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A História do Historiador - Tereza Aline P. de Queiroz

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A História do Historiador

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USP UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Reitor Vice-Reitor Prof. Dr. Jacques Marcovitch Prof. Dr. Adolpho José Melfi

FFLCH FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS Diretor Vice-Diretor Prof. Dr. Francis Henrik Aubert Prof. Dr. Renato da Silva Queiroz

DH DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA Chefe Suplente Profª. Drª. Laura de Mello e Souza Prof. Dr. Jorge Luís da Silva Grespan

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Tereza Aline Pereira de Queiroz Zilda Márcia Grícoli Iokoi

A História do Historiador

PUBLICAÇÕES FFLCH/USP

1999

CDD 901 HUMANITAS PUBLICAÇÕES FFLCH/USP e-mail: editflch@edu. 116 p ISBN 85-86. Título.: 818-4593 Editor responsável Prof. Milton Meira do Nascimento Coordenação editorial e Diagramação M. Historiadores I. Zilda Zilda Maria M.087-54-8 1. Rodrigues Capa Joceley Vieira de Souza Revisão Autoras / Simone Zaccarias Montagem Charles de Oliveira / Marcelo Domingues . Tereza Tereza Aline Pereira A.FileWarez 4 Copyright 1999 da Humanitas/FFLCH/USP QUEIROZ. História 2. & IOKOI. Zilda Márcia Gricoli Iokoi.Arquivo Upado por MuriloBauer . Pereira de & de IOKOI.br Tel. QUEIROZ.Grícoli. – São Paulo: Humanitas / FFLCH/USP. Helena G.usp. Historiografia 3. sem autorização prévia dos detentores do copyright SERVIÇO DE BIBLIOTECA E DOCUMENTAÇÃO DA FFLCH/USP FICHA CATALOGRÁFICA: MÁRCIA ELISA GARCIA DE GRANDI CRB 3608 Q 42 Queiroz. Zilda Márcia Gricoli II. 1999. Iokoi. Tereza Aline Pereira A História do Historiador / Tereza Aline Pereira de Queiroz. Grícoli É proibida a reprodução parcial ou integral. Dr.

............................................... 69 O Historiador Contemporâneo ................................................................ 7 As Antigüidades ................ 13 As Idades Médias .................................................................. 113 ........... 53 A Modernidade ............Arquivo Upado por MuriloBauer .......FileWarez 5 SUMÁRIO Introdução .......................... 37 As Idades Modernas ....................................................................... 87 Bibliografia ................................................................................................................

mais difusa. É justamente da tradução dessas histórias através de narrativa coerente. Embora a individualidade se elabore dentro de uma dinâmica. nem sempre perceptível no plano da consciência individual. (. identidade e espessura a todos os humanos. elaborada a partir de elementos concretos.” Agostinho. IX. imbricada com o social. cheio de beleza e simetria. de uma memória e de uma história. Por mais isolado que se encontre um grupo. com bases . o econômico. Passado e memória dão conteúdo. onde se relacionam o vivido e o concebido. A história de si mesmos é também a história da vinculação com determinado tempo e espaço.. A história pessoal de cada um inevitavelmente terá raízes numa história externa. todos estão imbuídos de um passado. 6. mais ampla.INTRODUÇÃO 7 INTRODUÇÃO “Quando eu evoco um arco.) uma certa realidade que o espírito conheceu através dos olhos e que foi transmitida à memória. isso não torna todos os homens historiadores.. não ficcionais. xi. suscita a visão imaginária. De Trinitate. uma comunidade ou mesmo um só indivíduo. com as estruturas da cultura.

ou memorialista. de pertencer ou se projetar num determinado grupo social. criando uma imagem do passado. a construção mental e física do mundo. Paradoxalmente. Zilda Zilda Maria M. ao qual o historiador dará forma para que ele se transforme em história. Grícoli num múltiplo e complexo inter-relacionamento entre tempo.8 QUEIROZ. principalmente. mas aquele que ao indagar capta o sentido da construção de uma memória social no tempo. não será ele o objeto principal do historiador. Neste sentido a memória é documento e não produto final. por exemplo. Apesar de o indivíduo existir na história. As relações interpessoais. na leitura da documentação. Assim como o conteúdo da história não é o indivíduo isolado. o herói sempre precisou de um momento adequado para demonstrar sua habilidade e. tampouco o historiador expressará uma subjetividade ilimitada na sua captação do passado. cada século reelaborou a história grega dentro de suas perspectivas e possibilidades. Pereira de & de IOKOI. que se ocupará o historiador. QUEIROZ. nesta condenação do historiador ao presente situa-se a eternidade de um passado que nunca se esgota. Tereza Tereza Aline Pereira A. o exercício do poder de uns sobre os outros. Caso contrário. teria sido escrita por Heródoto e ponto final. seu trabalho expressará uma historicidade intrínseca na escolha de temas. os encontros entre diferentes estão na base daquilo que Virginia Woolf definia como “fantasma imenso e coletivo. No entanto.Grícoli. com um grupo e com idéias por este concebidas. Mesmo em períodos onde se privilegiou uma história de heróis. Nos limites entre a “consciência possível” e a “consciência real” próprias e de seu tempo. na abordagem. incapaz de ser exorcizado” ou seja. Pelo simples fato de participar de um passado realizado no presente. & IOKOI. o historiador busca no passado a consciência de seu próprio tempo. no processo de reflexão convertido em texto. O historiador não será guardião da memória individual. de uma identificação com um objetivo suprapessoal. a história da Grécia. . espaço e a expressão dos grupos humanos. foi impossível caracterizar a heroicidade isoladamente. o passado.

a cada momento e a cada espaço. na antigüidade. predomina então uma idéia do não-tempo divino que interpenetra o cotidiano. de ciclos. foi Timeu da Sicília. por exemplo. de épocas. fora da divindade. forjadora de uma forte estrutura conceptiva no ocidente. num eterno presente em que passado e futuro se fundem. diante da necessidade de organizar seu pensamento. . é possível a uma sociedade conceber o mundo sem passado. Tampouco existiu uma profissão ou uma carreira de historiador em todos os tempos e todas as sociedades. Dependendo de suas crenças. No século V. Com isto acrescenta uma noção de tempo diversa daquela vivida pelas comunidades. sem fraturas. tendo em vista as mais variadas preocupações e múltiplas percepções de tempo. sem imperfeito ou mais-que-perfeito. há deuses que significam o próprio tempo. refletir. na Índia. dado que cada uma estabelecera uma cronologia a partir das listas de dignatários que a cada ano as governavam. falar ou escrever sobre o passado. No Egito. O tempo jamais é único no estudo da história. que é eterna. de estruturas. cria medidas e categorias de tempo. ocorre o inverso. É físico e metafísico. Pessoas com os mais diferentes perfis e formações desempenharam funções de destrinchar. no século IV a. pode ter uma predominante qualitativa ou quantitativa. na China. Na cultura do cristianismo. que introduziu um sistema numérico estabelecendo uma correlação entre as crônicas das diversas cidades-estados.. em Aztlán.INTRODUÇÃO 9 Devemos considerar também que nem sempre o termo historiador foi utilizado para identificar aquele que se ocupa do passado. um tempo contínuo. O historiador. é desigual e particular a cada sociedade. o tempo existe na esfera do humano. seu entendimento.C. organiza esse tempo em função de fatos. Pode até mesmo não existir.

& IOKOI. a ênfase recairá no processo de aperfeiçoamento do mundo até atingir seu ponto culminante representado por seu próprio fim. no cíclico. Em 1830. que evocaria “a manifestação do processo absoluto do Espírito em seus mais elevados aspectos: a marcha gradual através da qual a humanidade atingiria sua verdade e tomaria consciência de . a história assume o papel de mestra. pois conhecendo o passado descortina-se um futuro sem surpresas. Se baseada no eterno retorno. Para Einstein espaço e tempo formam um contínuo quadridimensional. a esta concepção liga-se uma idéia intrínseca de progresso. como a areia da ampulheta – o narrador da história buscará seus conteúdos e o próprio espírito da narrativa de maneiras diversas. exatamente como os astecas haviam concebido o deus Omotéotl. o futuro existe como expectativa psíquica. com os quatro Tetzcatlipocas nos quatro cantos do espaço. como um rio que flui. ou linear. Grícoli Santo Agostinho atribuiria ainda ao tempo cristão uma nuance psicológica. Zilda Zilda Maria M. de totalização e de finalidade. A noção personalizada do tempo de Agostinho coincide. por exemplo. o passado é uma imagem memorial da alma.10 QUEIROZ. como o ritmo das estações. excluindo a noção de ruptura. como uma cobra mordendo seu próprio rabo. o tempo comum é passageiro e sem sentido e cessará no momento em que a alma se unir com Deus – o fora do tempo. QUEIROZ.Grícoli. Na visão linear. Pereira de & de IOKOI. o presente torna-se uma experiência na alma. assim. dois fatos simultâneos podem ser vistos tanto simultaneamente como numa seqüência temporal. com a percepção de Albert Einstein de que as indicações de tempo eram sempre relativas à posição do observador. meio e fim assegurados. num outro plano de conjectura. de propósito divino. na idéia de nascimento. criando o espaço e o tempo simultaneamente. com um início. Tereza Tereza Aline Pereira A. Em virtude da crença numa determinada idéia do tempo – cíclico. Hegel propõe a seus alunos a construção de uma história filosófica plena de necessidade. judaico-cristã por excelência. de progressão contínua. desintegração e renascimento.

Para ele. camponeses. crianças. estão na base deste trabalho. com as características determinadas de suas éticas coletivas. Também a análise da vida pessoal. de culturas hegemônicas. doentes –. constituiriam as configurações desta marcha gradual (. mulheres.” Nada mais distante da prática histórica das últimas décadas do século XX.INTRODUÇÃO 11 si. que leva em conta diferenças. a ausência quase total ou a detratação e estigmatização dos elementos que não partilhavam desse poder – artesãos. de despotismos e imperialismos. de sua arte. Observaremos quão útil pode ser o passado na criação de mitos destinados à mobilização de povos para a guerra e a conquista. escravos. índios. as descontinuidades. No interior do discurso histórico poderemos perceber as injunções do poder na escolha dos temas evocados. descontinuidades e descompassos. à criação das nações e nacionalidades. Estas diferenças. de sua ciência. na série necessária de sua sucessão definidas apenas como momentos do único Espírito universal: graças aos homens. e dos móveis particulares que guiam os historiadores mencionados no corpo do trabalho. os povos históricos. dessa individualidade relacionada com o todo. de sua religião. Ele se eleva na história a uma totalidade transparente a si mesma e traz a conclusão. uma análise suscinta das idéias que nortearam as diversas construções do passado elaboradas pelos historiadores no ocidente..) Os princípios dos espíritos dos povos (Volksgeist). incapacitados. as ideologias do poder religioso que muitas vezes emprestaram suas estratégias para o poder temporal. desocupados. que por vezes só travestem a própria continuidade.. mas também de um senso de libertação e justiça através do conhecimento e da consciência de um estar no mundo eivado pela dinâmica do passado. nos auxilia a . de sua constituição. A partir de uma pré-história da história na antigüidade grega e romana até a contemporaneidade observaremos quão variável foi o papel da história e do historiador nas sociedades.

. a enunciar uma história dos historiadores.12 QUEIROZ. QUEIROZ. bem como suas funções ideológicas. & IOKOI. Zilda Zilda Maria M. sobretudo. Grícoli vislumbrar a importância maior ou menor desta especialização do saber nos diferentes tempos e espaços. Pereira de & de IOKOI.Grícoli. Mas. Tereza Tereza Aline Pereira A. políticas e culturais.

de identidade dos grupos. há poucas décadas. primordial. na Albânia.. certezas e temores. A sofisticação intrínseca à construção dos passados míticos é enorme. Estas narrativas tinham uma ligação profunda também com o não verbal. as cosmogonias. quase nunca interpretado com o distanciamento próprio à racionalidade ocidental. elementos arquitetônicos. A memória coletiva dos ancestrais era narrada por homens sábios para toda a coletividade. ainda podiam ser vistos poetas . inseriam-se numa totalidade sem distinções entre a “história”. Hoje em dia. Antes da história havia as lendas. que nada sabem do passado. falantes e vãs. rituais. ainda encontramos comunidades onde os velhos detêm a memória de acontecimentos ocorridos no século XV ou mesmo antes.” Sacerdote egípcio falando com Solon. danças.AS ANTIGÜIDADES 13 AS ANTIGÜIDADES “Vocês gregos são apenas crianças. a “religião” ou os afazeres cotidianos da vida. a “literatura”. na África. a “geometria”. A importância dos narradores na sociedade. padrões téxteis. O passado.. para um sentido de enraizamento. contribuía com medidas e parâmetros.. pinturas. cerâmicos etc.

de vilarejo a vilarejo. portanto. Tereza Tereza Aline Pereira A. A relação interno-externo. Sócrates lamenta a expansão do texto escrito e da leitura. No Phaedrus de Platão (428 a. Grícoli que. A nostalgia da tradição oral pode ser sentida na época de Tucídides (c. quando os deuses não haviam sido concebidos.425 a.14 QUEIROZ. A idéia do vazio para o cheio. Pereira de & de IOKOI. da detecção dos momentos de mudança. a terra era informe e vazia.. . as noções de memória. é posterior. .C.Grícoli. serão algumas das formas da mitologia adotadas pelo discurso histórico escrito. quando a morte não havia nascido. narravam epopéias evocativas de uma tradição homérica. a relação entre opostos norteia as narrativas míticas. Deus criou o céu e a terra. pois na época as obras não vinham com denominação – seu desejo de expor suas pesquisas (historíé) para impedir que os feitos de gregos e bárbaros se apagassem da memória. Heródoto (c. 470 . seqüência de acontecimentos e confrontação entre opostos como apresentadas pela tradição mítica. da seqüência de atos. quando gregos cultos se lembram do tempo em que a história era preservada pela memória do povo. Esta história escrita. alto-baixo. Estão aí presentes. mas antes dela deveria existir o grande vazio sobre o qual a Bíblia nada fala. portanto. 484 a. QUEIROZ. que tendem a horizontalizar um discurso. Zilda Zilda Maria M.348 a.”. estabelecer laços.) declara no início de suas Histórias – este título. cheio-vazio. principalmente as razões de terem entrado em conflito. do antes para o depois. que fariam esmorecer a memória e suas faculdades críticas. mas que encontramos no texto de uma pirâmide egípcia: “quando o céu não havia nascido. da vontade de preservação dos diferenciais.). aliás.395). quando a terra não havia nascido.c. & IOKOI. mesmo entre as elites e os intelectuais. abrandar os lapsos entre duas ações consecutivas. direito-esquerdo.C.. identidade. Ago- . humano-divino. quando o homem não havia nascido. Assim.C.C. não é de imediato aceita sem resistências. no entanto.

C. Por volta do ano 80. 900 a. sua origem e natureza. na verdade. considerava que a história grega era muito recente. ao implicar uma desconfiança frente à memória e à oralidade comum. “de ontem ou ante-ontem” e que a idéia de compilar histórias era ainda mais recente.AS ANTIGÜIDADES 15 ra. aberta a contactos muito diversos. no entanto. O Pentateuco data de c.C. o historiador judeu Josephus ironizava a crença de que os mais antigos fatos estariam ligados aos gregos e que estes fossem a única fonte da verdade. Esta tentativa de distinção. . nas Genealogias de Hecateu de Mileto (c. a um ensaio de afastamento em relação às tradições legendárias e mitológicas pela chamada escola jônica de filósofos. como a judaica. Mileto era um dos maiores centros comerciais internacionais na época e. com pouca ênfase ou nenhuma nas correspondências entre universo e humanidade. no entanto. Após suas viagens pelo Egito e Pérsia. como analisa Jean Pierre Vernant em Mito e pensamento entre os gregos. separando as esferas do sagrado e do profano. diz ainda que os próprios gregos estavam cientes de que os egípcios. portanto. O registro escrito grego.C. público alvo desta nova memória. Hecateu chega à conclusão de que as tradições históricas vigentes na Grécia tinham algo de ridículo e deveriam ser discutidas. centrados no mundo da ação. é relativamente tardio quando comparado com o de outras culturas. Por outro lado. privilegiará uma elite alfabetizada. já fora concebida antes de Heródoto. caldeus e fenícios. teriam preservado a memória das tradições mais anti- . 540 a. O aristocrata Hecateu cresce durante os primeiros tempos da ocupação persa (a partir de 546 a.).480 a. esta nova história escrita. Este processo de separação do mito e do fato concreto é semelhante àquele ocorrido no âmbito da passagem do pensamento mítico à razão e à construção da pessoa. Situada na costa da Ásia Menor.).C. num momento que corresponde também a uma mudança de atitude nas indagações e explicações sobre o mundo. para não falar dos judeus.

C. Muito pouco sabemos sobre Heródoto. tratado com condescendência. conheceu a região do mar Negro.43 a. Apesar de não ser o primeiro e nem o único. Zilda Zilda Maria M. As informações de que dispomos são indiretas e por vezes tidas como fictícias. Num estudo publicado em 1980 sobre a representação do outro na obra de Heródoto – a questão do outro é fundamental na historiografia da segunda metade do século XX. 1250 a.16 QUEIROZ. Heródoto foi tripudiado. Pereira de & de IOKOI. Josephus argumentava também que os gregos não tinham um sentido do passado enraizado e que um acontecimento como a guerra de Tróia (c.). Parece ter vivido algum tempo em Atenas. sobretudo no Egito. Tereza Tereza Aline Pereira A.Grícoli.C) era considerado legendário e não histórico. Foi exilado em Samos. & IOKOI. acabou por despertar em todos um sentido de filiação. tornou-se cidadão de Thourioi na Itália do sul. imitado. Grícoli gas. O republicano Cícero (106 a. viajou pelo Oriente Médio. Viveu numa época atormentada. louvado.. Este formato. parece ter sido criado na época helenística. QUEIROZ. protegido. mas inevitavelmente acabou por estar sempre presente numa espécie de raiz de uma árvore genealógica fantasmagórica dos historiadores. Em vista disso. ao transformá-lo em “pai da história”. é a figura de Heródoto que assombra o imaginário dos historiadores de todas as épocas. Hoje em dia conhecemos as Histórias de Heródoto divididas em nove livros – cada um correspondendo a uma musa. .C. como você verá mais adiante – o historiador francês François Hartog considera que a associação das narrativas das Histórias com as musas demonstraria que a obra deveria então ser vista em . ou em Pella na Macedonia ou em Atenas mesmo. entre o fim das guerras médicas e o início da guerra do Peloponeso. perdoado. acusado de mentiroso. de dependência em relação a uma autoridade.C. mas segundo tradições diversas teria morrido em Thourioi. com eqüidade. no entanto. a Grécia continental e a Itália do sul. Nascido em Halicarnasso por volta de 480 a.

Plutarco (c. em 1768. A escrita da história nascia então sob o signo da guerra. Mostra-se discreto em relação a mistérios religiosos – “sobre a metempsicose há gregos (os pitagóricos) que defendem certas idéias. mares. via seu próprio passado. portanto mentirosa. em contraponto com o Heródoto viajante – dicotomia hoje superada pela semântica histórica. pois o Heródoto historiador durante muito tempo foi associado a esta parte da obra. eu os conheço. monumentos.AS ANTIGÜIDADES 17 proximidade com a poesia e a ficcão. Voltaire une duas tradições contraditórias. egípcios. que não acreditava na possibilidade de se escrever uma história do passado. Os primeiros quatro livros das Histórias falam dos não gregos – lídios. etc. Documenta as crenças populares. persas. de um lado reforça o mito fundador de Heródoto como modelo dos historiadores e de outro aponta para o caráter ficcional da obra. a maneira como o povo egípcio. Heródoto trabalhou com um material diverso e enorme. Registra depoimentos conflitantes. líbios. O mesmo sentimento surge num comentário de Voltaire. classificar e medir costumes. rios.46-49 . Embora desconfie de muitas de suas informações. Mais tarde. 125) reitera as acusações de falsidade e acusa ainda Heródoto de philobárbaros – admirador dos bárbaros – e traidor da Grécia. mesmo próximo. A tradição de que a obra de Heródoto é fabulosa. em que Heródoto é louvado pela novidade de seu empreendimento e sobretudo por suas fábulas. indica o que prefere e deixa ao leitor sua escolha final. esculturas. caminhos – ver com os próprios olhos era então considerado mais importante do que o ouvir com os próprios ouvidos – e também com textos e inscrições.. massagetas. por exemplo. com a experiência visual obtida nas viagens ao observar. Com fontes orais ao interrogar pessoas com quem se encontrava. santuários. edifícios. enquanto que os demais narram principalmente as guerras médicas. babilônios. reporta-se a Tucídides.c. . citas. eu nada falarei sobre isso”. não hesita em transcrevê-las.

indo e voltando no tempo. Heródoto faz da Grécia o centro do mundo em relação às outras terras. daí frases como “o Egito é a dádiva do Nilo” etc. Tebas e Olímpia. Quanto ao espaço. A história nascia também sob o signo da prosa. não consegue apreender claramente as transformações advindas com o tempo na história dos povos. A cronologia geral da obra. grandes deslocamentos marcam as Histórias. nunca trabalhou para o governo e não poupa críticas aos próprios atenienses. Grícoli A história grega é construída com testemunhos orais. Tereza Tereza Aline Pereira A. reforça a idéia da diferenciação entre o grego e o bárbaro.18 QUEIROZ. ao mesmo tempo em que diferencia um bárbaro de outro. Algumas fontes. QUEIROZ. um egípcio não é um persa. atestam o êxito e a popularidade da obra lida em Atenas. Corinto. Há até mesmo uma anedota em que Tucídides ainda criança acaba chorando de emoção ao ouvir Heródoto. embora discutíveis. é confusa. Por outro lado. Heródoto acredita nos oráculos. A história. no entanto. deveria oscilar entre estória e história. passa por vezes abruptamente de uma série de acontecimentos para outra. Pereira de & de IOKOI. que não é um cita etc. ao descrever os usos e costumes de cada país. A primeira invasão da Grécia pelos persas ocorrera pouco antes de Heródoto nascer. & IOKOI. nos presságios. Apesar de ter sido apontado como um instrumento de propaganda do poder de Atenas.Grícoli. a segunda quando ainda era criança. No todo. O modelo épico ainda se encontra na base da narrativa e o historiador ainda não existe como profissão. as formas de poder dos não gregos. . Zilda Zilda Maria M. mas o Destino prevalece sobre tudo e sobre todos. é tolerante em relação às diferenças. crônicas locais e inscrições. não pode ser considerado como um tradutor oficial deste poder. Nesse sentido também. ainda sem muita definição. Por se tratar de uma obra que iria também ser lida para o público aparecia como uma grande novidade. A geografia é fundamental para toda a obra. A vontade dos poderosos aparece como uma determinante na engrenagem da história.

É o historiador do presente e da Grécia. Para escapar à pena de morte. refugiou-se durante vinte anos na Trácia. entre modos de vida irrenconciliáveis. com a queda dos 400. O tempo é construído de uma maneira lógica. O artifício cronológico usado por Tucídides é o da divisão da ação em invernos e verões. Paradoxalmente.. a atual divisão em oito livros tampouco corresponde à composição original. . morrendo logo depois. não cronológica. provavelmente foi aluno de Anaxágoras. como não pôde impedir a tomada de Amphipolis pelo espartano Brasidas. tentando superar a confusão causada pelos diferentes calendários das cidades gregas. onde sua família explorava minas de ouro. mesmo diante das guerras persas ou da guerra de Tróia.395 a. o século XIX tornar-se-á o século da história positivista. Comandou uma expedição naval de Atenas na Trácia. Tucídides considera esta guerra a mais importante de toda a história. o que torna o conhecimento do passado grego e do bárbaro inúteis. da história somente do passado que será considerado um grande modelo a ser seguido. A História da guerra do Peloponeso – a luta entre Esparta e Atenas – cobre o período do início da guerra (431 a. Enxergava nela um embate direto entre sistemas políticos e desempenhos políticos. dos sofistas Gorgias e Antiphon. por ocasião da anistia imposta pelos espartanos. Foi eleito estratego em 424 a.AS ANTIGÜIDADES 19 Tradicionalmente considera-se Tucídides (c.C. Para ele os gregos antigos deveriam viver como os bárbaros seus contemporâneos.C. mas.C.C. objetivo e científico.) até 411 a.C. Não utiliza nenhuma data. foi acusado de traição.) como o sucessor de Heródoto.470 . Voltou a Atenas em 404 a. Nascido num meio aristocrático. Tucídides detesta o passado. A obra não foi acabada..c. como Heródoto. talvez assassinado por seus inimigos políticos. O passado e o mundo além de suas fronteiras lhe parecem completamente destituídos de interesse.

serão repetidos no futuro. das viagens realizadas pelo próprio Tucídides na Itália. o que supõe que a natureza humana pode moldar a história. pensador do poder absoluto. a história tenderá a se repetir. de adorar algumas personagens. na Sicília e no Peloponeso. Considera que os fatos ocorrem em virtude dos interesses e das paixões dos homens. a vontade de poder atua como força motriz do mundo. não somente versões múltiplas dos fatos. de um curso da história. Zilda Zilda Maria M. Um dos tradutores de Tucídides. útil para aqueles “que queiram entender claramente os acontecimentos que tiveram lugar no passado e que (a natureza humana sendo o que é) mais dia menos dia.20 QUEIROZ. não consegue deixar de imprimir suas próprias idéias filosóficas e preferências políticas no decorrer da narrativa. de informantes com os quais mantinha contacto em várias cidades e do testemunho pessoal do autor. Tucídides considerava que a inteligência seria o único instrumento passível de ser utilizado para o entendimento da história.Grícoli. Tereza Tereza Aline Pereira A. não dos Estados. Utiliza discursos para expor opiniões contraditórias e antíteses como a do interesse e do direito. no entanto. Ao contrário de Heródoto. tendo em vista a imutabilidade da natureza humana. execrar outras. o filósofo Thomas Hobbes (15881679). Ecos de Tucídides permeiam as obras de Machiavel e de Nietszche. onde a verdade fosse exposta. considerava-o “o maior historiógrafo político” jamais visto. A moral guia a vida privada. Num estilo denso e sóbrio. mas que a história não pode afetar a natureza humana. descarta totalmente a idéia de destino. queria uma história sem estórias. tenta revelar as razões e a psicologia das partes envolvidas no conflito entre atenienses e espartanos e. pretende ser imparcial. & IOKOI. diante da documentação. com um estrito encadeamento de fatos políticos e militares. Pereira de & de IOKOI. Seu objetivo – escrever uma história do presente para o futuro. quase que da mesma forma. . “Assim. QUEIROZ. Grícoli A documentação básica advém de textos transcritos (paz de Nicias).

Tucídides constrói uma história contemporânea perene. e desligado da história da natureza. freqüentou os sofistas e foi aluno de Sócrates. Nas Helenicas estende a narrativa de 411 a 362 a. contra os persas na Ásia Menor. É um historiador engajado politicamente com limites de tolerância mais estreitos em relação a Heródoto.C.). é anistiado e volta para Atenas. 430 a. Por volta de 367 a. a superioridade de suas instituições e de sua cultura. Banido de Atenas e despojado de seu bens acaba lutando contra Tebas e os próprios atenienses.c. Sua vontade era a de ser um continuador de Tucídides.C. imune ao processo histórico e ao exterior. Prossegue. aristocrata e rico como Tucídides.AS ANTIGÜIDADES 21 Tucídides está do lado de Atenas e Péricles e a história da guerra do Peloponeso é uma obra plena de suas paixões. . centrado na natureza humana. a justiça ou a nobreza de exercer seu poder sobre outros. nunca vacila em defender a causa de Atenas. as discussões sobre o direito. Traduzem o clima de desarvoramento e desintegração política das cidades gregas. instantânea. Mesmo considerando os argumentos contra a expansão ateniense. e em Anabase narra a expedição dos Dez Mil. o Jovem para uma expedição contra seu irmão Artaxerxes II. A hostilidade à democracia faz com que Xenofonte entre para um exército de mercenários gregos recrutados por Ciro.352 a. no en- . Seu mundo é fechado. A desintegração progressiva da democracia no século IV e o aumento dos encargos para os ricos fazem com que as críticas ao regime se tornem constantes entre os próprios atenienses. com a elaboração da história do presente. Acredita. Após a derrota de Cunaxa conduziu a retirada dos Dez Mil... portanto. mas o espírito de seus escritos é diverso. Após 394 a. retirase numa propriedade doada pelos espartanos. Como chefe de mercenários lutou ao lado do rei de Esparta.C. Encara como uma tragédia a deterioração moral do mundo grego em guerra. Xenofonte (c.C.C. mas segue uma trilha política totalmente diversa. Agesilas.

Em seus livros chamam atenção seus conhecimentos militares e a tradução do gostos e das preocupações da aristocracia da época. companheiro de Alexandre. Da época alexandrina restaram narrativas sobre as conquistas e descrições das terras invadidas. Nearco (séc. que elabora a história dos impérios assírio e meda e dos reis da Pérsia até 395. talvez o mais importante historiador do século IV. que retomam a etnografia de Heródoto. protegido de Alexandre. etnografia. a pretensa objetividade de Tucídides está ausente. diferenças. Zilda Zilda Maria M. e também uma Indica com relatos fabulosos e descrições de plantas. pelos cavalos. Pereira de & de IOKOI. aos reinos de seus sucessores e finalmente ao império romano. De Filisto de Siracusa – que se ocupa das cidades gregas do ocidente e da Sicília. para louvar seu senhor Felipe da Macedônia escreveu uma obra caudalosa e barroca de cinqüen- . plena de espaço. Da subjetividade de Xenofonte. & IOKOI.Grícoli. das explicações desconcertantes que atribui aos fatos. de sua naturalidade sem retórica. de inteligência histórica. Grícoli tanto. anedotas. as cidades gregas integram-se ao império de Alexandre. sua paixão pela caça. QUEIROZ. geografia. cor local. Tereza Tereza Aline Pereira A.22 QUEIROZ. De Teopompo. ausentes na obra de Xenofonte. de uma certa desconexão intrínseca ao seu texto. animais e homens imaginários. Isto se explica pelo seu menor brilho.C. o que choca o imaginário europeu com sua idealização das virtudes atenienses.). mas talvez também pelo fato de ter tomado o partido de Esparta contra Atenas. pela sua falta de “objetividade”. ao mesmo tempo em que fala dos estranhos costumes dos povos que conhecera. descreve a Índia como Heródoto fizera com o Egito. a historiografia o descreve desfavoravelmente em relação a Tucídides. Com a perda da liberdade. Em geral. IV a. que os deuses têm um enorme papel no desenrolar dos acontecimentos. fluem desveladamente sua parcialidade mas também uma tradução menos intelectualizada da representação do mundo dos que partilhavam do poder. Restam fragmentos de vários autores da época. De Ctesias.

. . Gália. Restaram os quarenta livros de suas Histórias. introduzindo assim um elemento pessoal determinante – não mais a guerra.” . conheceu vários políticos e teve acesso a arquivos. era um admirador incondicional dos romanos – “que homem seria tão indiferente ou preguiçoso a ponto de não querer saber como e sob que forma de governo quase todo o mundo habitado se submeteu ao governo único dos romanos. Não mais incursões de um homem isolado em mundos diversos. e é mais velada nas histórias de Alexandre de Ptolomeu e Aristóbulo. compreendendo o período de 220 a. como uma sobre a guerra na Numancia e um tratado de tática foram perdidas. à superioridade da constituição romana e à capacidade desse povo. Amigo de Scipião Emiliano. o que se tornaria um tema corrente durante mais de seis séculos. e acompanhou Scipião em suas campanhas contra Cartago e Numância. mas de alguém identificado com as idéias hegemônicas de Roma.AS ANTIGÜIDADES 23 ta e oito livros. são mui distintas daquelas de Heródoto. portanto. A louvação a Alexandre transborda nos escritos de historiadores como Calístenes de Olinto. a cidade ou o império.C.. até 146 a. permaneceu dezesseis anos em Roma como refém.C.).a fortuna fez todos os assuntos humanos convergirem para um só e mesmo fim. em menos de cinqüenta e três anos ?”. foi um dos primeiros escritores a deplorar a corrupção moral existente em Roma.120 a.C. mas o líder. pisando num terreno “universal” – “Há analogia entre meu plano da história e o maravilhoso espírito da idade de que me ocupo.C.. Viajou pela Itália. 202 a. Políbio faz a apologia do poder de Roma. assim. No entanto. Suas viagens. continua prevalecendo o presente como tema historiográfico e de maneira cada vez mais clara e aberta impera o elogio do poder. Políbio (c.. grego de origem. Sua hegemonia dever-se-ia à moral. Apesar de grego. Várias obras que têm por base suas experiências. . mas com referências a épocas anteriores. Espanha. No geral.. é minha intenção de historiador colocar diante dos leitores uma visão geral.

Tereza Tereza Aline Pereira A. Políbio pretende estabelecer leis que seriam úteis para prever o futuro. a concebe como matéria isolada da eloqüência. e para o Egito. Grícoli Ciente do papel utilitário que a história poderia desempenhar nesta sociedade expansionista. para explicar o que diz. entre 1450 e 1700. & IOKOI. Entre os escritores de origem grega. A força romana era irresistível e seria um crime qualquer rebelião contra ela. Ao estudar o mecanismo das instituições.24 QUEIROZ. por volta do ano 46. QUEIROZ. o individualismo domina –. não deixa de atribuir um papel importante à personalidade dos grandes homens e ao próprio destino. Estuda os regimes políticos para situar o regime romano entre os outros e fazer o elogio de sua constituição. o historiador deve sempre escolher um começo. Políbio representa um exemplo acabado de historiador trabalhando para o poder. Segundo diz. pragmática – narrando as ações dos estadistas ou chefes militares. num período recente –. nunca a fortuna havia obtido tal triunfo como o do estabelecimento do Império Romano. das religiões. onde conheceu políticos e intelectuais. Apesar disso. uma causa. Pereira de & de IOKOI. fundamentada nas experiências política e militar. porque a verdade deveria prevalecer sobre a forma literária. dado que cada regime seria uma espécie de organismo vivo sujeito às leis biológicas. lastreada pela geografia e iluminada pela filosofia. na Beócia. a organização militar e o poder econômico. Plutarco ocupa um lugar singular pela repercussão que terá durante séculos no ocidente.Grícoli. Dividiu a maior parte de seu tempo entre suas funções . viajou para Roma. Para termos uma idéia. da erudição ou da poesia. e também o construtor de uma grande síntese. suas obras tiveram 62 diferentes edições. Nascido em Cheronéia. Estabelece que as causas determinantes dos acontecimentos não são fatos imediatos. mas sim o conjunto das instituições. as decisões tomadas por assembléias e as revoluções políticas. Para Políbio a história deve ser universal – como o domínio romano –. Zilda Zilda Maria M. A posteridade viu em Políbio uma noção racionalista da história – o pensamento precede a ação. mas já imersos na cultura romana.

o porquê da existência de um rosto na face da lua e muitos outros. a história encontrou um terreno favorável. Em relação à história grega haverá mudanças. ainda tênue na Grécia. expresso numa vasta produção. A produção biográfica de Plutarco deriva de uma longa tradição de anedotas e de reminiscências mais ou menos históricas que remonta aos tempos de Xenofonte e Platão. animada por um . torna-se uma constante. Plutarco é eclético. Os remanescentes de seus inúmeros escritos estão reagrupados em duas obras. Grande analista da psicologia humana. moralista. As vidas paralelas. Foi um dos ídolos de Montaigne: “Plutarco. as Vidas paralelas – biografias de homens ilustres organizadas em pares. Demóstenes e Cícero. entre outros. de obter suas informações somente através de livros. Apesar de não se considerar historiador – distingue biografia e história –. como o porquê dos velhos lerem melhor de longe do que de perto. considera como grandes virtudes a piedade. Embora os historiadores romanos não sejam menos subjetivos. de não ter qualquer gosto pela pesquisa de documentos. acreditando na imortalidade da alma. a moderação e o bom senso. durante séculos Plutarco serviu de fonte e de inspiração para os historiadores.AS ANTIGÜIDADES 25 de arconte em Cheronéia e a de sacerdote de Apollo em Delfos. Morreu por volta do ano 120. com exceção de quatro – e as Obras Morais – uma miscelânea de escritos sobre assuntos os mais variados. eis o meu homem”. Numa sociedade conservadora como a romana. A subserviência ao poder. haverá um deslocamento temporal acentuado para o passado e espacialmente a história do mundo será a história de Roma. Considerada um genero literário privilegiado. um grego e um romano. que bem retratam o ócio da paz romana. centram a história em torno de personalidades e subsidiam o individualismo e a heroicidade presentes durante séculos na historiografia política. ao criarem um quadro moral idealizado dos “grandes homens” como Alexandre e César. nas práticas divinatórias e na justiça da Providência.

Grícoli ideal patriótico. apresenta a conquista romana como um feito do povo romano e não só das famílias aristocráticas. uma tábua embranquecida.C. Cícero. os acontecimentos diários. Durante a segunda guerra púnica surgem anais em prosa. irá refletir sobre o papel da história na política e sobre as formas que deveria assumir..C.) os vê apenas como cronistas. Já no século IV a. Para ele o conhecimento da história nacional. .Grícoli. não escritores. em versos.C. Nas Origens remonta à fundação de Roma e desenvolve sua história até o presente. a tradição oral era forte. Canções épicas narravam as vidas de heróis como Rômulo.C. A tradição dos analistas sobrevive durante séculos. a forma da história podia ser mais importante que seu conteúdo.43 a. ao longo de sua obra. Zilda Zilda Maria M. os primeiros analistas como Fabio Píctor e Cincio Alimento escreviam em grego. o grande pontífice escrevia num album. A questão da memória parece ter tido sempre importância para os romanos. As famílias tradicionais guardavam recordações de seus antepassados. Coriolano. remontam às origens troianas e se estendem até a guerra da Istria (178-177). os Anais de Ennio. & IOKOI. os Horácios e Curiácios e muitos outros. que vê na história uma atividade apropriada à velhice e à aposentadoria. da história dos povos conquistadores e daquela dos homens ilustres era um instrumento funda- . Esta produção patriótica toma impulso com Catão (234 a.26 QUEIROZ. que misturava mitologia grega e história romana. louvando o heroísmo e a superioridade moral de Roma. QUEIROZ. como um instrumento de propaganda anti-cartaginesa. Cícero (106 a. as guerras púnicas fundamentam um tipo de história épica como o Bellum punicum de Nevio. Tereza Tereza Aline Pereira A. No século III. Embora não tivesse escrito nenhuma obra histórica.C. Remontando às fundações de Roma.). as imagens preservavam rostos e as inscrições funerárias exaltavam os feitos dos mortos. . Pereira de & de IOKOI. No século II.149 a.

Na base da história romana estaria uma luta secular entre o patriciado e a plebe. por adultério com a filha de Sila.C. a paixão e o comprometimento político basearão a obra do historiador Salústio (c. Com a Conjuração de Catilina. Em suas obras destila seus ódios e convicções. pois possui uma verdade objetiva e que são necessários métodos para chegar a esta verdade.C . 86 a. pretende demonstrar a ruína progressiva do regime aristocrático instaurado após a derrota dos Gracos. retorna no ano seguinte pela intermediação de César. Findo o cesarismo só restava a decadência dos tempos em que vivia. É uma fonte de exemplos morais e pode dar uma estrutura de discernimento para o estadista. Cícero concebe uma história ideal baseada na veracidade e na imparcialidade.AS ANTIGÜIDADES 27 mental para os estadistas e oradores. assentada na geografia. julga importante tecer o retrato moral e cívico dos grandes homens. fica no entanto sem qualquer futuro político após a morte de César em 44 a. Investe contra a busca de um passado remoto. Cícero atribui à história um caráter utilitário. Em suas obras critica a vida ativa – tão elogiada por Cícero – e enaltece a nobreza e a . além de situar todos numa tradição. O contemporâneo. das quais só restam fragmentos.35 a. preferindo as narrativas do contemporâneo. Excluído do Senado em 50 a. Insiste em dizer que a história não é epopéia e nem poesia. Decide então tornar-se historiador..C. de quem é partidário incondicional.. com uma base cronológica.C. destacando o relato dos fatos com suas causas e conseqüências e as imbricações entre as ações humanas e os azares da fortuna. Para Salústio o trabalho como historiador foi um prolongamento de sua vida política. embora seja um gênero retórico.C.). Para isto então torna-se necessário o respeito a uma ordem cronológica. Enriquecido pela prática da corrupção no posto de governador da África Nova (Numídia) em 46 a. a Guerra de Jugurtha e as Histórias.

idade de ouro estóica. Seu trabalho reitera uma concepção de história profundamente associada à experiência. autor de uma . assentada na demagogia. O patriotismo do reino de Augusto fará com que também a história se transforme. a justiça. em que a virtude. à brevidade do discurso. ao vivido. Para além da pintura do caráter de Jugurtha. Grícoli dignidade do espírito. escravizada pela oligarquia detentora de magistraturas e riquezas. preparam os acontecimentos.D. A Guerra de Jugurtha também trata da história contemporânea.C. uma escolha deliberada de alguns episódios em detrimento de outros para criar o efeito desejado. deixa entrever a inquietação de Roma após a revolução dos Gracos.Grícoli. mas ver as causas sob os efeitos das ações. Para Salústio cabia ao historiador não somente narrar.10 A.).28 QUEIROZ. dos tempos gloriosos dos inícios da república. Em Catilina faz a apologia do passado. Zilda Zilda Maria M. QUEIROZ. descrevem sistemas políticos. & IOKOI. do passado. Pereira de & de IOKOI. Há. 64 a. É um texto todo permeado por uma violência concentrada e retratos bem lavrados das personagens. a este tempo ideal contrapõe a Roma contemporânea. painéis descritivos da geografia. poço de todos os vícios. Tereza Tereza Aline Pereira A. portanto. Nas duas obras há dramaticidade. a frugalidade reinavam tanto na paz como na guerra. Sua grande precisão nos temas – o maior episódio de que se ocupa cobre apenas dez anos – reproduz-se também na análise minuciosa. Salústio é inevitavelmente comparado a Tucídides no que tange à forma. uma ênfase no peso da personalidade na condução dos acontecimentos. interpreta. na explicação daquilo que conhece como testemunha. das descrições exóticas. o que denuncia seu platonismo. uma diferença de fundo entre Salústio e Tito-Lívio (c. vivacidade. . à língua densa e difícil. Seus discursos caracterizam as personagens importantes. da etnografia. À medida que narra. a relação das pessoas com suas origens e seu meio social para explicar suas condutas.

o homem romano é o bem mais precioso da nação. diplomata ou militar que no fim da vida resolve fazer história. em fontes secundárias. constrói o retrato de um romano ideal. A história seria uma manifestação do espírito ético romano. a história contemporânea de Salústio. A base de sua história é a vida. . e suas paixões. justo. Movido por um patriotismo exacerbado e não por uma convicção política determinada como Salústio. política e coletiva. trabalhador. o burguês.AS ANTIGÜIDADES 29 história de Roma (Ab urbe condita libri) em cento e quarenta e dois livros. Os cento e quarenta e dois livros nos chegaram divididos em décadas. Não é o homem experiente. Mas é tão pessimista quanto Salústio no que concerne ao presente. representa um outro tipo de personagem. os guias do povo. Fundamentada numa pesquisa livresca. Os grandes homens seriam os instrumentos da história. Tito-Lívio rompe com a história em moda na sua época. de suas origens até o ano 9 a. estabelecidas provavelmente a posteriori. Tampouco quer fazer uma história universal.C. sem um espírito crítico agudo – muitas vezes Lívio cita fontes contraditórias e somente aponta o que lhe parece mais plausível. dando os grandes exemplos. negando-se a tratar de temas alheios à história romana. encarnando os interesses supremos da pátria. dominando cada período. a obra expressa um sentido de grandeza provavelmente vivo na mente dos romanos. mas sim nacional. Por outro lado. a grandeza estava no passado. republicano e sedentário TitoLívio procura as causas da grandeza de Roma na moral romana. com gravidade. em tons dramáticos ou épicos. uma figura una que corresponde à unidade do império e contribui para sua propaganda. outras vezes se contradiz fragorosamente –. político. passíveis de serem controladas pelos princípios tácitos aceitos por todos para a conduta individual e coletiva. são geralmente caracterizados através de discursos. heróico. convencido de estar cheio de razão.

D. acreditava na importância da Fortuna no desenrolar da história e.31 A. Augusto e Tibério – e uma panfletagem rasgada do próprio Tibério. Afinal. determinantes. é bravo.30 QUEIROZ. está a louvação dos primeiros césares – César. a prudência. . é virtuoso. os romanos fossem senhores do universo. Achava natural que. fez uma brilhante carreira militar antes de se tornar o historiador do imperador. 19 a. Pereira de & de IOKOI. pois existem também mecanismos invisíveis. é culto. a concórdia.Grícoli. A produção laudatória terá vários seguidores. respeitava a religião e via nela um meio para manter a ordem e a disciplina entre o povo. a clemência.) é de novo um homem de ação que se engaja na construção do passado romano. é prudente etc. não concentram todo o poder sobre o devir histórico. particularmente.C. anais. É o grande continuador da missão regeneradora de Augusto. Veleio acredita que a causa da grandeza dos césares reside numa conjunção do sobrenatural com a virtude. haviam praticado todas as virtudes: a piedade em relação aos deuses. memórias. num crescimento de Roma como manifestação de uma vontade divina. a fé. a moderação. após tantas provações. Este aparece como um herdeiro predestinado de Augusto. no entanto. Na base de seus escritos. a historiografia tendeu por outro lado a se diluir em gêneros menores. os grandes homens. é belo. Tito-Lívio proclama o conservadorismo e a moral ecoando o programa de regeneração do mundo romano de Augusto. Suas Historiae tentam descrever toda a história do mundo greco-romano desde a guerra de Tróia e inserir a história de Roma na história universal. porém. absolutos e coletivos que levam os povos à decadência. Veleio Patérculo (c. Após a monumentalidade de Lívio. Zilda Zilda Maria M. . biografias. Legado de Tibério na Germânia. Tereza Tereza Aline Pereira A. & IOKOI. Não pertencia a qualquer seita filosófica. QUEIROZ. Grícoli Sem participar da vida pública é um dos primeiros historiadores do gênero intelectual de gabinete. é bem nascido.

amargura. quer salvar as virtudes do esquecimento. avaliar as mudanças. as Histórias da contemporaneidade. brutalidade. foi cônsul (97). levar em conta detalhes mínimos que podem indicar a essência de uma pessoa ou de uma época. rápido. o reino dos júlios-cláudios: Tibério. dando um tom totalmente diverso em relação à historiografia praticada até então. Diálogo dos oradores. entrou na carreira administrativa durante o governo de Vespasiano. as deformações da alma humana quando pressionada por circunstâncias externas. procônsul da Ásia (110 . da crueldade e do deboche da época. quase sem verbos. Em meio a este panorama destaca-se a obra de Tácito (c. Originário do meio eqüestre e possivelmente provincial. Sua grande eloqüência já era notória antes de se dedicar à história.120). Seu estilo conciso. de povos estrangeiros – como os germanos. Para Tácito a história não é um campo para louvações pessoais. É um grande leitor de almas complexas. Tácito objetiva fazer uma obra moral. em sua obra transparece uma obsessão pela tirania. Os Anais tratam do passado não vivido pelo autor. Vida de Agrícola e a Germânia precedem suas obras propriamente históricas. execrar os vícios. 55 . – Calígula e Cláudio – Nero. não é uma lição política como em Tucídides e Políbio. Uma das características mais interessantes nos retratos humanos criados por . Sua filosofia da história é totalmente pessimista. um desejo de liberdade de expressão e de restauração do poder da palavra. analisar. diante da miséria. as Histórias e os Anais. transmite violência. O historiador deve comparar. A história deve proceder a uma análise moral.113). A explicação dos fatos deve ser mais completa e extensa do que a narração dos fatos.AS ANTIGÜIDADES 31 ensaios. inquietação. de uma forma compacta. não se presta a floreios oratórios como em Tito-Lívio. pela discórdia. das guerras civis de 69 e do reinado dos flavianos.

mais decidida. ao mesmo tempo em que ensinava aos tiranos como . Messalina tem sede de escândalo e luxúria. Tácito utilizou fontes orais e escritas para construir sua história. ambiciosa. manipulado por suas mulheres e seus libertos. e procura decifrar o quanto há de vontade e liberdade naquele processo. Sua obsessão pela violência e as regiões mais sombrias da psique faz dele um companheiro de historiadores cristãos tão diversos como Agostinho e Gregório de Tours. QUEIROZ. Estas personagens também se modificam sob as circunstâncias. a apatia do povo após o principado de Augusto. quando as reflexões sobre a tirania são freqüentes. Nero é um louco romanesco. Embora não fosse alheio aos mecanismos coletivos. econômicos e sociais da história – analisa as relações entre os desmandos dos imperadores e o déficit nas finanças públicas. com sede do impossível e do extraordinário. a tristeza dos soldados diante de seus companheiros mortos. A partir do século XVI. é mais viril. mas ataca a superstição. Grícoli Tácito é que nunca se repetem – Cláudio é fraco e inerte. brada contra o servilismo de cronistas como Veleio Patérculo. o saque de Cremona.1540) dizia que Tácito ensinava muito bem as pessoas a viverem sob o jugo das tiranias. Acredita na intervenção dos deuses no processo histórico. Guicciardini (1483 . desequilibrado. os rompantes de violência popular no teatro. Tereza Tereza Aline Pereira A. principalmente. & IOKOI. o incêndio do Capitólio etc.32 QUEIROZ. Agripina pende para o crime. pessoais e coletivas. centrada em tragédias. Pereira de & de IOKOI. os motins militares. a obra de Tácito será muito valorizada na Europa. Da mesma forma são analisados os sentimentos coletivos: o medo e a fraqueza do Senado ao aclamar Tibério. extravagante.Grícoli. ouvia os rumores do Senado e os das ruas e consultava arquivos oficiais e crônicas divergentes. Zilda Zilda Maria M. a crise do ano 33 – é certo que constrói uma história dramática. atravessa as mais aterrorizantes tragédias sem agir e sem compreender o que se passa.

Muito já se escreveu sobre o tacitismo de Machiavel. Na época de transição entre a historiografia antiga e a medieval destacam-se Suetonio (75 . suas funções fazem com que tenha acesso a arquivos e documentos secretos. A maior parte de sua obra. De grande erudição. considerado o último historiador da antigüidade por ser pagão. Suetonio elabora as biografias dos doze primeiros césares romanos. Sua paixão era a pesquisa. incluindo uma enciclopédia de história natural. 120). Obedecendo a uma ordem cronológica. utilizava fontes orais para escrever seus trabalhos. na adivinhação. Os Doze Césares tratam do mesmo período estudado por Tácito. Apesar disso. os livros. os Doze Césares fizeram uma longa carreira no ocidente. Além de pesquisar em livros e arquivos.140) e Amiano Marcelino (330 . originário da ordem eqüestre. onde chega a trabalhar como secretário de Adriano. Suetonio. 113).AS ANTIGÜIDADES 33 fundar suas tiranias. . nenhum julgamento de valor muitos silêncios e nenhuma visão de conjunto. Mesmo assim não quer ser considerado historiador. Sua proximidade com a história pode ser detectada principalmente pela massa de documentação presente nas biografias. embora haja pouca crítica. o que lhes dá um tom anedótico e escandaloso muito acentuado. mantém a crença na religião tradicional.c. Seus contemporâneos o vêem como um gramático. Restaram as Vidas dos doze Césares (c. amigo de Plínio. A opção pela biografia subentende sua convicção no poder pessoal sobre a história. mas também uma concepção dinástica de poder. dedicouse à carreira administrativa. foi perdida.c. Sobre os homens ilustres (c. prefere se estender mais sobre a reconstituição das vidas dos mais antigos. ao contrário do hábito de carregar a pesquisa nos tempos mais próximos. e desconfia profundamente dos cultos orientais. mas o nome deste e muito menos seu espírito não estão presentes. a escrita. De gramáticos e retóricos e uma Vida de Terêncio. 391). como o cristianismo.

negar o fantástico. o último historiador antigo. da oratória. de fundo belicista.34 QUEIROZ. os trezes primeiros perdidos. Suas pesquisas e a transposição de suas experiências resultaram numa obra altamente patriótica. venerável. Amiano diz querer ser historiador imparcial. Em 363 fica sob o comando do imperador Juliano. Por Deus e sua Divina Providência. diz ser a virtude mais importante do que paganismo ou cristianismo. base da liberdade e da sabedoria. participando da luta contra o rei Sapor da Pérsia. fecha um ciclo da história romana ufanista. de uma ideologia exangue. integrando um corpo do séquito imperial que realizava missões nas províncias. a escrita de Amiano. De 353 a 360 trabalhou com Ursicino. ater-se à veracidade. Amiano faz a apologia da Roma eterna. santa. Grícoli Amiano Marcelino. na linha de Políbio. era oficial militar. estabelecendo-se depois em Antioquia. começou sua carreira na guarda do Palatino. laudatória das façanhas de um Juliano sábio e herói. das obras teatrais. A crítica contemporânea. contrária aos germanos. no entanto. a história não era um genêro elaborado para ser ouvido. Nasceu em Antioquia em 330. Para compilar o material de sua História foi para Roma. Iniciava-se agora a saga dos outros eleitos. QUEIROZ. Zilda Zilda Maria M. ao mesmo tempo em que canta as virtudes do universalismo imperial romano. Evocaremos aqui alguns resultados de sua pesquisa. procurar um meio termo entre vícios e virtudes para retratar os governantes. mãe dos deuses. Flagrante de anacronismos em sua exaltação do agora inexistente. Tereza Tereza Aline Pereira A. Ao contrário da poesia.Grícoli. Vivendo em pleno período da desintegração do Império. centrada na saga deste povo eleito pelos deuses e a Fortuna para dominar o mundo. Por outro . & IOKOI. Pereira de & de IOKOI. convencer. plena dos fatos que considera dignos de memória. A obra abrange desde o período do advento de Nerva (96) até a morte de Valente (378) em trinta e um livros. basear-se em documentos. Não tem uma posição anti-cristã absoluta. notadamente Alberto Momigliano. tem se preocupado em indagar qual seria o público da história na antigüidade.

Amiano. a de compreender o porquê da existência da história em sociedades onde ela não fazia parte da educação formal e onde a religião. Dispomos de alguns indícios sobre a disponibilidade de algumas obras no mercado. militares ou administrativos. Momigliano acredita que no princípio. Entre os séculos III a. Augusto não tolerava historiadores fora de uma linha oficial. no século V a. por volta de 392. . sua existência nas bibliotecas públicas do império.. deveria haver leituras públicas das obras. Vários historiadores gregos viveram no exílio. há uma documentação esparsa sobre leituras de obras históricas. a filosofia e os costumes determinavam a conduta dos homens. Temos alguma documentação sobre as personagens que leram obras históricas – Brutus lendo Políbio. portanto. porém.C. os historiadores não formavam um grupo profissional e nem mesmo um grupo distinto dentro da sociedade.AS ANTIGÜIDADES 35 lado. Na medida em que Roma. Sabemos também da existência de resumos de obras para o grande público. teria lido alguns trechos de seu livro em público. mas estas deveriam ser desiguais. mas que com o tempo devem ter caído em desuso. Segundo Momigliano. A isto se acrescenta que na antigüidade não havia uma distinção clara e universalmente aceita entre história e ficção. o que leva a pensar que a história pode ser uma disciplina perigosa. Tácito como aristocrata deveria ter mais penetração na alta sociedade do que Suetonio. vários romanos ocupavam cargos políticos. Sabemos que Tucídides escrevia para ser lido. Cláudio lendo Tito-Lívio etc. e IV A. A história. simples cavaleiro. há fontes sobre as relações entre historiadores e governantes. que acabou se suicidando.D.. a história e o poder andavam juntos. Na base de todas as indagações estaria uma grande incógnita. Tibério queimou as obras do historiador Cremutius Cordus. seria uma atividade marginal ou complementar à vida das pessoas.C. mas muito fragmentários.

o mundo é propriamente o signo do homem. Pau- . que compõem a estrutura básica da educação e nem o historiador tenha se profissionalizado. De natura rerum. será um elemento primordial na composição da identidade do homem cristão. este igualmente se compõe de uma mistura de quatro humores. A institucionalização do cristianismo como religião de estado em 313. música. A noção de história universal liga-se aos judeus cristianizados. como S.AS IDADES MÉDIAS 37 AS IDADES MÉDIAS “O mundo é o conjunto de todas as coisas. com um grande H..” Isidoro de Sevilha.) No sentido místico. astronomia. dialética – ou no quadrivium – aritmética.. a História. retórica. cuja combinação forma um só ser existente. (. que se compõem do céu e da terra. No momento em que seguidores de Cristo. geometria –. a desintegração política e econômica do império romano e a ruptura de seu quadro geográfico estão na base do surgimento de uma nova história e de um novo historiador. Pois da mesma maneira que aquele é constituído de quatro elementos. Embora a história não esteja enquadrada no trivium – gramática.

A própria expansão do império romano seria um desígnio de Deus para facilitar posteriormente o trabalho apostólico. sem reviravoltas cíclicas. em uma religião universal. Grícoli lo. em conformidade com outros padrões. os fatos se legitimam automaticamente e se amoldam sempre a uma explicação de ordem sobrenatural. Zilda Zilda Maria M. no poder exercido por Melchisedec ou no procedimento da passagem do poder de Cristo para S. a oratória e a discussão intelectual. absorvendo a ideologia política do império. continuação do Testamento nacional. não mais conquistas militares. Assim o Novo Testamento. de Deus até o mais obscuro dos príncipes. Ordenada. Tereza Tereza Aline Pereira A. a Igreja se apresentará como fiadora da ação de Deus na história. Uma história linear com começo – a Criação –. como o de legitimar o poder. Nos primeiros séculos do cristianismo ocidental. por exemplo. Num mundo organizado por Deus. esta palavra passa a ter um peso muito grande na maneira de refletir sobre o mundo. dão margem ao surgimento desta história universal. Outros se voltarão para uma experiência do tempo ordenada por cadências regulares – a cada mil anos. No entanto. A subjetividade presente na historiografia antiga assumirá contornos diversos. historiará as batalhas e as conquistas dos apóstolos em terras estrangeiras.Grícoli. As teorias do poder divino do papa e do imperador documentam-se nos exemplos da história. Na medida em que cristãos estão imbuídos da verdadeira verdade. Pereira de & de IOKOI. olhando para a frente. meio – a Encarnação – e fim – o Juízo Final. A verdade da história poderá ser utilizada no momento de decisões. & IOKOI. não devemos confundir verdade com objetividade.38 QUEIROZ. mas que utilizam ainda uma arma dos pagãos. seria necessária uma purificação para que tudo renasça. até então nacional. Pedro. variados. . transformam sua crença. Numa linha reta. numa seqüência infinita. Uma imagem comum nas catedrais góticas francesas é a da seqüência de reis judeus e reis franceses. da tomada de atitudes políticas. Assim muitos concebem a história cristã. o historiador. A verdade do passado terá fins utilitários. QUEIROZ.

escritores que se referem ao passado e historiadores dos quinze pri- .AS IDADES MÉDIAS 39 nesse sentido. sobre o translado e a descoberta de relíquias ou listas episcopais. – considerados importantes durante o ano nos anais. homens ligados à Igreja ou a administração dos reis eram responsáveis pela catalogação de fatos geralmente políticos. a Salústio. a Tito-Lívio por exemplo. Conscientes das transformações operadas pelo cristianismo no mundo. tomarão um aspecto religioso. Além disso dispomos de inúmeros Anais e Crônicas. alusões a Tácito. Por outro lado. permeiam esta nova história. Ecos da historiografia antiga. Podemos constatar também uma enorme variedade de gêneros históricos desde os primeiros séculos da Idade Média. para o contemporâneo. militares e extraordinários – passagem de cometas. narrativas sobre milagres. no entanto. sua ciência. História passa a ser um termo empregado diante de uma visão geral e recuada dos fatos. será uma testemunha da presença de Deus no mundo. Apoiada na astronomia e na matemática. que. A noção de tempo tornando-se primordial. As crônicas implicam uma maior amplitude cronológica e também uma análise dos acontecimentos no âmbito de desígnios políticos e religiosos. Uma inovação é a dos textos hagiográficos – história dos santos. acentua-se a diferenciação entre história “antiga” e contemporânea. milagres etc. a cronografia. trata o passado numa perspectiva bem diversa. Estas listas fundam uma pseudolinhagem episcopal e legitimam o bispo como pai dos fiéis. que favorecia uma comunidade ao estabelecer uma ancienidade. que estabelecia datas e computos. o conhecimento do tempo. a presença de uma cronologia minuciosa passa a ser de praxe. uma história para determinados locais. Uma reflexão sobre todos os cronistas. analistas. tentam explicá-las à luz da religião. As histórias de santos também podiam ocultar um propósito legitimista. era considerada uma ciência cristã.

considerado o pai da história eclesiástica.420) atribuirá à história um papel decisivo na vida pessoal de cada um e no próprio cristianismo. Tereza Tereza Aline Pereira A. QUEIROZ.430). cartas.Grícoli. no aconselhamento. 341 . onde anuncia a vitória do Ponte Mílvio com violência.340). Aristocrata convertido por volta de 366. deixou uma produção enorme em livros. Grícoli meiros séculos do cristianismo seria muito extensa. Convertido ao cristianismo em 300. A tentativa de interpretar a história humana numa perspectiva cristã já se manifesta no panfleto de Lactâncio (c. no celibato. da vingança divina contra os perseguidores da Igreja. Agostinho (354 . Jerônimo (c. por exemplo. Com uma sólida formação clássica. Eusébio tratava do passado longínquo. 325) sobre a Morte dos perseguidores. das disputas .40 QUEIROZ. onde o tempo presente é sempre avaliado em função da missão cristã. tendo sido secretário do papa Damásio e fundador de inúmeros conventos. da luta contra perseguidores e heréticos. importantíssimo na definição da ideologia e das funções da história medieval – na Cidade de Deus defende a teoria de que a queda de Roma era apenas uma pequena amostra dos infinitos e universais poderes divinos – não será considerado como historiador. S. numa carta a uma de suas amigas romanas que desejava se casar. no eremitismo. as formas de vida cristã. assim. era inconcebível pensar na felicidade pessoal e que a única atitude digna e cristã seria a do celibato. Zilda Zilda Maria M. diante do horror das invasões de “bestas ferozes” – os germanos – ao império romano. Pereira de & de IOKOI. foi preceptor do filho do imperador Constantino. e a atualiza até sua época. buscou na pregação. Jerônimo traduz do grego para o latim a Cronica de Eusébio de Cesaréia (265 . & IOKOI. Assim. suas ligações com o poder – Constantino oficializa o cristianismo no império – e a paixão de neófito se confundem em seu trabalho. Nos limitaremos a alguns exemplos nos quais a intenção de escrever uma história é mais definida. panfletos. 260 c. Nesta obra. argumenta que.

considerada por pagãos e mesmo veladamente pelos cristão como uma obra de padrão literário execrável. foge das invasões germânicas e refugia-se em Hippo. detectados desde os mais antigos impérios do mundo.AS IDADES MÉDIAS 41 doutrinais e da sintonia entre a pax romana e o cristianismo. numa nova lingua- . Hilarion. e não a retórica. Paulo Orósio (c. os historiadores tendem a traduzir uma visão de mundo mais localizada. No Dos homens ilustres. Seu maior empreendimento foi a tradução para o latim e revisão crítica da Bíblia (Vulgata). seu livro é um exaustivo catálogo dos males da humanidade. Malchus. fundamental nas obras medievais. 360 . em sua História Sagrada pretende descrever a história do mundo desde a criação até o ano 400 para instruir os ignorantes e convencer os cultos. se impunha. escreveu vários trabalhos ligados à defesa da ortodoxia e. A História contra os pagãos (415 . a “autoridade”. 420) originário da Aquitânia. e que. dão o tom para as biografia santas medievais.c. também pensará na história como um amplo painel. Com a divisão do antigo império em reinos germânicos. um padre espanhol que. no século XII. 390 -?). Jerônimo traça um quadro completo do desenvolvimento da Igreja. um suplemento histórico à Cidade de Deus. Durante séculos este trabalho. datas e seus encadeamentos.417) objetiva provar que o cristianismo não fora responsável pela queda de Roma. As Vidas dos anacoretas Paulo de Tebas. focada num cotidiano mais limitado. Seus prefácios e comentários sobre os livros das Escrituras objetivam melhor elucidar fatos. em 414. enumerando todas as grandes personagens desta história. bem como o de Eusébio. a citação. a pedido daquele. Sulpício Severo (c. utilizando uma enorme documentação e poucos discursos. ao analisar a história humana evidencia-se um desígnio providencial. Discípulo de Agostinho. servirão de subsídio para a escrita de crônicas universais como a de Otto de Freising.

o texto do tratado de Andelot assinado entre os reis Guntram e Childeberto II em 587. Martinho até 591. suas fontes forçosamente serão outras. bispo de Tours. No livro I cobre 5596 anos da história da humanidade. sete respostas a esta carta. vai além. uma história baseada no documento. Zilda Zilda Maria M.594). Os outros nove livros da história dos francos relatam os acontecimentos desde a morte de S. em 397. como o da primeira . Gregório deplora a inexistência de um homem capaz de escrever sobre os acontecimentos atuais e decide assumir esta tarefa. & IOKOI. descende de uma família romana senatorial integrada ao reino franco. Gregório de Tours (c. Jerônimo e Orósio e mais seu conhecimento da Bíblia. A partir do livro II. como a carta enviada a bispos por ocasião da fundação do convento de Santa Radegunda em Poitiers. vidas de santos e de mártires. de fato. Tereza Tereza Aline Pereira A. a carta do papa Gregório aos flagelados da peste de 590 em Roma. e outros. na autoridade e na discussão desta autoridade. Além de descrever. Grícoli gem. É o caso da História dos Francos de Gregório de Tours e da História dos lombardos de Paulo Diácono. 539 . Cita Virgílio e Salústio. embora se digam herdeiros de Tácito ou da historiografia antiga. A presença desta documentação demonstra o espírito que anima a escrita da história de Gregório. Avito.Grícoli. Martinho de Tours. QUEIROZ. pouco antes de sua morte. de Adão até a morte de S. No prefácio da História dos francos. Gregório tenta desvendar pontos obscuros.42 QUEIROZ. Sulpicio Severo e Ferreolo e muitos outros. Insere a transcrição de uma série de documentos originais. as agora perdidas Historia de Renatus Profuturus Frigeridus e a Historia de Sulpicius Alexander. começa a narrativa nos dias da Criação. Mas também as fontes orais e o testemunho ocular. a perspicácia de observação. Inspirado por Eusébio. Pereira de & de IOKOI. a participação pessoal em vários acontecimentos. escritos de seus contemporâneos Venancio Fortunato. quando começa a mencionar os reis francos. cartas de Sidonio Apolinário e de S. servirão de subsídio à narrativa.

Muito criticado por não mais seguir os padrões antigos. Um dos aspectos mais cativantes desta história dos francos é a linguagem. dito o Venerável. No século VII. com as Narrativas dos tempos merovíngios de Augustin Thierry. A História do povo e da igreja dos anglos (731) – da conquista de Júlio César em 73 até o presente – e a Vidas dos abades. está atento ao real. dois trabalhos de história.AS IDADES MÉDIAS 43 vez que um líder franco se transforma em rei. e uma cronologia universal calculada pela era cristã e fundamentada em estudos astronômicos. . no seu estilo simples. Seu horizonte é fechado. numa distante região da atual Inglaterra dominada pelos anglo-saxões. Gregório escreve como deveria falar. as intrigas. foi ele encaminhado a um convento. é justamente neste latim falado. Aos sete anos de idade.735). através de uma investigação minuciosa. tratados de gramática. a história será uma das expressões da cultura religiosa de Beda (673 . e no romance gótico. que podemos desvendar inúmeros traços da mentalidade. ao contrário de muitos historiadores antigos. pode descrever com minúcia cenas que jamais seriam consideradas dignas de nota pela historiografia antiga. As fúrias encarnadas em Fredegonda. menos conciso que o clássico. Apesar de se preocupar em ler nos acontecimentos os signos da intervenção divina no mundo. Educado tanto pela leitura das obras cristãs como clássicas aí existentes. Logo. uma versão expurgada do De rerum natura de Isidoro de Sevilha. renascerão na historiografia romântica do século XIX. Sem enunciar qualquer julgamento. órfão. a luxúria e a volúpia sanguinária dos merovíngios. ao visual. da visão de mundo de sua época. Gregório. escreveu comentários bíblicos. nunca saiu da Gália. pinta com precisão os horrores. com treze anos fixou-se na abadia beneditina de Yarrow e daí não mais saiu até sua morte. as misérias de Brunhilda.

Descarta o que não lhe parece adequado e não se contenta em somente arrolar o material utilizado. QUEIROZ. Zilda Zilda Maria M. são apontadas como intervenções diretas de Deus no mundo. em Aachen. É neste momento de sua vida que decide escrever uma biografia de Carlos Magno. para a instrução da posteridade”. trabalhei honestamente para transmitir o que pude aprender das fontes. foi educado na abadia de Fulda. Escrevendo como cristão. “Como as leis da história exigem. de formação religiosa.Grícoli. . o Piedoso. não somente a história dos povos que colonizam a ilha e da igreja é narrada. curas. Pereira de & de IOKOI. o Piedoso e seus filhos o leva a prudentemente se afastar da política. posteriormente admitido na escola palatina de Carlos Magno. que possam ser interessantes ou edificantes para seus leitores.840). mas trabalhando para o poder temporal. Para isto estabelece uma intensa correspondência no sentido de obter cópias ou originais de manuscritos. é Eginhardo (c. Ingressa na política no reinado de Luiz. & IOKOI. Um outro tipo de historiador. uma das estrelas da chamada renascença carolíngia. Beda informa seus leitores sobre as fontes que utilizara e o tratamento a elas concedido. Grícoli No prefácio de sua história eclesiástica. tempestades. utilizando tanto testemunhos escritos como orais e mesmo arqueológicos. O conflito entre Luiz. Procura sempre reunir a maior documentação possível sobre todos temas. e. Beda representa bem tanto a dinâmica da cultura anglo-saxônica como a cultura eclesiástica quase profissional que dominará a Europa por séculos. o maravilhoso e os milagres estão presentes no texto. foi secretário e amigo pessoal de Carlos Magno até a morte deste em 814. 770 . Em 830. mas também as lendas. as crenças populares. e posteriormente conselheiro de seu filho Lotário. Nascido numa família aristocrática. cometas. Tereza Tereza Aline Pereira A. a crítica moderna constata uma grande precisão nos fatos arrolados em sua história. Por outro lado. em 828. Apesar das dificuldades que deve ter tido em reunir sua documentação. mas em fundi-lo num todo coerente. Assim.44 QUEIROZ.

Gall (c.c. considerada imprópria. talvez porque a história edificasse. no entanto. sobre o qual quase nada se sabe. deixou cartas e obras hagiográficas. a época é pródiga em histórias eclesiásticas locais.AS IDADES MÉDIAS 45 retira-se na abadia de Selingenstadt. as obras históricas não teriam sido afetadas por estas restrições. parece haver um certo abandono da literatura latina profana. particularmente. os autores copiam a seqüência de temas e mesmos os comentários dos autores latinos. quando este estava com quarenta e nove anos de idade. Apesar disso. Colocam suas personagens numa espécie de camisa de força. e de dispor de documentação para o período anterior. Uma outra biografia de Carlos Magno seria escrita mais tarde pelo chamado monge de S. e também por ter como motivo um tema não religioso. A Vita Caroli é um panegírico do imperador. Na medida em que a cultura cristã assume formas e conteúdos próprios e mais definidos no ocidente. 840 . No prefácio da Vita Caroli. Apesar desta proximidade. a biografia de Augusto. Além da vida de Carlos Magno. Eginhardo cometerá uma série de imprecisões. 912).z Algumas vezes deliberadamente. seguindo fielmente os moldes da Vida dos doze Césares de Suetonio e. Além da biografia cortesã. mosteiros. legendário. concisão. Aproveitava o fato de ter sido uma testemunha ocular dos dois aspectos da existência do imperador a partir de 791. eventualmente derivada das lendas populares sobre o imperador. para camuflar a verdade e proteger seu senhor. Eginhardo define suas metas: escrever sobre a vida pública de Carlos Magno e descrever sua vida cotidiana. porém. comunida- . No todo. de sedes episcopais. as diferenças de sensibilidade acabam por aflorar. trata-se de uma obra surpreendente pelo seu estilo. recheada de anedotas saborosas. Trata-se de uma obra com um caráter mais mítico. ao escrever de memória. Há também um outro aspecto a ser considerado nesta imitação. Este será um procedimento comum durante vários séculos.

um outro milenio. Há ainda a História dos normandos de Dudo. Adémar de Chabannes. cobrindo o período de 888 a 995. Mas se nós as ignoramos. pela vontade ou pela permissão de Deus.1156): “boas ou más. A Cronica do religioso de Angoulême. Bertin do abade Fulcuino (m. devem servir à glória e à edificação da Igreja. vida de S.46 QUEIROZ. Pedro. o Venerável (c. todas as ações produzidas no mundo. a do bispo Othon de Freising. e não 1000. QUEIROZ. segundo Georges Duby. deão da colegial de S. & IOKOI. relativo à morte de Cristo. Quentin. Assim 1033. 1092 . Alexis (1040). escritas por religiosos mais ou menos obscuros. entre outras. Zilda Zilda Maria M. o curto. O cronista Raul Glaber. talvez explique esta ausência ao formular um outro cálculo do tempo. A história continua a ter grande importância para a consciência cristã. Tiago –. de Reichenau – retomando a divisão agostiniana de seis épocas do mundo –. talvez findos por volta de 1048. cobrindo a história do povo franco. é mais ampla. servem a propósitos piedosos. monge de S. vida de S. Assim a História da Igreja de Reims de Flodoardo (894 . Legério (950 1000). e os textos das Histórias do monge Raul Glaber. Os méritos das obras históricas são definidos no livro Das Maravilhas do abade de Cluny. abade de Cluny.966). Nada ou quase nada é dito sobre a data nos anais de Benevento. Inúmeras são as cronografias universais como a de Reginono de Prum (906). a História do mosteiro de S. as Histórias de Richer. Tereza Tereza Aline Pereira A. 990). O ano mil. A produção de vida de santos também é considerável. e econômicos ao propagandear os milagres de santos locais e atrair peregrinos: vida de Sta. Eulália (881). Rémi de Reims. Pereira de & de IOKOI. vidas de Santa Foi (1000 . dentro de uma cadência temporal religiosamente marcada. em sua obra dedicada a Odilon. nos de Verdun e outros. Grícoli des. no caminho de S.Grícoli. no entanto.1050) – santa que atrai milhares de peregrinos. a do monge Hermann. . parece ter passado quase despercebido em vários anais e crônicas contemporâneos. a partir de 980 torna-se uma crônica da aristocracia da Aquitânia. seria o outro milênio. políticos.

da poesia antiga e das produções literárias corteses contemporâneas. e que passa a trabalhar a soldo para a aristocracia para escrever suas genealogias. de Geoffrey de Monmouth (c. analisado por Georges Duby. Os deslocamentos para o oriente motivados pelas cruzadas dão margem ao surgimento de um outro tipo de história. o Marechal (c. cânone de Bayeux no século XII. . Não mais preso a uma estrutura monástica ou episcopal. parente distante desse senhor. 1175). Lambert era um clérigo que servia no castelo de Ardres. 1145 . Dizia-se “mestre”. a escrita da história passa a ser utilizada com maior freqüência pelos poderes laicos. também sacerdotes. Uma série de crônicas familiares. além.AS IDADES MÉDIAS 47 como podem contribuir para a louvação de Deus e a edificação da Igreja?” A partir dos séculos XI-XII. e elabora o Roman de Rou (c.1219). 1100 . É o caso de Lambert d’Ardres. por volta de 1226.1154). de biografias individuais de grandes personagens laicos e de histórias nacionais podem ser encontradas. Assim Henrique II da Inglaterra (1133 . Um anônimo encarrega-se da biografia de Guilherme. traduz a Historia Regum Britanniae. mas geralmente de formação religiosa. regente da Inglaterra durante a minoridade de Henrique III. que nela também vêem uma ocasião para cantar suas glórias e legitimar seus direitos. o conde de Pembrocke. narrando a história dos duques da Normandia. que ajuda a popularizar as lendas do rei Arthur na França. Wace. Surge assim um novo tipo de produtor da história. o escritor é contratado pelo filho de Guilherme. apesar de clérigo. certamente. algumas vezes míticas. era casado e tinha filhos. de dispor de toda uma base religiosa de conhecimentos. no entanto. com bases em fontes latinas.1189) contrata clérigos para escrever a história de seus predecessores. tinha conhecimentos de retórica. que entre 1201 e 1206 termina sua História dos condes de Guines “à gloria dos altos senhores de Guines e de Ardres”.

acaba abarcando um espaço geográfico bem mais amplo.1124) escreve sobre a primeira cruzada em seu Gesta Dei per francos. do lado dos poderosos. marechal da Champagne e um dos chefes da quarta cruzada. Um peregrino de Évreux. que tem por fonte seu próprio testemunho ocular dos acontecimentos. Paradoxalmente. nos fins do século.Grícoli. Tereza Tereza Aline Pereira A. 1213) e Robert de Clari. Ao contrário. utilizando todos os tipos de fontes disponíveis. Ambos participaram da quarta cruzada. companheiro de Ricardo Coração de Leão. populares e canções. na base de sua narrativa está a vontade de justificar o porquê da mudança de rumo da quarta cruzada para Constantinopla.1143).c. escritas. narra a história de toda a vizinhança e da aristocracia normanda. subordinado a chefes que o mantêm ignorante da razão de seus movimentos. acaba seguindo estas personagens pela Inglaterra. a partir de Gesta anonimos. Ambrósio. Grícoli mais heróica. são as cruzadas que definitivamente consolidam a história laica na Idade Média. é trabalho de um profissional. para ser considerado totalmente verossímil. Partindo dos documentos de que dispunha a abadia. muito preciso. A Historia eclesiastica do monge Orderico Vitale (c. Zilda Zilda Maria M. Clari dá o testemunho do combatente comum. nas crônicas de Geoffroy de Villehardoiun (c. além de construir sua história. Pereira de & de IOKOI. em versos. que em princípio deveria contar a história da abadia de Saint-Evroul en Ouche. orais. que transformou os cristãos desta cidade em . Villehardouin. sem ter sido testemunho direto. Escreve por meio de círculos geográficos e cronológicos sucessivos.1192). & IOKOI. O beneditino Guibert de Nogent (1053 .48 QUEIROZ. alheiado da grande política. muito lógico. 1075 . vê a cruzada de cima. a partir do ponto fixo que é a abadia. próxima da epopéia. Seu relato da Conquista de Constantinopla tende a ser muito claro. QUEIROZ. mas o resultado das duas obras é bastante diverso. narra a Terceira Cruzada (1188 . Sua História da guerra santa. a Itália do Sul e o oriente das cruzadas. 1150 . Assim.

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infiéis. Sem mentir abertamente, escamoteia a verdade sobretudo através de seus silêncios. Além da história oriental, surge uma outra vertente, nacional. A afirmação das monarquias nacionais fará com que a história submeta-se gradativamente ao serviço da política. O abade de S. Denis, Mathieu de Vendôme, no século XIII organiza a reunião de um vasto material de notícias necrológicas dos reis de França, há séculos redigidas pelos monges; traduzida em francês a partir de 1274, esta compilação foi o ponto de partida das Grandes crônicas de França, cuja redação prossegue até Luiz XI. Na História de S. Luiz (1309) de Joinville (c. 1224 - 1317), senescal da Champagne, há uma fusão da hagiografia com a história das cruzadas. Escrita sob encomenda para a rainha Joana de Navarra, após a canonização de Luiz IX, a obra pretende edificar seus leitores através das “santas palavras” e dos “bons ensinamentos” do grande rei. Admirador e amigo de Luiz IX, Joinville não poupa anedotas que enalteçam sua figura, misturando o concreto e o maravilhoso. Narra sem preocupação com um encadeamento lógico de fatos ou idéias. No século XIV, a guerra dos Cem Anos fornecerá o material para a história nacional e política. Escrita em francês, o espírito cavalheresco e as proezas militares ocupam o primeiro plano. Dos cronistas da guerra, o mais considerado é Jean Froissart (c. 1337 - c. 1400), que, apesar de ser um clérigo de origem burguesa, admira a aristocracia e seu modo de vida. Froissart desde jovem trabalhará para a nobreza; vai para a corte da Inglaterra, onde cai nas boas graças da rainha, sua compatriota Felipa de Hainaut, com um pequeno ensaio historiográfico sobre os fatos ocorridos desde 1356. Freqüenta a alta sociedade inglesa, partindo depois para a Escócia e a Itália, onde teria conhecido Petrarca em 1367. Com a morte da rainha, fica sob a proteção do duque Venceslau de Luxembourgo, e conti-

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QUEIROZ, QUEIROZ, Tereza Tereza Aline Pereira A. Pereira de & de IOKOI, & IOKOI, Zilda Zilda Maria M.Grícoli. Grícoli

nua seu trabalho de historiador. Com base em informações pessoais escreve sobre a atualidade, mas tenta buscar um início para seu texto nos anos entre 1325 e 1356, utilizando como fonte a crônica de João, o belo. Em 1388, vai para o sul para obter informações para sua história e conhecer a corte do conde de Foix, o famoso Gaston Phébus. De volta a Paris continua sua crônica, volta para Inglaterra, e daí em diante nada mais se sabe de sua vida. Dos quatro livros de suas Crônicas, o primeiro era bastante favorável à Inglaterra, e por isso foi corrigido mais tarde, quando Froissart se aproxima do círculo de Guy de Chatillon. A partir daí, seu texto pende para a França e os Valois. No terceiro livro, escrito já na velhice, mostra uma certa independência de julgamento. Froissart já encarna um historiador diferente de Villehardouin ou Joinville. Não escreve para manter viva a memória dos grandes acontecimentos de sua vida. Escreve profissionalmente como defensor dos aristocratas. Não participa dos acontecimentos que relata, e seu objetivo é o de agradar a nobreza que compra seus livros, e seus protetores que aí vêem seus nomes em destaque. Sua história tem um tom romanesco, era também poeta. Os temas de suas crônicas poderiam servir também para epopéias cavalherescas: as proezas, as festas, os torneios, as grandes aventuras, a audácia dos mercenários ou dos nobres, como Aymerigot Marcel ou Du Guesclin, e os perigos da guerra dos Cem Anos vividos nas grandes batalhas como as de Crécy ou Poitiers. A guerra dos Cem Anos dará emprego a muitos outros historiadores. A luta interna na França, entre armagnacs e borguinhões, fará com que cada lado contrate seus próprios cronistas, encarregados de expor as visões adequadas a seus senhores. Huizinga dirá que os cronistas borguinhões “encenam um sonho”.

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Dentro da cronologia tradicional, Felipe de Commynes (1447 - 1511) representaria o limite entre o medieval e o moderno. Suas Memórias, escritas entre 1489 e 1498, expressam um maior cuidado no estabelecimento de laços entre os acontecimentos e um julgamento mais ácido sobre os homens; não são mais uma invocação das virtudes tradicionais e nem elogio ou panegírico. Em seu prólogo ao arcebispo de Viena, Commynes define o objetivo de seu livro: “escrever o que eu soube e conheci dos fatos do rei Luiz XI”. Diz ter observado em seu herói coisas boas e más, e portanto não quer mentir. Commynes nasceu na Flandres. Seu pai era governador de Cassel e bailio de Gand. Destinado à vida militar, integrou desde cedo a corte de Felipe, o Bom, ficando depois a serviço do conde de Charolais, Carlos, o Temerário. Neste momento foi testemunho das primeiras lutas entre Luiz XI e a casa da Borgonha. Pouco depois muda de lado e, a partir de 1472, se torna confidente do rei, de quem recebe a senhoria de Argenton em troca de terras que possuía na Borgonha. Até a morte de Luiz XI participa de todos os acontecimentos a seu lado. Cai em desgraça por um tempo com a morte do rei, mas acaba se reconciliando com Carlos VIII; com ele parte para a Itália, onde é enviado como embaixador a Veneza. As Memórias exploram os grandes desígnios da política. O aspecto exterior dos acontecimentos não interessam a Commynes; observa, analisa, pesa, julga, compara a partir do interior dos acontecimentos. Enquanto moralista e cristão, permite-se tecer considerações gerais sobre a natureza humana e o príncipe ideal. Como vemos, a escrita da história na maioria dos casos continua a ser um trabalho paralelo a outros. Monges cumprem funções religiosas e fazem história, homens de estado trabalham para o governo e fazem história, outros são poetas e retóricos

da profundidade e amplitude dos debates filosóficos e místicos ortodoxos e heréticos. Há um outro aspecto que também devemos considerar.52 QUEIROZ. Os cronistas seriam intelectualmente medíocres. sobretudo. servia apenas de auxiliar na exegese dos textos sagrados. frases como “a verdade é filha do tempo” e “somos anões em pé nos ombros de gigantes” (autores antigos e cristãos) são ditas naturalmente. é difícil atribuir aos analistas-cronistas-historiadores um lugar preeminente. quanto mais espontâneos. confusos. No século XII. o sorriso do anjo de Reims. o sentido da história está presente. Além disso. as mais canhestras. e maus escritores.. pois se acham indignos de esclarecer a vontade divina. Tereza Tereza Aline Pereira A. mesmo admitindo esta mediocridade. acabam por ofuscar os mais dignos labores históricos. E. a história não era ensinada nas escolas. é inimaginável o valor que as obras medievais. QUEIROZ. As inquietações de Abelardo. o fervor de Bernardo. das novas formalizações da vida.. Bernard Guenée invoca razões contingentes para esta situação. Pereira de & de IOKOI. ingênuos. podem ter para o historiador do século XX. No entanto. & IOKOI. das expressões plásticas do românico e do gótico. Zilda Zilda Maria M. o rigor sistemático de Aquino. Grícoli e fazem história. admitindo que os contemporâneos viam mais longe do que os antigos. Na verdade. a partir do século XII. não é negligenciável o papel que a história e a hagiografia medievais desempenham na criação de uma mitologia política e religiosa no ocidente. melhores fontes se tornam!!! . Diante da diversidade.Grícoli. os autores são modestos – só querem relatar.

O Discurso sobre a história universal (1681) é uma defesa da história providencialista contra seus detratores. A providência divina não se aposentará nos séculos ditos modernos. A questão da fatalidade estará presente sob outros nomes – fortuna. acredita que mais do que ninguém os reis devem encarnar os valores morais do cristianismo.” Montaigne. entre 1670 e 1680. atribuem uma coerência à sua obra histórica. sorte – e. xii. Ensaios. literalmente como providência divina na obra de Bossuet (1627 .AS IDADES MODERNAS 53 AS IDADES MODERNAS “Quando Tales estima ser o conhecimento do homem muito difícil ao homem. sua condição de preceptor do delfim. ensina-lhe que o conhecimento de qualquer outra coisa é impossível. II. sua luta contra os protestantes. como Richard Simon que publicara uma História crítica do Velho Testamento – . acaso. Bossuet decide se dedicar à história no momento em que está se ocupando da formação do delfim. Ordenado sacerdote em 1652. Vicente de Paula. foi levado à pregação por S.1704). Seus depois publicados Sermões e Orações fúnebres. no século XVII. a função de chefe da igreja galicana.

54 QUEIROZ. no entanto. e verdades consagradas passam a ser discutidas ou desmentidas. Bossuet elabora um aparato crítico para a abordagem do fato histórico: para os grandes acontecimentos diz ser necessário o estudo das causas longínquas. a história será favorecida pelo sistema de imprensa de Gutenberg. este Deus. pelo qual este imperador conce- . é o caso de Lorenzo Valla (1407 . Devemos considerar. os protestantes e os quietistas. O próprio Machiavel em seu poema “Da ambição” diz ter sido o mundo criado por Deus para benefício do homem. & IOKOI. Zilda Zilda Maria M. isto não significa que Deus tenha desaparecido para os demais historiadores. Bossuet revigora o providencialismo como plataforma política. Bossuet representa a continuidade da história sacralizada. continuaria a fazer prevalecer seus desígnios nos fenômenos da natureza e também na esfera humana. visa também ressaltar a utilidade da história como mestra de preceitos morais e políticos. Na parte relativa aos impérios explica como todos serviram aos desígnios de Deus. Do ponto de vista prático. estaria submetido à ordem de Deus. Por outro lado. Grícoli submetendo os textos sagrados a uma exegese profana – e contra Spinoza. desmascara a farsa do texto denominado “doação de Constantino”. que deseja submeter Deus às leis da natureza. Em sua última versão (1700) aparece dividido em três partes: as épocas. QUEIROZ. permitindo o triunfo da Igreja.1457). Diante dos conflitos da igreja galicana com o papa. Se. da fortuna e outros seres sobrenaturais. que também outras questões se acrescentam às tradicionais. Tudo. Tereza Tereza Aline Pereira A. tradicionalmente. Caem por terra os temas intocáveis. a continuidade da religião. através de si mesmo ou através dos céus. Pereira de & de IOKOI. os impérios. mesmo aquilo que aparece sob uma forma anárquica. dos móveis imediatos e dos resultados através de uma busca no tempo remoto e da distinção de povos dominantes e homens extraordinários. que mesmo objetivando um acordo entre antigüidade e moral cristã.Grícoli.

uma “humanização” da história tenderá a prevalecer. Neste sentido. da tradição.335). Em geral. pelo fato de seus trabalhos históricos terem sido elaborados por vontade própria e não sob encomenda de alguma autoridade. no entanto. provido que sejam antigas as considera dignas de crédito. Isto nos leva à Itália do norte principalmente. tem os pés no presente. romanos principalmente. Pede ao passado que sirva de consolo para o presente. não será inocente. segue os passos de Petrarca. em seu Viri illustres (Homens ilustres). muitas vezes encarregado de missões políticas. refugia-se numa história idealizada de Roma para fugir da atualidade. Boccacio (1313 . antes de estudar Direito em Bologna.1374) traduzem com precisão suas aspirações no sentido da criação de uma unidade italiana. Durante sua vida viajou constantemente pela Flandres. França e Itália. principalmente utilizando as idéias de Tito-Lívio. publicadas por volta de 1362. mas imbuídas de um voluntarismo humano. isto fez com que vivesse em Avignon e freqüentasse a universidade de Montpellier. dos historiadores antigos. mas com um espírito diverso. . em sua maioria gregas e romanas. do nacionalismo local. ao comentar as grandes personagens romanas. e da exaltação dos governantes. seriam a contrapartida dos “homens ilustres”. Mas. do chauvinismo geralmente. Seu pai e a família haviam sido exilados pelos guelfos negros em 1312. De temperamento melancólico. onde a complexidade da experiência comunal deu margem à criação de idéias políticas particularistas ou universalistas. sem santas). de uma restauração do império romano. elimina qualquer elemento que ameace seu quadro ideal.1375).AS IDADES MODERNAS 55 dera autoridade suprema sobre a Igreja e a Itália ao papa Silvestre I (314 . por razões principalmente de ordem política. A historiografia será apenas mais uma das expressões da consciência cívica. As obras históricas de Petrarca (1304 . os usos do passado. pois sente a necessidade de viver numa pátria. Petrarca inova. não critica suas fontes. Suas Mulheres ilustres (105 biografias de mulheres da antigüidade. No todo.

Na Vida de Dante não parte de um molde pré-estabelecido pela tradição literária e. Zilda Zilda Maria M. a retórica muitas vezes toma o lugar de uma . ao mesmo tempo. ao passo que Boccaccio quer agradar seu público com anedotas. Enfatiza a política e as circunstâncias gerais – geográficas. foi secretário do papa.Grícoli. que pretende ser uma história universal. em 1405. Petrarca e Boccaccio utilizam a história como moralistas. Na Itália. A história volta a se ligar à retórica. que alguns voltam a escrever em latim e não mais em língua nacional. passa a morar em Florença. QUEIROZ. A chamada história humanista será produzida por homens ligados ao governo. os milagres. & IOKOI. Grícoli Petrarca queria exaltar a grandeza militar e política de Roma. Fortemente marcado pela leitura dos autores da antigüidade. De casibus virorum ilustrium. tanto na Itália como na França. Pereira de & de IOKOI. Tereza Tereza Aline Pereira A. Boccaccio não se atém só ao passado ao retomar a tradição da biografia dos grandes homens do presente. os mitos. utiliza fontes medievais como Gregório de Tours e Paulo Diácono. como a de Giovanni Villani (c. e.1444). os grandes autores antigos e alguns obscuros. 1275 . consagrado com Vasari no século XVI. onde desempenha diversas funções públicas. abre caminho para o gênero histórico “vida dos artistas”. suas obras históricas se diluem numa vasta produção literária de maior peso. desconhecido de Petrarca. As fontes que utilizam são semelhantes. entra na bibliografia de Boccaccio. ignorando a intervenção da providência.56 QUEIROZ.1348). a primeira obra considerada como história humanista é a História florentina de Leonardo Bruni (1369 . além do mais. Bruni nasceu em Arezzo. estudou Direito. Em outra obra. com fins propagandísticos bem marcados e com um agudo cuidado estilístico próprio a seduzir o leitor. que normalmente apareciam nas histórias locais. O objetivo de se igualar a TitoLívio é tão grande. a partir de 1415. estratégicas – como substrato da história. Sua história de Florença abandona todas as explicações lendárias. Tácito.

conselheiro em Florença de 1453 a 1458. É o típico exemplo de historiador propagandista.1506) e Pietro Bembo (1470 . Sabellicus (1436 . chanceler da república em 1459. por exemplo.AS IDADES MODERNAS 57 visão crítica de personagens e situações. pela geografia. Bruni segue uma cronologia anual. em Scala (1430 . além de nem sempre acabar o relato de um fato. as contigências econômicas desaparecem e são travestidas em motivos elevados. Assim. a salvaguardar a estabilidade da Itália e os princípios republicanos. Governantes e intelectuais comprovavam pelo exemplo florentino o quanto poderia ser útil uma panfletagem erudita. A exemplo de Florença. Florença é o lugar ideal. concentra-se mormente na história interna da cidade e. Para estes. deixa uma lacuna irreparável. escravo do poder.1466). todas as cidades italianas passaram a produzir uma história local. também chanceler. caso se estendesse para o próximo ano. era um súdito fiel dos Médici. No todo. a predestinada pela sua tradição histórica. Accolti. concebido segundo um plano racional. a que resiste aos planos hegemônicos dos inimigos. a escrita da história era praticamente uma continuidade de suas funções públicas. o que também resulta numa abundância de relatos de pequenos acontecimentos e ausência de visão de conjunto. Contratavam então letrados. alguns até nascidos fora do local. promovidas pelo governo. a partir daí. Bruni terá seus seguidores em Poggio (1380 .1547) em Veneza.1497).1459). Em se tratando de uma cidade construída pelo comércio e o artesanato como Florença. o que prevalece é a vontade de louvar ao máximo a família e Lorenzo de Médici. . em Accolti (1415 . através de uma releitura da história local. Florença é a campeã das comunas. sua vocação para a liberdade. que também escreve uma história florentina. em sua história florentina. para promover suas cidades. faz sua apologia. numa perspectiva geométrica que define seu papel histórico.

ao mesmo tempo em que insinuava detalhes picantes e comprometedores que fariam as alegrias do grande público. & IOKOI. embora em 1526 tivesse também sido nomeado bispo de Nocera por Clemente VII. de família aristocrática. em 1516 já pratica medicina em Roma. a quem dedicara uma obra sobre história contemporânea. enaltecendo sem limites o poderio militar veneziano e calando sobre qualquer atitude política que pudesse prejudicar a imagem da república.Grícoli. QUEIROZ.58 QUEIROZ. Protegido do papa Leão X. cobrando altos honorários. Veneziano de origem. transformava os elogios em insultos e fazia com que linhagens inteiras desaparecessem da história. Giovio não esperava ser contratado para escrever a história de cidades e de famílias governantes. caso não pagassem. mais tarde. Mais do que historiador era uma espécie de repórter e jornalista. contratado pelo Conselho dos Dez para continuar a obra de Sabellicus.1552). conhecia todos.1457) escreve para Nápoles também serve aos interesses dinásticos locais. irmão do historiador de Como. Pereira de & de IOKOI. e é nesta qualidade que escreve a sua Historiarum Ferdinandi regis Aragoniae. Apesar de tudo seus escritos possuem um tom moral . A história que Lorenzo Valla (1407 . Uma figura curiosa é a de Paulo Giovio (1483 . Valla viveu como secretário e leitor da corte do rei Afonso de Nápoles. Em suas obras misturava altas doses de elogio a seus clientes. acaba nomeado professor da universidade romana. Começou em 1531 a Rerum Venetarum Historiae. sem espírito crítico. Ele próprio se oferecia. registra todos os tipos de acontecimentos. Tereza Tereza Aline Pereira A. fazia inúmeras entrevistas. A partir daí trabalha principalmente como historiador. a história do pai de seu patrão. Grícoli Bembo é um humanista considerado. Zilda Zilda Maria M. Entre 1434 e 1447. Paulo estudou medicina em Pádua e Pavia. foi secretário do papa Leão X e. seguia passo a passo o desenrolar das batalhas. onde. emitia juízos sobre todos. nomeado cardeal em 1539. Benedetto Giovio.

Por outro lado. No conjunto da obra de Machiavel. condottiere do século XIII. na história de Florença. e este encargo tinha uma função bastante pragmática. como Blondus. elaborada por volta de 1520. Agatocles. terrível para com os inimigos e infiel com todos os outros. Villani e Simonetta. Resume sua personagem dizendo que era bom para seus amigos. Mostra-se indignado com Machiavel por ter sido tão patriota em seus textos. Machiavel (1469 . então. a inserção dos fatos históricos em grandes mo- .AS IDADES MODERNAS 59 bem acentuado. Como este. Sua situação pessoal era então muito difícil. O mais significativo são os ecos de suas teorias na compreensão do processo histórico . por exemplo. Interessa-se por Castruccio por ter sido ele capaz de ao menos tentar forjar um estado – a formação de um estado era uma obsessão em Machiavel. Utiliza muito o historiador antigo Diodoro em sua história do tirano de Siracusa. Para evitar constrangimentos. não hesita em tomar emprestado traços de biografias antigas. carregou o livro com documentação e reduziu ao máximo os comentários. como a descoberta da América.1527) consegue a patronagem dos Medici para escrever uma história de Florença. Entre 1519 e 1521. Machiavel busca materializar suas idéias políticas numa pessoa. a produção histórica é menos original. Quando faltam dados que documentem a vida do tirano. em seus escritos digressões – ainda que vagas – sobre a história da civilização. Uma de suas maiores dificuldades foi a de conciliar a dedicatória com o estudo da lenta escravização de Florença aos Médici. percebe que as histórias locais não mais tinham sentido diante dos sinais de alargamento do mundo. recopia autores anteriores. introduz. Castruccio torna-se uma criança abandonada – porque não devia pertencer a nenhuma família aristocrática – e depois um homem sem mulher e nem filhos – porque não deveria fundar uma dinastia. Na biografia do tirano de Luca Castruccio Castracani. tanto moral como financeiramente.

onde concebia cerimônias elaboradas e grandes decorações para as festas da família. uma realidade vista com a maior parcialidade possível. & IOKOI. reitera que seu propósito é didático. Zilda Zilda Maria M. Vasari se ocupa da vida dos artistas. Grícoli vimentos gerais e naturais. como ele também fora funcionário público. de sua visão da arte desvinculada da sociedade. Considera que o inevitável declínio das artes pode ser sustado pelo esforço humano. talvez o mais conhecido hoje em dia seja Vasari (1511 . verídicas ou não. Acredita basicamente que o tempo vai melhorando a arte. Dos historiadores do século XVI. Apesar da parcialidade de seus julgamentos. Na dedicatória que faz a Cosimo. O historiador e amigo de Machiavel. mas. Mais tarde. Além . como arquiteto no Palazzo Vecchio. o papel da Fortuna. e sua crença totalmente a-histórica de que a natureza humana é sempre igual. em 1555. Pereira de & de IOKOI. Machiavel dizia que a decadência podia ser detida pela virtú. sem pretender com isso realizar uma obra histórica de conjunto. da imprecisão de muitos dados. suas anedotas sobre os pintores. considerando-o responsável pela ruína do Estado. Ao contrário de Machiavel não se interessa pela filosofia da história. escultores e arquitetos – de Cimabue a Tiziano. autor das Vidas dos mais excelentes pintores. QUEIROZ.Grícoli. mas com o estudo da realidade. Francesco Guicciardini (1483 .1574).60 QUEIROZ. não poupara críticas à tirania de Lorenzo de Médici. o melhor e o máximo”. como político hábil.154O). diria que a época de ouro italiana fora a de Lorenzo de Médici. vê progressos. Tereza Tereza Aline Pereira A. numa primeira história da Itália tratada como um todo. Pintor e arquiteto. “tentei distinguir entre o bom. Sua primeira história de Florença data de 1509. não deixou que fosse publicada enquanto vivo. aperfeiçoamentos. que poderiam ser transmitidos aos leitores mediante a apresentação das biografias individuais de cada artista. Seguindo uma ordem cronológica. estão integradas ao imaginário de qualquer estudioso da arte. o pragmatismo. foi empregado por Cosimo de Médici.

as intenções do artista.1617). animam as biografias do historiógrafo oficial de Carlos IX e Henrique III. do estadista católico Jacques Auguste de Thou (1553 . Tito-Lívio e pela história humanista italiana. Tácito e Tito-Lívio. abordando a evolução dos costumes. e se voltam para a filologia. examina as origens das instituições francesas e os progressos da autoridade real. os historiadores também estão à serviço da política. onde o humanista de Selestat.1615). leitor de Plínio. é publicada uma História da Alemanha. defensores dos direitos da coroa francesa. as histórias gerais da França – De rebus gestis francorum. da sedimentação dos estados modernos e dos patriotismos. Beatus Renanus (m. que em suas Pesquisas sobre a França. o advogado Etienne Pasquier (1529 .1596) e seu irmão François (1543 . Por outro lado.1621) – galicanos. Evidencia-se o fato de que todos aqueles que se ocupam da história têm uma outra formação e que esta atividade é uma . patriotas. o culto dos grandes homens. atribuem historicidade ao direito romano. Na França. das idéias e das letras. escrevem em latim. e a tradição de sua época. que estudam o direito francês em nome do interesse nacional contra os ultramontanistas e os jesuítas –. Uma outra corrente é a dos eruditos que empreendem a catalogação das “antigüidades”. Na Alemanha. utiliza textos antigos em altoalemão com um grande sentido da crítica. Fascinados pela Antigüidade. a crença numa finalidade pedagógica e moral da história. a numismática. Girard de Haillan.1547). formulou alguns conceitos para os historiadores da arte: o de distinção entre o que é boa arte e arte ruim. em 1531. assim Pierre-Pithou (1539 . de Paul Émile em 1500 – ou a história imediata – Historia mei temporis. de julgar as obras pelos padrões e conhecimentos disponíveis na época de sua produção e pelos mais altos padrões estabelecidos pela crítica contemporânea. de estabelecimento de relações entre as obras. das crenças.AS IDADES MODERNAS 61 disso.

a numismática e a filologia e seus praticantes eram denominados “antiquários”. dos beneditinos de S.1638). Tereza Tereza Aline Pereira A. Por outro lado. Maur. a epigrafia.1650) despreza a história em nome da metafísica e da física. O interesse do classicismo pelo permanente e o universal faz com que a história seja vista como o domínio do contingente e do particular.62 QUEIROZ. Colbert funda a Pequena Aca- . seguindo o calendário. Em 1663. Segundo Pascal (1623 . A indiferença à história parece ser uma marca do século XVII. Pereira de & de IOKOI. O espírito científico prevalece sobre a erudição – sob seu signo era vista a história. É importante também o trabalho do oratoriano Richard Simon (n. com as Acta sanctorum. editadas a partir de 1668 sob a direção de Mabillon – que introduz a “diplomática” – e os trabalhos de dom Bernard de Montfaucon. continua. a ser útil na formação dos futuros reis de França. para citarmos apenas alguns centros de erudição religiosa. classificadas dia a dia. ao contrário das ciências físicas não depende nem do raciocínio. como os Monumentos da monarquia francesa (1729 . coletânea de vidas de santos. Jean de Bolland. autor das Antigüidades gaulesas e francesas até Clóvis (1599). A erudição dos séculos XVI e XVII engloba a arqueologia.1733). como a jurisprudência ou a teologia. Considerada inútil em geral. Também Claude Fauchet. Grícoli entre outras. era magistrado antes de ser nomeado historiógrafo de França por Henrique IV. & IOKOI. Em 1668. Benedictis.1662) a história seria incapaz de qualquer progresso por ser um conhecimento livresco.Grícoli. Zilda Zilda Maria M. surge um ensaio Do pouco de certeza que há na história. o trabalho dos eruditos na compilação de documentos antigos será importante. mas somente do princípio de autoridade. Descartes (1596 . dependente da memória. que marca o início da exegese bíblica crítica. É o caso do jesuíta de Liége. sua obra situa-se numa corrente patriótica cuja expressão mais triunfante tomará forma na história do século XIX. no entanto. com as Acta santorum ordinis S. QUEIROZ. nem da experiência.

que em 1716 se transforma na Academia Real de Inscrições e Belas Letras. escreva. Voltaire diz que seu objetivo “é sempre . Kant (1724 .Montesquieu (1689 . As primeiras filosofias modernas da história também tomam forma no século XVIII.1755).1715). a religião e os costumes. composto pelas instituições políticas. É de Voltaire a expressão “filosofia da história” (1756). Um pintor que ignore il costume. Esses filósofos com pele de historiadores verão o passado com outros olhos. Nestes círculos eruditos. e cujo objetivo é a publicação de “memórias” consagradas à história. não pinta nada com verdade.AS IDADES MODERNAS 63 demia. a cada século. os filósofos fazem obra de historiadores. com membros religiosos e laicos. tem um “espírito geral”. a Índia e a China. Ecos do colonialismo. à arqueologia e à lingüística.1776) escreveu uma história da Inglaterra .1783) dizia que a história era o último dos conhecimentos sem a filosofia. Voltaire.1794) acreditam num progresso da humanidade em direção a um ideal. partindo do princípio de que cada civilização forma um todo original. a Pérsia. algumas obras deixam de ter o título história para se denominarem “progresso do espírito humano”. publica Considerações sobre as causas da grandeza dos romanos e da sua decadência. Montesquieu quer explicar “a história pelas leis e as leis pela história”. como a de Turgot (1750) e Condorcet (1790). A integração de outros povos no horizonte histórico faz com que Fenelon (1651 . D’Alembert (1717 . em 1734.1804) e Condorcet (1743 . Século de Luiz XIV e Ensaio sobre os costumes. Voltaire (16941778) realiza a História de Carlos XII. a vida econômica. aparecem as primeiras obras sobre o mundo árabe. David Hume (1711 . escritas por missionários e viajantes.” No século XVIII. em 1714. que “o ponto mais necessário e mais raro para um historiador é que saiba exatamente a forma de governo e o detalhe dos costumes da nação sobre a qual escreve a história. a geografia.

não as ações de um só homem.1794) produz uma obra clássica sobre a antigüidade. a História do declínio e queda do Império romano (1776 .1788). Os que continuavam na dependência do governo eram criticados.”. escrevia como um monge para seu convento. na verdade. Grícoli o de observar o espírito do tempo. as noções de história cultural e universal. através de um crítica cética de lendas e autores eclesiásticos. atacam as formas tradicionais da religião e concebem a importância do fato histórico em relação com suas teses. a crítica racionalista. diz pretender no Século de Luiz XIV “pintar à posteridade. Conheceu Voltaire e do iluminismo sua obra expressa uma filosofia da história e tendências anti-eclesiásticas e profanas. Tereza Tereza Aline Pereira A. Introduzindo a dúvida.64 QUEIROZ. Zilda Zilda Maria M. A história deixa de ser assimilada à erudição. quer esclarecer o leitor e não sobrecarregar sua memória. ao antiquarismo e passa a desempenhar um importante papel na educação e no cotidiano das pessoas. seu estudo sobre as origens do cristianismo – responsável pelo grande êxito da obra – foi trabalhado como um tópico de história profana. por isso renuncia a uma história narrativa. escrevendo com o intuito de divulgar suas idéias. & IOKOI. é ele que dirige os grandes acontecimentos da história. Apesar de admirar os grandes homens. os filósofos dão à história elementos para que se afirme triunfante no século XIX. O inglês Edward Gibbon (1737 . QUEIROZ. uma metodologia. De origem aristocrática. Muitos historiadores do iluminismo conseguem se liberar da camisa de força do Estado e da Igreja. A mudança de atitude frente ao fato e à concepção de história será absorvida pela historiografia do século XIX. ao detalhe factual inútil. mas o espírito dos homens no século mais esclarecido que jamais houvera”. como historiador. Gibbon viveu muito tempo em Lausanne na casa de um erudito calvinista. O século da história e também do historiador. . Montesquieu diz que Voltaire. tem horror aos crimes e às loucuras da humanidade. Pereira de & de IOKOI.Grícoli.

Já em 1789. senhoriais. Seu fundamento é a Revolução Francesa. da monarquia ou da igreja. a história não será ensinada nas . transforma-se num mecanismo imprescindível para a compreensão do mundo e dos homens. o historiador se profissionaliza e passa a encarnar a consciência da nação. substituindo os temas antigos. com salas montadas com objetos referentes a cada século da história francesa. principalmente religioso. esta entidade milenar baseada num fluxo natural do tempo. ensinando dez horas por semana. daí. Fenelon – passam a ser encenados no teatro. as mais diversas pessoas viram o interesse que o passado podia apresentar na educação dos cidadãos. Os contra-revolucionários dizem que a revolução fora um atentado à história. dos objetos que formalizavam o tempo. encarregado de fazer com que seus alunos “repousassem deliciosamente seus olhares sobre os acontecimentos memoráveis que lhes libertaram”. apêndice do conhecimento humano. Esta mudança radical liga-se profundamente ao próprio momento histórico da Europa. A Revolução é sentida por todos os franceses como uma ruptura. A Convenção (1792 . para a terceira sessão de suas Escolas Centrais.95) estabelece que. De matéria secundária. Diante disso. temas da história francesa – Carlos IX.AS IDADES MODERNAS 65 Tudo se historiza. deveria haver um professor de história especial. não havia sido escrita. num primeiro momento. Passado esse rápido momento. atraiu multidões ávidas por conhecer os estilos de vida do passado. A criação por Alexandre Lenoir do Museu dos Monumentos Franceses. Os revolucionários queriam acabar com tudo o que fosse passado. desde a Idade Média. a destruição sistemática dos monumentos franceses. eclesiásticos. Esta história na verdade ainda estava se fazendo. A Revolução abre os arquivos públicos.

Napoleão fala do projeto de criação de “uma escola especial de história”. da época de Luiz XIV. Acha absurdo que nas escolas sejam dadas aulas sobre as guerras púnicas e não sobre a guerra da América. apresentando uma série de fichas com as histórias dos reis de França.1820). da administração e do território”. Tereza Tereza Aline Pereira A. das artes e dos costumes. a origem dos impérios com as causas de seus progressos e de suas decadências” e também “as regras da ciência crítica”. como o de Le Ragois. no sentido de uma ampla aceitação da história pelo grande público. a história é matéria obrigatória nos primeiros e segundos anos de Humanidades. o jovem Guizot (1787 1874) ensinava na Sorbonne “o trabalho comparado das leis. Pereira de & de IOKOI. no ano III. Mas. No entanto. & IOKOI. Volney já ensina história na Escola Normal.66 QUEIROZ.Grícoli. mesmo na época napoleônica não aparecem manuais diversos daqueles que vinham sido produzidos há vários séculos. membro do comitê de instrução pública sob o Diretório (1795). junto com outros Ideólogos – o grupo de filósofos que abandona a metafísica em proveito das ciências do homem.1821) quer historiadores capazes de mostrar “a desordem perpétua das finanças. A grande virada. em contraste com a época do Consulado. na medida em que ainda não existe uma especialização na matéria. Grícoli escolas primárias por medo que as crianças possam “contrair medos e preconceitos”. Napoleão (1769 . O professor de história nasce do improviso. No programa de ensino dos liceus napoleônicos. destacando a análise da linguagem. de “um curso de bibliografia” e de várias cadeiras no Colégio de França. Uma história oficial. do reconhecimento de seu valor . numa carta. Em 1812. a falta de regras e de recurso na administração” do passado. onde “se gozam dos benefícios derivados da união das leis. Em 1807. QUEIROZ. da gramática e da lógica. como diz Volney (1757 . Zilda Zilda Maria M. onde estudam jovens de 15 a 17 anos.

e de uma mudança no enfoque da história será empreendida pelos historiadores chamados românticos.AS IDADES MODERNAS 67 primordial na escolaridade. cuja expressão intelectual. privilegia a interioridade. no âmbito político esse individualismo será traduzido em idéia nacional. artística e política começa a tomar forma em fins do século XVIII. a espiritualidade. idealista. Romantismo é um conceito utilizado para caracterizar uma certa visão de mundo. . a estética européia medieval à clássica. o individualismo ao universalismo. metafísica e poética. Contrapondo a sensibilidade e o idealismo filosófico ao racionalismo e ao empirismo da ilustração.

Militar. Na França. Um ano depois o autor era admitido na diplomacia pelo próprio Napoleão. uma inspiração para a arte e um modelo para a sociedade. Rousseau é um dos primeiros a articular a sensibilidade romântica diante do mundo. Será este o seu legado aos que virão” Walter Benjamin – Sobre o Conceito de História.1848). viaja para a América e depois para a Inglaterra. publica o Gênio. 1940. . Mas. monarquista. as pessoas disputam a tapas os exemplares. De volta à França. Hamelin em suas lembranças. Chateaubriand vê na religião católica um alicerce da civilização. Chateaubriand vê sua carreira interrompida pela Revolução. depois da leitura se convencem de que o cristianismo “é delicioso”. tudo começa com o êxito retumbante do Gênio do Cristianismo (1802) de Chateaubriand (1768 . pois a única imagem que irá deixar é a de uma geração vencida.A MODERNIDADE 69 A MODERNIDADE “Nossa Geração teve que pagar para saber. No dia em que é lançado. em 1802. para a história. como diz Mme. uma apologia da religião estritamente de acordo com os desígnios de Napoleão de reconciliação da Igreja com o Estado.

que pertence a este século e ainda compartilha muitas de suas idéias. que quebra o eterno retorno. mas doutor em história. suas obras foram fundamentais para despertar em muitos a vocação pela história. O século XVIII havia apresentado o cristão como um ridículo. das contradições de sua época. em realidade. da pátria. Chateaubriand. mas que ele vem de Deus porque é excelente. mas ao contrário. O tempo era um elemento criador e a história possui uma objetividade absoluta.70 QUEIROZ.Grícoli. Vê no cristianismo uma filosofia histórica do progresso. trazido de fora. A visão tradicional de que a beleza só poderia ser clássica desabava por completo. O que Goethe (1749 . para ele a encarnação do gênio alemão.1832) esboçara no seu ensaio sobre a Catedral de Strasburgo (1773). a força dos primeiros franceses. “era preciso pegar o caminho inverso. Deus mal aparece no livro. com espírito empírico. Pereira de & de IOKOI. é o plano de encontro entre o tempo e a eternidade. Como diz. mas. & IOKOI.” Em seu livro não ataca os filósofos. Deus não era arquiteto como na Idade Média. concebe a apologia cristã não partindo de Deus. pelos movimentos de seu coração. que tem um nítido sentido do antes e do depois – exatamente como Voltaire via a história. atinge o leitor pela emoção.. . Chateaubriand apresenta com a exaltação e magnificência de uma sinfonia.. Augustin Thierry (1795 . pela experiência. Tereza Tereza Aline Pereira A.) um exemplar dos Mártires (de Chateaubriand). Zilda Zilda Maria M. partindo do real. Apesar de não ser propriamente um historiador. QUEIROZ. ignorado pelos cultos. mas os exalta fazendo de Voltaire e Rousseau dois homens imbuídos dos fantasmas do cristianismo. não provar que o cristianismo é excelente porque vem de Deus. Consciente da insegurança do mundo diante da quebra das hierarquias. Grícoli As páginas que comparam as grandes catedrais góticas com as florestas primitivas da França expressam uma arrebatadora visão onírica do passado. Chateaubriand coloca Deus como uma garantia para a manutenção da ordem social.1856) narra: “em 1810 (.

para a captação da cor local. Todos aqueles que.. Guizot (1787 .. Thiers. o encontraram na fonte de seus estudos. Se os primeiros momentos do romantismo são anti-revolucionários.. inicia uma catalogação sistemática de todas as fontes da memória nacional e a publicação dos Documentos inéditos relativos à história da França. Os historiadores românticos serão liberais e a Idade Média..1874). como Dante à Virgílio: Tu duca. o gótico. eu repetia em voz alta e batendo os pés no chão: “Faramond ! Faramond ! nós combatemos com a espada !. logo haverá um fusão entre Revolução e romantismo convergindo para o estudo da história nacional.. o passado nacional. história da burguesia conquistadora.A MODERNIDADE 71 circulou na escola. caminham pelas vias deste século. Eu saí do lugar onde estava sentado e. . A impressão que me causou o canto de guerra dos francos tinha algo de elétrico. “uma pesquisa integral do passado”. Eis aqui minhas dívidas para com o escritor genial que abriu e que denomina o novo século literário.. O estudo da história torna-se uma questão de Estado e historiadores como Guizot. tu signore e tu maestro”. Estes querem apagar a Revolução. andando de um lado para outro da sala... ministro da instrução pública. serão temas privilegiados. não existe ninguém que não deva lhe dizer. em suas primeiras inspirações. tem por missão afirmar o valor e legitimar a nova classe detentora do poder. O historiador liberal é o porta-voz da burguesia.” Este momento de entusiasmo foi decisivo para minha vocação futura. a história torna-se o campo de luta entre liberais e conservadores. enquanto os liberais ansiavam pela integração dessa ruptura no presente e também numa relação com o passado. ao mesmo tempo que pretende criar uma identidade nacional. o bárbaro. em diferentes sentidos. Em 1832. A história liberal. Cousin serão nomeados ministros. o corte num contínuo histórico. Após a restauração de 1815.

o historiador não deve ser o porta-voz dos grandes. Zilda Zilda Maria M. Tereza Tereza Aline Pereira A. Grícoli em suas palavras. A melhor parte de nossos anais.1870). Merimée “descobre”assim as igrejas românicas. ainda está por ser escrita. nomeado inspetor dos monumentos históricos. Esta história nos apresentará exemplos de conduta e este interesse de simpatia que procuramos em vão nas aventuras deste pequeno número de personagens privilegiados que sozinhos ocupam a cena histórica. não se tornará um político. O progresso das massas populares para a a liberdade e o bem estar nos parecerá mais imponente que a marcha dos fazedores de conquistas. a história nacional. seguindo o êxito dos Monumenta Germaniae historica. evocando as diferentes formas de servidão do campesinato francês desde a época da invasão romana até seus dias. Em 1850. diz que no lugar das antigas ordens.Grícoli. do povo. QUEIROZ. castelos e cidades medievais – para efetuar um levantamento das riquezas arqueológicas francesas. Em 1840. a história popular.72 QUEIROZ.” Assim. a mais grave. Nossas almas ligar-se-ão ao destino das massas de homens que viveram e sentiram como nós. iniciando uma série de estudos e ensaios sobre as artes da idade média. Em 1820. mas sim aquele que se interroga sobre os sentimentos e os movimentos do povo. percorre toda a França – tendo como assistente Viollet-le-Duc. Pereira de & de IOKOI. a Revolução havia construído uma sociedade de vinte e cinco milhões de cidadãos vivendo sob a mesma lei. mas vê na política. a mais instrutiva. futuro responsável pelas grandes restaurações de igrejas. da desigualdade de classes. Prosper Merimée (1803 . Thierry publica A verdadeira história de Jacques Bonhomme. o . Augustin Thierry. publicado na Alemanha. e suas misérias serão mais tocantes do que aquelas dos reis despossuídos. falta-nos a história dos cidadãos. & IOKOI. após ter sido secretário de Saint-Simon e colaborado em jornais liberais. em 1833. no momento pós-revolucionário um impulso para sua dedicação à missão de escrever história: “A história da França tal como foi feita pelos historiadores modernos não é a verdadeira história do país.

serão a revanche da conquista franca. o texto reflete as leituras de Chateaubriand e Scott. embaixador em Londres. contribuiu para aumentar a miséria dos trabalhadores e instigar uma crescente oposição. o livro de história apresentava uma narração dos fatos e em seguida os comentários do autor. Dizia então “que a luta das diversas classes de nossa sociedade preencheu nossa história. acha que o historiador deve narrar e pintar ao mesmo tempo. livro que reafirma o gosto do público pela Idade Média. em 1840 substitui Thiers no ministério dos Assuntos Estrangeiros e se torna o verdadeiro chefe do governo. Na Narrativa dos tempos merovíngios (1824). dirá que 1789 e 1830. distingue no passado a existência de uma massa popular. uma desenvolvida pelo Estado e a outra pelo comércio e indústria. uma comparação das burguesias inglesa e francesa. a luta de raças antecederia a luta de classes. durante a Monarquia de Julho será o chefe do partido da Resistência. Thierry acha falsa essa divisão que separa “os fatos daquilo que constitui sua cor e sua fisionomia individual”. A Revolução de 1789 foi sua explosão mais geral e mais poderosa. Guizot. no governo. Tradicionalmente. onde em seus cursos celebrava a Revolução como a batalha decisiva da história francesa. Numa outra dimensão. conduzida e encarnada pela burguesia. Sua política. a leitura do Ivanhoé de Walter Scott resultará numa mudança no estilo da escrita da história para Thierry. da educação pública. na década de 20.” Mas. fiel à Luiz Felipe. fora professor de história na Sorbonne. No Ensaio sobre a história do terceiro estado. diante do triunfo burguês quer congelar a história con- .A MODERNIDADE 73 Ensaio sobre a história da formação e dos progressos do Terceiro Estado. enquanto movimentos populares. que favorecia a grande burguesia nacional. Antes disso. ministro do interior. A Narrativa baseia-se na teoria da luta de raças – entre galoromanos e germanicos – como motor da história do desenvolvimento nacional.

para estudar a formação. em 1847 – pouco antes da revolução de 48 – que todos os interesses haviam sido satisfeitos e que a luta de classes havia terminado. cujos seis primeiros volumes. de quem traduz os Princípios de uma ciência nova sobre a natureza comum das nações (1725). O grande astro da historiografia burguesa será Jules Michelet (1798 . em cada uma destas fases é possível colocar em paralelo o modo de governo. tempo da infância da França. neles cria uma idade média romântica. QUEIROZ. idealizada. após ter sido um aluno brilhante. obrigatoriamente. É um apaixonado pela filosofia da história de Victor Cousin. Entre 1847 e 1853 publicou os sete volumes da História da Revolução Francesa. Tereza Tereza Aline Pereira A. um trabalho profun- .1744). é de Vico. interior. é encarregado do curso de história antiga na Escola Normal Superior. considerava.1874). o sistema jurídico e a linguagem. filho de um impressor. volta-se para o passado nacional e elabora sua enorme História da França. Vico critica o racionalismo cartesiano e utiliza um método comparativo. Nascido num meio popular. Pereira de & de IOKOI. do “grande movimento progressivo. da alma nacional”. passariam por três fases sucessivas: idade dos deuses. Seus cursos no Colégio de França atraíam multidões.Grícoli. da união da religião e do povo sofredor e de suas lutas. O princípio de “humanidade que se cria”. o desenvolvimento e a decadência das nações que. tendo rompido com o catolicismo.74 QUEIROZ. Nomeado chefe da sessão histórica dos Arquivos Nacionais (1831). Grícoli tra os perigos do “quarto estado”. em que as pedras se animam e se espiritualizam na mão dos artistas. Herder e sobretudo Vico (1668 . Marx será um atento leitor da historiografia romântica burguesa francesa. Zilda Zilda Maria M. utilizado por Michelet. Nesta obra. neles desenvolve suas idéias democráticas laicas. aparecem entre 1833 e 1844. Michelet. das origens à morte de Luiz XI. & IOKOI. dos heróis e dos homens. apoiando-se na filologia. Nela vê uma consciência explícita da luta de classes como motor da história.

imaginação e argúcia: “Tudo para . Michelet explica sua paixão arrebatada pela história e pela França como uma obra da política. de todas as classes e de todos os partidos. Nestes dias memoráveis. Para Michelet o nome da França é Revolução. Georges Lefebvre considera que um gênio como Michelet não podia deixar nem método. econômicos. nem programa de pesquisa e nem discípulos. o historiador deve buscar na mais ampla documentação. a vida é que era tudo. Para Michelet. “Franceses de todas as condições. continua a publicação dos volumes relativos à história da França. fez-se uma grande luz e eu vislumbrei a França”. “a ressurreição total da vida” é uma missão. dos conflitos políticos. E. é a França”. Mas é Roland Barthes quem capta Michelet com sutileza. destituído de suas funções oficiais. guardem bem uma coisa. do raio de Julho. não tivesse dentro de mim a alma e a fé do povo. É necessário entregar-se totalmente a esta tarefa imortal. O historiador é um sacerdote com poder de ressuscitar os mortos. liberdade não é um conjunto de garantias jurídicas. de Luiz XI a Luiz XVI. de classe. como acreditava “o pobre Montesquieu”. o homem. o povo – “tal pátria. que passam a falar através de seus livros. da revolução de 1830: “Esta obra laboriosa de quase quarenta anos foi concebida a partir de um momento. acima de tudo. antes de tudo.” Após 1851. sobre esta terra vocês só tem um amigo verdadeiro. para criar uma história total. todas imbuídas de um espírito de polêmica política. tal homem”– e todos os aspectos da vida passada. após Michelet a história sofre de uma considerável perda de vigor. Como Thierry. acha que a França ainda não possui uma história e que a escrita desta história. de um encolhimento de seus horizontes. como Lucien Febvre gostava de lembrar.A MODERNIDADE 75 damente passional e ao mesmo tempo minuciosamente documentado: “eu não poderia compreender os séculos monárquicos se antes. A nação é o quadro e o resultado essencial de sua busca. A geografia.

Michelet tem enxaquecas históricas. fraco. do meio geográfico e social.Grícoli. Esta será a tarefa dos professores de história nas últimas décadas do século XIX até 1914. em 1870. Entre 1876 e 1896. composta entre 1892 e 1911. Zilda Zilda Maria M. nem antes e nem depois. a Terceira República. mas também como um objeto possuído.1922). Tereza Tereza Aline Pereira A. Com a queda do Segundo Império e a proclamação da Terceira República. No âmbito do grande público e da educação cívica.... Este homem que deixou uma obra enciclopédica feita de um discurso ininterrupto de sessenta volumes declara-se a todo momento “ofuscado. O presente. crítico literário. havia buscado as causas da guerra de 70 e da Comuna na obra As origens da França contemporânea. sagrada mas laica. filósofo e historiador. feito à imagem das ciências naturais. com base nas batalhas e na heroicidade daqueles que sacrificaram sua vida pela pátria. sofredor.76 QUEIROZ.Estar doente da história é não apenas constituir a história como um alimento.. autor de uma História da França. como um veneno sagrado. histórica mas científica. a divulgação de uma idéia republicana de pátria. para agora explicar a situação da França. baseado nos determinismos da raça.”.. o ensino da história fora ou seria considerado a tal ponto imprescindível e redentor.. O historiador e o professor de história viverão seus dias de glória absoluta na França após a derrota de Sedan e a perda da Alsácia e da Lorena. Grícoli ele é enxaqueca. será empreendida pelo historiador Ernest Lavisse (1842 . aí adota seu método. lido por todas as crianças francesas nas escolas públicas. do momento da evolução histórica.. mas sim de preparar a juventude para a recuperação concreta desta nação.1893). vazio. Pereira de & de IOKOI. QUEIROZ. & IOKOI.. é considerado como o ápice da história fran- . Nunca.. que antes lhe havia servido para explicar as manifestações artísticas. Lavisse constrói uma história linear da França. “. não se tratava mais de construir uma nação através do livro de história. Hippolyte Taine (1828 . e do manual Lavisse.

de L. a pesquisa histórica deveria ter um caráter científico. em 1876. o manual por excelência da história positivista. Em 1898. A escola dita metódica ou positivista desenvolve-se na França durante a III República. Sagnac. o país de maior ação civilizatória de todos os tempos. é publicada a Introdução aos estudos históricos de Charles-Victor Langlois e Seignobos. Os historiadores positivistas participam ativamente nas reformas do ensino superior.1942) é encarregado de um curso de pedagogia das ciências históricas. O historiador é agora um profissional. mas jamais uma filosofia da história. alheia ao meio social do historiador que a elabora. por exemplo –. Rambaud. a disciplina histórica ainda não tinha total autonomia universitária. Povos e Civilizações. dirigem grandes coleções – História da França. História geral de A. Encontrava-se na linha do cientificismo histórico de Taine e de Fustel de Coulanges (1830 . distante de qualquer especulação filosófica. esta objetividade seria produto da aplicação de técnicas rigorosas no inventário das fontes. Em 1890. segundo Lavisse. ocupam cadeiras nas novas uni- . A França aparece como um soldado de Deus. Charles Seignobos (1854 . na crítica dos documentos. Para os metódicos.A MODERNIDADE 77 cesa e todos os períodos anteriores são considerados em relação com o presente. na organização dos trabalhos na profissão. fazer com que cada um se projete nessa grandiosidade. a maior de todas as missões. São criadas então uma licença específica para o ensino de história e um grande número de cátedras universitárias. Halphen e Ph. visando a uma objetividade absoluta. de Lavisse. e no manual de Langlois e Seignobos. Até 1880.1889) para quem a história podia ser uma ciência. Seus princípios estão expostos no manifesto de Gabriel Monod escrito para o lançamento de sua Revista histórica. inculcar uma adoração pela pátria que impulsionará os jovens à sua defesa e à retomada da Alsácia e da Lorena. pois se ligava à filosofia ou às humanidades literárias. Cabe aos professores de história.

canções etc. ele se iluda de que está desvendando algum mistério. descobrir sua autenticidade pela paleografia.. para determinar o valor de palavras e frases. A história seria apenas “o trabalho de documentos”. reagrupar fatos isolados em quadros gerais – sociais. purificados e colocados em ordem. decretos. retomar as informações da crítica de erudição. Feito isso. Esta consiste em encontrar a fonte do documento. por dedução ou analogia. no entanto. “a história será constituída. do documento. QUEIROZ. O historiador primeiro deve fazer um inventário do material disponível – “heurística”–. ligar os fatos entre si e preencher as lacunas da documentação levando o historiador a arriscar algumas generalizações ou interpretações. Tereza Tereza Aline Pereira A. Pereira de & de IOKOI.. para a escola metódica não são considerados documentos. as filosofias da história de Hegel e Comte. descartam o providencialismo de Bossuet. como manuais de confissão. Esta parte de hermenêutica recorre à lingüística.Grícoli. finalmente.quando todos os documentos forem descobertos. Grícoli versidades e elaboram os manuais para as escolas primária e secundária com galerias de heróis. enumerar seus pontos principais – nomes. datas. a história-literatura de Michelet.78 QUEIROZ. Analisar as condições nas quais o documento é produzido e fazer a crítica negativa para controlar os dizeres do autor. é necessário comparar com outros documentos da época para estabelecer um fato particular. atrás dos quais o historiador se apaga.” . manuscritos diversos. lugares – fazer uma ficha de tudo e passar à crítica interna. correspondências. salvar. de erudição. seqüências de fatos e datas.. sem que. visando a constituição de uma história científica. por exemplo. estes documentos seriam limitados apenas aos escritos voluntários – cartas. institucionais – e. registrar e classificar esse material e passar à crítica externa. Langlois e Seignobos. & IOKOI. o progressismo racionalista e o finalismo marxista. Zilda Zilda Maria M. fazer a análise do conteúdo e a crítica positiva da interpretação para ter certeza do que o autor quiz dizer. os sítios arqueológicos ou testemunhos involuntários.

de onde se desprende a alma popular. cientificamente. como uma contra-posição ao romantismo e ao idealismo de Hegel. Nas primeiras décadas do século XIX. Estava instaurado o regime universitário da cátedra. por exemplo. por meio delas constroem teses gerais. escrevendo pequenas monografias.1803) ao dizer que “toda perfeição humana é nacional. história e indivíduo. sua origem não é francesa.A MODERNIDADE 79 Diante de trabalho tão complexo. e os de Friedrich Karl Savigny. Com este espírito são elaborados trabalhos sobre a história do direito. e estritamente considerada. o manual de Langlois e Seignobos sugere que deva haver eruditos de um lado. das circunstâncias temporais aliadas a virtudes nacionais e seculares. erudi- . individual”. O filósofo Herder (1744 . e do outro. o romantismo alemão confundiu-se com o nacionalismo e a luta política pela unificação. do país etc. Os professores devem ser especialistas num deteminado assunto e assumirem capítulos concernentes às suas especializações nas grandes obras de história universal. A busca de um passado comum que justifique a superação dos particularismos políticos é intensa na Alemanha.1854). como os de Karl Friedrich Eichhorn (1781 . sob a tutela dos grandes professores universitários que analisam essas monografias e. que também via no gênio nacional alemão as origens do direito. jovens pesquisadores com pesquisas modestas. que considera o direito como uma emanação popular. de suas línguas. em meados do século XIX. Nas Idéias sobre a filosofia da história da humanidade (1784 1791) postula que a história é um estudo dos tipos de civilizações humanas. secular. para ele tudo o que existe era produto do clima. A tentativa de aniquilamento das filosofias da história originou-se na Alemanha. de suas culturas. fundia as noções de pátria. Apesar de este ter sido o modelo histórico predominante na França até 1930.

Pereira de & de IOKOI. Apesar de acreditar no poder da razão. acredita que o indivíduo se funde inteiramente no espírito do universo. substituindo Fichte. na Prússia. A história é também um terreno de especulação para os filósofos. e a dialética seria a “alma motriz da história”. o Barão von Stein. Grícoli tos concentram seu saber em dicionários especializados. neste sentido. em 1819. Tereza Tereza Aline Pereira A. considera que o problema fundamental é o da realização da humanidade em nós e da humanidade na história. é publicada a partir de 1826. Esta história no entanto seria racional. o presente seria sempre o objeto da história. A história expressaria o movimento do espírito. Este será o tema da Fenomenologia do Espírito (1807). considera o Estado o objetivo final absoluto. dado que o mundo seria um espelho do espírito. & IOKOI. e seu sistema visa a permitir que todo o Universo seja pensado. a realização da liberdade. Retoma o providencialismo cristão e descarta o acaso. Protegido da monarquia prussiana.Grícoli. funda em Frankfurt uma sociedade de estudos alemães antigos. postula que no desenvolvimento histórico e do espírito haveria sempre um progresso. que descreve a história da consciência desde o “aqui e agora” até o saber absoluto. As primeiras reflexões de Hegel (1770 . Zilda Zilda Maria M. ministro de Frederico Guilherme III. passava pelos gregos e romanos e terminava com os povos germânicos-cristãos.1831). reunindo as fontes alemãs entre 500 e 1500. A história universal representaria o progresso na “consciência de liberdade”. ao assumir a cátedra de filosofia em Berlim. a série dos Monumenta. QUEIROZ. teria inícios no oriente. pois a razão governa o mundo. é também um homem de fé. Hegel pretendia forjar novos conceitos aptos a traduzirem a vida histórica do homem e sua existência num povo ou numa história. Menos individualista que os românticos. assim. em 1818. O Estado aparecia no centro desta história universal em que a razão tiraria partido do instinto coletivo para fazer avançar a humanidade nos caminhos da perfeição. foram sobre o espírito do judaísmo e do cristianismo.80 QUEIROZ. .

Ao historiador da filosofia não caberia julgar. Em história política: no fim da república romana.1908). Hegel retoma para a filosofia o projeto de Winckelmann (1717 . ele é também a atividade pela qual volta a si.”. A flor acaba sendo refutada pelo fruto. César.. ambicioso. César triunfa e se impõe como único governante (síntese). construia-se uma história da filosofia baseada numa conexão entre os diferentes sistemas e não somente em vidas dos filósofos. seus inimigos. Hegel formou vários historiadores idealistas como Baur (1792 . . Segundo esta definição. podemos dizer que a história universal é a representação do espírito em seu esforço para adquirir o saber daquilo que é.” História do espírito e do universo são a mesma coisa. mas ele a encontra. baseado no estudo dos estilos e não dos artistas. o ser do conhecer. antítese. a flor refuta as folhas mostrando que não são a existência suprema e verdadeira da árvore. se faz o que é em si. entre os quais aquele que mais se debruçou sobre seu pensamento. Tese. Nas Lições sobre a filosofia da história diz que “o espírito tem em si mesmo o seu centro. como a História da filosofia. os mais diversos.1860) e Zeller (1814 . “os jovens hegelianos”. síntese. O idealismo absoluto de Hegel não distingue o sujeito do objeto. ambiciosos. toma o poder (tese). A integração da dimensão do tempo como categoria de inteligibilidade feita por Hegel é uma manifestação da importância assumida pela história no século XIX.O espírito sabe-se a si mesmo. além de ter sido intelectual que estimulou amplos setores da juventude. mas este não poderia ter chegado a existir sem as etapas precedentes.1768) para a história da arte.A MODERNIDADE 81 Estas teorias Hegel aplicaria em suas obras históricas. Karl Marx. A refutação de um sistema por outro seria própria ao desenvolvimento da filosofia: “O desenvolvimento da árvore é a refutação da semente. Pela primeira vez. lutam contra César (antítese). se produz assim. ele é o julgamento de sua própria natureza. ele é em si e consigo. correspondendo assim às circunstâncias históricas. mas compreender e justificar cada um dos sistemas.. não existe unidade fora dele.

literatura ou filosofia do século XX. considera o marxismo demasiadamente articulado com a sociedade industrial. Gershon Scholem ou Leo Lowenthal. negando as origens alemãs (Scholem) ou a identidade judaica (Lukács). Ernest Bloch e Walter Benjamin. independente de quem a estuda. reparação. Pereira de & de IOKOI. Erick Fromm. a configuração histórico-cultural da formação da Europa Central e a ausência de projeto de unificação alemã. Zilda Zilda Maria M. o historiador deve . bebendo no messianismo judaico os elementos questionadores tanto do individualismo como da articulação dos indivíduos na idéia de nação. como uma cultura da diáspora. Evidentemente. Franz Rosenzweig. restituição. Leo Loventhal. A aspiração do grupo a uma organização nacional judaica os afasta do nacionalismo político. & IOKOI. portanto é absolutamente imparcial. Tereza Tereza Aline Pereira A. Ernest Bloch. baseava-se na utopia libertária. restabelecimento da harmonia perdida. Um pouco esquecida especialmente depois da maré nazista. Unidos pela idéia polissênica que significa redenção. A cultura judeo-alemã aparece com Heine e Marx. não sem deixar profundas marcas na ciência. e seus últimos representantes Marcuse. não haveria qualquer relação entre o sujeito – o historiador – e seu objeto – o fato histórico. a história existe em si. mas simplesmente dar conta do que se passou”. sobreviveu apenas no exílio. Leopold von Ranke (1795 . “subjetivas” e “moralizadoras” em prol de fórmulas “científicas”. QUEIROZ.1886) nega as filosofias da história “especulativas”.82 QUEIROZ. que só será realizado no final do século XIX. o historiador escapa a qualquer tipo de condicionamento social.Grícoli. “objetivas” ou “positivas”. Em contrapatida ao hegelianismo e ao romantismo. por exemplo. Grícoli O romantismo alemão. Freud e Kafka. Para ele o historiador não deve “julgar o passado nem instruir seus contemporâneos. estes pensadores contraditoriamente vivem com orgulho esse sincretismo (Landauer) ou pelo dilaceramento (Kafka). Georg Lukács acabam de se extinguir. entretanto. permitiu que ali se constituísse um outro paradigma mais anarquizante especialmente com Martim Buber.

seu livro desperta interesse no meio universitário. Bockel. onde havia uma grande massa de estudantes. Publicado. um dos períodos que ilustraria a vontade de Deus sobre os grandes acontecimentos. Ranke decide continuar suas pesquisas sobre o século XVI italiano e parte para Viena. a história era uma maneira de se conhecer Deus. Ranke é convidado a lecionar na recémfundada universidade de Berlim. onde havia uma infinidade de documentos venezianos. Guilherme de Humboldt desejava então transformá-la no maior centro cultural da Alemanha. Fichte. gramática e filologia na Universidade de Leipzig e busca uma utilidade para esta ciência fora da antigüidade. escreve sua primeira obra. como um espelho reflete uma imagem. baseados em inúmeros documentos e a narrativa histórica deve então se organizar a partir destes fatos.A MODERNIDADE 83 registrar os fato passivamente. todos a serviço da Prússia e de uma Alemanha nova. toda e qualquer reflexão é inútil e prejudicial. volta-se então para a história moderna. Ranke pertence a uma família de pastores alemães protestantes. nela trabalhavam Niebuhr. Ranke decide nesta época estudar história moderna. Para ele. Apesar disso insiste sobre a influência de Deus sobre a história e a continuidade das duas nações que estuda. onde já se atém à sua fórmula de apenas narrar os fatos. torna-se professor de história em Frankfurt-sobre-o Oder. sobre os povos romanos e germânicos. Só assim pode-se chegar ao conhecimento da verdade. Savigny. estudou teologia. a quem muito admirava. Em 1824. Desse período resultam a História do papado – onde destaca a importância das nações depois da queda de Roma e a impotência da Igreja a impor seus sonhos de soberania nacional – e a História da revolução sérvia – em que . Já como professor. desviando-se um pouco dos autores latinos e principalmente de Tucídides. que por pouco não se tornara pastor. ao historiador cabe apenas reunir os fatos. trabalha muito nesse período lendo os historiadores italianos e os autores do fim da Idade Média. Entre 1816 e 1825. Schleiermacher.

Encara a vitória da Prússia sobre a França em 1870 como uma corroboração de sua tese sobre a ascensão e queda das nações. mas não vê como Hegel um progresso nesta sucessão. Com um fundo hegeliano e sua admiração incontida pelo classicismo. mas sim uma continuidade cristã. Burckhardt tenta captar o renascimento em sua individualida- . QUEIROZ. Em 1865 havia recebido um título de nobreza por seu trabalho como historiador. obra marcante na afirmação autônoma da história da cultura. que soube encampar a riqueza da antigüidade.Grícoli. onde percebe que sua vocação de historiador é um mandato de Deus. Morre em Berlim. & IOKOI. Seus discípulos ocuparam todas as mais importantes catédras de história na Alemanha. em que explica a história européia contemporânea e a verdade das teses prussianas. um se tornaria mais famoso do que o próprio Ranke. Tereza Tereza Aline Pereira A. passa três anos na Itália. incapazes de afastar os muçulmanos e de conseguir uma independência nacional.84 QUEIROZ. Prosseguiu como professor da universidade de Berlim e como pesquisador e autor de livros até o fim da vida. Por outro lado. representa o historiador já inserido num quadro universitário. A revolução de 30 o faz voltar à Alemanha. Em Berlim inicia a publicação do Historische Politische Zeitschrift – jornal de história política. e. Entre seus alunos.1897). Zilda Zilda Maria M. ao mesmo tempo em que mantém firme uma tradição da história política. É Jacob Burckhardt (1818 . Continua a pensar na ordem divina presidindo a sucessão de épocas e de nações dominantes. Grícoli demonstra a comunidade de civilizações que une os povos romanos e germânicos em oposição ao destino histórico dos eslavos oprimidos pelo sistema imperial oriental. Pereira de & de IOKOI. autor da Civilização do renascimento na Itália (1860). em 1886. mas sem resultados concretos. A partir de 1828. factual. sobretudo. sua imparcialidade apenas desnuda a enlevo da burguesia diante do que considerava progresso. voltada para a defesa das teses do governo vigente. religiosamente providencial. Ranke é um exemplo da penetração do cientificismo na história.

Macaulay. mas sim num governo parlamentar liberal. Macaulay. A aceleração do tempo provocada pelas Revoluções – americana. História da Revolução Francesa (1837) e Heróis e culto dos heróis (1841). conservadora. fazendo dele uma época de ouro forjadora do futuro. formula suas considerações a partir do presente e procura provar que a salvação da Inglaterra nunca esteve na revolução ou no despotismo. antiindustrialista.A MODERNIDADE 85 de. batalhas e grandes nomes. Ranke. impregnados de paixão política e cientificismo. Michelet. as revoluções industrial e francesa dão margem a uma historiografia romântica. anti-iluminista e anti. tanto a paixão como o cientificismo convergiram para a escrita de uma história política. respondem a um imperativo de compreensão das mudanças do presente que torna o especialista em pensar a história em um elemento ativo dentro da sociedade. e na geração seguinte Lavisse.1881). Embora aparentemente contraditórios. opondo-se ao utilitarismo e ao materialismo. francesa. recheada de fatos. . História da Inglaterra a partir de James II (1849 1861). Na Inglaterra. Thomas Carlyle (1795 . muito popular em sua época.1797) Reflexões sobre a Revolução na França (1790). onde insiste sobre o papel dos gênios na história. exemplificada nas obras de homens políticos como Edmund Burke (1729 . mítica. industrial – e também pela penetração da máquina e das produções derivadas das ciências no cotidiano abria caminho para que fossem pensados métodos de análise do passado. e Thomas Macaulay. embora só visse decadência no século XIX.francesa. cada um dentro da especificidade de seu país de origem e de seu momento.

No manifesto de 1848. mas não extraídos do trabalho. modo de produção. que debruçados sobre conceitos de preço e lucro justificam as noções de valor agregados apenas ao capital. Marx reorganiza o pensamento de David Ricardo sobre o valor de uso e o valor de troca e nele insere o valor do trabalho não pago. A história e a luta de classes. A partir de noções abertas como formação econômico-social. Os estudos sobre economia política permitem encontrar o sentido dos interesses restritos dos economistas clássicos. reinstaura-se um campo de debates com conseqüências de longo prazo. consciência de classe. e nos Manuscritos estabelece-se um novo rumo para a história e os historiadores.” Samuel Beckett A grande revolução para o historiador contemporâneo vem da Alemanha. A Dialética da Natureza de Hegel é substituída pela constituição da noção de necessidade especialmente a partir das análises da escassez e da abundância. quando Karl Marx escreve um manifesto que ganha dimensões de uma bomba.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 87 O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO “Nada é mais real do que nada. extraído do trabalhador na medida em que se define o salário pela média do tempo gasto socialmente na .

A primeira guerra mundial. onde não haveria estado nem classes sociais. ou seja. por Karl Kautisky. Pereira de & de IOKOI. Sua obra mais citada. que para libertar-se deve se apropriar daquilo que é tomado pelo capitalista libertando-se a si e a sociedade como um todo. A mercadoria se humaniza e o homem é coisificado.88 QUEIROZ. Tereza Tereza Aline Pereira A. Este novo modo de pensar a história espalha-se como um fio de pólvora e os debates em torno da revolução ampliam-se para toda a Europa. QUEIROZ. No desenvolvimento do capitalismo o homem perde o sentido do trabalho enquanto criação. Evidentemente a ordem estabelecida aos estudos permite um bom entendimento do sistema capitalista em seus três tempos: produção. como com os socialistas românticos ou utópicos que propunham uma alteração moral na relação entre os proprietários e os trabalhadores. o processo de acumulação. o trabalho parcelar aliena e compartimenta o trabalhador à lógica da produção. seria um fator decisivo na mudança de rumo da construção da história. Grícoli produção de uma mercadoria. circulação e realização do valor. A contribuição mais significativa. Em A Ideologia Alemã. de 1914 a 1918. refere-se à luta de classes e ao sentido da práxis revolucionária. & IOKOI. O Capital. dialoga tanto com os jovens hegelianos. Zilda Zilda Maria M. foi organizada a partir de estudos esparsos em três volumes. Após a . Recuperase a noção de revolução constituída pela burguesia e inclui-se o sentido de superação. entretanto. Exercício primoroso é realizado em 18 Brumário. Os seguidores. foram inicialmente os economistas entusiasmados com as possibilidades de mensuração abertas pela crítica da economia política.Grícoli. onde estuda os conflitos entre as classes sociais na França de 1848 e o golpe de Luiz Bonaparte. A classe que se forma nesse processo é o proletariado. Estabelece um combate aberto contra o idealismo e termina por destacar com muita força o papel da economia no desenvolvimento da história humana. Dedica-se a entender a sociedade da necessidade e projeta como devir o reino da liberdade. Em Grundisses recupera dimensões cotidianas das experiências humanas e desenvolve com muita precisão o método hipotético analítico. nomeados marxistas.

Deve-se ainda perguntar se o político e o estatal contêm a verdade dessa realidade. dando ao presentismo outras centralidades móveis e articuladas não no sentido do relativismo niilista. A tendência relativista se espraia com maior vigor depois da segunda guerra mundial. a História? O pensamento . Marx ao questionar a dialética hegeliana define a História como luta entre as classes sociais. do progresso. tornaram-se vendedores de sua força de trabalho. O problema da verdade passa a ser explicado de modo distinto do universo da idéias. da história-batalha. Os funcionalistas e liberais norte-americanos aderiram prontamente aos postulados do presentismo. da missão civilizadora do ocidente contra os bárbaros. encaminhando-se para a descoberta dos conflitos mediados por necessidades subjetivas e objetivas das relações entre o ser e o existir. mesmo tendo sido realizada a expansão dos impérios coloniais britânicos e franceses ficava impossível cultuar os mitos da sacralidade do Estado nação. A oposição ao relativismo será concebida na idéia de que o conhecimento histórico se constitui por determinações sociais que lhe atribuem um caráter de classe.Robinson em A nova História publicado em 1912 em Nova York e H. mas como elementos norteadores da reflexão no entendimento das estruturas sociais. ou seja.H. e especifica os interesses de classe como elemento central no entendimento dos conflitos sociais.E. desprovidos desses níveis de propriedade. especialmente J. das desigualdades e das diferenças existentes entre os donos dos meios de produção e dos que.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 89 carnificina perpetrada pelas nações envolvidas no conflito mundial. do herói nacional.Burns em História e Escritos Históricos de 1937. especialmente no combate aos postulados do pensamento marxista e na relativização das lutas que se abriram entre as classes naquele período.

90 QUEIROZ.Grícoli. Pereira de & de IOKOI. Conhecê-las e desvender o seu significado pressupõe a apreensão do real e a quebra tanto do relativismo como das verdades individuais. Tereza Tereza Aline Pereira A. Na medida em que elas se constituem como relações vivas e ativas. QUEIROZ. sistemático e abstrato. deixando o espírito da crítica radical. Em que consiste para Marx a superação da Filosofia? Ela difere da superação da religião pois é mais complexa. A superação da religião consiste em seu desaparecimento. Para Marx a única possibilidade de apreensão do real se dá pela práxis. o conceito de superação em Marx comporta uma crítica da síntese hegeliana acabada. Desaparece o lado especulativo. na qual o movimento dialético. Teoria e prática em uma noção essencial no pensamento de Marx. ao mesmo tempo que o fim da alienação filosófica. & IOKOI. pela prática social na medida em que esta só é compreensível se forem articulados os conhecimentos teórico/filosóficos com a crítica radical da prática social. o homem deve também empreender a superação do político. o tempo histórico. os conceitos e abrindo a um projeto de ser humano integral. o pensamento dialético. Essa teoria dialética da realidade e da verdade não pode separar-se de uma prática. ou seja. e a transfe- . a ação prática se desmentem a si mesmos. Deste modo. Ela já o é na filosofia e pela filosofia. qual seja. os meios de trabalho e sua organização e se desenvolvem por meio de técnicas e da divisão social do trabalho. possuem uma base material. sentido e obra. que deve ser reapropriação da integralidade do humano enquanto razão. Grícoli marxista considera que a verdade do político encontra-se no social e que apenas as relações sociais permitem compreender e explicar as formas políticas. e superação do homem coisificado pela divisão social do trabalho que alienou o homem criador que pode ser reencontrado. Zilda Zilda Maria M. ou seja. Ela comporta a superação do Estado. a superação. a religião deve e pode ser vencida. Deste modo. sua realização. pois. Para Marx. A superação da filosofia compreende.

Mais precisamente. No que se refere ao entendimento da religião. mas que paulatinamente foi sendo assimilada pelos supostos positivistas e pelas análises estruturalizantes. Ela mostra a gênese do pensamento filosófico que se desenvolve como já foi apontado neste texto. O grupo de Ernest Labrousse na França criou uma escola econométrica de grande importância. mas a democracia só vive senão lutando para manter-se e superandose em direção a uma sociedade liberta do Estado e da alienação política. esta passa a ser decodificada como alienação inicial e fundamental do ser humano. elas desembocam na democracia. A gestão social das coisas são centrais na superação do conceito hegeliano do Estado. afirma Henri Lefebvre na Sociologia de Marx. a democracia contém o segredo da verdade de todas as formas políticas. substituindo a coerção que o Estado exerce sobre os homens. Em ambos os casos. raiz de toda a alienação. Para Marx. no terreno das lutas sociais. e procuraram reencontrar os desafios postulados no século XIX e desviados pelos conflitos e interesses do século XX. No período inicial deste século. o rompimento com a alienação política permite a recuperação da racionalidade imanente às relações sociais em razão dos conflitos. Ao longo da segunda metade deste século o esgotamento das formas estruturais foi sendo sentida como dilema da investigação histórico-social e também do enrijecimento estatista da política definida para o bloco soviético no pós-guerra. os historiadores se debruçaram em busca das subjetividades. os pensadores marxistas enrijeceram a dialética propugnada por Marx e desenvolveram análises macroestruturais da economia e da demografia redefinindo o sentido materialista desses pressupostos.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 91 rência para as relações sociais organizadas das funções por ele açambarcadas. travando com elas violentas batalhas nem sempre vitoriosas e se redefinindo num campo .

A razão humana. No ocidente. Para outros. dirigida pelas facções burguesas anti-aristocráticas e a de outubro. e os conceitos (totalidade. onde se encontra a verdade da filosofia? As idéias filosóficas. esta tendência toma forma nos trabalhos de Henri Hauser. discípulo de Durkheim e entusiasta da estatística como técnica de estudo das ciências sociais. cuja direção introduziu na cena histórica o partido proletário revolucionário.Grícoli. denuncia na história positivista sua tendência a exagerar a importância dos fatos. especialmente a Liga Spartakista. deste modo. ao se perder na busca das origens. QUEIROZ. ou porque os filósofos se manifestaram contra os senhores do momento. O socialismo francês da época. Em 1903. se manifesta por dois caminhos contraditórios e inseparáveis: a razão de Estado (a lei. ou melhor. do homem individual). Deve-se perguntar. & IOKOI. elaboradas pelos filósofos. do individualismo dos heróis e da cronologia. misturando . Henri Sée e na tese de Paul Mantoux (1906) sobre a revolução industrial no século XVIII. A crítica radical desse sistema fez com que ele explodisse retirando-lhe o método (Lógica e dialética). na Rússia realizavam-se duas revoluções inesperadas: a de fevereiro. sempre mantiveram certa relação com os combates da vida política. Pereira de & de IOKOI. Na europa central e oriental desenrolavamse acontecimentos que encontrariam eco posterior no ocidente. a lógica e a coerência). da sociedade. as representações (do mundo. nos dizeres de Henri Lefebvre. a história econômica parecia ser uma opção à exaltação do político. O hegelianismo pretendeu ser o sistema filosófico perfeito dessa díade. François Simiand (1873-1935). Zilda Zilda Maria M. Os socialistas alemães sofrem um duro golpe. e os Bolcheviques passam a governar um grande país – a Rússia. Grícoli específico.92 QUEIROZ. as primeiras inquietações frente à história positivista começam a manifestar-se antes mesmo da guerra. Em meio aos acontecimentos da guerra. ou porque lhes dispensam seus apoios. negatividade e alienação). Tereza Tereza Aline Pereira A. sua capacidade organizativa) e a razão filosófica (o discurso. que inaugura a cadeira de história econômica na Sorbonne.

com nascimento. são contestados primeiro pelos integrantes da Revue de Synthèse de Henri Beer. Seus integrantes. “os homens são os escravos da vontade da história. nos anos 30. os mais diversos são comparados e justapostos a cada página. obras de artes. a reabilitação de Robespierre feita por Albert Mathiez (1874 . começa a ser atacada sistematicamente em várias frentes. Sobretudo. O declínio representa uma orgia da síntese. atribui um caráter nitidamente pessimista ao presente e formula uma teoria das catástrofes. a uma entidade homogênea. partir de 1920.1936). aponta para novos caminhos. dirigida por Jaurès (1859 . Da mesma forma. Na França. “a humanidade é uma grandeza zoológica”.1956) e Marc Bloch . períodos. que ocupam postos importantes nas universidades. inicia antes da guerra um Esboço de uma morfologia da história universal. representa o sentimento de aniquilamento dos alemães do pós-guerra. do marxismo ao “populismo” de Michelet. a escola metódica. no momento da derrota alemã.1914). Oswald Spengler (1880 . os órgãos auxiliares executivos de um destino orgânico”. com mais de 100. Ph. comparando cada cultura a um todo orgânico.000 exemplares vendidos. pelos integrantes da revista Annales d’histoire economique et sociale. em que culturas. maturidade e decadência. obtém um enorme sucesso.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 93 várias tendências. que tivera uma formação mais científica do que humanista. Na Alemanha. através da História socialista da revolução francesa.1932) surge como uma versão diversa da história republicana dantonista. Seignobos. positivista. crescimento. com o título O declínio do Ocidente. países. que até 1933 flertou com os nazistas. Sagnac e outros herdeiros de Lavisse. opõe uma concepção cíclica da história. Ao mito do progresso. Louis Halphen. publicado em 1918. e seu discurso ideológico. fundada em 1929 por Lucien Febvre (1878 . Spengler. Ao contrário do pontilhismo positivista. que nada tem de imparcial como proclamava.

por exemplo. também passa pela Escola normal superior e pela Sorbonne. a filologia.1944). Bloch e o grupo dos Annales condenam na história tradicional. a geografia de Vidal de la Blache (1845 . desde Heródoto. a psicologia. diplomáticos. sendo a história “dos vencidos de 1870”. a lingüística. que se mostra por fenômenos comuns. O fato de o historiador ser agora um profissional dentro de um quadro universitário permitirá a concepção de pressupostos metodológicos derivados de uma discussão intelectual coletiva. QUEIROZ. o privilégio atribuído pela história historizante aos fatos políticos. caía por terra a tirania do político. & IOKOI. Bloch. a história historizante é extremamente prudente. provocando uma renovação sem precedentes nesta disciplina. séries estatísticas – e os testemunhos involuntários que muito dizem sobre as atividades humanas. não se arrisca a interpretações e descarta qualquer tentativa de síntese.Grícoli. não se engaja em debates. que ensinavam na Universidade de Strasburgo. a antropologia. repetitivos. Grícoli (1886 . a economia. Febvre. Zilda Zilda Maria M. Pereira de & de IOKOI. na Escola normal superior e na Sorbonne. Tereza Tereza Aline Pereira A. indo depois para a Alemanha. por eles chamada historizante. que: a atenção dada somente a documentos escritos.94 QUEIROZ. As novas ciências humanas. militares em detrimento dos fatos econômicos. no fato singular. contribuem com seus aportes conceituais e metodológicos à discussão histórica. voluntários. negligenciando os documentos não escritos – vestígios arqueológicos. por exemplo –. onde estuda nas universidades de Leipzig e Berlim. nascido numa família burguesa judia. a ênfase no fato.1918). ao invés de apreender a vida das sociedades. sociais e culturais. a sociologia de Durkheim (1858 1917). Febvre fizera seus estudos de história em Nancy e depois em Paris. com a publi- . Pela primeira vez. A problemática do presente foi formulada de modo instigador pelo italiano Benedetto Croce em 1919. e que se manifestam num tempo longo – a cultura do trigo. num tempo curto – uma batalha.

por estabelecer a polêmica entre o singular e o universal. hierarquicamente colocados. polemiza com o sentido universal do conhecimento histórico e com as formas enciclopedistas de armazenar de modo definitivo os conhecimentos sobre o passado. e. . Descarta simultaneamente o sentido objetivista dos positivistas e a possibilidade de um caráter descomprometido do historiador que não pode se referir ao passado senão motivado pelos dilemas do presente. Collingwood em sua Idéia de História considera a proposição presentista formulada pelo italiano. uma vez que o artista retrata o possível e o historiador o que realmente aconteceu. Para Croce. Relaciona num todo a história e a filosofia. central no desenvolvimento do ofício do historiador. Retomando os elementos constitutivos do pensamento de Dilthey e Simmel. combatendo sua separação em campos de conhecimento distintos. ou seja. a distinção entre a arte e a história está no pensamento. chave na distinção entre história e ciência. Trata de reordenar as polaridades entre o vivido e o concebido como níveis de apreensão do real a serem capturados pela consciência. atribui ao historiador a tarefa de fazer vibrar os acontecimentos. coloca o tempo presente como engendrador dos enigmas a serem revelados pelo trabalho analítico do historiador e a projeção do devir como enunciador do projeto a ser transformado em ação. apontando ser ele singular e universal simultaneamente. Procurando contudo definir a história como uma arte especial. Considerando a história como autoconhecimento do espírito vivo. para além do possível. Ao conceber a arte como intenção pura e o pensamento como revelador do real. que seus registros e sentido estejam presentes no seu vivido.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 95 cação do ensaio A história reduzida ao conceito geral de arte. Croce destaca dois níveis de intervenção do historiador: a intuição e o sentido individual. Na Lógica (1909) Croce demonstra com maior clareza sua oposição aos positivistas quando discorre longamente sobre o juízo de valor.

Tereza Tereza Aline Pereira A. e confere à história a propriedade do atual porque está sempre em relação – por mais longínquo que seja o passado a que se referem os fatos – com uma necessidade atual. decide durante a primeira guerra ser um Tucídides dos tempos modernos. “presentistas”. Pereira de & de IOKOI. Os objetivos e métodos da investigação propugnados como objetividades científicas pelos positivistas sofrem clivagens de crítica e a idéia de interesses do presente na recuperação do passado põe abaixo a veracidade inquestionável dos acontecimentos. a história positivista também recebe golpes. Rejeitando a historiografia francesa. Na Teoria da História. Estimulado por essa dimensão o historiador passa a considerar as temporalidades históricas como objeto de reflexão e a epistemologia do história pôde ser definida e formulada. Toynbee. “com um pé no presente e outro no passado”.” Defendendo o “espírito de partido”o historiador defrontase diretamente com o problema dos juízos históricos. mas execrada pelos historiadores profissionais. base- .96 QUEIROZ. Na Inglaterra.1975) e dos “relativistas”. & IOKOI. Introduzindo o subjetivismo relativista. O presentismo de Croce é um marco nos debates teóricos sobre a natureza da história e os fundamentos teóricos filosóficos deste campo do conhecimento. cuja obra é célebre e conhecida do grande público. uma vez que ele atribui ao historiador o poder de criar uma imagem histórica sob influência dos interesses e motivos atuais.Grícoli. de Arnold Toynbee (1889 . Collingwood divulga estas idéias entre os anglo-saxões sendo duramente criticado pelos marxistas. uma situação atual. Zilda Zilda Maria M.. Croce formula postulados gerais sobre o sentido transitório e mutável do conhecimento. ele se refere “à necessidade prática na qual todo o juízo histórico se baseia. Grícoli O presentismo de Croce inaugura orientações de novos procedimentos no trabalho do historiador e do professor de história e remete-os à busca do significado do presente e à formulação de problemas para tornar o conhecimento inteligível.. utiliza um método comparativo à la Spengler. QUEIROZ.

seu irmão Benedict e Edward Thompson são exemplos de uma fértil historiografia marxista que não se submeteu aos modelos estruturais nem ao presentismo desprovido de bases histórico-empíricas. a Índia e o Extremo-Oriente. Mas. que cada geração projeta na história suas próprias visões. . Matrizados pela tradição empírico-prática.1950). e produziram reflexões históricas – tanto na academia. vêem em Toynbee uma prefiguração do estruturalismo nas ciências humanas.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 97 ando-se em fontes de segunda mão. construtiva. o Islão. haveria cinco civilizações: o Ocidente. Acreditam que o historiador tem sempre uma atitude ativa. coexistindo e não em necessária sucessão. por ser a maneira como o historiador apreende e relaciona uma série de acontecimentos. Toda civilização nasce de uma resposta a um desafio. No Um estudo da história (1930 . Em 1935. em As escolas históricas. em 1939. passa depois a se desenvolver. no século XX. Cristopher Hill. assim como Spengler. contestam os pressupostos de Ranke para a história. Os marxistas ingleses vivenciaram de modo diferente a teoria das classes e a concepção de história. as civilizações aparecem como entidades fechadas. pode fracassar ou não. Carl Becker afirma que cada século reinterpreta o passado da maneira que melhor lhe convém. debruçaram-se sempre sobre as experiências. apontam o cientificismo como uma escolha ideológica. Assim. geralmente de ordem natural. mas fatalmente entra em decadência. George Rudé. Toynbee e sua teoria da decadência se afiguram sobretudo como uma resposta à desintegração do Império Britânico no século XX. sobre os marginais. que a história jamais pode ser puramente objetiva. Guy Bourdé e Hervé Martin. afirma em seu livro Sobre a escrita da história. nos anos 30 e 40. amplas unidades históricas num longo tempo e num amplo espaço. Charles Oman. a União Soviética e seus satélites. como fora dela – originais e instigantes. ser estimulada por grandes homens. Perry Anderson. jamais passiva como queria Ranke. Os “presentistas” ingleses.

seja através do idealismo ou de uma abertura às outras ciências humanas. Apesar de relativista. Mas. Grícoli O grande teórico idealista. Mommsen sob o ponto de vista de um alemão do século XIX. onde as estruturas prevaleçam sobre os fatos. O grupo dos Annales de Febvre e Bloch desde os primeiros tempos pretende construir uma história total. Cada um dos pontos de vista é o único possível para o homem que o adotou”.Grícoli. embora estes não desa- . Suas visões da filosofia e história. considerando que o historiador produz um tipo de conhecimento tão válido como o das ciências naturais. Zilda Zilda Maria M. fazem com que freqüentemente seja comparado a Benedetto Croce (1866 . contrário ao positivismo.1952). QUEIROZ. Pereira de & de IOKOI. um testemunho. com enorme influência inclusive no Brasil. que são interpretadas com base em documentos variados. Tereza Tereza Aline Pereira A. Estas buscas de rompimento com o positivismo.G. Collingwood não é absolutamente cético. Não há sentido em perguntar qual é o ponto de visto correto. válido num certo momento e se transforma quando mudam os métodos históricos e os enfoques: “S. não significa o desaparecimento total da história política tradicional. Agostinho olhava para a história romana sob o ponto de vista de um cristão primitivo. Tillemont sob o ponto de vista de um francês do século XVII. da escola inglesa é R. um ensaio de filosofia da história. tendo por finalidade o auto-conhecimento humano. cujo objeto são as ações humanas no passado. é uma forma especial de pensamento”. “A história. & IOKOI. bem como o interesse pela estética e pelo idealismo hegeliano. Collingwood ressalta que o historiador descreve o passado em função do presente. é sobretudo na França que a definição de novos rumos para a história foi decisiva na produção historiográfica de várias gerações. através de uma escolha deliberada dos fatos. como a teologia ou a ciência natural.98 QUEIROZ. Collingwood. Gibbon sob o ponto de vista de um inglês do século XVIII. orgânica. Em A idéia da história (1946). que o pensamento histórico é uma atividade da imaginação.

É o que proclama no texto que escreve em 1941. até nos mais delicados mecanismos de seu corpo. Explora a história espiritual. “O homem também mudou muito: em seu espírito e. das origens e seus anacronismos. os quadros sociais. Profundamente sensível ao histórico. a história deve ser feita através de uma multiplicidade de documentos e de técnicas. mais tarde publicado sob o título Apologia para a história ou O trabalho do historiador. lingüística. o grupo dos Annales descarta os mitos da natureza humana imutável. à mudança.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 99 pareçam. como mudança perpétua. mas uma exploração global em todos os campos – etnologia. dá atenção às evoluções mais lentas e significativas e não somente ao tempo curto dos fatos fechados em si. do eterno retorno. Sua atmosfera mental transformou-se profundamente. sem dúvida. religiosa e cultural de maneira inovadora. sabe que lá está sua presa.” A história é uma ciência dos homens no tempo. Duas obras magistrais que concretizam esse novo espírito são Os reis taumaturgos (1923) de Marc Bloch.” Este tempo. folclore etc. Por isso insiste em dizer que o historiador deve ter uma formação sólida e ao mesmo tempo variada. com as sensibilidades. abre um enorme campo de conhecimento ao articular as bases econômicas. livre pensador e racionalista a Rabelais. . seu objeto são os homens. a dimensão psicológica do ser humano. sua higiene. “A atmosfera onde seu pensamento respira naturalmente é a categoria da duração. para Bloch é tanto contínuo. as diferentes maneiras de pensar e ver o mundo. a história não é a ciência do passado. igualmente. tendo em vista a complexidade dos fatos humanos. para Bloch desaparece a noção de ciências auxiliares da história. dado que não deveria haver especializações. Onde sente o cheiro de carne humana. Para Bloch. sua alimentação. “O bom historiador se parece com o ogro da lenda.” Diante disso. onde um anacronismo atribui o sentido de incrédulo. uma análise da dimensão sobrenatural atribuída ao poder real e O problema da incredulidade no século XVI – a religião de Rabelais (1942) de Lucien Febvre.

mas não totalmente inserida na corrente dos Annales. Na América Latina Sarmiento escreve Facunto. valores religiosos. Pereira de & de IOKOI. feito a quatro paredes. Também nos anos 30.100 QUEIROZ. próxima em alguns aspectos. os ritmos da conjuntura na produção e no comércio. serem atuais. No entanto. A Europa projeta sobre o mundo uma noção eurocêntrica. A Raça Cósmica formada pelo melhor de todas as raças existentes. Zilda Zilda Maria M. mais especialmente no México. mas inclusive a ação no presente. destinada a se projetar sobre o planeta. especialmente no rechaço da língua. dentro do tempo. trocar experiências. ancorados no presente. Oliveira Vianna. Esboço do movimento dos preços e das rendas na França no século XVIII (1933) e Crise da economia francesa no fim do antigo regime e no início da Revolução (1944) de Ernest Labrousse abrem o caminho da história quantitativa. & IOKOI. costumes. A história deve ser verdade e o historiador deve ser aquele que busca o verdadeiro e o justo. Tereza Tereza Aline Pereira A. toma forma uma obra de história econômica. mas compreender com ética. na se- . raça e forma de governo. Através do fato econômico era atribuída uma nova coerência à história colonial. não cabe ao historiador julgar. diz Bloch. cuja mensagem central é a defesa da idéia de uma raça superior no novo continente. que reconstitui séries e médias representativas da evolução econômica e social. Naquele período pode-se encontrar fenômenos equivalentes na historigrafia latino-americana. Afirma que os historiadores devem se encontrar em congressos. na França.Grícoli. A história não é um trabalho somente de erudição. simbiose de aperfeiçoamento obtido pelos mais diferentes contributos no paraíso tropical. Argentina. no trabalho e no nível de vida. estabelecer quais seriam os problemas dominantes de sua época. Ao longo da primeira grande guerra. Grícoli A ignorância do tempo passado comprometeria não só o conhecimento do presente. o tema fundamental é o da civilização contra a barbárie. Peru e Brasil. QUEIROZ.

aos professores de história e aos historiadores cabe o desenvolvimento do senso de ordem. Caio Prado Junior desenvolve um amplo processo de pesquisa orientado pela teoria de Marx e através do materialismo dialético procura encontrar o “Sentido da colonização” especialmente criticando a teoria dos ciclos econômicos. pelas relações de compadrio e de favor e de fato pelo que considerou ser a síndrome do homem cordial.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 101 qüência de Nina Rodrigues e de Oliveira Lima também insiste na idéia de uma raça a ser constituída a partir de integração nacional. Já contrariando os estudos estruturalizantes. Emilia Viotti escreve Da Senzala à Colônia e . Já na década de 1940. de uma história que se move lentamente. Ainda entre os historiadores marxistas deve-se destacar o esforço teórico de Fernando Novaes no entendimento do caráter exógeno das determinações econômicas e sociais no Brasil com seu trabalho Portugal e Brasil no comércio do Atlântico e Jacob Gorender O Escravismo Colonial. História Econômica do Brasil e a Revolução Brasileira são marcos fundamentais nessa trajetória. Trata-se de um texto que analisa o caráter isolacionista e individual da colonização do Brasil. responsável pela organização do patriarcado rural. Assim. das generosidades do estado e mesmo da restauração da noção de paraíso tropical. quase invisíveis. Formação do Brasil Contemporâneo. de imigração européia e mesmo de educação controlada pelo estado. dos determinismos raciais e geográficos demonstrando a complexidade da recuperação histórica de um país marcado por rupturas superficiais. e Sérgio Buarque de Holanda que realiza um magistral trabalho de síntese da idéia de Brasil no ensaio Raízes do Brasil. do valor do trabalho. que introduz um sentido sociológico para o contributo do negro na formação cultural brasileira e mesmo no desenvolvimento do patriarcalismo e do paternalismo. Na década de 1930 dois trabalhos destacam-se na crítica ao positivismo de base racial: Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre.

feiras.102 QUEIROZ. nos ares da nova história. ainda na década de 1930. QUEIROZ. o cotidiano e a cultura brasileiros. o empirismo é o eixo central de comprovação ou negação da historiografia estruturalizante do período. Nesse mesmo período Fernand Braudel redimensiona os estudos sobre o papel do dinheiro no mundo mediterrâneo. na Terceira Internacional. Este escritor genial. Essa preocupação se explicita contra a maré exatamente quando. definia-se um sentido excludente entre os níveis concretos e subjetivos. reúne utopia e religiosidade que são para o autor elementos de expressão da rebeldia do povo andino. Zilda Zilda Maria M. marítimas e de rios envolvendo mercadores. Finalmente. médio e curto ele desvenda os múltiplos processos de intercâmbio que envolveu os vários países do ocidente e do oriente. & IOKOI. que morreu aos vinte e seis anos. iniciara estudos sobre o pensamento de Marx e com ele desenvolvia um profundo processo analítico sobre a formação social peruana retomando as análises sobre o império incaico e dele derivando pesquisas sobre o campesinato do país para descobrir o sentido histórico das unidades produtivas socializantes na tradição daqueles grupos. . cada um com procedimento diferenciado do outro. ao volume entitulado Siete ensaios de interpretación de la realida peruana de Jose Carlos Mariátegui. Pereira de & de IOKOI. Em Novaes e Viotti. Assim. Tereza Tereza Aline Pereira A. especialmente quando o próprio Braudel chega com a missão francesa na formação da Universidade de São Paulo. financistas. A partir das proposições de tempo longo. Destaque deve ser feito no Peru. cientistas e interesses econômicos.Grícoli. através dos negócios que se realizavam através de rotas terrestres. juntamente com Levy Strauss e Pierre Monbeig. A influência francesa para a formação dos historiadores profissionais brasileiros afasta-os de seus parceiros latino-americanos. Maria Odila Leite da Silva Dias e Carlos Guilherme Mota recuperam. o que para o autor demandava um processo orgânico dos revolucionários em consonância com a mística andina. Grícoli Da Monarquia à República – Momentos Decisivos.

Levanta a documentação em vários arquivos da área. representam um segundo momento do grupo.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 103 As missões alemã e italiana. considerados como centralidades no processo civilizatório pretendido pelas elites cafeicultoras paulistas. A obra de Braudel sobre o Mediterrâneo estender-se-á por toda a sua vida. desde seus primeiros esboços em 1929 até a publicação da versão final em 1966. A revista. um assunto tradicional. Roma. Com a morte de Bloch. de Dubrovnik à Veneza. Lucien Febvre e Braudel assumem também a direção da 6a. Diante da avalanche de pequenos e grandes fatos do presente. Após a segunda guerra. Economies. presentes nos primeiros anos de formação da USP. passa a se chamar Annales. Madrid e outros centros.1985). o grupo dos Annales publica um conjunto de obras centradas na territorialidade – cujos trabalhos pioneiros são os de Braudel. o que mostra sua mudança de perspectiva. professor do Departamento de História entre 1935 e 1937 na Universidade de São Paulo. se transforma num estudo que tem por centro o próprio Mediterrâneo. fuzilado pelos alemães. desde 1946. O Mediterrâneo na época de Felipe II e o de Pierre Goubert. na estrutura. Febvre e Fernand Braudel (1902 . Novamente a guerra seria decisiva na escolha dos caminhos do historiador. sua intenção de fazer uma tese sobre a política mediterrânica de Felipe II. sessão da Escola Prática de Altos Estudos em Paris. Durante as décadas de 50 e 60. na história econômica e na demografia histórica. após completar seus estudos de história. Beauvais e os beauvaisis nos séculos XVII e XVIII –. Sociétés. Civilisations. não produziram as determinações dos franceses. Em 1948. Seu horizonte geográfico se alarga com o trabalho sobre Civiliza- . a história dos Annales se impõe definitivamente. nos grandes espaços e na longa duração. Braudel. onde descobre o Mediterrâneo. segue para a Argélia como professor. Do encontro com Febvre. os historiadores aprofundam sua busca de sentido da história total.

O segundo tempo é o da história social dos grupos. Lepanto etc. do Adriático. Este tempo longo. Grícoli ção material. Ao longo de sua carreira. do Taurus etc. & IOKOI. da história estrutural. de suas instituições. a expansão do ouro e da prata americanos no Mediterrâneo. O tempo geográfico tocaria a própria eternidade não fosse pelas variações climáticas. dos Apeninos. finalmente. dos habitantes das montanhas e seus costumes ancestrais nas cadeias do Atlas. biológicas. publicado na década de 70. as oscilações de preços etc.104 QUEIROZ. Braudel torna-se um historiador . QUEIROZ.Grícoli. Zilda Zilda Maria M. Ao refletir sobre a dialética do tempo e do espaço. a demografia. dos homens que vivem nas planícies do Languedoc. da Campania. é a história da rivalidade entre os impérios. da economia e. privilegiado em seus trabalhos. nervosas”. do Egeu. Uma história com oscilações breves. da longa duração da geografia. a paz de CateauCambresis. Braudel. em sua tese sobre o Mediterrâneo. da força militar. onde se avalia o comércio. professor da Escola de Altos Estudos. do Colégio de França... espanhol e turco. atacados pela malária das águas estagnadas. mas do indivíduo. da ação e dos acontecimentos como a abdicação de Carlos V. Pereira de & de IOKOI. economia e capitalismo – séculos XV a XVIII. diretor de tese de inúmeros alunos. No terceiro tempo encontramos “uma história tradicional... populações. interdecenal. rápidas. Tereza Tereza Aline Pereira A. não na dimensão do homem. as mudanças nos sítios urbanos e no traçado das rotas terrestres e marítimas. cíclico. o de uma história do tempo conjuntural. como diretor dos Annales.. e dos homens da beira do mar Negro. o tempo longo.. os mecanismos monetários. ou durações: o de uma história factual da política e do indivíduo. uma agitação superficial. representaria o de uma “história quase imóvel”. as distâncias. a dimensão dos mercados.. etc. províncias. onde os ventos e as correntes impõem o ritmo da vida. concebe várias formas de tempo.

Benjamin. Aberta a todas as ciências sociais. Para ele. voltará a ter grande interesse pela história. Horkeiheimer e Benjamin procuraram romper com a história projeto e passaram a ressaltar as subjetividades expressas pela arte. pela estética e pelos elementos centrais da cultura. que. Pensadores como Theodor Adorno. expressa na obra de arte e nos valores da vida. reconhece-se a narrativa histórica como central. à demografia de Sauvy. busca a história total. Embora não se definisse como um . A separação entre o homem trabalho e o homem criador de cultura é para Benjamin um dilema do mundo moderno e sua reversão deve significar também a reversão de todos os elementos da dominação. à sociologia de Gurvitch. em Estética. Muitos historiadores e filósofos marxistas reuniram-se em torno do que se convencionou chamar de Escola de Frankfourt. uma vez que elas impedem a liberdade e a criação. A relação do historiador com a obra de arte e sua dimensão documental reintroduz o sentido das subjetividades nos comportamentos humanos e a necessária recuperação deste nível na história. Braudel considera a história como um campo muito flexível e. à etnologia e ao estruturalismo de LéviStrauss. A Segunda Grande Guerra foi inteiramente reveladora dos dilemas abertos e das indefinições a serem superadas. Deste grupo. Uma outra tentativa de fusão da história com a filosofia também data desse período. é preciso libertar o homem de suas institucionalidades. Com objetivos claramente anti-políticos esses intelectuais procuraram encontrar não os nexos do poder. sobrepõem-se contra a rebeldia para manter a ordem estabelecida e os processos de controle já firmados.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 105 muito conhecido também do grande público. da ecologia. principalmente a partir dos anos 60. fiel à Bloch e Febvre. mas o sentido do reencontro da humanidade do homem. cujo fim trágico os unifica. da defesa do devir e do planeta. procura dimensionar as relações entre o vivido e o concebido especialmente quando demonstra que nas sociedades de consumo de massa o que se encontra é a estética e não o estilo.

a própria história não mais seria memória do passado. Pereira de & de IOKOI. evolução e influências devem ser aposentados.Grícoli. . Foucault objetiva constituir um método de análise do ser humano em sociedade na atualidade. assim os sistemas repressivos de Vigiar e punir dizem respeito a tudo mais que existe na sociedade. Para Foucault. a obra de Michel Foucault (1926 . a objetividade sendo falsa e a subjetividade enganosa. QUEIROZ. e sim apenas um trabalho sobre documentos. na economia. Conceitos como tradição. & IOKOI. uma esfera “analítico interpretativa”do “poder.”. na educação.1984). destruíra o saber analítico organizado em “representações” para submeter os conhecimentos às leis de suas evoluções. os documentos não mais são considerados como reflexos do passado. o que teria levado às “ciências do homem”. apesar de situá-las na longa duração. históricas. sua palavra-chave torna-se genealogia. encerra uma reflexão sobre a história e causou muita polêmica entre os historiadores a partir dos anos 60. restaria estabelecer a genealogia das práticas que fizeram do homem atual aquilo que é. da verdade e do corpo”. sempre determinadas no tempo e no espaço. Foucault privilegia as rupturas bruscas. mas como um material que deve ser recortado. Zilda Zilda Maria M. Cada discurso possuiria uma conexão com “um conjunto de regras anônimas.106 QUEIROZ. ao introduzir a idéia de “tempo histórico”. para ele importa a coerência interna dos sistemas conceituais e a passagem de um sistema a outro. Tereza Tereza Aline Pereira A. Tendo em vista que estas ditas ciências do homem estariam prestes a desaparecer. Entre o estruturalismo representado especialmente por Louis Althusser e a hermenêutica. e a emergência de novas estruturas sobre as antigas. Grícoli praticante das ciências humanas. exterior aos Annales e crítica do estruturalismo. o século XIX. mas como um observador exterior que analisa o discurso como esfera autônoma. fazem parte de um sistema global de adestramento destinado a formar “corpos dóceis”. as descontinuidades. Para Foucault. Contrário à história tradicional das continuidades.

que inaugura uma série de trabalhos sobre a medicina e as doenças na história. voltados para uma antropologia histórica. M. Pierre Chaunu. Léonard e Os médicos na França do oeste no século XIX (1976) e muito outros. As diferentes visões e manifestações da vida e do mundo. demografia histórica. O amor no ocidente na época moderna (1976) de J. Os estudos de população voltam-se para a história da família e da sexualidade. a história dos oprimidos. o prazer.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 107 As polêmicas e a busca de novas metodologias colocam a história em primeiro plano e fazem com que a produção historiográfica francesa do pós-guerra seja imensa. a contracepção.-L. da gravidez. atraindo para a história o leitor comum. dos comportamentos coletivos diante destes e de outros fenômenos como a doença. É o caso de História das populações francesas e suas atitudes diante da vida desde o século XVIII (1948) de Philippe Ariès. como o da infância. . história quantitativa. do sentimento da morte. Solé. Temas antes poucos explorados. fecundidade. Flandrin. Laget entre muitos. Lebrun. Daí o grande êxito em vários países de Montaillou (1975) de Le Roy Ladurie. natalidade. o estudo do corpo doente e saudável – assim. como em Os amores camponeses do século XVI ao XIX (1975) de J. nos quadros de uma região ou época – Os camponeses do Languedoc do século XV ao XVIII (1966) de Emmanuel Le Roy Ladurie ou Os homens e a morte no Anjou nos séculos XVII e XVII (1971) de F. um trabalho etnológico no passado de uma aldeia cátara no século XIII. próximos àqueles do historiador holandês J. dão margem a inúmeros estudos elaborados por Philippe Ariès. A aproximação com a etnologia está presente também nos trabalhos de Jacques Le Goff e Pierre Vidal-Naquet. Huizinga no Outono da Idade Média (1919). tornam-se cada vez mais presentes como objeto de estudo do historiador. Além dos trabalhos sobre economia. J. do outro. por exemplo – começam a surgir trabalhos mais qualitativos.

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Nos anos 70, os historiadores dos Annales, atentos ao pensamento de Lévi-Strauss e de Michel Foucault, partem para a exploração das estruturas mentais, uma região nebulosa entre a organização social e a ideologia, o consciente e o inconsciente. Surge então um terceiro momento dos Annales, bastante próximo às teses de Bloch, mas situado no presente, carregado com outros aportes e ingredientes, que é o momento da “história nova”, da “história das mentalidades”, coincidindo com o pós-maio de 68. O historiador Michel Vovelle, autor de Piedade barroca e descristianização na Provença no século XVIII (1978) diz que a escola dos Annales sai do porão e sobe até o sótão. Com as mentalidades, os livros de história se transformam em best-sellers e os historiadores chegam ao grande público, não somente através da imprensa, mas também da mídia eletrônica. O termo história nova surge em 1978 e faz polêmica. Aspirando “à mais global e coerente das visões sintéticas da história”, como dizem Pierre Nora e Jacques Le Goff, o historiador deve partir de hipóteses, submetendo-as à verificação e as moldando de acordo com estas. O historiador constrói seu objeto de análise através dos documentos de diversas naturezas que podem ou não responder à sua interrogação – por exemplo, existiria um espírito maternal na idade média, ou isto é uma invenção recente ? Em função da pergunta, o historiador interpreta seus documentos, utilizando-se de todas as técnicas possíveis – fotos aéreas, informática etc.– e todos os documentos – escritos, orais, arqueológicos, artísticos, o folclore, a festa etc. Do marxismo, a nova história herda as amplas periodizações e a análise estrutural do social; para Guy Bois, a história global seria apenas uma novo nome para modo de produção ou formação econômica e social. Os temas são tratados em séries – por exemplo, as variações de um culto de santo desde a idade média até o século XX – em grandes espaços, analisando grandes conjuntos com organização social e econômica coerentes e representações homogêneas – por exemplo, a vasta Civilização do ocidente me-

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dieval de Jacques Le Goff, ou O tempo das catedrais de George Duby. Estas obras são escritas mediante uma releitura de fontes conhecidas, portanto dizem respeito a novas indagações e não a novas descobertas; nelas os silêncios também podem ser significativos; não caberia mais ao historiador ler somente o que é dito, mas prestar atenção também no que é omitido – este é o ponto de partida das Três ordens ou imaginário do feudalismo de Georges Duby. A questão do imaginário abriu todo um novo campo de pesquisas para a história. O imaginário abrangeria um campo muito vasto da experiência humana, em temas como a curiosidade pelo desconhecido, a consciência do corpo, a angústia da morte, as festas, a loucura, o erotismo, os sonhos, as relações entre insconsciente e cultura e muitos outros. Le Goff atesta ao caráter indefinido do termo e a dificuldade no estabelecimento de fronteiras entre imaginário e representação – tradução mental da percepção de uma realidade externa –, imaginário e simbólico – relação de um objeto com um sistema de valores subjacente, histórico ou ideal – e imaginário e ideológico – o quadro conceitual organizador da sociedade; embora não seja apenas representação, simbolismo ou ideologia, o imaginário teria implicações com os três conceitos. Além disso, em imaginário existiria imagem – iconográficas e também imagens mentais. Para Le Goff, no cerne do imaginário medieval estaria o tema do “maravilhoso” – os ogros, os mortos que voltam do purgatório, o passado mítico das dinastias nobres e muitos outras expressões; como diz, “estudar o imaginário de uma sociedade é penetrar no fundo de sua consciência e de sua evolução histórica. É ir à origem e à natureza profunda do homem, criado à “imagem de Deus”. A nova história dos anos 70 traz então à tona outras problematizações e outros temas para a história, dentro de um padrão multidisciplinar. O próprio caráter vago de alguns de seus conceitos – Le Goff diz explicitamente que “a atração fun-

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damental da história das mentalidades é seu caráter vago”– levaria a uma produção historiográfica das mais diversificadas – mitos, corpo, sentimentos, mas também política e religião. Os resultados da nova história, de fato, penderam mais para uma pluralização dos tempos e dos objetos nas décadas de 60 a 80, do que para a construção da “história total”. Se os Annales negligenciaram a história política cara aos positivistas, percebe-se nos últimos anos a retomada do político; não mais como o era no século XIX, mas num sentido mais amplo, também simbólico e antropológico, como nos trabalhos de Maurice Agulhon, Pierre Nora, René Rémond, e também Le Goff e Duby. Outra tendência das últimas décadas tem sido a do estudo do presente ou do passado recentíssimo, através da incorporação da memória à história e da transformação da memória em objeto histórico. Não mais necessitando estar morto para existir historicamente, o passado se amplia na oralidade e não somente em seus vestígios materiais tradicionais. Por outro lado, as questões relativas aos limites do conhecimento histórico, seu caráter, a questão dos anacronismos conceituais, das relações entre história e discurso, da indissolubilidade dos laços entre história e historiador (como advoga Henri Marrou, no seu Do conhecimento histórico, 1959), entre outras, continuam polêmicas nas últimas décadas. Em 1971, Paul Veyne, historiador da antigüidade, em Como se escreve a história, refuta as pretensões da história de se tornar ciência, mesmo com uma metodologia positivista, marxista ou estruturalista, e considera que desde Heródoto e Tucídides não teria feito qualquer progresso. Para Veyne a história trata de acontecimentos humanos que, como num romance, seriam simplificados e organizados; o conhecimento histórico teria como base o particular e não um estabelecimento de leis como na física ou na economia. Seu interesse está na narrativa, que tem por base o verdadeiro, o que aconteceu – daí sua vantagem so-

Para Veyne. portanto não pode se dizer objetivo. mas de forma mutilada e lacunária.O HISTORIADOR CONTEMPORÂNEO 111 bre o romance –. o saber histórico. os “métodos históricos” seriam práticas de iniciados dentro de um grupo e de submissão a uma hierarquia e ao reconhecimento. A história não seria uma ressurreição do vivido. o historiador deve se ater a seres e acontecimentos únicos e. que deveria ser efetuada através de técnicas como a análise estrutural dos textos. Para Certeau. não das leis. mas uma operação complexa. psicanálise e semiótica. Certeau nega a pretensão do historiador em enunciar o real. forjar conceitos adequados aos fatos interpretados.” Com este texto a história do historiador se fecha. Distanciado dos conceitos universais – “falsos porque fluidos” –. é ideológico. Michel de Certeau considera a história como um conhecimento a serviço do presente. às leis do inconsciente e do meio social a que pertence o historiador. isto faz com que a história esteja “estritamente configurada pelo sistema onde é elaborada. quando mais não fosse por seus silêncios que ocultam relações de poder. Podemos perceber que tanto a inserção da história como a do historiador no plano da educação e no plano social não são recentes. o método do historiador deve depender de uma sabedoria. portanto. de uma experiência. de um período. aos documentos caberia fazer e responder as perguntas. Com uma formação pluridisciplinar em filosofia. discute a natureza da história – uma divisão entre presente e passado própria ao ocidente e às suas relações com a morte – em A escrita da história (1975). e. Ao contrário do desengajamento e do ceticismo de Veyne. De . derivada do conhecimento dos textos e da captação das regularidades. na medida em que todos os discursos acabam por se referir a uma retaguarda oculta. A consciência dos condicionamentos da história seria uma exigência de sua cientificidade. para cada época. o historiador não vive fora do mundo. ao silêncio. está inserido no quadro das instituições. história. mas tem uma função social.

perdido no mundo da erudição. monges reclusos.Grícoli. . da sociedade. o especialista. Zilda Zilda Maria M. escritores em dificuldades financeiras.112 QUEIROZ. propagandistas políticos. Grícoli uma atividade marginal. erudita. O historiador deixa de ser um diletante. assume no século XIX seus contornos atuais. E faz a história do presente. QUEIROZ. aposentados. prazeirosa. Pereira de & de IOKOI. & IOKOI. dentro de um sistema educacional. para ser o professor. própria a velhos. Tereza Tereza Aline Pereira A.

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HUMANITAS PUBLICAÇÕES FFLCH/USP e-mail: editflch@edu.usp. Diagramação e Capa Revisão Montagem Divulgação Mancha Formato Tipologia Papel M. Helena G.5 x 19 cm 16 x 22 cm Bookman Old Style 11/15 BernharMod 14 miolo: off-set branco 75 g/m2 capa: cartão branco 180g/m2 Impressão da capa Impressão e Acabamento Número de páginas Tiragem Gráfica – FFLCH/USP 116 500 A HISTÓRIA DO HISTORIADOR (TEXTOS DE APOIO N. Rodrigues autoras e Simone Zaccarias Charles de Oliveira/Marcelo Domingues Humanitas Livraria – FFLCH/USP 11.br Título Coordenação editorial. 2) .

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