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O Amanuense Belmiro - Cyro Dos Anjos

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  • § 1. MERRY CHRISTMAS!
  • § 2. O "EXCOMUNGADO"
  • § 3. O BORBA ERRADO
  • § 4. QUESTÃO DE OBSTETRÍCIA
  • § 5. ANO-BOM
  • § 6. CARNAVAL
  • § 7. A DONZELA ARABELA
  • § 8. O LUAR DE CARAÍBAS TUDO EXPLICA. .
  • § 9. AS VELHAS
  • § 10. UMA CASA, NUMA RUA
  • § 11. O AMANUENSE AMANDO ESTÁ
  • § 12. CONVERSAÇÃO COM JANDIRA
  • § 13. A CONFIDENCIA
  • § 14. ANALGÉSICO, ETC
  • § 15. MISSA DE TRIGÉSIMO DIA
  • § 16. UM SÃO JOÃO QUE VAI LONGE
  • § 17. QUE OS BORBAS ME PERDOEM
  • § 18. UM BAILE DAS MOÇAS EM FLOR
  • § 19. IDIOTA, IDIOTA, IDIOTA
  • § 20. SILVIANO E O PROBLEMA FÁUSTICO
  • § 21. UMA DATA IMPORTANTE
  • § 22. ONDE SE APRESENTA UM REVOLUCIONÁRIO
  • § 23. CHUVAS DE SETEMBRO
  • § 24. ANÁLISE ESPECTRAL DE CARMÉLIA
  • § 25. GIOVANNI E PIETRO
  • § 26. NOVA CONVERSAÇÃO COM JANDIRA
  • § 27. IDÉIAS DA EMÍLIA
  • § 28. PROBLEMAS DE PROLETÁRIA
  • § 29. É UM ESPÍRITO REALISTA
  • § 30. A PROPÓSITO DE GLICÉRIO
  • § 31. UM DIA BEM-HUMORADO
  • § 32. OS ACONTECIMENTOS CONDUZEM OS
  • § 33. RITORNELO
  • § 34. "DESCULPEM A POEIRA"
  • § 35. FRANCISQUINHA PIORA
  • § 36. DE NOVO, CARMÉLIA
  • § 37. O "PERREXIL"
  • § 38. PARABOSCO & FERRABOSCO LTDA
  • § 39. NO INSTITUTO
  • § 40. CHOQUES
  • § 41. MATINADA
  • § 42. UM HOMEM SEM ABISMOS
  • § 43. O VELHO BORBA. O SISTEMA BORBA
  • § 44. REDELVIM TEM, TAMBÉM, UM DIÁRIO
  • § 45. EXTRAORDINÁRIAS DECLARAÇÕES DE
  • § 46. UM BELMIRO OCEÂNICO
  • § 47. NENHUM DESEJO NESTE DOMINGO
  • § 48. FINADOS
  • § 49. JANDIRA SE MOSTRA PRUDENTE
  • § 50. UMA SEMANA QUE PASSA
  • § 51. JÁ ANDAM JUNTOS PELA RUA
  • § 52. UMA EXTRAVAGÂNCIA DE FRANCISQUINHA
  • § 53. FORTALEZA DE EMÍLIA
  • § 54. CASTOS AMORES
  • § 55. REDELVIM VAI PRESO
  • § 56. ENTRE LUNFAS
  • § 57. PARA ALGUMA COISA SERVIRAM ESTAS
  • § 58. O AMOR, PELO AMOR
  • § 59. AINDA O NOIVADO
  • § 60. O QUE SILVIANO ME FALOU
  • § 61. "RODA MORENA"
  • § 62. NOVOS RUMOS DE JANDIRA
  • § 63. LUNFA DE PENOSA
  • § 64. UM "FOGO"
  • § 65. E O CASAMENTO É PARA JÁ
  • § 66. TEMA PARA UMA ELEGIA
  • § 67. NOVA LUZ SOBRE SILVIANO
  • § 68. UM PROCURADOR DE AMIGOS
  • § 69. ENTREVISTA COM REDELVIM
  • § 70. O HOMEM DO FUNIL
  • § 71. ONDE APARECE O "DOUTOR ANGÉLICO"
  • § 72. PERPLEXIDADE DE GLICÉRIO
  • § 73. MAIS UM NATAL
  • § 74. SERÁ NO DIA QUINZE
  • § 75. NOVAS AQUISIÇÕES
  • § 76. ORA BOLAS
  • § 77. EIS-ME NO RIO
  • § 78. O PROVIDENCIAL IRMÃO LUSO
  • § 79. PARTIDA
  • § 80. VOZES ATLÂNTICAS
  • § 81. A VERDADE ESTÁ NA RUA ERÊ
  • § 82. SEÇÃO DO FOMENTO ANIMAL
  • § 83. A VIDA SE ENCOLHE
  • § 84. UM "VIRA-LATA"
  • § 85. UM POUCO MENOS PESSIMISTA
  • § 86. SILVIANO E SEU PLANO DECENAL
  • § 87. MOCIDADE
  • § 88. UM DIA COMO OS OUTROS
  • § 89. NHÔ BORBA
  • § 90. LAGOA SANTA
  • § 91. ESTÃO DE VOLTA
  • § 92. AGRADEÇO-VOS OS SALPICOS
  • § 93. MUNDO, MUNDO
  • § 94. ÚLTIMA PÁGINA

CYRO DOS ANJOS O AMANUENSE BELMIRO
romance
7.a edição Nota biobibliográfica Prefácio de Antônio Cândido

LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITORA
RIO DE JANEIRO—1971

Anjos, Cyro dos, 1906 O Amanuense Belmiro, romance- Prefácio de Antônio Cândido. 7.a ed., Rio de Janeiro, Editora José Olympio, 1971. Publicado em convênio com o Instituto Nacional do Livro —MEC.

OBRAS DO AUTOR : O Amanuense Belmiro—Romance—1.ª edição, Editora "Os Amigos do Livro", Belo Horizonte, 1937; 2.", Livraria José Olympio Editora, Rio, 1938; 3.ª, Saraiva S/A.. São Paulo, 1949; 4.º, "Livros do Brasil", Lisboa, 1955; 5.ª. revista (com a 3.ª de Abdias), Livraria José Olympio Editora, Rio, 1957; 6. a, na Coleção Sagarana, Livraria José Olympio Editora, Rio, 1966. NO ESTRANGEIRO: El Amanuense Belmiro — Tezontle, México, 1954. Carnevale a Belo Horizonte — Fratelli Bocca Editori, Milão, Itália. 1954. Abdias — Romance — Livraria José Olympio Editora, Rio, 1945; 2." edição. Saraiva S/A., São Paulo, 1956; 3.\ revista (com a 5.» de O Amanuense Belmiro), Livraria José Olympio Editora, Rio, 1957. Explorações no Tempo — Crônicas (passou a integrar volume de memórias). — Ministério da Educação, Serviço de Documentação, 1952. A Criação Literária — Ensaio—Edição da Revista Filosófica, Coimbra, Portugal, 1954; 2.' edição, Ministério da Educação. Serviço de Documentação, 1956: 3.", Livraria Progresso Editora. Bahia, 1959. Montanha — Romance — 1." edição, Rio de Janeiro, 1956; 2.ª, 1956, ambas da Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro. O Amanuense Belmiro—Abdias—reunidos em um só volume, 1.ª edição, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro. 1957. Explorações no Tempo—Memórias. Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1963. Poemas Coronários—Edições de Arte, Universidade de Brasília, 1964.

O AMANUENSE BELMIRO .

Dedicando-se ao jornalismo. publicou sob o pseudônimo de Belmiro Borba. Alexandre Herculano. Eça de Queiroz. em carro de bois. já o futuro romancista deixava entrever visíveis inclinações literárias. Cyro dos Anjos trabalhou nos jornais Diário da Tarde (1927). com escritores e temas contemporâneos. Aos 10. não estava ausente do gosto pela arte e pela literatura. malgrado o ambiente rural e as longas distâncias que o separavam dos mundos urbanos mais atingidos pelo progresso. a 5 de outubro de 1906. Fialho e Camilo Castelo Branco. as crônicas que foram o germe de O Amanuense Belmiro. Diário do Comércio (1929). Cyro dos Anjos transferiu-se em 1924 para Belo Horizonte. cargo que marcou o início de uma carreira pública onde sempre ocupou funções de destaque. Oficial de gabinete do Governo de Minas (1935-1938).NOTA DA EDITORA DADOS BIOBIBLIOGRÁFICOS DO AUTOR CYRO VERSIANI DOS ANJOS. entretendo-se com o. O patriarca da família. fazendeiro e professor. amava a leitura e o debate de idéias. tinha de fazer acidentada viagem de mais de 30 dias. Diário da Manhã (1929). bacharelando-se em 1932. Dona Carlota. gostava de música e na casa sertaneja não faltavam os acordes de Bach e Beethoven. ainda mais. Minas Gerais. a fim de prover o próprio sustento. rabiscando um jornalzinho manuscrito intitulado Horas Vagas. Diretor . em cuja pequena biblioteca descobriu (aos 15 anos) Machado de Assis. 13. por sua vez. estimulado por um amigo da família dono de tipografia. Cyro dos Anjos já editava um jornal chamado O Civilista. Malograda tentativa de advocacia na cidade natal fez com que desistisse da profissão. como redator de A Tribuna. ouvidos ao piano numa época em que um Pleyel. Iniciando os estudos médios na Escola Normal de Montes Claros. e Diário de Minas (1930). revelador ao mesmo tempo do embrião de jornalista que se formava e da disciplina infantil a que se submetia na vida cotidiana e familiar. Em 1933. o clã Versiani dos Anjos. nasceu em Montes Claros.latim tradicional entre mineiros e. Aos 8 anos.Em 1931 Cyro dos Anjos já era oficial de gabinete da Secretaria de Finanças de Minas Gerais. para alcançar Montes Claros. deixando ver a influência política da primeira campanha de Rui Barbosa.° entre os quatorze filhos do casal Antônio dos Anjos e Carlota Versiani dos Anjos. voltando à imprensa e ao serviço público em Belo Horizonte. de quem seu pai era ardoroso partidário. onde concluiu o curso secundário e o de Direito. Reunido em torno da "mesa de pereiro branco".

Subchefe do Gabinete Civil da Presidência da República (1957-1960) e. que exerce juntamente com os deveres de fiscal dos dinheiros públicos na capital do país.° 24. Portugal) um estudo sobre A Criação Literária e. muito bem recebido pela crítica. Antônio Joaquim. Rio. Emílio Moura e João Alphonsus. ambas de 1954 no México e na Itália. por sinal. Professor de Estudos Brasileiros nas Universidades do México e Lisboa (1952-1955). Mas o romancista Cyro dos Anjos. Conselheiro do Tribunal de Contas de Brasília. em 1963.da Imprensa Oficial de Minas (1938-1940). Montanha. cadeira n. publicados pela Universidade de Brasília. revelou-se também ensaísta e memorialista. Explorações no Tempo. Joaquim Carlos e Francisco de Assis. publicando em 1954 (Coimbra. finalmente. Casado em 1932 com D. Seu último trabalho. Estreando na literatura em 1937. apesar do sucesso conquistado. este radicado atualmente em Porto Alegre. o romancista tem seis filhos: Margarida. . também romance. sucedendo a Manuel Bandeira. ainda no mesmo gênero. Diretor do IPASE (1946-1951). a que se acrescentam os títulos de fundador da Faculdade de Filosofia de Minas Gerais e da Universidade de Brasília. em edição nossa. Em 1969 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Abdias. Martim Afonso. sendo nesta última regente do curso Oficina Literária. de cuja vida intelectual participa com intensidade. data de 1963 e nele o ensaísta e romancista cede lugar ao poeta bissexto dos Poemas Coronários. Márcia Antonieta. outubro de 1971. Cyro dos Anjos pertenceu ao grupo de escritores em que se destacavam Carlos Drummond de Andrade. volume de memórias. ambos editados por esta Casa. com o romance O Amanuense Belmiro. saiu em 1945 e o terceiro. inclusive no exterior com as versões espanhola e italiana de O Amanuense Belmiro. Zelita Costa dos Anjos. os dois últimos já falecidos. Seu segundo livro. Cyro dos Anjos pertence à Academia Mineira de Letras e possui várias condecorações nacionais e uma de Portugal. são as etapas que definem a carreira de Cyro dos Anjos no serviço público estadual e federal. em 1956. além de Newton Prates e Guilhermino César.

Ciro dos Anjos anda pela casa dos quarenta. Guiando-se quase apenas pelo instinto. com um som de coisa definitiva e necessária.ESTRATÉGIA (Prefácio de Antônio Cândido) O Sr. Por isso é que ele ressoa de modo tão diferente no nosso meio. a primeira pessoa em que pensei foi o romancista mineiro Ciro dos Anjos. de segurança. nem sempre produzido pelas obras dos nossos generosos táticos. Lendo o artigo. o composto pelos dotados de talento e habituados a construir segundo o influxo dele. dos recursos da sua arte — condição primeira para a plena expressão do seu pensamento. Almeida Salles. mas seguro. que. de autores cuidadosamente lidos ou harmoniosamente incorporados ao patrimônio mental. o amanuense estabelece um movimento de báscule entre a realidade e o sonho. no primeiro movimento da inspiração. escrever é. Os nossos autores. Confiam. revelam o artista profundamente consciente das técnicas e dos meios do seu ofício. se quiserem). evadir-se da vida. sem dúvida alguma. é a única maneira de suportar a volta às suas decepções. alargando-se em reflexões muito agudas e muito justas sobre a natureza da criação literária. Há mais de cinco anos publicou o seu único livro—O Amanuense Belmiro—uma obra-prima. para falar como o Sr. O Amanuense Belmiro é o livro de um burocrata lírico. menos na força impulsiva do talento que no domínio vagaroso. Segundo me contam. Um homem sentimental e tolhido. de fato. e da sua sensibilidade. fortemente tolhido pelo excesso de vida interior. pois escrevendo-as. "Quem quiser fale mal da Literatura. opõem-se deste modo aos do primeiro grupo. ecos de Bergson. segundo o Sr. Para ele. A impressão de acabamento. Paulo. de equilíbrio. baseado em anos de meditação e de progressivo domínio. no qual aplica à nossa literatura a distinção de Valéry entre escritores estrategistas e escritores táticos. Almeida Salles publicou certa vez em Planalto um dos rodapés mais inteligentes que têm aparecido na imprensa periódica de S. de realização quase perfeita. Venho da . dos meios técnicos. No seu subsolo circulam reminiscências várias de leitura. de Amiel. pertencem quase na totalidade ao segundo grupo. de Proust. lentamente cristalizada no decorrer de longos anos de meditação e estudo. direi que devo a ela a minha salvação. pensando-as. possuidor de uma visão pessoal das coisas. numa palavra. analisando-as. isto é. Quanto a mim. escreve o seu diário e conta as suas histórias. Porque esse romance é o livro de um homem culto. me parece um dos maiores dentre os poucos estrategistas da literatura brasileira contemporânea. que vêem na criação o afloramento definitivo de um largo trabalho anterior. Almeida Salles (ou Valéry.

solteirão nostálgico. que falhou como solução vital. literato in erba.rua deprimido. haveria a possibilidade de um modus vivendi. ela própria quase um mito—um mito como o da donzela Arabela.. e.") Ora. então. que a sensibilidade de Belmiro. escrevo dez linhas. sorri e diz: 'Ora bolas'. Não é difícil perceber o mal de Belmiro.. na sua casinha modesta e o seu ramerrão cotidiano. porque dentro dele estão as doces cenas da adolescência." Belmiro. Acontece. desmanchando a pureza daquele com a intromissão das imagens deste. não lhe permite uma existência atual. Sonha. jogando-o como uma bola entre o passado e o presente. quase normal. concluindo que "a verdade está na Rua Erê". O amanuense ama. que impelem o homem para a frente. crê encerrado o seu ciclo e volta para dentro de si mesmo. lírico não realizado. ainda estão ativas nele e realizam um sorrateiro trabalho. estava tudo muito bem. mas à sua maneira: identificando a moça de carne e osso. que espia para dentro. "[. a fim de encontrar um pouco de calor e de vida.. numa comovente pesquisa das remotas origens do ser. se entrega ao presente: mas não o vive. a seu jeito. permanece como fatalidade. Submeto se. torno-me olímpico. recita com o poeta: . com a imagem longínqua da namorada da infância." O amanuense é infeliz. fazendo-o voltar para a vida. Sabe que não lhe adianta pensar em como as coisas seriam se não fossem o que são. que mal enxerga de quando em vez. esta. Chegou quase aos quarenta anos sem nada ter feito de apreciável na vida. Mas as forças vitais.. como o do narrador do Temps Perdu. Para iludir-lhe o espírito vaidoso. se fosse só isso. A sua desadaptação ao meio levou-o à solução intelectual. oferecem-lhe o presente sob aspectos enganosos. carrega nas costas a enorme trouxa de um passado de que não pode se desprender. é empurrado para o refúgio que lhe resta—o passado—uma vez que o presente lhe escapa das mãos ("[___] bem noto que vou entrando numa fase da vida em que o espírito abre vôo das suas conquistas e o homem procura a infância. É um homem poderoso. encarnando formas do passado. perturbando este com os arquétipos daquele. porém. e readquire o equilíbrio pela auto-analise. e o amanuense. isto é. à procura de fugitivas imagens do passado. uma noite de carnaval lhe traz a imagem de uma donzela gentil. Se fosse possível viver integralmente no mundo recriado pela memória. nas quais o espírito se há de comprazer.] depois de uma infância romântica e uma adolescência melancólica. De repente. o homem supõe que encontrou a sua expressão definitiva e que sua própria substância já lhe basta para as combustões interiores.. sedento e agitado. O drama é que o presente se insinua no passado. Em verdade vos digo: quem escreve neste caderno não é o homem fraco que há pouco entrou no escritório.

múltiplos.. que restabelece o equilíbrio vital. Mundo mundo.. Há uma circunstância.. que ele emprega também como um processo literário. insistindo-se sobre o que há de semelhante no estilo e no humorismo de ambos. na atmosfera caraibana—contemplando a destruição das suas . na própria construção do estilo. que quer se abandonar. foi da diferença radical que existe entre eles: enquanto Machado de Assis tinha uma visão que se poderia chamar dramática. A um Belmiro patético que se expandiu. Esta alternância. encontramo-la de capítulo a capítulo. no sentido próprio. 0 que é admirável. Conclusão típica de introvertido. enorme." "Mais vasto é o meu coração". é o diálogo entre o lírico. no seu livro.. e o lírico chamando-o à vida. o analista querendo dar aos fatos e aos sentimentos um valor quase de pura constatação.. Belmiro é o homem que chegou ao estado de paralisia por excesso de análise "[. sem a peia do passado. o homem que não se lembra. que o chama à ordem. que cresce num impulso vegetal. um maravilhoso sentido poético das coisas e dos homens. da vida. que o liberta das redes do analista: o senso lírico da vida. O que não se falou. Belmiro é o contrário do homem forte de que fala Balzac. vasto mundo Mais vasto é o meu coração. ao contrário.] já lhes contei o que se passa dentro de mim quando começo a meditar: perco-me num labirinto de antinomias. dotado de humour. ou. vasto mundo Se eu me chamasse Raimundo."Mundo mundo. Seria uma rima. de cena a cena." Isto significa que é um candidato ao cepticismo integral e à imobilidade através do relativismo. porém. I was so sick of it. não seria uma solução. E a certa altura. Everything was tainted with myself". o amanuense a torna explícita: "Tais desnivelamentos é que compõem minha vida e lhe sustentam o equilíbrio. como Lawrence: "I was so weary of the world. de homem que não lamenta. que o salva. porque a sua evasão consiste justamente em introjetar o mundo e banhá-lo todo nas próprias águas. e o analista. envolvendo uns e outros em piedosa ternura. Sempre a tomar consciência plena das suas variações e dos seus aspecto:. além dessa. porém. e dando-lhe um cunho muito especial. Ciro dos Anjos possui. Falou-se muito em Machado de Assis a propósito de Ciro dos Anjos.

mas é uma criação da sua saudade e da sua imaginação deformadora. nas Vilas Caraíbas do passado. através do seu poder de análise. que dá uma dignidade humana tão grande à poesia de Manuel Bandeira e de Carlos Drummond de Andrade. indiscretamente lida por Belmiro: "Problema:—O eterno." É este. que compensa o primeiro e o retifica. ajustando-o aos quadros cotidianos. Ciro dos Anjos nos leva a pensar no destino do intelectual na sociedade. com efeito." Numa ordem mais geral de idéias. o problema central da obra. é o fundamento da arte de Ciro dos Anjos. Não se resolve nada. ilusórias permanências de forma. as coisas estão é no tempo. quando ele descobre que o passado que evoca não existe em si. para definir certos estados de espírito. para confiná-lo nas esferas em que o seu pensamento. os poderosos deste mundo só o deixam em paz . o que não importa em ilusão quanto ao verdadeiro significado deste trabalho: "Grande coisa é encontrarmos um nome imponente. O homem é um animal definidor. sobre o curso normal das relações humanas. e empresta ao seu romance uma qualidade de vida que é superior à de Machado de Assis." Se assim é. o seu núcleo significativo vai ser encontrado numa página do diário de Silviano. Criando-lhe condições de vida mais ou menos abafantes. na autocontemplação. explorando metodicamente os seus complexos e cacoetes. ainda que infinitesimal. o Fáustico. nelas.paisagens—sempre sucede um Belmiro sofisticado. A atitude belmiriana resulta de uma aplicação do conhecimento aos atos da vida— entendendo-se neste caso por conhecimento a atitude mental que subordina a aceitação direta da vida a um processo prévio de reflexão. O amanuense. Para conhecer este psicólogo lírico é preciso ler todo o admirável § 33 d'O Amanuense Belmiro. e considera tristemente: "Não voltarei a Vila Caraíbas. sofre ao perceber que "ali is tainted with myself". sociedade organizada." Esta disposição excepcional. Chegado à sua toca da Rua Erê. Encarando assim o livro. não apresenta virulência alguma que possa pôr diretamente em xeque a ela. se reajusta e assobia a fantasia do hino nacional de Gottschalk. por que escrever sobre um passado que realmente não existe e um presente que cede ante a ponta aguda da análise? Belmiro escreve porque precisa abrir uma janela na consciência a fim de se equilibrar na vida. pela primeira vez. Há. o Belmiro egresso de Caraíbas se apalpa. E assim.—O amor (vida) estrangulado pelo conhecimento. absorto nas donzelas Arabelas. leitor. As coisas não estão no espaço. que escondem uma desagregação constante. que até aqui tem movido uma conspiração geral para belmirizá-lo. mas ficamos satisfeitos. pode-se dizer que o amanuense é uma ilustração do gravíssimo problema dos efeitos da inteligência.

Livros que lidam com os problemas do homem num tom de tal modo penetrante que autor e leitor se identificam.. N. O artista se revelava. E chorava-as tão bem que cada um que o cercava. Não são livros que se imponham de fora para dentro. Belmiro fala de um tocador de sanfona da sua Vila Caraíbas. cheios de força. até se identificarem com a nossa própria experiência.. Coisas em que a gente se põe a matutar. extraindo dos seus motivos individuais melodias ajustadas às necessidades da alma dos circunstantes. por esta forma. uma vez que aceitou como valor eterno uma filosofia que lhe aconselha a blague. como diria o Eça. sòlidamente mantido em paz pela magreza do seu ordenado de amanuense. São Paulo. que "[. cômoda para os negócios públicos. E assim é esse livro. vibrantes. quando vê aquele Belmiro tão inteligente e tão sensível. s/d. que é reduzido a não deixar transbordar senão a sua retórica. Esse traço da generosidade inconsciente dos grandes artistas se encontrava no sanfonista da Ladeira da Conceição". o que é um deleitoso consolo. num admirável movimento de afinação. como são em geral os livros dos escritores de Minas. editado pela Livraria Martins Editora. para a ficção mais ou menos frouxa com que o crítico tem não raro de se defrontar. ou quando entra reverente no seu séquito. cuja releitura faço pela quinta ou sexta vez. da E.] tocava apenas por amor à arte. perfeito. Na página 27.quando ele se expande nos campos geralmente inofensivos da literatura personalista. Mas não é esta a impressão final que fica do livro de Ciro dos Anjos. [1945].* * O estudo que se acaba de ler do grande crítico paulista foi reproduzido de seu livro Brigada Ligeira. . da autoperfeição pela ascese intelectual. e perfeitamente desfibrado pela prática cotidiana da introspecção (costume muito estimável. sentia suas mágoas igualmente choradas. que ali iam buscar expressão para sentimentos indefiníveis que os povoavam s só se traduziriam por frases musicais. Insinuam-se lentamente na sensibilidade. segundo os cânones). ou talvez para chorar as mágoas.. Ou aquele Silviano cheio de seiva.

.. Et mes proches s'y tromperaient autant et plus que les autres. dans cette fiction..... On s'y tromperait.............) ................ "Pour éerire 1'histoire d'un autre." ... je collabore avec ma propre vie.. est indubitablement moi..." (GEORGES DUHAMEL—Remarques sur les Mémoires Imaginaires—Paris—Mercure de France—Sixième édition....."Les Souvenirs que j'ai de ma vie réelle ne sont ni pius coloria ni plus vibrants que eeux de mes viés imaginaires.. Qu'on ne cherehe pás à savoir ee qui.....

desde Porfírio até Belarmino. da linha tronco. .A o s B o r b a s.

ainda que fosse uma supressão. como que a falar para si mesmo. o alemão do bar se multiplicava em chopes. Éramos quatro ou cinco. Florêncio pôs a mão sobre o ombro dele e disse maliciosamente: —Estamos ruinzinhos hoje. por que não havíamos de realizá-la para encontrar tranqüilidade? A grande estupidez é vivermos num conflito constante. a preocupação da vida eterna. Já que não se possui a vida com plenitude. chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis. enquanto um cabra gordo. continuou. voltando-se para mim: —Você não sabe o que está dizendo. —Hein? indaguei. Florêncio propôs. no bar do Parque. no que ela tem de excitante. Sem perceber que eu apenas puxava a língua ao Silviano e supondo contar com o meu apoio. e nosso amigo não lhe permite tais intimidades. hein? A pequena deu o fora? . Introduz.§ 1. o melhor é renunciar. Satisfeito. É a solução. meio vago. mas. o jovem Glicério ousou enfrentá-lo. com um olhar malicioso. em torno de pequena mesa de ferro. MERRY CHRISTMAS! ALI pelo oitavo chope. Alegre véspera de Natal! As mulatas iam e vinham. —Não discuto com menores. em nosso cotidiano. No caramanchão. O proletariado negro se expandia. —A solução é a conduta católica. Sublimou-se nos doutores. Imprudentemente apanhou a minha deixa e entrou em cena com entusiasmo. expedindo. garçons urgentes. então. —A conduta católica! Isto é. Glicério é novo na roda. voltando-me para este. comemorando o Natal. como que atendendo a uma ordem interior de reflexões. para aqui e para ali. sacrificando. aquela. fugir da vida. E. disse majestosamente. afirmou o amigo Silviano. outras dançavam maxixe com pretos reforçados. O que haveria é supressão da vida. Silviano olhou-o da cabeça aos pés. Só pelo gosto de vê-lo dissertar. que não era bem a de nossa conversação. nesse caso. argumentando que esse talvez trouxesse uma solução geral. fazia a vitrola funcionar. a esta. o nono. de melenas. dizendo que o católico destrói a vida pelo modo mais violento. com requebros. não haveria solução.—Jerônimo anda mergulhado na teologia. de vez. Redelvim convidou-me. sorrindo dengosamente para os soldados do Regimento de Cavalaria. a prestar atenção ao filósofo. objetei-lhe que.

Não me dirijo a primários. e. tentando fazê-los amigos. a caminho de casa. andou tendo ciúmes e fazia cenas.. indignado. —Em Paris? perguntou Florêncio. Pois Jandira acrescentou que. alimária! respondeu.. e minha atenção logo se desviou para outras coisas. Redelvim e Glicério também desataram a rir. retrocedeu aos vinte: está amando as moças em flor. e as sombras de um crepúsculo avermelhado desciam sobre as árvores. propus novo chope. fui ruminando a tese do Silviano. Jandira. —Cidade besta. desejando-me um largo "saúde e fraternidade". quero dizer que o problema é puramente interior. Separamo-nos. no portão do Parque. Todos os passageiros do bonde Calafate me sorriam. Em Paris é a mesma coisa. É boa! —Ó parvo. O pior é que a mulher. Já era hora de jantar e o Parque ia ficando vazio. Depois. —Não acho! retrucou Silviano. mas desde o primeiro encontro se repeliram. É uma sólida filha de fazendeiro. A princípio. no espaço! Florêncio. Mas o chope me faz versátil. Sempre que se encontra com Silviano. Para serenar a roda. Aqui escreverei que a razão estava com este último. levou as mãos ao ventre. num riso convulsivo. Às voltas com os filhos. Belo Horizonte! exclamou Redelvim. raça teimosa e viril. Silviano anda em crise aguda. sem nada dizer. em vez de irritar-se. se arranham a fé conjugai. de suas sortidas. consultando o relógio. A euforia que o chope traz! A vida se torna fácil. Disfarçando o mau epílogo da festa. Redelvim devia estar de bom humor. fácil.. Certamente sorriam. pois apenas sorria. Não sabia que você andou por Paris. trava discussões acaloradas. as mulatas e os soldados tinham saído. já meio alegre. entende? Não está fora de nós. e para que . Aproximei-os um dia. rápidos. A gente não tem para onde ir. denunciando pressa de chegar a casa.—Recolha-se. Como se mostravam ansiosos. alvitrei uma retirada em conjunto. carregados de embrulhos. Florêncio deu uma gargalhada e assentou-se de novo. neste dia extraordinário. fincou pé e deliberou não tomar conhecimento desses descaminhos que. irritado. o nosso Dom Juan traz mais baldões do que troféus. vive a ridicularizá-lo. Sem que percebêssemos. no que fui aplaudido calorosamente por Florêncio. mais arranham ainda as veleidades do quarentão. Silviano. onde adivinhei variada matéria-prima para as comemorações domésticas do Natal! A humanidade se transfigura de súbito.. Que elemento se introduzirá na essência das coisas para que tudo venha. contou-me que o filósofo. assim. já à beira dos quarenta. que de tudo sabe. quis retirar-se. Joana diz não ter tempo para se ocupar dele. apresentar uma face nova e desconhecida.

todos os seres ganhem uma expressão especial. A necessidade de falar a alguém. fez-me lembrar de que o próximo poste de parada era o da Rua Erê. Em moço. pois acha o marido erudito: "Sempre é uma vantagem. quase graciosa. entrei pé ante pé. não acha. animada com esse princípio de conversa. impelida pelo vento. como quem está pensando em voz alta. Como de costume. como diz Silviano. e os pardais. Deveria ser o Prudêncio Gouveia. anunciando minha chegada. Prudêncio amigo! Merry Christmas! § 2. e. suprime a presença minha ou da . as horas em que a máquina doméstica tem seu funcionamento restrito a uma ou duas peças. pouco importa. Fala dirigindo-se a si mesma. Terminado o jantar e arrumada a cozinha. O "EXCOMUNGADO"." Na verdade. lá dentro. pelo melhor modo. PARA surpreender as velhas. obriga-a a conversar com a outra. Bom sujeito o Prudêncio. onde costumam passar. A mulher. e o que é—no fundo—não o é para nós. que possui a alma humana. Juliana Gouveia. ele tirará o seu proveito de saber outras línguas. o fato deveria ter significação particular. as duas se entregam ao bilro segundo a tradição da casa. mas a porta. começasse a tagarelar. pois estava com a fisionomia carregada. É um hábito das rendeiras. mas. Um Merry Christmas. e voltei-me para saudar o homem. vizinho de quarteirão. por essa forma. mas Juliana lhe encarece as habilidades. no caso. Estava com Francisquinha no quarto grande. e seu único vício é cumprimentar-nos diariamente com um how do you do. Notei que. que me foi dito com uma palmadinha nas costas. A realidade é a aparência. Emília não levantou os olhos da almofada. na solidão da casa. por alguém que ia descer do bonde. mas procura. ou haverá uma efetiva transformação no tecido íntimo das coisas? Afinal. É chefe de Seção e pessoa muito conceituada. talvez não desejasse que Francisquinha. de agitada felicidade? As árvores se fazem mais verdes. Francisquinha não faz coisa que aproveite e apenas embaraça os fios. nem interrompeu o complicado trabalho. —Merry Christmas. — O Excomungado já vem! resmungou Emília. fechou-se atrás de mim com estrépito. Mas. estudou inglês. toma ar aborrecido e chama-lhe antipático. juntas. fica vaidosa. até à hora de se deitar. aludindo a "outras línguas". seu Belmiro? Vem um dia. como cantam! Será o poder de criar e de transfigurar. Dei o sinal. só fala inglês. reduzir o efeito dessa concessão. mas Emília dá-lhe essa ocupação para a ter quieta.

Rio-me sempre. como bicho-do-mato. A Rua Erê não é atrativa. § 3. Quando o Borba morreu (a velha Maia partiu bem antes) e a fazenda foi à praça. Aprendeu a dizer. Ainda me arranjará uma psitacose. às vezes. pousando em mim os olhinhos brilhantes e fixos. encheram minha vida. como as velhas: "Excomungado! Excomungado!" e arrepia-se todo ao ver-me.mana. Desde cedo. Pus os pacotes na mesa e fui ao quarto. "Decididamente. Francisquinha deu uma risadinha feroz. Não lhes foi fácil habituarem-se à minha pessoa e modo de vida. Encontrou na língua familiar de Vila Caraíbas a expressão própria para traduzir a inquietação que minha presença. Tiveram de viver sempre na fazenda. é só o que me falta. na verdade. no bico do papagaio. entre o pessoal de serviço. Tome pregou-me o susto de costume. e Emília é. Não resisti ao desejo de provocá-las: —Boa noite. bem que percebe em mim certa dissolução de espírito. então. mandando-as ao Colégio de Diamantina. as velhas estão bravas hoje". Ou de Vovô Índio. que restabelece a atmosfera moral da fazenda. DO ALPENDRE da casa. recebi-as como herança. tão distantes de mim. No corredor. faz-me estremecer. vai de mal a pior. Emília não tinha. quando exclama "Excomungado! Excomungado!" Mas o epíteto. olha o doido. mas Francisquinha. Tanto tempo andei afastado delas. na velha cadeira austríaca. Emília é apenas uma esquisita. perturbada de nascença. irritada. —Olha o doido. trocar o jaquetão pelo pijama. Curioso pressentimento. nesta casa. neste particular. E. Foi este o grande desgosto que ensombrou os dias do velho Borba e da velha Maia. Que custo trazê-las em viagem a cavalo e. o de Emília: na sua meia-luz. ficar na companhia do tio Firmino. Pobres manas. pensando que iam para São Paulo. que lhes pareci um estranho. lhe desperta. assume um sentido trágico. depois. Ainda assim. com sua reduzida . os cabelos grisalhos. ensaiando uma agressão. pensei. no comboio da Central! Vieram iludidas. uma presença vigorosa e viril. conforme preferem os nacionalistas. meninas! Trouxe aqui umas lembrancinhas de Papai Noel para vocês. e Francisquinha andava pelos trinta. fiquei a olhar os transeuntes. disse Emília. viram que seria impossível dar-lhes educação condigna. O BORBA ERRADO.

em vez disso. "Se o menino não se ajeitava na fazenda. Sinto muito.fauna humana. Uma dessas . Como o Natal me fez saudosista! Eu fechava os olhos. agrimensor. dizia ele. as letras agrícolas e entreguei-me a outra sorte de letras. A garganta se me apertava. percorri muitos caminhos. poderosa como um estabelecimento público. por um lado com a associação verbal que descobrira. Vila Caraíbas e seu cortejo de doces fantasmas. Até chegar ao Silviano e ao Redelvim. Precisamos é de braços para a lavoura. fali. dos de minha raça? O pai tinha razão. que teve seu brilho rural. Como a minha mãe tivesse o secreto desejo de me ver na carreira das letras (dizia que eu saíra aos Maias e não aos Borbas). metido em serenatas e noutras relaxações.). Sou um fruto chôcho do ramo vigoroso dos Borbas.. o poder de expansão. grande. diante de mim. porém.doutores demais. com suas lavouras à espera de cuidados moços. com o parcial deferimento às aspirações da velha. com a nitidez de um acontecimento matinal. Neguei as virtudes da estirpe. Meu consolo é que sou um grande amanuense. remediado está. pelo menos. Onde estão em mim a força. o pai veio a Belo Horizonte e verificou o logro. por lá. houve cena pesada. Coitado do velho. e andava. Abandonei. Era contra os princípios paternos o bacharelato em qualquer ramo de ciências ou letras.. num fim de ano. e eu sentia os olhos se umedecerem comovidos. Eu não podia ouvir uma sanfona. que. por outro. a vitalidade. com sua suficiência? Rirse-ia de mim: "Você é um homem errado." Mas dei em droga na fazenda e andei zanzando pela Vila. Pus-me a andar na companhia de literatos e a sofrer imaginárias inquietações. estão-me dizendo—ilustres sombras!) foi um crime gastar as vitaminas do tronco em serenatas e pagodes. não se distanciasse dela —poderia tirar uma carta de agrônomo. do ponto de vista genealógico: como Borba. o seu agrimensor formado. Queria fazer-me agrônomo. Em face do código da família (cinco avós. ainda. satisfeito. avós. repetia. Belmiro!" Se Glicério tivesse conhecido os Borbas. então. a febre das divisões de terras. E a mesada paterna se consumia em livros que as necessidades sentimentais e espirituais do mancebo ardentemente reclamavam. Tive amores infelizes. Coitado do velho. Vila Caraíbas não tinha. declarou que o que não tem remédio. "Temos . nada rendosas. na Vila. pelo menos. Lá estava a fazenda. e. Quando. Por fim. fiz sonetos. Tocavam a Varsoviana e eu me dissolvia (lá na Vila lhe chamavam Valsa Viana. Um burocrata! exclamava com desprezo. Na fazenda. Ficará nas letras agrícolas". diria. Coitado do velho. Talvez seja isso o que sempre me leva a passear o pensamento por outras ruas e por outros tempos. afinal. Ou. que sou um Borba errado. no curso. acabou pensando num acordo. e a Ladeira da Conceição surgia. Que diria o Glicério.

o cão dos fundos . "Um burocrata.) do que dos currais e das roças.. não funcionavas na fazenda. imagem da morte. um burocrata!" lamentava nas suas cartas. tal como no poema: Stop. estavas mais próximo dos clássicos (lembro-me de tua predileção. para o Horácio. Um dia sentiremos uma sacudidela. arrancando-me daquele quebranto... pai Belarmino? Na verdade. para trocar dois dedos de prosa com o provisionado Loiola. depois. instintivamente.. ao cabo de contas. em propaganda da vida rural? Seus cinqüenta artigos.discussões em que nós. nos dizemos coisas duras. como diria Prudêncio. nos abraçarmos.. para gravame de sua insuficiência mitral. e o espírito se embebia no torpor que afrouxara os nervos. prestes a se apagarem. Borbas. entre uma parte do eu. para frente. que aspira ao abandono. vai correndo.. quase a esvaecer. Outras missas. a cada instante. Em que fora dar sua longa doutrinação. achava-me. e a uma reminiscência tênue. repetindo. pois. Por qualquer pretexto. Confessa. Com a saída dos vizinhos para a missa do galo. Não citavas o teu Vergílio. para trás. em série. reduzia-se esta lembrança permanente com que. De corpo e espírito. Natal! Fiquei até tarde no alpendre. um tanto tendenciosa. Voltou com uma grande dor no coração. sob a epígrafe geral de Rumo à Gleba? Mas. QUESTÃO DE OBSTETRÍCIA. talvez pelo receio inconsciente que inspira o adormecer. nas colunas da Gazeta Caraibense.. para. a rigor. e mais tarde um deputado me introduziu na burocracia. e outra que contra ele reage. A vida parou ou foi o automóvel? § 4. apenas impressões vagas. a memória sustenta. Borba. me vinham das coisas. as posições do embrião no ventre materno.. na tua besta. segundo a luta surda que se trava em nós. no estado de vigília. data de ti a traição à gleba. Como esta vida vai correndo.. nossa precária unidade psíquica. Bem me recordo de que. num desfecho melodramático. quando. noutros tempos. preparado para o repouso e já me aconchegava. Words. lá ias. recolhi-me. JÁ ESTAVA palmilhando a terra vaga do sono. ganhava-me o corpo uma doce lassidão. ligando o momento que passou ao momento presente... foi nele que começou o desvio da linhagem rural. esclarecendo que a exclamação foi do Hamlet.. rumo à Vila. Words.

Pequena pausa sobrevinda me deu a esperança de que o mastim houvesse mudado de intenção. que passa como um relâmpago depois de a gente ter feito uma quixotada. contendo o anúncio na garganta. quando. num relance. o cão não se apressava. Em seguida. um desses barulhos sutis. numa conspiração universal contra mim. batera as asas para anunciar o prelúdio do alvorecer e. Saltei da cama. é alguma coisa que me ficou dos Borbas. tomou-me indizível fúria. que só os cachorros percebem.. procedi à maneira de Xerxes. daí a pouco. quando lhe faltam os verdadeiros. em sua extensão. Mas. que era tal qual. Tudo se me escureceu em torno e pareceu-me que as sombras se agitavam. ou porque o guarda do quintal contíguo não identificasse o rumor produzido pela ave. e. No dia em que uma chuva inesperada viera estragar o café posto a secar no terreiro. Abrindo a janela. insopitável. Podia ser que chegasse logo à conclusão de que não havia motivo para maiores alarmas: fora o galo do outro quintal que. cego de raiva. porventura verificando adiantamento no relógio. com ternura. por equívoco. Subitamente. sem ódio nem convicção. já munido da primeira arma que a mão encontrou. caiu numa grande prostração e permaneceu casmurro o dia todo. no ar. embora o conhecimento da geografia do quarteirão me habilitasse para localizar o animal no lado oposto. atirei-o às tontas ao meio da rua.se pôs a ladrar. Fiquei satisfeito com o precedente ilustre que a memória me veio trazer e lembrei-me de umas palavras do excelente Montaigne: "A alma descarrega suas paixões sobre objetos falsos. Satisfeita a fúria dos Borbas. e repreendi-me por já não ter ministrado uma "bola" ao canino demônio. já certo de que algo havia para justificar suas precauções. ele ficou possesso de raiva. esse ódio súbito. em quintal vizinho. limitara-se ao bater de asas. Afinal. Mas não repeti o gesto. indignado com a procela que lhe destruiu a frota.. isso está no sangue. Ora." . mandou zurzir o mar. zelosos que são do seu ofício. com um método que indicava disposição sólida de latir pela madrugada toda. ou porque ainda houvesse. Previ a catástrofe. Lembrei-me do avô (o último Porfírio). Tratando-se de mero latido de advertência. sorri para dentro de mim mesmo. isso apenas serviu de estímulo ao ladrante: ganhou alento e entusiasmo. de novo no leito. e que era um sapato velho. meus nervos se apaziguaram. Como o avô Porfírio. sacou da garrucha e desfechou dois tiros para o ar. logo recomeçou ele a ladrar advertindo às possíveis sombras de que não se dormia naquele honrado canil. que se contenta com arremessar qualquer objeto a esmo. nem latia mais alto ou mais baixo: o tom era terrivelmente um só e as pausas pareciam medidas em cronômetro. Esses repentes.

Um. fazendo-me conceber qualquer coisa que já me está mexendo no ventre e reclama autonomia no espaço. não de nove meses. meio lírico. Este mesmo Belmiro sofisticado foi quem matou dois outros livros. em Vila Caraíbas. É plano antigo o de organizar apontamentos para umas memórias que não sei se publicarei algum dia. sou um amanuense complicado. meio cínico. Deve ter razão: se cá dentro deste peito celibatário tem havido coisas épicas. Reconciliei-me com o cão e com o livro. cuidar do presente: gostaria apenas de reviver o pequeno mundo caraibano. sinto-me grávido. como se enterravam os anjinhos sem batismo. O melhor seria vivermos sem livros. e outro na décima linha da segunda página. Enterrei-os no fundo do quintal. em que vai toda a história de mais um Natal que passa. abalada e comovida. Sim. devemos sempre ter à mão um sapato velho para o serviço da alma. Meu desejo não é. que hoje avulta a meus olhos. um Belmiro (que costuma assobiar operetas) insinua que as epopéias de um amanuense encontram seu lugar justo é dentro da cesta. Amanhece o dia. comuniquei esse propósito. . vago leitor. no decurso dos dez últimos anos." Com efeito. Posta de parte a modéstia."Parece que. Graças a ele. no terceiro capítulo. responsáveis por tanta literatura reles!) traz-me um desejo irreprimível de reencetar a tarefa cem vezes iniciada e outras tantas abandonada. e a vida fecundou-me a seu modo. do outro lado do quartel do Décimo. Sobre a cova brotou uma bananeira. gestantes. ao cabo. seu Belmiro?" Respondi-lhe que perguntasse a uma gestante por que razão iria dar à luz um mortal. On revient toujours: hoje recomeça a mesma aventura. se perde em si mesma se não lhe damos presa. aqui estou calmo a escrever estas linhas. Jandira acredita que não foi reservado a mim deixar à posteridade qualquer importante mensagem. e desde muito me volto para o passado. Minha vida parou. Ai de nós. e esta noite insone de Natal (as sinistras noites de insônia. mas o homem não é dono do seu ventre. porém. no mesmo quarto envelhecido desta patética Rua Erê. cumpre fornecer-lhe sempre objeto em que possa aplicar-se e atuar. Se estivesse de bom humor. "Já não há tantos? Por que você quer escrever um livro. há tempos. enquanto as carrocinhas de pão começam a percorrer o Prado e meus amigos operários devem estar procurando o caminho da fábrica de calçados. perseguindo imagens fugitivas de um tempo que se foi. ela responderia que era por estar grávida. Não sei bem o que me sairá das entranhas. "Por que um livro?" foi a pergunta que me fez Jandira. Comecei contando o Natal que acabou e falando nos amigos e na parentela. a quem. mas de trinta e oito anos.' E isso é razão suficiente. havendo tantos.

tão leve. Eu ia. Fiquei rente do cego da sanfona. se processa em arrancos e fugas. o cego mudou de esquina. mas bem percebi que os passos me levavam. mergulho no passado e nele procuro uma compensação. extraindo. tornando-se ficção. em busca de um bonde e de Jandira. Foi só ouvir uma sanfona. que estes se diluam e o espírito se desvie para outras paisagens. intermináveis e sucessivos. passava Camila. perdi o rumo. e perdi Jandira. pus-me a pensar no permanente conflito que há em mim no domínio do tempo. depois da missa das nove. na igreja do Rosário. O artista se revelava por esta forma perfeito. transportavanos. DEPOIS de ter andado inquieto como uma galinha sem ninho (já viram como uma galinha desalojada cacareja aflita. não sei se ouvindo as suas valsas ou se ouvindo outras valsas que elas foram acordar na minha escassa memória musical. melodias ajustadas às necessidades da alma dos circunstantes. e continuei a pé o caminho. e tocava apenas por amor à arte. que minha vida. que ali iam buscar expressão para sentimentos indefiníveis que os povoavam e só se traduziriam por frases musicais. quando o atual me reclama a energia ou o pensamento. levam-me às vezes a tão subitâneas mudanças de plano. perdi o bonde. é comum.Procurando-o procurarei a mim próprio. em luta constante. atento e presente. Pelo oposto. ANO-BOM. assim. sem encontrar lugar no espaço?). na realidade. não para o cotidiano. por onde. E chorava-as tão bem que cada um que o cercava sentia as suas mágoas igualmente choradas. Esse traço da generosidade inconsciente dos grandes artistas se encontrava no sanfonista da Ladeira da Conceição. mas para tempos mortos. Depois. Desci a Rua dos Guajajaras com a alma e os olhos na Ladeira da Conceição. a cada instante. que se confunde no tempo e no espaço. Satisfazendo à necessidade de dar forma aos pensamentos imprecisos de suas saudades e de seus amores. lograva articular uma linguagem que nos servia a todos e que. à atmosfera de alvoroçado bem-estar em que a gente mergulha . Se. Tais solicitações contrárias. as secretas forças da vida trazem-me de novo à tona e encontram meios de entreter-me com as insignificâncias do cotidiano. nos falava de nossas saudades e de nossos amores. O que hoje me sucedeu é bem um sinal dessa luta interior. § 5. dos seus motivos individuais. tão casta. por igual. nelas buscando abrigo. num bando alegre. Era precisamente por ali que estacionava outro sanfonista que não esmolava nem era cego. mera ficção. ou talvez para chorar mágoas.

Porventura chegou. seu Florêncio? Já lhe disse que não quero saber dessas intimidades. me lembrou o outro da ladeira de minha vila. bem se vê. a expressão—seja musical. Mariana põe nela todo o seu estilo culinário." § 6. Redelvim e Silviano compareceram. Mas. à conclusão de que a vida é breve. Está certo. não o fez com a mesma eficiência. O Ano-Bom chegaria sem que eu o celebrasse com o rito do costume. o homem sem abismos. o que me pareceu de bom tato. também. Mariana olha-a com reservas. se envolva com elas.. Encontro uma explicação plausível: . e a arte. e noto agora que apenas o faço em datas especiais.. que é uma ceia em casa do Florêncio.quando encontra a definição de um sentimento e sua forma de expressão. em todo caso. e isso já foi muito fazer. literária ou plástica — não só o alivia. Proporcionando ao espírito válvulas por onde se evadem as emoções que o comprimem. que levam àquela serra muito azul e esquiva. mas a ceia sempre apetecível.. e o estilo é a mulher. que encontrei na esquina. dois meses comecei a registrar. E Jandira esteve ausente. que é solteiro. Eis aí o segredo de Florêncio: por isso é que vive naquela bem-aventurança que todos lhe invejamos. Tem sido inútil meu trabalho em favor da moça. porque assim despertou dentro de mim esquecidas harmonias. mas também o excita. e cuida de tratar o irmão corpo com o bom vinho e a boa vianda. mas. longa. em capítulos de cozinha. da casa do amigo. E desviou-me no tempo. Creio que anda de namoro com a filha do meu chefe de Seção. com aquele instinto infalível e feroz da boa matrona que quer conservar o seu homem para si. QUE tenho eu com os dias que a folhinha assinala? Há.. CARNAVAL. O cego. Mariana desconfia das literatas (assim denomina todas as mulheres de idéias mais avançadas) e fecha a questão: "Pois sim. Com esse jeitinho mesmo é que elas vão entrando. se este não me viesse buscar quase à meia-noite. Viva Florência. não é o ano velho ou novo. A questão. O senhor. Glicério mandou desculpas: ia a um baile universitário. no papel. a Nonoca. O sanfonista da Vila traduzia para mim as coisas complicadas de minha alma. alguns fragmentos de minha vida. A sombra de Camila me subtraiu à realidade de Jandira e reconduziu-me às estradas perdidas de Vila Caraíbas.

como célula passiva. numa força uniforme. leva-nos a um mergulho mais profundo nos nossos abismos. então. numa noite de carnaval em que fomos abandonados pelos amigos e em que nossa porção de espaço foi invadida por outros seres. por onde se manifestam as puras e ingênuas emoções do ser. o homem sofre. na sua. Neste carnaval de 1935. cantar. e. tocamos seres cuja existência nos surpreende quase dolorosamente. Quero rir. mais do que nunca senti de modo tão vivo a impossibilidade de me fundir na massa. há um mundo diverso do meu e com o qual tentarei. uma vaga nervosa que quer acudir ao apelo que a multidão dirige a cada unidade. A multidão me revela. que há coisas extraordinárias. e a agitação que me percorre não encontra meios de evadir-se. não desperta novas reações. Eis que o amanuense é um esteta: ao passo que há nele um indivíduo . mas ensaio um gesto. por assim dizer. vou traçando quase que despercebidamente minha curva no tempo. Novas melancolias são despertadas. Os dias de festa coletiva. em mim. Sinto inutilmente. comunicar-me. Habituei-me às coisas e seres que incidem no meu trajeto usual da Secretaria para o café e do café para a Rua Erê. esmagadora. tão certos estávamos de que nada havia no espaço além do nosso sistema.. de onda ou ciclone. paralítico. No seu âmbito poucas são as imagens do presente. às fontes de onde se irradia e converte-se numa angústia comparável à que nos provém de uma ação frustrada. seu movimento de translação. e no seu currículo ordinário nem faz. algo destrói sempre os caminhos. afinal. trata-se de uma sorte de melancolia a que meu espírito se adaptou e que. Dir-se-ia que há em mim um processo de resfriamento periférico. E se tal vida é melancólica. entretido com eles. comunicando-se de indivíduo para indivíduo e resultando. assim. chorar.interrompem o equilíbrio do meu pequeno mundo e nele vem produzir desnivelamentos que suscitam mais fundos movimentos interiores. ao meu sistema planetário. Habituei-me a uma paisagem confinada e a um horizonte quase doméstico.minha vida tem sido insignificante. realmente. e o amanuense põe a alma no papel. de seguir. portanto. No seu bojo. e o braço cai. de receber e transmitir essas forças misteriosas que nela atuam. Tais seres e coisas pertencem. dançar ou destruir. vibrações estranhas. Em mim. introduzindo o elemento multidão na minha esfera e propondo-me novos espetáculos ou novas sugestões. por onde eu a perceba. A variação violenta dos quadros. Reflui. em vão. hoje começado.feição mais ou menos constante. Os outros têm pernas e braços para transmitir seus movimentos interiores. e muitas as do passado.

em rapaz. sua terceira noite. Entreguei-me. que a livrou dos braços de um marinheiro. Lembra-me que homens e mulheres. Novo cordão levou-me. Procurei desvencilhar-me. fui arrastado pelos acontecimentos. de colarinho alto e pince-nez. quando inesperadamente me vi envolvido no fluxo de um cordão. dançavam. Deram-me uma corrida e. que aquele jacto resvalara de outro rosto a que o destinara uma boneca holandesa. no meio daquela roda alegre. sem perceber o disparate. § 7. Procurava. acompanhando a massa na sua liturgia pagã. bebendo ali. correndo atrás de choros. Respondi-lhe que. porém. Não sei como. àquela humanidade que me pareceu mais cansada que alegre. aquelas migalhas me consolavam e comoviam. e entoavam os coros que descem do Morro. me pus a entoar velha canção de Vila Caraíbas. mãos postas nos quadris do que ia à frente. desanimado.sofrendo. Mas o homem espia o homem. Imagino a figura que fiz. ACONTECEU-ME ontem uma coisa realmente extraordinária. consumi a garganta em serenatas e que esta. Uma gargalhada espantosa explodiu em torno de mim. para outro lado. Tanto fizeram que. sem nenhuma análise. como pude. envolvido em que grupo. Já ela estava repleta de carnavalescos. Não tendo conseguido conter-me em casa. acabei presa de grande excitação. a origem dessa carícia. o atrativo do cordão. que vêm da carne. entrei no salão de um clube. desci para a Avenida. como podiam. pois os foliões se engraçaram comigo. Um máscara-de-macaco deu-me o braço e mandou-me cantar. não ajudava. nesse vaivém. com os olhos gratos. de blocos e cordões. . já agora. mas a onda humana vinha imensa. Dêem-me um jacto de éter perdido no espaço e construirei um reino. crescendo em torno de mim. A DONZELA ARABELA. Bebendo aqui. Um jacto de perfume me atingia às vezes. por trás. Mas a boneca holandesa foi arrastada por um príncipe russo. abandonaram-me ao meio da rua embriagado de éter. entregar os sentidos à doce música da Bayadera. encadeados. segundo hábito antigo. Toadas tristes. a um de fundo. então. Contudo. outro há que analisa e estiliza o sofrimento. Os sambas eram tristes e homens pingavam suor. mas percebia. inexoravelmente. por momentos. e. Talvez fosse preferível ingerir certo vinho capcioso e. Pus-me a examinar colombinas fáceis. e fui. que a radiola derrama no ar molhado. que aproveitavam. do lado da Praça Sete. depois de me terem atirado confete à boca. pela frente e pelos flancos.

e meus olhos só percebiam a doce visão. Pobre mito infantil! Nas noites longas da fazenda. no tempo e no espaço. a incorpórea e casta Arabela.A certo momento. que são o pão dos homens. . em mim. renunciar aos rumos da inteligência e viver simplesmente pela sensibilidade—descendo de novo. alguém me enlaçou o braço. o véu que cobre a face real das coisas e que foi. em um momento impossível de localizar. Esse absurdo romantismo de Vila Caraíbas tem uma força que supera as zombadas do Belmiro sofisticado e faz crescer. Parecia que eu me comunicava com Deus. aqui e ali.. Também tenho uma vaga idéia de que alguém me apanhou do chão. descerrado por mão imprudente —parece-me a única estrada possível. Como estava bela! A música lasciva se tomou distante. Seria uma fórmula para nos conciliarmos com o mundo. Meu corpo se desfazia em harmonias. Em meio dos corpos exaustos. Onde houver claridade. cantando: "Segura.. Foi uma visão extraordinária. Pareceu-me que descera até a mim a branca Arabela. Entregar-se a gente às puras e melhores emoções. Era ela. meu bem. lentas e desconexas. à margem do caminho. não deixes partir o cordão. fui dar acordo de mim. bem noto que vou entrando numa fase da vida em que o espírito abre mão de suas conquistas. ou de qualquer outra perturbação. Arabela. já sol alto. Efeito da excitação de espírito em que me achava. e as vozes dos homens chegavam a mim. Há muito que ando em estado de entrega. e que um anjo descera sobre mim. Olhei ao lado: a dona da mão era uma branca e doce donzela. Nesta noite de quarta-feira de cinzas. numa comovente pesquisa das remotas origens do ser. que morreu de amor e que na torre do castelo entoava doridas melodias. e me pôs num canapé onde. e alegre música de pássaros se produzira no ar." O braço que se lembrou do meu braço tinha uma branca e fina mão. desmesuradamente. chuvosa e reflexiva. converta-se em fraca luz de crepúsculo. senti-me fora do tempo e do espaço. segura na mão. para que as coisas se tornem indefinidas e possamos gerar nossos fantasmas. um Belmiro patético e obscuro. e o homem procura a infância. contava-se a história da casta Arabela. Mas vivam os mitos. Não me lembra quanto tempo durou o encantamento e só vagamente me recordo de que. a mão me fugiu. Jamais esquecerei: uma branca e fina mão. pisado e machucado. cautelosamente. O mito donzela Arabela tem enchido minha vida. a donzela do castelo que tem uma torre escura onde as andorinhas vão pousar.

Trazem-lhe uma nova imagem de Arabela.. ... O LUAR DE CARAÍBAS TUDO EXPLICA. já de início. posso contar as coisas tal e qual se passaram. humanizando o "mito da donzela" na rapariga da noite de carnaval. Começarei por contar honestamente os motivos por que. fazendo-o voltar para a vida. armado por mim contra mim próprio. abandonei este caderno de apontamentos. Analisado agora friamente. oferecem-lhe o presente sob aspectos enganosos. . nesses domínios obscuros da consciência. Como na noite de carnaval. nas quais o espírito se há de comprazer. e já sem a desculpa do álcool e do éter. HÁ TRÊS ou quatro semanas não tenho tocado nestas notas (senão ligeiramente. tão sugestivo para um livro de memórias. . voltei. Mas o primeiro. E estas páginas se tornarão. e que o passado apenas aparece aqui e ali. Presumivelmente curado da moléstia. embora isso exprima o malogro de um plano. então. em conjunto. Já que as seduções do atual me detêm e desviam.§ 8. ainda estão ativas nele e realizam um sorrateiro trabalho. crê encerrado o seu ciclo e volta para dentro de si mesmo. sedento e agitado. hoje. e o espírito se deixa apanhar na armadilha. ainda há pouco eu hesitava em confessá-lo: foi a moça. Examinando-as. trazendo-me dias agitados. Vejo que. a essa a que vou chamando Arabela. aromas ou cores que recordam coisas de uma época morta. que impelem o homem para a frente. Para iludir-lhe o espírito vaidoso. São dois. Tudo se torna claro aos meus olhos: depois de uma infância romântica e de uma adolescência melancólica. encarnando formas pretéritas. e o segundo é fácil de dizer: foram as velhas. noto que. em evocações ligeiras. por lhe ignorar o nome de batismo e porque. suscitadas por sons. de novo. à procura de fugitivas imagens do passado. Mas as forças vitais. e estas notas devem refletir meus sentimentos em toda a sua espontaneidade. o episódio do carnaval me parece um ardil engenhoso. não insistirei teimosamente na exumação dos tempos idos. se compromete meu plano de ir registrando lembranças de uma época longínqua e recompor o pequeno mundo de Vila Caraíbas. o homem supõe que encontrou sua expressão definitiva e que sua própria substância já lhe basta para as combustões interiores. durante as três últimas semanas. sob disfarces cavilosos. o presente se vai insinuando nestes apontamentos e em minha sensibilidade. contemporâneas. Foi hábil o embuste. Depois da quarta-feira de cinzas veio-me uma aura romântica que me pôs meio lunático. Não farei violência a mim mesmo. para acrescentar uma ou outra linha a esta ou àquela página. .

voltar a estas notas. confiei o episódio e minha desordem sentimental ao Silviano. visto que anda em maré análoga). o que atrás foi dito sobre o amanuense que espia o amanuense e lhe estiliza o sofrimento. mas o luar de Vila Caraíbas tudo explica. em vão. o que lhe dei se me afigura o adequado. Até o chefe da Seção notou minha inquietude e fez-me assinar um requerimento de férias: "O senhor está precisando de repouso e deve aproveitar a ocasião. e a imagem da moça encheume os dias. estudar. como se se tratasse de um ser real. dos seres e das coisas. No momento da devastação. Quis. ao seu encalço. poderão vir lucidamente.. As modificações que a paixão determina em nossa substância e a diversa visão. penetrando a multidão. perdendo a noção do ridículo. não muito convicto. E ninguém o ignora: a literatura das emoções é feita a frio. aquilo que não passava de uma criação do espírito. O Secretário está fora. os movimentos desse desvairado músculo.) Em tal estado de espírito. Felizmente (e com certeza por solidariedade. a confidencia. ao plano da nossa análise. não é capaz de se desdobrar ao ponto de permitir ao espírito. para fins literários. ele não fez troça. Devo retificar." (Na verdade nunca tivemos serviço. entreguei-me inteiramente aos secretos impulsos. quando. Postava-me nos logradouros públicos. Naquelas horas. que se . então. e contudo esperançoso. Observo agora que o namorado. Pelo contrário. e temos pouco serviço. bebi algumas vezes e andei como vagabundo pelas ruas. Podem rir-se de mim. Pus-me a procurá-la quase com aflição e. e o adolescente permanece no adulto. que ela nos proporciona. nesta página. tudo já serenado. mas os namorados me compreenderão: amei. A vida não se conforma com o vazio. e jamais conheci ficção burocrática mais perfeita que a Seção do Fomento. o espírito calcula e mede—mas certamente não são suscetíveis de registro. mais tarde. Só passados alguns dias a tola idéia deixou-me.afinal. no instante em que devastam nossa sensibilidade. ouviu. Muitas vezes entrevi uma figura gentil e fui. sério. alma e corpo se solidarizam. Logo verificava o engano. Tive noites difíceis.. e a aventura de carnaval se foi dissipando no meu espírito. quando o coração bate desordenadamente. e a memória ou a imaginação é que reproduz ou cria as cenas passionais. é fácil de ver que eu não poderia retomar estas notas. percorrendo toda a cidade em busca de Arabela. É extraordinário que nesta altura da vida me tenham acontecido tais coisas. no momento preciso de sua agitação sentimental. Eu pediria inutilmente o socorro do bom senso ou da análise nas horas em que vivi a perseguir uma imagem que teria um terço de realidade e dois de fábula.

tivemos de consentir em sua extravagância: duas ou três vezes por dia arranjava mingaus para os ratinhos e ficava o tempo todo a espreitá-los. uma tábua do assoalho. AS VELHAS. e Francisquinha. Posso ler um pouco e escrever até tarde. Carolino. tudo está em paz. um dia desses. Emília voltou a insistir em que eu trouxesse um padre para exorcismá-la. talvez. quando está melhor. e Francisquinha foi melhorando. O SEGUNDO motivo da interrupção de minhas atividades de escriba. Um espírito mau a domina. contínuo da Seção. foi-me possível. é comum que pegue as peças já limpas e as atire ao chão. Josefa lavadeira lhe meteu na cabeça que a Chica está possessa. lava roupa. para não a vermos de novo agitada. e não há meio de a fazer compreender que eu compraria muito mais caro as horas de sossego que Francisquinha experimenta quando se entrega àquela tarefa. Quase cedi. não daria conta de olhar pela mana se. foi doméstico. ocorreu outro empecilho: o estado de saúde das velhas. eu ficasse impossibilitado de lhe prestar auxílio. uma ninhada de ratinhos. meio apodrecida. Acho-me cansado e não há pressa. É verdade que isso nos sai caro: nos seus repentes. que andou inquieto. a crise passou. escalar a superfície lisa e vertical. às voltas com sua gota ciática. e as velhas se entregaram normalmente às suas funções. a todo instante. Francisquinha piorou consideravelmente. Vivendo. desde alguns dias. Deu para coisas que até me fizeram rir. Tivemos de prender a pobre mana no quarto. na noite em que comecei de novo a folheá-las. já lhes disse. A casa retornou ao seu clima habitual. . Agora. Desde muito. A meu pedido. . Josefa lavadeira vive a resmungar e a querer tomar-lhe a roupa. para ter a Emília tranqüila. e. momentos tranqüilos.vão tornando o centro de interesse de minha vida. Mas. já ontem. trouxe-me blocos de papel em . Emília cozinha. retomar minhas notas. Levantando. talvez excitado pelo barulho que a mana produzia. É uma velha cabeçuda. tendo passado duas semanas de extrema agitação. como nestes dias. de longe. Passou a dispensar-lhes cuidados maternais. tentando. Que dias difíceis! Finalmente. Falarei nisso amanhã. não estando em férias. Gritava coisas desconexas. supunha-se perseguida por uma mula-sem-cabeça. Ela ficava noite e dia a arranhar a parede com as unhas. o que só temos feito em último caso. para de novo metê-las na água. inclusive o Tome. descobriu. Emília. não sei como. § 9. pisando-as.

para mim. O timbre da Seção do Fomento encima estas páginas. As leis que regulam a circulação dos homens nos parecerão. uma trepadeira. em outra residência. e já não veremos acaso nem gratuidade no desenrolar dos fatos da vida. a cuja flor chamamos. de que. cujo endereço me fora fornecido sob indicações vagas. Bem me recordo. HÁ. Se digo tolice. mas nem por isso desagradável. Andando esta tarde com Glicério por aqueles lados—ao voltar de uma visita de pêsames a um companheiro de Seção. Explico-me: havia. mas ouvi. uma trama secreta que. § 10. no caráter de necessidade que julgo acentuar as aproximações humanas. então. lógicas. Viva a Seção que me dá o pão e o papel. uma auditiva. As duas imagens se consorciaram no meu espírito e ainda hoje nele permanecem. mais tarde. há dois anos. no sertão. E já lhes contarei por que meu pensamento tomou hoje tais rumos. uma canção napolitana que ouvi a Camila em tempos idos: Tuorna a Surriento. agora. envolve uma química. que me perdoem: adquiri. Será uma pouco vivaz. por engano. Uma criada.quantidade. que perdeu a filha—uma . havia uma criatura que não vi. em tal ou qual sentido. dama-da-noite. ou apenas repito idéias velhas. SEM dúvida. mas o fato me deixou duas impressões nítidas. os encontros mais rápidos que sejam e se nos afiguram fortuitos. e acho-me abastecido para o que der e vier. Vivendo e observando as coisas. NUMA RUA. dentro da casa. Ela desprende um aroma de alto poder evocativo. perceberemos que o fugidio vulto—mal entrevisto em um encontro que nos pareceu destituído de significação ou conseqüência—teve. uma física e uma economia social extremamente sutis para que a ciência humana possa penetrá-las. que me veio atender. esclareceu logo o equívoco. se os coristas angélicos se dedicassem ao gênero. E. passando à noite pela Rua Paraibuna. Cantava como o faria um anjo de Van Eyck. olfativa. o hábito de filosofar e fico horas e horas a pensar em certos fenômenos. E essa trama se evidencia. outra. no jardim da casa. por despontar somente à noite e murchar durante o dia. fiz-me anunciar. neste escritório da Rua Erê. à procura de um farmacêutico vindo de Vila Caraíbas. um momento de maior ou menor influência em nossa vida. enriquecidas de outras que lhes ministrou este demônio fantasista que me habita. encadeando os acontecimentos. UMA CASA.

Já adivinharam quem seria: Arabela. Pode-se. e fiquei a imaginar doces coisas. —Aumenta-se o pecúlio da Previdência e toma-se um empréstimo em dezoito prestações. nos separamos. no ponto de espera. o ato do Governo promovendo. tomando cada qual o seu bonde. sugeria um arcanjo. transmudado em distinto cavalheiro que seria o protetor da donzela. Aurélio. morreu há um mês. —E uma fatiota nova.dama-da-noite. pelo caminho percorrido. ao falecido pai. por merecimento. mesmo. O pai. sussurrou uma voz. Não. se eu não ouvisse uma risada quando entrei em casa. entrando aqui com essa cara de alma do outro . Com o crepúsculo. Quando cheguei a pé. não conhecia. Na Rua Erê. e. leitor. estava. tempos atrás. atraiu-me a atenção e despertou-me lembranças. na casa. sucedendo. Dr. Nunca ouvira. Sou um incorrigível produtor de fantasias. Perturbou-me bastante o encontro. talvez escondesse a da canção. . voltei pelo lado oposto da rua. este nome tão sugestivo. observou Glicério. a retalho e por atacado. Esquecime desta triste figura e sonhei um terno idílio. perguntei ao Glicério que moça ali morava. já a flor abria suas grandes pétalas brancas. um pouco além. —Mas é preciso comprar as alianças e um presente muito bonito. segundo o novo plano predial. A moça é que é fabulosa. Foi o demônio da Jandira que me tirou daquela sorte de embriaguez. pendente do gradil de ferro de certo jardim. Era precisamente a casa a cuja porta bati. Assim me vi desembaraçado do Glicério. —O nome é o menos. em caracteres nítidos. ao Bar do Ponto. Não é preciso dizer o que fiz: voltei. nem mais fina nestas redondezas. nada mais. Não há criatura mais linda. Fomos caminhando juntos até que. —Não a conhece? Deveras? É a Carmélia Miranda. a passos apressados. E assim continuaria.. lembrava um anjinho amável. com o coração em desordem. construir uma casa. movido por um pressentimento... uma jovem estava à janela. desci pouco adiante. Ela vive com a mãe e um irmão pequeno. Apressei os passos. Um relance de olhos revelou-me que sua fisionomia não me era estranha. senti-me nomeado segundo oficial e cheguei a enxergar no Minas Gerais. Quando de novo passei em frente da casa. que devia ser. mesmo. o amanuense Belmiro Borba. Queria ver novamente a dama-da-noite. —Que susto me pregou. Recordando-me do episódio e da voz puríssima que trauteou a canção. nada menos.

mundo! Há uma hora estou esperando você sozinha. mais naturista!). O AMANUENSE AMANDO ESTÁ. Jandira voltou sem dizer o que queria. volvo os olhos para um lado. tem qualquer problema a resolver. em minha mesa. nossa amizade sobreviveu a essas crises e acabou por criar certos tabus entre nós. enquanto. uma folha de papel onde se alinham versos frustrados e se estende uma caprichosa série de rabiscos. ORA. dá-se que começo a amar. que o deputado Fortuna está na bica de ser secretário. costuma insinuar o que deseja somente no post-scriptum. realmente encantador e provocante. levou-me um livro e lá se foi pelas oito horas. sempre que aparece. e com ar de indiferença. nisto não andou virtude. Refeito do abalo. procurava descobrir a razão da presença de Jandira. Louvado Deus. O chefe pigarreia. Já lhe disse que. o Dr. Que casa hospitaleira! disse. O sintoma é positivo: acabo de tentar um poema. tentar uma prosa com Emília. neste escritório. e por pouco não lhe teria dito as palavras do desejo. Quando. que são as mesmas. Não é que sejam raras suas vindas à Rua Erê. As mulheres inteligentes não têm nisso menor prazer do que as outras. Dias houve em que ela me perturbava profundamente. infelizmente. pondo-me a mão sobre o ombro. sob o olhar complacente do chefe da i&laíISeção. enrola um cigarro de palha e declara. possuo um invariável bom senso e termino aconselhando-lhe qualquer coisa sensata. como hoje. A velha está hoje inabordável e por pouco batia-me a porta no nariz. depois de. Talvez tenha vindo apenas mostrar-me seu vestido novo. ao cabo de contas. mas nem isso fez esta noite. e sim timidez. fui o único que não tentou conquistá-la. balbuciei qualquer esfarrapada desculpa. mas bem sabe que. recusando-me devaneios acerca de sua geometria e convocando este anjo latente e prestimoso que nos segue como a sombra Afinal. que andando para lá. . Pereirinha. sob reservas. Contou-me que obteve colocação no escritório de um advogado. mas. De acordo com a tática epistolar do sexo. em todas as línguas e em todas as épocas. ela me vem tão desejável e tão perigosa (como a saúde de Jandira convida a uma ligação menos literária. que a mão vai traçando para disfarçar sua incompetência e esperar uma inspiração que não vem. Faço por ser engraçado e lhe digo tolices. no íntimo. por duas vezes. Da roda. para cá. § 11. que me fez tímido. finge que não nota. referiu-se maldosamente à Joana e suas turras com Silviano.

querendo. não nasceram para esta vida.Meus honestos e graves companheiros de Seção se acham a postos. e há dois ou três que excedem os sessenta. outro. São raros os que chegam à burocracia triunfante. e sente-se que. que é aquela em que o espírito se integra no bureau e o homem não é mais do que um conjunto de fórmulas e praxes. seu semblante se abre como que recitando a fórmula "saúde e fraternidade". Poucos deles assinam o ponto de humor sereno e com aquela unção de que deveriam estar penetrados." Há outros que teriam feito carreira no Exército. o companheiro de cavanhaque e lunetas douradas. Mal posso. o Romualdo. à hora de encerrar-se o expediente: "Eu dava era para a política. já recebe adicionais e ainda acredita que nasceu para o brilho e a dignidade da Igreja. meus amigos da Seção exercem com desencanto suas funções. Tirante o Glicério. e isso acontece sempre que a praxe foi relaxada. desviando-lhes a rota da vida.. que é novo na vida e na burocracia. casei-me antes de tempo e aqui estou vegetando. O velho que se assenta a meu lado tem trinta anos de serviço. Sente-se que ele está firme e definitivo na sua escrivaninha de primeiro oficial. Bons sujeitos. "Se eu não tivesse deixado o seminário. cada dia.. O processo é sua religião e o senhor diretor a instância suprema. talvez fosse bispo!" exclama ele. Mas não tirei carta de bacharel. E assinam o ponto com rebeldia na alma e desprezo pelas mãos. com todos os vencimentos. após tantos anos de exercício das suas funções. Quando sorri. no fundo. com multas e penas. É o homem que manda o peticionário selar a petição e que volte. Os mais ficam na burocracia militante e inconformada. em forma hierática e cabal. Acolá. Mas. Mas houve qualquer coisa que tudo atrapalhou. suspira. É o Filgueiras. mas sempre revoltados. não me contrista. está todo um sistema de leis fiscais. Quanto a mim. que trabalha no compartimento contíguo. ou nas letras. é o próprio processo. na alta administração. atrás dele. se algo há de que me ache firmemente convencido é ter neste bureau um destino lógico. os demais passam dos quarenta. entre duas informações deitadas com letra trêmula num requerimento. na generalidade dos casos. ou melhor. . recusando-se a pôr o espírito em função no ofício que lhes parece tão contrário à vocação e preferências. Tinha jeito e tive padrinhos. que. que já requereu contagem de tempo para aposentadoria. Quando franze os sobrolhos. como caso excepcional. Admiro. seu vulto assume a solenidade de um edifício público.

satisfeito com o trocadilho. do flautista que. nem arabelas. Vivemos tão preocupados com o nosso próprio espetáculo que no geral ficamos cegos para o alheio. Depois de animada reunião em sua casa. A instalação é quase tão pobre como esta que me arranjei na Rua Erê. ir tentando sacar. Todos nós nos preocupávamos com o problema. numa rua. do Glicério. segundo a expressão do Florêncio. Foi o Florêncio quem promoveu o encontro. em nome dos amigos comuns. de nossa Secretaria. e a colocação deveria ser bebemorada. nestas compreendidas também as de espírito. conter um movimento de ternura. Jandira levou a ultimação a sério e nos convocou esta noite. ele lhe exigiu. Eu vos estou amando e prestes me acho para as nossas impossíveis bodas. Quando lá cheguei. *** —Mas. com emoção mal disfarçada. não tive olhos para lhe ver alguma coisa. acorda dentro de mim e tenta uma serenata. Aos sessenta anos. informações mais circunstanciadas acerca da moça que apareceu na janela de uma casa. que nos faz o Estado. já estavam todos. Ponho-me a imaginar um Belmiro sexagenário que tenha renunciado compulsoriamente aos jogos do amor e já não sofra a necessidade dolorosa de compor um poema. de uma aposentadoria condigna. ela me chamou à parte e tez algumas confidencias melancólicas. já não sofrerá donzelas. mas pacificado. quando contemplo. no arranjo doméstico. ou de. e mais um. que o acontecimento tivesse comemoração condigna. no pequeno apartamento que ocupa. em uma casa de cômodos da Rua Curitiba. ao pôr do sol. além das graças de mulher. desconhecido. e quando me lembro da promessa honrada. o edifício grave. DESCOBRI hoje o motivo por que nossa amiga Jandira veio ver-me anteontem. fizemos boa camaradagem (é minha única amizade feminina) e. céptico. com a tia. Informado de que Jandira se empregara. neste instante. Arabela. Conheço-a desde dois ou três anos. o repetia para cada um que encontrava. embora. um Belmiro triste. de que a amiga é bem dotada. ou melhor. entretanto. será o fenômeno amor? Creio que vos estou amando.na verdade. § 12. acolhedor. CONVERSAÇÃO COM JANDIRA. Mas a amiga dá uns toques tais. Zombe eu. que. que ali .

apegou-se ao assunto e continuou: —O que ignoramos é como se não existisse para nós. logo uma cadeira e um copo. Tanto pior para o amanuense incauto.sempre tenho a impressão de estar sendo recebido em casa de finos burgueses. Joana. Que deponha. Belmiro. Com a minha chegada. e as coisas se dispõem de tal forma que ela a ninguém cede em elegâncias e modas. Porfírio. Com este princípio. sobra-lhe em engenho. que deveria correr animado antes. Apesar das dificuldades internas da casa (quando a amiga está desempregada. Silviano tem a mania de batizar cada pessoa com o nome que lhe apraz. O que lhe falta em dinheiro. pois o tom geral era de sorrisos maliciosos. que as devorava com os olhos. mas Joana só conhece uma face do monstro. Ela se pôs muito bonita para nos receber e fiquei lisonjeado por mim e pelos demais. fielmente modeladas pelo vestido. Silviano não é dos mais assíduos em casa de Jandira. Sou triplo. Mas não pensem que é fácil estabelecer uma combinação . as duas passam aperturas com a magra pensão que a velha Hortênsia recebe da Caixa Beneficente das Viúvas e Órfãos dos Militares). perguntando-lhe como conseguira habeas-corpus da Joana. arranjo-me em casa. Por outro lado. já estando meio alterado pela bebida e sem os freios que a discrição nos impõe. não. Fui saudado com um "oh!" geral da roda e. aproximei-me do Silviano. é a base da ordem doméstica. Satisfeito com a oportunidade que lhe dei para um discurso. o Silviano. estou na Gazeta de Minas fazendo revisão de um artigo que dei para o Suplemento. não eram ontem propícias a pensamentos castos. não abre mão dos direitos de exercer sobre ele uma fiscalização contínua. Jandira se veste como filha de ricos. a respeito. sempre que se encontram.. —Porfírio. A presença do Silviano era. para comparecer na reunião. embora conformada com as extravagâncias do marido. Para dizer qualquer coisa e integrar-me na roda. o colóquio. pois brigam. pois o chope já ia adiantado. sou múltiplo. para acomodar as mulheres. costuma chamar-lhe Abundâncio. Falariam de mim? Alguém devia estar penando. realmente. parou um pouco. Jandira me trouxe. —Mentindo! respondeu nosso filósofo. livrando-me dessa situação aborrecida de quem chega e interrompe o fio da conversa. É o que é preciso fazer. Para todos os efeitos. a quem estas modas de 1935 causam profundas perturbações. Ao Florêncio.. A mentira. e as formas. retifiquei pela centésima vez. Jandira está na força da carne. de se notar. vindo a meu encontro.

. Animado pelo olhar de admiração deste..constante de mentiras. que é nietzschiano. cortou o Florêncio. desde a morte do marido. manifestandose solidária com o sexo e assumindo um ar conservador. irritada. Vocês. interrompendo-o. no seu tom professoral: —Um exercício longo. Silviano encolerizou-se: —Não me dirijo a você. Para atingir a perfeição. este continuou a falar. —Ninguém duvida. devemos sempre mentir. instintiva. Basta-lhe um homem. como se estivesse a pensar no defunto major. disse Jandira. que sustente o equilíbrio do lar. e se . ao mesmo tempo. minha flor. Glicério.. fluente. apenas a diferença de substância e não de forma. para enganar os maridos? Acharia bom? Silviano não se perturbou: —A mulher. a fim de que cada mentira se articule perfeitamente no sistema e seja. sorriu satisfeito.. provocando uma gargalhada de todos. durante horas. isto é que é.. Como despregada do mundo. Sem responder. E se as mulheres resolvessem adotar sua teoria. —O que sei é que vocês são uns cínicos. que contrabalançava a expressão hostil de Redelvim. como um parlamentar experimentado que não dá atenção aos apartes. Jandira diz que D. uma sombra. A chegada da tia. casados. junto a nós. Fica. cuja presença mal se sente. dando silenciosamente a mão a cada um... Cumprimentou a todos. truão! Estou falando é às pessoas qualificadas desta roda. Jandira interveio. que me surpreendeu: —Não acho graça nenhuma nisso. Dessa vez. e o guerreiro requer muitas mulheres. deviam ter mais compostura. Silviano continuou a discursar: —A felicidade para a mulher está unicamente em divertir o guerreiro e pensar suas feridas. conquanto a velha seja uma criatura apática.. É preciso um exercício longo. Um pouco impaciente com aquela farsa.. estabelecida. provocando novos aplausos. haja ou não haja necessidade. —Não para você. São o passatempo do guerreiro. com essa alusão à mitomania do Silviano. alheada. evitou que a conversa descambasse. lógica. espontânea. Hoje sou um artista no gênero. cujo retrato pende da parede. Assim a mentira acaba vindo fácil.. não necessita disso. aparteou outra vez Florêncio. que veio de uma novena na igreja do bairro. Hortênsia sempre anda assim. entre ela e a verdade.

no quarto. Já o pilhei a conversar sozinho. pedindo que ficasse mais um pouco à porta da rua.pôs a um canto. Magoaram-se uns aos outros. junto da velha—. o Pensador! Oh! Como isso me diverte! disse Silviano com um ar que parecia afetado. talvez assustada com tamanho alarido em sua sala. Florêncio. Fica para amanhã cedo o relato da conversa com Jandira. as discussões vêm azedando nossa pequena roda e vejo que ela não tardará a dissolver-se. ao capitalismo. para conversarmos a sós. durante todo o tempo. *** Já é tarde e Emília chama por mim. A CONFIDENCIA. meio sorridente: . Dispunha-me a sair. —Um palhaço. mais que afinidades. Redelvim. E por aí se engalfinharam os dois. a beber. mas que lhe é habitual. quando Jandira me tocou no braço. E criaram uma situação de tal constrangimento que cedo a reunião se dissolveu. § 13. pois há forças de repulsão. com eles e com o desconhecido—a quem atrás' me referi e que. entre estes inquietos companheiros. me repreende pelo que denomina "irreprimível vocação plebéia". pois não disseram novidade. afinal. ao contrário. à margem. Glicério. Passaram ao terreno da política. exprimindo seu desprezo pelo Silviano e pelo Glicério: —Mentalidade sórdida de burgueses! Vocês são uns idiotas e uns palhaços. Redelvim e o desconhecido se afastaram. sirvo. sem que nenhum ficasse abalado em suas convicções. É uma verdadeira descida dos meus altiplanos. e o tom que emprega em seus monólogos não é outro. no meu "cepticismo de pequeno burguês (a expressão é dele).— Chega a escandalizar-me esta minha condescendência em vir conversar com vocês. que até então apenas bebia. Jandira me disse. O começo de discussão tirou a graça da festa. Silviano. atacou um assunto perigoso. esteve calado. LOGO que Silviano. Enquanto Glicério e Silviano se inclinam para o fascismo. Isso não quer dizer que me poupem. Redelvim me chama comodista e vive a dizer que. Certamente precisa de algum remédio. Redelvim e Jandira tendem para a esquerda. Desde muito. Não repetirei o que disseram. não se animando Glicério a entrar na briga e apenas seguindo-a com um sorriso de aprovação ao Silviano. Só eu e o Florêncio ficamos calados.

—Pois então feche o negócio! —Idiota! Ainda estou bem moça para fazer negócios. Dizendo-me coisas desse gênero. continuei. Deve ter uns quarenta anos. Não me presumo credor de elogios pela escolha. . eu lhe dava na cara. Impressionou-me esta confissão. Tem uns cobres. mas não este. Preciso. mas velada-mente. e fez-me a confidencia que me surpreendeu: —É claro que recusarei sempre. —Não é possível. e as mulheres também estão sujeitas a certas exigências. à sua situação. Nesse caso. não percebi. continuou a falar. . nesse caso. —Passe-lhe a tábua. em mim. Todos me olham como se quisessem devorar-me. Sabe que é velho e que não pode exigir muito. Hortênsia é apenas uma sombra. Mas. Depois. tenho medo de ceder. em que ela não poderia encontrar ressonância. se você estiver disposta a agüentar com as manas.—Esse homem que esteve aqui e a quem vocês não prestaram atenção. Talvez por isso me tenha escolhido para confidente. Habituado a pensar nos meus próprios problemas e a perder-me neles. E às vezes sinto-me fraca. não me quer escravizar. tenho pensado. o homem. Será que me considera inofensivo? Levado por esta estúpida interrogação. ter sempre a companhia de vocês. Belmiro. respondi. fiz uma pilhéria de mau gosto.. —Já recusei três vezes. Jandira me olhou com ódio: —Se não soubesse que você está apenas fazendo uma gracinha. Em conversas anteriores ela aludiu muitas vezes. Ouça. vivo tão sem apoio. Seria uma humilhação. Só falta proporme... e só agora compreendo o sentido oculto de suas palavras. é viúvo. preciso de um homem. então. As meninas-famílias dispõem de papais e irmãos para imporem respeito aos dons-juans que andam por aí. Bem.. estou falando a sério. A gente é de carne e osso. e insiste em dizer-me que abre mão de direitos de exclusividade sobre mim. não digo. —Deixe de ser bobo. mas o sujeito é muito teimoso. Poderei continuar a mesma vida. ora deprimida. por alguma forma suprime. aqui tem um homem. Jandira não tem amigas e D. de um homem. feita com esforço não pequeno. Você não imagina o que é a gente ser perseguida pelos homens. É a terceira vez que ele me propõe casamento. todo dia. Eu tenho de reagir sozinha. ora irritada. eu também me candidato. está-me perseguindo com propostas de casamento. embora me sentisse realmente penalizado: —Se o caso é de urgência. com urgência. todo dia..

eu costumava entregar-me a um passatempo perigoso: procurar. E não é. mas por omissão. Afinal. pela sua representante junto à Rua Erê. igual número de argumentos. assumindo ar de mofa e provocando-me. positivamente. Jandira voltava ao seu clima. eu compreendia tudo. Protestei. ANALGÉSICO. Ora. Quando nos despedimos. Jamais encontrei algum cujo contrário não pudesse ser também defendido. Gostei dessa reação. sabem o que sou. sem achar saída. como você é analgésico! Voltei para casa tranqüilo. dizendo que. Fazendo minhas . o burguês Belmiro! Redelvim deu para humorista. e prometi-lhe que ainda lhe levaria um bom marido. Redelvim e Silviano o exprimiram: para o primeiro. dentro em pouco. Acham indispensável classificar o indivíduo em determinada categoria. da mesma força. sintoma de vitalidade. Ela o emprega com o sentido de sedativo. cheio de possibilidades. Olhou-me pensativa. exceto eu. eu me censurara pela minha incompreensão. § 14. meu anjo. Ela devia saber disso. serei um céptico pequeno burguês que. com que Jandira me brindou. no tocante a dado conceito. Minhas palavras produziram bom efeito e. ou for tudo. Percebendo que esse jogo de antinomias acabaria deixando-me com uma telha de menos. naquele momento. RELENDO a página escrita ontem. para o segundo. que era muito nova para desesperar de uma solução. volto a remoer o adjetivo analgésico. Expliquei-lhe. como qualquer um. Mas está dito: sou analgésico. todos. que não tem o senso da hierarquia e tende para um igualitarismo dissolvente. Não é culpa sua. ela é que não parecia razoável: levou muito longe uma simples pilhéria. não por ação. Uma criatura bonita e jovem assim tem diante de si um mundo grande. E se eu não for coisa alguma. sou um homem fraco. porém. que realmente estava brincando e que. ETC. embora não muito satisfeito com o adjetivo. . a favor ou contra.. ou de mais. logo depois de ter dito aquela tolice. Quanto ao que pensam de mim os velhos companheiros. como pude. eu preferiria a de excitante. serve o sistema capitalista... Vocês não compreendem isso. ao mesmo tempo? Há anos passados. no seu calão. já estava brincalhona: —Belmiro.Fiquei encabulado. É o que pensam as mulheres. um elogio atribuir-me a função de calmante. desde que ela não me queria. Achava. abandonei-o. e disse: —Fui uma boba em pensar que podia lhe falar essas coisas.

§ 15. postar-me à frente de uma porta lateral. cheguei mesmo a esquecê-la. cedinho. Aurélio Miranda para assistirem à missa de trigésimo dia. diz Silviano. por onde geralmente se retiram as pessoas discretas ou enlutadas. desviei sem querer os meus olhos. Lendo. DESDE a noite da reunião em casa de Jandira. obter uma imagem sua que se fixasse. se me ocorresse que a família sai por último. de chapéu e luto fechado. a coluna dos falecimentos e das missas fúnebres. a procurar o carro da família. assim como. Carmélia. com mais vigor. é que entretêm a vida e a preservam dos efeitos devastadores de um sentimento intenso e continuado. dando repouso à sensibilidade.contas. convidando os amigos e parentes do saudoso Dr. ou não senti coisa nenhuma. na escrivaninha da Seção. o Minas Gerais. Creio que já não quero o mito mas a pessoa. não tive. E nela vejo um aviso. Assim foi: a filha. presa que fica pelos abraços de pêsames das pessoas conhecidas. quando queremos forçar demasiado a atenção em qualquer coisa. atraiu-ma desta vez. que Deus pôs no mundo paisagens. durante o dia. em um momento propício. preocupados que ficamos com tal esforço. Entretanto. ainda a tempo de. as operações do seu ofício. precedendo aos presentes. MISSA DE TRIGÉSIMO DIA. Ontem. senti-me. outros bens. cuidados. neste velho escritório ou em algum trajeto de bonde. Desejaria bebê-la com os olhos. escapou-me uma imagem nítida de Carmélia para só ficar um esboço vago de seu vulto. celebrada em intenção de sua alma. eu não pensava mais em Arabela (Carmélia. e mal pude deixá-la. vi que a simples aquisição de umas botinas novas me desequilibrou o orçamento deste mês. Por que essa timidez? Não me . esta coisa nos foge. e só fui dar acordo de mim quando entrava na igreja da Boa Viagem. não sei por que ardilosa conspiração das coisas. inclusive Jandira. Quando. porém. Não sendo parente nem amigo do defunto. o irmão pequeno e a viúva só apareceram mais tarde. que jamais me chamou a atenção. Mas parece que a sensibilidade descansa apenas para redobrar. deixando Glicério. também. E não foi senão para favorecer o esquecimento. quero dizer) e seu vulto mal pousou a meu lado. convidado. Não fora preciso tanto açodamento. parecia mulher feita e nela mal reconheci a misteriosa moça em flor da noite de carnaval. outros males. forças para mirá-la de frente. ela alçou rapidamente a vista. Essas intermitências. para alimento dos longos dias que passarei sem a ver. Como na tarde em que voltei â Rua Paraibuna. em minha memória ótica. Já estava no fim a cerimônia.

conhece e nem perceberia uns olhos plebeus que nela se detivessem furtivamente. para compareceres. porque os bichos comeram os trapos que o vento não levou. ainda estou a lamentar minha inépcia. muito além da qual nasceu Iracema. pude apreciar esse São João alegre e buliçoso. passei ao largo. salvando a donzela. valerá a pena que eu me incrimine por isso? Lembra-te. ao vê-los chegar. cheio de balões e de vozes gratas da infância. fumares um cigarro e assobiares uma rancheira. Mas. jovem. esse balão que se queima no ar e os foguetes. além. Amigo Quixote. Permanecem com sua força evocativa e voltam com aquela pontualidade inexorável para vir lembrar-nos que estamos envelhecendo irremediavelmente. Escrevendo estas notas. esses dias continuam inundados de uma poesia própria. Sofreia. Certo São João de Vila Caraíbas é um fenômeno que não se reproduzirá jamais. Apesar da literatura que se faz pelo Natal e pelo São João. hão de fazer-me inclinar sobre mim mesmo. As moças de trancas e bandos não mais lerão sortes no copo d'água nem saberão mais qual delas terá a grinalda. de que essas bodas são impossíveis. essa fogueira. em que imaginavas um incêndio. como aquela serra que azula no horizonte. Mas. todos os cavaleiros andantes já se recolheram e não há mais dulcinéias. QUANDO vi a fogueira. Em cada ramo à beira do caminho ficou um pouco de nossas vestes e é inútil voltar. qual delas se cobrirá de flores e . uma inundação. em busca de um balão que as monções carregaram para outras latitudes? Vã tentativa de reintegração de porções que se desprenderam da alma nesse trajeto imenso. O melhor é tomares a xícara de café que o Carolino pôs sobre a mesa (excelente Carolino). no momento preciso. Por que. § 16. É inútil que faças projetos. como diz Glicério. para viajar pelo tempo afora. Eis o lado melancólico do São João. Já tens trinta e oito primaveras e ainda me compareces com tais veleidades de mocinho. um terremoto ou uma guerra. com medo de que os meninos me atirassem bombinhas. rica. amanuense. Belmiro. neste vetusto bureau da Seção do Fomento. que vão atrás dos balões. cruzai" os ares e deixar-te em certo alpendre da Rua Paraibuna. que resiste a todas as agressões dos principiantes das letras. mais distante. perdidamente. do Natal e do Ano-Bom. o irmãozinho e a viúva. Cada ano. o corcel fogoso que contigo quer transpor esta janela. Carmélia é fina. como outro dia. UM SÃO JOÃO QUE VAI LONGE. É da alta. mesmo de longe. verificamos que a paisagem do passado vai ficando mais azul. afinal.

Qualquer coisa a respeito de um viajor e de uma estrela. que cantava inefável modinha. mesmo. A estrela sempre longínqua. nós ficaremos de braços dados. a pensar nas terras impossíveis e no destino trágico da Nau Catarineta. e até horas mortas um aroma brando de batatas assadas me mantinha. Hoje é o nosso dia. ora com ele combinando encontros de rua. Naquele tempo a fogueira crepitava até horas mortas. Vamos perambular pela rua. Enquanto a fogueira funcionar. O que eu . amanhã me abandono (perguntando-me se a vida vale tantas renúncias). quando o rapaz entrou na Seção. Num exame de consciência. rendime às suas tentativas de aproximação e criei-lhe estima. Velho Belmiro. porém. inconscientemente. Hoje reajo. Talvez o pirata esteja apenas desfrutando a moça. desfruta a estima da alta goma. vai a um luxuoso clube de campo. onde jazem os restos mortais de Dona Ana de Freitas e Ataíde. Há quatro anos. pensando que chegaria à estrela. Moço Belmiro. O certo é que. Tempo velho. § 17. ora indo-lhe à casa. e que essas concessões têm feroz fundo utilitário: adivinho nele o caminho para Carmélia. Sua inclinação é para as donzelas de nobre linhagem. joga bridge e tem outros hábitos aristocráticos. não simpatizei com ele. a vê-lo sempre à minha procura. CASO da noite de carnaval introduz.de perfumes e arrastará um véu comprido no pavimento da velha Matriz. nem tristes. Tempo velho. Com o tempo. desenvolvo uma tática complicada. Pareceu-me pretensioso e decidi-me a não tomar conhecimento de sua presença. aos poucos. sem boas intenções. Nem sei. Habituado. noto que faço ultimamente grandes concessões ao Glicério. contemplando as fogueiras e cantando certa modinha que ninguém ouvirá. recomendado pelo Senador Furquim. a coisa virou. O rapaz freqüenta a sociedade. nunca o procurei. explicar por que namora a filha do chefe de Seção—que é de condição modesta—e receio que esse namoro dê em nada. Estas notas são íntimas e nelas devo pôr toda a sinceridade. apenas nos namorando e nos lembrando daquela moça de cabelos de retrós e de brancas vestes. cedendo ao comodismo e reservando meus lazeres para os velhos companheiros. novos rumos em minha vida. procurando atingir Carmélia por via do Glicério. nem alegres. E ele viajava toda a vida. rente do braseiro. Agora. que deixou um legado para a freguesia de Caraíbas. sempre adiante do viajor. QUE OS BORBAS ME PERDOEM. e afinal me desloco.

A mistificação nos prestigia de certo modo e satisfaz a uma pontinha de vaidade que não conseguimos reprimir. Falou-me que o Senador Furquim. vivo. ele se mostra despótico. em cuja casa iríamos jogar. mas agora me revelo um sabujo consumado. pois o senador não admite cacife acima de dez mil-réis. ao cabo de contas. § 18. . já que o ridículo é de todos os namorados. Recusei terminantemente. fez-me comprar um terno novo e camisas da moda. o Redelvim. foi um pôquer. cercado de um halo misterioso. embora lhe escape a intenção. encarece muito o acolhimento que eu. Jandira foi quem apurou essas coisas. que só admitem em seu círculo a ele. Não me pesa confessá-lo porque. bom parceiro. por outro. Não me disse que haveria danças e o pretexto. pondo-me fora de meu mundo e em contato com uma fauna humana de caracteres inteiramente desconhecidos para mim. aos olhos dos filistinos. quanto ao rapaz. E fica. assim. para a sortida. Explico a questão da importância: desde muito tempo. talvez para se divertir com o meu embaraço. mas a tirania de Glicério leva-me a coisas que nunca fiz. Glicério. é inteligente. ser traduzido por um vocábulo mais simples e direto: adulação. obrigando-me a acompanhá-lo a um baile. no caso. e nós as perdoamos ao rapaz que. e exibe-me em lugares aonde nunca fui—por um lado. embora tivesse curiosidade de conhecer a casa de um senador e privar com um pai da Pátria. com sua rede de informações. Faz-nos passar por monstros literários. que sempre foram grandes amorosos e hão de compreender-me. usando de um trunfo que assinala sua superioridade sobre os companheiros de bridge e tênis e suscita a admiração de ingênuas mocinhas. ficamos lisonjeados com isso. para se prestigiar em sua roda de sociedade. o Florêncio e a Jandira lhe dispensamos e nos encarece também. Percebendo a ação. por eufemismo. Manda a sinceridade que eu escreva também que.chamei concessões. era homem muito simples. inacessíveis. pode. para se dar importância e. UM BAILE DAS MOÇAS EM FLOR. Tenho adulado em todos os tempos e modos. como esta noite. e esclareceu que o jogo seria barato. EU ME conformo com o meu ridículo. nunca bajulei ninguém. o Silviano. É que essa aventura me intimidava. o mancebo. Nunca chaleirei políticos. Perdoem-me os Borbas velhos. qualquer um assim procederia: tenho adulado Glicério. cá entre nós. Aboliu-me o colarinho alto. apesar de tais tolices.

lestos e gráceis. à moça Carmélia. como o amante que ainda mais ama a companheira. nem há dúvida. para festa dos olhos e malinconia do espírito. Meu lugar é nesta Rua Erê. Tome. Dissolveu-se a roda. Nada mais depressivo que sentir outras gerações surgirem depois da nossa e nos disputarem espaço. abandonado pelo Glicério. por muito tempo. transportei-me a uma janela. experimentei uma transfiguração: senti-me em Vila Caraíbas. aparecidos às dúzias. no bom tempo das polcas e das quadrilhas. Prudêncio Gouveia e o velho Giovanni. O serviço público não jubilou. mas não jogamos uma hora. não couberam no salão e reclamaram. Cantavam. afastaram-se os móveis e. Minhas moças em flor de Vila Caraíbas. tinham vestidos brancos que modelavam seios morenos e castos. assim. . Eram também ágeis. Tive inveja daqueles que as enlaçavam e as valsavam. quando o juiz municipal de Vila Caraíbas ia reclamar contra o barulho do instrumento. Havia realmente o pôquer. Traziam-me uma imagem da vida que foge. A vida nos ilude cada dia. Receber o calor dos novos seres e sofrer-lhes o contato ainda é pior que o frio de uma velhice que nos espreita. os caminhos para Carmélia. Era uma data aniversária na casa. entre Emília. que andavam aos bandos e formavam grupos indemarcáveis onde se operava a translação contínua de uma beleza fluida. Pouco me faz: toco trombone é para meu uso.Mas o medo de descontentar o meu tirano e de fechar. a tirania de Glicério. porque moças e rapazes. mas nós a queremos. ao luar. tocamos para a casa do senador. Por um momento. pela sensação de aposentadoria. com ardor recrudescido. inefáveis modinhas. também. em particular. ainda. Meu lugar é outro e meu clima é bem diverso do desses salões a que ele me transporta. assentei-me em uma poltrona. o melhor é esconder-se nas cavernas do peito e nelas procurar o panorama do seu tempo. mas eu bem as via. Compreendi a necessidade de fugir às moças em flor e. Ai de nós. fez-me ceder às suas insistências e. idiliei ao pé de um jasmineiro. velhas. e foge sem dó. este burocrata mestre. O baile me deixou miserável. tal a das virgens da praia de Balbec. o gabinete do senador. a um canto. rirão de minha literatura sentimental. Moças proustianas em flor. os que vamos passando. hoje outoniças. como dizia mestre Rizério. Mas a vida está me encostando. As moças não me notavam. Francisquinha. que ainda alcancei. coletiva e móvel. A quem vai passando. tomando um automóvel. Se algum dia caírem estas linhas sob os olhos de alguém. Mas não poderei suportar. quando sabe que ela o engana.

de pintos. GLICÉRIO comunicou-me hoje. na Seção. dentro de casa. muitas vezes. não digo uma aproximação—com que já não sonho—mas pelo menos referências ou informações a respeito de Carmélia. Deus sabe quantas vezes tenho passado. com o que irrita a cada instante a galinha mãe. § 20. Pois. ouço-lhe mil ninharias sobre a vida da sociedade e sobre rapazes ou moças que conhece. É uma idéia bem fora do comum. minha situação é essa. porventura. esperando ver a moça. dizendo que se acham gripados. venceria a timidez e atacaria o assunto: estou certo de que. que ele me diga espontaneamente qualquer coisa. mas. além das palavras ditas no momento em que passávamos em frente da casa da Rua Paraibuna. Se eu tivesse dez anos de menos. IDIOTA. Mas. Vai viajar agora e teremos sete dias durante os quais não haverá nem mesmo esperanças. por uma semana. a viagem me aborrece. só para ver a casa. e escrevo. de dia. é de todo descabido e Glicério haveria de rir-se de mim. por isso. bom camarada. nesta obsessão tola em que vivo. de namorado aflito. . no que se refere a Carmélia. Passo o dia todo a seu lado. Aos vinte e oito anos eu poderia (não sendo apenas amanuense) pretender essa Carmélia que não terá chegado aos vinte. Achei péssimo. seu propósito de ir ao Rio. idiota. que me fale sobre a moça. Pegou um colchão velho e tenta fazê-los dormir nele. ou a tenho cruzado. idiota. diretamente. IDIOTA. Pergunto a mim próprio se. Noutra ocasião. SILVIANO E O PROBLEMA FÁUSTICO. Eu próprio me tenho rido. não serei a pessoa menos equilibrada desta casa. mas que não excede os desvarios que ando praticando. Não me animo a pedir-lhe. agora. nesta altura dos acontecimentos. aos trinta e oito. O que Francisquinha faz é. IDIOTA. na Rua Paraibuna. Nada mais lhe arranquei. mas o demônio lhe fecha a boca. horas mortas. à margem destas páginas: idiota. mais extravagante que estes devaneios meus? Abandonou os ratinhos (ou melhor. quando não me enojo. isso me seria indiferente. GLICÉRIO seguiu ontem para o Rio. Vive a dar cafiaspirina aos pintainhos. Tenho esperado. onde passará toda esta semana.§ 19. eles lhe fugiram) e cuida. Será mais uma semana de atraso nas minhas tentativas para dele obter. não se recusaria a servir um namorado em aflição. em que pese à minha percepção do ridículo.

Como demorasse um pouco. e fiz uma descoberta sensacional: a do Diário do Silviano. Tempo:—Primeiras chuvas de 1935. A visita ao Silviano transformou uma noite que se anunciava péssima em bem-humorado serão. Carmélia Borba. fui atrás do Silviano. que ele não tardaria. e pôs-me à vontade no escritório. Continuo a alimentar-me. o Fáustico—0 amor (vida) estrangulado pelo conhecimento. não fizesse suas mágicas.Será uma semana difícil para mim. porém. o céptico e outros seres que perturbam a vida do rebanho. se a noite não sucedesse ao dia e se o espírito. Às vezes lhe tenho ódio. Não sei até onde irá esta fantasia de amanuense ocioso. a culpa é da Seção do Fomento. fui-me entretendo em folhear livros apanhados aqui e ali. a ausência de uma possibilidade. Estou pensando no que seria de nós. Deixem-no folgado. mergulhado na sandice. O que nos vale são as mágicas. à sua espera. pela importância que assumiu em minha vida. com medo da solidão. submissa. Para a tarde. à noite. com receio de que fosse pilhado nesse ato desonesto. Carmélia Miranda Borba. melhorei e. Joana disse-me. isto é. É ela que passa a mão pelos meus cabelos e pergunta:—Que tens. Belmiro? (Como lhe ficaria bem tutear-me!) Foi assim que passei o dia. que há em nós. É só espairecermos um pouco e o prestidigitador. encontra temas para nos ocupar a atenção e desviar-nos de uma idéia que nos amofina. No fundo. Passei o dia todo a escrever no papel: Arabela Borba. Tolices. afinal. de conversarmos sobre a moça. Sensibilidade:—Tchaikowsky—Chant sans paroles. e a privação de sua presença me desespera. cada dia. na mesa ou nas estantes. e a causa não foi outra senão a ausência do peralta. Meu ócio não traz fermentos de anarquia. o poeta. A docilidade dos fantasmas! Já não a procuro com angústia: é ela que vem a mim. entre mil contrárias. e achando-a extremamente curiosa. . Problema:—O eterno. bem o sei. copiei-a às pressas. Abrio na página marcada. Bem agem aqueles que acorrentam os homens e lhes dão um duro trabalho. que não fomenta coisa alguma senão o meu lirismo. Não o achei em casa. que era a última. Eila aqui reproduzida: TERMOMETRIA DE UM ESTADO PSICOLÓGICO Data:—Domingo. mas faz que Carmélia entre sutil por uma janela da Seção e pouse a meu lado. e teremos o anarquista. 23 de agosto de 1935. da esperança de ouvir-lhe algo sobre Carmélia. ao chegar. Hoje o dia me pareceu insuportável na Seção. de mansinho.

tripla. Silviano.) O que lhes parecerá cômico. três. em alemão. E é divertido ver-se o ar céptico que Joana assume. desde o ridículo até o espantoso. nesta página. nada tem de comum com aquilo que entendemos vulgarmente por mistificação. Leituras:—Amiel:—Journal intime. será preciso que. Silviano é exato no que diz. Silviano chega às vezes a ser exasperante. logo de início. elementos próprios de sua imaginação. sobre uma ocorrência qualquer. Outras vezes. Florêncio. fá menor.Beethoven—Concerto n. em Silviano. Se nos contou um fato que nos interessa. cinco Silvianos presenciaram aquele fato. acerca de qualquer coisa. antes. É um recriador e vê-las-á não como se apresentam. Reproduzirá com honestidade o que viu ou ouviu. me acho em presença—não de um indivíduo. Freud.° 3—Adágio. possivelmente veraz. Há nele uma nebulosidade permanente. acontece que às linhas reais de um episódio ele acrescenta uma extraordinária riqueza de pormenores imaginários. Estranho homem. formas especiais que ele lhes empresta. Chopin—Concerto—opus 21. Esquecimento. Flotow—Marta—ópera-cômica. lhe pecamos nova narrativa do acontecimento. qualquer coisa como um conflito de paixões que transborda das fronteiras do indivíduo. dez ou vinte vezes. julga-o um mistificador. Se nos dá uma versão dupla. Às vezes tenho a impressão de que. Não conheço criatura mais complexa. em frente dele. Sabe quanto é precária a tentativa de sacar um depoimento preciso do marido. perco a noção de "ser" para ter apenas o pressentimento de que lido com algo extrahumano e puramente cerebral. Na verdade. de uma unidade—mas de um ser múltiplo ou. daquilo que desejamos saber. Mas o que Florêncio e Joana não compreendem é que a mistificação. que ele tem das coisas. pelo contrário. cada um a seu modo. quíntupla de um fato. é um dos muitos aspectos curiosos do Silviano: a impossibilidade de se obter dele informação direta ou exata. é talvez simplesmente trágico. quando o interrogamos em sua presença. O que desorienta o Florêncio. E há de tudo nele. mas como . espaçadamente. Maranon:—Amiel. piano e orquestra. mas é que viu ou ouviu por um processo psicológico menos fiel que o nosso: abundantemente se incorporam às percepções. é porque realmente dois. Previsões do clima mental:—Más. a fim de conseguirmos uma versão média. em sua simplicidade. Parece-me que não se trata de um gênero comum de mentira e que. (Seguem-se palavras ilegíveis.

Ou talvez dissesse que ele compõe essas memórias com a esperança de que o caderno íntimo algum dia venha a cair sob os olhos de alguém. o esboço. atualmente no prelo. nos mentia. depois. pareceram-me sinceras. Redelvim diria que Silviano representa perante si mesmo. por certo. mas. Voltando ao Diário. Silviano não tardou muito. mas Joana. Escute. com aquiescência da Joana. que exerce o teatro gratuito e interior para uso pessoal. ora escritas em alemão. percebe o fenômeno. no dia seguinte. em casa de Jandira. me disse que "o nosso amigo Abundando" lhe contou ter ouvido.. que mora em Sabará e queria passar uma semana em casa deles. com tal trabalho. Falavam a respeito dele. Humorista. achou mais interessante figurar a si mesmo uma fugida sem o consentimento da mulher. amigo Porfírio. nem mugiu. achando-se a mulher informada de que a reunião tinha caráter inofensivo. Acrescentou que esta pretendia obter. Silviano vota horror à sogra..gostaria que se apresentassem. conversa muito interessante entre o Professor Otelo e outros da Universidade. Dizendo ali ter estado sem que a mulher o soubesse. Esqueci-me de dizer-lhe que Mamãe chega amanhã. muito satisfeito. ao cabo de contas. Ouvi. embora não o possa evitar. num café.. indecifrável. soube fazer a transação. As mentiras deixadas em casa de Jandira são daquelas que pertencem ao processo de recriação do Silviano." E ele não tugiu. talvez o perfil nítido desse singular histrião. eu encontraria. Se algum dia pudesse decifrá-las. e denotavam grande expectativa em torno de opúsculo seu. que fora à casa de Jandira. deu o golpe: "Ah!. a arquitetura. Exibe-se. no momento propício. tal como fez. reforçar os seus títulos na Universidade. tudo isso. manhosa e songamonga. portanto. Silviano espera. e procura iludir-nos. ora em latim macarrônico. que andou a bebericar com o Florêncio. como cabotino consumado. dentro da nebulosa perturbadora. visando a esconder-se da Joana e dos estranhos. mais tarde. e que é um estudo sobre o suicídio. e fica uns dias conosco. Deixou que o marido se preparasse para sair. de sua própria boca. . pois. você no meu antro! Galernos ventos o trouxeram. Estava pensando em você! Contou-me. dando-se por mentiroso consciente. em vez de cômica. Aquelas páginas.. para que o Reitor . —Olá. Mas estou certo de que não é assim. como de costume. Vi que esta noite não brigaram. Você já vai? Espere. Com sua lucidez. outro dia. Vinha alegre. repetir-lhes-ei que a página será trágica. para uma platéia futura.. uma concessão especial: ser permitida a vinda de sua mãe. ora num alfabeto cuneiforme. criador de um sistema de mistificação longamente desejado e encontrado. com essa beatitude que o sexto ou oitavo chope nos traz. à hora em que este punha o chapéu na cabeça.

segredou-me. Sim. pareceu-me afundado em altas meditações. o fáustico de Amiel se enquadra no definido por Spengler. Porfírio. Por mim! Fui roubado! . apanhou uma c leu: "En efecto. Virou-se. Foi à estante e de lá retirou um livro. de algum modo. —Veja que página. Esta noite. vista momentos antes. respondi. consultou as fichas. atravessando a floresta com seus companheiros. uma inquietação fáustica.. de súbito. Silviano estava no seu grande estilo. era Ia estrangulacion dei amor por el conocimiento: ei problema de Fausto." E continuou: —Onde viu isso? Onde? —Não me lembro. homem de planície. estrangulado pelo conhecimento. uma cópia da Maja Desnuda. encontra raparigas que bailam numa clareira. piscando um olho. Problema fáustico. na síntese de Salvador Albcrt. como ei de tantos hombres... Creio que em uma revista literária . Andando majestosamente para lá. dizendo que ia ler-me algo maravilhoso. Porfírio. ande em tais altitudes.lhe melhore a situação.. por motivos especiais. O amor. Só vive lendo romances. . É este. —Bem.. Silviano arregalou os olhos: —Onde é que andou escarafunchando isso? Sim.. para cá. que página! Puramente fáustica! Infelizmente você não entende o alemão. continuou: —Puramente fáustico! Você já leu Spengler? Certamente não leu. dizendo-me que. é. quando disse que o "mito Donzela Arabela" é um símbolo fáustico... —O mito Donzela Arabela é um símbolo fáustico. A alturas tantas ficou um pouco melancólico. pensara muito em uma confidencia que lhe fiz há tempos. —Elas representam a vida. Porfírio! A um olhar meu. el problema de Amiel. mostrou-me. a vida que foge diante do asceta! E.. interrogativo. para mim. Lembrando-me da página do Diário. Isso é um mal incomensurável... não quis significar que você. respondi-lhe com ar de quem procura recordar qualquer coisa: —.. depois. Saltando de assunto para assunto. . também minha.. Espere. Mas. vida. Foi a uma gaveta. Apenas me pareceu que essa aspiração do imaterial e do intemporal feminino. de Goya. Incomensurável! E traduziu para mim o trecho do Also sprach Zarathustra. "Presente de uma jovem amiga". em que o herói. o problema fáustico. com um gesto espetacular: —Isso deveria ter sido escrito por mim..

mas ficamos satisfeitos. UMA DATA IMPORTANTE. Eis uma data importante neste solar da Rua Erê: completo 38 anos. que minha melancolia tenha vindo simplesmente da atmosfera. Depois de nossa última conversa. que foi que aconteceu? disse Joana.—Sossega. meio aflita. como se diz em Vila Caraíbas. quando ela me barrou os passos. entendi de sair. para definir certos estados de espírito. provoca alterações em nossa substância espiritual. muito conhecido. para trás. E o dia de hoje amanheceu pesado como chumbo. amanheci com certo peso. porque é dia de balanço. abre-se mais: foi-me extremamente gentil. a maginar. Não se resolve nada. Quanto a mim. O homem é um animal definidor. e uma gripe pneumônica . desde a chuva até a música. puxou-me pela manga do paletó e levou-me ao quarto grande. Não acredito na sinceridade daqueles que dizem nem sequer perceber a passagem do aniversário. aqui em casa tudo vai bem. o peru foi omitido. muito mais meteorológicos do que supomos e tudo o que modifica a atmosfera. que é de origem cósmica. que Mariana anda restringindo. velho profissional da tristeza. à tarde. homem. Um anjo pacificador desceu sobre as coisas. É dia que ninguém esquece. recebe-o com boa disposição: é mais um pretexto para o chope. Aliás. também. Pode ser. naquele ano. e ia pegando o chapéu. O déficit é grande. despedi-me do filósofo. por gestos. com certeza. Aludia ao aniversário. Como estivesse sem fome. A loucura de Francisquinha parece atenuada. a inventariar o realizado e o não realizado. para frente. menos taciturna. não se esqueceu do peru tradicional. por exemplo. entrando com uma bandeja de café. Tomado o café e pedidas a Joana notícias da prole. Somos. dei para me sentir um tanto ou quanto fáustico. VINTE e cinco de agosto de 1935. e Emília. no curso destes últimos anos. § 21. no coração. a folhinha pendurada na parede. Entretanto. Viva a tradição dos Borbas! Não esqueceu mesmo não. À melancolia do amanuense. achando bonita a expressão. para me mostrar. Um acesso muito forte de Francisquinha. juntaram-se hoje as angústias especiais do aniversário e talvez um pouco daquilo a que o Silviano chama "inquietação fáustica". pouco tempo depois de haver chegado da repartição (onde recebi numerosos abraços). mas nem sempre se fica macambúzio: Florêncio. só em 1930 e em 1933. Grande coisa é encontrarmos um nome imponente. Emília. na verdade. Olhamos a vida.

o peru. Logo depois que voltei. confeccionados segundo um rito especial de Vila Caraíbas. assim foram aparecendo o Silviano. entre anedotas. UMA CONVERSA com Redelvim. tipo 1910. esta noite.de Emília. às vezes. Tratei-os bem. outros tantos meios artificiosos que a vida emprega para manter. reconciliando-se com os velhos amores. prodigalizei-me libações. Florêncio abriu-as com ternura. mas esta não apareceu para receber cumprimentos. com um litro de uísque mandado vir do fornecedor e algumas botelhas de cerveja de sobressalente. ONDE SE APRESENTA UM REVOLUCIONÁRIO. em nós. e se persigna. Silviano já o disse. as mágoas se esquecem. quase feliz. ao tomar comigo as refeições. e. Um nada qualquer. Quem se entende? A gente amanhece sombria e anoitece. um anteparo de papelão). Retiraram-se. e o caso assumiu um aspecto quase doce. A gentileza desta tarde. o interesse vital. Acabado o uísque. por último. Sentindo-me tão bem disposto. § 22. Apreciaram muito os pastéis de Emília. o calor de qualquer ser humano. que o anteparo de papelão foi hoje suprimido (comumente. compareceram-me os amigos Giovanni e Prudêncio Gouveia. Arabela hoje não me está doendo muito. transportando-me para um plano onde as coisas perdem o travo amargo. E tudo isso compõe. cujo autor é ignorado. após ligeiro discurso às velhas. que foi preferido por todos. impediram a comemoração a que os Borbas varões têm direito. ou principalmente. no dia natalício. Emília coloca diante de si. a alma relaxa-se. deixou-me . saí para a rua assobiando a valsa Saudades de Ouro Preto. sem dúvida. Notei. mesmo de pessoa como Emília. Ah! Não: é um símbolo fáustico. Jantei amplamente. sobre a mesa. O que não a impede de ser uma valsa deliciosa. Nada houve de especial na reunião e a conversa correu alegre. quando vê o pequeno escritório ocupado por tais clientes. em quem nossa alma não encontra ressonância.nos vinho do Rio Grande e peixe de Pirapora. tem surpreendentes efeitos analgésicos. esquecendo a dispepsia que acompanha os Borbas há tempos imemoriais. na manhã de hoje. pergunto a mim mesmo se o caso Arabela não terá sido apenas fruto de solidão e timidez. meus vizinhos. as canecas de vinho realizaram uma operação benéfica. tive. o Redelvim. ainda. A uns julga loucos e a outros criaturas excomungadas. a lembrança das comemorações domésticas. Fiquei para o jantar e a mesa me comoveu: além do peru. no outro. e. a Jandira e o Florêncio. para não me ver.

que revoluções ou guerras são reajustamentos. Respondeu-me. recolhera a relação de todos os seus membros em cujo número ele. criaturas que sentem e pensam. como eu. sempre que começo a meditar: perco-me num labirinto de antinomias. seria solidário. meio nervoso. aliás. no Redelvim e na Jandira. Talvez algumas leis. que houvesse receios no espírito do amigo e perguntei-lhe acerca do que lhe poderia acontecer. e o fracasso era fácil de prever. estava incluído. deixando-me aturdido. neste País. Quanto ao mais. mas ele. Redelvim. para breve. a civilização poderia ter. por ocasião do fechamento da sede do Partido.. mesmo. referindo-se ao ato de reformar uma promissória) e temos uma sociedade de avais mútuos.. Redelvim ficou irritado com o meu tom e interrompeu-me dizendo que falava a sério. Revoluções sempre as houve e haverá. Nós nos servimos um do outro. pensando que. sempre que se trata de "sujigar a onça" (como diz o Florêncio. Os indivíduos nada significam. segundo seu modo de pensar. E que a polícia. Quando há. além do mais. asperamente. Silviano era um reacionário imbecil. saiu às pressas. sobre o problema. só cuidava da própria pele.. um sentido mais cordial. por um instante. Supus. muito claras e comumente se manifestam contraditórias. . sem os cruentos conflitos que andam pelo mundo. que sua situação pessoal não interessava e que um pequeno burguês. Ao contrário do que acontece ao primeiro (se acaso foi sincero no que disse) os indivíduos significam demais para mim. apreendera documentos. propriamente ditas. Ao final de uma das páginas que ficaram para trás já lhes contei o que se passa em mim. o expediente do Banco. ou abstrações econômicas. Mas o que houve de extraordinário foi que. eu vejo homens. Mas sou apenas um falido poeta lírico e rir-se-ão das idéias. Pensei. Quanto às revoluções. ainda.apreensivo. Fiquei melancólico e cívico. ainda cedo. se começasse a haver prisões. não estava a par dos planos. superpopulação. não sabia de nada.. Respondi-lhe que isso não era motivo para aflições. alguma compreensão. operações da economia da espécie. Silviano acha. Tratava-se de uma revolução proletária. Elas não são. Onde os outros vêem unidades mecânicas da massa. E. para o que desse e viesse. Redelvim. que os acontecimentos se estão precipitando e que se fala na possibilidade de uma revolução. Ele apareceu aqui em casa. E que. depois. a fim de alcançar. pois a polícia vivia atenta. por exemplo. vem uma guerra para destruir o excesso de indivíduos que perturba o equilíbrio social. que me vêm. certamente. for para colher o meu aval. me contou ele. ao ensejo desse encontro.

mas não dou importância a isso. seus temores. após instantânea formação de nuvens. Há quinze anos passados. quatro anos. Trata-me com dureza. adormecido. em virtude de uma desavença com o diretor de sua repartição. com seu primitivismo. é agora trabalhado por dissensões mais profundas. suponho. Também não levarei a sério as declarações que me fez pela manhã. inclusive no celibato. mas bom amigo. sensível. que não dá para atirar bombas nem praticar atentados. o amigo registrou. e cujo equilíbrio sempre foi precário. conheci Redelvim numa república de estudantes. curvados. E homem difícil. que é terno. Na manhã de hoje. nestes últimos tempos. sabendo que a causa de tudo é o nervosismo em que vive. e passou a trabalhar somente em jornais. que lhe voto. punham sementes e as cobriam. Meus receios se vão confirmando. o homem Redelvim. E ele me parece mais anarquista. nas aperturas financeiras e na burocracia. Ao passo que sentia veemente apelo da terra e um desejo vivo de evadirme para lugares e épocas distantes. o sol nasceu forte e o chão me queimava os pés. falecido o velho Borba. abriam covas. onde os homens. mas determinam. Este nosso anarquista tropeçará sempre no coração. até quando. As deste princípio de setembro já não são as primeiras.Vejo. § 23.. cuja imolação em nome de uma quimera seria uma crueldade do destino. O pequeno círculo em que vivo. CHUVAS DE SETEMBRO. simultaneamente. que comunista. inteligente. o mesmo fenômeno que. eu experimentava indizível angústia que resistia a . Quando. sua força e. gera uma tolerância grande para com os golpes que me vêm dele. subiu do solo um hálito intenso e fecundante. mas o cheiro de terra impregnou-me as narinas o dia inteiro. aproximadamente. Dentro em pouco estará irremediavelmente dissolvido. Qual a relação entre tal acontecimento meteorológico e nossa sensibilidade? Eu não saberia precisála e apenas poderei dizer que um homem rural. Por outro lado. para certa gleba da fazenda velha. a anotação a propósito das chuvas: "Tempo —Primeiras chuvas de 1935". Foi um pé-d'água violento e rápido.. Deixou ultimamente o Estado. Um anarquismo lírico. malgré lui. por exemplo. naquela página do Diário. veio a chuva. AGORA compreendo por que Silviano incluiu. Jamais acreditei no seu ativismo partidário. onde moramos juntos. reservada ao plantio. despertou em mim. tomei casa própria para viver com Emília e Francisquinha. a admiração. Temos sido companheiros em tudo.

com virilidade. assim.) não se pode furtar à sua própria contemplação. § 24. Disse-lhe que me presumia um homem sem princípios.. durante os quais todos os fantasmas se desvanecem e os temas torturantes deixam a tona da consciência. que não se trate. que se resume na disposição de orientar-me exclusivamente pela sensibilidade. legados pelo velho Borba. diz-me coisas surpreendentes a meu próprio respeito. ANÁLISE ESPECTRAL DE CARMÉLIA. e esclareceu. Já era tempo de fazê-lo. agora. todas as convicções e pontos de apoio da consciência. contra essa ridícula história da noite de carnaval. que não tem culpa de coisa alguma. desde que vacilaram e caíram. Uma noite de carnaval. O desembargador fitou-me com os olhinhos penetrantes. Uma tarde dessas. tal como ocorre nas composições musicais onde a frase dominante por vezes se eclipsa ou flui tão sutilmente que não a percebemos no concerto de sons. e o pouco interesse que seu regresso me despertou evidencia. onde . Com uma esbatida imagem física.toda tentativa de análise. porém. sempre se sucederam outros. lembra-me uma palavra que ouvi do desembargador Linhares^ acerca da predominância da face campesina em meu temperamento. Há solicitações graves. a uma vida inútil. acaso. aos meus olhos. confiei-lhe meu estado de espírito. por detrás das lunetas grossas. A solidão trabalhou. cheia de sortilégios. Se. que nem esses preceitos me restam e que o que há em mim são sentimentos de ordem moral. GLICÉRIO chegou ontem. fornecida pela moça da Rua Paraibuna. Pretendo. a meus olhos. bonançosos. fez-me encarná-lo nessa donzela Carmélia. entretanto. apenas de passageira anistia. Ao escrever esta página. construí uma Carmélia cerebral que me causava devastações. a salutar reação que em mim se processa. Quem escreve um Diário (afinal. de vagabundo lírico. a mim próprio.. que havia dentro de mim. É um narcisismo a que ninguém escapa. publicar um dia este caderno de confidencias íntimas. Reajo. E criei um ser fantástico. Curioso homem. Aos dias difíceis. a que devemos atender. sem problemas. perdoem-me os leitores as anotações de caráter muito pessoal que forem encontrando e que certamente não lhes interessarão. que tenho passado no correr dos tempos. em encontros rápidos de Livraria. estou escrevendo um. eu revivi um processo infantil e o velho mito de Arabela volveu a perseguir-me. ou que conservava apenas preceitos morais. e um homem não se deve entregar. Nosso comércio é escasso: temo-nos visto apenas uma vez ou outra. e com sombras e luzes.

§ 25. já se sabe. de todo o mórbido romantismo. quando me veio dar novidades do Rio. Giovanni? perguntei-lhe. por causa do filho. hoje cedo. acompanhando Marianina. explorando inconscientemente minhas fraquezas sentimentais pela jovem Carmélia. mas calculei que o velho Giovanni (Joanin. vizinho de quarteirão. sob os olhares perscrutadores de alguns curiosos que farejaram qualquer coisa de anormal na agitação da velha e em suas palavras aflitas. Sobretudo tomar um sorvete. ponhamos de parte essa história e lembremo-nos de que não se pode ser criança aos trinta e oito anos. aliás) e as exibições em rodas sociais. Saí rapidamente. sei lá. entrou desabaladamente pela minha porta. . Descontei tudo. Não entendi bem o seu piemontês. DORMI mal a noite passada. em procura desta última. Há. secreção da fazenda e da Vila. tornando vão meu esforço para. Mas. Marianina. É preciso fazer qualquer coisa. Nada tem com ela a formosa senhorinha da Rua Paraibuna. A Carmélia que amei não existe. quando me ocorreu algo extraordinário. na Avenida. o mais. Não pude esquecer-me dos maus momentos que me trouxe durante semanas. cunhada do velho Giovanni. Nem lhe perdoei todo o tempo que me fez perder. ou vêneto. um bar que nunca se fecha. através dele. reconheço ter sido grosseiro para com ele. e que eu era chamado a intervir. distinto ornamento do nosso set. GIOVANNI E PIETRO. Agora. pois a noite está quente. é contribuição do luar caraibano. como dizem os cronistas sociais.só entram tênues traços da moça. —Que há. E quem está pagando tudo é o pobre do Glicério. a gritar: —Madona Santa! Sior Bermir. Pura imaginação: tudo se resume nisso e nada há além disso. Tratei-o mal ontem. na Seção. Aproveitemos a insônia e caminhemos um pouco. cal vegna veder sior Joanin que lesta a crepar de dispiazer parché ei bambin 1'andá via! Avaliem o susto que me trouxeram os gritos e a entrada espetacular da velha. encontrei-o junto à mesa da copa. das noites ermas. segundo o dialeto do vizinho) passava maus quartos de hora. cabeça deitada sobre o braço. preocupado com a situação de Redelvim e de Jandira. em pranto convulso. saber algo a respeito da moça. inclusive a abolição do colarinho alto (excelente medida. e dispunha-me a sair. Chegado à casa de Giovanni. que me acho de ânimo isento. pondo-lhe a mão sobre os ombros.

a valer. o velho foi tomado de grande abatimento. gaveva minga tanta colpa. que o garoto fazia parte de uma quadrilha de menores arrombadores. ergueu os olhos. . puareto.. o sapateiro). com o auxílio de Beppe: —El me bambin. noto que as linhas estão dispostas em versos. É tolice me percurar porque já estou longe. Haviam descoberto. Sim. em língua mais acessível.Sem levantar o rosto. Os chefes da quadrilha foram remetidos para um abrigo de delinqüentes juvenis. nada furtara. Com a respiração entrecortada. meu caro sior. continuou na língua engrolada. Lendo-o. em sua confusão. no fundo do quintal. esquecendo. quando foi ao botequim. Mi voleva far dei me fiol un duttor. landa dré ai auter. como se se tratasse de um poema: "Besta velha falso. diz-me. porque lhe chamaram "mocinha". e lhe mandaram vestir uma saia. reconheceu-me. ma mi son anda in fúria e giu bastonate. em sua amargura. a criança gritava que não tinha culpa. sob o compromisso de ficar detido em casa. Depois de havê-lo açoitado. que reproduzo agora. . que não entendo seu dialeto. medroso. seu patrício: —Son un disperat. obteve que o menino fosse entregue ao pai. pur un infelice! Me fiol! Me fiol! Só minga cos faro! Depois. o velho estendeu-me nervosamente um bilhete amarrotado. a porta já havia sido forçada. acompanhara os mais crescidos. Assaltavam botequins para comer gulodices. beber guaraná e abastecer-se de cigarros. alta madrugada. besta!" Fico à espera de uma explicação. sior! Minha presença serenou-lhe um pouco o espírito. na polícia. ao fugir de casa. até nunca! Ciao. ciao. e o velho explicou-me. até novas instruções. ou talvez confundindo-me com Beppe (Giuseppe. Um delegado. que o papel amarrotado era um bilhete deixado pelo bambin. com uma vara de marmelo. mas Pietro era o mais novo deles e ficou provado que agira induzido pelos outros. amigo de Giovanni. ciao Falso como tu Só merece pau.. Enquanto apanhava. mas.

pelo Natal ou Ano-Bom. D. Quase que diariamente temos nosso dedo de prosa. fugia de casa. contando-me histórias do seu Piemonte.limitando-se a ver os companheiros beberem e tirarem cigarros. talvez tenha ido para Diamantina. De vez em quando me aparece em casa e. embora às vezes lhe desçam sombras. Pietro—repetia Giovanni entre soluços—era filho único. Tinha amigos na polícia e haveríamos de achar o garoto. e com horror pelo que este fizera. Giovanni estava agoniado. Dois dias depois. Queria fazê-lo doutor. aquela havia já três anos. pude ir à casa de Jandira. Só depois de fatigado de surrar o filho. Imagino o drama do velho. Tinha doze anos. Para ele é que trabalhava. Pereirinha lhe dera um serãozinho. e fustigava sem parar. também italiano. ao mesmo tempo com remorsos. Conheço-o há vários anos. foi que as palavras deste puderam penetrar-lhe um pouco no espírito. pedindo-me notícias de Francisquinha. sua visita é tradicional. seu melhor companheiro. Pelo que me contou. certamente para esperar a moça—. pude perceber a profunda revolta operada na consciência do filho. deixando aquele bilhete. não atribuí importância ao caso e achei tudo . É um camarada alegre. Hortênsia—que ainda não se havia recolhido. ESQUECEU-ME acrescentar. E não será difícil recambiá-lo à casa. que o Dr. § 26. sua vida estará irremediavelmente des troçada. ao pensar na mulher e na filha mortas. azeitonas. desde que me instalei na Rua Erê. Vou comprar-lhe cigarros e ele sempre me detém. falando-me de uma coisa ou de outra. e esta. Traz-me uma botelha de Chianti ou de Barbera d'Asti. que um investigador da polícia me declarou haver indícios de que o pequeno Pietro fugiu para o Norte do Estado. Não a encontrei. passas e nozes. já um pouco tarde. às linhas finais das notas ontem escritas. NOVA CONVERSAÇÃO COM JANDIRA. Disse-me a tia. Mas o velho estava como que surdo. pois a filha e a mulher morreram. Ficara prostrado. dez. Este problema ocupou-me ontem o dia todo e só à noite. Se o filho não volta. Preocupado com Pietro. por haver maltratado o menino. Era a primeira vez que o castigava assim. Bebo o vinho e distribuo as nozes pelas crianças da redondeza. onde mora seu padrinho. Se assim é. Prometi-lhe que o auxiliaria. Tratava-se de concluir um urgente trabalho de datilografia.

excluída a hipótese de uma reação diversa. Só hoje cedo. Tanto melhor para mim. as complicações se multiplicaram na face da terra. continuou: —Vocês acreditam que são absolutamente necessários? Não se pode viver sem homens? Cada qual é mais grosseiro. simulando ar desinteressado. —Só um idiota poderia supor que eu me vou vender a seu Portela. porque não ficaria. teremos futuras complicações. que não conheço. é casado.. esta manhã. isso não é obstáculo. meditando sobre o assunto. Pereirinha. Chamei-lhe Jandirinha. vulgar. adulei-a. para lhe desfazer o mau humor. Pensando mal. tendo ela optado pelo quarentão (o de que lhes falei atrás). que acordou tarde. porém. Minhas palavras bastaram. por que ando tão sumido. mas. Os advogados sempre têm arrazoados urgentes por fazer e vivem às voltas com os prazos processuais. Esse Dr. em vez de fazê-lo depois. da parte de Jandira. os casados. não raro trágico. com desprezo. Não se mostrou surpresa. Deus me perdoe. Desde que se inventou a datilografia. agastada. não fazem senão aguçar-lhes os apetites ou desenvolver neles certo gosto. Atirar-me-ia à cara o primeiro utensílio que encontrasse à mão. que acreditava serem ela e o Redelvim as criaturas mais . ou à noite. ou pensando bem. Tive ímpeto de passar-lhe a mão pelos cabelos e (por que não?) de dar-lhe uris beijos que não seriam senão paternais.muito natural. estávamos a conversar despreocupadamente e. não estava para conversas. —Tá ouvi falar nisso. pelos virgíneos amores. Fez por esconder o mau humor. Não tem outro assunto? Esquecendo-se das confidencias que me fez há pouco tempo. de modo algum. disse-lhe algumas tolices para amainála. tal a ternura que ela me inspirava naquele instante. por que me faço difícil. só me cumpria retirar-me condignamente e procurar novos amores. terminou. imune a qualquer desejo amoroso. As impossibilidades próprias do estado civil deles. Jandira. e as mulheres (de preferência moças e bonitas) tem sido ocupadas nesse ministério. Mas o gesto morreu no pensamento e os beijos ficaram recolhidos.. foi isso o que eu pensei e me fez procurar Jandira. Daí a pouco. respondeu-me. então.tive oportunidade de. o mais vago que fosse. Perguntou-me. contar-lhe a conversa havida com Redelvim. como todos os outros que. calculei que se esses serões se repetem. Respondi com uma brincadeira desajeitada. amorosos ou simplesmente ternos. mas o seu modo de olhar para baixo e para os lados não me enganou. que. Disse-lhe. minha imaginação ensaiou para as virgens que passaram pelo meu caminho. antes de ir à repartição.

Fico lisonjeada com essa idéia de que sou conspiradora.. de boa vontade. que essas práticas eram contra a religião. Movimentando-se por aquela forma. logo depois. não suporta um olhar de desejo. sendo curto. concitando os homens à luta. a fim de se realizar uma sessão com a presença da doente. Entretanto. Ela não o confessa. E. mas a contradição é da vida.. Jandira desnorteia a gente. porém. se for preciso. tentou abraçá-la e levou carão. Dificilmente isso se concilia com as minhas inclinações líricas. zombeteira. a pretexto de despedir-se. etc. mas a polícia poderia pensar de outro modo.. passeando para lá. Mas decerto notou que eu lhe observava as formas com impertinência. empunha a bandeira vermelha. Certa vez Silviano. reage. Conviria. mas defende-se como leoa. § 27. Já não falava. IDÉIAS DA EMÍLIA. desde alguns dias. para o exorcismo. desviou inteiramente o curso do meu pensamento. Nada terei que temer. ao assunto. Emília. sempre que está em xeque. Voltei tranqüilo para casa. Pereirinha. —Foi para isso que veio aqui? perguntou-me. deixasse de imprudências. Emília. não se esquecendo de puxar a barra do vestido que. É partidária do amor livre e de todas as outras liberdades. numa atitude garota. voltou.inofensivas do mundo e nada terem os poderes públicos que temer de seu comunismo meramente literário. porque. HAVENDO Francisquinha piorado de novo. que a princípio cedeu. um dos quais é médium. compõe-se. se assentou de novo. vários padres . a imitar a cena imaginada. em relação a Jandira. quanto ao Dr. tem admitido que abordemos temas perturbadores e. agitava umas carnes saudáveis e fazia nascer em mim uma ternura nada parecida com a que me despertara momentos antes. que fosse discreta. para dissuadi-la disso. portanto. Em palestra. Não lhes contei que é um dos meus fracos dar certo tom picante às conversações com moças donzelas. Veja que chique: a jovem Jandira. Ruboriza-se. objetando. Recusei várias vezes meu consentimento. e compôs cuidadosamente as vestes. E. porém.. insistia em promovermos a expulsão do espírito. mas está sem nenhuma disposição de meter-se em conspirações. não sejamos apressados em conclusões. em chamarmos um padre. cai abatida pela metralha. ouve anedotas fortemente temperadas. Bem. põe-se à frente do bando. lhe deixava os joelhos de fora. Josefa lavadeira convenceu-a de que seria melhor trazer aqui três espíritas que conhece. para cá. dizendo-me que a Zefa garantira que não.

por Josefa e Emília. nossa pobre irmã Francisca vem sendo perseguida por um irmão transviado. com a outra mão. cedi. o médium começou a agitar-se. que muito dano lhe tem feito. Depois. todos rezaram padre-nossos e ave-marias. já no portão de casa. Um. Pedimos vossa ajuda'para que ela se livre desse mau espírito. enquanto Francisquinha foi. para meu giro habitual pela Avenida. Os espiritistas tomaram uma xícara de café. Dentro em pouco. O médium levantou-se. cumprimentaram-me cerimoniosamente e assentaram-se em torno da mesa. observando o rito. Que o demônio da lavadeira arranjasse a reunião. procuravam mantê-la naquela posição. trouxeram Francisquinha e puseram-na em uma cadeira. respirou profundamente e sob as preces dos circunstantes. fiquei a um canto. levantada e posta ao meio da sala. também. que o irmão. Pobre mana! . fez. De pé. que me disseram ser presidente da mesa. ao lado do médium. Que é que vocês querem? O presidente respondeu: —Pai João. Vendo que estava inteiramente obcecada pela idéia e não seria prudente contrariá-la por mais tempo. gesto de lhe tirar do corpo alguma coisa. com alguma dificuldade. desejaram-nos paz e se despediram. a cabeça e começou a falar: —Deus esteja nesta casa. a quem falta a luz. Em seguida. Pai João está aqui. não mais a persiga. dela ouvindo um histórico a respeito das perturbações da mana. declarou que iria fazer uns passes e que todos deveriam ajudá-lo. concentrando-se. mãos nos seus ombros. Às oito da noite. meus filhos.admitiam o espiritismo. Colocando a mão direita por sobre a cabeça da mana e andando em torno dela. Dispus-me também a sair. o homem voltou ao seu lugar. tirando-lhe a razão. ouvi Emília dizer: —Chica vai melhora com o dijitório de Deus. interrogou a Josefa sobre o caso. com suas orações. os homens chegaram. Foi o que se fez hoje. pela boca do médium. Pai João. depois. Inclinou. e. tornou a si. Quanto a mim. pondo-se em transe. O espírito saiu. e Francisquinha foi levada para o quarto. Estava terminada a sessão. Emília e Josefa.

com ela desci na Avenida para irmos ao Parque. entrara num período de ação e vivia procurando contatos. Desde muito tempo. a que ela deu a competente resposta. Era um sujeito incrível. também. compreendi o resto. deixei o emprego. Esse foi. guiando uma baratinha de luxo. quanto ao Dr. o pirata mudou de. seu jogo foi o de um conquistador apressado. abraçou-a à força. explicou Jandira que o fulano era o tal advogado. Por várias vezes. não saber o que irá acontecer. Estávamos à espera de um bonde. Há uma distinção. A princípio. em um restaurante.§ 28. que percebo. PROBLEMAS DE PROLETÁRIA. a fazer-lhe propostas desonestas. dispensando-me de fazer conjeturas sobre os motivos que a teriam levado a procurar-me. ar donzelesco e . ao ouvir palavras de repulsa. que reconhecia a ilegitimidade de qualquer pretensão sua. interrompi. —Mas o problema continua.. respondi. Nos últimos dias. E. Pereirinha a perseguia.. ao chamá-la para o escritório. quando um homem. de tenacidade fora do comum. FOI BOM nada ter concluído. que observou ainda não ser hora de jantar. Mas o Dr. Sei que não sou. Pereirinha. —Em resumo. onde costumamos reunir-nos. —Não. terminou Jandira. De um relance. Confessou-lhe que. Depois. o Dr. porque. —Isso é o menos. técnica. Muito fora dos seus hábitos. apertos de mão. ela ameaçou deixar o serviço. Tal manobra não a surpreendeu. Jandira esperou-me hoje à saída da repartição para jantarmos juntos. pequeno. Queria frutos imediatos. O rumor dos passos de um cliente. Durante o trajeto de bonde não conversamos. Pereirinha. e conversarmos à vontade. Sempre haverá um homem e uma datilografa.. Esse período de suspiros durou uns dois meses. pois não era a primeira vez que se via assediada por homens. compreendendo que ela não se prestava a ser objeto de divertimento. Hoje.. já que era um impedido. atendendo a um convite da amiga. Aquelas a que vocês chamam "moças em flor". É preciso que as donzelinhas tenham. que lhe dirigi. Dr. Jandira desabafou-se. Pereira. Declarou não poder viver sem ela. a dizer que não exigiria nada. mesmo. aliás. Arranja-se outro. salvou a situação. por passar muito vagarosamente junto de nós e ter voltado duas vezes. tentando beijá-la. Estava apaixonado. Sentados à mesinha ao ar livre. um infeliz. Nao basta a virgindade. que entrava na ante-sala do escritório. pois está desesperado.. já a amava. A um olhar interrogativo.. Alguns mais ousados se aventuraram. —E você é uma. me atraiu a atenção. o sedutor foi mais atirado. Não calcula como é difícil a gente sustentar esta defesa permanente. Passou a suspirar. casados ou não.

É um inferno. já não havia nuvens em Jandira e o repasto foi alegre. mas aquela insistência. talvez aborrecida comigo. de um garanhão. prometi levar-lhe. às vezes me dá vontade de acabar com isso. ficando combinado que serei mais assíduo em sua casa. Durante o trajeto de bonde. irmãos. Afinal. Jandira calou-se. de graça. de fazer um disparate. Não sei como pude resistir sempre. Protestei inutilmente. sua fisionomia se abriu. deliberei passar antes pela casa de Jandira. era o único homem que estava junto de mim.sejam protegidas por todo um sistema de fortificações—papais. § 29. É UM ESPÍRITO REALISTA. E amanhã será a mesma coisa. já quase com a expressão costumeira. Depois. Olhe. de cuja margem pende um salgueiro. num regato.. Afogar-se é mais romântico. um animal. um exemplar do Hamlet. SENDO cedo para ir à Seção. dizendo-lhe que de fato era mais romântico e também mais conforme à técnica da tragédia. Acontece que sou de carne e osso.. Não gosto do Pereira. que é um misto de atrevimento. E respondeu-me: —Com sublimado. ontem pro metido. como Ofélia. Continuou: —Essas fulaninhas não conhecem o nosso problema. disse-lhe brincando: —Vou recomendar a D. dizendo não ser fácil aceitarmos que a pobrezinha tenha tido tempo . Hortênsia que não deixe o frasco de sublimado perto de você. Afinal. Afogar-se. Aproveitei essa oportunidade para nos desviarmos de uma conversa melancólica e continuei no mesmo tom. pois meu propósito não era senão afastá-la dum pensamento amargo. e inspire a vocês uma série de lendas românticas. regado a vinho. Não têm a companhia forçada de um patrão. Belmiro. Querendo mudar o tom da conversa e dissipar a melancolia da amiga. não. respeitadas. no que faria injustiça. de finura. quando fomos jantar. pelo menos durante a crise atual. Belmiro. Jandira não é um temperamento poético e há de fazer restrições à descrição da morte de Ofélia. fui folheando o livro. Despedimo-nos. com outro Pereira qualquer. fortuna—que as torne difíceis. É mais do estilo belmiriano. Declarando-me não conhecer o episódio de Ofélia. depois. amanhã. a fim de levar-lhe o Hamlet.

Além disso. como já disse. acha-se agora sob a esfera de influencia do amigo Redelvim. reservo avaramente minhas disponibilidades de tempo para velhos amigos. certamente por solidariedade com a velha. é a única tolerada por Emília. Ao dizer isto. quase de chofre. procurarei desfazer amanhã. Havia ido a uma aula de taquigrafia. não houve suicídio. em vez de cantar. nunca me despertou senão um interesse superficial. mas noto que fica serenada com sua presença. Mesmo porque. A dar-se crédito ao depoimento da Rainha. se os ocultei obstinadamente? Exigi-lhe um absurdo. Tendo-se arrefecido o meu entusiasmo pela jovem Carmélia. impermeável aos símbolos e à linguagem da poesia. enquanto se afogava. Talvez até lhe conte a história toda. Mesmo o papagaio não o hostiliza. afinal. vejo agora ao reler o belo episódio. Arrependo-me. uma pessoa deveria gritar. na esperança angustiada de aproximar-me de Carmélia. e reagi de modo primário. mesmo louca. a situação de constrangimento que se criou entre nós dois. não é minha intenção deprimir o rapaz e enaltecer-me. nossas relações. pretendeu inutilmente. que considera os poetas "traficantes de tóxicos". Como poderia adivinhar meus sentimentos. sustentado? pelo capitalismo para entorpecer o espírito de rebeldia das massas. Das pessoas que aparecem. em tal conjuntura. Objetará que. de inveja dela um galho se rompeu. um excelente moço e nenhuma culpa tem de não me ter sido útil na aventura em que muito me aproximei do herói manchego. também. E Glicério se permite brincadeiras que eu próprio não ouso: chegou a dizer à mana que ia . Jandira impugnará. a inveja do galho: é um espírito realista. e freqüentando-nos apenas por esnobismo. É. É verdade que esta lhe responde apenas por monossílabos às perguntas. aqui em casa. sem saber a que atribuir minha súbita mudança de atitude. Soube conquistá-la. concedi-lhe. cortando. Não a encontrei em casa e deixei o livro com D. senti-me trapaceado pelo janota. uma camaradagem estreita que. em poucos dias. durante dois ou três anos. com o seu auxílio. pertencendo a uma casta diversa da nossa. É que. Hortênsia. Antes de sua partida. quando a virgem subia ao salgueiro. de vez em quando. que de nada me serviu no transe. GLICÉRIO olha-me espantado. durante o expediente. não sei por que artifícios. A PROPÓSITO DE GLICÉRIO. fazendo-a cair na torrente.de trautear fragmentos de velhas canções. § 30. Se não mudar de idéia.

convidei-o para almoçar. exprime que o menino hesitava entre Montes Claros. em vez de um só direto.promover-lhe o casamento com o sacristão da capela de S. depois de ali . que já mencionei em outro ponto destas notas. aqui. ao que parece. achando-se este comigo. em vez de simplesmente bater um garfo nos pratos (como faz. Chegado à estação de onde partem os três ramais. E. tomou uma passagem de segunda classe para Corinto e. nesse dia ela veio ao quarto advertir gentilmente que o almoço estava esfriando e que comida fria não presta. Pois a velha se limitou a baixar os olhos e a sair para a cozinha. ou apenas na Páscoa). Quando Glicério. Glicério soube corresponder-lhe às atenções e deu-lhe um corte de cetineta (que dificuldade para obter esse tecido caído da moda!). suprimiu. cortou-me os rodeios e desculpas prévias: —Não carece falar não. Acredita o velho que a compra de dois bilhetes. para que pusesse mais um prato na mesa. desta estação. o almoço tá na mesa!. o Indalécio—é como se chama —fez-lhe uma advertência qualquer. na expectativa de uma explosão. para avisar que Pietro está mesmo em Diamantina. se se encontra com o sacrista volta para casa enfurecida. à hora do almoço. Ao dirigir-lhe a palavra. quando mais comunicativa: Se "alguém" quisé almoça. que eu já sei. que não ignora essa rixa. Emília nunca me permitiu comensais e foi com receio que a procurei. para anunciar que a mesa já foi posta). ou de exclamar. O mimo. *** Estas considerações a propósito de Glicério quase me fazem esquecer de anotar. fiquei arrepiado. na cozinha. timidamente. Pirapora e Diamantina. consolidou sua situação perante a velha. uma outra para Diamantina.. em suma.. o famoso anteparo de papelão. um acontecimento de importância: o velho Giovanni veio verme à tardinha. Tive outro sinal de sua estima ao mancebo num dia em que. Brincadeira perigosa. buliu com Emília a respeito. pouco depois de nossa vinda para a Rua Erê. Bom rapaz. nesse dia. Sebastião. Com o dinheiro que levou consigo. Pensa que a gente não entende das coisas! Pensa que a gente não entende das coisas! Coerente em suas demonstrações de apreço ao Glicério. também. Não o deixarei de procurar amanhã e hei de penitenciar-me de minhas picuinhas. delirante de alegria. Há alguns anos. Quando vai à capela (duas ou três vezes por ano. porque Emília não simpatiza com o homem e nem tolera essa pilhéria de casamento. preferiu. e foi o bastante.

permanecer três dias, seguir para aquela última cidade, na qual mora seu padrinho. E Giovanni interpreta favoravelmente a preferência por Diamantina: indo procurar o padrinho, o garoto já mostrava um começo de arrependimento ou, pelo menos, desistia da intenção de sumir-se pelo mundo. Essas informações lhe foram prestadas pelo investigador meu amigo (o Parreiras), que muito se interessou pelo caso na Polícia Central. Giovanni espera receber amanhã uma carta do seu compadre anunciada em telegrama de hoje. Se não receber, partirá pelo noturno do Norte.

§ 31. UM DIA BEM-HUMORADO.
DÁ-ME vontade de rir, ao relatar, aqui, a celebração de minhas pazes com Glicério. Encontramo-nos antes de entrar na Seção, no momento de marcarmos, no relógio do ponto, a hora da chegada. Disse-me, sisudo: —Bom dia, Belmiro. —Bom dia, senhor Glicério. Como vai o senhor? respondi, mais sisudo ainda. Surpreendeu-se com o acréscimo cerimonioso que fiz ao cumprimento, e ficou sem saber se deveria interpretá-lo como pilhéria ou como advertência para que me tratasse com menos intimidade. Tal foi a expressão de sua fisionomia, que não pude conservar a cara fechada e reprimir uns gracejos. Mas isso, em vez de o pôr à vontade, encabulou-o ainda mais. Por fim, dando-lhe o braço, eu disse que precisávamos conversar, e o conduzi a um canto do saguão do edifício. Com espanto para ele, expliquei-lhe, desde as origens, os motivos por que, de um momento para outro, passei a tratá-lo de modo diverso. Fui rigorosamente exato nessas explicações, que duraram cerca de meia hora. Remontando ao caso de Carmélia, não receei ser ridículo ao referir-lhe toda a história, inclusive a da noite de carnaval. Ao expor-lhe o fenômeno da humanização do mito "donzela Arabela", experimentei alguma dificuldade, pois tive a impressão de que o petimetre me supunha vítima de perturbação mental. Zombei, então, do episódio, para tranqüilizá-lo quanto à minha sanidade de espírito. Contudo, persistia em sua face um ar de comiseração. Em outras circunstâncias, isso me haveria irritado, mas a disposição de esclarecer o caso e talvez a necessidade de confessar a alguém o romance vivido em segredo fizeram com que eu prosseguisse na minuciosa narrativa de minhas tolas aventuras. Também não me aborreceu o aparte, um tanto imprudente, dado por ele

em certo momento: —É extraordinário que você tenha conseguido imaginar tanta coisa em torno de uma criatura simples como Carmélia!... Sim, era extraordinário, concordei de má vontade. Era mesmo divertido. São coisas que acontecem. Depois, disse-me que se eu lhe houvesse confiado os meus desejos, nada lhe teria sido tão fácil como levar-me ao salão da viúva Miranda. Lá esteve algumas vezes, durante o período em que eu tanto me obstinava em obter, sem contudo as pedir, notícias a respeito da moça. E só não falou nisso, porque nem de leve poderia adivinhar meu interesse por ela. A viúva é meio difícil, com suas pretensões de aristocrata paulista— continuou—mas não fazia nenhuma restrição a ele, Glicério, e aos seus amigos. Quanto à donzela, era um anjo. Fina, inteligente, conversável. Teria gostado imensamente de conhecer-me — avançou. Depois da morte do pai, fecharam-se um pouco, era natural. Mas, passado o trigésimo dia, já a família estava recebendo, já se conversava, ali, como em vida do Dr. Aurélio. —Você teria feito sucesso na casa, concluiu com entusiasmo. Fiquei lisonjeado, mas disse-lhe que o assunto estava encerrado; que os mitos se recolheram, competentemente, aos seus lugares; que eu lhe agradecia muito os serviços que não prestara, mas poderia ter prestado, se eu lhos houvesse pedido, e que, ao cabo de tudo, só desejava sua inteira reserva a respeito. —Está certo, não se preocupe. Mas, em qualquer tempo que queira... acrescentou, com uma ponta de malícia. Passei o resto do dia bem disposto. Não sei se a causa disso foram as pazes com o Glicério, se a confissão, com que me desoprimi, ou as palavras amáveis, que me disse a propósito de um possível êxito meu junto à moça. Podem ter sido todas essas coisas juntas. O certo é que tive uma tarde bemhumorada.

§ 32. OS ACONTECIMENTOS CONDUZEM OS HOMENS.
E ASSIM vai a vida... Os acontecimentos que até aqui se desenrolaram e em que desempenhei ora o papel de ator principal, ora o de espectador, mudaram, por completo, as intenções deste livro. Naquela noite de Natal, ao início destas notas, expus o plano de ir alinhando apontamentos que me

permitissem publicar, mais tarde, um livro de memórias. Estava, então, concebendo qualquer coisa, e essa coisa se me agitava, no ventre, reclamando lugar ao sol. Jamais pensei, naquela ocasião, ou antes dela, que o presente pudesse vir dominar-me o espírito por forma tal, dele expelindo as imagens do passado que então o povoavam, abundantes e vivas. Estive refletindo, esta tarde, em que, no romance, como na vida, os personagens é que se nos impõem. A razão está com Monsieur Gide: eles nascem e crescem por si, procuram o autor, insinuam-se-lhe no espírito. Não se trata, aqui, de romance. É um registro nostálgico, um memorial desconchavado. Tal circunstância nada altera, porém, a situação. Na verdade, dentro do nosso espírito as recordações se transformam em romance, e os fatos, logo consumados, ganham outro contorno, são acrescidos de mil acessórios que lhes atribuímos, passam a desenrolar-se num plano especial, sempre que os evocamos, tornando-se, enfim, romance, cada vez mais romance. Romance trágico, bufo ou sem nenhum sentido, conforme cada um de nós, monstros imaginativos, é trágico, é cômico ou absurdo. Vejo que a história do presente já expulsou, definitivamente, destes cadernos, a do passado. Carmélia (travestida de Arabela) e Jandira afastaram a sombra de Camila, que, bem o percebo agora, era outra encarnação do mito infantil. Silviano, Redelvim, Glicério, Florêncio e Giovanni e seus pequenos mundos baniram os fantasmas caraibanos, as evocações dos velhos Borbas, a vida sentimental da Vila e da fazenda. Em vão, tento uma sondagem em Vila Caraíbas, naquele ano extraordinário de 1910. Baldo esforço: como resistir a personagens e fatos que, a cada instante, incidem no plano de nossa consciência? Às vezes ainda me vem a necessidade angustiosa de rever antigas paisagens, evadir-me para uma região que realmente já não se acha no espaço, e sim no tempo. Mas, no comum dos dias, agora é o presente que me atrai.

§ 33. RITORNELO.
ESCAPOU-ME ontem, à noite, esta lamentação: acham-se no tempo, e não no espaço, as gratas paisagens. Verifiquei esse angustiante fenômeno quando, em 1924, fui à Vila pela última vez. O Borba já havia morrido, a fazenda passara a outras mãos e as velhas já aqui estavam com sua extravagante bagagem. Camila ainda vivia. Lembra-me quão penoso foi o encontro com o passado. Lembra-me o dia em que só, debruçado no peitoril da varanda, na

Segredos de moça em flor. cores e aromas de cada objeto ou de cada perspectiva. Como se pode suprimir uma lagoa? Como se pode cortar uma árvore? É como se destruíssemos algo humano. arquétipo. Que restava de tudo. em comum com aquele. Vila Caraíbas. nos parece estar no fundo e na forma de cada coisa. logo as devolvendo para o exterior. A velha fazenda. e a lagoa. ai de nós. Mas. não encontrei senão pobres espectros. Camila era a virgem na sua realização integral. exibiu-me apenas a ossatura desnuda daquilo que. Onde pretendi encontrar a alma das épocas idas. Inútil tentativa de viajar o passado. iluminados por um sol festivo de 1910. porque algo impedia uma comunicação entre o mundo de fora e o de dentro. afinal? O que a meus olhos surgiu foi a sombra miserável de um tempo que morreu. Percebi que vago delírio se apossara de mim. ou. A lagoa foi drenada e convertida em pasto. os olhos apenas refletiam imagens.fazenda. o buriti. A essência da juventude parecia haver-se aprisionado em seus gestos. devastação maior lhes causa porventura a nossa imprudência. fora um corpo exuberante de vida. A namorada. quem sabe. em outros tempos. a montanha. fremente. a lagoa. os irmãos pássaros. ao morrer da luz. O luar. e beija-flores. ao cotejar com a realidade as invenções de uma desenfreada fantasia. e não criatura. a fazenda. que se apresentavam aos meus olhos. vivo. com um vago olhar. Em vão' busquei nas linhas. que é procurar as sombras de um mundo que se perdeu na noite do tempo. rico de uma paisagem mais numerosa. e pesada tristeza. que só possuía. e borboletas. se nos tornou interdito. o rio. o buritizal. trancas de 1910. Na verdade. desde que deixou de existir e se arremessou para trás. em certas oportunidades. cores e aromas de outros dias. o campo orvalhado em manhãs de maio. naquela noite de 1907—ali já não estavam. os esfumados traços de coisas que se vão extinguindo. fiquei a percorrer. a gameleira solitária no monte—que viviam em mim. com um sol grande a despontar na serra. para sempre. O sertão estraga as mulheres e a pobreza as consome. ao som do velho piano. dos Borbas. penetrar no mundo que já morreu e que. já longínquos e mortos. em vez de se localizar em nós mesmos. as colinas e os vales que se desdobravam até ao azul da Serra do Juramento. as linhas. e seus olhos me diziam da Eternidade. polcas no salão cheio de retratos. que. a serenata. envolvendo-me naquela onda de saudade e naquele desejo de encontrar uma forma de morte. inapelàvelmente. . ou apenas esboçados por um luar inesquecível que caiu sobre as coisas. em hora por si mesma de intensa melancolia—a hora rural do pôr do sol—. muralha do meu mundo antigo.

as coisas estão é no tempo. no último. a fazer considerações em torno da mudança de rumos. Na verdade. sem o risco de falseá-los. inesquecível. como no penúltimo capítulo. no momento preciso em que com ela nos comunicamos. há uma semana escritas. e quero apenas significar que. sem distinção. ou em determinada noite primaveril. as derradeiras páginas. fugiu nas asas do tempo e só devemos buscá-la na duração do nosso espírito. novo. Mas não me refiro à perda da matéria. Começo. tanto se acha embebido de tudo o que de mim provém e constitui a parte mais íntima de minha substância. e o tempo está é dentro de nós. levantam nuvens de pó. impressões. mas gentilmente trazem. a cada instante: é o espírito cotidiano. o que. Este caderno. se nos depara é totalmente estranho. doce. sem tropeços. A alma das coisas. onde alinho episódios. § 34. Que me perdoem os abalos passados e os futuros. nestas profundas regiões caraibanas do meu espírito. dirigido a todos os que vêm depois—apresento aqui minhas escusas. então.*** Não voltarei a Vila Caraíbas. que esconde uma desagregação constante. RELENDO. a meus olhos. Há nelas ilusória permanência de forma. Como os autocaminhões que. Em vão o procuramos depois. percorrendo a estrada de Morro Velho. As coisas não estão no espaço. sentimentos e vagas idéias. nestes apontamentos íntimos. pendurado na parte posterior da carroçaria. mas falta-me engenho para isso e nem poderia pô-lo. em certa manhã de maio no ano de 1910. algo se desprende da coisa. assim como a matéria se esvai. nos domínios da sensibilidade. "DESCULPEM A POEIRA". Esse espírito sutil representa a coisa. o cartaz "Desculpem a poeira"—tanto mais gentil quanto o pedido de desculpas é. Em todo este esboço de livro. ainda que infinitesimal. . que às vezes me parecem tão remotas e metafísicas. as coisas estão é no tempo. os que me acompanham. cada dia. a própria vida. um problemático leitor futuro sentirá os abalos que tais desnivelamentos determinam. fico a pensar nestas diferenças de nível que me acorrem. a que fui forçado na elaboração destas notas. tornou-se. agora. que lhe configura a imagem no tempo. conduzindo. que dela emerge. tão rápidas e súbitas que a mim próprio me pasmam. Desejaria planar suavemente. no domínio físico. pois lhe foge. e acabo por mergulhar. para dar lugar a outro.

desde que as velhas se acham comigo. Tais desnivelamentos é que compõem minha vida e lhe sustentam o equilíbrio. como a . Publique-o ou não. que sempre relutou. Chegado à sua toca da Rua Erê. pela manhã. A casa me parece mutilada com a sua ausência. perguntando-me. a levar Francisquinha para o Instituto de Alienados. com o malogro da tentativa feita na sessão de quinze dias atrás. COM grande pesar. fui forçado hoje. a mim próprio. e certamente por isso não ofereceu resistência. Emília. A um Belmiro patético. ajustando-o aos quadros cotidianos. O médico que ali a recebeu prometeu melhorá-la com a aplicação de duchas e injeções. neste vasto mundo) possa comprazer-se e contemplar-se na leitura dele. Não excluo a hipótese de que alguma âmesoeur (e deve havê-la. e temo que não as encontre em maior número. Já lhes contei que nada ou pouco fala à irmã. Um grande silêncio—a que estou desabituado. se acaso oferece espetáculo de interesse para quem quer que seja. reconheceu logo a necessidade da medida. um pouco desencantada. A pobre mana se recusava sistematicamente a ingerir alimentos. No correr desta semana (que ficou em branco no caderno de notas) suas crises se tornaram fortes e freqüentes. Emília também se ressente da falta da Chica.Não é senão por isso que fugiria a publicá-lo. que se expande. § 35. Passa. mas não se imprime um livro para uma ou duas almas irmãs. quando de outras vezes tive de valer-me do Instituto. que compensa o primeiro e o retifica. Emília quis recorrer de novo ao espiritismo. durante o dia e às primeiras horas da noite—modifica o aspecto das coisas e me oprime. enorme. a ponto de querer agredir-nos. ali. agitavase muito. o Belmiro egresso de Caraíbas se apalpa. terei de dar-me como sou. e gritava dia e noite. estava. alimenta-se melhor. torna-se mais calma e volta para casa. na atmosfera caraibana—contemplando a devastação de suas paisagens—sempre sucede um Belmiro sofisticado. aliás. que não tenho empregado muitas vezes no curso destes doze anos. É medida extrema. mais achacada da gota ciática e já não suporta os esforços violentos a que a irmã a obriga. mas consegui convencê-la de que o caso pertencia à medicina. Está ficando mais velha. FRANCISQUINHA PIORA. Sempre a tratou como a uma criança de colo e suas diabruras deveriam diverti-la. uma temporada. se reajusta e assobia a fantasia do Hino Nacional de Gottschalk.

que fala mal. consentiu em ficar mais alguns dias sem ver o bambino. em nós. são inúteis essas tentativas de análise e de interpretação de nós mesmos. ignorado o paradeiro do menino. esquecendo-se da nossa. transfigurado. Abraçaram-se demoradamente. Explicar-me-ei. A mulher estava adoentada e ele não poderia ausentar-se imediatamente.mim. mexa com as galinhas. que foi a volta do Pietro. Na carta. Durante as duas semanas de separação e principalmente nos seis primeiros dias. quando era. Destacarei o mais importante. que jamais exploraremos. se está abalado em sua sensibilidade. amanhã acordaremos pierrô. Informados de que eu me achava preocupado com a situação doméstica. Foi a custo que. para anunciá-la a amigos e conhecidos. limitaram-se a pedir notícias da mana e a oferecer os préstimos. pelo tempo que lhes apraz. AFINAL. Estou deixando que o velho volte à vida habitual e o menino se adapte à situação (está muito desapontado. várias. tantas vezes contraditórias. dizendo que hoje dormimos arlequim. ainda. chorando e trocando abundantes interjeições. abismos insondáveis. ainda que pelo avesso. suje a roupa com seu sistema de lavagem e faça. há cinco dias. a bater no peito. Contou-me o Prudêncio Gouveia que o regresso do menino foi patético. CARMÉLIA. tomando-lhes os pintos. se exprime na língua natal. o compadre pediu prazo para vir. recebida a carta do compadre de Diamantina. correu. registrarei aqui dois encontros com Jandira e um com Silviano. Alguém . As vestes ficam guardadas num armário de nossas profundezas onde se amontoam indumentos de infinita variedade. a lamentar-se no seu dialeto (pude notar que. mas sei quanta ternura se esconde por trás da cara fechada dessa velha Borba. Marianina foi para a cama. o velho ficou quase louco. de emoção. de ponta a ponta. na rua. as combinações múltiplas. desceu pela do Piau. que compõem as formas sucessivas do nosso espírito. para movimentar nossa solidão. DE NOVO. mas sempre fala para ser entendido). qualquer coisa. Por último. subiu a dos Pampas e andou pela Rua Diábase. Vivia a chorar. Já não há quem dê mingaus a ratinhos. Tais preocupações impediram-me de registrar alguns acontecimentos da semana. onde se recolhem. O velho Giovanni. enfim. pela Rua Erê. § 36. Há. de acordo com a informação do Prudêncio). para depois lhes fazer minha visita.

como a atrair-me. Um desses sonhos (não sei se foi um. como se a culpa fosse sua. ora morta. À sorrelfa. de pijama.no-las troca sorrateiramente. mostrando que. em minhas condições de vida. E à tarde despedi-me dele.. menos de Carmélia. Quando me estendia as mãos. Não são decorridos quinze dias. para me aconselhar que não ficasse a cantar. a esperá-lo. Carmélia me apareceu neles. em vez de me aproximar dela. compuseram uma Carmélia imaginária. participando de cada um. Eu fazia uma serenata (como nos velhos tempos) sob a janela da namorada. Faço esta divagação para me justificar. faço com que. com pesar. acordei. na Seção. julgo-me curado da fantasia. ora viva. e. Carmélia bailava à sombra de árvores que refulgiam ao sol. certa unidade. Acordei. e amanhã seremos o que não queremos. a gente não sabe como essas coisas acontecem. pondo-nos de casaca e em cuecas. Por que não tive coragem de me abrir e de rogar que me levasse à casa dela? Conversamos o dia todo. jamais poderia pretender a moça. Fiquei aflito por que chegasse a hora do trabalho. Há cerca de vinte dias. e hoje somos o que ontem fôramos e não quiséramos ser mais. cedendo a um impulso de revolta (?). quando o sonho se tornava rasgadamente fantasioso: vestida com uma túnica diáfana. na noite úmida. . com mil pretextos. se desvaneçam os espectros que. Como já disse. de acordo com um critério que nos escapa. certa coerência.. Depois. . na Praça. Em certo momento. e ele apareceu à porta. ou muitos) me impressionou amargamente. algum diabo malicioso inutiliza o nosso trabalho. durante o sono. ora de outros. Descobri que Glicério a amava.. ora minha. poderia apanhar uma pneumonia. ou pregando-nos um rabo de papel no jaquetão. Estou com vergonha de confessar o que se passa comigo. passou a afastar-me. tomei o das dez e pus-me um tempo enorme. a mão esquerda terá de limpar o que a direita escreveu. supondo-a uma burlesca história do passado. chamando-me à realidade. falamos de tudo. Em vez de tomar o bonde das onze. amanheci angustiado depois de ter passado uma noite fértil em sonhos. pilherio comigo mesmo. quem surgiu em cena foi o falecido Dr. Só posso dizer que experimentei hoje uma recidiva violenta. disse-me duras franquezas. dentro de mim. tiro do altar o meu mito. Começou a interessar-se por ela desde que o pus a par dos meus amores e. também. Parecia. um gracioso espírito do ar. à luz do dia. Uma semana depois. com rancor. E esse alguém às vezes se diverte. a fim de encontrar Glicério. antes. O fato é que se frustra todo o esforço que despendemos para nos impor certa disciplina. Aurélio. chego a relatar ao Glicério toda a história.

deixando de lado os problemas. Às vezes estou a pensar e ouço um interlocutor. O ordenado se foi nessas despesas imprevistas e ainda há contas por pagar. pois. Já lhes disse. vi que a bela manhã deste domingo valia um passeio e preferi fazê-lo. Lá está Francisquinha no Instituto. Olho em torno. e as aflições do dia se dissipam. pelo timbre era idêntica à do amigo. e a que se acha por trás do lote vago. que a manhã nasceu bela e o corpo pedia um passeio. Belmiro! § 37. que é de toalhas. sei. Desde dois dias. Problemas eternos! A razão talvez esteja com Silviano. não serve senão para me mostrar que continuo personagem de uma novela de amor. e é ridícula essa trama sentimental em que me envolvi. com majestade. Sei que estou amando a mulher e não o mito. embora estejamos a sete do mês. com estas coisas? —Não! diz-me alguém. antes. embora não haja trabalho. não há nada. ao despertar de manhãzinha. porém. ontem à noite. Emília se acha de cama. embalado pela música das máquinas. que é de calçados) sempre me despertam a tais horas. AO RECOLHER-ME. Não me faltam cuidados na vida. pois não tem passado bem as noites. Os apitos das duas fábricas próximas (a da frente. Dedica-te aos eternos problemas. Eram seis e meia. doente. Amanhã terei de visitar o agiota. A voz veio de dentro. É ridículo. fiquei reduzido a níqueis. eternos ou não. porém. aos domingos ou dias santos. E a força do hábito faz com que. aqueles que poderiam merecer o qualificativo de "eternos". Depois. Não vale a pena pensar nas dificuldades da vida. em toda a . entre os problemas. Desci a Rua do Piau e. Devo também esclarecer que sempre embromo os donos das fábricas reais e o da fábrica imaginária dos'domingos: acabados os apitos. que as coisas voltam e não vale a pena fazer projetos. Creio que com ele sonhei. que me vem. eu acorde assustado. percorri-a folgadamente. chegando à Avenida Paraopeba. imaginando que Emília demoraria a levantar-se. O que nos deve preocupar são os problemas eternos! A exclamação que ouvi dentro de mim foi do Silviano. pensava no Silviano. O "PERREXIL". ouvindo qualquer apito do outro mundo. a primeira idéia que me veio foi a de procurar. Não deveria preocuparme. sei. Entretanto. Mas a lucidez.Encontro uma sorte de libertação em escrever estas páginas. agora. Deliberei tomar o desjejum na cidade. ponho-me de novo a dormir. É bem possível que amanhã tudo seja diferente.

no primeiro poste de parada. A um convite insistente de Joana. Objetei-lhe que não éramos homens para lugares mundanos assim. olhei os jornais e. Toca a andar. Escapou-nos. que não fosse dos meus. a ambos. Vamos procurar o Estrabão. Você se despedirá e irá incontinenti ao café da Rua Pernambuco. uma desculpa dessas é tiro e queda. Depois de andarmos um pouco pelos cafés. por algum tempo. veio-me o palpite de pegar o primeiro bonde. pelo telefone. Mesmo por isso não insisti. com uma cara muito satisfeita. na capela do Colégio Santa Maria. porque sei que não é dessas devoções. ao voltar. a mesma exclamação de surpresa: "Você por aqui. Desta vez. porém. é arranjar as coisas com a Joana. Ande. que é nome de dois dos . por intermédio do Prudêncio Gouveia. já escrevi. Tentei esquivar-me. a uma hora destas!" Silviano me disse que fora à missa. na Avenida. A mim às vezes me chama Porfírio. a questão. A explicação complicou mais ainda o caso. me telefonará. São mais quinhentos mil-réis. de onde. —O problema agora. durante o trajeto. meu velho. para um giro qualquer. ótimo. Tomei um cafezinho na Rua da Bahia. Estrabão é o chofer do Silviano para excursões de caráter reservado. mandar um aviso prévio a Emília. o único da rua. Silviano segredou-me que possuía convites para o Country Clube e desejava levar-me em sua companhia. que o Reitor quer ver-me com urgência para conversar comigo sobre os programas do curso de literatura. a um canto. sem que fôssemos incomodados e que seria divertido observar os "filistinos". Oh! oh! oh! Com mulheres. aparente calma. e cedi. Vão dar-me a cadeira. tem a mania de mudar o nome das pessoas. mas o Silviano. ainda. o sol ainda era fraco. chispe. Joana não desconfiou. Como se tivesse havido uma comunicação psíquica entre nós. tendo tido o cuidado de. abanquei-me nele e fui até ao fim da linha. Foi um encontro cheio de conseqüências. foi a do amigo Silviano. chegamos até a sua casa e ali fiquei a conversar e a folhear livros. Fiz tudo conforme prescreveu o Silviano e. em cuja casa há um desses aparelhos. disse-me. pouco depois. aceitei o almoço.extensão. Ficou até a apressarme. Apareceu o da Floresta. Seu nome é Sebastião. e a brisa agradável me ajudava as pernas. dando-se como secretário da Universidade. Terminado o almoço. fechou. e viemos falando acerca de outras coisas. —Ótimo. Está aflita por que eu obtenha a cadeira. mas retrucou que poderíamos ficar tomando alguma coisa. tinha-o a meu lado. a quem atender ao chamado. Dirá. a cara que se me deparou. logo que estivemos a sós no escritório. pois acabamos passando todo o dia juntos. mas. em chegando à esquina.

Depois. com grande irritação deste. apontando para o clube. e lembrei-lhe que estávamos sem transporte. este se ausentou logo. inclusive este. chama Abundâncio. agora. Chegados ao clube. PARABOSCO & FERRABOSCO LTDA. sentindome cansado.meus avós. deitei-me. disse-me. Aliás. Joana me traz de olho. previ os mínimos pormenores. Consolei-o como pude. Vamos. E. aparentando a maior circunspeção. uso vários. Eu não podia deixar de vir. "Perrexil" é o estimulante do pensador. viu. quando planejo uma sortida. Depois.. Animado pelo uísque. situado num recanto da montanha.. Porfírio. NÃO PUDE terminar o relato da conversa com Silviano. pela fresta da porta. doutorai. minutos depois. Já não está aqui. preciso renovar sempre os meus expedientes. o "Perrexil" está aí. ora caceteando a família inteira. rápido. pego "embalagem". —Já não está aqui. Eu ficava em casa. Que vem a ser isso? —Eis aí. se este algum dia me cair de novo sob as . Já está gasto o processo antigo. Silviano ia-me dizendo pelo caminho: —É a técnica. entre estes filistinos? Vamos embora. —"Perrexil"? perguntei. Um tanto inquieto. Fui acalmá-la e dar-lhe uma colher de xarope. § 38. Emília tossia muito. quando dobro a esquina. pedido pelo Silviano. Vocês querem ser literatos sem ter lido Camilo. Perrexil é a Musa. e ao Florêncio. Estrabão pisou no acelerador e nos levou. Apanharei a narrativa no ponto em que a deixei ontem. Mas. pela estrada afora. abancamo-nos em torno de um litro de uísque. respondeu. Silviano contou-me coisas que muito me ajudarão a decifrar seu Diário. de cujo edifício nos aproximávamos. acordou. Quando voltou. Tive de obtê-los laboriosamente. deixando-me a sós Com a bebida. me confiou um segredo: —Não me deram os convites. passou-lhe a mão pelo gargalo e disse-me: —Está bem. luz no escritório e ficou a resmungar. tinha a fisionomia transtornada. Idealizei tudo. é moroso e de resultado incerto. O Estrabão só daí a uma hora viria buscar-nos. ora meio sorumbático. Você imagina. Que havemos de fazer. Há uma conspiração universal contra mim. Ia procurar o Perrexil. mas forças contrárias tudo desfizeram. até que ela me mandasse para a rua. Ultimamente. rindo-se: —Saio com um passo grave. Silviano olhou com ternura o litro de Mc Callum's. bebamos. Já que os deuses não são propícios.

Impressionaram-me tanto. no alpendre. E abismou-se em seus olhos. deixando-o sucumbido. Foi grande o susto que esta experimentou. a moça em flor. quando a mãe morreu. nela. em alemão. —Que idéia. que não a tem visto muitas vezes. apareceu-lhe de supetão em casa. Silviano nada sabe a seu respeito senão que possui uns olhos excepcionais. senhor. escreveu-lhe uma longa e sentida carta. não. talvez tivesse tido melhor acolhida. .).. um universal e não um particular. a eterna graça. que pretendia dela. de Heine e Goethe. Descobriu-lhe o endereço. Que tem isso? As mulheres gostam muito de chapéus. mandou-lhe. para ele. Observei-lhe que. emendei. Ela jamais compreenderia o "fenômeno". Representava. em Dumas.. E deu-lhe presentes. —Que olhos! continuou. disse-me. ajunto eu.. fabricante de tijolos.. E não sou nenhum idiota para dar logo a minha identidade! Mandou-lhe. um chapéu. disse-lhe ser o homem que desde algum tempo lhe mandava coisas e escrevera a carta.. de presente. informado de que a moça se achava só.vistas. Belmiro. Dolores lhe perguntou. Silviano de pé. declarou-lhe amor. —Que olhos. na expressão do olhar! Contou-me." concluiu com um ar cismador.. Porfírio. Amava. um chapéu! exclamei. E um belo dia. aluno dele. pois. Foi-lhe apresentada pelo irmão. de que não se pode abraçar um universal. Respondeu que não queria nada. Lembram-me um verso de Baudelaire: "Tes yeux sont la citerne ou boivent mes ennuis. Dir-se-ia que sofre de gota-serena. mandou-lhe um perfume francês e outras coisas mais. Conheceu-a um dia. quando morreu a mãe da moça. Dolores reagiu e correu para dentro. que andei lendo. —Porfírio. O "Perrexil" é uma jovem de nome Dolores Gigedo. o amor. Há poucos meses. tudo isso sem se dar a conhecer.. um capítulo a fio sobre a função do nervo patético.. Os olhos dela são estranhos. com citações. uma amaurose. —Continuo a amá-la violentamente. cisterna. na Avenida. atemorizada. depois. Não gostou do aparte e passou a contar-me os fracassos das . proveniente de lesão na retina e alteração no nervo ótico.. um chapéu. Dãome a impressão de água parada. —Você já ouviu falar em gota-serena? Não ouviu? É uma doença dos olhos. novidade da estação. Silviano. filha de um espanhol rico. Depois. se fora menos transcendente. assim sem mais nem menos? —Sim. tentou abraçá-la (esquecendo-se. a vida que foge.

Mas. ou de pena. colocou-as facilmente nos escritórios do Cassino. o que convinha a seus amigos Parabosco & Ferrabosco Lida. nada menos. Voltando às moças. Estavam enlutadas pela morte do pai. durante o relato. pôs-se a dar tratos à bola. Mas a história de Parabosco & Ferrabosco ainda não terminou. Fracassara mais uma vez. Atualmente vive o caso de "Parabosco & Ferrabosco Ltda. para prolongá-la sempre.tentativas anteriores. *** Ao sétimo uísque deu para me contar estranhas coisas em que não sei se devo acreditar. Por último.. retoma a história no ponto em que a deixou na véspera. com que minha fisionomia me denunciou os pensamentos. Chega a urdir histórias inteiras. a fim de consultar revistas de arquitetura. Cada dia. que se suicidara. Resolveu. um cassino de luxo. de linhas moderníssimas. Depois voltou. Vários episódios se sucederam. Não conseguindo detalhar o interior do edifício que imaginara. freqüentado pelo grande mundo. o problema delas. Comprá-lo-ão para o derrubar e construir. ao andar pelas ruas. do gênero folhetinesco. um prédio de numerosos andares. correu aflito a casa de um arquiteto conhecido. estava ali. O Ferrabosco se apaixonou pela mais velha e com ela fugiu para a Itália. Condoído da sorte delas (ficaram em extrema pobreza). finalmente. numa contínua produção de fantasias. Disse que constantemente sonha acordado. no local. Achou. assegurando-lhes a proteção da importante firma. Já estudei . tudo como se fosse realidade. que converter a Pedreira Prado Lopes num luzido centro de diversões. há dias. Silviano acompanhou. criando a firma Parabosco & Ferrabosco Ltda. as meninas figurando sempre. Para chegar ao edifício. quando viu duas lindas jovens. os freqüentadores subiam de auto. então. —Não se impressione. um italiano chamado Ferrabosco. Presentemente estão eles em entendimento com o proprietário de um edifício à Praça Sete. No alto da colina. Não me estou avizinhando da loucura. recompôs-se com a família e a moça ficou por lá. Parabosco & Ferrabosco fizeram. ora de incredulidade. assim. por uma "sinuosa". Com o olhar atento. Vou recomendá-las ao Ferrabosco! pensou. Eis como nasceu esta novela cerebrina: Ia passando. subitamente. de grande iniciativa. ladeando docemente a encosta. pela Rua Caetés. procurando um meio de auxiliá-las. nada mais.. as expressões ora de surpresa. que se associara a outro de nome Parabosco. Homens arrojados. quem é Ferrabosco? Imaginou. nos cabarés de luxo.

Achei a doente bem melhor. dorme tranqüilamente. NO INSTITUTO.estava findo e que não deveríamos interrompê-lo. Quis trazê-la comigo. reclama o outro. alegrou-se como uma criança. Alimenta-se. § 39. Os cabelos. Nosso amigo claudica sempre nas regências verbais e Silviano não estava conosco para lhe chamar a atenção. estavam arranjados em trança. Aflito por dar boas notícias a Emília. e fomos juntos. que lhe levei. alguém me tocou no ombro. suponho. e comi um para dissipar as dúvidas.. terminou. quando entrei no quarto. o que é bom sinal. segundo me informou a enfermeira. e regressei alegre à casa. Não é da sua conta. ficou séria. —Que vai fazer em Santa Ifigênia? Nunca lhe vejo por aqueles lados. Florêncio procurou reter-me na Avenida. O caso não tem gravidade. respondi. perguntou-me. Florêncio. QUANDO me assentei no banco do bonde que deveria levar-me ao Instituto de Alienados. perguntando se não era feitiço. "Deixa eu falar como eu quiser. —Vou ver Francisquinha. Estrabão havia chegado e tocava insistentemente a buzina do carro. mas pôs-se a rir. Afirmei-lhe que não. esperou-me no saguão do edifício para não perturbar a visita. Lá chegados. meio grisalhos. Notei-lhe paz na fisionomia. Não se levantou." "Mas isso me fere os ouvidos afeitos ao bom vernáculo". Achava-se sentada na cama. depois.o fenômeno. mas o médico de plantão objetou que o tratamento não. na revolução de Trinta). a coisas passadas há cinco anos. Na volta. . amistosamente. Muitas vezes brigam por causa da língua: "Que é que você tem com isso?" retruca Florêncio.. Forma frustrânea. coisa que desde muito tempo Emília não conseguia fazer. quis acompanhar-me. Piorou muito e tive de levá-la para o Instituto. Espírito romanesco.. e já não tem acessos violentos. A velha abriu-se em sorriso (coisa tão rara!) quando lhe contei a conversa com Francisquinha. Vendo o pacote de biscoitos. que ouviu a notícia com ar compungido. furioso. Vireime: era o Florêncio.. não aceitei o convite. dizendo que a guerra iria acabar e poderíamos voltar para a Rua Erê (aludia. quando nos levantávamos para sair. É uma forma de imaginação difluente.

—Qué dizê qui está mêlhó! Que dizê qui está mêlhó! exclamou, satisfeita.

§ 40. CHOQUES.
ESTIVE hoje em casa de Jandira e lá encontrei Redelvim. Percebi que ficaram desapontados com a minha presença e que esta foi interromper uma conversa ainda não acabada. Com certeza, maquinavam revoluções, porque, pouco depois, com irritação mal disfarçada, Redelvim me disse: —Então, continua nessa vidinha sórdida de pequeno burguês? Minha resposta foi perguntar-lhe se tinha cem mil-réis para me emprestar (realmente, estava precisando). Jandira sorriu, e Redelvim, que continuava azedo, respondeu: —Não prova nada a sua exibição de quebradeira. Você pertence à pior espécie de burgueses: os que o são por sentimento, e não por instinto de defesa da propriedade. Fiquei calado, sem dar resposta. Redelvim se obstina em não me compreender. De que servem as discussões? Sei que, apesar de tudo, é meu amigo e pensará de outra forma, agora ou mais tarde. Por que hão de classificar os homens em categorias ou segundo doutrinas? O grande erro é lhes oferecerem apenas caminhos radicais. Socialismo, individualismo, isso, aquilo. As idéias da gente podem não comportar-se dentro dessas divisões arbitrárias. Não é possível ser-se tudo, ao mesmo tempo? E, se sentimos que a verdade e a contradição foram semeadas em todos os campos, como poderemos definir-nos? Tudo o mais é violência ao espírito. Dizem que tal perplexidade ou cepticismo conduzem à inação. A prova do contrário está em mim. Atuo, no meu setor, como se acreditasse nas coisas. As necessidades vitais fazem o indivíduo agir e não permitem que ele se tome um contemplativo puro. O que é injusto é quererem extorquir de nós uma definição, quando a procuramos, em vão, sem a encontrarmos. Redelvim me olha com desprezo neste momento, mas talvez me compreenda amanhã. Às pessoas de sensibilidade não é fácil resistir aos atrativos do romantismo político da época. O mais cômodo é entregarmo-nos a ele, acompanharmos a maré. Mas teremos procedido honestamente, com relação ao espírito? Meu silêncio, em vez de pôr termo à conversa, exasperou o meu contendor, que não me deu tréguas. Estava em um dia de excitação, nesses dias de raiva descomunal, que lhe vêm. Então, fica sempre contra. Contra qualquer coisa, contra tudo. Se eu adotasse seu ponto de vista, estou certo de

que, dentro em pouco, ele me contrariaria pela mesma forma. —Afinal, que é que você é, na ordem das coisas? perguntou-me. —Talvez um "individual-socialista", respondi, para lhe satisfazer. Você, tão lógico, tão seguro de suas idéias, não vai achar sentido nisso; o certo é que não encontro vocábulo que me defina. Talvez esses dois juntos me tirem do embaraço. Se vier a revolução, não é preciso, porém, que me deportem ou me fuzilem. Sou um sujeito inofensivo, para todos os regimes... Minha resposta o enojou tanto, que dessa vez foi ele quem se calou, provavelmente para não me dizer coisas duras. Aproveitei o ensejo e despedi-me, alegando que ali estava apenas de passagem a fazer hora para o dentista. Jandira tentou reter-me, mas apeguei-me a uma dor de dentes imaginária e saí. Não o deixo de estimar por isso. Os companheiros são raros, precisamos conservá-los a todo custo. E quando não possamos ser amigos cem por cento, sejamos cinqüenta ou vinte. Quando encontro, em alguém, cinco por cento de afinidade, contento-me com essa escassa percentagem. Para preservar nossa amizade, tenho procurado pouco o Redelvim ultimamente. E tenho-o conversado menos ainda, principalmente em presença de outras pessoas. Criva-me de ironias, aborrece-me. Não lhes falei que ando sempre desconfiado. Muitas vezes, ao chegar a casa, fico a dar balanço às palavras trocadas com os amigos, com tanto maior desgosto de mim próprio, se notei que alguém, na roda, acolheu, com sorriso irônico, alguma observação minha. E sou sempre gauche. Quando converso, as melhores idéias ficam cá dentro, sem encontrar expressão, e freqüentemente digo coisas que não deveriam ser ditas e que, de ordinário, não foram meditadas. Como explicar certos despropósitos que, mal proferimos, nós próprios imediatamente reprovamos, mordendo os lábios de despeito, porque ninguém saberá que a nossa censura funcionou, logo depois, dando-nos a conhecer a inépcia daquela idéia? Por orgulho, não voltamos atrás e preferimos sustentar a infeliz opinião. Cada vez nos perturbamos mais, e acabamos dizendo dez tolices, em vez de uma. Fico a conjeturar que se trata de uma vingança das idéias tolas. É provável que, repelidas mais de uma vez, quando nos achamos vigilantes, elas fiquem andando a esmo, pela cabeça, a conspirar contra nós. Um ligeiro cansaço nosso, eis que a asneira sai. Será uma vingança das parvoíces, ou a necessidade irreprimível de nos vermos livres delas? O certo é que nos escapam, escolhendo maliciosamente a pior oportunidade. ***

De que valem esses choques entre amigos? Cada qual continua onde estava, aferrado às suas idéias. Tanto mais aferrado, se as contraditamos. No que me toca, julgo ter chegado a uma altura em que a gente já sabe aquilo que é, e para que é. Não no domínio metafísico, mas no da vida corrente. "Fay ton faict, et te cognoy", aconselha o velho Montaigne, repetindo Platão. "Qui auroit à raire son faict, verroit que sa première leçon, c'est cognoistre ce qu'il est, et ce qui luy est propre: et qui se cognoist ne prend plus l’estranger faict pour le sien. .." Sou apenas um poeta lírico, em prosa, e só desejo que me deixem sossegado. Façam os outros o que lhes convém, ou o para que estejam destinados. Farei o que me é próprio, isto é... § 41. MATINADA. JH^ADRUGADA DE 12 DE OUTUBRO.-Compus um hino ao Dia, imitando o alto estilo de Zaratustra, mas tive o bom senso de rasgar a folha de papel em fragmentos miúdos e atirá-los à cesta. A posteridade ficará, pois, privada desse documento. Na verdade, foi uma linda aventura. Recolhendo-me ontem muito cedo, contra os meus hábitos, acordei às quatro da manhã, e perdi o sono. Durante uma hora, tentei conciliá-lo e permaneci nos domínios proustianos da insônia, onde os pensamentos não têm contornos nítidos e a consciência se confunde. Depois, como os bondes começassem a descer a Rua Erê, os gaios iniciassem seu concerto e, finalmente, a fábrica desse indícios de vida, verifiquei a inutilidade de minhas tentativas e levantei-me resoluto. Bela antemanhã! Subindo a Rua Erê, tomei à esquerda a Rua Diábase, que, mais para o alto, recebe o nome de Esmeralda. Segui-a até ao fim e, pela estrada que a continua, cheguei ao Morro dos Pintos. Do alto da colina, contemplei Belo Horizonte, que apenas despertava. As cores, já vivas, do céu e a luminosa beleza da cidade feriram-me os olhos. Os edifícios suntuosos, os grandes jardins públicos, as retas avenidas situam Belo Horizonte fora dos quadros habituais de Minas. Dentro das casas mora, porém, o mesmo e venerável espírito de Sabarabuçu, Tejuco, Ouro Preto e de tantas outras vetustas cidades. Penso no homem mineiro que se levanta, lê seu Minas Gerais, cuida dos passarinhos e se prepara, tranqüilo, para as labutas do dia. A mulher cirze apressadamente um par de meias para ele e lhe pede que não se esqueça de deixar dinheiro para algumas compras. Sai, porém, sorrateiro. Façam-se as compras amanhã, não se corre para gastar. Os meninos estão

Ouço outra voz familiar: —Wonderful! Wonderful! É o Prudêncio Gouveia. a passear pelo quarteirão e que. Giovanni. satisfeito. mas seres encantados. entrou em carro triunfal e expulsou as sombras. Tenho .vestidos. como nos livros clássicos. Como os fantasmas todos se dissipam! Volto a casa e abro as janelas do escritório. juntos. sior Prudêncio. As sombras fugiram. Quando está a sós com o velho. em desalinho. com o seu How do you do. Ficará semi-internado. Nem pressentimentos. mundos vivos. amigo Prudêncio! Tomamos. o café. que acaba de realizar antiga aspiração: o filho consentiu ontem em ir para o colégio. e não pode esconder sua satisfação. Depois. não coisas inertes. pela polícia. o menino. Comenta-se a batida dada na véspera. É Giovanni. Barriga honrada de chefe de Seção. há mantimentos na despensa. de acordo com o hábito. estendendo a xícara. A latitude deste. Saio de novo. O velho conquistou. meio reumática. pela cozinha. sempre que Prudêncio sai com o seu inglês. —Ele quer mais café. Prudêncio relata pormenores. Também ficou estupefato com a minha matinada. Resmunga lá suas coisas que não entendo. a cidade e se perdem no horizonte. corre à procura de Marianina.. com alegria geral. a se desdobrarem e ampliarem para que personagens e paisagens se movam. Os livros. Giovanni! O velho fica boquiaberto. Mas minha presença o anima a mostrar as habilidades. não diz nada. quanto ao Giovanni. de novo. É o bom Prudêncio. ao ver-me. Good morning. porém. esclareço. Fuma-se um cigarro. Faz cara de grande surpresa ao topar comigo. Giovanni me interroga com os olhos. Alguém abre uma porta. nem angústias. Refere-nos todos os episódios. o Giovanni). ocorridos após a volta do rapaz. Que mais é preciso? Meus olhos deixam. —Mais um pouquinho.. até insignificantes fatos domésticos. Geral e particular. que à noite me parecem. A aurora. ele não tem dessas coisas. —If you please. cá estão reduzidos à imobilidade. conta que o Prefeito novo vai melhorar o bairro do Prado. A manhã me atrai. Que faça um café bem gostoso para "sior Bermir". na macumba da Barroca. já de pé. arrasta-se.. respondeu. —Bom dia. com uma cadeia de ouro traspassada numa casa do colete. Há anos que não me vê a estas horas.. Muito bem-humorado com o encontro (bom amigo. Mas. Barrigudinho.. baixinho.. Emília. manifesta o mesmo espanto que Giovanni. Volto para casa. o ar fino da manhã e a intensidade da luz extasiam o amanuense—ave noturna que a madrugada surpreendeu.

Pertence a outra geração. e as gerações não se entendem.. outras vezes se mostra impermeável. pode ser que se case. Glicério não passa de uma criança. fazem muito bem. com quem a gente não pode contar sempre. Não tem problemas: é o homem sem abismos—o homem linear—na expressão do Silviano. eu te amava. UM HOMEM SEM ABISMOS. as preocupações são outras. sorrateiramente. No que. deixa-me pelas idéias. O que amo nessa Carmélia. vive nos seus "altiplanos". e não preciso dizer que tomamos um pifão. Talvez só me fique o Florêncio. aí vem tolice. aliás. em Vila Caraíbas. o fiel companheiro. Se eu me casasse. foi. dos poucos amigos descobertos no decurso destes magros trinta e oito anos. apenas a tua imagem. VEJAM como terminei ontem o último capítulo. ao sair da Secretaria. Redelvim. Está sempre provido das melhores e mais recentes. Florêncio divertiu-me bastante com suas anedotas. conforme ensina a ópera. que não atinjo. Quando se casam.. e era uma vez a amiga. talvez. e passamos a tarde juntos. por mais que seja masculina a nossa amizade. Quem quer saber de mim e das manas? A possível esposa morreu em 1925. § 42. afinal. Onde está Florêncio. Às vezes penso que. Excelente e repousante camarada.. mas do estado de espírito. Se não me detenho a . Entretanto. Camila? Na verdade. O VELHO BORBA.. Se às vezes nos compreende. Por que te deixei. Apontamento para uso pessoal: bebi mais que de ordinário e não perdi o prumo. e a mulher é vária. renovando os copos. no Largo do Cruzeiro. Não é que tenha procurado embriagar-me. está o chope. ENCONTREI Florêncio. É que Florêncio. não da quantidade de álcool ingerida. em companhia de alegres boêmios. Só quando morava na república isso me aconteceu algumas vezes. não é senão mulher. Ora. § 43. achando-me disposto. O SISTEMA BORBA.certeza de que gosta de mim. só querem saber do marido e seu tempo é pouco para imaginar meios de prendê-lo. e outra é a compreensão das coisas. só ele me restará. Conheço o estilo Borba e não me engano. fiquei em boa forma e isso me fez pensar que a embriaguez depende. Além disso. e está num cemiteriozinho branco. no momento. Jandira. é. E a bebida pode levá-lo cedo. Silviano é uma criatura complicada.

o velho retrucou. . . o sentido daquelas palavras e talvez por isso o bilhete me impressionasse tanto. como o herói de Lamartine Essas coisas sempre acontecem às duas da madrugada. levou-o a almoçar e foi um desastre. porém. Dia virá. A uma delicada palavra que lhe dirigiu o político. Sei que. Escrito a lápis. De uma vez que veio à Capital. violento: —Também. Quanto aos amigos. apesar da degenerescência deste fim de raça. à lusitana. nem aquela intolerância com etiquetas. O sistema Borba não comporta nem prevê senhoras de tão fina estirpe. Não compreendi. o mesmo ciclo biogenético!" Tratava-se de Haeckel. O papagaio perdeu a plumagem e parece caducar. simultaneamente. era a janta na fazenda. a ponto de ficar até hoje gravado em minha memória. vocês mandam ensebar o assoalho. Lembro-me de um dia em que me mandou levar um livro ao provisionado Loiola. E seria ridículo pensar em Arabela. Aqueles sagrados furores não me são estranhos. os Borbas gritam dentro de mim.. então. Loiola. viril. busco a solidão.tempo. A primeira coisa que lhe aconteceu foi escorregar no pavimento encerado. ia dentro um bilhete: "Veja. e que são as velhas e esse mal-humorado Tome. quando um Belmiro lírico. já escrevi atrás o que pressinto. pois Camila se foi. ao tempo do Império. seu doutor. Era de prever isso!. Não compliquemos a vida. meu isolamento se agrave. na minha casa. que lhe queria votos. Não se pôde conter quando o serviram à francesa: —Olhe. cairia em pranto. botam-se as travessas todas na mesa. Meditando na possibilidade de que. Quanto aos demais seres que me cercam. um deputado. Gostava dos seus clássicos. É a hora de Camila.. Por isso é que vocês envelhecem tão depressa. Sua formação intelectual alicerçava-se em bom fundo humanístico. bem vejo que os não terei por muito tempo. Era assim o Borba. para o futuro. em que ela se dará sem ser buscada. Ouvi que. Era sólido no vernáculo e seguro em matemáticas e história. lhe voto horror. Ainda que viesse pedir a mão do Dom Donzel da Rua Erê. Ríspido. Lia coisas incríveis para aquele lugar e aquele tempo. de coração enorme. desandei a suspirar. Bastaria isso para exasperar o velho Borba. Devíamos deixar de estrangeirices. se toma chá às cinco. me faz sua visita. Como Amiel. em Carmélia. repetia passagens inteiras dos Lusíadas. havia em Vila Caraíbas. mas. para tirá-lo do embaraço. . Onde já se viu tal disparate? Às cinco. Francisquinha vai de mal a pior e Emília está ficando com o coração fraco. Já escrevi que não casarei. na casa da viúva Miranda. rude. Freqüentou a escola de latinidade que. isto é.

Mas, em matéria de modos, manteve-se-lhe intata a campesina rudeza de Borba, apesar da influência que nele exerceu a velha, que vinha dos Maias, gente da Vila. Os Maias eram finos e a avó Maia, mulher delicada e inteligente. Fora de Ouro Preto para a Vila, quando casou com meu avô materno, deputado geral. Tinha finuras genuínas; não mesuras e lisonjas de salão. Desse consórcio de Maias com Borbas foi que surgiu o amanuense, sem a virilidade destes e sem a polidez daqueles. A aspereza dos Borbas, que é antes couraça, para defender um coração mole tem, na Emília, sua expressão integral. Ao ouvi-la resmungar, franzir os sobrolhos, penso, com uma ternura que me umedece os olhos, nesse velho que foi o último da raça. Toda sua força, sua dureza de metal nobre, transferiu-se à mana. Para mim não restaram senão vagos reflexos e, ainda assim, bem no fundo, bem no fundo. A autoridade que emana de Emília e das sombras familiares que povoam esta casa basta, porém, para sustentar nela, em plena vigência, aquilo a que tenho chamado sistema Borba. E o leitor já não se rirá de mim, agora, quando repito as palavras escritas atrás: Mesmo que, algum dia, Carmélia a mim viesse, as bodas seriam impossíveis. O sistema Carmélia e o sistema Borba se repelem. Entre Emília e a viúva Miranda há distâncias interplanetárias. E, ai de mim, estou que o casamento não baniria os mitos. Mito tocado é mito morto, e a imaginação busca outros, sentindo-se ludibriada. Fique Arabela no seu nicho.

§ 44. REDELVIM TEM, TAMBÉM, UM DIÁRIO.
HÁ QUATRO dias não ponho os olhos neste caderno. Andei em maré de ler, e não de escrever. E Silviano tem-me suprido do bom e do melhor, no que toca a livros. Ele os compra aos metros cúbicos, e muito lhe devo nesse capítulo, desde os tempos de república, quando o conheci e já era professor. Interromperei, esta noite, a leitura de um dos volumes que me mandou (abasteceu-me, desta vez, de gregos, e estou atacando a Ilíada, que nunca pude ler de fio a pavio), para não me esquecer de anotar aqui uma visita a Jandira. Ao entrar em casa, de volta da Secretaria, Emília me disse: —A excomungada mandou um positivo trazê um escrito. Está em riba da mesa do quarto. Como de costume, falou-me sem se virar para mim. Achava-se de costas,

a pôr a mesa, e assim continuou. Ri-me, feliz, quando ouvi a palavra "positivo", na acepção que lhe deu e em que há mais de vinte anos não a ouço. Em Vila Caraíbas, "positivo" quer dizer mensageiro expresso e especial. O Borba não empregava tal vocábulo. Usava de outro, que os léxicos admitem com esse sentido: "próprio". Lembro-me de que, certa vez, corrigiu um dos nossos empregados. Ao dizerlhe o vaqueiro: "Seu Jucá do Riachão mandou um positivo aqui para dizê ao sinhô seu Coroné qui ele já fez o acêro", o velho emendou:—Um próprio; um próprio: "positivo" é outra coisa. —Propre, seu Coroné? —Sim, sim, respondeu, impaciente. Também me divertiu ouvi-la estender a excomunhão a Jandira. Já lhes disse que isso não significa desestima e provavelmente esconde ternura, mas ainda assim continua chistoso. Eis o escrito, segundo a expressão caraibana da Emília: "Honrado amanuense: preciso falar-lhe. Venha ver-me hoje à noite, se puder.—Jand.” Mal jantei, saí. Sentia-me em falta com ela. Havia oito ou dez dias que não a procurava. Chegado ao pequeno apartamento, fui recebido por D. Hortênsia, que ficou comigo alguns minutos, enquanto a amiga arranjava o penteado. Ou melhor, ficou consigo a um canto. Está acostumada a permanecer horas e horas sem dizer palavra, quando assiste às nossas reuniões, nos dias em que Jandira nos convoca. Mas hoje, forçada a fazer as honras da casa, sentia-se visivelmente constrangida, a todo momento se mexia na cadeira, como quem não acha o que dizer e se aflige por isso. Felizmente Jandira não se demorou, e sua chegada tirou a pobre senhora do apuro. Num movimento vivo, em contraste com o seu modo discreto e ausente, D. Hortênsia fugiu da sala, assim viu a sobrinha. Por certo, teve medo de que ela volvesse a dar mais uns toques no cabelo, o que faz freqüentemente, e a deixasse de novo comigo, na embaraçosa situação. Foi tão ágil e rápida a saída, que Jandira achou graça: —A velha está lépida, hoje... Depois, disse-me, andando para lá, para cá, segundo seu costume: —Não há nada de novo, seu Belmiro. Escrevi o bilhete pensando que você estivesse zangado comigo. Sumiu tantos dias... —Zangado por quê, minha flor? —Porque eu não o socorri, quando Redelvim começou a azucriná-lo. —Ora, Redelvim é um menor exaltado, respondi. Ela riu-se. Depois falou-me que, se não interveio, foi para não agravar a

situação; Redelvim estava irritadíssimo e precisava desabafar-se. Como eu já estava acostumado a servir de pára-raios, ela preferira ficar de lado... A polícia dera-lhe busca na casa, levara-o à delegacia para explicações e lhe tomara os melhores livros, bem como o seu Diário, que nada tem de extraordinário, diz ele, mas o acompanha há longos anos, é coisa de estimação. Li páginas desse cartapácio, há tempos, pelo mesmo processo clandestino por que conheci o do Silviano. Provavelmente Jandira não o suspeita, mas o nosso amigo, noto-o bem, está irritado não é por causa dos livros, nem pelo chamamento à delegacia, nem por estar sendo seguido pela polícia secreta: é por causa do Diário... Como todos os documentos dessa natureza, contém histórias muito íntimas, amores (inclusive o caso da pequena espanhola, que o torturou bastante) e versos de adolescência. Não permite que se lhe fale nos amores, nem nos poemas. Esse Diário nas mãos da polícia deve ser-lhe motivo de profunda inquietação. —Ele não lhe quis dizer nada, porque acha que você é gente do Governo... Não deixei de ficar lisonjeado. É a primeira vez, na minha carreira de funcionário, que me consideram pessoa integrada na administração, ou, mais que isso, "gente do Governo". Redelvim é um pândego. —Acho que você lhe pode ser útil, continuou Jandira, procurando recuperar seus papéis e livros, na polícia. Era, pois, este o objetivo de Jandira, ao chamar-me. Prometi-lhe arranjar a devolução das coisas por intermédio do Senador Furquim, via Glicério. Sempre é bom conhecer um senador. E voltei logo para casa, porque Emília aqui está com a gota ciática de sempre, necessitando de mim. Não terminarei esta página sem dizer que Jandira estava uma tentação, mais desejável do que nunca. Trazia uma flor artificial no peito, muito chique. Esquecia-me dizer, também, outra coisa importante: arranjou emprego num escritório comercial. O patrão é pessoa idosa e não tem filhos. Por ora, o problema Pereirinha está, portanto, afastado.

§ 45. EXTRAORDINÁRIAS DECLARAÇÕES DE GLICÉRIO.
MEU ESPÍRITO está, agora, serenado, e procurarei expor

ordenadamente o que se passou. O sonho a que me referi numa destas páginas não deixou de ser exato, no que toca a Glicério. Pelo que hoje me disse, percebi que minhas confidencias o impressionaram de tal forma, que tem, agora, uma visão diferente de Carmélia e a olha por um ângulo aproximadamente idêntico àquele sob que ela me surgiu, na noite de carnaval. Sugestionável como é, foi empolgado pelo mito da Donzela ou, pelo menos, empresta, agora, a Carmélia parte dos atributos misteriosos de que a dotei. Ela se cristaliza, rapidamente, a seus olhos, se me permitem o uso da expressão stendhaliana. Hoje, na Secretaria, falou-me da moça como se se tratasse quase de um ser quimérico. Ao ouvi-lo, oscilei, de início, entre a satisfação de autor que verifica o êxito de sua criação, e a angústia de namorado que pressente um rival. Disse-me que Carmélia é antes um símbolo do que criatura humana, pelo que há de imaterial beleza, graça, dança, música e poesia nos seus dezoito anos. Sem perceber as reservas com que lhe recebia as expansões e supondo que me iludiria quanto aos seus sentimentos, continuou a falar, ajuntando que a moça lhe despertara grande interesse (puramente estético, sublinhou), depois que eu, com minha confissão, lhe chamara a atenção sobre ela. Fora quatro ou cinco vezes à casa da viúva Miranda e estivera com Carmélia. Não me contou isso há mais tempo, esclareceu, porque acredita, de acordo, aliás, com as minhas declarações, que o caso já não me seduz. E insistiu nisso: aproximando-se da moça, procurando conhecê-la de perto, verificara tratar-se, realmente, de uma criatura fora do comum. Não se deve dar a Carmélia o apelativo "mulher", que com impropriedade se aplica indiferentemente a ela e a D. Paculdina, mulher do nosso chefe de Seção. Esta é uma porção bestial de gorduras, enquanto Carmélia é toda harmonias. Não disfarçando o despeito que me causava a dissertação de Glicério em torno de tema originariamente meu, respondi-lhe que, sobre essa diferença de substância entre Carmélia e D. Paculdina, haveríamos de conversar depois. Deixasse vir os anos, os cuidados, o casamento e os filhos à moça. E acrescentei que, no mais, estava fazendo literatura. Com a água fria que lhe pus no entusiasmo, calou-se. Notando-o aborrecido, recuei e pus-me a procurar um meio de reaver suas boas graças. Não o fiz por generosidade, mas para obter novas informações sobre seus encontros com a donzela. O aparecimento oportuno do Carolino, que nos veio trazer café (estávamos a uma janela do edifício), ofereceu-me ensejo para romper o silêncio e reatar a conversação. Ao servir-nos, Carolino nos pôs ao corrente de grande novidade: nosso companheiro Sepúlveda havia

Fazia gosto conversar com ela. ainda mais aflito. pelo aparte. foi despeito. explicando que os momentos de cisma da moça é que lhe deram.. A morte do pai lhe trouxera grande tristeza.. mais direto: —Desamarre essa cara.. "tinha a expressão casta. ainda. esta coisa fulminante: —Esquecia-me de lhe falar: conversei com ela. sim. melancólica e terna de uma virgem descuidosa.. já lhe disse que aquilo foi brincadeira. —Imagino. Receando que a evocação do incidente viesse suspender a conversação sobre Carmélia. a garota parecera excepcional. Falei. disse-lhe. esclareceu. o Sepúlveda! comentei eu. não estava cantando. respondeu. Se cantava ainda. —Dou-lhe minha palavra. respondeu. Informei-a a seu respeito. desculpe-me. as impressões. sem saber que pintor mencionaria. Havia na casa. é. Você anda irritante.. na última noite de carnaval. uma densa nuvem de melancolia. esforçando-me por fingir indiferença. Contudo. Fiquei suspenso. —Sujeito de sorte. . Se não gostar.. de um pintor teimosamente anônimo.. ultimamente.. Tinha palavras ágeis. a ele. Gostava muito de versos. insinuei que já nem me lembrava de meus ardores sentimentais pela moça. —É.. Perguntei-lhe que coisas ela dizia. Já confiante.. . Não. sem querer. Não se pode fazer uma brincadeira. sentia prazer em verificar que a ele. Não sendo versado em pintores. Glicério. E que educação perfeita.. Fui.. a meu ver. como há dois anos. Mas você não me contou se a moça ainda canta. —É claro. ficou suspenso. amuado. imagino. não o pude socorrer). —Não é possível! exclamei. —Contei-lhe que. a respeito de você.. Achando-o mais abordável. Você não faria isso.. com o coração batendo desordenadamente. Por isso não fora hoje à repartição.. ontem. finas. Depois de pequeno intervalo deixou escapar. literárias . com voz tão bonita. com hesitação. Desembaraçado. cortei: —Ora. homem! Está ficando muito melindroso. Glicério continuou.. Disselhe que você a conhecia. que naturalidade! Quando cismava. respondeu-me que a achava simplesmente fabulosa. —Você é louco? Você falou nisso? indaguei. dessas que a gente vê nas telas de. Sem sombra de convencionalismo.tirado sessenta contos na loteria.. Lia o melhor que vinha da França." (nessa altura. quando por acaso lhe ouvi uma canção napolitana. Ou melhor. então.

". meio maduro (Glicério sorriu com malícia neste ponto). e disse ao Glicério que precisava sair para alcançar o horário do Banco. Não respondi nada. com um modo esquisito. Ou. tão extraordinárias revelações que não lhe guardo rancor. que o levasse para fora. Mas pouco depois voltou a si. depois de lhe ter dado a mão. Isso foi quase de manhã.. estas notas. . recomendado a um dos garçons do clube. porém. com a fidelidade que me é possível. Você teve um desfalecimento e ela pediu ao pai. onde havia um sofá. Disse-me... A incompreensão do Glicério atingiu a esse limite. Ela ficou com pena e quis alegrá-lo. com sua incapacidade de perceber certas coisas. as palavras ouvidas a Glicério. num gesto de despedida. mas era coisa sem importância. Um homem de pince-nez. Não notando meu mortal desgosto. um dia. Pela forma como se referira a mim. primo de Carmélia. que se achava atrás. Estava muito triste. por efeito de álcool e éter. ela disse que se recordava. Sinto-me cansado e interromperei. Quase lhe fez medo. e você ficou deitado no sofá. talvez se estivesse divertindo à minha custa. Não. Notou que você a fitou.. não houvera mal. falando-me que as pessoas que freqüentam a casa não são desinteressantes e que há lá agora um rapaz muito "distinto". Eu retinha a respiração para ouvi-lo. O pai a informou de que. sorrindo. homem! Contei-lhe apenas que você a achou linda e muito "distinta". Cortei o assunto. como quem estivesse vendo qualquer coisa extraordinária. você tinha tido um desmaio. provavelmente. Tinha um título vencido e precisava reformá-lo.. ainda me perguntou: —Acha que fiz mal em lhe falar nisso? Respondi-lhe. Não sei bem que dizer de tudo isso. magro. Fiquei arrasado. que não. Falava em "Arabela.. olhando o salão como se olhasse para o mar. Acrescentou pormenores: —Disse que deram apenas alguns passos. com o qual eu gostaria de conversar. Arabela. Glicério. insistiu no assunto. alto. depois.—Sossegue. a um pequeno salão. aqui. Fez-me. Depois de tentar lembrar-se do episódio. como pude. que ela mostrou desejo de me conhecer e pediu-lhe que me levasse lá. Aqui reproduzo. caso eu não tivesse ficado encabulado com o incidente. —Vai sujigar a onça? perguntou-me. quando lhe fiz um aceno de mão. sei lá. consultando o relógio com fingida ansiedade. Ela acabou achando graça na história.

esse parvajola. o da moça. Acabou achando graça na história. r»(|ii Estava muito triste olhando o salão como se olhasse l\Lrl para o mar. Embora me deprimissem. achei que a comparação "triste como se olhasse para o mar" devia ser mesmo de Carmélia.. alto. coitado) e riram-se dele. Em vez de tomar o meu partido. Era um sujeito meio maduro e dizia: "Arabela. {l^Ef^M HOMEM de pince-nez. Era de um romantismo aguado e soava ridiculamente. tomei. ficar muito tempo nessa atitude de combate. Arabela. O rapaz está pondo as manguinhas de fora. e. e comecei a gostar desse Belmiro que olhava para o salão como se estivesse contemplando o mar.. olhando o salão como se olhasse para o mar"—deu-me compensações.. A referência à embriaguez e a declaração de que acabara "achando graça na história" doíam-me como pontadas no peito.. Bem feito. Deixaram-no deitado no banco (estava embriagado. um álbum onde colherá pensamentos de mocinhos tolos... Não pude. se fora meter na roda de filistinos. Nesse caso. considerei que uma jovem que diz frases semelhantes não pode deixar de ter.. examinando-as em todos os sentidos. porém. Que eu fosse lá.. se não tivesse ficado encabulado com o incidente. sem mencionar nomes) hão de ser Delly e Ardei. O resultado não poderia ser outro. Procurando tirar desforra... mas. ajudando-a a ridicularizar esse pobre idiota da noite de carnaval. que redundava na defesa do pobre bêbado da noite de carnaval.. A donzela terá um temperamento romântico e talvez pense muito no mar. correspondendo a imagens que flutuam no seu espírito e. de seu círculo..§ 46. quem sabe. Efeito de álcool e éter. meio maduro. meio maduro. UM BELMIRO OCEÂNICO. fez isso para me desfrutar? Por fim. afinal. seria rigorosamente exata. Em vez de ficar no seu mundo e no seu lugar. sonhei com elas e amanheci hoje a repeti-las. Veio-me a idéia de que a frase talvez fosse pèrfidamente construída pelo Glicério. Deve ser das tais que colecionam autógrafos. sentia prazer em esquadrinhá-las e decompô-las. Quanto à rebuscada frase—"Estava muito triste. Um Belmiro oceânico.". O quadro foi realmente grotesco. necessárias para definir precisamente uma impressão." Dormi ontem pensando nessas palavras. Era um tanto literária. irremediavelmente oceânico.. eis o que Carmélia pressentiu em . e seus autores franceses (a que Glicério aludiu de um modo geral. as palavras teriam sido espontâneas.. e a moça tinha razão. o desfalecimento. também. porém. Esqueceram-me todas as mágoas... magro.

enxerguei tudo. como sabem. sem dar conta de coisa alguma. pensei.. Depois. mas também não será sua. fitei-o com pena e. e ele. uma frase que. na Avenida. Depois. Mas. um homem magro. Tocava-se a Marcha Nupcial de Mendelssohn. ao chegar à porta da Secretaria. Quem será esse primo? Como será? Que veio fazer aqui? Quais serão as conseqüências de sua convivência com Carmélia? Da Rua Erê à Seção do Fomento a distância não é pequena. um alfinete de pérola. Quando. como um relâmpago. faz-se baldeação. quando isso me seja possível. As revelações de Glicério me proporcionaram um mundo de meditações e suscitaram-me os mais desencontrados sentimentos. se arrastava pelo pavimento da igreja de Lourdes. baldeação inclusive. um ao outro". vestido de jaquetão e calças listradas." . Lá se foi ela com o moço 'distinto'. na hora do sim?" A um canto. tomando-se um bonde que sobe a Rua da Bahia.. E. muito longa. na Praça. Nós ficamos com o mito. Uma jovem extremamente bela. até então. dispondo os mais insignificantes pormenores. alto. vestida de noiva. "como se olhasse para o mar".. não vi ninguém. todos com os passos também cadenciados. agora. dando uma solenidade espetacular ao acontecimento. em sondagens. Para rematar: melancólico. com quem você gostaria de conversar". tão absorto me debrucei sobre as outras: "Há lá. e. dava-lhe o braço. Há muitos anos que não vejo o nosso irmão Atlântico. "Você notou como o noivo estava comovido. trazendo ao peito uma gravata clara. Pois..mim. também não será você. E a manhã de hoje correu assim. Um moço "distinto". dei maquinalmente o sinal de parada. os garçons de honra. Como assentam. "Carmélia está um sonho". Voltarei a conversá-lo um dia. Esquisito. durante todo o trajeto. foi quando eu tomava o bonde para a Secretaria que me veio. um rapaz muito "distinto". por que não pensei nisso há mais tempo? O fato é de importância capital. triste e maduro contemplava o desfile. encontrei Glicério. em voz baixa: "Belo casamento. Os demais assistentes trocavam impressões. às vezes tão bravo e sombrio quando bate no Arpoador. com a pequena. realçada pelo fundo escuro da roupa. primo de Carmélia. Bem feito.. denunciando-me a existência de Belmiros ainda inexplorados. A cauda do vestido.. O casal caminhava ao ritmo da música. mas resignado. nela. paguei maquinalmente ao condutor. ao mesmo tempo. Como Silviano. Não será minha. não fora objeto de exame. pus-me a urdir vasto enredo. apoiado a uma coluna do templo. simpático. com uma sensação de vitória: "Ora. vinham as damas de honra.

Formou-se há pouco tempo. sabe? Especializou-se na Alemanha. ainda com ar triunfante. ando há muito tempo com necessidade de leituras mais sólidas. Queria que Glicério tivesse a iniciativa de me procurar.. Tirei-o do apuro. Acabei de visionar o seu casamento. Seremos solidários no combate ao filistino. à hora do café. O Jorge de Figueiredo. observando-lhe que o primo de uma criatura. Não tenhamos pressa. outros livros que Silviano também me emprestou e já está cobrando.. Pus em dia o protocolo de processos. por exemplo. pensei.. Se não me engano.. Se ele não tocar no assunto. Algum do seu clube? —Não. —Bom. —Que Jorge? Não sei de quem se trata.. como Carmélia. —Casar? Você está doido? Quem lhe falou nisso? perguntou. não. jovem. É rapaz "distinto". respondi.. na Seção. ele veio falar-me e se disse encantado com a "schopenhaueriana" que Silviano lhe está emprestando. Mas tocará. primeiro. Dia morno. Deveria fazê-lo. me interessaria. a propósito de qualquer coisa. —Então. —Ah! a propósito. —Você é fantástico! Carmélia havia de rir. . Quero dizer. enquanto imaginava meios de conduzir a conversa para esses lados. Encontrei-me hoje com o Jorge. se soubesse disso. Estamos em frente de um inimigo comum. Calculei como um astrônomo. disse-lhe. Belmiro. como de costume.. por partes. disse Glicério.. esforçando-me por parecer despreocupado. —Olá. seria sempre "a propósito". por ora. Quando o encontrei. e só no último caso iria à sua mesa. Preciso debulhar... —Ora. É verdade. Se você quiser. tocará. na igreja de Lourdes. trarei para você um volume do Ruyssen sobre Schopenhauer.. primo de Carmélia.. Pois o rapaz mal chegou a Belo Horizonte! —Quer apostar? Não o conheço. —Você se meteu em grandes funduras. Mas. pois era um grande bandido: ia casar com a moça mais interessante da cidade. E que a mim. estava comprando móveis para o gabinete. Glicério há de falar-me hoje a respeito desse moço. É ameno. como vai essa força? disse-lhe. para montar aqui um serviço de radiologia. mas estou vendo tudo claro. aparentando admiração. Respondi-lhe que. —Vai morar com a viúva? ...—Olá. À hora do café. bom. assustado. tanto quanto o gênero comporta.. puxarei sua língua. não é "a propósito". você falava de Schopenhauer. Jorge chegou apenas há uma semana.

Homens e mulheres sobem a escadaria da igreja de São José. sucessivamente. Veio-me a idéia de sair um pouco. Mas talvez seja melhor armar a rede no quintal e folhear revistas velhas. Viveu sempre de São Paulo para o Rio e do Rio para a Europa. desde que. definitivamente. Depois. entre bocejos. A ciática passou. Não há dúvida que se casarão. dar um giro. § 47. Enquanto eu dormia. o Jorge. em boas condições. assim. no Instituto. E a vida é quase boa. Cá dentro. que a Chica ficou boa. E casar-se-ão mesmo na igreja de Lourdes. Contei-lhe que o médico me disse ontem. NESTES últimos cinco dias não toquei nestes assentamentos. Outra coisa não deveriam fazer o Prudêncio Gouveia e Beppe. Giovanni. desço na Avenida. Não. Os jornais anunciam um encontro sensacional. a moléstia mental se manifestou nela. talvez o futebol. quase despreocupadamente. e ela anda. ou não. que a velha traz silenciosamente. pela tarde toda. quando é vazia como neste domingo. tirar o chapéu. em frente da igreja? O melhor é dar uma volta e não criar este problema. e ainda agora me ocupa. Ora bolas. ainda moça. porém. experimentadas pela pobre irmã. por insistência dela. Tomo o café. Leio o Minas que deixou sobre a mesa. para ouvir a missa das cinco. Mudamos. ia à missa. Quando o espírito se me torna. Por que não fazer o mesmo? Devo. Só agora veio a Minas.—Não. na cidade. ao ver terminada uma crise. para espairecer. disfarçado no meio do povo. haverem as duchas e os remédios produzido bom efeito. procuro o Florêncio. Lá fora. Pus-me à janela. É admirável esse otimismo que a faz esquecer-se da longa série de crises e melhoras. Emília devia ter estado na igreja. parece muito animada. assistir à cerimônia. Uma banda militar desce . Com as notícias que lhe dei sobre Francisquinha. como diz o poeta. que se casem e sumam. a ver a rua. depois. Posso compor meu olhar oceânico para. Dei para vidente. NENHUM DESEJO NESTE DOMINGO. "Nenhum desejo neste domingo. nenhum problema nesta vida". à tarde. Com ele estive duas ou três noites a bebericar. Tomo o bonde. Talvez possamos trazer a mana para casa no fim desta semana. leve. há uma semana. o tema foi o mesmo. Muito viajado. Andei lendo. Está lá. Emília sempre acredita. andei perambulando. de assunto. o sapateiro. apenas enquanto se instala convenientemente e se adapta mais ou menos ao meio. Finalmente resolvo. a manhã deve estar alegre e o parque cheio de gente. vestindo o velho jaquetão preto e levando um chapéu-de-sol ao braço.

marcialmente a Rua da Bahia. FINADOS. convenhamos em que cada um exprime o seu sentimento como pode e que. visitas extraordinárias ao cemitério. o chefe da Seção pediu-me que comparecesse ao desembarque do Ministro. para exprimir à viúva sua grande dor: "Console-se. Qual. que enterrava as pessoas com um pesar que se adivinhava sincero. Ia por esporte. NÃO TENDO nenhum defunto familiar no Bonfim. foi que me decidi.. não tinha o ar amigo nem a expressão honesta do coveiro caraibano. O coveiro não se assemelhava em nada ao de Vila Caraíbas. do cemitério do Bonfim. quando já escasseavam os visitantes. Depois. lá no Parque. ou para acompanhar algum amigo. ver morenas que não nos verão. Algum político importante deve estar a chegar. toma-se um refresco no Bar. em anos anteriores. Lembra-me que. suponho eu. rumo à estação da Central. vi que se enterrava alguém. Depois. ao pé do túmulo do pai. À tarde. abeirando-me de um ou outro retardatário par de namorados—para ouvir-lhes a conversa —ou examinando alguns mausoléus e inscrições. não deixou de fitar- . Ah! é verdade." Mas. Aproximei-me do local e fui deitar. arranjarei uma terrinha virgem para ele. senão estas. pus-me a andar a esmo. do que terra virgem. à parte nova do cemitério. às preferências daquela pessoa de tão fúnebre ofício. minha pá de terra ao morto. § 48. fiquei o dia todo a hesitar entre ir e não ir. o melhor é. senti desejo de visitar o cemitério. informado da morte de um compadre. no dia de Finados. Ali chegado. Para dizer verdade. amigo que era de todos. ou não ir. Nenhum desejo neste domingo. Sem que nada me recomendasse. também. Ir. escreverei neste caderno que não era tanto pelos seus hóspedes: imaginei que talvez encontrasse Carmélia.. não encontrou outras palavras. Mas. voltaremos para casa. chamaremos o velho Giovanni para um dedo de prosa. segundo o padrão habitual. Homem sombrio. eis a questão. depois. para um coveiro consciencioso. O coveiro da quadra 55. poucas vezes ali fui. aos seus. seu olho mole. a um defunto. poupando. Passando. Domingo bom e alegre. não estando muito premido pela necessidade de vê-la. logo pela manhã. Defunto metódico esse que deliberou morrer no próprio dia de Finados. abriremos a rede. impressionou-me fortemente com o olhar frio que me deitou. Neste Finados de 1935. afinal. nada se poderia prometer de melhor. nenhum problema nesta vida. esquisito.

" Por último. Em consideração ao Senador. que não foram boas. ajuntou. teria ela. O Senador Furquim.me um só momento. no sentido de que não se afastasse de Belo Horizonte. dizendo-lhe que não criasse problemas de consciência. acharam indícios de que fora um dos promotores da última greve de operários. A uma hora dessas. Em vista de tais documentos. que não o soltaram senão para lhe acompanhar o desenvolvimento das atividades. acossados pela necessidade. Que não entrasse em indagações sobre se a greve surtiria. até de uma geração. alcançado os seus objetivos. o delegado mostrou-lhe. JANDIRA SE MOSTRA PRUDENTE. Que o homem de ação não deve ter escrúpulos. seriam outros tantos agitadores. que se incumbiu do caso a pedido de Glicério. era. ou Almada. assim. uma cópia de carta enviada pelo nosso amigo a um estudante Lousada. ou não. e este fora encerrado havia mais de quatro anos. a carta. memórias. Mas na correspondência e em papéis avulsos. O investigador. e deixei o cemitério com o espírito opresso. mesmo assim. Um calafrio correu-me pela espinha. seu manguarão!" Havia qualquer coisa de triunfante e de perverso naquele olho aguado. que lhe devia levar o Diário. mesmo. teve também a incumbência de transmitir-lhe recomendação expressa do delegado. Consideram Redelvim bastante comprometido. FUI HOJE à casa de Jandira comunicar-lhe que a polícia deliberou devolver a Redelvim o seu Diário. As sombras se insinuavam aqui e ali. não encontraram no Diário senão poesias. resolveram manter Redelvim sob vigilância constante. chamou este último à sua residência para o cientificar de que haviam sido expedidas ordens para isso. nem mudasse de residência. enquanto estive à beira da cova. pois os homens sem trabalho. efeito. O Senador prestou outras informações. seriam compensados pela felicidade das gerações futuras. pois o delegado é finório. Era já lusco-fusco. relações de dívidas. Glicério me disse que entrou em tudo isso apenas em atenção a . Realmente. Nesse documento Redelvim concitava o companheiro a agir. e um vento frio e fino soprava as casuarinas. De acordo com o que me repetiu Glicério. Por que me encararia assim. apontamentos diversos. sem notificar a polícia. com ar agoureiro? Parecia dizer-me: "Não demorarás a vir também. fazendo-as gemer. ou mesmo por isso. que a polícia conservou. Que se a greve falhasse e os operários fossem postos no olho da rua. "Desconfia o Senador. terminada tragicamente. Que a miséria e o sacrifício. o Bonfim é menos convidativo que de costume. § 49.

Nesse negócio da greve entrou por lirismo. sua mímica muito feminina me fazem lembrar a Jandira mulher. na expectativa de qualquer coisa.mim e que não se interessava pelo Redelvim. Jia cana. Não tem mais ligação com o Partido. de sua boca—ou simplesmente movida pela sua natural versatilidade. você vê como tudo anda embrulhado na Rússia. Respondi-lhe que seria bom isso. Quando voltou. algum namorado nestes dez dias em que tenho estado ausente de sua casa. vive falando mal de mim e do Silviano. Aos vinte e cinco anos. com ar brejeiro: —Prolongada salva de palmas. E que nosso amigo não fará nada. a fim de lhe pedir um pouco de condescendência no caso. Arranjou. andando para lá. tenho pensado que o papel de indivíduos como nós é conter os impacientes. reacionários. surpreso. ou porque tivesse julgado o discurso cheio de chavões e quisesse anular o efeito das frases mais ou menos convencionais. Não lhe exprimi esta satisfação. que tantas vezes desaparece a meus olhos. sem que eu insistisse no assunto. apelando para a violência. também.. Ficou apreensiva e manifestou o propósito de ir procurar o delegado. retrucou. Belmiro. Tive de esperar um pouco. era homem atencioso. por picardia. disse-me: —Olhe. mas talvez fosse inútil a tentativa." Glicério foi duro. Confio na evolução social. "Ele se meteu em embrulhos. mas reconheço que Redelvim o tem hostilizado bastante. assim. Além disso. cumprimentou-me com ar alegre.. Conhecia-o. Temos problemas que nenhum regime resolve. Somos criaturas sem fé e pensamos demais. Redelvim conversou comigo longamente. para cá. mas receio que. É orgulhoso e não confessa. falou. O mundo está errado. provavelmente. Depois. em nossas conversações. pois a polícia anda rigorosa. a assumir atitude oposta. nada lhe acontecerá. seu jeito provocante. Jandira se mostra prudente e não se tem envolvido em complicações. Mas estava em maré de confidencias e. que eu ouvira. tem a mesma graça leve e a mesma carne ágil dos dezenove. Além disso. Dei-lhe conhecimento das informações prestadas pelo Senador. Suas mudanças súbitas. com certeza. —Mas é um absurdo. que se agüente. viesse. sem convicção alguma. chamando-nos imbecis. mas acredito que anda decepcionado com os antigos companheiros. receoso de que se melindrasse e. Fiquei satisfeito com suas palavras. Qualquer dia a idiota da Jandira estará. O orador é vivamente cumprimentado. se cometam erros maiores. Jandira fora dar uma volta na Avenida com a amiga nova que descobriu: uma professora já meio entrada em anos que se instalou na mesma casa de cômodos. Poderia talvez fazer a felicidade do .

Silviano anda sumido. pretender discipliná-lo com teorias rígidas. anteontem. com esta preocupação. ou do seu amigo Redelvim. um pouco despeitada por haverem os médicos conseguido o que não conseguiram seus amigos espiritistas. nem outra. Redelvim? Como me ocorreu isso? Excelente meio de dar cabo de duas personagens difíceis: casá-las. pensamos demais. da casa de Jandira.velho mancebo que escreve estas notas. JÁ ANDAM JUNTOS PELA RUA. § 51. mas não lhe sinto as chamas. depois de ter andado muito pela cidade. Não sei para onde irá uma. como fogo de monturo. Glicério não voltou a falar-me sobre o primo de Carmélia. Hortênsia nos arranjou. Mas há. Como cedi uma vez. Fui buscá-la. quer converter a casa em centro espírita e fala em voltar. que D. uma contínua suspeita de que é desconhecer a natureza do homem. Vejamos por quanto tempo poderemos conservá-la assim. Josefa lavadeira. Emília anda radiante: volta e meia. Enfim. Escreverei também que não me falta simpatia humana e muito me preocupam os males do mundo. alimentada. NADA de novo nesta semana. Depois de tomar um café. saí.. e ainda me acho um pouco transtornado pelo que me ocorreu à tarde. a não ser a volta de Francisquinha.. E há. de novo. em mim. com os seus homens. entra-me no quarto. Pensamos e sofremos. limpa. pôs-se a resmungar que Francisquinha só há de ficar inteiramente boa é com as rezas da "sessão". quando a mana piorar. Talvez o amor continue a lavrar manhosamente. escrúpulos de espírito e de sentimento que não aceitam radicalismos revolucionários. Mas isto aqui não é romance. Há muito não tenho uma semana assim tranqüila. A injustiça social me dilacera a sensibilidade. Tenho lido alguns livros do Silviano e consegui liquidar o Homero. Não é meu . ESCREVO à meia-noite. Está outra pessoa: arrumadinha. no Instituto. como diz Jandira. § 50. dentro e fora de casa. sobretudo. nem isso me preocupou. E aqui a escrevo. e os caminhos da vida são mais complicados. para me contar qualquer coisa que a Chica falou. UMA SEMANA QUE PASSA.

pouco ou quase nada percebi do que se passava em torno de mim e do que Glicério dizia. Segredou-me. Ao sorvete prefiro o chope. tendo necessidade de sair. Fiz um esforço sobre-humano para ocultar minha agitação e apenas lhe disse um "Ah!" distraído. menos freqüentados. supondo que seu propósito me houvesse agastado. pois sentia que o sangue me tinha fugido do rosto. observei que. e o chope só pode ser tomado com a devida unção nos bares. Emília já está mais ou menos habituada à minha impontualidade e guarda-me o prato feito. e pude vir para casa. trouxe-me de modo brusco à realidade. pelo lado do Correio. a tomar chope. Acabei por me interessar: . Eu respondia por palavras vagas ao que me dizia Glicério e este deverá ter notado minha ausência. num gesto disfarçado. não vi essas pessoas. onde estive mais de duas horas. e perguntei-lhe a quem cumprimentava. assim tão mesureiro. dirigindo-se para um ponto ou outro. me davam a impressão de que ela estava notando a insistência do meu olhar. apanhando o chapéu e dizendo-lhe ter um encontro urgente com Redelvim. através do espelho. pegando um jornal e fingindo mostrar-mo. sem olhar para os lados. a epiderme branca e delicada e os cabelos castanho-claros. e meti-me num bar da Rua Espírito Santo.hábito sair com Glicério depois do trabalho. Pediu-me licença para se afastar por instantes. Finalmente. Glicério se levantava e saudava pessoas que entravam. ainda que atrasado. Embebi-me na sua contemplação. ondulados. Pouco depois que chegamos. Devia estar com uma cara de alma do outro mundo. que os recém-vindos eram Carmélia. E saí rápido da sorveteria. Voltaria logo. sempre transido de temor cada vez que os seus olhos. Estando de costas para a rua. refletida nos espelhos da parede. Daquele momento em diante. Andei a Avenida a passos largos. Comi às pressas e sem vontade. O chope me levantou o moral. voltando logo para a rua e tentando assistir a uma sessão de cinema. ia fazê-lo imediatamente: ele poderia ficar à vontade. apresentar-lhes cumprimentos. Mas o demônio as arma: não sei por que desci hoje com o rapaz e entrei numa sorveteria onde se reúnem as elegâncias de Belo Horizonte. O luto fechado lhe realçava singularmente os traços finos. sem ânimo de sequer mexer-me na cadeira. Insistiu em minha permanência. Resumi a conversa. Vi nisso uma tábua de salvação e respondi-lhe que. a viúva e o Dr. nem costumo freqüentar as sorveterias da Rua da Bahia ou da Avenida. Jorge de Figueiredo. para jantar. que é menos transitado. com teatral mesura. Fiquei medrosamente a fitar a imagem de Carmélia. das ruas transversais. dizendo que não poderia deixar de ir à mesa da viúva e da filha.

com toda a certeza. A pobre mana está presa ao leito com febre alta. se levantasse para o pôr fora de casa e desse por falta dela. presumivelmente. Não me tenho afastado do seu quarto e nada ou pouco dormi nestas duas noites. e tanto Emília como Francisquinha o estimam muito. fez uma grande extravagância. Em cada Banco depositou dez contos. encontrei Sepúlveda. E os vinte restantes foram despendidos em reparos na casa e compra de terrenos. até que Emília. a seu modo. ou comprar uma coisa ou outra. Não era tolo para pôr fora o cobrinho. pois havia uma mula-sem-cabeça dando coices debaixo da cama. Noto que sua simples presença tem ação sedativa. para o leito. pensando na possibilidade de uma pneumonia. pusemo-nos a procurar a pobre mana e a encontramos naquela postura. O resultado da extravagância foi uma forte gripe. com relutância. E ali ficou durante mais de uma hora. Parece possuir nas mãos um magnetismo especial. do seu quarto. e foi para o quintal. É um homem excelente. acordada pelos miados de um gato. À saída. agitada. Recusou a muitos colegas empréstimos de dinheiro. uma surra de madame Sepúlveda. dizendo que não podia estar ali. Chamei ontem o Dr. no caso de um dos Bancos quebrar. Emília me despertou. que é o médico da casa. abri um ou outro livro. pois.passando muito mal. uma força qualquer que faz bem e .. pondo-se de cócoras a um canto do muro. Fagundes. sob uma chuvinha miúda. EXTRAVAGÂNCIA DE HÁ TRÊS dias não saio de casa senão para ir à farmácia. pois Francisquinha está . Quando eu a supunha bem melhor. por isso. e que levou. e. Pois o casamento se dará. que provocava grandes risadas do público. ansiada. já tranqüilo. Voltou. Mas comigo o caso era diferente: se eu quisesse era só falar. mais ou menos conformado com o casamento de Carmélia.. Já andam juntos pela rua. Voltei para casa. Esqueceu-se de me dizer que gastou cinco contos com uma espanhola. não perderia senão aquela quantia. desde anos. quase despida. não. finalmente. O velho está apreensivo. tentando acalmá-la. Saiu de madrugada. Tosse com violência e sente dores agudas nas costas. UMA FRANCISQUINHA. que me levou a um café e se pôs a contar o modo por que empregou o dinheiro tirado na loteria. Ficamos acordados o resto da madrugada. cá estou a escrevinhar.era uma comédia leve. § 52.

não resista à moléstia.. Que felicidade poder pensar que Francisquinha foi para o seio do Eterno. apegando-se muito a mim. possui invisíveis pontos de apoio: mostrou uma singela grandeza. Não resistiu sete dias. Sua rudeza cedeu lugar à ternura. OBRE Francisquinha! Lá se foi. Pobre mana. FORTALEZA DE EMÍLIA. agora. Levei-a até lá com Giovanni. Vestiu-a. Dá-me vontade de sair desta casa. dá-me. como de costume. Prudêncio. Vejo agora quanto estava preso a ela. para nos auxiliar no tratamento da irmã. Glicério. que se tornou mais sombria. Tratei-a sempre com desvelo. Deus chamou a coitada!" Pôs-lhe ao peito um crucifixo de ferro. Receia que. Já aqui estamos há doze anos. arranjou tudo. fraca como é. mas notou minhas preocupações e não disse ao que veio. Ofereceu mandar-me a Joana. e chamá-lo. todos. sempre que houvesse qualquer novidade. que pertenceu à velha Maia. Emilia tem revelado qualidades excepcionais de enfermeira. Deus bom. pretextando arrumar uma ou outra coisa. que me parecia humorístico. a velha Maia. Como se transformou nos últimos momentos! Encolhia-se feito uma criancinha doente e fitava-me com olhos tão compreensivos. Faz dois dias já que a mana está no Bonfim. que assiste os coitados. àquela deformação do espírito. desnutrido. sempre que pode. àquela caricatura da razão. vindo a pneumonia. Silviano. Emília encontra uma paz que não atinjo. e lá se acham o velho Borba. Redelvim. grande . E a sombra de Francisquinha a prende mais ainda. § 53. Conversa pouco. quanto a Francisquinha. Recomendou-me estar atento. Em sua pouca luz. Silviano esteve ontem aqui em casa.. a mana. com fisionomia resignada.domina os males. Florêncio. realmente. O corpo velho. mas olhava-a talvez com esta quase neutralidade com que se contempla o que é de todo estranho a nós. mas permanece a meu lado. baqueou com a pneumonia. É mais forte. e ela se afeiçoou às coisas e ao meio. perguntando-me se algo me ligava. Emília está mudada. todos. agora. Emília foi mais forte do que eu. Donde lhe virá tanta força? Talvez de seu Deus que tudo explica. porém Emília não quer. se for preciso. Jandira e Sepúlveda. O velho papagaio. Trata Francisquinha como a uma criança e é indulgente para com as suas impertinências. sempre dizendo: "Deus chamou a coitada. Penso nos gestos serenos e simples de Emília.

ora encarnada em Camila e integrada na paisagem caraibana. Estava de vestido branco. Já não reajo contra as visitas dessa doce imagem. Associei-a à minha vida. talvez enfraquecido pelas demoradas vigílias e pela má alimentação. tenho a impressão de haver saído de longa noite de insônia. Durante estes dias em que tenho estado encerrado. nenhuma representação sensual.pena. como em uma tela esfumada. deu-me um rápido abraço e desapareceu. Quase sempre deixa. inatingível. Depois de ter andado hoje. Deve ter sido um pesadelo. Não conseguia fixar a atenção em coisa alguma. porque está fora dos domínios do tempo. Sempre me apareceu assim. ou mesmo para pensar. sem contornos precisos. Só as feições se mostram nítidas. ora sob o seu aspecto real. ler. sentado ao alpendre da casa. Soubera da morte de Francisquinha e viera consolarme. Como é casto este amor! Nenhum desejo. Depois do enterro ainda não saí. e passa o dia todo a cochilar. Nessa longa noite. e o tempo não exercerá sobre ela sua ação desagregadora. Conversamos muito tempo. Carmélia apareceu-me com freqüência. cheguei a vê-la transpor o portãozinho de ferro e aproximar-se de mim. Não queria convidar ninguém. um pouco. Uma tarde. CASTOS AMORES. em cuja sala de jantar este mesmo relógio de repetição assinalava as horas de um dia grande. Fechado dentro de casa. como no domínio do sonho. terá filhos. as coisas se misturaram no meu espírito. Emília assistiu à missa das cinco da manhã. pelo Parque. casará. para não ser vista. perde a plumagem. a maior parte da comida que lhe damos. na lata.. Redelvim também compareceu. Anda decadente. ela me pertence.. será de outro. . horas infindas. poucas vezes peguei neste caderno e apenas duas escrevi. grande. mas Jandira se informou do local e da hora e avisou os amigos. mas no âmbito da fazenda. e as imagens se confundiam. A Carmélia real. OUVIMOS hoje missa de sétimo dia pela alma de Francisquinha. até ao momento em que Emília veio trazer-me um copo de leite. embora não entrasse na Capela. concentrando-se nos olhos grandes. o que a torna mais leve e lhe realça o ar virginal. e a visão desapareceu. Esperou-me à saída. Experimentei uma sorte de inibição para escrever. na atmosfera moral da casa velha. tenho a impressão de que estou vivendo não em Belo Horizonte. circulando por entre meus fantasmas. cismadores. com o corpo extremamente fraco. Mas a que construí será sempre minha. como que alheio a tudo. § 54.

—Hum. senhorita. Vivem-se horas ansiosas e a cidade anda cheia de boatos. Jandira dirigiu-lhe a palavra nervosamente. Ninguém receberá maus tratos. mas a verdade é que esses sentimentos são de natureza eterna. aliás. Desejava que fôssemos juntos àquela autoridade. com esse propósito. e a polícia está prendendo todos os elementos suspeitos. . Conheço-a. mas a carta a que aludi o comprometeu aos olhos da polícia. havia rebentado uma revolução comunista no Rio. Os que não estiverem envolvidos serão postos em liberdade. Jandira pediu.. mas sua presença aqui. ontem. JANDIRA veio procurar-me. dizendo que ali fora para esclarecer que Redelvim. Hum. Os prisioneiros vão ser ouvidos com toda a atenção. aflita. sei que não é suspeita. enquanto se fazem investigações. Não se pode negar o homem. Combinamos fazê-lo imediatamente e dirigimo-nos à Polícia Central. Pela madrugada. Vá tranqüila para casa.Também não reajo contra o sentimento romântico que me domina. Seu amigo será bem tratado. REDELVIM VAI PRESO.. Havemos de ver isto. § 55. —No momento é impossível. a todo momento. depois de termos vivido dois dias de inquietação. Apenas ficarão detidos. Neste instante. quando eu saía para sua casa com o mesmo objetivo: Redelvim foi preso. não se sabe ainda se o movimento surgirá em outros pontos do país. conseguimos falar com o homem. Só depois de duas horas de espera. a fim de lhe explicar a situação do amigo e pedir-lhe. pode comprometê-la perante meus colegas. e está incomunicável. Por que esta preocupação de parecer o que não somos? Ponham-me a data de 1830. Aconselho-a. respondeu. Chegada a nossa vez. Jandira veio propor-me um entendimento com o delegado seu conhecido. Sabíamos que Redelvim estava ultimamente alheio às atividades do Partido e nenhuma ligação tinha com os conspiradores. olhando-me com insistência.. Foi sufocado o levante. que lhe fosse permitido visitá-lo. nada tinha com os acontecimentos. e é inútil situá-los em outras épocas. então. não obstante as aparências em contrário. a não insistir. a soltura. com a notícia das sublevações de Recife e Natal. Um pouco intimidada. entre policiais. se possível. entravam. Interrogava numerosas pessoas que.. após duros combates cujos pormenores os cartazes dos jornais ainda estão registrando febrilmente.

PROMETI-ME. que o delegado chamava um funcionário e lhe dava instruções. quando o delegado me chamou à parte. se equívoco houvesse quanto a mim. Vou fazê-lo pormenorizadamente. peço-lhe que olhe pela mana e obtenha que o Carolino vá dormir lá em casa. Calculei que expedia ordens para que me vigiassem os passos. Procurei. § 56. É sujeito antipático. Não o conheço. por não ter dormido esta noite. perguntou-me o que acontecera. Assustado com o imprevisto convite. . ao sair. como outros. Embora inquieto pelo que me poderia acontecer. Jandira. ontem. deliberamos retirar-nos. e eu ia fazê-lo com Jandira. Disse. Foi pontual e procedeu corretamente em casa. desejo que volte aqui. vim rapidamente à Rua Erê.. dentro de poucas horas. ENTRE LUNFAS.Diante disso. desfechou-me à queima-roupa: —Estou bem impressionado com o senhor. em seguida. aproveitando esta manhã sossegada. Leve a moça à casa e apareça-me dentro de uma hora. para evitar dúvidas. Que o "Chefe" precisava de mim. Deixei-a em casa. Percebi. passando pela Secretaria. depois de. para avisar Emília de que teria de demorar-me fora e talvez voltasse à noite.. nos seguintes termos: "Suspeitam de mim. Fá-lo-ei amanhã cedo. dentro do prazo. O delegado recebeu-me razoavelmente. Talvez tivesse de fazer pequena viagem com ele. mas cortês. Não se preocupasse com alguma demora: eu já tomara providências para que o contínuo da Seção viesse dormir em nossa casa. Com untuoso sorriso profissional. à noite. disse. Não tentou destruir papéis. Assegurei-lhe que não. —Quanto ao senhor. que o delegado apenas me pedira voltar à sua presença." Sinto-me cansado. Com certeza supôs que eu ia a alguma pândega. mas. e retirei-me com Jandira. o delegado. havia de ser desfeito o equívoco. pois repreendeu-me: —Parece que já esqueceu da Chica... que relataria hoje tudo o que me aconteceu na Polícia. aviso-o de que nada lhe adiantará fugir. apresentei-me ao delegado com uma convicção: a de que. muito pálida. a fim de prestar depoimento sobre Redelvim. Fui chamado à polícia. e não poderei escrever agora o que se passou comigo. Se for detido. Fora da delegacia. para tranqüilizá-la. pois teremos meio de encontrá-lo. assegurei-lhe que voltaria. ter ali deixado um bilhete para Glicério.

para a diligência. sem idéias políticas. etc. que este levasse. naturalmente. Pondo-o a par da situação especial de minha casa. Digo "talvez". Como explica o fato de mandarem livros extremistas ao sr.Vendo minha surpresa. disse o delegado. de chofre. cheio de gente. recomendou a um policial. Os investigadores de guarda disseram-lhe que não havia lugar para mais ninguém e que os "pássaros" já .. um tanto inquieto. que. Posso reproduzir a conversa que teve com uma senhora velha que mora lá. por seu intermédio? perguntou. eram livros extremistas? Em suas freqüentes mudanças de pensão. pertencia ao serviço público. É comum haver esquecimentos. Pelo tom de suas palavras. Então. Redelvim. observou-me de modo impertinente. prosseguiu: —Pensou que ia sozinho? Um investigador o acompanhou durante o trajeto e o observou. e na interpretação que poderia dar à busca. Vejamos. se fosse possível. sem indagar que coisas continha. Redelvim as vezes dava meu endereço para que lhe fossem enviadas cartas ou encomendas. destacasse. o investigador Parreiras. quando entrou em casa. Pode ser que os haja e tenham sido esquecidos. Pode fazer suas declarações. Beltrano. Cessou a pressão. O policial levou-me pelo braço. —Mas. o pacote registrado parecia de livros. Farei o que for possível. de uma feita. chegar às mãos do destinatário. fazendo apelos à memória. Durante os segundos em que me demorei a responder.. que eu era pessoa inteiramente inofensiva. Declarei. o acadêmico Glicério de Sousa Portes. indicando-me com um gesto de queixo.. —Sua explicação é aceitável.. ainda. Assim a velha não se assustaria. respondeu.. onde estão os que aguardam depoimento. Poderiam tomar informações com Fulano. Mas precisamos investigar. respeitava o regime.. imprevidências. Olhou três salas e achou-as repletas. fiquei certo de que assim procederia. Sou obrigado a detê-lo. em sua companhia. por um corredor comprido.. Interpreto favoravelmente o fato de não se ter demorado para se desfazer de documentos incômodos. Fí-lo... meu companheiro de Seção. fitando -me dentro dos olhos. —Vejamos. Talvez não existam. que serão tomadas por termo.. um pouco tranqüilizado pela acolhida. Pensei logo em Emília. pela janela. meu conhecido (o que se interessou pelo caso do Giovanni). quando contei o que se passara. etc. note bem. —Conduza-o a uma das salas. Lembrei-me de que. Vasculhei a memória.. enquanto não se der uma busca em sua residência. pedi arranjasse as coisas de forma que não atribulasse a velha. e.

acolheram-me com chufas. Até me haviam ajudado a . meio impaciente. puseram o senhor no meio desses malandros! Vou contar ao delegado. ou melhor. Já corri os Estados todos. então. não? Os jornais estão cheios.estavam reclamando contra isso. Mancou agora. A combinação "lunfa de penosa" era-me. . respondeu-me o baixo. que o mau humor se desfez. Com eles me distraí bastante até que.. não.. —Está com pinta de lunfa de penosa. Namora. jeito. Você vai é mesmo para as grades. de vez em quando aparteado pelo outro. —Pois olhe. ganhando a confiança dos marotos. Mato Grosso e Amazonas. disse o magro.. Pedi que não o fizesse. Banco o vigário só quando não encontro otários para punga. Na gíria policial "pinta" é aparência. Não valia a pena.. de cicatriz na face. Sou punguista. não tem sopa. mas quis ver a morena. e isso me exasperou. Que seria "lunfa de penosa"? Propus-me apurar isso. menos Goiás... Saído o investigador. Tiro só a grana e deixo o couro para o ota não dar o grito. e os tiras estavam acampanando a grinfa. —Seu Belmiro. deixemos de luxinhos.. —Mancou. para o outro. mas não dou para isso. gordo. —Mais amor e menos confiança. pelas onze da noite. É a segunda pessoa que me trata. porém. Mas sufoquei a raiva e entrei na sala de janelas gradeadas. com orgulho profissional.. e falou: —Ora. Fomos juntos à casa da pequena. Tão surpreendido fiquei. Mas isto é doce de leite para mim. A sodade apertou. veio ver a nega e foi encanado. O homem fitou-me. Um me dirigiu a palavra: —Não ache ruim. velho. mesmo. disse. disse. Percebi que estava em meio de larápios e a experiência despertou-me a curiosidade. Não afano a carteira. e "lunfa" é ladrão. A cana é isso. Já fui encanado mais de cinqüenta vezes. —Qual nada! falei. maltrata de "manguarão". estranha. Ia para a Bahia. o investigador Parreiras veio procurar-me para me levar à presença do delegado. pessoar! Depois se apresentou: —Não ouviu falar de mim. seu manguarão. Bem que tinha vontade de fazer um servicinho de vez em quando. fingindo zangar-se. onde havia dois presos. rindo-se. indicando-me o companheiro magro e alto: Este é o Manequinho. E continuou a contar sua vida e aventuras. Fui preso por causa dele. prosseguiu.. mestrepunguista.

pois suas confissões (novo sorriso irônico) têm cunho de sinceridade. Depois. socialdemocrática.." —Quanto ao seu amigo Redelvim. disse o homem. Apesar das declarações do Senador Furquim em seu favor.passar o tempo. Cá estão as suas "memórias". Com aflição e vergonha vi.. continuou o delegado. no seu Diário. PARA ALGUMA COISA SERVIRAM ESTAS NOTAS. tirando partido do meu embaraço. emendou. § 57. São dez da manhã e devo preparar-me para ir à Secretaria. a folhas e folhas. esforçando-se para brilhar: é um céptico... Olhei de soslaio para Silviano e Glicério: era de malícia a expressão deles. Veja se entendi bem. prosseguiu. assumiu ar professoral e disse que. Nossa Constituição já acolheu numerosos princípios da socialdemocracia. Acha que viveremos sempre de erro em erro e que. precisávamos de provas. em que as transformações se possam operar sem que sejam necessárias as revoluções. nada justifica o sacrifício de sangue. continuou. As declarações íntimas. Iríamos ver. e o senhor deve . perguntei-lhe qual era a minha situação. portanto. "Ou melhor. em suas mãos. À noite relatarei o resto da aventura. Por isso. Sublinhava as palavras. imaginando que o delegado fosse ler páginas dos cadernos na presença de Silviano e Glicério. Depois. —Tive de me enfronhar nessa maçaroca. o senhor acha. Meio mundo se movimentou por sua causa. Devo levar isso em conta. —Foi o que o salvou.. afinal. esclarecem sua posição. o mais que houve na delegacia. intimidado que me achava pelas circunstâncias. Respondeu que ficasse tranqüilo: parecia boa. VAI. AGORA. quando o investigador me levou ao delegado. Surpreendeu-me agradàvelmente a presença de Glicério e Silviano no seu gabinete. Eram onze da noite. prefere os regimes brandos.. mas não os cumprimentei senão com um gesto de cabeça. com o seu enjoativo sorriso. os três cadernos em que venho deixando notas. minhas idéias se comportavam bem dentro da Constituição liberal-democrática. de um ano até aqui. pois o Chefe de Polícia mandou examinar o caso com urgência. . que não passa de um "anarquista lírico". —Sim senhor. Correu-me um calafrio pela espinha.. O momento não é para condescendências.

que o senhor é platônico em demasia.. tímido. Se publicar as memórias. Justamente esses é que constituem o nosso maior problema. Entretanto. estendendo-me a mão em despedida. Gostaria de vê-lo mais ousado. os senhores são literatos e sabem o que lhes convém.. Noto.conhecer bem o homem. Separou-se de nós. Mas. A fim de tranqüilizar Emília. .. à espera de solução. Bem. Seu Diário me interessou. talvez eu tivesse de ficar mofando na grade. teremos de conservá-lo algum tempo. mande-me um exemplar. Abusando de nossa tolerância. e tomei a mão do calhorda.. mas profundamente. Mais direto na questão da. E. que julgou necessário solicitar os bons ofícios do Senador Furquim no meu caso.. Seguindo comigo.. pondo o dedo nos lábios. pouco adiante. interrompeu a conversa e ficou a rir. Lá fora. em companhia de Glicério e Silviano. encontrei bom entretenimento durante as horas de detenção. se me permite. Notando minha angústia e o gesto. Glicério contou-me.. pois... também. O ímpeto meu era de esbofeteá-lo. Silviano não insistiu na zombaria. e foi uma violência do delegado o ter-lhes posto os olhos.. que deviam ter achado a cena muito cômica e por certo me consideraram um pobre-diabo. então. a "peça". depois de uma pausa. Glicério não teve coragem de fazer o mesmo. apontando. Parece necessitar de mim e querer dizer-me confidencialmente qualquer coisa. Glicério.. com o queixo. porém. que instintivamente fiz. —Enfim. Silviano pediu que eu lhe mostrasse. um conselho. Mudou de assunto. Respondi. com a pequena. de resto. e que isso serviu para apressar as investigações. atuam lenta. irritado. O delegado fora atencioso.. Falei-lhe que o caso estava encerrado e que. Depois. Já conversamos bastante. emprazando-me para um encontro amanhã. Acompanhara o Parreiras e um estudante. encabulado. meti os cadernos debaixo do braço e saí. sobre os espíritos fracos. para indicar que o assunto era reservado... aludindo à embrulhada em que o Redelvim me meteu. mas o bofetão ficou na mente. O senhor erra julgando-o de todo inofensivo. disse. Pedimos-lhe desculpas pelo equívoco. O senhor pode retirar-se. funcionário da Polícia. Ou. os cadernos que estavam sob o meu braço.. . quem sabe. apesar dos pesares. declararam aqui ter vindo para arrolar os bens do inventário de Francisquinha. assistiu à busca nos meus papéis. que eram notas para uso íntimo. de novo tornando ao seu jeito presunçoso e cínico: —Bem. um pouco. sendo grande o número dos detidos. Ele.

-Tento analisar e explicar os sentimentos que a notícia do noivado de Carmélia me despertou. Aurélio de Miranda. encontrei-o estendido num colchão. que pertencem à nossa haute-gomme. Hoje cedo. tirando-me de apuros com a Polícia. Os noivos. Emília já se havia recolhido. a medo. O AMOR. o Glicério. vagando em torno de uma conversação havida com Silviano. de vez em quando. onde se anunciam os contratos de casamento. com o distinto médico-radiologista Dr. na sala de jantar. ontem.ma Viúva Dr. à hora da despedida. ao servir o almoço. Vi. lembrando-se de que fizeram o mesmo quando morreu a velha Maia. e. um pedaço de bolo envolvido em papel impermeável. cedinho. Ao encerrar a página de hoje. Glicério entregou-me um papel. Eu o julgava um aluado.. PELO AMOR. para colher depoimento sobre terceiro. Desempenhou com carinho as incumbências que lhe dei. A busca não teve maiores conseqüências: Emília acreditou na história do inventário. percorrendo. Partiu hoje. que não lhe falta siso. Carolino contou-me histórias de sua vida.. contou-me. É interessante que a gente conviva tantos anos com uma pessoa sem a descobrir. folheei com emoção o Minas Gerais. —Os home da justiça mexeram em tudo. Ótimo rapaz. Carolino ficou de voltar. aqui. no ponto de bondes. a coluna social. inclusive a de pedir ao contínuo Carolino que dormisse aqui em casa. depois de tirar umas graças com a Emília." Sempre pensei que experimentaria grande abalo com o acontecimento..Finalmente. quando se foi o Borba. nisso seguia a opinião geral da Secretaria. ao despedir-se. e. Jorge de Figueiredo. Ficamos a conversar até às duas da manhã. "Gente sem modos". mais tarde.. consigno. quase à meia-noite. § 58. Desde a vinda de seu primo. AMANHÃ DE 3 DE DEZEMBRO. A velha. . criou-lhe estima. filha da Ex. Minha fé-de-ofício não ficaria prejudicada. temi essa notícia e. Ao chegar. mais de uma vez. apenas. quando a informação me caiu sob os olhos: "Acha-se contratado o casamento da prendada senhorinha Carmélia Miranda. Nesse documento se atestava nada haver contra mim e que minha detenção fora. ao que parece. têm sido muito cumprimentados. minha gratidão a estes cadernos: para alguma coisa serviram. no Natal de 1934. dizendo que achara bom obter aquela declaração. embora este se manifeste às vezes de forma inusitada. pois lhe deu. meu pensamento estava distante. para produzir efeitos na Secretaria.

agora. verdade. com serenidade. fora daquela noite de sortilégios. a seu respeito. o meu desencantamento. procurou sempre encobrir. quando Carmélia tem dono. A tal ponto se fortaleceu. cultivam o sofrimento e o exacerbam. Aviltei-me demais e coloquei-a num altar que talvez não merecesse. hoje. receando. O que me deve interessar. a mim próprio. que me vem no momento. é que geraram a lenda. que não duvido fosse capaz de lhe procurar um noivo. É essa. Há. só agora. em mim. teria desfechado um processo rápido de "descristalização"? Afinal. e quem sabe se a convivência teria destruído a lenda que criei. E a tristeza foi resignada. e eu o bendigo. mas o desejo de realizar o mito. Verdade. Jandira foi quem o supriu. certamente. Pergunto. é a situação do Redelvim. que seu arrefecimento viesse privar-me de uma emoção que enchia minha vida. portanto. se é amor um sentimento tão acompanhado de renúncias prévias. não passará de uma prendada e fina senhorinha e não terá sido senão um "momento" da incorpórea Arabela. Andei reagindo um dia ou outro.. de uma coisa e outra. A sensibilidade nos oferece surpresas dessas. Farei com que lhe entreguem. Verifiquei ser uma criatura sujeita às contingências do humano e sem a essência eterna do mito a que o amanuense aspira. tão desvirilizado. cuja divulgação se fazia.. pela sua Dulcinéia. uma ponta de despeito em tudo isso. a razão por que me conformei sem esforço com uma notícia que deveria ser catastrófica. ao outro lado do espírito. ou talvez o de dar sentido a uma vida sem sentido. aproveitando uma fresta de luz. a distância. Avançarei um pouco mais.Entretanto. a minha impressão foi de que se tratava de fato antigo. para ir passando o tempo. Haverá despeito e mau humor nestas linhas? Creio que não: investigo. terei cultivado e incitado uma paixão puramente cerebral. sobretudo a distância da moça em flor. Como aqueles que. na hora que passa. com atraso. no caso. . já por mim conhecido. livros e frutas. sem esforço. se o noivo não aparecesse. aceitando eu. porventura. a situação. desde que Carmélia foi revista. neste instante. ontem. Vi-a sempre à distância de uma estrela. Esta solidão da Rua Erê. seria ridícula. Que se casem. tenham numerosos filhos. a convicção de que um grande abismo me separa de Carmélia e de que toda pretensão minha. mas. E o Cavaleiro da Triste Figura se pôs em marcha. o despeito trouxe luz. é que o namorado teve descerrada. e Jeová lhes abençoe a prole. a tristeza de viver de carícias compradas. a seus olhos. em si. já não conferiu muito com a intemporal Arabela. a cortina interior que ocultava sutil trama psicológica. Entretanto. torturados por não sofrer demasiadamente a perda de um ente querido. o fenômeno. O amor era pelo amor.

Esse Jorge deve ser mais ou menos isso. um homem sem endereço. Talvez não passe de um prelúdio de amor. porque não possui força de sentimento para tanto.. Bom casamento. Não é homem de nosso clima. E você compreende: pode ser um bom camarada entre gente da sociedade. tive comprida conversa com Silviano. suspiroso. É um inquieto. há tempos. NOITE DE 3 DE DEZEMBRO. não o conheço.. Registrarei antes.-Depois de encerrado o expediente na Seção. O ciúme. prendada. Namoricou apenas. e não tem configuração nítida de suas aspirações. já com o propósito de contribuir para que seu aborrecimento passasse. é Glicério quem terá primazia. tem razão. Entendo que só serão felizes casando-se com homens tranqüilos. tive essa impressão. Você não serviria para ela. Tudo isso me foi denunciado pela sua fisionomia. no relato dos acontecimentos. à ordem cronológica. Não amou. porque. para se lhe tornar desagradável o acontecimento. quanto a falar. porém. contagiando-se do meu entusiasmo pela moça e vendo-lhe propriedades metafísicas que lhe atribuí. Foi o bastante. porém. É fina. apesar dos . com os seus "a propósito" sem nenhum propósito. ao passo que assumi uma atitude olímpica.. aparentando indiferença. aborreceu-se. ficou um pouco sugestionado.. Um bom burocrata deve obedecer. AINDA O NOIVADO. —É. Você sempre diz que o rapaz é muito "distinto"... Mas para bem dizer. me fez maltratar esse excelente mancebo: supus que me estivesse fazendo concorrência e passei a hostilizá-lo. e a moça será feliz. na Seção. Também ela não serviria para você.. À hora do café. Ficou? respondi. achou jeito de tocar no assunto: —Por falar em festas (Sepúlveda se melindrara por não termos ido a uma festinha em sua casa). e você pertence. palavras menos importantes trocadas com Glicério.§ 59. falou pouco.. quanto a Carmélia. a mangar. noto o seguinte: Glicério é um hesitante. —É. Sujeitos de alma simples. —Não suspire.. concordou. É um indeciso. e. O bacharelando Glicério de Sousa Portes não estava de boa cara. prolíficos e domésticos. e imagino que terá recebido a notícia do noivado com menos espírito esportivo do que eu. Nosso clima não é salubre para mulheres. segundo esta. —Tanto melhor para ela. continuei. Não chegarei a dizer que o amigo esteja amando a prendada senhorinha. E. sabe que Carmélia ficou noiva do Jorge? —Ah!. Reduzidas as coisas às verdadeiras proporções.. nesse capítulo. como não dispõe dos recursos com que conto. respondi.

nada disso.. retificando. Confiante.pesares. explorei-lhe esse lado fraco. Não faz mal: fica para amanhã cedo. não suspeitou dos rancores que. mal tomamos o bonde para ir a um bar da Avenida. Afinal é uma criatura de carne e osso. Oficialmente não conheço a família. quando tive ciúmes de Carmélia com ele. não é senão pela pouca idade e experiência. —Pode abrir o coração. Se leva desvantagens em nossa roda. Em seguida. —Que problema? O "Fáustico"? perguntei. anima-o. Somos animais intratáveis. não me venha com bobagens. É disso que precisa. falei. vejo que me estendi demasiado sobre a conversa com Glicério e o cansaço já não me deixa. Deu uma risada e concluiu: —No fundo estamos despeitados. O QUE SILVIANO ME FALOU. Também estou inclinado a achar que exageramos. com invencível horror ao "fino". Glicério me interrompeu: —Ora. aqui. E conversamos mais um pouco. Foi uma injustiça e. § 60. lhe votei. mais uma vez. nossa amizade veio a salvamento depois de todas essas crises. Tal era sua ânsia de confidencia que não deu a menor importância ao fato de nos acharmos dentro de um veículo... mais compreensivo do que eu. quero saná-la. Glicério é bom amigo e rapaz aproveitável. —Você me está dificultando a solução do problema. Nunca pensei nisso. tentando ridicularizá-lo.. Você quer assiná-lo também? Respondi-lhe que não. Há vários dias que preciso falar-lhe e não encontro oportunidade. meu juízo a seu respeito. Felizmente. Admiro Carmélia. expôs-me a história. mas acho que andamos exagerando um pouco. agora. Tempo é que não me falta. —Nada disso. O melhor é tomar um chope e mandar um telegrama de parabéns. ao "distinto". Sem maiores preâmbulos. nunca deu importância a certas deficiências de Glicério e está sendo amigo melhor: orienta-o. Silviano. Ao mencionar Silviano. Vamos aproveitar o despeito e restabelecer a realidade.. mesmo. sem notar o tom de troça da pergunta. Haveria conflito de temperamentos. cercados de curiosos. a uma fauna complicada.. impaciente. carregando a fisionomia (só . O QUE Silviano tinha a confiar-me (provavelmente desde o dia em que veio à Rua Erê e encontrou-me preocupado com a moléstia de Francisquinha) era o seu novo caso amoroso. relatar o outro encontro. em certo momento. Cada um de nós tem seu lado fraco e. ou à noite. e deu-me tempo para reconhecer o erro. ambos bem-humorados. atalhou.

Há cerca de um mês.. entrava noutra. Não se trata mais da jovem da gota-serena. Ao fim de certo tempo... resfolegando. dizia: "Meu gatinho:—Você é muito gostoso. pois este teve a precaução de mandar imprimir cartões de visita com o nome do seu venerado mestre. Ah! ah! ah!. para o ofídico. Silviano prometeu-lhe casamento. O assunto é sério. Sim. maior atenção. Agora.) Exibiu-me um dos cartões. mas acabou concordando em que o mundo está cheio de nomes esquisitos. escrito em bom cursivo. continuou.. para encobrir a identidade. Não era do tipo angélico e pendia. divertido.. O nosso filósofo varia sempre. Por que não vem ver a sua gatinha? Por que não foi à matinée do cine Brasil? Estou com a unhazinha afiada para arranhá-lo. (Talvez conseguisse mais. pois. melhor .. assumindo ar sério. Não tem de que se rir. o "Perrexil". estendeu-me um bilhetinho amarrotado. a não fazer. Saía de uma loja. virou-se para mim:—Você sempre com zombarias tolas. Chama-me gatinho! O bilhete. esclareceu. . Depois. como de costume. o negócio está nesse pé: a pequena lhe manda bilhetinhos incríveis. quando a mulher passou. Combinaram-se outros encontros. Travou-se namoro. endereçados a Aristóteles de Estagira (acredita ingenuamente que Silviano se chame assim. interessante. Diz-me sempre: "Seus motejos me deixam na mais divina indiferença". dando uma gargalhada: —A pequena estranhou. antes. é uma pequena de outro estilo. Silviano se coloca em plano de superioridade tal. Veio-lhe uma grande aura de desejo. ou. E calou-se. para não perder de vista a presa). que não lhe permite ressentir-se com pilhérias. Silviano não gostou: "Isso é muito trágico. Miudinha. potelée..) Enfim. em aventuras de subúrbio. a moça o percebeu e deu-lhe corda.. a fazer intermináveis compras.. Passeios de automóvel. Isso é de espíritos mesquinhos. se não o tivesse prometido. Sem me dar. Estou mortinha de saudades." Ri-me. . excursões pelos pontos mal iluminados da cidade." .. assim nos abancamos no bar. e ele a seguiu. Enjoado! —Sua Zizi. potelée é o termo justo. pela posta-restante. porque mandava descer a loja inteira das prateleiras e nada lhe servia (imagino esse gordanchudo Dom Juan a dobrar o passo. estava ele no Bar do Ponto. sessões de cinema. ingrato. à espera de um bonde. dizendo: —Veja que coisa horrorosa. porém.depois de alguns segundos o remoque o atingiu). O amuo passou logo. foi contando o caso. preocupado com a precisão vocabular: só os franceses é que classificam bem as mulheres.

uma porção de miudezas.E continuou: —Foi uma estupidez. e que deveria partir pelo primeiro vapor.. diante de si mesmo! disse. no último Natal. palavras que trocamos no Parque. Foi uma estupidez essa aventura. Salvo se.. aliás. Coisas que a Dolores Gigedo devolveu. Não é por causa do compromisso. gatinho! Continuei. Noto que nas primeiras páginas deste caderno registrei. depois: —Chamar-me gatinho! Que monstruosidade! Aristóteles de Estagira. que denomina "atitude católica em face da besta". Aristóteles pode seguir para Estagira sem nenhum remorso. com urgência. não. Será a última concessão à Besta! Respondi-lhe que o problema era simples. O caso está resolvido. depois. Foi um momento de fraqueza do Pensador (aludia a si próprio). Joana continua sólida. a respeito. —Porfírio. Agradeceria a boa convivência e lhe desejaria prosperidade.. Dei-lhe. tratava-se de uma pequena fácil. e não morrerá sem dar à luz mais alguns imbecis que se disponham a sair do repouso cósmico! O que há é que estou enojado disso. mandaria um bilhete à pequena. aliás. —Ora. comunicando-lhe que fora chamado à Macedônia. A pequena arranjaria logo outro entretenimento. É. isso não tem a menor importância. —Então. adestrada em aventuras desse gênero. Hoje. E nem poderia haver. Já me informaram de que ela cultiva homens casados para receber regalos e brindes. E atacou a questão. —É o que vou fazer! exclamou. Aliás eu não o procurei por esse motivo. —Não! Não receio que haja perigo de acréscimo ao registro civil! exclamou.. objetei-lhe. Não é a primeira queda. . Porfírio era meu avô. E. A carne é profundamente triste.. por alto. Não haveria. —É.. dizendo-lhe que. dano moral no caso.. mas por causa da "coisa em si". Pelo que me expôs. .. desgostante. quase um ano depois. —Mas o Pensador já fraqueou mais de uma vez. com soberba inflexão de voz.. se me visse envolvido em semelhante alhada e quisesse sair dela. portanto. Porfírio.. Será a última concessão à Besta! Sugira-me um meio de safar o filósofo Aristóteles dessa embrulhada.. Quem o assumiu foi Aristóteles de Estagira. —Mas sempre se purificou. Belmiro. muitos presentes. não há problema... Devemos deliberar juntos. De modo que não há compromisso.

Dei-as. —É porque está. em forma definitiva. Atrai-nos sempre e nos deixa sempre insatisfeitos. Tive a impressão de que a vida havia parado. respondi. de Kant! E que em Kant a gente encontra de tudo. disse. ele disse que é melhor casar do que abrasar-se. Rechaçar a Besta. Ela é ardilosa e inesgotável em astúcia. nem histórico. para evitar nova explosão. —A solução é a conduta católica. deu. Não insisti em minhas réplicas. Entretanto. Você é um pateta. isso é que é. a frase interrompida em 1934. não chegou ao alto da montanha. Louco! Não tem senso filosófico. objetei. —Você sempre pequenino. então cortado. rastejando. Vai pela cabeça desse maluco de Marx! Esqueceu-se de que Marx saiu de Hegel. que acaba de cometer aventura indigna de um filósofo! Falamos. Nosso problema—entende?—é repudiar a vida. Porfírio. Para os que. Aos coríntios. Não compreende o problema.. (Deu vigoroso acento à palavra "ascese". pois estes são opostos um ao outro. à saúde de Aristóteles de Estagira.) Precisamos renunciar de uma vez. uma gargalhada. É o que precisamos fazer. Impossível dominá-la. e não transcorrera todo um agitado ano entre aquela tarde natalina e a de ontem. —Minha situação em face de Paulo. como eu. Não vê o Jerônimo? Engolfou-se nos doutores. e Hegel. E o grande caminho é a ascese. isso é que é. e não podemos deliberar juntos. —Precisamos meditar sobre as palavras de Paulo: andai pelo Espírito e não satisfareis a cobiça da carne. exclamando: —Bebamos. a meditação deve versar sobre esse ponto. depois.. é a única pessoa com quem uma conversa definitiva me pareceu possível. —Estou perdendo o meu latim! disse. irritado. tal como se continuasse. Porfírio. não se casaram. Sublimou-se. ao despedir-se. —Vejamos se agora ele desiste de reformar a humanidade e se enxerga a "coisa". sem o intervalo de doze meses. sobre coisas várias. pediu-me notícias do Redelvim. todos os seus excitantes. Depois de alguns minutos. e. Porque a carne luta contra o Espírito e o Espírito contra a carne. Não entende nada. é outra. ainda. violentamente. para ver o espetáculo. no mesmo tom grave em que me falava. E caiu num mutismo desalentado.retomou ele o fio da conversação. eliminando todos os seus atrativos. —Mas. como houve romantismo literário! . porém. —Não tenho tamanha aversão à vida. querelante! A questão é mais geral. cortando-me a palavra. sorvê-la. a favor e contra! Louco! Romantismo político. um pacóvio.

NADA me aconteceu de novo esta noite senão que. Uma ia ao centro do círculo. braços dados. entoavam velhas modinhas.. um canto límpido se alteava—desacompanhado: "Nesta rua tem um bosque que se chama Solidão dentro dele mora um anjo que roubou meu coração. Minhas ruas e meus largos de Vila Caraíbas eram. andando a esmo no Carlos Prates. No momento preciso em que certos quadros se desdobram aos nossos olhos. receptivo.. no estribilho.. "RODA MORENA".. depois de uma ascensão lenta. povoados de ranchos femininos. quase sempre não lhes percebemos a intensidade lírica. Ê as cantigas todas eram cantadas. Nosso olhar circula vago e às vezes quase indiferente. as camadas profundas do espírito me trazem o panorama. Suas palavras "vejamos se agora ele desiste. até que o relógio da torre do Mercado desse suas nove horas que equivaliam a um toque de recolher. Achei-o duro com relação a Redelvim. nem lhes apreendemos a substância rica de poesia. assim. tirada por vozes sem artifício. Mais tarde é que.E deixou-me. através da memória. § 61. à dança em que raparigas." Depois. Quanto o inconsciente é fino. dei com uma "roda morena". pois Silviano é bom sujeito. a cor. sob o luar. enquanto as outras faziam coro. vamos com os olhos da alma penetrar no âmago daquelas paisagens extraordinárias. na Vila. a luz e a música de longínquos dias. que desprendiam beleza e inocência. a cantar em solo. Mas talvez a dureza seja aparente. Assim chamavam. sutil." indicam que não se incomoda muito com as atribulações do amigo. plenas de melodia: "Eu estava na estação quando o meu amor chegou deu um vento na roseira e o salão encheu de flor." . Uma toada se espraiava no ar. que pareciam perdidos. ali pelos lados da Rua Serpentina. nos seus trabalhos subterrâneos! Só hoje.

Se eu roubei teu coração tu roubaste o meu também!" Melodiosas noites! O luar batia em cheio na Matriz branca de cal. fantástica. mordido pelo remorso de tê-la abandonado tanto tempo. a explicação do fato de nos unirmos a pessoas de caracteres tão diversos. da. aliás. embora haja umas que se repilam. em nós. Entre mim e Jandira. Consultarei Silviano sobre esse conceito antifederativo do . fora da roda: "Se eu roubei teu coração é porque te quero bem. mas os vultos femininos sugeriam donzelas caraibanas. misteriosa. O egoísmo. Somos amigos fracionários. e o assunto foi a vida dos outros. que buscamos. que nos impele. faz dois meses já.Vinha a réplica de alguém. às vezes em uma linha. no geral. ocorrendo. um no outro. não o indivíduo. se saímos à procura de um amigo. Faz-me isso pensar que. mas os encontros foram rápidos. dizem. ou mesmo em um ponto apenas. procuramnos em um ângulo. entra em tudo—mesmo no reduto das amizades mais puras. São partes nossas que se unem por simpatia às de outros seres. a amizade nunca foi. ao contrário. embora não tivesse recebido nenhuma reclamação contra isso. Fui vê-la ontem. É verdade que nos encontramos quatro ou cinco vezes durante esse espaço de tempo. mas. Nada me falou sobre coisas suas. não será difícil investigar-mos a necessidade de ordem espiritual. os amigos não nos vêem como a um ser indiviso. nos fragmentam. que nos parecem espontâneas e gratuitas —e.. porventura. e de nossa roda ser quase sempre heterogênea. um conflito em que prevalecerão as partes simpáticas. Elegem. castas e descuidosas. NOVOS RUMOS DE JANDIRA. moral ou afetiva (egoística. § 62. eu me ausentara de Jandira. Provavelmente aconteceu com ela o que sucedeu comigo. as feições que lhes aprazem. senão que continuava nos escritórios da firma Sobral Lt. a seu respeito: não estava precisando de mim. As cantigas da "roda morena" de Carlos Prates não eram as mesmas. afinal). apesar de meio rabugento. cujo chefe é homem velho e bondoso. ou fazia que a torre do Mercado deitasse ao chão de grama uma sombra grande. aquele sentimento integral a que aspiramos. E está aí. mas certo aspecto dele.. DESDE o dia em que tivemos uma conversação amarga sobre os seus problemas. então.

Juan!" E. Influência da professora vizinha. Experimentaríamos. e isso me fez meditar. A amiga está-se dispersando. o professor declarou que já me vira. com tristeza. se eu não tinha pé-frio. os amigos se deslocam. nem precisa quarentena. Um amigo de Jandira passa a ser meu. na Santa Casa. pessoa com quem simpatizei. se não o fizessem.. Sou assistente de clínica. Creio que perdi a amiga. Anita me sorriu. Perguntou-me este. À vista de um coringa. doutorando. e lhes pedirei desculpas por esta divagação inoportuna. torpe D. E mencionou os outros. Não queria ser desmancha-prazeres. disponha. na mutação dos quadros da vida. (Citou qualquer especialidade arrevesada. em companhia do Prudêncio Gouveia. Respondi-lhe que não sabia. as perspectivas se transformam. cujo nome não guardei. Os quadros se vão sucedendo.. coisa grave numa idade em que já não se fazem novos amigos. fruto de pequeno despeito. ficou satisfeitíssimo e segredoume: —O senhor tem um olho episcopal. o professor Barroso." Durante todo o tempo em que estive a seu lado. Atendido. com quem ela se relacionou há uns dois ou três meses? Reação contra o ritmo um tanto monótono de sua vida? Coisas de mulher.indivíduo. bem diverso da atmosfera tépida que sempre ali encontrei. O canalha gentil compareceu logo.. minha amiga. se lhe pegavam uma carta. a professora e dois cavalheiros de desigual idade e catadura. Noto que virou quase um quadrante na sua rota. procurando outros climas. sob pena de retirar-me. esclarecendo a minha qualidade de velho camarada. sorridente. depois de prolongado silêncio.. dava um suspiro e dizia: "Muito bem! exclamou o Conde. É um sujeito divertido. Belmiro. Vim de lá quase magoado. pus-me ao lado do Almirante. e finalmente. e o doutorando deume forte aperto de mão. Apresentoume à roda. Ela. Pode encontrar-me no apartamento ou na Faculdade. para mim: —Anita. uma paisagem em que nosso espírito se compraz." Agradeci ao falastrão e insisti para que continuassem o jogo. dizendo com ar importante e um charuto entre os dentes: "Sempre às suas ordens. invectivava furiosamente a carta: "Canalha gentil.) Precisando. Jogavam coon-can-play na pequena sala. aqui conhecido por "Almirante": foi Anita quem nos trouxe esta flor. Toda vez que perdia com o coringa. D. também. com seu olhar meio estrábico. Jandira correspondeu com ligeiro sorriso à minha saudação. Procuramos inutilmente fixar um círculo. Chegado à sua casa. É que Jandira me desapontou. mas não me fez a festa do costume. desde logo senti um ambiente frio. este é o Azevedo Leão. . mas a vida é terrivelmente móvel. De manhã trabalho.

provocou-me imediata aversão. pedindo-lhe explicação da gíria que lhes ouvi. quando veio o Parreiras para me anunciar que já posso ver Redelvim. por ter a mulher conspirado com os médicos e viver a espioná-lo. Aconselhei-o a voltar ao copo com urgência: será o meio de reencarná-lo em si próprio. E ficou estabelecido que. em Sete Lagoas. encantado com o Almirante. isto é. pois chegara hoje pela manhã e havia muitos negócios para tratar. TIVE duas visitas esta noite: Florêncio e o investigador Parreiras. suspenderam o próprio Florêncio. ao entrar. o nome do nosso amigo. amanhã. na relação das pessoas presas. Creio que pressenti nele um possível namorado para Jandira. Está indignado com Mariana. E Florêncio se divertiu bastante ao saber que os larápios me acharam com cara de ladrão de galinha. Não tinha podido ir visitá-lo. Combinamos aparecer juntos. Certamente lhe pertence a baratinha que vi à porta da casa. Quanto ao pedante doutorando. não está com a mesma cara. Os médicos lhe suspenderam o chope. deixando-os ainda com as cartas. Florêncio contou-me que experimentou grande abalo quando. à delegacia. despertando-me um interesse que venceu a natural hostilidade para com a nova roda da amiga. novos livros e alguns maços de cigarros. achando tudo ruim. haverá chope.. na Polícia Central. Nem sequer me perguntou pelo Redelvim. foi criando um outro núcleo que fará concorrência ao nosso na disputa de sua pessoa. que passou quinze dias em Sete Lagoas a fazer seguros de vida. Levarei amanhã. . no dia da soltura. O primeiro. Aproveitei a presença do Parreiras para um esclarecimento a respeito da conversa dos lunfas. Eram dez da noite quando saí. descobriu. É rapagão bem vestido e elegante. e isso me enciumou. para que lhe sejam entregues. Disse-me o investigador que lunfa de penosa significa ladrão de galinha. Foi ele quem me reteve ali. Ainda se encontrava aqui.. Parece-me que Jandira não tardará a desertar de nosso pequeno círculo. por certo apanhadas em leituras. quando as namoradas me abandonam. ao ler os jornais.ouvi-lhe frases desse gênero. nestes dois meses. Sorrateiramente. Pobre Redelvim! Já vai para semana e meia que está preso e continua incomunicável. Um pândego. § 63. Será possível que ela o namore? Como tolerará um indivíduo dessa espécie? Fiquei cerca de duas horas a sapear o jogo. LUNFA DE PENOSA. em que pese à Mariana e aos médicos. que virou outro. Anda queixoso e neurastênico. Tenho pruridos filológicos.

do nosso padeiro. lhe disse ter sido causa disso uma guerra havida no Rio. gente graúda. em meias-palavras. UM "FOGO". Pela situação desta casa. que consumiam famílias inteiras. memória das rixas seculares entre famílias importantes. ficaríamos entre as balas do Exército. netos e bisnetos herdavam a contenda avoenga. Para satisfazer à sua curiosidade. a prisão. couro— carteira de dinheiro. trouxa. matavam-se. Pela tarde. —Móde quê? perguntou (dizia o velho Borba que essa locução é uma corruptela de "por amor de quê"). afanar—furtar. ontem. Respondi afirmativamente: houve "fogo". otário—simplório. punguista—batedor de carteira. lembrou-me os dias penosos de 1930. tira—investigador. vi que a casa fora. Filhos. e esta só terminava. que tão raro se exercita. Aludia à revolução de novembro. A isso chamavam um "fogo". e gaiola—prisão. brindada com algumas balas perdidas. que o substituiu hoje na entrega de pães. também. e morreu muita gente. servi-me da mesma explicação dada durante a revolução de 1930: fora uma briga de dois coronéis. polícia secreta. iam às armas. namorada. Parreiras e Florêncio (que também é versado nesse calão) prometeramme um completo vocabulário dos termos em uso entre os malandros. às vezes. ESTA manhã. bancar o vigário— passar o conto-do-vigário. pássaro—detento. Cessada a luta. quando as manas me deram grande trabalho. um . ser encapado— ser preso. um pouco aflita. pouco antes de se iniciar o cerco do 12. nos confins do Norte. Em Vila Caraíbas havia. com jagunços de um e outro lado. se não fugíssemos. A pergunta de Emília. ainda.° Regimento. que vinham da colina.Quanto aos outros vocábulos: cana quer dizer prisão. Dois coronéis fazendeiros brigavam por questões de terra ou de honra. Havia recontros armados. que procediam do edifício onde hoje se acha o Departamento de Instrução da Força Pública. provavelmente vindas do Morro dos Pintos. Emília veio indagar se era verdade que houve um "fogo". pequena. Narrando. grinfa— morena. então ocupado por um contingente policial. § 64. De outro modo. e as da Polícia. mas um pouco além. grana—dinheiro. A vila era pacífica. de parte a parte. com a aniquilação de todos os elementos válidos. falou-me que o outro. acampanar—seguir o criminoso ou indivíduo suspeito. a propósito da revolução comunista. ocorreram durante muito tempo querelas sangrentas. ser-lhe-ia difícil compreender.

Bem que tenho tido desejo de dizer que ainda amo a donzela. Pirraça pura. que resolvera ocupar aquele edifício. O Governo entrou no meio e prendeu todos. E O CASAMENTO É PARA JÁ. quase como a de saudade da amada que morreu. às oito da noite. e há muito não . com a família. tranqüilizando-a. tive de resignar-me e aguardar os acontecimentos. de meio metro de altura.pequeno destacamento de soldados descera a Rua Erê. deu-me a impressão de que a luta se iniciara. para a casa da mãe dele. Lembrando-se. num recanto do bairro da Floresta. considerado ponto estratégico. Teria sido impossível permanecer na casa: o alpendre. nem no Glicério. Decorreram já duas semanas desde o dia em que o Minas Gerais publicou a infausta informação esponsalícia. dormindo no mato. que fora apenas um combate ligeiro. embora sob uma forma diferente. entre a guarda da Cadeia Pública e o pessoal do 12. depois. Emília — vendo a irmã em tal estado—começou também a oferecer resistência. naquele dia. Francisquinha estava. Pelo menos. ficou crivado de balas. às pressas. por certo. com as velhas. lembraram-se de que eu deveria estar em apuros. —Não. a seis ou oito quilômetros da Capital. e foi vão todo o esforço para tirá-la de casa. das vicissitudes sofridas naquela ocasião. com as manas. DEVEM ter notado (publicarei. Posto que estivesse mais ou menos a par da situação.° Regimento. estes cadernos?) que há muito não falo em Carmélia. livrando-nos de passar os maus momentos que muitas famílias experimentaram. não. muito mal. que dá para a Rua do Piau e está inteiramente a descoberto. Emília queria que fizéssemos o mesmo. Soube. pudemos carregar a Francisquinha nos braços. O bom Prudêncio levou-me. § 65. as crises vão-se espaçando. Emília nos acompanhou. no porão nosso. e voltaram). Um vizinho deliberou não evacuar a zona e instalou-se no porão. e Giovanni se incumbiu de transportar pequenas coisas indispensáveis para passarmos alguns dias fora. disse eu. Emília me perguntou se o "fogo" de agora ia durar e se se estenderia a Belo Horizonte. Só à meia-noite. intimando os moradores a desocupar as casas. Algumas vararam as portas e foram alojar-se no meu escritório e nos quartos. mesmo. Não encontrando quem me auxiliasse em remover as duas velhas. Um rápido tiroteio. vindo Giovanni e Prudêncio Gouveia em meu auxílio (depois de se terem retirado.

Rompo. O de Carmélia. há três anos. sua idéia de vir para cá foi um pouco por causa disso. querendo). reduzi-lo a coisa escrita é o meio mais eficaz de liquidá-lo e. Embora surgissem vários "a propósito".. cometeu a loucura de contratar casamento. mas vá lá. O namoro não continuou. Acabou entregando os pontos e vindo falar-me sobre a namorada comum.. pois nestes quinze dias não me disse nada que envolvesse Carmélia. seu Belmiro. o noivo ou o noivado. mencionar-lhe o nome. Francamente cacete. Mas ficou um ranço. e a noiva tem apenas vinte e dois anos. a coisa pegou outra vez. o pacto.—O do Filgueiras? —Nã. Inteiramente à nossa revelia. porque Glicério me prestou interessantes informações. Deixá-lo esparramar-se no papel.. —Que noivado? perguntei. —Então? —A coisa já vinha de muito tempo. porque conheço muito o Dom Donzel da Rua Erê .. Receava que Carmélia se casasse com "qualquer um" daqui. os mesmos não foram utilizados. Por exemplo: o companheiro de lunetas douradas. com o regresso de Carmélia. É como disse: estavam-se namorando sorrateiramente. Ora esta. A viúva está ovante. Um belo dia. —Novidades. Estabeleci comigo mesmo o compromisso de não mais. Segundo diz o Jorge. Pelo sim.ão. Só fala que pode morrer sossegada (ninguém tem mais medo da morte do que ela). que ficaram registradas em páginas passadas destes cadernos. se é que o tem. melhor será não sabotar o Belmiro flautista. Primeiro. hoje.. Melhor "a propósito" não haveria. Hoje. Com a vinda de Jorge. e o caso foi comentadíssimo. Que pena o Dr. Sindiquei a respeito do noivado... a donzela. Aurélio não estar vivo. repete a todo . você é que era interessado. fingindo supor que se tratava do caso do velho companheiro de Seção. Esta literatura íntima é a minha salvação. continuou. —À sua. pareceu-me que também fizera pacto idêntico com o seu demônio. por dois motivos. nem se firmou compromisso. pelo não. segundo. Foram namorados quando Carmélia esteve em São Paulo. Quanto ao Glicério. daquelas bravas. emendei. porém. deve ter chegado ao extremo da resistência. mas Glicério ficou firme. aquela "bomba" no Minas Gerais! —Estive lá ontem. aqui ou alhures. sem a gente saber. com ele. de quem lhes falei há meses (sele a petição e volte. pois seu ideal se realizou. e noto que isso de silenciar sobre a moça não exprime indiferença e antes pode ser indício de manhosos e subterrâneos sentimentos. logo aos primeiros quinze dias.experimento uma recidiva. Está beirando os sessenta. —Amigo urso! Na hora ruim não quer ser companheiro..

com ligeiro golpe. —É para já. em estudos de aperfeiçoamento. —Quer dizer que não haverá doces? perguntei. —Não é possível! Nunca se fez isso em Minas. respondeu. Realiza-se já. Foi a própria Carmélia quem me fez o convite. —E quando é o casório? perguntei. Mas o trivial é ficar mesmo pelo Rio." Nesta altura. .. Está besta.— Você anda positivamente de má vontade para com o rapaz. —Está certo. Belmiro. vendo-me fechar a cara). (disse-lhe. O melhor não é isso. guardei a grande novidade para o fim: vão à Europa em lua-de-mel.. Doces deve haver para os íntimos. era louco pelo Jorge. dando acento irônico às suas palavras. O dia certo não sei.. Preciso reagir: Glicério está-me faltando ao respeito). A viúva diz que não é bem uma lua-de-mel. Acabou-se a sua Arabela (mandou-me essa estocada. com o noivado. não há outra expressão. fica horas e horas a contar grandezas. Não passam de filistinos. O Jorge tem dinheiro a valer e já andou pela Alemanha. —Isso mesmo.momento. satisfeito. Quanto ao mais. mas recuou logo. besteiras de enxoval. para compensar. Vai ver que nem ficou tão besta assim.. A viúva seguirá amanhã ou depois para comprar. Enfim. —Bom. que lhe perdôo) que sou dos poucos convidados.. Depois. O casamento vai ser na intimidade. coisas de filistinos. Mas a portas fechadas. Depois. —Mas você se esqueceu de que se trata de gente rica e importante. para corrigir a rudeza da comunicação: —Você não imagina como ficou melosa.. não haverá cerimônias complicadas. seu Belmiro. pensando nos casamentos de Vila Caraíbas. —É compreensível. Então você é que está besta. Com a vitória obtida sobre os elegantes da terra. aquilo. lamentei de mim para mim o desperdício da cena que compus no trajeto de bonde e que ficou registrada em outro ponto destes cadernos. seu assalto anterior. com o coração meio agitado. O Jorge vai aproveitá-la para fazer um curso em Paris.. —Dois proveitos num saco! Mas é pena estragar a lua-de-mel com esse negócio de curso. onde as festas duravam três dias e três noites. Por isso. tomando a pergunta ao pé da letra. bebidas a rodo. leitão assado.. de São Paulo. com bailes. Os mais pródigos vão à Argentina. o resto do enxoval. comunico-lhe (nesse momento não pôde evitar um tom de superioridade. respondeu. no Rio. É quase uma afronta a nós todos. isso. e não faz ainda um ano que o velho morreu.. está numa arrogância insuportável. Quanto ao Jorge. É uma noiva perfeitamente vulgar.. com uma taça de champanha.

TEMA PARA UMA ELEGIA. Como vêem. que me deixou cansado a ponto de não conseguir. desde logo. filha de importante fazendeiro. uma correspondência epistolar. dando-lhe morte instantânea. Foi quando conheceu a pobre senhora que é hoje sua viúva. para o seu amor. O velho declarou que. não cederia. morto em circunstâncias dramáticas. Como o namoro continuasse. Apaixonaram-se um pelo outro. esta manhã. A paixão se agravou. cheia de extravios e incidentes. e os dois estabeleceram. no peito do soldado. Nada adiantaram. levar estas linhas até ao fim. referiu-me uma história que vem aprofundar. que se acha recolhida. Ao desviar-se de um bonde. . o segundo-sargento conquistou mais uma divisa. Estava casado havia dois meses apenas. foi um dia cheio de novidades. a conversa acabou bem. ASSISTI. logo depois. mas o pai fez uma oposição obstinada. ao Instituto de Psicopatas. no setor do Túnel. meu companheiro de bairro. mas suficiente para entreter o fio do amor. na Rua dos Pampas. afrontava todos os perigos. p primeiro-sargento passou a sargento-ajudante e. e nós nos despedimos. foi colhido por um automóvel. espécie de senhor feudal da localidade. era segundo-sargento. então simples furriel. Há dez anos. por mim encontrado entre os que acompanhavam o enterro. já agora primeiro-sargento. O fazendeiro redobrou sua oposição. O professor Barroso. Dentro de dois anos. a ambição de galgar postos e conquistar galões para conseguir a mão da amada. Cresceu. Esta bateu o pé e jurou que só se casaria com o seu antigo namorado. Arranjou. no acontecimento. Tão cheio. Era uma flor de rapariga. esse tenente. Afinal. Na revolução de 1932. enquanto vivo. o velho pôs em ação seu prestígio político e obteve a remoção do militar para município distante. e o golpe transtornou a razão da viúva. Na revolução de 30. Já era hora de se encerrar o expediente. O velho não se abalou.Disse isso com tanta raiva que não pude conter uma gargalhada. para a moça. um casamento de conveniência. clandestinamente. álgido e inflexível. comandava um destacamento policial em pequena vila do interior do Estado. senão por violento esforço. neste momento. § 66. que o atirou a um poste. a segundo-tenente. Não haveria de casar a filha com um furriel. já era questão de capricho. aos funerais de um tenente da Força Pública. quiseram casar-se. de parte a parte. os riscos por que passou ali. Arriscavase nas mais difíceis diligências. mas o velho fazendeiro continuava duro em sua negativa. por atos de bravura. o sentido de tragédia.

Encontrei-o de pijama. mas. Barroso não pôde dar à narração a intensidade afetiva do acontecimento. Pela parte da moça. extremamente pálido. Depois de ligeira hesitação. a fim de . apresentar desculpas (deve ter ficado aborrecido com a minha ausência no local determinado para o encontro) e repetir o convite para a pretendida visita. Não sou eu. mas o nosso tenente. e o Romeu foi buscar sua Julieta. Combinadas as coisas por correspondência. ferido nos brios de homem. Ele chorou talvez a mocidade. ressequida.. Fui hoje cedo à casa deste último. ESQUECEU-ME dizer-lhes que a morte do tenente e seu enterro me impediram. nem o poderia dizer. Dada a explicação do meu impedimento na tarde de ontem. dentre elas. no alpendre. O furriel de outros tempos era. se apoiou a uma cadeira. NOVA LUZ SOBRE SILVIANO. E o que importa não é isso.. Há uma. garboso primeiro-tenente de nossa milícia. pelo que me disse. é a sua amada.. o ranzinza bateu a bota. ontem. A moça deixa a fazenda para ir recebê-lo na casa da vila." Barroso contou-me que o homem. a não ser que também continuou firme no juramento e que. à imagem longamente sonhada e que era uma imagem do passado. no espírito do tenente. então. fazendo um gesto de abraço. conforme combinei com Florêncio. perplexo. ficou inimiga do pai. e outra. Talvez já não houvesse amor. de modo insólito e cruel. a vida que nela morreu. Mas esta percebe o equívoco e lhe diz: "Não.. calculo como foi extraordinário o que. e sua morte veio permitir a realização do casamento dez anos projetado. dirige-se para a que lhe é grata aos olhos. debruçado sobre a mesa. então.. Trocam-se cumprimentos comovidos. no caso.Mas o seu capricho só fazia animar o capricho do militar. acompanhada da irmã e de um irmão. Não me disse o amigo como foi interpretada a atitude do noivo. § 67.. No meio deste ano. Tal como aconteceu a mim—quando procurei Camila e não vi senão uma sombra—o espectro daquilo que fora os seus amores se sobrepusera. de ir ver Redelvim. Flevit amarè. É ela. E chorou amargamente. mas procurar desvendar o que se passou. gasta e melancólica. ele se prontificou a sair comigo. como Simão Pedro. fixou-se o dia do casamento. porque chegaram a nós pessoas aparentadas com o morto. a renovar o alpiste dos passarinhos. sucedeu. depois se assentou e pôs-se a chorar. desde o início da história. viçosa. não sabe qual. Barroso pouco sabe. agora. toda aberta em sorrisos.

Depois. então. sacando o relógio.. agastado. Florêncio respondeu que. Sofreia os teus ímpetos. Propusemos-lhe uma ida imediata à pensão do amigo. rasgando o ar com o braço. Silviano teve um sorriso olímpico e pôs a mão no ombro do Florêncio. fora à pensão. Que venha também o Abundâncio. num gesto que deveria exprimir desprezo. amigavelmente: —Não se mostre mal-humorado. Como de costume. conforme o nosso amigo Wolfgang Goethe. vimos. Devo ficar acima de coisinhas. advirto-o de que só me causam tédio e pena. se existisse alguém com nome tão arrevesado. apanhara a bagagem e mudara de residência. Porfírio. —Não há necessidade de tamanho açodamento. Simples notas de minha Spicilegia. disse Florêncio. —Ora. esse alguém não poderia deixar de ser um acabado imbecil. O regime estará perfeitamente seguro. porém. não deixou endereço. Quero mostrarlhe apontamentos. disse o Silviano. E despediu-se de nós. Deveria estar lá. se informara a respeito.. com certeza. entregou-me algumas tiras de papel escritas. com surpresa. que. Silviano nos disse. Julgando improvável uma visita sua a Redelvim. Alvitrei que fôssemos. dada a hostilidade mútua que há entre os dois. Florêncio e eu tivemos grande alegria com a notícia. Redelvim. para um artigo no suplemento da Gazeta de Minas. Melhor é que venhas à minha casa. Ele a teria procurado. desde algum tempo. o Abundâncio!. perguntei-lhe: —Que novidade é essa?. miudinho como sempre. Fizeram bem. Para o caso de que você.irmos imediatamente à delegacia. E não quero acabar de ficar. Já o soltaram. alegando ter pressa de voltar para casa. E agradeço o convite. —Já falei com você que não me chamo Abundâncio. na Universidade. que tomei. é um destrambelhado. enquanto for ameaçado pelo Redelvim.—Venha comigo. que descia majestosamente os degraus. O mau humor é um vício. e disse parecer-lhe melhor que eu as lesse calmamente. —Esteve com ele? Como vai? —Não. em .. posto ontem à noite em liberdade. à casa de Jandira. ouvindo suas loucuras. Assim entramos em seu escritório. verificou que era chegada a hora de aula. Silviano. A suspensão do chope me faz quase doido. Preciso falar-te.. pelo telefone do gabinete do delegado. Deliberei perdoar-lhe os aleives que me assacou. disse Silviano. venha com ironias. Afinal. Quando chegamos à escadaria externa que leva ao saguão do edifício. Você por aqui? —Vim visitar o esquerdista.

que mostram o estado de espírito do amigo e as meditações em que anda metido. agora o que nos importa é esse encontro diário com o mistério impenetrável: o sentido da vida e o destino do homem. e outras palavras eternas com que o altíssimo poeta define o fáustico problema! Tal é a termometria de um constante estado psicológico: a vida estrangulada pelo conhecimento. E seguimos juntos. Transcrevo. Precisava sair com urgência. parte desses apontamentos.. Agora (e como nisto diferimos desses que sempre perseguem seus ideais de pobres-diabos e suas ambições sombrias!). que outra sombra impele? Clemente de Alexandria estaria certo? Deveremos encarar o mundo como. porém." A filosofia de Santo Tomás (um filistino. Não fora o receio de ser chacinados pela vil raça dos revisores de imprensa.. A emoção trágica verdadeira não surge em nós senão no dia em que percebemos as coisas no seu ilogismo eterno. as observações hauridas nessas viagens às vezes tão longas e sempre exaustivas —vemo- . anunciam a ressurreição do Cristo. dessa estratosfera do pensamento—e lidas as notas. Estranho homem! Que pensar dele. um não-iniciado diria São Tomás. afinal? Eis as notas. Isto de partir de si mesmo e de reduzir o mundo a si mesmo é um solecismo filosófico. até ao ponto de bondes. citaríamos aqui. O homem não esgota a Verdade. estabelecendo a confusão) é a mais estupenda tentativa de fechar o ciclo de nossas angústias. MAS APENAS O QUE ELE NÃO É. para nós só existe um problema. Platão e Bergson—quem o ignora?—são aedos suculentos. quando os sinos. que se acham sob a epígrafe Libido sciendi: "Para nós. no Fausto. mas Newman nos tranqüiliza: To be at easy is to be unsafe. Já vão longe os tempos em que o espírito adejou em torno das damicelas encantadoras. (verificar o texto. aliás o eterno: o Fáustico. no original.) Meditar esta tarde nas palavras do incomensurável aquinatense: "O HOMEM NÃO PODE SABER 0 QUE DEUS É. que chegamos ao dealbar dos quarenta e que vivemos em grandes escafandrias mentais. as maravilhosas expressões de Goethe. aqui.casa. ou seja a nossa aspiração incoercível para a totalidade. Bebi as minhas próprias cinzas. Desembarcados. Como extrair um sentido dessa vã agitação de sombras vãs. Estamos inquietos. Outros nos fazem divagar e devanear pelos intermúndios além.

nos vítimas daquela famosa ficção universal. Homo: animal metaphysicum. mas também não é inexplicável (Santo Tomás Aq. 4) Estas notas a mim confiadas. sopro dum instante. Necessidade da ascese: "A sabedoria não entrará numa alma malévola. O trabalho de lêlas (a caligrafia do amigo é impenetrável).) REM MEDITARI—O homem é ordenado para um fim que lhe transcende o entendimento! Daí o ser impossível. Que o leitor as aprecie. fazendo estremecer as paredes do escritório. achei-as soberbas. Devem ser cinco horas. no Alto do Cruzeiro. eheu! está muito além das nossas míseras possibilidades. Urge um equilíbrio entre o transcendente e o imanente. O homem nasceu Para uma condição limitada. resumi-las e copiá-las deixou-me cansado. a revelada. que pode tanger o ridículo. UM PROCURADOR DE AMIGOS.-Madruguei em casa . ó Transfinito. esclareceu Silviano. ó Imensurável. sem a outra ciência. A verdade em si. Defeituoso. mas bordeja grandes abismos e procura culminâncias. conhecermos e atingirmos o nosso fim. prestes a ser tragado no hausto universal! § 68. na essência. nem habitará um corpo escravo de pecados" (Espírito Santo— Sabedoria I. no seu largo estilo silviânico. assinalada pelo Jules de Gaultier e espantamo-nos do tumultuário e do desconcertante de nossas idéias. este pobre verme. olhando para as estrelas e erguendo os braços. todo conhecimento que repousa na autoridade humana. proferiu esta prece: —Ó Inconcebível. Só assim conjuramos o desespero de não conhecer tudo: convencendo-nos de que incognoscível não é sinônimo de inexistente.). condescende em que se prostre a teus pés este farrapo de um farrapo. —A vida não é evidente. "Je me puis trouver le repos. e os bondes da madrugada já correm pela Rua Erê. De um modo geral e perfunctório. deverão fundamentar um artigo seu na Gazeta de Minas. j'ai soif d'infini" “Mon ame languissante aspire aux inconnus lointains" (RABINDRANATH TAG. Tenho sono. absoluta. Elas me lembram um Silviano majestoso que certa noite. AMANHÃ DE 21 DE DEZEMBRO (nove horas).

satisfeita. Redelvim. uma impossibilidade de comércio e de reunião entre elementos tão diferençados? Bem vejo que. Silviano e Jandira. quanto a uma recomposição do nosso pequeno círculo. este nosso amigo veio procurar-me para agradecer os . Minha resposta. para aguardar o almoço. que não opina. na realidade? Ou este círculo apenas existiu no meu desejo? Os encontros que tivemos. sou apenas um procurador de amigos. afirmativa. disse-me. Glicério. e. lhe apressam a dissolução. Florêncio. Por que hão de os homens separar-se pelas idéias? De bom grado. Esperei-a um pouco. as dissensões de pensamento. com tendências aristocráticas. é Jandira a pessoa que ele mais freqüenta. quem criou e sempre procurou sustentar essa agitada assembléia onde atuam forças tão antagônicas.-Novidades no setor Redelvim. até que tivesse terminado sua toilette e pudéssemos sair juntos. e isso me admira porque. anarquista. Neste mundo. agravadas pela atmosfera pesada deste fim de ano. Devo nutrir esperanças. que a acorda e envia para o escritório comercial onde entra às oito. eu sacrificaria minha idéia mais nobre para não perder um amigo. hoje dissolvido. A caminho. Por volta das oito horas. Vejo que Redelvim ainda não a procurou também. Voltei à Rua Erê. com o meu desejo de sociedade. Silviano. quando entrou na casa comercial. ponho-me a rabiscar estas linhas. tranqüilo pequeno burguês. —Vou descobrir o urso.de Jandira para saber notícias do Redelvim. Noto que fui eu. sete da madrugada. sempre revoltada contra o despertador. Silviano e Florêncio. o homem da hierarquia intelectual e da torre de marfim. de alma simples. tantas vezes. Jandira. a pequena roda não foi sustentada por força própria. perguntei-lhe se o nosso revolucionário não tinha estado lá. ENTREVISTA COM REDELVIM. o mesmo não acontece entre Redelvim e Glicério. não evidenciaram. no momento. Redelvim e Silviano. NOITE DE 21 DE DEZEMBRO. causou-lhe uma alegria que me fez lembrar os antigos tempos de nossa convivência. Finalmente. Eram sete horas. nem pelos misteriosos princípios de aglutinação que regulam as aproximações humanas. conforme diz a amiga. socialista. durante todo o tempo percorrido. antes. § 69. Se Jandira e Redelvim—de um lado—e Silviano e Glicério—de outro—se entendem. —Como? Já foi solto? interrogou. despedindo-se com um aceno de mão. Será certamente impossível uni-los de novo.

a princípio. passou a encarar o caso corri espírito esportivo e deliberou tirar vantagem da situação. mais cedo ou mais tarde. não há pedicuros. na expectativa de qualquer coisa extraordinária. que foi tratado humanamente na prisão. arrancando unhas. Conhecendo a sua energia. durante o "retiro espiritual" (reproduzo expressões suas). de um modo geral. que só poderia exacerbar-lhe o sentimento revolucionário e jamais intimidá-lo. depois dos primeiros interrogatórios. despertar. O que terá determinado tal transformação foi o retiro espiritual. Aqui. nestes vinte dias. como ele próprio denomina sua reclusão involuntária. quanto aos meios. nos meses que antecederam o golpe extremista. porém. acabou por chegar ao "estado de raiva". como diz Silviano. Recordemos a conversação de há pouco: contou-me. mas desorientada. fosse de um lado. não atribuirei essa mudança ao fato da prisão. deveria estar com as prisões cheias de conspiradores. o delegado lhe deu a entender isso. Redelvim os viveu agitadamente. "embora ordinários". Acredito também (e isso aconteceu a muitos) que o choque de novembro tenha produzido no seu espírito uma descarga. levou. Concluiu que ficaria mesmo por aqui e seria. considerou que. durante vinte dias. Dissipado o receio da remessa para o Rio ("Você compreende que seria bem pau. psicologicamente. que viesse satisfazer à sua necessidade de terremotos e à sua revolta contra as coisas. Em suma. dormindo menos. disse-me continuar contra o Estado burguês e capitalista. efeitos consideráveis. Aliás. não existiam provas de sua participação no movimento. afinal. o senso de responsabilidade de cada um. mas está picado pela desconfiança e pela incerteza e se julga um elemento inapto para agir. posto em liberdade. alimentando-se pouco. O certo é que Redelvim está diferente. disse. fosse de outro. Confessou-me que desde alguns anos não dormia regularmente e que. supondo que o fossem enviar para o Rio. extraem da gente o que querem"). Está um pouco mudado. a rebelião teve. pelo menos. Isolado em pequeno compartimento. de início. um regime de vida que há anos não conhecia e lhe permitiu talvez uma restauração nervosa. dissipar as fantasias. Embora haja abortado. e que a polícia do Rio. esteve um pouco inquieto. Lá. A atmosfera foi opressiva. tirou todo o atraso. de redação para redação. lendo. Refletindo. operando essa descarga que deveria desoprimir o ambiente. descansando e meditando. Provavelmente esse repouso completo lhe ofereceu ensejo para uma revisão de rumos e reflexão mais serena sobre as coisas. pois não pode fazê-lo em estado de dúvida. que lhe mandei. dar rumos aos indecisos. Vivendo inquieto. abusando dos excitantes. acossado pelos credores e explorado pelos diretores de jornal. por outro lado. sobre o assunto. Não quer cooperar . Revolta decerto justificável.livros.

para uma ação em cujas diretivas não possa influir. a idéia marxista. vencida pelo orgulho. se a polícia deixar. como suporiam os sujeitos maldosos. Não o faz há anos: ela é que aqui vem. sem dúvida. exprimirá uma impossibilidade de realizar-se. Procurei-o em casa de Jandira e soube que também lá não esteve. Tempos depois. após longa enfermidade. teve pena do infeliz e decidiu desposá-lo. Depois de pensar maduramente. Maria Júlia. não encontrando jeito de continuar a exercê-lo depois da morte do marido. no caso. na íntegra. respondeu. mas ouvi vozes lá dentro e voltei. Pus-me a pensar em D. ao papel de enfermeira e. que me oculta uma reviravolta mais profunda. pedindo insistentemente que fosse vê-la. estava brigado com ela. Nada mais disse. informou haver recebido uma carta da mãe. depois que o puseram em liberdade. nem lhe foi perguntado. pelo contrário. Viúva desde muitos anos. até quando lhe convier. Mas ele veio para Belo Horizonte desde rapazinho. Passava. a mãe se casou com um pobre homem que sofria um incômodo nervoso. Realizado o casamento. Está bem. então. ficou furioso e dispôs-se a não mais ir vê-la. e perguntara a si próprio se a ação de Stalin terá um sentido apenas particular e episódico ou. resolvera contrair segundas núpcias. Sua probidade intelectual foi. Estou querendo ir passar uns tempos lá. Por último. Por isso. Creio. Redelvim combateu violentamente e em vão o projeto. Acredito que se Redelvim houvesse ficado em sua companhia o afeto maternal lhe teria ocupado inteiramente o coração e não a deixaria disponível para outros afetos. contrariado. vai abster-se da ação e será apenas um espectador. quando o pai sucumbiu a uma hemoptise. Redelvim. então. Acostumou-se. Pareceu-me que alguns imbecis jogavam com ela. se comprazem na dor. Até logo. porém. É dessas criaturas que têm vocação para o sacrifício ou que. pois teme os desvios duma ditadura. e que vivia a tremer. —Cheguei até a porta do seu apartamento. para lhe dispensar cuidados de mãe. nem tendo perto de si o Redelvim. de cujo nome não me lembro. quando o conheci. . —A velha anda muito doente e foi morar na fazenda com o meu tio. sempre que pode. Meditara bastante sobre o conflito entre Trotsky e Stalin. achou também que o Brasil não está suficientemente preparado e ainda não surgira a equipe que poderia organizar o pós-revolução. Não compreendendo isso. a respeito. dos quarenta. decerto impelida pelo mesmo sentimento com que teria tomado o hábito de irmã de caridade. Perguntei-lhe por onde andou metido.

não o quis privar do vício. para consolar o paladar da passagem da bebida por outra via. para dar a grande notícia: obteve permissão para voltar ao chope. beberei nem que seja pelo funil! —Funil? Por quê? Dando uma gargalhada e segurando-me com a mão peluda. Parece-me que só os nervos o sustentam. Belmiro velho. —O médico apenas me recomendou que não tomasse mais de dez por dia." O "ele" a que se referia era seu estômago. FLORÊNCIO foi buscar-me hoje. no antebraço. Deve andar perto dos sessenta. por meio de sonda introduzida diretamente no estômago. amiudou as visitas ao filho. por via bucal. Há alguns meses tem estado enferma e quem fará a viagem agora é o Redelvim. o tabelião informava: "O que ele comeu hoje foi um arrozinho mole. ainda não o colheu em suas malhas. mesmo de líquidos. amável.enquanto estivesse na companhia do segundo marido. perguntado pelo médico sobre a natureza do alimento tomado em determinado dia. Mas a velha vinha a Belo Horizonte sempre que as circunstâncias permitiam. então: "Ele tomou um caldinho. Nem sei mesmo explicar como a tuberculose. Habituou-se a tratá-lo como um indivíduo à parte. Enviuvou pela segunda vez. § 70. à saída da Secretaria. Levoume logo a um bar. o velho Carpóforo levava a bebida ao estômago. Como gostava muito de beber. ilustrando a narrativa com . o médico. que conheceu numa cidade do Sul de Minas. E.. Vítima de um tumor maligno que lhe comprimiu o esôfago a ponto de não lhe permitir a ingestão. Estava transfigurado: era o Florêncio antigo. Contou-me também que. galhofeiro. que o sabia condenado à morte. Não lhe contei ainda a história do funil. Servindo-se de um funil. O HOMEM DO FUNIL. doutor. dispensando-o de ir à procura dela. há três anos. Florêncio relatou o caso com espírito. e. independente do organismo.. num gesto trágico e cômico ao mesmo tempo. E referiu-me o caso de um tabelião Carpóforo. —E agora. freqüente na família. desde então. exclamou: —É verdade." Ou. bochechava com o resto que havia no fundo do copo. Bom será que a mãe o retenha algum tempo na fazenda. nos últimos meses de vida. esse homem teve de alimentar-se. esclareceu. Se ele voltar à vida antiga não a viverá muito.

Não acredita na medicina (salvo na sua psiquiatria. e eu estava muito resfriado. satisfazer. Respondeu-me que fora o professor Otelo. procurei. compraz-se na criação alheia. depois de dado um giro pela cidade. em que—talvez por ser meio gira—se tornou grande especialista) e faz humorismo quando o procuram para outras moléstias. pude ver que de mim nunca sairia um monumento. Não tive tempo de assustar-me. pois. a uma de suas discussões com Redelvim: "Persegue-me com a sua mania de povo. Aceitei o sorvete e apanhei uma gripe pneumônica. (O leitor é. ainda que em parte. Por que continuar tais confidencias.) Ia. qual o médico a que recorrera para obter a volta ao chope. Talvez fosse algum extraviado. irritado. —Quem é? perguntei. Assim pensando. um pouco rudemente. disse-me. Perguntei-lhe. Bem me pareceu que havia de ser o Otelo. e incerto quanto à conveniência de prosseguir nestas notas. com alguma veemência. o equívoco se desfaria sem ser preciso abrir a porta. quando alguém me bateu à porta da casa. se não lhe pudesse dar proporções monumentais. "É o medicamento específico". com preguiça de levantar-me. no alpendre da casa. nesse caso. então. Jandira jamais foi tão acertada como quando. Devia primeiro indagar se povo existe! A mim. de um modo especial. folheando autores prediletos. pois reconheci logo a voz do Silviano e passou-me rapidamente pelo espírito a lembrança de um dia em que. Não receberia ninguém e teria cães ferozes para estraçalharem . responderam. Incapaz de criar. —É o Conde de Revila y Gigedo. pois que me dirijo sempre a um leitor imaginário? Prometi a mim mesmo que nunca escreveria um livro. pus-me a ler um pouco. E. depois. e. o homem que tem o senso da hierarquia!" E expôs-me sua idéia de construir um castelo e comprar o título de Conde de Revila y Gigedo (nesse tempo amava Dolores Gigedo. andando a passos largos. o amigo se referia. na leitura. Convidou-me um dia a tomar sorvete. um escritor frustrado. de certa forma. o "Perrexil").adequada mímica. já destituídas de intimidade. me fez sentir isso: nada há de mim que possa interessar. logo ao iniciar a tarefa. § 71. ao monstro literário. a outrem. ONDE APARECE O "DOUTOR ANGÉLICO" CANSADO de escrever.

Chegados à casa do Jerônimo. Aberta a porta. Próximo à ponte levadiça. Jerônimo é um pascalizante. porém. leigo no assunto. e. Aquela história de Parabosco & Ferrabosco. Você vai testemunhar um espetáculo soberbo! respondeu-me. um capítulo sobre imaginação difluente. a folhear um pequeno volume de Luc-Benoist: La Cuisine des Anges. que lhe trouxeram da Itália. seguia-se-lhe. Quero que venha. ver-se-ia um cartaz: "Domínios privados do Conde de Revila y Gigedo". Silviano levou-me pelo braço e foi entrando portas adentro. disse-me à queima-roupa: —Vim buscá-lo para irmos juntos ao Doutor Angélico. .aqueles que viessem perturbar as meditações do Pensador. a novela Parabosco? É possível. —Não. como chegar a uma conclusão? Voltemos. no final. Leia isso. de há muito. Acabo de fortalecer minhas convicções a respeito do cepticismo de Pascal. até que ponto faz teatro para os outros e para si mesmo. emprestado pelo próprio Silviano. que. o carro está à porta. ora caprichos de criança. sempre suspensa. sugestionado pela leitura. sustenta com ele interminável discussão sobre a posição de Pascal perante a Igreja. ao Conde de Revila y Gigedo. Entretanto. além disso. por isso. seu Angélico. Surpreendemo-lo em sua biblioteca. É o que há de definitivo. Porfírio. Silviano não me deu tempo para cumprimentos. Embora tomista. Já lhes disse que o nosso amigo não se deixa medir pela bitola comum: ora tem gestos soberbos. Não é por acaso que conserva um retrato do Poeta sobre a mesa. segundo me informa o Silviano. pela sua cabeça passam grandes coisas e também coisas disparatadas. também. Silviano assim o apelidou por causa de sua profissão de fé tomista. minha presença seria talvez ridícula. Não sei. acompanhei o filósofo. encontro. que o fato de ter sublinhado o trecho signifique haver o amigo encontrado nele o estudo de caso análogo ao seu.) Imaginei que deveria ser sensacional uma luta entre os dois. Dar-se-ia que Silviano. Mas. por exemplo: folheando outro dia um volume de Ribot. Seria inútil qualquer resistência.. Vista-se. passando-o para as minhas. ("Doutor Angélico" é o Jerônimo. assinalado a lápis. Retrato autografado. para mim. e disse: —Leia isso. objetei ao Silviano que. Imagine. o Saisset o coloca entre Aenesidemo e Kant! Quero que você assista ao embate: vou fulminar o Doutor Angélico! Ah! ah! ah!. como se vê.. Uma idéia bem d'annunziana. uma série de depoimentos de indivíduos do tipo "espírito romanesco". houvesse improvisado. Silviano lho tomou das mãos.

veja simplesmente a Enciclopédia Espasa. O Bremond responde a tudo isso. —Leia. com enfado. Sua má-fé é evidente. seu energúmeno! —Ora.. Desde as edições de Brunschvicg e Strowski. .. afirmou que "il est mort en bon catholique". Já lhe disse que caiu.quanto a Pascal. Leia. . ... Você verá que Pascal é um caso típico de suspensio judicii sceptica. cortou o outro. gesticulando nervosamente e dirigindo-se a mim. Bréhier. publicaram. —Absolutamente! tornou o Jêronimo. deveras... Michelet. voltando-se. de suas heresias jansenistas! O abade Beurrier. Toda a crítica moderna da França é unânime em reconhecer que ele superou o seu cepticismo. mais tarde. Ou melhor. para mim. —La vieille chanson. com calor. Jerônimo. "Mentis pela gorja. respondo com Cousin. Você sabe que os jansenistas. você.. Pascal reconheceu os seus erros. —Oh!!! exclamou Silviano. em 1670. nos últimos anos.. que é de Jesuítas. Jerônimo ficou um tanto perturbado com a arremetida. faça o favor. . mas penitenciou-se. — . então.. uma edição dos Pensamentos suprimindo o que lhes não convinha. "parfaitement soumis à l’Eglise et à Notre Saint-Père le Pape". com o sofisma das edições mutiladas pelos jansenistas. dando uma gargalhada.. não se insiste mais neste grosseiro erro. . não me faça perder o tempo. que o assistiu. para poder conversar com um sofista de sua laia. sem prestar atenção ao Silviano.—Que é? O Saisset? perguntou Jerônimo com ar desdenhoso. Silviano.. Silviano tirou partido da situação: —Não quer confessar que os Jesuítas são suspeitos. perro aleivoso!" —Pascal foi um herético. exclamando: —Mas.. Já lhe disse que. respondeu Jerônimo. pela manga do paletó. colocando-os sobre a mesa ou empilhando-os em minhas mãos.. Você incide no mesmo erro da corrente racionalista do estúpido século dezenove... emprega argumentos dessa natureza? Eu me apoio nos próprios textos de Pascal! E em qualquer edição que você queira. no máximo. Pascal é arrolado entre os cépticos. aparteou Silviano. Silviano puxou-o. —Lá vem você deslealmente. —Os jansenistas. com um sorriso vitorioso. numa suspensio judicii indagatoria. gritou Jerônimo. entende? Ao seu Beurrier. —Leia.. continuou Jerônimo. depois. hein? —Estou apenas procurando forrar-me de caridade cristã. Não respondeu de pronto e se pôs nervosamente a tirar livros das estantes. agastado..

ágil e eloqüente. A certa altura. Silviano pareceu abalado e. desde então. para mostrar-me que notava minha presença. Silviano tomou-me a defesa. quando os dois sutis doutores vieram buscar-me. então.. Foi o fim da conversa. Estavam cansados e combinaram uma trégua até ao domingo seguinte. disse: —E. meditando. Silviano. sem o terem ainda encontrado. Mas. Silviano aprovou. Lembrando-me do pensamento lido pouco antes. Tendo eu ficado quieto. a dúvida não subsiste.. de Pascal. Só é admissível isso como atitude provisória. . Silviano lembrou que eram onze da noite e Joana deveria estar aflita. que me senti impossibilitado de acompanhar a discussão. E ali cochilei. Voltei e fiquei a folhear o livro. nem afirmar. já não duvidamos. Despedimo-nos. atalhou. e disse que eu pertencia ao número daqueles "infelizes e razoáveis". origem de tamanhas querelas. Ao que Jerônimo respondeu tratar-se de outra atitude impossível.. Tive a impressão de que se passara um tempo considerável quando despertei. no entanto.. Não era nada: mexendo desajeitadamente na parte superior de uma das estantes.. O espírito foi feito para afirmar. interessado. com um sorriso condescendente. tu ne me chercherais pas si tu ne m'avais trouvé". Talvez por gentileza. dizendo que vivo em dúvida e isso não é possível. deliberei dar um ar de minha graça. pois que o espírito é ativo.. Teremos de duvidar da própria dúvida e. Por outro lado. dizendo ao Jerônimo que não declaro dúvida. travando acalorada disputa nos domínios da teologia. se perderam em tais funduras. Para repousar o espírito. porfiam em procurar a Deus.E por aí continuaram. por se tratar de um tema familiar ao Silviano. com o barulho de livros que desabavam de uma prateleira. própria para cochilos. encontrei palavras que pareciam adequadas a mim e. Minha situação é de não negar. passei a um quarto contíguo. tendo nas mãos um volume dos Pensamentos que o Jerônimo deixara nelas. Jerônimo provocara o desabamento. foi feito para afirmar e não pode estar inerte.. pondo-me a mão sobre o ombro: —Mas Pascal também escreve: "Console-toi. muitas vezes objeto de suas conversações comigo. ia prosseguir no capítulo. Foi o bastante para que se ateasse nova discussão. Mas Jerônimo. —Impossível. Jerônimo procurou diagnosticar o meu caso. Fui ver os dois.. as minhas palavras. ele assim é. onde havia uma cadeira austríaca. Até àquele momento eu conseguira entender o que diziam. a braços com a minha incapacidade de debater o assunto... se acreditarmos na dúvida. aliviando-o da forte tensão a que os amigos o obrigaram.

Instruíram-me bastante. aos cinqüenta anos. haverá de encontrar o seu rumo. quantia que os advogados novos. A indecisão e o desânimo de Glicério me causam pena. Confessou-me que não se julga habilitado para coisa alguma e há muito tempo esta idéia o amofina. Veio para mim com as delgadezas e impertinências da Escolástica! Mas apanhei-o numa ignorantía elenchi. Andou tentando vários caminhos. o coronel Portes. numa fallacia consequentis e num abuso de fallacia plurium interrogationum. disse-me. Como vêem. Apanhou o vício da literatura e só acha graça nisso. por fim. virou integralista e. na Seção do Fomento. E lembrei-me de mim. não estão ganhando. noiva. GLICÉRIO colou grau hoje e fui assistir à cerimônia. mas acabou no ilícito comércio literário.. por não ter . E nesse setor não espera produzir nada.. Deixa ou não deixa a Seção do Fomento Animal? Pega. ainda não achou coisa a que se aplicar. dizendo-lhe. os atrativos que lhe descobre o Filgueiras (o de lunetas douradas) e vive em tentativas: colecionou selos. Terminada a festa. à maneira de Jerônimo. Não sabe o que vai fazer do diploma. criou canários de briga. o nosso Doutor Angélico! Foi pena que você não assistisse à última fase dos debates. Lembrei-me. e é possível que eu venha a tomar gosto por esse gênero de polêmica. Ainda estou um pouco aturdido pelas coisas que ouvi e não me admirarei de que —ao tentar resumilas nestas páginas—tenha dito algum disparate. inclusive o de rapaz elegante. O bacharelando Glicério de Sousa Portes saiu pelo braço do amanuense Belmiro. por motivo de moléstia do chefe. que. ali. que isso não poderia ser senão uma atitude provisória. no seu conhecido estilo: —Ora. Além disso. A família mora nos confins do Triângulo e não pôde comparecer ao ato. os seus seiscentos mil-réis. Procurei consolá-lo. abraçou o espiritismo. cá fora. que teve alguma imponência. a propósito. Por que não? Fali na vida. mãe ou namorada.De volta. cada bacharelando saiu de braço dado com a irmã. estudou esperanto. não perdi a noite. Não encontra. Não pode comigo! Não pode comigo! Separamo-nos em uma parada de bondes. § 72. PERPLEXIDADE DE GLICÉRIO. da situação do Sepúlveda (o do bilhete de loteria). Também não quer ir para o interior. traficando entorpecentes com Silviano. não se sente atraído pela profissão. também.

em caixetas. Terão de esperá-lo no Rio. Aquilo era um passatempo. passeamos pela Avenida e nos despedimos. com o vestido novo que exumou da canastra e cheira a naftalina. —Merry Christmas. seu Belmiro. Com certeza. perguntei-lhe para mudar de assunto: —E a Nonoca? Acabou-se o namoro? —Você anda no mundo da lua. Vestido de cetineta. bordados. Como vai a Marianina? E o Pietro? O relógio de repetição dá oito horas na sala de jantar. com as peças do enxoval. de su autor. Fazia riscos. Daqui a dezoito dias. Não se falou em Carmélia. Dois proveitos num saco. Mister Prudêncio. En realidad un Diário equivale a un lento suicídio. Giovanni. Era um gosto ver essas coisas. Coisa de filis-tinos. SERÁ no dia 15 de janeiro o casamento. para assistir ao embarque. acrescentando que a viúva já regressou do Rio. ou coisa que o valha. Agora. aprendia a arte do bilro. Em Vila Caraíbas. com grande indiferença? Ora. Foi bom para ela: está quase noiva de outro. Só zarpa a 18. tudo vem feito. mandava vir rendas de Grão Mogol. Hoje é assim. Tomamos um chope. presente do Glicério. —Vamos tomar um cafezinho quente. Compram tudo feito. O Senhor esteja convosco. cosia com amor. —Bom dia. SERÁ NO DIA QUINZE. MERRY CHRISTMAS.") Depois. em caixetas. Muito obrigado pelo Chianti e pelas castanhas. e comigo não haveria casamento.encontrado rumos. Irão mesmo à Europa. É o que Glicério informa. social. § 74. MAIS UM NATAL. Qual foi mesmo o vapor que Glicério disse? Oceania. Mister Belmiro. basta a . não é sintoma disso? (Ocorrem-me umas palavras bem significativas de Gregorio Marañón: "En el hombre adulto la práctica del Diário equivale a una supresión progresiva de la personalidad activa. uma donzela levava um ano a preparar enxoval. Este Diário. § 73. amigos. Emília volta da missa. Que tal uma ida ao Rio. se não me engano.

no dia da prisão. Estabelecido que uma coisa não é outra. o caricatural. humanização do mito etc. aceitando a opinião geral da Secretaria: era um aluado. Convivo com essa criatura há seguramente um lustro. entretanto. que já não estou em idade para arranjar novos amigos e hoje me convenço do contrário: havemos de fazer descobertas até o último dia. fique com o seu mito e deixe a moça passear. neste ano de 35. Como disse atrás. que ficou para trás. Nesse caso. de seu espírito. quando lamentei a quase dissolução de nosso pequeno círculo. inexploradas. Sim. Você não tem nada de abjeto. A vida é um constante descobrimento e uma retificação constante. Mas você não é Borba. Dom Donzel da Rua Erê. então. para assistir à partida. Lembre-se daquele arranjo seu: "o mito Arabela". Carolino. você é um pobre flautista. deixe-se disso. § 75. ou melhor. Nunca lhe prestei muita atenção. você não passa disso: um masoquista. Ou então declare-se de uma vez. conversamos longamente. para torturar-se. NOVAS AQUISIÇÕES. Masoquismo espiritual. apenas o fui conhecer mais a fundo quando. como o Jerônimo. antes. Que diria o velho Borba? Um Borba teria furtado a moça e a levaria na garupa do cavalo. Foi essa indiscrição que deu novo rumo às nossas conversações. —Que é psicopata? —Psicopata? —Sou psicopata. Coisa algo parecida ocorreu-me com relação ao Silviano. Fique sossegado na Rua Erê e deixe-se de histórias. impraticáveis donzelas. Para todos os efeitos. você amou o mito e não a moça. descobrindome regiões novas. sou? Perguntas desse gênero Carolino sempre me fazia. na Rua Erê. E morrerá donzel. e passou-me despercebida até hoje. Devo corrigir o pensamento pessimista. No curso de uns oito ou dez anos não lhe conheci senão o pitoresco ou. O SENHOR pode dizer-me o que é abjeto? —Para que você quer saber isso.idéia de ir ao Rio para excluir a de indiferença. para a fazenda de Vista Alegre. naquela noite. esteve aqui em casa para fazer companhia a Emília. Seja lógico. um outro Silviano tem crescido a meus olhos. E tudo por causa da indiscrição de haver lido uma página do seu Diário. Seu destino é sonhar. Disse. isto é. Diga que ainda ama a Carmélia. torna-se razoável uma ida ao Rio. Naquele dia. Carolino? —O senhor acha que eu sou um homem abjeto? —Ora. Penso nesse .

em sua caduquice. que parece desejar adotar outros amigos meus. Quando. pela manhã. Emília será confiada ao Carolino. nesta página. a aquisição do novo amigo. fazendo-os do próprio bolso. direi que devo a ela minha salvação. nem ocupar posição igual à de companheiros de infância. torno-me . certa vez. Carolino procurava apenas isso: uma pessoa com quem pudesse conversar. § 76. hoje bem postos na vida. Tornou-se um personagem indispensável na Rua Erê. incumbe-se de uma tarefa que sempre me pareceu transcendente: a seleção dos credores. Emília aprecia-o muito. insisti em lhe pagar o trabalho. UEM quiser fale mal da literatura.excêntrico e bom Carolino. por eqüidade. procura retribuir. pela rua. escrevo dez linhas. parte provinda de herança. Deu para freqüentar. mostrou-me uma caderneta de depósito no Banco: possui setenta contos. está se aproximando do Giovanni e do Prudêncio Gouveia. Carolino pega a ave e passeia. Se eu for. Parece que lhe tirei o complexo de inferioridade. Desde que. E não aceita remuneração de nenhuma espécie. quando o supôs débil de espírito. pois o dinheiro é pouco e os pretendentes. O pai também se enganou sempre. não pôde estudar. Venho da rua oprimido. a ele contadas pelo velho—e quando me disse que foi visitar seu Prudêncio. mesmo. Todos o julgavam desmiolado. Às vezes me adianta os pagamentos. ao Rio. Esta consiste em separar. que conversa é esta de ir ao Rio? O melhor seria ir à Vila e não pensar mais nestas coisas. ainda encontrou meios de se lhe afeiçoar. pois é muito seguro. Que pensará Tome dessas aventuras a que há tanto tempo não se entregava? Carolino. Procedente de boa família. recebe o dinheiro para os pagamentos mensais. com ela. com ele dando uma prosa. há pouco. que me comparece nesta altura da vida. a Rua Erê e fica a conversar com Emília até que eu me levante. Foi o que notei esta manhã. comecei a cultivá-lo. levado por simpatia e curiosidade. Quanto a mim. ORA BOLAS. e Tome. muitos. Calcula minhas despesas. parte de economias próprias. Assumiu a gestão de minha complicada contabilidade. veio repetir-me coisas do Piemonte—já de mim conhecidas. as contas que devem ser pagas no fim do mês. a estima que lhe voto. Já não me pergunta se é uma criatura abjeta. Mas. e ele acabou como contínuo quando deveria ser amanuense ou—por que não? —primeiro-oficial. quando. Ê inteligente e dedicado. Celebro. como entende.

olímpico. quando toquei no assunto." Primeiro de janeiro—ora bolas. e vim. e nada temos que ver com suas palhaçadas. Terminado o espetáculo da noite. De que vale a gente viver a contrariar-se? Por si mesma a vida já nos impõe tantas limitações. somos espectadores sem compromissos. É um homem poderoso. que espia para. mandar alguém ao Ministério da Agricultura. Falando por alto com o Chefe. Deixei Belo Horizonte com antecedência de alguns dias para não dar na vista do Glicério. Sempre há um argumento para os homens de boa vontade. Mas é um indivíduo autônomo. para estudar os métodos de propaganda postos em prática pelo técnico americano que o Governo Federal contratou—disse. O indivíduo que representa no palco nos fará rir. Mas tudo conspirou a favor. Em verdade vos digo: o que escreve neste caderno não é o homem fraco que há pouco entrou no escritório. Será mesmo no dia quinze—ora bolas.. o comediante se encarnará em nós e teremos de tolerá-lo. depois de um chocolate.. Vi a donzela com o noivo—ora bolas.. apenas. § 77.dentro. Os amigos andaram sumidos— ora bolas. Descobri o segredo do Silviano: transferir os problemas para o Diário e realizar uma espécie de teatro interior.. partiu dela própria a idéia de se chamar o Carolino. Mas à noite. sorri e diz: "Ora bolas. Senti desejo de vir. com a pena entre os dedos. EIS-ME NO RIO. Durante o dia. nos comoverá ou nos suscitará graves meditações. Bravo! Comecei bem a justificação de minha fraqueza alegando as imposições naturais da vida e daí concluindo que não devemos maltratar o irmão corpo com outras privações. EIS-ME nesta mui leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro." E Emília não fez má cara. suas mágoas." E é isso mesmo: por que havia de mortificar-me? O desejo de vir não foi veemente: era. para o caso em que eu venha a ralhar comigo mesmo por haver cometido esta proeza: "A vida já. Vou combinar isso com o Diretor. ou sua inquietação. como defesa prévia. . tomamos o bonde e vamos para casa sossegados. Lá se foi o ano—ora bolas. mesmo. uma vaga idéia. e isso deve ficar escrito aqui. para lhe fazer companhia em minha ausência. Fique lá uns dias e traga-me um relatório. Parte de nós fica no palco enquanto outra parte vai para a platéia e assiste. este se prontificou a arranjar-me passe e diárias: "Precisamos.

moveu-me a curiosidade de examinar os transeuntes e o local. Perco-me. com o peito deprimido. Atrás.). ainda. me assusta e intimida. também fui dar comigo em regiões não machadianas. encontrado no Ministério. O Rio antigo traz-me imagens machadianas que amei na adolescência. também. tive a meu lado Dom Casmurro. a um canto. na contemplação comovida deste Rio velho. Andando sempre.Glicério ficou informado apenas da versão oficial dos acontecimentos: comuniquei-lhe que o Chefe. Divisei.. etc. Desde cinco dias não faço outra coisa senão freqüentá-lo no cais. Estaremos amando neste momento? Creio que não. distraído. Sofremos apenas difusa melancolia. Nossos amigos cariocas não sabem o que vale o mar para nós. e . Havia. com grande surpresa minha. Muito malandro. em vão. Velho conhecido mineiro. levou-me ontem a um local encantador. A meus ouvidos. como já ali me achasse.. fez disso motivo de troça e quis dar-me uns "endereços". na praia. pensei. num entra-e-sai de teatro de revista. Anda enfurecido e sombrio. pela manhã. Safei-me daquele mercado estranho. conversá-lo: está inacessível. não teremos vindo somente pelo amor. com o amigo. com saudade. ribeirinhos do Mangue. deste Rio torto e encardido. a necessidade de rever o Rio (seis anos sem o ver) e de espiar o Atlântico. Em certo bonde. e tratei de retirar-me com dignidade. beber uma cerveja modesta. numa travessa. e lobriguei. e a pé (não aprendi. mana Rita. Examinando as coisas a fundo. mana Rita fazia insinuações (Cale a boca. jogavam voltarete e tinham. Não fui muito adiante: encontrei militares de terra e mar algo tocados. a que dão o nome de Juá. contemplando uma sociedade que está sempre a renovar-se.. que é o que amo. Aboletei-me a um canto. que me pareceu puxado por burricos. sobre o mundo. Pode-se. a usar convenientemente os ônibus). também. a certos quarteirões movimentados. mas tratei de esquecê-los no bureau da Seção. ali. dois vultos que deslizavam furtivos à luz escassa dos lampiões: Capitu e Escobar. A cidade nova e brilhante. que começaram a olhar-me de soslaio. pensamentos sutis. Tenho tentado. Aceitei-os. Percorrendo a Rua Matacavalos. mas. naqueles cavalheiros que andavam de tílburi. de Minas. pela noite. que nasceu dos flancos da outra. em tal comissão. algumas damas de poucas ou nenhumas vestes me propunham em francês coisas não muito adequadas ao meu ofício e condição.. Os passos me levaram. o vulto amável de Sofia e tive dó do Rubião. me havia designado para ir ao Rio. contraditório desejo de ver consumados o casamento e a partida. arrastando sua língua difícil. Jamais me passara pela idéia uma visita a paragens tais. Ali nenhuma ilusão era possível.

Fossem damas da alta-roda ou simplesmente mundanas de luxo. dirigiu-se. Sr. ao luso amigo. Devo ter tido uma vertigem. vosmecê iria desta pra melhoire. mesmo. fui com ele a um café próximo. sem atinar com as coisas. a mim: era o doutorando Azevedo Leão. .. um irmão dalém-mar quem me salvou. verifiquei que houve. Queria certamente desfrutá-la. estava meio tonto. Deixei-a com suas literaturas. Depois de andarmos um pouco a pé. quando recebi um forte puxão no colarinho. Borba. Contou-me que estava de passeio no Rio. com grande surpresa. este corpo magro teria ficado hoje no asfalto da Avenida. comovido. a passos rápidos. despedimo-nos. e fui arrastado até o passeio. Sr. Dei o fora. Talvez não tenha vindo de Portugal senão para livrar um amanuense incauto das rodas de um ônibus assassino. As saudades . Fez-me perder muito tempo.. sobraçando cãezinhos peludos... mas a moça reagiu à altura. a solidão está-me castigando muito. Andando pela Avenida vira um ajuntamento. e sabe defender-se. o da Biblioteca Nacional. de charuto entre os dentes. me reconhecera.pus-me a olhar mulheres finas e possivelmente caras. quis.. que por pouco me asfixiava. Pelo que me disse o companheiro. Alguém. O pirata se iludiu. Mas. Borba? Um pequeno susto. ainda um pouco tonto. —Que foi isso. —Quase o esgano. quando pude identificar uma voz: —Se não o pego de jaito. louvando-lhe a destreza e segurança dos músculos. com a amiga. § 78. POR pouco. que chegavam em grandes automóveis. —Boa pequena. que estava na roda de curiosos. Perguntei se tinha vindo há pouco e pedi notícias de Jandira. Agradeci. Cruzando-a em hora de intenso movimento e descuidando-me de observar os sinais. Pela conversa. de corpo longo e pernas curtas. haim? Mas. porém. Recolhi-me ao hotel. Não rende. Era o mesmo homem importante. namoro. entrara nele e.. Neste quarto sombrio. um animalejo daqueles custa o preço de uma coleção de clássicos Garnier.. pois. tal a violência do puxão. não é? (assumia um ar paternal de esculápio). ganhar o lado oposto. aquelas criaturas deslumbraram o pobre solteirão da Rua Erê e no seu coração instilaram fermentos perturbadores. conhecido em casa de Jandira. Sentado no mosaico e já cercado de curiosos. perfumarias. perfumarias. se não é o golpe. Levantei-me e. É uma pequena leoa. O PROVIDENCIAL IRMÃO LUSO. então. Foi.

RECUEI instintivamente. . Pareceu-me que desde cem anos eu as contemplava. onde o sol caía reto. ele descobria o que de mais surpreendentemente belo tenho visto em perspectivas naturais. vai-se afastando. sem ver a partida. vem vindo. A terra não tremeu. enfim. Ao voltar. O mar me perturba. nem houve eclipse do sol. Estou cansado. PARTIDA. que me atraía. até sumir-se no azul. como centenas de outros. Andei. Aos primeiros dias. Cada onda lhe traz formas distintas. no cais. E não aconteceu nada de excepcional. Uma saída de navio é sempre coisa triste. Se fiquei triste. Vai-se afastando. Foram feitos para ser vistos apenas uma vez. Na luta para alcançar o mar. perguntei-me se foi para "aquilo" que viera ao Rio. Preciso voltar para Minas. traços novos de vida. Amanhã. Não assim o panorama do mar. senti-me vazio pelo resto do dia. Mal os vi. Nenhum interesse nas praias fluviais. só os encontrei com os olhos quando subiam para o vapor. Já nenhum interesse havia na escura. VOZES ATLÂNTICAS. Metido no meio da multidão. andei.de Minas me trabalham surdamente. de rio e floresta. dentro de uma Nau Catarineta que jamais chegaria a porto algum. dezoito. Eram viajantes perfeitamente vulgares. e coração e espírito se fecharam para as coisas de dentro. foi com a saída do navio. Margeei longamente. coisas vistas. está presa a uma condição melancólica: foi feita para ser vista apenas uma vez. densa mata. depois. apiedei-me do rio. e já não penso senão em voltar. que é vário e a cada instante se recria. fica desejando conhecer tudo. fazendo resplandecer cristaizinhos de mil cores. da floresta e da serra. mas sempre retrocedendo para o mar. Tive a impressão de que me haviam roubado qualquer coisa. havia muito que ver. ocupados com vertiginosas imagens sofregamente sorvidas do exterior. procurando-os aqui. PARTIRAM. correr o mundo. A paisagem. Tornaram-se coisas velhas. procurando-os ali. A gente fica pensando nas terras do lado de lá. pelo mesmo caminho. Ou fico um pouco mais? § 79. um grande rio. deixarei o Rio. § 80. cansado. Irritado comigo mesmo. numa viagem. Mas o cansaço vem vindo. cada vaga. Entretanto.

e seu objeto é ora fixo. sem a interferência dos sentidos. ora múltiplo. Ainda estou a ouvir. permanente. mas dominadoras. Ouvi-las-emos é dentro da alma. nos seus recônditos. Esse Belmiro avultava cada vez mais no espaço e percorria o tempo. neste. senti-me lúcido e triste. arrastando-se como um trovão longínquo. Em alto estilo apocalíptico nela encontraremos resposta às nossas questões. que é intraduzível.. para que lhe tenham paralisado a língua? Ainda assim o grande paralítico nos manda sua fala. surdas. que sabemos do amor? Impossível fixá-lo. De onde nos será possível descortinar o alto panorama? Qual será o caminho—o da humildade ou o da dureza? Deixando o Arpoador. e contudo inquietante. quando devia amesquinhar-me. ao pé do qual o pobre Belmiro.Pareceu-me que do mar me vinha qualquer mensagem. Que segredos guarda. Por que o mar nos transporta às reflexões sobre o amor e a morte? O amor e a morte encerrarão o destino do homem? Por que. a um tempo distantes e próximas. Ele se compõe da variedade e da ondulação. ora móvel. Por que me perturba. inexprimível por palavras. As trombetas do Juízo Final deverão ser.. Ficaram-me desejos confusos de amor e de ani-quilamento. teríamos um sentido. atlântico. era um verme a rastejar. tal como ouvimos a voz do mar. Mas. Uma grande voz' confusa se erguia do fundo das águas. sufocado entre montanhas. Se ao menos o amor se definisse. A voz do grande paralítico. porque na linguagem do cosmos. também. . os olhos sem brilho. Nossa alma se inclina sobre si mesma e procura. devassando todas as idades. Procurei. Há. Eis que surgiu um Belmiro poderoso e elementar. a alma sem forças receberam um hálito forte. encontrar-lhe a expressão real. como a uma sinfonia wagneriana. ora uno. as vagas que batem no rochedo. Um Belmiro dominador. Que imperiosas determinações me vinham das águas atlânticas? O corpo sem nervos. o pensamento revelador. nos convida a romper nossas limitações? Dir-seia que nos propõe a medida da latitude e da profundidade das suas águas inquietas. exalto-me e quero compartilhar de sua energia cósmica. uma inteligência e um anseio de comunicação que nos fazem estremecer. como o marinheiro do poeta. o mar? Diante dele. assim. Conhece todas as gradações. captar a surda mensagem. assim. nesta noite extraordinária.

o ventre se lhe vai arredondando. ano tempestuoso. Feliz Florêncio! Enquanto Silviano se consome em escafandrias. e melhor fora não ter saído. talvez. inquieto. que nos abre de longe os braços. Tirante a ausência da pobre Francisquinha. repousa na ordem de coisas que encontrou e foi estabelecida sobre um sistema de ficções . Assim foi em 35. homem! Que carga de ossos! Ao passo que se aproxima dos cinqüenta. agora. Mau físico para um agente de seguros de vida. onde o relógio de repetição bate horas caraibanas. É aqui nesta sala de jantar. nem sombra. Terá passado o furacão? Até então.. A verdade está na Rua Erê e não no Arpoador. Por que procurar um sentido individual de existência? Há. Não estarei aqui somente para integrar o vasto painel humano—ponto de luz ou de sombra. A VERDADE ESTÁ NA RUA ERÊ. a vida me parecera de tal modo parada que supus estar no passado o sentido de minha existência. desta Emília velha. pequenas árvores que não dão frutos. Ano difícil. Depois. Tudo está como deixei e como sempre esteve. não se mexeram de seu lugar. depois. COMO esta Rua Erê me enternece! Cá estou de novo. molécula puramente pictórica. que não indaga. à paz desta casa imutável. mas não me dá o desejado repouso. Vivi um ano com intensidade superior à da soma de muitos anos de vida. os acontecimentos me arrastaram no seu tumulto e me fizeram viver. A quietude suaviza os meus ardores. uns sobre os outros. sem outro destino? Deveria conformar-me com isto. Silviano o considera primário. Jandira busca aventuras para se iludir e Glicério se mostra perplexo. onde não subsiste nas coisas o sinal das atribulações. nada se alterou no curso destes doze anos. nas intermináveis chapadas do sertão. este que se foi! O velho Borba não confiava na paz das coisas e dizia que os reveses vêm. Florêncio é o mesmo homem de chapéu-dechile e ventre honrado. nem possuem raízes medicinais. mas o caniço pensante. Retorno. As coisas. que se torna grandiosa à medida que seus cabelos branqueiam. pois Florêncio é a vida na sua manifestação mais confiante e tranqüila. homem sem abismos. Para que maior felicidade? Seu espírito. Ali estão. Emília continua grave e exata. gritando na Avenida: —Você precisa comer mais feijão. apenas para compor a paisagem. Entretanto. Redelvim se perde em furores. que encontro um refúgio embora precário.§ 81. Quero possuir o espírito pacífico destes velhos móveis. quis explicar-se. louvado Deus. e ganha expressão honesta e repousante. as transformações interiores me devastaram.

Queria dar-se importância. nesta altura dos acontecimentos. NOSSO chefe de Seção é um pândego: pegou-me o relatório. Glicério se abeirou de minha mesa. limpou o pince-nez. Paz física da Rua Erê. Seu equilíbrio de belo animal humano não é. onde os homens esperam pachorrentamente a aposentadoria e a morte. morais e políticas. —Pois. A ele devemos a modorral pacatez da Seção do Fomento. fazendo crer que ele e o Fomento são levados em conta pelo diretor. Como eu. correu os olhos distraidamente pela primeira das cinco laudas de papel e achou-o excelente. Respondi-lhe que pelos jornais as teria mais recentes: eu chegara havia três dias. o malogro dos planos da moça. pedindo-me novidades do Rio. Insiste em que minha atitude há de ser provisória. Propõe-me uma experiência. quanto à minha capacidade de fazer. ideal? Impossível. aliás justas. por aqui tivemos uma: o casamento de Carmélia. Desde que o rapaz deixou a Nonoca. § 82. para dar o bote. por que não te transformas em paz de espírito? Tudo está como dantes. Inútil. Todo artifício será inútil e. a viver em interrogações. À hora do café. encaminhando-o "à consideração superior". Mas o chefe não deixou: "É assunto urgente. Talvez só encontre nele areias movediças. acaso. prossigamos no caminho até aqui percorrido. sem a Bela e sem o Bosque. que se achava. encetar de novo a marcha e procurar o caminho de Florêncio. Glicério quis ver a peça. SEÇÃO DO FOMENTO ANIMAL. Serviu-se do acontecimento para fazer o que Glicério denomina uma "figuração". instintivamente me vou avizinhando do Silviano. e. nesse caso." Achei graça em toda essa história inventada pelo chefe. e esta figuração tinha em vista os funcionários e duas pessoas que o visitavam naquele momento. de há muito. um trabalho daqueles. O diretor tem interesse pelo caso. Dir-se-ia a Bela Adormecida no Bosque. Não creio que me forneça uma certeza que me encha a vida. mas que fazer? Quem me oferecerá terra firme? Jerônimo? Jerônimo está-me espreitando. Foi uma festa . A família aprovava o namoro e viu. Mas queria apenas puxar conversa e me contar o casamento de Carmélia. por outro lado. céptico. e. com a mesma força. com pesar. Percebeu que já não me mantenho de pé. o chefe o olha com reservas.metafísicas. dava ao Glicério um sinal de sua hostilidade. como há doze anos passados. porém. não acredita intimamente nos relatórios nem no Fomento. a sério.

Quero ver se mais tarde consigo um lugar de auxiliar jurídico. ao escrever estas notas. a fim de alcançar o Oceania. há alguns anos. penso também em outra coisa: os outros se movimentam.. rompem. dissimulando meus passos no Rio. um dia destes. Não havendo outras. Ficarão lá somente dois meses. Que é acessório? Eu sou um acessório? —Não te metas. se deslocam. efetivamente. Glicério pareceu-me sincero. muito abatido? —Não me venha com as suas. Tenho coisas sérias em que pensar. E. que nos servia o café e ouviu a conversa. estimo-o bastante e estou habituado à sua companhia. no dia 18. portas adentro? —Mas isso não impediu que a viúva convidasse pessoas do seu círculo. Continua incapaz de amar. Carmélia! Casou-se afinal? Mas você não disse que a cerimônia seria singela. Sua retirada dá-me uma sensação de desamparo. —Acessório? perguntou Carolino.. o jovem bacharel voltou à minha mesa para dizer que. progridem ou regridem. No mais. enfim. § 83. Carolino teve um sorriso desapontado e retirou-se com a bandeja. —Ah! É verdade. O Senador Furquim lhe obteve uma comissão no gabinete do Advogado Geral do Estado. DEDIQUEI todo o domingo à leitura dos quatro cadernos de que já se compõe esta espécie de Diário. como diz o Silviano. Noto que o casamento de Carmélia não o abalou.. Eu é que ando cansado delas. —E você. Seguiram no mesmo dia para o Rio. Estava uma noiva linda. Afinal. Se ao menos atingisse a beatitude burocrática do Filgueiras. mulher é acessório. respondeu Glicério com dureza. ponderou. —Embarcaram. Isso é coisa do século passado. Só eu resto e envelheço nesta vida modorrenta.. E pequenas não me faltam. acrescentei. —É serviço mais próprio para mim. Compareceu na casa o que há de bom e de melhor. Pouco antes de sairmos. Já não terei com quem conversar na Seção. pois o Jorge se diz ansioso por trabalhar. —Embarcaram sempre? Pensei que essa história de Europa não vingasse. Pedirei ao Glicério que não o trate assim. A notícia me entristeceu. abandonará a Seção. sim.fina.. A VIDA SE ENCOLHE.. uma vantagem encontraremos em deixar no papel o registro dos acontecimentos de nossa . mas.

Não procurarei os amigos: se não me aparecem é porque já não me querem. Dentro em pouco. . ando sempre.vida: veremos surgir aos nossos olhos. Outras se sucederam com largos intervalos. Isto é: encolhe-se na Rua Erê. Vive no seu mundo de Pereirinhas e de Azevedos Leões. colorido. Jandira se afasta cada vez mais. e. Como um ano. Apenas Silviano. Acabou o namoro com o tal doutorando. Anda pela fazenda e dele não tenho notícias. emoção. Ah! É verdade: Florêncio não me tem faltado. Que dizer dele? É um homem sem história. Creio que já escrevi tudo o que havia em mim para escrever. permanece a oferecer interesse. e nisso está sua felicidade. tomou o seu rumo. repelindo as solicitações de um presente que se insinuava. quase que escrevo dia por dia. Depois. Às vezes não encontro lugar que me sirva. modifica o aspecto das coisas! Minha vida se reduz a Emília. o caderno toma a feição de Diário e nele passo a expor fatos. que sempre foi pouco afetivo. a satisfação de outros tempos. ainda que pouco encontradiço. que passa. também. Leio um pouco e caminho pela cidade. sob mil formas. impressões. se mergulhei em Silviano. Agora. o calor se vai. como dentro de um caramujo. Só conhecemos. Quantas contradições. mas deve ter arranjado outros. para instrução e advertência nossa um ser bem diferente daquele que supúnhamos encarnar. loucas fantasias. A vida dos amigos apenas se me revelou quando incidiu na minha. o movimento amortece. como Judeu Errante. Eu não renunciara ainda ao projeto de um livro de memórias e me consumia em tentativas. que escrever. Redelvim. Nestes vinte dias não me saiu sequer uma linha. e ando. Giovanni e Prudêncio. pois não dá sinal de si. De agosto a janeiro. quão diversos estados de espírito. Carolino. a vida alheia pelos seus pontos de incidência com a nossa: o mais é conjetura ou romance. foi porque nele encontrei possíveis itinerários para as minhas incertezas. Glicério deixou a Seção e passou a trabalhar nos serviços de advocacia do Estado: foi o bastante para afrouxar nosso convívio. ingênuos pensamentos. as coisas desbotam e se tornam mais frias do que antes. A vida ganhou movimento. Mas continua Florêncio. Já não encontro. que desconhecimento de nós próprios! Há pouco mais de um ano escrevi a primeira página. talvez nada tenhamos de comum. Continuar a acompanhar a vida dos outros? Isso seria interminável. aliás. no ato de escrever. Não tenciono escrever romance. em companhia do Carolino. que inexperiência. Pouco há. Jamais entrei nos seus domínios íntimos. E os amigos se desviaram de mim. no meu espírito e disputava lugar às imagens do passado. quase me parece estranha.

Fez-me pena. a lata para cima. pois fui encontrar o rafeiro já um tanto cansado. ofereceu-me café e contou-me que o marido anda enfurnado em casa. Simpatizei com o cão e lamento que os animais não estejam a cobro do ridículo. dia e noite. Qualquer coisa me liga a esse cachorro magro e abandonado que encontrei na Rua dos Pampas. na meia-noite silenciosa da Rua dos Pampas. para ter em paz a consciência. a julgar pela miséria orgânica do resto do corpo. Está fazendo um livro. refleti. á escrever. que me recebeu com bondade. e não resisti mais: fui procurar Silviano esta noite. Como eu me aproximasse.§ 84. com a resignação de quem espalhou ventos e acabou colhendo tempestades. e ele ignorasse minhas intenções. Mas o cão não era porventura permeável às palavras de eterna sabedoria. Não é muito recomendável estar fuçando as coisas e quem as fuça deve agüentar as conseqüências. O "vira-lata” deveria estar preparado espiritualmente para semelhantes situações. § 85. deixei-o consigo mesmo. a escrever sempre. o corpo apoiado nas dianteiras e o focinho para cima. pôs-se a correr como pôde. através de uma lata de lixo. Era um autêntico "vira-lata". Afinal. que esta se lhe prendeu à cabeça. Talvez seja esta a razão . Joana. isto é. Estava fora. batendo a lata em quantos obstáculos encontrava no caminho. Bem podia ser que ele me agradecesse o benefício com uma dentada. ou aromas amáveis. UM POUCO MENOS PESSIMISTA. apesar dos esforços desesperados do animal. OUTROS dez dias de solidão. esta noite. Ainda o vi ao longe. não deve oferecer paisagens atraentes. que por aí circulam nos adágios. para tortura de um focinho possivelmente magro. não mais largando dali. É o que presumo com indiscutíveis fundamentos. VOLTANDO para casa. dando com a lata aqui e acolá. De tal modo insinuara ele o focinho numa lata de lixo. E cá o ponho nesta página. Que pensaria ele naquela situação? O mundo. para o livrar do incômodo apêndice. esse que surpreendi em tão difícil conjuntura. na direção das estrelas. com as patas traseiras em repouso. UM "VIRA-LATA". encontrei um pobre cão em ridícula postura. mas também me fez rir.

Jandira não está.—Olhe. Contou-me que tudo vai bem. enlaçando-a pela cintura. —E de amores? —Amores. E você me intoxicava com literatura. já a descerem a escada. disse. disse-lhe. Esta repreendeu-o: —Você é sem modos. Vocês me andavam envenenando com histórias. e toquei para a casa de Jandira. você por aqui! Por onde tem andado. lançando à noiva um olhar lúbrico. ainda.do seu sumiço. Sendo apenas oito da noite. Continua no emprego e foi aumentada no ordenado. Você acertou em nos deixar de lado. São uns patetas. —Siga o meu exemplo. Resolvi dar um sentido mais esportivo à vida. vou aproveitar as forças que me restam. Já não há Pereirinhas. —Mas essa vida. doutor (o Almirante tem a mania de chamar-me doutor). brigam. Brigam. o par já maduro. Silviano pensava desesperar-me. Redelvim queria tornar-me revolucionária. seu Belmiro. o patife?). Não têm culpa de ter sido este encontro retardado pela vida. Fica falando bobagens com seu Belmiro. não hão. O que faço é procurar viver. Barroso. de que o Jerônimo tem estado sempre com ele. sorridente. Lá cheguei à hora em que se retiravam o professor Barroso e D. assim. consultar a biblioteca. Descobri uma coisa chamada flerte. anedia como supus. belezinha! disse Barroso. E.. Aproveitaram o rápido encontro para me comunicar que estão noivos. Não o pus de lado. Arranjem outra. que leva agora. deixe essa mania de dramatizar. Saiu hoje apenas para ir à casa do Jerônimo. com suas loucuras (sabe que tentou conquistar-me. mas cada vez andam mais juntos. com malícia. resolvi aproveitar a quebra do meu compromisso íntimo (o de não procurar ninguém). isso é verdade. e eu era uma idiota.. que se afastava: —Nasceram um para o outro.. Informou-me. . —E você? Isso é mais importante. e carregue os problemas da turma. Este velho anda meio caduco. Glicério não passa de um convencido.. É o que faço no momento. O velho Sobral é bom chefe e amigo. Belmiro. meu velho? A acolhida me animou um pouco. falou. não. —Caduco por sua causa. complicando tudo. virando-se para mim: —Afinal. satisfaz? —E a sua satisfaz? —Bem. Anita. —Não dramatize. Jandira olhou. que vá na parola. com um sorriso perverso. Não repare.

Dentro em pouco. continuou.. Insistiu em que não se tratava do sentimento capitalista denominado amor. embora não lhe interessasse reproduzir a espécie. antes de partir e logo que saiu da prisão. o Azevedo Leão. Ultimamente. Aconteceu que eu me achava num momento de dúvida e de fraqueza. voltava. Perguntei-lhe se estava possuído de um sentimento burguês chamado ciúme. de modo algum. Queria que fôssemos morar juntos. Ótimo! Imagine se eu iria casar com aquele maluco! Agora me escreve cartas de dez. Vou buscar a carta.. aqui.E depois fez uma confidencia imprevista: Redelvim assediou-a também. o Silviano. .. à . Jandira me perguntou se acreditava na sinceridade daquelas palavras. Mudou muito. § 86. —O extraordinário seria que não me chamasse imbecil. na estacada! O idiota é capaz de ter pensado que fraqueei em minhas convicções. Bem que seria capaz de lhe propor casamento. —Imagine que coisa divertida.." Achei graça. É fabuloso! A princípio tive pena. nada devendo prender-nos. Quase me bateu. um casamento.. menos pessimista. que tolice! Alguém me quer? Quem poderia casarse comigo morreu há anos em Vila Caraíbas. propôs-me afinal. Diz isto apenas para posar.. estendendo-me uma folha de papel: —Trouxe apenas a parte em que se refere a você.. Em uma delas tachou você de imbecil. quando me veio ver. disse eu. surge-me. a propósito de que desencadeou sobre mim o seu furor? —A propósito de uma conversa que teve com você. afinal. o Barroso e a Anita a jogarem. diga-lhe que não se considere triunfante com as coisas que me ouviu. Li o trecho: "Quanto ao imbecil do Belmiro. doze páginas. desde que um dos dois não quisesse mais o outro.. Eu ainda não lhe falei que agora cuido de outras coisas.. Mas. Ora. da casa de Jandira. mas continua interessante. SILVIANO E SEU PLANO DECENAL. Vendo que eu não cedia. Regressei. deu para perseguir-me com propostas. Sugeria o concubinato puro e simples. Obedecia apenas ao instinto. Dizia que não havia de casarse como um burguês. Respondi-lhe que sim. de ódio. dando uma gargalhada. Quer que eu admire seu fervor revolucionário. e encontrou. O resto são declarações amorosas. E sempre desejável. Aborreceu-se. com todos os efes e erres. DEPOIS de prolongada ausência. depois da prisão. Ia sair. Continuo onde estava. —Pois você se engana. mas depois fiquei irritada.

Fá-lo-ei em Memorabilia. com estrépito. Não o Velho. intenta escrever a sua vida —De vita própria. Eu pretendia evitar o desastre. Conta coisas mui secretas. com solenidade. como desejaria. intranqüilo. falou. —Joana me disse que você esteve lá. embora passageira.) Levantou-se e. resolvi escrever a minha vida. não cabendo dentro das pastas. —Não sejas impetuoso. adoecido e passado longos anos em uso de comidas leves. —Há dois meses. Eis o fruto delas! E indicou. que mantinham. o Retórico. quando Silviano. com o braço estendido. de modo catastrófico. havendo. folhas de papel que. sempre com os olhos nas pastas. para alívio meu. no herói o sentido de Vênus. Sentei-me. ainda. Primeiro. sobraçando duas pastas de cartolina. com energia. aos quarenta anos. todo o texto em latim. Tenho um Diário. Assentou-se de novo e. porém. começa a ter a intuição do problema. mas o autor de De constantia sapientia e De tranquillitate animi. o precário equilíbrio. então. Capítulo Evolutio Veneris. disse-me. (Sempre que me repreende. o . como lhes era possível. isto é. pondo as mãos sobre os meus pulsos. que remonta aos longes de minha infância. Estive recolhido em graves lucubrações. impediu-me. presumivelmente preciosa.sua procura. —Larga! Não vês que me vais tumultuar as notas? Conversemos. declarou. de tocar nos papéis. Não me sendo possível escrever. com a perspectiva de um desabamento. tentando arranjá-las a jeito. logo empós. Acossado por grandes aperturas financeiras. e nele encontro material abundantíssimo.. apenas os títulos dos capítulos e o da obra serão no idioma de meu dileto Sêneca. —Magnífico! Sempre achei que você deveria fazer isso. em forma de memórias.. primeiro. lhe advém a preocupação com os alimentos e escreve o capítulo De usu ciborum. quando ele me bate à porta. já ao dealbar dos trinta anos. sem maiores cumprimentos. passa a tratar-me na segunda pessoa. que compreende a espécie amor. lançando sobre a mesa. alude ao morbo sagrado (capítulo Sacer morbus). Porfírio. como que referindo-se a outra pessoa. no qual o homem. no capítulo Cogitationes privatae. ameaçavam despejar-se pela mesa e pelo chão. foi-me expondo o plano da obra: —Silviano. "Eis que. trata da sua infância e adolescência. folheando as notas escritas em papel grosso e com tinta roxa. retirou de sobre a mesa as pastas que ali se mantinham em duvidoso equilíbrio e me assustavam. Inútil dizer que todos os psicólogos modernos consideram o amor uma doença. Sofreia os teus ímpetos! Nada viste. Depois de uma pausa respiratória continuou: —Evolui. a seu lado. a carga.

Convinha precaver-se contra alguma imitação involuntária. encontra. "Aos trinta e cinco anos. então.. preparando o capítulo-mestre. sempre existiu no herói. de sol a sol. Porventura isso interessa? Pouco importa que o . Já vem você com nugas. Antístenes e Aristipo de Cirene. que. continuou. Eis que Silviano. o majestoso pórtico. pretende libertar-se da tristura de fera em jaula. Transpõe. versou os bons autores e se afez ao vinho capitoso da filosofia. vem-lhe grande onda de cepticismo. Je prends mon bien ou je le trouve. "A Libido sciendi.. farto de prazeres ilusórios. da vaidade de toda ciência (De vanitate scientiarum) e apreende a sutileza das coisas (De subtilitate rerum). O herói ataca. que é outro capítulo. e. o Amor. Bem achadas as suas epígrafes latinas. ao dealbar dos quarenta. No final. "Não se fazem esperar as conseqüências. Dentro de sua melancolia profunda. hedonistas e pirrônicos sobre ele se atiram. o aeternus hostis. o que pensa. gravemente. alcançando os domínios da verdadeira e perfeita filosofia (De vera et perfecta philosophia). porém. "Bendita a hora em que lhe veio tal intento! exclama. num supremo esforço. o herói atinge a via triumphalis da sabedoria e da libertação.. Euclides de Megara. cínicos. respondeu. desde os trinta e cinco anos. Eu me lembrava de ter visto. dialéticos. em alguma parte. terá de haver a suma dos capítulos. .. prosseguiu. confiava em que não lhe faltariam forças para atacar uma obra de tal porte. pôde. O herói continua a cultivar a ataraxia de Pirro e o cepticismo radical de Agesilau. coisa parecida.. Escreve. de novo. as grandes meditações sobre a Libido sentiendi. Nela encontrará a Grande Consolação (De Consolatione Philosophiae)." concluiu. sentia vontade de o ler. et pour cause matrimoniado. bem sua. então.pensador solitário cai em pessimismo e vê que pecuniae obediunt omnia— como diz o Eclesiastes—"ao dinheiro obedecem todas as coisas". Respondi que me parecia interessantíssimo o plano do livro. o capítulo máximo. desde já. e atravessada a crise política (Libido dominandi). suspirando profundamente.. —Diga-me. Aenesidemo. então.. agora. Estava comovido. o capítulo Ars semper gaudendi. de gozar "em" ou "com" todos os sentidos. desde verde. em grande retorno. —Respiguei aqui e ali. Surge. aí. esclareceu o amigo. isto é.. Donde o capítulo De omnibus dubitandum. Porfírio. subir a grande montanha! Dedicado ao labutar intelectual. forças para reagir e adota a filosofia lusa do "não te rales". Por ele norteado. Carneades e Sexto Empírico. a gana de sentir.. Conhece. com a soberba ênfase.

Aos cinqüenta. Só para delineá-lo gastei quase dois anos de estudo. talvez. E saiu apressadamente. Deu-me pesar que a conversa não durasse mais tempo. então. MOCIDADE. Enfim.. achome na força culminante do espírito. MANHÃ DE 28 DE FEVEREIRO. a jogos infantis e corriam e brincavam. carecia abrir-me com alguém. cheio de gente. Já lhe falei o que precisava e talvez tenha errado em ter falado. Sentado à sombra de uma gameleira. Mas Silviano se encoleriza com as menores observações que eu faça. É o defeito das obras escritas em tanto tempo. É um plano decenal.. inclusive do que seja vera et perfecta philosophia. Pensou que fosse coisa para já? Como é ignorante. um tanto desanimado com a minha mesquinharia. eram cruzados por dezenas de barcos. nem aos grandes doutores! disse. Na ilha próxima. fiquei a folhear o Hermann e Dorotéia.. Quanto às minhas meditações próprias. Voltei ao principal. Projeta-se uma coisa. Vai certamente reformar tudo. que dança diante de mim neste velho escritório. dizendo-lhe o que desejava ouvir: devia mesmo prosseguir no trabalho. —Não poderei exceder-me a mim próprio. em matéria de compreensão! Deverei concluí-lo aos cinqüenta.. Porfírio. entregavam-se. junto ao tripé de suas máquinas. ou que uma frase apanhada ao acaso me descortine grandes paisagens.Dei um passeio pelo parque em companhia de Carolino. Adolescentes.. Às vezes me parece que você não vai além do Abundâncio.. —Surge. respondeu. Ainda tenho os olhos cheios de sua luminosa mocidade. brilhantes de sol. que poderia alcançar grandes proporções. o bar do alemão. enquanto Carolino andava de bicicleta pelas alamedas. Fotógrafos se mantinham solícitos. Súbito.. Até logo. Cantar-lhes-ei baixinho estes versos de Molière: . enfadado. O plano era notável.. quando permaneço calado. à espera de clientes. um problema. Quanto tempo gastaria para fazer o livro? —Talvez uns dez anos. Do mesmo modo se porta. arrisquei-me a dizer. outro conceito da vida. todavia. e os lagos..evangelista João me tenha fornecido epígrafes para três capítulos. As notas que tomei até agora são a síntese do pensamento filosófico que veio até a nós. sai outra. em alegres pares. Não poderei exceder-me! Não me faça objeções idiotas. você já terá. moças e rapazes invadiram o jardim. Bem. tenho mais em que cuidar. § 87.

A SEÇÃO DO FOMENTO se tornou inabitável com a saída do Glicério. . são menores as possibilidades de qualquer realização. A estima que lhes dedico terá a natureza da que voto ao Giovanni ou ao Prudêncio Gouveia. pois é um terrível catequista. Seria interessante promover um encontro entre Jandira e Jerônimo. é certo. além disso. pois. apenas o tal arbusto da chapada? Jerônimo continua a enviar-me recados. mas se alimenta antes do silêncio que da conversação. Creio. Qui nous ôte le goût de ces doux passe-temps. le temps 1'éfface. de ha muito."Profitez du printemps de vos beaux ans... imaginando que mal lhes noto a presença. Talvez tenham mágoa de mim. imutável. E. Mas Jerônimo insistirá. respeitando a hierarquia burocrática. Havia de ser uma coisa épica: há dois anos atrás se conheceram. mesmo. nada menos. para ter mais esta presa. para diante. que os camaradas me olham com alguma reserva." § 88. que um presente de grego. e isso é grave para uma pessoa que foge de conversar consigo mesma. Dir-lhe-ei que terá nada mais. e passaram a repelir-se imediatamente. UM DIA COMO OS OUTROS. . uma fisionomia definida. . conversaram um pouco. Percebo o cerco: adivinha minhas fraquezas e faz-me uma ofensiva em regra. supondo-me alheio a tudo. Mas Carolino se conserva distante.La beauté passe. tentando novamente catequizar Jandira. grandes abismos entre nós. Profitez du printemps. Que poderia encontrar de novo nestes velhos companheiros? Todos adquiriram. no seu rebanho de almas. . Resta-me Carolino. que não se renova." ". Pressentem. Grande presa. Já não tenho com quem conversar. com quem conversar. aimable jeunesse. Talvez conseguisse mais. pelo Silviano. É constante. . como duas forças opostas. Já não tenho. porventura. durante as horas de expediente. Serei. Vage de glace vient à sa place. Volto a preocupar-me com a velha questão: que vim fazer neste mundo? Até agora nada realizei.

no local do costume. na história de Parabosco & Ferrabosco Ltda. na Praça Sete. Terão. comovidamente. com os olhos carregados de imagens e o espírito cheio de . sentada a uma mesa do bar. Que pena Glicério estar ausente. da velha Maia e de Francisquinha devem rondar. mais que em redor de mim. . Mas. se algum dia eu seguir as águas deste. Já não é donzela. Já não é donzela. paremos por aqui. nem Arabela. Eu e Silviano poderíamos escrever uma novela de parceria. Misturaremos as nossas dúvidas e tatearemos na grande confusão. Soou a campainha. oferecerei um sorvete ao Jorginho e contar-lhe-ei histórias do Gigante Brasilião. se algum dia encontrar no Parque essas crianças e se a ama for pessoa de boa cara. O marido pode não achar graça nessas coisas e minhas costelas já não agüentam pancada. Mas. O chope é uma solução. Entretanto. O Florêncio nos espera. NHÔ BORBA me apareceu. Havia muito que não me falava em Nhô Borba. De que pensamentos se alimentaria senão destes? Os vultos do velho Borba. Certamente já construíram. que é isso? Estou arranjando todo um enredo. há de pensar sempre nos velhos.Surge-me uma indagação: atingirei o Jerônimo. § 89. Por falar nisso. o prudente é não falar em mulheres dos outros. . mandando encerrar o expediente. como o Silviano. os tempos de Arabela. consegui vencer mais este dia morno da Seção do Fomento. com saudade. Passarei. Sim. É a senhora Jorge de Figueiredo. com certeza. por via do Silviano. pelo menos por algumas horas. . como a que vi outro dia. as mãos pelos cabelos de Carmelinha ou de Jorginho. Está bem. nem Arabela. à hora do almoço. o grande prédio. proseando com o Fritz na sua língua arrevesada. disse Emília. Ando em fugas freqüentes. em torno dela. de bota e esporas pedindo café e falando que a Chica está no meio dos anjos. que bem poderia ser do velho amanuense. Apanhemos o chapéu e apressemo-nos. ao servir-me o prato. NHÔ BORBA. amigos. uma gorda ama alemã. mesmo de modo platônico. Imagino essa prole. para o chope do costume. enquanto as crianças tomavam sorvete. Onde andarão? Em Ostende ou em Biarritz? Estejam onde estiverem desejo-lhes felicidades e prole. . se não houvesse o plano da Memorabilia. Poderíamos recordar. ou o Silviano se perderá comigo no seu mare magnum? A última hipótese é a mais provável. vou perguntar-lhe se a história acabou ou continua.

Como avulta. FIQUEI outros quinze dias sem mexer nestes cadernos. —Venha comigo. Lembra-me o desgosto que se estampava em sua fisionomia. A velha Maia tinha. § 90. Coitado do velho. LAGOA SANTA. Pouco ou quase nada fala. ou conte um sonho. como se fosse eu o interessado no chope. pois a vida se torna vazia. o velho não pôde ver que a ignorância é meia felicidade. Mandou arreiá a besta e dis-qui-ia na roça do Corr-go. vivendo dias que se passaram há vinte ou trinta anos. como fez hoje. sua amiga Josefa lavadeira. A seu lado. —Nhô Borba não falou mais nada? perguntei-lhe. enquanto eu . mas deve amar-me bastante. e no carnaval não havia a desculpa dos negócios. a alma simples de Emília não encontra. chama-me "excomungado". vazia. Belmiro. Foram criadas como bicho-do-mato. de resto. Florêncio não foi por gosto. Chamo. à Zefa ou ao Carolino. É raro que me comunique uma opinião. Como isso doía ao Borba. No seu desgosto. Houve outro carnaval: passei-o em Lagoa Santa. também. Levou roupa de banho e passava quase o dia todo na lagoa. para fugir das recordações e não ser tentado pela Avenida. mas. a que se aplicar. espírito mais conformado. nesta casa. resignava-se. e há de estar permanentemente embebida nessa atmosfera caraibana. A gota ciática muitas vezes a prende ao leito. porém. e a pele encardida mal cobre os ossos. que lá permaneceram depois do 13 de Maio. grande tristeza. bem velha. quando Emília ou Francisquinha (antes de se agravar a perturbação desta última) falavam errado em sua presença. Contudo. disse-me. então. Dirige-se a mim por monossílabos. impedindo-a de ir à cozinha. Creio que já não tenho mais nada para escrever. —Falou não.preocupações. como o faz. a figura de Emília! Está velha. Mariana impôs: ela e os meninos precisavam tomar um pouco de ar. Lá não há chope fresco. sinto-me quase uma criança. mas há boa cerveja. que a substitui como pode. para fazer dormir. é a figura dominadora da casa. que sonhava mandá-las estudar em Diamantina! Vivendo só na fazenda e em meio de antigas escravas. em companhia do Florêncio. Que pensará de mim? Às vezes ralha comigo. como no tempo em que ela me punha ao colo. É uma figura dominadora: para ela se transferiu a força do velho Borba. Emília e Francisquinha aprenderam com elas o pouco que sabiam do mundo e da língua.

com a chegada de uns rapazes. mais adequado à sua situação de bacharel. (Amabilidades: estou certo de que não virá. Quanto a Jandira. Perguntou-me gentilmente pela Emília e prometeu uma visita à Rua Erê. à sua custa.. O amigo Carolino. andou a meditar na Serra do Cipó. § 91. Foi preciso energia para resistir.. exibindo este corpo magro e desconforme para a sociedade que deixou Belo Horizonte e foi brilhar na Lagoa. este lhe cancele o diploma de clerc. no balcão do botequim. suas palavras me indicavam que havia. Havia três ou quatro moças bonitas. disse. não sei em que se ocupou.. com quem o Florêncio travou logo relações. amigo Florêncio. talvez. receando. —O direito é árido. durante minha ausência de três dias. chegada essa notícia ao Silviano. as moças o abandonaram.. travou relações definitivas com Giovanni e Prudêncio. E de Redelvim não há notícias. —Mas isto não quer dizer que eu me afaste da roda. perde-se a coragem de mergulhar nos tratados. e adotaram os novos companheiros. Por falar em Silviano. quando não está comigo. Apenas provisoriamente (enquanto tomo gosto pelos arrazoados) farei abstinência. Belmiro. . é o melhor. Certa manhã. e Silviano é quem está certo. baniu a literatura de suas cogitações. a mil e tantos metros de altitude. ou à noite. aproveitando-se de um pequeno resfriado que reteve Mariana no hotel. trouxe-me um calção e queria por força que eu o acompanhasse. Felicitei-o. Glicério deve ter ido aos bailes dos clubes elegantes.. durante o carnaval. Lendo-se qualquer coisa mais atraente.lia meia dúzia de livros que carreguei comigo. afinal. compulsória (estou convencido de que essa renúncia não é virtuosa. Imaginem que figura faria eu. mas compulsória). ESTÃO DE VOLTA. sem a menor consideração. depois. que. A verdade é que já passamos. soube que. Está muito satisfeito com o novo emprego. Não gostou muito da minha precipitação.) A conselho de um dos companheiros. Que permaneça na fazenda. pois. Ou com eles joga escopa. que me fez a esmola de ficar aqui em casa com a Emília. fazer este sacrifício. Quis apresentar-me: pedi-lhe que não o fizesse. na Praça da Liberdade. na sua renúncia. De manhã. dá prosas intermináveis com os dois.. pois amarguei bem meu retorno às donzelas. Diverti-me. Vou. RÁPIDO encontro com Glicério. encontrado um rumo.

Assustado.. Para que me . Mas. fanhoso.. seguida de um chiado forte. deu-me esta informação: —Sabe que a Carmélia e o Jorge vêm por aí? Deveriam chegar ontem ao Rio. ou. Lá se foram com seu namoro de lua-de-mel... mas bem poderiam ter dito qualquer palavra amável. fingindo-me preocupado com a água de enxurro com que o carro me salpicou. quando já não havia perigo. Na verdade. Era um carro grande de ricos. fui contando nos dedos. Já se foram os dois meses. Haverá. que tenho com isso? Já me haveria desinteressado do assunto. Ao descer a Avenida João Pinheiro. recebi apenas salpicos. Estão certamente hospedados na mesma casa da dama-da-noite. AGRADEÇO-VOS OS SALPICOS. Uma chuva inesperada me havia retido quase uma hora no. caramanchão do bar e. Já próximo do portão que dá para a Avenida.Ao despedir-se. pôde despertar-me. ou é fita da velha? Glicério disse há tempos que ela tem medo à morte como o diabo à cruz. se esse demônio do Glicério não ficasse a cutucá-lo. cessada ela. pelo menos. Para que me conta essas coisas? § 92. Eram Carmélia e Jorge. Não se demorariam no Rio. Parece que a viúva não anda muito bem e pediu que voltassem. por minha conta. doença. O que eu sabia é que ficariam dois meses por lá. e Glicério não saiba. que nem me pediram desculpas. deveriam ter vindo de zepelim. Ouvi risos por detrás do pára-brisa.. e ali irão morar. como sempre tenho feito ultimamente. EU ANDAVA pelo Parque. quase fui apanhado por um carro. Os sons musicais que ainda ouvia não me deixaram perceber o ruído do motor. Tanto se achavam enlevados um com o outro. dei ridículo salto para um lado. e trazia placa de Berlim. fiquei a passar as mãos pela roupa. —Não. O carro se pôs de novo em movimento e seguiu rápido. pois o carro parará. mesmo. ali fiquei mais algum tempo. Depois saí às pressas. havendo doença. Já não é donzela nem Arabela. de freios pisados com violência. tendo verificado que se aproximava a hora do expediente da Seção. e a doença da viúva não prejudicou o programa. e só a buzina. Se a doença é grave. para ouvir uns restos de opereta que o alto-falante. Muito confuso. que vinha veloz.. boato de doença. Já completaram os dois meses? —Não sei. espalhava no ar molhado. Terão voltado pelo mesmo navio. o Oceania? Ou embarcariam no Cap Arcona? Talvez já tenham chegado.

cantarolava o poeta sem nome: "Pirulito que bate. Quem gosta de mim é ela. bate. humildemente. mas posto em mim deixa de o ser. Três passageiros que iam. são os remos ou são as ondas o que dirige o meu barco? —Eu tenho as mãos cansadas e o barco voa dentro da noite.aparecem? Por que exatamente a mim? Secretas intenções do acaso. braços erguidos. pus-me a lembrar do sonho que tive. colocando-se em torno de mim. MUNDO. eu vos agradeço. silenciosos. O primeiro disse: sou o poeta irônico.. cresciam. Pirulito que já bateu. em poltronas da frente. MUNDO. os salpicos. não seria uma solução. Bocejando." E. que soprava um grande trombone. o poeta místico indagava: —"Senhor." Depois. a certo momento. Quem gosta dela sou eu. Eu fazia longa viagem. Já eram dez horas. cantavam a una voce: "Mundo mundo vasto mundo. braços dados." Com os olhos postos no céu. falou o poeta irônico: "Mundo mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo seria uma rima. volteando em redor de mim e acompanhados pelo chefe de trem.. acordei assustado. e o calor e o cansaço me derreavam. § 93. QUANDO Emília bateu à porta do meu quarto. O segundo disse: sou o poeta místico. saltitando. As coisas se tornavam confusas e os botões dourados da blusa azul do chefe de trem cresciam. Passando-me a mão pelos cabelos. como a querer invadir todo o espaço. se levantaram. e que dirão literário. mais vasto é meu coração. O terceiro disse: sou o poeta sem nome." .

porém. sim.§ 94. os Borbas vão até aos setenta. fazer qualquer coisa.. de Porfírio. de Firmino e de Baldomero. Sangrou rudemente o almoxarifado da Seção do Fomento. para empurrar os presumíveis trinta e dois anos que me restam. e parece-me. Ai de mim! É necessário. Quando um tombava. Esqueceu-me dizerlhe que a vida parou e nada há mais por escrever. ainda pediam mais dez. entretanto. nem de boiões de tinta. Acho-me pouco além do meio da estrada. . vendo o corpo consumir-se lentamente. Viviam com plenitude os velhos Borbas da linha-tronco. —Que faremos. nem de penas. Dois deles. TENDO verificado que se esgotara minha provisão de papel. Carolino amigo? . Negação de Belarmino. Trinta e dois anos. . Não morriam aos poucos. que cheguei ao fim. parecia queda de gameleira ferida pelo raio. Previdente e providente amigo! Esqueceu-me comunicar-lhe que já não preciso de papel. Em média. chegados aos oitenta. ÚLTIMA PÁGINA. mesmo com o coração descompensado. Viviam a vida. Carolino me trouxe esta manhã uma porção de blocos..

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