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América pré-colombiana (1)

América pré-colombiana (1)

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Muitas das informações sobre o passado pré-colombiano se perderam durante a fase do descobrimento europeu e da conquista.

Interesses sócio-políticos motivaram alguns povos a destruir velhos documentos no afã de reescrever em favor próprio a história do México Central. Apesar deste ''apagamento história)", recuperoU'Se, com grande trabalho, parte desta documentação. Neste livro, um painel em busca da história quase perdida daquela época.

Brasiliense

Copyright ©

Ciro Flamarion S. Cardoso

•A

Capa: 127 (antigo 23) Artistas Gráficos Revisão: Carlos E . Carvalho José E . Andrade

ÍNDICE

Introdução Sociedades pré-agrícolas Sociedades agrícolaspré-urbanas .; Agricultura intensiva e urbanização: culturas"pré-colombianas Reflexões finais Indicações para leitura

7 12 34 as "altas 52 109 115

Editora Brasiliense S.A.
R. General J a r d i m , 160 01223 - São Paulo - S P Fone (011)231-1422

J3 —

INTRODUÇÃO

"A civilização romana n ã o morreu de morte natural. Foi assassinada." Assim concluiu André Piganiol o seu livro sobre o Império Romano no século lV~aepois de Cristo {L'empire chrétien 325-395, Pans, P. U . F . , 1947, p. 422). T a l afirmação, discutível no caso romano, aplica-se perfeitamente às numerosas sociedades indígenas existentes no continente americano na fase do descobrimento europeu e da conquista (fins do século X V e século X V I ; em certas regiões, a conquista foi mais tardia). De tal fato derivam-se muitos problemas de documentação e mesmo de interpretação. De documentação: os conquistadores destruíram monumentos — grandes centros urbanos da última fase pré-colombiana foram transformados em cidades espanholas (México, Cusco) — e obras de arte (fundidas quando confeccionadas com metais preciosos), queimaram quase todos os códices (ma-

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Ciro Flamarion S. nuscritos pré-colombianos, encontrados principalmonte na área que hoje corresponde ao México centro-meridional). Mais grave ainda, a conquista e as primeiras fases da colonização significaram a destruição física da maioria absoluta dos índios, através de epidemias repetidas, escravidão e trabamos forçados diversos, confisco de terras, ruptura violenta da organização social, familiar, religiosa, cultural. Entre os milhões que morriam, desapareceram muitos sábios portadores da tradição de civilizações moribundas. Tudo isto limita muito a quantidade de informação que se pôde recolher sobre as últimas etapas da historia pré-colombiana. problemas de^interpretação: nas regiões indígenas e m e s t i ç a s da A m é r i c a , ^ t r a u m a M c w q u l s t a e da colonização se prolonga até hoje, expressaridõ-se na oposição entre "hispanistas" e "indigenistas", apologistas respectivamente da obra civilizadora ibérica e do passado indígena. E m ambos os casos, são posições unilaterais, distorcidas e idealizadas. E m certos países, quase se teria a impressão de que polémicas coloniais — Sepúlveda versus L a s Casas, Sarmiento de Gamboa versus Garcilaso de la Vega — ainda não terminaram... Ê verdade, no entanto, que a conquista não pode explicar tudo..Os tipos possíveis de testemunhos variam também segundo os graus de evolução social do povos pré-colombianos de todas as épocas. Houve, enfim, destruições deliberadas de documentos históricos, por razões políticas, antes da chegada dos europeus. Assim, os astecas destruíram velhos

América

Pré-Colombiana

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códices de outros povos no afã de "reescrever" a seu favor a história do México central. Podemos dividir em três grandes grupos os documentos de que dispomos para o estudo da antiguidade americana. O leitor constatará facilmente que a região melhor aquinhoada é a que os arqueólogos batizaram como "Meso-América" (boa parte do México, Guatemala, E l Salvador e porções de Honduras, Nicarágua e Costa Rica atuais). Consideremos, em primem) lugar, as fontes disponíveispara toda a América. São os restos arqueológicos, os textos em línguas europeias redigidos por conquistadores, cronistas, missionários, funcionários reais dos primeiros tempos da colonização; às vezes também tomos obras de escritores indígenas e mestiços em línguas europeias e documentos legais (relativos à terra, por exemplo) das colónias incipientes. O próprio mapa linguístico da época da conquista, quando é possível reconstituí-lo, torna-se fonte de grande interesse. E m seguida, h á fontes disponíveis principalmente para a Meso-América e a zona andina central (Peru, Bolívia, partes do Equador, do Chile e da Argentina). Referimo-nos a textos em línguas indígenas, provenientes da tradição oral, fixados com caracteres latinos depois da conquista. Merece menção especial, neste ponto, o imenso trabalho de Bernardino de Sanagun no México. Finalmente, temos as fontes só disponíveis para a Meso-América: códices ou "livros de pinturas", dos quais s ó quarenta são pré-colombianos, e outros.

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Ciro Flamarion S. do século X V I , mas feitos segundo a tradição indígena; e inscrições, principalmente na zona maia, ainda não totalmente decifradas na atualidade. Tendo em vista a natureza das fontes disponíveis, que métodos podem ser aplicados ao estudo da história pré-colombiana? O único método universalmente aplicável ao passado indígena da América é o arqueológico, mais exatamente o da arqueologia pré-histórica. Trata-se lia. reconstituição de culturas desaparecidas através dos vestígios materiais por elas deixados (esqueletos dos homens, ou dos animais de que se alimentavam; restos de casas, túmulos, templos; artefatos e objetos diversos: cerâmica, esculturas, instrumentos agrícolas e outras ferramentas, etc), obtidos em muitos casos através de escavações realizadas segundo métodos sofisticados, e interpretados com apoio em uma tecnologia avançada (datação pelo carbono 14, palinolõgia ou estudo dos pólens fósseis para reconstituir floras desaparecidas, métodos estatísticos^ ete-*e em algum sistema teórico acerca dos^aspectos dinar micose^strutuiais_das^ ""^Outra metodologia muito importante para os estudos pré-colombianos é a da etno-história. Esta foi, a princípio, uma espécie de etnografia descritiva, aplicada retrospectivamente às fontes da época da conquista e dos primeiros tempos da colonização. Hoje é algo bem mais sério e interessante: o uso critico de documentos diversos para a reconstrução jlas- estruturas económicas, sociais, políticas e mtelectuais dos diversos grupos indígenas, tratando de

América

Prê-Colombiana

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eliminar as deformações induzidas por uma documentação de origem europeia ou de europeus residentes (criollos), nascidos na América. Apoia-se ao mesmo tempo em métodos históricos _e antropológicos. Por fim, para os séculos que precedem imediatamente a conquista, em certas regiões privilegiadas — como é o caso do México central —, o método histórico no sentido tradicional ou estrito, baseado em documentos escritos que procedem do passado précolombiano ou da fixação da sua tradição oral, é possível, embora os historiadores tenham de se apoiar igualmente nos resultados da arqueologia e da etnohistória. Deve ficar claro, porém, n ã o ser possível para qualquer período pré-colombianõ ja construção de um saber histórico comparável ao que possuímos acerca da Grécia ou Roma antigas,, por exemplo, já que estas são civilizações para as quais podemos dispor de multo mais documentação escrita, possibilitando uma visão bem mais detalhada dos processos e estruturas. Mutatis mutandis, a situação do conhecimento histórico acerca da América pré-colombiana se assemelha à do qtle.se refere à ÂWçaJSfegra précolonial, inclusive najdeformação produzida por uma distribuição muito desigual dos trabalhos dos especialistas no tempo e no espaço: h á regiões e períodos muito frequentados, enquanto outros permanecem quase desconhecidos.

Talvez convenha resumir* antes de mais nada. Two Creeks Inicia-se a difusão das pontas de projétil da tradição chamada Uano. ) e as datas depois de Cristo ( d .l2 autóctone do homem ter-se produzido na América: todos os esqueletos humanos até agora encontrados têm. C . Início da domesticação de plantas (Meso-América. C ) . no Peru. A ponta de projétiJ de Muaco (Venezuela) foi datada entre 14400 a. 11000-10000 Carylll 10000-9100 9100-8800 8800-6000 Valders (1) O sistema de datação mais usual hoje em dia é o que toma como referência o nascimento de Cristo. —— 50000-45000 Altoniense 45000-40000 40000-30000 Farmdale 30000-25000 25000-23000 Iowa 23000-20000 20000-18000 Tazewell I 18000-16000 América provavelmente ainda despovoada. de J . Apogeu do Paleolítico Superior americano. C . os pontos sobre os quais há hoje um consenso geral. . Poucos sitios arqueológicos datados. do latim anno Domini: " â n o d o Senhor"). São elesj_ 1) a impossibilidade de HÍ5?JSy^ Ç. C. ± 500. como TIapacoya. quando muito algumas dezenas de 1 u 16000-15000 Tazewell I I 15000-14000 14000-13500 Caryl 13500-13000 13000-12000 Caryll 12000-11000 Entrada de caçadores superiores por Bering/corredor do Mackenzie (?). H d. 7000 a. Início do povoamento da América (?). segundo Bosch Gimpem. i : 400 e 12 300 a. C .) Fases mais Fases menos Fatos da pré-história americana frias (ou frias glaciares) (retiradas glaciares) Scarborough Talbot Peoria Hackensack New Haven Springfield Brattelboro Tem início a difusão das pontas de proj étil da tradição chamada Plano. C. C . Tempo (anos a. ou ainda a. C. Transição do Paleolítico Superior ao Mesolítico. de J . diferenciando a partir dai as datas antes de Cristo (a. em parte pela quantidade ainda insuficiente e pela grande dispersão dos achados arqueológicos de restos humanos e implementos anteriores ao século X a. D . .América Pré-Colombiana 13 Q U A D R O 1 — Cronologia da última glaciação do Pleistoceno ou Quaternário (Wlsconsln) na América. no México e Pikimachay. SOCIEDADES PRÉ-AGRICOLAS O povoamento da América Esteie uma questão que permanece sem solução cabal. pu quase geral. Grande retirada: fim da glaciação e passagem do Pleistoceno ao Holoceno. ou a.

Características Cronologia no Velho Mundo Cronologia na América 1?parte: Só a Africa é povoada. uma diversificação dos modos de vida.os vestígios se tornam mais go. coletores ou pescadores). nào-espeeializado e não conhece o fo. aDe um mUh&o de anos atrás metade sul da Eurásia e a Indonésia. Difusão da vida agrícola e das aldeias. partir de 40000 a. anos). conduzindo em certos casos aos primórdios da agricultura.(5 milhões de anos atrás. 3 i I 3 3 Superior Ao Homo sapiens sapiens se associa De 40000 anos atrás a entre uma série de Indústrias líticas de alta 11000 e 9000 a. C. mais tarde. talvez a Médio Ao Homo sapiens neanderthalensis e De 100000 a 40000 anos atrás. os enterros meça no Velho Mundo organizados e o culto a crânios de urno máximo há uns50000 sos. No antigo Oriente Próximo asiático já havia aldeias plenamente neolíticas por volta de 7000 a. seble culture. mais. ao HoDo aparecimento do Homem mo hábil is atribui-se a chamada Peb.os grupos humanos neolíticos se tornam sedentários (coisa rara entre os grupos caçadores. no mundo todo. etc). agulhas. Ao Homo erectus. O homem é caçador-coletor lhão de anos antes do presente. f Aproximadamente entre 11000 a. a generalização das aldeias agrícolas sedentárias se dá por volta de 2000 a. abundantes a partir de uns 2 rn^h^fff de anos atrás.cos no seu modo de vida. Primeira arte conheci da. ou Pitecantropo. aproximadamente. de artefatos de lascas. Na América. C. postas de projétQ. Nas regiões mais avançadas. NeoUtico O surgimento de um modo de vida plenamente neolítico na América foi muito gradual. havendo arqueologicamente comprovadas. aperfeidos.Começa entre 11000 e 9000 crolitos (instrumentos de pedra de di. rentes. da tecelagem e do polimento da pedra. f g 3 i o* . difusão do sua cronologia é muito variável arco eflecha. com instrumental çoada e diversificada do que as do Palítico tosco.aproximadamente. com seus toscos talhadores gundo R. C. 2? parte: O homem povoa a África. C . Na América. Apogeu da grande caça especializada. também neste caso a cronologia é variável segundo as regiões. e uma indústria de osso e marfim (arpões. aproximaqualidade e diversificação. quando possivelmente surge o controle do fogo. incluindo damente. . ávida em casapiens sapiens (que covernas (com a glaciação).QUADRO 2 — A s grandes etapas da pré-história (muito simplificado).primeiras embarcações segundo as regiões. mas mensões muito reduzidas). C. C. Na até hoje grupos ainda mesolítiAmérica as indústrias líticas são dife.a. C. Mas o mais importante 6. Aparecimento ou difusão da cerâmica. a 100000 anos antes do presente» aproximadamente. Têm início a caça ditencentes ao tipo Homo reta de animais grandes. outros tipos humanos seus contempo. aproximadamente. C. (talvez bem antes: ponta de Muaco) e 8 800/6 000 a. Mais dados a partir de meio milhão de anos atrás. associa-se a fabricação de artefatos de pedra com duas faces trabalhadas e. Nos casos maisfavoráveis. começa entre 8800 e 6000 a. MesoUtico No Velho Mundo. penetram caçadores-corâneos atribui-se uma indústria lítica letores não-especializachamada Musteriense. mas já perleolítico Inferior. aparecimento de mi. Leakey) até um mide pedra.

começada há uns dois milhões de anos. seus restos e s t ã o hoje sob o m a r . p o r é m . ao qual se atribui no Velho Mundo u m a antiguidade de no m á x i m o cinquenta m i l anos. contestadas ou pelo menos postas em d ú v i d a em maior ou menor grau. sendo todos pertencentes à r a ç a m o n g o l ó i d e . 2) a rota que conduz d a à s i a à A m é r i c a do Norte. é considerada o caminho principal (para alguns. contudo. cujo nível subiu desde a fase final da ú l t i m a g l a c i a ç ã o . u m a prova concludente. Acreditava-se. é hoje frequente achar nas sínteses interpretativas u m a antiguidade m á x i m a p a r a o primeiro povoamento que varia entre 20 e 40000 anos atrás (contra os 5 0 0 0 anos apenas que admitia Hrdlicka). por razões ainda mal explicadas — as hipóteses a respeito são variadas -7-. provocando nas altas latitudes continentais a acumulação de grandes geleiras. que houve u m P a l e o l í t i c o americano — do que pensav a m . se a rota d a primeira m i g r a ç ã o foi costeira e n ã o continental. em especial. atual a r q u i p é l a g o das Aleutas. o Holoceno. atribui u m a antiguidade de no m á x i m o 15000 anos ao complexo cultural mais antigo que descobriu ali. 3) admite-se atualmente u m a antiguidade muito maior ao i n í c i o desse povoamento — aceita-se. L u n d havia 2 (2) As glaciações são fases da história de nosso planeta durante as quais. a a p l i c a ç ã o do m é t o d o de d a t a ç ã o pelo carbono 14 proporcionou datas seguras e numerosas p a r a o s é culo X a. no M é x i c o . separadas por períodos inter-glaciares quentes. período geológico em que vivemos. Quanto à antiguidade m á x i m a do povoamento. contra a ideia anterior d a entrada ú n i c a de u m grupo de migrantes racial e culturalmente h o m o g é n e o s . . P i k i m a - chay. Cardos América Pré-Colombiana 17 milhares de anos. no P e r u . C . seja pelo. 4) embora neste aspecto o consenso seja menos geral. Durante a era geológica chamada Pleistoceno ou Quaternário. entre 21700 ± 500 e 24000 ± 4 0 0 0 anos atrás — a cifra depois do sinal i indica a margem de erro possível p a r a mais ou p a r a menos. O escavador do sítio de O n i o n Portage. perto de Bering. Anderson). entre outros sítios). e t a m b é m n a medida em que se estabelecem h i p ó t e s e s sobre a m i g r a ç ã o asiática vinculadas à s fases do ú l t i m o f e n ó m e n o glaciar do Q u a ternário ( g l a c i a ç ã o chamada de W ú r m no Velho M u n d o e de Wisconsin n a A m é r i c a ) . n a medida em que algumas datas v ê m obtendo u m consenso consideravelmente amplo (Tlapacoya. mas isto n ã o é. j á que. ao c o m e ç a r o s é c u l o . e nas zonas tropicais o aumento das chuvas. como veremos.16 Ciro Flamarion S. atemperaturamédia baixa consideravelmente. e por outro lado n ã o h á restos de grandes primatas fósseis no continente americano. D . Pouco a pouco. houve quatro glaciações. seja pelo que é hoje o estreito de Bering. no c o m e ç o deste s é c u l o . Isto apesar de que P . no A l a s c a ( D . sendo do tipo totalmente atual (I$Qmo sapiens sapiens). o ú n i c o ) e mais antigo das m i g r a ç õ e s povoadoras da A m é r i c a . s á b i o s como Ales H r d l i c k a ou W i l l i a m H * Holmes. 19600 ± 3000 anos atrás. 'muitos especialistas acreditam que o povoamento se fez em diVersas ondas e no curso de longos p e r í o d o s . T o d a s as datas mais antigas foram. que os povoadores d a A m é r i c a tivessem vindo da à s i a pelo caminho de Bering. W . segundo alguns não passa de uma fase inter-glaciar.

do qual mais tarde evoluiriam os mongolóides atuais. Quanto ao caminho principal. Parece bem estabelecida. Cardoi descoberto (por volta de 1840) e S. é inclusive absurdo insistir na unidade mongolóide dos povoadores. C . Sabe-se que os vikings colonizaram a Groenlândia (séculos X . mas apenas p r é ou proto-mongolóides. recebe algum apoio de elementos derivados do estudo linguístico. a maioria dos pesquisadores . australiana. mais apoiados na arqueologia. A ideia de um povoamento heterogéneo em diversas ondas. O esquema de Rivet foi substituído por outros. através de numerosos indícios culturais. até fins da era pré-colombiana. podem ter-se dado tanto no sentido oeste-leste quanto no sentido contrário. paralelas às que estavam ocorrendo na Ãsia. pelo Atlântico e pelo Pacífico (para n ã o mencionar a hipótese antartica de Mendes Correa). ou seja. (que parecem constituir u m a especialização bastante recente às condições de frio extremo da Ásia Setentrional). C ) . o de Bering. a ocorrência de contatos através do Pacífico: estes seriam tardios. e talvez se tenham dado em diversas ocasiões.18 Ciro Flamarion S.s e igualmente postular um povoamejnto pré-históricõ através da navegação transatlântica_na época do Magdalenijgñse europeu (por volta de 12000 a. em poucas dezenas de milénios. haver trazido à A m é r i c a mongolóides autênticos. relativamente antigo^atribui-se-lhe hoje uns dez mil anos). Agora. A América pode ser atingida pela região do estreito >ée Bering. defendida entre outros por Paul Rivet (para quem tais ondas seriam: asiática. posteriores a 3 000 a. ondas mais recentes de povoamento asiático podem. C . se formaram as duas mil e seiscentas línguas. sem ter tido impacto discernível sobre as culturas i n d í g e n a s / P r e t e n d e u . como t a m b é m a que menciona possíveis influxos negroides africanos. como n ã o está provada a existência h á 40000 ou mesmo 20000 anos atrás de embarcações capazes de atravessar o estreito. Os proto-mongolóides que passaram à América viveram aí em condições de meio-ambiente muito variadas durante milénios. melanésia e polinésia). j á que n ã o existiam mongolóides quando se iniciou a migração. baseados por exemplo nas m u d a n ç a s de tecnologia: é verdade que um novo elemento técnico pode provir de invenção paralela. Hansen estudado (1888) o "homem de Lagoa Santa" (Minas Gerais). pertencentes a diversos grupos linguísticos (alguns j á residuais). Já vimos que os contatos transpacíficos são indubitáveis. um estoque racial menos especializado. Parece difícil. o qual nada tem de mongolóide. sem dúvida. hipótese que repousa em bases muito frágeis. sendo altamente provável que tenham sofrido m u t a ç õ e s e variações genéticas. Por outro lado. que existiam no América Pré-Colombiana 19 continente americano ao começar a conquista europeia. ou da migração de grupos numericamente ínfimos. ao aceitar-se u m a antiguidade maior para o povoamento do continente. explicar como. se se partir da ideia de u m único movimento migratório h o m o g é n e o . do contato cultural ou comercial sem migração. mas tardios: além disto. ) e ¥tíngirartr~a América do_Norte.X V I d.

raízes.caçados por meios iridiretos. complicadas pela insuficiência de conhecimentos sobre a pré-história da Sibéria a leste do rio Lena. 3) uma densidade_de população muito bajxa. fazendo-os cair em armadilhas. aparecendo n a região do estreito e das ilhas Aleutas todo um subcontinente.)» quando se abriu o corredor do Mackenzie. ãt5Sa^r?se~e^^ântànõs etc. furando a sua aura pele. o que se reflete. j á o veremos. 2) um modo de viò^baseado na coleta e lu^çaça não-especializadas (subsistênciajdependente da_coleJa_de frutas. Falta ainda. n ã o _ p M j ^ s s â o ) c o m a u s ê n c m d e p o n t a s deprojétil de pedra. dos utensílios pré-históricos de ambos os lados do estreito de Bering (na linguagem técnica da arqueologia. a outra. e em grande escala. costeira e mais antiga (talvez durante a fase glaciar de Farmdale.). que nada impede que grupos humanos do Sudeste Asiático e da China. Ê verdade. A questão de determinar o nível cultural dos primeiros povoadores é objeto. hajam também América Pré-Colombiana passado à América: vários autores defendem correlações culturais segundo esta hipótese. numa fase de parcial retirada glaciar (talvez a de New Haven. vincula as primeiras migrações à última glaciação. na atualidade. subindo pela costa da Ãsia. A . de fato. Ê interessante notar que. a AméjigajBMÜiejara uma etapa cultural cuias características seriam : 1) o caráter tosco e não-especializ ã d o d o s utensílios (pedras talhadas por JoercussãcLe. Bosch Gimpera sugerem que possivelmente devemos distinguir duas rotas: uma. quando a água retida nas geleiras continentais fez baixar o nível do mar. anteriormente aos caçadores especializados de-grandes animais. o estreito de Bering às vezes se congela e pode ser atravessado a pé. seguida por caçadores e pescadores adaptados a um ambiente ártico de tundra. C . tratar-se-ia de uma análise e correlação multivariável de artefatos e complexos). a "Beríngia". interrompendo localmente a barreira das geleiras continentais: estes novos povoadores teriam avançado do norte canadense ao centro dos Estados Unidos de hoje. Heusser e P. 21 Existiu na América uma etapa cultural anterior ao Paleolítico Superior? Há muita discussão a respeito de saber se. C ) . de caçadores avançados j á providos de projéteis com ponta de pedra. um estudo sistemático de tipo comparativo. _devido ao nível primitivo ç ^ f o r ç a T ^ o ^ t r i r a s . armados de projéteis com ponta de pedra. J . contornando o que é hoje o litoral do Canadá e chegando ao oeste dos atuais Estados Unidos. C.20 Ciro Flamarion S. entre 40000 e 30000 a. animais grandes doentes ou então. interior e posterior. que pelo sul da ponte de Bering ou pelas Aleutas passaram ao sul do Alasca. de grandes polémicas. em um nújãero pequfinoJ[se compai t . animais pequenos^iilhotes. C . aliás. Chard. e portanto da possibilidade de atacar frontalmente osjgrajjdes mamíferos. entre 15000 e 14000 a. no registro arqueológico.

surge de imediato outro problema. mas t a m b é m existem no que hoje s ã o o M é x i c o e os Estados U n i dos. A s provas a r q u e o l ó g i c a s disponíveis para afirm a r a e x i s t ê n c i a de tal etapa cultural sao a t é agora mais numerosas n a A m é r i c a do S u l . . (4) Chamamos hominídeos a um grupo de mamíferos da ordem dos Primatas que inclui o homem atual (Homo sapiens sapiens) e seus predecessores fósseis em linha direta.. o Homo sapiens neanderthalensis e seus c o n t e m p o r â n e o s ) . mas só esta se conservou no registro arqueológico na maioria dos casos. O homem pré-histórico usava madeira e outras matérias-primas além da pedra. 5) finalmente. u m caráter conservador na sua tecnologia l í t i c a : o Paleolítico Superior siberiano. e . (5) Formas de fabricação de objetos ou utensílios de pedra. sendo por tal razão tomada como critério de classificação dos grupos humanos da Pré-História. p a r a certos fins^jitensííios ae a p a r ê n c i a tosca: n ã o s ã o propriamente a r c a í s m o s . por exemplo) com qualquer certeza^ n ã o sendo representativa a amostra que proporcionam. s ó se desenvolveu em fase c r o n o l ó g i c a absoluta correspondente ao M e s o l í t i c o europeu. A s d ú v i d a s permanecem devido a u m a série de fatores: 1 ) c e r t o s s í t í o s que_sfi-pretende atribuir a t a i ç t a p a são__superficiais. grupos humanos tecnicamente a v a n ç a d o s j ? o d e m _ f a b r i c a r .d e v i d a s à f a b r i c a ç ã o humana. O r a . j á vimos que n a A m é r i c a n ã o h á qualquer sinal de tais h o m i n í d e o s anteriores ao Homo sapiens sapiens. no P a l e o l í t i c o . Homo erectus. Cardosi América Pré-Colombiana rado com o de fases seguintes) de sitios pré-histór i c o s ^ u e possam ser atribuídos a esta etapa. levaram a respostas t é c n i c a s parecidas. 4) muitos sítios. s ã o t ã o pobres que n ã o é p o s s í v e l afirmar a a u s ê n c i a de elementos do Paleolítico Superior (pontas de projétil. mas contesta-se que os artefatos descpÍjertofo.SfiJ de fato: seriam apenas-formaç õ e s naturais 4e pedra. e cada vez mais especialistas aceitam a exis>^(3) Sítio pré-histórico é uma localidade na qual foram encontrados restos arqueológicos de assentamentos humanos da Pré-Histôria. as t é c n i c a s anteriores ao P a l e o l í t i c o Superior aparecem associadas a h o m i n í d e o s f ó s s e i s (Homo habilis. além de alguns ramos colaterais extintos sem descendência. impedindo u m a d a t a ç ã o confiJyjeJ¿je^utao^mü^a_toram datados. p o r é m . mas tais dalas foram depois revistas ou postas em dúvida. no Oriente P r ó x i m o e n a Africa. p o r é m .22 Ciro Flamarion S. teria havido simplesmente u m a t r a n s f e r ê n c i a à A m é r i c a de u m atraso t e c n o l ó g i c o (e no modo de vida) j á presente nas r e g i õ e s de origem dos primeiros migrantes. am t ê n c i a dessa etapa cultural americana prévia ao P a leolítico Superior. A s sim. Ocorre. 4 5 No conjunto. por exemplo. Ao aceitar-se isto. que a à s i a meridional e oriental apresentava. ao voltarem a aparecer.^ i m ^ ^ s i f f i B o de que necessidades semelhantes. como os Australopitecus da Africa. o ceticismo tem dimin u í d o . 3) ás vezes a d a t a ç ã o do^lítio ~è segura.2) em certos casos fez-se a d a t a ç ã o pelo carbono 14. n ã o . N a E u r o p a . que indicou grande antiguidade.

Discute-se muito a q u e s t ã o d a origem das pontas de projétil americanas: d i f u s ã o a partir d a à s i a ou i n v e n ç ã o independente n a A m é r i c a ? A ú l t i m a h i p ó t e s e parece mais provável.e s p e c i à T i z a d a s _ d a etapa anterior. em particular p a r a as pontas altamente especializadas da tradição c h a m a d a Llano (Clóvis. Folsom. cavalos e camelos fósseis. ^ ^ _ e x ^ c n e d o s _ r e s t o s ^ r 4 u e o l ó g i c i ^ correspondentes a este P a l e o l í t i c o Superior americano mostra principalmente o seguinte: 1) a proliferação dos sij tios^jnpUcarido maior densidade demogrârTca em f u n ç ã o de u h j ã Tecnologia mais eficiente.24 Ciro Flamarion S. e m varias partes do continente americano. menos especializado) e aparente- . podendo-se admitir u m a origem asiática p a r a o tipo mais generalizado (ou seja. grupos humanos dotados de u m a tecnologia lítica que i n c l u í a as pontas de projétil hajam c a ç a d o grandes animais a t u a í m e n t e extintos. principalmente entre T T 0 0 0 e 7 000 a. Scottsbluff. e t c ) . por r a z õ e s tipológicas e c r o n o l ó g i c a s . c coleta n ã o . com m o d i f i c a ç õ e s . do V£noâo PleistocenoV-ma^ mutes: b i s õ e s . 3) a persjst ê n c i a j > a r a l e l a d a antiga t r a d i ç ã o l í t i c a j j g a d a à c a Ça. 2) u m a s u c e s s ã o de tipos de pontas de projétil e outros artef a t o ^ ^ ^ ^ m ^ c í u m a diversidade ou r e g i o n a l i z a ç ã o c a d a vez maior dos complexos t é c n i c o s . Jioie n i n g u é m duvida de que.. C. megatérjos^ mastodontes.. etc. Cardoso v O Paleolítico Superior Se a fase precedente é objeto de controvérsia. durante vários m i l ê nios.

mas evidentemente sob mútua influência. embora o grupo ali residente dispusesse de pontas de projétil e sem dúvida também caçasse. ligado à tradição chamada Plano. C . subiu gradualmente a t é 3 0 0 0 a . Cardoso mente mais antigo de pontas. terminando 5 ^ c o b r i r á s platafórmas continentais. o f América Pré-Colombiana 27 modo de vida pode ser classificado como baseado sobretudo n a coleta de plantas e animais e n ã o n a caça especializada. ao M é x i c o e — em forma modificada (com p e d ú n c u l o e à s vezes em forma de "rabo de peixe") e em menor densidade — chegando à extremidade meridional da América do Sul ^-Pesquisas como as de MacNeish e sua equipe no vale mexicano de Tehuacan mostram que seria errado imaginar este período como se todos os habitantes da América fossem principalmente caçadores de animais grandes. Já as pontas Llano. ou pelo menos eram um recurso tão abundante que chegava a inibir a exploração de outros tipos possíveis de alimentos. os grupos dedicados ao modo de vida menos especializado — provavelmente mais antigo — em muitos casos adotaram u m a tecnologia mais avançada do que aquela de que dispunham no passado. Porém. entre 8800 e 7 000 a. Por volta de 6000 a. . C . ± 500. C . fase contemporânea do sítio de C a mare). daí passando ao resto da América do Norte. Aproximadamente em 2500 a. entre 14400 a. c o m e ç o u na América c õ m j l r a s o em relação à Europa. Devemos. C . E m outras regiões americanas. com a retirada das__grandes geleiras continentais. C . t ê m o seu centro de difusão. ± 400 e 12300 a. O Mesolítico C O _ j i m do_último período glaciar. em Tehuacan. Brennan) postulam uma invenção sul-amerícana — n a atual Venezuela — das primeiras pontas de projétil (sítio de Muaco. os grandes herbívoros pleistocenos parecem ter sido o ú n i c o recurso natural amplamente disponível (para os que dispusessem das técnicas adequadas). n a região norteamericana que se estende do leste do Arizona até o noroeste do Texas e o sul do Wyoming.26 Ciro Flamarion S. a situação climática se tornou muito semelhante à atual. Assim. E m certas áreas. E m particular. C . porém. C . durante a fase que os arqueólogos chamaram "Ajuereado" (10000-7200 a. a partir de aproximadamente 10000 a. devido à alta produtividade da caça especializada. certos autores (Cruxent. C . mais aperfeiçoadas e especializadas. uma tal especialização seria impossível ou pouco produtiva. marcando o início d a transição entre o Pleistoceno e o Holoceno ou período geológico atual. ) . pois. O j j j x e L d a mar. C . complefôu-se a retirada das geleiras e abriu-se uma fase quente e seca que se prolongou até 3000 a. nas quais suB|iu um ambiente . imaginar dois conjuntos pancontinentais de complexõ^Kticos. refletindo dois modos de jjida básicos (caça e coleta generalizadas por ^um j^dò7~caça_es^e3al!jzada por outro lado).

com modificações — coleta e caça generalizadas. crustáceos e peixes. Mas na Patagônia. C . Tratava-se de combinar um grande n ú m e r o de alimentos selvagens vegetais e animais. responsável 1 r . pesca marinha n a costa do Peru e do Chile. estando a plataforma continental a descoberto). baseados na pesca marinha e fluvial (pesca do salmão no rio Colúmbia. a n ã o ser o modelo ártico baseado na caça de mamíferos marinhos e na pesca. todas estas transfoxniações—teriam por forca Que suscitar m u d a n ç a s de peso_no mõdodevi^^ dos habil£hieíf<l<M^ foram r^pjentinaSjrnas^^ «ertas~z«nas_da^Unériç4^ E m termos globais. procurando a garantia de u m a dieta suficiente e equilibrada ao longo das diversas estações do ano. caça especializada — . reveladas pelo registro arqueológico. nas regiões árticas da América). e que se mantiveram em certas regiões. em favor de uma diversificação e regionalização crescentes dos modos de vida e das culturas pré-históricas. passava-se abruptamente do litoral a grandes profundidades marinhas. coleta vegetal especializada. À s modalidades de subsistência que j á existiam América Pré-Colombiana 29 anteriormente. em zonas marinhas mais rasas (antes. C . C . (embora na região costeira do Rio Grande do Sul vivessem megatérios. em muitas regiões. em vastas regiões canadenses e dos Estados Unidos e M é x i c o atuais.28 Ciro Flamarion S. os diversos modos de subsistir t a m b é m se misturaram em muitos casos e em graus diversos. pesca marinha ou fluvial. muito especializado por razões ligadas a um meio ambiente peculiar. Por outro lado. cavalos fósseis. C . p o r é m . Nisto o Mesolítico americano se parece com o da Europa. mastodontes e outros mamíferos do Pleistoceno em 5000 a. C . A flora t a m b é m se modificou. antes cobertos pelas geleiras. durante o auge da glaciação. mas agora por prados. lenta mas radicalmente. C ) . Evidentemente. T a l processo j á i a avançado por volta de 7 000 a. continuou predominando até mais ou menos 5 000 a. n ã o h á dúvida de que a grande caça especializada recuou entre 7000 e 3000 a. embora o mesmo n ã o ocorra no plano das tipologias de artefatos (os "microlitos" típicos do Mesolítico europeu s ó apareceram. Michigan e Indiana em 3500 a.)} e na coleta de moluscos. posterior ao europeu. por exemplo. a t é que a desertificação a tornou impossível no sudoeste norte-americano e em partes do M é x i c o . depois de 5000 a.' A caça especializada desenvolveu-se nos planaltos do Canadá. Cardoso propício à multiplicação de moluscos. continuou existindo até a chegada dos europeus. etc. e por mais que ainda houvesse mastodontes no Ohio. A fauna típica do Pleistoceno sofreu u m lento processo de extinção. outras v ê m juntar-se: exploração especializada de moluscos e outros recursos marinhos. / / A exploração especializada de recursos aquáticos deu lugar a modos de vida variados. / / O velho modo de vida baseado na caça e coleta generalizadas se manteve sobretudo em regiões de bosques. etc.

pequenos animais) se destina em princípio a cada família. Morgan para adequá-lo às descobertas da etnologia e da arqueologia nos últimos cem anos. além de uma porção da zona andina centromeridional da América do Sul. no conjunto. nesse nível técnico. H . baseado na caça do caribu e de mamíferos marinhos e na pesca. de circulação instantânea. surgem no registro arqueológico moendas de pedra e também os indícios dos primórdios da agricultura. O fundamento económico do bando é a divisão do trabalho segundo osexo. Cardoso pela formação de "restos de cozinha'* que. formaram os sambaquis em muitas regiões costeiras do Atlântico e do Pacífico. suJ>stituindo-a pèTã~de"bando*'. o que significa de seis a oito homens adultos formando um grupo de caça. A coleta vegetal especializada caracterizou diversas partes do México e o sudoeste dos Estados Unidos. tanto na parte norte quanto na meridional do continente. TJñTbando é sobretudo uma associação residencial de famílias nucleares ou restritas. América Pré-Colombiana 31 A organização social dos grupos humanos pré-agrícolas Os antropólogos e arqueólogos neo-evolucionis- tas norte-americanos. Os bandos correlacionados integram uma "tribo dialetal". ou ártico. abandonaram a noção d e ^ j o r d a pnmitiva j)ara a caracterização dos grupos de caçadores e coletores. O produto da caça sofre um processo de redistribuição imediata. com umas quinhentas pessoas: a quantidade de indivíduos que. amontoando-se. segundo um sistemaexogâmicc^éviriíocaíHos homens 3eum bando devem buscar esposas_em outros bandos. Por fim. numericamente. A arqueologia reflete a grande variedade das modalidades de subsistência — muitas das quais continuaram vigentes em certas regiões americanas até a conquista ou mesmo até hoje — e também a diversificação e regionalização j á mencionadas dos complexos líticos. com 9000 anos ou mais. sinal de uma crescente estabilização de dados grupos humanos em regiões delimitadas. cada família recebe uma quantidade equivalente. podem manter uma identidade comum sem controle político institu. E m certos casos. Os direitos de uso sobre os territórios de caça e coleta são coletivosi. Já o produto da coleta (vegetais.4e imiividual). de tal forma que todo membro do bando se beneficia (em maior ou menor grau) com cada animal abatido e. Os caçadores cooperam entre si. adaptando o esquema de L . ao redor de vinte e cinco pessoas na maioria dos casos. temos o modo de vida dos esquimós. enquanto a pesca especializada parece ser mais recente (estabelece-se entre 5 000 e 4 000 anos atrás. e estas vêm residir no bando dos maridos). sendo a caça uma. A l guns sambaquis são bastante antigos. segundo regras de reciprocidade.t _ p .30 Ciro Flamarion S. e às vezes bem mais tarde). Notou-se que um bando gira. atividade mascai" * ( cooperativa) e a Cj3letar-uma-^jvid^e^mm4na.

janeiro-março de 1971. n ã o traz privilégios. implícito neste tipo de organização. baseado na influência e no prestígio pessoais. tentativas nesse sentido: cf. a generalização das sociedades tribais se d á principalmente com a difusão da agricultura. 101-119). mesmo em sociedades pré-agrícolas.). que no fundo inclui sociedades profundamente heterogéneas sob uma etiqueta única. guando a caça abundante dw grandes animais ou a pesca ou coÍêta*espêcializadas permitem o surgimento de um excedente econômico acima do consumo imediato. porém. "Recherches sur les modes de production cynégétique et lignager". no entanto. ocasional e temporário nas suas formas de existência (assim j3ode_-haver o chefe de u m a caçada. é possível. mais complexa do que a dos bandos. O nomadismo. mas pode haver algum comércio entre bandos devido a uma distribuição desigual dos recursos naturais disponíveis para cada bando| Idade e sexo são os únicos elementos de diferenciação social.obtenção de alimentos). porém. sendo horizontal. o que pode ser útil. por exemplo Jean-Claude Willame. A t é agora. n ã o podemos dizer que os resultados da discussão desenvolvida nas últimas décadas nesse sentido sejam satisfatórios^ casos favoráveis. deixaremos para mencionar adiante as características desta forma de organização social. o surgimento da orgàmzacJojQibal. in L 'Homme et la Société. um j m g i ã o que dirige o culto por conhecer melhoro ritual. exige uma revisão urgente. com a dispersão em microbandos durante os meses mais d i f í c e i s ^ " Que dizer sobre o modo de produçãouáojj^ça^_ dores-coletoresIÊA noção de "bando" satisfaz certos requisitos para u m a descrição empírica e uma classificação social em comparação com outros tipos.j>ois o poder. pp. N ã o h á especialistas de tempo completo (já_cme todos os adultos se devem dedicar à . sem o desenvolvimento de linhagens.32 Ciro Flamarion S.» etc. como em outras partes do globo. obriga~a -reduzir ao^mínimo os objetosJalDricados e usados. com sua "horda primitiva"' e seu "comunismo primitivo" (ou "comunidade primitiva"). América Pré-Colombiana 33 cionalizado (que inexiste: os bandos são anarquias no sentido etimológico do termo). ocupando acampamentos maiores. a construção de um modo de p r o d u ç ã o específico/(houve._atravès de relações pessoais diretas suficientemente intensas e íntimas. mas difícilmente pode servir de base p a r a . c . genealogias longas e •cujtô de antepassados. Como.coletores pré-históricos alterna com frequência a concentração em macrobandos. nos períodos do ano em que a subsistência. "5jrà "arqueologia do Novo Mundo mostrou que. n ? 19. o esquema tradicional marxista. é obtida mais facilmente. A Base social é o parentesco simples. o habitat dos caçadores. mais abundante. Por outro lado.

ou. tecelagem —. a noção de "revolução neolítica". se recolocarmos as transformações neolíticas na perspectiva temporal global da pré-história humana. entendida como um conjunto vinculado de invenções — domesticação de plantas e animais. 97-142). a cerâmica pode preceder a agricultura (como talvez haja acontecido em algumas regiões costeiras do Mar dás Caraíbas). embora só em tempos neolíticos encontremos a sua vinculação coerente num tipo dado de sociedade e em novas possibilidades abertas aos grupos humanos (sedentarismo. pelo contrário. quando na verdade se estendeu por milénios. sem ser abandonadaTsofreu diversos ataques que pelo menos areflativizar am. tal expressão pode dar a ideia deaTgó rápido e "explosivo". surgimento de aldeias e da organização tribal avançada. entre o V I I e o I milénio a. Assim. atualmente está demonstrado pela arqueologia que não há vinculação necessária entre as invenções neolíticas (nem ao nível de seu aparecimento. cerâmica. pode ocorrer uma longa fase agrícola préceramica (como na Meso-América e^jajcosta do P e n i K ^ a região dos Grandes Lagos norte-ameri- . foi popularizada h á meio século pelo grande arqueólogo australiano V . elas parecerão rapidíssimas comparadas com os dois milhões de anos (pelo menos) do Paleolítico. 1947. que. Mesolítico) — em invenções e mudanças radicais do que os escassos milénios do Neolítico. ^ o r exemplo. coisa que é ainda mais verdadeira na A m è n c a . muito menos ricos — salvo na sua fase terminal (Paleolítico Superior.América Pré-Colombiana 35 1 SOCIEDADES AGRICOLAS PRÊ-URBANAS A "revolução neolítica'' e sua difusão ' A noção de uma "revolução neolítica". E d . significando principalmente a transição de grupos humanos da situação de predadores da natureza à de produtores. pp. ~~Em primeiro lugar. C . porém. Cosmos.)/ Hoje. Cordon Childe (ver. por exemplo. produção de um excedente além do consumo imediato. Lisboa. etc. a proporção das plantas cultivadas na alimentação passou de 5 para 5 0 % / E indubitável. Por oujxo__la_do. nem'He sua difusão a outros graposklembora seja verdade que os grupos humanos que se^ desenvolveram mais foram os que as reuniram todasjs. O Homem Faz-se a Si Próprio. polimento da pedra. em Tamaulipas (nordeste do México atual). te verdade que tal autor tinha plena consciência de que algumas dessas invenções puderam preceder o Neolítico pleno.

a partir de 7000 a. a pimenta. embora haja especulações pouco fundamentadas a respeito. 37 canos. quinoa). C . também parece ter sido encontrado em sítios neolíticos da China. foi domesticada a mandioca. e tendo como domesticações principais o milho. a partir de mais ou menos 5 000 a. independentemente do Velho Mundo. feijão. a mais antiga das espécies vegetais domesticadas no continente americano. . uma espécie comestível de cão e o peru. a cabaça. na plantação de mudas. podemõs3istmguir os seguintes focosdo Neolítico americano/l)}t'Meso-América. C . além do que. situado no Oriente Próximo. que a cerâmica"so~se desenvolve plenamente entre grupos sedentarios. o feijão./ Agora acredita-se na pluralidade de focos da "revolução neolítica . podemos dizer que o Neolítico americano. pescadores e coletores). adomesticação de. aproximadamente. A presença de machadinhas de pedra polida está também demonstrada entre grupos não agrícolas / M a s é igualmente certo. C . Assim. colheita e armazenamento de grãos de cereais e leguminosas (milho. pertencente a duas espécies distintas. por exemplo. No caso da América. originou duas grandes tradições agrícolas: uma baseada na semeadura. plantas ioi incomparavelmentemais rica do que a=de animajs_ qfflgá*pela ausênciarrmrfauna holocena americana.36 Ciro Flamarion S. o cacau. o feijão. 3) è m região e época ainda não-determinadas (talvez no noroeste da América do Sul). ao difundir-se a partir dos seus focos. C . com a batata. não tem um antepassado selvagem na América — ou ainda não foi descoberto.s que dis: põem de estoques e excedentes para armazenar (coisa muito mais frequente entre agricultores do que enfrejcáçadores. 2) à Zona Andina Central (onde só a costa foi realment e estudada quanto às origens agrícolas). a outra. grupos de caçadores usavam já instrumentos de metal (cobre martelado) no I I milenio a. parece resultar de hibridação de espécies selvagens americanas e do Velho Mundo. era cultivada tanto na periferia da Meso-América quanto no Sudeste Asiático por volta de 7 000 a. ^^gíro!qiie-sftjfl majfl titíl para_ j«j«ftriarie. As possíveis relações e permutas entre tais focos neolíticos n ã o são conhecidas. E o amendoin. sendo uma das suas utilidades básicas a de guardar coisas. é hoje bastante difundida a opinião de ter ocorrido uma invenção da agricultura na América. sendo frágil demais para ser transportada constantemente sem perigo ou mcômodo. man>==r i . amaranto. típico da agricultura americana. a quinoa. _ de_gr^^^es mamíferos domesticáveis. ganhando outros ambientes aos quais se adaptaram através da domesticação de novas espécies vegetais e animais. além dó mais. a cabaça._De maneira simplificada. produzindo raízes e tubérculos (batata. ~i Àcreditava-se no passado ter existido um só foco de desenvolvimento da agricultura e da criação. do qual tais atividades progressivamente se estenderam. o lhama. O algodão americano. Sempre em forma simplificada. Ernjoarticular. embora haja alguns problemas ligados à origem botânica de certas plantas e à prioridade geográfica de sua domesticação. a cãb^iÇ(Lagenaria siceraria).

46. até uma agricultura sedentária. Seja como for. por outro lado. a agricultura antiga do Novo Mundo apresentava certas deficiências técnicas quando comparada globalmente à do Velho Mundo: uso exclusivo da enxada e de bastõe^jipnuffi^^Sura semear. intensiva.. 1978. o mesmo fàtor explicaria também o não-súrgimento de_xeículos com rodas). MEC. ausência do arado (talvez por faltarem grandes animais domésticos capazes de puxá-lo. dioca. Brasília.) . utilizando a irrigação). desempenhandoji batata um grande p a p e l ã o do predomínio do milho. que se escalonavam desde uma agricultura primitiva e itinerante. aipim. batata-doce). (Fonte: João Frank da Costa. não-desenvolvim^to dojiso abundante de rn^ais Para^cOnfêcc3B*oy instrumentos agrícolas (tal. à distribuição dos três principais complexos agrícolas americanos: o andino (no qual o milho teve desenvolvimento maior só tàrEiamente. diante da p. sendo muitíssimo menos discernível na América). 2 — Os complexos agrícolas pré-colombianos. tecnologicamente iftãis elaborada (por exemplo. deu origem^a sistemas agrários muito heterogéneos.desenvolvimento foi tardio màTtmportante no Velho Mundo.38 Ciro Flamarion S. 2 mostra. Como a agricultura ganhou no continente americano meios ambientes naturais e culturais variadíssimos. A Fig. e com um esboço ao menos do desenvolvimento da propriedade privada sobre a terra. o América Pré-Colombiana Fig. Evolução Cultural da América PréColombiana. e aquele em que predominava a mandioca. praticada como atividade subsidiária extensiva de baixa tecnologia por grupos coletivistas que continuavam sendo basicamente caçadores-coletores. falta de uma associação intima entre agriculturae criação de gado. Partindo dos focos de__seu descobrimento.

um aumento espetacular e exponencial dos recursos disponíveis. novas hipóteses se desenvolveram. na Meso-América. Já K . Binford e Flannery num modelo único. que alguns dos focos neolíticos melhor conhecidos — o Oriente Próximo e. trabalhando sobre uma região muito diferente — a costa central do Peru. partindo de um crescimento vegetativo da população e não da imigração. Meyers fundiu as hipóteses de Braidwood. a agricultura só chegou na segunda metade do I milenio de nossa era. como Gordon Childe. Acontece. incidindo negativamente em certas regiões sobre a disponibilidade adequada de recursos préagrícolas. conhecimento da agricultura se difundiu a boa parte do continente americano: 1) à partir da Meso-América. por exemplo). quase todos os pré-historiadores tendiam. sofreu a influência conjugada de todos os focos iniciais. Porém. J . Certos autores utilizam tal hipótese em forma modificada. porém. L . no vale do Mississipi.40 Ciro Flamarion S. Binford preferiu buscar a resposta numa pressão demográfica causada por imigração. O extremo meridional da América do Sul n ã o chegou a conhecê-la em tempos pré-colombianos. Braidwood. permitem finalmente uma verdadeira "explosão". e de um conhecimento cada vez mais profundo das plantas e animais existentes no habitat de cada um desses grupos. T . por exemplo. espigas. marcado pelo fato de que certas plantas não respondem às tentativas de domesticação com qualquer efeito multiplicador drástico sobre os recursos disponíveis para a alimentação. enquanto outras — como o milho — . R. as Antilhas e porções da América do Sul. E s t a difusão foi lenta: à bacia do Paraná-Paraguai. ao serem domesticadas e aos poucos aperfeiçoadas seletivãmente pela própria domesticação (no caso do milho isto provocou muito notável aumento das. n ã o responde à difícil pergunta: por que foi empreendida? H á algumas décadas. surgindo então a agricultura como solução. onde os recursos terrestres eram complementa- . que inclui as partes não-meso-americanas da América Central./^)a chamada "zona agrícola intermediária^'. a ver os inícios agrícolas como uma resposta às drásticas mudanças ecológicas e climáticas que marcaram a passagem do Pleistoceno ao Holoceno. acredita numa causa- lidade cultural: o Neolítico seria simplesmente a culminação de uma diferenciação e especialização culturais crescentes dos grupos humanos a fins da préhistória. U m dos principais escavadores do Neolítico do Oriente Próximo. Assim. o vale mexicano de Tehuacan — são justamente regiões relativamente pouco afetadas por tais mudanças. f A descrição da domesticação de plantas e animais. a porções não-meso-americanas do atual México e aos Estados Unidos — embora se discuta a possibilidade de umOteolítico jnjfependeníe*__por exemplo. Flannery considera a passagem da vida nómade de caçadorescoletores à sedentária de agricultores estáveis como um longo processo. 2) a partir do ponto de origem da mandioca e da Zona Andina Central. Para explicar o surgimento e desenvolvimento da agricultura no vale de Tehuacan. à Amazonia e depois à região dos ríos Paraná e Paraguai.

América Pré-Colombiana 43 A diversificação cultural dos grupos agrícolas pré-urbanos Ao terminar a era pré-colombiana. principalmente do milho na Meso-América. ± 150. a região dos chibchas da Colômbia. e em ser difícil explicar de outro modo o aparecimento súbito de cerâmica de tão boa qualidade. Arizona) haviam conhecido uma densidade comparável no passado. 2440 a. Meggers. / . a questão das causas do surgimento da agricultura talvez tenha de receber respostas variadas segundo os casos. as superfícies cultivadas diminuíram. na ilha. Assim. a cerâmica é bem tardia: aproximadamente 1750 a. Estrada. com uma agricultura do milho baseada no sistema de coivara. talvez uma parte da zona maia. os planaltos centrais do México.42 Ciro Flamarion S. Pierre Chaunu propõe distinguir. a difusão da cerâmica foi processo longo que n ã o chegou a se completar em tempos pré-colombianos. Certas porções do sudoeste norte-americano (Novo México. baseando-se na semelhança com a cerâmica do período Jomon médio do Japão. nos Andes. a das planícies e planaltos maias. C ) . dos por abundantes recursos marítimos. Cómo no caso da agricultura — mas sem paralelismo necessário com esta — . C . em função de circunstancias e ambientes distintos. engolidas pelo deserto que avançava. Na MesoAmérica a mais antiga cerâmica conhecida é da segunda metade do I I I milénio a. mas a partir de fins do século X I I I d. No Peru. Outro tema muito debatido é o da origem da cerâmica no Novo Mundo. A mais antiga cerâmica conhecida até agora no continente é a de Valdivia. 2)y Outra região. de excelente qualidade e datada de 3 200 a. incluindo as técnicas em certos casos. permitida pela agricultura intensiva dos tubérculos. T . (Puerto Marquez. J . C . E s t a região apresentava uma densidade média de 35 a 40 habitantes por k m . três áreas no continente americano: l)^AJma primeira região de pequena extensão (2 milhões de k m . a Amazónia a conheceu muito antes das regiões mais ao sul. Os arqueólogos B . onde a sua difusão ainda continuava na época do descobrimento. na costa do Equador. apresentava densidades de 2 a 5 habitantes por k m . o setor quíchua-aimará dos Andes centrais. C . Patterson mostrou que tal modelo não é aplicável. a irrigação e a cultura. ponto dos mais discutidos. e que certamente sofreu modificações mais graves ao terminar o Pleistoceno —. quanto à agricultura e ao povoamento. em fins do século X V de nossa era. C . sendo necessário elaborar outro. Evans e E . defendem uma origem por contato asiático transpacífico. 5% da superfície do continente) e alta densidade demográfica (continha 90% da população total da América pré-colombiana): a ilha hoje partilhada pelo Haiti e pela República Dominicana. em t e r r a ç o s . também de uns 2 milhões de km . C . C . da batata e do milho. 2 2 v 2 . No caso do que é hoje o Brasil.

talvez por volta de 2000 a. A arqueologia permite detectar tais traços através dos enterros — que manifestam j á clara diferenciação social. A cultura chibcha ou muísca quase n ã o deixou . Estes últimos são conjuntos de edifícios que serviam de ponto de reunião. e quando muito u m a agricultura bem primitiva. sem atingirem a etapa das cidades e dos Estados. por um peso demográfico muito menor) e de receberem por difusão muitos elementos culturais da "área nuclear" constituída pela MesoAmérica e pelos Andes centrais. D . às "altas culturas" americanas. ) — e da presença de centros cerimoniais. E s t a situação constitui o ponto terminal e a expressão de um longo processo de diferenciação cultural que podemos considerar definitivamente iniciado quando. Mencionaremos agora alguns exemplos de sociedades que. cujo apogeu se deu entre 800 e 1300 a. na Meso-América. generalizou-se o habitat baseado em aldeias sedentárias. a c a ç a e a pesca. e de 1500 a. centro religioso e comercial. ou 90% da superfície d a A m é r i c a — . ) d a atual Colômbia. D . este precedeu a cidade e pode tê-la prepa-. por exemplo. diversas culturas do noroeste argentino (Zona Andina Meridional). com esboços j á claros de hierar- 2 quização social e a existência de um artesanato especializado de boa qualidade. E m certas partes da América. ligadas por algum tipo de confederação ou chefia. e que uniram seus esforços para construir o centro cerimonial. com apogeu entre 1100 e 1300 a . Entre as numerosas sociedades. as culturas chibcha e de San Agustin (esta com sua fase final ou "epigonal" entre os séculos V I e X I I d. D . no México central (I milénio a. possibilitado por uma agricultura estável e altamente produtiva. a coleta. devido a isto. e as "culturas marginais": marginais segundo o duplo critério de serem menos desenvolvidas técnica e economicamente (caracterizándose. ) . a diferença entre o que os arqueólogos chamam de "área nuclear" (cultural e demograficamente) da América pré-colombiana. C . rado ( n ã o necessariamente. C . assim. América Prê-Colombiana 45 3) No resto do continente — 35 milhões de k m . permanente ou ocasionalmente. pré-urbanas da América que já apresentavam considerável complexidade cultural citemos como exemplos: as culturas pueBlqâo sudoeste dos atuais Estados Unidos. Foi-se formando. no que é hoje a Costa Rica. só permitiam densidades ínfimas e modos de vida n ó m a d e s . ) . nos Andes centrais. C . n a Meso-América e na Zona Andina Central. em outras. representou o símbolo do ponto m á x i m o localmente atingido pela cultura em tempos pré-colombianos. . diferentes grupos da parte da América Central não-pertencente à Meso-América (mencionemos o centro cerimonial de Guayabo de Turrialba. porém). n a cultura aldeã de Tlatilco. Deixaremos para o próximo capítulo a exposição do processo que conduziu. principalmente na sua fase tardia (850-1480 a.44 Ciro Flamarion S. C . mesmo assim exibiram complexos culturais bastante avançados. a um conjunto de aldeias dispersas. com sua urbanização e seus Estados organizados.

a tribo e a chefia. A organização econômico-social dos agricultores pré-urbanos Na tipologia neo-evolucionista. As relações de parentesco t ê m um caráter multifuncional. sal. mas é relativamente bem conhecidã^poFtér sido descrita por cronistas espanhóis. América Pré-Colombiana 47 restosarqueplógicos de tipo arquitetural. embora possa haver t a m b é m formas de poligamia) que são as células fundamentais da estrutura social. que exploram uma área de recursos comuns e formam unidades residenciais. O s grupos sacerdotal e mercantil eram bem diferenciados. O Zipa e o Zaque eram chefes de caráter político-sacerdotal. hereditários segundo uma linha de sucessão matrilinear (o herdeiro sendo o filho da irmã do chefe). constantemente em guerra uns com os outros. A religião ainda continha traços importantes dos cultos tribais de fecundidade. A agricultura.estruturas poli tico-sociais e intelectuais. funcionam ao mesmo tempo como relações económicas. agrícolas pré-urbanos caracterizam dois tipos de organização social. a L u a . o artesanato e o comércio apresentavam desenvolvimento considerável. O trabalho dos metais — ouro. pela própria natureza cfas fontes que pode descobrir. só aquelas para as quais. sendo sacrificados com facas de bambu em lugares altos. por sua vez compreendendo famílias nucleares (formadas por um casal e seus filhos solteiros. A redistribuição (que supõe A cultura chibcha nada tem de excepcional: como ela. E r a politicamente u m a confederação tribal com dois chefes supremos. O culto incluía a imolação de adolescentes estrangeiros. a mais de dois mil metros de altura. As sociedades tribais aldeãs conhecem a propriedade coletiva sobre os meios de produção. possuímos testemunhos escritos devido ao seu caráter tardio podem ser conhecidas em algum detalhe. que deviam atuar como intermediários entre os chibchas e o Sol. Trocavam-se com os povos vizinhos as produções locais — tecidos de algodão. subdivididas em unidades sociais cujo grau de integração é tanto maior quanto menores sejam: grupos multifamiliares (aldeias. o Sol. isto é. ou seja. o deus protetor dos comerciantes. esmeraldas =p por ouro e outros artigos. em particular a ourivesaria. os grupos. Desenvolveu-se nas savanas dos rios Bogotá e Chicamocho. U m ou vários indivíduos são os depositários desta propriedade em nome do grupo. cobre e a liga chamada tumbaga — era bastante desenvolvido.46 Ciro Flamarion S. Existiam templos a deuses como o criador (Chiminigágua). linhagens). Havia chefes menores. como é o caso dos chibchas. Bochica. ( diversas partes do continente. j á que a arqueologia n ã o permite descer a pormenores das . muitíssimas outras de traços similares e nível comparável de desenvolvimento existiram em . A s tribos s ã o sociedades segmentarias. políticas e ideológicas. Havia feiras nos povoados. o Zipa de B o g o t á e o Zaque de Tunja. O s mitos mencionavam um herói civilizador. Porém.

artigos que servem à aquisição de esposas. no interior das quais h á uma hierarquia que vai do chefe supremo aos chefes menores. F o i elaborada em primeiro lugar por F . permanecem. como redistribuidor dos bens que concentra. elevando-se. Segundo tal interpretação. a partir dos trabalhos de L . A explicação marxista tradicional a respeito das sociedades tribais pré-urbanas baseia-se na n o ç ã o de "comunidade primitiva". Acontece com as noções de tribo e chefia o mesmo que j á havíamos notado para a de bando: s ã o designações resultantes de uma comparação e m p í rica entre sociedades no fundo muito heterogéneas. Porém. N ã o h á propriamente exploração. A produtividade do trabalho. os clãs. etc. havendo mais interesse. Existe um poder permanente. A s chefias surgem quando h á u m a hierarquia de prestígio entre linhagens. O s "mais velhos" (chefes de linhagens. p o r é m .) detêm u m monopólio sobre a apropriação do saber necessário à rep r o d u ç ã o do grupo e sobre certos bens aos quais se liga prestígio (escravos. os "mais velhos" às vezes devem praticar dons ostentatórios. Tais grupos. à horda primitiva sucedeu o regime de clãs. pois os "mais jovens" terminam recebendo uma e s p o s a d a iniciação que lhes permite libertar-se da tutela JÍQS "mais velhos" e criar por sua vez u m a rede de dependentes. A l é m disto. Meillassoux) chamam a atenção sobre a exploração dos jovens (passageira) e das mulheres (irrevogável) nas sociedades baseadas em linhagens. o seu valor é mais classificatório e descritivo do que explicativo e teórico.). formando às vezes confederações. mas ligado a funções exercidas. os quais se trocam s ó entre iniciados.48 Ciro Flamarion S. certos autores (como C . O casamento dentro do mesmo c l ã vem a ser proibido e os matrimónios passam a ser contraídos com membros de outros c l ã s derivados d a mesma horda. o que abre caminho a u m artesanato especializado de alta qualidade. para manter a sua autoridade. n ã o de caráter pessoal. o que inclusive pode levar a destruições rituais de bens (em banquetes. O casamento. e dos dons destes aos primeiros. tornou possível a associação dos homens em grupos menores e mais estáveis do que as hordas iniciais de que provinham. chegando a ser hereditário numa delas o cargo de chefe. por exemplo). mostrar-se generosos. pode manter uma corte. Por isto. Engels. etc. legitimado pela ideologia cujo núcleo é o culto dos antepassados. etc. em ressaltar as semelhanças do que em explicar as diferenças. Ainda n ã o h á u m a estratificação em classes sociais e a sociedade ainda se baseia no parentesco. Morgan. ao estabelecê-las. adultos iniciados q u é passaram por certas provas. ligado aos hábitos suntuarios. Algumas chefias incluem numerosas tribos e aldeias. Embora n ã o exista exploração de classe. mas e n d o g â i . o chefe. e x o g â m i c o no clã. à construção de edificações importantes. América Pré-Colombiana 49 a existência de excedentes) se d á através das prestaç õ e s de bens e serviços dos mais jovens aos mais velhos. em contato com o restante da coletividade maior de que procedem: os clãs derivados de u m a mesma horda consideram-se aparentados.

passa a pertencer ao clã do marido. mico na tribo. e do homem em pastor e agricultor. crianças) enquanto o homem estava quase sempre ausente. dão a ele a primazia. caçando ou guerreando. As críticas feitas à interpretação acima se avolumaram com descobertas etnológicas e arqueológicas América Pré-Colombiana que mostraram sua fragilidade em muitos aspectos. junto com outros fatores. ou "modo de produção de linhagens" (P. Finalmente. sendo necessário o prosseguimento dos esforços teóricos e de pesquisa. 1977. México. elas constituem d é fato um campo heterogéneo de estudos. são rejeitados decididamente. Isto porque. O clã torna-se patrilinear (baseado no parentesco por linha paterna) e passa-se ao sistema do casamento patrilocal: a mulher. baseado no parentesco por linha materna (matrilinearidade). Meillassoux — propuseram o conceito de "modo de produção doméstico". o regime de clãs é matriarcal. das diferenças de classe e do Estado. A mulher e o homem são então perfeitamente iguais do ponto de vista sócio-econômico. e sim por grupos (todas as mulheres de certos clãs são esposas de todos os homens de outros). ao casar-se. pela grande maioria dos antropólogos não-pertencentes aos países socialistas. n ã o é ainda individual. com base em sólida argumentação. a noção de matriarcado. o processo de desagregação dos clãs. abre. onde vários modos de produção poderiam e deveriam ser detectados. ela atinge mesmo a supremacia. o casamento de grupos. várias tentativas foram feitas no sentido de construir um novo tipo de teoria destas sociedades.-P. Outros autores — M . a paternidade não pode ser estabelecida e a criança pertence ao clã materno. no domínio dá interpretação dos dados colhidos eles se prendiam até bem pouco tempe* de maneira excessiva aos escritos dos fundadores do marxismo. relegando a mulher a segundo plano na economia e na sociedade. pois se dedicava a esta e dirigia a comunidade (velhos. C . 13-127). Contudo. com grande risco de se tornarem estreitos e dogmáticos em suas posições. e principalmente. Recentemente. apesar dos esforços e descobertas importantes dos arqueólogos e etnólogos soviéticos. É também verdade que. o progresso técnico. A transformação da agricultura e da criação nas atividades económicas principais. pp. do surgimento da propriedade privada. graneros y capitales. Assim. enquanto na fase anterior o casamento era matrilocal. a ideia de uma anterioridade da matrilocalidade sobre a patrilocalidade. etc. SI . tais estudos ainda não chegaram a resultados plenamente satisfatórios. Com o início da agricultura. Sahlins. O casamento por grupos desaparece. Para M . cedendo o lugar aos casais estáveis. A elaboração mais ¡acabada parece ser a de Meillassoux (ver Mujeres.50 Ciro Flamarion S. Godelier. Siglo X X I . Nessa primeira etapa. no casamento por grupos. Rey). passando a permitir que uma família restrita (o casal e seus filhos) assegure a sua subsistência apenas com o seu trabalho.

o aparecimento da escrita. sacerdotes. É 9) o desenvolvimento do comércio exterior de objetos de luxo e matérias-primas. astronomia. artesãos. calendário. com altos graus de hierarquização e exploração sociais (surgimento da sociedade. de classes). 8) uma arte com estilos conceptualizados e sofisticados. dez critérios permitem distinguir uma cidade de uma aldeia ou povoado que não seja urbano: "*»1) o seu tamanho e população mais importantes.). 2) o aparecimento de especialistas (administradores. 5) a formação de uma "classe governante". . ou seja..A "revolução urbana" — noção que também devemos a Gordon Childe — constitui o núcleo do processo que conduz das culturas tribais aldeãs às verdadeiras civilizações. etc. um E s tado estruturado fora e acima das relações de parentesco e linhagem e dotado de um sistema de impostos e meios de coação. a invenção de sistemas de cômputo (sem os quais não h á administração possível acima de certas dimensões do grupo social) e. 4) a construção de edifícios e obras públicas em escala antes desconhecida. Marx. que ao começar a urbanização seja capaz de alimentar a aglomeração urbana. Esta se liga a uma agricultura eficiente. segundo K . geometria. permitindo pois uma divisão do trabalho entre produtores e não-produtores de alimentos. internamente diversificadas e sofisticadas. em quase todos os casos — as civilizações peruanas sendo notável exceção —. 3) a formação de um "capital efetivo" (originado pelos tributos impostos aos produtores agrícolas). a primeira grande divisão social do trabalho — exige previamente o desenvolvimento da concentração populacional. 6) a invenção e uso da e s c r i t a ^ 7) os começos das ciências exàtas baseadas na predição: matemática.América Pré-Colombiana 53 AGRICULTURA INTENSIVA E URBANIZAÇÃO: AS "ALTAS CULTURAS" PRÊ-COLOMBIANAS A "revolução urbana" O surgimento das cidades — sendo a distinção cidade/campo. Segundo Gordon Childe. culturas extremamente com- plexas.

Jorge Hardoy afirma que. E m suma: o fenómeno urbano se manifestou n a América vários milénios depois de haver surgido pioneiramente no Oriente Próximo. 4) com construções urbanas e um traçado urbano indicado por ruas e espaços urbanos reconhecíveis. represas. o urbanismo surgiu primeiro em sua porção meridional (talvez no século I I a. Os sociólogos que trataram do fenómeno urbano insistiram em critérios variados de definição da cidade: o mercado ( M . "cidade" é um termo cujas conotações s ã o variáveis segundo os ambientes naturais e culturais. e se define por oposição a estruturas rurais que s ã o t a m b é m variáveis. e de difusão de progressos tecnológicos. 9) um centro de serviços para as localidades vizinhas. 2) um estabelecimento permanente. Weber). antes de generalizar-se ao conjunto dessa região cultural. com residência urbana dos grupos dirigentes. dotado das instituições correspondentes. o nível das forças produtivas. 8) um centro de economia urbana para a sua é p o c a e região. Nos Andes centrais. D . 3) com uma densidade m í n i m a para sua é p o c a e região. 7) heterogeneidade e diferenciação hierárquica da sociedade. a heterogeneidade social.. 10) com uma forma urbana de vida distinta de uma forma de vida rural ou semi-rural para a sua época e região. exatamente como aconteceu no caso do Oriente P r ó x i m o . C ) . 6) possuindo u m m í n i m o de funções especificamente urbanas: ser um mercado e/ou um centro militar e/ou u m centro político-administrativo e/ou um centro religioso e/ou um centro de atividades intelectuais. foi Teotihuacan a primeira cidade mesoamericana. devido à disponibilidade contínua de matéria-prima. cuja população dependesse até certo ponto da produção agrícola de pessoas que em forma total ou parcial n ã o viviam na cidade. evolui com o tempo. América Pré-Colombiana 55 10) os artesãos se tornam especialistas de tempo completo. Chamemos a atenção para o fato de que. O fato urbano é dinâmico. devido a que a irrigação em alta escala exigiria u m poder forte e organizado que controlasse obras consideráveis como diques.54 Ciro Flamarion S. as sociedades e as é p o cas. . as tentativas para vincular o surgimento de cidades e Estados organizados n a América à agricultura de regadio. Para o historiador. canais. o lugar. u m a cidade era u m a aglomeração com as seguintes características e funções: 1) extensa e bem povoada para sua é p o c a e região. a divisão do trabalho. as relações impessoais e o anonimato.. de irradiação de um esquema de urbanização. na América pré-colombiana. pelo menos a partir de 100 a. Se exigirmos a presença da totalidade destes critérios. 5) um lugar onde as pessoas residiam e trabalhavam.

em tempos posteriores melhor documentados. e sim de organização local. Outros especialistas. Os edifícios religiosos e públicos. U m exemplo são as pesquisas neste sentido levadas a cabo no M é x i c o por A . mas enfraquece a hipótese causal "hidráulica" derivada das ideias de K . por outro lado. E l Salvador. D . U m a razão da falta de grandes aglomerações poderia ser uma agricultura relativa- mente primitiva mas adaptada à ecologia regional. os maias — povo da M e s o . em lugar de se colocarem ao longo de ruas. que tomou forma a zona cultural que chamamos M e s o . como T . em 900 a. embora n ã o se concentrassem em quarteirões apertados. Outro problema histórico muito discutido é o de saber se. o mundo maia sofreu influência mexicana. Jalisco e Nayarit. tolteca e asteca. como t a m b é m constatou que o sistema de controle sobre a irrigação. De uma maneira geral.A m é r i c a .56 Ciro Flamarion S. A s fronteiras méso-americanas foram variáveis segundo as épocas. 3) Costa do Golfo do M é - . Morley. Sequências histórico-culturais na Meso-América A Meso-América Foi em meados do I I milénio a. A Meso-América apresentava as seguintes subregiões: 1) Noroeste: culturas de Colima. embora n ã o muito extensos). Esta é a opinião de S. parte sudoeste da Nicarágua e a península de Nicoya na Costa R i c a . formavam grupos em torno de praças e pátios. C . n ã o bastando os meios elaborados pelos maias para armazená-la para sustentar núcleos muito extensos e concentrados de população. a Guatemala e Belize. A fronteira norte foi particularmente variável: por exemplo. negam que sejam cidades: tratar-se-ia simplesmente de centros cerimoniais que serviam a numerosas aldeias dispersas. 2) Planalto mexicano: culturas de Teotihuacan. e um clima marcado por secas longas. a parte oeste de Honduras.. Palertn. a. Naturalmente. e que agora passaremos a delimitar e definir. podemos considerar como meso-americanas as áreas de agricultura estável que ocupam a parte do M é x i c o situada ao sul dos desertos setentrionais. n ã o era de tipo concentrado.A m é r i c a responsável por uma das mais brilhantes civilizações indígenas — construíram cidades (em período posterior. avançaram os caçadores-coletores em detrimento da zona agrícola. Wittfogel. isto n ã o exclui que a irrigação tenha sido elemento importante na consecução de excedentes agrícolas para cidades e organizações estatais. C . e sim estivessem dispersas em extensos subúrbios e numa série de pequenas granjas. América Pré-Colombiana 57 etc. que atribui caráter urbano às aglomerações maias. n ã o deram bom resultado. Thompson. Proskouriakoff e E . e surgiram indubitavelmente centros urbanos. sendo dispersas as fontes de abastecimento de água. no I milénio d. N ã o apenas n ã o conseguiu descobrir arqueologicamente sistemas realmente antigos de regadio.

detritos d o m é s ticos.A m é 6 (6) Chama-se pousio o sistema agrícola baseado em deixar descansar uma certa porção das terras cultiváveis enquanto outra porção é trabalhada. A coivara consiste em plantar os grãos com ajuda do bastão de semear (huictli) numa clareira ganha à selva cortando as árvores e queimando a América Pré-Colombiana 59 vegetação menor. por exemplo.58 Ciro Flamarion S. calendários. cultiva-se uma horta de alto rendimento devido ao uso de adubos (folhas.). etc. funciona bem se as terras forem abundantes e se se abrirem novas clareiras com regularidade. mas nas regiões de que se trata agora — terras altas temperadas ou subtropicais — é possível reduzir o período de descanso a dois ou três anos depois de uma fase de cultura de igual duração. Ao aumentar demasiado a população. . o regadio. pictográficos. totonaca e huasteca. o calendario duplo solar e litúrgico (lunar). 3) o sistema numérico vigesimal. as maneiras de preparar e cultivar a terra n ã o são diferentes. característico das terras baixas tropicais. o que conduz ao abandono da terra plantada. 4) outros elementos diversos. tamales. 4) Zona maia: Iucatã. mas isto provoca rendimentos decrescentes. u m a nova clareira deve então ser conquistada à vegetação natural. E m certos casos. os ciclos de 52 anos. parte de Chiapas e Quintana Roo (no M é x i c o ) . cacau e maguei como plantas mais específicas. Tabasco. os jogos rituais com bolas de borracha. zarabatanas com projéteis de argila. que permite culturas permanentes pela eliminação do pousio e uma maior densidade e concentração demográficas: na M e s o . xico: culturas olmeca. com ofitode permitir a recuperação da fertilidade. é mais interessante a classificação dos sistemas agrícolas e modalidades de povoamento proposta por Angel Palerm. paralelamente à clareira plantada de milho. a pressão sobre a terra pode ser solucionada pela migração ou pela redução do período de descanso e reconstituição da floresta. As principais características culturais geralmente atribuídas à M e s o . Belize. Do ponto de vista da história económica. Por último. Guatemala.). Honduras ocidental. sendo estes últimos silábicos n a sua maioria e apenas três alfabéticos. a "leitura" dos códices ou "livros de pinturas" era complementada por textos memorizados em escolas especiais). ideográficos e fonéticos. 5) México meridional (entre o vale do M é x i c o e a zona maia): civilizações zapoteca e mis teca. o rendimento c o m e ç a a diminuir. para que se reconstitua o bosque e se regenere o solo. 2) a pirâmide escalonada ou em degraus. os pátios recobertos de estuque.A m é r i c a sao: 1) a agricultura baseada no b a s t ã o de semear e produzindo milho (preparado de maneiras peculiares: tortillas. 3) a existencia da escrita: hieróglifos maias. Este ciclo agrícola. Depois de u m período que varia segundo a qualidade do solo mas nunca é muito longo. excrementos. os meses de vinte dias. Este sistema abre a possibilidade de u m a população mais densa e implica a sedentarização. etc. Campeche. No sistema de pousio curto. glifos do México central (numerais.

Estas. Willey e P . aproximadamente) contemporâneas Este período viu os inícios de uma hierarquização social visível: representação de personagens com signos distintivos na arte olmeca. segundo I . proposta entre outros por G . porém. na época do apogeu olmeca teria uns 350000 habitantes. Inexistiam então. n ã o tem evidentemente qualquer sentido. por ser muito irrigada por diversos rios. A . A periodização habitual d a história meso-americana em pré-clássico ou formativo. parte do ano bom n ú m e r o de pessoas se alimentasse sem cultivar a terra. usando às vezes materiais trazidos de longe. os quais de qualquer maneira s u p õ e m uma agricultura suficiente para que durante u m a . complementada possivelmente pela caça e pesca. O s trabalhos executados nos centros cerimoniais s u p õ e m uma organização social relativamente hierarquizada. Para a história económica-social. enterros l u xuosos contrastando com outros simples em Kaminaljuyu (Guatemala) e rio vale do México (Tlatilco). A dieta se compunha sobretudo de milho. verdadeiras cidades. O termo "olmecas" é tradicional mas falso: originalmente designava u m grupo que vivia no sul de Veracruz em tempos históricos e nada tinha a ver com os monumentos antigos. Bernal. jogo ritual com bolas de borracha. permitiam rendimentos prodigiosos (de 300 a 500% segundo López de Gomara) ao usar plantas aquáticas. O centro da cultura olmeca foi o sul de Veracruz e o norte de Tabasco. Apareceram nessa fase alguns dos traços essenciais d a cultura meso-americana: culto do jaguar (associado ao deus da chuva e/ou da Terra). é inadequada por basear-se em um critério esteticista duvidoso. limo e excrementos como fertilizantes. é t a m b é m chuvosa. A hipótese mais corrente é a do caráter sacerdotal do grupo dominante. formas primitivas da pirâmide escalonada. no nível de chefias e confederações tribais. de maneira objetiva. utilizadas nos lagos do M é x i c o central. etc. n a zona tropical do Golfo do M é x i c o : tal área central tem uns 18000km e. feijão e abóbora.60 Ciro Flamarion S. como decidir. Caso chama a essa região de " M e s o p o t â m i a da Meso-América". j á que trabalhava em grandes construções que exigiam supervisão. América Pré-Colombiana 61 rica existiram sistemas de irrigação por canais e por ilhas flutuantes chamadas chinampas. produzidos pela agricultura de coivara e ao longo das margens dos rios. que a arte maia clássica é "melhor" do que a asteca pós-clássica? Reconhecemos em tal periodização o ciclo organicista de tipo nascimento-desenvolvimento-morte (ou decadencia). centros cerimoniais orientados. Phillips. etc. C. Surgiram os primeiros centros cerimoniais mesoamericanos. por exemplo. mas hoje alguns pensam que se tratava de senhores leigos e que l a cultura olmeca se difundiu por meio de uma classe de merca2 A cultura olmeca e outras culturas (1200-1 a. clássico e p ó s clássico. escrita e calendário.

com as formas mais antigas da arte maia e com os objetos zapotecas. Não construíam estradas. Os centros olmecas mais importantes foram San Lorenzo (1200-900 a. T a l influência. Cardoso dores armados que iam até a Costa Rica. ) e posteriormente Tres Zapotes. o jade era o minério mais precioso. Miguel Covarrubias disse que "o estilo olmeca está ligado. a fase Monte Alban I mostra influências olmecas (os relevos dos "dançarinos" e posteriormente um edifício com glifos. atingiam a Costa Rica. Nos arredores da cidade do México. A zona de influência da cultura olmeca foi extensa. C ) . graças a uns 18000 camponeses dependentes disseminados nos arredores. Caso. O fato é que as construções são todas religiosas e funerárias. Muita mão-deobra seria necessária para transportar 5 000 toneladas de serpentina e grandes quantidades de basalto (pela navegação fluvial) vindas de 250 a 900 k m de distância. podemos datar a cultura olmeca entre 1200 a. e a época de Cristo. calculou-se que viviam 150 pessoas (o grupo dirigente com os seus servidores). As suas rotas comerciais. com a arte teotihuacana mais antiga. em contraste com a escultura monumental de pedra. como também o uso que se fazia dos produtos vindos de outras regiões (basalto. construído numa ilha. C . pedra serpentina. de longe. em Morelos e em Guerrero. o certo é que foi a primeira grande cultura que associou os recursos e tradições do planalto e da costa n a Meso-América. C . uma arquitetura de pedra. L a Venta (1000-600 a. L a Venta. Mencionaremos agora outras culturas contemporâneas à olmeca. com o estilo chamado totonaca ( E l Tajín). .Q s olmecas não conheciam os metais. passando por Chiapas e pelo sul da Guatemala. mas palpavelmente. para A . V . No sítio principal.62 Ciro Flamarion S. embora pouco haja restado a respeito^ Sua cerâmica era de m á qualidade. No conjunto. E m Oaxaca (México meridional). C . máxima entre 1200 e 900 a. usando os rios e trilhas naturais. calendário e religião mais desenvolvidos que os dos olmecas). Não sabemos até que ponto puderam dominar politicamente territórios situados fora do seu núcleo. Desenvolveram a escrita e o calendário. escrita. incluindo figurinhas de jade e peças de cerâmica. principalmente em busca de jade. Muitos restos arqueológicos procedem de oferendas rituais. Pinturas olmecas foram achadas no Estado mexicano de Guerrero (centro-sul do México). C . Alguns afirmam que tiveram verdadeiras "colónias" no vale do México. D a í que. que Monte Alban I conhece a irrigação. e vinha de zonas distantes. porém. A respeito da ampla influência olmeca. os quais tendem a ser mais olmecas na medida em que sejam mais antigos". a cultura olmeca seja a "culturam ã e " da civilização meso-americana. a partir de 500 a. América Pré-Colombiana ("horizonte olmeca") foi diminuindo depois. em favor da proliferação de culturas locais mais ou menos autónomas. é verdade. jade). e com influências que atingem Co- 63 . e para a construção e reconstrução dos centros cerimoniais. muito bem feita.

ou através de chinampas. como Tlatilco. de Cuicuilco. C . entre 300 e 200 à. com critério ainda mais duvidoso.A m é r i c a entrou nos inícios da urbanização. ampliou-se o comércio a longa distância e enfim a M e s o . apresentam uma cerâmica avançada e. Cai América Pré-Colombiana do I milénio d. a l é m do de uma arte diversificada. no vale de Guatemala. situada ao longo da "rota do jade". tudo isto organizado num sistema de quarteirões quadrangulares ( s ó os blocos residenciais eram uns 4000).64 Ciro Fiam arion S. acredita-se que a agricultura fez grandes progressos. surgiu n a região guatemalteca de Peten a cerâmica de Mamom. C e a é p o c a de Cristo. (85000 habitantes). C . Kaminafjuyu e L a s Charcas. Infelizmente é mal conhecido em detalhe. e. blocos residenciais. no sul do México). avenidas. Certos autores pretendem que o sítio de Cuicuilco n ã o pode explicar-se se n ã o houvesse j á uma agricultura altamente produtiva nas margens lacustres. de cordas). sinais de estratificação social. n a mesma é p o c a temos santuários em Uaxactun e Kaminaljuyu. da numeração e do calendário. C . C . "florescimento das cidades teocráticas". O arqueólogo René Millón acredita que o seu apogeu populacional foi atingido entre 450 e 650 a. C . zonas artesanais com ruas dedicadas a atividades especializadas. entrando em fase claramente urbana por volta de 100 d. figurinhas de mulher (cultos de fecundidade). No século V a. A primeira cidade meso-americana. Na área maia. surgiu a partir de quatro aldeias. C. O sítio de T i k a l foi ocupado desde 600 a. com uma cerâmica característica./Para esta fase contrasta a suntuosidade do registro arqueológico com a carência de fontes escritas. E m Ocos. contrastando com o labirinto dós subúrbios. As civilizações Este é o período que foi chamado "clássico" ou. Teotihuacan. palácios. ali surgiram templos de tijolos cobertos de gesso. contendo u m imenso centro cerimonial com pirâmides e outros edificios públicos. máscaras de argila. O s princípios da civilização maia parecem haver recebido indiretamente a influência olmeca por intermédio da cultura de Izapa (em Chiapas. culturas formativas baseadas em. situada num vale do planalto central mexicano a nordeste da atual cidade do M é x i c o . aldeias agrícolas e no milho surgiram entre 1500 a. no litoral pacífico da Guatemala. que n ã o 2 . n ã o só no referente à América. o vale do México conheceu outras culturas que s ã o responsáveis pela base escalonada de Tlapacoya e pela pirâmide escalonada circular revestida de pedra e que tinha u m templo no topo. í ) . Posteriormente. ruas e praças. alguns autores v ê e m influências asiáticas (cerâmica decorada com a impressão. segundo alguns. desenvolveu-se desde mais ou menos 1000 a. o chamado estilo de Hatilco. mas ao mundo/Constava de um centro urbano planificado. trata-se de cifras de peso para a época. A sociedade tornou-se mais complexa e hierarquizada. forte influência olmecóide (e. Jalisco e Nayarít. t a m b é m asiática). 65 lima. embora tenha ocorrido e n t ã o o desenvolvimento da escrita. e que a m á x i m a extensão do território urbanizado haja sido de uns 22 k m .

n ã o vendida no exterior ou usada. mas isto pode refletir simplesmente u m a confiança arrogante na própria força. esculturas. Encontramos nas posições dominantes Quetzalcóatl. com boa parte da MesoAmérica (Veracruz. sustentar!do-se com tributos. América Prê-Colombiana 67 eram planificados/ Havia bairros de estrangeiros residentes (maias. usando-se moldes. Teotihuacan foi destruída e incendiada por volta de 750 a. ' Varías hipóteses foram propostas para explicar o surgimento e expansão de uma cidade de tais dim e n s õ e s . Teotihuacan necessitava obter matérias-primas inexistentes na sua região — algodão. cacau. Patterson pretendeu explicar a prosperidade de Teotihuacan airavés do controle do comércio e da transformação de uma matéria-prima. máscaras de pedra) podem ser detectados vários estilos. C . Armillas acredita que um sistema de agricultura de irrigação. . o deus-jaguar da chuva. cerimonialmente. a serpente emplumada. mas A . mercadores (entre os quais se incluíam algumas mulheres) e talvez um e s b o ç o de burocracia estatal em processo de formar-se como grupo separado. o que é simplista demais. Exportava-se u m a cerâmica fina. a Guatemala). Palerm n ã o conseguiu detectar os seus restos arqueológicos. e em troca exportava cerâmica e objetos de obsidiana. e é no fundo incompatível com a visão tradicional e idealizada de Teotihuacan como civilização sacerdotal e pacífica (visão que se tem enfraquecido muito ultimamente). uma aristocracia tribal. D As hipóteses a respeito variam desde revoltas camponesas internas até ataques externos. com um grupo dominante diversifi- cado e com grupos profissionais especializados e organizados. cujo planejamento e sucessivas modificaç õ e s exigiam um poder político forte e bem estruturado. a obsidiana. T a m b é m se defendeu a hipótese de que teria dominado politicamente um grande império mesoamericano. Isto se baseia em vínculos comerciais e estilísticos. plumas. arqueologicamente comprovados. A religião contém todo o futuro p a n t e ã o mexicano. utilizando as águas do rio San Juan e o armazenamento das chuvas. zapotecas). jade — . Guerrero. Na verdade. forneceu a base e c o n ó m i c a necessária. A cerâmica foi inclusive fabricada em série. Os mortos eram provavelmente cremados. e sim no dia-a-dia. P . com exceção de Huitzilopochtli e Tezcatlipoca. T . e Tláloc. que constratava com uma bem mais grosseira. Katz acha possível que j á então tenham surgido todos os grupos dominantes de cuja existência temos provas em é p o c a s posteriores: u m a casta de guerreiros tendendo à aristocracia hereditária (o fato de serem pouco representados artisticamente não significa que n ã o existiam).66 Ciro Flamarion S. Outros autores preferem enfatizar o papel de capital religiosa e centro de peregrinações de que a cidade indubitavelmente desfrutou durante séculos. sacerdotes. F . A sociedade apresentava uma estratificação social avançada. tanto na cerâmica quanto nos magníficos afrescos policromados e outras manifestações artísticas (arquitetura de pedra. o istmo de Tehuantepec. A cidade nunca foi fortificada.

"machados" e "palmas"). mas a verdade é que não h á dados que apoiem qualquer das explicações propostas. . não se desenvolveu um núcleo urbano ao redor dos centros cerimoniais. Palenque. Os três centros principais — Palenque. a civilização zapoteca estava cada vez mais fechada e isolada. No México meridional (Oaxaca) desenvolveu-se neste período a civilização zapoteca de Monte Alban. parte do Iucatã). Constata-se então algum influxo cultural maia. Yaxchilan. O edifício mais característico é uma pirâmide América Pré-Colombiana 69 construída com pedras claras e contendo mais de trezentos nichos. No caso da civilização zapoteca. muito decoradas. Uaxactun. Monte Alban foi abandonado por volta de 950 a. na Guatemala e no oeste de Honduras. D . desaparece a influência de Teotihuacan. até Honduras. ao ser Oaxaca invadida pelos mistecas. O sitio de Monte Alban se encon&a em lugar alto. Na região costeira do norte de Veracruz. sobre cuja natureza — centro cerimonial apenas ou também centro urbano — se discute. ao contrário da religião teotihuacana. Quiriguá. ao qual se atribui o maior refinamento artístico e a criação dos elementos mais característicos da civilização dos maias. Tikal e Copan — formam o chamado "triângulo maia clássico".68 Ciro Flamarion S. Também h á provas de relações com Teotihuacan. enquanto à volta se disseminavam aldeias não-permanentes (já que a agricultura era itinerante). embora depois tenha continuado a existir até 1200 a. e consta de plataformas e pirâmides organizadas em distintos níveis à volta de praças e esplanadas. porém. D . Piedras Negras. Aparentemente. nos centros cerimoniais viviam o grupo dirigente e artesãos especializados apenas. Já vimos que se discute o caráter urbano ou não dos centros maias. U m a das mais famosas civilizações meso-americanas foi a maia. na sua fase final. A base económica de tal civilização — a agricultura do milho pelo sistema de coivara — não permite grandes aglomerações. que domina três vales. surgiram edifícios em talude e murais polícromos. Copan. que ora atinge o apogeu nos seus principais centros de então: Tikal. Estes últimos foram encontrados em tumbas:. com sua agricultura de coivara. . Sob influência de Teotihuacan. situados no sul do México (Chiapas. . a dos zapotecas e ^ ^ m j n a d a ~ p e l o culto funerário. D . (embora a sua cerâmica típica continuasse sendo fabricada por vários séculos). a arqueologia revelou sem lugar a dúvidas restos de obras para o regadio agrícola. cujo apogeu se deu entre 600 e 900 a. D . Influências estilísticas totonacas foram detectadas em Chiapas e na região do Pacífico. pertencentes à cultura totonaca. encoritravam-se os centros de E l Tajin e Tajin Chico (este posterior ao primeiro). Depois de 550 a. finamente lavradas em pedra dura (chamadas "jugos". embora nas zonas mais secas fossem usados depósitos naturais (cenotes) e artificiais de água. A arqueologia regional revelou também esculturas de formas peculiares. com suas grandes urnas antropomórficas de cerâmica. Nesta região tropical.

mas se argumenta que seria apenas uma escaramuça para capturar prisioneiros que seriam depois sacrificados. Ê certo que a multiplicação de insígnias simbólicas em suas complicadas indumentárias pareceria indicar um poder de funç ã o . provocando emigrações (porém. mas o caráter descentralizado dessa civilização se manifesta na grande variação de dimensões. dias e ciclos do calendário. O s centros religiosos tinham dimensões muito variáveis. a matemática e a astronomia tiveram entre os maias um desenvolvimento maior do que alhures. canchas do jogo ritual com bolas de borracha. por exemplo. A cerâmica. com deuses d a chuva (Chac). O velho deus do fogo. com cobertura de madeira ou em falsa abóbada. . e estes de u m grande centro como T i k a l ou Copan. havendo em certos casos sinais de violência. como E l Tajin (Veracruz). execução e decoração. O s sacrifícios humanos existiam. segundo as interpretações. afrescos e certas figurinhas de barro representam personagens que. os centros cerimoniais maias foram abandonados um a um. e eram tributários de outros maiores. seriam soberanos ou sacerdotes. A partir de 800 a. t a m b é m no caso maia se postulou o caráter pacífico e sacerdotal deste período. os maias ignoravam o torno do oleiro). mas parecem ter sido raros nesta fase. ocupava posição predominante. A queda — ainda mal explicada — dos principais centros meso-americanos provocou o florescimento de centros cerimoniais secundários ou regionais. Itzamna. descobertas em Jaina. Xochicalco (Morelos) e Cholula (perto da atual Puebla). mais do que pessoal. No conjunto'. O sistema político era o de numerosas pequenas unidades independentes. do vento e do milho. pátios. D . Por outro . Ligadas à religião e ao calendário. à cosmologia e aos astros. anos. A s hipóteses a respeito incluem o esgotamento do solo devido à pressão demográfica e quiçá tributária sobre a primitiva agricultura de coivara. Havia t a m b é m inúmeras divindades associadas aos pontos cardeais. muito variada e de excepcional qualidade. continuou habitado mesmo depois do fim do centro cerimonial). a arquitetura maia preocupava-se mais em distribuir grandes massas em espaços descobertos. calçadas. incluía t a m b é m maravilhosas estatuetas de barro modelado à m ã o (como todos os outros povos pré-colombianos. escuros. aos meses. América Pré-Colombiana 71 N a interpretação mais antiga. O s menores constavam somente de u m a pirâmide e u m ou outro monumento adicional.70 Ciro Flamarion S. esteias — . n a ilha de Campeche. etc. pirâmides. A escrita hieroglífica s ó está parcialmente deci- frada. A s pedras esculpidas (esteias). desprezando o interior dos edifícios: os templos que coroavam as pirâmides eram pequenos. o vale do Copan. A religião parece ter suas origens em cultos da natureza e da fertilidade. É verdade que o afresco de Bonampak (Chiapas) representa uma batalha. e revoltas camponesas. E m todos os centros cerimoniais achamos os mesmos elementos básicos — plataformas.

para evitar novas invasões. que fizeram irrupção violenta no planalto central mexicano a princípios do século X d. ?Em primeiro lugar. importando . como demonstrou A . várias vezes repetido. o dos agricultores sedentários e o dos guerreiros n ó m a d e s . o rei misteca aceitou sua suserania. talvez j á antigo. atetando a fronteira agrícola. mas t a m b é m mescTãTllrversas. de infiltração para o sul de n ó m a d e s setentrionais. e penetram na região novas concepções religiosas. permitem. artísticas. o vazio de poder criado pela destruição das principais unidades políticas da região parece ter acelerado um processo.72 Ciro Flamarion S. D . Na arquitetura. o norte de Veracruz. por dois grandes processos sócio-culturais. f América Pré-Colombiana 73 O último periodo da história pré-colombiana da Meso-América {aproximadamente 900-1519 a. surgindo a partir disto novas concepções urbanísticas. o encontro. onde se praticava a c a ç a e a coleta. desde 1045 a. cujo núcleo inicial havia sido no passado um grupo de n ó m a d e s do norte. recomida em diversos centros menores e passada posteriormente aos toltecas. com a mais recente tradição misteca-Puebla. E m segundo lugar. C . assimilando a herança teotihuacana através do contato e mistura com povos locais. agora vigiavam as regiões setentrionais através de postos fronteiriços. D. provocando confusão e conflito. E m particular. Por fim. O império tolteca tinha como capital T u l a . e. este período assiste a grande progresso e difusão da urbanização. Mas a sua chegada m a c i ç a é por demais tardia para poder ser apresentada como causa da queda dos centros chamados ' 'clássicos''. terminando porém por sedentarizar-se. com centro em Cholula. López Austin.) E s t a fase se caracteriza. numa região instável. dá-se a fusão da h e r a n ç a de Teotihuacan. chamados chichimecas na Meso-América. embora t a m b é m admitissem chichimecas nas suas tropas. como a coluna-serpente e a coluna-atlante. situada 60 k m ao norte da atual cidade do M é x i c o . mais seca. arquitetónicas. os toltecas de T u l a comerciavam com o sul e o leste. pela primeira vez n a Meso-América. apoiada pelo menos em parte n a e x p a n s ã o da agricultura de regadio. caçadores-coletores. etc. alguns autores acham que um ressecamento climático a meados do século X I I I . com o novo elemento vindo do norte. O mito liga tal processo à lenda de Quetzalcóatl. o V a l e do M é x i c o . entre dois modos de vida. acentua-se o militarismo e o prestigio dos guerreiros. onde entravam em contato a zona agrícola meso-americana e a zona setentrional. Como anteriormente Teotihuacan. De fato. Este compreendia diversas regiões submetidas a tributo: Michoacan. Cardoso lado. construir extensos espaços cobertos. novos elementos. O início da civilização dos toltecas e s t á vinculado à migração de grupos chichimecas vindos do norte. esteve ligado à queda do império tolteca. antes de mais nada. ocorrem então os c o m e ç o s tardios da metalurgia meso-americana. no qual seria i n g é n u o querer identificar um personagem histórico real. . O s toltecas.

o cacau. a qual viveu durante muito tempo. implicando povos numerosos. havendo canoas que ligavam por cabotagem o enclave portuário asteca de Xicalango (Campeche) com todo o Iucatã e com regiões mais a leste. até o fim o rei (Huey Tlatoani) tinha direitos e funções que oscilavam entre os de um chefe tribal e os de um chefe de Estado. D a dispersão em cidades-Estados independentes e rivais que caracterizou o México central depois da queda do império tolteca. As colheitas eram recolhidas a celeiros de madeira ou cavados no solo. os astecas apresentavam. a influência de outros povos do M é x i c o central e depois as conquistas fortaleceram a hierarquização e a desigualdade social. 1434 a. com terraços de cultura e irrigação. judiciário. porém. as quais estavam sofrendo um processo de conquista progressiva pelos astecas. o algodão. militar e fiscal. Aliando-se primeiro aos tepanecas de Atzcapotzalco e depois às cidades de Texcoco e Tlacopan ("Tríplice Aliança". Expedições punitivas eram frequentemente necessárias para manter o domínio e o tributo e para garantir as rotas comerciais. D . com predomínio de instrumentos agrícolas de pedra e madeira. perus e abelhas. Produziam sal que. porém. Nesta data. Sua interpretação como. no Vale do M é x i c o . sendo o cargo eletivo numa mesma família. relações tributárias. à sombra da poderosa cidade comercial vizinha de T l a - América Pré-Colombiana 77 telolco. que em certas regiões — como as terras altas da Guatemala — haja-se desenvolvido uma agricultura mais eficiente. a cidade dos mexicas ou astecas. exportavam para outras regiões da Meso-América. diversas frutas. por terra (construíram caminhos pavimentados com pedra calcárea) ou por mar. D . segundo parece. ) . o agave. Tenochtitlan. cujas conquistas abriram a fase do predomínio asteca. D . Mesmo ao fundarem Tenochtitlan. como o reino tarasco e o senhorio de Tlaxcala). É possível. fundada numa ilha do lago de Texcoco. O s maias cultivavam o milho. pesca e coleta. com a exceção do uso de machados de cobre para derrubar árvores. presente inclusive dentro de cada calpulli. heterogéneos e imperfeitamente submetidos — era um bloco complexo. que continuava a se estender sob Moctezuma I I quando chegaram os espanhóis em 1519. em 1325 a. .76 Ciro Flamarion S. No nível político. Cardos* Quanto à economia. com têxteis de algodão. escravos. a sua posição se consolidou com o rei Moctezuma I (1440-1469 a. o chamado "império" asteca — na verdade um mosaico de alianças. A s atividades agrícolas eram complementadas pela caça. jade e obsidiana. um c l ã foi usual no passado. mas não parece correta. . pouco coerente e descontínuo (havia enclaves não-submetidos e hostis. emergiu finalmente — depois de complicado processo que n ã o podemos descrever aqui — a hegemonia de uma delas. mel. o seu nível técnico manteve-se baixo. confederações. ) . cacau. A unidade social básica dos astecas ou mexicas era o calpulli. plumas. comunidade residencial com direitos comuns sobre a terra e uma organização interna de tipo administrativo. e a vida urbana. e criavam cães caçadores e outros que eram comestíveis. uma organização tribal j á bem abalada.

é para este período tardio que as fontes proporcionam mais informação sobre a organização dos maias. sacerdotes (cuja hierarquia interna era complicada). para a Guatemala — eram Chichen-Itzá. em elementos religiosos (intensificação dos sacrifícios humanos. Fabricavam rica cerâmica polícroma. a maioria dos códices pré-colombianos que se conservaram é misteca. Cardos cacau. sendo grandes ourives. mosaicos de turquesa. A estrutura social manifestava restos de um regime de clãs ou linhagens tribais e uma estratificação qué compreendia nobres. importância da serpente emplumada) e no crescente militarismo. Posteriormente ao período chamado maia-tolteca. a massa do povo e "escravos" (criminosos. A sua importância começa por volta do século X I I I d. o grupo que mais desenvolveu na Meso-América o trabalho dos metais. A lenda reflete esta influência ná história da migração de Quetzalcóatl (Kukulkan para os maias). criándose outra vez uma situação de vazio de poder no México central. Tulum. Uxmal. e depois totalmente destruída em 1224 a. plumas e algodão e exportando artigos de obsidiana. que sucederam aos zapotecas em Oaxaca e depois tomaram Cholula (onde seus reis eram coroados). O influxo mexicano se nota em novos estilos arquiteturais. um chefe militar eleito por três anos e submetido a proibições rituais e toda uma rede de funcionários. No início deste período final pré-colombiano. D . com um rei. são. Foram. dos povos que falavam línguas do grupo nahua América Pré-Colombiana e viviam no México central (incluindo. que teria deixado Tula por ChichenItzá. A sua cerâmica típica. seguindo-se uma fase de descentralização. D . em geral. 75 . além do ouro. corresponde ao estilo chamado de Mazapán. por outro lado. por ultimo. quando foi destruída. um Conselho de nobres e sacerdotes. com os tarascos do centro-oeste mexicano. Os sítios mais conhecidos desta civilização são o palácio de Mitla e as tumbas de Yagul. C . trabalhavam a turquesa e o jade. os maias sofreram um profundo impacto tolteca e. jade. ornamentos de cristal e recipientes de ónix. segundo J . Tinham arquitetura inspirada nos antecedentes zapotecas. os mexicas ou astecas). como também dos. prisioneiros de guerra). D . Os núcleos mais importantes da civilização maia nesta fase — durante a qual o seu centro de gravidade se transferiu para o norte da península de Iucatã e. os pais do urbanismo meso-americano em sua última fase. Como é natural. Além disto.74 Ciro Flamarion S. mais tarde.demais povos meso-americanos. . deu-se o episódio da Liga de Mayapan: esta. o que abriu caminho à proliferação de numerosas cidades-Estados em luta entre si. alaranjada. cidade venceu Chichen-Itzá e impôs sua hegemonia entre 1200 e 1450 a. policiais e chefes de aldeias. A destruição do império tolteca liga-se a novas ondas migratórias do norte: T u l a foi tomada em 1168 a. como foi demonstrado por A . mas com inovações (mosaicos de pedra em relevo com motivos geométricos). os mistecas reutilizaram antigas tumbas zapotecas. A unidade básica era ã cidade-Estado. Caso. Paddock. Mayapan e Labná. Os mistecas. .

camada inferior da população rural. As produções do vale do México se complementavam pelo comércio com as zonas tropicais. Tenochtitlan recebeu. predominavam os instrumentos de pedra e madeira. A tecnologia agrária. No apogeu do "império". igualmente arrendatários (vitalícios): eram a mão-de-obra dependente que trabalhava nas terras do rei. uma nobreza de função de origem militar (tecuhtli). Moreno — a três modalidades principais: 1) propriedade comunal: as terras do bairro ou calpulli. porém. chinampas ou ilhas flutuantes dos lagos) era primitiva: como no caso dos maias. sacerdotais. P. diversas categorias populares urbanas e rurais. existiam quatro tipos básicos de trabalhadores: 1) os calpuleque ou membros do calpulli. . formando uma corporação especial. dos nobres e outros particulares. com uma nobreza crescentemente hereditária (tlatoque). 4) os maye que. servidores que os espanhóis consideraram "escravos". em grande parte em terras conquistadas. tinham usos industriais (fibras. além de estar permitido alugar partes do solo do "bairro". pode-se afirmar a existência de diversas formas de propriedade. 2) os teccaleque eram também membros de um calpulli. 2) propriedade dos nobres. alienável entre eles com América Prê-Colombiana 79 certas restrições. artesãos vindos" de diferentes áreas meso-americanas. Certas plantas. cujos frutos iam para a casa real. mas a base da alimentação eram o milho. também se praticava a apicultura e se extraía um colorante vermelho da cochonilha. talvez redutíveis — segundo Manuel M . militares. Algumas fontes mencionam também uma categoria que os espanhóis traduziam como "escravos". como o maguei. Como animais domésticos. ao longo de sua história. feitas pelo Estado com caráter revogável e sob condição do cumprimento das obrigações a elas vinculadas. etc. com a única diferença de que o resultado do seu trabalho servia para sustentar a corte. artesãos reunidos em organizações profissionais. subdivididas em terras de cada linhagem e terras realmente comunais. que as diferentes formas de acesso às terras — incluindo as terras dos nobres que certos autores apresentam como "propriedade privada" — eram concessões em troca do exercício de funções tributárias. fabricação de bebidas fermentadas). havia o peru e o cão. dispondo ou n ã o do uso de outras parcelas a título pessoal.. individual. burocráticas. comerciantes especializados residentes em Tlatelolco (pochtecas ou oztomecas). Carrasco afirma. a sociedade asteca era complexa e muito estratificada. 3) os arrendatários.78 Ciro Fiam arion S. Quanto à estrutura agrária. os templos. 3) diversos tipos de propriedades públicas. e a metalurgia teve pouca aplicação prática. As plantas cultivadas eram muito numerosas. que trabalhavam as terras deste pára suas próprias necessidades e para pagar o tributo. além de suprir as próprias necessidades. etc. o feijão e a pimenta. Quanto ao trabalho rural. a não ser pela irrigação (canais. que lavravam terras alheias (de nobres ou de comunidades). o abastecimento de guerra e a administração. transmissível por herança.

80 Ciro Flamarion S. caracterizavam-na n o t á vel e inquietante escultura em pedra. a c e r â m i c a com motivos negros sobre fundo alaranjado ou vermelho. e recebia — em especial d a costa do Golfo — plumas. o n ú c l e o de u m c o m é r c i o de longa d i s t â n c i a estreitamente controlado pela casa real. turquesas. Emjiparticular. a arte plumaria. medicina etc. n a arte. mantos de plumas. contendo u m imenso mercado bem regulamentado onde intervinham como compradores ou vendedores uns 60 000 i n d i v í d u o s todos os dias. Vale do M é x i c o exportava escravos. centros cerimoniais. e o culto comportava nume- . peles de coelho. por descrições 6 u m ou outro resto de edifício. Huitzilopochtli. jade. em outras m a n i f e s t a ç õ e s intelectuais ( c a l e n d á r i o .). A arquitetura da capital foi d e s t r u í d a na sua parte principal e é conhecida por bases de monumentos que foram escavadas. Devemos imaginar a cidade-capital dos astecas como urna enorme a g l o m e r a ç ã o — talvez tivesse entre 200 e 300000 habitantes. ocre. obsidiana trabalhada. cochonilha. Tenayuca). mas nos arredores da atual cidade do MéxicojDç4eni_SCT vistos t e m p l o s _ s e c u n d á r i o s de pedra bem conservados ( M á f í n ã l c o . cacau (usado t a m b é m como p a d r ã o monetário). objetos de luxo. a civilização asteca c o n s t i t u í a u m a síntese de t r a d i ç õ e s meso-americanas. peles de jaguar. escravos. com i n c o r p o r a ç ã o de alguns elementos setentrionais. Na religião. o que a transformaria n u m a das maiores cidades do mundo n a é p o c a — . roupagens. os mosaicos de pedra ou de conchas. O complicado p a n t e ã o era dominado pelo deus tribal mexica.

Como entre os toltecas. temperadas e frias — j á que a altitude anula os efeitos da latitude tropical — compreendem as cordilheiras propriamente ditas (montanhas cobertas de neve. A corrente fria de Humboldt. Cardoso rasíssimos sacrifícios humanos. posteriormente. ao condensar a umidade dos ventos do oeste: estes já chegam secos ao litoral. Cusco e Titicaca. foram-lhe incorporadas pela conquista porções do Equador. Na parte norte da costa h á chuvas ocasionais. alguns de grande valor estético. atraLoeixes em abundância. A importância das marés levou ao culto lunar. O isolamento dos vales entre si favoreceu durante longo tempo forte individualidade cultural de cada um deles. de derivação teotihuacana. América Pré-ColombianM. Os astecas dispunham de um elaborado sistema de educação das elites. As terras altas. De j u nho a novembro. O lago Titi- Sequências histórico-culturais na Zona Andina Central A Zona Andina Central O seu núcleo fundamentai compreendia partes dos atuais Peru e Bolívia. Os principais são. Callejôn de Huaylas. Huánuco. entre o mar e a Cordilheira dos Andes. Cajamarca. E m primeiro lugar. todos a mais de 2000 é às vezes 3000 metros de altura. de dezembro a maio é ensolarado e muito quente. força precipitações atmosféricas sobre o mar. rica em plâncton. Do ponto de vista geográfico e ecológico. porém mais ao sul quase nunca chove. é preciso distinguir na Zona Andina Central três faixas paralelas que se sucedem de oeste para leste. Faltam árvores e a pedra é rara: as construções usaram na sua maioria tijolos crus secos ao sol. t . terras muito altas com vegetação herbácea propícia ao pastoreio de lhamas {punas) e vales ou bacias cercados de montanhas. do Chile setentrional e da Argentina norte-ocidental. de norte a sul. um deserto costeiro ao longo do litoral pacífico. com um comprimento norte-sul de 3 200 km e uma largura que varia entre 1. os quais são verdadeiros oásis fertilizados pelo limo que vem das montanhas carregado pelos rios ou torrentes. não-habitadas). os quais são alimento humano mas também de-aves marinhas que habitam ilhotas costeiras onde o seu excremento — o guano — .82 Ciro Flamarion S. de rios grandes e permanentes ou pequenos e ocasionais. acumulado durante milêimJSrja-era conhecido e usado em tempos pré-colombianos como adubo: O deserto costeiro é interrompido por mais de quarenta vales. Este vales atraíam especialmente a ocupação humana. nota-se uma certa tensão entre esta religião sangrenta e o ideal religioso mais espiritual de Quetzalcóatl.5 e 40 k m . com pastos e arroios. e puderam ser recolhidos depois da conquista muitos textos literários de origem pré-colombiana em língua nahuatl. que corre paralelamente à costa no sentido sul-norte. Esta corrente. de clima temperado. cobertos de bosques. o tempo é nublado e ocorrem espessos nevoeiros. Mantaro.

aspectos religiosos como América Pré-Colombiana 85 o culto ao complexo jaguar-pássaro-serpente. aproximadas. Cardoso caca. Prentice-Hall. que incluíam com aparente seriedade denominações como as dos períodos "cultista". naturalmente. devido aos alísios que vêm do leste e. com rios largos da bacia amazônica. proliferaram cronologias fantasiosas e até ridículas. Englewood Cliffs. prata. Seguiremos aqui uma periodização adaptada da que propõe E . I I I ) . apresenta forte originalidade: entre outros traços. Acima de tudo. As datas são. Este esforço incluía a constituição de colónias residenciais permanentes. conservados em envoltórios (as "múmias" andinas). encarregadas do abastecimento de certos recursos não-disponíveis naquele núcleo (houve também colónias multi-étnicas). a batata e a quinoa e à domesticação do lhamã e seus congéneres. que cobre também a planície oriental. porém. a 3 812 metros de altura. Esta é uma região de vales cobertos de bosques (yungas).. devido à maior fragmentação cultural e talvez a fases e processos realmente mais acidentados e complicados.. . provocam chuvas que alimentam nas encostas espessa floresta tropical. culto dos mortos. Lanning (Peru Be/ore the Incas.84 Ciro Flamarion S. por ter maior base arqueológica. Do ponto de vista cultural. longe do núcleo territorial da etnia ou Estado. a não ser na costa. cobre. Enquanto na Meso-América a complementaridade ecológica das regiões foi origem de comércio inter-regional mais ou menos intenso. só parcialmente integrada à área cultural dos Andes centrais. é a superfície navegável mais alta do mundo. sistema numérico decimal e uso de quipus (processo mnemónico e de cálculo baseado em cordões com nós). a evolução meso-americana está mais bem estudada em seus detalhes. as possibilidades de desenvolvimento comercial. cap. desenvolvimento mais antigo e bem maior do que entre os povos meso-americanos do uso de metais (ouro.. chocando-se com os Andes. 1967. A~região amazônica começa em plena montanha^ a 1900 metros de altura. um complexo agrícola próprio que associou tardiamente o milho a plantas como a coca. a constituição do que John Murra chamou "arquipélagos verticais" dos Andes: cada grupo étnico ou político tratava de aumentar a sua produtividade controlando o máximo de "andares" e nichos ecológicos que pudesse. A periodização da história andina é particularmente difícil. Este padrão de assentamento limitou muito. bronze). P. a Zona Andina Central partilhava com a Meso-América certos elementos: pirâmides escalonadas. "experimental" e "dos mestres artífices". apoderando-se assim de recursos variados. na Zona A n dina Central a exploração de recursos ecológicos diferenciados deu origem a uma solução peculiar. por outro lado. No passado.

ganhando toda a costa norte e central peruana e algumas regiões altas setentrionais^ centrais. alguns autores pretendem que já nesta fase do I I milénio a. viu a difusão do assentamento em aldeias sedentárias tamb é m nas terras altas dos Andes centrais. como o que inclui a grande pirâ- mide de L a Florida (hoje na cidade de Lima). na verdade. embora certamente com um e s b o ç o de grupo socialmente dominante em processo de diferenciação. Cupinisque. C . Na fase précerâmica final (2500-1800 a. como no caso dos olmecas da Meso-América. os recursos marinhos predominavam ent ã o sobre os agrícolas na dieta). C . na costa norte. situado num vale estreito das terras altas. C. admitir u m sistema de chefias ou confederações tribais. A p o p u l a ç ã o das aldeias parece variar entre um m í n i m o de 50 e u m m á x i m o de 1000 pessoas. provavelmente devido à presença de recursos marítimos abundantes a l é m dos terrestres. portanto. t a m b é m na costa (mais ao norte). A construção de estruturas consideráveis como estas exigiria um grau considerável de coordenação e direção. favorecendo uma produtividade superior das economias pré-históricas. o templo de Chavin de Huántar. perto de H u á n u c o . A fase que se estende de 1800 a 900 a. existiram pequenos Estados regionais compreendendo várias comunidades aldeãs. pirâmides e altares (bem mais cedo. e surgiram os primeiros templos. C . a agricultura e a vida em aldeias sedentárias se espalharam por toda a costa peruana. Entre os santuários desta fase. as e s p é c l è T ^ ^ ram — espécies vegetais principalmente. o de Las Haldas. Deste período datam importantes centros cerimoniais. nas terras altas. compreendendo nove edifícios feitos com blocos naturais de pedra. A s culturas eram então estritamente regionais. A primeira cultura inter-regional (900-200 a.Ciro Flamarí&n S. do nome do sítio mais famoso do período.A m e n c à . do q u é ^ ^ M e s o . O e s t i l o e h t ã o d i f u n d í 3 õ é c h a m a d o C h a v i n . Isto parece pouco provável. pela primeira vez. mencionemos o templo construído no vale de Chillon (costa central peruana). na costa central. em Chuquitanta. certos elementos culturais de tipo artístico. os inícios da cerâmica e da tecelagem com tear. a domesticação do lhama.) Este período consta de duas partes. Para explicá-lo. mas tamb é m a cobaia ou porquinho. próximo ao Callejón de Huaylas. o desenvolvimento por toda a região da cultura do milho e a adoção na costa da mandioca e do amendoim.) Por volta de 900 a. religioso e arquitetônico se expandiram fora de quadros estritamente regionais. contendo o "templo das m ã o s cruzadas". Cardoso América Pré-Colombiana 87 Difusão das aldeias e surgimento dos primeiros templos e centros cerimoniais (2500-900 a. C. e o de Kotosh. C ) .da-índia — . O s sítios mais notáveis da fase ou estilo de Chavin s ã o quatro. se caracteriza por uma cerâmica com um motivo estilizado repre- . bastando.

e agindo como foco de atração para numerosos povoados e aldeias circunvizinhos (a população destas cidades poderia ser de uns 10000 habitantes). adornos de conchas e turquesas. decorado com cabeças em relevo. diversas representações estilizadas do felino e um monolito esculpido igualmente com o motivo do jaguar. compreendia diversos edifícios. O que significa realmente o estabelecimento do estilo de Chavin em numerosas regiões? A sua origem se deu nas terras do centro-norte peruano.-600a. O sítio de Chavin de Huântar. Estãxfôs altamenfêP orgamjaofos e agressivos. N ã o h á . Sua rápida expansão sugeriu a certos especialistas a ideia da difusão de um culto religioso do felino. formando uma unidade política que poderia ser chamada de "império Chavin". Houve um indubitável desenvolvimento técnico . sendo os ossos pintados de vermelho e manifestando-se deformações voluntárias dos crânios. bases arqueológicas para afirmá-lo: n ã o foram descobertos América Pré-Colombiana 89 centros administrativos. Paracas Cavernas (sítio situado numa península da costa sul peruana) apresenta tumbas com cerâmica bastante peculiar.) As características básicas ^deste período são: o grande desenvolvimento tecnológico e artístico. o nascimento do urbanismo andino. mesmo estando sob seu influxo parcial. geométricas e de outros tipos. mas ignoramos se na costa ou nas montanhas. alguns atribuem este sítio a período anterior. Por outro lado. Seja como for. embora nesta fase limitado às terras altas dojguJL Nesta última região surgiram as cidades de Tiahuanaco. porém. possivelmente o começo da irrigação (drenagem. no vale de Casma (costa norte). T a m b é m se atribui a esta fase a difusão de um tipo mais produtivo de milho. onde ocorreu. apresenta lajes de pedra gravadas com figuras humanas. provavelmente um centro de peregrinação religiosa. As primeiras cidades e o progresso dos Estados organizados (200a. Cardos> sentando o jaguar. foi somente parcial. ao mesmo tempo por proselitismo e pela força das armas. C. canais) nos vales da costa. mas que manifesta algumas influências de Chavin: de fato n ã o parece pertencer propriamente ao mesmo horizonte cultural. por casas de pedra ou adobe. o ^rfp*wft"Tfwip. Por fim. Cerro Sechín. produzindo vasilhas com gargalo em forma de estribo. e às vezes o estilo de Chavin e os estilos locais formados anteriormente aparecem lado a lado. Pucara e Huari. talvez de origem mesoamericana. o desenvolvimento da tecelagem e os começos da metalurgia. a homogeneização cultural. D.88 Ciro Flamarion S. cada uma delas com um núcleo monumental provido de praças e edifícios públicos. quartéis para guarnições militares ou fortalezas. cercado de bairros residenciais. há indicios de que este período diminuiu a compartimentação cultural: houve comércio de artigos como cerâmica cerimonial e ossos esculpidos entre regiões. o mais importante sendo o templo de pedra chamado " E l Castillo". enterros com oferendas.

As formas eram variadas e distinguia-se a cerâmica utilitária. Cães eram usados nos combates. Esta representava com grande realismo cenas da vida quotidiana. porém. acrescentando-se depois gargalos. o cobre e ligas destes metais. malhas. e sobretudo da cerâmica tão gráfica que deixaram. Moche e Viru. N e p e ñ a e Casma — desenvolveu-se e n t ã o a cultura que chamamos mochica. asas e adornos. A maioria dos vasos era produzida em moldes de4irgila. A c a ç a tinha caráter^omplementarj sendo talvez um esporte aristocrático. a mandioca. brocados. que provavelmente eram sacrificados. posteriormente anexando os vales de Chao. da cerimonial e funerária. a prata. trançado. amarrado a um poste. tacape de ponta de cobre e fundas. mas entre os mochicas t a m b é m usada para instrumentos agrícolas e armas — deu um grande passo à frente. JÖ maF" fornecia t a m b é m sal e usava-se o guano costeiro. trabalhando-se o ouro. a batata. h á estátuas representadas vestidas e a^rqueõlogia j£y^lojdCH«os e p ^ a ^ ^ J e a j ç g s X . pena de morte por lapidação ou por exposição do condenado. A cerâmica cerimonial t a m b é m se aperfeiçoou notavelmente. árvores frutíferas. Estas s ã o obras que s u p õ e m uma p o p u l a ç ã o numerosa e uma sólida organização estatal. pena do cepo. etc. Pode-se deduzir das representações de castigos um sistema judiciário severo: amputação do nariz. atividades guerreiras. forjado. América Prê-Colombiana 91 e e c o n ó m i c o . À metalurgia — basicamente ornamental. Como n ã o dispomos de qualquer fonte escrita. A administração de um Estado de considerável dimensão levou à contrução de uma rede de caminhos. mas a p e g c a / ^ utilizando botes de junco. a batata-doce. . pois n ã o sg^bnsgryaram nas terras altas (onde. H á representação de prisioneiros de guerra. o que se afirma acerca da estrutura social e política dos mochicas é inferido da arqueologia. j A base da economia mochica era agrícola. faca. é considerada a melhor de toda a história do Peru précolombiano. Nos vales da costa criaram-se ampios sistemas de irrigação. divindades. Os cultivos principais eram o milho (com duas colheitas anuais). Mesmo com teares primitivos. do lábio superior. a tecelagem de algodão e de í â j a e alpaca atingiu u m apogeu nunca superado. personagens.Ciro Flamarion S. Hálttiuitas representações de guerras e guerreiros: estes usavam capacetes e orelheiras para proteção. através de técnicas diversas (metal martelado. tecidos. simples. A arqueologia revela canais de irrigação de barro pisado com até 130 km de extensão e um aqueduto do mesmo material em Chicama. fabricada pelas mulheres. que conhecemos s ó n a c o s t a s e c a . terraços para cultivo e canais. tapetes. Na costa norte — vales de Chicama. e combatiam com escudo. a aves de rapina. diversos tipos de feijão. Santa. Existem estatuetas do que parecem ser reis e nobres e a presença de forte estratificação social é clara. ganchos e redes — continuava sendo importante. percorridos por corredores com função dé correio oficial. A cerâmica. dos pés. nas terras altas. m é t o d o da cera perdida). etc. produzindo bordados. a lentilha.

gigantescas. tumores. A cerâmica é às vezes estilizada. mas há também representações de felinos coroados de serpentes e outros animais. Os cadáveres eram envoltos em mantos. restos de plantas e animais. A música incluía trombetas. suas tumbas são verdadeiras casas subterrâneas com espessas paredes S ê pedra e barro cobertas-com ramagenycostelas^íe baleia è~courp. porém. facas de obsidiana. ouro e prata.juna "comunicação" ritual com deuses celestes. Tiahuanaco compreendia um grande centro cerimonial com construções de . provavelmente conhecedores de plantas medicinais. fios de coser. As construções eram grandes — incluindo templos. fortalezas — mas não houve verdadeira urbanização. Cardos A arquitetura usava tijolos de barro cru. bócio. usando turquesas. Aparecem objetos de ouro martelado e gravado. preparadas através da extirpação dos órgãos internos jTde ressê^ãmento pela fumaça^ecolggadas em cestos depois de envoltas em tecidos. conhecia um felinõTiumanizado que-aparece voando montado em pássaros. ametistas. espátulas de dentes de mamíferos marinhos. trepanação do crânio) com instrumentos feitos às vezes de ossos de tubarão. Foram achados instrumentos cirúrgicos: bisturis. através de representações realistas de doenças (lepra. Muitas delas apresentam crânios deformados e trepanados. Os tecidos eram de algodão e de lã de lhama e vicunha. que chegam a ter 30 metros de comprimento. consolidada às vezes com postes de madeira. percussão e flautas. Foram achadas centenas de múmias. Os mochicas eram bons ourives. As m ú mias aparecem associadas a cerâmica. são mantos. conchas.com conotações demoníacas.92 Ciro Flamarion S. Havia curandeiros e curandeiras. E n i Nazca não foram achados restos arquitetônicos. e enterrados com abundante cerâmica e outras oferendas. tal como pode ser inferida da cerâmica. provavelmente figurações das almas dos mortos assimiladas a astros. ligadas talvez a algum culto astral ou a. No vale de Moche foram descobertas duas grandes pirâmides. Os tecidos. chamadas "do Sol" e "da L u a " . A religião. ponchos e turbantes que envolviam as múmias: suas decorações representam seres fantásticos e flutuantes. Cerâmica e tecidos de alta qualidade foram encontrados em América Pré-Colombiana 93 tumbas que constam de um poço cilíndrico dando acesso a uma câmara retangular ou em abóbada. lápis-lazúli. Quanto à tecelagem. cegueira). Quanto a Paracas-Necr^pjples. associado a vários aniHTãis humanizados ou n ã o . discos de algodão. Nos planaltos do sul desenvolveu-se a j á mencionada civilização urbana. machados de pedra. desenhadas sotyre~o~ solo. e em luta com outros tipos de animais. palácios. mostra que tinham conhecimentos de medicina e praticavam inclusive a cirurgia (amputações. dispomos de poucos tecidos de cor creme. Na costa sul desenvolveram-se as culturas de Nazca e de Paracas-Necrópoles. jóias. figuras geométricas e representacõêiTdiversas. paralisia. A cerâmica. com os membros flexionados. Trabalhavam também o cobre. Existem. É possível que existissem representações teatrais.

s e lá grandes estátuas monolíticas e colunas com relevos. incluía quase todo o Peru. e m provável dependência e c o n ó m i c a de Huari. Pucara. tratar-se do deus I S l a d c í V i r a c o c h a j f e n c o n t r a m . E m vales da costa meridional — Pisco. pode t a m b é m ter constituído uma zona de passagem e intercâmbio. segundo alguns. Ã queda — por causas desconhe- . Presume-se a presença de organizações estatais./ U m a cerâmica típica de vasos polidos e polícromos assume às vezes forma de puma ou de lhama. D . as pesquisas de D . A agricultura (batata. sendo a capital inclusive abandonada. pequena parte do sul do Peru até o vale de Majes e Arequipa. Menzel permitiram uma ampliação dos nossos conhecimentos. Chakipampa. A e x p a n s ã o militar acompanhou-se da difusão dos estilos artísticos e do padrão urbanístico de Huari. formando impérios consideraveíslnas efémeros. mas sim de guerras que levaram à unificação de cada vale. Como Chavin no passado. Acuchimay e Nawimpukyu. formando-se uma espécie de liga de cidades. Huari era um centro urbano do vale do Mantaro. D. quinoa) e o~pastoreio d e j h a m a s eram a base económica desse elevado planalto do Titicaca. e entre 700 e 800 a. mas nada sabemos a repeito. o qual inclusive é negado por vários autores. Huari foi a capital de um vasto império que. Já no caso do império posterior de Huari. porém. D . mas faltam dados. A e x p a n s ã o c o m e ç o u em 650-700 a. Mais ao norte n ã o h á traços de urbanismo. no seu apogeu.94 Ciro Flamarion S. Huari — havia outras menos consideráveis no planalto do sul do Peru. Cardos América Pré-Colombiana Os primeiros impérios s (600-1000 a. e a costa e zona montanhosa do Chile setentrional. O inlperio dê Tiahuanaco compreendia a totalidade da bacia do lago Titicaca e o sudoeste da Bolívia. desintegrou-se rapidamente. Tiahuanaco parece ter sido um centro de peregrinações religiosas. que romperam o tradicional isolamej^pjlasculturas an^n^s^e^izeram^rcular pêffs e ideias na Zona Andina Central. e n ã o político-militar.) 95 pedra. Situado entre a costa e a zona amazônica. Na chamada "Porta do Sol" está representado um personagem central humano. que v ê e m na difusão da cerâmica e dos estilos artístico e religioso de Tiahuanaco u m a expansão exclusivamente cultural. associado â cabeças de felinos e condores e a pequenas figuras aladas: poderia. Supõe-se que existiram Estados t a m b é m nas terras altas centrais e setentrionais. T a l império. com longa tradição de vínculos culturais com Tiahuanaco — o estilo das duas culturas é virtualmente idêntico — e t a m b é m com os vales de Ica e Nazca. . situado em território hoje boliviano. a t é Cajamarca. f Neste período h á provas. como vimos no caso do Estado mochica. Conhecemos mal este episódio. e mesmo à reunião de vários deles. inequívocas de conquistas em alta_escala. A l é m das cidades maiores — Tiahuanaco. Nazca e Acari — surgiram igualmente pequenas cidades. Ica>.

com um estilo próprio em cerâmica e tapeçaria policromas representando águias. na costa central peruana.96 Oro Flamarion S. algumas t a m b é m planificadas. O s chimus tinham pelo menos outras quatro cidades. à muito anterior cidade meso-americana de Teotihuacan). chegou a dominar a costa setentrional do Peru. Cardoso América Pré-Colombiana cidas — deste império seguiu-se o abandono das cidades do sul peruano e diversos séculos de eclipse da vida tabana. Depois do eclipse que se seguiu à queda de Huari. Tudo indica uma sociedade diversificada. e finalmente as aldeias. visivelmente derivados dos motivos usados nos tecidos. Neste período desenvolverse o importante santuario e cidade de Pachacamac. É possível que sua população m á x i m a tenha sido de 80000 habitantes. Do ponto de vista das técnicas e artes. inspirador do dos incas. o cobre teve maior uso do que no passado em ferramentas e armas e deu-se a invenção. famoso centro de peregrin a ç õ e s em etapa posterior. foi o maior centro urbano da Zona A n d i n a Central. dos terraços para cultivo. As_paredes eram decoradas com arabescos antropomórficos. aparentado com o de Tiahuanaco. mas de cujá existência nesta fase n ã o h á provas. A e x p a n s ã o do urbanismo e do militarismo são sem dúvida os seus traços mais marcantes. O reino tinha um estrito sistema administrativo e tributário.) inca A^ destruição do império-de-Huari. pois.levou a que durante vários séculos imperasse a descentralização e existissem outra vez numerosos Estados regionais independentes. O çeino chimu. ou pelo menos uma maior difusão. sob os chimus e incas. E r a uma cidade planificada. conduzindo à extensão dos sistemas de irrigação e à multiplicação. povoados com guarnições militares. estradas uniam os vales. hierarquizada e de grande sofisticação. Sua capital. o qual predominou na costa central e influiu t a m b é m nos vales do norte e do sul. Do ponto de vista das técnicas. Os chimus fabricavam uma cerâmica negra . É possível que o prestígio de Pachacamac j á e n t ã o se vinculasse ao seu oráculo. em 17 a 22 k m de extensão urbanizada (comparável. Por outro lado. Chan-Chan. e talvez uma parte do E q u a dor. principalmente A economia agrícola baseava-se em vastas obras de r e g a d i o q u é se estendianiltevezes de um vale ao seguinte. cuja civilização parece ter resultado da fusão da cultura do vale setentrional de Lambayeque com elementos mochicas e de Huari. cidade de adobe construída no vale de Moche. separados por muralhas. 2 O grande interregno e o império (1000-1534 a. de Tumbes a Paramoya. h á indicios de um aumento de população. do bronze. n a zona serrana. estruturada em blocos retangulares contíguos e independentes. percorridas por mensageiros. D. deu-se uma nova intensificação do urbanismo planificado. zoomorfos ou geométricos. este n ã o foi um período de grande progresso.

fornecia couro e carne. preparava-se um alimento que se conserva por longo tempo (chunu). com as cidades de Cajamarquilla e Pachacamac. derivada da de Tiahuanaco-Huari. ou linhagem. e de toda a vida social. como a produção de tecidos. à expansão militar que unificou a totalidade da Zona Andina Central. seca ao sol (charque). a cultura de Pukina. ou Incas. porém. também jrevolver o sòIõT Depois que passavam os homens. D . as mulheres quebravam os torrões com uma enxada (lampa). nas terras altas do sul. Os vales andinos são estreitos. menos urbanizado mas com fortificações. Este n ã o era um clã. estendendo-se somente de 1438 a. mochica e Huari. no imenso Tawantinsuyu ou império inca. na costa sul). O lhama. Ancon. Ica e Nazca. habitada por diversas famílias vinculadas pelo parentesco. falaremos primeiramente da sua estrutura económica de base agrária.ks velceyifeiTOlmr^õ na^Tãpén^ perfurar como. em grande quantidade mas pouca variedade. além de transporte e lã. A família nuclear . o Estado chincha (vales de Caíiete. de modo que a construção de terraços para cultivo e a irrigação por meio de canais (às vezes cortados na pedra) tiveram sob os incas grande desenvolvimento.9 8 C ^ & V « Ciro Hamarion S.JiJililhOj^ a quinoa (um quenopódiõ) ê à oca (um tubérculo). feminina para as mulheres). em fase posterior. Sua religião — culto da Lua e das estrelas. apresentava tendência à endogamia e um sistema de descendência paralela (linha masculina para os homens. que n ã o vamos descrever. o traço mldSImarcante era a produção em série. em 1531 a. §uas_múmias eram enterradas sen-. Relhos e culturas menores deste período foram: Cuismancu. Rimac e Lurin). foi fase tardia da historia andina. tidas em fossas coletivas. A preparação da terra se fazia com um bastão de semear reforçado. D . No vale do Cusco formou-se uma confederação inter-étnica que. Iniciando a exposição das características principais da civilização incaica. A base da agricultura andina. Sua metalurgia era avançada. formando uma comunidade ou ayllu. Pisco. com oferendas. era a aldeia. com apoio para o pé (taclla). A expansão imperial inca. de certas pedras associadas aos antepassados — incluía sacrifícios humanos de crianças e a consagração de virgens à L u a . com acréscimos externos. Caracterizou principalmente os reinados dos imperadores. Chincha. A expansão do milho esteve muito ligada a estas técnicas^A base da alimentação eram quatro plantas: a b^taia. às vezes apresentam deformação tabular do crânio. do Equador ao norte do Chile. e os terrenos planos pouco extensos. Pachakuti. até a chegada dos espanhóis quase um século depois. serviu de primeira base. "arando" com t a f instrumento. E n f t ò d a s estas atividades. estendendo-se de Arequipa até a Bolívia e o norte do Chile. na costa central (vales de Chancay. dominada pelo grupo quíchua ou inca. Tupa Yupanki e Wayna Kápak.Cardoso América Pré-Colombiana 99 | derivada dos estilos Lambayeque. que no seu apogeu se estendia de norte a sul por mais de 4000 km. . Arr^vêTHa desidratação da batata congelada.

Nestas condições. limites à redistribuição dos bens do chefe e da divindade. onde crianças e jovens solteiros pastoreavam os lhamas e alpacas. de reduzir algumas pessoas a um estado de servidão fora das comunidades (os yaha). organizando em escala nunca vista nos Anc[es 4âis^opéfaçôes e exigindo trabalho nas terras do Inca e^do Sol. Na história andina. na medida em que os incas aplicaram sistematicamente a política de transferir populações mal submetidas a regiões distantes da sua de origem (cortando assim os laços comunitários). porém. confederações tribais e por fim reinos. mas o costume o obrigava a uma redistribuição de seus bens. pois a circulação dos bens realizava-se de outra maneira. Por outro lado. por exemplo). A divindade ou fetiche tutelar do ayllu. qualquer forma de tributos in natura além das prestações de trabalho. dando presentes. bem como para outros fins (construção de casas. a terra cultivadà^èrã dividida em lotes familiares calculados segundo o tamanho de cada família. a bebida fermentada de milho .centralizava através de tais trabalhojjojyaa'oTímira). mas este último ainda predominava muito claramente.100 Ciro Flamarion S. para que cada família gozasse de recursos ecológicos diversos. — do que qualquer outro membro* do ayllu. Ao tornarem-se mais vastas surgiram chefias. mas em todos estes níveis repetia-se tal qual o mecanismo das prestações e da redistribuição. espécies de super-kuraka e super-waka. X t e l r a do ayllu (markd) incluía campos cultivados e pastos coletivos. e o chefe. não havia. formaram-se estruturas piramidais em que um ayllu dominava outros. organizava os estõrços cóléTivos e arbitrava os contlitos. ojj£ atribuía o Usufruto de lotes de terra às famílias. O império dividia-se em quatro grandes províncias e a tradição burocrática via cada uma delas como uma estrutura geometricamente organizada se- . o comércio não podia ter grande desenvolvimento. a waka. O Ã:Mrafeg. e cada categoria era endogâmica em princípio. O ciclo da vida agrícola estava baseado na ajuda mútua (ayni).certos tipos de vestimentas. O império inca era somente uma espécie de enorhle^cõnfederação de' confedêrã'ções. em intercâmbios de trabalho entre as famílias para a semeadura e a colheita. e assim existia uma diferenciação social entre T os homens comuns (puriq) e os poderosos ou privilegiados (kapa). mais riqueza — representaria"~eni especial por bens raros como a coca. ou seja. Tais medidas estavam criando um esboço de grupos explorados. mas fiéis ao padrão usual. Cardo. distribuindo alimentos quando necessário devido a más colheitas. ou kuraka. germes de mudança estavam surgindo. etc. recebiam prestações de trabalho da comunidade. Ao contrário dos pastos indivisos. alimentando os que trabalhavam para ele. porém. América Pré-Colombiana — um casal e seus filhos solteiros — era a unidade de consumo e de proáu^SõTCs^ntyllu tinha um chefe (£urakq[. separados do sistema comunitário tradicional. de aproveitar o trabalho de fiação e tecelagem das "mulheres escolhidas" que viviam nos conventos do Sol. etc. constituídos de terras situadas em diferentes altitudes. Havia. estes na puna fria.

dispondo de u m a rede de templos e de u m clero altamente hierarquizado. M a c h u Picchu. a t é hoje é o idioma mais importante. pelo menos no que se refere à ú l t i m a etapa — que por isto mesmo é a mais documentada — da história p r é . E m c e r â m i c a e metalurgia. A organização económico-social das "altas culturas" pré-colombianas à primeira vista. Huaytará. cavernas. as tradições m í t i c o .(Uma rede de estradas u n i a o essencial do território. onde.coerência j a mais sonhado pelo " i m p é r i o " asteca. a capital. seus tetos de p a l h a ou em falsa a b ó b a d a . o culto do Sol. cujo cerne eram os funcionários chamados kipukamayoc. V i l c a s h u a m á n . suas portas e janelas trapezoidais. Cusco. sendo anterior. Como no caso de H u a r i . era obrigatório em todo o Tawantinsuyu. apesar de elaborada. e r a u m a cidade vasta e m a g n í fica. A religião. é conhecida principalmente através de outros sítios: T a m b o Colorado. m ú m i a s .c o l o m b i a n a . E m particular.Ciro Flamarion S. tinha entre os incas sinais i n e q u í v o c o s de origens p r i m i t i v a ^ ^ ^ ^ ^ r o x l m a s ! por exemplo. edifícios. é verdade que o i m p é r i o inca atingiu u m grau de i n t e g r a ç ã o e.. com u m sistema de correios p ú b l i c o s e de d e p ó s i t o s de alimentos. H u á n u c o . os incas n ã o inovaram. com o a i m a r á do Titicaca. mas pouco resta dela. U m sistema de contabilidade. e t c . e cujo exercício era reservado aos incas apenas. subordinada a esta. como em geral em m a t é r i a de tecnologia. que podiam ser rochas. é por . antes estritamente local. mas impuseram a a d o ç ã o paralela de seus p a d r õ e s . ou wakas.h i s t ó ricas eram f u n ç ã o de especialistas hereditários ligados a cada linhagem real. o culicTde fetiches variados.A m é r i c a e d a Z o n a A n d i n a Central. fontes. com f r e q u ê n c i a associados aos antepassados. deus dos incas e do i m p é r i o . com seus grandes blocos poligonais de pedra. a compar a ç ã o d a M e s o . armas e roupas p a r a tropas e f u n c i o n á r i o s . e mais especificamente do " i m p é r i o " asteca e do i m p é rio i n c a (já que o apogeu m a i a . A arquitetura incaica. chefiada pelo I n c a ou Filho do Sol. do vale de Cusco. mas. com templos e p a l á c i o s . informava a t r i b u t a ç ã o (exclusivamente em trabalho) e o serviço militarTjHavia u m a burocracia imperial. C a j a m a r c a . E m arte e religião. os chamados amautasr-A-lmgua q u í c h u a . Jauja. E m particular. Cidades como T u m i p a m p a . Cardoso América Prê-Colombiana / 103 gundo u m p r i n c í p i o decimal. com o i m p é r i o se difundiu por toda a Z o n a A n d i n a Central. Ollantaytambo. persistia a burocracia tradicional dos kurakas regionais e das aldeias. que operavam o sistema c o n t á b i l e m n e m ó n i c o dos kipus. E m b o r a isto seja u m a i d e a l i z a ç ã o simplificadora. Sacsahuaman. deixaram subsistir o substrato antep o r em cada r e g i ã o . foram por ela planejadas e construídas. irregulares mas perfeitamente ajustados sem cimento. a a d m i n i s t r a ç ã o inca se apoiou n a d i f u s ã o do urbanismo. A cultura intelectual baseava-se n a transm i s s ã o oral.

caráter amorfo e pouco consistente do "império" asteca em contraste com a sólida organização do Tawantinsuyu. comércio desenvolvido a longa distância no primeiro caso em oposição a u m sistema de reciprocidade/redistribuiç ã o / c o n s t i t u i ç ã o de "arquipélagos verticais" andinos no segundo. aliás. T a m b é m h á adeptos da ideia de que.. que atravessavam a f a ^ j j e j b a n s i ç ã o da "comujiidade primitiva" à sociedade de_ cjajsesjplenamente constituída. em algum momento. predominaram os estudos acerca da serra) mostrou. Cardosi América Pré-Colombiana tal razão m a l iluminado pelas fontes). mais brilhantes. quase não h á forma de organização econômico-social que. tratava-se. nestes últimos anos. para os últimos séculos antes da conquista. à iniciativa e talvez a u m esboço de propriedade de tipo individual ou privado na economia e sociedade meso-americanas. Assim. Outros autores optaram pelo feudalismo. enfim. Murra. no fundo. Por sua vez. Sistema tributario in natura na Meso-América contra tributos exclusivamente em trabalho nos Andes. faz aparecer uma série de diferenças importantes. a evolução dos estudos conduziu. de u m "império socialista dos incas". para os marxistas dogmáticos stalinistas ou pós-stalinistas. aparentemente se ignoravam nos últimos tempos pré-colombiancJ^Va uma confluência de tajs^característicaSja^ Antes. como se pode comprovar em certos manuais soviéticos bastante recentes. Louis Baudin — por certo num contexto intelectual que nada tem a ver com o conceito de modo de produção — falou.104 Ciro Flamarion S. d e j w n a oposição antes tacitamente aceita das características das duas grandes áreas culturais de "altas culturas" — as quais. «^oissemos. enquanto o estatismo reinaria absoluto n a sociedade e economia andinas.o grande peso da organização estatal no campo económico-sociali enfoques antes empregados para o caso do Peru. uma organização económica costeira que associava a agricuhuxa_à exploração do mar e apresentava maior desenvolvimento do artesanato especializado (incluindo a produção em série). mesmo. n ã o haja sido atribuída aos Estados précolombianos (com a possível exceção do capitalismo)./ derável do que no caso andmo^^^ta^&verctbe que a circulação mercantil meso-americana foi exagerada no seu volume e significado por diversos pesquisaí o r e s ^ e se coloca para a Meso-América a possibilida^edeque sejam válidos conceitos como os de recipj^^^Q^jTr^istribuiçã^o^e um estudo^jmjgJteye em conta. mesmo-jias-casos. emjcpntraste com a economia serrana estudada por J . Ao nível da interpretação.. . de sociedades aindíLJiuiitp primitivas. traços que a aparentam com a visão habitual acerca da economia meso-americana. seriam sociedade escravistas (interpretação que se choca frontalmente com os dados disponíveis). maior campo aberto aos interesses. do comércio a longa distância e inclusive de um esboço de propriedade privada. D e fato. a ampliação da análises sobre a costa peruana (no passado. considerava-se a Meso-América como u m a região que viu u m desenvolvimento do comércio e da economia "privada" muito mais c o n s i .

certos desenvolvimentos ainda incompletos. Vimos também que há certas razões lógicas que explicam várias destas deficiências. mas promissores. mais recentemente. 3) Desde princípios da década de 1960. Ora. à base de tecno- América Pré-Colombiana 107 logia bem pouco avançada. que são relatórios de funcionários espanhóis no Peru. o humano: o esforço das civilizações précolombianas se concentrou no aperfeiçoamento da divisão social e técnica do trabalho e das formas de controle e cooperação da mão-de-obra. nas quais portanto se manifestava ainda a organização indígena. derivadas de Karl Polanyi e em geral da corrente da antropologia económica conhecida como "substantivista". As características fundamentais deste tipo de sociedade seriam: 1) a importância das grandes obras de irrigação. de outro tipo de fontes antes pouco utilizadas: as visitas. do torno do oleiro. e outras obras públicas consideráveis. merecem menção. baseados em interrogatórios feitos em regiões recémcon quistadas. por exemplo. E m anos recentes. A partir daí. na verdade inclui igualmente os homens que trabalham. apesar do choque de opiniões muito divergentes. o qual havia sido esquecido durante longos anos. 'era. como já mencionamos. tal transformação também começou a afetar a interpretação das altas culturas meso-americanas. vistos nas suas capacidades físicas e mentais (socialmente determinadas). frequentemente reduzido só à tecnologia. mais adiantada do que a pré-colombiana). Interpretando tais dados novos à luz de noções como "reciprocidade" e "redistribuição". Isto explicaria a possibilidade de sociedades estratificadas e diversificadas e de brilhantes desenvolvimentos culturais. 2) o fraco . o que é um traço também discernível nas estruturas econômicosociais da África Negra pré-colonial (cuja tecnologia. escasso emprego de adubos pela falta de associação agricultura/pecuária. no conjunto. de um uso amplo de metais para fins produtivos (ferramentas). referindo-se à sociedade mexica ou asteca — mas a observação pode ser generalizada —. de veículos de rodas. dos dois aspectos das forças produtivas. 1) Já vimos que a tecnologia das "altas culturas" pré-colombianas apresenta sérias deficiências em relação.Ciro Flamarion S. mas paralelamente se deu um progresso considerável do outro aspecto. porém. Murra provocou uma transformação radical das concepções acerca da história andina. realizadas sob controle do Estado despótico. à do antigo Oriente Próximo: ausência do arado. renovaram-se as discussões acerca de um conceito que aparece sem grande elaboração na obra dos marxistas clássicos. o tecnológico permaneceu relativamente primitivo. Castillo chamou a atenção para o fato de que. o de modo de produção asiático (alguns preferem chamá-lo "despótico-tributário"). por John Murra. Victor M . A maior mudança de direção interpretativa veio da descoberta e valorização. 2) A discussão acerca da organização económico-social das sociedades mais desenvolvidas da América pré-colombiana dos últimos séculos antes da conquista baseava-se. sempre nas mesmas fontes. o conceito marxista de forças produtivas.

mas esta não parece ser a opinião predominante na atualidade. embora seja forte atualmente a tendência a negar. h á razões sem dúvida mais específicas e de . Quanto à s outras características. hoje. tais sistemas foram sem dúvida consideráveis e objeto de planificação global. 3) a coexistência de estruturas rurais ainda comunitárias com uma classe dominante que. As tentativas de aplicar esta hipótese à América pré-colombiana deram resultados variados. ou por suas ainda mais remotas antecessoras? * U m a primeira forma de respondermos a esta pergunta poderia ser retomando — em outro contexto — a frase famosa do personagem de Terêncio: Homo sum. com bons argumentos.108 Ciro Flamarion S. como copioso feixe de variadas e interessantíssimas éxperiêl^claThumanas. de certo modo. A curiosidade é unTTmp"uTso humano dos mais legítimos e desconfiamos muito de qualquer exagero do imediatismo pragmático quando se trata de justificar uma dada atividade. se encarna na estrutura estatal e submete as comunidades aldeãs a uma exploração via elaborado sistema tributário. et humani nihil a me alienumputo ("Ho^ tnem sou. pensam que já é tempo de "enterrar honrosamente" a noção de modo de produção asiático. são mais plausíveis. varridas da face da Terra na época da conquista e dos inícios da colonização europeia da América. Seja como for. Cardoi desenvolvimento da propriedade privada. Isto é. Certos autores. podemos simplesmenteJnteresr "sar-nos pêlo passado pré-colombiano por si mesmo. o caráter clânico e igualitário das comunidades pré-colombianas do tipo ayllu ou calpulli (este último especialmente). Já vimos que dificilmente se pode atribuir o surgimento dos primeiros Estados e cidades da Meso-América e do Peru à necessidade de controlar centralizadamente grandes sistemas de irrigação. ejnada do que é humano-eonsidero estranho a mim"). no reino chimu e no império inca. REFLEXÕES FINAIS Por que interessar-nos. mesmo se posteriormente. por essas remotas "culturas assassinadas". como Perry Anderson.

Do ponto de_yista teórico. fases análogas (não-idênticas. Canadá. que eles assimilaram de maneira mais ampla do que habitualmente se crê. de cultura. porque a generalização em tais circunstâncias é impossível e sem ela não podem ser estabelecidas regularidades e leis. como o Brasil e o Sul do que hoje são os Estados Unidos. praticando uma agrieul- . agora. a batata e a mandioca. e a da colónia. O método científico não pode basear-se na abordagem de casõs"òu processólTunicós e irrepetíveis. tem valor inestimável o fato de se poder comparar a evolução pré e proto-histórica do Velho Mundo com a da América pré-colombiana. para citar só os elementos mais evidentes. ou seja. E o mais interessante é que constataremos. Onde existia uma densa população indígena.). que evoluiu. 25): ".110 Ciro Flamarion S. onde a população indígena era numerosa mas foi destruída em poucas décadas nos primeiros tempos da colonização). são resultados de milénios de atividades e experiências do homem pré-colombiano que se integraram ao nosso quotidiano. n? 6. de recursos. o que diz a respeito do tema que nos ocupa o historiador mexicano Silvio Zavala ("Indigènes et colonisateurs dans l'histoire d'Amé- Afinal.. p. Para a construção de uma teoria geral de como funcionam e mudam as sociedades humanas. em primeiro lugar. etc. o contacto secular do índio com o meio geográfico da América constituiu um patrimônio de experiências. (Ver a Figuran? 4.. que os recém-chegados [europeus] aproveitaram.1964. mas em relativo isolamento. o milho. em menor escala e com atraso cronológico que têm várias explicações: uma defasagem cultural j á presente em tempos paleolíticos na região de origem dos primeiros povoadores e que se transferiu com eles para o novo habitat. singulares. na América e também em outras partes do mundo. A história da conquista. o povoamento de um continente vasto por contingentes provavelmente reduzidos de migrantes que tiveram de gastar longo tempo simplesmente adaptando-se a meios ambientes diversos e garantindo sua sobrevivência e multiplicação antes que se tornasse possível dar novos passos decisivos na evolução social. pela distribuição diferencial da população pré-colombiana. claro) em relação às etapas mais gerais j á conhecidas na Eurásia. Carde A m érica Prè-Colombiana ri que"." 111 maior peso do que a simples curiosidade para que o estudo da historia antiga da América nos interesse.) Vejamos. não em total. foram profundamente influenciadas pela história indígena anterior — por exemplo. Nova Inglaterra. As colónias escravistas baseadas no tráfico africano se desenvolveram em vazios demográficos relativos (a não ser nas Antilhas. no continente americano. in Cahiers de l'Institut des Hautes Etudes de l'Amérique Latine. e o mesmo podemos dizer das zonas de imigração europeia maciça (Argentina. É por isto que a história da América deve incluir de maneira orgânica o vasto capítulo indígena...

) Fonte: Juan Schobinger. a c o l o n i z a ç ã o se apoiou n a manut e n ç ã o — modificada. (As datas são aproximadas. C). na Ásia. evidente. Peru.: A cronologia adotada pelo autor não coincide totalmente com a que usamos neste trabalho. mas n ã o ú n i c o . o censo agrícola de 1950 revelou que ainda existiam 3 7 7 9 comunidades i n d í g e n a s . começos do século XVI. N a Bolívia. e que deram origem as estruturas c o n t e m p o r â n e a s dos p a í s e s d a I n d o .A m é rica — M é x i c o . controlando 26% das terras efetivamente cultivadas do p a í s . com bronze e escrita. Labor. B o l í v i a . mesmo com a catástrofe d e m o g r á f i c a dos s é c u l o s X V I e X V I I ( a t é 1650 aproximadamente).c o l o m b i a n a s e n a explor a ç ã o da força de trabalho do indio dentro e fora das comunidades. . a p r e s e n ç a do passado i n d í g e n a é algo quotidiano.112 Ciro Flamarion S. C). . 3300 a. p. Cardóse América Pré-Colombiana 113 tura estável e produtiva. apenas parcialmente com escrita ligada ao culto e metalurgia). C. depois de um s é c u l o de ataques impiedosos contra as estruturas c o m u n i t á rias. Prehistoria de Suramérica. no Egito e na Mesopotâmia. C. qualquer c o m p r e e n s ã o adequada do presente. Nesses p a í s e s . embora depois tenham sido profundamente transformadas e à s vezes desfiguradas. como é evidente — d a comunidade a l d e ã de raízes p r é . C. 30002500 no noroeste sul-americano). E q u a d o r . em maior ou menor medida. E l Salvador. de nível similar ao formativo médio-tardio (proto-urbano) da América nuclear (800 a. . linha de traços: começo da cerâmica (6000 a. Outrossim. 13.c o l o m b i a n o . Barcelona. e portanto qualquer planejamento do futuro. travadas no s é c u l o X I X . — s ã o i n c o m p r e e n s í v e i s sem referência a u m elemento agrário i n d í g e n a e m e s t i ç o que remete. V milénio no México. a realidades geradas no passado p r é . A linha horizontal inferior representa o momento da conquista. A i n d a e m nosso s é c u l o . p o r mais que posteriormente a mestiç a g e m e outros fatores viessem complicar o quadro colonial. Linha contínua externa: começo da agricultura de cereais ( VIII milénio a. Guatemala. linha pontilhada: Calcolítico tardio da Asia (proto-literârio da Mesopotâmia. n ã o pode passar ao lado de u m a " q u e s t ã o indígena*' que tem algumas de suas raízes mergulhadas bem Anos ESPAÇO ESPAÇO Fig. linha contínua interna: culturas urbanas ou altas culturas (2800 a. em muitos países do continente. Obs. as violentas lutas de classes que denominamos habitualmente "reformas liberais". 1969. 4 —Esquema tempo-espacial do surgimento e expansão dos principais níveis culturais arqueológicos no Velho Mundo e na América. começos de nossa era no México e no Peru —fases clássicas e pós-clássicas —. Na Asia ocidental. trigo e cevada. T r a ta-se de exemplo extremo. milho). e além disto a passagem de um nivel a outro nunca é tão taxativa quanto pareceriam indicaros traços. Colombia.

paternalismo mal informado e até genocídio. Nesses países — e em menor escala t a m b é m em outros do continente. incluindo o nosso — seres humanos que chamamos índios sofrem todos os dias. marginaliz a ç ã o . .114 Ciro Flamarion S. e que afeta a muitos milhões de pessoas. discriminação. que prolongam até nossos dias alguns dos aspectos mais iníquos da época da conquista. diante de uma indiferença quase geral. processos de exploração. expropriação. D . Cardosm antes de 1492 a. .

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