CYRO DOS ANJOS O AMANUENSE BELMIRO
romance
7.a edição Nota biobibliográfica Prefácio de Antônio Cândido

LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITORA
RIO DE JANEIRO—1971

Anjos, Cyro dos, 1906 O Amanuense Belmiro, romance- Prefácio de Antônio Cândido. 7.a ed., Rio de Janeiro, Editora José Olympio, 1971. Publicado em convênio com o Instituto Nacional do Livro —MEC.

OBRAS DO AUTOR : O Amanuense Belmiro—Romance—1.ª edição, Editora "Os Amigos do Livro", Belo Horizonte, 1937; 2.", Livraria José Olympio Editora, Rio, 1938; 3.ª, Saraiva S/A.. São Paulo, 1949; 4.º, "Livros do Brasil", Lisboa, 1955; 5.ª. revista (com a 3.ª de Abdias), Livraria José Olympio Editora, Rio, 1957; 6. a, na Coleção Sagarana, Livraria José Olympio Editora, Rio, 1966. NO ESTRANGEIRO: El Amanuense Belmiro — Tezontle, México, 1954. Carnevale a Belo Horizonte — Fratelli Bocca Editori, Milão, Itália. 1954. Abdias — Romance — Livraria José Olympio Editora, Rio, 1945; 2." edição. Saraiva S/A., São Paulo, 1956; 3.\ revista (com a 5.» de O Amanuense Belmiro), Livraria José Olympio Editora, Rio, 1957. Explorações no Tempo — Crônicas (passou a integrar volume de memórias). — Ministério da Educação, Serviço de Documentação, 1952. A Criação Literária — Ensaio—Edição da Revista Filosófica, Coimbra, Portugal, 1954; 2.' edição, Ministério da Educação. Serviço de Documentação, 1956: 3.", Livraria Progresso Editora. Bahia, 1959. Montanha — Romance — 1." edição, Rio de Janeiro, 1956; 2.ª, 1956, ambas da Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro. O Amanuense Belmiro—Abdias—reunidos em um só volume, 1.ª edição, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro. 1957. Explorações no Tempo—Memórias. Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1963. Poemas Coronários—Edições de Arte, Universidade de Brasília, 1964.

O AMANUENSE BELMIRO .

Minas Gerais. Diário da Manhã (1929). rabiscando um jornalzinho manuscrito intitulado Horas Vagas. ouvidos ao piano numa época em que um Pleyel. Malograda tentativa de advocacia na cidade natal fez com que desistisse da profissão. Aos 8 anos. Alexandre Herculano. entretendo-se com o. Diretor . o clã Versiani dos Anjos. gostava de música e na casa sertaneja não faltavam os acordes de Bach e Beethoven. Cyro dos Anjos já editava um jornal chamado O Civilista. com escritores e temas contemporâneos.Em 1931 Cyro dos Anjos já era oficial de gabinete da Secretaria de Finanças de Minas Gerais. Fialho e Camilo Castelo Branco. amava a leitura e o debate de idéias. tinha de fazer acidentada viagem de mais de 30 dias. Dedicando-se ao jornalismo. Aos 10. deixando ver a influência política da primeira campanha de Rui Barbosa. Cyro dos Anjos transferiu-se em 1924 para Belo Horizonte. 13. revelador ao mesmo tempo do embrião de jornalista que se formava e da disciplina infantil a que se submetia na vida cotidiana e familiar. cargo que marcou o início de uma carreira pública onde sempre ocupou funções de destaque. de quem seu pai era ardoroso partidário. as crônicas que foram o germe de O Amanuense Belmiro. O patriarca da família. ainda mais. já o futuro romancista deixava entrever visíveis inclinações literárias. Em 1933. bacharelando-se em 1932. onde concluiu o curso secundário e o de Direito.latim tradicional entre mineiros e. publicou sob o pseudônimo de Belmiro Borba. voltando à imprensa e ao serviço público em Belo Horizonte.° entre os quatorze filhos do casal Antônio dos Anjos e Carlota Versiani dos Anjos. Reunido em torno da "mesa de pereiro branco". Eça de Queiroz.NOTA DA EDITORA DADOS BIOBIBLIOGRÁFICOS DO AUTOR CYRO VERSIANI DOS ANJOS. Iniciando os estudos médios na Escola Normal de Montes Claros. por sua vez. malgrado o ambiente rural e as longas distâncias que o separavam dos mundos urbanos mais atingidos pelo progresso. em cuja pequena biblioteca descobriu (aos 15 anos) Machado de Assis. como redator de A Tribuna. Diário do Comércio (1929). para alcançar Montes Claros. nasceu em Montes Claros. a fim de prover o próprio sustento. e Diário de Minas (1930). estimulado por um amigo da família dono de tipografia. a 5 de outubro de 1906. Oficial de gabinete do Governo de Minas (1935-1938). Dona Carlota. Cyro dos Anjos trabalhou nos jornais Diário da Tarde (1927). em carro de bois. não estava ausente do gosto pela arte e pela literatura. fazendeiro e professor.

da Imprensa Oficial de Minas (1938-1940). por sinal. em 1963. Conselheiro do Tribunal de Contas de Brasília. Explorações no Tempo. Montanha. que exerce juntamente com os deveres de fiscal dos dinheiros públicos na capital do país. em edição nossa. Joaquim Carlos e Francisco de Assis. Abdias. Em 1969 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. apesar do sucesso conquistado. também romance. Cyro dos Anjos pertence à Academia Mineira de Letras e possui várias condecorações nacionais e uma de Portugal. Professor de Estudos Brasileiros nas Universidades do México e Lisboa (1952-1955). muito bem recebido pela crítica. saiu em 1945 e o terceiro. ambos editados por esta Casa. revelou-se também ensaísta e memorialista. ainda no mesmo gênero. Diretor do IPASE (1946-1951). além de Newton Prates e Guilhermino César. Emílio Moura e João Alphonsus. de cuja vida intelectual participa com intensidade. publicados pela Universidade de Brasília. . Mas o romancista Cyro dos Anjos. Rio. Seu último trabalho. Cyro dos Anjos pertenceu ao grupo de escritores em que se destacavam Carlos Drummond de Andrade. Seu segundo livro. data de 1963 e nele o ensaísta e romancista cede lugar ao poeta bissexto dos Poemas Coronários. sucedendo a Manuel Bandeira. sendo nesta última regente do curso Oficina Literária. cadeira n. Zelita Costa dos Anjos.° 24. a que se acrescentam os títulos de fundador da Faculdade de Filosofia de Minas Gerais e da Universidade de Brasília. em 1956. ambas de 1954 no México e na Itália. Estreando na literatura em 1937. Martim Afonso. Subchefe do Gabinete Civil da Presidência da República (1957-1960) e. inclusive no exterior com as versões espanhola e italiana de O Amanuense Belmiro. são as etapas que definem a carreira de Cyro dos Anjos no serviço público estadual e federal. os dois últimos já falecidos. Márcia Antonieta. com o romance O Amanuense Belmiro. finalmente. Antônio Joaquim. o romancista tem seis filhos: Margarida. publicando em 1954 (Coimbra. Casado em 1932 com D. outubro de 1971. Portugal) um estudo sobre A Criação Literária e. este radicado atualmente em Porto Alegre. volume de memórias.

Lendo o artigo. A impressão de acabamento.ESTRATÉGIA (Prefácio de Antônio Cândido) O Sr. a primeira pessoa em que pensei foi o romancista mineiro Ciro dos Anjos. me parece um dos maiores dentre os poucos estrategistas da literatura brasileira contemporânea. o amanuense estabelece um movimento de báscule entre a realidade e o sonho. direi que devo a ela a minha salvação. sem dúvida alguma. revelam o artista profundamente consciente das técnicas e dos meios do seu ofício. é a única maneira de suportar a volta às suas decepções. opõem-se deste modo aos do primeiro grupo. que vêem na criação o afloramento definitivo de um largo trabalho anterior. o composto pelos dotados de talento e habituados a construir segundo o influxo dele. dos meios técnicos. no primeiro movimento da inspiração. de Amiel. analisando-as. escrever é. Para ele. Guiando-se quase apenas pelo instinto. dos recursos da sua arte — condição primeira para a plena expressão do seu pensamento. escreve o seu diário e conta as suas histórias. mas seguro. e da sua sensibilidade. No seu subsolo circulam reminiscências várias de leitura. Um homem sentimental e tolhido. nem sempre produzido pelas obras dos nossos generosos táticos. Porque esse romance é o livro de um homem culto. de autores cuidadosamente lidos ou harmoniosamente incorporados ao patrimônio mental. se quiserem). baseado em anos de meditação e de progressivo domínio. alargando-se em reflexões muito agudas e muito justas sobre a natureza da criação literária. de Proust. "Quem quiser fale mal da Literatura. Venho da . lentamente cristalizada no decorrer de longos anos de meditação e estudo. para falar como o Sr. Ciro dos Anjos anda pela casa dos quarenta. evadir-se da vida. menos na força impulsiva do talento que no domínio vagaroso. ecos de Bergson. de equilíbrio. Por isso é que ele ressoa de modo tão diferente no nosso meio. pensando-as. fortemente tolhido pelo excesso de vida interior. Paulo. isto é. numa palavra. O Amanuense Belmiro é o livro de um burocrata lírico. Quanto a mim. de segurança. de realização quase perfeita. Almeida Salles publicou certa vez em Planalto um dos rodapés mais inteligentes que têm aparecido na imprensa periódica de S. possuidor de uma visão pessoal das coisas. de fato. pertencem quase na totalidade ao segundo grupo. no qual aplica à nossa literatura a distinção de Valéry entre escritores estrategistas e escritores táticos. Almeida Salles. segundo o Sr. Segundo me contam. Almeida Salles (ou Valéry. Os nossos autores. com um som de coisa definitiva e necessária. que. Há mais de cinco anos publicou o seu único livro—O Amanuense Belmiro—uma obra-prima. Confiam. pois escrevendo-as.

à procura de fugitivas imagens do passado.. É um homem poderoso. jogando-o como uma bola entre o passado e o presente. porque dentro dele estão as doces cenas da adolescência. estava tudo muito bem. uma noite de carnaval lhe traz a imagem de uma donzela gentil. e readquire o equilíbrio pela auto-analise. que impelem o homem para a frente.. crê encerrado o seu ciclo e volta para dentro de si mesmo. nas quais o espírito se há de comprazer. ainda estão ativas nele e realizam um sorrateiro trabalho. Sonha. e o amanuense. solteirão nostálgico. desmanchando a pureza daquele com a intromissão das imagens deste. "[.rua deprimido. como o do narrador do Temps Perdu. escrevo dez linhas. o homem supõe que encontrou a sua expressão definitiva e que sua própria substância já lhe basta para as combustões interiores. lírico não realizado. haveria a possibilidade de um modus vivendi. mas à sua maneira: identificando a moça de carne e osso. numa comovente pesquisa das remotas origens do ser. Chegou quase aos quarenta anos sem nada ter feito de apreciável na vida. esta. se entrega ao presente: mas não o vive. Mas as forças vitais. De repente. isto é. perturbando este com os arquétipos daquele. a seu jeito. sedento e agitado. sorri e diz: 'Ora bolas'. carrega nas costas a enorme trouxa de um passado de que não pode se desprender. que espia para dentro.] depois de uma infância romântica e uma adolescência melancólica. encarnando formas do passado. porém. com a imagem longínqua da namorada da infância. é empurrado para o refúgio que lhe resta—o passado—uma vez que o presente lhe escapa das mãos ("[___] bem noto que vou entrando numa fase da vida em que o espírito abre vôo das suas conquistas e o homem procura a infância. Acontece. recita com o poeta: .") Ora. Em verdade vos digo: quem escreve neste caderno não é o homem fraco que há pouco entrou no escritório. literato in erba..." O amanuense é infeliz. e. oferecem-lhe o presente sob aspectos enganosos.." Belmiro. Se fosse possível viver integralmente no mundo recriado pela memória. permanece como fatalidade. na sua casinha modesta e o seu ramerrão cotidiano. ela própria quase um mito—um mito como o da donzela Arabela. torno-me olímpico. então. não lhe permite uma existência atual. fazendo-o voltar para a vida. concluindo que "a verdade está na Rua Erê". Sabe que não lhe adianta pensar em como as coisas seriam se não fossem o que são. que mal enxerga de quando em vez. O amanuense ama. que falhou como solução vital. A sua desadaptação ao meio levou-o à solução intelectual. se fosse só isso. O drama é que o presente se insinua no passado. Não é difícil perceber o mal de Belmiro. Para iludir-lhe o espírito vaidoso. que a sensibilidade de Belmiro. quase normal. a fim de encontrar um pouco de calor e de vida. Submeto se.

é o diálogo entre o lírico. Seria uma rima.] já lhes contei o que se passa dentro de mim quando começo a meditar: perco-me num labirinto de antinomias. que cresce num impulso vegetal. e o analista. na própria construção do estilo.. porque a sua evasão consiste justamente em introjetar o mundo e banhá-lo todo nas próprias águas. Há uma circunstância. O que não se falou. Falou-se muito em Machado de Assis a propósito de Ciro dos Anjos. insistindo-se sobre o que há de semelhante no estilo e no humorismo de ambos. ao contrário. porém. da vida. Belmiro é o homem que chegou ao estado de paralisia por excesso de análise "[. Everything was tainted with myself".."Mundo mundo. múltiplos. Mundo mundo.. como Lawrence: "I was so weary of the world." "Mais vasto é o meu coração". I was so sick of it. de homem que não lamenta. que o salva. não seria uma solução. além dessa. que o liberta das redes do analista: o senso lírico da vida. Belmiro é o contrário do homem forte de que fala Balzac. enorme. que quer se abandonar. no sentido próprio." Isto significa que é um candidato ao cepticismo integral e à imobilidade através do relativismo.. que restabelece o equilíbrio vital. A um Belmiro patético que se expandiu. no seu livro. um maravilhoso sentido poético das coisas e dos homens. ou. encontramo-la de capítulo a capítulo. que o chama à ordem. vasto mundo Mais vasto é o meu coração. 0 que é admirável. sem a peia do passado. envolvendo uns e outros em piedosa ternura. dotado de humour. na atmosfera caraibana—contemplando a destruição das suas . foi da diferença radical que existe entre eles: enquanto Machado de Assis tinha uma visão que se poderia chamar dramática. Ciro dos Anjos possui. Conclusão típica de introvertido. vasto mundo Se eu me chamasse Raimundo. de cena a cena. e o lírico chamando-o à vida. o homem que não se lembra. e dando-lhe um cunho muito especial. Sempre a tomar consciência plena das suas variações e dos seus aspecto:. o amanuense a torna explícita: "Tais desnivelamentos é que compõem minha vida e lhe sustentam o equilíbrio.. Esta alternância. E a certa altura. porém. que ele emprega também como um processo literário. o analista querendo dar aos fatos e aos sentimentos um valor quase de pura constatação.

por que escrever sobre um passado que realmente não existe e um presente que cede ante a ponta aguda da análise? Belmiro escreve porque precisa abrir uma janela na consciência a fim de se equilibrar na vida. indiscretamente lida por Belmiro: "Problema:—O eterno. Encarando assim o livro. mas ficamos satisfeitos. o Belmiro egresso de Caraíbas se apalpa. que até aqui tem movido uma conspiração geral para belmirizá-lo. e empresta ao seu romance uma qualidade de vida que é superior à de Machado de Assis. que dá uma dignidade humana tão grande à poesia de Manuel Bandeira e de Carlos Drummond de Andrade. Para conhecer este psicólogo lírico é preciso ler todo o admirável § 33 d'O Amanuense Belmiro. explorando metodicamente os seus complexos e cacoetes. se reajusta e assobia a fantasia do hino nacional de Gottschalk. As coisas não estão no espaço. o Fáustico. e considera tristemente: "Não voltarei a Vila Caraíbas. A atitude belmiriana resulta de uma aplicação do conhecimento aos atos da vida— entendendo-se neste caso por conhecimento a atitude mental que subordina a aceitação direta da vida a um processo prévio de reflexão. Ciro dos Anjos nos leva a pensar no destino do intelectual na sociedade. com efeito. o problema central da obra.paisagens—sempre sucede um Belmiro sofisticado. E assim. nelas. na autocontemplação. sociedade organizada. ilusórias permanências de forma. que escondem uma desagregação constante. os poderosos deste mundo só o deixam em paz . pela primeira vez. sofre ao perceber que "ali is tainted with myself". que compensa o primeiro e o retifica. através do seu poder de análise. pode-se dizer que o amanuense é uma ilustração do gravíssimo problema dos efeitos da inteligência. leitor. mas é uma criação da sua saudade e da sua imaginação deformadora.—O amor (vida) estrangulado pelo conhecimento. as coisas estão é no tempo. para confiná-lo nas esferas em que o seu pensamento. não apresenta virulência alguma que possa pôr diretamente em xeque a ela. O amanuense. o seu núcleo significativo vai ser encontrado numa página do diário de Silviano. Não se resolve nada. Criando-lhe condições de vida mais ou menos abafantes." Numa ordem mais geral de idéias. sobre o curso normal das relações humanas." Se assim é. Há. é o fundamento da arte de Ciro dos Anjos. nas Vilas Caraíbas do passado." Esta disposição excepcional." É este. ajustando-o aos quadros cotidianos. O homem é um animal definidor. para definir certos estados de espírito. quando ele descobre que o passado que evoca não existe em si. absorto nas donzelas Arabelas. Chegado à sua toca da Rua Erê. o que não importa em ilusão quanto ao verdadeiro significado deste trabalho: "Grande coisa é encontrarmos um nome imponente. ainda que infinitesimal.

Na página 27. uma vez que aceitou como valor eterno uma filosofia que lhe aconselha a blague. e perfeitamente desfibrado pela prática cotidiana da introspecção (costume muito estimável. cuja releitura faço pela quinta ou sexta vez.quando ele se expande nos campos geralmente inofensivos da literatura personalista. N. sòlidamente mantido em paz pela magreza do seu ordenado de amanuense.. como diria o Eça. o que é um deleitoso consolo.] tocava apenas por amor à arte. que ali iam buscar expressão para sentimentos indefiníveis que os povoavam s só se traduziriam por frases musicais. ou quando entra reverente no seu séquito. editado pela Livraria Martins Editora. como são em geral os livros dos escritores de Minas. extraindo dos seus motivos individuais melodias ajustadas às necessidades da alma dos circunstantes.. Belmiro fala de um tocador de sanfona da sua Vila Caraíbas. da autoperfeição pela ascese intelectual. Ou aquele Silviano cheio de seiva. que "[. quando vê aquele Belmiro tão inteligente e tão sensível. vibrantes. perfeito. E assim é esse livro. São Paulo. [1945]. sentia suas mágoas igualmente choradas. . s/d. para a ficção mais ou menos frouxa com que o crítico tem não raro de se defrontar. cômoda para os negócios públicos. E chorava-as tão bem que cada um que o cercava. da E.. ou talvez para chorar as mágoas. até se identificarem com a nossa própria experiência. O artista se revelava. Esse traço da generosidade inconsciente dos grandes artistas se encontrava no sanfonista da Ladeira da Conceição". Coisas em que a gente se põe a matutar. num admirável movimento de afinação. segundo os cânones).* * O estudo que se acaba de ler do grande crítico paulista foi reproduzido de seu livro Brigada Ligeira. Mas não é esta a impressão final que fica do livro de Ciro dos Anjos. cheios de força. Não são livros que se imponham de fora para dentro. Insinuam-se lentamente na sensibilidade. Livros que lidam com os problemas do homem num tom de tal modo penetrante que autor e leitor se identificam. por esta forma. que é reduzido a não deixar transbordar senão a sua retórica.

..." ..... "Pour éerire 1'histoire d'un autre. Et mes proches s'y tromperaient autant et plus que les autres.............. est indubitablement moi...... Qu'on ne cherehe pás à savoir ee qui. On s'y tromperait....) .... je collabore avec ma propre vie. dans cette fiction........" (GEORGES DUHAMEL—Remarques sur les Mémoires Imaginaires—Paris—Mercure de France—Sixième édition."Les Souvenirs que j'ai de ma vie réelle ne sont ni pius coloria ni plus vibrants que eeux de mes viés imaginaires..........

. da linha tronco. desde Porfírio até Belarmino.A o s B o r b a s.

Éramos quatro ou cinco. ainda que fosse uma supressão. o melhor é renunciar. a esta. Glicério é novo na roda. então. argumentando que esse talvez trouxesse uma solução geral. No caramanchão.§ 1. objetei-lhe que. Silviano olhou-o da cabeça aos pés. Só pelo gosto de vê-lo dissertar. Imprudentemente apanhou a minha deixa e entrou em cena com entusiasmo. E. de vez. sorrindo dengosamente para os soldados do Regimento de Cavalaria. em nosso cotidiano. mas. o jovem Glicério ousou enfrentá-lo. no bar do Parque. com requebros. Sem perceber que eu apenas puxava a língua ao Silviano e supondo contar com o meu apoio. Redelvim convidou-me. voltando-me para este. voltando-se para mim: —Você não sabe o que está dizendo. disse majestosamente. meio vago. não haveria solução. sacrificando. O proletariado negro se expandia. e nosso amigo não lhe permite tais intimidades. outras dançavam maxixe com pretos reforçados. Florêncio pôs a mão sobre o ombro dele e disse maliciosamente: —Estamos ruinzinhos hoje. expedindo. hein? A pequena deu o fora? . —Não discuto com menores. É a solução. Já que não se possui a vida com plenitude. em torno de pequena mesa de ferro. fugir da vida. —A conduta católica! Isto é. como que atendendo a uma ordem interior de reflexões. com um olhar malicioso. o nono. por que não havíamos de realizá-la para encontrar tranqüilidade? A grande estupidez é vivermos num conflito constante. comemorando o Natal. Satisfeito.—Jerônimo anda mergulhado na teologia. aquela. no que ela tem de excitante. Alegre véspera de Natal! As mulatas iam e vinham. nesse caso. Sublimou-se nos doutores. afirmou o amigo Silviano. garçons urgentes. continuou. de melenas. Florêncio propôs. Introduz. para aqui e para ali. a prestar atenção ao filósofo. que não era bem a de nossa conversação. o alemão do bar se multiplicava em chopes. chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis. —Hein? indaguei. como que a falar para si mesmo. a preocupação da vida eterna. —A solução é a conduta católica. fazia a vitrola funcionar. dizendo que o católico destrói a vida pelo modo mais violento. MERRY CHRISTMAS! ALI pelo oitavo chope. enquanto um cabra gordo. O que haveria é supressão da vida.

quero dizer que o problema é puramente interior. Silviano. apresentar uma face nova e desconhecida. raça teimosa e viril. Redelvim e Glicério também desataram a rir. no que fui aplaudido calorosamente por Florêncio. alimária! respondeu. levou as mãos ao ventre. vive a ridicularizá-lo. Não sabia que você andou por Paris. e. Sempre que se encontra com Silviano. denunciando pressa de chegar a casa. se arranham a fé conjugai. Redelvim devia estar de bom humor. a caminho de casa. de suas sortidas. carregados de embrulhos. fui ruminando a tese do Silviano. alvitrei uma retirada em conjunto. Todos os passageiros do bonde Calafate me sorriam. entende? Não está fora de nós. fácil. Jandira. O pior é que a mulher. —Cidade besta.. num riso convulsivo. A princípio. fincou pé e deliberou não tomar conhecimento desses descaminhos que.—Recolha-se.. A euforia que o chope traz! A vida se torna fácil. A gente não tem para onde ir. desejando-me um largo "saúde e fraternidade". e minha atenção logo se desviou para outras coisas. sem nada dizer. e para que .. mas desde o primeiro encontro se repeliram. o nosso Dom Juan traz mais baldões do que troféus. no portão do Parque. quis retirar-se. —Em Paris? perguntou Florêncio. Não me dirijo a primários. Depois. onde adivinhei variada matéria-prima para as comemorações domésticas do Natal! A humanidade se transfigura de súbito. andou tendo ciúmes e fazia cenas. Para serenar a roda. as mulatas e os soldados tinham saído. neste dia extraordinário. Em Paris é a mesma coisa. Florêncio deu uma gargalhada e assentou-se de novo. Às voltas com os filhos. no espaço! Florêncio. e as sombras de um crepúsculo avermelhado desciam sobre as árvores. —Não acho! retrucou Silviano. pois apenas sorria. tentando fazê-los amigos. assim. Que elemento se introduzirá na essência das coisas para que tudo venha. mais arranham ainda as veleidades do quarentão. Mas o chope me faz versátil. Separamo-nos.. indignado. Belo Horizonte! exclamou Redelvim. Silviano anda em crise aguda. retrocedeu aos vinte: está amando as moças em flor. consultando o relógio. já meio alegre. Joana diz não ter tempo para se ocupar dele. rápidos. Pois Jandira acrescentou que. Aqui escreverei que a razão estava com este último. É uma sólida filha de fazendeiro. contou-me que o filósofo. que de tudo sabe. Já era hora de jantar e o Parque ia ficando vazio. em vez de irritar-se. Como se mostravam ansiosos. já à beira dos quarenta. propus novo chope. Disfarçando o mau epílogo da festa. trava discussões acaloradas. Sem que percebêssemos. É boa! —Ó parvo. irritado. Aproximei-os um dia. Certamente sorriam.

juntas. Juliana Gouveia. Um Merry Christmas. É um hábito das rendeiras. Em moço. Deveria ser o Prudêncio Gouveia. fez-me lembrar de que o próximo poste de parada era o da Rua Erê. aludindo a "outras línguas". Bom sujeito o Prudêncio. estudou inglês. e o que é—no fundo—não o é para nós. onde costumam passar. Emília não levantou os olhos da almofada. começasse a tagarelar. talvez não desejasse que Francisquinha. reduzir o efeito dessa concessão. O "EXCOMUNGADO". na solidão da casa. as horas em que a máquina doméstica tem seu funcionamento restrito a uma ou duas peças. pelo melhor modo. — O Excomungado já vem! resmungou Emília. A necessidade de falar a alguém. pois estava com a fisionomia carregada. mas Juliana lhe encarece as habilidades. A mulher. como diz Silviano. fica vaidosa. Francisquinha não faz coisa que aproveite e apenas embaraça os fios. É chefe de Seção e pessoa muito conceituada. que me foi dito com uma palmadinha nas costas. por alguém que ia descer do bonde. Fala dirigindo-se a si mesma. anunciando minha chegada. fechou-se atrás de mim com estrépito. como quem está pensando em voz alta. seu Belmiro? Vem um dia.todos os seres ganhem uma expressão especial. como cantam! Será o poder de criar e de transfigurar. Estava com Francisquinha no quarto grande. por essa forma. e. animada com esse princípio de conversa. as duas se entregam ao bilro segundo a tradição da casa. Mas. obriga-a a conversar com a outra. lá dentro. e voltei-me para saudar o homem. toma ar aborrecido e chama-lhe antipático. que possui a alma humana. Prudêncio amigo! Merry Christmas! § 2. pois acha o marido erudito: "Sempre é uma vantagem. não acha. e seu único vício é cumprimentar-nos diariamente com um how do you do. de agitada felicidade? As árvores se fazem mais verdes. pouco importa. suprime a presença minha ou da . vizinho de quarteirão. entrei pé ante pé. ou haverá uma efetiva transformação no tecido íntimo das coisas? Afinal. Terminado o jantar e arrumada a cozinha. no caso. Como de costume. impelida pelo vento. o fato deveria ter significação particular. Notei que. Dei o sinal. e os pardais." Na verdade. PARA surpreender as velhas. quase graciosa. mas a porta. ele tirará o seu proveito de saber outras línguas. mas. mas procura. só fala inglês. A realidade é a aparência. —Merry Christmas. mas Emília dá-lhe essa ocupação para a ter quieta. até à hora de se deitar. nem interrompeu o complicado trabalho.

A Rua Erê não é atrativa. pousando em mim os olhinhos brilhantes e fixos. mas Francisquinha. assume um sentido trágico. meninas! Trouxe aqui umas lembrancinhas de Papai Noel para vocês. como bicho-do-mato. é só o que me falta. trocar o jaquetão pelo pijama. olha o doido. na verdade. as velhas estão bravas hoje". quando exclama "Excomungado! Excomungado!" Mas o epíteto. fiquei a olhar os transeuntes. então. Ou de Vovô Índio. e Francisquinha andava pelos trinta. Francisquinha deu uma risadinha feroz. irritada. "Decididamente. na velha cadeira austríaca. vai de mal a pior. os cabelos grisalhos. lhe desperta. ficar na companhia do tio Firmino. Ainda assim. Aprendeu a dizer. Tanto tempo andei afastado delas. nesta casa. Tome pregou-me o susto de costume. Encontrou na língua familiar de Vila Caraíbas a expressão própria para traduzir a inquietação que minha presença. Emília é apenas uma esquisita. viram que seria impossível dar-lhes educação condigna. Foi este o grande desgosto que ensombrou os dias do velho Borba e da velha Maia. Quando o Borba morreu (a velha Maia partiu bem antes) e a fazenda foi à praça. Emília não tinha. bem que percebe em mim certa dissolução de espírito. mandando-as ao Colégio de Diamantina. Pobres manas. Não resisti ao desejo de provocá-las: —Boa noite. Desde cedo. Não lhes foi fácil habituarem-se à minha pessoa e modo de vida. No corredor. no comboio da Central! Vieram iludidas. faz-me estremecer. —Olha o doido. o de Emília: na sua meia-luz. Curioso pressentimento. neste particular. que restabelece a atmosfera moral da fazenda. que lhes pareci um estranho. com sua reduzida . tão distantes de mim. e Emília é.mana. uma presença vigorosa e viril. § 3. encheram minha vida. no bico do papagaio. conforme preferem os nacionalistas. como as velhas: "Excomungado! Excomungado!" e arrepia-se todo ao ver-me. pensando que iam para São Paulo. DO ALPENDRE da casa. pensei. Tiveram de viver sempre na fazenda. E. entre o pessoal de serviço. recebi-as como herança. Rio-me sempre. Ainda me arranjará uma psitacose. perturbada de nascença. ensaiando uma agressão. O BORBA ERRADO. Que custo trazê-las em viagem a cavalo e. disse Emília. Pus os pacotes na mesa e fui ao quarto. depois. às vezes.

Coitado do velho. pelo menos. grande. Como a minha mãe tivesse o secreto desejo de me ver na carreira das letras (dizia que eu saíra aos Maias e não aos Borbas). dos de minha raça? O pai tinha razão. Uma dessas . Vila Caraíbas não tinha. Ficará nas letras agrícolas". Lá estava a fazenda. repetia. declarou que o que não tem remédio. Vila Caraíbas e seu cortejo de doces fantasmas. que. Quando. Ou. Era contra os princípios paternos o bacharelato em qualquer ramo de ciências ou letras. em vez disso. que sou um Borba errado. metido em serenatas e noutras relaxações. não se distanciasse dela —poderia tirar uma carta de agrônomo. Meu consolo é que sou um grande amanuense. por um lado com a associação verbal que descobrira. Até chegar ao Silviano e ao Redelvim. A garganta se me apertava. Coitado do velho. dizia ele. avós. "Temos ." Mas dei em droga na fazenda e andei zanzando pela Vila. por lá. na Vila. houve cena pesada. Precisamos é de braços para a lavoura. a febre das divisões de terras. e eu sentia os olhos se umedecerem comovidos. do ponto de vista genealógico: como Borba. Um burocrata! exclamava com desprezo. agrimensor. com o parcial deferimento às aspirações da velha. percorri muitos caminhos. Queria fazer-me agrônomo. afinal. a vitalidade. fiz sonetos. diria. Na fazenda. e a Ladeira da Conceição surgia. e andava. Tive amores infelizes.). Como o Natal me fez saudosista! Eu fechava os olhos.doutores demais. acabou pensando num acordo. o poder de expansão. E a mesada paterna se consumia em livros que as necessidades sentimentais e espirituais do mancebo ardentemente reclamavam. ainda. poderosa como um estabelecimento público. por outro.fauna humana. as letras agrícolas e entreguei-me a outra sorte de letras. que teve seu brilho rural. Eu não podia ouvir uma sanfona. "Se o menino não se ajeitava na fazenda. remediado está. Abandonei. Que diria o Glicério. com a nitidez de um acontecimento matinal. Pus-me a andar na companhia de literatos e a sofrer imaginárias inquietações. então. num fim de ano. nada rendosas. Por fim. o pai veio a Belo Horizonte e verificou o logro. Talvez seja isso o que sempre me leva a passear o pensamento por outras ruas e por outros tempos. estão-me dizendo—ilustres sombras!) foi um crime gastar as vitaminas do tronco em serenatas e pagodes. Neguei as virtudes da estirpe. com suas lavouras à espera de cuidados moços. Belmiro!" Se Glicério tivesse conhecido os Borbas. porém. com sua suficiência? Rirse-ia de mim: "Você é um homem errado. o seu agrimensor formado. pelo menos. Sou um fruto chôcho do ramo vigoroso dos Borbas. no curso. Em face do código da família (cinco avós. Coitado do velho. Onde estão em mim a força.. Tocavam a Varsoviana e eu me dissolvia (lá na Vila lhe chamavam Valsa Viana. diante de mim. satisfeito. Sinto muito. e.. fali.

Confessa. De corpo e espírito. preparado para o repouso e já me aconchegava. pois. a rigor. no estado de vigília. A vida parou ou foi o automóvel? § 4. Com a saída dos vizinhos para a missa do galo. nos dizemos coisas duras. estavas mais próximo dos clássicos (lembro-me de tua predileção. Um dia sentiremos uma sacudidela. foi nele que começou o desvio da linhagem rural. apenas impressões vagas. reduzia-se esta lembrança permanente com que. Em que fora dar sua longa doutrinação. quando. para. me vinham das coisas.. sob a epígrafe geral de Rumo à Gleba? Mas. a cada instante. e outra que contra ele reage. ao cabo de contas. Voltou com uma grande dor no coração. para o Horácio. que aspira ao abandono. nos abraçarmos. recolhi-me. rumo à Vila.. nas colunas da Gazeta Caraibense. para gravame de sua insuficiência mitral. as posições do embrião no ventre materno. num desfecho melodramático. esclarecendo que a exclamação foi do Hamlet. depois. prestes a se apagarem. em propaganda da vida rural? Seus cinqüenta artigos. um tanto tendenciosa. Words.. em série. Não citavas o teu Vergílio. o cão dos fundos . para frente. a memória sustenta. Borba. vai correndo. e mais tarde um deputado me introduziu na burocracia. "Um burocrata. Como esta vida vai correndo. para trás. para trocar dois dedos de prosa com o provisionado Loiola. arrancando-me daquele quebranto.. noutros tempos... talvez pelo receio inconsciente que inspira o adormecer. nossa precária unidade psíquica. JÁ ESTAVA palmilhando a terra vaga do sono. Words. não funcionavas na fazenda... na tua besta.. segundo a luta surda que se trava em nós. quase a esvaecer. Borbas. Por qualquer pretexto. tal como no poema: Stop.. Outras missas.. imagem da morte. e o espírito se embebia no torpor que afrouxara os nervos. ligando o momento que passou ao momento presente. achava-me. Natal! Fiquei até tarde no alpendre. repetindo. ganhava-me o corpo uma doce lassidão.. instintivamente.) do que dos currais e das roças. entre uma parte do eu. Bem me recordo de que. data de ti a traição à gleba. pai Belarmino? Na verdade.discussões em que nós. lá ias. QUESTÃO DE OBSTETRÍCIA. como diria Prudêncio. e a uma reminiscência tênue. um burocrata!" lamentava nas suas cartas.

isso está no sangue. Como o avô Porfírio. que só os cachorros percebem. indignado com a procela que lhe destruiu a frota. meus nervos se apaziguaram. Tratando-se de mero latido de advertência." . zelosos que são do seu ofício. batera as asas para anunciar o prelúdio do alvorecer e.. ou porque ainda houvesse. em sua extensão. no ar. de novo no leito. mandou zurzir o mar. limitara-se ao bater de asas. Mas não repeti o gesto. Mas. isso apenas serviu de estímulo ao ladrante: ganhou alento e entusiasmo. Previ a catástrofe.se pôs a ladrar. No dia em que uma chuva inesperada viera estragar o café posto a secar no terreiro. com um método que indicava disposição sólida de latir pela madrugada toda. Afinal. Saltei da cama. já certo de que algo havia para justificar suas precauções. e que era um sapato velho. por equívoco. sem ódio nem convicção. Esses repentes. sacou da garrucha e desfechou dois tiros para o ar. contendo o anúncio na garganta. nem latia mais alto ou mais baixo: o tom era terrivelmente um só e as pausas pareciam medidas em cronômetro. Fiquei satisfeito com o precedente ilustre que a memória me veio trazer e lembrei-me de umas palavras do excelente Montaigne: "A alma descarrega suas paixões sobre objetos falsos. Em seguida. esse ódio súbito. atirei-o às tontas ao meio da rua. Abrindo a janela. daí a pouco. quando. que se contenta com arremessar qualquer objeto a esmo. que era tal qual. ele ficou possesso de raiva. Subitamente. que passa como um relâmpago depois de a gente ter feito uma quixotada. e repreendi-me por já não ter ministrado uma "bola" ao canino demônio. Tudo se me escureceu em torno e pareceu-me que as sombras se agitavam. ou porque o guarda do quintal contíguo não identificasse o rumor produzido pela ave. numa conspiração universal contra mim. insopitável. cego de raiva. um desses barulhos sutis. em quintal vizinho. sorri para dentro de mim mesmo. num relance. Podia ser que chegasse logo à conclusão de que não havia motivo para maiores alarmas: fora o galo do outro quintal que. já munido da primeira arma que a mão encontrou. tomou-me indizível fúria. o cão não se apressava.. Pequena pausa sobrevinda me deu a esperança de que o mastim houvesse mudado de intenção. porventura verificando adiantamento no relógio. quando lhe faltam os verdadeiros. Ora. com ternura. é alguma coisa que me ficou dos Borbas. logo recomeçou ele a ladrar advertindo às possíveis sombras de que não se dormia naquele honrado canil. Satisfeita a fúria dos Borbas. embora o conhecimento da geografia do quarteirão me habilitasse para localizar o animal no lado oposto. e. procedi à maneira de Xerxes. caiu numa grande prostração e permaneceu casmurro o dia todo. Lembrei-me do avô (o último Porfírio).

Jandira acredita que não foi reservado a mim deixar à posteridade qualquer importante mensagem. não de nove meses. seu Belmiro?" Respondi-lhe que perguntasse a uma gestante por que razão iria dar à luz um mortal. e outro na décima linha da segunda página. Comecei contando o Natal que acabou e falando nos amigos e na parentela. um Belmiro (que costuma assobiar operetas) insinua que as epopéias de um amanuense encontram seu lugar justo é dentro da cesta. e esta noite insone de Natal (as sinistras noites de insônia. no decurso dos dez últimos anos. vago leitor. Se estivesse de bom humor. mas o homem não é dono do seu ventre. O melhor seria vivermos sem livros. responsáveis por tanta literatura reles!) traz-me um desejo irreprimível de reencetar a tarefa cem vezes iniciada e outras tantas abandonada. fazendo-me conceber qualquer coisa que já me está mexendo no ventre e reclama autonomia no espaço. "Já não há tantos? Por que você quer escrever um livro. devemos sempre ter à mão um sapato velho para o serviço da alma. Não sei bem o que me sairá das entranhas. em que vai toda a história de mais um Natal que passa. enquanto as carrocinhas de pão começam a percorrer o Prado e meus amigos operários devem estar procurando o caminho da fábrica de calçados. sinto-me grávido. e a vida fecundou-me a seu modo. porém."Parece que. cumpre fornecer-lhe sempre objeto em que possa aplicar-se e atuar. e desde muito me volto para o passado. Posta de parte a modéstia." Com efeito.' E isso é razão suficiente. Sobre a cova brotou uma bananeira. Graças a ele. Reconciliei-me com o cão e com o livro. Deve ter razão: se cá dentro deste peito celibatário tem havido coisas épicas. sou um amanuense complicado. do outro lado do quartel do Décimo. em Vila Caraíbas. cuidar do presente: gostaria apenas de reviver o pequeno mundo caraibano. . a quem. mas de trinta e oito anos. meio cínico. Ai de nós. ela responderia que era por estar grávida. Enterrei-os no fundo do quintal. como se enterravam os anjinhos sem batismo. Meu desejo não é. On revient toujours: hoje recomeça a mesma aventura. Este mesmo Belmiro sofisticado foi quem matou dois outros livros. "Por que um livro?" foi a pergunta que me fez Jandira. comuniquei esse propósito. meio lírico. ao cabo. há tempos. Um. que hoje avulta a meus olhos. Sim. gestantes. É plano antigo o de organizar apontamentos para umas memórias que não sei se publicarei algum dia. perseguindo imagens fugitivas de um tempo que se foi. se perde em si mesma se não lhe damos presa. no mesmo quarto envelhecido desta patética Rua Erê. aqui estou calmo a escrever estas linhas. no terceiro capítulo. Minha vida parou. Amanhece o dia. havendo tantos. abalada e comovida.

num bando alegre. que minha vida. lograva articular uma linguagem que nos servia a todos e que. levam-me às vezes a tão subitâneas mudanças de plano. as secretas forças da vida trazem-me de novo à tona e encontram meios de entreter-me com as insignificâncias do cotidiano. Se. que se confunde no tempo e no espaço. mergulho no passado e nele procuro uma compensação. mas bem percebi que os passos me levavam. se processa em arrancos e fugas. que estes se diluam e o espírito se desvie para outras paisagens. mera ficção. Esse traço da generosidade inconsciente dos grandes artistas se encontrava no sanfonista da Ladeira da Conceição. ANO-BOM. assim. DEPOIS de ter andado inquieto como uma galinha sem ninho (já viram como uma galinha desalojada cacareja aflita. depois da missa das nove. dos seus motivos individuais. Satisfazendo à necessidade de dar forma aos pensamentos imprecisos de suas saudades e de seus amores. Pelo oposto. quando o atual me reclama a energia ou o pensamento. Fiquei rente do cego da sanfona. por igual. Era precisamente por ali que estacionava outro sanfonista que não esmolava nem era cego. transportavanos. tão casta. nelas buscando abrigo. extraindo. e perdi Jandira. Desci a Rua dos Guajajaras com a alma e os olhos na Ladeira da Conceição. O que hoje me sucedeu é bem um sinal dessa luta interior. intermináveis e sucessivos. que ali iam buscar expressão para sentimentos indefiníveis que os povoavam e só se traduziriam por frases musicais. mas para tempos mortos. Tais solicitações contrárias. tornando-se ficção. à atmosfera de alvoroçado bem-estar em que a gente mergulha . a cada instante. Foi só ouvir uma sanfona. não sei se ouvindo as suas valsas ou se ouvindo outras valsas que elas foram acordar na minha escassa memória musical. não para o cotidiano. e tocava apenas por amor à arte. § 5. em luta constante. e continuei a pé o caminho. perdi o bonde.Procurando-o procurarei a mim próprio. perdi o rumo. por onde. Depois. é comum. passava Camila. O artista se revelava por esta forma perfeito. E chorava-as tão bem que cada um que o cercava sentia as suas mágoas igualmente choradas. ou talvez para chorar mágoas. sem encontrar lugar no espaço?). atento e presente. melodias ajustadas às necessidades da alma dos circunstantes. nos falava de nossas saudades e de nossos amores. tão leve. o cego mudou de esquina. pus-me a pensar no permanente conflito que há em mim no domínio do tempo. Eu ia. na igreja do Rosário. na realidade. em busca de um bonde e de Jandira.

mas. o homem sem abismos. Proporcionando ao espírito válvulas por onde se evadem as emoções que o comprimem. Eis aí o segredo de Florêncio: por isso é que vive naquela bem-aventurança que todos lhe invejamos. que levam àquela serra muito azul e esquiva. em capítulos de cozinha. A sombra de Camila me subtraiu à realidade de Jandira e reconduziu-me às estradas perdidas de Vila Caraíbas. no papel. também. mas a ceia sempre apetecível. CARNAVAL. Creio que anda de namoro com a filha do meu chefe de Seção. se envolva com elas. Mariana desconfia das literatas (assim denomina todas as mulheres de idéias mais avançadas) e fecha a questão: "Pois sim. alguns fragmentos de minha vida. mas também o excita. Mariana põe nela todo o seu estilo culinário. em todo caso. E desviou-me no tempo. e o estilo é a mulher. se este não me viesse buscar quase à meia-noite. Mariana olha-a com reservas. e a arte. a Nonoca. da casa do amigo." § 6. A questão. à conclusão de que a vida é breve. não é o ano velho ou novo. não o fez com a mesma eficiência.quando encontra a definição de um sentimento e sua forma de expressão. que é solteiro. literária ou plástica — não só o alivia.. e noto agora que apenas o faço em datas especiais. e isso já foi muito fazer. O sanfonista da Vila traduzia para mim as coisas complicadas de minha alma.. bem se vê. E Jandira esteve ausente. Com esse jeitinho mesmo é que elas vão entrando. seu Florêncio? Já lhe disse que não quero saber dessas intimidades.. O senhor. o que me pareceu de bom tato. que é uma ceia em casa do Florêncio. que encontrei na esquina. Glicério mandou desculpas: ia a um baile universitário. longa. Viva Florência. e cuida de tratar o irmão corpo com o bom vinho e a boa vianda. Encontro uma explicação plausível: . Está certo. Redelvim e Silviano compareceram. Porventura chegou. O cego. me lembrou o outro da ladeira de minha vila. O Ano-Bom chegaria sem que eu o celebrasse com o rito do costume.. porque assim despertou dentro de mim esquecidas harmonias. Tem sido inútil meu trabalho em favor da moça. QUE tenho eu com os dias que a folhinha assinala? Há. a expressão—seja musical. com aquele instinto infalível e feroz da boa matrona que quer conservar o seu homem para si. Mas. dois meses comecei a registrar.

mais do que nunca senti de modo tão vivo a impossibilidade de me fundir na massa. tocamos seres cuja existência nos surpreende quase dolorosamente. não desperta novas reações. trata-se de uma sorte de melancolia a que meu espírito se adaptou e que. e. comunicando-se de indivíduo para indivíduo e resultando. de receber e transmitir essas forças misteriosas que nela atuam. tão certos estávamos de que nada havia no espaço além do nosso sistema. No seu bojo. Habituei-me às coisas e seres que incidem no meu trajeto usual da Secretaria para o café e do café para a Rua Erê. entretido com eles. mas ensaio um gesto. paralítico. e o amanuense põe a alma no papel. Tais seres e coisas pertencem. há um mundo diverso do meu e com o qual tentarei. vibrações estranhas. Eis que o amanuense é um esteta: ao passo que há nele um indivíduo . que há coisas extraordinárias.. o homem sofre. na sua. Neste carnaval de 1935. numa noite de carnaval em que fomos abandonados pelos amigos e em que nossa porção de espaço foi invadida por outros seres. em vão. afinal. Sinto inutilmente. de seguir. e a agitação que me percorre não encontra meios de evadir-se. introduzindo o elemento multidão na minha esfera e propondo-me novos espetáculos ou novas sugestões. chorar. Reflui. e o braço cai. Em mim. por assim dizer. E se tal vida é melancólica. ao meu sistema planetário. hoje começado. Dir-se-ia que há em mim um processo de resfriamento periférico. comunicar-me. Os dias de festa coletiva. por onde se manifestam as puras e ingênuas emoções do ser. No seu âmbito poucas são as imagens do presente. e muitas as do passado. cantar. às fontes de onde se irradia e converte-se numa angústia comparável à que nos provém de uma ação frustrada.feição mais ou menos constante. vou traçando quase que despercebidamente minha curva no tempo. então. como célula passiva. uma vaga nervosa que quer acudir ao apelo que a multidão dirige a cada unidade. leva-nos a um mergulho mais profundo nos nossos abismos. de onda ou ciclone. seu movimento de translação. portanto. Quero rir. Habituei-me a uma paisagem confinada e a um horizonte quase doméstico. realmente. algo destrói sempre os caminhos. esmagadora. em mim. e no seu currículo ordinário nem faz. Os outros têm pernas e braços para transmitir seus movimentos interiores.minha vida tem sido insignificante. numa força uniforme. Novas melancolias são despertadas. por onde eu a perceba. A multidão me revela. assim. A variação violenta dos quadros.interrompem o equilíbrio do meu pequeno mundo e nele vem produzir desnivelamentos que suscitam mais fundos movimentos interiores. dançar ou destruir.

Um jacto de perfume me atingia às vezes. entregar os sentidos à doce música da Bayadera. abandonaram-me ao meio da rua embriagado de éter. no meio daquela roda alegre. crescendo em torno de mim. encadeados. Entreguei-me. Um máscara-de-macaco deu-me o braço e mandou-me cantar. mas percebia. Bebendo aqui. desci para a Avenida. Respondi-lhe que. . não ajudava. Procurei desvencilhar-me. quando inesperadamente me vi envolvido no fluxo de um cordão. do lado da Praça Sete. como podiam. nesse vaivém. § 7. Tanto fizeram que. Não sei como. Contudo. àquela humanidade que me pareceu mais cansada que alegre. acompanhando a massa na sua liturgia pagã. envolvido em que grupo. bebendo ali.sofrendo. Deram-me uma corrida e. o atrativo do cordão. Mas o homem espia o homem. a origem dessa carícia. ACONTECEU-ME ontem uma coisa realmente extraordinária. que a livrou dos braços de um marinheiro. de blocos e cordões. Toadas tristes. acabei presa de grande excitação. Os sambas eram tristes e homens pingavam suor. segundo hábito antigo. outro há que analisa e estiliza o sofrimento. porém. fui arrastado pelos acontecimentos. já agora. Dêem-me um jacto de éter perdido no espaço e construirei um reino. Já ela estava repleta de carnavalescos. correndo atrás de choros. Lembra-me que homens e mulheres. com os olhos gratos. dançavam. Uma gargalhada espantosa explodiu em torno de mim. então. mãos postas nos quadris do que ia à frente. que aquele jacto resvalara de outro rosto a que o destinara uma boneca holandesa. A DONZELA ARABELA. sem perceber o disparate. Procurava. que a radiola derrama no ar molhado. e fui. aquelas migalhas me consolavam e comoviam. Não tendo conseguido conter-me em casa. depois de me terem atirado confete à boca. e entoavam os coros que descem do Morro. que vêm da carne. de colarinho alto e pince-nez. como pude. desanimado. Imagino a figura que fiz. entrei no salão de um clube. a um de fundo. pela frente e pelos flancos. sem nenhuma análise. me pus a entoar velha canção de Vila Caraíbas. em rapaz. Talvez fosse preferível ingerir certo vinho capcioso e. que aproveitavam. Novo cordão levou-me. consumi a garganta em serenatas e que esta. inexoravelmente. sua terceira noite. por momentos. por trás. e. para outro lado. mas a onda humana vinha imensa. Pus-me a examinar colombinas fáceis. Mas a boneca holandesa foi arrastada por um príncipe russo. pois os foliões se engraçaram comigo.

Seria uma fórmula para nos conciliarmos com o mundo." O braço que se lembrou do meu braço tinha uma branca e fina mão. para que as coisas se tornem indefinidas e possamos gerar nossos fantasmas. . em mim. lentas e desconexas. e me pôs num canapé onde. alguém me enlaçou o braço. em um momento impossível de localizar. segura na mão. Onde houver claridade. Pareceu-me que descera até a mim a branca Arabela. e as vozes dos homens chegavam a mim. meu bem.A certo momento. senti-me fora do tempo e do espaço. e alegre música de pássaros se produzira no ar. chuvosa e reflexiva. um Belmiro patético e obscuro. descerrado por mão imprudente —parece-me a única estrada possível. Não me lembra quanto tempo durou o encantamento e só vagamente me recordo de que. aqui e ali. no tempo e no espaço. O mito donzela Arabela tem enchido minha vida. Mas vivam os mitos. e o homem procura a infância. e que um anjo descera sobre mim. fui dar acordo de mim. Arabela. a incorpórea e casta Arabela. que são o pão dos homens. ou de qualquer outra perturbação. Nesta noite de quarta-feira de cinzas. já sol alto. Meu corpo se desfazia em harmonias. o véu que cobre a face real das coisas e que foi. Como estava bela! A música lasciva se tomou distante. não deixes partir o cordão. Há muito que ando em estado de entrega. Era ela. Esse absurdo romantismo de Vila Caraíbas tem uma força que supera as zombadas do Belmiro sofisticado e faz crescer. desmesuradamente. converta-se em fraca luz de crepúsculo. que morreu de amor e que na torre do castelo entoava doridas melodias.. cautelosamente. Jamais esquecerei: uma branca e fina mão. Entregar-se a gente às puras e melhores emoções. Em meio dos corpos exaustos. contava-se a história da casta Arabela. e meus olhos só percebiam a doce visão. à margem do caminho. Parecia que eu me comunicava com Deus. bem noto que vou entrando numa fase da vida em que o espírito abre mão de suas conquistas. cantando: "Segura. Também tenho uma vaga idéia de que alguém me apanhou do chão. Olhei ao lado: a dona da mão era uma branca e doce donzela. Pobre mito infantil! Nas noites longas da fazenda. pisado e machucado. renunciar aos rumos da inteligência e viver simplesmente pela sensibilidade—descendo de novo. numa comovente pesquisa das remotas origens do ser. a donzela do castelo que tem uma torre escura onde as andorinhas vão pousar. Foi uma visão extraordinária.. a mão me fugiu. Efeito da excitação de espírito em que me achava.

nas quais o espírito se há de comprazer. sob disfarces cavilosos. Não farei violência a mim mesmo. . e já sem a desculpa do álcool e do éter. em conjunto. nesses domínios obscuros da consciência. Para iludir-lhe o espírito vaidoso. abandonei este caderno de apontamentos. e estas notas devem refletir meus sentimentos em toda a sua espontaneidade. encarnando formas pretéritas. Mas as forças vitais. . Como na noite de carnaval. à procura de fugitivas imagens do passado. aromas ou cores que recordam coisas de uma época morta. já de início. posso contar as coisas tal e qual se passaram. oferecem-lhe o presente sob aspectos enganosos. ainda estão ativas nele e realizam um sorrateiro trabalho. . armado por mim contra mim próprio. humanizando o "mito da donzela" na rapariga da noite de carnaval. durante as três últimas semanas. . embora isso exprima o malogro de um plano. por lhe ignorar o nome de batismo e porque. Já que as seduções do atual me detêm e desviam. então. Foi hábil o embuste.§ 8. o presente se vai insinuando nestes apontamentos e em minha sensibilidade. e o segundo é fácil de dizer: foram as velhas. e que o passado apenas aparece aqui e ali. contemporâneas. ainda há pouco eu hesitava em confessá-lo: foi a moça.. Mas o primeiro. Trazem-lhe uma nova imagem de Arabela.. e o espírito se deixa apanhar na armadilha. Presumivelmente curado da moléstia. Analisado agora friamente. para acrescentar uma ou outra linha a esta ou àquela página. o episódio do carnaval me parece um ardil engenhoso. Vejo que. São dois. E estas páginas se tornarão. Examinando-as. Começarei por contar honestamente os motivos por que. hoje. fazendo-o voltar para a vida. trazendo-me dias agitados.. que impelem o homem para a frente. sedento e agitado. em evocações ligeiras. Depois da quarta-feira de cinzas veio-me uma aura romântica que me pôs meio lunático. O LUAR DE CARAÍBAS TUDO EXPLICA. HÁ TRÊS ou quatro semanas não tenho tocado nestas notas (senão ligeiramente. o homem supõe que encontrou sua expressão definitiva e que sua própria substância já lhe basta para as combustões interiores. crê encerrado o seu ciclo e volta para dentro de si mesmo. de novo. não insistirei teimosamente na exumação dos tempos idos. noto que. a essa a que vou chamando Arabela. tão sugestivo para um livro de memórias. voltei. Tudo se torna claro aos meus olhos: depois de uma infância romântica e de uma adolescência melancólica. se compromete meu plano de ir registrando lembranças de uma época longínqua e recompor o pequeno mundo de Vila Caraíbas. suscitadas por sons.

Tive noites difíceis. no instante em que devastam nossa sensibilidade. então. Devo retificar. e o adolescente permanece no adulto. Logo verificava o engano. em vão. aquilo que não passava de uma criação do espírito. É extraordinário que nesta altura da vida me tenham acontecido tais coisas. ouviu. a confidencia. Postava-me nos logradouros públicos. Só passados alguns dias a tola idéia deixou-me. o que lhe dei se me afigura o adequado. e temos pouco serviço. quando. ao plano da nossa análise. O Secretário está fora. confiei o episódio e minha desordem sentimental ao Silviano.) Em tal estado de espírito. tudo já serenado. no momento preciso de sua agitação sentimental. Eu pediria inutilmente o socorro do bom senso ou da análise nas horas em que vivi a perseguir uma imagem que teria um terço de realidade e dois de fábula. mais tarde. que ela nos proporciona. não muito convicto. bebi algumas vezes e andei como vagabundo pelas ruas. que se . não é capaz de se desdobrar ao ponto de permitir ao espírito. poderão vir lucidamente. E ninguém o ignora: a literatura das emoções é feita a frio. como se se tratasse de um ser real. No momento da devastação. o espírito calcula e mede—mas certamente não são suscetíveis de registro. e jamais conheci ficção burocrática mais perfeita que a Seção do Fomento. Pelo contrário. Naquelas horas. visto que anda em maré análoga). perdendo a noção do ridículo. As modificações que a paixão determina em nossa substância e a diversa visão. e a aventura de carnaval se foi dissipando no meu espírito. voltar a estas notas. sério. é fácil de ver que eu não poderia retomar estas notas. Até o chefe da Seção notou minha inquietude e fez-me assinar um requerimento de férias: "O senhor está precisando de repouso e deve aproveitar a ocasião.. os movimentos desse desvairado músculo. ao seu encalço. e a imagem da moça encheume os dias. A vida não se conforma com o vazio.afinal. quando o coração bate desordenadamente. Felizmente (e com certeza por solidariedade. e a memória ou a imaginação é que reproduz ou cria as cenas passionais. Observo agora que o namorado. dos seres e das coisas. mas o luar de Vila Caraíbas tudo explica. estudar. nesta página. Quis. percorrendo toda a cidade em busca de Arabela. entreguei-me inteiramente aos secretos impulsos. e contudo esperançoso." (Na verdade nunca tivemos serviço. ele não fez troça. alma e corpo se solidarizam. Podem rir-se de mim. o que atrás foi dito sobre o amanuense que espia o amanuense e lhe estiliza o sofrimento.. mas os namorados me compreenderão: amei. Pus-me a procurá-la quase com aflição e. para fins literários. penetrando a multidão. Muitas vezes entrevi uma figura gentil e fui.

trouxe-me blocos de papel em . Emília cozinha. e Francisquinha foi melhorando. contínuo da Seção. uma ninhada de ratinhos. Acho-me cansado e não há pressa. não sei como. AS VELHAS. Que dias difíceis! Finalmente. não daria conta de olhar pela mana se. um dia desses. Gritava coisas desconexas.vão tornando o centro de interesse de minha vida. . que andou inquieto. Josefa lavadeira vive a resmungar e a querer tomar-lhe a roupa. Deu para coisas que até me fizeram rir. A meu pedido. Levantando. eu ficasse impossibilitado de lhe prestar auxílio. de longe. para de novo metê-las na água. Passou a dispensar-lhes cuidados maternais. Emília. é comum que pegue as peças já limpas e as atire ao chão. Ela ficava noite e dia a arranhar a parede com as unhas. supunha-se perseguida por uma mula-sem-cabeça. Tivemos de prender a pobre mana no quarto. . retomar minhas notas. na noite em que comecei de novo a folheá-las. É verdade que isso nos sai caro: nos seus repentes. inclusive o Tome. tivemos de consentir em sua extravagância: duas ou três vezes por dia arranjava mingaus para os ratinhos e ficava o tempo todo a espreitá-los. uma tábua do assoalho. Quase cedi. Posso ler um pouco e escrever até tarde. tendo passado duas semanas de extrema agitação. Emília voltou a insistir em que eu trouxesse um padre para exorcismá-la. pisando-as. descobriu. Agora. lava roupa. desde alguns dias. e não há meio de a fazer compreender que eu compraria muito mais caro as horas de sossego que Francisquinha experimenta quando se entrega àquela tarefa. e as velhas se entregaram normalmente às suas funções. O SEGUNDO motivo da interrupção de minhas atividades de escriba. Falarei nisso amanhã. para ter a Emília tranqüila. o que só temos feito em último caso. já lhes disse. foi doméstico. Desde muito. não estando em férias. às voltas com sua gota ciática. para não a vermos de novo agitada. momentos tranqüilos. e Francisquinha. Josefa lavadeira lhe meteu na cabeça que a Chica está possessa. e. Francisquinha piorou consideravelmente. Um espírito mau a domina. A casa retornou ao seu clima habitual. tudo está em paz. escalar a superfície lisa e vertical. a crise passou. Mas. como nestes dias. Vivendo. É uma velha cabeçuda. Carolino. § 9. tentando. ocorreu outro empecilho: o estado de saúde das velhas. talvez excitado pelo barulho que a mana produzia. já ontem. a todo instante. quando está melhor. foi-me possível. talvez. meio apodrecida.

agora. e acho-me abastecido para o que der e vier. Será uma pouco vivaz. por despontar somente à noite e murchar durante o dia. ou apenas repito idéias velhas. em outra residência. fiz-me anunciar. há dois anos. Viva a Seção que me dá o pão e o papel. Bem me recordo. cujo endereço me fora fornecido sob indicações vagas. SEM dúvida. dama-da-noite. no jardim da casa. Explico-me: havia. outra. então. E. havia uma criatura que não vi. § 10. envolve uma química. um momento de maior ou menor influência em nossa vida. Andando esta tarde com Glicério por aqueles lados—ao voltar de uma visita de pêsames a um companheiro de Seção. que me perdoem: adquiri. mas nem por isso desagradável. o hábito de filosofar e fico horas e horas a pensar em certos fenômenos. de que. uma auditiva. Vivendo e observando as coisas. mas o fato me deixou duas impressões nítidas. por engano. NUMA RUA. uma trepadeira. encadeando os acontecimentos. para mim. olfativa. O timbre da Seção do Fomento encima estas páginas. neste escritório da Rua Erê. enriquecidas de outras que lhes ministrou este demônio fantasista que me habita. dentro da casa. à procura de um farmacêutico vindo de Vila Caraíbas. Uma criada. e já não veremos acaso nem gratuidade no desenrolar dos fatos da vida. que me veio atender. Ela desprende um aroma de alto poder evocativo. mas ouvi. mais tarde. Se digo tolice. uma física e uma economia social extremamente sutis para que a ciência humana possa penetrá-las. no sertão. HÁ. perceberemos que o fugidio vulto—mal entrevisto em um encontro que nos pareceu destituído de significação ou conseqüência—teve. esclareceu logo o equívoco. E já lhes contarei por que meu pensamento tomou hoje tais rumos. se os coristas angélicos se dedicassem ao gênero. As duas imagens se consorciaram no meu espírito e ainda hoje nele permanecem. UMA CASA. no caráter de necessidade que julgo acentuar as aproximações humanas. a cuja flor chamamos. em tal ou qual sentido. uma trama secreta que. lógicas. uma canção napolitana que ouvi a Camila em tempos idos: Tuorna a Surriento. Cantava como o faria um anjo de Van Eyck. As leis que regulam a circulação dos homens nos parecerão. passando à noite pela Rua Paraibuna. E essa trama se evidencia. que perdeu a filha—uma . os encontros mais rápidos que sejam e se nos afiguram fortuitos.quantidade.

tempos atrás. Queria ver novamente a dama-da-noite. segundo o novo plano predial. Aurélio. E assim continuaria. Pode-se. pelo caminho percorrido. Ela vive com a mãe e um irmão pequeno. em caracteres nítidos. Apressei os passos. observou Glicério. perguntei ao Glicério que moça ali morava. Não há criatura mais linda. que devia ser. Sou um incorrigível produtor de fantasias. Fomos caminhando juntos até que. Na Rua Erê. entrando aqui com essa cara de alma do outro . —Mas é preciso comprar as alianças e um presente muito bonito. —E uma fatiota nova. —O nome é o menos.. estava. ao falecido pai. e fiquei a imaginar doces coisas. Com o crepúsculo. tomando cada qual o seu bonde. lembrava um anjinho amável. —Aumenta-se o pecúlio da Previdência e toma-se um empréstimo em dezoito prestações. um pouco além. movido por um pressentimento. A moça é que é fabulosa. não conhecia. —Não a conhece? Deveras? É a Carmélia Miranda. Quando cheguei a pé. Um relance de olhos revelou-me que sua fisionomia não me era estranha. Não. mesmo. ao Bar do Ponto. se eu não ouvisse uma risada quando entrei em casa. voltei pelo lado oposto da rua. desci pouco adiante. senti-me nomeado segundo oficial e cheguei a enxergar no Minas Gerais. nos separamos. leitor. construir uma casa. com o coração em desordem. o amanuense Belmiro Borba. uma jovem estava à janela. sucedendo. atraiu-me a atenção e despertou-me lembranças... transmudado em distinto cavalheiro que seria o protetor da donzela. Esquecime desta triste figura e sonhei um terno idílio. já a flor abria suas grandes pétalas brancas. Perturbou-me bastante o encontro. Dr. Já adivinharam quem seria: Arabela. Não é preciso dizer o que fiz: voltei. por merecimento. a passos apressados. morreu há um mês. a retalho e por atacado. nada menos. talvez escondesse a da canção. Foi o demônio da Jandira que me tirou daquela sorte de embriaguez. no ponto de espera. Quando de novo passei em frente da casa. pendente do gradil de ferro de certo jardim. —Que susto me pregou. e. Recordando-me do episódio e da voz puríssima que trauteou a canção. nem mais fina nestas redondezas. . este nome tão sugestivo. nada mais. sussurrou uma voz. Assim me vi desembaraçado do Glicério. sugeria um arcanjo. Era precisamente a casa a cuja porta bati. o ato do Governo promovendo. O pai. Nunca ouvira.dama-da-noite. na casa. mesmo.

sob reservas. Que casa hospitaleira! disse. para cá. enquanto. como hoje. possuo um invariável bom senso e termino aconselhando-lhe qualquer coisa sensata. As mulheres inteligentes não têm nisso menor prazer do que as outras. Dias houve em que ela me perturbava profundamente. em minha mesa. que andando para lá. que me fez tímido. tentar uma prosa com Emília. O AMANUENSE AMANDO ESTÁ. mas bem sabe que. e por pouco não lhe teria dito as palavras do desejo. O chefe pigarreia. fui o único que não tentou conquistá-la. por duas vezes. mas. sob o olhar complacente do chefe da i&laíISeção. que o deputado Fortuna está na bica de ser secretário. pondo-me a mão sobre o ombro. § 11. e sim timidez. procurava descobrir a razão da presença de Jandira. Contou-me que obteve colocação no escritório de um advogado. e com ar de indiferença. o Dr. O sintoma é positivo: acabo de tentar um poema. dá-se que começo a amar. mas nem isso fez esta noite. recusando-me devaneios acerca de sua geometria e convocando este anjo latente e prestimoso que nos segue como a sombra Afinal. costuma insinuar o que deseja somente no post-scriptum. finge que não nota. Talvez tenha vindo apenas mostrar-me seu vestido novo. em todas as línguas e em todas as épocas. no íntimo. ao cabo de contas. ORA. neste escritório. sempre que aparece. Louvado Deus. uma folha de papel onde se alinham versos frustrados e se estende uma caprichosa série de rabiscos. De acordo com a tática epistolar do sexo. volvo os olhos para um lado. nisto não andou virtude.mundo! Há uma hora estou esperando você sozinha. Jandira voltou sem dizer o que queria. enrola um cigarro de palha e declara. nossa amizade sobreviveu a essas crises e acabou por criar certos tabus entre nós. infelizmente. Não é que sejam raras suas vindas à Rua Erê. Da roda. Pereirinha. que a mão vai traçando para disfarçar sua incompetência e esperar uma inspiração que não vem. Já lhe disse que. Refeito do abalo. A velha está hoje inabordável e por pouco batia-me a porta no nariz. depois de. tem qualquer problema a resolver. referiu-se maldosamente à Joana e suas turras com Silviano. ela me vem tão desejável e tão perigosa (como a saúde de Jandira convida a uma ligação menos literária. levou-me um livro e lá se foi pelas oito horas. que são as mesmas. Quando. realmente encantador e provocante. mais naturista!). balbuciei qualquer esfarrapada desculpa. . Faço por ser engraçado e lhe digo tolices.

querendo. Mas houve qualquer coisa que tudo atrapalhou. com todos os vencimentos. seu vulto assume a solenidade de um edifício público. cada dia. E assinam o ponto com rebeldia na alma e desprezo pelas mãos. "Se eu não tivesse deixado o seminário. Bons sujeitos. não nasceram para esta vida. se algo há de que me ache firmemente convencido é ter neste bureau um destino lógico. e isso acontece sempre que a praxe foi relaxada. na generalidade dos casos.. com multas e penas. e sente-se que. suspira. não me contrista.. São raros os que chegam à burocracia triunfante. que é aquela em que o espírito se integra no bureau e o homem não é mais do que um conjunto de fórmulas e praxes. é o próprio processo. O velho que se assenta a meu lado tem trinta anos de serviço. Mal posso. à hora de encerrar-se o expediente: "Eu dava era para a política. Acolá. meus amigos da Seção exercem com desencanto suas funções. Tinha jeito e tive padrinhos. entre duas informações deitadas com letra trêmula num requerimento. como caso excepcional. na alta administração. mas sempre revoltados. ou melhor. em forma hierática e cabal.Meus honestos e graves companheiros de Seção se acham a postos." Há outros que teriam feito carreira no Exército. ou nas letras. Quanto a mim. já recebe adicionais e ainda acredita que nasceu para o brilho e a dignidade da Igreja. o Romualdo. Quando franze os sobrolhos. outro. Os mais ficam na burocracia militante e inconformada. que é novo na vida e na burocracia. Mas. desviando-lhes a rota da vida. casei-me antes de tempo e aqui estou vegetando. Quando sorri. Sente-se que ele está firme e definitivo na sua escrivaninha de primeiro oficial. É o homem que manda o peticionário selar a petição e que volte. Poucos deles assinam o ponto de humor sereno e com aquela unção de que deveriam estar penetrados. os demais passam dos quarenta. talvez fosse bispo!" exclama ele. Admiro. seu semblante se abre como que recitando a fórmula "saúde e fraternidade". Mas não tirei carta de bacharel. É o Filgueiras. após tantos anos de exercício das suas funções. está todo um sistema de leis fiscais. O processo é sua religião e o senhor diretor a instância suprema. que já requereu contagem de tempo para aposentadoria. Tirante o Glicério. o companheiro de cavanhaque e lunetas douradas. e há dois ou três que excedem os sessenta. que. que trabalha no compartimento contíguo. . atrás dele. no fundo. recusando-se a pôr o espírito em função no ofício que lhes parece tão contrário à vocação e preferências.

que o acontecimento tivesse comemoração condigna. numa rua. satisfeito com o trocadilho. quando contemplo. Ponho-me a imaginar um Belmiro sexagenário que tenha renunciado compulsoriamente aos jogos do amor e já não sofra a necessidade dolorosa de compor um poema. e quando me lembro da promessa honrada. e a colocação deveria ser bebemorada. neste instante. *** —Mas. e mais um. conter um movimento de ternura. ela me chamou à parte e tez algumas confidencias melancólicas. Conheço-a desde dois ou três anos. § 12. Quando lá cheguei. Zombe eu. informações mais circunstanciadas acerca da moça que apareceu na janela de uma casa. segundo a expressão do Florêncio. além das graças de mulher. Vivemos tão preocupados com o nosso próprio espetáculo que no geral ficamos cegos para o alheio. do flautista que. ele lhe exigiu. de nossa Secretaria. embora. mas pacificado. que. céptico. já não sofrerá donzelas. Eu vos estou amando e prestes me acho para as nossas impossíveis bodas. de uma aposentadoria condigna. Mas a amiga dá uns toques tais. A instalação é quase tão pobre como esta que me arranjei na Rua Erê. Depois de animada reunião em sua casa. no arranjo doméstico. em nome dos amigos comuns. Arabela. já estavam todos. o repetia para cada um que encontrava. entretanto. nem arabelas. acorda dentro de mim e tenta uma serenata. Foi o Florêncio quem promoveu o encontro. fizemos boa camaradagem (é minha única amizade feminina) e. não tive olhos para lhe ver alguma coisa. de que a amiga é bem dotada. desconhecido. ao pôr do sol. que nos faz o Estado. com a tia. no pequeno apartamento que ocupa. ou de. Informado de que Jandira se empregara. com emoção mal disfarçada.na verdade. ou melhor. CONVERSAÇÃO COM JANDIRA. Todos nós nos preocupávamos com o problema. Jandira levou a ultimação a sério e nos convocou esta noite. que ali . um Belmiro triste. Aos sessenta anos. em uma casa de cômodos da Rua Curitiba. será o fenômeno amor? Creio que vos estou amando. do Glicério. ir tentando sacar. nestas compreendidas também as de espírito. acolhedor. DESCOBRI hoje o motivo por que nossa amiga Jandira veio ver-me anteontem. o edifício grave.

já estando meio alterado pela bebida e sem os freios que a discrição nos impõe. Para dizer qualquer coisa e integrar-me na roda. Ao Florêncio. A mentira. livrando-me dessa situação aborrecida de quem chega e interrompe o fio da conversa. Que deponha. Fui saudado com um "oh!" geral da roda e. A presença do Silviano era. de se notar. aproximei-me do Silviano. vindo a meu encontro. e as formas. —Mentindo! respondeu nosso filósofo. não abre mão dos direitos de exercer sobre ele uma fiscalização contínua. para acomodar as mulheres. a quem estas modas de 1935 causam profundas perturbações. não eram ontem propícias a pensamentos castos. para comparecer na reunião. pois o chope já ia adiantado. Porfírio. realmente. e as coisas se dispõem de tal forma que ela a ninguém cede em elegâncias e modas. pois o tom geral era de sorrisos maliciosos. embora conformada com as extravagâncias do marido. costuma chamar-lhe Abundâncio. sobra-lhe em engenho. pois brigam. o colóquio. apegou-se ao assunto e continuou: —O que ignoramos é como se não existisse para nós. retifiquei pela centésima vez. É o que é preciso fazer.. não. logo uma cadeira e um copo. o Silviano. Por outro lado. fielmente modeladas pelo vestido. é a base da ordem doméstica. que as devorava com os olhos. a respeito. que deveria correr animado antes. —Porfírio.sempre tenho a impressão de estar sendo recebido em casa de finos burgueses. sou múltiplo. Jandira se veste como filha de ricos.. Sou triplo. estou na Gazeta de Minas fazendo revisão de um artigo que dei para o Suplemento. parou um pouco. Jandira está na força da carne. Falariam de mim? Alguém devia estar penando. Silviano tem a mania de batizar cada pessoa com o nome que lhe apraz. Silviano não é dos mais assíduos em casa de Jandira. Satisfeito com a oportunidade que lhe dei para um discurso. Com este princípio. O que lhe falta em dinheiro. sempre que se encontram. Belmiro. Mas não pensem que é fácil estabelecer uma combinação . as duas passam aperturas com a magra pensão que a velha Hortênsia recebe da Caixa Beneficente das Viúvas e Órfãos dos Militares). Com a minha chegada. perguntando-lhe como conseguira habeas-corpus da Joana. Jandira me trouxe. Para todos os efeitos. Joana. arranjo-me em casa. Apesar das dificuldades internas da casa (quando a amiga está desempregada. Ela se pôs muito bonita para nos receber e fiquei lisonjeado por mim e pelos demais. Tanto pior para o amanuense incauto. mas Joana só conhece uma face do monstro.

. espontânea. Hoje sou um artista no gênero. com essa alusão à mitomania do Silviano. sorriu satisfeito.. devemos sempre mentir. deviam ter mais compostura. Hortênsia sempre anda assim. este continuou a falar. aparteou outra vez Florêncio. alheada. que é nietzschiano. truão! Estou falando é às pessoas qualificadas desta roda. Um pouco impaciente com aquela farsa. E se as mulheres resolvessem adotar sua teoria. Glicério. Como despregada do mundo. que contrabalançava a expressão hostil de Redelvim.. e o guerreiro requer muitas mulheres. como um parlamentar experimentado que não dá atenção aos apartes. durante horas. no seu tom professoral: —Um exercício longo. irritada. Jandira interveio. A chegada da tia. haja ou não haja necessidade.. disse Jandira. Jandira diz que D. Assim a mentira acaba vindo fácil. Silviano encolerizou-se: —Não me dirijo a você. É preciso um exercício longo. minha flor.constante de mentiras. uma sombra. evitou que a conversa descambasse. para enganar os maridos? Acharia bom? Silviano não se perturbou: —A mulher. ao mesmo tempo. a fim de que cada mentira se articule perfeitamente no sistema e seja. —O que sei é que vocês são uns cínicos. Animado pelo olhar de admiração deste. estabelecida. Fica. Para atingir a perfeição. entre ela e a verdade. Sem responder. lógica. manifestandose solidária com o sexo e assumindo um ar conservador.. provocando novos aplausos. que veio de uma novena na igreja do bairro. São o passatempo do guerreiro. Cumprimentou a todos. dando silenciosamente a mão a cada um.. Silviano continuou a discursar: —A felicidade para a mulher está unicamente em divertir o guerreiro e pensar suas feridas. —Ninguém duvida. desde a morte do marido. instintiva. que me surpreendeu: —Não acho graça nenhuma nisso.. isto é que é. junto a nós. Basta-lhe um homem. que sustente o equilíbrio do lar.. Dessa vez. fluente. interrompendo-o. provocando uma gargalhada de todos. cuja presença mal se sente. casados.. como se estivesse a pensar no defunto major. não necessita disso. conquanto a velha seja uma criatura apática. Vocês. apenas a diferença de substância e não de forma. cujo retrato pende da parede. cortou o Florêncio. e se . —Não para você..

Redelvim. Redelvim e o desconhecido se afastaram. O começo de discussão tirou a graça da festa. afinal. Redelvim e Jandira tendem para a esquerda. talvez assustada com tamanho alarido em sua sala. mais que afinidades. entre estes inquietos companheiros. Não repetirei o que disseram. a beber. pois há forças de repulsão. atacou um assunto perigoso. as discussões vêm azedando nossa pequena roda e vejo que ela não tardará a dissolver-se. Dispunha-me a sair. quando Jandira me tocou no braço. Silviano. Fica para amanhã cedo o relato da conversa com Jandira. que até então apenas bebia. E criaram uma situação de tal constrangimento que cedo a reunião se dissolveu. pedindo que ficasse mais um pouco à porta da rua. esteve calado. o Pensador! Oh! Como isso me diverte! disse Silviano com um ar que parecia afetado. Glicério. pois não disseram novidade. —Um palhaço. Certamente precisa de algum remédio. não se animando Glicério a entrar na briga e apenas seguindo-a com um sorriso de aprovação ao Silviano. sirvo. A CONFIDENCIA. e o tom que emprega em seus monólogos não é outro. com eles e com o desconhecido—a quem atrás' me referi e que. no meu "cepticismo de pequeno burguês (a expressão é dele). É uma verdadeira descida dos meus altiplanos. Magoaram-se uns aos outros. LOGO que Silviano. Florêncio.— Chega a escandalizar-me esta minha condescendência em vir conversar com vocês. ao capitalismo. à margem. E por aí se engalfinharam os dois. Passaram ao terreno da política. no quarto. sem que nenhum ficasse abalado em suas convicções. me repreende pelo que denomina "irreprimível vocação plebéia". Isso não quer dizer que me poupem. *** Já é tarde e Emília chama por mim. ao contrário. Só eu e o Florêncio ficamos calados. § 13. para conversarmos a sós. exprimindo seu desprezo pelo Silviano e pelo Glicério: —Mentalidade sórdida de burgueses! Vocês são uns idiotas e uns palhaços. Redelvim me chama comodista e vive a dizer que.pôs a um canto. Enquanto Glicério e Silviano se inclinam para o fascismo. junto da velha—. Jandira me disse. durante todo o tempo. Já o pilhei a conversar sozinho. meio sorridente: . Desde muito. mas que lhe é habitual.

em mim. Mas. —Já recusei três vezes. então. está-me perseguindo com propostas de casamento. Jandira não tem amigas e D. e só agora compreendo o sentido oculto de suas palavras. todo dia. Depois. Não me presumo credor de elogios pela escolha. continuou a falar. Preciso. respondi. aqui tem um homem. —Não é possível. —Deixe de ser bobo. não digo. é viúvo. por alguma forma suprime. ora irritada. mas o sujeito é muito teimoso. Ouça. estou falando a sério. Eu tenho de reagir sozinha. ora deprimida. É a terceira vez que ele me propõe casamento. Belmiro. Talvez por isso me tenha escolhido para confidente. Nesse caso. Você não imagina o que é a gente ser perseguida pelos homens. todo dia. de um homem. Impressionou-me esta confissão. eu também me candidato. Dizendo-me coisas desse gênero. tenho pensado. Deve ter uns quarenta anos. Hortênsia é apenas uma sombra.. . Bem. e as mulheres também estão sujeitas a certas exigências. Em conversas anteriores ela aludiu muitas vezes. Sabe que é velho e que não pode exigir muito. eu lhe dava na cara.. Habituado a pensar nos meus próprios problemas e a perder-me neles. ter sempre a companhia de vocês. —Pois então feche o negócio! —Idiota! Ainda estou bem moça para fazer negócios. se você estiver disposta a agüentar com as manas. embora me sentisse realmente penalizado: —Se o caso é de urgência. o homem. e insiste em dizer-me que abre mão de direitos de exclusividade sobre mim. mas não este. . fiz uma pilhéria de mau gosto. vivo tão sem apoio. Tem uns cobres. mas velada-mente. não percebi. em que ela não poderia encontrar ressonância.—Esse homem que esteve aqui e a quem vocês não prestaram atenção. Seria uma humilhação. tenho medo de ceder. continuei. As meninas-famílias dispõem de papais e irmãos para imporem respeito aos dons-juans que andam por aí. e fez-me a confidencia que me surpreendeu: —É claro que recusarei sempre. Só falta proporme. com urgência.. não me quer escravizar. à sua situação. preciso de um homem. Poderei continuar a mesma vida. Será que me considera inofensivo? Levado por esta estúpida interrogação.. feita com esforço não pequeno. Todos me olham como se quisessem devorar-me. Jandira me olhou com ódio: —Se não soubesse que você está apenas fazendo uma gracinha. nesse caso.. —Passe-lhe a tábua. E às vezes sinto-me fraca. A gente é de carne e osso.

volto a remoer o adjetivo analgésico. Quando nos despedimos. da mesma força. . dentro em pouco. com que Jandira me brindou. ETC. para o segundo. RELENDO a página escrita ontem. sintoma de vitalidade. ela é que não parecia razoável: levou muito longe uma simples pilhéria. Mas está dito: sou analgésico. serei um céptico pequeno burguês que. eu preferiria a de excitante. Quanto ao que pensam de mim os velhos companheiros. eu me censurara pela minha incompreensão. como pude. um elogio atribuir-me a função de calmante. E se eu não for coisa alguma. Afinal. Achava. embora não muito satisfeito com o adjetivo. todos. Ela devia saber disso. Ela o emprega com o sentido de sedativo. naquele momento. o burguês Belmiro! Redelvim deu para humorista. Ora. E não é. Redelvim e Silviano o exprimiram: para o primeiro. e disse: —Fui uma boba em pensar que podia lhe falar essas coisas. assumindo ar de mofa e provocando-me. § 14. porém. ou de mais. desde que ela não me queria.Fiquei encabulado. mas por omissão. sabem o que sou. ao mesmo tempo? Há anos passados. que não tem o senso da hierarquia e tende para um igualitarismo dissolvente. eu compreendia tudo. dizendo que. Minhas palavras produziram bom efeito e. Expliquei-lhe. Jandira voltava ao seu clima. e prometi-lhe que ainda lhe levaria um bom marido. Não é culpa sua. não por ação.. logo depois de ter dito aquela tolice. eu costumava entregar-me a um passatempo perigoso: procurar. É o que pensam as mulheres. pela sua representante junto à Rua Erê. serve o sistema capitalista. Uma criatura bonita e jovem assim tem diante de si um mundo grande. como você é analgésico! Voltei para casa tranqüilo. ANALGÉSICO. Protestei. Jamais encontrei algum cujo contrário não pudesse ser também defendido. meu anjo. Olhou-me pensativa. como qualquer um. abandonei-o. Percebendo que esse jogo de antinomias acabaria deixando-me com uma telha de menos. já estava brincalhona: —Belmiro. cheio de possibilidades. positivamente. que era muito nova para desesperar de uma solução. a favor ou contra. ou for tudo. sou um homem fraco. Acham indispensável classificar o indivíduo em determinada categoria. Fazendo minhas .. no seu calão. Vocês não compreendem isso. Gostei dessa reação. que realmente estava brincando e que. exceto eu. igual número de argumentos.. sem achar saída. no tocante a dado conceito.

em um momento propício. postar-me à frente de uma porta lateral. também. Mas parece que a sensibilidade descansa apenas para redobrar. precedendo aos presentes. quero dizer) e seu vulto mal pousou a meu lado. Quando. escapou-me uma imagem nítida de Carmélia para só ficar um esboço vago de seu vulto. e mal pude deixá-la. obter uma imagem sua que se fixasse. o Minas Gerais. quando queremos forçar demasiado a atenção em qualquer coisa. porém. outros males. cedinho. preocupados que ficamos com tal esforço. MISSA DE TRIGÉSIMO DIA. convidando os amigos e parentes do saudoso Dr. o irmão pequeno e a viúva só apareceram mais tarde. em minha memória ótica. deixando Glicério. celebrada em intenção de sua alma. Não fora preciso tanto açodamento. por onde geralmente se retiram as pessoas discretas ou enlutadas. de chapéu e luto fechado. atraiu-ma desta vez. eu não pensava mais em Arabela (Carmélia. não tive. ou não senti coisa nenhuma. Essas intermitências. convidado. a coluna dos falecimentos e das missas fúnebres. E não foi senão para favorecer o esquecimento. Não sendo parente nem amigo do defunto. Por que essa timidez? Não me . § 15. inclusive Jandira. neste velho escritório ou em algum trajeto de bonde. parecia mulher feita e nela mal reconheci a misteriosa moça em flor da noite de carnaval. e só fui dar acordo de mim quando entrava na igreja da Boa Viagem. desviei sem querer os meus olhos. esta coisa nos foge. Lendo. que jamais me chamou a atenção.contas. assim como. cheguei mesmo a esquecê-la. presa que fica pelos abraços de pêsames das pessoas conhecidas. que Deus pôs no mundo paisagens. E nela vejo um aviso. Aurélio Miranda para assistirem à missa de trigésimo dia. ela alçou rapidamente a vista. Entretanto. cuidados. senti-me. a procurar o carro da família. Assim foi: a filha. para alimento dos longos dias que passarei sem a ver. Já estava no fim a cerimônia. forças para mirá-la de frente. Como na tarde em que voltei â Rua Paraibuna. dando repouso à sensibilidade. durante o dia. outros bens. se me ocorresse que a família sai por último. as operações do seu ofício. Desejaria bebê-la com os olhos. Creio que já não quero o mito mas a pessoa. vi que a simples aquisição de umas botinas novas me desequilibrou o orçamento deste mês. é que entretêm a vida e a preservam dos efeitos devastadores de um sentimento intenso e continuado. Ontem. na escrivaninha da Seção. com mais vigor. DESDE a noite da reunião em casa de Jandira. diz Silviano. não sei por que ardilosa conspiração das coisas. ainda a tempo de. Carmélia.

amanuense. um terremoto ou uma guerra. pude apreciar esse São João alegre e buliçoso. como diz Glicério. uma inundação. O melhor é tomares a xícara de café que o Carolino pôs sobre a mesa (excelente Carolino). de que essas bodas são impossíveis. que vão atrás dos balões. Permanecem com sua força evocativa e voltam com aquela pontualidade inexorável para vir lembrar-nos que estamos envelhecendo irremediavelmente. Mas. Cada ano. como outro dia. Apesar da literatura que se faz pelo Natal e pelo São João. ainda estou a lamentar minha inépcia. cruzai" os ares e deixar-te em certo alpendre da Rua Paraibuna. QUANDO vi a fogueira. Carmélia é fina. verificamos que a paisagem do passado vai ficando mais azul. fumares um cigarro e assobiares uma rancheira. afinal. Eis o lado melancólico do São João. mesmo de longe. salvando a donzela. além. o irmãozinho e a viúva. Certo São João de Vila Caraíbas é um fenômeno que não se reproduzirá jamais. qual delas se cobrirá de flores e . Belmiro. mais distante. para compareceres. como aquela serra que azula no horizonte. em busca de um balão que as monções carregaram para outras latitudes? Vã tentativa de reintegração de porções que se desprenderam da alma nesse trajeto imenso. passei ao largo. rica. Amigo Quixote. Mas. esses dias continuam inundados de uma poesia própria. ao vê-los chegar. esse balão que se queima no ar e os foguetes. É da alta. cheio de balões e de vozes gratas da infância. do Natal e do Ano-Bom. UM SÃO JOÃO QUE VAI LONGE. valerá a pena que eu me incrimine por isso? Lembra-te. essa fogueira. o corcel fogoso que contigo quer transpor esta janela.conhece e nem perceberia uns olhos plebeus que nela se detivessem furtivamente. que resiste a todas as agressões dos principiantes das letras. É inútil que faças projetos. Já tens trinta e oito primaveras e ainda me compareces com tais veleidades de mocinho. Em cada ramo à beira do caminho ficou um pouco de nossas vestes e é inútil voltar. perdidamente. § 16. para viajar pelo tempo afora. hão de fazer-me inclinar sobre mim mesmo. muito além da qual nasceu Iracema. porque os bichos comeram os trapos que o vento não levou. em que imaginavas um incêndio. Escrevendo estas notas. Por que. neste vetusto bureau da Seção do Fomento. jovem. no momento preciso. todos os cavaleiros andantes já se recolheram e não há mais dulcinéias. com medo de que os meninos me atirassem bombinhas. Sofreia. As moças de trancas e bandos não mais lerão sortes no copo d'água nem saberão mais qual delas terá a grinalda.

recomendado pelo Senador Furquim. e afinal me desloco. ora com ele combinando encontros de rua. § 17. porém. novos rumos em minha vida. e que essas concessões têm feroz fundo utilitário: adivinho nele o caminho para Carmélia. nunca o procurei. Velho Belmiro. que cantava inefável modinha. Vamos perambular pela rua. pensando que chegaria à estrela. apenas nos namorando e nos lembrando daquela moça de cabelos de retrós e de brancas vestes. inconscientemente. Enquanto a fogueira funcionar. E ele viajava toda a vida. rente do braseiro. noto que faço ultimamente grandes concessões ao Glicério. Há quatro anos. O certo é que. Nem sei. nem tristes. que deixou um legado para a freguesia de Caraíbas. nós ficaremos de braços dados. Estas notas são íntimas e nelas devo pôr toda a sinceridade. contemplando as fogueiras e cantando certa modinha que ninguém ouvirá. procurando atingir Carmélia por via do Glicério. A estrela sempre longínqua. quando o rapaz entrou na Seção. Hoje reajo. a pensar nas terras impossíveis e no destino trágico da Nau Catarineta.de perfumes e arrastará um véu comprido no pavimento da velha Matriz. vai a um luxuoso clube de campo. QUE OS BORBAS ME PERDOEM. aos poucos. Com o tempo. onde jazem os restos mortais de Dona Ana de Freitas e Ataíde. e até horas mortas um aroma brando de batatas assadas me mantinha. Talvez o pirata esteja apenas desfrutando a moça. Tempo velho. Tempo velho. Num exame de consciência. desfruta a estima da alta goma. desenvolvo uma tática complicada. Sua inclinação é para as donzelas de nobre linhagem. ora indo-lhe à casa. sempre adiante do viajor. Habituado. O que eu . Agora. a vê-lo sempre à minha procura. Pareceu-me pretensioso e decidi-me a não tomar conhecimento de sua presença. Moço Belmiro. Qualquer coisa a respeito de um viajor e de uma estrela. joga bridge e tem outros hábitos aristocráticos. amanhã me abandono (perguntando-me se a vida vale tantas renúncias). Naquele tempo a fogueira crepitava até horas mortas. a coisa virou. cedendo ao comodismo e reservando meus lazeres para os velhos companheiros. O rapaz freqüenta a sociedade. mesmo. rendime às suas tentativas de aproximação e criei-lhe estima. nem alegres. CASO da noite de carnaval introduz. sem boas intenções. não simpatizei com ele. explicar por que namora a filha do chefe de Seção—que é de condição modesta—e receio que esse namoro dê em nada. Hoje é o nosso dia.

embora tivesse curiosidade de conhecer a casa de um senador e privar com um pai da Pátria. . era homem muito simples. ficamos lisonjeados com isso. com sua rede de informações. § 18. o Redelvim. pondo-me fora de meu mundo e em contato com uma fauna humana de caracteres inteiramente desconhecidos para mim. o mancebo. para se prestigiar em sua roda de sociedade. para a sortida. ser traduzido por um vocábulo mais simples e direto: adulação. aos olhos dos filistinos. quanto ao rapaz. embora lhe escape a intenção. bom parceiro. É que essa aventura me intimidava. o Florêncio e a Jandira lhe dispensamos e nos encarece também. qualquer um assim procederia: tenho adulado Glicério. encarece muito o acolhimento que eu. mas a tirania de Glicério leva-me a coisas que nunca fiz. que sempre foram grandes amorosos e hão de compreender-me. cercado de um halo misterioso. mas agora me revelo um sabujo consumado. pois o senador não admite cacife acima de dez mil-réis. fez-me comprar um terno novo e camisas da moda. ao cabo de contas. usando de um trunfo que assinala sua superioridade sobre os companheiros de bridge e tênis e suscita a admiração de ingênuas mocinhas. Perdoem-me os Borbas velhos. foi um pôquer. já que o ridículo é de todos os namorados. e esclareceu que o jogo seria barato. e exibe-me em lugares aonde nunca fui—por um lado. para se dar importância e. Tenho adulado em todos os tempos e modos. por outro. pode. Recusei terminantemente. UM BAILE DAS MOÇAS EM FLOR. Manda a sinceridade que eu escreva também que. Não me disse que haveria danças e o pretexto. Explico a questão da importância: desde muito tempo. vivo. o Silviano. que só admitem em seu círculo a ele. obrigando-me a acompanhá-lo a um baile. por eufemismo. nunca bajulei ninguém. A mistificação nos prestigia de certo modo e satisfaz a uma pontinha de vaidade que não conseguimos reprimir.chamei concessões. Percebendo a ação. assim. Glicério. Jandira foi quem apurou essas coisas. ele se mostra despótico. cá entre nós. apesar de tais tolices. e nós as perdoamos ao rapaz que. Falou-me que o Senador Furquim. Não me pesa confessá-lo porque. talvez para se divertir com o meu embaraço. E fica. inacessíveis. EU ME conformo com o meu ridículo. em cuja casa iríamos jogar. é inteligente. no caso. Aboliu-me o colarinho alto. Nunca chaleirei políticos. como esta noite. Faz-nos passar por monstros literários.

entre Emília. Cantavam. quando o juiz municipal de Vila Caraíbas ia reclamar contra o barulho do instrumento. assim. à moça Carmélia. Receber o calor dos novos seres e sofrer-lhes o contato ainda é pior que o frio de uma velhice que nos espreita. o gabinete do senador. com ardor recrudescido. velhas. transportei-me a uma janela. . Havia realmente o pôquer. afastaram-se os móveis e. Prudêncio Gouveia e o velho Giovanni. O serviço público não jubilou. Minhas moças em flor de Vila Caraíbas. quando sabe que ela o engana. tinham vestidos brancos que modelavam seios morenos e castos. Francisquinha. no bom tempo das polcas e das quadrilhas. mas não jogamos uma hora. pela sensação de aposentadoria. a tirania de Glicério. A vida nos ilude cada dia. lestos e gráceis. Pouco me faz: toco trombone é para meu uso. Nada mais depressivo que sentir outras gerações surgirem depois da nossa e nos disputarem espaço. mas eu bem as via. os que vamos passando. este burocrata mestre. Por um momento. Tive inveja daqueles que as enlaçavam e as valsavam. Se algum dia caírem estas linhas sob os olhos de alguém. Mas não poderei suportar. Era uma data aniversária na casa. abandonado pelo Glicério. coletiva e móvel. porque moças e rapazes. por muito tempo. não couberam no salão e reclamaram. os caminhos para Carmélia. o melhor é esconder-se nas cavernas do peito e nelas procurar o panorama do seu tempo. nem há dúvida. para festa dos olhos e malinconia do espírito. O baile me deixou miserável.Mas o medo de descontentar o meu tirano e de fechar. Eram também ágeis. aparecidos às dúzias. tomando um automóvel. a um canto. Meu lugar é outro e meu clima é bem diverso do desses salões a que ele me transporta. que andavam aos bandos e formavam grupos indemarcáveis onde se operava a translação contínua de uma beleza fluida. Moças proustianas em flor. hoje outoniças. ao luar. e foge sem dó. Traziam-me uma imagem da vida que foge. Mas a vida está me encostando. tocamos para a casa do senador. como dizia mestre Rizério. que ainda alcancei. Meu lugar é nesta Rua Erê. A quem vai passando. As moças não me notavam. idiliei ao pé de um jasmineiro. inefáveis modinhas. mas nós a queremos. rirão de minha literatura sentimental. tal a das virgens da praia de Balbec. Ai de nós. Compreendi a necessidade de fugir às moças em flor e. assentei-me em uma poltrona. experimentei uma transfiguração: senti-me em Vila Caraíbas. Tome. ainda. como o amante que ainda mais ama a companheira. em particular. fez-me ceder às suas insistências e. também. Dissolveu-se a roda.

Achei péssimo. em que pese à minha percepção do ridículo. que me fale sobre a moça. na Seção. não serei a pessoa menos equilibrada desta casa. Não me animo a pedir-lhe. ou a tenho cruzado. e escrevo. de dia. de pintos. bom camarada. onde passará toda esta semana. IDIOTA. que ele me diga espontaneamente qualquer coisa. Tenho esperado. isso me seria indiferente. Se eu tivesse dez anos de menos. Aos vinte e oito anos eu poderia (não sendo apenas amanuense) pretender essa Carmélia que não terá chegado aos vinte. por isso. § 20.§ 19. É uma idéia bem fora do comum. Passo o dia todo a seu lado. O que Francisquinha faz é. é de todo descabido e Glicério haveria de rir-se de mim. com o que irrita a cada instante a galinha mãe. ouço-lhe mil ninharias sobre a vida da sociedade e sobre rapazes ou moças que conhece. na Rua Paraibuna. IDIOTA. de namorado aflito. seu propósito de ir ao Rio. aos trinta e oito. mais extravagante que estes devaneios meus? Abandonou os ratinhos (ou melhor. agora. Mas. Vive a dar cafiaspirina aos pintainhos. idiota. nesta altura dos acontecimentos. Deus sabe quantas vezes tenho passado. minha situação é essa. mas que não excede os desvarios que ando praticando. mas o demônio lhe fecha a boca. muitas vezes. nesta obsessão tola em que vivo. não digo uma aproximação—com que já não sonho—mas pelo menos referências ou informações a respeito de Carmélia. a viagem me aborrece. GLICÉRIO comunicou-me hoje. Pergunto a mim próprio se. por uma semana. Vai viajar agora e teremos sete dias durante os quais não haverá nem mesmo esperanças. . GLICÉRIO seguiu ontem para o Rio. não se recusaria a servir um namorado em aflição. quando não me enojo. SILVIANO E O PROBLEMA FÁUSTICO. mas. Noutra ocasião. horas mortas. venceria a timidez e atacaria o assunto: estou certo de que. diretamente. Pegou um colchão velho e tenta fazê-los dormir nele. idiota. Eu próprio me tenho rido. dentro de casa. eles lhe fugiram) e cuida. só para ver a casa. IDIOTA. porventura. Nada mais lhe arranquei. Pois. além das palavras ditas no momento em que passávamos em frente da casa da Rua Paraibuna. Será mais uma semana de atraso nas minhas tentativas para dele obter. à margem destas páginas: idiota. esperando ver a moça. dizendo que se acham gripados. no que se refere a Carmélia.

Continuo a alimentar-me. encontra temas para nos ocupar a atenção e desviar-nos de uma idéia que nos amofina. Sensibilidade:—Tchaikowsky—Chant sans paroles. É ela que passa a mão pelos meus cabelos e pergunta:—Que tens. Bem agem aqueles que acorrentam os homens e lhes dão um duro trabalho. Como demorasse um pouco. mas faz que Carmélia entre sutil por uma janela da Seção e pouse a meu lado. A docilidade dos fantasmas! Já não a procuro com angústia: é ela que vem a mim. pela importância que assumiu em minha vida. e teremos o anarquista. a culpa é da Seção do Fomento. e pôs-me à vontade no escritório.Será uma semana difícil para mim. 23 de agosto de 1935. A visita ao Silviano transformou uma noite que se anunciava péssima em bem-humorado serão. Às vezes lhe tenho ódio. ao chegar. que era a última. Joana disse-me. O que nos vale são as mágicas. entre mil contrárias. Belmiro? (Como lhe ficaria bem tutear-me!) Foi assim que passei o dia. melhorei e. a ausência de uma possibilidade. Deixem-no folgado. . submissa. com receio de que fosse pilhado nesse ato desonesto. Passei o dia todo a escrever no papel: Arabela Borba. cada dia. afinal. com medo da solidão. Meu ócio não traz fermentos de anarquia. na mesa ou nas estantes. copiei-a às pressas. e a causa não foi outra senão a ausência do peralta. Não sei até onde irá esta fantasia de amanuense ocioso. e fiz uma descoberta sensacional: a do Diário do Silviano. e a privação de sua presença me desespera. de conversarmos sobre a moça. o poeta. Eila aqui reproduzida: TERMOMETRIA DE UM ESTADO PSICOLÓGICO Data:—Domingo. que há em nós. Para a tarde. É só espairecermos um pouco e o prestidigitador. Tolices. não fizesse suas mágicas. Não o achei em casa. Tempo:—Primeiras chuvas de 1935. o Fáustico—0 amor (vida) estrangulado pelo conhecimento. que não fomenta coisa alguma senão o meu lirismo. fui-me entretendo em folhear livros apanhados aqui e ali. Carmélia Borba. Estou pensando no que seria de nós. bem o sei. se a noite não sucedesse ao dia e se o espírito. que ele não tardaria. Abrio na página marcada. porém. Carmélia Miranda Borba. à noite. fui atrás do Silviano. Problema:—O eterno. da esperança de ouvir-lhe algo sobre Carmélia. No fundo. de mansinho. à sua espera. mergulhado na sandice. isto é. Hoje o dia me pareceu insuportável na Seção. o céptico e outros seres que perturbam a vida do rebanho. e achando-a extremamente curiosa.

acontece que às linhas reais de um episódio ele acrescenta uma extraordinária riqueza de pormenores imaginários. será preciso que.) O que lhes parecerá cômico. julga-o um mistificador. perco a noção de "ser" para ter apenas o pressentimento de que lido com algo extrahumano e puramente cerebral. Florêncio. espaçadamente. quíntupla de um fato. mas é que viu ou ouviu por um processo psicológico menos fiel que o nosso: abundantemente se incorporam às percepções. qualquer coisa como um conflito de paixões que transborda das fronteiras do indivíduo. sobre uma ocorrência qualquer. mas como . formas especiais que ele lhes empresta. Parece-me que não se trata de um gênero comum de mentira e que. é um dos muitos aspectos curiosos do Silviano: a impossibilidade de se obter dele informação direta ou exata. piano e orquestra. desde o ridículo até o espantoso. O que desorienta o Florêncio. Freud. é talvez simplesmente trágico. cinco Silvianos presenciaram aquele fato. Silviano chega às vezes a ser exasperante. acerca de qualquer coisa. Chopin—Concerto—opus 21. que ele tem das coisas. Se nos dá uma versão dupla. a fim de conseguirmos uma versão média. elementos próprios de sua imaginação. de uma unidade—mas de um ser múltiplo ou. É um recriador e vê-las-á não como se apresentam. fá menor. em Silviano. Reproduzirá com honestidade o que viu ou ouviu. pelo contrário. possivelmente veraz. Leituras:—Amiel:—Journal intime.Beethoven—Concerto n. Há nele uma nebulosidade permanente. antes. Na verdade. é porque realmente dois. Mas o que Florêncio e Joana não compreendem é que a mistificação. dez ou vinte vezes. em alemão. Sabe quanto é precária a tentativa de sacar um depoimento preciso do marido. me acho em presença—não de um indivíduo. Não conheço criatura mais complexa. nesta página.° 3—Adágio. Outras vezes. daquilo que desejamos saber. Estranho homem. lhe pecamos nova narrativa do acontecimento. Silviano é exato no que diz. Silviano. logo de início. três. E é divertido ver-se o ar céptico que Joana assume. Previsões do clima mental:—Más. nada tem de comum com aquilo que entendemos vulgarmente por mistificação. Se nos contou um fato que nos interessa. Maranon:—Amiel. E há de tudo nele. tripla. em frente dele. em sua simplicidade. Esquecimento. Flotow—Marta—ópera-cômica. Às vezes tenho a impressão de que. quando o interrogamos em sua presença. cada um a seu modo. (Seguem-se palavras ilegíveis.

ora escritas em alemão. Voltando ao Diário. mas. no momento propício. Esqueci-me de dizer-lhe que Mamãe chega amanhã. conversa muito interessante entre o Professor Otelo e outros da Universidade. criador de um sistema de mistificação longamente desejado e encontrado. você no meu antro! Galernos ventos o trouxeram. mas Joana. mais tarde. e denotavam grande expectativa em torno de opúsculo seu. visando a esconder-se da Joana e dos estranhos. pareceram-me sinceras. e fica uns dias conosco. o esboço. eu encontraria. Escute. depois.. Deixou que o marido se preparasse para sair. Falavam a respeito dele. manhosa e songamonga. me disse que "o nosso amigo Abundando" lhe contou ter ouvido. com aquiescência da Joana. Você já vai? Espere. pois. que andou a bebericar com o Florêncio. Ouvi. Estava pensando em você! Contou-me. a arquitetura. outro dia. que mora em Sabará e queria passar uma semana em casa deles. nem mugiu. reforçar os seus títulos na Universidade." E ele não tugiu. em casa de Jandira. portanto. Com sua lucidez. por certo. uma concessão especial: ser permitida a vinda de sua mãe. repetir-lhes-ei que a página será trágica. nos mentia.. As mentiras deixadas em casa de Jandira são daquelas que pertencem ao processo de recriação do Silviano. ora em latim macarrônico. Humorista. em vez de cômica. Redelvim diria que Silviano representa perante si mesmo. com essa beatitude que o sexto ou oitavo chope nos traz. talvez o perfil nítido desse singular histrião. —Olá. Ou talvez dissesse que ele compõe essas memórias com a esperança de que o caderno íntimo algum dia venha a cair sob os olhos de alguém. que exerce o teatro gratuito e interior para uso pessoal. soube fazer a transação. deu o golpe: "Ah!. ora num alfabeto cuneiforme.. Aquelas páginas. e procura iludir-nos.. ao cabo de contas. com tal trabalho. no dia seguinte. Se algum dia pudesse decifrá-las. que fora à casa de Jandira. para que o Reitor . achando-se a mulher informada de que a reunião tinha caráter inofensivo. amigo Porfírio. num café. dando-se por mentiroso consciente. embora não o possa evitar. para uma platéia futura. Silviano não tardou muito. indecifrável. à hora em que este punha o chapéu na cabeça. Exibe-se. Silviano vota horror à sogra. Silviano espera. dentro da nebulosa perturbadora. como de costume. tal como fez. tudo isso. Acrescentou que esta pretendia obter. Vi que esta noite não brigaram. achou mais interessante figurar a si mesmo uma fugida sem o consentimento da mulher. e que é um estudo sobre o suicídio. como cabotino consumado. Vinha alegre. percebe o fenômeno. atualmente no prelo. . de sua própria boca.. muito satisfeito.gostaria que se apresentassem. Dizendo ali ter estado sem que a mulher o soubesse. Mas estou certo de que não é assim.

como ei de tantos hombres. interrogativo. homem de planície. quando disse que o "mito Donzela Arabela" é um símbolo fáustico. Lembrando-me da página do Diário. Só vive lendo romances. de algum modo. Virou-se. Creio que em uma revista literária .lhe melhore a situação. estrangulado pelo conhecimento. Esta noite. Silviano arregalou os olhos: —Onde é que andou escarafunchando isso? Sim. Apenas me pareceu que essa aspiração do imaterial e do intemporal feminino. é. Incomensurável! E traduziu para mim o trecho do Also sprach Zarathustra. para cá. Espere. —O mito Donzela Arabela é um símbolo fáustico.. Mas. Foi a uma gaveta. segredou-me. el problema de Amiel. Porfírio.. de súbito. vista momentos antes. era Ia estrangulacion dei amor por el conocimiento: ei problema de Fausto. mostrou-me. a vida que foge diante do asceta! E. respondi. ande em tais altitudes. uma inquietação fáustica. continuou: —Puramente fáustico! Você já leu Spengler? Certamente não leu. o problema fáustico. O amor.. encontra raparigas que bailam numa clareira. piscando um olho.. Sim. por motivos especiais. para mim.. Isso é um mal incomensurável. não quis significar que você. consultou as fichas. na síntese de Salvador Albcrt. em que o herói. pareceu-me afundado em altas meditações. de Goya. —Elas representam a vida... Foi à estante e de lá retirou um livro. com um gesto espetacular: —Isso deveria ter sido escrito por mim. ... Andando majestosamente para lá.. —Veja que página. A alturas tantas ficou um pouco melancólico.... uma cópia da Maja Desnuda. também minha. depois. —Bem. atravessando a floresta com seus companheiros. Saltando de assunto para assunto. pensara muito em uma confidencia que lhe fiz há tempos. vida. "Presente de uma jovem amiga". respondi-lhe com ar de quem procura recordar qualquer coisa: —." E continuou: —Onde viu isso? Onde? —Não me lembro. Porfírio. Silviano estava no seu grande estilo. . dizendo que ia ler-me algo maravilhoso. É este. o fáustico de Amiel se enquadra no definido por Spengler. apanhou uma c leu: "En efecto. Problema fáustico. Por mim! Fui roubado! .. que página! Puramente fáustica! Infelizmente você não entende o alemão. Porfírio! A um olhar meu. dizendo-me que.

que é de origem cósmica. que minha melancolia tenha vindo simplesmente da atmosfera. Quanto a mim. mas nem sempre se fica macambúzio: Florêncio. Tomado o café e pedidas a Joana notícias da prole. É dia que ninguém esquece. A loucura de Francisquinha parece atenuada. O homem é um animal definidor. Depois de nossa última conversa. para frente. muito mais meteorológicos do que supomos e tudo o que modifica a atmosfera. quando ela me barrou os passos. com certeza. muito conhecido. Somos. que Mariana anda restringindo. no coração. naquele ano. despedi-me do filósofo. porque é dia de balanço. amanheci com certo peso. achando bonita a expressão. Aludia ao aniversário. para definir certos estados de espírito. desde a chuva até a música. na verdade. e Emília. entendi de sair.—Sossega. À melancolia do amanuense. UMA DATA IMPORTANTE. Aliás. e ia pegando o chapéu. homem. O déficit é grande. menos taciturna. não se esqueceu do peru tradicional. § 21. e uma gripe pneumônica . E o dia de hoje amanheceu pesado como chumbo. no curso destes últimos anos. Como estivesse sem fome. para trás. Não se resolve nada. Um anjo pacificador desceu sobre as coisas. Grande coisa é encontrarmos um nome imponente. a inventariar o realizado e o não realizado. pouco tempo depois de haver chegado da repartição (onde recebi numerosos abraços). entrando com uma bandeja de café. Não acredito na sinceridade daqueles que dizem nem sequer perceber a passagem do aniversário. abre-se mais: foi-me extremamente gentil. aqui em casa tudo vai bem. também. o peru foi omitido. puxou-me pela manga do paletó e levou-me ao quarto grande. Eis uma data importante neste solar da Rua Erê: completo 38 anos. que foi que aconteceu? disse Joana. por gestos. provoca alterações em nossa substância espiritual. como se diz em Vila Caraíbas. mas ficamos satisfeitos. Viva a tradição dos Borbas! Não esqueceu mesmo não. a maginar. só em 1930 e em 1933. Olhamos a vida. a folhinha pendurada na parede. VINTE e cinco de agosto de 1935. recebe-o com boa disposição: é mais um pretexto para o chope. Um acesso muito forte de Francisquinha. à tarde. por exemplo. juntaram-se hoje as angústias especiais do aniversário e talvez um pouco daquilo a que o Silviano chama "inquietação fáustica". velho profissional da tristeza. Emília. para me mostrar. dei para me sentir um tanto ou quanto fáustico. meio aflita. Pode ser. Entretanto.

prodigalizei-me libações. e o caso assumiu um aspecto quase doce. ao tomar comigo as refeições. por último. às vezes. E tudo isso compõe. tive. Logo depois que voltei. a lembrança das comemorações domésticas. após ligeiro discurso às velhas. ONDE SE APRESENTA UM REVOLUCIONÁRIO. transportando-me para um plano onde as coisas perdem o travo amargo. as canecas de vinho realizaram uma operação benéfica. a Jandira e o Florêncio. Sentindo-me tão bem disposto. Retiraram-se. quase feliz. que o anteparo de papelão foi hoje suprimido (comumente. Florêncio abriu-as com ternura. cujo autor é ignorado. confeccionados segundo um rito especial de Vila Caraíbas. e se persigna. o interesse vital. na manhã de hoje. e. Tratei-os bem. a alma relaxa-se. assim foram aparecendo o Silviano. esquecendo a dispepsia que acompanha os Borbas há tempos imemoriais. ainda. compareceram-me os amigos Giovanni e Prudêncio Gouveia. Arabela hoje não me está doendo muito. sobre a mesa. no outro. ou principalmente. mesmo de pessoa como Emília. deixou-me . com um litro de uísque mandado vir do fornecedor e algumas botelhas de cerveja de sobressalente. as mágoas se esquecem.de Emília. um anteparo de papelão). Jantei amplamente. em quem nossa alma não encontra ressonância. e. § 22. tem surpreendentes efeitos analgésicos. reconciliando-se com os velhos amores. Acabado o uísque. no dia natalício. tipo 1910. o peru. esta noite. outros tantos meios artificiosos que a vida emprega para manter. Nada houve de especial na reunião e a conversa correu alegre. Apreciaram muito os pastéis de Emília. Um nada qualquer. quando vê o pequeno escritório ocupado por tais clientes. impediram a comemoração a que os Borbas varões têm direito. que foi preferido por todos. Emília coloca diante de si. o Redelvim.nos vinho do Rio Grande e peixe de Pirapora. Quem se entende? A gente amanhece sombria e anoitece. A gentileza desta tarde. para não me ver. Fiquei para o jantar e a mesa me comoveu: além do peru. mas esta não apareceu para receber cumprimentos. pergunto a mim mesmo se o caso Arabela não terá sido apenas fruto de solidão e timidez. Silviano já o disse. meus vizinhos. o calor de qualquer ser humano. em nós. sem dúvida. entre anedotas. UMA CONVERSA com Redelvim. saí para a rua assobiando a valsa Saudades de Ouro Preto. Ah! Não: é um símbolo fáustico. O que não a impede de ser uma valsa deliciosa. A uns julga loucos e a outros criaturas excomungadas. Notei.

sempre que começo a meditar: perco-me num labirinto de antinomias. Supus. vem uma guerra para destruir o excesso de indivíduos que perturba o equilíbrio social. se começasse a haver prisões. Nós nos servimos um do outro. estava incluído. por exemplo. para breve. que os acontecimentos se estão precipitando e que se fala na possibilidade de uma revolução. operações da economia da espécie. seria solidário. saiu às pressas. pois a polícia vivia atenta. Elas não são. me contou ele. Redelvim. Ao contrário do que acontece ao primeiro (se acaso foi sincero no que disse) os indivíduos significam demais para mim. certamente. superpopulação. Redelvim. recolhera a relação de todos os seus membros em cujo número ele. depois. ou abstrações econômicas. E que a polícia. só cuidava da própria pele. Respondi-lhe que isso não era motivo para aflições. e o fracasso era fácil de prever. além do mais. Tratava-se de uma revolução proletária. que houvesse receios no espírito do amigo e perguntei-lhe acerca do que lhe poderia acontecer. Pensei. a fim de alcançar. que revoluções ou guerras são reajustamentos.. Talvez algumas leis. pensando que. alguma compreensão. Silviano acha. E. no Redelvim e na Jandira.. não estava a par dos planos. Ao final de uma das páginas que ficaram para trás já lhes contei o que se passa em mim. Quando há. por ocasião do fechamento da sede do Partido. deixando-me aturdido. o expediente do Banco. mesmo. ainda cedo. Os indivíduos nada significam. não sabia de nada. ainda. aliás. a civilização poderia ter. Fiquei melancólico e cívico.. que me vêm. for para colher o meu aval. E que. Redelvim ficou irritado com o meu tom e interrompeu-me dizendo que falava a sério. Mas sou apenas um falido poeta lírico e rir-se-ão das idéias.. para o que desse e viesse. . apreendera documentos. um sentido mais cordial. como eu. neste País. Respondeu-me. que sua situação pessoal não interessava e que um pequeno burguês. sempre que se trata de "sujigar a onça" (como diz o Florêncio.apreensivo. sem os cruentos conflitos que andam pelo mundo. muito claras e comumente se manifestam contraditórias. segundo seu modo de pensar. ao ensejo desse encontro. Quanto ao mais. asperamente. Ele apareceu aqui em casa. Revoluções sempre as houve e haverá. referindo-se ao ato de reformar uma promissória) e temos uma sociedade de avais mútuos. criaturas que sentem e pensam. Onde os outros vêem unidades mecânicas da massa. sobre o problema. propriamente ditas. mas ele. por um instante. meio nervoso. Quanto às revoluções. Mas o que houve de extraordinário foi que. eu vejo homens. Silviano era um reacionário imbecil.

a anotação a propósito das chuvas: "Tempo —Primeiras chuvas de 1935". que não dá para atirar bombas nem praticar atentados. falecido o velho Borba. E homem difícil. Qual a relação entre tal acontecimento meteorológico e nossa sensibilidade? Eu não saberia precisála e apenas poderei dizer que um homem rural. Foi um pé-d'água violento e rápido. Meus receios se vão confirmando.Vejo. em virtude de uma desavença com o diretor de sua repartição. Na manhã de hoje. e cujo equilíbrio sempre foi precário. que comunista. abriam covas. sabendo que a causa de tudo é o nervosismo em que vive. reservada ao plantio. Há quinze anos passados. nas aperturas financeiras e na burocracia. tomei casa própria para viver com Emília e Francisquinha. nestes últimos tempos. subiu do solo um hálito intenso e fecundante. onde os homens. até quando. gera uma tolerância grande para com os golpes que me vêm dele.. é agora trabalhado por dissensões mais profundas. As deste princípio de setembro já não são as primeiras. e passou a trabalhar somente em jornais. punham sementes e as cobriam. sensível. o homem Redelvim. o sol nasceu forte e o chão me queimava os pés. naquela página do Diário.. sua força e. o mesmo fenômeno que. despertou em mim. Por outro lado. CHUVAS DE SETEMBRO. por exemplo. Trata-me com dureza. simultaneamente. Também não levarei a sério as declarações que me fez pela manhã. § 23. Temos sido companheiros em tudo. conheci Redelvim numa república de estudantes. Dentro em pouco estará irremediavelmente dissolvido. aproximadamente. mas bom amigo. curvados. Um anarquismo lírico. Quando. mas o cheiro de terra impregnou-me as narinas o dia inteiro. eu experimentava indizível angústia que resistia a . mas determinam. com seu primitivismo. que lhe voto. após instantânea formação de nuvens. onde moramos juntos. mas não dou importância a isso. inclusive no celibato. Jamais acreditei no seu ativismo partidário. malgré lui. cuja imolação em nome de uma quimera seria uma crueldade do destino. E ele me parece mais anarquista. Deixou ultimamente o Estado. veio a chuva. que é terno. Ao passo que sentia veemente apelo da terra e um desejo vivo de evadirme para lugares e épocas distantes. seus temores. O pequeno círculo em que vivo. suponho. AGORA compreendo por que Silviano incluiu. o amigo registrou. inteligente. quatro anos. para certa gleba da fazenda velha. Este nosso anarquista tropeçará sempre no coração. adormecido. a admiração.

a uma vida inútil. sempre se sucederam outros. onde . É um narcisismo a que ninguém escapa. ANÁLISE ESPECTRAL DE CARMÉLIA. que havia dentro de mim. sem problemas. e o pouco interesse que seu regresso me despertou evidencia. Ao escrever esta página. fez-me encarná-lo nessa donzela Carmélia. porém. Já era tempo de fazê-lo. que se resume na disposição de orientar-me exclusivamente pela sensibilidade. Há solicitações graves. todas as convicções e pontos de apoio da consciência. confiei-lhe meu estado de espírito. acaso. Uma tarde dessas. Disse-lhe que me presumia um homem sem princípios. a que devemos atender. e um homem não se deve entregar.) não se pode furtar à sua própria contemplação. que tenho passado no correr dos tempos. Reajo. apenas de passageira anistia. publicar um dia este caderno de confidencias íntimas. perdoem-me os leitores as anotações de caráter muito pessoal que forem encontrando e que certamente não lhes interessarão. Uma noite de carnaval. Quem escreve um Diário (afinal. aos meus olhos. bonançosos. a mim próprio.. A solidão trabalhou. eu revivi um processo infantil e o velho mito de Arabela volveu a perseguir-me.toda tentativa de análise. lembra-me uma palavra que ouvi do desembargador Linhares^ acerca da predominância da face campesina em meu temperamento. estou escrevendo um. em encontros rápidos de Livraria. entretanto. Se. diz-me coisas surpreendentes a meu próprio respeito. e esclareceu. ou que conservava apenas preceitos morais. assim. Nosso comércio é escasso: temo-nos visto apenas uma vez ou outra. construí uma Carmélia cerebral que me causava devastações. durante os quais todos os fantasmas se desvanecem e os temas torturantes deixam a tona da consciência. GLICÉRIO chegou ontem. E criei um ser fantástico. Com uma esbatida imagem física. tal como ocorre nas composições musicais onde a frase dominante por vezes se eclipsa ou flui tão sutilmente que não a percebemos no concerto de sons. de vagabundo lírico. a salutar reação que em mim se processa. Pretendo. por detrás das lunetas grossas. cheia de sortilégios. que nem esses preceitos me restam e que o que há em mim são sentimentos de ordem moral. a meus olhos. legados pelo velho Borba. e com sombras e luzes. com virilidade. Curioso homem. O desembargador fitou-me com os olhinhos penetrantes. que não se trate. fornecida pela moça da Rua Paraibuna. Aos dias difíceis. desde que vacilaram e caíram. § 24. agora. que não tem culpa de coisa alguma. contra essa ridícula história da noite de carnaval..

Há. Tratei-o mal ontem. Aproveitemos a insônia e caminhemos um pouco. cunhada do velho Giovanni. em pranto convulso. de todo o mórbido romantismo. Sobretudo tomar um sorvete. Não pude esquecer-me dos maus momentos que me trouxe durante semanas. aliás) e as exibições em rodas sociais. quando me ocorreu algo extraordinário. encontrei-o junto à mesa da copa. e dispunha-me a sair. é contribuição do luar caraibano.só entram tênues traços da moça. já se sabe. segundo o dialeto do vizinho) passava maus quartos de hora. Não entendi bem o seu piemontês. secreção da fazenda e da Vila. Descontei tudo. sob os olhares perscrutadores de alguns curiosos que farejaram qualquer coisa de anormal na agitação da velha e em suas palavras aflitas. cal vegna veder sior Joanin que lesta a crepar de dispiazer parché ei bambin 1'andá via! Avaliem o susto que me trouxeram os gritos e a entrada espetacular da velha. A Carmélia que amei não existe. Nada tem com ela a formosa senhorinha da Rua Paraibuna. preocupado com a situação de Redelvim e de Jandira. um bar que nunca se fecha. quando me veio dar novidades do Rio. na Avenida. pois a noite está quente. hoje cedo. que me acho de ânimo isento. por causa do filho. sei lá. como dizem os cronistas sociais. Giovanni? perguntei-lhe. ponhamos de parte essa história e lembremo-nos de que não se pode ser criança aos trinta e oito anos. . Nem lhe perdoei todo o tempo que me fez perder. cabeça deitada sobre o braço. GIOVANNI E PIETRO. através dele. Agora. explorando inconscientemente minhas fraquezas sentimentais pela jovem Carmélia. DORMI mal a noite passada. saber algo a respeito da moça. entrou desabaladamente pela minha porta. Marianina. em procura desta última. Chegado à casa de Giovanni. e que eu era chamado a intervir. Saí rapidamente. —Que há. Pura imaginação: tudo se resume nisso e nada há além disso. na Seção. ou vêneto. o mais. a gritar: —Madona Santa! Sior Bermir. mas calculei que o velho Giovanni (Joanin. das noites ermas. Mas. acompanhando Marianina. pondo-lhe a mão sobre os ombros. § 25. inclusive a abolição do colarinho alto (excelente medida. vizinho de quarteirão. distinto ornamento do nosso set. E quem está pagando tudo é o pobre do Glicério. É preciso fazer qualquer coisa. reconheço ter sido grosseiro para com ele. tornando vão meu esforço para.

como se se tratasse de um poema: "Besta velha falso. ma mi son anda in fúria e giu bastonate. beber guaraná e abastecer-se de cigarros.Sem levantar o rosto. besta!" Fico à espera de uma explicação. medroso. ciao. ergueu os olhos. com o auxílio de Beppe: —El me bambin. o velho foi tomado de grande abatimento. continuou na língua engrolada. meu caro sior. e o velho explicou-me. a valer. que o garoto fazia parte de uma quadrilha de menores arrombadores.. sob o compromisso de ficar detido em casa. Um delegado. gaveva minga tanta colpa. ou talvez confundindo-me com Beppe (Giuseppe. Lendo-o. esquecendo. amigo de Giovanni. Depois de havê-lo açoitado. acompanhara os mais crescidos. quando foi ao botequim. que reproduzo agora. noto que as linhas estão dispostas em versos. no fundo do quintal. Mi voleva far dei me fiol un duttor. ciao Falso como tu Só merece pau.. em língua mais acessível. . nada furtara. em sua confusão. reconheceu-me. até nunca! Ciao. Haviam descoberto. a criança gritava que não tinha culpa. É tolice me percurar porque já estou longe. Enquanto apanhava. alta madrugada. a porta já havia sido forçada. Com a respiração entrecortada. pur un infelice! Me fiol! Me fiol! Só minga cos faro! Depois. na polícia. . Assaltavam botequins para comer gulodices. em sua amargura. mas. com uma vara de marmelo. o sapateiro). e lhe mandaram vestir uma saia. porque lhe chamaram "mocinha". que não entendo seu dialeto. que o papel amarrotado era um bilhete deixado pelo bambin. sior! Minha presença serenou-lhe um pouco o espírito. obteve que o menino fosse entregue ao pai. o velho estendeu-me nervosamente um bilhete amarrotado. seu patrício: —Son un disperat. Sim. ao fugir de casa. puareto. diz-me. landa dré ai auter. Os chefes da quadrilha foram remetidos para um abrigo de delinqüentes juvenis. mas Pietro era o mais novo deles e ficou provado que agira induzido pelos outros. até novas instruções.

Só depois de fatigado de surrar o filho. pude perceber a profunda revolta operada na consciência do filho. Era a primeira vez que o castigava assim. fugia de casa. E não será difícil recambiá-lo à casa. Traz-me uma botelha de Chianti ou de Barbera d'Asti. De vez em quando me aparece em casa e. que o Dr. não atribuí importância ao caso e achei tudo . Dois dias depois. pelo Natal ou Ano-Bom. Tinha amigos na polícia e haveríamos de achar o garoto. deixando aquele bilhete. Vou comprar-lhe cigarros e ele sempre me detém. seu melhor companheiro. Conheço-o há vários anos. Tinha doze anos. Pelo que me contou. Imagino o drama do velho. pude ir à casa de Jandira. sua vida estará irremediavelmente des troçada. às linhas finais das notas ontem escritas. falando-me de uma coisa ou de outra. já um pouco tarde. NOVA CONVERSAÇÃO COM JANDIRA. Mas o velho estava como que surdo. ao mesmo tempo com remorsos. contando-me histórias do seu Piemonte. pedindo-me notícias de Francisquinha. Se assim é. pois a filha e a mulher morreram. que um investigador da polícia me declarou haver indícios de que o pequeno Pietro fugiu para o Norte do Estado. e fustigava sem parar. Para ele é que trabalhava. passas e nozes. Se o filho não volta. azeitonas. Giovanni estava agoniado. e com horror pelo que este fizera. É um camarada alegre. Queria fazê-lo doutor. Quase que diariamente temos nosso dedo de prosa. Ficara prostrado. Prometi-lhe que o auxiliaria. aquela havia já três anos. também italiano.limitando-se a ver os companheiros beberem e tirarem cigarros. § 26. D. embora às vezes lhe desçam sombras. por haver maltratado o menino. certamente para esperar a moça—. Pereirinha lhe dera um serãozinho. e esta. Tratava-se de concluir um urgente trabalho de datilografia. sua visita é tradicional. desde que me instalei na Rua Erê. dez. ESQUECEU-ME acrescentar. Pietro—repetia Giovanni entre soluços—era filho único. Hortênsia—que ainda não se havia recolhido. Bebo o vinho e distribuo as nozes pelas crianças da redondeza. Este problema ocupou-me ontem o dia todo e só à noite. Preocupado com Pietro. onde mora seu padrinho. talvez tenha ido para Diamantina. Disse-me a tia. foi que as palavras deste puderam penetrar-lhe um pouco no espírito. Não a encontrei. ao pensar na mulher e na filha mortas.

Esse Dr. mas o seu modo de olhar para baixo e para os lados não me enganou. —Só um idiota poderia supor que eu me vou vender a seu Portela. Respondi com uma brincadeira desajeitada. minha imaginação ensaiou para as virgens que passaram pelo meu caminho. contar-lhe a conversa havida com Redelvim. Mas o gesto morreu no pensamento e os beijos ficaram recolhidos. teremos futuras complicações. amorosos ou simplesmente ternos. Fez por esconder o mau humor. é casado. mas. Atirar-me-ia à cara o primeiro utensílio que encontrasse à mão. foi isso o que eu pensei e me fez procurar Jandira. Jandira. Não tem outro assunto? Esquecendo-se das confidencias que me fez há pouco tempo. Desde que se inventou a datilografia. só me cumpria retirar-me condignamente e procurar novos amores. vulgar. antes de ir à repartição. que. de modo algum. calculei que se esses serões se repetem. então. e as mulheres (de preferência moças e bonitas) tem sido ocupadas nesse ministério. estávamos a conversar despreocupadamente e. não raro trágico. que acordou tarde. que não conheço. as complicações se multiplicaram na face da terra. não fazem senão aguçar-lhes os apetites ou desenvolver neles certo gosto. adulei-a. Disse-lhe. Daí a pouco. que acreditava serem ela e o Redelvim as criaturas mais .muito natural. ou à noite. pelos virgíneos amores. isso não é obstáculo. por que me faço difícil. não estava para conversas. da parte de Jandira. em vez de fazê-lo depois. Perguntou-me. disse-lhe algumas tolices para amainála. Deus me perdoe. Pensando mal. excluída a hipótese de uma reação diversa. —Tá ouvi falar nisso. o mais vago que fosse. meditando sobre o assunto. tal a ternura que ela me inspirava naquele instante.tive oportunidade de. com desprezo. os casados. Não se mostrou surpresa. tendo ela optado pelo quarentão (o de que lhes falei atrás). imune a qualquer desejo amoroso. agastada.. esta manhã. porque não ficaria. para lhe desfazer o mau humor.. respondeu-me. por que ando tão sumido. ou pensando bem. Chamei-lhe Jandirinha. Só hoje cedo. Pereirinha. terminou. porém. Tive ímpeto de passar-lhe a mão pelos cabelos e (por que não?) de dar-lhe uris beijos que não seriam senão paternais. simulando ar desinteressado. como todos os outros que. Os advogados sempre têm arrazoados urgentes por fazer e vivem às voltas com os prazos processuais. continuou: —Vocês acreditam que são absolutamente necessários? Não se pode viver sem homens? Cada qual é mais grosseiro. As impossibilidades próprias do estado civil deles. Tanto melhor para mim. Minhas palavras bastaram.

porque. Certa vez Silviano. Emília. não suporta um olhar de desejo. IDÉIAS DA EMÍLIA. mas a contradição é da vida. não se esquecendo de puxar a barra do vestido que. de boa vontade. Recusei várias vezes meu consentimento. E.. lhe deixava os joelhos de fora. a pretexto de despedir-se. reage. zombeteira. Entretanto. desviou inteiramente o curso do meu pensamento. deixasse de imprudências. porém. mas está sem nenhuma disposição de meter-se em conspirações. Já não falava. Pereirinha. concitando os homens à luta. tem admitido que abordemos temas perturbadores e. um dos quais é médium. porém. Voltei tranqüilo para casa. em relação a Jandira. Veja que chique: a jovem Jandira. sempre que está em xeque. em chamarmos um padre. empunha a bandeira vermelha. voltou. Movimentando-se por aquela forma. a imitar a cena imaginada. Emília. mas a polícia poderia pensar de outro modo. Jandira desnorteia a gente. logo depois. etc. insistia em promovermos a expulsão do espírito. Ruboriza-se. § 27. e compôs cuidadosamente as vestes. HAVENDO Francisquinha piorado de novo. compõe-se. portanto.inofensivas do mundo e nada terem os poderes públicos que temer de seu comunismo meramente literário. se assentou de novo. passeando para lá. Não lhes contei que é um dos meus fracos dar certo tom picante às conversações com moças donzelas.. Em palestra. mas defende-se como leoa. Dificilmente isso se concilia com as minhas inclinações líricas. numa atitude garota. Conviria. para cá. para o exorcismo. se for preciso. ao assunto. cai abatida pela metralha. tentou abraçá-la e levou carão. põe-se à frente do bando. objetando.. Fico lisonjeada com essa idéia de que sou conspiradora. Nada terei que temer. quanto ao Dr. sendo curto. que essas práticas eram contra a religião. E. Mas decerto notou que eu lhe observava as formas com impertinência. que fosse discreta. que a princípio cedeu. Bem. Josefa lavadeira convenceu-a de que seria melhor trazer aqui três espíritas que conhece. para dissuadi-la disso. dizendo-me que a Zefa garantira que não. É partidária do amor livre e de todas as outras liberdades. agitava umas carnes saudáveis e fazia nascer em mim uma ternura nada parecida com a que me despertara momentos antes. Ela não o confessa. ouve anedotas fortemente temperadas. não sejamos apressados em conclusões. —Foi para isso que veio aqui? perguntou-me. vários padres . desde alguns dias.. a fim de se realizar uma sessão com a presença da doente.

Que é que vocês querem? O presidente respondeu: —Pai João. meus filhos. fiquei a um canto. pondo-se em transe. desejaram-nos paz e se despediram. O médium levantou-se. todos rezaram padre-nossos e ave-marias. com a outra mão. respirou profundamente e sob as preces dos circunstantes. Dentro em pouco. Estava terminada a sessão. já no portão de casa. ouvi Emília dizer: —Chica vai melhora com o dijitório de Deus. Vendo que estava inteiramente obcecada pela idéia e não seria prudente contrariá-la por mais tempo. procuravam mantê-la naquela posição. Pobre mana! . Foi o que se fez hoje. nossa pobre irmã Francisca vem sendo perseguida por um irmão transviado. por Josefa e Emília. pela boca do médium. com alguma dificuldade. O espírito saiu. e Francisquinha foi levada para o quarto. e. Pai João está aqui. também. declarou que iria fazer uns passes e que todos deveriam ajudá-lo. Depois. Colocando a mão direita por sobre a cabeça da mana e andando em torno dela. não mais a persiga. cumprimentaram-me cerimoniosamente e assentaram-se em torno da mesa. o homem voltou ao seu lugar. Os espiritistas tomaram uma xícara de café. o médium começou a agitar-se. depois. mãos nos seus ombros. observando o rito. Inclinou. dela ouvindo um histórico a respeito das perturbações da mana. a quem falta a luz.admitiam o espiritismo. para meu giro habitual pela Avenida. que o irmão. cedi. ao lado do médium. tirando-lhe a razão. Emília e Josefa. a cabeça e começou a falar: —Deus esteja nesta casa. Um. que muito dano lhe tem feito. fez. com suas orações. tornou a si. concentrando-se. Quanto a mim. interrogou a Josefa sobre o caso. Pai João. Em seguida. Dispus-me também a sair. Que o demônio da lavadeira arranjasse a reunião. Às oito da noite. gesto de lhe tirar do corpo alguma coisa. que me disseram ser presidente da mesa. De pé. trouxeram Francisquinha e puseram-na em uma cadeira. os homens chegaram. Pedimos vossa ajuda'para que ela se livre desse mau espírito. enquanto Francisquinha foi. levantada e posta ao meio da sala.

A um olhar interrogativo. Tal manobra não a surpreendeu. Arranja-se outro. também. Jandira esperou-me hoje à saída da repartição para jantarmos juntos. seu jogo foi o de um conquistador apressado. Mas o Dr. já a amava. E. técnica. já que era um impedido. a fazer-lhe propostas desonestas. ar donzelesco e . atendendo a um convite da amiga. Sentados à mesinha ao ar livre. o Dr. —Isso é o menos. Jandira desabafou-se. —E você é uma. Desde muito tempo. Muito fora dos seus hábitos. apertos de mão. que percebo. pois não era a primeira vez que se via assediada por homens. casados ou não. Por várias vezes. quando um homem. Passou a suspirar.. que observou ainda não ser hora de jantar. É preciso que as donzelinhas tenham. guiando uma baratinha de luxo. explicou Jandira que o fulano era o tal advogado. Sempre haverá um homem e uma datilografa. Declarou não poder viver sem ela. Não calcula como é difícil a gente sustentar esta defesa permanente. compreendi o resto. ela ameaçou deixar o serviço. Nao basta a virgindade.§ 28. Confessou-lhe que. Nos últimos dias. Pereirinha a perseguia. não saber o que irá acontecer. o pirata mudou de. Dr. ao ouvir palavras de repulsa.. Pereirinha. de tenacidade fora do comum. Era um sujeito incrível.. salvou a situação. Sei que não sou. Esse período de suspiros durou uns dois meses. Pereira. FOI BOM nada ter concluído. em um restaurante. PROBLEMAS DE PROLETÁRIA. O rumor dos passos de um cliente. Durante o trajeto de bonde não conversamos. A princípio. Estávamos à espera de um bonde. Esse foi. abraçou-a à força. me atraiu a atenção. o sedutor foi mais atirado. entrara num período de ação e vivia procurando contatos. Pereirinha.. Queria frutos imediatos. —Em resumo. que reconhecia a ilegitimidade de qualquer pretensão sua. pois está desesperado. Aquelas a que vocês chamam "moças em flor". respondi. deixei o emprego. porque. De um relance. tentando beijá-la.. dispensando-me de fazer conjeturas sobre os motivos que a teriam levado a procurar-me. Estava apaixonado. —Mas o problema continua. por passar muito vagarosamente junto de nós e ter voltado duas vezes. quanto ao Dr. Alguns mais ousados se aventuraram. Depois. a dizer que não exigiria nada.. e conversarmos à vontade. ao chamá-la para o escritório. pequeno. com ela desci na Avenida para irmos ao Parque. —Não. que lhe dirigi. interrompi. que entrava na ante-sala do escritório. Há uma distinção. Hoje. compreendendo que ela não se prestava a ser objeto de divertimento. a que ela deu a competente resposta. mesmo. terminou Jandira. onde costumamos reunir-nos. aliás. um infeliz.

Querendo mudar o tom da conversa e dissipar a melancolia da amiga. de cuja margem pende um salgueiro. Belmiro. Afogar-se é mais romântico. Despedimo-nos. Protestei inutilmente. não. pelo menos durante a crise atual. Afinal. É UM ESPÍRITO REALISTA. deliberei passar antes pela casa de Jandira. É mais do estilo belmiriano. fui folheando o livro. Não sei como pude resistir sempre. Durante o trajeto de bonde. Declarando-me não conhecer o episódio de Ofélia. Acontece que sou de carne e osso. com outro Pereira qualquer. a fim de levar-lhe o Hamlet. de fazer um disparate. dizendo não ser fácil aceitarmos que a pobrezinha tenha tido tempo . Não gosto do Pereira. às vezes me dá vontade de acabar com isso. Afogar-se. irmãos. E amanhã será a mesma coisa. dizendo-lhe que de fato era mais romântico e também mais conforme à técnica da tragédia. Jandira calou-se. amanhã. É um inferno. já quase com a expressão costumeira. talvez aborrecida comigo. de um garanhão. num regato. ontem pro metido. § 29. regado a vinho. quando fomos jantar. que é um misto de atrevimento. Hortênsia que não deixe o frasco de sublimado perto de você.. e inspire a vocês uma série de lendas românticas. sua fisionomia se abriu. pois meu propósito não era senão afastá-la dum pensamento amargo. Continuou: —Essas fulaninhas não conhecem o nosso problema. Não têm a companhia forçada de um patrão. respeitadas. era o único homem que estava junto de mim. disse-lhe brincando: —Vou recomendar a D. mas aquela insistência. E respondeu-me: —Com sublimado. fortuna—que as torne difíceis.. Belmiro. Jandira não é um temperamento poético e há de fazer restrições à descrição da morte de Ofélia. já não havia nuvens em Jandira e o repasto foi alegre. de finura. no que faria injustiça. um exemplar do Hamlet. Depois. um animal. Afinal. como Ofélia. de graça.sejam protegidas por todo um sistema de fortificações—papais. Olhe. prometi levar-lhe. SENDO cedo para ir à Seção. Aproveitei essa oportunidade para nos desviarmos de uma conversa melancólica e continuei no mesmo tom. depois. ficando combinado que serei mais assíduo em sua casa.

durante dois ou três anos. Das pessoas que aparecem. não houve suicídio. E Glicério se permite brincadeiras que eu próprio não ouso: chegou a dizer à mana que ia . afinal.de trautear fragmentos de velhas canções. Como poderia adivinhar meus sentimentos. Havia ido a uma aula de taquigrafia. É. em tal conjuntura. Se não mudar de idéia. a situação de constrangimento que se criou entre nós dois. Jandira impugnará. A dar-se crédito ao depoimento da Rainha. na esperança angustiada de aproximar-me de Carmélia. Hortênsia. pertencendo a uma casta diversa da nossa. também. e freqüentando-nos apenas por esnobismo. que de nada me serviu no transe. fazendo-a cair na torrente. quando a virgem subia ao salgueiro. como já disse. concedi-lhe. Tendo-se arrefecido o meu entusiasmo pela jovem Carmélia. durante o expediente. § 30. nunca me despertou senão um interesse superficial. É verdade que esta lhe responde apenas por monossílabos às perguntas. mas noto que fica serenada com sua presença. Não a encontrei em casa e deixei o livro com D. em vez de cantar. Talvez até lhe conte a história toda. senti-me trapaceado pelo janota. pretendeu inutilmente. em poucos dias. É que. que considera os poetas "traficantes de tóxicos". com o seu auxílio. mesmo louca. sustentado? pelo capitalismo para entorpecer o espírito de rebeldia das massas. procurarei desfazer amanhã. não sei por que artifícios. um excelente moço e nenhuma culpa tem de não me ter sido útil na aventura em que muito me aproximei do herói manchego. se os ocultei obstinadamente? Exigi-lhe um absurdo. Mesmo porque. reservo avaramente minhas disponibilidades de tempo para velhos amigos. é a única tolerada por Emília. Mesmo o papagaio não o hostiliza. A PROPÓSITO DE GLICÉRIO. não é minha intenção deprimir o rapaz e enaltecer-me. nossas relações. sem saber a que atribuir minha súbita mudança de atitude. de vez em quando. Objetará que. Arrependo-me. acha-se agora sob a esfera de influencia do amigo Redelvim. uma camaradagem estreita que. Ao dizer isto. quase de chofre. cortando. enquanto se afogava. Soube conquistá-la. GLICÉRIO olha-me espantado. Antes de sua partida. impermeável aos símbolos e à linguagem da poesia. aqui em casa. Além disso. certamente por solidariedade com a velha. vejo agora ao reler o belo episódio. uma pessoa deveria gritar. a inveja do galho: é um espírito realista. e reagi de modo primário. de inveja dela um galho se rompeu.

suprimiu. na cozinha. delirante de alegria. Glicério soube corresponder-lhe às atenções e deu-lhe um corte de cetineta (que dificuldade para obter esse tecido caído da moda!). O mimo. Com o dinheiro que levou consigo. cortou-me os rodeios e desculpas prévias: —Não carece falar não. o Indalécio—é como se chama —fez-lhe uma advertência qualquer. quando mais comunicativa: Se "alguém" quisé almoça. o famoso anteparo de papelão. que não ignora essa rixa. Sebastião.. aqui. na expectativa de uma explosão.promover-lhe o casamento com o sacristão da capela de S. ou apenas na Páscoa). achando-se este comigo. E. Há alguns anos. Quando Glicério. convidei-o para almoçar. para avisar que Pietro está mesmo em Diamantina. que já mencionei em outro ponto destas notas. Quando vai à capela (duas ou três vezes por ano. ao que parece. à hora do almoço. Pensa que a gente não entende das coisas! Pensa que a gente não entende das coisas! Coerente em suas demonstrações de apreço ao Glicério. em suma. nesse dia. depois de ali . tomou uma passagem de segunda classe para Corinto e. uma outra para Diamantina. pouco depois de nossa vinda para a Rua Erê. porque Emília não simpatiza com o homem e nem tolera essa pilhéria de casamento. se se encontra com o sacrista volta para casa enfurecida. Bom rapaz. em vez de simplesmente bater um garfo nos pratos (como faz. buliu com Emília a respeito. o almoço tá na mesa!. também. Acredita o velho que a compra de dois bilhetes. consolidou sua situação perante a velha. Ao dirigir-lhe a palavra. em vez de um só direto. exprime que o menino hesitava entre Montes Claros. um acontecimento de importância: o velho Giovanni veio verme à tardinha. para anunciar que a mesa já foi posta). nesse dia ela veio ao quarto advertir gentilmente que o almoço estava esfriando e que comida fria não presta. Pirapora e Diamantina.. Emília nunca me permitiu comensais e foi com receio que a procurei. Brincadeira perigosa. preferiu. Tive outro sinal de sua estima ao mancebo num dia em que. e foi o bastante. que eu já sei. fiquei arrepiado. ou de exclamar. Não o deixarei de procurar amanhã e hei de penitenciar-me de minhas picuinhas. Chegado à estação de onde partem os três ramais. Pois a velha se limitou a baixar os olhos e a sair para a cozinha. para que pusesse mais um prato na mesa. desta estação. *** Estas considerações a propósito de Glicério quase me fazem esquecer de anotar. timidamente.

permanecer três dias, seguir para aquela última cidade, na qual mora seu padrinho. E Giovanni interpreta favoravelmente a preferência por Diamantina: indo procurar o padrinho, o garoto já mostrava um começo de arrependimento ou, pelo menos, desistia da intenção de sumir-se pelo mundo. Essas informações lhe foram prestadas pelo investigador meu amigo (o Parreiras), que muito se interessou pelo caso na Polícia Central. Giovanni espera receber amanhã uma carta do seu compadre anunciada em telegrama de hoje. Se não receber, partirá pelo noturno do Norte.

§ 31. UM DIA BEM-HUMORADO.
DÁ-ME vontade de rir, ao relatar, aqui, a celebração de minhas pazes com Glicério. Encontramo-nos antes de entrar na Seção, no momento de marcarmos, no relógio do ponto, a hora da chegada. Disse-me, sisudo: —Bom dia, Belmiro. —Bom dia, senhor Glicério. Como vai o senhor? respondi, mais sisudo ainda. Surpreendeu-se com o acréscimo cerimonioso que fiz ao cumprimento, e ficou sem saber se deveria interpretá-lo como pilhéria ou como advertência para que me tratasse com menos intimidade. Tal foi a expressão de sua fisionomia, que não pude conservar a cara fechada e reprimir uns gracejos. Mas isso, em vez de o pôr à vontade, encabulou-o ainda mais. Por fim, dando-lhe o braço, eu disse que precisávamos conversar, e o conduzi a um canto do saguão do edifício. Com espanto para ele, expliquei-lhe, desde as origens, os motivos por que, de um momento para outro, passei a tratá-lo de modo diverso. Fui rigorosamente exato nessas explicações, que duraram cerca de meia hora. Remontando ao caso de Carmélia, não receei ser ridículo ao referir-lhe toda a história, inclusive a da noite de carnaval. Ao expor-lhe o fenômeno da humanização do mito "donzela Arabela", experimentei alguma dificuldade, pois tive a impressão de que o petimetre me supunha vítima de perturbação mental. Zombei, então, do episódio, para tranqüilizá-lo quanto à minha sanidade de espírito. Contudo, persistia em sua face um ar de comiseração. Em outras circunstâncias, isso me haveria irritado, mas a disposição de esclarecer o caso e talvez a necessidade de confessar a alguém o romance vivido em segredo fizeram com que eu prosseguisse na minuciosa narrativa de minhas tolas aventuras. Também não me aborreceu o aparte, um tanto imprudente, dado por ele

em certo momento: —É extraordinário que você tenha conseguido imaginar tanta coisa em torno de uma criatura simples como Carmélia!... Sim, era extraordinário, concordei de má vontade. Era mesmo divertido. São coisas que acontecem. Depois, disse-me que se eu lhe houvesse confiado os meus desejos, nada lhe teria sido tão fácil como levar-me ao salão da viúva Miranda. Lá esteve algumas vezes, durante o período em que eu tanto me obstinava em obter, sem contudo as pedir, notícias a respeito da moça. E só não falou nisso, porque nem de leve poderia adivinhar meu interesse por ela. A viúva é meio difícil, com suas pretensões de aristocrata paulista— continuou—mas não fazia nenhuma restrição a ele, Glicério, e aos seus amigos. Quanto à donzela, era um anjo. Fina, inteligente, conversável. Teria gostado imensamente de conhecer-me — avançou. Depois da morte do pai, fecharam-se um pouco, era natural. Mas, passado o trigésimo dia, já a família estava recebendo, já se conversava, ali, como em vida do Dr. Aurélio. —Você teria feito sucesso na casa, concluiu com entusiasmo. Fiquei lisonjeado, mas disse-lhe que o assunto estava encerrado; que os mitos se recolheram, competentemente, aos seus lugares; que eu lhe agradecia muito os serviços que não prestara, mas poderia ter prestado, se eu lhos houvesse pedido, e que, ao cabo de tudo, só desejava sua inteira reserva a respeito. —Está certo, não se preocupe. Mas, em qualquer tempo que queira... acrescentou, com uma ponta de malícia. Passei o resto do dia bem disposto. Não sei se a causa disso foram as pazes com o Glicério, se a confissão, com que me desoprimi, ou as palavras amáveis, que me disse a propósito de um possível êxito meu junto à moça. Podem ter sido todas essas coisas juntas. O certo é que tive uma tarde bemhumorada.

§ 32. OS ACONTECIMENTOS CONDUZEM OS HOMENS.
E ASSIM vai a vida... Os acontecimentos que até aqui se desenrolaram e em que desempenhei ora o papel de ator principal, ora o de espectador, mudaram, por completo, as intenções deste livro. Naquela noite de Natal, ao início destas notas, expus o plano de ir alinhando apontamentos que me

permitissem publicar, mais tarde, um livro de memórias. Estava, então, concebendo qualquer coisa, e essa coisa se me agitava, no ventre, reclamando lugar ao sol. Jamais pensei, naquela ocasião, ou antes dela, que o presente pudesse vir dominar-me o espírito por forma tal, dele expelindo as imagens do passado que então o povoavam, abundantes e vivas. Estive refletindo, esta tarde, em que, no romance, como na vida, os personagens é que se nos impõem. A razão está com Monsieur Gide: eles nascem e crescem por si, procuram o autor, insinuam-se-lhe no espírito. Não se trata, aqui, de romance. É um registro nostálgico, um memorial desconchavado. Tal circunstância nada altera, porém, a situação. Na verdade, dentro do nosso espírito as recordações se transformam em romance, e os fatos, logo consumados, ganham outro contorno, são acrescidos de mil acessórios que lhes atribuímos, passam a desenrolar-se num plano especial, sempre que os evocamos, tornando-se, enfim, romance, cada vez mais romance. Romance trágico, bufo ou sem nenhum sentido, conforme cada um de nós, monstros imaginativos, é trágico, é cômico ou absurdo. Vejo que a história do presente já expulsou, definitivamente, destes cadernos, a do passado. Carmélia (travestida de Arabela) e Jandira afastaram a sombra de Camila, que, bem o percebo agora, era outra encarnação do mito infantil. Silviano, Redelvim, Glicério, Florêncio e Giovanni e seus pequenos mundos baniram os fantasmas caraibanos, as evocações dos velhos Borbas, a vida sentimental da Vila e da fazenda. Em vão, tento uma sondagem em Vila Caraíbas, naquele ano extraordinário de 1910. Baldo esforço: como resistir a personagens e fatos que, a cada instante, incidem no plano de nossa consciência? Às vezes ainda me vem a necessidade angustiosa de rever antigas paisagens, evadir-me para uma região que realmente já não se acha no espaço, e sim no tempo. Mas, no comum dos dias, agora é o presente que me atrai.

§ 33. RITORNELO.
ESCAPOU-ME ontem, à noite, esta lamentação: acham-se no tempo, e não no espaço, as gratas paisagens. Verifiquei esse angustiante fenômeno quando, em 1924, fui à Vila pela última vez. O Borba já havia morrido, a fazenda passara a outras mãos e as velhas já aqui estavam com sua extravagante bagagem. Camila ainda vivia. Lembra-me quão penoso foi o encontro com o passado. Lembra-me o dia em que só, debruçado no peitoril da varanda, na

fazenda. a fazenda. com um vago olhar. para sempre. e seus olhos me diziam da Eternidade. ao cotejar com a realidade as invenções de uma desenfreada fantasia. desde que deixou de existir e se arremessou para trás. rico de uma paisagem mais numerosa. a lagoa. cores e aromas de cada objeto ou de cada perspectiva. já longínquos e mortos. A lagoa foi drenada e convertida em pasto. e borboletas. o campo orvalhado em manhãs de maio. e a lagoa. em certas oportunidades. Percebi que vago delírio se apossara de mim. fiquei a percorrer. naquela noite de 1907—ali já não estavam. polcas no salão cheio de retratos. que se apresentavam aos meus olhos. as linhas. Camila era a virgem na sua realização integral. em comum com aquele. Segredos de moça em flor. e pesada tristeza. Vila Caraíbas. ai de nós. que. O sertão estraga as mulheres e a pobreza as consome. as colinas e os vales que se desdobravam até ao azul da Serra do Juramento. fora um corpo exuberante de vida. os irmãos pássaros. ao som do velho piano. muralha do meu mundo antigo. quem sabe. Em vão' busquei nas linhas. cores e aromas de outros dias. com um sol grande a despontar na serra. os olhos apenas refletiam imagens. o buritizal. o buriti. ou apenas esboçados por um luar inesquecível que caiu sobre as coisas. logo as devolvendo para o exterior. porque algo impedia uma comunicação entre o mundo de fora e o de dentro. fremente. em outros tempos. envolvendo-me naquela onda de saudade e naquele desejo de encontrar uma forma de morte. que só possuía. devastação maior lhes causa porventura a nossa imprudência. Mas. se nos tornou interdito. o rio. ou. Inútil tentativa de viajar o passado. A essência da juventude parecia haver-se aprisionado em seus gestos. trancas de 1910. arquétipo. a gameleira solitária no monte—que viviam em mim. Na verdade. não encontrei senão pobres espectros. . ao morrer da luz. iluminados por um sol festivo de 1910. dos Borbas. A namorada. Como se pode suprimir uma lagoa? Como se pode cortar uma árvore? É como se destruíssemos algo humano. e beija-flores. inapelàvelmente. que é procurar as sombras de um mundo que se perdeu na noite do tempo. exibiu-me apenas a ossatura desnuda daquilo que. nos parece estar no fundo e na forma de cada coisa. O luar. em hora por si mesma de intensa melancolia—a hora rural do pôr do sol—. a serenata. penetrar no mundo que já morreu e que. vivo. e não criatura. Onde pretendi encontrar a alma das épocas idas. afinal? O que a meus olhos surgiu foi a sombra miserável de um tempo que morreu. os esfumados traços de coisas que se vão extinguindo. em vez de se localizar em nós mesmos. A velha fazenda. a montanha. Que restava de tudo.

cada dia. o cartaz "Desculpem a poeira"—tanto mais gentil quanto o pedido de desculpas é.*** Não voltarei a Vila Caraíbas. Como os autocaminhões que. "DESCULPEM A POEIRA". e quero apenas significar que. novo. se nos depara é totalmente estranho. as derradeiras páginas. Este caderno. mas falta-me engenho para isso e nem poderia pô-lo. inesquecível. as coisas estão é no tempo. onde alinho episódios. Há nelas ilusória permanência de forma. que esconde uma desagregação constante. Começo. sentimentos e vagas idéias. conduzindo. . algo se desprende da coisa. no momento preciso em que com ela nos comunicamos. nestes apontamentos íntimos. tão rápidas e súbitas que a mim próprio me pasmam. A alma das coisas. Mas não me refiro à perda da matéria. tanto se acha embebido de tudo o que de mim provém e constitui a parte mais íntima de minha substância. sem tropeços. no último. levantam nuvens de pó. em certa manhã de maio no ano de 1910. impressões. para dar lugar a outro. pendurado na parte posterior da carroçaria. percorrendo a estrada de Morro Velho. assim como a matéria se esvai. que dela emerge. mas gentilmente trazem. As coisas não estão no espaço. como no penúltimo capítulo. no domínio físico. RELENDO. § 34. sem distinção. tornou-se. Em todo este esboço de livro. ainda que infinitesimal. Que me perdoem os abalos passados e os futuros. fico a pensar nestas diferenças de nível que me acorrem. nestas profundas regiões caraibanas do meu espírito. que às vezes me parecem tão remotas e metafísicas. agora. há uma semana escritas. ou em determinada noite primaveril. a que fui forçado na elaboração destas notas. nos domínios da sensibilidade. e o tempo está é dentro de nós. o que. a meus olhos. a cada instante: é o espírito cotidiano. então. e acabo por mergulhar. os que me acompanham. sem o risco de falseá-los. pois lhe foge. Desejaria planar suavemente. doce. a própria vida. Na verdade. dirigido a todos os que vêm depois—apresento aqui minhas escusas. as coisas estão é no tempo. fugiu nas asas do tempo e só devemos buscá-la na duração do nosso espírito. que lhe configura a imagem no tempo. Em vão o procuramos depois. um problemático leitor futuro sentirá os abalos que tais desnivelamentos determinam. a fazer considerações em torno da mudança de rumos. Esse espírito sutil representa a coisa.

na atmosfera caraibana—contemplando a devastação de suas paisagens—sempre sucede um Belmiro sofisticado.Não é senão por isso que fugiria a publicá-lo. com o malogro da tentativa feita na sessão de quinze dias atrás. que se expande. Tais desnivelamentos é que compõem minha vida e lhe sustentam o equilíbrio. ajustando-o aos quadros cotidianos. enorme. se acaso oferece espetáculo de interesse para quem quer que seja. É medida extrema. Não excluo a hipótese de que alguma âmesoeur (e deve havê-la. agitavase muito. § 35. durante o dia e às primeiras horas da noite—modifica o aspecto das coisas e me oprime. Publique-o ou não. neste vasto mundo) possa comprazer-se e contemplar-se na leitura dele. um pouco desencantada. se reajusta e assobia a fantasia do Hino Nacional de Gottschalk. pela manhã. a ponto de querer agredir-nos. Emília. alimenta-se melhor. mais achacada da gota ciática e já não suporta os esforços violentos a que a irmã a obriga. COM grande pesar. Sempre a tratou como a uma criança de colo e suas diabruras deveriam diverti-la. como a . No correr desta semana (que ficou em branco no caderno de notas) suas crises se tornaram fortes e freqüentes. O médico que ali a recebeu prometeu melhorá-la com a aplicação de duchas e injeções. que compensa o primeiro e o retifica. desde que as velhas se acham comigo. estava. Está ficando mais velha. mas consegui convencê-la de que o caso pertencia à medicina. fui forçado hoje. Um grande silêncio—a que estou desabituado. e gritava dia e noite. terei de dar-me como sou. Emília quis recorrer de novo ao espiritismo. Passa. e certamente por isso não ofereceu resistência. A pobre mana se recusava sistematicamente a ingerir alimentos. e temo que não as encontre em maior número. aliás. Chegado à sua toca da Rua Erê. reconheceu logo a necessidade da medida. Já lhes contei que nada ou pouco fala à irmã. FRANCISQUINHA PIORA. ali. a mim próprio. quando de outras vezes tive de valer-me do Instituto. A um Belmiro patético. a levar Francisquinha para o Instituto de Alienados. que não tenho empregado muitas vezes no curso destes doze anos. que sempre relutou. perguntando-me. uma temporada. o Belmiro egresso de Caraíbas se apalpa. Emília também se ressente da falta da Chica. A casa me parece mutilada com a sua ausência. torna-se mais calma e volta para casa. mas não se imprime um livro para uma ou duas almas irmãs.

subiu a dos Pampas e andou pela Rua Diábase. onde se recolhem. na rua. para depois lhes fazer minha visita. ainda que pelo avesso.mim. várias. quando era. As vestes ficam guardadas num armário de nossas profundezas onde se amontoam indumentos de infinita variedade. DE NOVO. limitaram-se a pedir notícias da mana e a oferecer os préstimos. o compadre pediu prazo para vir. chorando e trocando abundantes interjeições. consentiu em ficar mais alguns dias sem ver o bambino. § 36. Na carta. Há. Tais preocupações impediram-me de registrar alguns acontecimentos da semana. A mulher estava adoentada e ele não poderia ausentar-se imediatamente. em nós. se está abalado em sua sensibilidade. mas sempre fala para ser entendido). que foi a volta do Pietro. para movimentar nossa solidão. O velho Giovanni. o velho ficou quase louco. a lamentar-se no seu dialeto (pude notar que. Vivia a chorar. de emoção. Já não há quem dê mingaus a ratinhos. de ponta a ponta. se exprime na língua natal. há cinco dias. que compõem as formas sucessivas do nosso espírito. dizendo que hoje dormimos arlequim. correu. Marianina foi para a cama. suje a roupa com seu sistema de lavagem e faça. mas sei quanta ternura se esconde por trás da cara fechada dessa velha Borba. recebida a carta do compadre de Diamantina. AFINAL. a bater no peito. transfigurado. ignorado o paradeiro do menino. desceu pela do Piau. tomando-lhes os pintos. Destacarei o mais importante. Alguém . que jamais exploraremos. Por último. registrarei aqui dois encontros com Jandira e um com Silviano. pela Rua Erê. as combinações múltiplas. amanhã acordaremos pierrô. Explicar-me-ei. abismos insondáveis. Estou deixando que o velho volte à vida habitual e o menino se adapte à situação (está muito desapontado. Contou-me o Prudêncio Gouveia que o regresso do menino foi patético. esquecendo-se da nossa. que fala mal. enfim. Durante as duas semanas de separação e principalmente nos seis primeiros dias. Foi a custo que. Informados de que eu me achava preocupado com a situação doméstica. tantas vezes contraditórias. ainda. de acordo com a informação do Prudêncio). qualquer coisa. para anunciá-la a amigos e conhecidos. mexa com as galinhas. Abraçaram-se demoradamente. pelo tempo que lhes apraz. são inúteis essas tentativas de análise e de interpretação de nós mesmos. CARMÉLIA.

de pijama. na noite úmida. amanheci angustiado depois de ter passado uma noite fértil em sonhos. e ele apareceu à porta. com pesar.no-las troca sorrateiramente. passou a afastar-me. também. menos de Carmélia. Em certo momento. certa coerência. pilherio comigo mesmo. um gracioso espírito do ar. dentro de mim. Uma semana depois. e amanhã seremos o que não queremos. Não são decorridos quinze dias. Por que não tive coragem de me abrir e de rogar que me levasse à casa dela? Conversamos o dia todo. . ora de outros. Como já disse.. como a atrair-me. ou muitos) me impressionou amargamente. algum diabo malicioso inutiliza o nosso trabalho. chamando-me à realidade. a esperá-lo. antes.. Eu fazia uma serenata (como nos velhos tempos) sob a janela da namorada. À sorrelfa. se desvaneçam os espectros que. a gente não sabe como essas coisas acontecem. à luz do dia. em vez de me aproximar dela. Há cerca de vinte dias.. compuseram uma Carmélia imaginária. Em vez de tomar o bonde das onze. ou pregando-nos um rabo de papel no jaquetão. tomei o das dez e pus-me um tempo enorme. Acordei. E esse alguém às vezes se diverte. durante o sono. com rancor. e. de acordo com um critério que nos escapa. Um desses sonhos (não sei se foi um. Faço esta divagação para me justificar. O fato é que se frustra todo o esforço que despendemos para nos impor certa disciplina. Quando me estendia as mãos. Só posso dizer que experimentei hoje uma recidiva violenta. cedendo a um impulso de revolta (?). julgo-me curado da fantasia. quando o sonho se tornava rasgadamente fantasioso: vestida com uma túnica diáfana. ora minha. a mão esquerda terá de limpar o que a direita escreveu. poderia apanhar uma pneumonia. disse-me duras franquezas. Depois. Parecia. E à tarde despedi-me dele. como se a culpa fosse sua. ora viva. participando de cada um. mostrando que. Começou a interessar-se por ela desde que o pus a par dos meus amores e. na Praça. tiro do altar o meu mito. a fim de encontrar Glicério. ora morta. Aurélio. quem surgiu em cena foi o falecido Dr. certa unidade. na Seção. chego a relatar ao Glicério toda a história. em minhas condições de vida. acordei. falamos de tudo. jamais poderia pretender a moça. pondo-nos de casaca e em cuecas. Descobri que Glicério a amava. com mil pretextos. faço com que. supondo-a uma burlesca história do passado. Carmélia bailava à sombra de árvores que refulgiam ao sol. para me aconselhar que não ficasse a cantar. e hoje somos o que ontem fôramos e não quiséramos ser mais. . Carmélia me apareceu neles. Fiquei aflito por que chegasse a hora do trabalho. Estou com vergonha de confessar o que se passa comigo.

imaginando que Emília demoraria a levantar-se. com majestade. Mas a lucidez. eu acorde assustado. doente. agora. Belmiro! § 37. O que nos deve preocupar são os problemas eternos! A exclamação que ouvi dentro de mim foi do Silviano. e as aflições do dia se dissipam. chegando à Avenida Paraopeba. Eram seis e meia. Amanhã terei de visitar o agiota. porém. Sei que estou amando a mulher e não o mito. Não vale a pena pensar nas dificuldades da vida. O ordenado se foi nessas despesas imprevistas e ainda há contas por pagar. aqueles que poderiam merecer o qualificativo de "eternos". Desde dois dias. Entretanto. vi que a bela manhã deste domingo valia um passeio e preferi fazê-lo. entre os problemas. deixando de lado os problemas. a primeira idéia que me veio foi a de procurar. Os apitos das duas fábricas próximas (a da frente. Não deveria preocuparme. Desci a Rua do Piau e. É bem possível que amanhã tudo seja diferente. embalado pela música das máquinas. em toda a . que é de toalhas. Deliberei tomar o desjejum na cidade. pensava no Silviano. fiquei reduzido a níqueis. pois. É ridículo.Encontro uma sorte de libertação em escrever estas páginas. com estas coisas? —Não! diz-me alguém. E a força do hábito faz com que. embora estejamos a sete do mês. sei. antes. aos domingos ou dias santos. embora não haja trabalho. Lá está Francisquinha no Instituto. Problemas eternos! A razão talvez esteja com Silviano. ao despertar de manhãzinha. Às vezes estou a pensar e ouço um interlocutor. A voz veio de dentro. pelo timbre era idêntica à do amigo. que a manhã nasceu bela e o corpo pedia um passeio. AO RECOLHER-ME. ponho-me de novo a dormir. que me vem. sei. ontem à noite. que as coisas voltam e não vale a pena fazer projetos. e é ridícula essa trama sentimental em que me envolvi. Não me faltam cuidados na vida. Emília se acha de cama. Devo também esclarecer que sempre embromo os donos das fábricas reais e o da fábrica imaginária dos'domingos: acabados os apitos. não serve senão para me mostrar que continuo personagem de uma novela de amor. que é de calçados) sempre me despertam a tais horas. Dedica-te aos eternos problemas. ouvindo qualquer apito do outro mundo. Creio que com ele sonhei. Depois. eternos ou não. O "PERREXIL". e a que se acha por trás do lote vago. Já lhes disse. porém. não há nada. Olho em torno. percorri-a folgadamente. pois não tem passado bem as noites.

—Ótimo. pouco depois. Silviano segredou-me que possuía convites para o Country Clube e desejava levar-me em sua companhia. com uma cara muito satisfeita. o único da rua. a ambos. Oh! oh! oh! Com mulheres. que é nome de dois dos . mandar um aviso prévio a Emília. aceitei o almoço. por algum tempo. aparente calma. Tentei esquivar-me. foi a do amigo Silviano. a quem atender ao chamado. em cuja casa há um desses aparelhos. a uma hora destas!" Silviano me disse que fora à missa. porque sei que não é dessas devoções. meu velho. durante o trajeto. A explicação complicou mais ainda o caso. A mim às vezes me chama Porfírio. já escrevi. Mesmo por isso não insisti. a um canto. chegamos até a sua casa e ali fiquei a conversar e a folhear livros. Apareceu o da Floresta. ao voltar. Seu nome é Sebastião. ótimo. para um giro qualquer. mas retrucou que poderíamos ficar tomando alguma coisa. que o Reitor quer ver-me com urgência para conversar comigo sobre os programas do curso de literatura. A um convite insistente de Joana. Joana não desconfiou. Ande. Objetei-lhe que não éramos homens para lugares mundanos assim. mas o Silviano. Ficou até a apressarme. o sol ainda era fraco. porém. ainda. logo que estivemos a sós no escritório. abanquei-me nele e fui até ao fim da linha. no primeiro poste de parada. Você se despedirá e irá incontinenti ao café da Rua Pernambuco. São mais quinhentos mil-réis. Dirá. por intermédio do Prudêncio Gouveia. chispe. mas. e viemos falando acerca de outras coisas. na Avenida. uma desculpa dessas é tiro e queda. Como se tivesse havido uma comunicação psíquica entre nós. Fiz tudo conforme prescreveu o Silviano e. Terminado o almoço. e a brisa agradável me ajudava as pernas. que não fosse dos meus. em chegando à esquina. na capela do Colégio Santa Maria. Tomei um cafezinho na Rua da Bahia. Vamos procurar o Estrabão. —O problema agora. dando-se como secretário da Universidade. é arranjar as coisas com a Joana. Depois de andarmos um pouco pelos cafés. sem que fôssemos incomodados e que seria divertido observar os "filistinos". e cedi. Está aflita por que eu obtenha a cadeira. de onde. a questão. veio-me o palpite de pegar o primeiro bonde. disse-me. Foi um encontro cheio de conseqüências. me telefonará. Desta vez. olhei os jornais e. tendo tido o cuidado de. a cara que se me deparou. fechou. Toca a andar. pois acabamos passando todo o dia juntos. a mesma exclamação de surpresa: "Você por aqui. Escapou-nos.extensão. tinha-o a meu lado. Vão dar-me a cadeira. tem a mania de mudar o nome das pessoas. pelo telefone. Estrabão é o chofer do Silviano para excursões de caráter reservado.

é moroso e de resultado incerto. Estrabão pisou no acelerador e nos levou. Perrexil é a Musa. quando planejo uma sortida. Eu não podia deixar de vir. Aliás. Já que os deuses não são propícios. e ao Florêncio. Apanharei a narrativa no ponto em que a deixei ontem. passou-lhe a mão pelo gargalo e disse-me: —Está bem. com grande irritação deste. disse-me. mas forças contrárias tudo desfizeram. Vamos. aparentando a maior circunspeção. NÃO PUDE terminar o relato da conversa com Silviano. situado num recanto da montanha. Porfírio. luz no escritório e ficou a resmungar. de cujo edifício nos aproximávamos. "Perrexil" é o estimulante do pensador. Fui acalmá-la e dar-lhe uma colher de xarope. respondeu. O Estrabão só daí a uma hora viria buscar-nos. este se ausentou logo. uso vários. —"Perrexil"? perguntei.meus avós. deitei-me. Joana me traz de olho. pela fresta da porta. Depois. Silviano ia-me dizendo pelo caminho: —É a técnica. sentindome cansado. ora caceteando a família inteira. tinha a fisionomia transtornada. Eu ficava em casa. pela estrada afora. pedido pelo Silviano. se este algum dia me cair de novo sob as . Emília tossia muito. doutorai. Já não está aqui. inclusive este. abancamo-nos em torno de um litro de uísque. Que havemos de fazer. Consolei-o como pude. Silviano contou-me coisas que muito me ajudarão a decifrar seu Diário. Há uma conspiração universal contra mim. minutos depois. Você imagina. agora. previ os mínimos pormenores. Um tanto inquieto. Ia procurar o Perrexil. apontando para o clube. Chegados ao clube. —Já não está aqui. Depois. entre estes filistinos? Vamos embora. rindo-se: —Saio com um passo grave. Animado pelo uísque. ora meio sorumbático. PARABOSCO & FERRABOSCO LTDA.. deixando-me a sós Com a bebida. viu. chama Abundâncio. quando dobro a esquina. Vocês querem ser literatos sem ter lido Camilo. Idealizei tudo. o "Perrexil" está aí. Tive de obtê-los laboriosamente. preciso renovar sempre os meus expedientes. Já está gasto o processo antigo. e lembrei-lhe que estávamos sem transporte. acordou. me confiou um segredo: —Não me deram os convites. até que ela me mandasse para a rua. bebamos. Quando voltou. pego "embalagem".. § 38. Mas. rápido. Silviano olhou com ternura o litro de Mc Callum's. Ultimamente. Que vem a ser isso? —Eis aí. E.

Lembram-me um verso de Baudelaire: "Tes yeux sont la citerne ou boivent mes ennuis. a vida que foge.. Dir-se-ia que sofre de gota-serena... a moça em flor. que andei lendo. Respondeu que não queria nada. Não gostou do aparte e passou a contar-me os fracassos das . proveniente de lesão na retina e alteração no nervo ótico. Descobriu-lhe o endereço. deixando-o sucumbido. na expressão do olhar! Contou-me. Belmiro. tudo isso sem se dar a conhecer. disse-me.. Dolores reagiu e correu para dentro. Impressionaram-me tanto. —Que idéia. —Que olhos. talvez tivesse tido melhor acolhida. Há poucos meses. Foi-lhe apresentada pelo irmão.vistas. disse-lhe ser o homem que desde algum tempo lhe mandava coisas e escrevera a carta. o amor. tentou abraçá-la (esquecendo-se. Que tem isso? As mulheres gostam muito de chapéus. informado de que a moça se achava só.. se fora menos transcendente.. Observei-lhe que. quando morreu a mãe da moça. Amava. Silviano. apareceu-lhe de supetão em casa. E um belo dia. mandou-lhe um perfume francês e outras coisas mais. Depois. senhor. em Dumas.. assim sem mais nem menos? —Sim. E abismou-se em seus olhos. de Heine e Goethe. um chapéu! exclamei. não. Dolores lhe perguntou.. pois. um chapéu. emendei. ajunto eu. de que não se pode abraçar um universal. —Continuo a amá-la violentamente. Os olhos dela são estranhos. atemorizada. em alemão. novidade da estação. Representava. Porfírio. Silviano nada sabe a seu respeito senão que possui uns olhos excepcionais. Dãome a impressão de água parada. para ele. a eterna graça. —Porfírio. —Que olhos! continuou. aluno dele. que não a tem visto muitas vezes. O "Perrexil" é uma jovem de nome Dolores Gigedo. um universal e não um particular. um chapéu. no alpendre. filha de um espanhol rico. nela. de presente. Foi grande o susto que esta experimentou. E não sou nenhum idiota para dar logo a minha identidade! Mandou-lhe. declarou-lhe amor. —Você já ouviu falar em gota-serena? Não ouviu? É uma doença dos olhos. Ela jamais compreenderia o "fenômeno".). . quando a mãe morreu. um capítulo a fio sobre a função do nervo patético. Silviano de pé. Conheceu-a um dia." concluiu com um ar cismador. com citações. escreveu-lhe uma longa e sentida carta. na Avenida. mandou-lhe. que pretendia dela. depois. fabricante de tijolos. cisterna. uma amaurose.. E deu-lhe presentes.

Mas a história de Parabosco & Ferrabosco ainda não terminou. freqüentado pelo grande mundo.. há dias. tudo como se fosse realidade. o que convinha a seus amigos Parabosco & Ferrabosco Lida. Parabosco & Ferrabosco fizeram. Não conseguindo detalhar o interior do edifício que imaginara. que se associara a outro de nome Parabosco. no local. para prolongá-la sempre. Voltando às moças. Condoído da sorte delas (ficaram em extrema pobreza). de linhas moderníssimas. *** Ao sétimo uísque deu para me contar estranhas coisas em que não sei se devo acreditar. subitamente. que se suicidara. Presentemente estão eles em entendimento com o proprietário de um edifício à Praça Sete. Estavam enlutadas pela morte do pai. Já estudei . correu aflito a casa de um arquiteto conhecido. O Ferrabosco se apaixonou pela mais velha e com ela fugiu para a Itália. ora de incredulidade. recompôs-se com a família e a moça ficou por lá. Resolveu. nos cabarés de luxo. Vou recomendá-las ao Ferrabosco! pensou. No alto da colina. Achou. nada menos. que converter a Pedreira Prado Lopes num luzido centro de diversões. Atualmente vive o caso de "Parabosco & Ferrabosco Ltda. quem é Ferrabosco? Imaginou. Silviano acompanhou. Vários episódios se sucederam. um italiano chamado Ferrabosco. colocou-as facilmente nos escritórios do Cassino. Chega a urdir histórias inteiras. a fim de consultar revistas de arquitetura. ao andar pelas ruas. Homens arrojados. Cada dia. Comprá-lo-ão para o derrubar e construir. Com o olhar atento. pôs-se a dar tratos à bola. numa contínua produção de fantasias. do gênero folhetinesco.. com que minha fisionomia me denunciou os pensamentos. procurando um meio de auxiliá-las. Depois voltou. finalmente. Eis como nasceu esta novela cerebrina: Ia passando. —Não se impressione. Fracassara mais uma vez. pela Rua Caetés. Por último. Mas.tentativas anteriores. durante o relato. por uma "sinuosa". os freqüentadores subiam de auto. retoma a história no ponto em que a deixou na véspera. Para chegar ao edifício. estava ali. de grande iniciativa. quando viu duas lindas jovens. nada mais. assegurando-lhes a proteção da importante firma. Disse que constantemente sonha acordado. ou de pena. as expressões ora de surpresa. criando a firma Parabosco & Ferrabosco Ltda. um cassino de luxo. as meninas figurando sempre. o problema delas. assim. ladeando docemente a encosta. Não me estou avizinhando da loucura. então. um prédio de numerosos andares.

suponho. coisa que desde muito tempo Emília não conseguia fazer. Quis trazê-la comigo. meio grisalhos. na revolução de Trinta). Estrabão havia chegado e tocava insistentemente a buzina do carro. —Vou ver Francisquinha. e comi um para dissipar as dúvidas. ficou séria. que lhe levei.estava findo e que não deveríamos interrompê-lo. perguntando se não era feitiço. Lá chegados. e regressei alegre à casa.. amistosamente. alguém me tocou no ombro. Vendo o pacote de biscoitos. reclama o outro. Forma frustrânea. . alegrou-se como uma criança.o fenômeno. estavam arranjados em trança. Achei a doente bem melhor. O caso não tem gravidade. "Deixa eu falar como eu quiser. Vireime: era o Florêncio. Afirmei-lhe que não. esperou-me no saguão do edifício para não perturbar a visita. furioso. o que é bom sinal. mas o médico de plantão objetou que o tratamento não. não aceitei o convite. que ouviu a notícia com ar compungido. e fomos juntos. § 39. Alimenta-se. Achava-se sentada na cama. Muitas vezes brigam por causa da língua: "Que é que você tem com isso?" retruca Florêncio. Na volta. Florêncio. a coisas passadas há cinco anos. Aflito por dar boas notícias a Emília. Não é da sua conta. Notei-lhe paz na fisionomia. perguntou-me. segundo me informou a enfermeira. A velha abriu-se em sorriso (coisa tão rara!) quando lhe contei a conversa com Francisquinha. Nosso amigo claudica sempre nas regências verbais e Silviano não estava conosco para lhe chamar a atenção. respondi. quando entrei no quarto. QUANDO me assentei no banco do bonde que deveria levar-me ao Instituto de Alienados. e já não tem acessos violentos. terminou. Os cabelos.. depois. Espírito romanesco. quando nos levantávamos para sair. dizendo que a guerra iria acabar e poderíamos voltar para a Rua Erê (aludia. Não se levantou. NO INSTITUTO. Florêncio procurou reter-me na Avenida. É uma forma de imaginação difluente.. quis acompanhar-me. mas pôs-se a rir. dorme tranqüilamente. —Que vai fazer em Santa Ifigênia? Nunca lhe vejo por aqueles lados." "Mas isso me fere os ouvidos afeitos ao bom vernáculo".. Piorou muito e tive de levá-la para o Instituto.

—Qué dizê qui está mêlhó! Que dizê qui está mêlhó! exclamou, satisfeita.

§ 40. CHOQUES.
ESTIVE hoje em casa de Jandira e lá encontrei Redelvim. Percebi que ficaram desapontados com a minha presença e que esta foi interromper uma conversa ainda não acabada. Com certeza, maquinavam revoluções, porque, pouco depois, com irritação mal disfarçada, Redelvim me disse: —Então, continua nessa vidinha sórdida de pequeno burguês? Minha resposta foi perguntar-lhe se tinha cem mil-réis para me emprestar (realmente, estava precisando). Jandira sorriu, e Redelvim, que continuava azedo, respondeu: —Não prova nada a sua exibição de quebradeira. Você pertence à pior espécie de burgueses: os que o são por sentimento, e não por instinto de defesa da propriedade. Fiquei calado, sem dar resposta. Redelvim se obstina em não me compreender. De que servem as discussões? Sei que, apesar de tudo, é meu amigo e pensará de outra forma, agora ou mais tarde. Por que hão de classificar os homens em categorias ou segundo doutrinas? O grande erro é lhes oferecerem apenas caminhos radicais. Socialismo, individualismo, isso, aquilo. As idéias da gente podem não comportar-se dentro dessas divisões arbitrárias. Não é possível ser-se tudo, ao mesmo tempo? E, se sentimos que a verdade e a contradição foram semeadas em todos os campos, como poderemos definir-nos? Tudo o mais é violência ao espírito. Dizem que tal perplexidade ou cepticismo conduzem à inação. A prova do contrário está em mim. Atuo, no meu setor, como se acreditasse nas coisas. As necessidades vitais fazem o indivíduo agir e não permitem que ele se tome um contemplativo puro. O que é injusto é quererem extorquir de nós uma definição, quando a procuramos, em vão, sem a encontrarmos. Redelvim me olha com desprezo neste momento, mas talvez me compreenda amanhã. Às pessoas de sensibilidade não é fácil resistir aos atrativos do romantismo político da época. O mais cômodo é entregarmo-nos a ele, acompanharmos a maré. Mas teremos procedido honestamente, com relação ao espírito? Meu silêncio, em vez de pôr termo à conversa, exasperou o meu contendor, que não me deu tréguas. Estava em um dia de excitação, nesses dias de raiva descomunal, que lhe vêm. Então, fica sempre contra. Contra qualquer coisa, contra tudo. Se eu adotasse seu ponto de vista, estou certo de

que, dentro em pouco, ele me contrariaria pela mesma forma. —Afinal, que é que você é, na ordem das coisas? perguntou-me. —Talvez um "individual-socialista", respondi, para lhe satisfazer. Você, tão lógico, tão seguro de suas idéias, não vai achar sentido nisso; o certo é que não encontro vocábulo que me defina. Talvez esses dois juntos me tirem do embaraço. Se vier a revolução, não é preciso, porém, que me deportem ou me fuzilem. Sou um sujeito inofensivo, para todos os regimes... Minha resposta o enojou tanto, que dessa vez foi ele quem se calou, provavelmente para não me dizer coisas duras. Aproveitei o ensejo e despedi-me, alegando que ali estava apenas de passagem a fazer hora para o dentista. Jandira tentou reter-me, mas apeguei-me a uma dor de dentes imaginária e saí. Não o deixo de estimar por isso. Os companheiros são raros, precisamos conservá-los a todo custo. E quando não possamos ser amigos cem por cento, sejamos cinqüenta ou vinte. Quando encontro, em alguém, cinco por cento de afinidade, contento-me com essa escassa percentagem. Para preservar nossa amizade, tenho procurado pouco o Redelvim ultimamente. E tenho-o conversado menos ainda, principalmente em presença de outras pessoas. Criva-me de ironias, aborrece-me. Não lhes falei que ando sempre desconfiado. Muitas vezes, ao chegar a casa, fico a dar balanço às palavras trocadas com os amigos, com tanto maior desgosto de mim próprio, se notei que alguém, na roda, acolheu, com sorriso irônico, alguma observação minha. E sou sempre gauche. Quando converso, as melhores idéias ficam cá dentro, sem encontrar expressão, e freqüentemente digo coisas que não deveriam ser ditas e que, de ordinário, não foram meditadas. Como explicar certos despropósitos que, mal proferimos, nós próprios imediatamente reprovamos, mordendo os lábios de despeito, porque ninguém saberá que a nossa censura funcionou, logo depois, dando-nos a conhecer a inépcia daquela idéia? Por orgulho, não voltamos atrás e preferimos sustentar a infeliz opinião. Cada vez nos perturbamos mais, e acabamos dizendo dez tolices, em vez de uma. Fico a conjeturar que se trata de uma vingança das idéias tolas. É provável que, repelidas mais de uma vez, quando nos achamos vigilantes, elas fiquem andando a esmo, pela cabeça, a conspirar contra nós. Um ligeiro cansaço nosso, eis que a asneira sai. Será uma vingança das parvoíces, ou a necessidade irreprimível de nos vermos livres delas? O certo é que nos escapam, escolhendo maliciosamente a pior oportunidade. ***

De que valem esses choques entre amigos? Cada qual continua onde estava, aferrado às suas idéias. Tanto mais aferrado, se as contraditamos. No que me toca, julgo ter chegado a uma altura em que a gente já sabe aquilo que é, e para que é. Não no domínio metafísico, mas no da vida corrente. "Fay ton faict, et te cognoy", aconselha o velho Montaigne, repetindo Platão. "Qui auroit à raire son faict, verroit que sa première leçon, c'est cognoistre ce qu'il est, et ce qui luy est propre: et qui se cognoist ne prend plus l’estranger faict pour le sien. .." Sou apenas um poeta lírico, em prosa, e só desejo que me deixem sossegado. Façam os outros o que lhes convém, ou o para que estejam destinados. Farei o que me é próprio, isto é... § 41. MATINADA. JH^ADRUGADA DE 12 DE OUTUBRO.-Compus um hino ao Dia, imitando o alto estilo de Zaratustra, mas tive o bom senso de rasgar a folha de papel em fragmentos miúdos e atirá-los à cesta. A posteridade ficará, pois, privada desse documento. Na verdade, foi uma linda aventura. Recolhendo-me ontem muito cedo, contra os meus hábitos, acordei às quatro da manhã, e perdi o sono. Durante uma hora, tentei conciliá-lo e permaneci nos domínios proustianos da insônia, onde os pensamentos não têm contornos nítidos e a consciência se confunde. Depois, como os bondes começassem a descer a Rua Erê, os gaios iniciassem seu concerto e, finalmente, a fábrica desse indícios de vida, verifiquei a inutilidade de minhas tentativas e levantei-me resoluto. Bela antemanhã! Subindo a Rua Erê, tomei à esquerda a Rua Diábase, que, mais para o alto, recebe o nome de Esmeralda. Segui-a até ao fim e, pela estrada que a continua, cheguei ao Morro dos Pintos. Do alto da colina, contemplei Belo Horizonte, que apenas despertava. As cores, já vivas, do céu e a luminosa beleza da cidade feriram-me os olhos. Os edifícios suntuosos, os grandes jardins públicos, as retas avenidas situam Belo Horizonte fora dos quadros habituais de Minas. Dentro das casas mora, porém, o mesmo e venerável espírito de Sabarabuçu, Tejuco, Ouro Preto e de tantas outras vetustas cidades. Penso no homem mineiro que se levanta, lê seu Minas Gerais, cuida dos passarinhos e se prepara, tranqüilo, para as labutas do dia. A mulher cirze apressadamente um par de meias para ele e lhe pede que não se esqueça de deixar dinheiro para algumas compras. Sai, porém, sorrateiro. Façam-se as compras amanhã, não se corre para gastar. Os meninos estão

Os livros. mas seres encantados. A aurora. Também ficou estupefato com a minha matinada. de novo. A manhã me atrai. Faz cara de grande surpresa ao topar comigo. Nem pressentimentos. satisfeito. o ar fino da manhã e a intensidade da luz extasiam o amanuense—ave noturna que a madrugada surpreendeu. baixinho. Resmunga lá suas coisas que não entendo. ao ver-me. estendendo a xícara. na macumba da Barroca. pela polícia.. Há anos que não me vê a estas horas. —Ele quer mais café. sior Prudêncio. em desalinho. o Giovanni). juntos. As sombras fugiram. Prudêncio relata pormenores. Ficará semi-internado. Muito bem-humorado com o encontro (bom amigo. O velho conquistou. conta que o Prefeito novo vai melhorar o bairro do Prado. mundos vivos. Emília. com o seu How do you do. A latitude deste. Good morning.. de acordo com o hábito. porém. É Giovanni. respondeu. como nos livros clássicos. até insignificantes fatos domésticos. Mas minha presença o anima a mostrar as habilidades. —Bom dia. Refere-nos todos os episódios. —If you please. Ouço outra voz familiar: —Wonderful! Wonderful! É o Prudêncio Gouveia. Volto para casa. o menino. que acaba de realizar antiga aspiração: o filho consentiu ontem em ir para o colégio. cá estão reduzidos à imobilidade. É o bom Prudêncio. Barrigudinho. Saio de novo. meio reumática. com uma cadeia de ouro traspassada numa casa do colete. há mantimentos na despensa. Giovanni! O velho fica boquiaberto. manifesta o mesmo espanto que Giovanni. Geral e particular. que à noite me parecem. com alegria geral. Depois. esclareço. Giovanni. arrasta-se.. entrou em carro triunfal e expulsou as sombras. ele não tem dessas coisas. Como os fantasmas todos se dissipam! Volto a casa e abro as janelas do escritório. Barriga honrada de chefe de Seção. Alguém abre uma porta. já de pé. Mas. ocorridos após a volta do rapaz.. a se desdobrarem e ampliarem para que personagens e paisagens se movam.vestidos. pela cozinha.. Que faça um café bem gostoso para "sior Bermir". sempre que Prudêncio sai com o seu inglês. corre à procura de Marianina. não diz nada. Quando está a sós com o velho. o café. não coisas inertes. nem angústias. Fuma-se um cigarro. Comenta-se a batida dada na véspera. a passear pelo quarteirão e que. a cidade e se perdem no horizonte. amigo Prudêncio! Tomamos.. e não pode esconder sua satisfação. Tenho . quanto ao Giovanni. Que mais é preciso? Meus olhos deixam. Giovanni me interroga com os olhos. —Mais um pouquinho.

. E a bebida pode levá-lo cedo. O que amo nessa Carmélia. as preocupações são outras. Se eu me casasse. Onde está Florêncio. renovando os copos. por mais que seja masculina a nossa amizade. Entretanto. O VELHO BORBA. apenas a tua imagem. Não tem problemas: é o homem sem abismos—o homem linear—na expressão do Silviano. mas do estado de espírito. eu te amava. é. No que. pode ser que se case. foi. e as gerações não se entendem. Florêncio divertiu-me bastante com suas anedotas. § 43. fiquei em boa forma e isso me fez pensar que a embriaguez depende. afinal. outras vezes se mostra impermeável. deixa-me pelas idéias. no Largo do Cruzeiro. em companhia de alegres boêmios. só ele me restará. em Vila Caraíbas. Quando se casam. Quem quer saber de mim e das manas? A possível esposa morreu em 1925. Só quando morava na república isso me aconteceu algumas vezes. Está sempre provido das melhores e mais recentes. e era uma vez a amiga. vive nos seus "altiplanos".. VEJAM como terminei ontem o último capítulo. Camila? Na verdade.. Se às vezes nos compreende. e passamos a tarde juntos. dos poucos amigos descobertos no decurso destes magros trinta e oito anos. aí vem tolice. § 42. Apontamento para uso pessoal: bebi mais que de ordinário e não perdi o prumo. não da quantidade de álcool ingerida. Silviano é uma criatura complicada. Ora. ao sair da Secretaria. Glicério não passa de uma criança.certeza de que gosta de mim. talvez. Não é que tenha procurado embriagar-me. e não preciso dizer que tomamos um pifão. com quem a gente não pode contar sempre. Conheço o estilo Borba e não me engano. achando-me disposto. conforme ensina a ópera. Pertence a outra geração. e a mulher é vária. Por que te deixei. e outra é a compreensão das coisas. e está num cemiteriozinho branco. UM HOMEM SEM ABISMOS. aliás. Às vezes penso que. fazem muito bem. Além disso. Talvez só me fique o Florêncio. está o chope. que não atinjo. É que Florêncio. Se não me detenho a .. O SISTEMA BORBA. Excelente e repousante camarada. Redelvim. o fiel companheiro. ENCONTREI Florêncio. sorrateiramente. no momento. Jandira. só querem saber do marido e seu tempo é pouco para imaginar meios de prendê-lo. não é senão mulher.

Sei que. à lusitana. em que ela se dará sem ser buscada. Devíamos deixar de estrangeirices.tempo. na minha casa. Meditando na possibilidade de que. se toma chá às cinco. o sentido daquelas palavras e talvez por isso o bilhete me impressionasse tanto. quando um Belmiro lírico. Ríspido. nem aquela intolerância com etiquetas. como o herói de Lamartine Essas coisas sempre acontecem às duas da madrugada. Por isso é que vocês envelhecem tão depressa. Quanto aos amigos. então. Aqueles sagrados furores não me são estranhos. Ainda que viesse pedir a mão do Dom Donzel da Rua Erê. cairia em pranto. Lembro-me de um dia em que me mandou levar um livro ao provisionado Loiola. o velho retrucou. era a janta na fazenda. Loiola. meu isolamento se agrave. porém. Já escrevi que não casarei. Bastaria isso para exasperar o velho Borba. que lhe queria votos. o mesmo ciclo biogenético!" Tratava-se de Haeckel. havia em Vila Caraíbas. viril. botam-se as travessas todas na mesa. lhe voto horror. É a hora de Camila. apesar da degenerescência deste fim de raça. Escrito a lápis. De uma vez que veio à Capital. na casa da viúva Miranda. rude. A uma delicada palavra que lhe dirigiu o político. para o futuro. Sua formação intelectual alicerçava-se em bom fundo humanístico. seu doutor. pois Camila se foi. desandei a suspirar. e que são as velhas e esse mal-humorado Tome.. levou-o a almoçar e foi um desastre. O papagaio perdeu a plumagem e parece caducar. os Borbas gritam dentro de mim.. um deputado. E seria ridículo pensar em Arabela. Não compreendi. . bem vejo que os não terei por muito tempo. simultaneamente. A primeira coisa que lhe aconteceu foi escorregar no pavimento encerado. Não se pôde conter quando o serviram à francesa: —Olhe. Quanto aos demais seres que me cercam. Dia virá. Lia coisas incríveis para aquele lugar e aquele tempo. Ouvi que. Era sólido no vernáculo e seguro em matemáticas e história. Era de prever isso!. Era assim o Borba. busco a solidão. ia dentro um bilhete: "Veja. . Gostava dos seus clássicos. repetia passagens inteiras dos Lusíadas. em Carmélia. O sistema Borba não comporta nem prevê senhoras de tão fina estirpe. para tirá-lo do embaraço. me faz sua visita. ao tempo do Império. de coração enorme. . Francisquinha vai de mal a pior e Emília está ficando com o coração fraco. isto é. Freqüentou a escola de latinidade que. Não compliquemos a vida. vocês mandam ensebar o assoalho. Onde já se viu tal disparate? Às cinco. já escrevi atrás o que pressinto. violento: —Também. mas. a ponto de ficar até hoje gravado em minha memória. Como Amiel.

Mas, em matéria de modos, manteve-se-lhe intata a campesina rudeza de Borba, apesar da influência que nele exerceu a velha, que vinha dos Maias, gente da Vila. Os Maias eram finos e a avó Maia, mulher delicada e inteligente. Fora de Ouro Preto para a Vila, quando casou com meu avô materno, deputado geral. Tinha finuras genuínas; não mesuras e lisonjas de salão. Desse consórcio de Maias com Borbas foi que surgiu o amanuense, sem a virilidade destes e sem a polidez daqueles. A aspereza dos Borbas, que é antes couraça, para defender um coração mole tem, na Emília, sua expressão integral. Ao ouvi-la resmungar, franzir os sobrolhos, penso, com uma ternura que me umedece os olhos, nesse velho que foi o último da raça. Toda sua força, sua dureza de metal nobre, transferiu-se à mana. Para mim não restaram senão vagos reflexos e, ainda assim, bem no fundo, bem no fundo. A autoridade que emana de Emília e das sombras familiares que povoam esta casa basta, porém, para sustentar nela, em plena vigência, aquilo a que tenho chamado sistema Borba. E o leitor já não se rirá de mim, agora, quando repito as palavras escritas atrás: Mesmo que, algum dia, Carmélia a mim viesse, as bodas seriam impossíveis. O sistema Carmélia e o sistema Borba se repelem. Entre Emília e a viúva Miranda há distâncias interplanetárias. E, ai de mim, estou que o casamento não baniria os mitos. Mito tocado é mito morto, e a imaginação busca outros, sentindo-se ludibriada. Fique Arabela no seu nicho.

§ 44. REDELVIM TEM, TAMBÉM, UM DIÁRIO.
HÁ QUATRO dias não ponho os olhos neste caderno. Andei em maré de ler, e não de escrever. E Silviano tem-me suprido do bom e do melhor, no que toca a livros. Ele os compra aos metros cúbicos, e muito lhe devo nesse capítulo, desde os tempos de república, quando o conheci e já era professor. Interromperei, esta noite, a leitura de um dos volumes que me mandou (abasteceu-me, desta vez, de gregos, e estou atacando a Ilíada, que nunca pude ler de fio a pavio), para não me esquecer de anotar aqui uma visita a Jandira. Ao entrar em casa, de volta da Secretaria, Emília me disse: —A excomungada mandou um positivo trazê um escrito. Está em riba da mesa do quarto. Como de costume, falou-me sem se virar para mim. Achava-se de costas,

a pôr a mesa, e assim continuou. Ri-me, feliz, quando ouvi a palavra "positivo", na acepção que lhe deu e em que há mais de vinte anos não a ouço. Em Vila Caraíbas, "positivo" quer dizer mensageiro expresso e especial. O Borba não empregava tal vocábulo. Usava de outro, que os léxicos admitem com esse sentido: "próprio". Lembro-me de que, certa vez, corrigiu um dos nossos empregados. Ao dizerlhe o vaqueiro: "Seu Jucá do Riachão mandou um positivo aqui para dizê ao sinhô seu Coroné qui ele já fez o acêro", o velho emendou:—Um próprio; um próprio: "positivo" é outra coisa. —Propre, seu Coroné? —Sim, sim, respondeu, impaciente. Também me divertiu ouvi-la estender a excomunhão a Jandira. Já lhes disse que isso não significa desestima e provavelmente esconde ternura, mas ainda assim continua chistoso. Eis o escrito, segundo a expressão caraibana da Emília: "Honrado amanuense: preciso falar-lhe. Venha ver-me hoje à noite, se puder.—Jand.” Mal jantei, saí. Sentia-me em falta com ela. Havia oito ou dez dias que não a procurava. Chegado ao pequeno apartamento, fui recebido por D. Hortênsia, que ficou comigo alguns minutos, enquanto a amiga arranjava o penteado. Ou melhor, ficou consigo a um canto. Está acostumada a permanecer horas e horas sem dizer palavra, quando assiste às nossas reuniões, nos dias em que Jandira nos convoca. Mas hoje, forçada a fazer as honras da casa, sentia-se visivelmente constrangida, a todo momento se mexia na cadeira, como quem não acha o que dizer e se aflige por isso. Felizmente Jandira não se demorou, e sua chegada tirou a pobre senhora do apuro. Num movimento vivo, em contraste com o seu modo discreto e ausente, D. Hortênsia fugiu da sala, assim viu a sobrinha. Por certo, teve medo de que ela volvesse a dar mais uns toques no cabelo, o que faz freqüentemente, e a deixasse de novo comigo, na embaraçosa situação. Foi tão ágil e rápida a saída, que Jandira achou graça: —A velha está lépida, hoje... Depois, disse-me, andando para lá, para cá, segundo seu costume: —Não há nada de novo, seu Belmiro. Escrevi o bilhete pensando que você estivesse zangado comigo. Sumiu tantos dias... —Zangado por quê, minha flor? —Porque eu não o socorri, quando Redelvim começou a azucriná-lo. —Ora, Redelvim é um menor exaltado, respondi. Ela riu-se. Depois falou-me que, se não interveio, foi para não agravar a

situação; Redelvim estava irritadíssimo e precisava desabafar-se. Como eu já estava acostumado a servir de pára-raios, ela preferira ficar de lado... A polícia dera-lhe busca na casa, levara-o à delegacia para explicações e lhe tomara os melhores livros, bem como o seu Diário, que nada tem de extraordinário, diz ele, mas o acompanha há longos anos, é coisa de estimação. Li páginas desse cartapácio, há tempos, pelo mesmo processo clandestino por que conheci o do Silviano. Provavelmente Jandira não o suspeita, mas o nosso amigo, noto-o bem, está irritado não é por causa dos livros, nem pelo chamamento à delegacia, nem por estar sendo seguido pela polícia secreta: é por causa do Diário... Como todos os documentos dessa natureza, contém histórias muito íntimas, amores (inclusive o caso da pequena espanhola, que o torturou bastante) e versos de adolescência. Não permite que se lhe fale nos amores, nem nos poemas. Esse Diário nas mãos da polícia deve ser-lhe motivo de profunda inquietação. —Ele não lhe quis dizer nada, porque acha que você é gente do Governo... Não deixei de ficar lisonjeado. É a primeira vez, na minha carreira de funcionário, que me consideram pessoa integrada na administração, ou, mais que isso, "gente do Governo". Redelvim é um pândego. —Acho que você lhe pode ser útil, continuou Jandira, procurando recuperar seus papéis e livros, na polícia. Era, pois, este o objetivo de Jandira, ao chamar-me. Prometi-lhe arranjar a devolução das coisas por intermédio do Senador Furquim, via Glicério. Sempre é bom conhecer um senador. E voltei logo para casa, porque Emília aqui está com a gota ciática de sempre, necessitando de mim. Não terminarei esta página sem dizer que Jandira estava uma tentação, mais desejável do que nunca. Trazia uma flor artificial no peito, muito chique. Esquecia-me dizer, também, outra coisa importante: arranjou emprego num escritório comercial. O patrão é pessoa idosa e não tem filhos. Por ora, o problema Pereirinha está, portanto, afastado.

§ 45. EXTRAORDINÁRIAS DECLARAÇÕES DE GLICÉRIO.
MEU ESPÍRITO está, agora, serenado, e procurarei expor

ordenadamente o que se passou. O sonho a que me referi numa destas páginas não deixou de ser exato, no que toca a Glicério. Pelo que hoje me disse, percebi que minhas confidencias o impressionaram de tal forma, que tem, agora, uma visão diferente de Carmélia e a olha por um ângulo aproximadamente idêntico àquele sob que ela me surgiu, na noite de carnaval. Sugestionável como é, foi empolgado pelo mito da Donzela ou, pelo menos, empresta, agora, a Carmélia parte dos atributos misteriosos de que a dotei. Ela se cristaliza, rapidamente, a seus olhos, se me permitem o uso da expressão stendhaliana. Hoje, na Secretaria, falou-me da moça como se se tratasse quase de um ser quimérico. Ao ouvi-lo, oscilei, de início, entre a satisfação de autor que verifica o êxito de sua criação, e a angústia de namorado que pressente um rival. Disse-me que Carmélia é antes um símbolo do que criatura humana, pelo que há de imaterial beleza, graça, dança, música e poesia nos seus dezoito anos. Sem perceber as reservas com que lhe recebia as expansões e supondo que me iludiria quanto aos seus sentimentos, continuou a falar, ajuntando que a moça lhe despertara grande interesse (puramente estético, sublinhou), depois que eu, com minha confissão, lhe chamara a atenção sobre ela. Fora quatro ou cinco vezes à casa da viúva Miranda e estivera com Carmélia. Não me contou isso há mais tempo, esclareceu, porque acredita, de acordo, aliás, com as minhas declarações, que o caso já não me seduz. E insistiu nisso: aproximando-se da moça, procurando conhecê-la de perto, verificara tratar-se, realmente, de uma criatura fora do comum. Não se deve dar a Carmélia o apelativo "mulher", que com impropriedade se aplica indiferentemente a ela e a D. Paculdina, mulher do nosso chefe de Seção. Esta é uma porção bestial de gorduras, enquanto Carmélia é toda harmonias. Não disfarçando o despeito que me causava a dissertação de Glicério em torno de tema originariamente meu, respondi-lhe que, sobre essa diferença de substância entre Carmélia e D. Paculdina, haveríamos de conversar depois. Deixasse vir os anos, os cuidados, o casamento e os filhos à moça. E acrescentei que, no mais, estava fazendo literatura. Com a água fria que lhe pus no entusiasmo, calou-se. Notando-o aborrecido, recuei e pus-me a procurar um meio de reaver suas boas graças. Não o fiz por generosidade, mas para obter novas informações sobre seus encontros com a donzela. O aparecimento oportuno do Carolino, que nos veio trazer café (estávamos a uma janela do edifício), ofereceu-me ensejo para romper o silêncio e reatar a conversação. Ao servir-nos, Carolino nos pôs ao corrente de grande novidade: nosso companheiro Sepúlveda havia

Não se pode fazer uma brincadeira. as impressões. Glicério. ficou suspenso. Receando que a evocação do incidente viesse suspender a conversação sobre Carmélia. na última noite de carnaval. Perguntei-lhe que coisas ela dizia. Gostava muito de versos. ontem. Informei-a a seu respeito. esforçando-me por fingir indiferença.. finas.. sim. sem querer. ainda mais aflito. Não. foi despeito.. Havia na casa. Você anda irritante. ultimamente. Ou melhor. —Imagino." (nessa altura. Fazia gosto conversar com ela. respondeu. Por isso não fora hoje à repartição. sentia prazer em verificar que a ele. esclareceu.. insinuei que já nem me lembrava de meus ardores sentimentais pela moça. Mas você não me contou se a moça ainda canta. não o pude socorrer). mais direto: —Desamarre essa cara. pelo aparte. Se cantava ainda. Desembaraçado. como há dois anos.. a respeito de você. dessas que a gente vê nas telas de. disse-lhe.. Não sendo versado em pintores. Você não faria isso.. Falei. desculpe-me... . Contudo. Disselhe que você a conhecia. imagino. Se não gostar. —É claro.. respondeu-me que a achava simplesmente fabulosa. não estava cantando... cortei: —Ora. com voz tão bonita. —Contei-lhe que. —Não é possível! exclamei. melancólica e terna de uma virgem descuidosa. E que educação perfeita. Depois de pequeno intervalo deixou escapar. "tinha a expressão casta. de um pintor teimosamente anônimo. Já confiante. —Sujeito de sorte. Fui. é. sem saber que pintor mencionaria.. ainda. esta coisa fulminante: —Esquecia-me de lhe falar: conversei com ela. homem! Está ficando muito melindroso. .. respondeu. com o coração batendo desordenadamente.. literárias . com hesitação. Achando-o mais abordável. explicando que os momentos de cisma da moça é que lhe deram. Fiquei suspenso. Glicério continuou. —Você é louco? Você falou nisso? indaguei. a ele. A morte do pai lhe trouxera grande tristeza. o Sepúlveda! comentei eu.. —Dou-lhe minha palavra. Tinha palavras ágeis. amuado.tirado sessenta contos na loteria. já lhe disse que aquilo foi brincadeira.. a meu ver. uma densa nuvem de melancolia. que naturalidade! Quando cismava. —É. Sem sombra de convencionalismo. quando por acaso lhe ouvi uma canção napolitana. então. a garota parecera excepcional. Lia o melhor que vinha da França.

recomendado a um dos garçons do clube. . Arabela. a um pequeno salão. como pude. magro. tão extraordinárias revelações que não lhe guardo rancor. Eu retinha a respiração para ouvi-lo. como quem estivesse vendo qualquer coisa extraordinária. falando-me que as pessoas que freqüentam a casa não são desinteressantes e que há lá agora um rapaz muito "distinto". onde havia um sofá. e disse ao Glicério que precisava sair para alcançar o horário do Banco. Glicério.—Sossegue. Notou que você a fitou. um dia.. provavelmente.. porém. com a fidelidade que me é possível. com o qual eu gostaria de conversar.. caso eu não tivesse ficado encabulado com o incidente. Fiquei arrasado. —Vai sujigar a onça? perguntou-me. Um homem de pince-nez. com um modo esquisito. Disse-me. Não notando meu mortal desgosto. olhando o salão como se olhasse para o mar. mas era coisa sem importância. meio maduro (Glicério sorriu com malícia neste ponto). Não sei bem que dizer de tudo isso. você tinha tido um desmaio. que se achava atrás. A incompreensão do Glicério atingiu a esse limite. não houvera mal. Quase lhe fez medo. sorrindo. que não. Tinha um título vencido e precisava reformá-lo. Acrescentou pormenores: —Disse que deram apenas alguns passos. talvez se estivesse divertindo à minha custa. estas notas. quando lhe fiz um aceno de mão. Não respondi nada. Ela acabou achando graça na história. ela disse que se recordava. Aqui reproduzo. que o levasse para fora. Isso foi quase de manhã. Você teve um desfalecimento e ela pediu ao pai. num gesto de despedida. Falava em "Arabela. Ou. depois. por efeito de álcool e éter. Mas pouco depois voltou a si.. que ela mostrou desejo de me conhecer e pediu-lhe que me levasse lá. Ela ficou com pena e quis alegrá-lo. sei lá. Cortei o assunto. Fez-me. Não. insistiu no assunto. aqui. Estava muito triste. consultando o relógio com fingida ansiedade. as palavras ouvidas a Glicério. O pai a informou de que. Sinto-me cansado e interromperei. Pela forma como se referira a mim. e você ficou deitado no sofá..". com sua incapacidade de perceber certas coisas. primo de Carmélia. depois de lhe ter dado a mão. homem! Contei-lhe apenas que você a achou linda e muito "distinta". alto. ainda me perguntou: —Acha que fiz mal em lhe falar nisso? Respondi-lhe. Depois de tentar lembrar-se do episódio..

A referência à embriaguez e a declaração de que acabara "achando graça na história" doíam-me como pontadas no peito. O rapaz está pondo as manguinhas de fora. quem sabe. Nesse caso. o da moça. Embora me deprimissem. magro.. porém." Dormi ontem pensando nessas palavras. Acabou achando graça na história.. as palavras teriam sido espontâneas. r»(|ii Estava muito triste olhando o salão como se olhasse l\Lrl para o mar. necessárias para definir precisamente uma impressão. Bem feito. também.. examinando-as em todos os sentidos.. Procurando tirar desforra. mas.. de seu círculo. achei que a comparação "triste como se olhasse para o mar" devia ser mesmo de Carmélia. meio maduro. alto.. esse parvajola.".. A donzela terá um temperamento romântico e talvez pense muito no mar. e comecei a gostar desse Belmiro que olhava para o salão como se estivesse contemplando o mar. e. olhando o salão como se olhasse para o mar"—deu-me compensações. {l^Ef^M HOMEM de pince-nez. Veio-me a idéia de que a frase talvez fosse pèrfidamente construída pelo Glicério. eis o que Carmélia pressentiu em . e a moça tinha razão.. Não pude. UM BELMIRO OCEÂNICO. ajudando-a a ridicularizar esse pobre idiota da noite de carnaval.. meio maduro. Um Belmiro oceânico. fez isso para me desfrutar? Por fim. Era um tanto literária. sonhei com elas e amanheci hoje a repeti-las.. Esqueceram-me todas as mágoas. sentia prazer em esquadrinhá-las e decompô-las. O quadro foi realmente grotesco. se não tivesse ficado encabulado com o incidente. sem mencionar nomes) hão de ser Delly e Ardei. Em vez de ficar no seu mundo e no seu lugar. Era de um romantismo aguado e soava ridiculamente. o desfalecimento. seria rigorosamente exata.. Era um sujeito meio maduro e dizia: "Arabela. Quanto à rebuscada frase—"Estava muito triste.§ 46. um álbum onde colherá pensamentos de mocinhos tolos. Deve ser das tais que colecionam autógrafos. correspondendo a imagens que flutuam no seu espírito e. considerei que uma jovem que diz frases semelhantes não pode deixar de ter. Arabela. coitado) e riram-se dele. porém. Em vez de tomar o meu partido. que redundava na defesa do pobre bêbado da noite de carnaval. ficar muito tempo nessa atitude de combate.. afinal. Que eu fosse lá.. e seus autores franceses (a que Glicério aludiu de um modo geral. tomei... Efeito de álcool e éter.. Deixaram-no deitado no banco (estava embriagado. O resultado não poderia ser outro. se fora meter na roda de filistinos. irremediavelmente oceânico.

paguei maquinalmente ao condutor. Nós ficamos com o mito. não vi ninguém.. E. na Praça. Como assentam. vinham as damas de honra. Um moço "distinto". pensei. Bem feito. Pois. todos com os passos também cadenciados. Lá se foi ela com o moço 'distinto'. e. e ele. uma frase que. primo de Carmélia. pus-me a urdir vasto enredo. se arrastava pelo pavimento da igreja de Lourdes. foi quando eu tomava o bonde para a Secretaria que me veio. em sondagens. por que não pensei nisso há mais tempo? O fato é de importância capital. Quando. Mas. sem dar conta de coisa alguma.. não fora objeto de exame. tão absorto me debrucei sobre as outras: "Há lá. A cauda do vestido. um rapaz muito "distinto". na hora do sim?" A um canto. Uma jovem extremamente bela. Depois. um ao outro". Não será minha. ao mesmo tempo. às vezes tão bravo e sombrio quando bate no Arpoador. enxerguei tudo. Depois. durante todo o trajeto. Voltarei a conversá-lo um dia.mim. realçada pelo fundo escuro da roupa. na Avenida. alto. tomando-se um bonde que sobe a Rua da Bahia. com a pequena. com quem você gostaria de conversar". um homem magro. mas também não será sua. com uma sensação de vitória: "Ora. "como se olhasse para o mar". como um relâmpago. também não será você. dando uma solenidade espetacular ao acontecimento.. quando isso me seja possível. Quem será esse primo? Como será? Que veio fazer aqui? Quais serão as conseqüências de sua convivência com Carmélia? Da Rua Erê à Seção do Fomento a distância não é pequena. Esquisito. "Carmélia está um sonho". trazendo ao peito uma gravata clara. E a manhã de hoje correu assim. dava-lhe o braço. "Você notou como o noivo estava comovido. Tocava-se a Marcha Nupcial de Mendelssohn. O casal caminhava ao ritmo da música. apoiado a uma coluna do templo. muito longa. dei maquinalmente o sinal de parada. As revelações de Glicério me proporcionaram um mundo de meditações e suscitaram-me os mais desencontrados sentimentos. simpático. ao chegar à porta da Secretaria. Como Silviano. agora. faz-se baldeação. baldeação inclusive. Há muitos anos que não vejo o nosso irmão Atlântico. vestida de noiva. encontrei Glicério. fitei-o com pena e. Para rematar: melancólico. nela.. vestido de jaquetão e calças listradas.. denunciando-me a existência de Belmiros ainda inexplorados. dispondo os mais insignificantes pormenores. mas resignado. um alfinete de pérola. em voz baixa: "Belo casamento. Os demais assistentes trocavam impressões. até então. como sabem. triste e maduro contemplava o desfile.." . os garçons de honra.

. sabe? Especializou-se na Alemanha. bom. Seremos solidários no combate ao filistino. primo de Carmélia.... trarei para você um volume do Ruyssen sobre Schopenhauer. Mas tocará.. À hora do café. —Então. Quando o encontrei. Algum do seu clube? —Não. Belmiro. ainda com ar triunfante.. Deveria fazê-lo. Respondi-lhe que. me interessaria. seria sempre "a propósito". puxarei sua língua. É ameno. assustado.. você falava de Schopenhauer. esforçando-me por parecer despreocupado. Se você quiser. e só no último caso iria à sua mesa. por exemplo. disse Glicério. tanto quanto o gênero comporta. Tirei-o do apuro. disse-lhe. pensei. —Bom.—Olá. —Você é fantástico! Carmélia havia de rir.. ando há muito tempo com necessidade de leituras mais sólidas. na Seção. É verdade. Quero dizer. Acabei de visionar o seu casamento. mas estou vendo tudo claro.. Queria que Glicério tivesse a iniciativa de me procurar. como vai essa força? disse-lhe. à hora do café. Pois o rapaz mal chegou a Belo Horizonte! —Quer apostar? Não o conheço. respondi. Calculei como um astrônomo. Glicério há de falar-me hoje a respeito desse moço. É rapaz "distinto". —Que Jorge? Não sei de quem se trata. se soubesse disso. Preciso debulhar. não é "a propósito". como de costume. tocará. na igreja de Lourdes.. a propósito de qualquer coisa. enquanto imaginava meios de conduzir a conversa para esses lados. O Jorge de Figueiredo. para montar aqui um serviço de radiologia. —Ora. Jorge chegou apenas há uma semana.. —Olá.. Encontrei-me hoje com o Jorge. como Carmélia. E que a mim. jovem.. estava comprando móveis para o gabinete. Pus em dia o protocolo de processos.. Formou-se há pouco tempo. Se ele não tocar no assunto. ele veio falar-me e se disse encantado com a "schopenhaueriana" que Silviano lhe está emprestando. Se não me engano. —Você se meteu em grandes funduras. primeiro. Não tenhamos pressa. . não. aparentando admiração. por partes. pois era um grande bandido: ia casar com a moça mais interessante da cidade. Estamos em frente de um inimigo comum. —Casar? Você está doido? Quem lhe falou nisso? perguntou.. Dia morno. —Vai morar com a viúva? . —Ah! a propósito. outros livros que Silviano também me emprestou e já está cobrando. observando-lhe que o primo de uma criatura. Mas. por ora.

Dei para vidente. Lá fora. em boas condições. ia à missa. Outra coisa não deveriam fazer o Prudêncio Gouveia e Beppe. "Nenhum desejo neste domingo. no Instituto. E a vida é quase boa. para ouvir a missa das cinco. talvez o futebol. vestindo o velho jaquetão preto e levando um chapéu-de-sol ao braço. desde que. NENHUM DESEJO NESTE DOMINGO. ou não. e ela anda. Tomo o bonde. porém. leve. parece muito animada. por insistência dela. para espairecer. Emília sempre acredita. experimentadas pela pobre irmã. assim. Com as notícias que lhe dei sobre Francisquinha. Só agora veio a Minas. Por que não fazer o mesmo? Devo. que se casem e sumam. há uma semana. Andei lendo. Finalmente resolvo. quase despreocupadamente. Uma banda militar desce . andei perambulando. Pus-me à janela. Posso compor meu olhar oceânico para. ainda moça. Enquanto eu dormia. Talvez possamos trazer a mana para casa no fim desta semana. de assunto. Com ele estive duas ou três noites a bebericar. procuro o Florêncio. depois. ao ver terminada uma crise. disfarçado no meio do povo. Não. § 47. em frente da igreja? O melhor é dar uma volta e não criar este problema. a ver a rua. Muito viajado. nenhum problema nesta vida". à tarde. o Jorge. pela tarde toda. Quando o espírito se me torna. Giovanni. haverem as duchas e os remédios produzido bom efeito. Depois. tirar o chapéu. Veio-me a idéia de sair um pouco. Mas talvez seja melhor armar a rede no quintal e folhear revistas velhas. assistir à cerimônia. quando é vazia como neste domingo. que a velha traz silenciosamente. Tomo o café. na cidade. A ciática passou. sucessivamente. Mudamos. NESTES últimos cinco dias não toquei nestes assentamentos. E casar-se-ão mesmo na igreja de Lourdes. apenas enquanto se instala convenientemente e se adapta mais ou menos ao meio. É admirável esse otimismo que a faz esquecer-se da longa série de crises e melhoras. Cá dentro. e ainda agora me ocupa. Os jornais anunciam um encontro sensacional. Viveu sempre de São Paulo para o Rio e do Rio para a Europa. a manhã deve estar alegre e o parque cheio de gente. Contei-lhe que o médico me disse ontem. que a Chica ficou boa. como diz o poeta. Emília devia ter estado na igreja. o tema foi o mesmo. Está lá. definitivamente. desço na Avenida. dar um giro.—Não. Ora bolas. Leio o Minas que deixou sobre a mesa. a moléstia mental se manifestou nela. Não há dúvida que se casarão. Homens e mulheres sobem a escadaria da igreja de São José. entre bocejos. o sapateiro.

Qual. ver morenas que não nos verão. informado da morte de um compadre. minha pá de terra ao morto. impressionou-me fortemente com o olhar frio que me deitou. Ir. poupando. em anos anteriores. Nenhum desejo neste domingo. poucas vezes ali fui. convenhamos em que cada um exprime o seu sentimento como pode e que. Ah! é verdade. o chefe da Seção pediu-me que comparecesse ao desembarque do Ministro. amigo que era de todos.. rumo à estação da Central. Lembra-me que. senti desejo de visitar o cemitério. a um defunto. Para dizer verdade. seu olho mole. foi que me decidi. Ali chegado. Neste Finados de 1935. O coveiro não se assemelhava em nada ao de Vila Caraíbas. Defunto metódico esse que deliberou morrer no próprio dia de Finados. para exprimir à viúva sua grande dor: "Console-se. aos seus. às preferências daquela pessoa de tão fúnebre ofício. abeirando-me de um ou outro retardatário par de namorados—para ouvir-lhes a conversa —ou examinando alguns mausoléus e inscrições. que enterrava as pessoas com um pesar que se adivinhava sincero. Homem sombrio. visitas extraordinárias ao cemitério. escreverei neste caderno que não era tanto pelos seus hóspedes: imaginei que talvez encontrasse Carmélia. Passando. NÃO TENDO nenhum defunto familiar no Bonfim. também. chamaremos o velho Giovanni para um dedo de prosa. Depois. não tinha o ar amigo nem a expressão honesta do coveiro caraibano. À tarde. não estando muito premido pela necessidade de vê-la. logo pela manhã. o melhor é. à parte nova do cemitério. para um coveiro consciencioso.. senão estas. pus-me a andar a esmo. Mas. O coveiro da quadra 55. do cemitério do Bonfim. Domingo bom e alegre. no dia de Finados. arranjarei uma terrinha virgem para ele. ao pé do túmulo do pai.marcialmente a Rua da Bahia. nenhum problema nesta vida. § 48." Mas. ou não ir. Sem que nada me recomendasse. do que terra virgem. Ia por esporte. toma-se um refresco no Bar. afinal. vi que se enterrava alguém. suponho eu. quando já escasseavam os visitantes. fiquei o dia todo a hesitar entre ir e não ir. nada se poderia prometer de melhor. não encontrou outras palavras. não deixou de fitar- . abriremos a rede. Depois. esquisito. depois. ou para acompanhar algum amigo. eis a questão. FINADOS. voltaremos para casa. Algum político importante deve estar a chegar. segundo o padrão habitual. lá no Parque. Aproximei-me do local e fui deitar.

memórias. A uma hora dessas. que lhe devia levar o Diário. teria ela. Em vista de tais documentos. que se incumbiu do caso a pedido de Glicério. Consideram Redelvim bastante comprometido. era. Em consideração ao Senador. uma cópia de carta enviada pelo nosso amigo a um estudante Lousada. e deixei o cemitério com o espírito opresso. chamou este último à sua residência para o cientificar de que haviam sido expedidas ordens para isso. mesmo assim. Por que me encararia assim. seriam compensados pela felicidade das gerações futuras. Um calafrio correu-me pela espinha. no sentido de que não se afastasse de Belo Horizonte. Que se a greve falhasse e os operários fossem postos no olho da rua. Que a miséria e o sacrifício. JANDIRA SE MOSTRA PRUDENTE. O investigador. "Desconfia o Senador. Era já lusco-fusco. resolveram manter Redelvim sob vigilância constante. O Senador Furquim. pois o delegado é finório. ou mesmo por isso. Mas na correspondência e em papéis avulsos. Nesse documento Redelvim concitava o companheiro a agir. e um vento frio e fino soprava as casuarinas. acossados pela necessidade. seriam outros tantos agitadores. que não o soltaram senão para lhe acompanhar o desenvolvimento das atividades.me um só momento. § 49. terminada tragicamente. teve também a incumbência de transmitir-lhe recomendação expressa do delegado. pois os homens sem trabalho. o Bonfim é menos convidativo que de costume. a carta. ou não. com ar agoureiro? Parecia dizer-me: "Não demorarás a vir também. O Senador prestou outras informações." Por último. Que não entrasse em indagações sobre se a greve surtiria. sem notificar a polícia. FUI HOJE à casa de Jandira comunicar-lhe que a polícia deliberou devolver a Redelvim o seu Diário. até de uma geração. nem mudasse de residência. Glicério me disse que entrou em tudo isso apenas em atenção a . não encontraram no Diário senão poesias. De acordo com o que me repetiu Glicério. relações de dívidas. que não foram boas. o delegado mostrou-lhe. ou Almada. As sombras se insinuavam aqui e ali. efeito. que a polícia conservou. Realmente. apontamentos diversos. mesmo. acharam indícios de que fora um dos promotores da última greve de operários. dizendo-lhe que não criasse problemas de consciência. alcançado os seus objetivos. e este fora encerrado havia mais de quatro anos. Que o homem de ação não deve ter escrúpulos. seu manguarão!" Havia qualquer coisa de triunfante e de perverso naquele olho aguado. enquanto estive à beira da cova. assim. fazendo-as gemer. ajuntou.

que eu ouvira. Ficou apreensiva e manifestou o propósito de ir procurar o delegado.mim e que não se interessava pelo Redelvim. reacionários. Jandira fora dar uma volta na Avenida com a amiga nova que descobriu: uma professora já meio entrada em anos que se instalou na mesma casa de cômodos. Redelvim conversou comigo longamente. Dei-lhe conhecimento das informações prestadas pelo Senador. surpreso. Belmiro. vive falando mal de mim e do Silviano. Nesse negócio da greve entrou por lirismo. em nossas conversações. a assumir atitude oposta. mas reconheço que Redelvim o tem hostilizado bastante. viesse. com ar brejeiro: —Prolongada salva de palmas. era homem atencioso. a fim de lhe pedir um pouco de condescendência no caso. O mundo está errado. que tantas vezes desaparece a meus olhos. disse-me: —Olhe. apelando para a violência. Respondi-lhe que seria bom isso. pois a polícia anda rigorosa. Conhecia-o. mas talvez fosse inútil a tentativa. você vê como tudo anda embrulhado na Rússia. mas receio que. falou. tem a mesma graça leve e a mesma carne ágil dos dezenove. algum namorado nestes dez dias em que tenho estado ausente de sua casa. para cá. Tive de esperar um pouco. Além disso. sem que eu insistisse no assunto. Fiquei satisfeito com suas palavras. seu jeito provocante. Quando voltou. também. "Ele se meteu em embrulhos. Suas mudanças súbitas. O orador é vivamente cumprimentado. Confio na evolução social. provavelmente. Jandira se mostra prudente e não se tem envolvido em complicações. Aos vinte e cinco anos. sua mímica muito feminina me fazem lembrar a Jandira mulher. retrucou. nada lhe acontecerá. por picardia. receoso de que se melindrasse e. Temos problemas que nenhum regime resolve. andando para lá. Além disso. se cometam erros maiores. assim." Glicério foi duro. sem convicção alguma. Somos criaturas sem fé e pensamos demais. ou porque tivesse julgado o discurso cheio de chavões e quisesse anular o efeito das frases mais ou menos convencionais. que se agüente. E que nosso amigo não fará nada.. Qualquer dia a idiota da Jandira estará. na expectativa de qualquer coisa.. Mas estava em maré de confidencias e. Poderia talvez fazer a felicidade do . Jia cana. tenho pensado que o papel de indivíduos como nós é conter os impacientes. de sua boca—ou simplesmente movida pela sua natural versatilidade. com certeza. Não lhe exprimi esta satisfação. —Mas é um absurdo. Depois. Não tem mais ligação com o Partido. mas acredito que anda decepcionado com os antigos companheiros. chamando-nos imbecis. cumprimentou-me com ar alegre. Arranjou. É orgulhoso e não confessa.

a não ser a volta de Francisquinha. Depois de tomar um café. anteontem. ou do seu amigo Redelvim. Não é meu . E há. pretender discipliná-lo com teorias rígidas. A injustiça social me dilacera a sensibilidade. Hortênsia nos arranjou. quando a mana piorar. com os seus homens. para me contar qualquer coisa que a Chica falou. Josefa lavadeira. alimentada. uma contínua suspeita de que é desconhecer a natureza do homem. limpa. escrúpulos de espírito e de sentimento que não aceitam radicalismos revolucionários.. Fui buscá-la. no Instituto. Vejamos por quanto tempo poderemos conservá-la assim. Emília anda radiante: volta e meia. com esta preocupação. que D. sobretudo. Tenho lido alguns livros do Silviano e consegui liquidar o Homero. JÁ ANDAM JUNTOS PELA RUA. Talvez o amor continue a lavrar manhosamente. Está outra pessoa: arrumadinha. Mas isto aqui não é romance. e ainda me acho um pouco transtornado pelo que me ocorreu à tarde. saí. e os caminhos da vida são mais complicados. NADA de novo nesta semana. Pensamos e sofremos. depois de ter andado muito pela cidade. § 50. nem isso me preocupou. Silviano anda sumido.. Como cedi uma vez. E aqui a escrevo. entra-me no quarto. Redelvim? Como me ocorreu isso? Excelente meio de dar cabo de duas personagens difíceis: casá-las. como fogo de monturo. em mim. Escreverei também que não me falta simpatia humana e muito me preocupam os males do mundo. § 51. da casa de Jandira. mas não lhe sinto as chamas. dentro e fora de casa. como diz Jandira. de novo. pôs-se a resmungar que Francisquinha só há de ficar inteiramente boa é com as rezas da "sessão". Enfim. Não sei para onde irá uma. quer converter a casa em centro espírita e fala em voltar. pensamos demais.velho mancebo que escreve estas notas. nem outra. Mas há. Glicério não voltou a falar-me sobre o primo de Carmélia. ESCREVO à meia-noite. UMA SEMANA QUE PASSA. Há muito não tenho uma semana assim tranqüila. um pouco despeitada por haverem os médicos conseguido o que não conseguiram seus amigos espiritistas.

a tomar chope. Ao sorvete prefiro o chope. não vi essas pessoas. dirigindo-se para um ponto ou outro. pelo lado do Correio. tendo necessidade de sair. que os recém-vindos eram Carmélia. a viúva e o Dr. ainda que atrasado. refletida nos espelhos da parede. Fiquei medrosamente a fitar a imagem de Carmélia. Resumi a conversa. e o chope só pode ser tomado com a devida unção nos bares. Daquele momento em diante. nem costumo freqüentar as sorveterias da Rua da Bahia ou da Avenida. Glicério se levantava e saudava pessoas que entravam. para jantar. apresentar-lhes cumprimentos. Mas o demônio as arma: não sei por que desci hoje com o rapaz e entrei numa sorveteria onde se reúnem as elegâncias de Belo Horizonte. trouxe-me de modo brusco à realidade. e pude vir para casa. pouco ou quase nada percebi do que se passava em torno de mim e do que Glicério dizia. Comi às pressas e sem vontade. onde estive mais de duas horas. num gesto disfarçado. Estando de costas para a rua. Finalmente. Eu respondia por palavras vagas ao que me dizia Glicério e este deverá ter notado minha ausência. Devia estar com uma cara de alma do outro mundo.hábito sair com Glicério depois do trabalho. supondo que seu propósito me houvesse agastado. através do espelho. Jorge de Figueiredo. ia fazê-lo imediatamente: ele poderia ficar à vontade. Emília já está mais ou menos habituada à minha impontualidade e guarda-me o prato feito. Fiz um esforço sobre-humano para ocultar minha agitação e apenas lhe disse um "Ah!" distraído. O luto fechado lhe realçava singularmente os traços finos. Pediu-me licença para se afastar por instantes. Vi nisso uma tábua de salvação e respondi-lhe que. me davam a impressão de que ela estava notando a insistência do meu olhar. dizendo que não poderia deixar de ir à mesa da viúva e da filha. Acabei por me interessar: . sem ânimo de sequer mexer-me na cadeira. que é menos transitado. voltando logo para a rua e tentando assistir a uma sessão de cinema. e perguntei-lhe a quem cumprimentava. a epiderme branca e delicada e os cabelos castanho-claros. sem olhar para os lados. Pouco depois que chegamos. ondulados. O chope me levantou o moral. pegando um jornal e fingindo mostrar-mo. Voltaria logo. Embebi-me na sua contemplação. e meti-me num bar da Rua Espírito Santo. sempre transido de temor cada vez que os seus olhos. Segredou-me. observei que. das ruas transversais. E saí rápido da sorveteria. Andei a Avenida a passos largos. menos freqüentados. Insistiu em minha permanência. apanhando o chapéu e dizendo-lhe ter um encontro urgente com Redelvim. pois sentia que o sangue me tinha fugido do rosto. assim tão mesureiro. com teatral mesura.

A pobre mana está presa ao leito com febre alta. já tranqüilo. O velho está apreensivo. Noto que sua simples presença tem ação sedativa. Não me tenho afastado do seu quarto e nada ou pouco dormi nestas duas noites. e tanto Emília como Francisquinha o estimam muito. e que levou. Pois o casamento se dará. abri um ou outro livro. cá estou a escrevinhar. pois Francisquinha está . uma surra de madame Sepúlveda. e. pensando na possibilidade de uma pneumonia. Saiu de madrugada. dizendo que não podia estar ali. presumivelmente. Ficamos acordados o resto da madrugada. até que Emília. tentando acalmá-la. desde anos. Emília me despertou. com relutância. se levantasse para o pôr fora de casa e desse por falta dela. sob uma chuvinha miúda.. EXTRAVAGÂNCIA DE HÁ TRÊS dias não saio de casa senão para ir à farmácia. pusemo-nos a procurar a pobre mana e a encontramos naquela postura.passando muito mal. finalmente. pondo-se de cócoras a um canto do muro. quase despida. não. O resultado da extravagância foi uma forte gripe. com toda a certeza. Voltei para casa. Recusou a muitos colegas empréstimos de dinheiro. não perderia senão aquela quantia. fez uma grande extravagância. e foi para o quintal. Voltou.. Tosse com violência e sente dores agudas nas costas. pois. que provocava grandes risadas do público. Fagundes. É um homem excelente. E ali ficou durante mais de uma hora. À saída. Chamei ontem o Dr. que é o médico da casa. Não era tolo para pôr fora o cobrinho. pois havia uma mula-sem-cabeça dando coices debaixo da cama. E os vinte restantes foram despendidos em reparos na casa e compra de terrenos. Mas comigo o caso era diferente: se eu quisesse era só falar. § 52. Já andam juntos pela rua. acordada pelos miados de um gato. encontrei Sepúlveda. agitada. Em cada Banco depositou dez contos.era uma comédia leve. Quando eu a supunha bem melhor. no caso de um dos Bancos quebrar. a seu modo. Esqueceu-se de me dizer que gastou cinco contos com uma espanhola. uma força qualquer que faz bem e . UMA FRANCISQUINHA. ou comprar uma coisa ou outra. por isso. Parece possuir nas mãos um magnetismo especial. mais ou menos conformado com o casamento de Carmélia. ansiada. que me levou a um café e se pôs a contar o modo por que empregou o dinheiro tirado na loteria. para o leito. do seu quarto.

Sua rudeza cedeu lugar à ternura. a mana.. que me parecia humorístico. FORTALEZA DE EMÍLIA. a velha Maia. § 53. Como se transformou nos últimos momentos! Encolhia-se feito uma criancinha doente e fitava-me com olhos tão compreensivos. e chamá-lo. agora. Tratei-a sempre com desvelo. arranjou tudo.. sempre que pode. Silviano. Faz dois dias já que a mana está no Bonfim. dá-me. Em sua pouca luz. quanto a Francisquinha. Conversa pouco. Recomendou-me estar atento. Receia que. Donde lhe virá tanta força? Talvez de seu Deus que tudo explica. Vejo agora quanto estava preso a ela. todos. Levei-a até lá com Giovanni. que se tornou mais sombria. desnutrido. perguntando-me se algo me ligava. realmente. com fisionomia resignada. Que felicidade poder pensar que Francisquinha foi para o seio do Eterno.domina os males. que pertenceu à velha Maia. O velho papagaio. vindo a pneumonia. Redelvim. Penso nos gestos serenos e simples de Emília. para nos auxiliar no tratamento da irmã. Emília foi mais forte do que eu. OBRE Francisquinha! Lá se foi. como de costume. àquela caricatura da razão. Emília está mudada. mas notou minhas preocupações e não disse ao que veio. baqueou com a pneumonia. Trata Francisquinha como a uma criança e é indulgente para com as suas impertinências. grande . E a sombra de Francisquinha a prende mais ainda. Prudêncio. Glicério. Florêncio. Não resistiu sete dias. O corpo velho. fraca como é. Silviano esteve ontem aqui em casa. Vestiu-a. àquela deformação do espírito. Já aqui estamos há doze anos. Deus bom. sempre que houvesse qualquer novidade. porém Emília não quer. Jandira e Sepúlveda. e ela se afeiçoou às coisas e ao meio. apegando-se muito a mim. Ofereceu mandar-me a Joana. agora. Emília encontra uma paz que não atinjo. todos. pretextando arrumar uma ou outra coisa. se for preciso. não resista à moléstia. possui invisíveis pontos de apoio: mostrou uma singela grandeza. e lá se acham o velho Borba. mas olhava-a talvez com esta quase neutralidade com que se contempla o que é de todo estranho a nós. Deus chamou a coitada!" Pôs-lhe ao peito um crucifixo de ferro. É mais forte. Dá-me vontade de sair desta casa. Pobre mana. Emilia tem revelado qualidades excepcionais de enfermeira. que assiste os coitados. mas permanece a meu lado. sempre dizendo: "Deus chamou a coitada.

Anda decadente. e a visão desapareceu. perde a plumagem. Emília assistiu à missa das cinco da manhã. Redelvim também compareceu. as coisas se misturaram no meu espírito. circulando por entre meus fantasmas. será de outro. nenhuma representação sensual.. até ao momento em que Emília veio trazer-me um copo de leite.pena. CASTOS AMORES. e o tempo não exercerá sobre ela sua ação desagregadora. Sempre me apareceu assim. ler. um pouco. Durante estes dias em que tenho estado encerrado. Associei-a à minha vida. em cuja sala de jantar este mesmo relógio de repetição assinalava as horas de um dia grande. ora sob o seu aspecto real. Já não reajo contra as visitas dessa doce imagem. grande. pelo Parque. Não queria convidar ninguém. cismadores. . Nessa longa noite. Não conseguia fixar a atenção em coisa alguma. como que alheio a tudo. ou mesmo para pensar. sem contornos precisos. mas no âmbito da fazenda. Conversamos muito tempo. embora não entrasse na Capela. terá filhos. Como é casto este amor! Nenhum desejo. tenho a impressão de haver saído de longa noite de insônia. concentrando-se nos olhos grandes. porque está fora dos domínios do tempo.. ora encarnada em Camila e integrada na paisagem caraibana. como no domínio do sonho. Carmélia apareceu-me com freqüência. a maior parte da comida que lhe damos. Experimentei uma sorte de inibição para escrever. para não ser vista. e passa o dia todo a cochilar. Depois de ter andado hoje. poucas vezes peguei neste caderno e apenas duas escrevi. Deve ter sido um pesadelo. ela me pertence. Estava de vestido branco. talvez enfraquecido pelas demoradas vigílias e pela má alimentação. Depois do enterro ainda não saí. inatingível. OUVIMOS hoje missa de sétimo dia pela alma de Francisquinha. Quase sempre deixa. A Carmélia real. o que a torna mais leve e lhe realça o ar virginal. deu-me um rápido abraço e desapareceu. tenho a impressão de que estou vivendo não em Belo Horizonte. na lata. mas Jandira se informou do local e da hora e avisou os amigos. § 54. Mas a que construí será sempre minha. horas infindas. casará. e as imagens se confundiam. Esperou-me à saída. Só as feições se mostram nítidas. com o corpo extremamente fraco. Soubera da morte de Francisquinha e viera consolarme. como em uma tela esfumada. sentado ao alpendre da casa. na atmosfera moral da casa velha. cheguei a vê-la transpor o portãozinho de ferro e aproximar-se de mim. Fechado dentro de casa. Uma tarde.

entre policiais. Vá tranqüila para casa. mas a carta a que aludi o comprometeu aos olhos da polícia. Seu amigo será bem tratado. . com esse propósito. se possível. com a notícia das sublevações de Recife e Natal. não se sabe ainda se o movimento surgirá em outros pontos do país. Interrogava numerosas pessoas que. —No momento é impossível. e é inútil situá-los em outras épocas. senhorita. então. Foi sufocado o levante. pode comprometê-la perante meus colegas. Pela madrugada. Não se pode negar o homem. JANDIRA veio procurar-me. sei que não é suspeita. Só depois de duas horas de espera. quando eu saía para sua casa com o mesmo objetivo: Redelvim foi preso. e a polícia está prendendo todos os elementos suspeitos. REDELVIM VAI PRESO. que lhe fosse permitido visitá-lo. a todo momento. entravam. § 55. Chegada a nossa vez. Jandira dirigiu-lhe a palavra nervosamente. respondeu. nada tinha com os acontecimentos. Hum. a fim de lhe explicar a situação do amigo e pedir-lhe.. depois de termos vivido dois dias de inquietação. Havemos de ver isto. Aconselho-a. Neste instante. Combinamos fazê-lo imediatamente e dirigimo-nos à Polícia Central.. e está incomunicável. não obstante as aparências em contrário. Conheço-a. a soltura. após duros combates cujos pormenores os cartazes dos jornais ainda estão registrando febrilmente. mas sua presença aqui. conseguimos falar com o homem. Os que não estiverem envolvidos serão postos em liberdade. Jandira veio propor-me um entendimento com o delegado seu conhecido.. aflita. dizendo que ali fora para esclarecer que Redelvim. olhando-me com insistência. ontem..Também não reajo contra o sentimento romântico que me domina. Sabíamos que Redelvim estava ultimamente alheio às atividades do Partido e nenhuma ligação tinha com os conspiradores. Jandira pediu. havia rebentado uma revolução comunista no Rio. mas a verdade é que esses sentimentos são de natureza eterna. Um pouco intimidada. Vivem-se horas ansiosas e a cidade anda cheia de boatos. —Hum. Por que esta preocupação de parecer o que não somos? Ponham-me a data de 1830. Os prisioneiros vão ser ouvidos com toda a atenção. a não insistir. Desejava que fôssemos juntos àquela autoridade. aliás. Ninguém receberá maus tratos. Apenas ficarão detidos. enquanto se fazem investigações.

aviso-o de que nada lhe adiantará fugir. mas cortês. Embora inquieto pelo que me poderia acontecer. como outros. quando o delegado me chamou à parte. que o delegado chamava um funcionário e lhe dava instruções. Procurei. a fim de prestar depoimento sobre Redelvim. ter ali deixado um bilhete para Glicério. e eu ia fazê-lo com Jandira. muito pálida.. ao sair. PROMETI-ME. Calculei que expedia ordens para que me vigiassem os passos. havia de ser desfeito o equívoco. assegurei-lhe que voltaria. e não poderei escrever agora o que se passou comigo. § 56. dentro de poucas horas. Se for detido. pois repreendeu-me: —Parece que já esqueceu da Chica. Disse. para evitar dúvidas. Não se preocupasse com alguma demora: eu já tomara providências para que o contínuo da Seção viesse dormir em nossa casa. É sujeito antipático. Que o "Chefe" precisava de mim. vim rapidamente à Rua Erê. dentro do prazo. para avisar Emília de que teria de demorar-me fora e talvez voltasse à noite. Fui chamado à polícia. ontem. em seguida. —Quanto ao senhor. para tranqüilizá-la. Foi pontual e procedeu corretamente em casa. disse. passando pela Secretaria. nos seguintes termos: "Suspeitam de mim. Com untuoso sorriso profissional. mas. Com certeza supôs que eu ia a alguma pândega. desejo que volte aqui. o delegado. Não tentou destruir papéis. peço-lhe que olhe pela mana e obtenha que o Carolino vá dormir lá em casa. aproveitando esta manhã sossegada. Assustado com o imprevisto convite. Deixei-a em casa. Fora da delegacia. Jandira. Percebi. apresentei-me ao delegado com uma convicção: a de que. Leve a moça à casa e apareça-me dentro de uma hora. Assegurei-lhe que não. depois de. que o delegado apenas me pedira voltar à sua presença. Fá-lo-ei amanhã cedo. . Talvez tivesse de fazer pequena viagem com ele.. à noite. pois teremos meio de encontrá-lo. deliberamos retirar-nos. O delegado recebeu-me razoavelmente." Sinto-me cansado. ENTRE LUNFAS.. Vou fazê-lo pormenorizadamente. perguntou-me o que acontecera. Não o conheço. desfechou-me à queima-roupa: —Estou bem impressionado com o senhor. se equívoco houvesse quanto a mim. e retirei-me com Jandira. que relataria hoje tudo o que me aconteceu na Polícia..Diante disso. por não ter dormido esta noite.

Farei o que for possível. etc.Vendo minha surpresa. pela janela. enquanto não se der uma busca em sua residência. por seu intermédio? perguntou. e na interpretação que poderia dar à busca. Olhou três salas e achou-as repletas. sem indagar que coisas continha. de chofre. Talvez não existam.. para a diligência.. O policial levou-me pelo braço. o acadêmico Glicério de Sousa Portes. Os investigadores de guarda disseram-lhe que não havia lugar para mais ninguém e que os "pássaros" já . Redelvim. que este levasse. e. Como explica o fato de mandarem livros extremistas ao sr. Durante os segundos em que me demorei a responder.. quando contei o que se passara. meu conhecido (o que se interessou pelo caso do Giovanni). respeitava o regime. observou-me de modo impertinente. que eu era pessoa inteiramente inofensiva. fiquei certo de que assim procederia. Interpreto favoravelmente o fato de não se ter demorado para se desfazer de documentos incômodos. em sua companhia. Digo "talvez". destacasse. —Mas. fitando -me dentro dos olhos. eram livros extremistas? Em suas freqüentes mudanças de pensão. se fosse possível. respondeu... Pode fazer suas declarações. sem idéias políticas.. Beltrano. Mas precisamos investigar. um tanto inquieto. Redelvim as vezes dava meu endereço para que lhe fossem enviadas cartas ou encomendas. por um corredor comprido. Assim a velha não se assustaria.. onde estão os que aguardam depoimento. Fí-lo. Declarei.. note bem. Lembrei-me de que. chegar às mãos do destinatário. —Conduza-o a uma das salas. meu companheiro de Seção. quando entrou em casa. —Sua explicação é aceitável... que serão tomadas por termo. de uma feita. cheio de gente. pertencia ao serviço público. Pelo tom de suas palavras. Vasculhei a memória. Pondo-o a par da situação especial de minha casa. Pode ser que os haja e tenham sido esquecidos. Pensei logo em Emília. fazendo apelos à memória. Vejamos. pedi arranjasse as coisas de forma que não atribulasse a velha. —Vejamos. disse o delegado. que. etc. o pacote registrado parecia de livros. prosseguiu: —Pensou que ia sozinho? Um investigador o acompanhou durante o trajeto e o observou. indicando-me com um gesto de queixo. É comum haver esquecimentos. ainda. Sou obrigado a detê-lo. Então. recomendou a um policial. imprevidências. Cessou a pressão. o investigador Parreiras. naturalmente. um pouco tranqüilizado pela acolhida. Poderiam tomar informações com Fulano. Posso reproduzir a conversa que teve com uma senhora velha que mora lá..

mas não dou para isso. de vez em quando aparteado pelo outro. A sodade apertou. rindo-se. e "lunfa" é ladrão. Mas sufoquei a raiva e entrei na sala de janelas gradeadas. Fui preso por causa dele. Um me dirigiu a palavra: —Não ache ruim.. mesmo. —Mancou. acolheram-me com chufas. respondeu-me o baixo. para o outro. Namora. Com eles me distraí bastante até que.. —Seu Belmiro. veio ver a nega e foi encanado. o investigador Parreiras veio procurar-me para me levar à presença do delegado. A combinação "lunfa de penosa" era-me. não? Os jornais estão cheios. Mancou agora. e falou: —Ora. —Pois olhe. Sou punguista. —Está com pinta de lunfa de penosa. puseram o senhor no meio desses malandros! Vou contar ao delegado. Não valia a pena. mestrepunguista. A cana é isso. onde havia dois presos. velho. disse. Já fui encanado mais de cinqüenta vezes. Pedi que não o fizesse. Percebi que estava em meio de larápios e a experiência despertou-me a curiosidade. Já corri os Estados todos.. com orgulho profissional. fingindo zangar-se. .. maltrata de "manguarão". deixemos de luxinhos. —Qual nada! falei. E continuou a contar sua vida e aventuras. Mas isto é doce de leite para mim. de cicatriz na face... prosseguiu. Tiro só a grana e deixo o couro para o ota não dar o grito. mas quis ver a morena. gordo. Na gíria policial "pinta" é aparência. Saído o investigador. disse.. e os tiras estavam acampanando a grinfa. Fomos juntos à casa da pequena. Até me haviam ajudado a . —Mais amor e menos confiança. jeito. Mato Grosso e Amazonas. ganhando a confiança dos marotos. meio impaciente. não tem sopa. Você vai é mesmo para as grades. O homem fitou-me. indicando-me o companheiro magro e alto: Este é o Manequinho. não.. Tão surpreendido fiquei. porém.. então. seu manguarão. ou melhor. Bem que tinha vontade de fazer um servicinho de vez em quando. pessoar! Depois se apresentou: —Não ouviu falar de mim. É a segunda pessoa que me trata. Que seria "lunfa de penosa"? Propus-me apurar isso. Não afano a carteira. e isso me exasperou. que o mau humor se desfez.estavam reclamando contra isso. menos Goiás. pelas onze da noite. disse o magro. estranha. Ia para a Bahia. Banco o vigário só quando não encontro otários para punga.

. Surpreendeu-me agradàvelmente a presença de Glicério e Silviano no seu gabinete. —Sim senhor. Depois. prefere os regimes brandos. assumiu ar professoral e disse que. no seu Diário. precisávamos de provas. nada justifica o sacrifício de sangue. —Foi o que o salvou. —Tive de me enfronhar nessa maçaroca. continuou o delegado. perguntei-lhe qual era a minha situação. quando o investigador me levou ao delegado. Respondeu que ficasse tranqüilo: parecia boa. Cá estão as suas "memórias". disse o homem. que não passa de um "anarquista lírico".passar o tempo. tirando partido do meu embaraço.. afinal. a folhas e folhas. As declarações íntimas. os três cadernos em que venho deixando notas. Meio mundo se movimentou por sua causa. Eram onze da noite. VAI. AGORA. Apesar das declarações do Senador Furquim em seu favor. minhas idéias se comportavam bem dentro da Constituição liberal-democrática... Depois. continuou. Com aflição e vergonha vi. emendou. intimidado que me achava pelas circunstâncias. § 57. "Ou melhor. portanto. com o seu enjoativo sorriso. Nossa Constituição já acolheu numerosos princípios da socialdemocracia.. Iríamos ver. esclarecem sua posição. pois o Chefe de Polícia mandou examinar o caso com urgência. em suas mãos.. mas não os cumprimentei senão com um gesto de cabeça. Por isso. prosseguiu. socialdemocrática. em que as transformações se possam operar sem que sejam necessárias as revoluções. imaginando que o delegado fosse ler páginas dos cadernos na presença de Silviano e Glicério." —Quanto ao seu amigo Redelvim. Sublinhava as palavras. Devo levar isso em conta. O momento não é para condescendências. Veja se entendi bem. PARA ALGUMA COISA SERVIRAM ESTAS NOTAS.. e o senhor deve . de um ano até aqui. pois suas confissões (novo sorriso irônico) têm cunho de sinceridade. À noite relatarei o resto da aventura. Correu-me um calafrio pela espinha. o senhor acha. o mais que houve na delegacia. Olhei de soslaio para Silviano e Glicério: era de malícia a expressão deles. Acha que viveremos sempre de erro em erro e que. esforçando-se para brilhar: é um céptico.. São dez da manhã e devo preparar-me para ir à Secretaria.

Gostaria de vê-lo mais ousado... interrompeu a conversa e ficou a rir. Abusando de nossa tolerância.. teremos de conservá-lo algum tempo. emprazando-me para um encontro amanhã. Ou. um conselho. atuam lenta.. disse. se me permite. Respondi. de resto. Glicério contou-me. funcionário da Polícia. Glicério. Parece necessitar de mim e querer dizer-me confidencialmente qualquer coisa. pois. quem sabe. e foi uma violência do delegado o ter-lhes posto os olhos. Depois. que o senhor é platônico em demasia. E. Ele. então. meti os cadernos debaixo do braço e saí. que julgou necessário solicitar os bons ofícios do Senador Furquim no meu caso.. . à espera de solução.. apesar dos pesares. A fim de tranqüilizar Emília. sendo grande o número dos detidos. Mas. mas o bofetão ficou na mente. os senhores são literatos e sabem o que lhes convém. O delegado fora atencioso. tímido. O senhor pode retirar-se. Seguindo comigo. porém. declararam aqui ter vindo para arrolar os bens do inventário de Francisquinha. Separou-se de nós. que eram notas para uso íntimo.. também. aludindo à embrulhada em que o Redelvim me meteu. estendendo-me a mão em despedida.. pouco adiante. encontrei bom entretenimento durante as horas de detenção. e que isso serviu para apressar as investigações. pondo o dedo nos lábios. Lá fora. Entretanto. de novo tornando ao seu jeito presunçoso e cínico: —Bem. . a "peça".. Acompanhara o Parreiras e um estudante. apontando. Mais direto na questão da. Seu Diário me interessou. para indicar que o assunto era reservado. O ímpeto meu era de esbofeteá-lo. Glicério não teve coragem de fazer o mesmo. —Enfim. Se publicar as memórias. com o queixo.. que instintivamente fiz. mas profundamente. mande-me um exemplar. Noto. encabulado... Já conversamos bastante..conhecer bem o homem. com a pequena. talvez eu tivesse de ficar mofando na grade. os cadernos que estavam sob o meu braço. Notando minha angústia e o gesto... e tomei a mão do calhorda. irritado. Pedimos-lhe desculpas pelo equívoco. Mudou de assunto. assistiu à busca nos meus papéis. que deviam ter achado a cena muito cômica e por certo me consideraram um pobre-diabo. um pouco. Silviano pediu que eu lhe mostrasse. O senhor erra julgando-o de todo inofensivo. Justamente esses é que constituem o nosso maior problema. depois de uma pausa. Bem. Falei-lhe que o caso estava encerrado e que. sobre os espíritos fracos. Silviano não insistiu na zombaria. em companhia de Glicério e Silviano.

Hoje cedo. Emília já se havia recolhido.. Aurélio de Miranda.. à hora da despedida. embora este se manifeste às vezes de forma inusitada. que não lhe falta siso.. Desde a vinda de seu primo. têm sido muito cumprimentados. mais de uma vez. de vez em quando.ma Viúva Dr. ao servir o almoço. quando se foi o Borba. "Gente sem modos". lembrando-se de que fizeram o mesmo quando morreu a velha Maia. inclusive a de pedir ao contínuo Carolino que dormisse aqui em casa. Carolino contou-me histórias de sua vida. onde se anunciam os contratos de casamento. É interessante que a gente conviva tantos anos com uma pessoa sem a descobrir. o Glicério. filha da Ex. folheei com emoção o Minas Gerais. vagando em torno de uma conversação havida com Silviano. quando a informação me caiu sob os olhos: "Acha-se contratado o casamento da prendada senhorinha Carmélia Miranda. a medo. no ponto de bondes. que pertencem à nossa haute-gomme. ao que parece. depois de tirar umas graças com a Emília. A busca não teve maiores conseqüências: Emília acreditou na história do inventário. Vi. § 58. consigno. criou-lhe estima. . a coluna social.-Tento analisar e explicar os sentimentos que a notícia do noivado de Carmélia me despertou.Finalmente. —Os home da justiça mexeram em tudo. e. Nesse documento se atestava nada haver contra mim e que minha detenção fora. quase à meia-noite. Eu o julgava um aluado. Glicério entregou-me um papel. Ficamos a conversar até às duas da manhã. um pedaço de bolo envolvido em papel impermeável. Ótimo rapaz. apenas. ao despedir-se. tirando-me de apuros com a Polícia.. ontem." Sempre pensei que experimentaria grande abalo com o acontecimento. Ao encerrar a página de hoje. temi essa notícia e. Ao chegar. percorrendo. no Natal de 1934. e. mais tarde. encontrei-o estendido num colchão. Partiu hoje. A velha. Carolino ficou de voltar. Desempenhou com carinho as incumbências que lhe dei. meu pensamento estava distante. Os noivos. O AMOR. minha gratidão a estes cadernos: para alguma coisa serviram. com o distinto médico-radiologista Dr. dizendo que achara bom obter aquela declaração. na sala de jantar. cedinho. aqui. nisso seguia a opinião geral da Secretaria. pois lhe deu. Jorge de Figueiredo. para produzir efeitos na Secretaria. AMANHÃ DE 3 DE DEZEMBRO. PELO AMOR. Minha fé-de-ofício não ficaria prejudicada. para colher depoimento sobre terceiro. contou-me.

agora. Haverá despeito e mau humor nestas linhas? Creio que não: investigo. Aviltei-me demais e coloquei-a num altar que talvez não merecesse. é que geraram a lenda. Farei com que lhe entreguem. que me vem no momento. e eu o bendigo. no caso. a seu respeito. hoje. o despeito trouxe luz. o meu desencantamento. receando. a razão por que me conformei sem esforço com uma notícia que deveria ser catastrófica. ou talvez o de dar sentido a uma vida sem sentido. Pergunto. A sensibilidade nos oferece surpresas dessas. verdade. que não duvido fosse capaz de lhe procurar um noivo. E o Cavaleiro da Triste Figura se pôs em marcha.Entretanto. . Entretanto.. porventura. e Jeová lhes abençoe a prole. livros e frutas. a mim próprio. Avançarei um pouco mais. pela sua Dulcinéia. não passará de uma prendada e fina senhorinha e não terá sido senão um "momento" da incorpórea Arabela. Jandira foi quem o supriu. já por mim conhecido. Andei reagindo um dia ou outro. com serenidade. O amor era pelo amor. Esta solidão da Rua Erê. para ir passando o tempo. E a tristeza foi resignada. fora daquela noite de sortilégios. com atraso. aceitando eu. Verdade. seria ridícula. É essa. Verifiquei ser uma criatura sujeita às contingências do humano e sem a essência eterna do mito a que o amanuense aspira. a seus olhos. e quem sabe se a convivência teria destruído a lenda que criei. Vi-a sempre à distância de uma estrela. Que se casem. cultivam o sofrimento e o exacerbam. a distância. a cortina interior que ocultava sutil trama psicológica. desde que Carmélia foi revista. ontem. mas. só agora. aproveitando uma fresta de luz. a tristeza de viver de carícias compradas. já não conferiu muito com a intemporal Arabela. sobretudo a distância da moça em flor. A tal ponto se fortaleceu. procurou sempre encobrir. terei cultivado e incitado uma paixão puramente cerebral. quando Carmélia tem dono. tão desvirilizado. torturados por não sofrer demasiadamente a perda de um ente querido. o fenômeno. tenham numerosos filhos. se o noivo não aparecesse. se é amor um sentimento tão acompanhado de renúncias prévias. a minha impressão foi de que se tratava de fato antigo. que seu arrefecimento viesse privar-me de uma emoção que enchia minha vida. neste instante. a convicção de que um grande abismo me separa de Carmélia e de que toda pretensão minha. portanto. é que o namorado teve descerrada. ao outro lado do espírito. é a situação do Redelvim. de uma coisa e outra. em mim. certamente. a situação. em si. teria desfechado um processo rápido de "descristalização"? Afinal. mas o desejo de realizar o mito. Como aqueles que. Há. cuja divulgação se fazia. O que me deve interessar. sem esforço. uma ponta de despeito em tudo isso.. na hora que passa.

suspiroso. é Glicério quem terá primazia. prolíficos e domésticos. achou jeito de tocar no assunto: —Por falar em festas (Sepúlveda se melindrara por não termos ido a uma festinha em sua casa). Não chegarei a dizer que o amigo esteja amando a prendada senhorinha. E. Você sempre diz que o rapaz é muito "distinto". Ficou? respondi. Sujeitos de alma simples. Namoricou apenas. contagiando-se do meu entusiasmo pela moça e vendo-lhe propriedades metafísicas que lhe atribuí. no relato dos acontecimentos. há tempos. nesse capítulo. na Seção. concordou. e. palavras menos importantes trocadas com Glicério. aborreceu-se.-Depois de encerrado o expediente na Seção. tive essa impressão.. —Tanto melhor para ela.. sabe que Carmélia ficou noiva do Jorge? —Ah!. respondi. apesar dos . —É. a mangar.. aparentando indiferença. Bom casamento. porém. quanto a Carmélia. e a moça será feliz.. porém. e imagino que terá recebido a notícia do noivado com menos espírito esportivo do que eu. falou pouco. Não é homem de nosso clima. É fina. Não amou. E você compreende: pode ser um bom camarada entre gente da sociedade. porque. Você não serviria para ela. com os seus "a propósito" sem nenhum propósito. porque não possui força de sentimento para tanto. Mas para bem dizer. É um indeciso. É um inquieto. Reduzidas as coisas às verdadeiras proporções.. não o conheço. Foi o bastante.. Entendo que só serão felizes casando-se com homens tranqüilos. já com o propósito de contribuir para que seu aborrecimento passasse. Tudo isso me foi denunciado pela sua fisionomia. continuei. Registrarei antes. À hora do café. ficou um pouco sugestionado. Nosso clima não é salubre para mulheres. noto o seguinte: Glicério é um hesitante. um homem sem endereço. e você pertence. segundo esta. prendada. me fez maltratar esse excelente mancebo: supus que me estivesse fazendo concorrência e passei a hostilizá-lo. à ordem cronológica. O bacharelando Glicério de Sousa Portes não estava de boa cara. ao passo que assumi uma atitude olímpica. Também ela não serviria para você.. Um bom burocrata deve obedecer. tem razão. como não dispõe dos recursos com que conto..§ 59. quanto a falar. AINDA O NOIVADO.. O ciúme. —Não suspire. tive comprida conversa com Silviano. —É. NOITE DE 3 DE DEZEMBRO. Esse Jorge deve ser mais ou menos isso. para se lhe tornar desagradável o acontecimento.. Talvez não passe de um prelúdio de amor. e não tem configuração nítida de suas aspirações.

explorei-lhe esse lado fraco. —Você me está dificultando a solução do problema. lhe votei. relatar o outro encontro. não é senão pela pouca idade e experiência. mais compreensivo do que eu. quero saná-la.. Foi uma injustiça e. Oficialmente não conheço a família. tentando ridicularizá-lo. ou à noite. impaciente. O QUE Silviano tinha a confiar-me (provavelmente desde o dia em que veio à Rua Erê e encontrou-me preocupado com a moléstia de Francisquinha) era o seu novo caso amoroso. ao "distinto". meu juízo a seu respeito. agora. Há vários dias que preciso falar-lhe e não encontro oportunidade. —Que problema? O "Fáustico"? perguntei. Silviano.. Glicério me interrompeu: —Ora. ambos bem-humorados. carregando a fisionomia (só . e deu-me tempo para reconhecer o erro. falei. É disso que precisa. Glicério é bom amigo e rapaz aproveitável.pesares. Nunca pensei nisso. Tempo é que não me falta. nada disso. cercados de curiosos. Afinal é uma criatura de carne e osso. aqui. Felizmente. —Nada disso.. mas acho que andamos exagerando um pouco. nossa amizade veio a salvamento depois de todas essas crises. Deu uma risada e concluiu: —No fundo estamos despeitados. não me venha com bobagens. atalhou. a uma fauna complicada. O melhor é tomar um chope e mandar um telegrama de parabéns. com invencível horror ao "fino". mais uma vez. vejo que me estendi demasiado sobre a conversa com Glicério e o cansaço já não me deixa. quando tive ciúmes de Carmélia com ele. mal tomamos o bonde para ir a um bar da Avenida. O QUE SILVIANO ME FALOU. retificando. Sem maiores preâmbulos. sem notar o tom de troça da pergunta.. Somos animais intratáveis. nunca deu importância a certas deficiências de Glicério e está sendo amigo melhor: orienta-o. mesmo. § 60. Não faz mal: fica para amanhã cedo. Haveria conflito de temperamentos. Admiro Carmélia. anima-o. —Pode abrir o coração. Vamos aproveitar o despeito e restabelecer a realidade. Se leva desvantagens em nossa roda.. Em seguida. Cada um de nós tem seu lado fraco e. não suspeitou dos rancores que. Tal era sua ânsia de confidencia que não deu a menor importância ao fato de nos acharmos dentro de um veículo. Ao mencionar Silviano.. Você quer assiná-lo também? Respondi-lhe que não. expôs-me a história. Confiante. Também estou inclinado a achar que exageramos. em certo momento. E conversamos mais um pouco.

ingrato. resfolegando. pela posta-restante. Ao fim de certo tempo. Enjoado! —Sua Zizi.. o "Perrexil". Sim.. maior atenção. Há cerca de um mês. entrava noutra. ou. preocupado com a precisão vocabular: só os franceses é que classificam bem as mulheres. . Isso é de espíritos mesquinhos. o negócio está nesse pé: a pequena lhe manda bilhetinhos incríveis. Travou-se namoro. interessante. esclareceu. para encobrir a identidade. . O assunto é sério. Sem me dar. Agora. Não era do tipo angélico e pendia. divertido.. à espera de um bonde. potelée é o termo justo. Silviano não gostou: "Isso é muito trágico. Ah! ah! ah!. continuou. assumindo ar sério. Passeios de automóvel. se não o tivesse prometido.depois de alguns segundos o remoque o atingiu). escrito em bom cursivo. assim nos abancamos no bar.. Não se trata mais da jovem da gota-serena. Chama-me gatinho! O bilhete.. Combinaram-se outros encontros. como de costume. em aventuras de subúrbio.. Por que não vem ver a sua gatinha? Por que não foi à matinée do cine Brasil? Estou com a unhazinha afiada para arranhá-lo. que não lhe permite ressentir-se com pilhérias. e ele a seguiu. melhor . quando a mulher passou. endereçados a Aristóteles de Estagira (acredita ingenuamente que Silviano se chame assim. a fazer intermináveis compras. sessões de cinema. é uma pequena de outro estilo. potelée. Veio-lhe uma grande aura de desejo. antes. Depois." Ri-me. mas acabou concordando em que o mundo está cheio de nomes esquisitos. O nosso filósofo varia sempre. O amuo passou logo. porém. a não fazer. para o ofídico. para não perder de vista a presa). dizia: "Meu gatinho:—Você é muito gostoso.) Enfim. Silviano prometeu-lhe casamento. dando uma gargalhada: —A pequena estranhou. estendeu-me um bilhetinho amarrotado.) Exibiu-me um dos cartões. pois. Diz-me sempre: "Seus motejos me deixam na mais divina indiferença". pois este teve a precaução de mandar imprimir cartões de visita com o nome do seu venerado mestre. dizendo: —Veja que coisa horrorosa. virou-se para mim:—Você sempre com zombarias tolas. foi contando o caso.. Silviano se coloca em plano de superioridade tal. Não tem de que se rir. Estou mortinha de saudades. porque mandava descer a loja inteira das prateleiras e nada lhe servia (imagino esse gordanchudo Dom Juan a dobrar o passo. Miudinha. excursões pelos pontos mal iluminados da cidade. estava ele no Bar do Ponto. Saía de uma loja." . E calou-se.. (Talvez conseguisse mais. a moça o percebeu e deu-lhe corda...

aliás. mas por causa da "coisa em si". Foi um momento de fraqueza do Pensador (aludia a si próprio). Belmiro. diante de si mesmo! disse. muitos presentes.. E atacou a questão. aliás.. comunicando-lhe que fora chamado à Macedônia. não.E continuou: —Foi uma estupidez. e não morrerá sem dar à luz mais alguns imbecis que se disponham a sair do repouso cósmico! O que há é que estou enojado disso. Aristóteles pode seguir para Estagira sem nenhum remorso.. Joana continua sólida. no último Natal.. . Agradeceria a boa convivência e lhe desejaria prosperidade. desgostante. Foi uma estupidez essa aventura. não há problema. que denomina "atitude católica em face da besta". Salvo se.. —Não! Não receio que haja perigo de acréscimo ao registro civil! exclamou.. A carne é profundamente triste. . Coisas que a Dolores Gigedo devolveu. Porfírio. quase um ano depois. dizendo-lhe que. Já me informaram de que ela cultiva homens casados para receber regalos e brindes. Aliás eu não o procurei por esse motivo. depois. Quem o assumiu foi Aristóteles de Estagira. isso não tem a menor importância. —Porfírio. Porfírio era meu avô. gatinho! Continuei. por alto. —Mas o Pensador já fraqueou mais de uma vez. Será a última concessão à Besta! Sugira-me um meio de safar o filósofo Aristóteles dessa embrulhada.. —É o que vou fazer! exclamou. mandaria um bilhete à pequena.. palavras que trocamos no Parque.. O caso está resolvido. com soberba inflexão de voz.. e que deveria partir pelo primeiro vapor. depois: —Chamar-me gatinho! Que monstruosidade! Aristóteles de Estagira. Pelo que me expôs. É. a respeito.. Dei-lhe. uma porção de miudezas. De modo que não há compromisso. A pequena arranjaria logo outro entretenimento. Não é a primeira queda. Devemos deliberar juntos. Não é por causa do compromisso. tratava-se de uma pequena fácil. com urgência. Não haveria.. —Então. —Mas sempre se purificou. adestrada em aventuras desse gênero. objetei-lhe. —É. E. dano moral no caso. portanto. —Ora. Hoje. Será a última concessão à Besta! Respondi-lhe que o problema era simples. E nem poderia haver. Noto que nas primeiras páginas deste caderno registrei. se me visse envolvido em semelhante alhada e quisesse sair dela..

à saúde de Aristóteles de Estagira. e não podemos deliberar juntos. isso é que é. E caiu num mutismo desalentado. Nosso problema—entende?—é repudiar a vida. como houve romantismo literário! . —A solução é a conduta católica. deu. Rechaçar a Besta. depois. —Vejamos se agora ele desiste de reformar a humanidade e se enxerga a "coisa". sobre coisas várias. cortando-me a palavra. como eu. que acaba de cometer aventura indigna de um filósofo! Falamos.) Precisamos renunciar de uma vez. respondi. em forma definitiva. ainda. é a única pessoa com quem uma conversa definitiva me pareceu possível. pediu-me notícias do Redelvim. sorvê-la. ele disse que é melhor casar do que abrasar-se. não se casaram. a favor e contra! Louco! Romantismo político. querelante! A questão é mais geral. —Estou perdendo o meu latim! disse. e Hegel. sem o intervalo de doze meses. é outra. e não transcorrera todo um agitado ano entre aquela tarde natalina e a de ontem. um pacóvio. exclamando: —Bebamos. irritado. Tive a impressão de que a vida havia parado. no mesmo tom grave em que me falava. todos os seus excitantes. (Deu vigoroso acento à palavra "ascese". —Precisamos meditar sobre as palavras de Paulo: andai pelo Espírito e não satisfareis a cobiça da carne. —Você sempre pequenino. —Minha situação em face de Paulo. não chegou ao alto da montanha. eliminando todos os seus atrativos. Não entende nada. Porfírio. Não insisti em minhas réplicas. porém. rastejando. uma gargalhada. Para os que. para evitar nova explosão. Porfírio. Aos coríntios. Louco! Não tem senso filosófico.. de Kant! E que em Kant a gente encontra de tudo. Dei-as. objetei. E o grande caminho é a ascese. Vai pela cabeça desse maluco de Marx! Esqueceu-se de que Marx saiu de Hegel. nem histórico. Ela é ardilosa e inesgotável em astúcia. Não compreende o problema.retomou ele o fio da conversação. Você é um pateta. Sublimou-se. e. Porque a carne luta contra o Espírito e o Espírito contra a carne. —É porque está. —Não tenho tamanha aversão à vida. isso é que é.. a frase interrompida em 1934. —Mas. Impossível dominá-la. violentamente. disse. Depois de alguns minutos. então cortado. ao despedir-se. para ver o espetáculo. pois estes são opostos um ao outro. Entretanto. É o que precisamos fazer. a meditação deve versar sobre esse ponto. tal como se continuasse. Atrai-nos sempre e nos deixa sempre insatisfeitos. Não vê o Jerônimo? Engolfou-se nos doutores.

vamos com os olhos da alma penetrar no âmago daquelas paisagens extraordinárias. a cantar em solo. sutil. depois de uma ascensão lenta.. Minhas ruas e meus largos de Vila Caraíbas eram. as camadas profundas do espírito me trazem o panorama. Ê as cantigas todas eram cantadas." indicam que não se incomoda muito com as atribulações do amigo.E deixou-me. Achei-o duro com relação a Redelvim. "RODA MORENA". que desprendiam beleza e inocência. Uma ia ao centro do círculo. a cor. Quanto o inconsciente é fino. entoavam velhas modinhas. plenas de melodia: "Eu estava na estação quando o meu amor chegou deu um vento na roseira e o salão encheu de flor. a luz e a música de longínquos dias. tirada por vozes sem artifício. até que o relógio da torre do Mercado desse suas nove horas que equivaliam a um toque de recolher. andando a esmo no Carlos Prates. sob o luar. na Vila. quase sempre não lhes percebemos a intensidade lírica. enquanto as outras faziam coro. assim. dei com uma "roda morena". através da memória.. pois Silviano é bom sujeito.. nos seus trabalhos subterrâneos! Só hoje. Suas palavras "vejamos se agora ele desiste. Mas talvez a dureza seja aparente. braços dados. que pareciam perdidos. Assim chamavam. nem lhes apreendemos a substância rica de poesia. NADA me aconteceu de novo esta noite senão que. um canto límpido se alteava—desacompanhado: "Nesta rua tem um bosque que se chama Solidão dentro dele mora um anjo que roubou meu coração." Depois. à dança em que raparigas." . Uma toada se espraiava no ar. Nosso olhar circula vago e às vezes quase indiferente. no estribilho. Mais tarde é que.. ali pelos lados da Rua Serpentina. § 61. povoados de ranchos femininos. receptivo. No momento preciso em que certos quadros se desdobram aos nossos olhos.

mas os encontros foram rápidos. da. Entre mim e Jandira. NOVOS RUMOS DE JANDIRA. cujo chefe é homem velho e bondoso. ao contrário. apesar de meio rabugento. aliás. As cantigas da "roda morena" de Carlos Prates não eram as mesmas. aquele sentimento integral a que aspiramos. Somos amigos fracionários. Fui vê-la ontem. não o indivíduo. O egoísmo. São partes nossas que se unem por simpatia às de outros seres. que buscamos. afinal). mas. Faz-me isso pensar que.. as feições que lhes aprazem. E está aí. § 62.Vinha a réplica de alguém. um conflito em que prevalecerão as partes simpáticas. Elegem. procuramnos em um ângulo. Provavelmente aconteceu com ela o que sucedeu comigo. nos fragmentam. moral ou afetiva (egoística. embora haja umas que se repilam. entra em tudo—mesmo no reduto das amizades mais puras. fora da roda: "Se eu roubei teu coração é porque te quero bem. misteriosa. a amizade nunca foi. ou mesmo em um ponto apenas. a seu respeito: não estava precisando de mim. dizem. embora não tivesse recebido nenhuma reclamação contra isso. mordido pelo remorso de tê-la abandonado tanto tempo. É verdade que nos encontramos quatro ou cinco vezes durante esse espaço de tempo. um no outro. a explicação do fato de nos unirmos a pessoas de caracteres tão diversos. castas e descuidosas. eu me ausentara de Jandira. não será difícil investigar-mos a necessidade de ordem espiritual. então. em nós. se saímos à procura de um amigo. senão que continuava nos escritórios da firma Sobral Lt. que nos parecem espontâneas e gratuitas —e. DESDE o dia em que tivemos uma conversação amarga sobre os seus problemas. os amigos não nos vêem como a um ser indiviso. que nos impele. Consultarei Silviano sobre esse conceito antifederativo do . porventura. faz dois meses já. no geral. Se eu roubei teu coração tu roubaste o meu também!" Melodiosas noites! O luar batia em cheio na Matriz branca de cal. e de nossa roda ser quase sempre heterogênea.. ou fazia que a torre do Mercado deitasse ao chão de grama uma sombra grande. Nada me falou sobre coisas suas. mas certo aspecto dele. fantástica. mas os vultos femininos sugeriam donzelas caraibanas. e o assunto foi a vida dos outros. às vezes em uma linha. ocorrendo.

aqui conhecido por "Almirante": foi Anita quem nos trouxe esta flor. Um amigo de Jandira passa a ser meu. torpe D. Toda vez que perdia com o coringa. e finalmente. para mim: —Anita. Influência da professora vizinha. D. desde logo senti um ambiente frio. Creio que perdi a amiga. invectivava furiosamente a carta: "Canalha gentil. Experimentaríamos. os amigos se deslocam.. depois de prolongado silêncio. É um sujeito divertido. se não o fizessem. dava um suspiro e dizia: "Muito bem! exclamou o Conde. esclarecendo a minha qualidade de velho camarada. Chegado à sua casa. Sou assistente de clínica. De manhã trabalho. o professor Barroso. disponha.) Precisando. A amiga está-se dispersando. na mutação dos quadros da vida. cujo nome não guardei. mas a vida é terrivelmente móvel. (Citou qualquer especialidade arrevesada.. doutorando. sorridente. É que Jandira me desapontou. na Santa Casa. e isso me fez meditar. Pode encontrar-me no apartamento ou na Faculdade. O canalha gentil compareceu logo.. Atendido. se lhe pegavam uma carta." Agradeci ao falastrão e insisti para que continuassem o jogo. sob pena de retirar-me. a professora e dois cavalheiros de desigual idade e catadura. Anita me sorriu. pus-me ao lado do Almirante. também. Não queria ser desmancha-prazeres. uma paisagem em que nosso espírito se compraz. se eu não tinha pé-frio.indivíduo. Belmiro.. minha amiga. Procuramos inutilmente fixar um círculo. Jandira correspondeu com ligeiro sorriso à minha saudação. coisa grave numa idade em que já não se fazem novos amigos. Noto que virou quase um quadrante na sua rota. Respondi-lhe que não sabia. as perspectivas se transformam. Ela. em companhia do Prudêncio Gouveia. nem precisa quarentena. e o doutorando deume forte aperto de mão. procurando outros climas. e lhes pedirei desculpas por esta divagação inoportuna. este é o Azevedo Leão. Os quadros se vão sucedendo. . Juan!" E." Durante todo o tempo em que estive a seu lado. o professor declarou que já me vira. Vim de lá quase magoado. com seu olhar meio estrábico. com tristeza. mas não me fez a festa do costume. E mencionou os outros. pessoa com quem simpatizei. com quem ela se relacionou há uns dois ou três meses? Reação contra o ritmo um tanto monótono de sua vida? Coisas de mulher. À vista de um coringa. dizendo com ar importante e um charuto entre os dentes: "Sempre às suas ordens. ficou satisfeitíssimo e segredoume: —O senhor tem um olho episcopal. Apresentoume à roda. bem diverso da atmosfera tépida que sempre ali encontrei. Perguntou-me este. Jogavam coon-can-play na pequena sala. fruto de pequeno despeito.

E Florêncio se divertiu bastante ao saber que os larápios me acharam com cara de ladrão de galinha. à delegacia.. Eram dez da noite quando saí. Combinamos aparecer juntos. encantado com o Almirante. Será possível que ela o namore? Como tolerará um indivíduo dessa espécie? Fiquei cerca de duas horas a sapear o jogo. descobriu. nestes dois meses. Creio que pressenti nele um possível namorado para Jandira. Sorrateiramente. foi criando um outro núcleo que fará concorrência ao nosso na disputa de sua pessoa. Tenho pruridos filológicos.. O primeiro. Anda queixoso e neurastênico. Nem sequer me perguntou pelo Redelvim. É rapagão bem vestido e elegante. Pobre Redelvim! Já vai para semana e meia que está preso e continua incomunicável. Foi ele quem me reteve ali. na Polícia Central. em que pese à Mariana e aos médicos. na relação das pessoas presas. por ter a mulher conspirado com os médicos e viver a espioná-lo. por certo apanhadas em leituras. Disse-me o investigador que lunfa de penosa significa ladrão de galinha. Aconselhei-o a voltar ao copo com urgência: será o meio de reencarná-lo em si próprio. Os médicos lhe suspenderam o chope. Ainda se encontrava aqui. Aproveitei a presença do Parreiras para um esclarecimento a respeito da conversa dos lunfas. Não tinha podido ir visitá-lo. Levarei amanhã. LUNFA DE PENOSA. ao entrar. Quanto ao pedante doutorando. pedindo-lhe explicação da gíria que lhes ouvi. suspenderam o próprio Florêncio. novos livros e alguns maços de cigarros. despertando-me um interesse que venceu a natural hostilidade para com a nova roda da amiga. Certamente lhe pertence a baratinha que vi à porta da casa. deixando-os ainda com as cartas. Florêncio contou-me que experimentou grande abalo quando. não está com a mesma cara. achando tudo ruim. isto é. no dia da soltura. em Sete Lagoas. E ficou estabelecido que. que passou quinze dias em Sete Lagoas a fazer seguros de vida. § 63. Um pândego. haverá chope. Está indignado com Mariana. e isso me enciumou. pois chegara hoje pela manhã e havia muitos negócios para tratar.ouvi-lhe frases desse gênero. provocou-me imediata aversão. ao ler os jornais. quando veio o Parreiras para me anunciar que já posso ver Redelvim. para que lhe sejam entregues. . TIVE duas visitas esta noite: Florêncio e o investigador Parreiras. o nome do nosso amigo. quando as namoradas me abandonam. amanhã. Parece-me que Jandira não tardará a desertar de nosso pequeno círculo. que virou outro.

grinfa— morena. Aludia à revolução de novembro. Filhos. que o substituiu hoje na entrega de pães. a propósito da revolução comunista. netos e bisnetos herdavam a contenda avoenga. quando as manas me deram grande trabalho. lembrou-me os dias penosos de 1930. bancar o vigário— passar o conto-do-vigário. Dois coronéis fazendeiros brigavam por questões de terra ou de honra. Em Vila Caraíbas havia. mas um pouco além. Emília veio indagar se era verdade que houve um "fogo". com a aniquilação de todos os elementos válidos. grana—dinheiro. De outro modo. polícia secreta. pouco antes de se iniciar o cerco do 12. então ocupado por um contingente policial. § 64. do nosso padeiro. ainda. A isso chamavam um "fogo". ESTA manhã. em meias-palavras. trouxa.Quanto aos outros vocábulos: cana quer dizer prisão. que vinham da colina. vi que a casa fora. às vezes. afanar—furtar. também. Parreiras e Florêncio (que também é versado nesse calão) prometeramme um completo vocabulário dos termos em uso entre os malandros. a prisão. UM "FOGO". que tão raro se exercita. e morreu muita gente. que consumiam famílias inteiras. Para satisfazer à sua curiosidade. memória das rixas seculares entre famílias importantes. ser encapado— ser preso. Pela situação desta casa. pássaro—detento. e gaiola—prisão. ontem. tira—investigador. punguista—batedor de carteira. servi-me da mesma explicação dada durante a revolução de 1930: fora uma briga de dois coronéis. e esta só terminava. falou-me que o outro. Narrando. matavam-se. um . provavelmente vindas do Morro dos Pintos.° Regimento. A vila era pacífica. gente graúda. que procediam do edifício onde hoje se acha o Departamento de Instrução da Força Pública. Respondi afirmativamente: houve "fogo". Pela tarde. acampanar—seguir o criminoso ou indivíduo suspeito. nos confins do Norte. Cessada a luta. iam às armas. namorada. Havia recontros armados. ficaríamos entre as balas do Exército. ocorreram durante muito tempo querelas sangrentas. com jagunços de um e outro lado. A pergunta de Emília. lhe disse ter sido causa disso uma guerra havida no Rio. se não fugíssemos. um pouco aflita. —Móde quê? perguntou (dizia o velho Borba que essa locução é uma corruptela de "por amor de quê"). pequena. e as da Polícia. otário—simplório. couro— carteira de dinheiro. ser-lhe-ia difícil compreender. de parte a parte. brindada com algumas balas perdidas.

nem no Glicério. § 65. com as velhas. deu-me a impressão de que a luta se iniciara. tranqüilizando-a. de meio metro de altura. e foi vão todo o esforço para tirá-la de casa. para a casa da mãe dele. Não encontrando quem me auxiliasse em remover as duas velhas. Algumas vararam as portas e foram alojar-se no meu escritório e nos quartos. Decorreram já duas semanas desde o dia em que o Minas Gerais publicou a infausta informação esponsalícia.° Regimento. Emília queria que fizéssemos o mesmo. com as manas. que resolvera ocupar aquele edifício. num recanto do bairro da Floresta. Bem que tenho tido desejo de dizer que ainda amo a donzela. as crises vão-se espaçando. O Governo entrou no meio e prendeu todos. às pressas. Só à meia-noite. Um vizinho deliberou não evacuar a zona e instalou-se no porão. a seis ou oito quilômetros da Capital. considerado ponto estratégico. entre a guarda da Cadeia Pública e o pessoal do 12. naquele dia. tive de resignar-me e aguardar os acontecimentos. dormindo no mato. vindo Giovanni e Prudêncio Gouveia em meu auxílio (depois de se terem retirado. O bom Prudêncio levou-me. depois. estes cadernos?) que há muito não falo em Carmélia. ficou crivado de balas. embora sob uma forma diferente. Posto que estivesse mais ou menos a par da situação. Lembrando-se. que dá para a Rua do Piau e está inteiramente a descoberto. e Giovanni se incumbiu de transportar pequenas coisas indispensáveis para passarmos alguns dias fora. das vicissitudes sofridas naquela ocasião. intimando os moradores a desocupar as casas. no porão nosso. não. pudemos carregar a Francisquinha nos braços. lembraram-se de que eu deveria estar em apuros. Pelo menos. Teria sido impossível permanecer na casa: o alpendre.pequeno destacamento de soldados descera a Rua Erê. Emília me perguntou se o "fogo" de agora ia durar e se se estenderia a Belo Horizonte. muito mal. com a família. Emília — vendo a irmã em tal estado—começou também a oferecer resistência. —Não. disse eu. livrando-nos de passar os maus momentos que muitas famílias experimentaram. DEVEM ter notado (publicarei. Soube. por certo. Emília nos acompanhou. e há muito não . Um rápido tiroteio. Francisquinha estava. Pirraça pura. E O CASAMENTO É PARA JÁ. mesmo. às oito da noite. que fora apenas um combate ligeiro. e voltaram). quase como a de saudade da amada que morreu.

por dois motivos. Ora esta. Sindiquei a respeito do noivado. Está beirando os sessenta.. emendei. É como disse: estavam-se namorando sorrateiramente. aquela "bomba" no Minas Gerais! —Estive lá ontem. de quem lhes falei há meses (sele a petição e volte. pelo não. cometeu a loucura de contratar casamento. Que pena o Dr. que ficaram registradas em páginas passadas destes cadernos.ão. Quanto ao Glicério. repete a todo . porém. pois nestes quinze dias não me disse nada que envolvesse Carmélia. Francamente cacete. Aurélio não estar vivo. Esta literatura íntima é a minha salvação. aqui ou alhures. e a noiva tem apenas vinte e dois anos. Primeiro. porque conheço muito o Dom Donzel da Rua Erê . melhor será não sabotar o Belmiro flautista. sem a gente saber. A viúva está ovante. deve ter chegado ao extremo da resistência. hoje. Hoje. Com a vinda de Jorge. logo aos primeiros quinze dias. Um belo dia. —Novidades. o pacto. com ele. a donzela. o noivo ou o noivado. Pelo sim. Acabou entregando os pontos e vindo falar-me sobre a namorada comum. continuou.. há três anos. pareceu-me que também fizera pacto idêntico com o seu demônio. você é que era interessado. Foram namorados quando Carmélia esteve em São Paulo. Deixá-lo esparramar-se no papel. —Amigo urso! Na hora ruim não quer ser companheiro. reduzi-lo a coisa escrita é o meio mais eficaz de liquidá-lo e... pois seu ideal se realizou. com o regresso de Carmélia. e noto que isso de silenciar sobre a moça não exprime indiferença e antes pode ser indício de manhosos e subterrâneos sentimentos. Segundo diz o Jorge. mas Glicério ficou firme. mencionar-lhe o nome. mas vá lá. os mesmos não foram utilizados. O namoro não continuou. —Então? —A coisa já vinha de muito tempo. Inteiramente à nossa revelia. segundo. —À sua. Estabeleci comigo mesmo o compromisso de não mais. Melhor "a propósito" não haveria.—O do Filgueiras? —Nã. Rompo. O de Carmélia. querendo). Só fala que pode morrer sossegada (ninguém tem mais medo da morte do que ela). —Que noivado? perguntei.experimento uma recidiva. sua idéia de vir para cá foi um pouco por causa disso.. Mas ficou um ranço.. porque Glicério me prestou interessantes informações. Por exemplo: o companheiro de lunetas douradas.. Receava que Carmélia se casasse com "qualquer um" daqui.. daquelas bravas. Embora surgissem vários "a propósito". seu Belmiro. e o caso foi comentadíssimo. a coisa pegou outra vez. nem se firmou compromisso. se é que o tem. fingindo supor que se tratava do caso do velho companheiro de Seção.

. respondeu. pensando nos casamentos de Vila Caraíbas. Doces deve haver para os íntimos. —Dois proveitos num saco! Mas é pena estragar a lua-de-mel com esse negócio de curso. Então você é que está besta. guardei a grande novidade para o fim: vão à Europa em lua-de-mel. besteiras de enxoval. respondeu.momento. —Não é possível! Nunca se fez isso em Minas. Quanto ao mais. É quase uma afronta a nós todos. satisfeito. Está besta. com ligeiro golpe. aquilo. —É compreensível. o resto do enxoval. mas recuou logo. Não passam de filistinos.. vendo-me fechar a cara). no Rio. Por isso. Depois. com o coração meio agitado. Enfim.. —Bom.. isso. era louco pelo Jorge. e não faz ainda um ano que o velho morreu. seu Belmiro. —É para já. Quanto ao Jorge. —Quer dizer que não haverá doces? perguntei. Com a vitória obtida sobre os elegantes da terra. para corrigir a rudeza da comunicação: —Você não imagina como ficou melosa. O Jorge vai aproveitá-la para fazer um curso em Paris. com uma taça de champanha.. O dia certo não sei. Realiza-se já. de São Paulo. Mas a portas fechadas. que lhe perdôo) que sou dos poucos convidados. Belmiro. dando acento irônico às suas palavras. Foi a própria Carmélia quem me fez o convite.." Nesta altura. comunico-lhe (nesse momento não pôde evitar um tom de superioridade. está numa arrogância insuportável. A viúva seguirá amanhã ou depois para comprar. fica horas e horas a contar grandezas. É uma noiva perfeitamente vulgar. . lamentei de mim para mim o desperdício da cena que compus no trajeto de bonde e que ficou registrada em outro ponto destes cadernos.. A viúva diz que não é bem uma lua-de-mel. com o noivado. —Mas você se esqueceu de que se trata de gente rica e importante.— Você anda positivamente de má vontade para com o rapaz. —Está certo. onde as festas duravam três dias e três noites. leitão assado. seu assalto anterior. em estudos de aperfeiçoamento. Acabou-se a sua Arabela (mandou-me essa estocada. com bailes. coisas de filistinos.. não haverá cerimônias complicadas. O Jorge tem dinheiro a valer e já andou pela Alemanha. Mas o trivial é ficar mesmo pelo Rio. —E quando é o casório? perguntei. Os mais pródigos vão à Argentina. Preciso reagir: Glicério está-me faltando ao respeito). Vai ver que nem ficou tão besta assim. não há outra expressão.. tomando a pergunta ao pé da letra. bebidas a rodo. Depois. —Isso mesmo. O melhor não é isso. O casamento vai ser na intimidade.. (disse-lhe. para compensar.

uma correspondência epistolar. os riscos por que passou ali. que se acha recolhida. foi um dia cheio de novidades. o sentido de tragédia. já era questão de capricho. Nada adiantaram. filha de importante fazendeiro. esse tenente. ASSISTI. Há dez anos. álgido e inflexível. quiseram casar-se. para o seu amor. mas o velho fazendeiro continuava duro em sua negativa. Tão cheio. meu companheiro de bairro. foi colhido por um automóvel. Era uma flor de rapariga. no setor do Túnel. p primeiro-sargento passou a sargento-ajudante e. Afinal. no acontecimento. era segundo-sargento. o segundo-sargento conquistou mais uma divisa. Arranjou. Arriscavase nas mais difíceis diligências. para a moça. . ao Instituto de Psicopatas. Cresceu. desde logo. referiu-me uma história que vem aprofundar. a segundo-tenente. esta manhã.Disse isso com tanta raiva que não pude conter uma gargalhada. e nós nos despedimos. Apaixonaram-se um pelo outro. TEMA PARA UMA ELEGIA. Foi quando conheceu a pobre senhora que é hoje sua viúva. de parte a parte. enquanto vivo. dando-lhe morte instantânea. na Rua dos Pampas. senão por violento esforço. no peito do soldado. A paixão se agravou. por mim encontrado entre os que acompanhavam o enterro. levar estas linhas até ao fim. que me deixou cansado a ponto de não conseguir. Como vêem. logo depois. o velho pôs em ação seu prestígio político e obteve a remoção do militar para município distante. morto em circunstâncias dramáticas. então simples furriel. que o atirou a um poste. Já era hora de se encerrar o expediente. Como o namoro continuasse. Na revolução de 30. a conversa acabou bem. a ambição de galgar postos e conquistar galões para conseguir a mão da amada. O professor Barroso. aos funerais de um tenente da Força Pública. por atos de bravura. Esta bateu o pé e jurou que só se casaria com o seu antigo namorado. mas o pai fez uma oposição obstinada. neste momento. mas suficiente para entreter o fio do amor. O velho não se abalou. e o golpe transtornou a razão da viúva. Ao desviar-se de um bonde. um casamento de conveniência. já agora primeiro-sargento. e os dois estabeleceram. Dentro de dois anos. Não haveria de casar a filha com um furriel. O fazendeiro redobrou sua oposição. afrontava todos os perigos. comandava um destacamento policial em pequena vila do interior do Estado. clandestinamente. não cederia. § 66. Estava casado havia dois meses apenas. Na revolução de 1932. O velho declarou que. cheia de extravios e incidentes. espécie de senhor feudal da localidade.

viçosa. de ir ver Redelvim. ontem. a vida que nela morreu. a renovar o alpiste dos passarinhos. Depois de ligeira hesitação. Combinadas as coisas por correspondência. NOVA LUZ SOBRE SILVIANO. é a sua amada. § 67. ficou inimiga do pai. se apoiou a uma cadeira. Tal como aconteceu a mim—quando procurei Camila e não vi senão uma sombra—o espectro daquilo que fora os seus amores se sobrepusera. então. O furriel de outros tempos era. dirige-se para a que lhe é grata aos olhos. e outra. É ela.. depois se assentou e pôs-se a chorar. mas. no caso.. Dada a explicação do meu impedimento na tarde de ontem. no espírito do tenente. como Simão Pedro. garboso primeiro-tenente de nossa milícia. fazendo um gesto de abraço. Fui hoje cedo à casa deste último. porque chegaram a nós pessoas aparentadas com o morto. dentre elas. desde o início da história. conforme combinei com Florêncio. pelo que me disse. E o que importa não é isso. a não ser que também continuou firme no juramento e que. calculo como foi extraordinário o que. extremamente pálido. A moça deixa a fazenda para ir recebê-lo na casa da vila. No meio deste ano. sucedeu. Talvez já não houvesse amor. nem o poderia dizer. ferido nos brios de homem. Trocam-se cumprimentos comovidos.. e sua morte veio permitir a realização do casamento dez anos projetado. Barroso pouco sabe. ESQUECEU-ME dizer-lhes que a morte do tenente e seu enterro me impediram. Barroso não pôde dar à narração a intensidade afetiva do acontecimento. E chorou amargamente. Pela parte da moça.. Flevit amarè. mas o nosso tenente. gasta e melancólica. de modo insólito e cruel. ele se prontificou a sair comigo. mas procurar desvendar o que se passou. Não sou eu. Há uma. toda aberta em sorrisos. agora. fixou-se o dia do casamento. e o Romeu foi buscar sua Julieta.. Encontrei-o de pijama. acompanhada da irmã e de um irmão. apresentar desculpas (deve ter ficado aborrecido com a minha ausência no local determinado para o encontro) e repetir o convite para a pretendida visita. debruçado sobre a mesa. não sabe qual. ressequida. Mas esta percebe o equívoco e lhe diz: "Não.. perplexo. o ranzinza bateu a bota. à imagem longamente sonhada e que era uma imagem do passado. então." Barroso contou-me que o homem. no alpendre. Ele chorou talvez a mocidade. a fim de .Mas o seu capricho só fazia animar o capricho do militar. Não me disse o amigo como foi interpretada a atitude do noivo.

disse Silviano. Para o caso de que você. —Já falei com você que não me chamo Abundâncio. dada a hostilidade mútua que há entre os dois. O regime estará perfeitamente seguro. apanhara a bagagem e mudara de residência. —Esteve com ele? Como vai? —Não. Deveria estar lá. Julgando improvável uma visita sua a Redelvim. —Não há necessidade de tamanho açodamento. que descia majestosamente os degraus. E despediu-se de nós. porém.. Devo ficar acima de coisinhas. Porfírio. —Ora. Já o soltaram. Assim entramos em seu escritório. agastado. pelo telefone do gabinete do delegado. perguntei-lhe: —Que novidade é essa?. Ele a teria procurado. Que venha também o Abundâncio. com surpresa. com certeza. fora à pensão. advirto-o de que só me causam tédio e pena. conforme o nosso amigo Wolfgang Goethe. disse Florêncio.. entregou-me algumas tiras de papel escritas. enquanto for ameaçado pelo Redelvim. desde algum tempo. A suspensão do chope me faz quase doido. na Universidade. Silviano nos disse.. e disse parecer-lhe melhor que eu as lesse calmamente. não deixou endereço. O mau humor é um vício. Redelvim. Florêncio respondeu que. então. o Abundâncio!. ouvindo suas loucuras. se informara a respeito.. se existisse alguém com nome tão arrevesado. E não quero acabar de ficar. em . esse alguém não poderia deixar de ser um acabado imbecil. rasgando o ar com o braço. alegando ter pressa de voltar para casa. num gesto que deveria exprimir desprezo. Silviano teve um sorriso olímpico e pôs a mão no ombro do Florêncio. Quando chegamos à escadaria externa que leva ao saguão do edifício. Quero mostrarlhe apontamentos. vimos.—Venha comigo. Propusemos-lhe uma ida imediata à pensão do amigo. posto ontem à noite em liberdade. Melhor é que venhas à minha casa. Afinal. é um destrambelhado. disse o Silviano. Florêncio e eu tivemos grande alegria com a notícia. Sofreia os teus ímpetos. à casa de Jandira. sacando o relógio. venha com ironias. amigavelmente: —Não se mostre mal-humorado. Deliberei perdoar-lhe os aleives que me assacou. que tomei. Preciso falar-te. Como de costume. Simples notas de minha Spicilegia. miudinho como sempre. E agradeço o convite. verificou que era chegada a hora de aula. Depois. Silviano. Alvitrei que fôssemos. Fizeram bem. Você por aqui? —Vim visitar o esquerdista. para um artigo no suplemento da Gazeta de Minas.irmos imediatamente à delegacia. que.

estabelecendo a confusão) é a mais estupenda tentativa de fechar o ciclo de nossas angústias.. Precisava sair com urgência. que se acham sob a epígrafe Libido sciendi: "Para nós. dessa estratosfera do pensamento—e lidas as notas. Não fora o receio de ser chacinados pela vil raça dos revisores de imprensa. aqui. ou seja a nossa aspiração incoercível para a totalidade. MAS APENAS O QUE ELE NÃO É. aliás o eterno: o Fáustico. Estranho homem! Que pensar dele. Bebi as minhas próprias cinzas.casa. que chegamos ao dealbar dos quarenta e que vivemos em grandes escafandrias mentais. um não-iniciado diria São Tomás. Já vão longe os tempos em que o espírito adejou em torno das damicelas encantadoras. Desembarcados. as maravilhosas expressões de Goethe. no original. Outros nos fazem divagar e devanear pelos intermúndios além. O homem não esgota a Verdade. para nós só existe um problema. afinal? Eis as notas." A filosofia de Santo Tomás (um filistino. anunciam a ressurreição do Cristo. Estamos inquietos. as observações hauridas nessas viagens às vezes tão longas e sempre exaustivas —vemo- . parte desses apontamentos. que outra sombra impele? Clemente de Alexandria estaria certo? Deveremos encarar o mundo como. Agora (e como nisto diferimos desses que sempre perseguem seus ideais de pobres-diabos e suas ambições sombrias!). agora o que nos importa é esse encontro diário com o mistério impenetrável: o sentido da vida e o destino do homem.. (verificar o texto. Isto de partir de si mesmo e de reduzir o mundo a si mesmo é um solecismo filosófico. e outras palavras eternas com que o altíssimo poeta define o fáustico problema! Tal é a termometria de um constante estado psicológico: a vida estrangulada pelo conhecimento. até ao ponto de bondes. E seguimos juntos. citaríamos aqui. Transcrevo.) Meditar esta tarde nas palavras do incomensurável aquinatense: "O HOMEM NÃO PODE SABER 0 QUE DEUS É. que mostram o estado de espírito do amigo e as meditações em que anda metido. no Fausto. porém. A emoção trágica verdadeira não surge em nós senão no dia em que percebemos as coisas no seu ilogismo eterno. quando os sinos. mas Newman nos tranqüiliza: To be at easy is to be unsafe. Como extrair um sentido dessa vã agitação de sombras vãs. Platão e Bergson—quem o ignora?—são aedos suculentos.

mas bordeja grandes abismos e procura culminâncias.).) REM MEDITARI—O homem é ordenado para um fim que lhe transcende o entendimento! Daí o ser impossível. na essência. ó Transfinito. esclareceu Silviano. no Alto do Cruzeiro. sem a outra ciência. mas também não é inexplicável (Santo Tomás Aq. —A vida não é evidente. a revelada. ó Imensurável. este pobre verme. absoluta. AMANHÃ DE 21 DE DEZEMBRO (nove horas). proferiu esta prece: —Ó Inconcebível. achei-as soberbas. Elas me lembram um Silviano majestoso que certa noite. Que o leitor as aprecie. e os bondes da madrugada já correm pela Rua Erê. no seu largo estilo silviânico. assinalada pelo Jules de Gaultier e espantamo-nos do tumultuário e do desconcertante de nossas idéias. O homem nasceu Para uma condição limitada. Devem ser cinco horas. prestes a ser tragado no hausto universal! § 68. todo conhecimento que repousa na autoridade humana. condescende em que se prostre a teus pés este farrapo de um farrapo. Homo: animal metaphysicum. Defeituoso. Necessidade da ascese: "A sabedoria não entrará numa alma malévola. olhando para as estrelas e erguendo os braços.-Madruguei em casa .nos vítimas daquela famosa ficção universal. O trabalho de lêlas (a caligrafia do amigo é impenetrável). UM PROCURADOR DE AMIGOS. conhecermos e atingirmos o nosso fim. 4) Estas notas a mim confiadas. sopro dum instante. que pode tanger o ridículo. eheu! está muito além das nossas míseras possibilidades. A verdade em si. Só assim conjuramos o desespero de não conhecer tudo: convencendo-nos de que incognoscível não é sinônimo de inexistente. resumi-las e copiá-las deixou-me cansado. deverão fundamentar um artigo seu na Gazeta de Minas. Urge um equilíbrio entre o transcendente e o imanente. j'ai soif d'infini" “Mon ame languissante aspire aux inconnus lointains" (RABINDRANATH TAG. "Je me puis trouver le repos. fazendo estremecer as paredes do escritório. nem habitará um corpo escravo de pecados" (Espírito Santo— Sabedoria I. De um modo geral e perfunctório. Tenho sono.

quanto a uma recomposição do nosso pequeno círculo. lhe apressam a dissolução. com tendências aristocráticas. Florêncio. e. na realidade? Ou este círculo apenas existiu no meu desejo? Os encontros que tivemos. Finalmente. agravadas pela atmosfera pesada deste fim de ano. até que tivesse terminado sua toilette e pudéssemos sair juntos. conforme diz a amiga. —Como? Já foi solto? interrogou. este nosso amigo veio procurar-me para agradecer os . o mesmo não acontece entre Redelvim e Glicério. o homem da hierarquia intelectual e da torre de marfim. disse-me. durante todo o tempo percorrido. Silviano. socialista. hoje dissolvido. A caminho. Noto que fui eu. tantas vezes. as dissensões de pensamento. que não opina. anarquista. Por que hão de os homens separar-se pelas idéias? De bom grado.-Novidades no setor Redelvim. Redelvim. NOITE DE 21 DE DEZEMBRO. Neste mundo. Devo nutrir esperanças. despedindo-se com um aceno de mão. afirmativa. não evidenciaram. Glicério.de Jandira para saber notícias do Redelvim. quem criou e sempre procurou sustentar essa agitada assembléia onde atuam forças tão antagônicas. para aguardar o almoço. Esperei-a um pouco. sempre revoltada contra o despertador. satisfeita. Minha resposta. nem pelos misteriosos princípios de aglutinação que regulam as aproximações humanas. a pequena roda não foi sustentada por força própria. Silviano e Florêncio. com o meu desejo de sociedade. Se Jandira e Redelvim—de um lado—e Silviano e Glicério—de outro—se entendem. tranqüilo pequeno burguês. perguntei-lhe se o nosso revolucionário não tinha estado lá. uma impossibilidade de comércio e de reunião entre elementos tão diferençados? Bem vejo que. Redelvim e Silviano. eu sacrificaria minha idéia mais nobre para não perder um amigo. de alma simples. Voltei à Rua Erê. Eram sete horas. causou-lhe uma alegria que me fez lembrar os antigos tempos de nossa convivência. Silviano e Jandira. ENTREVISTA COM REDELVIM. Será certamente impossível uni-los de novo. é Jandira a pessoa que ele mais freqüenta. que a acorda e envia para o escritório comercial onde entra às oito. Por volta das oito horas. antes. ponho-me a rabiscar estas linhas. § 69. sou apenas um procurador de amigos. no momento. Jandira. sete da madrugada. quando entrou na casa comercial. Vejo que Redelvim ainda não a procurou também. —Vou descobrir o urso. e isso me admira porque.

Acredito também (e isso aconteceu a muitos) que o choque de novembro tenha produzido no seu espírito uma descarga. o delegado lhe deu a entender isso. tirou todo o atraso. o senso de responsabilidade de cada um. na expectativa de qualquer coisa extraordinária. alimentando-se pouco. considerou que. não existiam provas de sua participação no movimento. Confessou-me que desde alguns anos não dormia regularmente e que. a rebelião teve. extraem da gente o que querem"). que foi tratado humanamente na prisão. como ele próprio denomina sua reclusão involuntária. psicologicamente. acabou por chegar ao "estado de raiva". esteve um pouco inquieto. Concluiu que ficaria mesmo por aqui e seria. de início. pois não pode fazê-lo em estado de dúvida. que viesse satisfazer à sua necessidade de terremotos e à sua revolta contra as coisas. Não quer cooperar . acossado pelos credores e explorado pelos diretores de jornal. supondo que o fossem enviar para o Rio. despertar. quanto aos meios. Lá. levou. Aliás. passou a encarar o caso corri espírito esportivo e deliberou tirar vantagem da situação. fosse de outro. abusando dos excitantes. durante vinte dias. Provavelmente esse repouso completo lhe ofereceu ensejo para uma revisão de rumos e reflexão mais serena sobre as coisas. não há pedicuros. "embora ordinários". operando essa descarga que deveria desoprimir o ambiente. que só poderia exacerbar-lhe o sentimento revolucionário e jamais intimidá-lo. posto em liberdade. e que a polícia do Rio. Está um pouco mudado. mas desorientada. disse. lendo. Aqui. depois dos primeiros interrogatórios. Dissipado o receio da remessa para o Rio ("Você compreende que seria bem pau. efeitos consideráveis. Vivendo inquieto. Em suma. O certo é que Redelvim está diferente. O que terá determinado tal transformação foi o retiro espiritual. nestes vinte dias. não atribuirei essa mudança ao fato da prisão. sobre o assunto. dormindo menos. um regime de vida que há anos não conhecia e lhe permitiu talvez uma restauração nervosa. fosse de um lado. pelo menos. dissipar as fantasias.livros. descansando e meditando. de redação para redação. mas está picado pela desconfiança e pela incerteza e se julga um elemento inapto para agir. que lhe mandei. durante o "retiro espiritual" (reproduzo expressões suas). dar rumos aos indecisos. A atmosfera foi opressiva. arrancando unhas. a princípio. Conhecendo a sua energia. disse-me continuar contra o Estado burguês e capitalista. mais cedo ou mais tarde. deveria estar com as prisões cheias de conspiradores. Revolta decerto justificável. afinal. Redelvim os viveu agitadamente. como diz Silviano. Isolado em pequeno compartimento. nos meses que antecederam o golpe extremista. de um modo geral. Recordemos a conversação de há pouco: contou-me. Refletindo. por outro lado. Embora haja abortado. porém.

que me oculta uma reviravolta mais profunda. Sua probidade intelectual foi. vai abster-se da ação e será apenas um espectador. sem dúvida. dos quarenta. quando o pai sucumbiu a uma hemoptise. pelo contrário. Redelvim combateu violentamente e em vão o projeto. Não o faz há anos: ela é que aqui vem. a idéia marxista. Está bem. É dessas criaturas que têm vocação para o sacrifício ou que. então. . Tempos depois. após longa enfermidade. Realizado o casamento. Até logo. Meditara bastante sobre o conflito entre Trotsky e Stalin. se a polícia deixar. nem tendo perto de si o Redelvim. Pareceu-me que alguns imbecis jogavam com ela. Pus-me a pensar em D. Redelvim. quando o conheci. Nada mais disse. achou também que o Brasil não está suficientemente preparado e ainda não surgira a equipe que poderia organizar o pós-revolução. Depois de pensar maduramente. Procurei-o em casa de Jandira e soube que também lá não esteve. de cujo nome não me lembro. respondeu. decerto impelida pelo mesmo sentimento com que teria tomado o hábito de irmã de caridade. —Cheguei até a porta do seu apartamento. pois teme os desvios duma ditadura. pedindo insistentemente que fosse vê-la. vencida pelo orgulho. Passava. estava brigado com ela. Acredito que se Redelvim houvesse ficado em sua companhia o afeto maternal lhe teria ocupado inteiramente o coração e não a deixaria disponível para outros afetos. Não compreendendo isso. Maria Júlia. até quando lhe convier. mas ouvi vozes lá dentro e voltei. na íntegra. ao papel de enfermeira e. como suporiam os sujeitos maldosos. porém. contrariado. teve pena do infeliz e decidiu desposá-lo. Por isso. nem lhe foi perguntado. então. ficou furioso e dispôs-se a não mais ir vê-la. e perguntara a si próprio se a ação de Stalin terá um sentido apenas particular e episódico ou. não encontrando jeito de continuar a exercê-lo depois da morte do marido. —A velha anda muito doente e foi morar na fazenda com o meu tio. para lhe dispensar cuidados de mãe. Creio. Acostumou-se. Por último. e que vivia a tremer.para uma ação em cujas diretivas não possa influir. exprimirá uma impossibilidade de realizar-se. no caso. Perguntei-lhe por onde andou metido. se comprazem na dor. Viúva desde muitos anos. sempre que pode. informou haver recebido uma carta da mãe. Estou querendo ir passar uns tempos lá. Mas ele veio para Belo Horizonte desde rapazinho. a respeito. resolvera contrair segundas núpcias. depois que o puseram em liberdade. a mãe se casou com um pobre homem que sofria um incômodo nervoso.

o velho Carpóforo levava a bebida ao estômago. que o sabia condenado à morte. E. então: "Ele tomou um caldinho. há três anos. para dar a grande notícia: obteve permissão para voltar ao chope. Mas a velha vinha a Belo Horizonte sempre que as circunstâncias permitiam. Belmiro velho. O HOMEM DO FUNIL. e. Há alguns meses tem estado enferma e quem fará a viagem agora é o Redelvim. mesmo de líquidos. Habituou-se a tratá-lo como um indivíduo à parte. por meio de sonda introduzida diretamente no estômago. FLORÊNCIO foi buscar-me hoje. perguntado pelo médico sobre a natureza do alimento tomado em determinado dia. ainda não o colheu em suas malhas.enquanto estivesse na companhia do segundo marido. bochechava com o resto que havia no fundo do copo. Como gostava muito de beber. Contou-me também que. beberei nem que seja pelo funil! —Funil? Por quê? Dando uma gargalhada e segurando-me com a mão peluda. —E agora. Vítima de um tumor maligno que lhe comprimiu o esôfago a ponto de não lhe permitir a ingestão. independente do organismo. esclareceu. o tabelião informava: "O que ele comeu hoje foi um arrozinho mole. freqüente na família." Ou. galhofeiro. Levoume logo a um bar. doutor. dispensando-o de ir à procura dela. Se ele voltar à vida antiga não a viverá muito. no antebraço.. nos últimos meses de vida. esse homem teve de alimentar-se. à saída da Secretaria. desde então. Parece-me que só os nervos o sustentam. E referiu-me o caso de um tabelião Carpóforo. Servindo-se de um funil. amiudou as visitas ao filho. Estava transfigurado: era o Florêncio antigo. Enviuvou pela segunda vez. Nem sei mesmo explicar como a tuberculose. ilustrando a narrativa com . —O médico apenas me recomendou que não tomasse mais de dez por dia." O "ele" a que se referia era seu estômago. para consolar o paladar da passagem da bebida por outra via. Florêncio relatou o caso com espírito. Deve andar perto dos sessenta.. amável. que conheceu numa cidade do Sul de Minas. o médico. Não lhe contei ainda a história do funil. por via bucal. exclamou: —É verdade. § 70. Bom será que a mãe o retenha algum tempo na fazenda. não o quis privar do vício. num gesto trágico e cômico ao mesmo tempo.

responderam. Devia primeiro indagar se povo existe! A mim. de certa forma. ao monstro literário. me fez sentir isso: nada há de mim que possa interessar. o "Perrexil"). o equívoco se desfaria sem ser preciso abrir a porta. se não lhe pudesse dar proporções monumentais. e incerto quanto à conveniência de prosseguir nestas notas. o homem que tem o senso da hierarquia!" E expôs-me sua idéia de construir um castelo e comprar o título de Conde de Revila y Gigedo (nesse tempo amava Dolores Gigedo. a outrem. Talvez fosse algum extraviado. e eu estava muito resfriado. na leitura. procurei. Não acredita na medicina (salvo na sua psiquiatria. pus-me a ler um pouco. então. "É o medicamento específico". um pouco rudemente. andando a passos largos. Bem me pareceu que havia de ser o Otelo. Incapaz de criar. (O leitor é. o amigo se referia. pois que me dirijo sempre a um leitor imaginário? Prometi a mim mesmo que nunca escreveria um livro. depois de dado um giro pela cidade. § 71. disse-me.adequada mímica. Convidou-me um dia a tomar sorvete. E. Assim pensando. já destituídas de intimidade. Respondeu-me que fora o professor Otelo. em que—talvez por ser meio gira—se tornou grande especialista) e faz humorismo quando o procuram para outras moléstias. quando alguém me bateu à porta da casa. Jandira jamais foi tão acertada como quando. satisfazer. folheando autores prediletos. compraz-se na criação alheia. e. pois reconheci logo a voz do Silviano e passou-me rapidamente pelo espírito a lembrança de um dia em que. com preguiça de levantar-me. com alguma veemência. logo ao iniciar a tarefa. depois. qual o médico a que recorrera para obter a volta ao chope. Perguntei-lhe. um escritor frustrado. no alpendre da casa. Não receberia ninguém e teria cães ferozes para estraçalharem . Por que continuar tais confidencias. Aceitei o sorvete e apanhei uma gripe pneumônica. —É o Conde de Revila y Gigedo. a uma de suas discussões com Redelvim: "Persegue-me com a sua mania de povo. —Quem é? perguntei. ainda que em parte.) Ia. pude ver que de mim nunca sairia um monumento. ONDE APARECE O "DOUTOR ANGÉLICO" CANSADO de escrever. Não tive tempo de assustar-me. de um modo especial. nesse caso. pois. irritado.

além disso. que o fato de ter sublinhado o trecho signifique haver o amigo encontrado nele o estudo de caso análogo ao seu. que. —Não. Imagine. ver-se-ia um cartaz: "Domínios privados do Conde de Revila y Gigedo". Silviano assim o apelidou por causa de sua profissão de fé tomista. que lhe trouxeram da Itália. Porfírio. Acabo de fortalecer minhas convicções a respeito do cepticismo de Pascal. Seria inútil qualquer resistência. ao Conde de Revila y Gigedo. para mim. Dar-se-ia que Silviano. Quero que venha. acompanhei o filósofo. no final. e.. Você vai testemunhar um espetáculo soberbo! respondeu-me. também. Uma idéia bem d'annunziana. Não é por acaso que conserva um retrato do Poeta sobre a mesa. Não sei. ("Doutor Angélico" é o Jerônimo. porém. É o que há de definitivo. um capítulo sobre imaginação difluente. sustenta com ele interminável discussão sobre a posição de Pascal perante a Igreja. e disse: —Leia isso. seu Angélico. por isso.aqueles que viessem perturbar as meditações do Pensador. Leia isso. Embora tomista. Mas. seguia-se-lhe. emprestado pelo próprio Silviano. uma série de depoimentos de indivíduos do tipo "espírito romanesco". a novela Parabosco? É possível. Já lhes disse que o nosso amigo não se deixa medir pela bitola comum: ora tem gestos soberbos. por exemplo: folheando outro dia um volume de Ribot. como chegar a uma conclusão? Voltemos. Aquela história de Parabosco & Ferrabosco. até que ponto faz teatro para os outros e para si mesmo. pela sua cabeça passam grandes coisas e também coisas disparatadas. sugestionado pela leitura. encontro. leigo no assunto. Entretanto. segundo me informa o Silviano. ora caprichos de criança. como se vê. disse-me à queima-roupa: —Vim buscá-lo para irmos juntos ao Doutor Angélico. houvesse improvisado. passando-o para as minhas. Chegados à casa do Jerônimo. objetei ao Silviano que. Surpreendemo-lo em sua biblioteca. Retrato autografado. Silviano não me deu tempo para cumprimentos. assinalado a lápis. o Saisset o coloca entre Aenesidemo e Kant! Quero que você assista ao embate: vou fulminar o Doutor Angélico! Ah! ah! ah!.. de há muito. Silviano lho tomou das mãos.) Imaginei que deveria ser sensacional uma luta entre os dois. Aberta a porta. . Vista-se. minha presença seria talvez ridícula. a folhear um pequeno volume de Luc-Benoist: La Cuisine des Anges. sempre suspensa. o carro está à porta. Próximo à ponte levadiça. Jerônimo é um pascalizante. Silviano levou-me pelo braço e foi entrando portas adentro.

afirmou que "il est mort en bon catholique". Você incide no mesmo erro da corrente racionalista do estúpido século dezenove.. —Os jansenistas.. entende? Ao seu Beurrier. no máximo. mas penitenciou-se.. ... Já lhe disse que. Pascal reconheceu os seus erros.. —Absolutamente! tornou o Jêronimo. —Leia. não se insiste mais neste grosseiro erro. .. que é de Jesuítas. para mim.. "Mentis pela gorja. com calor. Você verá que Pascal é um caso típico de suspensio judicii sceptica. agastado. "parfaitement soumis à l’Eglise et à Notre Saint-Père le Pape"... perro aleivoso!" —Pascal foi um herético.. hein? —Estou apenas procurando forrar-me de caridade cristã. Silviano tirou partido da situação: —Não quer confessar que os Jesuítas são suspeitos. emprega argumentos dessa natureza? Eu me apoio nos próprios textos de Pascal! E em qualquer edição que você queira. . Já lhe disse que caiu. faça o favor. Ou melhor. deveras. voltando-se.quanto a Pascal. pela manga do paletó.. colocando-os sobre a mesa ou empilhando-os em minhas mãos. Você sabe que os jansenistas. respondeu Jerônimo. numa suspensio judicii indagatoria. nos últimos anos. que o assistiu. gesticulando nervosamente e dirigindo-se a mim. aparteou Silviano. então. respondo com Cousin. depois. seu energúmeno! —Ora. Michelet. Pascal é arrolado entre os cépticos.. Leia. Toda a crítica moderna da França é unânime em reconhecer que ele superou o seu cepticismo. dando uma gargalhada. você. com o sofisma das edições mutiladas pelos jansenistas. —Lá vem você deslealmente. Desde as edições de Brunschvicg e Strowski. O Bremond responde a tudo isso. Silviano puxou-o. Jerônimo ficou um tanto perturbado com a arremetida. .. — . exclamando: —Mas. uma edição dos Pensamentos suprimindo o que lhes não convinha. em 1670. de suas heresias jansenistas! O abade Beurrier. para poder conversar com um sofista de sua laia. continuou Jerônimo. com enfado. publicaram. sem prestar atenção ao Silviano.—Que é? O Saisset? perguntou Jerônimo com ar desdenhoso. —Leia. cortou o outro. Sua má-fé é evidente. com um sorriso vitorioso. Bréhier.. veja simplesmente a Enciclopédia Espasa. mais tarde. —La vieille chanson.. —Oh!!! exclamou Silviano. Não respondeu de pronto e se pôs nervosamente a tirar livros das estantes.. Silviano. . não me faça perder o tempo. Jerônimo. gritou Jerônimo.

encontrei palavras que pareciam adequadas a mim e.E por aí continuaram. Por outro lado. as minhas palavras. disse: —E. desde então. pondo-me a mão sobre o ombro: —Mas Pascal também escreve: "Console-toi. muitas vezes objeto de suas conversações comigo. a braços com a minha incapacidade de debater o assunto. já não duvidamos.. Para repousar o espírito. onde havia uma cadeira austríaca. Silviano. Despedimo-nos.. Silviano pareceu abalado e. O espírito foi feito para afirmar. dizendo que vivo em dúvida e isso não é possível. se perderam em tais funduras.. A certa altura. Silviano aprovou. a dúvida não subsiste... Tive a impressão de que se passara um tempo considerável quando despertei. Jerônimo provocara o desabamento. Mas. pois que o espírito é ativo. que me senti impossibilitado de acompanhar a discussão. dizendo ao Jerônimo que não declaro dúvida. E ali cochilei. travando acalorada disputa nos domínios da teologia. no entanto. Até àquele momento eu conseguira entender o que diziam. Só é admissível isso como atitude provisória.. nem afirmar. atalhou. Não era nada: mexendo desajeitadamente na parte superior de uma das estantes. ia prosseguir no capítulo. tu ne me chercherais pas si tu ne m'avais trouvé". aliviando-o da forte tensão a que os amigos o obrigaram. própria para cochilos. Fui ver os dois. passei a um quarto contíguo. então.. com um sorriso condescendente. meditando. de Pascal. tendo nas mãos um volume dos Pensamentos que o Jerônimo deixara nelas. deliberei dar um ar de minha graça. ele assim é. Lembrando-me do pensamento lido pouco antes. com o barulho de livros que desabavam de uma prateleira. para mostrar-me que notava minha presença. —Impossível. Talvez por gentileza. Mas Jerônimo. sem o terem ainda encontrado. Estavam cansados e combinaram uma trégua até ao domingo seguinte. porfiam em procurar a Deus... ágil e eloqüente. foi feito para afirmar e não pode estar inerte. quando os dois sutis doutores vieram buscar-me. interessado. Ao que Jerônimo respondeu tratar-se de outra atitude impossível. Teremos de duvidar da própria dúvida e. Foi o bastante para que se ateasse nova discussão. . Silviano tomou-me a defesa.. se acreditarmos na dúvida. Tendo eu ficado quieto. e disse que eu pertencia ao número daqueles "infelizes e razoáveis". Foi o fim da conversa. Minha situação é de não negar. Jerônimo procurou diagnosticar o meu caso. Voltei e fiquei a folhear o livro. Silviano lembrou que eram onze da noite e Joana deveria estar aflita. por se tratar de um tema familiar ao Silviano. origem de tamanhas querelas.

aos cinqüenta anos. E nesse setor não espera produzir nada. estudou esperanto.. disse-me. cada bacharelando saiu de braço dado com a irmã. o nosso Doutor Angélico! Foi pena que você não assistisse à última fase dos debates. O bacharelando Glicério de Sousa Portes saiu pelo braço do amanuense Belmiro. Não encontra. criou canários de briga. ainda não achou coisa a que se aplicar. Como vêem. Além disso. inclusive o de rapaz elegante. E lembrei-me de mim. por não ter . por fim. abraçou o espiritismo. Veio para mim com as delgadezas e impertinências da Escolástica! Mas apanhei-o numa ignorantía elenchi. Não pode comigo! Não pode comigo! Separamo-nos em uma parada de bondes. à maneira de Jerônimo. os atrativos que lhe descobre o Filgueiras (o de lunetas douradas) e vive em tentativas: colecionou selos. traficando entorpecentes com Silviano. cá fora. por motivo de moléstia do chefe. na Seção do Fomento. dizendo-lhe. que isso não poderia ser senão uma atitude provisória. A indecisão e o desânimo de Glicério me causam pena. também. Procurei consolá-lo. Por que não? Fali na vida. Apanhou o vício da literatura e só acha graça nisso. no seu conhecido estilo: —Ora. Ainda estou um pouco aturdido pelas coisas que ouvi e não me admirarei de que —ao tentar resumilas nestas páginas—tenha dito algum disparate. Não sabe o que vai fazer do diploma. quantia que os advogados novos. Andou tentando vários caminhos. da situação do Sepúlveda (o do bilhete de loteria). não se sente atraído pela profissão. e é possível que eu venha a tomar gosto por esse gênero de polêmica. numa fallacia consequentis e num abuso de fallacia plurium interrogationum. os seus seiscentos mil-réis. que.De volta.. ali. mas acabou no ilícito comércio literário. PERPLEXIDADE DE GLICÉRIO. Lembrei-me. Instruíram-me bastante. Deixa ou não deixa a Seção do Fomento Animal? Pega. haverá de encontrar o seu rumo. não perdi a noite. Também não quer ir para o interior. a propósito. Confessou-me que não se julga habilitado para coisa alguma e há muito tempo esta idéia o amofina. § 72. o coronel Portes. A família mora nos confins do Triângulo e não pôde comparecer ao ato. GLICÉRIO colou grau hoje e fui assistir à cerimônia. que teve alguma imponência. Terminada a festa. noiva. mãe ou namorada. não estão ganhando. virou integralista e.

—Merry Christmas. Tomamos um chope. Com certeza. —Vamos tomar um cafezinho quente. social. basta a . Coisa de filis-tinos. Dois proveitos num saco. Giovanni. SERÁ no dia 15 de janeiro o casamento. É o que Glicério informa. tudo vem feito. Agora. com o vestido novo que exumou da canastra e cheira a naftalina. de su autor. Foi bom para ela: está quase noiva de outro. Qual foi mesmo o vapor que Glicério disse? Oceania. presente do Glicério. bordados. Muito obrigado pelo Chianti e pelas castanhas. com grande indiferença? Ora. Irão mesmo à Europa. Como vai a Marianina? E o Pietro? O relógio de repetição dá oito horas na sala de jantar. Fazia riscos. Era um gosto ver essas coisas. Só zarpa a 18. § 73. Este Diário. mandava vir rendas de Grão Mogol. MAIS UM NATAL. ou coisa que o valha. Que tal uma ida ao Rio. cosia com amor. —Bom dia. não é sintoma disso? (Ocorrem-me umas palavras bem significativas de Gregorio Marañón: "En el hombre adulto la práctica del Diário equivale a una supresión progresiva de la personalidad activa. acrescentando que a viúva já regressou do Rio.") Depois. MERRY CHRISTMAS. com as peças do enxoval. SERÁ NO DIA QUINZE. e comigo não haveria casamento. perguntei-lhe para mudar de assunto: —E a Nonoca? Acabou-se o namoro? —Você anda no mundo da lua. Em Vila Caraíbas. para assistir ao embarque. uma donzela levava um ano a preparar enxoval. Mister Belmiro. em caixetas. Terão de esperá-lo no Rio. Emília volta da missa. En realidad un Diário equivale a un lento suicídio. se não me engano.encontrado rumos. em caixetas. Compram tudo feito. amigos. Daqui a dezoito dias. O Senhor esteja convosco. § 74. seu Belmiro. passeamos pela Avenida e nos despedimos. Mister Prudêncio. Vestido de cetineta. Não se falou em Carmélia. Aquilo era um passatempo. Hoje é assim. aprendia a arte do bilro.

Masoquismo espiritual. Você não tem nada de abjeto. Convivo com essa criatura há seguramente um lustro. você não passa disso: um masoquista. naquela noite. você amou o mito e não a moça. torna-se razoável uma ida ao Rio. Seu destino é sonhar. Ou então declare-se de uma vez. ou melhor. que já não estou em idade para arranjar novos amigos e hoje me convenço do contrário: havemos de fazer descobertas até o último dia. deixe-se disso. Devo corrigir o pensamento pessimista. apenas o fui conhecer mais a fundo quando. no dia da prisão. § 75. aceitando a opinião geral da Secretaria: era um aluado. impraticáveis donzelas. Nunca lhe prestei muita atenção. Carolino. antes. na Rua Erê. Mas você não é Borba. e passou-me despercebida até hoje. você é um pobre flautista. Dom Donzel da Rua Erê. E morrerá donzel. Lembre-se daquele arranjo seu: "o mito Arabela". descobrindome regiões novas. inexploradas. para a fazenda de Vista Alegre. conversamos longamente. Naquele dia. neste ano de 35. O SENHOR pode dizer-me o que é abjeto? —Para que você quer saber isso. sou? Perguntas desse gênero Carolino sempre me fazia. Fique sossegado na Rua Erê e deixe-se de histórias. fique com o seu mito e deixe a moça passear. Diga que ainda ama a Carmélia. Sim. Coisa algo parecida ocorreu-me com relação ao Silviano. —Que é psicopata? —Psicopata? —Sou psicopata. então. Seja lógico. Nesse caso. Carolino? —O senhor acha que eu sou um homem abjeto? —Ora. como o Jerônimo. Penso nesse . para torturar-se. Disse. Como disse atrás. NOVAS AQUISIÇÕES.idéia de ir ao Rio para excluir a de indiferença. Que diria o velho Borba? Um Borba teria furtado a moça e a levaria na garupa do cavalo. entretanto. para assistir à partida. o caricatural. de seu espírito. A vida é um constante descobrimento e uma retificação constante. um outro Silviano tem crescido a meus olhos. esteve aqui em casa para fazer companhia a Emília. No curso de uns oito ou dez anos não lhe conheci senão o pitoresco ou. que ficou para trás. humanização do mito etc. Para todos os efeitos. Estabelecido que uma coisa não é outra. Foi essa indiscrição que deu novo rumo às nossas conversações. isto é. E tudo por causa da indiscrição de haver lido uma página do seu Diário. quando lamentei a quase dissolução de nosso pequeno círculo.

com ele dando uma prosa. Quando. por eqüidade. Já não me pergunta se é uma criatura abjeta. a aquisição do novo amigo. Celebro. hoje bem postos na vida. há pouco. levado por simpatia e curiosidade. torno-me . nem ocupar posição igual à de companheiros de infância. § 76. nesta página. Se eu for. UEM quiser fale mal da literatura. pois o dinheiro é pouco e os pretendentes. Carolino pega a ave e passeia. Deu para freqüentar. não pôde estudar. Todos o julgavam desmiolado. como entende. a estima que lhe voto. muitos. as contas que devem ser pagas no fim do mês. quando o supôs débil de espírito. insisti em lhe pagar o trabalho. Foi o que notei esta manhã.excêntrico e bom Carolino. Às vezes me adianta os pagamentos. veio repetir-me coisas do Piemonte—já de mim conhecidas. Venho da rua oprimido. incumbe-se de uma tarefa que sempre me pareceu transcendente: a seleção dos credores. pela rua. parte provinda de herança. O pai também se enganou sempre. está se aproximando do Giovanni e do Prudêncio Gouveia. ORA BOLAS. fazendo-os do próprio bolso. a Rua Erê e fica a conversar com Emília até que eu me levante. recebe o dinheiro para os pagamentos mensais. Esta consiste em separar. Tornou-se um personagem indispensável na Rua Erê. que me comparece nesta altura da vida. quando. que conversa é esta de ir ao Rio? O melhor seria ir à Vila e não pensar mais nestas coisas. pois é muito seguro. Que pensará Tome dessas aventuras a que há tanto tempo não se entregava? Carolino. a ele contadas pelo velho—e quando me disse que foi visitar seu Prudêncio. E não aceita remuneração de nenhuma espécie. escrevo dez linhas. e Tome. comecei a cultivá-lo. com ela. direi que devo a ela minha salvação. pela manhã. Calcula minhas despesas. parte de economias próprias. Ê inteligente e dedicado. Parece que lhe tirei o complexo de inferioridade. Quanto a mim. mostrou-me uma caderneta de depósito no Banco: possui setenta contos. Mas. mesmo. Procedente de boa família. Emília será confiada ao Carolino. ao Rio. em sua caduquice. Emília aprecia-o muito. Assumiu a gestão de minha complicada contabilidade. ainda encontrou meios de se lhe afeiçoar. certa vez. procura retribuir. Carolino procurava apenas isso: uma pessoa com quem pudesse conversar. e ele acabou como contínuo quando deveria ser amanuense ou—por que não? —primeiro-oficial. Desde que. que parece desejar adotar outros amigos meus.

Deixei Belo Horizonte com antecedência de alguns dias para não dar na vista do Glicério. Vi a donzela com o noivo—ora bolas. Parte de nós fica no palco enquanto outra parte vai para a platéia e assiste. Senti desejo de vir.dentro. Os amigos andaram sumidos— ora bolas. O indivíduo que representa no palco nos fará rir. tomamos o bonde e vamos para casa sossegados.olímpico. este se prontificou a arranjar-me passe e diárias: "Precisamos. Lá se foi o ano—ora bolas. Sempre há um argumento para os homens de boa vontade. Durante o dia. EIS-ME NO RIO.. mandar alguém ao Ministério da Agricultura.. que espia para. e vim. Será mesmo no dia quinze—ora bolas.. suas mágoas. Descobri o segredo do Silviano: transferir os problemas para o Diário e realizar uma espécie de teatro interior. EIS-ME nesta mui leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. apenas. o comediante se encarnará em nós e teremos de tolerá-lo. ou sua inquietação." Primeiro de janeiro—ora bolas. De que vale a gente viver a contrariar-se? Por si mesma a vida já nos impõe tantas limitações. Mas é um indivíduo autônomo. . Vou combinar isso com o Diretor. para o caso em que eu venha a ralhar comigo mesmo por haver cometido esta proeza: "A vida já." E é isso mesmo: por que havia de mortificar-me? O desejo de vir não foi veemente: era. com a pena entre os dedos. Terminado o espetáculo da noite. uma vaga idéia. para estudar os métodos de propaganda postos em prática pelo técnico americano que o Governo Federal contratou—disse. Falando por alto com o Chefe." E Emília não fez má cara. Mas tudo conspirou a favor. mesmo. Fique lá uns dias e traga-me um relatório. como defesa prévia. sorri e diz: "Ora bolas. Bravo! Comecei bem a justificação de minha fraqueza alegando as imposições naturais da vida e daí concluindo que não devemos maltratar o irmão corpo com outras privações. § 77. nos comoverá ou nos suscitará graves meditações. somos espectadores sem compromissos. Em verdade vos digo: o que escreve neste caderno não é o homem fraco que há pouco entrou no escritório. para lhe fazer companhia em minha ausência. depois de um chocolate. e isso deve ficar escrito aqui. É um homem poderoso. Mas à noite.. e nada temos que ver com suas palhaçadas. quando toquei no assunto. partiu dela própria a idéia de se chamar o Carolino.

Havia. ali. Pode-se. mana Rita fazia insinuações (Cale a boca. com grande surpresa minha. a certos quarteirões movimentados.Glicério ficou informado apenas da versão oficial dos acontecimentos: comuniquei-lhe que o Chefe. me assusta e intimida. que nasceu dos flancos da outra. pela noite. a necessidade de rever o Rio (seis anos sem o ver) e de espiar o Atlântico. Safei-me daquele mercado estranho. a que dão o nome de Juá. e . em tal comissão.. Examinando as coisas a fundo. moveu-me a curiosidade de examinar os transeuntes e o local. a usar convenientemente os ônibus). mas. distraído. Anda enfurecido e sombrio. etc. com saudade. A cidade nova e brilhante. com o peito deprimido. Em certo bonde. em vão. Perco-me. também fui dar comigo em regiões não machadianas. Atrás. Percorrendo a Rua Matacavalos. numa travessa. Nossos amigos cariocas não sabem o que vale o mar para nós. fez disso motivo de troça e quis dar-me uns "endereços". pela manhã. conversá-lo: está inacessível. A meus ouvidos. Tenho tentado. Não fui muito adiante: encontrei militares de terra e mar algo tocados. Estaremos amando neste momento? Creio que não. O Rio antigo traz-me imagens machadianas que amei na adolescência. na praia. também. tive a meu lado Dom Casmurro. Desde cinco dias não faço outra coisa senão freqüentá-lo no cais. naqueles cavalheiros que andavam de tílburi. mas tratei de esquecê-los no bureau da Seção. pensamentos sutis. Andando sempre. jogavam voltarete e tinham. e lobriguei. Velho conhecido mineiro. dois vultos que deslizavam furtivos à luz escassa dos lampiões: Capitu e Escobar. mana Rita. algumas damas de poucas ou nenhumas vestes me propunham em francês coisas não muito adequadas ao meu ofício e condição.. Aboletei-me a um canto.. que começaram a olhar-me de soslaio.). com o amigo. Os passos me levaram. Aceitei-os. contraditório desejo de ver consumados o casamento e a partida. arrastando sua língua difícil. Ali nenhuma ilusão era possível. de Minas. que me pareceu puxado por burricos. a um canto. beber uma cerveja modesta. encontrado no Ministério. Sofremos apenas difusa melancolia. num entra-e-sai de teatro de revista. e a pé (não aprendi. Muito malandro. como já ali me achasse. levou-me ontem a um local encantador. deste Rio torto e encardido. Jamais me passara pela idéia uma visita a paragens tais. sobre o mundo. me havia designado para ir ao Rio. não teremos vindo somente pelo amor. o vulto amável de Sofia e tive dó do Rubião. que é o que amo. e tratei de retirar-me com dignidade. pensei. também. contemplando uma sociedade que está sempre a renovar-se. Divisei. ribeirinhos do Mangue.. ainda. na contemplação comovida deste Rio velho.

e sabe defender-se. Não rende.. quis.pus-me a olhar mulheres finas e possivelmente caras. Alguém.. Neste quarto sombrio. Devo ter tido uma vertigem. Mas. Era o mesmo homem importante. mesmo. Dei o fora. conhecido em casa de Jandira. um irmão dalém-mar quem me salvou. Perguntei se tinha vindo há pouco e pedi notícias de Jandira. haim? Mas. ao luso amigo. POR pouco. As saudades . Andando pela Avenida vira um ajuntamento. se não é o golpe. que por pouco me asfixiava. O pirata se iludiu. a mim: era o doutorando Azevedo Leão. —Quase o esgano. então. Pela conversa. não é? (assumia um ar paternal de esculápio). o da Biblioteca Nacional. Deixei-a com suas literaturas. porém.. ainda um pouco tonto. sobraçando cãezinhos peludos. este corpo magro teria ficado hoje no asfalto da Avenida. Cruzando-a em hora de intenso movimento e descuidando-me de observar os sinais. verifiquei que houve. Foi. perfumarias. Queria certamente desfrutá-la. de charuto entre os dentes. —Que foi isso. dirigiu-se. Borba? Um pequeno susto. comovido. entrara nele e. Sr.. É uma pequena leoa. aquelas criaturas deslumbraram o pobre solteirão da Rua Erê e no seu coração instilaram fermentos perturbadores. e fui arrastado até o passeio. Borba. pois. com grande surpresa. louvando-lhe a destreza e segurança dos músculos. a solidão está-me castigando muito. namoro. perfumarias. sem atinar com as coisas. a passos rápidos. Fez-me perder muito tempo. Pelo que me disse o companheiro. quando pude identificar uma voz: —Se não o pego de jaito. mas a moça reagiu à altura. quando recebi um forte puxão no colarinho. Agradeci.. que chegavam em grandes automóveis. vosmecê iria desta pra melhoire. . Sr. me reconhecera.. fui com ele a um café próximo. § 78. ganhar o lado oposto. de corpo longo e pernas curtas. com a amiga. Sentado no mosaico e já cercado de curiosos.. estava meio tonto. Recolhi-me ao hotel. O PROVIDENCIAL IRMÃO LUSO. —Boa pequena. Talvez não tenha vindo de Portugal senão para livrar um amanuense incauto das rodas de um ônibus assassino. que estava na roda de curiosos. um animalejo daqueles custa o preço de uma coleção de clássicos Garnier. despedimo-nos. Depois de andarmos um pouco a pé. Levantei-me e. Contou-me que estava de passeio no Rio. tal a violência do puxão. Fossem damas da alta-roda ou simplesmente mundanas de luxo.

de Minas me trabalham surdamente. vem vindo. e já não penso senão em voltar. havia muito que ver. vai-se afastando. Não assim o panorama do mar. Entretanto. § 80. procurando-os ali. correr o mundo. dezoito. ocupados com vertiginosas imagens sofregamente sorvidas do exterior. RECUEI instintivamente. de rio e floresta. deixarei o Rio. no cais. perguntei-me se foi para "aquilo" que viera ao Rio. cada vaga. nem houve eclipse do sol. só os encontrei com os olhos quando subiam para o vapor. pelo mesmo caminho. enfim. até sumir-se no azul. VOZES ATLÂNTICAS. E não aconteceu nada de excepcional. numa viagem. depois. um grande rio. que é vário e a cada instante se recria. mas sempre retrocedendo para o mar. está presa a uma condição melancólica: foi feita para ser vista apenas uma vez. Estou cansado. Andei. Se fiquei triste. foi com a saída do navio. Vai-se afastando. Uma saída de navio é sempre coisa triste. da floresta e da serra. senti-me vazio pelo resto do dia. Preciso voltar para Minas. Na luta para alcançar o mar. Nenhum interesse nas praias fluviais. Mal os vi. fazendo resplandecer cristaizinhos de mil cores. Tornaram-se coisas velhas. traços novos de vida. A paisagem. fica desejando conhecer tudo. como centenas de outros. que me atraía. Metido no meio da multidão. Foram feitos para ser vistos apenas uma vez. Pareceu-me que desde cem anos eu as contemplava. A gente fica pensando nas terras do lado de lá. Cada onda lhe traz formas distintas. Já nenhum interesse havia na escura. PARTIRAM. Mas o cansaço vem vindo. A terra não tremeu. Amanhã. e coração e espírito se fecharam para as coisas de dentro. Ou fico um pouco mais? § 79. dentro de uma Nau Catarineta que jamais chegaria a porto algum. cansado. Irritado comigo mesmo. Margeei longamente. sem ver a partida. . Aos primeiros dias. apiedei-me do rio. ele descobria o que de mais surpreendentemente belo tenho visto em perspectivas naturais. O mar me perturba. coisas vistas. PARTIDA. procurando-os aqui. onde o sol caía reto. andei. Eram viajantes perfeitamente vulgares. Ao voltar. Tive a impressão de que me haviam roubado qualquer coisa. densa mata.

teríamos um sentido. Se ao menos o amor se definisse. neste. o mar? Diante dele. assim. e contudo inquietante. encontrar-lhe a expressão real. nos seus recônditos. uma inteligência e um anseio de comunicação que nos fazem estremecer. ao pé do qual o pobre Belmiro. surdas. ora múltiplo. inexprimível por palavras. Por que me perturba.. ora uno. era um verme a rastejar. Uma grande voz' confusa se erguia do fundo das águas. porque na linguagem do cosmos. o pensamento revelador. De onde nos será possível descortinar o alto panorama? Qual será o caminho—o da humildade ou o da dureza? Deixando o Arpoador. Esse Belmiro avultava cada vez mais no espaço e percorria o tempo. ora móvel. Conhece todas as gradações. mas dominadoras. Há. atlântico. As trombetas do Juízo Final deverão ser. que é intraduzível. Por que o mar nos transporta às reflexões sobre o amor e a morte? O amor e a morte encerrarão o destino do homem? Por que. quando devia amesquinhar-me. .Pareceu-me que do mar me vinha qualquer mensagem. Que imperiosas determinações me vinham das águas atlânticas? O corpo sem nervos. que sabemos do amor? Impossível fixá-lo.. Nossa alma se inclina sobre si mesma e procura. assim. a um tempo distantes e próximas. captar a surda mensagem. exalto-me e quero compartilhar de sua energia cósmica. Ouvi-las-emos é dentro da alma. tal como ouvimos a voz do mar. Procurei. para que lhe tenham paralisado a língua? Ainda assim o grande paralítico nos manda sua fala. sufocado entre montanhas. senti-me lúcido e triste. nesta noite extraordinária. Em alto estilo apocalíptico nela encontraremos resposta às nossas questões. Mas. permanente. sem a interferência dos sentidos. nos convida a romper nossas limitações? Dir-seia que nos propõe a medida da latitude e da profundidade das suas águas inquietas. as vagas que batem no rochedo. Ele se compõe da variedade e da ondulação. como o marinheiro do poeta. A voz do grande paralítico. Um Belmiro dominador. a alma sem forças receberam um hálito forte. os olhos sem brilho. devassando todas as idades. Que segredos guarda. também. como a uma sinfonia wagneriana. Eis que surgiu um Belmiro poderoso e elementar. arrastando-se como um trovão longínquo. e seu objeto é ora fixo. Ainda estou a ouvir. Ficaram-me desejos confusos de amor e de ani-quilamento.

Florêncio é o mesmo homem de chapéu-dechile e ventre honrado. talvez. Quero possuir o espírito pacífico destes velhos móveis. Ali estão. Feliz Florêncio! Enquanto Silviano se consome em escafandrias.. que nos abre de longe os braços. a vida me parecera de tal modo parada que supus estar no passado o sentido de minha existência. Assim foi em 35. nas intermináveis chapadas do sertão. É aqui nesta sala de jantar. depois. COMO esta Rua Erê me enternece! Cá estou de novo. à paz desta casa imutável. Ano difícil. que não indaga. mas o caniço pensante. nem possuem raízes medicinais. desta Emília velha. os acontecimentos me arrastaram no seu tumulto e me fizeram viver. não se mexeram de seu lugar. nada se alterou no curso destes doze anos. as transformações interiores me devastaram. pois Florêncio é a vida na sua manifestação mais confiante e tranqüila. este que se foi! O velho Borba não confiava na paz das coisas e dizia que os reveses vêm. Depois. agora. onde não subsiste nas coisas o sinal das atribulações. Mau físico para um agente de seguros de vida. Por que procurar um sentido individual de existência? Há. A VERDADE ESTÁ NA RUA ERÊ. Para que maior felicidade? Seu espírito. Retorno. Terá passado o furacão? Até então. mas não me dá o desejado repouso. gritando na Avenida: —Você precisa comer mais feijão. quis explicar-se. uns sobre os outros. sem outro destino? Deveria conformar-me com isto. nem sombra. o ventre se lhe vai arredondando. A quietude suaviza os meus ardores. Silviano o considera primário.§ 81. inquieto. que se torna grandiosa à medida que seus cabelos branqueiam. ano tempestuoso. Vivi um ano com intensidade superior à da soma de muitos anos de vida. homem sem abismos. Tudo está como deixei e como sempre esteve. molécula puramente pictórica. homem! Que carga de ossos! Ao passo que se aproxima dos cinqüenta. Tirante a ausência da pobre Francisquinha. Redelvim se perde em furores. Jandira busca aventuras para se iludir e Glicério se mostra perplexo. louvado Deus. onde o relógio de repetição bate horas caraibanas. e ganha expressão honesta e repousante. Não estarei aqui somente para integrar o vasto painel humano—ponto de luz ou de sombra. A verdade está na Rua Erê e não no Arpoador. Entretanto. Emília continua grave e exata. repousa na ordem de coisas que encontrou e foi estabelecida sobre um sistema de ficções . pequenas árvores que não dão frutos. apenas para compor a paisagem. que encontro um refúgio embora precário. As coisas. e melhor fora não ter saído.

com pesar. acaso. Seu equilíbrio de belo animal humano não é. correu os olhos distraidamente pela primeira das cinco laudas de papel e achou-o excelente. encaminhando-o "à consideração superior". Foi uma festa . Inútil. não acredita intimamente nos relatórios nem no Fomento. nesse caso. Insiste em que minha atitude há de ser provisória. fazendo crer que ele e o Fomento são levados em conta pelo diretor. porém. quanto à minha capacidade de fazer. céptico. Respondi-lhe que pelos jornais as teria mais recentes: eu chegara havia três dias. ideal? Impossível. Talvez só encontre nele areias movediças. Mas o chefe não deixou: "É assunto urgente. encetar de novo a marcha e procurar o caminho de Florêncio. sem a Bela e sem o Bosque. Mas queria apenas puxar conversa e me contar o casamento de Carmélia. e esta figuração tinha em vista os funcionários e duas pessoas que o visitavam naquele momento. Queria dar-se importância. dava ao Glicério um sinal de sua hostilidade. e. o chefe o olha com reservas. NOSSO chefe de Seção é um pândego: pegou-me o relatório. limpou o pince-nez. com a mesma força. de há muito. para dar o bote. prossigamos no caminho até aqui percorrido. instintivamente me vou avizinhando do Silviano. por que não te transformas em paz de espírito? Tudo está como dantes.metafísicas. A família aprovava o namoro e viu. pedindo-me novidades do Rio. Serviu-se do acontecimento para fazer o que Glicério denomina uma "figuração". onde os homens esperam pachorrentamente a aposentadoria e a morte. nesta altura dos acontecimentos. um trabalho daqueles. por outro lado. Propõe-me uma experiência. e. Desde que o rapaz deixou a Nonoca. Não creio que me forneça uma certeza que me encha a vida. Como eu. Glicério se abeirou de minha mesa. mas que fazer? Quem me oferecerá terra firme? Jerônimo? Jerônimo está-me espreitando. morais e políticas. aliás justas. por aqui tivemos uma: o casamento de Carmélia. a viver em interrogações. O diretor tem interesse pelo caso. SEÇÃO DO FOMENTO ANIMAL. Paz física da Rua Erê. Todo artifício será inútil e. Dir-se-ia a Bela Adormecida no Bosque. a sério. —Pois. que se achava. o malogro dos planos da moça. Percebeu que já não me mantenho de pé. Glicério quis ver a peça." Achei graça em toda essa história inventada pelo chefe. § 82. A ele devemos a modorral pacatez da Seção do Fomento. como há doze anos passados. À hora do café.

Pedirei ao Glicério que não o trate assim. Compareceu na casa o que há de bom e de melhor. como diz o Silviano. ao escrever estas notas. Não havendo outras. Sua retirada dá-me uma sensação de desamparo. Ficarão lá somente dois meses. pois o Jorge se diz ansioso por trabalhar.. muito abatido? —Não me venha com as suas. sim. Seguiram no mesmo dia para o Rio. acrescentei. estimo-o bastante e estou habituado à sua companhia. DEDIQUEI todo o domingo à leitura dos quatro cadernos de que já se compõe esta espécie de Diário. penso também em outra coisa: os outros se movimentam. rompem. Tenho coisas sérias em que pensar. A VIDA SE ENCOLHE. —E você. Isso é coisa do século passado. respondeu Glicério com dureza. se deslocam. Já não terei com quem conversar na Seção. há alguns anos. Afinal. um dia destes. que nos servia o café e ouviu a conversa.. Pouco antes de sairmos. —Embarcaram. Carolino teve um sorriso desapontado e retirou-se com a bandeja. Quero ver se mais tarde consigo um lugar de auxiliar jurídico. A notícia me entristeceu. Estava uma noiva linda. —Ah! É verdade. a fim de alcançar o Oceania. Se ao menos atingisse a beatitude burocrática do Filgueiras. o jovem bacharel voltou à minha mesa para dizer que. ponderou. Eu é que ando cansado delas. Continua incapaz de amar. Que é acessório? Eu sou um acessório? —Não te metas.fina. dissimulando meus passos no Rio. no dia 18. Só eu resto e envelheço nesta vida modorrenta.. No mais. —É serviço mais próprio para mim. E pequenas não me faltam.. efetivamente. abandonará a Seção. progridem ou regridem. Carmélia! Casou-se afinal? Mas você não disse que a cerimônia seria singela. —Embarcaram sempre? Pensei que essa história de Europa não vingasse. § 83. mas. portas adentro? —Mas isso não impediu que a viúva convidasse pessoas do seu círculo. enfim. Noto que o casamento de Carmélia não o abalou. uma vantagem encontraremos em deixar no papel o registro dos acontecimentos de nossa . O Senador Furquim lhe obteve uma comissão no gabinete do Advogado Geral do Estado.. —Acessório? perguntou Carolino. Glicério pareceu-me sincero. E.. mulher é acessório.

como Judeu Errante. pois não dá sinal de si. Glicério deixou a Seção e passou a trabalhar nos serviços de advocacia do Estado: foi o bastante para afrouxar nosso convívio. Agora. as coisas desbotam e se tornam mais frias do que antes. que sempre foi pouco afetivo. ainda que pouco encontradiço. tomou o seu rumo. Anda pela fazenda e dele não tenho notícias. ando sempre. Só conhecemos.vida: veremos surgir aos nossos olhos. loucas fantasias. que passa. e. mas deve ter arranjado outros. Jamais entrei nos seus domínios íntimos. e ando. Dentro em pouco. De agosto a janeiro. E os amigos se desviaram de mim. repelindo as solicitações de um presente que se insinuava. Às vezes não encontro lugar que me sirva. que inexperiência. e nisso está sua felicidade. Depois. colorido. quase que escrevo dia por dia. o movimento amortece. . que escrever. como dentro de um caramujo. a satisfação de outros tempos. quão diversos estados de espírito. se mergulhei em Silviano. Nestes vinte dias não me saiu sequer uma linha. Ah! É verdade: Florêncio não me tem faltado. emoção. Eu não renunciara ainda ao projeto de um livro de memórias e me consumia em tentativas. A vida ganhou movimento. o calor se vai. sob mil formas. também. Quantas contradições. Creio que já escrevi tudo o que havia em mim para escrever. talvez nada tenhamos de comum. Vive no seu mundo de Pereirinhas e de Azevedos Leões. no ato de escrever. que desconhecimento de nós próprios! Há pouco mais de um ano escrevi a primeira página. Carolino. Acabou o namoro com o tal doutorando. Continuar a acompanhar a vida dos outros? Isso seria interminável. foi porque nele encontrei possíveis itinerários para as minhas incertezas. Não tenciono escrever romance. Redelvim. para instrução e advertência nossa um ser bem diferente daquele que supúnhamos encarnar. A vida dos amigos apenas se me revelou quando incidiu na minha. no meu espírito e disputava lugar às imagens do passado. a vida alheia pelos seus pontos de incidência com a nossa: o mais é conjetura ou romance. Não procurarei os amigos: se não me aparecem é porque já não me querem. Pouco há. aliás. ingênuos pensamentos. Como um ano. Leio um pouco e caminho pela cidade. Isto é: encolhe-se na Rua Erê. Outras se sucederam com largos intervalos. modifica o aspecto das coisas! Minha vida se reduz a Emília. Já não encontro. Jandira se afasta cada vez mais. impressões. quase me parece estranha. Mas continua Florêncio. permanece a oferecer interesse. em companhia do Carolino. Apenas Silviano. o caderno toma a feição de Diário e nele passo a expor fatos. Giovanni e Prudêncio. Que dizer dele? É um homem sem história.

não deve oferecer paisagens atraentes. UM "VIRA-LATA". O "vira-lata” deveria estar preparado espiritualmente para semelhantes situações. encontrei um pobre cão em ridícula postura. com a resignação de quem espalhou ventos e acabou colhendo tempestades. a lata para cima. a escrever sempre. Simpatizei com o cão e lamento que os animais não estejam a cobro do ridículo. Qualquer coisa me liga a esse cachorro magro e abandonado que encontrei na Rua dos Pampas. Ainda o vi ao longe. Joana. a julgar pela miséria orgânica do resto do corpo. UM POUCO MENOS PESSIMISTA. deixei-o consigo mesmo. para tortura de um focinho possivelmente magro. Bem podia ser que ele me agradecesse o benefício com uma dentada. á escrever. e não resisti mais: fui procurar Silviano esta noite. pois fui encontrar o rafeiro já um tanto cansado. Talvez seja esta a razão . refleti. com as patas traseiras em repouso. Não é muito recomendável estar fuçando as coisas e quem as fuça deve agüentar as conseqüências. dando com a lata aqui e acolá. Que pensaria ele naquela situação? O mundo. pôs-se a correr como pôde. não mais largando dali. E cá o ponho nesta página. que me recebeu com bondade. que esta se lhe prendeu à cabeça. isto é. o corpo apoiado nas dianteiras e o focinho para cima. esse que surpreendi em tão difícil conjuntura. Era um autêntico "vira-lata". na direção das estrelas. Fez-me pena. Mas o cão não era porventura permeável às palavras de eterna sabedoria. que por aí circulam nos adágios. É o que presumo com indiscutíveis fundamentos. mas também me fez rir. através de uma lata de lixo. esta noite. Como eu me aproximasse. VOLTANDO para casa. dia e noite. ou aromas amáveis. § 85. Está fazendo um livro. para o livrar do incômodo apêndice. apesar dos esforços desesperados do animal. OUTROS dez dias de solidão.§ 84. e ele ignorasse minhas intenções. Afinal. batendo a lata em quantos obstáculos encontrava no caminho. para ter em paz a consciência. na meia-noite silenciosa da Rua dos Pampas. ofereceu-me café e contou-me que o marido anda enfurnado em casa. De tal modo insinuara ele o focinho numa lata de lixo. Estava fora.

Aproveitaram o rápido encontro para me comunicar que estão noivos. Silviano pensava desesperar-me. É o que faço no momento. o patife?). —Siga o meu exemplo. . vou aproveitar as forças que me restam. Belmiro. O que faço é procurar viver. falou. assim. Informou-me. você por aqui! Por onde tem andado.. brigam. e carregue os problemas da turma. Você acertou em nos deixar de lado. sorridente.do seu sumiço. que vá na parola. e eu era uma idiota. complicando tudo. Resolvi dar um sentido mais esportivo à vida. —E você? Isso é mais importante. resolvi aproveitar a quebra do meu compromisso íntimo (o de não procurar ninguém). Barroso. Não têm culpa de ter sido este encontro retardado pela vida. virando-se para mim: —Afinal. Arranjem outra. com suas loucuras (sabe que tentou conquistar-me. com malícia. Não repare. Saiu hoje apenas para ir à casa do Jerônimo. Lá cheguei à hora em que se retiravam o professor Barroso e D. enlaçando-a pela cintura.. belezinha! disse Barroso. mas cada vez andam mais juntos. Vocês me andavam envenenando com histórias. Jandira não está. que se afastava: —Nasceram um para o outro. —Caduco por sua causa. disse. consultar a biblioteca. Fica falando bobagens com seu Belmiro. isso é verdade. Já não há Pereirinhas. não hão. que leva agora. anedia como supus. Glicério não passa de um convencido. meu velho? A acolhida me animou um pouco. Redelvim queria tornar-me revolucionária. e toquei para a casa de Jandira. de que o Jerônimo tem estado sempre com ele. o par já maduro. lançando à noiva um olhar lúbrico. Anita. E. O velho Sobral é bom chefe e amigo.. não. com um sorriso perverso. satisfaz? —E a sua satisfaz? —Bem. Este velho anda meio caduco. —Mas essa vida. E você me intoxicava com literatura. Sendo apenas oito da noite. São uns patetas. deixe essa mania de dramatizar.. Descobri uma coisa chamada flerte. Esta repreendeu-o: —Você é sem modos. disse-lhe.—Olhe. seu Belmiro. ainda. Contou-me que tudo vai bem. —Não dramatize. —E de amores? —Amores. Jandira olhou. Continua no emprego e foi aumentada no ordenado. doutor (o Almirante tem a mania de chamar-me doutor). Não o pus de lado. já a descerem a escada. Brigam.

DEPOIS de prolongada ausência. Bem que seria capaz de lhe propor casamento. de modo algum. o Silviano. mas depois fiquei irritada. diga-lhe que não se considere triunfante com as coisas que me ouviu. depois da prisão.. desde que um dos dois não quisesse mais o outro. Aconteceu que eu me achava num momento de dúvida e de fraqueza. quando me veio ver. Dizia que não havia de casarse como um burguês. estendendo-me uma folha de papel: —Trouxe apenas a parte em que se refere a você. propôs-me afinal. embora não lhe interessasse reproduzir a espécie. menos pessimista.. Dentro em pouco. que tolice! Alguém me quer? Quem poderia casarse comigo morreu há anos em Vila Caraíbas. disse eu. antes de partir e logo que saiu da prisão. a propósito de que desencadeou sobre mim o seu furor? —A propósito de uma conversa que teve com você. .E depois fez uma confidencia imprevista: Redelvim assediou-a também. surge-me.. nada devendo prender-nos. Ótimo! Imagine se eu iria casar com aquele maluco! Agora me escreve cartas de dez.. à . Ia sair... —O extraordinário seria que não me chamasse imbecil." Achei graça. Queria que fôssemos morar juntos. Continuo onde estava. o Barroso e a Anita a jogarem. um casamento. Jandira me perguntou se acreditava na sinceridade daquelas palavras. Li o trecho: "Quanto ao imbecil do Belmiro. da casa de Jandira. Ora. e encontrou. Em uma delas tachou você de imbecil. —Imagine que coisa divertida. Regressei. dando uma gargalhada. Quase me bateu. Aborreceu-se. Perguntei-lhe se estava possuído de um sentimento burguês chamado ciúme. continuou.. Mudou muito. afinal. Insistiu em que não se tratava do sentimento capitalista denominado amor. o Azevedo Leão. Vendo que eu não cedia. voltava. SILVIANO E SEU PLANO DECENAL. Sugeria o concubinato puro e simples. Quer que eu admire seu fervor revolucionário. Diz isto apenas para posar. § 86. de ódio. Obedecia apenas ao instinto. Ultimamente. Respondi-lhe que sim. na estacada! O idiota é capaz de ter pensado que fraqueei em minhas convicções. doze páginas. —Pois você se engana. Vou buscar a carta. com todos os efes e erres. aqui. E sempre desejável. Eu ainda não lhe falei que agora cuido de outras coisas. É fabuloso! A princípio tive pena.. mas continua interessante. deu para perseguir-me com propostas.. Mas. O resto são declarações amorosas.

. —Há dois meses. o Retórico. Tenho um Diário. em forma de memórias. Conta coisas mui secretas. sempre com os olhos nas pastas. como desejaria. o precário equilíbrio. porém. sobraçando duas pastas de cartolina. Eu pretendia evitar o desastre. quando ele me bate à porta. intranqüilo. de tocar nos papéis. declarou. para alívio meu. que remonta aos longes de minha infância. Porfírio. apenas os títulos dos capítulos e o da obra serão no idioma de meu dileto Sêneca. resolvi escrever a minha vida. ameaçavam despejar-se pela mesa e pelo chão. Eis o fruto delas! E indicou. então. ainda. Inútil dizer que todos os psicólogos modernos consideram o amor uma doença. com estrépito. —Larga! Não vês que me vais tumultuar as notas? Conversemos. no herói o sentido de Vênus. falou. —Joana me disse que você esteve lá. com o braço estendido. no capítulo Cogitationes privatae. disse-me. Capítulo Evolutio Veneris. não cabendo dentro das pastas. folheando as notas escritas em papel grosso e com tinta roxa. passa a tratar-me na segunda pessoa. lançando sobre a mesa. (Sempre que me repreende.. lhe advém a preocupação com os alimentos e escreve o capítulo De usu ciborum. Estive recolhido em graves lucubrações. embora passageira. intenta escrever a sua vida —De vita própria. trata da sua infância e adolescência. a carga. retirou de sobre a mesa as pastas que ali se mantinham em duvidoso equilíbrio e me assustavam.) Levantou-se e. com a perspectiva de um desabamento. de modo catastrófico. Sofreia os teus ímpetos! Nada viste. com solenidade. no qual o homem. logo empós. folhas de papel que. isto é. Assentou-se de novo e. —Não sejas impetuoso. primeiro. "Eis que. Depois de uma pausa respiratória continuou: —Evolui. Acossado por grandes aperturas financeiras. todo o texto em latim. Fá-lo-ei em Memorabilia. foi-me expondo o plano da obra: —Silviano. e nele encontro material abundantíssimo.sua procura. —Magnífico! Sempre achei que você deveria fazer isso. com energia. Primeiro. já ao dealbar dos trinta anos. começa a ter a intuição do problema. alude ao morbo sagrado (capítulo Sacer morbus). tentando arranjá-las a jeito. mas o autor de De constantia sapientia e De tranquillitate animi. sem maiores cumprimentos. Sentei-me. como lhes era possível. Não o Velho. adoecido e passado longos anos em uso de comidas leves. que mantinham. impediu-me. aos quarenta anos. a seu lado. que compreende a espécie amor. o . pondo as mãos sobre os meus pulsos. quando Silviano. havendo. Não me sendo possível escrever. presumivelmente preciosa. como que referindo-se a outra pessoa.

de sol a sol. de gozar "em" ou "com" todos os sentidos. O herói ataca. o aeternus hostis. . o capítulo Ars semper gaudendi. que é outro capítulo. porém. Estava comovido.. Je prends mon bien ou je le trouve." concluiu.. "Não se fazem esperar as conseqüências. desde os trinta e cinco anos. O herói continua a cultivar a ataraxia de Pirro e o cepticismo radical de Agesilau.. em grande retorno. subir a grande montanha! Dedicado ao labutar intelectual. suspirando profundamente. o que pensa. o herói atinge a via triumphalis da sabedoria e da libertação. desde verde. agora. isto é. pretende libertar-se da tristura de fera em jaula. preparando o capítulo-mestre. Carneades e Sexto Empírico. Eis que Silviano. ao dealbar dos quarenta. Nela encontrará a Grande Consolação (De Consolatione Philosophiae). dialéticos. coisa parecida. então. com a soberba ênfase. respondeu. então. esclareceu o amigo. o majestoso pórtico.. Conhece. da vaidade de toda ciência (De vanitate scientiarum) e apreende a sutileza das coisas (De subtilitate rerum). Surge. No final. então. o capítulo máximo. —Respiguei aqui e ali.. "Bendita a hora em que lhe veio tal intento! exclama. vem-lhe grande onda de cepticismo. sentia vontade de o ler. Porventura isso interessa? Pouco importa que o . —Diga-me. Donde o capítulo De omnibus dubitandum. num supremo esforço.. Dentro de sua melancolia profunda. farto de prazeres ilusórios. Transpõe. cínicos. Porfírio. versou os bons autores e se afez ao vinho capitoso da filosofia. Por ele norteado. Convinha precaver-se contra alguma imitação involuntária. a gana de sentir. Aenesidemo. e. Respondi que me parecia interessantíssimo o plano do livro. e atravessada a crise política (Libido dominandi). et pour cause matrimoniado. de novo.. Escreve. gravemente. aí. que. Antístenes e Aristipo de Cirene. bem sua. desde já. terá de haver a suma dos capítulos.. pôde. Eu me lembrava de ter visto. forças para reagir e adota a filosofia lusa do "não te rales". alcançando os domínios da verdadeira e perfeita filosofia (De vera et perfecta philosophia).. "Aos trinta e cinco anos. em alguma parte. "A Libido sciendi. Euclides de Megara. Bem achadas as suas epígrafes latinas. hedonistas e pirrônicos sobre ele se atiram. continuou. sempre existiu no herói. prosseguiu. as grandes meditações sobre a Libido sentiendi. encontra. confiava em que não lhe faltariam forças para atacar uma obra de tal porte. o Amor.pensador solitário cai em pessimismo e vê que pecuniae obediunt omnia— como diz o Eclesiastes—"ao dinheiro obedecem todas as coisas". Já vem você com nugas.

Adolescentes. Deu-me pesar que a conversa não durasse mais tempo. entregavam-se. nem aos grandes doutores! disse. Aos cinqüenta. Bem.. ou que uma frase apanhada ao acaso me descortine grandes paisagens. Sentado à sombra de uma gameleira. em matéria de compreensão! Deverei concluí-lo aos cinqüenta. Vai certamente reformar tudo. quando permaneço calado. É o defeito das obras escritas em tanto tempo.. um problema. enquanto Carolino andava de bicicleta pelas alamedas. respondeu.. MOCIDADE. As notas que tomei até agora são a síntese do pensamento filosófico que veio até a nós. Cantar-lhes-ei baixinho estes versos de Molière: . Projeta-se uma coisa. Já lhe falei o que precisava e talvez tenha errado em ter falado. Às vezes me parece que você não vai além do Abundâncio. enfadado. Porfírio. então. —Surge.. em alegres pares. arrisquei-me a dizer. carecia abrir-me com alguém. outro conceito da vida. todavia. Até logo. um tanto desanimado com a minha mesquinharia. Mas Silviano se encoleriza com as menores observações que eu faça. É um plano decenal.. fiquei a folhear o Hermann e Dorotéia. Só para delineá-lo gastei quase dois anos de estudo. o bar do alemão. a jogos infantis e corriam e brincavam. Quanto às minhas meditações próprias. achome na força culminante do espírito. inclusive do que seja vera et perfecta philosophia. moças e rapazes invadiram o jardim. talvez. junto ao tripé de suas máquinas. à espera de clientes. MANHÃ DE 28 DE FEVEREIRO. tenho mais em que cuidar. que poderia alcançar grandes proporções. Do mesmo modo se porta. Voltei ao principal. que dança diante de mim neste velho escritório. Não poderei exceder-me! Não me faça objeções idiotas. § 87. Fotógrafos se mantinham solícitos. sai outra. O plano era notável. Súbito.. você já terá. brilhantes de sol. Quanto tempo gastaria para fazer o livro? —Talvez uns dez anos. Pensou que fosse coisa para já? Como é ignorante.. —Não poderei exceder-me a mim próprio.evangelista João me tenha fornecido epígrafes para três capítulos. eram cruzados por dezenas de barcos.. e os lagos. Enfim. E saiu apressadamente. dizendo-lhe o que desejava ouvir: devia mesmo prosseguir no trabalho.Dei um passeio pelo parque em companhia de Carolino. cheio de gente.. Ainda tenho os olhos cheios de sua luminosa mocidade. Na ilha próxima.

com quem conversar. Seria interessante promover um encontro entre Jandira e Jerônimo."Profitez du printemps de vos beaux ans." ". E.. . Serei. pelo Silviano. Profitez du printemps. UM DIA COMO OS OUTROS. como duas forças opostas. aimable jeunesse. Grande presa. pois é um terrível catequista. conversaram um pouco. Resta-me Carolino. Percebo o cerco: adivinha minhas fraquezas e faz-me uma ofensiva em regra. . . Já não tenho. imaginando que mal lhes noto a presença. que os camaradas me olham com alguma reserva. A SEÇÃO DO FOMENTO se tornou inabitável com a saída do Glicério. nada menos. Mas Jerônimo insistirá. para ter mais esta presa. Volto a preocupar-me com a velha questão: que vim fazer neste mundo? Até agora nada realizei. é certo. além disso. Que poderia encontrar de novo nestes velhos companheiros? Todos adquiriram. durante as horas de expediente. são menores as possibilidades de qualquer realização. le temps 1'éfface. respeitando a hierarquia burocrática. de ha muito. grandes abismos entre nós. . Creio. para diante." § 88. Talvez tenham mágoa de mim. que um presente de grego. apenas o tal arbusto da chapada? Jerônimo continua a enviar-me recados. e isso é grave para uma pessoa que foge de conversar consigo mesma. pois. tentando novamente catequizar Jandira. Talvez conseguisse mais. e passaram a repelir-se imediatamente. no seu rebanho de almas. É constante. mesmo. Havia de ser uma coisa épica: há dois anos atrás se conheceram.La beauté passe. que não se renova. A estima que lhes dedico terá a natureza da que voto ao Giovanni ou ao Prudêncio Gouveia. mas se alimenta antes do silêncio que da conversação. Já não tenho com quem conversar. Pressentem. Dir-lhe-ei que terá nada mais. . porventura.. supondo-me alheio a tudo. Qui nous ôte le goût de ces doux passe-temps. uma fisionomia definida. Mas Carolino se conserva distante. Vage de glace vient à sa place. imutável.

disse Emília. Ando em fugas freqüentes. NHÔ BORBA. Passarei. Já não é donzela. ou o Silviano se perderá comigo no seu mare magnum? A última hipótese é a mais provável. . da velha Maia e de Francisquinha devem rondar. à hora do almoço. pelo menos por algumas horas. Eu e Silviano poderíamos escrever uma novela de parceria. Que pena Glicério estar ausente. O chope é uma solução. oferecerei um sorvete ao Jorginho e contar-lhe-ei histórias do Gigante Brasilião. Certamente já construíram. Misturaremos as nossas dúvidas e tatearemos na grande confusão. É a senhora Jorge de Figueiredo. Mas. Entretanto. mandando encerrar o expediente. se algum dia encontrar no Parque essas crianças e se a ama for pessoa de boa cara. nem Arabela. Está bem. sentada a uma mesa do bar. . na Praça Sete. Sim. para o chope do costume. De que pensamentos se alimentaria senão destes? Os vultos do velho Borba. de bota e esporas pedindo café e falando que a Chica está no meio dos anjos. enquanto as crianças tomavam sorvete. as mãos pelos cabelos de Carmelinha ou de Jorginho. comovidamente. Já não é donzela. Por falar nisso. o prudente é não falar em mulheres dos outros. mesmo de modo platônico. Havia muito que não me falava em Nhô Borba. no local do costume. como a que vi outro dia. Imagino essa prole. nem Arabela. os tempos de Arabela. Apanhemos o chapéu e apressemo-nos. . O marido pode não achar graça nessas coisas e minhas costelas já não agüentam pancada. proseando com o Fritz na sua língua arrevesada. há de pensar sempre nos velhos. com certeza. consegui vencer mais este dia morno da Seção do Fomento. paremos por aqui. que bem poderia ser do velho amanuense. uma gorda ama alemã. que é isso? Estou arranjando todo um enredo. como o Silviano.Surge-me uma indagação: atingirei o Jerônimo. por via do Silviano. ao servir-me o prato. com saudade. na história de Parabosco & Ferrabosco Ltda. em torno dela. amigos. Poderíamos recordar. Terão. Soou a campainha. vou perguntar-lhe se a história acabou ou continua. NHÔ BORBA me apareceu. se algum dia eu seguir as águas deste. . com os olhos carregados de imagens e o espírito cheio de . O Florêncio nos espera. Mas. se não houvesse o plano da Memorabilia. o grande prédio. Onde andarão? Em Ostende ou em Biarritz? Estejam onde estiverem desejo-lhes felicidades e prole. § 89. mais que em redor de mim.

—Nhô Borba não falou mais nada? perguntei-lhe. Contudo. quando Emília ou Francisquinha (antes de se agravar a perturbação desta última) falavam errado em sua presença. Como avulta. A seu lado. a que se aplicar. e a pele encardida mal cobre os ossos. espírito mais conformado. Creio que já não tenho mais nada para escrever. como no tempo em que ela me punha ao colo. Mandou arreiá a besta e dis-qui-ia na roça do Corr-go. também. para fugir das recordações e não ser tentado pela Avenida. o velho não pôde ver que a ignorância é meia felicidade. a figura de Emília! Está velha. vazia. Foram criadas como bicho-do-mato. e há de estar permanentemente embebida nessa atmosfera caraibana. vivendo dias que se passaram há vinte ou trinta anos. de resto. Belmiro. Pouco ou quase nada fala. A velha Maia tinha. LAGOA SANTA. Como isso doía ao Borba. mas. a alma simples de Emília não encontra. então. resignava-se. Coitado do velho. à Zefa ou ao Carolino. mas há boa cerveja. porém. que lá permaneceram depois do 13 de Maio. Emília e Francisquinha aprenderam com elas o pouco que sabiam do mundo e da língua. É raro que me comunique uma opinião. como o faz. e no carnaval não havia a desculpa dos negócios. bem velha. sua amiga Josefa lavadeira. A gota ciática muitas vezes a prende ao leito. em companhia do Florêncio. mas deve amar-me bastante. enquanto eu . FIQUEI outros quinze dias sem mexer nestes cadernos. que a substitui como pode. Lembra-me o desgosto que se estampava em sua fisionomia. disse-me.preocupações. Florêncio não foi por gosto. como se fosse eu o interessado no chope. chama-me "excomungado". É uma figura dominadora: para ela se transferiu a força do velho Borba. Levou roupa de banho e passava quase o dia todo na lagoa. pois a vida se torna vazia. impedindo-a de ir à cozinha. Houve outro carnaval: passei-o em Lagoa Santa. como fez hoje. para fazer dormir. nesta casa. —Venha comigo. sinto-me quase uma criança. § 90. ou conte um sonho. grande tristeza. Lá não há chope fresco. que sonhava mandá-las estudar em Diamantina! Vivendo só na fazenda e em meio de antigas escravas. Dirige-se a mim por monossílabos. Que pensará de mim? Às vezes ralha comigo. Mariana impôs: ela e os meninos precisavam tomar um pouco de ar. Chamo. No seu desgosto. —Falou não. é a figura dominadora da casa.

a mil e tantos metros de altitude. com quem o Florêncio travou logo relações. afinal. não sei em que se ocupou. encontrado um rumo. aproveitando-se de um pequeno resfriado que reteve Mariana no hotel. soube que. é o melhor. chegada essa notícia ao Silviano. travou relações definitivas com Giovanni e Prudêncio. que me fez a esmola de ficar aqui em casa com a Emília. quando não está comigo. pois. compulsória (estou convencido de que essa renúncia não é virtuosa. baniu a literatura de suas cogitações. que. dá prosas intermináveis com os dois. —O direito é árido. Não gostou muito da minha precipitação.) A conselho de um dos companheiros. na sua renúncia. (Amabilidades: estou certo de que não virá. —Mas isto não quer dizer que eu me afaste da roda. Está muito satisfeito com o novo emprego. Foi preciso energia para resistir. mais adequado à sua situação de bacharel. depois. sem a menor consideração. Lendo-se qualquer coisa mais atraente. disse.. Vou. na Praça da Liberdade. Quis apresentar-me: pedi-lhe que não o fizesse. durante o carnaval. andou a meditar na Serra do Cipó. ou à noite. mas compulsória). Certa manhã..lia meia dúzia de livros que carreguei comigo. suas palavras me indicavam que havia. trouxe-me um calção e queria por força que eu o acompanhasse. amigo Florêncio. Diverti-me. RÁPIDO encontro com Glicério. este lhe cancele o diploma de clerc. pois amarguei bem meu retorno às donzelas. ESTÃO DE VOLTA. Perguntou-me gentilmente pela Emília e prometeu uma visita à Rua Erê. exibindo este corpo magro e desconforme para a sociedade que deixou Belo Horizonte e foi brilhar na Lagoa. . Quanto a Jandira.. Felicitei-o. Glicério deve ter ido aos bailes dos clubes elegantes. Apenas provisoriamente (enquanto tomo gosto pelos arrazoados) farei abstinência. De manhã. O amigo Carolino. as moças o abandonaram. Havia três ou quatro moças bonitas. § 91. Belmiro. com a chegada de uns rapazes.. e adotaram os novos companheiros. Imaginem que figura faria eu. e Silviano é quem está certo. receando. perde-se a coragem de mergulhar nos tratados. Por falar em Silviano. fazer este sacrifício. A verdade é que já passamos. Que permaneça na fazenda.. durante minha ausência de três dias. E de Redelvim não há notícias.. talvez. no balcão do botequim. à sua custa. Ou com eles joga escopa.

mesmo. e Glicério não saiba. Ouvi risos por detrás do pára-brisa. e ali irão morar. que tenho com isso? Já me haveria desinteressado do assunto. Assustado. espalhava no ar molhado. Depois saí às pressas. Já completaram os dois meses? —Não sei. ali fiquei mais algum tempo. de freios pisados com violência. Muito confuso. Ao descer a Avenida João Pinheiro. havendo doença. Era um carro grande de ricos. pelo menos. Para que me conta essas coisas? § 92. Já se foram os dois meses. Eram Carmélia e Jorge. recebi apenas salpicos. caramanchão do bar e. seguida de um chiado forte.Ao despedir-se. Se a doença é grave. tendo verificado que se aproximava a hora do expediente da Seção. e trazia placa de Berlim. Mas. se esse demônio do Glicério não ficasse a cutucá-lo. que nem me pediram desculpas. o Oceania? Ou embarcariam no Cap Arcona? Talvez já tenham chegado. quando já não havia perigo. boato de doença. Os sons musicais que ainda ouvia não me deixaram perceber o ruído do motor. Na verdade. fiquei a passar as mãos pela roupa. cessada ela. fingindo-me preocupado com a água de enxurro com que o carro me salpicou. quase fui apanhado por um carro.. Uma chuva inesperada me havia retido quase uma hora no. pôde despertar-me. fui contando nos dedos. Haverá. por minha conta. dei ridículo salto para um lado. que vinha veloz. EU ANDAVA pelo Parque. Já não é donzela nem Arabela. pois o carro parará. —Não. Lá se foram com seu namoro de lua-de-mel.. O carro se pôs de novo em movimento e seguiu rápido. ou. e a doença da viúva não prejudicou o programa. O que eu sabia é que ficariam dois meses por lá. mas bem poderiam ter dito qualquer palavra amável. deveriam ter vindo de zepelim. ou é fita da velha? Glicério disse há tempos que ela tem medo à morte como o diabo à cruz. AGRADEÇO-VOS OS SALPICOS. como sempre tenho feito ultimamente. para ouvir uns restos de opereta que o alto-falante... Não se demorariam no Rio. Já próximo do portão que dá para a Avenida. Tanto se achavam enlevados um com o outro. e só a buzina. fanhoso. deu-me esta informação: —Sabe que a Carmélia e o Jorge vêm por aí? Deveriam chegar ontem ao Rio.. Parece que a viúva não anda muito bem e pediu que voltassem. Terão voltado pelo mesmo navio. Estão certamente hospedados na mesma casa da dama-da-noite.. doença. Para que me .

mais vasto é meu coração. cresciam. cantarolava o poeta sem nome: "Pirulito que bate. O segundo disse: sou o poeta místico. Pirulito que já bateu. braços erguidos." E. colocando-se em torno de mim. Eu fazia longa viagem. bate. a certo momento. O terceiro disse: sou o poeta sem nome. humildemente. em poltronas da frente. e que dirão literário. O primeiro disse: sou o poeta irônico.. Passando-me a mão pelos cabelos. se levantaram. são os remos ou são as ondas o que dirige o meu barco? —Eu tenho as mãos cansadas e o barco voa dentro da noite. MUNDO. acordei assustado. eu vos agradeço. Quem gosta dela sou eu. As coisas se tornavam confusas e os botões dourados da blusa azul do chefe de trem cresciam. Bocejando. como a querer invadir todo o espaço. que soprava um grande trombone. o poeta místico indagava: —"Senhor. Já eram dez horas. braços dados.aparecem? Por que exatamente a mim? Secretas intenções do acaso. QUANDO Emília bateu à porta do meu quarto. cantavam a una voce: "Mundo mundo vasto mundo. mas posto em mim deixa de o ser. silenciosos.." Depois. volteando em redor de mim e acompanhados pelo chefe de trem. falou o poeta irônico: "Mundo mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo seria uma rima. os salpicos. Quem gosta de mim é ela. MUNDO. e o calor e o cansaço me derreavam. Três passageiros que iam. saltitando. não seria uma solução. pus-me a lembrar do sonho que tive." . § 93." Com os olhos postos no céu.

entretanto. vendo o corpo consumir-se lentamente. e parece-me. os Borbas vão até aos setenta. . que cheguei ao fim. ainda pediam mais dez. Sangrou rudemente o almoxarifado da Seção do Fomento. nem de boiões de tinta.. de Firmino e de Baldomero. para empurrar os presumíveis trinta e dois anos que me restam. chegados aos oitenta. Não morriam aos poucos. Esqueceu-me dizerlhe que a vida parou e nada há mais por escrever. parecia queda de gameleira ferida pelo raio. Trinta e dois anos. Carolino amigo? . sim. Quando um tombava. Previdente e providente amigo! Esqueceu-me comunicar-lhe que já não preciso de papel. de Porfírio. ÚLTIMA PÁGINA. Viviam com plenitude os velhos Borbas da linha-tronco. Negação de Belarmino. porém. TENDO verificado que se esgotara minha provisão de papel.§ 94. Acho-me pouco além do meio da estrada. mesmo com o coração descompensado. fazer qualquer coisa. —Que faremos. . Carolino me trouxe esta manhã uma porção de blocos. nem de penas. Em média. Ai de mim! É necessário. Viviam a vida. Dois deles..

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