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A JUSTIÇA E A PAZ NO DARFUR

O espaço era pequeno demais para tanta gente. A mesa do balcão ficou
literalmente escondida. É a loja de tudo e de todos. Os clientes vão
percorrendo, com os olhos, as prateleiras cheias de tudo. Ouço a simpatia
de alguém ao meu lado: maalesh, ya khauaja (desculpa lá, estrangeiro).

- “Tens cá daquilo que eu quero?” – gritou alguém amigo de confiança, a


brincar com o homem do balcão invisível. A resposta decidida ouviu-se: “já
sabes, Mohammad, que podes escolher à vontade e, o que não há hoje,
chegará bucra, in cha Allah – amanhã, se Deus quiser”.

Depois de uma breve pausa, a mesma voz: “ Mas se procuras salam (paz)
não a encontras aqui, agora, nem sei se realmente chegará amanhã. Está
pedida e encomendada por muita gente no mundo inteiro mas, infelizmente,
ainda não chegou”.

De repente, silêncio. Um militar da segurança do governo acabava de entrar


e procurava abrir caminho. De kalashnikov ao ombro, olhou,
apressadamente, as prateleiras mais altas. Não perguntou preços. Foi uma
questão de segundos. Apenas ele saíra, alguém nos tranquilizou:

- “Daquele ali, não há nada que temer. Empregado no exército, vai matando
o tempo, fingindo cumprir ordens. Ainda não arranjou coragem para
desertar e ganhar o pão de outro modo...”

Na tarde desse mesmo dia, na volta da visita ao centro católico de Taiba,


uma voz se intrometeu no meu caminho: “Salam, ya khauaja. Tiveste medo
esta manhã, lá na loja? Infelizmente temos conterrâneos que nos atraiçoam
por um pedaço de pão mal ganho. Hoje tenho a oportunidade de te dizer
que aprecio e louvo a qualidade do vosso trabalho das ONG”.

- “É verdade que sou estrangeiro, mas não sou empregado de nenhuma


ONG.”

- “Bem, se és egípcio e tens algum posto na ONU/UNAMID, entras na mesma


classificação”.

- “Também não pertenço à ONU. Nem tão pouco uso capacete ou boina azul
da UNAMID”.

O homem da Jalabia branca tomou-me por brincalhão e ficou-se por ali.


Quando lhe disse que sou padre na Igreja Católica, ele concluiu:

- “Então, está tudo dito. Independentemente da vossa fé cristã – essa é lá


convosco – conheço, de perto, o vosso trabalho e esforço no que respeita o
sector da educação e de bem-fazer. Eu mesmo, trabalhei na construção da
igreja de Kosti e lidei com muitos dos teus colegas. Sou muçulmano, como
sempre fui, mas sinto-me bem convoco”.

Feliz da Costa Martins


12 de Novembro 2008

Nyala