Universidade de São Paulo - Escola de Artes Ciências e Humanidades

Resenha do longa-metragem “Quanto vale ou é por quilo?” Por Letícia Nery de Figueiredo

O filme “Quanto vale ou é por quilo?”, produção brasileira de 2005, com direção de Sérgio Bianchi, retrata a exploração humana, a angústia, a morte e a servidão, por meio de analogias entre o período escravocrata e o contemporâneo, criticando arduamente o terceiro setor. Em uma narrativa não linear, se utiliza de pontes para demonstrar como o uso da miséria para obtenção do lucro perpassa os séculos e se mascara hoje por uma falsa solidariedade, explicitada pelo marketing social. Sérgio Bianchi nasceu em Ponta Grossa em 1945, em uma família de fotógrafos. Estudou cinema em Curitiba e posteriormente na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, e ficou conhecido desde suas primeiras obras por seu criticismo ferrenho com denúncias das mazelas da sociedade brasileira. Neste longa-metragem o diretor se utiliza de um conto de Machado de Assis, “Pai contra Mãe”, que se passa no período imperial e no qual um “capitão do mato” caça escravos fugidos para garantir a sobrevivência de sua família, para então criar o universo de Candinho, personagem que representa, no século XVII, um caçador de escravos que captura os seus para oferecer condições à familia e, na atualidade, um moço recém-casado, desempregado e com um filho pequeno, com destino igual nos dois feches de tempo. Faltava ainda criar o universo de Arminda, que ganhou com os roteiristas, papel de escrava fugida, grávida, caçada por esse mesmo capitão-do- mato e entregue de novo a seu “proprietário”, momento em que aborta o filho que esperava, e Arminda da atualidade, moradora de uma comunidade carente, e que trabalha em um projeto de uma ONG, “Informática na Periferia”, que descobre ser corrupto, com computadores superfaturados. O filme apresenta dados do século XVII do Arquivo Nacional, e cria suas narrativas partindo destes. Logo de início apresenta uma situação intrigante, com dois proprietários de escravos, um branco e uma negra alforriada, esta tendo um de seus escravos roubado pelo primeiro, e ao buscar os meio judiciais para garantir seus direitos, acreditando na força coletiva para garantir os direitos do cidadão, e lutando por sua propriedade, que no caso é outro negro, descobre que apesar de formalmente livre não é uma cidadã com plenos direitos, e é condenada por “perturbar a ordem”. Fato verídico que mostra a justiça a favor do poder de uma minoria em que foi assentada a democracia brasileira, e a vontade dos pobres seguirem o modelo comportamental da elite, como uma suposta forma de inserção social, antecipação de outros momentos semelhantes do longa.

passando-a a uma menina negra que supostamente cuidava como “da família”. e a criação de uma imagem que deverá atender a expectativa dos possíveis doadores e servir como um alívio para a mente elitista da socialite. A situação nova aí. Um sistema “equalizador” na massificação da cultura ocidental consumista que impõem. onde os antes escravos trazidos para trabalhar de graça são agora escravos sem dono. O Filme faz uma interessante análise ao comparar o sistema prisional a um navio negreiro. Empresários. onde é apresentado pela primeira vez no filme o discurso do marketing social. Em outra situação nos são apresentadas Noêmia e Mônica. Passa-se ao escritório de uma empresa especializada em negócios sociais. mais uma questão para discussão: a transformação do cidadão em mero consumidor pelo sistema capitalista. o jovem Candinho luta para manter esses desejos de consumo de sua família. mendigos. políticos.que se pode observar através dos abusos cometidos pela polícia-. para pagar sua dívida. desempregados. laranjas. a segunda.que no filme é representada pela construção de presídios que gerariam movimentação na economia. temse em cena o sofrimento e a angústia dos olhos de uma escrava no Tronco. É Noêmia que proporciona a tão desejada festa. e não sendo possível devido ao desemprego. personagens e épocas em que é possível visualizar a manutenção histórica da desigualdade e de sua exploração visando ao lucro. Essa passagem incita a reflexão dos diversos tipos de exploração presentes na sociedade. é que Mônica “terceiriza” sua dívida. No longa-metragem. ao que mais tarde. O filme explora variadas situações. a mercantilização da ação estatal. e “o que vale é ter liberdade para consumir”.Partindo à narração dos instrumentos para manter a submissão dos negros e castigá-los. nas oportunidades que oferece. a ausência do Estado. presos. todos estão em uma teia de relações. o enriquecimento ilícito do terceiro setor. fazendo paralelo novamente com um fato do arquivo nacional. Tocando nesse ponto. não sem propor um acordo em que Mônica trabalharia um ano para lhe pagar. e ao mesmo tempo desigual. os de Arminda. em que se discute a transformação da questão social em negócio. e objetiva fazer uma festa de casamento para os dois. em que uma escrava para conseguir sua alforria fez um acordo em que trabalharia um ano. trabalhadores. crianças. que acordam de um pesadelo na atualidade. e é tia da futura esposa de Candinho. depois estendidos a três. e o ideal burguês de felicidade que julga estar contribuindo socialmente com doações e assistencialismo à camada miserável da população. a primeira é representação do trabalho em marketing social. sua sobrinha confirma lendo uma revista e sonhando em ter objetos de consumo que a fariam “melhor”. a corrupção. representação do ideal burguês de “ter para ser”. é empregada de Noêmia que sonha em ter um negócio social próprio. Em uma ampla rede de denúncias e críticas “Quanto vale ou é por quilo?” apresenta diversos aspectos paradigmáticos da sociedade brasileira que realmente levam o espectador a uma profunda reflexão e angústia. entre classes e dentro da mesma. os mesmos olhos angustiados e ansiosos por justiça que movem a trama. é importante apresentar a crítica do longa com respeito ao valor pago pelo Estado para manter seu sistema prisional sob a negação de direitos humanos. torna-se um matador de aluguel de . ou a prática irregular deste. responsável pela transformação da miséria a um produto a ser vendido.

No fim. O filme acaba. mas a angústia e a contestação continuam. que nunca é distribuído chegando aos explorados.pobres da comunidade. Vale a pena assistí-lo. fazendo paralelo ao capitão-do-mato. este jovem mata. máquina que produz dinheiro. (este apresentando. Ao desafiar a classe detentora de poder Arminda se entregou a morte. a respeito do papel do Estado e do terceiro setor que cresce a cada dia. algumas instituições realmente sérias. Arminda. a qual superfaturava. que lutava por justiça e contra a corrupção desta ONG. e as situações abordadas ainda fazem parte da sociedade. . e da exploração de sua condição por empresários e voluntários que alimentam seus bolsos a custa do assistencialismo. desviava verba pública e criava contas-fantasma. “Quanto vale ou é por quilo?” trata excepcionalmente da banalização do ser humano. comentá-lo e sobretudo refletir. devo colocar. moradora da periferia. Surgem diversos questionamentos. apesar das críticas no geral). a mando de um empresário. da sua massificação e negação de direitos. que para garantir a sobrevivência da família caçava os seus.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful