CYRO DOS ANJOS O AMANUENSE BELMIRO
romance
7.a edição Nota biobibliográfica Prefácio de Antônio Cândido

LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITORA
RIO DE JANEIRO—1971

Anjos, Cyro dos, 1906 O Amanuense Belmiro, romance- Prefácio de Antônio Cândido. 7.a ed., Rio de Janeiro, Editora José Olympio, 1971. Publicado em convênio com o Instituto Nacional do Livro —MEC.

OBRAS DO AUTOR : O Amanuense Belmiro—Romance—1.ª edição, Editora "Os Amigos do Livro", Belo Horizonte, 1937; 2.", Livraria José Olympio Editora, Rio, 1938; 3.ª, Saraiva S/A.. São Paulo, 1949; 4.º, "Livros do Brasil", Lisboa, 1955; 5.ª. revista (com a 3.ª de Abdias), Livraria José Olympio Editora, Rio, 1957; 6. a, na Coleção Sagarana, Livraria José Olympio Editora, Rio, 1966. NO ESTRANGEIRO: El Amanuense Belmiro — Tezontle, México, 1954. Carnevale a Belo Horizonte — Fratelli Bocca Editori, Milão, Itália. 1954. Abdias — Romance — Livraria José Olympio Editora, Rio, 1945; 2." edição. Saraiva S/A., São Paulo, 1956; 3.\ revista (com a 5.» de O Amanuense Belmiro), Livraria José Olympio Editora, Rio, 1957. Explorações no Tempo — Crônicas (passou a integrar volume de memórias). — Ministério da Educação, Serviço de Documentação, 1952. A Criação Literária — Ensaio—Edição da Revista Filosófica, Coimbra, Portugal, 1954; 2.' edição, Ministério da Educação. Serviço de Documentação, 1956: 3.", Livraria Progresso Editora. Bahia, 1959. Montanha — Romance — 1." edição, Rio de Janeiro, 1956; 2.ª, 1956, ambas da Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro. O Amanuense Belmiro—Abdias—reunidos em um só volume, 1.ª edição, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro. 1957. Explorações no Tempo—Memórias. Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1963. Poemas Coronários—Edições de Arte, Universidade de Brasília, 1964.

O AMANUENSE BELMIRO .

malgrado o ambiente rural e as longas distâncias que o separavam dos mundos urbanos mais atingidos pelo progresso. revelador ao mesmo tempo do embrião de jornalista que se formava e da disciplina infantil a que se submetia na vida cotidiana e familiar. fazendeiro e professor. as crônicas que foram o germe de O Amanuense Belmiro. Cyro dos Anjos trabalhou nos jornais Diário da Tarde (1927). Diário da Manhã (1929). Malograda tentativa de advocacia na cidade natal fez com que desistisse da profissão. tinha de fazer acidentada viagem de mais de 30 dias. em carro de bois. Em 1933. voltando à imprensa e ao serviço público em Belo Horizonte.° entre os quatorze filhos do casal Antônio dos Anjos e Carlota Versiani dos Anjos. onde concluiu o curso secundário e o de Direito. Dedicando-se ao jornalismo. deixando ver a influência política da primeira campanha de Rui Barbosa. nasceu em Montes Claros.NOTA DA EDITORA DADOS BIOBIBLIOGRÁFICOS DO AUTOR CYRO VERSIANI DOS ANJOS. 13. Alexandre Herculano. O patriarca da família. Minas Gerais. por sua vez. em cuja pequena biblioteca descobriu (aos 15 anos) Machado de Assis. entretendo-se com o. Diário do Comércio (1929). cargo que marcou o início de uma carreira pública onde sempre ocupou funções de destaque. amava a leitura e o debate de idéias. Fialho e Camilo Castelo Branco. e Diário de Minas (1930). a 5 de outubro de 1906. bacharelando-se em 1932. Aos 8 anos. Aos 10. para alcançar Montes Claros. Diretor . Cyro dos Anjos já editava um jornal chamado O Civilista. Oficial de gabinete do Governo de Minas (1935-1938). o clã Versiani dos Anjos.Em 1931 Cyro dos Anjos já era oficial de gabinete da Secretaria de Finanças de Minas Gerais. Eça de Queiroz. ainda mais. de quem seu pai era ardoroso partidário. já o futuro romancista deixava entrever visíveis inclinações literárias. com escritores e temas contemporâneos. rabiscando um jornalzinho manuscrito intitulado Horas Vagas. estimulado por um amigo da família dono de tipografia. Iniciando os estudos médios na Escola Normal de Montes Claros. gostava de música e na casa sertaneja não faltavam os acordes de Bach e Beethoven. publicou sob o pseudônimo de Belmiro Borba. não estava ausente do gosto pela arte e pela literatura.latim tradicional entre mineiros e. ouvidos ao piano numa época em que um Pleyel. Cyro dos Anjos transferiu-se em 1924 para Belo Horizonte. Dona Carlota. a fim de prover o próprio sustento. como redator de A Tribuna. Reunido em torno da "mesa de pereiro branco".

Casado em 1932 com D. Diretor do IPASE (1946-1951). são as etapas que definem a carreira de Cyro dos Anjos no serviço público estadual e federal. apesar do sucesso conquistado. publicados pela Universidade de Brasília. Martim Afonso. Rio. publicando em 1954 (Coimbra. muito bem recebido pela crítica. este radicado atualmente em Porto Alegre. em edição nossa.da Imprensa Oficial de Minas (1938-1940). data de 1963 e nele o ensaísta e romancista cede lugar ao poeta bissexto dos Poemas Coronários. o romancista tem seis filhos: Margarida. Em 1969 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. revelou-se também ensaísta e memorialista. além de Newton Prates e Guilhermino César. Estreando na literatura em 1937. Emílio Moura e João Alphonsus. os dois últimos já falecidos. por sinal. saiu em 1945 e o terceiro. com o romance O Amanuense Belmiro. Abdias. Zelita Costa dos Anjos. Conselheiro do Tribunal de Contas de Brasília.° 24. Montanha. ambas de 1954 no México e na Itália. ambos editados por esta Casa. de cuja vida intelectual participa com intensidade. ainda no mesmo gênero. Joaquim Carlos e Francisco de Assis. Subchefe do Gabinete Civil da Presidência da República (1957-1960) e. cadeira n. Mas o romancista Cyro dos Anjos. em 1956. a que se acrescentam os títulos de fundador da Faculdade de Filosofia de Minas Gerais e da Universidade de Brasília. Professor de Estudos Brasileiros nas Universidades do México e Lisboa (1952-1955). inclusive no exterior com as versões espanhola e italiana de O Amanuense Belmiro. Portugal) um estudo sobre A Criação Literária e. sucedendo a Manuel Bandeira. finalmente. volume de memórias. Seu segundo livro. em 1963. Explorações no Tempo. Cyro dos Anjos pertence à Academia Mineira de Letras e possui várias condecorações nacionais e uma de Portugal. Seu último trabalho. sendo nesta última regente do curso Oficina Literária. . também romance. Antônio Joaquim. que exerce juntamente com os deveres de fiscal dos dinheiros públicos na capital do país. Cyro dos Anjos pertenceu ao grupo de escritores em que se destacavam Carlos Drummond de Andrade. Márcia Antonieta. outubro de 1971.

Ciro dos Anjos anda pela casa dos quarenta. pertencem quase na totalidade ao segundo grupo. de equilíbrio. direi que devo a ela a minha salvação. Quanto a mim. e da sua sensibilidade. segundo o Sr. mas seguro. "Quem quiser fale mal da Literatura. lentamente cristalizada no decorrer de longos anos de meditação e estudo. Almeida Salles.ESTRATÉGIA (Prefácio de Antônio Cândido) O Sr. de autores cuidadosamente lidos ou harmoniosamente incorporados ao patrimônio mental. Confiam. analisando-as. de fato. escreve o seu diário e conta as suas histórias. que vêem na criação o afloramento definitivo de um largo trabalho anterior. revelam o artista profundamente consciente das técnicas e dos meios do seu ofício. Almeida Salles (ou Valéry. pois escrevendo-as. menos na força impulsiva do talento que no domínio vagaroso. de realização quase perfeita. opõem-se deste modo aos do primeiro grupo. A impressão de acabamento. dos recursos da sua arte — condição primeira para a plena expressão do seu pensamento. ecos de Bergson. Porque esse romance é o livro de um homem culto. pensando-as. Guiando-se quase apenas pelo instinto. possuidor de uma visão pessoal das coisas. No seu subsolo circulam reminiscências várias de leitura. Segundo me contam. de Proust. que. sem dúvida alguma. Almeida Salles publicou certa vez em Planalto um dos rodapés mais inteligentes que têm aparecido na imprensa periódica de S. nem sempre produzido pelas obras dos nossos generosos táticos. O Amanuense Belmiro é o livro de um burocrata lírico. é a única maneira de suportar a volta às suas decepções. evadir-se da vida. o amanuense estabelece um movimento de báscule entre a realidade e o sonho. com um som de coisa definitiva e necessária. isto é. no qual aplica à nossa literatura a distinção de Valéry entre escritores estrategistas e escritores táticos. numa palavra. a primeira pessoa em que pensei foi o romancista mineiro Ciro dos Anjos. Paulo. me parece um dos maiores dentre os poucos estrategistas da literatura brasileira contemporânea. para falar como o Sr. alargando-se em reflexões muito agudas e muito justas sobre a natureza da criação literária. se quiserem). dos meios técnicos. Venho da . Os nossos autores. baseado em anos de meditação e de progressivo domínio. de segurança. escrever é. de Amiel. Um homem sentimental e tolhido. Há mais de cinco anos publicou o seu único livro—O Amanuense Belmiro—uma obra-prima. no primeiro movimento da inspiração. Lendo o artigo. fortemente tolhido pelo excesso de vida interior. Para ele. Por isso é que ele ressoa de modo tão diferente no nosso meio. o composto pelos dotados de talento e habituados a construir segundo o influxo dele.

e readquire o equilíbrio pela auto-analise. uma noite de carnaval lhe traz a imagem de uma donzela gentil. literato in erba. porque dentro dele estão as doces cenas da adolescência. e. como o do narrador do Temps Perdu. esta. carrega nas costas a enorme trouxa de um passado de que não pode se desprender. sorri e diz: 'Ora bolas'." Belmiro. à procura de fugitivas imagens do passado. e o amanuense. nas quais o espírito se há de comprazer. permanece como fatalidade.. mas à sua maneira: identificando a moça de carne e osso. Em verdade vos digo: quem escreve neste caderno não é o homem fraco que há pouco entrou no escritório. solteirão nostálgico. encarnando formas do passado. desmanchando a pureza daquele com a intromissão das imagens deste.rua deprimido. a fim de encontrar um pouco de calor e de vida. porém. é empurrado para o refúgio que lhe resta—o passado—uma vez que o presente lhe escapa das mãos ("[___] bem noto que vou entrando numa fase da vida em que o espírito abre vôo das suas conquistas e o homem procura a infância. Chegou quase aos quarenta anos sem nada ter feito de apreciável na vida." O amanuense é infeliz. o homem supõe que encontrou a sua expressão definitiva e que sua própria substância já lhe basta para as combustões interiores. lírico não realizado.") Ora.. que mal enxerga de quando em vez. De repente. estava tudo muito bem. Não é difícil perceber o mal de Belmiro. que impelem o homem para a frente. recita com o poeta: . que a sensibilidade de Belmiro. crê encerrado o seu ciclo e volta para dentro de si mesmo. oferecem-lhe o presente sob aspectos enganosos. Para iludir-lhe o espírito vaidoso. Sonha. que falhou como solução vital. escrevo dez linhas. Acontece. ela própria quase um mito—um mito como o da donzela Arabela. concluindo que "a verdade está na Rua Erê". Se fosse possível viver integralmente no mundo recriado pela memória. se entrega ao presente: mas não o vive. então. haveria a possibilidade de um modus vivendi. A sua desadaptação ao meio levou-o à solução intelectual. se fosse só isso. Sabe que não lhe adianta pensar em como as coisas seriam se não fossem o que são. Submeto se. a seu jeito.. sedento e agitado. não lhe permite uma existência atual. na sua casinha modesta e o seu ramerrão cotidiano.. O drama é que o presente se insinua no passado. com a imagem longínqua da namorada da infância.. "[. ainda estão ativas nele e realizam um sorrateiro trabalho.] depois de uma infância romântica e uma adolescência melancólica. É um homem poderoso. quase normal. O amanuense ama. numa comovente pesquisa das remotas origens do ser. torno-me olímpico. Mas as forças vitais. perturbando este com os arquétipos daquele. que espia para dentro. fazendo-o voltar para a vida. jogando-o como uma bola entre o passado e o presente. isto é.

I was so sick of it. no sentido próprio. O que não se falou. como Lawrence: "I was so weary of the world. vasto mundo Mais vasto é o meu coração. foi da diferença radical que existe entre eles: enquanto Machado de Assis tinha uma visão que se poderia chamar dramática. além dessa. Ciro dos Anjos possui. Conclusão típica de introvertido. E a certa altura. A um Belmiro patético que se expandiu. o homem que não se lembra. que restabelece o equilíbrio vital. e o analista. na atmosfera caraibana—contemplando a destruição das suas . na própria construção do estilo. Mundo mundo.] já lhes contei o que se passa dentro de mim quando começo a meditar: perco-me num labirinto de antinomias. que o chama à ordem. encontramo-la de capítulo a capítulo. que ele emprega também como um processo literário. porém.. que o liberta das redes do analista: o senso lírico da vida. que quer se abandonar. Sempre a tomar consciência plena das suas variações e dos seus aspecto:. que o salva.. 0 que é admirável. Seria uma rima. que cresce num impulso vegetal. um maravilhoso sentido poético das coisas e dos homens. não seria uma solução. Belmiro é o homem que chegou ao estado de paralisia por excesso de análise "[. ou. múltiplos. insistindo-se sobre o que há de semelhante no estilo e no humorismo de ambos... de homem que não lamenta. e dando-lhe um cunho muito especial. Everything was tainted with myself". da vida. de cena a cena. Belmiro é o contrário do homem forte de que fala Balzac.. envolvendo uns e outros em piedosa ternura. porque a sua evasão consiste justamente em introjetar o mundo e banhá-lo todo nas próprias águas. porém."Mundo mundo. enorme. vasto mundo Se eu me chamasse Raimundo. o analista querendo dar aos fatos e aos sentimentos um valor quase de pura constatação. no seu livro. ao contrário. Falou-se muito em Machado de Assis a propósito de Ciro dos Anjos. e o lírico chamando-o à vida. dotado de humour." Isto significa que é um candidato ao cepticismo integral e à imobilidade através do relativismo. sem a peia do passado. Esta alternância. o amanuense a torna explícita: "Tais desnivelamentos é que compõem minha vida e lhe sustentam o equilíbrio." "Mais vasto é o meu coração". Há uma circunstância. é o diálogo entre o lírico.

e considera tristemente: "Não voltarei a Vila Caraíbas. leitor. sofre ao perceber que "ali is tainted with myself". O amanuense. Ciro dos Anjos nos leva a pensar no destino do intelectual na sociedade. se reajusta e assobia a fantasia do hino nacional de Gottschalk. ilusórias permanências de forma. quando ele descobre que o passado que evoca não existe em si. indiscretamente lida por Belmiro: "Problema:—O eterno. Encarando assim o livro. que compensa o primeiro e o retifica. E assim. As coisas não estão no espaço. por que escrever sobre um passado que realmente não existe e um presente que cede ante a ponta aguda da análise? Belmiro escreve porque precisa abrir uma janela na consciência a fim de se equilibrar na vida. ajustando-o aos quadros cotidianos. na autocontemplação. as coisas estão é no tempo. nas Vilas Caraíbas do passado. Criando-lhe condições de vida mais ou menos abafantes. pode-se dizer que o amanuense é uma ilustração do gravíssimo problema dos efeitos da inteligência. que até aqui tem movido uma conspiração geral para belmirizá-lo. não apresenta virulência alguma que possa pôr diretamente em xeque a ela. absorto nas donzelas Arabelas. que dá uma dignidade humana tão grande à poesia de Manuel Bandeira e de Carlos Drummond de Andrade. explorando metodicamente os seus complexos e cacoetes. Para conhecer este psicólogo lírico é preciso ler todo o admirável § 33 d'O Amanuense Belmiro. sobre o curso normal das relações humanas." Numa ordem mais geral de idéias. mas ficamos satisfeitos. os poderosos deste mundo só o deixam em paz . pela primeira vez. que escondem uma desagregação constante. mas é uma criação da sua saudade e da sua imaginação deformadora.paisagens—sempre sucede um Belmiro sofisticado. com efeito. para confiná-lo nas esferas em que o seu pensamento." Se assim é. Chegado à sua toca da Rua Erê." Esta disposição excepcional. Há. O homem é um animal definidor." É este. ainda que infinitesimal.—O amor (vida) estrangulado pelo conhecimento. o problema central da obra. o Fáustico. através do seu poder de análise. o que não importa em ilusão quanto ao verdadeiro significado deste trabalho: "Grande coisa é encontrarmos um nome imponente. o Belmiro egresso de Caraíbas se apalpa. sociedade organizada. Não se resolve nada. para definir certos estados de espírito. é o fundamento da arte de Ciro dos Anjos. nelas. o seu núcleo significativo vai ser encontrado numa página do diário de Silviano. e empresta ao seu romance uma qualidade de vida que é superior à de Machado de Assis. A atitude belmiriana resulta de uma aplicação do conhecimento aos atos da vida— entendendo-se neste caso por conhecimento a atitude mental que subordina a aceitação direta da vida a um processo prévio de reflexão.

da autoperfeição pela ascese intelectual.quando ele se expande nos campos geralmente inofensivos da literatura personalista. num admirável movimento de afinação. que é reduzido a não deixar transbordar senão a sua retórica. Insinuam-se lentamente na sensibilidade. Belmiro fala de um tocador de sanfona da sua Vila Caraíbas. segundo os cânones). cuja releitura faço pela quinta ou sexta vez. E assim é esse livro. cheios de força. . Ou aquele Silviano cheio de seiva. Na página 27. E chorava-as tão bem que cada um que o cercava.] tocava apenas por amor à arte. N. até se identificarem com a nossa própria experiência. que "[. Esse traço da generosidade inconsciente dos grandes artistas se encontrava no sanfonista da Ladeira da Conceição". como são em geral os livros dos escritores de Minas. uma vez que aceitou como valor eterno uma filosofia que lhe aconselha a blague. editado pela Livraria Martins Editora. sentia suas mágoas igualmente choradas. ou talvez para chorar as mágoas.. vibrantes. que ali iam buscar expressão para sentimentos indefiníveis que os povoavam s só se traduziriam por frases musicais. Mas não é esta a impressão final que fica do livro de Ciro dos Anjos. quando vê aquele Belmiro tão inteligente e tão sensível. cômoda para os negócios públicos. perfeito. São Paulo. da E. Livros que lidam com os problemas do homem num tom de tal modo penetrante que autor e leitor se identificam. e perfeitamente desfibrado pela prática cotidiana da introspecção (costume muito estimável.. o que é um deleitoso consolo. como diria o Eça.. Coisas em que a gente se põe a matutar. extraindo dos seus motivos individuais melodias ajustadas às necessidades da alma dos circunstantes. [1945]. por esta forma. para a ficção mais ou menos frouxa com que o crítico tem não raro de se defrontar. ou quando entra reverente no seu séquito. Não são livros que se imponham de fora para dentro. s/d. O artista se revelava. sòlidamente mantido em paz pela magreza do seu ordenado de amanuense.* * O estudo que se acaba de ler do grande crítico paulista foi reproduzido de seu livro Brigada Ligeira.

. je collabore avec ma propre vie........ Et mes proches s'y tromperaient autant et plus que les autres..................) ........ Qu'on ne cherehe pás à savoir ee qui. est indubitablement moi. On s'y tromperait..." (GEORGES DUHAMEL—Remarques sur les Mémoires Imaginaires—Paris—Mercure de France—Sixième édition.. dans cette fiction......" ."Les Souvenirs que j'ai de ma vie réelle ne sont ni pius coloria ni plus vibrants que eeux de mes viés imaginaires.. "Pour éerire 1'histoire d'un autre.......

. da linha tronco.A o s B o r b a s. desde Porfírio até Belarmino.

sorrindo dengosamente para os soldados do Regimento de Cavalaria. —Não discuto com menores. voltando-se para mim: —Você não sabe o que está dizendo. como que a falar para si mesmo. Imprudentemente apanhou a minha deixa e entrou em cena com entusiasmo. o jovem Glicério ousou enfrentá-lo. no que ela tem de excitante. não haveria solução. sacrificando. objetei-lhe que. o alemão do bar se multiplicava em chopes. voltando-me para este. Sublimou-se nos doutores. ainda que fosse uma supressão. fugir da vida. —A conduta católica! Isto é. E. em torno de pequena mesa de ferro. de vez. Éramos quatro ou cinco. Florêncio propôs. —Hein? indaguei.—Jerônimo anda mergulhado na teologia. argumentando que esse talvez trouxesse uma solução geral. a esta. É a solução.§ 1. em nosso cotidiano. Já que não se possui a vida com plenitude. mas. MERRY CHRISTMAS! ALI pelo oitavo chope. Satisfeito. Redelvim convidou-me. chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis. o nono. Só pelo gosto de vê-lo dissertar. No caramanchão. com um olhar malicioso. dizendo que o católico destrói a vida pelo modo mais violento. O proletariado negro se expandia. expedindo. outras dançavam maxixe com pretos reforçados. com requebros. Introduz. no bar do Parque. O que haveria é supressão da vida. que não era bem a de nossa conversação. aquela. meio vago. afirmou o amigo Silviano. —A solução é a conduta católica. de melenas. Florêncio pôs a mão sobre o ombro dele e disse maliciosamente: —Estamos ruinzinhos hoje. garçons urgentes. disse majestosamente. fazia a vitrola funcionar. nesse caso. a prestar atenção ao filósofo. por que não havíamos de realizá-la para encontrar tranqüilidade? A grande estupidez é vivermos num conflito constante. comemorando o Natal. a preocupação da vida eterna. para aqui e para ali. Sem perceber que eu apenas puxava a língua ao Silviano e supondo contar com o meu apoio. continuou. hein? A pequena deu o fora? . Silviano olhou-o da cabeça aos pés. o melhor é renunciar. enquanto um cabra gordo. como que atendendo a uma ordem interior de reflexões. e nosso amigo não lhe permite tais intimidades. Glicério é novo na roda. Alegre véspera de Natal! As mulatas iam e vinham. então.

Jandira. já meio alegre. assim. carregados de embrulhos. quero dizer que o problema é puramente interior.—Recolha-se. Certamente sorriam. A princípio. e as sombras de um crepúsculo avermelhado desciam sobre as árvores. pois apenas sorria. tentando fazê-los amigos. no que fui aplaudido calorosamente por Florêncio. e minha atenção logo se desviou para outras coisas. já à beira dos quarenta.. Sempre que se encontra com Silviano. Pois Jandira acrescentou que. entende? Não está fora de nós. Não sabia que você andou por Paris. rápidos. irritado. levou as mãos ao ventre. Separamo-nos. Já era hora de jantar e o Parque ia ficando vazio. apresentar uma face nova e desconhecida. contou-me que o filósofo. O pior é que a mulher. vive a ridicularizá-lo. as mulatas e os soldados tinham saído.. Redelvim devia estar de bom humor. no portão do Parque. Silviano.. andou tendo ciúmes e fazia cenas. A euforia que o chope traz! A vida se torna fácil. no espaço! Florêncio. alvitrei uma retirada em conjunto. Redelvim e Glicério também desataram a rir. se arranham a fé conjugai. A gente não tem para onde ir. Silviano anda em crise aguda. de suas sortidas. Todos os passageiros do bonde Calafate me sorriam. e. denunciando pressa de chegar a casa. Como se mostravam ansiosos. Disfarçando o mau epílogo da festa. Sem que percebêssemos. quis retirar-se. Belo Horizonte! exclamou Redelvim. mais arranham ainda as veleidades do quarentão. mas desde o primeiro encontro se repeliram. Que elemento se introduzirá na essência das coisas para que tudo venha. Aqui escreverei que a razão estava com este último. consultando o relógio. É uma sólida filha de fazendeiro. neste dia extraordinário. raça teimosa e viril. Joana diz não ter tempo para se ocupar dele. trava discussões acaloradas. —Em Paris? perguntou Florêncio. alimária! respondeu. fincou pé e deliberou não tomar conhecimento desses descaminhos que. Florêncio deu uma gargalhada e assentou-se de novo. Aproximei-os um dia.. —Não acho! retrucou Silviano. Para serenar a roda. retrocedeu aos vinte: está amando as moças em flor. onde adivinhei variada matéria-prima para as comemorações domésticas do Natal! A humanidade se transfigura de súbito. desejando-me um largo "saúde e fraternidade". —Cidade besta. propus novo chope. em vez de irritar-se. num riso convulsivo. e para que . Mas o chope me faz versátil. a caminho de casa. Em Paris é a mesma coisa. Às voltas com os filhos. indignado. o nosso Dom Juan traz mais baldões do que troféus. que de tudo sabe. fácil. Não me dirijo a primários. É boa! —Ó parvo. fui ruminando a tese do Silviano. sem nada dizer. Depois.

Terminado o jantar e arrumada a cozinha. fica vaidosa. Dei o sinal. juntas. suprime a presença minha ou da . não acha. como cantam! Será o poder de criar e de transfigurar. pelo melhor modo. na solidão da casa. ou haverá uma efetiva transformação no tecido íntimo das coisas? Afinal. — O Excomungado já vem! resmungou Emília. toma ar aborrecido e chama-lhe antipático. vizinho de quarteirão. o fato deveria ter significação particular. as duas se entregam ao bilro segundo a tradição da casa. talvez não desejasse que Francisquinha. entrei pé ante pé. mas.todos os seres ganhem uma expressão especial. Notei que. estudou inglês. até à hora de se deitar. Em moço. no caso. Deveria ser o Prudêncio Gouveia. Bom sujeito o Prudêncio. Estava com Francisquinha no quarto grande. Fala dirigindo-se a si mesma. só fala inglês. pouco importa. que me foi dito com uma palmadinha nas costas. animada com esse princípio de conversa. por essa forma. A mulher. aludindo a "outras línguas". ele tirará o seu proveito de saber outras línguas. obriga-a a conversar com a outra. Emília não levantou os olhos da almofada. seu Belmiro? Vem um dia. mas Juliana lhe encarece as habilidades. as horas em que a máquina doméstica tem seu funcionamento restrito a uma ou duas peças. —Merry Christmas. É um hábito das rendeiras. e o que é—no fundo—não o é para nós. pois acha o marido erudito: "Sempre é uma vantagem. e os pardais. A necessidade de falar a alguém. Um Merry Christmas. O "EXCOMUNGADO". pois estava com a fisionomia carregada. que possui a alma humana. Mas. quase graciosa. reduzir o efeito dessa concessão. mas procura. como quem está pensando em voz alta. onde costumam passar. Francisquinha não faz coisa que aproveite e apenas embaraça os fios. A realidade é a aparência. de agitada felicidade? As árvores se fazem mais verdes. por alguém que ia descer do bonde. Prudêncio amigo! Merry Christmas! § 2. Como de costume. lá dentro. fez-me lembrar de que o próximo poste de parada era o da Rua Erê. fechou-se atrás de mim com estrépito. mas a porta. Juliana Gouveia. É chefe de Seção e pessoa muito conceituada. anunciando minha chegada. e. mas Emília dá-lhe essa ocupação para a ter quieta. e seu único vício é cumprimentar-nos diariamente com um how do you do. começasse a tagarelar. PARA surpreender as velhas. como diz Silviano. impelida pelo vento. nem interrompeu o complicado trabalho." Na verdade. e voltei-me para saudar o homem.

Encontrou na língua familiar de Vila Caraíbas a expressão própria para traduzir a inquietação que minha presença. "Decididamente. Não lhes foi fácil habituarem-se à minha pessoa e modo de vida. ensaiando uma agressão. encheram minha vida. pousando em mim os olhinhos brilhantes e fixos. quando exclama "Excomungado! Excomungado!" Mas o epíteto. olha o doido. Tanto tempo andei afastado delas. Francisquinha deu uma risadinha feroz. o de Emília: na sua meia-luz. Desde cedo. então. Tiveram de viver sempre na fazenda. e Emília é. meninas! Trouxe aqui umas lembrancinhas de Papai Noel para vocês. —Olha o doido. Foi este o grande desgosto que ensombrou os dias do velho Borba e da velha Maia. mandando-as ao Colégio de Diamantina. como bicho-do-mato. Ainda me arranjará uma psitacose. disse Emília. fiquei a olhar os transeuntes. na velha cadeira austríaca. A Rua Erê não é atrativa. Não resisti ao desejo de provocá-las: —Boa noite. DO ALPENDRE da casa.mana. § 3. bem que percebe em mim certa dissolução de espírito. os cabelos grisalhos. conforme preferem os nacionalistas. tão distantes de mim. Tome pregou-me o susto de costume. recebi-as como herança. Emília não tinha. e Francisquinha andava pelos trinta. às vezes. mas Francisquinha. as velhas estão bravas hoje". com sua reduzida . entre o pessoal de serviço. Ainda assim. O BORBA ERRADO. pensando que iam para São Paulo. pensei. faz-me estremecer. depois. Ou de Vovô Índio. no bico do papagaio. Rio-me sempre. que lhes pareci um estranho. ficar na companhia do tio Firmino. é só o que me falta. na verdade. viram que seria impossível dar-lhes educação condigna. Pobres manas. assume um sentido trágico. neste particular. vai de mal a pior. Curioso pressentimento. perturbada de nascença. Aprendeu a dizer. uma presença vigorosa e viril. Que custo trazê-las em viagem a cavalo e. Emília é apenas uma esquisita. como as velhas: "Excomungado! Excomungado!" e arrepia-se todo ao ver-me. que restabelece a atmosfera moral da fazenda. No corredor. no comboio da Central! Vieram iludidas. lhe desperta. Pus os pacotes na mesa e fui ao quarto. Quando o Borba morreu (a velha Maia partiu bem antes) e a fazenda foi à praça. irritada. E. nesta casa. trocar o jaquetão pelo pijama.

Lá estava a fazenda. "Se o menino não se ajeitava na fazenda. no curso. Na fazenda. avós. e a Ladeira da Conceição surgia. com a nitidez de um acontecimento matinal. com sua suficiência? Rirse-ia de mim: "Você é um homem errado. Vila Caraíbas e seu cortejo de doces fantasmas. A garganta se me apertava.. Neguei as virtudes da estirpe. acabou pensando num acordo. Precisamos é de braços para a lavoura. Meu consolo é que sou um grande amanuense. dizia ele. num fim de ano. e eu sentia os olhos se umedecerem comovidos. Coitado do velho. Como a minha mãe tivesse o secreto desejo de me ver na carreira das letras (dizia que eu saíra aos Maias e não aos Borbas).fauna humana. afinal. percorri muitos caminhos. Que diria o Glicério. não se distanciasse dela —poderia tirar uma carta de agrônomo. E a mesada paterna se consumia em livros que as necessidades sentimentais e espirituais do mancebo ardentemente reclamavam. em vez disso. com o parcial deferimento às aspirações da velha. Como o Natal me fez saudosista! Eu fechava os olhos. então. diante de mim. Ficará nas letras agrícolas". poderosa como um estabelecimento público. pelo menos. Até chegar ao Silviano e ao Redelvim.). Queria fazer-me agrônomo. as letras agrícolas e entreguei-me a outra sorte de letras. metido em serenatas e noutras relaxações. diria.doutores demais. do ponto de vista genealógico: como Borba. Uma dessas . Abandonei. Sou um fruto chôcho do ramo vigoroso dos Borbas. que." Mas dei em droga na fazenda e andei zanzando pela Vila. pelo menos. o seu agrimensor formado. "Temos . Onde estão em mim a força. remediado está. Ou. declarou que o que não tem remédio. repetia. porém. dos de minha raça? O pai tinha razão. nada rendosas. Pus-me a andar na companhia de literatos e a sofrer imaginárias inquietações. e andava. Coitado do velho. por um lado com a associação verbal que descobrira.. Por fim. Um burocrata! exclamava com desprezo. o poder de expansão. Em face do código da família (cinco avós. a febre das divisões de terras. na Vila. a vitalidade. que sou um Borba errado. fiz sonetos. Eu não podia ouvir uma sanfona. fali. agrimensor. por lá. por outro. houve cena pesada. Coitado do velho. com suas lavouras à espera de cuidados moços. Vila Caraíbas não tinha. estão-me dizendo—ilustres sombras!) foi um crime gastar as vitaminas do tronco em serenatas e pagodes. Talvez seja isso o que sempre me leva a passear o pensamento por outras ruas e por outros tempos. e. grande. satisfeito. ainda. o pai veio a Belo Horizonte e verificou o logro. Tocavam a Varsoviana e eu me dissolvia (lá na Vila lhe chamavam Valsa Viana. que teve seu brilho rural. Belmiro!" Se Glicério tivesse conhecido os Borbas. Era contra os princípios paternos o bacharelato em qualquer ramo de ciências ou letras. Sinto muito. Quando. Tive amores infelizes.

as posições do embrião no ventre materno. a memória sustenta. ao cabo de contas. não funcionavas na fazenda. e o espírito se embebia no torpor que afrouxara os nervos.) do que dos currais e das roças. nossa precária unidade psíquica. quase a esvaecer. e outra que contra ele reage. em propaganda da vida rural? Seus cinqüenta artigos. e a uma reminiscência tênue. entre uma parte do eu. "Um burocrata. Não citavas o teu Vergílio. instintivamente. noutros tempos.. vai correndo. que aspira ao abandono. em série. e mais tarde um deputado me introduziu na burocracia. para o Horácio. nos dizemos coisas duras.. nas colunas da Gazeta Caraibense.discussões em que nós. repetindo. ganhava-me o corpo uma doce lassidão.. nos abraçarmos. para frente. De corpo e espírito.. segundo a luta surda que se trava em nós. quando. para. imagem da morte. talvez pelo receio inconsciente que inspira o adormecer.. a cada instante. na tua besta. o cão dos fundos . Em que fora dar sua longa doutrinação. para gravame de sua insuficiência mitral. Words. para trás. pois.. num desfecho melodramático. depois. QUESTÃO DE OBSTETRÍCIA. prestes a se apagarem. Como esta vida vai correndo. ligando o momento que passou ao momento presente. Borba. Borbas. estavas mais próximo dos clássicos (lembro-me de tua predileção. lá ias. Outras missas. pai Belarmino? Na verdade. A vida parou ou foi o automóvel? § 4. Por qualquer pretexto. data de ti a traição à gleba. tal como no poema: Stop.. Words. um burocrata!" lamentava nas suas cartas. me vinham das coisas. Confessa. sob a epígrafe geral de Rumo à Gleba? Mas. JÁ ESTAVA palmilhando a terra vaga do sono. Natal! Fiquei até tarde no alpendre. um tanto tendenciosa. para trocar dois dedos de prosa com o provisionado Loiola.. esclarecendo que a exclamação foi do Hamlet. reduzia-se esta lembrança permanente com que. rumo à Vila. Bem me recordo de que. arrancando-me daquele quebranto. a rigor. Um dia sentiremos uma sacudidela. como diria Prudêncio. foi nele que começou o desvio da linhagem rural.. preparado para o repouso e já me aconchegava. recolhi-me.. apenas impressões vagas.. Voltou com uma grande dor no coração. achava-me. Com a saída dos vizinhos para a missa do galo. no estado de vigília..

Previ a catástrofe. um desses barulhos sutis. Afinal. Esses repentes. ou porque o guarda do quintal contíguo não identificasse o rumor produzido pela ave. quando lhe faltam os verdadeiros. Pequena pausa sobrevinda me deu a esperança de que o mastim houvesse mudado de intenção. e que era um sapato velho. esse ódio súbito. logo recomeçou ele a ladrar advertindo às possíveis sombras de que não se dormia naquele honrado canil. batera as asas para anunciar o prelúdio do alvorecer e. contendo o anúncio na garganta.. por equívoco. isso está no sangue. embora o conhecimento da geografia do quarteirão me habilitasse para localizar o animal no lado oposto. quando.se pôs a ladrar. Fiquei satisfeito com o precedente ilustre que a memória me veio trazer e lembrei-me de umas palavras do excelente Montaigne: "A alma descarrega suas paixões sobre objetos falsos. é alguma coisa que me ficou dos Borbas. já munido da primeira arma que a mão encontrou. com um método que indicava disposição sólida de latir pela madrugada toda. mandou zurzir o mar. já certo de que algo havia para justificar suas precauções. e. limitara-se ao bater de asas. Ora. cego de raiva. o cão não se apressava. Mas não repeti o gesto." . Lembrei-me do avô (o último Porfírio). Satisfeita a fúria dos Borbas. No dia em que uma chuva inesperada viera estragar o café posto a secar no terreiro. sacou da garrucha e desfechou dois tiros para o ar. procedi à maneira de Xerxes. Mas.. que passa como um relâmpago depois de a gente ter feito uma quixotada. numa conspiração universal contra mim. em sua extensão. porventura verificando adiantamento no relógio. num relance. zelosos que são do seu ofício. nem latia mais alto ou mais baixo: o tom era terrivelmente um só e as pausas pareciam medidas em cronômetro. sorri para dentro de mim mesmo. que se contenta com arremessar qualquer objeto a esmo. tomou-me indizível fúria. Saltei da cama. sem ódio nem convicção. no ar. Podia ser que chegasse logo à conclusão de que não havia motivo para maiores alarmas: fora o galo do outro quintal que. com ternura. ele ficou possesso de raiva. isso apenas serviu de estímulo ao ladrante: ganhou alento e entusiasmo. em quintal vizinho. indignado com a procela que lhe destruiu a frota. de novo no leito. atirei-o às tontas ao meio da rua. meus nervos se apaziguaram. insopitável. Tratando-se de mero latido de advertência. Em seguida. Tudo se me escureceu em torno e pareceu-me que as sombras se agitavam. Como o avô Porfírio. Subitamente. e repreendi-me por já não ter ministrado uma "bola" ao canino demônio. ou porque ainda houvesse. que era tal qual. daí a pouco. caiu numa grande prostração e permaneceu casmurro o dia todo. que só os cachorros percebem. Abrindo a janela.

e a vida fecundou-me a seu modo. O melhor seria vivermos sem livros. Posta de parte a modéstia." Com efeito. porém. Um. Se estivesse de bom humor. comuniquei esse propósito. meio lírico. Comecei contando o Natal que acabou e falando nos amigos e na parentela. mas de trinta e oito anos. havendo tantos. meio cínico. aqui estou calmo a escrever estas linhas. ela responderia que era por estar grávida. É plano antigo o de organizar apontamentos para umas memórias que não sei se publicarei algum dia. Minha vida parou. Jandira acredita que não foi reservado a mim deixar à posteridade qualquer importante mensagem. Ai de nós. não de nove meses. Este mesmo Belmiro sofisticado foi quem matou dois outros livros. Enterrei-os no fundo do quintal. do outro lado do quartel do Décimo. se perde em si mesma se não lhe damos presa. no mesmo quarto envelhecido desta patética Rua Erê. . responsáveis por tanta literatura reles!) traz-me um desejo irreprimível de reencetar a tarefa cem vezes iniciada e outras tantas abandonada. fazendo-me conceber qualquer coisa que já me está mexendo no ventre e reclama autonomia no espaço. enquanto as carrocinhas de pão começam a percorrer o Prado e meus amigos operários devem estar procurando o caminho da fábrica de calçados. Deve ter razão: se cá dentro deste peito celibatário tem havido coisas épicas. perseguindo imagens fugitivas de um tempo que se foi. ao cabo. Sim. no decurso dos dez últimos anos. Sobre a cova brotou uma bananeira. Meu desejo não é. vago leitor. em Vila Caraíbas. há tempos. "Por que um livro?" foi a pergunta que me fez Jandira. cumpre fornecer-lhe sempre objeto em que possa aplicar-se e atuar. sou um amanuense complicado. seu Belmiro?" Respondi-lhe que perguntasse a uma gestante por que razão iria dar à luz um mortal. que hoje avulta a meus olhos. gestantes. um Belmiro (que costuma assobiar operetas) insinua que as epopéias de um amanuense encontram seu lugar justo é dentro da cesta. no terceiro capítulo.' E isso é razão suficiente. como se enterravam os anjinhos sem batismo. e esta noite insone de Natal (as sinistras noites de insônia. On revient toujours: hoje recomeça a mesma aventura. e desde muito me volto para o passado. abalada e comovida. devemos sempre ter à mão um sapato velho para o serviço da alma. a quem. cuidar do presente: gostaria apenas de reviver o pequeno mundo caraibano. Reconciliei-me com o cão e com o livro. em que vai toda a história de mais um Natal que passa. e outro na décima linha da segunda página. sinto-me grávido. mas o homem não é dono do seu ventre."Parece que. Amanhece o dia. "Já não há tantos? Por que você quer escrever um livro. Não sei bem o que me sairá das entranhas. Graças a ele.

nos falava de nossas saudades e de nossos amores. Depois. à atmosfera de alvoroçado bem-estar em que a gente mergulha . transportavanos. pus-me a pensar no permanente conflito que há em mim no domínio do tempo. que se confunde no tempo e no espaço. na igreja do Rosário. não para o cotidiano. que estes se diluam e o espírito se desvie para outras paisagens. é comum. atento e presente. Fiquei rente do cego da sanfona. Eu ia. tornando-se ficção. DEPOIS de ter andado inquieto como uma galinha sem ninho (já viram como uma galinha desalojada cacareja aflita. em busca de um bonde e de Jandira. quando o atual me reclama a energia ou o pensamento. ou talvez para chorar mágoas. assim. as secretas forças da vida trazem-me de novo à tona e encontram meios de entreter-me com as insignificâncias do cotidiano. E chorava-as tão bem que cada um que o cercava sentia as suas mágoas igualmente choradas. dos seus motivos individuais. perdi o bonde. e perdi Jandira.Procurando-o procurarei a mim próprio. Era precisamente por ali que estacionava outro sanfonista que não esmolava nem era cego. lograva articular uma linguagem que nos servia a todos e que. intermináveis e sucessivos. nelas buscando abrigo. que ali iam buscar expressão para sentimentos indefiníveis que os povoavam e só se traduziriam por frases musicais. ANO-BOM. que minha vida. e tocava apenas por amor à arte. Tais solicitações contrárias. não sei se ouvindo as suas valsas ou se ouvindo outras valsas que elas foram acordar na minha escassa memória musical. tão leve. § 5. Desci a Rua dos Guajajaras com a alma e os olhos na Ladeira da Conceição. a cada instante. mas bem percebi que os passos me levavam. mergulho no passado e nele procuro uma compensação. levam-me às vezes a tão subitâneas mudanças de plano. passava Camila. perdi o rumo. Foi só ouvir uma sanfona. Esse traço da generosidade inconsciente dos grandes artistas se encontrava no sanfonista da Ladeira da Conceição. e continuei a pé o caminho. num bando alegre. se processa em arrancos e fugas. O que hoje me sucedeu é bem um sinal dessa luta interior. em luta constante. O artista se revelava por esta forma perfeito. extraindo. depois da missa das nove. mas para tempos mortos. Se. na realidade. o cego mudou de esquina. por onde. Satisfazendo à necessidade de dar forma aos pensamentos imprecisos de suas saudades e de seus amores. melodias ajustadas às necessidades da alma dos circunstantes. tão casta. mera ficção. Pelo oposto. por igual. sem encontrar lugar no espaço?).

Creio que anda de namoro com a filha do meu chefe de Seção.. E desviou-me no tempo. e o estilo é a mulher. Encontro uma explicação plausível: . a expressão—seja musical. se este não me viesse buscar quase à meia-noite. o que me pareceu de bom tato. Viva Florência. A sombra de Camila me subtraiu à realidade de Jandira e reconduziu-me às estradas perdidas de Vila Caraíbas.quando encontra a definição de um sentimento e sua forma de expressão. O Ano-Bom chegaria sem que eu o celebrasse com o rito do costume. seu Florêncio? Já lhe disse que não quero saber dessas intimidades. Mariana olha-a com reservas. O cego. Redelvim e Silviano compareceram. E Jandira esteve ausente. não é o ano velho ou novo." § 6. Mas. à conclusão de que a vida é breve. e cuida de tratar o irmão corpo com o bom vinho e a boa vianda. Proporcionando ao espírito válvulas por onde se evadem as emoções que o comprimem. CARNAVAL. não o fez com a mesma eficiência. alguns fragmentos de minha vida. mas. bem se vê. também. Está certo. Porventura chegou. dois meses comecei a registrar. Mariana põe nela todo o seu estilo culinário. longa. o homem sem abismos. Glicério mandou desculpas: ia a um baile universitário. que é solteiro. a Nonoca. Com esse jeitinho mesmo é que elas vão entrando. em todo caso. me lembrou o outro da ladeira de minha vila. em capítulos de cozinha. e isso já foi muito fazer. com aquele instinto infalível e feroz da boa matrona que quer conservar o seu homem para si. QUE tenho eu com os dias que a folhinha assinala? Há. O senhor. Eis aí o segredo de Florêncio: por isso é que vive naquela bem-aventurança que todos lhe invejamos. e a arte. A questão. e noto agora que apenas o faço em datas especiais. Mariana desconfia das literatas (assim denomina todas as mulheres de idéias mais avançadas) e fecha a questão: "Pois sim. O sanfonista da Vila traduzia para mim as coisas complicadas de minha alma.. no papel. literária ou plástica — não só o alivia. que levam àquela serra muito azul e esquiva.. mas a ceia sempre apetecível. porque assim despertou dentro de mim esquecidas harmonias. mas também o excita. Tem sido inútil meu trabalho em favor da moça. da casa do amigo. que encontrei na esquina. se envolva com elas.. que é uma ceia em casa do Florêncio.

vou traçando quase que despercebidamente minha curva no tempo. numa noite de carnaval em que fomos abandonados pelos amigos e em que nossa porção de espaço foi invadida por outros seres. introduzindo o elemento multidão na minha esfera e propondo-me novos espetáculos ou novas sugestões.minha vida tem sido insignificante. Habituei-me a uma paisagem confinada e a um horizonte quase doméstico. na sua. esmagadora. portanto. No seu âmbito poucas são as imagens do presente. por assim dizer. Habituei-me às coisas e seres que incidem no meu trajeto usual da Secretaria para o café e do café para a Rua Erê. trata-se de uma sorte de melancolia a que meu espírito se adaptou e que. em mim. No seu bojo. mas ensaio um gesto.. e no seu currículo ordinário nem faz. e o braço cai. Eis que o amanuense é um esteta: ao passo que há nele um indivíduo . Em mim. de seguir. Tais seres e coisas pertencem. ao meu sistema planetário. por onde se manifestam as puras e ingênuas emoções do ser. leva-nos a um mergulho mais profundo nos nossos abismos. realmente. não desperta novas reações. por onde eu a perceba. paralítico. então. assim. que há coisas extraordinárias.feição mais ou menos constante. como célula passiva. comunicar-me. seu movimento de translação. e o amanuense põe a alma no papel.interrompem o equilíbrio do meu pequeno mundo e nele vem produzir desnivelamentos que suscitam mais fundos movimentos interiores. cantar. tocamos seres cuja existência nos surpreende quase dolorosamente. A variação violenta dos quadros. E se tal vida é melancólica. tão certos estávamos de que nada havia no espaço além do nosso sistema. chorar. em vão. uma vaga nervosa que quer acudir ao apelo que a multidão dirige a cada unidade. Os outros têm pernas e braços para transmitir seus movimentos interiores. e muitas as do passado. de receber e transmitir essas forças misteriosas que nela atuam. algo destrói sempre os caminhos. Sinto inutilmente. hoje começado. Quero rir. e a agitação que me percorre não encontra meios de evadir-se. numa força uniforme. Os dias de festa coletiva. vibrações estranhas. A multidão me revela. mais do que nunca senti de modo tão vivo a impossibilidade de me fundir na massa. o homem sofre. de onda ou ciclone. há um mundo diverso do meu e com o qual tentarei. dançar ou destruir. e. entretido com eles. Dir-se-ia que há em mim um processo de resfriamento periférico. Reflui. às fontes de onde se irradia e converte-se numa angústia comparável à que nos provém de uma ação frustrada. comunicando-se de indivíduo para indivíduo e resultando. Neste carnaval de 1935. afinal. Novas melancolias são despertadas.

mas a onda humana vinha imensa. de blocos e cordões. consumi a garganta em serenatas e que esta. depois de me terem atirado confete à boca. sua terceira noite. e entoavam os coros que descem do Morro. que a livrou dos braços de um marinheiro. segundo hábito antigo. no meio daquela roda alegre. sem perceber o disparate. mas percebia. Novo cordão levou-me. Já ela estava repleta de carnavalescos.sofrendo. encadeados. abandonaram-me ao meio da rua embriagado de éter. pela frente e pelos flancos. dançavam. que aproveitavam. porém. correndo atrás de choros. acabei presa de grande excitação. já agora. mãos postas nos quadris do que ia à frente. ACONTECEU-ME ontem uma coisa realmente extraordinária. A DONZELA ARABELA. que vêm da carne. me pus a entoar velha canção de Vila Caraíbas. que a radiola derrama no ar molhado. entregar os sentidos à doce música da Bayadera. Lembra-me que homens e mulheres. desanimado. pois os foliões se engraçaram comigo. por momentos. sem nenhuma análise. do lado da Praça Sete. por trás. bebendo ali. desci para a Avenida. Deram-me uma corrida e. Bebendo aqui. Dêem-me um jacto de éter perdido no espaço e construirei um reino. Toadas tristes. fui arrastado pelos acontecimentos. § 7. em rapaz. então. com os olhos gratos. inexoravelmente. Os sambas eram tristes e homens pingavam suor. Não tendo conseguido conter-me em casa. e fui. outro há que analisa e estiliza o sofrimento. entrei no salão de um clube. envolvido em que grupo. acompanhando a massa na sua liturgia pagã. Mas o homem espia o homem. de colarinho alto e pince-nez. Procurei desvencilhar-me. o atrativo do cordão. . Mas a boneca holandesa foi arrastada por um príncipe russo. não ajudava. aquelas migalhas me consolavam e comoviam. quando inesperadamente me vi envolvido no fluxo de um cordão. Respondi-lhe que. Contudo. que aquele jacto resvalara de outro rosto a que o destinara uma boneca holandesa. crescendo em torno de mim. Não sei como. àquela humanidade que me pareceu mais cansada que alegre. nesse vaivém. a origem dessa carícia. Talvez fosse preferível ingerir certo vinho capcioso e. Tanto fizeram que. Imagino a figura que fiz. Entreguei-me. Uma gargalhada espantosa explodiu em torno de mim. a um de fundo. Um jacto de perfume me atingia às vezes. Um máscara-de-macaco deu-me o braço e mandou-me cantar. Pus-me a examinar colombinas fáceis. como podiam. para outro lado. e. Procurava. como pude.

renunciar aos rumos da inteligência e viver simplesmente pela sensibilidade—descendo de novo. senti-me fora do tempo e do espaço. a mão me fugiu. Nesta noite de quarta-feira de cinzas. chuvosa e reflexiva.A certo momento. um Belmiro patético e obscuro. descerrado por mão imprudente —parece-me a única estrada possível. e que um anjo descera sobre mim. no tempo e no espaço. a incorpórea e casta Arabela. ou de qualquer outra perturbação. Pobre mito infantil! Nas noites longas da fazenda. aqui e ali. e meus olhos só percebiam a doce visão. Olhei ao lado: a dona da mão era uma branca e doce donzela. para que as coisas se tornem indefinidas e possamos gerar nossos fantasmas. que são o pão dos homens. pisado e machucado. em mim.. cautelosamente. Seria uma fórmula para nos conciliarmos com o mundo. Efeito da excitação de espírito em que me achava. cantando: "Segura. o véu que cobre a face real das coisas e que foi. segura na mão. O mito donzela Arabela tem enchido minha vida. Jamais esquecerei: uma branca e fina mão. e o homem procura a infância. Meu corpo se desfazia em harmonias. desmesuradamente. converta-se em fraca luz de crepúsculo. Onde houver claridade. alguém me enlaçou o braço. contava-se a história da casta Arabela. Em meio dos corpos exaustos. Esse absurdo romantismo de Vila Caraíbas tem uma força que supera as zombadas do Belmiro sofisticado e faz crescer. e alegre música de pássaros se produzira no ar. lentas e desconexas. Pareceu-me que descera até a mim a branca Arabela. Foi uma visão extraordinária. Mas vivam os mitos. Também tenho uma vaga idéia de que alguém me apanhou do chão. que morreu de amor e que na torre do castelo entoava doridas melodias.. em um momento impossível de localizar. . à margem do caminho. bem noto que vou entrando numa fase da vida em que o espírito abre mão de suas conquistas. Há muito que ando em estado de entrega. a donzela do castelo que tem uma torre escura onde as andorinhas vão pousar. e me pôs num canapé onde. já sol alto. Entregar-se a gente às puras e melhores emoções. e as vozes dos homens chegavam a mim." O braço que se lembrou do meu braço tinha uma branca e fina mão. não deixes partir o cordão. Como estava bela! A música lasciva se tomou distante. meu bem. Arabela. Era ela. numa comovente pesquisa das remotas origens do ser. Parecia que eu me comunicava com Deus. fui dar acordo de mim. Não me lembra quanto tempo durou o encantamento e só vagamente me recordo de que.

.. humanizando o "mito da donzela" na rapariga da noite de carnaval. Presumivelmente curado da moléstia. abandonei este caderno de apontamentos. não insistirei teimosamente na exumação dos tempos idos. trazendo-me dias agitados. O LUAR DE CARAÍBAS TUDO EXPLICA. Depois da quarta-feira de cinzas veio-me uma aura romântica que me pôs meio lunático. encarnando formas pretéritas. se compromete meu plano de ir registrando lembranças de uma época longínqua e recompor o pequeno mundo de Vila Caraíbas. ainda há pouco eu hesitava em confessá-lo: foi a moça. então. fazendo-o voltar para a vida. crê encerrado o seu ciclo e volta para dentro de si mesmo.. e estas notas devem refletir meus sentimentos em toda a sua espontaneidade. São dois. de novo. e o segundo é fácil de dizer: foram as velhas. tão sugestivo para um livro de memórias. à procura de fugitivas imagens do passado. Trazem-lhe uma nova imagem de Arabela. para acrescentar uma ou outra linha a esta ou àquela página. Examinando-as. Já que as seduções do atual me detêm e desviam. por lhe ignorar o nome de batismo e porque. Começarei por contar honestamente os motivos por que.§ 8. . nas quais o espírito se há de comprazer. que impelem o homem para a frente. Mas o primeiro. Mas as forças vitais. Tudo se torna claro aos meus olhos: depois de uma infância romântica e de uma adolescência melancólica. o episódio do carnaval me parece um ardil engenhoso. . e o espírito se deixa apanhar na armadilha. sedento e agitado. HÁ TRÊS ou quatro semanas não tenho tocado nestas notas (senão ligeiramente. armado por mim contra mim próprio. o presente se vai insinuando nestes apontamentos e em minha sensibilidade. nesses domínios obscuros da consciência. sob disfarces cavilosos. e já sem a desculpa do álcool e do éter. Vejo que. contemporâneas. durante as três últimas semanas. E estas páginas se tornarão. . oferecem-lhe o presente sob aspectos enganosos. hoje. em evocações ligeiras. voltei. em conjunto. Para iludir-lhe o espírito vaidoso. o homem supõe que encontrou sua expressão definitiva e que sua própria substância já lhe basta para as combustões interiores. Foi hábil o embuste. já de início. Analisado agora friamente. e que o passado apenas aparece aqui e ali. a essa a que vou chamando Arabela. suscitadas por sons. Como na noite de carnaval. embora isso exprima o malogro de um plano. . posso contar as coisas tal e qual se passaram. Não farei violência a mim mesmo. ainda estão ativas nele e realizam um sorrateiro trabalho. noto que. aromas ou cores que recordam coisas de uma época morta.

aquilo que não passava de uma criação do espírito. Tive noites difíceis.. ao plano da nossa análise. A vida não se conforma com o vazio. Postava-me nos logradouros públicos. visto que anda em maré análoga). e a imagem da moça encheume os dias. o que lhe dei se me afigura o adequado. quando. para fins literários.afinal. e a memória ou a imaginação é que reproduz ou cria as cenas passionais. nesta página. quando o coração bate desordenadamente. e o adolescente permanece no adulto. que ela nos proporciona. penetrando a multidão. Observo agora que o namorado. voltar a estas notas. e jamais conheci ficção burocrática mais perfeita que a Seção do Fomento. Naquelas horas. não muito convicto. ele não fez troça. ouviu. estudar. O Secretário está fora. perdendo a noção do ridículo. É extraordinário que nesta altura da vida me tenham acontecido tais coisas. mas os namorados me compreenderão: amei. No momento da devastação. no instante em que devastam nossa sensibilidade. o que atrás foi dito sobre o amanuense que espia o amanuense e lhe estiliza o sofrimento. tudo já serenado. Eu pediria inutilmente o socorro do bom senso ou da análise nas horas em que vivi a perseguir uma imagem que teria um terço de realidade e dois de fábula. não é capaz de se desdobrar ao ponto de permitir ao espírito. Pus-me a procurá-la quase com aflição e. As modificações que a paixão determina em nossa substância e a diversa visão. alma e corpo se solidarizam. Devo retificar. mas o luar de Vila Caraíbas tudo explica. a confidencia. como se se tratasse de um ser real. no momento preciso de sua agitação sentimental. mais tarde. e temos pouco serviço. confiei o episódio e minha desordem sentimental ao Silviano. que se . e a aventura de carnaval se foi dissipando no meu espírito. Pelo contrário. o espírito calcula e mede—mas certamente não são suscetíveis de registro. entreguei-me inteiramente aos secretos impulsos.. e contudo esperançoso. percorrendo toda a cidade em busca de Arabela. Podem rir-se de mim. Felizmente (e com certeza por solidariedade. dos seres e das coisas. os movimentos desse desvairado músculo. em vão. sério. E ninguém o ignora: a literatura das emoções é feita a frio. Muitas vezes entrevi uma figura gentil e fui. Logo verificava o engano. bebi algumas vezes e andei como vagabundo pelas ruas." (Na verdade nunca tivemos serviço. é fácil de ver que eu não poderia retomar estas notas. então. ao seu encalço. Quis. Até o chefe da Seção notou minha inquietude e fez-me assinar um requerimento de férias: "O senhor está precisando de repouso e deve aproveitar a ocasião. Só passados alguns dias a tola idéia deixou-me. poderão vir lucidamente.) Em tal estado de espírito.

Ela ficava noite e dia a arranhar a parede com as unhas. trouxe-me blocos de papel em . já ontem. Desde muito. Josefa lavadeira vive a resmungar e a querer tomar-lhe a roupa. foi doméstico. para de novo metê-las na água. Passou a dispensar-lhes cuidados maternais. Deu para coisas que até me fizeram rir. eu ficasse impossibilitado de lhe prestar auxílio. a crise passou. e Francisquinha foi melhorando. que andou inquieto. é comum que pegue as peças já limpas e as atire ao chão. Josefa lavadeira lhe meteu na cabeça que a Chica está possessa. A casa retornou ao seu clima habitual. § 9. Mas. lava roupa. . para não a vermos de novo agitada. tentando. O SEGUNDO motivo da interrupção de minhas atividades de escriba. Gritava coisas desconexas. tendo passado duas semanas de extrema agitação. escalar a superfície lisa e vertical. É verdade que isso nos sai caro: nos seus repentes. Agora. e. A meu pedido. pisando-as. momentos tranqüilos. uma ninhada de ratinhos. já lhes disse. Carolino. . Acho-me cansado e não há pressa. quando está melhor. É uma velha cabeçuda. talvez. talvez excitado pelo barulho que a mana produzia. foi-me possível.vão tornando o centro de interesse de minha vida. desde alguns dias. um dia desses. retomar minhas notas. supunha-se perseguida por uma mula-sem-cabeça. Francisquinha piorou consideravelmente. uma tábua do assoalho. Falarei nisso amanhã. Emília cozinha. e as velhas se entregaram normalmente às suas funções. a todo instante. inclusive o Tome. Que dias difíceis! Finalmente. Posso ler um pouco e escrever até tarde. o que só temos feito em último caso. Tivemos de prender a pobre mana no quarto. Vivendo. contínuo da Seção. AS VELHAS. Levantando. para ter a Emília tranqüila. não estando em férias. Quase cedi. e Francisquinha. Um espírito mau a domina. tivemos de consentir em sua extravagância: duas ou três vezes por dia arranjava mingaus para os ratinhos e ficava o tempo todo a espreitá-los. ocorreu outro empecilho: o estado de saúde das velhas. Emília. não daria conta de olhar pela mana se. Emília voltou a insistir em que eu trouxesse um padre para exorcismá-la. às voltas com sua gota ciática. meio apodrecida. como nestes dias. descobriu. não sei como. e não há meio de a fazer compreender que eu compraria muito mais caro as horas de sossego que Francisquinha experimenta quando se entrega àquela tarefa. tudo está em paz. de longe. na noite em que comecei de novo a folheá-las.

uma canção napolitana que ouvi a Camila em tempos idos: Tuorna a Surriento. Bem me recordo. que me veio atender. uma trama secreta que. passando à noite pela Rua Paraibuna. UMA CASA. enriquecidas de outras que lhes ministrou este demônio fantasista que me habita. Andando esta tarde com Glicério por aqueles lados—ao voltar de uma visita de pêsames a um companheiro de Seção. E essa trama se evidencia.quantidade. E já lhes contarei por que meu pensamento tomou hoje tais rumos. para mim. uma trepadeira. lógicas. encadeando os acontecimentos. envolve uma química. no caráter de necessidade que julgo acentuar as aproximações humanas. uma física e uma economia social extremamente sutis para que a ciência humana possa penetrá-las. § 10. então. mais tarde. neste escritório da Rua Erê. e acho-me abastecido para o que der e vier. ou apenas repito idéias velhas. Ela desprende um aroma de alto poder evocativo. Vivendo e observando as coisas. Explico-me: havia. Cantava como o faria um anjo de Van Eyck. um momento de maior ou menor influência em nossa vida. fiz-me anunciar. NUMA RUA. em outra residência. olfativa. Uma criada. os encontros mais rápidos que sejam e se nos afiguram fortuitos. uma auditiva. O timbre da Seção do Fomento encima estas páginas. há dois anos. que perdeu a filha—uma . dama-da-noite. à procura de um farmacêutico vindo de Vila Caraíbas. esclareceu logo o equívoco. outra. a cuja flor chamamos. HÁ. dentro da casa. Viva a Seção que me dá o pão e o papel. mas nem por isso desagradável. mas ouvi. por despontar somente à noite e murchar durante o dia. As duas imagens se consorciaram no meu espírito e ainda hoje nele permanecem. e já não veremos acaso nem gratuidade no desenrolar dos fatos da vida. perceberemos que o fugidio vulto—mal entrevisto em um encontro que nos pareceu destituído de significação ou conseqüência—teve. no sertão. o hábito de filosofar e fico horas e horas a pensar em certos fenômenos. As leis que regulam a circulação dos homens nos parecerão. Será uma pouco vivaz. em tal ou qual sentido. E. agora. por engano. se os coristas angélicos se dedicassem ao gênero. cujo endereço me fora fornecido sob indicações vagas. no jardim da casa. mas o fato me deixou duas impressões nítidas. de que. que me perdoem: adquiri. Se digo tolice. SEM dúvida. havia uma criatura que não vi.

. Já adivinharam quem seria: Arabela. tempos atrás. segundo o novo plano predial. na casa. pelo caminho percorrido. por merecimento. tomando cada qual o seu bonde. Assim me vi desembaraçado do Glicério. no ponto de espera. —O nome é o menos. —Aumenta-se o pecúlio da Previdência e toma-se um empréstimo em dezoito prestações. senti-me nomeado segundo oficial e cheguei a enxergar no Minas Gerais. ao falecido pai. Recordando-me do episódio e da voz puríssima que trauteou a canção. nem mais fina nestas redondezas. —Não a conhece? Deveras? É a Carmélia Miranda. estava. —E uma fatiota nova.. Ela vive com a mãe e um irmão pequeno. desci pouco adiante. e fiquei a imaginar doces coisas. construir uma casa.. transmudado em distinto cavalheiro que seria o protetor da donzela. observou Glicério. Um relance de olhos revelou-me que sua fisionomia não me era estranha.. talvez escondesse a da canção. entrando aqui com essa cara de alma do outro . —Que susto me pregou. Era precisamente a casa a cuja porta bati. que devia ser. e. Nunca ouvira. Não é preciso dizer o que fiz: voltei. nada mais. a retalho e por atacado. Aurélio. Dr. perguntei ao Glicério que moça ali morava. nada menos. Pode-se. já a flor abria suas grandes pétalas brancas.dama-da-noite. um pouco além. com o coração em desordem. não conhecia. nos separamos. Na Rua Erê. Não. mesmo. voltei pelo lado oposto da rua. E assim continuaria. A moça é que é fabulosa. Quando cheguei a pé. uma jovem estava à janela. Queria ver novamente a dama-da-noite. pendente do gradil de ferro de certo jardim. morreu há um mês. sugeria um arcanjo. em caracteres nítidos. Foi o demônio da Jandira que me tirou daquela sorte de embriaguez. Com o crepúsculo. Não há criatura mais linda. atraiu-me a atenção e despertou-me lembranças. sussurrou uma voz. leitor. lembrava um anjinho amável. Esquecime desta triste figura e sonhei um terno idílio. o amanuense Belmiro Borba. Perturbou-me bastante o encontro. Sou um incorrigível produtor de fantasias. Apressei os passos. —Mas é preciso comprar as alianças e um presente muito bonito. a passos apressados. este nome tão sugestivo. se eu não ouvisse uma risada quando entrei em casa. Quando de novo passei em frente da casa. o ato do Governo promovendo. movido por um pressentimento. mesmo. ao Bar do Ponto. Fomos caminhando juntos até que. sucedendo. O pai.

De acordo com a tática epistolar do sexo. Louvado Deus. neste escritório. As mulheres inteligentes não têm nisso menor prazer do que as outras. recusando-me devaneios acerca de sua geometria e convocando este anjo latente e prestimoso que nos segue como a sombra Afinal. sob reservas. Talvez tenha vindo apenas mostrar-me seu vestido novo. pondo-me a mão sobre o ombro. O chefe pigarreia. O sintoma é positivo: acabo de tentar um poema. por duas vezes. para cá. levou-me um livro e lá se foi pelas oito horas. nossa amizade sobreviveu a essas crises e acabou por criar certos tabus entre nós. Já lhe disse que. sempre que aparece. Da roda. Dias houve em que ela me perturbava profundamente. e por pouco não lhe teria dito as palavras do desejo. ela me vem tão desejável e tão perigosa (como a saúde de Jandira convida a uma ligação menos literária. . Refeito do abalo. sob o olhar complacente do chefe da i&laíISeção. uma folha de papel onde se alinham versos frustrados e se estende uma caprichosa série de rabiscos. mais naturista!). nisto não andou virtude. que andando para lá. Pereirinha. enquanto. que são as mesmas. ORA. § 11. realmente encantador e provocante. finge que não nota.mundo! Há uma hora estou esperando você sozinha. A velha está hoje inabordável e por pouco batia-me a porta no nariz. Faço por ser engraçado e lhe digo tolices. ao cabo de contas. depois de. em minha mesa. Que casa hospitaleira! disse. como hoje. Contou-me que obteve colocação no escritório de um advogado. que me fez tímido. dá-se que começo a amar. fui o único que não tentou conquistá-la. balbuciei qualquer esfarrapada desculpa. referiu-se maldosamente à Joana e suas turras com Silviano. e com ar de indiferença. tem qualquer problema a resolver. infelizmente. Não é que sejam raras suas vindas à Rua Erê. volvo os olhos para um lado. Jandira voltou sem dizer o que queria. mas. mas nem isso fez esta noite. Quando. no íntimo. O AMANUENSE AMANDO ESTÁ. que a mão vai traçando para disfarçar sua incompetência e esperar uma inspiração que não vem. tentar uma prosa com Emília. possuo um invariável bom senso e termino aconselhando-lhe qualquer coisa sensata. o Dr. e sim timidez. mas bem sabe que. que o deputado Fortuna está na bica de ser secretário. em todas as línguas e em todas as épocas. costuma insinuar o que deseja somente no post-scriptum. enrola um cigarro de palha e declara. procurava descobrir a razão da presença de Jandira.

talvez fosse bispo!" exclama ele. Poucos deles assinam o ponto de humor sereno e com aquela unção de que deveriam estar penetrados. após tantos anos de exercício das suas funções. e sente-se que. Bons sujeitos. na generalidade dos casos. Sente-se que ele está firme e definitivo na sua escrivaninha de primeiro oficial. suspira. casei-me antes de tempo e aqui estou vegetando. Quando sorri. ou nas letras.. atrás dele. querendo. ou melhor. está todo um sistema de leis fiscais. seu semblante se abre como que recitando a fórmula "saúde e fraternidade". entre duas informações deitadas com letra trêmula num requerimento. com todos os vencimentos. É o homem que manda o peticionário selar a petição e que volte. que trabalha no compartimento contíguo. recusando-se a pôr o espírito em função no ofício que lhes parece tão contrário à vocação e preferências. Os mais ficam na burocracia militante e inconformada. o companheiro de cavanhaque e lunetas douradas. e há dois ou três que excedem os sessenta. outro. à hora de encerrar-se o expediente: "Eu dava era para a política. seu vulto assume a solenidade de um edifício público. se algo há de que me ache firmemente convencido é ter neste bureau um destino lógico. é o próprio processo. Tinha jeito e tive padrinhos. Tirante o Glicério. os demais passam dos quarenta. meus amigos da Seção exercem com desencanto suas funções. O processo é sua religião e o senhor diretor a instância suprema. É o Filgueiras.Meus honestos e graves companheiros de Seção se acham a postos. na alta administração. não me contrista. O velho que se assenta a meu lado tem trinta anos de serviço. Acolá. em forma hierática e cabal." Há outros que teriam feito carreira no Exército. Admiro. com multas e penas. Mas houve qualquer coisa que tudo atrapalhou.. Quanto a mim. o Romualdo. que. cada dia. e isso acontece sempre que a praxe foi relaxada. como caso excepcional. . que é novo na vida e na burocracia. que já requereu contagem de tempo para aposentadoria. Mal posso. no fundo. Quando franze os sobrolhos. São raros os que chegam à burocracia triunfante. Mas não tirei carta de bacharel. desviando-lhes a rota da vida. E assinam o ponto com rebeldia na alma e desprezo pelas mãos. mas sempre revoltados. já recebe adicionais e ainda acredita que nasceu para o brilho e a dignidade da Igreja. que é aquela em que o espírito se integra no bureau e o homem não é mais do que um conjunto de fórmulas e praxes. não nasceram para esta vida. Mas. "Se eu não tivesse deixado o seminário.

que nos faz o Estado. acorda dentro de mim e tenta uma serenata. Informado de que Jandira se empregara. um Belmiro triste. o repetia para cada um que encontrava. satisfeito com o trocadilho. Depois de animada reunião em sua casa. que. quando contemplo. conter um movimento de ternura. numa rua. ou de. mas pacificado. ir tentando sacar. Eu vos estou amando e prestes me acho para as nossas impossíveis bodas. céptico. e mais um.na verdade. Quando lá cheguei. já não sofrerá donzelas. ao pôr do sol. já estavam todos. informações mais circunstanciadas acerca da moça que apareceu na janela de uma casa. que o acontecimento tivesse comemoração condigna. Mas a amiga dá uns toques tais. ele lhe exigiu. em uma casa de cômodos da Rua Curitiba. CONVERSAÇÃO COM JANDIRA. ela me chamou à parte e tez algumas confidencias melancólicas. *** —Mas. de uma aposentadoria condigna. Jandira levou a ultimação a sério e nos convocou esta noite. no pequeno apartamento que ocupa. do flautista que. no arranjo doméstico. entretanto. Ponho-me a imaginar um Belmiro sexagenário que tenha renunciado compulsoriamente aos jogos do amor e já não sofra a necessidade dolorosa de compor um poema. não tive olhos para lhe ver alguma coisa. Conheço-a desde dois ou três anos. DESCOBRI hoje o motivo por que nossa amiga Jandira veio ver-me anteontem. e a colocação deveria ser bebemorada. de que a amiga é bem dotada. ou melhor. de nossa Secretaria. e quando me lembro da promessa honrada. nestas compreendidas também as de espírito. do Glicério. com emoção mal disfarçada. que ali . o edifício grave. nem arabelas. Aos sessenta anos. Zombe eu. A instalação é quase tão pobre como esta que me arranjei na Rua Erê. embora. desconhecido. acolhedor. Todos nós nos preocupávamos com o problema. Arabela. segundo a expressão do Florêncio. fizemos boa camaradagem (é minha única amizade feminina) e. será o fenômeno amor? Creio que vos estou amando. com a tia. Vivemos tão preocupados com o nosso próprio espetáculo que no geral ficamos cegos para o alheio. em nome dos amigos comuns. § 12. além das graças de mulher. neste instante. Foi o Florêncio quem promoveu o encontro.

e as coisas se dispõem de tal forma que ela a ninguém cede em elegâncias e modas. para acomodar as mulheres. Com este princípio. não. Jandira está na força da carne. que deveria correr animado antes. Tanto pior para o amanuense incauto. Fui saudado com um "oh!" geral da roda e. perguntando-lhe como conseguira habeas-corpus da Joana. logo uma cadeira e um copo. mas Joana só conhece uma face do monstro.sempre tenho a impressão de estar sendo recebido em casa de finos burgueses. pois brigam.. que as devorava com os olhos. Com a minha chegada. —Mentindo! respondeu nosso filósofo. retifiquei pela centésima vez. Jandira se veste como filha de ricos. para comparecer na reunião. A presença do Silviano era. Mas não pensem que é fácil estabelecer uma combinação .. o Silviano. pois o tom geral era de sorrisos maliciosos. Belmiro. realmente. não abre mão dos direitos de exercer sobre ele uma fiscalização contínua. O que lhe falta em dinheiro. Silviano não é dos mais assíduos em casa de Jandira. Satisfeito com a oportunidade que lhe dei para um discurso. Sou triplo. apegou-se ao assunto e continuou: —O que ignoramos é como se não existisse para nós. sobra-lhe em engenho. costuma chamar-lhe Abundâncio. e as formas. Que deponha. sempre que se encontram. a quem estas modas de 1935 causam profundas perturbações. Para dizer qualquer coisa e integrar-me na roda. Por outro lado. Falariam de mim? Alguém devia estar penando. Ao Florêncio. Jandira me trouxe. estou na Gazeta de Minas fazendo revisão de um artigo que dei para o Suplemento. Para todos os efeitos. sou múltiplo. embora conformada com as extravagâncias do marido. livrando-me dessa situação aborrecida de quem chega e interrompe o fio da conversa. de se notar. fielmente modeladas pelo vestido. parou um pouco. Apesar das dificuldades internas da casa (quando a amiga está desempregada. Silviano tem a mania de batizar cada pessoa com o nome que lhe apraz. as duas passam aperturas com a magra pensão que a velha Hortênsia recebe da Caixa Beneficente das Viúvas e Órfãos dos Militares). Ela se pôs muito bonita para nos receber e fiquei lisonjeado por mim e pelos demais. É o que é preciso fazer. não eram ontem propícias a pensamentos castos. já estando meio alterado pela bebida e sem os freios que a discrição nos impõe. o colóquio. vindo a meu encontro. Joana. Porfírio. pois o chope já ia adiantado. A mentira. arranjo-me em casa. a respeito. —Porfírio. é a base da ordem doméstica. aproximei-me do Silviano.

como se estivesse a pensar no defunto major.. Hortênsia sempre anda assim. São o passatempo do guerreiro.. desde a morte do marido. apenas a diferença de substância e não de forma. cortou o Florêncio. instintiva. evitou que a conversa descambasse. a fim de que cada mentira se articule perfeitamente no sistema e seja. com essa alusão à mitomania do Silviano. que veio de uma novena na igreja do bairro. É preciso um exercício longo. espontânea. que me surpreendeu: —Não acho graça nenhuma nisso. que contrabalançava a expressão hostil de Redelvim. que é nietzschiano. cuja presença mal se sente. dando silenciosamente a mão a cada um. cujo retrato pende da parede. Hoje sou um artista no gênero.constante de mentiras.. —Ninguém duvida. ao mesmo tempo. aparteou outra vez Florêncio. junto a nós. devemos sempre mentir. interrompendo-o. sorriu satisfeito. deviam ter mais compostura.. alheada.. Um pouco impaciente com aquela farsa. isto é que é. provocando novos aplausos. provocando uma gargalhada de todos.. fluente. casados. Dessa vez... este continuou a falar. haja ou não haja necessidade.. Basta-lhe um homem. A chegada da tia. truão! Estou falando é às pessoas qualificadas desta roda. Silviano continuou a discursar: —A felicidade para a mulher está unicamente em divertir o guerreiro e pensar suas feridas. manifestandose solidária com o sexo e assumindo um ar conservador. Vocês. —O que sei é que vocês são uns cínicos. Fica. Jandira diz que D. Cumprimentou a todos. irritada. entre ela e a verdade. para enganar os maridos? Acharia bom? Silviano não se perturbou: —A mulher. Animado pelo olhar de admiração deste. e o guerreiro requer muitas mulheres. minha flor. —Não para você. uma sombra. que sustente o equilíbrio do lar. e se . disse Jandira. Sem responder. estabelecida. no seu tom professoral: —Um exercício longo. conquanto a velha seja uma criatura apática. Como despregada do mundo. Jandira interveio. Glicério. E se as mulheres resolvessem adotar sua teoria. não necessita disso. lógica. durante horas. Assim a mentira acaba vindo fácil.. como um parlamentar experimentado que não dá atenção aos apartes. Silviano encolerizou-se: —Não me dirijo a você. Para atingir a perfeição.

para conversarmos a sós. o Pensador! Oh! Como isso me diverte! disse Silviano com um ar que parecia afetado. mas que lhe é habitual. quando Jandira me tocou no braço. a beber. talvez assustada com tamanho alarido em sua sala. É uma verdadeira descida dos meus altiplanos. Não repetirei o que disseram. durante todo o tempo. *** Já é tarde e Emília chama por mim. entre estes inquietos companheiros. no meu "cepticismo de pequeno burguês (a expressão é dele). que até então apenas bebia. Magoaram-se uns aos outros. Redelvim me chama comodista e vive a dizer que. Desde muito. Jandira me disse. pedindo que ficasse mais um pouco à porta da rua. Redelvim e Jandira tendem para a esquerda. Enquanto Glicério e Silviano se inclinam para o fascismo.pôs a um canto. Silviano. e o tom que emprega em seus monólogos não é outro. atacou um assunto perigoso. E criaram uma situação de tal constrangimento que cedo a reunião se dissolveu. ao capitalismo. meio sorridente: . Já o pilhei a conversar sozinho. Glicério. as discussões vêm azedando nossa pequena roda e vejo que ela não tardará a dissolver-se. não se animando Glicério a entrar na briga e apenas seguindo-a com um sorriso de aprovação ao Silviano.— Chega a escandalizar-me esta minha condescendência em vir conversar com vocês. E por aí se engalfinharam os dois. mais que afinidades. pois não disseram novidade. Redelvim. afinal. § 13. A CONFIDENCIA. —Um palhaço. pois há forças de repulsão. ao contrário. Redelvim e o desconhecido se afastaram. sirvo. à margem. Certamente precisa de algum remédio. me repreende pelo que denomina "irreprimível vocação plebéia". LOGO que Silviano. exprimindo seu desprezo pelo Silviano e pelo Glicério: —Mentalidade sórdida de burgueses! Vocês são uns idiotas e uns palhaços. Fica para amanhã cedo o relato da conversa com Jandira. junto da velha—. O começo de discussão tirou a graça da festa. no quarto. Dispunha-me a sair. esteve calado. sem que nenhum ficasse abalado em suas convicções. Florêncio. com eles e com o desconhecido—a quem atrás' me referi e que. Só eu e o Florêncio ficamos calados. Isso não quer dizer que me poupem. Passaram ao terreno da política.

feita com esforço não pequeno. se você estiver disposta a agüentar com as manas. com urgência. Sabe que é velho e que não pode exigir muito. à sua situação. Eu tenho de reagir sozinha. de um homem. não me quer escravizar. respondi. mas não este. Depois. aqui tem um homem. o homem. em que ela não poderia encontrar ressonância. —Pois então feche o negócio! —Idiota! Ainda estou bem moça para fazer negócios. mas o sujeito é muito teimoso. Preciso. e só agora compreendo o sentido oculto de suas palavras. É a terceira vez que ele me propõe casamento. Dizendo-me coisas desse gênero. —Já recusei três vezes. em mim. eu também me candidato. mas velada-mente. Em conversas anteriores ela aludiu muitas vezes. fiz uma pilhéria de mau gosto. estou falando a sério. Jandira me olhou com ódio: —Se não soubesse que você está apenas fazendo uma gracinha. Ouça. não percebi. Tem uns cobres. então. continuei. e insiste em dizer-me que abre mão de direitos de exclusividade sobre mim. A gente é de carne e osso. nesse caso. Bem. Talvez por isso me tenha escolhido para confidente. embora me sentisse realmente penalizado: —Se o caso é de urgência. Você não imagina o que é a gente ser perseguida pelos homens. Impressionou-me esta confissão. não digo. Jandira não tem amigas e D. Será que me considera inofensivo? Levado por esta estúpida interrogação. Todos me olham como se quisessem devorar-me. As meninas-famílias dispõem de papais e irmãos para imporem respeito aos dons-juans que andam por aí. Habituado a pensar nos meus próprios problemas e a perder-me neles.. —Deixe de ser bobo..—Esse homem que esteve aqui e a quem vocês não prestaram atenção. —Não é possível. Seria uma humilhação. —Passe-lhe a tábua.. e as mulheres também estão sujeitas a certas exigências. Nesse caso. ora deprimida. tenho pensado. todo dia. todo dia. está-me perseguindo com propostas de casamento. por alguma forma suprime. Não me presumo credor de elogios pela escolha. Belmiro.. ter sempre a companhia de vocês. . eu lhe dava na cara. Mas. vivo tão sem apoio. Hortênsia é apenas uma sombra. e fez-me a confidencia que me surpreendeu: —É claro que recusarei sempre. continuou a falar. ora irritada. Só falta proporme. tenho medo de ceder. é viúvo. . preciso de um homem.. Poderei continuar a mesma vida. E às vezes sinto-me fraca. Deve ter uns quarenta anos.

volto a remoer o adjetivo analgésico. Gostei dessa reação.. eu costumava entregar-me a um passatempo perigoso: procurar. Acham indispensável classificar o indivíduo em determinada categoria. Ela devia saber disso. sabem o que sou. sou um homem fraco. naquele momento. o burguês Belmiro! Redelvim deu para humorista. já estava brincalhona: —Belmiro. porém. eu me censurara pela minha incompreensão. serve o sistema capitalista. como qualquer um. Mas está dito: sou analgésico. pela sua representante junto à Rua Erê. todos. no tocante a dado conceito. embora não muito satisfeito com o adjetivo. com que Jandira me brindou. Percebendo que esse jogo de antinomias acabaria deixando-me com uma telha de menos. Quanto ao que pensam de mim os velhos companheiros. como você é analgésico! Voltei para casa tranqüilo. sem achar saída.. meu anjo. Expliquei-lhe. Fazendo minhas . abandonei-o. Ela o emprega com o sentido de sedativo. Protestei. que não tem o senso da hierarquia e tende para um igualitarismo dissolvente. § 14. Jamais encontrei algum cujo contrário não pudesse ser também defendido. mas por omissão. Achava. RELENDO a página escrita ontem. Não é culpa sua. eu compreendia tudo. como pude. Olhou-me pensativa. Jandira voltava ao seu clima. E se eu não for coisa alguma. E não é. serei um céptico pequeno burguês que. ETC. dentro em pouco. que era muito nova para desesperar de uma solução. no seu calão. que realmente estava brincando e que. assumindo ar de mofa e provocando-me. a favor ou contra. ANALGÉSICO. . da mesma força. logo depois de ter dito aquela tolice. Ora. não por ação. Minhas palavras produziram bom efeito e. desde que ela não me queria. e prometi-lhe que ainda lhe levaria um bom marido. sintoma de vitalidade. É o que pensam as mulheres. Vocês não compreendem isso. um elogio atribuir-me a função de calmante.. Afinal. ao mesmo tempo? Há anos passados. eu preferiria a de excitante. e disse: —Fui uma boba em pensar que podia lhe falar essas coisas. Uma criatura bonita e jovem assim tem diante de si um mundo grande. ela é que não parecia razoável: levou muito longe uma simples pilhéria. para o segundo. ou de mais. cheio de possibilidades. Redelvim e Silviano o exprimiram: para o primeiro. positivamente. igual número de argumentos. Quando nos despedimos. dizendo que. ou for tudo. exceto eu.Fiquei encabulado.

neste velho escritório ou em algum trajeto de bonde. diz Silviano. é que entretêm a vida e a preservam dos efeitos devastadores de um sentimento intenso e continuado. atraiu-ma desta vez. porém. Aurélio Miranda para assistirem à missa de trigésimo dia. Assim foi: a filha. o Minas Gerais. quero dizer) e seu vulto mal pousou a meu lado. assim como. de chapéu e luto fechado. convidando os amigos e parentes do saudoso Dr. Como na tarde em que voltei â Rua Paraibuna. cheguei mesmo a esquecê-la. convidado. Desejaria bebê-la com os olhos. eu não pensava mais em Arabela (Carmélia. § 15. E não foi senão para favorecer o esquecimento. Essas intermitências. a procurar o carro da família. se me ocorresse que a família sai por último. na escrivaninha da Seção. parecia mulher feita e nela mal reconheci a misteriosa moça em flor da noite de carnaval. não tive. por onde geralmente se retiram as pessoas discretas ou enlutadas. Creio que já não quero o mito mas a pessoa. esta coisa nos foge. em minha memória ótica. para alimento dos longos dias que passarei sem a ver. ainda a tempo de. Não fora preciso tanto açodamento. Quando. o irmão pequeno e a viúva só apareceram mais tarde.contas. também. ela alçou rapidamente a vista. preocupados que ficamos com tal esforço. deixando Glicério. Já estava no fim a cerimônia. vi que a simples aquisição de umas botinas novas me desequilibrou o orçamento deste mês. Entretanto. Por que essa timidez? Não me . outros bens. celebrada em intenção de sua alma. dando repouso à sensibilidade. postar-me à frente de uma porta lateral. inclusive Jandira. cuidados. que jamais me chamou a atenção. não sei por que ardilosa conspiração das coisas. presa que fica pelos abraços de pêsames das pessoas conhecidas. durante o dia. e só fui dar acordo de mim quando entrava na igreja da Boa Viagem. obter uma imagem sua que se fixasse. precedendo aos presentes. Carmélia. em um momento propício. senti-me. Ontem. DESDE a noite da reunião em casa de Jandira. Lendo. com mais vigor. escapou-me uma imagem nítida de Carmélia para só ficar um esboço vago de seu vulto. a coluna dos falecimentos e das missas fúnebres. forças para mirá-la de frente. outros males. Não sendo parente nem amigo do defunto. as operações do seu ofício. ou não senti coisa nenhuma. MISSA DE TRIGÉSIMO DIA. desviei sem querer os meus olhos. quando queremos forçar demasiado a atenção em qualquer coisa. e mal pude deixá-la. que Deus pôs no mundo paisagens. cedinho. E nela vejo um aviso. Mas parece que a sensibilidade descansa apenas para redobrar.

como outro dia. hão de fazer-me inclinar sobre mim mesmo. As moças de trancas e bandos não mais lerão sortes no copo d'água nem saberão mais qual delas terá a grinalda. Sofreia. rica. pude apreciar esse São João alegre e buliçoso. fumares um cigarro e assobiares uma rancheira. do Natal e do Ano-Bom. Apesar da literatura que se faz pelo Natal e pelo São João. Já tens trinta e oito primaveras e ainda me compareces com tais veleidades de mocinho. Certo São João de Vila Caraíbas é um fenômeno que não se reproduzirá jamais. como diz Glicério. esses dias continuam inundados de uma poesia própria. para viajar pelo tempo afora. muito além da qual nasceu Iracema. Eis o lado melancólico do São João. de que essas bodas são impossíveis. como aquela serra que azula no horizonte. ao vê-los chegar. Escrevendo estas notas. verificamos que a paisagem do passado vai ficando mais azul.conhece e nem perceberia uns olhos plebeus que nela se detivessem furtivamente. Carmélia é fina. em busca de um balão que as monções carregaram para outras latitudes? Vã tentativa de reintegração de porções que se desprenderam da alma nesse trajeto imenso. Amigo Quixote. jovem. além. neste vetusto bureau da Seção do Fomento. qual delas se cobrirá de flores e . cheio de balões e de vozes gratas da infância. Belmiro. valerá a pena que eu me incrimine por isso? Lembra-te. um terremoto ou uma guerra. QUANDO vi a fogueira. mais distante. com medo de que os meninos me atirassem bombinhas. para compareceres. salvando a donzela. uma inundação. esse balão que se queima no ar e os foguetes. porque os bichos comeram os trapos que o vento não levou. O melhor é tomares a xícara de café que o Carolino pôs sobre a mesa (excelente Carolino). o irmãozinho e a viúva. Por que. § 16. no momento preciso. que resiste a todas as agressões dos principiantes das letras. que vão atrás dos balões. afinal. essa fogueira. ainda estou a lamentar minha inépcia. É inútil que faças projetos. mesmo de longe. cruzai" os ares e deixar-te em certo alpendre da Rua Paraibuna. UM SÃO JOÃO QUE VAI LONGE. Em cada ramo à beira do caminho ficou um pouco de nossas vestes e é inútil voltar. amanuense. Permanecem com sua força evocativa e voltam com aquela pontualidade inexorável para vir lembrar-nos que estamos envelhecendo irremediavelmente. perdidamente. em que imaginavas um incêndio. todos os cavaleiros andantes já se recolheram e não há mais dulcinéias. É da alta. o corcel fogoso que contigo quer transpor esta janela. Mas. Cada ano. Mas. passei ao largo.

Num exame de consciência. desenvolvo uma tática complicada. Naquele tempo a fogueira crepitava até horas mortas. recomendado pelo Senador Furquim. § 17. nem alegres. Qualquer coisa a respeito de um viajor e de uma estrela. a vê-lo sempre à minha procura. que cantava inefável modinha. que deixou um legado para a freguesia de Caraíbas. Nem sei. O que eu . Há quatro anos. cedendo ao comodismo e reservando meus lazeres para os velhos companheiros. a pensar nas terras impossíveis e no destino trágico da Nau Catarineta. ora indo-lhe à casa. onde jazem os restos mortais de Dona Ana de Freitas e Ataíde. aos poucos. ora com ele combinando encontros de rua. Enquanto a fogueira funcionar. Velho Belmiro. inconscientemente. Tempo velho. CASO da noite de carnaval introduz. a coisa virou. procurando atingir Carmélia por via do Glicério. nunca o procurei. Com o tempo. porém. explicar por que namora a filha do chefe de Seção—que é de condição modesta—e receio que esse namoro dê em nada.de perfumes e arrastará um véu comprido no pavimento da velha Matriz. desfruta a estima da alta goma. rente do braseiro. Vamos perambular pela rua. e que essas concessões têm feroz fundo utilitário: adivinho nele o caminho para Carmélia. e até horas mortas um aroma brando de batatas assadas me mantinha. apenas nos namorando e nos lembrando daquela moça de cabelos de retrós e de brancas vestes. Estas notas são íntimas e nelas devo pôr toda a sinceridade. O certo é que. Moço Belmiro. rendime às suas tentativas de aproximação e criei-lhe estima. nós ficaremos de braços dados. quando o rapaz entrou na Seção. novos rumos em minha vida. vai a um luxuoso clube de campo. joga bridge e tem outros hábitos aristocráticos. amanhã me abandono (perguntando-me se a vida vale tantas renúncias). Hoje reajo. pensando que chegaria à estrela. O rapaz freqüenta a sociedade. Pareceu-me pretensioso e decidi-me a não tomar conhecimento de sua presença. Sua inclinação é para as donzelas de nobre linhagem. mesmo. Tempo velho. Hoje é o nosso dia. noto que faço ultimamente grandes concessões ao Glicério. QUE OS BORBAS ME PERDOEM. Talvez o pirata esteja apenas desfrutando a moça. nem tristes. contemplando as fogueiras e cantando certa modinha que ninguém ouvirá. sem boas intenções. e afinal me desloco. sempre adiante do viajor. Agora. A estrela sempre longínqua. E ele viajava toda a vida. Habituado. não simpatizei com ele.

o mancebo. Recusei terminantemente. UM BAILE DAS MOÇAS EM FLOR. encarece muito o acolhimento que eu. E fica. vivo. ele se mostra despótico.chamei concessões. apesar de tais tolices. em cuja casa iríamos jogar. foi um pôquer. como esta noite. É que essa aventura me intimidava. que sempre foram grandes amorosos e hão de compreender-me. no caso. fez-me comprar um terno novo e camisas da moda. usando de um trunfo que assinala sua superioridade sobre os companheiros de bridge e tênis e suscita a admiração de ingênuas mocinhas. é inteligente. cá entre nós. inacessíveis. embora tivesse curiosidade de conhecer a casa de um senador e privar com um pai da Pátria. . Não me pesa confessá-lo porque. aos olhos dos filistinos. quanto ao rapaz. Falou-me que o Senador Furquim. para se dar importância e. para se prestigiar em sua roda de sociedade. qualquer um assim procederia: tenho adulado Glicério. o Redelvim. era homem muito simples. por eufemismo. que só admitem em seu círculo a ele. A mistificação nos prestigia de certo modo e satisfaz a uma pontinha de vaidade que não conseguimos reprimir. por outro. ao cabo de contas. Perdoem-me os Borbas velhos. Nunca chaleirei políticos. Tenho adulado em todos os tempos e modos. talvez para se divertir com o meu embaraço. mas a tirania de Glicério leva-me a coisas que nunca fiz. com sua rede de informações. já que o ridículo é de todos os namorados. Faz-nos passar por monstros literários. assim. Explico a questão da importância: desde muito tempo. o Florêncio e a Jandira lhe dispensamos e nos encarece também. § 18. ficamos lisonjeados com isso. ser traduzido por um vocábulo mais simples e direto: adulação. Percebendo a ação. bom parceiro. pois o senador não admite cacife acima de dez mil-réis. obrigando-me a acompanhá-lo a um baile. e exibe-me em lugares aonde nunca fui—por um lado. pode. pondo-me fora de meu mundo e em contato com uma fauna humana de caracteres inteiramente desconhecidos para mim. nunca bajulei ninguém. Jandira foi quem apurou essas coisas. Aboliu-me o colarinho alto. e nós as perdoamos ao rapaz que. Manda a sinceridade que eu escreva também que. EU ME conformo com o meu ridículo. o Silviano. para a sortida. e esclareceu que o jogo seria barato. Glicério. embora lhe escape a intenção. cercado de um halo misterioso. mas agora me revelo um sabujo consumado. Não me disse que haveria danças e o pretexto.

à moça Carmélia. hoje outoniças. rirão de minha literatura sentimental. tinham vestidos brancos que modelavam seios morenos e castos. Tome. mas não jogamos uma hora. Minhas moças em flor de Vila Caraíbas. ao luar.Mas o medo de descontentar o meu tirano e de fechar. tomando um automóvel. Dissolveu-se a roda. Por um momento. Mas não poderei suportar. Era uma data aniversária na casa. As moças não me notavam. ainda. inefáveis modinhas. entre Emília. o gabinete do senador. e foge sem dó. afastaram-se os móveis e. idiliei ao pé de um jasmineiro. nem há dúvida. Cantavam. também. porque moças e rapazes. lestos e gráceis. a um canto. Ai de nós. Havia realmente o pôquer. fez-me ceder às suas insistências e. Meu lugar é outro e meu clima é bem diverso do desses salões a que ele me transporta. que andavam aos bandos e formavam grupos indemarcáveis onde se operava a translação contínua de uma beleza fluida. Traziam-me uma imagem da vida que foge. Moças proustianas em flor. este burocrata mestre. com ardor recrudescido. por muito tempo. abandonado pelo Glicério. coletiva e móvel. Compreendi a necessidade de fugir às moças em flor e. mas eu bem as via. Pouco me faz: toco trombone é para meu uso. como o amante que ainda mais ama a companheira. Tive inveja daqueles que as enlaçavam e as valsavam. Nada mais depressivo que sentir outras gerações surgirem depois da nossa e nos disputarem espaço. A quem vai passando. Receber o calor dos novos seres e sofrer-lhes o contato ainda é pior que o frio de uma velhice que nos espreita. Meu lugar é nesta Rua Erê. O baile me deixou miserável. Eram também ágeis. . experimentei uma transfiguração: senti-me em Vila Caraíbas. tal a das virgens da praia de Balbec. assentei-me em uma poltrona. aparecidos às dúzias. Prudêncio Gouveia e o velho Giovanni. pela sensação de aposentadoria. Mas a vida está me encostando. O serviço público não jubilou. para festa dos olhos e malinconia do espírito. mas nós a queremos. A vida nos ilude cada dia. o melhor é esconder-se nas cavernas do peito e nelas procurar o panorama do seu tempo. em particular. assim. como dizia mestre Rizério. quando o juiz municipal de Vila Caraíbas ia reclamar contra o barulho do instrumento. que ainda alcancei. não couberam no salão e reclamaram. velhas. a tirania de Glicério. tocamos para a casa do senador. transportei-me a uma janela. Se algum dia caírem estas linhas sob os olhos de alguém. os que vamos passando. Francisquinha. quando sabe que ela o engana. no bom tempo das polcas e das quadrilhas. os caminhos para Carmélia.

SILVIANO E O PROBLEMA FÁUSTICO. Tenho esperado. nesta altura dos acontecimentos. não digo uma aproximação—com que já não sonho—mas pelo menos referências ou informações a respeito de Carmélia. esperando ver a moça. à margem destas páginas: idiota. mas. não se recusaria a servir um namorado em aflição. bom camarada. § 20. Eu próprio me tenho rido. a viagem me aborrece. eles lhe fugiram) e cuida. por uma semana. com o que irrita a cada instante a galinha mãe. idiota. agora. ouço-lhe mil ninharias sobre a vida da sociedade e sobre rapazes ou moças que conhece. de dia. diretamente. Nada mais lhe arranquei. muitas vezes. Deus sabe quantas vezes tenho passado. Se eu tivesse dez anos de menos. e escrevo. Achei péssimo. Pegou um colchão velho e tenta fazê-los dormir nele. minha situação é essa. Não me animo a pedir-lhe. Pois. que me fale sobre a moça. de namorado aflito. na Rua Paraibuna. quando não me enojo. O que Francisquinha faz é. porventura. em que pese à minha percepção do ridículo. só para ver a casa. . de pintos. no que se refere a Carmélia. onde passará toda esta semana. GLICÉRIO comunicou-me hoje. é de todo descabido e Glicério haveria de rir-se de mim. mas que não excede os desvarios que ando praticando. Vai viajar agora e teremos sete dias durante os quais não haverá nem mesmo esperanças. não serei a pessoa menos equilibrada desta casa. Vive a dar cafiaspirina aos pintainhos. IDIOTA. Pergunto a mim próprio se. GLICÉRIO seguiu ontem para o Rio. isso me seria indiferente. IDIOTA. mais extravagante que estes devaneios meus? Abandonou os ratinhos (ou melhor. IDIOTA. mas o demônio lhe fecha a boca. Passo o dia todo a seu lado. É uma idéia bem fora do comum. ou a tenho cruzado. horas mortas. idiota.§ 19. por isso. Mas. dentro de casa. Aos vinte e oito anos eu poderia (não sendo apenas amanuense) pretender essa Carmélia que não terá chegado aos vinte. Será mais uma semana de atraso nas minhas tentativas para dele obter. além das palavras ditas no momento em que passávamos em frente da casa da Rua Paraibuna. na Seção. seu propósito de ir ao Rio. nesta obsessão tola em que vivo. dizendo que se acham gripados. aos trinta e oito. que ele me diga espontaneamente qualquer coisa. venceria a timidez e atacaria o assunto: estou certo de que. Noutra ocasião.

de mansinho. Bem agem aqueles que acorrentam os homens e lhes dão um duro trabalho. isto é. Estou pensando no que seria de nós. fui-me entretendo em folhear livros apanhados aqui e ali. Tempo:—Primeiras chuvas de 1935. com receio de que fosse pilhado nesse ato desonesto. Continuo a alimentar-me. entre mil contrárias. com medo da solidão. que há em nós. Não sei até onde irá esta fantasia de amanuense ocioso. submissa. de conversarmos sobre a moça. Passei o dia todo a escrever no papel: Arabela Borba. se a noite não sucedesse ao dia e se o espírito. o Fáustico—0 amor (vida) estrangulado pelo conhecimento. O que nos vale são as mágicas. A visita ao Silviano transformou uma noite que se anunciava péssima em bem-humorado serão. Como demorasse um pouco. A docilidade dos fantasmas! Já não a procuro com angústia: é ela que vem a mim. afinal. Carmélia Miranda Borba. . não fizesse suas mágicas. É só espairecermos um pouco e o prestidigitador. pela importância que assumiu em minha vida. da esperança de ouvir-lhe algo sobre Carmélia. Eila aqui reproduzida: TERMOMETRIA DE UM ESTADO PSICOLÓGICO Data:—Domingo. o poeta. Carmélia Borba. e fiz uma descoberta sensacional: a do Diário do Silviano.Será uma semana difícil para mim. melhorei e. e pôs-me à vontade no escritório. copiei-a às pressas. Belmiro? (Como lhe ficaria bem tutear-me!) Foi assim que passei o dia. à sua espera. Às vezes lhe tenho ódio. Tolices. Deixem-no folgado. fui atrás do Silviano. e teremos o anarquista. porém. bem o sei. que não fomenta coisa alguma senão o meu lirismo. que era a última. e a causa não foi outra senão a ausência do peralta. e a privação de sua presença me desespera. cada dia. à noite. Sensibilidade:—Tchaikowsky—Chant sans paroles. Não o achei em casa. No fundo. o céptico e outros seres que perturbam a vida do rebanho. Problema:—O eterno. É ela que passa a mão pelos meus cabelos e pergunta:—Que tens. Para a tarde. encontra temas para nos ocupar a atenção e desviar-nos de uma idéia que nos amofina. mas faz que Carmélia entre sutil por uma janela da Seção e pouse a meu lado. 23 de agosto de 1935. a ausência de uma possibilidade. mergulhado na sandice. a culpa é da Seção do Fomento. Meu ócio não traz fermentos de anarquia. Abrio na página marcada. ao chegar. Joana disse-me. que ele não tardaria. Hoje o dia me pareceu insuportável na Seção. e achando-a extremamente curiosa. na mesa ou nas estantes.

nada tem de comum com aquilo que entendemos vulgarmente por mistificação. quíntupla de um fato. E é divertido ver-se o ar céptico que Joana assume. mas como . Maranon:—Amiel. Outras vezes. é talvez simplesmente trágico. O que desorienta o Florêncio.Beethoven—Concerto n. cada um a seu modo. em sua simplicidade. me acho em presença—não de um indivíduo. Flotow—Marta—ópera-cômica. sobre uma ocorrência qualquer. Chopin—Concerto—opus 21. Sabe quanto é precária a tentativa de sacar um depoimento preciso do marido. Esquecimento. (Seguem-se palavras ilegíveis. a fim de conseguirmos uma versão média.) O que lhes parecerá cômico. de uma unidade—mas de um ser múltiplo ou. é porque realmente dois. em frente dele. Silviano. julga-o um mistificador. pelo contrário. Parece-me que não se trata de um gênero comum de mentira e que. nesta página. logo de início. espaçadamente. Freud. antes. lhe pecamos nova narrativa do acontecimento. Previsões do clima mental:—Más. Na verdade. formas especiais que ele lhes empresta. será preciso que. em Silviano. tripla. qualquer coisa como um conflito de paixões que transborda das fronteiras do indivíduo. que ele tem das coisas. Se nos dá uma versão dupla. mas é que viu ou ouviu por um processo psicológico menos fiel que o nosso: abundantemente se incorporam às percepções. em alemão. Há nele uma nebulosidade permanente. É um recriador e vê-las-á não como se apresentam. daquilo que desejamos saber. acerca de qualquer coisa. quando o interrogamos em sua presença. fá menor. elementos próprios de sua imaginação. é um dos muitos aspectos curiosos do Silviano: a impossibilidade de se obter dele informação direta ou exata. Florêncio. Estranho homem. perco a noção de "ser" para ter apenas o pressentimento de que lido com algo extrahumano e puramente cerebral. dez ou vinte vezes.° 3—Adágio. Silviano chega às vezes a ser exasperante. Às vezes tenho a impressão de que. Reproduzirá com honestidade o que viu ou ouviu. possivelmente veraz. acontece que às linhas reais de um episódio ele acrescenta uma extraordinária riqueza de pormenores imaginários. Mas o que Florêncio e Joana não compreendem é que a mistificação. E há de tudo nele. três. cinco Silvianos presenciaram aquele fato. desde o ridículo até o espantoso. Se nos contou um fato que nos interessa. piano e orquestra. Leituras:—Amiel:—Journal intime. Silviano é exato no que diz. Não conheço criatura mais complexa.

Voltando ao Diário. embora não o possa evitar. de sua própria boca. indecifrável. tudo isso. Aquelas páginas. mais tarde. Silviano não tardou muito.gostaria que se apresentassem. para uma platéia futura. Ou talvez dissesse que ele compõe essas memórias com a esperança de que o caderno íntimo algum dia venha a cair sob os olhos de alguém. Silviano espera. portanto. num café. por certo. reforçar os seus títulos na Universidade. ora em latim macarrônico. no momento propício. uma concessão especial: ser permitida a vinda de sua mãe. achando-se a mulher informada de que a reunião tinha caráter inofensivo. Deixou que o marido se preparasse para sair. Falavam a respeito dele. com aquiescência da Joana. Esqueci-me de dizer-lhe que Mamãe chega amanhã. As mentiras deixadas em casa de Jandira são daquelas que pertencem ao processo de recriação do Silviano. dentro da nebulosa perturbadora. como cabotino consumado." E ele não tugiu. Estava pensando em você! Contou-me. Vi que esta noite não brigaram. talvez o perfil nítido desse singular histrião. Você já vai? Espere. Silviano vota horror à sogra. à hora em que este punha o chapéu na cabeça. para que o Reitor . me disse que "o nosso amigo Abundando" lhe contou ter ouvido. o esboço. depois. Com sua lucidez. muito satisfeito. percebe o fenômeno. conversa muito interessante entre o Professor Otelo e outros da Universidade.. e que é um estudo sobre o suicídio. Se algum dia pudesse decifrá-las. nos mentia. no dia seguinte. atualmente no prelo. tal como fez. que exerce o teatro gratuito e interior para uso pessoal. achou mais interessante figurar a si mesmo uma fugida sem o consentimento da mulher. como de costume. com essa beatitude que o sexto ou oitavo chope nos traz. manhosa e songamonga. Humorista. visando a esconder-se da Joana e dos estranhos.. Acrescentou que esta pretendia obter. a arquitetura. e fica uns dias conosco.. pareceram-me sinceras. você no meu antro! Galernos ventos o trouxeram. e denotavam grande expectativa em torno de opúsculo seu. deu o golpe: "Ah!. com tal trabalho. eu encontraria. que andou a bebericar com o Florêncio. que mora em Sabará e queria passar uma semana em casa deles. Escute. soube fazer a transação. mas. ao cabo de contas. mas Joana. criador de um sistema de mistificação longamente desejado e encontrado. e procura iludir-nos. Dizendo ali ter estado sem que a mulher o soubesse. Mas estou certo de que não é assim. Exibe-se. Vinha alegre. ora num alfabeto cuneiforme. dando-se por mentiroso consciente. outro dia.. Redelvim diria que Silviano representa perante si mesmo. repetir-lhes-ei que a página será trágica. . —Olá. Ouvi. nem mugiu. pois. amigo Porfírio. em vez de cômica. ora escritas em alemão. em casa de Jandira.. que fora à casa de Jandira.

com um gesto espetacular: —Isso deveria ter sido escrito por mim. dizendo que ia ler-me algo maravilhoso... Espere. segredou-me. Silviano arregalou os olhos: —Onde é que andou escarafunchando isso? Sim. Porfírio! A um olhar meu. piscando um olho. estrangulado pelo conhecimento. . interrogativo.. o problema fáustico. Isso é um mal incomensurável. de algum modo.. Só vive lendo romances. Andando majestosamente para lá. por motivos especiais. quando disse que o "mito Donzela Arabela" é um símbolo fáustico. de súbito. pareceu-me afundado em altas meditações. O amor. É este. Creio que em uma revista literária . "Presente de uma jovem amiga". não quis significar que você. Virou-se. Lembrando-me da página do Diário. Mas. Foi a uma gaveta. encontra raparigas que bailam numa clareira. continuou: —Puramente fáustico! Você já leu Spengler? Certamente não leu. Apenas me pareceu que essa aspiração do imaterial e do intemporal feminino. ." E continuou: —Onde viu isso? Onde? —Não me lembro.. uma cópia da Maja Desnuda.. para mim. pensara muito em uma confidencia que lhe fiz há tempos. na síntese de Salvador Albcrt. como ei de tantos hombres. el problema de Amiel. vista momentos antes.lhe melhore a situação. Por mim! Fui roubado! . —Veja que página. dizendo-me que. Problema fáustico. —O mito Donzela Arabela é um símbolo fáustico... Porfírio. a vida que foge diante do asceta! E. que página! Puramente fáustica! Infelizmente você não entende o alemão. Esta noite. é. de Goya. vida. consultou as fichas. também minha. apanhou uma c leu: "En efecto. Porfírio... Sim. para cá. Saltando de assunto para assunto. depois. respondi. uma inquietação fáustica. —Bem.. Silviano estava no seu grande estilo. ande em tais altitudes. em que o herói. o fáustico de Amiel se enquadra no definido por Spengler.. atravessando a floresta com seus companheiros. Incomensurável! E traduziu para mim o trecho do Also sprach Zarathustra. era Ia estrangulacion dei amor por el conocimiento: ei problema de Fausto. —Elas representam a vida... mostrou-me. Foi à estante e de lá retirou um livro. respondi-lhe com ar de quem procura recordar qualquer coisa: —. A alturas tantas ficou um pouco melancólico. homem de planície.

juntaram-se hoje as angústias especiais do aniversário e talvez um pouco daquilo a que o Silviano chama "inquietação fáustica". despedi-me do filósofo. entendi de sair. por exemplo. amanheci com certo peso. e ia pegando o chapéu. mas ficamos satisfeitos. para definir certos estados de espírito. recebe-o com boa disposição: é mais um pretexto para o chope. que minha melancolia tenha vindo simplesmente da atmosfera. entrando com uma bandeja de café. muito mais meteorológicos do que supomos e tudo o que modifica a atmosfera. que Mariana anda restringindo. para me mostrar. no coração. provoca alterações em nossa substância espiritual. Entretanto. Pode ser. à tarde. a maginar. Tomado o café e pedidas a Joana notícias da prole. § 21. Depois de nossa última conversa.—Sossega. para trás. e uma gripe pneumônica . À melancolia do amanuense. naquele ano. dei para me sentir um tanto ou quanto fáustico. Um anjo pacificador desceu sobre as coisas. velho profissional da tristeza. achando bonita a expressão. quando ela me barrou os passos. Viva a tradição dos Borbas! Não esqueceu mesmo não. que é de origem cósmica. abre-se mais: foi-me extremamente gentil. E o dia de hoje amanheceu pesado como chumbo. muito conhecido. O homem é um animal definidor. Emília. Somos. mas nem sempre se fica macambúzio: Florêncio. menos taciturna. meio aflita. pouco tempo depois de haver chegado da repartição (onde recebi numerosos abraços). também. não se esqueceu do peru tradicional. o peru foi omitido. por gestos. Olhamos a vida. Um acesso muito forte de Francisquinha. puxou-me pela manga do paletó e levou-me ao quarto grande. porque é dia de balanço. Não acredito na sinceridade daqueles que dizem nem sequer perceber a passagem do aniversário. UMA DATA IMPORTANTE. como se diz em Vila Caraíbas. na verdade. a folhinha pendurada na parede. aqui em casa tudo vai bem. Aliás. Como estivesse sem fome. no curso destes últimos anos. que foi que aconteceu? disse Joana. Eis uma data importante neste solar da Rua Erê: completo 38 anos. VINTE e cinco de agosto de 1935. com certeza. desde a chuva até a música. e Emília. a inventariar o realizado e o não realizado. É dia que ninguém esquece. Aludia ao aniversário. A loucura de Francisquinha parece atenuada. Não se resolve nada. homem. Quanto a mim. O déficit é grande. para frente. só em 1930 e em 1933. Grande coisa é encontrarmos um nome imponente.

prodigalizei-me libações. Tratei-os bem. a lembrança das comemorações domésticas. transportando-me para um plano onde as coisas perdem o travo amargo. a alma relaxa-se. mesmo de pessoa como Emília. o interesse vital. no dia natalício. compareceram-me os amigos Giovanni e Prudêncio Gouveia. que foi preferido por todos. por último. tipo 1910. deixou-me . sobre a mesa. Apreciaram muito os pastéis de Emília. Sentindo-me tão bem disposto. tive. ONDE SE APRESENTA UM REVOLUCIONÁRIO. pergunto a mim mesmo se o caso Arabela não terá sido apenas fruto de solidão e timidez. em nós. ao tomar comigo as refeições. Retiraram-se. confeccionados segundo um rito especial de Vila Caraíbas. Quem se entende? A gente amanhece sombria e anoitece. em quem nossa alma não encontra ressonância. Fiquei para o jantar e a mesa me comoveu: além do peru. meus vizinhos. Nada houve de especial na reunião e a conversa correu alegre. para não me ver. as mágoas se esquecem. no outro. um anteparo de papelão). A uns julga loucos e a outros criaturas excomungadas. e se persigna. após ligeiro discurso às velhas. às vezes. e. o Redelvim. quase feliz. assim foram aparecendo o Silviano. Florêncio abriu-as com ternura. reconciliando-se com os velhos amores. as canecas de vinho realizaram uma operação benéfica. na manhã de hoje. a Jandira e o Florêncio. ainda. quando vê o pequeno escritório ocupado por tais clientes. ou principalmente. com um litro de uísque mandado vir do fornecedor e algumas botelhas de cerveja de sobressalente. Ah! Não: é um símbolo fáustico. impediram a comemoração a que os Borbas varões têm direito. E tudo isso compõe. § 22. Acabado o uísque. cujo autor é ignorado. saí para a rua assobiando a valsa Saudades de Ouro Preto. Silviano já o disse.nos vinho do Rio Grande e peixe de Pirapora. Um nada qualquer. sem dúvida. tem surpreendentes efeitos analgésicos. mas esta não apareceu para receber cumprimentos. que o anteparo de papelão foi hoje suprimido (comumente. esquecendo a dispepsia que acompanha os Borbas há tempos imemoriais. entre anedotas. esta noite. A gentileza desta tarde. outros tantos meios artificiosos que a vida emprega para manter. Arabela hoje não me está doendo muito. Jantei amplamente. Logo depois que voltei. o calor de qualquer ser humano. e.de Emília. O que não a impede de ser uma valsa deliciosa. Notei. Emília coloca diante de si. o peru. UMA CONVERSA com Redelvim. e o caso assumiu um aspecto quase doce.

. Elas não são. não sabia de nada. por ocasião do fechamento da sede do Partido. E. superpopulação. Os indivíduos nada significam. operações da economia da espécie. seria solidário. estava incluído. Redelvim. e o fracasso era fácil de prever. Quanto ao mais. Respondeu-me. que revoluções ou guerras são reajustamentos. além do mais. pensando que. eu vejo homens. Quando há. Fiquei melancólico e cívico. Pensei. que houvesse receios no espírito do amigo e perguntei-lhe acerca do que lhe poderia acontecer.apreensivo. ainda cedo. referindo-se ao ato de reformar uma promissória) e temos uma sociedade de avais mútuos. sempre que se trata de "sujigar a onça" (como diz o Florêncio. mesmo. propriamente ditas. deixando-me aturdido. Ele apareceu aqui em casa. E que. Ao contrário do que acontece ao primeiro (se acaso foi sincero no que disse) os indivíduos significam demais para mim. apreendera documentos. Nós nos servimos um do outro. no Redelvim e na Jandira. depois. ainda. aliás. Mas sou apenas um falido poeta lírico e rir-se-ão das idéias. ao ensejo desse encontro. . Mas o que houve de extraordinário foi que. alguma compreensão. me contou ele. meio nervoso. por exemplo. Onde os outros vêem unidades mecânicas da massa. Tratava-se de uma revolução proletária. Silviano era um reacionário imbecil.. que me vêm. criaturas que sentem e pensam. ou abstrações econômicas. para o que desse e viesse.. como eu. Redelvim. o expediente do Banco. for para colher o meu aval. certamente. não estava a par dos planos. muito claras e comumente se manifestam contraditórias. sem os cruentos conflitos que andam pelo mundo. sobre o problema. um sentido mais cordial. que os acontecimentos se estão precipitando e que se fala na possibilidade de uma revolução.. vem uma guerra para destruir o excesso de indivíduos que perturba o equilíbrio social. neste País. Silviano acha. por um instante. Talvez algumas leis. sempre que começo a meditar: perco-me num labirinto de antinomias. a fim de alcançar. Quanto às revoluções. que sua situação pessoal não interessava e que um pequeno burguês. Redelvim ficou irritado com o meu tom e interrompeu-me dizendo que falava a sério. mas ele. Ao final de uma das páginas que ficaram para trás já lhes contei o que se passa em mim. recolhera a relação de todos os seus membros em cujo número ele. para breve. Revoluções sempre as houve e haverá. asperamente. se começasse a haver prisões. só cuidava da própria pele. Supus. E que a polícia. pois a polícia vivia atenta. saiu às pressas. a civilização poderia ter. segundo seu modo de pensar. Respondi-lhe que isso não era motivo para aflições.

para certa gleba da fazenda velha. falecido o velho Borba. Há quinze anos passados. com seu primitivismo. conheci Redelvim numa república de estudantes. curvados. As deste princípio de setembro já não são as primeiras. E ele me parece mais anarquista. O pequeno círculo em que vivo. reservada ao plantio. que lhe voto. Também não levarei a sério as declarações que me fez pela manhã. subiu do solo um hálito intenso e fecundante. que não dá para atirar bombas nem praticar atentados. e cujo equilíbrio sempre foi precário. suponho. mas o cheiro de terra impregnou-me as narinas o dia inteiro. Por outro lado. o mesmo fenômeno que. mas não dou importância a isso. o sol nasceu forte e o chão me queimava os pés.Vejo.. em virtude de uma desavença com o diretor de sua repartição. CHUVAS DE SETEMBRO. Jamais acreditei no seu ativismo partidário.. Este nosso anarquista tropeçará sempre no coração. aproximadamente. que comunista. gera uma tolerância grande para com os golpes que me vêm dele. Deixou ultimamente o Estado. Meus receios se vão confirmando. Foi um pé-d'água violento e rápido. naquela página do Diário. onde os homens. adormecido. a admiração. Temos sido companheiros em tudo. sua força e. tomei casa própria para viver com Emília e Francisquinha. § 23. malgré lui. cuja imolação em nome de uma quimera seria uma crueldade do destino. despertou em mim. Trata-me com dureza. nas aperturas financeiras e na burocracia. Na manhã de hoje. após instantânea formação de nuvens. é agora trabalhado por dissensões mais profundas. inclusive no celibato. sabendo que a causa de tudo é o nervosismo em que vive. AGORA compreendo por que Silviano incluiu. por exemplo. veio a chuva. abriam covas. Qual a relação entre tal acontecimento meteorológico e nossa sensibilidade? Eu não saberia precisála e apenas poderei dizer que um homem rural. Dentro em pouco estará irremediavelmente dissolvido. nestes últimos tempos. até quando. eu experimentava indizível angústia que resistia a . simultaneamente. Ao passo que sentia veemente apelo da terra e um desejo vivo de evadirme para lugares e épocas distantes. seus temores. E homem difícil. o amigo registrou. e passou a trabalhar somente em jornais. a anotação a propósito das chuvas: "Tempo —Primeiras chuvas de 1935". quatro anos. o homem Redelvim. Um anarquismo lírico. que é terno. punham sementes e as cobriam. Quando. sensível. mas bom amigo. mas determinam. onde moramos juntos. inteligente.

Com uma esbatida imagem física. que não se trate. com virilidade. lembra-me uma palavra que ouvi do desembargador Linhares^ acerca da predominância da face campesina em meu temperamento. ANÁLISE ESPECTRAL DE CARMÉLIA. ou que conservava apenas preceitos morais. por detrás das lunetas grossas. sempre se sucederam outros. a mim próprio. a salutar reação que em mim se processa. GLICÉRIO chegou ontem. e um homem não se deve entregar. E criei um ser fantástico. em encontros rápidos de Livraria. e esclareceu.) não se pode furtar à sua própria contemplação. confiei-lhe meu estado de espírito. Uma tarde dessas. de vagabundo lírico. publicar um dia este caderno de confidencias íntimas. a que devemos atender. Ao escrever esta página. acaso.toda tentativa de análise. contra essa ridícula história da noite de carnaval. Quem escreve um Diário (afinal. Aos dias difíceis. eu revivi um processo infantil e o velho mito de Arabela volveu a perseguir-me. Uma noite de carnaval. agora. e o pouco interesse que seu regresso me despertou evidencia. fez-me encarná-lo nessa donzela Carmélia. Se. Reajo. § 24. Disse-lhe que me presumia um homem sem princípios. O desembargador fitou-me com os olhinhos penetrantes. durante os quais todos os fantasmas se desvanecem e os temas torturantes deixam a tona da consciência. É um narcisismo a que ninguém escapa.. a uma vida inútil. Nosso comércio é escasso: temo-nos visto apenas uma vez ou outra. que não tem culpa de coisa alguma. fornecida pela moça da Rua Paraibuna. assim. construí uma Carmélia cerebral que me causava devastações. aos meus olhos. Pretendo. Já era tempo de fazê-lo. todas as convicções e pontos de apoio da consciência. legados pelo velho Borba. A solidão trabalhou. que havia dentro de mim. estou escrevendo um. e com sombras e luzes. que nem esses preceitos me restam e que o que há em mim são sentimentos de ordem moral. diz-me coisas surpreendentes a meu próprio respeito. Há solicitações graves. sem problemas. cheia de sortilégios. que se resume na disposição de orientar-me exclusivamente pela sensibilidade. onde . porém. bonançosos. entretanto. que tenho passado no correr dos tempos. a meus olhos. Curioso homem. apenas de passageira anistia. desde que vacilaram e caíram.. tal como ocorre nas composições musicais onde a frase dominante por vezes se eclipsa ou flui tão sutilmente que não a percebemos no concerto de sons. perdoem-me os leitores as anotações de caráter muito pessoal que forem encontrando e que certamente não lhes interessarão.

hoje cedo. saber algo a respeito da moça. reconheço ter sido grosseiro para com ele. a gritar: —Madona Santa! Sior Bermir. Sobretudo tomar um sorvete. Descontei tudo. cunhada do velho Giovanni. das noites ermas. através dele. na Seção. por causa do filho. Tratei-o mal ontem. como dizem os cronistas sociais. § 25. Nem lhe perdoei todo o tempo que me fez perder. secreção da fazenda e da Vila. quando me ocorreu algo extraordinário. inclusive a abolição do colarinho alto (excelente medida. entrou desabaladamente pela minha porta. Marianina. —Que há. É preciso fazer qualquer coisa. Agora. um bar que nunca se fecha. e dispunha-me a sair. aliás) e as exibições em rodas sociais. de todo o mórbido romantismo. Nada tem com ela a formosa senhorinha da Rua Paraibuna. E quem está pagando tudo é o pobre do Glicério. . explorando inconscientemente minhas fraquezas sentimentais pela jovem Carmélia. pois a noite está quente. cabeça deitada sobre o braço. em pranto convulso. sob os olhares perscrutadores de alguns curiosos que farejaram qualquer coisa de anormal na agitação da velha e em suas palavras aflitas. Aproveitemos a insônia e caminhemos um pouco. ou vêneto. Não entendi bem o seu piemontês. o mais. ponhamos de parte essa história e lembremo-nos de que não se pode ser criança aos trinta e oito anos. preocupado com a situação de Redelvim e de Jandira.só entram tênues traços da moça. é contribuição do luar caraibano. cal vegna veder sior Joanin que lesta a crepar de dispiazer parché ei bambin 1'andá via! Avaliem o susto que me trouxeram os gritos e a entrada espetacular da velha. em procura desta última. já se sabe. Não pude esquecer-me dos maus momentos que me trouxe durante semanas. mas calculei que o velho Giovanni (Joanin. Giovanni? perguntei-lhe. sei lá. distinto ornamento do nosso set. Chegado à casa de Giovanni. Pura imaginação: tudo se resume nisso e nada há além disso. segundo o dialeto do vizinho) passava maus quartos de hora. que me acho de ânimo isento. GIOVANNI E PIETRO. tornando vão meu esforço para. acompanhando Marianina. pondo-lhe a mão sobre os ombros. Mas. DORMI mal a noite passada. quando me veio dar novidades do Rio. e que eu era chamado a intervir. A Carmélia que amei não existe. Saí rapidamente. na Avenida. vizinho de quarteirão. encontrei-o junto à mesa da copa. Há.

ergueu os olhos. gaveva minga tanta colpa. Mi voleva far dei me fiol un duttor. mas Pietro era o mais novo deles e ficou provado que agira induzido pelos outros. seu patrício: —Son un disperat. o velho foi tomado de grande abatimento. a criança gritava que não tinha culpa. Depois de havê-lo açoitado. Sim. a valer. noto que as linhas estão dispostas em versos. . ciao Falso como tu Só merece pau. amigo de Giovanni. . esquecendo. Lendo-o. sior! Minha presença serenou-lhe um pouco o espírito. no fundo do quintal. alta madrugada. até novas instruções. beber guaraná e abastecer-se de cigarros. ou talvez confundindo-me com Beppe (Giuseppe. que o papel amarrotado era um bilhete deixado pelo bambin. na polícia. quando foi ao botequim. o sapateiro). a porta já havia sido forçada. e lhe mandaram vestir uma saia. obteve que o menino fosse entregue ao pai. ciao. Assaltavam botequins para comer gulodices. landa dré ai auter. Os chefes da quadrilha foram remetidos para um abrigo de delinqüentes juvenis. e o velho explicou-me. nada furtara. medroso. até nunca! Ciao. pur un infelice! Me fiol! Me fiol! Só minga cos faro! Depois. besta!" Fico à espera de uma explicação. em sua amargura. com o auxílio de Beppe: —El me bambin.Sem levantar o rosto. meu caro sior.. Enquanto apanhava. Um delegado. o velho estendeu-me nervosamente um bilhete amarrotado. ma mi son anda in fúria e giu bastonate. Haviam descoberto. ao fugir de casa. que o garoto fazia parte de uma quadrilha de menores arrombadores. diz-me.. como se se tratasse de um poema: "Besta velha falso. Com a respiração entrecortada. que não entendo seu dialeto. em língua mais acessível. porque lhe chamaram "mocinha". continuou na língua engrolada. que reproduzo agora. reconheceu-me. É tolice me percurar porque já estou longe. em sua confusão. puareto. sob o compromisso de ficar detido em casa. acompanhara os mais crescidos. com uma vara de marmelo. mas.

Pereirinha lhe dera um serãozinho.limitando-se a ver os companheiros beberem e tirarem cigarros. pelo Natal ou Ano-Bom. pois a filha e a mulher morreram. fugia de casa. passas e nozes. Prometi-lhe que o auxiliaria. seu melhor companheiro. onde mora seu padrinho. foi que as palavras deste puderam penetrar-lhe um pouco no espírito. Disse-me a tia. E não será difícil recambiá-lo à casa. Pietro—repetia Giovanni entre soluços—era filho único. ao mesmo tempo com remorsos. aquela havia já três anos. falando-me de uma coisa ou de outra. § 26. desde que me instalei na Rua Erê. sua visita é tradicional. Tinha amigos na polícia e haveríamos de achar o garoto. Traz-me uma botelha de Chianti ou de Barbera d'Asti. sua vida estará irremediavelmente des troçada. talvez tenha ido para Diamantina. por haver maltratado o menino. Vou comprar-lhe cigarros e ele sempre me detém. Se o filho não volta. pude perceber a profunda revolta operada na consciência do filho. pude ir à casa de Jandira. azeitonas. contando-me histórias do seu Piemonte. pedindo-me notícias de Francisquinha. Hortênsia—que ainda não se havia recolhido. não atribuí importância ao caso e achei tudo . às linhas finais das notas ontem escritas. Mas o velho estava como que surdo. Era a primeira vez que o castigava assim. D. Ficara prostrado. Preocupado com Pietro. certamente para esperar a moça—. Conheço-o há vários anos. Queria fazê-lo doutor. dez. embora às vezes lhe desçam sombras. que um investigador da polícia me declarou haver indícios de que o pequeno Pietro fugiu para o Norte do Estado. Giovanni estava agoniado. Não a encontrei. ESQUECEU-ME acrescentar. É um camarada alegre. Bebo o vinho e distribuo as nozes pelas crianças da redondeza. Só depois de fatigado de surrar o filho. De vez em quando me aparece em casa e. e esta. Dois dias depois. também italiano. Para ele é que trabalhava. Se assim é. ao pensar na mulher e na filha mortas. Tratava-se de concluir um urgente trabalho de datilografia. deixando aquele bilhete. e com horror pelo que este fizera. e fustigava sem parar. Imagino o drama do velho. NOVA CONVERSAÇÃO COM JANDIRA. já um pouco tarde. que o Dr. Pelo que me contou. Tinha doze anos. Este problema ocupou-me ontem o dia todo e só à noite. Quase que diariamente temos nosso dedo de prosa.

Mas o gesto morreu no pensamento e os beijos ficaram recolhidos. mas o seu modo de olhar para baixo e para os lados não me enganou. os casados. estávamos a conversar despreocupadamente e. ou pensando bem. o mais vago que fosse. esta manhã. Perguntou-me. foi isso o que eu pensei e me fez procurar Jandira. —Tá ouvi falar nisso.. antes de ir à repartição. contar-lhe a conversa havida com Redelvim. Desde que se inventou a datilografia. Chamei-lhe Jandirinha. tal a ternura que ela me inspirava naquele instante. calculei que se esses serões se repetem. ou à noite. teremos futuras complicações. por que me faço difícil. é casado. Esse Dr. que acordou tarde. adulei-a. respondeu-me. As impossibilidades próprias do estado civil deles. —Só um idiota poderia supor que eu me vou vender a seu Portela. Minhas palavras bastaram. para lhe desfazer o mau humor. Pereirinha. Tive ímpeto de passar-lhe a mão pelos cabelos e (por que não?) de dar-lhe uris beijos que não seriam senão paternais. não raro trágico. como todos os outros que. agastada. porém. Fez por esconder o mau humor. pelos virgíneos amores. e as mulheres (de preferência moças e bonitas) tem sido ocupadas nesse ministério. terminou.. Não tem outro assunto? Esquecendo-se das confidencias que me fez há pouco tempo. em vez de fazê-lo depois. Só hoje cedo. Tanto melhor para mim. Não se mostrou surpresa. da parte de Jandira. Jandira. meditando sobre o assunto. Disse-lhe. Os advogados sempre têm arrazoados urgentes por fazer e vivem às voltas com os prazos processuais. não fazem senão aguçar-lhes os apetites ou desenvolver neles certo gosto. disse-lhe algumas tolices para amainála. não estava para conversas. continuou: —Vocês acreditam que são absolutamente necessários? Não se pode viver sem homens? Cada qual é mais grosseiro. Deus me perdoe. porque não ficaria. com desprezo. Daí a pouco.muito natural.tive oportunidade de. de modo algum. vulgar. mas. isso não é obstáculo. minha imaginação ensaiou para as virgens que passaram pelo meu caminho. excluída a hipótese de uma reação diversa. Atirar-me-ia à cara o primeiro utensílio que encontrasse à mão. por que ando tão sumido. Respondi com uma brincadeira desajeitada. as complicações se multiplicaram na face da terra. que acreditava serem ela e o Redelvim as criaturas mais . que. só me cumpria retirar-me condignamente e procurar novos amores. amorosos ou simplesmente ternos. então. simulando ar desinteressado. Pensando mal. tendo ela optado pelo quarentão (o de que lhes falei atrás). que não conheço. imune a qualquer desejo amoroso.

Emília.. não suporta um olhar de desejo. HAVENDO Francisquinha piorado de novo. Veja que chique: a jovem Jandira. se assentou de novo. a pretexto de despedir-se. Conviria. § 27. que essas práticas eram contra a religião. Josefa lavadeira convenceu-a de que seria melhor trazer aqui três espíritas que conhece. Nada terei que temer.. que fosse discreta. a fim de se realizar uma sessão com a presença da doente. E. Ruboriza-se.. dizendo-me que a Zefa garantira que não. deixasse de imprudências. cai abatida pela metralha. empunha a bandeira vermelha. passeando para lá. insistia em promovermos a expulsão do espírito. para o exorcismo. objetando. voltou. porém.. Emília. etc. Bem. zombeteira. tentou abraçá-la e levou carão. Entretanto.inofensivas do mundo e nada terem os poderes públicos que temer de seu comunismo meramente literário. ouve anedotas fortemente temperadas. Mas decerto notou que eu lhe observava as formas com impertinência. Não lhes contei que é um dos meus fracos dar certo tom picante às conversações com moças donzelas. sempre que está em xeque. logo depois. portanto. e compôs cuidadosamente as vestes. de boa vontade. Em palestra. mas a contradição é da vida. sendo curto. tem admitido que abordemos temas perturbadores e. Já não falava. para cá. É partidária do amor livre e de todas as outras liberdades. desde alguns dias. não se esquecendo de puxar a barra do vestido que. desviou inteiramente o curso do meu pensamento. em chamarmos um padre. Dificilmente isso se concilia com as minhas inclinações líricas. não sejamos apressados em conclusões. um dos quais é médium. Recusei várias vezes meu consentimento. concitando os homens à luta. se for preciso. Jandira desnorteia a gente. ao assunto. Ela não o confessa. que a princípio cedeu. Pereirinha. em relação a Jandira. porém. lhe deixava os joelhos de fora. Voltei tranqüilo para casa. Certa vez Silviano. IDÉIAS DA EMÍLIA. reage. quanto ao Dr. a imitar a cena imaginada. —Foi para isso que veio aqui? perguntou-me. Movimentando-se por aquela forma. mas está sem nenhuma disposição de meter-se em conspirações. para dissuadi-la disso. põe-se à frente do bando. compõe-se. agitava umas carnes saudáveis e fazia nascer em mim uma ternura nada parecida com a que me despertara momentos antes. E. porque. numa atitude garota. mas a polícia poderia pensar de outro modo. vários padres . mas defende-se como leoa. Fico lisonjeada com essa idéia de que sou conspiradora.

Dentro em pouco. a cabeça e começou a falar: —Deus esteja nesta casa. Em seguida. gesto de lhe tirar do corpo alguma coisa. tornou a si. Emília e Josefa. interrogou a Josefa sobre o caso. e Francisquinha foi levada para o quarto. cumprimentaram-me cerimoniosamente e assentaram-se em torno da mesa. declarou que iria fazer uns passes e que todos deveriam ajudá-lo. nossa pobre irmã Francisca vem sendo perseguida por um irmão transviado. para meu giro habitual pela Avenida. o homem voltou ao seu lugar. De pé. por Josefa e Emília. meus filhos. com suas orações. não mais a persiga. já no portão de casa. pondo-se em transe. pela boca do médium. Que é que vocês querem? O presidente respondeu: —Pai João. Quanto a mim. procuravam mantê-la naquela posição. observando o rito. Um. com alguma dificuldade. O médium levantou-se. ao lado do médium. Pedimos vossa ajuda'para que ela se livre desse mau espírito. Pobre mana! . fiquei a um canto. concentrando-se. que o irmão. os homens chegaram. fez. Pai João. ouvi Emília dizer: —Chica vai melhora com o dijitório de Deus. todos rezaram padre-nossos e ave-marias. Pai João está aqui. trouxeram Francisquinha e puseram-na em uma cadeira. a quem falta a luz. mãos nos seus ombros. respirou profundamente e sob as preces dos circunstantes. cedi. tirando-lhe a razão. o médium começou a agitar-se. Estava terminada a sessão. levantada e posta ao meio da sala. que me disseram ser presidente da mesa. Dispus-me também a sair. dela ouvindo um histórico a respeito das perturbações da mana. que muito dano lhe tem feito. também. depois. com a outra mão. Colocando a mão direita por sobre a cabeça da mana e andando em torno dela. Que o demônio da lavadeira arranjasse a reunião. desejaram-nos paz e se despediram. O espírito saiu. Às oito da noite.admitiam o espiritismo. e. Vendo que estava inteiramente obcecada pela idéia e não seria prudente contrariá-la por mais tempo. enquanto Francisquinha foi. Foi o que se fez hoje. Inclinou. Depois. Os espiritistas tomaram uma xícara de café.

pequeno. abraçou-a à força. PROBLEMAS DE PROLETÁRIA. a dizer que não exigiria nada. mesmo.. terminou Jandira. tentando beijá-la. ar donzelesco e . que entrava na ante-sala do escritório. compreendi o resto. De um relance. ela ameaçou deixar o serviço.. Pereira. o Dr. Arranja-se outro. Esse período de suspiros durou uns dois meses. me atraiu a atenção. Depois. e conversarmos à vontade. salvou a situação. com ela desci na Avenida para irmos ao Parque. Nos últimos dias. Pereirinha. porque. quanto ao Dr. o sedutor foi mais atirado. —Não. Pereirinha. E. pois não era a primeira vez que se via assediada por homens.. —Isso é o menos. dispensando-me de fazer conjeturas sobre os motivos que a teriam levado a procurar-me... É preciso que as donzelinhas tenham. Dr. atendendo a um convite da amiga. Confessou-lhe que. Há uma distinção. já que era um impedido. em um restaurante. a fazer-lhe propostas desonestas. de tenacidade fora do comum. —Mas o problema continua. onde costumamos reunir-nos. Era um sujeito incrível. A um olhar interrogativo. aliás. por passar muito vagarosamente junto de nós e ter voltado duas vezes. entrara num período de ação e vivia procurando contatos. que percebo. guiando uma baratinha de luxo. Durante o trajeto de bonde não conversamos. seu jogo foi o de um conquistador apressado. Aquelas a que vocês chamam "moças em flor". Passou a suspirar. Esse foi. que reconhecia a ilegitimidade de qualquer pretensão sua. Jandira esperou-me hoje à saída da repartição para jantarmos juntos. compreendendo que ela não se prestava a ser objeto de divertimento.. pois está desesperado. —E você é uma. Mas o Dr. não saber o que irá acontecer. que lhe dirigi. técnica. interrompi.§ 28. Sei que não sou. ao chamá-la para o escritório. A princípio. Sempre haverá um homem e uma datilografa. a que ela deu a competente resposta. já a amava. Tal manobra não a surpreendeu. um infeliz. Sentados à mesinha ao ar livre. Muito fora dos seus hábitos. Pereirinha a perseguia. Por várias vezes. Estava apaixonado. que observou ainda não ser hora de jantar. FOI BOM nada ter concluído. o pirata mudou de. quando um homem. Jandira desabafou-se. Não calcula como é difícil a gente sustentar esta defesa permanente. Queria frutos imediatos. ao ouvir palavras de repulsa. Declarou não poder viver sem ela. —Em resumo. Hoje. O rumor dos passos de um cliente. respondi. deixei o emprego. Desde muito tempo. Alguns mais ousados se aventuraram. também. Estávamos à espera de um bonde. casados ou não. Nao basta a virgindade. apertos de mão. explicou Jandira que o fulano era o tal advogado.

quando fomos jantar. a fim de levar-lhe o Hamlet. um exemplar do Hamlet. Depois. era o único homem que estava junto de mim. de graça. num regato. § 29. um animal. SENDO cedo para ir à Seção. respeitadas. ficando combinado que serei mais assíduo em sua casa. deliberei passar antes pela casa de Jandira. pois meu propósito não era senão afastá-la dum pensamento amargo.sejam protegidas por todo um sistema de fortificações—papais. É um inferno. Olhe. E respondeu-me: —Com sublimado. dizendo não ser fácil aceitarmos que a pobrezinha tenha tido tempo . Afinal. às vezes me dá vontade de acabar com isso. fortuna—que as torne difíceis. regado a vinho. Querendo mudar o tom da conversa e dissipar a melancolia da amiga. Jandira não é um temperamento poético e há de fazer restrições à descrição da morte de Ofélia. Durante o trajeto de bonde. no que faria injustiça. pelo menos durante a crise atual. prometi levar-lhe. Não sei como pude resistir sempre. sua fisionomia se abriu. ontem pro metido. Continuou: —Essas fulaninhas não conhecem o nosso problema. que é um misto de atrevimento. Afogar-se é mais romântico. de um garanhão. Declarando-me não conhecer o episódio de Ofélia. Afinal. não. já quase com a expressão costumeira. Protestei inutilmente. Não têm a companhia forçada de um patrão. Belmiro. como Ofélia. Belmiro. É UM ESPÍRITO REALISTA. e inspire a vocês uma série de lendas românticas. Aproveitei essa oportunidade para nos desviarmos de uma conversa melancólica e continuei no mesmo tom.. dizendo-lhe que de fato era mais romântico e também mais conforme à técnica da tragédia. fui folheando o livro.. depois. de cuja margem pende um salgueiro. de fazer um disparate. já não havia nuvens em Jandira e o repasto foi alegre. Despedimo-nos. E amanhã será a mesma coisa. disse-lhe brincando: —Vou recomendar a D. Acontece que sou de carne e osso. Hortênsia que não deixe o frasco de sublimado perto de você. talvez aborrecida comigo. Afogar-se. Não gosto do Pereira. Jandira calou-se. mas aquela insistência. irmãos. É mais do estilo belmiriano. de finura. amanhã. com outro Pereira qualquer.

senti-me trapaceado pelo janota. nossas relações. fazendo-a cair na torrente. afinal. Havia ido a uma aula de taquigrafia. não é minha intenção deprimir o rapaz e enaltecer-me. Arrependo-me. Ao dizer isto. e freqüentando-nos apenas por esnobismo. não houve suicídio. é a única tolerada por Emília. Não a encontrei em casa e deixei o livro com D. impermeável aos símbolos e à linguagem da poesia. a inveja do galho: é um espírito realista. concedi-lhe. não sei por que artifícios. que considera os poetas "traficantes de tóxicos". sem saber a que atribuir minha súbita mudança de atitude. Tendo-se arrefecido o meu entusiasmo pela jovem Carmélia. Soube conquistá-la. Como poderia adivinhar meus sentimentos. pretendeu inutilmente. É. A dar-se crédito ao depoimento da Rainha. Mesmo o papagaio não o hostiliza. É que. certamente por solidariedade com a velha. na esperança angustiada de aproximar-me de Carmélia. uma pessoa deveria gritar. vejo agora ao reler o belo episódio. sustentado? pelo capitalismo para entorpecer o espírito de rebeldia das massas. É verdade que esta lhe responde apenas por monossílabos às perguntas. Antes de sua partida. Objetará que. em vez de cantar. com o seu auxílio. GLICÉRIO olha-me espantado. E Glicério se permite brincadeiras que eu próprio não ouso: chegou a dizer à mana que ia . durante o expediente. quando a virgem subia ao salgueiro. enquanto se afogava. Jandira impugnará. durante dois ou três anos. Talvez até lhe conte a história toda. em poucos dias. em tal conjuntura. que de nada me serviu no transe. como já disse. também. uma camaradagem estreita que. mesmo louca. Além disso. Hortênsia. mas noto que fica serenada com sua presença. procurarei desfazer amanhã. quase de chofre. se os ocultei obstinadamente? Exigi-lhe um absurdo. Se não mudar de idéia. de inveja dela um galho se rompeu. um excelente moço e nenhuma culpa tem de não me ter sido útil na aventura em que muito me aproximei do herói manchego. pertencendo a uma casta diversa da nossa. de vez em quando. § 30. acha-se agora sob a esfera de influencia do amigo Redelvim. e reagi de modo primário. aqui em casa. A PROPÓSITO DE GLICÉRIO. Das pessoas que aparecem. Mesmo porque. a situação de constrangimento que se criou entre nós dois. cortando. nunca me despertou senão um interesse superficial. reservo avaramente minhas disponibilidades de tempo para velhos amigos.de trautear fragmentos de velhas canções.

timidamente.. também. para que pusesse mais um prato na mesa. suprimiu. e foi o bastante. E. que eu já sei. Glicério soube corresponder-lhe às atenções e deu-lhe um corte de cetineta (que dificuldade para obter esse tecido caído da moda!). Chegado à estação de onde partem os três ramais. em vez de simplesmente bater um garfo nos pratos (como faz. desta estação. Acredita o velho que a compra de dois bilhetes. ou de exclamar. Bom rapaz. Há alguns anos. consolidou sua situação perante a velha. na cozinha. que não ignora essa rixa. se se encontra com o sacrista volta para casa enfurecida. O mimo. preferiu. em vez de um só direto. Com o dinheiro que levou consigo. quando mais comunicativa: Se "alguém" quisé almoça. tomou uma passagem de segunda classe para Corinto e. à hora do almoço. nesse dia ela veio ao quarto advertir gentilmente que o almoço estava esfriando e que comida fria não presta. na expectativa de uma explosão. achando-se este comigo. cortou-me os rodeios e desculpas prévias: —Não carece falar não. exprime que o menino hesitava entre Montes Claros. Quando Glicério. fiquei arrepiado. depois de ali . Pensa que a gente não entende das coisas! Pensa que a gente não entende das coisas! Coerente em suas demonstrações de apreço ao Glicério. Ao dirigir-lhe a palavra. Sebastião. que já mencionei em outro ponto destas notas. ao que parece. Pirapora e Diamantina. convidei-o para almoçar. Brincadeira perigosa. o famoso anteparo de papelão. porque Emília não simpatiza com o homem e nem tolera essa pilhéria de casamento. nesse dia. o almoço tá na mesa!. ou apenas na Páscoa). delirante de alegria. *** Estas considerações a propósito de Glicério quase me fazem esquecer de anotar. Emília nunca me permitiu comensais e foi com receio que a procurei. um acontecimento de importância: o velho Giovanni veio verme à tardinha. Não o deixarei de procurar amanhã e hei de penitenciar-me de minhas picuinhas. uma outra para Diamantina. Tive outro sinal de sua estima ao mancebo num dia em que. pouco depois de nossa vinda para a Rua Erê. o Indalécio—é como se chama —fez-lhe uma advertência qualquer.. para avisar que Pietro está mesmo em Diamantina. aqui. para anunciar que a mesa já foi posta). buliu com Emília a respeito. Pois a velha se limitou a baixar os olhos e a sair para a cozinha. em suma.promover-lhe o casamento com o sacristão da capela de S. Quando vai à capela (duas ou três vezes por ano.

permanecer três dias, seguir para aquela última cidade, na qual mora seu padrinho. E Giovanni interpreta favoravelmente a preferência por Diamantina: indo procurar o padrinho, o garoto já mostrava um começo de arrependimento ou, pelo menos, desistia da intenção de sumir-se pelo mundo. Essas informações lhe foram prestadas pelo investigador meu amigo (o Parreiras), que muito se interessou pelo caso na Polícia Central. Giovanni espera receber amanhã uma carta do seu compadre anunciada em telegrama de hoje. Se não receber, partirá pelo noturno do Norte.

§ 31. UM DIA BEM-HUMORADO.
DÁ-ME vontade de rir, ao relatar, aqui, a celebração de minhas pazes com Glicério. Encontramo-nos antes de entrar na Seção, no momento de marcarmos, no relógio do ponto, a hora da chegada. Disse-me, sisudo: —Bom dia, Belmiro. —Bom dia, senhor Glicério. Como vai o senhor? respondi, mais sisudo ainda. Surpreendeu-se com o acréscimo cerimonioso que fiz ao cumprimento, e ficou sem saber se deveria interpretá-lo como pilhéria ou como advertência para que me tratasse com menos intimidade. Tal foi a expressão de sua fisionomia, que não pude conservar a cara fechada e reprimir uns gracejos. Mas isso, em vez de o pôr à vontade, encabulou-o ainda mais. Por fim, dando-lhe o braço, eu disse que precisávamos conversar, e o conduzi a um canto do saguão do edifício. Com espanto para ele, expliquei-lhe, desde as origens, os motivos por que, de um momento para outro, passei a tratá-lo de modo diverso. Fui rigorosamente exato nessas explicações, que duraram cerca de meia hora. Remontando ao caso de Carmélia, não receei ser ridículo ao referir-lhe toda a história, inclusive a da noite de carnaval. Ao expor-lhe o fenômeno da humanização do mito "donzela Arabela", experimentei alguma dificuldade, pois tive a impressão de que o petimetre me supunha vítima de perturbação mental. Zombei, então, do episódio, para tranqüilizá-lo quanto à minha sanidade de espírito. Contudo, persistia em sua face um ar de comiseração. Em outras circunstâncias, isso me haveria irritado, mas a disposição de esclarecer o caso e talvez a necessidade de confessar a alguém o romance vivido em segredo fizeram com que eu prosseguisse na minuciosa narrativa de minhas tolas aventuras. Também não me aborreceu o aparte, um tanto imprudente, dado por ele

em certo momento: —É extraordinário que você tenha conseguido imaginar tanta coisa em torno de uma criatura simples como Carmélia!... Sim, era extraordinário, concordei de má vontade. Era mesmo divertido. São coisas que acontecem. Depois, disse-me que se eu lhe houvesse confiado os meus desejos, nada lhe teria sido tão fácil como levar-me ao salão da viúva Miranda. Lá esteve algumas vezes, durante o período em que eu tanto me obstinava em obter, sem contudo as pedir, notícias a respeito da moça. E só não falou nisso, porque nem de leve poderia adivinhar meu interesse por ela. A viúva é meio difícil, com suas pretensões de aristocrata paulista— continuou—mas não fazia nenhuma restrição a ele, Glicério, e aos seus amigos. Quanto à donzela, era um anjo. Fina, inteligente, conversável. Teria gostado imensamente de conhecer-me — avançou. Depois da morte do pai, fecharam-se um pouco, era natural. Mas, passado o trigésimo dia, já a família estava recebendo, já se conversava, ali, como em vida do Dr. Aurélio. —Você teria feito sucesso na casa, concluiu com entusiasmo. Fiquei lisonjeado, mas disse-lhe que o assunto estava encerrado; que os mitos se recolheram, competentemente, aos seus lugares; que eu lhe agradecia muito os serviços que não prestara, mas poderia ter prestado, se eu lhos houvesse pedido, e que, ao cabo de tudo, só desejava sua inteira reserva a respeito. —Está certo, não se preocupe. Mas, em qualquer tempo que queira... acrescentou, com uma ponta de malícia. Passei o resto do dia bem disposto. Não sei se a causa disso foram as pazes com o Glicério, se a confissão, com que me desoprimi, ou as palavras amáveis, que me disse a propósito de um possível êxito meu junto à moça. Podem ter sido todas essas coisas juntas. O certo é que tive uma tarde bemhumorada.

§ 32. OS ACONTECIMENTOS CONDUZEM OS HOMENS.
E ASSIM vai a vida... Os acontecimentos que até aqui se desenrolaram e em que desempenhei ora o papel de ator principal, ora o de espectador, mudaram, por completo, as intenções deste livro. Naquela noite de Natal, ao início destas notas, expus o plano de ir alinhando apontamentos que me

permitissem publicar, mais tarde, um livro de memórias. Estava, então, concebendo qualquer coisa, e essa coisa se me agitava, no ventre, reclamando lugar ao sol. Jamais pensei, naquela ocasião, ou antes dela, que o presente pudesse vir dominar-me o espírito por forma tal, dele expelindo as imagens do passado que então o povoavam, abundantes e vivas. Estive refletindo, esta tarde, em que, no romance, como na vida, os personagens é que se nos impõem. A razão está com Monsieur Gide: eles nascem e crescem por si, procuram o autor, insinuam-se-lhe no espírito. Não se trata, aqui, de romance. É um registro nostálgico, um memorial desconchavado. Tal circunstância nada altera, porém, a situação. Na verdade, dentro do nosso espírito as recordações se transformam em romance, e os fatos, logo consumados, ganham outro contorno, são acrescidos de mil acessórios que lhes atribuímos, passam a desenrolar-se num plano especial, sempre que os evocamos, tornando-se, enfim, romance, cada vez mais romance. Romance trágico, bufo ou sem nenhum sentido, conforme cada um de nós, monstros imaginativos, é trágico, é cômico ou absurdo. Vejo que a história do presente já expulsou, definitivamente, destes cadernos, a do passado. Carmélia (travestida de Arabela) e Jandira afastaram a sombra de Camila, que, bem o percebo agora, era outra encarnação do mito infantil. Silviano, Redelvim, Glicério, Florêncio e Giovanni e seus pequenos mundos baniram os fantasmas caraibanos, as evocações dos velhos Borbas, a vida sentimental da Vila e da fazenda. Em vão, tento uma sondagem em Vila Caraíbas, naquele ano extraordinário de 1910. Baldo esforço: como resistir a personagens e fatos que, a cada instante, incidem no plano de nossa consciência? Às vezes ainda me vem a necessidade angustiosa de rever antigas paisagens, evadir-me para uma região que realmente já não se acha no espaço, e sim no tempo. Mas, no comum dos dias, agora é o presente que me atrai.

§ 33. RITORNELO.
ESCAPOU-ME ontem, à noite, esta lamentação: acham-se no tempo, e não no espaço, as gratas paisagens. Verifiquei esse angustiante fenômeno quando, em 1924, fui à Vila pela última vez. O Borba já havia morrido, a fazenda passara a outras mãos e as velhas já aqui estavam com sua extravagante bagagem. Camila ainda vivia. Lembra-me quão penoso foi o encontro com o passado. Lembra-me o dia em que só, debruçado no peitoril da varanda, na

em certas oportunidades. quem sabe. e borboletas. cores e aromas de cada objeto ou de cada perspectiva. vivo.fazenda. Segredos de moça em flor. muralha do meu mundo antigo. A lagoa foi drenada e convertida em pasto. os esfumados traços de coisas que se vão extinguindo. as colinas e os vales que se desdobravam até ao azul da Serra do Juramento. as linhas. logo as devolvendo para o exterior. que. O luar. ou apenas esboçados por um luar inesquecível que caiu sobre as coisas. ou. se nos tornou interdito. porque algo impedia uma comunicação entre o mundo de fora e o de dentro. A velha fazenda. Percebi que vago delírio se apossara de mim. Como se pode suprimir uma lagoa? Como se pode cortar uma árvore? É como se destruíssemos algo humano. Camila era a virgem na sua realização integral. ao som do velho piano. a serenata. que só possuía. naquela noite de 1907—ali já não estavam. Onde pretendi encontrar a alma das épocas idas. que é procurar as sombras de um mundo que se perdeu na noite do tempo. trancas de 1910. fiquei a percorrer. Mas. não encontrei senão pobres espectros. rico de uma paisagem mais numerosa. exibiu-me apenas a ossatura desnuda daquilo que. o buriti. em hora por si mesma de intensa melancolia—a hora rural do pôr do sol—. cores e aromas de outros dias. O sertão estraga as mulheres e a pobreza as consome. iluminados por um sol festivo de 1910. ao morrer da luz. ao cotejar com a realidade as invenções de uma desenfreada fantasia. arquétipo. e a lagoa. afinal? O que a meus olhos surgiu foi a sombra miserável de um tempo que morreu. inapelàvelmente. dos Borbas. A essência da juventude parecia haver-se aprisionado em seus gestos. devastação maior lhes causa porventura a nossa imprudência. Vila Caraíbas. o campo orvalhado em manhãs de maio. Na verdade. o rio. com um sol grande a despontar na serra. em outros tempos. fremente. e não criatura. a lagoa. para sempre. A namorada. nos parece estar no fundo e na forma de cada coisa. . a fazenda. Inútil tentativa de viajar o passado. que se apresentavam aos meus olhos. em vez de se localizar em nós mesmos. penetrar no mundo que já morreu e que. e seus olhos me diziam da Eternidade. ai de nós. polcas no salão cheio de retratos. fora um corpo exuberante de vida. Em vão' busquei nas linhas. o buritizal. os olhos apenas refletiam imagens. e pesada tristeza. com um vago olhar. a gameleira solitária no monte—que viviam em mim. os irmãos pássaros. em comum com aquele. a montanha. Que restava de tudo. e beija-flores. envolvendo-me naquela onda de saudade e naquele desejo de encontrar uma forma de morte. já longínquos e mortos. desde que deixou de existir e se arremessou para trás.

"DESCULPEM A POEIRA". dirigido a todos os que vêm depois—apresento aqui minhas escusas. a fazer considerações em torno da mudança de rumos. assim como a matéria se esvai. em certa manhã de maio no ano de 1910. Que me perdoem os abalos passados e os futuros. mas gentilmente trazem. que às vezes me parecem tão remotas e metafísicas. nos domínios da sensibilidade. Começo. as coisas estão é no tempo. o cartaz "Desculpem a poeira"—tanto mais gentil quanto o pedido de desculpas é. os que me acompanham. ainda que infinitesimal. levantam nuvens de pó. Em todo este esboço de livro. há uma semana escritas. no momento preciso em que com ela nos comunicamos. tornou-se. Desejaria planar suavemente. a meus olhos. que dela emerge. para dar lugar a outro. e quero apenas significar que. no último. agora. cada dia. tanto se acha embebido de tudo o que de mim provém e constitui a parte mais íntima de minha substância. no domínio físico. Na verdade. a cada instante: é o espírito cotidiano. Como os autocaminhões que. Este caderno. pendurado na parte posterior da carroçaria. . que lhe configura a imagem no tempo. se nos depara é totalmente estranho. nestes apontamentos íntimos. novo. fico a pensar nestas diferenças de nível que me acorrem. então. sem tropeços. a própria vida. sem o risco de falseá-los. sentimentos e vagas idéias. inesquecível. Há nelas ilusória permanência de forma.*** Não voltarei a Vila Caraíbas. sem distinção. as derradeiras páginas. e acabo por mergulhar. um problemático leitor futuro sentirá os abalos que tais desnivelamentos determinam. impressões. RELENDO. e o tempo está é dentro de nós. como no penúltimo capítulo. fugiu nas asas do tempo e só devemos buscá-la na duração do nosso espírito. § 34. Mas não me refiro à perda da matéria. Esse espírito sutil representa a coisa. ou em determinada noite primaveril. que esconde uma desagregação constante. mas falta-me engenho para isso e nem poderia pô-lo. A alma das coisas. pois lhe foge. percorrendo a estrada de Morro Velho. nestas profundas regiões caraibanas do meu espírito. algo se desprende da coisa. o que. conduzindo. a que fui forçado na elaboração destas notas. Em vão o procuramos depois. As coisas não estão no espaço. tão rápidas e súbitas que a mim próprio me pasmam. as coisas estão é no tempo. doce. onde alinho episódios.

com o malogro da tentativa feita na sessão de quinze dias atrás. Está ficando mais velha. Um grande silêncio—a que estou desabituado. mais achacada da gota ciática e já não suporta os esforços violentos a que a irmã a obriga. Sempre a tratou como a uma criança de colo e suas diabruras deveriam diverti-la. A casa me parece mutilada com a sua ausência. o Belmiro egresso de Caraíbas se apalpa. É medida extrema. COM grande pesar. se reajusta e assobia a fantasia do Hino Nacional de Gottschalk. perguntando-me. mas não se imprime um livro para uma ou duas almas irmãs. a ponto de querer agredir-nos. No correr desta semana (que ficou em branco no caderno de notas) suas crises se tornaram fortes e freqüentes. Não excluo a hipótese de que alguma âmesoeur (e deve havê-la. fui forçado hoje. que sempre relutou. pela manhã. Emília quis recorrer de novo ao espiritismo. Publique-o ou não. quando de outras vezes tive de valer-me do Instituto. estava. terei de dar-me como sou. Já lhes contei que nada ou pouco fala à irmã. A um Belmiro patético.Não é senão por isso que fugiria a publicá-lo. e temo que não as encontre em maior número. que compensa o primeiro e o retifica. que se expande. A pobre mana se recusava sistematicamente a ingerir alimentos. e certamente por isso não ofereceu resistência. O médico que ali a recebeu prometeu melhorá-la com a aplicação de duchas e injeções. Tais desnivelamentos é que compõem minha vida e lhe sustentam o equilíbrio. e gritava dia e noite. a mim próprio. ajustando-o aos quadros cotidianos. como a . durante o dia e às primeiras horas da noite—modifica o aspecto das coisas e me oprime. que não tenho empregado muitas vezes no curso destes doze anos. neste vasto mundo) possa comprazer-se e contemplar-se na leitura dele. Emília também se ressente da falta da Chica. reconheceu logo a necessidade da medida. Chegado à sua toca da Rua Erê. Passa. uma temporada. FRANCISQUINHA PIORA. aliás. Emília. ali. desde que as velhas se acham comigo. torna-se mais calma e volta para casa. um pouco desencantada. § 35. alimenta-se melhor. a levar Francisquinha para o Instituto de Alienados. se acaso oferece espetáculo de interesse para quem quer que seja. mas consegui convencê-la de que o caso pertencia à medicina. agitavase muito. na atmosfera caraibana—contemplando a devastação de suas paisagens—sempre sucede um Belmiro sofisticado. enorme.

tantas vezes contraditórias. a lamentar-se no seu dialeto (pude notar que. ignorado o paradeiro do menino. consentiu em ficar mais alguns dias sem ver o bambino. As vestes ficam guardadas num armário de nossas profundezas onde se amontoam indumentos de infinita variedade. onde se recolhem. Tais preocupações impediram-me de registrar alguns acontecimentos da semana. Contou-me o Prudêncio Gouveia que o regresso do menino foi patético. AFINAL. Estou deixando que o velho volte à vida habitual e o menino se adapte à situação (está muito desapontado. dizendo que hoje dormimos arlequim. Por último. são inúteis essas tentativas de análise e de interpretação de nós mesmos. Durante as duas semanas de separação e principalmente nos seis primeiros dias. de ponta a ponta. que jamais exploraremos. as combinações múltiplas. o compadre pediu prazo para vir. se está abalado em sua sensibilidade. mas sei quanta ternura se esconde por trás da cara fechada dessa velha Borba. § 36. pela Rua Erê. Vivia a chorar.mim. registrarei aqui dois encontros com Jandira e um com Silviano. de acordo com a informação do Prudêncio). há cinco dias. Há. que compõem as formas sucessivas do nosso espírito. chorando e trocando abundantes interjeições. várias. Foi a custo que. de emoção. ainda. desceu pela do Piau. correu. subiu a dos Pampas e andou pela Rua Diábase. Marianina foi para a cama. ainda que pelo avesso. quando era. Abraçaram-se demoradamente. A mulher estava adoentada e ele não poderia ausentar-se imediatamente. esquecendo-se da nossa. para movimentar nossa solidão. que foi a volta do Pietro. pelo tempo que lhes apraz. se exprime na língua natal. Já não há quem dê mingaus a ratinhos. mexa com as galinhas. Explicar-me-ei. na rua. O velho Giovanni. mas sempre fala para ser entendido). recebida a carta do compadre de Diamantina. Na carta. para anunciá-la a amigos e conhecidos. DE NOVO. Informados de que eu me achava preocupado com a situação doméstica. para depois lhes fazer minha visita. limitaram-se a pedir notícias da mana e a oferecer os préstimos. o velho ficou quase louco. a bater no peito. em nós. abismos insondáveis. enfim. amanhã acordaremos pierrô. qualquer coisa. tomando-lhes os pintos. Destacarei o mais importante. Alguém . suje a roupa com seu sistema de lavagem e faça. transfigurado. CARMÉLIA. que fala mal.

como a atrair-me. se desvaneçam os espectros que. na Seção. Começou a interessar-se por ela desde que o pus a par dos meus amores e. Há cerca de vinte dias. Acordei. algum diabo malicioso inutiliza o nosso trabalho. E à tarde despedi-me dele. Carmélia bailava à sombra de árvores que refulgiam ao sol. com mil pretextos. certa coerência. À sorrelfa. ora morta. Carmélia me apareceu neles. com pesar. ora minha. supondo-a uma burlesca história do passado. passou a afastar-me. poderia apanhar uma pneumonia. faço com que. em vez de me aproximar dela. disse-me duras franquezas. a fim de encontrar Glicério. Descobri que Glicério a amava. jamais poderia pretender a moça. amanheci angustiado depois de ter passado uma noite fértil em sonhos. ora viva. certa unidade. Um desses sonhos (não sei se foi um. julgo-me curado da fantasia. Fiquei aflito por que chegasse a hora do trabalho. E esse alguém às vezes se diverte.no-las troca sorrateiramente. de pijama. Quando me estendia as mãos. Uma semana depois. acordei. cedendo a um impulso de revolta (?). O fato é que se frustra todo o esforço que despendemos para nos impor certa disciplina. Não são decorridos quinze dias. como se a culpa fosse sua. tomei o das dez e pus-me um tempo enorme. participando de cada um. pondo-nos de casaca e em cuecas. durante o sono. antes. Aurélio. Em certo momento. e ele apareceu à porta. chego a relatar ao Glicério toda a história. com rancor. mostrando que. compuseram uma Carmélia imaginária. tiro do altar o meu mito... e. quem surgiu em cena foi o falecido Dr. em minhas condições de vida. à luz do dia. Eu fazia uma serenata (como nos velhos tempos) sob a janela da namorada. Parecia. Faço esta divagação para me justificar. chamando-me à realidade. Depois. um gracioso espírito do ar. também. ora de outros. e hoje somos o que ontem fôramos e não quiséramos ser mais. Só posso dizer que experimentei hoje uma recidiva violenta. na noite úmida. . pilherio comigo mesmo. a esperá-lo. falamos de tudo. . Estou com vergonha de confessar o que se passa comigo. para me aconselhar que não ficasse a cantar. quando o sonho se tornava rasgadamente fantasioso: vestida com uma túnica diáfana. na Praça. Como já disse. de acordo com um critério que nos escapa. menos de Carmélia. a mão esquerda terá de limpar o que a direita escreveu. ou pregando-nos um rabo de papel no jaquetão. ou muitos) me impressionou amargamente. a gente não sabe como essas coisas acontecem.. dentro de mim. e amanhã seremos o que não queremos. Por que não tive coragem de me abrir e de rogar que me levasse à casa dela? Conversamos o dia todo. Em vez de tomar o bonde das onze.

que as coisas voltam e não vale a pena fazer projetos. Lá está Francisquinha no Instituto. Os apitos das duas fábricas próximas (a da frente. Eram seis e meia. que é de calçados) sempre me despertam a tais horas. fiquei reduzido a níqueis. que me vem. AO RECOLHER-ME. Mas a lucidez. sei. ontem à noite. pois não tem passado bem as noites. embora estejamos a sete do mês. vi que a bela manhã deste domingo valia um passeio e preferi fazê-lo. pensava no Silviano. pelo timbre era idêntica à do amigo. agora. ponho-me de novo a dormir. O "PERREXIL". antes. e as aflições do dia se dissipam. eternos ou não. Olho em torno. chegando à Avenida Paraopeba. e é ridícula essa trama sentimental em que me envolvi. não há nada. Depois. O ordenado se foi nessas despesas imprevistas e ainda há contas por pagar. A voz veio de dentro. Não me faltam cuidados na vida. Problemas eternos! A razão talvez esteja com Silviano. que é de toalhas. pois. ao despertar de manhãzinha. É ridículo. embalado pela música das máquinas. Amanhã terei de visitar o agiota. Já lhes disse. embora não haja trabalho. sei. O que nos deve preocupar são os problemas eternos! A exclamação que ouvi dentro de mim foi do Silviano. É bem possível que amanhã tudo seja diferente. que a manhã nasceu bela e o corpo pedia um passeio.Encontro uma sorte de libertação em escrever estas páginas. Às vezes estou a pensar e ouço um interlocutor. Não vale a pena pensar nas dificuldades da vida. doente. Dedica-te aos eternos problemas. Creio que com ele sonhei. em toda a . Belmiro! § 37. aos domingos ou dias santos. com estas coisas? —Não! diz-me alguém. Devo também esclarecer que sempre embromo os donos das fábricas reais e o da fábrica imaginária dos'domingos: acabados os apitos. Desci a Rua do Piau e. aqueles que poderiam merecer o qualificativo de "eternos". e a que se acha por trás do lote vago. Sei que estou amando a mulher e não o mito. Emília se acha de cama. ouvindo qualquer apito do outro mundo. com majestade. porém. Deliberei tomar o desjejum na cidade. porém. eu acorde assustado. entre os problemas. deixando de lado os problemas. E a força do hábito faz com que. Desde dois dias. imaginando que Emília demoraria a levantar-se. percorri-a folgadamente. a primeira idéia que me veio foi a de procurar. Entretanto. Não deveria preocuparme. não serve senão para me mostrar que continuo personagem de uma novela de amor.

Escapou-nos. e viemos falando acerca de outras coisas. logo que estivemos a sós no escritório. Fiz tudo conforme prescreveu o Silviano e. Você se despedirá e irá incontinenti ao café da Rua Pernambuco. por algum tempo. foi a do amigo Silviano. Vão dar-me a cadeira. Toca a andar. e cedi. Objetei-lhe que não éramos homens para lugares mundanos assim. pouco depois. a cara que se me deparou. São mais quinhentos mil-réis. Foi um encontro cheio de conseqüências. meu velho. com uma cara muito satisfeita. olhei os jornais e. aparente calma. Dirá. por intermédio do Prudêncio Gouveia. ao voltar. mas retrucou que poderíamos ficar tomando alguma coisa. tem a mania de mudar o nome das pessoas. tinha-o a meu lado. tendo tido o cuidado de. mandar um aviso prévio a Emília. ainda. porém. a um canto. a mesma exclamação de surpresa: "Você por aqui. ótimo. em cuja casa há um desses aparelhos. já escrevi. —O problema agora. porque sei que não é dessas devoções. Como se tivesse havido uma comunicação psíquica entre nós. na Avenida. disse-me. o sol ainda era fraco. Mesmo por isso não insisti. chegamos até a sua casa e ali fiquei a conversar e a folhear livros. Tentei esquivar-me. uma desculpa dessas é tiro e queda. Ande. Joana não desconfiou. mas. o único da rua. pelo telefone. Ficou até a apressarme. Seu nome é Sebastião. abanquei-me nele e fui até ao fim da linha.extensão. que é nome de dois dos . e a brisa agradável me ajudava as pernas. a uma hora destas!" Silviano me disse que fora à missa. A mim às vezes me chama Porfírio. em chegando à esquina. a quem atender ao chamado. Terminado o almoço. sem que fôssemos incomodados e que seria divertido observar os "filistinos". Depois de andarmos um pouco pelos cafés. é arranjar as coisas com a Joana. Tomei um cafezinho na Rua da Bahia. —Ótimo. no primeiro poste de parada. para um giro qualquer. Estrabão é o chofer do Silviano para excursões de caráter reservado. na capela do Colégio Santa Maria. que não fosse dos meus. Está aflita por que eu obtenha a cadeira. A explicação complicou mais ainda o caso. a questão. Desta vez. pois acabamos passando todo o dia juntos. Apareceu o da Floresta. Vamos procurar o Estrabão. A um convite insistente de Joana. fechou. que o Reitor quer ver-me com urgência para conversar comigo sobre os programas do curso de literatura. Silviano segredou-me que possuía convites para o Country Clube e desejava levar-me em sua companhia. me telefonará. dando-se como secretário da Universidade. chispe. Oh! oh! oh! Com mulheres. mas o Silviano. aceitei o almoço. de onde. durante o trajeto. a ambos. veio-me o palpite de pegar o primeiro bonde.

quando planejo uma sortida. acordou. situado num recanto da montanha. previ os mínimos pormenores. —Já não está aqui. tinha a fisionomia transtornada. pela estrada afora. inclusive este. Idealizei tudo. Já está gasto o processo antigo. Chegados ao clube. Eu não podia deixar de vir. e lembrei-lhe que estávamos sem transporte. passou-lhe a mão pelo gargalo e disse-me: —Está bem. rápido. § 38. Porfírio. Há uma conspiração universal contra mim. "Perrexil" é o estimulante do pensador. Já que os deuses não são propícios. Vamos. me confiou um segredo: —Não me deram os convites. Apanharei a narrativa no ponto em que a deixei ontem. Depois. Silviano ia-me dizendo pelo caminho: —É a técnica. se este algum dia me cair de novo sob as . aparentando a maior circunspeção. preciso renovar sempre os meus expedientes. Eu ficava em casa. Fui acalmá-la e dar-lhe uma colher de xarope. Silviano olhou com ternura o litro de Mc Callum's. abancamo-nos em torno de um litro de uísque. disse-me. sentindome cansado. Tive de obtê-los laboriosamente.. pedido pelo Silviano. pego "embalagem". quando dobro a esquina. até que ela me mandasse para a rua. rindo-se: —Saio com um passo grave. bebamos. Quando voltou. minutos depois. O Estrabão só daí a uma hora viria buscar-nos. Estrabão pisou no acelerador e nos levou. respondeu. NÃO PUDE terminar o relato da conversa com Silviano. entre estes filistinos? Vamos embora. Mas. Um tanto inquieto. —"Perrexil"? perguntei. deixando-me a sós Com a bebida. uso vários. Ultimamente. é moroso e de resultado incerto. Ia procurar o Perrexil. pela fresta da porta. Silviano contou-me coisas que muito me ajudarão a decifrar seu Diário. de cujo edifício nos aproximávamos. luz no escritório e ficou a resmungar. agora.meus avós. Animado pelo uísque. Depois. ora caceteando a família inteira. Vocês querem ser literatos sem ter lido Camilo. doutorai. ora meio sorumbático. deitei-me. Aliás. E. o "Perrexil" está aí. Já não está aqui. Você imagina. Que havemos de fazer. apontando para o clube. mas forças contrárias tudo desfizeram. Que vem a ser isso? —Eis aí. chama Abundâncio. Perrexil é a Musa. e ao Florêncio. Consolei-o como pude. Joana me traz de olho. este se ausentou logo. Emília tossia muito.. viu. com grande irritação deste. PARABOSCO & FERRABOSCO LTDA.

Ela jamais compreenderia o "fenômeno". não. Silviano nada sabe a seu respeito senão que possui uns olhos excepcionais. Descobriu-lhe o endereço..). Não gostou do aparte e passou a contar-me os fracassos das . E deu-lhe presentes. novidade da estação. em Dumas. para ele. E um belo dia. mandou-lhe um perfume francês e outras coisas mais. escreveu-lhe uma longa e sentida carta. nela. deixando-o sucumbido. uma amaurose.. Silviano. —Que olhos. atemorizada. Conheceu-a um dia. Foi-lhe apresentada pelo irmão. Dolores lhe perguntou.. Dolores reagiu e correu para dentro. Lembram-me um verso de Baudelaire: "Tes yeux sont la citerne ou boivent mes ennuis.. tentou abraçá-la (esquecendo-se. proveniente de lesão na retina e alteração no nervo ótico. assim sem mais nem menos? —Sim. Silviano de pé. pois. que não a tem visto muitas vezes. —Você já ouviu falar em gota-serena? Não ouviu? É uma doença dos olhos.. um chapéu. Porfírio. filha de um espanhol rico. . disse-me. senhor. que pretendia dela. um chapéu! exclamei. na expressão do olhar! Contou-me. Amava. Os olhos dela são estranhos. talvez tivesse tido melhor acolhida. a vida que foge. Foi grande o susto que esta experimentou. no alpendre. o amor. na Avenida. emendei. ajunto eu. fabricante de tijolos. a eterna graça. Há poucos meses. um universal e não um particular. aluno dele. —Continuo a amá-la violentamente. que andei lendo. de Heine e Goethe. Representava. Dir-se-ia que sofre de gota-serena. tudo isso sem se dar a conhecer. —Que olhos! continuou. Depois. mandou-lhe. depois. Respondeu que não queria nada.. declarou-lhe amor. de presente. em alemão. Que tem isso? As mulheres gostam muito de chapéus. Observei-lhe que." concluiu com um ar cismador. —Porfírio. disse-lhe ser o homem que desde algum tempo lhe mandava coisas e escrevera a carta. um chapéu. Dãome a impressão de água parada. Belmiro. informado de que a moça se achava só. um capítulo a fio sobre a função do nervo patético. apareceu-lhe de supetão em casa. O "Perrexil" é uma jovem de nome Dolores Gigedo. quando a mãe morreu. E abismou-se em seus olhos.. se fora menos transcendente.. Impressionaram-me tanto. —Que idéia. quando morreu a mãe da moça. cisterna. com citações. de que não se pode abraçar um universal.vistas. E não sou nenhum idiota para dar logo a minha identidade! Mandou-lhe. a moça em flor..

Não conseguindo detalhar o interior do edifício que imaginara. numa contínua produção de fantasias. nada mais. que se suicidara.tentativas anteriores. Condoído da sorte delas (ficaram em extrema pobreza). ladeando docemente a encosta. Por último. do gênero folhetinesco. Eis como nasceu esta novela cerebrina: Ia passando. por uma "sinuosa". os freqüentadores subiam de auto. de grande iniciativa. Já estudei . Silviano acompanhou. a fim de consultar revistas de arquitetura. *** Ao sétimo uísque deu para me contar estranhas coisas em que não sei se devo acreditar. que se associara a outro de nome Parabosco. no local. retoma a história no ponto em que a deixou na véspera. Com o olhar atento. tudo como se fosse realidade. correu aflito a casa de um arquiteto conhecido. ou de pena. Presentemente estão eles em entendimento com o proprietário de um edifício à Praça Sete. procurando um meio de auxiliá-las. Mas. então. finalmente. Não me estou avizinhando da loucura. as meninas figurando sempre. de linhas moderníssimas. Parabosco & Ferrabosco fizeram. nos cabarés de luxo. um cassino de luxo. Vou recomendá-las ao Ferrabosco! pensou. Chega a urdir histórias inteiras. Para chegar ao edifício. Resolveu. Disse que constantemente sonha acordado.. para prolongá-la sempre. assegurando-lhes a proteção da importante firma. durante o relato. o problema delas. assim. há dias. o que convinha a seus amigos Parabosco & Ferrabosco Lida. pela Rua Caetés. as expressões ora de surpresa. quando viu duas lindas jovens. estava ali. Cada dia. colocou-as facilmente nos escritórios do Cassino. quem é Ferrabosco? Imaginou. —Não se impressione. pôs-se a dar tratos à bola. um italiano chamado Ferrabosco. ao andar pelas ruas. ora de incredulidade. que converter a Pedreira Prado Lopes num luzido centro de diversões. O Ferrabosco se apaixonou pela mais velha e com ela fugiu para a Itália. Atualmente vive o caso de "Parabosco & Ferrabosco Ltda.. subitamente. Voltando às moças. criando a firma Parabosco & Ferrabosco Ltda. freqüentado pelo grande mundo. Estavam enlutadas pela morte do pai. com que minha fisionomia me denunciou os pensamentos. Homens arrojados. Achou. Fracassara mais uma vez. um prédio de numerosos andares. nada menos. No alto da colina. Mas a história de Parabosco & Ferrabosco ainda não terminou. Comprá-lo-ão para o derrubar e construir. Vários episódios se sucederam. Depois voltou. recompôs-se com a família e a moça ficou por lá.

não aceitei o convite.. Vendo o pacote de biscoitos. "Deixa eu falar como eu quiser. furioso. e fomos juntos. na revolução de Trinta). Achava-se sentada na cama. e comi um para dissipar as dúvidas.. Os cabelos. estavam arranjados em trança. Lá chegados. Não se levantou. quis acompanhar-me. Notei-lhe paz na fisionomia. —Que vai fazer em Santa Ifigênia? Nunca lhe vejo por aqueles lados. depois. e já não tem acessos violentos. o que é bom sinal. mas pôs-se a rir.estava findo e que não deveríamos interrompê-lo. a coisas passadas há cinco anos. e regressei alegre à casa. NO INSTITUTO. quando nos levantávamos para sair.o fenômeno. meio grisalhos. Vireime: era o Florêncio. segundo me informou a enfermeira. coisa que desde muito tempo Emília não conseguia fazer. Espírito romanesco. perguntou-me. Aflito por dar boas notícias a Emília. alegrou-se como uma criança. . dorme tranqüilamente. É uma forma de imaginação difluente. Florêncio. que ouviu a notícia com ar compungido. suponho. quando entrei no quarto. QUANDO me assentei no banco do bonde que deveria levar-me ao Instituto de Alienados.. O caso não tem gravidade. Piorou muito e tive de levá-la para o Instituto. A velha abriu-se em sorriso (coisa tão rara!) quando lhe contei a conversa com Francisquinha. esperou-me no saguão do edifício para não perturbar a visita. Achei a doente bem melhor. § 39. reclama o outro. alguém me tocou no ombro. Na volta. dizendo que a guerra iria acabar e poderíamos voltar para a Rua Erê (aludia. ficou séria. terminou. que lhe levei. Não é da sua conta. perguntando se não era feitiço.. mas o médico de plantão objetou que o tratamento não. Alimenta-se. Muitas vezes brigam por causa da língua: "Que é que você tem com isso?" retruca Florêncio. Quis trazê-la comigo. Florêncio procurou reter-me na Avenida. Forma frustrânea. Afirmei-lhe que não." "Mas isso me fere os ouvidos afeitos ao bom vernáculo". Nosso amigo claudica sempre nas regências verbais e Silviano não estava conosco para lhe chamar a atenção. Estrabão havia chegado e tocava insistentemente a buzina do carro. respondi. —Vou ver Francisquinha. amistosamente.

—Qué dizê qui está mêlhó! Que dizê qui está mêlhó! exclamou, satisfeita.

§ 40. CHOQUES.
ESTIVE hoje em casa de Jandira e lá encontrei Redelvim. Percebi que ficaram desapontados com a minha presença e que esta foi interromper uma conversa ainda não acabada. Com certeza, maquinavam revoluções, porque, pouco depois, com irritação mal disfarçada, Redelvim me disse: —Então, continua nessa vidinha sórdida de pequeno burguês? Minha resposta foi perguntar-lhe se tinha cem mil-réis para me emprestar (realmente, estava precisando). Jandira sorriu, e Redelvim, que continuava azedo, respondeu: —Não prova nada a sua exibição de quebradeira. Você pertence à pior espécie de burgueses: os que o são por sentimento, e não por instinto de defesa da propriedade. Fiquei calado, sem dar resposta. Redelvim se obstina em não me compreender. De que servem as discussões? Sei que, apesar de tudo, é meu amigo e pensará de outra forma, agora ou mais tarde. Por que hão de classificar os homens em categorias ou segundo doutrinas? O grande erro é lhes oferecerem apenas caminhos radicais. Socialismo, individualismo, isso, aquilo. As idéias da gente podem não comportar-se dentro dessas divisões arbitrárias. Não é possível ser-se tudo, ao mesmo tempo? E, se sentimos que a verdade e a contradição foram semeadas em todos os campos, como poderemos definir-nos? Tudo o mais é violência ao espírito. Dizem que tal perplexidade ou cepticismo conduzem à inação. A prova do contrário está em mim. Atuo, no meu setor, como se acreditasse nas coisas. As necessidades vitais fazem o indivíduo agir e não permitem que ele se tome um contemplativo puro. O que é injusto é quererem extorquir de nós uma definição, quando a procuramos, em vão, sem a encontrarmos. Redelvim me olha com desprezo neste momento, mas talvez me compreenda amanhã. Às pessoas de sensibilidade não é fácil resistir aos atrativos do romantismo político da época. O mais cômodo é entregarmo-nos a ele, acompanharmos a maré. Mas teremos procedido honestamente, com relação ao espírito? Meu silêncio, em vez de pôr termo à conversa, exasperou o meu contendor, que não me deu tréguas. Estava em um dia de excitação, nesses dias de raiva descomunal, que lhe vêm. Então, fica sempre contra. Contra qualquer coisa, contra tudo. Se eu adotasse seu ponto de vista, estou certo de

que, dentro em pouco, ele me contrariaria pela mesma forma. —Afinal, que é que você é, na ordem das coisas? perguntou-me. —Talvez um "individual-socialista", respondi, para lhe satisfazer. Você, tão lógico, tão seguro de suas idéias, não vai achar sentido nisso; o certo é que não encontro vocábulo que me defina. Talvez esses dois juntos me tirem do embaraço. Se vier a revolução, não é preciso, porém, que me deportem ou me fuzilem. Sou um sujeito inofensivo, para todos os regimes... Minha resposta o enojou tanto, que dessa vez foi ele quem se calou, provavelmente para não me dizer coisas duras. Aproveitei o ensejo e despedi-me, alegando que ali estava apenas de passagem a fazer hora para o dentista. Jandira tentou reter-me, mas apeguei-me a uma dor de dentes imaginária e saí. Não o deixo de estimar por isso. Os companheiros são raros, precisamos conservá-los a todo custo. E quando não possamos ser amigos cem por cento, sejamos cinqüenta ou vinte. Quando encontro, em alguém, cinco por cento de afinidade, contento-me com essa escassa percentagem. Para preservar nossa amizade, tenho procurado pouco o Redelvim ultimamente. E tenho-o conversado menos ainda, principalmente em presença de outras pessoas. Criva-me de ironias, aborrece-me. Não lhes falei que ando sempre desconfiado. Muitas vezes, ao chegar a casa, fico a dar balanço às palavras trocadas com os amigos, com tanto maior desgosto de mim próprio, se notei que alguém, na roda, acolheu, com sorriso irônico, alguma observação minha. E sou sempre gauche. Quando converso, as melhores idéias ficam cá dentro, sem encontrar expressão, e freqüentemente digo coisas que não deveriam ser ditas e que, de ordinário, não foram meditadas. Como explicar certos despropósitos que, mal proferimos, nós próprios imediatamente reprovamos, mordendo os lábios de despeito, porque ninguém saberá que a nossa censura funcionou, logo depois, dando-nos a conhecer a inépcia daquela idéia? Por orgulho, não voltamos atrás e preferimos sustentar a infeliz opinião. Cada vez nos perturbamos mais, e acabamos dizendo dez tolices, em vez de uma. Fico a conjeturar que se trata de uma vingança das idéias tolas. É provável que, repelidas mais de uma vez, quando nos achamos vigilantes, elas fiquem andando a esmo, pela cabeça, a conspirar contra nós. Um ligeiro cansaço nosso, eis que a asneira sai. Será uma vingança das parvoíces, ou a necessidade irreprimível de nos vermos livres delas? O certo é que nos escapam, escolhendo maliciosamente a pior oportunidade. ***

De que valem esses choques entre amigos? Cada qual continua onde estava, aferrado às suas idéias. Tanto mais aferrado, se as contraditamos. No que me toca, julgo ter chegado a uma altura em que a gente já sabe aquilo que é, e para que é. Não no domínio metafísico, mas no da vida corrente. "Fay ton faict, et te cognoy", aconselha o velho Montaigne, repetindo Platão. "Qui auroit à raire son faict, verroit que sa première leçon, c'est cognoistre ce qu'il est, et ce qui luy est propre: et qui se cognoist ne prend plus l’estranger faict pour le sien. .." Sou apenas um poeta lírico, em prosa, e só desejo que me deixem sossegado. Façam os outros o que lhes convém, ou o para que estejam destinados. Farei o que me é próprio, isto é... § 41. MATINADA. JH^ADRUGADA DE 12 DE OUTUBRO.-Compus um hino ao Dia, imitando o alto estilo de Zaratustra, mas tive o bom senso de rasgar a folha de papel em fragmentos miúdos e atirá-los à cesta. A posteridade ficará, pois, privada desse documento. Na verdade, foi uma linda aventura. Recolhendo-me ontem muito cedo, contra os meus hábitos, acordei às quatro da manhã, e perdi o sono. Durante uma hora, tentei conciliá-lo e permaneci nos domínios proustianos da insônia, onde os pensamentos não têm contornos nítidos e a consciência se confunde. Depois, como os bondes começassem a descer a Rua Erê, os gaios iniciassem seu concerto e, finalmente, a fábrica desse indícios de vida, verifiquei a inutilidade de minhas tentativas e levantei-me resoluto. Bela antemanhã! Subindo a Rua Erê, tomei à esquerda a Rua Diábase, que, mais para o alto, recebe o nome de Esmeralda. Segui-a até ao fim e, pela estrada que a continua, cheguei ao Morro dos Pintos. Do alto da colina, contemplei Belo Horizonte, que apenas despertava. As cores, já vivas, do céu e a luminosa beleza da cidade feriram-me os olhos. Os edifícios suntuosos, os grandes jardins públicos, as retas avenidas situam Belo Horizonte fora dos quadros habituais de Minas. Dentro das casas mora, porém, o mesmo e venerável espírito de Sabarabuçu, Tejuco, Ouro Preto e de tantas outras vetustas cidades. Penso no homem mineiro que se levanta, lê seu Minas Gerais, cuida dos passarinhos e se prepara, tranqüilo, para as labutas do dia. A mulher cirze apressadamente um par de meias para ele e lhe pede que não se esqueça de deixar dinheiro para algumas compras. Sai, porém, sorrateiro. Façam-se as compras amanhã, não se corre para gastar. Os meninos estão

Tenho . conta que o Prefeito novo vai melhorar o bairro do Prado. Mas. já de pé.. Prudêncio relata pormenores. Giovanni! O velho fica boquiaberto. a passear pelo quarteirão e que. Good morning. o Giovanni). Os livros. a se desdobrarem e ampliarem para que personagens e paisagens se movam. Barriga honrada de chefe de Seção. Depois. Ouço outra voz familiar: —Wonderful! Wonderful! É o Prudêncio Gouveia. não diz nada. Giovanni.. Que faça um café bem gostoso para "sior Bermir".. Resmunga lá suas coisas que não entendo. de acordo com o hábito. Refere-nos todos os episódios. o ar fino da manhã e a intensidade da luz extasiam o amanuense—ave noturna que a madrugada surpreendeu. A manhã me atrai. nem angústias. a cidade e se perdem no horizonte. Que mais é preciso? Meus olhos deixam. até insignificantes fatos domésticos. meio reumática. sior Prudêncio. Emília. Também ficou estupefato com a minha matinada. que à noite me parecem. pela cozinha. Geral e particular. Faz cara de grande surpresa ao topar comigo. —If you please. ocorridos após a volta do rapaz. não coisas inertes. baixinho. com o seu How do you do. como nos livros clássicos. Quando está a sós com o velho. sempre que Prudêncio sai com o seu inglês. amigo Prudêncio! Tomamos.. corre à procura de Marianina. respondeu. o menino. Fuma-se um cigarro. esclareço. ao ver-me. Há anos que não me vê a estas horas. cá estão reduzidos à imobilidade. satisfeito. estendendo a xícara. Muito bem-humorado com o encontro (bom amigo. Ficará semi-internado. A aurora. O velho conquistou. manifesta o mesmo espanto que Giovanni. que acaba de realizar antiga aspiração: o filho consentiu ontem em ir para o colégio. Giovanni me interroga com os olhos. É Giovanni. de novo. quanto ao Giovanni. na macumba da Barroca. arrasta-se. pela polícia. —Mais um pouquinho. há mantimentos na despensa. juntos. As sombras fugiram. Barrigudinho. porém. Saio de novo. e não pode esconder sua satisfação.. Comenta-se a batida dada na véspera. —Bom dia. Nem pressentimentos. —Ele quer mais café.. entrou em carro triunfal e expulsou as sombras. ele não tem dessas coisas. A latitude deste. mas seres encantados. Como os fantasmas todos se dissipam! Volto a casa e abro as janelas do escritório.vestidos. com alegria geral. Mas minha presença o anima a mostrar as habilidades. com uma cadeia de ouro traspassada numa casa do colete. É o bom Prudêncio. Alguém abre uma porta. mundos vivos. Volto para casa. em desalinho. o café.

. E a bebida pode levá-lo cedo. por mais que seja masculina a nossa amizade.. aliás. Está sempre provido das melhores e mais recentes. Por que te deixei. Excelente e repousante camarada. mas do estado de espírito. O VELHO BORBA. não é senão mulher. outras vezes se mostra impermeável. aí vem tolice. em Vila Caraíbas. No que. eu te amava. Silviano é uma criatura complicada. só querem saber do marido e seu tempo é pouco para imaginar meios de prendê-lo. no Largo do Cruzeiro. ENCONTREI Florêncio. O SISTEMA BORBA. só ele me restará. não da quantidade de álcool ingerida. ao sair da Secretaria. pode ser que se case. Se eu me casasse. renovando os copos. e outra é a compreensão das coisas.. UM HOMEM SEM ABISMOS. Só quando morava na república isso me aconteceu algumas vezes. É que Florêncio. foi. Apontamento para uso pessoal: bebi mais que de ordinário e não perdi o prumo. conforme ensina a ópera. afinal. Conheço o estilo Borba e não me engano. Não é que tenha procurado embriagar-me. Glicério não passa de uma criança. com quem a gente não pode contar sempre. e as gerações não se entendem. e está num cemiteriozinho branco. as preocupações são outras. Florêncio divertiu-me bastante com suas anedotas. Jandira. Se às vezes nos compreende. apenas a tua imagem. Além disso. e era uma vez a amiga. sorrateiramente. Redelvim. deixa-me pelas idéias. no momento. Quem quer saber de mim e das manas? A possível esposa morreu em 1925. Camila? Na verdade. Às vezes penso que. § 42. dos poucos amigos descobertos no decurso destes magros trinta e oito anos. Entretanto. Onde está Florêncio. Se não me detenho a . Não tem problemas: é o homem sem abismos—o homem linear—na expressão do Silviano. e não preciso dizer que tomamos um pifão. § 43. em companhia de alegres boêmios. é. Quando se casam. e passamos a tarde juntos.certeza de que gosta de mim. e a mulher é vária. Ora. o fiel companheiro. fazem muito bem. O que amo nessa Carmélia. vive nos seus "altiplanos".. que não atinjo. Pertence a outra geração. talvez. fiquei em boa forma e isso me fez pensar que a embriaguez depende. VEJAM como terminei ontem o último capítulo. Talvez só me fique o Florêncio. está o chope. achando-me disposto.

porém. A uma delicada palavra que lhe dirigiu o político. me faz sua visita. Aqueles sagrados furores não me são estranhos. Sua formação intelectual alicerçava-se em bom fundo humanístico. E seria ridículo pensar em Arabela.. cairia em pranto. na casa da viúva Miranda. apesar da degenerescência deste fim de raça. o sentido daquelas palavras e talvez por isso o bilhete me impressionasse tanto. Não compreendi. Meditando na possibilidade de que. já escrevi atrás o que pressinto. Quanto aos amigos.. O sistema Borba não comporta nem prevê senhoras de tão fina estirpe. Sei que. Ouvi que. meu isolamento se agrave. Devíamos deixar de estrangeirices. era a janta na fazenda. para o futuro. Bastaria isso para exasperar o velho Borba. um deputado. em Carmélia. Era de prever isso!. Era sólido no vernáculo e seguro em matemáticas e história. Não se pôde conter quando o serviram à francesa: —Olhe. viril. . quando um Belmiro lírico. botam-se as travessas todas na mesa. Por isso é que vocês envelhecem tão depressa. Loiola. Gostava dos seus clássicos. bem vejo que os não terei por muito tempo. seu doutor. simultaneamente. Já escrevi que não casarei. Como Amiel. Dia virá. De uma vez que veio à Capital. o mesmo ciclo biogenético!" Tratava-se de Haeckel. que lhe queria votos. vocês mandam ensebar o assoalho. o velho retrucou. Freqüentou a escola de latinidade que. Quanto aos demais seres que me cercam.tempo. na minha casa. pois Camila se foi. ia dentro um bilhete: "Veja. desandei a suspirar. Ríspido. Lia coisas incríveis para aquele lugar e aquele tempo. Escrito a lápis. levou-o a almoçar e foi um desastre. havia em Vila Caraíbas. Francisquinha vai de mal a pior e Emília está ficando com o coração fraco. rude. violento: —Também. Onde já se viu tal disparate? Às cinco. para tirá-lo do embaraço. nem aquela intolerância com etiquetas. a ponto de ficar até hoje gravado em minha memória. isto é. . e que são as velhas e esse mal-humorado Tome. Ainda que viesse pedir a mão do Dom Donzel da Rua Erê. . busco a solidão. ao tempo do Império. à lusitana. de coração enorme. mas. repetia passagens inteiras dos Lusíadas. É a hora de Camila. os Borbas gritam dentro de mim. A primeira coisa que lhe aconteceu foi escorregar no pavimento encerado. em que ela se dará sem ser buscada. como o herói de Lamartine Essas coisas sempre acontecem às duas da madrugada. O papagaio perdeu a plumagem e parece caducar. então. Lembro-me de um dia em que me mandou levar um livro ao provisionado Loiola. Era assim o Borba. se toma chá às cinco. lhe voto horror. Não compliquemos a vida.

Mas, em matéria de modos, manteve-se-lhe intata a campesina rudeza de Borba, apesar da influência que nele exerceu a velha, que vinha dos Maias, gente da Vila. Os Maias eram finos e a avó Maia, mulher delicada e inteligente. Fora de Ouro Preto para a Vila, quando casou com meu avô materno, deputado geral. Tinha finuras genuínas; não mesuras e lisonjas de salão. Desse consórcio de Maias com Borbas foi que surgiu o amanuense, sem a virilidade destes e sem a polidez daqueles. A aspereza dos Borbas, que é antes couraça, para defender um coração mole tem, na Emília, sua expressão integral. Ao ouvi-la resmungar, franzir os sobrolhos, penso, com uma ternura que me umedece os olhos, nesse velho que foi o último da raça. Toda sua força, sua dureza de metal nobre, transferiu-se à mana. Para mim não restaram senão vagos reflexos e, ainda assim, bem no fundo, bem no fundo. A autoridade que emana de Emília e das sombras familiares que povoam esta casa basta, porém, para sustentar nela, em plena vigência, aquilo a que tenho chamado sistema Borba. E o leitor já não se rirá de mim, agora, quando repito as palavras escritas atrás: Mesmo que, algum dia, Carmélia a mim viesse, as bodas seriam impossíveis. O sistema Carmélia e o sistema Borba se repelem. Entre Emília e a viúva Miranda há distâncias interplanetárias. E, ai de mim, estou que o casamento não baniria os mitos. Mito tocado é mito morto, e a imaginação busca outros, sentindo-se ludibriada. Fique Arabela no seu nicho.

§ 44. REDELVIM TEM, TAMBÉM, UM DIÁRIO.
HÁ QUATRO dias não ponho os olhos neste caderno. Andei em maré de ler, e não de escrever. E Silviano tem-me suprido do bom e do melhor, no que toca a livros. Ele os compra aos metros cúbicos, e muito lhe devo nesse capítulo, desde os tempos de república, quando o conheci e já era professor. Interromperei, esta noite, a leitura de um dos volumes que me mandou (abasteceu-me, desta vez, de gregos, e estou atacando a Ilíada, que nunca pude ler de fio a pavio), para não me esquecer de anotar aqui uma visita a Jandira. Ao entrar em casa, de volta da Secretaria, Emília me disse: —A excomungada mandou um positivo trazê um escrito. Está em riba da mesa do quarto. Como de costume, falou-me sem se virar para mim. Achava-se de costas,

a pôr a mesa, e assim continuou. Ri-me, feliz, quando ouvi a palavra "positivo", na acepção que lhe deu e em que há mais de vinte anos não a ouço. Em Vila Caraíbas, "positivo" quer dizer mensageiro expresso e especial. O Borba não empregava tal vocábulo. Usava de outro, que os léxicos admitem com esse sentido: "próprio". Lembro-me de que, certa vez, corrigiu um dos nossos empregados. Ao dizerlhe o vaqueiro: "Seu Jucá do Riachão mandou um positivo aqui para dizê ao sinhô seu Coroné qui ele já fez o acêro", o velho emendou:—Um próprio; um próprio: "positivo" é outra coisa. —Propre, seu Coroné? —Sim, sim, respondeu, impaciente. Também me divertiu ouvi-la estender a excomunhão a Jandira. Já lhes disse que isso não significa desestima e provavelmente esconde ternura, mas ainda assim continua chistoso. Eis o escrito, segundo a expressão caraibana da Emília: "Honrado amanuense: preciso falar-lhe. Venha ver-me hoje à noite, se puder.—Jand.” Mal jantei, saí. Sentia-me em falta com ela. Havia oito ou dez dias que não a procurava. Chegado ao pequeno apartamento, fui recebido por D. Hortênsia, que ficou comigo alguns minutos, enquanto a amiga arranjava o penteado. Ou melhor, ficou consigo a um canto. Está acostumada a permanecer horas e horas sem dizer palavra, quando assiste às nossas reuniões, nos dias em que Jandira nos convoca. Mas hoje, forçada a fazer as honras da casa, sentia-se visivelmente constrangida, a todo momento se mexia na cadeira, como quem não acha o que dizer e se aflige por isso. Felizmente Jandira não se demorou, e sua chegada tirou a pobre senhora do apuro. Num movimento vivo, em contraste com o seu modo discreto e ausente, D. Hortênsia fugiu da sala, assim viu a sobrinha. Por certo, teve medo de que ela volvesse a dar mais uns toques no cabelo, o que faz freqüentemente, e a deixasse de novo comigo, na embaraçosa situação. Foi tão ágil e rápida a saída, que Jandira achou graça: —A velha está lépida, hoje... Depois, disse-me, andando para lá, para cá, segundo seu costume: —Não há nada de novo, seu Belmiro. Escrevi o bilhete pensando que você estivesse zangado comigo. Sumiu tantos dias... —Zangado por quê, minha flor? —Porque eu não o socorri, quando Redelvim começou a azucriná-lo. —Ora, Redelvim é um menor exaltado, respondi. Ela riu-se. Depois falou-me que, se não interveio, foi para não agravar a

situação; Redelvim estava irritadíssimo e precisava desabafar-se. Como eu já estava acostumado a servir de pára-raios, ela preferira ficar de lado... A polícia dera-lhe busca na casa, levara-o à delegacia para explicações e lhe tomara os melhores livros, bem como o seu Diário, que nada tem de extraordinário, diz ele, mas o acompanha há longos anos, é coisa de estimação. Li páginas desse cartapácio, há tempos, pelo mesmo processo clandestino por que conheci o do Silviano. Provavelmente Jandira não o suspeita, mas o nosso amigo, noto-o bem, está irritado não é por causa dos livros, nem pelo chamamento à delegacia, nem por estar sendo seguido pela polícia secreta: é por causa do Diário... Como todos os documentos dessa natureza, contém histórias muito íntimas, amores (inclusive o caso da pequena espanhola, que o torturou bastante) e versos de adolescência. Não permite que se lhe fale nos amores, nem nos poemas. Esse Diário nas mãos da polícia deve ser-lhe motivo de profunda inquietação. —Ele não lhe quis dizer nada, porque acha que você é gente do Governo... Não deixei de ficar lisonjeado. É a primeira vez, na minha carreira de funcionário, que me consideram pessoa integrada na administração, ou, mais que isso, "gente do Governo". Redelvim é um pândego. —Acho que você lhe pode ser útil, continuou Jandira, procurando recuperar seus papéis e livros, na polícia. Era, pois, este o objetivo de Jandira, ao chamar-me. Prometi-lhe arranjar a devolução das coisas por intermédio do Senador Furquim, via Glicério. Sempre é bom conhecer um senador. E voltei logo para casa, porque Emília aqui está com a gota ciática de sempre, necessitando de mim. Não terminarei esta página sem dizer que Jandira estava uma tentação, mais desejável do que nunca. Trazia uma flor artificial no peito, muito chique. Esquecia-me dizer, também, outra coisa importante: arranjou emprego num escritório comercial. O patrão é pessoa idosa e não tem filhos. Por ora, o problema Pereirinha está, portanto, afastado.

§ 45. EXTRAORDINÁRIAS DECLARAÇÕES DE GLICÉRIO.
MEU ESPÍRITO está, agora, serenado, e procurarei expor

ordenadamente o que se passou. O sonho a que me referi numa destas páginas não deixou de ser exato, no que toca a Glicério. Pelo que hoje me disse, percebi que minhas confidencias o impressionaram de tal forma, que tem, agora, uma visão diferente de Carmélia e a olha por um ângulo aproximadamente idêntico àquele sob que ela me surgiu, na noite de carnaval. Sugestionável como é, foi empolgado pelo mito da Donzela ou, pelo menos, empresta, agora, a Carmélia parte dos atributos misteriosos de que a dotei. Ela se cristaliza, rapidamente, a seus olhos, se me permitem o uso da expressão stendhaliana. Hoje, na Secretaria, falou-me da moça como se se tratasse quase de um ser quimérico. Ao ouvi-lo, oscilei, de início, entre a satisfação de autor que verifica o êxito de sua criação, e a angústia de namorado que pressente um rival. Disse-me que Carmélia é antes um símbolo do que criatura humana, pelo que há de imaterial beleza, graça, dança, música e poesia nos seus dezoito anos. Sem perceber as reservas com que lhe recebia as expansões e supondo que me iludiria quanto aos seus sentimentos, continuou a falar, ajuntando que a moça lhe despertara grande interesse (puramente estético, sublinhou), depois que eu, com minha confissão, lhe chamara a atenção sobre ela. Fora quatro ou cinco vezes à casa da viúva Miranda e estivera com Carmélia. Não me contou isso há mais tempo, esclareceu, porque acredita, de acordo, aliás, com as minhas declarações, que o caso já não me seduz. E insistiu nisso: aproximando-se da moça, procurando conhecê-la de perto, verificara tratar-se, realmente, de uma criatura fora do comum. Não se deve dar a Carmélia o apelativo "mulher", que com impropriedade se aplica indiferentemente a ela e a D. Paculdina, mulher do nosso chefe de Seção. Esta é uma porção bestial de gorduras, enquanto Carmélia é toda harmonias. Não disfarçando o despeito que me causava a dissertação de Glicério em torno de tema originariamente meu, respondi-lhe que, sobre essa diferença de substância entre Carmélia e D. Paculdina, haveríamos de conversar depois. Deixasse vir os anos, os cuidados, o casamento e os filhos à moça. E acrescentei que, no mais, estava fazendo literatura. Com a água fria que lhe pus no entusiasmo, calou-se. Notando-o aborrecido, recuei e pus-me a procurar um meio de reaver suas boas graças. Não o fiz por generosidade, mas para obter novas informações sobre seus encontros com a donzela. O aparecimento oportuno do Carolino, que nos veio trazer café (estávamos a uma janela do edifício), ofereceu-me ensejo para romper o silêncio e reatar a conversação. Ao servir-nos, Carolino nos pôs ao corrente de grande novidade: nosso companheiro Sepúlveda havia

uma densa nuvem de melancolia. não estava cantando. —Imagino. Sem sombra de convencionalismo. respondeu. não o pude socorrer). ficou suspenso. Não sendo versado em pintores. Contudo. como há dois anos. esta coisa fulminante: —Esquecia-me de lhe falar: conversei com ela. já lhe disse que aquilo foi brincadeira. explicando que os momentos de cisma da moça é que lhe deram. Falei. com hesitação. Disselhe que você a conhecia. de um pintor teimosamente anônimo. Mas você não me contou se a moça ainda canta. Depois de pequeno intervalo deixou escapar. Já confiante. imagino. Se não gostar. Informei-a a seu respeito. . insinuei que já nem me lembrava de meus ardores sentimentais pela moça. na última noite de carnaval. Lia o melhor que vinha da França.. mais direto: —Desamarre essa cara. ainda. Por isso não fora hoje à repartição. literárias . disse-lhe... Achando-o mais abordável. —Não é possível! exclamei.. respondeu.. sem querer. Desembaraçado. a meu ver. Glicério continuou. Fiquei suspenso. homem! Está ficando muito melindroso. sem saber que pintor mencionaria. respondeu-me que a achava simplesmente fabulosa.. com o coração batendo desordenadamente. Não se pode fazer uma brincadeira.. amuado. então." (nessa altura.. "tinha a expressão casta. a respeito de você.tirado sessenta contos na loteria. esforçando-me por fingir indiferença. Havia na casa. Não. Tinha palavras ágeis. —Sujeito de sorte. melancólica e terna de uma virgem descuidosa. Glicério.. Fui.. pelo aparte. Fazia gosto conversar com ela. Você não faria isso.. o Sepúlveda! comentei eu.. ontem. que naturalidade! Quando cismava. desculpe-me. sim. E que educação perfeita. Perguntei-lhe que coisas ela dizia. —Contei-lhe que. Gostava muito de versos.. cortei: —Ora. a garota parecera excepcional. foi despeito. A morte do pai lhe trouxera grande tristeza. as impressões. finas.. —Dou-lhe minha palavra. ainda mais aflito.. . a ele.. —É. ultimamente. —É claro. dessas que a gente vê nas telas de. Ou melhor. com voz tão bonita. sentia prazer em verificar que a ele. quando por acaso lhe ouvi uma canção napolitana. é. Receando que a evocação do incidente viesse suspender a conversação sobre Carmélia. —Você é louco? Você falou nisso? indaguei. esclareceu. Se cantava ainda. Você anda irritante..

não houvera mal. as palavras ouvidas a Glicério.. Pela forma como se referira a mim. tão extraordinárias revelações que não lhe guardo rancor. alto. que se achava atrás. depois de lhe ter dado a mão. Fiquei arrasado. provavelmente. onde havia um sofá. Cortei o assunto. Arabela. e você ficou deitado no sofá. estas notas. Estava muito triste. Sinto-me cansado e interromperei. mas era coisa sem importância. Não respondi nada. —Vai sujigar a onça? perguntou-me. Falava em "Arabela. Mas pouco depois voltou a si. Ou. Eu retinha a respiração para ouvi-lo. . Não notando meu mortal desgosto. Acrescentou pormenores: —Disse que deram apenas alguns passos. depois. como quem estivesse vendo qualquer coisa extraordinária. com um modo esquisito.. com sua incapacidade de perceber certas coisas. Quase lhe fez medo. recomendado a um dos garçons do clube. talvez se estivesse divertindo à minha custa. sei lá. Tinha um título vencido e precisava reformá-lo. com a fidelidade que me é possível. insistiu no assunto. sorrindo. e disse ao Glicério que precisava sair para alcançar o horário do Banco.. um dia. Glicério. Fez-me. como pude. Não. que não. ela disse que se recordava. Você teve um desfalecimento e ela pediu ao pai. ainda me perguntou: —Acha que fiz mal em lhe falar nisso? Respondi-lhe. olhando o salão como se olhasse para o mar. Disse-me. Ela acabou achando graça na história. O pai a informou de que. porém. Aqui reproduzo. Ela ficou com pena e quis alegrá-lo. Não sei bem que dizer de tudo isso.". num gesto de despedida.. homem! Contei-lhe apenas que você a achou linda e muito "distinta". primo de Carmélia. Isso foi quase de manhã.. que ela mostrou desejo de me conhecer e pediu-lhe que me levasse lá. a um pequeno salão. caso eu não tivesse ficado encabulado com o incidente. consultando o relógio com fingida ansiedade. falando-me que as pessoas que freqüentam a casa não são desinteressantes e que há lá agora um rapaz muito "distinto". magro. quando lhe fiz um aceno de mão. você tinha tido um desmaio. A incompreensão do Glicério atingiu a esse limite.—Sossegue.. que o levasse para fora. Notou que você a fitou. Um homem de pince-nez. meio maduro (Glicério sorriu com malícia neste ponto). com o qual eu gostaria de conversar. aqui. Depois de tentar lembrar-se do episódio. por efeito de álcool e éter.

correspondendo a imagens que flutuam no seu espírito e. as palavras teriam sido espontâneas. porém. sonhei com elas e amanheci hoje a repeti-las. Embora me deprimissem. achei que a comparação "triste como se olhasse para o mar" devia ser mesmo de Carmélia. r»(|ii Estava muito triste olhando o salão como se olhasse l\Lrl para o mar. magro.. Deve ser das tais que colecionam autógrafos. afinal. se fora meter na roda de filistinos." Dormi ontem pensando nessas palavras.. e. meio maduro. Nesse caso. Não pude. olhando o salão como se olhasse para o mar"—deu-me compensações. fez isso para me desfrutar? Por fim.". sentia prazer em esquadrinhá-las e decompô-las.... considerei que uma jovem que diz frases semelhantes não pode deixar de ter. e a moça tinha razão. O resultado não poderia ser outro.§ 46.. o da moça.. Quanto à rebuscada frase—"Estava muito triste. Que eu fosse lá. O rapaz está pondo as manguinhas de fora.. alto. ajudando-a a ridicularizar esse pobre idiota da noite de carnaval. A donzela terá um temperamento romântico e talvez pense muito no mar. eis o que Carmélia pressentiu em . sem mencionar nomes) hão de ser Delly e Ardei. o desfalecimento. Bem feito. esse parvajola. coitado) e riram-se dele. porém. necessárias para definir precisamente uma impressão. meio maduro. Procurando tirar desforra.. Era um sujeito meio maduro e dizia: "Arabela. O quadro foi realmente grotesco. Em vez de ficar no seu mundo e no seu lugar. se não tivesse ficado encabulado com o incidente. Deixaram-no deitado no banco (estava embriagado. também. Era um tanto literária.. Em vez de tomar o meu partido. ficar muito tempo nessa atitude de combate.. Um Belmiro oceânico. Acabou achando graça na história. um álbum onde colherá pensamentos de mocinhos tolos. seria rigorosamente exata. {l^Ef^M HOMEM de pince-nez. que redundava na defesa do pobre bêbado da noite de carnaval. tomei. examinando-as em todos os sentidos. quem sabe. mas. e comecei a gostar desse Belmiro que olhava para o salão como se estivesse contemplando o mar. e seus autores franceses (a que Glicério aludiu de um modo geral.. irremediavelmente oceânico. Veio-me a idéia de que a frase talvez fosse pèrfidamente construída pelo Glicério. Efeito de álcool e éter. Era de um romantismo aguado e soava ridiculamente.. A referência à embriaguez e a declaração de que acabara "achando graça na história" doíam-me como pontadas no peito. de seu círculo. UM BELMIRO OCEÂNICO... Esqueceram-me todas as mágoas.. Arabela.

os garçons de honra. apoiado a uma coluna do templo. dando uma solenidade espetacular ao acontecimento. fitei-o com pena e. com a pequena. triste e maduro contemplava o desfile. Os demais assistentes trocavam impressões. e. um homem magro. Quem será esse primo? Como será? Que veio fazer aqui? Quais serão as conseqüências de sua convivência com Carmélia? Da Rua Erê à Seção do Fomento a distância não é pequena. na Avenida. alto. não fora objeto de exame. mas também não será sua. nela.. As revelações de Glicério me proporcionaram um mundo de meditações e suscitaram-me os mais desencontrados sentimentos. dava-lhe o braço. Não será minha. realçada pelo fundo escuro da roupa. "como se olhasse para o mar". também não será você. Como Silviano. Lá se foi ela com o moço 'distinto'. vinham as damas de honra. E. como sabem. Mas. Depois. simpático. trazendo ao peito uma gravata clara.mim. denunciando-me a existência de Belmiros ainda inexplorados. se arrastava pelo pavimento da igreja de Lourdes. dei maquinalmente o sinal de parada. por que não pensei nisso há mais tempo? O fato é de importância capital. tão absorto me debrucei sobre as outras: "Há lá. Nós ficamos com o mito. Como assentam. em sondagens. vestida de noiva. "Carmélia está um sonho"." . enxerguei tudo. um rapaz muito "distinto". durante todo o trajeto. ao mesmo tempo. pensei. quando isso me seja possível. até então. Voltarei a conversá-lo um dia. Para rematar: melancólico. Tocava-se a Marcha Nupcial de Mendelssohn. pus-me a urdir vasto enredo. na hora do sim?" A um canto. dispondo os mais insignificantes pormenores. E a manhã de hoje correu assim. Um moço "distinto". foi quando eu tomava o bonde para a Secretaria que me veio. paguei maquinalmente ao condutor. O casal caminhava ao ritmo da música. todos com os passos também cadenciados. e ele. vestido de jaquetão e calças listradas. na Praça. em voz baixa: "Belo casamento. Esquisito. agora. faz-se baldeação.. primo de Carmélia. um alfinete de pérola. ao chegar à porta da Secretaria. com quem você gostaria de conversar". Bem feito. Há muitos anos que não vejo o nosso irmão Atlântico. Pois. Depois.. muito longa. "Você notou como o noivo estava comovido. às vezes tão bravo e sombrio quando bate no Arpoador. com uma sensação de vitória: "Ora. uma frase que. um ao outro". Quando. mas resignado.. sem dar conta de coisa alguma. como um relâmpago. Uma jovem extremamente bela. encontrei Glicério. A cauda do vestido. tomando-se um bonde que sobe a Rua da Bahia.. baldeação inclusive. não vi ninguém..

Acabei de visionar o seu casamento.. . —Vai morar com a viúva? . Encontrei-me hoje com o Jorge. por partes.. por exemplo. Belmiro. ainda com ar triunfante. —Que Jorge? Não sei de quem se trata.. bom. Jorge chegou apenas há uma semana. —Ah! a propósito. Se ele não tocar no assunto. primo de Carmélia. como Carmélia. primeiro.. Mas tocará. Quando o encontrei. trarei para você um volume do Ruyssen sobre Schopenhauer. não. Algum do seu clube? —Não. Seremos solidários no combate ao filistino. aparentando admiração. mas estou vendo tudo claro. jovem. Respondi-lhe que. À hora do café. Dia morno. você falava de Schopenhauer.. respondi. —Bom. —Você é fantástico! Carmélia havia de rir. disse-lhe. ele veio falar-me e se disse encantado com a "schopenhaueriana" que Silviano lhe está emprestando. a propósito de qualquer coisa. E que a mim.. Pus em dia o protocolo de processos. É rapaz "distinto". tanto quanto o gênero comporta. Se você quiser. Tirei-o do apuro. pensei. Se não me engano. pois era um grande bandido: ia casar com a moça mais interessante da cidade.. Quero dizer.... Deveria fazê-lo. esforçando-me por parecer despreocupado. para montar aqui um serviço de radiologia. e só no último caso iria à sua mesa. —Você se meteu em grandes funduras. —Casar? Você está doido? Quem lhe falou nisso? perguntou. como de costume. Glicério há de falar-me hoje a respeito desse moço.. como vai essa força? disse-lhe. por ora. sabe? Especializou-se na Alemanha. assustado. se soubesse disso. É ameno. estava comprando móveis para o gabinete. tocará. ando há muito tempo com necessidade de leituras mais sólidas. Pois o rapaz mal chegou a Belo Horizonte! —Quer apostar? Não o conheço. na igreja de Lourdes.. É verdade. O Jorge de Figueiredo. —Ora. Preciso debulhar. puxarei sua língua. enquanto imaginava meios de conduzir a conversa para esses lados. me interessaria. outros livros que Silviano também me emprestou e já está cobrando. Mas. —Olá.. Não tenhamos pressa.. na Seção. disse Glicério. observando-lhe que o primo de uma criatura. Estamos em frente de um inimigo comum. Calculei como um astrônomo.—Olá. Queria que Glicério tivesse a iniciativa de me procurar. não é "a propósito". Formou-se há pouco tempo. à hora do café. seria sempre "a propósito". —Então..

Não. E casar-se-ão mesmo na igreja de Lourdes. "Nenhum desejo neste domingo.—Não. a manhã deve estar alegre e o parque cheio de gente. em frente da igreja? O melhor é dar uma volta e não criar este problema. Uma banda militar desce . Ora bolas. e ela anda. em boas condições. nenhum problema nesta vida". Tomo o bonde. o Jorge. no Instituto. a ver a rua. Lá fora. Pus-me à janela. que a velha traz silenciosamente. Talvez possamos trazer a mana para casa no fim desta semana. Os jornais anunciam um encontro sensacional. Veio-me a idéia de sair um pouco. na cidade. assistir à cerimônia. experimentadas pela pobre irmã. Viveu sempre de São Paulo para o Rio e do Rio para a Europa. quando é vazia como neste domingo. ou não. Com ele estive duas ou três noites a bebericar. e ainda agora me ocupa. Muito viajado. dar um giro. quase despreocupadamente. para espairecer. Não há dúvida que se casarão. Por que não fazer o mesmo? Devo. Só agora veio a Minas. entre bocejos. vestindo o velho jaquetão preto e levando um chapéu-de-sol ao braço. Cá dentro. Quando o espírito se me torna. apenas enquanto se instala convenientemente e se adapta mais ou menos ao meio. o sapateiro. Andei lendo. Mudamos. pela tarde toda. Enquanto eu dormia. § 47. É admirável esse otimismo que a faz esquecer-se da longa série de crises e melhoras. NENHUM DESEJO NESTE DOMINGO. para ouvir a missa das cinco. Emília devia ter estado na igreja. procuro o Florêncio. o tema foi o mesmo. Posso compor meu olhar oceânico para. haverem as duchas e os remédios produzido bom efeito. Emília sempre acredita. por insistência dela. Tomo o café. sucessivamente. de assunto. Com as notícias que lhe dei sobre Francisquinha. ainda moça. talvez o futebol. ia à missa. parece muito animada. porém. a moléstia mental se manifestou nela. Mas talvez seja melhor armar a rede no quintal e folhear revistas velhas. à tarde. Leio o Minas que deixou sobre a mesa. que se casem e sumam. definitivamente. E a vida é quase boa. Está lá. Homens e mulheres sobem a escadaria da igreja de São José. Contei-lhe que o médico me disse ontem. Dei para vidente. A ciática passou. ao ver terminada uma crise. desde que. tirar o chapéu. há uma semana. depois. Depois. disfarçado no meio do povo. Finalmente resolvo. andei perambulando. que a Chica ficou boa. Outra coisa não deveriam fazer o Prudêncio Gouveia e Beppe. NESTES últimos cinco dias não toquei nestes assentamentos. assim. desço na Avenida. leve. Giovanni. como diz o poeta.

Nenhum desejo neste domingo. ao pé do túmulo do pai. não encontrou outras palavras. convenhamos em que cada um exprime o seu sentimento como pode e que. foi que me decidi. Qual. impressionou-me fortemente com o olhar frio que me deitou. FINADOS. para exprimir à viúva sua grande dor: "Console-se. chamaremos o velho Giovanni para um dedo de prosa. Lembra-me que. Aproximei-me do local e fui deitar. Ah! é verdade. eis a questão. não tinha o ar amigo nem a expressão honesta do coveiro caraibano." Mas. Para dizer verdade. ou não ir. amigo que era de todos. para um coveiro consciencioso. Mas. NÃO TENDO nenhum defunto familiar no Bonfim. poupando. em anos anteriores. O coveiro não se assemelhava em nada ao de Vila Caraíbas. Sem que nada me recomendasse. O coveiro da quadra 55. depois. Passando. vi que se enterrava alguém. voltaremos para casa. aos seus. Homem sombrio. toma-se um refresco no Bar. ou para acompanhar algum amigo. rumo à estação da Central. o chefe da Seção pediu-me que comparecesse ao desembarque do Ministro. Algum político importante deve estar a chegar. À tarde. abeirando-me de um ou outro retardatário par de namorados—para ouvir-lhes a conversa —ou examinando alguns mausoléus e inscrições. o melhor é. informado da morte de um compadre. segundo o padrão habitual. senão estas. Depois. § 48. nada se poderia prometer de melhor. minha pá de terra ao morto. à parte nova do cemitério. Defunto metódico esse que deliberou morrer no próprio dia de Finados. às preferências daquela pessoa de tão fúnebre ofício. seu olho mole. do cemitério do Bonfim.. não deixou de fitar- . nenhum problema nesta vida. logo pela manhã. Ir. pus-me a andar a esmo. senti desejo de visitar o cemitério. afinal. esquisito.. Domingo bom e alegre. também. não estando muito premido pela necessidade de vê-la. Ali chegado. poucas vezes ali fui. Ia por esporte. arranjarei uma terrinha virgem para ele. escreverei neste caderno que não era tanto pelos seus hóspedes: imaginei que talvez encontrasse Carmélia. no dia de Finados. Neste Finados de 1935. ver morenas que não nos verão. Depois. quando já escasseavam os visitantes. a um defunto. fiquei o dia todo a hesitar entre ir e não ir.marcialmente a Rua da Bahia. do que terra virgem. que enterrava as pessoas com um pesar que se adivinhava sincero. suponho eu. lá no Parque. abriremos a rede. visitas extraordinárias ao cemitério.

assim. O Senador prestou outras informações. era. Que não entrasse em indagações sobre se a greve surtiria. § 49. fazendo-as gemer. efeito. Em vista de tais documentos. pois os homens sem trabalho. O investigador. ou Almada. Que se a greve falhasse e os operários fossem postos no olho da rua. A uma hora dessas. relações de dívidas. FUI HOJE à casa de Jandira comunicar-lhe que a polícia deliberou devolver a Redelvim o seu Diário. resolveram manter Redelvim sob vigilância constante. Um calafrio correu-me pela espinha. Nesse documento Redelvim concitava o companheiro a agir. uma cópia de carta enviada pelo nosso amigo a um estudante Lousada. que não foram boas. mesmo assim. Por que me encararia assim. Realmente. dizendo-lhe que não criasse problemas de consciência." Por último. De acordo com o que me repetiu Glicério. seu manguarão!" Havia qualquer coisa de triunfante e de perverso naquele olho aguado. chamou este último à sua residência para o cientificar de que haviam sido expedidas ordens para isso. "Desconfia o Senador. com ar agoureiro? Parecia dizer-me: "Não demorarás a vir também. nem mudasse de residência. acharam indícios de que fora um dos promotores da última greve de operários. teve também a incumbência de transmitir-lhe recomendação expressa do delegado. e deixei o cemitério com o espírito opresso. ou não. alcançado os seus objetivos. apontamentos diversos. ajuntou. sem notificar a polícia. Que o homem de ação não deve ter escrúpulos. que a polícia conservou. que lhe devia levar o Diário. teria ela. até de uma geração. ou mesmo por isso. Glicério me disse que entrou em tudo isso apenas em atenção a . As sombras se insinuavam aqui e ali. Em consideração ao Senador. a carta. e este fora encerrado havia mais de quatro anos. mesmo. o delegado mostrou-lhe.me um só momento. Mas na correspondência e em papéis avulsos. Que a miséria e o sacrifício. Era já lusco-fusco. que não o soltaram senão para lhe acompanhar o desenvolvimento das atividades. Consideram Redelvim bastante comprometido. seriam compensados pela felicidade das gerações futuras. e um vento frio e fino soprava as casuarinas. não encontraram no Diário senão poesias. terminada tragicamente. enquanto estive à beira da cova. seriam outros tantos agitadores. que se incumbiu do caso a pedido de Glicério. O Senador Furquim. o Bonfim é menos convidativo que de costume. memórias. JANDIRA SE MOSTRA PRUDENTE. pois o delegado é finório. no sentido de que não se afastasse de Belo Horizonte. acossados pela necessidade.

Fiquei satisfeito com suas palavras. mas reconheço que Redelvim o tem hostilizado bastante. nada lhe acontecerá. sem convicção alguma. disse-me: —Olhe. viesse. com ar brejeiro: —Prolongada salva de palmas. Suas mudanças súbitas. O orador é vivamente cumprimentado. cumprimentou-me com ar alegre. tem a mesma graça leve e a mesma carne ágil dos dezenove. Jandira se mostra prudente e não se tem envolvido em complicações. surpreso. se cometam erros maiores. Além disso. era homem atencioso. com certeza. Quando voltou. vive falando mal de mim e do Silviano. de sua boca—ou simplesmente movida pela sua natural versatilidade. mas acredito que anda decepcionado com os antigos companheiros. também. Ficou apreensiva e manifestou o propósito de ir procurar o delegado. Arranjou. Jandira fora dar uma volta na Avenida com a amiga nova que descobriu: uma professora já meio entrada em anos que se instalou na mesma casa de cômodos. Além disso." Glicério foi duro. Conhecia-o. Não lhe exprimi esta satisfação. Jia cana. receoso de que se melindrasse e. retrucou. reacionários. Somos criaturas sem fé e pensamos demais. Aos vinte e cinco anos. que eu ouvira. a assumir atitude oposta. Belmiro.. falou.mim e que não se interessava pelo Redelvim. ou porque tivesse julgado o discurso cheio de chavões e quisesse anular o efeito das frases mais ou menos convencionais. sem que eu insistisse no assunto. Não tem mais ligação com o Partido.. Respondi-lhe que seria bom isso. Mas estava em maré de confidencias e. andando para lá. mas talvez fosse inútil a tentativa. pois a polícia anda rigorosa. Dei-lhe conhecimento das informações prestadas pelo Senador. Tive de esperar um pouco. Confio na evolução social. Depois. Nesse negócio da greve entrou por lirismo. em nossas conversações. Qualquer dia a idiota da Jandira estará. O mundo está errado. algum namorado nestes dez dias em que tenho estado ausente de sua casa. Redelvim conversou comigo longamente. que se agüente. seu jeito provocante. mas receio que. na expectativa de qualquer coisa. que tantas vezes desaparece a meus olhos. E que nosso amigo não fará nada. assim. você vê como tudo anda embrulhado na Rússia. Temos problemas que nenhum regime resolve. por picardia. tenho pensado que o papel de indivíduos como nós é conter os impacientes. sua mímica muito feminina me fazem lembrar a Jandira mulher. chamando-nos imbecis. para cá. apelando para a violência. É orgulhoso e não confessa. Poderia talvez fazer a felicidade do . —Mas é um absurdo. a fim de lhe pedir um pouco de condescendência no caso. "Ele se meteu em embrulhos. provavelmente.

quer converter a casa em centro espírita e fala em voltar. nem isso me preocupou. limpa. Não sei para onde irá uma. ESCREVO à meia-noite. que D. com esta preocupação. Glicério não voltou a falar-me sobre o primo de Carmélia. no Instituto. pretender discipliná-lo com teorias rígidas. Josefa lavadeira. anteontem. Redelvim? Como me ocorreu isso? Excelente meio de dar cabo de duas personagens difíceis: casá-las. da casa de Jandira. depois de ter andado muito pela cidade. alimentada. E há. Silviano anda sumido. e os caminhos da vida são mais complicados. UMA SEMANA QUE PASSA. mas não lhe sinto as chamas. um pouco despeitada por haverem os médicos conseguido o que não conseguiram seus amigos espiritistas. Enfim. quando a mana piorar. Há muito não tenho uma semana assim tranqüila. pensamos demais.. escrúpulos de espírito e de sentimento que não aceitam radicalismos revolucionários. Tenho lido alguns livros do Silviano e consegui liquidar o Homero. Hortênsia nos arranjou. Talvez o amor continue a lavrar manhosamente. Fui buscá-la. uma contínua suspeita de que é desconhecer a natureza do homem.. Escreverei também que não me falta simpatia humana e muito me preocupam os males do mundo. saí. Mas há. Como cedi uma vez. Depois de tomar um café. ou do seu amigo Redelvim. de novo. a não ser a volta de Francisquinha. E aqui a escrevo. NADA de novo nesta semana. A injustiça social me dilacera a sensibilidade. Pensamos e sofremos. em mim. nem outra. como diz Jandira. e ainda me acho um pouco transtornado pelo que me ocorreu à tarde. Vejamos por quanto tempo poderemos conservá-la assim. Mas isto aqui não é romance. Não é meu . com os seus homens. § 50. entra-me no quarto. JÁ ANDAM JUNTOS PELA RUA. § 51.velho mancebo que escreve estas notas. como fogo de monturo. dentro e fora de casa. sobretudo. Emília anda radiante: volta e meia. para me contar qualquer coisa que a Chica falou. pôs-se a resmungar que Francisquinha só há de ficar inteiramente boa é com as rezas da "sessão". Está outra pessoa: arrumadinha.

Jorge de Figueiredo. refletida nos espelhos da parede. a tomar chope. Segredou-me. me davam a impressão de que ela estava notando a insistência do meu olhar. para jantar. Insistiu em minha permanência. Eu respondia por palavras vagas ao que me dizia Glicério e este deverá ter notado minha ausência. Fiquei medrosamente a fitar a imagem de Carmélia. O chope me levantou o moral. das ruas transversais. sem ânimo de sequer mexer-me na cadeira. a epiderme branca e delicada e os cabelos castanho-claros. Glicério se levantava e saudava pessoas que entravam. pouco ou quase nada percebi do que se passava em torno de mim e do que Glicério dizia. assim tão mesureiro. Ao sorvete prefiro o chope. Devia estar com uma cara de alma do outro mundo. Voltaria logo. Vi nisso uma tábua de salvação e respondi-lhe que. E saí rápido da sorveteria. apresentar-lhes cumprimentos.hábito sair com Glicério depois do trabalho. sempre transido de temor cada vez que os seus olhos. Andei a Avenida a passos largos. e meti-me num bar da Rua Espírito Santo. e o chope só pode ser tomado com a devida unção nos bares. ia fazê-lo imediatamente: ele poderia ficar à vontade. Emília já está mais ou menos habituada à minha impontualidade e guarda-me o prato feito. a viúva e o Dr. dizendo que não poderia deixar de ir à mesa da viúva e da filha. voltando logo para a rua e tentando assistir a uma sessão de cinema. pegando um jornal e fingindo mostrar-mo. apanhando o chapéu e dizendo-lhe ter um encontro urgente com Redelvim. Estando de costas para a rua. menos freqüentados. tendo necessidade de sair. Pediu-me licença para se afastar por instantes. Acabei por me interessar: . num gesto disfarçado. Finalmente. não vi essas pessoas. Fiz um esforço sobre-humano para ocultar minha agitação e apenas lhe disse um "Ah!" distraído. observei que. que os recém-vindos eram Carmélia. que é menos transitado. ondulados. Mas o demônio as arma: não sei por que desci hoje com o rapaz e entrei numa sorveteria onde se reúnem as elegâncias de Belo Horizonte. Daquele momento em diante. e pude vir para casa. ainda que atrasado. supondo que seu propósito me houvesse agastado. nem costumo freqüentar as sorveterias da Rua da Bahia ou da Avenida. sem olhar para os lados. Resumi a conversa. através do espelho. com teatral mesura. pelo lado do Correio. onde estive mais de duas horas. dirigindo-se para um ponto ou outro. Embebi-me na sua contemplação. Comi às pressas e sem vontade. trouxe-me de modo brusco à realidade. O luto fechado lhe realçava singularmente os traços finos. e perguntei-lhe a quem cumprimentava. Pouco depois que chegamos. pois sentia que o sangue me tinha fugido do rosto.

Noto que sua simples presença tem ação sedativa. por isso. O resultado da extravagância foi uma forte gripe. Não me tenho afastado do seu quarto e nada ou pouco dormi nestas duas noites. que me levou a um café e se pôs a contar o modo por que empregou o dinheiro tirado na loteria. Recusou a muitos colegas empréstimos de dinheiro. acordada pelos miados de um gato.passando muito mal.. À saída. agitada. uma força qualquer que faz bem e . com relutância. Não era tolo para pôr fora o cobrinho. EXTRAVAGÂNCIA DE HÁ TRÊS dias não saio de casa senão para ir à farmácia. Voltei para casa.. presumivelmente. dizendo que não podia estar ali. que provocava grandes risadas do público. Emília me despertou. Esqueceu-se de me dizer que gastou cinco contos com uma espanhola. e tanto Emília como Francisquinha o estimam muito. pois Francisquinha está . já tranqüilo. pondo-se de cócoras a um canto do muro. É um homem excelente. UMA FRANCISQUINHA. mais ou menos conformado com o casamento de Carmélia. Quando eu a supunha bem melhor. Fagundes. Pois o casamento se dará. do seu quarto. Parece possuir nas mãos um magnetismo especial. Voltou. não. que é o médico da casa. pusemo-nos a procurar a pobre mana e a encontramos naquela postura. sob uma chuvinha miúda. cá estou a escrevinhar. Em cada Banco depositou dez contos. pois havia uma mula-sem-cabeça dando coices debaixo da cama. § 52. com toda a certeza. encontrei Sepúlveda. pois. Ficamos acordados o resto da madrugada. e que levou. para o leito. fez uma grande extravagância. A pobre mana está presa ao leito com febre alta. O velho está apreensivo. abri um ou outro livro. Chamei ontem o Dr. Saiu de madrugada. quase despida. Tosse com violência e sente dores agudas nas costas. no caso de um dos Bancos quebrar. e. até que Emília. pensando na possibilidade de uma pneumonia. E ali ficou durante mais de uma hora. desde anos. ansiada.era uma comédia leve. tentando acalmá-la. E os vinte restantes foram despendidos em reparos na casa e compra de terrenos. não perderia senão aquela quantia. uma surra de madame Sepúlveda. ou comprar uma coisa ou outra. finalmente. a seu modo. se levantasse para o pôr fora de casa e desse por falta dela. Já andam juntos pela rua. e foi para o quintal. Mas comigo o caso era diferente: se eu quisesse era só falar.

E a sombra de Francisquinha a prende mais ainda. Tratei-a sempre com desvelo. porém Emília não quer. Em sua pouca luz. quanto a Francisquinha. Dá-me vontade de sair desta casa. Levei-a até lá com Giovanni. que me parecia humorístico. sempre que houvesse qualquer novidade.. Jandira e Sepúlveda. sempre que pode. Vejo agora quanto estava preso a ela. Emilia tem revelado qualidades excepcionais de enfermeira. Florêncio. Recomendou-me estar atento. para nos auxiliar no tratamento da irmã. fraca como é. OBRE Francisquinha! Lá se foi. dá-me. É mais forte. possui invisíveis pontos de apoio: mostrou uma singela grandeza. Não resistiu sete dias. Vestiu-a. grande . agora. baqueou com a pneumonia. não resista à moléstia. e ela se afeiçoou às coisas e ao meio. Prudêncio. realmente. Penso nos gestos serenos e simples de Emília. Sua rudeza cedeu lugar à ternura. Conversa pouco. que pertenceu à velha Maia. e lá se acham o velho Borba. O corpo velho. Emília está mudada. como de costume. Pobre mana. Receia que.. mas permanece a meu lado. que assiste os coitados. a mana. pretextando arrumar uma ou outra coisa. e chamá-lo. apegando-se muito a mim. perguntando-me se algo me ligava. se for preciso. Ofereceu mandar-me a Joana. a velha Maia. sempre dizendo: "Deus chamou a coitada. FORTALEZA DE EMÍLIA. àquela deformação do espírito. Emília encontra uma paz que não atinjo. Deus chamou a coitada!" Pôs-lhe ao peito um crucifixo de ferro. Glicério. Já aqui estamos há doze anos. Redelvim. Como se transformou nos últimos momentos! Encolhia-se feito uma criancinha doente e fitava-me com olhos tão compreensivos. Que felicidade poder pensar que Francisquinha foi para o seio do Eterno. Emília foi mais forte do que eu. Donde lhe virá tanta força? Talvez de seu Deus que tudo explica. desnutrido. mas notou minhas preocupações e não disse ao que veio. Silviano esteve ontem aqui em casa. todos. Deus bom.domina os males. todos. § 53. Faz dois dias já que a mana está no Bonfim. agora. O velho papagaio. Silviano. arranjou tudo. que se tornou mais sombria. Trata Francisquinha como a uma criança e é indulgente para com as suas impertinências. vindo a pneumonia. mas olhava-a talvez com esta quase neutralidade com que se contempla o que é de todo estranho a nós. àquela caricatura da razão. com fisionomia resignada.

tenho a impressão de haver saído de longa noite de insônia.pena. embora não entrasse na Capela. Não queria convidar ninguém. Como é casto este amor! Nenhum desejo. Já não reajo contra as visitas dessa doce imagem. Soubera da morte de Francisquinha e viera consolarme. § 54. ou mesmo para pensar. como que alheio a tudo.. na atmosfera moral da casa velha. horas infindas. Carmélia apareceu-me com freqüência. ora encarnada em Camila e integrada na paisagem caraibana. ela me pertence. sentado ao alpendre da casa. casará. até ao momento em que Emília veio trazer-me um copo de leite. para não ser vista. como em uma tela esfumada. terá filhos. inatingível. talvez enfraquecido pelas demoradas vigílias e pela má alimentação. Uma tarde. a maior parte da comida que lhe damos. Quase sempre deixa. OUVIMOS hoje missa de sétimo dia pela alma de Francisquinha. deu-me um rápido abraço e desapareceu. Depois do enterro ainda não saí. mas no âmbito da fazenda. e as imagens se confundiam. na lata. e o tempo não exercerá sobre ela sua ação desagregadora. Não conseguia fixar a atenção em coisa alguma. circulando por entre meus fantasmas. em cuja sala de jantar este mesmo relógio de repetição assinalava as horas de um dia grande. e a visão desapareceu. e passa o dia todo a cochilar. tenho a impressão de que estou vivendo não em Belo Horizonte. A Carmélia real. com o corpo extremamente fraco. Só as feições se mostram nítidas. um pouco. mas Jandira se informou do local e da hora e avisou os amigos. Deve ter sido um pesadelo. pelo Parque. Anda decadente. Emília assistiu à missa das cinco da manhã. Experimentei uma sorte de inibição para escrever. o que a torna mais leve e lhe realça o ar virginal. ler. como no domínio do sonho. Sempre me apareceu assim. Redelvim também compareceu. cheguei a vê-la transpor o portãozinho de ferro e aproximar-se de mim. sem contornos precisos. Esperou-me à saída. poucas vezes peguei neste caderno e apenas duas escrevi. Nessa longa noite. Depois de ter andado hoje. cismadores. Durante estes dias em que tenho estado encerrado. nenhuma representação sensual. concentrando-se nos olhos grandes. Conversamos muito tempo. porque está fora dos domínios do tempo. Mas a que construí será sempre minha. ora sob o seu aspecto real. CASTOS AMORES. .. perde a plumagem. será de outro. grande. Associei-a à minha vida. Fechado dentro de casa. Estava de vestido branco. as coisas se misturaram no meu espírito.

mas a verdade é que esses sentimentos são de natureza eterna. Jandira dirigiu-lhe a palavra nervosamente. mas a carta a que aludi o comprometeu aos olhos da polícia. quando eu saía para sua casa com o mesmo objetivo: Redelvim foi preso. Sabíamos que Redelvim estava ultimamente alheio às atividades do Partido e nenhuma ligação tinha com os conspiradores. aflita. entravam. Um pouco intimidada. a não insistir. olhando-me com insistência. senhorita. —No momento é impossível. Neste instante. Pela madrugada. JANDIRA veio procurar-me. Foi sufocado o levante.. entre policiais. então. Vá tranqüila para casa. a soltura. Seu amigo será bem tratado. nada tinha com os acontecimentos. havia rebentado uma revolução comunista no Rio. Havemos de ver isto. § 55. que lhe fosse permitido visitá-lo. Apenas ficarão detidos. não se sabe ainda se o movimento surgirá em outros pontos do país. aliás. enquanto se fazem investigações. Aconselho-a. Só depois de duas horas de espera. e é inútil situá-los em outras épocas. Ninguém receberá maus tratos. a fim de lhe explicar a situação do amigo e pedir-lhe. Hum. e a polícia está prendendo todos os elementos suspeitos. Vivem-se horas ansiosas e a cidade anda cheia de boatos... Não se pode negar o homem. Combinamos fazê-lo imediatamente e dirigimo-nos à Polícia Central. após duros combates cujos pormenores os cartazes dos jornais ainda estão registrando febrilmente. ontem. com esse propósito. a todo momento. conseguimos falar com o homem. dizendo que ali fora para esclarecer que Redelvim. Conheço-a. com a notícia das sublevações de Recife e Natal. Desejava que fôssemos juntos àquela autoridade. pode comprometê-la perante meus colegas. REDELVIM VAI PRESO. Chegada a nossa vez. mas sua presença aqui. depois de termos vivido dois dias de inquietação.Também não reajo contra o sentimento romântico que me domina. e está incomunicável. não obstante as aparências em contrário. Jandira pediu. se possível. Por que esta preocupação de parecer o que não somos? Ponham-me a data de 1830. . sei que não é suspeita. Interrogava numerosas pessoas que. respondeu. Os que não estiverem envolvidos serão postos em liberdade. Jandira veio propor-me um entendimento com o delegado seu conhecido. Os prisioneiros vão ser ouvidos com toda a atenção.. —Hum.

em seguida. ao sair. para avisar Emília de que teria de demorar-me fora e talvez voltasse à noite. Foi pontual e procedeu corretamente em casa. Deixei-a em casa. assegurei-lhe que voltaria. pois repreendeu-me: —Parece que já esqueceu da Chica. desejo que volte aqui. Calculei que expedia ordens para que me vigiassem os passos. .. mas cortês. o delegado. Com certeza supôs que eu ia a alguma pândega. ter ali deixado um bilhete para Glicério. dentro do prazo. que o delegado chamava um funcionário e lhe dava instruções. Não tentou destruir papéis. por não ter dormido esta noite. apresentei-me ao delegado com uma convicção: a de que. ENTRE LUNFAS. Talvez tivesse de fazer pequena viagem com ele. para tranqüilizá-la. aviso-o de que nada lhe adiantará fugir. perguntou-me o que acontecera.. para evitar dúvidas. como outros. Com untuoso sorriso profissional.Diante disso. Se for detido. deliberamos retirar-nos. Procurei. vim rapidamente à Rua Erê. desfechou-me à queima-roupa: —Estou bem impressionado com o senhor. Percebi. É sujeito antipático. —Quanto ao senhor. Não o conheço. que o delegado apenas me pedira voltar à sua presença. depois de.. § 56. Vou fazê-lo pormenorizadamente." Sinto-me cansado. ontem. Embora inquieto pelo que me poderia acontecer. Fora da delegacia. passando pela Secretaria. e retirei-me com Jandira. Fá-lo-ei amanhã cedo. e eu ia fazê-lo com Jandira. Leve a moça à casa e apareça-me dentro de uma hora. peço-lhe que olhe pela mana e obtenha que o Carolino vá dormir lá em casa. O delegado recebeu-me razoavelmente. Disse. havia de ser desfeito o equívoco. Que o "Chefe" precisava de mim. disse. a fim de prestar depoimento sobre Redelvim. à noite. nos seguintes termos: "Suspeitam de mim. Jandira. aproveitando esta manhã sossegada. Não se preocupasse com alguma demora: eu já tomara providências para que o contínuo da Seção viesse dormir em nossa casa. PROMETI-ME. muito pálida. dentro de poucas horas. que relataria hoje tudo o que me aconteceu na Polícia. Assustado com o imprevisto convite. Fui chamado à polícia. mas. quando o delegado me chamou à parte. e não poderei escrever agora o que se passou comigo.. pois teremos meio de encontrá-lo. Assegurei-lhe que não. se equívoco houvesse quanto a mim.

um pouco tranqüilizado pela acolhida. observou-me de modo impertinente. que este levasse. que serão tomadas por termo. um tanto inquieto. —Sua explicação é aceitável. pedi arranjasse as coisas de forma que não atribulasse a velha. meu companheiro de Seção. Poderiam tomar informações com Fulano. Pelo tom de suas palavras. Talvez não existam. destacasse.. enquanto não se der uma busca em sua residência. se fosse possível. É comum haver esquecimentos. de chofre. pertencia ao serviço público. etc. respeitava o regime. Redelvim as vezes dava meu endereço para que lhe fossem enviadas cartas ou encomendas.. Farei o que for possível. naturalmente. o investigador Parreiras. note bem. que. respondeu. Pode ser que os haja e tenham sido esquecidos. cheio de gente. Mas precisamos investigar. —Mas. —Vejamos. prosseguiu: —Pensou que ia sozinho? Um investigador o acompanhou durante o trajeto e o observou. Beltrano. meu conhecido (o que se interessou pelo caso do Giovanni). Assim a velha não se assustaria. sem idéias políticas. Vejamos. onde estão os que aguardam depoimento.. em sua companhia. ainda.. Pode fazer suas declarações. Durante os segundos em que me demorei a responder. Pondo-o a par da situação especial de minha casa..Vendo minha surpresa. o acadêmico Glicério de Sousa Portes. sem indagar que coisas continha. Posso reproduzir a conversa que teve com uma senhora velha que mora lá. O policial levou-me pelo braço. imprevidências. por seu intermédio? perguntou. de uma feita. Redelvim.. Olhou três salas e achou-as repletas. que eu era pessoa inteiramente inofensiva.. para a diligência. e na interpretação que poderia dar à busca. indicando-me com um gesto de queixo. Digo "talvez". pela janela. fiquei certo de que assim procederia. chegar às mãos do destinatário. Como explica o fato de mandarem livros extremistas ao sr. quando entrou em casa. etc. Os investigadores de guarda disseram-lhe que não havia lugar para mais ninguém e que os "pássaros" já . Fí-lo.. recomendou a um policial. e. Pensei logo em Emília. quando contei o que se passara. —Conduza-o a uma das salas. Então. Sou obrigado a detê-lo. disse o delegado. o pacote registrado parecia de livros. fazendo apelos à memória. eram livros extremistas? Em suas freqüentes mudanças de pensão. por um corredor comprido. Cessou a pressão.... Declarei. Interpreto favoravelmente o fato de não se ter demorado para se desfazer de documentos incômodos. Vasculhei a memória. Lembrei-me de que. fitando -me dentro dos olhos.

disse. então.. Percebi que estava em meio de larápios e a experiência despertou-me a curiosidade. A cana é isso. deixemos de luxinhos. maltrata de "manguarão". A combinação "lunfa de penosa" era-me.. mas não dou para isso. mas quis ver a morena.estavam reclamando contra isso. Banco o vigário só quando não encontro otários para punga. e os tiras estavam acampanando a grinfa. acolheram-me com chufas. Mas sufoquei a raiva e entrei na sala de janelas gradeadas.. Pedi que não o fizesse. Saído o investigador. É a segunda pessoa que me trata. com orgulho profissional. Tão surpreendido fiquei. pelas onze da noite.. estranha. Você vai é mesmo para as grades. onde havia dois presos. Sou punguista. veio ver a nega e foi encanado. velho. Até me haviam ajudado a . Mancou agora. puseram o senhor no meio desses malandros! Vou contar ao delegado. Já corri os Estados todos.. respondeu-me o baixo. prosseguiu. Com eles me distraí bastante até que.. porém. para o outro. —Pois olhe. Que seria "lunfa de penosa"? Propus-me apurar isso. E continuou a contar sua vida e aventuras. Um me dirigiu a palavra: —Não ache ruim. . —Mais amor e menos confiança. Bem que tinha vontade de fazer um servicinho de vez em quando. A sodade apertou. meio impaciente. o investigador Parreiras veio procurar-me para me levar à presença do delegado. ganhando a confiança dos marotos. de vez em quando aparteado pelo outro. ou melhor. Não afano a carteira. rindo-se. Namora. mestrepunguista. não. fingindo zangar-se.. Já fui encanado mais de cinqüenta vezes. —Está com pinta de lunfa de penosa. menos Goiás.. não? Os jornais estão cheios. mesmo. não tem sopa. pessoar! Depois se apresentou: —Não ouviu falar de mim. que o mau humor se desfez. e "lunfa" é ladrão.. O homem fitou-me. gordo. —Qual nada! falei. jeito. —Mancou. Mato Grosso e Amazonas. Fomos juntos à casa da pequena. Ia para a Bahia. Não valia a pena. —Seu Belmiro. disse o magro. indicando-me o companheiro magro e alto: Este é o Manequinho. Tiro só a grana e deixo o couro para o ota não dar o grito. seu manguarão. Fui preso por causa dele. Mas isto é doce de leite para mim. de cicatriz na face. e isso me exasperou. e falou: —Ora. Na gíria policial "pinta" é aparência. disse.

em que as transformações se possam operar sem que sejam necessárias as revoluções. Surpreendeu-me agradàvelmente a presença de Glicério e Silviano no seu gabinete. precisávamos de provas. disse o homem. os três cadernos em que venho deixando notas. perguntei-lhe qual era a minha situação.. de um ano até aqui. prosseguiu. Depois. § 57. Acha que viveremos sempre de erro em erro e que. socialdemocrática. e o senhor deve . imaginando que o delegado fosse ler páginas dos cadernos na presença de Silviano e Glicério. Cá estão as suas "memórias". Respondeu que ficasse tranqüilo: parecia boa... em suas mãos. prefere os regimes brandos. Eram onze da noite. Por isso. O momento não é para condescendências. Correu-me um calafrio pela espinha. minhas idéias se comportavam bem dentro da Constituição liberal-democrática. Apesar das declarações do Senador Furquim em seu favor. continuou. nada justifica o sacrifício de sangue. no seu Diário.. Meio mundo se movimentou por sua causa.passar o tempo. —Sim senhor. Olhei de soslaio para Silviano e Glicério: era de malícia a expressão deles.. continuou o delegado. —Foi o que o salvou. esclarecem sua posição. VAI. emendou. assumiu ar professoral e disse que. intimidado que me achava pelas circunstâncias. com o seu enjoativo sorriso. que não passa de um "anarquista lírico". Nossa Constituição já acolheu numerosos princípios da socialdemocracia. "Ou melhor. portanto. Com aflição e vergonha vi. . —Tive de me enfronhar nessa maçaroca. pois o Chefe de Polícia mandou examinar o caso com urgência. São dez da manhã e devo preparar-me para ir à Secretaria. o mais que houve na delegacia. a folhas e folhas. o senhor acha. Depois. As declarações íntimas. pois suas confissões (novo sorriso irônico) têm cunho de sinceridade.. mas não os cumprimentei senão com um gesto de cabeça. afinal. Veja se entendi bem. À noite relatarei o resto da aventura." —Quanto ao seu amigo Redelvim. Devo levar isso em conta. Sublinhava as palavras. esforçando-se para brilhar: é um céptico. AGORA. PARA ALGUMA COISA SERVIRAM ESTAS NOTAS. Iríamos ver.. tirando partido do meu embaraço. quando o investigador me levou ao delegado.

Mudou de assunto. Seguindo comigo.. emprazando-me para um encontro amanhã. Acompanhara o Parreiras e um estudante. Mas. Ele. que julgou necessário solicitar os bons ofícios do Senador Furquim no meu caso. Silviano pediu que eu lhe mostrasse. mande-me um exemplar. mas profundamente. um pouco. de novo tornando ao seu jeito presunçoso e cínico: —Bem. Parece necessitar de mim e querer dizer-me confidencialmente qualquer coisa. Gostaria de vê-lo mais ousado.conhecer bem o homem. . também.. Lá fora. a "peça". Se publicar as memórias. talvez eu tivesse de ficar mofando na grade. Pedimos-lhe desculpas pelo equívoco. atuam lenta. E. quem sabe. O senhor erra julgando-o de todo inofensivo. Silviano não insistiu na zombaria. pondo o dedo nos lábios. O senhor pode retirar-se. encontrei bom entretenimento durante as horas de detenção.. que eram notas para uso íntimo. declararam aqui ter vindo para arrolar os bens do inventário de Francisquinha. com o queixo.. que instintivamente fiz... —Enfim. Separou-se de nós. Seu Diário me interessou. Respondi.. Entretanto. que o senhor é platônico em demasia. meti os cadernos debaixo do braço e saí. interrompeu a conversa e ficou a rir. então. Depois. Já conversamos bastante. os senhores são literatos e sabem o que lhes convém. mas o bofetão ficou na mente. teremos de conservá-lo algum tempo. os cadernos que estavam sob o meu braço. Falei-lhe que o caso estava encerrado e que. Glicério não teve coragem de fazer o mesmo. O delegado fora atencioso. pouco adiante. assistiu à busca nos meus papéis. depois de uma pausa. sendo grande o número dos detidos. Notando minha angústia e o gesto. encabulado. disse. aludindo à embrulhada em que o Redelvim me meteu. Mais direto na questão da. Glicério contou-me. O ímpeto meu era de esbofeteá-lo. e tomei a mão do calhorda. um conselho. sobre os espíritos fracos. porém. Abusando de nossa tolerância. irritado. estendendo-me a mão em despedida. A fim de tranqüilizar Emília. se me permite. apesar dos pesares. tímido.. à espera de solução. Glicério.. e foi uma violência do delegado o ter-lhes posto os olhos. Bem. em companhia de Glicério e Silviano.... com a pequena. funcionário da Polícia. para indicar que o assunto era reservado. Ou. apontando. de resto. pois. Noto. . que deviam ter achado a cena muito cômica e por certo me consideraram um pobre-diabo. Justamente esses é que constituem o nosso maior problema.... e que isso serviu para apressar as investigações.

Ficamos a conversar até às duas da manhã. Os noivos. A velha. no ponto de bondes. com o distinto médico-radiologista Dr.-Tento analisar e explicar os sentimentos que a notícia do noivado de Carmélia me despertou. criou-lhe estima. ontem.. dizendo que achara bom obter aquela declaração. contou-me. para colher depoimento sobre terceiro. apenas. para produzir efeitos na Secretaria. filha da Ex.. "Gente sem modos". e. um pedaço de bolo envolvido em papel impermeável. Hoje cedo. mais de uma vez. Glicério entregou-me um papel. que não lhe falta siso. É interessante que a gente conviva tantos anos com uma pessoa sem a descobrir. depois de tirar umas graças com a Emília. mais tarde. encontrei-o estendido num colchão.. pois lhe deu. Jorge de Figueiredo. temi essa notícia e. vagando em torno de uma conversação havida com Silviano. que pertencem à nossa haute-gomme. o Glicério. na sala de jantar. Ao chegar. à hora da despedida.ma Viúva Dr. AMANHÃ DE 3 DE DEZEMBRO. ao que parece. § 58. A busca não teve maiores conseqüências: Emília acreditou na história do inventário. minha gratidão a estes cadernos: para alguma coisa serviram. Desde a vinda de seu primo. Emília já se havia recolhido. quase à meia-noite. Aurélio de Miranda. O AMOR. onde se anunciam os contratos de casamento. PELO AMOR. Carolino contou-me histórias de sua vida. no Natal de 1934. lembrando-se de que fizeram o mesmo quando morreu a velha Maia. aqui. Desempenhou com carinho as incumbências que lhe dei. quando a informação me caiu sob os olhos: "Acha-se contratado o casamento da prendada senhorinha Carmélia Miranda. ao servir o almoço. a coluna social. tirando-me de apuros com a Polícia. Ao encerrar a página de hoje. nisso seguia a opinião geral da Secretaria. têm sido muito cumprimentados. inclusive a de pedir ao contínuo Carolino que dormisse aqui em casa. folheei com emoção o Minas Gerais. —Os home da justiça mexeram em tudo. embora este se manifeste às vezes de forma inusitada. a medo. ao despedir-se. Partiu hoje. Minha fé-de-ofício não ficaria prejudicada. cedinho. Nesse documento se atestava nada haver contra mim e que minha detenção fora." Sempre pensei que experimentaria grande abalo com o acontecimento. quando se foi o Borba. consigno. . meu pensamento estava distante. Eu o julgava um aluado. Ótimo rapaz.Finalmente.. e. percorrendo. de vez em quando. Vi. Carolino ficou de voltar.

ontem.Entretanto. a mim próprio. o meu desencantamento. não passará de uma prendada e fina senhorinha e não terá sido senão um "momento" da incorpórea Arabela. . em si.. mas. é que geraram a lenda. desde que Carmélia foi revista. Esta solidão da Rua Erê. livros e frutas. é a situação do Redelvim. O amor era pelo amor. terei cultivado e incitado uma paixão puramente cerebral. cultivam o sofrimento e o exacerbam. A tal ponto se fortaleceu. que seu arrefecimento viesse privar-me de uma emoção que enchia minha vida. a razão por que me conformei sem esforço com uma notícia que deveria ser catastrófica. E a tristeza foi resignada. hoje. de uma coisa e outra. teria desfechado um processo rápido de "descristalização"? Afinal. A sensibilidade nos oferece surpresas dessas. o fenômeno. quando Carmélia tem dono. É essa. a cortina interior que ocultava sutil trama psicológica. Andei reagindo um dia ou outro. Haverá despeito e mau humor nestas linhas? Creio que não: investigo. aceitando eu. Há. já não conferiu muito com a intemporal Arabela. Vi-a sempre à distância de uma estrela. ao outro lado do espírito. pela sua Dulcinéia. no caso. procurou sempre encobrir. a seus olhos. receando. mas o desejo de realizar o mito. em mim. fora daquela noite de sortilégios. a convicção de que um grande abismo me separa de Carmélia e de que toda pretensão minha. tenham numerosos filhos. E o Cavaleiro da Triste Figura se pôs em marcha. na hora que passa. certamente. é que o namorado teve descerrada. uma ponta de despeito em tudo isso. verdade. aproveitando uma fresta de luz. agora. cuja divulgação se fazia. Jandira foi quem o supriu. já por mim conhecido. a situação. Entretanto. que não duvido fosse capaz de lhe procurar um noivo. Verdade. seria ridícula. a tristeza de viver de carícias compradas. se o noivo não aparecesse. e eu o bendigo. a seu respeito. O que me deve interessar. neste instante. a distância. Pergunto. se é amor um sentimento tão acompanhado de renúncias prévias. Avançarei um pouco mais. a minha impressão foi de que se tratava de fato antigo. com serenidade. sem esforço. Como aqueles que.. com atraso. o despeito trouxe luz. e quem sabe se a convivência teria destruído a lenda que criei. que me vem no momento. portanto. Farei com que lhe entreguem. torturados por não sofrer demasiadamente a perda de um ente querido. tão desvirilizado. Que se casem. Aviltei-me demais e coloquei-a num altar que talvez não merecesse. porventura. ou talvez o de dar sentido a uma vida sem sentido. sobretudo a distância da moça em flor. para ir passando o tempo. e Jeová lhes abençoe a prole. Verifiquei ser uma criatura sujeita às contingências do humano e sem a essência eterna do mito a que o amanuense aspira. só agora.

para se lhe tornar desagradável o acontecimento.. um homem sem endereço. segundo esta. quanto a falar. e você pertence. prendada. porque. Entendo que só serão felizes casando-se com homens tranqüilos. Bom casamento. NOITE DE 3 DE DEZEMBRO. à ordem cronológica. porém. E você compreende: pode ser um bom camarada entre gente da sociedade. Sujeitos de alma simples. O bacharelando Glicério de Sousa Portes não estava de boa cara. Um bom burocrata deve obedecer. aborreceu-se. Não amou. Você não serviria para ela. Tudo isso me foi denunciado pela sua fisionomia. contagiando-se do meu entusiasmo pela moça e vendo-lhe propriedades metafísicas que lhe atribuí. e a moça será feliz. na Seção. achou jeito de tocar no assunto: —Por falar em festas (Sepúlveda se melindrara por não termos ido a uma festinha em sua casa). apesar dos . falou pouco. —É. quanto a Carmélia. Foi o bastante. concordou. suspiroso. me fez maltratar esse excelente mancebo: supus que me estivesse fazendo concorrência e passei a hostilizá-lo. continuei.. sabe que Carmélia ficou noiva do Jorge? —Ah!. Você sempre diz que o rapaz é muito "distinto". prolíficos e domésticos. E. ficou um pouco sugestionado. Nosso clima não é salubre para mulheres.§ 59. Não chegarei a dizer que o amigo esteja amando a prendada senhorinha. nesse capítulo.. tive comprida conversa com Silviano. É um inquieto.. —Não suspire. Reduzidas as coisas às verdadeiras proporções. tem razão. O ciúme.. Mas para bem dizer. e imagino que terá recebido a notícia do noivado com menos espírito esportivo do que eu. porém. não o conheço. como não dispõe dos recursos com que conto. com os seus "a propósito" sem nenhum propósito. À hora do café. respondi. ao passo que assumi uma atitude olímpica. porque não possui força de sentimento para tanto. noto o seguinte: Glicério é um hesitante. AINDA O NOIVADO. —Tanto melhor para ela. há tempos. Ficou? respondi. É um indeciso. Registrarei antes. Não é homem de nosso clima. Namoricou apenas. É fina... é Glicério quem terá primazia. Também ela não serviria para você.. e.. Talvez não passe de um prelúdio de amor. e não tem configuração nítida de suas aspirações. Esse Jorge deve ser mais ou menos isso.-Depois de encerrado o expediente na Seção. palavras menos importantes trocadas com Glicério. tive essa impressão.. no relato dos acontecimentos. —É. já com o propósito de contribuir para que seu aborrecimento passasse. aparentando indiferença. a mangar.

. mas acho que andamos exagerando um pouco. ambos bem-humorados. impaciente. não suspeitou dos rancores que. —Você me está dificultando a solução do problema. Você quer assiná-lo também? Respondi-lhe que não. Não faz mal: fica para amanhã cedo.. Silviano. meu juízo a seu respeito. quero saná-la. agora. ou à noite. Haveria conflito de temperamentos. lhe votei. § 60. O melhor é tomar um chope e mandar um telegrama de parabéns. Tal era sua ânsia de confidencia que não deu a menor importância ao fato de nos acharmos dentro de um veículo. atalhou. e deu-me tempo para reconhecer o erro. em certo momento. Felizmente. mais uma vez. Ao mencionar Silviano. Também estou inclinado a achar que exageramos. —Que problema? O "Fáustico"? perguntei. Admiro Carmélia. aqui.. Nunca pensei nisso. Glicério me interrompeu: —Ora. Há vários dias que preciso falar-lhe e não encontro oportunidade. não é senão pela pouca idade e experiência. Afinal é uma criatura de carne e osso. sem notar o tom de troça da pergunta. Oficialmente não conheço a família. mesmo. ao "distinto". relatar o outro encontro. mal tomamos o bonde para ir a um bar da Avenida. nunca deu importância a certas deficiências de Glicério e está sendo amigo melhor: orienta-o. não me venha com bobagens. O QUE Silviano tinha a confiar-me (provavelmente desde o dia em que veio à Rua Erê e encontrou-me preocupado com a moléstia de Francisquinha) era o seu novo caso amoroso. Se leva desvantagens em nossa roda. O QUE SILVIANO ME FALOU.. É disso que precisa. Confiante. nada disso. vejo que me estendi demasiado sobre a conversa com Glicério e o cansaço já não me deixa. Foi uma injustiça e. —Pode abrir o coração. nossa amizade veio a salvamento depois de todas essas crises. carregando a fisionomia (só . com invencível horror ao "fino".pesares. cercados de curiosos. Tempo é que não me falta. Cada um de nós tem seu lado fraco e. Vamos aproveitar o despeito e restabelecer a realidade. Deu uma risada e concluiu: —No fundo estamos despeitados.. Glicério é bom amigo e rapaz aproveitável. anima-o. Somos animais intratáveis. explorei-lhe esse lado fraco. Sem maiores preâmbulos. tentando ridicularizá-lo. quando tive ciúmes de Carmélia com ele.. a uma fauna complicada. retificando. E conversamos mais um pouco. expôs-me a história. Em seguida. falei. —Nada disso. mais compreensivo do que eu.

interessante. pois. para encobrir a identidade. maior atenção. Sem me dar. O amuo passou logo. (Talvez conseguisse mais. entrava noutra. Enjoado! —Sua Zizi. a não fazer. o negócio está nesse pé: a pequena lhe manda bilhetinhos incríveis. como de costume. é uma pequena de outro estilo." . virou-se para mim:—Você sempre com zombarias tolas. excursões pelos pontos mal iluminados da cidade. porém. Agora. em aventuras de subúrbio. potelée é o termo justo. Há cerca de um mês. Ah! ah! ah!. Estou mortinha de saudades. ou. Por que não vem ver a sua gatinha? Por que não foi à matinée do cine Brasil? Estou com a unhazinha afiada para arranhá-lo.. estendeu-me um bilhetinho amarrotado. Depois. Silviano se coloca em plano de superioridade tal. Diz-me sempre: "Seus motejos me deixam na mais divina indiferença". estava ele no Bar do Ponto. Silviano prometeu-lhe casamento.) Enfim. Travou-se namoro... ingrato. Silviano não gostou: "Isso é muito trágico. Passeios de automóvel. e ele a seguiu. endereçados a Aristóteles de Estagira (acredita ingenuamente que Silviano se chame assim. .) Exibiu-me um dos cartões. a fazer intermináveis compras. que não lhe permite ressentir-se com pilhérias. O nosso filósofo varia sempre. E calou-se. esclareceu. para não perder de vista a presa)... o "Perrexil". assumindo ar sério. para o ofídico. melhor . dizia: "Meu gatinho:—Você é muito gostoso. sessões de cinema. Sim. . mas acabou concordando em que o mundo está cheio de nomes esquisitos.. a moça o percebeu e deu-lhe corda. dando uma gargalhada: —A pequena estranhou. continuou. potelée... Não se trata mais da jovem da gota-serena. O assunto é sério. Miudinha.. pois este teve a precaução de mandar imprimir cartões de visita com o nome do seu venerado mestre. pela posta-restante. Chama-me gatinho! O bilhete. Saía de uma loja. preocupado com a precisão vocabular: só os franceses é que classificam bem as mulheres. Isso é de espíritos mesquinhos. escrito em bom cursivo. Não tem de que se rir. Veio-lhe uma grande aura de desejo. divertido. antes. resfolegando. Combinaram-se outros encontros. à espera de um bonde. dizendo: —Veja que coisa horrorosa. Ao fim de certo tempo. quando a mulher passou.. foi contando o caso. se não o tivesse prometido. porque mandava descer a loja inteira das prateleiras e nada lhe servia (imagino esse gordanchudo Dom Juan a dobrar o passo." Ri-me. assim nos abancamos no bar.depois de alguns segundos o remoque o atingiu). Não era do tipo angélico e pendia.

Não haveria. mas por causa da "coisa em si". . —Porfírio. E nem poderia haver.. Dei-lhe. De modo que não há compromisso. E. Belmiro. Não é por causa do compromisso. Foi um momento de fraqueza do Pensador (aludia a si próprio)... A carne é profundamente triste. —É. —Então. com soberba inflexão de voz. aliás. Joana continua sólida. —É o que vou fazer! exclamou. —Ora. a respeito. dizendo-lhe que.. Aliás eu não o procurei por esse motivo. —Não! Não receio que haja perigo de acréscimo ao registro civil! exclamou. tratava-se de uma pequena fácil. Porfírio. —Mas sempre se purificou. E atacou a questão.. —Mas o Pensador já fraqueou mais de uma vez. palavras que trocamos no Parque. Será a última concessão à Besta! Respondi-lhe que o problema era simples. Coisas que a Dolores Gigedo devolveu. no último Natal. objetei-lhe. não há problema.. É. Devemos deliberar juntos. muitos presentes. Foi uma estupidez essa aventura. Salvo se. adestrada em aventuras desse gênero. A pequena arranjaria logo outro entretenimento. depois: —Chamar-me gatinho! Que monstruosidade! Aristóteles de Estagira. por alto. desgostante. Noto que nas primeiras páginas deste caderno registrei. depois.. Agradeceria a boa convivência e lhe desejaria prosperidade. mandaria um bilhete à pequena. Será a última concessão à Besta! Sugira-me um meio de safar o filósofo Aristóteles dessa embrulhada. quase um ano depois. diante de si mesmo! disse. que denomina "atitude católica em face da besta". uma porção de miudezas. Pelo que me expôs. e que deveria partir pelo primeiro vapor.. comunicando-lhe que fora chamado à Macedônia. aliás. Hoje. dano moral no caso. Porfírio era meu avô.. isso não tem a menor importância.E continuou: —Foi uma estupidez. se me visse envolvido em semelhante alhada e quisesse sair dela. Já me informaram de que ela cultiva homens casados para receber regalos e brindes. .. com urgência.. Não é a primeira queda. Quem o assumiu foi Aristóteles de Estagira. O caso está resolvido.. não. gatinho! Continuei. Aristóteles pode seguir para Estagira sem nenhum remorso. portanto. e não morrerá sem dar à luz mais alguns imbecis que se disponham a sair do repouso cósmico! O que há é que estou enojado disso..

. Não entende nada. depois. como houve romantismo literário! . porém. Impossível dominá-la. uma gargalhada. tal como se continuasse. nem histórico. —Precisamos meditar sobre as palavras de Paulo: andai pelo Espírito e não satisfareis a cobiça da carne. —Vejamos se agora ele desiste de reformar a humanidade e se enxerga a "coisa". é a única pessoa com quem uma conversa definitiva me pareceu possível. Entretanto. Atrai-nos sempre e nos deixa sempre insatisfeitos. Sublimou-se. Não compreende o problema. disse. como eu. E caiu num mutismo desalentado. à saúde de Aristóteles de Estagira. irritado. e não podemos deliberar juntos. Ela é ardilosa e inesgotável em astúcia. objetei. Você é um pateta. que acaba de cometer aventura indigna de um filósofo! Falamos. violentamente. querelante! A questão é mais geral. isso é que é. no mesmo tom grave em que me falava. não se casaram. ele disse que é melhor casar do que abrasar-se. É o que precisamos fazer. —Minha situação em face de Paulo. Nosso problema—entende?—é repudiar a vida. Vai pela cabeça desse maluco de Marx! Esqueceu-se de que Marx saiu de Hegel.. todos os seus excitantes. Louco! Não tem senso filosófico. sem o intervalo de doze meses. pediu-me notícias do Redelvim. pois estes são opostos um ao outro. sorvê-la. Não vê o Jerônimo? Engolfou-se nos doutores. de Kant! E que em Kant a gente encontra de tudo. Não insisti em minhas réplicas. respondi.retomou ele o fio da conversação. em forma definitiva. e Hegel. para evitar nova explosão. —Mas. a meditação deve versar sobre esse ponto. —Você sempre pequenino. isso é que é. —É porque está. eliminando todos os seus atrativos. a frase interrompida em 1934. E o grande caminho é a ascese. e. não chegou ao alto da montanha. Porque a carne luta contra o Espírito e o Espírito contra a carne. exclamando: —Bebamos. deu. Porfírio. e não transcorrera todo um agitado ano entre aquela tarde natalina e a de ontem. Rechaçar a Besta. Para os que. Dei-as. rastejando. para ver o espetáculo. (Deu vigoroso acento à palavra "ascese". sobre coisas várias. Porfírio. —Não tenho tamanha aversão à vida. Tive a impressão de que a vida havia parado. então cortado. é outra. —A solução é a conduta católica. Depois de alguns minutos. ainda. Aos coríntios. um pacóvio.) Precisamos renunciar de uma vez. a favor e contra! Louco! Romantismo político. ao despedir-se. cortando-me a palavra. —Estou perdendo o meu latim! disse.

sutil. Uma toada se espraiava no ar. à dança em que raparigas. as camadas profundas do espírito me trazem o panorama. um canto límpido se alteava—desacompanhado: "Nesta rua tem um bosque que se chama Solidão dentro dele mora um anjo que roubou meu coração. nem lhes apreendemos a substância rica de poesia. que pareciam perdidos. povoados de ranchos femininos. NADA me aconteceu de novo esta noite senão que. braços dados." Depois. § 61. Nosso olhar circula vago e às vezes quase indiferente. pois Silviano é bom sujeito. enquanto as outras faziam coro. Quanto o inconsciente é fino. sob o luar. Ê as cantigas todas eram cantadas. andando a esmo no Carlos Prates. Mas talvez a dureza seja aparente. a luz e a música de longínquos dias. na Vila. Achei-o duro com relação a Redelvim. Minhas ruas e meus largos de Vila Caraíbas eram. Mais tarde é que." indicam que não se incomoda muito com as atribulações do amigo.. Suas palavras "vejamos se agora ele desiste. entoavam velhas modinhas. que desprendiam beleza e inocência... no estribilho. a cor.E deixou-me. assim. quase sempre não lhes percebemos a intensidade lírica. através da memória. Uma ia ao centro do círculo. "RODA MORENA". nos seus trabalhos subterrâneos! Só hoje. a cantar em solo. Assim chamavam. até que o relógio da torre do Mercado desse suas nove horas que equivaliam a um toque de recolher. plenas de melodia: "Eu estava na estação quando o meu amor chegou deu um vento na roseira e o salão encheu de flor. No momento preciso em que certos quadros se desdobram aos nossos olhos." . ali pelos lados da Rua Serpentina. vamos com os olhos da alma penetrar no âmago daquelas paisagens extraordinárias. depois de uma ascensão lenta. tirada por vozes sem artifício.. receptivo. dei com uma "roda morena".

em nós. mas os vultos femininos sugeriam donzelas caraibanas. É verdade que nos encontramos quatro ou cinco vezes durante esse espaço de tempo. não será difícil investigar-mos a necessidade de ordem espiritual. Se eu roubei teu coração tu roubaste o meu também!" Melodiosas noites! O luar batia em cheio na Matriz branca de cal. nos fragmentam.Vinha a réplica de alguém.. eu me ausentara de Jandira. um conflito em que prevalecerão as partes simpáticas. fora da roda: "Se eu roubei teu coração é porque te quero bem. mas os encontros foram rápidos. O egoísmo. não o indivíduo. e o assunto foi a vida dos outros. As cantigas da "roda morena" de Carlos Prates não eram as mesmas. ao contrário. mas certo aspecto dele. Elegem. entra em tudo—mesmo no reduto das amizades mais puras. Consultarei Silviano sobre esse conceito antifederativo do . embora haja umas que se repilam. mas. embora não tivesse recebido nenhuma reclamação contra isso. a explicação do fato de nos unirmos a pessoas de caracteres tão diversos. às vezes em uma linha. que nos parecem espontâneas e gratuitas —e. mordido pelo remorso de tê-la abandonado tanto tempo. castas e descuidosas. senão que continuava nos escritórios da firma Sobral Lt. procuramnos em um ângulo. faz dois meses já. porventura. e de nossa roda ser quase sempre heterogênea. fantástica. Fui vê-la ontem. no geral. Provavelmente aconteceu com ela o que sucedeu comigo. então. dizem. se saímos à procura de um amigo. DESDE o dia em que tivemos uma conversação amarga sobre os seus problemas. NOVOS RUMOS DE JANDIRA. aquele sentimento integral a que aspiramos. aliás. as feições que lhes aprazem. Faz-me isso pensar que. ocorrendo. ou fazia que a torre do Mercado deitasse ao chão de grama uma sombra grande. Nada me falou sobre coisas suas. que nos impele. São partes nossas que se unem por simpatia às de outros seres. os amigos não nos vêem como a um ser indiviso. Entre mim e Jandira. a amizade nunca foi. misteriosa.. ou mesmo em um ponto apenas. § 62. apesar de meio rabugento. E está aí. moral ou afetiva (egoística. afinal). que buscamos. cujo chefe é homem velho e bondoso. da. um no outro. Somos amigos fracionários. a seu respeito: não estava precisando de mim.

. e o doutorando deume forte aperto de mão. pus-me ao lado do Almirante. À vista de um coringa. depois de prolongado silêncio. Apresentoume à roda.. Um amigo de Jandira passa a ser meu. dizendo com ar importante e um charuto entre os dentes: "Sempre às suas ordens. Influência da professora vizinha.. com tristeza. o professor Barroso. nem precisa quarentena. E mencionou os outros. o professor declarou que já me vira. com seu olhar meio estrábico. as perspectivas se transformam. Jandira correspondeu com ligeiro sorriso à minha saudação. Atendido. Anita me sorriu. Toda vez que perdia com o coringa. Belmiro. em companhia do Prudêncio Gouveia. uma paisagem em que nosso espírito se compraz. se lhe pegavam uma carta. É um sujeito divertido. esclarecendo a minha qualidade de velho camarada. Perguntou-me este. torpe D.. Creio que perdi a amiga. na mutação dos quadros da vida. minha amiga. e lhes pedirei desculpas por esta divagação inoportuna. para mim: —Anita. a professora e dois cavalheiros de desigual idade e catadura. ficou satisfeitíssimo e segredoume: —O senhor tem um olho episcopal. pessoa com quem simpatizei. desde logo senti um ambiente frio. Sou assistente de clínica. mas a vida é terrivelmente móvel. bem diverso da atmosfera tépida que sempre ali encontrei. Juan!" E. mas não me fez a festa do costume. É que Jandira me desapontou. A amiga está-se dispersando.indivíduo. este é o Azevedo Leão.) Precisando. também. Pode encontrar-me no apartamento ou na Faculdade. Noto que virou quase um quadrante na sua rota. fruto de pequeno despeito. D. Os quadros se vão sucedendo. Vim de lá quase magoado. Procuramos inutilmente fixar um círculo. (Citou qualquer especialidade arrevesada. dava um suspiro e dizia: "Muito bem! exclamou o Conde. De manhã trabalho. Não queria ser desmancha-prazeres. sob pena de retirar-me. com quem ela se relacionou há uns dois ou três meses? Reação contra o ritmo um tanto monótono de sua vida? Coisas de mulher. coisa grave numa idade em que já não se fazem novos amigos. se eu não tinha pé-frio. Experimentaríamos. disponha." Durante todo o tempo em que estive a seu lado." Agradeci ao falastrão e insisti para que continuassem o jogo. . Respondi-lhe que não sabia. se não o fizessem. Ela. sorridente. O canalha gentil compareceu logo. Jogavam coon-can-play na pequena sala. invectivava furiosamente a carta: "Canalha gentil. e isso me fez meditar. na Santa Casa. Chegado à sua casa. doutorando. cujo nome não guardei. procurando outros climas. e finalmente. aqui conhecido por "Almirante": foi Anita quem nos trouxe esta flor. os amigos se deslocam.

que virou outro. E Florêncio se divertiu bastante ao saber que os larápios me acharam com cara de ladrão de galinha. descobriu. ao ler os jornais. quando as namoradas me abandonam. Quanto ao pedante doutorando. o nome do nosso amigo. Creio que pressenti nele um possível namorado para Jandira. à delegacia. Anda queixoso e neurastênico. foi criando um outro núcleo que fará concorrência ao nosso na disputa de sua pessoa. por ter a mulher conspirado com os médicos e viver a espioná-lo. Será possível que ela o namore? Como tolerará um indivíduo dessa espécie? Fiquei cerca de duas horas a sapear o jogo. provocou-me imediata aversão. Ainda se encontrava aqui. para que lhe sejam entregues. Disse-me o investigador que lunfa de penosa significa ladrão de galinha. § 63. na relação das pessoas presas. novos livros e alguns maços de cigarros. É rapagão bem vestido e elegante. ao entrar. em Sete Lagoas. Os médicos lhe suspenderam o chope. amanhã. Sorrateiramente. Combinamos aparecer juntos. pois chegara hoje pela manhã e havia muitos negócios para tratar. quando veio o Parreiras para me anunciar que já posso ver Redelvim. . E ficou estabelecido que. Não tinha podido ir visitá-lo. no dia da soltura. despertando-me um interesse que venceu a natural hostilidade para com a nova roda da amiga. que passou quinze dias em Sete Lagoas a fazer seguros de vida. LUNFA DE PENOSA. O primeiro. em que pese à Mariana e aos médicos. por certo apanhadas em leituras. Nem sequer me perguntou pelo Redelvim. Pobre Redelvim! Já vai para semana e meia que está preso e continua incomunicável. e isso me enciumou. na Polícia Central. Foi ele quem me reteve ali. Está indignado com Mariana. Florêncio contou-me que experimentou grande abalo quando. achando tudo ruim. não está com a mesma cara. haverá chope. suspenderam o próprio Florêncio. TIVE duas visitas esta noite: Florêncio e o investigador Parreiras. encantado com o Almirante. deixando-os ainda com as cartas.. Certamente lhe pertence a baratinha que vi à porta da casa. nestes dois meses. Aproveitei a presença do Parreiras para um esclarecimento a respeito da conversa dos lunfas. Levarei amanhã..ouvi-lhe frases desse gênero. Aconselhei-o a voltar ao copo com urgência: será o meio de reencarná-lo em si próprio. Tenho pruridos filológicos. pedindo-lhe explicação da gíria que lhes ouvi. Parece-me que Jandira não tardará a desertar de nosso pequeno círculo. Eram dez da noite quando saí. Um pândego. isto é.

namorada. mas um pouco além.° Regimento. que o substituiu hoje na entrega de pães. servi-me da mesma explicação dada durante a revolução de 1930: fora uma briga de dois coronéis. provavelmente vindas do Morro dos Pintos. um . ocorreram durante muito tempo querelas sangrentas. Havia recontros armados. grana—dinheiro. e gaiola—prisão. lembrou-me os dias penosos de 1930. UM "FOGO". iam às armas. matavam-se. de parte a parte. nos confins do Norte. que vinham da colina. polícia secreta. Respondi afirmativamente: houve "fogo". falou-me que o outro. e esta só terminava. ontem. do nosso padeiro. netos e bisnetos herdavam a contenda avoenga. A isso chamavam um "fogo". memória das rixas seculares entre famílias importantes. gente graúda. A vila era pacífica. com jagunços de um e outro lado. Para satisfazer à sua curiosidade. que procediam do edifício onde hoje se acha o Departamento de Instrução da Força Pública. então ocupado por um contingente policial. também. se não fugíssemos. afanar—furtar. pouco antes de se iniciar o cerco do 12. couro— carteira de dinheiro. Cessada a luta. lhe disse ter sido causa disso uma guerra havida no Rio. que tão raro se exercita. bancar o vigário— passar o conto-do-vigário. ser encapado— ser preso. § 64. às vezes. a prisão. vi que a casa fora. De outro modo. Aludia à revolução de novembro. A pergunta de Emília. Em Vila Caraíbas havia.Quanto aos outros vocábulos: cana quer dizer prisão. tira—investigador. Filhos. Pela situação desta casa. otário—simplório. um pouco aflita. ESTA manhã. Pela tarde. e as da Polícia. Parreiras e Florêncio (que também é versado nesse calão) prometeramme um completo vocabulário dos termos em uso entre os malandros. brindada com algumas balas perdidas. quando as manas me deram grande trabalho. grinfa— morena. que consumiam famílias inteiras. —Móde quê? perguntou (dizia o velho Borba que essa locução é uma corruptela de "por amor de quê"). Emília veio indagar se era verdade que houve um "fogo". pequena. acampanar—seguir o criminoso ou indivíduo suspeito. e morreu muita gente. trouxa. ser-lhe-ia difícil compreender. ficaríamos entre as balas do Exército. pássaro—detento. ainda. com a aniquilação de todos os elementos válidos. punguista—batedor de carteira. a propósito da revolução comunista. Narrando. Dois coronéis fazendeiros brigavam por questões de terra ou de honra. em meias-palavras.

por certo. mesmo. Emília nos acompanhou. ficou crivado de balas. das vicissitudes sofridas naquela ocasião. Pirraça pura. e há muito não . embora sob uma forma diferente. às oito da noite. dormindo no mato. E O CASAMENTO É PARA JÁ. num recanto do bairro da Floresta. lembraram-se de que eu deveria estar em apuros. que dá para a Rua do Piau e está inteiramente a descoberto. tranqüilizando-a. de meio metro de altura. depois. Teria sido impossível permanecer na casa: o alpendre. Bem que tenho tido desejo de dizer que ainda amo a donzela. O bom Prudêncio levou-me. DEVEM ter notado (publicarei. Francisquinha estava. considerado ponto estratégico. tive de resignar-me e aguardar os acontecimentos. não. e foi vão todo o esforço para tirá-la de casa. Lembrando-se. O Governo entrou no meio e prendeu todos. Posto que estivesse mais ou menos a par da situação. as crises vão-se espaçando. Algumas vararam as portas e foram alojar-se no meu escritório e nos quartos. muito mal. com a família. Um vizinho deliberou não evacuar a zona e instalou-se no porão. Emília — vendo a irmã em tal estado—começou também a oferecer resistência. que resolvera ocupar aquele edifício. Um rápido tiroteio. intimando os moradores a desocupar as casas. Decorreram já duas semanas desde o dia em que o Minas Gerais publicou a infausta informação esponsalícia. no porão nosso. Emília me perguntou se o "fogo" de agora ia durar e se se estenderia a Belo Horizonte. e voltaram). vindo Giovanni e Prudêncio Gouveia em meu auxílio (depois de se terem retirado. disse eu. livrando-nos de passar os maus momentos que muitas famílias experimentaram. Emília queria que fizéssemos o mesmo. que fora apenas um combate ligeiro. Só à meia-noite. pudemos carregar a Francisquinha nos braços. Soube.pequeno destacamento de soldados descera a Rua Erê. —Não. com as velhas. deu-me a impressão de que a luta se iniciara. às pressas. entre a guarda da Cadeia Pública e o pessoal do 12. § 65. nem no Glicério. com as manas. e Giovanni se incumbiu de transportar pequenas coisas indispensáveis para passarmos alguns dias fora. naquele dia. estes cadernos?) que há muito não falo em Carmélia. a seis ou oito quilômetros da Capital. Não encontrando quem me auxiliasse em remover as duas velhas. Pelo menos.° Regimento. quase como a de saudade da amada que morreu. para a casa da mãe dele.

—O do Filgueiras? —Nã. Estabeleci comigo mesmo o compromisso de não mais. porque conheço muito o Dom Donzel da Rua Erê . Melhor "a propósito" não haveria. continuou. —Então? —A coisa já vinha de muito tempo. Quanto ao Glicério. deve ter chegado ao extremo da resistência. —Que noivado? perguntei. Foram namorados quando Carmélia esteve em São Paulo. aqui ou alhures. os mesmos não foram utilizados. melhor será não sabotar o Belmiro flautista. Deixá-lo esparramar-se no papel. O namoro não continuou. Está beirando os sessenta. hoje.. daquelas bravas.experimento uma recidiva. se é que o tem. fingindo supor que se tratava do caso do velho companheiro de Seção. segundo. Embora surgissem vários "a propósito".. sem a gente saber. Sindiquei a respeito do noivado. Um belo dia. reduzi-lo a coisa escrita é o meio mais eficaz de liquidá-lo e. nem se firmou compromisso. Só fala que pode morrer sossegada (ninguém tem mais medo da morte do que ela). com ele. a coisa pegou outra vez. o noivo ou o noivado. e o caso foi comentadíssimo. porém. repete a todo . A viúva está ovante. Francamente cacete.ão. o pacto. você é que era interessado. logo aos primeiros quinze dias. emendei. por dois motivos. Mas ficou um ranço. seu Belmiro. de quem lhes falei há meses (sele a petição e volte. Receava que Carmélia se casasse com "qualquer um" daqui. —Novidades. Com a vinda de Jorge. Acabou entregando os pontos e vindo falar-me sobre a namorada comum. pois seu ideal se realizou. a donzela. Pelo sim.. Primeiro. e noto que isso de silenciar sobre a moça não exprime indiferença e antes pode ser indício de manhosos e subterrâneos sentimentos.. pareceu-me que também fizera pacto idêntico com o seu demônio. —Amigo urso! Na hora ruim não quer ser companheiro.. aquela "bomba" no Minas Gerais! —Estive lá ontem. pelo não. Rompo. mencionar-lhe o nome. mas Glicério ficou firme. Segundo diz o Jorge. sua idéia de vir para cá foi um pouco por causa disso. cometeu a loucura de contratar casamento.. com o regresso de Carmélia. pois nestes quinze dias não me disse nada que envolvesse Carmélia. mas vá lá. que ficaram registradas em páginas passadas destes cadernos. e a noiva tem apenas vinte e dois anos. É como disse: estavam-se namorando sorrateiramente. Esta literatura íntima é a minha salvação. Por exemplo: o companheiro de lunetas douradas. O de Carmélia. Hoje. querendo).. Ora esta. —À sua. Que pena o Dr. há três anos. porque Glicério me prestou interessantes informações.. Aurélio não estar vivo. Inteiramente à nossa revelia.

—Mas você se esqueceu de que se trata de gente rica e importante. isso. Então você é que está besta. era louco pelo Jorge. —Está certo." Nesta altura. seu assalto anterior. besteiras de enxoval. Quanto ao mais. Mas o trivial é ficar mesmo pelo Rio. Não passam de filistinos. O Jorge tem dinheiro a valer e já andou pela Alemanha. não haverá cerimônias complicadas. É uma noiva perfeitamente vulgar. Realiza-se já.— Você anda positivamente de má vontade para com o rapaz.. com o coração meio agitado.. Quanto ao Jorge. O melhor não é isso. no Rio. Doces deve haver para os íntimos.. Belmiro. e não faz ainda um ano que o velho morreu. O casamento vai ser na intimidade... . Preciso reagir: Glicério está-me faltando ao respeito). Depois. —É compreensível. dando acento irônico às suas palavras. A viúva seguirá amanhã ou depois para comprar. aquilo.momento. para compensar. (disse-lhe. Por isso. não há outra expressão. —Quer dizer que não haverá doces? perguntei. está numa arrogância insuportável. O Jorge vai aproveitá-la para fazer um curso em Paris. pensando nos casamentos de Vila Caraíbas. de São Paulo. leitão assado. satisfeito.. —Não é possível! Nunca se fez isso em Minas. com uma taça de champanha. A viúva diz que não é bem uma lua-de-mel. —E quando é o casório? perguntei. que lhe perdôo) que sou dos poucos convidados. coisas de filistinos. fica horas e horas a contar grandezas. com o noivado. Acabou-se a sua Arabela (mandou-me essa estocada. onde as festas duravam três dias e três noites.. comunico-lhe (nesse momento não pôde evitar um tom de superioridade. Depois. mas recuou logo.. tomando a pergunta ao pé da letra. bebidas a rodo. Com a vitória obtida sobre os elegantes da terra. vendo-me fechar a cara). É quase uma afronta a nós todos. Os mais pródigos vão à Argentina. respondeu. Vai ver que nem ficou tão besta assim. Está besta. Mas a portas fechadas. guardei a grande novidade para o fim: vão à Europa em lua-de-mel. o resto do enxoval. para corrigir a rudeza da comunicação: —Você não imagina como ficou melosa. —Dois proveitos num saco! Mas é pena estragar a lua-de-mel com esse negócio de curso.. respondeu. —Isso mesmo. O dia certo não sei. com ligeiro golpe. lamentei de mim para mim o desperdício da cena que compus no trajeto de bonde e que ficou registrada em outro ponto destes cadernos. —É para já. seu Belmiro. —Bom.. Enfim. Foi a própria Carmélia quem me fez o convite. em estudos de aperfeiçoamento. com bailes.

por mim encontrado entre os que acompanhavam o enterro. TEMA PARA UMA ELEGIA. logo depois. Tão cheio. não cederia. quiseram casar-se. no peito do soldado. Apaixonaram-se um pelo outro. A paixão se agravou. § 66. a conversa acabou bem. Foi quando conheceu a pobre senhora que é hoje sua viúva. morto em circunstâncias dramáticas. a ambição de galgar postos e conquistar galões para conseguir a mão da amada. ASSISTI. ao Instituto de Psicopatas. no acontecimento. e os dois estabeleceram. espécie de senhor feudal da localidade. O fazendeiro redobrou sua oposição. por atos de bravura. já agora primeiro-sargento. senão por violento esforço. desde logo. Estava casado havia dois meses apenas. foi um dia cheio de novidades. Arriscavase nas mais difíceis diligências. afrontava todos os perigos. clandestinamente. uma correspondência epistolar. e o golpe transtornou a razão da viúva. a segundo-tenente. esse tenente. meu companheiro de bairro. então simples furriel. Cresceu. um casamento de conveniência. mas suficiente para entreter o fio do amor. álgido e inflexível. para o seu amor. já era questão de capricho. Como o namoro continuasse. mas o pai fez uma oposição obstinada. na Rua dos Pampas. o velho pôs em ação seu prestígio político e obteve a remoção do militar para município distante. p primeiro-sargento passou a sargento-ajudante e.Disse isso com tanta raiva que não pude conter uma gargalhada. que o atirou a um poste. no setor do Túnel. e nós nos despedimos. O velho declarou que. Dentro de dois anos. os riscos por que passou ali. o segundo-sargento conquistou mais uma divisa. filha de importante fazendeiro. dando-lhe morte instantânea. Ao desviar-se de um bonde. o sentido de tragédia. mas o velho fazendeiro continuava duro em sua negativa. . que me deixou cansado a ponto de não conseguir. aos funerais de um tenente da Força Pública. referiu-me uma história que vem aprofundar. Era uma flor de rapariga. neste momento. levar estas linhas até ao fim. cheia de extravios e incidentes. enquanto vivo. Há dez anos. foi colhido por um automóvel. Na revolução de 1932. O professor Barroso. O velho não se abalou. para a moça. Esta bateu o pé e jurou que só se casaria com o seu antigo namorado. Nada adiantaram. Como vêem. Na revolução de 30. Arranjou. era segundo-sargento. Afinal. comandava um destacamento policial em pequena vila do interior do Estado. de parte a parte. Não haveria de casar a filha com um furriel. Já era hora de se encerrar o expediente. que se acha recolhida. esta manhã.

se apoiou a uma cadeira. Trocam-se cumprimentos comovidos. ficou inimiga do pai. no alpendre. Combinadas as coisas por correspondência. ressequida. O furriel de outros tempos era.. Encontrei-o de pijama. NOVA LUZ SOBRE SILVIANO. sucedeu. e outra. Flevit amarè. Depois de ligeira hesitação. Pela parte da moça. debruçado sobre a mesa. perplexo. então.. de modo insólito e cruel. Talvez já não houvesse amor. extremamente pálido. Barroso pouco sabe. dirige-se para a que lhe é grata aos olhos. Há uma. E chorou amargamente. Não me disse o amigo como foi interpretada a atitude do noivo. No meio deste ano. apresentar desculpas (deve ter ficado aborrecido com a minha ausência no local determinado para o encontro) e repetir o convite para a pretendida visita. Mas esta percebe o equívoco e lhe diz: "Não. § 67. acompanhada da irmã e de um irmão. mas procurar desvendar o que se passou. no caso. a renovar o alpiste dos passarinhos. fazendo um gesto de abraço. agora. Ele chorou talvez a mocidade. porque chegaram a nós pessoas aparentadas com o morto. e o Romeu foi buscar sua Julieta... Fui hoje cedo à casa deste último. Não sou eu.. A moça deixa a fazenda para ir recebê-lo na casa da vila. ele se prontificou a sair comigo. E o que importa não é isso. à imagem longamente sonhada e que era uma imagem do passado. Dada a explicação do meu impedimento na tarde de ontem. Tal como aconteceu a mim—quando procurei Camila e não vi senão uma sombra—o espectro daquilo que fora os seus amores se sobrepusera. conforme combinei com Florêncio." Barroso contou-me que o homem.. garboso primeiro-tenente de nossa milícia. É ela. de ir ver Redelvim. então. a não ser que também continuou firme no juramento e que.Mas o seu capricho só fazia animar o capricho do militar. nem o poderia dizer. depois se assentou e pôs-se a chorar. e sua morte veio permitir a realização do casamento dez anos projetado. no espírito do tenente. mas o nosso tenente. a vida que nela morreu. como Simão Pedro. dentre elas. fixou-se o dia do casamento. pelo que me disse. calculo como foi extraordinário o que. viçosa. não sabe qual. Barroso não pôde dar à narração a intensidade afetiva do acontecimento. mas. toda aberta em sorrisos. ontem. ferido nos brios de homem. gasta e melancólica. desde o início da história. ESQUECEU-ME dizer-lhes que a morte do tenente e seu enterro me impediram. a fim de . o ranzinza bateu a bota. é a sua amada.

verificou que era chegada a hora de aula. Julgando improvável uma visita sua a Redelvim. —Ora. o Abundâncio!. —Não há necessidade de tamanho açodamento. E não quero acabar de ficar. Que venha também o Abundâncio. pelo telefone do gabinete do delegado. vimos. Você por aqui? —Vim visitar o esquerdista. alegando ter pressa de voltar para casa. Simples notas de minha Spicilegia. disse o Silviano. Silviano teve um sorriso olímpico e pôs a mão no ombro do Florêncio. Já o soltaram.—Venha comigo. que. Deliberei perdoar-lhe os aleives que me assacou. Afinal. A suspensão do chope me faz quase doido. para um artigo no suplemento da Gazeta de Minas. sacando o relógio. Depois. que descia majestosamente os degraus. Sofreia os teus ímpetos. agastado. Porfírio. disse Silviano. E despediu-se de nós. enquanto for ameaçado pelo Redelvim. se informara a respeito. Devo ficar acima de coisinhas. fora à pensão. com surpresa. O regime estará perfeitamente seguro. Assim entramos em seu escritório. Quando chegamos à escadaria externa que leva ao saguão do edifício. ouvindo suas loucuras. num gesto que deveria exprimir desprezo. E agradeço o convite. Florêncio e eu tivemos grande alegria com a notícia. Redelvim.. Silviano nos disse. apanhara a bagagem e mudara de residência. O mau humor é um vício. é um destrambelhado. posto ontem à noite em liberdade. Propusemos-lhe uma ida imediata à pensão do amigo. então. Alvitrei que fôssemos. amigavelmente: —Não se mostre mal-humorado. perguntei-lhe: —Que novidade é essa?. entregou-me algumas tiras de papel escritas. Fizeram bem.. se existisse alguém com nome tão arrevesado. Para o caso de que você. não deixou endereço. porém.. que tomei.. rasgando o ar com o braço. miudinho como sempre. Como de costume. Deveria estar lá. Silviano. venha com ironias. advirto-o de que só me causam tédio e pena. desde algum tempo. em . na Universidade. Melhor é que venhas à minha casa.irmos imediatamente à delegacia. Quero mostrarlhe apontamentos. disse Florêncio. —Esteve com ele? Como vai? —Não. com certeza. e disse parecer-lhe melhor que eu as lesse calmamente. Florêncio respondeu que. dada a hostilidade mútua que há entre os dois. conforme o nosso amigo Wolfgang Goethe. —Já falei com você que não me chamo Abundâncio. esse alguém não poderia deixar de ser um acabado imbecil. Preciso falar-te. à casa de Jandira. Ele a teria procurado.

(verificar o texto. que outra sombra impele? Clemente de Alexandria estaria certo? Deveremos encarar o mundo como. Agora (e como nisto diferimos desses que sempre perseguem seus ideais de pobres-diabos e suas ambições sombrias!). afinal? Eis as notas. citaríamos aqui." A filosofia de Santo Tomás (um filistino. que se acham sob a epígrafe Libido sciendi: "Para nós. ou seja a nossa aspiração incoercível para a totalidade. que mostram o estado de espírito do amigo e as meditações em que anda metido. Desembarcados.. Precisava sair com urgência. Platão e Bergson—quem o ignora?—são aedos suculentos. até ao ponto de bondes. Não fora o receio de ser chacinados pela vil raça dos revisores de imprensa. Já vão longe os tempos em que o espírito adejou em torno das damicelas encantadoras. no original. estabelecendo a confusão) é a mais estupenda tentativa de fechar o ciclo de nossas angústias. A emoção trágica verdadeira não surge em nós senão no dia em que percebemos as coisas no seu ilogismo eterno. aliás o eterno: o Fáustico. mas Newman nos tranqüiliza: To be at easy is to be unsafe. dessa estratosfera do pensamento—e lidas as notas. no Fausto. agora o que nos importa é esse encontro diário com o mistério impenetrável: o sentido da vida e o destino do homem. Transcrevo. para nós só existe um problema. aqui. O homem não esgota a Verdade. porém. Isto de partir de si mesmo e de reduzir o mundo a si mesmo é um solecismo filosófico. as maravilhosas expressões de Goethe. Estamos inquietos. Bebi as minhas próprias cinzas. Estranho homem! Que pensar dele. E seguimos juntos.casa. que chegamos ao dealbar dos quarenta e que vivemos em grandes escafandrias mentais.. Outros nos fazem divagar e devanear pelos intermúndios além. Como extrair um sentido dessa vã agitação de sombras vãs. e outras palavras eternas com que o altíssimo poeta define o fáustico problema! Tal é a termometria de um constante estado psicológico: a vida estrangulada pelo conhecimento. anunciam a ressurreição do Cristo.) Meditar esta tarde nas palavras do incomensurável aquinatense: "O HOMEM NÃO PODE SABER 0 QUE DEUS É. quando os sinos. parte desses apontamentos. um não-iniciado diria São Tomás. MAS APENAS O QUE ELE NÃO É. as observações hauridas nessas viagens às vezes tão longas e sempre exaustivas —vemo- .

Devem ser cinco horas. Homo: animal metaphysicum. assinalada pelo Jules de Gaultier e espantamo-nos do tumultuário e do desconcertante de nossas idéias. esclareceu Silviano. a revelada. olhando para as estrelas e erguendo os braços. O trabalho de lêlas (a caligrafia do amigo é impenetrável). fazendo estremecer as paredes do escritório. ó Transfinito. e os bondes da madrugada já correm pela Rua Erê. condescende em que se prostre a teus pés este farrapo de um farrapo. ó Imensurável. O homem nasceu Para uma condição limitada. "Je me puis trouver le repos. todo conhecimento que repousa na autoridade humana. na essência.nos vítimas daquela famosa ficção universal. Defeituoso. De um modo geral e perfunctório.-Madruguei em casa . A verdade em si. Necessidade da ascese: "A sabedoria não entrará numa alma malévola. absoluta. prestes a ser tragado no hausto universal! § 68.) REM MEDITARI—O homem é ordenado para um fim que lhe transcende o entendimento! Daí o ser impossível. deverão fundamentar um artigo seu na Gazeta de Minas. no Alto do Cruzeiro. Que o leitor as aprecie. conhecermos e atingirmos o nosso fim. nem habitará um corpo escravo de pecados" (Espírito Santo— Sabedoria I. Urge um equilíbrio entre o transcendente e o imanente. mas também não é inexplicável (Santo Tomás Aq. mas bordeja grandes abismos e procura culminâncias. Tenho sono. UM PROCURADOR DE AMIGOS. AMANHÃ DE 21 DE DEZEMBRO (nove horas).). —A vida não é evidente. que pode tanger o ridículo. eheu! está muito além das nossas míseras possibilidades. 4) Estas notas a mim confiadas. j'ai soif d'infini" “Mon ame languissante aspire aux inconnus lointains" (RABINDRANATH TAG. resumi-las e copiá-las deixou-me cansado. Elas me lembram um Silviano majestoso que certa noite. sem a outra ciência. achei-as soberbas. proferiu esta prece: —Ó Inconcebível. no seu largo estilo silviânico. este pobre verme. sopro dum instante. Só assim conjuramos o desespero de não conhecer tudo: convencendo-nos de que incognoscível não é sinônimo de inexistente.

Silviano e Jandira. causou-lhe uma alegria que me fez lembrar os antigos tempos de nossa convivência. § 69. tantas vezes. lhe apressam a dissolução. na realidade? Ou este círculo apenas existiu no meu desejo? Os encontros que tivemos. e. as dissensões de pensamento. para aguardar o almoço. Redelvim. afirmativa. Glicério. que a acorda e envia para o escritório comercial onde entra às oito. no momento. com o meu desejo de sociedade. Eram sete horas. Finalmente. Redelvim e Silviano. é Jandira a pessoa que ele mais freqüenta. socialista. durante todo o tempo percorrido. até que tivesse terminado sua toilette e pudéssemos sair juntos.de Jandira para saber notícias do Redelvim. Se Jandira e Redelvim—de um lado—e Silviano e Glicério—de outro—se entendem. não evidenciaram. Florêncio. o homem da hierarquia intelectual e da torre de marfim. satisfeita. NOITE DE 21 DE DEZEMBRO. tranqüilo pequeno burguês. Noto que fui eu. nem pelos misteriosos princípios de aglutinação que regulam as aproximações humanas. de alma simples. agravadas pela atmosfera pesada deste fim de ano. perguntei-lhe se o nosso revolucionário não tinha estado lá. Vejo que Redelvim ainda não a procurou também. quem criou e sempre procurou sustentar essa agitada assembléia onde atuam forças tão antagônicas. conforme diz a amiga. e isso me admira porque. Voltei à Rua Erê. Silviano e Florêncio. Por volta das oito horas. Jandira. a pequena roda não foi sustentada por força própria. quanto a uma recomposição do nosso pequeno círculo. sete da madrugada. uma impossibilidade de comércio e de reunião entre elementos tão diferençados? Bem vejo que. —Vou descobrir o urso. ENTREVISTA COM REDELVIM. eu sacrificaria minha idéia mais nobre para não perder um amigo. sempre revoltada contra o despertador. o mesmo não acontece entre Redelvim e Glicério. Neste mundo. que não opina. —Como? Já foi solto? interrogou. Esperei-a um pouco. com tendências aristocráticas.-Novidades no setor Redelvim. antes. Silviano. anarquista. sou apenas um procurador de amigos. Minha resposta. despedindo-se com um aceno de mão. este nosso amigo veio procurar-me para agradecer os . Por que hão de os homens separar-se pelas idéias? De bom grado. quando entrou na casa comercial. ponho-me a rabiscar estas linhas. Será certamente impossível uni-los de novo. Devo nutrir esperanças. disse-me. A caminho. hoje dissolvido.

disse-me continuar contra o Estado burguês e capitalista. que foi tratado humanamente na prisão. "embora ordinários". fosse de outro. Revolta decerto justificável. Vivendo inquieto. acossado pelos credores e explorado pelos diretores de jornal. abusando dos excitantes. depois dos primeiros interrogatórios. e que a polícia do Rio. Provavelmente esse repouso completo lhe ofereceu ensejo para uma revisão de rumos e reflexão mais serena sobre as coisas. o senso de responsabilidade de cada um. afinal. A atmosfera foi opressiva. que só poderia exacerbar-lhe o sentimento revolucionário e jamais intimidá-lo. despertar. considerou que. Não quer cooperar . não há pedicuros. posto em liberdade. alimentando-se pouco. quanto aos meios. deveria estar com as prisões cheias de conspiradores. sobre o assunto. supondo que o fossem enviar para o Rio. Conhecendo a sua energia. na expectativa de qualquer coisa extraordinária. fosse de um lado. durante o "retiro espiritual" (reproduzo expressões suas).livros. Lá. esteve um pouco inquieto. Concluiu que ficaria mesmo por aqui e seria. a rebelião teve. Aqui. que viesse satisfazer à sua necessidade de terremotos e à sua revolta contra as coisas. como ele próprio denomina sua reclusão involuntária. como diz Silviano. O certo é que Redelvim está diferente. Em suma. dormindo menos. de um modo geral. que lhe mandei. psicologicamente. efeitos consideráveis. o delegado lhe deu a entender isso. O que terá determinado tal transformação foi o retiro espiritual. mas está picado pela desconfiança e pela incerteza e se julga um elemento inapto para agir. de início. lendo. passou a encarar o caso corri espírito esportivo e deliberou tirar vantagem da situação. extraem da gente o que querem"). Recordemos a conversação de há pouco: contou-me. arrancando unhas. Está um pouco mudado. mas desorientada. não atribuirei essa mudança ao fato da prisão. a princípio. mais cedo ou mais tarde. Aliás. nestes vinte dias. dar rumos aos indecisos. porém. de redação para redação. levou. disse. Acredito também (e isso aconteceu a muitos) que o choque de novembro tenha produzido no seu espírito uma descarga. tirou todo o atraso. dissipar as fantasias. Refletindo. pois não pode fazê-lo em estado de dúvida. operando essa descarga que deveria desoprimir o ambiente. Dissipado o receio da remessa para o Rio ("Você compreende que seria bem pau. durante vinte dias. nos meses que antecederam o golpe extremista. não existiam provas de sua participação no movimento. pelo menos. por outro lado. Embora haja abortado. Confessou-me que desde alguns anos não dormia regularmente e que. acabou por chegar ao "estado de raiva". descansando e meditando. Isolado em pequeno compartimento. um regime de vida que há anos não conhecia e lhe permitiu talvez uma restauração nervosa. Redelvim os viveu agitadamente.

—Cheguei até a porta do seu apartamento. pois teme os desvios duma ditadura. Por isso. Até logo. Realizado o casamento. Perguntei-lhe por onde andou metido. mas ouvi vozes lá dentro e voltei. de cujo nome não me lembro. informou haver recebido uma carta da mãe. decerto impelida pelo mesmo sentimento com que teria tomado o hábito de irmã de caridade. Maria Júlia. Está bem. Viúva desde muitos anos. até quando lhe convier. Acostumou-se. a respeito. porém. a idéia marxista. resolvera contrair segundas núpcias. —A velha anda muito doente e foi morar na fazenda com o meu tio. Acredito que se Redelvim houvesse ficado em sua companhia o afeto maternal lhe teria ocupado inteiramente o coração e não a deixaria disponível para outros afetos. Redelvim combateu violentamente e em vão o projeto. após longa enfermidade. É dessas criaturas que têm vocação para o sacrifício ou que. Sua probidade intelectual foi. e perguntara a si próprio se a ação de Stalin terá um sentido apenas particular e episódico ou. pelo contrário. nem tendo perto de si o Redelvim. vencida pelo orgulho. teve pena do infeliz e decidiu desposá-lo. dos quarenta. quando o conheci. . ao papel de enfermeira e. vai abster-se da ação e será apenas um espectador. pedindo insistentemente que fosse vê-la. Depois de pensar maduramente. não encontrando jeito de continuar a exercê-lo depois da morte do marido. a mãe se casou com um pobre homem que sofria um incômodo nervoso. então. respondeu. depois que o puseram em liberdade. para lhe dispensar cuidados de mãe. Não o faz há anos: ela é que aqui vem. no caso. então. estava brigado com ela. quando o pai sucumbiu a uma hemoptise. Pareceu-me que alguns imbecis jogavam com ela. e que vivia a tremer. Redelvim. achou também que o Brasil não está suficientemente preparado e ainda não surgira a equipe que poderia organizar o pós-revolução. ficou furioso e dispôs-se a não mais ir vê-la. como suporiam os sujeitos maldosos. Nada mais disse. nem lhe foi perguntado. Mas ele veio para Belo Horizonte desde rapazinho. que me oculta uma reviravolta mais profunda. sem dúvida. se a polícia deixar. sempre que pode. Tempos depois. Procurei-o em casa de Jandira e soube que também lá não esteve. se comprazem na dor. exprimirá uma impossibilidade de realizar-se. contrariado. na íntegra.para uma ação em cujas diretivas não possa influir. Estou querendo ir passar uns tempos lá. Creio. Pus-me a pensar em D. Passava. Não compreendendo isso. Por último. Meditara bastante sobre o conflito entre Trotsky e Stalin.

mesmo de líquidos. Vítima de um tumor maligno que lhe comprimiu o esôfago a ponto de não lhe permitir a ingestão. Servindo-se de um funil. para consolar o paladar da passagem da bebida por outra via. no antebraço." O "ele" a que se referia era seu estômago. Bom será que a mãe o retenha algum tempo na fazenda. exclamou: —É verdade. bochechava com o resto que havia no fundo do copo. Levoume logo a um bar. por meio de sonda introduzida diretamente no estômago. o velho Carpóforo levava a bebida ao estômago. esse homem teve de alimentar-se. O HOMEM DO FUNIL. que o sabia condenado à morte. Nem sei mesmo explicar como a tuberculose. amiudou as visitas ao filho. para dar a grande notícia: obteve permissão para voltar ao chope. ainda não o colheu em suas malhas. Como gostava muito de beber. —O médico apenas me recomendou que não tomasse mais de dez por dia. freqüente na família. independente do organismo. Habituou-se a tratá-lo como um indivíduo à parte. Contou-me também que.. Há alguns meses tem estado enferma e quem fará a viagem agora é o Redelvim. então: "Ele tomou um caldinho. Florêncio relatou o caso com espírito. doutor. à saída da Secretaria. E referiu-me o caso de um tabelião Carpóforo. Parece-me que só os nervos o sustentam. que conheceu numa cidade do Sul de Minas. § 70. Deve andar perto dos sessenta. e.. Se ele voltar à vida antiga não a viverá muito. nos últimos meses de vida. beberei nem que seja pelo funil! —Funil? Por quê? Dando uma gargalhada e segurando-me com a mão peluda. Enviuvou pela segunda vez. desde então." Ou. —E agora. o tabelião informava: "O que ele comeu hoje foi um arrozinho mole. FLORÊNCIO foi buscar-me hoje. Não lhe contei ainda a história do funil. Mas a velha vinha a Belo Horizonte sempre que as circunstâncias permitiam. amável. Estava transfigurado: era o Florêncio antigo. galhofeiro. ilustrando a narrativa com . perguntado pelo médico sobre a natureza do alimento tomado em determinado dia. esclareceu. por via bucal. E. num gesto trágico e cômico ao mesmo tempo.enquanto estivesse na companhia do segundo marido. há três anos. o médico. dispensando-o de ir à procura dela. Belmiro velho. não o quis privar do vício.

de certa forma.) Ia. Bem me pareceu que havia de ser o Otelo. Convidou-me um dia a tomar sorvete. E. se não lhe pudesse dar proporções monumentais. Por que continuar tais confidencias. Respondeu-me que fora o professor Otelo. então. ao monstro literário. procurei. satisfazer. com alguma veemência. o "Perrexil"). § 71. Não acredita na medicina (salvo na sua psiquiatria. Incapaz de criar. Talvez fosse algum extraviado. no alpendre da casa. logo ao iniciar a tarefa. e eu estava muito resfriado. Perguntei-lhe. com preguiça de levantar-me. já destituídas de intimidade. e. Devia primeiro indagar se povo existe! A mim. na leitura. um escritor frustrado. o equívoco se desfaria sem ser preciso abrir a porta. a uma de suas discussões com Redelvim: "Persegue-me com a sua mania de povo. andando a passos largos. e incerto quanto à conveniência de prosseguir nestas notas. de um modo especial. Não receberia ninguém e teria cães ferozes para estraçalharem . pois. qual o médico a que recorrera para obter a volta ao chope. depois. Assim pensando. compraz-se na criação alheia. "É o medicamento específico". irritado. ainda que em parte. folheando autores prediletos. Aceitei o sorvete e apanhei uma gripe pneumônica. Não tive tempo de assustar-me. disse-me. pus-me a ler um pouco. pois reconheci logo a voz do Silviano e passou-me rapidamente pelo espírito a lembrança de um dia em que. ONDE APARECE O "DOUTOR ANGÉLICO" CANSADO de escrever. em que—talvez por ser meio gira—se tornou grande especialista) e faz humorismo quando o procuram para outras moléstias. o amigo se referia. depois de dado um giro pela cidade. —É o Conde de Revila y Gigedo. a outrem. nesse caso. o homem que tem o senso da hierarquia!" E expôs-me sua idéia de construir um castelo e comprar o título de Conde de Revila y Gigedo (nesse tempo amava Dolores Gigedo. pois que me dirijo sempre a um leitor imaginário? Prometi a mim mesmo que nunca escreveria um livro. pude ver que de mim nunca sairia um monumento. um pouco rudemente. —Quem é? perguntei.adequada mímica. (O leitor é. quando alguém me bateu à porta da casa. responderam. me fez sentir isso: nada há de mim que possa interessar. Jandira jamais foi tão acertada como quando.

Silviano assim o apelidou por causa de sua profissão de fé tomista. Acabo de fortalecer minhas convicções a respeito do cepticismo de Pascal. Imagine. sugestionado pela leitura. Entretanto. Não é por acaso que conserva um retrato do Poeta sobre a mesa. e disse: —Leia isso. minha presença seria talvez ridícula. seu Angélico. Jerônimo é um pascalizante. Dar-se-ia que Silviano. por isso. passando-o para as minhas. de há muito. Quero que venha. segundo me informa o Silviano. Surpreendemo-lo em sua biblioteca. por exemplo: folheando outro dia um volume de Ribot. houvesse improvisado. disse-me à queima-roupa: —Vim buscá-lo para irmos juntos ao Doutor Angélico. ver-se-ia um cartaz: "Domínios privados do Conde de Revila y Gigedo".) Imaginei que deveria ser sensacional uma luta entre os dois. acompanhei o filósofo. Você vai testemunhar um espetáculo soberbo! respondeu-me. Uma idéia bem d'annunziana. Mas. como chegar a uma conclusão? Voltemos. até que ponto faz teatro para os outros e para si mesmo. o carro está à porta. emprestado pelo próprio Silviano. como se vê.. Porfírio. seguia-se-lhe. ao Conde de Revila y Gigedo. ora caprichos de criança. Aquela história de Parabosco & Ferrabosco. —Não. Silviano lho tomou das mãos. Silviano não me deu tempo para cumprimentos. que lhe trouxeram da Itália. objetei ao Silviano que. pela sua cabeça passam grandes coisas e também coisas disparatadas. Chegados à casa do Jerônimo. encontro. para mim.. Vista-se. Aberta a porta. sustenta com ele interminável discussão sobre a posição de Pascal perante a Igreja. assinalado a lápis. É o que há de definitivo. ("Doutor Angélico" é o Jerônimo. que o fato de ter sublinhado o trecho signifique haver o amigo encontrado nele o estudo de caso análogo ao seu. . Não sei. a folhear um pequeno volume de Luc-Benoist: La Cuisine des Anges. uma série de depoimentos de indivíduos do tipo "espírito romanesco". Próximo à ponte levadiça. Embora tomista. também. e. Já lhes disse que o nosso amigo não se deixa medir pela bitola comum: ora tem gestos soberbos. a novela Parabosco? É possível. porém. leigo no assunto. um capítulo sobre imaginação difluente. no final. além disso. o Saisset o coloca entre Aenesidemo e Kant! Quero que você assista ao embate: vou fulminar o Doutor Angélico! Ah! ah! ah!. sempre suspensa. Retrato autografado. Silviano levou-me pelo braço e foi entrando portas adentro. Leia isso. Seria inútil qualquer resistência.aqueles que viessem perturbar as meditações do Pensador. que.

com o sofisma das edições mutiladas pelos jansenistas. com enfado.. uma edição dos Pensamentos suprimindo o que lhes não convinha.—Que é? O Saisset? perguntou Jerônimo com ar desdenhoso. com calor. gesticulando nervosamente e dirigindo-se a mim...... continuou Jerônimo. O Bremond responde a tudo isso. Silviano tirou partido da situação: —Não quer confessar que os Jesuítas são suspeitos. Já lhe disse que. deveras. dando uma gargalhada. pela manga do paletó. emprega argumentos dessa natureza? Eu me apoio nos próprios textos de Pascal! E em qualquer edição que você queira.. faça o favor.. —Lá vem você deslealmente. nos últimos anos. Você sabe que os jansenistas. . Ou melhor. não se insiste mais neste grosseiro erro. Desde as edições de Brunschvicg e Strowski. Pascal é arrolado entre os cépticos. Já lhe disse que caiu. Bréhier. sem prestar atenção ao Silviano. para mim. seu energúmeno! —Ora.. Pascal reconheceu os seus erros. "Mentis pela gorja. não me faça perder o tempo. —Absolutamente! tornou o Jêronimo.quanto a Pascal.. de suas heresias jansenistas! O abade Beurrier. colocando-os sobre a mesa ou empilhando-os em minhas mãos. afirmou que "il est mort en bon catholique". gritou Jerônimo. respondo com Cousin. — .. agastado. voltando-se. aparteou Silviano. entende? Ao seu Beurrier.. exclamando: —Mas. Não respondeu de pronto e se pôs nervosamente a tirar livros das estantes.. no máximo.. Você verá que Pascal é um caso típico de suspensio judicii sceptica. —Oh!!! exclamou Silviano.. Silviano puxou-o. então. —Leia. publicaram. —Os jansenistas. Toda a crítica moderna da França é unânime em reconhecer que ele superou o seu cepticismo. mais tarde. Leia. —La vieille chanson. . numa suspensio judicii indagatoria. "parfaitement soumis à l’Eglise et à Notre Saint-Père le Pape". veja simplesmente a Enciclopédia Espasa. você. Sua má-fé é evidente. mas penitenciou-se. Jerônimo ficou um tanto perturbado com a arremetida.. Você incide no mesmo erro da corrente racionalista do estúpido século dezenove. Michelet. que é de Jesuítas. Jerônimo. que o assistiu. para poder conversar com um sofista de sua laia. —Leia. .. Silviano. hein? —Estou apenas procurando forrar-me de caridade cristã. . respondeu Jerônimo. perro aleivoso!" —Pascal foi um herético. . com um sorriso vitorioso. cortou o outro. depois. em 1670.

.. dizendo ao Jerônimo que não declaro dúvida. disse: —E. de Pascal. passei a um quarto contíguo. Jerônimo procurou diagnosticar o meu caso. a dúvida não subsiste. no entanto. muitas vezes objeto de suas conversações comigo. Tendo eu ficado quieto. E ali cochilei. Foi o bastante para que se ateasse nova discussão. Mas. Silviano. A certa altura. Silviano tomou-me a defesa. Por outro lado. Não era nada: mexendo desajeitadamente na parte superior de uma das estantes.E por aí continuaram. porfiam em procurar a Deus. Foi o fim da conversa. Para repousar o espírito. Mas Jerônimo. atalhou. Silviano pareceu abalado e. tendo nas mãos um volume dos Pensamentos que o Jerônimo deixara nelas. encontrei palavras que pareciam adequadas a mim e. Tive a impressão de que se passara um tempo considerável quando despertei.. então. ágil e eloqüente. Voltei e fiquei a folhear o livro. Silviano lembrou que eram onze da noite e Joana deveria estar aflita. Despedimo-nos. ele assim é. deliberei dar um ar de minha graça. pondo-me a mão sobre o ombro: —Mas Pascal também escreve: "Console-toi. Silviano aprovou. pois que o espírito é ativo. as minhas palavras.. meditando. foi feito para afirmar e não pode estar inerte. já não duvidamos.. com o barulho de livros que desabavam de uma prateleira. Estavam cansados e combinaram uma trégua até ao domingo seguinte. Jerônimo provocara o desabamento. tu ne me chercherais pas si tu ne m'avais trouvé". nem afirmar. Minha situação é de não negar.. onde havia uma cadeira austríaca. Até àquele momento eu conseguira entender o que diziam. Ao que Jerônimo respondeu tratar-se de outra atitude impossível. Teremos de duvidar da própria dúvida e. sem o terem ainda encontrado. própria para cochilos. para mostrar-me que notava minha presença.. a braços com a minha incapacidade de debater o assunto. por se tratar de um tema familiar ao Silviano. Fui ver os dois. Só é admissível isso como atitude provisória. dizendo que vivo em dúvida e isso não é possível. e disse que eu pertencia ao número daqueles "infelizes e razoáveis". se acreditarmos na dúvida. O espírito foi feito para afirmar.. ia prosseguir no capítulo. aliviando-o da forte tensão a que os amigos o obrigaram. desde então. travando acalorada disputa nos domínios da teologia. Talvez por gentileza. interessado. quando os dois sutis doutores vieram buscar-me. Lembrando-me do pensamento lido pouco antes. que me senti impossibilitado de acompanhar a discussão. .. origem de tamanhas querelas. se perderam em tais funduras.. —Impossível. com um sorriso condescendente.

cá fora. GLICÉRIO colou grau hoje e fui assistir à cerimônia. Por que não? Fali na vida. à maneira de Jerônimo. quantia que os advogados novos. § 72. o coronel Portes. aos cinqüenta anos. estudou esperanto. não estão ganhando. não perdi a noite. mas acabou no ilícito comércio literário. por fim. inclusive o de rapaz elegante.. Veio para mim com as delgadezas e impertinências da Escolástica! Mas apanhei-o numa ignorantía elenchi. por não ter . Andou tentando vários caminhos. que isso não poderia ser senão uma atitude provisória. da situação do Sepúlveda (o do bilhete de loteria). os seus seiscentos mil-réis. O bacharelando Glicério de Sousa Portes saiu pelo braço do amanuense Belmiro. não se sente atraído pela profissão. a propósito. A indecisão e o desânimo de Glicério me causam pena. numa fallacia consequentis e num abuso de fallacia plurium interrogationum. Ainda estou um pouco aturdido pelas coisas que ouvi e não me admirarei de que —ao tentar resumilas nestas páginas—tenha dito algum disparate. Instruíram-me bastante. Deixa ou não deixa a Seção do Fomento Animal? Pega. PERPLEXIDADE DE GLICÉRIO. ali. mãe ou namorada. o nosso Doutor Angélico! Foi pena que você não assistisse à última fase dos debates. Procurei consolá-lo. disse-me. A família mora nos confins do Triângulo e não pôde comparecer ao ato. no seu conhecido estilo: —Ora. haverá de encontrar o seu rumo. que. Lembrei-me. na Seção do Fomento. virou integralista e. Não encontra. dizendo-lhe. noiva. Como vêem. também. E nesse setor não espera produzir nada. e é possível que eu venha a tomar gosto por esse gênero de polêmica.. ainda não achou coisa a que se aplicar. traficando entorpecentes com Silviano. Terminada a festa. cada bacharelando saiu de braço dado com a irmã. Além disso. por motivo de moléstia do chefe. Apanhou o vício da literatura e só acha graça nisso. Não pode comigo! Não pode comigo! Separamo-nos em uma parada de bondes. os atrativos que lhe descobre o Filgueiras (o de lunetas douradas) e vive em tentativas: colecionou selos. E lembrei-me de mim. abraçou o espiritismo. que teve alguma imponência. Confessou-me que não se julga habilitado para coisa alguma e há muito tempo esta idéia o amofina. Não sabe o que vai fazer do diploma. criou canários de briga.De volta. Também não quer ir para o interior.

O Senhor esteja convosco. —Vamos tomar um cafezinho quente. em caixetas. perguntei-lhe para mudar de assunto: —E a Nonoca? Acabou-se o namoro? —Você anda no mundo da lua. Giovanni. bordados. Era um gosto ver essas coisas. amigos. Vestido de cetineta.encontrado rumos. Como vai a Marianina? E o Pietro? O relógio de repetição dá oito horas na sala de jantar. Emília volta da missa. Tomamos um chope. presente do Glicério. Irão mesmo à Europa. Foi bom para ela: está quase noiva de outro. En realidad un Diário equivale a un lento suicídio. com o vestido novo que exumou da canastra e cheira a naftalina. Daqui a dezoito dias. se não me engano. Terão de esperá-lo no Rio. Mister Prudêncio. com as peças do enxoval. Mister Belmiro. não é sintoma disso? (Ocorrem-me umas palavras bem significativas de Gregorio Marañón: "En el hombre adulto la práctica del Diário equivale a una supresión progresiva de la personalidad activa. ou coisa que o valha. Não se falou em Carmélia. seu Belmiro. Este Diário. Fazia riscos. Hoje é assim. Coisa de filis-tinos. Agora. MAIS UM NATAL. É o que Glicério informa. MERRY CHRISTMAS. e comigo não haveria casamento. cosia com amor. § 73. acrescentando que a viúva já regressou do Rio. Com certeza. Dois proveitos num saco. Qual foi mesmo o vapor que Glicério disse? Oceania. mandava vir rendas de Grão Mogol. aprendia a arte do bilro. social. Muito obrigado pelo Chianti e pelas castanhas. em caixetas. —Bom dia. SERÁ NO DIA QUINZE. uma donzela levava um ano a preparar enxoval. passeamos pela Avenida e nos despedimos. basta a . para assistir ao embarque. de su autor. Só zarpa a 18. Que tal uma ida ao Rio. —Merry Christmas. SERÁ no dia 15 de janeiro o casamento. tudo vem feito.") Depois. Compram tudo feito. com grande indiferença? Ora. § 74. Aquilo era um passatempo. Em Vila Caraíbas.

de seu espírito. Que diria o velho Borba? Um Borba teria furtado a moça e a levaria na garupa do cavalo. —Que é psicopata? —Psicopata? —Sou psicopata. No curso de uns oito ou dez anos não lhe conheci senão o pitoresco ou. § 75. humanização do mito etc. naquela noite. que já não estou em idade para arranjar novos amigos e hoje me convenço do contrário: havemos de fazer descobertas até o último dia. Coisa algo parecida ocorreu-me com relação ao Silviano. entretanto. Ou então declare-se de uma vez. impraticáveis donzelas. para assistir à partida. para torturar-se. Mas você não é Borba. Como disse atrás. no dia da prisão. Seu destino é sonhar. conversamos longamente. aceitando a opinião geral da Secretaria: era um aluado. apenas o fui conhecer mais a fundo quando. ou melhor. deixe-se disso. descobrindome regiões novas. você é um pobre flautista. Sim. como o Jerônimo. Nunca lhe prestei muita atenção. Disse. Naquele dia. Masoquismo espiritual. na Rua Erê. Fique sossegado na Rua Erê e deixe-se de histórias. Carolino? —O senhor acha que eu sou um homem abjeto? —Ora. neste ano de 35. que ficou para trás.idéia de ir ao Rio para excluir a de indiferença. E morrerá donzel. para a fazenda de Vista Alegre. Você não tem nada de abjeto. isto é. você amou o mito e não a moça. Dom Donzel da Rua Erê. A vida é um constante descobrimento e uma retificação constante. sou? Perguntas desse gênero Carolino sempre me fazia. Foi essa indiscrição que deu novo rumo às nossas conversações. então. fique com o seu mito e deixe a moça passear. antes. Devo corrigir o pensamento pessimista. Para todos os efeitos. e passou-me despercebida até hoje. O SENHOR pode dizer-me o que é abjeto? —Para que você quer saber isso. Seja lógico. Carolino. você não passa disso: um masoquista. Convivo com essa criatura há seguramente um lustro. Estabelecido que uma coisa não é outra. NOVAS AQUISIÇÕES. esteve aqui em casa para fazer companhia a Emília. o caricatural. Penso nesse . Lembre-se daquele arranjo seu: "o mito Arabela". E tudo por causa da indiscrição de haver lido uma página do seu Diário. quando lamentei a quase dissolução de nosso pequeno círculo. Diga que ainda ama a Carmélia. inexploradas. um outro Silviano tem crescido a meus olhos. Nesse caso. torna-se razoável uma ida ao Rio.

veio repetir-me coisas do Piemonte—já de mim conhecidas. UEM quiser fale mal da literatura. ainda encontrou meios de se lhe afeiçoar. Mas. insisti em lhe pagar o trabalho. a Rua Erê e fica a conversar com Emília até que eu me levante. Emília aprecia-o muito. Esta consiste em separar. por eqüidade. levado por simpatia e curiosidade. Parece que lhe tirei o complexo de inferioridade. hoje bem postos na vida. Desde que. E não aceita remuneração de nenhuma espécie. direi que devo a ela minha salvação. Celebro. mesmo. § 76. que conversa é esta de ir ao Rio? O melhor seria ir à Vila e não pensar mais nestas coisas. ORA BOLAS. Tornou-se um personagem indispensável na Rua Erê. pois é muito seguro. Todos o julgavam desmiolado. recebe o dinheiro para os pagamentos mensais. torno-me . quando o supôs débil de espírito. Assumiu a gestão de minha complicada contabilidade. ao Rio. e Tome. que me comparece nesta altura da vida. Que pensará Tome dessas aventuras a que há tanto tempo não se entregava? Carolino. Ê inteligente e dedicado. não pôde estudar.excêntrico e bom Carolino. Já não me pergunta se é uma criatura abjeta. a ele contadas pelo velho—e quando me disse que foi visitar seu Prudêncio. está se aproximando do Giovanni e do Prudêncio Gouveia. mostrou-me uma caderneta de depósito no Banco: possui setenta contos. a estima que lhe voto. escrevo dez linhas. como entende. quando. certa vez. parte de economias próprias. fazendo-os do próprio bolso. Quando. Venho da rua oprimido. nem ocupar posição igual à de companheiros de infância. há pouco. que parece desejar adotar outros amigos meus. Se eu for. Carolino procurava apenas isso: uma pessoa com quem pudesse conversar. com ela. Emília será confiada ao Carolino. em sua caduquice. Carolino pega a ave e passeia. pela rua. com ele dando uma prosa. as contas que devem ser pagas no fim do mês. nesta página. pois o dinheiro é pouco e os pretendentes. Procedente de boa família. O pai também se enganou sempre. e ele acabou como contínuo quando deveria ser amanuense ou—por que não? —primeiro-oficial. pela manhã. procura retribuir. Às vezes me adianta os pagamentos. parte provinda de herança. Calcula minhas despesas. incumbe-se de uma tarefa que sempre me pareceu transcendente: a seleção dos credores. Quanto a mim. comecei a cultivá-lo. a aquisição do novo amigo. Deu para freqüentar. Foi o que notei esta manhã. muitos.

Falando por alto com o Chefe.. que espia para. De que vale a gente viver a contrariar-se? Por si mesma a vida já nos impõe tantas limitações. Sempre há um argumento para os homens de boa vontade.dentro. Mas à noite. para estudar os métodos de propaganda postos em prática pelo técnico americano que o Governo Federal contratou—disse. O indivíduo que representa no palco nos fará rir. . EIS-ME NO RIO.. Mas tudo conspirou a favor. e isso deve ficar escrito aqui. somos espectadores sem compromissos." Primeiro de janeiro—ora bolas. quando toquei no assunto. apenas.. Os amigos andaram sumidos— ora bolas. o comediante se encarnará em nós e teremos de tolerá-lo. Mas é um indivíduo autônomo. Parte de nós fica no palco enquanto outra parte vai para a platéia e assiste. Será mesmo no dia quinze—ora bolas. para o caso em que eu venha a ralhar comigo mesmo por haver cometido esta proeza: "A vida já. com a pena entre os dedos. Bravo! Comecei bem a justificação de minha fraqueza alegando as imposições naturais da vida e daí concluindo que não devemos maltratar o irmão corpo com outras privações. Lá se foi o ano—ora bolas. Vi a donzela com o noivo—ora bolas. Descobri o segredo do Silviano: transferir os problemas para o Diário e realizar uma espécie de teatro interior. EIS-ME nesta mui leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. e vim. depois de um chocolate. É um homem poderoso. como defesa prévia. Durante o dia. Deixei Belo Horizonte com antecedência de alguns dias para não dar na vista do Glicério. suas mágoas." E Emília não fez má cara. e nada temos que ver com suas palhaçadas..olímpico. nos comoverá ou nos suscitará graves meditações. tomamos o bonde e vamos para casa sossegados. Terminado o espetáculo da noite. partiu dela própria a idéia de se chamar o Carolino." E é isso mesmo: por que havia de mortificar-me? O desejo de vir não foi veemente: era. mandar alguém ao Ministério da Agricultura. este se prontificou a arranjar-me passe e diárias: "Precisamos. Fique lá uns dias e traga-me um relatório. uma vaga idéia. § 77. Em verdade vos digo: o que escreve neste caderno não é o homem fraco que há pouco entrou no escritório. ou sua inquietação. mesmo. sorri e diz: "Ora bolas. Senti desejo de vir. Vou combinar isso com o Diretor. para lhe fazer companhia em minha ausência.

mana Rita. Safei-me daquele mercado estranho. numa travessa. Aboletei-me a um canto. Velho conhecido mineiro. Jamais me passara pela idéia uma visita a paragens tais. não teremos vindo somente pelo amor. mas tratei de esquecê-los no bureau da Seção. Desde cinco dias não faço outra coisa senão freqüentá-lo no cais. jogavam voltarete e tinham. na contemplação comovida deste Rio velho. Em certo bonde. ali. e a pé (não aprendi. Os passos me levaram. também. distraído. Muito malandro. que é o que amo. Não fui muito adiante: encontrei militares de terra e mar algo tocados. contemplando uma sociedade que está sempre a renovar-se. Anda enfurecido e sombrio. na praia. a um canto. fez disso motivo de troça e quis dar-me uns "endereços". naqueles cavalheiros que andavam de tílburi. com saudade.. que nasceu dos flancos da outra. ribeirinhos do Mangue. Ali nenhuma ilusão era possível.. com grande surpresa minha. a usar convenientemente os ônibus). Andando sempre. pensamentos sutis. me assusta e intimida. Nossos amigos cariocas não sabem o que vale o mar para nós. Perco-me. que começaram a olhar-me de soslaio. com o amigo. moveu-me a curiosidade de examinar os transeuntes e o local. em tal comissão. levou-me ontem a um local encantador. pela manhã. beber uma cerveja modesta. Havia. a necessidade de rever o Rio (seis anos sem o ver) e de espiar o Atlântico.. etc. de Minas. pela noite. algumas damas de poucas ou nenhumas vestes me propunham em francês coisas não muito adequadas ao meu ofício e condição. e lobriguei. também fui dar comigo em regiões não machadianas. O Rio antigo traz-me imagens machadianas que amei na adolescência. com o peito deprimido. Divisei. Atrás.. dois vultos que deslizavam furtivos à luz escassa dos lampiões: Capitu e Escobar. em vão. A cidade nova e brilhante. Estaremos amando neste momento? Creio que não. que me pareceu puxado por burricos. sobre o mundo. conversá-lo: está inacessível. a certos quarteirões movimentados. me havia designado para ir ao Rio. a que dão o nome de Juá. mana Rita fazia insinuações (Cale a boca. contraditório desejo de ver consumados o casamento e a partida. Tenho tentado. ainda. e . encontrado no Ministério. mas. arrastando sua língua difícil. deste Rio torto e encardido. num entra-e-sai de teatro de revista. também. e tratei de retirar-me com dignidade. Pode-se. como já ali me achasse.Glicério ficou informado apenas da versão oficial dos acontecimentos: comuniquei-lhe que o Chefe. o vulto amável de Sofia e tive dó do Rubião. tive a meu lado Dom Casmurro. pensei.). A meus ouvidos. Percorrendo a Rua Matacavalos. Aceitei-os. Sofremos apenas difusa melancolia. Examinando as coisas a fundo.

Deixei-a com suas literaturas. Pelo que me disse o companheiro. que chegavam em grandes automóveis. Andando pela Avenida vira um ajuntamento. Fossem damas da alta-roda ou simplesmente mundanas de luxo. o da Biblioteca Nacional. Não rende. que estava na roda de curiosos... de charuto entre os dentes. e fui arrastado até o passeio. Sr. com grande surpresa. . quando pude identificar uma voz: —Se não o pego de jaito. —Boa pequena. Levantei-me e. se não é o golpe. comovido. § 78. Neste quarto sombrio. Alguém.. tal a violência do puxão. mesmo. Devo ter tido uma vertigem. perfumarias. —Que foi isso. Foi. Borba? Um pequeno susto. aquelas criaturas deslumbraram o pobre solteirão da Rua Erê e no seu coração instilaram fermentos perturbadores. porém.. e sabe defender-se. Sentado no mosaico e já cercado de curiosos. ganhar o lado oposto. dirigiu-se. este corpo magro teria ficado hoje no asfalto da Avenida. Sr. Mas. quis. não é? (assumia um ar paternal de esculápio). ao luso amigo. O pirata se iludiu. As saudades . verifiquei que houve. a solidão está-me castigando muito. estava meio tonto. —Quase o esgano. Fez-me perder muito tempo. POR pouco. Depois de andarmos um pouco a pé. com a amiga. perfumarias. um animalejo daqueles custa o preço de uma coleção de clássicos Garnier. conhecido em casa de Jandira. Era o mesmo homem importante.pus-me a olhar mulheres finas e possivelmente caras. sem atinar com as coisas. Contou-me que estava de passeio no Rio. sobraçando cãezinhos peludos. então. vosmecê iria desta pra melhoire. quando recebi um forte puxão no colarinho. Queria certamente desfrutá-la.. louvando-lhe a destreza e segurança dos músculos. a passos rápidos. É uma pequena leoa. namoro. Borba. de corpo longo e pernas curtas. Recolhi-me ao hotel. Agradeci. pois. Talvez não tenha vindo de Portugal senão para livrar um amanuense incauto das rodas de um ônibus assassino. me reconhecera. Dei o fora. Perguntei se tinha vindo há pouco e pedi notícias de Jandira. Pela conversa. um irmão dalém-mar quem me salvou. O PROVIDENCIAL IRMÃO LUSO. a mim: era o doutorando Azevedo Leão. fui com ele a um café próximo. haim? Mas. que por pouco me asfixiava. entrara nele e. ainda um pouco tonto. mas a moça reagiu à altura.. Cruzando-a em hora de intenso movimento e descuidando-me de observar os sinais.. despedimo-nos.

PARTIRAM. perguntei-me se foi para "aquilo" que viera ao Rio. O mar me perturba. vem vindo. fazendo resplandecer cristaizinhos de mil cores. andei. sem ver a partida. procurando-os aqui. Na luta para alcançar o mar. Preciso voltar para Minas. deixarei o Rio. ele descobria o que de mais surpreendentemente belo tenho visto em perspectivas naturais. Vai-se afastando. só os encontrei com os olhos quando subiam para o vapor. como centenas de outros. densa mata. Se fiquei triste. até sumir-se no azul. E não aconteceu nada de excepcional. RECUEI instintivamente. Já nenhum interesse havia na escura. Pareceu-me que desde cem anos eu as contemplava. no cais. dezoito. Tive a impressão de que me haviam roubado qualquer coisa. onde o sol caía reto. enfim. correr o mundo. Margeei longamente. coisas vistas. foi com a saída do navio. A gente fica pensando nas terras do lado de lá. Mas o cansaço vem vindo. que é vário e a cada instante se recria. Ao voltar. da floresta e da serra. A terra não tremeu. senti-me vazio pelo resto do dia. Não assim o panorama do mar. Nenhum interesse nas praias fluviais. § 80. numa viagem. está presa a uma condição melancólica: foi feita para ser vista apenas uma vez. Eram viajantes perfeitamente vulgares. ocupados com vertiginosas imagens sofregamente sorvidas do exterior. que me atraía. e coração e espírito se fecharam para as coisas de dentro. Ou fico um pouco mais? § 79. dentro de uma Nau Catarineta que jamais chegaria a porto algum. apiedei-me do rio. cansado. VOZES ATLÂNTICAS.de Minas me trabalham surdamente. Aos primeiros dias. Andei. cada vaga. mas sempre retrocedendo para o mar. Tornaram-se coisas velhas. depois. Foram feitos para ser vistos apenas uma vez. Uma saída de navio é sempre coisa triste. havia muito que ver. A paisagem. Cada onda lhe traz formas distintas. procurando-os ali. de rio e floresta. um grande rio. vai-se afastando. nem houve eclipse do sol. Amanhã. Irritado comigo mesmo. . Metido no meio da multidão. e já não penso senão em voltar. pelo mesmo caminho. Mal os vi. fica desejando conhecer tudo. Entretanto. PARTIDA. Estou cansado. traços novos de vida.

Conhece todas as gradações. Mas. a alma sem forças receberam um hálito forte. permanente. ora múltiplo. Por que me perturba. que é intraduzível. era um verme a rastejar. . neste. Ainda estou a ouvir. nesta noite extraordinária. Eis que surgiu um Belmiro poderoso e elementar. Procurei. atlântico. os olhos sem brilho. Que segredos guarda. arrastando-se como um trovão longínquo. tal como ouvimos a voz do mar. Que imperiosas determinações me vinham das águas atlânticas? O corpo sem nervos. sufocado entre montanhas. assim. o pensamento revelador. Ficaram-me desejos confusos de amor e de ani-quilamento.. exalto-me e quero compartilhar de sua energia cósmica. captar a surda mensagem. mas dominadoras. encontrar-lhe a expressão real. quando devia amesquinhar-me. Se ao menos o amor se definisse. De onde nos será possível descortinar o alto panorama? Qual será o caminho—o da humildade ou o da dureza? Deixando o Arpoador. Nossa alma se inclina sobre si mesma e procura. que sabemos do amor? Impossível fixá-lo. As trombetas do Juízo Final deverão ser. devassando todas as idades. nos seus recônditos. Há. Ouvi-las-emos é dentro da alma. e contudo inquietante. Por que o mar nos transporta às reflexões sobre o amor e a morte? O amor e a morte encerrarão o destino do homem? Por que. teríamos um sentido. Esse Belmiro avultava cada vez mais no espaço e percorria o tempo. ao pé do qual o pobre Belmiro. Em alto estilo apocalíptico nela encontraremos resposta às nossas questões. sem a interferência dos sentidos. surdas. inexprimível por palavras. porque na linguagem do cosmos. como o marinheiro do poeta. nos convida a romper nossas limitações? Dir-seia que nos propõe a medida da latitude e da profundidade das suas águas inquietas. como a uma sinfonia wagneriana. Ele se compõe da variedade e da ondulação. e seu objeto é ora fixo.. assim. as vagas que batem no rochedo. Um Belmiro dominador. também. uma inteligência e um anseio de comunicação que nos fazem estremecer.Pareceu-me que do mar me vinha qualquer mensagem. o mar? Diante dele. A voz do grande paralítico. para que lhe tenham paralisado a língua? Ainda assim o grande paralítico nos manda sua fala. Uma grande voz' confusa se erguia do fundo das águas. ora uno. ora móvel. senti-me lúcido e triste. a um tempo distantes e próximas.

depois. à paz desta casa imutável. nas intermináveis chapadas do sertão.§ 81. e ganha expressão honesta e repousante. Depois. As coisas. quis explicar-se. COMO esta Rua Erê me enternece! Cá estou de novo. molécula puramente pictórica. Quero possuir o espírito pacífico destes velhos móveis. Florêncio é o mesmo homem de chapéu-dechile e ventre honrado. agora. sem outro destino? Deveria conformar-me com isto. A verdade está na Rua Erê e não no Arpoador. a vida me parecera de tal modo parada que supus estar no passado o sentido de minha existência. que encontro um refúgio embora precário. o ventre se lhe vai arredondando. Terá passado o furacão? Até então. Jandira busca aventuras para se iludir e Glicério se mostra perplexo. Ano difícil. ano tempestuoso. Emília continua grave e exata. louvado Deus. Assim foi em 35. nada se alterou no curso destes doze anos. nem sombra. Redelvim se perde em furores. Para que maior felicidade? Seu espírito. mas não me dá o desejado repouso. talvez. mas o caniço pensante. uns sobre os outros. e melhor fora não ter saído. pois Florêncio é a vida na sua manifestação mais confiante e tranqüila. A quietude suaviza os meus ardores. desta Emília velha. que se torna grandiosa à medida que seus cabelos branqueiam. que nos abre de longe os braços. pequenas árvores que não dão frutos. onde não subsiste nas coisas o sinal das atribulações. Mau físico para um agente de seguros de vida.. Tudo está como deixei e como sempre esteve. gritando na Avenida: —Você precisa comer mais feijão. este que se foi! O velho Borba não confiava na paz das coisas e dizia que os reveses vêm. as transformações interiores me devastaram. Não estarei aqui somente para integrar o vasto painel humano—ponto de luz ou de sombra. repousa na ordem de coisas que encontrou e foi estabelecida sobre um sistema de ficções . homem sem abismos. homem! Que carga de ossos! Ao passo que se aproxima dos cinqüenta. Silviano o considera primário. A VERDADE ESTÁ NA RUA ERÊ. Retorno. não se mexeram de seu lugar. Ali estão. É aqui nesta sala de jantar. Tirante a ausência da pobre Francisquinha. os acontecimentos me arrastaram no seu tumulto e me fizeram viver. onde o relógio de repetição bate horas caraibanas. Entretanto. que não indaga. Feliz Florêncio! Enquanto Silviano se consome em escafandrias. Vivi um ano com intensidade superior à da soma de muitos anos de vida. inquieto. nem possuem raízes medicinais. apenas para compor a paisagem. Por que procurar um sentido individual de existência? Há.

como há doze anos passados. Percebeu que já não me mantenho de pé. quanto à minha capacidade de fazer. Serviu-se do acontecimento para fazer o que Glicério denomina uma "figuração". por aqui tivemos uma: o casamento de Carmélia. porém. § 82. de há muito. e esta figuração tinha em vista os funcionários e duas pessoas que o visitavam naquele momento. NOSSO chefe de Seção é um pândego: pegou-me o relatório. um trabalho daqueles. encaminhando-o "à consideração superior". instintivamente me vou avizinhando do Silviano. a viver em interrogações. acaso. Não creio que me forneça uma certeza que me encha a vida. com pesar. céptico. prossigamos no caminho até aqui percorrido. SEÇÃO DO FOMENTO ANIMAL. que se achava. —Pois. o malogro dos planos da moça. Paz física da Rua Erê. À hora do café. morais e políticas. Propõe-me uma experiência. correu os olhos distraidamente pela primeira das cinco laudas de papel e achou-o excelente. Dir-se-ia a Bela Adormecida no Bosque. Queria dar-se importância. nesse caso. por outro lado. Desde que o rapaz deixou a Nonoca. A família aprovava o namoro e viu. com a mesma força. Como eu. para dar o bote. limpou o pince-nez. e. Glicério quis ver a peça. e. A ele devemos a modorral pacatez da Seção do Fomento. Seu equilíbrio de belo animal humano não é. Todo artifício será inútil e. nesta altura dos acontecimentos. Mas queria apenas puxar conversa e me contar o casamento de Carmélia. a sério. por que não te transformas em paz de espírito? Tudo está como dantes. fazendo crer que ele e o Fomento são levados em conta pelo diretor. sem a Bela e sem o Bosque. Glicério se abeirou de minha mesa. pedindo-me novidades do Rio. não acredita intimamente nos relatórios nem no Fomento. ideal? Impossível. O diretor tem interesse pelo caso. Foi uma festa . mas que fazer? Quem me oferecerá terra firme? Jerônimo? Jerônimo está-me espreitando. Talvez só encontre nele areias movediças. dava ao Glicério um sinal de sua hostilidade. o chefe o olha com reservas. Insiste em que minha atitude há de ser provisória." Achei graça em toda essa história inventada pelo chefe. Respondi-lhe que pelos jornais as teria mais recentes: eu chegara havia três dias.metafísicas. Mas o chefe não deixou: "É assunto urgente. encetar de novo a marcha e procurar o caminho de Florêncio. aliás justas. Inútil. onde os homens esperam pachorrentamente a aposentadoria e a morte.

penso também em outra coisa: os outros se movimentam. se deslocam. ponderou. —Embarcaram. o jovem bacharel voltou à minha mesa para dizer que.fina. Continua incapaz de amar. como diz o Silviano. um dia destes. E. mulher é acessório. Tenho coisas sérias em que pensar. pois o Jorge se diz ansioso por trabalhar... —Acessório? perguntou Carolino. portas adentro? —Mas isso não impediu que a viúva convidasse pessoas do seu círculo. O Senador Furquim lhe obteve uma comissão no gabinete do Advogado Geral do Estado. E pequenas não me faltam. que nos servia o café e ouviu a conversa. Afinal. Que é acessório? Eu sou um acessório? —Não te metas. ao escrever estas notas. Já não terei com quem conversar na Seção. Estava uma noiva linda. —E você.. respondeu Glicério com dureza. no dia 18. —É serviço mais próprio para mim. Seguiram no mesmo dia para o Rio. Carmélia! Casou-se afinal? Mas você não disse que a cerimônia seria singela. Isso é coisa do século passado. Só eu resto e envelheço nesta vida modorrenta. Se ao menos atingisse a beatitude burocrática do Filgueiras. dissimulando meus passos no Rio. Noto que o casamento de Carmélia não o abalou. efetivamente.. A notícia me entristeceu. acrescentei. a fim de alcançar o Oceania. estimo-o bastante e estou habituado à sua companhia. A VIDA SE ENCOLHE. enfim. Pedirei ao Glicério que não o trate assim. sim. Carolino teve um sorriso desapontado e retirou-se com a bandeja. Compareceu na casa o que há de bom e de melhor. muito abatido? —Não me venha com as suas. Pouco antes de sairmos. —Ah! É verdade.. Quero ver se mais tarde consigo um lugar de auxiliar jurídico. No mais. Eu é que ando cansado delas. rompem. progridem ou regridem. Ficarão lá somente dois meses. DEDIQUEI todo o domingo à leitura dos quatro cadernos de que já se compõe esta espécie de Diário. § 83. mas. Sua retirada dá-me uma sensação de desamparo. —Embarcaram sempre? Pensei que essa história de Europa não vingasse. uma vantagem encontraremos em deixar no papel o registro dos acontecimentos de nossa . abandonará a Seção.. Glicério pareceu-me sincero. há alguns anos. Não havendo outras.

Quantas contradições. como dentro de um caramujo. e. Anda pela fazenda e dele não tenho notícias. que desconhecimento de nós próprios! Há pouco mais de um ano escrevi a primeira página. ando sempre.vida: veremos surgir aos nossos olhos. talvez nada tenhamos de comum. A vida ganhou movimento. no ato de escrever. Nestes vinte dias não me saiu sequer uma linha. impressões. como Judeu Errante. . Apenas Silviano. aliás. Outras se sucederam com largos intervalos. quase me parece estranha. Glicério deixou a Seção e passou a trabalhar nos serviços de advocacia do Estado: foi o bastante para afrouxar nosso convívio. Carolino. Giovanni e Prudêncio. o calor se vai. Já não encontro. Não tenciono escrever romance. Redelvim. Jandira se afasta cada vez mais. Como um ano. quão diversos estados de espírito. pois não dá sinal de si. Não procurarei os amigos: se não me aparecem é porque já não me querem. mas deve ter arranjado outros. Pouco há. Vive no seu mundo de Pereirinhas e de Azevedos Leões. modifica o aspecto das coisas! Minha vida se reduz a Emília. Às vezes não encontro lugar que me sirva. e ando. Que dizer dele? É um homem sem história. que inexperiência. loucas fantasias. tomou o seu rumo. para instrução e advertência nossa um ser bem diferente daquele que supúnhamos encarnar. Só conhecemos. Mas continua Florêncio. permanece a oferecer interesse. que sempre foi pouco afetivo. De agosto a janeiro. Ah! É verdade: Florêncio não me tem faltado. quase que escrevo dia por dia. que escrever. se mergulhei em Silviano. sob mil formas. Leio um pouco e caminho pela cidade. o movimento amortece. emoção. foi porque nele encontrei possíveis itinerários para as minhas incertezas. as coisas desbotam e se tornam mais frias do que antes. e nisso está sua felicidade. Acabou o namoro com o tal doutorando. ainda que pouco encontradiço. Agora. Dentro em pouco. ingênuos pensamentos. que passa. Creio que já escrevi tudo o que havia em mim para escrever. em companhia do Carolino. o caderno toma a feição de Diário e nele passo a expor fatos. também. a vida alheia pelos seus pontos de incidência com a nossa: o mais é conjetura ou romance. a satisfação de outros tempos. Eu não renunciara ainda ao projeto de um livro de memórias e me consumia em tentativas. Isto é: encolhe-se na Rua Erê. colorido. Depois. E os amigos se desviaram de mim. repelindo as solicitações de um presente que se insinuava. no meu espírito e disputava lugar às imagens do passado. A vida dos amigos apenas se me revelou quando incidiu na minha. Continuar a acompanhar a vida dos outros? Isso seria interminável. Jamais entrei nos seus domínios íntimos.

batendo a lata em quantos obstáculos encontrava no caminho. E cá o ponho nesta página. Que pensaria ele naquela situação? O mundo. Ainda o vi ao longe. dia e noite. deixei-o consigo mesmo. Fez-me pena.§ 84. apesar dos esforços desesperados do animal. refleti. Talvez seja esta a razão . É o que presumo com indiscutíveis fundamentos. que me recebeu com bondade. para o livrar do incômodo apêndice. Mas o cão não era porventura permeável às palavras de eterna sabedoria. Como eu me aproximasse. isto é. pôs-se a correr como pôde. para tortura de um focinho possivelmente magro. e ele ignorasse minhas intenções. pois fui encontrar o rafeiro já um tanto cansado. á escrever. o corpo apoiado nas dianteiras e o focinho para cima. Simpatizei com o cão e lamento que os animais não estejam a cobro do ridículo. O "vira-lata” deveria estar preparado espiritualmente para semelhantes situações. encontrei um pobre cão em ridícula postura. Bem podia ser que ele me agradecesse o benefício com uma dentada. Era um autêntico "vira-lata". a escrever sempre. De tal modo insinuara ele o focinho numa lata de lixo. dando com a lata aqui e acolá. § 85. Não é muito recomendável estar fuçando as coisas e quem as fuça deve agüentar as conseqüências. através de uma lata de lixo. Estava fora. não mais largando dali. UM POUCO MENOS PESSIMISTA. esta noite. Está fazendo um livro. e não resisti mais: fui procurar Silviano esta noite. VOLTANDO para casa. ou aromas amáveis. a julgar pela miséria orgânica do resto do corpo. que por aí circulam nos adágios. Afinal. Qualquer coisa me liga a esse cachorro magro e abandonado que encontrei na Rua dos Pampas. OUTROS dez dias de solidão. que esta se lhe prendeu à cabeça. com as patas traseiras em repouso. mas também me fez rir. UM "VIRA-LATA". a lata para cima. não deve oferecer paisagens atraentes. esse que surpreendi em tão difícil conjuntura. na meia-noite silenciosa da Rua dos Pampas. para ter em paz a consciência. com a resignação de quem espalhou ventos e acabou colhendo tempestades. Joana. na direção das estrelas. ofereceu-me café e contou-me que o marido anda enfurnado em casa.

E. Não repare. que vá na parola. e toquei para a casa de Jandira. Glicério não passa de um convencido. o patife?). . —Não dramatize. e eu era uma idiota. Aproveitaram o rápido encontro para me comunicar que estão noivos. seu Belmiro. Sendo apenas oito da noite. Continua no emprego e foi aumentada no ordenado. O que faço é procurar viver. Barroso. consultar a biblioteca. com um sorriso perverso. Informou-me. já a descerem a escada. Jandira olhou. e carregue os problemas da turma. Saiu hoje apenas para ir à casa do Jerônimo. Arranjem outra. Silviano pensava desesperar-me. vou aproveitar as forças que me restam. Lá cheguei à hora em que se retiravam o professor Barroso e D. Você acertou em nos deixar de lado. sorridente. resolvi aproveitar a quebra do meu compromisso íntimo (o de não procurar ninguém). E você me intoxicava com literatura. não hão. que leva agora. Anita. Jandira não está. disse. o par já maduro. complicando tudo.. São uns patetas. mas cada vez andam mais juntos. Esta repreendeu-o: —Você é sem modos. O velho Sobral é bom chefe e amigo. Descobri uma coisa chamada flerte. —Mas essa vida. Contou-me que tudo vai bem... virando-se para mim: —Afinal. anedia como supus. não. enlaçando-a pela cintura. Este velho anda meio caduco. Redelvim queria tornar-me revolucionária. lançando à noiva um olhar lúbrico. você por aqui! Por onde tem andado. satisfaz? —E a sua satisfaz? —Bem. Já não há Pereirinhas. que se afastava: —Nasceram um para o outro. Resolvi dar um sentido mais esportivo à vida. deixe essa mania de dramatizar. Fica falando bobagens com seu Belmiro. —E você? Isso é mais importante. assim. meu velho? A acolhida me animou um pouco.—Olhe. Brigam. Não têm culpa de ter sido este encontro retardado pela vida. belezinha! disse Barroso. de que o Jerônimo tem estado sempre com ele. disse-lhe. —Caduco por sua causa.do seu sumiço. —Siga o meu exemplo.. isso é verdade. Vocês me andavam envenenando com histórias. É o que faço no momento. doutor (o Almirante tem a mania de chamar-me doutor). —E de amores? —Amores. brigam. Não o pus de lado. Belmiro. ainda. falou. com malícia. com suas loucuras (sabe que tentou conquistar-me.

diga-lhe que não se considere triunfante com as coisas que me ouviu.. com todos os efes e erres. Vou buscar a carta. disse eu. Regressei. doze páginas. Mas. Perguntei-lhe se estava possuído de um sentimento burguês chamado ciúme.. Sugeria o concubinato puro e simples.. surge-me. E sempre desejável. Mudou muito. e encontrou. É fabuloso! A princípio tive pena. Aborreceu-se. nada devendo prender-nos. Diz isto apenas para posar. Continuo onde estava.. dando uma gargalhada. Vendo que eu não cedia. o Barroso e a Anita a jogarem. DEPOIS de prolongada ausência. na estacada! O idiota é capaz de ter pensado que fraqueei em minhas convicções. propôs-me afinal. a propósito de que desencadeou sobre mim o seu furor? —A propósito de uma conversa que teve com você. aqui. —O extraordinário seria que não me chamasse imbecil.. de ódio. um casamento. à . quando me veio ver. afinal." Achei graça. Dizia que não havia de casarse como um burguês. Insistiu em que não se tratava do sentimento capitalista denominado amor. embora não lhe interessasse reproduzir a espécie. § 86. Ora. o Silviano. desde que um dos dois não quisesse mais o outro. antes de partir e logo que saiu da prisão. SILVIANO E SEU PLANO DECENAL.. Dentro em pouco. Bem que seria capaz de lhe propor casamento. de modo algum.E depois fez uma confidencia imprevista: Redelvim assediou-a também. da casa de Jandira. menos pessimista. Ia sair. Quase me bateu. —Imagine que coisa divertida. Aconteceu que eu me achava num momento de dúvida e de fraqueza. Eu ainda não lhe falei que agora cuido de outras coisas. O resto são declarações amorosas.. estendendo-me uma folha de papel: —Trouxe apenas a parte em que se refere a você. Respondi-lhe que sim. deu para perseguir-me com propostas. Li o trecho: "Quanto ao imbecil do Belmiro. Obedecia apenas ao instinto. Quer que eu admire seu fervor revolucionário. voltava.. Em uma delas tachou você de imbecil. o Azevedo Leão. Jandira me perguntou se acreditava na sinceridade daquelas palavras. mas depois fiquei irritada. Ultimamente. depois da prisão. que tolice! Alguém me quer? Quem poderia casarse comigo morreu há anos em Vila Caraíbas. —Pois você se engana. .. Ótimo! Imagine se eu iria casar com aquele maluco! Agora me escreve cartas de dez. mas continua interessante. Queria que fôssemos morar juntos. continuou.

alude ao morbo sagrado (capítulo Sacer morbus). "Eis que. sobraçando duas pastas de cartolina. Conta coisas mui secretas. falou. ainda. que mantinham. apenas os títulos dos capítulos e o da obra serão no idioma de meu dileto Sêneca.. passa a tratar-me na segunda pessoa. como que referindo-se a outra pessoa. no qual o homem. Primeiro. embora passageira. sempre com os olhos nas pastas. o . resolvi escrever a minha vida. Não me sendo possível escrever. com solenidade. Depois de uma pausa respiratória continuou: —Evolui. como desejaria.sua procura. com estrépito. adoecido e passado longos anos em uso de comidas leves. Tenho um Diário. em forma de memórias. Não o Velho. com o braço estendido. ameaçavam despejar-se pela mesa e pelo chão. lhe advém a preocupação com os alimentos e escreve o capítulo De usu ciborum. pondo as mãos sobre os meus pulsos. lançando sobre a mesa. folhas de papel que. Estive recolhido em graves lucubrações. (Sempre que me repreende. isto é.) Levantou-se e. —Há dois meses. como lhes era possível. de tocar nos papéis. logo empós. mas o autor de De constantia sapientia e De tranquillitate animi. que compreende a espécie amor. começa a ter a intuição do problema. aos quarenta anos. —Não sejas impetuoso. todo o texto em latim. então. Eis o fruto delas! E indicou. a carga. Acossado por grandes aperturas financeiras. impediu-me. Inútil dizer que todos os psicólogos modernos consideram o amor uma doença. a seu lado. não cabendo dentro das pastas. intranqüilo. Fá-lo-ei em Memorabilia. com a perspectiva de um desabamento. folheando as notas escritas em papel grosso e com tinta roxa. —Joana me disse que você esteve lá. Porfírio. Sofreia os teus ímpetos! Nada viste. Capítulo Evolutio Veneris. retirou de sobre a mesa as pastas que ali se mantinham em duvidoso equilíbrio e me assustavam. presumivelmente preciosa. o precário equilíbrio. —Magnífico! Sempre achei que você deveria fazer isso. —Larga! Não vês que me vais tumultuar as notas? Conversemos. Sentei-me. quando ele me bate à porta. disse-me. foi-me expondo o plano da obra: —Silviano. primeiro. no capítulo Cogitationes privatae. sem maiores cumprimentos. para alívio meu. de modo catastrófico.. Eu pretendia evitar o desastre. já ao dealbar dos trinta anos. que remonta aos longes de minha infância. porém. tentando arranjá-las a jeito. no herói o sentido de Vênus. e nele encontro material abundantíssimo. trata da sua infância e adolescência. o Retórico. declarou. intenta escrever a sua vida —De vita própria. com energia. Assentou-se de novo e. havendo. quando Silviano.

Eis que Silviano. farto de prazeres ilusórios. bem sua. Já vem você com nugas. que é outro capítulo. a gana de sentir. hedonistas e pirrônicos sobre ele se atiram. o majestoso pórtico. e atravessada a crise política (Libido dominandi). Eu me lembrava de ter visto. o que pensa. Convinha precaver-se contra alguma imitação involuntária. Transpõe. respondeu. então. o capítulo máximo. cínicos. continuou. de gozar "em" ou "com" todos os sentidos. subir a grande montanha! Dedicado ao labutar intelectual.. sempre existiu no herói.. Dentro de sua melancolia profunda. O herói continua a cultivar a ataraxia de Pirro e o cepticismo radical de Agesilau.. Euclides de Megara.. Por ele norteado. prosseguiu. Conhece. Nela encontrará a Grande Consolação (De Consolatione Philosophiae). "Não se fazem esperar as conseqüências. preparando o capítulo-mestre. agora. Bem achadas as suas epígrafes latinas. então. —Respiguei aqui e ali. o capítulo Ars semper gaudendi. Respondi que me parecia interessantíssimo o plano do livro. suspirando profundamente. terá de haver a suma dos capítulos. pretende libertar-se da tristura de fera em jaula. então. as grandes meditações sobre a Libido sentiendi. isto é. pôde.. confiava em que não lhe faltariam forças para atacar uma obra de tal porte. da vaidade de toda ciência (De vanitate scientiarum) e apreende a sutileza das coisas (De subtilitate rerum).. desde os trinta e cinco anos. Porventura isso interessa? Pouco importa que o .. Aenesidemo. O herói ataca. porém. No final. Estava comovido. vem-lhe grande onda de cepticismo. sentia vontade de o ler. —Diga-me. que. versou os bons autores e se afez ao vinho capitoso da filosofia.. Antístenes e Aristipo de Cirene. Je prends mon bien ou je le trouve. alcançando os domínios da verdadeira e perfeita filosofia (De vera et perfecta philosophia). o Amor. forças para reagir e adota a filosofia lusa do "não te rales". Surge. esclareceu o amigo. em grande retorno.pensador solitário cai em pessimismo e vê que pecuniae obediunt omnia— como diz o Eclesiastes—"ao dinheiro obedecem todas as coisas". com a soberba ênfase. "Bendita a hora em que lhe veio tal intento! exclama. Carneades e Sexto Empírico. e. "A Libido sciendi. dialéticos. desde já. Donde o capítulo De omnibus dubitandum. gravemente. o herói atinge a via triumphalis da sabedoria e da libertação. et pour cause matrimoniado. desde verde.. ao dealbar dos quarenta. coisa parecida. o aeternus hostis. em alguma parte. encontra. Porfírio. de novo." concluiu. . "Aos trinta e cinco anos. num supremo esforço. de sol a sol. aí. Escreve.

MANHÃ DE 28 DE FEVEREIRO.. outro conceito da vida. É o defeito das obras escritas em tanto tempo. eram cruzados por dezenas de barcos.. você já terá. As notas que tomei até agora são a síntese do pensamento filosófico que veio até a nós. um tanto desanimado com a minha mesquinharia. em alegres pares. O plano era notável. Adolescentes. Sentado à sombra de uma gameleira. Às vezes me parece que você não vai além do Abundâncio.. cheio de gente. arrisquei-me a dizer. um problema. Até logo. Quanto tempo gastaria para fazer o livro? —Talvez uns dez anos. Não poderei exceder-me! Não me faça objeções idiotas. achome na força culminante do espírito. Voltei ao principal. sai outra. nem aos grandes doutores! disse. Fotógrafos se mantinham solícitos. e os lagos. dizendo-lhe o que desejava ouvir: devia mesmo prosseguir no trabalho. todavia. Aos cinqüenta. MOCIDADE. Só para delineá-lo gastei quase dois anos de estudo..evangelista João me tenha fornecido epígrafes para três capítulos. Súbito. Na ilha próxima. Quanto às minhas meditações próprias. ou que uma frase apanhada ao acaso me descortine grandes paisagens. Cantar-lhes-ei baixinho estes versos de Molière: . —Surge. entregavam-se. —Não poderei exceder-me a mim próprio. enfadado. carecia abrir-me com alguém. Bem. quando permaneço calado. talvez. junto ao tripé de suas máquinas. a jogos infantis e corriam e brincavam. à espera de clientes. o bar do alemão. que poderia alcançar grandes proporções. respondeu. Do mesmo modo se porta. moças e rapazes invadiram o jardim. fiquei a folhear o Hermann e Dorotéia.... então. Já lhe falei o que precisava e talvez tenha errado em ter falado. § 87. tenho mais em que cuidar. Porfírio. É um plano decenal. Deu-me pesar que a conversa não durasse mais tempo. que dança diante de mim neste velho escritório. inclusive do que seja vera et perfecta philosophia. enquanto Carolino andava de bicicleta pelas alamedas.Dei um passeio pelo parque em companhia de Carolino.. E saiu apressadamente. Enfim. brilhantes de sol. Mas Silviano se encoleriza com as menores observações que eu faça. em matéria de compreensão! Deverei concluí-lo aos cinqüenta. Ainda tenho os olhos cheios de sua luminosa mocidade. Vai certamente reformar tudo. Pensou que fosse coisa para já? Como é ignorante.. Projeta-se uma coisa.

para ter mais esta presa. porventura. Volto a preocupar-me com a velha questão: que vim fazer neste mundo? Até agora nada realizei. Que poderia encontrar de novo nestes velhos companheiros? Todos adquiriram. le temps 1'éfface. Serei. Creio. que os camaradas me olham com alguma reserva. que um presente de grego. imaginando que mal lhes noto a presença. Percebo o cerco: adivinha minhas fraquezas e faz-me uma ofensiva em regra. como duas forças opostas. é certo."Profitez du printemps de vos beaux ans. . imutável. Resta-me Carolino. . com quem conversar. É constante. Havia de ser uma coisa épica: há dois anos atrás se conheceram." § 88. . respeitando a hierarquia burocrática.. mesmo. nada menos. Já não tenho. e passaram a repelir-se imediatamente. UM DIA COMO OS OUTROS. no seu rebanho de almas. conversaram um pouco. . uma fisionomia definida. . Talvez tenham mágoa de mim.La beauté passe. E. para diante. A SEÇÃO DO FOMENTO se tornou inabitável com a saída do Glicério. supondo-me alheio a tudo. Profitez du printemps.. Pressentem. mas se alimenta antes do silêncio que da conversação. e isso é grave para uma pessoa que foge de conversar consigo mesma. Qui nous ôte le goût de ces doux passe-temps. pelo Silviano. pois. Talvez conseguisse mais. Vage de glace vient à sa place. pois é um terrível catequista. Dir-lhe-ei que terá nada mais. tentando novamente catequizar Jandira. aimable jeunesse. Já não tenho com quem conversar. durante as horas de expediente. apenas o tal arbusto da chapada? Jerônimo continua a enviar-me recados. que não se renova. A estima que lhes dedico terá a natureza da que voto ao Giovanni ou ao Prudêncio Gouveia. Seria interessante promover um encontro entre Jandira e Jerônimo. são menores as possibilidades de qualquer realização." ". Grande presa. além disso. de ha muito. Mas Carolino se conserva distante. grandes abismos entre nós. Mas Jerônimo insistirá.

como a que vi outro dia. consegui vencer mais este dia morno da Seção do Fomento. em torno dela. os tempos de Arabela. Mas. ou o Silviano se perderá comigo no seu mare magnum? A última hipótese é a mais provável. Entretanto. para o chope do costume. que é isso? Estou arranjando todo um enredo. Eu e Silviano poderíamos escrever uma novela de parceria. nem Arabela. enquanto as crianças tomavam sorvete. Poderíamos recordar. Onde andarão? Em Ostende ou em Biarritz? Estejam onde estiverem desejo-lhes felicidades e prole. mesmo de modo platônico. O marido pode não achar graça nessas coisas e minhas costelas já não agüentam pancada. o grande prédio. sentada a uma mesa do bar. se não houvesse o plano da Memorabilia. na história de Parabosco & Ferrabosco Ltda. Ando em fugas freqüentes. proseando com o Fritz na sua língua arrevesada. por via do Silviano. de bota e esporas pedindo café e falando que a Chica está no meio dos anjos. Está bem. . Que pena Glicério estar ausente. Já não é donzela. . paremos por aqui. mandando encerrar o expediente. oferecerei um sorvete ao Jorginho e contar-lhe-ei histórias do Gigante Brasilião. Terão. amigos. como o Silviano. as mãos pelos cabelos de Carmelinha ou de Jorginho. pelo menos por algumas horas. NHÔ BORBA. NHÔ BORBA me apareceu. Mas. se algum dia eu seguir as águas deste. Passarei. vou perguntar-lhe se a história acabou ou continua. Sim. Soou a campainha. . Apanhemos o chapéu e apressemo-nos. ao servir-me o prato. se algum dia encontrar no Parque essas crianças e se a ama for pessoa de boa cara. O Florêncio nos espera. O chope é uma solução. no local do costume. que bem poderia ser do velho amanuense. na Praça Sete. É a senhora Jorge de Figueiredo. mais que em redor de mim. o prudente é não falar em mulheres dos outros. Havia muito que não me falava em Nhô Borba. Misturaremos as nossas dúvidas e tatearemos na grande confusão. da velha Maia e de Francisquinha devem rondar. Por falar nisso.Surge-me uma indagação: atingirei o Jerônimo. comovidamente. Certamente já construíram. com saudade. § 89. à hora do almoço. há de pensar sempre nos velhos. com certeza. Já não é donzela. uma gorda ama alemã. disse Emília. De que pensamentos se alimentaria senão destes? Os vultos do velho Borba. com os olhos carregados de imagens e o espírito cheio de . nem Arabela. Imagino essa prole. .

Lembra-me o desgosto que se estampava em sua fisionomia. LAGOA SANTA. e a pele encardida mal cobre os ossos. mas deve amar-me bastante. No seu desgosto. Dirige-se a mim por monossílabos. Belmiro. É uma figura dominadora: para ela se transferiu a força do velho Borba. de resto.preocupações. a que se aplicar. nesta casa. Mandou arreiá a besta e dis-qui-ia na roça do Corr-go. grande tristeza. Levou roupa de banho e passava quase o dia todo na lagoa. como o faz. sinto-me quase uma criança. Lá não há chope fresco. —Nhô Borba não falou mais nada? perguntei-lhe. impedindo-a de ir à cozinha. Mariana impôs: ela e os meninos precisavam tomar um pouco de ar. Como isso doía ao Borba. porém. para fazer dormir. pois a vida se torna vazia. Florêncio não foi por gosto. mas. a alma simples de Emília não encontra. o velho não pôde ver que a ignorância é meia felicidade. Contudo. resignava-se. vazia. como fez hoje. a figura de Emília! Está velha. FIQUEI outros quinze dias sem mexer nestes cadernos. Como avulta. em companhia do Florêncio. à Zefa ou ao Carolino. para fugir das recordações e não ser tentado pela Avenida. A gota ciática muitas vezes a prende ao leito. Coitado do velho. Foram criadas como bicho-do-mato. Creio que já não tenho mais nada para escrever. —Falou não. —Venha comigo. enquanto eu . A seu lado. vivendo dias que se passaram há vinte ou trinta anos. A velha Maia tinha. mas há boa cerveja. quando Emília ou Francisquinha (antes de se agravar a perturbação desta última) falavam errado em sua presença. Houve outro carnaval: passei-o em Lagoa Santa. Chamo. Emília e Francisquinha aprenderam com elas o pouco que sabiam do mundo e da língua. espírito mais conformado. é a figura dominadora da casa. ou conte um sonho. Que pensará de mim? Às vezes ralha comigo. sua amiga Josefa lavadeira. que sonhava mandá-las estudar em Diamantina! Vivendo só na fazenda e em meio de antigas escravas. que lá permaneceram depois do 13 de Maio. e há de estar permanentemente embebida nessa atmosfera caraibana. então. § 90. também. como se fosse eu o interessado no chope. e no carnaval não havia a desculpa dos negócios. bem velha. que a substitui como pode. disse-me. Pouco ou quase nada fala. É raro que me comunique uma opinião. como no tempo em que ela me punha ao colo. chama-me "excomungado".

. receando. Lendo-se qualquer coisa mais atraente. aproveitando-se de um pequeno resfriado que reteve Mariana no hotel. com quem o Florêncio travou logo relações. Por falar em Silviano. e adotaram os novos companheiros. Havia três ou quatro moças bonitas. Não gostou muito da minha precipitação. O amigo Carolino. baniu a literatura de suas cogitações. talvez. Felicitei-o. pois. encontrado um rumo. —Mas isto não quer dizer que eu me afaste da roda. ou à noite.. fazer este sacrifício. quando não está comigo. Quanto a Jandira. Belmiro.. Vou. perde-se a coragem de mergulhar nos tratados. e Silviano é quem está certo. amigo Florêncio. na sua renúncia..) A conselho de um dos companheiros. Perguntou-me gentilmente pela Emília e prometeu uma visita à Rua Erê. Ou com eles joga escopa. Que permaneça na fazenda. mas compulsória). Apenas provisoriamente (enquanto tomo gosto pelos arrazoados) farei abstinência. (Amabilidades: estou certo de que não virá. E de Redelvim não há notícias. este lhe cancele o diploma de clerc. com a chegada de uns rapazes. Está muito satisfeito com o novo emprego. mais adequado à sua situação de bacharel. compulsória (estou convencido de que essa renúncia não é virtuosa. soube que. Foi preciso energia para resistir. De manhã. travou relações definitivas com Giovanni e Prudêncio. andou a meditar na Serra do Cipó. —O direito é árido. no balcão do botequim. exibindo este corpo magro e desconforme para a sociedade que deixou Belo Horizonte e foi brilhar na Lagoa. na Praça da Liberdade. é o melhor. suas palavras me indicavam que havia. RÁPIDO encontro com Glicério. trouxe-me um calção e queria por força que eu o acompanhasse.lia meia dúzia de livros que carreguei comigo. ESTÃO DE VOLTA. Diverti-me.. sem a menor consideração. dá prosas intermináveis com os dois. não sei em que se ocupou. afinal. chegada essa notícia ao Silviano. durante o carnaval. que me fez a esmola de ficar aqui em casa com a Emília. depois. as moças o abandonaram. pois amarguei bem meu retorno às donzelas. Quis apresentar-me: pedi-lhe que não o fizesse.. durante minha ausência de três dias. que. a mil e tantos metros de altitude. A verdade é que já passamos. Glicério deve ter ido aos bailes dos clubes elegantes.. § 91. Certa manhã. Imaginem que figura faria eu. à sua custa. disse.

Já não é donzela nem Arabela. Tanto se achavam enlevados um com o outro. Eram Carmélia e Jorge. Estão certamente hospedados na mesma casa da dama-da-noite. Mas. —Não. pelo menos. Não se demorariam no Rio. e ali irão morar. Já se foram os dois meses. que vinha veloz. que nem me pediram desculpas.. de freios pisados com violência. se esse demônio do Glicério não ficasse a cutucá-lo. por minha conta. doença. Ouvi risos por detrás do pára-brisa. Ao descer a Avenida João Pinheiro. quando já não havia perigo. Muito confuso. pois o carro parará. boato de doença. e só a buzina. ali fiquei mais algum tempo. espalhava no ar molhado. recebi apenas salpicos. Para que me conta essas coisas? § 92. mas bem poderiam ter dito qualquer palavra amável. Haverá. AGRADEÇO-VOS OS SALPICOS. para ouvir uns restos de opereta que o alto-falante. que tenho com isso? Já me haveria desinteressado do assunto. Já próximo do portão que dá para a Avenida. deu-me esta informação: —Sabe que a Carmélia e o Jorge vêm por aí? Deveriam chegar ontem ao Rio. mesmo. Parece que a viúva não anda muito bem e pediu que voltassem. seguida de um chiado forte. pôde despertar-me. o Oceania? Ou embarcariam no Cap Arcona? Talvez já tenham chegado.. Se a doença é grave. EU ANDAVA pelo Parque. Uma chuva inesperada me havia retido quase uma hora no. deveriam ter vindo de zepelim. Depois saí às pressas. Era um carro grande de ricos. fingindo-me preocupado com a água de enxurro com que o carro me salpicou. Terão voltado pelo mesmo navio. caramanchão do bar e. e trazia placa de Berlim. fiquei a passar as mãos pela roupa. cessada ela. e a doença da viúva não prejudicou o programa.. tendo verificado que se aproximava a hora do expediente da Seção. Os sons musicais que ainda ouvia não me deixaram perceber o ruído do motor. e Glicério não saiba. quase fui apanhado por um carro. Assustado. Já completaram os dois meses? —Não sei. Lá se foram com seu namoro de lua-de-mel. dei ridículo salto para um lado. fanhoso.. ou é fita da velha? Glicério disse há tempos que ela tem medo à morte como o diabo à cruz. ou. havendo doença. como sempre tenho feito ultimamente. Na verdade.Ao despedir-se. Para que me .. O que eu sabia é que ficariam dois meses por lá. fui contando nos dedos. O carro se pôs de novo em movimento e seguiu rápido..

Eu fazia longa viagem. cresciam. saltitando." Depois. Passando-me a mão pelos cabelos. os salpicos. braços dados. volteando em redor de mim e acompanhados pelo chefe de trem.aparecem? Por que exatamente a mim? Secretas intenções do acaso. Já eram dez horas. colocando-se em torno de mim." Com os olhos postos no céu. QUANDO Emília bateu à porta do meu quarto. são os remos ou são as ondas o que dirige o meu barco? —Eu tenho as mãos cansadas e o barco voa dentro da noite. As coisas se tornavam confusas e os botões dourados da blusa azul do chefe de trem cresciam. cantavam a una voce: "Mundo mundo vasto mundo. MUNDO. O terceiro disse: sou o poeta sem nome. bate.. braços erguidos. § 93. não seria uma solução. acordei assustado. o poeta místico indagava: —"Senhor. Quem gosta dela sou eu. silenciosos. falou o poeta irônico: "Mundo mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo seria uma rima. Quem gosta de mim é ela. Bocejando. em poltronas da frente. a certo momento. e que dirão literário." E. pus-me a lembrar do sonho que tive. O segundo disse: sou o poeta místico. Três passageiros que iam. mais vasto é meu coração. MUNDO. humildemente. cantarolava o poeta sem nome: "Pirulito que bate. se levantaram. como a querer invadir todo o espaço. O primeiro disse: sou o poeta irônico. Pirulito que já bateu. e o calor e o cansaço me derreavam. mas posto em mim deixa de o ser." . que soprava um grande trombone.. eu vos agradeço.

nem de penas. mesmo com o coração descompensado. Esqueceu-me dizerlhe que a vida parou e nada há mais por escrever. entretanto. Carolino me trouxe esta manhã uma porção de blocos. —Que faremos. de Firmino e de Baldomero. Sangrou rudemente o almoxarifado da Seção do Fomento. Viviam com plenitude os velhos Borbas da linha-tronco. ainda pediam mais dez. . Em média. Viviam a vida. para empurrar os presumíveis trinta e dois anos que me restam. os Borbas vão até aos setenta. nem de boiões de tinta. Previdente e providente amigo! Esqueceu-me comunicar-lhe que já não preciso de papel. Quando um tombava.. Trinta e dois anos. Acho-me pouco além do meio da estrada. sim.. ÚLTIMA PÁGINA. que cheguei ao fim. e parece-me. Ai de mim! É necessário.§ 94. parecia queda de gameleira ferida pelo raio. porém. . Dois deles. vendo o corpo consumir-se lentamente. chegados aos oitenta. Carolino amigo? . de Porfírio. fazer qualquer coisa. Não morriam aos poucos. Negação de Belarmino. TENDO verificado que se esgotara minha provisão de papel.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful