste processo, sim, os representantes da Igreja cometerám um gra
ve erro, opinando em materia de interesse exclusivo da ciencia, ao declara-
rem um sistema astronómico contrario á fé.

Houve acertos de ambos os lados no campo oposto. Galileu com


seus comentarios sobre a correta interpretacao da Biblia ("um pequeño
tratado de. hermenéutica bíblica", no dizer de JoSo Paulo II). Belarmino
e outros eclesiásticos apregoando o que hoje é um principio fundamental
da ciencia: nela, nada é definitivo (o heliocentrismo devia ser apresentado .
como hipótese, nao como verdade incontestável). Eles tiveram urna con-
cepcao dos fundamentos do saber científico superior á de Galileu, dentis
ta renomado e criador da experiencia científicamente conduzida.

* * *

127
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 382/1994

BIBLIOGRAFÍA

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08/11/1992, p. 554-555.
Entrevista rumorosa:

O PAPA E O COMUNISMO

Em sintese: O PapaJoSo Paulo II fez declarares á imprensa italiana,


que no Brasil suscitaram mal-entendidos. O Pon ti'fice nao propugna o co
munismo materialista, mas verifica que no cerne deste há "sementes de
verdade", isto é, a tese de que é preciso combater as in/usticas sociais, de
belando a miseria e a fome das carnadas mais modestas da populacao. O
Papa criticou tanto o comunismo ateu quanto o capitalismo selvagem, pois
ambos sio materialistas e desumanos, o prímeiro colocando a coletividade
ácima do individuo, o segundo esquecendo a coletividade em favor do in
dividuo, mas ambos conculcando a dignidade e os direitos da pessoa
humana.

A 01/11/93 a ¡mprensa brasileira deu noticia de urna entrevista con


cedida pelo Papa Joao Paulo II á jornalista Jas Gawronski, do jornal La
Stampa, de Millo, sobre a situacao sócio-económico-política do mundo de
nossos tempos. Os poucos trechos dessa entrevista publicados no Brasil po-
diam dar a entender que o Papa favorecía o comunismo; foi, alias, nesse
sentido que nao poucos leitores interpretaran! as palavras do S. Padre. To
davia, quem lé a íntegra das declaracoes (1), verifica que o Pontífice está
longe de propugnar o socialismo real. Ao contrario, toma posicao equi
distante deste e do capitalismo selvagem, como se depreenderá dos seg
mentos da entrevista que vao abaixo transcritos.

1. TRECHOS RELEVANTES

1.1. Guerra Defensiva

A repórter comeca por perguntar se o Papa preconiza urna interven-


cao militar na ex-lugoslávia. — Responde o Pontífice:

1 A entrevista foi publ¡cada em sua <ntegra pelo jornal "O Estado deSSo Paulo", edipao de 4/11 f\ 993.
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 382/1994

"A posicSo da Santa Sé tem sido sempre a de evitar guerras fratrici


das. Quando a Eslovénia, a Croacia e depois a Bosnia decidiram promover
plebiscitos sobre a questSSo da independencia e escolheram trilhar esta via,
estavam plenamente dentro dos seus direitos..."

O que o Papa deseja é que esses direitos sejam respeitados e defendi


dos contra injustos agressores:

"Em casos de agressao, é necessário negar ao agressor a possibilidade


de causar danos. . . Guerra justa é somente a de autodefesa. Toda nacao
tem o direito de se defender. O principio já foi formulado por S. Agosti-
nho e foi reafirmado pelo Concilio Vaticano II."

De fato, a Constituido Gaudium et Spes do Concilio, em seu n°


79, assim se exprime:

"Urna vez esgotados todos os recursos de negociacüo pacífica, nao


se poderá negar aos Governos o direito de legítima defesa. Os chefes de
Estado e todos aqueles que participam da responsabilidade da vida públi
ca, tém o dever de salvaguardar os povos que Ihes sao confiados, dirigin-
do com seriedade assuntos tSo serios."

1.2. Comunismo e Capitalismo

A seguir, o Papa é levado a falar sobre comunismo e capitalismo.


Ediz:
«

"O comunismo teve sucesso neste século como reacio contra certo
tipo de capitalismo desenfreado e selvagem. Basta ler as encíclicas sociais,
especialmente a primeira, a Rerum Novarum, na qual Lea*o XIII descreve
a situacao dos trabalhadores naquela época (1891). Marx também a des-
creveu a seu modo. Aquela era, sem dúvida, a realidade social; foi conse-
qüéncia dos principios do capitalismo ultraliberal. Portante, urna reacao
contra aquela realidade cresceu e obteve o apoio de muita gente — nao
só dentro da classe trabalhadora, mas também entre os intelectuais. Mui-
tos deles pensaram que o comunismo conseguiría melhorar a qualidade da
vida. . . Depois constataram que a realidade era diferente daquela que ha-
viam imaginado. Alguns deles, os mais corajosos e os mais jovens, comeca-
ram a se distanciar do poder e a se transferir para a oposicSo. Claro que
foi um ato legítimo lutar contra o sistema injusto e totalitario, que se de-
finia como socialista ou comunista.

Mas também é verdade, como diz LeSo XIII, que existem sementes
de verdade mesmo no programa socialista, é obvio que essas sementes nao
devem ser destruidas, nSo se devem perder nos ventos...

130
O PAPA E O COMUNISMO 35

No comunismo existe preocupacSo com a comunidade, ao passo que


o capitalismo é individualista. Todavía, essa preocupacao, em países sujei-
tos ao socialismo real, cobrou um prego muito alto: a degradacao, em muí-
tos aspectos, da vida dos cidadSos.

Os proponentes do capitalismo em suas modalidades extremas ten-


dem a ignorarlas boas coisas alcanzadas pelo comunismo — os esforcos
para acabar com o desemprego, a preocupacao com os pobres. Todavía,
no sistema do socialismo real, a proteclío excessiva dada pelo Estado tam-
bém produziu resultados negativos. A iniciativa privada desapareceu, a
inercia e a passividade se generalizaram. Agora, no novo sistema , as pes-
soas nao tém experiencia ou capacidade para agir por conta própria, e nao
estío habituadas á responsabilidade pessoal. . . A transigió de um sistema
para o outro é muito difícil. Ela também tem alto prego: aumento da po
breza, o desemprego e a miseria humana."

O S. Padre se refere á situacao de certo mal-estar hoje existente nos


países que se emanciparam do comunismo: falta capacidade de iniciativa,
os jovens nao foram treinados para assumir a I ¡deranga; esta retorna quase
naturalmente aos antígos chefes comunistas, que sao quase as únicas pes-
soas dotadas de estudo e cultura.

1.3. O Capitalismo Atual

"Segundo pensó, na raiz de muitos dos serios problemas sociais e


humanos que afligem a Europa e o mundo de hoje, se encontram as mani-
festacoes distorcidas do capitalismo. Claro que o capitalismo atual nSo é
o mesmo capitalismo dos tempos de Le3o XIII. Ele mudou e, em grande
parte, por causa da influencia do pensamento socialista. O capitalismo
atual criou malhas de seguranga social gracas aos movimentos sindicáis.
Pos em prática políticas sociais e é acompanhado pelo Estado e pelos sin
dicatos. Em alguns países, porém, permaneceu em seu estado selvagem,
quase como era no século passado."

O Papa lembra assim que o capitalismo ultraliberal e selvagem foi mi


tigado por leis que regulam o sistema capitalista, dando garantias ao traba-
Ihador, como ferias remuneradas, 13? salario, salario-familia, salário-
desemprego. Desta mane ira, o Pontífice distingue entre o capitalismo sel
vagem ou liberal, cujo único criterio é o lucro e a prepotencia económica,
com detrimento do trabalhador e da pessoa humana, e o capitalismo mo
derado, que reconhece limites ao lucro ditados pelo respeito ao trabalha
dor, que deve ser promovido pelo seu trabalho e na*o escravizado.
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 382/1994

1.4. O Papa e o Terceiro Mundo

"Compreendo o que a exploracao significa e me coloco inequívoca-


mente do lado dos pobres, dos deserdados, dos oprimidos, dos marginali-
zados e dos indefesos. Os poderosos deste mundo nem sempre encaram
favoravelmente um Papa déste tipo. As vezes, até o desaprovam por causa
de sua posicao em materia de principios moráis. Pedem, por exemplo, au-
torizacao para praticar o aborto, medidas anticoncepcionais, o divorcio
— coisas que o Papa nao pode conceder porque o encargo que Ihe foi con
fiado por Deus é o de defender a pessoa humana, em sua dignidade e seus
direitos fundamentáis, dos quais o mais importante é o direito á vida.

Hoje tenho a impressao de que tudo se reduziu simplesmente á di


mensao económica ou virtualmente a isso. A esta altura, a Igreja e o Papa
com seus Bispos se defrontam com uma grande tarefa e desafios: defender
e estimular outras dimens5es e outros valores, muitas vezes esquecidos. é
esta uma mensagem premente, que nem todos estao dispostos a ouvir e,
entre os que a ouvem, nem todos a levam a serio."

1.5. Os Valores Moráis

"0 Leste Europeu amadureceu... na luta contra o totalitarismo mar-


xista. . . No Leste foi preservada uma outra dimensao do espirito humano.
Talvez seja este um dos motivos pelos quais um Papa polonés foi eleito
quinze anos atrás. Certos valores estavam menos depreciados no Leste. Se
um homem vive num sistema programáticamente ateu, mesmo num país
como a Polonia, acaba por constatar melhor o que a religiao significa. Aca
ba ficando cíente daquilo que os do Ocidente nem sempre percebem. Deus
é a origem da dignidade do homem, a extrema, única e absoluta fonte
déla. O homem no Leste estava ciente disto; o prisioneiro nos campos de
concentracao estava ciente disto; Soljenitsyn estava ciente disso. No Oci
dente isto nao é considerado tao claramente."

1.6. Os Cristaos e a Política

"Os crist3os, como cidadSos, podem edevem agir politicamente. Isto


significa agir de modo a dar uma dimensao de sua fé, de suas próprias con-
viccoes á vida social. Por que deveriam eles permanecer á margem ? — é
evidente que existem tendencias que visam a encerrar o Cristianismo ex
clusivamente dentro da esfera do pessoal e forcar todos os cristaos a
permanecer no silencio."

132
O PAPA E O COMUNISMO 37

2. REFLETINDO. ..

Como se vé, o Papa aponta tanto os males do comunismo, que exage


ra os valores coletivos com detrimento da pessoa humana, da sua originali-
dade e liberdade, como os males do capitalismo desenfreado ou selvagem,
que também conculca o ser humano em favor do lucro económico do in
dividuo ou do grupo particular.

A expressao "sementes de verdade (no comunismo)" faz eco á lo-


cucao grega usada pelos escritores cristaos dos tres primeiros séculos quan-
do se referiam á cultura paga*: embora a condenassem por seus mitos e seus
costumes libertinos; reconheciam nela "sementes do Verbo (lógoi sper-
matikof)" ou sementes de verdade, que podiam ser cabeca de ponte para a
conversao dos pagaos ao Cristianismo.

O Papa esta' longe de aprovar o comunismo como tal; muito ao con


trario, condena o seu materialismo. Reconhece, porém, que o homem, vi-
vendo sob o regime ateu socialista, pode perceber melhor a grandeza e o
valor da Religiao e da Fé em Deus; o contraste e a luta contra o materia
lismo puseram em plena evidencia toda a riqueza espiritual da religiao.
Ao contra'rio, no Ocidente a falta de contraste pode levar a um amoleci-
mento daninho da tempera religiosa; o hedonismo, o comodismo, a ambi-
cáo, a procura do ter mais (em lugar do ser mais) tém desfibrado o homem -
ocidental, levando-o á degradacao de si mesmo. Nao é o Estado, mas é o
individuo que se destrói no Ocidente sob o peso de suas paixoes e cobi-
cas (tenha-se em vista o Brasil de nossos dias).

Sá*o estas as observares que a Igreja sabiamente propSe, preconi


zando a fidelidade ao Evangelho. Esta poe Deus e os bens espirituais no
ápice da escala de valores e assim é capaz de proporcionar ao homem o
dominio necessário para dizer Nao ao imperialismo dos bens materiais,
que tanto o socialismo real como o capitalismo selvagem apregoam para
a desgraca da human ¡dade.

* * *

CURSO DE FILOSOFÍA POR CORRESPONDENCIA (NOVO)

Compreende todos os tratados da Filosofía aristotélico-tomista: Lógi


ca, Cosmología, Psicologia, Teoría do Conhecimento, Ontologi a, Teología
Natural, Ética, além de um conspecto geral de Historia da Filosofía (61
Módulos).
Pedidos de informacoes e encomendas sejam dirigidos á Escola "Ma-
ter Ecclesiae", Caixa Postal 1362,20001-970, Rio (RJ).

133
Os primeiros clones humanos:

A REPRODUQÁO ASSEXUAL
DO SER HUMANO

Em síntese: A clonagem ou a reproducao assexual do ser humano


mediante avancos da ciencia contemporánea ameaca a dignidade do géne
ro humano, equiparando-o ao gado, e abre perspectivas de futuro som
brío. Requer-se, pois, que a ciencia progrída, sem dúvida, mas nao se desli
gue da consciéncia moral, para que nao venham seus produtos a voltar-
se contra a própría humanidade.

Alguns organismos legislativos ¡á se tém manifestado contra a bio-


tecnocracia, mas as suas normas ainda $Sb tímidas e correm o perigo de
ser solapadas pela ambicio, do homem, de ser como um deus, dominan
do e manipulando o próprío homem ou fazendo do uso e abuso de em
brides humanos urna fonte de lucro financeiro.

* * *

As experiencias em torno da genética humana vém-se,desenvolvendo


em ritmo acelerado: fecundacao artificial homologa e heteróloga, fecunda-
cao em proveta, m§e de aluguel, escolha do sexo do nascituro... atéche-
gar á mais recente modalidade de reproducao humana, que é a clonagem.
Esta foi divulgada pela imprensa em 1993, suscitando alarmes e rebúlleos,
mas também provocando aplausos de numerosos observadores.

Examinaremos os fatos e, a seguir, Ihes proporemos alguns comen


tarios.

1. AS RECENTES EXPERIENCIAS

A palavra clone vem do grego klon, broto, germen. Em linguagem


técnica, designa o individuo originario de outro por rnultiplicacao asse
xual — o que pode ocorrer de duas maneiras:

a) por divisSo de um embriSo em duas ou tres partes, dando um con


junto de seres iguais entre si por terem o mesmo patrimonio genético. Mais

134
REPRODUCAO ASSEXUAL DO SER HUMANO 39

precisamente: realiza-se a fecundado do óvulo pelo espermatozoide fora


do organismo materno; o embriao assim obtido comeca a se desenvolver;
quando atinge o estágio de oito a dezesseis células, é dividido em dois ou
tres segmentos. Estes sSo implantados no útero materno, onde se desen-
volvem dando dois ou tres individuos bigémeos ou trigémeos. Isto épos-
sível porque as células do embriao, na primeira fase de seu desenvolvi-
mento, conservam todo o seu potencial e, por conseguinte, quando sepa
radas, cada qual produz um individuo. - Esta técnica tem sido praticada
com animáis domésticos, ou seja, para a multipl¡cacao de cávalos de raca
e de gado leiteiro.

b) a clonagem pode efetuar-se também por transferencia, para dentro


de urna célula devidamente preparada, de um núcleo de embriao; este ¡me
diatamente dá origem a outro embriSo, dotado do mesmo patrimonio ge
nético, auténtica "copia carbono" do doador.

A clonagem praticada no reino vegetal e nos animáis ¡rracionais nun


ca suscitou oposicao. Mas últimamente foi realizada também no setor hu
mano, como era de esperar e como já prevíam mu ¡tos dentistas. Com efei-
to; dois pesquisadores norte-americanos, o Prof. Jerry Hall, da George
Washington University, e seu mestre, o Prof. Robert Stillman dividiram
um embriSo humano em tres partes, que se foram desenvolvendo a ponto
de formar tres gémeos. .. Acontece, porém, que, diante do fenómeno iné
dito, os dois dentistas houveram por bem extinguir a vida dos tres indi
viduos. Todavía, o horror causado na opiniSo pública pela experimentacao
de Hall e Stillmann nao é suficiente para conter a tempera conquistadora
da ciencia e da tecnología; há quem veja vantagens na clonagem

— ou porque se implantaría um dos individuos em útero materno


(talvez alugado), ao passo que o(s) outro(s) seria(mI congelado(s) para ser
implantado(s) em útero materno anos mais tarde. Assim, o segundo e o
terceiro individuos serviriam ao primeiro como doadores de órg3os e teci-
dos para restaurar a vitalidade do mais velho;

— ou porque urna das partes do embriSo dividido seria examinada, a


fim de se descobrir o respectivo sexo mediante o estudo dos cromossomos
XY; caso tal sexo fosse do agrado dos experimentadores e das pessoas in-
teressadas, a outra parte seria implantada em útero materno para tomar
se urna enanca do sexo desejado. Caso o sexo nSo fosse do agrado, jogar-
se-iam fora os segmentos do embriSo e procurar-se-ia fazer outra expe
riencia.

135
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 382/1994

2. AS REAQOES

A clonagem praticada em animáis infra-humanos suscitou a suspeita


de que alguns pesquisadores tentariam realizá-la no próprio homem. Por
isto, diversos organismos nacionais e internacionais baixaram normas a res-
peito. Assim, em 1986 o Conselho da Europa estudou urna proposta que
proibia "a criacao de seres humanos idénticos mediante clonagem e outros
métodos". A Resolucao correspondente foi adotada pelo Parlamento Eu-
ropeu em 1989. Em 1990 o Parlamento Alemao aprovou urna lei que tor-
nava ilícita a clonagem como crime sujeito á pena de cinco anos de reclu-
s3o.

Na Italia a Cámara dos Deputados aprovou em 1989 urna Resolucao


que impunha a suspensao de todas as experiencias feitas em embrioes. Em
junho de 1993 foi aprovada outra Resolucao, tendo á frente o deputado
Gianni Mattioli, que obriga a Cámara a legislar vetando qualquer interven-
pao no embriSo que nao seja para fins terapéuticos em favor do próprio
embriao. 0 presidente da ComissSo Nacional de Bioética, Dr. Adriano
Ossicini, definiu a clonagem como "um del Trío de onipoténcia da cien
cia".

Todavía, os protestos de autoridades governamentais s3o ameapados


de ineficacia nao só por causa do frenesi de onipoténcia que tenta o ho
mem, mas também em vista das vantagens financeiras e pragmáticas que a
clonagem acarreta. Com efeito; esta permite ao médico e dentista dispor
de maior número de embrides para implantacao no útero {eminino (da
doadora do óvulo ou da mae de aluguel); aumentam-se assim as possibili-
dades de sucesso da ¡nseminacao artificial. Ora esta, nos Estados Unidos, é
praticada por mu ¡tas clínicas, que consideram a fecundapao artificial co
mo um grande negocio (business)!

3. E A ÉTICA?

NSo somentea Moral católica, mas também a Ética filosófica levan-


tam decidida recusa á clonagem e a todas as práticas ligadas á inseminapao
artificial. E isto por diversas razdes:

1) Nao se pode esquecer que o embrido já é auténtico ser humano,


dotado dos direitos de verdadeira pessoa; a fecundacSo do óvulo pelo es
permatozoide dá origem a um terceiro ser, que nao é parte da mae ou do
pai. Embora o novo individuo n3o se possa manifestar plenamente em sua
identidade, ele merece o respeito devido a qualquer pessoa. Por consegu in
te, náfo se pode tratar o embriSo humano como se trata o do gado; este é

136
REPRODUCÁO ASSEXUAL DO SER HUMANO 41_

irracional, guiado pelo instinto, carece de um ideal de vida, ao passo que o


ser humano tem a singular dignidade da inteligencia e do amor.

2) A corrida das experiencias científicas desenfreadas ameaca cada


vez mais o género humano. Um legislador ditatorial ou um Estado totalita
rio, de posse dos recursos da ciencia sem consciéncia ética, poderá concul
car a sociedade nacional e o consorcio das nacoes, pois chegará a definir
o sexo dos que terao direito de nascer, a cor de sua pele, de seus olhos, de
seus cábelos, as dimensSes de sua estatura, etc.

A Ética nao é contraria ao progresso da ciencia, mas ela ajuda o den


tista a escalonar os valores. O progresso científico empolga o homem e
despena nele o senso da conquista sedutora; todavia, a satisfacao deste an-
seio deve estar a servico do homem; há de procurar tornar a vida dos ho-
mens e das nacoes mais nobre e digna, em vez de sacrificar o ser humano á
ambicio de alguns poucos, que desta maneira sao endeusados. — A propó
sito, sejam citadas as palavras do Papa Joao Paulo na sua encíclica Verita-
tis Splendor:

"É preciso situar a raíz do totalitarismo moderno na negacao da


transcendente dignidade da pessoa humana, imagem visfvel de Deus invisí-
vel e, precisamente por isto, pela sua própria natureza, sujeito de direitos
que ninguém pode violar" (n? 99).

3} Estamos diante de um novo tipo de ... cracia, dominio e poder1:


o da biotecnocracia. Esta pode recobrir-se da capa da eugenia ou da produ-
c3o de individuos sadios e de boa estirpe. Urna nova forma de racismo po
de assim dominar a sociedade humana. — Muito a propósito vem a adver
tencia da InstrucSo Donum Vitae, da Congregacao para a Doutrina da Fé
(1987):

"As técnicas de fecundacSo in vi tro podem abrir possibilidade a ou-


tras formas de manipulacSo biológica ou genética dos embrides humanos,
tais como as tentativas ou projetos de fecundacSo entre gametas humanos
e gametas animáis e de gestacao de embrides humanos em úteros de ani
máis bem como a hipótese ou o projeto de construcSo de úteros artificiáis
para o embriao humano. Tais processos sSo contrarios á dignidade de ser
humano própria do embriSo e, ao mesmo tempo, lesam o direito, de cada
pessoa , de ser concebida e nascer no matrimonio pelo matrimonio. As
tentativas ou hipóteses destinadas a obterum ser humano sem conexao al-
guma com a sexualidade, mediante fissao gemelar, clonagem ou partenogé-
nese, devem geralmente ser consideradas contrarías á Moral por se oporem

1 Kratos. em grogo, significa poder.

137
42 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 382/1994

á dignidade tanto da procriacSo humana como da uniSo conjugal" (I Par


te, n? 6).

4) A producáo de seres humanos destinados a servir de doadores de


órgaos e tecidos de reserva para outros seres humanos é iníqua e vil. To
dos os homens tém os mesmos direitos; ninguém nasce para ser a caixa de
reserva de outro homem.

5) Nao toca ao homem decidir qual dos seus semelhantes (pequeños


e indefesos) vivera ou nao vivera. Nenhum ser humano, por mais poderoso
que pareca, é dono da vida de outrem.

É, pois, para desejar que a legisla cao dos diversos países dé aten-
n3o aos fenómenos inéditos da biotecnocracia que, sorrateiramente, tende
a se impor, movida por interesses de prepotencia e de lucro financeiro.
Verifica-se que, de modo geral, a vida do nascituro está desprotegida; o
aborto é, quase em todos os países do mundo, autorizado; além do que,
nada impede, no plano jurídico, os avancos do eugenismo e da biotecno
cracia. Donde a observacao da Instrucao Donum Vitae:

"A autoridade civil é obrigada a assegurar a instituicao familiar, so


bre a qual se baseia a sociedade, a protecao jurídica a que ela tem direi-
to. Pelo fato mesmo de estar a servico das pessoas, a autoridade política
há de estar também a servico da familia. A lei civil nSo poderá conceder a
sua garantía aquetas técnicas de procríacao artificial que, em beneficio de
terceiros (mtdicos, biólogos, poderes económicos ou governamentais),
subtraem o que constituí um direito ¡nerente á re/acao entre os esposos e,
por isto, nao poderá legalizar a doacSo de gametas entre pessoas que nao
estejam legítimamente unidas em matrimonio.

Além disto, a fegistacao deverá proibir, em razio do apoio devido á


familia, os búncos de embrides, a inseminacao post mortem e a materni-
dade substitutiva" (Parte III).

Os clamores d2 Ética, em nossos tempos, sao bem justificados por fa-


tos recentes, como também por prognósticos sombríos, que justificam,
mais do que nunca, a necessidade da restaurado da consciéncia ética na
hümanidade contemporánea.

138
AÍNDA O ABORTO

Segue-se um Comunicado de Mons. Gabriel Vanel, arcebispo de Auch


(Franca), datado de 19/10/93, intitulado "Um Caso Doloroso" (Une
Affaire Oouloureuse):

"Embrides humanos, misturados com defetos hospitalares, para ser


incinerados. Esta noticia nos foi transmitida pela imprensa na semana pas-
sada. Ela nao deixa de nos comover e alertar as nossas consciénáas.
Para aqueles que aderem á Moral católica, e para ainda muitas outras
pessoas, o embriáo nSo é um pedaco de carne, nem um órgao entre outros
menos ainda um dejeto.

O embriSo é um ser humano em desenvolví mentó. É urna pessoa hu


mana em potencial. Desde que foi concebido, é programado para ser um
homem. Recentes observacóes mostraram que um feto de doze dias já está
dotado de órgáíos diferenciados.

Em conseqüéncia, o feto de ve sempre ser tratado com respeito.

Por isto, também a destruicSo voluntaria de um feto vivo é um homi


cidio. A lei civil que permite o aborto, nao pode contradizer a esta eviden
cia, apenas pode dar-lhe outro nome para tirarJhe a índole dramática. Fa-
lam hoje de 'interrupcao voluntaria da gravidez'.

A lei civil também na*o pode substituir a consdéncia. E a consciénáa


nSo pode ter como bem aquilo que é mau.

Se aceitássemos o aborto sem nos questionar, terfamos atingido um


limiar deploravel, a partir do qual todas as deducoes seriam possfveis, prin
cipalmente em nossos dias, quando se pode proporcionar a morte real com
suavidade. 1

A ciencia nSo foi dada aos homens para suprimir a vida, mas para dis
tanciar as fronteiras da morte."

Sem comentarios...
Ecumenísmo?

A LEGIÁO DA BOA VONTADE

Em sínteseM LegiSo da Boa Vontade (LBV), fundada por Alziro Za-


rur (1914-1979) na década de 1950, é hoje governada pelo Sr. José de Pai-
va Netto, também presidente da ReligiSo de Deus. Pretende aproximar to
dos os homens entre si na base do amor fraterno, sem levar em conta as
diferencas religiosas. A Religiao de Deus, professadapela LBV, nao é urna
religiao que abran/a todas as crencas ou com a qual todas se possam identi
ficar de algum modo, pois é francamente espirita e reencarnacionista;
quem nao compartilha a necromancia e o reencamacionismo, há de se sen
tir constrangido e desambientado nessa religiao de Deus

De resto, nao é preciso pertencer á LBV para pregar a aproximacao


dos homens entre si numa atitude fraterna; o Catolicismo apregoa a mes-
ma coisa, todavía respeitando a verdade religiosa revelada por Deus. £ SSo
Paulo quem diz: "Seguindo (fazendo) a verdade em amor, cresceremos sob
todos os aspectos em direcao áquele que é a Cabeca, Cristo" (Ef 4,15).
E o relativismo religioso que deteriora ou mesmo anula o programa da
LBV; o amor e a fraternidade entre os homens hao de ser cultivados sem
detrimento da VERDADE, que é o primeiro de todos os valores ou a luz
que ilumina toda a atividade humana.

* * *

A Legiao da Boa Vontade (LBV) é mais urna das correntes religiosas


que solicitam o cidadao de nossos dias. Teve origem no Rio de Janeiro na
década de 1950; espalhou-se por todo o Brasil e tem ramif icacdes no es-
trangeiro, pois pretende dirigir-se a toda a humanidade. O seu fundador é
Alziro Zarur (1914-1979), que tem atualmente como sucessor o Sr. José
de Paiva Netto, outrora Secretario de Zarur, hoje presidente da LBV e da
ReligiSo de Deus.

Os avancos da LBV chamam a atencao do público, ao qual lancam


interrogacoes. Eis por que PR se volta agora para o assunto/após o ter
abordado em PR 5/1957, p. 25; 3/1958, p. 119, ou seja, nos primeiros
anos de existencia da LBV.
A LEGIÁO DA BOA VONTADE 45.

1.MENSAGEM

O nome de Legiá"o da Boa Vontade é inspirado pelo texto de Le 2,14:


"Gloria a Deus ñas alturas e paz na térra aos homens de boa vontade".
Alziro Zarur pretendía unir todos os homens num Grande Parlamento
Mundial da Fraternidade, passando por cima de todas as diferencas de reli-
giao, rapa, cultura, etc.; para o conseguir, cada qual deveria ter boa von
tade!

A mensagem de Zarur e de Paiva Netto é espirita. Paiva Netto fala de


duas humanidades: a visível, que habita sobre a Térra, e a ¡nvisível, que ha
bita no céu da Térra; entre urna e outra ha'comúnicacSes, ou seja, os "es-
pfritos desencarnados" s3o guias dos homens neste mundo. Eles informam
que estamos chegando na hora da Quarta Revelacao; na primeira (Antigo
Testamento), Deus se terá manifestado; na segunda, Jesús Cristo; na ter-
ceira, o Espirito Santo; na quarta, comecara a religiao do amor universal,
orientada por espfritos superiores, quefalam nao somente através de mé-
diuns, mas também descendo sobre a Térra em discos voadores. Assim, ins-
taura-se a religiao de Deus, que congrega todas as crencas religiosas, con
forme Paiva Netto.

A LBV proclama o fim da era presente; Jesús estaría chegando para


inaugurar nova era; vivemos tempos apocalípticos; todavía, os pregadores
da LBV nSo anunciam desgracas, apenas falam de renovacao da historia.
Paralelamente, proféssam a reencarnacao, tida como necessária, para que
as pessoas se purifiquem de seus pecados e atinjam a plena felicidade (que
Paiva Netto nao descreve). Julgam que a Bfolia admite a reencarnacao no
Antigo e no Novo Testamento, mas n3o aprofundam sua af irmacao (se o
fizessem, perceberiam que ressurreicao da carne e reencarnacáo nao signi-
ficam a mesma coisa).

A LBV e a ReligiSo de Deus se interessam muito pela cura das doen-


cas físicas e moráis mediante a imposicao das maos:

"Quando a criatura transgríde a lei do Criador, comeca a adoecer. Por


isto mesmo, para o homem... pode haver enfermidade incurável, mas nao
para Deus. Para Deus todos esses males sSo perfeitamente sanáveis. Depen
de da fé que cada um deposita no seu Criador, no Eterno Deus de Amor,
Pai de Nosso Senhor Jesús Cristo" ("Jesús está chegando", n? 22, novem-
bro/dezembro 1992, p. 17).

ErrA Brasilia, a LBV construiu o Templo da Boa Vontade, em forma


de pirámide, cujo ápice traz um cristal. No pavimento interno do Templo
há sete círculos concéntricos pretos e sete brancos, que as pessoas percor-
rem para chegar finalmente debaixo do cristal, tido como portador de boas
energías!

•i.-
46 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 382/1994

O Sr. Paiva Netto espera construir também um grande edificio, sede


do Parlamento da Fraternidade Universal, ao lado do Templo da Boa Von-
tade em Brasilia. Terá seu Conselho de Honra, que Paiva Netto espera
constituir com as mais diversas personalidades do Brasil.

Os pioneiros da Legiao fazem questao de colher testemunhos de sim-


patia das mais diferentes correntes de pensamiento; procuram envolver
também os fiéis católicos num coro de louvores a Paiva Netto, tido como
líder carismático, iluminado por espfritos superiores.

A linguagem utilizada pelos mensageiros da LBV é pomposa e alvissa-


reira; pode impressionar muitos ouvintes e leitores, pois parece ensinar o
amor universal por cima de todas as barre ¡ras que separam os homens.

2. QUE DIZER

Duas observacóes vém a propósito.

2.1. A Religiao de Deus

Paiva Netto pretende criar urna nova religiao: a Religiao de.Deus, na


qual se encontrariam todos os homens a partir de qualquer crenca reli
giosa.

Esta proposta, porém, é inconsistente. Na verdade, a Religiá"o de


Deus nao é outra coisa sena*o urna forma requintada de espiritismo, que
pretende basear-se ñas Escrituras Sagradas e em conceitos cristáos. Quem
nao aceita a comunicacSo com os mortos e a reencarnacSo, há de se sentir
constrangido pela mensagem esp frita da LBV; assim, um fiel católico há
de julgar que a LBV faz "um bel o teatro religioso"..., mas teatro que fo-
ge á verdade ou á realidade. Só pode filiar-se á LBV quem nao tenha con-
viccoes religiosas ou quem pense que religiao é um sentimento vago e cegó.

Ora, dizemos que a fé nao é urna atitude cega ou sentimental; éum


ato da inteligencia humana, que foi feita para a verdade, e que sabe que
existe a verdade nao sonriente ñas ciencias exatas, mas também na área re
ligiosa. Deus é a Suma Verdade, e Ele se revela ao homem por vías objeti
vas que interpelam a inteligencia humana. Para que alguém creía como ser
inteligente, deve por sua inteligencia a funcionar e indagar: "Por que hei
de crer. . .? Por quecrer nisto ou naquilo e nSo naquilo outro?".É essa in-
dagacao da inteligencia que prepara o ato de fé e faz que seja algo á altura
da dignidade humana.

Por isto, dizemos que existem a verdade (proposicoes verídicas) e o


erro (proposícSes erróneas) no setor religioso. Em conseqüéncia, urna pes-
soa que tem suas conviccSes religiosas, nao pode fingir que n5o as tem e

142
A LEGlAO DA BOA VONTADE 47

que abona crencas diversas das suas. Isto significa ofender a Verdade ou o
próprío Deus.

é claro, porém, que a distincao entre verdade e erro em religiao nao


implica em hostilidade entre as pessoas. Pode haver encontros entre elas
em ámbito de fraternidade e benevolencia, contanto que nao se relativize a
verdade religiosa.

A Igreja Católica apregoa a aproximacao dos homens entre si, quais-


quer que sejam as suas crencas religiosas. Essa aproximacao podé favorecer
o diálogo, desfazer preconceitos e barreiras; nunca, porém, deverá redun
dar em relativismo religioso.

Vejamos, por exemplo, o Decreto sobre o Ecumenismo do Concilio


do Vaticano II:

"No diálogo com os irmaos, é absolutamente necessário que a doutri


na inteira se/a lucidamente exposta. Nada é tao alheio ao ecumenismo
quanto aquele falso irenismo, pelo qual a pureza da doutrina católica sofre
detrimento e seu sentido genuino e certo é obscurecido" (n? 11).

O relativismo ou as concessSes mutuas podem ter lugar entre parti


dos políticos ou instituigoes meramente humanas, pois nenhuma délas tem
a garantía da inerrancia. Diferente, porém, é o caso da fé; esta resulta da
adesSo á Palavra de Deus, que é ¡ntocável e escapa as conveniencias hu
manas.

NSo há dúvida, em todos os seres humanos existe o mesmo senso re


ligioso ¡nato, pois o homem é sapiens e religiosus. Isto explica a conver
gencia das diversas correntes religiosas em manifestares idénticas: a ora-
cao com seus gestos, o recolhimento, o culto a Deus, a ascese, urna ética
condigna. . . Todavia, além da base comum, toda Religiao tem seu Credo
próprio:a respeitode Deus, há quem diga que é urna Forca Neutra que mo-
ve o universo,. . . há quem diga que é o próprio mundo e o homem,... há
quem diga que é o Criador distinto do mundo e do homem.. .A respe ito
da salvacio, há quem julgue que o homem mesmo se salva por seus esfor
cos em enea macees sucessivas e há quem diga que é Deus quem salva o ho
mem porque Ihe quer bem e se entregou para a salvacao do mundo... Por
isto, cada religiSo é inconfundível; quem a professa, professa-a porque a
tem como verdadeira e certamente na*o quer que a verdade e o erro sejam
colocados no mesmo plano. ' '
0 S.Vadre Joao Paulo II tem dado belo testemunhfo de aproximacao
dos Credos entre si, sem confusa"o religiosa. Um dos mais significativos foi
o Encontró de Assis em 27/10/1986:108 pessoas representantes das gran
des religiSes da humanidade (cristaos, budistas, hindú tetas, maometanos,
judeus, jainistas, chintoístas, sikitas, zoroastrianos, cultores das tradicio-

143
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 382/1994

nais crencas da África e da América) passaram um dia em oracao e jejum,


na qualidade de peregrinos, que pediam a Deus a paz para o mundo; cada
grupo, porém, rezou segundo o seu rito, num recinto ou numa cápela pró-
pria.

Com outras palavras: a prática da caridade ou da fraternidade nao po


de empalidecer um valor que Ihe é anterior e que vem a ser luz para toda a
atividade humana: a VERDADE. A caridade cega, n§o iluminada pela ver
dade, nao é auténtica. Seja sempre respeitada a diferenca entre a verdade e
o erro; este respeito nao impede a benevolencia para com todos os no-
mens; ao contrario, exige-a, todavía, sem concessoes ao relativismo reli
gioso.

Vé-se assim que o amor a todos os homens e o desejo de os aproxi


mar entre si nao sao apanágio da LBV. Sao programa também do Catoli
cismo, que, preservando a Verdade, alicerca mais sólidamente o senso de
fraternidade universal. O que favorece a expansa o da LBV é o seu relati
vismo, que na*o chama a atencao de ninguém, visto que, em nossos dias,
sao freqüentes o subjetivismo, o sentimentalismo e o antiintelectualismo
em materia religiosa.

2.2. Fenómenos mediúnicos

A profissao de fé espirita da LBV seja avallada á luz das recentes con-


clusSes da psicología e da parapsicología. Estas verificam que o ser huma
no tem um rico e poderoso inconsciente, suscetível de ser acionado pela
sugestao (explícita ou implícita, auto-sugestao ou hetero-sugestao). Por
conseguinte, a pessoa sensitiva (em linguagem espirita, dir-se-ia: o mé
dium), quando condicionada, pode exercer a percepcao extra-sensorial,
a telepatía, a telecinesia, a telergia, a pantomnésia. .., como se fossem fe
nómenos resultantes de intervencoes do além; na verdade, tais fenómenos,
apresentados como manifestacoes de urna outra humanidade (invisível),
nio sa"o mais do que expressQes do psiquismo do próprio médium. Isto
hoje é claro a quem se dedica ao estudo de tais realidades.
Quanto á reencarnado, já tem sido refutada algumas vezes em PR;
cf. 256/1983, pp. 168ss; 220/1978, pp. 174ss; 230/1979, pp. 66ss. Nao se
baseia em prova alguma; ninguém tem recordacao do que foi em vida ante
rior; por isto, também nao sabe que culpas está expiando na vida presen
te. Além do qué, segundo a lei do karma, quem vive pobre e doente, é pe
cador que está pagando por faltas graves cometidas em encarnacao ante
rior, ao passo que toda pessoa rica e sadia é pessoa virtuosa que está rece-
bendo o premio de suas virtudes...!

Estas poucas considerares evidenciam o despropósitp da Legiao


da Boa Vontade, que nSo resiste ao crivo de raciocinio sereno e objetivo.
Estévao Bettencourt O.S.B.

144
PARA O NOVO ANO LETIVO:

Que livros adotar para os Cursos de Teologia e Liturgia?


A "Lumen Christi" oferece as seguintes obras:

1. RIQUEZAS DA MENSAGEM CRISTA (2a ed.), por Dom Cario Folch Gomes
O.S.B. Teólogo conceituado, autor de um tratado completo de Teologia Dogmática,
comentando o Credo do Povo de Deus, promulgado pelo Papa Paulo VI. Um alen
tado volume de 700 p., best-seller de nossas Edicoes — CrS 9.800,00

2. O MISTERIO DO DEUS VIVO. P. Patfoort O.P. 0 Autor for examinador de D. Ci


rilo para a conquista da láurea de Doutor em Teologia no Instituto Pontificio Santo
Tomás de Aquino em Roma. Para Professores e Alunos de Teologia, é um Tratado
de "Deus Uno e Trino", de orientacSo tomista e de índole didática. 230 p.
CrS 5.500,00

3. LITURGIA PARA O POVO DE DEUS, (4?ed., 1988), pelo Salesiano Don Cario
Fiore, traduclo de D. Hildebrando P. Martins OSB. Edicáo ampliada e atualizada,
apresenta em linguagem simples toda a doutrina da Constituidlo Litúrgica do Vat.
II. E um breve manual para uso de Seminarios, Noviciados, Colegios, Grupos de re-
flexao. Retiros etc., 216 p 'CrS 2.500,00
4. QUADROS MURÁIS, Formato grande. Para aulas, círculos, portas de Igreja e sa-
I Oes Paroquiais. Em cores
1-ESTRUTURAGERALDAMISSA ■. . CrS 1 500 00
2-0 ANO LITÚRGICO CrS 2.000*00
5. 3? Edicao de: DIALOGO ECUMÉNICO, Temas controvertidos.
Seu Autor, D. Estévao Bettencourt, considera os principáis pontos da clássica con
troversia, entre Católicos e Protestantes, procurando mostrar que a discussao no
plano teológico perdeu muito de sua razáo de ser, pois, n3o raro, versa mais sobre
palavras do que sobre conceitos ou proposicoes - 380 páginas.
SUMARIO: 1. O catálogo bíblico: livros canónicos e livros apócrifos - 2. Somente
a Escritura? 3. Somente a fé? Nao as obras? 4. A SS. Trindade, Fórmula paga?
5. O primado de Pedro - 6. Eucaristía: Sacrificio e Sacramento. 7 — A Confissao
dos pecados - 8. O Purgatorio - 9. As indulgencias - 10. Maria, Virgem e Mae
- 11. Jesús teve irmaos? 12. O Culto aos Santos - 13. E as imagens sagradas? -
14. Alterado o Decálogo - 15. Sábado ou Domingo? - 16.666 (Ap. 13.18) -
17. Vocé sabe quando? - 18. Seita e Espirito Sectario - 19. Apéndice geral -
304 págs CrS 5.600,00

* Precos sujeitos a alteracSo

Pedidos somente pelo Reembolso Postal

RENOVÉ QUANTO ANTES SUA ASSINATURA DE PR PARA 1994:


CRS 6.000,00
(PARA PAGAMENTO, VEJA 2? CAPA).

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS": de 1993:


Encademado em percalina, 590 págs. com índice.
CR$ 14.000,00
Pedido pelo Reembolso Postal.
OMOSTEjRO

DESÁOBENTO

DO RIO DE JANEIRO

1590- 1990

Em Comemoragao do IV Centenario de sua Fundagao

440 páginas (30 x 23) de urna obra ricamente policromada


Texto histórico documentado por D. Mateus Rocha OSB
É a crónica corrida e compacta da construcao do Mosteiro, da sua
¡greja e das obras de arte nele contidas. Resume as mais diversas contri-
buicoes que, durante séculos, formaram o patrimonio da Ordem Benediti-
na na provincia do Rio de Janeiro.

Palavras do renomado arquiteto Lucio Costa:

"Esse mosteiro — este monumento - é, sem dúvida, a áncora da ci-


dade do Rio de Janeiro. - Em boa hora o intelectual e fotógrafo Humber
to Moraes Franceschi que já nos deu a obra-prima "O Oficio da Prata",
resolveu fazer, com o pleno apoio do engenheiro-Abade D. Inácio Barbosa
Accioly (falecido a 26 de maio de 1992) - ¡mpecável dono da casa - este
definitivo inventario visual, velho sonho de D. Clemente da Silva Nigra."

Da mas/na obra, álbum com 110 pigs. (30 x 23) somente sobre a IGREJA DE SAO
BENTO, em 5 voluntes separados ñas li'nguas portuguesa, espanhola, francesa, inglesa
e alemS.

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