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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriarñ)
APRESENTAQÁO
DA EDIpÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanza a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristao a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.

A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaca


depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
ANO XXXV

ABRIL

1994

v> SUMARIO
<

5
(0 "...É o Senhor!"
IU

Milagre é possível?

UJ
Curas Milagrosas
O

" A Inquisigao em seu mundo "

I
UJ Enigmas e misterios: os Anjos
CQ

8
0-
A Televisao e suas influencias
PERGUNTE E RESPONDEREMOS ABRIL 1994
Publicacao mensal N9 383

Diretor-Responsável SUMARIO
Estévao Bettencourt QSB
Autor e Redator de toda a materia "... É o Senhor!". 145
publicada neste periódico
Sim ou nao?
Milagreé possível? 146
Diretor-Administrador:
.....

D. Hildebrando P. Martins OSB Em Lourdes:


Curas Milagrosas 155
Administrado e distribuicáo:
A DeScoberta de um Mundo:
Edtgoes "Lumen Christi »A inquino em seu Mundo", por
Rúa Dom Gerardo, 40 - 5? andar - sala 501 jOao Bernardino Gonzaga 158
Tel.: (021) 291-7122
Fax (021) 263-5679 Sensacionalismo:
Enigmas e Misterios: os Arijos 168

Enderezo para correspondencia: Urna Escola... de qué?


Ed. "Lumen Christi" A Televisao e suas influencias 176
Caixa Postal 2666
Cep 20001-970 - Rio de Janeiro - RJ

Impressaoe Encadernafao

"MARQUES SA fíA I VA "


GRÁFICOS E EDITORES S.A.
Tels.: (021) 273-9498/273-9447

NO PRÓXIMO NÚMERO ,

"Compreendendo a Nova Era" (Russell Chandler). — Horóscopo diminuí Duracao


da Vida. - "0 Biscoito da Morte". - "Tudo Inventado" (VEJA). - A Igreja con-
tra'ria á Saúde dos Brasileiros? — Acordó Fundamental entre a Santa Sé e o Estado
de Israel.

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

ASSINATURA ANUAL PARA 1994


(12 números) CR$ 8.500,00 - n? avulso ou atrasado CR$ 850,00

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1. Enviar EM CARTA cheque nominal ao Mosteiro de Sao Bento do Rio de Janeiro, cruza
do, anotando no verso: "VÁLIDO SOMENTE PARA DEPÓSITO na conta do favoreci
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to do Rio de Janeiro, enviando a seguir xerox da guia de depósito para nosso controle.
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Sendo renovacáo, anotar no VP nome e endereco em que está recebendo a Revista.
ÉOSENHOR!

O tempo de Páscoa continua a celebrar a vitória de Cristo sobre a


morte. Esta vitória é expressa com especial destaque em Fl 2,6-11: Jesús se
faz obediente até a morte; por isto, Deus Pai O exaltou sobremaneira e Ihe
deu o nome Kyrios (Senhor), que é proclamado por todas as criaturas.

Tal nome é denso de significado. Notemos, antes do mais, que vem


outorgado áquele que foi crucificado e morto, ou seja, á humanidade de
Jesús. Oeus Pai quis ressuscitá-la e fazé-la participante da realeza própria de
Deus. Com efeito, Kyrios, na verslo grega do Antigo Testamento (LXX)
traduz o nome lahweh (Javé) revelado por Deus a Moisés. O texto de Fl
2,6-11 parece fazer alusao a isto, pois retoma palavras que se encoritram em
Is 45,23s: "Diante de mim se dobrará todo joelho e toda I rngua jurará por
mim"; a honra que toca a Javé, tocará também a Jesús ressuscitado. A
soberanía de Cristo é realcada igualmente no Apocalipse: o Cordeiro que foi
imolado e traz as marcas do seu suplicio, esta' de pé, vencedor da morte, e
recebe o livro que contém toda a historia da humanidade; Ele é o Senhor
(Kyrios) dos tempos; tudo o que acontece, é por Ele regido; Ele é capaz de
fazer da cruz e da morte dos homens a passagem para a vida plena (cf. Ap
5,6-14).

A soberanía de Cristo é um tema que perpassa todo o Novo Testa


mento; está sempre associada á morte e á ressurreicao de Jesús, como termo
final do processo de obediencia de Jesús. Assim, por exemplo, diz Sao
Pedro: "Reconheca, com certeza, toda a casa de Israel: Deus o constítuiu
Senhor e Messias, esse Jesús que vos crucificastes" (At 2,36).

Além de ser o equivalente grego do hebraico lahweh, o apelativo


Kyrios era usado na linguagem profana para designar o Imperador Roma
no. Há vestigio disto no próprio livro dos Atos dos Apostólos, onde o
procurador' Festo afirma: "Nada tenho de concreto sobre Paulo para
escrever ao Soberano (Kyrios)" (At 25,26); o titulo punha em relevo
o poder absoluto do Imperador e as honras divinas que se Ihe prestavam.

Estas poucas consideracSes permitem formular duas conclusSes


importantes: 1) o Jesús glorioso professado pela fé (o chamado "Jesús da
fé") é o próprio Jesús aniquilado no patíbulo da Cruz (é o chamado "Jesús
da historia"), sem influencia de alguma corrente de pensamento heterogé
neo; a Cruz desemboca na gloria; 2) os cristaos compreenderam isto desde
os primeiros anos, pois o texto de Fl 2,6-11 é um hiño da Liturgia da Igreja
nascente transcrito por Safo Paulo.
\
Caro leitor, o misterio de Jesús é o misterio de todo cristífo. Tal é o
ensinamento básico da fé que tu professas!

E.B.

145
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
ANO XXXV - N? 383 - Abril de 1994

Sim ou NSo?

MILAGREÉ POSSIVEL?

Em sfrítese: A possibilidade do mi/agre é contestada ho/e em día em


nome de correntes da ciencia, da filosofía e até da Teología; alegam que
nao conhecemos suficientemente as torcas e as Ieis da natureza para poder
dizer que determinado fenómeno supera as Ieis da natureza e só se explica
pela intervencao de Deus.

Respondemos que o milagre nSo consiste essencialmente em ser por


tento absolutamente inexplicável pela ciencia; mas, antes do mais, o mila
gre é um sinal de Deus para os homens, que Lhe pedem urna expressao de
seu amor ou sua bondade. Para que ha/a tal sinal, basta que o fato se/a to
talmente inexplicável pela ciencia contemporánea ao fenómeno e que se
tenha produzido em contexto digno de Deus ou como resposta de Deus a
prece humilde e confiante dos homens. Fora desse contexto religioso nao
se pode falar de milagre; haverá entao um fenómeno paranormal ou coisa
semelhante.

O cristSo nao eré necessariamenté por causa de mi/agres, mas, sim,


por urna atracao íntima de Deus sobre o coráceo da criatura (cf. Jo 6,44);
essa atracao náb tira a liberdade do homem. Por isto, a fim de que creía
inteligentemente e nao.de maneira cega, o crístSb é apoiado por creden-
ciais das verdades da fé; entre essas credenciais está certamente o milagre...
mi/agre que há de ser criteriosamente examinado e penetrado por peritos,
a fim de que nao se identifique um fenómeno parapsicológico ou mera
mente natural com urna intervencSó significativa de Deus.

* * *

Em nossos dias verifica-se um certo ceticismo em relajo aos mila-


gres. As razSes disso parecem ser duas: 1) a ciencia, progredindo, tem mos-

146
MILAGREÉ POSSIVEL?

trado que muitos fatos, outrora ¡nexplicáveis, hoje sao plenamene compre-
ensfveis aos estudiosos (principalmente a psicología e a parapsicología tém
contribuido para isso); 2) houve, e ainda há, no ser humano um gosto,
consciente ou nao consciente, pelo maravilhoso, de modo que fácilmente
se inventaram estórias portentosas e se admitem intervencSes extraordi
narias do além no curso ordinario da historia. Daí as serias reservas que
muitos fazem no tocante aos milagres. Assim, por exemplo, um "biógra
fo" de Jesús,chamado M. Cravieri, escreveu: "Nao vem ao caso nem mesmo
discutir a credibilidade dos milagres" (Un uomo chiamato Gesú.Teti, Mi-
lao 1993, p. 45). De antemáo, os milagres sao descartados como algo de
lendário.

Ora, o Evangelho narra milagres de Jesús. E até hojea Igreja, seguin


do urna tradicao ¡ninterrupta, admite a possibil idade de milagres, a tal
ponto que, para proceder á Beatificacao e á Canonizacao de urna pessoa
santa, a Igreja espera que Deus realize algum milagre por intercessao desse
seu Servo ou dessa sua Serva (como se compreende, trata-se de milagres
rigorosamente examinados por cientistas e teólogos).

Diante desta problemática, consideraremos a questSo básica: pode


haver milagres? As historias maravilhosas que se narram, contém algo mais
do que lendas fantasiosas? Comecaremos expondo

1. O HISTÓRICO DA QUESTÁO
Até o sáculo XVI pode-se dizer que era tranquila a aceitacSb de mi
lagres como intervencoes extraordinarias de Deus no curso da natureza. A
partir do sáculo XVI, porém, o racionalismo vem afirmando que o milagre
é ¡mpossível e absurdo, pois seria contrario as leis da natureza, que o pró-
prio Deus estabeleceu e que Ele na"o pode violar sem contradizer á sua Sa-
bedoria.

Assim, Baruch Spinoza (t1677), judeu de mentalidade pantefsta, di-


zia que as leis da natureza sao decretos de Deus, emanados da necessidade
e da perfeicao da natureza divina. Qualquer violacao dessas leis seria viola-
cao da natureza do próprio Deus — o que é absurdo (cf. Tractatus theolo-
gico-politicus c. VI: De Miraculis). O que chamamos milagre, seria apenas
algo que ultrapassa os nossos conhecimentos ou algo que julgamos ultra-
passá-los. é a nossa ignorancia que nos leva a falar de milagre.

Também Pierre Bayle (t1706), um dos mestres do racionalismo mo


derno, dizia que nada é mais digno da grandeza de Deus do que manter as
leis que Ele instituiu, e nada é mais indigno do que crer que Ele intervém
para derrogar a essas leis.

No sáculo XVIII, semelhantes idéias foram propostas por David


Hume (t1776) e Francois Voltaire (t1778). Este afirma que o milagre é

147
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 383/1994

uma derroga'cao das leis matemáticas divinas, i mutaveis, eternas; por ¡sso,
o próprio conceito de milagre seria contraditório (Dictionnaire Philoso-
phique, vol. 6, verbete Miracles); por ¡sso, crer em milagres seria dar prova
de imbecilidade: "Imaginar que Deus faca milagres em favor dos homens
— formigas e' lama — é insultara Deus. Donde crer em milagres é absurdo;
equivale, de certo modo, a desonrar a Deus".

No século XIX, a recusa de milagres tentava apoiar-se na ciencia. Esta


ensinava que o universo é um sistema fechado em si, ao qual nada de fora
pode sobrevir. Por isso, tudo o que acontece no universo deve ter uma ex-
pl¡cacao natural. Se esta na*o éperceptfvel,confessemos que nao conhece-
mos as infinitas possibilidades da natureza. 0 que hoje nao é explicável, se
rá elucidado no futuro. Ademáis, o universo é regido pelo determinismo:
"As condicoes necessárias para que se realize algum fenómeno sá*o precisas
e intocáveis. Negar este princfpio equivale a negar a própria ciencia" (Clau-
de Bernard).

Dai' dizer Ernest Renán: "Os milagres sao coisas que nunca aconte-
cem. Somente os crédulos simplórios os véem; nao se pode citar um único
milagre realizado diante de testemunhas que o pudessem averiguar... Por
isto, quem admite o sobrenatural, está fora do ámbito da ciencia" (Vie de
Jesús, París, Lévy 1863).

No século XIX, ainda G. Séailles, apelando para o determinismo cien


tífico, afirmava que "por seus principios e suas conclusSes, a ciencia eli
mina o milagre" (Les affirmations de la Science Moderne, París 1909, p.
32).

Alias, os próprios estudiosos da Biblia protestante, impregnados de


racionalismo, puseram-se a negar os milagres. O mais famoso nesta linha
foi Rudolf Bultmann (t 1976): tinha os milagres na conta de mitos ou de
expressoes da mentalidade simplória e infantil dos antigos; seriam relatos
totalmente incompreensfveis ao homem moderno: "Nao se pode utilizar
luz elétrica e os aparelhos de radio e, ao mesmo tempo, crer no mundo
dos espfritos e nos milagres do Novo Testamento. Quem julga que o pode,
torna a mensagem crista* incompreensfvel e ¡mpossível para o nosso tem
po" (L'interprétation du Nouveau Testament, Paris 1955, p. 143). — O
milagre seria, pois, anticientífico e ¡nconcebfvel. Se a S. Escritura os des-
creve, quer ela únicamente dízer-nos que Deus se revela ao homem. "Deus
se revela dando perdá*o aos pecadores" (Zur Frage des Wunders.em Glau-
ben und Verstehen, vol. I, Tübingen 1933, p. 221).

Enquanto a filosofía racionalista procurava remover (o conceito de


milagre, os pesquisadores da historia das Religioes, a seu modo, contri-
buiram para esvaziar também eles a nocao de milagre.

148
MILAGREÉ POSSI'VEL?

2. AS RELIGIÓES COMPARADAS

Os pesquisadores tém posto em relevo os relatos de curas maravilho-


sas obtidas nos santuarios pagaos da antiguidade e querem assemeihar as
narracoes do Evangelho a tais relatos.

Assim, nos santuarios gregos de Asciépio e Epidauro, quatro lapi


des do sáculo IV a.C, referem oitenta portentos (geralmente curas), reali
zados durante a noite enquanto os devotos dormiam no santuario da Di-
vindade: sonhavam com o deus Asciépio, que intervinha efetuando urna
operacao cirúrgica; depois de acordar, recebiam do deus-médico "urna re-
comendacao a seguir para manter a saúde. — Entre os muitos casos de
"cura", narra-se o de Aristágora: sofría de vermes nos intestinos; foi entSo
passar a noite num templo de Asciépio e sonhou: Asciépio estava ausente,
pois fora a Epidauro; mas os seus filhos, querendo curá-la,cortaram-lhea
cabeca; nao conseguindo repor a cabeca da paciente no seu lugar, enviararn
urna mensagem a Asciépio, pedindo-lhe que voltasse. Entrementes, fez-se
dia, e o sacerdote de plantío viu a cabeca longe do busto de Aristágora. Na
noite seguinte, porém, a paciente teve urna vislo: parecia-lhe que Asciépio,
tendo voltado de Epidauro, Ihe recolocava a cabeca no lugar; depois disso,
abriu o ventre.de Arista'gora e extraiu-lhe os vermes; costurou-lhe, a seguir,
a barriga. Em conseqüéncia, Aristágora ficou curada (cf. E. de Places, La
Religión Grecque, París 1969, p. 237).

A simploriedade desta e de outras narrativas de milagres atribuidos


aos deuses pagSos, é aduzida pelos historiadores para desacreditar os mi
lagres de Jesús Cristo.

Também se apontam os portentos atribuidos a filósofos taumaturgos


da antiguidade, entre os quais Apolónio de Tiana, do século I d.C. A sua
biografía foi redigida por Filostrato, em 271 aproximadamente; o biógrafo
refere cerca de vinte mi la res de Apolónio: ressurreicáb de um morto, cura
de um homem vi'tima de obsessáo; cessacáTo de peste em Éfeso, sendo que
Apolónio revelou o demonio que causava a molestia e o mandou apedre-
jar; o corpo do maligno ter-se-á elevado dois cóvados ácima do solo;. Apo
lónio transferiu-se ¡nstantamente de Esmirna para Éfeso, encontrando o
mar muito calmo, apesar da estaca"o turbulenta; o taumaturgo denunciou
urna especie de vampiro feminino chamado Empusa e acalmou um sátiro
(outra especie de mau espirito) apaixonado; conseguiu romperá corrente
que prendía urna de suas pernas no cárcere e fez que as portas de um tem
plo se qbrissem para deíxá-lo passar. — Ora, M. Craveri julga que tais mila
gres de Apolónio de Tiana se assemelham extraordinariamente aos de Je
sús (cf. Un uomo chiamato Gesú, p. 46); tal conclusSb é evidentemente
foreada, visto que os milagres de Jesús no Evangelho safo narrados com so-
briedade, evitando-se expressSes e cenas fantasiosas.

149
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 383/1994

3. CATÓLICOS OBJETAM CONTRA OS MILAGRES

Nao somente os racionalistas, mas também estudiosos católicos fa-


zem reservas aos milagres e, se na"o os negam frontalmente, preferem igno-
rá-los. Apóiam-se principalmente nos resultados da ciencia contemporá
nea. Precisamente a ciencia em nossos dias reconhece que Ihe escapam as
leis da natureza; estas estao sempre sujeitas a revisSo e reformulacao; co
mo entao se pode dizer que acontecem fatos ná*o conformes ás leis da na
tureza ou milagrosos? A ciencia tem por tendencia fundamental procurar
a explicacao natural dos fatos extraordinarios, tornando ordinario o ex
traordinario. Por conseguinte, a ciencia nao reconhece o milagre como su-
peracao das leis da natureza (tao obscuramente conhecidas pelos pesqui-
sadores).

Também em nome da fé, há católicos que recusam os milagres, tidos


como intervencoes no curso natural das coisas. Perguntam:se Deusage ar
bitrariamente usando o seu poder, que é feito da liberdade e da responsa-
bilidade do homem? E, se Deus assim procede por bondade, por que nao
o faz sempre? O maravilhoso é sempre urna excecáb... e urna excecao de-
corrente dos caprichos de Deus; tira ao homem o dominio do mundo, que
os dentistas procuram adquirir mediante o seu estudo. A auténtica acao
divina no mundo deveria confirmar e aperfeicoar a natureza, nunca a sus
pender.

Em suma, dizem: caso se possa constatar algum fato portentoso, há


de ser considerado manifestacao de torgas naturais aínda nao conhecidas
e dominadas pelo homem. O número de milagres tem diminuido com o
progresso das ciencias e tende a extinguir-se.

4. A RESPOSTA DA TEOLOGÍA CATÓLICA

D istinguiremos tres pontos:

4.1. O milagre-sinal

A Teología Católica reconhece que ná*o penetramos a fundo a nature


za e suas leis para poder dizer que tal ou tal fato viola peremptoriamente
as leis da natureza. Todavía, é de notar que o essencial do milagre nao é su
perar as leis da natureza; nao é oferecer um show da Onipoténcia Divina,
embora este aspecto seja o que mais ocorre ao público quando se fala de
milagre. 0 essencial do milagre é, antes, ser um sinal..., um sinal eloqüen-
te de Deus aos homens.

150
MILAGREÉ POSSI'VEL?

Para tanto, basta que o fato tido como portentoso seja inexplicável
aos homens no momento em que ocorre (a questao de saber se, decenios
mais tarde, será explica'vel nSo vem ao caso). É necessário, porérn, que o
fato portentoso ocorra em contexto religioso, como resposta de Deus a
urna prece humilde e fervorosa; o milagre assim entendido é um acontecí-
mentó que Oeus utiliza para evidenciar aos homens a sua presenca e a sua
acao providencial.

Assim, pode-se dizer que no milagre Deus náfo intervém necessaria-


mente para derrogar ás leis da natureza (embora Ele o possa, já que Ele é
o Senhor da natureza, infinitamente sabio, santo e poderoso), mas para
fazé-la servir a um designio de Deus salvi'fico mais ampio e profundo ou
para fazer da natureza um instrumento de efusSb mais densa da sua graca.
A fé crista ensina que no fim dos tempos o Reino de Deus consumado im
plicará a remocáo de toda ¡mperfeicáb física ou moral existente ñas cria
turas. Pois bem: o milagre há de ser considerado nesta perspectiva; é urna
antee¡pacao da ordem final ou da restaurado plena da natureza ferida
pelo pecado (o milagre geralmente é urna cura, é a solucao espléndida de
um.problema, é o término imprevisto de urna af líelo. > .) Desta maneira
— repita-se — o milagre é sempre um sinal, um sinal religioso que prefigura
a plenitude do Reino de Deus iniciado por Cristo aqui na Térra.

Tal é a razá"o pela qual o auténtico milagre só pode ocorrer em con


texto religioso. Caso este venha a faltar, tem-se um fato anormal, talvez
explica vel pela parapsicología. Observemos: tal contexto religioso deveser
digno de Deus, ou seja, isento de charlatanismo, vaidade, imoralidade, ilu-
sionismo. . . Nunca será considerado milagre um fato que dé lucro finan-
ceiro ao taumaturgo ou sirva para alimentar o orguiho do mesmo ou satis-
fazer á sensual idade; também ná"o é milagre o que ocorre para satisfazer
á curiosidade dos espectadores, pois Jesús recusou agir em resposta aos
fariseus mal intencionados que queriam um sinal do céu (cf. Mt 16,1-4).

4.2. A falsa concepeáb de Renán

Na base das afirmacSes até aqui apresentadas, verifica-se quao des


propositadas sa*o as páginas de Renán, na sua Vie de Jésus (1863, pp.
L-LIII), em que formula as condicoes para que haja milagre. Diz o se
guí nte:

"Menhum milagre jamáis ocorreu perante um grupo de homens capa-


zes de averiguar a índole milagrosa do fato. . . Por conseguíate, nao é em
nome desta ou daquela filosofía, mas em nome de urna constante experi
encia, que nos banimos da historia o milagre. Nos nao dizemos: 'O milagre
é impossível', mas dizemos: 'O milagre é algo jamáis averiguado até hoje'."

151
"PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 383/1994

Para que se possa falar de milagre, Renán pSe as seguintes condicQes:

"Se amanha aparecesse um taumaturgo com credenciais serias e de-


c/arasse que ele poderia ressuscitar um mono, que se deveria fazer? No-
mear-se-ia urna comissáb de fisiólogos, físicos, químicos, e pessoas peritas
em crítica histórica. Essa comissáb escolhería um cadáver; averiguaria estar
realmente morto; designaría a sala em que se deveria fazer a experiencia,
determinaría o conjunto de precaucoes a tomar para nao deixar lugar a
dúvida alguma. Se em tais condicoes ocorresse a ressurreicáb, ter-se-ia urna
probabilidade quase equivalente a certeza. Todavía, já que toda experien
cia deve poder repetirse e visto que, em se tratando de milagre, nao exis-
tem as categorías de fácil ou difícil, o taumaturgo deveria ser convidado a
repetir o seu gesto maravilhoso. Se, em todas as tentativas de repeticao, o
milagre ocorresse, estariam comprovadas duas coisas: JJ no mundo aconte-
cem fatos sobrenaturais; 2) o poder de os produzir é conferido a certas
pessoas. Mas quem ná~o vé que /amáis um milagre aconteceu em tais con
dicoes?"

Em resposta, podemos dizer que realmente um milagre nunca aconte


ceu nem acontecerá em tais circunstancias, porque Ihe faltaría a condicá*o
essencial do milagre, isto é, o contexto religioso de oracSo, humildade e
confianca na Misericordia de Deus. Se Deus realizasse um milagre ñas cir
cunstancias enunciadas por Renán, faria um ato de prestid ¡gitacao, um
show, e ná"o urna obra religiosa ou um sinal-resposta como é o milagre;
prestar-se-ia a satisfazer á curiosidade e ao orgulho dos homens que preten-
dessem impor a Deus as circunstancias dentro das quais Ele deveria agir
para merecer a fé das suas criaturas. ,

4.3. Urna dúvida

As explicares dadas deixam margem á seguinte interrogacáo: o mila


gre é tido como um sinal de Deus... Mas como saber que é efeito da Sabe-
doria Divina, quando poderia muito bem ser tido como produto das leis da
natureza que aínda desconhecemos?

Respondemos: se o milagre ná*o fosse devido a urna intervencao espe


cial de Deus, mas, sim, as torcas da natureza desconhecidas, essas torcas de-
veriam agir em qualquer contexto, quer religioso, quer profano. Ora, os
milagres ocorrem em contexto religioso, e na*o em contexto profano. E
note-se bem: os milagres ná"o sá*o fatos esporádicos e raros; sSo fatos nume
rosos, bem peneirados e diagnosticados por peritos (veja-se o artigo seguin
te deste mesmo fascículo). Se se tratasse de casos ¡solados e raros, poder-
se-ia admitir coincidencia entre o tato portentoso e o contexto religioso.
Assim, no tocante a Lourdes registram-se numerosos tatos' inexplicáveis
pela ciencia... Será admissfvel que somente em Lourdes ou em lugar onde

152
MILAGRE É POSSlVEL? 9

se implora humildemente urna cura ou um sinal de Deus, as forcas desco-


nhecidas da natureza produzem seus efeitos portentosos? Se sao simples-
mente as leis da natureza que se exercem quando falamos de milagres, por
que so se exercem em circunstancias religiosas? — Alias, é falso dizer que
hoje em dia ocorrem menos milagres do que outrora; o que acontece é que
outrora mais fácilmente se acreditava ser milagre o que era um simples fe
nómeno parapsicológico ou fisiológico ou físico.

Ademáis, é de notar que, para se poder falar de milagre, é necessário


que o fenómeno portentoso seja instantáneo e cabal; nao ocorra paulati
na e progressivamente, como acontece ñas curas obtidas por aca"o da pró-
pria natureza. A sugestao pode curar estados de ánimo perturbado ou mo
lestias psicogénicas; a cura geralmente é progressiva em tais casos. Ora, o
milagre sup5e doencas orgánicas, ás vezes em fase terminal ou quase ter
minal. . ., obtendo-se entao a cura instantánea ou extraordinariamente rá
pida.

Além disso, observa-se que em grupos religiosos (ou nao religiosos)


nao católicos ocorrem fortes emocdes, estados de ánimo entusiástico, que
poderiam levar a curas milagrosas. Todavía, verifica-se que somente no
Catolicismo se dao fenómenos portentosos em número relevante, devida-
mente examinados e diagnosticados por peritos ná*o católicos. As forcas
desconhecidas da natureza só teriam o poder de atuar em ambiente cató
lico? A resposta a esta pergunta é negativa; se somente as forcas da natu
reza entrassem em jogo, quando se fala de milagres, deveria haver milagres
sólidamente comprovados em ambientes religiosos nao católicos e em am
bientes profanos. Ora, tal n§o se verifica — o que quer dizer que, quando
se fala de milagre no Catolicismo, se sup5e urna ¡nten/encSo de Deus espe
cial que move as forcas da natureza para agirem de modo extraordinario
aos olhos de quem acompanha o fenómeno.

Resta agora considerar outra objecSo que alguns católicos fazem con
tra o valor do milagre.

5. CRER POR CAUSA DOS MILAGRES


OU APESAR DO MILAGRES?

Há católicos que se sentem embancados pela apresentacao de mila


gres e afirmam crer ná"o por causa dos milagres, mas a pesar dos milagres.

A propósito, deve-se afirmar que o cristSo nSo eré em Cristo e na


Igreja por causa dos milagres. NSo há razSes humanas cuja evidencia obri-
gue o homem a crer; a fé será sempre urna adesa*o á Palavra de Deus no
claro-escuro ou na penumbra, é a resposta a Deus que chama a atencao e

1S3
10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 383/1994

atrai, mas deixa a liberdade ao homem para que diga Sim ou Nao ao Se-
nhor.

Deve-se, porém, dizer que, se a fé é um ato da inteligencia humana


que responde á Verdade de Deus, ela na*o é um ato cegó, mas um ato ba-
seado sobre credenciais. Por isso, á a traca o interior de Deus que chama, se
associam motivos extrínsecos ou criterios racionáis que evidenciam a cre-
dibilidade> da Palavra de Deus; entre esses criterios extrínsecos e racio
náis estao os milagres. Estes sa*o fatos experimentáis, que a inteligencia hu
mana examina com todo o seu acume; quando ela verifica que sao sinais
de Deus inexplicáveis pelas torcas da natureza, a inteligencia humana os
assume como credenciais das verdades da fé. Diz o Concilio do Vaticano I:

"A fim de que o obsequio da nossa fé se/a consentáneo com a nossa


razao, quis Deus que, com os subsidios interiores ministrados pelo Espiri
to Santo, fossem dadas provas exteriores da RevelacSb, isto é, fatos divi
nos, em primeiro lugar os mi/agres e as profecías, que sao certíssimos sinais
da revelacSo divina" (ConstituicSo Dei Filius, de 24/04/1870).

Por conseguinte, o cristao ná*o eré por causa dos milagres, mas éaju-
dado por estes, visto que os milagres tornam razoável o ato de fé e assim
também o tornam mais fácil.

Como sinal de Deus, o milagre é urna ajuda ao ato de fé..., ajuda em


duplo sentido: 1) para o homem indiferente e distante de Deus, pode ser
urna "sacudidela", um empurrao que o leve a colocar o problema de Deus,
da reí ¡g ¡3o e da fé, pois I he abre perspectivas que fogem á rotina dos acón-
tecimentos; 2) para a pessoa que já eré, o milagre pode seoum apoio em
suas dúvidas e tentacoes. Particularmente em nossos dias, quando a fé é
atacada de varios modos e o cristao ressente os embates respectivos, o mi
lagre é um sinal de que Deus está presente á historia dos homens; o milagre
é urna entrada de Deus no cotidiano dos homens, que Ihes chama a aten-
cao e aviva a conviccao de que o amor de Deus ná"o esquece os homens
mesmo nos momentos de mais intenso silencio.

Este artigo muito deveao Editora/deLa Civilitá Cattolica, n? 3.443,


4/12/1993, pp. 425-438.
* * *

A Escola.'IMater Ecdesiae" oferece também 15 opúsculos de fácil leitura: Por


que nao sou protestante?. Por que nao sou espirita?. Por que nao sou macom?. Por que
nao sou Rosa-Cruz?, Por que nao sou Testemunha de Jeová?, Por que nSo sou Johrei?,
Por que na*o sou Seicho-No-lé?, Por que sou Católico? Caixa Postal 1362,20001-007,
Rio(RJ).

1 Credibilidade quer dizer que a adesSb do homem ás verdades da fé pode ocorrer sem
derrogar á dignidade da razSo humana.

154
Em Lourdes:

CURAS MILAGROSAS

Em síntese: Vai abaixo reproducida urna entrevista concedida pela


Dra. Suzanne Cano-Scheidegger ao periódico Le Point sobre curas milagro
sas. As suas consideracoes, provenientes de alguém que estuda os fatos nu-
ma perspectiva científica, sem levar em conta os dados da fé, tém signifi
cado particular. Evidenciam que, para a ciencia mesma, há fatos inexplicá-
veis, que nem a medicina nem a psicología e a parapsicología elucidam. A
ciencia nao fala explícitamente de Deus e de intervencoes extraordinarias
de Deus, mas deixa o espaco aberto para que urna instancia ulterior, a da fé,
coloque af urna explicacao que, embora transcenda os.limites da ciencia,
nao contradiz a esta.
* * *

0 santuario de Lourdes é um dos maiores centros em que se manifes-


tam a fé dos católicos (e também de ná*o católicos) e a resposta de Deus
mediante curas milagrosas. A Igreja nao é propensa a admitir milagres com
facilidade ou precipitadamente. Por isso manda examinar atentamente os
casos tidos como portentosos: de 6.000 casos de pessoas que se considera-
ram ou consideram milagrosamente curadas em Lourdes, apenas 65 foram
reconhecidos como auténticas curas milagrosas. Ora, precisamente para
apurar melhor o que seja um milagre aos olhos da ciencia, a Ora. Suzanne
Cano-Scheidegger elaborou sua tese sobre a temática, muitas vezes evitada
por seus colegas; o título do seu trabalho é "Considerado científica das
curas milagrosas"- (Approche scientifique des guérisons miraculeuses).

. Sobre esta obra, a autora foi entrevistada pela revista Le Point» ;


donde resultaram os seguintes depoimentos:

Suzanne: "O que perturbou, a principio, foi urna pesquisa da So-


fres que indicava que 60% dos franceses julgam desejável recorrer a outros
meios qu^nSo os da medicina convencional. Creio que muita gente con
funde a medicina paralela e o milagre da cura tal como é descrito na Bi
blia. Procurei dar explicado racional ás curas milagrosas".

/ Cf. Le Point, 16/10/1993. p. 51.

155
12 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 383/1994

Le Point: "Como a Sra. procedeu?"

Suz.: "Colecionei as referencias científicas, médicas e teológicas.


Creio que Jean-Jacques Rousseau chama isso 'urna I oja de idéias verdadei-
ras e erróneas, mas claras'. E tomei a resolucSb de me ater ao que verificas-
se empíricamente, sem concluir de maneira preconcebida".

L. P.: "Existe rivalidade entre religiá*o e medicina em materia de saú-


de e de curas?"

Suz.: "NSo. Mas as definieses sá*o diferentes. Assim, na Biblia a doen-


ca é definida como desarmonia entre o espirito, a alma e o corpo1. E a
cura como o retorno á harmonía entre estas tres dímensSes".

L.P.: "Como a medicina explica as curas que a Igreja reconhece como


milagrosas?"

Suz.: "A medicina n3o fornece expl¡capóes, mas formula hipóteses.


Primeiramente, no que concerne ao cáncer, os casos de cura espontánea
sao publicados regularmente pela imprensa médica. Dá-se o nome de 'cura
espontánea' ao desaparecimento de um tumor ou de suas metásteses sem
que tenha havido qualquer terapia ou tratamento. Enquanto sei, contamos
367 casos de cura espontánea no mundo, ou seja, urna para 60.000 a
100.000 episodios de cáncer. As hipóteses se baseiam na genética mole
cular e nos mecanismos imunológicos. A tese psicossomática, muito pre
sente ñas tradicoes populares, está menos na moda, pois nada permite
seriamente concluir que naja urna influencia do psiquismb sobre a cura.
Restam os misterios do efeito placebo, que ná*o estao explorados por
completo"1.

L.P.: A tese do milagre é menos sofisticada...".

Suz.: "Nenhuma explicacSo científica é satisfatória. Estou feliz por


ter averiguado, com surpresa, ao elaborar minha tese, que certos médicos
descreviam o caso do 64? miraculado: um italiano de 23 anos de idade,
chegou a Lourdes em maio de 1963, atetado por um tumor maligno na ba-

1 A tríade "espirito, alma e corpo"éplatónica. A Filosofía ea Teología crktSs admi-


tem apenas alma e corpo. Sao Paulo nSo pretendía entinar determinada antropología,
pois em suas cartas ó multo oscilante o significado dos termos psyché (alma) e pneu-
ma (espirito); cf 1 Ts 523.
2 O efeito placebo é a melhora obtida pela aplicafio de urna terapia que, como tal, é
nula (in/ecoes de agua, por exemplo). Esse tratamento pode fazer bem ao paciente
por sugestSo, porque Ihe agrada (placed agüito que o médico Ihe aplica.

156
CURAS MILAGROSAS _J3

cia. Jazia sobre a sua maca, sem apetite, e sofría tanto que o seu estado
exigía constante api ¡cacao de calmantes. Desde o seu primeiro banho ñas
aguas de Lourdes, recuperou o apetite e já ná"o precisou de sedativos. Em
1972, quando foi reconhecido pela Igreja como recuperado milagrosamen
te, o seu estado geral era excelente".

L.P.: "Qual é precisamente o trámite para averiguar o milagre?"

Suz.: "0 controle é muito rigoroso e codificado. O Bureau Medical


(Oficio de Controle Médico) de Lourdes, constituido por médicos, exami
na o paciente 'curado' e deve decidir, por maioria de dois tercos, que a
cura é real. A seguir, o caso é entregue á ComissSfo Médica Diocesana e, de-
pois, ao Comité Médico Internacional de Lourdes. Este reúne professores
de medicina de oito a dez países, independentemente das respectivas con-
fissdes religiosas. Após este tríplice exame, toca ao B ispo da diocese do
paciente reconhecer definitivamente a índole milagrosa da cura..."

L.P.: "Pode-se definir o milagre?"

Suz.: "A ciencia se baseia no determinismo; segundo ela, tudo pode


ser explicado pelas leis da natureza. A religiao, porém, define o milagre co
mo um fato sensível produzido por Deus, fora das leis da natureza".1

* * *

Tém significado particularmente importante estas poucas considera-


coes sobre o milagre, provenientes de urna médica que estudou os fatos
numa perspectiva científica, sem levar em conta os dados da fé. Eviden-
ciam que, para a ciencia mesma, há fatos ¡nexpl¡cavéis, que nem a medici
na nem a psicologia e a parapsicología elucidam. A ciencia nao fala explí
citamente de Deus e de intervencoes extraordinarias de Deus, mas deixa
o espago aberto para que urna instancia ulterior, a da fé, coloque afuma
explicacSo que, embora transcenda os limites da ciencia, ná*o contradiz
a esta. A fé supoe a ciencia e leva as conclusSes desta a um termo superior;
a ciencia, por sua vez, limitada como é, ná*o rejeita de antemao as luzes de
fonte superior.

* * *

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/ "Fora das tais da natureza"ou,conforme dito é p. 151 deste fascículo: "levando a


natureza a servir a um designio de Deus salvffico mais ampio emais denso".

157
A Descoberta de um Mundo:

'A INQUISIQAO EM SEU MUNDO'

por Joffo Bernaidinp Gonzaga

Em síntese: O Prof. JoSo Bernardina Gonzaga expoe aos leitpres


tragos típicos do mundo medieval e pós-medieval, em que funcionou a
Inquisicao. Evidencia, mediante pesquisa do Direito Penal da Idade Media,
que os procedimentos da InquisicSo eram os do Direito Civil da época, de
modo que nao causavam estranheza nem aos sabios nem ao povo simples.
Apesar disso, notase que a Inquisicao, nSo raro, abrandou a jurisprudencia
do seu tempo; soube abrir excecoes em favor dos condenados e os seus
jui'zes tentaram comportarse com honestidade e retidao de intencoes,
certos de que os bens espirituais sao mais valiosos do que os materiais e,
por isso, merecem todo o zelo da parte de quem os professa.

As páginas que se seguem, reproduzem trechos do fivro do Prof. J. B.


Gonzaga, livro de leitura altamente proveitosa, pois pffe em relevo varios
traeos da vida medieval e pós-medieval que sSo desconhecidos do homem
contemporáneo e habilitam a compreender melhor o fenómeno "Inqui
sicSo".

* * *

Foi publicada em sete edicSes sucesivas (ou dezenas de milhares de


exemplares) no ano de 1993 a obra do Prof. Dr. Joao Bernardino Gonza
ga intitulada "A Inquisicao em seu Mundo"1. Trata-se de um estudo que
nSo se contenta com o relato de fatos, mas procura compreendé-los, se
guí ndo urna sabia lei de historiografía: coloquem-se os fatos pretéritos no
seu respectivo contexto.histórico, a f im que o estudioso os possa entender
a partir dos parámetros dos respectivos protagonistas, em vez de os julgar
a partir de premissas estranhas aos antigos. O Prof. Joao Bernardino apli-
cou essa norma ao fenómeno "Inquisicao", executando assim urna tarefa,

/ Editora Saraiva, SSo Paulo, 140x210 mm, 247pp.


0 Dr. Joao Bernardino é Professor Titular de Direito Penal ñas Faculdades de Direito
da Universidade de Sao Paulo e da Pontificia Universidade Católica de SSo Paulo.

158
"A INQUISigAO EM SEU MUNDO" 15

de certo modo,inédita e altamente benemérita, pois esclarece enormemen


te urna fase da historia mal entendida por muitos observadores. Isto nao
quer dizer que o autor inocente, por completo, os homens que promove-
ram a Inquisicao, mas significa que o procedimento que causa estranheza
aos observadores de hoje, ná"o a causava aos respectivos atores.

é de notar que a Inquisicao se desenvolveu em tres fases sucessivas:

1) A Inquisicao Medieval, do sáculo XII ao sáculo XV, vóltada con


tra os ca'taros (que saqueavam fazendas e aldeias por motivos filosófico-
religiosos) e, depois, contra outros tipos de erros religiosos.

2) A Inquisicao Romana, dirigida contra as idéias paganizantes e re


formadoras dos sáculos XVI/XVII.

3) A Inquisicao Espanhola, do sáculo XV ao sáculo XIX, visava aos


judeus e muculmanos da península ibérica, sob a direcao prepotente dos
monarcas espanhóis, que, servindo-se de um instrumento religioso, que-
riam unificara populacao de Espanha e Portugal.

Percorramos as principáis páginas do livro que pSem em foco a men


ta I idade e a vida d; ; pessoas que viveram o fenómeno "InquisicSo" ou vi-
veram na época di. Inquisicao. — Visto que nos ¡nteressamos pelo quadro
geral ou a moldura em que se desenvolverán^ os fatos, os tópicos seguintes
se referirao á vida civil e á jurisprudencia civil dos sáculos passados e nao
diretamenteá Inquisicao.

1. UNIÁO DE IGREJA E ESTADO

Logo na Apresentacao do livro, á p. 15, lé-se:

"A Inquisicao nunca foi um tribunal meramente eclesiástico; sempre


teve a participacSo (e participacüo de vulto crescente) do poder regio, pois
os assuntos religiosos eram, na Antiguidade e na Idade Media, assuntos de
interesse do Estado; a repressSo das heresias (especialmente dos cataros,
que pilhavam e saqueavam as fazendas) era praticada também pelo braco
secular, que muitas vezes abusou da sua autoridade. Quanto mais o tempo
passava, mais o poder regio se ingería no tribunal da Inquisicao, servindo-
se da religiao para fins políticos. Dois casos significativos a tal propósito
foram: Hem 1312 a condenacSo dos Templarios, contra os quais o rei Fi-
lipe IV o Belo da Franca (1285-1314) moveu a Inquisicao, desejoso de
possuir os bens da Ordem dos Templarios, quando condenada e abolida;
2) em 1431 a condenacSo de Joana d'Arc, a jovem guerreira que incomo-
dava a Coroa da Inglaterra pelo seu zelo cristao e patriótico.

159
"PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 383/1994

Alias, quanto mais a historia avaneava, tanto mais absolutistas se


tornavam os reis do Ocidente europeu, de tal modo que nSo podiam tole
rar outra instancia judiciária autónoma (a eclesiástica) ao lado da instancia
judiciária civil; esta deveria mais e mais valer-se dos tribunais eclesiásticos
para implantar os interesses dos monarcas. A prepotencia comecou com
Filipe IV o Belo da Franca e atingiu o seu auge na Espanha e em Portugal
a partir do sáculo XVI; o desejo de unificar a populacho da península ibé
rica, composta de cristaos, judeus e muculmanos, levou os reis daqueles
dois pai'ses a pedir e obter do Papa a instalacSb da Inquisicáb em seus terri
torios; os soberanos acionavam a Inquisicifo segundo os seus propósitos,
mediante homens por eles nomeados, provocando serios conflitos com a
Santa Sé, que mais de urna vez se recusou a reconhecer o procedimento da
Inquisicao na península ibérica; alias, no final da vigencia desta Institui-
cao, já nao se dizia InquisicSb Eclesiástica, mas sim InquisicáTo Regia."

2. A JUSTICA CRIMINAL COMUM

O Capítulo 1 do livro poe em foco os principios que inspiraram a


pesquisa do Prof. Joá*o Bernardino:

"As censuras a presentadas contra a Inquisicao giram, invariável e in-


cansavelmente, em torno das idéias de intolerancia, prepotencia, cruelda-
de; mas, ao assim descrevé-la, os críticos abstraem, ou referem muito de le
ve, o ambiente em que ela viveu. Forcam por trata'-la quase como um
acontecimento ¡solado e, medida pelos padrees da atualidade, se torna in-
compreensível e repulsiva para o espectador de hoje. i

Sucede porém que esse fenómeno foi produto da sua época, inserido
num clima religioso e em certas condicSes de vida,submetidoá forca dos
costumes e de toda urna formacao cultural e mental, fatores que forzosa
mente tiveram de moldar o seu comportamento. Por isso entendemos in-
dispensável suprir grave lacuna: antes de examinar a InquisicSo, é preciso
conhecer de perto o mundo que a envolveu, tá*o diferente do nosso. Sobre-
tudo, nSo nos olvidemos de que o Santo Oficio equivaleu a urna Justica
Criminal, de sorte que ná*o é possível entendermos o seu procedimento
sem preliminarmente saber como atuava a Justica Criminal comum, ou lai
ca, que Ihe foi contemporánea e que Ihe serviu de modelo. Esta era urna
Justica assinalada por profundo atraso, com métodos toscos e violentos,
mas por todos encarada com naturalidade, aprovada e defendida pelos
mais sabios juristas de entao" (p. 21).

160
"A INQUISIgÁO EM SEU MUNDO" 17

3. REGIME OE CRISTANDADE

É importante notar a diferenca entre o mundo de hoje e o medieval


no tocante á cosmovisSo ou á filosofía de vida: ao passo que em nossos
dias se admite o pluralismo, segundo o qual vivem lado a lado pacifica
mente cristaos, judeus, muculmanos, ocultistas, ateus. . ., na Idade Media
tal pluralismo era inconcebível; quem nSo fosse cristao fiel, era suspeito
de estar possesso do demonio e infenso á sociedade; daía motiyacao pró-
pria que levava os medievais a inquirir os dissidentes da fé crista"! — Sao es
tas as palavras do Prof. JoSo Bernardino:

"Na Europa ochental; após a queda do Imperio Romano, a única ins-


tituicá*o poderosa e universal era a Igreja. Ser membro dessa associacá*o era
teóricamente voluntario e praticamente obrigatório. Ser desligado de sua
comunhao era castigo tamanho que, até o sáculo XVI, os próprios reis te-
miam diante da ameaca de excomunháTo. Da menor das aldeias, com sua
igreja paroquial, á maior das cidades, com sua catedral, suas numerosas
igrejas, seus mosteiros e santuarios, a Igreja estava visivelmente presente em
todas as comunidades: suas torres eram o primeiro objeto que o viajante
divisava no horizonte e sua cruz era o último símbolo levantado diante dos
olhos do agonizante.

"Numa cultura assinalada por espantosas diversidades de dialeto, di-


reito, culinaria, pesos e medidas, cunhagem, a Igreja oferecia urna morada
comum, na verdade um abrigo universal: o mesmo credo, os mesmos ofi
cios, as mesmas missas, realizadas com os mesmos gestos, na mesma or-
dem, para o mesmo fim, de um a outro extremo da Europa. Nunca a rigo
rosa uniformidade romana serviu melhor á humanidade que durante esse
período. Nos oficios mais importantes da vida, até a menor das aldeias
achava-se no plano de urna metrópole. A Igreja Universal dava a todas as
comunidades, pequeñas e grandes, um propósito comum" (Lewis Mum-
ford, op. cit., págs. 290-1).

Torna-se difícil, se nSo impossfvel, para o homem de hoje sentir em


seu coracao o que se passava naqueles tempos... O mundo terreno possui
demasiados atrativos, as pessoas vivem ocupadas demais, a preocupacao
económica tende a tudo dominar. A intensa propaganda consumista leva á
ansia de prazeres e de bens materiais, antepondo-se á imagem do sobrena
tural.

Antes, ao inverso, a simplicidade da vida, a tenaz pregacao catequis


ta feita pela Igreja, as idéias de Oeus, da morte, de céu e de inferno sempre
presentes, tudo isso envolvía o individuo numa atmosfera de forte religio-
sidade. A Igreja se revelava por toda parte, com sua pompa, com seus sole-

161
18 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 383/1994

nes ritos litúrgicos, com prociss3es, testas, penitencias, peregrinacSes. Jun


to ao povo estavam bispos, padres, freirás, monges, frades, pequeños curas
de aldeia, ocupando-se das escolas, das universidades, dos hospitais, dos
asilos. Os estabelecimentos religiosos em geral constituiam o repositorio
da cultura e das artes, pintura, escultura, arquitetura, música. A inteira
existencia dos homens era ritmada pelo calendario cristao, cada dia com o
seu santo; pelos ritos religiosos; pelos sinos que repicavam, desde o ama-
nhecer atea hora da Ave María" (pp. 59s).

"Era incomum, quase inconcebível, na época, urna sociedade religio


samente pluralista, cada grupo com sua crenca, seus templos e seus cultos,
todos convivendo harmónicamente em .clima de liberdade e mutuo respei-
to. Isso só se tornou realmente viável há muito pouco tempo, na Historia
da humanidade" (p. 61).

4. DEFESA DA SOCIEDADE

Os tribunais costumavam julgar com rigor as pessoas acusadas; os pro-


cedimentos aplicados aos réus ou aos pretensos réus eram duros e severos.
Para explicá-lo, nota o prof. J. B. Gonzaga:

"A proliferacao de crimes constituía verdadeira calamidade. Nao ha-


via nenhuma seguranca nos campos, ñas estradas, ñas cidades. Tudo se
achava infestado por legioes de assaltantes, mu itas vezes organizados em
bandos de assassinos, de ladroes, trapaceiros, prostitutas, mendigos, etc.
As crises periódicas por que passava a agricultura, despejavam ñas ctdades
multidoes de desempregados e de misera veis. As freqüentes guerras produ-
ziam populacoes errantes; a soldadesca de mercenarios, nos intervalos en
tre os combates, n3o tendo o que fazer, se entregava a assaltos e a pilha-
gens.

Escusa enfim desdobrar todo o triste panorama, que fácilmente ima


ginamos, daqueles tempos confusos. Concomitantemente, inexistia qual-
quer política social eficaz. Coube entao á Justica Penal a tarefa desuprir
essa faina, contendo os insatisfeitos e ordenando a sociedade; o que ela fez
através do terror.

Disp5e o Estado hoje de certos recursos que o ajudam no trabalho de


proteca"o social contra a delinqüéncia.

A moderna Criminología desvenda as foreas criminógenas e indica os


meios de enfrenta-las. Integram-na a Sociología, a Antropología, a Psicolo
gía e Psiquiatría crimináis... Todos os pafses possuem urna Policía forr

162
"A INQUISIQAO EM SEU MUNDO" 19

mada por profissionais especializados no combate á criminalidade. As cida-


des sao bem organizadas, as rúas possuem nomes, as casas tém números...

Conseguintemente, espera-se hoje que a possibilidade mais fa'cil de


serem descobertos e punidos contenha muitos deiinqüentes potenciáis, de
sorte que as penas podem ser mais brandas, isto é, podem ser adequadas,
com justica, á gravidade de cada ¡nfracáb.

Sucede, porém, que todas as mencionadas ciencias e técnicas que au-


xiliam no combate á criminalidade sa"o recentísimas, comecaram a surgir
há pouco mais de um século. Antes, se ná"o houvesse prisáo em flagrante,
as autoridades ficavam diante de imensa dificujdade para descobrir e pren
der os autores dos crimes" (pp. 48s).

5. CONDICOES DE VIDA DAS POPULAQÓES

Os métodos judiciais da Idade Media eram rudes. "Isto só pode ter


existido e ter sido absorvido pela sociedade, porque as pessoas, no seu
dia-a-dia, levavam vida extremamente dura" (p. 51). Continua o Prof.
Gonzaga:

"Estudando a típica cidade européia ao término da era feudal, obser


va Max Savelle que, para sua defesa, ela era sempre rodeada de muralhas.
'Como as muralhas f ixavam limites ao crescimento exterior da cidade, os
edificios no seu interior se amontoavam uns sobre os outros. Por ser difí
cil o espaco, as rúas eram estreitas. Mu ¡tas vezes a leí determinava que urna
rúa devia ser bastante larga para permitir que urna pessoa andasse a cávalo
no seu centro, levando urna lanca atravessada na extensao da largura. Isso
estava longe de ser urna medida generosa, mas os construtores se empol ei
ráva m mesmo sobre essa estreita dimenséfo, fazendo com que os andares
superiores de suas casas se projetassem sobre a rúa. E, como as casas nor
malmente se erguiam á altura de quatro ou cinco andares, isto redundava
em que o sol escassamente chegava a alcancar o leito do logradouro' (Max
Savelle, Historia da Civilizacao Mundial, vol. 2, p. 207).

Com o progressivo desenvolvimento urbano, daí por diante as condi-


c5es se foram tornando crescentemente piores. Rúas sombrías e imundas,
com os esgotos correndo a céu aberto. Nelas, os moradores das casas joga-
vam seus dejetos, o lixo, as sobras da cozinha, forma ndo-se urna massa de
podridlo, revolvida pelos caes, gatos, porcos e ratos que infestavam a ci
dade. O mau cheiro se espalhava por toda parte; as enfermidades endémi
cas e epidémicas tinham livre curso, varrendo familias inteiras" (p. 51).

163
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 383/1994

6. A MEDICINA

A dureza de vida, derivada de precarias condicoes arquitetónicas, era


aumentada pelo caráter rudimentar da Medicina da época. Eis o que obser
va o Prof. J. B. Gonzaga:

"Ficamos perplexos ao imaginar hoje a cena de um magistrado da-


quelas épocas. hoir:em supostamente culto e sensfvel, ordenando e presen
ciando a tortura do acusado que se acha á sua mercé. Sucede entretanto
que esse juiz, por h¡pótese, na véspera daquele día vira sua filha, menina
ainda e inocente, ter urna perna esmagada e por isso amputada, sem anes
tesia, pelo cirurgiSo-barbeiro. Ou, mais prosaicamente, ele próprio tivera
de sofrer, a frió, a extracao de um dente molar infeccionado. Por que, en-
tao, se iria compadecer diante de um criminoso que presumivelmente me
recía a tortura?

A arte de curar cabía aos médicos, chamados "físicos", que haviam


para ¡sso freqüentado cursos regulares. Abaixo deles situavam-se os "cirur-
g¡5es-barbeiros", homens que, com a prática, haviam adquirido aptidao pa
ra realizar alguns atos cirúrgicos: amputacSb de membros, resseccáb, desar-
ticulacao, reducao de fraturas, lancetamento de abscessos e tumores, etc.,
inclusive, as vezes, sutura de órgaos internos rompidos. As guerras, geran-
do legioes de estropiados, foram grandes fornecedoras de trabalho para
esses profissionais.

A anestesia e as regras de assepsia somente viram a difundir-se na se


gunda metade do sáculo XIX. Antes, operava-se 'a frió', sendo muito even-
tuais e precarios os recursos anestésicos. O paciente era amarrado e conti-
do pelos auxiliares do cirurgiá*o e este devia possuir rija tempera e coraclo
duro para intervir ao som de lancinantes gritos de dor. Nenhum cuidado
de higiene era tomado: o operador atuava vestido com suas roupas normáis
e sequer lavava as maos e os instrumentos utilizados. Findo o ato, a ferida
era coberta com óleo fervente, para deter a hemorragia e evitar a infeccSo;
a qual, todavia, sobrevinha quase ¡nvariavel mente. Em conseqüéncia, a
porcentagem de óbitos era muito elevada" (pp. 55s).

7. A TORTURA

A tortura era um processo aplicado pela Justica civil medieval, de


acordó com o costume de legislacoes muito antigás:

"Parece que, em maior ou menor grau, essa violencia foi utilizada por
todos os povos da Antiguidade. O texto mais velho que déla nos dá notC-

164
"A INQUISICÁO EM SEU MUNDO" 21

cía acha-se em fragmento egipcio relativo a um caso de profanadores de


túmulos, no qual aparece consignado que 'se procedeu as correspondentes
averiguacoes, enquanto os suspeitos eram golpeados com bastSes nos pés
e ñas maos'.

Dir-se-á que a tortura talvez constitua eterna fatalidade do género hu


mano e que prossegue hoje existindo. Sim, é exato, basta lembrar o que
ocorreu nos regimes totalitarios da Alemanha nazista, da Italia fascista, da
Rússía comunista. Os franceses supliciaram prisioneiros na guerra de líber-
tacao da Argelia. Os agentes policiais, mesmo em países civilizados, con
tinua m utilizando tal recurso, e célebre ficou, nesse sentido, o Third de-
gree'da policía norte-americana.

Sucede todavía que hoje a tortura só se pratica clandestinamente,


com repulsa do Direito e da opiniao pública. As leis modernas a qualificam
como crime, ameacando com severíssimas penas seus autores. Mesmo
quando adotada por governos autoritarios, ela se faz oficiosamente, as
ocultas, e tem a sua existencia negada.

Nos sáculos passados, ao contrario, os suplicios foram pacificamente


aceitos, como recurso normal da Justica, e regulamentados pelo legislador.
Na Espanha, em meados do sáculo XIII, Afonso X, o Sa'bio, tranquilizava
seus súditos explicando no Código das Sete Partidas que a tortura se justi-
ficava porque fora adotada pelos sabios antigos (ou seja, pelos juristas ro
manos). Part. Vil, tít. 30, De Los Tormentos: 'Porende tenieron por bien
los sabios antiguos que fizieron tormentar a los ornes, por que pudiessen
saber la verdad ende dellos'.

Na Alemanha, na Italia, na Espanha, em Portugal, por toda parte tor-


turavam-se normalmente os acusados e, ás vezes, também as testemunhas
nao merecedoras de fé. Em Franca, as Ordenacoes de 1254 e todas as sub-
seqüentes adotaram oficialmente a questáo, ou interrogatorio com tor
mentos" (p. 32).

Acrescente-se o seguinte trapo muito importante:

"Os historiadores estao de inteiro acordó sobre o fato de que o povo


em geral, de todas as classes sociais, aceitava pacificamente os rigores do
sistema repressivo, encarándoos com absoluta naturalidade, como algo
normal e necessário.

Os grandes juristas da época, homens respeitados pelo saber e pruden


cia, estruturaram e defenderam a inquisitio, com suas denuncias anónimas,
seus processos secretos, o sistema das provas legáis, a tortura. Tudo isso

165
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 383/1994

fo¡ a provado pelos Mestres Bartolo e Baldo, no sáculo XIV; por Ángelus
de Aretío, no sáculo XV; no sáculo XVI, por Hippolytus de MarsilMs, Ju-
lius Clarus, Farinacius, Menochius, na Italia, Carpzov e Schwarzenberg na
Alemanha"(p.47).

8. A INQUISIQÁO NO SEU CONTEXTO

O quadro geral até aquí descrito elucida, de certo modo, a m ental i-


dade e os costumes dos homens que viveram a Inquisicáb, seja como juí-
zes, seja como réus. A Inquisicao teve seu surto em tal ambiente. Nao é
nosso propósito, neste artigo, descrever as origens e os procedimentos
específicos da Inquisicao, pois isto foi feito em PR 220/1978, pp. 152-
155; 240/1979, p. 529 e no nosso Curso de Historia da Igreja por Corres
pondencia, Módulos 32 e 33.

Importa, porém, destacar as ponderales do Prof. Joao Bernardino:

"A Inquisicáo equiparou-se a urna Justica Penal, de sorte que natural


mente adotou os modelos que vigiam nos tribunais laicos. Eram métodos
processuais que mereciam total beneplácito dos mais renomados juristas e
que estavam de acordó com os costumes. Os homens que compunham a
Igreja eram homens daquele tempo e nao podiam deixar de submeter-se
as suas influencias...

O procedimento dos tribunais inquisitoriais é, para a mentalidade


atual, ¡naceitável; mas, apesar disso, representou um abrandamento pera ri
te o que se passava nos seus congéneres do Estado. Nao podemos julgar o
qué eles fizeram sem os focalizar como órgaos condizentes com certo teor
de vida, investidos de urna missao sobrenatural e crista* a cumprir, que se
ocupava m de crimes, a seus olhos, gravísimos, e que teráo agido, em
regra, com zelo, equilibrio e honestidade. Mister se faz acautelar-nos con
tra aqueles que, no afá de denegrir a Igreja Católica, procuram criar escán
dalos, só descrevem as éxcecoes e rao as regras, os abusos e nao os usos. A
se crer nesses detratores da Inquisicao, todo o mal estaría com os seus juí-
zes, todo o bem com os seus réus" (pp. 119s).

Mais adiante aínda escreve o autor:

"Um aspecto a destacar é que, mesmo quando as regras penáis da


Igreja tendiam para o rigor, este, na prática, costumava ser com freqüéncia
mitigado.

166
"A INQUISIgÁO EM SEU MUNDO" 23

Mostra-o muito bem, comprovadamente, Jean Giraud1. "As penas da


Inquisícab eram freqüentemente atenuadas ou até apagadas. Nao se deve
crer, por exemplo, que todo herege que figura nos Registros como con
denado ao 'muro perpetuo' naja permanecido na prisa"o o resto dos seus
dias. Mesmo os mais severos Inquisidores, como Bernardo de Caux, segui-
ram tal orientacao. Em 1246, esse juiz condenou á prisao perpetua um he
rege relapso, mas na própria sentenca acrescentou que, sendo o pai do cul
pado bom católico, velho e doente, seu filho podía permanecer junto a ele,
enquanto vivo fosse, para Ihe prestar cuidados. Quando os detentos cai'am
doentes, obtinham permissao para se ir tratar fora da prisSo ou junto as
suas familias. Freqüentemente também os inquisidores concediam atenúa-
cSes e comutacoes de pena; por exemplo, a prisao era substituida por urna
multa, ou urna peregrinapáb, etc. Essa pena flexível decorria forzosamente
do caráter medicinal que Ihe atribuía a Igreja" (p. 136).

CONCLUSÁO

0 livro do Prof. J. B. Gonzaga é serio e imparcial. Descreve a rudez


de vida dos medievais e pós-medievais, que esclarece o fenómeno "Inqui-
sicao".

Nao poder Tamos, porém, encerrar esta resenha sem registrar que, ape-
sar de tudo, a vida dos medievais tinha sua alegría, seus cantos, suas dan-
cas, suas festascom espetáculos, sua poesía. "Por toda parte floresceram as
artes, a pintura, a escultura, a arquitetura, a música, a literatura, o. teatro"
<p.56).

A obra do Prof. Joao Bernardíno Gonzaga merece a gratidao dos


estudiosos, interessados em ultrapassar as nocSes e julgamentos superfi-
ciais.

• * *

CURSOS POR CORRESPONDENCIA


S. Escritura, Iniciacáb Teológica, Teologia Moral, Historia da Igreja,
Liturgia, sobre Ocultismo, Parábolas e Páginas Di ficéis do Evangelho, Dou-
trina Social da Igreja, Diálogo Ecuménico, Novfssimos (Escatologia) e Fi
losofía (novo!).
Pedidos^de informacoes e encomendas sejam dirigidos á Escola "Ma
tar Ecdesiae", Caixa Postal 1362,20001-970 Rio (RJ).

2 Jean Guiraud, lnquisition.no Dictionnaire Apologétique de la foi Catholoque, sob


a direfSb de A. D'Alés, tomo II, cois. 878s.

167
Sensacionalismo:

ENIGMAS E MISTERIOS: OS ANJOS

Em sin tese: O fascículo ANJOS, que abre a colegio "Enigmas e Misté-


ríos", identifica o conceito de anjoscom divindades do paganismo que te-
ríam sido adotadas pelos judeus e os cristaos... com os espiritas tíesencar-
nados do espiritismo e habitantes de outros planetas. Os articulistas mos-
tram incompetencia ao abordar assuntos bíblicos, o que se dé, por exem-
pío, quando dizem que "o livro de Enoc foi retirado da Biblia num dos
muitos concilios e tornou-se um dos chamados apócrifos" por causa das
implicacoes que tem para o conceito de anjo (cf. p. 7¡. Todo o fascículo
é redigido em estilo fantasioso, aparentemente científico e fortemente sa
tírico. Apóia-se, no seu capitulo final, em Erich von D'ániken, que nSo foi
um dentista, mas um jornalista do sensacional, que falsificou documentos
para "provar" suas teses imaginosas e. por isto, foi condenado a tres anos
de prísao e urna divida de 500.000 francos su icos.

# * *

Multiplicam-se as revistas que exploram o extraordinario, o ma'gico,


o esoterismo. . . Entre outras, contam-se "Planeta", "Super-lnteressante",
"Ano Zero", "Mundo Mágico". . . e, por último, "Enigmas ¿Misterios",
cujo número 1 é dedicado especialmente aos anjos. Esta profusSo de pu-
blicacoes (revistas e livros) referentes a misterios (reais ou aparentes) é sín
toma de quanto os homens hoje estío sequiosos de respostas para proble
mas que a ciencia e os meios convencionais nao resolvem; é sintoma, ou-
trossim, de como há exploradores da credulidade popular, capazes de aten
der á sede de fantasía do homem contemporáneo. Este, fora da área das
ciencias exatas, parece desligar-se da razSo para se deixar levar pelo subje
tivismo, o imaginoso e, nao raro, o irracional.

Visto que o n9 1 de "Enigmas e Misterios", versando sobre os anjos,


se reveste de especial atualidade, dedicamos-lhe as páginas seguintes.

1. OS ANJOS NA BIBLIA

0 fascículo em pauta aborda, sem discemimento, os anjos da Biblia,


os anjos "espiritas", os anjos do mal, os anjos "extraterrestres" numa

168
ENIGMAS E MISTERIOS: OS ANJOS 25

parada rica de sensacionalismo, imprecisBes e confusSes, e perpassada por


um tom de sátira destruidora.

1.1. O livrode Enoc

No tocante aos anjos da Biblia, o autor do artigo inicial revela, logo


em seus primeiros tópicos, a sua incompetencia, quando escreve:

"O livro de Enoc fot retirado da Biblia num dos muitos concilios, e
tornou-se um dos chamados apócrifos — tudo por causa das implicacoes
que possui" (p. 7).

Na verdade, o livro de Enoc nunca pertenceu ao canon (catalogo) bí


blico. Por isto, nunca foi retirado da Biblia por algum Concilio (o autor
n3o sabe dizer qual, nem indica a data respectiva).

O despreparo do articulista se manifesta pouco adiante, quando afir


ma:

"O Pentateuco (cinco livros que compoema Tora judaica e que sáb,
base do Cristianismo), que é composto pelos livros Génesis, Éxodo, Leví-
tico, Números e Deuteronñmio, sofreu varías modificacoes, inclusive com
a exclusSo de alguns livros como o livro de Enoc... Isto prejudicou o en-
tendimento original dos textos sagrados" (p. 8).

O Pentateuco consta dos cinco livros citados apenas; nao sofreu a ex-
clusáb do livro de Enoc, como afirma o articulista, que ná"o é lógico na
construcao de sua frase.

1.2. Ezequiel e os anjos

0 autor se refere a Ez 1,1-14, onde sSo descritos "quatro seres que


lembravam a forma humana; cada qual tinha quatro faces e quatro asas; as
suas pernas eram retas e os seus cascos como cascos de novilho, mas luzen-
tes, lembrando o brilho do latíto polido" (Ez 1,5-7).

Tais seres vivos náfo sSo anjos, mas safo figuras que o profeta contem-
plava na arquitetura da Mesopotámia (onde Ezequiel se encontrava); o
profeta imagina Deus sentado num carro que tais animáis sustentam e
transportan!. Esses estranhos seres lembram os karibu da Assfria. . . seres
com cabeca humana, corpo de leSo, patas de touro e asas de águia, cujas
estatuas guardavam os palacios da Babilonia.

1.3. Os anjos de Génesis 19

O texto de Gn 19,1-3 relata que dois anjos foram ter á casa de Ló em


Sodoma, onde se hospedaram por urna noite...

169
26 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 383/1994

Deve-se dizer que sonriente aos poucos na Biblia foi-se delineando o


conceito de anjo. Assim, nos livros mais antigos do Velho Testamento,
aparece urna figura um tanto misteriosa, chamad em hebraico mal'ak Jan-
weh — enviado ou mensageiro do Senhor; cf. Gn 16,7-14; 18^s; 21,17-19;
22,11 -14; 31,11 -313; Ex 3,2-6. .. Esse mensageiro ora aparece distinto de
Deus, ora identif ica-se com Deus (aparece o anjo ou o mensageiro de Deus,
mas fala o próprio Deus); podemos afirmar que é um mensageiro investido
por Deus com determinada missao e plenos poderes, de modo que é o pró
prio Deus quem ¡ntervém e age por meio do seu mal'ak.

Com o passar do tempo, foi-se clareando o conceito de mal'ak; dis-


tingu¡u-se nítidamente de Deus. Assim, por exemplo, em 1 Rs 19,5-11, apa
rece primeiramente o anjo do Senhor (5-8) e, a seguir, o próprio Deus
(9-11); o anjo realiza urna missao de preparacSo e servico, ao passo que o
Senhor se manifesta ou revela a Elias, como a Moisés se revelara.

A tendencia dos israelitas a distanciar Deus dos homens, acentuando


a transcendencia do Eterno, levou-os a admitir varios emissários de Deus
junto aos homens, o que contribüiu para desenvolver a angelologia: na épo
ca da monarquía, o Senhor Deus aparece em sua corte cercado de servido
res (cf. 1Rs 22,19). Estes váo adquirindo, na mente dos escritores sagra
dos, identidade mais definida: há os querubins (Ex 25,18-22; 1Rs 6,23-
28; Ez 1,14-15; 10,8-17...) e os serafins (Is6,2s.6).

O contato com a cultura persa e a greco-romana após o exilio (587-


538 a.C.) trouxe novo desenvolvimento para o conceito de anjo. Taívez,
em contraste com as religióes orientáis e as mitologías, Israel tenha toma
do mais profunda consciéncia da sua mensagem relativa aos'anjos bons e
maus. A antiga ameaca de politeísmo em Israel ia cedendo a noció, cada
vez mais profunda, da transcendencia de Deus, de modo que os escritores
israelitas bíblicos e extraí»íblicos (apócrifos) passaram a falar mais e mais
de anjos; tenham-se em vista 1Cr 21,18 (o emissário); Tb 3,17; 12,15 (o
anjo Rafael); Dn 10,13; 12,1 (Miguel, o protetor do povo de Deus); Dn
8,16; 9,21 (Gabriel); Dn 10,13-20 (o anjo tutor de cada povo).

Os apócrifos ampliaram a nocao de atividade dos anjos, atribuindo-


Ihes a regencia dos astros (Enoc eti'ope 72,1.3; Enoc eslavo 19,2), dos ven
tos, dos raios, dos trovoes, das chuvas, das estacSes do ano, etc.

1.4. Os filhos de Deus em Gn 6,1 A

Assim lemos em Gn 6,1 s.4:

"Quando os homens comecaram a ser numerosos sobre a face da Tér


ra e Ihes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens

170
ENIGMAS E MISTERIOS: OS ANJOS 27

era/77 betas e tomaram como mulheres todas as que Ihes agradaran)... Ora,
naque/e tempo (e também depois), quando os filhos de Deus se uniam as
fi/has dos homens e estas Ihes davam filhos, os Nefilim (gigantes) habita-
vam sobre a Térra; estes homens famosos foram os heróis dos tempos an-
tigos."

Estes versículos constituem o que se chama "um bloco errático", ou


seja, um fragmento avulso, que o autor sagrado colocou á frente de Gn 6,
porque tal bloco, mencionando a contaminacao moral dos homens, Ihe pa
recía servir de ótimo prefacio á historia do diluvio.

Os "filhos de Deus", no caso, eram, conforme os judeus, anjos que ti-


veram cópulas com mulheres ("furias dos homens"), donde terao resultado
filhos de estatura e forcas colossais, verdadeiros gigantes de 3.000 cóvados
de altura. Esta concepcao é insustenta'vel, visto que os anjos ná*o tém cor-
po nem vida sexual. O autor sagrado terá recebido tal noticia dos antepas-
sados e a consignou em Gn 6 sem pretender fazer da mesma um dogma de
fé. O livro de Enoc desenvolveu amplamente tal tradicao, que foi, sim, fa
miliar aos judeus, mas nao é parte integrante da doutrina bíblica e crista
relativa aos anjos.

1.5. A "colonizacáo das Divindades"

Á p. 6 do fascículo encontra-se urna-tentativa de descrever como os


missionários cristaos procediam ao chegarem em térras pagas: terao toma
do conhecimento das divindades ai cultuadas e as terao "convertido" em
santos e demonios; "segundo certos especialistas, a própria nocao católi
ca de demonio parece ter surgido aqui neste sincretismo. . . I numeras di
vindades foram transformadas em anjos (querubins, serafins, etc.), tudo
para atender aos interesses expansionistas da igreja".

Mais urna vez o articulista revela nada entender do assunto. Os san


tos sao criaturas humanas que se distinguiram por suas raras virtudes;
nao se tem noticia de que alguma divindade paga" haja sido declarada san
to (a) cristao(a). Verdade é que alguns Santos foram ornamentados com
tragos fantasiosos (como S. Cristova o, Sta. Cecilia, S. Lou rengo.. .), o que
nao equivale a dizer que slo antigás divindades pagas; o povo fiel outrora
se comprazia em portentos e, por isto, terá atribuido alguns aos Santos de
sua devocao, sem base histórica para tanto.

Alénq disso, os Santos ná*o sao anjos. Este vém a ser criaturas espiri-
tuais, sem corpo. Nunca urna divindade paga* se tornou querubim ou sera-
fim, pois na verdade a Igreja é muito sobria em relacáb aos coros angéli
cos e só conhece os nomes dos arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael, pois
só estes ScTo nomeados na Biblia. Da mesma forma, a Igreja nao da nome

171
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 383/1994

aos anjos maus ou demonios, que na concepcao crista* nada tém que ver
com divindades pagas. O fato de que na iconografía crista os demonios
sao, por vezes, representados com chifres, orelhas pontudas, quadris e per-
nas de bode, nao quer dizer que sa*o a transposicáb de divindades nao cris
tas; vejam-se esses tragos como sinais do caráter mora I mente monstruoso
de tais criaturas (ademáis os anjos maus ná*o tém corpo).

2. OS ANJOS "ESPIRITAS"

é absurdo falar de "anjos espiritas", pois o espiritismo só conhece es-


pfritos desencarnados; s5o espfritos de seres humanos que, após terem vivi
do neste mundo como homens e mulheres, continuam a existir sem corpo
e podem fazer bem ou mal aos habitantes deste planeta (como dizem os
espiritas). Muito diverso é o conceito de anjo.

3. ANJOS "EXTRA-TERRESTRES"

1. Por último, o fascfculo em pauta apresenta habitantes de outros pla


netas como sendo figuras que os povos identificaram com anjos.

A propósito, deve-se, antes do mais, discutir o que haja de objetivo e


histórico nos relatos de seres extra terrestres presentes aos homens telúri
cos no passado ou no presente. A ciencia, na sua sobriedade, afirma que
nosso sistema solar, com suas cond¡c5es de clima muito quepte ou muito
frió, nao comporta seres vivos e inteligentes fora da Térra. Se existem tais,
pertencem a outros sistemas solares e se acham muito distantes da Térra
— o que dificulta a sua comunicacáb com os terrestres. A fé crista* nao ex
cluí a possibilidade de haver seres inteligentes em outros planetas, mas jul-
ga que tal questao é do ámbito dos cientistas; toca á pesquisa espacial re-
conhecer os possfveis sinais de habitantes extraterrestres. As pravas adu-
zidas até hoje nao sá*o bastante persuasivas, pois duas ou mais explicacSes
podem ser dadas para cada fotografía ou narrativa apresentada pelos ufo-
logistas.

2. Quanto a Erich von Daniken, que o fascfculo cita como sendo o


pioneiro moderno da Ufologia, deve-se notar que nao é um dentista, mas
um jornal ista su feo (nao geólogo nem f fsico) que percorreu quase o mun
do inteiro, observando rochas, montanhas, monumentos da civilizacáb an-
tiga. . . Impressionado por quanto encontrou, deixou que a fantasía tra-
balhasse e formulou a hipótese seguinte em sua obra Eram os deuses

172
ENIGMAS E MISTERIOS: OS ANJOS 29

astronautas?" (obra eivada de erros e ¡mprecis3es, que valeram ao autor


um processo por ter cometido desonestidade e fraudes na redacá*o do seu
livro):

Nos tempos pré-históricos, a Térra foi freqüentemente visitada por as


tronautas provenientes de outros planetas. Portadores decivilizacao e téc
nica muito adiantadas, foram tidos, pelos homens terrestres, como deuses;
em conseqüéncia, os povos antigos passaram a falar de "deuses" em suas
tradicoes (daí o título do livro: "Eram os deuses astronautas?"). Tiveram
u ni oes sexuais com mulheres da pré-história — o que deu grande impulso á
inteligencia e aos talentos do nosso género humano. Os cosmonautas
extraterrestres terao deixado na Térra vestigios da sua passagem (monu
mentos, máquinas, instrumentos de traba I no, etc.. .) e haverao ensinado
aos homens numerosas técnicas para que fossem subindo no plano cultu
ral.

Os pretensos astronautas seriam provavelmente habitantes de Marte.

Perguntamos: que pensar a respeito?

a) Antes do mais, convám notar que o autor nao é um dentista, mas


um jornalista, que interpretou fantasiosamente o que ele observou em suas
- viagens. As suas associacoes de idéias sao freqüentemente toreadas e super-
ficiais: o fato de que a natureza apresenta rochas talhadas á semelnanea
das obras esculpidas pelo homem nao é suficiente para dizer que foram
trabalhadas por artistas marcianos. No Brasil mesmo há montanhas impres-
sionantes, como o Dedo de Oeus, a Verruga do Frade (Serra dos órglos),
o Frade e a Freirá (perto de Vitoria, ES). As grutas de Maquiné e Lagoa
Santa apresentam saldes subterráneos, em que a erosá*o e os calcáreos pro-
duziram belfssimas obras naturais, semelhantes a renda, vestido de noiva,
bolo de casamento, trono regio... Ora, ninguém pensa em atribuir tais de-
senhos a artistas humanos.

De resto, pode-se indagar: por que ná*o voltam os habitantes de Marte


ou de outros planetas á Térra, desde que temos consciéncia da historia do
género humano (há sete ou nove mil anos?). Será de crer que a civilizacao
de todos esses seres racionáis se extinguiu?

Segundo Erich von Daniken, cuja opiniSo é abonada no fascículo, a


destruiceío de Sodoma e Gomorra em Gn 19 terá sido provocada por urna
bomba atómica lancada pelos astronautas!. . . — Ora, os estudiosos expli
ca m a ruina das duas cidades pela geología da própria regiao. Esta é rica
em betume e petróleo (grandes depósitos destes materiais foram encontra
dos na reguío do Mar Morto); também é marcada pela presenca de gases.

173
30_ "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 383/1994

Ora, um terremoto terá provocado a combustáfo de petróleo e dos gases,


dando assim origem á terrfvel destruicáb descrita em Gn 19.

3. A longevidade dos Patriarcas bíblicos de que fala Gn 5,1-32,


nao significa que havia homens gigantescos sobre a Térra, descenden
tes de mulheres e anjos. Na verdade, os sáculos de vida que os antigos
povos atribui'am aos seus primeiros reis ou Patriarcas, devem ser entendi
dos simbólicamente: designavam a autoridade e a venerabilidade de que
gozavam tais heróis (todo mestre venerando é clasicamente concebido
como um anciá"o de cábelos brancosl). Nao é preciso, portanto, procurar
na matemática a interpretado da longevidade dos antigos, pois esta nao
tem sentido cronológico. Os Patriarcas bíblicos eos reis súmenos viveram
quanto podiam viver os homens nos primordios da historia da civil izacao.

4. O carro de Deus de que trata Ez 1, nao é urna nave espacial pilota


da por anjos extraterrestres, como afirma o articulista de "Anjos" (p. 28),
mas é mero símbolo, que designa a presenca de Deus em meio ao seu povo
0 profeta descreveu-o transportado por animáis, inspirado pela arquitetura
da Assi'ria e da Babilonia, como dito atrás.

Visto que o fascículo muito se apóia sobre Erich von Dániken esuas
obras, vale a pena dizer aqui algo mais sobre esse escritor.

4. QUEM É ERICH VON DAN IKEN?

Erich von Daniken nasceu em Zofingen, na Suíca, aqs 14/4/1935.


Fez seus primeiros estudos em colegio dos padres jesuítas, onde comecou
a aprender os rudimentos da doutrina católica. Certo dia, quando escotei-
ro, tirou dinheiro da caixa do respectivo grupo; para encobrir esse furto,
praticou outro roubo. Foi entao descoberto e condenado a quatro meses
de prisa*o. Durante os anos de estudos, lia assiduamente escritos de astro
nomía, arqueología, mitos, lendas e também. . . a Biblia. Resolveu entSo
viajar para o Egito. A fim de consegui-lo, pós-se a trabalhar como apren
diz de hoteleiro em Berna; reuniu assim algum dinheiro, que ele levou em
viagem juntamente com jóias que um amigo Ihe tínha confiado para serem
entregues a um destinatario em Alexandria. Ora, Erich nem entregou essas
jóias a quem de direito, nem voltou com elas. Em conseqüéncia, sofreu um
processo e dezesseis meses de prisSTo. A seguir, vagueou pela Su fea e a
Inglaterra. Foi auxiliar de cozinha num navio da rota Rotterdam—Nova
lorque; fez-se garcom de bar, operario na fábrica de sopas Knorr, chefe de
restaurante no Canadá e gerente do Hotel Rosenhuegel, em Davos (SuCea).
Todavía, ao exercer esses diversos oficios, Erich von Daniken dizia sempre
que sua missSo era outra e que ele tinha urna grande mensagem a revelar.

174
ENIGMAS E MISTERIOS: OS ANJOS

Finalmente, teve a grande "visáfo" que Ihe deu a certeza de que astronau
tas vindos de outros planetas estiveram na Térra durante a pré-história da
humanidade. Explicando mais tarde esse fenómeno á reportagem da re
vista alema "Der Spiegel", Erich von Daniken chamava-o "percepcao
extra-sensorial"; dizia que, quando experimenta esse tipo de i n tu ¡cao, sai
fora do tempo e vé simultáneamente o passado, o presente e o futuro; in
clusive feto Ihe permite saber de que maneira vai morrer.
Mais ainda, estimulado por essa visao, Erich decidiu fazer novas pes
quisas e viagens para descobrir vestigios dos astronautas sobre a face da
Térra; para tanto, contraiu vultosas dividas. . . Entrementes, foi escreven-
do o seu livro "Eram os deuses astronautas?", no qual exprimía a sua tese
fundamentada sobre aparentes documentos. 0 livro, publicado em 1968,
fez enormesucesso, pois naquela data os Estados Unidosea Rússiaestavam
lancando foguetes á Lúa — o que despertava o interesse do público mun
dial para essas facanhas. Contudo, o sucesso de Erich von Daniken foi pre-
judicado, pois os críticos denunciaram no seu livro desfalque, fraude e fal-
sificacao de documentos. Isto fez que Erich von Daniken fosse mais urna
vez condenado pelos tribunais; contraiu tres anos de prisa o e urna divida
de 500.000 francos su feos. O golpe foi duro, mas o escritor o superou com
relativa facilidade, pois já se enriquecerá com a venda do livro "Eram os
deuses astronautas?", que Ihe havia rendido 1.250.000 marcos; ao mesmo
tempo, o novo livro "De volta ás estreías" comecava a ser vendido com
-rendimento análogo ao do primeiro. — De resto, o próprio Erich von Dani
ken, na entrevista dada ao periódico "Der Spiegel", confessou que varias
das afirmacoes de seus escritos eram falsas e fantasistas.

Mais recentemente, sem ter mudado o seu estilo, Erich publicou


"Erscheinungen" (Aparicoes). De antemao o leitor saberá que pode haver
af nao somente divagacoes fantasistas, mas afirmacoes distorcidas e pouco
verídicas. Erich náfo é especialista ñas disciplinas que ele aborda (arqueolo
gía, historia, religiSfo. ..), mas é, na melhor das hipóteses, um jorna lista ou
cronista do sensacional; ao abordar seus assuntos, procede com leviandade,
"chuta" (como se diría na gfria), á semelhanca de um macaco'em casa de
louca, destituido de senso crítico, vai impingindo suas teses, custe o que
custar.

Os observadores do currfculo de vida de Erich von Daniken sao pro


pensos a afirmar que se trata de um paranoico. Na verdade, esses dados
biográficos e as expressSes escritas de Erich revelam urna personalidade
doentia, empplgada por idéias fixas e imaginacao fértil ou sonhadora; em
conseqüéncia, nSo merece crédito nem tem autojjcjada_paca4[atar dos as
suntos queapresenta ao público.

175
Urna Escola... de qué?

ATELEVISÁO ESUAS INFLUENCIAS

Em síntese: A televisao, ao lado de inegáveis beneficios prestados á


sociedade, tem sido também urna escola de influencias deletérias sobre as
carnadas menos críticas ou mais desprotegidas da populacSo.-Ñas páginas
subseqüentes vém apresentados testemunhos e observacdes de peritos em
psicología, medicina, educacao. . . nSo só do Brasil, mas também do es-
trangeiro, relativos á repercussao dos programas de violencia e pornogra
fía sobre os adolescentes.

* * *

Muito se tem escrito sobre a televisao e seu poderoso influxo na for-


macao das mentalidades. Especialmente os programas de violencia e erotis
mo libertino tém sido apontados como fatores deletérios na vida da socie
dade; tornam-se escola sublimínar de ampia repercussSb tanto nos adoles
centes como nos adultos.

Eis que a sociedade intitulada "O Amanha de nossos Filhos" publi-


cou, através da sua ComissSo de Estudos, um opúsculo que apresenta os
testemunhos de psicólogos, médicos, educadores. . . relativos á influencia
da televisao sobre as enancas (estas sao mais vulneráveis, embora nao se-
jam as únicas vítimas). 0 livreto "TV, urna 'Escola', mas de qué? Os Efeitos
da TV no Aproveitamento Escolar" é precioso, porque apresenta um cla
mor generalizado, que parte nSo só do Brasil, mas de outros países, e que
é transmitido por pensadores abalizados. PSe em relevo a acSo nefasta do
abuso da TV, especialmente sobre os telespectadores menos, preparados
para a crítica.

Dada a importancia de tais testemunhos, passamos a transcrever algu-


mas pa'ginas do opúsculo dentre as mais significativas!:

1 A nossa revista agradece vivamente ao Dr. Paulo Henrique Chaves a autorizado para
reproduzir trechos do opúsculo, que de resto pode ser solicitado a "O AmanhS de Nos-
sos Filhos", Rúa MaranhSo, 620, sala 13, 01240-000, SSto Paulo (SP). Fone: (011)
66-9187.

176
A TELEVISÁO E SUAS INFLUENCIAS 33

TV: UMA "ESCOLA", MAS DE QUÉ?

No jogo de influencias entre televisSo e escola, televisSo e familia, a


TV quase sempre tem levado a melhor...

O quadro se agrava se consideradnos que estudos científicos indicam


um aumento progressivo das horas passadas diante da televisSo por parte
das enancas brasileiras.

Em recente pesquisa realizada pela Universidade de Sao Paulo (USP),


orientada pelo Prof. Samuel Pfromm Netto — autoridade indiscutível na
materia, professor de pós-graduaca"o em Psicología na Universidade de Safo
Paulo (USP) e presidente da Academia Paulista de Educacao — os resulta
dos indicam que a enanca brasileira assiste atualmente, em media, a 5:30
horas de TV por dia.

Pfromm Netto afirmou também que "as crianzas brasileiras estao


vendo, em media, mais televisSo do que as de outros países", o que o leva
a qualificar a TV como urna "segunda escola, a 'escola paralela'de que fa-
la Friedmann". Com a agravante de que "urna grande porcentagem de bra-
siieiros, com menos de 12 anos de idade, passa mais tempo diariamente
diante da 'escola' da televisSo do que da sala de aula" (17).

E acrescentou: "As enancas tendem mais a pautar seu comportamen-


to pelo que véem em vídeos e programas de te/evisao, do que a seguir ins-
trucoes verbais de urna pessoa real e físicamente presente" (18).

Ele considera que a televisSo comercial "converteu-se numa especie


de escola de contra-cu/tura, no pior sentido deste último termo", ou seja,
"urna escola de superficialidade, cinismo, deboche, brutalidade, reso/ucSo
violenta dos confUtos, desrespeito, exacerbacSo hedonista, excitacao se-
'xual precoce e desenfreada, mau gosto, mediocrídade e erosib dos valores
moráis" (18).

RITMO NATURAL DO DESENVOLVIMENTO


DE UMA CRIANCA

A ordem da natureza tem suas leis e seus ritmos. Nao pode ser vio
lentada impunemente.

Sobretudo na crianca (mas também no adulto), há urna velocidade,


adequada a cada individuo, que impoe limites á capacidade de absorcao
de sensacoes, imagens e informacoes, materia-prima de todo o pensamen-
to humano.

177
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 383/1994

Esse ritmo orgánico de apreensao, compreensaq e assimilagao, em-


bora variável conforme a pessoa, é necesariamente lento e compas'sado,
urna vez que o conhecimento humano se faz por etapas. E um dos segre-
dos da boa pedagogía está precisamente em adequar a tais ritmos o que
éensinado.

A crianca ná*o nasce raciocinando. Ela prímeiro toma contato com o


chocalho, as grades do berco, a bola. Observa o pai, a mae, os irmaos. Co
mo que "senté" e "apalpa" o ambiente doméstico.

Só mais tarde, com o uso da razio, ela irá adquirir a nocao genérica
e abstraía de bola, pai, mae, casa etc. E formular em palavras a idéia que
concebeu de cada coisa.

A FORCA DAS PRIMEIRAS IMPRESSÓES

A impressao visual — junto com as outras impressoes sensoriais pro


venientes de audicao, olfato, gosto, tato — propicia-lhe assim a materia-
prima para a operacao da inteligencia e a formacao de urna nocSo abstra-
ta e universal das coisas, das pessoas, dos ambientes.

Considerando a forca dessas primeiras impressoes, o conhecido psi


cólogo e clínico brasileiro, Dr. Bernardino Mendonca Carleial, enuncia
um principio da Medicina de enorme alcance para a formacao da infan
cia:

"As primeiras experiencias sensoriais na infancia sSo fao importan


tes e marcantes que tais impressoes sao as úitimas a sobreviverem, quan-
do o cerebro se desorganiza diante da senilidaae, apoplexia, traumatismos
físicos e mentáis e outros acontecimentos psicofísicos. Sao também as pri
meiras a voltarem á recordacao, após periodo de amnesia. Comprova-se
assim quao fortes e persistentes sSo as imagens e impressoes vivenciadas
epresenciadas na infancia" (2).

OS RITMOS DA TV E A DEMOLICAO
DA PSIQUE INFANTIL EM CURSO

Ora, é justamente nesse reto processo de formacáta que a televísSo in-


tervém, prejudicando-o, violentando-o, queimando nele etapas, quebran-
do-o, apresentando problemas para os quais nem psíquica nem físicamente
as enancas estao preparadas.

Horas seguidas elas f icam expostas a torrentes de imagens, que se su-


cedem em ritmo alucinante, e a informacoes fragmentarias desconexas.

178
A TELEVISÁO E SUAS INFLUENCIAS 35

Absorvem, além do mais, propagandas e anuncios que as solicitam si


multáneamente para os mais diversos apetites e inclinacoes.

Sofrem ainda a conti'nua descarga de efeitos visuais e auditivos nao


assimiláveis por elas.

Após horas desse bombardeio televisivo, ficam impregnadas de cli


chés ideológicos, os quais nern sequer os adultos conseguem devidamente
analisar.

SUPERVELOCIDADE DA TV

Á Universidade Estadual de Campiñas (UNICAMP) realizou recente-


mente, através do seu Núcleo de Estudos Psicológicos, um ampio estudo
sobre televis3o e enanca. Desse trabalho resultou um relatório técnico no
qual se salienta o efeito, até mesmo junto ao adulto, da supervelocidade
com que as imagens se sucedem no vídeo:

"A velocidade com que as mensagens sa~o transmitidas e até justapos-


tas, excede normalmente o ritmo necessário á percepcao consciente. Daí
que a mente do telespectador tende a armazenar as informacoes valendo-
se de cata/ogacao rápida em categorías já preexistentes, urna vez que nao
há tempo para examina-las criticamente, perceber os traeos de novidade,
hierarquizá-las pela relevancia, coeréncia ou outros criterios...

"Também existe o fato, percebido até por leigos, de que a velocidade


de apreensao cognitiva de urna mensagem varia de acordó com o telespec
tador. Na TV isso nao é respeitado, como o é na leitura, onde o leitor é
quem define seu ritmo de apreensao, dando espago para urna leitura críti
ca quando isto se faz necessário" (9).

A SUPERVELOCIDADE NAO DEIXA


TEMPO PARA REFLETIR

A mesma preocupado está presente no estudo da ja' citada psicóloga


francesa MireilleChalvon:

"Pela rapidez e pelo fato de as imagens se sucederem urnas as outras,


a TVéum mau instrumento de aprendizagem. E/a nSo deixa a pessoa tem
po para refletir, para detér-se um pouco mais demoradamente nos assun-
tos, como se faz com as frases de um livro...

A televisad dirígese a todos ao mesmo tempo, nSo podendo atender


ao nivel de cada um, o que é necessário a toda aprendizagem. A crianca

179
36 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 383/1994

aprenderá coisas novas sem localizar onde tais coisas se passam, sem co-
nhecer o contexto geográfico, histórico ou político de um acontecimento.
A resposta vira sem que a crianca tenha tido tempo de por as perguntas"
(6).

A SUPERVELOCIDADE LESA A MENTE DA CRIANCA

Analisando o impacto dessa sucessáb desordenada de imagens na


mente infantil, diz o referido relatório da Unicamp:

"Considerando o telespectador infantil, podemos dizer que a crianca,


exposta a urna grande quantidade de informacoes velozmente transmiti
das, está sendo tesada em suas oportunidades de desenvolverse do ponto
de vida cognitivo, e tenderá a atrofiar sua capacidade de abertura da per
cepcao, ou, usando a mesma terminología de Schanchtel (1959), terá di-
ficuldades de desenvolver urna percepcao alocéntrica do mundo, adulta,
criativa. Por isso, os estudiosos dizem que a TV infantiliza e limita a cons-
ciéncia dos telespectadores assíduos" (9).

TV E DESTRUiqAO DO SENSO CRITICO

0 mesmo estudo insiste no fato de que a TV expoe seus pacientes á


satu rapa o de clichés pré-fabricados que se repetem.

"A repeticao é urna ilusao de conhecimento porque, á forca de limi


tar a experiencia, fecha a percepcao do mundo e a reduz a clichés; e,
aínda, confina o individuo ao prazer infantil do /ogo: seguranca do sem-
pre-o-mesmo, das regras fixas. Acaba 'ensinando' a crianca a nao ousar.
Nao responde a sua curiosidade nem a desenvolve. O mundo passa a ser
visto como algo que nao oferece nenhum desafio ou interesse" (9).

Esses clichés, apresentados em ritmos incompatíveis com o espirito


humano, tolhem na crianca o processo seletivo natural que ácima descre-
vemos, atrofiando o senso cn'tico e solapando as bases da verdadeira cul
tura.

TV, UMA ESCOLA DE IMBECILIZACÁO


E DE "ANALFABETISMO FUNCIONAL"

O Prof. Salomao A. Chiab, médico e estudioso de problemas psicoló-


| gicos, em entrevista concedida ao "Informativo TV Plebiscito^, na*o vacila
i em apontar as conseqüéncias da assisténcia passiva aos programas de TV:

180
A TELEVISAO E SUAS INFLUENCIAS 37

"Assistindo passivamente á sucessSo de imagens e emocoes que Ihe


sSo inculcadas, o individuo sofre um bloqueio mental, cessa de pensar,
de criar, de ter iniciativa, fica embrutecido intelectualmente, pois é levado,
de modo inevitável, a afastar-se de todas as outras grandes obras da inteli
gencia, do raciocinio, da arte e da cultura" (5).

Daf o fato de especialistas de renome referirem-se á televisao como


"massificadora", produtora de "imbecilizapSo", de "subcultura". Ou, co
mo a qualíficou o biólogo André Lwoff, Premio Nobel de Medicina, "o
principal fator de retardamento intelectual e afetivo" do mundo contem
poráneo (14).

Da í também ter sido ela acusada de promover o analfabetismo fun


cional (ou seja, aquele tipo de "analfabetismo" de quem aprendeu as le
tras, mas na prática ná*o sabe o que fazer da funcao de ler e escrever) por
especialistas reunidos em Madri para o simposio internacional sobre >4 re-
volucSó informática e os me/os de comunicacao social (7).

O jornal madrileño "El País", noticiando o referido simposio, afirma:


"Alguns especialistas estimam que o fato de existirem nos Estados Unidos
40 milhoes de adultos funcionalmente analfabetos, vai unido ao consumo
de televisao e ao uso de outras modernas tecnologías de comunicacao...
Por esses motivos, mu¡tos estudantes chegam á Universidade sem nunca te-
rem escrito sequeruma carta" (7).

O Prof. Samuel Pfromm Netto também aborda o assunto, tratando


específicamente das enancas:

"Referindo-se ao consumo habitual de programas de televIsSo pelas


enancas, Williams (1986), com base em resultados de pesquisas, concluí
que 'a televisao tende mais a inibir do que a facilitar os aspectos do pensa-
mentó infantil pesquisados' (criatividade, inteligencia, vocabulario etc ¡"
(19).

TV APRESENTA PROBLEMAS IMPROPRIOS


PARA A PSIQUE DAS CRIANCAS

O ritmo normal de absorcá"o da mente da enanca e do adulto é tam


bém violentado pela TV no que toca á noticia dos acontecímentos huma
nos e de certas anomalías ou aberracSes da natureza.

Certa novela brasileira aínda há pouco lancou, dentro dos lares, a


problemática do hermafroditismo, fenómeno ignorado pelo grosso da

181
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 383/1994

populacao, raro na medicina e estudado apenas por médicos especiali


zados.

Problemas como esses, completamente estranhos ao ambiente onde


se move a grande maioria das enancas, sá"o expostos prematuramente pela
TV aos olhos infantis ainda ¡maturos.

O Prof. Franz-Dietrich Poelert, em seu livro Educacao e Manipula-


cao, diz com acertó:

"A televisao transmite as mesmas informacoes a todos, e de um mes-


mo modo, indiferente a idade, sexo, inteligencia e experiencia da vida.
Seja homossexualismo ou incesto, divorcio ou corrupcao, brutalidade ou
sadismo. . . tudo é oferecido sem que se faca urna distincao entre enancas
e adultos" (20).

No trato de assuntos tais, um bom professor evitará sempre urna


abordagem imprudente, pela possibilidade de acarretar reflexos altamente
negativos para a f ormacao da enanca.

A TV, tal como existe hoje, faz tabula rasa dessa norma elementar de
prudencia. Essa total falta de escrúpulos expQe assim os pacientes infantis
a problemas psíquicos ás vezes irreparáveis.

IMPACTO NEGATIVO DAS


CENAS ERÓTICAS E VIOLENTAS »

O relatório da Unicamp, já citado, analisa do ponto de vista médico


o impacto negativo das cenas eróticas in,genere sobre o telespectador in
fantil: .

"Criancas de 6 a 10 anos. . . encontram-se na fase que, em Psicanáli-


se, é chamada de laténcia [ou seja, períbdo de reorganizacao e preparo pa
ra a puberdade]. . . A estimu/acao e a exposicSo precoce ao erotismo leva
a crianca a 'queimar urna etapa', ou.se/a, apassarpeia laténcia sem e/abo-
racao e organizacao. Na prática clínica, especialmente, temos visto conse-
qüéncias negativas dessa inadequagSo dos programas oferecidos ás crian-
cas" (9),

Opiniao semelhante manifesta, com sua autoridade de médico e de


psicólogo, o já citado Dr. Bemardirío Mendonca Carleial:
"Torna-se difícil avaliar as conseqüéncias patológicas da TV sobre as
mentes, quando nSo se conhecem os mecanismos neuropsicológicos e. tam-

182
A TELEVISÁO E SUAS INFLUENCIAS 39

pouco quando nao se tem contato com as vi'timas desse processo de deca
dencia, patrocinado pela TV: Os psicoterapeutas responsáveis, que estu-
dam com profundidade o cerebro e a mente, bem como atendem diaria
mente pessoas mentalmente prejudicadas pelas aberracoes televisionadas,
sabem muito bem que se devem condenar com veeméncia muitos filmes
e programas de televisao" (2).

0 Dr. Carleial condena aínda a superficial¡dade, do ponto de vista


médico, com que alguns defensores incondicionais da televísate-se apresen-
tam em certos debates promovidos pela imprensa ou em programas da
própria TV:

"De modo geral, tais pessoas nSo tém a mínima competencia para
opinarem sobre patología mental... Muitos ainda defendem a TV por des-
conhecerem os efeitos no cerebro, produzidos pela estimulacao negativa,
que recaem sobre as pessoas cujas personalidades encontram-se em forma-
cao e naquelas que a tém deteriorada.. . O que mais surpreende sSo as opi-
nioes de certos profissionais da área da saúde mental e da educacao. Elas
deveriam conhecer a tra/etória dos estímulos veiculados pela TV no cere
bro dos telespectadores. Deveriam conhecer as conséqüéncias negativas
provocadas pelas cenas de violencia e erotismo no sistema limbico e hipo-
tálamo-hipofisário, para a producao da mente das criancas' (2).

Por isso, ele afirma em outro artigo dessa serie:

"A televisao foi, realmente, um dos maiores inventos do sáculo... Mas


tornou-se, ao mesmo tempo, urna catástrofe neste mesmo sécu/o, com a
sua acao condicionante negativa. As suas maiores vítimas sá~o as enancas
e os adolescentes que nao tém capacidade psicobiológica para analisar e
discernir as mensagens desestru turadas projetadas no vídeo" (1).

PODE DEGENERAR EM DROGAS

Outra dificuldade que os professores vém enfrentando junto a alu-


nos teledependentes é o vicio do aprendizado pela imagem, o qual descar
ta o papel do racioci'nio e torna abomina'veí ao alurio qualquer idéia de
aplicacao e esforco.

"A televisao — diz-nos o psicanalista Bruno Bettelheim, professor de


psicología e psiquiatría na Universidade de Chicago — faz ver as criancas
que há ou deve haveruma solucao fácil para todos os seus problemas. Isto
nSo é evidentemente o caso, e as criancas ficam insatisfeitas consigo mes-
mas e com a sociedade. Elas se deixam levar e podem mesmo degenerar
em drogas" (11).
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 383/1994

Ela confina a crianca "no ¡mediato, no fácil, no descartável" — se


gundo feliz expressao de Rezende & Rezende, citada no documento da
Únicamp (9).

ESTIMULA AS REAQÓES PRIMARIAS

Rémy Gaboret, professor de Letras Clássicas e autor de um manual


de instrucoes cívicas, assevera que a TV estimula as reacdes primarias do
indivi'duo: "sentir-gostar", "nao sentir-nSo gostar" etc.

Se vamos procurar nos jovens telespectadores os valores que honram


o homem — como a capacidade de refletir maduramente, pesando os pros
e os contras; de dominar, com o freio de urna vontade forte, os impulsos
e as paixoes desordenadas; de desconfiar das primeiras impressoes e deas
analisar com cautela; de fazer esforcos constantes para alcancar objetivos
arduos — difícilmente encontraremos tais valores.

Em artigo intitulado Na era dos avós-meninos, a revista "Catolicis


mo" faz urna análise psicológica de um grupo de televiciados, postos dian
te de um aparelho de TV:

"Todos se entregara inteiramente ao gosto de ver, sentir, quase tocar


com as maos a cena do vídeo. As fisionomías indican) o prazér de sentir
a imaginacao á larga, enquanto o controle da inteligencia cessa inteiramen
te e a vontade dorme na maisprofunda inercia. £ o homem reduzido, por
urna .miserével involugao, á condicib de um bebé que vive de sensacoes.
Quando a alma chega a um tal estado, adeus lógica, coeréncia, seriedade.
Para ela todo esforzó intelectual se torna penoso. Toda atitude enérgica,
insuportável. £ o extremo para o qual sSo arrestados tantas vezes nSo só
os mocos, mas aínda os velhos" (4).

VISÁO MENTIROSA DA VIDA E DO ESTUDO

Como.entSo pedir o esforco de aprendizagem as criancas viciadas no


hábito de tao-somente "sentir emocSes'?

A boa escola inculca a api ¡cacao, exige o hábito da reflexSo e o exer-


cfcio da memoria. Nao aplica a sensibilidade, mas convence. NSo oferece
deleite fácil e superficial, mas atrai para o cumprimento do dever. Procura,
enfim, formar homens de pensamento e de acá"o, almas de valor, mediante
métodos pedagógicos que apelam para o empenho da razao e da forea de
vontade.

184
A TELEVISAO E SUAS INFLUENCIAS

A TV, pelo contrario, oferece a lantejoula das sensacSes irrefletidas.


Proporciona emocoes repetidas. Traz á pessoa o coruscar de novidades es-
petaculares. Nao exige do adolescente nem esforco, nem análise.

Ela induz a urna vis3o mentirosa da vida. Por conseguinte, do estudo


e do trabalho.

Ela informa sem ensinar, atrai sem convencer, alicia sem comunicar a
nocao do dever.

Além do mais, transmite mensagens vazias de conteúdo intelectual


e moral, apresentando-as como dogmas da "moda".

é natural que, entre urna e outra solicitacao, a imaturidade infantil


sinta propensSo pela TV e repulsa pela escola.

DIMINUIQÁO DA CAPACIDADE
DE MEMORIZACÁO

O Dr. Marcel Rufo, professor de Psiquiatría Infantil da Universidade


de Marseille e chefe do Inter-Setor I de Psiquiatría Infantil de Bouches-
du-Rhóne, coordenou urna pesquisa epidemiológica reveladora, realizada
na Franca junto a centenas de adolescentes de Paris e da Cote d'Azur.

A pesquisa constatou urna diminuicao da capacidade de memoriza-


cao, ligada diretamente ao excesso de televísate. No teste conhecído sob
o nome de "Rey", os alunos, expostos a duas horas por dia diante da TV,
mostrarim-se aptos a reconhecer apenas cinco si'mbolos familiares a eles]
quando estes Ihes foram apresentados. E tiveram serias dificuldades de
associar imagens, idéias e palavras. Aqueles jovens que se contentaram de
ver apenas meia-hora de televisao, ¡dentificaram todos os símbolos, sem
excecao (22).

Oiz-nos o Dr. Marcel Rufo:

"Há um paralelismo inexorável entre o tempo passado a ver televisad


e a queda do rendimento escolar, o declínio da capacidade de atencao, da
concentracao intelectual. Isto é verificável em todos os segmentos de idade
e em todos os meios, promiscuamente" (22).

^ TV E ESCOLA,
UMA CONCORRÉNCIA DESLEAL

Por essa razao, a Profa. Michelle Palíer, presidente nacional da Fe-


deracao dos Pais de Alunos do Ensino Público francés, desabafa: "A te/e-

185
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 383/1994

visSo e a escola estao em concorréncia. . . desleal. Porque a influencia da


prímeira sobrepassa largamente a da segunda. Notadamente no que concer
ne ao sentido do esforco do traba/ño edos valores moráis, a televisao tem
efeitos desastrosos" (11).

É precisamente o que alguns vém chamando de intoxicacao doce, co


mo a Profa. Jeanne Delais de Fréminville:

"A intoxicacao doce faz-se inconscientemente ou deliberadamente.


Nossas enancas já sonham através do vídeo. . . Passam mais tempo diante
da televisao (1.450 horas por ano) do que sobre os bancos dos colegios
(900 horas). A TV tornou-se o seu novo professor. Os jovens franceses nao
apenas véem mais de 1.400 horas de televisáb por ano; mas sáb os que, en
tre todos os europeus, se deitam mais tarde" (11).

E, aínda sobre os efeitos da TV, temos o depoimento de urna profes-


sora de um grande Liceu parisiense:

"No curso primario, os ditados de segunda-feira pela manha foram


suspensos, e no curso secundario é impossível fazer exerefeios de reflexao
nessedia"(U).

FENECIMIENTO DO VOCABULARIO E DA CONVERSACÁO

Essa supervalorizacao do ver e do sentir, própria á TV, tende a empo


brecer o vocabulario, que é o instrumento da expressá"o do pensamento.

O ja* tao sumario e impreciso vocabulario das criancas e jovens de


hoje vai-se estropiando, cada dia mais, na medida em que eles se deixam
fascinar pelo vi'deo.

Assim se expressam M. Alfonso Erausquin, Luiz Matilla, Miguel Váz


quez, no livro Os teledependentes:

"Teme-se que as imagens estejam criando futuras geracóes de nao-


leitores, nao só fazendo diminuir o interesse dos jovens pela leitura de
livros, como também obstaculizando sua própria capacidade de se expres-
sarem tanto verbalmente como pormeio da escrita" (8/.

Até na Franca, pafs culto por excelencia, a ameaca vem-se fazendo


sentir.

Mireille Chalvon constata preocupada a freqüéncia com que criancas


telespectadoras se mostram incapazes de traduzir em palavrás aquilo que
acabaram de ver.

186
A TELEV1SÁ0 E SUAS INFLUENCIAS 43

E a psicóloga explica a razá*o:

"A TV. . . nao propicia a aquisicab de linguagem porque é inútil dar


nome ¿quilo que [ simplesmente] sevé... Fornecendo imagens, ela se di
rige mais aos sen timen tos do que ao espirito, oferecendo mais sensacao
do que nocoes" (6/.

Como a linguagem pede a passagem do concreto para o abstrato, do


objeto para o conceíto, a psicóloga se pergunta se as imagens, entregues
ja prontas pela TV, nao correm o risco de estancar a possibilidade de abs
trajo da crianca.

0 psiquiatra L. Moor chega a prognosticar:

"Os que fazem uso ¡moderado da TV disporao, dentro de 15 anos, de


um vocabulario de apenas 200pa/avras imprecisas, abreviadas, improprias,
carregadas de onoma topaicos" (16).

Mary Winn, psicóloga e terapeuta norte-americana, autora do livro in-


temacionalmente conhecido The Plug-in-Drug, afirma:

"A crianca tem necessidade de adquirir técnicas essenciais de comuni-


cacao — aprender a ler, a escrever, expressar-se fácilmente e de forma cla
ra—a fim de poder desenvolverse como ser social. O abuso da televisao
nao favorece seu desenvolvimento verbal porque nSo exige nenhuma partí-
cipacáb verbal de sua parte, mas sim, somente urna receptividade passi-
va"127).

Também Florence Nicolás, secreta'ria-geral do Syndicat National des


Lycées et Colléges (SNALC), manifesta sua preocupacéfo pelo definha-
mento do vocabulario francés:

"Palavras como simultáneamente, concomitantemente, fisionomía,


hilaridade, nao sSo mais compreendidas. A te/evisáb é irresponsávef na
medida em que ela reduz o tempo consagrado á leitura. Ora, o vocabula
rio se adquire principalmente pela leitura.. .. Urna coisa é certa: os resul
tados escolares estao na proporcao inversa do número de horas passadas
diante da televisivo" (11).

O PROFESSOR, UM ESPETACULO A MAIS.. .

V\Ja pesquisa que coordenou, o Dr. Marcel Rufo descreve o que pode
observar:

"O sistema televisivo é montado em torno da idéia de show, de espe-


táculo. Tudo é continuamente espetáculo. . . A crianca . . . espera (e o

187
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 383/1994

adulto também) que tudo em torno de si seja apresentado em termos de


espetáculo. Sem o que, nada Ihe interessará, mesmo se se tratar de coisas
essenciais para a vida. Algumas criancas sSo mesmo incapazes de cumprir
seus exerci'cios de casa sem ter a televisao ligada diante délas. É um fenó
meno de intoxicacao certamente curioso, a analisar . . . Damo-nos bem
conta da verdadeira agressao que representa o exame escolar para essa cri-
anca, para esse jovem estudante? Aquilo que Ihe é exigido é em tudo e por
tudo antitelevisao. A TV nao pede ao telespectador que fale.... Ela nao
Ihe pede que se comunique. . . . No dia seguinte, um esforco inaudito: é
solicitado, a ele, na escola, que se comunique; a ele, que vé o professor ou
o instrutor como um espetáculo a mais, é pedido que participe, que res
ponda as perguntas, que memorize, que refuta. . . É necessário que ele
crie, invente, sintetize. Verdadeiramente, é todo um outro mundo!" (23).

DECADENCIA NOS VESTIBULARES

Aquí no Brasil temos, nos exames vestibulares, exemplos clamorosos


desse retrocessoá linguagem primata.

Os resultados de tais exames sao inquietantes. Com assombrosa assi-


duidade, os alunos naufragam ñas provas de redacáb. Há 20 ou 30 anos,
esses rapazes e mogas difícilmente teriam conseguido aprovacao sequer nos
exames de primeiro grau.

Mas, que esperar de jovens que absorvem pelo vídeo expressSes de


um primitivismo chocante? Por exemplo estas, veiculadas por certa no
vela e referidas em artigo de Ethevaldo Siqueira:

"— Sem grifo, meu chapa. Seja legal. NSo torra, pai. Já tó encucado
e voce ainda vem me encher? Sai prá lá, cara..." (26).

O mesmo articulista comenta com acertó que quase 30 milhSes de


pessoas (dados de 1977; hojesSomaisde 100 milhSes) ouvem tais expres
sSes diariamente na TV, assimilando-as com naturalidade inconsciente. O
que vai formando "urna nova linguagem brasileira, una e coesa, pobre e
ericada, mas que vai integrando o país de norte a su/" (25).

O Prof. Marcel Rufo também notou nos jovens queforam objeto de


sua pesquisa a dif iculdade de concatenar o pensamento e dar rumo a urna
; conversacao.:

"É certamente um fato atualfssimo: as pessoas hoje mudam de tema


i de urna maneira espantosa, incapazes que sáb de discutir em profundidade
determinado assunto, coisa que se transformou em um privilegio de pou-

188
A TELEVISÁO E SUAS INFLUENCIAS 45

eos — entretanto, seguramente, acessível a todos. O pensamento parte por


todas as direcoes, batanea, nao consegue fixar-se em nada" (23).

PER DA DO HABITO DA LEITURA

Esse fenecimento da linguagem tem implicacSes com a perda do há


bito de leitura, urna das principáis fontes de um bom vocabulario.

Mary Winn estuda a importancia desse hábito na formacao das crian-


cas e mostra como ele é quebrado pela TV. O comentario é transcrito do
interessante artigo TV drogue ou a droga TV, publicado na revista "Rai-
nha", de Porto Alegre:

"A xelevisib também pode esclerosar a atividade e o desenvolvimento


mental da crianza, se tomar o lugar da leitura.

"A partir da historia que leu, ela cria em sua mente em desenvolví-
mentó um determinado personagem. Seu espirito se ativa, procurando as
características humanas no personagem idealizado. Tais experiencias — tao
necessárias as atividades da imaginario infantil — nao acontecem, em abso
luto, na televisSo, que fornece as imagens realizadas.

"Hoje em día, por causa da televisSo, enancas e adultos léem muito


pouco. Claro, é mais fácil ficar vendo as imagens coloridas talando, dan-
cando, fazendo suas proezas. £ quando léem, mostram-se preguicosas, pois
a televisSo nao Ihes dá a oportunidade e mostra que nSo há necessidade de
que se concentrem tanto, se tudo é mais fácil no vídeo.

"No entanto, a leitura, encarece Mary Winn, é um imprescindível ins


trumento de desenvolvimento pessoal e de liberdade de expressSb e pensa
mento, enquanto a televisSo transfonva a crianca em escravo de um hora
rio e, mais do que isto, de um mundo imaginario, para nao dizer irreal, que
nada tem a ver com a auténtica realidade do mundo infantil" (21).

A TV E O CANSACO ÑAS CRI ANCAS

Sobre o cansaco das enancas em aula, os comentarios sá*o perempto


rios e generalizados, da parte dos estudiosos da questá*o, com tendo sua
causa no excesso de TV.

O Dr. Guy Vermeil, por exemplo, especialista francés em ritmos esco


lares, declara:

189
46 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 383/1994

"Primeiro problema: o cansaco. A TV aparece a esse propósito como


a inimiga da escola: e/a desvia os a/unos do trabalho escolar, diminui-lhes
o sonó noturno, tomando-os sonolentos e desatentos durante as aulas. Ela
é um obstáculo ao aprendizado da leitura "(11).

0 Prof. Marcel Rufo, com base na ¡á citada pesquisa epidemiológica


que realizou, comenta:

"O fracasso escolar, a falta de concentracao, as dificuldades de me-


morizagao, a agitagao das enancas estao diretamente proporcionadas ao
tempo que e/as passam diante do vídeo. É bem evidente que disto resulta
um déficit de sonó, com múltiplas reagóes em cadeia.. . alémde se torna-
rem agitadíssimas na escola e padecerem de insania" (22).

0 Prof. Samuel Pfromm Netto salienta que também em Sao Paulo


tém-se notado fenómenos semelhantes durante as aulas:

"Sao comuns os casos de enancas pequeñas que assistem á televisado


cinco, seis ou mais horas por dia. Em classes pré-escolares paulistanas, pe
la manhi, é habitual a presenca de cr¡angas sonolentas, desatentas ou que
chegam a adormecer em classe porque permaneceram acordadas até horas
avancadas da noite anterior, diante do televisor" (19).

E o Prof. Franz-Dietrich Poelert, já citado, testemunha:

"Tenho visto, por exemplo, na escola, como conseqüéncia da televi-


sao, o cansaco com que os a/unos chegam em determinados días... As cri-
angas de 10-11 anos nSo estáo inteiramente bem dispostas para a aula,
quando ficaram até as 23 horas sentadas, vendo Jogos de futebof" (20).

L. Moor também aponta para o mesmo fenómeno:

"Quando as criangas assistem as emissoes da noite, e/as se recolhem


tarde, nSo dormem suficientemente e sao incapazes de se concentrar sobre
seu trabalho escolar, o qual disso se ressente no dia seguinte. Freqüen te-
mente, mesmo se a crianca vai deitar-se, ela tem dificuldade em dormir,
porque foi objeto de estímulos numerosos" (16).

Chalvon completa essa enumeracfo, com as seguintes e judiciosas


considerares:

"O superconsumo de televisad ...é certamente nocivo. A superinfor-


macao excedendo a capacidade de compreensáo da changa é motivo de
cansago e desánimo. A identificagSo múltipla com heróis variados pode ser
a fonte de perturbacao. A eterna procura de urna vida excitante e sensacio-
• nal conduz ao risco depender o contato com a realidade cotidiana" (6).

190
A TELEVISÁO E SUASINFLUENCIAS 47

TV IMO QUARTO:'CRIME
CONTRA O CEREBRO INFANTIL

Por isso mesmo, os especialistas véem com grande preocupado a ins-


talagao de aparelhos de TV em quartos de crianzas e adolescentes.

Pesquisa publicada pelo jornal alemao "Frankfurter Allgemeine", e


citada pelo Prof. Franz-Dietrich Poelert, diz que urna em cada tres crian-
cas alemas, com idade entre 8 e 11 anos, já tem um apa reí h o de TV no
próprio quarto (20).

Indagado pelo "Informativo TV Plebiscito" sobre o efeito desses apa


relhos em quartos de dormir das enancas, o médico Prof. Salomao Chaib
foi categórico:

"É um críme contra o cerebro e a saúde mental. Além de roubar pre


ciosos momentos de repouso, adormécese levando no subconsciente men-
sagens subliminares de dramas tenebrosos, de emocoes negativas que conti-
nuam pelo sonó adentro a través de sonhos agitados, gerando assim chan
cas nervosas e depouco rendimento escolar" (5).

A TV E A EVASAO PARA O IRREAL

E aqui tocamos num dos pontos mais delicados da influencia televi


siva junto a enancas e adolescentes: a evasao para o irreal.

É esta urna preocupacáo crescente de pais e professores, conforme


testemunho dos próprios organizadores do relatório da Unicamp:

"Varias vezes fomos abordados por pais e professores que estavam


preocupados com a questao da fronteira entre o real e a fantasía na enan
ca e queriam discutir o papel da televisab enquanto canal de mais fácil
acesso á ficcao, hoje, e o mais assíduo fornecedor de um imaginario cada
vez mais mirabolante" (9).

Numa enanca bem constituida, seu próprio equilibrio psíquico


leva-a, desde cedo, a ir tracando urna fronteira bem definida entre a fanta
sía e a realidade.

NA CONCLUSÁO, UM DESAFIO
E UMA PROPOSTA

Como disse o Prof. E. Samain, citado pelo documento da Unicamp —


"os meios materiais de comunicacao nSo sao nem neutros, menos aínda
inocentes" (24).

191
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 383/1994

De posse desses dados, cabera aos profesores e aos país analisar em


que medida tais problemas afetam seus alunos ou seus filhos.

Alertados por aspectos que talvez julguem novos, aquí apontados no


que diz respeito á influencia da TV, eles deverSo agir em conseqüéncia na
educacao e formacao das criancas sob sua responsabilidade.

O Brasil de amarina sera forjado pelos jovens que hoje se dedicam ver-
dadeiramente ao estudo? Ou pelos teledrogados que ficam horas a fio
diante da TV?

A resposta que o futuro dará a essa pergunta dependerá em larga me


dida dos pais e professores.

De algum modo, esse futuro esta passando pelas nossas maos, neste
momento. E diante de Deus e dos sáculos vindouros responderemos por
ele.

NOTAS

(1) Carleial, Bernardino Mendonca, A televisSo e a personalidade infantil (I), "Esta


do de Minas", 19-8-90.
(2) Carleial, Bernardino Mendonca, A televisaoe a personalidade infantil til) "Esta
do de Minas", 26-8-90.
(3) "Catolicismo", t\9 40, abril/54.
(4) "Catolicismo", t\9 85, janeíro/58.
(5) Chaib SalomSo, A., in "Informativo TV Plebiscito", marco/93.
(6) Chalvon, Mireille, Problémespsychologiquesdel'enfant téléspectateur, in "Neuro-
psychiatrie de l'enfance et de l'adolescence", Paris, 1981, n? 29 (3).
(7) "ElPaís". Madri, 12-10-85.
(8) Erausquin, M. Alfonso; Matilla, Luiz; Vázquez, Miguel. Oí teiedependentes,
Summus Editorial, S3o Paulo, 1980.
(9) Giglio, Zula García; Giglio, Joel Sales; Vizzotto, Marilia M., Televisad e enanca:
um binomio incompatfvel. Núcleo de Estudos Psicológicos, Unicamp, 1993.
(10) Lauwe, Marie-Josée Chombart de, Llnteraction enfant/televisión, revista "Neu-
ropsychiatrie de l'enfant et de l'adolescence", Paris, 1981, n9 29
(11) "LePoint", Paris, 19-9-86.
(12) Linhares, María Cordeiro, in Luiz Lobo, Televisao: nem baba eletrónica nem
bicho-papio - Achanta ante a tevi. Ed. Lidador, Rio, 1990.
(13) Lurcat, Liliane, Les jeunes enfants devant les apparences télevisuelles Esprit
Paris, 1984.
(14) Lwoff, André, apud Michel Salomón, L'avenirdela vie. Ed. Séghers, Paris, 1981.
(15) Miller, Michael M., A saúde mental das criancas (IBRASA, S3o Paulo, 1969),
apud Luiz Monteiro Teixeira, A enanca e a televisSb: amigos ou inimigos. Lovo-
la, Sao Paulo, 1985.
(16) Moor, L., Influence de la televisión sur le psychisme de l'enfance et de l'adoles
cence, in "Neuropsychiatrie de l'enfance et de l'adolescence", 29 (31,1981.
(17) Pfromm Netto, Samuel, / Simposio Nacional sobre TelevisSo e Crianca, Sá"o Pau
lo, agosto/77.

192
(18) Pfromm Netto, Samuel, "Informativo TV Plebiscito" (órgao de O Amanha de
Nossos Fílhos), abril/91.
(19) Pfromm Netto, Samuel, / Simposio Nipo-Brasileiro de Educacao, Sao Paulo,
16-6-88.
(20) Poelert, Franz-Dietrich, Educacao e Manipulado, Lühe-Verlag, Steinkirchen,
Alemán ha, 1988.
(21) "Rainha", julho/91.
(22) Rufo, Marcel, Le stress á l'école et l'excés de televisión. Centre de Recherche et
Documentation Thérapeutique.
(23) Rufo, Marcel, "Vie et santé", margo/91.
(24) Samain, E., Oralidade, escrita, visualidade — Meios e modos da construpib dos
individuos e das sociedades — Perturbador mundo novo, apud Televisad e crian-
ca: um binomio incompati'vel, Unicamp, 1993.
(25) Siqueira, Ethevaldo, Na televisao, todas as noites, urna receita para nao pensar,
in "O Estado de S. Paulo", 15-5-77.
(26) Teixeira, Lúa, A enanca e a televísalo, Ed. Loyola, Sao Paulo, 1985.
(27) Winn, Mary, The Plug-in-Drug. apud M. Alfonso Erausquin, Luiz Matilla, Miguel
Vázquez, Os teledependentes, Summus Editorial, Sao Paulo, 1980.

Estévao Bettencourt O.S.B.

/ EM COMÚN HÁO \
Revista bimestral (5 números: margo a dezembro)
(NOVA FASE A PARTIR DO N? 103)

Editada pelo Mosteiro de S. Bento do Rio de Janeiro, desde 1976


(já publicados 102 números), destina-se a Oblatos beneditinos e pessoas
interessadas em assuntos de espiritualidade bíblica e monástica. — Além de
artigos, contém traducoes e comentarios bíblicos e monásticos, e, ainda a
crónica do Mosteiro.
Para 1994, a assinatura ou renovacáo, ficará por CR$ 2.500,00.
Dirija-se as Edicoes "LUMEN CHRISTI" {Caixa Postal 2666 -
20001-970) Rio de Janeiro - RJ, que também atende os pedidos
\ de números avulsos, pelo Reembolso Postal. /

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(PARA PAGAMENTO, VEJA 2a CAPA).

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Q Mosteiro de Sao Bento do Rio de Janeiro ; . .' '¡jÁ


408 páginas (30 x 23) de urna obra ricamente policromada. ,. '.X'¿¿
Texto histórico por D. Mateus Rocha, OSB. . " ,-ií ;
É a crónica corrida e compacta da construcao do Mosteiro, da sua igreja c das obras de;',;
arte nele contidas. Resume as mais diversas contribuicócs que, durante séculos, for '
. maram o patrimonio da Ordem Beneditina na provincia do Rio de Janeiro. '':>■

A Igreja de Sao Bento


110 páginas (30 x 23), resumo da obra anterior tratando da igreja abacial. Disponível
ñas linguas portuguesa, espanhola, francesa, inglesa c alema.

Palavras do renomado arquiteto Lodo Costa:


"Esse mosteiro - este monumento - é, sem dúvida, a áncora da cidade do Rio de Janeiro.
• Em boa hora o intelectual e fotógrafo Humberto Moraes Franceschi que já nos deu a
obra-prima O Oficio da Prata, resolveu fazer, com o pleno apoio do cngenheiro-Abade
D. Inácio Barbosa Accioly - impecável dono da casa - este definitivo inventario visual,
velho sonho de D. Clemente da Silva Nigra."

Dé D. Abade Inácio Barbosa Accioly:


"< Y "Hoje o Mosteiro é realmente a áncora da-cidade do Rio de Janeiro. É igualmente foco
■ de luz ardente que, sem qualquer ostentacan ilumina todos aqueles que aqui vivem, que
aqui vém louvar o Senhor, ou que aqui encontram alimento para a chama misteriosa de
sua fé - pois o Mosteiro nao é um simples monumento ou um museu) mas urna casa
: viva a irradiar a presenca de Deus."

EDiqdES "LUMEN CHRISTI"