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A História do Historiador

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ISBN: 85-86087-??-?

Tereza Aline Pereira de Queiroz Zilda Márcia Grícoli Iokoi

A História do Historiador

PUBLICAÇÕES FFLCH/USP

1999

Zilda Zilda Maria M. Helena G.br Tel.FileWarez 4 Copyright 1999 da Humanitas/FFLCH/USP QUEIROZ. 1999. 116 p ISBN 85-86.Arquivo Upado por MuriloBauer . Zilda Márcia Gricoli Iokoi. Tereza Aline Pereira A História do Historiador / Tereza Aline Pereira de Queiroz. Milton Meira do Nascimento Coordenação editorial e Diagramação M. Grícoli É proibida a reprodução parcial ou integral. Rodrigues Capa Joceley Vieira de Souza Revisão Autoras / Simone Zaccarias Montagem Charles de Oliveira / Marcelo Domingues .: 818-4593 Editor responsável Prof.Grícoli.087-54-8 1. QUEIROZ. Historiadores I. & IOKOI. Historiografia 3. Tereza Tereza Aline Pereira A. História 2. CDD 901 HUMANITAS PUBLICAÇÕES FFLCH/USP e-mail: editflch@edu. Dr. – São Paulo: Humanitas / FFLCH/USP. Título.usp. sem autorização prévia dos detentores do copyright SERVIÇO DE BIBLIOTECA E DOCUMENTAÇÃO DA FFLCH/USP FICHA CATALOGRÁFICA: MÁRCIA ELISA GARCIA DE GRANDI CRB 3608 Q 42 Queiroz. Iokoi. Zilda Márcia Gricoli II. Pereira de & de IOKOI.

.... 37 As Idades Modernas ...................................................... 53 A Modernidade ............................................................................................. 113 ........................FileWarez 5 SUMÁRIO Introdução ...... 87 Bibliografia .................................................................. 13 As Idades Médias ............................................................................ 7 As Antigüidades .................................................................................Arquivo Upado por MuriloBauer ........................... 69 O Historiador Contemporâneo .

É justamente da tradução dessas histórias através de narrativa coerente.) uma certa realidade que o espírito conheceu através dos olhos e que foi transmitida à memória. o econômico.INTRODUÇÃO 7 INTRODUÇÃO “Quando eu evoco um arco. imbricada com o social. com as estruturas da cultura. todos estão imbuídos de um passado. Passado e memória dão conteúdo. mais ampla. A história de si mesmos é também a história da vinculação com determinado tempo e espaço. de uma memória e de uma história. isso não torna todos os homens historiadores. Embora a individualidade se elabore dentro de uma dinâmica. elaborada a partir de elementos concretos. xi. Por mais isolado que se encontre um grupo. A história pessoal de cada um inevitavelmente terá raízes numa história externa. não ficcionais. 6. identidade e espessura a todos os humanos. uma comunidade ou mesmo um só indivíduo.. com bases .. suscita a visão imaginária. mais difusa. nem sempre perceptível no plano da consciência individual. De Trinitate. IX. (. cheio de beleza e simetria. onde se relacionam o vivido e o concebido.” Agostinho.

incapaz de ser exorcizado” ou seja. ao qual o historiador dará forma para que ele se transforme em história. de uma identificação com um objetivo suprapessoal. nesta condenação do historiador ao presente situa-se a eternidade de um passado que nunca se esgota.8 QUEIROZ. na abordagem. & IOKOI. As relações interpessoais. Pereira de & de IOKOI. ou memorialista.Grícoli. Neste sentido a memória é documento e não produto final. criando uma imagem do passado. teria sido escrita por Heródoto e ponto final. por exemplo. que se ocupará o historiador. foi impossível caracterizar a heroicidade isoladamente. espaço e a expressão dos grupos humanos. Assim como o conteúdo da história não é o indivíduo isolado. não será ele o objeto principal do historiador. o exercício do poder de uns sobre os outros. Mesmo em períodos onde se privilegiou uma história de heróis. o herói sempre precisou de um momento adequado para demonstrar sua habilidade e. no processo de reflexão convertido em texto. . QUEIROZ. Zilda Zilda Maria M. na leitura da documentação. Tereza Tereza Aline Pereira A. de pertencer ou se projetar num determinado grupo social. Apesar de o indivíduo existir na história. a construção mental e física do mundo. Grícoli num múltiplo e complexo inter-relacionamento entre tempo. Paradoxalmente. os encontros entre diferentes estão na base daquilo que Virginia Woolf definia como “fantasma imenso e coletivo. o historiador busca no passado a consciência de seu próprio tempo. a história da Grécia. No entanto. tampouco o historiador expressará uma subjetividade ilimitada na sua captação do passado. Nos limites entre a “consciência possível” e a “consciência real” próprias e de seu tempo. principalmente. Pelo simples fato de participar de um passado realizado no presente. Caso contrário. com um grupo e com idéias por este concebidas. o passado. O historiador não será guardião da memória individual. cada século reelaborou a história grega dentro de suas perspectivas e possibilidades. mas aquele que ao indagar capta o sentido da construção de uma memória social no tempo. seu trabalho expressará uma historicidade intrínseca na escolha de temas.

No Egito. que é eterna. tendo em vista as mais variadas preocupações e múltiplas percepções de tempo.. é desigual e particular a cada sociedade. fora da divindade. Com isto acrescenta uma noção de tempo diversa daquela vivida pelas comunidades. é possível a uma sociedade conceber o mundo sem passado. O historiador. dado que cada uma estabelecera uma cronologia a partir das listas de dignatários que a cada ano as governavam. que introduziu um sistema numérico estabelecendo uma correlação entre as crônicas das diversas cidades-estados. a cada momento e a cada espaço. um tempo contínuo. de estruturas. foi Timeu da Sicília. refletir. Pessoas com os mais diferentes perfis e formações desempenharam funções de destrinchar. sem fraturas. diante da necessidade de organizar seu pensamento. organiza esse tempo em função de fatos. de ciclos.INTRODUÇÃO 9 Devemos considerar também que nem sempre o termo historiador foi utilizado para identificar aquele que se ocupa do passado. há deuses que significam o próprio tempo. É físico e metafísico. no século IV a. . num eterno presente em que passado e futuro se fundem.C. na antigüidade. predomina então uma idéia do não-tempo divino que interpenetra o cotidiano. Na cultura do cristianismo. pode ter uma predominante qualitativa ou quantitativa. na China. O tempo jamais é único no estudo da história. forjadora de uma forte estrutura conceptiva no ocidente. No século V. Tampouco existiu uma profissão ou uma carreira de historiador em todos os tempos e todas as sociedades. em Aztlán. Dependendo de suas crenças. cria medidas e categorias de tempo. o tempo existe na esfera do humano. por exemplo. sem imperfeito ou mais-que-perfeito. ocorre o inverso. seu entendimento. na Índia. falar ou escrever sobre o passado. de épocas. Pode até mesmo não existir.

a ênfase recairá no processo de aperfeiçoamento do mundo até atingir seu ponto culminante representado por seu próprio fim. criando o espaço e o tempo simultaneamente. Grícoli Santo Agostinho atribuiria ainda ao tempo cristão uma nuance psicológica. Na visão linear. assim. Se baseada no eterno retorno. como uma cobra mordendo seu próprio rabo. com um início. QUEIROZ. de propósito divino. ou linear. Zilda Zilda Maria M. Em virtude da crença numa determinada idéia do tempo – cíclico. como o ritmo das estações. exatamente como os astecas haviam concebido o deus Omotéotl. com os quatro Tetzcatlipocas nos quatro cantos do espaço. na idéia de nascimento. meio e fim assegurados. como a areia da ampulheta – o narrador da história buscará seus conteúdos e o próprio espírito da narrativa de maneiras diversas. dois fatos simultâneos podem ser vistos tanto simultaneamente como numa seqüência temporal. com a percepção de Albert Einstein de que as indicações de tempo eram sempre relativas à posição do observador. o tempo comum é passageiro e sem sentido e cessará no momento em que a alma se unir com Deus – o fora do tempo. & IOKOI. Pereira de & de IOKOI. que evocaria “a manifestação do processo absoluto do Espírito em seus mais elevados aspectos: a marcha gradual através da qual a humanidade atingiria sua verdade e tomaria consciência de . desintegração e renascimento.10 QUEIROZ. o presente torna-se uma experiência na alma. pois conhecendo o passado descortina-se um futuro sem surpresas. Para Einstein espaço e tempo formam um contínuo quadridimensional. num outro plano de conjectura. excluindo a noção de ruptura. Tereza Tereza Aline Pereira A. o futuro existe como expectativa psíquica. a esta concepção liga-se uma idéia intrínseca de progresso. como um rio que flui. judaico-cristã por excelência. Em 1830. A noção personalizada do tempo de Agostinho coincide. o passado é uma imagem memorial da alma. de progressão contínua. Hegel propõe a seus alunos a construção de uma história filosófica plena de necessidade.Grícoli. no cíclico. por exemplo. a história assume o papel de mestra. de totalização e de finalidade.

camponeses. na série necessária de sua sucessão definidas apenas como momentos do único Espírito universal: graças aos homens. constituiriam as configurações desta marcha gradual (. as descontinuidades. Estas diferenças. com as características determinadas de suas éticas coletivas.. dessa individualidade relacionada com o todo. de sua ciência.INTRODUÇÃO 11 si. de sua constituição.) Os princípios dos espíritos dos povos (Volksgeist). estão na base deste trabalho. de sua religião. de culturas hegemônicas. Ele se eleva na história a uma totalidade transparente a si mesma e traz a conclusão. as ideologias do poder religioso que muitas vezes emprestaram suas estratégias para o poder temporal. Para ele. Observaremos quão útil pode ser o passado na criação de mitos destinados à mobilização de povos para a guerra e a conquista. que por vezes só travestem a própria continuidade. índios.” Nada mais distante da prática histórica das últimas décadas do século XX. nos auxilia a . descontinuidades e descompassos. mas também de um senso de libertação e justiça através do conhecimento e da consciência de um estar no mundo eivado pela dinâmica do passado. crianças. incapacitados. que leva em conta diferenças. doentes –. escravos. Também a análise da vida pessoal. à criação das nações e nacionalidades. A partir de uma pré-história da história na antigüidade grega e romana até a contemporaneidade observaremos quão variável foi o papel da história e do historiador nas sociedades. e dos móveis particulares que guiam os historiadores mencionados no corpo do trabalho.. No interior do discurso histórico poderemos perceber as injunções do poder na escolha dos temas evocados. de despotismos e imperialismos. os povos históricos. de sua arte. mulheres. a ausência quase total ou a detratação e estigmatização dos elementos que não partilhavam desse poder – artesãos. desocupados. uma análise suscinta das idéias que nortearam as diversas construções do passado elaboradas pelos historiadores no ocidente.

sobretudo.12 QUEIROZ.Grícoli. Pereira de & de IOKOI. . Tereza Tereza Aline Pereira A. Grícoli vislumbrar a importância maior ou menor desta especialização do saber nos diferentes tempos e espaços. bem como suas funções ideológicas. Mas. QUEIROZ. Zilda Zilda Maria M. a enunciar uma história dos historiadores. & IOKOI. políticas e culturais.

Hoje em dia. na África. ainda podiam ser vistos poetas . ainda encontramos comunidades onde os velhos detêm a memória de acontecimentos ocorridos no século XV ou mesmo antes. rituais... há poucas décadas. a “literatura”. a “geometria”.” Sacerdote egípcio falando com Solon. para um sentido de enraizamento. cerâmicos etc. pinturas. Estas narrativas tinham uma ligação profunda também com o não verbal. a “religião” ou os afazeres cotidianos da vida. danças..AS ANTIGÜIDADES 13 AS ANTIGÜIDADES “Vocês gregos são apenas crianças. que nada sabem do passado. A sofisticação intrínseca à construção dos passados míticos é enorme. certezas e temores. elementos arquitetônicos. na Albânia. as cosmogonias. contribuía com medidas e parâmetros. O passado. A memória coletiva dos ancestrais era narrada por homens sábios para toda a coletividade. primordial. quase nunca interpretado com o distanciamento próprio à racionalidade ocidental. inseriam-se numa totalidade sem distinções entre a “história”. Antes da história havia as lendas. de identidade dos grupos. falantes e vãs. padrões téxteis. A importância dos narradores na sociedade.

Sócrates lamenta a expansão do texto escrito e da leitura. não é de imediato aceita sem resistências. No Phaedrus de Platão (428 a.) declara no início de suas Histórias – este título. Deus criou o céu e a terra.C. abrandar os lapsos entre duas ações consecutivas.. narravam epopéias evocativas de uma tradição homérica. quando gregos cultos se lembram do tempo em que a história era preservada pela memória do povo. quando a terra não havia nascido. . 484 a.14 QUEIROZ. humano-divino.C. A relação interno-externo. é posterior.395). direito-esquerdo. Ago- . 470 . QUEIROZ. Grícoli que. . portanto.C. as noções de memória.Grícoli.”. & IOKOI. seqüência de acontecimentos e confrontação entre opostos como apresentadas pela tradição mítica. Estão aí presentes. Pereira de & de IOKOI.).. Esta história escrita. quando os deuses não haviam sido concebidos. da detecção dos momentos de mudança. que fariam esmorecer a memória e suas faculdades críticas.348 a. cheio-vazio. serão algumas das formas da mitologia adotadas pelo discurso histórico escrito.425 a. que tendem a horizontalizar um discurso. de vilarejo a vilarejo. quando a morte não havia nascido. principalmente as razões de terem entrado em conflito. Heródoto (c. da vontade de preservação dos diferenciais.C. da seqüência de atos. pois na época as obras não vinham com denominação – seu desejo de expor suas pesquisas (historíé) para impedir que os feitos de gregos e bárbaros se apagassem da memória. a relação entre opostos norteia as narrativas míticas. Zilda Zilda Maria M. do antes para o depois. A nostalgia da tradição oral pode ser sentida na época de Tucídides (c. quando o homem não havia nascido. estabelecer laços. portanto. mesmo entre as elites e os intelectuais. alto-baixo. Tereza Tereza Aline Pereira A. a terra era informe e vazia.c. identidade. aliás. mas que encontramos no texto de uma pirâmide egípcia: “quando o céu não havia nascido. mas antes dela deveria existir o grande vazio sobre o qual a Bíblia nada fala. A idéia do vazio para o cheio. Assim. no entanto.

Por outro lado. privilegiará uma elite alfabetizada. para não falar dos judeus.C. o historiador judeu Josephus ironizava a crença de que os mais antigos fatos estariam ligados aos gregos e que estes fossem a única fonte da verdade. centrados no mundo da ação. caldeus e fenícios. Após suas viagens pelo Egito e Pérsia. público alvo desta nova memória. aberta a contactos muito diversos. na verdade. como a judaica. O Pentateuco data de c.). portanto.). . sua origem e natureza.480 a. “de ontem ou ante-ontem” e que a idéia de compilar histórias era ainda mais recente. considerava que a história grega era muito recente. num momento que corresponde também a uma mudança de atitude nas indagações e explicações sobre o mundo. Este processo de separação do mito e do fato concreto é semelhante àquele ocorrido no âmbito da passagem do pensamento mítico à razão e à construção da pessoa. como analisa Jean Pierre Vernant em Mito e pensamento entre os gregos. teriam preservado a memória das tradições mais anti- . no entanto.AS ANTIGÜIDADES 15 ra.C. nas Genealogias de Hecateu de Mileto (c. 900 a. O aristocrata Hecateu cresce durante os primeiros tempos da ocupação persa (a partir de 546 a. Hecateu chega à conclusão de que as tradições históricas vigentes na Grécia tinham algo de ridículo e deveriam ser discutidas. é relativamente tardio quando comparado com o de outras culturas. esta nova história escrita.C. 540 a. Mileto era um dos maiores centros comerciais internacionais na época e. ao implicar uma desconfiança frente à memória e à oralidade comum. a um ensaio de afastamento em relação às tradições legendárias e mitológicas pela chamada escola jônica de filósofos. já fora concebida antes de Heródoto. O registro escrito grego.C. no entanto. Situada na costa da Ásia Menor. Por volta do ano 80. diz ainda que os próprios gregos estavam cientes de que os egípcios. separando as esferas do sagrado e do profano. Esta tentativa de distinção. com pouca ênfase ou nenhuma nas correspondências entre universo e humanidade.

parece ter sido criado na época helenística.C. Josephus argumentava também que os gregos não tinham um sentido do passado enraizado e que um acontecimento como a guerra de Tróia (c. Pereira de & de IOKOI. de dependência em relação a uma autoridade. QUEIROZ. perdoado. entre o fim das guerras médicas e o início da guerra do Peloponeso. Este formato. & IOKOI. Heródoto foi tripudiado. As informações de que dispomos são indiretas e por vezes tidas como fictícias. louvado. Num estudo publicado em 1980 sobre a representação do outro na obra de Heródoto – a questão do outro é fundamental na historiografia da segunda metade do século XX. Viveu numa época atormentada. conheceu a região do mar Negro. Parece ter vivido algum tempo em Atenas. é a figura de Heródoto que assombra o imaginário dos historiadores de todas as épocas.. Zilda Zilda Maria M. ao transformá-lo em “pai da história”.Grícoli.16 QUEIROZ. Nascido em Halicarnasso por volta de 480 a.C. Muito pouco sabemos sobre Heródoto. viajou pelo Oriente Médio.). Em vista disso. com eqüidade. 1250 a. Hoje em dia conhecemos as Histórias de Heródoto divididas em nove livros – cada um correspondendo a uma musa. acusado de mentiroso. imitado. Apesar de não ser o primeiro e nem o único.C) era considerado legendário e não histórico. Tereza Tereza Aline Pereira A. Foi exilado em Samos. como você verá mais adiante – o historiador francês François Hartog considera que a associação das narrativas das Histórias com as musas demonstraria que a obra deveria então ser vista em . mas segundo tradições diversas teria morrido em Thourioi. protegido. tornou-se cidadão de Thourioi na Itália do sul. . tratado com condescendência. a Grécia continental e a Itália do sul. no entanto. mas inevitavelmente acabou por estar sempre presente numa espécie de raiz de uma árvore genealógica fantasmagórica dos historiadores. ou em Pella na Macedonia ou em Atenas mesmo.43 a. Grícoli gas.C. O republicano Cícero (106 a. acabou por despertar em todos um sentido de filiação. sobretudo no Egito.

.AS ANTIGÜIDADES 17 proximidade com a poesia e a ficcão. Plutarco (c. a maneira como o povo egípcio. pois o Heródoto historiador durante muito tempo foi associado a esta parte da obra. esculturas. classificar e medir costumes. 125) reitera as acusações de falsidade e acusa ainda Heródoto de philobárbaros – admirador dos bárbaros – e traidor da Grécia. com a experiência visual obtida nas viagens ao observar. em 1768. . A escrita da história nascia então sob o signo da guerra. líbios. O mesmo sentimento surge num comentário de Voltaire. eu nada falarei sobre isso”. persas. Registra depoimentos conflitantes. edifícios. portanto mentirosa. egípcios. rios. Com fontes orais ao interrogar pessoas com quem se encontrava. eu os conheço. mares.46-49 . Voltaire une duas tradições contraditórias. indica o que prefere e deixa ao leitor sua escolha final. Mais tarde. que não acreditava na possibilidade de se escrever uma história do passado. A tradição de que a obra de Heródoto é fabulosa. em que Heródoto é louvado pela novidade de seu empreendimento e sobretudo por suas fábulas. não hesita em transcrevê-las. Heródoto trabalhou com um material diverso e enorme. via seu próprio passado. por exemplo. babilônios. de um lado reforça o mito fundador de Heródoto como modelo dos historiadores e de outro aponta para o caráter ficcional da obra. santuários. monumentos. mesmo próximo.c. massagetas. reporta-se a Tucídides. enquanto que os demais narram principalmente as guerras médicas. Os primeiros quatro livros das Histórias falam dos não gregos – lídios. Mostra-se discreto em relação a mistérios religiosos – “sobre a metempsicose há gregos (os pitagóricos) que defendem certas idéias. caminhos – ver com os próprios olhos era então considerado mais importante do que o ouvir com os próprios ouvidos – e também com textos e inscrições. etc. Embora desconfie de muitas de suas informações. Documenta as crenças populares. citas. em contraponto com o Heródoto viajante – dicotomia hoje superada pela semântica histórica.

não pode ser considerado como um tradutor oficial deste poder. Por outro lado. nunca trabalhou para o governo e não poupa críticas aos próprios atenienses. crônicas locais e inscrições.18 QUEIROZ. Grícoli A história grega é construída com testemunhos orais. a segunda quando ainda era criança. deveria oscilar entre estória e história. é confusa. Quanto ao espaço. ainda sem muita definição. QUEIROZ. embora discutíveis. Apesar de ter sido apontado como um instrumento de propaganda do poder de Atenas.Grícoli. A vontade dos poderosos aparece como uma determinante na engrenagem da história. Heródoto faz da Grécia o centro do mundo em relação às outras terras. passa por vezes abruptamente de uma série de acontecimentos para outra. que não é um cita etc. Pereira de & de IOKOI. Algumas fontes. atestam o êxito e a popularidade da obra lida em Atenas. A geografia é fundamental para toda a obra. Heródoto acredita nos oráculos. A história nascia também sob o signo da prosa. ao descrever os usos e costumes de cada país. . reforça a idéia da diferenciação entre o grego e o bárbaro. A cronologia geral da obra. Nesse sentido também. no entanto. No todo. A história. daí frases como “o Egito é a dádiva do Nilo” etc. Por se tratar de uma obra que iria também ser lida para o público aparecia como uma grande novidade. Tebas e Olímpia. indo e voltando no tempo. Tereza Tereza Aline Pereira A. O modelo épico ainda se encontra na base da narrativa e o historiador ainda não existe como profissão. as formas de poder dos não gregos. um egípcio não é um persa. ao mesmo tempo em que diferencia um bárbaro de outro. A primeira invasão da Grécia pelos persas ocorrera pouco antes de Heródoto nascer. Há até mesmo uma anedota em que Tucídides ainda criança acaba chorando de emoção ao ouvir Heródoto. nos presságios. é tolerante em relação às diferenças. & IOKOI. não consegue apreender claramente as transformações advindas com o tempo na história dos povos. Corinto. mas o Destino prevalece sobre tudo e sobre todos. grandes deslocamentos marcam as Histórias. Zilda Zilda Maria M.

AS ANTIGÜIDADES 19 Tradicionalmente considera-se Tucídides (c. Para escapar à pena de morte. A obra não foi acabada. o século XIX tornar-se-á o século da história positivista.C. a atual divisão em oito livros tampouco corresponde à composição original.395 a.C.. Tucídides detesta o passado. entre modos de vida irrenconciliáveis. . Tucídides considera esta guerra a mais importante de toda a história. objetivo e científico. da história somente do passado que será considerado um grande modelo a ser seguido. não cronológica.. Nascido num meio aristocrático. Voltou a Atenas em 404 a. Comandou uma expedição naval de Atenas na Trácia. dos sofistas Gorgias e Antiphon. É o historiador do presente e da Grécia. Não utiliza nenhuma data. talvez assassinado por seus inimigos políticos. como Heródoto. onde sua família explorava minas de ouro.C.c. Foi eleito estratego em 424 a. Paradoxalmente. foi acusado de traição. A História da guerra do Peloponeso – a luta entre Esparta e Atenas – cobre o período do início da guerra (431 a. Enxergava nela um embate direto entre sistemas políticos e desempenhos políticos. Para ele os gregos antigos deveriam viver como os bárbaros seus contemporâneos. o que torna o conhecimento do passado grego e do bárbaro inúteis. como não pôde impedir a tomada de Amphipolis pelo espartano Brasidas.470 . morrendo logo depois. O passado e o mundo além de suas fronteiras lhe parecem completamente destituídos de interesse. mesmo diante das guerras persas ou da guerra de Tróia.) como o sucessor de Heródoto. mas.C. provavelmente foi aluno de Anaxágoras. tentando superar a confusão causada pelos diferentes calendários das cidades gregas. refugiou-se durante vinte anos na Trácia.C. por ocasião da anistia imposta pelos espartanos. O artifício cronológico usado por Tucídides é o da divisão da ação em invernos e verões.) até 411 a. com a queda dos 400. O tempo é construído de uma maneira lógica.

a história tenderá a se repetir. o filósofo Thomas Hobbes (15881679). de adorar algumas personagens. tendo em vista a imutabilidade da natureza humana. A moral guia a vida privada. Considera que os fatos ocorrem em virtude dos interesses e das paixões dos homens. tenta revelar as razões e a psicologia das partes envolvidas no conflito entre atenienses e espartanos e. Tereza Tereza Aline Pereira A. queria uma história sem estórias. de um curso da história. descarta totalmente a idéia de destino. diante da documentação. útil para aqueles “que queiram entender claramente os acontecimentos que tiveram lugar no passado e que (a natureza humana sendo o que é) mais dia menos dia. com um estrito encadeamento de fatos políticos e militares. & IOKOI. Ecos de Tucídides permeiam as obras de Machiavel e de Nietszche. serão repetidos no futuro. Utiliza discursos para expor opiniões contraditórias e antíteses como a do interesse e do direito.20 QUEIROZ. não somente versões múltiplas dos fatos. execrar outras.Grícoli. quase que da mesma forma. pensador do poder absoluto. não dos Estados. onde a verdade fosse exposta. Grícoli A documentação básica advém de textos transcritos (paz de Nicias). na Sicília e no Peloponeso. pretende ser imparcial. considerava-o “o maior historiógrafo político” jamais visto. das viagens realizadas pelo próprio Tucídides na Itália. Seu objetivo – escrever uma história do presente para o futuro. Num estilo denso e sóbrio. “Assim. Zilda Zilda Maria M. não consegue deixar de imprimir suas próprias idéias filosóficas e preferências políticas no decorrer da narrativa. QUEIROZ. no entanto. Pereira de & de IOKOI. Um dos tradutores de Tucídides. de informantes com os quais mantinha contacto em várias cidades e do testemunho pessoal do autor. . Tucídides considerava que a inteligência seria o único instrumento passível de ser utilizado para o entendimento da história. o que supõe que a natureza humana pode moldar a história. Ao contrário de Heródoto. mas que a história não pode afetar a natureza humana. a vontade de poder atua como força motriz do mundo.

o Jovem para uma expedição contra seu irmão Artaxerxes II. mas o espírito de seus escritos é diverso. instantânea.AS ANTIGÜIDADES 21 Tucídides está do lado de Atenas e Péricles e a história da guerra do Peloponeso é uma obra plena de suas paixões. nunca vacila em defender a causa de Atenas. Xenofonte (c.. A hostilidade à democracia faz com que Xenofonte entre para um exército de mercenários gregos recrutados por Ciro.C. mas segue uma trilha política totalmente diversa. é anistiado e volta para Atenas. no en- .C. Sua vontade era a de ser um continuador de Tucídides. Nas Helenicas estende a narrativa de 411 a 362 a. Como chefe de mercenários lutou ao lado do rei de Esparta. as discussões sobre o direito. Mesmo considerando os argumentos contra a expansão ateniense. contra os persas na Ásia Menor.352 a. Agesilas. a justiça ou a nobreza de exercer seu poder sobre outros. Traduzem o clima de desarvoramento e desintegração política das cidades gregas. retirase numa propriedade doada pelos espartanos. A desintegração progressiva da democracia no século IV e o aumento dos encargos para os ricos fazem com que as críticas ao regime se tornem constantes entre os próprios atenienses. Banido de Atenas e despojado de seu bens acaba lutando contra Tebas e os próprios atenienses. Acredita.C. É um historiador engajado politicamente com limites de tolerância mais estreitos em relação a Heródoto. centrado na natureza humana. Após a derrota de Cunaxa conduziu a retirada dos Dez Mil.. freqüentou os sofistas e foi aluno de Sócrates. aristocrata e rico como Tucídides. Após 394 a.).c. Seu mundo é fechado. portanto. . Prossegue. e desligado da história da natureza. 430 a.C. Tucídides constrói uma história contemporânea perene. imune ao processo histórico e ao exterior. Encara como uma tragédia a deterioração moral do mundo grego em guerra. com a elaboração da história do presente.C. e em Anabase narra a expedição dos Dez Mil. a superioridade de suas instituições e de sua cultura. Por volta de 367 a.

C. diferenças.22 QUEIROZ. ao mesmo tempo em que fala dos estranhos costumes dos povos que conhecera. o que choca o imaginário europeu com sua idealização das virtudes atenienses. pela sua falta de “objetividade”. que os deuses têm um enorme papel no desenrolar dos acontecimentos. De Ctesias. QUEIROZ. companheiro de Alexandre. etnografia. Tereza Tereza Aline Pereira A. Zilda Zilda Maria M. Da época alexandrina restaram narrativas sobre as conquistas e descrições das terras invadidas. Nearco (séc. fluem desveladamente sua parcialidade mas também uma tradução menos intelectualizada da representação do mundo dos que partilhavam do poder. Em geral. Isto se explica pelo seu menor brilho. de sua naturalidade sem retórica. Restam fragmentos de vários autores da época. de inteligência histórica. pelos cavalos. talvez o mais importante historiador do século IV. Pereira de & de IOKOI. sua paixão pela caça. de uma certa desconexão intrínseca ao seu texto. cor local. Grícoli tanto. as cidades gregas integram-se ao império de Alexandre. Com a perda da liberdade. De Teopompo. De Filisto de Siracusa – que se ocupa das cidades gregas do ocidente e da Sicília. Da subjetividade de Xenofonte. protegido de Alexandre. e também uma Indica com relatos fabulosos e descrições de plantas. geografia.Grícoli. & IOKOI. a pretensa objetividade de Tucídides está ausente. para louvar seu senhor Felipe da Macedônia escreveu uma obra caudalosa e barroca de cinqüen- . ausentes na obra de Xenofonte. animais e homens imaginários. descreve a Índia como Heródoto fizera com o Egito. que elabora a história dos impérios assírio e meda e dos reis da Pérsia até 395. Em seus livros chamam atenção seus conhecimentos militares e a tradução do gostos e das preocupações da aristocracia da época.). anedotas. a historiografia o descreve desfavoravelmente em relação a Tucídides. mas talvez também pelo fato de ter tomado o partido de Esparta contra Atenas. IV a. aos reinos de seus sucessores e finalmente ao império romano. que retomam a etnografia de Heródoto. das explicações desconcertantes que atribui aos fatos. plena de espaço.

).C. permaneceu dezesseis anos em Roma como refém. mas de alguém identificado com as idéias hegemônicas de Roma.C. No geral. Restaram os quarenta livros de suas Histórias. mas o líder. Políbio faz a apologia do poder de Roma. Não mais incursões de um homem isolado em mundos diversos. o que se tornaria um tema corrente durante mais de seis séculos.120 a. grego de origem. Viajou pela Itália.. No entanto.. introduzindo assim um elemento pessoal determinante – não mais a guerra. Políbio (c. A louvação a Alexandre transborda nos escritos de historiadores como Calístenes de Olinto. Várias obras que têm por base suas experiências. .” . compreendendo o período de 220 a. como uma sobre a guerra na Numancia e um tratado de tática foram perdidas.AS ANTIGÜIDADES 23 ta e oito livros. Amigo de Scipião Emiliano. é minha intenção de historiador colocar diante dos leitores uma visão geral.C.a fortuna fez todos os assuntos humanos convergirem para um só e mesmo fim. a cidade ou o império. Espanha. 202 a. assim. e acompanhou Scipião em suas campanhas contra Cartago e Numância. pisando num terreno “universal” – “Há analogia entre meu plano da história e o maravilhoso espírito da idade de que me ocupo. e é mais velada nas histórias de Alexandre de Ptolomeu e Aristóbulo.. portanto.. . Suas viagens. Apesar de grego. era um admirador incondicional dos romanos – “que homem seria tão indiferente ou preguiçoso a ponto de não querer saber como e sob que forma de governo quase todo o mundo habitado se submeteu ao governo único dos romanos. Gália. são mui distintas daquelas de Heródoto. até 146 a. conheceu vários políticos e teve acesso a arquivos. mas com referências a épocas anteriores. à superioridade da constituição romana e à capacidade desse povo.. em menos de cinqüenta e três anos ?”. foi um dos primeiros escritores a deplorar a corrupção moral existente em Roma.C. continua prevalecendo o presente como tema historiográfico e de maneira cada vez mais clara e aberta impera o elogio do poder. Sua hegemonia dever-se-ia à moral.

Para termos uma idéia. Nascido em Cheronéia. para explicar o que diz. o historiador deve sempre escolher um começo. Plutarco ocupa um lugar singular pela repercussão que terá durante séculos no ocidente. viajou para Roma.24 QUEIROZ. a organização militar e o poder econômico. mas sim o conjunto das instituições. fundamentada nas experiências política e militar. Estabelece que as causas determinantes dos acontecimentos não são fatos imediatos. da erudição ou da poesia. dado que cada regime seria uma espécie de organismo vivo sujeito às leis biológicas. o individualismo domina –. a concebe como matéria isolada da eloqüência. entre 1450 e 1700. mas já imersos na cultura romana. Para Políbio a história deve ser universal – como o domínio romano –. QUEIROZ. Dividiu a maior parte de seu tempo entre suas funções .Grícoli. Tereza Tereza Aline Pereira A. e também o construtor de uma grande síntese. pragmática – narrando as ações dos estadistas ou chefes militares. Estuda os regimes políticos para situar o regime romano entre os outros e fazer o elogio de sua constituição. suas obras tiveram 62 diferentes edições. lastreada pela geografia e iluminada pela filosofia. Entre os escritores de origem grega. Políbio pretende estabelecer leis que seriam úteis para prever o futuro. por volta do ano 46. onde conheceu políticos e intelectuais. Ao estudar o mecanismo das instituições. Zilda Zilda Maria M. as decisões tomadas por assembléias e as revoluções políticas. Pereira de & de IOKOI. Segundo diz. A força romana era irresistível e seria um crime qualquer rebelião contra ela. nunca a fortuna havia obtido tal triunfo como o do estabelecimento do Império Romano. & IOKOI. porque a verdade deveria prevalecer sobre a forma literária. das religiões. num período recente –. Apesar disso. não deixa de atribuir um papel importante à personalidade dos grandes homens e ao próprio destino. Grícoli Ciente do papel utilitário que a história poderia desempenhar nesta sociedade expansionista. Políbio representa um exemplo acabado de historiador trabalhando para o poder. e para o Egito. na Beócia. A posteridade viu em Políbio uma noção racionalista da história – o pensamento precede a ação. uma causa.

Demóstenes e Cícero. Em relação à história grega haverá mudanças. durante séculos Plutarco serviu de fonte e de inspiração para os historiadores. a história encontrou um terreno favorável. Foi um dos ídolos de Montaigne: “Plutarco. Plutarco é eclético. Grande analista da psicologia humana. animada por um . acreditando na imortalidade da alma. A subserviência ao poder. As vidas paralelas. Morreu por volta do ano 120. eis o meu homem”. centram a história em torno de personalidades e subsidiam o individualismo e a heroicidade presentes durante séculos na historiografia política. um grego e um romano. Apesar de não se considerar historiador – distingue biografia e história –. haverá um deslocamento temporal acentuado para o passado e espacialmente a história do mundo será a história de Roma. o porquê da existência de um rosto na face da lua e muitos outros.AS ANTIGÜIDADES 25 de arconte em Cheronéia e a de sacerdote de Apollo em Delfos. as Vidas paralelas – biografias de homens ilustres organizadas em pares. a moderação e o bom senso. de não ter qualquer gosto pela pesquisa de documentos. ao criarem um quadro moral idealizado dos “grandes homens” como Alexandre e César. A produção biográfica de Plutarco deriva de uma longa tradição de anedotas e de reminiscências mais ou menos históricas que remonta aos tempos de Xenofonte e Platão. Embora os historiadores romanos não sejam menos subjetivos. expresso numa vasta produção. considera como grandes virtudes a piedade. Considerada um genero literário privilegiado. nas práticas divinatórias e na justiça da Providência. que bem retratam o ócio da paz romana. de obter suas informações somente através de livros. Numa sociedade conservadora como a romana. Os remanescentes de seus inúmeros escritos estão reagrupados em duas obras. torna-se uma constante. com exceção de quatro – e as Obras Morais – uma miscelânea de escritos sobre assuntos os mais variados. como o porquê dos velhos lerem melhor de longe do que de perto. moralista. entre outros. ainda tênue na Grécia.

apresenta a conquista romana como um feito do povo romano e não só das famílias aristocráticas. os Anais de Ennio. A tradição dos analistas sobrevive durante séculos. Para ele o conhecimento da história nacional.C. ao longo de sua obra. o grande pontífice escrevia num album.C. em versos. Remontando às fundações de Roma. Coriolano. as imagens preservavam rostos e as inscrições funerárias exaltavam os feitos dos mortos. & IOKOI. a forma da história podia ser mais importante que seu conteúdo. Canções épicas narravam as vidas de heróis como Rômulo. Nas Origens remonta à fundação de Roma e desenvolve sua história até o presente. irá refletir sobre o papel da história na política e sobre as formas que deveria assumir. . remontam às origens troianas e se estendem até a guerra da Istria (178-177). a tradição oral era forte. Já no século IV a. Grícoli ideal patriótico. os primeiros analistas como Fabio Píctor e Cincio Alimento escreviam em grego. que vê na história uma atividade apropriada à velhice e à aposentadoria. não escritores.C. QUEIROZ. as guerras púnicas fundamentam um tipo de história épica como o Bellum punicum de Nevio.). Cícero. Pereira de & de IOKOI. louvando o heroísmo e a superioridade moral de Roma. que misturava mitologia grega e história romana.149 a.C. como um instrumento de propaganda anti-cartaginesa. No século III.C. No século II. Esta produção patriótica toma impulso com Catão (234 a. As famílias tradicionais guardavam recordações de seus antepassados. Embora não tivesse escrito nenhuma obra histórica.) os vê apenas como cronistas. os Horácios e Curiácios e muitos outros.43 a.Grícoli. . A questão da memória parece ter tido sempre importância para os romanos. da história dos povos conquistadores e daquela dos homens ilustres era um instrumento funda- . Cícero (106 a. os acontecimentos diários.. uma tábua embranquecida. Tereza Tereza Aline Pereira A. Durante a segunda guerra púnica surgem anais em prosa.26 QUEIROZ. Zilda Zilda Maria M.

C. a paixão e o comprometimento político basearão a obra do historiador Salústio (c. Na base da história romana estaria uma luta secular entre o patriciado e a plebe. pretende demonstrar a ruína progressiva do regime aristocrático instaurado após a derrota dos Gracos. a Guerra de Jugurtha e as Histórias. É uma fonte de exemplos morais e pode dar uma estrutura de discernimento para o estadista. Com a Conjuração de Catilina. Insiste em dizer que a história não é epopéia e nem poesia. Em suas obras destila seus ódios e convicções. Para isto então torna-se necessário o respeito a uma ordem cronológica. O contemporâneo. julga importante tecer o retrato moral e cívico dos grandes homens. com uma base cronológica.35 a. Enriquecido pela prática da corrupção no posto de governador da África Nova (Numídia) em 46 a. Investe contra a busca de um passado remoto.).C. 86 a.. retorna no ano seguinte pela intermediação de César.C.AS ANTIGÜIDADES 27 mental para os estadistas e oradores. pois possui uma verdade objetiva e que são necessários métodos para chegar a esta verdade.C . de quem é partidário incondicional. além de situar todos numa tradição. preferindo as narrativas do contemporâneo. Cícero concebe uma história ideal baseada na veracidade e na imparcialidade. destacando o relato dos fatos com suas causas e conseqüências e as imbricações entre as ações humanas e os azares da fortuna. Decide então tornar-se historiador.. das quais só restam fragmentos. Em suas obras critica a vida ativa – tão elogiada por Cícero – e enaltece a nobreza e a . Cícero atribui à história um caráter utilitário. por adultério com a filha de Sila. assentada na geografia. embora seja um gênero retórico. Excluído do Senado em 50 a. Para Salústio o trabalho como historiador foi um prolongamento de sua vida política.C. fica no entanto sem qualquer futuro político após a morte de César em 44 a. Findo o cesarismo só restava a decadência dos tempos em que vivia.

o que denuncia seu platonismo. à brevidade do discurso. . autor de uma . mas ver as causas sob os efeitos das ações. a frugalidade reinavam tanto na paz como na guerra. assentada na demagogia. Sua grande precisão nos temas – o maior episódio de que se ocupa cobre apenas dez anos – reproduz-se também na análise minuciosa. Para Salústio cabia ao historiador não somente narrar. QUEIROZ. Tereza Tereza Aline Pereira A. Para além da pintura do caráter de Jugurtha. Nas duas obras há dramaticidade. na explicação daquilo que conhece como testemunha.D. a justiça. portanto. uma ênfase no peso da personalidade na condução dos acontecimentos. 64 a. & IOKOI.). Em Catilina faz a apologia do passado. A Guerra de Jugurtha também trata da história contemporânea. a este tempo ideal contrapõe a Roma contemporânea. a relação das pessoas com suas origens e seu meio social para explicar suas condutas. idade de ouro estóica.28 QUEIROZ. da etnografia. preparam os acontecimentos. Zilda Zilda Maria M.C. interpreta. das descrições exóticas. uma diferença de fundo entre Salústio e Tito-Lívio (c. vivacidade. Há. Pereira de & de IOKOI. Salústio é inevitavelmente comparado a Tucídides no que tange à forma. do passado. descrevem sistemas políticos. É um texto todo permeado por uma violência concentrada e retratos bem lavrados das personagens.Grícoli. Grícoli dignidade do espírito. escravizada pela oligarquia detentora de magistraturas e riquezas. ao vivido.10 A. uma escolha deliberada de alguns episódios em detrimento de outros para criar o efeito desejado. À medida que narra. Seu trabalho reitera uma concepção de história profundamente associada à experiência. Seus discursos caracterizam as personagens importantes. à língua densa e difícil. dos tempos gloriosos dos inícios da república. poço de todos os vícios. O patriotismo do reino de Augusto fará com que também a história se transforme. deixa entrever a inquietação de Roma após a revolução dos Gracos. em que a virtude. painéis descritivos da geografia.

AS ANTIGÜIDADES 29 história de Roma (Ab urbe condita libri) em cento e quarenta e dois livros. Não é o homem experiente. em tons dramáticos ou épicos. a grandeza estava no passado. político. heróico. Tito-Lívio rompe com a história em moda na sua época. de suas origens até o ano 9 a. com gravidade. justo. negando-se a tratar de temas alheios à história romana. A base de sua história é a vida. política e coletiva. representa um outro tipo de personagem. estabelecidas provavelmente a posteriori. A história seria uma manifestação do espírito ético romano. uma figura una que corresponde à unidade do império e contribui para sua propaganda. a história contemporânea de Salústio. em fontes secundárias. constrói o retrato de um romano ideal.C. são geralmente caracterizados através de discursos. . dando os grandes exemplos. e suas paixões. encarnando os interesses supremos da pátria. trabalhador. dominando cada período. Movido por um patriotismo exacerbado e não por uma convicção política determinada como Salústio. Os cento e quarenta e dois livros nos chegaram divididos em décadas. a obra expressa um sentido de grandeza provavelmente vivo na mente dos romanos. mas sim nacional. os guias do povo. republicano e sedentário TitoLívio procura as causas da grandeza de Roma na moral romana. convencido de estar cheio de razão. o burguês. Os grandes homens seriam os instrumentos da história. passíveis de serem controladas pelos princípios tácitos aceitos por todos para a conduta individual e coletiva. Por outro lado. sem um espírito crítico agudo – muitas vezes Lívio cita fontes contraditórias e somente aponta o que lhe parece mais plausível. Fundamentada numa pesquisa livresca. o homem romano é o bem mais precioso da nação. outras vezes se contradiz fragorosamente –. Mas é tão pessimista quanto Salústio no que concerne ao presente. diplomata ou militar que no fim da vida resolve fazer história. Tampouco quer fazer uma história universal.

Na base de seus escritos. É o grande continuador da missão regeneradora de Augusto. está a louvação dos primeiros césares – César. 19 a.Grícoli.) é de novo um homem de ação que se engaja na construção do passado romano. os romanos fossem senhores do universo. após tantas provações. absolutos e coletivos que levam os povos à decadência. Suas Historiae tentam descrever toda a história do mundo greco-romano desde a guerra de Tróia e inserir a história de Roma na história universal. é bem nascido. A produção laudatória terá vários seguidores. Afinal. . Veleio acredita que a causa da grandeza dos césares reside numa conjunção do sobrenatural com a virtude.D. a historiografia tendeu por outro lado a se diluir em gêneros menores. Achava natural que. Veleio Patérculo (c.31 A. num crescimento de Roma como manifestação de uma vontade divina. a moderação. haviam praticado todas as virtudes: a piedade em relação aos deuses. determinantes. Tereza Tereza Aline Pereira A. anais. Zilda Zilda Maria M. é culto. & IOKOI. a prudência. fez uma brilhante carreira militar antes de se tornar o historiador do imperador.30 QUEIROZ. respeitava a religião e via nela um meio para manter a ordem e a disciplina entre o povo. não concentram todo o poder sobre o devir histórico. os grandes homens. Legado de Tibério na Germânia. memórias. a fé. . a clemência. porém. particularmente. Este aparece como um herdeiro predestinado de Augusto. a concórdia. Não pertencia a qualquer seita filosófica. Augusto e Tibério – e uma panfletagem rasgada do próprio Tibério. Tito-Lívio proclama o conservadorismo e a moral ecoando o programa de regeneração do mundo romano de Augusto. pois existem também mecanismos invisíveis. acreditava na importância da Fortuna no desenrolar da história e. é prudente etc. biografias. Após a monumentalidade de Lívio. é bravo.C. QUEIROZ. Grícoli Sem participar da vida pública é um dos primeiros historiadores do gênero intelectual de gabinete. no entanto. é virtuoso. Pereira de & de IOKOI. é belo.

quer salvar as virtudes do esquecimento. não se presta a floreios oratórios como em Tito-Lívio. A história deve proceder a uma análise moral. as deformações da alma humana quando pressionada por circunstâncias externas. diante da miséria. brutalidade. Em meio a este panorama destaca-se a obra de Tácito (c. – Calígula e Cláudio – Nero. as Histórias e os Anais.113). o reino dos júlios-cláudios: Tibério. da crueldade e do deboche da época. Sua grande eloqüência já era notória antes de se dedicar à história. em sua obra transparece uma obsessão pela tirania. Originário do meio eqüestre e possivelmente provincial. entrou na carreira administrativa durante o governo de Vespasiano. A explicação dos fatos deve ser mais completa e extensa do que a narração dos fatos. Diálogo dos oradores. transmite violência. de uma forma compacta.AS ANTIGÜIDADES 31 ensaios. Seu estilo conciso.120). analisar. das guerras civis de 69 e do reinado dos flavianos. quase sem verbos. de povos estrangeiros – como os germanos. levar em conta detalhes mínimos que podem indicar a essência de uma pessoa ou de uma época. avaliar as mudanças. execrar os vícios. dando um tom totalmente diverso em relação à historiografia praticada até então. 55 . Uma das características mais interessantes nos retratos humanos criados por . Vida de Agrícola e a Germânia precedem suas obras propriamente históricas. rápido. não é uma lição política como em Tucídides e Políbio. procônsul da Ásia (110 . O historiador deve comparar. amargura. Para Tácito a história não é um campo para louvações pessoais. pela discórdia. Os Anais tratam do passado não vivido pelo autor. as Histórias da contemporaneidade. foi cônsul (97). inquietação. É um grande leitor de almas complexas. Tácito objetiva fazer uma obra moral. um desejo de liberdade de expressão e de restauração do poder da palavra. Sua filosofia da história é totalmente pessimista.

a apatia do povo após o principado de Augusto. extravagante. Grícoli Tácito é que nunca se repetem – Cláudio é fraco e inerte. ouvia os rumores do Senado e os das ruas e consultava arquivos oficiais e crônicas divergentes. os motins militares. quando as reflexões sobre a tirania são freqüentes. é mais viril. e procura decifrar o quanto há de vontade e liberdade naquele processo. Nero é um louco romanesco. desequilibrado. Tácito utilizou fontes orais e escritas para construir sua história.Grícoli. principalmente. com sede do impossível e do extraordinário. ambiciosa.32 QUEIROZ. centrada em tragédias. mas ataca a superstição. pessoais e coletivas. Agripina pende para o crime. & IOKOI. Messalina tem sede de escândalo e luxúria. a crise do ano 33 – é certo que constrói uma história dramática. o saque de Cremona. Sua obsessão pela violência e as regiões mais sombrias da psique faz dele um companheiro de historiadores cristãos tão diversos como Agostinho e Gregório de Tours. ao mesmo tempo em que ensinava aos tiranos como . Tereza Tereza Aline Pereira A. Pereira de & de IOKOI. atravessa as mais aterrorizantes tragédias sem agir e sem compreender o que se passa. Estas personagens também se modificam sob as circunstâncias. brada contra o servilismo de cronistas como Veleio Patérculo. Da mesma forma são analisados os sentimentos coletivos: o medo e a fraqueza do Senado ao aclamar Tibério. A partir do século XVI. a tristeza dos soldados diante de seus companheiros mortos. os rompantes de violência popular no teatro. Acredita na intervenção dos deuses no processo histórico. Embora não fosse alheio aos mecanismos coletivos. mais decidida. Guicciardini (1483 . a obra de Tácito será muito valorizada na Europa. econômicos e sociais da história – analisa as relações entre os desmandos dos imperadores e o déficit nas finanças públicas. o incêndio do Capitólio etc. Zilda Zilda Maria M.1540) dizia que Tácito ensinava muito bem as pessoas a viverem sob o jugo das tiranias. manipulado por suas mulheres e seus libertos. QUEIROZ.

Muito já se escreveu sobre o tacitismo de Machiavel. prefere se estender mais sobre a reconstituição das vidas dos mais antigos. como o cristianismo.AS ANTIGÜIDADES 33 fundar suas tiranias. Os Doze Césares tratam do mesmo período estudado por Tácito. Obedecendo a uma ordem cronológica. os Doze Césares fizeram uma longa carreira no ocidente. 120). onde chega a trabalhar como secretário de Adriano. o que lhes dá um tom anedótico e escandaloso muito acentuado. nenhum julgamento de valor muitos silêncios e nenhuma visão de conjunto. Sua proximidade com a história pode ser detectada principalmente pela massa de documentação presente nas biografias. Suetonio. na adivinhação. A opção pela biografia subentende sua convicção no poder pessoal sobre a história. Suetonio elabora as biografias dos doze primeiros césares romanos. Na época de transição entre a historiografia antiga e a medieval destacam-se Suetonio (75 . mas o nome deste e muito menos seu espírito não estão presentes. considerado o último historiador da antigüidade por ser pagão. . Apesar disso. Mesmo assim não quer ser considerado historiador. ao contrário do hábito de carregar a pesquisa nos tempos mais próximos. embora haja pouca crítica. utilizava fontes orais para escrever seus trabalhos. 113).140) e Amiano Marcelino (330 . Além de pesquisar em livros e arquivos. De grande erudição.c. Sobre os homens ilustres (c. foi perdida. amigo de Plínio. originário da ordem eqüestre. mantém a crença na religião tradicional. De gramáticos e retóricos e uma Vida de Terêncio. Sua paixão era a pesquisa. Restaram as Vidas dos doze Césares (c. mas também uma concepção dinástica de poder. e desconfia profundamente dos cultos orientais. a escrita. dedicouse à carreira administrativa. incluindo uma enciclopédia de história natural. A maior parte de sua obra. suas funções fazem com que tenha acesso a arquivos e documentos secretos. os livros. 391).c. Seus contemporâneos o vêem como um gramático.

venerável. santa. era oficial militar. Iniciava-se agora a saga dos outros eleitos. de fundo belicista. base da liberdade e da sabedoria. basear-se em documentos. convencer. mãe dos deuses. fecha um ciclo da história romana ufanista. notadamente Alberto Momigliano. Vivendo em pleno período da desintegração do Império. participando da luta contra o rei Sapor da Pérsia. Por outro . na linha de Políbio. a escrita de Amiano. integrando um corpo do séquito imperial que realizava missões nas províncias. os trezes primeiros perdidos. Para compilar o material de sua História foi para Roma. Não tem uma posição anti-cristã absoluta. ater-se à veracidade. A crítica contemporânea. Por Deus e sua Divina Providência. no entanto. tem se preocupado em indagar qual seria o público da história na antigüidade. começou sua carreira na guarda do Palatino. laudatória das façanhas de um Juliano sábio e herói. Flagrante de anacronismos em sua exaltação do agora inexistente. De 353 a 360 trabalhou com Ursicino. QUEIROZ. contrária aos germanos. Nasceu em Antioquia em 330. Suas pesquisas e a transposição de suas experiências resultaram numa obra altamente patriótica. Zilda Zilda Maria M. centrada na saga deste povo eleito pelos deuses e a Fortuna para dominar o mundo. Grícoli Amiano Marcelino. ao mesmo tempo em que canta as virtudes do universalismo imperial romano. Pereira de & de IOKOI. negar o fantástico. Amiano faz a apologia da Roma eterna. diz ser a virtude mais importante do que paganismo ou cristianismo. da oratória. Em 363 fica sob o comando do imperador Juliano. Amiano diz querer ser historiador imparcial. & IOKOI.34 QUEIROZ. plena dos fatos que considera dignos de memória. Evocaremos aqui alguns resultados de sua pesquisa. das obras teatrais. Tereza Tereza Aline Pereira A. de uma ideologia exangue. procurar um meio termo entre vícios e virtudes para retratar os governantes. estabelecendo-se depois em Antioquia. A obra abrange desde o período do advento de Nerva (96) até a morte de Valente (378) em trinta e um livros.Grícoli. a história não era um genêro elaborado para ser ouvido. Ao contrário da poesia. o último historiador antigo.

Vários historiadores gregos viveram no exílio. seria uma atividade marginal ou complementar à vida das pessoas. simples cavaleiro. a filosofia e os costumes determinavam a conduta dos homens. Tácito como aristocrata deveria ter mais penetração na alta sociedade do que Suetonio. por volta de 392. Na base de todas as indagações estaria uma grande incógnita. Momigliano acredita que no princípio. vários romanos ocupavam cargos políticos. Cláudio lendo Tito-Lívio etc. Sabemos que Tucídides escrevia para ser lido. mas muito fragmentários. Temos alguma documentação sobre as personagens que leram obras históricas – Brutus lendo Políbio.C. Na medida em que Roma. Augusto não tolerava historiadores fora de uma linha oficial. deveria haver leituras públicas das obras. mas estas deveriam ser desiguais. militares ou administrativos. no século V a. teria lido alguns trechos de seu livro em público. Segundo Momigliano. mas que com o tempo devem ter caído em desuso. Entre os séculos III a.. Dispomos de alguns indícios sobre a disponibilidade de algumas obras no mercado. há fontes sobre as relações entre historiadores e governantes. que acabou se suicidando. A história. o que leva a pensar que a história pode ser uma disciplina perigosa. a história e o poder andavam juntos.D.. e IV A. portanto. porém. há uma documentação esparsa sobre leituras de obras históricas.AS ANTIGÜIDADES 35 lado. os historiadores não formavam um grupo profissional e nem mesmo um grupo distinto dentro da sociedade. Tibério queimou as obras do historiador Cremutius Cordus. A isto se acrescenta que na antigüidade não havia uma distinção clara e universalmente aceita entre história e ficção. Sabemos também da existência de resumos de obras para o grande público. Amiano. a de compreender o porquê da existência da história em sociedades onde ela não fazia parte da educação formal e onde a religião.C. sua existência nas bibliotecas públicas do império. .

que se compõem do céu e da terra. retórica. será um elemento primordial na composição da identidade do homem cristão. Embora a história não esteja enquadrada no trivium – gramática. geometria –. a História. astronomia. No momento em que seguidores de Cristo.. que compõem a estrutura básica da educação e nem o historiador tenha se profissionalizado. a desintegração política e econômica do império romano e a ruptura de seu quadro geográfico estão na base do surgimento de uma nova história e de um novo historiador. o mundo é propriamente o signo do homem. dialética – ou no quadrivium – aritmética. como S.” Isidoro de Sevilha. De natura rerum. A institucionalização do cristianismo como religião de estado em 313. cuja combinação forma um só ser existente. Pau- . música. este igualmente se compõe de uma mistura de quatro humores.) No sentido místico. com um grande H.AS IDADES MÉDIAS 37 AS IDADES MÉDIAS “O mundo é o conjunto de todas as coisas.. Pois da mesma maneira que aquele é constituído de quatro elementos. A noção de história universal liga-se aos judeus cristianizados. (.

Nos primeiros séculos do cristianismo ocidental. variados. em uma religião universal. A verdade da história poderá ser utilizada no momento de decisões. continuação do Testamento nacional. & IOKOI. Num mundo organizado por Deus. da tomada de atitudes políticas. Tereza Tereza Aline Pereira A. Uma história linear com começo – a Criação –. historiará as batalhas e as conquistas dos apóstolos em terras estrangeiras. A subjetividade presente na historiografia antiga assumirá contornos diversos. até então nacional. a oratória e a discussão intelectual. por exemplo. dão margem ao surgimento desta história universal. No entanto. esta palavra passa a ter um peso muito grande na maneira de refletir sobre o mundo. sem reviravoltas cíclicas.38 QUEIROZ. Pereira de & de IOKOI. meio – a Encarnação – e fim – o Juízo Final. olhando para a frente. seria necessária uma purificação para que tudo renasça. não mais conquistas militares. QUEIROZ. mas que utilizam ainda uma arma dos pagãos. Outros se voltarão para uma experiência do tempo ordenada por cadências regulares – a cada mil anos. de Deus até o mais obscuro dos príncipes. os fatos se legitimam automaticamente e se amoldam sempre a uma explicação de ordem sobrenatural. o historiador. Ordenada. Grícoli lo. As teorias do poder divino do papa e do imperador documentam-se nos exemplos da história. . Pedro. A própria expansão do império romano seria um desígnio de Deus para facilitar posteriormente o trabalho apostólico.Grícoli. em conformidade com outros padrões. Uma imagem comum nas catedrais góticas francesas é a da seqüência de reis judeus e reis franceses. absorvendo a ideologia política do império. A verdade do passado terá fins utilitários. Numa linha reta. Na medida em que cristãos estão imbuídos da verdadeira verdade. no poder exercido por Melchisedec ou no procedimento da passagem do poder de Cristo para S. Assim o Novo Testamento. transformam sua crença. a Igreja se apresentará como fiadora da ação de Deus na história. Assim muitos concebem a história cristã. numa seqüência infinita. não devemos confundir verdade com objetividade. Zilda Zilda Maria M. como o de legitimar o poder.

milagres etc. a Tito-Lívio por exemplo.AS IDADES MÉDIAS 39 nesse sentido. Uma reflexão sobre todos os cronistas. o conhecimento do tempo. que. Além disso dispomos de inúmeros Anais e Crônicas. homens ligados à Igreja ou a administração dos reis eram responsáveis pela catalogação de fatos geralmente políticos. História passa a ser um termo empregado diante de uma visão geral e recuada dos fatos. era considerada uma ciência cristã. Conscientes das transformações operadas pelo cristianismo no mundo. no entanto. sobre o translado e a descoberta de relíquias ou listas episcopais. sua ciência. A noção de tempo tornando-se primordial. Ecos da historiografia antiga. a presença de uma cronologia minuciosa passa a ser de praxe. alusões a Tácito. Estas listas fundam uma pseudolinhagem episcopal e legitimam o bispo como pai dos fiéis. uma história para determinados locais. Apoiada na astronomia e na matemática. Uma inovação é a dos textos hagiográficos – história dos santos. Podemos constatar também uma enorme variedade de gêneros históricos desde os primeiros séculos da Idade Média. a Salústio. será uma testemunha da presença de Deus no mundo. que estabelecia datas e computos. tentam explicá-las à luz da religião. trata o passado numa perspectiva bem diversa. Por outro lado. a cronografia. que favorecia uma comunidade ao estabelecer uma ancienidade. – considerados importantes durante o ano nos anais. acentua-se a diferenciação entre história “antiga” e contemporânea. escritores que se referem ao passado e historiadores dos quinze pri- . para o contemporâneo. militares e extraordinários – passagem de cometas. permeiam esta nova história. As histórias de santos também podiam ocultar um propósito legitimista. As crônicas implicam uma maior amplitude cronológica e também uma análise dos acontecimentos no âmbito de desígnios políticos e religiosos. analistas. tomarão um aspecto religioso. narrativas sobre milagres.

e a atualiza até sua época.420) atribuirá à história um papel decisivo na vida pessoal de cada um e no próprio cristianismo. numa carta a uma de suas amigas romanas que desejava se casar. assim. Eusébio tratava do passado longínquo. da luta contra perseguidores e heréticos. por exemplo. da vingança divina contra os perseguidores da Igreja. argumenta que. S. Zilda Zilda Maria M. foi preceptor do filho do imperador Constantino. Jerônimo traduz do grego para o latim a Cronica de Eusébio de Cesaréia (265 . & IOKOI. das disputas .340). panfletos. Assim. Aristocrata convertido por volta de 366. considerado o pai da história eclesiástica. cartas. Grícoli meiros séculos do cristianismo seria muito extensa. suas ligações com o poder – Constantino oficializa o cristianismo no império – e a paixão de neófito se confundem em seu trabalho. deixou uma produção enorme em livros. Convertido ao cristianismo em 300. A tentativa de interpretar a história humana numa perspectiva cristã já se manifesta no panfleto de Lactâncio (c. era inconcebível pensar na felicidade pessoal e que a única atitude digna e cristã seria a do celibato. Agostinho (354 . Jerônimo (c. importantíssimo na definição da ideologia e das funções da história medieval – na Cidade de Deus defende a teoria de que a queda de Roma era apenas uma pequena amostra dos infinitos e universais poderes divinos – não será considerado como historiador.430).Grícoli. no aconselhamento. QUEIROZ. as formas de vida cristã. tendo sido secretário do papa Damásio e fundador de inúmeros conventos. onde o tempo presente é sempre avaliado em função da missão cristã. 341 . buscou na pregação. Com uma sólida formação clássica. onde anuncia a vitória do Ponte Mílvio com violência. Pereira de & de IOKOI. diante do horror das invasões de “bestas ferozes” – os germanos – ao império romano. no celibato.40 QUEIROZ. no eremitismo. Tereza Tereza Aline Pereira A. Nos limitaremos a alguns exemplos nos quais a intenção de escrever uma história é mais definida. 325) sobre a Morte dos perseguidores. 260 c. Nesta obra.

numa nova lingua- . considerada por pagãos e mesmo veladamente pelos cristão como uma obra de padrão literário execrável. fundamental nas obras medievais. Discípulo de Agostinho. servirão de subsídio para a escrita de crônicas universais como a de Otto de Freising. Malchus. dão o tom para as biografia santas medievais. datas e seus encadeamentos.417) objetiva provar que o cristianismo não fora responsável pela queda de Roma. As Vidas dos anacoretas Paulo de Tebas. Sulpício Severo (c. No Dos homens ilustres.AS IDADES MÉDIAS 41 doutrinais e da sintonia entre a pax romana e o cristianismo. os historiadores tendem a traduzir uma visão de mundo mais localizada. utilizando uma enorme documentação e poucos discursos. no século XII. a citação. a “autoridade”. focada num cotidiano mais limitado. um suplemento histórico à Cidade de Deus. Paulo Orósio (c. detectados desde os mais antigos impérios do mundo. Seus prefácios e comentários sobre os livros das Escrituras objetivam melhor elucidar fatos. Jerônimo traça um quadro completo do desenvolvimento da Igreja. bem como o de Eusébio. Durante séculos este trabalho. A História contra os pagãos (415 . 420) originário da Aquitânia. Hilarion. e não a retórica. em sua História Sagrada pretende descrever a história do mundo desde a criação até o ano 400 para instruir os ignorantes e convencer os cultos. em 414. escreveu vários trabalhos ligados à defesa da ortodoxia e.c. se impunha. 390 -?). Com a divisão do antigo império em reinos germânicos. 360 . enumerando todas as grandes personagens desta história. um padre espanhol que. também pensará na história como um amplo painel. a pedido daquele. ao analisar a história humana evidencia-se um desígnio providencial. seu livro é um exaustivo catálogo dos males da humanidade. e que. Seu maior empreendimento foi a tradução para o latim e revisão crítica da Bíblia (Vulgata). foge das invasões germânicas e refugia-se em Hippo.

A presença desta documentação demonstra o espírito que anima a escrita da história de Gregório. em 397. 539 . & IOKOI. escritos de seus contemporâneos Venancio Fortunato. descende de uma família romana senatorial integrada ao reino franco. a participação pessoal em vários acontecimentos. vai além. Pereira de & de IOKOI. bispo de Tours. sete respostas a esta carta. e outros. QUEIROZ. Insere a transcrição de uma série de documentos originais. No prefácio da História dos francos. Cita Virgílio e Salústio. a carta do papa Gregório aos flagelados da peste de 590 em Roma. É o caso da História dos Francos de Gregório de Tours e da História dos lombardos de Paulo Diácono.42 QUEIROZ. suas fontes forçosamente serão outras. No livro I cobre 5596 anos da história da humanidade. Grícoli gem. Gregório tenta desvendar pontos obscuros. pouco antes de sua morte. na autoridade e na discussão desta autoridade. embora se digam herdeiros de Tácito ou da historiografia antiga. Os outros nove livros da história dos francos relatam os acontecimentos desde a morte de S. Gregório de Tours (c. de Adão até a morte de S. Inspirado por Eusébio. cartas de Sidonio Apolinário e de S. como o da primeira . Gregório deplora a inexistência de um homem capaz de escrever sobre os acontecimentos atuais e decide assumir esta tarefa. de fato.Grícoli. Sulpicio Severo e Ferreolo e muitos outros. Martinho de Tours. como a carta enviada a bispos por ocasião da fundação do convento de Santa Radegunda em Poitiers. A partir do livro II. vidas de santos e de mártires. servirão de subsídio à narrativa. começa a narrativa nos dias da Criação. Martinho até 591. Jerônimo e Orósio e mais seu conhecimento da Bíblia. Mas também as fontes orais e o testemunho ocular. o texto do tratado de Andelot assinado entre os reis Guntram e Childeberto II em 587. Avito. Além de descrever. uma história baseada no documento. quando começa a mencionar os reis francos. Tereza Tereza Aline Pereira A.594). a perspicácia de observação. as agora perdidas Historia de Renatus Profuturus Frigeridus e a Historia de Sulpicius Alexander. Zilda Zilda Maria M.

órfão. e uma cronologia universal calculada pela era cristã e fundamentada em estudos astronômicos. tratados de gramática. escreveu comentários bíblicos. as intrigas. uma versão expurgada do De rerum natura de Isidoro de Sevilha. numa distante região da atual Inglaterra dominada pelos anglo-saxões. através de uma investigação minuciosa. é justamente neste latim falado. e no romance gótico. pinta com precisão os horrores. Apesar de se preocupar em ler nos acontecimentos os signos da intervenção divina no mundo. as misérias de Brunhilda. renascerão na historiografia romântica do século XIX. As fúrias encarnadas em Fredegonda. Logo. Gregório. A História do povo e da igreja dos anglos (731) – da conquista de Júlio César em 73 até o presente – e a Vidas dos abades. Aos sete anos de idade. Gregório escreve como deveria falar. Muito criticado por não mais seguir os padrões antigos. da visão de mundo de sua época. a luxúria e a volúpia sanguinária dos merovíngios. ao visual.735). que podemos desvendar inúmeros traços da mentalidade. está atento ao real. com as Narrativas dos tempos merovíngios de Augustin Thierry. com treze anos fixou-se na abadia beneditina de Yarrow e daí não mais saiu até sua morte. . menos conciso que o clássico. dito o Venerável. Seu horizonte é fechado. nunca saiu da Gália. a história será uma das expressões da cultura religiosa de Beda (673 . No século VII. Sem enunciar qualquer julgamento. dois trabalhos de história. Um dos aspectos mais cativantes desta história dos francos é a linguagem. no seu estilo simples. ao contrário de muitos historiadores antigos. Educado tanto pela leitura das obras cristãs como clássicas aí existentes. foi ele encaminhado a um convento.AS IDADES MÉDIAS 43 vez que um líder franco se transforma em rei. pode descrever com minúcia cenas que jamais seriam consideradas dignas de nota pela historiografia antiga.

Nascido numa família aristocrática. QUEIROZ. Descarta o que não lhe parece adequado e não se contenta em somente arrolar o material utilizado. mas também as lendas. Beda informa seus leitores sobre as fontes que utilizara e o tratamento a elas concedido.44 QUEIROZ. 770 . tempestades. Em 830. de formação religiosa. Para isto estabelece uma intensa correspondência no sentido de obter cópias ou originais de manuscritos. são apontadas como intervenções diretas de Deus no mundo. É neste momento de sua vida que decide escrever uma biografia de Carlos Magno. utilizando tanto testemunhos escritos como orais e mesmo arqueológicos. Assim. & IOKOI. foi educado na abadia de Fulda. Grícoli No prefácio de sua história eclesiástica. . Tereza Tereza Aline Pereira A. trabalhei honestamente para transmitir o que pude aprender das fontes. para a instrução da posteridade”. foi secretário e amigo pessoal de Carlos Magno até a morte deste em 814. e. curas. Beda representa bem tanto a dinâmica da cultura anglo-saxônica como a cultura eclesiástica quase profissional que dominará a Europa por séculos.Grícoli. é Eginhardo (c. que possam ser interessantes ou edificantes para seus leitores. e posteriormente conselheiro de seu filho Lotário. as crenças populares. Por outro lado. a crítica moderna constata uma grande precisão nos fatos arrolados em sua história. o Piedoso e seus filhos o leva a prudentemente se afastar da política.840). Zilda Zilda Maria M. posteriormente admitido na escola palatina de Carlos Magno. o maravilhoso e os milagres estão presentes no texto. mas trabalhando para o poder temporal. uma das estrelas da chamada renascença carolíngia. em Aachen. O conflito entre Luiz. Pereira de & de IOKOI. “Como as leis da história exigem. não somente a história dos povos que colonizam a ilha e da igreja é narrada. o Piedoso. Escrevendo como cristão. Apesar das dificuldades que deve ter tido em reunir sua documentação. Procura sempre reunir a maior documentação possível sobre todos temas. Um outro tipo de historiador. Ingressa na política no reinado de Luiz. cometas. mas em fundi-lo num todo coerente. em 828.

os autores copiam a seqüência de temas e mesmos os comentários dos autores latinos. A Vita Caroli é um panegírico do imperador. parece haver um certo abandono da literatura latina profana. para camuflar a verdade e proteger seu senhor. comunida- . quando este estava com quarenta e nove anos de idade. Apesar disso. deixou cartas e obras hagiográficas. e de dispor de documentação para o período anterior. considerada imprópria.c. Apesar desta proximidade.AS IDADES MÉDIAS 45 retira-se na abadia de Selingenstadt. ao escrever de memória. de sedes episcopais. No todo. No prefácio da Vita Caroli. Além da biografia cortesã. Além da vida de Carlos Magno. a época é pródiga em histórias eclesiásticas locais. Gall (c. trata-se de uma obra surpreendente pelo seu estilo. Eginhardo define suas metas: escrever sobre a vida pública de Carlos Magno e descrever sua vida cotidiana. particularmente.z Algumas vezes deliberadamente. recheada de anedotas saborosas. Eginhardo cometerá uma série de imprecisões. talvez porque a história edificasse. as diferenças de sensibilidade acabam por aflorar. seguindo fielmente os moldes da Vida dos doze Césares de Suetonio e. legendário. Na medida em que a cultura cristã assume formas e conteúdos próprios e mais definidos no ocidente. mosteiros. Trata-se de uma obra com um caráter mais mítico. no entanto. porém. e também por ter como motivo um tema não religioso. Uma outra biografia de Carlos Magno seria escrita mais tarde pelo chamado monge de S. Aproveitava o fato de ter sido uma testemunha ocular dos dois aspectos da existência do imperador a partir de 791. 840 . Este será um procedimento comum durante vários séculos. Colocam suas personagens numa espécie de camisa de força. eventualmente derivada das lendas populares sobre o imperador. concisão. a biografia de Augusto. sobre o qual quase nada se sabe. as obras históricas não teriam sido afetadas por estas restrições. Há também um outro aspecto a ser considerado nesta imitação. 912).

cobrindo o período de 888 a 995. Bertin do abade Fulcuino (m. todas as ações produzidas no mundo. e não 1000. vida de S. a partir de 980 torna-se uma crônica da aristocracia da Aquitânia. o curto. relativo à morte de Cristo. servem a propósitos piedosos. políticos. um outro milenio. nos de Verdun e outros. Quentin. Zilda Zilda Maria M. seria o outro milênio. Pedro. em sua obra dedicada a Odilon. devem servir à glória e à edificação da Igreja. Adémar de Chabannes. a do bispo Othon de Freising.966). vidas de Santa Foi (1000 . Tereza Tereza Aline Pereira A. Pereira de & de IOKOI. e econômicos ao propagandear os milagres de santos locais e atrair peregrinos: vida de Sta. Rémi de Reims. O cronista Raul Glaber. talvez findos por volta de 1048. é mais ampla.1156): “boas ou más.Grícoli. & IOKOI. Inúmeras são as cronografias universais como a de Reginono de Prum (906). e os textos das Histórias do monge Raul Glaber. talvez explique esta ausência ao formular um outro cálculo do tempo.1050) – santa que atrai milhares de peregrinos. no entanto. Alexis (1040). A história continua a ter grande importância para a consciência cristã. as Histórias de Richer. A produção de vida de santos também é considerável. Assim 1033. deão da colegial de S. escritas por religiosos mais ou menos obscuros. Os méritos das obras históricas são definidos no livro Das Maravilhas do abade de Cluny. segundo Georges Duby. Eulália (881). . Assim a História da Igreja de Reims de Flodoardo (894 . 1092 .46 QUEIROZ. vida de S. 990). entre outras. Mas se nós as ignoramos. o Venerável (c. cobrindo a história do povo franco. de Reichenau – retomando a divisão agostiniana de seis épocas do mundo –. a do monge Hermann. monge de S. A Cronica do religioso de Angoulême. abade de Cluny. a História do mosteiro de S. Tiago –. Há ainda a História dos normandos de Dudo. Nada ou quase nada é dito sobre a data nos anais de Benevento. Grícoli des. dentro de uma cadência temporal religiosamente marcada. no caminho de S. QUEIROZ. pela vontade ou pela permissão de Deus. parece ter passado quase despercebido em vários anais e crônicas contemporâneos. O ano mil. Legério (950 1000).

certamente. Lambert era um clérigo que servia no castelo de Ardres. tinha conhecimentos de retórica. da poesia antiga e das produções literárias corteses contemporâneas. no entanto.1154). cânone de Bayeux no século XII. de Geoffrey de Monmouth (c. apesar de clérigo. Dizia-se “mestre”.1189) contrata clérigos para escrever a história de seus predecessores. que entre 1201 e 1206 termina sua História dos condes de Guines “à gloria dos altos senhores de Guines e de Ardres”. Os deslocamentos para o oriente motivados pelas cruzadas dão margem ao surgimento de um outro tipo de história. também sacerdotes. o Marechal (c. de biografias individuais de grandes personagens laicos e de histórias nacionais podem ser encontradas. com bases em fontes latinas. Não mais preso a uma estrutura monástica ou episcopal. 1100 . era casado e tinha filhos. Uma série de crônicas familiares. É o caso de Lambert d’Ardres. analisado por Georges Duby. algumas vezes míticas. o escritor é contratado pelo filho de Guilherme. 1145 . além. que ajuda a popularizar as lendas do rei Arthur na França. 1175). Surge assim um novo tipo de produtor da história. narrando a história dos duques da Normandia. regente da Inglaterra durante a minoridade de Henrique III. traduz a Historia Regum Britanniae. Assim Henrique II da Inglaterra (1133 . mas geralmente de formação religiosa. a escrita da história passa a ser utilizada com maior freqüência pelos poderes laicos. o conde de Pembrocke.1219). e que passa a trabalhar a soldo para a aristocracia para escrever suas genealogias. por volta de 1226. que nela também vêem uma ocasião para cantar suas glórias e legitimar seus direitos. . parente distante desse senhor. Wace. de dispor de toda uma base religiosa de conhecimentos. e elabora o Roman de Rou (c. Um anônimo encarrega-se da biografia de Guilherme.AS IDADES MÉDIAS 47 como podem contribuir para a louvação de Deus e a edificação da Igreja?” A partir dos séculos XI-XII.

é trabalho de um profissional. narra a Terceira Cruzada (1188 . orais. Seu relato da Conquista de Constantinopla tende a ser muito claro. Ambrósio. que transformou os cristãos desta cidade em . marechal da Champagne e um dos chefes da quarta cruzada. Pereira de & de IOKOI. Um peregrino de Évreux. na base de sua narrativa está a vontade de justificar o porquê da mudança de rumo da quarta cruzada para Constantinopla. sem ter sido testemunho direto. que tem por fonte seu próprio testemunho ocular dos acontecimentos. Paradoxalmente. além de construir sua história. Grícoli mais heróica. mas o resultado das duas obras é bastante diverso. Assim. que em princípio deveria contar a história da abadia de Saint-Evroul en Ouche. Clari dá o testemunho do combatente comum. A Historia eclesiastica do monge Orderico Vitale (c. & IOKOI. 1213) e Robert de Clari. Escreve por meio de círculos geográficos e cronológicos sucessivos. companheiro de Ricardo Coração de Leão. em versos. Sua História da guerra santa. alheiado da grande política. Ambos participaram da quarta cruzada. nas crônicas de Geoffroy de Villehardoiun (c. Tereza Tereza Aline Pereira A. a Itália do Sul e o oriente das cruzadas. muito lógico.1143). a partir do ponto fixo que é a abadia.1192). são as cruzadas que definitivamente consolidam a história laica na Idade Média. próxima da epopéia. para ser considerado totalmente verossímil. do lado dos poderosos. Villehardouin. escritas. Partindo dos documentos de que dispunha a abadia. muito preciso. populares e canções. a partir de Gesta anonimos. 1150 .c. subordinado a chefes que o mantêm ignorante da razão de seus movimentos. Ao contrário. O beneditino Guibert de Nogent (1053 .1124) escreve sobre a primeira cruzada em seu Gesta Dei per francos. Zilda Zilda Maria M. 1075 . acaba abarcando um espaço geográfico bem mais amplo. narra a história de toda a vizinhança e da aristocracia normanda. utilizando todos os tipos de fontes disponíveis. QUEIROZ. nos fins do século.48 QUEIROZ.Grícoli. vê a cruzada de cima. acaba seguindo estas personagens pela Inglaterra.

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infiéis. Sem mentir abertamente, escamoteia a verdade sobretudo através de seus silêncios. Além da história oriental, surge uma outra vertente, nacional. A afirmação das monarquias nacionais fará com que a história submeta-se gradativamente ao serviço da política. O abade de S. Denis, Mathieu de Vendôme, no século XIII organiza a reunião de um vasto material de notícias necrológicas dos reis de França, há séculos redigidas pelos monges; traduzida em francês a partir de 1274, esta compilação foi o ponto de partida das Grandes crônicas de França, cuja redação prossegue até Luiz XI. Na História de S. Luiz (1309) de Joinville (c. 1224 - 1317), senescal da Champagne, há uma fusão da hagiografia com a história das cruzadas. Escrita sob encomenda para a rainha Joana de Navarra, após a canonização de Luiz IX, a obra pretende edificar seus leitores através das “santas palavras” e dos “bons ensinamentos” do grande rei. Admirador e amigo de Luiz IX, Joinville não poupa anedotas que enalteçam sua figura, misturando o concreto e o maravilhoso. Narra sem preocupação com um encadeamento lógico de fatos ou idéias. No século XIV, a guerra dos Cem Anos fornecerá o material para a história nacional e política. Escrita em francês, o espírito cavalheresco e as proezas militares ocupam o primeiro plano. Dos cronistas da guerra, o mais considerado é Jean Froissart (c. 1337 - c. 1400), que, apesar de ser um clérigo de origem burguesa, admira a aristocracia e seu modo de vida. Froissart desde jovem trabalhará para a nobreza; vai para a corte da Inglaterra, onde cai nas boas graças da rainha, sua compatriota Felipa de Hainaut, com um pequeno ensaio historiográfico sobre os fatos ocorridos desde 1356. Freqüenta a alta sociedade inglesa, partindo depois para a Escócia e a Itália, onde teria conhecido Petrarca em 1367. Com a morte da rainha, fica sob a proteção do duque Venceslau de Luxembourgo, e conti-

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QUEIROZ, QUEIROZ, Tereza Tereza Aline Pereira A. Pereira de & de IOKOI, & IOKOI, Zilda Zilda Maria M.Grícoli. Grícoli

nua seu trabalho de historiador. Com base em informações pessoais escreve sobre a atualidade, mas tenta buscar um início para seu texto nos anos entre 1325 e 1356, utilizando como fonte a crônica de João, o belo. Em 1388, vai para o sul para obter informações para sua história e conhecer a corte do conde de Foix, o famoso Gaston Phébus. De volta a Paris continua sua crônica, volta para Inglaterra, e daí em diante nada mais se sabe de sua vida. Dos quatro livros de suas Crônicas, o primeiro era bastante favorável à Inglaterra, e por isso foi corrigido mais tarde, quando Froissart se aproxima do círculo de Guy de Chatillon. A partir daí, seu texto pende para a França e os Valois. No terceiro livro, escrito já na velhice, mostra uma certa independência de julgamento. Froissart já encarna um historiador diferente de Villehardouin ou Joinville. Não escreve para manter viva a memória dos grandes acontecimentos de sua vida. Escreve profissionalmente como defensor dos aristocratas. Não participa dos acontecimentos que relata, e seu objetivo é o de agradar a nobreza que compra seus livros, e seus protetores que aí vêem seus nomes em destaque. Sua história tem um tom romanesco, era também poeta. Os temas de suas crônicas poderiam servir também para epopéias cavalherescas: as proezas, as festas, os torneios, as grandes aventuras, a audácia dos mercenários ou dos nobres, como Aymerigot Marcel ou Du Guesclin, e os perigos da guerra dos Cem Anos vividos nas grandes batalhas como as de Crécy ou Poitiers. A guerra dos Cem Anos dará emprego a muitos outros historiadores. A luta interna na França, entre armagnacs e borguinhões, fará com que cada lado contrate seus próprios cronistas, encarregados de expor as visões adequadas a seus senhores. Huizinga dirá que os cronistas borguinhões “encenam um sonho”.

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Dentro da cronologia tradicional, Felipe de Commynes (1447 - 1511) representaria o limite entre o medieval e o moderno. Suas Memórias, escritas entre 1489 e 1498, expressam um maior cuidado no estabelecimento de laços entre os acontecimentos e um julgamento mais ácido sobre os homens; não são mais uma invocação das virtudes tradicionais e nem elogio ou panegírico. Em seu prólogo ao arcebispo de Viena, Commynes define o objetivo de seu livro: “escrever o que eu soube e conheci dos fatos do rei Luiz XI”. Diz ter observado em seu herói coisas boas e más, e portanto não quer mentir. Commynes nasceu na Flandres. Seu pai era governador de Cassel e bailio de Gand. Destinado à vida militar, integrou desde cedo a corte de Felipe, o Bom, ficando depois a serviço do conde de Charolais, Carlos, o Temerário. Neste momento foi testemunho das primeiras lutas entre Luiz XI e a casa da Borgonha. Pouco depois muda de lado e, a partir de 1472, se torna confidente do rei, de quem recebe a senhoria de Argenton em troca de terras que possuía na Borgonha. Até a morte de Luiz XI participa de todos os acontecimentos a seu lado. Cai em desgraça por um tempo com a morte do rei, mas acaba se reconciliando com Carlos VIII; com ele parte para a Itália, onde é enviado como embaixador a Veneza. As Memórias exploram os grandes desígnios da política. O aspecto exterior dos acontecimentos não interessam a Commynes; observa, analisa, pesa, julga, compara a partir do interior dos acontecimentos. Enquanto moralista e cristão, permite-se tecer considerações gerais sobre a natureza humana e o príncipe ideal. Como vemos, a escrita da história na maioria dos casos continua a ser um trabalho paralelo a outros. Monges cumprem funções religiosas e fazem história, homens de estado trabalham para o governo e fazem história, outros são poetas e retóricos

a história não era ensinada nas escolas. é difícil atribuir aos analistas-cronistas-historiadores um lugar preeminente. sobretudo. No século XII. & IOKOI. Grícoli e fazem história.. Há um outro aspecto que também devemos considerar. Na verdade. as mais canhestras. servia apenas de auxiliar na exegese dos textos sagrados. da profundidade e amplitude dos debates filosóficos e místicos ortodoxos e heréticos. pois se acham indignos de esclarecer a vontade divina. mesmo admitindo esta mediocridade. melhores fontes se tornam!!! . admitindo que os contemporâneos viam mais longe do que os antigos. os autores são modestos – só querem relatar. Além disso. acabam por ofuscar os mais dignos labores históricos. a partir do século XII.Grícoli. quanto mais espontâneos. Tereza Tereza Aline Pereira A. ingênuos. o fervor de Bernardo.. Bernard Guenée invoca razões contingentes para esta situação. Zilda Zilda Maria M. confusos. frases como “a verdade é filha do tempo” e “somos anões em pé nos ombros de gigantes” (autores antigos e cristãos) são ditas naturalmente. No entanto. Os cronistas seriam intelectualmente medíocres. e maus escritores. Pereira de & de IOKOI. é inimaginável o valor que as obras medievais.52 QUEIROZ. As inquietações de Abelardo. Diante da diversidade. não é negligenciável o papel que a história e a hagiografia medievais desempenham na criação de uma mitologia política e religiosa no ocidente. o sentido da história está presente. E. o sorriso do anjo de Reims. podem ter para o historiador do século XX. das expressões plásticas do românico e do gótico. o rigor sistemático de Aquino. das novas formalizações da vida. QUEIROZ.

Vicente de Paula. sorte – e. literalmente como providência divina na obra de Bossuet (1627 . no século XVII. Ensaios. atribuem uma coerência à sua obra histórica. Seus depois publicados Sermões e Orações fúnebres. acaso. A questão da fatalidade estará presente sob outros nomes – fortuna. entre 1670 e 1680. acredita que mais do que ninguém os reis devem encarnar os valores morais do cristianismo.1704).” Montaigne. II. a função de chefe da igreja galicana.AS IDADES MODERNAS 53 AS IDADES MODERNAS “Quando Tales estima ser o conhecimento do homem muito difícil ao homem. O Discurso sobre a história universal (1681) é uma defesa da história providencialista contra seus detratores. ensina-lhe que o conhecimento de qualquer outra coisa é impossível. como Richard Simon que publicara uma História crítica do Velho Testamento – . sua luta contra os protestantes. A providência divina não se aposentará nos séculos ditos modernos. foi levado à pregação por S. sua condição de preceptor do delfim. Bossuet decide se dedicar à história no momento em que está se ocupando da formação do delfim. Ordenado sacerdote em 1652. xii.

Pereira de & de IOKOI. permitindo o triunfo da Igreja. Zilda Zilda Maria M. isto não significa que Deus tenha desaparecido para os demais historiadores. continuaria a fazer prevalecer seus desígnios nos fenômenos da natureza e também na esfera humana. Do ponto de vista prático. Bossuet representa a continuidade da história sacralizada. este Deus. visa também ressaltar a utilidade da história como mestra de preceitos morais e políticos. a história será favorecida pelo sistema de imprensa de Gutenberg. os impérios. a continuidade da religião.1457). Diante dos conflitos da igreja galicana com o papa. dos móveis imediatos e dos resultados através de uma busca no tempo remoto e da distinção de povos dominantes e homens extraordinários. & IOKOI. Na parte relativa aos impérios explica como todos serviram aos desígnios de Deus.54 QUEIROZ. os protestantes e os quietistas. Se. que mesmo objetivando um acordo entre antigüidade e moral cristã. Devemos considerar. tradicionalmente. que também outras questões se acrescentam às tradicionais.Grícoli. Bossuet elabora um aparato crítico para a abordagem do fato histórico: para os grandes acontecimentos diz ser necessário o estudo das causas longínquas. QUEIROZ. mesmo aquilo que aparece sob uma forma anárquica. pelo qual este imperador conce- . Em sua última versão (1700) aparece dividido em três partes: as épocas. Tereza Tereza Aline Pereira A. através de si mesmo ou através dos céus. que deseja submeter Deus às leis da natureza. Grícoli submetendo os textos sagrados a uma exegese profana – e contra Spinoza. O próprio Machiavel em seu poema “Da ambição” diz ter sido o mundo criado por Deus para benefício do homem. Caem por terra os temas intocáveis. Bossuet revigora o providencialismo como plataforma política. estaria submetido à ordem de Deus. Por outro lado. é o caso de Lorenzo Valla (1407 . desmascara a farsa do texto denominado “doação de Constantino”. no entanto. e verdades consagradas passam a ser discutidas ou desmentidas. Tudo. da fortuna e outros seres sobrenaturais.

mas com um espírito diverso. isto fez com que vivesse em Avignon e freqüentasse a universidade de Montpellier. do chauvinismo geralmente. refugia-se numa história idealizada de Roma para fugir da atualidade. da tradição. dos historiadores antigos. provido que sejam antigas as considera dignas de crédito.335). muitas vezes encarregado de missões políticas. e da exaltação dos governantes. Petrarca inova. Suas Mulheres ilustres (105 biografias de mulheres da antigüidade. sem santas). elimina qualquer elemento que ameace seu quadro ideal. antes de estudar Direito em Bologna. ao comentar as grandes personagens romanas. Boccacio (1313 . No todo. em sua maioria gregas e romanas. Isto nos leva à Itália do norte principalmente. no entanto. de uma restauração do império romano. romanos principalmente. os usos do passado. tem os pés no presente. onde a complexidade da experiência comunal deu margem à criação de idéias políticas particularistas ou universalistas. por razões principalmente de ordem política. segue os passos de Petrarca.1375). A historiografia será apenas mais uma das expressões da consciência cívica. Durante sua vida viajou constantemente pela Flandres. França e Itália. Neste sentido. publicadas por volta de 1362. pelo fato de seus trabalhos históricos terem sido elaborados por vontade própria e não sob encomenda de alguma autoridade. não critica suas fontes. pois sente a necessidade de viver numa pátria. mas imbuídas de um voluntarismo humano.AS IDADES MODERNAS 55 dera autoridade suprema sobre a Igreja e a Itália ao papa Silvestre I (314 . não será inocente. principalmente utilizando as idéias de Tito-Lívio. De temperamento melancólico. Mas. Em geral. do nacionalismo local. Pede ao passado que sirva de consolo para o presente. seriam a contrapartida dos “homens ilustres”. Seu pai e a família haviam sido exilados pelos guelfos negros em 1312. As obras históricas de Petrarca (1304 . em seu Viri illustres (Homens ilustres). uma “humanização” da história tenderá a prevalecer.1374) traduzem com precisão suas aspirações no sentido da criação de uma unidade italiana. .

56 QUEIROZ. onde desempenha diversas funções públicas. os mitos. Petrarca e Boccaccio utilizam a história como moralistas. Sua história de Florença abandona todas as explicações lendárias. consagrado com Vasari no século XVI.1348). Em outra obra. Tereza Tereza Aline Pereira A. foi secretário do papa. Grícoli Petrarca queria exaltar a grandeza militar e política de Roma. em 1405. além do mais. os grandes autores antigos e alguns obscuros. 1275 . A chamada história humanista será produzida por homens ligados ao governo. O objetivo de se igualar a TitoLívio é tão grande. De casibus virorum ilustrium. que normalmente apareciam nas histórias locais. QUEIROZ. Enfatiza a política e as circunstâncias gerais – geográficas. suas obras históricas se diluem numa vasta produção literária de maior peso. os milagres.1444). Zilda Zilda Maria M. ao mesmo tempo. ignorando a intervenção da providência. como a de Giovanni Villani (c. Boccaccio não se atém só ao passado ao retomar a tradição da biografia dos grandes homens do presente. a partir de 1415. entra na bibliografia de Boccaccio. Fortemente marcado pela leitura dos autores da antigüidade. a retórica muitas vezes toma o lugar de uma . tanto na Itália como na França. Bruni nasceu em Arezzo. Na Itália. A história volta a se ligar à retórica. com fins propagandísticos bem marcados e com um agudo cuidado estilístico próprio a seduzir o leitor. & IOKOI. abre caminho para o gênero histórico “vida dos artistas”. a primeira obra considerada como história humanista é a História florentina de Leonardo Bruni (1369 . desconhecido de Petrarca. estratégicas – como substrato da história. Pereira de & de IOKOI. estudou Direito. Tácito. As fontes que utilizam são semelhantes.Grícoli. ao passo que Boccaccio quer agradar seu público com anedotas. Na Vida de Dante não parte de um molde pré-estabelecido pela tradição literária e. que pretende ser uma história universal. utiliza fontes medievais como Gregório de Tours e Paulo Diácono. e. que alguns voltam a escrever em latim e não mais em língua nacional. passa a morar em Florença.

1466). que também escreve uma história florentina. .AS IDADES MODERNAS 57 visão crítica de personagens e situações.1497). o que também resulta numa abundância de relatos de pequenos acontecimentos e ausência de visão de conjunto. para promover suas cidades. escravo do poder. em sua história florentina. a partir daí. deixa uma lacuna irreparável. caso se estendesse para o próximo ano. por exemplo. Para estes. em Scala (1430 . a predestinada pela sua tradição histórica. a salvaguardar a estabilidade da Itália e os princípios republicanos. todas as cidades italianas passaram a produzir uma história local. era um súdito fiel dos Médici. o que prevalece é a vontade de louvar ao máximo a família e Lorenzo de Médici. Contratavam então letrados. concentra-se mormente na história interna da cidade e. também chanceler. Bruni terá seus seguidores em Poggio (1380 .1506) e Pietro Bembo (1470 . sua vocação para a liberdade. Florença é a campeã das comunas. além de nem sempre acabar o relato de um fato. No todo. alguns até nascidos fora do local. as contigências econômicas desaparecem e são travestidas em motivos elevados. conselheiro em Florença de 1453 a 1458. promovidas pelo governo. concebido segundo um plano racional. através de uma releitura da história local. Governantes e intelectuais comprovavam pelo exemplo florentino o quanto poderia ser útil uma panfletagem erudita. faz sua apologia. pela geografia. Sabellicus (1436 . Assim. É o típico exemplo de historiador propagandista. A exemplo de Florença. chanceler da república em 1459.1459). em Accolti (1415 . Florença é o lugar ideal. a que resiste aos planos hegemônicos dos inimigos. a escrita da história era praticamente uma continuidade de suas funções públicas.1547) em Veneza. Accolti. Bruni segue uma cronologia anual. numa perspectiva geométrica que define seu papel histórico. Em se tratando de uma cidade construída pelo comércio e o artesanato como Florença.

Grícoli. nomeado cardeal em 1539. em 1516 já pratica medicina em Roma. & IOKOI. enaltecendo sem limites o poderio militar veneziano e calando sobre qualquer atitude política que pudesse prejudicar a imagem da república. fazia inúmeras entrevistas. Começou em 1531 a Rerum Venetarum Historiae. Entre 1434 e 1447.1552). Benedetto Giovio. de família aristocrática. Tereza Tereza Aline Pereira A. Valla viveu como secretário e leitor da corte do rei Afonso de Nápoles. Ele próprio se oferecia.1457) escreve para Nápoles também serve aos interesses dinásticos locais. Zilda Zilda Maria M. cobrando altos honorários. mais tarde. Paulo estudou medicina em Pádua e Pavia. Pereira de & de IOKOI. acaba nomeado professor da universidade romana. contratado pelo Conselho dos Dez para continuar a obra de Sabellicus. ao mesmo tempo em que insinuava detalhes picantes e comprometedores que fariam as alegrias do grande público. onde. embora em 1526 tivesse também sido nomeado bispo de Nocera por Clemente VII. seguia passo a passo o desenrolar das batalhas. Grícoli Bembo é um humanista considerado. Giovio não esperava ser contratado para escrever a história de cidades e de famílias governantes. Uma figura curiosa é a de Paulo Giovio (1483 . A partir daí trabalha principalmente como historiador. Veneziano de origem. sem espírito crítico. irmão do historiador de Como. Em suas obras misturava altas doses de elogio a seus clientes. Mais do que historiador era uma espécie de repórter e jornalista. foi secretário do papa Leão X e. conhecia todos. QUEIROZ. A história que Lorenzo Valla (1407 .58 QUEIROZ. e é nesta qualidade que escreve a sua Historiarum Ferdinandi regis Aragoniae. Protegido do papa Leão X. a quem dedicara uma obra sobre história contemporânea. registra todos os tipos de acontecimentos. emitia juízos sobre todos. a história do pai de seu patrão. transformava os elogios em insultos e fazia com que linhagens inteiras desaparecessem da história. Apesar de tudo seus escritos possuem um tom moral . caso não pagassem.

Quando faltam dados que documentem a vida do tirano. terrível para com os inimigos e infiel com todos os outros. Agatocles. a produção histórica é menos original. Como este. Machiavel busca materializar suas idéias políticas numa pessoa. O mais significativo são os ecos de suas teorias na compreensão do processo histórico . condottiere do século XIII. como a descoberta da América. Mostra-se indignado com Machiavel por ter sido tão patriota em seus textos. Utiliza muito o historiador antigo Diodoro em sua história do tirano de Siracusa. Entre 1519 e 1521. elaborada por volta de 1520.AS IDADES MODERNAS 59 bem acentuado. Para evitar constrangimentos. carregou o livro com documentação e reduziu ao máximo os comentários. percebe que as histórias locais não mais tinham sentido diante dos sinais de alargamento do mundo. No conjunto da obra de Machiavel. introduz. Por outro lado. como Blondus. na história de Florença. então. e este encargo tinha uma função bastante pragmática. recopia autores anteriores. Resume sua personagem dizendo que era bom para seus amigos. Villani e Simonetta. Castruccio torna-se uma criança abandonada – porque não devia pertencer a nenhuma família aristocrática – e depois um homem sem mulher e nem filhos – porque não deveria fundar uma dinastia. Sua situação pessoal era então muito difícil.1527) consegue a patronagem dos Medici para escrever uma história de Florença. Na biografia do tirano de Luca Castruccio Castracani. não hesita em tomar emprestado traços de biografias antigas. em seus escritos digressões – ainda que vagas – sobre a história da civilização. a inserção dos fatos históricos em grandes mo- . Uma de suas maiores dificuldades foi a de conciliar a dedicatória com o estudo da lenta escravização de Florença aos Médici. Machiavel (1469 . tanto moral como financeiramente. por exemplo. Interessa-se por Castruccio por ter sido ele capaz de ao menos tentar forjar um estado – a formação de um estado era uma obsessão em Machiavel.

Além . reitera que seu propósito é didático. Zilda Zilda Maria M. numa primeira história da Itália tratada como um todo. O historiador e amigo de Machiavel. aperfeiçoamentos. e sua crença totalmente a-histórica de que a natureza humana é sempre igual. mas. verídicas ou não. diria que a época de ouro italiana fora a de Lorenzo de Médici. autor das Vidas dos mais excelentes pintores. QUEIROZ.154O). considerando-o responsável pela ruína do Estado. em 1555. o papel da Fortuna. Dos historiadores do século XVI. talvez o mais conhecido hoje em dia seja Vasari (1511 . Tereza Tereza Aline Pereira A. escultores e arquitetos – de Cimabue a Tiziano. da imprecisão de muitos dados. o pragmatismo.60 QUEIROZ. Acredita basicamente que o tempo vai melhorando a arte. que poderiam ser transmitidos aos leitores mediante a apresentação das biografias individuais de cada artista. Vasari se ocupa da vida dos artistas. uma realidade vista com a maior parcialidade possível. Ao contrário de Machiavel não se interessa pela filosofia da história. de sua visão da arte desvinculada da sociedade. Seguindo uma ordem cronológica. o melhor e o máximo”. “tentei distinguir entre o bom. suas anedotas sobre os pintores. Considera que o inevitável declínio das artes pode ser sustado pelo esforço humano. & IOKOI. não poupara críticas à tirania de Lorenzo de Médici. foi empregado por Cosimo de Médici. Sua primeira história de Florença data de 1509. estão integradas ao imaginário de qualquer estudioso da arte. Pereira de & de IOKOI. como político hábil. Francesco Guicciardini (1483 .1574). vê progressos. mas com o estudo da realidade. Na dedicatória que faz a Cosimo. como arquiteto no Palazzo Vecchio. não deixou que fosse publicada enquanto vivo. Apesar da parcialidade de seus julgamentos. Pintor e arquiteto. como ele também fora funcionário público. onde concebia cerimônias elaboradas e grandes decorações para as festas da família. Grícoli vimentos gerais e naturais.Grícoli. sem pretender com isso realizar uma obra histórica de conjunto. Mais tarde. Machiavel dizia que a decadência podia ser detida pela virtú.

Na Alemanha. o advogado Etienne Pasquier (1529 . as histórias gerais da França – De rebus gestis francorum. Por outro lado.1547). as intenções do artista. Evidencia-se o fato de que todos aqueles que se ocupam da história têm uma outra formação e que esta atividade é uma .1621) – galicanos. que em suas Pesquisas sobre a França. defensores dos direitos da coroa francesa. de Paul Émile em 1500 – ou a história imediata – Historia mei temporis. e se voltam para a filologia. de julgar as obras pelos padrões e conhecimentos disponíveis na época de sua produção e pelos mais altos padrões estabelecidos pela crítica contemporânea.1617). é publicada uma História da Alemanha. das idéias e das letras. a numismática. Uma outra corrente é a dos eruditos que empreendem a catalogação das “antigüidades”. da sedimentação dos estados modernos e dos patriotismos. que estudam o direito francês em nome do interesse nacional contra os ultramontanistas e os jesuítas –. Na França. os historiadores também estão à serviço da política. atribuem historicidade ao direito romano. Girard de Haillan. utiliza textos antigos em altoalemão com um grande sentido da crítica. Fascinados pela Antigüidade. assim Pierre-Pithou (1539 . escrevem em latim. examina as origens das instituições francesas e os progressos da autoridade real. do estadista católico Jacques Auguste de Thou (1553 . das crenças. abordando a evolução dos costumes. leitor de Plínio. patriotas.1596) e seu irmão François (1543 .1615). Tito-Lívio e pela história humanista italiana. o culto dos grandes homens. em 1531. formulou alguns conceitos para os historiadores da arte: o de distinção entre o que é boa arte e arte ruim. Beatus Renanus (m. animam as biografias do historiógrafo oficial de Carlos IX e Henrique III.AS IDADES MODERNAS 61 disso. de estabelecimento de relações entre as obras. a crença numa finalidade pedagógica e moral da história. onde o humanista de Selestat. e a tradição de sua época. Tácito e Tito-Lívio.

ao contrário das ciências físicas não depende nem do raciocínio. com as Acta sanctorum. nem da experiência. Descartes (1596 . Jean de Bolland. Segundo Pascal (1623 . A indiferença à história parece ser uma marca do século XVII. Colbert funda a Pequena Aca- . O interesse do classicismo pelo permanente e o universal faz com que a história seja vista como o domínio do contingente e do particular. Também Claude Fauchet. como a jurisprudência ou a teologia. como os Monumentos da monarquia francesa (1729 . editadas a partir de 1668 sob a direção de Mabillon – que introduz a “diplomática” – e os trabalhos de dom Bernard de Montfaucon. surge um ensaio Do pouco de certeza que há na história. Considerada inútil em geral. QUEIROZ. classificadas dia a dia. Tereza Tereza Aline Pereira A. no entanto.Grícoli. É o caso do jesuíta de Liége.1662) a história seria incapaz de qualquer progresso por ser um conhecimento livresco. a numismática e a filologia e seus praticantes eram denominados “antiquários”.62 QUEIROZ. O espírito científico prevalece sobre a erudição – sob seu signo era vista a história. A erudição dos séculos XVI e XVII engloba a arqueologia. Zilda Zilda Maria M. Em 1668. continua. mas somente do princípio de autoridade.1650) despreza a história em nome da metafísica e da física. Por outro lado. autor das Antigüidades gaulesas e francesas até Clóvis (1599). Maur. sua obra situa-se numa corrente patriótica cuja expressão mais triunfante tomará forma na história do século XIX. que marca o início da exegese bíblica crítica. o trabalho dos eruditos na compilação de documentos antigos será importante.1638). Grícoli entre outras. É importante também o trabalho do oratoriano Richard Simon (n. seguindo o calendário. dos beneditinos de S. Benedictis. dependente da memória. Pereira de & de IOKOI. & IOKOI. coletânea de vidas de santos. a ser útil na formação dos futuros reis de França. Em 1663. com as Acta santorum ordinis S. era magistrado antes de ser nomeado historiógrafo de França por Henrique IV. para citarmos apenas alguns centros de erudição religiosa.1733). a epigrafia.

Século de Luiz XIV e Ensaio sobre os costumes. D’Alembert (1717 .AS IDADES MODERNAS 63 demia. os filósofos fazem obra de historiadores. tem um “espírito geral”. algumas obras deixam de ter o título história para se denominarem “progresso do espírito humano”. a geografia. aparecem as primeiras obras sobre o mundo árabe. em 1734.1804) e Condorcet (1743 . Voltaire diz que seu objetivo “é sempre . Esses filósofos com pele de historiadores verão o passado com outros olhos. As primeiras filosofias modernas da história também tomam forma no século XVIII. David Hume (1711 . com membros religiosos e laicos. como a de Turgot (1750) e Condorcet (1790). a Índia e a China. a vida econômica. Um pintor que ignore il costume.1776) escreveu uma história da Inglaterra . A integração de outros povos no horizonte histórico faz com que Fenelon (1651 .1755).” No século XVIII. partindo do princípio de que cada civilização forma um todo original. Voltaire.1783) dizia que a história era o último dos conhecimentos sem a filosofia. composto pelas instituições políticas. Voltaire (16941778) realiza a História de Carlos XII. Montesquieu quer explicar “a história pelas leis e as leis pela história”. que “o ponto mais necessário e mais raro para um historiador é que saiba exatamente a forma de governo e o detalhe dos costumes da nação sobre a qual escreve a história.1794) acreditam num progresso da humanidade em direção a um ideal. É de Voltaire a expressão “filosofia da história” (1756). Ecos do colonialismo. e cujo objetivo é a publicação de “memórias” consagradas à história. Nestes círculos eruditos. a religião e os costumes. que em 1716 se transforma na Academia Real de Inscrições e Belas Letras. publica Considerações sobre as causas da grandeza dos romanos e da sua decadência. não pinta nada com verdade. escritas por missionários e viajantes. a Pérsia. a cada século. escreva. à arqueologia e à lingüística. em 1714.1715).Montesquieu (1689 . Kant (1724 .

a crítica racionalista. uma metodologia. é ele que dirige os grandes acontecimentos da história. ao antiquarismo e passa a desempenhar um importante papel na educação e no cotidiano das pessoas. escrevendo com o intuito de divulgar suas idéias. tem horror aos crimes e às loucuras da humanidade. as noções de história cultural e universal. através de um crítica cética de lendas e autores eclesiásticos.”. diz pretender no Século de Luiz XIV “pintar à posteridade.Grícoli. . Muitos historiadores do iluminismo conseguem se liberar da camisa de força do Estado e da Igreja. quer esclarecer o leitor e não sobrecarregar sua memória. escrevia como um monge para seu convento. O inglês Edward Gibbon (1737 . & IOKOI. A história deixa de ser assimilada à erudição. não as ações de um só homem. na verdade. por isso renuncia a uma história narrativa. O século da história e também do historiador. A mudança de atitude frente ao fato e à concepção de história será absorvida pela historiografia do século XIX. Grícoli o de observar o espírito do tempo. QUEIROZ.64 QUEIROZ. Os que continuavam na dependência do governo eram criticados. os filósofos dão à história elementos para que se afirme triunfante no século XIX. ao detalhe factual inútil. Apesar de admirar os grandes homens. como historiador. Tereza Tereza Aline Pereira A. Zilda Zilda Maria M. Conheceu Voltaire e do iluminismo sua obra expressa uma filosofia da história e tendências anti-eclesiásticas e profanas. Pereira de & de IOKOI. Montesquieu diz que Voltaire.1794) produz uma obra clássica sobre a antigüidade. Gibbon viveu muito tempo em Lausanne na casa de um erudito calvinista.1788). Introduzindo a dúvida. atacam as formas tradicionais da religião e concebem a importância do fato histórico em relação com suas teses. mas o espírito dos homens no século mais esclarecido que jamais houvera”. a História do declínio e queda do Império romano (1776 . De origem aristocrática. seu estudo sobre as origens do cristianismo – responsável pelo grande êxito da obra – foi trabalhado como um tópico de história profana.

substituindo os temas antigos. Os contra-revolucionários dizem que a revolução fora um atentado à história. Passado esse rápido momento. Esta mudança radical liga-se profundamente ao próprio momento histórico da Europa. principalmente religioso. atraiu multidões ávidas por conhecer os estilos de vida do passado. encarregado de fazer com que seus alunos “repousassem deliciosamente seus olhares sobre os acontecimentos memoráveis que lhes libertaram”. Fenelon – passam a ser encenados no teatro. com salas montadas com objetos referentes a cada século da história francesa.AS IDADES MODERNAS 65 Tudo se historiza. A Revolução é sentida por todos os franceses como uma ruptura. a história não será ensinada nas . A Revolução abre os arquivos públicos. num primeiro momento. temas da história francesa – Carlos IX. deveria haver um professor de história especial. Esta história na verdade ainda estava se fazendo. dos objetos que formalizavam o tempo. o historiador se profissionaliza e passa a encarnar a consciência da nação. Seu fundamento é a Revolução Francesa. não havia sido escrita. eclesiásticos. senhoriais. Diante disso. a destruição sistemática dos monumentos franceses. A Convenção (1792 . De matéria secundária. da monarquia ou da igreja. Já em 1789. ensinando dez horas por semana. as mais diversas pessoas viram o interesse que o passado podia apresentar na educação dos cidadãos. apêndice do conhecimento humano. esta entidade milenar baseada num fluxo natural do tempo. A criação por Alexandre Lenoir do Museu dos Monumentos Franceses. daí. para a terceira sessão de suas Escolas Centrais. Os revolucionários queriam acabar com tudo o que fosse passado. transforma-se num mecanismo imprescindível para a compreensão do mundo e dos homens. desde a Idade Média.95) estabelece que.

da administração e do território”. membro do comitê de instrução pública sob o Diretório (1795). Acha absurdo que nas escolas sejam dadas aulas sobre as guerras púnicas e não sobre a guerra da América. a história é matéria obrigatória nos primeiros e segundos anos de Humanidades. Uma história oficial. destacando a análise da linguagem. No programa de ensino dos liceus napoleônicos. como diz Volney (1757 . da época de Luiz XIV. QUEIROZ. Napoleão fala do projeto de criação de “uma escola especial de história”. & IOKOI. das artes e dos costumes. Mas. a origem dos impérios com as causas de seus progressos e de suas decadências” e também “as regras da ciência crítica”. onde “se gozam dos benefícios derivados da união das leis. junto com outros Ideólogos – o grupo de filósofos que abandona a metafísica em proveito das ciências do homem. Em 1807. numa carta. No entanto. da gramática e da lógica.1820). em contraste com a época do Consulado. Em 1812. no sentido de uma ampla aceitação da história pelo grande público. de “um curso de bibliografia” e de várias cadeiras no Colégio de França. Zilda Zilda Maria M. Napoleão (1769 . no ano III. a falta de regras e de recurso na administração” do passado. como o de Le Ragois. Pereira de & de IOKOI. Grícoli escolas primárias por medo que as crianças possam “contrair medos e preconceitos”. onde estudam jovens de 15 a 17 anos. Tereza Tereza Aline Pereira A. O professor de história nasce do improviso. na medida em que ainda não existe uma especialização na matéria.Grícoli. do reconhecimento de seu valor . mesmo na época napoleônica não aparecem manuais diversos daqueles que vinham sido produzidos há vários séculos.1821) quer historiadores capazes de mostrar “a desordem perpétua das finanças. A grande virada.66 QUEIROZ. apresentando uma série de fichas com as histórias dos reis de França. o jovem Guizot (1787 1874) ensinava na Sorbonne “o trabalho comparado das leis. Volney já ensina história na Escola Normal.

AS IDADES MODERNAS 67 primordial na escolaridade. idealista. no âmbito político esse individualismo será traduzido em idéia nacional. privilegia a interioridade. Romantismo é um conceito utilizado para caracterizar uma certa visão de mundo. e de uma mudança no enfoque da história será empreendida pelos historiadores chamados românticos. a espiritualidade. a estética européia medieval à clássica. metafísica e poética. artística e política começa a tomar forma em fins do século XVIII. Contrapondo a sensibilidade e o idealismo filosófico ao racionalismo e ao empirismo da ilustração. . cuja expressão intelectual. o individualismo ao universalismo.

Hamelin em suas lembranças. Militar. em 1802. viaja para a América e depois para a Inglaterra. monarquista.1848). No dia em que é lançado. como diz Mme. uma inspiração para a arte e um modelo para a sociedade. De volta à França. Mas. Chateaubriand vê na religião católica um alicerce da civilização. tudo começa com o êxito retumbante do Gênio do Cristianismo (1802) de Chateaubriand (1768 . uma apologia da religião estritamente de acordo com os desígnios de Napoleão de reconciliação da Igreja com o Estado. Será este o seu legado aos que virão” Walter Benjamin – Sobre o Conceito de História. Rousseau é um dos primeiros a articular a sensibilidade romântica diante do mundo. 1940. Um ano depois o autor era admitido na diplomacia pelo próprio Napoleão. as pessoas disputam a tapas os exemplares. publica o Gênio. para a história. Na França.A MODERNIDADE 69 A MODERNIDADE “Nossa Geração teve que pagar para saber. . Chateaubriand vê sua carreira interrompida pela Revolução. depois da leitura se convencem de que o cristianismo “é delicioso”. pois a única imagem que irá deixar é a de uma geração vencida.

70 QUEIROZ.. Chateaubriand.1832) esboçara no seu ensaio sobre a Catedral de Strasburgo (1773). Deus mal aparece no livro. mas ao contrário. com espírito empírico.Grícoli. mas que ele vem de Deus porque é excelente. ignorado pelos cultos. O século XVIII havia apresentado o cristão como um ridículo..” Em seu livro não ataca os filósofos.1856) narra: “em 1810 (. Chateaubriand apresenta com a exaltação e magnificência de uma sinfonia. mas. que tem um nítido sentido do antes e do depois – exatamente como Voltaire via a história. Augustin Thierry (1795 . pelos movimentos de seu coração. suas obras foram fundamentais para despertar em muitos a vocação pela história. Zilda Zilda Maria M. “era preciso pegar o caminho inverso. atinge o leitor pela emoção. das contradições de sua época. QUEIROZ. mas doutor em história. Grícoli As páginas que comparam as grandes catedrais góticas com as florestas primitivas da França expressam uma arrebatadora visão onírica do passado. Apesar de não ser propriamente um historiador. não provar que o cristianismo é excelente porque vem de Deus. O tempo era um elemento criador e a história possui uma objetividade absoluta. Consciente da insegurança do mundo diante da quebra das hierarquias. Pereira de & de IOKOI. A visão tradicional de que a beleza só poderia ser clássica desabava por completo. Vê no cristianismo uma filosofia histórica do progresso. Chateaubriand coloca Deus como uma garantia para a manutenção da ordem social. . mas os exalta fazendo de Voltaire e Rousseau dois homens imbuídos dos fantasmas do cristianismo. Como diz. & IOKOI. a força dos primeiros franceses. que pertence a este século e ainda compartilha muitas de suas idéias. Tereza Tereza Aline Pereira A. O que Goethe (1749 . partindo do real. para ele a encarnação do gênio alemão. em realidade. é o plano de encontro entre o tempo e a eternidade. Deus não era arquiteto como na Idade Média. da pátria. trazido de fora. que quebra o eterno retorno.) um exemplar dos Mártires (de Chateaubriand). concebe a apologia cristã não partindo de Deus. pela experiência.

Todos aqueles que. o gótico. inicia uma catalogação sistemática de todas as fontes da memória nacional e a publicação dos Documentos inéditos relativos à história da França. Após a restauração de 1815..” Este momento de entusiasmo foi decisivo para minha vocação futura. Guizot (1787 . Em 1832. como Dante à Virgílio: Tu duca.A MODERNIDADE 71 circulou na escola.. Eu saí do lugar onde estava sentado e. em diferentes sentidos. história da burguesia conquistadora. em suas primeiras inspirações.. Os historiadores românticos serão liberais e a Idade Média.. Cousin serão nomeados ministros. A impressão que me causou o canto de guerra dos francos tinha algo de elétrico. tu signore e tu maestro”. enquanto os liberais ansiavam pela integração dessa ruptura no presente e também numa relação com o passado.. serão temas privilegiados. o encontraram na fonte de seus estudos.. logo haverá um fusão entre Revolução e romantismo convergindo para o estudo da história nacional. eu repetia em voz alta e batendo os pés no chão: “Faramond ! Faramond ! nós combatemos com a espada !. andando de um lado para outro da sala. Estes querem apagar a Revolução. O estudo da história torna-se uma questão de Estado e historiadores como Guizot. .1874). ao mesmo tempo que pretende criar uma identidade nacional.. Thiers. Se os primeiros momentos do romantismo são anti-revolucionários.. para a captação da cor local. o bárbaro. O historiador liberal é o porta-voz da burguesia. A história liberal. Eis aqui minhas dívidas para com o escritor genial que abriu e que denomina o novo século literário. não existe ninguém que não deva lhe dizer. tem por missão afirmar o valor e legitimar a nova classe detentora do poder. “uma pesquisa integral do passado”. caminham pelas vias deste século. o corte num contínuo histórico. ministro da instrução pública. o passado nacional. a história torna-se o campo de luta entre liberais e conservadores.

evocando as diferentes formas de servidão do campesinato francês desde a época da invasão romana até seus dias. mas vê na política. O progresso das massas populares para a a liberdade e o bem estar nos parecerá mais imponente que a marcha dos fazedores de conquistas. Tereza Tereza Aline Pereira A. o historiador não deve ser o porta-voz dos grandes. QUEIROZ. Augustin Thierry. Pereira de & de IOKOI. Zilda Zilda Maria M. Grícoli em suas palavras. Em 1840. a Revolução havia construído uma sociedade de vinte e cinco milhões de cidadãos vivendo sob a mesma lei. castelos e cidades medievais – para efetuar um levantamento das riquezas arqueológicas francesas. Thierry publica A verdadeira história de Jacques Bonhomme. diz que no lugar das antigas ordens. futuro responsável pelas grandes restaurações de igrejas. em 1833. ainda está por ser escrita. no momento pós-revolucionário um impulso para sua dedicação à missão de escrever história: “A história da França tal como foi feita pelos historiadores modernos não é a verdadeira história do país. a mais instrutiva.72 QUEIROZ. Nossas almas ligar-se-ão ao destino das massas de homens que viveram e sentiram como nós. Merimée “descobre”assim as igrejas românicas. e suas misérias serão mais tocantes do que aquelas dos reis despossuídos. Prosper Merimée (1803 . a história nacional. & IOKOI. Em 1850. falta-nos a história dos cidadãos. seguindo o êxito dos Monumenta Germaniae historica. percorre toda a França – tendo como assistente Viollet-le-Duc. da desigualdade de classes. nomeado inspetor dos monumentos históricos. Em 1820.” Assim. o . iniciando uma série de estudos e ensaios sobre as artes da idade média.1870). após ter sido secretário de Saint-Simon e colaborado em jornais liberais. mas sim aquele que se interroga sobre os sentimentos e os movimentos do povo. Esta história nos apresentará exemplos de conduta e este interesse de simpatia que procuramos em vão nas aventuras deste pequeno número de personagens privilegiados que sozinhos ocupam a cena histórica. do povo.Grícoli. a mais grave. publicado na Alemanha. não se tornará um político. a história popular. A melhor parte de nossos anais.

livro que reafirma o gosto do público pela Idade Média. fora professor de história na Sorbonne. uma desenvolvida pelo Estado e a outra pelo comércio e indústria. ministro do interior. o texto reflete as leituras de Chateaubriand e Scott. Antes disso. da educação pública. conduzida e encarnada pela burguesia. embaixador em Londres. a luta de raças antecederia a luta de classes. na década de 20. acha que o historiador deve narrar e pintar ao mesmo tempo. contribuiu para aumentar a miséria dos trabalhadores e instigar uma crescente oposição. distingue no passado a existência de uma massa popular. Tradicionalmente. Dizia então “que a luta das diversas classes de nossa sociedade preencheu nossa história. uma comparação das burguesias inglesa e francesa. que favorecia a grande burguesia nacional. o livro de história apresentava uma narração dos fatos e em seguida os comentários do autor. onde em seus cursos celebrava a Revolução como a batalha decisiva da história francesa. em 1840 substitui Thiers no ministério dos Assuntos Estrangeiros e se torna o verdadeiro chefe do governo. Sua política. enquanto movimentos populares. serão a revanche da conquista franca. diante do triunfo burguês quer congelar a história con- . a leitura do Ivanhoé de Walter Scott resultará numa mudança no estilo da escrita da história para Thierry. durante a Monarquia de Julho será o chefe do partido da Resistência. Na Narrativa dos tempos merovíngios (1824). Guizot. Thierry acha falsa essa divisão que separa “os fatos daquilo que constitui sua cor e sua fisionomia individual”.A MODERNIDADE 73 Ensaio sobre a história da formação e dos progressos do Terceiro Estado. dirá que 1789 e 1830. A Narrativa baseia-se na teoria da luta de raças – entre galoromanos e germanicos – como motor da história do desenvolvimento nacional. no governo. A Revolução de 1789 foi sua explosão mais geral e mais poderosa. fiel à Luiz Felipe. Numa outra dimensão.” Mas. No Ensaio sobre a história do terceiro estado.

da união da religião e do povo sofredor e de suas lutas. neles desenvolve suas idéias democráticas laicas. em 1847 – pouco antes da revolução de 48 – que todos os interesses haviam sido satisfeitos e que a luta de classes havia terminado. Marx será um atento leitor da historiografia romântica burguesa francesa. cujos seis primeiros volumes. em que as pedras se animam e se espiritualizam na mão dos artistas. Tereza Tereza Aline Pereira A. Vico critica o racionalismo cartesiano e utiliza um método comparativo. O princípio de “humanidade que se cria”. Nomeado chefe da sessão histórica dos Arquivos Nacionais (1831). & IOKOI. dos heróis e dos homens. Zilda Zilda Maria M. Herder e sobretudo Vico (1668 . O grande astro da historiografia burguesa será Jules Michelet (1798 . Pereira de & de IOKOI. Nesta obra. Grícoli tra os perigos do “quarto estado”. passariam por três fases sucessivas: idade dos deuses. o desenvolvimento e a decadência das nações que. tempo da infância da França. Seus cursos no Colégio de França atraíam multidões. neles cria uma idade média romântica. interior. tendo rompido com o catolicismo. da alma nacional”.1744). Entre 1847 e 1853 publicou os sete volumes da História da Revolução Francesa. QUEIROZ. em cada uma destas fases é possível colocar em paralelo o modo de governo. Michelet. do “grande movimento progressivo. apoiando-se na filologia. Nascido num meio popular. um trabalho profun- . para estudar a formação. considerava. obrigatoriamente. o sistema jurídico e a linguagem.Grícoli. após ter sido um aluno brilhante. das origens à morte de Luiz XI. volta-se para o passado nacional e elabora sua enorme História da França. aparecem entre 1833 e 1844.74 QUEIROZ. é de Vico. utilizado por Michelet. Nela vê uma consciência explícita da luta de classes como motor da história. É um apaixonado pela filosofia da história de Victor Cousin. de quem traduz os Princípios de uma ciência nova sobre a natureza comum das nações (1725). é encarregado do curso de história antiga na Escola Normal Superior. filho de um impressor. idealizada.1874).

de todas as classes e de todos os partidos. O historiador é um sacerdote com poder de ressuscitar os mortos. dos conflitos políticos. E. é a França”. guardem bem uma coisa. após Michelet a história sofre de uma considerável perda de vigor. Michelet explica sua paixão arrebatada pela história e pela França como uma obra da política. acha que a França ainda não possui uma história e que a escrita desta história.” Após 1851. continua a publicação dos volumes relativos à história da França. Para Michelet. de classe. “Franceses de todas as condições. tal homem”– e todos os aspectos da vida passada. do raio de Julho. fez-se uma grande luz e eu vislumbrei a França”. Nestes dias memoráveis. não tivesse dentro de mim a alma e a fé do povo. É necessário entregar-se totalmente a esta tarefa imortal. Mas é Roland Barthes quem capta Michelet com sutileza. liberdade não é um conjunto de garantias jurídicas. para criar uma história total. antes de tudo. imaginação e argúcia: “Tudo para . que passam a falar através de seus livros. destituído de suas funções oficiais. Para Michelet o nome da França é Revolução. Georges Lefebvre considera que um gênio como Michelet não podia deixar nem método. Como Thierry. A geografia. A nação é o quadro e o resultado essencial de sua busca.A MODERNIDADE 75 damente passional e ao mesmo tempo minuciosamente documentado: “eu não poderia compreender os séculos monárquicos se antes. o homem. nem programa de pesquisa e nem discípulos. da revolução de 1830: “Esta obra laboriosa de quase quarenta anos foi concebida a partir de um momento. todas imbuídas de um espírito de polêmica política. o historiador deve buscar na mais ampla documentação. de um encolhimento de seus horizontes. de Luiz XI a Luiz XVI. econômicos. sobre esta terra vocês só tem um amigo verdadeiro. “a ressurreição total da vida” é uma missão. a vida é que era tudo. como Lucien Febvre gostava de lembrar. como acreditava “o pobre Montesquieu”. acima de tudo. o povo – “tal pátria.

Lavisse constrói uma história linear da França. aí adota seu método. histórica mas científica.Michelet tem enxaquecas históricas. baseado nos determinismos da raça. O presente.. Zilda Zilda Maria M. & IOKOI. não se tratava mais de construir uma nação através do livro de história. sagrada mas laica. mas também como um objeto possuído... Com a queda do Segundo Império e a proclamação da Terceira República. e do manual Lavisse.. havia buscado as causas da guerra de 70 e da Comuna na obra As origens da França contemporânea. sofredor. No âmbito do grande público e da educação cívica. autor de uma História da França. como um veneno sagrado.1893).Grícoli. a divulgação de uma idéia republicana de pátria. em 1870. Esta será a tarefa dos professores de história nas últimas décadas do século XIX até 1914. a Terceira República.. com base nas batalhas e na heroicidade daqueles que sacrificaram sua vida pela pátria.. mas sim de preparar a juventude para a recuperação concreta desta nação. para agora explicar a situação da França. vazio. lido por todas as crianças francesas nas escolas públicas. do meio geográfico e social.. crítico literário. Pereira de & de IOKOI. filósofo e historiador. Este homem que deixou uma obra enciclopédica feita de um discurso ininterrupto de sessenta volumes declara-se a todo momento “ofuscado. Grícoli ele é enxaqueca. nem antes e nem depois.1922).. o ensino da história fora ou seria considerado a tal ponto imprescindível e redentor. QUEIROZ. fraco. será empreendida pelo historiador Ernest Lavisse (1842 . Nunca.”.76 QUEIROZ. Entre 1876 e 1896. é considerado como o ápice da história fran- . feito à imagem das ciências naturais. que antes lhe havia servido para explicar as manifestações artísticas. do momento da evolução histórica. Hippolyte Taine (1828 . Tereza Tereza Aline Pereira A. “..Estar doente da história é não apenas constituir a história como um alimento. O historiador e o professor de história viverão seus dias de glória absoluta na França após a derrota de Sedan e a perda da Alsácia e da Lorena. composta entre 1892 e 1911.

Para os metódicos. Em 1898. fazer com que cada um se projete nessa grandiosidade. esta objetividade seria produto da aplicação de técnicas rigorosas no inventário das fontes. Rambaud. a pesquisa histórica deveria ter um caráter científico. Sagnac.A MODERNIDADE 77 cesa e todos os períodos anteriores são considerados em relação com o presente. Em 1890. é publicada a Introdução aos estudos históricos de Charles-Victor Langlois e Seignobos. dirigem grandes coleções – História da França. de Lavisse. A França aparece como um soldado de Deus. ocupam cadeiras nas novas uni- . Os historiadores positivistas participam ativamente nas reformas do ensino superior. Charles Seignobos (1854 . a maior de todas as missões. em 1876. Halphen e Ph. História geral de A. o país de maior ação civilizatória de todos os tempos. Encontrava-se na linha do cientificismo histórico de Taine e de Fustel de Coulanges (1830 . segundo Lavisse. A escola dita metódica ou positivista desenvolve-se na França durante a III República. visando a uma objetividade absoluta. Seus princípios estão expostos no manifesto de Gabriel Monod escrito para o lançamento de sua Revista histórica. inculcar uma adoração pela pátria que impulsionará os jovens à sua defesa e à retomada da Alsácia e da Lorena. na crítica dos documentos. por exemplo –. de L. na organização dos trabalhos na profissão.1889) para quem a história podia ser uma ciência. alheia ao meio social do historiador que a elabora. mas jamais uma filosofia da história. o manual por excelência da história positivista. O historiador é agora um profissional. pois se ligava à filosofia ou às humanidades literárias. e no manual de Langlois e Seignobos. distante de qualquer especulação filosófica. a disciplina histórica ainda não tinha total autonomia universitária. Cabe aos professores de história. Até 1880.1942) é encarregado de um curso de pedagogia das ciências históricas. São criadas então uma licença específica para o ensino de história e um grande número de cátedras universitárias. Povos e Civilizações.

estes documentos seriam limitados apenas aos escritos voluntários – cartas. enumerar seus pontos principais – nomes. purificados e colocados em ordem. manuscritos diversos. do documento. “a história será constituída.. lugares – fazer uma ficha de tudo e passar à crítica interna. A história seria apenas “o trabalho de documentos”. seqüências de fatos e datas.” . retomar as informações da crítica de erudição. finalmente. por dedução ou analogia. Langlois e Seignobos.Grícoli. Esta parte de hermenêutica recorre à lingüística. institucionais – e. no entanto. as filosofias da história de Hegel e Comte. a história-literatura de Michelet. ligar os fatos entre si e preencher as lacunas da documentação levando o historiador a arriscar algumas generalizações ou interpretações. descartam o providencialismo de Bossuet. descobrir sua autenticidade pela paleografia. Pereira de & de IOKOI. por exemplo. ele se iluda de que está desvendando algum mistério. visando a constituição de uma história científica. QUEIROZ. Esta consiste em encontrar a fonte do documento. sem que. o progressismo racionalista e o finalismo marxista. salvar. atrás dos quais o historiador se apaga. Grícoli versidades e elaboram os manuais para as escolas primária e secundária com galerias de heróis. de erudição. para a escola metódica não são considerados documentos. canções etc. registrar e classificar esse material e passar à crítica externa.. os sítios arqueológicos ou testemunhos involuntários.. O historiador primeiro deve fazer um inventário do material disponível – “heurística”–. & IOKOI. correspondências. Analisar as condições nas quais o documento é produzido e fazer a crítica negativa para controlar os dizeres do autor. reagrupar fatos isolados em quadros gerais – sociais. para determinar o valor de palavras e frases.quando todos os documentos forem descobertos. fazer a análise do conteúdo e a crítica positiva da interpretação para ter certeza do que o autor quiz dizer. decretos.78 QUEIROZ. datas. Tereza Tereza Aline Pereira A. é necessário comparar com outros documentos da época para estabelecer um fato particular. como manuais de confissão. Feito isso. Zilda Zilda Maria M.

o manual de Langlois e Seignobos sugere que deva haver eruditos de um lado. erudi- . em meados do século XIX.1854).1803) ao dizer que “toda perfeição humana é nacional. jovens pesquisadores com pesquisas modestas. para ele tudo o que existe era produto do clima. por exemplo. do país etc. escrevendo pequenas monografias.A MODERNIDADE 79 Diante de trabalho tão complexo. Apesar de este ter sido o modelo histórico predominante na França até 1930. Nas Idéias sobre a filosofia da história da humanidade (1784 1791) postula que a história é um estudo dos tipos de civilizações humanas. Estava instaurado o regime universitário da cátedra. o romantismo alemão confundiu-se com o nacionalismo e a luta política pela unificação. A tentativa de aniquilamento das filosofias da história originou-se na Alemanha. e estritamente considerada. fundia as noções de pátria. O filósofo Herder (1744 . individual”. que também via no gênio nacional alemão as origens do direito. secular. e os de Friedrich Karl Savigny. cientificamente. sua origem não é francesa. como os de Karl Friedrich Eichhorn (1781 . Os professores devem ser especialistas num deteminado assunto e assumirem capítulos concernentes às suas especializações nas grandes obras de história universal. sob a tutela dos grandes professores universitários que analisam essas monografias e. de suas culturas. como uma contra-posição ao romantismo e ao idealismo de Hegel. e do outro. das circunstâncias temporais aliadas a virtudes nacionais e seculares. por meio delas constroem teses gerais. história e indivíduo. de suas línguas. de onde se desprende a alma popular. Nas primeiras décadas do século XIX. Com este espírito são elaborados trabalhos sobre a história do direito. que considera o direito como uma emanação popular. A busca de um passado comum que justifique a superação dos particularismos políticos é intensa na Alemanha.

neste sentido.1831). Menos individualista que os românticos. Este será o tema da Fenomenologia do Espírito (1807).Grícoli. foram sobre o espírito do judaísmo e do cristianismo. acredita que o indivíduo se funde inteiramente no espírito do universo. Apesar de acreditar no poder da razão. a realização da liberdade. O Estado aparecia no centro desta história universal em que a razão tiraria partido do instinto coletivo para fazer avançar a humanidade nos caminhos da perfeição. A história é também um terreno de especulação para os filósofos. A história universal representaria o progresso na “consciência de liberdade”. passava pelos gregos e romanos e terminava com os povos germânicos-cristãos. a série dos Monumenta. Zilda Zilda Maria M. Esta história no entanto seria racional. ministro de Frederico Guilherme III. e a dialética seria a “alma motriz da história”. considera que o problema fundamental é o da realização da humanidade em nós e da humanidade na história. o Barão von Stein. pois a razão governa o mundo. postula que no desenvolvimento histórico e do espírito haveria sempre um progresso. o presente seria sempre o objeto da história. que descreve a história da consciência desde o “aqui e agora” até o saber absoluto. QUEIROZ. substituindo Fichte. Retoma o providencialismo cristão e descarta o acaso. Hegel pretendia forjar novos conceitos aptos a traduzirem a vida histórica do homem e sua existência num povo ou numa história. Grícoli tos concentram seu saber em dicionários especializados. em 1819. As primeiras reflexões de Hegel (1770 . A história expressaria o movimento do espírito. na Prússia. reunindo as fontes alemãs entre 500 e 1500. é também um homem de fé. Protegido da monarquia prussiana. . dado que o mundo seria um espelho do espírito. considera o Estado o objetivo final absoluto. e seu sistema visa a permitir que todo o Universo seja pensado. & IOKOI. Pereira de & de IOKOI. Tereza Tereza Aline Pereira A. em 1818. funda em Frankfurt uma sociedade de estudos alemães antigos. teria inícios no oriente. assim. ao assumir a cátedra de filosofia em Berlim.80 QUEIROZ. é publicada a partir de 1826.

construia-se uma história da filosofia baseada numa conexão entre os diferentes sistemas e não somente em vidas dos filósofos. não existe unidade fora dele. César. Nas Lições sobre a filosofia da história diz que “o espírito tem em si mesmo o seu centro. ambiciosos. síntese. como a História da filosofia. ele é em si e consigo. . a flor refuta as folhas mostrando que não são a existência suprema e verdadeira da árvore.”.1768) para a história da arte. correspondendo assim às circunstâncias históricas. Tese. lutam contra César (antítese). podemos dizer que a história universal é a representação do espírito em seu esforço para adquirir o saber daquilo que é. Pela primeira vez. o ser do conhecer. Em história política: no fim da república romana. A integração da dimensão do tempo como categoria de inteligibilidade feita por Hegel é uma manifestação da importância assumida pela história no século XIX. ele é também a atividade pela qual volta a si. César triunfa e se impõe como único governante (síntese). se faz o que é em si. mas compreender e justificar cada um dos sistemas.” História do espírito e do universo são a mesma coisa. além de ter sido intelectual que estimulou amplos setores da juventude. se produz assim. A flor acaba sendo refutada pelo fruto. mas este não poderia ter chegado a existir sem as etapas precedentes. A refutação de um sistema por outro seria própria ao desenvolvimento da filosofia: “O desenvolvimento da árvore é a refutação da semente.O espírito sabe-se a si mesmo. baseado no estudo dos estilos e não dos artistas. Karl Marx.. ambicioso. toma o poder (tese). antítese. Hegel retoma para a filosofia o projeto de Winckelmann (1717 . seus inimigos. mas ele a encontra.1860) e Zeller (1814 . Hegel formou vários historiadores idealistas como Baur (1792 . ele é o julgamento de sua própria natureza. O idealismo absoluto de Hegel não distingue o sujeito do objeto. Ao historiador da filosofia não caberia julgar.1908). Segundo esta definição.A MODERNIDADE 81 Estas teorias Hegel aplicaria em suas obras históricas.. os mais diversos. “os jovens hegelianos”. entre os quais aquele que mais se debruçou sobre seu pensamento.

que só será realizado no final do século XIX. sobreviveu apenas no exílio. não haveria qualquer relação entre o sujeito – o historiador – e seu objeto – o fato histórico. o historiador deve . independente de quem a estuda. & IOKOI. Georg Lukács acabam de se extinguir. por exemplo. considera o marxismo demasiadamente articulado com a sociedade industrial. e seus últimos representantes Marcuse. Leo Loventhal. “subjetivas” e “moralizadoras” em prol de fórmulas “científicas”. como uma cultura da diáspora. baseava-se na utopia libertária. Zilda Zilda Maria M. Leopold von Ranke (1795 . bebendo no messianismo judaico os elementos questionadores tanto do individualismo como da articulação dos indivíduos na idéia de nação. o historiador escapa a qualquer tipo de condicionamento social. literatura ou filosofia do século XX. A cultura judeo-alemã aparece com Heine e Marx. Ernest Bloch e Walter Benjamin. Um pouco esquecida especialmente depois da maré nazista. Freud e Kafka. Gershon Scholem ou Leo Lowenthal. restituição. restabelecimento da harmonia perdida. mas simplesmente dar conta do que se passou”. Pereira de & de IOKOI. Erick Fromm. Evidentemente.1886) nega as filosofias da história “especulativas”. Unidos pela idéia polissênica que significa redenção. estes pensadores contraditoriamente vivem com orgulho esse sincretismo (Landauer) ou pelo dilaceramento (Kafka). permitiu que ali se constituísse um outro paradigma mais anarquizante especialmente com Martim Buber. Em contrapatida ao hegelianismo e ao romantismo. negando as origens alemãs (Scholem) ou a identidade judaica (Lukács). A aspiração do grupo a uma organização nacional judaica os afasta do nacionalismo político.82 QUEIROZ. reparação. entretanto.Grícoli. não sem deixar profundas marcas na ciência. Franz Rosenzweig. QUEIROZ. Grícoli O romantismo alemão. a história existe em si. “objetivas” ou “positivas”. Ernest Bloch. Tereza Tereza Aline Pereira A. a configuração histórico-cultural da formação da Europa Central e a ausência de projeto de unificação alemã. portanto é absolutamente imparcial. Para ele o historiador não deve “julgar o passado nem instruir seus contemporâneos.

Apesar disso insiste sobre a influência de Deus sobre a história e a continuidade das duas nações que estuda.A MODERNIDADE 83 registrar os fato passivamente. Já como professor. Desse período resultam a História do papado – onde destaca a importância das nações depois da queda de Roma e a impotência da Igreja a impor seus sonhos de soberania nacional – e a História da revolução sérvia – em que . torna-se professor de história em Frankfurt-sobre-o Oder. estudou teologia. Fichte. Ranke decide continuar suas pesquisas sobre o século XVI italiano e parte para Viena. onde já se atém à sua fórmula de apenas narrar os fatos. onde havia uma infinidade de documentos venezianos. a história era uma maneira de se conhecer Deus. Guilherme de Humboldt desejava então transformá-la no maior centro cultural da Alemanha. Bockel. como um espelho reflete uma imagem. volta-se então para a história moderna. Ranke pertence a uma família de pastores alemães protestantes. trabalha muito nesse período lendo os historiadores italianos e os autores do fim da Idade Média. Entre 1816 e 1825. todos a serviço da Prússia e de uma Alemanha nova. a quem muito admirava. Em 1824. escreve sua primeira obra. que por pouco não se tornara pastor. Schleiermacher. seu livro desperta interesse no meio universitário. gramática e filologia na Universidade de Leipzig e busca uma utilidade para esta ciência fora da antigüidade. sobre os povos romanos e germânicos. Ranke decide nesta época estudar história moderna. nela trabalhavam Niebuhr. Savigny. desviando-se um pouco dos autores latinos e principalmente de Tucídides. Só assim pode-se chegar ao conhecimento da verdade. ao historiador cabe apenas reunir os fatos. Para ele. toda e qualquer reflexão é inútil e prejudicial. Ranke é convidado a lecionar na recémfundada universidade de Berlim. Publicado. baseados em inúmeros documentos e a narrativa histórica deve então se organizar a partir destes fatos. onde havia uma grande massa de estudantes. um dos períodos que ilustraria a vontade de Deus sobre os grandes acontecimentos.

religiosamente providencial. Morre em Berlim. Burckhardt tenta captar o renascimento em sua individualida- .1897). A revolução de 30 o faz voltar à Alemanha. voltada para a defesa das teses do governo vigente. & IOKOI.Grícoli. Encara a vitória da Prússia sobre a França em 1870 como uma corroboração de sua tese sobre a ascensão e queda das nações. sua imparcialidade apenas desnuda a enlevo da burguesia diante do que considerava progresso. Continua a pensar na ordem divina presidindo a sucessão de épocas e de nações dominantes. ao mesmo tempo em que mantém firme uma tradição da história política. Pereira de & de IOKOI. Tereza Tereza Aline Pereira A. Prosseguiu como professor da universidade de Berlim e como pesquisador e autor de livros até o fim da vida. um se tornaria mais famoso do que o próprio Ranke. Seus discípulos ocuparam todas as mais importantes catédras de história na Alemanha. mas sim uma continuidade cristã. factual. É Jacob Burckhardt (1818 . mas não vê como Hegel um progresso nesta sucessão. A partir de 1828. onde percebe que sua vocação de historiador é um mandato de Deus. mas sem resultados concretos. que soube encampar a riqueza da antigüidade. autor da Civilização do renascimento na Itália (1860). Zilda Zilda Maria M. Ranke é um exemplo da penetração do cientificismo na história. representa o historiador já inserido num quadro universitário. incapazes de afastar os muçulmanos e de conseguir uma independência nacional. passa três anos na Itália. obra marcante na afirmação autônoma da história da cultura. em 1886. e. Por outro lado. sobretudo.84 QUEIROZ. em que explica a história européia contemporânea e a verdade das teses prussianas. Entre seus alunos. QUEIROZ. Em Berlim inicia a publicação do Historische Politische Zeitschrift – jornal de história política. Com um fundo hegeliano e sua admiração incontida pelo classicismo. Grícoli demonstra a comunidade de civilizações que une os povos romanos e germânicos em oposição ao destino histórico dos eslavos oprimidos pelo sistema imperial oriental. Em 1865 havia recebido um título de nobreza por seu trabalho como historiador.

embora só visse decadência no século XIX. História da Inglaterra a partir de James II (1849 1861). conservadora. respondem a um imperativo de compreensão das mudanças do presente que torna o especialista em pensar a história em um elemento ativo dentro da sociedade. formula suas considerações a partir do presente e procura provar que a salvação da Inglaterra nunca esteve na revolução ou no despotismo. onde insiste sobre o papel dos gênios na história. mítica. e Thomas Macaulay. as revoluções industrial e francesa dão margem a uma historiografia romântica. antiindustrialista. batalhas e grandes nomes. impregnados de paixão política e cientificismo. fazendo dele uma época de ouro forjadora do futuro. História da Revolução Francesa (1837) e Heróis e culto dos heróis (1841). Na Inglaterra. . recheada de fatos. tanto a paixão como o cientificismo convergiram para a escrita de uma história política.1797) Reflexões sobre a Revolução na França (1790). cada um dentro da especificidade de seu país de origem e de seu momento.francesa. muito popular em sua época. francesa.A MODERNIDADE 85 de. opondo-se ao utilitarismo e ao materialismo. Ranke. industrial – e também pela penetração da máquina e das produções derivadas das ciências no cotidiano abria caminho para que fossem pensados métodos de análise do passado. Macaulay. A aceleração do tempo provocada pelas Revoluções – americana. exemplificada nas obras de homens políticos como Edmund Burke (1729 . Embora aparentemente contraditórios. Michelet. e na geração seguinte Lavisse. Thomas Carlyle (1795 . anti-iluminista e anti.1881). Macaulay. mas sim num governo parlamentar liberal.

A história e a luta de classes. A partir de noções abertas como formação econômico-social. consciência de classe.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 87 O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO “Nada é mais real do que nada. e nos Manuscritos estabelece-se um novo rumo para a história e os historiadores. que debruçados sobre conceitos de preço e lucro justificam as noções de valor agregados apenas ao capital. modo de produção. mas não extraídos do trabalho. Os estudos sobre economia política permitem encontrar o sentido dos interesses restritos dos economistas clássicos.” Samuel Beckett A grande revolução para o historiador contemporâneo vem da Alemanha. reinstaura-se um campo de debates com conseqüências de longo prazo. No manifesto de 1848. A Dialética da Natureza de Hegel é substituída pela constituição da noção de necessidade especialmente a partir das análises da escassez e da abundância. extraído do trabalhador na medida em que se define o salário pela média do tempo gasto socialmente na . Marx reorganiza o pensamento de David Ricardo sobre o valor de uso e o valor de troca e nele insere o valor do trabalho não pago. quando Karl Marx escreve um manifesto que ganha dimensões de uma bomba.

Estabelece um combate aberto contra o idealismo e termina por destacar com muita força o papel da economia no desenvolvimento da história humana. & IOKOI. entretanto. onde não haveria estado nem classes sociais. Zilda Zilda Maria M. A contribuição mais significativa. refere-se à luta de classes e ao sentido da práxis revolucionária. A mercadoria se humaniza e o homem é coisificado. ou seja. Grícoli produção de uma mercadoria. Em Grundisses recupera dimensões cotidianas das experiências humanas e desenvolve com muita precisão o método hipotético analítico. Tereza Tereza Aline Pereira A. Sua obra mais citada. circulação e realização do valor.Grícoli. Evidentemente a ordem estabelecida aos estudos permite um bom entendimento do sistema capitalista em seus três tempos: produção. Em A Ideologia Alemã.88 QUEIROZ. dialoga tanto com os jovens hegelianos. foram inicialmente os economistas entusiasmados com as possibilidades de mensuração abertas pela crítica da economia política. por Karl Kautisky. Este novo modo de pensar a história espalha-se como um fio de pólvora e os debates em torno da revolução ampliam-se para toda a Europa. seria um fator decisivo na mudança de rumo da construção da história. QUEIROZ. O Capital. No desenvolvimento do capitalismo o homem perde o sentido do trabalho enquanto criação. Recuperase a noção de revolução constituída pela burguesia e inclui-se o sentido de superação. o trabalho parcelar aliena e compartimenta o trabalhador à lógica da produção. Após a . nomeados marxistas. A primeira guerra mundial. Exercício primoroso é realizado em 18 Brumário. que para libertar-se deve se apropriar daquilo que é tomado pelo capitalista libertando-se a si e a sociedade como um todo. Dedica-se a entender a sociedade da necessidade e projeta como devir o reino da liberdade. Os seguidores. Pereira de & de IOKOI. A classe que se forma nesse processo é o proletariado. de 1914 a 1918. foi organizada a partir de estudos esparsos em três volumes. o processo de acumulação. onde estuda os conflitos entre as classes sociais na França de 1848 e o golpe de Luiz Bonaparte. como com os socialistas românticos ou utópicos que propunham uma alteração moral na relação entre os proprietários e os trabalhadores.

especialmente J. especialmente no combate aos postulados do pensamento marxista e na relativização das lutas que se abriram entre as classes naquele período. dando ao presentismo outras centralidades móveis e articuladas não no sentido do relativismo niilista.H. A oposição ao relativismo será concebida na idéia de que o conhecimento histórico se constitui por determinações sociais que lhe atribuem um caráter de classe. mas como elementos norteadores da reflexão no entendimento das estruturas sociais.Burns em História e Escritos Históricos de 1937.Robinson em A nova História publicado em 1912 em Nova York e H. do progresso. da história-batalha. a História? O pensamento . do herói nacional. das desigualdades e das diferenças existentes entre os donos dos meios de produção e dos que. O problema da verdade passa a ser explicado de modo distinto do universo da idéias. encaminhando-se para a descoberta dos conflitos mediados por necessidades subjetivas e objetivas das relações entre o ser e o existir. Deve-se ainda perguntar se o político e o estatal contêm a verdade dessa realidade. e especifica os interesses de classe como elemento central no entendimento dos conflitos sociais. da missão civilizadora do ocidente contra os bárbaros. Marx ao questionar a dialética hegeliana define a História como luta entre as classes sociais. Os funcionalistas e liberais norte-americanos aderiram prontamente aos postulados do presentismo. desprovidos desses níveis de propriedade. ou seja. A tendência relativista se espraia com maior vigor depois da segunda guerra mundial. tornaram-se vendedores de sua força de trabalho.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 89 carnificina perpetrada pelas nações envolvidas no conflito mundial. mesmo tendo sido realizada a expansão dos impérios coloniais britânicos e franceses ficava impossível cultuar os mitos da sacralidade do Estado nação.E.

qual seja. sua realização. e superação do homem coisificado pela divisão social do trabalho que alienou o homem criador que pode ser reencontrado. ao mesmo tempo que o fim da alienação filosófica. possuem uma base material. os meios de trabalho e sua organização e se desenvolvem por meio de técnicas e da divisão social do trabalho. a ação prática se desmentem a si mesmos. Essa teoria dialética da realidade e da verdade não pode separar-se de uma prática. o pensamento dialético. que deve ser reapropriação da integralidade do humano enquanto razão. Deste modo. & IOKOI.Grícoli. Pereira de & de IOKOI. o tempo histórico. sentido e obra. ou seja. e a transfe- . Para Marx. Desaparece o lado especulativo. Ela já o é na filosofia e pela filosofia. o homem deve também empreender a superação do político. sistemático e abstrato. A superação da religião consiste em seu desaparecimento. ou seja. Grícoli marxista considera que a verdade do político encontra-se no social e que apenas as relações sociais permitem compreender e explicar as formas políticas. Ela comporta a superação do Estado. Na medida em que elas se constituem como relações vivas e ativas. o conceito de superação em Marx comporta uma crítica da síntese hegeliana acabada. os conceitos e abrindo a um projeto de ser humano integral. Zilda Zilda Maria M. A superação da filosofia compreende. a superação.90 QUEIROZ. Teoria e prática em uma noção essencial no pensamento de Marx. Para Marx a única possibilidade de apreensão do real se dá pela práxis. pois. deixando o espírito da crítica radical. a religião deve e pode ser vencida. Deste modo. Tereza Tereza Aline Pereira A. pela prática social na medida em que esta só é compreensível se forem articulados os conhecimentos teórico/filosóficos com a crítica radical da prática social. na qual o movimento dialético. QUEIROZ. Conhecê-las e desvender o seu significado pressupõe a apreensão do real e a quebra tanto do relativismo como das verdades individuais. Em que consiste para Marx a superação da Filosofia? Ela difere da superação da religião pois é mais complexa.

o rompimento com a alienação política permite a recuperação da racionalidade imanente às relações sociais em razão dos conflitos. no terreno das lutas sociais. raiz de toda a alienação. a democracia contém o segredo da verdade de todas as formas políticas. elas desembocam na democracia. Ela mostra a gênese do pensamento filosófico que se desenvolve como já foi apontado neste texto. No período inicial deste século. substituindo a coerção que o Estado exerce sobre os homens. e procuraram reencontrar os desafios postulados no século XIX e desviados pelos conflitos e interesses do século XX. travando com elas violentas batalhas nem sempre vitoriosas e se redefinindo num campo . os pensadores marxistas enrijeceram a dialética propugnada por Marx e desenvolveram análises macroestruturais da economia e da demografia redefinindo o sentido materialista desses pressupostos. afirma Henri Lefebvre na Sociologia de Marx. Ao longo da segunda metade deste século o esgotamento das formas estruturais foi sendo sentida como dilema da investigação histórico-social e também do enrijecimento estatista da política definida para o bloco soviético no pós-guerra. O grupo de Ernest Labrousse na França criou uma escola econométrica de grande importância. A gestão social das coisas são centrais na superação do conceito hegeliano do Estado. Em ambos os casos. No que se refere ao entendimento da religião. mas a democracia só vive senão lutando para manter-se e superandose em direção a uma sociedade liberta do Estado e da alienação política.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 91 rência para as relações sociais organizadas das funções por ele açambarcadas. Para Marx. os historiadores se debruçaram em busca das subjetividades. esta passa a ser decodificada como alienação inicial e fundamental do ser humano. Mais precisamente. mas que paulatinamente foi sendo assimilada pelos supostos positivistas e pelas análises estruturalizantes.

Tereza Tereza Aline Pereira A. sempre mantiveram certa relação com os combates da vida política. ou melhor. Henri Sée e na tese de Paul Mantoux (1906) sobre a revolução industrial no século XVIII. No ocidente. A razão humana. misturando . Na europa central e oriental desenrolavamse acontecimentos que encontrariam eco posterior no ocidente. Deve-se perguntar. a lógica e a coerência). Os socialistas alemães sofrem um duro golpe. Em meio aos acontecimentos da guerra. ou porque lhes dispensam seus apoios. denuncia na história positivista sua tendência a exagerar a importância dos fatos. na Rússia realizavam-se duas revoluções inesperadas: a de fevereiro. elaboradas pelos filósofos.Grícoli. especialmente a Liga Spartakista. O hegelianismo pretendeu ser o sistema filosófico perfeito dessa díade. da sociedade. François Simiand (1873-1935). negatividade e alienação). a história econômica parecia ser uma opção à exaltação do político. O socialismo francês da época. QUEIROZ. onde se encontra a verdade da filosofia? As idéias filosóficas. Para outros. dirigida pelas facções burguesas anti-aristocráticas e a de outubro. ou porque os filósofos se manifestaram contra os senhores do momento.92 QUEIROZ. Pereira de & de IOKOI. que inaugura a cadeira de história econômica na Sorbonne. Em 1903. A crítica radical desse sistema fez com que ele explodisse retirando-lhe o método (Lógica e dialética). ao se perder na busca das origens. Zilda Zilda Maria M. deste modo. as representações (do mundo. e os conceitos (totalidade. do homem individual). sua capacidade organizativa) e a razão filosófica (o discurso. do individualismo dos heróis e da cronologia. cuja direção introduziu na cena histórica o partido proletário revolucionário. nos dizeres de Henri Lefebvre. e os Bolcheviques passam a governar um grande país – a Rússia. & IOKOI. Grícoli específico. se manifesta por dois caminhos contraditórios e inseparáveis: a razão de Estado (a lei. as primeiras inquietações frente à história positivista começam a manifestar-se antes mesmo da guerra. esta tendência toma forma nos trabalhos de Henri Hauser. discípulo de Durkheim e entusiasta da estatística como técnica de estudo das ciências sociais.

Seus integrantes. com o título O declínio do Ocidente. com mais de 100. os órgãos auxiliares executivos de um destino orgânico”. períodos. dirigida por Jaurès (1859 . no momento da derrota alemã. Louis Halphen. são contestados primeiro pelos integrantes da Revue de Synthèse de Henri Beer. representa o sentimento de aniquilamento dos alemães do pós-guerra. Spengler. positivista. crescimento. a uma entidade homogênea. Ph. aponta para novos caminhos. Sagnac e outros herdeiros de Lavisse. atribui um caráter nitidamente pessimista ao presente e formula uma teoria das catástrofes. que ocupam postos importantes nas universidades. a escola metódica. Oswald Spengler (1880 . começa a ser atacada sistematicamente em várias frentes. os mais diversos são comparados e justapostos a cada página. publicado em 1918. pelos integrantes da revista Annales d’histoire economique et sociale. Na França. opõe uma concepção cíclica da história. países. que tivera uma formação mais científica do que humanista. comparando cada cultura a um todo orgânico. inicia antes da guerra um Esboço de uma morfologia da história universal. O declínio representa uma orgia da síntese.1932) surge como uma versão diversa da história republicana dantonista. maturidade e decadência. Sobretudo.1956) e Marc Bloch .000 exemplares vendidos. que até 1933 flertou com os nazistas. que nada tem de imparcial como proclamava. “a humanidade é uma grandeza zoológica”.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 93 várias tendências. Seignobos. em que culturas. a reabilitação de Robespierre feita por Albert Mathiez (1874 . Da mesma forma. fundada em 1929 por Lucien Febvre (1878 . Ao contrário do pontilhismo positivista. nos anos 30. Ao mito do progresso.1936). Na Alemanha.1914). “os homens são os escravos da vontade da história. com nascimento. através da História socialista da revolução francesa. obtém um enorme sucesso. partir de 1920. obras de artes. do marxismo ao “populismo” de Michelet. e seu discurso ideológico.

Febvre. no fato singular. sociais e culturais. a economia. que se mostra por fenômenos comuns. provocando uma renovação sem precedentes nesta disciplina. As novas ciências humanas.Grícoli. repetitivos. por eles chamada historizante. Grícoli (1886 . na Escola normal superior e na Sorbonne. onde estuda nas universidades de Leipzig e Berlim. a psicologia. caía por terra a tirania do político. sendo a história “dos vencidos de 1870”. também passa pela Escola normal superior e pela Sorbonne. Pela primeira vez. a geografia de Vidal de la Blache (1845 . num tempo curto – uma batalha. a história historizante é extremamente prudente. contribuem com seus aportes conceituais e metodológicos à discussão histórica. que: a atenção dada somente a documentos escritos. por exemplo.1918). que ensinavam na Universidade de Strasburgo.1944). & IOKOI. negligenciando os documentos não escritos – vestígios arqueológicos. a lingüística. A problemática do presente foi formulada de modo instigador pelo italiano Benedetto Croce em 1919. a ênfase no fato. não se arrisca a interpretações e descarta qualquer tentativa de síntese. e que se manifestam num tempo longo – a cultura do trigo. QUEIROZ. a antropologia. com a publi- . indo depois para a Alemanha. Febvre fizera seus estudos de história em Nancy e depois em Paris. nascido numa família burguesa judia. a filologia. O fato de o historiador ser agora um profissional dentro de um quadro universitário permitirá a concepção de pressupostos metodológicos derivados de uma discussão intelectual coletiva. por exemplo –.94 QUEIROZ. diplomáticos. desde Heródoto. militares em detrimento dos fatos econômicos. Zilda Zilda Maria M. Bloch. Tereza Tereza Aline Pereira A. Pereira de & de IOKOI. voluntários. o privilégio atribuído pela história historizante aos fatos políticos. Bloch e o grupo dos Annales condenam na história tradicional. a sociologia de Durkheim (1858 1917). ao invés de apreender a vida das sociedades. séries estatísticas – e os testemunhos involuntários que muito dizem sobre as atividades humanas. não se engaja em debates.

a distinção entre a arte e a história está no pensamento. Ao conceber a arte como intenção pura e o pensamento como revelador do real. combatendo sua separação em campos de conhecimento distintos. . hierarquicamente colocados. Descarta simultaneamente o sentido objetivista dos positivistas e a possibilidade de um caráter descomprometido do historiador que não pode se referir ao passado senão motivado pelos dilemas do presente. que seus registros e sentido estejam presentes no seu vivido. coloca o tempo presente como engendrador dos enigmas a serem revelados pelo trabalho analítico do historiador e a projeção do devir como enunciador do projeto a ser transformado em ação. Retomando os elementos constitutivos do pensamento de Dilthey e Simmel. por estabelecer a polêmica entre o singular e o universal. uma vez que o artista retrata o possível e o historiador o que realmente aconteceu. Relaciona num todo a história e a filosofia. Procurando contudo definir a história como uma arte especial. e. central no desenvolvimento do ofício do historiador. chave na distinção entre história e ciência. ou seja. Considerando a história como autoconhecimento do espírito vivo. Na Lógica (1909) Croce demonstra com maior clareza sua oposição aos positivistas quando discorre longamente sobre o juízo de valor. polemiza com o sentido universal do conhecimento histórico e com as formas enciclopedistas de armazenar de modo definitivo os conhecimentos sobre o passado. apontando ser ele singular e universal simultaneamente. atribui ao historiador a tarefa de fazer vibrar os acontecimentos. para além do possível. Trata de reordenar as polaridades entre o vivido e o concebido como níveis de apreensão do real a serem capturados pela consciência. Para Croce. Collingwood em sua Idéia de História considera a proposição presentista formulada pelo italiano.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 95 cação do ensaio A história reduzida ao conceito geral de arte. Croce destaca dois níveis de intervenção do historiador: a intuição e o sentido individual.

“com um pé no presente e outro no passado”. & IOKOI. Estimulado por essa dimensão o historiador passa a considerar as temporalidades históricas como objeto de reflexão e a epistemologia do história pôde ser definida e formulada. decide durante a primeira guerra ser um Tucídides dos tempos modernos. QUEIROZ. cuja obra é célebre e conhecida do grande público. Introduzindo o subjetivismo relativista.Grícoli. O presentismo de Croce é um marco nos debates teóricos sobre a natureza da história e os fundamentos teóricos filosóficos deste campo do conhecimento. utiliza um método comparativo à la Spengler. ele se refere “à necessidade prática na qual todo o juízo histórico se baseia. Toynbee.. Pereira de & de IOKOI. base- .1975) e dos “relativistas”. uma vez que ele atribui ao historiador o poder de criar uma imagem histórica sob influência dos interesses e motivos atuais. Tereza Tereza Aline Pereira A. de Arnold Toynbee (1889 . a história positivista também recebe golpes. Na Teoria da História.. Grícoli O presentismo de Croce inaugura orientações de novos procedimentos no trabalho do historiador e do professor de história e remete-os à busca do significado do presente e à formulação de problemas para tornar o conhecimento inteligível. Na Inglaterra. Rejeitando a historiografia francesa. Os objetivos e métodos da investigação propugnados como objetividades científicas pelos positivistas sofrem clivagens de crítica e a idéia de interesses do presente na recuperação do passado põe abaixo a veracidade inquestionável dos acontecimentos. uma situação atual.96 QUEIROZ. Collingwood divulga estas idéias entre os anglo-saxões sendo duramente criticado pelos marxistas. e confere à história a propriedade do atual porque está sempre em relação – por mais longínquo que seja o passado a que se referem os fatos – com uma necessidade atual. Zilda Zilda Maria M. “presentistas”. Croce formula postulados gerais sobre o sentido transitório e mutável do conhecimento.” Defendendo o “espírito de partido”o historiador defrontase diretamente com o problema dos juízos históricos. mas execrada pelos historiadores profissionais.

contestam os pressupostos de Ranke para a história. sobre os marginais.1950). a Índia e o Extremo-Oriente. haveria cinco civilizações: o Ocidente. passa depois a se desenvolver. Cristopher Hill. seu irmão Benedict e Edward Thompson são exemplos de uma fértil historiografia marxista que não se submeteu aos modelos estruturais nem ao presentismo desprovido de bases histórico-empíricas. amplas unidades históricas num longo tempo e num amplo espaço. Em 1935. mas fatalmente entra em decadência. ser estimulada por grandes homens. e produziram reflexões históricas – tanto na academia. Matrizados pela tradição empírico-prática. Perry Anderson. Os “presentistas” ingleses. no século XX. Mas. No Um estudo da história (1930 . jamais passiva como queria Ranke. assim como Spengler. Toda civilização nasce de uma resposta a um desafio. . Toynbee e sua teoria da decadência se afiguram sobretudo como uma resposta à desintegração do Império Britânico no século XX. pode fracassar ou não. vêem em Toynbee uma prefiguração do estruturalismo nas ciências humanas. que a história jamais pode ser puramente objetiva.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 97 ando-se em fontes de segunda mão. em 1939. Charles Oman. as civilizações aparecem como entidades fechadas. por ser a maneira como o historiador apreende e relaciona uma série de acontecimentos. apontam o cientificismo como uma escolha ideológica. Assim. George Rudé. Os marxistas ingleses vivenciaram de modo diferente a teoria das classes e a concepção de história. Guy Bourdé e Hervé Martin. nos anos 30 e 40. o Islão. geralmente de ordem natural. em As escolas históricas. Acreditam que o historiador tem sempre uma atitude ativa. a União Soviética e seus satélites. que cada geração projeta na história suas próprias visões. construtiva. debruçaram-se sempre sobre as experiências. Carl Becker afirma que cada século reinterpreta o passado da maneira que melhor lhe convém. como fora dela – originais e instigantes. afirma em seu livro Sobre a escrita da história. coexistindo e não em necessária sucessão.

Não há sentido em perguntar qual é o ponto de visto correto. Collingwood ressalta que o historiador descreve o passado em função do presente. Em A idéia da história (1946). que são interpretadas com base em documentos variados. bem como o interesse pela estética e pelo idealismo hegeliano. Agostinho olhava para a história romana sob o ponto de vista de um cristão primitivo.G. Apesar de relativista. Tereza Tereza Aline Pereira A. através de uma escolha deliberada dos fatos. contrário ao positivismo. “A história. Cada um dos pontos de vista é o único possível para o homem que o adotou”. um ensaio de filosofia da história. orgânica. é uma forma especial de pensamento”. Collingwood não é absolutamente cético. é sobretudo na França que a definição de novos rumos para a história foi decisiva na produção historiográfica de várias gerações. cujo objeto são as ações humanas no passado. seja através do idealismo ou de uma abertura às outras ciências humanas. Mas. não significa o desaparecimento total da história política tradicional. Grícoli O grande teórico idealista. Pereira de & de IOKOI. QUEIROZ. onde as estruturas prevaleçam sobre os fatos. Collingwood. que o pensamento histórico é uma atividade da imaginação. Estas buscas de rompimento com o positivismo. como a teologia ou a ciência natural. válido num certo momento e se transforma quando mudam os métodos históricos e os enfoques: “S. Mommsen sob o ponto de vista de um alemão do século XIX. Suas visões da filosofia e história.Grícoli. fazem com que freqüentemente seja comparado a Benedetto Croce (1866 . Tillemont sob o ponto de vista de um francês do século XVII. Gibbon sob o ponto de vista de um inglês do século XVIII. tendo por finalidade o auto-conhecimento humano. com enorme influência inclusive no Brasil. embora estes não desa- . & IOKOI.1952). O grupo dos Annales de Febvre e Bloch desde os primeiros tempos pretende construir uma história total. um testemunho. Zilda Zilda Maria M.98 QUEIROZ. considerando que o historiador produz um tipo de conhecimento tão válido como o das ciências naturais. da escola inglesa é R.

até nos mais delicados mecanismos de seu corpo. mas uma exploração global em todos os campos – etnologia. sabe que lá está sua presa. “O bom historiador se parece com o ogro da lenda. É o que proclama no texto que escreve em 1941. uma análise da dimensão sobrenatural atribuída ao poder real e O problema da incredulidade no século XVI – a religião de Rabelais (1942) de Lucien Febvre.” Este tempo. tendo em vista a complexidade dos fatos humanos. livre pensador e racionalista a Rabelais. o grupo dos Annales descarta os mitos da natureza humana imutável. abre um enorme campo de conhecimento ao articular as bases econômicas. a história deve ser feita através de uma multiplicidade de documentos e de técnicas. com as sensibilidades. sua alimentação. a dimensão psicológica do ser humano. das origens e seus anacronismos. Onde sente o cheiro de carne humana. Profundamente sensível ao histórico. “A atmosfera onde seu pensamento respira naturalmente é a categoria da duração. à mudança.” A história é uma ciência dos homens no tempo. seu objeto são os homens. “O homem também mudou muito: em seu espírito e. a história não é a ciência do passado. Por isso insiste em dizer que o historiador deve ter uma formação sólida e ao mesmo tempo variada. Sua atmosfera mental transformou-se profundamente. Duas obras magistrais que concretizam esse novo espírito são Os reis taumaturgos (1923) de Marc Bloch. Para Bloch.” Diante disso. sem dúvida. folclore etc. do eterno retorno. religiosa e cultural de maneira inovadora. dá atenção às evoluções mais lentas e significativas e não somente ao tempo curto dos fatos fechados em si. dado que não deveria haver especializações. . os quadros sociais. para Bloch é tanto contínuo. onde um anacronismo atribui o sentido de incrédulo. igualmente. como mudança perpétua. lingüística. Explora a história espiritual. as diferentes maneiras de pensar e ver o mundo.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 99 pareçam. para Bloch desaparece a noção de ciências auxiliares da história. mais tarde publicado sob o título Apologia para a história ou O trabalho do historiador. sua higiene.

Tereza Tereza Aline Pereira A. o tema fundamental é o da civilização contra a barbárie. na se- . Grícoli A ignorância do tempo passado comprometeria não só o conhecimento do presente. raça e forma de governo. cuja mensagem central é a defesa da idéia de uma raça superior no novo continente. próxima em alguns aspectos. não cabe ao historiador julgar. Argentina. Naquele período pode-se encontrar fenômenos equivalentes na historigrafia latino-americana. mas não totalmente inserida na corrente dos Annales. que reconstitui séries e médias representativas da evolução econômica e social. Na América Latina Sarmiento escreve Facunto.Grícoli. serem atuais. destinada a se projetar sobre o planeta. costumes. A Raça Cósmica formada pelo melhor de todas as raças existentes. & IOKOI. QUEIROZ. valores religiosos. estabelecer quais seriam os problemas dominantes de sua época. diz Bloch. Peru e Brasil. na França. Pereira de & de IOKOI. A história deve ser verdade e o historiador deve ser aquele que busca o verdadeiro e o justo. Afirma que os historiadores devem se encontrar em congressos. Através do fato econômico era atribuída uma nova coerência à história colonial. trocar experiências. os ritmos da conjuntura na produção e no comércio. dentro do tempo. Zilda Zilda Maria M. A Europa projeta sobre o mundo uma noção eurocêntrica. simbiose de aperfeiçoamento obtido pelos mais diferentes contributos no paraíso tropical. Oliveira Vianna.100 QUEIROZ. no trabalho e no nível de vida. Esboço do movimento dos preços e das rendas na França no século XVIII (1933) e Crise da economia francesa no fim do antigo regime e no início da Revolução (1944) de Ernest Labrousse abrem o caminho da história quantitativa. feito a quatro paredes. A história não é um trabalho somente de erudição. mas inclusive a ação no presente. mais especialmente no México. No entanto. mas compreender com ética. ancorados no presente. especialmente no rechaço da língua. Ao longo da primeira grande guerra. toma forma uma obra de história econômica. Também nos anos 30.

Assim. e Sérgio Buarque de Holanda que realiza um magistral trabalho de síntese da idéia de Brasil no ensaio Raízes do Brasil. Já na década de 1940. História Econômica do Brasil e a Revolução Brasileira são marcos fundamentais nessa trajetória. aos professores de história e aos historiadores cabe o desenvolvimento do senso de ordem. Ainda entre os historiadores marxistas deve-se destacar o esforço teórico de Fernando Novaes no entendimento do caráter exógeno das determinações econômicas e sociais no Brasil com seu trabalho Portugal e Brasil no comércio do Atlântico e Jacob Gorender O Escravismo Colonial. de uma história que se move lentamente. quase invisíveis. dos determinismos raciais e geográficos demonstrando a complexidade da recuperação histórica de um país marcado por rupturas superficiais. das generosidades do estado e mesmo da restauração da noção de paraíso tropical. Caio Prado Junior desenvolve um amplo processo de pesquisa orientado pela teoria de Marx e através do materialismo dialético procura encontrar o “Sentido da colonização” especialmente criticando a teoria dos ciclos econômicos. de imigração européia e mesmo de educação controlada pelo estado. do valor do trabalho. pelas relações de compadrio e de favor e de fato pelo que considerou ser a síndrome do homem cordial. Já contrariando os estudos estruturalizantes. Emilia Viotti escreve Da Senzala à Colônia e . que introduz um sentido sociológico para o contributo do negro na formação cultural brasileira e mesmo no desenvolvimento do patriarcalismo e do paternalismo. responsável pela organização do patriarcado rural. Na década de 1930 dois trabalhos destacam-se na crítica ao positivismo de base racial: Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre. Trata-se de um texto que analisa o caráter isolacionista e individual da colonização do Brasil.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 101 qüência de Nina Rodrigues e de Oliveira Lima também insiste na idéia de uma raça a ser constituída a partir de integração nacional. Formação do Brasil Contemporâneo.

Assim. juntamente com Levy Strauss e Pierre Monbeig. Maria Odila Leite da Silva Dias e Carlos Guilherme Mota recuperam. Grícoli Da Monarquia à República – Momentos Decisivos. A partir das proposições de tempo longo.Grícoli. financistas. Finalmente. cada um com procedimento diferenciado do outro. através dos negócios que se realizavam através de rotas terrestres. reúne utopia e religiosidade que são para o autor elementos de expressão da rebeldia do povo andino. Destaque deve ser feito no Peru. Tereza Tereza Aline Pereira A. Zilda Zilda Maria M. feiras. iniciara estudos sobre o pensamento de Marx e com ele desenvolvia um profundo processo analítico sobre a formação social peruana retomando as análises sobre o império incaico e dele derivando pesquisas sobre o campesinato do país para descobrir o sentido histórico das unidades produtivas socializantes na tradição daqueles grupos. o cotidiano e a cultura brasileiros. QUEIROZ. o empirismo é o eixo central de comprovação ou negação da historiografia estruturalizante do período. ainda na década de 1930. cientistas e interesses econômicos. Este escritor genial. Essa preocupação se explicita contra a maré exatamente quando. o que para o autor demandava um processo orgânico dos revolucionários em consonância com a mística andina. & IOKOI. médio e curto ele desvenda os múltiplos processos de intercâmbio que envolveu os vários países do ocidente e do oriente. especialmente quando o próprio Braudel chega com a missão francesa na formação da Universidade de São Paulo.102 QUEIROZ. . marítimas e de rios envolvendo mercadores. definia-se um sentido excludente entre os níveis concretos e subjetivos. que morreu aos vinte e seis anos. nos ares da nova história. na Terceira Internacional. Em Novaes e Viotti. A influência francesa para a formação dos historiadores profissionais brasileiros afasta-os de seus parceiros latino-americanos. Pereira de & de IOKOI. ao volume entitulado Siete ensaios de interpretación de la realida peruana de Jose Carlos Mariátegui. Nesse mesmo período Fernand Braudel redimensiona os estudos sobre o papel do dinheiro no mundo mediterrâneo.

Levanta a documentação em vários arquivos da área. na estrutura. professor do Departamento de História entre 1935 e 1937 na Universidade de São Paulo. o que mostra sua mudança de perspectiva. segue para a Argélia como professor. considerados como centralidades no processo civilizatório pretendido pelas elites cafeicultoras paulistas.1985). na história econômica e na demografia histórica. Roma. fuzilado pelos alemães. sua intenção de fazer uma tese sobre a política mediterrânica de Felipe II. Civilisations. Diante da avalanche de pequenos e grandes fatos do presente. não produziram as determinações dos franceses. Do encontro com Febvre. Febvre e Fernand Braudel (1902 . Em 1948. presentes nos primeiros anos de formação da USP. A obra de Braudel sobre o Mediterrâneo estender-se-á por toda a sua vida. Após a segunda guerra. Braudel. O Mediterrâneo na época de Felipe II e o de Pierre Goubert. o grupo dos Annales publica um conjunto de obras centradas na territorialidade – cujos trabalhos pioneiros são os de Braudel. Beauvais e os beauvaisis nos séculos XVII e XVIII –. Seu horizonte geográfico se alarga com o trabalho sobre Civiliza- . a história dos Annales se impõe definitivamente. representam um segundo momento do grupo. nos grandes espaços e na longa duração. os historiadores aprofundam sua busca de sentido da história total. se transforma num estudo que tem por centro o próprio Mediterrâneo. Durante as décadas de 50 e 60. Economies.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 103 As missões alemã e italiana. Madrid e outros centros. após completar seus estudos de história. um assunto tradicional. onde descobre o Mediterrâneo. desde 1946. passa a se chamar Annales. sessão da Escola Prática de Altos Estudos em Paris. Sociétés. Com a morte de Bloch. de Dubrovnik à Veneza. A revista. desde seus primeiros esboços em 1929 até a publicação da versão final em 1966. Lucien Febvre e Braudel assumem também a direção da 6a. Novamente a guerra seria decisiva na escolha dos caminhos do historiador.

do Taurus etc. como diretor dos Annales.. o de uma história do tempo conjuntural. do Egeu. é a história da rivalidade entre os impérios. a dimensão dos mercados. interdecenal. do Colégio de França. não na dimensão do homem. as distâncias. dos habitantes das montanhas e seus costumes ancestrais nas cadeias do Atlas. etc. representaria o de uma “história quase imóvel”. Zilda Zilda Maria M. privilegiado em seus trabalhos.104 QUEIROZ. publicado na década de 70.. da ação e dos acontecimentos como a abdicação de Carlos V. as mudanças nos sítios urbanos e no traçado das rotas terrestres e marítimas.. províncias. a demografia. espanhol e turco. Tereza Tereza Aline Pereira A.. rápidas. No terceiro tempo encontramos “uma história tradicional. cíclico. Ao refletir sobre a dialética do tempo e do espaço. dos homens que vivem nas planícies do Languedoc.. a paz de CateauCambresis. O tempo geográfico tocaria a própria eternidade não fosse pelas variações climáticas. onde se avalia o comércio. do Adriático. professor da Escola de Altos Estudos. finalmente. atacados pela malária das águas estagnadas. Braudel. os mecanismos monetários. Grícoli ção material. economia e capitalismo – séculos XV a XVIII. de suas instituições. Ao longo de sua carreira. Uma história com oscilações breves.. Lepanto etc. biológicas. mas do indivíduo. Este tempo longo. da economia e. ou durações: o de uma história factual da política e do indivíduo. uma agitação superficial. Pereira de & de IOKOI. o tempo longo.Grícoli. QUEIROZ. nervosas”. da Campania. e dos homens da beira do mar Negro. Braudel torna-se um historiador . O segundo tempo é o da história social dos grupos. diretor de tese de inúmeros alunos. as oscilações de preços etc. populações. dos Apeninos.. a expansão do ouro e da prata americanos no Mediterrâneo. em sua tese sobre o Mediterrâneo. da história estrutural. da longa duração da geografia. & IOKOI. da força militar. concebe várias formas de tempo. onde os ventos e as correntes impõem o ritmo da vida.

Braudel considera a história como um campo muito flexível e. à etnologia e ao estruturalismo de LéviStrauss. Muitos historiadores e filósofos marxistas reuniram-se em torno do que se convencionou chamar de Escola de Frankfourt. expressa na obra de arte e nos valores da vida. Pensadores como Theodor Adorno. procura dimensionar as relações entre o vivido e o concebido especialmente quando demonstra que nas sociedades de consumo de massa o que se encontra é a estética e não o estilo. busca a história total. em Estética. Uma outra tentativa de fusão da história com a filosofia também data desse período. voltará a ter grande interesse pela história.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 105 muito conhecido também do grande público. Embora não se definisse como um . à demografia de Sauvy. Horkeiheimer e Benjamin procuraram romper com a história projeto e passaram a ressaltar as subjetividades expressas pela arte. da ecologia. principalmente a partir dos anos 60. à sociologia de Gurvitch. Deste grupo. pela estética e pelos elementos centrais da cultura. mas o sentido do reencontro da humanidade do homem. da defesa do devir e do planeta. Com objetivos claramente anti-políticos esses intelectuais procuraram encontrar não os nexos do poder. fiel à Bloch e Febvre. reconhece-se a narrativa histórica como central. A separação entre o homem trabalho e o homem criador de cultura é para Benjamin um dilema do mundo moderno e sua reversão deve significar também a reversão de todos os elementos da dominação. uma vez que elas impedem a liberdade e a criação. Benjamin. Para ele. cujo fim trágico os unifica. Aberta a todas as ciências sociais. A Segunda Grande Guerra foi inteiramente reveladora dos dilemas abertos e das indefinições a serem superadas. que. é preciso libertar o homem de suas institucionalidades. A relação do historiador com a obra de arte e sua dimensão documental reintroduz o sentido das subjetividades nos comportamentos humanos e a necessária recuperação deste nível na história. sobrepõem-se contra a rebeldia para manter a ordem estabelecida e os processos de controle já firmados.

Cada discurso possuiria uma conexão com “um conjunto de regras anônimas. Foucault objetiva constituir um método de análise do ser humano em sociedade na atualidade. apesar de situá-las na longa duração. Conceitos como tradição. os documentos não mais são considerados como reflexos do passado. Pereira de & de IOKOI.”.106 QUEIROZ. Grícoli praticante das ciências humanas. Tereza Tereza Aline Pereira A. exterior aos Annales e crítica do estruturalismo. assim os sistemas repressivos de Vigiar e punir dizem respeito a tudo mais que existe na sociedade. sua palavra-chave torna-se genealogia. na economia. na educação. a objetividade sendo falsa e a subjetividade enganosa. da verdade e do corpo”. o que teria levado às “ciências do homem”. mas como um material que deve ser recortado. encerra uma reflexão sobre a história e causou muita polêmica entre os historiadores a partir dos anos 60. e a emergência de novas estruturas sobre as antigas. uma esfera “analítico interpretativa”do “poder. destruíra o saber analítico organizado em “representações” para submeter os conhecimentos às leis de suas evoluções. históricas. restaria estabelecer a genealogia das práticas que fizeram do homem atual aquilo que é. Foucault privilegia as rupturas bruscas. mas como um observador exterior que analisa o discurso como esfera autônoma. fazem parte de um sistema global de adestramento destinado a formar “corpos dóceis”. e sim apenas um trabalho sobre documentos. . evolução e influências devem ser aposentados. ao introduzir a idéia de “tempo histórico”. a obra de Michel Foucault (1926 . Para Foucault. QUEIROZ. Tendo em vista que estas ditas ciências do homem estariam prestes a desaparecer. sempre determinadas no tempo e no espaço. Entre o estruturalismo representado especialmente por Louis Althusser e a hermenêutica. para ele importa a coerência interna dos sistemas conceituais e a passagem de um sistema a outro. & IOKOI. o século XIX.Grícoli. Contrário à história tradicional das continuidades. Zilda Zilda Maria M. as descontinuidades. a própria história não mais seria memória do passado. Para Foucault.1984).

Laget entre muitos. É o caso de História das populações francesas e suas atitudes diante da vida desde o século XVIII (1948) de Philippe Ariès. o prazer. Além dos trabalhos sobre economia. A aproximação com a etnologia está presente também nos trabalhos de Jacques Le Goff e Pierre Vidal-Naquet. Huizinga no Outono da Idade Média (1919). tornam-se cada vez mais presentes como objeto de estudo do historiador. M. o estudo do corpo doente e saudável – assim. por exemplo – começam a surgir trabalhos mais qualitativos. . As diferentes visões e manifestações da vida e do mundo. nos quadros de uma região ou época – Os camponeses do Languedoc do século XV ao XVIII (1966) de Emmanuel Le Roy Ladurie ou Os homens e a morte no Anjou nos séculos XVII e XVII (1971) de F. dos comportamentos coletivos diante destes e de outros fenômenos como a doença. história quantitativa. como o da infância. Daí o grande êxito em vários países de Montaillou (1975) de Le Roy Ladurie. fecundidade. Solé. do sentimento da morte. Temas antes poucos explorados. Pierre Chaunu. Lebrun. atraindo para a história o leitor comum. da gravidez. O amor no ocidente na época moderna (1976) de J. voltados para uma antropologia histórica. J.-L. a história dos oprimidos. dão margem a inúmeros estudos elaborados por Philippe Ariès. próximos àqueles do historiador holandês J. do outro.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 107 As polêmicas e a busca de novas metodologias colocam a história em primeiro plano e fazem com que a produção historiográfica francesa do pós-guerra seja imensa. natalidade. que inaugura uma série de trabalhos sobre a medicina e as doenças na história. Léonard e Os médicos na França do oeste no século XIX (1976) e muito outros. Flandrin. um trabalho etnológico no passado de uma aldeia cátara no século XIII. Os estudos de população voltam-se para a história da família e da sexualidade. como em Os amores camponeses do século XVI ao XIX (1975) de J. demografia histórica. a contracepção.

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Nos anos 70, os historiadores dos Annales, atentos ao pensamento de Lévi-Strauss e de Michel Foucault, partem para a exploração das estruturas mentais, uma região nebulosa entre a organização social e a ideologia, o consciente e o inconsciente. Surge então um terceiro momento dos Annales, bastante próximo às teses de Bloch, mas situado no presente, carregado com outros aportes e ingredientes, que é o momento da “história nova”, da “história das mentalidades”, coincidindo com o pós-maio de 68. O historiador Michel Vovelle, autor de Piedade barroca e descristianização na Provença no século XVIII (1978) diz que a escola dos Annales sai do porão e sobe até o sótão. Com as mentalidades, os livros de história se transformam em best-sellers e os historiadores chegam ao grande público, não somente através da imprensa, mas também da mídia eletrônica. O termo história nova surge em 1978 e faz polêmica. Aspirando “à mais global e coerente das visões sintéticas da história”, como dizem Pierre Nora e Jacques Le Goff, o historiador deve partir de hipóteses, submetendo-as à verificação e as moldando de acordo com estas. O historiador constrói seu objeto de análise através dos documentos de diversas naturezas que podem ou não responder à sua interrogação – por exemplo, existiria um espírito maternal na idade média, ou isto é uma invenção recente ? Em função da pergunta, o historiador interpreta seus documentos, utilizando-se de todas as técnicas possíveis – fotos aéreas, informática etc.– e todos os documentos – escritos, orais, arqueológicos, artísticos, o folclore, a festa etc. Do marxismo, a nova história herda as amplas periodizações e a análise estrutural do social; para Guy Bois, a história global seria apenas uma novo nome para modo de produção ou formação econômica e social. Os temas são tratados em séries – por exemplo, as variações de um culto de santo desde a idade média até o século XX – em grandes espaços, analisando grandes conjuntos com organização social e econômica coerentes e representações homogêneas – por exemplo, a vasta Civilização do ocidente me-

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dieval de Jacques Le Goff, ou O tempo das catedrais de George Duby. Estas obras são escritas mediante uma releitura de fontes conhecidas, portanto dizem respeito a novas indagações e não a novas descobertas; nelas os silêncios também podem ser significativos; não caberia mais ao historiador ler somente o que é dito, mas prestar atenção também no que é omitido – este é o ponto de partida das Três ordens ou imaginário do feudalismo de Georges Duby. A questão do imaginário abriu todo um novo campo de pesquisas para a história. O imaginário abrangeria um campo muito vasto da experiência humana, em temas como a curiosidade pelo desconhecido, a consciência do corpo, a angústia da morte, as festas, a loucura, o erotismo, os sonhos, as relações entre insconsciente e cultura e muitos outros. Le Goff atesta ao caráter indefinido do termo e a dificuldade no estabelecimento de fronteiras entre imaginário e representação – tradução mental da percepção de uma realidade externa –, imaginário e simbólico – relação de um objeto com um sistema de valores subjacente, histórico ou ideal – e imaginário e ideológico – o quadro conceitual organizador da sociedade; embora não seja apenas representação, simbolismo ou ideologia, o imaginário teria implicações com os três conceitos. Além disso, em imaginário existiria imagem – iconográficas e também imagens mentais. Para Le Goff, no cerne do imaginário medieval estaria o tema do “maravilhoso” – os ogros, os mortos que voltam do purgatório, o passado mítico das dinastias nobres e muitos outras expressões; como diz, “estudar o imaginário de uma sociedade é penetrar no fundo de sua consciência e de sua evolução histórica. É ir à origem e à natureza profunda do homem, criado à “imagem de Deus”. A nova história dos anos 70 traz então à tona outras problematizações e outros temas para a história, dentro de um padrão multidisciplinar. O próprio caráter vago de alguns de seus conceitos – Le Goff diz explicitamente que “a atração fun-

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damental da história das mentalidades é seu caráter vago”– levaria a uma produção historiográfica das mais diversificadas – mitos, corpo, sentimentos, mas também política e religião. Os resultados da nova história, de fato, penderam mais para uma pluralização dos tempos e dos objetos nas décadas de 60 a 80, do que para a construção da “história total”. Se os Annales negligenciaram a história política cara aos positivistas, percebe-se nos últimos anos a retomada do político; não mais como o era no século XIX, mas num sentido mais amplo, também simbólico e antropológico, como nos trabalhos de Maurice Agulhon, Pierre Nora, René Rémond, e também Le Goff e Duby. Outra tendência das últimas décadas tem sido a do estudo do presente ou do passado recentíssimo, através da incorporação da memória à história e da transformação da memória em objeto histórico. Não mais necessitando estar morto para existir historicamente, o passado se amplia na oralidade e não somente em seus vestígios materiais tradicionais. Por outro lado, as questões relativas aos limites do conhecimento histórico, seu caráter, a questão dos anacronismos conceituais, das relações entre história e discurso, da indissolubilidade dos laços entre história e historiador (como advoga Henri Marrou, no seu Do conhecimento histórico, 1959), entre outras, continuam polêmicas nas últimas décadas. Em 1971, Paul Veyne, historiador da antigüidade, em Como se escreve a história, refuta as pretensões da história de se tornar ciência, mesmo com uma metodologia positivista, marxista ou estruturalista, e considera que desde Heródoto e Tucídides não teria feito qualquer progresso. Para Veyne a história trata de acontecimentos humanos que, como num romance, seriam simplificados e organizados; o conhecimento histórico teria como base o particular e não um estabelecimento de leis como na física ou na economia. Seu interesse está na narrativa, que tem por base o verdadeiro, o que aconteceu – daí sua vantagem so-

A consciência dos condicionamentos da história seria uma exigência de sua cientificidade. mas tem uma função social.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 111 bre o romance –. Michel de Certeau considera a história como um conhecimento a serviço do presente. história. discute a natureza da história – uma divisão entre presente e passado própria ao ocidente e às suas relações com a morte – em A escrita da história (1975). o historiador não vive fora do mundo. portanto não pode se dizer objetivo. A história não seria uma ressurreição do vivido. o método do historiador deve depender de uma sabedoria. Para Certeau. Com uma formação pluridisciplinar em filosofia. o saber histórico. mas de forma mutilada e lacunária. mas uma operação complexa. e. forjar conceitos adequados aos fatos interpretados.” Com este texto a história do historiador se fecha. Ao contrário do desengajamento e do ceticismo de Veyne. Certeau nega a pretensão do historiador em enunciar o real. na medida em que todos os discursos acabam por se referir a uma retaguarda oculta. portanto. aos documentos caberia fazer e responder as perguntas. psicanálise e semiótica. Podemos perceber que tanto a inserção da história como a do historiador no plano da educação e no plano social não são recentes. não das leis. está inserido no quadro das instituições. De . isto faz com que a história esteja “estritamente configurada pelo sistema onde é elaborada. para cada época. os “métodos históricos” seriam práticas de iniciados dentro de um grupo e de submissão a uma hierarquia e ao reconhecimento. Para Veyne. quando mais não fosse por seus silêncios que ocultam relações de poder. que deveria ser efetuada através de técnicas como a análise estrutural dos textos. de um período. o historiador deve se ater a seres e acontecimentos únicos e. às leis do inconsciente e do meio social a que pertence o historiador. derivada do conhecimento dos textos e da captação das regularidades. Distanciado dos conceitos universais – “falsos porque fluidos” –. de uma experiência. ao silêncio. é ideológico.

Tereza Tereza Aline Pereira A. & IOKOI. aposentados. QUEIROZ. perdido no mundo da erudição. escritores em dificuldades financeiras. o especialista. prazeirosa. para ser o professor. Pereira de & de IOKOI. da sociedade. . O historiador deixa de ser um diletante.112 QUEIROZ. erudita. assume no século XIX seus contornos atuais. Zilda Zilda Maria M. E faz a história do presente. monges reclusos. Grícoli uma atividade marginal. própria a velhos.Grícoli. propagandistas políticos. dentro de um sistema educacional.

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5 x 19 cm 16 x 22 cm Bookman Old Style 11/15 BernharMod 14 miolo: off-set branco 75 g/m2 capa: cartão branco 180g/m2 Impressão da capa Impressão e Acabamento Número de páginas Tiragem Gráfica – FFLCH/USP 116 500 A HISTÓRIA DO HISTORIADOR (TEXTOS DE APOIO N. Rodrigues autoras e Simone Zaccarias Charles de Oliveira/Marcelo Domingues Humanitas Livraria – FFLCH/USP 11. Helena G.usp. Diagramação e Capa Revisão Montagem Divulgação Mancha Formato Tipologia Papel M.HUMANITAS PUBLICAÇÕES FFLCH/USP e-mail: editflch@edu. 2) .br Título Coordenação editorial.

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