CYRO DOS ANJOS O AMANUENSE BELMIRO
romance
7.a edição Nota biobibliográfica Prefácio de Antônio Cândido

LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITORA
RIO DE JANEIRO—1971

Anjos, Cyro dos, 1906 O Amanuense Belmiro, romance- Prefácio de Antônio Cândido. 7.a ed., Rio de Janeiro, Editora José Olympio, 1971. Publicado em convênio com o Instituto Nacional do Livro —MEC.

OBRAS DO AUTOR : O Amanuense Belmiro—Romance—1.ª edição, Editora "Os Amigos do Livro", Belo Horizonte, 1937; 2.", Livraria José Olympio Editora, Rio, 1938; 3.ª, Saraiva S/A.. São Paulo, 1949; 4.º, "Livros do Brasil", Lisboa, 1955; 5.ª. revista (com a 3.ª de Abdias), Livraria José Olympio Editora, Rio, 1957; 6. a, na Coleção Sagarana, Livraria José Olympio Editora, Rio, 1966. NO ESTRANGEIRO: El Amanuense Belmiro — Tezontle, México, 1954. Carnevale a Belo Horizonte — Fratelli Bocca Editori, Milão, Itália. 1954. Abdias — Romance — Livraria José Olympio Editora, Rio, 1945; 2." edição. Saraiva S/A., São Paulo, 1956; 3.\ revista (com a 5.» de O Amanuense Belmiro), Livraria José Olympio Editora, Rio, 1957. Explorações no Tempo — Crônicas (passou a integrar volume de memórias). — Ministério da Educação, Serviço de Documentação, 1952. A Criação Literária — Ensaio—Edição da Revista Filosófica, Coimbra, Portugal, 1954; 2.' edição, Ministério da Educação. Serviço de Documentação, 1956: 3.", Livraria Progresso Editora. Bahia, 1959. Montanha — Romance — 1." edição, Rio de Janeiro, 1956; 2.ª, 1956, ambas da Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro. O Amanuense Belmiro—Abdias—reunidos em um só volume, 1.ª edição, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro. 1957. Explorações no Tempo—Memórias. Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1963. Poemas Coronários—Edições de Arte, Universidade de Brasília, 1964.

O AMANUENSE BELMIRO .

não estava ausente do gosto pela arte e pela literatura. estimulado por um amigo da família dono de tipografia. o clã Versiani dos Anjos. cargo que marcou o início de uma carreira pública onde sempre ocupou funções de destaque.NOTA DA EDITORA DADOS BIOBIBLIOGRÁFICOS DO AUTOR CYRO VERSIANI DOS ANJOS. Cyro dos Anjos trabalhou nos jornais Diário da Tarde (1927). Cyro dos Anjos já editava um jornal chamado O Civilista. Iniciando os estudos médios na Escola Normal de Montes Claros. a fim de prover o próprio sustento. como redator de A Tribuna. publicou sob o pseudônimo de Belmiro Borba. fazendeiro e professor. onde concluiu o curso secundário e o de Direito. Cyro dos Anjos transferiu-se em 1924 para Belo Horizonte. por sua vez. Diretor . gostava de música e na casa sertaneja não faltavam os acordes de Bach e Beethoven. em carro de bois. bacharelando-se em 1932. Diário da Manhã (1929). rabiscando um jornalzinho manuscrito intitulado Horas Vagas. Eça de Queiroz.° entre os quatorze filhos do casal Antônio dos Anjos e Carlota Versiani dos Anjos. Diário do Comércio (1929). Minas Gerais. e Diário de Minas (1930). tinha de fazer acidentada viagem de mais de 30 dias. Malograda tentativa de advocacia na cidade natal fez com que desistisse da profissão. Aos 8 anos. Alexandre Herculano.latim tradicional entre mineiros e. Dona Carlota. Reunido em torno da "mesa de pereiro branco". para alcançar Montes Claros. ainda mais. em cuja pequena biblioteca descobriu (aos 15 anos) Machado de Assis. Fialho e Camilo Castelo Branco. a 5 de outubro de 1906. entretendo-se com o. Dedicando-se ao jornalismo. ouvidos ao piano numa época em que um Pleyel. Em 1933.Em 1931 Cyro dos Anjos já era oficial de gabinete da Secretaria de Finanças de Minas Gerais. amava a leitura e o debate de idéias. Oficial de gabinete do Governo de Minas (1935-1938). nasceu em Montes Claros. com escritores e temas contemporâneos. malgrado o ambiente rural e as longas distâncias que o separavam dos mundos urbanos mais atingidos pelo progresso. voltando à imprensa e ao serviço público em Belo Horizonte. de quem seu pai era ardoroso partidário. 13. as crônicas que foram o germe de O Amanuense Belmiro. deixando ver a influência política da primeira campanha de Rui Barbosa. revelador ao mesmo tempo do embrião de jornalista que se formava e da disciplina infantil a que se submetia na vida cotidiana e familiar. Aos 10. O patriarca da família. já o futuro romancista deixava entrever visíveis inclinações literárias.

a que se acrescentam os títulos de fundador da Faculdade de Filosofia de Minas Gerais e da Universidade de Brasília. em 1963. inclusive no exterior com as versões espanhola e italiana de O Amanuense Belmiro. Diretor do IPASE (1946-1951). Joaquim Carlos e Francisco de Assis. saiu em 1945 e o terceiro. este radicado atualmente em Porto Alegre. de cuja vida intelectual participa com intensidade. Márcia Antonieta. Professor de Estudos Brasileiros nas Universidades do México e Lisboa (1952-1955). além de Newton Prates e Guilhermino César. sucedendo a Manuel Bandeira. publicados pela Universidade de Brasília. Cyro dos Anjos pertenceu ao grupo de escritores em que se destacavam Carlos Drummond de Andrade. volume de memórias. em edição nossa. Cyro dos Anjos pertence à Academia Mineira de Letras e possui várias condecorações nacionais e uma de Portugal. sendo nesta última regente do curso Oficina Literária. Casado em 1932 com D. cadeira n. Antônio Joaquim. com o romance O Amanuense Belmiro. em 1956. o romancista tem seis filhos: Margarida. Portugal) um estudo sobre A Criação Literária e. são as etapas que definem a carreira de Cyro dos Anjos no serviço público estadual e federal. Zelita Costa dos Anjos. apesar do sucesso conquistado. ambas de 1954 no México e na Itália. Abdias. . por sinal. que exerce juntamente com os deveres de fiscal dos dinheiros públicos na capital do país. Subchefe do Gabinete Civil da Presidência da República (1957-1960) e. Estreando na literatura em 1937. ambos editados por esta Casa. Martim Afonso. Rio. Seu segundo livro. também romance. revelou-se também ensaísta e memorialista. Mas o romancista Cyro dos Anjos. Seu último trabalho. outubro de 1971. publicando em 1954 (Coimbra. muito bem recebido pela crítica. Explorações no Tempo. ainda no mesmo gênero. Montanha. Emílio Moura e João Alphonsus. os dois últimos já falecidos.da Imprensa Oficial de Minas (1938-1940). finalmente.° 24. Conselheiro do Tribunal de Contas de Brasília. Em 1969 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. data de 1963 e nele o ensaísta e romancista cede lugar ao poeta bissexto dos Poemas Coronários.

se quiserem). Almeida Salles (ou Valéry. de equilíbrio. que. Lendo o artigo. ecos de Bergson. dos recursos da sua arte — condição primeira para a plena expressão do seu pensamento. Um homem sentimental e tolhido. me parece um dos maiores dentre os poucos estrategistas da literatura brasileira contemporânea. revelam o artista profundamente consciente das técnicas e dos meios do seu ofício. Ciro dos Anjos anda pela casa dos quarenta. segundo o Sr. Quanto a mim. Paulo. Para ele. é a única maneira de suportar a volta às suas decepções. de Amiel. Almeida Salles. opõem-se deste modo aos do primeiro grupo. direi que devo a ela a minha salvação. no qual aplica à nossa literatura a distinção de Valéry entre escritores estrategistas e escritores táticos. no primeiro movimento da inspiração. escrever é. com um som de coisa definitiva e necessária. evadir-se da vida. baseado em anos de meditação e de progressivo domínio. mas seguro. Os nossos autores. Por isso é que ele ressoa de modo tão diferente no nosso meio. Há mais de cinco anos publicou o seu único livro—O Amanuense Belmiro—uma obra-prima. Guiando-se quase apenas pelo instinto. a primeira pessoa em que pensei foi o romancista mineiro Ciro dos Anjos. o composto pelos dotados de talento e habituados a construir segundo o influxo dele. pensando-as. menos na força impulsiva do talento que no domínio vagaroso. de segurança. o amanuense estabelece um movimento de báscule entre a realidade e o sonho. possuidor de uma visão pessoal das coisas. fortemente tolhido pelo excesso de vida interior. de autores cuidadosamente lidos ou harmoniosamente incorporados ao patrimônio mental. que vêem na criação o afloramento definitivo de um largo trabalho anterior. Almeida Salles publicou certa vez em Planalto um dos rodapés mais inteligentes que têm aparecido na imprensa periódica de S. analisando-as.ESTRATÉGIA (Prefácio de Antônio Cândido) O Sr. No seu subsolo circulam reminiscências várias de leitura. Porque esse romance é o livro de um homem culto. de Proust. A impressão de acabamento. Venho da . "Quem quiser fale mal da Literatura. Segundo me contam. sem dúvida alguma. O Amanuense Belmiro é o livro de um burocrata lírico. para falar como o Sr. e da sua sensibilidade. nem sempre produzido pelas obras dos nossos generosos táticos. de fato. dos meios técnicos. pertencem quase na totalidade ao segundo grupo. pois escrevendo-as. lentamente cristalizada no decorrer de longos anos de meditação e estudo. alargando-se em reflexões muito agudas e muito justas sobre a natureza da criação literária. numa palavra. Confiam. de realização quase perfeita. isto é. escreve o seu diário e conta as suas histórias.

isto é. e. uma noite de carnaval lhe traz a imagem de uma donzela gentil. porém. mas à sua maneira: identificando a moça de carne e osso. A sua desadaptação ao meio levou-o à solução intelectual. O amanuense ama. É um homem poderoso. se fosse só isso. Para iludir-lhe o espírito vaidoso. esta.. perturbando este com os arquétipos daquele. quase normal. Não é difícil perceber o mal de Belmiro. solteirão nostálgico. De repente. não lhe permite uma existência atual. a fim de encontrar um pouco de calor e de vida. lírico não realizado. que espia para dentro. escrevo dez linhas. sorri e diz: 'Ora bolas'. com a imagem longínqua da namorada da infância." Belmiro.] depois de uma infância romântica e uma adolescência melancólica. se entrega ao presente: mas não o vive.. o homem supõe que encontrou a sua expressão definitiva e que sua própria substância já lhe basta para as combustões interiores. então. sedento e agitado. na sua casinha modesta e o seu ramerrão cotidiano. literato in erba. torno-me olímpico. "[. recita com o poeta: . que impelem o homem para a frente. fazendo-o voltar para a vida. Acontece. estava tudo muito bem. permanece como fatalidade. que mal enxerga de quando em vez. carrega nas costas a enorme trouxa de um passado de que não pode se desprender. Submeto se. que a sensibilidade de Belmiro. numa comovente pesquisa das remotas origens do ser. Sabe que não lhe adianta pensar em como as coisas seriam se não fossem o que são. Mas as forças vitais. Em verdade vos digo: quem escreve neste caderno não é o homem fraco que há pouco entrou no escritório. concluindo que "a verdade está na Rua Erê". haveria a possibilidade de um modus vivendi. e readquire o equilíbrio pela auto-analise." O amanuense é infeliz. nas quais o espírito se há de comprazer. à procura de fugitivas imagens do passado. a seu jeito. e o amanuense. Se fosse possível viver integralmente no mundo recriado pela memória.. oferecem-lhe o presente sob aspectos enganosos. como o do narrador do Temps Perdu. porque dentro dele estão as doces cenas da adolescência. ainda estão ativas nele e realizam um sorrateiro trabalho. que falhou como solução vital.rua deprimido. crê encerrado o seu ciclo e volta para dentro de si mesmo. ela própria quase um mito—um mito como o da donzela Arabela. é empurrado para o refúgio que lhe resta—o passado—uma vez que o presente lhe escapa das mãos ("[___] bem noto que vou entrando numa fase da vida em que o espírito abre vôo das suas conquistas e o homem procura a infância.") Ora. desmanchando a pureza daquele com a intromissão das imagens deste.. encarnando formas do passado. jogando-o como uma bola entre o passado e o presente. O drama é que o presente se insinua no passado.. Sonha. Chegou quase aos quarenta anos sem nada ter feito de apreciável na vida.

ou. múltiplos. como Lawrence: "I was so weary of the world. que o liberta das redes do analista: o senso lírico da vida. Ciro dos Anjos possui. vasto mundo Se eu me chamasse Raimundo. porém. Falou-se muito em Machado de Assis a propósito de Ciro dos Anjos. Mundo mundo. que ele emprega também como um processo literário. sem a peia do passado. dotado de humour.. enorme. além dessa. o analista querendo dar aos fatos e aos sentimentos um valor quase de pura constatação. encontramo-la de capítulo a capítulo. que o salva. que quer se abandonar. porque a sua evasão consiste justamente em introjetar o mundo e banhá-lo todo nas próprias águas. e o lírico chamando-o à vida. que o chama à ordem. E a certa altura. é o diálogo entre o lírico. Há uma circunstância. vasto mundo Mais vasto é o meu coração..] já lhes contei o que se passa dentro de mim quando começo a meditar: perco-me num labirinto de antinomias. Sempre a tomar consciência plena das suas variações e dos seus aspecto:. foi da diferença radical que existe entre eles: enquanto Machado de Assis tinha uma visão que se poderia chamar dramática. 0 que é admirável. porém.... ao contrário."Mundo mundo. não seria uma solução." "Mais vasto é o meu coração". um maravilhoso sentido poético das coisas e dos homens. o homem que não se lembra. e dando-lhe um cunho muito especial. Esta alternância. de homem que não lamenta. Belmiro é o homem que chegou ao estado de paralisia por excesso de análise "[. na própria construção do estilo. Belmiro é o contrário do homem forte de que fala Balzac. no sentido próprio. Seria uma rima." Isto significa que é um candidato ao cepticismo integral e à imobilidade através do relativismo. o amanuense a torna explícita: "Tais desnivelamentos é que compõem minha vida e lhe sustentam o equilíbrio. Everything was tainted with myself". I was so sick of it. envolvendo uns e outros em piedosa ternura. A um Belmiro patético que se expandiu. insistindo-se sobre o que há de semelhante no estilo e no humorismo de ambos. da vida. de cena a cena. O que não se falou. e o analista. na atmosfera caraibana—contemplando a destruição das suas . que cresce num impulso vegetal. que restabelece o equilíbrio vital. no seu livro. Conclusão típica de introvertido.

sobre o curso normal das relações humanas. absorto nas donzelas Arabelas. o que não importa em ilusão quanto ao verdadeiro significado deste trabalho: "Grande coisa é encontrarmos um nome imponente. O amanuense. nelas. que dá uma dignidade humana tão grande à poesia de Manuel Bandeira e de Carlos Drummond de Andrade. as coisas estão é no tempo. é o fundamento da arte de Ciro dos Anjos. Criando-lhe condições de vida mais ou menos abafantes. As coisas não estão no espaço. Não se resolve nada. nas Vilas Caraíbas do passado. se reajusta e assobia a fantasia do hino nacional de Gottschalk. através do seu poder de análise. mas é uma criação da sua saudade e da sua imaginação deformadora. por que escrever sobre um passado que realmente não existe e um presente que cede ante a ponta aguda da análise? Belmiro escreve porque precisa abrir uma janela na consciência a fim de se equilibrar na vida. Chegado à sua toca da Rua Erê. pela primeira vez. que até aqui tem movido uma conspiração geral para belmirizá-lo. na autocontemplação. não apresenta virulência alguma que possa pôr diretamente em xeque a ela.—O amor (vida) estrangulado pelo conhecimento. indiscretamente lida por Belmiro: "Problema:—O eterno. o seu núcleo significativo vai ser encontrado numa página do diário de Silviano. E assim. com efeito." Esta disposição excepcional. os poderosos deste mundo só o deixam em paz . o Belmiro egresso de Caraíbas se apalpa. sofre ao perceber que "ali is tainted with myself". ainda que infinitesimal. mas ficamos satisfeitos. sociedade organizada. explorando metodicamente os seus complexos e cacoetes.paisagens—sempre sucede um Belmiro sofisticado." É este. Para conhecer este psicólogo lírico é preciso ler todo o admirável § 33 d'O Amanuense Belmiro. e empresta ao seu romance uma qualidade de vida que é superior à de Machado de Assis. o Fáustico." Se assim é. Encarando assim o livro. leitor." Numa ordem mais geral de idéias. pode-se dizer que o amanuense é uma ilustração do gravíssimo problema dos efeitos da inteligência. O homem é um animal definidor. ajustando-o aos quadros cotidianos. para confiná-lo nas esferas em que o seu pensamento. que escondem uma desagregação constante. quando ele descobre que o passado que evoca não existe em si. Ciro dos Anjos nos leva a pensar no destino do intelectual na sociedade. que compensa o primeiro e o retifica. e considera tristemente: "Não voltarei a Vila Caraíbas. para definir certos estados de espírito. Há. o problema central da obra. A atitude belmiriana resulta de uma aplicação do conhecimento aos atos da vida— entendendo-se neste caso por conhecimento a atitude mental que subordina a aceitação direta da vida a um processo prévio de reflexão. ilusórias permanências de forma.

E chorava-as tão bem que cada um que o cercava. extraindo dos seus motivos individuais melodias ajustadas às necessidades da alma dos circunstantes. que "[. E assim é esse livro. que ali iam buscar expressão para sentimentos indefiníveis que os povoavam s só se traduziriam por frases musicais. .. s/d. Insinuam-se lentamente na sensibilidade. cuja releitura faço pela quinta ou sexta vez. sòlidamente mantido em paz pela magreza do seu ordenado de amanuense. que é reduzido a não deixar transbordar senão a sua retórica. N. perfeito. Mas não é esta a impressão final que fica do livro de Ciro dos Anjos. Não são livros que se imponham de fora para dentro. cheios de força. O artista se revelava. vibrantes. num admirável movimento de afinação. cômoda para os negócios públicos. São Paulo.* * O estudo que se acaba de ler do grande crítico paulista foi reproduzido de seu livro Brigada Ligeira. sentia suas mágoas igualmente choradas. segundo os cânones).quando ele se expande nos campos geralmente inofensivos da literatura personalista.] tocava apenas por amor à arte.. Belmiro fala de um tocador de sanfona da sua Vila Caraíbas. o que é um deleitoso consolo. uma vez que aceitou como valor eterno uma filosofia que lhe aconselha a blague. editado pela Livraria Martins Editora. Livros que lidam com os problemas do homem num tom de tal modo penetrante que autor e leitor se identificam. da E. por esta forma.. e perfeitamente desfibrado pela prática cotidiana da introspecção (costume muito estimável. ou quando entra reverente no seu séquito. ou talvez para chorar as mágoas. Coisas em que a gente se põe a matutar. Esse traço da generosidade inconsciente dos grandes artistas se encontrava no sanfonista da Ladeira da Conceição". [1945]. Ou aquele Silviano cheio de seiva. da autoperfeição pela ascese intelectual. Na página 27. quando vê aquele Belmiro tão inteligente e tão sensível. até se identificarem com a nossa própria experiência. como são em geral os livros dos escritores de Minas. para a ficção mais ou menos frouxa com que o crítico tem não raro de se defrontar. como diria o Eça.

.....) ........." ... est indubitablement moi....... Et mes proches s'y tromperaient autant et plus que les autres.. dans cette fiction. Qu'on ne cherehe pás à savoir ee qui......... On s'y tromperait......... "Pour éerire 1'histoire d'un autre..... je collabore avec ma propre vie..." (GEORGES DUHAMEL—Remarques sur les Mémoires Imaginaires—Paris—Mercure de France—Sixième édition..."Les Souvenirs que j'ai de ma vie réelle ne sont ni pius coloria ni plus vibrants que eeux de mes viés imaginaires..

desde Porfírio até Belarmino. .A o s B o r b a s. da linha tronco.

Florêncio pôs a mão sobre o ombro dele e disse maliciosamente: —Estamos ruinzinhos hoje. Introduz. em nosso cotidiano. MERRY CHRISTMAS! ALI pelo oitavo chope. em torno de pequena mesa de ferro. O que haveria é supressão da vida. ainda que fosse uma supressão. de melenas. Redelvim convidou-me. É a solução. —Não discuto com menores. Silviano olhou-o da cabeça aos pés. Florêncio propôs. dizendo que o católico destrói a vida pelo modo mais violento. de vez. o alemão do bar se multiplicava em chopes. nesse caso. no que ela tem de excitante. sorrindo dengosamente para os soldados do Regimento de Cavalaria. enquanto um cabra gordo.§ 1. com um olhar malicioso. mas. outras dançavam maxixe com pretos reforçados. O proletariado negro se expandia. como que a falar para si mesmo. Sem perceber que eu apenas puxava a língua ao Silviano e supondo contar com o meu apoio. voltando-se para mim: —Você não sabe o que está dizendo. a prestar atenção ao filósofo. como que atendendo a uma ordem interior de reflexões. afirmou o amigo Silviano. Sublimou-se nos doutores. aquela. que não era bem a de nossa conversação. comemorando o Natal. e nosso amigo não lhe permite tais intimidades. objetei-lhe que. hein? A pequena deu o fora? . No caramanchão. por que não havíamos de realizá-la para encontrar tranqüilidade? A grande estupidez é vivermos num conflito constante. no bar do Parque. meio vago. então. chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis. Imprudentemente apanhou a minha deixa e entrou em cena com entusiasmo. continuou. Já que não se possui a vida com plenitude. não haveria solução. garçons urgentes. expedindo. a preocupação da vida eterna. Satisfeito.—Jerônimo anda mergulhado na teologia. o nono. Alegre véspera de Natal! As mulatas iam e vinham. para aqui e para ali. —Hein? indaguei. E. o jovem Glicério ousou enfrentá-lo. voltando-me para este. —A solução é a conduta católica. argumentando que esse talvez trouxesse uma solução geral. sacrificando. fugir da vida. o melhor é renunciar. Éramos quatro ou cinco. disse majestosamente. Só pelo gosto de vê-lo dissertar. com requebros. a esta. —A conduta católica! Isto é. Glicério é novo na roda. fazia a vitrola funcionar.

carregados de embrulhos. Pois Jandira acrescentou que. no portão do Parque. O pior é que a mulher. Que elemento se introduzirá na essência das coisas para que tudo venha.. Joana diz não ter tempo para se ocupar dele. —Não acho! retrucou Silviano. —Cidade besta. e minha atenção logo se desviou para outras coisas. pois apenas sorria. apresentar uma face nova e desconhecida. indignado. contou-me que o filósofo. as mulatas e os soldados tinham saído. Depois. mas desde o primeiro encontro se repeliram. em vez de irritar-se. fui ruminando a tese do Silviano.. Às voltas com os filhos. que de tudo sabe. Sempre que se encontra com Silviano. Aproximei-os um dia. neste dia extraordinário. Mas o chope me faz versátil. tentando fazê-los amigos. irritado. A princípio. assim. Não sabia que você andou por Paris. levou as mãos ao ventre. entende? Não está fora de nós. Separamo-nos. Para serenar a roda. andou tendo ciúmes e fazia cenas. Já era hora de jantar e o Parque ia ficando vazio. vive a ridicularizá-lo. A euforia que o chope traz! A vida se torna fácil. no espaço! Florêncio. consultando o relógio. Certamente sorriam. alimária! respondeu. Como se mostravam ansiosos. já meio alegre. mais arranham ainda as veleidades do quarentão. Sem que percebêssemos. retrocedeu aos vinte: está amando as moças em flor. Disfarçando o mau epílogo da festa. Não me dirijo a primários. Aqui escreverei que a razão estava com este último. Silviano anda em crise aguda. e. denunciando pressa de chegar a casa. de suas sortidas. Jandira. fincou pé e deliberou não tomar conhecimento desses descaminhos que. já à beira dos quarenta. a caminho de casa. rápidos. quis retirar-se. sem nada dizer.. e para que . A gente não tem para onde ir. Silviano. desejando-me um largo "saúde e fraternidade". no que fui aplaudido calorosamente por Florêncio. Todos os passageiros do bonde Calafate me sorriam. alvitrei uma retirada em conjunto. Florêncio deu uma gargalhada e assentou-se de novo. se arranham a fé conjugai. Em Paris é a mesma coisa. É uma sólida filha de fazendeiro. fácil. Redelvim e Glicério também desataram a rir. o nosso Dom Juan traz mais baldões do que troféus. propus novo chope. trava discussões acaloradas. onde adivinhei variada matéria-prima para as comemorações domésticas do Natal! A humanidade se transfigura de súbito. É boa! —Ó parvo. num riso convulsivo. —Em Paris? perguntou Florêncio. e as sombras de um crepúsculo avermelhado desciam sobre as árvores. quero dizer que o problema é puramente interior.. raça teimosa e viril. Belo Horizonte! exclamou Redelvim.—Recolha-se. Redelvim devia estar de bom humor.

talvez não desejasse que Francisquinha. A mulher." Na verdade. de agitada felicidade? As árvores se fazem mais verdes.todos os seres ganhem uma expressão especial. Terminado o jantar e arrumada a cozinha. Estava com Francisquinha no quarto grande. ou haverá uma efetiva transformação no tecido íntimo das coisas? Afinal. — O Excomungado já vem! resmungou Emília. e voltei-me para saudar o homem. lá dentro. Francisquinha não faz coisa que aproveite e apenas embaraça os fios. obriga-a a conversar com a outra. Prudêncio amigo! Merry Christmas! § 2. Fala dirigindo-se a si mesma. É chefe de Seção e pessoa muito conceituada. fica vaidosa. mas procura. estudou inglês. na solidão da casa. por alguém que ia descer do bonde. seu Belmiro? Vem um dia. não acha. e seu único vício é cumprimentar-nos diariamente com um how do you do. A necessidade de falar a alguém. quase graciosa. —Merry Christmas. como diz Silviano. Em moço. Notei que. Bom sujeito o Prudêncio. como cantam! Será o poder de criar e de transfigurar. juntas. fez-me lembrar de que o próximo poste de parada era o da Rua Erê. Emília não levantou os olhos da almofada. pouco importa. só fala inglês. suprime a presença minha ou da . o fato deveria ter significação particular. entrei pé ante pé. aludindo a "outras línguas". e os pardais. É um hábito das rendeiras. fechou-se atrás de mim com estrépito. mas a porta. toma ar aborrecido e chama-lhe antipático. pois acha o marido erudito: "Sempre é uma vantagem. as duas se entregam ao bilro segundo a tradição da casa. mas. mas Juliana lhe encarece as habilidades. Como de costume. e o que é—no fundo—não o é para nós. pelo melhor modo. pois estava com a fisionomia carregada. onde costumam passar. que possui a alma humana. Mas. Juliana Gouveia. Um Merry Christmas. Deveria ser o Prudêncio Gouveia. Dei o sinal. e. começasse a tagarelar. anunciando minha chegada. animada com esse princípio de conversa. ele tirará o seu proveito de saber outras línguas. PARA surpreender as velhas. como quem está pensando em voz alta. O "EXCOMUNGADO". nem interrompeu o complicado trabalho. que me foi dito com uma palmadinha nas costas. reduzir o efeito dessa concessão. por essa forma. no caso. as horas em que a máquina doméstica tem seu funcionamento restrito a uma ou duas peças. até à hora de se deitar. vizinho de quarteirão. impelida pelo vento. mas Emília dá-lhe essa ocupação para a ter quieta. A realidade é a aparência.

Não resisti ao desejo de provocá-las: —Boa noite. os cabelos grisalhos. DO ALPENDRE da casa. O BORBA ERRADO. no bico do papagaio. No corredor. com sua reduzida . conforme preferem os nacionalistas. mas Francisquinha. Emília é apenas uma esquisita. Ainda assim. na verdade. Curioso pressentimento. as velhas estão bravas hoje". viram que seria impossível dar-lhes educação condigna. trocar o jaquetão pelo pijama. faz-me estremecer. e Emília é. Emília não tinha. meninas! Trouxe aqui umas lembrancinhas de Papai Noel para vocês. quando exclama "Excomungado! Excomungado!" Mas o epíteto. no comboio da Central! Vieram iludidas. como bicho-do-mato. mandando-as ao Colégio de Diamantina. tão distantes de mim. vai de mal a pior. fiquei a olhar os transeuntes. irritada. pousando em mim os olhinhos brilhantes e fixos. neste particular. recebi-as como herança. entre o pessoal de serviço. —Olha o doido. Tome pregou-me o susto de costume. ensaiando uma agressão. na velha cadeira austríaca. Não lhes foi fácil habituarem-se à minha pessoa e modo de vida. Desde cedo. Ou de Vovô Índio. bem que percebe em mim certa dissolução de espírito. Pobres manas. Ainda me arranjará uma psitacose. Tiveram de viver sempre na fazenda. perturbada de nascença. Quando o Borba morreu (a velha Maia partiu bem antes) e a fazenda foi à praça. o de Emília: na sua meia-luz. assume um sentido trágico. que restabelece a atmosfera moral da fazenda. uma presença vigorosa e viril. pensei. disse Emília. Rio-me sempre. Foi este o grande desgosto que ensombrou os dias do velho Borba e da velha Maia. Que custo trazê-las em viagem a cavalo e. Aprendeu a dizer. encheram minha vida. depois. "Decididamente. § 3. A Rua Erê não é atrativa. e Francisquinha andava pelos trinta. olha o doido. nesta casa. E. que lhes pareci um estranho. Encontrou na língua familiar de Vila Caraíbas a expressão própria para traduzir a inquietação que minha presença. é só o que me falta. como as velhas: "Excomungado! Excomungado!" e arrepia-se todo ao ver-me. Pus os pacotes na mesa e fui ao quarto. lhe desperta. Francisquinha deu uma risadinha feroz.mana. então. pensando que iam para São Paulo. Tanto tempo andei afastado delas. ficar na companhia do tio Firmino. às vezes.

então. nada rendosas. "Temos . Ou. com suas lavouras à espera de cuidados moços. Precisamos é de braços para a lavoura. com sua suficiência? Rirse-ia de mim: "Você é um homem errado. diria. Queria fazer-me agrônomo. que. Que diria o Glicério. por um lado com a associação verbal que descobrira. Quando. Como a minha mãe tivesse o secreto desejo de me ver na carreira das letras (dizia que eu saíra aos Maias e não aos Borbas). Coitado do velho. fali. Coitado do velho. Um burocrata! exclamava com desprezo. que sou um Borba errado. agrimensor. diante de mim. Sinto muito. satisfeito. com a nitidez de um acontecimento matinal. Na fazenda. houve cena pesada. e a Ladeira da Conceição surgia. Onde estão em mim a força. Tocavam a Varsoviana e eu me dissolvia (lá na Vila lhe chamavam Valsa Viana. E a mesada paterna se consumia em livros que as necessidades sentimentais e espirituais do mancebo ardentemente reclamavam. Coitado do velho. Em face do código da família (cinco avós. Talvez seja isso o que sempre me leva a passear o pensamento por outras ruas e por outros tempos. por lá. Abandonei. num fim de ano. Era contra os princípios paternos o bacharelato em qualquer ramo de ciências ou letras. pelo menos. Uma dessas . o seu agrimensor formado. Até chegar ao Silviano e ao Redelvim. pelo menos. afinal. metido em serenatas e noutras relaxações. Vila Caraíbas e seu cortejo de doces fantasmas. no curso. grande. que teve seu brilho rural. Meu consolo é que sou um grande amanuense. e andava. não se distanciasse dela —poderia tirar uma carta de agrônomo. Vila Caraíbas não tinha. Neguei as virtudes da estirpe. o poder de expansão.).. a vitalidade. ainda. poderosa como um estabelecimento público. Sou um fruto chôcho do ramo vigoroso dos Borbas. e eu sentia os olhos se umedecerem comovidos. remediado está. Belmiro!" Se Glicério tivesse conhecido os Borbas. porém. "Se o menino não se ajeitava na fazenda. A garganta se me apertava. repetia." Mas dei em droga na fazenda e andei zanzando pela Vila. a febre das divisões de terras. Tive amores infelizes. Eu não podia ouvir uma sanfona. declarou que o que não tem remédio. Ficará nas letras agrícolas". acabou pensando num acordo. dizia ele.doutores demais. em vez disso. do ponto de vista genealógico: como Borba. avós. Pus-me a andar na companhia de literatos e a sofrer imaginárias inquietações. na Vila.. fiz sonetos. com o parcial deferimento às aspirações da velha. Como o Natal me fez saudosista! Eu fechava os olhos. estão-me dizendo—ilustres sombras!) foi um crime gastar as vitaminas do tronco em serenatas e pagodes. e. Por fim. por outro. Lá estava a fazenda. as letras agrícolas e entreguei-me a outra sorte de letras.fauna humana. dos de minha raça? O pai tinha razão. o pai veio a Belo Horizonte e verificou o logro. percorri muitos caminhos.

nos dizemos coisas duras. um tanto tendenciosa. nossa precária unidade psíquica. para o Horácio. Words. tal como no poema: Stop. no estado de vigília. Em que fora dar sua longa doutrinação. esclarecendo que a exclamação foi do Hamlet. Natal! Fiquei até tarde no alpendre. Outras missas. Words. Um dia sentiremos uma sacudidela.. QUESTÃO DE OBSTETRÍCIA. "Um burocrata. pois... na tua besta. noutros tempos. recolhi-me. reduzia-se esta lembrança permanente com que. em série. rumo à Vila. ganhava-me o corpo uma doce lassidão. A vida parou ou foi o automóvel? § 4. não funcionavas na fazenda. imagem da morte. JÁ ESTAVA palmilhando a terra vaga do sono. instintivamente. Borba. data de ti a traição à gleba. foi nele que começou o desvio da linhagem rural. ligando o momento que passou ao momento presente. lá ias. um burocrata!" lamentava nas suas cartas. a cada instante..) do que dos currais e das roças. entre uma parte do eu. ao cabo de contas. a rigor.. e o espírito se embebia no torpor que afrouxara os nervos. Voltou com uma grande dor no coração. pai Belarmino? Na verdade. que aspira ao abandono. num desfecho melodramático. e a uma reminiscência tênue. me vinham das coisas. nos abraçarmos.discussões em que nós. apenas impressões vagas.... as posições do embrião no ventre materno. De corpo e espírito. para trás. Bem me recordo de que. o cão dos fundos . Por qualquer pretexto. depois. para frente. nas colunas da Gazeta Caraibense. Com a saída dos vizinhos para a missa do galo. e outra que contra ele reage. como diria Prudêncio. segundo a luta surda que se trava em nós. achava-me. repetindo. quando. sob a epígrafe geral de Rumo à Gleba? Mas. Confessa. para trocar dois dedos de prosa com o provisionado Loiola. quase a esvaecer. preparado para o repouso e já me aconchegava.. Como esta vida vai correndo. arrancando-me daquele quebranto.. a memória sustenta.. vai correndo. Borbas.. e mais tarde um deputado me introduziu na burocracia. prestes a se apagarem. talvez pelo receio inconsciente que inspira o adormecer. para. para gravame de sua insuficiência mitral. em propaganda da vida rural? Seus cinqüenta artigos. Não citavas o teu Vergílio. estavas mais próximo dos clássicos (lembro-me de tua predileção.

Saltei da cama. em sua extensão. num relance. com ternura. numa conspiração universal contra mim. esse ódio súbito. de novo no leito. Em seguida. o cão não se apressava. e. insopitável. isso está no sangue. sorri para dentro de mim mesmo. Tratando-se de mero latido de advertência. que só os cachorros percebem. Lembrei-me do avô (o último Porfírio). Afinal. já munido da primeira arma que a mão encontrou. procedi à maneira de Xerxes. sem ódio nem convicção. Abrindo a janela. que se contenta com arremessar qualquer objeto a esmo. já certo de que algo havia para justificar suas precauções." . é alguma coisa que me ficou dos Borbas. isso apenas serviu de estímulo ao ladrante: ganhou alento e entusiasmo.. e que era um sapato velho. porventura verificando adiantamento no relógio. Mas não repeti o gesto. e repreendi-me por já não ter ministrado uma "bola" ao canino demônio. embora o conhecimento da geografia do quarteirão me habilitasse para localizar o animal no lado oposto. por equívoco. cego de raiva. atirei-o às tontas ao meio da rua. limitara-se ao bater de asas. quando lhe faltam os verdadeiros. Mas. nem latia mais alto ou mais baixo: o tom era terrivelmente um só e as pausas pareciam medidas em cronômetro. ele ficou possesso de raiva. mandou zurzir o mar. no ar. meus nervos se apaziguaram. Previ a catástrofe. indignado com a procela que lhe destruiu a frota. batera as asas para anunciar o prelúdio do alvorecer e. que era tal qual. caiu numa grande prostração e permaneceu casmurro o dia todo. um desses barulhos sutis. Fiquei satisfeito com o precedente ilustre que a memória me veio trazer e lembrei-me de umas palavras do excelente Montaigne: "A alma descarrega suas paixões sobre objetos falsos. Como o avô Porfírio. tomou-me indizível fúria. logo recomeçou ele a ladrar advertindo às possíveis sombras de que não se dormia naquele honrado canil. Tudo se me escureceu em torno e pareceu-me que as sombras se agitavam. Ora. Pequena pausa sobrevinda me deu a esperança de que o mastim houvesse mudado de intenção. em quintal vizinho. No dia em que uma chuva inesperada viera estragar o café posto a secar no terreiro.. zelosos que são do seu ofício. ou porque ainda houvesse. que passa como um relâmpago depois de a gente ter feito uma quixotada. daí a pouco. com um método que indicava disposição sólida de latir pela madrugada toda. sacou da garrucha e desfechou dois tiros para o ar. quando. Esses repentes.se pôs a ladrar. Podia ser que chegasse logo à conclusão de que não havia motivo para maiores alarmas: fora o galo do outro quintal que. contendo o anúncio na garganta. Satisfeita a fúria dos Borbas. Subitamente. ou porque o guarda do quintal contíguo não identificasse o rumor produzido pela ave.

a quem. e esta noite insone de Natal (as sinistras noites de insônia. e a vida fecundou-me a seu modo. Meu desejo não é. abalada e comovida. O melhor seria vivermos sem livros. perseguindo imagens fugitivas de um tempo que se foi. cuidar do presente: gostaria apenas de reviver o pequeno mundo caraibano. devemos sempre ter à mão um sapato velho para o serviço da alma. "Já não há tantos? Por que você quer escrever um livro. É plano antigo o de organizar apontamentos para umas memórias que não sei se publicarei algum dia. Reconciliei-me com o cão e com o livro. no decurso dos dez últimos anos. comuniquei esse propósito. no terceiro capítulo. Sim. ao cabo. Ai de nós. seu Belmiro?" Respondi-lhe que perguntasse a uma gestante por que razão iria dar à luz um mortal."Parece que. meio lírico. porém. no mesmo quarto envelhecido desta patética Rua Erê. Comecei contando o Natal que acabou e falando nos amigos e na parentela. vago leitor. gestantes. On revient toujours: hoje recomeça a mesma aventura. Amanhece o dia. havendo tantos. Um. cumpre fornecer-lhe sempre objeto em que possa aplicar-se e atuar. um Belmiro (que costuma assobiar operetas) insinua que as epopéias de um amanuense encontram seu lugar justo é dentro da cesta. Jandira acredita que não foi reservado a mim deixar à posteridade qualquer importante mensagem. meio cínico. "Por que um livro?" foi a pergunta que me fez Jandira. . Minha vida parou. em que vai toda a história de mais um Natal que passa. Se estivesse de bom humor.' E isso é razão suficiente. fazendo-me conceber qualquer coisa que já me está mexendo no ventre e reclama autonomia no espaço. ela responderia que era por estar grávida. sou um amanuense complicado. se perde em si mesma se não lhe damos presa. Posta de parte a modéstia. mas de trinta e oito anos. e desde muito me volto para o passado. sinto-me grávido. mas o homem não é dono do seu ventre. há tempos. não de nove meses." Com efeito. Deve ter razão: se cá dentro deste peito celibatário tem havido coisas épicas. Este mesmo Belmiro sofisticado foi quem matou dois outros livros. responsáveis por tanta literatura reles!) traz-me um desejo irreprimível de reencetar a tarefa cem vezes iniciada e outras tantas abandonada. Não sei bem o que me sairá das entranhas. aqui estou calmo a escrever estas linhas. Enterrei-os no fundo do quintal. Graças a ele. como se enterravam os anjinhos sem batismo. e outro na décima linha da segunda página. do outro lado do quartel do Décimo. que hoje avulta a meus olhos. em Vila Caraíbas. enquanto as carrocinhas de pão começam a percorrer o Prado e meus amigos operários devem estar procurando o caminho da fábrica de calçados. Sobre a cova brotou uma bananeira.

tão leve. O que hoje me sucedeu é bem um sinal dessa luta interior. na igreja do Rosário. é comum. Depois. que se confunde no tempo e no espaço. pus-me a pensar no permanente conflito que há em mim no domínio do tempo. Fiquei rente do cego da sanfona. ou talvez para chorar mágoas. depois da missa das nove. levam-me às vezes a tão subitâneas mudanças de plano. e tocava apenas por amor à arte. e perdi Jandira. Foi só ouvir uma sanfona. O artista se revelava por esta forma perfeito. tornando-se ficção. nelas buscando abrigo. e continuei a pé o caminho. a cada instante. assim. que ali iam buscar expressão para sentimentos indefiníveis que os povoavam e só se traduziriam por frases musicais. mera ficção. Tais solicitações contrárias. passava Camila. perdi o bonde. ANO-BOM. extraindo. dos seus motivos individuais. nos falava de nossas saudades e de nossos amores. o cego mudou de esquina. sem encontrar lugar no espaço?). na realidade. melodias ajustadas às necessidades da alma dos circunstantes. à atmosfera de alvoroçado bem-estar em que a gente mergulha . DEPOIS de ter andado inquieto como uma galinha sem ninho (já viram como uma galinha desalojada cacareja aflita. que estes se diluam e o espírito se desvie para outras paisagens. tão casta. em busca de um bonde e de Jandira. Satisfazendo à necessidade de dar forma aos pensamentos imprecisos de suas saudades e de seus amores. mergulho no passado e nele procuro uma compensação. Era precisamente por ali que estacionava outro sanfonista que não esmolava nem era cego. não sei se ouvindo as suas valsas ou se ouvindo outras valsas que elas foram acordar na minha escassa memória musical. não para o cotidiano. atento e presente.Procurando-o procurarei a mim próprio. por onde. em luta constante. intermináveis e sucessivos. se processa em arrancos e fugas. mas para tempos mortos. lograva articular uma linguagem que nos servia a todos e que. Se. § 5. quando o atual me reclama a energia ou o pensamento. perdi o rumo. Pelo oposto. Eu ia. que minha vida. Esse traço da generosidade inconsciente dos grandes artistas se encontrava no sanfonista da Ladeira da Conceição. num bando alegre. as secretas forças da vida trazem-me de novo à tona e encontram meios de entreter-me com as insignificâncias do cotidiano. mas bem percebi que os passos me levavam. E chorava-as tão bem que cada um que o cercava sentia as suas mágoas igualmente choradas. transportavanos. por igual. Desci a Rua dos Guajajaras com a alma e os olhos na Ladeira da Conceição.

também. Creio que anda de namoro com a filha do meu chefe de Seção. me lembrou o outro da ladeira de minha vila. QUE tenho eu com os dias que a folhinha assinala? Há. e noto agora que apenas o faço em datas especiais. e isso já foi muito fazer. O cego. dois meses comecei a registrar. no papel. Glicério mandou desculpas: ia a um baile universitário. mas a ceia sempre apetecível. Proporcionando ao espírito válvulas por onde se evadem as emoções que o comprimem. seu Florêncio? Já lhe disse que não quero saber dessas intimidades.. se este não me viesse buscar quase à meia-noite.. E Jandira esteve ausente. que é solteiro. Mariana desconfia das literatas (assim denomina todas as mulheres de idéias mais avançadas) e fecha a questão: "Pois sim. Mariana olha-a com reservas. o que me pareceu de bom tato. literária ou plástica — não só o alivia. alguns fragmentos de minha vida. e cuida de tratar o irmão corpo com o bom vinho e a boa vianda." § 6. bem se vê. e o estilo é a mulher. em capítulos de cozinha. não o fez com a mesma eficiência. longa.. mas. Viva Florência. Mas. da casa do amigo. mas também o excita. a expressão—seja musical. e a arte. A sombra de Camila me subtraiu à realidade de Jandira e reconduziu-me às estradas perdidas de Vila Caraíbas. que levam àquela serra muito azul e esquiva. Mariana põe nela todo o seu estilo culinário. o homem sem abismos. O sanfonista da Vila traduzia para mim as coisas complicadas de minha alma. em todo caso. não é o ano velho ou novo. com aquele instinto infalível e feroz da boa matrona que quer conservar o seu homem para si. Tem sido inútil meu trabalho em favor da moça. O senhor. E desviou-me no tempo. se envolva com elas. Redelvim e Silviano compareceram.quando encontra a definição de um sentimento e sua forma de expressão. Eis aí o segredo de Florêncio: por isso é que vive naquela bem-aventurança que todos lhe invejamos. a Nonoca. CARNAVAL. porque assim despertou dentro de mim esquecidas harmonias. O Ano-Bom chegaria sem que eu o celebrasse com o rito do costume. Encontro uma explicação plausível: . que é uma ceia em casa do Florêncio. Com esse jeitinho mesmo é que elas vão entrando. que encontrei na esquina. Está certo. à conclusão de que a vida é breve.. A questão. Porventura chegou.

e o amanuense põe a alma no papel. há um mundo diverso do meu e com o qual tentarei. e a agitação que me percorre não encontra meios de evadir-se. comunicar-me.. numa força uniforme. esmagadora. de onda ou ciclone. dançar ou destruir. em mim. Habituei-me a uma paisagem confinada e a um horizonte quase doméstico. numa noite de carnaval em que fomos abandonados pelos amigos e em que nossa porção de espaço foi invadida por outros seres. A multidão me revela. e. por onde se manifestam as puras e ingênuas emoções do ser. A variação violenta dos quadros. de receber e transmitir essas forças misteriosas que nela atuam. então. vou traçando quase que despercebidamente minha curva no tempo. algo destrói sempre os caminhos. Habituei-me às coisas e seres que incidem no meu trajeto usual da Secretaria para o café e do café para a Rua Erê. Em mim. Dir-se-ia que há em mim um processo de resfriamento periférico. Reflui. e no seu currículo ordinário nem faz. uma vaga nervosa que quer acudir ao apelo que a multidão dirige a cada unidade. o homem sofre. comunicando-se de indivíduo para indivíduo e resultando. em vão. por onde eu a perceba. por assim dizer.minha vida tem sido insignificante. Novas melancolias são despertadas. chorar. Tais seres e coisas pertencem. às fontes de onde se irradia e converte-se numa angústia comparável à que nos provém de uma ação frustrada. Os outros têm pernas e braços para transmitir seus movimentos interiores. introduzindo o elemento multidão na minha esfera e propondo-me novos espetáculos ou novas sugestões. Sinto inutilmente. assim. E se tal vida é melancólica. entretido com eles. cantar. Os dias de festa coletiva. e muitas as do passado. ao meu sistema planetário. e o braço cai.interrompem o equilíbrio do meu pequeno mundo e nele vem produzir desnivelamentos que suscitam mais fundos movimentos interiores. na sua. como célula passiva. de seguir. leva-nos a um mergulho mais profundo nos nossos abismos. No seu âmbito poucas são as imagens do presente. portanto. seu movimento de translação. mais do que nunca senti de modo tão vivo a impossibilidade de me fundir na massa. mas ensaio um gesto. No seu bojo. paralítico. tocamos seres cuja existência nos surpreende quase dolorosamente.feição mais ou menos constante. trata-se de uma sorte de melancolia a que meu espírito se adaptou e que. Neste carnaval de 1935. que há coisas extraordinárias. não desperta novas reações. Quero rir. vibrações estranhas. hoje começado. realmente. tão certos estávamos de que nada havia no espaço além do nosso sistema. afinal. Eis que o amanuense é um esteta: ao passo que há nele um indivíduo .

nesse vaivém. Mas o homem espia o homem. acompanhando a massa na sua liturgia pagã. como podiam.sofrendo. que a livrou dos braços de um marinheiro. Um jacto de perfume me atingia às vezes. A DONZELA ARABELA. e. depois de me terem atirado confete à boca. bebendo ali. Já ela estava repleta de carnavalescos. acabei presa de grande excitação. Toadas tristes. sua terceira noite. Lembra-me que homens e mulheres. de colarinho alto e pince-nez. por trás. ACONTECEU-ME ontem uma coisa realmente extraordinária. a origem dessa carícia. o atrativo do cordão. a um de fundo. em rapaz. dançavam. e fui. desci para a Avenida. encadeados. Talvez fosse preferível ingerir certo vinho capcioso e. Procurei desvencilhar-me. que a radiola derrama no ar molhado. Pus-me a examinar colombinas fáceis. e entoavam os coros que descem do Morro. mas percebia. aquelas migalhas me consolavam e comoviam. que aquele jacto resvalara de outro rosto a que o destinara uma boneca holandesa. Uma gargalhada espantosa explodiu em torno de mim. abandonaram-me ao meio da rua embriagado de éter. Mas a boneca holandesa foi arrastada por um príncipe russo. Entreguei-me. do lado da Praça Sete. sem perceber o disparate. inexoravelmente. Tanto fizeram que. no meio daquela roda alegre. Os sambas eram tristes e homens pingavam suor. Dêem-me um jacto de éter perdido no espaço e construirei um reino. pois os foliões se engraçaram comigo. Novo cordão levou-me. que vêm da carne. Procurava. para outro lado. porém. correndo atrás de choros. Não tendo conseguido conter-me em casa. que aproveitavam. Contudo. entregar os sentidos à doce música da Bayadera. § 7. crescendo em torno de mim. já agora. mãos postas nos quadris do que ia à frente. como pude. Deram-me uma corrida e. não ajudava. consumi a garganta em serenatas e que esta. mas a onda humana vinha imensa. Um máscara-de-macaco deu-me o braço e mandou-me cantar. por momentos. me pus a entoar velha canção de Vila Caraíbas. com os olhos gratos. Não sei como. Imagino a figura que fiz. àquela humanidade que me pareceu mais cansada que alegre. outro há que analisa e estiliza o sofrimento. quando inesperadamente me vi envolvido no fluxo de um cordão. de blocos e cordões. . entrei no salão de um clube. segundo hábito antigo. pela frente e pelos flancos. Respondi-lhe que. desanimado. fui arrastado pelos acontecimentos. envolvido em que grupo. sem nenhuma análise. Bebendo aqui. então.

a mão me fugiu. desmesuradamente. que morreu de amor e que na torre do castelo entoava doridas melodias. e me pôs num canapé onde. Esse absurdo romantismo de Vila Caraíbas tem uma força que supera as zombadas do Belmiro sofisticado e faz crescer. meu bem. cantando: "Segura. ou de qualquer outra perturbação. Jamais esquecerei: uma branca e fina mão. e que um anjo descera sobre mim. em um momento impossível de localizar. alguém me enlaçou o braço. Em meio dos corpos exaustos. Também tenho uma vaga idéia de que alguém me apanhou do chão. Nesta noite de quarta-feira de cinzas. o véu que cobre a face real das coisas e que foi. cautelosamente. descerrado por mão imprudente —parece-me a única estrada possível. e o homem procura a infância. Olhei ao lado: a dona da mão era uma branca e doce donzela. aqui e ali. Entregar-se a gente às puras e melhores emoções. Não me lembra quanto tempo durou o encantamento e só vagamente me recordo de que. Efeito da excitação de espírito em que me achava. Pareceu-me que descera até a mim a branca Arabela. e as vozes dos homens chegavam a mim. em mim. senti-me fora do tempo e do espaço.. Seria uma fórmula para nos conciliarmos com o mundo.A certo momento. Há muito que ando em estado de entrega. chuvosa e reflexiva. converta-se em fraca luz de crepúsculo. numa comovente pesquisa das remotas origens do ser. no tempo e no espaço. um Belmiro patético e obscuro. O mito donzela Arabela tem enchido minha vida. à margem do caminho. pisado e machucado." O braço que se lembrou do meu braço tinha uma branca e fina mão. para que as coisas se tornem indefinidas e possamos gerar nossos fantasmas. e meus olhos só percebiam a doce visão. lentas e desconexas.. bem noto que vou entrando numa fase da vida em que o espírito abre mão de suas conquistas. Era ela. não deixes partir o cordão. Parecia que eu me comunicava com Deus. Pobre mito infantil! Nas noites longas da fazenda. Mas vivam os mitos. já sol alto. que são o pão dos homens. Foi uma visão extraordinária. Meu corpo se desfazia em harmonias. Como estava bela! A música lasciva se tomou distante. Arabela. a incorpórea e casta Arabela. segura na mão. . renunciar aos rumos da inteligência e viver simplesmente pela sensibilidade—descendo de novo. e alegre música de pássaros se produzira no ar. contava-se a história da casta Arabela. Onde houver claridade. a donzela do castelo que tem uma torre escura onde as andorinhas vão pousar. fui dar acordo de mim.

§ 8. nesses domínios obscuros da consciência. abandonei este caderno de apontamentos. trazendo-me dias agitados. Mas o primeiro. fazendo-o voltar para a vida. suscitadas por sons. e o espírito se deixa apanhar na armadilha. noto que. Trazem-lhe uma nova imagem de Arabela. Analisado agora friamente. ainda há pouco eu hesitava em confessá-lo: foi a moça. humanizando o "mito da donzela" na rapariga da noite de carnaval. de novo. Depois da quarta-feira de cinzas veio-me uma aura romântica que me pôs meio lunático. crê encerrado o seu ciclo e volta para dentro de si mesmo. contemporâneas. embora isso exprima o malogro de um plano. E estas páginas se tornarão. . tão sugestivo para um livro de memórias. Mas as forças vitais. e o segundo é fácil de dizer: foram as velhas. já de início. Começarei por contar honestamente os motivos por que. e já sem a desculpa do álcool e do éter. O LUAR DE CARAÍBAS TUDO EXPLICA. posso contar as coisas tal e qual se passaram. Foi hábil o embuste. em conjunto. à procura de fugitivas imagens do passado. sedento e agitado. se compromete meu plano de ir registrando lembranças de uma época longínqua e recompor o pequeno mundo de Vila Caraíbas. a essa a que vou chamando Arabela. Examinando-as. Para iludir-lhe o espírito vaidoso. em evocações ligeiras. e estas notas devem refletir meus sentimentos em toda a sua espontaneidade. nas quais o espírito se há de comprazer.. então. aromas ou cores que recordam coisas de uma época morta.. que impelem o homem para a frente. não insistirei teimosamente na exumação dos tempos idos. Tudo se torna claro aos meus olhos: depois de uma infância romântica e de uma adolescência melancólica. Presumivelmente curado da moléstia. HÁ TRÊS ou quatro semanas não tenho tocado nestas notas (senão ligeiramente. e que o passado apenas aparece aqui e ali. Como na noite de carnaval. sob disfarces cavilosos. Vejo que. hoje. por lhe ignorar o nome de batismo e porque. durante as três últimas semanas. . voltei. encarnando formas pretéritas. ainda estão ativas nele e realizam um sorrateiro trabalho. o homem supõe que encontrou sua expressão definitiva e que sua própria substância já lhe basta para as combustões interiores. para acrescentar uma ou outra linha a esta ou àquela página. . o presente se vai insinuando nestes apontamentos e em minha sensibilidade. armado por mim contra mim próprio. oferecem-lhe o presente sob aspectos enganosos. o episódio do carnaval me parece um ardil engenhoso.. São dois. Não farei violência a mim mesmo. Já que as seduções do atual me detêm e desviam. .

os movimentos desse desvairado músculo. penetrando a multidão. o que atrás foi dito sobre o amanuense que espia o amanuense e lhe estiliza o sofrimento.) Em tal estado de espírito. Muitas vezes entrevi uma figura gentil e fui. e a memória ou a imaginação é que reproduz ou cria as cenas passionais. e jamais conheci ficção burocrática mais perfeita que a Seção do Fomento. mais tarde. Devo retificar. alma e corpo se solidarizam. sério.afinal. Podem rir-se de mim. entreguei-me inteiramente aos secretos impulsos. e temos pouco serviço. Pelo contrário. o espírito calcula e mede—mas certamente não são suscetíveis de registro. Só passados alguns dias a tola idéia deixou-me. no momento preciso de sua agitação sentimental. ao seu encalço. quando.. e a imagem da moça encheume os dias. não é capaz de se desdobrar ao ponto de permitir ao espírito. O Secretário está fora. a confidencia. ele não fez troça. como se se tratasse de um ser real. nesta página. Observo agora que o namorado. aquilo que não passava de uma criação do espírito. bebi algumas vezes e andei como vagabundo pelas ruas. A vida não se conforma com o vazio." (Na verdade nunca tivemos serviço. voltar a estas notas. e a aventura de carnaval se foi dissipando no meu espírito. Quis. poderão vir lucidamente. mas os namorados me compreenderão: amei. e o adolescente permanece no adulto.. visto que anda em maré análoga). tudo já serenado. para fins literários. que se . em vão. Logo verificava o engano. estudar. As modificações que a paixão determina em nossa substância e a diversa visão. Pus-me a procurá-la quase com aflição e. não muito convicto. Postava-me nos logradouros públicos. É extraordinário que nesta altura da vida me tenham acontecido tais coisas. ao plano da nossa análise. Tive noites difíceis. No momento da devastação. percorrendo toda a cidade em busca de Arabela. o que lhe dei se me afigura o adequado. quando o coração bate desordenadamente. Até o chefe da Seção notou minha inquietude e fez-me assinar um requerimento de férias: "O senhor está precisando de repouso e deve aproveitar a ocasião. no instante em que devastam nossa sensibilidade. Eu pediria inutilmente o socorro do bom senso ou da análise nas horas em que vivi a perseguir uma imagem que teria um terço de realidade e dois de fábula. Naquelas horas. E ninguém o ignora: a literatura das emoções é feita a frio. dos seres e das coisas. ouviu. e contudo esperançoso. é fácil de ver que eu não poderia retomar estas notas. então. confiei o episódio e minha desordem sentimental ao Silviano. que ela nos proporciona. Felizmente (e com certeza por solidariedade. perdendo a noção do ridículo. mas o luar de Vila Caraíbas tudo explica.

Ela ficava noite e dia a arranhar a parede com as unhas. talvez. é comum que pegue as peças já limpas e as atire ao chão. Deu para coisas que até me fizeram rir. uma tábua do assoalho. não estando em férias. foi-me possível. Vivendo. quando está melhor. já lhes disse. Um espírito mau a domina. Falarei nisso amanhã. a crise passou. desde alguns dias. É verdade que isso nos sai caro: nos seus repentes. Gritava coisas desconexas. A meu pedido. O SEGUNDO motivo da interrupção de minhas atividades de escriba. tentando. Levantando. Mas. na noite em que comecei de novo a folheá-las. não daria conta de olhar pela mana se. AS VELHAS. trouxe-me blocos de papel em . tendo passado duas semanas de extrema agitação. Emília cozinha. e Francisquinha foi melhorando. Posso ler um pouco e escrever até tarde. às voltas com sua gota ciática. para de novo metê-las na água. não sei como. supunha-se perseguida por uma mula-sem-cabeça. e não há meio de a fazer compreender que eu compraria muito mais caro as horas de sossego que Francisquinha experimenta quando se entrega àquela tarefa. Emília voltou a insistir em que eu trouxesse um padre para exorcismá-la. um dia desses. É uma velha cabeçuda. eu ficasse impossibilitado de lhe prestar auxílio. . lava roupa. talvez excitado pelo barulho que a mana produzia. momentos tranqüilos. contínuo da Seção. para não a vermos de novo agitada. a todo instante. e. § 9. Passou a dispensar-lhes cuidados maternais. foi doméstico. Que dias difíceis! Finalmente. de longe. e Francisquinha. descobriu. Desde muito. para ter a Emília tranqüila. ocorreu outro empecilho: o estado de saúde das velhas. inclusive o Tome. que andou inquieto. tudo está em paz. o que só temos feito em último caso. A casa retornou ao seu clima habitual. tivemos de consentir em sua extravagância: duas ou três vezes por dia arranjava mingaus para os ratinhos e ficava o tempo todo a espreitá-los. Josefa lavadeira vive a resmungar e a querer tomar-lhe a roupa. como nestes dias. . Josefa lavadeira lhe meteu na cabeça que a Chica está possessa. Carolino. já ontem. Acho-me cansado e não há pressa. retomar minhas notas.vão tornando o centro de interesse de minha vida. escalar a superfície lisa e vertical. Agora. e as velhas se entregaram normalmente às suas funções. Tivemos de prender a pobre mana no quarto. uma ninhada de ratinhos. Francisquinha piorou consideravelmente. Quase cedi. Emília. meio apodrecida. pisando-as.

envolve uma química. uma auditiva. mais tarde. encadeando os acontecimentos. de que. As leis que regulam a circulação dos homens nos parecerão. E já lhes contarei por que meu pensamento tomou hoje tais rumos. por engano. dama-da-noite. que me veio atender. esclareceu logo o equívoco. um momento de maior ou menor influência em nossa vida. E. no jardim da casa. O timbre da Seção do Fomento encima estas páginas. Se digo tolice. outra. à procura de um farmacêutico vindo de Vila Caraíbas. NUMA RUA. uma trepadeira. fiz-me anunciar. por despontar somente à noite e murchar durante o dia. UMA CASA. o hábito de filosofar e fico horas e horas a pensar em certos fenômenos. perceberemos que o fugidio vulto—mal entrevisto em um encontro que nos pareceu destituído de significação ou conseqüência—teve. há dois anos. mas nem por isso desagradável. que perdeu a filha—uma . Ela desprende um aroma de alto poder evocativo. Viva a Seção que me dá o pão e o papel. em tal ou qual sentido. em outra residência. HÁ. uma canção napolitana que ouvi a Camila em tempos idos: Tuorna a Surriento. § 10. enriquecidas de outras que lhes ministrou este demônio fantasista que me habita. para mim. Uma criada. havia uma criatura que não vi. no caráter de necessidade que julgo acentuar as aproximações humanas. e acho-me abastecido para o que der e vier. neste escritório da Rua Erê. os encontros mais rápidos que sejam e se nos afiguram fortuitos. Andando esta tarde com Glicério por aqueles lados—ao voltar de uma visita de pêsames a um companheiro de Seção. se os coristas angélicos se dedicassem ao gênero. passando à noite pela Rua Paraibuna. ou apenas repito idéias velhas. então. Será uma pouco vivaz. Cantava como o faria um anjo de Van Eyck. agora.quantidade. Explico-me: havia. cujo endereço me fora fornecido sob indicações vagas. mas o fato me deixou duas impressões nítidas. e já não veremos acaso nem gratuidade no desenrolar dos fatos da vida. uma física e uma economia social extremamente sutis para que a ciência humana possa penetrá-las. a cuja flor chamamos. E essa trama se evidencia. lógicas. As duas imagens se consorciaram no meu espírito e ainda hoje nele permanecem. mas ouvi. Bem me recordo. SEM dúvida. no sertão. Vivendo e observando as coisas. dentro da casa. uma trama secreta que. olfativa. que me perdoem: adquiri.

. desci pouco adiante. sussurrou uma voz. Já adivinharam quem seria: Arabela. e. já a flor abria suas grandes pétalas brancas. estava. sugeria um arcanjo. Quando de novo passei em frente da casa. na casa. Queria ver novamente a dama-da-noite. não conhecia. —Aumenta-se o pecúlio da Previdência e toma-se um empréstimo em dezoito prestações. Não é preciso dizer o que fiz: voltei. movido por um pressentimento. Ela vive com a mãe e um irmão pequeno. morreu há um mês. tempos atrás.dama-da-noite. Nunca ouvira. Apressei os passos. Aurélio. voltei pelo lado oposto da rua. Quando cheguei a pé. por merecimento. Fomos caminhando juntos até que. E assim continuaria. Esquecime desta triste figura e sonhei um terno idílio. Dr. Recordando-me do episódio e da voz puríssima que trauteou a canção. —Não a conhece? Deveras? É a Carmélia Miranda. Na Rua Erê. o amanuense Belmiro Borba. uma jovem estava à janela. perguntei ao Glicério que moça ali morava. —Mas é preciso comprar as alianças e um presente muito bonito.. ao Bar do Ponto. Era precisamente a casa a cuja porta bati. mesmo. atraiu-me a atenção e despertou-me lembranças. a passos apressados. —E uma fatiota nova. em caracteres nítidos. entrando aqui com essa cara de alma do outro . Sou um incorrigível produtor de fantasias. Não. nada menos. nada mais. talvez escondesse a da canção. transmudado em distinto cavalheiro que seria o protetor da donzela. construir uma casa. sucedendo. se eu não ouvisse uma risada quando entrei em casa. um pouco além. observou Glicério. nem mais fina nestas redondezas. o ato do Governo promovendo. Com o crepúsculo. e fiquei a imaginar doces coisas. Pode-se.. Foi o demônio da Jandira que me tirou daquela sorte de embriaguez. —Que susto me pregou. Não há criatura mais linda. senti-me nomeado segundo oficial e cheguei a enxergar no Minas Gerais. tomando cada qual o seu bonde. Um relance de olhos revelou-me que sua fisionomia não me era estranha. este nome tão sugestivo. que devia ser. leitor.. ao falecido pai. nos separamos. Assim me vi desembaraçado do Glicério. a retalho e por atacado. —O nome é o menos. lembrava um anjinho amável. pelo caminho percorrido. segundo o novo plano predial. com o coração em desordem. no ponto de espera. mesmo. A moça é que é fabulosa. pendente do gradil de ferro de certo jardim. Perturbou-me bastante o encontro. O pai.

Talvez tenha vindo apenas mostrar-me seu vestido novo. costuma insinuar o que deseja somente no post-scriptum. que o deputado Fortuna está na bica de ser secretário. que são as mesmas. enrola um cigarro de palha e declara. mas nem isso fez esta noite. nossa amizade sobreviveu a essas crises e acabou por criar certos tabus entre nós. o Dr. uma folha de papel onde se alinham versos frustrados e se estende uma caprichosa série de rabiscos. Refeito do abalo. nisto não andou virtude. mas. neste escritório. Louvado Deus. De acordo com a tática epistolar do sexo. em minha mesa. pondo-me a mão sobre o ombro. e com ar de indiferença. e sim timidez. balbuciei qualquer esfarrapada desculpa. Pereirinha. Da roda. mas bem sabe que. sob reservas. para cá. § 11. Que casa hospitaleira! disse. tem qualquer problema a resolver. ORA. volvo os olhos para um lado. As mulheres inteligentes não têm nisso menor prazer do que as outras. realmente encantador e provocante. . dá-se que começo a amar. Contou-me que obteve colocação no escritório de um advogado. como hoje. sob o olhar complacente do chefe da i&laíISeção. Não é que sejam raras suas vindas à Rua Erê. sempre que aparece. Dias houve em que ela me perturbava profundamente. Quando. A velha está hoje inabordável e por pouco batia-me a porta no nariz. mais naturista!). finge que não nota. por duas vezes.mundo! Há uma hora estou esperando você sozinha. no íntimo. fui o único que não tentou conquistá-la. recusando-me devaneios acerca de sua geometria e convocando este anjo latente e prestimoso que nos segue como a sombra Afinal. referiu-se maldosamente à Joana e suas turras com Silviano. procurava descobrir a razão da presença de Jandira. que me fez tímido. levou-me um livro e lá se foi pelas oito horas. ao cabo de contas. depois de. Faço por ser engraçado e lhe digo tolices. O sintoma é positivo: acabo de tentar um poema. Já lhe disse que. Jandira voltou sem dizer o que queria. em todas as línguas e em todas as épocas. ela me vem tão desejável e tão perigosa (como a saúde de Jandira convida a uma ligação menos literária. infelizmente. O chefe pigarreia. tentar uma prosa com Emília. enquanto. que andando para lá. que a mão vai traçando para disfarçar sua incompetência e esperar uma inspiração que não vem. O AMANUENSE AMANDO ESTÁ. possuo um invariável bom senso e termino aconselhando-lhe qualquer coisa sensata. e por pouco não lhe teria dito as palavras do desejo.

como caso excepcional. não nasceram para esta vida. Bons sujeitos. São raros os que chegam à burocracia triunfante.. mas sempre revoltados. que trabalha no compartimento contíguo. suspira. Sente-se que ele está firme e definitivo na sua escrivaninha de primeiro oficial. É o homem que manda o peticionário selar a petição e que volte. talvez fosse bispo!" exclama ele. na generalidade dos casos. na alta administração. com multas e penas. com todos os vencimentos. seu vulto assume a solenidade de um edifício público. Admiro. entre duas informações deitadas com letra trêmula num requerimento. Mas houve qualquer coisa que tudo atrapalhou. e há dois ou três que excedem os sessenta. ou melhor. querendo. Mas não tirei carta de bacharel. seu semblante se abre como que recitando a fórmula "saúde e fraternidade". Quanto a mim. Os mais ficam na burocracia militante e inconformada. O velho que se assenta a meu lado tem trinta anos de serviço. em forma hierática e cabal. o companheiro de cavanhaque e lunetas douradas. após tantos anos de exercício das suas funções. "Se eu não tivesse deixado o seminário. no fundo. Tinha jeito e tive padrinhos. Poucos deles assinam o ponto de humor sereno e com aquela unção de que deveriam estar penetrados. O processo é sua religião e o senhor diretor a instância suprema. que. o Romualdo. meus amigos da Seção exercem com desencanto suas funções. casei-me antes de tempo e aqui estou vegetando. cada dia. os demais passam dos quarenta. que é aquela em que o espírito se integra no bureau e o homem não é mais do que um conjunto de fórmulas e praxes. Quando franze os sobrolhos. . recusando-se a pôr o espírito em função no ofício que lhes parece tão contrário à vocação e preferências.. que já requereu contagem de tempo para aposentadoria. que é novo na vida e na burocracia. É o Filgueiras. Acolá. Quando sorri. à hora de encerrar-se o expediente: "Eu dava era para a política." Há outros que teriam feito carreira no Exército. está todo um sistema de leis fiscais. e sente-se que. atrás dele. desviando-lhes a rota da vida. não me contrista. Tirante o Glicério. se algo há de que me ache firmemente convencido é ter neste bureau um destino lógico. E assinam o ponto com rebeldia na alma e desprezo pelas mãos. Mal posso. e isso acontece sempre que a praxe foi relaxada. outro. já recebe adicionais e ainda acredita que nasceu para o brilho e a dignidade da Igreja.Meus honestos e graves companheiros de Seção se acham a postos. é o próprio processo. ou nas letras. Mas.

que ali . no pequeno apartamento que ocupa. desconhecido. que o acontecimento tivesse comemoração condigna. Informado de que Jandira se empregara. informações mais circunstanciadas acerca da moça que apareceu na janela de uma casa. CONVERSAÇÃO COM JANDIRA. além das graças de mulher. ou melhor. e a colocação deveria ser bebemorada. um Belmiro triste. que nos faz o Estado. ou de. não tive olhos para lhe ver alguma coisa. já estavam todos. mas pacificado. § 12. em uma casa de cômodos da Rua Curitiba. A instalação é quase tão pobre como esta que me arranjei na Rua Erê. e mais um. embora. nestas compreendidas também as de espírito. ao pôr do sol. ela me chamou à parte e tez algumas confidencias melancólicas. de nossa Secretaria. de que a amiga é bem dotada. acorda dentro de mim e tenta uma serenata. nem arabelas. quando contemplo. satisfeito com o trocadilho. fizemos boa camaradagem (é minha única amizade feminina) e. do Glicério. do flautista que. com emoção mal disfarçada. ele lhe exigiu. Mas a amiga dá uns toques tais. neste instante. o repetia para cada um que encontrava. Aos sessenta anos. Foi o Florêncio quem promoveu o encontro. Eu vos estou amando e prestes me acho para as nossas impossíveis bodas. entretanto. em nome dos amigos comuns. que. *** —Mas. DESCOBRI hoje o motivo por que nossa amiga Jandira veio ver-me anteontem. o edifício grave. já não sofrerá donzelas. Depois de animada reunião em sua casa. conter um movimento de ternura. Quando lá cheguei.na verdade. Vivemos tão preocupados com o nosso próprio espetáculo que no geral ficamos cegos para o alheio. segundo a expressão do Florêncio. e quando me lembro da promessa honrada. com a tia. será o fenômeno amor? Creio que vos estou amando. numa rua. acolhedor. Zombe eu. no arranjo doméstico. ir tentando sacar. Todos nós nos preocupávamos com o problema. céptico. Ponho-me a imaginar um Belmiro sexagenário que tenha renunciado compulsoriamente aos jogos do amor e já não sofra a necessidade dolorosa de compor um poema. Arabela. Jandira levou a ultimação a sério e nos convocou esta noite. de uma aposentadoria condigna. Conheço-a desde dois ou três anos.

mas Joana só conhece uma face do monstro. pois o tom geral era de sorrisos maliciosos. Sou triplo. arranjo-me em casa. Tanto pior para o amanuense incauto. Ela se pôs muito bonita para nos receber e fiquei lisonjeado por mim e pelos demais. aproximei-me do Silviano. Joana. É o que é preciso fazer. que as devorava com os olhos. o colóquio. —Mentindo! respondeu nosso filósofo. Belmiro. perguntando-lhe como conseguira habeas-corpus da Joana.. Jandira se veste como filha de ricos. é a base da ordem doméstica. e as coisas se dispõem de tal forma que ela a ninguém cede em elegâncias e modas. Para dizer qualquer coisa e integrar-me na roda. parou um pouco. sempre que se encontram. e as formas. Fui saudado com um "oh!" geral da roda e. Silviano tem a mania de batizar cada pessoa com o nome que lhe apraz. o Silviano. Com a minha chegada. Jandira me trouxe. pois brigam. Jandira está na força da carne. logo uma cadeira e um copo. livrando-me dessa situação aborrecida de quem chega e interrompe o fio da conversa. fielmente modeladas pelo vestido. Falariam de mim? Alguém devia estar penando. —Porfírio. retifiquei pela centésima vez. de se notar. Com este princípio. já estando meio alterado pela bebida e sem os freios que a discrição nos impõe. não eram ontem propícias a pensamentos castos. costuma chamar-lhe Abundâncio. realmente. estou na Gazeta de Minas fazendo revisão de um artigo que dei para o Suplemento. Apesar das dificuldades internas da casa (quando a amiga está desempregada. Silviano não é dos mais assíduos em casa de Jandira. Ao Florêncio. pois o chope já ia adiantado. A presença do Silviano era. O que lhe falta em dinheiro. embora conformada com as extravagâncias do marido. A mentira. Porfírio. não abre mão dos direitos de exercer sobre ele uma fiscalização contínua.sempre tenho a impressão de estar sendo recebido em casa de finos burgueses. a respeito. as duas passam aperturas com a magra pensão que a velha Hortênsia recebe da Caixa Beneficente das Viúvas e Órfãos dos Militares). Mas não pensem que é fácil estabelecer uma combinação . a quem estas modas de 1935 causam profundas perturbações. Por outro lado. apegou-se ao assunto e continuou: —O que ignoramos é como se não existisse para nós. Para todos os efeitos. Satisfeito com a oportunidade que lhe dei para um discurso. para acomodar as mulheres. para comparecer na reunião. não.. que deveria correr animado antes. sou múltiplo. vindo a meu encontro. Que deponha. sobra-lhe em engenho.

conquanto a velha seja uma criatura apática. cuja presença mal se sente. Cumprimentou a todos. Dessa vez. A chegada da tia. Jandira diz que D. manifestandose solidária com o sexo e assumindo um ar conservador. Assim a mentira acaba vindo fácil... truão! Estou falando é às pessoas qualificadas desta roda. fluente. Hortênsia sempre anda assim.. —Não para você. como se estivesse a pensar no defunto major. para enganar os maridos? Acharia bom? Silviano não se perturbou: —A mulher. É preciso um exercício longo. apenas a diferença de substância e não de forma. ao mesmo tempo. cujo retrato pende da parede. que contrabalançava a expressão hostil de Redelvim. Como despregada do mundo. durante horas.. —O que sei é que vocês são uns cínicos. interrompendo-o. deviam ter mais compostura. haja ou não haja necessidade. a fim de que cada mentira se articule perfeitamente no sistema e seja. disse Jandira.. que me surpreendeu: —Não acho graça nenhuma nisso. como um parlamentar experimentado que não dá atenção aos apartes. casados. Sem responder. Um pouco impaciente com aquela farsa. Vocês. aparteou outra vez Florêncio. cortou o Florêncio. Silviano continuou a discursar: —A felicidade para a mulher está unicamente em divertir o guerreiro e pensar suas feridas.. uma sombra. desde a morte do marido.. estabelecida. provocando uma gargalhada de todos. não necessita disso. provocando novos aplausos. que sustente o equilíbrio do lar. E se as mulheres resolvessem adotar sua teoria. este continuou a falar. evitou que a conversa descambasse. alheada. espontânea. Silviano encolerizou-se: —Não me dirijo a você. e o guerreiro requer muitas mulheres... instintiva. minha flor. sorriu satisfeito. Fica. entre ela e a verdade. São o passatempo do guerreiro. devemos sempre mentir. que é nietzschiano. Jandira interveio. e se .. que veio de uma novena na igreja do bairro. com essa alusão à mitomania do Silviano. junto a nós. Hoje sou um artista no gênero. dando silenciosamente a mão a cada um. Para atingir a perfeição.constante de mentiras. Basta-lhe um homem. lógica. Glicério. irritada. Animado pelo olhar de admiração deste. isto é que é. —Ninguém duvida. no seu tom professoral: —Um exercício longo.

pois há forças de repulsão. LOGO que Silviano. e o tom que emprega em seus monólogos não é outro. afinal. para conversarmos a sós. Já o pilhei a conversar sozinho. Certamente precisa de algum remédio.pôs a um canto. Magoaram-se uns aos outros. A CONFIDENCIA. Fica para amanhã cedo o relato da conversa com Jandira. à margem. *** Já é tarde e Emília chama por mim. durante todo o tempo. pedindo que ficasse mais um pouco à porta da rua. me repreende pelo que denomina "irreprimível vocação plebéia". Silviano. quando Jandira me tocou no braço. Redelvim e Jandira tendem para a esquerda. Glicério. mais que afinidades. Redelvim me chama comodista e vive a dizer que. atacou um assunto perigoso. que até então apenas bebia. mas que lhe é habitual. não se animando Glicério a entrar na briga e apenas seguindo-a com um sorriso de aprovação ao Silviano. no meu "cepticismo de pequeno burguês (a expressão é dele). no quarto. com eles e com o desconhecido—a quem atrás' me referi e que. ao capitalismo. Só eu e o Florêncio ficamos calados. Jandira me disse.— Chega a escandalizar-me esta minha condescendência em vir conversar com vocês. exprimindo seu desprezo pelo Silviano e pelo Glicério: —Mentalidade sórdida de burgueses! Vocês são uns idiotas e uns palhaços. Florêncio. Isso não quer dizer que me poupem. o Pensador! Oh! Como isso me diverte! disse Silviano com um ar que parecia afetado. ao contrário. pois não disseram novidade. E criaram uma situação de tal constrangimento que cedo a reunião se dissolveu. E por aí se engalfinharam os dois. Redelvim e o desconhecido se afastaram. Redelvim. —Um palhaço. as discussões vêm azedando nossa pequena roda e vejo que ela não tardará a dissolver-se. junto da velha—. entre estes inquietos companheiros. Dispunha-me a sair. Desde muito. sirvo. § 13. É uma verdadeira descida dos meus altiplanos. Enquanto Glicério e Silviano se inclinam para o fascismo. talvez assustada com tamanho alarido em sua sala. meio sorridente: . esteve calado. a beber. sem que nenhum ficasse abalado em suas convicções. Passaram ao terreno da política. O começo de discussão tirou a graça da festa. Não repetirei o que disseram.

As meninas-famílias dispõem de papais e irmãos para imporem respeito aos dons-juans que andam por aí. Impressionou-me esta confissão. Mas. em que ela não poderia encontrar ressonância. e insiste em dizer-me que abre mão de direitos de exclusividade sobre mim. não me quer escravizar. Depois. respondi. se você estiver disposta a agüentar com as manas. Belmiro. preciso de um homem. Será que me considera inofensivo? Levado por esta estúpida interrogação. Ouça. fiz uma pilhéria de mau gosto. mas o sujeito é muito teimoso. eu também me candidato. Poderei continuar a mesma vida.. mas velada-mente. tenho pensado. Hortênsia é apenas uma sombra. Jandira não tem amigas e D. . Nesse caso. ter sempre a companhia de vocês. e só agora compreendo o sentido oculto de suas palavras. Seria uma humilhação. aqui tem um homem. embora me sentisse realmente penalizado: —Se o caso é de urgência.—Esse homem que esteve aqui e a quem vocês não prestaram atenção. é viúvo. Sabe que é velho e que não pode exigir muito. e as mulheres também estão sujeitas a certas exigências. —Passe-lhe a tábua. Talvez por isso me tenha escolhido para confidente. —Já recusei três vezes. Você não imagina o que é a gente ser perseguida pelos homens. Em conversas anteriores ela aludiu muitas vezes. estou falando a sério. o homem. à sua situação. Jandira me olhou com ódio: —Se não soubesse que você está apenas fazendo uma gracinha. então. Habituado a pensar nos meus próprios problemas e a perder-me neles. Bem. Deve ter uns quarenta anos. com urgência. vivo tão sem apoio. A gente é de carne e osso. —Pois então feche o negócio! —Idiota! Ainda estou bem moça para fazer negócios. continuei.. mas não este.. eu lhe dava na cara. Tem uns cobres. ora irritada. tenho medo de ceder. ora deprimida. não digo. Não me presumo credor de elogios pela escolha. todo dia. feita com esforço não pequeno. E às vezes sinto-me fraca. . Preciso. está-me perseguindo com propostas de casamento. e fez-me a confidencia que me surpreendeu: —É claro que recusarei sempre. —Não é possível. Eu tenho de reagir sozinha. Dizendo-me coisas desse gênero. —Deixe de ser bobo. É a terceira vez que ele me propõe casamento. de um homem. Todos me olham como se quisessem devorar-me. nesse caso. não percebi. por alguma forma suprime.. continuou a falar.. Só falta proporme. todo dia. em mim.

Não é culpa sua. sabem o que sou. Redelvim e Silviano o exprimiram: para o primeiro. Gostei dessa reação. assumindo ar de mofa e provocando-me. ela é que não parecia razoável: levou muito longe uma simples pilhéria. e disse: —Fui uma boba em pensar que podia lhe falar essas coisas. eu preferiria a de excitante. embora não muito satisfeito com o adjetivo. Expliquei-lhe. ou for tudo. um elogio atribuir-me a função de calmante.. ou de mais. porém. serei um céptico pequeno burguês que. RELENDO a página escrita ontem.. exceto eu. como você é analgésico! Voltei para casa tranqüilo. que não tem o senso da hierarquia e tende para um igualitarismo dissolvente. sem achar saída. a favor ou contra. logo depois de ter dito aquela tolice. ETC. § 14. não por ação. volto a remoer o adjetivo analgésico. dizendo que. Olhou-me pensativa. igual número de argumentos. no tocante a dado conceito. ao mesmo tempo? Há anos passados. Ela devia saber disso. naquele momento. ANALGÉSICO. eu compreendia tudo. serve o sistema capitalista. como pude. Acham indispensável classificar o indivíduo em determinada categoria. E não é. Jamais encontrei algum cujo contrário não pudesse ser também defendido. Achava. abandonei-o. o burguês Belmiro! Redelvim deu para humorista.. no seu calão. com que Jandira me brindou. Minhas palavras produziram bom efeito e. pela sua representante junto à Rua Erê. da mesma força. já estava brincalhona: —Belmiro. Vocês não compreendem isso. e prometi-lhe que ainda lhe levaria um bom marido. Fazendo minhas .Fiquei encabulado. para o segundo. . sintoma de vitalidade. desde que ela não me queria. dentro em pouco. eu me censurara pela minha incompreensão. cheio de possibilidades. É o que pensam as mulheres. mas por omissão. eu costumava entregar-me a um passatempo perigoso: procurar. todos. Quanto ao que pensam de mim os velhos companheiros. Protestei. que era muito nova para desesperar de uma solução. E se eu não for coisa alguma. Quando nos despedimos. Afinal. como qualquer um. Percebendo que esse jogo de antinomias acabaria deixando-me com uma telha de menos. meu anjo. Mas está dito: sou analgésico. sou um homem fraco. Ela o emprega com o sentido de sedativo. Jandira voltava ao seu clima. Ora. positivamente. que realmente estava brincando e que. Uma criatura bonita e jovem assim tem diante de si um mundo grande.

eu não pensava mais em Arabela (Carmélia. atraiu-ma desta vez. a procurar o carro da família. cuidados. outros bens. E nela vejo um aviso. na escrivaninha da Seção. convidado. E não foi senão para favorecer o esquecimento. de chapéu e luto fechado. em minha memória ótica. esta coisa nos foge. Creio que já não quero o mito mas a pessoa. com mais vigor. e só fui dar acordo de mim quando entrava na igreja da Boa Viagem. Lendo. Quando. Entretanto. desviei sem querer os meus olhos. que jamais me chamou a atenção. Não sendo parente nem amigo do defunto.contas. obter uma imagem sua que se fixasse. porém. inclusive Jandira. ela alçou rapidamente a vista. precedendo aos presentes. assim como. também. escapou-me uma imagem nítida de Carmélia para só ficar um esboço vago de seu vulto. parecia mulher feita e nela mal reconheci a misteriosa moça em flor da noite de carnaval. Assim foi: a filha. forças para mirá-la de frente. se me ocorresse que a família sai por último. Por que essa timidez? Não me . cedinho. as operações do seu ofício. o Minas Gerais. não sei por que ardilosa conspiração das coisas. por onde geralmente se retiram as pessoas discretas ou enlutadas. em um momento propício. ainda a tempo de. ou não senti coisa nenhuma. Já estava no fim a cerimônia. para alimento dos longos dias que passarei sem a ver. não tive. Aurélio Miranda para assistirem à missa de trigésimo dia. a coluna dos falecimentos e das missas fúnebres. quando queremos forçar demasiado a atenção em qualquer coisa. durante o dia. § 15. neste velho escritório ou em algum trajeto de bonde. senti-me. presa que fica pelos abraços de pêsames das pessoas conhecidas. diz Silviano. o irmão pequeno e a viúva só apareceram mais tarde. celebrada em intenção de sua alma. Essas intermitências. que Deus pôs no mundo paisagens. Ontem. postar-me à frente de uma porta lateral. Carmélia. quero dizer) e seu vulto mal pousou a meu lado. outros males. convidando os amigos e parentes do saudoso Dr. Como na tarde em que voltei â Rua Paraibuna. deixando Glicério. Desejaria bebê-la com os olhos. cheguei mesmo a esquecê-la. e mal pude deixá-la. DESDE a noite da reunião em casa de Jandira. Mas parece que a sensibilidade descansa apenas para redobrar. é que entretêm a vida e a preservam dos efeitos devastadores de um sentimento intenso e continuado. vi que a simples aquisição de umas botinas novas me desequilibrou o orçamento deste mês. Não fora preciso tanto açodamento. MISSA DE TRIGÉSIMO DIA. preocupados que ficamos com tal esforço. dando repouso à sensibilidade.

Em cada ramo à beira do caminho ficou um pouco de nossas vestes e é inútil voltar. mais distante. neste vetusto bureau da Seção do Fomento. mesmo de longe. Mas. que resiste a todas as agressões dos principiantes das letras. com medo de que os meninos me atirassem bombinhas. O melhor é tomares a xícara de café que o Carolino pôs sobre a mesa (excelente Carolino). § 16. Escrevendo estas notas. cheio de balões e de vozes gratas da infância. Cada ano. Amigo Quixote. o irmãozinho e a viúva. Carmélia é fina. de que essas bodas são impossíveis. Apesar da literatura que se faz pelo Natal e pelo São João. As moças de trancas e bandos não mais lerão sortes no copo d'água nem saberão mais qual delas terá a grinalda. afinal. uma inundação. Já tens trinta e oito primaveras e ainda me compareces com tais veleidades de mocinho. verificamos que a paisagem do passado vai ficando mais azul. Certo São João de Vila Caraíbas é um fenômeno que não se reproduzirá jamais. como aquela serra que azula no horizonte. amanuense. Mas. valerá a pena que eu me incrimine por isso? Lembra-te. porque os bichos comeram os trapos que o vento não levou. para viajar pelo tempo afora. do Natal e do Ano-Bom. ainda estou a lamentar minha inépcia. Eis o lado melancólico do São João. ao vê-los chegar. cruzai" os ares e deixar-te em certo alpendre da Rua Paraibuna. em que imaginavas um incêndio. hão de fazer-me inclinar sobre mim mesmo. rica. Por que. passei ao largo. qual delas se cobrirá de flores e . além. um terremoto ou uma guerra. É inútil que faças projetos. esses dias continuam inundados de uma poesia própria. que vão atrás dos balões. fumares um cigarro e assobiares uma rancheira. pude apreciar esse São João alegre e buliçoso. como outro dia. Sofreia. UM SÃO JOÃO QUE VAI LONGE. todos os cavaleiros andantes já se recolheram e não há mais dulcinéias. salvando a donzela. esse balão que se queima no ar e os foguetes. perdidamente. para compareceres. jovem. É da alta. Permanecem com sua força evocativa e voltam com aquela pontualidade inexorável para vir lembrar-nos que estamos envelhecendo irremediavelmente. o corcel fogoso que contigo quer transpor esta janela. em busca de um balão que as monções carregaram para outras latitudes? Vã tentativa de reintegração de porções que se desprenderam da alma nesse trajeto imenso. essa fogueira. QUANDO vi a fogueira.conhece e nem perceberia uns olhos plebeus que nela se detivessem furtivamente. muito além da qual nasceu Iracema. Belmiro. no momento preciso. como diz Glicério.

Habituado. sem boas intenções. não simpatizei com ele. Moço Belmiro. Sua inclinação é para as donzelas de nobre linhagem. § 17. Hoje é o nosso dia. O que eu . contemplando as fogueiras e cantando certa modinha que ninguém ouvirá. amanhã me abandono (perguntando-me se a vida vale tantas renúncias). apenas nos namorando e nos lembrando daquela moça de cabelos de retrós e de brancas vestes. que deixou um legado para a freguesia de Caraíbas. e até horas mortas um aroma brando de batatas assadas me mantinha. desfruta a estima da alta goma.de perfumes e arrastará um véu comprido no pavimento da velha Matriz. cedendo ao comodismo e reservando meus lazeres para os velhos companheiros. ora com ele combinando encontros de rua. quando o rapaz entrou na Seção. ora indo-lhe à casa. Talvez o pirata esteja apenas desfrutando a moça. pensando que chegaria à estrela. onde jazem os restos mortais de Dona Ana de Freitas e Ataíde. E ele viajava toda a vida. explicar por que namora a filha do chefe de Seção—que é de condição modesta—e receio que esse namoro dê em nada. Agora. Pareceu-me pretensioso e decidi-me a não tomar conhecimento de sua presença. Velho Belmiro. Nem sei. noto que faço ultimamente grandes concessões ao Glicério. rendime às suas tentativas de aproximação e criei-lhe estima. vai a um luxuoso clube de campo. desenvolvo uma tática complicada. joga bridge e tem outros hábitos aristocráticos. CASO da noite de carnaval introduz. QUE OS BORBAS ME PERDOEM. que cantava inefável modinha. rente do braseiro. a pensar nas terras impossíveis e no destino trágico da Nau Catarineta. Num exame de consciência. nem tristes. mesmo. Tempo velho. inconscientemente. Com o tempo. a coisa virou. aos poucos. novos rumos em minha vida. nem alegres. e afinal me desloco. recomendado pelo Senador Furquim. Hoje reajo. Estas notas são íntimas e nelas devo pôr toda a sinceridade. a vê-lo sempre à minha procura. porém. Há quatro anos. Qualquer coisa a respeito de um viajor e de uma estrela. e que essas concessões têm feroz fundo utilitário: adivinho nele o caminho para Carmélia. nós ficaremos de braços dados. sempre adiante do viajor. O certo é que. nunca o procurei. O rapaz freqüenta a sociedade. Enquanto a fogueira funcionar. Vamos perambular pela rua. Naquele tempo a fogueira crepitava até horas mortas. Tempo velho. procurando atingir Carmélia por via do Glicério. A estrela sempre longínqua.

o Redelvim. É que essa aventura me intimidava. bom parceiro. e nós as perdoamos ao rapaz que. inacessíveis. pondo-me fora de meu mundo e em contato com uma fauna humana de caracteres inteiramente desconhecidos para mim. já que o ridículo é de todos os namorados. apesar de tais tolices. cá entre nós. ele se mostra despótico. ser traduzido por um vocábulo mais simples e direto: adulação. qualquer um assim procederia: tenho adulado Glicério. ficamos lisonjeados com isso. que só admitem em seu círculo a ele. para se prestigiar em sua roda de sociedade. pois o senador não admite cacife acima de dez mil-réis. encarece muito o acolhimento que eu. cercado de um halo misterioso. como esta noite. ao cabo de contas.chamei concessões. embora lhe escape a intenção. Não me pesa confessá-lo porque. Tenho adulado em todos os tempos e modos. assim. Explico a questão da importância: desde muito tempo. Glicério. A mistificação nos prestigia de certo modo e satisfaz a uma pontinha de vaidade que não conseguimos reprimir. e exibe-me em lugares aonde nunca fui—por um lado. § 18. o mancebo. mas agora me revelo um sabujo consumado. que sempre foram grandes amorosos e hão de compreender-me. Jandira foi quem apurou essas coisas. para a sortida. no caso. Nunca chaleirei políticos. vivo. é inteligente. quanto ao rapaz. para se dar importância e. com sua rede de informações. Manda a sinceridade que eu escreva também que. Falou-me que o Senador Furquim. pode. por outro. Faz-nos passar por monstros literários. Recusei terminantemente. foi um pôquer. obrigando-me a acompanhá-lo a um baile. Percebendo a ação. por eufemismo. UM BAILE DAS MOÇAS EM FLOR. embora tivesse curiosidade de conhecer a casa de um senador e privar com um pai da Pátria. Não me disse que haveria danças e o pretexto. o Silviano. EU ME conformo com o meu ridículo. e esclareceu que o jogo seria barato. . talvez para se divertir com o meu embaraço. Perdoem-me os Borbas velhos. usando de um trunfo que assinala sua superioridade sobre os companheiros de bridge e tênis e suscita a admiração de ingênuas mocinhas. o Florêncio e a Jandira lhe dispensamos e nos encarece também. era homem muito simples. fez-me comprar um terno novo e camisas da moda. mas a tirania de Glicério leva-me a coisas que nunca fiz. nunca bajulei ninguém. em cuja casa iríamos jogar. aos olhos dos filistinos. E fica. Aboliu-me o colarinho alto.

transportei-me a uma janela. Receber o calor dos novos seres e sofrer-lhes o contato ainda é pior que o frio de uma velhice que nos espreita. coletiva e móvel. quando o juiz municipal de Vila Caraíbas ia reclamar contra o barulho do instrumento. e foge sem dó. Traziam-me uma imagem da vida que foge. tal a das virgens da praia de Balbec. Pouco me faz: toco trombone é para meu uso. Era uma data aniversária na casa. ao luar. que ainda alcancei. Tive inveja daqueles que as enlaçavam e as valsavam. aparecidos às dúzias. Meu lugar é nesta Rua Erê. nem há dúvida. Prudêncio Gouveia e o velho Giovanni. As moças não me notavam. Meu lugar é outro e meu clima é bem diverso do desses salões a que ele me transporta. que andavam aos bandos e formavam grupos indemarcáveis onde se operava a translação contínua de uma beleza fluida. Se algum dia caírem estas linhas sob os olhos de alguém. Compreendi a necessidade de fugir às moças em flor e. Moças proustianas em flor. tinham vestidos brancos que modelavam seios morenos e castos. inefáveis modinhas. mas não jogamos uma hora. como dizia mestre Rizério. O baile me deixou miserável. fez-me ceder às suas insistências e. em particular. à moça Carmélia. Havia realmente o pôquer. Francisquinha. o gabinete do senador. Eram também ágeis. no bom tempo das polcas e das quadrilhas. não couberam no salão e reclamaram. experimentei uma transfiguração: senti-me em Vila Caraíbas. os que vamos passando. abandonado pelo Glicério. Nada mais depressivo que sentir outras gerações surgirem depois da nossa e nos disputarem espaço. assentei-me em uma poltrona. a tirania de Glicério. pela sensação de aposentadoria. quando sabe que ela o engana. por muito tempo. com ardor recrudescido. como o amante que ainda mais ama a companheira. afastaram-se os móveis e. entre Emília. A quem vai passando. Tome. ainda. rirão de minha literatura sentimental. tomando um automóvel. porque moças e rapazes. este burocrata mestre. mas eu bem as via.Mas o medo de descontentar o meu tirano e de fechar. Ai de nós. Mas a vida está me encostando. assim. os caminhos para Carmélia. Dissolveu-se a roda. A vida nos ilude cada dia. a um canto. tocamos para a casa do senador. Minhas moças em flor de Vila Caraíbas. . Mas não poderei suportar. o melhor é esconder-se nas cavernas do peito e nelas procurar o panorama do seu tempo. velhas. para festa dos olhos e malinconia do espírito. também. Cantavam. Por um momento. idiliei ao pé de um jasmineiro. hoje outoniças. lestos e gráceis. mas nós a queremos. O serviço público não jubilou.

Achei péssimo. GLICÉRIO comunicou-me hoje. Passo o dia todo a seu lado. na Seção. eles lhe fugiram) e cuida. nesta obsessão tola em que vivo. que ele me diga espontaneamente qualquer coisa. Noutra ocasião. Pergunto a mim próprio se. seu propósito de ir ao Rio. ouço-lhe mil ninharias sobre a vida da sociedade e sobre rapazes ou moças que conhece. Será mais uma semana de atraso nas minhas tentativas para dele obter. que me fale sobre a moça. no que se refere a Carmélia. Vai viajar agora e teremos sete dias durante os quais não haverá nem mesmo esperanças. mas que não excede os desvarios que ando praticando. Não me animo a pedir-lhe. venceria a timidez e atacaria o assunto: estou certo de que. muitas vezes. Deus sabe quantas vezes tenho passado. É uma idéia bem fora do comum. idiota. isso me seria indiferente. de dia. Pegou um colchão velho e tenta fazê-los dormir nele. § 20. só para ver a casa. Se eu tivesse dez anos de menos. dizendo que se acham gripados. Eu próprio me tenho rido. minha situação é essa. de namorado aflito. Nada mais lhe arranquei. agora. nesta altura dos acontecimentos. GLICÉRIO seguiu ontem para o Rio. bom camarada. em que pese à minha percepção do ridículo.§ 19. IDIOTA. dentro de casa. Mas. com o que irrita a cada instante a galinha mãe. não digo uma aproximação—com que já não sonho—mas pelo menos referências ou informações a respeito de Carmélia. mais extravagante que estes devaneios meus? Abandonou os ratinhos (ou melhor. não se recusaria a servir um namorado em aflição. aos trinta e oito. . esperando ver a moça. por isso. ou a tenho cruzado. mas o demônio lhe fecha a boca. O que Francisquinha faz é. horas mortas. Aos vinte e oito anos eu poderia (não sendo apenas amanuense) pretender essa Carmélia que não terá chegado aos vinte. é de todo descabido e Glicério haveria de rir-se de mim. diretamente. IDIOTA. onde passará toda esta semana. mas. Tenho esperado. por uma semana. além das palavras ditas no momento em que passávamos em frente da casa da Rua Paraibuna. porventura. Vive a dar cafiaspirina aos pintainhos. SILVIANO E O PROBLEMA FÁUSTICO. idiota. de pintos. a viagem me aborrece. e escrevo. IDIOTA. à margem destas páginas: idiota. na Rua Paraibuna. quando não me enojo. não serei a pessoa menos equilibrada desta casa. Pois.

e a causa não foi outra senão a ausência do peralta. não fizesse suas mágicas. Passei o dia todo a escrever no papel: Arabela Borba. É só espairecermos um pouco e o prestidigitador. bem o sei. isto é. Hoje o dia me pareceu insuportável na Seção. 23 de agosto de 1935. o céptico e outros seres que perturbam a vida do rebanho.Será uma semana difícil para mim. ao chegar. . Para a tarde. de mansinho. Joana disse-me. copiei-a às pressas. submissa. Eila aqui reproduzida: TERMOMETRIA DE UM ESTADO PSICOLÓGICO Data:—Domingo. fui-me entretendo em folhear livros apanhados aqui e ali. que ele não tardaria. Continuo a alimentar-me. Tolices. a ausência de uma possibilidade. entre mil contrárias. Abrio na página marcada. Belmiro? (Como lhe ficaria bem tutear-me!) Foi assim que passei o dia. A docilidade dos fantasmas! Já não a procuro com angústia: é ela que vem a mim. e fiz uma descoberta sensacional: a do Diário do Silviano. melhorei e. Como demorasse um pouco. mergulhado na sandice. Tempo:—Primeiras chuvas de 1935. que não fomenta coisa alguma senão o meu lirismo. Deixem-no folgado. Meu ócio não traz fermentos de anarquia. afinal. e teremos o anarquista. A visita ao Silviano transformou uma noite que se anunciava péssima em bem-humorado serão. com medo da solidão. Não sei até onde irá esta fantasia de amanuense ocioso. e a privação de sua presença me desespera. Estou pensando no que seria de nós. de conversarmos sobre a moça. mas faz que Carmélia entre sutil por uma janela da Seção e pouse a meu lado. na mesa ou nas estantes. fui atrás do Silviano. Sensibilidade:—Tchaikowsky—Chant sans paroles. Bem agem aqueles que acorrentam os homens e lhes dão um duro trabalho. É ela que passa a mão pelos meus cabelos e pergunta:—Que tens. Carmélia Borba. o Fáustico—0 amor (vida) estrangulado pelo conhecimento. Problema:—O eterno. Às vezes lhe tenho ódio. No fundo. que era a última. e achando-a extremamente curiosa. com receio de que fosse pilhado nesse ato desonesto. da esperança de ouvir-lhe algo sobre Carmélia. a culpa é da Seção do Fomento. encontra temas para nos ocupar a atenção e desviar-nos de uma idéia que nos amofina. que há em nós. Não o achei em casa. pela importância que assumiu em minha vida. se a noite não sucedesse ao dia e se o espírito. porém. Carmélia Miranda Borba. à noite. o poeta. O que nos vale são as mágicas. e pôs-me à vontade no escritório. cada dia. à sua espera.

(Seguem-se palavras ilegíveis. Silviano é exato no que diz. é talvez simplesmente trágico. em Silviano. sobre uma ocorrência qualquer. quíntupla de um fato. será preciso que. acerca de qualquer coisa. Florêncio. E há de tudo nele. daquilo que desejamos saber. cada um a seu modo. fá menor. Mas o que Florêncio e Joana não compreendem é que a mistificação. acontece que às linhas reais de um episódio ele acrescenta uma extraordinária riqueza de pormenores imaginários. antes. cinco Silvianos presenciaram aquele fato. me acho em presença—não de um indivíduo.) O que lhes parecerá cômico. em frente dele. pelo contrário. em alemão. julga-o um mistificador. perco a noção de "ser" para ter apenas o pressentimento de que lido com algo extrahumano e puramente cerebral. Não conheço criatura mais complexa. possivelmente veraz. Estranho homem. espaçadamente. O que desorienta o Florêncio. Reproduzirá com honestidade o que viu ou ouviu. três. de uma unidade—mas de um ser múltiplo ou. é porque realmente dois. Silviano. tripla. É um recriador e vê-las-á não como se apresentam. é um dos muitos aspectos curiosos do Silviano: a impossibilidade de se obter dele informação direta ou exata. desde o ridículo até o espantoso. Freud. elementos próprios de sua imaginação. Se nos dá uma versão dupla. nesta página. logo de início. Parece-me que não se trata de um gênero comum de mentira e que. dez ou vinte vezes. Outras vezes. Há nele uma nebulosidade permanente. piano e orquestra. mas como . mas é que viu ou ouviu por um processo psicológico menos fiel que o nosso: abundantemente se incorporam às percepções. a fim de conseguirmos uma versão média. Silviano chega às vezes a ser exasperante.Beethoven—Concerto n. Sabe quanto é precária a tentativa de sacar um depoimento preciso do marido. em sua simplicidade. quando o interrogamos em sua presença. qualquer coisa como um conflito de paixões que transborda das fronteiras do indivíduo. Se nos contou um fato que nos interessa. Previsões do clima mental:—Más. Esquecimento. Às vezes tenho a impressão de que. E é divertido ver-se o ar céptico que Joana assume.° 3—Adágio. Flotow—Marta—ópera-cômica. nada tem de comum com aquilo que entendemos vulgarmente por mistificação. Maranon:—Amiel. que ele tem das coisas. Leituras:—Amiel:—Journal intime. Chopin—Concerto—opus 21. formas especiais que ele lhes empresta. lhe pecamos nova narrativa do acontecimento. Na verdade.

em vez de cômica. e que é um estudo sobre o suicídio. indecifrável. depois. deu o golpe: "Ah!. ora em latim macarrônico. Você já vai? Espere. talvez o perfil nítido desse singular histrião. que fora à casa de Jandira. no dia seguinte. achando-se a mulher informada de que a reunião tinha caráter inofensivo. Esqueci-me de dizer-lhe que Mamãe chega amanhã. que andou a bebericar com o Florêncio. portanto. Mas estou certo de que não é assim.gostaria que se apresentassem. . o esboço. Se algum dia pudesse decifrá-las. muito satisfeito. a arquitetura. Ouvi. mais tarde. você no meu antro! Galernos ventos o trouxeram. pois. e fica uns dias conosco. Dizendo ali ter estado sem que a mulher o soubesse. conversa muito interessante entre o Professor Otelo e outros da Universidade. Deixou que o marido se preparasse para sair. com aquiescência da Joana. que mora em Sabará e queria passar uma semana em casa deles.. Ou talvez dissesse que ele compõe essas memórias com a esperança de que o caderno íntimo algum dia venha a cair sob os olhos de alguém. que exerce o teatro gratuito e interior para uso pessoal. Aquelas páginas. dentro da nebulosa perturbadora. por certo. me disse que "o nosso amigo Abundando" lhe contou ter ouvido. Com sua lucidez. para uma platéia futura. Acrescentou que esta pretendia obter. tal como fez. embora não o possa evitar. Voltando ao Diário. para que o Reitor . no momento propício. pareceram-me sinceras. As mentiras deixadas em casa de Jandira são daquelas que pertencem ao processo de recriação do Silviano.. Vinha alegre. Silviano espera. uma concessão especial: ser permitida a vinda de sua mãe.. —Olá. e procura iludir-nos. atualmente no prelo. num café." E ele não tugiu.. reforçar os seus títulos na Universidade. repetir-lhes-ei que a página será trágica. Estava pensando em você! Contou-me. com tal trabalho. manhosa e songamonga. amigo Porfírio. Silviano não tardou muito. Humorista. nem mugiu. ora num alfabeto cuneiforme. Silviano vota horror à sogra. e denotavam grande expectativa em torno de opúsculo seu. soube fazer a transação. outro dia. Escute. achou mais interessante figurar a si mesmo uma fugida sem o consentimento da mulher. como cabotino consumado. Vi que esta noite não brigaram. de sua própria boca. nos mentia. visando a esconder-se da Joana e dos estranhos. mas. tudo isso. percebe o fenômeno. criador de um sistema de mistificação longamente desejado e encontrado. ora escritas em alemão. Exibe-se. mas Joana.. à hora em que este punha o chapéu na cabeça. ao cabo de contas. Redelvim diria que Silviano representa perante si mesmo. com essa beatitude que o sexto ou oitavo chope nos traz. Falavam a respeito dele. eu encontraria. dando-se por mentiroso consciente. como de costume. em casa de Jandira.

era Ia estrangulacion dei amor por el conocimiento: ei problema de Fausto. Foi a uma gaveta.... el problema de Amiel. . de Goya. vida. Creio que em uma revista literária . Silviano arregalou os olhos: —Onde é que andou escarafunchando isso? Sim.. o problema fáustico.. como ei de tantos hombres.. Isso é um mal incomensurável. dizendo que ia ler-me algo maravilhoso. Porfírio. Espere. Sim. quando disse que o "mito Donzela Arabela" é um símbolo fáustico. homem de planície. Incomensurável! E traduziu para mim o trecho do Also sprach Zarathustra. —Elas representam a vida. uma cópia da Maja Desnuda. Problema fáustico. respondi-lhe com ar de quem procura recordar qualquer coisa: —. que página! Puramente fáustica! Infelizmente você não entende o alemão. Saltando de assunto para assunto. vista momentos antes. Porfírio! A um olhar meu. encontra raparigas que bailam numa clareira. respondi. —O mito Donzela Arabela é um símbolo fáustico. não quis significar que você. "Presente de uma jovem amiga". é. estrangulado pelo conhecimento. Mas. continuou: —Puramente fáustico! Você já leu Spengler? Certamente não leu. A alturas tantas ficou um pouco melancólico. mostrou-me. depois. a vida que foge diante do asceta! E. Andando majestosamente para lá. pareceu-me afundado em altas meditações. uma inquietação fáustica. de súbito. Porfírio. Apenas me pareceu que essa aspiração do imaterial e do intemporal feminino. atravessando a floresta com seus companheiros.. Esta noite.lhe melhore a situação.. —Bem. É este. para mim. segredou-me.. dizendo-me que. ande em tais altitudes. consultou as fichas. também minha. Virou-se. em que o herói. por motivos especiais. Só vive lendo romances. Por mim! Fui roubado! .. . com um gesto espetacular: —Isso deveria ter sido escrito por mim.. Foi à estante e de lá retirou um livro.. piscando um olho. interrogativo. de algum modo.. pensara muito em uma confidencia que lhe fiz há tempos." E continuou: —Onde viu isso? Onde? —Não me lembro. Lembrando-me da página do Diário. —Veja que página. O amor.. apanhou uma c leu: "En efecto. para cá. na síntese de Salvador Albcrt. o fáustico de Amiel se enquadra no definido por Spengler. Silviano estava no seu grande estilo.

a maginar. e Emília. Pode ser. Tomado o café e pedidas a Joana notícias da prole. Somos. juntaram-se hoje as angústias especiais do aniversário e talvez um pouco daquilo a que o Silviano chama "inquietação fáustica". no coração. que Mariana anda restringindo. Um acesso muito forte de Francisquinha. e uma gripe pneumônica . E o dia de hoje amanheceu pesado como chumbo. A loucura de Francisquinha parece atenuada. que minha melancolia tenha vindo simplesmente da atmosfera. UMA DATA IMPORTANTE. só em 1930 e em 1933. por exemplo. à tarde. para trás. aqui em casa tudo vai bem. entendi de sair. na verdade. puxou-me pela manga do paletó e levou-me ao quarto grande. despedi-me do filósofo. o peru foi omitido. também. mas ficamos satisfeitos. naquele ano. Não acredito na sinceridade daqueles que dizem nem sequer perceber a passagem do aniversário. Depois de nossa última conversa. dei para me sentir um tanto ou quanto fáustico. Como estivesse sem fome. O homem é um animal definidor. não se esqueceu do peru tradicional. muito conhecido. Não se resolve nada. pouco tempo depois de haver chegado da repartição (onde recebi numerosos abraços). muito mais meteorológicos do que supomos e tudo o que modifica a atmosfera. Viva a tradição dos Borbas! Não esqueceu mesmo não. porque é dia de balanço. que é de origem cósmica. VINTE e cinco de agosto de 1935. Emília. Eis uma data importante neste solar da Rua Erê: completo 38 anos. entrando com uma bandeja de café.—Sossega. a folhinha pendurada na parede. provoca alterações em nossa substância espiritual. por gestos. O déficit é grande. com certeza. meio aflita. Entretanto. abre-se mais: foi-me extremamente gentil. recebe-o com boa disposição: é mais um pretexto para o chope. menos taciturna. É dia que ninguém esquece. a inventariar o realizado e o não realizado. amanheci com certo peso. para definir certos estados de espírito. que foi que aconteceu? disse Joana. como se diz em Vila Caraíbas. para me mostrar. mas nem sempre se fica macambúzio: Florêncio. Olhamos a vida. Grande coisa é encontrarmos um nome imponente. § 21. e ia pegando o chapéu. quando ela me barrou os passos. no curso destes últimos anos. desde a chuva até a música. Um anjo pacificador desceu sobre as coisas. Aludia ao aniversário. Aliás. Quanto a mim. homem. velho profissional da tristeza. achando bonita a expressão. para frente. À melancolia do amanuense.

sem dúvida. mesmo de pessoa como Emília. a lembrança das comemorações domésticas. transportando-me para um plano onde as coisas perdem o travo amargo. Arabela hoje não me está doendo muito. § 22. Logo depois que voltei. quase feliz. A gentileza desta tarde. e. mas esta não apareceu para receber cumprimentos. E tudo isso compõe. entre anedotas. após ligeiro discurso às velhas. deixou-me . Apreciaram muito os pastéis de Emília. Fiquei para o jantar e a mesa me comoveu: além do peru. meus vizinhos. e. e se persigna. sobre a mesa. ONDE SE APRESENTA UM REVOLUCIONÁRIO. com um litro de uísque mandado vir do fornecedor e algumas botelhas de cerveja de sobressalente. quando vê o pequeno escritório ocupado por tais clientes. para não me ver. ainda.de Emília. um anteparo de papelão). Tratei-os bem. na manhã de hoje. Florêncio abriu-as com ternura. Emília coloca diante de si. o peru. as mágoas se esquecem. o calor de qualquer ser humano. prodigalizei-me libações. tem surpreendentes efeitos analgésicos. no dia natalício.nos vinho do Rio Grande e peixe de Pirapora. Retiraram-se. Nada houve de especial na reunião e a conversa correu alegre. em nós. ao tomar comigo as refeições. as canecas de vinho realizaram uma operação benéfica. O que não a impede de ser uma valsa deliciosa. a alma relaxa-se. reconciliando-se com os velhos amores. em quem nossa alma não encontra ressonância. que foi preferido por todos. ou principalmente. esta noite. assim foram aparecendo o Silviano. outros tantos meios artificiosos que a vida emprega para manter. compareceram-me os amigos Giovanni e Prudêncio Gouveia. pergunto a mim mesmo se o caso Arabela não terá sido apenas fruto de solidão e timidez. Jantei amplamente. esquecendo a dispepsia que acompanha os Borbas há tempos imemoriais. Um nada qualquer. o Redelvim. Acabado o uísque. tive. Notei. o interesse vital. cujo autor é ignorado. Quem se entende? A gente amanhece sombria e anoitece. por último. tipo 1910. Sentindo-me tão bem disposto. Silviano já o disse. às vezes. Ah! Não: é um símbolo fáustico. no outro. impediram a comemoração a que os Borbas varões têm direito. A uns julga loucos e a outros criaturas excomungadas. saí para a rua assobiando a valsa Saudades de Ouro Preto. confeccionados segundo um rito especial de Vila Caraíbas. UMA CONVERSA com Redelvim. que o anteparo de papelão foi hoje suprimido (comumente. e o caso assumiu um aspecto quase doce. a Jandira e o Florêncio.

for para colher o meu aval. asperamente. Ele apareceu aqui em casa. Quanto às revoluções. operações da economia da espécie. que sua situação pessoal não interessava e que um pequeno burguês.. Redelvim. me contou ele. mesmo. depois. apreendera documentos. E que a polícia. por exemplo. vem uma guerra para destruir o excesso de indivíduos que perturba o equilíbrio social. Revoluções sempre as houve e haverá. eu vejo homens. Redelvim ficou irritado com o meu tom e interrompeu-me dizendo que falava a sério. Silviano acha. Mas o que houve de extraordinário foi que. Onde os outros vêem unidades mecânicas da massa. Mas sou apenas um falido poeta lírico e rir-se-ão das idéias.. por um instante. alguma compreensão. que houvesse receios no espírito do amigo e perguntei-lhe acerca do que lhe poderia acontecer. que me vêm. ao ensejo desse encontro. Quanto ao mais. Fiquei melancólico e cívico. como eu. e o fracasso era fácil de prever. segundo seu modo de pensar. sempre que começo a meditar: perco-me num labirinto de antinomias.. sobre o problema. E que. estava incluído. para o que desse e viesse. propriamente ditas. neste País. Tratava-se de uma revolução proletária. Pensei. recolhera a relação de todos os seus membros em cujo número ele. Ao final de uma das páginas que ficaram para trás já lhes contei o que se passa em mim. superpopulação. no Redelvim e na Jandira. deixando-me aturdido. um sentido mais cordial. só cuidava da própria pele. Supus. Silviano era um reacionário imbecil. saiu às pressas. ou abstrações econômicas. meio nervoso. a fim de alcançar. mas ele. criaturas que sentem e pensam. sempre que se trata de "sujigar a onça" (como diz o Florêncio. Talvez algumas leis. pensando que. Os indivíduos nada significam. Ao contrário do que acontece ao primeiro (se acaso foi sincero no que disse) os indivíduos significam demais para mim.. que os acontecimentos se estão precipitando e que se fala na possibilidade de uma revolução. não sabia de nada. além do mais. não estava a par dos planos. Redelvim. sem os cruentos conflitos que andam pelo mundo. .apreensivo. Respondi-lhe que isso não era motivo para aflições. seria solidário. Respondeu-me. Elas não são. Nós nos servimos um do outro. muito claras e comumente se manifestam contraditórias. para breve. referindo-se ao ato de reformar uma promissória) e temos uma sociedade de avais mútuos. E. ainda. a civilização poderia ter. o expediente do Banco. Quando há. pois a polícia vivia atenta. ainda cedo. que revoluções ou guerras são reajustamentos. se começasse a haver prisões. certamente. por ocasião do fechamento da sede do Partido. aliás.

curvados.. onde os homens. inclusive no celibato. Qual a relação entre tal acontecimento meteorológico e nossa sensibilidade? Eu não saberia precisála e apenas poderei dizer que um homem rural. E ele me parece mais anarquista. Meus receios se vão confirmando. e passou a trabalhar somente em jornais. falecido o velho Borba. suponho. por exemplo. mas não dou importância a isso. abriam covas. Deixou ultimamente o Estado. Um anarquismo lírico. veio a chuva. punham sementes e as cobriam. Este nosso anarquista tropeçará sempre no coração. que lhe voto. adormecido. O pequeno círculo em que vivo. sua força e. gera uma tolerância grande para com os golpes que me vêm dele. Na manhã de hoje. aproximadamente. Também não levarei a sério as declarações que me fez pela manhã. Ao passo que sentia veemente apelo da terra e um desejo vivo de evadirme para lugares e épocas distantes. é agora trabalhado por dissensões mais profundas. mas bom amigo. a admiração. eu experimentava indizível angústia que resistia a . que é terno. mas determinam. Foi um pé-d'água violento e rápido. nestes últimos tempos. onde moramos juntos. o sol nasceu forte e o chão me queimava os pés. Jamais acreditei no seu ativismo partidário. nas aperturas financeiras e na burocracia. Trata-me com dureza. naquela página do Diário. mas o cheiro de terra impregnou-me as narinas o dia inteiro. subiu do solo um hálito intenso e fecundante. E homem difícil. AGORA compreendo por que Silviano incluiu. conheci Redelvim numa república de estudantes.Vejo. que comunista. Há quinze anos passados. sensível. seus temores. com seu primitivismo. despertou em mim. malgré lui. As deste princípio de setembro já não são as primeiras. cuja imolação em nome de uma quimera seria uma crueldade do destino. Dentro em pouco estará irremediavelmente dissolvido. Quando. quatro anos. até quando. sabendo que a causa de tudo é o nervosismo em que vive. e cujo equilíbrio sempre foi precário. inteligente. para certa gleba da fazenda velha. o mesmo fenômeno que.. o homem Redelvim. tomei casa própria para viver com Emília e Francisquinha. após instantânea formação de nuvens. Temos sido companheiros em tudo. CHUVAS DE SETEMBRO. o amigo registrou. em virtude de uma desavença com o diretor de sua repartição. que não dá para atirar bombas nem praticar atentados. simultaneamente. § 23. reservada ao plantio. a anotação a propósito das chuvas: "Tempo —Primeiras chuvas de 1935". Por outro lado.

assim. acaso. que havia dentro de mim. Já era tempo de fazê-lo. sem problemas. Com uma esbatida imagem física. publicar um dia este caderno de confidencias íntimas. legados pelo velho Borba. de vagabundo lírico. Ao escrever esta página. porém. durante os quais todos os fantasmas se desvanecem e os temas torturantes deixam a tona da consciência. Nosso comércio é escasso: temo-nos visto apenas uma vez ou outra.. Aos dias difíceis. Se. aos meus olhos. estou escrevendo um. § 24. apenas de passageira anistia. e o pouco interesse que seu regresso me despertou evidencia. construí uma Carmélia cerebral que me causava devastações. confiei-lhe meu estado de espírito. onde . a meus olhos. Curioso homem. e com sombras e luzes. Pretendo. É um narcisismo a que ninguém escapa. a salutar reação que em mim se processa. Há solicitações graves. em encontros rápidos de Livraria. que se resume na disposição de orientar-me exclusivamente pela sensibilidade.. Quem escreve um Diário (afinal. por detrás das lunetas grossas. E criei um ser fantástico. fornecida pela moça da Rua Paraibuna. agora. a uma vida inútil. GLICÉRIO chegou ontem.toda tentativa de análise. diz-me coisas surpreendentes a meu próprio respeito. a mim próprio. bonançosos. O desembargador fitou-me com os olhinhos penetrantes. desde que vacilaram e caíram. eu revivi um processo infantil e o velho mito de Arabela volveu a perseguir-me. e um homem não se deve entregar. Disse-lhe que me presumia um homem sem princípios. Reajo. fez-me encarná-lo nessa donzela Carmélia. que não tem culpa de coisa alguma. com virilidade. todas as convicções e pontos de apoio da consciência. A solidão trabalhou. que nem esses preceitos me restam e que o que há em mim são sentimentos de ordem moral. contra essa ridícula história da noite de carnaval. lembra-me uma palavra que ouvi do desembargador Linhares^ acerca da predominância da face campesina em meu temperamento. ou que conservava apenas preceitos morais. sempre se sucederam outros. Uma noite de carnaval.) não se pode furtar à sua própria contemplação. perdoem-me os leitores as anotações de caráter muito pessoal que forem encontrando e que certamente não lhes interessarão. entretanto. a que devemos atender. que tenho passado no correr dos tempos. tal como ocorre nas composições musicais onde a frase dominante por vezes se eclipsa ou flui tão sutilmente que não a percebemos no concerto de sons. ANÁLISE ESPECTRAL DE CARMÉLIA. Uma tarde dessas. e esclareceu. cheia de sortilégios. que não se trate.

o mais. Nada tem com ela a formosa senhorinha da Rua Paraibuna. cal vegna veder sior Joanin que lesta a crepar de dispiazer parché ei bambin 1'andá via! Avaliem o susto que me trouxeram os gritos e a entrada espetacular da velha. quando me veio dar novidades do Rio. Não pude esquecer-me dos maus momentos que me trouxe durante semanas. —Que há. tornando vão meu esforço para. ponhamos de parte essa história e lembremo-nos de que não se pode ser criança aos trinta e oito anos. e que eu era chamado a intervir. Nem lhe perdoei todo o tempo que me fez perder. Agora. em procura desta última. explorando inconscientemente minhas fraquezas sentimentais pela jovem Carmélia. saber algo a respeito da moça. Tratei-o mal ontem. Marianina. das noites ermas. acompanhando Marianina. A Carmélia que amei não existe. Saí rapidamente. E quem está pagando tudo é o pobre do Glicério. DORMI mal a noite passada. sob os olhares perscrutadores de alguns curiosos que farejaram qualquer coisa de anormal na agitação da velha e em suas palavras aflitas. Chegado à casa de Giovanni. ou vêneto. Sobretudo tomar um sorvete. através dele. cunhada do velho Giovanni. é contribuição do luar caraibano. na Avenida. Pura imaginação: tudo se resume nisso e nada há além disso. É preciso fazer qualquer coisa. pois a noite está quente. secreção da fazenda e da Vila. § 25. reconheço ter sido grosseiro para com ele. Mas. já se sabe. preocupado com a situação de Redelvim e de Jandira. e dispunha-me a sair. inclusive a abolição do colarinho alto (excelente medida. Aproveitemos a insônia e caminhemos um pouco. Giovanni? perguntei-lhe. por causa do filho. na Seção. como dizem os cronistas sociais. entrou desabaladamente pela minha porta. Descontei tudo.só entram tênues traços da moça. sei lá. em pranto convulso. Há. a gritar: —Madona Santa! Sior Bermir. de todo o mórbido romantismo. cabeça deitada sobre o braço. pondo-lhe a mão sobre os ombros. que me acho de ânimo isento. um bar que nunca se fecha. quando me ocorreu algo extraordinário. GIOVANNI E PIETRO. Não entendi bem o seu piemontês. mas calculei que o velho Giovanni (Joanin. distinto ornamento do nosso set. encontrei-o junto à mesa da copa. . segundo o dialeto do vizinho) passava maus quartos de hora. hoje cedo. vizinho de quarteirão. aliás) e as exibições em rodas sociais.

beber guaraná e abastecer-se de cigarros. a valer. pur un infelice! Me fiol! Me fiol! Só minga cos faro! Depois. Assaltavam botequins para comer gulodices. puareto. Sim. em língua mais acessível. landa dré ai auter. besta!" Fico à espera de uma explicação. Mi voleva far dei me fiol un duttor. obteve que o menino fosse entregue ao pai. porque lhe chamaram "mocinha". como se se tratasse de um poema: "Besta velha falso. noto que as linhas estão dispostas em versos. ergueu os olhos. mas. sior! Minha presença serenou-lhe um pouco o espírito. o sapateiro). Os chefes da quadrilha foram remetidos para um abrigo de delinqüentes juvenis. e lhe mandaram vestir uma saia. acompanhara os mais crescidos. continuou na língua engrolada. É tolice me percurar porque já estou longe. diz-me. ou talvez confundindo-me com Beppe (Giuseppe. a criança gritava que não tinha culpa. Depois de havê-lo açoitado.. que o papel amarrotado era um bilhete deixado pelo bambin. nada furtara. que o garoto fazia parte de uma quadrilha de menores arrombadores. até novas instruções. com o auxílio de Beppe: —El me bambin. e o velho explicou-me. Enquanto apanhava. reconheceu-me. mas Pietro era o mais novo deles e ficou provado que agira induzido pelos outros. ma mi son anda in fúria e giu bastonate. o velho estendeu-me nervosamente um bilhete amarrotado. sob o compromisso de ficar detido em casa. ao fugir de casa. seu patrício: —Son un disperat. Haviam descoberto. amigo de Giovanni. Com a respiração entrecortada. no fundo do quintal. que reproduzo agora. quando foi ao botequim. Lendo-o. em sua confusão.. alta madrugada. meu caro sior.Sem levantar o rosto. . até nunca! Ciao. com uma vara de marmelo. ciao Falso como tu Só merece pau. em sua amargura. ciao. que não entendo seu dialeto. esquecendo. na polícia. Um delegado. medroso. gaveva minga tanta colpa. . o velho foi tomado de grande abatimento. a porta já havia sido forçada.

pois a filha e a mulher morreram. Só depois de fatigado de surrar o filho. azeitonas. não atribuí importância ao caso e achei tudo . Giovanni estava agoniado. Vou comprar-lhe cigarros e ele sempre me detém. Quase que diariamente temos nosso dedo de prosa. Disse-me a tia. Este problema ocupou-me ontem o dia todo e só à noite. NOVA CONVERSAÇÃO COM JANDIRA. Traz-me uma botelha de Chianti ou de Barbera d'Asti. talvez tenha ido para Diamantina. seu melhor companheiro. Imagino o drama do velho. passas e nozes. ao pensar na mulher e na filha mortas. Se assim é. foi que as palavras deste puderam penetrar-lhe um pouco no espírito. aquela havia já três anos. pude ir à casa de Jandira. sua vida estará irremediavelmente des troçada. já um pouco tarde. embora às vezes lhe desçam sombras. e fustigava sem parar. sua visita é tradicional.limitando-se a ver os companheiros beberem e tirarem cigarros. Hortênsia—que ainda não se havia recolhido. que o Dr. e esta. contando-me histórias do seu Piemonte. Mas o velho estava como que surdo. Tratava-se de concluir um urgente trabalho de datilografia. Era a primeira vez que o castigava assim. Prometi-lhe que o auxiliaria. desde que me instalei na Rua Erê. D. Conheço-o há vários anos. Pelo que me contou. Queria fazê-lo doutor. e com horror pelo que este fizera. às linhas finais das notas ontem escritas. por haver maltratado o menino. ESQUECEU-ME acrescentar. É um camarada alegre. Pereirinha lhe dera um serãozinho. De vez em quando me aparece em casa e. pedindo-me notícias de Francisquinha. que um investigador da polícia me declarou haver indícios de que o pequeno Pietro fugiu para o Norte do Estado. Bebo o vinho e distribuo as nozes pelas crianças da redondeza. Pietro—repetia Giovanni entre soluços—era filho único. também italiano. ao mesmo tempo com remorsos. Ficara prostrado. fugia de casa. Dois dias depois. Não a encontrei. Preocupado com Pietro. pude perceber a profunda revolta operada na consciência do filho. Tinha doze anos. pelo Natal ou Ano-Bom. dez. certamente para esperar a moça—. Tinha amigos na polícia e haveríamos de achar o garoto. deixando aquele bilhete. Se o filho não volta. onde mora seu padrinho. E não será difícil recambiá-lo à casa. Para ele é que trabalhava. falando-me de uma coisa ou de outra. § 26.

Só hoje cedo.muito natural. como todos os outros que. excluída a hipótese de uma reação diversa. antes de ir à repartição. minha imaginação ensaiou para as virgens que passaram pelo meu caminho. amorosos ou simplesmente ternos. Não se mostrou surpresa. ou à noite. estávamos a conversar despreocupadamente e. por que me faço difícil. terminou. continuou: —Vocês acreditam que são absolutamente necessários? Não se pode viver sem homens? Cada qual é mais grosseiro. foi isso o que eu pensei e me fez procurar Jandira. Esse Dr. Deus me perdoe. adulei-a. Atirar-me-ia à cara o primeiro utensílio que encontrasse à mão. Perguntou-me. Tive ímpeto de passar-lhe a mão pelos cabelos e (por que não?) de dar-lhe uris beijos que não seriam senão paternais. Não tem outro assunto? Esquecendo-se das confidencias que me fez há pouco tempo. não fazem senão aguçar-lhes os apetites ou desenvolver neles certo gosto. Desde que se inventou a datilografia. é casado. da parte de Jandira. Chamei-lhe Jandirinha. ou pensando bem. Minhas palavras bastaram. Disse-lhe. que não conheço.. para lhe desfazer o mau humor. não raro trágico. disse-lhe algumas tolices para amainála. por que ando tão sumido. Pereirinha. tendo ela optado pelo quarentão (o de que lhes falei atrás). porém. Respondi com uma brincadeira desajeitada. Os advogados sempre têm arrazoados urgentes por fazer e vivem às voltas com os prazos processuais. e as mulheres (de preferência moças e bonitas) tem sido ocupadas nesse ministério. que. simulando ar desinteressado. em vez de fazê-lo depois.tive oportunidade de. contar-lhe a conversa havida com Redelvim. isso não é obstáculo. teremos futuras complicações. porque não ficaria. —Só um idiota poderia supor que eu me vou vender a seu Portela. vulgar. As impossibilidades próprias do estado civil deles. mas. Jandira. de modo algum. as complicações se multiplicaram na face da terra. com desprezo. Pensando mal. meditando sobre o assunto. Daí a pouco. o mais vago que fosse. não estava para conversas. imune a qualquer desejo amoroso. Mas o gesto morreu no pensamento e os beijos ficaram recolhidos. —Tá ouvi falar nisso. respondeu-me. então. tal a ternura que ela me inspirava naquele instante. pelos virgíneos amores. Fez por esconder o mau humor. Tanto melhor para mim. só me cumpria retirar-me condignamente e procurar novos amores. os casados. calculei que se esses serões se repetem. esta manhã. agastada. mas o seu modo de olhar para baixo e para os lados não me enganou. que acreditava serem ela e o Redelvim as criaturas mais . que acordou tarde..

Nada terei que temer. Em palestra. concitando os homens à luta. Jandira desnorteia a gente. porque. logo depois. que fosse discreta. quanto ao Dr. empunha a bandeira vermelha. sendo curto. de boa vontade.. desde alguns dias. para dissuadi-la disso. portanto. lhe deixava os joelhos de fora. IDÉIAS DA EMÍLIA. em chamarmos um padre.. não suporta um olhar de desejo. Ela não o confessa. Emília. se for preciso. Veja que chique: a jovem Jandira. Bem. não sejamos apressados em conclusões. Pereirinha. ao assunto. Entretanto. Fico lisonjeada com essa idéia de que sou conspiradora. reage. um dos quais é médium. zombeteira. tem admitido que abordemos temas perturbadores e. insistia em promovermos a expulsão do espírito. Josefa lavadeira convenceu-a de que seria melhor trazer aqui três espíritas que conhece. objetando. se assentou de novo. que essas práticas eram contra a religião. E. mas a contradição é da vida. —Foi para isso que veio aqui? perguntou-me. mas está sem nenhuma disposição de meter-se em conspirações. tentou abraçá-la e levou carão. sempre que está em xeque. ouve anedotas fortemente temperadas. numa atitude garota. voltou. deixasse de imprudências. dizendo-me que a Zefa garantira que não. etc. mas a polícia poderia pensar de outro modo. Ruboriza-se. compõe-se. Certa vez Silviano. para cá. a fim de se realizar uma sessão com a presença da doente.. Voltei tranqüilo para casa. porém. e compôs cuidadosamente as vestes. desviou inteiramente o curso do meu pensamento.inofensivas do mundo e nada terem os poderes públicos que temer de seu comunismo meramente literário. É partidária do amor livre e de todas as outras liberdades. agitava umas carnes saudáveis e fazia nascer em mim uma ternura nada parecida com a que me despertara momentos antes. passeando para lá. cai abatida pela metralha. Não lhes contei que é um dos meus fracos dar certo tom picante às conversações com moças donzelas. mas defende-se como leoa. porém.. Já não falava. § 27. Conviria. vários padres . que a princípio cedeu. põe-se à frente do bando. Movimentando-se por aquela forma. Mas decerto notou que eu lhe observava as formas com impertinência. não se esquecendo de puxar a barra do vestido que. Dificilmente isso se concilia com as minhas inclinações líricas. a imitar a cena imaginada. E. para o exorcismo. HAVENDO Francisquinha piorado de novo. em relação a Jandira. Emília. a pretexto de despedir-se. Recusei várias vezes meu consentimento.

O médium levantou-se. dela ouvindo um histórico a respeito das perturbações da mana. pela boca do médium. Depois. Dentro em pouco. procuravam mantê-la naquela posição. declarou que iria fazer uns passes e que todos deveriam ajudá-lo. Colocando a mão direita por sobre a cabeça da mana e andando em torno dela. levantada e posta ao meio da sala. Quanto a mim. e. Pai João está aqui. Foi o que se fez hoje. com alguma dificuldade. trouxeram Francisquinha e puseram-na em uma cadeira. meus filhos. Inclinou. Vendo que estava inteiramente obcecada pela idéia e não seria prudente contrariá-la por mais tempo. interrogou a Josefa sobre o caso. gesto de lhe tirar do corpo alguma coisa. por Josefa e Emília. Estava terminada a sessão. e Francisquinha foi levada para o quarto. Os espiritistas tomaram uma xícara de café. tornou a si. a quem falta a luz. a cabeça e começou a falar: —Deus esteja nesta casa. fiquei a um canto. desejaram-nos paz e se despediram. o médium começou a agitar-se. ao lado do médium. pondo-se em transe. já no portão de casa. Que é que vocês querem? O presidente respondeu: —Pai João. também. O espírito saiu. que o irmão.admitiam o espiritismo. Um. depois. fez. Em seguida. cedi. todos rezaram padre-nossos e ave-marias. Às oito da noite. que me disseram ser presidente da mesa. os homens chegaram. respirou profundamente e sob as preces dos circunstantes. Pedimos vossa ajuda'para que ela se livre desse mau espírito. para meu giro habitual pela Avenida. De pé. Pai João. Dispus-me também a sair. o homem voltou ao seu lugar. Emília e Josefa. com suas orações. observando o rito. tirando-lhe a razão. enquanto Francisquinha foi. nossa pobre irmã Francisca vem sendo perseguida por um irmão transviado. cumprimentaram-me cerimoniosamente e assentaram-se em torno da mesa. mãos nos seus ombros. não mais a persiga. com a outra mão. Pobre mana! . ouvi Emília dizer: —Chica vai melhora com o dijitório de Deus. concentrando-se. que muito dano lhe tem feito. Que o demônio da lavadeira arranjasse a reunião.

A princípio. Tal manobra não a surpreendeu. um infeliz. dispensando-me de fazer conjeturas sobre os motivos que a teriam levado a procurar-me. Esse foi. o pirata mudou de.. Não calcula como é difícil a gente sustentar esta defesa permanente. explicou Jandira que o fulano era o tal advogado. Declarou não poder viver sem ela. o Dr. —Isso é o menos..§ 28. entrara num período de ação e vivia procurando contatos. me atraiu a atenção. abraçou-a à força. o sedutor foi mais atirado. O rumor dos passos de um cliente. em um restaurante. pois está desesperado. guiando uma baratinha de luxo. Há uma distinção. mesmo. Sei que não sou. ar donzelesco e . Era um sujeito incrível.. Jandira desabafou-se. quando um homem. Pereirinha. e conversarmos à vontade. interrompi. que reconhecia a ilegitimidade de qualquer pretensão sua. também. Dr. Durante o trajeto de bonde não conversamos. casados ou não. de tenacidade fora do comum. Nos últimos dias. já que era um impedido. Queria frutos imediatos. apertos de mão. É preciso que as donzelinhas tenham. —Em resumo. —Não. pois não era a primeira vez que se via assediada por homens. Estava apaixonado. —E você é uma. por passar muito vagarosamente junto de nós e ter voltado duas vezes. não saber o que irá acontecer. que percebo. quanto ao Dr. Confessou-lhe que. compreendendo que ela não se prestava a ser objeto de divertimento. Sentados à mesinha ao ar livre. porque. Sempre haverá um homem e uma datilografa. ela ameaçou deixar o serviço. seu jogo foi o de um conquistador apressado. Alguns mais ousados se aventuraram. Muito fora dos seus hábitos. tentando beijá-la. ao ouvir palavras de repulsa. compreendi o resto. com ela desci na Avenida para irmos ao Parque. Pereirinha a perseguia. Jandira esperou-me hoje à saída da repartição para jantarmos juntos.. Nao basta a virgindade. já a amava. Depois. Por várias vezes. FOI BOM nada ter concluído. Hoje. Pereira. Estávamos à espera de um bonde. respondi. terminou Jandira. E. que lhe dirigi.. —Mas o problema continua. a dizer que não exigiria nada. Passou a suspirar. Esse período de suspiros durou uns dois meses. deixei o emprego. a que ela deu a competente resposta. técnica. Mas o Dr. Aquelas a que vocês chamam "moças em flor". aliás. PROBLEMAS DE PROLETÁRIA. De um relance. ao chamá-la para o escritório. Pereirinha. que observou ainda não ser hora de jantar. pequeno. A um olhar interrogativo. que entrava na ante-sala do escritório. Arranja-se outro. atendendo a um convite da amiga. a fazer-lhe propostas desonestas. salvou a situação. Desde muito tempo. onde costumamos reunir-nos..

de finura. no que faria injustiça. um animal. irmãos. dizendo não ser fácil aceitarmos que a pobrezinha tenha tido tempo . ontem pro metido. depois. Jandira calou-se. mas aquela insistência. num regato. de cuja margem pende um salgueiro. pois meu propósito não era senão afastá-la dum pensamento amargo. a fim de levar-lhe o Hamlet. como Ofélia. de fazer um disparate. Afogar-se. dizendo-lhe que de fato era mais romântico e também mais conforme à técnica da tragédia. disse-lhe brincando: —Vou recomendar a D. Protestei inutilmente. já não havia nuvens em Jandira e o repasto foi alegre. Aproveitei essa oportunidade para nos desviarmos de uma conversa melancólica e continuei no mesmo tom. prometi levar-lhe. Belmiro. Despedimo-nos. deliberei passar antes pela casa de Jandira. Declarando-me não conhecer o episódio de Ofélia. Não gosto do Pereira. Não sei como pude resistir sempre. Hortênsia que não deixe o frasco de sublimado perto de você. com outro Pereira qualquer. era o único homem que estava junto de mim. Acontece que sou de carne e osso. respeitadas. Depois.. Belmiro. Afinal. de um garanhão. pelo menos durante a crise atual. Afinal. talvez aborrecida comigo. de graça. já quase com a expressão costumeira. não. É um inferno. Não têm a companhia forçada de um patrão.sejam protegidas por todo um sistema de fortificações—papais. Continuou: —Essas fulaninhas não conhecem o nosso problema. regado a vinho. E respondeu-me: —Com sublimado. e inspire a vocês uma série de lendas românticas. Durante o trajeto de bonde. fortuna—que as torne difíceis. § 29. um exemplar do Hamlet. É mais do estilo belmiriano.. Jandira não é um temperamento poético e há de fazer restrições à descrição da morte de Ofélia. amanhã. Afogar-se é mais romântico. Olhe. quando fomos jantar. Querendo mudar o tom da conversa e dissipar a melancolia da amiga. ficando combinado que serei mais assíduo em sua casa. fui folheando o livro. que é um misto de atrevimento. E amanhã será a mesma coisa. SENDO cedo para ir à Seção. às vezes me dá vontade de acabar com isso. É UM ESPÍRITO REALISTA. sua fisionomia se abriu.

nossas relações. A dar-se crédito ao depoimento da Rainha. de vez em quando. que considera os poetas "traficantes de tóxicos". Havia ido a uma aula de taquigrafia. Ao dizer isto. uma camaradagem estreita que. pretendeu inutilmente. certamente por solidariedade com a velha. sustentado? pelo capitalismo para entorpecer o espírito de rebeldia das massas. Hortênsia. afinal. uma pessoa deveria gritar. reservo avaramente minhas disponibilidades de tempo para velhos amigos. quando a virgem subia ao salgueiro. fazendo-a cair na torrente. aqui em casa. como já disse. Além disso. cortando. Mesmo porque. Arrependo-me. durante o expediente. E Glicério se permite brincadeiras que eu próprio não ouso: chegou a dizer à mana que ia .de trautear fragmentos de velhas canções. Objetará que. concedi-lhe. mesmo louca. sem saber a que atribuir minha súbita mudança de atitude. senti-me trapaceado pelo janota. Jandira impugnará. nunca me despertou senão um interesse superficial. não houve suicídio. procurarei desfazer amanhã. § 30. mas noto que fica serenada com sua presença. e reagi de modo primário. pertencendo a uma casta diversa da nossa. de inveja dela um galho se rompeu. acha-se agora sob a esfera de influencia do amigo Redelvim. um excelente moço e nenhuma culpa tem de não me ter sido útil na aventura em que muito me aproximei do herói manchego. na esperança angustiada de aproximar-me de Carmélia. Se não mudar de idéia. não é minha intenção deprimir o rapaz e enaltecer-me. quase de chofre. vejo agora ao reler o belo episódio. durante dois ou três anos. É. Como poderia adivinhar meus sentimentos. Talvez até lhe conte a história toda. a inveja do galho: é um espírito realista. enquanto se afogava. se os ocultei obstinadamente? Exigi-lhe um absurdo. impermeável aos símbolos e à linguagem da poesia. a situação de constrangimento que se criou entre nós dois. que de nada me serviu no transe. em poucos dias. Não a encontrei em casa e deixei o livro com D. Antes de sua partida. com o seu auxílio. Das pessoas que aparecem. em tal conjuntura. Soube conquistá-la. GLICÉRIO olha-me espantado. não sei por que artifícios. A PROPÓSITO DE GLICÉRIO. É que. Tendo-se arrefecido o meu entusiasmo pela jovem Carmélia. É verdade que esta lhe responde apenas por monossílabos às perguntas. em vez de cantar. e freqüentando-nos apenas por esnobismo. Mesmo o papagaio não o hostiliza. também. é a única tolerada por Emília.

Não o deixarei de procurar amanhã e hei de penitenciar-me de minhas picuinhas. Glicério soube corresponder-lhe às atenções e deu-lhe um corte de cetineta (que dificuldade para obter esse tecido caído da moda!). Tive outro sinal de sua estima ao mancebo num dia em que. exprime que o menino hesitava entre Montes Claros. o famoso anteparo de papelão. Com o dinheiro que levou consigo. quando mais comunicativa: Se "alguém" quisé almoça. E. Emília nunca me permitiu comensais e foi com receio que a procurei. o Indalécio—é como se chama —fez-lhe uma advertência qualquer. buliu com Emília a respeito. cortou-me os rodeios e desculpas prévias: —Não carece falar não. delirante de alegria. e foi o bastante. porque Emília não simpatiza com o homem e nem tolera essa pilhéria de casamento. em vez de simplesmente bater um garfo nos pratos (como faz. suprimiu. convidei-o para almoçar. Brincadeira perigosa. um acontecimento de importância: o velho Giovanni veio verme à tardinha. Bom rapaz. que eu já sei. desta estação. se se encontra com o sacrista volta para casa enfurecida. nesse dia ela veio ao quarto advertir gentilmente que o almoço estava esfriando e que comida fria não presta. ao que parece.. Pois a velha se limitou a baixar os olhos e a sair para a cozinha. que já mencionei em outro ponto destas notas. na expectativa de uma explosão. O mimo. em suma. pouco depois de nossa vinda para a Rua Erê. que não ignora essa rixa. *** Estas considerações a propósito de Glicério quase me fazem esquecer de anotar. na cozinha. depois de ali . o almoço tá na mesa!. Pirapora e Diamantina. aqui. Sebastião. ou de exclamar. Quando Glicério. para anunciar que a mesa já foi posta). Chegado à estação de onde partem os três ramais. para que pusesse mais um prato na mesa. nesse dia. para avisar que Pietro está mesmo em Diamantina. Quando vai à capela (duas ou três vezes por ano. à hora do almoço. em vez de um só direto. Pensa que a gente não entende das coisas! Pensa que a gente não entende das coisas! Coerente em suas demonstrações de apreço ao Glicério. preferiu. tomou uma passagem de segunda classe para Corinto e. timidamente. achando-se este comigo. Acredita o velho que a compra de dois bilhetes. ou apenas na Páscoa). uma outra para Diamantina.promover-lhe o casamento com o sacristão da capela de S. consolidou sua situação perante a velha. Ao dirigir-lhe a palavra. fiquei arrepiado. também. Há alguns anos..

permanecer três dias, seguir para aquela última cidade, na qual mora seu padrinho. E Giovanni interpreta favoravelmente a preferência por Diamantina: indo procurar o padrinho, o garoto já mostrava um começo de arrependimento ou, pelo menos, desistia da intenção de sumir-se pelo mundo. Essas informações lhe foram prestadas pelo investigador meu amigo (o Parreiras), que muito se interessou pelo caso na Polícia Central. Giovanni espera receber amanhã uma carta do seu compadre anunciada em telegrama de hoje. Se não receber, partirá pelo noturno do Norte.

§ 31. UM DIA BEM-HUMORADO.
DÁ-ME vontade de rir, ao relatar, aqui, a celebração de minhas pazes com Glicério. Encontramo-nos antes de entrar na Seção, no momento de marcarmos, no relógio do ponto, a hora da chegada. Disse-me, sisudo: —Bom dia, Belmiro. —Bom dia, senhor Glicério. Como vai o senhor? respondi, mais sisudo ainda. Surpreendeu-se com o acréscimo cerimonioso que fiz ao cumprimento, e ficou sem saber se deveria interpretá-lo como pilhéria ou como advertência para que me tratasse com menos intimidade. Tal foi a expressão de sua fisionomia, que não pude conservar a cara fechada e reprimir uns gracejos. Mas isso, em vez de o pôr à vontade, encabulou-o ainda mais. Por fim, dando-lhe o braço, eu disse que precisávamos conversar, e o conduzi a um canto do saguão do edifício. Com espanto para ele, expliquei-lhe, desde as origens, os motivos por que, de um momento para outro, passei a tratá-lo de modo diverso. Fui rigorosamente exato nessas explicações, que duraram cerca de meia hora. Remontando ao caso de Carmélia, não receei ser ridículo ao referir-lhe toda a história, inclusive a da noite de carnaval. Ao expor-lhe o fenômeno da humanização do mito "donzela Arabela", experimentei alguma dificuldade, pois tive a impressão de que o petimetre me supunha vítima de perturbação mental. Zombei, então, do episódio, para tranqüilizá-lo quanto à minha sanidade de espírito. Contudo, persistia em sua face um ar de comiseração. Em outras circunstâncias, isso me haveria irritado, mas a disposição de esclarecer o caso e talvez a necessidade de confessar a alguém o romance vivido em segredo fizeram com que eu prosseguisse na minuciosa narrativa de minhas tolas aventuras. Também não me aborreceu o aparte, um tanto imprudente, dado por ele

em certo momento: —É extraordinário que você tenha conseguido imaginar tanta coisa em torno de uma criatura simples como Carmélia!... Sim, era extraordinário, concordei de má vontade. Era mesmo divertido. São coisas que acontecem. Depois, disse-me que se eu lhe houvesse confiado os meus desejos, nada lhe teria sido tão fácil como levar-me ao salão da viúva Miranda. Lá esteve algumas vezes, durante o período em que eu tanto me obstinava em obter, sem contudo as pedir, notícias a respeito da moça. E só não falou nisso, porque nem de leve poderia adivinhar meu interesse por ela. A viúva é meio difícil, com suas pretensões de aristocrata paulista— continuou—mas não fazia nenhuma restrição a ele, Glicério, e aos seus amigos. Quanto à donzela, era um anjo. Fina, inteligente, conversável. Teria gostado imensamente de conhecer-me — avançou. Depois da morte do pai, fecharam-se um pouco, era natural. Mas, passado o trigésimo dia, já a família estava recebendo, já se conversava, ali, como em vida do Dr. Aurélio. —Você teria feito sucesso na casa, concluiu com entusiasmo. Fiquei lisonjeado, mas disse-lhe que o assunto estava encerrado; que os mitos se recolheram, competentemente, aos seus lugares; que eu lhe agradecia muito os serviços que não prestara, mas poderia ter prestado, se eu lhos houvesse pedido, e que, ao cabo de tudo, só desejava sua inteira reserva a respeito. —Está certo, não se preocupe. Mas, em qualquer tempo que queira... acrescentou, com uma ponta de malícia. Passei o resto do dia bem disposto. Não sei se a causa disso foram as pazes com o Glicério, se a confissão, com que me desoprimi, ou as palavras amáveis, que me disse a propósito de um possível êxito meu junto à moça. Podem ter sido todas essas coisas juntas. O certo é que tive uma tarde bemhumorada.

§ 32. OS ACONTECIMENTOS CONDUZEM OS HOMENS.
E ASSIM vai a vida... Os acontecimentos que até aqui se desenrolaram e em que desempenhei ora o papel de ator principal, ora o de espectador, mudaram, por completo, as intenções deste livro. Naquela noite de Natal, ao início destas notas, expus o plano de ir alinhando apontamentos que me

permitissem publicar, mais tarde, um livro de memórias. Estava, então, concebendo qualquer coisa, e essa coisa se me agitava, no ventre, reclamando lugar ao sol. Jamais pensei, naquela ocasião, ou antes dela, que o presente pudesse vir dominar-me o espírito por forma tal, dele expelindo as imagens do passado que então o povoavam, abundantes e vivas. Estive refletindo, esta tarde, em que, no romance, como na vida, os personagens é que se nos impõem. A razão está com Monsieur Gide: eles nascem e crescem por si, procuram o autor, insinuam-se-lhe no espírito. Não se trata, aqui, de romance. É um registro nostálgico, um memorial desconchavado. Tal circunstância nada altera, porém, a situação. Na verdade, dentro do nosso espírito as recordações se transformam em romance, e os fatos, logo consumados, ganham outro contorno, são acrescidos de mil acessórios que lhes atribuímos, passam a desenrolar-se num plano especial, sempre que os evocamos, tornando-se, enfim, romance, cada vez mais romance. Romance trágico, bufo ou sem nenhum sentido, conforme cada um de nós, monstros imaginativos, é trágico, é cômico ou absurdo. Vejo que a história do presente já expulsou, definitivamente, destes cadernos, a do passado. Carmélia (travestida de Arabela) e Jandira afastaram a sombra de Camila, que, bem o percebo agora, era outra encarnação do mito infantil. Silviano, Redelvim, Glicério, Florêncio e Giovanni e seus pequenos mundos baniram os fantasmas caraibanos, as evocações dos velhos Borbas, a vida sentimental da Vila e da fazenda. Em vão, tento uma sondagem em Vila Caraíbas, naquele ano extraordinário de 1910. Baldo esforço: como resistir a personagens e fatos que, a cada instante, incidem no plano de nossa consciência? Às vezes ainda me vem a necessidade angustiosa de rever antigas paisagens, evadir-me para uma região que realmente já não se acha no espaço, e sim no tempo. Mas, no comum dos dias, agora é o presente que me atrai.

§ 33. RITORNELO.
ESCAPOU-ME ontem, à noite, esta lamentação: acham-se no tempo, e não no espaço, as gratas paisagens. Verifiquei esse angustiante fenômeno quando, em 1924, fui à Vila pela última vez. O Borba já havia morrido, a fazenda passara a outras mãos e as velhas já aqui estavam com sua extravagante bagagem. Camila ainda vivia. Lembra-me quão penoso foi o encontro com o passado. Lembra-me o dia em que só, debruçado no peitoril da varanda, na

polcas no salão cheio de retratos. que só possuía. vivo. que é procurar as sombras de um mundo que se perdeu na noite do tempo. muralha do meu mundo antigo. a montanha. desde que deixou de existir e se arremessou para trás. a gameleira solitária no monte—que viviam em mim. penetrar no mundo que já morreu e que. os olhos apenas refletiam imagens. em comum com aquele. com um sol grande a despontar na serra. ou. fremente. os esfumados traços de coisas que se vão extinguindo. a serenata. em outros tempos. Inútil tentativa de viajar o passado. e seus olhos me diziam da Eternidade. quem sabe. ao som do velho piano. exibiu-me apenas a ossatura desnuda daquilo que. inapelàvelmente. A essência da juventude parecia haver-se aprisionado em seus gestos. envolvendo-me naquela onda de saudade e naquele desejo de encontrar uma forma de morte. e não criatura. fora um corpo exuberante de vida. com um vago olhar. porque algo impedia uma comunicação entre o mundo de fora e o de dentro. afinal? O que a meus olhos surgiu foi a sombra miserável de um tempo que morreu. as colinas e os vales que se desdobravam até ao azul da Serra do Juramento. Onde pretendi encontrar a alma das épocas idas. naquela noite de 1907—ali já não estavam. e a lagoa. O sertão estraga as mulheres e a pobreza as consome. fiquei a percorrer. Vila Caraíbas. A velha fazenda. já longínquos e mortos. se nos tornou interdito. e borboletas. Que restava de tudo. Na verdade.fazenda. ao cotejar com a realidade as invenções de uma desenfreada fantasia. O luar. trancas de 1910. e beija-flores. ao morrer da luz. A namorada. ou apenas esboçados por um luar inesquecível que caiu sobre as coisas. Mas. a fazenda. logo as devolvendo para o exterior. Segredos de moça em flor. dos Borbas. cores e aromas de cada objeto ou de cada perspectiva. que. ai de nós. para sempre. que se apresentavam aos meus olhos. o buriti. . em certas oportunidades. e pesada tristeza. arquétipo. devastação maior lhes causa porventura a nossa imprudência. o rio. os irmãos pássaros. em hora por si mesma de intensa melancolia—a hora rural do pôr do sol—. as linhas. Como se pode suprimir uma lagoa? Como se pode cortar uma árvore? É como se destruíssemos algo humano. o buritizal. Percebi que vago delírio se apossara de mim. iluminados por um sol festivo de 1910. em vez de se localizar em nós mesmos. rico de uma paisagem mais numerosa. não encontrei senão pobres espectros. A lagoa foi drenada e convertida em pasto. nos parece estar no fundo e na forma de cada coisa. Em vão' busquei nas linhas. o campo orvalhado em manhãs de maio. cores e aromas de outros dias. Camila era a virgem na sua realização integral. a lagoa.

que lhe configura a imagem no tempo. pois lhe foge. sem o risco de falseá-los. nestes apontamentos íntimos. no domínio físico. ou em determinada noite primaveril. há uma semana escritas. Que me perdoem os abalos passados e os futuros. Desejaria planar suavemente. e o tempo está é dentro de nós. como no penúltimo capítulo. "DESCULPEM A POEIRA". a fazer considerações em torno da mudança de rumos. Começo. levantam nuvens de pó. sem distinção. as coisas estão é no tempo. o cartaz "Desculpem a poeira"—tanto mais gentil quanto o pedido de desculpas é. algo se desprende da coisa. fugiu nas asas do tempo e só devemos buscá-la na duração do nosso espírito. o que.*** Não voltarei a Vila Caraíbas. mas gentilmente trazem. dirigido a todos os que vêm depois—apresento aqui minhas escusas. cada dia. a cada instante: é o espírito cotidiano. a própria vida. que esconde uma desagregação constante. sentimentos e vagas idéias. e quero apenas significar que. no último. As coisas não estão no espaço. Esse espírito sutil representa a coisa. Na verdade. Como os autocaminhões que. impressões. as derradeiras páginas. que dela emerge. nestas profundas regiões caraibanas do meu espírito. doce. Em vão o procuramos depois. assim como a matéria se esvai. tanto se acha embebido de tudo o que de mim provém e constitui a parte mais íntima de minha substância. se nos depara é totalmente estranho. inesquecível. no momento preciso em que com ela nos comunicamos. os que me acompanham. Há nelas ilusória permanência de forma. então. Este caderno. tornou-se. um problemático leitor futuro sentirá os abalos que tais desnivelamentos determinam. Mas não me refiro à perda da matéria. novo. . agora. Em todo este esboço de livro. A alma das coisas. nos domínios da sensibilidade. ainda que infinitesimal. § 34. a meus olhos. a que fui forçado na elaboração destas notas. que às vezes me parecem tão remotas e metafísicas. pendurado na parte posterior da carroçaria. percorrendo a estrada de Morro Velho. mas falta-me engenho para isso e nem poderia pô-lo. e acabo por mergulhar. RELENDO. as coisas estão é no tempo. em certa manhã de maio no ano de 1910. conduzindo. tão rápidas e súbitas que a mim próprio me pasmam. para dar lugar a outro. sem tropeços. fico a pensar nestas diferenças de nível que me acorrem. onde alinho episódios.

ajustando-o aos quadros cotidianos. e certamente por isso não ofereceu resistência. mais achacada da gota ciática e já não suporta os esforços violentos a que a irmã a obriga. reconheceu logo a necessidade da medida. desde que as velhas se acham comigo. a levar Francisquinha para o Instituto de Alienados. Chegado à sua toca da Rua Erê. agitavase muito. Tais desnivelamentos é que compõem minha vida e lhe sustentam o equilíbrio. mas não se imprime um livro para uma ou duas almas irmãs. Está ficando mais velha. fui forçado hoje. A casa me parece mutilada com a sua ausência. A pobre mana se recusava sistematicamente a ingerir alimentos. Emília também se ressente da falta da Chica. Sempre a tratou como a uma criança de colo e suas diabruras deveriam diverti-la. que sempre relutou.Não é senão por isso que fugiria a publicá-lo. a ponto de querer agredir-nos. mas consegui convencê-la de que o caso pertencia à medicina. A um Belmiro patético. Emília quis recorrer de novo ao espiritismo. se acaso oferece espetáculo de interesse para quem quer que seja. estava. No correr desta semana (que ficou em branco no caderno de notas) suas crises se tornaram fortes e freqüentes. com o malogro da tentativa feita na sessão de quinze dias atrás. quando de outras vezes tive de valer-me do Instituto. um pouco desencantada. ali. Não excluo a hipótese de que alguma âmesoeur (e deve havê-la. uma temporada. torna-se mais calma e volta para casa. enorme. COM grande pesar. aliás. terei de dar-me como sou. o Belmiro egresso de Caraíbas se apalpa. perguntando-me. É medida extrema. e temo que não as encontre em maior número. durante o dia e às primeiras horas da noite—modifica o aspecto das coisas e me oprime. Passa. Publique-o ou não. se reajusta e assobia a fantasia do Hino Nacional de Gottschalk. neste vasto mundo) possa comprazer-se e contemplar-se na leitura dele. FRANCISQUINHA PIORA. que se expande. a mim próprio. § 35. e gritava dia e noite. pela manhã. alimenta-se melhor. como a . Já lhes contei que nada ou pouco fala à irmã. que compensa o primeiro e o retifica. Emília. na atmosfera caraibana—contemplando a devastação de suas paisagens—sempre sucede um Belmiro sofisticado. que não tenho empregado muitas vezes no curso destes doze anos. O médico que ali a recebeu prometeu melhorá-la com a aplicação de duchas e injeções. Um grande silêncio—a que estou desabituado.

há cinco dias. em nós. Informados de que eu me achava preocupado com a situação doméstica. mas sei quanta ternura se esconde por trás da cara fechada dessa velha Borba.mim. consentiu em ficar mais alguns dias sem ver o bambino. Na carta. ainda que pelo avesso. de emoção. a bater no peito. Há. CARMÉLIA. dizendo que hoje dormimos arlequim. que fala mal. ainda. Abraçaram-se demoradamente. Estou deixando que o velho volte à vida habitual e o menino se adapte à situação (está muito desapontado. a lamentar-se no seu dialeto (pude notar que. mexa com as galinhas. A mulher estava adoentada e ele não poderia ausentar-se imediatamente. O velho Giovanni. que compõem as formas sucessivas do nosso espírito. de acordo com a informação do Prudêncio). para anunciá-la a amigos e conhecidos. registrarei aqui dois encontros com Jandira e um com Silviano. Durante as duas semanas de separação e principalmente nos seis primeiros dias. qualquer coisa. o velho ficou quase louco. Explicar-me-ei. de ponta a ponta. tomando-lhes os pintos. AFINAL. várias. para movimentar nossa solidão. ignorado o paradeiro do menino. As vestes ficam guardadas num armário de nossas profundezas onde se amontoam indumentos de infinita variedade. subiu a dos Pampas e andou pela Rua Diábase. o compadre pediu prazo para vir. as combinações múltiplas. transfigurado. se exprime na língua natal. pela Rua Erê. Alguém . tantas vezes contraditórias. Por último. abismos insondáveis. recebida a carta do compadre de Diamantina. que jamais exploraremos. esquecendo-se da nossa. mas sempre fala para ser entendido). suje a roupa com seu sistema de lavagem e faça. que foi a volta do Pietro. Foi a custo que. § 36. enfim. Contou-me o Prudêncio Gouveia que o regresso do menino foi patético. quando era. na rua. onde se recolhem. desceu pela do Piau. se está abalado em sua sensibilidade. chorando e trocando abundantes interjeições. Destacarei o mais importante. Vivia a chorar. Marianina foi para a cama. pelo tempo que lhes apraz. DE NOVO. Tais preocupações impediram-me de registrar alguns acontecimentos da semana. são inúteis essas tentativas de análise e de interpretação de nós mesmos. para depois lhes fazer minha visita. limitaram-se a pedir notícias da mana e a oferecer os préstimos. correu. amanhã acordaremos pierrô. Já não há quem dê mingaus a ratinhos.

Descobri que Glicério a amava. À sorrelfa. com mil pretextos.. como se a culpa fosse sua. ora minha. Carmélia bailava à sombra de árvores que refulgiam ao sol. durante o sono. Por que não tive coragem de me abrir e de rogar que me levasse à casa dela? Conversamos o dia todo. para me aconselhar que não ficasse a cantar. se desvaneçam os espectros que. quando o sonho se tornava rasgadamente fantasioso: vestida com uma túnica diáfana. chamando-me à realidade. Só posso dizer que experimentei hoje uma recidiva violenta. ora de outros.. Uma semana depois. tomei o das dez e pus-me um tempo enorme. também. antes. a fim de encontrar Glicério. falamos de tudo. na Praça. pondo-nos de casaca e em cuecas. E à tarde despedi-me dele. com rancor. E esse alguém às vezes se diverte. Fiquei aflito por que chegasse a hora do trabalho. e ele apareceu à porta. e hoje somos o que ontem fôramos e não quiséramos ser mais. Parecia. Não são decorridos quinze dias. dentro de mim. Aurélio. certa coerência. tiro do altar o meu mito. amanheci angustiado depois de ter passado uma noite fértil em sonhos. Faço esta divagação para me justificar. O fato é que se frustra todo o esforço que despendemos para nos impor certa disciplina. em vez de me aproximar dela. a gente não sabe como essas coisas acontecem. Em certo momento. e amanhã seremos o que não queremos. . à luz do dia. jamais poderia pretender a moça. compuseram uma Carmélia imaginária. faço com que. certa unidade. Depois. acordei. Um desses sonhos (não sei se foi um. na Seção. em minhas condições de vida. e. Eu fazia uma serenata (como nos velhos tempos) sob a janela da namorada. a mão esquerda terá de limpar o que a direita escreveu. supondo-a uma burlesca história do passado. passou a afastar-me. cedendo a um impulso de revolta (?). participando de cada um. a esperá-lo. menos de Carmélia. Há cerca de vinte dias. julgo-me curado da fantasia. algum diabo malicioso inutiliza o nosso trabalho. Como já disse. Estou com vergonha de confessar o que se passa comigo. Acordei. um gracioso espírito do ar. Começou a interessar-se por ela desde que o pus a par dos meus amores e. . na noite úmida.. ora morta. com pesar. Em vez de tomar o bonde das onze. de pijama. de acordo com um critério que nos escapa. mostrando que. quem surgiu em cena foi o falecido Dr. ou pregando-nos um rabo de papel no jaquetão. pilherio comigo mesmo. como a atrair-me. Quando me estendia as mãos. Carmélia me apareceu neles. ou muitos) me impressionou amargamente. disse-me duras franquezas. poderia apanhar uma pneumonia. chego a relatar ao Glicério toda a história.no-las troca sorrateiramente. ora viva.

percorri-a folgadamente. Não vale a pena pensar nas dificuldades da vida. pois. sei. Entretanto. Emília se acha de cama. aqueles que poderiam merecer o qualificativo de "eternos". O que nos deve preocupar são os problemas eternos! A exclamação que ouvi dentro de mim foi do Silviano. Não deveria preocuparme. O ordenado se foi nessas despesas imprevistas e ainda há contas por pagar. Depois. que é de calçados) sempre me despertam a tais horas. imaginando que Emília demoraria a levantar-se. que a manhã nasceu bela e o corpo pedia um passeio. vi que a bela manhã deste domingo valia um passeio e preferi fazê-lo. aos domingos ou dias santos. E a força do hábito faz com que. Problemas eternos! A razão talvez esteja com Silviano. Belmiro! § 37. AO RECOLHER-ME. sei. Amanhã terei de visitar o agiota. agora.Encontro uma sorte de libertação em escrever estas páginas. pois não tem passado bem as noites. Mas a lucidez. embalado pela música das máquinas. a primeira idéia que me veio foi a de procurar. A voz veio de dentro. Devo também esclarecer que sempre embromo os donos das fábricas reais e o da fábrica imaginária dos'domingos: acabados os apitos. e é ridícula essa trama sentimental em que me envolvi. antes. Olho em torno. entre os problemas. Lá está Francisquinha no Instituto. O "PERREXIL". e a que se acha por trás do lote vago. Sei que estou amando a mulher e não o mito. Creio que com ele sonhei. Os apitos das duas fábricas próximas (a da frente. não serve senão para me mostrar que continuo personagem de uma novela de amor. Desde dois dias. É ridículo. que é de toalhas. Não me faltam cuidados na vida. chegando à Avenida Paraopeba. eternos ou não. Eram seis e meia. e as aflições do dia se dissipam. não há nada. Às vezes estou a pensar e ouço um interlocutor. ontem à noite. deixando de lado os problemas. embora estejamos a sete do mês. Deliberei tomar o desjejum na cidade. doente. pensava no Silviano. fiquei reduzido a níqueis. com majestade. ponho-me de novo a dormir. que me vem. embora não haja trabalho. eu acorde assustado. Dedica-te aos eternos problemas. Desci a Rua do Piau e. em toda a . pelo timbre era idêntica à do amigo. que as coisas voltam e não vale a pena fazer projetos. ao despertar de manhãzinha. porém. É bem possível que amanhã tudo seja diferente. ouvindo qualquer apito do outro mundo. com estas coisas? —Não! diz-me alguém. porém. Já lhes disse.

dando-se como secretário da Universidade. e a brisa agradável me ajudava as pernas. veio-me o palpite de pegar o primeiro bonde. para um giro qualquer. fechou. São mais quinhentos mil-réis. com uma cara muito satisfeita. Joana não desconfiou. —Ótimo. foi a do amigo Silviano. A mim às vezes me chama Porfírio. Toca a andar. que não fosse dos meus. e viemos falando acerca de outras coisas. Vão dar-me a cadeira. mas retrucou que poderíamos ficar tomando alguma coisa. Ande. é arranjar as coisas com a Joana. na capela do Colégio Santa Maria. me telefonará. Tomei um cafezinho na Rua da Bahia. Está aflita por que eu obtenha a cadeira. Como se tivesse havido uma comunicação psíquica entre nós. Seu nome é Sebastião. Você se despedirá e irá incontinenti ao café da Rua Pernambuco. o sol ainda era fraco. e cedi. Apareceu o da Floresta. a uma hora destas!" Silviano me disse que fora à missa. pelo telefone. Mesmo por isso não insisti. Oh! oh! oh! Com mulheres. mas. porém. chegamos até a sua casa e ali fiquei a conversar e a folhear livros. o único da rua. pois acabamos passando todo o dia juntos. mas o Silviano. a ambos. a questão. a mesma exclamação de surpresa: "Você por aqui. chispe. Silviano segredou-me que possuía convites para o Country Clube e desejava levar-me em sua companhia. aceitei o almoço. tinha-o a meu lado. no primeiro poste de parada. Objetei-lhe que não éramos homens para lugares mundanos assim. Ficou até a apressarme. ótimo. que o Reitor quer ver-me com urgência para conversar comigo sobre os programas do curso de literatura. Fiz tudo conforme prescreveu o Silviano e. em cuja casa há um desses aparelhos. disse-me. ainda. Depois de andarmos um pouco pelos cafés. por algum tempo. Vamos procurar o Estrabão. meu velho. em chegando à esquina. por intermédio do Prudêncio Gouveia. a cara que se me deparou. tem a mania de mudar o nome das pessoas. —O problema agora. porque sei que não é dessas devoções. na Avenida. Foi um encontro cheio de conseqüências. Desta vez. olhei os jornais e. logo que estivemos a sós no escritório. a quem atender ao chamado. Estrabão é o chofer do Silviano para excursões de caráter reservado. mandar um aviso prévio a Emília. abanquei-me nele e fui até ao fim da linha. Dirá.extensão. durante o trajeto. a um canto. Terminado o almoço. ao voltar. A um convite insistente de Joana. que é nome de dois dos . já escrevi. Tentei esquivar-me. pouco depois. de onde. Escapou-nos. tendo tido o cuidado de. sem que fôssemos incomodados e que seria divertido observar os "filistinos". aparente calma. A explicação complicou mais ainda o caso. uma desculpa dessas é tiro e queda.

Aliás. mas forças contrárias tudo desfizeram. respondeu. minutos depois. Que vem a ser isso? —Eis aí. me confiou um segredo: —Não me deram os convites. —Já não está aqui. luz no escritório e ficou a resmungar. e lembrei-lhe que estávamos sem transporte. doutorai. se este algum dia me cair de novo sob as . § 38. e ao Florêncio. Ia procurar o Perrexil. Eu não podia deixar de vir. ora meio sorumbático. de cujo edifício nos aproximávamos. disse-me. abancamo-nos em torno de um litro de uísque. tinha a fisionomia transtornada. deixando-me a sós Com a bebida. agora. entre estes filistinos? Vamos embora. rindo-se: —Saio com um passo grave. deitei-me.. Porfírio. Vamos. quando planejo uma sortida. Ultimamente. bebamos. inclusive este. até que ela me mandasse para a rua. previ os mínimos pormenores. Você imagina. situado num recanto da montanha. Depois. aparentando a maior circunspeção. Animado pelo uísque. acordou. o "Perrexil" está aí. com grande irritação deste. Depois. uso vários. Consolei-o como pude. Já está gasto o processo antigo. pego "embalagem". Apanharei a narrativa no ponto em que a deixei ontem. sentindome cansado. Silviano contou-me coisas que muito me ajudarão a decifrar seu Diário. apontando para o clube. Já não está aqui. Chegados ao clube. preciso renovar sempre os meus expedientes. Tive de obtê-los laboriosamente. ora caceteando a família inteira. PARABOSCO & FERRABOSCO LTDA. "Perrexil" é o estimulante do pensador. Idealizei tudo. rápido. Mas. O Estrabão só daí a uma hora viria buscar-nos.meus avós. Silviano olhou com ternura o litro de Mc Callum's. Já que os deuses não são propícios. Quando voltou. passou-lhe a mão pelo gargalo e disse-me: —Está bem. Silviano ia-me dizendo pelo caminho: —É a técnica. Emília tossia muito. é moroso e de resultado incerto. pela fresta da porta. Um tanto inquieto. NÃO PUDE terminar o relato da conversa com Silviano.. Perrexil é a Musa. pela estrada afora. Há uma conspiração universal contra mim. chama Abundâncio. este se ausentou logo. Fui acalmá-la e dar-lhe uma colher de xarope. Joana me traz de olho. pedido pelo Silviano. E. Estrabão pisou no acelerador e nos levou. Eu ficava em casa. Que havemos de fazer. quando dobro a esquina. viu. Vocês querem ser literatos sem ter lido Camilo. —"Perrexil"? perguntei.

no alpendre. Dir-se-ia que sofre de gota-serena. quando morreu a mãe da moça. um chapéu! exclamei. Amava. informado de que a moça se achava só. em alemão. —Porfírio. que pretendia dela.. fabricante de tijolos. o amor. um chapéu.. filha de um espanhol rico. não. O "Perrexil" é uma jovem de nome Dolores Gigedo. ajunto eu.). Ela jamais compreenderia o "fenômeno". emendei. para ele. proveniente de lesão na retina e alteração no nervo ótico." concluiu com um ar cismador. na expressão do olhar! Contou-me. E um belo dia. nela. tentou abraçá-la (esquecendo-se. com citações. Silviano. —Que idéia. Que tem isso? As mulheres gostam muito de chapéus. Conheceu-a um dia. na Avenida. E deu-lhe presentes. Foi-lhe apresentada pelo irmão. um chapéu. cisterna. um capítulo a fio sobre a função do nervo patético. talvez tivesse tido melhor acolhida. —Que olhos! continuou.. se fora menos transcendente. Não gostou do aparte e passou a contar-me os fracassos das . senhor. E não sou nenhum idiota para dar logo a minha identidade! Mandou-lhe. a eterna graça. depois. Belmiro. Foi grande o susto que esta experimentou. deixando-o sucumbido. —Continuo a amá-la violentamente. declarou-lhe amor. de que não se pode abraçar um universal.. Impressionaram-me tanto. atemorizada. .. Porfírio. Dãome a impressão de água parada. que andei lendo. em Dumas. E abismou-se em seus olhos. Dolores lhe perguntou. Há poucos meses. de Heine e Goethe.. um universal e não um particular. Depois. a vida que foge. disse-me. a moça em flor... Representava. uma amaurose. apareceu-lhe de supetão em casa. disse-lhe ser o homem que desde algum tempo lhe mandava coisas e escrevera a carta. Lembram-me um verso de Baudelaire: "Tes yeux sont la citerne ou boivent mes ennuis. Os olhos dela são estranhos. Descobriu-lhe o endereço. Silviano nada sabe a seu respeito senão que possui uns olhos excepcionais. aluno dele. escreveu-lhe uma longa e sentida carta. tudo isso sem se dar a conhecer. que não a tem visto muitas vezes. —Que olhos. pois.. Silviano de pé. Dolores reagiu e correu para dentro. mandou-lhe. de presente. Observei-lhe que. mandou-lhe um perfume francês e outras coisas mais. —Você já ouviu falar em gota-serena? Não ouviu? É uma doença dos olhos.vistas. novidade da estação. assim sem mais nem menos? —Sim. quando a mãe morreu. Respondeu que não queria nada.

nos cabarés de luxo. Vou recomendá-las ao Ferrabosco! pensou. Presentemente estão eles em entendimento com o proprietário de um edifício à Praça Sete. procurando um meio de auxiliá-las. para prolongá-la sempre. por uma "sinuosa". durante o relato.. No alto da colina. quem é Ferrabosco? Imaginou. nada menos. um italiano chamado Ferrabosco. o que convinha a seus amigos Parabosco & Ferrabosco Lida. um prédio de numerosos andares. ao andar pelas ruas. as expressões ora de surpresa. Eis como nasceu esta novela cerebrina: Ia passando. Homens arrojados. colocou-as facilmente nos escritórios do Cassino. Silviano acompanhou. finalmente. a fim de consultar revistas de arquitetura. que se associara a outro de nome Parabosco. Estavam enlutadas pela morte do pai. que converter a Pedreira Prado Lopes num luzido centro de diversões. de linhas moderníssimas. criando a firma Parabosco & Ferrabosco Ltda. há dias. Achou. Condoído da sorte delas (ficaram em extrema pobreza). assim. nada mais. Não me estou avizinhando da loucura. correu aflito a casa de um arquiteto conhecido. ou de pena. Não conseguindo detalhar o interior do edifício que imaginara. Cada dia. O Ferrabosco se apaixonou pela mais velha e com ela fugiu para a Itália. Disse que constantemente sonha acordado. com que minha fisionomia me denunciou os pensamentos. freqüentado pelo grande mundo. um cassino de luxo. no local. subitamente. tudo como se fosse realidade. Depois voltou. então. Para chegar ao edifício. do gênero folhetinesco. Atualmente vive o caso de "Parabosco & Ferrabosco Ltda. Com o olhar atento. *** Ao sétimo uísque deu para me contar estranhas coisas em que não sei se devo acreditar. ladeando docemente a encosta. retoma a história no ponto em que a deixou na véspera. quando viu duas lindas jovens. Voltando às moças. pôs-se a dar tratos à bola. ora de incredulidade. Já estudei . Resolveu. que se suicidara. Fracassara mais uma vez. Mas. Por último.tentativas anteriores. Vários episódios se sucederam. o problema delas. Mas a história de Parabosco & Ferrabosco ainda não terminou. assegurando-lhes a proteção da importante firma. Comprá-lo-ão para o derrubar e construir. estava ali. Parabosco & Ferrabosco fizeram. as meninas figurando sempre. de grande iniciativa. os freqüentadores subiam de auto. pela Rua Caetés.. —Não se impressione. recompôs-se com a família e a moça ficou por lá. Chega a urdir histórias inteiras. numa contínua produção de fantasias.

reclama o outro. Achei a doente bem melhor. perguntando se não era feitiço. QUANDO me assentei no banco do bonde que deveria levar-me ao Instituto de Alienados. Alimenta-se. É uma forma de imaginação difluente. quis acompanhar-me. Estrabão havia chegado e tocava insistentemente a buzina do carro. .o fenômeno. mas pôs-se a rir. Notei-lhe paz na fisionomia. NO INSTITUTO. Vendo o pacote de biscoitos. amistosamente." "Mas isso me fere os ouvidos afeitos ao bom vernáculo". respondi. terminou. dorme tranqüilamente. Nosso amigo claudica sempre nas regências verbais e Silviano não estava conosco para lhe chamar a atenção. não aceitei o convite. —Que vai fazer em Santa Ifigênia? Nunca lhe vejo por aqueles lados. quando entrei no quarto. Na volta. Os cabelos. Forma frustrânea. Quis trazê-la comigo. suponho. o que é bom sinal. Não é da sua conta. depois. "Deixa eu falar como eu quiser. Muitas vezes brigam por causa da língua: "Que é que você tem com isso?" retruca Florêncio. dizendo que a guerra iria acabar e poderíamos voltar para a Rua Erê (aludia. coisa que desde muito tempo Emília não conseguia fazer. esperou-me no saguão do edifício para não perturbar a visita. na revolução de Trinta). estavam arranjados em trança. quando nos levantávamos para sair. Florêncio procurou reter-me na Avenida.. Aflito por dar boas notícias a Emília. Vireime: era o Florêncio. Não se levantou. Espírito romanesco. furioso. Piorou muito e tive de levá-la para o Instituto. O caso não tem gravidade. Florêncio. —Vou ver Francisquinha. e regressei alegre à casa. Achava-se sentada na cama. A velha abriu-se em sorriso (coisa tão rara!) quando lhe contei a conversa com Francisquinha. que lhe levei.. e já não tem acessos violentos. segundo me informou a enfermeira.. alegrou-se como uma criança. mas o médico de plantão objetou que o tratamento não.. que ouviu a notícia com ar compungido. a coisas passadas há cinco anos. e fomos juntos. ficou séria. alguém me tocou no ombro. meio grisalhos. § 39. e comi um para dissipar as dúvidas. Afirmei-lhe que não. Lá chegados. perguntou-me.estava findo e que não deveríamos interrompê-lo.

—Qué dizê qui está mêlhó! Que dizê qui está mêlhó! exclamou, satisfeita.

§ 40. CHOQUES.
ESTIVE hoje em casa de Jandira e lá encontrei Redelvim. Percebi que ficaram desapontados com a minha presença e que esta foi interromper uma conversa ainda não acabada. Com certeza, maquinavam revoluções, porque, pouco depois, com irritação mal disfarçada, Redelvim me disse: —Então, continua nessa vidinha sórdida de pequeno burguês? Minha resposta foi perguntar-lhe se tinha cem mil-réis para me emprestar (realmente, estava precisando). Jandira sorriu, e Redelvim, que continuava azedo, respondeu: —Não prova nada a sua exibição de quebradeira. Você pertence à pior espécie de burgueses: os que o são por sentimento, e não por instinto de defesa da propriedade. Fiquei calado, sem dar resposta. Redelvim se obstina em não me compreender. De que servem as discussões? Sei que, apesar de tudo, é meu amigo e pensará de outra forma, agora ou mais tarde. Por que hão de classificar os homens em categorias ou segundo doutrinas? O grande erro é lhes oferecerem apenas caminhos radicais. Socialismo, individualismo, isso, aquilo. As idéias da gente podem não comportar-se dentro dessas divisões arbitrárias. Não é possível ser-se tudo, ao mesmo tempo? E, se sentimos que a verdade e a contradição foram semeadas em todos os campos, como poderemos definir-nos? Tudo o mais é violência ao espírito. Dizem que tal perplexidade ou cepticismo conduzem à inação. A prova do contrário está em mim. Atuo, no meu setor, como se acreditasse nas coisas. As necessidades vitais fazem o indivíduo agir e não permitem que ele se tome um contemplativo puro. O que é injusto é quererem extorquir de nós uma definição, quando a procuramos, em vão, sem a encontrarmos. Redelvim me olha com desprezo neste momento, mas talvez me compreenda amanhã. Às pessoas de sensibilidade não é fácil resistir aos atrativos do romantismo político da época. O mais cômodo é entregarmo-nos a ele, acompanharmos a maré. Mas teremos procedido honestamente, com relação ao espírito? Meu silêncio, em vez de pôr termo à conversa, exasperou o meu contendor, que não me deu tréguas. Estava em um dia de excitação, nesses dias de raiva descomunal, que lhe vêm. Então, fica sempre contra. Contra qualquer coisa, contra tudo. Se eu adotasse seu ponto de vista, estou certo de

que, dentro em pouco, ele me contrariaria pela mesma forma. —Afinal, que é que você é, na ordem das coisas? perguntou-me. —Talvez um "individual-socialista", respondi, para lhe satisfazer. Você, tão lógico, tão seguro de suas idéias, não vai achar sentido nisso; o certo é que não encontro vocábulo que me defina. Talvez esses dois juntos me tirem do embaraço. Se vier a revolução, não é preciso, porém, que me deportem ou me fuzilem. Sou um sujeito inofensivo, para todos os regimes... Minha resposta o enojou tanto, que dessa vez foi ele quem se calou, provavelmente para não me dizer coisas duras. Aproveitei o ensejo e despedi-me, alegando que ali estava apenas de passagem a fazer hora para o dentista. Jandira tentou reter-me, mas apeguei-me a uma dor de dentes imaginária e saí. Não o deixo de estimar por isso. Os companheiros são raros, precisamos conservá-los a todo custo. E quando não possamos ser amigos cem por cento, sejamos cinqüenta ou vinte. Quando encontro, em alguém, cinco por cento de afinidade, contento-me com essa escassa percentagem. Para preservar nossa amizade, tenho procurado pouco o Redelvim ultimamente. E tenho-o conversado menos ainda, principalmente em presença de outras pessoas. Criva-me de ironias, aborrece-me. Não lhes falei que ando sempre desconfiado. Muitas vezes, ao chegar a casa, fico a dar balanço às palavras trocadas com os amigos, com tanto maior desgosto de mim próprio, se notei que alguém, na roda, acolheu, com sorriso irônico, alguma observação minha. E sou sempre gauche. Quando converso, as melhores idéias ficam cá dentro, sem encontrar expressão, e freqüentemente digo coisas que não deveriam ser ditas e que, de ordinário, não foram meditadas. Como explicar certos despropósitos que, mal proferimos, nós próprios imediatamente reprovamos, mordendo os lábios de despeito, porque ninguém saberá que a nossa censura funcionou, logo depois, dando-nos a conhecer a inépcia daquela idéia? Por orgulho, não voltamos atrás e preferimos sustentar a infeliz opinião. Cada vez nos perturbamos mais, e acabamos dizendo dez tolices, em vez de uma. Fico a conjeturar que se trata de uma vingança das idéias tolas. É provável que, repelidas mais de uma vez, quando nos achamos vigilantes, elas fiquem andando a esmo, pela cabeça, a conspirar contra nós. Um ligeiro cansaço nosso, eis que a asneira sai. Será uma vingança das parvoíces, ou a necessidade irreprimível de nos vermos livres delas? O certo é que nos escapam, escolhendo maliciosamente a pior oportunidade. ***

De que valem esses choques entre amigos? Cada qual continua onde estava, aferrado às suas idéias. Tanto mais aferrado, se as contraditamos. No que me toca, julgo ter chegado a uma altura em que a gente já sabe aquilo que é, e para que é. Não no domínio metafísico, mas no da vida corrente. "Fay ton faict, et te cognoy", aconselha o velho Montaigne, repetindo Platão. "Qui auroit à raire son faict, verroit que sa première leçon, c'est cognoistre ce qu'il est, et ce qui luy est propre: et qui se cognoist ne prend plus l’estranger faict pour le sien. .." Sou apenas um poeta lírico, em prosa, e só desejo que me deixem sossegado. Façam os outros o que lhes convém, ou o para que estejam destinados. Farei o que me é próprio, isto é... § 41. MATINADA. JH^ADRUGADA DE 12 DE OUTUBRO.-Compus um hino ao Dia, imitando o alto estilo de Zaratustra, mas tive o bom senso de rasgar a folha de papel em fragmentos miúdos e atirá-los à cesta. A posteridade ficará, pois, privada desse documento. Na verdade, foi uma linda aventura. Recolhendo-me ontem muito cedo, contra os meus hábitos, acordei às quatro da manhã, e perdi o sono. Durante uma hora, tentei conciliá-lo e permaneci nos domínios proustianos da insônia, onde os pensamentos não têm contornos nítidos e a consciência se confunde. Depois, como os bondes começassem a descer a Rua Erê, os gaios iniciassem seu concerto e, finalmente, a fábrica desse indícios de vida, verifiquei a inutilidade de minhas tentativas e levantei-me resoluto. Bela antemanhã! Subindo a Rua Erê, tomei à esquerda a Rua Diábase, que, mais para o alto, recebe o nome de Esmeralda. Segui-a até ao fim e, pela estrada que a continua, cheguei ao Morro dos Pintos. Do alto da colina, contemplei Belo Horizonte, que apenas despertava. As cores, já vivas, do céu e a luminosa beleza da cidade feriram-me os olhos. Os edifícios suntuosos, os grandes jardins públicos, as retas avenidas situam Belo Horizonte fora dos quadros habituais de Minas. Dentro das casas mora, porém, o mesmo e venerável espírito de Sabarabuçu, Tejuco, Ouro Preto e de tantas outras vetustas cidades. Penso no homem mineiro que se levanta, lê seu Minas Gerais, cuida dos passarinhos e se prepara, tranqüilo, para as labutas do dia. A mulher cirze apressadamente um par de meias para ele e lhe pede que não se esqueça de deixar dinheiro para algumas compras. Sai, porém, sorrateiro. Façam-se as compras amanhã, não se corre para gastar. Os meninos estão

. arrasta-se. o Giovanni). As sombras fugiram. ao ver-me. com alegria geral. nem angústias. já de pé. ele não tem dessas coisas. cá estão reduzidos à imobilidade. Comenta-se a batida dada na véspera. na macumba da Barroca. Tenho . Resmunga lá suas coisas que não entendo. não diz nada. Giovanni me interroga com os olhos. ocorridos após a volta do rapaz. a passear pelo quarteirão e que. Mas. mundos vivos. —Ele quer mais café. amigo Prudêncio! Tomamos. Barrigudinho. como nos livros clássicos. que à noite me parecem. manifesta o mesmo espanto que Giovanni. sempre que Prudêncio sai com o seu inglês. sior Prudêncio. Que mais é preciso? Meus olhos deixam. Como os fantasmas todos se dissipam! Volto a casa e abro as janelas do escritório. porém. pela polícia. —Mais um pouquinho. em desalinho. o ar fino da manhã e a intensidade da luz extasiam o amanuense—ave noturna que a madrugada surpreendeu. respondeu. juntos.. quanto ao Giovanni. É Giovanni. o menino. Good morning. —If you please. com uma cadeia de ouro traspassada numa casa do colete. estendendo a xícara. entrou em carro triunfal e expulsou as sombras. Quando está a sós com o velho. Também ficou estupefato com a minha matinada. Barriga honrada de chefe de Seção.vestidos. Depois. O velho conquistou. Ficará semi-internado. a se desdobrarem e ampliarem para que personagens e paisagens se movam. A latitude deste. A manhã me atrai. de acordo com o hábito. Há anos que não me vê a estas horas.. não coisas inertes. baixinho. satisfeito. Nem pressentimentos. Saio de novo. Muito bem-humorado com o encontro (bom amigo... a cidade e se perdem no horizonte. o café. meio reumática. Giovanni! O velho fica boquiaberto. Os livros. que acaba de realizar antiga aspiração: o filho consentiu ontem em ir para o colégio. Giovanni. de novo. corre à procura de Marianina. pela cozinha. Geral e particular. A aurora. Emília. Volto para casa. Mas minha presença o anima a mostrar as habilidades. Fuma-se um cigarro. Prudêncio relata pormenores. há mantimentos na despensa. Faz cara de grande surpresa ao topar comigo. até insignificantes fatos domésticos. —Bom dia.. conta que o Prefeito novo vai melhorar o bairro do Prado. Refere-nos todos os episódios. Que faça um café bem gostoso para "sior Bermir". mas seres encantados. Ouço outra voz familiar: —Wonderful! Wonderful! É o Prudêncio Gouveia. e não pode esconder sua satisfação. esclareço. Alguém abre uma porta. com o seu How do you do. É o bom Prudêncio.

que não atinjo. Excelente e repousante camarada. aliás. vive nos seus "altiplanos".. E a bebida pode levá-lo cedo. Onde está Florêncio. VEJAM como terminei ontem o último capítulo. § 43. afinal. Se não me detenho a . não da quantidade de álcool ingerida. é. Florêncio divertiu-me bastante com suas anedotas. Além disso. e passamos a tarde juntos. foi. em companhia de alegres boêmios. achando-me disposto. Conheço o estilo Borba e não me engano. por mais que seja masculina a nossa amizade. conforme ensina a ópera. Quem quer saber de mim e das manas? A possível esposa morreu em 1925. outras vezes se mostra impermeável. eu te amava. Às vezes penso que. Glicério não passa de uma criança. O VELHO BORBA. em Vila Caraíbas. e outra é a compreensão das coisas. com quem a gente não pode contar sempre. só querem saber do marido e seu tempo é pouco para imaginar meios de prendê-lo. talvez. No que. só ele me restará. Se eu me casasse. e as gerações não se entendem. Camila? Na verdade. dos poucos amigos descobertos no decurso destes magros trinta e oito anos. fazem muito bem. Ora. Não tem problemas: é o homem sem abismos—o homem linear—na expressão do Silviano. Não é que tenha procurado embriagar-me. fiquei em boa forma e isso me fez pensar que a embriaguez depende. apenas a tua imagem. Se às vezes nos compreende. Por que te deixei. Redelvim. o fiel companheiro. Está sempre provido das melhores e mais recentes. no momento. sorrateiramente. O que amo nessa Carmélia. aí vem tolice. mas do estado de espírito. ao sair da Secretaria. pode ser que se case. deixa-me pelas idéias. Talvez só me fique o Florêncio. não é senão mulher. O SISTEMA BORBA.certeza de que gosta de mim. Jandira. e era uma vez a amiga. está o chope. Apontamento para uso pessoal: bebi mais que de ordinário e não perdi o prumo.. É que Florêncio. e está num cemiteriozinho branco. UM HOMEM SEM ABISMOS. renovando os copos. e não preciso dizer que tomamos um pifão. ENCONTREI Florêncio. no Largo do Cruzeiro.. as preocupações são outras.. Silviano é uma criatura complicada. Só quando morava na república isso me aconteceu algumas vezes. Pertence a outra geração. Entretanto. e a mulher é vária. Quando se casam. § 42.

cairia em pranto. Ouvi que. era a janta na fazenda. De uma vez que veio à Capital. Não se pôde conter quando o serviram à francesa: —Olhe. à lusitana. . Meditando na possibilidade de que. que lhe queria votos. Era assim o Borba.. isto é. Lembro-me de um dia em que me mandou levar um livro ao provisionado Loiola. para o futuro. E seria ridículo pensar em Arabela. vocês mandam ensebar o assoalho. já escrevi atrás o que pressinto. Quanto aos amigos. Freqüentou a escola de latinidade que. ia dentro um bilhete: "Veja. havia em Vila Caraíbas. para tirá-lo do embaraço. Sei que. Lia coisas incríveis para aquele lugar e aquele tempo. os Borbas gritam dentro de mim. o velho retrucou. me faz sua visita. É a hora de Camila. desandei a suspirar. apesar da degenerescência deste fim de raça. Não compreendi. e que são as velhas e esse mal-humorado Tome. botam-se as travessas todas na mesa. um deputado. Já escrevi que não casarei. . Onde já se viu tal disparate? Às cinco. então. na minha casa. lhe voto horror. Loiola. simultaneamente. Francisquinha vai de mal a pior e Emília está ficando com o coração fraco. O sistema Borba não comporta nem prevê senhoras de tão fina estirpe. Bastaria isso para exasperar o velho Borba. Era de prever isso!. repetia passagens inteiras dos Lusíadas. . ao tempo do Império. violento: —Também. O papagaio perdeu a plumagem e parece caducar. Devíamos deixar de estrangeirices. busco a solidão. em Carmélia. Aqueles sagrados furores não me são estranhos. viril. o sentido daquelas palavras e talvez por isso o bilhete me impressionasse tanto. mas. na casa da viúva Miranda. porém. nem aquela intolerância com etiquetas. levou-o a almoçar e foi um desastre. Quanto aos demais seres que me cercam. A primeira coisa que lhe aconteceu foi escorregar no pavimento encerado. Por isso é que vocês envelhecem tão depressa. bem vejo que os não terei por muito tempo. se toma chá às cinco. como o herói de Lamartine Essas coisas sempre acontecem às duas da madrugada. quando um Belmiro lírico. meu isolamento se agrave.. rude. pois Camila se foi. Ainda que viesse pedir a mão do Dom Donzel da Rua Erê. A uma delicada palavra que lhe dirigiu o político.tempo. Era sólido no vernáculo e seguro em matemáticas e história. Não compliquemos a vida. Ríspido. de coração enorme. Escrito a lápis. Como Amiel. em que ela se dará sem ser buscada. Gostava dos seus clássicos. o mesmo ciclo biogenético!" Tratava-se de Haeckel. Sua formação intelectual alicerçava-se em bom fundo humanístico. seu doutor. Dia virá. a ponto de ficar até hoje gravado em minha memória.

Mas, em matéria de modos, manteve-se-lhe intata a campesina rudeza de Borba, apesar da influência que nele exerceu a velha, que vinha dos Maias, gente da Vila. Os Maias eram finos e a avó Maia, mulher delicada e inteligente. Fora de Ouro Preto para a Vila, quando casou com meu avô materno, deputado geral. Tinha finuras genuínas; não mesuras e lisonjas de salão. Desse consórcio de Maias com Borbas foi que surgiu o amanuense, sem a virilidade destes e sem a polidez daqueles. A aspereza dos Borbas, que é antes couraça, para defender um coração mole tem, na Emília, sua expressão integral. Ao ouvi-la resmungar, franzir os sobrolhos, penso, com uma ternura que me umedece os olhos, nesse velho que foi o último da raça. Toda sua força, sua dureza de metal nobre, transferiu-se à mana. Para mim não restaram senão vagos reflexos e, ainda assim, bem no fundo, bem no fundo. A autoridade que emana de Emília e das sombras familiares que povoam esta casa basta, porém, para sustentar nela, em plena vigência, aquilo a que tenho chamado sistema Borba. E o leitor já não se rirá de mim, agora, quando repito as palavras escritas atrás: Mesmo que, algum dia, Carmélia a mim viesse, as bodas seriam impossíveis. O sistema Carmélia e o sistema Borba se repelem. Entre Emília e a viúva Miranda há distâncias interplanetárias. E, ai de mim, estou que o casamento não baniria os mitos. Mito tocado é mito morto, e a imaginação busca outros, sentindo-se ludibriada. Fique Arabela no seu nicho.

§ 44. REDELVIM TEM, TAMBÉM, UM DIÁRIO.
HÁ QUATRO dias não ponho os olhos neste caderno. Andei em maré de ler, e não de escrever. E Silviano tem-me suprido do bom e do melhor, no que toca a livros. Ele os compra aos metros cúbicos, e muito lhe devo nesse capítulo, desde os tempos de república, quando o conheci e já era professor. Interromperei, esta noite, a leitura de um dos volumes que me mandou (abasteceu-me, desta vez, de gregos, e estou atacando a Ilíada, que nunca pude ler de fio a pavio), para não me esquecer de anotar aqui uma visita a Jandira. Ao entrar em casa, de volta da Secretaria, Emília me disse: —A excomungada mandou um positivo trazê um escrito. Está em riba da mesa do quarto. Como de costume, falou-me sem se virar para mim. Achava-se de costas,

a pôr a mesa, e assim continuou. Ri-me, feliz, quando ouvi a palavra "positivo", na acepção que lhe deu e em que há mais de vinte anos não a ouço. Em Vila Caraíbas, "positivo" quer dizer mensageiro expresso e especial. O Borba não empregava tal vocábulo. Usava de outro, que os léxicos admitem com esse sentido: "próprio". Lembro-me de que, certa vez, corrigiu um dos nossos empregados. Ao dizerlhe o vaqueiro: "Seu Jucá do Riachão mandou um positivo aqui para dizê ao sinhô seu Coroné qui ele já fez o acêro", o velho emendou:—Um próprio; um próprio: "positivo" é outra coisa. —Propre, seu Coroné? —Sim, sim, respondeu, impaciente. Também me divertiu ouvi-la estender a excomunhão a Jandira. Já lhes disse que isso não significa desestima e provavelmente esconde ternura, mas ainda assim continua chistoso. Eis o escrito, segundo a expressão caraibana da Emília: "Honrado amanuense: preciso falar-lhe. Venha ver-me hoje à noite, se puder.—Jand.” Mal jantei, saí. Sentia-me em falta com ela. Havia oito ou dez dias que não a procurava. Chegado ao pequeno apartamento, fui recebido por D. Hortênsia, que ficou comigo alguns minutos, enquanto a amiga arranjava o penteado. Ou melhor, ficou consigo a um canto. Está acostumada a permanecer horas e horas sem dizer palavra, quando assiste às nossas reuniões, nos dias em que Jandira nos convoca. Mas hoje, forçada a fazer as honras da casa, sentia-se visivelmente constrangida, a todo momento se mexia na cadeira, como quem não acha o que dizer e se aflige por isso. Felizmente Jandira não se demorou, e sua chegada tirou a pobre senhora do apuro. Num movimento vivo, em contraste com o seu modo discreto e ausente, D. Hortênsia fugiu da sala, assim viu a sobrinha. Por certo, teve medo de que ela volvesse a dar mais uns toques no cabelo, o que faz freqüentemente, e a deixasse de novo comigo, na embaraçosa situação. Foi tão ágil e rápida a saída, que Jandira achou graça: —A velha está lépida, hoje... Depois, disse-me, andando para lá, para cá, segundo seu costume: —Não há nada de novo, seu Belmiro. Escrevi o bilhete pensando que você estivesse zangado comigo. Sumiu tantos dias... —Zangado por quê, minha flor? —Porque eu não o socorri, quando Redelvim começou a azucriná-lo. —Ora, Redelvim é um menor exaltado, respondi. Ela riu-se. Depois falou-me que, se não interveio, foi para não agravar a

situação; Redelvim estava irritadíssimo e precisava desabafar-se. Como eu já estava acostumado a servir de pára-raios, ela preferira ficar de lado... A polícia dera-lhe busca na casa, levara-o à delegacia para explicações e lhe tomara os melhores livros, bem como o seu Diário, que nada tem de extraordinário, diz ele, mas o acompanha há longos anos, é coisa de estimação. Li páginas desse cartapácio, há tempos, pelo mesmo processo clandestino por que conheci o do Silviano. Provavelmente Jandira não o suspeita, mas o nosso amigo, noto-o bem, está irritado não é por causa dos livros, nem pelo chamamento à delegacia, nem por estar sendo seguido pela polícia secreta: é por causa do Diário... Como todos os documentos dessa natureza, contém histórias muito íntimas, amores (inclusive o caso da pequena espanhola, que o torturou bastante) e versos de adolescência. Não permite que se lhe fale nos amores, nem nos poemas. Esse Diário nas mãos da polícia deve ser-lhe motivo de profunda inquietação. —Ele não lhe quis dizer nada, porque acha que você é gente do Governo... Não deixei de ficar lisonjeado. É a primeira vez, na minha carreira de funcionário, que me consideram pessoa integrada na administração, ou, mais que isso, "gente do Governo". Redelvim é um pândego. —Acho que você lhe pode ser útil, continuou Jandira, procurando recuperar seus papéis e livros, na polícia. Era, pois, este o objetivo de Jandira, ao chamar-me. Prometi-lhe arranjar a devolução das coisas por intermédio do Senador Furquim, via Glicério. Sempre é bom conhecer um senador. E voltei logo para casa, porque Emília aqui está com a gota ciática de sempre, necessitando de mim. Não terminarei esta página sem dizer que Jandira estava uma tentação, mais desejável do que nunca. Trazia uma flor artificial no peito, muito chique. Esquecia-me dizer, também, outra coisa importante: arranjou emprego num escritório comercial. O patrão é pessoa idosa e não tem filhos. Por ora, o problema Pereirinha está, portanto, afastado.

§ 45. EXTRAORDINÁRIAS DECLARAÇÕES DE GLICÉRIO.
MEU ESPÍRITO está, agora, serenado, e procurarei expor

ordenadamente o que se passou. O sonho a que me referi numa destas páginas não deixou de ser exato, no que toca a Glicério. Pelo que hoje me disse, percebi que minhas confidencias o impressionaram de tal forma, que tem, agora, uma visão diferente de Carmélia e a olha por um ângulo aproximadamente idêntico àquele sob que ela me surgiu, na noite de carnaval. Sugestionável como é, foi empolgado pelo mito da Donzela ou, pelo menos, empresta, agora, a Carmélia parte dos atributos misteriosos de que a dotei. Ela se cristaliza, rapidamente, a seus olhos, se me permitem o uso da expressão stendhaliana. Hoje, na Secretaria, falou-me da moça como se se tratasse quase de um ser quimérico. Ao ouvi-lo, oscilei, de início, entre a satisfação de autor que verifica o êxito de sua criação, e a angústia de namorado que pressente um rival. Disse-me que Carmélia é antes um símbolo do que criatura humana, pelo que há de imaterial beleza, graça, dança, música e poesia nos seus dezoito anos. Sem perceber as reservas com que lhe recebia as expansões e supondo que me iludiria quanto aos seus sentimentos, continuou a falar, ajuntando que a moça lhe despertara grande interesse (puramente estético, sublinhou), depois que eu, com minha confissão, lhe chamara a atenção sobre ela. Fora quatro ou cinco vezes à casa da viúva Miranda e estivera com Carmélia. Não me contou isso há mais tempo, esclareceu, porque acredita, de acordo, aliás, com as minhas declarações, que o caso já não me seduz. E insistiu nisso: aproximando-se da moça, procurando conhecê-la de perto, verificara tratar-se, realmente, de uma criatura fora do comum. Não se deve dar a Carmélia o apelativo "mulher", que com impropriedade se aplica indiferentemente a ela e a D. Paculdina, mulher do nosso chefe de Seção. Esta é uma porção bestial de gorduras, enquanto Carmélia é toda harmonias. Não disfarçando o despeito que me causava a dissertação de Glicério em torno de tema originariamente meu, respondi-lhe que, sobre essa diferença de substância entre Carmélia e D. Paculdina, haveríamos de conversar depois. Deixasse vir os anos, os cuidados, o casamento e os filhos à moça. E acrescentei que, no mais, estava fazendo literatura. Com a água fria que lhe pus no entusiasmo, calou-se. Notando-o aborrecido, recuei e pus-me a procurar um meio de reaver suas boas graças. Não o fiz por generosidade, mas para obter novas informações sobre seus encontros com a donzela. O aparecimento oportuno do Carolino, que nos veio trazer café (estávamos a uma janela do edifício), ofereceu-me ensejo para romper o silêncio e reatar a conversação. Ao servir-nos, Carolino nos pôs ao corrente de grande novidade: nosso companheiro Sepúlveda havia

" (nessa altura. sim. Não sendo versado em pintores. sentia prazer em verificar que a ele. Gostava muito de versos... as impressões. Fazia gosto conversar com ela. disse-lhe. amuado. —É claro. com voz tão bonita. já lhe disse que aquilo foi brincadeira... Glicério. —Contei-lhe que. E que educação perfeita. Por isso não fora hoje à repartição. Perguntei-lhe que coisas ela dizia. respondeu-me que a achava simplesmente fabulosa. na última noite de carnaval. com hesitação. o Sepúlveda! comentei eu. Sem sombra de convencionalismo. A morte do pai lhe trouxera grande tristeza. esta coisa fulminante: —Esquecia-me de lhe falar: conversei com ela. esclareceu. Já confiante. não estava cantando. ultimamente. de um pintor teimosamente anônimo. Falei. a meu ver. foi despeito. explicando que os momentos de cisma da moça é que lhe deram. é. respondeu. Receando que a evocação do incidente viesse suspender a conversação sobre Carmélia. desculpe-me. com o coração batendo desordenadamente..tirado sessenta contos na loteria.. Se não gostar... —Sujeito de sorte. Desembaraçado. a garota parecera excepcional.. sem saber que pintor mencionaria. cortei: —Ora. Disselhe que você a conhecia. literárias .. insinuei que já nem me lembrava de meus ardores sentimentais pela moça.. mais direto: —Desamarre essa cara. melancólica e terna de uma virgem descuidosa. Mas você não me contou se a moça ainda canta.. Fiquei suspenso. Achando-o mais abordável. —É. quando por acaso lhe ouvi uma canção napolitana. Glicério continuou. Havia na casa. —Você é louco? Você falou nisso? indaguei. finas. ainda. Informei-a a seu respeito. —Dou-lhe minha palavra. ontem. Ou melhor. Se cantava ainda. então. —Não é possível! exclamei.... esforçando-me por fingir indiferença. —Imagino. Contudo. que naturalidade! Quando cismava. dessas que a gente vê nas telas de. Não se pode fazer uma brincadeira. uma densa nuvem de melancolia. "tinha a expressão casta. respondeu. não o pude socorrer). ainda mais aflito. homem! Está ficando muito melindroso. Você anda irritante. Não. imagino. ficou suspenso. . como há dois anos.. sem querer. Lia o melhor que vinha da França. .. Você não faria isso. Fui. a respeito de você. pelo aparte. Depois de pequeno intervalo deixou escapar. a ele. Tinha palavras ágeis.

com o qual eu gostaria de conversar. Eu retinha a respiração para ouvi-lo. Arabela. que o levasse para fora. Estava muito triste. homem! Contei-lhe apenas que você a achou linda e muito "distinta". porém. Não sei bem que dizer de tudo isso. Sinto-me cansado e interromperei. depois de lhe ter dado a mão. Fez-me. depois. Não. olhando o salão como se olhasse para o mar. Cortei o assunto. Um homem de pince-nez. Falava em "Arabela. que não. que se achava atrás. as palavras ouvidas a Glicério. que ela mostrou desejo de me conhecer e pediu-lhe que me levasse lá. primo de Carmélia.. —Vai sujigar a onça? perguntou-me. Tinha um título vencido e precisava reformá-lo. com sua incapacidade de perceber certas coisas. um dia. não houvera mal.. Disse-me. e disse ao Glicério que precisava sair para alcançar o horário do Banco. O pai a informou de que. estas notas. Mas pouco depois voltou a si.. tão extraordinárias revelações que não lhe guardo rancor. magro. sei lá. sorrindo. aqui.. e você ficou deitado no sofá. alto. Isso foi quase de manhã. ela disse que se recordava. quando lhe fiz um aceno de mão. Não respondi nada. Ou.—Sossegue. Ela ficou com pena e quis alegrá-lo.. insistiu no assunto. ainda me perguntou: —Acha que fiz mal em lhe falar nisso? Respondi-lhe. você tinha tido um desmaio. num gesto de despedida. onde havia um sofá. a um pequeno salão. por efeito de álcool e éter. com um modo esquisito. falando-me que as pessoas que freqüentam a casa não são desinteressantes e que há lá agora um rapaz muito "distinto". com a fidelidade que me é possível. Fiquei arrasado. Quase lhe fez medo. consultando o relógio com fingida ansiedade. Pela forma como se referira a mim. talvez se estivesse divertindo à minha custa. meio maduro (Glicério sorriu com malícia neste ponto). recomendado a um dos garçons do clube. como quem estivesse vendo qualquer coisa extraordinária. Acrescentou pormenores: —Disse que deram apenas alguns passos. Você teve um desfalecimento e ela pediu ao pai. Depois de tentar lembrar-se do episódio. A incompreensão do Glicério atingiu a esse limite. Glicério. provavelmente. Notou que você a fitou. caso eu não tivesse ficado encabulado com o incidente. como pude. mas era coisa sem importância. Ela acabou achando graça na história. .".. Não notando meu mortal desgosto. Aqui reproduzo.

. necessárias para definir precisamente uma impressão. A referência à embriaguez e a declaração de que acabara "achando graça na história" doíam-me como pontadas no peito. Arabela. Era de um romantismo aguado e soava ridiculamente. olhando o salão como se olhasse para o mar"—deu-me compensações. sem mencionar nomes) hão de ser Delly e Ardei. Acabou achando graça na história. eis o que Carmélia pressentiu em . O resultado não poderia ser outro.. Esqueceram-me todas as mágoas. seria rigorosamente exata. porém. alto.". correspondendo a imagens que flutuam no seu espírito e. Nesse caso. Efeito de álcool e éter.. porém. e seus autores franceses (a que Glicério aludiu de um modo geral. que redundava na defesa do pobre bêbado da noite de carnaval. irremediavelmente oceânico.. r»(|ii Estava muito triste olhando o salão como se olhasse l\Lrl para o mar. e a moça tinha razão. Um Belmiro oceânico. considerei que uma jovem que diz frases semelhantes não pode deixar de ter. meio maduro. Bem feito. sentia prazer em esquadrinhá-las e decompô-las. Veio-me a idéia de que a frase talvez fosse pèrfidamente construída pelo Glicério. {l^Ef^M HOMEM de pince-nez. magro. O rapaz está pondo as manguinhas de fora.. Deve ser das tais que colecionam autógrafos. Quanto à rebuscada frase—"Estava muito triste. quem sabe. meio maduro.. tomei.§ 46.. O quadro foi realmente grotesco. achei que a comparação "triste como se olhasse para o mar" devia ser mesmo de Carmélia.. se fora meter na roda de filistinos. ficar muito tempo nessa atitude de combate. UM BELMIRO OCEÂNICO. Em vez de ficar no seu mundo e no seu lugar. o desfalecimento. Que eu fosse lá.. um álbum onde colherá pensamentos de mocinhos tolos. de seu círculo. o da moça.. as palavras teriam sido espontâneas. Era um tanto literária. ajudando-a a ridicularizar esse pobre idiota da noite de carnaval. afinal.. Era um sujeito meio maduro e dizia: "Arabela. examinando-as em todos os sentidos.. Procurando tirar desforra. e comecei a gostar desse Belmiro que olhava para o salão como se estivesse contemplando o mar." Dormi ontem pensando nessas palavras. fez isso para me desfrutar? Por fim. e. mas.. Embora me deprimissem. também. esse parvajola.. Não pude. coitado) e riram-se dele. se não tivesse ficado encabulado com o incidente.. sonhei com elas e amanheci hoje a repeti-las. Em vez de tomar o meu partido. A donzela terá um temperamento romântico e talvez pense muito no mar.. Deixaram-no deitado no banco (estava embriagado.

denunciando-me a existência de Belmiros ainda inexplorados. na Praça. realçada pelo fundo escuro da roupa. nela. como sabem. um rapaz muito "distinto". Uma jovem extremamente bela.. E a manhã de hoje correu assim. "Você notou como o noivo estava comovido. Depois. mas também não será sua. As revelações de Glicério me proporcionaram um mundo de meditações e suscitaram-me os mais desencontrados sentimentos. sem dar conta de coisa alguma. mas resignado. em voz baixa: "Belo casamento. Depois. até então. alto. na Avenida. Tocava-se a Marcha Nupcial de Mendelssohn. em sondagens. agora. foi quando eu tomava o bonde para a Secretaria que me veio. os garçons de honra. não vi ninguém. na hora do sim?" A um canto. com quem você gostaria de conversar". Lá se foi ela com o moço 'distinto'.. Voltarei a conversá-lo um dia. Não será minha. também não será você. "como se olhasse para o mar". com uma sensação de vitória: "Ora. um homem magro. ao mesmo tempo. Mas. ao chegar à porta da Secretaria. "Carmélia está um sonho".. vestida de noiva. um alfinete de pérola. como um relâmpago. se arrastava pelo pavimento da igreja de Lourdes. pensei. uma frase que. tão absorto me debrucei sobre as outras: "Há lá. tomando-se um bonde que sobe a Rua da Bahia. vinham as damas de honra. O casal caminhava ao ritmo da música. Bem feito. Esquisito. A cauda do vestido. Para rematar: melancólico. paguei maquinalmente ao condutor. dispondo os mais insignificantes pormenores. por que não pensei nisso há mais tempo? O fato é de importância capital. fitei-o com pena e. Um moço "distinto". triste e maduro contemplava o desfile. um ao outro". muito longa. Como Silviano. e. baldeação inclusive. Quem será esse primo? Como será? Que veio fazer aqui? Quais serão as conseqüências de sua convivência com Carmélia? Da Rua Erê à Seção do Fomento a distância não é pequena. quando isso me seja possível.mim.. enxerguei tudo. dando uma solenidade espetacular ao acontecimento. não fora objeto de exame. Nós ficamos com o mito. dava-lhe o braço. primo de Carmélia.. dei maquinalmente o sinal de parada. trazendo ao peito uma gravata clara. Como assentam.. apoiado a uma coluna do templo. E. encontrei Glicério. Quando. vestido de jaquetão e calças listradas. Há muitos anos que não vejo o nosso irmão Atlântico. simpático. e ele. todos com os passos também cadenciados. Pois. Os demais assistentes trocavam impressões. às vezes tão bravo e sombrio quando bate no Arpoador. faz-se baldeação. pus-me a urdir vasto enredo. com a pequena." . durante todo o trajeto.

primo de Carmélia. a propósito de qualquer coisa. À hora do café. O Jorge de Figueiredo. disse Glicério. Pois o rapaz mal chegou a Belo Horizonte! —Quer apostar? Não o conheço. por exemplo. esforçando-me por parecer despreocupado. jovem. enquanto imaginava meios de conduzir a conversa para esses lados. como de costume.. bom. por partes. É verdade. Quero dizer. Belmiro. por ora.. como vai essa força? disse-lhe. pois era um grande bandido: ia casar com a moça mais interessante da cidade. ele veio falar-me e se disse encantado com a "schopenhaueriana" que Silviano lhe está emprestando. Seremos solidários no combate ao filistino. ando há muito tempo com necessidade de leituras mais sólidas. aparentando admiração. se soubesse disso. ainda com ar triunfante. Encontrei-me hoje com o Jorge. outros livros que Silviano também me emprestou e já está cobrando. Queria que Glicério tivesse a iniciativa de me procurar. —Ah! a propósito. —Casar? Você está doido? Quem lhe falou nisso? perguntou.. na igreja de Lourdes. seria sempre "a propósito". para montar aqui um serviço de radiologia. como Carmélia. disse-lhe. Mas. na Seção. —Você é fantástico! Carmélia havia de rir. . primeiro. Não tenhamos pressa. puxarei sua língua. mas estou vendo tudo claro.. —Bom. tanto quanto o gênero comporta.. É ameno. Se você quiser. Dia morno. E que a mim. Estamos em frente de um inimigo comum.. É rapaz "distinto". Quando o encontrei. —Olá. observando-lhe que o primo de uma criatura. pensei. assustado. Mas tocará. —Então.. Calculei como um astrônomo. Glicério há de falar-me hoje a respeito desse moço.. não é "a propósito". não. trarei para você um volume do Ruyssen sobre Schopenhauer. sabe? Especializou-se na Alemanha. me interessaria. Se ele não tocar no assunto. Pus em dia o protocolo de processos. Jorge chegou apenas há uma semana. tocará. respondi.—Olá.. à hora do café. Preciso debulhar. —Ora.. Formou-se há pouco tempo. —Vai morar com a viúva? .. —Você se meteu em grandes funduras.. Deveria fazê-lo. Acabei de visionar o seu casamento. e só no último caso iria à sua mesa. você falava de Schopenhauer. —Que Jorge? Não sei de quem se trata.. Algum do seu clube? —Não. Se não me engano. estava comprando móveis para o gabinete.. Respondi-lhe que.. Tirei-o do apuro.

desde que. Os jornais anunciam um encontro sensacional. apenas enquanto se instala convenientemente e se adapta mais ou menos ao meio. Finalmente resolvo. Outra coisa não deveriam fazer o Prudêncio Gouveia e Beppe.—Não. o Jorge. assistir à cerimônia. em frente da igreja? O melhor é dar uma volta e não criar este problema. Cá dentro. definitivamente. "Nenhum desejo neste domingo. que a velha traz silenciosamente. que se casem e sumam. Muito viajado. o sapateiro. que a Chica ficou boa. E casar-se-ão mesmo na igreja de Lourdes. dar um giro. Leio o Minas que deixou sobre a mesa. Homens e mulheres sobem a escadaria da igreja de São José. como diz o poeta. procuro o Florêncio. Tomo o café. haverem as duchas e os remédios produzido bom efeito. e ainda agora me ocupa. Giovanni. NESTES últimos cinco dias não toquei nestes assentamentos. Por que não fazer o mesmo? Devo. Posso compor meu olhar oceânico para. Não há dúvida que se casarão. depois. Mas talvez seja melhor armar a rede no quintal e folhear revistas velhas. É admirável esse otimismo que a faz esquecer-se da longa série de crises e melhoras. tirar o chapéu. talvez o futebol. Ora bolas. Uma banda militar desce . para espairecer. assim. E a vida é quase boa. Veio-me a idéia de sair um pouco. Depois. e ela anda. no Instituto. Talvez possamos trazer a mana para casa no fim desta semana. leve. andei perambulando. ou não. a manhã deve estar alegre e o parque cheio de gente. Contei-lhe que o médico me disse ontem. § 47. ia à missa. o tema foi o mesmo. de assunto. A ciática passou. quase despreocupadamente. Lá fora. para ouvir a missa das cinco. porém. parece muito animada. ao ver terminada uma crise. Enquanto eu dormia. Mudamos. quando é vazia como neste domingo. à tarde. Quando o espírito se me torna. Viveu sempre de São Paulo para o Rio e do Rio para a Europa. por insistência dela. desço na Avenida. Pus-me à janela. experimentadas pela pobre irmã. disfarçado no meio do povo. em boas condições. vestindo o velho jaquetão preto e levando um chapéu-de-sol ao braço. pela tarde toda. Andei lendo. na cidade. Emília sempre acredita. ainda moça. Com ele estive duas ou três noites a bebericar. Está lá. Só agora veio a Minas. Dei para vidente. nenhum problema nesta vida". Não. Emília devia ter estado na igreja. a moléstia mental se manifestou nela. há uma semana. NENHUM DESEJO NESTE DOMINGO. Tomo o bonde. a ver a rua. entre bocejos. sucessivamente. Com as notícias que lhe dei sobre Francisquinha.

ou para acompanhar algum amigo. Sem que nada me recomendasse. às preferências daquela pessoa de tão fúnebre ofício. nenhum problema nesta vida. do que terra virgem. Para dizer verdade. Depois. Lembra-me que. lá no Parque. Algum político importante deve estar a chegar. Depois. para exprimir à viúva sua grande dor: "Console-se. pus-me a andar a esmo. vi que se enterrava alguém. não tinha o ar amigo nem a expressão honesta do coveiro caraibano. Domingo bom e alegre. voltaremos para casa. em anos anteriores.. do cemitério do Bonfim. ao pé do túmulo do pai. convenhamos em que cada um exprime o seu sentimento como pode e que. eis a questão. o melhor é. chamaremos o velho Giovanni para um dedo de prosa. rumo à estação da Central. esquisito. toma-se um refresco no Bar.marcialmente a Rua da Bahia. abeirando-me de um ou outro retardatário par de namorados—para ouvir-lhes a conversa —ou examinando alguns mausoléus e inscrições. não encontrou outras palavras. depois. Homem sombrio. Qual. a um defunto. Ali chegado. poupando. À tarde. arranjarei uma terrinha virgem para ele. O coveiro da quadra 55. ou não ir. Aproximei-me do local e fui deitar." Mas. FINADOS. ver morenas que não nos verão. fiquei o dia todo a hesitar entre ir e não ir. não deixou de fitar- . § 48. Passando. impressionou-me fortemente com o olhar frio que me deitou. à parte nova do cemitério. também. senão estas. Ah! é verdade. aos seus. visitas extraordinárias ao cemitério. logo pela manhã. seu olho mole. afinal. escreverei neste caderno que não era tanto pelos seus hóspedes: imaginei que talvez encontrasse Carmélia. poucas vezes ali fui. informado da morte de um compadre. no dia de Finados. segundo o padrão habitual. Ir. amigo que era de todos. NÃO TENDO nenhum defunto familiar no Bonfim. não estando muito premido pela necessidade de vê-la. abriremos a rede. O coveiro não se assemelhava em nada ao de Vila Caraíbas. foi que me decidi. nada se poderia prometer de melhor. Neste Finados de 1935.. quando já escasseavam os visitantes. que enterrava as pessoas com um pesar que se adivinhava sincero. Defunto metódico esse que deliberou morrer no próprio dia de Finados. Ia por esporte. Mas. senti desejo de visitar o cemitério. para um coveiro consciencioso. Nenhum desejo neste domingo. o chefe da Seção pediu-me que comparecesse ao desembarque do Ministro. suponho eu. minha pá de terra ao morto.

terminada tragicamente. Que não entrasse em indagações sobre se a greve surtiria. até de uma geração. "Desconfia o Senador. e deixei o cemitério com o espírito opresso. que não foram boas. apontamentos diversos. De acordo com o que me repetiu Glicério. Por que me encararia assim. no sentido de que não se afastasse de Belo Horizonte. pois o delegado é finório. A uma hora dessas. mesmo assim. alcançado os seus objetivos. não encontraram no Diário senão poesias. teve também a incumbência de transmitir-lhe recomendação expressa do delegado. ajuntou. e este fora encerrado havia mais de quatro anos.me um só momento. memórias. o Bonfim é menos convidativo que de costume. O Senador Furquim. ou Almada. fazendo-as gemer. FUI HOJE à casa de Jandira comunicar-lhe que a polícia deliberou devolver a Redelvim o seu Diário. que lhe devia levar o Diário. seu manguarão!" Havia qualquer coisa de triunfante e de perverso naquele olho aguado. nem mudasse de residência. efeito." Por último. Glicério me disse que entrou em tudo isso apenas em atenção a . Que se a greve falhasse e os operários fossem postos no olho da rua. seriam outros tantos agitadores. assim. a carta. que não o soltaram senão para lhe acompanhar o desenvolvimento das atividades. O investigador. Era já lusco-fusco. acossados pela necessidade. JANDIRA SE MOSTRA PRUDENTE. chamou este último à sua residência para o cientificar de que haviam sido expedidas ordens para isso. seriam compensados pela felicidade das gerações futuras. Um calafrio correu-me pela espinha. uma cópia de carta enviada pelo nosso amigo a um estudante Lousada. que se incumbiu do caso a pedido de Glicério. que a polícia conservou. dizendo-lhe que não criasse problemas de consciência. acharam indícios de que fora um dos promotores da última greve de operários. o delegado mostrou-lhe. sem notificar a polícia. § 49. Realmente. mesmo. Que o homem de ação não deve ter escrúpulos. Mas na correspondência e em papéis avulsos. Consideram Redelvim bastante comprometido. O Senador prestou outras informações. enquanto estive à beira da cova. teria ela. Que a miséria e o sacrifício. resolveram manter Redelvim sob vigilância constante. Em consideração ao Senador. relações de dívidas. ou não. ou mesmo por isso. pois os homens sem trabalho. com ar agoureiro? Parecia dizer-me: "Não demorarás a vir também. e um vento frio e fino soprava as casuarinas. Nesse documento Redelvim concitava o companheiro a agir. Em vista de tais documentos. As sombras se insinuavam aqui e ali. era.

ou porque tivesse julgado o discurso cheio de chavões e quisesse anular o efeito das frases mais ou menos convencionais. receoso de que se melindrasse e. Não lhe exprimi esta satisfação. Nesse negócio da greve entrou por lirismo. pois a polícia anda rigorosa. Conhecia-o. Respondi-lhe que seria bom isso. Suas mudanças súbitas. andando para lá. mas receio que. em nossas conversações. sem que eu insistisse no assunto. viesse. surpreso. É orgulhoso e não confessa. —Mas é um absurdo. Mas estava em maré de confidencias e. Belmiro.mim e que não se interessava pelo Redelvim. Arranjou. Depois. tem a mesma graça leve e a mesma carne ágil dos dezenove. que se agüente. mas reconheço que Redelvim o tem hostilizado bastante. que eu ouvira. vive falando mal de mim e do Silviano. mas acredito que anda decepcionado com os antigos companheiros. chamando-nos imbecis. era homem atencioso. algum namorado nestes dez dias em que tenho estado ausente de sua casa. Jandira fora dar uma volta na Avenida com a amiga nova que descobriu: uma professora já meio entrada em anos que se instalou na mesma casa de cômodos. Não tem mais ligação com o Partido. Ficou apreensiva e manifestou o propósito de ir procurar o delegado. nada lhe acontecerá. Qualquer dia a idiota da Jandira estará. a fim de lhe pedir um pouco de condescendência no caso. Poderia talvez fazer a felicidade do . Aos vinte e cinco anos. tenho pensado que o papel de indivíduos como nós é conter os impacientes. assim. sem convicção alguma.. Temos problemas que nenhum regime resolve.. Quando voltou. também. Jia cana. Dei-lhe conhecimento das informações prestadas pelo Senador. com ar brejeiro: —Prolongada salva de palmas. Além disso. falou. retrucou. "Ele se meteu em embrulhos. Tive de esperar um pouco. por picardia. de sua boca—ou simplesmente movida pela sua natural versatilidade. Somos criaturas sem fé e pensamos demais. Redelvim conversou comigo longamente. Além disso. com certeza. na expectativa de qualquer coisa. provavelmente. se cometam erros maiores. apelando para a violência. Fiquei satisfeito com suas palavras. que tantas vezes desaparece a meus olhos. você vê como tudo anda embrulhado na Rússia. E que nosso amigo não fará nada. O orador é vivamente cumprimentado. O mundo está errado. cumprimentou-me com ar alegre. disse-me: —Olhe." Glicério foi duro. Jandira se mostra prudente e não se tem envolvido em complicações. reacionários. mas talvez fosse inútil a tentativa. para cá. a assumir atitude oposta. seu jeito provocante. Confio na evolução social. sua mímica muito feminina me fazem lembrar a Jandira mulher.

Redelvim? Como me ocorreu isso? Excelente meio de dar cabo de duas personagens difíceis: casá-las. alimentada. Talvez o amor continue a lavrar manhosamente. § 51. UMA SEMANA QUE PASSA. no Instituto. um pouco despeitada por haverem os médicos conseguido o que não conseguiram seus amigos espiritistas. § 50. pôs-se a resmungar que Francisquinha só há de ficar inteiramente boa é com as rezas da "sessão". da casa de Jandira. ou do seu amigo Redelvim. quando a mana piorar. Fui buscá-la. Emília anda radiante: volta e meia.. a não ser a volta de Francisquinha. depois de ter andado muito pela cidade. nem outra. nem isso me preocupou. Tenho lido alguns livros do Silviano e consegui liquidar o Homero. uma contínua suspeita de que é desconhecer a natureza do homem. Não sei para onde irá uma. e os caminhos da vida são mais complicados. saí. como diz Jandira. Hortênsia nos arranjou. NADA de novo nesta semana. A injustiça social me dilacera a sensibilidade. anteontem. quer converter a casa em centro espírita e fala em voltar. E aqui a escrevo. pensamos demais. Mas isto aqui não é romance.. sobretudo. Pensamos e sofremos. Vejamos por quanto tempo poderemos conservá-la assim. com esta preocupação. Como cedi uma vez. pretender discipliná-lo com teorias rígidas. Está outra pessoa: arrumadinha. Silviano anda sumido. Glicério não voltou a falar-me sobre o primo de Carmélia. para me contar qualquer coisa que a Chica falou. entra-me no quarto.velho mancebo que escreve estas notas. E há. JÁ ANDAM JUNTOS PELA RUA. escrúpulos de espírito e de sentimento que não aceitam radicalismos revolucionários. como fogo de monturo. Mas há. em mim. dentro e fora de casa. Não é meu . Depois de tomar um café. Há muito não tenho uma semana assim tranqüila. que D. Josefa lavadeira. Escreverei também que não me falta simpatia humana e muito me preocupam os males do mundo. limpa. de novo. com os seus homens. e ainda me acho um pouco transtornado pelo que me ocorreu à tarde. ESCREVO à meia-noite. Enfim. mas não lhe sinto as chamas.

Estando de costas para a rua. sempre transido de temor cada vez que os seus olhos. a viúva e o Dr. a tomar chope. com teatral mesura. a epiderme branca e delicada e os cabelos castanho-claros. Resumi a conversa. Acabei por me interessar: . e pude vir para casa. Comi às pressas e sem vontade. ondulados. para jantar. trouxe-me de modo brusco à realidade. pelo lado do Correio. me davam a impressão de que ela estava notando a insistência do meu olhar. das ruas transversais. Ao sorvete prefiro o chope. Voltaria logo. Insistiu em minha permanência. tendo necessidade de sair. E saí rápido da sorveteria. sem olhar para os lados. voltando logo para a rua e tentando assistir a uma sessão de cinema.hábito sair com Glicério depois do trabalho. ia fazê-lo imediatamente: ele poderia ficar à vontade. observei que. Daquele momento em diante. O chope me levantou o moral. Andei a Avenida a passos largos. assim tão mesureiro. Fiquei medrosamente a fitar a imagem de Carmélia. sem ânimo de sequer mexer-me na cadeira. menos freqüentados. que é menos transitado. Glicério se levantava e saudava pessoas que entravam. não vi essas pessoas. dizendo que não poderia deixar de ir à mesa da viúva e da filha. Finalmente. pouco ou quase nada percebi do que se passava em torno de mim e do que Glicério dizia. e perguntei-lhe a quem cumprimentava. e o chope só pode ser tomado com a devida unção nos bares. através do espelho. Jorge de Figueiredo. num gesto disfarçado. Eu respondia por palavras vagas ao que me dizia Glicério e este deverá ter notado minha ausência. Mas o demônio as arma: não sei por que desci hoje com o rapaz e entrei numa sorveteria onde se reúnem as elegâncias de Belo Horizonte. Embebi-me na sua contemplação. O luto fechado lhe realçava singularmente os traços finos. ainda que atrasado. Fiz um esforço sobre-humano para ocultar minha agitação e apenas lhe disse um "Ah!" distraído. supondo que seu propósito me houvesse agastado. Vi nisso uma tábua de salvação e respondi-lhe que. Segredou-me. onde estive mais de duas horas. dirigindo-se para um ponto ou outro. que os recém-vindos eram Carmélia. apanhando o chapéu e dizendo-lhe ter um encontro urgente com Redelvim. apresentar-lhes cumprimentos. nem costumo freqüentar as sorveterias da Rua da Bahia ou da Avenida. e meti-me num bar da Rua Espírito Santo. Pouco depois que chegamos. Emília já está mais ou menos habituada à minha impontualidade e guarda-me o prato feito. Devia estar com uma cara de alma do outro mundo. Pediu-me licença para se afastar por instantes. pegando um jornal e fingindo mostrar-mo. refletida nos espelhos da parede. pois sentia que o sangue me tinha fugido do rosto.

É um homem excelente. para o leito. pondo-se de cócoras a um canto do muro. no caso de um dos Bancos quebrar.. a seu modo. pois. que é o médico da casa. quase despida.. dizendo que não podia estar ali. por isso. abri um ou outro livro. até que Emília. Recusou a muitos colegas empréstimos de dinheiro. cá estou a escrevinhar. acordada pelos miados de um gato. presumivelmente. e tanto Emília como Francisquinha o estimam muito. e. finalmente. mais ou menos conformado com o casamento de Carmélia. Tosse com violência e sente dores agudas nas costas. UMA FRANCISQUINHA. Noto que sua simples presença tem ação sedativa. Mas comigo o caso era diferente: se eu quisesse era só falar. tentando acalmá-la. § 52. sob uma chuvinha miúda. já tranqüilo. e que levou. Chamei ontem o Dr. não. pois havia uma mula-sem-cabeça dando coices debaixo da cama. Em cada Banco depositou dez contos. e foi para o quintal. EXTRAVAGÂNCIA DE HÁ TRÊS dias não saio de casa senão para ir à farmácia. encontrei Sepúlveda. fez uma grande extravagância. Voltou. pusemo-nos a procurar a pobre mana e a encontramos naquela postura. Fagundes. Emília me despertou. E os vinte restantes foram despendidos em reparos na casa e compra de terrenos. do seu quarto. se levantasse para o pôr fora de casa e desse por falta dela. Voltei para casa. Não me tenho afastado do seu quarto e nada ou pouco dormi nestas duas noites. que me levou a um café e se pôs a contar o modo por que empregou o dinheiro tirado na loteria. Já andam juntos pela rua. À saída. A pobre mana está presa ao leito com febre alta. pensando na possibilidade de uma pneumonia. que provocava grandes risadas do público. Não era tolo para pôr fora o cobrinho. Saiu de madrugada. uma surra de madame Sepúlveda. O resultado da extravagância foi uma forte gripe. Parece possuir nas mãos um magnetismo especial.passando muito mal.era uma comédia leve. ou comprar uma coisa ou outra. desde anos. E ali ficou durante mais de uma hora. com toda a certeza. com relutância. Pois o casamento se dará. O velho está apreensivo. uma força qualquer que faz bem e . Esqueceu-se de me dizer que gastou cinco contos com uma espanhola. Quando eu a supunha bem melhor. não perderia senão aquela quantia. ansiada. agitada. pois Francisquinha está . Ficamos acordados o resto da madrugada.

Silviano esteve ontem aqui em casa. sempre dizendo: "Deus chamou a coitada. Jandira e Sepúlveda. que se tornou mais sombria. porém Emília não quer. a velha Maia. que assiste os coitados. mas permanece a meu lado. É mais forte. Donde lhe virá tanta força? Talvez de seu Deus que tudo explica. pretextando arrumar uma ou outra coisa. fraca como é. § 53. mas notou minhas preocupações e não disse ao que veio. Redelvim. Faz dois dias já que a mana está no Bonfim. sempre que pode. Sua rudeza cedeu lugar à ternura. com fisionomia resignada. Recomendou-me estar atento. Trata Francisquinha como a uma criança e é indulgente para com as suas impertinências. para nos auxiliar no tratamento da irmã. agora. Emília encontra uma paz que não atinjo. O velho papagaio. Levei-a até lá com Giovanni. Que felicidade poder pensar que Francisquinha foi para o seio do Eterno. perguntando-me se algo me ligava. mas olhava-a talvez com esta quase neutralidade com que se contempla o que é de todo estranho a nós. todos. que pertenceu à velha Maia. vindo a pneumonia. Pobre mana. apegando-se muito a mim. Florêncio. Emília está mudada. e ela se afeiçoou às coisas e ao meio. Não resistiu sete dias. sempre que houvesse qualquer novidade. como de costume. E a sombra de Francisquinha a prende mais ainda. Dá-me vontade de sair desta casa. Silviano. a mana. FORTALEZA DE EMÍLIA.. Como se transformou nos últimos momentos! Encolhia-se feito uma criancinha doente e fitava-me com olhos tão compreensivos. desnutrido. Vestiu-a. baqueou com a pneumonia. Em sua pouca luz. não resista à moléstia. Deus bom. Já aqui estamos há doze anos. e chamá-lo.. realmente. possui invisíveis pontos de apoio: mostrou uma singela grandeza.domina os males. quanto a Francisquinha. agora. todos. Emília foi mais forte do que eu. OBRE Francisquinha! Lá se foi. àquela deformação do espírito. se for preciso. que me parecia humorístico. Vejo agora quanto estava preso a ela. Conversa pouco. Deus chamou a coitada!" Pôs-lhe ao peito um crucifixo de ferro. Ofereceu mandar-me a Joana. Prudêncio. O corpo velho. grande . Receia que. Tratei-a sempre com desvelo. Emilia tem revelado qualidades excepcionais de enfermeira. àquela caricatura da razão. Glicério. e lá se acham o velho Borba. Penso nos gestos serenos e simples de Emília. arranjou tudo. dá-me.

CASTOS AMORES. A Carmélia real. deu-me um rápido abraço e desapareceu. cheguei a vê-la transpor o portãozinho de ferro e aproximar-se de mim. Só as feições se mostram nítidas. Anda decadente. em cuja sala de jantar este mesmo relógio de repetição assinalava as horas de um dia grande. grande. e a visão desapareceu. ou mesmo para pensar. Esperou-me à saída. Não conseguia fixar a atenção em coisa alguma. ela me pertence. Durante estes dias em que tenho estado encerrado. será de outro.. tenho a impressão de que estou vivendo não em Belo Horizonte. Já não reajo contra as visitas dessa doce imagem. as coisas se misturaram no meu espírito. terá filhos. inatingível. Uma tarde. nenhuma representação sensual. Conversamos muito tempo. Experimentei uma sorte de inibição para escrever. o que a torna mais leve e lhe realça o ar virginal. Nessa longa noite. como no domínio do sonho. ora encarnada em Camila e integrada na paisagem caraibana. OUVIMOS hoje missa de sétimo dia pela alma de Francisquinha. concentrando-se nos olhos grandes. embora não entrasse na Capela. na atmosfera moral da casa velha. ler. a maior parte da comida que lhe damos. para não ser vista. Estava de vestido branco. Sempre me apareceu assim. Emília assistiu à missa das cinco da manhã. mas Jandira se informou do local e da hora e avisou os amigos. Depois do enterro ainda não saí. porque está fora dos domínios do tempo. cismadores. Como é casto este amor! Nenhum desejo. como em uma tela esfumada. casará. Soubera da morte de Francisquinha e viera consolarme. Fechado dentro de casa. Quase sempre deixa. sem contornos precisos. pelo Parque. Mas a que construí será sempre minha. Depois de ter andado hoje. perde a plumagem. um pouco. Redelvim também compareceu. tenho a impressão de haver saído de longa noite de insônia. circulando por entre meus fantasmas. ora sob o seu aspecto real. mas no âmbito da fazenda. Deve ter sido um pesadelo. § 54. Carmélia apareceu-me com freqüência. Associei-a à minha vida. na lata. horas infindas. até ao momento em que Emília veio trazer-me um copo de leite. e o tempo não exercerá sobre ela sua ação desagregadora. talvez enfraquecido pelas demoradas vigílias e pela má alimentação.. sentado ao alpendre da casa.pena. e passa o dia todo a cochilar. poucas vezes peguei neste caderno e apenas duas escrevi. . como que alheio a tudo. e as imagens se confundiam. Não queria convidar ninguém. com o corpo extremamente fraco.

enquanto se fazem investigações. Chegada a nossa vez. a fim de lhe explicar a situação do amigo e pedir-lhe. Aconselho-a. Os prisioneiros vão ser ouvidos com toda a atenção. conseguimos falar com o homem. Ninguém receberá maus tratos. Combinamos fazê-lo imediatamente e dirigimo-nos à Polícia Central. a todo momento. REDELVIM VAI PRESO. olhando-me com insistência.Também não reajo contra o sentimento romântico que me domina. Conheço-a. respondeu. então. Desejava que fôssemos juntos àquela autoridade. sei que não é suspeita. e está incomunicável. Havemos de ver isto. com a notícia das sublevações de Recife e Natal. aliás. havia rebentado uma revolução comunista no Rio. a soltura. com esse propósito. e é inútil situá-los em outras épocas. entravam. Um pouco intimidada. ontem. se possível. aflita. não obstante as aparências em contrário. Neste instante. dizendo que ali fora para esclarecer que Redelvim. mas a verdade é que esses sentimentos são de natureza eterna. Foi sufocado o levante. Só depois de duas horas de espera. Sabíamos que Redelvim estava ultimamente alheio às atividades do Partido e nenhuma ligação tinha com os conspiradores. § 55. Seu amigo será bem tratado. após duros combates cujos pormenores os cartazes dos jornais ainda estão registrando febrilmente. e a polícia está prendendo todos os elementos suspeitos. Jandira dirigiu-lhe a palavra nervosamente. pode comprometê-la perante meus colegas. JANDIRA veio procurar-me. mas sua presença aqui.. quando eu saía para sua casa com o mesmo objetivo: Redelvim foi preso. Pela madrugada. Apenas ficarão detidos. que lhe fosse permitido visitá-lo. mas a carta a que aludi o comprometeu aos olhos da polícia. Vivem-se horas ansiosas e a cidade anda cheia de boatos. a não insistir. Jandira veio propor-me um entendimento com o delegado seu conhecido. depois de termos vivido dois dias de inquietação. Não se pode negar o homem. Os que não estiverem envolvidos serão postos em liberdade.. Jandira pediu. entre policiais. Vá tranqüila para casa. Interrogava numerosas pessoas que. nada tinha com os acontecimentos. —No momento é impossível. senhorita.. . —Hum. não se sabe ainda se o movimento surgirá em outros pontos do país.. Hum. Por que esta preocupação de parecer o que não somos? Ponham-me a data de 1830.

Foi pontual e procedeu corretamente em casa. Percebi. Fui chamado à polícia. desfechou-me à queima-roupa: —Estou bem impressionado com o senhor. disse. Disse. PROMETI-ME. Embora inquieto pelo que me poderia acontecer. em seguida. mas. assegurei-lhe que voltaria. como outros. Não tentou destruir papéis. por não ter dormido esta noite. havia de ser desfeito o equívoco." Sinto-me cansado. Leve a moça à casa e apareça-me dentro de uma hora. —Quanto ao senhor. que relataria hoje tudo o que me aconteceu na Polícia. Vou fazê-lo pormenorizadamente. Fora da delegacia. passando pela Secretaria.Diante disso. § 56. Procurei. mas cortês. se equívoco houvesse quanto a mim. Com certeza supôs que eu ia a alguma pândega. para avisar Emília de que teria de demorar-me fora e talvez voltasse à noite. e retirei-me com Jandira. Não se preocupasse com alguma demora: eu já tomara providências para que o contínuo da Seção viesse dormir em nossa casa. Assegurei-lhe que não.. Calculei que expedia ordens para que me vigiassem os passos. ENTRE LUNFAS. Se for detido. ter ali deixado um bilhete para Glicério. Jandira. . Que o "Chefe" precisava de mim. vim rapidamente à Rua Erê. Talvez tivesse de fazer pequena viagem com ele. nos seguintes termos: "Suspeitam de mim. que o delegado apenas me pedira voltar à sua presença. desejo que volte aqui. É sujeito antipático. para evitar dúvidas. que o delegado chamava um funcionário e lhe dava instruções.. aproveitando esta manhã sossegada. apresentei-me ao delegado com uma convicção: a de que. o delegado. para tranqüilizá-la. perguntou-me o que acontecera. peço-lhe que olhe pela mana e obtenha que o Carolino vá dormir lá em casa. O delegado recebeu-me razoavelmente. Assustado com o imprevisto convite.. Fá-lo-ei amanhã cedo. ontem. Não o conheço. dentro de poucas horas. dentro do prazo. pois teremos meio de encontrá-lo. Com untuoso sorriso profissional. depois de. e não poderei escrever agora o que se passou comigo. Deixei-a em casa. pois repreendeu-me: —Parece que já esqueceu da Chica. muito pálida. a fim de prestar depoimento sobre Redelvim. deliberamos retirar-nos.. ao sair. e eu ia fazê-lo com Jandira. à noite. quando o delegado me chamou à parte. aviso-o de que nada lhe adiantará fugir.

fitando -me dentro dos olhos. para a diligência. Então. etc. um tanto inquieto.. o pacote registrado parecia de livros. de uma feita. Os investigadores de guarda disseram-lhe que não havia lugar para mais ninguém e que os "pássaros" já . quando entrou em casa. Pensei logo em Emília. Olhou três salas e achou-as repletas. É comum haver esquecimentos. Fí-lo. respeitava o regime. por seu intermédio? perguntou. naturalmente. observou-me de modo impertinente. em sua companhia. recomendou a um policial. Assim a velha não se assustaria. Digo "talvez".. Vasculhei a memória. pedi arranjasse as coisas de forma que não atribulasse a velha. —Vejamos. Beltrano. Poderiam tomar informações com Fulano. prosseguiu: —Pensou que ia sozinho? Um investigador o acompanhou durante o trajeto e o observou. meu conhecido (o que se interessou pelo caso do Giovanni).. Como explica o fato de mandarem livros extremistas ao sr. Sou obrigado a detê-lo. pela janela. Pondo-o a par da situação especial de minha casa. Durante os segundos em que me demorei a responder.. destacasse. Pode fazer suas declarações. —Conduza-o a uma das salas. o acadêmico Glicério de Sousa Portes.. fiquei certo de que assim procederia. que serão tomadas por termo. respondeu. de chofre.. —Mas. indicando-me com um gesto de queixo. fazendo apelos à memória.. Redelvim as vezes dava meu endereço para que lhe fossem enviadas cartas ou encomendas. Lembrei-me de que. ainda. chegar às mãos do destinatário.. eram livros extremistas? Em suas freqüentes mudanças de pensão. pertencia ao serviço público. Talvez não existam. meu companheiro de Seção. note bem. imprevidências. —Sua explicação é aceitável.Vendo minha surpresa. Pelo tom de suas palavras. por um corredor comprido. sem idéias políticas. etc. e. que. quando contei o que se passara. onde estão os que aguardam depoimento.. se fosse possível.. Cessou a pressão. Pode ser que os haja e tenham sido esquecidos. disse o delegado. o investigador Parreiras. que eu era pessoa inteiramente inofensiva. cheio de gente. e na interpretação que poderia dar à busca. Mas precisamos investigar. Posso reproduzir a conversa que teve com uma senhora velha que mora lá. sem indagar que coisas continha. Vejamos. um pouco tranqüilizado pela acolhida. Declarei. Redelvim. Interpreto favoravelmente o fato de não se ter demorado para se desfazer de documentos incômodos.. enquanto não se der uma busca em sua residência. Farei o que for possível. que este levasse. O policial levou-me pelo braço.

Pedi que não o fizesse. deixemos de luxinhos. mesmo. porém. A combinação "lunfa de penosa" era-me. disse. então... mas quis ver a morena. Até me haviam ajudado a . não. Percebi que estava em meio de larápios e a experiência despertou-me a curiosidade. disse.estavam reclamando contra isso. fingindo zangar-se. Ia para a Bahia. menos Goiás. E continuou a contar sua vida e aventuras. maltrata de "manguarão". pessoar! Depois se apresentou: —Não ouviu falar de mim. que o mau humor se desfez. . Mas isto é doce de leite para mim. Sou punguista. Mato Grosso e Amazonas. e "lunfa" é ladrão. Que seria "lunfa de penosa"? Propus-me apurar isso. Tão surpreendido fiquei. de vez em quando aparteado pelo outro. mas não dou para isso.. É a segunda pessoa que me trata.. e os tiras estavam acampanando a grinfa. disse o magro. —Seu Belmiro. seu manguarão. Na gíria policial "pinta" é aparência. A cana é isso. Você vai é mesmo para as grades. não tem sopa. mestrepunguista.. com orgulho profissional. puseram o senhor no meio desses malandros! Vou contar ao delegado. o investigador Parreiras veio procurar-me para me levar à presença do delegado. prosseguiu.. e falou: —Ora. —Está com pinta de lunfa de penosa. Já fui encanado mais de cinqüenta vezes. rindo-se. Bem que tinha vontade de fazer um servicinho de vez em quando. Saído o investigador. meio impaciente. de cicatriz na face. estranha. gordo. para o outro. Não valia a pena. onde havia dois presos. Já corri os Estados todos. não? Os jornais estão cheios. Banco o vigário só quando não encontro otários para punga. acolheram-me com chufas. pelas onze da noite. Fomos juntos à casa da pequena. respondeu-me o baixo. Mancou agora.. Tiro só a grana e deixo o couro para o ota não dar o grito. veio ver a nega e foi encanado. —Pois olhe.. Fui preso por causa dele. ou melhor. A sodade apertou. —Mais amor e menos confiança. velho. Um me dirigiu a palavra: —Não ache ruim.. Namora. —Mancou. —Qual nada! falei. Não afano a carteira. indicando-me o companheiro magro e alto: Este é o Manequinho. Com eles me distraí bastante até que. jeito. Mas sufoquei a raiva e entrei na sala de janelas gradeadas. e isso me exasperou. ganhando a confiança dos marotos. O homem fitou-me.

no seu Diário. minhas idéias se comportavam bem dentro da Constituição liberal-democrática. disse o homem. precisávamos de provas." —Quanto ao seu amigo Redelvim. tirando partido do meu embaraço. quando o investigador me levou ao delegado. As declarações íntimas.. emendou. com o seu enjoativo sorriso. AGORA. Cá estão as suas "memórias".. os três cadernos em que venho deixando notas. esforçando-se para brilhar: é um céptico. continuou. Acha que viveremos sempre de erro em erro e que. VAI. Nossa Constituição já acolheu numerosos princípios da socialdemocracia.. e o senhor deve . Depois. Iríamos ver. Com aflição e vergonha vi. Surpreendeu-me agradàvelmente a presença de Glicério e Silviano no seu gabinete. nada justifica o sacrifício de sangue. em suas mãos. São dez da manhã e devo preparar-me para ir à Secretaria. em que as transformações se possam operar sem que sejam necessárias as revoluções. § 57. —Foi o que o salvou. Correu-me um calafrio pela espinha. assumiu ar professoral e disse que. "Ou melhor. —Sim senhor.. continuou o delegado. imaginando que o delegado fosse ler páginas dos cadernos na presença de Silviano e Glicério. Veja se entendi bem. —Tive de me enfronhar nessa maçaroca. perguntei-lhe qual era a minha situação. prefere os regimes brandos. . mas não os cumprimentei senão com um gesto de cabeça. esclarecem sua posição. a folhas e folhas. pois o Chefe de Polícia mandou examinar o caso com urgência. Respondeu que ficasse tranqüilo: parecia boa. prosseguiu. O momento não é para condescendências. Depois. o mais que houve na delegacia. Eram onze da noite. Por isso. Sublinhava as palavras. Apesar das declarações do Senador Furquim em seu favor. socialdemocrática. Devo levar isso em conta. À noite relatarei o resto da aventura. pois suas confissões (novo sorriso irônico) têm cunho de sinceridade. portanto... intimidado que me achava pelas circunstâncias. Meio mundo se movimentou por sua causa. afinal.passar o tempo.. que não passa de um "anarquista lírico". Olhei de soslaio para Silviano e Glicério: era de malícia a expressão deles. de um ano até aqui. PARA ALGUMA COISA SERVIRAM ESTAS NOTAS. o senhor acha.

. Glicério não teve coragem de fazer o mesmo. para indicar que o assunto era reservado.. com o queixo. sobre os espíritos fracos. encabulado. que julgou necessário solicitar os bons ofícios do Senador Furquim no meu caso. disse. .conhecer bem o homem. Seguindo comigo. assistiu à busca nos meus papéis. quem sabe. Depois. Parece necessitar de mim e querer dizer-me confidencialmente qualquer coisa. que deviam ter achado a cena muito cômica e por certo me consideraram um pobre-diabo. mande-me um exemplar. que instintivamente fiz. Notando minha angústia e o gesto. que eram notas para uso íntimo. Silviano não insistiu na zombaria. em companhia de Glicério e Silviano.. apesar dos pesares. Justamente esses é que constituem o nosso maior problema. Respondi. um pouco. sendo grande o número dos detidos.. Gostaria de vê-lo mais ousado.. . e tomei a mão do calhorda. Lá fora. Entretanto. O ímpeto meu era de esbofeteá-lo. E.. se me permite. que o senhor é platônico em demasia. pondo o dedo nos lábios. emprazando-me para um encontro amanhã. O delegado fora atencioso. também. Glicério. um conselho. teremos de conservá-lo algum tempo. Se publicar as memórias. então.. declararam aqui ter vindo para arrolar os bens do inventário de Francisquinha. com a pequena. talvez eu tivesse de ficar mofando na grade. Separou-se de nós.. e que isso serviu para apressar as investigações. Ele. estendendo-me a mão em despedida. apontando. porém.. Pedimos-lhe desculpas pelo equívoco.. Glicério contou-me. Mais direto na questão da. pouco adiante.. à espera de solução. Abusando de nossa tolerância. Ou. Acompanhara o Parreiras e um estudante. os cadernos que estavam sob o meu braço. O senhor erra julgando-o de todo inofensivo.. a "peça". pois. O senhor pode retirar-se. —Enfim. Mas.. irritado. Falei-lhe que o caso estava encerrado e que. A fim de tranqüilizar Emília. aludindo à embrulhada em que o Redelvim me meteu. Bem. meti os cadernos debaixo do braço e saí. encontrei bom entretenimento durante as horas de detenção. atuam lenta.. de novo tornando ao seu jeito presunçoso e cínico: —Bem. interrompeu a conversa e ficou a rir. Mudou de assunto. Já conversamos bastante. tímido. mas profundamente. mas o bofetão ficou na mente. Silviano pediu que eu lhe mostrasse. funcionário da Polícia. Seu Diário me interessou. e foi uma violência do delegado o ter-lhes posto os olhos. os senhores são literatos e sabem o que lhes convém.. de resto. Noto. depois de uma pausa.

um pedaço de bolo envolvido em papel impermeável. O AMOR. AMANHÃ DE 3 DE DEZEMBRO. Ficamos a conversar até às duas da manhã. meu pensamento estava distante. § 58. lembrando-se de que fizeram o mesmo quando morreu a velha Maia. e. A busca não teve maiores conseqüências: Emília acreditou na história do inventário. aqui. embora este se manifeste às vezes de forma inusitada. onde se anunciam os contratos de casamento. cedinho. com o distinto médico-radiologista Dr. nisso seguia a opinião geral da Secretaria. "Gente sem modos". Nesse documento se atestava nada haver contra mim e que minha detenção fora. vagando em torno de uma conversação havida com Silviano.ma Viúva Dr. Jorge de Figueiredo. que pertencem à nossa haute-gomme. quando se foi o Borba. ao que parece. depois de tirar umas graças com a Emília. que não lhe falta siso. e. na sala de jantar. têm sido muito cumprimentados. no ponto de bondes. filha da Ex. à hora da despedida.. para colher depoimento sobre terceiro.-Tento analisar e explicar os sentimentos que a notícia do noivado de Carmélia me despertou. Emília já se havia recolhido. inclusive a de pedir ao contínuo Carolino que dormisse aqui em casa. Partiu hoje. Carolino contou-me histórias de sua vida. A velha." Sempre pensei que experimentaria grande abalo com o acontecimento. contou-me. consigno. Carolino ficou de voltar.Finalmente. apenas. tirando-me de apuros com a Polícia. criou-lhe estima. Hoje cedo. o Glicério. Ao encerrar a página de hoje. Ótimo rapaz. pois lhe deu. no Natal de 1934. ontem. a medo. folheei com emoção o Minas Gerais. Desempenhou com carinho as incumbências que lhe dei. PELO AMOR. ao servir o almoço. dizendo que achara bom obter aquela declaração. para produzir efeitos na Secretaria. Aurélio de Miranda. É interessante que a gente conviva tantos anos com uma pessoa sem a descobrir. Os noivos.. quando a informação me caiu sob os olhos: "Acha-se contratado o casamento da prendada senhorinha Carmélia Miranda.. mais de uma vez. percorrendo. Minha fé-de-ofício não ficaria prejudicada. mais tarde. —Os home da justiça mexeram em tudo. Vi. Desde a vinda de seu primo. de vez em quando. Eu o julgava um aluado. . temi essa notícia e. Glicério entregou-me um papel. minha gratidão a estes cadernos: para alguma coisa serviram. Ao chegar. ao despedir-se. quase à meia-noite. encontrei-o estendido num colchão. a coluna social..

o fenômeno. é a situação do Redelvim. desde que Carmélia foi revista. com atraso. E a tristeza foi resignada. sobretudo a distância da moça em flor. ontem. para ir passando o tempo. e Jeová lhes abençoe a prole. mas o desejo de realizar o mito. com serenidade. o meu desencantamento. Verdade. pela sua Dulcinéia. a convicção de que um grande abismo me separa de Carmélia e de que toda pretensão minha.. aproveitando uma fresta de luz. já não conferiu muito com a intemporal Arabela. Avançarei um pouco mais. receando. uma ponta de despeito em tudo isso. Que se casem. o despeito trouxe luz.Entretanto. cuja divulgação se fazia. neste instante. sem esforço. se é amor um sentimento tão acompanhado de renúncias prévias. não passará de uma prendada e fina senhorinha e não terá sido senão um "momento" da incorpórea Arabela. a mim próprio. em si. ou talvez o de dar sentido a uma vida sem sentido. Andei reagindo um dia ou outro. hoje. que me vem no momento. e eu o bendigo. portanto. terei cultivado e incitado uma paixão puramente cerebral. já por mim conhecido. O que me deve interessar. só agora. e quem sabe se a convivência teria destruído a lenda que criei. teria desfechado um processo rápido de "descristalização"? Afinal. porventura. verdade. tão desvirilizado.. livros e frutas. se o noivo não aparecesse. seria ridícula. Entretanto. Há. . Vi-a sempre à distância de uma estrela. a tristeza de viver de carícias compradas. em mim. certamente. a razão por que me conformei sem esforço com uma notícia que deveria ser catastrófica. A tal ponto se fortaleceu. cultivam o sofrimento e o exacerbam. Jandira foi quem o supriu. agora. de uma coisa e outra. é que geraram a lenda. é que o namorado teve descerrada. que seu arrefecimento viesse privar-me de uma emoção que enchia minha vida. Verifiquei ser uma criatura sujeita às contingências do humano e sem a essência eterna do mito a que o amanuense aspira. a minha impressão foi de que se tratava de fato antigo. a seus olhos. O amor era pelo amor. a distância. torturados por não sofrer demasiadamente a perda de um ente querido. Esta solidão da Rua Erê. fora daquela noite de sortilégios. E o Cavaleiro da Triste Figura se pôs em marcha. Farei com que lhe entreguem. É essa. na hora que passa. a cortina interior que ocultava sutil trama psicológica. a situação. aceitando eu. ao outro lado do espírito. tenham numerosos filhos. mas. quando Carmélia tem dono. A sensibilidade nos oferece surpresas dessas. que não duvido fosse capaz de lhe procurar um noivo. a seu respeito. Haverá despeito e mau humor nestas linhas? Creio que não: investigo. procurou sempre encobrir. Aviltei-me demais e coloquei-a num altar que talvez não merecesse. Pergunto. Como aqueles que. no caso.

Esse Jorge deve ser mais ou menos isso... NOITE DE 3 DE DEZEMBRO. sabe que Carmélia ficou noiva do Jorge? —Ah!. tive comprida conversa com Silviano. É fina. Mas para bem dizer. ao passo que assumi uma atitude olímpica. segundo esta.-Depois de encerrado o expediente na Seção. E você compreende: pode ser um bom camarada entre gente da sociedade. como não dispõe dos recursos com que conto.. Você não serviria para ela. Não chegarei a dizer que o amigo esteja amando a prendada senhorinha. e não tem configuração nítida de suas aspirações. O ciúme. Entendo que só serão felizes casando-se com homens tranqüilos. palavras menos importantes trocadas com Glicério. —É. Você sempre diz que o rapaz é muito "distinto". aborreceu-se. O bacharelando Glicério de Sousa Portes não estava de boa cara. é Glicério quem terá primazia. um homem sem endereço. com os seus "a propósito" sem nenhum propósito. me fez maltratar esse excelente mancebo: supus que me estivesse fazendo concorrência e passei a hostilizá-lo. Não amou. —Tanto melhor para ela. tem razão. porque. ficou um pouco sugestionado. Reduzidas as coisas às verdadeiras proporções. Tudo isso me foi denunciado pela sua fisionomia.. tive essa impressão. noto o seguinte: Glicério é um hesitante. porém. quanto a Carmélia. na Seção. Foi o bastante. concordou.. À hora do café. prolíficos e domésticos. —Não suspire.. já com o propósito de contribuir para que seu aborrecimento passasse. à ordem cronológica. É um inquieto. continuei. É um indeciso. nesse capítulo. Bom casamento. e imagino que terá recebido a notícia do noivado com menos espírito esportivo do que eu. Também ela não serviria para você. há tempos... porém. Talvez não passe de um prelúdio de amor. falou pouco.. Namoricou apenas. para se lhe tornar desagradável o acontecimento. Não é homem de nosso clima. Nosso clima não é salubre para mulheres. Registrarei antes.. a mangar. suspiroso. quanto a falar. —É. contagiando-se do meu entusiasmo pela moça e vendo-lhe propriedades metafísicas que lhe atribuí. Sujeitos de alma simples. Ficou? respondi. Um bom burocrata deve obedecer. achou jeito de tocar no assunto: —Por falar em festas (Sepúlveda se melindrara por não termos ido a uma festinha em sua casa). E. prendada. e. respondi. AINDA O NOIVADO. e a moça será feliz. não o conheço.§ 59. e você pertence. apesar dos . porque não possui força de sentimento para tanto. no relato dos acontecimentos. aparentando indiferença.

mas acho que andamos exagerando um pouco. Você quer assiná-lo também? Respondi-lhe que não. Não faz mal: fica para amanhã cedo. Foi uma injustiça e. Somos animais intratáveis. § 60. Também estou inclinado a achar que exageramos. Vamos aproveitar o despeito e restabelecer a realidade. nunca deu importância a certas deficiências de Glicério e está sendo amigo melhor: orienta-o. tentando ridicularizá-lo. O QUE Silviano tinha a confiar-me (provavelmente desde o dia em que veio à Rua Erê e encontrou-me preocupado com a moléstia de Francisquinha) era o seu novo caso amoroso. Silviano. quero saná-la. Afinal é uma criatura de carne e osso. mais compreensivo do que eu. ambos bem-humorados. Glicério me interrompeu: —Ora. impaciente. Glicério é bom amigo e rapaz aproveitável. nada disso. sem notar o tom de troça da pergunta. —Que problema? O "Fáustico"? perguntei. Haveria conflito de temperamentos. expôs-me a história. Felizmente. ao "distinto".. E conversamos mais um pouco. meu juízo a seu respeito. com invencível horror ao "fino". —Nada disso. falei. Há vários dias que preciso falar-lhe e não encontro oportunidade. Oficialmente não conheço a família.. quando tive ciúmes de Carmélia com ele. O melhor é tomar um chope e mandar um telegrama de parabéns.pesares. cercados de curiosos. carregando a fisionomia (só . nossa amizade veio a salvamento depois de todas essas crises. e deu-me tempo para reconhecer o erro. Admiro Carmélia. Se leva desvantagens em nossa roda. Em seguida. O QUE SILVIANO ME FALOU. É disso que precisa. explorei-lhe esse lado fraco. retificando. Deu uma risada e concluiu: —No fundo estamos despeitados. ou à noite. agora. mesmo. Nunca pensei nisso. —Pode abrir o coração.. em certo momento. Ao mencionar Silviano. —Você me está dificultando a solução do problema. Confiante.. não me venha com bobagens. Cada um de nós tem seu lado fraco e. Sem maiores preâmbulos. a uma fauna complicada. atalhou. Tempo é que não me falta. aqui. mal tomamos o bonde para ir a um bar da Avenida. mais uma vez.. não suspeitou dos rancores que. Tal era sua ânsia de confidencia que não deu a menor importância ao fato de nos acharmos dentro de um veículo. não é senão pela pouca idade e experiência. vejo que me estendi demasiado sobre a conversa com Glicério e o cansaço já não me deixa.. anima-o. lhe votei. relatar o outro encontro.

potelée é o termo justo. em aventuras de subúrbio. à espera de um bonde. O amuo passou logo. para encobrir a identidade.) Exibiu-me um dos cartões. Silviano prometeu-lhe casamento. . o "Perrexil". que não lhe permite ressentir-se com pilhérias. Agora.. esclareceu. ou. a fazer intermináveis compras. dizendo: —Veja que coisa horrorosa. resfolegando. o negócio está nesse pé: a pequena lhe manda bilhetinhos incríveis. pois. potelée. interessante. O nosso filósofo varia sempre. Sim. estava ele no Bar do Ponto. como de costume. Travou-se namoro.. porém. Ah! ah! ah!. foi contando o caso. se não o tivesse prometido.) Enfim. sessões de cinema. e ele a seguiu. Depois. divertido.. porque mandava descer a loja inteira das prateleiras e nada lhe servia (imagino esse gordanchudo Dom Juan a dobrar o passo. continuou. Há cerca de um mês. quando a mulher passou. entrava noutra. para não perder de vista a presa). Não se trata mais da jovem da gota-serena. para o ofídico. Silviano se coloca em plano de superioridade tal. excursões pelos pontos mal iluminados da cidade. Combinaram-se outros encontros. Diz-me sempre: "Seus motejos me deixam na mais divina indiferença". Não era do tipo angélico e pendia. virou-se para mim:—Você sempre com zombarias tolas. é uma pequena de outro estilo. (Talvez conseguisse mais.. Miudinha. . melhor . Enjoado! —Sua Zizi. maior atenção." Ri-me. estendeu-me um bilhetinho amarrotado. Ao fim de certo tempo. Passeios de automóvel. dizia: "Meu gatinho:—Você é muito gostoso. a moça o percebeu e deu-lhe corda. a não fazer. pela posta-restante.. pois este teve a precaução de mandar imprimir cartões de visita com o nome do seu venerado mestre. Estou mortinha de saudades. assumindo ar sério. ingrato. Não tem de que se rir. Sem me dar. Silviano não gostou: "Isso é muito trágico. endereçados a Aristóteles de Estagira (acredita ingenuamente que Silviano se chame assim." .. Isso é de espíritos mesquinhos. Saía de uma loja. Chama-me gatinho! O bilhete. dando uma gargalhada: —A pequena estranhou. antes. O assunto é sério.. Veio-lhe uma grande aura de desejo. assim nos abancamos no bar.depois de alguns segundos o remoque o atingiu).. escrito em bom cursivo. Por que não vem ver a sua gatinha? Por que não foi à matinée do cine Brasil? Estou com a unhazinha afiada para arranhá-lo. mas acabou concordando em que o mundo está cheio de nomes esquisitos... E calou-se. preocupado com a precisão vocabular: só os franceses é que classificam bem as mulheres.

isso não tem a menor importância.. com urgência.. por alto.. —Ora. mandaria um bilhete à pequena. quase um ano depois. mas por causa da "coisa em si". Quem o assumiu foi Aristóteles de Estagira. portanto. Noto que nas primeiras páginas deste caderno registrei. Foi uma estupidez essa aventura. comunicando-lhe que fora chamado à Macedônia. que denomina "atitude católica em face da besta". Salvo se. palavras que trocamos no Parque.. —Então. depois. —Mas sempre se purificou. no último Natal. objetei-lhe. Pelo que me expôs. com soberba inflexão de voz. desgostante.. tratava-se de uma pequena fácil. —Não! Não receio que haja perigo de acréscimo ao registro civil! exclamou. Porfírio era meu avô. Já me informaram de que ela cultiva homens casados para receber regalos e brindes. De modo que não há compromisso. Não haveria. Foi um momento de fraqueza do Pensador (aludia a si próprio).. Dei-lhe. dano moral no caso. É.. Será a última concessão à Besta! Sugira-me um meio de safar o filósofo Aristóteles dessa embrulhada. Joana continua sólida. se me visse envolvido em semelhante alhada e quisesse sair dela. E atacou a questão. E nem poderia haver.. Coisas que a Dolores Gigedo devolveu.. Belmiro. não há problema. Não é a primeira queda. Aristóteles pode seguir para Estagira sem nenhum remorso. Aliás eu não o procurei por esse motivo. E. Hoje. O caso está resolvido. . —É.. Devemos deliberar juntos. aliás.. depois: —Chamar-me gatinho! Que monstruosidade! Aristóteles de Estagira. uma porção de miudezas.. Não é por causa do compromisso. —Porfírio. Agradeceria a boa convivência e lhe desejaria prosperidade. Porfírio. e que deveria partir pelo primeiro vapor. adestrada em aventuras desse gênero. A carne é profundamente triste. não. dizendo-lhe que. muitos presentes. —Mas o Pensador já fraqueou mais de uma vez.E continuou: —Foi uma estupidez. . a respeito. aliás. —É o que vou fazer! exclamou. Será a última concessão à Besta! Respondi-lhe que o problema era simples.. diante de si mesmo! disse. A pequena arranjaria logo outro entretenimento. e não morrerá sem dar à luz mais alguns imbecis que se disponham a sair do repouso cósmico! O que há é que estou enojado disso. gatinho! Continuei.

—Precisamos meditar sobre as palavras de Paulo: andai pelo Espírito e não satisfareis a cobiça da carne. Você é um pateta. isso é que é. que acaba de cometer aventura indigna de um filósofo! Falamos. É o que precisamos fazer. (Deu vigoroso acento à palavra "ascese". Não insisti em minhas réplicas.retomou ele o fio da conversação. e não transcorrera todo um agitado ano entre aquela tarde natalina e a de ontem. como houve romantismo literário! . como eu. todos os seus excitantes. e não podemos deliberar juntos. um pacóvio. e Hegel. Depois de alguns minutos. violentamente. ao despedir-se. Louco! Não tem senso filosófico. em forma definitiva. E o grande caminho é a ascese. —A solução é a conduta católica. cortando-me a palavra. a meditação deve versar sobre esse ponto. ele disse que é melhor casar do que abrasar-se. para evitar nova explosão. e. sobre coisas várias. é a única pessoa com quem uma conversa definitiva me pareceu possível. sorvê-la.. pois estes são opostos um ao outro. irritado. —Mas. sem o intervalo de doze meses. de Kant! E que em Kant a gente encontra de tudo. rastejando. ainda. eliminando todos os seus atrativos. então cortado. Não compreende o problema. Impossível dominá-la. para ver o espetáculo. Porque a carne luta contra o Espírito e o Espírito contra a carne. Dei-as. no mesmo tom grave em que me falava. Não entende nada. a frase interrompida em 1934. Atrai-nos sempre e nos deixa sempre insatisfeitos. Ela é ardilosa e inesgotável em astúcia. tal como se continuasse. Tive a impressão de que a vida havia parado. é outra. disse. Rechaçar a Besta. Vai pela cabeça desse maluco de Marx! Esqueceu-se de que Marx saiu de Hegel. depois. não se casaram. não chegou ao alto da montanha. isso é que é. Nosso problema—entende?—é repudiar a vida. deu. Não vê o Jerônimo? Engolfou-se nos doutores. à saúde de Aristóteles de Estagira. pediu-me notícias do Redelvim. —Você sempre pequenino. nem histórico. exclamando: —Bebamos. —Minha situação em face de Paulo. Sublimou-se. querelante! A questão é mais geral. —É porque está. uma gargalhada. a favor e contra! Louco! Romantismo político. —Não tenho tamanha aversão à vida. —Vejamos se agora ele desiste de reformar a humanidade e se enxerga a "coisa". Entretanto. —Estou perdendo o meu latim! disse. E caiu num mutismo desalentado. Porfírio. Aos coríntios. Para os que.. respondi. objetei.) Precisamos renunciar de uma vez. Porfírio. porém.

assim. sutil." . Mas talvez a dureza seja aparente. um canto límpido se alteava—desacompanhado: "Nesta rua tem um bosque que se chama Solidão dentro dele mora um anjo que roubou meu coração. § 61. até que o relógio da torre do Mercado desse suas nove horas que equivaliam a um toque de recolher.E deixou-me. Uma toada se espraiava no ar. que desprendiam beleza e inocência. sob o luar.. braços dados. Ê as cantigas todas eram cantadas. quase sempre não lhes percebemos a intensidade lírica. Minhas ruas e meus largos de Vila Caraíbas eram. No momento preciso em que certos quadros se desdobram aos nossos olhos. vamos com os olhos da alma penetrar no âmago daquelas paisagens extraordinárias. na Vila. a luz e a música de longínquos dias.. a cantar em solo." indicam que não se incomoda muito com as atribulações do amigo.. através da memória. à dança em que raparigas. Assim chamavam. enquanto as outras faziam coro. NADA me aconteceu de novo esta noite senão que. depois de uma ascensão lenta. receptivo. andando a esmo no Carlos Prates. no estribilho. Nosso olhar circula vago e às vezes quase indiferente. nos seus trabalhos subterrâneos! Só hoje. Suas palavras "vejamos se agora ele desiste. "RODA MORENA". Quanto o inconsciente é fino.. nem lhes apreendemos a substância rica de poesia. que pareciam perdidos. a cor. pois Silviano é bom sujeito." Depois. Uma ia ao centro do círculo. povoados de ranchos femininos. ali pelos lados da Rua Serpentina. tirada por vozes sem artifício. dei com uma "roda morena". entoavam velhas modinhas. plenas de melodia: "Eu estava na estação quando o meu amor chegou deu um vento na roseira e o salão encheu de flor. Mais tarde é que. Achei-o duro com relação a Redelvim. as camadas profundas do espírito me trazem o panorama.

mas certo aspecto dele. um no outro. Consultarei Silviano sobre esse conceito antifederativo do . a seu respeito: não estava precisando de mim. que buscamos. ou fazia que a torre do Mercado deitasse ao chão de grama uma sombra grande. Provavelmente aconteceu com ela o que sucedeu comigo. fora da roda: "Se eu roubei teu coração é porque te quero bem. E está aí. que nos impele. Somos amigos fracionários. não o indivíduo. às vezes em uma linha. § 62. misteriosa. NOVOS RUMOS DE JANDIRA. não será difícil investigar-mos a necessidade de ordem espiritual.Vinha a réplica de alguém. castas e descuidosas. Se eu roubei teu coração tu roubaste o meu também!" Melodiosas noites! O luar batia em cheio na Matriz branca de cal. Fui vê-la ontem. Nada me falou sobre coisas suas. nos fragmentam.. mas os vultos femininos sugeriam donzelas caraibanas. Faz-me isso pensar que. aliás. no geral. eu me ausentara de Jandira. ou mesmo em um ponto apenas. a amizade nunca foi. É verdade que nos encontramos quatro ou cinco vezes durante esse espaço de tempo. faz dois meses já. afinal). procuramnos em um ângulo. apesar de meio rabugento. da. São partes nossas que se unem por simpatia às de outros seres. entra em tudo—mesmo no reduto das amizades mais puras.. em nós. Entre mim e Jandira. um conflito em que prevalecerão as partes simpáticas. os amigos não nos vêem como a um ser indiviso. fantástica. cujo chefe é homem velho e bondoso. As cantigas da "roda morena" de Carlos Prates não eram as mesmas. DESDE o dia em que tivemos uma conversação amarga sobre os seus problemas. então. embora haja umas que se repilam. Elegem. a explicação do fato de nos unirmos a pessoas de caracteres tão diversos. dizem. embora não tivesse recebido nenhuma reclamação contra isso. e de nossa roda ser quase sempre heterogênea. as feições que lhes aprazem. moral ou afetiva (egoística. mas os encontros foram rápidos. que nos parecem espontâneas e gratuitas —e. se saímos à procura de um amigo. mordido pelo remorso de tê-la abandonado tanto tempo. porventura. aquele sentimento integral a que aspiramos. O egoísmo. senão que continuava nos escritórios da firma Sobral Lt. e o assunto foi a vida dos outros. ao contrário. mas. ocorrendo.

(Citou qualquer especialidade arrevesada. o professor declarou que já me vira. dizendo com ar importante e um charuto entre os dentes: "Sempre às suas ordens. É um sujeito divertido. E mencionou os outros. este é o Azevedo Leão. em companhia do Prudêncio Gouveia. Atendido. D. Procuramos inutilmente fixar um círculo... torpe D. se não o fizessem. fruto de pequeno despeito." Agradeci ao falastrão e insisti para que continuassem o jogo. bem diverso da atmosfera tépida que sempre ali encontrei. com quem ela se relacionou há uns dois ou três meses? Reação contra o ritmo um tanto monótono de sua vida? Coisas de mulher. e finalmente. sorridente. depois de prolongado silêncio. mas não me fez a festa do costume. Juan!" E. se lhe pegavam uma carta. doutorando.) Precisando. Creio que perdi a amiga. minha amiga. Toda vez que perdia com o coringa." Durante todo o tempo em que estive a seu lado. Experimentaríamos. se eu não tinha pé-frio. Perguntou-me este. À vista de um coringa. Apresentoume à roda. Ela. Vim de lá quase magoado. A amiga está-se dispersando. Belmiro.indivíduo. nem precisa quarentena. cujo nome não guardei. Não queria ser desmancha-prazeres. É que Jandira me desapontou. com tristeza. pessoa com quem simpatizei. na mutação dos quadros da vida. De manhã trabalho. ficou satisfeitíssimo e segredoume: —O senhor tem um olho episcopal. Jandira correspondeu com ligeiro sorriso à minha saudação. Jogavam coon-can-play na pequena sala. uma paisagem em que nosso espírito se compraz. e o doutorando deume forte aperto de mão. desde logo senti um ambiente frio. os amigos se deslocam. . Noto que virou quase um quadrante na sua rota. Pode encontrar-me no apartamento ou na Faculdade. disponha. aqui conhecido por "Almirante": foi Anita quem nos trouxe esta flor. Influência da professora vizinha. procurando outros climas. e isso me fez meditar. Um amigo de Jandira passa a ser meu. com seu olhar meio estrábico. Os quadros se vão sucedendo. invectivava furiosamente a carta: "Canalha gentil. e lhes pedirei desculpas por esta divagação inoportuna. mas a vida é terrivelmente móvel. Anita me sorriu. pus-me ao lado do Almirante.. coisa grave numa idade em que já não se fazem novos amigos. O canalha gentil compareceu logo. o professor Barroso. Chegado à sua casa. dava um suspiro e dizia: "Muito bem! exclamou o Conde. esclarecendo a minha qualidade de velho camarada. a professora e dois cavalheiros de desigual idade e catadura. Sou assistente de clínica. na Santa Casa. Respondi-lhe que não sabia. para mim: —Anita. sob pena de retirar-me. também. as perspectivas se transformam..

Nem sequer me perguntou pelo Redelvim. . por certo apanhadas em leituras. Creio que pressenti nele um possível namorado para Jandira. Eram dez da noite quando saí. Aconselhei-o a voltar ao copo com urgência: será o meio de reencarná-lo em si próprio. descobriu. Disse-me o investigador que lunfa de penosa significa ladrão de galinha. no dia da soltura. Está indignado com Mariana. haverá chope. Anda queixoso e neurastênico.. ao entrar. Quanto ao pedante doutorando. nestes dois meses. Tenho pruridos filológicos. quando veio o Parreiras para me anunciar que já posso ver Redelvim. ao ler os jornais. Florêncio contou-me que experimentou grande abalo quando. Aproveitei a presença do Parreiras para um esclarecimento a respeito da conversa dos lunfas.ouvi-lhe frases desse gênero. Combinamos aparecer juntos. encantado com o Almirante. § 63. em Sete Lagoas. em que pese à Mariana e aos médicos. É rapagão bem vestido e elegante. pedindo-lhe explicação da gíria que lhes ouvi. LUNFA DE PENOSA. Foi ele quem me reteve ali. que virou outro. por ter a mulher conspirado com os médicos e viver a espioná-lo. provocou-me imediata aversão. para que lhe sejam entregues. Levarei amanhã. na relação das pessoas presas. O primeiro. quando as namoradas me abandonam. achando tudo ruim.. Um pândego. e isso me enciumou. suspenderam o próprio Florêncio. foi criando um outro núcleo que fará concorrência ao nosso na disputa de sua pessoa. Não tinha podido ir visitá-lo. não está com a mesma cara. Os médicos lhe suspenderam o chope. E Florêncio se divertiu bastante ao saber que os larápios me acharam com cara de ladrão de galinha. novos livros e alguns maços de cigarros. Ainda se encontrava aqui. isto é. despertando-me um interesse que venceu a natural hostilidade para com a nova roda da amiga. na Polícia Central. Parece-me que Jandira não tardará a desertar de nosso pequeno círculo. o nome do nosso amigo. Certamente lhe pertence a baratinha que vi à porta da casa. deixando-os ainda com as cartas. Sorrateiramente. amanhã. pois chegara hoje pela manhã e havia muitos negócios para tratar. TIVE duas visitas esta noite: Florêncio e o investigador Parreiras. que passou quinze dias em Sete Lagoas a fazer seguros de vida. Será possível que ela o namore? Como tolerará um indivíduo dessa espécie? Fiquei cerca de duas horas a sapear o jogo. Pobre Redelvim! Já vai para semana e meia que está preso e continua incomunicável. à delegacia. E ficou estabelecido que.

e gaiola—prisão. Aludia à revolução de novembro. se não fugíssemos. Emília veio indagar se era verdade que houve um "fogo". § 64. tira—investigador. A isso chamavam um "fogo". Em Vila Caraíbas havia. pequena. pássaro—detento.Quanto aos outros vocábulos: cana quer dizer prisão. acampanar—seguir o criminoso ou indivíduo suspeito. também. grinfa— morena. Respondi afirmativamente: houve "fogo". gente graúda. namorada. polícia secreta. punguista—batedor de carteira. às vezes. bancar o vigário— passar o conto-do-vigário. pouco antes de se iniciar o cerco do 12. matavam-se. A pergunta de Emília. provavelmente vindas do Morro dos Pintos. afanar—furtar. ser encapado— ser preso. que o substituiu hoje na entrega de pães. e esta só terminava. com a aniquilação de todos os elementos válidos. falou-me que o outro. UM "FOGO". que procediam do edifício onde hoje se acha o Departamento de Instrução da Força Pública. ficaríamos entre as balas do Exército. do nosso padeiro.° Regimento. Para satisfazer à sua curiosidade. a propósito da revolução comunista. que tão raro se exercita. brindada com algumas balas perdidas. e morreu muita gente. De outro modo. mas um pouco além. um pouco aflita. então ocupado por um contingente policial. Narrando. ainda. lhe disse ter sido causa disso uma guerra havida no Rio. couro— carteira de dinheiro. um . A vila era pacífica. Dois coronéis fazendeiros brigavam por questões de terra ou de honra. lembrou-me os dias penosos de 1930. a prisão. trouxa. quando as manas me deram grande trabalho. memória das rixas seculares entre famílias importantes. ocorreram durante muito tempo querelas sangrentas. que consumiam famílias inteiras. iam às armas. com jagunços de um e outro lado. nos confins do Norte. ESTA manhã. netos e bisnetos herdavam a contenda avoenga. de parte a parte. que vinham da colina. servi-me da mesma explicação dada durante a revolução de 1930: fora uma briga de dois coronéis. ontem. Cessada a luta. otário—simplório. em meias-palavras. ser-lhe-ia difícil compreender. Parreiras e Florêncio (que também é versado nesse calão) prometeramme um completo vocabulário dos termos em uso entre os malandros. vi que a casa fora. grana—dinheiro. e as da Polícia. Pela tarde. Pela situação desta casa. Havia recontros armados. Filhos. —Móde quê? perguntou (dizia o velho Borba que essa locução é uma corruptela de "por amor de quê").

intimando os moradores a desocupar as casas. das vicissitudes sofridas naquela ocasião. Bem que tenho tido desejo de dizer que ainda amo a donzela. Decorreram já duas semanas desde o dia em que o Minas Gerais publicou a infausta informação esponsalícia. tranqüilizando-a. Lembrando-se. que fora apenas um combate ligeiro. estes cadernos?) que há muito não falo em Carmélia. Pelo menos. que resolvera ocupar aquele edifício. Um rápido tiroteio. Emília nos acompanhou. e há muito não . e Giovanni se incumbiu de transportar pequenas coisas indispensáveis para passarmos alguns dias fora. Soube. num recanto do bairro da Floresta. para a casa da mãe dele.° Regimento. não. e voltaram). —Não. ficou crivado de balas. livrando-nos de passar os maus momentos que muitas famílias experimentaram.pequeno destacamento de soldados descera a Rua Erê. às pressas. deu-me a impressão de que a luta se iniciara. mesmo. às oito da noite. no porão nosso. Posto que estivesse mais ou menos a par da situação. Teria sido impossível permanecer na casa: o alpendre. entre a guarda da Cadeia Pública e o pessoal do 12. E O CASAMENTO É PARA JÁ. com as manas. as crises vão-se espaçando. Um vizinho deliberou não evacuar a zona e instalou-se no porão. a seis ou oito quilômetros da Capital. lembraram-se de que eu deveria estar em apuros. pudemos carregar a Francisquinha nos braços. O bom Prudêncio levou-me. nem no Glicério. quase como a de saudade da amada que morreu. que dá para a Rua do Piau e está inteiramente a descoberto. Emília me perguntou se o "fogo" de agora ia durar e se se estenderia a Belo Horizonte. Pirraça pura. disse eu. Só à meia-noite. embora sob uma forma diferente. e foi vão todo o esforço para tirá-la de casa. com as velhas. tive de resignar-me e aguardar os acontecimentos. naquele dia. muito mal. com a família. DEVEM ter notado (publicarei. O Governo entrou no meio e prendeu todos. § 65. Não encontrando quem me auxiliasse em remover as duas velhas. considerado ponto estratégico. vindo Giovanni e Prudêncio Gouveia em meu auxílio (depois de se terem retirado. Francisquinha estava. dormindo no mato. Emília queria que fizéssemos o mesmo. Algumas vararam as portas e foram alojar-se no meu escritório e nos quartos. depois. de meio metro de altura. por certo. Emília — vendo a irmã em tal estado—começou também a oferecer resistência.

Receava que Carmélia se casasse com "qualquer um" daqui.ão. —À sua.—O do Filgueiras? —Nã. Embora surgissem vários "a propósito". deve ter chegado ao extremo da resistência. cometeu a loucura de contratar casamento. Foram namorados quando Carmélia esteve em São Paulo. Segundo diz o Jorge. Só fala que pode morrer sossegada (ninguém tem mais medo da morte do que ela). aqui ou alhures. pareceu-me que também fizera pacto idêntico com o seu demônio. reduzi-lo a coisa escrita é o meio mais eficaz de liquidá-lo e. pelo não. continuou.. É como disse: estavam-se namorando sorrateiramente. mas vá lá. aquela "bomba" no Minas Gerais! —Estive lá ontem. Francamente cacete. Hoje.. repete a todo . o noivo ou o noivado. Está beirando os sessenta. se é que o tem. porque conheço muito o Dom Donzel da Rua Erê . porque Glicério me prestou interessantes informações.. emendei.. Pelo sim. hoje. —Amigo urso! Na hora ruim não quer ser companheiro. —Novidades. daquelas bravas. O de Carmélia. Estabeleci comigo mesmo o compromisso de não mais. melhor será não sabotar o Belmiro flautista. O namoro não continuou. de quem lhes falei há meses (sele a petição e volte. Que pena o Dr. mencionar-lhe o nome. segundo. sua idéia de vir para cá foi um pouco por causa disso. Mas ficou um ranço. sem a gente saber. Rompo. querendo). você é que era interessado... e noto que isso de silenciar sobre a moça não exprime indiferença e antes pode ser indício de manhosos e subterrâneos sentimentos. pois nestes quinze dias não me disse nada que envolvesse Carmélia. Inteiramente à nossa revelia. com ele.experimento uma recidiva. —Então? —A coisa já vinha de muito tempo. a coisa pegou outra vez. Primeiro. o pacto. e o caso foi comentadíssimo. logo aos primeiros quinze dias. Deixá-lo esparramar-se no papel. por dois motivos. os mesmos não foram utilizados. e a noiva tem apenas vinte e dois anos. pois seu ideal se realizou. Quanto ao Glicério.. Melhor "a propósito" não haveria. com o regresso de Carmélia. A viúva está ovante. Com a vinda de Jorge. seu Belmiro. Esta literatura íntima é a minha salvação. porém. Por exemplo: o companheiro de lunetas douradas. fingindo supor que se tratava do caso do velho companheiro de Seção. nem se firmou compromisso. há três anos. mas Glicério ficou firme. que ficaram registradas em páginas passadas destes cadernos. a donzela. Sindiquei a respeito do noivado. Acabou entregando os pontos e vindo falar-me sobre a namorada comum. Um belo dia. —Que noivado? perguntei.. Ora esta. Aurélio não estar vivo.

que lhe perdôo) que sou dos poucos convidados. É uma noiva perfeitamente vulgar. Quanto ao mais. besteiras de enxoval. Quanto ao Jorge. Por isso. Acabou-se a sua Arabela (mandou-me essa estocada. onde as festas duravam três dias e três noites. tomando a pergunta ao pé da letra. —Não é possível! Nunca se fez isso em Minas. seu assalto anterior. leitão assado. É quase uma afronta a nós todos. satisfeito... —Isso mesmo. para compensar. (disse-lhe. . guardei a grande novidade para o fim: vão à Europa em lua-de-mel. Enfim. com ligeiro golpe. com bailes. Realiza-se já.. Foi a própria Carmélia quem me fez o convite. A viúva diz que não é bem uma lua-de-mel. bebidas a rodo. —É para já. mas recuou logo. Depois. em estudos de aperfeiçoamento. isso. O dia certo não sei. fica horas e horas a contar grandezas.. —E quando é o casório? perguntei. Belmiro. Mas a portas fechadas. com uma taça de champanha. O casamento vai ser na intimidade." Nesta altura. respondeu. pensando nos casamentos de Vila Caraíbas. respondeu. Os mais pródigos vão à Argentina. para corrigir a rudeza da comunicação: —Você não imagina como ficou melosa. Está besta. com o noivado. coisas de filistinos.. lamentei de mim para mim o desperdício da cena que compus no trajeto de bonde e que ficou registrada em outro ponto destes cadernos. com o coração meio agitado.. era louco pelo Jorge. não haverá cerimônias complicadas. o resto do enxoval. —Quer dizer que não haverá doces? perguntei. está numa arrogância insuportável. A viúva seguirá amanhã ou depois para comprar. —Mas você se esqueceu de que se trata de gente rica e importante. aquilo. de São Paulo. O melhor não é isso. no Rio. —Dois proveitos num saco! Mas é pena estragar a lua-de-mel com esse negócio de curso. Doces deve haver para os íntimos. vendo-me fechar a cara).— Você anda positivamente de má vontade para com o rapaz. O Jorge tem dinheiro a valer e já andou pela Alemanha. e não faz ainda um ano que o velho morreu. Vai ver que nem ficou tão besta assim. Então você é que está besta. seu Belmiro.. dando acento irônico às suas palavras. O Jorge vai aproveitá-la para fazer um curso em Paris. Não passam de filistinos.. Mas o trivial é ficar mesmo pelo Rio. —Está certo. Com a vitória obtida sobre os elegantes da terra.. —É compreensível. comunico-lhe (nesse momento não pôde evitar um tom de superioridade.momento. não há outra expressão. Depois. —Bom. Preciso reagir: Glicério está-me faltando ao respeito)..

Estava casado havia dois meses apenas. afrontava todos os perigos. TEMA PARA UMA ELEGIA. Há dez anos. por mim encontrado entre os que acompanhavam o enterro. a ambição de galgar postos e conquistar galões para conseguir a mão da amada. levar estas linhas até ao fim. por atos de bravura. Já era hora de se encerrar o expediente. senão por violento esforço. O professor Barroso. os riscos por que passou ali. a conversa acabou bem. Afinal. Ao desviar-se de um bonde. álgido e inflexível. Arriscavase nas mais difíceis diligências. Era uma flor de rapariga. referiu-me uma história que vem aprofundar. o velho pôs em ação seu prestígio político e obteve a remoção do militar para município distante. e nós nos despedimos. Como vêem. O velho não se abalou. mas o pai fez uma oposição obstinada. ao Instituto de Psicopatas. que o atirou a um poste. já era questão de capricho. esta manhã. Arranjou. que se acha recolhida. esse tenente. aos funerais de um tenente da Força Pública. morto em circunstâncias dramáticas. ASSISTI. um casamento de conveniência. então simples furriel. o sentido de tragédia. dando-lhe morte instantânea. meu companheiro de bairro. e os dois estabeleceram. logo depois.Disse isso com tanta raiva que não pude conter uma gargalhada. para a moça. clandestinamente. no acontecimento. Esta bateu o pé e jurou que só se casaria com o seu antigo namorado. e o golpe transtornou a razão da viúva. no setor do Túnel. . era segundo-sargento. o segundo-sargento conquistou mais uma divisa. O fazendeiro redobrou sua oposição. Na revolução de 30. Na revolução de 1932. a segundo-tenente. que me deixou cansado a ponto de não conseguir. mas o velho fazendeiro continuava duro em sua negativa. não cederia. foi colhido por um automóvel. O velho declarou que. Tão cheio. Como o namoro continuasse. quiseram casar-se. Foi quando conheceu a pobre senhora que é hoje sua viúva. desde logo. Não haveria de casar a filha com um furriel. no peito do soldado. para o seu amor. enquanto vivo. Cresceu. mas suficiente para entreter o fio do amor. na Rua dos Pampas. A paixão se agravou. já agora primeiro-sargento. espécie de senhor feudal da localidade. foi um dia cheio de novidades. neste momento. § 66. uma correspondência epistolar. de parte a parte. filha de importante fazendeiro. comandava um destacamento policial em pequena vila do interior do Estado. Dentro de dois anos. Apaixonaram-se um pelo outro. p primeiro-sargento passou a sargento-ajudante e. Nada adiantaram. cheia de extravios e incidentes.

Barroso pouco sabe.. ontem. Dada a explicação do meu impedimento na tarde de ontem. a renovar o alpiste dos passarinhos. a não ser que também continuou firme no juramento e que. dirige-se para a que lhe é grata aos olhos. depois se assentou e pôs-se a chorar. Não me disse o amigo como foi interpretada a atitude do noivo. E chorou amargamente. desde o início da história. mas. No meio deste ano. sucedeu. fazendo um gesto de abraço. Tal como aconteceu a mim—quando procurei Camila e não vi senão uma sombra—o espectro daquilo que fora os seus amores se sobrepusera. viçosa. É ela. Não sou eu. Trocam-se cumprimentos comovidos. Fui hoje cedo à casa deste último. mas procurar desvendar o que se passou. a vida que nela morreu. gasta e melancólica. Pela parte da moça.. e o Romeu foi buscar sua Julieta. NOVA LUZ SOBRE SILVIANO. e sua morte veio permitir a realização do casamento dez anos projetado. a fim de . agora.. Barroso não pôde dar à narração a intensidade afetiva do acontecimento. Encontrei-o de pijama. ficou inimiga do pai. porque chegaram a nós pessoas aparentadas com o morto.. não sabe qual. então. O furriel de outros tempos era. toda aberta em sorrisos. se apoiou a uma cadeira. extremamente pálido. de modo insólito e cruel. Há uma." Barroso contou-me que o homem. pelo que me disse. acompanhada da irmã e de um irmão. apresentar desculpas (deve ter ficado aborrecido com a minha ausência no local determinado para o encontro) e repetir o convite para a pretendida visita. o ranzinza bateu a bota.. calculo como foi extraordinário o que. à imagem longamente sonhada e que era uma imagem do passado. garboso primeiro-tenente de nossa milícia. ESQUECEU-ME dizer-lhes que a morte do tenente e seu enterro me impediram. Flevit amarè. no espírito do tenente. é a sua amada. conforme combinei com Florêncio. ele se prontificou a sair comigo. como Simão Pedro. dentre elas. A moça deixa a fazenda para ir recebê-lo na casa da vila. Depois de ligeira hesitação. Combinadas as coisas por correspondência. então. nem o poderia dizer. no caso. Mas esta percebe o equívoco e lhe diz: "Não. § 67.Mas o seu capricho só fazia animar o capricho do militar. fixou-se o dia do casamento. de ir ver Redelvim. E o que importa não é isso. perplexo.. debruçado sobre a mesa. Ele chorou talvez a mocidade. e outra. Talvez já não houvesse amor. mas o nosso tenente. no alpendre. ferido nos brios de homem. ressequida.

Preciso falar-te. advirto-o de que só me causam tédio e pena. se informara a respeito. porém. Fizeram bem.irmos imediatamente à delegacia. apanhara a bagagem e mudara de residência. —Ora. A suspensão do chope me faz quase doido. com surpresa. Afinal. Quando chegamos à escadaria externa que leva ao saguão do edifício. Depois. Silviano teve um sorriso olímpico e pôs a mão no ombro do Florêncio. posto ontem à noite em liberdade.. verificou que era chegada a hora de aula. Silviano. entregou-me algumas tiras de papel escritas. —Esteve com ele? Como vai? —Não. Para o caso de que você. pelo telefone do gabinete do delegado. Sofreia os teus ímpetos. Ele a teria procurado. Florêncio e eu tivemos grande alegria com a notícia. E não quero acabar de ficar.. vimos. e disse parecer-lhe melhor que eu as lesse calmamente. Florêncio respondeu que. dada a hostilidade mútua que há entre os dois. alegando ter pressa de voltar para casa. com certeza. E despediu-se de nós.. que descia majestosamente os degraus. o Abundâncio!. —Já falei com você que não me chamo Abundâncio. enquanto for ameaçado pelo Redelvim.—Venha comigo. Propusemos-lhe uma ida imediata à pensão do amigo. rasgando o ar com o braço. O regime estará perfeitamente seguro. O mau humor é um vício. Silviano nos disse. se existisse alguém com nome tão arrevesado.. amigavelmente: —Não se mostre mal-humorado. Deveria estar lá. Melhor é que venhas à minha casa. Redelvim. não deixou endereço. Simples notas de minha Spicilegia. desde algum tempo. Alvitrei que fôssemos. disse Silviano. Julgando improvável uma visita sua a Redelvim. perguntei-lhe: —Que novidade é essa?. venha com ironias. num gesto que deveria exprimir desprezo. miudinho como sempre. Assim entramos em seu escritório. E agradeço o convite. Devo ficar acima de coisinhas. Já o soltaram. Porfírio. à casa de Jandira. esse alguém não poderia deixar de ser um acabado imbecil. disse Florêncio. agastado. —Não há necessidade de tamanho açodamento. que. então. Quero mostrarlhe apontamentos. fora à pensão. Deliberei perdoar-lhe os aleives que me assacou. sacando o relógio. que tomei. Que venha também o Abundâncio. na Universidade. Você por aqui? —Vim visitar o esquerdista. Como de costume. é um destrambelhado. disse o Silviano. ouvindo suas loucuras. em . para um artigo no suplemento da Gazeta de Minas. conforme o nosso amigo Wolfgang Goethe.

Transcrevo. Outros nos fazem divagar e devanear pelos intermúndios além. que outra sombra impele? Clemente de Alexandria estaria certo? Deveremos encarar o mundo como. afinal? Eis as notas. ou seja a nossa aspiração incoercível para a totalidade." A filosofia de Santo Tomás (um filistino. um não-iniciado diria São Tomás. as maravilhosas expressões de Goethe.. parte desses apontamentos. citaríamos aqui. Platão e Bergson—quem o ignora?—são aedos suculentos. anunciam a ressurreição do Cristo.casa. E seguimos juntos. Agora (e como nisto diferimos desses que sempre perseguem seus ideais de pobres-diabos e suas ambições sombrias!). no Fausto. MAS APENAS O QUE ELE NÃO É. que mostram o estado de espírito do amigo e as meditações em que anda metido. (verificar o texto. A emoção trágica verdadeira não surge em nós senão no dia em que percebemos as coisas no seu ilogismo eterno. agora o que nos importa é esse encontro diário com o mistério impenetrável: o sentido da vida e o destino do homem. as observações hauridas nessas viagens às vezes tão longas e sempre exaustivas —vemo- . Desembarcados. Já vão longe os tempos em que o espírito adejou em torno das damicelas encantadoras. Isto de partir de si mesmo e de reduzir o mundo a si mesmo é um solecismo filosófico. até ao ponto de bondes. Estranho homem! Que pensar dele. Bebi as minhas próprias cinzas. Estamos inquietos. aqui.) Meditar esta tarde nas palavras do incomensurável aquinatense: "O HOMEM NÃO PODE SABER 0 QUE DEUS É. Não fora o receio de ser chacinados pela vil raça dos revisores de imprensa. que chegamos ao dealbar dos quarenta e que vivemos em grandes escafandrias mentais. Precisava sair com urgência. e outras palavras eternas com que o altíssimo poeta define o fáustico problema! Tal é a termometria de um constante estado psicológico: a vida estrangulada pelo conhecimento. quando os sinos. O homem não esgota a Verdade. estabelecendo a confusão) é a mais estupenda tentativa de fechar o ciclo de nossas angústias. aliás o eterno: o Fáustico. mas Newman nos tranqüiliza: To be at easy is to be unsafe. para nós só existe um problema. que se acham sob a epígrafe Libido sciendi: "Para nós. dessa estratosfera do pensamento—e lidas as notas. Como extrair um sentido dessa vã agitação de sombras vãs.. no original. porém.

este pobre verme. no seu largo estilo silviânico. absoluta. que pode tanger o ridículo. Necessidade da ascese: "A sabedoria não entrará numa alma malévola. A verdade em si.-Madruguei em casa . O trabalho de lêlas (a caligrafia do amigo é impenetrável). assinalada pelo Jules de Gaultier e espantamo-nos do tumultuário e do desconcertante de nossas idéias. resumi-las e copiá-las deixou-me cansado.nos vítimas daquela famosa ficção universal. O homem nasceu Para uma condição limitada. todo conhecimento que repousa na autoridade humana. AMANHÃ DE 21 DE DEZEMBRO (nove horas). proferiu esta prece: —Ó Inconcebível. a revelada. Homo: animal metaphysicum. esclareceu Silviano. conhecermos e atingirmos o nosso fim. ó Imensurável. eheu! está muito além das nossas míseras possibilidades. De um modo geral e perfunctório. —A vida não é evidente. Defeituoso. ó Transfinito. UM PROCURADOR DE AMIGOS. sem a outra ciência. Que o leitor as aprecie. condescende em que se prostre a teus pés este farrapo de um farrapo. fazendo estremecer as paredes do escritório. Urge um equilíbrio entre o transcendente e o imanente. deverão fundamentar um artigo seu na Gazeta de Minas. na essência. Só assim conjuramos o desespero de não conhecer tudo: convencendo-nos de que incognoscível não é sinônimo de inexistente. 4) Estas notas a mim confiadas.) REM MEDITARI—O homem é ordenado para um fim que lhe transcende o entendimento! Daí o ser impossível.). achei-as soberbas. olhando para as estrelas e erguendo os braços. "Je me puis trouver le repos. mas bordeja grandes abismos e procura culminâncias. Elas me lembram um Silviano majestoso que certa noite. mas também não é inexplicável (Santo Tomás Aq. no Alto do Cruzeiro. j'ai soif d'infini" “Mon ame languissante aspire aux inconnus lointains" (RABINDRANATH TAG. Tenho sono. Devem ser cinco horas. e os bondes da madrugada já correm pela Rua Erê. sopro dum instante. prestes a ser tragado no hausto universal! § 68. nem habitará um corpo escravo de pecados" (Espírito Santo— Sabedoria I.

NOITE DE 21 DE DEZEMBRO. causou-lhe uma alegria que me fez lembrar os antigos tempos de nossa convivência. o mesmo não acontece entre Redelvim e Glicério. Redelvim e Silviano. despedindo-se com um aceno de mão. Finalmente. —Vou descobrir o urso. Será certamente impossível uni-los de novo. Vejo que Redelvim ainda não a procurou também. satisfeita. A caminho. disse-me. Silviano. que não opina. perguntei-lhe se o nosso revolucionário não tinha estado lá. Por que hão de os homens separar-se pelas idéias? De bom grado. com o meu desejo de sociedade. Devo nutrir esperanças. Noto que fui eu. Voltei à Rua Erê. quando entrou na casa comercial. Silviano e Jandira. Esperei-a um pouco. sete da madrugada. as dissensões de pensamento. para aguardar o almoço. quanto a uma recomposição do nosso pequeno círculo. uma impossibilidade de comércio e de reunião entre elementos tão diferençados? Bem vejo que. conforme diz a amiga. e isso me admira porque. agravadas pela atmosfera pesada deste fim de ano. Glicério. Redelvim. a pequena roda não foi sustentada por força própria. ponho-me a rabiscar estas linhas. é Jandira a pessoa que ele mais freqüenta. anarquista. —Como? Já foi solto? interrogou. Por volta das oito horas. até que tivesse terminado sua toilette e pudéssemos sair juntos.-Novidades no setor Redelvim. que a acorda e envia para o escritório comercial onde entra às oito. este nosso amigo veio procurar-me para agradecer os . § 69. socialista. na realidade? Ou este círculo apenas existiu no meu desejo? Os encontros que tivemos. lhe apressam a dissolução. afirmativa. o homem da hierarquia intelectual e da torre de marfim. Se Jandira e Redelvim—de um lado—e Silviano e Glicério—de outro—se entendem. Eram sete horas. ENTREVISTA COM REDELVIM. no momento. quem criou e sempre procurou sustentar essa agitada assembléia onde atuam forças tão antagônicas. com tendências aristocráticas. tranqüilo pequeno burguês.de Jandira para saber notícias do Redelvim. nem pelos misteriosos princípios de aglutinação que regulam as aproximações humanas. Florêncio. não evidenciaram. durante todo o tempo percorrido. Minha resposta. Jandira. de alma simples. hoje dissolvido. e. antes. Silviano e Florêncio. eu sacrificaria minha idéia mais nobre para não perder um amigo. sou apenas um procurador de amigos. sempre revoltada contra o despertador. tantas vezes. Neste mundo.

A atmosfera foi opressiva. deveria estar com as prisões cheias de conspiradores. durante o "retiro espiritual" (reproduzo expressões suas). psicologicamente. mas está picado pela desconfiança e pela incerteza e se julga um elemento inapto para agir. acabou por chegar ao "estado de raiva". a princípio. pelo menos. Revolta decerto justificável. O certo é que Redelvim está diferente. "embora ordinários". como ele próprio denomina sua reclusão involuntária. de redação para redação. alimentando-se pouco. extraem da gente o que querem"). como diz Silviano. mas desorientada. Aqui. porém. Está um pouco mudado. e que a polícia do Rio. não há pedicuros. disse. Recordemos a conversação de há pouco: contou-me. de um modo geral. não atribuirei essa mudança ao fato da prisão. afinal. um regime de vida que há anos não conhecia e lhe permitiu talvez uma restauração nervosa. Confessou-me que desde alguns anos não dormia regularmente e que. mais cedo ou mais tarde. levou. O que terá determinado tal transformação foi o retiro espiritual. supondo que o fossem enviar para o Rio. sobre o assunto. que viesse satisfazer à sua necessidade de terremotos e à sua revolta contra as coisas. depois dos primeiros interrogatórios. o delegado lhe deu a entender isso. efeitos consideráveis. Redelvim os viveu agitadamente. Dissipado o receio da remessa para o Rio ("Você compreende que seria bem pau.livros. operando essa descarga que deveria desoprimir o ambiente. Provavelmente esse repouso completo lhe ofereceu ensejo para uma revisão de rumos e reflexão mais serena sobre as coisas. Aliás. quanto aos meios. a rebelião teve. tirou todo o atraso. despertar. considerou que. Embora haja abortado. durante vinte dias. Acredito também (e isso aconteceu a muitos) que o choque de novembro tenha produzido no seu espírito uma descarga. nos meses que antecederam o golpe extremista. Lá. na expectativa de qualquer coisa extraordinária. Refletindo. Não quer cooperar . que só poderia exacerbar-lhe o sentimento revolucionário e jamais intimidá-lo. fosse de outro. Vivendo inquieto. dormindo menos. Em suma. descansando e meditando. fosse de um lado. esteve um pouco inquieto. por outro lado. Conhecendo a sua energia. Concluiu que ficaria mesmo por aqui e seria. o senso de responsabilidade de cada um. arrancando unhas. dissipar as fantasias. de início. que foi tratado humanamente na prisão. passou a encarar o caso corri espírito esportivo e deliberou tirar vantagem da situação. não existiam provas de sua participação no movimento. disse-me continuar contra o Estado burguês e capitalista. acossado pelos credores e explorado pelos diretores de jornal. dar rumos aos indecisos. posto em liberdade. abusando dos excitantes. lendo. Isolado em pequeno compartimento. que lhe mandei. nestes vinte dias. pois não pode fazê-lo em estado de dúvida.

Está bem. e que vivia a tremer. quando o conheci. Estou querendo ir passar uns tempos lá. não encontrando jeito de continuar a exercê-lo depois da morte do marido. nem lhe foi perguntado. Procurei-o em casa de Jandira e soube que também lá não esteve. para lhe dispensar cuidados de mãe. na íntegra. Tempos depois. Passava. Viúva desde muitos anos. até quando lhe convier. Redelvim combateu violentamente e em vão o projeto. nem tendo perto de si o Redelvim. vencida pelo orgulho. Não compreendendo isso. contrariado. Maria Júlia. Realizado o casamento. Acostumou-se. Meditara bastante sobre o conflito entre Trotsky e Stalin.para uma ação em cujas diretivas não possa influir. —Cheguei até a porta do seu apartamento. ficou furioso e dispôs-se a não mais ir vê-la. pois teme os desvios duma ditadura. É dessas criaturas que têm vocação para o sacrifício ou que. de cujo nome não me lembro. a idéia marxista. e perguntara a si próprio se a ação de Stalin terá um sentido apenas particular e episódico ou. Pareceu-me que alguns imbecis jogavam com ela. informou haver recebido uma carta da mãe. no caso. Perguntei-lhe por onde andou metido. exprimirá uma impossibilidade de realizar-se. Nada mais disse. Acredito que se Redelvim houvesse ficado em sua companhia o afeto maternal lhe teria ocupado inteiramente o coração e não a deixaria disponível para outros afetos. após longa enfermidade. Pus-me a pensar em D. então. estava brigado com ela. se comprazem na dor. achou também que o Brasil não está suficientemente preparado e ainda não surgira a equipe que poderia organizar o pós-revolução. Creio. Até logo. quando o pai sucumbiu a uma hemoptise. pedindo insistentemente que fosse vê-la. Por isso. decerto impelida pelo mesmo sentimento com que teria tomado o hábito de irmã de caridade. a respeito. Depois de pensar maduramente. dos quarenta. respondeu. porém. que me oculta uma reviravolta mais profunda. Mas ele veio para Belo Horizonte desde rapazinho. Não o faz há anos: ela é que aqui vem. teve pena do infeliz e decidiu desposá-lo. resolvera contrair segundas núpcias. pelo contrário. Redelvim. então. sempre que pode. como suporiam os sujeitos maldosos. Sua probidade intelectual foi. ao papel de enfermeira e. se a polícia deixar. sem dúvida. . —A velha anda muito doente e foi morar na fazenda com o meu tio. Por último. a mãe se casou com um pobre homem que sofria um incômodo nervoso. depois que o puseram em liberdade. vai abster-se da ação e será apenas um espectador. mas ouvi vozes lá dentro e voltei.

que conheceu numa cidade do Sul de Minas. E. FLORÊNCIO foi buscar-me hoje. o médico. Enviuvou pela segunda vez. para consolar o paladar da passagem da bebida por outra via. Belmiro velho. dispensando-o de ir à procura dela. doutor. num gesto trágico e cômico ao mesmo tempo. mesmo de líquidos. para dar a grande notícia: obteve permissão para voltar ao chope. e. Como gostava muito de beber. não o quis privar do vício. Deve andar perto dos sessenta. ainda não o colheu em suas malhas. —O médico apenas me recomendou que não tomasse mais de dez por dia. —E agora. Vítima de um tumor maligno que lhe comprimiu o esôfago a ponto de não lhe permitir a ingestão. Florêncio relatou o caso com espírito. freqüente na família.enquanto estivesse na companhia do segundo marido.. perguntado pelo médico sobre a natureza do alimento tomado em determinado dia. Bom será que a mãe o retenha algum tempo na fazenda. à saída da Secretaria. Contou-me também que." Ou. Se ele voltar à vida antiga não a viverá muito. desde então. Mas a velha vinha a Belo Horizonte sempre que as circunstâncias permitiam. ilustrando a narrativa com . há três anos." O "ele" a que se referia era seu estômago. exclamou: —É verdade. galhofeiro. Servindo-se de um funil. Levoume logo a um bar. Estava transfigurado: era o Florêncio antigo. por meio de sonda introduzida diretamente no estômago. esclareceu. bochechava com o resto que havia no fundo do copo. o velho Carpóforo levava a bebida ao estômago. Há alguns meses tem estado enferma e quem fará a viagem agora é o Redelvim. o tabelião informava: "O que ele comeu hoje foi um arrozinho mole.. nos últimos meses de vida. E referiu-me o caso de um tabelião Carpóforo. O HOMEM DO FUNIL. então: "Ele tomou um caldinho. esse homem teve de alimentar-se. amável. Nem sei mesmo explicar como a tuberculose. Parece-me que só os nervos o sustentam. Não lhe contei ainda a história do funil. que o sabia condenado à morte. § 70. amiudou as visitas ao filho. beberei nem que seja pelo funil! —Funil? Por quê? Dando uma gargalhada e segurando-me com a mão peluda. Habituou-se a tratá-lo como um indivíduo à parte. independente do organismo. no antebraço. por via bucal.

irritado. Bem me pareceu que havia de ser o Otelo.) Ia. § 71. em que—talvez por ser meio gira—se tornou grande especialista) e faz humorismo quando o procuram para outras moléstias. —É o Conde de Revila y Gigedo. Talvez fosse algum extraviado. a uma de suas discussões com Redelvim: "Persegue-me com a sua mania de povo. pois que me dirijo sempre a um leitor imaginário? Prometi a mim mesmo que nunca escreveria um livro. já destituídas de intimidade. quando alguém me bateu à porta da casa. a outrem. se não lhe pudesse dar proporções monumentais. procurei. e eu estava muito resfriado. pude ver que de mim nunca sairia um monumento. pus-me a ler um pouco. responderam. um pouco rudemente. satisfazer. folheando autores prediletos. logo ao iniciar a tarefa. E. então. no alpendre da casa. ONDE APARECE O "DOUTOR ANGÉLICO" CANSADO de escrever. ainda que em parte. qual o médico a que recorrera para obter a volta ao chope. Incapaz de criar. Devia primeiro indagar se povo existe! A mim. depois. andando a passos largos. o homem que tem o senso da hierarquia!" E expôs-me sua idéia de construir um castelo e comprar o título de Conde de Revila y Gigedo (nesse tempo amava Dolores Gigedo. disse-me. (O leitor é. Por que continuar tais confidencias. o equívoco se desfaria sem ser preciso abrir a porta. de um modo especial. com preguiça de levantar-me. pois reconheci logo a voz do Silviano e passou-me rapidamente pelo espírito a lembrança de um dia em que. o amigo se referia. Não acredita na medicina (salvo na sua psiquiatria. depois de dado um giro pela cidade. Assim pensando. ao monstro literário. —Quem é? perguntei. compraz-se na criação alheia. com alguma veemência. Aceitei o sorvete e apanhei uma gripe pneumônica. "É o medicamento específico". Respondeu-me que fora o professor Otelo. Perguntei-lhe. um escritor frustrado. me fez sentir isso: nada há de mim que possa interessar. e incerto quanto à conveniência de prosseguir nestas notas.adequada mímica. Não receberia ninguém e teria cães ferozes para estraçalharem . o "Perrexil"). nesse caso. de certa forma. e. Convidou-me um dia a tomar sorvete. Jandira jamais foi tão acertada como quando. Não tive tempo de assustar-me. pois. na leitura.

Embora tomista. pela sua cabeça passam grandes coisas e também coisas disparatadas. sempre suspensa. Aberta a porta. Imagine. Aquela história de Parabosco & Ferrabosco. É o que há de definitivo. no final. minha presença seria talvez ridícula. de há muito. além disso. ao Conde de Revila y Gigedo. seu Angélico.. porém. que o fato de ter sublinhado o trecho signifique haver o amigo encontrado nele o estudo de caso análogo ao seu. Silviano não me deu tempo para cumprimentos. segundo me informa o Silviano. a folhear um pequeno volume de Luc-Benoist: La Cuisine des Anges. ora caprichos de criança. Surpreendemo-lo em sua biblioteca. também. Próximo à ponte levadiça. houvesse improvisado. o carro está à porta. Mas. seguia-se-lhe. acompanhei o filósofo. leigo no assunto. um capítulo sobre imaginação difluente. Não sei. Jerônimo é um pascalizante. uma série de depoimentos de indivíduos do tipo "espírito romanesco". Silviano levou-me pelo braço e foi entrando portas adentro. que lhe trouxeram da Itália. encontro. para mim. Quero que venha. Seria inútil qualquer resistência. —Não. por exemplo: folheando outro dia um volume de Ribot. . Já lhes disse que o nosso amigo não se deixa medir pela bitola comum: ora tem gestos soberbos. Silviano assim o apelidou por causa de sua profissão de fé tomista. passando-o para as minhas. Uma idéia bem d'annunziana. que. até que ponto faz teatro para os outros e para si mesmo. objetei ao Silviano que. emprestado pelo próprio Silviano. ver-se-ia um cartaz: "Domínios privados do Conde de Revila y Gigedo". e disse: —Leia isso. Entretanto. Vista-se. como chegar a uma conclusão? Voltemos. sugestionado pela leitura. Dar-se-ia que Silviano. a novela Parabosco? É possível. Chegados à casa do Jerônimo. Não é por acaso que conserva um retrato do Poeta sobre a mesa.aqueles que viessem perturbar as meditações do Pensador. disse-me à queima-roupa: —Vim buscá-lo para irmos juntos ao Doutor Angélico. Porfírio.) Imaginei que deveria ser sensacional uma luta entre os dois. assinalado a lápis. Retrato autografado. sustenta com ele interminável discussão sobre a posição de Pascal perante a Igreja. Você vai testemunhar um espetáculo soberbo! respondeu-me. Acabo de fortalecer minhas convicções a respeito do cepticismo de Pascal. Silviano lho tomou das mãos. por isso. ("Doutor Angélico" é o Jerônimo. e.. Leia isso. o Saisset o coloca entre Aenesidemo e Kant! Quero que você assista ao embate: vou fulminar o Doutor Angélico! Ah! ah! ah!. como se vê.

. então. Desde as edições de Brunschvicg e Strowski. respondo com Cousin. O Bremond responde a tudo isso. que é de Jesuítas. agastado.—Que é? O Saisset? perguntou Jerônimo com ar desdenhoso. — . dando uma gargalhada.quanto a Pascal. —Oh!!! exclamou Silviano... seu energúmeno! —Ora.. mais tarde. afirmou que "il est mort en bon catholique". "parfaitement soumis à l’Eglise et à Notre Saint-Père le Pape".. exclamando: —Mas... depois... com um sorriso vitorioso. Já lhe disse que. mas penitenciou-se. "Mentis pela gorja. você. com o sofisma das edições mutiladas pelos jansenistas. nos últimos anos. —Leia. em 1670. Bréhier. —Lá vem você deslealmente. Pascal é arrolado entre os cépticos. colocando-os sobre a mesa ou empilhando-os em minhas mãos. —La vieille chanson. para mim.. faça o favor. Silviano puxou-o. Leia. de suas heresias jansenistas! O abade Beurrier. deveras. numa suspensio judicii indagatoria.... Toda a crítica moderna da França é unânime em reconhecer que ele superou o seu cepticismo. Silviano tirou partido da situação: —Não quer confessar que os Jesuítas são suspeitos. perro aleivoso!" —Pascal foi um herético. com calor. aparteou Silviano. Silviano.. continuou Jerônimo. Ou melhor. —Os jansenistas. gesticulando nervosamente e dirigindo-se a mim. cortou o outro. gritou Jerônimo. voltando-se. com enfado. Você sabe que os jansenistas. —Absolutamente! tornou o Jêronimo. pela manga do paletó. Sua má-fé é evidente. Jerônimo. Você incide no mesmo erro da corrente racionalista do estúpido século dezenove. hein? —Estou apenas procurando forrar-me de caridade cristã.. entende? Ao seu Beurrier. que o assistiu. Não respondeu de pronto e se pôs nervosamente a tirar livros das estantes. Você verá que Pascal é um caso típico de suspensio judicii sceptica. Pascal reconheceu os seus erros. publicaram. no máximo.. uma edição dos Pensamentos suprimindo o que lhes não convinha. não me faça perder o tempo. —Leia. Michelet. . . emprega argumentos dessa natureza? Eu me apoio nos próprios textos de Pascal! E em qualquer edição que você queira. Jerônimo ficou um tanto perturbado com a arremetida. para poder conversar com um sofista de sua laia. Já lhe disse que caiu. .. veja simplesmente a Enciclopédia Espasa. . não se insiste mais neste grosseiro erro. . respondeu Jerônimo. sem prestar atenção ao Silviano.

. Para repousar o espírito. nem afirmar. se perderam em tais funduras. já não duvidamos. Jerônimo procurou diagnosticar o meu caso. quando os dois sutis doutores vieram buscar-me. que me senti impossibilitado de acompanhar a discussão.. Foi o bastante para que se ateasse nova discussão.. Minha situação é de não negar. Mas Jerônimo. ágil e eloqüente. Por outro lado. então. deliberei dar um ar de minha graça. meditando. Tendo eu ficado quieto. Estavam cansados e combinaram uma trégua até ao domingo seguinte. Silviano lembrou que eram onze da noite e Joana deveria estar aflita. E ali cochilei. sem o terem ainda encontrado. as minhas palavras. . Mas.. porfiam em procurar a Deus. Fui ver os dois. se acreditarmos na dúvida.. Silviano aprovou. Só é admissível isso como atitude provisória. O espírito foi feito para afirmar. Silviano. pondo-me a mão sobre o ombro: —Mas Pascal também escreve: "Console-toi. Talvez por gentileza. para mostrar-me que notava minha presença. desde então.E por aí continuaram. encontrei palavras que pareciam adequadas a mim e. dizendo que vivo em dúvida e isso não é possível. tu ne me chercherais pas si tu ne m'avais trouvé". passei a um quarto contíguo. travando acalorada disputa nos domínios da teologia. ele assim é. origem de tamanhas querelas.. Teremos de duvidar da própria dúvida e. Lembrando-me do pensamento lido pouco antes. e disse que eu pertencia ao número daqueles "infelizes e razoáveis". tendo nas mãos um volume dos Pensamentos que o Jerônimo deixara nelas. Não era nada: mexendo desajeitadamente na parte superior de uma das estantes. Silviano pareceu abalado e. onde havia uma cadeira austríaca. com um sorriso condescendente. Tive a impressão de que se passara um tempo considerável quando despertei. muitas vezes objeto de suas conversações comigo. Voltei e fiquei a folhear o livro. Ao que Jerônimo respondeu tratar-se de outra atitude impossível.. Até àquele momento eu conseguira entender o que diziam. pois que o espírito é ativo. Despedimo-nos. —Impossível. de Pascal. Foi o fim da conversa. no entanto. atalhou. a braços com a minha incapacidade de debater o assunto... aliviando-o da forte tensão a que os amigos o obrigaram. a dúvida não subsiste. com o barulho de livros que desabavam de uma prateleira. dizendo ao Jerônimo que não declaro dúvida. ia prosseguir no capítulo. disse: —E. por se tratar de um tema familiar ao Silviano. Jerônimo provocara o desabamento.. foi feito para afirmar e não pode estar inerte. A certa altura. Silviano tomou-me a defesa. própria para cochilos. interessado.

que isso não poderia ser senão uma atitude provisória. à maneira de Jerônimo. Além disso. noiva. PERPLEXIDADE DE GLICÉRIO. numa fallacia consequentis e num abuso de fallacia plurium interrogationum. que. quantia que os advogados novos. no seu conhecido estilo: —Ora. por motivo de moléstia do chefe. Não sabe o que vai fazer do diploma. Confessou-me que não se julga habilitado para coisa alguma e há muito tempo esta idéia o amofina. virou integralista e. Como vêem. Terminada a festa. Também não quer ir para o interior. cá fora. ainda não achou coisa a que se aplicar. A indecisão e o desânimo de Glicério me causam pena. disse-me. Apanhou o vício da literatura e só acha graça nisso. Não encontra. haverá de encontrar o seu rumo. aos cinqüenta anos. O bacharelando Glicério de Sousa Portes saiu pelo braço do amanuense Belmiro. o nosso Doutor Angélico! Foi pena que você não assistisse à última fase dos debates. abraçou o espiritismo. estudou esperanto. Por que não? Fali na vida. o coronel Portes. por não ter . cada bacharelando saiu de braço dado com a irmã. não perdi a noite. e é possível que eu venha a tomar gosto por esse gênero de polêmica. na Seção do Fomento. dizendo-lhe. A família mora nos confins do Triângulo e não pôde comparecer ao ato. Procurei consolá-lo. mãe ou namorada. não estão ganhando. Não pode comigo! Não pode comigo! Separamo-nos em uma parada de bondes. GLICÉRIO colou grau hoje e fui assistir à cerimônia. mas acabou no ilícito comércio literário. E nesse setor não espera produzir nada. os atrativos que lhe descobre o Filgueiras (o de lunetas douradas) e vive em tentativas: colecionou selos. por fim. ali. Lembrei-me. Ainda estou um pouco aturdido pelas coisas que ouvi e não me admirarei de que —ao tentar resumilas nestas páginas—tenha dito algum disparate.. também.. não se sente atraído pela profissão. E lembrei-me de mim. § 72. Andou tentando vários caminhos. da situação do Sepúlveda (o do bilhete de loteria). que teve alguma imponência. Veio para mim com as delgadezas e impertinências da Escolástica! Mas apanhei-o numa ignorantía elenchi. Instruíram-me bastante. traficando entorpecentes com Silviano. a propósito.De volta. Deixa ou não deixa a Seção do Fomento Animal? Pega. inclusive o de rapaz elegante. criou canários de briga. os seus seiscentos mil-réis.

—Vamos tomar um cafezinho quente. aprendia a arte do bilro. em caixetas. Não se falou em Carmélia. uma donzela levava um ano a preparar enxoval. não é sintoma disso? (Ocorrem-me umas palavras bem significativas de Gregorio Marañón: "En el hombre adulto la práctica del Diário equivale a una supresión progresiva de la personalidad activa. Vestido de cetineta. ou coisa que o valha. Como vai a Marianina? E o Pietro? O relógio de repetição dá oito horas na sala de jantar. SERÁ NO DIA QUINZE. perguntei-lhe para mudar de assunto: —E a Nonoca? Acabou-se o namoro? —Você anda no mundo da lua. Terão de esperá-lo no Rio. amigos. cosia com amor. Foi bom para ela: está quase noiva de outro. basta a . para assistir ao embarque. mandava vir rendas de Grão Mogol. Qual foi mesmo o vapor que Glicério disse? Oceania. se não me engano. Mister Prudêncio. Hoje é assim. Aquilo era um passatempo. Que tal uma ida ao Rio. Irão mesmo à Europa. Fazia riscos. Com certeza. presente do Glicério. Compram tudo feito. § 74. Coisa de filis-tinos. social. em caixetas. MAIS UM NATAL. seu Belmiro. —Merry Christmas. Dois proveitos num saco.") Depois. SERÁ no dia 15 de janeiro o casamento. Giovanni. Só zarpa a 18. MERRY CHRISTMAS. En realidad un Diário equivale a un lento suicídio. Daqui a dezoito dias. Mister Belmiro. Agora. —Bom dia. passeamos pela Avenida e nos despedimos. Era um gosto ver essas coisas. tudo vem feito. acrescentando que a viúva já regressou do Rio. com grande indiferença? Ora. e comigo não haveria casamento. Muito obrigado pelo Chianti e pelas castanhas. Emília volta da missa. É o que Glicério informa. de su autor. com as peças do enxoval.encontrado rumos. § 73. Em Vila Caraíbas. com o vestido novo que exumou da canastra e cheira a naftalina. Este Diário. Tomamos um chope. bordados. O Senhor esteja convosco.

Ou então declare-se de uma vez. Carolino. impraticáveis donzelas. E morrerá donzel. apenas o fui conhecer mais a fundo quando. Penso nesse . Mas você não é Borba. para torturar-se. Carolino? —O senhor acha que eu sou um homem abjeto? —Ora. isto é. ou melhor. E tudo por causa da indiscrição de haver lido uma página do seu Diário. você amou o mito e não a moça. para assistir à partida.idéia de ir ao Rio para excluir a de indiferença. Naquele dia. Estabelecido que uma coisa não é outra. Masoquismo espiritual. você não passa disso: um masoquista. Coisa algo parecida ocorreu-me com relação ao Silviano. no dia da prisão. na Rua Erê. inexploradas. como o Jerônimo. antes. Devo corrigir o pensamento pessimista. § 75. Nesse caso. descobrindome regiões novas. sou? Perguntas desse gênero Carolino sempre me fazia. de seu espírito. e passou-me despercebida até hoje. Sim. Dom Donzel da Rua Erê. Que diria o velho Borba? Um Borba teria furtado a moça e a levaria na garupa do cavalo. Nunca lhe prestei muita atenção. Para todos os efeitos. A vida é um constante descobrimento e uma retificação constante. para a fazenda de Vista Alegre. um outro Silviano tem crescido a meus olhos. O SENHOR pode dizer-me o que é abjeto? —Para que você quer saber isso. No curso de uns oito ou dez anos não lhe conheci senão o pitoresco ou. Fique sossegado na Rua Erê e deixe-se de histórias. Disse. neste ano de 35. Convivo com essa criatura há seguramente um lustro. Seu destino é sonhar. quando lamentei a quase dissolução de nosso pequeno círculo. aceitando a opinião geral da Secretaria: era um aluado. naquela noite. Como disse atrás. NOVAS AQUISIÇÕES. o caricatural. conversamos longamente. Você não tem nada de abjeto. —Que é psicopata? —Psicopata? —Sou psicopata. Lembre-se daquele arranjo seu: "o mito Arabela". que ficou para trás. esteve aqui em casa para fazer companhia a Emília. entretanto. você é um pobre flautista. então. Seja lógico. Foi essa indiscrição que deu novo rumo às nossas conversações. Diga que ainda ama a Carmélia. que já não estou em idade para arranjar novos amigos e hoje me convenço do contrário: havemos de fazer descobertas até o último dia. torna-se razoável uma ida ao Rio. deixe-se disso. humanização do mito etc. fique com o seu mito e deixe a moça passear.

Venho da rua oprimido. Tornou-se um personagem indispensável na Rua Erê. Emília será confiada ao Carolino. está se aproximando do Giovanni e do Prudêncio Gouveia. Calcula minhas despesas. E não aceita remuneração de nenhuma espécie. insisti em lhe pagar o trabalho. a ele contadas pelo velho—e quando me disse que foi visitar seu Prudêncio. pois o dinheiro é pouco e os pretendentes. e Tome. Esta consiste em separar. certa vez. escrevo dez linhas. a Rua Erê e fica a conversar com Emília até que eu me levante. Emília aprecia-o muito. Já não me pergunta se é uma criatura abjeta. muitos. com ela. quando. Foi o que notei esta manhã. direi que devo a ela minha salvação. por eqüidade. que me comparece nesta altura da vida. levado por simpatia e curiosidade. pois é muito seguro. Às vezes me adianta os pagamentos. procura retribuir. parte de economias próprias. Quando. Procedente de boa família. Ê inteligente e dedicado. que parece desejar adotar outros amigos meus. UEM quiser fale mal da literatura. fazendo-os do próprio bolso. O pai também se enganou sempre. Se eu for. Assumiu a gestão de minha complicada contabilidade. veio repetir-me coisas do Piemonte—já de mim conhecidas. ao Rio. pela rua. Carolino pega a ave e passeia. Celebro. Carolino procurava apenas isso: uma pessoa com quem pudesse conversar. as contas que devem ser pagas no fim do mês. que conversa é esta de ir ao Rio? O melhor seria ir à Vila e não pensar mais nestas coisas. Que pensará Tome dessas aventuras a que há tanto tempo não se entregava? Carolino.excêntrico e bom Carolino. ainda encontrou meios de se lhe afeiçoar. e ele acabou como contínuo quando deveria ser amanuense ou—por que não? —primeiro-oficial. Mas. Todos o julgavam desmiolado. § 76. a estima que lhe voto. como entende. torno-me . Quanto a mim. ORA BOLAS. Parece que lhe tirei o complexo de inferioridade. com ele dando uma prosa. comecei a cultivá-lo. a aquisição do novo amigo. Desde que. em sua caduquice. recebe o dinheiro para os pagamentos mensais. pela manhã. mesmo. quando o supôs débil de espírito. há pouco. não pôde estudar. Deu para freqüentar. incumbe-se de uma tarefa que sempre me pareceu transcendente: a seleção dos credores. nem ocupar posição igual à de companheiros de infância. hoje bem postos na vida. nesta página. parte provinda de herança. mostrou-me uma caderneta de depósito no Banco: possui setenta contos.

e nada temos que ver com suas palhaçadas.olímpico. ou sua inquietação. De que vale a gente viver a contrariar-se? Por si mesma a vida já nos impõe tantas limitações. e vim. mesmo. Os amigos andaram sumidos— ora bolas. Fique lá uns dias e traga-me um relatório." E é isso mesmo: por que havia de mortificar-me? O desejo de vir não foi veemente: era. . e isso deve ficar escrito aqui. Terminado o espetáculo da noite. suas mágoas." Primeiro de janeiro—ora bolas. este se prontificou a arranjar-me passe e diárias: "Precisamos. apenas. quando toquei no assunto. para estudar os métodos de propaganda postos em prática pelo técnico americano que o Governo Federal contratou—disse. EIS-ME NO RIO. Lá se foi o ano—ora bolas.. partiu dela própria a idéia de se chamar o Carolino. Parte de nós fica no palco enquanto outra parte vai para a platéia e assiste. mandar alguém ao Ministério da Agricultura. Mas é um indivíduo autônomo. Mas tudo conspirou a favor. Deixei Belo Horizonte com antecedência de alguns dias para não dar na vista do Glicério. É um homem poderoso. para o caso em que eu venha a ralhar comigo mesmo por haver cometido esta proeza: "A vida já.. sorri e diz: "Ora bolas. tomamos o bonde e vamos para casa sossegados." E Emília não fez má cara. como defesa prévia. Bravo! Comecei bem a justificação de minha fraqueza alegando as imposições naturais da vida e daí concluindo que não devemos maltratar o irmão corpo com outras privações. com a pena entre os dedos. Vou combinar isso com o Diretor. O indivíduo que representa no palco nos fará rir. uma vaga idéia. somos espectadores sem compromissos. Vi a donzela com o noivo—ora bolas. Mas à noite. para lhe fazer companhia em minha ausência. § 77. Sempre há um argumento para os homens de boa vontade. o comediante se encarnará em nós e teremos de tolerá-lo. EIS-ME nesta mui leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. que espia para. nos comoverá ou nos suscitará graves meditações. Durante o dia. Falando por alto com o Chefe. Senti desejo de vir.dentro. Será mesmo no dia quinze—ora bolas. depois de um chocolate... Descobri o segredo do Silviano: transferir os problemas para o Diário e realizar uma espécie de teatro interior. Em verdade vos digo: o que escreve neste caderno não é o homem fraco que há pouco entrou no escritório.

com o peito deprimido. Aceitei-os. ribeirinhos do Mangue. a usar convenientemente os ônibus). Perco-me. dois vultos que deslizavam furtivos à luz escassa dos lampiões: Capitu e Escobar. Não fui muito adiante: encontrei militares de terra e mar algo tocados. Desde cinco dias não faço outra coisa senão freqüentá-lo no cais. mana Rita fazia insinuações (Cale a boca. Pode-se. que me pareceu puxado por burricos. pela manhã. em vão. mas tratei de esquecê-los no bureau da Seção. etc. O Rio antigo traz-me imagens machadianas que amei na adolescência.. encontrado no Ministério. Muito malandro. contemplando uma sociedade que está sempre a renovar-se. e . Ali nenhuma ilusão era possível. a um canto. Sofremos apenas difusa melancolia.Glicério ficou informado apenas da versão oficial dos acontecimentos: comuniquei-lhe que o Chefe. com saudade. contraditório desejo de ver consumados o casamento e a partida. que começaram a olhar-me de soslaio. distraído. Atrás. arrastando sua língua difícil. Velho conhecido mineiro. moveu-me a curiosidade de examinar os transeuntes e o local. numa travessa. ali.). de Minas. também. com o amigo. na praia. o vulto amável de Sofia e tive dó do Rubião. também fui dar comigo em regiões não machadianas. a necessidade de rever o Rio (seis anos sem o ver) e de espiar o Atlântico. Anda enfurecido e sombrio. Havia. ainda. e lobriguei. algumas damas de poucas ou nenhumas vestes me propunham em francês coisas não muito adequadas ao meu ofício e condição. com grande surpresa minha. mana Rita. pensamentos sutis. deste Rio torto e encardido. mas.. num entra-e-sai de teatro de revista. Em certo bonde. não teremos vindo somente pelo amor. e tratei de retirar-me com dignidade. levou-me ontem a um local encantador. conversá-lo: está inacessível. Andando sempre. e a pé (não aprendi. beber uma cerveja modesta. que é o que amo. Jamais me passara pela idéia uma visita a paragens tais. naqueles cavalheiros que andavam de tílburi. me assusta e intimida. também. a certos quarteirões movimentados. Percorrendo a Rua Matacavalos. tive a meu lado Dom Casmurro. Divisei. Aboletei-me a um canto. pela noite. Estaremos amando neste momento? Creio que não. jogavam voltarete e tinham. fez disso motivo de troça e quis dar-me uns "endereços". na contemplação comovida deste Rio velho. Nossos amigos cariocas não sabem o que vale o mar para nós. Tenho tentado. sobre o mundo.. pensei. a que dão o nome de Juá. em tal comissão. Examinando as coisas a fundo. A cidade nova e brilhante. que nasceu dos flancos da outra. Os passos me levaram. me havia designado para ir ao Rio.. Safei-me daquele mercado estranho. A meus ouvidos. como já ali me achasse.

Recolhi-me ao hotel. entrara nele e. POR pouco. O pirata se iludiu. Fossem damas da alta-roda ou simplesmente mundanas de luxo.. com grande surpresa.pus-me a olhar mulheres finas e possivelmente caras. namoro. Talvez não tenha vindo de Portugal senão para livrar um amanuense incauto das rodas de um ônibus assassino. quando pude identificar uma voz: —Se não o pego de jaito.. de charuto entre os dentes. Agradeci.. Pelo que me disse o companheiro. Deixei-a com suas literaturas. sobraçando cãezinhos peludos. a solidão está-me castigando muito. Sentado no mosaico e já cercado de curiosos. Dei o fora. As saudades . Não rende. me reconhecera. de corpo longo e pernas curtas. Borba? Um pequeno susto. vosmecê iria desta pra melhoire. que por pouco me asfixiava. perfumarias. É uma pequena leoa.. louvando-lhe a destreza e segurança dos músculos. pois. tal a violência do puxão. ao luso amigo. —Boa pequena. . e fui arrastado até o passeio. Sr. aquelas criaturas deslumbraram o pobre solteirão da Rua Erê e no seu coração instilaram fermentos perturbadores. fui com ele a um café próximo. então. Depois de andarmos um pouco a pé. Levantei-me e. perfumarias. não é? (assumia um ar paternal de esculápio). Sr. Queria certamente desfrutá-la. um animalejo daqueles custa o preço de uma coleção de clássicos Garnier. e sabe defender-se. estava meio tonto. Cruzando-a em hora de intenso movimento e descuidando-me de observar os sinais. Andando pela Avenida vira um ajuntamento. Borba. ainda um pouco tonto. conhecido em casa de Jandira. haim? Mas. —Quase o esgano. este corpo magro teria ficado hoje no asfalto da Avenida. que chegavam em grandes automóveis. O PROVIDENCIAL IRMÃO LUSO. que estava na roda de curiosos. quando recebi um forte puxão no colarinho. Foi. mesmo. Mas. verifiquei que houve. se não é o golpe. ganhar o lado oposto. despedimo-nos. Pela conversa. Era o mesmo homem importante. um irmão dalém-mar quem me salvou. sem atinar com as coisas. a mim: era o doutorando Azevedo Leão. dirigiu-se. com a amiga. quis. Alguém. Perguntei se tinha vindo há pouco e pedi notícias de Jandira.. Contou-me que estava de passeio no Rio. —Que foi isso. Devo ter tido uma vertigem. comovido.. o da Biblioteca Nacional.. porém. Neste quarto sombrio. § 78. Fez-me perder muito tempo. mas a moça reagiu à altura. a passos rápidos.

enfim. VOZES ATLÂNTICAS. procurando-os ali. fazendo resplandecer cristaizinhos de mil cores. como centenas de outros. E não aconteceu nada de excepcional. Ao voltar. vem vindo. traços novos de vida. Margeei longamente. coisas vistas. um grande rio. numa viagem. Se fiquei triste. Nenhum interesse nas praias fluviais. PARTIDA. vai-se afastando. A paisagem. Mal os vi. PARTIRAM. deixarei o Rio. Uma saída de navio é sempre coisa triste. que é vário e a cada instante se recria. sem ver a partida. Aos primeiros dias. Ou fico um pouco mais? § 79. correr o mundo. Foram feitos para ser vistos apenas uma vez. mas sempre retrocedendo para o mar. cada vaga. A terra não tremeu. densa mata. Entretanto. que me atraía. e já não penso senão em voltar. está presa a uma condição melancólica: foi feita para ser vista apenas uma vez. Tive a impressão de que me haviam roubado qualquer coisa. foi com a saída do navio. Estou cansado. RECUEI instintivamente. senti-me vazio pelo resto do dia. da floresta e da serra. cansado. Preciso voltar para Minas. pelo mesmo caminho. A gente fica pensando nas terras do lado de lá. Já nenhum interesse havia na escura. havia muito que ver. Tornaram-se coisas velhas. só os encontrei com os olhos quando subiam para o vapor. Amanhã. e coração e espírito se fecharam para as coisas de dentro. . dentro de uma Nau Catarineta que jamais chegaria a porto algum. Eram viajantes perfeitamente vulgares. Cada onda lhe traz formas distintas. no cais. ocupados com vertiginosas imagens sofregamente sorvidas do exterior. andei. onde o sol caía reto. Vai-se afastando. procurando-os aqui.de Minas me trabalham surdamente. Andei. Pareceu-me que desde cem anos eu as contemplava. Não assim o panorama do mar. perguntei-me se foi para "aquilo" que viera ao Rio. depois. ele descobria o que de mais surpreendentemente belo tenho visto em perspectivas naturais. dezoito. Metido no meio da multidão. § 80. nem houve eclipse do sol. até sumir-se no azul. fica desejando conhecer tudo. de rio e floresta. Mas o cansaço vem vindo. apiedei-me do rio. Irritado comigo mesmo. Na luta para alcançar o mar. O mar me perturba.

A voz do grande paralítico. Esse Belmiro avultava cada vez mais no espaço e percorria o tempo. De onde nos será possível descortinar o alto panorama? Qual será o caminho—o da humildade ou o da dureza? Deixando o Arpoador. Uma grande voz' confusa se erguia do fundo das águas. Um Belmiro dominador. Há. ao pé do qual o pobre Belmiro.Pareceu-me que do mar me vinha qualquer mensagem. Ficaram-me desejos confusos de amor e de ani-quilamento. porque na linguagem do cosmos. inexprimível por palavras. devassando todas as idades. a alma sem forças receberam um hálito forte. Por que o mar nos transporta às reflexões sobre o amor e a morte? O amor e a morte encerrarão o destino do homem? Por que. Eis que surgiu um Belmiro poderoso e elementar. senti-me lúcido e triste. captar a surda mensagem. Nossa alma se inclina sobre si mesma e procura. Que segredos guarda.. os olhos sem brilho. ora móvel. As trombetas do Juízo Final deverão ser. a um tempo distantes e próximas. assim. as vagas que batem no rochedo. Em alto estilo apocalíptico nela encontraremos resposta às nossas questões. Ouvi-las-emos é dentro da alma. Se ao menos o amor se definisse. nesta noite extraordinária. exalto-me e quero compartilhar de sua energia cósmica. surdas. e seu objeto é ora fixo. Ainda estou a ouvir. o pensamento revelador. encontrar-lhe a expressão real. neste. sufocado entre montanhas. nos seus recônditos. . Conhece todas as gradações. era um verme a rastejar. assim. como a uma sinfonia wagneriana. Mas. teríamos um sentido. Que imperiosas determinações me vinham das águas atlânticas? O corpo sem nervos. mas dominadoras. sem a interferência dos sentidos. Procurei. ora múltiplo.. Por que me perturba. que é intraduzível. nos convida a romper nossas limitações? Dir-seia que nos propõe a medida da latitude e da profundidade das suas águas inquietas. como o marinheiro do poeta. também. e contudo inquietante. tal como ouvimos a voz do mar. atlântico. ora uno. que sabemos do amor? Impossível fixá-lo. quando devia amesquinhar-me. Ele se compõe da variedade e da ondulação. permanente. para que lhe tenham paralisado a língua? Ainda assim o grande paralítico nos manda sua fala. uma inteligência e um anseio de comunicação que nos fazem estremecer. arrastando-se como um trovão longínquo. o mar? Diante dele.

Tirante a ausência da pobre Francisquinha. Silviano o considera primário. Ano difícil. É aqui nesta sala de jantar. nas intermináveis chapadas do sertão. A VERDADE ESTÁ NA RUA ERÊ. pequenas árvores que não dão frutos. à paz desta casa imutável. os acontecimentos me arrastaram no seu tumulto e me fizeram viver. inquieto. que encontro um refúgio embora precário. Florêncio é o mesmo homem de chapéu-dechile e ventre honrado. depois.. sem outro destino? Deveria conformar-me com isto. Ali estão. ano tempestuoso. Não estarei aqui somente para integrar o vasto painel humano—ponto de luz ou de sombra. mas o caniço pensante. Redelvim se perde em furores. Assim foi em 35. onde o relógio de repetição bate horas caraibanas. COMO esta Rua Erê me enternece! Cá estou de novo. Tudo está como deixei e como sempre esteve. mas não me dá o desejado repouso. o ventre se lhe vai arredondando. que se torna grandiosa à medida que seus cabelos branqueiam. Jandira busca aventuras para se iludir e Glicério se mostra perplexo. a vida me parecera de tal modo parada que supus estar no passado o sentido de minha existência. Quero possuir o espírito pacífico destes velhos móveis. talvez. Terá passado o furacão? Até então. As coisas. Depois. que nos abre de longe os braços. Mau físico para um agente de seguros de vida. este que se foi! O velho Borba não confiava na paz das coisas e dizia que os reveses vêm. homem sem abismos.§ 81. Vivi um ano com intensidade superior à da soma de muitos anos de vida. desta Emília velha. que não indaga. apenas para compor a paisagem. homem! Que carga de ossos! Ao passo que se aproxima dos cinqüenta. repousa na ordem de coisas que encontrou e foi estabelecida sobre um sistema de ficções . A quietude suaviza os meus ardores. agora. nada se alterou no curso destes doze anos. e ganha expressão honesta e repousante. nem possuem raízes medicinais. uns sobre os outros. Feliz Florêncio! Enquanto Silviano se consome em escafandrias. não se mexeram de seu lugar. Para que maior felicidade? Seu espírito. louvado Deus. e melhor fora não ter saído. Entretanto. as transformações interiores me devastaram. gritando na Avenida: —Você precisa comer mais feijão. nem sombra. Retorno. pois Florêncio é a vida na sua manifestação mais confiante e tranqüila. A verdade está na Rua Erê e não no Arpoador. Emília continua grave e exata. quis explicar-se. Por que procurar um sentido individual de existência? Há. molécula puramente pictórica. onde não subsiste nas coisas o sinal das atribulações.

Glicério quis ver a peça. nesse caso. § 82. e. Propõe-me uma experiência. Dir-se-ia a Bela Adormecida no Bosque. sem a Bela e sem o Bosque." Achei graça em toda essa história inventada pelo chefe. e esta figuração tinha em vista os funcionários e duas pessoas que o visitavam naquele momento. porém. prossigamos no caminho até aqui percorrido. com a mesma força. Seu equilíbrio de belo animal humano não é. NOSSO chefe de Seção é um pândego: pegou-me o relatório. Mas o chefe não deixou: "É assunto urgente. de há muito. À hora do café. acaso. Mas queria apenas puxar conversa e me contar o casamento de Carmélia. Respondi-lhe que pelos jornais as teria mais recentes: eu chegara havia três dias. um trabalho daqueles. quanto à minha capacidade de fazer. SEÇÃO DO FOMENTO ANIMAL. morais e políticas. por aqui tivemos uma: o casamento de Carmélia. com pesar. Foi uma festa . Não creio que me forneça uma certeza que me encha a vida. Percebeu que já não me mantenho de pé. a sério. por outro lado. Paz física da Rua Erê. que se achava. encaminhando-o "à consideração superior". Glicério se abeirou de minha mesa. Inútil. como há doze anos passados. aliás justas. encetar de novo a marcha e procurar o caminho de Florêncio. para dar o bote. não acredita intimamente nos relatórios nem no Fomento. Desde que o rapaz deixou a Nonoca.metafísicas. Queria dar-se importância. Como eu. céptico. fazendo crer que ele e o Fomento são levados em conta pelo diretor. O diretor tem interesse pelo caso. Serviu-se do acontecimento para fazer o que Glicério denomina uma "figuração". A ele devemos a modorral pacatez da Seção do Fomento. ideal? Impossível. Insiste em que minha atitude há de ser provisória. nesta altura dos acontecimentos. instintivamente me vou avizinhando do Silviano. correu os olhos distraidamente pela primeira das cinco laudas de papel e achou-o excelente. por que não te transformas em paz de espírito? Tudo está como dantes. mas que fazer? Quem me oferecerá terra firme? Jerônimo? Jerônimo está-me espreitando. A família aprovava o namoro e viu. o chefe o olha com reservas. Todo artifício será inútil e. o malogro dos planos da moça. onde os homens esperam pachorrentamente a aposentadoria e a morte. —Pois. dava ao Glicério um sinal de sua hostilidade. pedindo-me novidades do Rio. Talvez só encontre nele areias movediças. a viver em interrogações. limpou o pince-nez. e.

—E você. Seguiram no mesmo dia para o Rio. Afinal. ponderou. Carolino teve um sorriso desapontado e retirou-se com a bandeja. mas. No mais. Compareceu na casa o que há de bom e de melhor. como diz o Silviano. estimo-o bastante e estou habituado à sua companhia. há alguns anos.. —Embarcaram sempre? Pensei que essa história de Europa não vingasse. —É serviço mais próprio para mim. se deslocam. § 83.. respondeu Glicério com dureza..fina. Sua retirada dá-me uma sensação de desamparo. a fim de alcançar o Oceania. penso também em outra coisa: os outros se movimentam. acrescentei. enfim. no dia 18. Pedirei ao Glicério que não o trate assim. DEDIQUEI todo o domingo à leitura dos quatro cadernos de que já se compõe esta espécie de Diário. Pouco antes de sairmos. Noto que o casamento de Carmélia não o abalou. Ficarão lá somente dois meses. efetivamente. Isso é coisa do século passado. —Acessório? perguntou Carolino. E. sim.. o jovem bacharel voltou à minha mesa para dizer que. Glicério pareceu-me sincero. dissimulando meus passos no Rio. —Embarcaram. —Ah! É verdade. um dia destes. Continua incapaz de amar. Tenho coisas sérias em que pensar. abandonará a Seção. Se ao menos atingisse a beatitude burocrática do Filgueiras.. A VIDA SE ENCOLHE. Já não terei com quem conversar na Seção. mulher é acessório. A notícia me entristeceu. que nos servia o café e ouviu a conversa. muito abatido? —Não me venha com as suas. uma vantagem encontraremos em deixar no papel o registro dos acontecimentos de nossa . Quero ver se mais tarde consigo um lugar de auxiliar jurídico. progridem ou regridem. Estava uma noiva linda. pois o Jorge se diz ansioso por trabalhar. ao escrever estas notas. E pequenas não me faltam. Carmélia! Casou-se afinal? Mas você não disse que a cerimônia seria singela. Não havendo outras. O Senador Furquim lhe obteve uma comissão no gabinete do Advogado Geral do Estado.. Que é acessório? Eu sou um acessório? —Não te metas. Só eu resto e envelheço nesta vida modorrenta. portas adentro? —Mas isso não impediu que a viúva convidasse pessoas do seu círculo. Eu é que ando cansado delas. rompem.

ando sempre. se mergulhei em Silviano. para instrução e advertência nossa um ser bem diferente daquele que supúnhamos encarnar. A vida dos amigos apenas se me revelou quando incidiu na minha. modifica o aspecto das coisas! Minha vida se reduz a Emília. emoção. que desconhecimento de nós próprios! Há pouco mais de um ano escrevi a primeira página. Ah! É verdade: Florêncio não me tem faltado.vida: veremos surgir aos nossos olhos. que sempre foi pouco afetivo. Nestes vinte dias não me saiu sequer uma linha. Mas continua Florêncio. no meu espírito e disputava lugar às imagens do passado. o movimento amortece. Vive no seu mundo de Pereirinhas e de Azevedos Leões. Outras se sucederam com largos intervalos. Creio que já escrevi tudo o que havia em mim para escrever. Depois. ainda que pouco encontradiço. Isto é: encolhe-se na Rua Erê. ingênuos pensamentos. Jandira se afasta cada vez mais. Quantas contradições. Anda pela fazenda e dele não tenho notícias. Que dizer dele? É um homem sem história. permanece a oferecer interesse. aliás. colorido. quase que escrevo dia por dia. Apenas Silviano. Jamais entrei nos seus domínios íntimos. que escrever. Como um ano. A vida ganhou movimento. Continuar a acompanhar a vida dos outros? Isso seria interminável. Já não encontro. Não procurarei os amigos: se não me aparecem é porque já não me querem. como dentro de um caramujo. Eu não renunciara ainda ao projeto de um livro de memórias e me consumia em tentativas. a vida alheia pelos seus pontos de incidência com a nossa: o mais é conjetura ou romance. pois não dá sinal de si. Glicério deixou a Seção e passou a trabalhar nos serviços de advocacia do Estado: foi o bastante para afrouxar nosso convívio. Acabou o namoro com o tal doutorando. Agora. as coisas desbotam e se tornam mais frias do que antes. Só conhecemos. Às vezes não encontro lugar que me sirva. E os amigos se desviaram de mim. que passa. quase me parece estranha. Pouco há. mas deve ter arranjado outros. De agosto a janeiro. foi porque nele encontrei possíveis itinerários para as minhas incertezas. Carolino. talvez nada tenhamos de comum. . Dentro em pouco. em companhia do Carolino. sob mil formas. o caderno toma a feição de Diário e nele passo a expor fatos. loucas fantasias. Leio um pouco e caminho pela cidade. Redelvim. o calor se vai. também. e. quão diversos estados de espírito. e nisso está sua felicidade. que inexperiência. como Judeu Errante. repelindo as solicitações de um presente que se insinuava. tomou o seu rumo. Não tenciono escrever romance. e ando. no ato de escrever. impressões. Giovanni e Prudêncio. a satisfação de outros tempos.

Fez-me pena. Mas o cão não era porventura permeável às palavras de eterna sabedoria. Bem podia ser que ele me agradecesse o benefício com uma dentada. através de uma lata de lixo. que por aí circulam nos adágios. OUTROS dez dias de solidão. pôs-se a correr como pôde. a escrever sempre. na meia-noite silenciosa da Rua dos Pampas. esta noite. Está fazendo um livro. apesar dos esforços desesperados do animal. á escrever. De tal modo insinuara ele o focinho numa lata de lixo. batendo a lata em quantos obstáculos encontrava no caminho. para ter em paz a consciência. para tortura de um focinho possivelmente magro. que me recebeu com bondade. Joana. mas também me fez rir. a julgar pela miséria orgânica do resto do corpo. com a resignação de quem espalhou ventos e acabou colhendo tempestades. isto é.§ 84. Estava fora. a lata para cima. refleti. Que pensaria ele naquela situação? O mundo. não mais largando dali. Simpatizei com o cão e lamento que os animais não estejam a cobro do ridículo. § 85. dia e noite. deixei-o consigo mesmo. É o que presumo com indiscutíveis fundamentos. UM "VIRA-LATA". pois fui encontrar o rafeiro já um tanto cansado. Como eu me aproximasse. Ainda o vi ao longe. esse que surpreendi em tão difícil conjuntura. com as patas traseiras em repouso. na direção das estrelas. ofereceu-me café e contou-me que o marido anda enfurnado em casa. encontrei um pobre cão em ridícula postura. ou aromas amáveis. o corpo apoiado nas dianteiras e o focinho para cima. e não resisti mais: fui procurar Silviano esta noite. e ele ignorasse minhas intenções. Qualquer coisa me liga a esse cachorro magro e abandonado que encontrei na Rua dos Pampas. não deve oferecer paisagens atraentes. que esta se lhe prendeu à cabeça. Afinal. Não é muito recomendável estar fuçando as coisas e quem as fuça deve agüentar as conseqüências. E cá o ponho nesta página. dando com a lata aqui e acolá. Talvez seja esta a razão . Era um autêntico "vira-lata". para o livrar do incômodo apêndice. UM POUCO MENOS PESSIMISTA. O "vira-lata” deveria estar preparado espiritualmente para semelhantes situações. VOLTANDO para casa.

vou aproveitar as forças que me restam. que leva agora. Redelvim queria tornar-me revolucionária. . Anita. já a descerem a escada. Glicério não passa de um convencido. disse. Você acertou em nos deixar de lado. resolvi aproveitar a quebra do meu compromisso íntimo (o de não procurar ninguém). Aproveitaram o rápido encontro para me comunicar que estão noivos. falou. belezinha! disse Barroso. E você me intoxicava com literatura. de que o Jerônimo tem estado sempre com ele. Belmiro. o par já maduro. não. virando-se para mim: —Afinal. Sendo apenas oito da noite. Barroso. E.. e carregue os problemas da turma. —Caduco por sua causa. lançando à noiva um olhar lúbrico.do seu sumiço. anedia como supus. É o que faço no momento. Jandira não está. Não o pus de lado. ainda. —E você? Isso é mais importante.. doutor (o Almirante tem a mania de chamar-me doutor). Este velho anda meio caduco. O que faço é procurar viver. satisfaz? —E a sua satisfaz? —Bem. assim. Arranjem outra. —Mas essa vida. enlaçando-a pela cintura. não hão. —E de amores? —Amores. Não têm culpa de ter sido este encontro retardado pela vida. Já não há Pereirinhas. você por aqui! Por onde tem andado. Jandira olhou.. Descobri uma coisa chamada flerte. Fica falando bobagens com seu Belmiro. Brigam. que vá na parola. Não repare. complicando tudo. seu Belmiro. brigam. Silviano pensava desesperar-me. Contou-me que tudo vai bem. mas cada vez andam mais juntos.—Olhe. Lá cheguei à hora em que se retiravam o professor Barroso e D. isso é verdade. São uns patetas. disse-lhe.. Saiu hoje apenas para ir à casa do Jerônimo. que se afastava: —Nasceram um para o outro. com malícia. O velho Sobral é bom chefe e amigo. consultar a biblioteca. —Não dramatize. o patife?). e eu era uma idiota. sorridente. Continua no emprego e foi aumentada no ordenado. meu velho? A acolhida me animou um pouco. e toquei para a casa de Jandira. Esta repreendeu-o: —Você é sem modos. Informou-me. com suas loucuras (sabe que tentou conquistar-me. com um sorriso perverso. deixe essa mania de dramatizar. Resolvi dar um sentido mais esportivo à vida. —Siga o meu exemplo. Vocês me andavam envenenando com histórias.

—Imagine que coisa divertida.. um casamento. Continuo onde estava. deu para perseguir-me com propostas. Em uma delas tachou você de imbecil. Ora. o Silviano. Diz isto apenas para posar. mas depois fiquei irritada. propôs-me afinal.. Bem que seria capaz de lhe propor casamento. mas continua interessante.. Perguntei-lhe se estava possuído de um sentimento burguês chamado ciúme. menos pessimista. Respondi-lhe que sim. Regressei. o Barroso e a Anita a jogarem. que tolice! Alguém me quer? Quem poderia casarse comigo morreu há anos em Vila Caraíbas. É fabuloso! A princípio tive pena. O resto são declarações amorosas. de ódio. Insistiu em que não se tratava do sentimento capitalista denominado amor. nada devendo prender-nos.. SILVIANO E SEU PLANO DECENAL. voltava. quando me veio ver. Li o trecho: "Quanto ao imbecil do Belmiro. Quer que eu admire seu fervor revolucionário. Vendo que eu não cedia. E sempre desejável. Mudou muito. Mas. e encontrou.. dando uma gargalhada. Aconteceu que eu me achava num momento de dúvida e de fraqueza. Jandira me perguntou se acreditava na sinceridade daquelas palavras. na estacada! O idiota é capaz de ter pensado que fraqueei em minhas convicções. Ia sair. da casa de Jandira. —Pois você se engana. disse eu. o Azevedo Leão. Dentro em pouco. surge-me. aqui. Ótimo! Imagine se eu iria casar com aquele maluco! Agora me escreve cartas de dez. Vou buscar a carta. diga-lhe que não se considere triunfante com as coisas que me ouviu. Aborreceu-se. continuou. DEPOIS de prolongada ausência. de modo algum.. Eu ainda não lhe falei que agora cuido de outras coisas. Sugeria o concubinato puro e simples. doze páginas. afinal.E depois fez uma confidencia imprevista: Redelvim assediou-a também. embora não lhe interessasse reproduzir a espécie. § 86." Achei graça.. Quase me bateu. Queria que fôssemos morar juntos. a propósito de que desencadeou sobre mim o seu furor? —A propósito de uma conversa que teve com você. antes de partir e logo que saiu da prisão.. . Ultimamente. depois da prisão. desde que um dos dois não quisesse mais o outro. com todos os efes e erres. Dizia que não havia de casarse como um burguês. Obedecia apenas ao instinto. estendendo-me uma folha de papel: —Trouxe apenas a parte em que se refere a você. à . —O extraordinário seria que não me chamasse imbecil..

que remonta aos longes de minha infância. folhas de papel que. Eu pretendia evitar o desastre. Não o Velho. Capítulo Evolutio Veneris. passa a tratar-me na segunda pessoa. "Eis que. Conta coisas mui secretas. todo o texto em latim. quando ele me bate à porta. como desejaria. com estrépito. mas o autor de De constantia sapientia e De tranquillitate animi. no herói o sentido de Vênus. trata da sua infância e adolescência. —Há dois meses. resolvi escrever a minha vida. Estive recolhido em graves lucubrações. sem maiores cumprimentos. sobraçando duas pastas de cartolina. Inútil dizer que todos os psicólogos modernos consideram o amor uma doença. havendo. —Não sejas impetuoso. e nele encontro material abundantíssimo. declarou. Tenho um Diário. Sentei-me. ainda. porém. no qual o homem. isto é. disse-me. ameaçavam despejar-se pela mesa e pelo chão. —Joana me disse que você esteve lá.) Levantou-se e. logo empós. intenta escrever a sua vida —De vita própria. com a perspectiva de um desabamento. Porfírio.sua procura. alude ao morbo sagrado (capítulo Sacer morbus). folheando as notas escritas em papel grosso e com tinta roxa. —Larga! Não vês que me vais tumultuar as notas? Conversemos. Fá-lo-ei em Memorabilia. Acossado por grandes aperturas financeiras. com solenidade. a seu lado. de modo catastrófico. então. de tocar nos papéis. o . aos quarenta anos. lançando sobre a mesa. não cabendo dentro das pastas. impediu-me. tentando arranjá-las a jeito. começa a ter a intuição do problema.. primeiro. foi-me expondo o plano da obra: —Silviano. que compreende a espécie amor. Eis o fruto delas! E indicou. Sofreia os teus ímpetos! Nada viste. o Retórico. Primeiro. quando Silviano. —Magnífico! Sempre achei que você deveria fazer isso. presumivelmente preciosa. a carga. embora passageira. sempre com os olhos nas pastas. já ao dealbar dos trinta anos. como que referindo-se a outra pessoa. lhe advém a preocupação com os alimentos e escreve o capítulo De usu ciborum. adoecido e passado longos anos em uso de comidas leves. com o braço estendido. em forma de memórias. pondo as mãos sobre os meus pulsos. Depois de uma pausa respiratória continuou: —Evolui. falou. como lhes era possível. apenas os títulos dos capítulos e o da obra serão no idioma de meu dileto Sêneca.. o precário equilíbrio. que mantinham. intranqüilo. para alívio meu. com energia. (Sempre que me repreende. retirou de sobre a mesa as pastas que ali se mantinham em duvidoso equilíbrio e me assustavam. no capítulo Cogitationes privatae. Não me sendo possível escrever. Assentou-se de novo e.

em grande retorno. Respondi que me parecia interessantíssimo o plano do livro. agora. Donde o capítulo De omnibus dubitandum. No final. sentia vontade de o ler. versou os bons autores e se afez ao vinho capitoso da filosofia. "Aos trinta e cinco anos. em alguma parte. dialéticos. num supremo esforço. desde os trinta e cinco anos. desde verde. esclareceu o amigo. o que pensa. Estava comovido.. a gana de sentir. —Diga-me. Aenesidemo. "Bendita a hora em que lhe veio tal intento! exclama. Escreve." concluiu. suspirando profundamente. Bem achadas as suas epígrafes latinas. prosseguiu. —Respiguei aqui e ali. o capítulo Ars semper gaudendi.. hedonistas e pirrônicos sobre ele se atiram. preparando o capítulo-mestre. Transpõe. forças para reagir e adota a filosofia lusa do "não te rales". as grandes meditações sobre a Libido sentiendi. desde já. "A Libido sciendi. Porventura isso interessa? Pouco importa que o . Euclides de Megara. terá de haver a suma dos capítulos. Je prends mon bien ou je le trouve. pôde.. Eu me lembrava de ter visto. Nela encontrará a Grande Consolação (De Consolatione Philosophiae). coisa parecida. O herói continua a cultivar a ataraxia de Pirro e o cepticismo radical de Agesilau. Porfírio. continuou. confiava em que não lhe faltariam forças para atacar uma obra de tal porte.. aí.. O herói ataca. da vaidade de toda ciência (De vanitate scientiarum) e apreende a sutileza das coisas (De subtilitate rerum). vem-lhe grande onda de cepticismo. Antístenes e Aristipo de Cirene.. e. Carneades e Sexto Empírico. então. e atravessada a crise política (Libido dominandi).pensador solitário cai em pessimismo e vê que pecuniae obediunt omnia— como diz o Eclesiastes—"ao dinheiro obedecem todas as coisas".. Dentro de sua melancolia profunda. respondeu. Por ele norteado. o herói atinge a via triumphalis da sabedoria e da libertação. de sol a sol. o aeternus hostis. isto é. gravemente. então. de gozar "em" ou "com" todos os sentidos. farto de prazeres ilusórios. sempre existiu no herói. porém. de novo. subir a grande montanha! Dedicado ao labutar intelectual. alcançando os domínios da verdadeira e perfeita filosofia (De vera et perfecta philosophia). pretende libertar-se da tristura de fera em jaula. Surge. com a soberba ênfase. que. que é outro capítulo. o majestoso pórtico... "Não se fazem esperar as conseqüências. Eis que Silviano. o capítulo máximo. Já vem você com nugas. bem sua. . Convinha precaver-se contra alguma imitação involuntária. cínicos. então. et pour cause matrimoniado. ao dealbar dos quarenta. encontra. o Amor. Conhece.

um tanto desanimado com a minha mesquinharia. fiquei a folhear o Hermann e Dorotéia. Sentado à sombra de uma gameleira.. —Não poderei exceder-me a mim próprio.evangelista João me tenha fornecido epígrafes para três capítulos. Deu-me pesar que a conversa não durasse mais tempo. Até logo. sai outra. O plano era notável. Já lhe falei o que precisava e talvez tenha errado em ter falado. junto ao tripé de suas máquinas. entregavam-se. carecia abrir-me com alguém... moças e rapazes invadiram o jardim. então.. Na ilha próxima. em alegres pares. que dança diante de mim neste velho escritório. um problema. a jogos infantis e corriam e brincavam. respondeu. § 87. Adolescentes. enfadado. Vai certamente reformar tudo. enquanto Carolino andava de bicicleta pelas alamedas. e os lagos. MANHÃ DE 28 DE FEVEREIRO. Ainda tenho os olhos cheios de sua luminosa mocidade. ou que uma frase apanhada ao acaso me descortine grandes paisagens. —Surge. Às vezes me parece que você não vai além do Abundâncio. Fotógrafos se mantinham solícitos. achome na força culminante do espírito. As notas que tomei até agora são a síntese do pensamento filosófico que veio até a nós. todavia. Do mesmo modo se porta. que poderia alcançar grandes proporções. eram cruzados por dezenas de barcos. talvez. arrisquei-me a dizer. Bem. Pensou que fosse coisa para já? Como é ignorante. Quanto tempo gastaria para fazer o livro? —Talvez uns dez anos. dizendo-lhe o que desejava ouvir: devia mesmo prosseguir no trabalho. Súbito. Mas Silviano se encoleriza com as menores observações que eu faça. Não poderei exceder-me! Não me faça objeções idiotas. Quanto às minhas meditações próprias. quando permaneço calado.. Porfírio. o bar do alemão. É um plano decenal. Voltei ao principal. outro conceito da vida.. MOCIDADE.. à espera de clientes.. Aos cinqüenta. Só para delineá-lo gastei quase dois anos de estudo.Dei um passeio pelo parque em companhia de Carolino. inclusive do que seja vera et perfecta philosophia.. em matéria de compreensão! Deverei concluí-lo aos cinqüenta. você já terá. Projeta-se uma coisa. E saiu apressadamente. tenho mais em que cuidar. nem aos grandes doutores! disse. É o defeito das obras escritas em tanto tempo. Cantar-lhes-ei baixinho estes versos de Molière: . brilhantes de sol. cheio de gente. Enfim.

mesmo. Que poderia encontrar de novo nestes velhos companheiros? Todos adquiriram. Seria interessante promover um encontro entre Jandira e Jerônimo. apenas o tal arbusto da chapada? Jerônimo continua a enviar-me recados. conversaram um pouco.. Já não tenho com quem conversar. é certo. nada menos. de ha muito. Resta-me Carolino. uma fisionomia definida. para diante. . durante as horas de expediente. porventura." § 88. le temps 1'éfface. Pressentem. Talvez conseguisse mais. E. Dir-lhe-ei que terá nada mais. A estima que lhes dedico terá a natureza da que voto ao Giovanni ou ao Prudêncio Gouveia. para ter mais esta presa. supondo-me alheio a tudo.La beauté passe. Percebo o cerco: adivinha minhas fraquezas e faz-me uma ofensiva em regra. pelo Silviano. Creio. Já não tenho. Havia de ser uma coisa épica: há dois anos atrás se conheceram. e passaram a repelir-se imediatamente. Mas Jerônimo insistirá. . Vage de glace vient à sa place. Volto a preocupar-me com a velha questão: que vim fazer neste mundo? Até agora nada realizei. UM DIA COMO OS OUTROS. Mas Carolino se conserva distante. Grande presa. . Qui nous ôte le goût de ces doux passe-temps. . imaginando que mal lhes noto a presença. imutável. Talvez tenham mágoa de mim. além disso. com quem conversar." ". pois é um terrível catequista. mas se alimenta antes do silêncio que da conversação. respeitando a hierarquia burocrática. Serei. e isso é grave para uma pessoa que foge de conversar consigo mesma. como duas forças opostas. pois.. que não se renova. . É constante. no seu rebanho de almas. Profitez du printemps. que um presente de grego. tentando novamente catequizar Jandira. que os camaradas me olham com alguma reserva."Profitez du printemps de vos beaux ans. A SEÇÃO DO FOMENTO se tornou inabitável com a saída do Glicério. são menores as possibilidades de qualquer realização. grandes abismos entre nós. aimable jeunesse.

da velha Maia e de Francisquinha devem rondar. Que pena Glicério estar ausente. mesmo de modo platônico. Terão. De que pensamentos se alimentaria senão destes? Os vultos do velho Borba. de bota e esporas pedindo café e falando que a Chica está no meio dos anjos. Soou a campainha. paremos por aqui. Está bem. Apanhemos o chapéu e apressemo-nos. vou perguntar-lhe se a história acabou ou continua. consegui vencer mais este dia morno da Seção do Fomento. com saudade. com os olhos carregados de imagens e o espírito cheio de . Já não é donzela. que é isso? Estou arranjando todo um enredo. oferecerei um sorvete ao Jorginho e contar-lhe-ei histórias do Gigante Brasilião. em torno dela. Já não é donzela. se algum dia encontrar no Parque essas crianças e se a ama for pessoa de boa cara. na Praça Sete. por via do Silviano. mandando encerrar o expediente. .Surge-me uma indagação: atingirei o Jerônimo. no local do costume. O Florêncio nos espera. Sim. comovidamente. com certeza. enquanto as crianças tomavam sorvete. sentada a uma mesa do bar. Misturaremos as nossas dúvidas e tatearemos na grande confusão. uma gorda ama alemã. há de pensar sempre nos velhos. para o chope do costume. pelo menos por algumas horas. como o Silviano. NHÔ BORBA me apareceu. o grande prédio. O chope é uma solução. Por falar nisso. Certamente já construíram. mais que em redor de mim. as mãos pelos cabelos de Carmelinha ou de Jorginho. Poderíamos recordar. à hora do almoço. que bem poderia ser do velho amanuense. proseando com o Fritz na sua língua arrevesada. os tempos de Arabela. Passarei. Mas. É a senhora Jorge de Figueiredo. Ando em fugas freqüentes. Onde andarão? Em Ostende ou em Biarritz? Estejam onde estiverem desejo-lhes felicidades e prole. nem Arabela. Entretanto. Mas. ao servir-me o prato. NHÔ BORBA. . o prudente é não falar em mulheres dos outros. amigos. nem Arabela. ou o Silviano se perderá comigo no seu mare magnum? A última hipótese é a mais provável. O marido pode não achar graça nessas coisas e minhas costelas já não agüentam pancada. § 89. Havia muito que não me falava em Nhô Borba. Eu e Silviano poderíamos escrever uma novela de parceria. como a que vi outro dia. Imagino essa prole. se não houvesse o plano da Memorabilia. na história de Parabosco & Ferrabosco Ltda. se algum dia eu seguir as águas deste. . . disse Emília.

como o faz. a que se aplicar. de resto. para fugir das recordações e não ser tentado pela Avenida. É uma figura dominadora: para ela se transferiu a força do velho Borba. vazia. e no carnaval não havia a desculpa dos negócios. vivendo dias que se passaram há vinte ou trinta anos. nesta casa. Lá não há chope fresco. Como isso doía ao Borba. é a figura dominadora da casa. § 90. impedindo-a de ir à cozinha. espírito mais conformado. Lembra-me o desgosto que se estampava em sua fisionomia. —Venha comigo. sua amiga Josefa lavadeira. mas deve amar-me bastante. Florêncio não foi por gosto. Pouco ou quase nada fala. e a pele encardida mal cobre os ossos. Chamo. Houve outro carnaval: passei-o em Lagoa Santa. como fez hoje. enquanto eu . Emília e Francisquinha aprenderam com elas o pouco que sabiam do mundo e da língua. Coitado do velho. —Falou não. então. Levou roupa de banho e passava quase o dia todo na lagoa. bem velha. —Nhô Borba não falou mais nada? perguntei-lhe. Creio que já não tenho mais nada para escrever. Como avulta. que a substitui como pode. como no tempo em que ela me punha ao colo. o velho não pôde ver que a ignorância é meia felicidade. A velha Maia tinha. No seu desgosto. em companhia do Florêncio. Mariana impôs: ela e os meninos precisavam tomar um pouco de ar. também. como se fosse eu o interessado no chope. FIQUEI outros quinze dias sem mexer nestes cadernos. A seu lado. Dirige-se a mim por monossílabos. Belmiro. mas. à Zefa ou ao Carolino. grande tristeza. É raro que me comunique uma opinião. pois a vida se torna vazia. LAGOA SANTA. a figura de Emília! Está velha. porém. ou conte um sonho. e há de estar permanentemente embebida nessa atmosfera caraibana. quando Emília ou Francisquinha (antes de se agravar a perturbação desta última) falavam errado em sua presença. mas há boa cerveja. Contudo. resignava-se. a alma simples de Emília não encontra. para fazer dormir. Foram criadas como bicho-do-mato. sinto-me quase uma criança. que lá permaneceram depois do 13 de Maio. Que pensará de mim? Às vezes ralha comigo. Mandou arreiá a besta e dis-qui-ia na roça do Corr-go. A gota ciática muitas vezes a prende ao leito. que sonhava mandá-las estudar em Diamantina! Vivendo só na fazenda e em meio de antigas escravas. chama-me "excomungado".preocupações. disse-me.

Belmiro. Quanto a Jandira. mais adequado à sua situação de bacharel. na sua renúncia..) A conselho de um dos companheiros. e Silviano é quem está certo. perde-se a coragem de mergulhar nos tratados. pois amarguei bem meu retorno às donzelas. durante minha ausência de três dias. O amigo Carolino.. Glicério deve ter ido aos bailes dos clubes elegantes. A verdade é que já passamos. não sei em que se ocupou. fazer este sacrifício. RÁPIDO encontro com Glicério. que me fez a esmola de ficar aqui em casa com a Emília. Ou com eles joga escopa... quando não está comigo. § 91. Certa manhã. andou a meditar na Serra do Cipó. na Praça da Liberdade. trouxe-me um calção e queria por força que eu o acompanhasse. ESTÃO DE VOLTA. soube que. exibindo este corpo magro e desconforme para a sociedade que deixou Belo Horizonte e foi brilhar na Lagoa. Quis apresentar-me: pedi-lhe que não o fizesse. disse. à sua custa. amigo Florêncio. Por falar em Silviano. receando. . Imaginem que figura faria eu. a mil e tantos metros de altitude. Felicitei-o. chegada essa notícia ao Silviano. Lendo-se qualquer coisa mais atraente. E de Redelvim não há notícias. no balcão do botequim. com quem o Florêncio travou logo relações. —Mas isto não quer dizer que eu me afaste da roda. Está muito satisfeito com o novo emprego. De manhã.. Foi preciso energia para resistir. dá prosas intermináveis com os dois. pois. Vou. aproveitando-se de um pequeno resfriado que reteve Mariana no hotel. (Amabilidades: estou certo de que não virá. ou à noite. encontrado um rumo. compulsória (estou convencido de que essa renúncia não é virtuosa. mas compulsória). Que permaneça na fazenda. —O direito é árido. baniu a literatura de suas cogitações. afinal. travou relações definitivas com Giovanni e Prudêncio. Perguntou-me gentilmente pela Emília e prometeu uma visita à Rua Erê. Diverti-me. Havia três ou quatro moças bonitas.lia meia dúzia de livros que carreguei comigo. Apenas provisoriamente (enquanto tomo gosto pelos arrazoados) farei abstinência. Não gostou muito da minha precipitação. este lhe cancele o diploma de clerc. durante o carnaval.. que. é o melhor. talvez. as moças o abandonaram. com a chegada de uns rapazes. sem a menor consideração. depois. e adotaram os novos companheiros. suas palavras me indicavam que havia.

Ouvi risos por detrás do pára-brisa. doença. Lá se foram com seu namoro de lua-de-mel. Era um carro grande de ricos. Tanto se achavam enlevados um com o outro. Uma chuva inesperada me havia retido quase uma hora no. e só a buzina. Haverá. Já se foram os dois meses. pôde despertar-me.. mas bem poderiam ter dito qualquer palavra amável. pois o carro parará. que tenho com isso? Já me haveria desinteressado do assunto.Ao despedir-se. e ali irão morar. boato de doença. Se a doença é grave. tendo verificado que se aproximava a hora do expediente da Seção. EU ANDAVA pelo Parque. Os sons musicais que ainda ouvia não me deixaram perceber o ruído do motor. espalhava no ar molhado. seguida de um chiado forte. e Glicério não saiba. O carro se pôs de novo em movimento e seguiu rápido. Na verdade. Parece que a viúva não anda muito bem e pediu que voltassem. deu-me esta informação: —Sabe que a Carmélia e o Jorge vêm por aí? Deveriam chegar ontem ao Rio. —Não. Já não é donzela nem Arabela. Não se demorariam no Rio. ali fiquei mais algum tempo. se esse demônio do Glicério não ficasse a cutucá-lo. Depois saí às pressas. e a doença da viúva não prejudicou o programa. fui contando nos dedos. e trazia placa de Berlim. Terão voltado pelo mesmo navio. Eram Carmélia e Jorge. ou é fita da velha? Glicério disse há tempos que ela tem medo à morte como o diabo à cruz. Para que me conta essas coisas? § 92. Já próximo do portão que dá para a Avenida. Estão certamente hospedados na mesma casa da dama-da-noite. fiquei a passar as mãos pela roupa. Muito confuso. pelo menos... o Oceania? Ou embarcariam no Cap Arcona? Talvez já tenham chegado. Mas. que vinha veloz. Para que me . que nem me pediram desculpas. havendo doença. deveriam ter vindo de zepelim. ou. fingindo-me preocupado com a água de enxurro com que o carro me salpicou. O que eu sabia é que ficariam dois meses por lá. Assustado. Ao descer a Avenida João Pinheiro.. fanhoso. mesmo. por minha conta. caramanchão do bar e. Já completaram os dois meses? —Não sei.. quando já não havia perigo. de freios pisados com violência. AGRADEÇO-VOS OS SALPICOS. dei ridículo salto para um lado.. recebi apenas salpicos. quase fui apanhado por um carro. cessada ela. para ouvir uns restos de opereta que o alto-falante. como sempre tenho feito ultimamente.

que soprava um grande trombone. os salpicos. silenciosos." . O segundo disse: sou o poeta místico." E.. As coisas se tornavam confusas e os botões dourados da blusa azul do chefe de trem cresciam. colocando-se em torno de mim. bate. MUNDO. cantavam a una voce: "Mundo mundo vasto mundo. falou o poeta irônico: "Mundo mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo seria uma rima. volteando em redor de mim e acompanhados pelo chefe de trem. a certo momento. humildemente. Bocejando. Eu fazia longa viagem. são os remos ou são as ondas o que dirige o meu barco? —Eu tenho as mãos cansadas e o barco voa dentro da noite. § 93. Já eram dez horas. saltitando.. em poltronas da frente. Pirulito que já bateu. Passando-me a mão pelos cabelos. O terceiro disse: sou o poeta sem nome. pus-me a lembrar do sonho que tive. acordei assustado. e o calor e o cansaço me derreavam. braços dados. cresciam. Três passageiros que iam. se levantaram. o poeta místico indagava: —"Senhor. O primeiro disse: sou o poeta irônico. mais vasto é meu coração. MUNDO. eu vos agradeço. QUANDO Emília bateu à porta do meu quarto. Quem gosta dela sou eu. e que dirão literário. cantarolava o poeta sem nome: "Pirulito que bate." Com os olhos postos no céu. mas posto em mim deixa de o ser. braços erguidos. não seria uma solução.aparecem? Por que exatamente a mim? Secretas intenções do acaso. como a querer invadir todo o espaço. Quem gosta de mim é ela." Depois.

—Que faremos. Previdente e providente amigo! Esqueceu-me comunicar-lhe que já não preciso de papel. Quando um tombava.. Viviam com plenitude os velhos Borbas da linha-tronco. fazer qualquer coisa. ainda pediam mais dez.. Esqueceu-me dizerlhe que a vida parou e nada há mais por escrever. Sangrou rudemente o almoxarifado da Seção do Fomento.§ 94. . e parece-me. de Porfírio. sim. vendo o corpo consumir-se lentamente. TENDO verificado que se esgotara minha provisão de papel. Ai de mim! É necessário. ÚLTIMA PÁGINA. . porém. chegados aos oitenta. Negação de Belarmino. Dois deles. Acho-me pouco além do meio da estrada. mesmo com o coração descompensado. Carolino me trouxe esta manhã uma porção de blocos. parecia queda de gameleira ferida pelo raio. nem de penas. para empurrar os presumíveis trinta e dois anos que me restam. Em média. os Borbas vão até aos setenta. de Firmino e de Baldomero. Viviam a vida. Trinta e dois anos. Carolino amigo? . nem de boiões de tinta. entretanto. que cheguei ao fim. Não morriam aos poucos.