CYRO DOS ANJOS O AMANUENSE BELMIRO
romance
7.a edição Nota biobibliográfica Prefácio de Antônio Cândido

LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITORA
RIO DE JANEIRO—1971

Anjos, Cyro dos, 1906 O Amanuense Belmiro, romance- Prefácio de Antônio Cândido. 7.a ed., Rio de Janeiro, Editora José Olympio, 1971. Publicado em convênio com o Instituto Nacional do Livro —MEC.

OBRAS DO AUTOR : O Amanuense Belmiro—Romance—1.ª edição, Editora "Os Amigos do Livro", Belo Horizonte, 1937; 2.", Livraria José Olympio Editora, Rio, 1938; 3.ª, Saraiva S/A.. São Paulo, 1949; 4.º, "Livros do Brasil", Lisboa, 1955; 5.ª. revista (com a 3.ª de Abdias), Livraria José Olympio Editora, Rio, 1957; 6. a, na Coleção Sagarana, Livraria José Olympio Editora, Rio, 1966. NO ESTRANGEIRO: El Amanuense Belmiro — Tezontle, México, 1954. Carnevale a Belo Horizonte — Fratelli Bocca Editori, Milão, Itália. 1954. Abdias — Romance — Livraria José Olympio Editora, Rio, 1945; 2." edição. Saraiva S/A., São Paulo, 1956; 3.\ revista (com a 5.» de O Amanuense Belmiro), Livraria José Olympio Editora, Rio, 1957. Explorações no Tempo — Crônicas (passou a integrar volume de memórias). — Ministério da Educação, Serviço de Documentação, 1952. A Criação Literária — Ensaio—Edição da Revista Filosófica, Coimbra, Portugal, 1954; 2.' edição, Ministério da Educação. Serviço de Documentação, 1956: 3.", Livraria Progresso Editora. Bahia, 1959. Montanha — Romance — 1." edição, Rio de Janeiro, 1956; 2.ª, 1956, ambas da Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro. O Amanuense Belmiro—Abdias—reunidos em um só volume, 1.ª edição, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro. 1957. Explorações no Tempo—Memórias. Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1963. Poemas Coronários—Edições de Arte, Universidade de Brasília, 1964.

O AMANUENSE BELMIRO .

Em 1933. a 5 de outubro de 1906. já o futuro romancista deixava entrever visíveis inclinações literárias. Iniciando os estudos médios na Escola Normal de Montes Claros. Dedicando-se ao jornalismo. Malograda tentativa de advocacia na cidade natal fez com que desistisse da profissão. rabiscando um jornalzinho manuscrito intitulado Horas Vagas. a fim de prover o próprio sustento. amava a leitura e o debate de idéias. Dona Carlota. Minas Gerais. Reunido em torno da "mesa de pereiro branco".latim tradicional entre mineiros e. entretendo-se com o. gostava de música e na casa sertaneja não faltavam os acordes de Bach e Beethoven. em carro de bois. revelador ao mesmo tempo do embrião de jornalista que se formava e da disciplina infantil a que se submetia na vida cotidiana e familiar. Diário da Manhã (1929). malgrado o ambiente rural e as longas distâncias que o separavam dos mundos urbanos mais atingidos pelo progresso. onde concluiu o curso secundário e o de Direito. de quem seu pai era ardoroso partidário.NOTA DA EDITORA DADOS BIOBIBLIOGRÁFICOS DO AUTOR CYRO VERSIANI DOS ANJOS. O patriarca da família. voltando à imprensa e ao serviço público em Belo Horizonte. fazendeiro e professor. o clã Versiani dos Anjos. Oficial de gabinete do Governo de Minas (1935-1938). Cyro dos Anjos transferiu-se em 1924 para Belo Horizonte. Fialho e Camilo Castelo Branco. Aos 10. para alcançar Montes Claros. nasceu em Montes Claros. cargo que marcou o início de uma carreira pública onde sempre ocupou funções de destaque. Cyro dos Anjos já editava um jornal chamado O Civilista. Alexandre Herculano. como redator de A Tribuna. por sua vez. estimulado por um amigo da família dono de tipografia.Em 1931 Cyro dos Anjos já era oficial de gabinete da Secretaria de Finanças de Minas Gerais. as crônicas que foram o germe de O Amanuense Belmiro. em cuja pequena biblioteca descobriu (aos 15 anos) Machado de Assis. bacharelando-se em 1932. publicou sob o pseudônimo de Belmiro Borba. deixando ver a influência política da primeira campanha de Rui Barbosa. Diário do Comércio (1929). com escritores e temas contemporâneos.° entre os quatorze filhos do casal Antônio dos Anjos e Carlota Versiani dos Anjos. 13. tinha de fazer acidentada viagem de mais de 30 dias. ainda mais. não estava ausente do gosto pela arte e pela literatura. Cyro dos Anjos trabalhou nos jornais Diário da Tarde (1927). e Diário de Minas (1930). Eça de Queiroz. Diretor . Aos 8 anos. ouvidos ao piano numa época em que um Pleyel.

sucedendo a Manuel Bandeira. com o romance O Amanuense Belmiro. Rio. Antônio Joaquim. Diretor do IPASE (1946-1951). que exerce juntamente com os deveres de fiscal dos dinheiros públicos na capital do país. Cyro dos Anjos pertence à Academia Mineira de Letras e possui várias condecorações nacionais e uma de Portugal. por sinal. Casado em 1932 com D. Montanha. ainda no mesmo gênero. os dois últimos já falecidos.da Imprensa Oficial de Minas (1938-1940). em 1963. publicando em 1954 (Coimbra. de cuja vida intelectual participa com intensidade. Professor de Estudos Brasileiros nas Universidades do México e Lisboa (1952-1955). além de Newton Prates e Guilhermino César. o romancista tem seis filhos: Margarida. revelou-se também ensaísta e memorialista. Abdias. publicados pela Universidade de Brasília. Zelita Costa dos Anjos. outubro de 1971. ambas de 1954 no México e na Itália. Subchefe do Gabinete Civil da Presidência da República (1957-1960) e. Mas o romancista Cyro dos Anjos.° 24. Em 1969 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Cyro dos Anjos pertenceu ao grupo de escritores em que se destacavam Carlos Drummond de Andrade. Portugal) um estudo sobre A Criação Literária e. volume de memórias. Seu último trabalho. Explorações no Tempo. sendo nesta última regente do curso Oficina Literária. Márcia Antonieta. cadeira n. Emílio Moura e João Alphonsus. . inclusive no exterior com as versões espanhola e italiana de O Amanuense Belmiro. finalmente. saiu em 1945 e o terceiro. são as etapas que definem a carreira de Cyro dos Anjos no serviço público estadual e federal. ambos editados por esta Casa. Conselheiro do Tribunal de Contas de Brasília. também romance. este radicado atualmente em Porto Alegre. a que se acrescentam os títulos de fundador da Faculdade de Filosofia de Minas Gerais e da Universidade de Brasília. em edição nossa. apesar do sucesso conquistado. Joaquim Carlos e Francisco de Assis. muito bem recebido pela crítica. em 1956. Martim Afonso. Estreando na literatura em 1937. data de 1963 e nele o ensaísta e romancista cede lugar ao poeta bissexto dos Poemas Coronários. Seu segundo livro.

Guiando-se quase apenas pelo instinto. e da sua sensibilidade. de segurança. ecos de Bergson. de equilíbrio. de realização quase perfeita. lentamente cristalizada no decorrer de longos anos de meditação e estudo. dos meios técnicos. o amanuense estabelece um movimento de báscule entre a realidade e o sonho. que. Venho da . no primeiro movimento da inspiração. A impressão de acabamento. sem dúvida alguma. Há mais de cinco anos publicou o seu único livro—O Amanuense Belmiro—uma obra-prima. no qual aplica à nossa literatura a distinção de Valéry entre escritores estrategistas e escritores táticos. alargando-se em reflexões muito agudas e muito justas sobre a natureza da criação literária. Porque esse romance é o livro de um homem culto. de fato. Segundo me contam. Paulo. Para ele. pensando-as. segundo o Sr. menos na força impulsiva do talento que no domínio vagaroso. analisando-as. Almeida Salles (ou Valéry. escreve o seu diário e conta as suas histórias. nem sempre produzido pelas obras dos nossos generosos táticos. Os nossos autores.ESTRATÉGIA (Prefácio de Antônio Cândido) O Sr. me parece um dos maiores dentre os poucos estrategistas da literatura brasileira contemporânea. de Proust. Um homem sentimental e tolhido. opõem-se deste modo aos do primeiro grupo. possuidor de uma visão pessoal das coisas. o composto pelos dotados de talento e habituados a construir segundo o influxo dele. de autores cuidadosamente lidos ou harmoniosamente incorporados ao patrimônio mental. Almeida Salles publicou certa vez em Planalto um dos rodapés mais inteligentes que têm aparecido na imprensa periódica de S. fortemente tolhido pelo excesso de vida interior. "Quem quiser fale mal da Literatura. Lendo o artigo. mas seguro. Ciro dos Anjos anda pela casa dos quarenta. pertencem quase na totalidade ao segundo grupo. para falar como o Sr. direi que devo a ela a minha salvação. Por isso é que ele ressoa de modo tão diferente no nosso meio. No seu subsolo circulam reminiscências várias de leitura. Confiam. se quiserem). baseado em anos de meditação e de progressivo domínio. que vêem na criação o afloramento definitivo de um largo trabalho anterior. a primeira pessoa em que pensei foi o romancista mineiro Ciro dos Anjos. dos recursos da sua arte — condição primeira para a plena expressão do seu pensamento. Quanto a mim. numa palavra. O Amanuense Belmiro é o livro de um burocrata lírico. revelam o artista profundamente consciente das técnicas e dos meios do seu ofício. isto é. escrever é. pois escrevendo-as. evadir-se da vida. com um som de coisa definitiva e necessária. de Amiel. Almeida Salles. é a única maneira de suportar a volta às suas decepções.

então.. como o do narrador do Temps Perdu. torno-me olímpico. sorri e diz: 'Ora bolas'. encarnando formas do passado. Acontece. ela própria quase um mito—um mito como o da donzela Arabela. solteirão nostálgico. esta. jogando-o como uma bola entre o passado e o presente.] depois de uma infância romântica e uma adolescência melancólica. não lhe permite uma existência atual. Se fosse possível viver integralmente no mundo recriado pela memória. estava tudo muito bem. Não é difícil perceber o mal de Belmiro. nas quais o espírito se há de comprazer. Submeto se.rua deprimido. é empurrado para o refúgio que lhe resta—o passado—uma vez que o presente lhe escapa das mãos ("[___] bem noto que vou entrando numa fase da vida em que o espírito abre vôo das suas conquistas e o homem procura a infância. crê encerrado o seu ciclo e volta para dentro de si mesmo. porém. a fim de encontrar um pouco de calor e de vida. se fosse só isso. que espia para dentro. oferecem-lhe o presente sob aspectos enganosos. concluindo que "a verdade está na Rua Erê". isto é. mas à sua maneira: identificando a moça de carne e osso. porque dentro dele estão as doces cenas da adolescência." Belmiro. carrega nas costas a enorme trouxa de um passado de que não pode se desprender. que falhou como solução vital. recita com o poeta: ." O amanuense é infeliz. desmanchando a pureza daquele com a intromissão das imagens deste. Para iludir-lhe o espírito vaidoso.. O amanuense ama. Chegou quase aos quarenta anos sem nada ter feito de apreciável na vida. uma noite de carnaval lhe traz a imagem de uma donzela gentil. haveria a possibilidade de um modus vivendi. que mal enxerga de quando em vez.. permanece como fatalidade. e o amanuense. o homem supõe que encontrou a sua expressão definitiva e que sua própria substância já lhe basta para as combustões interiores. a seu jeito. perturbando este com os arquétipos daquele. fazendo-o voltar para a vida.") Ora. com a imagem longínqua da namorada da infância. ainda estão ativas nele e realizam um sorrateiro trabalho. Mas as forças vitais.. e. à procura de fugitivas imagens do passado. quase normal. se entrega ao presente: mas não o vive. numa comovente pesquisa das remotas origens do ser. lírico não realizado. A sua desadaptação ao meio levou-o à solução intelectual. É um homem poderoso. Em verdade vos digo: quem escreve neste caderno não é o homem fraco que há pouco entrou no escritório. escrevo dez linhas. na sua casinha modesta e o seu ramerrão cotidiano. sedento e agitado. O drama é que o presente se insinua no passado. De repente. literato in erba. que impelem o homem para a frente. "[. e readquire o equilíbrio pela auto-analise. que a sensibilidade de Belmiro. Sabe que não lhe adianta pensar em como as coisas seriam se não fossem o que são. Sonha..

porém. Sempre a tomar consciência plena das suas variações e dos seus aspecto:. que cresce num impulso vegetal. como Lawrence: "I was so weary of the world." "Mais vasto é o meu coração". Falou-se muito em Machado de Assis a propósito de Ciro dos Anjos. Ciro dos Anjos possui. Mundo mundo. da vida. 0 que é admirável. é o diálogo entre o lírico. e dando-lhe um cunho muito especial. ou. além dessa. no sentido próprio. de cena a cena.. Everything was tainted with myself". O que não se falou. vasto mundo Mais vasto é o meu coração. E a certa altura. sem a peia do passado.. Belmiro é o contrário do homem forte de que fala Balzac. Conclusão típica de introvertido. porque a sua evasão consiste justamente em introjetar o mundo e banhá-lo todo nas próprias águas. insistindo-se sobre o que há de semelhante no estilo e no humorismo de ambos. ao contrário. não seria uma solução. enorme. e o lírico chamando-o à vida. Belmiro é o homem que chegou ao estado de paralisia por excesso de análise "[. foi da diferença radical que existe entre eles: enquanto Machado de Assis tinha uma visão que se poderia chamar dramática. o homem que não se lembra. e o analista. na atmosfera caraibana—contemplando a destruição das suas . que o salva. que restabelece o equilíbrio vital. múltiplos. encontramo-la de capítulo a capítulo.. que o chama à ordem. vasto mundo Se eu me chamasse Raimundo. um maravilhoso sentido poético das coisas e dos homens. que ele emprega também como um processo literário. I was so sick of it. Há uma circunstância. o amanuense a torna explícita: "Tais desnivelamentos é que compõem minha vida e lhe sustentam o equilíbrio. A um Belmiro patético que se expandiu. Seria uma rima. dotado de humour. o analista querendo dar aos fatos e aos sentimentos um valor quase de pura constatação.. que quer se abandonar."Mundo mundo. envolvendo uns e outros em piedosa ternura. que o liberta das redes do analista: o senso lírico da vida. de homem que não lamenta. no seu livro.] já lhes contei o que se passa dentro de mim quando começo a meditar: perco-me num labirinto de antinomias.." Isto significa que é um candidato ao cepticismo integral e à imobilidade através do relativismo. Esta alternância. porém. na própria construção do estilo.

que até aqui tem movido uma conspiração geral para belmirizá-lo. E assim. o Belmiro egresso de Caraíbas se apalpa. que compensa o primeiro e o retifica. para confiná-lo nas esferas em que o seu pensamento. e empresta ao seu romance uma qualidade de vida que é superior à de Machado de Assis. Chegado à sua toca da Rua Erê. sofre ao perceber que "ali is tainted with myself". leitor.—O amor (vida) estrangulado pelo conhecimento. sobre o curso normal das relações humanas." Se assim é. os poderosos deste mundo só o deixam em paz . o Fáustico. o que não importa em ilusão quanto ao verdadeiro significado deste trabalho: "Grande coisa é encontrarmos um nome imponente. O homem é um animal definidor. que escondem uma desagregação constante. As coisas não estão no espaço. para definir certos estados de espírito. é o fundamento da arte de Ciro dos Anjos. pela primeira vez. com efeito. o seu núcleo significativo vai ser encontrado numa página do diário de Silviano. nelas." É este. ainda que infinitesimal. A atitude belmiriana resulta de uma aplicação do conhecimento aos atos da vida— entendendo-se neste caso por conhecimento a atitude mental que subordina a aceitação direta da vida a um processo prévio de reflexão. Ciro dos Anjos nos leva a pensar no destino do intelectual na sociedade. Há. Encarando assim o livro. pode-se dizer que o amanuense é uma ilustração do gravíssimo problema dos efeitos da inteligência. nas Vilas Caraíbas do passado. Não se resolve nada. Criando-lhe condições de vida mais ou menos abafantes. mas é uma criação da sua saudade e da sua imaginação deformadora." Esta disposição excepcional.paisagens—sempre sucede um Belmiro sofisticado. na autocontemplação. não apresenta virulência alguma que possa pôr diretamente em xeque a ela. as coisas estão é no tempo. Para conhecer este psicólogo lírico é preciso ler todo o admirável § 33 d'O Amanuense Belmiro. que dá uma dignidade humana tão grande à poesia de Manuel Bandeira e de Carlos Drummond de Andrade. se reajusta e assobia a fantasia do hino nacional de Gottschalk. ajustando-o aos quadros cotidianos. ilusórias permanências de forma. quando ele descobre que o passado que evoca não existe em si. sociedade organizada. mas ficamos satisfeitos. O amanuense. e considera tristemente: "Não voltarei a Vila Caraíbas. indiscretamente lida por Belmiro: "Problema:—O eterno. explorando metodicamente os seus complexos e cacoetes. absorto nas donzelas Arabelas. através do seu poder de análise." Numa ordem mais geral de idéias. por que escrever sobre um passado que realmente não existe e um presente que cede ante a ponta aguda da análise? Belmiro escreve porque precisa abrir uma janela na consciência a fim de se equilibrar na vida. o problema central da obra.

para a ficção mais ou menos frouxa com que o crítico tem não raro de se defrontar. extraindo dos seus motivos individuais melodias ajustadas às necessidades da alma dos circunstantes. N.. Mas não é esta a impressão final que fica do livro de Ciro dos Anjos. uma vez que aceitou como valor eterno uma filosofia que lhe aconselha a blague. por esta forma. São Paulo. .] tocava apenas por amor à arte. cuja releitura faço pela quinta ou sexta vez. cômoda para os negócios públicos. que ali iam buscar expressão para sentimentos indefiníveis que os povoavam s só se traduziriam por frases musicais. E assim é esse livro. s/d. sòlidamente mantido em paz pela magreza do seu ordenado de amanuense.* * O estudo que se acaba de ler do grande crítico paulista foi reproduzido de seu livro Brigada Ligeira. o que é um deleitoso consolo. como diria o Eça. Não são livros que se imponham de fora para dentro. editado pela Livraria Martins Editora. [1945]. que "[. Esse traço da generosidade inconsciente dos grandes artistas se encontrava no sanfonista da Ladeira da Conceição". até se identificarem com a nossa própria experiência. Livros que lidam com os problemas do homem num tom de tal modo penetrante que autor e leitor se identificam. E chorava-as tão bem que cada um que o cercava. ou quando entra reverente no seu séquito. cheios de força. sentia suas mágoas igualmente choradas. e perfeitamente desfibrado pela prática cotidiana da introspecção (costume muito estimável. perfeito.quando ele se expande nos campos geralmente inofensivos da literatura personalista. vibrantes.. da E. Belmiro fala de um tocador de sanfona da sua Vila Caraíbas. ou talvez para chorar as mágoas. da autoperfeição pela ascese intelectual. Coisas em que a gente se põe a matutar. Na página 27. O artista se revelava. num admirável movimento de afinação. quando vê aquele Belmiro tão inteligente e tão sensível. como são em geral os livros dos escritores de Minas. que é reduzido a não deixar transbordar senão a sua retórica. Insinuam-se lentamente na sensibilidade.. Ou aquele Silviano cheio de seiva. segundo os cânones).

......" ....) ... Et mes proches s'y tromperaient autant et plus que les autres............... je collabore avec ma propre vie. dans cette fiction..."Les Souvenirs que j'ai de ma vie réelle ne sont ni pius coloria ni plus vibrants que eeux de mes viés imaginaires.." (GEORGES DUHAMEL—Remarques sur les Mémoires Imaginaires—Paris—Mercure de France—Sixième édition........ On s'y tromperait. Qu'on ne cherehe pás à savoir ee qui...... est indubitablement moi..... "Pour éerire 1'histoire d'un autre....

. desde Porfírio até Belarmino.A o s B o r b a s. da linha tronco.

como que atendendo a uma ordem interior de reflexões. voltando-me para este. outras dançavam maxixe com pretos reforçados. o alemão do bar se multiplicava em chopes. sacrificando. mas. Silviano olhou-o da cabeça aos pés. fazia a vitrola funcionar. de melenas. para aqui e para ali. Sublimou-se nos doutores. a prestar atenção ao filósofo. dizendo que o católico destrói a vida pelo modo mais violento. e nosso amigo não lhe permite tais intimidades. nesse caso. sorrindo dengosamente para os soldados do Regimento de Cavalaria. de vez. —Hein? indaguei. —A conduta católica! Isto é. Florêncio propôs. garçons urgentes. ainda que fosse uma supressão. No caramanchão. fugir da vida. Éramos quatro ou cinco. MERRY CHRISTMAS! ALI pelo oitavo chope. hein? A pequena deu o fora? . Introduz. o nono. que não era bem a de nossa conversação. meio vago. Glicério é novo na roda. O proletariado negro se expandia. a esta. continuou. aquela. no que ela tem de excitante. enquanto um cabra gordo. Já que não se possui a vida com plenitude. Florêncio pôs a mão sobre o ombro dele e disse maliciosamente: —Estamos ruinzinhos hoje. expedindo. afirmou o amigo Silviano. —Não discuto com menores. Imprudentemente apanhou a minha deixa e entrou em cena com entusiasmo. O que haveria é supressão da vida. argumentando que esse talvez trouxesse uma solução geral. voltando-se para mim: —Você não sabe o que está dizendo. disse majestosamente. o melhor é renunciar. então. em nosso cotidiano. como que a falar para si mesmo. com requebros. objetei-lhe que. Sem perceber que eu apenas puxava a língua ao Silviano e supondo contar com o meu apoio. chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis. Só pelo gosto de vê-lo dissertar. em torno de pequena mesa de ferro. Satisfeito. Alegre véspera de Natal! As mulatas iam e vinham. por que não havíamos de realizá-la para encontrar tranqüilidade? A grande estupidez é vivermos num conflito constante. o jovem Glicério ousou enfrentá-lo. —A solução é a conduta católica. É a solução. não haveria solução. Redelvim convidou-me. E. com um olhar malicioso.§ 1. no bar do Parque. a preocupação da vida eterna.—Jerônimo anda mergulhado na teologia. comemorando o Natal.

Redelvim e Glicério também desataram a rir. alvitrei uma retirada em conjunto. alimária! respondeu. —Cidade besta. fui ruminando a tese do Silviano. Silviano. a caminho de casa. já meio alegre. andou tendo ciúmes e fazia cenas. sem nada dizer. Aqui escreverei que a razão estava com este último. contou-me que o filósofo. mas desde o primeiro encontro se repeliram. mais arranham ainda as veleidades do quarentão. Separamo-nos. Já era hora de jantar e o Parque ia ficando vazio. Florêncio deu uma gargalhada e assentou-se de novo.—Recolha-se. A euforia que o chope traz! A vida se torna fácil. É boa! —Ó parvo. Certamente sorriam. propus novo chope. rápidos. e as sombras de um crepúsculo avermelhado desciam sobre as árvores. Sem que percebêssemos. Em Paris é a mesma coisa. denunciando pressa de chegar a casa. Mas o chope me faz versátil. O pior é que a mulher. A princípio. —Em Paris? perguntou Florêncio. Não me dirijo a primários. Belo Horizonte! exclamou Redelvim. Disfarçando o mau epílogo da festa. Joana diz não ter tempo para se ocupar dele. onde adivinhei variada matéria-prima para as comemorações domésticas do Natal! A humanidade se transfigura de súbito. que de tudo sabe. apresentar uma face nova e desconhecida. Sempre que se encontra com Silviano. em vez de irritar-se. indignado. tentando fazê-los amigos. Aproximei-os um dia. Não sabia que você andou por Paris. levou as mãos ao ventre. —Não acho! retrucou Silviano. Às voltas com os filhos. Como se mostravam ansiosos. e para que . desejando-me um largo "saúde e fraternidade". pois apenas sorria. num riso convulsivo. Pois Jandira acrescentou que. fácil. consultando o relógio. neste dia extraordinário. e. de suas sortidas. Redelvim devia estar de bom humor. as mulatas e os soldados tinham saído. A gente não tem para onde ir.. trava discussões acaloradas. Depois. Todos os passageiros do bonde Calafate me sorriam. quero dizer que o problema é puramente interior. retrocedeu aos vinte: está amando as moças em flor. irritado. É uma sólida filha de fazendeiro.. Que elemento se introduzirá na essência das coisas para que tudo venha. quis retirar-se. vive a ridicularizá-lo. se arranham a fé conjugai. assim. raça teimosa e viril. no portão do Parque. o nosso Dom Juan traz mais baldões do que troféus. carregados de embrulhos. já à beira dos quarenta... fincou pé e deliberou não tomar conhecimento desses descaminhos que. Silviano anda em crise aguda. e minha atenção logo se desviou para outras coisas. no que fui aplaudido calorosamente por Florêncio. Para serenar a roda. Jandira. no espaço! Florêncio. entende? Não está fora de nós.

talvez não desejasse que Francisquinha. e seu único vício é cumprimentar-nos diariamente com um how do you do. Juliana Gouveia. lá dentro. —Merry Christmas. obriga-a a conversar com a outra. Um Merry Christmas. mas Emília dá-lhe essa ocupação para a ter quieta. Prudêncio amigo! Merry Christmas! § 2. Em moço. suprime a presença minha ou da . seu Belmiro? Vem um dia. A realidade é a aparência. fez-me lembrar de que o próximo poste de parada era o da Rua Erê. vizinho de quarteirão. no caso. pois acha o marido erudito: "Sempre é uma vantagem. PARA surpreender as velhas. por essa forma. onde costumam passar. ou haverá uma efetiva transformação no tecido íntimo das coisas? Afinal. Notei que. mas procura. ele tirará o seu proveito de saber outras línguas. e o que é—no fundo—não o é para nós. até à hora de se deitar. A mulher. o fato deveria ter significação particular. como diz Silviano. Francisquinha não faz coisa que aproveite e apenas embaraça os fios. que possui a alma humana. O "EXCOMUNGADO". começasse a tagarelar. como cantam! Será o poder de criar e de transfigurar. anunciando minha chegada. Dei o sinal." Na verdade. pois estava com a fisionomia carregada. Como de costume. e. mas a porta. aludindo a "outras línguas". mas. impelida pelo vento. É chefe de Seção e pessoa muito conceituada. e voltei-me para saudar o homem. É um hábito das rendeiras. Deveria ser o Prudêncio Gouveia. que me foi dito com uma palmadinha nas costas. pouco importa. A necessidade de falar a alguém. Emília não levantou os olhos da almofada. Fala dirigindo-se a si mesma. fechou-se atrás de mim com estrépito. não acha. Terminado o jantar e arrumada a cozinha. por alguém que ia descer do bonde. as duas se entregam ao bilro segundo a tradição da casa. na solidão da casa. Estava com Francisquinha no quarto grande. como quem está pensando em voz alta. — O Excomungado já vem! resmungou Emília. Bom sujeito o Prudêncio. Mas. nem interrompeu o complicado trabalho. quase graciosa. só fala inglês. e os pardais. animada com esse princípio de conversa.todos os seres ganhem uma expressão especial. fica vaidosa. as horas em que a máquina doméstica tem seu funcionamento restrito a uma ou duas peças. juntas. pelo melhor modo. estudou inglês. toma ar aborrecido e chama-lhe antipático. de agitada felicidade? As árvores se fazem mais verdes. entrei pé ante pé. mas Juliana lhe encarece as habilidades. reduzir o efeito dessa concessão.

Curioso pressentimento. Ou de Vovô Índio. Quando o Borba morreu (a velha Maia partiu bem antes) e a fazenda foi à praça. na velha cadeira austríaca. DO ALPENDRE da casa. mas Francisquinha. os cabelos grisalhos. assume um sentido trágico. com sua reduzida . é só o que me falta. Tanto tempo andei afastado delas. disse Emília. meninas! Trouxe aqui umas lembrancinhas de Papai Noel para vocês. Tiveram de viver sempre na fazenda. Emília é apenas uma esquisita. recebi-as como herança. na verdade. às vezes. trocar o jaquetão pelo pijama. Que custo trazê-las em viagem a cavalo e. —Olha o doido. quando exclama "Excomungado! Excomungado!" Mas o epíteto. Francisquinha deu uma risadinha feroz. Encontrou na língua familiar de Vila Caraíbas a expressão própria para traduzir a inquietação que minha presença. que lhes pareci um estranho. pensei. uma presença vigorosa e viril. que restabelece a atmosfera moral da fazenda. no bico do papagaio. lhe desperta. Não lhes foi fácil habituarem-se à minha pessoa e modo de vida. Pobres manas. Desde cedo. faz-me estremecer. olha o doido. perturbada de nascença. Ainda me arranjará uma psitacose. então. neste particular. Pus os pacotes na mesa e fui ao quarto. como as velhas: "Excomungado! Excomungado!" e arrepia-se todo ao ver-me. viram que seria impossível dar-lhes educação condigna. mandando-as ao Colégio de Diamantina. bem que percebe em mim certa dissolução de espírito. pensando que iam para São Paulo. vai de mal a pior. O BORBA ERRADO. Ainda assim. § 3. Rio-me sempre. Emília não tinha. entre o pessoal de serviço. e Francisquinha andava pelos trinta. nesta casa. fiquei a olhar os transeuntes. ficar na companhia do tio Firmino. no comboio da Central! Vieram iludidas. encheram minha vida. pousando em mim os olhinhos brilhantes e fixos. E. tão distantes de mim. A Rua Erê não é atrativa. Não resisti ao desejo de provocá-las: —Boa noite. e Emília é. No corredor. "Decididamente. as velhas estão bravas hoje". como bicho-do-mato. ensaiando uma agressão.mana. irritada. o de Emília: na sua meia-luz. Foi este o grande desgosto que ensombrou os dias do velho Borba e da velha Maia. depois. Aprendeu a dizer. conforme preferem os nacionalistas. Tome pregou-me o susto de costume.

as letras agrícolas e entreguei-me a outra sorte de letras.. Precisamos é de braços para a lavoura. poderosa como um estabelecimento público. "Temos . afinal. Onde estão em mim a força. Tive amores infelizes. por um lado com a associação verbal que descobrira. Coitado do velho. Coitado do velho. a febre das divisões de terras. fali. com o parcial deferimento às aspirações da velha. Como o Natal me fez saudosista! Eu fechava os olhos. grande.). Uma dessas . Um burocrata! exclamava com desprezo. o poder de expansão.fauna humana.. Como a minha mãe tivesse o secreto desejo de me ver na carreira das letras (dizia que eu saíra aos Maias e não aos Borbas). no curso. fiz sonetos. não se distanciasse dela —poderia tirar uma carta de agrônomo. houve cena pesada. A garganta se me apertava. Sinto muito. que sou um Borba errado. Sou um fruto chôcho do ramo vigoroso dos Borbas. Neguei as virtudes da estirpe. Em face do código da família (cinco avós. do ponto de vista genealógico: como Borba. e a Ladeira da Conceição surgia. Era contra os princípios paternos o bacharelato em qualquer ramo de ciências ou letras. metido em serenatas e noutras relaxações. repetia. agrimensor. ainda. percorri muitos caminhos. que teve seu brilho rural. e eu sentia os olhos se umedecerem comovidos. Abandonei. porém. Ou. estão-me dizendo—ilustres sombras!) foi um crime gastar as vitaminas do tronco em serenatas e pagodes. remediado está. acabou pensando num acordo. E a mesada paterna se consumia em livros que as necessidades sentimentais e espirituais do mancebo ardentemente reclamavam. com a nitidez de um acontecimento matinal. na Vila. Coitado do velho. com sua suficiência? Rirse-ia de mim: "Você é um homem errado. Belmiro!" Se Glicério tivesse conhecido os Borbas. Eu não podia ouvir uma sanfona. Lá estava a fazenda. Que diria o Glicério. diria. em vez disso. dizia ele. Meu consolo é que sou um grande amanuense. e andava. por outro. Até chegar ao Silviano e ao Redelvim. Ficará nas letras agrícolas". declarou que o que não tem remédio. a vitalidade. "Se o menino não se ajeitava na fazenda. Quando. Tocavam a Varsoviana e eu me dissolvia (lá na Vila lhe chamavam Valsa Viana. Por fim. com suas lavouras à espera de cuidados moços. diante de mim. dos de minha raça? O pai tinha razão. Queria fazer-me agrônomo. o pai veio a Belo Horizonte e verificou o logro.doutores demais. Vila Caraíbas não tinha. então. Na fazenda. por lá. e. que. num fim de ano. Vila Caraíbas e seu cortejo de doces fantasmas. nada rendosas. pelo menos. satisfeito. Talvez seja isso o que sempre me leva a passear o pensamento por outras ruas e por outros tempos. avós." Mas dei em droga na fazenda e andei zanzando pela Vila. Pus-me a andar na companhia de literatos e a sofrer imaginárias inquietações. o seu agrimensor formado. pelo menos.

para frente. Um dia sentiremos uma sacudidela. estavas mais próximo dos clássicos (lembro-me de tua predileção. Como esta vida vai correndo. apenas impressões vagas. o cão dos fundos . foi nele que começou o desvio da linhagem rural.discussões em que nós. na tua besta. nos abraçarmos. Com a saída dos vizinhos para a missa do galo. recolhi-me. não funcionavas na fazenda. ligando o momento que passou ao momento presente. Não citavas o teu Vergílio. De corpo e espírito. Bem me recordo de que. sob a epígrafe geral de Rumo à Gleba? Mas. para trás. Natal! Fiquei até tarde no alpendre. arrancando-me daquele quebranto. e a uma reminiscência tênue. e mais tarde um deputado me introduziu na burocracia. achava-me. para. "Um burocrata. tal como no poema: Stop. data de ti a traição à gleba. as posições do embrião no ventre materno. segundo a luta surda que se trava em nós.. Borba. para gravame de sua insuficiência mitral. Outras missas. QUESTÃO DE OBSTETRÍCIA. Em que fora dar sua longa doutrinação. nas colunas da Gazeta Caraibense. Voltou com uma grande dor no coração. pai Belarmino? Na verdade. prestes a se apagarem.. no estado de vigília. instintivamente. JÁ ESTAVA palmilhando a terra vaga do sono. Confessa... nos dizemos coisas duras. quando. pois. A vida parou ou foi o automóvel? § 4. Borbas. num desfecho melodramático. em série.. ao cabo de contas. como diria Prudêncio. nossa precária unidade psíquica. Words. um burocrata!" lamentava nas suas cartas. repetindo..) do que dos currais e das roças.. depois. talvez pelo receio inconsciente que inspira o adormecer.. lá ias. para trocar dois dedos de prosa com o provisionado Loiola. a memória sustenta. esclarecendo que a exclamação foi do Hamlet. a rigor. ganhava-me o corpo uma doce lassidão. noutros tempos. Words. em propaganda da vida rural? Seus cinqüenta artigos. quase a esvaecer.. e o espírito se embebia no torpor que afrouxara os nervos. rumo à Vila. entre uma parte do eu. a cada instante. me vinham das coisas. que aspira ao abandono.. um tanto tendenciosa.. Por qualquer pretexto. imagem da morte. para o Horácio. preparado para o repouso e já me aconchegava. e outra que contra ele reage. vai correndo.. reduzia-se esta lembrança permanente com que.

e repreendi-me por já não ter ministrado uma "bola" ao canino demônio. daí a pouco. mandou zurzir o mar. esse ódio súbito. Podia ser que chegasse logo à conclusão de que não havia motivo para maiores alarmas: fora o galo do outro quintal que. cego de raiva. logo recomeçou ele a ladrar advertindo às possíveis sombras de que não se dormia naquele honrado canil. isso está no sangue. porventura verificando adiantamento no relógio. Mas.. procedi à maneira de Xerxes. sorri para dentro de mim mesmo. em sua extensão. Pequena pausa sobrevinda me deu a esperança de que o mastim houvesse mudado de intenção. e que era um sapato velho. quando lhe faltam os verdadeiros. Previ a catástrofe. caiu numa grande prostração e permaneceu casmurro o dia todo. isso apenas serviu de estímulo ao ladrante: ganhou alento e entusiasmo. insopitável. ou porque o guarda do quintal contíguo não identificasse o rumor produzido pela ave. Em seguida. meus nervos se apaziguaram. quando. contendo o anúncio na garganta. No dia em que uma chuva inesperada viera estragar o café posto a secar no terreiro. Fiquei satisfeito com o precedente ilustre que a memória me veio trazer e lembrei-me de umas palavras do excelente Montaigne: "A alma descarrega suas paixões sobre objetos falsos. com um método que indicava disposição sólida de latir pela madrugada toda. que passa como um relâmpago depois de a gente ter feito uma quixotada. por equívoco. num relance. atirei-o às tontas ao meio da rua. Satisfeita a fúria dos Borbas. em quintal vizinho. ou porque ainda houvesse. sacou da garrucha e desfechou dois tiros para o ar. ele ficou possesso de raiva. nem latia mais alto ou mais baixo: o tom era terrivelmente um só e as pausas pareciam medidas em cronômetro. batera as asas para anunciar o prelúdio do alvorecer e. Afinal..se pôs a ladrar. Subitamente. de novo no leito. Como o avô Porfírio. com ternura. Abrindo a janela. e. Tudo se me escureceu em torno e pareceu-me que as sombras se agitavam. um desses barulhos sutis. zelosos que são do seu ofício." . já munido da primeira arma que a mão encontrou. embora o conhecimento da geografia do quarteirão me habilitasse para localizar o animal no lado oposto. o cão não se apressava. já certo de que algo havia para justificar suas precauções. Mas não repeti o gesto. Saltei da cama. Lembrei-me do avô (o último Porfírio). no ar. indignado com a procela que lhe destruiu a frota. tomou-me indizível fúria. Esses repentes. que era tal qual. que só os cachorros percebem. Ora. Tratando-se de mero latido de advertência. é alguma coisa que me ficou dos Borbas. numa conspiração universal contra mim. que se contenta com arremessar qualquer objeto a esmo. sem ódio nem convicção. limitara-se ao bater de asas.

Ai de nós. e outro na décima linha da segunda página. no terceiro capítulo. e desde muito me volto para o passado. Um. se perde em si mesma se não lhe damos presa. "Por que um livro?" foi a pergunta que me fez Jandira. abalada e comovida. no mesmo quarto envelhecido desta patética Rua Erê. "Já não há tantos? Por que você quer escrever um livro. É plano antigo o de organizar apontamentos para umas memórias que não sei se publicarei algum dia. mas o homem não é dono do seu ventre. cuidar do presente: gostaria apenas de reviver o pequeno mundo caraibano. Amanhece o dia. porém. como se enterravam os anjinhos sem batismo. meio cínico. Meu desejo não é. havendo tantos. comuniquei esse propósito. enquanto as carrocinhas de pão começam a percorrer o Prado e meus amigos operários devem estar procurando o caminho da fábrica de calçados. seu Belmiro?" Respondi-lhe que perguntasse a uma gestante por que razão iria dar à luz um mortal. responsáveis por tanta literatura reles!) traz-me um desejo irreprimível de reencetar a tarefa cem vezes iniciada e outras tantas abandonada. ao cabo." Com efeito. Reconciliei-me com o cão e com o livro. Sobre a cova brotou uma bananeira. fazendo-me conceber qualquer coisa que já me está mexendo no ventre e reclama autonomia no espaço. perseguindo imagens fugitivas de um tempo que se foi. Enterrei-os no fundo do quintal. não de nove meses. do outro lado do quartel do Décimo. meio lírico. . cumpre fornecer-lhe sempre objeto em que possa aplicar-se e atuar. aqui estou calmo a escrever estas linhas. Jandira acredita que não foi reservado a mim deixar à posteridade qualquer importante mensagem. e esta noite insone de Natal (as sinistras noites de insônia. em que vai toda a história de mais um Natal que passa.' E isso é razão suficiente. há tempos. mas de trinta e oito anos. sinto-me grávido. que hoje avulta a meus olhos. a quem. Deve ter razão: se cá dentro deste peito celibatário tem havido coisas épicas. Não sei bem o que me sairá das entranhas. um Belmiro (que costuma assobiar operetas) insinua que as epopéias de um amanuense encontram seu lugar justo é dentro da cesta. sou um amanuense complicado. Posta de parte a modéstia. O melhor seria vivermos sem livros. gestantes. devemos sempre ter à mão um sapato velho para o serviço da alma. no decurso dos dez últimos anos."Parece que. Comecei contando o Natal que acabou e falando nos amigos e na parentela. Sim. vago leitor. On revient toujours: hoje recomeça a mesma aventura. e a vida fecundou-me a seu modo. Se estivesse de bom humor. Minha vida parou. em Vila Caraíbas. ela responderia que era por estar grávida. Graças a ele. Este mesmo Belmiro sofisticado foi quem matou dois outros livros.

que minha vida. melodias ajustadas às necessidades da alma dos circunstantes. Depois. se processa em arrancos e fugas. o cego mudou de esquina. mas bem percebi que os passos me levavam. tornando-se ficção. ANO-BOM. não sei se ouvindo as suas valsas ou se ouvindo outras valsas que elas foram acordar na minha escassa memória musical. assim. Desci a Rua dos Guajajaras com a alma e os olhos na Ladeira da Conceição. perdi o rumo. Esse traço da generosidade inconsciente dos grandes artistas se encontrava no sanfonista da Ladeira da Conceição. e continuei a pé o caminho. na igreja do Rosário. em busca de um bonde e de Jandira. DEPOIS de ter andado inquieto como uma galinha sem ninho (já viram como uma galinha desalojada cacareja aflita. e tocava apenas por amor à arte. O que hoje me sucedeu é bem um sinal dessa luta interior. num bando alegre. e perdi Jandira. ou talvez para chorar mágoas. Eu ia. Era precisamente por ali que estacionava outro sanfonista que não esmolava nem era cego. que estes se diluam e o espírito se desvie para outras paisagens. atento e presente. em luta constante. Pelo oposto. Foi só ouvir uma sanfona. levam-me às vezes a tão subitâneas mudanças de plano.Procurando-o procurarei a mim próprio. passava Camila. à atmosfera de alvoroçado bem-estar em que a gente mergulha . depois da missa das nove. nos falava de nossas saudades e de nossos amores. lograva articular uma linguagem que nos servia a todos e que. Satisfazendo à necessidade de dar forma aos pensamentos imprecisos de suas saudades e de seus amores. Tais solicitações contrárias. na realidade. que ali iam buscar expressão para sentimentos indefiníveis que os povoavam e só se traduziriam por frases musicais. a cada instante. intermináveis e sucessivos. quando o atual me reclama a energia ou o pensamento. que se confunde no tempo e no espaço. dos seus motivos individuais. mas para tempos mortos. as secretas forças da vida trazem-me de novo à tona e encontram meios de entreter-me com as insignificâncias do cotidiano. mergulho no passado e nele procuro uma compensação. perdi o bonde. tão leve. por onde. não para o cotidiano. Se. E chorava-as tão bem que cada um que o cercava sentia as suas mágoas igualmente choradas. tão casta. por igual. mera ficção. extraindo. O artista se revelava por esta forma perfeito. Fiquei rente do cego da sanfona. sem encontrar lugar no espaço?). é comum. § 5. pus-me a pensar no permanente conflito que há em mim no domínio do tempo. transportavanos. nelas buscando abrigo.

O sanfonista da Vila traduzia para mim as coisas complicadas de minha alma. da casa do amigo. E Jandira esteve ausente. se este não me viesse buscar quase à meia-noite. me lembrou o outro da ladeira de minha vila. mas. alguns fragmentos de minha vida. Porventura chegou. e isso já foi muito fazer. e noto agora que apenas o faço em datas especiais. o que me pareceu de bom tato. A sombra de Camila me subtraiu à realidade de Jandira e reconduziu-me às estradas perdidas de Vila Caraíbas. que é solteiro. em todo caso.. A questão. Redelvim e Silviano compareceram. Encontro uma explicação plausível: . seu Florêncio? Já lhe disse que não quero saber dessas intimidades. que encontrei na esquina. à conclusão de que a vida é breve. mas a ceia sempre apetecível. CARNAVAL. dois meses comecei a registrar." § 6. não é o ano velho ou novo. Mariana põe nela todo o seu estilo culinário. Mas. que levam àquela serra muito azul e esquiva. e a arte. Glicério mandou desculpas: ia a um baile universitário. Está certo. no papel. o homem sem abismos. mas também o excita. que é uma ceia em casa do Florêncio. O cego. Eis aí o segredo de Florêncio: por isso é que vive naquela bem-aventurança que todos lhe invejamos. O senhor. E desviou-me no tempo. bem se vê. a expressão—seja musical.. com aquele instinto infalível e feroz da boa matrona que quer conservar o seu homem para si.. Mariana olha-a com reservas. e o estilo é a mulher. em capítulos de cozinha. Viva Florência. não o fez com a mesma eficiência. QUE tenho eu com os dias que a folhinha assinala? Há.quando encontra a definição de um sentimento e sua forma de expressão. se envolva com elas. literária ou plástica — não só o alivia. a Nonoca. Proporcionando ao espírito válvulas por onde se evadem as emoções que o comprimem. também. O Ano-Bom chegaria sem que eu o celebrasse com o rito do costume. Tem sido inútil meu trabalho em favor da moça. e cuida de tratar o irmão corpo com o bom vinho e a boa vianda. longa. porque assim despertou dentro de mim esquecidas harmonias. Mariana desconfia das literatas (assim denomina todas as mulheres de idéias mais avançadas) e fecha a questão: "Pois sim.. Creio que anda de namoro com a filha do meu chefe de Seção. Com esse jeitinho mesmo é que elas vão entrando.

Tais seres e coisas pertencem. leva-nos a um mergulho mais profundo nos nossos abismos. portanto.minha vida tem sido insignificante. Quero rir. numa noite de carnaval em que fomos abandonados pelos amigos e em que nossa porção de espaço foi invadida por outros seres. vibrações estranhas. esmagadora. chorar. realmente. há um mundo diverso do meu e com o qual tentarei. Em mim. afinal. e a agitação que me percorre não encontra meios de evadir-se. às fontes de onde se irradia e converte-se numa angústia comparável à que nos provém de uma ação frustrada. em vão. Os dias de festa coletiva. o homem sofre. na sua. entretido com eles. comunicar-me. E se tal vida é melancólica. em mim. algo destrói sempre os caminhos. por onde se manifestam as puras e ingênuas emoções do ser. mais do que nunca senti de modo tão vivo a impossibilidade de me fundir na massa. como célula passiva. e o braço cai. introduzindo o elemento multidão na minha esfera e propondo-me novos espetáculos ou novas sugestões. então. de seguir. Novas melancolias são despertadas. seu movimento de translação. ao meu sistema planetário.feição mais ou menos constante. e. que há coisas extraordinárias. trata-se de uma sorte de melancolia a que meu espírito se adaptou e que. cantar. A multidão me revela. Reflui.. numa força uniforme. Eis que o amanuense é um esteta: ao passo que há nele um indivíduo . não desperta novas reações. comunicando-se de indivíduo para indivíduo e resultando. de receber e transmitir essas forças misteriosas que nela atuam. A variação violenta dos quadros. assim. No seu bojo. paralítico. Dir-se-ia que há em mim um processo de resfriamento periférico. por assim dizer. mas ensaio um gesto. dançar ou destruir. e muitas as do passado. e o amanuense põe a alma no papel. uma vaga nervosa que quer acudir ao apelo que a multidão dirige a cada unidade.interrompem o equilíbrio do meu pequeno mundo e nele vem produzir desnivelamentos que suscitam mais fundos movimentos interiores. por onde eu a perceba. Neste carnaval de 1935. tocamos seres cuja existência nos surpreende quase dolorosamente. tão certos estávamos de que nada havia no espaço além do nosso sistema. Habituei-me às coisas e seres que incidem no meu trajeto usual da Secretaria para o café e do café para a Rua Erê. e no seu currículo ordinário nem faz. Os outros têm pernas e braços para transmitir seus movimentos interiores. vou traçando quase que despercebidamente minha curva no tempo. No seu âmbito poucas são as imagens do presente. de onda ou ciclone. hoje começado. Habituei-me a uma paisagem confinada e a um horizonte quase doméstico. Sinto inutilmente.

Entreguei-me. bebendo ali. envolvido em que grupo. Os sambas eram tristes e homens pingavam suor. Não sei como. Não tendo conseguido conter-me em casa. que a radiola derrama no ar molhado. já agora. dançavam. me pus a entoar velha canção de Vila Caraíbas. desci para a Avenida. depois de me terem atirado confete à boca. fui arrastado pelos acontecimentos. porém.sofrendo. e fui. outro há que analisa e estiliza o sofrimento. quando inesperadamente me vi envolvido no fluxo de um cordão. Novo cordão levou-me. no meio daquela roda alegre. que aproveitavam. Mas a boneca holandesa foi arrastada por um príncipe russo. para outro lado. abandonaram-me ao meio da rua embriagado de éter. pela frente e pelos flancos. Pus-me a examinar colombinas fáceis. a um de fundo. Bebendo aqui. inexoravelmente. mãos postas nos quadris do que ia à frente. ACONTECEU-ME ontem uma coisa realmente extraordinária. segundo hábito antigo. crescendo em torno de mim. Tanto fizeram que. de colarinho alto e pince-nez. como podiam. que aquele jacto resvalara de outro rosto a que o destinara uma boneca holandesa. pois os foliões se engraçaram comigo. que vêm da carne. Toadas tristes. consumi a garganta em serenatas e que esta. não ajudava. correndo atrás de choros. Um máscara-de-macaco deu-me o braço e mandou-me cantar. Talvez fosse preferível ingerir certo vinho capcioso e. A DONZELA ARABELA. Respondi-lhe que. por trás. Lembra-me que homens e mulheres. em rapaz. Mas o homem espia o homem. Dêem-me um jacto de éter perdido no espaço e construirei um reino. aquelas migalhas me consolavam e comoviam. desanimado. sem nenhuma análise. do lado da Praça Sete. sem perceber o disparate. a origem dessa carícia. entrei no salão de um clube. que a livrou dos braços de um marinheiro. . mas a onda humana vinha imensa. Já ela estava repleta de carnavalescos. e. àquela humanidade que me pareceu mais cansada que alegre. Procurava. Um jacto de perfume me atingia às vezes. de blocos e cordões. sua terceira noite. Contudo. então. mas percebia. entregar os sentidos à doce música da Bayadera. por momentos. Deram-me uma corrida e. o atrativo do cordão. acompanhando a massa na sua liturgia pagã. com os olhos gratos. Uma gargalhada espantosa explodiu em torno de mim. acabei presa de grande excitação. § 7. e entoavam os coros que descem do Morro. como pude. Imagino a figura que fiz. Procurei desvencilhar-me. nesse vaivém. encadeados.

a incorpórea e casta Arabela. para que as coisas se tornem indefinidas e possamos gerar nossos fantasmas. e o homem procura a infância. e que um anjo descera sobre mim. pisado e machucado. . numa comovente pesquisa das remotas origens do ser. bem noto que vou entrando numa fase da vida em que o espírito abre mão de suas conquistas. ou de qualquer outra perturbação. e as vozes dos homens chegavam a mim.. em um momento impossível de localizar. Efeito da excitação de espírito em que me achava. Onde houver claridade. um Belmiro patético e obscuro. O mito donzela Arabela tem enchido minha vida. desmesuradamente. Jamais esquecerei: uma branca e fina mão.A certo momento. aqui e ali. que são o pão dos homens. contava-se a história da casta Arabela. Foi uma visão extraordinária. Seria uma fórmula para nos conciliarmos com o mundo.. Nesta noite de quarta-feira de cinzas. converta-se em fraca luz de crepúsculo. renunciar aos rumos da inteligência e viver simplesmente pela sensibilidade—descendo de novo. Há muito que ando em estado de entrega. senti-me fora do tempo e do espaço. Esse absurdo romantismo de Vila Caraíbas tem uma força que supera as zombadas do Belmiro sofisticado e faz crescer. cantando: "Segura." O braço que se lembrou do meu braço tinha uma branca e fina mão. o véu que cobre a face real das coisas e que foi. em mim. Olhei ao lado: a dona da mão era uma branca e doce donzela. Também tenho uma vaga idéia de que alguém me apanhou do chão. chuvosa e reflexiva. lentas e desconexas. Mas vivam os mitos. Pareceu-me que descera até a mim a branca Arabela. cautelosamente. a donzela do castelo que tem uma torre escura onde as andorinhas vão pousar. Entregar-se a gente às puras e melhores emoções. já sol alto. segura na mão. Como estava bela! A música lasciva se tomou distante. Arabela. alguém me enlaçou o braço. e alegre música de pássaros se produzira no ar. no tempo e no espaço. meu bem. Não me lembra quanto tempo durou o encantamento e só vagamente me recordo de que. Em meio dos corpos exaustos. e meus olhos só percebiam a doce visão. não deixes partir o cordão. a mão me fugiu. Parecia que eu me comunicava com Deus. Era ela. e me pôs num canapé onde. descerrado por mão imprudente —parece-me a única estrada possível. que morreu de amor e que na torre do castelo entoava doridas melodias. Pobre mito infantil! Nas noites longas da fazenda. à margem do caminho. Meu corpo se desfazia em harmonias. fui dar acordo de mim.

posso contar as coisas tal e qual se passaram. noto que. de novo. São dois. então. à procura de fugitivas imagens do passado. e o espírito se deixa apanhar na armadilha. . e estas notas devem refletir meus sentimentos em toda a sua espontaneidade. armado por mim contra mim próprio.. voltei. hoje. Já que as seduções do atual me detêm e desviam. oferecem-lhe o presente sob aspectos enganosos.. abandonei este caderno de apontamentos. Mas o primeiro. HÁ TRÊS ou quatro semanas não tenho tocado nestas notas (senão ligeiramente. ainda há pouco eu hesitava em confessá-lo: foi a moça. suscitadas por sons. Examinando-as. tão sugestivo para um livro de memórias. nas quais o espírito se há de comprazer. . e já sem a desculpa do álcool e do éter. Presumivelmente curado da moléstia. e o segundo é fácil de dizer: foram as velhas.. ainda estão ativas nele e realizam um sorrateiro trabalho. o presente se vai insinuando nestes apontamentos e em minha sensibilidade. durante as três últimas semanas. . já de início. sedento e agitado. se compromete meu plano de ir registrando lembranças de uma época longínqua e recompor o pequeno mundo de Vila Caraíbas. . em conjunto. Vejo que. não insistirei teimosamente na exumação dos tempos idos. E estas páginas se tornarão. sob disfarces cavilosos. Foi hábil o embuste. embora isso exprima o malogro de um plano. Não farei violência a mim mesmo. Começarei por contar honestamente os motivos por que.§ 8. e que o passado apenas aparece aqui e ali. Para iludir-lhe o espírito vaidoso. em evocações ligeiras. contemporâneas. Depois da quarta-feira de cinzas veio-me uma aura romântica que me pôs meio lunático. Tudo se torna claro aos meus olhos: depois de uma infância romântica e de uma adolescência melancólica. Analisado agora friamente. por lhe ignorar o nome de batismo e porque. a essa a que vou chamando Arabela. crê encerrado o seu ciclo e volta para dentro de si mesmo. aromas ou cores que recordam coisas de uma época morta. encarnando formas pretéritas. que impelem o homem para a frente. Como na noite de carnaval. nesses domínios obscuros da consciência. o homem supõe que encontrou sua expressão definitiva e que sua própria substância já lhe basta para as combustões interiores. fazendo-o voltar para a vida. Mas as forças vitais. para acrescentar uma ou outra linha a esta ou àquela página. o episódio do carnaval me parece um ardil engenhoso. humanizando o "mito da donzela" na rapariga da noite de carnaval. trazendo-me dias agitados. Trazem-lhe uma nova imagem de Arabela. O LUAR DE CARAÍBAS TUDO EXPLICA.

Postava-me nos logradouros públicos. percorrendo toda a cidade em busca de Arabela. é fácil de ver que eu não poderia retomar estas notas. confiei o episódio e minha desordem sentimental ao Silviano. o espírito calcula e mede—mas certamente não são suscetíveis de registro. Eu pediria inutilmente o socorro do bom senso ou da análise nas horas em que vivi a perseguir uma imagem que teria um terço de realidade e dois de fábula.. Felizmente (e com certeza por solidariedade. que se . As modificações que a paixão determina em nossa substância e a diversa visão. e contudo esperançoso. e temos pouco serviço. alma e corpo se solidarizam. Podem rir-se de mim.) Em tal estado de espírito. em vão. A vida não se conforma com o vazio. Pelo contrário. visto que anda em maré análoga). O Secretário está fora. mas o luar de Vila Caraíbas tudo explica. quando..afinal. o que atrás foi dito sobre o amanuense que espia o amanuense e lhe estiliza o sofrimento." (Na verdade nunca tivemos serviço. Quis. Naquelas horas. e a imagem da moça encheume os dias. Tive noites difíceis. poderão vir lucidamente. a confidencia. É extraordinário que nesta altura da vida me tenham acontecido tais coisas. o que lhe dei se me afigura o adequado. Observo agora que o namorado. ele não fez troça. penetrando a multidão. no instante em que devastam nossa sensibilidade. no momento preciso de sua agitação sentimental. Devo retificar. ao plano da nossa análise. No momento da devastação. mais tarde. não é capaz de se desdobrar ao ponto de permitir ao espírito. e a memória ou a imaginação é que reproduz ou cria as cenas passionais. Muitas vezes entrevi uma figura gentil e fui. que ela nos proporciona. tudo já serenado. Pus-me a procurá-la quase com aflição e. ouviu. ao seu encalço. E ninguém o ignora: a literatura das emoções é feita a frio. como se se tratasse de um ser real. e o adolescente permanece no adulto. perdendo a noção do ridículo. voltar a estas notas. então. quando o coração bate desordenadamente. estudar. dos seres e das coisas. aquilo que não passava de uma criação do espírito. mas os namorados me compreenderão: amei. entreguei-me inteiramente aos secretos impulsos. para fins literários. nesta página. e a aventura de carnaval se foi dissipando no meu espírito. Logo verificava o engano. os movimentos desse desvairado músculo. Até o chefe da Seção notou minha inquietude e fez-me assinar um requerimento de férias: "O senhor está precisando de repouso e deve aproveitar a ocasião. bebi algumas vezes e andei como vagabundo pelas ruas. Só passados alguns dias a tola idéia deixou-me. não muito convicto. sério. e jamais conheci ficção burocrática mais perfeita que a Seção do Fomento.

e. Desde muito. trouxe-me blocos de papel em . Que dias difíceis! Finalmente. eu ficasse impossibilitado de lhe prestar auxílio. Josefa lavadeira lhe meteu na cabeça que a Chica está possessa. Quase cedi. um dia desses. Emília. O SEGUNDO motivo da interrupção de minhas atividades de escriba. como nestes dias. foi doméstico. é comum que pegue as peças já limpas e as atire ao chão. pisando-as. para ter a Emília tranqüila. quando está melhor. e Francisquinha. Emília voltou a insistir em que eu trouxesse um padre para exorcismá-la. Gritava coisas desconexas. desde alguns dias. já lhes disse. já ontem. Francisquinha piorou consideravelmente. Acho-me cansado e não há pressa. não daria conta de olhar pela mana se. . talvez excitado pelo barulho que a mana produzia. A casa retornou ao seu clima habitual. Deu para coisas que até me fizeram rir. tentando. § 9. AS VELHAS. Um espírito mau a domina. o que só temos feito em último caso. supunha-se perseguida por uma mula-sem-cabeça. meio apodrecida. tudo está em paz. não sei como. É uma velha cabeçuda. inclusive o Tome. retomar minhas notas. a crise passou. Ela ficava noite e dia a arranhar a parede com as unhas. de longe. momentos tranqüilos. às voltas com sua gota ciática. e as velhas se entregaram normalmente às suas funções. que andou inquieto. escalar a superfície lisa e vertical. Emília cozinha. na noite em que comecei de novo a folheá-las. Passou a dispensar-lhes cuidados maternais. É verdade que isso nos sai caro: nos seus repentes. Mas. Tivemos de prender a pobre mana no quarto. Carolino. A meu pedido. foi-me possível. não estando em férias. tivemos de consentir em sua extravagância: duas ou três vezes por dia arranjava mingaus para os ratinhos e ficava o tempo todo a espreitá-los. e não há meio de a fazer compreender que eu compraria muito mais caro as horas de sossego que Francisquinha experimenta quando se entrega àquela tarefa. e Francisquinha foi melhorando. lava roupa. . Posso ler um pouco e escrever até tarde. a todo instante. tendo passado duas semanas de extrema agitação. talvez. uma ninhada de ratinhos. Levantando.vão tornando o centro de interesse de minha vida. para não a vermos de novo agitada. Vivendo. para de novo metê-las na água. contínuo da Seção. Agora. Josefa lavadeira vive a resmungar e a querer tomar-lhe a roupa. descobriu. ocorreu outro empecilho: o estado de saúde das velhas. Falarei nisso amanhã. uma tábua do assoalho.

uma auditiva. mas ouvi. envolve uma química. E essa trama se evidencia. O timbre da Seção do Fomento encima estas páginas. e já não veremos acaso nem gratuidade no desenrolar dos fatos da vida. o hábito de filosofar e fico horas e horas a pensar em certos fenômenos. mas o fato me deixou duas impressões nítidas. que me veio atender. dama-da-noite. NUMA RUA. à procura de um farmacêutico vindo de Vila Caraíbas. os encontros mais rápidos que sejam e se nos afiguram fortuitos. uma trama secreta que. outra. cujo endereço me fora fornecido sob indicações vagas. neste escritório da Rua Erê. lógicas. esclareceu logo o equívoco. Andando esta tarde com Glicério por aqueles lados—ao voltar de uma visita de pêsames a um companheiro de Seção. olfativa. ou apenas repito idéias velhas.quantidade. passando à noite pela Rua Paraibuna. de que. dentro da casa. há dois anos. Viva a Seção que me dá o pão e o papel. Vivendo e observando as coisas. a cuja flor chamamos. em tal ou qual sentido. então. Uma criada. no sertão. no caráter de necessidade que julgo acentuar as aproximações humanas. Se digo tolice. UMA CASA. Cantava como o faria um anjo de Van Eyck. Bem me recordo. por despontar somente à noite e murchar durante o dia. se os coristas angélicos se dedicassem ao gênero. perceberemos que o fugidio vulto—mal entrevisto em um encontro que nos pareceu destituído de significação ou conseqüência—teve. e acho-me abastecido para o que der e vier. mas nem por isso desagradável. uma física e uma economia social extremamente sutis para que a ciência humana possa penetrá-las. no jardim da casa. que perdeu a filha—uma . SEM dúvida. E já lhes contarei por que meu pensamento tomou hoje tais rumos. um momento de maior ou menor influência em nossa vida. Ela desprende um aroma de alto poder evocativo. As duas imagens se consorciaram no meu espírito e ainda hoje nele permanecem. encadeando os acontecimentos. uma trepadeira. § 10. E. enriquecidas de outras que lhes ministrou este demônio fantasista que me habita. por engano. HÁ. fiz-me anunciar. Será uma pouco vivaz. agora. uma canção napolitana que ouvi a Camila em tempos idos: Tuorna a Surriento. mais tarde. que me perdoem: adquiri. em outra residência. havia uma criatura que não vi. para mim. Explico-me: havia. As leis que regulam a circulação dos homens nos parecerão.

perguntei ao Glicério que moça ali morava. . voltei pelo lado oposto da rua. leitor. a retalho e por atacado. nada menos. sugeria um arcanjo. sucedendo. lembrava um anjinho amável. transmudado em distinto cavalheiro que seria o protetor da donzela. A moça é que é fabulosa. Não. —Aumenta-se o pecúlio da Previdência e toma-se um empréstimo em dezoito prestações. mesmo. estava. Pode-se. Sou um incorrigível produtor de fantasias.dama-da-noite. Assim me vi desembaraçado do Glicério. observou Glicério. construir uma casa. Um relance de olhos revelou-me que sua fisionomia não me era estranha. nos separamos. Na Rua Erê. morreu há um mês. Foi o demônio da Jandira que me tirou daquela sorte de embriaguez. já a flor abria suas grandes pétalas brancas. desci pouco adiante. —Não a conhece? Deveras? É a Carmélia Miranda. Não é preciso dizer o que fiz: voltei. pelo caminho percorrido. ao Bar do Ponto. não conhecia. e fiquei a imaginar doces coisas. —O nome é o menos. tempos atrás. Aurélio. nada mais. um pouco além. —Que susto me pregou. Era precisamente a casa a cuja porta bati. no ponto de espera. o ato do Governo promovendo. sussurrou uma voz.. que devia ser. entrando aqui com essa cara de alma do outro . este nome tão sugestivo. uma jovem estava à janela. Ela vive com a mãe e um irmão pequeno. Já adivinharam quem seria: Arabela. ao falecido pai. na casa. Não há criatura mais linda.. se eu não ouvisse uma risada quando entrei em casa. movido por um pressentimento.. Queria ver novamente a dama-da-noite. Quando de novo passei em frente da casa. talvez escondesse a da canção. Dr. Quando cheguei a pé. E assim continuaria. Recordando-me do episódio e da voz puríssima que trauteou a canção. por merecimento. segundo o novo plano predial. Fomos caminhando juntos até que. Nunca ouvira. e. em caracteres nítidos. O pai. atraiu-me a atenção e despertou-me lembranças. Com o crepúsculo. Perturbou-me bastante o encontro. —E uma fatiota nova. pendente do gradil de ferro de certo jardim. Apressei os passos. senti-me nomeado segundo oficial e cheguei a enxergar no Minas Gerais. nem mais fina nestas redondezas. tomando cada qual o seu bonde. Esquecime desta triste figura e sonhei um terno idílio. o amanuense Belmiro Borba. a passos apressados. —Mas é preciso comprar as alianças e um presente muito bonito. mesmo. com o coração em desordem.

Louvado Deus. Da roda. Talvez tenha vindo apenas mostrar-me seu vestido novo.mundo! Há uma hora estou esperando você sozinha. mas. enquanto. O sintoma é positivo: acabo de tentar um poema. e com ar de indiferença. e sim timidez. Quando. Contou-me que obteve colocação no escritório de um advogado. volvo os olhos para um lado. A velha está hoje inabordável e por pouco batia-me a porta no nariz. procurava descobrir a razão da presença de Jandira. como hoje. infelizmente. nossa amizade sobreviveu a essas crises e acabou por criar certos tabus entre nós. As mulheres inteligentes não têm nisso menor prazer do que as outras. ORA. § 11. Jandira voltou sem dizer o que queria. Faço por ser engraçado e lhe digo tolices. referiu-se maldosamente à Joana e suas turras com Silviano. possuo um invariável bom senso e termino aconselhando-lhe qualquer coisa sensata. dá-se que começo a amar. o Dr. depois de. levou-me um livro e lá se foi pelas oito horas. enrola um cigarro de palha e declara. uma folha de papel onde se alinham versos frustrados e se estende uma caprichosa série de rabiscos. Não é que sejam raras suas vindas à Rua Erê. em todas as línguas e em todas as épocas. para cá. e por pouco não lhe teria dito as palavras do desejo. sempre que aparece. realmente encantador e provocante. ao cabo de contas. Já lhe disse que. Dias houve em que ela me perturbava profundamente. no íntimo. nisto não andou virtude. costuma insinuar o que deseja somente no post-scriptum. tentar uma prosa com Emília. que andando para lá. finge que não nota. que me fez tímido. De acordo com a tática epistolar do sexo. Pereirinha. em minha mesa. por duas vezes. balbuciei qualquer esfarrapada desculpa. pondo-me a mão sobre o ombro. sob reservas. O AMANUENSE AMANDO ESTÁ. neste escritório. que o deputado Fortuna está na bica de ser secretário. que são as mesmas. . mas nem isso fez esta noite. tem qualquer problema a resolver. O chefe pigarreia. Que casa hospitaleira! disse. sob o olhar complacente do chefe da i&laíISeção. ela me vem tão desejável e tão perigosa (como a saúde de Jandira convida a uma ligação menos literária. recusando-me devaneios acerca de sua geometria e convocando este anjo latente e prestimoso que nos segue como a sombra Afinal. mais naturista!). mas bem sabe que. Refeito do abalo. que a mão vai traçando para disfarçar sua incompetência e esperar uma inspiração que não vem. fui o único que não tentou conquistá-la.

Tinha jeito e tive padrinhos. com multas e penas. o Romualdo. Quando franze os sobrolhos. e isso acontece sempre que a praxe foi relaxada. Tirante o Glicério. Acolá. na generalidade dos casos. que. no fundo. Quando sorri. seu vulto assume a solenidade de um edifício público. à hora de encerrar-se o expediente: "Eu dava era para a política. entre duas informações deitadas com letra trêmula num requerimento. . "Se eu não tivesse deixado o seminário. Mal posso. seu semblante se abre como que recitando a fórmula "saúde e fraternidade". e sente-se que. que é aquela em que o espírito se integra no bureau e o homem não é mais do que um conjunto de fórmulas e praxes." Há outros que teriam feito carreira no Exército. como caso excepcional. Admiro. Sente-se que ele está firme e definitivo na sua escrivaninha de primeiro oficial. que trabalha no compartimento contíguo. o companheiro de cavanhaque e lunetas douradas. e há dois ou três que excedem os sessenta. mas sempre revoltados. Bons sujeitos. que já requereu contagem de tempo para aposentadoria. É o Filgueiras. querendo. casei-me antes de tempo e aqui estou vegetando. está todo um sistema de leis fiscais. suspira. que é novo na vida e na burocracia.Meus honestos e graves companheiros de Seção se acham a postos. não nasceram para esta vida. os demais passam dos quarenta. desviando-lhes a rota da vida.. E assinam o ponto com rebeldia na alma e desprezo pelas mãos. Mas houve qualquer coisa que tudo atrapalhou. recusando-se a pôr o espírito em função no ofício que lhes parece tão contrário à vocação e preferências. não me contrista. cada dia. Poucos deles assinam o ponto de humor sereno e com aquela unção de que deveriam estar penetrados. se algo há de que me ache firmemente convencido é ter neste bureau um destino lógico. O processo é sua religião e o senhor diretor a instância suprema. na alta administração. com todos os vencimentos. O velho que se assenta a meu lado tem trinta anos de serviço. em forma hierática e cabal. Mas não tirei carta de bacharel.. já recebe adicionais e ainda acredita que nasceu para o brilho e a dignidade da Igreja. ou melhor. Mas. Os mais ficam na burocracia militante e inconformada. outro. talvez fosse bispo!" exclama ele. São raros os que chegam à burocracia triunfante. É o homem que manda o peticionário selar a petição e que volte. após tantos anos de exercício das suas funções. atrás dele. meus amigos da Seção exercem com desencanto suas funções. Quanto a mim. é o próprio processo. ou nas letras.

Todos nós nos preocupávamos com o problema. em nome dos amigos comuns. será o fenômeno amor? Creio que vos estou amando. do flautista que. ao pôr do sol.na verdade. quando contemplo. que o acontecimento tivesse comemoração condigna. Vivemos tão preocupados com o nosso próprio espetáculo que no geral ficamos cegos para o alheio. A instalação é quase tão pobre como esta que me arranjei na Rua Erê. § 12. que. de que a amiga é bem dotada. não tive olhos para lhe ver alguma coisa. já não sofrerá donzelas. que ali . Conheço-a desde dois ou três anos. Ponho-me a imaginar um Belmiro sexagenário que tenha renunciado compulsoriamente aos jogos do amor e já não sofra a necessidade dolorosa de compor um poema. Zombe eu. o repetia para cada um que encontrava. um Belmiro triste. conter um movimento de ternura. numa rua. no pequeno apartamento que ocupa. de nossa Secretaria. ou de. Informado de que Jandira se empregara. céptico. acorda dentro de mim e tenta uma serenata. Depois de animada reunião em sua casa. Arabela. DESCOBRI hoje o motivo por que nossa amiga Jandira veio ver-me anteontem. acolhedor. CONVERSAÇÃO COM JANDIRA. que nos faz o Estado. e mais um. no arranjo doméstico. e quando me lembro da promessa honrada. Aos sessenta anos. com emoção mal disfarçada. de uma aposentadoria condigna. Mas a amiga dá uns toques tais. já estavam todos. desconhecido. Quando lá cheguei. nem arabelas. o edifício grave. ir tentando sacar. fizemos boa camaradagem (é minha única amizade feminina) e. nestas compreendidas também as de espírito. entretanto. informações mais circunstanciadas acerca da moça que apareceu na janela de uma casa. Eu vos estou amando e prestes me acho para as nossas impossíveis bodas. ou melhor. ela me chamou à parte e tez algumas confidencias melancólicas. satisfeito com o trocadilho. com a tia. Foi o Florêncio quem promoveu o encontro. mas pacificado. Jandira levou a ultimação a sério e nos convocou esta noite. e a colocação deveria ser bebemorada. segundo a expressão do Florêncio. do Glicério. em uma casa de cômodos da Rua Curitiba. embora. além das graças de mulher. *** —Mas. ele lhe exigiu. neste instante.

realmente. sobra-lhe em engenho. não abre mão dos direitos de exercer sobre ele uma fiscalização contínua. Jandira está na força da carne. Satisfeito com a oportunidade que lhe dei para um discurso. Jandira se veste como filha de ricos. para acomodar as mulheres. Jandira me trouxe. que as devorava com os olhos. É o que é preciso fazer. A mentira. pois brigam. estou na Gazeta de Minas fazendo revisão de um artigo que dei para o Suplemento. aproximei-me do Silviano. embora conformada com as extravagâncias do marido. não eram ontem propícias a pensamentos castos. Apesar das dificuldades internas da casa (quando a amiga está desempregada. Mas não pensem que é fácil estabelecer uma combinação . Belmiro. Para dizer qualquer coisa e integrar-me na roda. —Porfírio. Silviano não é dos mais assíduos em casa de Jandira. perguntando-lhe como conseguira habeas-corpus da Joana. retifiquei pela centésima vez. Ela se pôs muito bonita para nos receber e fiquei lisonjeado por mim e pelos demais. e as formas. Sou triplo. a quem estas modas de 1935 causam profundas perturbações. já estando meio alterado pela bebida e sem os freios que a discrição nos impõe. Falariam de mim? Alguém devia estar penando. Por outro lado.sempre tenho a impressão de estar sendo recebido em casa de finos burgueses. que deveria correr animado antes. Tanto pior para o amanuense incauto. vindo a meu encontro. Ao Florêncio. Joana. é a base da ordem doméstica. sempre que se encontram. fielmente modeladas pelo vestido. para comparecer na reunião. Fui saudado com um "oh!" geral da roda e. a respeito. parou um pouco. não.. Com este princípio. livrando-me dessa situação aborrecida de quem chega e interrompe o fio da conversa. apegou-se ao assunto e continuou: —O que ignoramos é como se não existisse para nós. o colóquio. pois o tom geral era de sorrisos maliciosos. e as coisas se dispõem de tal forma que ela a ninguém cede em elegâncias e modas. —Mentindo! respondeu nosso filósofo. Com a minha chegada. o Silviano. A presença do Silviano era. sou múltiplo. pois o chope já ia adiantado. de se notar. Para todos os efeitos. costuma chamar-lhe Abundâncio. O que lhe falta em dinheiro. arranjo-me em casa.. mas Joana só conhece uma face do monstro. Silviano tem a mania de batizar cada pessoa com o nome que lhe apraz. logo uma cadeira e um copo. as duas passam aperturas com a magra pensão que a velha Hortênsia recebe da Caixa Beneficente das Viúvas e Órfãos dos Militares). Que deponha. Porfírio.

desde a morte do marido. Jandira diz que D. aparteou outra vez Florêncio. cortou o Florêncio. São o passatempo do guerreiro. Dessa vez. que veio de uma novena na igreja do bairro. espontânea. E se as mulheres resolvessem adotar sua teoria. que me surpreendeu: —Não acho graça nenhuma nisso. Como despregada do mundo. este continuou a falar. Jandira interveio. e o guerreiro requer muitas mulheres. Silviano encolerizou-se: —Não me dirijo a você. apenas a diferença de substância e não de forma. conquanto a velha seja uma criatura apática. a fim de que cada mentira se articule perfeitamente no sistema e seja.. Cumprimentou a todos. disse Jandira. Sem responder. dando silenciosamente a mão a cada um. e se . que contrabalançava a expressão hostil de Redelvim. instintiva..constante de mentiras.. devemos sempre mentir. para enganar os maridos? Acharia bom? Silviano não se perturbou: —A mulher. irritada. junto a nós. —Não para você. durante horas. entre ela e a verdade. cujo retrato pende da parede. sorriu satisfeito. como se estivesse a pensar no defunto major. fluente. —Ninguém duvida. Hortênsia sempre anda assim... que é nietzschiano. provocando novos aplausos. evitou que a conversa descambasse. lógica. Animado pelo olhar de admiração deste. que sustente o equilíbrio do lar. estabelecida. Assim a mentira acaba vindo fácil. Um pouco impaciente com aquela farsa... haja ou não haja necessidade. truão! Estou falando é às pessoas qualificadas desta roda. provocando uma gargalhada de todos. deviam ter mais compostura. não necessita disso. interrompendo-o. no seu tom professoral: —Um exercício longo. isto é que é. Glicério. Fica. como um parlamentar experimentado que não dá atenção aos apartes. A chegada da tia. Silviano continuou a discursar: —A felicidade para a mulher está unicamente em divertir o guerreiro e pensar suas feridas.. uma sombra. —O que sei é que vocês são uns cínicos.. Para atingir a perfeição. com essa alusão à mitomania do Silviano. alheada. Basta-lhe um homem. ao mesmo tempo. minha flor. Hoje sou um artista no gênero. cuja presença mal se sente. manifestandose solidária com o sexo e assumindo um ar conservador. Vocês.. É preciso um exercício longo. casados.

O começo de discussão tirou a graça da festa. com eles e com o desconhecido—a quem atrás' me referi e que. Passaram ao terreno da política. que até então apenas bebia. me repreende pelo que denomina "irreprimível vocação plebéia". Jandira me disse. Desde muito. Dispunha-me a sair. LOGO que Silviano. Silviano. no quarto. à margem. pois há forças de repulsão. E por aí se engalfinharam os dois. durante todo o tempo. e o tom que emprega em seus monólogos não é outro. sirvo. Isso não quer dizer que me poupem. junto da velha—. Redelvim me chama comodista e vive a dizer que. não se animando Glicério a entrar na briga e apenas seguindo-a com um sorriso de aprovação ao Silviano. Fica para amanhã cedo o relato da conversa com Jandira. É uma verdadeira descida dos meus altiplanos. pedindo que ficasse mais um pouco à porta da rua. afinal. para conversarmos a sós. a beber. Magoaram-se uns aos outros. § 13. pois não disseram novidade. mas que lhe é habitual. mais que afinidades. Já o pilhei a conversar sozinho. ao contrário. o Pensador! Oh! Como isso me diverte! disse Silviano com um ar que parecia afetado. Redelvim e o desconhecido se afastaram. Florêncio. E criaram uma situação de tal constrangimento que cedo a reunião se dissolveu. no meu "cepticismo de pequeno burguês (a expressão é dele). Certamente precisa de algum remédio. quando Jandira me tocou no braço. Redelvim. *** Já é tarde e Emília chama por mim. as discussões vêm azedando nossa pequena roda e vejo que ela não tardará a dissolver-se. atacou um assunto perigoso. exprimindo seu desprezo pelo Silviano e pelo Glicério: —Mentalidade sórdida de burgueses! Vocês são uns idiotas e uns palhaços. Glicério. Só eu e o Florêncio ficamos calados. Redelvim e Jandira tendem para a esquerda.pôs a um canto. sem que nenhum ficasse abalado em suas convicções. —Um palhaço. ao capitalismo. meio sorridente: . A CONFIDENCIA. esteve calado. Não repetirei o que disseram.— Chega a escandalizar-me esta minha condescendência em vir conversar com vocês. entre estes inquietos companheiros. Enquanto Glicério e Silviano se inclinam para o fascismo. talvez assustada com tamanho alarido em sua sala.

à sua situação. Tem uns cobres. com urgência. e só agora compreendo o sentido oculto de suas palavras.. As meninas-famílias dispõem de papais e irmãos para imporem respeito aos dons-juans que andam por aí. ora irritada. e insiste em dizer-me que abre mão de direitos de exclusividade sobre mim. em mim. preciso de um homem. —Não é possível. vivo tão sem apoio. Você não imagina o que é a gente ser perseguida pelos homens. continuei. Seria uma humilhação.. aqui tem um homem. Hortênsia é apenas uma sombra.—Esse homem que esteve aqui e a quem vocês não prestaram atenção. feita com esforço não pequeno. respondi. ter sempre a companhia de vocês.. Jandira não tem amigas e D. —Deixe de ser bobo. mas não este. mas velada-mente. está-me perseguindo com propostas de casamento. Habituado a pensar nos meus próprios problemas e a perder-me neles. .. é viúvo. Depois. e fez-me a confidencia que me surpreendeu: —É claro que recusarei sempre. eu lhe dava na cara. mas o sujeito é muito teimoso. Dizendo-me coisas desse gênero. de um homem. Jandira me olhou com ódio: —Se não soubesse que você está apenas fazendo uma gracinha. todo dia. todo dia. fiz uma pilhéria de mau gosto. Talvez por isso me tenha escolhido para confidente. Bem. Em conversas anteriores ela aludiu muitas vezes. —Pois então feche o negócio! —Idiota! Ainda estou bem moça para fazer negócios. ora deprimida. Preciso. e as mulheres também estão sujeitas a certas exigências. estou falando a sério. não digo. Poderei continuar a mesma vida. —Passe-lhe a tábua. Só falta proporme. por alguma forma suprime. A gente é de carne e osso. —Já recusei três vezes. embora me sentisse realmente penalizado: —Se o caso é de urgência. Todos me olham como se quisessem devorar-me. . Impressionou-me esta confissão. Eu tenho de reagir sozinha.. o homem. então. Será que me considera inofensivo? Levado por esta estúpida interrogação. Não me presumo credor de elogios pela escolha. E às vezes sinto-me fraca. Mas. nesse caso. Deve ter uns quarenta anos. tenho pensado. tenho medo de ceder. continuou a falar. eu também me candidato. Nesse caso. Belmiro. não me quer escravizar. se você estiver disposta a agüentar com as manas. Sabe que é velho e que não pode exigir muito. Ouça. não percebi. É a terceira vez que ele me propõe casamento. em que ela não poderia encontrar ressonância.

sintoma de vitalidade. como qualquer um. dentro em pouco. a favor ou contra. Ela o emprega com o sentido de sedativo. da mesma força. volto a remoer o adjetivo analgésico. abandonei-o.. logo depois de ter dito aquela tolice. no tocante a dado conceito. Vocês não compreendem isso. como você é analgésico! Voltei para casa tranqüilo. § 14. que era muito nova para desesperar de uma solução. sabem o que sou. no seu calão. ao mesmo tempo? Há anos passados. sou um homem fraco. para o segundo. serei um céptico pequeno burguês que. Acham indispensável classificar o indivíduo em determinada categoria. É o que pensam as mulheres. Minhas palavras produziram bom efeito e. Ela devia saber disso. que realmente estava brincando e que. Achava. sem achar saída.Fiquei encabulado. eu preferiria a de excitante. Mas está dito: sou analgésico.. e prometi-lhe que ainda lhe levaria um bom marido. eu costumava entregar-me a um passatempo perigoso: procurar. mas por omissão. embora não muito satisfeito com o adjetivo. Não é culpa sua. ou de mais. Ora. Fazendo minhas .. assumindo ar de mofa e provocando-me. Redelvim e Silviano o exprimiram: para o primeiro. porém. não por ação. positivamente. Afinal. . pela sua representante junto à Rua Erê. serve o sistema capitalista. todos. desde que ela não me queria. cheio de possibilidades. Olhou-me pensativa. E não é. dizendo que. ETC. Jamais encontrei algum cujo contrário não pudesse ser também defendido. o burguês Belmiro! Redelvim deu para humorista. e disse: —Fui uma boba em pensar que podia lhe falar essas coisas. Expliquei-lhe. eu compreendia tudo. eu me censurara pela minha incompreensão. ela é que não parecia razoável: levou muito longe uma simples pilhéria. Jandira voltava ao seu clima. naquele momento. com que Jandira me brindou. Quanto ao que pensam de mim os velhos companheiros. Protestei. Gostei dessa reação. RELENDO a página escrita ontem. já estava brincalhona: —Belmiro. meu anjo. Percebendo que esse jogo de antinomias acabaria deixando-me com uma telha de menos. Quando nos despedimos. Uma criatura bonita e jovem assim tem diante de si um mundo grande. E se eu não for coisa alguma. igual número de argumentos. como pude. exceto eu. um elogio atribuir-me a função de calmante. ANALGÉSICO. ou for tudo. que não tem o senso da hierarquia e tende para um igualitarismo dissolvente.

não tive. postar-me à frente de uma porta lateral. outros males. Como na tarde em que voltei â Rua Paraibuna. convidando os amigos e parentes do saudoso Dr. para alimento dos longos dias que passarei sem a ver. escapou-me uma imagem nítida de Carmélia para só ficar um esboço vago de seu vulto. quando queremos forçar demasiado a atenção em qualquer coisa. e só fui dar acordo de mim quando entrava na igreja da Boa Viagem. na escrivaninha da Seção. por onde geralmente se retiram as pessoas discretas ou enlutadas. Creio que já não quero o mito mas a pessoa. com mais vigor. senti-me. cedinho. Quando. celebrada em intenção de sua alma. durante o dia. Mas parece que a sensibilidade descansa apenas para redobrar. atraiu-ma desta vez. Não sendo parente nem amigo do defunto. ou não senti coisa nenhuma. Não fora preciso tanto açodamento. Essas intermitências. o Minas Gerais. vi que a simples aquisição de umas botinas novas me desequilibrou o orçamento deste mês. ela alçou rapidamente a vista. precedendo aos presentes. e mal pude deixá-la. convidado. desviei sem querer os meus olhos. que Deus pôs no mundo paisagens. Lendo. assim como. Aurélio Miranda para assistirem à missa de trigésimo dia. Ontem. outros bens. Desejaria bebê-la com os olhos. Carmélia. é que entretêm a vida e a preservam dos efeitos devastadores de um sentimento intenso e continuado. Por que essa timidez? Não me . a procurar o carro da família. cheguei mesmo a esquecê-la. eu não pensava mais em Arabela (Carmélia. em um momento propício. E nela vejo um aviso.contas. DESDE a noite da reunião em casa de Jandira. esta coisa nos foge. de chapéu e luto fechado. se me ocorresse que a família sai por último. MISSA DE TRIGÉSIMO DIA. deixando Glicério. porém. dando repouso à sensibilidade. não sei por que ardilosa conspiração das coisas. E não foi senão para favorecer o esquecimento. o irmão pequeno e a viúva só apareceram mais tarde. Já estava no fim a cerimônia. ainda a tempo de. presa que fica pelos abraços de pêsames das pessoas conhecidas. a coluna dos falecimentos e das missas fúnebres. inclusive Jandira. as operações do seu ofício. também. neste velho escritório ou em algum trajeto de bonde. forças para mirá-la de frente. parecia mulher feita e nela mal reconheci a misteriosa moça em flor da noite de carnaval. § 15. Assim foi: a filha. preocupados que ficamos com tal esforço. obter uma imagem sua que se fixasse. que jamais me chamou a atenção. em minha memória ótica. quero dizer) e seu vulto mal pousou a meu lado. Entretanto. cuidados. diz Silviano.

para viajar pelo tempo afora. que vão atrás dos balões. do Natal e do Ano-Bom. esses dias continuam inundados de uma poesia própria. Eis o lado melancólico do São João. esse balão que se queima no ar e os foguetes. cruzai" os ares e deixar-te em certo alpendre da Rua Paraibuna. amanuense. como aquela serra que azula no horizonte. muito além da qual nasceu Iracema. § 16. Carmélia é fina. Mas. qual delas se cobrirá de flores e . todos os cavaleiros andantes já se recolheram e não há mais dulcinéias. de que essas bodas são impossíveis. Escrevendo estas notas. neste vetusto bureau da Seção do Fomento. Já tens trinta e oito primaveras e ainda me compareces com tais veleidades de mocinho. com medo de que os meninos me atirassem bombinhas. cheio de balões e de vozes gratas da infância. ainda estou a lamentar minha inépcia. em que imaginavas um incêndio. As moças de trancas e bandos não mais lerão sortes no copo d'água nem saberão mais qual delas terá a grinalda. É inútil que faças projetos. que resiste a todas as agressões dos principiantes das letras. fumares um cigarro e assobiares uma rancheira. O melhor é tomares a xícara de café que o Carolino pôs sobre a mesa (excelente Carolino). Cada ano. mesmo de longe. É da alta.conhece e nem perceberia uns olhos plebeus que nela se detivessem furtivamente. Permanecem com sua força evocativa e voltam com aquela pontualidade inexorável para vir lembrar-nos que estamos envelhecendo irremediavelmente. pude apreciar esse São João alegre e buliçoso. para compareceres. Sofreia. Apesar da literatura que se faz pelo Natal e pelo São João. afinal. UM SÃO JOÃO QUE VAI LONGE. essa fogueira. perdidamente. mais distante. como diz Glicério. salvando a donzela. Por que. como outro dia. no momento preciso. ao vê-los chegar. Mas. além. jovem. QUANDO vi a fogueira. Em cada ramo à beira do caminho ficou um pouco de nossas vestes e é inútil voltar. rica. porque os bichos comeram os trapos que o vento não levou. o irmãozinho e a viúva. hão de fazer-me inclinar sobre mim mesmo. Belmiro. o corcel fogoso que contigo quer transpor esta janela. Certo São João de Vila Caraíbas é um fenômeno que não se reproduzirá jamais. um terremoto ou uma guerra. Amigo Quixote. uma inundação. passei ao largo. em busca de um balão que as monções carregaram para outras latitudes? Vã tentativa de reintegração de porções que se desprenderam da alma nesse trajeto imenso. verificamos que a paisagem do passado vai ficando mais azul. valerá a pena que eu me incrimine por isso? Lembra-te.

Há quatro anos. pensando que chegaria à estrela. a coisa virou. contemplando as fogueiras e cantando certa modinha que ninguém ouvirá. explicar por que namora a filha do chefe de Seção—que é de condição modesta—e receio que esse namoro dê em nada. joga bridge e tem outros hábitos aristocráticos. rendime às suas tentativas de aproximação e criei-lhe estima. Enquanto a fogueira funcionar. novos rumos em minha vida. Vamos perambular pela rua. vai a um luxuoso clube de campo. § 17. QUE OS BORBAS ME PERDOEM. Moço Belmiro. nunca o procurei. Com o tempo. que deixou um legado para a freguesia de Caraíbas. aos poucos. inconscientemente. e até horas mortas um aroma brando de batatas assadas me mantinha. Velho Belmiro. desfruta a estima da alta goma. e que essas concessões têm feroz fundo utilitário: adivinho nele o caminho para Carmélia. sempre adiante do viajor. a pensar nas terras impossíveis e no destino trágico da Nau Catarineta. E ele viajava toda a vida. O certo é que. a vê-lo sempre à minha procura. sem boas intenções. Qualquer coisa a respeito de um viajor e de uma estrela. nós ficaremos de braços dados. Pareceu-me pretensioso e decidi-me a não tomar conhecimento de sua presença. que cantava inefável modinha. nem alegres. ora com ele combinando encontros de rua. Tempo velho.de perfumes e arrastará um véu comprido no pavimento da velha Matriz. porém. A estrela sempre longínqua. onde jazem os restos mortais de Dona Ana de Freitas e Ataíde. amanhã me abandono (perguntando-me se a vida vale tantas renúncias). desenvolvo uma tática complicada. Sua inclinação é para as donzelas de nobre linhagem. Nem sei. quando o rapaz entrou na Seção. não simpatizei com ele. recomendado pelo Senador Furquim. noto que faço ultimamente grandes concessões ao Glicério. Estas notas são íntimas e nelas devo pôr toda a sinceridade. Tempo velho. O rapaz freqüenta a sociedade. ora indo-lhe à casa. O que eu . rente do braseiro. Agora. Num exame de consciência. cedendo ao comodismo e reservando meus lazeres para os velhos companheiros. Hoje reajo. apenas nos namorando e nos lembrando daquela moça de cabelos de retrós e de brancas vestes. e afinal me desloco. nem tristes. Naquele tempo a fogueira crepitava até horas mortas. procurando atingir Carmélia por via do Glicério. Habituado. Hoje é o nosso dia. CASO da noite de carnaval introduz. mesmo. Talvez o pirata esteja apenas desfrutando a moça.

em cuja casa iríamos jogar. o Florêncio e a Jandira lhe dispensamos e nos encarece também. Recusei terminantemente. Explico a questão da importância: desde muito tempo. E fica. e esclareceu que o jogo seria barato. já que o ridículo é de todos os namorados. Manda a sinceridade que eu escreva também que. o mancebo. por eufemismo. bom parceiro. que sempre foram grandes amorosos e hão de compreender-me. no caso. ele se mostra despótico. Percebendo a ação. § 18. embora tivesse curiosidade de conhecer a casa de um senador e privar com um pai da Pátria. . ficamos lisonjeados com isso. embora lhe escape a intenção. encarece muito o acolhimento que eu. nunca bajulei ninguém. inacessíveis. Faz-nos passar por monstros literários. por outro. o Silviano. mas a tirania de Glicério leva-me a coisas que nunca fiz. assim. usando de um trunfo que assinala sua superioridade sobre os companheiros de bridge e tênis e suscita a admiração de ingênuas mocinhas. EU ME conformo com o meu ridículo. é inteligente. A mistificação nos prestigia de certo modo e satisfaz a uma pontinha de vaidade que não conseguimos reprimir. Nunca chaleirei políticos. ao cabo de contas. Glicério. fez-me comprar um terno novo e camisas da moda. Falou-me que o Senador Furquim. Não me pesa confessá-lo porque. É que essa aventura me intimidava. cá entre nós. obrigando-me a acompanhá-lo a um baile. Jandira foi quem apurou essas coisas. cercado de um halo misterioso. pondo-me fora de meu mundo e em contato com uma fauna humana de caracteres inteiramente desconhecidos para mim. pois o senador não admite cacife acima de dez mil-réis. Perdoem-me os Borbas velhos. mas agora me revelo um sabujo consumado. que só admitem em seu círculo a ele. apesar de tais tolices. qualquer um assim procederia: tenho adulado Glicério. Tenho adulado em todos os tempos e modos. para se prestigiar em sua roda de sociedade. foi um pôquer. ser traduzido por um vocábulo mais simples e direto: adulação. aos olhos dos filistinos. e exibe-me em lugares aonde nunca fui—por um lado. para se dar importância e. UM BAILE DAS MOÇAS EM FLOR. como esta noite. era homem muito simples.chamei concessões. para a sortida. o Redelvim. pode. talvez para se divertir com o meu embaraço. vivo. Aboliu-me o colarinho alto. e nós as perdoamos ao rapaz que. Não me disse que haveria danças e o pretexto. com sua rede de informações. quanto ao rapaz.

assentei-me em uma poltrona. quando sabe que ela o engana. inefáveis modinhas. por muito tempo. que andavam aos bandos e formavam grupos indemarcáveis onde se operava a translação contínua de uma beleza fluida. Compreendi a necessidade de fugir às moças em flor e. Se algum dia caírem estas linhas sob os olhos de alguém. Traziam-me uma imagem da vida que foge. afastaram-se os móveis e. porque moças e rapazes. Pouco me faz: toco trombone é para meu uso. tinham vestidos brancos que modelavam seios morenos e castos. mas não jogamos uma hora.Mas o medo de descontentar o meu tirano e de fechar. também. Cantavam. Havia realmente o pôquer. O serviço público não jubilou. Era uma data aniversária na casa. A vida nos ilude cada dia. ao luar. no bom tempo das polcas e das quadrilhas. mas nós a queremos. abandonado pelo Glicério. Ai de nós. em particular. os caminhos para Carmélia. o gabinete do senador. experimentei uma transfiguração: senti-me em Vila Caraíbas. como o amante que ainda mais ama a companheira. Dissolveu-se a roda. à moça Carmélia. Receber o calor dos novos seres e sofrer-lhes o contato ainda é pior que o frio de uma velhice que nos espreita. tal a das virgens da praia de Balbec. transportei-me a uma janela. mas eu bem as via. o melhor é esconder-se nas cavernas do peito e nelas procurar o panorama do seu tempo. Tive inveja daqueles que as enlaçavam e as valsavam. Nada mais depressivo que sentir outras gerações surgirem depois da nossa e nos disputarem espaço. Tome. Mas a vida está me encostando. os que vamos passando. Meu lugar é nesta Rua Erê. velhas. Mas não poderei suportar. idiliei ao pé de um jasmineiro. Por um momento. Prudêncio Gouveia e o velho Giovanni. e foge sem dó. nem há dúvida. rirão de minha literatura sentimental. a um canto. este burocrata mestre. Meu lugar é outro e meu clima é bem diverso do desses salões a que ele me transporta. Francisquinha. quando o juiz municipal de Vila Caraíbas ia reclamar contra o barulho do instrumento. Eram também ágeis. como dizia mestre Rizério. A quem vai passando. assim. tomando um automóvel. Minhas moças em flor de Vila Caraíbas. aparecidos às dúzias. lestos e gráceis. fez-me ceder às suas insistências e. As moças não me notavam. com ardor recrudescido. que ainda alcancei. coletiva e móvel. ainda. não couberam no salão e reclamaram. hoje outoniças. entre Emília. para festa dos olhos e malinconia do espírito. O baile me deixou miserável. Moças proustianas em flor. tocamos para a casa do senador. pela sensação de aposentadoria. . a tirania de Glicério.

só para ver a casa. eles lhe fugiram) e cuida. diretamente. Achei péssimo. horas mortas. aos trinta e oito. mais extravagante que estes devaneios meus? Abandonou os ratinhos (ou melhor. Pois. por uma semana. venceria a timidez e atacaria o assunto: estou certo de que. de dia. idiota. É uma idéia bem fora do comum. dentro de casa. § 20. idiota. além das palavras ditas no momento em que passávamos em frente da casa da Rua Paraibuna. mas o demônio lhe fecha a boca. esperando ver a moça. muitas vezes. a viagem me aborrece. nesta obsessão tola em que vivo. de namorado aflito. no que se refere a Carmélia. IDIOTA. com o que irrita a cada instante a galinha mãe. à margem destas páginas: idiota. isso me seria indiferente. quando não me enojo. Deus sabe quantas vezes tenho passado. minha situação é essa. Vive a dar cafiaspirina aos pintainhos. . bom camarada. Se eu tivesse dez anos de menos. GLICÉRIO seguiu ontem para o Rio. Será mais uma semana de atraso nas minhas tentativas para dele obter. de pintos. por isso. Tenho esperado. IDIOTA. Nada mais lhe arranquei. e escrevo. dizendo que se acham gripados. seu propósito de ir ao Rio. Mas. não se recusaria a servir um namorado em aflição. Vai viajar agora e teremos sete dias durante os quais não haverá nem mesmo esperanças. Pergunto a mim próprio se. não digo uma aproximação—com que já não sonho—mas pelo menos referências ou informações a respeito de Carmélia. não serei a pessoa menos equilibrada desta casa. Aos vinte e oito anos eu poderia (não sendo apenas amanuense) pretender essa Carmélia que não terá chegado aos vinte. porventura. SILVIANO E O PROBLEMA FÁUSTICO. que me fale sobre a moça. Eu próprio me tenho rido. O que Francisquinha faz é. na Seção. ou a tenho cruzado. agora.§ 19. Passo o dia todo a seu lado. ouço-lhe mil ninharias sobre a vida da sociedade e sobre rapazes ou moças que conhece. GLICÉRIO comunicou-me hoje. que ele me diga espontaneamente qualquer coisa. Noutra ocasião. mas. Pegou um colchão velho e tenta fazê-los dormir nele. mas que não excede os desvarios que ando praticando. em que pese à minha percepção do ridículo. IDIOTA. é de todo descabido e Glicério haveria de rir-se de mim. onde passará toda esta semana. na Rua Paraibuna. Não me animo a pedir-lhe. nesta altura dos acontecimentos.

com medo da solidão. Para a tarde. cada dia. Abrio na página marcada. e pôs-me à vontade no escritório. A visita ao Silviano transformou uma noite que se anunciava péssima em bem-humorado serão. Meu ócio não traz fermentos de anarquia. Continuo a alimentar-me. o poeta. É ela que passa a mão pelos meus cabelos e pergunta:—Que tens. e teremos o anarquista. Não sei até onde irá esta fantasia de amanuense ocioso. a ausência de uma possibilidade. submissa. Deixem-no folgado. Eila aqui reproduzida: TERMOMETRIA DE UM ESTADO PSICOLÓGICO Data:—Domingo. Problema:—O eterno. O que nos vale são as mágicas. Não o achei em casa. entre mil contrárias. Joana disse-me. na mesa ou nas estantes. Belmiro? (Como lhe ficaria bem tutear-me!) Foi assim que passei o dia. e achando-a extremamente curiosa. se a noite não sucedesse ao dia e se o espírito. copiei-a às pressas. . mas faz que Carmélia entre sutil por uma janela da Seção e pouse a meu lado. que ele não tardaria. Hoje o dia me pareceu insuportável na Seção. encontra temas para nos ocupar a atenção e desviar-nos de uma idéia que nos amofina. o Fáustico—0 amor (vida) estrangulado pelo conhecimento. Estou pensando no que seria de nós. Como demorasse um pouco. ao chegar. Carmélia Miranda Borba. Tolices. e a privação de sua presença me desespera. fui atrás do Silviano. fui-me entretendo em folhear livros apanhados aqui e ali. isto é.Será uma semana difícil para mim. com receio de que fosse pilhado nesse ato desonesto. Passei o dia todo a escrever no papel: Arabela Borba. Sensibilidade:—Tchaikowsky—Chant sans paroles. bem o sei. Às vezes lhe tenho ódio. e a causa não foi outra senão a ausência do peralta. Carmélia Borba. o céptico e outros seres que perturbam a vida do rebanho. que há em nós. da esperança de ouvir-lhe algo sobre Carmélia. porém. de conversarmos sobre a moça. 23 de agosto de 1935. que era a última. à noite. que não fomenta coisa alguma senão o meu lirismo. à sua espera. É só espairecermos um pouco e o prestidigitador. melhorei e. Tempo:—Primeiras chuvas de 1935. afinal. mergulhado na sandice. a culpa é da Seção do Fomento. Bem agem aqueles que acorrentam os homens e lhes dão um duro trabalho. de mansinho. No fundo. A docilidade dos fantasmas! Já não a procuro com angústia: é ela que vem a mim. não fizesse suas mágicas. e fiz uma descoberta sensacional: a do Diário do Silviano. pela importância que assumiu em minha vida.

Às vezes tenho a impressão de que. Florêncio. Leituras:—Amiel:—Journal intime. Se nos contou um fato que nos interessa. É um recriador e vê-las-á não como se apresentam. em Silviano. a fim de conseguirmos uma versão média. mas é que viu ou ouviu por um processo psicológico menos fiel que o nosso: abundantemente se incorporam às percepções. é um dos muitos aspectos curiosos do Silviano: a impossibilidade de se obter dele informação direta ou exata. pelo contrário. dez ou vinte vezes. Sabe quanto é precária a tentativa de sacar um depoimento preciso do marido. lhe pecamos nova narrativa do acontecimento. Silviano. Estranho homem. acontece que às linhas reais de um episódio ele acrescenta uma extraordinária riqueza de pormenores imaginários. nada tem de comum com aquilo que entendemos vulgarmente por mistificação. nesta página. é talvez simplesmente trágico. Maranon:—Amiel. Freud. E há de tudo nele. possivelmente veraz.) O que lhes parecerá cômico. em sua simplicidade. elementos próprios de sua imaginação. de uma unidade—mas de um ser múltiplo ou. E é divertido ver-se o ar céptico que Joana assume. é porque realmente dois. Chopin—Concerto—opus 21. Silviano chega às vezes a ser exasperante. antes. em frente dele. quíntupla de um fato. Na verdade. em alemão. perco a noção de "ser" para ter apenas o pressentimento de que lido com algo extrahumano e puramente cerebral. Reproduzirá com honestidade o que viu ou ouviu. sobre uma ocorrência qualquer. mas como .° 3—Adágio. fá menor. O que desorienta o Florêncio.Beethoven—Concerto n. me acho em presença—não de um indivíduo. será preciso que. que ele tem das coisas. Silviano é exato no que diz. Parece-me que não se trata de um gênero comum de mentira e que. logo de início. daquilo que desejamos saber. Previsões do clima mental:—Más. tripla. piano e orquestra. cada um a seu modo. Não conheço criatura mais complexa. formas especiais que ele lhes empresta. quando o interrogamos em sua presença. Mas o que Florêncio e Joana não compreendem é que a mistificação. julga-o um mistificador. Outras vezes. Flotow—Marta—ópera-cômica. Há nele uma nebulosidade permanente. Se nos dá uma versão dupla. desde o ridículo até o espantoso. espaçadamente. (Seguem-se palavras ilegíveis. três. qualquer coisa como um conflito de paixões que transborda das fronteiras do indivíduo. acerca de qualquer coisa. cinco Silvianos presenciaram aquele fato. Esquecimento.

Esqueci-me de dizer-lhe que Mamãe chega amanhã. embora não o possa evitar. Falavam a respeito dele. Escute. tudo isso. ora escritas em alemão. com tal trabalho. Acrescentou que esta pretendia obter. visando a esconder-se da Joana e dos estranhos. por certo. deu o golpe: "Ah!. nos mentia. As mentiras deixadas em casa de Jandira são daquelas que pertencem ao processo de recriação do Silviano.gostaria que se apresentassem. —Olá. tal como fez. como cabotino consumado. portanto. repetir-lhes-ei que a página será trágica. em vez de cômica. eu encontraria. achou mais interessante figurar a si mesmo uma fugida sem o consentimento da mulher. reforçar os seus títulos na Universidade. pois. Silviano não tardou muito. Humorista. que fora à casa de Jandira. amigo Porfírio. manhosa e songamonga. nem mugiu. Silviano espera. Dizendo ali ter estado sem que a mulher o soubesse. dando-se por mentiroso consciente. que andou a bebericar com o Florêncio. ora num alfabeto cuneiforme. Ouvi. Silviano vota horror à sogra. que exerce o teatro gratuito e interior para uso pessoal.. uma concessão especial: ser permitida a vinda de sua mãe. Vinha alegre.. Vi que esta noite não brigaram. e procura iludir-nos. Exibe-se. você no meu antro! Galernos ventos o trouxeram. para que o Reitor .. Aquelas páginas. atualmente no prelo. indecifrável. conversa muito interessante entre o Professor Otelo e outros da Universidade. e que é um estudo sobre o suicídio. criador de um sistema de mistificação longamente desejado e encontrado. pareceram-me sinceras.. no dia seguinte.. que mora em Sabará e queria passar uma semana em casa deles. soube fazer a transação. Ou talvez dissesse que ele compõe essas memórias com a esperança de que o caderno íntimo algum dia venha a cair sob os olhos de alguém. a arquitetura. o esboço. à hora em que este punha o chapéu na cabeça. com aquiescência da Joana. com essa beatitude que o sexto ou oitavo chope nos traz. mas. como de costume. mas Joana. percebe o fenômeno. no momento propício. para uma platéia futura. Redelvim diria que Silviano representa perante si mesmo. achando-se a mulher informada de que a reunião tinha caráter inofensivo. e denotavam grande expectativa em torno de opúsculo seu. me disse que "o nosso amigo Abundando" lhe contou ter ouvido. de sua própria boca. e fica uns dias conosco. outro dia. Você já vai? Espere. muito satisfeito. Deixou que o marido se preparasse para sair. em casa de Jandira. dentro da nebulosa perturbadora. mais tarde. Se algum dia pudesse decifrá-las." E ele não tugiu. Mas estou certo de que não é assim. ora em latim macarrônico. . talvez o perfil nítido desse singular histrião. depois. Voltando ao Diário. num café. Estava pensando em você! Contou-me. ao cabo de contas. Com sua lucidez.

piscando um olho.. Silviano estava no seu grande estilo. —O mito Donzela Arabela é um símbolo fáustico. para mim... uma inquietação fáustica.. atravessando a floresta com seus companheiros. homem de planície. Andando majestosamente para lá. Isso é um mal incomensurável. o problema fáustico. é. ande em tais altitudes. estrangulado pelo conhecimento.. quando disse que o "mito Donzela Arabela" é um símbolo fáustico... o fáustico de Amiel se enquadra no definido por Spengler. respondi-lhe com ar de quem procura recordar qualquer coisa: —. apanhou uma c leu: "En efecto.. na síntese de Salvador Albcrt. mostrou-me.. A alturas tantas ficou um pouco melancólico. —Veja que página. como ei de tantos hombres. consultou as fichas. Porfírio. Apenas me pareceu que essa aspiração do imaterial e do intemporal feminino.. com um gesto espetacular: —Isso deveria ter sido escrito por mim.. de algum modo. dizendo que ia ler-me algo maravilhoso. "Presente de uma jovem amiga". —Bem. em que o herói. Saltando de assunto para assunto. para cá. dizendo-me que.. que página! Puramente fáustica! Infelizmente você não entende o alemão. pareceu-me afundado em altas meditações. Esta noite. não quis significar que você. segredou-me. também minha. uma cópia da Maja Desnuda. el problema de Amiel. Foi à estante e de lá retirou um livro. Incomensurável! E traduziu para mim o trecho do Also sprach Zarathustra. era Ia estrangulacion dei amor por el conocimiento: ei problema de Fausto. de súbito.lhe melhore a situação." E continuou: —Onde viu isso? Onde? —Não me lembro. Problema fáustico. respondi.. a vida que foge diante do asceta! E. É este. interrogativo. Mas. encontra raparigas que bailam numa clareira. Porfírio! A um olhar meu. —Elas representam a vida. Por mim! Fui roubado! . . pensara muito em uma confidencia que lhe fiz há tempos. Lembrando-me da página do Diário.. vista momentos antes. Virou-se. de Goya. O amor. por motivos especiais. continuou: —Puramente fáustico! Você já leu Spengler? Certamente não leu. Silviano arregalou os olhos: —Onde é que andou escarafunchando isso? Sim. Espere. Só vive lendo romances. Porfírio. depois. Foi a uma gaveta. Creio que em uma revista literária . Sim. vida. .

que é de origem cósmica. com certeza. a maginar. pouco tempo depois de haver chegado da repartição (onde recebi numerosos abraços). puxou-me pela manga do paletó e levou-me ao quarto grande. O homem é um animal definidor. homem. Viva a tradição dos Borbas! Não esqueceu mesmo não. menos taciturna. Depois de nossa última conversa. para frente. Entretanto.—Sossega. para me mostrar. Tomado o café e pedidas a Joana notícias da prole. Quanto a mim. À melancolia do amanuense. porque é dia de balanço. E o dia de hoje amanheceu pesado como chumbo. Um anjo pacificador desceu sobre as coisas. achando bonita a expressão. amanheci com certo peso. no curso destes últimos anos. também. Grande coisa é encontrarmos um nome imponente. juntaram-se hoje as angústias especiais do aniversário e talvez um pouco daquilo a que o Silviano chama "inquietação fáustica". Aliás. velho profissional da tristeza. e uma gripe pneumônica . Emília. para trás. e ia pegando o chapéu. muito conhecido. dei para me sentir um tanto ou quanto fáustico. só em 1930 e em 1933. aqui em casa tudo vai bem. Não se resolve nada. que foi que aconteceu? disse Joana. o peru foi omitido. à tarde. Um acesso muito forte de Francisquinha. desde a chuva até a música. UMA DATA IMPORTANTE. Eis uma data importante neste solar da Rua Erê: completo 38 anos. mas nem sempre se fica macambúzio: Florêncio. Não acredito na sinceridade daqueles que dizem nem sequer perceber a passagem do aniversário. naquele ano. O déficit é grande. e Emília. Olhamos a vida. muito mais meteorológicos do que supomos e tudo o que modifica a atmosfera. provoca alterações em nossa substância espiritual. A loucura de Francisquinha parece atenuada. quando ela me barrou os passos. que minha melancolia tenha vindo simplesmente da atmosfera. por exemplo. É dia que ninguém esquece. a inventariar o realizado e o não realizado. recebe-o com boa disposição: é mais um pretexto para o chope. Como estivesse sem fome. mas ficamos satisfeitos. Somos. não se esqueceu do peru tradicional. meio aflita. VINTE e cinco de agosto de 1935. na verdade. por gestos. como se diz em Vila Caraíbas. no coração. abre-se mais: foi-me extremamente gentil. despedi-me do filósofo. Pode ser. para definir certos estados de espírito. entendi de sair. a folhinha pendurada na parede. entrando com uma bandeja de café. § 21. Aludia ao aniversário. que Mariana anda restringindo.

assim foram aparecendo o Silviano. Jantei amplamente. quase feliz. em nós. Apreciaram muito os pastéis de Emília. Nada houve de especial na reunião e a conversa correu alegre. saí para a rua assobiando a valsa Saudades de Ouro Preto. para não me ver. e o caso assumiu um aspecto quase doce. Silviano já o disse. O que não a impede de ser uma valsa deliciosa. o calor de qualquer ser humano. E tudo isso compõe. e. e se persigna. Retiraram-se. às vezes. no outro. ONDE SE APRESENTA UM REVOLUCIONÁRIO. que o anteparo de papelão foi hoje suprimido (comumente. tem surpreendentes efeitos analgésicos. Quem se entende? A gente amanhece sombria e anoitece. Um nada qualquer. a Jandira e o Florêncio.de Emília. A uns julga loucos e a outros criaturas excomungadas. em quem nossa alma não encontra ressonância. pergunto a mim mesmo se o caso Arabela não terá sido apenas fruto de solidão e timidez. o interesse vital. ou principalmente. outros tantos meios artificiosos que a vida emprega para manter. A gentileza desta tarde. esta noite. a lembrança das comemorações domésticas. na manhã de hoje. o peru. no dia natalício. compareceram-me os amigos Giovanni e Prudêncio Gouveia. que foi preferido por todos. ao tomar comigo as refeições. quando vê o pequeno escritório ocupado por tais clientes. § 22. o Redelvim. impediram a comemoração a que os Borbas varões têm direito. sobre a mesa. Emília coloca diante de si. Logo depois que voltei. Acabado o uísque. transportando-me para um plano onde as coisas perdem o travo amargo. a alma relaxa-se. Florêncio abriu-as com ternura. Notei. um anteparo de papelão). as canecas de vinho realizaram uma operação benéfica. por último. mesmo de pessoa como Emília. após ligeiro discurso às velhas. UMA CONVERSA com Redelvim. Fiquei para o jantar e a mesa me comoveu: além do peru. esquecendo a dispepsia que acompanha os Borbas há tempos imemoriais. prodigalizei-me libações. reconciliando-se com os velhos amores. deixou-me .nos vinho do Rio Grande e peixe de Pirapora. e. confeccionados segundo um rito especial de Vila Caraíbas. com um litro de uísque mandado vir do fornecedor e algumas botelhas de cerveja de sobressalente. cujo autor é ignorado. entre anedotas. tipo 1910. mas esta não apareceu para receber cumprimentos. as mágoas se esquecem. Tratei-os bem. meus vizinhos. Ah! Não: é um símbolo fáustico. Sentindo-me tão bem disposto. Arabela hoje não me está doendo muito. tive. ainda. sem dúvida.

no Redelvim e na Jandira. para breve. se começasse a haver prisões. muito claras e comumente se manifestam contraditórias. não estava a par dos planos. Quanto às revoluções. ou abstrações econômicas. Mas o que houve de extraordinário foi que. Supus.. por ocasião do fechamento da sede do Partido. asperamente. que me vêm. Redelvim ficou irritado com o meu tom e interrompeu-me dizendo que falava a sério. Ele apareceu aqui em casa. que os acontecimentos se estão precipitando e que se fala na possibilidade de uma revolução. sempre que começo a meditar: perco-me num labirinto de antinomias. pois a polícia vivia atenta. e o fracasso era fácil de prever. ao ensejo desse encontro. depois. aliás. eu vejo homens. propriamente ditas. Onde os outros vêem unidades mecânicas da massa. para o que desse e viesse. apreendera documentos. não sabia de nada. criaturas que sentem e pensam. mesmo. um sentido mais cordial. for para colher o meu aval. Silviano acha.apreensivo. por exemplo. meio nervoso. como eu. saiu às pressas. Ao final de uma das páginas que ficaram para trás já lhes contei o que se passa em mim. vem uma guerra para destruir o excesso de indivíduos que perturba o equilíbrio social.. sempre que se trata de "sujigar a onça" (como diz o Florêncio. Fiquei melancólico e cívico. operações da economia da espécie. ainda cedo. recolhera a relação de todos os seus membros em cujo número ele. Talvez algumas leis. deixando-me aturdido. neste País. E que. Redelvim. segundo seu modo de pensar. por um instante. sem os cruentos conflitos que andam pelo mundo. ainda. superpopulação. Nós nos servimos um do outro. que sua situação pessoal não interessava e que um pequeno burguês. E. . alguma compreensão. o expediente do Banco. estava incluído. a fim de alcançar. Silviano era um reacionário imbecil. mas ele. que revoluções ou guerras são reajustamentos. sobre o problema. me contou ele. Redelvim. Tratava-se de uma revolução proletária. Quando há. Respondi-lhe que isso não era motivo para aflições. certamente. Mas sou apenas um falido poeta lírico e rir-se-ão das idéias. a civilização poderia ter. Ao contrário do que acontece ao primeiro (se acaso foi sincero no que disse) os indivíduos significam demais para mim. pensando que. Os indivíduos nada significam. seria solidário. que houvesse receios no espírito do amigo e perguntei-lhe acerca do que lhe poderia acontecer. Pensei. Respondeu-me. Quanto ao mais. só cuidava da própria pele.. E que a polícia. Elas não são. além do mais. Revoluções sempre as houve e haverá.. referindo-se ao ato de reformar uma promissória) e temos uma sociedade de avais mútuos.

mas o cheiro de terra impregnou-me as narinas o dia inteiro. sabendo que a causa de tudo é o nervosismo em que vive. Dentro em pouco estará irremediavelmente dissolvido. por exemplo. o mesmo fenômeno que. adormecido. para certa gleba da fazenda velha.Vejo. E homem difícil. Deixou ultimamente o Estado. Este nosso anarquista tropeçará sempre no coração. despertou em mim. Temos sido companheiros em tudo. Um anarquismo lírico. simultaneamente. Ao passo que sentia veemente apelo da terra e um desejo vivo de evadirme para lugares e épocas distantes. Jamais acreditei no seu ativismo partidário. mas determinam. O pequeno círculo em que vivo. que comunista. malgré lui. abriam covas. inteligente. a admiração. e cujo equilíbrio sempre foi precário. Quando. que lhe voto. sensível. cuja imolação em nome de uma quimera seria uma crueldade do destino. subiu do solo um hálito intenso e fecundante. Trata-me com dureza. E ele me parece mais anarquista. com seu primitivismo. o homem Redelvim. seus temores. CHUVAS DE SETEMBRO. onde moramos juntos. onde os homens. Qual a relação entre tal acontecimento meteorológico e nossa sensibilidade? Eu não saberia precisála e apenas poderei dizer que um homem rural. quatro anos. veio a chuva. que é terno. a anotação a propósito das chuvas: "Tempo —Primeiras chuvas de 1935". As deste princípio de setembro já não são as primeiras. que não dá para atirar bombas nem praticar atentados. Meus receios se vão confirmando. Há quinze anos passados. punham sementes e as cobriam. Na manhã de hoje. gera uma tolerância grande para com os golpes que me vêm dele. mas bom amigo. é agora trabalhado por dissensões mais profundas. sua força e. tomei casa própria para viver com Emília e Francisquinha.. suponho. AGORA compreendo por que Silviano incluiu. Também não levarei a sério as declarações que me fez pela manhã. inclusive no celibato. nas aperturas financeiras e na burocracia. o sol nasceu forte e o chão me queimava os pés. Por outro lado. falecido o velho Borba.. mas não dou importância a isso. § 23. o amigo registrou. Foi um pé-d'água violento e rápido. aproximadamente. e passou a trabalhar somente em jornais. naquela página do Diário. conheci Redelvim numa república de estudantes. reservada ao plantio. em virtude de uma desavença com o diretor de sua repartição. curvados. nestes últimos tempos. até quando. após instantânea formação de nuvens. eu experimentava indizível angústia que resistia a .

ANÁLISE ESPECTRAL DE CARMÉLIA. porém. Ao escrever esta página. Aos dias difíceis. e o pouco interesse que seu regresso me despertou evidencia. Curioso homem.toda tentativa de análise. entretanto. a meus olhos. fez-me encarná-lo nessa donzela Carmélia. Com uma esbatida imagem física. e esclareceu. construí uma Carmélia cerebral que me causava devastações. Disse-lhe que me presumia um homem sem princípios. É um narcisismo a que ninguém escapa. sempre se sucederam outros. GLICÉRIO chegou ontem. Nosso comércio é escasso: temo-nos visto apenas uma vez ou outra. A solidão trabalhou. § 24. Uma tarde dessas. que nem esses preceitos me restam e que o que há em mim são sentimentos de ordem moral. diz-me coisas surpreendentes a meu próprio respeito. Há solicitações graves. e com sombras e luzes. Já era tempo de fazê-lo. Se. a que devemos atender. por detrás das lunetas grossas. perdoem-me os leitores as anotações de caráter muito pessoal que forem encontrando e que certamente não lhes interessarão. a mim próprio. acaso. ou que conservava apenas preceitos morais. a uma vida inútil. sem problemas.. E criei um ser fantástico. Uma noite de carnaval. eu revivi um processo infantil e o velho mito de Arabela volveu a perseguir-me. onde . legados pelo velho Borba. contra essa ridícula história da noite de carnaval. tal como ocorre nas composições musicais onde a frase dominante por vezes se eclipsa ou flui tão sutilmente que não a percebemos no concerto de sons. que não tem culpa de coisa alguma. durante os quais todos os fantasmas se desvanecem e os temas torturantes deixam a tona da consciência. que tenho passado no correr dos tempos. que havia dentro de mim.. Quem escreve um Diário (afinal. agora. bonançosos. todas as convicções e pontos de apoio da consciência. fornecida pela moça da Rua Paraibuna.) não se pode furtar à sua própria contemplação. estou escrevendo um. Reajo. a salutar reação que em mim se processa. apenas de passageira anistia. confiei-lhe meu estado de espírito. que se resume na disposição de orientar-me exclusivamente pela sensibilidade. O desembargador fitou-me com os olhinhos penetrantes. que não se trate. cheia de sortilégios. com virilidade. Pretendo. lembra-me uma palavra que ouvi do desembargador Linhares^ acerca da predominância da face campesina em meu temperamento. em encontros rápidos de Livraria. de vagabundo lírico. e um homem não se deve entregar. assim. desde que vacilaram e caíram. publicar um dia este caderno de confidencias íntimas. aos meus olhos.

É preciso fazer qualquer coisa. secreção da fazenda e da Vila. que me acho de ânimo isento. tornando vão meu esforço para. Chegado à casa de Giovanni. Nem lhe perdoei todo o tempo que me fez perder. na Avenida. segundo o dialeto do vizinho) passava maus quartos de hora. um bar que nunca se fecha. Nada tem com ela a formosa senhorinha da Rua Paraibuna. entrou desabaladamente pela minha porta. já se sabe. como dizem os cronistas sociais. saber algo a respeito da moça. mas calculei que o velho Giovanni (Joanin. Saí rapidamente. explorando inconscientemente minhas fraquezas sentimentais pela jovem Carmélia. por causa do filho. de todo o mórbido romantismo. . a gritar: —Madona Santa! Sior Bermir. § 25.só entram tênues traços da moça. Agora. vizinho de quarteirão. sei lá. quando me ocorreu algo extraordinário. —Que há. das noites ermas. inclusive a abolição do colarinho alto (excelente medida. o mais. em pranto convulso. cal vegna veder sior Joanin que lesta a crepar de dispiazer parché ei bambin 1'andá via! Avaliem o susto que me trouxeram os gritos e a entrada espetacular da velha. Pura imaginação: tudo se resume nisso e nada há além disso. ponhamos de parte essa história e lembremo-nos de que não se pode ser criança aos trinta e oito anos. acompanhando Marianina. em procura desta última. Marianina. Mas. Tratei-o mal ontem. cunhada do velho Giovanni. A Carmélia que amei não existe. Giovanni? perguntei-lhe. Não pude esquecer-me dos maus momentos que me trouxe durante semanas. reconheço ter sido grosseiro para com ele. sob os olhares perscrutadores de alguns curiosos que farejaram qualquer coisa de anormal na agitação da velha e em suas palavras aflitas. e que eu era chamado a intervir. pondo-lhe a mão sobre os ombros. é contribuição do luar caraibano. E quem está pagando tudo é o pobre do Glicério. quando me veio dar novidades do Rio. aliás) e as exibições em rodas sociais. Há. preocupado com a situação de Redelvim e de Jandira. Sobretudo tomar um sorvete. cabeça deitada sobre o braço. GIOVANNI E PIETRO. encontrei-o junto à mesa da copa. Descontei tudo. através dele. Aproveitemos a insônia e caminhemos um pouco. e dispunha-me a sair. pois a noite está quente. hoje cedo. Não entendi bem o seu piemontês. distinto ornamento do nosso set. na Seção. ou vêneto. DORMI mal a noite passada.

medroso. pur un infelice! Me fiol! Me fiol! Só minga cos faro! Depois.Sem levantar o rosto. que reproduzo agora. seu patrício: —Son un disperat. em sua confusão. até nunca! Ciao. gaveva minga tanta colpa. ergueu os olhos. Os chefes da quadrilha foram remetidos para um abrigo de delinqüentes juvenis. em língua mais acessível. que o garoto fazia parte de uma quadrilha de menores arrombadores. É tolice me percurar porque já estou longe. meu caro sior. porque lhe chamaram "mocinha". obteve que o menino fosse entregue ao pai.. ciao Falso como tu Só merece pau. que não entendo seu dialeto. . quando foi ao botequim. nada furtara. e o velho explicou-me. em sua amargura. puareto. Com a respiração entrecortada. Um delegado. Enquanto apanhava. na polícia. noto que as linhas estão dispostas em versos. beber guaraná e abastecer-se de cigarros. mas Pietro era o mais novo deles e ficou provado que agira induzido pelos outros. sob o compromisso de ficar detido em casa. mas. Lendo-o. a valer. que o papel amarrotado era um bilhete deixado pelo bambin. Assaltavam botequins para comer gulodices. Depois de havê-lo açoitado. o sapateiro). com o auxílio de Beppe: —El me bambin. besta!" Fico à espera de uma explicação. Haviam descoberto. alta madrugada. e lhe mandaram vestir uma saia. diz-me. sior! Minha presença serenou-lhe um pouco o espírito. Mi voleva far dei me fiol un duttor. esquecendo. landa dré ai auter. ou talvez confundindo-me com Beppe (Giuseppe. no fundo do quintal.. ciao. com uma vara de marmelo. amigo de Giovanni. como se se tratasse de um poema: "Besta velha falso. o velho estendeu-me nervosamente um bilhete amarrotado. ma mi son anda in fúria e giu bastonate. o velho foi tomado de grande abatimento. ao fugir de casa. Sim. reconheceu-me. acompanhara os mais crescidos. continuou na língua engrolada. até novas instruções. a porta já havia sido forçada. . a criança gritava que não tinha culpa.

Ficara prostrado. Quase que diariamente temos nosso dedo de prosa. deixando aquele bilhete. seu melhor companheiro. pelo Natal ou Ano-Bom. ao pensar na mulher e na filha mortas. Vou comprar-lhe cigarros e ele sempre me detém. Pelo que me contou. certamente para esperar a moça—. foi que as palavras deste puderam penetrar-lhe um pouco no espírito. Bebo o vinho e distribuo as nozes pelas crianças da redondeza. Imagino o drama do velho. não atribuí importância ao caso e achei tudo . Pereirinha lhe dera um serãozinho. e com horror pelo que este fizera. Disse-me a tia. pedindo-me notícias de Francisquinha. falando-me de uma coisa ou de outra. NOVA CONVERSAÇÃO COM JANDIRA. Só depois de fatigado de surrar o filho. Para ele é que trabalhava. Se assim é. ESQUECEU-ME acrescentar. Conheço-o há vários anos. fugia de casa. Prometi-lhe que o auxiliaria. Mas o velho estava como que surdo. e esta. por haver maltratado o menino. De vez em quando me aparece em casa e. Preocupado com Pietro. também italiano. ao mesmo tempo com remorsos. aquela havia já três anos. pude ir à casa de Jandira. E não será difícil recambiá-lo à casa. passas e nozes. Este problema ocupou-me ontem o dia todo e só à noite. já um pouco tarde. sua visita é tradicional. § 26. Se o filho não volta. sua vida estará irremediavelmente des troçada. Não a encontrei. onde mora seu padrinho.limitando-se a ver os companheiros beberem e tirarem cigarros. talvez tenha ido para Diamantina. azeitonas. Era a primeira vez que o castigava assim. que um investigador da polícia me declarou haver indícios de que o pequeno Pietro fugiu para o Norte do Estado. Giovanni estava agoniado. às linhas finais das notas ontem escritas. Tinha doze anos. dez. Queria fazê-lo doutor. pois a filha e a mulher morreram. Tratava-se de concluir um urgente trabalho de datilografia. Traz-me uma botelha de Chianti ou de Barbera d'Asti. e fustigava sem parar. Dois dias depois. embora às vezes lhe desçam sombras. É um camarada alegre. Tinha amigos na polícia e haveríamos de achar o garoto. D. Hortênsia—que ainda não se havia recolhido. Pietro—repetia Giovanni entre soluços—era filho único. contando-me histórias do seu Piemonte. que o Dr. desde que me instalei na Rua Erê. pude perceber a profunda revolta operada na consciência do filho.

Respondi com uma brincadeira desajeitada. ou à noite. ou pensando bem. que não conheço. Desde que se inventou a datilografia. mas. Daí a pouco. antes de ir à repartição. amorosos ou simplesmente ternos. Disse-lhe.tive oportunidade de. porque não ficaria. continuou: —Vocês acreditam que são absolutamente necessários? Não se pode viver sem homens? Cada qual é mais grosseiro. da parte de Jandira. Só hoje cedo.muito natural. Esse Dr.. é casado. Tanto melhor para mim. e as mulheres (de preferência moças e bonitas) tem sido ocupadas nesse ministério. Mas o gesto morreu no pensamento e os beijos ficaram recolhidos. que. então. os casados. Pensando mal. tendo ela optado pelo quarentão (o de que lhes falei atrás). o mais vago que fosse. as complicações se multiplicaram na face da terra. que acreditava serem ela e o Redelvim as criaturas mais . Fez por esconder o mau humor. Os advogados sempre têm arrazoados urgentes por fazer e vivem às voltas com os prazos processuais. tal a ternura que ela me inspirava naquele instante. por que ando tão sumido. adulei-a. foi isso o que eu pensei e me fez procurar Jandira. vulgar. por que me faço difícil. As impossibilidades próprias do estado civil deles. simulando ar desinteressado. não fazem senão aguçar-lhes os apetites ou desenvolver neles certo gosto. não raro trágico. Jandira. em vez de fazê-lo depois. isso não é obstáculo. Não se mostrou surpresa. mas o seu modo de olhar para baixo e para os lados não me enganou. —Só um idiota poderia supor que eu me vou vender a seu Portela. porém. —Tá ouvi falar nisso. só me cumpria retirar-me condignamente e procurar novos amores.. excluída a hipótese de uma reação diversa. de modo algum. não estava para conversas. disse-lhe algumas tolices para amainála. terminou. Perguntou-me. esta manhã. minha imaginação ensaiou para as virgens que passaram pelo meu caminho. com desprezo. Pereirinha. que acordou tarde. imune a qualquer desejo amoroso. respondeu-me. contar-lhe a conversa havida com Redelvim. como todos os outros que. para lhe desfazer o mau humor. estávamos a conversar despreocupadamente e. Deus me perdoe. Chamei-lhe Jandirinha. pelos virgíneos amores. calculei que se esses serões se repetem. teremos futuras complicações. Atirar-me-ia à cara o primeiro utensílio que encontrasse à mão. Tive ímpeto de passar-lhe a mão pelos cabelos e (por que não?) de dar-lhe uris beijos que não seriam senão paternais. Não tem outro assunto? Esquecendo-se das confidencias que me fez há pouco tempo. meditando sobre o assunto. agastada. Minhas palavras bastaram.

a pretexto de despedir-se. E. não suporta um olhar de desejo. § 27. que fosse discreta. em relação a Jandira. para cá. ao assunto. põe-se à frente do bando. tem admitido que abordemos temas perturbadores e. IDÉIAS DA EMÍLIA. Jandira desnorteia a gente. mas a contradição é da vida. lhe deixava os joelhos de fora. tentou abraçá-la e levou carão. reage. cai abatida pela metralha. Emília.. Ruboriza-se.. que essas práticas eram contra a religião. Mas decerto notou que eu lhe observava as formas com impertinência. zombeteira. ouve anedotas fortemente temperadas. Ela não o confessa. objetando. Veja que chique: a jovem Jandira. Entretanto.inofensivas do mundo e nada terem os poderes públicos que temer de seu comunismo meramente literário. Bem. sendo curto. um dos quais é médium. passeando para lá. em chamarmos um padre. Conviria. a fim de se realizar uma sessão com a presença da doente. para dissuadi-la disso.. a imitar a cena imaginada. empunha a bandeira vermelha. numa atitude garota. Fico lisonjeada com essa idéia de que sou conspiradora. porém. que a princípio cedeu. Em palestra. mas a polícia poderia pensar de outro modo. desde alguns dias. concitando os homens à luta. mas defende-se como leoa. mas está sem nenhuma disposição de meter-se em conspirações. É partidária do amor livre e de todas as outras liberdades. sempre que está em xeque. Movimentando-se por aquela forma. E. porém. Josefa lavadeira convenceu-a de que seria melhor trazer aqui três espíritas que conhece. HAVENDO Francisquinha piorado de novo. etc. vários padres . Voltei tranqüilo para casa. voltou. se assentou de novo. —Foi para isso que veio aqui? perguntou-me. Emília. Não lhes contei que é um dos meus fracos dar certo tom picante às conversações com moças donzelas. insistia em promovermos a expulsão do espírito. Recusei várias vezes meu consentimento. deixasse de imprudências. Já não falava. se for preciso. Certa vez Silviano. e compôs cuidadosamente as vestes. não se esquecendo de puxar a barra do vestido que. Dificilmente isso se concilia com as minhas inclinações líricas. não sejamos apressados em conclusões. logo depois. Nada terei que temer. desviou inteiramente o curso do meu pensamento. para o exorcismo. compõe-se. de boa vontade.. porque. quanto ao Dr. portanto. agitava umas carnes saudáveis e fazia nascer em mim uma ternura nada parecida com a que me despertara momentos antes. Pereirinha. dizendo-me que a Zefa garantira que não.

Às oito da noite. cedi. nossa pobre irmã Francisca vem sendo perseguida por um irmão transviado. pondo-se em transe. Pobre mana! . com a outra mão. dela ouvindo um histórico a respeito das perturbações da mana. ouvi Emília dizer: —Chica vai melhora com o dijitório de Deus. fez. respirou profundamente e sob as preces dos circunstantes. depois. levantada e posta ao meio da sala. observando o rito. gesto de lhe tirar do corpo alguma coisa. Depois. que me disseram ser presidente da mesa. concentrando-se. declarou que iria fazer uns passes e que todos deveriam ajudá-lo. desejaram-nos paz e se despediram.admitiam o espiritismo. a quem falta a luz. com suas orações. interrogou a Josefa sobre o caso. meus filhos. Que o demônio da lavadeira arranjasse a reunião. por Josefa e Emília. Vendo que estava inteiramente obcecada pela idéia e não seria prudente contrariá-la por mais tempo. e Francisquinha foi levada para o quarto. Que é que vocês querem? O presidente respondeu: —Pai João. com alguma dificuldade. procuravam mantê-la naquela posição. Os espiritistas tomaram uma xícara de café. para meu giro habitual pela Avenida. Estava terminada a sessão. Pai João. cumprimentaram-me cerimoniosamente e assentaram-se em torno da mesa. trouxeram Francisquinha e puseram-na em uma cadeira. O médium levantou-se. não mais a persiga. De pé. Pedimos vossa ajuda'para que ela se livre desse mau espírito. já no portão de casa. tirando-lhe a razão. fiquei a um canto. Quanto a mim. Colocando a mão direita por sobre a cabeça da mana e andando em torno dela. todos rezaram padre-nossos e ave-marias. também. Um. enquanto Francisquinha foi. e. tornou a si. Dispus-me também a sair. Dentro em pouco. Foi o que se fez hoje. o homem voltou ao seu lugar. Pai João está aqui. o médium começou a agitar-se. que muito dano lhe tem feito. Em seguida. ao lado do médium. mãos nos seus ombros. Inclinou. a cabeça e começou a falar: —Deus esteja nesta casa. pela boca do médium. Emília e Josefa. que o irmão. os homens chegaram. O espírito saiu.

também. apertos de mão.. —E você é uma. onde costumamos reunir-nos. compreendi o resto. —Em resumo. quando um homem. o Dr. Depois. Pereirinha a perseguia. ao chamá-la para o escritório. porque. É preciso que as donzelinhas tenham. Estávamos à espera de um bonde. guiando uma baratinha de luxo. Há uma distinção. que lhe dirigi. Alguns mais ousados se aventuraram. dispensando-me de fazer conjeturas sobre os motivos que a teriam levado a procurar-me. que reconhecia a ilegitimidade de qualquer pretensão sua. Sei que não sou. já que era um impedido. por passar muito vagarosamente junto de nós e ter voltado duas vezes. O rumor dos passos de um cliente. e conversarmos à vontade. Sentados à mesinha ao ar livre. —Mas o problema continua. Nos últimos dias. Não calcula como é difícil a gente sustentar esta defesa permanente. atendendo a um convite da amiga. Mas o Dr. Declarou não poder viver sem ela. Estava apaixonado. não saber o que irá acontecer. já a amava.. pois está desesperado. —Não. abraçou-a à força. a dizer que não exigiria nada. seu jogo foi o de um conquistador apressado. que percebo. Muito fora dos seus hábitos. Queria frutos imediatos.. mesmo. Pereirinha. ao ouvir palavras de repulsa. A um olhar interrogativo. Jandira esperou-me hoje à saída da repartição para jantarmos juntos. Aquelas a que vocês chamam "moças em flor".. pequeno. Durante o trajeto de bonde não conversamos. o sedutor foi mais atirado. Arranja-se outro. quanto ao Dr. Jandira desabafou-se. Nao basta a virgindade. Sempre haverá um homem e uma datilografa. explicou Jandira que o fulano era o tal advogado. Esse foi. respondi. Era um sujeito incrível.§ 28. que entrava na ante-sala do escritório. Confessou-lhe que. FOI BOM nada ter concluído. pois não era a primeira vez que se via assediada por homens. Hoje. ar donzelesco e . de tenacidade fora do comum. De um relance. PROBLEMAS DE PROLETÁRIA. E. terminou Jandira. tentando beijá-la. entrara num período de ação e vivia procurando contatos. casados ou não. em um restaurante. —Isso é o menos. interrompi.. Tal manobra não a surpreendeu. deixei o emprego. com ela desci na Avenida para irmos ao Parque. um infeliz. A princípio. Esse período de suspiros durou uns dois meses. aliás. me atraiu a atenção. que observou ainda não ser hora de jantar. a que ela deu a competente resposta. Dr. Desde muito tempo. Passou a suspirar. a fazer-lhe propostas desonestas. ela ameaçou deixar o serviço. Por várias vezes. Pereirinha. o pirata mudou de. salvou a situação. técnica. compreendendo que ela não se prestava a ser objeto de divertimento. Pereira..

a fim de levar-lhe o Hamlet. talvez aborrecida comigo. É UM ESPÍRITO REALISTA. Olhe.. de um garanhão. Belmiro. pois meu propósito não era senão afastá-la dum pensamento amargo. fortuna—que as torne difíceis. Aproveitei essa oportunidade para nos desviarmos de uma conversa melancólica e continuei no mesmo tom. às vezes me dá vontade de acabar com isso. Protestei inutilmente. Querendo mudar o tom da conversa e dissipar a melancolia da amiga. ficando combinado que serei mais assíduo em sua casa. E amanhã será a mesma coisa. Depois. que é um misto de atrevimento. de cuja margem pende um salgueiro. Declarando-me não conhecer o episódio de Ofélia. Afinal. Não têm a companhia forçada de um patrão. um exemplar do Hamlet. era o único homem que estava junto de mim. É um inferno. depois. Belmiro. de fazer um disparate. Afinal. respeitadas. já não havia nuvens em Jandira e o repasto foi alegre. Continuou: —Essas fulaninhas não conhecem o nosso problema. no que faria injustiça. prometi levar-lhe. dizendo-lhe que de fato era mais romântico e também mais conforme à técnica da tragédia. SENDO cedo para ir à Seção. ontem pro metido. dizendo não ser fácil aceitarmos que a pobrezinha tenha tido tempo . irmãos. Jandira calou-se. disse-lhe brincando: —Vou recomendar a D. Acontece que sou de carne e osso. Hortênsia que não deixe o frasco de sublimado perto de você. com outro Pereira qualquer. É mais do estilo belmiriano. Durante o trajeto de bonde. deliberei passar antes pela casa de Jandira. e inspire a vocês uma série de lendas românticas. fui folheando o livro. já quase com a expressão costumeira. não. num regato. Jandira não é um temperamento poético e há de fazer restrições à descrição da morte de Ofélia. Afogar-se. mas aquela insistência. Afogar-se é mais romântico. de graça. um animal.. de finura. Não sei como pude resistir sempre.sejam protegidas por todo um sistema de fortificações—papais. Não gosto do Pereira. regado a vinho. sua fisionomia se abriu. E respondeu-me: —Com sublimado. quando fomos jantar. Despedimo-nos. como Ofélia. amanhã. § 29. pelo menos durante a crise atual.

uma pessoa deveria gritar. nunca me despertou senão um interesse superficial. é a única tolerada por Emília. durante o expediente. sustentado? pelo capitalismo para entorpecer o espírito de rebeldia das massas. em vez de cantar. e freqüentando-nos apenas por esnobismo. mesmo louca. a situação de constrangimento que se criou entre nós dois.de trautear fragmentos de velhas canções. Havia ido a uma aula de taquigrafia. fazendo-a cair na torrente. Das pessoas que aparecem. quase de chofre. não sei por que artifícios. Ao dizer isto. de vez em quando. como já disse. enquanto se afogava. Hortênsia. não houve suicídio. acha-se agora sob a esfera de influencia do amigo Redelvim. Antes de sua partida. com o seu auxílio. A PROPÓSITO DE GLICÉRIO. reservo avaramente minhas disponibilidades de tempo para velhos amigos. pretendeu inutilmente. a inveja do galho: é um espírito realista. pertencendo a uma casta diversa da nossa. uma camaradagem estreita que. em tal conjuntura. Jandira impugnará. É que. concedi-lhe. Além disso. É. § 30. que de nada me serviu no transe. senti-me trapaceado pelo janota. É verdade que esta lhe responde apenas por monossílabos às perguntas. aqui em casa. Arrependo-me. de inveja dela um galho se rompeu. certamente por solidariedade com a velha. E Glicério se permite brincadeiras que eu próprio não ouso: chegou a dizer à mana que ia . Objetará que. na esperança angustiada de aproximar-me de Carmélia. sem saber a que atribuir minha súbita mudança de atitude. não é minha intenção deprimir o rapaz e enaltecer-me. se os ocultei obstinadamente? Exigi-lhe um absurdo. durante dois ou três anos. cortando. GLICÉRIO olha-me espantado. e reagi de modo primário. vejo agora ao reler o belo episódio. também. quando a virgem subia ao salgueiro. Mesmo o papagaio não o hostiliza. nossas relações. A dar-se crédito ao depoimento da Rainha. Não a encontrei em casa e deixei o livro com D. Soube conquistá-la. Se não mudar de idéia. mas noto que fica serenada com sua presença. Mesmo porque. impermeável aos símbolos e à linguagem da poesia. em poucos dias. Tendo-se arrefecido o meu entusiasmo pela jovem Carmélia. Talvez até lhe conte a história toda. que considera os poetas "traficantes de tóxicos". um excelente moço e nenhuma culpa tem de não me ter sido útil na aventura em que muito me aproximei do herói manchego. afinal. procurarei desfazer amanhã. Como poderia adivinhar meus sentimentos.

. em suma. em vez de simplesmente bater um garfo nos pratos (como faz. para que pusesse mais um prato na mesa. timidamente. achando-se este comigo. depois de ali . também. Acredita o velho que a compra de dois bilhetes. o almoço tá na mesa!. exprime que o menino hesitava entre Montes Claros. Pois a velha se limitou a baixar os olhos e a sair para a cozinha. se se encontra com o sacrista volta para casa enfurecida. Pensa que a gente não entende das coisas! Pensa que a gente não entende das coisas! Coerente em suas demonstrações de apreço ao Glicério. Emília nunca me permitiu comensais e foi com receio que a procurei. quando mais comunicativa: Se "alguém" quisé almoça. na cozinha. suprimiu. Brincadeira perigosa. que não ignora essa rixa. uma outra para Diamantina.. fiquei arrepiado. Quando Glicério. nesse dia. Glicério soube corresponder-lhe às atenções e deu-lhe um corte de cetineta (que dificuldade para obter esse tecido caído da moda!). preferiu. um acontecimento de importância: o velho Giovanni veio verme à tardinha. para avisar que Pietro está mesmo em Diamantina. o Indalécio—é como se chama —fez-lhe uma advertência qualquer. *** Estas considerações a propósito de Glicério quase me fazem esquecer de anotar. buliu com Emília a respeito. Chegado à estação de onde partem os três ramais. Quando vai à capela (duas ou três vezes por ano. Ao dirigir-lhe a palavra. o famoso anteparo de papelão. O mimo. E. delirante de alegria. pouco depois de nossa vinda para a Rua Erê. Há alguns anos. ao que parece.promover-lhe o casamento com o sacristão da capela de S. porque Emília não simpatiza com o homem e nem tolera essa pilhéria de casamento. que eu já sei. ou apenas na Páscoa). consolidou sua situação perante a velha. que já mencionei em outro ponto destas notas. à hora do almoço. convidei-o para almoçar. cortou-me os rodeios e desculpas prévias: —Não carece falar não. aqui. Sebastião. Com o dinheiro que levou consigo. para anunciar que a mesa já foi posta). Não o deixarei de procurar amanhã e hei de penitenciar-me de minhas picuinhas. em vez de um só direto. na expectativa de uma explosão. tomou uma passagem de segunda classe para Corinto e. desta estação. nesse dia ela veio ao quarto advertir gentilmente que o almoço estava esfriando e que comida fria não presta. Tive outro sinal de sua estima ao mancebo num dia em que. Pirapora e Diamantina. ou de exclamar. e foi o bastante. Bom rapaz.

permanecer três dias, seguir para aquela última cidade, na qual mora seu padrinho. E Giovanni interpreta favoravelmente a preferência por Diamantina: indo procurar o padrinho, o garoto já mostrava um começo de arrependimento ou, pelo menos, desistia da intenção de sumir-se pelo mundo. Essas informações lhe foram prestadas pelo investigador meu amigo (o Parreiras), que muito se interessou pelo caso na Polícia Central. Giovanni espera receber amanhã uma carta do seu compadre anunciada em telegrama de hoje. Se não receber, partirá pelo noturno do Norte.

§ 31. UM DIA BEM-HUMORADO.
DÁ-ME vontade de rir, ao relatar, aqui, a celebração de minhas pazes com Glicério. Encontramo-nos antes de entrar na Seção, no momento de marcarmos, no relógio do ponto, a hora da chegada. Disse-me, sisudo: —Bom dia, Belmiro. —Bom dia, senhor Glicério. Como vai o senhor? respondi, mais sisudo ainda. Surpreendeu-se com o acréscimo cerimonioso que fiz ao cumprimento, e ficou sem saber se deveria interpretá-lo como pilhéria ou como advertência para que me tratasse com menos intimidade. Tal foi a expressão de sua fisionomia, que não pude conservar a cara fechada e reprimir uns gracejos. Mas isso, em vez de o pôr à vontade, encabulou-o ainda mais. Por fim, dando-lhe o braço, eu disse que precisávamos conversar, e o conduzi a um canto do saguão do edifício. Com espanto para ele, expliquei-lhe, desde as origens, os motivos por que, de um momento para outro, passei a tratá-lo de modo diverso. Fui rigorosamente exato nessas explicações, que duraram cerca de meia hora. Remontando ao caso de Carmélia, não receei ser ridículo ao referir-lhe toda a história, inclusive a da noite de carnaval. Ao expor-lhe o fenômeno da humanização do mito "donzela Arabela", experimentei alguma dificuldade, pois tive a impressão de que o petimetre me supunha vítima de perturbação mental. Zombei, então, do episódio, para tranqüilizá-lo quanto à minha sanidade de espírito. Contudo, persistia em sua face um ar de comiseração. Em outras circunstâncias, isso me haveria irritado, mas a disposição de esclarecer o caso e talvez a necessidade de confessar a alguém o romance vivido em segredo fizeram com que eu prosseguisse na minuciosa narrativa de minhas tolas aventuras. Também não me aborreceu o aparte, um tanto imprudente, dado por ele

em certo momento: —É extraordinário que você tenha conseguido imaginar tanta coisa em torno de uma criatura simples como Carmélia!... Sim, era extraordinário, concordei de má vontade. Era mesmo divertido. São coisas que acontecem. Depois, disse-me que se eu lhe houvesse confiado os meus desejos, nada lhe teria sido tão fácil como levar-me ao salão da viúva Miranda. Lá esteve algumas vezes, durante o período em que eu tanto me obstinava em obter, sem contudo as pedir, notícias a respeito da moça. E só não falou nisso, porque nem de leve poderia adivinhar meu interesse por ela. A viúva é meio difícil, com suas pretensões de aristocrata paulista— continuou—mas não fazia nenhuma restrição a ele, Glicério, e aos seus amigos. Quanto à donzela, era um anjo. Fina, inteligente, conversável. Teria gostado imensamente de conhecer-me — avançou. Depois da morte do pai, fecharam-se um pouco, era natural. Mas, passado o trigésimo dia, já a família estava recebendo, já se conversava, ali, como em vida do Dr. Aurélio. —Você teria feito sucesso na casa, concluiu com entusiasmo. Fiquei lisonjeado, mas disse-lhe que o assunto estava encerrado; que os mitos se recolheram, competentemente, aos seus lugares; que eu lhe agradecia muito os serviços que não prestara, mas poderia ter prestado, se eu lhos houvesse pedido, e que, ao cabo de tudo, só desejava sua inteira reserva a respeito. —Está certo, não se preocupe. Mas, em qualquer tempo que queira... acrescentou, com uma ponta de malícia. Passei o resto do dia bem disposto. Não sei se a causa disso foram as pazes com o Glicério, se a confissão, com que me desoprimi, ou as palavras amáveis, que me disse a propósito de um possível êxito meu junto à moça. Podem ter sido todas essas coisas juntas. O certo é que tive uma tarde bemhumorada.

§ 32. OS ACONTECIMENTOS CONDUZEM OS HOMENS.
E ASSIM vai a vida... Os acontecimentos que até aqui se desenrolaram e em que desempenhei ora o papel de ator principal, ora o de espectador, mudaram, por completo, as intenções deste livro. Naquela noite de Natal, ao início destas notas, expus o plano de ir alinhando apontamentos que me

permitissem publicar, mais tarde, um livro de memórias. Estava, então, concebendo qualquer coisa, e essa coisa se me agitava, no ventre, reclamando lugar ao sol. Jamais pensei, naquela ocasião, ou antes dela, que o presente pudesse vir dominar-me o espírito por forma tal, dele expelindo as imagens do passado que então o povoavam, abundantes e vivas. Estive refletindo, esta tarde, em que, no romance, como na vida, os personagens é que se nos impõem. A razão está com Monsieur Gide: eles nascem e crescem por si, procuram o autor, insinuam-se-lhe no espírito. Não se trata, aqui, de romance. É um registro nostálgico, um memorial desconchavado. Tal circunstância nada altera, porém, a situação. Na verdade, dentro do nosso espírito as recordações se transformam em romance, e os fatos, logo consumados, ganham outro contorno, são acrescidos de mil acessórios que lhes atribuímos, passam a desenrolar-se num plano especial, sempre que os evocamos, tornando-se, enfim, romance, cada vez mais romance. Romance trágico, bufo ou sem nenhum sentido, conforme cada um de nós, monstros imaginativos, é trágico, é cômico ou absurdo. Vejo que a história do presente já expulsou, definitivamente, destes cadernos, a do passado. Carmélia (travestida de Arabela) e Jandira afastaram a sombra de Camila, que, bem o percebo agora, era outra encarnação do mito infantil. Silviano, Redelvim, Glicério, Florêncio e Giovanni e seus pequenos mundos baniram os fantasmas caraibanos, as evocações dos velhos Borbas, a vida sentimental da Vila e da fazenda. Em vão, tento uma sondagem em Vila Caraíbas, naquele ano extraordinário de 1910. Baldo esforço: como resistir a personagens e fatos que, a cada instante, incidem no plano de nossa consciência? Às vezes ainda me vem a necessidade angustiosa de rever antigas paisagens, evadir-me para uma região que realmente já não se acha no espaço, e sim no tempo. Mas, no comum dos dias, agora é o presente que me atrai.

§ 33. RITORNELO.
ESCAPOU-ME ontem, à noite, esta lamentação: acham-se no tempo, e não no espaço, as gratas paisagens. Verifiquei esse angustiante fenômeno quando, em 1924, fui à Vila pela última vez. O Borba já havia morrido, a fazenda passara a outras mãos e as velhas já aqui estavam com sua extravagante bagagem. Camila ainda vivia. Lembra-me quão penoso foi o encontro com o passado. Lembra-me o dia em que só, debruçado no peitoril da varanda, na

e borboletas. O luar. ou. ou apenas esboçados por um luar inesquecível que caiu sobre as coisas. Como se pode suprimir uma lagoa? Como se pode cortar uma árvore? É como se destruíssemos algo humano. Em vão' busquei nas linhas. inapelàvelmente. Que restava de tudo. dos Borbas. e a lagoa. em certas oportunidades. ao morrer da luz. que é procurar as sombras de um mundo que se perdeu na noite do tempo. que se apresentavam aos meus olhos. Mas. exibiu-me apenas a ossatura desnuda daquilo que. a fazenda. se nos tornou interdito. fremente. e seus olhos me diziam da Eternidade. o campo orvalhado em manhãs de maio. porque algo impedia uma comunicação entre o mundo de fora e o de dentro. Percebi que vago delírio se apossara de mim. e beija-flores. os olhos apenas refletiam imagens. A namorada. e não criatura. não encontrei senão pobres espectros. A lagoa foi drenada e convertida em pasto. ao cotejar com a realidade as invenções de uma desenfreada fantasia. polcas no salão cheio de retratos.fazenda. rico de uma paisagem mais numerosa. O sertão estraga as mulheres e a pobreza as consome. o buriti. A essência da juventude parecia haver-se aprisionado em seus gestos. nos parece estar no fundo e na forma de cada coisa. cores e aromas de cada objeto ou de cada perspectiva. Vila Caraíbas. arquétipo. a lagoa. naquela noite de 1907—ali já não estavam. Onde pretendi encontrar a alma das épocas idas. Camila era a virgem na sua realização integral. o rio. em outros tempos. fiquei a percorrer. os irmãos pássaros. a serenata. envolvendo-me naquela onda de saudade e naquele desejo de encontrar uma forma de morte. que. Segredos de moça em flor. para sempre. os esfumados traços de coisas que se vão extinguindo. em hora por si mesma de intensa melancolia—a hora rural do pôr do sol—. logo as devolvendo para o exterior. a gameleira solitária no monte—que viviam em mim. trancas de 1910. quem sabe. cores e aromas de outros dias. Na verdade. . a montanha. em vez de se localizar em nós mesmos. ai de nós. iluminados por um sol festivo de 1910. muralha do meu mundo antigo. com um vago olhar. o buritizal. desde que deixou de existir e se arremessou para trás. as colinas e os vales que se desdobravam até ao azul da Serra do Juramento. vivo. que só possuía. e pesada tristeza. devastação maior lhes causa porventura a nossa imprudência. ao som do velho piano. Inútil tentativa de viajar o passado. A velha fazenda. as linhas. afinal? O que a meus olhos surgiu foi a sombra miserável de um tempo que morreu. fora um corpo exuberante de vida. já longínquos e mortos. penetrar no mundo que já morreu e que. em comum com aquele. com um sol grande a despontar na serra.

inesquecível. Esse espírito sutil representa a coisa. § 34. levantam nuvens de pó. as coisas estão é no tempo. que esconde uma desagregação constante. como no penúltimo capítulo. mas falta-me engenho para isso e nem poderia pô-lo. as derradeiras páginas. "DESCULPEM A POEIRA". a fazer considerações em torno da mudança de rumos. um problemático leitor futuro sentirá os abalos que tais desnivelamentos determinam. no último. no momento preciso em que com ela nos comunicamos. sentimentos e vagas idéias. há uma semana escritas. Começo. a que fui forçado na elaboração destas notas. . então. os que me acompanham. novo. Em todo este esboço de livro. percorrendo a estrada de Morro Velho. mas gentilmente trazem. fico a pensar nestas diferenças de nível que me acorrem. o que. agora. Na verdade. as coisas estão é no tempo. que às vezes me parecem tão remotas e metafísicas. a cada instante: é o espírito cotidiano. em certa manhã de maio no ano de 1910. doce. cada dia. para dar lugar a outro. onde alinho episódios. pois lhe foge. a própria vida. conduzindo. RELENDO. nestes apontamentos íntimos. Há nelas ilusória permanência de forma. Este caderno. tornou-se. Como os autocaminhões que. Mas não me refiro à perda da matéria. ainda que infinitesimal. no domínio físico. sem tropeços. tanto se acha embebido de tudo o que de mim provém e constitui a parte mais íntima de minha substância. o cartaz "Desculpem a poeira"—tanto mais gentil quanto o pedido de desculpas é. sem distinção. ou em determinada noite primaveril. A alma das coisas. impressões. tão rápidas e súbitas que a mim próprio me pasmam. e acabo por mergulhar. e quero apenas significar que.*** Não voltarei a Vila Caraíbas. Em vão o procuramos depois. assim como a matéria se esvai. As coisas não estão no espaço. nos domínios da sensibilidade. se nos depara é totalmente estranho. que lhe configura a imagem no tempo. nestas profundas regiões caraibanas do meu espírito. que dela emerge. sem o risco de falseá-los. dirigido a todos os que vêm depois—apresento aqui minhas escusas. fugiu nas asas do tempo e só devemos buscá-la na duração do nosso espírito. Desejaria planar suavemente. a meus olhos. algo se desprende da coisa. Que me perdoem os abalos passados e os futuros. e o tempo está é dentro de nós. pendurado na parte posterior da carroçaria.

A pobre mana se recusava sistematicamente a ingerir alimentos. com o malogro da tentativa feita na sessão de quinze dias atrás. o Belmiro egresso de Caraíbas se apalpa. torna-se mais calma e volta para casa. enorme. O médico que ali a recebeu prometeu melhorá-la com a aplicação de duchas e injeções. Emília quis recorrer de novo ao espiritismo. Emília. mais achacada da gota ciática e já não suporta os esforços violentos a que a irmã a obriga. durante o dia e às primeiras horas da noite—modifica o aspecto das coisas e me oprime. Não excluo a hipótese de que alguma âmesoeur (e deve havê-la. a ponto de querer agredir-nos. ajustando-o aos quadros cotidianos. reconheceu logo a necessidade da medida. uma temporada. alimenta-se melhor. Publique-o ou não. Já lhes contei que nada ou pouco fala à irmã. Chegado à sua toca da Rua Erê. ali. a levar Francisquinha para o Instituto de Alienados. como a . Sempre a tratou como a uma criança de colo e suas diabruras deveriam diverti-la. § 35. aliás. e temo que não as encontre em maior número. que se expande. Um grande silêncio—a que estou desabituado. agitavase muito. Emília também se ressente da falta da Chica. No correr desta semana (que ficou em branco no caderno de notas) suas crises se tornaram fortes e freqüentes. perguntando-me. se reajusta e assobia a fantasia do Hino Nacional de Gottschalk. desde que as velhas se acham comigo. fui forçado hoje. e gritava dia e noite. que sempre relutou. Passa. Está ficando mais velha. mas não se imprime um livro para uma ou duas almas irmãs. na atmosfera caraibana—contemplando a devastação de suas paisagens—sempre sucede um Belmiro sofisticado. A um Belmiro patético. estava. um pouco desencantada. que compensa o primeiro e o retifica. neste vasto mundo) possa comprazer-se e contemplar-se na leitura dele. que não tenho empregado muitas vezes no curso destes doze anos. COM grande pesar. Tais desnivelamentos é que compõem minha vida e lhe sustentam o equilíbrio. mas consegui convencê-la de que o caso pertencia à medicina. A casa me parece mutilada com a sua ausência. quando de outras vezes tive de valer-me do Instituto. terei de dar-me como sou. É medida extrema.Não é senão por isso que fugiria a publicá-lo. FRANCISQUINHA PIORA. a mim próprio. pela manhã. se acaso oferece espetáculo de interesse para quem quer que seja. e certamente por isso não ofereceu resistência.

para anunciá-la a amigos e conhecidos. de ponta a ponta. pela Rua Erê. várias. mas sei quanta ternura se esconde por trás da cara fechada dessa velha Borba. AFINAL. em nós. tomando-lhes os pintos. chorando e trocando abundantes interjeições. se exprime na língua natal. Estou deixando que o velho volte à vida habitual e o menino se adapte à situação (está muito desapontado. ainda que pelo avesso. Informados de que eu me achava preocupado com a situação doméstica. suje a roupa com seu sistema de lavagem e faça. Marianina foi para a cama. tantas vezes contraditórias. consentiu em ficar mais alguns dias sem ver o bambino. subiu a dos Pampas e andou pela Rua Diábase. que jamais exploraremos. correu. enfim. a lamentar-se no seu dialeto (pude notar que. o compadre pediu prazo para vir. que fala mal. registrarei aqui dois encontros com Jandira e um com Silviano. para movimentar nossa solidão.mim. desceu pela do Piau. Por último. Vivia a chorar. amanhã acordaremos pierrô. a bater no peito. na rua. Destacarei o mais importante. há cinco dias. Já não há quem dê mingaus a ratinhos. recebida a carta do compadre de Diamantina. DE NOVO. transfigurado. limitaram-se a pedir notícias da mana e a oferecer os préstimos. qualquer coisa. mas sempre fala para ser entendido). Alguém . § 36. onde se recolhem. que foi a volta do Pietro. Contou-me o Prudêncio Gouveia que o regresso do menino foi patético. Explicar-me-ei. As vestes ficam guardadas num armário de nossas profundezas onde se amontoam indumentos de infinita variedade. Abraçaram-se demoradamente. O velho Giovanni. dizendo que hoje dormimos arlequim. Há. de acordo com a informação do Prudêncio). esquecendo-se da nossa. para depois lhes fazer minha visita. Foi a custo que. Durante as duas semanas de separação e principalmente nos seis primeiros dias. ignorado o paradeiro do menino. as combinações múltiplas. Na carta. abismos insondáveis. que compõem as formas sucessivas do nosso espírito. o velho ficou quase louco. quando era. pelo tempo que lhes apraz. CARMÉLIA. Tais preocupações impediram-me de registrar alguns acontecimentos da semana. de emoção. se está abalado em sua sensibilidade. ainda. A mulher estava adoentada e ele não poderia ausentar-se imediatamente. são inúteis essas tentativas de análise e de interpretação de nós mesmos. mexa com as galinhas.

algum diabo malicioso inutiliza o nosso trabalho. também. Parecia.. em vez de me aproximar dela. passou a afastar-me. . E à tarde despedi-me dele. a fim de encontrar Glicério. Depois. julgo-me curado da fantasia. e. Fiquei aflito por que chegasse a hora do trabalho. pilherio comigo mesmo. de pijama. como a atrair-me. disse-me duras franquezas. em minhas condições de vida. e hoje somos o que ontem fôramos e não quiséramos ser mais. e amanhã seremos o que não queremos. ou muitos) me impressionou amargamente. ora minha. antes. Descobri que Glicério a amava. . amanheci angustiado depois de ter passado uma noite fértil em sonhos. Só posso dizer que experimentei hoje uma recidiva violenta. À sorrelfa. com mil pretextos. Um desses sonhos (não sei se foi um. E esse alguém às vezes se diverte. a esperá-lo.no-las troca sorrateiramente. na noite úmida. cedendo a um impulso de revolta (?). chego a relatar ao Glicério toda a história. pondo-nos de casaca e em cuecas. falamos de tudo. menos de Carmélia. Há cerca de vinte dias. Por que não tive coragem de me abrir e de rogar que me levasse à casa dela? Conversamos o dia todo. de acordo com um critério que nos escapa. Faço esta divagação para me justificar. poderia apanhar uma pneumonia.. se desvaneçam os espectros que. Uma semana depois. com pesar. a gente não sabe como essas coisas acontecem. jamais poderia pretender a moça. Acordei. O fato é que se frustra todo o esforço que despendemos para nos impor certa disciplina. Carmélia bailava à sombra de árvores que refulgiam ao sol. Aurélio. chamando-me à realidade. Carmélia me apareceu neles. a mão esquerda terá de limpar o que a direita escreveu. Eu fazia uma serenata (como nos velhos tempos) sob a janela da namorada. certa unidade. supondo-a uma burlesca história do passado. e ele apareceu à porta. ora morta. Estou com vergonha de confessar o que se passa comigo. quando o sonho se tornava rasgadamente fantasioso: vestida com uma túnica diáfana. ora de outros. compuseram uma Carmélia imaginária. acordei. durante o sono. ora viva. Quando me estendia as mãos. Não são decorridos quinze dias. com rancor. dentro de mim. um gracioso espírito do ar.. na Praça. tiro do altar o meu mito. faço com que. mostrando que. ou pregando-nos um rabo de papel no jaquetão. como se a culpa fosse sua. para me aconselhar que não ficasse a cantar. Em certo momento. na Seção. participando de cada um. à luz do dia. Como já disse. quem surgiu em cena foi o falecido Dr. Em vez de tomar o bonde das onze. certa coerência. tomei o das dez e pus-me um tempo enorme. Começou a interessar-se por ela desde que o pus a par dos meus amores e.

ponho-me de novo a dormir. sei. aos domingos ou dias santos. Problemas eternos! A razão talvez esteja com Silviano. E a força do hábito faz com que. Emília se acha de cama. com estas coisas? —Não! diz-me alguém. pelo timbre era idêntica à do amigo. embalado pela música das máquinas. Belmiro! § 37. pois não tem passado bem as noites. Não deveria preocuparme. que é de calçados) sempre me despertam a tais horas. Depois. Creio que com ele sonhei. não há nada. A voz veio de dentro. vi que a bela manhã deste domingo valia um passeio e preferi fazê-lo. doente. e é ridícula essa trama sentimental em que me envolvi. e as aflições do dia se dissipam. eu acorde assustado. entre os problemas. que é de toalhas. não serve senão para me mostrar que continuo personagem de uma novela de amor. Às vezes estou a pensar e ouço um interlocutor. com majestade. Não me faltam cuidados na vida. Entretanto. que me vem. Mas a lucidez. Desde dois dias. imaginando que Emília demoraria a levantar-se. aqueles que poderiam merecer o qualificativo de "eternos". que a manhã nasceu bela e o corpo pedia um passeio. pensava no Silviano. É ridículo. embora não haja trabalho. pois. ouvindo qualquer apito do outro mundo.Encontro uma sorte de libertação em escrever estas páginas. Deliberei tomar o desjejum na cidade. O ordenado se foi nessas despesas imprevistas e ainda há contas por pagar. Sei que estou amando a mulher e não o mito. a primeira idéia que me veio foi a de procurar. Lá está Francisquinha no Instituto. É bem possível que amanhã tudo seja diferente. chegando à Avenida Paraopeba. Os apitos das duas fábricas próximas (a da frente. eternos ou não. Eram seis e meia. Dedica-te aos eternos problemas. Amanhã terei de visitar o agiota. Devo também esclarecer que sempre embromo os donos das fábricas reais e o da fábrica imaginária dos'domingos: acabados os apitos. sei. embora estejamos a sete do mês. Desci a Rua do Piau e. agora. AO RECOLHER-ME. ao despertar de manhãzinha. que as coisas voltam e não vale a pena fazer projetos. Já lhes disse. percorri-a folgadamente. O "PERREXIL". O que nos deve preocupar são os problemas eternos! A exclamação que ouvi dentro de mim foi do Silviano. antes. e a que se acha por trás do lote vago. porém. em toda a . ontem à noite. porém. deixando de lado os problemas. Não vale a pena pensar nas dificuldades da vida. fiquei reduzido a níqueis. Olho em torno.

Você se despedirá e irá incontinenti ao café da Rua Pernambuco. abanquei-me nele e fui até ao fim da linha. porém. Silviano segredou-me que possuía convites para o Country Clube e desejava levar-me em sua companhia. —Ótimo. Estrabão é o chofer do Silviano para excursões de caráter reservado. foi a do amigo Silviano. Apareceu o da Floresta. —O problema agora. Dirá. já escrevi. aparente calma. Oh! oh! oh! Com mulheres. Fiz tudo conforme prescreveu o Silviano e. e viemos falando acerca de outras coisas. fechou. meu velho. Tomei um cafezinho na Rua da Bahia. porque sei que não é dessas devoções. e cedi. disse-me. Escapou-nos. ainda. a um canto. uma desculpa dessas é tiro e queda. Desta vez. tinha-o a meu lado. por algum tempo. mas retrucou que poderíamos ficar tomando alguma coisa. Tentei esquivar-me. e a brisa agradável me ajudava as pernas. Foi um encontro cheio de conseqüências. em cuja casa há um desses aparelhos. em chegando à esquina. me telefonará. Está aflita por que eu obtenha a cadeira. mas. o sol ainda era fraco. tendo tido o cuidado de. mandar um aviso prévio a Emília. pois acabamos passando todo o dia juntos. com uma cara muito satisfeita.extensão. pelo telefone. logo que estivemos a sós no escritório. Toca a andar. Seu nome é Sebastião. Ficou até a apressarme. ótimo. que não fosse dos meus. que o Reitor quer ver-me com urgência para conversar comigo sobre os programas do curso de literatura. Ande. de onde. durante o trajeto. veio-me o palpite de pegar o primeiro bonde. Vão dar-me a cadeira. Vamos procurar o Estrabão. tem a mania de mudar o nome das pessoas. no primeiro poste de parada. Depois de andarmos um pouco pelos cafés. pouco depois. Objetei-lhe que não éramos homens para lugares mundanos assim. chegamos até a sua casa e ali fiquei a conversar e a folhear livros. na Avenida. dando-se como secretário da Universidade. A explicação complicou mais ainda o caso. por intermédio do Prudêncio Gouveia. o único da rua. aceitei o almoço. Mesmo por isso não insisti. a cara que se me deparou. a ambos. Terminado o almoço. A mim às vezes me chama Porfírio. que é nome de dois dos . chispe. na capela do Colégio Santa Maria. Joana não desconfiou. a quem atender ao chamado. para um giro qualquer. olhei os jornais e. Como se tivesse havido uma comunicação psíquica entre nós. A um convite insistente de Joana. é arranjar as coisas com a Joana. mas o Silviano. ao voltar. a uma hora destas!" Silviano me disse que fora à missa. São mais quinhentos mil-réis. sem que fôssemos incomodados e que seria divertido observar os "filistinos". a questão. a mesma exclamação de surpresa: "Você por aqui.

aparentando a maior circunspeção.. chama Abundâncio. o "Perrexil" está aí. Já não está aqui. pela fresta da porta. preciso renovar sempre os meus expedientes. deitei-me. Emília tossia muito. Depois. sentindome cansado. inclusive este. Vocês querem ser literatos sem ter lido Camilo. Silviano contou-me coisas que muito me ajudarão a decifrar seu Diário. agora. me confiou um segredo: —Não me deram os convites. § 38. pego "embalagem". —Já não está aqui. uso vários. passou-lhe a mão pelo gargalo e disse-me: —Está bem. Silviano ia-me dizendo pelo caminho: —É a técnica. Quando voltou. Um tanto inquieto. situado num recanto da montanha. Você imagina. previ os mínimos pormenores. é moroso e de resultado incerto. se este algum dia me cair de novo sob as . NÃO PUDE terminar o relato da conversa com Silviano. Perrexil é a Musa. bebamos. Já está gasto o processo antigo. luz no escritório e ficou a resmungar.meus avós. Joana me traz de olho. com grande irritação deste. ora meio sorumbático. e ao Florêncio. mas forças contrárias tudo desfizeram. entre estes filistinos? Vamos embora. Aliás. O Estrabão só daí a uma hora viria buscar-nos. apontando para o clube. Eu não podia deixar de vir. Porfírio. Chegados ao clube. —"Perrexil"? perguntei. até que ela me mandasse para a rua. abancamo-nos em torno de um litro de uísque. pedido pelo Silviano. Fui acalmá-la e dar-lhe uma colher de xarope. disse-me. Vamos. rindo-se: —Saio com um passo grave. E. Animado pelo uísque. Já que os deuses não são propícios. acordou. e lembrei-lhe que estávamos sem transporte. rápido.. Apanharei a narrativa no ponto em que a deixei ontem. viu. respondeu. Mas. Que havemos de fazer. tinha a fisionomia transtornada. deixando-me a sós Com a bebida. Ia procurar o Perrexil. Estrabão pisou no acelerador e nos levou. Que vem a ser isso? —Eis aí. Há uma conspiração universal contra mim. Silviano olhou com ternura o litro de Mc Callum's. este se ausentou logo. PARABOSCO & FERRABOSCO LTDA. Ultimamente. Consolei-o como pude. Idealizei tudo. quando planejo uma sortida. doutorai. ora caceteando a família inteira. "Perrexil" é o estimulante do pensador. Eu ficava em casa. Tive de obtê-los laboriosamente. Depois. minutos depois. de cujo edifício nos aproximávamos. quando dobro a esquina. pela estrada afora.

Que tem isso? As mulheres gostam muito de chapéus... atemorizada. talvez tivesse tido melhor acolhida. tentou abraçá-la (esquecendo-se." concluiu com um ar cismador. em alemão. —Que olhos! continuou. Observei-lhe que.vistas. quando a mãe morreu. Belmiro. apareceu-lhe de supetão em casa. para ele. Depois.. um universal e não um particular. não. no alpendre. disse-lhe ser o homem que desde algum tempo lhe mandava coisas e escrevera a carta. Porfírio. Representava. —Porfírio. filha de um espanhol rico. —Continuo a amá-la violentamente. um chapéu. senhor. deixando-o sucumbido. escreveu-lhe uma longa e sentida carta. —Você já ouviu falar em gota-serena? Não ouviu? É uma doença dos olhos. a moça em flor. pois. depois. ajunto eu. proveniente de lesão na retina e alteração no nervo ótico. disse-me.. quando morreu a mãe da moça. assim sem mais nem menos? —Sim. que pretendia dela. um chapéu! exclamei. —Que olhos. nela. E um belo dia. na expressão do olhar! Contou-me. E deu-lhe presentes.). mandou-lhe.. Dir-se-ia que sofre de gota-serena. de Heine e Goethe. Amava. em Dumas. a eterna graça. Ela jamais compreenderia o "fenômeno".. Há poucos meses. mandou-lhe um perfume francês e outras coisas mais. Dãome a impressão de água parada. E abismou-se em seus olhos. que andei lendo. Silviano. se fora menos transcendente. E não sou nenhum idiota para dar logo a minha identidade! Mandou-lhe. Os olhos dela são estranhos. Silviano de pé. O "Perrexil" é uma jovem de nome Dolores Gigedo. Lembram-me um verso de Baudelaire: "Tes yeux sont la citerne ou boivent mes ennuis.. Foi grande o susto que esta experimentou. emendei. fabricante de tijolos. novidade da estação. de presente. Dolores reagiu e correu para dentro. —Que idéia. cisterna. de que não se pode abraçar um universal. Conheceu-a um dia. Não gostou do aparte e passou a contar-me os fracassos das . na Avenida. Respondeu que não queria nada. Silviano nada sabe a seu respeito senão que possui uns olhos excepcionais.. Dolores lhe perguntou. que não a tem visto muitas vezes. . Impressionaram-me tanto. uma amaurose. a vida que foge. um capítulo a fio sobre a função do nervo patético. declarou-lhe amor. aluno dele. tudo isso sem se dar a conhecer. um chapéu. informado de que a moça se achava só. Foi-lhe apresentada pelo irmão. o amor.. com citações. Descobriu-lhe o endereço.

Condoído da sorte delas (ficaram em extrema pobreza). Com o olhar atento. então. com que minha fisionomia me denunciou os pensamentos. Para chegar ao edifício. que converter a Pedreira Prado Lopes num luzido centro de diversões. freqüentado pelo grande mundo. Estavam enlutadas pela morte do pai. recompôs-se com a família e a moça ficou por lá. Vários episódios se sucederam. as meninas figurando sempre. correu aflito a casa de um arquiteto conhecido. Fracassara mais uma vez. que se associara a outro de nome Parabosco. Não conseguindo detalhar o interior do edifício que imaginara. procurando um meio de auxiliá-las. Comprá-lo-ão para o derrubar e construir. que se suicidara. quem é Ferrabosco? Imaginou. colocou-as facilmente nos escritórios do Cassino. do gênero folhetinesco. Mas.. retoma a história no ponto em que a deixou na véspera. No alto da colina. as expressões ora de surpresa. pela Rua Caetés. Não me estou avizinhando da loucura. quando viu duas lindas jovens. Disse que constantemente sonha acordado. um prédio de numerosos andares. ora de incredulidade. há dias. assegurando-lhes a proteção da importante firma. durante o relato. no local. finalmente. Por último. nada menos. Achou. O Ferrabosco se apaixonou pela mais velha e com ela fugiu para a Itália. criando a firma Parabosco & Ferrabosco Ltda. de linhas moderníssimas. o que convinha a seus amigos Parabosco & Ferrabosco Lida. Atualmente vive o caso de "Parabosco & Ferrabosco Ltda. a fim de consultar revistas de arquitetura. um cassino de luxo. Homens arrojados. nada mais. por uma "sinuosa". Presentemente estão eles em entendimento com o proprietário de um edifício à Praça Sete. —Não se impressione. ladeando docemente a encosta. subitamente. um italiano chamado Ferrabosco. nos cabarés de luxo. Já estudei . Parabosco & Ferrabosco fizeram. Chega a urdir histórias inteiras. tudo como se fosse realidade.tentativas anteriores. Vou recomendá-las ao Ferrabosco! pensou. numa contínua produção de fantasias. *** Ao sétimo uísque deu para me contar estranhas coisas em que não sei se devo acreditar. para prolongá-la sempre. Depois voltou. o problema delas. ou de pena. assim. Silviano acompanhou. Mas a história de Parabosco & Ferrabosco ainda não terminou.. ao andar pelas ruas. os freqüentadores subiam de auto. Cada dia. Eis como nasceu esta novela cerebrina: Ia passando. estava ali. pôs-se a dar tratos à bola. Resolveu. de grande iniciativa. Voltando às moças.

mas o médico de plantão objetou que o tratamento não. a coisas passadas há cinco anos. Os cabelos. estavam arranjados em trança. amistosamente. não aceitei o convite. esperou-me no saguão do edifício para não perturbar a visita. Afirmei-lhe que não.o fenômeno. que lhe levei. quando nos levantávamos para sair. e fomos juntos. Quis trazê-la comigo. Estrabão havia chegado e tocava insistentemente a buzina do carro. "Deixa eu falar como eu quiser. que ouviu a notícia com ar compungido. O caso não tem gravidade. Piorou muito e tive de levá-la para o Instituto." "Mas isso me fere os ouvidos afeitos ao bom vernáculo". Lá chegados. meio grisalhos. Alimenta-se. Muitas vezes brigam por causa da língua: "Que é que você tem com isso?" retruca Florêncio. na revolução de Trinta). respondi. quando entrei no quarto.. É uma forma de imaginação difluente. A velha abriu-se em sorriso (coisa tão rara!) quando lhe contei a conversa com Francisquinha.estava findo e que não deveríamos interrompê-lo. Não é da sua conta. § 39. terminou. Vireime: era o Florêncio. dizendo que a guerra iria acabar e poderíamos voltar para a Rua Erê (aludia. coisa que desde muito tempo Emília não conseguia fazer. Aflito por dar boas notícias a Emília. mas pôs-se a rir. segundo me informou a enfermeira. furioso. —Vou ver Francisquinha. Achei a doente bem melhor. —Que vai fazer em Santa Ifigênia? Nunca lhe vejo por aqueles lados. Espírito romanesco. depois. NO INSTITUTO. Achava-se sentada na cama. Florêncio. perguntando se não era feitiço. . Notei-lhe paz na fisionomia. alguém me tocou no ombro. Nosso amigo claudica sempre nas regências verbais e Silviano não estava conosco para lhe chamar a atenção. o que é bom sinal. Vendo o pacote de biscoitos. suponho. Na volta. e regressei alegre à casa. alegrou-se como uma criança. e já não tem acessos violentos. QUANDO me assentei no banco do bonde que deveria levar-me ao Instituto de Alienados. Não se levantou. Florêncio procurou reter-me na Avenida. e comi um para dissipar as dúvidas. Forma frustrânea. dorme tranqüilamente.. perguntou-me. ficou séria. reclama o outro... quis acompanhar-me.

—Qué dizê qui está mêlhó! Que dizê qui está mêlhó! exclamou, satisfeita.

§ 40. CHOQUES.
ESTIVE hoje em casa de Jandira e lá encontrei Redelvim. Percebi que ficaram desapontados com a minha presença e que esta foi interromper uma conversa ainda não acabada. Com certeza, maquinavam revoluções, porque, pouco depois, com irritação mal disfarçada, Redelvim me disse: —Então, continua nessa vidinha sórdida de pequeno burguês? Minha resposta foi perguntar-lhe se tinha cem mil-réis para me emprestar (realmente, estava precisando). Jandira sorriu, e Redelvim, que continuava azedo, respondeu: —Não prova nada a sua exibição de quebradeira. Você pertence à pior espécie de burgueses: os que o são por sentimento, e não por instinto de defesa da propriedade. Fiquei calado, sem dar resposta. Redelvim se obstina em não me compreender. De que servem as discussões? Sei que, apesar de tudo, é meu amigo e pensará de outra forma, agora ou mais tarde. Por que hão de classificar os homens em categorias ou segundo doutrinas? O grande erro é lhes oferecerem apenas caminhos radicais. Socialismo, individualismo, isso, aquilo. As idéias da gente podem não comportar-se dentro dessas divisões arbitrárias. Não é possível ser-se tudo, ao mesmo tempo? E, se sentimos que a verdade e a contradição foram semeadas em todos os campos, como poderemos definir-nos? Tudo o mais é violência ao espírito. Dizem que tal perplexidade ou cepticismo conduzem à inação. A prova do contrário está em mim. Atuo, no meu setor, como se acreditasse nas coisas. As necessidades vitais fazem o indivíduo agir e não permitem que ele se tome um contemplativo puro. O que é injusto é quererem extorquir de nós uma definição, quando a procuramos, em vão, sem a encontrarmos. Redelvim me olha com desprezo neste momento, mas talvez me compreenda amanhã. Às pessoas de sensibilidade não é fácil resistir aos atrativos do romantismo político da época. O mais cômodo é entregarmo-nos a ele, acompanharmos a maré. Mas teremos procedido honestamente, com relação ao espírito? Meu silêncio, em vez de pôr termo à conversa, exasperou o meu contendor, que não me deu tréguas. Estava em um dia de excitação, nesses dias de raiva descomunal, que lhe vêm. Então, fica sempre contra. Contra qualquer coisa, contra tudo. Se eu adotasse seu ponto de vista, estou certo de

que, dentro em pouco, ele me contrariaria pela mesma forma. —Afinal, que é que você é, na ordem das coisas? perguntou-me. —Talvez um "individual-socialista", respondi, para lhe satisfazer. Você, tão lógico, tão seguro de suas idéias, não vai achar sentido nisso; o certo é que não encontro vocábulo que me defina. Talvez esses dois juntos me tirem do embaraço. Se vier a revolução, não é preciso, porém, que me deportem ou me fuzilem. Sou um sujeito inofensivo, para todos os regimes... Minha resposta o enojou tanto, que dessa vez foi ele quem se calou, provavelmente para não me dizer coisas duras. Aproveitei o ensejo e despedi-me, alegando que ali estava apenas de passagem a fazer hora para o dentista. Jandira tentou reter-me, mas apeguei-me a uma dor de dentes imaginária e saí. Não o deixo de estimar por isso. Os companheiros são raros, precisamos conservá-los a todo custo. E quando não possamos ser amigos cem por cento, sejamos cinqüenta ou vinte. Quando encontro, em alguém, cinco por cento de afinidade, contento-me com essa escassa percentagem. Para preservar nossa amizade, tenho procurado pouco o Redelvim ultimamente. E tenho-o conversado menos ainda, principalmente em presença de outras pessoas. Criva-me de ironias, aborrece-me. Não lhes falei que ando sempre desconfiado. Muitas vezes, ao chegar a casa, fico a dar balanço às palavras trocadas com os amigos, com tanto maior desgosto de mim próprio, se notei que alguém, na roda, acolheu, com sorriso irônico, alguma observação minha. E sou sempre gauche. Quando converso, as melhores idéias ficam cá dentro, sem encontrar expressão, e freqüentemente digo coisas que não deveriam ser ditas e que, de ordinário, não foram meditadas. Como explicar certos despropósitos que, mal proferimos, nós próprios imediatamente reprovamos, mordendo os lábios de despeito, porque ninguém saberá que a nossa censura funcionou, logo depois, dando-nos a conhecer a inépcia daquela idéia? Por orgulho, não voltamos atrás e preferimos sustentar a infeliz opinião. Cada vez nos perturbamos mais, e acabamos dizendo dez tolices, em vez de uma. Fico a conjeturar que se trata de uma vingança das idéias tolas. É provável que, repelidas mais de uma vez, quando nos achamos vigilantes, elas fiquem andando a esmo, pela cabeça, a conspirar contra nós. Um ligeiro cansaço nosso, eis que a asneira sai. Será uma vingança das parvoíces, ou a necessidade irreprimível de nos vermos livres delas? O certo é que nos escapam, escolhendo maliciosamente a pior oportunidade. ***

De que valem esses choques entre amigos? Cada qual continua onde estava, aferrado às suas idéias. Tanto mais aferrado, se as contraditamos. No que me toca, julgo ter chegado a uma altura em que a gente já sabe aquilo que é, e para que é. Não no domínio metafísico, mas no da vida corrente. "Fay ton faict, et te cognoy", aconselha o velho Montaigne, repetindo Platão. "Qui auroit à raire son faict, verroit que sa première leçon, c'est cognoistre ce qu'il est, et ce qui luy est propre: et qui se cognoist ne prend plus l’estranger faict pour le sien. .." Sou apenas um poeta lírico, em prosa, e só desejo que me deixem sossegado. Façam os outros o que lhes convém, ou o para que estejam destinados. Farei o que me é próprio, isto é... § 41. MATINADA. JH^ADRUGADA DE 12 DE OUTUBRO.-Compus um hino ao Dia, imitando o alto estilo de Zaratustra, mas tive o bom senso de rasgar a folha de papel em fragmentos miúdos e atirá-los à cesta. A posteridade ficará, pois, privada desse documento. Na verdade, foi uma linda aventura. Recolhendo-me ontem muito cedo, contra os meus hábitos, acordei às quatro da manhã, e perdi o sono. Durante uma hora, tentei conciliá-lo e permaneci nos domínios proustianos da insônia, onde os pensamentos não têm contornos nítidos e a consciência se confunde. Depois, como os bondes começassem a descer a Rua Erê, os gaios iniciassem seu concerto e, finalmente, a fábrica desse indícios de vida, verifiquei a inutilidade de minhas tentativas e levantei-me resoluto. Bela antemanhã! Subindo a Rua Erê, tomei à esquerda a Rua Diábase, que, mais para o alto, recebe o nome de Esmeralda. Segui-a até ao fim e, pela estrada que a continua, cheguei ao Morro dos Pintos. Do alto da colina, contemplei Belo Horizonte, que apenas despertava. As cores, já vivas, do céu e a luminosa beleza da cidade feriram-me os olhos. Os edifícios suntuosos, os grandes jardins públicos, as retas avenidas situam Belo Horizonte fora dos quadros habituais de Minas. Dentro das casas mora, porém, o mesmo e venerável espírito de Sabarabuçu, Tejuco, Ouro Preto e de tantas outras vetustas cidades. Penso no homem mineiro que se levanta, lê seu Minas Gerais, cuida dos passarinhos e se prepara, tranqüilo, para as labutas do dia. A mulher cirze apressadamente um par de meias para ele e lhe pede que não se esqueça de deixar dinheiro para algumas compras. Sai, porém, sorrateiro. Façam-se as compras amanhã, não se corre para gastar. Os meninos estão

não diz nada. Que mais é preciso? Meus olhos deixam. Faz cara de grande surpresa ao topar comigo. Como os fantasmas todos se dissipam! Volto a casa e abro as janelas do escritório. A latitude deste. —Bom dia. Depois. Ouço outra voz familiar: —Wonderful! Wonderful! É o Prudêncio Gouveia. ele não tem dessas coisas. arrasta-se. de acordo com o hábito. Quando está a sós com o velho. já de pé. pela polícia. Ficará semi-internado. Resmunga lá suas coisas que não entendo. É o bom Prudêncio.. que à noite me parecem. baixinho. A manhã me atrai. não coisas inertes. mas seres encantados. juntos. com o seu How do you do. Barriga honrada de chefe de Seção. sempre que Prudêncio sai com o seu inglês. É Giovanni. que acaba de realizar antiga aspiração: o filho consentiu ontem em ir para o colégio.. Refere-nos todos os episódios. Mas minha presença o anima a mostrar as habilidades. Há anos que não me vê a estas horas. respondeu. com alegria geral..vestidos. quanto ao Giovanni. até insignificantes fatos domésticos. Também ficou estupefato com a minha matinada. em desalinho. Saio de novo. satisfeito. como nos livros clássicos.. Nem pressentimentos. Giovanni. Good morning. Volto para casa. corre à procura de Marianina. entrou em carro triunfal e expulsou as sombras. o café. de novo. Prudêncio relata pormenores. Giovanni! O velho fica boquiaberto. Alguém abre uma porta. conta que o Prefeito novo vai melhorar o bairro do Prado. estendendo a xícara. o ar fino da manhã e a intensidade da luz extasiam o amanuense—ave noturna que a madrugada surpreendeu. com uma cadeia de ouro traspassada numa casa do colete. ao ver-me. a cidade e se perdem no horizonte. Geral e particular. Muito bem-humorado com o encontro (bom amigo. ocorridos após a volta do rapaz. —If you please. o Giovanni). amigo Prudêncio! Tomamos. Que faça um café bem gostoso para "sior Bermir". O velho conquistou.. —Ele quer mais café. mundos vivos. na macumba da Barroca. manifesta o mesmo espanto que Giovanni. porém. Emília. cá estão reduzidos à imobilidade. o menino. Os livros. pela cozinha. e não pode esconder sua satisfação. As sombras fugiram. A aurora. Fuma-se um cigarro. Tenho . Giovanni me interroga com os olhos. —Mais um pouquinho. a se desdobrarem e ampliarem para que personagens e paisagens se movam. esclareço. Mas. nem angústias. Barrigudinho. Comenta-se a batida dada na véspera. há mantimentos na despensa. meio reumática. sior Prudêncio. a passear pelo quarteirão e que..

é. afinal. aí vem tolice. No que. Está sempre provido das melhores e mais recentes. vive nos seus "altiplanos". Não tem problemas: é o homem sem abismos—o homem linear—na expressão do Silviano. Onde está Florêncio. Excelente e repousante camarada. foi. com quem a gente não pode contar sempre. fiquei em boa forma e isso me fez pensar que a embriaguez depende. § 42. fazem muito bem. e as gerações não se entendem. Às vezes penso que. § 43. só ele me restará. e está num cemiteriozinho branco. Só quando morava na república isso me aconteceu algumas vezes. Silviano é uma criatura complicada. sorrateiramente. pode ser que se case. Jandira. está o chope. Glicério não passa de uma criança. O SISTEMA BORBA. ENCONTREI Florêncio. no Largo do Cruzeiro. Quem quer saber de mim e das manas? A possível esposa morreu em 1925. o fiel companheiro. Apontamento para uso pessoal: bebi mais que de ordinário e não perdi o prumo. Conheço o estilo Borba e não me engano.. Florêncio divertiu-me bastante com suas anedotas. Não é que tenha procurado embriagar-me. e outra é a compreensão das coisas. em Vila Caraíbas. por mais que seja masculina a nossa amizade. e era uma vez a amiga. renovando os copos. apenas a tua imagem. só querem saber do marido e seu tempo é pouco para imaginar meios de prendê-lo. talvez. e não preciso dizer que tomamos um pifão. não da quantidade de álcool ingerida. aliás. Camila? Na verdade. conforme ensina a ópera. não é senão mulher. O que amo nessa Carmélia. eu te amava. outras vezes se mostra impermeável. e passamos a tarde juntos. O VELHO BORBA. Pertence a outra geração. no momento. Entretanto. Ora. VEJAM como terminei ontem o último capítulo. mas do estado de espírito.certeza de que gosta de mim. Redelvim. ao sair da Secretaria. Além disso. É que Florêncio. UM HOMEM SEM ABISMOS. Talvez só me fique o Florêncio. e a mulher é vária. Quando se casam. em companhia de alegres boêmios. Se às vezes nos compreende. Se eu me casasse. Se não me detenho a . as preocupações são outras. achando-me disposto.. que não atinjo. Por que te deixei.. deixa-me pelas idéias. dos poucos amigos descobertos no decurso destes magros trinta e oito anos.. E a bebida pode levá-lo cedo.

ao tempo do Império. para tirá-lo do embaraço. apesar da degenerescência deste fim de raça. Meditando na possibilidade de que. Freqüentou a escola de latinidade que. Como Amiel. Lembro-me de um dia em que me mandou levar um livro ao provisionado Loiola. isto é.. Lia coisas incríveis para aquele lugar e aquele tempo. De uma vez que veio à Capital. Bastaria isso para exasperar o velho Borba. violento: —Também.. um deputado. simultaneamente. Era sólido no vernáculo e seguro em matemáticas e história. meu isolamento se agrave. como o herói de Lamartine Essas coisas sempre acontecem às duas da madrugada. Francisquinha vai de mal a pior e Emília está ficando com o coração fraco. me faz sua visita. quando um Belmiro lírico. Onde já se viu tal disparate? Às cinco.tempo. busco a solidão. Era assim o Borba. de coração enorme. bem vejo que os não terei por muito tempo. rude. E seria ridículo pensar em Arabela. viril. Gostava dos seus clássicos. a ponto de ficar até hoje gravado em minha memória. O sistema Borba não comporta nem prevê senhoras de tão fina estirpe. . nem aquela intolerância com etiquetas. em Carmélia. . o mesmo ciclo biogenético!" Tratava-se de Haeckel. na casa da viúva Miranda. os Borbas gritam dentro de mim. Ainda que viesse pedir a mão do Dom Donzel da Rua Erê. era a janta na fazenda. Ríspido. mas. Dia virá. A uma delicada palavra que lhe dirigiu o político. à lusitana. vocês mandam ensebar o assoalho. desandei a suspirar. lhe voto horror. Era de prever isso!. o velho retrucou. Não compliquemos a vida. Não compreendi. Escrito a lápis. Quanto aos amigos. botam-se as travessas todas na mesa. que lhe queria votos. Não se pôde conter quando o serviram à francesa: —Olhe. Ouvi que. Sua formação intelectual alicerçava-se em bom fundo humanístico. . se toma chá às cinco. e que são as velhas e esse mal-humorado Tome. levou-o a almoçar e foi um desastre. Sei que. havia em Vila Caraíbas. já escrevi atrás o que pressinto. Por isso é que vocês envelhecem tão depressa. o sentido daquelas palavras e talvez por isso o bilhete me impressionasse tanto. ia dentro um bilhete: "Veja. Devíamos deixar de estrangeirices. porém. seu doutor. A primeira coisa que lhe aconteceu foi escorregar no pavimento encerado. repetia passagens inteiras dos Lusíadas. em que ela se dará sem ser buscada. Loiola. O papagaio perdeu a plumagem e parece caducar. cairia em pranto. Quanto aos demais seres que me cercam. Já escrevi que não casarei. para o futuro. pois Camila se foi. na minha casa. então. É a hora de Camila. Aqueles sagrados furores não me são estranhos.

Mas, em matéria de modos, manteve-se-lhe intata a campesina rudeza de Borba, apesar da influência que nele exerceu a velha, que vinha dos Maias, gente da Vila. Os Maias eram finos e a avó Maia, mulher delicada e inteligente. Fora de Ouro Preto para a Vila, quando casou com meu avô materno, deputado geral. Tinha finuras genuínas; não mesuras e lisonjas de salão. Desse consórcio de Maias com Borbas foi que surgiu o amanuense, sem a virilidade destes e sem a polidez daqueles. A aspereza dos Borbas, que é antes couraça, para defender um coração mole tem, na Emília, sua expressão integral. Ao ouvi-la resmungar, franzir os sobrolhos, penso, com uma ternura que me umedece os olhos, nesse velho que foi o último da raça. Toda sua força, sua dureza de metal nobre, transferiu-se à mana. Para mim não restaram senão vagos reflexos e, ainda assim, bem no fundo, bem no fundo. A autoridade que emana de Emília e das sombras familiares que povoam esta casa basta, porém, para sustentar nela, em plena vigência, aquilo a que tenho chamado sistema Borba. E o leitor já não se rirá de mim, agora, quando repito as palavras escritas atrás: Mesmo que, algum dia, Carmélia a mim viesse, as bodas seriam impossíveis. O sistema Carmélia e o sistema Borba se repelem. Entre Emília e a viúva Miranda há distâncias interplanetárias. E, ai de mim, estou que o casamento não baniria os mitos. Mito tocado é mito morto, e a imaginação busca outros, sentindo-se ludibriada. Fique Arabela no seu nicho.

§ 44. REDELVIM TEM, TAMBÉM, UM DIÁRIO.
HÁ QUATRO dias não ponho os olhos neste caderno. Andei em maré de ler, e não de escrever. E Silviano tem-me suprido do bom e do melhor, no que toca a livros. Ele os compra aos metros cúbicos, e muito lhe devo nesse capítulo, desde os tempos de república, quando o conheci e já era professor. Interromperei, esta noite, a leitura de um dos volumes que me mandou (abasteceu-me, desta vez, de gregos, e estou atacando a Ilíada, que nunca pude ler de fio a pavio), para não me esquecer de anotar aqui uma visita a Jandira. Ao entrar em casa, de volta da Secretaria, Emília me disse: —A excomungada mandou um positivo trazê um escrito. Está em riba da mesa do quarto. Como de costume, falou-me sem se virar para mim. Achava-se de costas,

a pôr a mesa, e assim continuou. Ri-me, feliz, quando ouvi a palavra "positivo", na acepção que lhe deu e em que há mais de vinte anos não a ouço. Em Vila Caraíbas, "positivo" quer dizer mensageiro expresso e especial. O Borba não empregava tal vocábulo. Usava de outro, que os léxicos admitem com esse sentido: "próprio". Lembro-me de que, certa vez, corrigiu um dos nossos empregados. Ao dizerlhe o vaqueiro: "Seu Jucá do Riachão mandou um positivo aqui para dizê ao sinhô seu Coroné qui ele já fez o acêro", o velho emendou:—Um próprio; um próprio: "positivo" é outra coisa. —Propre, seu Coroné? —Sim, sim, respondeu, impaciente. Também me divertiu ouvi-la estender a excomunhão a Jandira. Já lhes disse que isso não significa desestima e provavelmente esconde ternura, mas ainda assim continua chistoso. Eis o escrito, segundo a expressão caraibana da Emília: "Honrado amanuense: preciso falar-lhe. Venha ver-me hoje à noite, se puder.—Jand.” Mal jantei, saí. Sentia-me em falta com ela. Havia oito ou dez dias que não a procurava. Chegado ao pequeno apartamento, fui recebido por D. Hortênsia, que ficou comigo alguns minutos, enquanto a amiga arranjava o penteado. Ou melhor, ficou consigo a um canto. Está acostumada a permanecer horas e horas sem dizer palavra, quando assiste às nossas reuniões, nos dias em que Jandira nos convoca. Mas hoje, forçada a fazer as honras da casa, sentia-se visivelmente constrangida, a todo momento se mexia na cadeira, como quem não acha o que dizer e se aflige por isso. Felizmente Jandira não se demorou, e sua chegada tirou a pobre senhora do apuro. Num movimento vivo, em contraste com o seu modo discreto e ausente, D. Hortênsia fugiu da sala, assim viu a sobrinha. Por certo, teve medo de que ela volvesse a dar mais uns toques no cabelo, o que faz freqüentemente, e a deixasse de novo comigo, na embaraçosa situação. Foi tão ágil e rápida a saída, que Jandira achou graça: —A velha está lépida, hoje... Depois, disse-me, andando para lá, para cá, segundo seu costume: —Não há nada de novo, seu Belmiro. Escrevi o bilhete pensando que você estivesse zangado comigo. Sumiu tantos dias... —Zangado por quê, minha flor? —Porque eu não o socorri, quando Redelvim começou a azucriná-lo. —Ora, Redelvim é um menor exaltado, respondi. Ela riu-se. Depois falou-me que, se não interveio, foi para não agravar a

situação; Redelvim estava irritadíssimo e precisava desabafar-se. Como eu já estava acostumado a servir de pára-raios, ela preferira ficar de lado... A polícia dera-lhe busca na casa, levara-o à delegacia para explicações e lhe tomara os melhores livros, bem como o seu Diário, que nada tem de extraordinário, diz ele, mas o acompanha há longos anos, é coisa de estimação. Li páginas desse cartapácio, há tempos, pelo mesmo processo clandestino por que conheci o do Silviano. Provavelmente Jandira não o suspeita, mas o nosso amigo, noto-o bem, está irritado não é por causa dos livros, nem pelo chamamento à delegacia, nem por estar sendo seguido pela polícia secreta: é por causa do Diário... Como todos os documentos dessa natureza, contém histórias muito íntimas, amores (inclusive o caso da pequena espanhola, que o torturou bastante) e versos de adolescência. Não permite que se lhe fale nos amores, nem nos poemas. Esse Diário nas mãos da polícia deve ser-lhe motivo de profunda inquietação. —Ele não lhe quis dizer nada, porque acha que você é gente do Governo... Não deixei de ficar lisonjeado. É a primeira vez, na minha carreira de funcionário, que me consideram pessoa integrada na administração, ou, mais que isso, "gente do Governo". Redelvim é um pândego. —Acho que você lhe pode ser útil, continuou Jandira, procurando recuperar seus papéis e livros, na polícia. Era, pois, este o objetivo de Jandira, ao chamar-me. Prometi-lhe arranjar a devolução das coisas por intermédio do Senador Furquim, via Glicério. Sempre é bom conhecer um senador. E voltei logo para casa, porque Emília aqui está com a gota ciática de sempre, necessitando de mim. Não terminarei esta página sem dizer que Jandira estava uma tentação, mais desejável do que nunca. Trazia uma flor artificial no peito, muito chique. Esquecia-me dizer, também, outra coisa importante: arranjou emprego num escritório comercial. O patrão é pessoa idosa e não tem filhos. Por ora, o problema Pereirinha está, portanto, afastado.

§ 45. EXTRAORDINÁRIAS DECLARAÇÕES DE GLICÉRIO.
MEU ESPÍRITO está, agora, serenado, e procurarei expor

ordenadamente o que se passou. O sonho a que me referi numa destas páginas não deixou de ser exato, no que toca a Glicério. Pelo que hoje me disse, percebi que minhas confidencias o impressionaram de tal forma, que tem, agora, uma visão diferente de Carmélia e a olha por um ângulo aproximadamente idêntico àquele sob que ela me surgiu, na noite de carnaval. Sugestionável como é, foi empolgado pelo mito da Donzela ou, pelo menos, empresta, agora, a Carmélia parte dos atributos misteriosos de que a dotei. Ela se cristaliza, rapidamente, a seus olhos, se me permitem o uso da expressão stendhaliana. Hoje, na Secretaria, falou-me da moça como se se tratasse quase de um ser quimérico. Ao ouvi-lo, oscilei, de início, entre a satisfação de autor que verifica o êxito de sua criação, e a angústia de namorado que pressente um rival. Disse-me que Carmélia é antes um símbolo do que criatura humana, pelo que há de imaterial beleza, graça, dança, música e poesia nos seus dezoito anos. Sem perceber as reservas com que lhe recebia as expansões e supondo que me iludiria quanto aos seus sentimentos, continuou a falar, ajuntando que a moça lhe despertara grande interesse (puramente estético, sublinhou), depois que eu, com minha confissão, lhe chamara a atenção sobre ela. Fora quatro ou cinco vezes à casa da viúva Miranda e estivera com Carmélia. Não me contou isso há mais tempo, esclareceu, porque acredita, de acordo, aliás, com as minhas declarações, que o caso já não me seduz. E insistiu nisso: aproximando-se da moça, procurando conhecê-la de perto, verificara tratar-se, realmente, de uma criatura fora do comum. Não se deve dar a Carmélia o apelativo "mulher", que com impropriedade se aplica indiferentemente a ela e a D. Paculdina, mulher do nosso chefe de Seção. Esta é uma porção bestial de gorduras, enquanto Carmélia é toda harmonias. Não disfarçando o despeito que me causava a dissertação de Glicério em torno de tema originariamente meu, respondi-lhe que, sobre essa diferença de substância entre Carmélia e D. Paculdina, haveríamos de conversar depois. Deixasse vir os anos, os cuidados, o casamento e os filhos à moça. E acrescentei que, no mais, estava fazendo literatura. Com a água fria que lhe pus no entusiasmo, calou-se. Notando-o aborrecido, recuei e pus-me a procurar um meio de reaver suas boas graças. Não o fiz por generosidade, mas para obter novas informações sobre seus encontros com a donzela. O aparecimento oportuno do Carolino, que nos veio trazer café (estávamos a uma janela do edifício), ofereceu-me ensejo para romper o silêncio e reatar a conversação. Ao servir-nos, Carolino nos pôs ao corrente de grande novidade: nosso companheiro Sepúlveda havia

Informei-a a seu respeito. Se não gostar. esforçando-me por fingir indiferença. desculpe-me. —É claro. foi despeito. —Dou-lhe minha palavra.. na última noite de carnaval. Depois de pequeno intervalo deixou escapar. Receando que a evocação do incidente viesse suspender a conversação sobre Carmélia. Gostava muito de versos. o Sepúlveda! comentei eu. Glicério continuou. Falei. Você não faria isso. como há dois anos. respondeu-me que a achava simplesmente fabulosa. finas. —É.. —Não é possível! exclamei. imagino. Já confiante. literárias . é. pelo aparte. Mas você não me contou se a moça ainda canta. sem querer. Havia na casa. ainda mais aflito. com hesitação. —Você é louco? Você falou nisso? indaguei.. não o pude socorrer). já lhe disse que aquilo foi brincadeira.. sim. então. ainda. com o coração batendo desordenadamente.... . Não. Achando-o mais abordável. A morte do pai lhe trouxera grande tristeza. ficou suspenso. disse-lhe. respondeu. ontem. Lia o melhor que vinha da França. ultimamente. Fiquei suspenso. homem! Está ficando muito melindroso.. que naturalidade! Quando cismava. "tinha a expressão casta. —Imagino. Por isso não fora hoje à repartição. Disselhe que você a conhecia." (nessa altura. —Sujeito de sorte. Desembaraçado.. E que educação perfeita. Ou melhor. dessas que a gente vê nas telas de. Você anda irritante. esta coisa fulminante: —Esquecia-me de lhe falar: conversei com ela. Não se pode fazer uma brincadeira.. Perguntei-lhe que coisas ela dizia. —Contei-lhe que. amuado.. cortei: —Ora. Não sendo versado em pintores. Glicério. Fazia gosto conversar com ela. quando por acaso lhe ouvi uma canção napolitana. a garota parecera excepcional.. Se cantava ainda. Sem sombra de convencionalismo. explicando que os momentos de cisma da moça é que lhe deram. Tinha palavras ágeis. a meu ver. . sentia prazer em verificar que a ele. de um pintor teimosamente anônimo.. respondeu. esclareceu. a ele. com voz tão bonita. Fui. sem saber que pintor mencionaria... uma densa nuvem de melancolia. mais direto: —Desamarre essa cara..tirado sessenta contos na loteria. a respeito de você. melancólica e terna de uma virgem descuidosa.. as impressões. Contudo. insinuei que já nem me lembrava de meus ardores sentimentais pela moça. não estava cantando.

O pai a informou de que. provavelmente. Disse-me. porém. Ela ficou com pena e quis alegrá-lo. e disse ao Glicério que precisava sair para alcançar o horário do Banco. Falava em "Arabela. estas notas. olhando o salão como se olhasse para o mar. Ou. Aqui reproduzo. as palavras ouvidas a Glicério. alto. Estava muito triste. com sua incapacidade de perceber certas coisas. um dia. homem! Contei-lhe apenas que você a achou linda e muito "distinta". onde havia um sofá. recomendado a um dos garçons do clube. Não. Mas pouco depois voltou a si. Cortei o assunto.—Sossegue. depois de lhe ter dado a mão. Não sei bem que dizer de tudo isso. Sinto-me cansado e interromperei. a um pequeno salão. talvez se estivesse divertindo à minha custa. com um modo esquisito. como pude. como quem estivesse vendo qualquer coisa extraordinária. Isso foi quase de manhã. que o levasse para fora. primo de Carmélia. Eu retinha a respiração para ouvi-lo.. que se achava atrás. quando lhe fiz um aceno de mão. Depois de tentar lembrar-se do episódio. sei lá... —Vai sujigar a onça? perguntou-me. você tinha tido um desmaio. com a fidelidade que me é possível. não houvera mal.. consultando o relógio com fingida ansiedade. Ela acabou achando graça na história. Fiquei arrasado. .. Não respondi nada. Notou que você a fitou. que não. Glicério. num gesto de despedida. Quase lhe fez medo. tão extraordinárias revelações que não lhe guardo rancor. Acrescentou pormenores: —Disse que deram apenas alguns passos.. depois. com o qual eu gostaria de conversar. sorrindo. mas era coisa sem importância. Pela forma como se referira a mim. por efeito de álcool e éter. caso eu não tivesse ficado encabulado com o incidente. Não notando meu mortal desgosto. e você ficou deitado no sofá. Fez-me. Você teve um desfalecimento e ela pediu ao pai. Tinha um título vencido e precisava reformá-lo. que ela mostrou desejo de me conhecer e pediu-lhe que me levasse lá. falando-me que as pessoas que freqüentam a casa não são desinteressantes e que há lá agora um rapaz muito "distinto".". A incompreensão do Glicério atingiu a esse limite. insistiu no assunto. meio maduro (Glicério sorriu com malícia neste ponto). magro. ela disse que se recordava. Um homem de pince-nez. ainda me perguntou: —Acha que fiz mal em lhe falar nisso? Respondi-lhe. aqui. Arabela.

meio maduro... olhando o salão como se olhasse para o mar"—deu-me compensações. porém. correspondendo a imagens que flutuam no seu espírito e. Deve ser das tais que colecionam autógrafos. O rapaz está pondo as manguinhas de fora.. Esqueceram-me todas as mágoas. A donzela terá um temperamento romântico e talvez pense muito no mar. afinal.. de seu círculo. r»(|ii Estava muito triste olhando o salão como se olhasse l\Lrl para o mar. alto.. Procurando tirar desforra. Deixaram-no deitado no banco (estava embriagado. sem mencionar nomes) hão de ser Delly e Ardei. sonhei com elas e amanheci hoje a repeti-las. eis o que Carmélia pressentiu em . seria rigorosamente exata. Bem feito. ficar muito tempo nessa atitude de combate. Efeito de álcool e éter. Era um sujeito meio maduro e dizia: "Arabela.. Quanto à rebuscada frase—"Estava muito triste... UM BELMIRO OCEÂNICO. um álbum onde colherá pensamentos de mocinhos tolos. Em vez de ficar no seu mundo e no seu lugar. quem sabe. porém. Acabou achando graça na história. também.." Dormi ontem pensando nessas palavras. e comecei a gostar desse Belmiro que olhava para o salão como se estivesse contemplando o mar. Era um tanto literária. ajudando-a a ridicularizar esse pobre idiota da noite de carnaval. e a moça tinha razão. achei que a comparação "triste como se olhasse para o mar" devia ser mesmo de Carmélia. sentia prazer em esquadrinhá-las e decompô-las. se não tivesse ficado encabulado com o incidente. Veio-me a idéia de que a frase talvez fosse pèrfidamente construída pelo Glicério. Embora me deprimissem.§ 46. que redundava na defesa do pobre bêbado da noite de carnaval. Arabela. O resultado não poderia ser outro. Que eu fosse lá.. se fora meter na roda de filistinos. O quadro foi realmente grotesco. tomei.. e seus autores franceses (a que Glicério aludiu de um modo geral. considerei que uma jovem que diz frases semelhantes não pode deixar de ter. irremediavelmente oceânico.... Não pude. meio maduro. fez isso para me desfrutar? Por fim. esse parvajola. magro. as palavras teriam sido espontâneas. o da moça.".. mas. Um Belmiro oceânico. Era de um romantismo aguado e soava ridiculamente. Nesse caso. examinando-as em todos os sentidos. {l^Ef^M HOMEM de pince-nez. coitado) e riram-se dele.. necessárias para definir precisamente uma impressão. A referência à embriaguez e a declaração de que acabara "achando graça na história" doíam-me como pontadas no peito. Em vez de tomar o meu partido. e. o desfalecimento.

Como assentam. na Avenida. muito longa. Lá se foi ela com o moço 'distinto'. um homem magro. um alfinete de pérola. Não será minha. E. Depois. como um relâmpago. também não será você. ao chegar à porta da Secretaria. dava-lhe o braço. Para rematar: melancólico.. dei maquinalmente o sinal de parada. As revelações de Glicério me proporcionaram um mundo de meditações e suscitaram-me os mais desencontrados sentimentos. O casal caminhava ao ritmo da música. foi quando eu tomava o bonde para a Secretaria que me veio. pensei. vestida de noiva. tão absorto me debrucei sobre as outras: "Há lá.mim. A cauda do vestido. como sabem. primo de Carmélia.. denunciando-me a existência de Belmiros ainda inexplorados.. com a pequena. em sondagens. Mas. Esquisito. realçada pelo fundo escuro da roupa. quando isso me seja possível. "Você notou como o noivo estava comovido. um rapaz muito "distinto". Nós ficamos com o mito. Pois. Depois. vinham as damas de honra. baldeação inclusive. Há muitos anos que não vejo o nosso irmão Atlântico. se arrastava pelo pavimento da igreja de Lourdes. mas também não será sua. Um moço "distinto". "como se olhasse para o mar".. com quem você gostaria de conversar". durante todo o trajeto. não fora objeto de exame." . um ao outro". na hora do sim?" A um canto. Tocava-se a Marcha Nupcial de Mendelssohn. Os demais assistentes trocavam impressões. E a manhã de hoje correu assim. sem dar conta de coisa alguma. agora. Voltarei a conversá-lo um dia. simpático. nela. Como Silviano. enxerguei tudo. uma frase que.. todos com os passos também cadenciados. com uma sensação de vitória: "Ora. "Carmélia está um sonho". Uma jovem extremamente bela. Bem feito. faz-se baldeação. até então. Quem será esse primo? Como será? Que veio fazer aqui? Quais serão as conseqüências de sua convivência com Carmélia? Da Rua Erê à Seção do Fomento a distância não é pequena. em voz baixa: "Belo casamento. vestido de jaquetão e calças listradas. e ele. na Praça. encontrei Glicério. dispondo os mais insignificantes pormenores. dando uma solenidade espetacular ao acontecimento. apoiado a uma coluna do templo. e. às vezes tão bravo e sombrio quando bate no Arpoador. fitei-o com pena e. ao mesmo tempo. Quando. não vi ninguém. paguei maquinalmente ao condutor.. mas resignado. por que não pensei nisso há mais tempo? O fato é de importância capital. os garçons de honra. pus-me a urdir vasto enredo. trazendo ao peito uma gravata clara. triste e maduro contemplava o desfile. alto. tomando-se um bonde que sobe a Rua da Bahia.

tocará... Pois o rapaz mal chegou a Belo Horizonte! —Quer apostar? Não o conheço. —Casar? Você está doido? Quem lhe falou nisso? perguntou. —Ah! a propósito. por exemplo. Deveria fazê-lo. Calculei como um astrônomo. . É rapaz "distinto". pensei. seria sempre "a propósito". Formou-se há pouco tempo. na Seção. Belmiro. —Você se meteu em grandes funduras. pois era um grande bandido: ia casar com a moça mais interessante da cidade. ainda com ar triunfante.. Dia morno. você falava de Schopenhauer. sabe? Especializou-se na Alemanha. Preciso debulhar. tanto quanto o gênero comporta. mas estou vendo tudo claro.. Se ele não tocar no assunto... me interessaria. É ameno.—Olá. —Ora. na igreja de Lourdes. Mas. como de costume.. —Bom. ando há muito tempo com necessidade de leituras mais sólidas. enquanto imaginava meios de conduzir a conversa para esses lados. como Carmélia. não é "a propósito". observando-lhe que o primo de uma criatura. Se você quiser. e só no último caso iria à sua mesa. disse-lhe.. Respondi-lhe que. aparentando admiração. primo de Carmélia.. Tirei-o do apuro. —Você é fantástico! Carmélia havia de rir. outros livros que Silviano também me emprestou e já está cobrando. Acabei de visionar o seu casamento. Se não me engano. se soubesse disso. disse Glicério. assustado. Algum do seu clube? —Não. O Jorge de Figueiredo. —Vai morar com a viúva? . Quero dizer.. Encontrei-me hoje com o Jorge. Seremos solidários no combate ao filistino. Mas tocará.. primeiro. Jorge chegou apenas há uma semana. respondi.. ele veio falar-me e se disse encantado com a "schopenhaueriana" que Silviano lhe está emprestando. para montar aqui um serviço de radiologia.. à hora do café. por partes. a propósito de qualquer coisa. jovem. Pus em dia o protocolo de processos. por ora. —Olá.. bom. E que a mim. Não tenhamos pressa. esforçando-me por parecer despreocupado. —Que Jorge? Não sei de quem se trata. não. Quando o encontrei. É verdade. Glicério há de falar-me hoje a respeito desse moço. puxarei sua língua. Estamos em frente de um inimigo comum.. trarei para você um volume do Ruyssen sobre Schopenhauer. —Então. estava comprando móveis para o gabinete. como vai essa força? disse-lhe. À hora do café. Queria que Glicério tivesse a iniciativa de me procurar.

quando é vazia como neste domingo. Não há dúvida que se casarão. que a velha traz silenciosamente. quase despreocupadamente. leve. vestindo o velho jaquetão preto e levando um chapéu-de-sol ao braço. Enquanto eu dormia. porém. há uma semana. como diz o poeta. Não. Emília devia ter estado na igreja. no Instituto. Depois. Com ele estive duas ou três noites a bebericar. NENHUM DESEJO NESTE DOMINGO. Contei-lhe que o médico me disse ontem. andei perambulando. depois. para ouvir a missa das cinco. Quando o espírito se me torna. Dei para vidente. ao ver terminada uma crise. Lá fora. Talvez possamos trazer a mana para casa no fim desta semana. e ainda agora me ocupa. procuro o Florêncio. parece muito animada. a ver a rua. disfarçado no meio do povo. à tarde. entre bocejos. Está lá. haverem as duchas e os remédios produzido bom efeito. Ora bolas. pela tarde toda. Mudamos. "Nenhum desejo neste domingo. por insistência dela. E a vida é quase boa. tirar o chapéu. Giovanni. Veio-me a idéia de sair um pouco. E casar-se-ão mesmo na igreja de Lourdes. ou não. Só agora veio a Minas. Posso compor meu olhar oceânico para. de assunto.—Não. Pus-me à janela. e ela anda. Tomo o café. apenas enquanto se instala convenientemente e se adapta mais ou menos ao meio. Uma banda militar desce . Mas talvez seja melhor armar a rede no quintal e folhear revistas velhas. Emília sempre acredita. na cidade. o sapateiro. a manhã deve estar alegre e o parque cheio de gente. dar um giro. assim. A ciática passou. experimentadas pela pobre irmã. talvez o futebol. em boas condições. ainda moça. para espairecer. desde que. definitivamente. ia à missa. o Jorge. que se casem e sumam. Cá dentro. Finalmente resolvo. Tomo o bonde. assistir à cerimônia. nenhum problema nesta vida". Muito viajado. Outra coisa não deveriam fazer o Prudêncio Gouveia e Beppe. § 47. Por que não fazer o mesmo? Devo. Viveu sempre de São Paulo para o Rio e do Rio para a Europa. Os jornais anunciam um encontro sensacional. Andei lendo. que a Chica ficou boa. É admirável esse otimismo que a faz esquecer-se da longa série de crises e melhoras. Homens e mulheres sobem a escadaria da igreja de São José. a moléstia mental se manifestou nela. Com as notícias que lhe dei sobre Francisquinha. o tema foi o mesmo. sucessivamente. desço na Avenida. NESTES últimos cinco dias não toquei nestes assentamentos. Leio o Minas que deixou sobre a mesa. em frente da igreja? O melhor é dar uma volta e não criar este problema.

O coveiro não se assemelhava em nada ao de Vila Caraíbas. Nenhum desejo neste domingo. poucas vezes ali fui. não tinha o ar amigo nem a expressão honesta do coveiro caraibano. senão estas.marcialmente a Rua da Bahia. senti desejo de visitar o cemitério. convenhamos em que cada um exprime o seu sentimento como pode e que. Depois. Aproximei-me do local e fui deitar. às preferências daquela pessoa de tão fúnebre ofício. Homem sombrio. Qual. ver morenas que não nos verão. ao pé do túmulo do pai. minha pá de terra ao morto. para exprimir à viúva sua grande dor: "Console-se. suponho eu. nenhum problema nesta vida. Depois. À tarde. quando já escasseavam os visitantes. Sem que nada me recomendasse. o melhor é. Ir. também. amigo que era de todos. Ali chegado. do que terra virgem. poupando. ou não ir. O coveiro da quadra 55. seu olho mole. afinal. Mas. não estando muito premido pela necessidade de vê-la. Defunto metódico esse que deliberou morrer no próprio dia de Finados. logo pela manhã. toma-se um refresco no Bar. que enterrava as pessoas com um pesar que se adivinhava sincero. Para dizer verdade. foi que me decidi. Lembra-me que." Mas. chamaremos o velho Giovanni para um dedo de prosa. segundo o padrão habitual. Domingo bom e alegre.. ou para acompanhar algum amigo. voltaremos para casa. a um defunto. arranjarei uma terrinha virgem para ele. FINADOS. não deixou de fitar- . fiquei o dia todo a hesitar entre ir e não ir. no dia de Finados. Ia por esporte. visitas extraordinárias ao cemitério. para um coveiro consciencioso. impressionou-me fortemente com o olhar frio que me deitou. abriremos a rede. à parte nova do cemitério. não encontrou outras palavras. do cemitério do Bonfim. § 48. depois. Neste Finados de 1935. Ah! é verdade.. lá no Parque. aos seus. NÃO TENDO nenhum defunto familiar no Bonfim. Algum político importante deve estar a chegar. rumo à estação da Central. abeirando-me de um ou outro retardatário par de namorados—para ouvir-lhes a conversa —ou examinando alguns mausoléus e inscrições. eis a questão. informado da morte de um compadre. em anos anteriores. Passando. vi que se enterrava alguém. o chefe da Seção pediu-me que comparecesse ao desembarque do Ministro. escreverei neste caderno que não era tanto pelos seus hóspedes: imaginei que talvez encontrasse Carmélia. esquisito. nada se poderia prometer de melhor. pus-me a andar a esmo.

e deixei o cemitério com o espírito opresso. Que não entrasse em indagações sobre se a greve surtiria. Glicério me disse que entrou em tudo isso apenas em atenção a . teve também a incumbência de transmitir-lhe recomendação expressa do delegado. Que se a greve falhasse e os operários fossem postos no olho da rua. resolveram manter Redelvim sob vigilância constante. que se incumbiu do caso a pedido de Glicério. até de uma geração. Consideram Redelvim bastante comprometido. teria ela. As sombras se insinuavam aqui e ali. o Bonfim é menos convidativo que de costume. Nesse documento Redelvim concitava o companheiro a agir. e este fora encerrado havia mais de quatro anos. Que a miséria e o sacrifício. Mas na correspondência e em papéis avulsos. efeito. "Desconfia o Senador. assim. pois o delegado é finório. Realmente. que lhe devia levar o Diário. Por que me encararia assim. não encontraram no Diário senão poesias. Era já lusco-fusco. acossados pela necessidade. ou não. § 49. O investigador. Em consideração ao Senador. A uma hora dessas. que a polícia conservou.me um só momento. mesmo. acharam indícios de que fora um dos promotores da última greve de operários. mesmo assim. O Senador prestou outras informações. sem notificar a polícia. Que o homem de ação não deve ter escrúpulos. Em vista de tais documentos." Por último. FUI HOJE à casa de Jandira comunicar-lhe que a polícia deliberou devolver a Redelvim o seu Diário. a carta. que não o soltaram senão para lhe acompanhar o desenvolvimento das atividades. alcançado os seus objetivos. com ar agoureiro? Parecia dizer-me: "Não demorarás a vir também. seu manguarão!" Havia qualquer coisa de triunfante e de perverso naquele olho aguado. seriam outros tantos agitadores. que não foram boas. fazendo-as gemer. memórias. uma cópia de carta enviada pelo nosso amigo a um estudante Lousada. JANDIRA SE MOSTRA PRUDENTE. relações de dívidas. ajuntou. apontamentos diversos. O Senador Furquim. chamou este último à sua residência para o cientificar de que haviam sido expedidas ordens para isso. De acordo com o que me repetiu Glicério. dizendo-lhe que não criasse problemas de consciência. e um vento frio e fino soprava as casuarinas. ou Almada. nem mudasse de residência. era. ou mesmo por isso. pois os homens sem trabalho. terminada tragicamente. Um calafrio correu-me pela espinha. enquanto estive à beira da cova. seriam compensados pela felicidade das gerações futuras. o delegado mostrou-lhe. no sentido de que não se afastasse de Belo Horizonte.

Belmiro. Conhecia-o. cumprimentou-me com ar alegre.mim e que não se interessava pelo Redelvim. Além disso. Redelvim conversou comigo longamente." Glicério foi duro. sua mímica muito feminina me fazem lembrar a Jandira mulher.. mas reconheço que Redelvim o tem hostilizado bastante. de sua boca—ou simplesmente movida pela sua natural versatilidade. a assumir atitude oposta. Depois. Fiquei satisfeito com suas palavras. —Mas é um absurdo. com certeza. vive falando mal de mim e do Silviano. retrucou. era homem atencioso. Qualquer dia a idiota da Jandira estará. Temos problemas que nenhum regime resolve. que eu ouvira. ou porque tivesse julgado o discurso cheio de chavões e quisesse anular o efeito das frases mais ou menos convencionais. se cometam erros maiores. Jia cana. sem convicção alguma. Aos vinte e cinco anos. tenho pensado que o papel de indivíduos como nós é conter os impacientes. que tantas vezes desaparece a meus olhos. mas talvez fosse inútil a tentativa. mas receio que. falou. Dei-lhe conhecimento das informações prestadas pelo Senador. Nesse negócio da greve entrou por lirismo. nada lhe acontecerá. com ar brejeiro: —Prolongada salva de palmas. apelando para a violência. a fim de lhe pedir um pouco de condescendência no caso. "Ele se meteu em embrulhos. receoso de que se melindrasse e. pois a polícia anda rigorosa. Suas mudanças súbitas. Não tem mais ligação com o Partido. andando para lá. Confio na evolução social. E que nosso amigo não fará nada. reacionários. tem a mesma graça leve e a mesma carne ágil dos dezenove. Ficou apreensiva e manifestou o propósito de ir procurar o delegado. viesse. Somos criaturas sem fé e pensamos demais. para cá. O orador é vivamente cumprimentado. Respondi-lhe que seria bom isso. Além disso. seu jeito provocante. disse-me: —Olhe. Poderia talvez fazer a felicidade do . que se agüente. na expectativa de qualquer coisa. provavelmente. sem que eu insistisse no assunto.. algum namorado nestes dez dias em que tenho estado ausente de sua casa. Mas estava em maré de confidencias e. Arranjou. também. assim. chamando-nos imbecis. por picardia. em nossas conversações. surpreso. Jandira se mostra prudente e não se tem envolvido em complicações. O mundo está errado. você vê como tudo anda embrulhado na Rússia. Tive de esperar um pouco. Quando voltou. É orgulhoso e não confessa. Jandira fora dar uma volta na Avenida com a amiga nova que descobriu: uma professora já meio entrada em anos que se instalou na mesma casa de cômodos. mas acredito que anda decepcionado com os antigos companheiros. Não lhe exprimi esta satisfação.

saí.. § 51. como diz Jandira. de novo. com os seus homens. sobretudo. ou do seu amigo Redelvim. uma contínua suspeita de que é desconhecer a natureza do homem. Silviano anda sumido. no Instituto. Redelvim? Como me ocorreu isso? Excelente meio de dar cabo de duas personagens difíceis: casá-las. Há muito não tenho uma semana assim tranqüila. Depois de tomar um café. como fogo de monturo. limpa. UMA SEMANA QUE PASSA. Fui buscá-la. pretender discipliná-lo com teorias rígidas. Pensamos e sofremos. Hortênsia nos arranjou. a não ser a volta de Francisquinha. com esta preocupação. entra-me no quarto. mas não lhe sinto as chamas. quer converter a casa em centro espírita e fala em voltar. anteontem. Está outra pessoa: arrumadinha. ESCREVO à meia-noite. alimentada. Talvez o amor continue a lavrar manhosamente. e os caminhos da vida são mais complicados. escrúpulos de espírito e de sentimento que não aceitam radicalismos revolucionários. para me contar qualquer coisa que a Chica falou. que D. Enfim. Não sei para onde irá uma. quando a mana piorar. Como cedi uma vez. A injustiça social me dilacera a sensibilidade. um pouco despeitada por haverem os médicos conseguido o que não conseguiram seus amigos espiritistas. nem outra. nem isso me preocupou. e ainda me acho um pouco transtornado pelo que me ocorreu à tarde. § 50. Escreverei também que não me falta simpatia humana e muito me preocupam os males do mundo. Glicério não voltou a falar-me sobre o primo de Carmélia. Mas há. E aqui a escrevo. em mim. dentro e fora de casa. Josefa lavadeira.. E há. Mas isto aqui não é romance. pensamos demais. pôs-se a resmungar que Francisquinha só há de ficar inteiramente boa é com as rezas da "sessão". Tenho lido alguns livros do Silviano e consegui liquidar o Homero. Não é meu . da casa de Jandira. Emília anda radiante: volta e meia.velho mancebo que escreve estas notas. JÁ ANDAM JUNTOS PELA RUA. Vejamos por quanto tempo poderemos conservá-la assim. NADA de novo nesta semana. depois de ter andado muito pela cidade.

pois sentia que o sangue me tinha fugido do rosto. para jantar. apanhando o chapéu e dizendo-lhe ter um encontro urgente com Redelvim. pelo lado do Correio. O chope me levantou o moral. pegando um jornal e fingindo mostrar-mo. Devia estar com uma cara de alma do outro mundo. Pouco depois que chegamos. voltando logo para a rua e tentando assistir a uma sessão de cinema. Voltaria logo. sem ânimo de sequer mexer-me na cadeira. nem costumo freqüentar as sorveterias da Rua da Bahia ou da Avenida. Jorge de Figueiredo. Eu respondia por palavras vagas ao que me dizia Glicério e este deverá ter notado minha ausência. trouxe-me de modo brusco à realidade. Finalmente. não vi essas pessoas. Fiz um esforço sobre-humano para ocultar minha agitação e apenas lhe disse um "Ah!" distraído. que é menos transitado. num gesto disfarçado. dirigindo-se para um ponto ou outro. Fiquei medrosamente a fitar a imagem de Carmélia. a tomar chope. com teatral mesura. refletida nos espelhos da parede. Vi nisso uma tábua de salvação e respondi-lhe que. Insistiu em minha permanência. observei que. onde estive mais de duas horas. sempre transido de temor cada vez que os seus olhos. Segredou-me. Comi às pressas e sem vontade. Embebi-me na sua contemplação. Andei a Avenida a passos largos. e o chope só pode ser tomado com a devida unção nos bares. através do espelho. assim tão mesureiro. tendo necessidade de sair. das ruas transversais. O luto fechado lhe realçava singularmente os traços finos. Pediu-me licença para se afastar por instantes. Emília já está mais ou menos habituada à minha impontualidade e guarda-me o prato feito.hábito sair com Glicério depois do trabalho. supondo que seu propósito me houvesse agastado. e pude vir para casa. a viúva e o Dr. dizendo que não poderia deixar de ir à mesa da viúva e da filha. e perguntei-lhe a quem cumprimentava. Mas o demônio as arma: não sei por que desci hoje com o rapaz e entrei numa sorveteria onde se reúnem as elegâncias de Belo Horizonte. Acabei por me interessar: . Glicério se levantava e saudava pessoas que entravam. a epiderme branca e delicada e os cabelos castanho-claros. ondulados. Daquele momento em diante. ainda que atrasado. Ao sorvete prefiro o chope. sem olhar para os lados. apresentar-lhes cumprimentos. ia fazê-lo imediatamente: ele poderia ficar à vontade. E saí rápido da sorveteria. e meti-me num bar da Rua Espírito Santo. pouco ou quase nada percebi do que se passava em torno de mim e do que Glicério dizia. Estando de costas para a rua. Resumi a conversa. que os recém-vindos eram Carmélia. menos freqüentados. me davam a impressão de que ela estava notando a insistência do meu olhar.

§ 52. pois havia uma mula-sem-cabeça dando coices debaixo da cama. encontrei Sepúlveda. pois. do seu quarto. quase despida. que provocava grandes risadas do público.. ou comprar uma coisa ou outra. com toda a certeza. sob uma chuvinha miúda. presumivelmente. Esqueceu-se de me dizer que gastou cinco contos com uma espanhola. Emília me despertou. Voltei para casa. UMA FRANCISQUINHA. fez uma grande extravagância. Chamei ontem o Dr. pois Francisquinha está . acordada pelos miados de um gato. Tosse com violência e sente dores agudas nas costas. finalmente. Parece possuir nas mãos um magnetismo especial. já tranqüilo. Não era tolo para pôr fora o cobrinho. e tanto Emília como Francisquinha o estimam muito. Em cada Banco depositou dez contos. que é o médico da casa. abri um ou outro livro. se levantasse para o pôr fora de casa e desse por falta dela. para o leito. Recusou a muitos colegas empréstimos de dinheiro. e foi para o quintal. pusemo-nos a procurar a pobre mana e a encontramos naquela postura. até que Emília. O resultado da extravagância foi uma forte gripe. Ficamos acordados o resto da madrugada. no caso de um dos Bancos quebrar. É um homem excelente. cá estou a escrevinhar. A pobre mana está presa ao leito com febre alta. mais ou menos conformado com o casamento de Carmélia. por isso. a seu modo.passando muito mal. Já andam juntos pela rua. Não me tenho afastado do seu quarto e nada ou pouco dormi nestas duas noites. Pois o casamento se dará. Voltou. O velho está apreensivo. pensando na possibilidade de uma pneumonia. desde anos. EXTRAVAGÂNCIA DE HÁ TRÊS dias não saio de casa senão para ir à farmácia. E ali ficou durante mais de uma hora. e que levou. Saiu de madrugada. agitada. pondo-se de cócoras a um canto do muro. e. À saída. Noto que sua simples presença tem ação sedativa. Fagundes. uma surra de madame Sepúlveda.era uma comédia leve. com relutância. Mas comigo o caso era diferente: se eu quisesse era só falar. não. Quando eu a supunha bem melhor.. dizendo que não podia estar ali. ansiada. E os vinte restantes foram despendidos em reparos na casa e compra de terrenos. que me levou a um café e se pôs a contar o modo por que empregou o dinheiro tirado na loteria. tentando acalmá-la. uma força qualquer que faz bem e . não perderia senão aquela quantia.

Receia que. agora. todos. com fisionomia resignada. Florêncio. Já aqui estamos há doze anos. realmente. vindo a pneumonia. quanto a Francisquinha. Recomendou-me estar atento.domina os males. Deus chamou a coitada!" Pôs-lhe ao peito um crucifixo de ferro. desnutrido. sempre dizendo: "Deus chamou a coitada. Emilia tem revelado qualidades excepcionais de enfermeira. O corpo velho. Emília encontra uma paz que não atinjo. Que felicidade poder pensar que Francisquinha foi para o seio do Eterno. Vestiu-a. todos. apegando-se muito a mim. como de costume. Trata Francisquinha como a uma criança e é indulgente para com as suas impertinências. e lá se acham o velho Borba. Sua rudeza cedeu lugar à ternura. É mais forte. mas olhava-a talvez com esta quase neutralidade com que se contempla o que é de todo estranho a nós. baqueou com a pneumonia. a mana. sempre que houvesse qualquer novidade. Prudêncio. que me parecia humorístico. OBRE Francisquinha! Lá se foi. a velha Maia. mas permanece a meu lado. agora. Em sua pouca luz. que assiste os coitados. Emília está mudada.. Tratei-a sempre com desvelo. Ofereceu mandar-me a Joana. Não resistiu sete dias. mas notou minhas preocupações e não disse ao que veio. Silviano esteve ontem aqui em casa. Emília foi mais forte do que eu. arranjou tudo. Silviano. Pobre mana. Dá-me vontade de sair desta casa. fraca como é. E a sombra de Francisquinha a prende mais ainda. àquela deformação do espírito. se for preciso. e chamá-lo. Redelvim. que se tornou mais sombria. possui invisíveis pontos de apoio: mostrou uma singela grandeza. e ela se afeiçoou às coisas e ao meio. Glicério. dá-me. Como se transformou nos últimos momentos! Encolhia-se feito uma criancinha doente e fitava-me com olhos tão compreensivos. que pertenceu à velha Maia. FORTALEZA DE EMÍLIA. Conversa pouco. § 53. Levei-a até lá com Giovanni. Deus bom.. porém Emília não quer. Donde lhe virá tanta força? Talvez de seu Deus que tudo explica. Vejo agora quanto estava preso a ela. àquela caricatura da razão. Faz dois dias já que a mana está no Bonfim. não resista à moléstia. perguntando-me se algo me ligava. grande . O velho papagaio. pretextando arrumar uma ou outra coisa. para nos auxiliar no tratamento da irmã. sempre que pode. Penso nos gestos serenos e simples de Emília. Jandira e Sepúlveda.

e as imagens se confundiam. Experimentei uma sorte de inibição para escrever. ou mesmo para pensar. OUVIMOS hoje missa de sétimo dia pela alma de Francisquinha.pena. Deve ter sido um pesadelo. e a visão desapareceu. Esperou-me à saída. com o corpo extremamente fraco. Fechado dentro de casa. cismadores. Carmélia apareceu-me com freqüência. Nessa longa noite. mas Jandira se informou do local e da hora e avisou os amigos. tenho a impressão de haver saído de longa noite de insônia. casará. Como é casto este amor! Nenhum desejo. embora não entrasse na Capela. um pouco. Durante estes dias em que tenho estado encerrado. Sempre me apareceu assim. mas no âmbito da fazenda. tenho a impressão de que estou vivendo não em Belo Horizonte. Depois do enterro ainda não saí. Anda decadente. e passa o dia todo a cochilar. deu-me um rápido abraço e desapareceu. . Uma tarde. como em uma tela esfumada. Só as feições se mostram nítidas. talvez enfraquecido pelas demoradas vigílias e pela má alimentação. A Carmélia real. Emília assistiu à missa das cinco da manhã. Depois de ter andado hoje. horas infindas. ela me pertence. será de outro. a maior parte da comida que lhe damos. concentrando-se nos olhos grandes. CASTOS AMORES. circulando por entre meus fantasmas. Não conseguia fixar a atenção em coisa alguma. perde a plumagem. em cuja sala de jantar este mesmo relógio de repetição assinalava as horas de um dia grande. Já não reajo contra as visitas dessa doce imagem. sentado ao alpendre da casa. até ao momento em que Emília veio trazer-me um copo de leite. Não queria convidar ninguém. Redelvim também compareceu. na atmosfera moral da casa velha. Associei-a à minha vida. ora encarnada em Camila e integrada na paisagem caraibana. Conversamos muito tempo. como no domínio do sonho.. ler. nenhuma representação sensual.. sem contornos precisos. Quase sempre deixa. Mas a que construí será sempre minha. pelo Parque. o que a torna mais leve e lhe realça o ar virginal. ora sob o seu aspecto real. grande. para não ser vista. e o tempo não exercerá sobre ela sua ação desagregadora. na lata. Estava de vestido branco. inatingível. cheguei a vê-la transpor o portãozinho de ferro e aproximar-se de mim. terá filhos. § 54. Soubera da morte de Francisquinha e viera consolarme. porque está fora dos domínios do tempo. como que alheio a tudo. as coisas se misturaram no meu espírito. poucas vezes peguei neste caderno e apenas duas escrevi.

dizendo que ali fora para esclarecer que Redelvim.. Seu amigo será bem tratado. Ninguém receberá maus tratos. Um pouco intimidada.. Jandira pediu. Aconselho-a. Chegada a nossa vez.. Jandira veio propor-me um entendimento com o delegado seu conhecido. que lhe fosse permitido visitá-lo. aflita. —Hum. pode comprometê-la perante meus colegas. Não se pode negar o homem. após duros combates cujos pormenores os cartazes dos jornais ainda estão registrando febrilmente. aliás. Combinamos fazê-lo imediatamente e dirigimo-nos à Polícia Central. Hum. depois de termos vivido dois dias de inquietação. § 55. Pela madrugada. Apenas ficarão detidos. quando eu saía para sua casa com o mesmo objetivo: Redelvim foi preso. REDELVIM VAI PRESO. não se sabe ainda se o movimento surgirá em outros pontos do país. se possível. senhorita. Jandira dirigiu-lhe a palavra nervosamente. nada tinha com os acontecimentos. Sabíamos que Redelvim estava ultimamente alheio às atividades do Partido e nenhuma ligação tinha com os conspiradores. Os prisioneiros vão ser ouvidos com toda a atenção. mas a carta a que aludi o comprometeu aos olhos da polícia. Vivem-se horas ansiosas e a cidade anda cheia de boatos. . ontem. olhando-me com insistência. e é inútil situá-los em outras épocas. a todo momento. JANDIRA veio procurar-me. não obstante as aparências em contrário. e a polícia está prendendo todos os elementos suspeitos. Vá tranqüila para casa. entravam. e está incomunicável. com esse propósito. a fim de lhe explicar a situação do amigo e pedir-lhe. havia rebentado uma revolução comunista no Rio. respondeu. mas a verdade é que esses sentimentos são de natureza eterna. sei que não é suspeita. Por que esta preocupação de parecer o que não somos? Ponham-me a data de 1830. conseguimos falar com o homem. enquanto se fazem investigações. Só depois de duas horas de espera. —No momento é impossível. a não insistir.. Neste instante. Foi sufocado o levante. Interrogava numerosas pessoas que. então. com a notícia das sublevações de Recife e Natal. Desejava que fôssemos juntos àquela autoridade. mas sua presença aqui.Também não reajo contra o sentimento romântico que me domina. Havemos de ver isto. entre policiais. Conheço-a. Os que não estiverem envolvidos serão postos em liberdade. a soltura.

.. Leve a moça à casa e apareça-me dentro de uma hora. que relataria hoje tudo o que me aconteceu na Polícia. muito pálida. Com certeza supôs que eu ia a alguma pândega. Fá-lo-ei amanhã cedo. em seguida. como outros. à noite. mas cortês. Deixei-a em casa. a fim de prestar depoimento sobre Redelvim. peço-lhe que olhe pela mana e obtenha que o Carolino vá dormir lá em casa. PROMETI-ME. Procurei. se equívoco houvesse quanto a mim. que o delegado apenas me pedira voltar à sua presença. e eu ia fazê-lo com Jandira. Fora da delegacia. assegurei-lhe que voltaria. por não ter dormido esta noite. vim rapidamente à Rua Erê. Percebi. e retirei-me com Jandira. —Quanto ao senhor. Com untuoso sorriso profissional. Que o "Chefe" precisava de mim. aproveitando esta manhã sossegada. passando pela Secretaria. para evitar dúvidas. dentro do prazo. Embora inquieto pelo que me poderia acontecer. . e não poderei escrever agora o que se passou comigo. Talvez tivesse de fazer pequena viagem com ele. perguntou-me o que acontecera. O delegado recebeu-me razoavelmente. quando o delegado me chamou à parte. Não o conheço. Disse. Vou fazê-lo pormenorizadamente. ter ali deixado um bilhete para Glicério.. para tranqüilizá-la. deliberamos retirar-nos. Fui chamado à polícia. que o delegado chamava um funcionário e lhe dava instruções. Foi pontual e procedeu corretamente em casa. nos seguintes termos: "Suspeitam de mim.Diante disso. disse. apresentei-me ao delegado com uma convicção: a de que. para avisar Emília de que teria de demorar-me fora e talvez voltasse à noite. ao sair.. desejo que volte aqui. desfechou-me à queima-roupa: —Estou bem impressionado com o senhor. Não se preocupasse com alguma demora: eu já tomara providências para que o contínuo da Seção viesse dormir em nossa casa. ENTRE LUNFAS. depois de. dentro de poucas horas. É sujeito antipático. o delegado. Calculei que expedia ordens para que me vigiassem os passos. Assegurei-lhe que não. pois teremos meio de encontrá-lo. ontem. havia de ser desfeito o equívoco. aviso-o de que nada lhe adiantará fugir. Assustado com o imprevisto convite. pois repreendeu-me: —Parece que já esqueceu da Chica. Jandira." Sinto-me cansado. mas. Não tentou destruir papéis. Se for detido. § 56.

Beltrano. de chofre.. Então. que serão tomadas por termo.. respondeu. naturalmente. Interpreto favoravelmente o fato de não se ter demorado para se desfazer de documentos incômodos. O policial levou-me pelo braço. Farei o que for possível. pertencia ao serviço público. que este levasse. Poderiam tomar informações com Fulano. fitando -me dentro dos olhos. Sou obrigado a detê-lo. eram livros extremistas? Em suas freqüentes mudanças de pensão. que eu era pessoa inteiramente inofensiva. que. por seu intermédio? perguntou. chegar às mãos do destinatário. pela janela. onde estão os que aguardam depoimento. Os investigadores de guarda disseram-lhe que não havia lugar para mais ninguém e que os "pássaros" já . Durante os segundos em que me demorei a responder. para a diligência. —Vejamos. meu companheiro de Seção. um pouco tranqüilizado pela acolhida.. prosseguiu: —Pensou que ia sozinho? Um investigador o acompanhou durante o trajeto e o observou. note bem. em sua companhia. É comum haver esquecimentos. quando entrou em casa. Fí-lo.. e na interpretação que poderia dar à busca.. o pacote registrado parecia de livros.. Vejamos. fazendo apelos à memória. sem idéias políticas. Pode ser que os haja e tenham sido esquecidos. Mas precisamos investigar. Pode fazer suas declarações. enquanto não se der uma busca em sua residência. —Sua explicação é aceitável. o investigador Parreiras. observou-me de modo impertinente. —Conduza-o a uma das salas. indicando-me com um gesto de queixo.. Pelo tom de suas palavras. etc. Como explica o fato de mandarem livros extremistas ao sr. imprevidências. Redelvim. Redelvim as vezes dava meu endereço para que lhe fossem enviadas cartas ou encomendas.. disse o delegado... um tanto inquieto. se fosse possível. ainda. Pensei logo em Emília. destacasse. fiquei certo de que assim procederia. etc. Posso reproduzir a conversa que teve com uma senhora velha que mora lá. Assim a velha não se assustaria.Vendo minha surpresa. Lembrei-me de que. recomendou a um policial. cheio de gente. pedi arranjasse as coisas de forma que não atribulasse a velha. Vasculhei a memória. Pondo-o a par da situação especial de minha casa. Declarei. de uma feita. e. Olhou três salas e achou-as repletas.. sem indagar que coisas continha. —Mas. respeitava o regime. meu conhecido (o que se interessou pelo caso do Giovanni). Talvez não existam. por um corredor comprido. Cessou a pressão. o acadêmico Glicério de Sousa Portes. quando contei o que se passara. Digo "talvez".

. pelas onze da noite. jeito. Fui preso por causa dele. —Mancou. Você vai é mesmo para as grades. indicando-me o companheiro magro e alto: Este é o Manequinho.. O homem fitou-me. estranha. gordo. É a segunda pessoa que me trata. Com eles me distraí bastante até que. Até me haviam ajudado a . que o mau humor se desfez. o investigador Parreiras veio procurar-me para me levar à presença do delegado. Já fui encanado mais de cinqüenta vezes. Saído o investigador. não.. disse. Não valia a pena. Bem que tinha vontade de fazer um servicinho de vez em quando. não? Os jornais estão cheios. Já corri os Estados todos. Pedi que não o fizesse. . mesmo. então. Banco o vigário só quando não encontro otários para punga. —Mais amor e menos confiança. Fomos juntos à casa da pequena.. de cicatriz na face.. A sodade apertou. E continuou a contar sua vida e aventuras. Namora. seu manguarão. porém. Tiro só a grana e deixo o couro para o ota não dar o grito. Mancou agora. mas não dou para isso. de vez em quando aparteado pelo outro. ganhando a confiança dos marotos. Na gíria policial "pinta" é aparência. Que seria "lunfa de penosa"? Propus-me apurar isso. —Seu Belmiro. ou melhor. Percebi que estava em meio de larápios e a experiência despertou-me a curiosidade. mas quis ver a morena. não tem sopa. Tão surpreendido fiquei. maltrata de "manguarão". Sou punguista. para o outro. velho. disse. Mas sufoquei a raiva e entrei na sala de janelas gradeadas. disse o magro.. e "lunfa" é ladrão.. puseram o senhor no meio desses malandros! Vou contar ao delegado. Ia para a Bahia.estavam reclamando contra isso. meio impaciente.. —Qual nada! falei. mestrepunguista. fingindo zangar-se. menos Goiás. acolheram-me com chufas. veio ver a nega e foi encanado. pessoar! Depois se apresentou: —Não ouviu falar de mim. A combinação "lunfa de penosa" era-me. —Pois olhe. onde havia dois presos. Mato Grosso e Amazonas. respondeu-me o baixo.. Mas isto é doce de leite para mim. —Está com pinta de lunfa de penosa. e os tiras estavam acampanando a grinfa. e isso me exasperou. rindo-se. Um me dirigiu a palavra: —Não ache ruim. e falou: —Ora. prosseguiu. Não afano a carteira. deixemos de luxinhos. com orgulho profissional. A cana é isso.

mas não os cumprimentei senão com um gesto de cabeça. tirando partido do meu embaraço. nada justifica o sacrifício de sangue. AGORA. em suas mãos. Meio mundo se movimentou por sua causa.. "Ou melhor. os três cadernos em que venho deixando notas. no seu Diário. portanto. O momento não é para condescendências. Surpreendeu-me agradàvelmente a presença de Glicério e Silviano no seu gabinete. Com aflição e vergonha vi. continuou o delegado. e o senhor deve . § 57. Olhei de soslaio para Silviano e Glicério: era de malícia a expressão deles. As declarações íntimas. o mais que houve na delegacia. Depois. afinal. Correu-me um calafrio pela espinha. pois o Chefe de Polícia mandou examinar o caso com urgência. Iríamos ver. Eram onze da noite. a folhas e folhas..passar o tempo.. —Tive de me enfronhar nessa maçaroca. Respondeu que ficasse tranqüilo: parecia boa.. Por isso.. À noite relatarei o resto da aventura. Sublinhava as palavras. prosseguiu. PARA ALGUMA COISA SERVIRAM ESTAS NOTAS. Nossa Constituição já acolheu numerosos princípios da socialdemocracia. assumiu ar professoral e disse que. Cá estão as suas "memórias". —Foi o que o salvou. Acha que viveremos sempre de erro em erro e que. esclarecem sua posição. disse o homem. Depois.. que não passa de um "anarquista lírico". imaginando que o delegado fosse ler páginas dos cadernos na presença de Silviano e Glicério. prefere os regimes brandos. em que as transformações se possam operar sem que sejam necessárias as revoluções. Devo levar isso em conta. emendou. pois suas confissões (novo sorriso irônico) têm cunho de sinceridade. VAI. precisávamos de provas. intimidado que me achava pelas circunstâncias. o senhor acha. continuou. quando o investigador me levou ao delegado. minhas idéias se comportavam bem dentro da Constituição liberal-democrática. com o seu enjoativo sorriso.. esforçando-se para brilhar: é um céptico. perguntei-lhe qual era a minha situação. socialdemocrática." —Quanto ao seu amigo Redelvim. . de um ano até aqui. Apesar das declarações do Senador Furquim em seu favor. São dez da manhã e devo preparar-me para ir à Secretaria. Veja se entendi bem. —Sim senhor.

. à espera de solução. também.. aludindo à embrulhada em que o Redelvim me meteu. . que instintivamente fiz. Parece necessitar de mim e querer dizer-me confidencialmente qualquer coisa. atuam lenta.. de resto.. Separou-se de nós. sobre os espíritos fracos.. emprazando-me para um encontro amanhã. um conselho. Se publicar as memórias. O ímpeto meu era de esbofeteá-lo. mas o bofetão ficou na mente. mas profundamente. Silviano não insistiu na zombaria. O senhor pode retirar-se. apesar dos pesares. funcionário da Polícia.. talvez eu tivesse de ficar mofando na grade. com o queixo. meti os cadernos debaixo do braço e saí. depois de uma pausa. Glicério. os cadernos que estavam sob o meu braço. pondo o dedo nos lábios.. encontrei bom entretenimento durante as horas de detenção. que eram notas para uso íntimo. Gostaria de vê-lo mais ousado.. Falei-lhe que o caso estava encerrado e que. Silviano pediu que eu lhe mostrasse.. A fim de tranqüilizar Emília. Bem. tímido. se me permite. Justamente esses é que constituem o nosso maior problema. com a pequena. Glicério contou-me. encabulado... irritado.. de novo tornando ao seu jeito presunçoso e cínico: —Bem. que deviam ter achado a cena muito cômica e por certo me consideraram um pobre-diabo. e que isso serviu para apressar as investigações.. E. Notando minha angústia e o gesto. que julgou necessário solicitar os bons ofícios do Senador Furquim no meu caso. porém. Glicério não teve coragem de fazer o mesmo. Mudou de assunto. mande-me um exemplar. apontando. Lá fora. Mais direto na questão da. Já conversamos bastante. sendo grande o número dos detidos. estendendo-me a mão em despedida. então. a "peça". um pouco. e foi uma violência do delegado o ter-lhes posto os olhos. declararam aqui ter vindo para arrolar os bens do inventário de Francisquinha. disse. Entretanto.. pois. Ou. . Seguindo comigo.. —Enfim. assistiu à busca nos meus papéis. os senhores são literatos e sabem o que lhes convém. O delegado fora atencioso. Acompanhara o Parreiras e um estudante. para indicar que o assunto era reservado.conhecer bem o homem. quem sabe. Abusando de nossa tolerância. que o senhor é platônico em demasia. interrompeu a conversa e ficou a rir. Noto. teremos de conservá-lo algum tempo. pouco adiante. O senhor erra julgando-o de todo inofensivo. Pedimos-lhe desculpas pelo equívoco. e tomei a mão do calhorda. Seu Diário me interessou. em companhia de Glicério e Silviano. Ele. Mas. Respondi. Depois.

quando se foi o Borba. minha gratidão a estes cadernos: para alguma coisa serviram. que não lhe falta siso. contou-me. § 58. O AMOR. "Gente sem modos".. filha da Ex.ma Viúva Dr. A velha. Ao chegar. Hoje cedo. Glicério entregou-me um papel. a coluna social. embora este se manifeste às vezes de forma inusitada. no Natal de 1934. Desempenhou com carinho as incumbências que lhe dei.. um pedaço de bolo envolvido em papel impermeável. nisso seguia a opinião geral da Secretaria. depois de tirar umas graças com a Emília. que pertencem à nossa haute-gomme. Emília já se havia recolhido. .. meu pensamento estava distante. A busca não teve maiores conseqüências: Emília acreditou na história do inventário. ontem. Jorge de Figueiredo. vagando em torno de uma conversação havida com Silviano. ao que parece. PELO AMOR. Ficamos a conversar até às duas da manhã. Carolino contou-me histórias de sua vida. pois lhe deu. para produzir efeitos na Secretaria. Minha fé-de-ofício não ficaria prejudicada. encontrei-o estendido num colchão. ao servir o almoço. na sala de jantar. Nesse documento se atestava nada haver contra mim e que minha detenção fora. É interessante que a gente conviva tantos anos com uma pessoa sem a descobrir. mais de uma vez. de vez em quando. e. folheei com emoção o Minas Gerais. temi essa notícia e. ao despedir-se. inclusive a de pedir ao contínuo Carolino que dormisse aqui em casa. Desde a vinda de seu primo. lembrando-se de que fizeram o mesmo quando morreu a velha Maia. Ótimo rapaz. Ao encerrar a página de hoje. Os noivos. Vi. tirando-me de apuros com a Polícia. cedinho. percorrendo. à hora da despedida. quase à meia-noite. criou-lhe estima.Finalmente. Aurélio de Miranda. mais tarde. têm sido muito cumprimentados. AMANHÃ DE 3 DE DEZEMBRO. Carolino ficou de voltar. a medo.. o Glicério." Sempre pensei que experimentaria grande abalo com o acontecimento. com o distinto médico-radiologista Dr. Eu o julgava um aluado. e. dizendo que achara bom obter aquela declaração. quando a informação me caiu sob os olhos: "Acha-se contratado o casamento da prendada senhorinha Carmélia Miranda.-Tento analisar e explicar os sentimentos que a notícia do noivado de Carmélia me despertou. aqui. para colher depoimento sobre terceiro. —Os home da justiça mexeram em tudo. no ponto de bondes. onde se anunciam os contratos de casamento. consigno. apenas. Partiu hoje.

na hora que passa. teria desfechado um processo rápido de "descristalização"? Afinal.Entretanto. agora. pela sua Dulcinéia. aproveitando uma fresta de luz. Jandira foi quem o supriu.. Verdade. a seus olhos. que me vem no momento. o despeito trouxe luz. a mim próprio. se é amor um sentimento tão acompanhado de renúncias prévias. tão desvirilizado. a razão por que me conformei sem esforço com uma notícia que deveria ser catastrófica. torturados por não sofrer demasiadamente a perda de um ente querido. é que o namorado teve descerrada. a convicção de que um grande abismo me separa de Carmélia e de que toda pretensão minha. o meu desencantamento. a distância. e eu o bendigo. não passará de uma prendada e fina senhorinha e não terá sido senão um "momento" da incorpórea Arabela. fora daquela noite de sortilégios. com serenidade. a cortina interior que ocultava sutil trama psicológica. E o Cavaleiro da Triste Figura se pôs em marcha. portanto. no caso. O que me deve interessar. Há. já por mim conhecido. receando. certamente. se o noivo não aparecesse. para ir passando o tempo. Andei reagindo um dia ou outro. quando Carmélia tem dono. . E a tristeza foi resignada. a minha impressão foi de que se tratava de fato antigo. desde que Carmélia foi revista. Vi-a sempre à distância de uma estrela. a seu respeito. neste instante. cuja divulgação se fazia. hoje. Pergunto. ontem. o fenômeno. porventura. em mim. livros e frutas. ao outro lado do espírito. verdade. aceitando eu. Entretanto. e quem sabe se a convivência teria destruído a lenda que criei. que seu arrefecimento viesse privar-me de uma emoção que enchia minha vida. em si.. Que se casem. Avançarei um pouco mais. ou talvez o de dar sentido a uma vida sem sentido. só agora. Farei com que lhe entreguem. A tal ponto se fortaleceu. já não conferiu muito com a intemporal Arabela. cultivam o sofrimento e o exacerbam. a situação. que não duvido fosse capaz de lhe procurar um noivo. Como aqueles que. mas. procurou sempre encobrir. mas o desejo de realizar o mito. A sensibilidade nos oferece surpresas dessas. É essa. a tristeza de viver de carícias compradas. seria ridícula. Haverá despeito e mau humor nestas linhas? Creio que não: investigo. Esta solidão da Rua Erê. terei cultivado e incitado uma paixão puramente cerebral. de uma coisa e outra. Verifiquei ser uma criatura sujeita às contingências do humano e sem a essência eterna do mito a que o amanuense aspira. uma ponta de despeito em tudo isso. com atraso. é a situação do Redelvim. sem esforço. tenham numerosos filhos. sobretudo a distância da moça em flor. Aviltei-me demais e coloquei-a num altar que talvez não merecesse. O amor era pelo amor. e Jeová lhes abençoe a prole. é que geraram a lenda.

porque não possui força de sentimento para tanto. ficou um pouco sugestionado. —Tanto melhor para ela. Bom casamento. prolíficos e domésticos. Mas para bem dizer. porém. NOITE DE 3 DE DEZEMBRO. concordou.. É fina. e imagino que terá recebido a notícia do noivado com menos espírito esportivo do que eu. contagiando-se do meu entusiasmo pela moça e vendo-lhe propriedades metafísicas que lhe atribuí. Tudo isso me foi denunciado pela sua fisionomia. AINDA O NOIVADO.. quanto a Carmélia. e a moça será feliz. e. com os seus "a propósito" sem nenhum propósito. Esse Jorge deve ser mais ou menos isso. —É. me fez maltratar esse excelente mancebo: supus que me estivesse fazendo concorrência e passei a hostilizá-lo. ao passo que assumi uma atitude olímpica.. apesar dos . para se lhe tornar desagradável o acontecimento. Não amou. achou jeito de tocar no assunto: —Por falar em festas (Sepúlveda se melindrara por não termos ido a uma festinha em sua casa). noto o seguinte: Glicério é um hesitante.. —Não suspire. no relato dos acontecimentos. respondi. Ficou? respondi. à ordem cronológica. e você pertence. Reduzidas as coisas às verdadeiras proporções. tive essa impressão. palavras menos importantes trocadas com Glicério. Entendo que só serão felizes casando-se com homens tranqüilos. um homem sem endereço. suspiroso. Você não serviria para ela. E você compreende: pode ser um bom camarada entre gente da sociedade. É um inquieto. não o conheço. a mangar. como não dispõe dos recursos com que conto. há tempos. tive comprida conversa com Silviano. Namoricou apenas. Não é homem de nosso clima. já com o propósito de contribuir para que seu aborrecimento passasse. Registrarei antes. continuei.-Depois de encerrado o expediente na Seção. quanto a falar. e não tem configuração nítida de suas aspirações. Você sempre diz que o rapaz é muito "distinto". segundo esta. O ciúme. Também ela não serviria para você. Não chegarei a dizer que o amigo esteja amando a prendada senhorinha. É um indeciso. À hora do café. Sujeitos de alma simples. Talvez não passe de um prelúdio de amor. O bacharelando Glicério de Sousa Portes não estava de boa cara. sabe que Carmélia ficou noiva do Jorge? —Ah!. prendada. aparentando indiferença. —É.§ 59. nesse capítulo.. aborreceu-se... falou pouco. tem razão. Foi o bastante.. porém. na Seção. E. Nosso clima não é salubre para mulheres. Um bom burocrata deve obedecer. porque.. é Glicério quem terá primazia..

Glicério é bom amigo e rapaz aproveitável. —Pode abrir o coração.. Tempo é que não me falta. anima-o. Em seguida. Não faz mal: fica para amanhã cedo. falei. —Nada disso. cercados de curiosos. vejo que me estendi demasiado sobre a conversa com Glicério e o cansaço já não me deixa. não me venha com bobagens. § 60.pesares. carregando a fisionomia (só . Somos animais intratáveis. ao "distinto". E conversamos mais um pouco. atalhou. Haveria conflito de temperamentos. retificando. ambos bem-humorados. —Que problema? O "Fáustico"? perguntei. Silviano. O QUE Silviano tinha a confiar-me (provavelmente desde o dia em que veio à Rua Erê e encontrou-me preocupado com a moléstia de Francisquinha) era o seu novo caso amoroso... e deu-me tempo para reconhecer o erro. Deu uma risada e concluiu: —No fundo estamos despeitados. nunca deu importância a certas deficiências de Glicério e está sendo amigo melhor: orienta-o. Nunca pensei nisso. mal tomamos o bonde para ir a um bar da Avenida. —Você me está dificultando a solução do problema. Oficialmente não conheço a família. Também estou inclinado a achar que exageramos. não é senão pela pouca idade e experiência. Tal era sua ânsia de confidencia que não deu a menor importância ao fato de nos acharmos dentro de um veículo. Vamos aproveitar o despeito e restabelecer a realidade. mesmo. Você quer assiná-lo também? Respondi-lhe que não. explorei-lhe esse lado fraco. tentando ridicularizá-lo. com invencível horror ao "fino". expôs-me a história. agora. Afinal é uma criatura de carne e osso. É disso que precisa. mas acho que andamos exagerando um pouco. mais compreensivo do que eu. Sem maiores preâmbulos.. quero saná-la. a uma fauna complicada. aqui. Há vários dias que preciso falar-lhe e não encontro oportunidade. impaciente. não suspeitou dos rancores que. Cada um de nós tem seu lado fraco e. nossa amizade veio a salvamento depois de todas essas crises. Ao mencionar Silviano. relatar o outro encontro. ou à noite. lhe votei. meu juízo a seu respeito. em certo momento. O melhor é tomar um chope e mandar um telegrama de parabéns. Felizmente. Glicério me interrompeu: —Ora. mais uma vez. Se leva desvantagens em nossa roda. nada disso. sem notar o tom de troça da pergunta. Foi uma injustiça e.. Confiante. quando tive ciúmes de Carmélia com ele.. O QUE SILVIANO ME FALOU. Admiro Carmélia.

Silviano se coloca em plano de superioridade tal. Há cerca de um mês.) Exibiu-me um dos cartões. e ele a seguiu. Miudinha. Combinaram-se outros encontros. a não fazer. porém. mas acabou concordando em que o mundo está cheio de nomes esquisitos.) Enfim. assim nos abancamos no bar. Sim. entrava noutra. porque mandava descer a loja inteira das prateleiras e nada lhe servia (imagino esse gordanchudo Dom Juan a dobrar o passo. continuou. que não lhe permite ressentir-se com pilhérias. assumindo ar sério. Passeios de automóvel." . Depois. antes. para encobrir a identidade. o "Perrexil". O nosso filósofo varia sempre. Isso é de espíritos mesquinhos. . Veio-lhe uma grande aura de desejo.. maior atenção. pela posta-restante. Agora. . virou-se para mim:—Você sempre com zombarias tolas. resfolegando. a fazer intermináveis compras. sessões de cinema.. Por que não vem ver a sua gatinha? Por que não foi à matinée do cine Brasil? Estou com a unhazinha afiada para arranhá-lo. (Talvez conseguisse mais. estendeu-me um bilhetinho amarrotado. Estou mortinha de saudades. dizia: "Meu gatinho:—Você é muito gostoso. Sem me dar. E calou-se. potelée é o termo justo. à espera de um bonde." Ri-me.. ou. em aventuras de subúrbio.. esclareceu. excursões pelos pontos mal iluminados da cidade. estava ele no Bar do Ponto. pois. a moça o percebeu e deu-lhe corda. Diz-me sempre: "Seus motejos me deixam na mais divina indiferença".depois de alguns segundos o remoque o atingiu). é uma pequena de outro estilo. pois este teve a precaução de mandar imprimir cartões de visita com o nome do seu venerado mestre. escrito em bom cursivo. Saía de uma loja. Silviano prometeu-lhe casamento. dizendo: —Veja que coisa horrorosa... ingrato. divertido.. interessante. Ah! ah! ah!. endereçados a Aristóteles de Estagira (acredita ingenuamente que Silviano se chame assim. Enjoado! —Sua Zizi. foi contando o caso. quando a mulher passou. Travou-se namoro. O assunto é sério. como de costume. O amuo passou logo. para não perder de vista a presa). para o ofídico. melhor . potelée.. se não o tivesse prometido. o negócio está nesse pé: a pequena lhe manda bilhetinhos incríveis. Não tem de que se rir. dando uma gargalhada: —A pequena estranhou. preocupado com a precisão vocabular: só os franceses é que classificam bem as mulheres. Chama-me gatinho! O bilhete. Não se trata mais da jovem da gota-serena.. Ao fim de certo tempo. Não era do tipo angélico e pendia.. Silviano não gostou: "Isso é muito trágico.

por alto. Devemos deliberar juntos. —Mas sempre se purificou. Aristóteles pode seguir para Estagira sem nenhum remorso. tratava-se de uma pequena fácil. Foi uma estupidez essa aventura.. com soberba inflexão de voz. . Salvo se. não há problema. mandaria um bilhete à pequena. —Então. adestrada em aventuras desse gênero. Não é por causa do compromisso. e que deveria partir pelo primeiro vapor. —Não! Não receio que haja perigo de acréscimo ao registro civil! exclamou. comunicando-lhe que fora chamado à Macedônia.. —Porfírio. Agradeceria a boa convivência e lhe desejaria prosperidade. muitos presentes.. dizendo-lhe que.. Pelo que me expôs. com urgência. —Mas o Pensador já fraqueou mais de uma vez. Quem o assumiu foi Aristóteles de Estagira. E atacou a questão. A pequena arranjaria logo outro entretenimento. —É o que vou fazer! exclamou. A carne é profundamente triste. aliás. diante de si mesmo! disse. . quase um ano depois. De modo que não há compromisso. Porfírio era meu avô. —Ora. aliás. Será a última concessão à Besta! Respondi-lhe que o problema era simples. Noto que nas primeiras páginas deste caderno registrei... Não haveria.E continuou: —Foi uma estupidez. portanto. Aliás eu não o procurei por esse motivo. uma porção de miudezas. que denomina "atitude católica em face da besta". Foi um momento de fraqueza do Pensador (aludia a si próprio). mas por causa da "coisa em si". depois: —Chamar-me gatinho! Que monstruosidade! Aristóteles de Estagira. Belmiro. a respeito. O caso está resolvido. Já me informaram de que ela cultiva homens casados para receber regalos e brindes.. Hoje. isso não tem a menor importância. Não é a primeira queda. Porfírio. e não morrerá sem dar à luz mais alguns imbecis que se disponham a sair do repouso cósmico! O que há é que estou enojado disso. gatinho! Continuei.. palavras que trocamos no Parque. no último Natal. Será a última concessão à Besta! Sugira-me um meio de safar o filósofo Aristóteles dessa embrulhada. depois.... se me visse envolvido em semelhante alhada e quisesse sair dela. —É.. E. E nem poderia haver.. dano moral no caso. objetei-lhe. desgostante. Coisas que a Dolores Gigedo devolveu. Dei-lhe. não. É. Joana continua sólida.

Você é um pateta. e Hegel. Impossível dominá-la. um pacóvio. Para os que. pois estes são opostos um ao outro. pediu-me notícias do Redelvim. Atrai-nos sempre e nos deixa sempre insatisfeitos. Depois de alguns minutos. —A solução é a conduta católica.. Porque a carne luta contra o Espírito e o Espírito contra a carne.) Precisamos renunciar de uma vez. ainda. para ver o espetáculo. cortando-me a palavra. é outra. Tive a impressão de que a vida havia parado. a frase interrompida em 1934.. ele disse que é melhor casar do que abrasar-se. Não insisti em minhas réplicas. sem o intervalo de doze meses. então cortado. isso é que é. eliminando todos os seus atrativos. depois. nem histórico. —Não tenho tamanha aversão à vida. —Estou perdendo o meu latim! disse. querelante! A questão é mais geral. Não entende nada. a favor e contra! Louco! Romantismo político. Rechaçar a Besta. Sublimou-se. não chegou ao alto da montanha. —Vejamos se agora ele desiste de reformar a humanidade e se enxerga a "coisa". como eu. e. para evitar nova explosão. à saúde de Aristóteles de Estagira. não se casaram. Entretanto. todos os seus excitantes. uma gargalhada. E o grande caminho é a ascese. —É porque está. (Deu vigoroso acento à palavra "ascese". tal como se continuasse. Nosso problema—entende?—é repudiar a vida. exclamando: —Bebamos. sobre coisas várias. irritado. É o que precisamos fazer. como houve romantismo literário! . Porfírio. disse. rastejando. Não compreende o problema. deu. Vai pela cabeça desse maluco de Marx! Esqueceu-se de que Marx saiu de Hegel. no mesmo tom grave em que me falava. Porfírio. Dei-as. Não vê o Jerônimo? Engolfou-se nos doutores. respondi.retomou ele o fio da conversação. que acaba de cometer aventura indigna de um filósofo! Falamos. sorvê-la. —Você sempre pequenino. —Precisamos meditar sobre as palavras de Paulo: andai pelo Espírito e não satisfareis a cobiça da carne. E caiu num mutismo desalentado. violentamente. porém. Louco! Não tem senso filosófico. —Mas. isso é que é. ao despedir-se. objetei. Ela é ardilosa e inesgotável em astúcia. de Kant! E que em Kant a gente encontra de tudo. em forma definitiva. —Minha situação em face de Paulo. e não podemos deliberar juntos. a meditação deve versar sobre esse ponto. e não transcorrera todo um agitado ano entre aquela tarde natalina e a de ontem. é a única pessoa com quem uma conversa definitiva me pareceu possível. Aos coríntios.

Mais tarde é que. Minhas ruas e meus largos de Vila Caraíbas eram. a cor. que desprendiam beleza e inocência.." Depois. vamos com os olhos da alma penetrar no âmago daquelas paisagens extraordinárias. No momento preciso em que certos quadros se desdobram aos nossos olhos. tirada por vozes sem artifício. Ê as cantigas todas eram cantadas. Uma ia ao centro do círculo. Nosso olhar circula vago e às vezes quase indiferente. enquanto as outras faziam coro. na Vila.. ali pelos lados da Rua Serpentina. a cantar em solo. nos seus trabalhos subterrâneos! Só hoje.. receptivo. entoavam velhas modinhas. Uma toada se espraiava no ar. Suas palavras "vejamos se agora ele desiste. através da memória. à dança em que raparigas. pois Silviano é bom sujeito. no estribilho. nem lhes apreendemos a substância rica de poesia. plenas de melodia: "Eu estava na estação quando o meu amor chegou deu um vento na roseira e o salão encheu de flor. um canto límpido se alteava—desacompanhado: "Nesta rua tem um bosque que se chama Solidão dentro dele mora um anjo que roubou meu coração. Mas talvez a dureza seja aparente. braços dados. a luz e a música de longínquos dias. quase sempre não lhes percebemos a intensidade lírica. § 61. Quanto o inconsciente é fino." . NADA me aconteceu de novo esta noite senão que." indicam que não se incomoda muito com as atribulações do amigo. que pareciam perdidos. andando a esmo no Carlos Prates. "RODA MORENA".E deixou-me. povoados de ranchos femininos. depois de uma ascensão lenta. sob o luar. as camadas profundas do espírito me trazem o panorama. dei com uma "roda morena". Assim chamavam. até que o relógio da torre do Mercado desse suas nove horas que equivaliam a um toque de recolher. sutil.. Achei-o duro com relação a Redelvim. assim.

Se eu roubei teu coração tu roubaste o meu também!" Melodiosas noites! O luar batia em cheio na Matriz branca de cal. fora da roda: "Se eu roubei teu coração é porque te quero bem. ou fazia que a torre do Mercado deitasse ao chão de grama uma sombra grande. em nós. misteriosa. que buscamos. e de nossa roda ser quase sempre heterogênea. ou mesmo em um ponto apenas. no geral. Faz-me isso pensar que.. Somos amigos fracionários. aquele sentimento integral a que aspiramos. Consultarei Silviano sobre esse conceito antifederativo do . Fui vê-la ontem. Entre mim e Jandira. cujo chefe é homem velho e bondoso. procuramnos em um ângulo. NOVOS RUMOS DE JANDIRA. mas. § 62. então. que nos parecem espontâneas e gratuitas —e. a seu respeito: não estava precisando de mim. um conflito em que prevalecerão as partes simpáticas. ao contrário. mas os encontros foram rápidos. mas os vultos femininos sugeriam donzelas caraibanas. ocorrendo. um no outro. nos fragmentam. O egoísmo. É verdade que nos encontramos quatro ou cinco vezes durante esse espaço de tempo. Provavelmente aconteceu com ela o que sucedeu comigo. da.Vinha a réplica de alguém. aliás. São partes nossas que se unem por simpatia às de outros seres. se saímos à procura de um amigo. as feições que lhes aprazem. As cantigas da "roda morena" de Carlos Prates não eram as mesmas. entra em tudo—mesmo no reduto das amizades mais puras. não será difícil investigar-mos a necessidade de ordem espiritual. dizem. não o indivíduo. a explicação do fato de nos unirmos a pessoas de caracteres tão diversos. castas e descuidosas. eu me ausentara de Jandira. mas certo aspecto dele. às vezes em uma linha. E está aí. e o assunto foi a vida dos outros. porventura. faz dois meses já. a amizade nunca foi. senão que continuava nos escritórios da firma Sobral Lt. Nada me falou sobre coisas suas. fantástica. afinal). DESDE o dia em que tivemos uma conversação amarga sobre os seus problemas.. que nos impele. moral ou afetiva (egoística. os amigos não nos vêem como a um ser indiviso. embora haja umas que se repilam. embora não tivesse recebido nenhuma reclamação contra isso. apesar de meio rabugento. Elegem. mordido pelo remorso de tê-la abandonado tanto tempo.

sob pena de retirar-me. Influência da professora vizinha. desde logo senti um ambiente frio. Belmiro. Toda vez que perdia com o coringa. . À vista de um coringa. ficou satisfeitíssimo e segredoume: —O senhor tem um olho episcopal. sorridente. De manhã trabalho. esclarecendo a minha qualidade de velho camarada. procurando outros climas. na Santa Casa. na mutação dos quadros da vida. também. a professora e dois cavalheiros de desigual idade e catadura. Perguntou-me este.. mas não me fez a festa do costume. mas a vida é terrivelmente móvel. dava um suspiro e dizia: "Muito bem! exclamou o Conde. Jandira correspondeu com ligeiro sorriso à minha saudação. torpe D. Não queria ser desmancha-prazeres. em companhia do Prudêncio Gouveia. Ela. bem diverso da atmosfera tépida que sempre ali encontrei. o professor Barroso. com quem ela se relacionou há uns dois ou três meses? Reação contra o ritmo um tanto monótono de sua vida? Coisas de mulher. o professor declarou que já me vira.. e isso me fez meditar. se não o fizessem. Os quadros se vão sucedendo. Chegado à sua casa. aqui conhecido por "Almirante": foi Anita quem nos trouxe esta flor. Pode encontrar-me no apartamento ou na Faculdade. Vim de lá quase magoado. Noto que virou quase um quadrante na sua rota. A amiga está-se dispersando. doutorando. O canalha gentil compareceu logo. com tristeza. Apresentoume à roda. invectivava furiosamente a carta: "Canalha gentil. fruto de pequeno despeito. dizendo com ar importante e um charuto entre os dentes: "Sempre às suas ordens. É um sujeito divertido. Experimentaríamos. Anita me sorriu. Respondi-lhe que não sabia." Durante todo o tempo em que estive a seu lado. cujo nome não guardei. disponha. E mencionou os outros. (Citou qualquer especialidade arrevesada. minha amiga. para mim: —Anita. Procuramos inutilmente fixar um círculo. se lhe pegavam uma carta.indivíduo. Jogavam coon-can-play na pequena sala. coisa grave numa idade em que já não se fazem novos amigos. uma paisagem em que nosso espírito se compraz." Agradeci ao falastrão e insisti para que continuassem o jogo. este é o Azevedo Leão. Atendido. e lhes pedirei desculpas por esta divagação inoportuna. depois de prolongado silêncio. Juan!" E. pessoa com quem simpatizei.) Precisando. Creio que perdi a amiga. Um amigo de Jandira passa a ser meu. É que Jandira me desapontou. Sou assistente de clínica. os amigos se deslocam. com seu olhar meio estrábico. se eu não tinha pé-frio. as perspectivas se transformam. nem precisa quarentena. D. e finalmente. e o doutorando deume forte aperto de mão. pus-me ao lado do Almirante...

em que pese à Mariana e aos médicos. § 63. Sorrateiramente.. Foi ele quem me reteve ali. em Sete Lagoas. amanhã. descobriu. à delegacia. O primeiro. isto é. deixando-os ainda com as cartas. foi criando um outro núcleo que fará concorrência ao nosso na disputa de sua pessoa. Os médicos lhe suspenderam o chope. Tenho pruridos filológicos. Está indignado com Mariana. Disse-me o investigador que lunfa de penosa significa ladrão de galinha. Aconselhei-o a voltar ao copo com urgência: será o meio de reencarná-lo em si próprio. Combinamos aparecer juntos. Será possível que ela o namore? Como tolerará um indivíduo dessa espécie? Fiquei cerca de duas horas a sapear o jogo. Não tinha podido ir visitá-lo. não está com a mesma cara. achando tudo ruim. pois chegara hoje pela manhã e havia muitos negócios para tratar. Levarei amanhã. quando veio o Parreiras para me anunciar que já posso ver Redelvim. Um pândego. TIVE duas visitas esta noite: Florêncio e o investigador Parreiras. encantado com o Almirante. Quanto ao pedante doutorando. nestes dois meses. Aproveitei a presença do Parreiras para um esclarecimento a respeito da conversa dos lunfas. Parece-me que Jandira não tardará a desertar de nosso pequeno círculo.. ao entrar. na relação das pessoas presas. haverá chope. despertando-me um interesse que venceu a natural hostilidade para com a nova roda da amiga. Anda queixoso e neurastênico. Eram dez da noite quando saí. que virou outro. que passou quinze dias em Sete Lagoas a fazer seguros de vida. É rapagão bem vestido e elegante. Florêncio contou-me que experimentou grande abalo quando. Pobre Redelvim! Já vai para semana e meia que está preso e continua incomunicável. LUNFA DE PENOSA. Nem sequer me perguntou pelo Redelvim. por certo apanhadas em leituras. e isso me enciumou. por ter a mulher conspirado com os médicos e viver a espioná-lo. E Florêncio se divertiu bastante ao saber que os larápios me acharam com cara de ladrão de galinha. na Polícia Central. novos livros e alguns maços de cigarros. Ainda se encontrava aqui.ouvi-lhe frases desse gênero. para que lhe sejam entregues. ao ler os jornais. suspenderam o próprio Florêncio. Certamente lhe pertence a baratinha que vi à porta da casa. . provocou-me imediata aversão. no dia da soltura. quando as namoradas me abandonam. o nome do nosso amigo. Creio que pressenti nele um possível namorado para Jandira. pedindo-lhe explicação da gíria que lhes ouvi. E ficou estabelecido que.

então ocupado por um contingente policial. a propósito da revolução comunista. tira—investigador. se não fugíssemos. A pergunta de Emília. brindada com algumas balas perdidas. um pouco aflita. falou-me que o outro. Pela tarde. afanar—furtar. Parreiras e Florêncio (que também é versado nesse calão) prometeramme um completo vocabulário dos termos em uso entre os malandros. ser-lhe-ia difícil compreender. e esta só terminava. Pela situação desta casa. quando as manas me deram grande trabalho. Para satisfazer à sua curiosidade. Narrando. couro— carteira de dinheiro. iam às armas. acampanar—seguir o criminoso ou indivíduo suspeito. Aludia à revolução de novembro. Cessada a luta. grinfa— morena. nos confins do Norte. otário—simplório. provavelmente vindas do Morro dos Pintos. às vezes. ainda. Respondi afirmativamente: houve "fogo". Filhos. ficaríamos entre as balas do Exército. ser encapado— ser preso. matavam-se. a prisão. netos e bisnetos herdavam a contenda avoenga.Quanto aos outros vocábulos: cana quer dizer prisão. —Móde quê? perguntou (dizia o velho Borba que essa locução é uma corruptela de "por amor de quê"). e as da Polícia. § 64. que o substituiu hoje na entrega de pães. Havia recontros armados. que consumiam famílias inteiras. um . UM "FOGO". namorada. com jagunços de um e outro lado. A vila era pacífica. lhe disse ter sido causa disso uma guerra havida no Rio. lembrou-me os dias penosos de 1930. Dois coronéis fazendeiros brigavam por questões de terra ou de honra. que tão raro se exercita.° Regimento. e gaiola—prisão. pequena. pouco antes de se iniciar o cerco do 12. punguista—batedor de carteira. ocorreram durante muito tempo querelas sangrentas. do nosso padeiro. que procediam do edifício onde hoje se acha o Departamento de Instrução da Força Pública. e morreu muita gente. Emília veio indagar se era verdade que houve um "fogo". vi que a casa fora. A isso chamavam um "fogo". trouxa. memória das rixas seculares entre famílias importantes. de parte a parte. pássaro—detento. em meias-palavras. mas um pouco além. polícia secreta. também. bancar o vigário— passar o conto-do-vigário. grana—dinheiro. que vinham da colina. gente graúda. com a aniquilação de todos os elementos válidos. De outro modo. servi-me da mesma explicação dada durante a revolução de 1930: fora uma briga de dois coronéis. ontem. ESTA manhã. Em Vila Caraíbas havia.

Teria sido impossível permanecer na casa: o alpendre. intimando os moradores a desocupar as casas. Só à meia-noite. e foi vão todo o esforço para tirá-la de casa.° Regimento. vindo Giovanni e Prudêncio Gouveia em meu auxílio (depois de se terem retirado. de meio metro de altura. quase como a de saudade da amada que morreu. Um rápido tiroteio. num recanto do bairro da Floresta. deu-me a impressão de que a luta se iniciara. Emília nos acompanhou. Posto que estivesse mais ou menos a par da situação. embora sob uma forma diferente. Decorreram já duas semanas desde o dia em que o Minas Gerais publicou a infausta informação esponsalícia. Francisquinha estava. com as velhas. às pressas. não. pudemos carregar a Francisquinha nos braços. tranqüilizando-a. Pirraça pura. que resolvera ocupar aquele edifício. disse eu. com a família. Um vizinho deliberou não evacuar a zona e instalou-se no porão. as crises vão-se espaçando.pequeno destacamento de soldados descera a Rua Erê. e Giovanni se incumbiu de transportar pequenas coisas indispensáveis para passarmos alguns dias fora. Emília queria que fizéssemos o mesmo. tive de resignar-me e aguardar os acontecimentos. e há muito não . Bem que tenho tido desejo de dizer que ainda amo a donzela. às oito da noite. Não encontrando quem me auxiliasse em remover as duas velhas. Pelo menos. considerado ponto estratégico. livrando-nos de passar os maus momentos que muitas famílias experimentaram. —Não. naquele dia. mesmo. que dá para a Rua do Piau e está inteiramente a descoberto. depois. nem no Glicério. lembraram-se de que eu deveria estar em apuros. Emília me perguntou se o "fogo" de agora ia durar e se se estenderia a Belo Horizonte. muito mal. O Governo entrou no meio e prendeu todos. entre a guarda da Cadeia Pública e o pessoal do 12. com as manas. para a casa da mãe dele. Soube. estes cadernos?) que há muito não falo em Carmélia. O bom Prudêncio levou-me. e voltaram). a seis ou oito quilômetros da Capital. § 65. Algumas vararam as portas e foram alojar-se no meu escritório e nos quartos. Emília — vendo a irmã em tal estado—começou também a oferecer resistência. no porão nosso. por certo. Lembrando-se. dormindo no mato. ficou crivado de balas. DEVEM ter notado (publicarei. que fora apenas um combate ligeiro. E O CASAMENTO É PARA JÁ. das vicissitudes sofridas naquela ocasião.

por dois motivos. porque Glicério me prestou interessantes informações.. Melhor "a propósito" não haveria. É como disse: estavam-se namorando sorrateiramente. Com a vinda de Jorge. a coisa pegou outra vez. mas vá lá. logo aos primeiros quinze dias. pelo não.. Francamente cacete. O namoro não continuou. melhor será não sabotar o Belmiro flautista. o noivo ou o noivado. você é que era interessado. com ele. Esta literatura íntima é a minha salvação.experimento uma recidiva. querendo). —Que noivado? perguntei. fingindo supor que se tratava do caso do velho companheiro de Seção.. cometeu a loucura de contratar casamento. e o caso foi comentadíssimo. pois seu ideal se realizou. se é que o tem. O de Carmélia. Inteiramente à nossa revelia. repete a todo . daquelas bravas. Sindiquei a respeito do noivado. Acabou entregando os pontos e vindo falar-me sobre a namorada comum. os mesmos não foram utilizados.. Quanto ao Glicério. de quem lhes falei há meses (sele a petição e volte. Rompo. —À sua.. sua idéia de vir para cá foi um pouco por causa disso. Deixá-lo esparramar-se no papel. segundo. Que pena o Dr. pareceu-me que também fizera pacto idêntico com o seu demônio. A viúva está ovante. que ficaram registradas em páginas passadas destes cadernos. mas Glicério ficou firme. há três anos. porque conheço muito o Dom Donzel da Rua Erê . Só fala que pode morrer sossegada (ninguém tem mais medo da morte do que ela). aquela "bomba" no Minas Gerais! —Estive lá ontem. nem se firmou compromisso. Por exemplo: o companheiro de lunetas douradas. Primeiro. porém.. —Novidades. Hoje. com o regresso de Carmélia. reduzi-lo a coisa escrita é o meio mais eficaz de liquidá-lo e. e a noiva tem apenas vinte e dois anos. hoje. aqui ou alhures. —Então? —A coisa já vinha de muito tempo. mencionar-lhe o nome. —Amigo urso! Na hora ruim não quer ser companheiro. Segundo diz o Jorge. sem a gente saber. continuou. Embora surgissem vários "a propósito". Estabeleci comigo mesmo o compromisso de não mais. Está beirando os sessenta. Um belo dia. Aurélio não estar vivo. Mas ficou um ranço. a donzela..ão. deve ter chegado ao extremo da resistência. Ora esta. o pacto.—O do Filgueiras? —Nã.. seu Belmiro. Pelo sim. pois nestes quinze dias não me disse nada que envolvesse Carmélia. Foram namorados quando Carmélia esteve em São Paulo. Receava que Carmélia se casasse com "qualquer um" daqui. e noto que isso de silenciar sobre a moça não exprime indiferença e antes pode ser indício de manhosos e subterrâneos sentimentos. emendei.

O melhor não é isso. —Quer dizer que não haverá doces? perguntei.. pensando nos casamentos de Vila Caraíbas. respondeu. leitão assado. Mas o trivial é ficar mesmo pelo Rio. onde as festas duravam três dias e três noites. com uma taça de champanha. Quanto ao Jorge. . de São Paulo. Doces deve haver para os íntimos. Não passam de filistinos. Por isso. Acabou-se a sua Arabela (mandou-me essa estocada. Então você é que está besta. para corrigir a rudeza da comunicação: —Você não imagina como ficou melosa. —É compreensível. A viúva diz que não é bem uma lua-de-mel. O Jorge vai aproveitá-la para fazer um curso em Paris. Foi a própria Carmélia quem me fez o convite. —Bom. O casamento vai ser na intimidade. —Está certo. Está besta.— Você anda positivamente de má vontade para com o rapaz. Quanto ao mais. A viúva seguirá amanhã ou depois para comprar. Os mais pródigos vão à Argentina.. seu Belmiro. bebidas a rodo. e não faz ainda um ano que o velho morreu.. vendo-me fechar a cara). —Dois proveitos num saco! Mas é pena estragar a lua-de-mel com esse negócio de curso. não há outra expressão. É quase uma afronta a nós todos. dando acento irônico às suas palavras. Preciso reagir: Glicério está-me faltando ao respeito). Com a vitória obtida sobre os elegantes da terra.momento. aquilo. com bailes. para compensar. respondeu. satisfeito. isso. tomando a pergunta ao pé da letra... —E quando é o casório? perguntei." Nesta altura. está numa arrogância insuportável.. O Jorge tem dinheiro a valer e já andou pela Alemanha. não haverá cerimônias complicadas. com ligeiro golpe. seu assalto anterior. lamentei de mim para mim o desperdício da cena que compus no trajeto de bonde e que ficou registrada em outro ponto destes cadernos. fica horas e horas a contar grandezas. Vai ver que nem ficou tão besta assim.. era louco pelo Jorge. —É para já. em estudos de aperfeiçoamento. Depois. É uma noiva perfeitamente vulgar.. —Mas você se esqueceu de que se trata de gente rica e importante. Mas a portas fechadas. com o coração meio agitado. o resto do enxoval. coisas de filistinos. mas recuou logo. —Não é possível! Nunca se fez isso em Minas. Enfim. que lhe perdôo) que sou dos poucos convidados. no Rio. besteiras de enxoval. O dia certo não sei.. (disse-lhe. com o noivado. Realiza-se já. —Isso mesmo. Depois. guardei a grande novidade para o fim: vão à Europa em lua-de-mel. Belmiro. comunico-lhe (nesse momento não pôde evitar um tom de superioridade..

O velho declarou que. Ao desviar-se de um bonde. Na revolução de 30. A paixão se agravou. a ambição de galgar postos e conquistar galões para conseguir a mão da amada. cheia de extravios e incidentes. e nós nos despedimos. senão por violento esforço. esse tenente. uma correspondência epistolar. Afinal. mas o velho fazendeiro continuava duro em sua negativa. Foi quando conheceu a pobre senhora que é hoje sua viúva. O fazendeiro redobrou sua oposição. um casamento de conveniência. o sentido de tragédia. Na revolução de 1932. clandestinamente. e os dois estabeleceram. O velho não se abalou. esta manhã. mas suficiente para entreter o fio do amor. os riscos por que passou ali. que me deixou cansado a ponto de não conseguir. não cederia. filha de importante fazendeiro. já era questão de capricho. por atos de bravura. § 66. que o atirou a um poste. na Rua dos Pampas. Tão cheio. foi um dia cheio de novidades. Nada adiantaram. ao Instituto de Psicopatas. no acontecimento. no setor do Túnel. quiseram casar-se. Como vêem. Não haveria de casar a filha com um furriel. já agora primeiro-sargento. afrontava todos os perigos. a segundo-tenente. que se acha recolhida. para o seu amor. álgido e inflexível. Era uma flor de rapariga. foi colhido por um automóvel. Cresceu. ASSISTI. aos funerais de um tenente da Força Pública. enquanto vivo. no peito do soldado. Apaixonaram-se um pelo outro. era segundo-sargento. Estava casado havia dois meses apenas. Dentro de dois anos. TEMA PARA UMA ELEGIA. a conversa acabou bem. para a moça. Arranjou. Esta bateu o pé e jurou que só se casaria com o seu antigo namorado. Há dez anos. espécie de senhor feudal da localidade. Arriscavase nas mais difíceis diligências. mas o pai fez uma oposição obstinada. Como o namoro continuasse. por mim encontrado entre os que acompanhavam o enterro. morto em circunstâncias dramáticas. p primeiro-sargento passou a sargento-ajudante e. dando-lhe morte instantânea. então simples furriel. meu companheiro de bairro. desde logo. comandava um destacamento policial em pequena vila do interior do Estado. neste momento. Já era hora de se encerrar o expediente. o velho pôs em ação seu prestígio político e obteve a remoção do militar para município distante. levar estas linhas até ao fim. e o golpe transtornou a razão da viúva.Disse isso com tanta raiva que não pude conter uma gargalhada. de parte a parte. referiu-me uma história que vem aprofundar. O professor Barroso. o segundo-sargento conquistou mais uma divisa. logo depois. .

dirige-se para a que lhe é grata aos olhos. Fui hoje cedo à casa deste último. e sua morte veio permitir a realização do casamento dez anos projetado.. a vida que nela morreu.." Barroso contou-me que o homem. sucedeu. fixou-se o dia do casamento. conforme combinei com Florêncio. mas o nosso tenente. agora. Trocam-se cumprimentos comovidos. Não sou eu. no caso. Mas esta percebe o equívoco e lhe diz: "Não. não sabe qual. o ranzinza bateu a bota. de modo insólito e cruel. mas. extremamente pálido. E chorou amargamente. § 67. pelo que me disse. Barroso pouco sabe.Mas o seu capricho só fazia animar o capricho do militar. à imagem longamente sonhada e que era uma imagem do passado. no espírito do tenente. perplexo. Depois de ligeira hesitação. NOVA LUZ SOBRE SILVIANO. ficou inimiga do pai. de ir ver Redelvim. Não me disse o amigo como foi interpretada a atitude do noivo. Barroso não pôde dar à narração a intensidade afetiva do acontecimento. depois se assentou e pôs-se a chorar. Tal como aconteceu a mim—quando procurei Camila e não vi senão uma sombra—o espectro daquilo que fora os seus amores se sobrepusera. ele se prontificou a sair comigo. como Simão Pedro. No meio deste ano. Flevit amarè. calculo como foi extraordinário o que. toda aberta em sorrisos. Pela parte da moça. acompanhada da irmã e de um irmão. Talvez já não houvesse amor. Ele chorou talvez a mocidade. Há uma. então. dentre elas. O furriel de outros tempos era. a fim de . ressequida. porque chegaram a nós pessoas aparentadas com o morto. nem o poderia dizer. garboso primeiro-tenente de nossa milícia. Dada a explicação do meu impedimento na tarde de ontem. ferido nos brios de homem. viçosa. a renovar o alpiste dos passarinhos. e outra. É ela. é a sua amada. ontem. a não ser que também continuou firme no juramento e que. no alpendre. se apoiou a uma cadeira.. E o que importa não é isso. fazendo um gesto de abraço. mas procurar desvendar o que se passou. Combinadas as coisas por correspondência.. ESQUECEU-ME dizer-lhes que a morte do tenente e seu enterro me impediram. e o Romeu foi buscar sua Julieta.. Encontrei-o de pijama. então.. A moça deixa a fazenda para ir recebê-lo na casa da vila. debruçado sobre a mesa. apresentar desculpas (deve ter ficado aborrecido com a minha ausência no local determinado para o encontro) e repetir o convite para a pretendida visita. gasta e melancólica. desde o início da história.

fora à pensão. para um artigo no suplemento da Gazeta de Minas. —Esteve com ele? Como vai? —Não. Julgando improvável uma visita sua a Redelvim. A suspensão do chope me faz quase doido. porém. Você por aqui? —Vim visitar o esquerdista. se existisse alguém com nome tão arrevesado. e disse parecer-lhe melhor que eu as lesse calmamente.. Melhor é que venhas à minha casa. verificou que era chegada a hora de aula. O mau humor é um vício. alegando ter pressa de voltar para casa. dada a hostilidade mútua que há entre os dois. Florêncio respondeu que. então. miudinho como sempre. Silviano nos disse. enquanto for ameaçado pelo Redelvim. —Ora. venha com ironias. E despediu-se de nós. disse Florêncio. que tomei. Para o caso de que você. é um destrambelhado. Florêncio e eu tivemos grande alegria com a notícia. pelo telefone do gabinete do delegado. Simples notas de minha Spicilegia. posto ontem à noite em liberdade. Porfírio. desde algum tempo. num gesto que deveria exprimir desprezo. Preciso falar-te. disse Silviano.. Silviano teve um sorriso olímpico e pôs a mão no ombro do Florêncio. com surpresa. Como de costume. o Abundâncio!. Quero mostrarlhe apontamentos. Afinal.. esse alguém não poderia deixar de ser um acabado imbecil. Quando chegamos à escadaria externa que leva ao saguão do edifício. Que venha também o Abundâncio. Redelvim. disse o Silviano. com certeza. Depois. O regime estará perfeitamente seguro. —Não há necessidade de tamanho açodamento. agastado. vimos. advirto-o de que só me causam tédio e pena. E não quero acabar de ficar.—Venha comigo. Alvitrei que fôssemos. Assim entramos em seu escritório. Devo ficar acima de coisinhas. Sofreia os teus ímpetos. não deixou endereço. se informara a respeito. que descia majestosamente os degraus. entregou-me algumas tiras de papel escritas. conforme o nosso amigo Wolfgang Goethe. apanhara a bagagem e mudara de residência. Já o soltaram. rasgando o ar com o braço. Fizeram bem. Propusemos-lhe uma ida imediata à pensão do amigo. na Universidade. sacando o relógio. Deliberei perdoar-lhe os aleives que me assacou. perguntei-lhe: —Que novidade é essa?. que. ouvindo suas loucuras. E agradeço o convite. à casa de Jandira. —Já falei com você que não me chamo Abundâncio. amigavelmente: —Não se mostre mal-humorado. em .irmos imediatamente à delegacia. Ele a teria procurado. Deveria estar lá. Silviano..

as maravilhosas expressões de Goethe. Como extrair um sentido dessa vã agitação de sombras vãs. porém. Desembarcados. estabelecendo a confusão) é a mais estupenda tentativa de fechar o ciclo de nossas angústias. Platão e Bergson—quem o ignora?—são aedos suculentos. Agora (e como nisto diferimos desses que sempre perseguem seus ideais de pobres-diabos e suas ambições sombrias!). citaríamos aqui. Estranho homem! Que pensar dele. Precisava sair com urgência. no Fausto. um não-iniciado diria São Tomás. mas Newman nos tranqüiliza: To be at easy is to be unsafe.casa. parte desses apontamentos.. aqui. Outros nos fazem divagar e devanear pelos intermúndios além. dessa estratosfera do pensamento—e lidas as notas. até ao ponto de bondes. aliás o eterno: o Fáustico. quando os sinos. anunciam a ressurreição do Cristo. E seguimos juntos. afinal? Eis as notas. Transcrevo. que chegamos ao dealbar dos quarenta e que vivemos em grandes escafandrias mentais. O homem não esgota a Verdade. agora o que nos importa é esse encontro diário com o mistério impenetrável: o sentido da vida e o destino do homem.. e outras palavras eternas com que o altíssimo poeta define o fáustico problema! Tal é a termometria de um constante estado psicológico: a vida estrangulada pelo conhecimento. (verificar o texto. que mostram o estado de espírito do amigo e as meditações em que anda metido. ou seja a nossa aspiração incoercível para a totalidade. Já vão longe os tempos em que o espírito adejou em torno das damicelas encantadoras." A filosofia de Santo Tomás (um filistino. Estamos inquietos. que outra sombra impele? Clemente de Alexandria estaria certo? Deveremos encarar o mundo como. para nós só existe um problema. MAS APENAS O QUE ELE NÃO É. Bebi as minhas próprias cinzas.) Meditar esta tarde nas palavras do incomensurável aquinatense: "O HOMEM NÃO PODE SABER 0 QUE DEUS É. no original. que se acham sob a epígrafe Libido sciendi: "Para nós. A emoção trágica verdadeira não surge em nós senão no dia em que percebemos as coisas no seu ilogismo eterno. as observações hauridas nessas viagens às vezes tão longas e sempre exaustivas —vemo- . Isto de partir de si mesmo e de reduzir o mundo a si mesmo é um solecismo filosófico. Não fora o receio de ser chacinados pela vil raça dos revisores de imprensa.

sopro dum instante. este pobre verme. 4) Estas notas a mim confiadas. O trabalho de lêlas (a caligrafia do amigo é impenetrável). no seu largo estilo silviânico. mas também não é inexplicável (Santo Tomás Aq. absoluta. na essência. deverão fundamentar um artigo seu na Gazeta de Minas. condescende em que se prostre a teus pés este farrapo de um farrapo. ó Transfinito. Que o leitor as aprecie. nem habitará um corpo escravo de pecados" (Espírito Santo— Sabedoria I. prestes a ser tragado no hausto universal! § 68. mas bordeja grandes abismos e procura culminâncias. Tenho sono.) REM MEDITARI—O homem é ordenado para um fim que lhe transcende o entendimento! Daí o ser impossível. A verdade em si.nos vítimas daquela famosa ficção universal. —A vida não é evidente. olhando para as estrelas e erguendo os braços. e os bondes da madrugada já correm pela Rua Erê. eheu! está muito além das nossas míseras possibilidades. no Alto do Cruzeiro. a revelada.). O homem nasceu Para uma condição limitada. Defeituoso. achei-as soberbas. todo conhecimento que repousa na autoridade humana. Só assim conjuramos o desespero de não conhecer tudo: convencendo-nos de que incognoscível não é sinônimo de inexistente. De um modo geral e perfunctório. esclareceu Silviano. AMANHÃ DE 21 DE DEZEMBRO (nove horas). sem a outra ciência. resumi-las e copiá-las deixou-me cansado. Elas me lembram um Silviano majestoso que certa noite. Devem ser cinco horas. ó Imensurável. fazendo estremecer as paredes do escritório. que pode tanger o ridículo. proferiu esta prece: —Ó Inconcebível. UM PROCURADOR DE AMIGOS. conhecermos e atingirmos o nosso fim. Homo: animal metaphysicum. Urge um equilíbrio entre o transcendente e o imanente.-Madruguei em casa . Necessidade da ascese: "A sabedoria não entrará numa alma malévola. assinalada pelo Jules de Gaultier e espantamo-nos do tumultuário e do desconcertante de nossas idéias. j'ai soif d'infini" “Mon ame languissante aspire aux inconnus lointains" (RABINDRANATH TAG. "Je me puis trouver le repos.

que a acorda e envia para o escritório comercial onde entra às oito. as dissensões de pensamento. antes. durante todo o tempo percorrido. Vejo que Redelvim ainda não a procurou também. satisfeita. NOITE DE 21 DE DEZEMBRO. até que tivesse terminado sua toilette e pudéssemos sair juntos. Eram sete horas. e. Será certamente impossível uni-los de novo. Redelvim. Glicério. Por que hão de os homens separar-se pelas idéias? De bom grado. o mesmo não acontece entre Redelvim e Glicério. no momento. a pequena roda não foi sustentada por força própria. com o meu desejo de sociedade. Jandira. uma impossibilidade de comércio e de reunião entre elementos tão diferençados? Bem vejo que. hoje dissolvido. de alma simples. Neste mundo. Redelvim e Silviano. nem pelos misteriosos princípios de aglutinação que regulam as aproximações humanas. disse-me. Voltei à Rua Erê. com tendências aristocráticas. Se Jandira e Redelvim—de um lado—e Silviano e Glicério—de outro—se entendem. —Vou descobrir o urso. é Jandira a pessoa que ele mais freqüenta. sete da madrugada. Minha resposta. conforme diz a amiga. para aguardar o almoço. perguntei-lhe se o nosso revolucionário não tinha estado lá. que não opina. na realidade? Ou este círculo apenas existiu no meu desejo? Os encontros que tivemos. Silviano. sou apenas um procurador de amigos.-Novidades no setor Redelvim. —Como? Já foi solto? interrogou. não evidenciaram. eu sacrificaria minha idéia mais nobre para não perder um amigo. o homem da hierarquia intelectual e da torre de marfim.de Jandira para saber notícias do Redelvim. anarquista. Devo nutrir esperanças. quando entrou na casa comercial. sempre revoltada contra o despertador. Silviano e Florêncio. e isso me admira porque. tantas vezes. despedindo-se com um aceno de mão. ponho-me a rabiscar estas linhas. Noto que fui eu. afirmativa. Florêncio. agravadas pela atmosfera pesada deste fim de ano. este nosso amigo veio procurar-me para agradecer os . Esperei-a um pouco. quanto a uma recomposição do nosso pequeno círculo. Por volta das oito horas. Finalmente. Silviano e Jandira. socialista. causou-lhe uma alegria que me fez lembrar os antigos tempos de nossa convivência. § 69. lhe apressam a dissolução. tranqüilo pequeno burguês. quem criou e sempre procurou sustentar essa agitada assembléia onde atuam forças tão antagônicas. ENTREVISTA COM REDELVIM. A caminho.

quanto aos meios. despertar. disse. Conhecendo a sua energia. durante o "retiro espiritual" (reproduzo expressões suas). que só poderia exacerbar-lhe o sentimento revolucionário e jamais intimidá-lo. tirou todo o atraso. Em suma. alimentando-se pouco. a rebelião teve. dormindo menos. e que a polícia do Rio. abusando dos excitantes. que lhe mandei. mas desorientada. nos meses que antecederam o golpe extremista.livros. Confessou-me que desde alguns anos não dormia regularmente e que. Recordemos a conversação de há pouco: contou-me. por outro lado. durante vinte dias. mais cedo ou mais tarde. Redelvim os viveu agitadamente. não existiam provas de sua participação no movimento. deveria estar com as prisões cheias de conspiradores. Concluiu que ficaria mesmo por aqui e seria. fosse de outro. como diz Silviano. Refletindo. A atmosfera foi opressiva. pelo menos. Aqui. levou. o delegado lhe deu a entender isso. mas está picado pela desconfiança e pela incerteza e se julga um elemento inapto para agir. descansando e meditando. depois dos primeiros interrogatórios. operando essa descarga que deveria desoprimir o ambiente. de redação para redação. de um modo geral. Isolado em pequeno compartimento. Lá. "embora ordinários". de início. não há pedicuros. Acredito também (e isso aconteceu a muitos) que o choque de novembro tenha produzido no seu espírito uma descarga. disse-me continuar contra o Estado burguês e capitalista. acabou por chegar ao "estado de raiva". extraem da gente o que querem"). dissipar as fantasias. passou a encarar o caso corri espírito esportivo e deliberou tirar vantagem da situação. que viesse satisfazer à sua necessidade de terremotos e à sua revolta contra as coisas. como ele próprio denomina sua reclusão involuntária. O que terá determinado tal transformação foi o retiro espiritual. um regime de vida que há anos não conhecia e lhe permitiu talvez uma restauração nervosa. Vivendo inquieto. dar rumos aos indecisos. Não quer cooperar . supondo que o fossem enviar para o Rio. efeitos consideráveis. esteve um pouco inquieto. lendo. posto em liberdade. a princípio. Revolta decerto justificável. não atribuirei essa mudança ao fato da prisão. Aliás. o senso de responsabilidade de cada um. O certo é que Redelvim está diferente. arrancando unhas. nestes vinte dias. acossado pelos credores e explorado pelos diretores de jornal. que foi tratado humanamente na prisão. Provavelmente esse repouso completo lhe ofereceu ensejo para uma revisão de rumos e reflexão mais serena sobre as coisas. Está um pouco mudado. porém. pois não pode fazê-lo em estado de dúvida. Embora haja abortado. considerou que. fosse de um lado. psicologicamente. na expectativa de qualquer coisa extraordinária. Dissipado o receio da remessa para o Rio ("Você compreende que seria bem pau. sobre o assunto. afinal.

Mas ele veio para Belo Horizonte desde rapazinho. Pus-me a pensar em D. de cujo nome não me lembro. mas ouvi vozes lá dentro e voltei. e perguntara a si próprio se a ação de Stalin terá um sentido apenas particular e episódico ou. vencida pelo orgulho. Redelvim. Maria Júlia. depois que o puseram em liberdade. teve pena do infeliz e decidiu desposá-lo. então. —A velha anda muito doente e foi morar na fazenda com o meu tio. respondeu. na íntegra. informou haver recebido uma carta da mãe. porém. a mãe se casou com um pobre homem que sofria um incômodo nervoso. dos quarenta. Meditara bastante sobre o conflito entre Trotsky e Stalin. nem lhe foi perguntado. Pareceu-me que alguns imbecis jogavam com ela. Por último. Passava. quando o conheci. decerto impelida pelo mesmo sentimento com que teria tomado o hábito de irmã de caridade. ficou furioso e dispôs-se a não mais ir vê-la. sem dúvida. nem tendo perto de si o Redelvim. Acostumou-se. contrariado. Está bem. estava brigado com ela. Não o faz há anos: ela é que aqui vem. como suporiam os sujeitos maldosos. Redelvim combateu violentamente e em vão o projeto. vai abster-se da ação e será apenas um espectador. Realizado o casamento. para lhe dispensar cuidados de mãe. se comprazem na dor. exprimirá uma impossibilidade de realizar-se. a respeito. achou também que o Brasil não está suficientemente preparado e ainda não surgira a equipe que poderia organizar o pós-revolução. que me oculta uma reviravolta mais profunda. quando o pai sucumbiu a uma hemoptise. até quando lhe convier. Viúva desde muitos anos. Nada mais disse. —Cheguei até a porta do seu apartamento. pois teme os desvios duma ditadura. se a polícia deixar. após longa enfermidade. Procurei-o em casa de Jandira e soube que também lá não esteve. e que vivia a tremer. Tempos depois. resolvera contrair segundas núpcias. Por isso. Depois de pensar maduramente. . então. Creio. Estou querendo ir passar uns tempos lá. É dessas criaturas que têm vocação para o sacrifício ou que.para uma ação em cujas diretivas não possa influir. Acredito que se Redelvim houvesse ficado em sua companhia o afeto maternal lhe teria ocupado inteiramente o coração e não a deixaria disponível para outros afetos. Não compreendendo isso. Perguntei-lhe por onde andou metido. ao papel de enfermeira e. a idéia marxista. não encontrando jeito de continuar a exercê-lo depois da morte do marido. pelo contrário. no caso. sempre que pode. pedindo insistentemente que fosse vê-la. Até logo. Sua probidade intelectual foi.

num gesto trágico e cômico ao mesmo tempo. esse homem teve de alimentar-se. há três anos. nos últimos meses de vida. Levoume logo a um bar. então: "Ele tomou um caldinho. o velho Carpóforo levava a bebida ao estômago. Como gostava muito de beber. não o quis privar do vício. o médico. à saída da Secretaria. Enviuvou pela segunda vez. no antebraço. para consolar o paladar da passagem da bebida por outra via. beberei nem que seja pelo funil! —Funil? Por quê? Dando uma gargalhada e segurando-me com a mão peluda. —E agora. E referiu-me o caso de um tabelião Carpóforo. doutor. galhofeiro. independente do organismo. Há alguns meses tem estado enferma e quem fará a viagem agora é o Redelvim. e. o tabelião informava: "O que ele comeu hoje foi um arrozinho mole. Estava transfigurado: era o Florêncio antigo. Deve andar perto dos sessenta. amável. Bom será que a mãe o retenha algum tempo na fazenda. § 70. que o sabia condenado à morte.enquanto estivesse na companhia do segundo marido. perguntado pelo médico sobre a natureza do alimento tomado em determinado dia. Belmiro velho. Habituou-se a tratá-lo como um indivíduo à parte. dispensando-o de ir à procura dela. FLORÊNCIO foi buscar-me hoje. Vítima de um tumor maligno que lhe comprimiu o esôfago a ponto de não lhe permitir a ingestão. esclareceu. freqüente na família. exclamou: —É verdade.." O "ele" a que se referia era seu estômago. O HOMEM DO FUNIL. para dar a grande notícia: obteve permissão para voltar ao chope. por via bucal. desde então. Nem sei mesmo explicar como a tuberculose. mesmo de líquidos. Mas a velha vinha a Belo Horizonte sempre que as circunstâncias permitiam. Se ele voltar à vida antiga não a viverá muito. —O médico apenas me recomendou que não tomasse mais de dez por dia. Florêncio relatou o caso com espírito. bochechava com o resto que havia no fundo do copo. amiudou as visitas ao filho. Contou-me também que. E. Parece-me que só os nervos o sustentam. ainda não o colheu em suas malhas." Ou. que conheceu numa cidade do Sul de Minas.. por meio de sonda introduzida diretamente no estômago. Não lhe contei ainda a história do funil. Servindo-se de um funil. ilustrando a narrativa com .

depois. de certa forma. Devia primeiro indagar se povo existe! A mim. e eu estava muito resfriado. —Quem é? perguntei. me fez sentir isso: nada há de mim que possa interessar. E. pois. ONDE APARECE O "DOUTOR ANGÉLICO" CANSADO de escrever. o equívoco se desfaria sem ser preciso abrir a porta. Convidou-me um dia a tomar sorvete. se não lhe pudesse dar proporções monumentais. pois que me dirijo sempre a um leitor imaginário? Prometi a mim mesmo que nunca escreveria um livro. a outrem. § 71. Assim pensando.) Ia.adequada mímica. quando alguém me bateu à porta da casa. pude ver que de mim nunca sairia um monumento. Bem me pareceu que havia de ser o Otelo. Jandira jamais foi tão acertada como quando. (O leitor é. na leitura. Perguntei-lhe. um escritor frustrado. nesse caso. a uma de suas discussões com Redelvim: "Persegue-me com a sua mania de povo. Não tive tempo de assustar-me. já destituídas de intimidade. o "Perrexil"). Respondeu-me que fora o professor Otelo. com alguma veemência. de um modo especial. responderam. pus-me a ler um pouco. Aceitei o sorvete e apanhei uma gripe pneumônica. e incerto quanto à conveniência de prosseguir nestas notas. Não receberia ninguém e teria cães ferozes para estraçalharem . com preguiça de levantar-me. qual o médico a que recorrera para obter a volta ao chope. o homem que tem o senso da hierarquia!" E expôs-me sua idéia de construir um castelo e comprar o título de Conde de Revila y Gigedo (nesse tempo amava Dolores Gigedo. compraz-se na criação alheia. "É o medicamento específico". ainda que em parte. procurei. então. folheando autores prediletos. pois reconheci logo a voz do Silviano e passou-me rapidamente pelo espírito a lembrança de um dia em que. Incapaz de criar. andando a passos largos. irritado. no alpendre da casa. o amigo se referia. Por que continuar tais confidencias. Não acredita na medicina (salvo na sua psiquiatria. disse-me. e. —É o Conde de Revila y Gigedo. depois de dado um giro pela cidade. satisfazer. Talvez fosse algum extraviado. logo ao iniciar a tarefa. um pouco rudemente. ao monstro literário. em que—talvez por ser meio gira—se tornou grande especialista) e faz humorismo quando o procuram para outras moléstias.

. Surpreendemo-lo em sua biblioteca. o Saisset o coloca entre Aenesidemo e Kant! Quero que você assista ao embate: vou fulminar o Doutor Angélico! Ah! ah! ah!. sempre suspensa. Acabo de fortalecer minhas convicções a respeito do cepticismo de Pascal. Silviano levou-me pelo braço e foi entrando portas adentro. Silviano lho tomou das mãos. passando-o para as minhas. além disso. encontro. objetei ao Silviano que. para mim. ao Conde de Revila y Gigedo. —Não. seguia-se-lhe. ora caprichos de criança. por isso. que o fato de ter sublinhado o trecho signifique haver o amigo encontrado nele o estudo de caso análogo ao seu. como se vê. Próximo à ponte levadiça. Embora tomista. Não é por acaso que conserva um retrato do Poeta sobre a mesa. Chegados à casa do Jerônimo. Vista-se. uma série de depoimentos de indivíduos do tipo "espírito romanesco". Entretanto. como chegar a uma conclusão? Voltemos. a novela Parabosco? É possível. ("Doutor Angélico" é o Jerônimo. Silviano não me deu tempo para cumprimentos. segundo me informa o Silviano. assinalado a lápis. que lhe trouxeram da Itália. porém. Dar-se-ia que Silviano. É o que há de definitivo.aqueles que viessem perturbar as meditações do Pensador. leigo no assunto. Seria inútil qualquer resistência. Quero que venha. até que ponto faz teatro para os outros e para si mesmo. Silviano assim o apelidou por causa de sua profissão de fé tomista. Já lhes disse que o nosso amigo não se deixa medir pela bitola comum: ora tem gestos soberbos. disse-me à queima-roupa: —Vim buscá-lo para irmos juntos ao Doutor Angélico. sugestionado pela leitura. que. Retrato autografado. acompanhei o filósofo. Aquela história de Parabosco & Ferrabosco. pela sua cabeça passam grandes coisas e também coisas disparatadas. emprestado pelo próprio Silviano. Mas. ver-se-ia um cartaz: "Domínios privados do Conde de Revila y Gigedo". Uma idéia bem d'annunziana. sustenta com ele interminável discussão sobre a posição de Pascal perante a Igreja. minha presença seria talvez ridícula. Leia isso. o carro está à porta. no final.) Imaginei que deveria ser sensacional uma luta entre os dois. Jerônimo é um pascalizante. Porfírio. também. Você vai testemunhar um espetáculo soberbo! respondeu-me. e. e disse: —Leia isso.. Aberta a porta. a folhear um pequeno volume de Luc-Benoist: La Cuisine des Anges. de há muito. um capítulo sobre imaginação difluente. seu Angélico. Não sei. . Imagine. por exemplo: folheando outro dia um volume de Ribot. houvesse improvisado.

. para mim.. Sua má-fé é evidente.. cortou o outro. Silviano puxou-o. depois.. Pascal é arrolado entre os cépticos. pela manga do paletó.. mas penitenciou-se. numa suspensio judicii indagatoria. em 1670. —La vieille chanson. —Leia. perro aleivoso!" —Pascal foi um herético. nos últimos anos. "Mentis pela gorja. com um sorriso vitorioso. continuou Jerônimo.. Toda a crítica moderna da França é unânime em reconhecer que ele superou o seu cepticismo.. O Bremond responde a tudo isso. você. Michelet. . mais tarde. agastado. —Os jansenistas. —Oh!!! exclamou Silviano. exclamando: —Mas. seu energúmeno! —Ora. Não respondeu de pronto e se pôs nervosamente a tirar livros das estantes. Silviano tirou partido da situação: —Não quer confessar que os Jesuítas são suspeitos.. Jerônimo ficou um tanto perturbado com a arremetida. faça o favor. não me faça perder o tempo. gesticulando nervosamente e dirigindo-se a mim.—Que é? O Saisset? perguntou Jerônimo com ar desdenhoso. publicaram.. Bréhier. gritou Jerônimo. colocando-os sobre a mesa ou empilhando-os em minhas mãos. então. respondo com Cousin. emprega argumentos dessa natureza? Eu me apoio nos próprios textos de Pascal! E em qualquer edição que você queira.. Leia. Você sabe que os jansenistas. com o sofisma das edições mutiladas pelos jansenistas. de suas heresias jansenistas! O abade Beurrier.. entende? Ao seu Beurrier.. no máximo. Você incide no mesmo erro da corrente racionalista do estúpido século dezenove.. Ou melhor. Jerônimo.. que é de Jesuítas. voltando-se. Silviano. dando uma gargalhada. com calor. —Lá vem você deslealmente. —Absolutamente! tornou o Jêronimo. deveras. Já lhe disse que caiu. veja simplesmente a Enciclopédia Espasa. Desde as edições de Brunschvicg e Strowski. Pascal reconheceu os seus erros. . que o assistiu. — . para poder conversar com um sofista de sua laia. —Leia. . aparteou Silviano. afirmou que "il est mort en bon catholique". Já lhe disse que... com enfado. uma edição dos Pensamentos suprimindo o que lhes não convinha. Você verá que Pascal é um caso típico de suspensio judicii sceptica. respondeu Jerônimo. "parfaitement soumis à l’Eglise et à Notre Saint-Père le Pape". sem prestar atenção ao Silviano. não se insiste mais neste grosseiro erro. hein? —Estou apenas procurando forrar-me de caridade cristã. .quanto a Pascal. ..

por se tratar de um tema familiar ao Silviano. Silviano. pois que o espírito é ativo. disse: —E. se perderam em tais funduras. ele assim é. Lembrando-me do pensamento lido pouco antes. Mas Jerônimo. a braços com a minha incapacidade de debater o assunto.. ágil e eloqüente. Silviano tomou-me a defesa. Por outro lado. Silviano pareceu abalado e. Ao que Jerônimo respondeu tratar-se de outra atitude impossível.. encontrei palavras que pareciam adequadas a mim e. quando os dois sutis doutores vieram buscar-me. dizendo ao Jerônimo que não declaro dúvida. Teremos de duvidar da própria dúvida e. tu ne me chercherais pas si tu ne m'avais trouvé". travando acalorada disputa nos domínios da teologia. interessado. Talvez por gentileza. meditando.. então. de Pascal. Foi o fim da conversa. . passei a um quarto contíguo. porfiam em procurar a Deus. já não duvidamos. A certa altura. própria para cochilos. Fui ver os dois. Mas.. origem de tamanhas querelas. Jerônimo procurou diagnosticar o meu caso. tendo nas mãos um volume dos Pensamentos que o Jerônimo deixara nelas. Até àquele momento eu conseguira entender o que diziam.. com um sorriso condescendente. que me senti impossibilitado de acompanhar a discussão. —Impossível. ia prosseguir no capítulo. a dúvida não subsiste. Foi o bastante para que se ateasse nova discussão. atalhou. Para repousar o espírito. dizendo que vivo em dúvida e isso não é possível. Silviano lembrou que eram onze da noite e Joana deveria estar aflita. as minhas palavras. deliberei dar um ar de minha graça. sem o terem ainda encontrado. Jerônimo provocara o desabamento. Não era nada: mexendo desajeitadamente na parte superior de uma das estantes. Só é admissível isso como atitude provisória. e disse que eu pertencia ao número daqueles "infelizes e razoáveis". desde então.. E ali cochilei. com o barulho de livros que desabavam de uma prateleira. Tendo eu ficado quieto. Tive a impressão de que se passara um tempo considerável quando despertei.E por aí continuaram. Voltei e fiquei a folhear o livro.. aliviando-o da forte tensão a que os amigos o obrigaram. se acreditarmos na dúvida. pondo-me a mão sobre o ombro: —Mas Pascal também escreve: "Console-toi... para mostrar-me que notava minha presença. nem afirmar. Despedimo-nos. onde havia uma cadeira austríaca. foi feito para afirmar e não pode estar inerte. Silviano aprovou. Estavam cansados e combinaram uma trégua até ao domingo seguinte. muitas vezes objeto de suas conversações comigo.. no entanto. Minha situação é de não negar. O espírito foi feito para afirmar.

por não ter . o nosso Doutor Angélico! Foi pena que você não assistisse à última fase dos debates. Também não quer ir para o interior. dizendo-lhe. e é possível que eu venha a tomar gosto por esse gênero de polêmica. Apanhou o vício da literatura e só acha graça nisso. GLICÉRIO colou grau hoje e fui assistir à cerimônia. ali. mãe ou namorada. A família mora nos confins do Triângulo e não pôde comparecer ao ato. Como vêem. Não encontra. que isso não poderia ser senão uma atitude provisória. mas acabou no ilícito comércio literário. Instruíram-me bastante. estudou esperanto. Ainda estou um pouco aturdido pelas coisas que ouvi e não me admirarei de que —ao tentar resumilas nestas páginas—tenha dito algum disparate. virou integralista e. O bacharelando Glicério de Sousa Portes saiu pelo braço do amanuense Belmiro. noiva. Além disso. a propósito. abraçou o espiritismo. Procurei consolá-lo. Andou tentando vários caminhos.De volta. Confessou-me que não se julga habilitado para coisa alguma e há muito tempo esta idéia o amofina. Deixa ou não deixa a Seção do Fomento Animal? Pega. o coronel Portes. E nesse setor não espera produzir nada. cá fora. numa fallacia consequentis e num abuso de fallacia plurium interrogationum. Não sabe o que vai fazer do diploma. também. Terminada a festa. da situação do Sepúlveda (o do bilhete de loteria). Lembrei-me. A indecisão e o desânimo de Glicério me causam pena. na Seção do Fomento. à maneira de Jerônimo. Por que não? Fali na vida. aos cinqüenta anos. disse-me. os atrativos que lhe descobre o Filgueiras (o de lunetas douradas) e vive em tentativas: colecionou selos. E lembrei-me de mim. Não pode comigo! Não pode comigo! Separamo-nos em uma parada de bondes. não se sente atraído pela profissão. traficando entorpecentes com Silviano. criou canários de briga. § 72. haverá de encontrar o seu rumo. ainda não achou coisa a que se aplicar. por fim. não perdi a noite. cada bacharelando saiu de braço dado com a irmã. quantia que os advogados novos.. PERPLEXIDADE DE GLICÉRIO. que. no seu conhecido estilo: —Ora. não estão ganhando. os seus seiscentos mil-réis. por motivo de moléstia do chefe. Veio para mim com as delgadezas e impertinências da Escolástica! Mas apanhei-o numa ignorantía elenchi. inclusive o de rapaz elegante.. que teve alguma imponência.

Foi bom para ela: está quase noiva de outro. O Senhor esteja convosco. Era um gosto ver essas coisas. se não me engano. Compram tudo feito. Tomamos um chope.") Depois. —Bom dia. Coisa de filis-tinos. e comigo não haveria casamento. É o que Glicério informa. social. com as peças do enxoval. não é sintoma disso? (Ocorrem-me umas palavras bem significativas de Gregorio Marañón: "En el hombre adulto la práctica del Diário equivale a una supresión progresiva de la personalidad activa. bordados. tudo vem feito. uma donzela levava um ano a preparar enxoval. mandava vir rendas de Grão Mogol. Irão mesmo à Europa. Mister Belmiro. Que tal uma ida ao Rio. —Vamos tomar um cafezinho quente. —Merry Christmas. Este Diário. basta a . Com certeza. MAIS UM NATAL. Daqui a dezoito dias. MERRY CHRISTMAS. Giovanni. Terão de esperá-lo no Rio. presente do Glicério. Emília volta da missa. aprendia a arte do bilro. para assistir ao embarque. passeamos pela Avenida e nos despedimos. em caixetas. Só zarpa a 18. Aquilo era um passatempo. Hoje é assim. Qual foi mesmo o vapor que Glicério disse? Oceania. cosia com amor. acrescentando que a viúva já regressou do Rio. seu Belmiro. § 74. Dois proveitos num saco. SERÁ NO DIA QUINZE. com o vestido novo que exumou da canastra e cheira a naftalina. de su autor. § 73. Vestido de cetineta. Fazia riscos. En realidad un Diário equivale a un lento suicídio. em caixetas. Como vai a Marianina? E o Pietro? O relógio de repetição dá oito horas na sala de jantar. com grande indiferença? Ora. amigos.encontrado rumos. Não se falou em Carmélia. Muito obrigado pelo Chianti e pelas castanhas. Agora. Em Vila Caraíbas. SERÁ no dia 15 de janeiro o casamento. Mister Prudêncio. perguntei-lhe para mudar de assunto: —E a Nonoca? Acabou-se o namoro? —Você anda no mundo da lua. ou coisa que o valha.

isto é. Para todos os efeitos. torna-se razoável uma ida ao Rio. Penso nesse . o caricatural. § 75. fique com o seu mito e deixe a moça passear. Convivo com essa criatura há seguramente um lustro. aceitando a opinião geral da Secretaria: era um aluado. esteve aqui em casa para fazer companhia a Emília. para torturar-se. você é um pobre flautista. —Que é psicopata? —Psicopata? —Sou psicopata. Nesse caso. O SENHOR pode dizer-me o que é abjeto? —Para que você quer saber isso. Ou então declare-se de uma vez. E tudo por causa da indiscrição de haver lido uma página do seu Diário. Foi essa indiscrição que deu novo rumo às nossas conversações. quando lamentei a quase dissolução de nosso pequeno círculo. Carolino. humanização do mito etc. Masoquismo espiritual.idéia de ir ao Rio para excluir a de indiferença. Seja lógico. Dom Donzel da Rua Erê. Estabelecido que uma coisa não é outra. para assistir à partida. que ficou para trás. para a fazenda de Vista Alegre. naquela noite. Disse. neste ano de 35. Devo corrigir o pensamento pessimista. e passou-me despercebida até hoje. antes. inexploradas. conversamos longamente. Carolino? —O senhor acha que eu sou um homem abjeto? —Ora. no dia da prisão. que já não estou em idade para arranjar novos amigos e hoje me convenço do contrário: havemos de fazer descobertas até o último dia. você não passa disso: um masoquista. de seu espírito. No curso de uns oito ou dez anos não lhe conheci senão o pitoresco ou. você amou o mito e não a moça. entretanto. Que diria o velho Borba? Um Borba teria furtado a moça e a levaria na garupa do cavalo. Você não tem nada de abjeto. sou? Perguntas desse gênero Carolino sempre me fazia. A vida é um constante descobrimento e uma retificação constante. Fique sossegado na Rua Erê e deixe-se de histórias. Lembre-se daquele arranjo seu: "o mito Arabela". Diga que ainda ama a Carmélia. Mas você não é Borba. como o Jerônimo. Coisa algo parecida ocorreu-me com relação ao Silviano. Como disse atrás. Seu destino é sonhar. Naquele dia. impraticáveis donzelas. Nunca lhe prestei muita atenção. na Rua Erê. um outro Silviano tem crescido a meus olhos. E morrerá donzel. descobrindome regiões novas. ou melhor. então. apenas o fui conhecer mais a fundo quando. NOVAS AQUISIÇÕES. deixe-se disso. Sim.

e Tome. ORA BOLAS. pois o dinheiro é pouco e os pretendentes. insisti em lhe pagar o trabalho. Todos o julgavam desmiolado. está se aproximando do Giovanni e do Prudêncio Gouveia. nem ocupar posição igual à de companheiros de infância. procura retribuir. Se eu for. Que pensará Tome dessas aventuras a que há tanto tempo não se entregava? Carolino. quando o supôs débil de espírito. UEM quiser fale mal da literatura. Às vezes me adianta os pagamentos. direi que devo a ela minha salvação. Desde que. veio repetir-me coisas do Piemonte—já de mim conhecidas. escrevo dez linhas.excêntrico e bom Carolino. comecei a cultivá-lo. que me comparece nesta altura da vida. certa vez. em sua caduquice. com ela. como entende. Procedente de boa família. parte de economias próprias. fazendo-os do próprio bolso. Esta consiste em separar. ainda encontrou meios de se lhe afeiçoar. parte provinda de herança. não pôde estudar. por eqüidade. E não aceita remuneração de nenhuma espécie. mesmo. a aquisição do novo amigo. mostrou-me uma caderneta de depósito no Banco: possui setenta contos. Deu para freqüentar. torno-me . § 76. pela rua. com ele dando uma prosa. a estima que lhe voto. Carolino procurava apenas isso: uma pessoa com quem pudesse conversar. Foi o que notei esta manhã. O pai também se enganou sempre. pela manhã. as contas que devem ser pagas no fim do mês. e ele acabou como contínuo quando deveria ser amanuense ou—por que não? —primeiro-oficial. Mas. a ele contadas pelo velho—e quando me disse que foi visitar seu Prudêncio. levado por simpatia e curiosidade. muitos. que conversa é esta de ir ao Rio? O melhor seria ir à Vila e não pensar mais nestas coisas. incumbe-se de uma tarefa que sempre me pareceu transcendente: a seleção dos credores. hoje bem postos na vida. Já não me pergunta se é uma criatura abjeta. Calcula minhas despesas. que parece desejar adotar outros amigos meus. recebe o dinheiro para os pagamentos mensais. Ê inteligente e dedicado. a Rua Erê e fica a conversar com Emília até que eu me levante. Emília será confiada ao Carolino. Carolino pega a ave e passeia. Celebro. Emília aprecia-o muito. Tornou-se um personagem indispensável na Rua Erê. quando. Quanto a mim. Venho da rua oprimido. Parece que lhe tirei o complexo de inferioridade. Assumiu a gestão de minha complicada contabilidade. ao Rio. nesta página. Quando. pois é muito seguro. há pouco.

É um homem poderoso. somos espectadores sem compromissos. nos comoverá ou nos suscitará graves meditações." E Emília não fez má cara. Lá se foi o ano—ora bolas. suas mágoas. que espia para. sorri e diz: "Ora bolas.. Será mesmo no dia quinze—ora bolas. Sempre há um argumento para os homens de boa vontade. e vim. Falando por alto com o Chefe. EIS-ME nesta mui leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Fique lá uns dias e traga-me um relatório. Mas é um indivíduo autônomo. Vou combinar isso com o Diretor.olímpico. Senti desejo de vir. mandar alguém ao Ministério da Agricultura. O indivíduo que representa no palco nos fará rir. Descobri o segredo do Silviano: transferir os problemas para o Diário e realizar uma espécie de teatro interior.. § 77. Bravo! Comecei bem a justificação de minha fraqueza alegando as imposições naturais da vida e daí concluindo que não devemos maltratar o irmão corpo com outras privações. Terminado o espetáculo da noite. ou sua inquietação. mesmo." Primeiro de janeiro—ora bolas. Deixei Belo Horizonte com antecedência de alguns dias para não dar na vista do Glicério. depois de um chocolate. para lhe fazer companhia em minha ausência. e nada temos que ver com suas palhaçadas. quando toquei no assunto. e isso deve ficar escrito aqui. para o caso em que eu venha a ralhar comigo mesmo por haver cometido esta proeza: "A vida já. Vi a donzela com o noivo—ora bolas. uma vaga idéia.dentro. . Os amigos andaram sumidos— ora bolas. De que vale a gente viver a contrariar-se? Por si mesma a vida já nos impõe tantas limitações." E é isso mesmo: por que havia de mortificar-me? O desejo de vir não foi veemente: era. EIS-ME NO RIO. o comediante se encarnará em nós e teremos de tolerá-lo. Durante o dia. apenas. Mas tudo conspirou a favor.. para estudar os métodos de propaganda postos em prática pelo técnico americano que o Governo Federal contratou—disse. Mas à noite. Em verdade vos digo: o que escreve neste caderno não é o homem fraco que há pouco entrou no escritório. Parte de nós fica no palco enquanto outra parte vai para a platéia e assiste. como defesa prévia. com a pena entre os dedos. partiu dela própria a idéia de se chamar o Carolino.. este se prontificou a arranjar-me passe e diárias: "Precisamos. tomamos o bonde e vamos para casa sossegados.

Divisei. Não fui muito adiante: encontrei militares de terra e mar algo tocados. distraído. mas. o vulto amável de Sofia e tive dó do Rubião. Examinando as coisas a fundo. tive a meu lado Dom Casmurro. O Rio antigo traz-me imagens machadianas que amei na adolescência. Aceitei-os. Velho conhecido mineiro.. Tenho tentado. e tratei de retirar-me com dignidade. a um canto. num entra-e-sai de teatro de revista. sobre o mundo. Pode-se. Muito malandro. Desde cinco dias não faço outra coisa senão freqüentá-lo no cais. pela noite. ainda.. que me pareceu puxado por burricos. Aboletei-me a um canto. como já ali me achasse. contraditório desejo de ver consumados o casamento e a partida. Anda enfurecido e sombrio. mana Rita. mas tratei de esquecê-los no bureau da Seção. com o peito deprimido. a necessidade de rever o Rio (seis anos sem o ver) e de espiar o Atlântico.Glicério ficou informado apenas da versão oficial dos acontecimentos: comuniquei-lhe que o Chefe. Em certo bonde. ali. Havia. na praia. que nasceu dos flancos da outra. pensei. algumas damas de poucas ou nenhumas vestes me propunham em francês coisas não muito adequadas ao meu ofício e condição.. e . com o amigo. Jamais me passara pela idéia uma visita a paragens tais. Sofremos apenas difusa melancolia. encontrado no Ministério. pensamentos sutis. mana Rita fazia insinuações (Cale a boca. que é o que amo. também fui dar comigo em regiões não machadianas. Nossos amigos cariocas não sabem o que vale o mar para nós. Os passos me levaram. etc. Atrás. Andando sempre. a que dão o nome de Juá. em vão. levou-me ontem a um local encantador. não teremos vindo somente pelo amor. A meus ouvidos. beber uma cerveja modesta. deste Rio torto e encardido. em tal comissão. a certos quarteirões movimentados. Safei-me daquele mercado estranho. moveu-me a curiosidade de examinar os transeuntes e o local. jogavam voltarete e tinham. ribeirinhos do Mangue. e lobriguei. também. de Minas. Percorrendo a Rua Matacavalos. Ali nenhuma ilusão era possível.. Estaremos amando neste momento? Creio que não. e a pé (não aprendi.). me assusta e intimida. numa travessa. pela manhã. com saudade. me havia designado para ir ao Rio. com grande surpresa minha. que começaram a olhar-me de soslaio. fez disso motivo de troça e quis dar-me uns "endereços". contemplando uma sociedade que está sempre a renovar-se. dois vultos que deslizavam furtivos à luz escassa dos lampiões: Capitu e Escobar. também. naqueles cavalheiros que andavam de tílburi. arrastando sua língua difícil. a usar convenientemente os ônibus). Perco-me. conversá-lo: está inacessível. na contemplação comovida deste Rio velho. A cidade nova e brilhante.

Agradeci. sem atinar com as coisas. conhecido em casa de Jandira. Sr. Não rende. As saudades .. § 78. Alguém. um irmão dalém-mar quem me salvou. mas a moça reagiu à altura. a solidão está-me castigando muito. este corpo magro teria ficado hoje no asfalto da Avenida. porém. que chegavam em grandes automóveis.. despedimo-nos. Talvez não tenha vindo de Portugal senão para livrar um amanuense incauto das rodas de um ônibus assassino. Contou-me que estava de passeio no Rio.. Queria certamente desfrutá-la. —Que foi isso. Cruzando-a em hora de intenso movimento e descuidando-me de observar os sinais. de charuto entre os dentes. mesmo. haim? Mas. quando pude identificar uma voz: —Se não o pego de jaito. de corpo longo e pernas curtas. quando recebi um forte puxão no colarinho. o da Biblioteca Nacional. —Boa pequena. vosmecê iria desta pra melhoire. pois. Neste quarto sombrio. namoro. Borba? Um pequeno susto. Levantei-me e. então. aquelas criaturas deslumbraram o pobre solteirão da Rua Erê e no seu coração instilaram fermentos perturbadores. Fez-me perder muito tempo. perfumarias. Era o mesmo homem importante. Sr. que por pouco me asfixiava. a mim: era o doutorando Azevedo Leão. Borba. Deixei-a com suas literaturas. fui com ele a um café próximo. É uma pequena leoa. verifiquei que houve. não é? (assumia um ar paternal de esculápio). sobraçando cãezinhos peludos. comovido.. um animalejo daqueles custa o preço de uma coleção de clássicos Garnier. tal a violência do puxão. e fui arrastado até o passeio. Fossem damas da alta-roda ou simplesmente mundanas de luxo. ainda um pouco tonto. me reconhecera. entrara nele e. se não é o golpe. Foi. Sentado no mosaico e já cercado de curiosos. com a amiga. O pirata se iludiu. louvando-lhe a destreza e segurança dos músculos. Devo ter tido uma vertigem.. ganhar o lado oposto. . Perguntei se tinha vindo há pouco e pedi notícias de Jandira. a passos rápidos. ao luso amigo. dirigiu-se. Recolhi-me ao hotel. com grande surpresa. POR pouco.. Andando pela Avenida vira um ajuntamento. Dei o fora. Pelo que me disse o companheiro. perfumarias. O PROVIDENCIAL IRMÃO LUSO. —Quase o esgano.pus-me a olhar mulheres finas e possivelmente caras. estava meio tonto. que estava na roda de curiosos. e sabe defender-se.. Depois de andarmos um pouco a pé. quis. Pela conversa. Mas.

Aos primeiros dias. senti-me vazio pelo resto do dia. Ou fico um pouco mais? § 79. Pareceu-me que desde cem anos eu as contemplava. depois. andei. Cada onda lhe traz formas distintas. perguntei-me se foi para "aquilo" que viera ao Rio. está presa a uma condição melancólica: foi feita para ser vista apenas uma vez. correr o mundo. só os encontrei com os olhos quando subiam para o vapor. Nenhum interesse nas praias fluviais. Margeei longamente. fazendo resplandecer cristaizinhos de mil cores. . traços novos de vida. Tornaram-se coisas velhas. Amanhã. Eram viajantes perfeitamente vulgares. apiedei-me do rio. PARTIDA. Metido no meio da multidão. O mar me perturba. cansado. Tive a impressão de que me haviam roubado qualquer coisa. sem ver a partida. § 80. de rio e floresta. vem vindo. como centenas de outros. numa viagem. deixarei o Rio. Na luta para alcançar o mar. Ao voltar. dezoito. ocupados com vertiginosas imagens sofregamente sorvidas do exterior. e coração e espírito se fecharam para as coisas de dentro. Irritado comigo mesmo. procurando-os ali.de Minas me trabalham surdamente. onde o sol caía reto. Preciso voltar para Minas. até sumir-se no azul. havia muito que ver. Já nenhum interesse havia na escura. ele descobria o que de mais surpreendentemente belo tenho visto em perspectivas naturais. Estou cansado. A gente fica pensando nas terras do lado de lá. PARTIRAM. Uma saída de navio é sempre coisa triste. cada vaga. procurando-os aqui. Mas o cansaço vem vindo. densa mata. que é vário e a cada instante se recria. e já não penso senão em voltar. da floresta e da serra. vai-se afastando. no cais. Mal os vi. Não assim o panorama do mar. Foram feitos para ser vistos apenas uma vez. fica desejando conhecer tudo. A paisagem. enfim. VOZES ATLÂNTICAS. Andei. Entretanto. Vai-se afastando. pelo mesmo caminho. mas sempre retrocedendo para o mar. que me atraía. Se fiquei triste. um grande rio. dentro de uma Nau Catarineta que jamais chegaria a porto algum. nem houve eclipse do sol. foi com a saída do navio. coisas vistas. A terra não tremeu. E não aconteceu nada de excepcional. RECUEI instintivamente.

também. nesta noite extraordinária. exalto-me e quero compartilhar de sua energia cósmica. A voz do grande paralítico. ao pé do qual o pobre Belmiro. Por que me perturba. Ficaram-me desejos confusos de amor e de ani-quilamento. Que segredos guarda. devassando todas as idades. Ainda estou a ouvir. surdas. os olhos sem brilho. assim. como a uma sinfonia wagneriana. Em alto estilo apocalíptico nela encontraremos resposta às nossas questões. . que sabemos do amor? Impossível fixá-lo. porque na linguagem do cosmos. Há.. Procurei. e contudo inquietante. nos convida a romper nossas limitações? Dir-seia que nos propõe a medida da latitude e da profundidade das suas águas inquietas. era um verme a rastejar. neste. As trombetas do Juízo Final deverão ser. assim. teríamos um sentido. o pensamento revelador.Pareceu-me que do mar me vinha qualquer mensagem. ora múltiplo. Conhece todas as gradações. mas dominadoras. as vagas que batem no rochedo. Que imperiosas determinações me vinham das águas atlânticas? O corpo sem nervos. arrastando-se como um trovão longínquo. ora uno. atlântico. Esse Belmiro avultava cada vez mais no espaço e percorria o tempo. a alma sem forças receberam um hálito forte. a um tempo distantes e próximas. nos seus recônditos. Se ao menos o amor se definisse. senti-me lúcido e triste. Uma grande voz' confusa se erguia do fundo das águas. que é intraduzível. sufocado entre montanhas. Ouvi-las-emos é dentro da alma. permanente. captar a surda mensagem. Eis que surgiu um Belmiro poderoso e elementar. tal como ouvimos a voz do mar.. quando devia amesquinhar-me. como o marinheiro do poeta. inexprimível por palavras. Um Belmiro dominador. De onde nos será possível descortinar o alto panorama? Qual será o caminho—o da humildade ou o da dureza? Deixando o Arpoador. Nossa alma se inclina sobre si mesma e procura. o mar? Diante dele. Ele se compõe da variedade e da ondulação. encontrar-lhe a expressão real. sem a interferência dos sentidos. Por que o mar nos transporta às reflexões sobre o amor e a morte? O amor e a morte encerrarão o destino do homem? Por que. Mas. para que lhe tenham paralisado a língua? Ainda assim o grande paralítico nos manda sua fala. e seu objeto é ora fixo. ora móvel. uma inteligência e um anseio de comunicação que nos fazem estremecer.

talvez. não se mexeram de seu lugar. Tirante a ausência da pobre Francisquinha. desta Emília velha. as transformações interiores me devastaram. Quero possuir o espírito pacífico destes velhos móveis. onde o relógio de repetição bate horas caraibanas. agora. Para que maior felicidade? Seu espírito. COMO esta Rua Erê me enternece! Cá estou de novo. homem! Que carga de ossos! Ao passo que se aproxima dos cinqüenta. nem sombra. que nos abre de longe os braços. Feliz Florêncio! Enquanto Silviano se consome em escafandrias. Vivi um ano com intensidade superior à da soma de muitos anos de vida. depois. nas intermináveis chapadas do sertão. Retorno. A VERDADE ESTÁ NA RUA ERÊ. Terá passado o furacão? Até então. Ano difícil. Ali estão. Redelvim se perde em furores. quis explicar-se. este que se foi! O velho Borba não confiava na paz das coisas e dizia que os reveses vêm. Depois. pequenas árvores que não dão frutos. mas o caniço pensante. nem possuem raízes medicinais. Florêncio é o mesmo homem de chapéu-dechile e ventre honrado. Entretanto. Mau físico para um agente de seguros de vida. Assim foi em 35. repousa na ordem de coisas que encontrou e foi estabelecida sobre um sistema de ficções . É aqui nesta sala de jantar. que não indaga. mas não me dá o desejado repouso. A quietude suaviza os meus ardores. que se torna grandiosa à medida que seus cabelos branqueiam. os acontecimentos me arrastaram no seu tumulto e me fizeram viver. homem sem abismos. ano tempestuoso. Jandira busca aventuras para se iludir e Glicério se mostra perplexo. inquieto. e ganha expressão honesta e repousante. onde não subsiste nas coisas o sinal das atribulações. nada se alterou no curso destes doze anos. e melhor fora não ter saído. Por que procurar um sentido individual de existência? Há. sem outro destino? Deveria conformar-me com isto. o ventre se lhe vai arredondando. gritando na Avenida: —Você precisa comer mais feijão. que encontro um refúgio embora precário. molécula puramente pictórica.§ 81. Tudo está como deixei e como sempre esteve. louvado Deus.. apenas para compor a paisagem. As coisas. a vida me parecera de tal modo parada que supus estar no passado o sentido de minha existência. Não estarei aqui somente para integrar o vasto painel humano—ponto de luz ou de sombra. pois Florêncio é a vida na sua manifestação mais confiante e tranqüila. Silviano o considera primário. Emília continua grave e exata. A verdade está na Rua Erê e não no Arpoador. à paz desta casa imutável. uns sobre os outros.

Mas o chefe não deixou: "É assunto urgente." Achei graça em toda essa história inventada pelo chefe. o chefe o olha com reservas. como há doze anos passados. Não creio que me forneça uma certeza que me encha a vida. Glicério se abeirou de minha mesa. Serviu-se do acontecimento para fazer o que Glicério denomina uma "figuração". Todo artifício será inútil e. Como eu. dava ao Glicério um sinal de sua hostilidade. encetar de novo a marcha e procurar o caminho de Florêncio. prossigamos no caminho até aqui percorrido. O diretor tem interesse pelo caso. A ele devemos a modorral pacatez da Seção do Fomento. Glicério quis ver a peça. instintivamente me vou avizinhando do Silviano. por aqui tivemos uma: o casamento de Carmélia. Percebeu que já não me mantenho de pé. a sério. § 82. nesta altura dos acontecimentos. Propõe-me uma experiência. Seu equilíbrio de belo animal humano não é. porém. por que não te transformas em paz de espírito? Tudo está como dantes. e.metafísicas. SEÇÃO DO FOMENTO ANIMAL. A família aprovava o namoro e viu. acaso. fazendo crer que ele e o Fomento são levados em conta pelo diretor. para dar o bote. Paz física da Rua Erê. mas que fazer? Quem me oferecerá terra firme? Jerônimo? Jerônimo está-me espreitando. quanto à minha capacidade de fazer. com a mesma força. Mas queria apenas puxar conversa e me contar o casamento de Carmélia. com pesar. correu os olhos distraidamente pela primeira das cinco laudas de papel e achou-o excelente. —Pois. Talvez só encontre nele areias movediças. limpou o pince-nez. e. ideal? Impossível. Insiste em que minha atitude há de ser provisória. onde os homens esperam pachorrentamente a aposentadoria e a morte. a viver em interrogações. pedindo-me novidades do Rio. aliás justas. morais e políticas. Foi uma festa . Respondi-lhe que pelos jornais as teria mais recentes: eu chegara havia três dias. Inútil. céptico. encaminhando-o "à consideração superior". que se achava. Dir-se-ia a Bela Adormecida no Bosque. NOSSO chefe de Seção é um pândego: pegou-me o relatório. de há muito. À hora do café. não acredita intimamente nos relatórios nem no Fomento. e esta figuração tinha em vista os funcionários e duas pessoas que o visitavam naquele momento. Queria dar-se importância. o malogro dos planos da moça. Desde que o rapaz deixou a Nonoca. sem a Bela e sem o Bosque. um trabalho daqueles. por outro lado. nesse caso.

estimo-o bastante e estou habituado à sua companhia. Continua incapaz de amar. abandonará a Seção. há alguns anos. Quero ver se mais tarde consigo um lugar de auxiliar jurídico. Glicério pareceu-me sincero.... Isso é coisa do século passado. Pouco antes de sairmos. Compareceu na casa o que há de bom e de melhor. Carmélia! Casou-se afinal? Mas você não disse que a cerimônia seria singela. —Acessório? perguntou Carolino. penso também em outra coisa: os outros se movimentam. Noto que o casamento de Carmélia não o abalou.. § 83. que nos servia o café e ouviu a conversa. ponderou. Se ao menos atingisse a beatitude burocrática do Filgueiras. o jovem bacharel voltou à minha mesa para dizer que. —É serviço mais próprio para mim. como diz o Silviano. um dia destes. Tenho coisas sérias em que pensar. acrescentei. mulher é acessório. A VIDA SE ENCOLHE. E pequenas não me faltam. —E você. Sua retirada dá-me uma sensação de desamparo. portas adentro? —Mas isso não impediu que a viúva convidasse pessoas do seu círculo. se deslocam. ao escrever estas notas. No mais. muito abatido? —Não me venha com as suas.. A notícia me entristeceu. DEDIQUEI todo o domingo à leitura dos quatro cadernos de que já se compõe esta espécie de Diário. a fim de alcançar o Oceania.fina. sim. Estava uma noiva linda. Só eu resto e envelheço nesta vida modorrenta. rompem. respondeu Glicério com dureza. Ficarão lá somente dois meses. progridem ou regridem. dissimulando meus passos no Rio. Seguiram no mesmo dia para o Rio. O Senador Furquim lhe obteve uma comissão no gabinete do Advogado Geral do Estado. —Embarcaram. uma vantagem encontraremos em deixar no papel o registro dos acontecimentos de nossa . no dia 18. —Ah! É verdade. Que é acessório? Eu sou um acessório? —Não te metas. mas.. Não havendo outras. efetivamente. Afinal. —Embarcaram sempre? Pensei que essa história de Europa não vingasse. Pedirei ao Glicério que não o trate assim. Eu é que ando cansado delas. Já não terei com quem conversar na Seção. E. pois o Jorge se diz ansioso por trabalhar. Carolino teve um sorriso desapontado e retirou-se com a bandeja. enfim.

Só conhecemos. Carolino. que sempre foi pouco afetivo. Jandira se afasta cada vez mais. Redelvim. e. quase me parece estranha. loucas fantasias. Creio que já escrevi tudo o que havia em mim para escrever. no ato de escrever. Pouco há. que inexperiência.vida: veremos surgir aos nossos olhos. Quantas contradições. A vida dos amigos apenas se me revelou quando incidiu na minha. Outras se sucederam com largos intervalos. que passa. repelindo as solicitações de um presente que se insinuava. Ah! É verdade: Florêncio não me tem faltado. Não tenciono escrever romance. . Como um ano. o calor se vai. Já não encontro. Que dizer dele? É um homem sem história. sob mil formas. quase que escrevo dia por dia. Dentro em pouco. E os amigos se desviaram de mim. Apenas Silviano. talvez nada tenhamos de comum. Vive no seu mundo de Pereirinhas e de Azevedos Leões. que escrever. que desconhecimento de nós próprios! Há pouco mais de um ano escrevi a primeira página. A vida ganhou movimento. Leio um pouco e caminho pela cidade. para instrução e advertência nossa um ser bem diferente daquele que supúnhamos encarnar. o caderno toma a feição de Diário e nele passo a expor fatos. a satisfação de outros tempos. ando sempre. mas deve ter arranjado outros. Não procurarei os amigos: se não me aparecem é porque já não me querem. Eu não renunciara ainda ao projeto de um livro de memórias e me consumia em tentativas. Acabou o namoro com o tal doutorando. a vida alheia pelos seus pontos de incidência com a nossa: o mais é conjetura ou romance. Jamais entrei nos seus domínios íntimos. o movimento amortece. e ando. modifica o aspecto das coisas! Minha vida se reduz a Emília. em companhia do Carolino. Anda pela fazenda e dele não tenho notícias. pois não dá sinal de si. aliás. Isto é: encolhe-se na Rua Erê. como Judeu Errante. permanece a oferecer interesse. como dentro de um caramujo. De agosto a janeiro. tomou o seu rumo. Depois. ingênuos pensamentos. impressões. Glicério deixou a Seção e passou a trabalhar nos serviços de advocacia do Estado: foi o bastante para afrouxar nosso convívio. e nisso está sua felicidade. também. colorido. Continuar a acompanhar a vida dos outros? Isso seria interminável. emoção. foi porque nele encontrei possíveis itinerários para as minhas incertezas. Às vezes não encontro lugar que me sirva. se mergulhei em Silviano. as coisas desbotam e se tornam mais frias do que antes. Agora. ainda que pouco encontradiço. Giovanni e Prudêncio. Mas continua Florêncio. no meu espírito e disputava lugar às imagens do passado. quão diversos estados de espírito. Nestes vinte dias não me saiu sequer uma linha.

encontrei um pobre cão em ridícula postura. para ter em paz a consciência. É o que presumo com indiscutíveis fundamentos. para o livrar do incômodo apêndice. Qualquer coisa me liga a esse cachorro magro e abandonado que encontrei na Rua dos Pampas.§ 84. E cá o ponho nesta página. OUTROS dez dias de solidão. com a resignação de quem espalhou ventos e acabou colhendo tempestades. através de uma lata de lixo. Está fazendo um livro. não deve oferecer paisagens atraentes. Não é muito recomendável estar fuçando as coisas e quem as fuça deve agüentar as conseqüências. para tortura de um focinho possivelmente magro. e ele ignorasse minhas intenções. De tal modo insinuara ele o focinho numa lata de lixo. pôs-se a correr como pôde. Ainda o vi ao longe. pois fui encontrar o rafeiro já um tanto cansado. que esta se lhe prendeu à cabeça. o corpo apoiado nas dianteiras e o focinho para cima. e não resisti mais: fui procurar Silviano esta noite. dando com a lata aqui e acolá. dia e noite. Bem podia ser que ele me agradecesse o benefício com uma dentada. apesar dos esforços desesperados do animal. Era um autêntico "vira-lata". Estava fora. que me recebeu com bondade. ofereceu-me café e contou-me que o marido anda enfurnado em casa. esse que surpreendi em tão difícil conjuntura. na direção das estrelas. Simpatizei com o cão e lamento que os animais não estejam a cobro do ridículo. a escrever sempre. Talvez seja esta a razão . a lata para cima. mas também me fez rir. O "vira-lata” deveria estar preparado espiritualmente para semelhantes situações. ou aromas amáveis. Joana. esta noite. isto é. UM "VIRA-LATA". VOLTANDO para casa. na meia-noite silenciosa da Rua dos Pampas. UM POUCO MENOS PESSIMISTA. não mais largando dali. deixei-o consigo mesmo. á escrever. Que pensaria ele naquela situação? O mundo. refleti. Como eu me aproximasse. a julgar pela miséria orgânica do resto do corpo. Fez-me pena. com as patas traseiras em repouso. § 85. batendo a lata em quantos obstáculos encontrava no caminho. Mas o cão não era porventura permeável às palavras de eterna sabedoria. Afinal. que por aí circulam nos adágios.

Não repare.. O velho Sobral é bom chefe e amigo. —E você? Isso é mais importante. —E de amores? —Amores. o par já maduro. Lá cheguei à hora em que se retiravam o professor Barroso e D. Saiu hoje apenas para ir à casa do Jerônimo. e carregue os problemas da turma. Este velho anda meio caduco. de que o Jerônimo tem estado sempre com ele. . enlaçando-a pela cintura. Esta repreendeu-o: —Você é sem modos. deixe essa mania de dramatizar. assim. satisfaz? —E a sua satisfaz? —Bem. Resolvi dar um sentido mais esportivo à vida. vou aproveitar as forças que me restam. doutor (o Almirante tem a mania de chamar-me doutor). Descobri uma coisa chamada flerte. Já não há Pereirinhas. e toquei para a casa de Jandira. resolvi aproveitar a quebra do meu compromisso íntimo (o de não procurar ninguém). e eu era uma idiota. Jandira não está. com malícia. o patife?). Belmiro. Você acertou em nos deixar de lado. belezinha! disse Barroso. —Siga o meu exemplo. que vá na parola. E você me intoxicava com literatura. com um sorriso perverso. —Não dramatize. —Caduco por sua causa. Jandira olhou. O que faço é procurar viver. Vocês me andavam envenenando com histórias. mas cada vez andam mais juntos. não. Aproveitaram o rápido encontro para me comunicar que estão noivos. Continua no emprego e foi aumentada no ordenado. meu velho? A acolhida me animou um pouco. que se afastava: —Nasceram um para o outro. isso é verdade. Fica falando bobagens com seu Belmiro. É o que faço no momento. com suas loucuras (sabe que tentou conquistar-me. virando-se para mim: —Afinal.do seu sumiço. disse. brigam. seu Belmiro.. você por aqui! Por onde tem andado. que leva agora. São uns patetas. Redelvim queria tornar-me revolucionária. Não têm culpa de ter sido este encontro retardado pela vida.. ainda. disse-lhe. Não o pus de lado. Arranjem outra. Anita. anedia como supus.—Olhe. —Mas essa vida. Informou-me. E. consultar a biblioteca. já a descerem a escada.. Silviano pensava desesperar-me. Barroso. complicando tudo. não hão. sorridente. falou. lançando à noiva um olhar lúbrico. Sendo apenas oito da noite. Contou-me que tudo vai bem. Brigam. Glicério não passa de um convencido.

E depois fez uma confidencia imprevista: Redelvim assediou-a também. voltava. Queria que fôssemos morar juntos. propôs-me afinal. Ia sair. Diz isto apenas para posar. Ótimo! Imagine se eu iria casar com aquele maluco! Agora me escreve cartas de dez. antes de partir e logo que saiu da prisão.. afinal. —O extraordinário seria que não me chamasse imbecil.. Perguntei-lhe se estava possuído de um sentimento burguês chamado ciúme. Insistiu em que não se tratava do sentimento capitalista denominado amor. doze páginas. DEPOIS de prolongada ausência. com todos os efes e erres. Sugeria o concubinato puro e simples. Mas.. na estacada! O idiota é capaz de ter pensado que fraqueei em minhas convicções. diga-lhe que não se considere triunfante com as coisas que me ouviu. dando uma gargalhada. da casa de Jandira. Vendo que eu não cedia.. à .. Aborreceu-se. Continuo onde estava. disse eu. Em uma delas tachou você de imbecil. Obedecia apenas ao instinto. Dentro em pouco. surge-me. . de ódio. o Azevedo Leão. nada devendo prender-nos. mas continua interessante. Li o trecho: "Quanto ao imbecil do Belmiro. continuou.. o Silviano. estendendo-me uma folha de papel: —Trouxe apenas a parte em que se refere a você. Eu ainda não lhe falei que agora cuido de outras coisas. SILVIANO E SEU PLANO DECENAL. que tolice! Alguém me quer? Quem poderia casarse comigo morreu há anos em Vila Caraíbas. —Pois você se engana. deu para perseguir-me com propostas. Aconteceu que eu me achava num momento de dúvida e de fraqueza. mas depois fiquei irritada. Respondi-lhe que sim. Ultimamente. um casamento. Regressei. e encontrou. desde que um dos dois não quisesse mais o outro. § 86.. Dizia que não havia de casarse como um burguês. Vou buscar a carta. aqui. depois da prisão. E sempre desejável. O resto são declarações amorosas. Bem que seria capaz de lhe propor casamento. —Imagine que coisa divertida. de modo algum. É fabuloso! A princípio tive pena." Achei graça. o Barroso e a Anita a jogarem. Quer que eu admire seu fervor revolucionário. embora não lhe interessasse reproduzir a espécie.. Jandira me perguntou se acreditava na sinceridade daquelas palavras. menos pessimista. Mudou muito. quando me veio ver. Ora.. a propósito de que desencadeou sobre mim o seu furor? —A propósito de uma conversa que teve com você. Quase me bateu.

quando Silviano. logo empós. como lhes era possível. folheando as notas escritas em papel grosso e com tinta roxa. de modo catastrófico. Conta coisas mui secretas. com a perspectiva de um desabamento. sempre com os olhos nas pastas. Inútil dizer que todos os psicólogos modernos consideram o amor uma doença. apenas os títulos dos capítulos e o da obra serão no idioma de meu dileto Sêneca. intranqüilo. (Sempre que me repreende. sem maiores cumprimentos.sua procura.. então. começa a ter a intuição do problema. "Eis que. Depois de uma pausa respiratória continuou: —Evolui. ainda. Estive recolhido em graves lucubrações. Capítulo Evolutio Veneris. —Magnífico! Sempre achei que você deveria fazer isso. lançando sobre a mesa. que mantinham. —Não sejas impetuoso. que compreende a espécie amor. como que referindo-se a outra pessoa. presumivelmente preciosa. tentando arranjá-las a jeito. falou. o precário equilíbrio. no capítulo Cogitationes privatae. —Joana me disse que você esteve lá. Porfírio. o . com estrépito. Tenho um Diário. Eis o fruto delas! E indicou. aos quarenta anos. folhas de papel que. que remonta aos longes de minha infância. alude ao morbo sagrado (capítulo Sacer morbus). não cabendo dentro das pastas. mas o autor de De constantia sapientia e De tranquillitate animi. Não me sendo possível escrever. passa a tratar-me na segunda pessoa. com o braço estendido. retirou de sobre a mesa as pastas que ali se mantinham em duvidoso equilíbrio e me assustavam. a carga. adoecido e passado longos anos em uso de comidas leves. todo o texto em latim. Não o Velho. Fá-lo-ei em Memorabilia. embora passageira. em forma de memórias. no qual o homem. Sentei-me.. Assentou-se de novo e. sobraçando duas pastas de cartolina. Eu pretendia evitar o desastre.) Levantou-se e. primeiro. e nele encontro material abundantíssimo. pondo as mãos sobre os meus pulsos. havendo. lhe advém a preocupação com os alimentos e escreve o capítulo De usu ciborum. intenta escrever a sua vida —De vita própria. foi-me expondo o plano da obra: —Silviano. a seu lado. Acossado por grandes aperturas financeiras. o Retórico. já ao dealbar dos trinta anos. —Larga! Não vês que me vais tumultuar as notas? Conversemos. como desejaria. disse-me. porém. trata da sua infância e adolescência. Primeiro. isto é. declarou. Sofreia os teus ímpetos! Nada viste. de tocar nos papéis. quando ele me bate à porta. resolvi escrever a minha vida. com energia. —Há dois meses. ameaçavam despejar-se pela mesa e pelo chão. para alívio meu. no herói o sentido de Vênus. impediu-me. com solenidade.

ao dealbar dos quarenta. Carneades e Sexto Empírico. então. pretende libertar-se da tristura de fera em jaula. e atravessada a crise política (Libido dominandi).. Já vem você com nugas. respondeu.. a gana de sentir. Transpõe. continuou. com a soberba ênfase. de novo. cínicos. bem sua.. farto de prazeres ilusórios... porém. Antístenes e Aristipo de Cirene. Bem achadas as suas epígrafes latinas. O herói ataca. de sol a sol. versou os bons autores e se afez ao vinho capitoso da filosofia. —Respiguei aqui e ali. prosseguiu. desde verde. encontra. et pour cause matrimoniado. gravemente. Je prends mon bien ou je le trouve. dialéticos. o capítulo Ars semper gaudendi. No final. forças para reagir e adota a filosofia lusa do "não te rales". "Aos trinta e cinco anos. suspirando profundamente. Nela encontrará a Grande Consolação (De Consolatione Philosophiae). "Não se fazem esperar as conseqüências.. então. Eu me lembrava de ter visto. "Bendita a hora em que lhe veio tal intento! exclama. O herói continua a cultivar a ataraxia de Pirro e o cepticismo radical de Agesilau. o Amor. desde já. terá de haver a suma dos capítulos. isto é. em alguma parte. vem-lhe grande onda de cepticismo. de gozar "em" ou "com" todos os sentidos. sentia vontade de o ler. Euclides de Megara. Aenesidemo." concluiu. o herói atinge a via triumphalis da sabedoria e da libertação. que. Dentro de sua melancolia profunda.. o aeternus hostis. alcançando os domínios da verdadeira e perfeita filosofia (De vera et perfecta philosophia). que é outro capítulo. preparando o capítulo-mestre.pensador solitário cai em pessimismo e vê que pecuniae obediunt omnia— como diz o Eclesiastes—"ao dinheiro obedecem todas as coisas". Convinha precaver-se contra alguma imitação involuntária. Escreve.. Por ele norteado. pôde. sempre existiu no herói. agora.. Porfírio. "A Libido sciendi. Porventura isso interessa? Pouco importa que o . num supremo esforço. da vaidade de toda ciência (De vanitate scientiarum) e apreende a sutileza das coisas (De subtilitate rerum). o majestoso pórtico. confiava em que não lhe faltariam forças para atacar uma obra de tal porte. Surge. então. —Diga-me. Conhece. subir a grande montanha! Dedicado ao labutar intelectual. coisa parecida. o que pensa. Respondi que me parecia interessantíssimo o plano do livro. hedonistas e pirrônicos sobre ele se atiram. e. Donde o capítulo De omnibus dubitandum. aí. o capítulo máximo. desde os trinta e cinco anos. Eis que Silviano. . esclareceu o amigo. em grande retorno. Estava comovido. as grandes meditações sobre a Libido sentiendi.

Vai certamente reformar tudo. entregavam-se. todavia. um tanto desanimado com a minha mesquinharia. É um plano decenal. um problema.Dei um passeio pelo parque em companhia de Carolino. talvez. Cantar-lhes-ei baixinho estes versos de Molière: .evangelista João me tenha fornecido epígrafes para três capítulos. E saiu apressadamente. Quanto às minhas meditações próprias. junto ao tripé de suas máquinas. Deu-me pesar que a conversa não durasse mais tempo. Sentado à sombra de uma gameleira. Bem. eram cruzados por dezenas de barcos. Ainda tenho os olhos cheios de sua luminosa mocidade.. Enfim. tenho mais em que cuidar. sai outra. Súbito.. outro conceito da vida. O plano era notável.. nem aos grandes doutores! disse. moças e rapazes invadiram o jardim. inclusive do que seja vera et perfecta philosophia. em matéria de compreensão! Deverei concluí-lo aos cinqüenta.. Porfírio. Não poderei exceder-me! Não me faça objeções idiotas. —Não poderei exceder-me a mim próprio. a jogos infantis e corriam e brincavam. Pensou que fosse coisa para já? Como é ignorante. achome na força culminante do espírito.. brilhantes de sol. Já lhe falei o que precisava e talvez tenha errado em ter falado. cheio de gente. você já terá. Voltei ao principal. É o defeito das obras escritas em tanto tempo. enfadado. Na ilha próxima. Mas Silviano se encoleriza com as menores observações que eu faça. As notas que tomei até agora são a síntese do pensamento filosófico que veio até a nós. Fotógrafos se mantinham solícitos. fiquei a folhear o Hermann e Dorotéia. Do mesmo modo se porta.. em alegres pares. arrisquei-me a dizer. Só para delineá-lo gastei quase dois anos de estudo. MANHÃ DE 28 DE FEVEREIRO. então. que poderia alcançar grandes proporções. Quanto tempo gastaria para fazer o livro? —Talvez uns dez anos. quando permaneço calado. § 87. —Surge. o bar do alemão. dizendo-lhe o que desejava ouvir: devia mesmo prosseguir no trabalho.. Às vezes me parece que você não vai além do Abundâncio. e os lagos. à espera de clientes. Projeta-se uma coisa. MOCIDADE. Até logo. enquanto Carolino andava de bicicleta pelas alamedas. Aos cinqüenta. ou que uma frase apanhada ao acaso me descortine grandes paisagens. Adolescentes. que dança diante de mim neste velho escritório. respondeu.. carecia abrir-me com alguém..

e passaram a repelir-se imediatamente. que os camaradas me olham com alguma reserva. . Já não tenho. com quem conversar. Qui nous ôte le goût de ces doux passe-temps. imaginando que mal lhes noto a presença. para ter mais esta presa. Volto a preocupar-me com a velha questão: que vim fazer neste mundo? Até agora nada realizei. de ha muito. e isso é grave para uma pessoa que foge de conversar consigo mesma. Profitez du printemps. Dir-lhe-ei que terá nada mais. Pressentem." ". . le temps 1'éfface. é certo. mesmo. grandes abismos entre nós. Mas Jerônimo insistirá. . como duas forças opostas. imutável. E. pois. Grande presa. porventura... conversaram um pouco. supondo-me alheio a tudo. Já não tenho com quem conversar. A SEÇÃO DO FOMENTO se tornou inabitável com a saída do Glicério. Havia de ser uma coisa épica: há dois anos atrás se conheceram. tentando novamente catequizar Jandira. Vage de glace vient à sa place. Talvez tenham mágoa de mim. no seu rebanho de almas. Creio. A estima que lhes dedico terá a natureza da que voto ao Giovanni ou ao Prudêncio Gouveia. Talvez conseguisse mais. aimable jeunesse. além disso. pelo Silviano. Resta-me Carolino. uma fisionomia definida. mas se alimenta antes do silêncio que da conversação. É constante."Profitez du printemps de vos beaux ans. durante as horas de expediente. são menores as possibilidades de qualquer realização. respeitando a hierarquia burocrática. que não se renova. que um presente de grego.La beauté passe." § 88. UM DIA COMO OS OUTROS. Percebo o cerco: adivinha minhas fraquezas e faz-me uma ofensiva em regra. para diante. Mas Carolino se conserva distante. Que poderia encontrar de novo nestes velhos companheiros? Todos adquiriram. . Serei. . Seria interessante promover um encontro entre Jandira e Jerônimo. apenas o tal arbusto da chapada? Jerônimo continua a enviar-me recados. nada menos. pois é um terrível catequista.

disse Emília. para o chope do costume. oferecerei um sorvete ao Jorginho e contar-lhe-ei histórias do Gigante Brasilião. à hora do almoço. consegui vencer mais este dia morno da Seção do Fomento. paremos por aqui. se não houvesse o plano da Memorabilia. enquanto as crianças tomavam sorvete. pelo menos por algumas horas.Surge-me uma indagação: atingirei o Jerônimo. Poderíamos recordar. na história de Parabosco & Ferrabosco Ltda. Sim. Misturaremos as nossas dúvidas e tatearemos na grande confusão. O marido pode não achar graça nessas coisas e minhas costelas já não agüentam pancada. da velha Maia e de Francisquinha devem rondar. Ando em fugas freqüentes. O Florêncio nos espera. mais que em redor de mim. Passarei. Que pena Glicério estar ausente. Imagino essa prole. ao servir-me o prato. uma gorda ama alemã. Mas. Eu e Silviano poderíamos escrever uma novela de parceria. Soou a campainha. . É a senhora Jorge de Figueiredo. NHÔ BORBA me apareceu. se algum dia eu seguir as águas deste. . as mãos pelos cabelos de Carmelinha ou de Jorginho. por via do Silviano. no local do costume. comovidamente. com certeza. Já não é donzela. . se algum dia encontrar no Parque essas crianças e se a ama for pessoa de boa cara. Já não é donzela. como a que vi outro dia. o grande prédio. Onde andarão? Em Ostende ou em Biarritz? Estejam onde estiverem desejo-lhes felicidades e prole. O chope é uma solução. mandando encerrar o expediente. Havia muito que não me falava em Nhô Borba. nem Arabela. mesmo de modo platônico. há de pensar sempre nos velhos. Entretanto. vou perguntar-lhe se a história acabou ou continua. NHÔ BORBA. Certamente já construíram. Terão. . Por falar nisso. com os olhos carregados de imagens e o espírito cheio de . como o Silviano. Está bem. que é isso? Estou arranjando todo um enredo. na Praça Sete. proseando com o Fritz na sua língua arrevesada. de bota e esporas pedindo café e falando que a Chica está no meio dos anjos. o prudente é não falar em mulheres dos outros. que bem poderia ser do velho amanuense. De que pensamentos se alimentaria senão destes? Os vultos do velho Borba. nem Arabela. sentada a uma mesa do bar. ou o Silviano se perderá comigo no seu mare magnum? A última hipótese é a mais provável. Mas. § 89. os tempos de Arabela. em torno dela. amigos. com saudade. Apanhemos o chapéu e apressemo-nos.

É uma figura dominadora: para ela se transferiu a força do velho Borba. como no tempo em que ela me punha ao colo. vazia. —Venha comigo. chama-me "excomungado". que a substitui como pode. Lembra-me o desgosto que se estampava em sua fisionomia. Lá não há chope fresco. enquanto eu . —Nhô Borba não falou mais nada? perguntei-lhe. Como avulta. Pouco ou quase nada fala. A velha Maia tinha. a figura de Emília! Está velha. como o faz. Que pensará de mim? Às vezes ralha comigo. bem velha. Levou roupa de banho e passava quase o dia todo na lagoa. e há de estar permanentemente embebida nessa atmosfera caraibana. impedindo-a de ir à cozinha. Chamo. como fez hoje. que sonhava mandá-las estudar em Diamantina! Vivendo só na fazenda e em meio de antigas escravas. sua amiga Josefa lavadeira. Mandou arreiá a besta e dis-qui-ia na roça do Corr-go. que lá permaneceram depois do 13 de Maio. FIQUEI outros quinze dias sem mexer nestes cadernos. e no carnaval não havia a desculpa dos negócios. ou conte um sonho. à Zefa ou ao Carolino. e a pele encardida mal cobre os ossos. porém. resignava-se. Foram criadas como bicho-do-mato. pois a vida se torna vazia. para fazer dormir. de resto. vivendo dias que se passaram há vinte ou trinta anos.preocupações. grande tristeza. LAGOA SANTA. Houve outro carnaval: passei-o em Lagoa Santa. a que se aplicar. para fugir das recordações e não ser tentado pela Avenida. disse-me. a alma simples de Emília não encontra. é a figura dominadora da casa. em companhia do Florêncio. também. Emília e Francisquinha aprenderam com elas o pouco que sabiam do mundo e da língua. A gota ciática muitas vezes a prende ao leito. Coitado do velho. Mariana impôs: ela e os meninos precisavam tomar um pouco de ar. o velho não pôde ver que a ignorância é meia felicidade. como se fosse eu o interessado no chope. mas deve amar-me bastante. Florêncio não foi por gosto. No seu desgosto. então. quando Emília ou Francisquinha (antes de se agravar a perturbação desta última) falavam errado em sua presença. mas. É raro que me comunique uma opinião. mas há boa cerveja. nesta casa. sinto-me quase uma criança. Dirige-se a mim por monossílabos. Contudo. Como isso doía ao Borba. —Falou não. § 90. A seu lado. Belmiro. espírito mais conformado. Creio que já não tenho mais nada para escrever.

na sua renúncia. não sei em que se ocupou. Não gostou muito da minha precipitação. e Silviano é quem está certo. ou à noite. com quem o Florêncio travou logo relações. pois. na Praça da Liberdade. Havia três ou quatro moças bonitas. as moças o abandonaram. Diverti-me. Felicitei-o. De manhã. com a chegada de uns rapazes. mas compulsória). disse. talvez. dá prosas intermináveis com os dois. Certa manhã. E de Redelvim não há notícias.. Vou.. que me fez a esmola de ficar aqui em casa com a Emília. é o melhor. suas palavras me indicavam que havia. —Mas isto não quer dizer que eu me afaste da roda. amigo Florêncio. travou relações definitivas com Giovanni e Prudêncio. Imaginem que figura faria eu. depois. andou a meditar na Serra do Cipó. —O direito é árido. Glicério deve ter ido aos bailes dos clubes elegantes. Perguntou-me gentilmente pela Emília e prometeu uma visita à Rua Erê. que. Lendo-se qualquer coisa mais atraente. Apenas provisoriamente (enquanto tomo gosto pelos arrazoados) farei abstinência. § 91. a mil e tantos metros de altitude.) A conselho de um dos companheiros.. Que permaneça na fazenda. sem a menor consideração. pois amarguei bem meu retorno às donzelas. mais adequado à sua situação de bacharel. O amigo Carolino. Quis apresentar-me: pedi-lhe que não o fizesse. Está muito satisfeito com o novo emprego. Ou com eles joga escopa. . baniu a literatura de suas cogitações. encontrado um rumo. afinal. trouxe-me um calção e queria por força que eu o acompanhasse. Foi preciso energia para resistir... (Amabilidades: estou certo de que não virá. RÁPIDO encontro com Glicério. este lhe cancele o diploma de clerc. no balcão do botequim. e adotaram os novos companheiros. Belmiro. A verdade é que já passamos. receando. chegada essa notícia ao Silviano. ESTÃO DE VOLTA. aproveitando-se de um pequeno resfriado que reteve Mariana no hotel. durante o carnaval.. Por falar em Silviano. Quanto a Jandira. perde-se a coragem de mergulhar nos tratados.lia meia dúzia de livros que carreguei comigo. fazer este sacrifício. quando não está comigo. à sua custa. soube que. compulsória (estou convencido de que essa renúncia não é virtuosa. exibindo este corpo magro e desconforme para a sociedade que deixou Belo Horizonte e foi brilhar na Lagoa. durante minha ausência de três dias.

deu-me esta informação: —Sabe que a Carmélia e o Jorge vêm por aí? Deveriam chegar ontem ao Rio. cessada ela. Parece que a viúva não anda muito bem e pediu que voltassem. que nem me pediram desculpas. pois o carro parará. Lá se foram com seu namoro de lua-de-mel. Uma chuva inesperada me havia retido quase uma hora no. tendo verificado que se aproximava a hora do expediente da Seção. havendo doença.. e trazia placa de Berlim. quando já não havia perigo. e ali irão morar. Assustado. fiquei a passar as mãos pela roupa. dei ridículo salto para um lado. caramanchão do bar e.. pelo menos. Eram Carmélia e Jorge. recebi apenas salpicos. Já se foram os dois meses. Mas. Ouvi risos por detrás do pára-brisa. ou. e só a buzina. boato de doença. ali fiquei mais algum tempo.. para ouvir uns restos de opereta que o alto-falante. AGRADEÇO-VOS OS SALPICOS.. Haverá. Na verdade. e a doença da viúva não prejudicou o programa. EU ANDAVA pelo Parque. que tenho com isso? Já me haveria desinteressado do assunto. Já não é donzela nem Arabela. fui contando nos dedos.Ao despedir-se. por minha conta. fingindo-me preocupado com a água de enxurro com que o carro me salpicou. Para que me conta essas coisas? § 92. espalhava no ar molhado. O que eu sabia é que ficariam dois meses por lá. Se a doença é grave. ou é fita da velha? Glicério disse há tempos que ela tem medo à morte como o diabo à cruz. mesmo. se esse demônio do Glicério não ficasse a cutucá-lo. fanhoso. de freios pisados com violência. Muito confuso. Não se demorariam no Rio. Depois saí às pressas. como sempre tenho feito ultimamente. Tanto se achavam enlevados um com o outro.. mas bem poderiam ter dito qualquer palavra amável. e Glicério não saiba. —Não. Terão voltado pelo mesmo navio. quase fui apanhado por um carro. doença. o Oceania? Ou embarcariam no Cap Arcona? Talvez já tenham chegado. pôde despertar-me.. Para que me . Já próximo do portão que dá para a Avenida. seguida de um chiado forte. Os sons musicais que ainda ouvia não me deixaram perceber o ruído do motor. Já completaram os dois meses? —Não sei. Ao descer a Avenida João Pinheiro. Era um carro grande de ricos. O carro se pôs de novo em movimento e seguiu rápido. que vinha veloz. deveriam ter vindo de zepelim. Estão certamente hospedados na mesma casa da dama-da-noite.

e que dirão literário. QUANDO Emília bateu à porta do meu quarto. eu vos agradeço. acordei assustado.. As coisas se tornavam confusas e os botões dourados da blusa azul do chefe de trem cresciam. pus-me a lembrar do sonho que tive. humildemente. a certo momento. colocando-se em torno de mim. mas posto em mim deixa de o ser.aparecem? Por que exatamente a mim? Secretas intenções do acaso. em poltronas da frente. Quem gosta de mim é ela.. § 93." Com os olhos postos no céu. o poeta místico indagava: —"Senhor. bate. os salpicos. saltitando. e o calor e o cansaço me derreavam. como a querer invadir todo o espaço." Depois." . Bocejando. Já eram dez horas. MUNDO. são os remos ou são as ondas o que dirige o meu barco? —Eu tenho as mãos cansadas e o barco voa dentro da noite. cantavam a una voce: "Mundo mundo vasto mundo. volteando em redor de mim e acompanhados pelo chefe de trem. O primeiro disse: sou o poeta irônico. Eu fazia longa viagem. não seria uma solução. O terceiro disse: sou o poeta sem nome. se levantaram. Pirulito que já bateu. O segundo disse: sou o poeta místico. braços dados. braços erguidos. Passando-me a mão pelos cabelos. Três passageiros que iam. silenciosos. que soprava um grande trombone. MUNDO. cresciam. Quem gosta dela sou eu. falou o poeta irônico: "Mundo mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo seria uma rima. cantarolava o poeta sem nome: "Pirulito que bate." E. mais vasto é meu coração.

de Porfírio. Sangrou rudemente o almoxarifado da Seção do Fomento. ainda pediam mais dez.§ 94.. parecia queda de gameleira ferida pelo raio. Não morriam aos poucos. —Que faremos. ÚLTIMA PÁGINA. sim. Previdente e providente amigo! Esqueceu-me comunicar-lhe que já não preciso de papel. os Borbas vão até aos setenta. Carolino me trouxe esta manhã uma porção de blocos. Negação de Belarmino. Quando um tombava. Carolino amigo? . vendo o corpo consumir-se lentamente. e parece-me. porém. . Viviam com plenitude os velhos Borbas da linha-tronco. Dois deles. Acho-me pouco além do meio da estrada. Esqueceu-me dizerlhe que a vida parou e nada há mais por escrever. nem de boiões de tinta. Em média. TENDO verificado que se esgotara minha provisão de papel. chegados aos oitenta.. fazer qualquer coisa. Trinta e dois anos. para empurrar os presumíveis trinta e dois anos que me restam. Viviam a vida. que cheguei ao fim. . de Firmino e de Baldomero. mesmo com o coração descompensado. Ai de mim! É necessário. nem de penas. entretanto.

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