CYRO DOS ANJOS O AMANUENSE BELMIRO
romance
7.a edição Nota biobibliográfica Prefácio de Antônio Cândido

LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITORA
RIO DE JANEIRO—1971

Anjos, Cyro dos, 1906 O Amanuense Belmiro, romance- Prefácio de Antônio Cândido. 7.a ed., Rio de Janeiro, Editora José Olympio, 1971. Publicado em convênio com o Instituto Nacional do Livro —MEC.

OBRAS DO AUTOR : O Amanuense Belmiro—Romance—1.ª edição, Editora "Os Amigos do Livro", Belo Horizonte, 1937; 2.", Livraria José Olympio Editora, Rio, 1938; 3.ª, Saraiva S/A.. São Paulo, 1949; 4.º, "Livros do Brasil", Lisboa, 1955; 5.ª. revista (com a 3.ª de Abdias), Livraria José Olympio Editora, Rio, 1957; 6. a, na Coleção Sagarana, Livraria José Olympio Editora, Rio, 1966. NO ESTRANGEIRO: El Amanuense Belmiro — Tezontle, México, 1954. Carnevale a Belo Horizonte — Fratelli Bocca Editori, Milão, Itália. 1954. Abdias — Romance — Livraria José Olympio Editora, Rio, 1945; 2." edição. Saraiva S/A., São Paulo, 1956; 3.\ revista (com a 5.» de O Amanuense Belmiro), Livraria José Olympio Editora, Rio, 1957. Explorações no Tempo — Crônicas (passou a integrar volume de memórias). — Ministério da Educação, Serviço de Documentação, 1952. A Criação Literária — Ensaio—Edição da Revista Filosófica, Coimbra, Portugal, 1954; 2.' edição, Ministério da Educação. Serviço de Documentação, 1956: 3.", Livraria Progresso Editora. Bahia, 1959. Montanha — Romance — 1." edição, Rio de Janeiro, 1956; 2.ª, 1956, ambas da Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro. O Amanuense Belmiro—Abdias—reunidos em um só volume, 1.ª edição, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro. 1957. Explorações no Tempo—Memórias. Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1963. Poemas Coronários—Edições de Arte, Universidade de Brasília, 1964.

O AMANUENSE BELMIRO .

Minas Gerais. deixando ver a influência política da primeira campanha de Rui Barbosa. as crônicas que foram o germe de O Amanuense Belmiro.Em 1931 Cyro dos Anjos já era oficial de gabinete da Secretaria de Finanças de Minas Gerais. Diretor . Diário da Manhã (1929). Cyro dos Anjos trabalhou nos jornais Diário da Tarde (1927). de quem seu pai era ardoroso partidário. Aos 10. com escritores e temas contemporâneos. Dona Carlota. tinha de fazer acidentada viagem de mais de 30 dias. Oficial de gabinete do Governo de Minas (1935-1938). para alcançar Montes Claros. publicou sob o pseudônimo de Belmiro Borba. cargo que marcou o início de uma carreira pública onde sempre ocupou funções de destaque. 13. como redator de A Tribuna. Iniciando os estudos médios na Escola Normal de Montes Claros. já o futuro romancista deixava entrever visíveis inclinações literárias. voltando à imprensa e ao serviço público em Belo Horizonte. fazendeiro e professor. em cuja pequena biblioteca descobriu (aos 15 anos) Machado de Assis. em carro de bois. rabiscando um jornalzinho manuscrito intitulado Horas Vagas. Eça de Queiroz. estimulado por um amigo da família dono de tipografia. ainda mais. ouvidos ao piano numa época em que um Pleyel.latim tradicional entre mineiros e. gostava de música e na casa sertaneja não faltavam os acordes de Bach e Beethoven. O patriarca da família. Fialho e Camilo Castelo Branco. Malograda tentativa de advocacia na cidade natal fez com que desistisse da profissão. a 5 de outubro de 1906. Em 1933.° entre os quatorze filhos do casal Antônio dos Anjos e Carlota Versiani dos Anjos. por sua vez. Aos 8 anos. onde concluiu o curso secundário e o de Direito. nasceu em Montes Claros.NOTA DA EDITORA DADOS BIOBIBLIOGRÁFICOS DO AUTOR CYRO VERSIANI DOS ANJOS. Diário do Comércio (1929). entretendo-se com o. Dedicando-se ao jornalismo. a fim de prover o próprio sustento. não estava ausente do gosto pela arte e pela literatura. e Diário de Minas (1930). amava a leitura e o debate de idéias. Cyro dos Anjos já editava um jornal chamado O Civilista. Alexandre Herculano. Reunido em torno da "mesa de pereiro branco". Cyro dos Anjos transferiu-se em 1924 para Belo Horizonte. bacharelando-se em 1932. malgrado o ambiente rural e as longas distâncias que o separavam dos mundos urbanos mais atingidos pelo progresso. o clã Versiani dos Anjos. revelador ao mesmo tempo do embrião de jornalista que se formava e da disciplina infantil a que se submetia na vida cotidiana e familiar.

ainda no mesmo gênero. apesar do sucesso conquistado. Cyro dos Anjos pertenceu ao grupo de escritores em que se destacavam Carlos Drummond de Andrade. ambas de 1954 no México e na Itália. em edição nossa. que exerce juntamente com os deveres de fiscal dos dinheiros públicos na capital do país. de cuja vida intelectual participa com intensidade. também romance. Montanha. muito bem recebido pela crítica. Márcia Antonieta. Subchefe do Gabinete Civil da Presidência da República (1957-1960) e. publicados pela Universidade de Brasília. com o romance O Amanuense Belmiro. saiu em 1945 e o terceiro. Zelita Costa dos Anjos. Diretor do IPASE (1946-1951). sucedendo a Manuel Bandeira. Emílio Moura e João Alphonsus. outubro de 1971. além de Newton Prates e Guilhermino César. o romancista tem seis filhos: Margarida. volume de memórias. Casado em 1932 com D. Mas o romancista Cyro dos Anjos. Martim Afonso. Professor de Estudos Brasileiros nas Universidades do México e Lisboa (1952-1955). publicando em 1954 (Coimbra. em 1956. em 1963. este radicado atualmente em Porto Alegre. Conselheiro do Tribunal de Contas de Brasília. Portugal) um estudo sobre A Criação Literária e. Abdias. ambos editados por esta Casa.° 24. finalmente. Cyro dos Anjos pertence à Academia Mineira de Letras e possui várias condecorações nacionais e uma de Portugal. os dois últimos já falecidos. data de 1963 e nele o ensaísta e romancista cede lugar ao poeta bissexto dos Poemas Coronários. Joaquim Carlos e Francisco de Assis. a que se acrescentam os títulos de fundador da Faculdade de Filosofia de Minas Gerais e da Universidade de Brasília. Antônio Joaquim. inclusive no exterior com as versões espanhola e italiana de O Amanuense Belmiro. cadeira n. Seu último trabalho. Seu segundo livro. Explorações no Tempo. por sinal. . revelou-se também ensaísta e memorialista. são as etapas que definem a carreira de Cyro dos Anjos no serviço público estadual e federal. Em 1969 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.da Imprensa Oficial de Minas (1938-1940). Estreando na literatura em 1937. sendo nesta última regente do curso Oficina Literária. Rio.

O Amanuense Belmiro é o livro de um burocrata lírico. com um som de coisa definitiva e necessária. Paulo. analisando-as. Venho da . menos na força impulsiva do talento que no domínio vagaroso. segundo o Sr. Os nossos autores. A impressão de acabamento. Guiando-se quase apenas pelo instinto. de realização quase perfeita. alargando-se em reflexões muito agudas e muito justas sobre a natureza da criação literária. escreve o seu diário e conta as suas histórias. de Proust. de equilíbrio.ESTRATÉGIA (Prefácio de Antônio Cândido) O Sr. escrever é. é a única maneira de suportar a volta às suas decepções. sem dúvida alguma. possuidor de uma visão pessoal das coisas. pois escrevendo-as. o amanuense estabelece um movimento de báscule entre a realidade e o sonho. ecos de Bergson. lentamente cristalizada no decorrer de longos anos de meditação e estudo. "Quem quiser fale mal da Literatura. numa palavra. Porque esse romance é o livro de um homem culto. me parece um dos maiores dentre os poucos estrategistas da literatura brasileira contemporânea. Confiam. Há mais de cinco anos publicou o seu único livro—O Amanuense Belmiro—uma obra-prima. dos meios técnicos. e da sua sensibilidade. se quiserem). pensando-as. Almeida Salles publicou certa vez em Planalto um dos rodapés mais inteligentes que têm aparecido na imprensa periódica de S. baseado em anos de meditação e de progressivo domínio. Ciro dos Anjos anda pela casa dos quarenta. Quanto a mim. de autores cuidadosamente lidos ou harmoniosamente incorporados ao patrimônio mental. de Amiel. no qual aplica à nossa literatura a distinção de Valéry entre escritores estrategistas e escritores táticos. dos recursos da sua arte — condição primeira para a plena expressão do seu pensamento. nem sempre produzido pelas obras dos nossos generosos táticos. Almeida Salles (ou Valéry. No seu subsolo circulam reminiscências várias de leitura. opõem-se deste modo aos do primeiro grupo. que. a primeira pessoa em que pensei foi o romancista mineiro Ciro dos Anjos. fortemente tolhido pelo excesso de vida interior. direi que devo a ela a minha salvação. Lendo o artigo. de segurança. que vêem na criação o afloramento definitivo de um largo trabalho anterior. evadir-se da vida. revelam o artista profundamente consciente das técnicas e dos meios do seu ofício. de fato. no primeiro movimento da inspiração. Por isso é que ele ressoa de modo tão diferente no nosso meio. isto é. Um homem sentimental e tolhido. pertencem quase na totalidade ao segundo grupo. para falar como o Sr. Segundo me contam. o composto pelos dotados de talento e habituados a construir segundo o influxo dele. Almeida Salles. mas seguro. Para ele.

Mas as forças vitais. esta. oferecem-lhe o presente sob aspectos enganosos. se fosse só isso.rua deprimido. como o do narrador do Temps Perdu." O amanuense é infeliz. solteirão nostálgico. e readquire o equilíbrio pela auto-analise. crê encerrado o seu ciclo e volta para dentro de si mesmo. haveria a possibilidade de um modus vivendi.. desmanchando a pureza daquele com a intromissão das imagens deste.. permanece como fatalidade. Chegou quase aos quarenta anos sem nada ter feito de apreciável na vida. escrevo dez linhas. à procura de fugitivas imagens do passado.. O amanuense ama. "[. e. uma noite de carnaval lhe traz a imagem de uma donzela gentil. É um homem poderoso. que espia para dentro. na sua casinha modesta e o seu ramerrão cotidiano. jogando-o como uma bola entre o passado e o presente. o homem supõe que encontrou a sua expressão definitiva e que sua própria substância já lhe basta para as combustões interiores. perturbando este com os arquétipos daquele. fazendo-o voltar para a vida. Sabe que não lhe adianta pensar em como as coisas seriam se não fossem o que são.." Belmiro. Sonha. Acontece. torno-me olímpico. De repente. é empurrado para o refúgio que lhe resta—o passado—uma vez que o presente lhe escapa das mãos ("[___] bem noto que vou entrando numa fase da vida em que o espírito abre vôo das suas conquistas e o homem procura a infância.") Ora. Não é difícil perceber o mal de Belmiro. recita com o poeta: . Se fosse possível viver integralmente no mundo recriado pela memória. que impelem o homem para a frente. porque dentro dele estão as doces cenas da adolescência. e o amanuense. que falhou como solução vital. sorri e diz: 'Ora bolas'. concluindo que "a verdade está na Rua Erê". não lhe permite uma existência atual. Para iludir-lhe o espírito vaidoso. a seu jeito. A sua desadaptação ao meio levou-o à solução intelectual. a fim de encontrar um pouco de calor e de vida.. estava tudo muito bem. com a imagem longínqua da namorada da infância. então.] depois de uma infância romântica e uma adolescência melancólica. Em verdade vos digo: quem escreve neste caderno não é o homem fraco que há pouco entrou no escritório. ela própria quase um mito—um mito como o da donzela Arabela. sedento e agitado. porém. nas quais o espírito se há de comprazer. Submeto se. numa comovente pesquisa das remotas origens do ser. se entrega ao presente: mas não o vive. O drama é que o presente se insinua no passado. isto é. quase normal. ainda estão ativas nele e realizam um sorrateiro trabalho. que a sensibilidade de Belmiro. lírico não realizado. que mal enxerga de quando em vez. carrega nas costas a enorme trouxa de um passado de que não pode se desprender. encarnando formas do passado. literato in erba. mas à sua maneira: identificando a moça de carne e osso.

e o analista. é o diálogo entre o lírico. além dessa. enorme. E a certa altura. ou.] já lhes contei o que se passa dentro de mim quando começo a meditar: perco-me num labirinto de antinomias. Esta alternância. no sentido próprio. sem a peia do passado. envolvendo uns e outros em piedosa ternura. na própria construção do estilo. Belmiro é o homem que chegou ao estado de paralisia por excesso de análise "[. foi da diferença radical que existe entre eles: enquanto Machado de Assis tinha uma visão que se poderia chamar dramática. dotado de humour. Conclusão típica de introvertido. Everything was tainted with myself". A um Belmiro patético que se expandiu. Belmiro é o contrário do homem forte de que fala Balzac. e dando-lhe um cunho muito especial. que o chama à ordem. que ele emprega também como um processo literário. 0 que é admirável.. Ciro dos Anjos possui. um maravilhoso sentido poético das coisas e dos homens. de homem que não lamenta. não seria uma solução.. insistindo-se sobre o que há de semelhante no estilo e no humorismo de ambos. Há uma circunstância. da vida. que cresce num impulso vegetal. de cena a cena. na atmosfera caraibana—contemplando a destruição das suas . que quer se abandonar." Isto significa que é um candidato ao cepticismo integral e à imobilidade através do relativismo. vasto mundo Mais vasto é o meu coração. como Lawrence: "I was so weary of the world. o amanuense a torna explícita: "Tais desnivelamentos é que compõem minha vida e lhe sustentam o equilíbrio. Sempre a tomar consciência plena das suas variações e dos seus aspecto:. Seria uma rima." "Mais vasto é o meu coração". Mundo mundo. no seu livro. encontramo-la de capítulo a capítulo."Mundo mundo. que restabelece o equilíbrio vital. porque a sua evasão consiste justamente em introjetar o mundo e banhá-lo todo nas próprias águas.. o homem que não se lembra. vasto mundo Se eu me chamasse Raimundo. múltiplos. porém. que o salva. porém. O que não se falou. ao contrário. e o lírico chamando-o à vida. I was so sick of it. o analista querendo dar aos fatos e aos sentimentos um valor quase de pura constatação. Falou-se muito em Machado de Assis a propósito de Ciro dos Anjos... que o liberta das redes do analista: o senso lírico da vida.

para definir certos estados de espírito. o seu núcleo significativo vai ser encontrado numa página do diário de Silviano. explorando metodicamente os seus complexos e cacoetes. os poderosos deste mundo só o deixam em paz . Há. e empresta ao seu romance uma qualidade de vida que é superior à de Machado de Assis. sobre o curso normal das relações humanas." Numa ordem mais geral de idéias. pode-se dizer que o amanuense é uma ilustração do gravíssimo problema dos efeitos da inteligência. através do seu poder de análise. nelas. Ciro dos Anjos nos leva a pensar no destino do intelectual na sociedade. que dá uma dignidade humana tão grande à poesia de Manuel Bandeira e de Carlos Drummond de Andrade." Se assim é. sofre ao perceber que "ali is tainted with myself". quando ele descobre que o passado que evoca não existe em si. Encarando assim o livro. O homem é um animal definidor. ainda que infinitesimal. que compensa o primeiro e o retifica. absorto nas donzelas Arabelas." Esta disposição excepcional. é o fundamento da arte de Ciro dos Anjos. Criando-lhe condições de vida mais ou menos abafantes. indiscretamente lida por Belmiro: "Problema:—O eterno. com efeito.—O amor (vida) estrangulado pelo conhecimento. ilusórias permanências de forma. leitor. o Fáustico. As coisas não estão no espaço. e considera tristemente: "Não voltarei a Vila Caraíbas. nas Vilas Caraíbas do passado. ajustando-o aos quadros cotidianos. O amanuense. o Belmiro egresso de Caraíbas se apalpa. que até aqui tem movido uma conspiração geral para belmirizá-lo. mas é uma criação da sua saudade e da sua imaginação deformadora. as coisas estão é no tempo. que escondem uma desagregação constante. mas ficamos satisfeitos. sociedade organizada. A atitude belmiriana resulta de uma aplicação do conhecimento aos atos da vida— entendendo-se neste caso por conhecimento a atitude mental que subordina a aceitação direta da vida a um processo prévio de reflexão. para confiná-lo nas esferas em que o seu pensamento. Chegado à sua toca da Rua Erê. por que escrever sobre um passado que realmente não existe e um presente que cede ante a ponta aguda da análise? Belmiro escreve porque precisa abrir uma janela na consciência a fim de se equilibrar na vida. E assim. o problema central da obra. o que não importa em ilusão quanto ao verdadeiro significado deste trabalho: "Grande coisa é encontrarmos um nome imponente. pela primeira vez." É este. se reajusta e assobia a fantasia do hino nacional de Gottschalk. na autocontemplação. Para conhecer este psicólogo lírico é preciso ler todo o admirável § 33 d'O Amanuense Belmiro. Não se resolve nada. não apresenta virulência alguma que possa pôr diretamente em xeque a ela.paisagens—sempre sucede um Belmiro sofisticado.

s/d.* * O estudo que se acaba de ler do grande crítico paulista foi reproduzido de seu livro Brigada Ligeira. Mas não é esta a impressão final que fica do livro de Ciro dos Anjos. até se identificarem com a nossa própria experiência. extraindo dos seus motivos individuais melodias ajustadas às necessidades da alma dos circunstantes. sentia suas mágoas igualmente choradas. por esta forma. São Paulo.quando ele se expande nos campos geralmente inofensivos da literatura personalista. sòlidamente mantido em paz pela magreza do seu ordenado de amanuense. Insinuam-se lentamente na sensibilidade. vibrantes. Belmiro fala de um tocador de sanfona da sua Vila Caraíbas. Não são livros que se imponham de fora para dentro. para a ficção mais ou menos frouxa com que o crítico tem não raro de se defrontar. o que é um deleitoso consolo. num admirável movimento de afinação. cheios de força. . [1945].. E assim é esse livro. da autoperfeição pela ascese intelectual. como são em geral os livros dos escritores de Minas.. Ou aquele Silviano cheio de seiva. como diria o Eça.] tocava apenas por amor à arte. uma vez que aceitou como valor eterno uma filosofia que lhe aconselha a blague. que é reduzido a não deixar transbordar senão a sua retórica. Esse traço da generosidade inconsciente dos grandes artistas se encontrava no sanfonista da Ladeira da Conceição". perfeito. quando vê aquele Belmiro tão inteligente e tão sensível. cuja releitura faço pela quinta ou sexta vez. da E. segundo os cânones). Coisas em que a gente se põe a matutar. ou quando entra reverente no seu séquito. e perfeitamente desfibrado pela prática cotidiana da introspecção (costume muito estimável. Livros que lidam com os problemas do homem num tom de tal modo penetrante que autor e leitor se identificam. Na página 27. editado pela Livraria Martins Editora.. que ali iam buscar expressão para sentimentos indefiníveis que os povoavam s só se traduziriam por frases musicais. N. O artista se revelava. ou talvez para chorar as mágoas. E chorava-as tão bem que cada um que o cercava. que "[. cômoda para os negócios públicos.

.. On s'y tromperait. je collabore avec ma propre vie.. Qu'on ne cherehe pás à savoir ee qui...." .." (GEORGES DUHAMEL—Remarques sur les Mémoires Imaginaires—Paris—Mercure de France—Sixième édition................. Et mes proches s'y tromperaient autant et plus que les autres..... dans cette fiction. est indubitablement moi...."Les Souvenirs que j'ai de ma vie réelle ne sont ni pius coloria ni plus vibrants que eeux de mes viés imaginaires..............) .. "Pour éerire 1'histoire d'un autre....

.A o s B o r b a s. desde Porfírio até Belarmino. da linha tronco.

então. MERRY CHRISTMAS! ALI pelo oitavo chope. E. Florêncio propôs. que não era bem a de nossa conversação. de melenas. a prestar atenção ao filósofo. Silviano olhou-o da cabeça aos pés. disse majestosamente. voltando-se para mim: —Você não sabe o que está dizendo. com requebros. Só pelo gosto de vê-lo dissertar. O proletariado negro se expandia. com um olhar malicioso. sorrindo dengosamente para os soldados do Regimento de Cavalaria. —Não discuto com menores. chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis. continuou. O que haveria é supressão da vida. sacrificando. em torno de pequena mesa de ferro. o nono. Florêncio pôs a mão sobre o ombro dele e disse maliciosamente: —Estamos ruinzinhos hoje. Imprudentemente apanhou a minha deixa e entrou em cena com entusiasmo. hein? A pequena deu o fora? . enquanto um cabra gordo. É a solução. Já que não se possui a vida com plenitude. a esta. como que atendendo a uma ordem interior de reflexões. voltando-me para este. fazia a vitrola funcionar. o melhor é renunciar. Sem perceber que eu apenas puxava a língua ao Silviano e supondo contar com o meu apoio. não haveria solução. em nosso cotidiano. dizendo que o católico destrói a vida pelo modo mais violento. e nosso amigo não lhe permite tais intimidades. mas. Glicério é novo na roda. objetei-lhe que. por que não havíamos de realizá-la para encontrar tranqüilidade? A grande estupidez é vivermos num conflito constante. como que a falar para si mesmo. Éramos quatro ou cinco. Sublimou-se nos doutores. outras dançavam maxixe com pretos reforçados. Satisfeito. —A solução é a conduta católica. —Hein? indaguei. Alegre véspera de Natal! As mulatas iam e vinham. de vez. fugir da vida. ainda que fosse uma supressão.§ 1. nesse caso. —A conduta católica! Isto é. no que ela tem de excitante. meio vago. afirmou o amigo Silviano. o jovem Glicério ousou enfrentá-lo. a preocupação da vida eterna. o alemão do bar se multiplicava em chopes. expedindo. no bar do Parque. comemorando o Natal. argumentando que esse talvez trouxesse uma solução geral. Redelvim convidou-me. No caramanchão. Introduz. garçons urgentes. para aqui e para ali.—Jerônimo anda mergulhado na teologia. aquela.

Depois. Não sabia que você andou por Paris. e minha atenção logo se desviou para outras coisas. O pior é que a mulher. desejando-me um largo "saúde e fraternidade". Mas o chope me faz versátil. Não me dirijo a primários. Jandira. Que elemento se introduzirá na essência das coisas para que tudo venha. entende? Não está fora de nós. que de tudo sabe. Silviano. pois apenas sorria. sem nada dizer. se arranham a fé conjugai. contou-me que o filósofo. tentando fazê-los amigos. no que fui aplaudido calorosamente por Florêncio. denunciando pressa de chegar a casa. Joana diz não ter tempo para se ocupar dele. irritado. Separamo-nos. já à beira dos quarenta. andou tendo ciúmes e fazia cenas. já meio alegre. e. Belo Horizonte! exclamou Redelvim. propus novo chope. —Em Paris? perguntou Florêncio. assim. Certamente sorriam. consultando o relógio. fincou pé e deliberou não tomar conhecimento desses descaminhos que... carregados de embrulhos. Silviano anda em crise aguda. quero dizer que o problema é puramente interior. —Não acho! retrucou Silviano. É boa! —Ó parvo. fui ruminando a tese do Silviano. apresentar uma face nova e desconhecida. raça teimosa e viril. A gente não tem para onde ir. Florêncio deu uma gargalhada e assentou-se de novo. —Cidade besta. Disfarçando o mau epílogo da festa. de suas sortidas. fácil. no portão do Parque. onde adivinhei variada matéria-prima para as comemorações domésticas do Natal! A humanidade se transfigura de súbito. Sem que percebêssemos. Sempre que se encontra com Silviano. Aqui escreverei que a razão estava com este último. as mulatas e os soldados tinham saído. no espaço! Florêncio.. quis retirar-se. A euforia que o chope traz! A vida se torna fácil.. e as sombras de um crepúsculo avermelhado desciam sobre as árvores. neste dia extraordinário. indignado. em vez de irritar-se. É uma sólida filha de fazendeiro. Já era hora de jantar e o Parque ia ficando vazio. Para serenar a roda. Todos os passageiros do bonde Calafate me sorriam. e para que . trava discussões acaloradas. Às voltas com os filhos. Em Paris é a mesma coisa.—Recolha-se. alimária! respondeu. Redelvim e Glicério também desataram a rir. Pois Jandira acrescentou que. alvitrei uma retirada em conjunto. levou as mãos ao ventre. Redelvim devia estar de bom humor. mais arranham ainda as veleidades do quarentão. a caminho de casa. retrocedeu aos vinte: está amando as moças em flor. o nosso Dom Juan traz mais baldões do que troféus. num riso convulsivo. Aproximei-os um dia. mas desde o primeiro encontro se repeliram. vive a ridicularizá-lo. A princípio. Como se mostravam ansiosos. rápidos.

onde costumam passar. as duas se entregam ao bilro segundo a tradição da casa. pois acha o marido erudito: "Sempre é uma vantagem. É chefe de Seção e pessoa muito conceituada. PARA surpreender as velhas. só fala inglês. e os pardais. Estava com Francisquinha no quarto grande. A realidade é a aparência. reduzir o efeito dessa concessão.todos os seres ganhem uma expressão especial. Dei o sinal. por essa forma. não acha. aludindo a "outras línguas". pelo melhor modo. Notei que. juntas. Fala dirigindo-se a si mesma. pouco importa. mas procura. que possui a alma humana. animada com esse princípio de conversa. e voltei-me para saudar o homem. Um Merry Christmas. suprime a presença minha ou da . anunciando minha chegada. nem interrompeu o complicado trabalho. talvez não desejasse que Francisquinha. toma ar aborrecido e chama-lhe antipático. Bom sujeito o Prudêncio. fez-me lembrar de que o próximo poste de parada era o da Rua Erê. Como de costume. O "EXCOMUNGADO". quase graciosa. e o que é—no fundo—não o é para nós. que me foi dito com uma palmadinha nas costas. lá dentro. até à hora de se deitar. e. no caso. fechou-se atrás de mim com estrépito. —Merry Christmas. É um hábito das rendeiras. A mulher. impelida pelo vento. mas a porta. entrei pé ante pé. estudou inglês. como quem está pensando em voz alta. A necessidade de falar a alguém. Mas. como cantam! Será o poder de criar e de transfigurar. mas Juliana lhe encarece as habilidades. pois estava com a fisionomia carregada. o fato deveria ter significação particular. Terminado o jantar e arrumada a cozinha." Na verdade. — O Excomungado já vem! resmungou Emília. de agitada felicidade? As árvores se fazem mais verdes. Deveria ser o Prudêncio Gouveia. Em moço. Prudêncio amigo! Merry Christmas! § 2. mas Emília dá-lhe essa ocupação para a ter quieta. ele tirará o seu proveito de saber outras línguas. na solidão da casa. obriga-a a conversar com a outra. vizinho de quarteirão. mas. ou haverá uma efetiva transformação no tecido íntimo das coisas? Afinal. seu Belmiro? Vem um dia. começasse a tagarelar. as horas em que a máquina doméstica tem seu funcionamento restrito a uma ou duas peças. como diz Silviano. fica vaidosa. Juliana Gouveia. Emília não levantou os olhos da almofada. por alguém que ia descer do bonde. Francisquinha não faz coisa que aproveite e apenas embaraça os fios. e seu único vício é cumprimentar-nos diariamente com um how do you do.

meninas! Trouxe aqui umas lembrancinhas de Papai Noel para vocês. neste particular. depois. ficar na companhia do tio Firmino. os cabelos grisalhos. Curioso pressentimento. fiquei a olhar os transeuntes. conforme preferem os nacionalistas. "Decididamente. e Francisquinha andava pelos trinta. viram que seria impossível dar-lhes educação condigna. que lhes pareci um estranho. Francisquinha deu uma risadinha feroz. na velha cadeira austríaca. assume um sentido trágico. irritada. olha o doido. Ainda me arranjará uma psitacose. Emília não tinha. com sua reduzida . pousando em mim os olhinhos brilhantes e fixos. Foi este o grande desgosto que ensombrou os dias do velho Borba e da velha Maia. DO ALPENDRE da casa. no comboio da Central! Vieram iludidas.mana. disse Emília. o de Emília: na sua meia-luz. que restabelece a atmosfera moral da fazenda. —Olha o doido. Desde cedo. então. entre o pessoal de serviço. O BORBA ERRADO. tão distantes de mim. bem que percebe em mim certa dissolução de espírito. Tanto tempo andei afastado delas. no bico do papagaio. uma presença vigorosa e viril. Emília é apenas uma esquisita. trocar o jaquetão pelo pijama. Não resisti ao desejo de provocá-las: —Boa noite. como bicho-do-mato. Tiveram de viver sempre na fazenda. Pobres manas. nesta casa. quando exclama "Excomungado! Excomungado!" Mas o epíteto. faz-me estremecer. No corredor. Tome pregou-me o susto de costume. § 3. A Rua Erê não é atrativa. E. mandando-as ao Colégio de Diamantina. encheram minha vida. Rio-me sempre. na verdade. Pus os pacotes na mesa e fui ao quarto. às vezes. recebi-as como herança. Quando o Borba morreu (a velha Maia partiu bem antes) e a fazenda foi à praça. Aprendeu a dizer. e Emília é. mas Francisquinha. Que custo trazê-las em viagem a cavalo e. as velhas estão bravas hoje". é só o que me falta. como as velhas: "Excomungado! Excomungado!" e arrepia-se todo ao ver-me. perturbada de nascença. Não lhes foi fácil habituarem-se à minha pessoa e modo de vida. ensaiando uma agressão. pensando que iam para São Paulo. lhe desperta. vai de mal a pior. Ou de Vovô Índio. Ainda assim. pensei. Encontrou na língua familiar de Vila Caraíbas a expressão própria para traduzir a inquietação que minha presença.

Tocavam a Varsoviana e eu me dissolvia (lá na Vila lhe chamavam Valsa Viana. agrimensor. diria. Sinto muito. na Vila." Mas dei em droga na fazenda e andei zanzando pela Vila. por lá. que sou um Borba errado. o poder de expansão. Uma dessas . Neguei as virtudes da estirpe. no curso. pelo menos.). o seu agrimensor formado. então. diante de mim. por outro. Como a minha mãe tivesse o secreto desejo de me ver na carreira das letras (dizia que eu saíra aos Maias e não aos Borbas). e. Talvez seja isso o que sempre me leva a passear o pensamento por outras ruas e por outros tempos. Belmiro!" Se Glicério tivesse conhecido os Borbas. Coitado do velho. Ficará nas letras agrícolas". Pus-me a andar na companhia de literatos e a sofrer imaginárias inquietações. num fim de ano.doutores demais.fauna humana. Sou um fruto chôcho do ramo vigoroso dos Borbas. Por fim. Queria fazer-me agrônomo. estão-me dizendo—ilustres sombras!) foi um crime gastar as vitaminas do tronco em serenatas e pagodes. remediado está. Até chegar ao Silviano e ao Redelvim. por um lado com a associação verbal que descobrira. do ponto de vista genealógico: como Borba. Onde estão em mim a força. grande. Meu consolo é que sou um grande amanuense. afinal. que teve seu brilho rural. Um burocrata! exclamava com desprezo. com suas lavouras à espera de cuidados moços. fali. houve cena pesada.. E a mesada paterna se consumia em livros que as necessidades sentimentais e espirituais do mancebo ardentemente reclamavam. acabou pensando num acordo. Quando. Como o Natal me fez saudosista! Eu fechava os olhos. com a nitidez de um acontecimento matinal. Coitado do velho. Em face do código da família (cinco avós. Abandonei. e a Ladeira da Conceição surgia. em vez disso. satisfeito. as letras agrícolas e entreguei-me a outra sorte de letras. Ou. pelo menos. e andava. Que diria o Glicério. Na fazenda. Lá estava a fazenda. a febre das divisões de terras. com o parcial deferimento às aspirações da velha. e eu sentia os olhos se umedecerem comovidos. percorri muitos caminhos. nada rendosas. com sua suficiência? Rirse-ia de mim: "Você é um homem errado. que. declarou que o que não tem remédio. Tive amores infelizes. avós. Vila Caraíbas não tinha. A garganta se me apertava. fiz sonetos. a vitalidade. Vila Caraíbas e seu cortejo de doces fantasmas. dos de minha raça? O pai tinha razão. porém. Eu não podia ouvir uma sanfona. "Se o menino não se ajeitava na fazenda. Coitado do velho. ainda. metido em serenatas e noutras relaxações. o pai veio a Belo Horizonte e verificou o logro.. não se distanciasse dela —poderia tirar uma carta de agrônomo. poderosa como um estabelecimento público. "Temos . Era contra os princípios paternos o bacharelato em qualquer ramo de ciências ou letras. Precisamos é de braços para a lavoura. dizia ele. repetia.

esclarecendo que a exclamação foi do Hamlet. ao cabo de contas. e o espírito se embebia no torpor que afrouxara os nervos. lá ias... Borbas. pois.) do que dos currais e das roças. instintivamente. Natal! Fiquei até tarde no alpendre. depois. que aspira ao abandono. preparado para o repouso e já me aconchegava. JÁ ESTAVA palmilhando a terra vaga do sono. ganhava-me o corpo uma doce lassidão. vai correndo. Words. estavas mais próximo dos clássicos (lembro-me de tua predileção. Em que fora dar sua longa doutrinação. apenas impressões vagas. para trocar dois dedos de prosa com o provisionado Loiola. QUESTÃO DE OBSTETRÍCIA.. recolhi-me... pai Belarmino? Na verdade. e mais tarde um deputado me introduziu na burocracia. Bem me recordo de que.. na tua besta. quase a esvaecer. "Um burocrata. Voltou com uma grande dor no coração. Como esta vida vai correndo. Borba.. entre uma parte do eu.. rumo à Vila. nossa precária unidade psíquica. e a uma reminiscência tênue.. imagem da morte. repetindo. Confessa. tal como no poema: Stop. noutros tempos. e outra que contra ele reage. Não citavas o teu Vergílio. nas colunas da Gazeta Caraibense. Outras missas. para gravame de sua insuficiência mitral.. a rigor. a memória sustenta. em série.. arrancando-me daquele quebranto. nos abraçarmos. achava-me. data de ti a traição à gleba. De corpo e espírito. prestes a se apagarem..discussões em que nós. em propaganda da vida rural? Seus cinqüenta artigos. foi nele que começou o desvio da linhagem rural. como diria Prudêncio. segundo a luta surda que se trava em nós. reduzia-se esta lembrança permanente com que. sob a epígrafe geral de Rumo à Gleba? Mas. para trás. me vinham das coisas. Por qualquer pretexto. as posições do embrião no ventre materno. Words. o cão dos fundos . Com a saída dos vizinhos para a missa do galo. não funcionavas na fazenda. num desfecho melodramático. um burocrata!" lamentava nas suas cartas. A vida parou ou foi o automóvel? § 4. para. para frente. nos dizemos coisas duras. talvez pelo receio inconsciente que inspira o adormecer. um tanto tendenciosa. no estado de vigília. ligando o momento que passou ao momento presente. a cada instante. Um dia sentiremos uma sacudidela. quando. para o Horácio.

cego de raiva. zelosos que são do seu ofício. quando lhe faltam os verdadeiros. com um método que indicava disposição sólida de latir pela madrugada toda. já certo de que algo havia para justificar suas precauções. que passa como um relâmpago depois de a gente ter feito uma quixotada. procedi à maneira de Xerxes. sorri para dentro de mim mesmo. Mas não repeti o gesto. numa conspiração universal contra mim. atirei-o às tontas ao meio da rua. Ora. sacou da garrucha e desfechou dois tiros para o ar.. com ternura. que só os cachorros percebem. No dia em que uma chuva inesperada viera estragar o café posto a secar no terreiro. Saltei da cama." . Pequena pausa sobrevinda me deu a esperança de que o mastim houvesse mudado de intenção. em sua extensão. ele ficou possesso de raiva. indignado com a procela que lhe destruiu a frota. Em seguida. Subitamente. logo recomeçou ele a ladrar advertindo às possíveis sombras de que não se dormia naquele honrado canil. Tratando-se de mero latido de advertência. ou porque o guarda do quintal contíguo não identificasse o rumor produzido pela ave. ou porque ainda houvesse.se pôs a ladrar. que era tal qual. o cão não se apressava. e repreendi-me por já não ter ministrado uma "bola" ao canino demônio. daí a pouco. em quintal vizinho. Podia ser que chegasse logo à conclusão de que não havia motivo para maiores alarmas: fora o galo do outro quintal que. contendo o anúncio na garganta. Afinal. Lembrei-me do avô (o último Porfírio). caiu numa grande prostração e permaneceu casmurro o dia todo. Previ a catástrofe. nem latia mais alto ou mais baixo: o tom era terrivelmente um só e as pausas pareciam medidas em cronômetro.. isso apenas serviu de estímulo ao ladrante: ganhou alento e entusiasmo. num relance. já munido da primeira arma que a mão encontrou. sem ódio nem convicção. limitara-se ao bater de asas. Tudo se me escureceu em torno e pareceu-me que as sombras se agitavam. insopitável. quando. e. isso está no sangue. Satisfeita a fúria dos Borbas. embora o conhecimento da geografia do quarteirão me habilitasse para localizar o animal no lado oposto. esse ódio súbito. é alguma coisa que me ficou dos Borbas. de novo no leito. porventura verificando adiantamento no relógio. Como o avô Porfírio. e que era um sapato velho. que se contenta com arremessar qualquer objeto a esmo. no ar. batera as asas para anunciar o prelúdio do alvorecer e. tomou-me indizível fúria. por equívoco. Abrindo a janela. meus nervos se apaziguaram. mandou zurzir o mar. Esses repentes. Mas. um desses barulhos sutis. Fiquei satisfeito com o precedente ilustre que a memória me veio trazer e lembrei-me de umas palavras do excelente Montaigne: "A alma descarrega suas paixões sobre objetos falsos.

sou um amanuense complicado. abalada e comovida. porém. responsáveis por tanta literatura reles!) traz-me um desejo irreprimível de reencetar a tarefa cem vezes iniciada e outras tantas abandonada. Graças a ele. no mesmo quarto envelhecido desta patética Rua Erê. Sobre a cova brotou uma bananeira. enquanto as carrocinhas de pão começam a percorrer o Prado e meus amigos operários devem estar procurando o caminho da fábrica de calçados. meio cínico. ela responderia que era por estar grávida. comuniquei esse propósito. Meu desejo não é. Se estivesse de bom humor. vago leitor. Um."Parece que. havendo tantos. Enterrei-os no fundo do quintal. devemos sempre ter à mão um sapato velho para o serviço da alma. Amanhece o dia. mas de trinta e oito anos. um Belmiro (que costuma assobiar operetas) insinua que as epopéias de um amanuense encontram seu lugar justo é dentro da cesta. Minha vida parou. no terceiro capítulo." Com efeito. gestantes. no decurso dos dez últimos anos. do outro lado do quartel do Décimo. On revient toujours: hoje recomeça a mesma aventura. Este mesmo Belmiro sofisticado foi quem matou dois outros livros. perseguindo imagens fugitivas de um tempo que se foi. como se enterravam os anjinhos sem batismo. aqui estou calmo a escrever estas linhas. "Já não há tantos? Por que você quer escrever um livro. Ai de nós. sinto-me grávido. Jandira acredita que não foi reservado a mim deixar à posteridade qualquer importante mensagem. . e desde muito me volto para o passado. ao cabo. Reconciliei-me com o cão e com o livro. Posta de parte a modéstia. há tempos. não de nove meses. a quem. e a vida fecundou-me a seu modo. É plano antigo o de organizar apontamentos para umas memórias que não sei se publicarei algum dia. Não sei bem o que me sairá das entranhas. cuidar do presente: gostaria apenas de reviver o pequeno mundo caraibano. que hoje avulta a meus olhos. O melhor seria vivermos sem livros.' E isso é razão suficiente. cumpre fornecer-lhe sempre objeto em que possa aplicar-se e atuar. "Por que um livro?" foi a pergunta que me fez Jandira. Sim. meio lírico. se perde em si mesma se não lhe damos presa. fazendo-me conceber qualquer coisa que já me está mexendo no ventre e reclama autonomia no espaço. e outro na décima linha da segunda página. Comecei contando o Natal que acabou e falando nos amigos e na parentela. seu Belmiro?" Respondi-lhe que perguntasse a uma gestante por que razão iria dar à luz um mortal. em Vila Caraíbas. mas o homem não é dono do seu ventre. em que vai toda a história de mais um Natal que passa. e esta noite insone de Natal (as sinistras noites de insônia. Deve ter razão: se cá dentro deste peito celibatário tem havido coisas épicas.

e tocava apenas por amor à arte. dos seus motivos individuais. nelas buscando abrigo. ANO-BOM. O artista se revelava por esta forma perfeito. que minha vida. tão leve. intermináveis e sucessivos. Depois. Desci a Rua dos Guajajaras com a alma e os olhos na Ladeira da Conceição. lograva articular uma linguagem que nos servia a todos e que. mas bem percebi que os passos me levavam. mas para tempos mortos. e continuei a pé o caminho. que ali iam buscar expressão para sentimentos indefiníveis que os povoavam e só se traduziriam por frases musicais. perdi o rumo. não sei se ouvindo as suas valsas ou se ouvindo outras valsas que elas foram acordar na minha escassa memória musical. Foi só ouvir uma sanfona. se processa em arrancos e fugas. extraindo. que se confunde no tempo e no espaço. por onde. pus-me a pensar no permanente conflito que há em mim no domínio do tempo. na realidade. atento e presente. E chorava-as tão bem que cada um que o cercava sentia as suas mágoas igualmente choradas. Eu ia. nos falava de nossas saudades e de nossos amores. passava Camila. transportavanos.Procurando-o procurarei a mim próprio. em luta constante. tornando-se ficção. mera ficção. mergulho no passado e nele procuro uma compensação. § 5. Era precisamente por ali que estacionava outro sanfonista que não esmolava nem era cego. sem encontrar lugar no espaço?). a cada instante. não para o cotidiano. por igual. Esse traço da generosidade inconsciente dos grandes artistas se encontrava no sanfonista da Ladeira da Conceição. é comum. assim. num bando alegre. Fiquei rente do cego da sanfona. as secretas forças da vida trazem-me de novo à tona e encontram meios de entreter-me com as insignificâncias do cotidiano. perdi o bonde. na igreja do Rosário. Satisfazendo à necessidade de dar forma aos pensamentos imprecisos de suas saudades e de seus amores. Tais solicitações contrárias. em busca de um bonde e de Jandira. que estes se diluam e o espírito se desvie para outras paisagens. levam-me às vezes a tão subitâneas mudanças de plano. Pelo oposto. à atmosfera de alvoroçado bem-estar em que a gente mergulha . o cego mudou de esquina. e perdi Jandira. depois da missa das nove. ou talvez para chorar mágoas. quando o atual me reclama a energia ou o pensamento. DEPOIS de ter andado inquieto como uma galinha sem ninho (já viram como uma galinha desalojada cacareja aflita. melodias ajustadas às necessidades da alma dos circunstantes. O que hoje me sucedeu é bem um sinal dessa luta interior. Se. tão casta.

O sanfonista da Vila traduzia para mim as coisas complicadas de minha alma. O senhor. Mas. que encontrei na esquina. em capítulos de cozinha. também. que é uma ceia em casa do Florêncio. se envolva com elas. se este não me viesse buscar quase à meia-noite. Viva Florência. E desviou-me no tempo. O cego. em todo caso. no papel. Tem sido inútil meu trabalho em favor da moça. Mariana olha-a com reservas. mas a ceia sempre apetecível. a expressão—seja musical. alguns fragmentos de minha vida. e isso já foi muito fazer. Com esse jeitinho mesmo é que elas vão entrando. e o estilo é a mulher. E Jandira esteve ausente.quando encontra a definição de um sentimento e sua forma de expressão. Creio que anda de namoro com a filha do meu chefe de Seção... porque assim despertou dentro de mim esquecidas harmonias. bem se vê. que levam àquela serra muito azul e esquiva. Mariana desconfia das literatas (assim denomina todas as mulheres de idéias mais avançadas) e fecha a questão: "Pois sim. com aquele instinto infalível e feroz da boa matrona que quer conservar o seu homem para si. mas também o excita.. literária ou plástica — não só o alivia. QUE tenho eu com os dias que a folhinha assinala? Há." § 6. me lembrou o outro da ladeira de minha vila. Mariana põe nela todo o seu estilo culinário. da casa do amigo. Porventura chegou. à conclusão de que a vida é breve. Eis aí o segredo de Florêncio: por isso é que vive naquela bem-aventurança que todos lhe invejamos. que é solteiro. e noto agora que apenas o faço em datas especiais. e cuida de tratar o irmão corpo com o bom vinho e a boa vianda.. A questão. CARNAVAL. O Ano-Bom chegaria sem que eu o celebrasse com o rito do costume. seu Florêncio? Já lhe disse que não quero saber dessas intimidades. Proporcionando ao espírito válvulas por onde se evadem as emoções que o comprimem. e a arte. o homem sem abismos. Encontro uma explicação plausível: . dois meses comecei a registrar. o que me pareceu de bom tato. não o fez com a mesma eficiência. A sombra de Camila me subtraiu à realidade de Jandira e reconduziu-me às estradas perdidas de Vila Caraíbas. Está certo. longa. mas. a Nonoca. não é o ano velho ou novo. Redelvim e Silviano compareceram. Glicério mandou desculpas: ia a um baile universitário.

o homem sofre. Em mim. seu movimento de translação. A multidão me revela. dançar ou destruir. e o amanuense põe a alma no papel. esmagadora. portanto. mais do que nunca senti de modo tão vivo a impossibilidade de me fundir na massa. por assim dizer. em vão. paralítico. que há coisas extraordinárias. na sua. entretido com eles. às fontes de onde se irradia e converte-se numa angústia comparável à que nos provém de uma ação frustrada. No seu bojo. Os dias de festa coletiva. numa força uniforme. chorar.interrompem o equilíbrio do meu pequeno mundo e nele vem produzir desnivelamentos que suscitam mais fundos movimentos interiores. realmente. No seu âmbito poucas são as imagens do presente. comunicar-me. A variação violenta dos quadros. não desperta novas reações. Tais seres e coisas pertencem. e muitas as do passado. tocamos seres cuja existência nos surpreende quase dolorosamente. Reflui. hoje começado.minha vida tem sido insignificante. e o braço cai. Quero rir. vou traçando quase que despercebidamente minha curva no tempo. Dir-se-ia que há em mim um processo de resfriamento periférico. e no seu currículo ordinário nem faz. numa noite de carnaval em que fomos abandonados pelos amigos e em que nossa porção de espaço foi invadida por outros seres. cantar. E se tal vida é melancólica. assim. vibrações estranhas. Eis que o amanuense é um esteta: ao passo que há nele um indivíduo . então. Os outros têm pernas e braços para transmitir seus movimentos interiores. introduzindo o elemento multidão na minha esfera e propondo-me novos espetáculos ou novas sugestões. de seguir. leva-nos a um mergulho mais profundo nos nossos abismos. mas ensaio um gesto. Habituei-me às coisas e seres que incidem no meu trajeto usual da Secretaria para o café e do café para a Rua Erê. Habituei-me a uma paisagem confinada e a um horizonte quase doméstico. Neste carnaval de 1935.. por onde se manifestam as puras e ingênuas emoções do ser. há um mundo diverso do meu e com o qual tentarei. uma vaga nervosa que quer acudir ao apelo que a multidão dirige a cada unidade. e. algo destrói sempre os caminhos.feição mais ou menos constante. afinal. trata-se de uma sorte de melancolia a que meu espírito se adaptou e que. tão certos estávamos de que nada havia no espaço além do nosso sistema. por onde eu a perceba. Sinto inutilmente. como célula passiva. de receber e transmitir essas forças misteriosas que nela atuam. e a agitação que me percorre não encontra meios de evadir-se. de onda ou ciclone. comunicando-se de indivíduo para indivíduo e resultando. ao meu sistema planetário. em mim. Novas melancolias são despertadas.

sua terceira noite. de colarinho alto e pince-nez. acompanhando a massa na sua liturgia pagã.sofrendo. que a radiola derrama no ar molhado. então. Procurava. àquela humanidade que me pareceu mais cansada que alegre. outro há que analisa e estiliza o sofrimento. Tanto fizeram que. Já ela estava repleta de carnavalescos. encadeados. crescendo em torno de mim. correndo atrás de choros. Imagino a figura que fiz. por momentos. a origem dessa carícia. me pus a entoar velha canção de Vila Caraíbas. dançavam. para outro lado. segundo hábito antigo. que vêm da carne. em rapaz. Um jacto de perfume me atingia às vezes. Uma gargalhada espantosa explodiu em torno de mim. sem perceber o disparate. que aproveitavam. Deram-me uma corrida e. ACONTECEU-ME ontem uma coisa realmente extraordinária. a um de fundo. e entoavam os coros que descem do Morro. entrei no salão de um clube. Lembra-me que homens e mulheres. Toadas tristes. Um máscara-de-macaco deu-me o braço e mandou-me cantar. Mas o homem espia o homem. que aquele jacto resvalara de outro rosto a que o destinara uma boneca holandesa. Novo cordão levou-me. com os olhos gratos. mãos postas nos quadris do que ia à frente. acabei presa de grande excitação. o atrativo do cordão. mas a onda humana vinha imensa. mas percebia. já agora. envolvido em que grupo. A DONZELA ARABELA. nesse vaivém. Dêem-me um jacto de éter perdido no espaço e construirei um reino. sem nenhuma análise. consumi a garganta em serenatas e que esta. Respondi-lhe que. Contudo. . pois os foliões se engraçaram comigo. desci para a Avenida. Entreguei-me. bebendo ali. quando inesperadamente me vi envolvido no fluxo de um cordão. como pude. § 7. não ajudava. do lado da Praça Sete. que a livrou dos braços de um marinheiro. entregar os sentidos à doce música da Bayadera. de blocos e cordões. por trás. porém. como podiam. depois de me terem atirado confete à boca. pela frente e pelos flancos. Não sei como. Pus-me a examinar colombinas fáceis. no meio daquela roda alegre. Os sambas eram tristes e homens pingavam suor. Mas a boneca holandesa foi arrastada por um príncipe russo. abandonaram-me ao meio da rua embriagado de éter. aquelas migalhas me consolavam e comoviam. Bebendo aqui. Talvez fosse preferível ingerir certo vinho capcioso e. desanimado. inexoravelmente. fui arrastado pelos acontecimentos. Não tendo conseguido conter-me em casa. e fui. Procurei desvencilhar-me. e.

um Belmiro patético e obscuro. Pareceu-me que descera até a mim a branca Arabela. a incorpórea e casta Arabela. Olhei ao lado: a dona da mão era uma branca e doce donzela. Seria uma fórmula para nos conciliarmos com o mundo. e que um anjo descera sobre mim. não deixes partir o cordão.. Há muito que ando em estado de entrega. o véu que cobre a face real das coisas e que foi. que morreu de amor e que na torre do castelo entoava doridas melodias. Também tenho uma vaga idéia de que alguém me apanhou do chão. numa comovente pesquisa das remotas origens do ser. Em meio dos corpos exaustos. Como estava bela! A música lasciva se tomou distante. já sol alto. em um momento impossível de localizar. segura na mão. Meu corpo se desfazia em harmonias. ou de qualquer outra perturbação. Entregar-se a gente às puras e melhores emoções. e o homem procura a infância. a mão me fugiu. Era ela. à margem do caminho. Jamais esquecerei: uma branca e fina mão. Pobre mito infantil! Nas noites longas da fazenda. para que as coisas se tornem indefinidas e possamos gerar nossos fantasmas. Parecia que eu me comunicava com Deus. Mas vivam os mitos.A certo momento. e meus olhos só percebiam a doce visão. descerrado por mão imprudente —parece-me a única estrada possível. alguém me enlaçou o braço. cautelosamente. e as vozes dos homens chegavam a mim.. fui dar acordo de mim. Nesta noite de quarta-feira de cinzas. Efeito da excitação de espírito em que me achava. desmesuradamente. Foi uma visão extraordinária." O braço que se lembrou do meu braço tinha uma branca e fina mão. a donzela do castelo que tem uma torre escura onde as andorinhas vão pousar. Arabela. que são o pão dos homens. cantando: "Segura. no tempo e no espaço. e alegre música de pássaros se produzira no ar. aqui e ali. meu bem. lentas e desconexas. chuvosa e reflexiva. renunciar aos rumos da inteligência e viver simplesmente pela sensibilidade—descendo de novo. em mim. O mito donzela Arabela tem enchido minha vida. Esse absurdo romantismo de Vila Caraíbas tem uma força que supera as zombadas do Belmiro sofisticado e faz crescer. converta-se em fraca luz de crepúsculo. senti-me fora do tempo e do espaço. contava-se a história da casta Arabela. . Onde houver claridade. Não me lembra quanto tempo durou o encantamento e só vagamente me recordo de que. e me pôs num canapé onde. bem noto que vou entrando numa fase da vida em que o espírito abre mão de suas conquistas. pisado e machucado.

oferecem-lhe o presente sob aspectos enganosos. ainda há pouco eu hesitava em confessá-lo: foi a moça. nas quais o espírito se há de comprazer. aromas ou cores que recordam coisas de uma época morta. sedento e agitado. Mas o primeiro. . armado por mim contra mim próprio. voltei. posso contar as coisas tal e qual se passaram. e que o passado apenas aparece aqui e ali. o presente se vai insinuando nestes apontamentos e em minha sensibilidade. Mas as forças vitais. Já que as seduções do atual me detêm e desviam. abandonei este caderno de apontamentos. Presumivelmente curado da moléstia. que impelem o homem para a frente. o homem supõe que encontrou sua expressão definitiva e que sua própria substância já lhe basta para as combustões interiores. Examinando-as. Vejo que. . o episódio do carnaval me parece um ardil engenhoso. . E estas páginas se tornarão. trazendo-me dias agitados. e já sem a desculpa do álcool e do éter. São dois. Foi hábil o embuste. durante as três últimas semanas.. Tudo se torna claro aos meus olhos: depois de uma infância romântica e de uma adolescência melancólica. Para iludir-lhe o espírito vaidoso. em evocações ligeiras. nesses domínios obscuros da consciência. e estas notas devem refletir meus sentimentos em toda a sua espontaneidade. ainda estão ativas nele e realizam um sorrateiro trabalho. encarnando formas pretéritas. não insistirei teimosamente na exumação dos tempos idos. à procura de fugitivas imagens do passado. fazendo-o voltar para a vida. Começarei por contar honestamente os motivos por que. se compromete meu plano de ir registrando lembranças de uma época longínqua e recompor o pequeno mundo de Vila Caraíbas. Depois da quarta-feira de cinzas veio-me uma aura romântica que me pôs meio lunático. a essa a que vou chamando Arabela. Como na noite de carnaval. já de início.§ 8. crê encerrado o seu ciclo e volta para dentro de si mesmo. tão sugestivo para um livro de memórias. então. sob disfarces cavilosos. contemporâneas. HÁ TRÊS ou quatro semanas não tenho tocado nestas notas (senão ligeiramente. embora isso exprima o malogro de um plano. suscitadas por sons. humanizando o "mito da donzela" na rapariga da noite de carnaval. O LUAR DE CARAÍBAS TUDO EXPLICA. Trazem-lhe uma nova imagem de Arabela.. hoje. e o espírito se deixa apanhar na armadilha.. . Analisado agora friamente. noto que. de novo. para acrescentar uma ou outra linha a esta ou àquela página. em conjunto. por lhe ignorar o nome de batismo e porque. Não farei violência a mim mesmo. e o segundo é fácil de dizer: foram as velhas.

bebi algumas vezes e andei como vagabundo pelas ruas. voltar a estas notas.afinal. Pus-me a procurá-la quase com aflição e." (Na verdade nunca tivemos serviço. Postava-me nos logradouros públicos. Podem rir-se de mim. Pelo contrário. não é capaz de se desdobrar ao ponto de permitir ao espírito. É extraordinário que nesta altura da vida me tenham acontecido tais coisas. e temos pouco serviço. penetrando a multidão. que ela nos proporciona.. o que lhe dei se me afigura o adequado.) Em tal estado de espírito. no instante em que devastam nossa sensibilidade. como se se tratasse de um ser real. os movimentos desse desvairado músculo. Muitas vezes entrevi uma figura gentil e fui. tudo já serenado. As modificações que a paixão determina em nossa substância e a diversa visão. Quis. confiei o episódio e minha desordem sentimental ao Silviano. aquilo que não passava de uma criação do espírito. ao seu encalço. Tive noites difíceis. quando o coração bate desordenadamente. sério. estudar. e a aventura de carnaval se foi dissipando no meu espírito. Observo agora que o namorado. percorrendo toda a cidade em busca de Arabela. Devo retificar. então. A vida não se conforma com o vazio. em vão. e o adolescente permanece no adulto.. Felizmente (e com certeza por solidariedade. no momento preciso de sua agitação sentimental. Naquelas horas. perdendo a noção do ridículo. O Secretário está fora. mas os namorados me compreenderão: amei. nesta página. alma e corpo se solidarizam. visto que anda em maré análoga). Até o chefe da Seção notou minha inquietude e fez-me assinar um requerimento de férias: "O senhor está precisando de repouso e deve aproveitar a ocasião. E ninguém o ignora: a literatura das emoções é feita a frio. ele não fez troça. quando. No momento da devastação. ao plano da nossa análise. é fácil de ver que eu não poderia retomar estas notas. e a imagem da moça encheume os dias. Eu pediria inutilmente o socorro do bom senso ou da análise nas horas em que vivi a perseguir uma imagem que teria um terço de realidade e dois de fábula. ouviu. que se . o espírito calcula e mede—mas certamente não são suscetíveis de registro. para fins literários. e contudo esperançoso. entreguei-me inteiramente aos secretos impulsos. mas o luar de Vila Caraíbas tudo explica. poderão vir lucidamente. o que atrás foi dito sobre o amanuense que espia o amanuense e lhe estiliza o sofrimento. e a memória ou a imaginação é que reproduz ou cria as cenas passionais. Logo verificava o engano. dos seres e das coisas. mais tarde. Só passados alguns dias a tola idéia deixou-me. não muito convicto. a confidencia. e jamais conheci ficção burocrática mais perfeita que a Seção do Fomento.

§ 9. escalar a superfície lisa e vertical. é comum que pegue as peças já limpas e as atire ao chão. Mas. Josefa lavadeira lhe meteu na cabeça que a Chica está possessa. Falarei nisso amanhã. Tivemos de prender a pobre mana no quarto. Levantando. desde alguns dias. Emília. para não a vermos de novo agitada. talvez. e Francisquinha foi melhorando. Posso ler um pouco e escrever até tarde. tudo está em paz. Quase cedi. foi doméstico. momentos tranqüilos. Emília cozinha. Agora. ocorreu outro empecilho: o estado de saúde das velhas. já lhes disse. na noite em que comecei de novo a folheá-las. Desde muito. Emília voltou a insistir em que eu trouxesse um padre para exorcismá-la. AS VELHAS. Vivendo. Acho-me cansado e não há pressa. Josefa lavadeira vive a resmungar e a querer tomar-lhe a roupa. a todo instante. contínuo da Seção. como nestes dias. É verdade que isso nos sai caro: nos seus repentes. talvez excitado pelo barulho que a mana produzia. quando está melhor. que andou inquieto. Francisquinha piorou consideravelmente. já ontem. e as velhas se entregaram normalmente às suas funções. para ter a Emília tranqüila. É uma velha cabeçuda. Passou a dispensar-lhes cuidados maternais. tendo passado duas semanas de extrema agitação. Gritava coisas desconexas.vão tornando o centro de interesse de minha vida. supunha-se perseguida por uma mula-sem-cabeça. eu ficasse impossibilitado de lhe prestar auxílio. trouxe-me blocos de papel em . A meu pedido. a crise passou. foi-me possível. e. e Francisquinha. tentando. O SEGUNDO motivo da interrupção de minhas atividades de escriba. de longe. e não há meio de a fazer compreender que eu compraria muito mais caro as horas de sossego que Francisquinha experimenta quando se entrega àquela tarefa. para de novo metê-las na água. uma ninhada de ratinhos. não estando em férias. um dia desses. A casa retornou ao seu clima habitual. Que dias difíceis! Finalmente. às voltas com sua gota ciática. não daria conta de olhar pela mana se. uma tábua do assoalho. tivemos de consentir em sua extravagância: duas ou três vezes por dia arranjava mingaus para os ratinhos e ficava o tempo todo a espreitá-los. . Deu para coisas que até me fizeram rir. Ela ficava noite e dia a arranhar a parede com as unhas. meio apodrecida. descobriu. Carolino. o que só temos feito em último caso. retomar minhas notas. pisando-as. não sei como. . Um espírito mau a domina. lava roupa. inclusive o Tome.

por engano. que perdeu a filha—uma . E. SEM dúvida. uma trepadeira. no caráter de necessidade que julgo acentuar as aproximações humanas. mas ouvi. cujo endereço me fora fornecido sob indicações vagas. esclareceu logo o equívoco. uma física e uma economia social extremamente sutis para que a ciência humana possa penetrá-las. que me veio atender. à procura de um farmacêutico vindo de Vila Caraíbas. por despontar somente à noite e murchar durante o dia. ou apenas repito idéias velhas. dentro da casa. então. e já não veremos acaso nem gratuidade no desenrolar dos fatos da vida. HÁ. em outra residência. enriquecidas de outras que lhes ministrou este demônio fantasista que me habita. mas o fato me deixou duas impressões nítidas. NUMA RUA. uma auditiva. UMA CASA. uma trama secreta que. para mim. havia uma criatura que não vi. se os coristas angélicos se dedicassem ao gênero. no sertão. Se digo tolice. uma canção napolitana que ouvi a Camila em tempos idos: Tuorna a Surriento. o hábito de filosofar e fico horas e horas a pensar em certos fenômenos. § 10. Vivendo e observando as coisas. em tal ou qual sentido. Bem me recordo. agora. os encontros mais rápidos que sejam e se nos afiguram fortuitos. Cantava como o faria um anjo de Van Eyck. encadeando os acontecimentos. As leis que regulam a circulação dos homens nos parecerão. E essa trama se evidencia. O timbre da Seção do Fomento encima estas páginas. e acho-me abastecido para o que der e vier. mas nem por isso desagradável. outra. lógicas. que me perdoem: adquiri. Viva a Seção que me dá o pão e o papel. de que. envolve uma química.quantidade. fiz-me anunciar. As duas imagens se consorciaram no meu espírito e ainda hoje nele permanecem. passando à noite pela Rua Paraibuna. Explico-me: havia. dama-da-noite. neste escritório da Rua Erê. Será uma pouco vivaz. um momento de maior ou menor influência em nossa vida. há dois anos. olfativa. Andando esta tarde com Glicério por aqueles lados—ao voltar de uma visita de pêsames a um companheiro de Seção. Ela desprende um aroma de alto poder evocativo. E já lhes contarei por que meu pensamento tomou hoje tais rumos. perceberemos que o fugidio vulto—mal entrevisto em um encontro que nos pareceu destituído de significação ou conseqüência—teve. a cuja flor chamamos. mais tarde. no jardim da casa. Uma criada.

estava. o ato do Governo promovendo. —Não a conhece? Deveras? É a Carmélia Miranda. no ponto de espera. um pouco além. Apressei os passos. a retalho e por atacado.dama-da-noite. Sou um incorrigível produtor de fantasias. Não. desci pouco adiante. Recordando-me do episódio e da voz puríssima que trauteou a canção. sussurrou uma voz. Era precisamente a casa a cuja porta bati. leitor. sugeria um arcanjo. Aurélio. Assim me vi desembaraçado do Glicério. atraiu-me a atenção e despertou-me lembranças. mesmo. E assim continuaria. não conhecia. o amanuense Belmiro Borba. movido por um pressentimento. tempos atrás. Foi o demônio da Jandira que me tirou daquela sorte de embriaguez. —Mas é preciso comprar as alianças e um presente muito bonito. mesmo. este nome tão sugestivo. morreu há um mês. por merecimento. nem mais fina nestas redondezas. que devia ser. Dr.. O pai. Fomos caminhando juntos até que. transmudado em distinto cavalheiro que seria o protetor da donzela. pendente do gradil de ferro de certo jardim. entrando aqui com essa cara de alma do outro . Já adivinharam quem seria: Arabela. construir uma casa. Esquecime desta triste figura e sonhei um terno idílio. Quando de novo passei em frente da casa.. senti-me nomeado segundo oficial e cheguei a enxergar no Minas Gerais. lembrava um anjinho amável. . observou Glicério. Na Rua Erê. em caracteres nítidos. —O nome é o menos. nada menos. se eu não ouvisse uma risada quando entrei em casa. Perturbou-me bastante o encontro. a passos apressados. Nunca ouvira. talvez escondesse a da canção. —E uma fatiota nova. —Aumenta-se o pecúlio da Previdência e toma-se um empréstimo em dezoito prestações. segundo o novo plano predial. Com o crepúsculo. Quando cheguei a pé. ao falecido pai. Queria ver novamente a dama-da-noite. Não há criatura mais linda. nada mais. e. A moça é que é fabulosa. voltei pelo lado oposto da rua. uma jovem estava à janela. Não é preciso dizer o que fiz: voltei. ao Bar do Ponto. tomando cada qual o seu bonde. perguntei ao Glicério que moça ali morava. nos separamos. na casa.. pelo caminho percorrido. —Que susto me pregou. com o coração em desordem. Ela vive com a mãe e um irmão pequeno. Um relance de olhos revelou-me que sua fisionomia não me era estranha. já a flor abria suas grandes pétalas brancas. Pode-se. sucedendo. e fiquei a imaginar doces coisas.

tem qualquer problema a resolver. no íntimo. Já lhe disse que. infelizmente. em todas as línguas e em todas as épocas. para cá. § 11. que o deputado Fortuna está na bica de ser secretário. balbuciei qualquer esfarrapada desculpa. Quando. Que casa hospitaleira! disse. nisto não andou virtude. tentar uma prosa com Emília. Contou-me que obteve colocação no escritório de um advogado. referiu-se maldosamente à Joana e suas turras com Silviano. que andando para lá. finge que não nota. recusando-me devaneios acerca de sua geometria e convocando este anjo latente e prestimoso que nos segue como a sombra Afinal. mas. Talvez tenha vindo apenas mostrar-me seu vestido novo. uma folha de papel onde se alinham versos frustrados e se estende uma caprichosa série de rabiscos.mundo! Há uma hora estou esperando você sozinha. realmente encantador e provocante. volvo os olhos para um lado. Faço por ser engraçado e lhe digo tolices. levou-me um livro e lá se foi pelas oito horas. sempre que aparece. por duas vezes. sob o olhar complacente do chefe da i&laíISeção. O chefe pigarreia. ao cabo de contas. ORA. De acordo com a tática epistolar do sexo. possuo um invariável bom senso e termino aconselhando-lhe qualquer coisa sensata. Dias houve em que ela me perturbava profundamente. mas bem sabe que. o Dr. depois de. e com ar de indiferença. Não é que sejam raras suas vindas à Rua Erê. . O sintoma é positivo: acabo de tentar um poema. enquanto. sob reservas. enrola um cigarro de palha e declara. que me fez tímido. mas nem isso fez esta noite. Jandira voltou sem dizer o que queria. Refeito do abalo. procurava descobrir a razão da presença de Jandira. O AMANUENSE AMANDO ESTÁ. As mulheres inteligentes não têm nisso menor prazer do que as outras. que são as mesmas. costuma insinuar o que deseja somente no post-scriptum. dá-se que começo a amar. Louvado Deus. como hoje. ela me vem tão desejável e tão perigosa (como a saúde de Jandira convida a uma ligação menos literária. mais naturista!). em minha mesa. pondo-me a mão sobre o ombro. e sim timidez. e por pouco não lhe teria dito as palavras do desejo. Da roda. que a mão vai traçando para disfarçar sua incompetência e esperar uma inspiração que não vem. nossa amizade sobreviveu a essas crises e acabou por criar certos tabus entre nós. A velha está hoje inabordável e por pouco batia-me a porta no nariz. Pereirinha. neste escritório. fui o único que não tentou conquistá-la.

"Se eu não tivesse deixado o seminário. O processo é sua religião e o senhor diretor a instância suprema. os demais passam dos quarenta. São raros os que chegam à burocracia triunfante. Mal posso.. se algo há de que me ache firmemente convencido é ter neste bureau um destino lógico. o companheiro de cavanhaque e lunetas douradas. Quanto a mim. que. não nasceram para esta vida. ou nas letras. Mas. atrás dele. Admiro. . talvez fosse bispo!" exclama ele. É o homem que manda o peticionário selar a petição e que volte. suspira. Tirante o Glicério. casei-me antes de tempo e aqui estou vegetando. com todos os vencimentos. O velho que se assenta a meu lado tem trinta anos de serviço. Poucos deles assinam o ponto de humor sereno e com aquela unção de que deveriam estar penetrados. na alta administração. já recebe adicionais e ainda acredita que nasceu para o brilho e a dignidade da Igreja. E assinam o ponto com rebeldia na alma e desprezo pelas mãos. meus amigos da Seção exercem com desencanto suas funções." Há outros que teriam feito carreira no Exército. Os mais ficam na burocracia militante e inconformada. outro.Meus honestos e graves companheiros de Seção se acham a postos. cada dia. na generalidade dos casos. está todo um sistema de leis fiscais. Tinha jeito e tive padrinhos. que é novo na vida e na burocracia. Sente-se que ele está firme e definitivo na sua escrivaninha de primeiro oficial. Quando franze os sobrolhos. É o Filgueiras. é o próprio processo. como caso excepcional. que é aquela em que o espírito se integra no bureau e o homem não é mais do que um conjunto de fórmulas e praxes. ou melhor. recusando-se a pôr o espírito em função no ofício que lhes parece tão contrário à vocação e preferências. em forma hierática e cabal. entre duas informações deitadas com letra trêmula num requerimento. e há dois ou três que excedem os sessenta. Acolá.. desviando-lhes a rota da vida. e isso acontece sempre que a praxe foi relaxada. no fundo. seu semblante se abre como que recitando a fórmula "saúde e fraternidade". Bons sujeitos. Quando sorri. o Romualdo. com multas e penas. após tantos anos de exercício das suas funções. que trabalha no compartimento contíguo. à hora de encerrar-se o expediente: "Eu dava era para a política. mas sempre revoltados. seu vulto assume a solenidade de um edifício público. e sente-se que. querendo. Mas houve qualquer coisa que tudo atrapalhou. Mas não tirei carta de bacharel. não me contrista. que já requereu contagem de tempo para aposentadoria.

no arranjo doméstico. um Belmiro triste. Foi o Florêncio quem promoveu o encontro. que nos faz o Estado. Arabela. que ali . o repetia para cada um que encontrava. ou de. céptico. Informado de que Jandira se empregara. em nome dos amigos comuns. ou melhor. Mas a amiga dá uns toques tais. do flautista que. Jandira levou a ultimação a sério e nos convocou esta noite. Depois de animada reunião em sua casa. já estavam todos.na verdade. será o fenômeno amor? Creio que vos estou amando. Aos sessenta anos. A instalação é quase tão pobre como esta que me arranjei na Rua Erê. de uma aposentadoria condigna. Eu vos estou amando e prestes me acho para as nossas impossíveis bodas. Todos nós nos preocupávamos com o problema. e a colocação deveria ser bebemorada. além das graças de mulher. entretanto. satisfeito com o trocadilho. conter um movimento de ternura. e mais um. informações mais circunstanciadas acerca da moça que apareceu na janela de uma casa. Ponho-me a imaginar um Belmiro sexagenário que tenha renunciado compulsoriamente aos jogos do amor e já não sofra a necessidade dolorosa de compor um poema. ao pôr do sol. acolhedor. acorda dentro de mim e tenta uma serenata. no pequeno apartamento que ocupa. segundo a expressão do Florêncio. numa rua. de que a amiga é bem dotada. DESCOBRI hoje o motivo por que nossa amiga Jandira veio ver-me anteontem. Quando lá cheguei. *** —Mas. e quando me lembro da promessa honrada. nestas compreendidas também as de espírito. o edifício grave. § 12. em uma casa de cômodos da Rua Curitiba. com a tia. ela me chamou à parte e tez algumas confidencias melancólicas. ele lhe exigiu. não tive olhos para lhe ver alguma coisa. embora. com emoção mal disfarçada. Zombe eu. nem arabelas. Vivemos tão preocupados com o nosso próprio espetáculo que no geral ficamos cegos para o alheio. desconhecido. de nossa Secretaria. CONVERSAÇÃO COM JANDIRA. Conheço-a desde dois ou três anos. que o acontecimento tivesse comemoração condigna. neste instante. do Glicério. que. quando contemplo. mas pacificado. ir tentando sacar. já não sofrerá donzelas. fizemos boa camaradagem (é minha única amizade feminina) e.

sou múltiplo. Joana. A presença do Silviano era. Que deponha. —Mentindo! respondeu nosso filósofo. Por outro lado. não eram ontem propícias a pensamentos castos. o Silviano. embora conformada com as extravagâncias do marido. perguntando-lhe como conseguira habeas-corpus da Joana. logo uma cadeira e um copo. retifiquei pela centésima vez. pois brigam. Silviano não é dos mais assíduos em casa de Jandira. é a base da ordem doméstica. apegou-se ao assunto e continuou: —O que ignoramos é como se não existisse para nós. o colóquio. Tanto pior para o amanuense incauto. Apesar das dificuldades internas da casa (quando a amiga está desempregada. Sou triplo. não. vindo a meu encontro. Belmiro. fielmente modeladas pelo vestido. a respeito. para comparecer na reunião.. livrando-me dessa situação aborrecida de quem chega e interrompe o fio da conversa. Fui saudado com um "oh!" geral da roda e. Falariam de mim? Alguém devia estar penando. A mentira. Ao Florêncio. Jandira me trouxe. Para todos os efeitos.. costuma chamar-lhe Abundâncio. já estando meio alterado pela bebida e sem os freios que a discrição nos impõe. Porfírio. arranjo-me em casa. a quem estas modas de 1935 causam profundas perturbações. parou um pouco. Jandira está na força da carne. e as coisas se dispõem de tal forma que ela a ninguém cede em elegâncias e modas. as duas passam aperturas com a magra pensão que a velha Hortênsia recebe da Caixa Beneficente das Viúvas e Órfãos dos Militares). para acomodar as mulheres. pois o tom geral era de sorrisos maliciosos.sempre tenho a impressão de estar sendo recebido em casa de finos burgueses. aproximei-me do Silviano. —Porfírio. Jandira se veste como filha de ricos. sempre que se encontram. Mas não pensem que é fácil estabelecer uma combinação . que as devorava com os olhos. Satisfeito com a oportunidade que lhe dei para um discurso. sobra-lhe em engenho. Ela se pôs muito bonita para nos receber e fiquei lisonjeado por mim e pelos demais. mas Joana só conhece uma face do monstro. Com a minha chegada. Com este princípio. O que lhe falta em dinheiro. Para dizer qualquer coisa e integrar-me na roda. que deveria correr animado antes. estou na Gazeta de Minas fazendo revisão de um artigo que dei para o Suplemento. de se notar. não abre mão dos direitos de exercer sobre ele uma fiscalização contínua. Silviano tem a mania de batizar cada pessoa com o nome que lhe apraz. realmente. e as formas. pois o chope já ia adiantado. É o que é preciso fazer.

e o guerreiro requer muitas mulheres. truão! Estou falando é às pessoas qualificadas desta roda.. isto é que é. provocando uma gargalhada de todos. E se as mulheres resolvessem adotar sua teoria. a fim de que cada mentira se articule perfeitamente no sistema e seja. este continuou a falar. —Ninguém duvida. Silviano encolerizou-se: —Não me dirijo a você. Fica. aparteou outra vez Florêncio. que me surpreendeu: —Não acho graça nenhuma nisso. conquanto a velha seja uma criatura apática. —Não para você. como se estivesse a pensar no defunto major. fluente. junto a nós. instintiva. espontânea. dando silenciosamente a mão a cada um. manifestandose solidária com o sexo e assumindo um ar conservador. provocando novos aplausos. entre ela e a verdade. minha flor.. que contrabalançava a expressão hostil de Redelvim. Como despregada do mundo.. Silviano continuou a discursar: —A felicidade para a mulher está unicamente em divertir o guerreiro e pensar suas feridas.. apenas a diferença de substância e não de forma. e se . Um pouco impaciente com aquela farsa. ao mesmo tempo. cujo retrato pende da parede. com essa alusão à mitomania do Silviano. no seu tom professoral: —Um exercício longo. Dessa vez. casados.. lógica. para enganar os maridos? Acharia bom? Silviano não se perturbou: —A mulher. Animado pelo olhar de admiração deste. haja ou não haja necessidade. alheada. São o passatempo do guerreiro. Jandira interveio. desde a morte do marido. —O que sei é que vocês são uns cínicos. devemos sempre mentir. Hortênsia sempre anda assim. Glicério. A chegada da tia. não necessita disso. que veio de uma novena na igreja do bairro. que sustente o equilíbrio do lar. É preciso um exercício longo. uma sombra. cortou o Florêncio. sorriu satisfeito. Jandira diz que D. Cumprimentou a todos. Assim a mentira acaba vindo fácil.. Sem responder. Para atingir a perfeição.. Basta-lhe um homem.constante de mentiras. estabelecida. disse Jandira. Vocês. Hoje sou um artista no gênero.. cuja presença mal se sente. que é nietzschiano. evitou que a conversa descambasse.. deviam ter mais compostura.. como um parlamentar experimentado que não dá atenção aos apartes. irritada. interrompendo-o. durante horas.

me repreende pelo que denomina "irreprimível vocação plebéia". quando Jandira me tocou no braço. —Um palhaço. E criaram uma situação de tal constrangimento que cedo a reunião se dissolveu. para conversarmos a sós. ao contrário. LOGO que Silviano. esteve calado. sem que nenhum ficasse abalado em suas convicções. que até então apenas bebia. Dispunha-me a sair. Não repetirei o que disseram. não se animando Glicério a entrar na briga e apenas seguindo-a com um sorriso de aprovação ao Silviano. Redelvim e o desconhecido se afastaram. e o tom que emprega em seus monólogos não é outro. E por aí se engalfinharam os dois. Magoaram-se uns aos outros. o Pensador! Oh! Como isso me diverte! disse Silviano com um ar que parecia afetado. mais que afinidades. Silviano. Jandira me disse. *** Já é tarde e Emília chama por mim. meio sorridente: . Certamente precisa de algum remédio. exprimindo seu desprezo pelo Silviano e pelo Glicério: —Mentalidade sórdida de burgueses! Vocês são uns idiotas e uns palhaços. pois não disseram novidade. Redelvim e Jandira tendem para a esquerda. Enquanto Glicério e Silviano se inclinam para o fascismo. Só eu e o Florêncio ficamos calados. entre estes inquietos companheiros. Redelvim.pôs a um canto. Isso não quer dizer que me poupem. ao capitalismo. mas que lhe é habitual. A CONFIDENCIA. a beber. pois há forças de repulsão.— Chega a escandalizar-me esta minha condescendência em vir conversar com vocês. Glicério. à margem. as discussões vêm azedando nossa pequena roda e vejo que ela não tardará a dissolver-se. O começo de discussão tirou a graça da festa. Passaram ao terreno da política. Desde muito. pedindo que ficasse mais um pouco à porta da rua. Já o pilhei a conversar sozinho. § 13. sirvo. durante todo o tempo. talvez assustada com tamanho alarido em sua sala. É uma verdadeira descida dos meus altiplanos. Redelvim me chama comodista e vive a dizer que. no quarto. Fica para amanhã cedo o relato da conversa com Jandira. no meu "cepticismo de pequeno burguês (a expressão é dele). com eles e com o desconhecido—a quem atrás' me referi e que. junto da velha—. afinal. atacou um assunto perigoso. Florêncio.

mas o sujeito é muito teimoso. —Já recusei três vezes. Ouça. Nesse caso. E às vezes sinto-me fraca. Seria uma humilhação. está-me perseguindo com propostas de casamento. Depois.. Jandira me olhou com ódio: —Se não soubesse que você está apenas fazendo uma gracinha. em mim. Belmiro. eu também me candidato. Preciso. se você estiver disposta a agüentar com as manas. —Pois então feche o negócio! —Idiota! Ainda estou bem moça para fazer negócios. e fez-me a confidencia que me surpreendeu: —É claro que recusarei sempre. feita com esforço não pequeno. —Passe-lhe a tábua. em que ela não poderia encontrar ressonância. Sabe que é velho e que não pode exigir muito. ora deprimida. embora me sentisse realmente penalizado: —Se o caso é de urgência. não percebi. Só falta proporme. ora irritada. vivo tão sem apoio. de um homem. por alguma forma suprime. Mas. Bem. o homem. Deve ter uns quarenta anos. A gente é de carne e osso. . fiz uma pilhéria de mau gosto. . aqui tem um homem. respondi. à sua situação.. e as mulheres também estão sujeitas a certas exigências. Jandira não tem amigas e D. todo dia. Será que me considera inofensivo? Levado por esta estúpida interrogação. Impressionou-me esta confissão. Eu tenho de reagir sozinha. é viúvo. então. com urgência. mas velada-mente. —Deixe de ser bobo. As meninas-famílias dispõem de papais e irmãos para imporem respeito aos dons-juans que andam por aí. Não me presumo credor de elogios pela escolha. estou falando a sério. e só agora compreendo o sentido oculto de suas palavras. tenho medo de ceder. ter sempre a companhia de vocês. nesse caso. É a terceira vez que ele me propõe casamento. —Não é possível. Você não imagina o que é a gente ser perseguida pelos homens. preciso de um homem.. Poderei continuar a mesma vida. não digo. Habituado a pensar nos meus próprios problemas e a perder-me neles. e insiste em dizer-me que abre mão de direitos de exclusividade sobre mim. todo dia.—Esse homem que esteve aqui e a quem vocês não prestaram atenção. Talvez por isso me tenha escolhido para confidente. Tem uns cobres. eu lhe dava na cara. Hortênsia é apenas uma sombra. mas não este. Todos me olham como se quisessem devorar-me. Em conversas anteriores ela aludiu muitas vezes. tenho pensado. Dizendo-me coisas desse gênero.. não me quer escravizar. continuei.. continuou a falar.

Jandira voltava ao seu clima. eu compreendia tudo. e disse: —Fui uma boba em pensar que podia lhe falar essas coisas. Quanto ao que pensam de mim os velhos companheiros. Percebendo que esse jogo de antinomias acabaria deixando-me com uma telha de menos. exceto eu. Ela devia saber disso. Expliquei-lhe. um elogio atribuir-me a função de calmante. todos. que não tem o senso da hierarquia e tende para um igualitarismo dissolvente. serei um céptico pequeno burguês que. Achava. eu costumava entregar-me a um passatempo perigoso: procurar. desde que ela não me queria. que realmente estava brincando e que. ou for tudo. abandonei-o. ela é que não parecia razoável: levou muito longe uma simples pilhéria. que era muito nova para desesperar de uma solução.Fiquei encabulado. dentro em pouco. Gostei dessa reação. eu me censurara pela minha incompreensão. com que Jandira me brindou. E se eu não for coisa alguma. É o que pensam as mulheres. e prometi-lhe que ainda lhe levaria um bom marido. ANALGÉSICO. sem achar saída. a favor ou contra. mas por omissão. Ela o emprega com o sentido de sedativo. Uma criatura bonita e jovem assim tem diante de si um mundo grande. RELENDO a página escrita ontem. eu preferiria a de excitante. como qualquer um. sabem o que sou. ao mesmo tempo? Há anos passados. igual número de argumentos.. pela sua representante junto à Rua Erê. serve o sistema capitalista. para o segundo. Mas está dito: sou analgésico. já estava brincalhona: —Belmiro. cheio de possibilidades.. no seu calão. Minhas palavras produziram bom efeito e. não por ação. sou um homem fraco. ou de mais. Acham indispensável classificar o indivíduo em determinada categoria. Protestei. Redelvim e Silviano o exprimiram: para o primeiro. . E não é.. Ora. ETC. como pude. o burguês Belmiro! Redelvim deu para humorista. Não é culpa sua. Olhou-me pensativa. volto a remoer o adjetivo analgésico. § 14. como você é analgésico! Voltei para casa tranqüilo. logo depois de ter dito aquela tolice. no tocante a dado conceito. embora não muito satisfeito com o adjetivo. Fazendo minhas . naquele momento. Vocês não compreendem isso. dizendo que. Quando nos despedimos. Afinal. sintoma de vitalidade. da mesma força. Jamais encontrei algum cujo contrário não pudesse ser também defendido. positivamente. assumindo ar de mofa e provocando-me. meu anjo. porém.

em minha memória ótica. preocupados que ficamos com tal esforço. vi que a simples aquisição de umas botinas novas me desequilibrou o orçamento deste mês. parecia mulher feita e nela mal reconheci a misteriosa moça em flor da noite de carnaval. Mas parece que a sensibilidade descansa apenas para redobrar. Não fora preciso tanto açodamento. não sei por que ardilosa conspiração das coisas. MISSA DE TRIGÉSIMO DIA. Carmélia. diz Silviano. precedendo aos presentes. celebrada em intenção de sua alma. neste velho escritório ou em algum trajeto de bonde. Aurélio Miranda para assistirem à missa de trigésimo dia. E nela vejo um aviso. ela alçou rapidamente a vista. senti-me. quero dizer) e seu vulto mal pousou a meu lado. o Minas Gerais.contas. convidado. inclusive Jandira. outros bens. Assim foi: a filha. Lendo. Como na tarde em que voltei â Rua Paraibuna. quando queremos forçar demasiado a atenção em qualquer coisa. não tive. é que entretêm a vida e a preservam dos efeitos devastadores de um sentimento intenso e continuado. para alimento dos longos dias que passarei sem a ver. assim como. que Deus pôs no mundo paisagens. Essas intermitências. também. Quando. Creio que já não quero o mito mas a pessoa. e só fui dar acordo de mim quando entrava na igreja da Boa Viagem. ainda a tempo de. Não sendo parente nem amigo do defunto. dando repouso à sensibilidade. com mais vigor. atraiu-ma desta vez. a coluna dos falecimentos e das missas fúnebres. durante o dia. o irmão pequeno e a viúva só apareceram mais tarde. postar-me à frente de uma porta lateral. eu não pensava mais em Arabela (Carmélia. se me ocorresse que a família sai por último. esta coisa nos foge. Já estava no fim a cerimônia. ou não senti coisa nenhuma. por onde geralmente se retiram as pessoas discretas ou enlutadas. na escrivaninha da Seção. as operações do seu ofício. e mal pude deixá-la. deixando Glicério. outros males. Entretanto. § 15. de chapéu e luto fechado. DESDE a noite da reunião em casa de Jandira. cuidados. convidando os amigos e parentes do saudoso Dr. em um momento propício. Desejaria bebê-la com os olhos. cheguei mesmo a esquecê-la. escapou-me uma imagem nítida de Carmélia para só ficar um esboço vago de seu vulto. desviei sem querer os meus olhos. obter uma imagem sua que se fixasse. cedinho. Por que essa timidez? Não me . presa que fica pelos abraços de pêsames das pessoas conhecidas. a procurar o carro da família. forças para mirá-la de frente. E não foi senão para favorecer o esquecimento. Ontem. porém. que jamais me chamou a atenção.

o irmãozinho e a viúva. fumares um cigarro e assobiares uma rancheira. Amigo Quixote. mais distante. esse balão que se queima no ar e os foguetes. Carmélia é fina. QUANDO vi a fogueira. como outro dia. o corcel fogoso que contigo quer transpor esta janela. para viajar pelo tempo afora. UM SÃO JOÃO QUE VAI LONGE. que resiste a todas as agressões dos principiantes das letras. passei ao largo. mesmo de longe. com medo de que os meninos me atirassem bombinhas. pude apreciar esse São João alegre e buliçoso. valerá a pena que eu me incrimine por isso? Lembra-te. todos os cavaleiros andantes já se recolheram e não há mais dulcinéias. Mas. É da alta. Em cada ramo à beira do caminho ficou um pouco de nossas vestes e é inútil voltar. cheio de balões e de vozes gratas da infância. esses dias continuam inundados de uma poesia própria. verificamos que a paisagem do passado vai ficando mais azul. afinal. salvando a donzela. porque os bichos comeram os trapos que o vento não levou. cruzai" os ares e deixar-te em certo alpendre da Rua Paraibuna. Permanecem com sua força evocativa e voltam com aquela pontualidade inexorável para vir lembrar-nos que estamos envelhecendo irremediavelmente. Por que. jovem. em que imaginavas um incêndio. de que essas bodas são impossíveis. Belmiro. ainda estou a lamentar minha inépcia. amanuense. Escrevendo estas notas. uma inundação. Eis o lado melancólico do São João. no momento preciso. Cada ano. que vão atrás dos balões. É inútil que faças projetos.conhece e nem perceberia uns olhos plebeus que nela se detivessem furtivamente. Apesar da literatura que se faz pelo Natal e pelo São João. qual delas se cobrirá de flores e . como diz Glicério. em busca de um balão que as monções carregaram para outras latitudes? Vã tentativa de reintegração de porções que se desprenderam da alma nesse trajeto imenso. Sofreia. § 16. muito além da qual nasceu Iracema. para compareceres. Mas. neste vetusto bureau da Seção do Fomento. além. essa fogueira. hão de fazer-me inclinar sobre mim mesmo. Certo São João de Vila Caraíbas é um fenômeno que não se reproduzirá jamais. O melhor é tomares a xícara de café que o Carolino pôs sobre a mesa (excelente Carolino). um terremoto ou uma guerra. perdidamente. Já tens trinta e oito primaveras e ainda me compareces com tais veleidades de mocinho. ao vê-los chegar. como aquela serra que azula no horizonte. rica. As moças de trancas e bandos não mais lerão sortes no copo d'água nem saberão mais qual delas terá a grinalda. do Natal e do Ano-Bom.

procurando atingir Carmélia por via do Glicério. vai a um luxuoso clube de campo. rente do braseiro. CASO da noite de carnaval introduz. Talvez o pirata esteja apenas desfrutando a moça. Habituado. a pensar nas terras impossíveis e no destino trágico da Nau Catarineta. recomendado pelo Senador Furquim. aos poucos. Vamos perambular pela rua. noto que faço ultimamente grandes concessões ao Glicério. inconscientemente. mesmo. Há quatro anos. rendime às suas tentativas de aproximação e criei-lhe estima. que cantava inefável modinha. e afinal me desloco. Naquele tempo a fogueira crepitava até horas mortas. sem boas intenções. e que essas concessões têm feroz fundo utilitário: adivinho nele o caminho para Carmélia. Tempo velho. nem tristes. Pareceu-me pretensioso e decidi-me a não tomar conhecimento de sua presença. joga bridge e tem outros hábitos aristocráticos. Sua inclinação é para as donzelas de nobre linhagem. § 17. nós ficaremos de braços dados. que deixou um legado para a freguesia de Caraíbas. O que eu . a vê-lo sempre à minha procura. Hoje reajo. nem alegres. onde jazem os restos mortais de Dona Ana de Freitas e Ataíde. Estas notas são íntimas e nelas devo pôr toda a sinceridade. Enquanto a fogueira funcionar. apenas nos namorando e nos lembrando daquela moça de cabelos de retrós e de brancas vestes. desenvolvo uma tática complicada. Velho Belmiro. Qualquer coisa a respeito de um viajor e de uma estrela. a coisa virou. QUE OS BORBAS ME PERDOEM. e até horas mortas um aroma brando de batatas assadas me mantinha.de perfumes e arrastará um véu comprido no pavimento da velha Matriz. ora com ele combinando encontros de rua. amanhã me abandono (perguntando-me se a vida vale tantas renúncias). Com o tempo. ora indo-lhe à casa. contemplando as fogueiras e cantando certa modinha que ninguém ouvirá. nunca o procurei. cedendo ao comodismo e reservando meus lazeres para os velhos companheiros. sempre adiante do viajor. desfruta a estima da alta goma. Agora. quando o rapaz entrou na Seção. O certo é que. Hoje é o nosso dia. porém. não simpatizei com ele. Moço Belmiro. Nem sei. explicar por que namora a filha do chefe de Seção—que é de condição modesta—e receio que esse namoro dê em nada. Tempo velho. O rapaz freqüenta a sociedade. pensando que chegaria à estrela. A estrela sempre longínqua. E ele viajava toda a vida. novos rumos em minha vida. Num exame de consciência.

aos olhos dos filistinos. o Florêncio e a Jandira lhe dispensamos e nos encarece também. vivo. Não me pesa confessá-lo porque. mas agora me revelo um sabujo consumado. já que o ridículo é de todos os namorados. . quanto ao rapaz. Explico a questão da importância: desde muito tempo. o Silviano. que só admitem em seu círculo a ele. A mistificação nos prestigia de certo modo e satisfaz a uma pontinha de vaidade que não conseguimos reprimir.chamei concessões. para se prestigiar em sua roda de sociedade. assim. pois o senador não admite cacife acima de dez mil-réis. Falou-me que o Senador Furquim. era homem muito simples. ele se mostra despótico. nunca bajulei ninguém. apesar de tais tolices. para a sortida. UM BAILE DAS MOÇAS EM FLOR. é inteligente. como esta noite. embora lhe escape a intenção. que sempre foram grandes amorosos e hão de compreender-me. por outro. E fica. EU ME conformo com o meu ridículo. ser traduzido por um vocábulo mais simples e direto: adulação. Tenho adulado em todos os tempos e modos. cercado de um halo misterioso. e nós as perdoamos ao rapaz que. Faz-nos passar por monstros literários. encarece muito o acolhimento que eu. pode. embora tivesse curiosidade de conhecer a casa de um senador e privar com um pai da Pátria. ficamos lisonjeados com isso. bom parceiro. e esclareceu que o jogo seria barato. Manda a sinceridade que eu escreva também que. obrigando-me a acompanhá-lo a um baile. qualquer um assim procederia: tenho adulado Glicério. usando de um trunfo que assinala sua superioridade sobre os companheiros de bridge e tênis e suscita a admiração de ingênuas mocinhas. mas a tirania de Glicério leva-me a coisas que nunca fiz. o Redelvim. para se dar importância e. Percebendo a ação. Nunca chaleirei políticos. cá entre nós. Aboliu-me o colarinho alto. Não me disse que haveria danças e o pretexto. Jandira foi quem apurou essas coisas. por eufemismo. ao cabo de contas. no caso. § 18. inacessíveis. foi um pôquer. fez-me comprar um terno novo e camisas da moda. Perdoem-me os Borbas velhos. o mancebo. É que essa aventura me intimidava. pondo-me fora de meu mundo e em contato com uma fauna humana de caracteres inteiramente desconhecidos para mim. talvez para se divertir com o meu embaraço. e exibe-me em lugares aonde nunca fui—por um lado. Glicério. em cuja casa iríamos jogar. Recusei terminantemente. com sua rede de informações.

como dizia mestre Rizério. Prudêncio Gouveia e o velho Giovanni. Tome. o melhor é esconder-se nas cavernas do peito e nelas procurar o panorama do seu tempo. Nada mais depressivo que sentir outras gerações surgirem depois da nossa e nos disputarem espaço. abandonado pelo Glicério. Tive inveja daqueles que as enlaçavam e as valsavam. Minhas moças em flor de Vila Caraíbas. Era uma data aniversária na casa. hoje outoniças. pela sensação de aposentadoria. não couberam no salão e reclamaram. e foge sem dó. como o amante que ainda mais ama a companheira. Moças proustianas em flor. A quem vai passando. por muito tempo. porque moças e rapazes. Por um momento. Pouco me faz: toco trombone é para meu uso. ao luar. em particular. idiliei ao pé de um jasmineiro.Mas o medo de descontentar o meu tirano e de fechar. afastaram-se os móveis e. entre Emília. O baile me deixou miserável. Meu lugar é outro e meu clima é bem diverso do desses salões a que ele me transporta. ainda. o gabinete do senador. inefáveis modinhas. Compreendi a necessidade de fugir às moças em flor e. rirão de minha literatura sentimental. Receber o calor dos novos seres e sofrer-lhes o contato ainda é pior que o frio de uma velhice que nos espreita. quando sabe que ela o engana. . a um canto. Mas a vida está me encostando. também. Eram também ágeis. A vida nos ilude cada dia. fez-me ceder às suas insistências e. Francisquinha. Mas não poderei suportar. transportei-me a uma janela. experimentei uma transfiguração: senti-me em Vila Caraíbas. Dissolveu-se a roda. este burocrata mestre. os que vamos passando. quando o juiz municipal de Vila Caraíbas ia reclamar contra o barulho do instrumento. Cantavam. assentei-me em uma poltrona. Traziam-me uma imagem da vida que foge. Havia realmente o pôquer. tocamos para a casa do senador. tinham vestidos brancos que modelavam seios morenos e castos. com ardor recrudescido. aparecidos às dúzias. mas eu bem as via. mas nós a queremos. no bom tempo das polcas e das quadrilhas. os caminhos para Carmélia. à moça Carmélia. tomando um automóvel. Ai de nós. coletiva e móvel. assim. que ainda alcancei. que andavam aos bandos e formavam grupos indemarcáveis onde se operava a translação contínua de uma beleza fluida. mas não jogamos uma hora. velhas. As moças não me notavam. Meu lugar é nesta Rua Erê. nem há dúvida. a tirania de Glicério. tal a das virgens da praia de Balbec. O serviço público não jubilou. lestos e gráceis. para festa dos olhos e malinconia do espírito. Se algum dia caírem estas linhas sob os olhos de alguém.

§ 20. eles lhe fugiram) e cuida. bom camarada. por isso. nesta obsessão tola em que vivo. além das palavras ditas no momento em que passávamos em frente da casa da Rua Paraibuna. aos trinta e oito. que ele me diga espontaneamente qualquer coisa. dentro de casa. com o que irrita a cada instante a galinha mãe. agora. Pergunto a mim próprio se. dizendo que se acham gripados. SILVIANO E O PROBLEMA FÁUSTICO. diretamente. Passo o dia todo a seu lado. GLICÉRIO seguiu ontem para o Rio. de namorado aflito. Tenho esperado. Aos vinte e oito anos eu poderia (não sendo apenas amanuense) pretender essa Carmélia que não terá chegado aos vinte. de pintos. seu propósito de ir ao Rio. porventura. mas que não excede os desvarios que ando praticando. IDIOTA. IDIOTA. por uma semana. Nada mais lhe arranquei. Vai viajar agora e teremos sete dias durante os quais não haverá nem mesmo esperanças. quando não me enojo. Deus sabe quantas vezes tenho passado. Não me animo a pedir-lhe. IDIOTA. muitas vezes. ouço-lhe mil ninharias sobre a vida da sociedade e sobre rapazes ou moças que conhece. e escrevo. O que Francisquinha faz é. nesta altura dos acontecimentos. de dia. não se recusaria a servir um namorado em aflição. na Seção. horas mortas. Eu próprio me tenho rido. minha situação é essa. não serei a pessoa menos equilibrada desta casa. ou a tenho cruzado. mas. venceria a timidez e atacaria o assunto: estou certo de que. idiota. no que se refere a Carmélia. a viagem me aborrece. Se eu tivesse dez anos de menos. mas o demônio lhe fecha a boca. Mas. É uma idéia bem fora do comum. em que pese à minha percepção do ridículo. que me fale sobre a moça. Pegou um colchão velho e tenta fazê-los dormir nele. à margem destas páginas: idiota. mais extravagante que estes devaneios meus? Abandonou os ratinhos (ou melhor. Noutra ocasião. isso me seria indiferente. é de todo descabido e Glicério haveria de rir-se de mim. esperando ver a moça. na Rua Paraibuna. Será mais uma semana de atraso nas minhas tentativas para dele obter. GLICÉRIO comunicou-me hoje. Achei péssimo. Vive a dar cafiaspirina aos pintainhos. onde passará toda esta semana. . idiota. não digo uma aproximação—com que já não sonho—mas pelo menos referências ou informações a respeito de Carmélia.§ 19. só para ver a casa. Pois.

copiei-a às pressas. bem o sei. de conversarmos sobre a moça. Tolices. ao chegar. Continuo a alimentar-me. entre mil contrárias. a ausência de uma possibilidade. Carmélia Miranda Borba. e fiz uma descoberta sensacional: a do Diário do Silviano. Como demorasse um pouco. A docilidade dos fantasmas! Já não a procuro com angústia: é ela que vem a mim. Eila aqui reproduzida: TERMOMETRIA DE UM ESTADO PSICOLÓGICO Data:—Domingo. Estou pensando no que seria de nós. mas faz que Carmélia entre sutil por uma janela da Seção e pouse a meu lado. à sua espera. Às vezes lhe tenho ódio. com medo da solidão. porém. fui-me entretendo em folhear livros apanhados aqui e ali. e a causa não foi outra senão a ausência do peralta. fui atrás do Silviano. e pôs-me à vontade no escritório. Abrio na página marcada. Não o achei em casa.Será uma semana difícil para mim. É só espairecermos um pouco e o prestidigitador. e achando-a extremamente curiosa. e a privação de sua presença me desespera. o Fáustico—0 amor (vida) estrangulado pelo conhecimento. Meu ócio não traz fermentos de anarquia. não fizesse suas mágicas. Hoje o dia me pareceu insuportável na Seção. de mansinho. e teremos o anarquista. que ele não tardaria. a culpa é da Seção do Fomento. 23 de agosto de 1935. Para a tarde. melhorei e. afinal. Passei o dia todo a escrever no papel: Arabela Borba. Joana disse-me. Deixem-no folgado. se a noite não sucedesse ao dia e se o espírito. o poeta. na mesa ou nas estantes. . que há em nós. à noite. Problema:—O eterno. Bem agem aqueles que acorrentam os homens e lhes dão um duro trabalho. cada dia. Tempo:—Primeiras chuvas de 1935. isto é. É ela que passa a mão pelos meus cabelos e pergunta:—Que tens. submissa. mergulhado na sandice. Sensibilidade:—Tchaikowsky—Chant sans paroles. o céptico e outros seres que perturbam a vida do rebanho. A visita ao Silviano transformou uma noite que se anunciava péssima em bem-humorado serão. pela importância que assumiu em minha vida. que não fomenta coisa alguma senão o meu lirismo. Belmiro? (Como lhe ficaria bem tutear-me!) Foi assim que passei o dia. No fundo. O que nos vale são as mágicas. da esperança de ouvir-lhe algo sobre Carmélia. Não sei até onde irá esta fantasia de amanuense ocioso. com receio de que fosse pilhado nesse ato desonesto. Carmélia Borba. que era a última. encontra temas para nos ocupar a atenção e desviar-nos de uma idéia que nos amofina.

piano e orquestra. três. logo de início. nesta página. em alemão. acerca de qualquer coisa. em frente dele. Se nos dá uma versão dupla. Esquecimento. Chopin—Concerto—opus 21. é talvez simplesmente trágico. Reproduzirá com honestidade o que viu ou ouviu. (Seguem-se palavras ilegíveis. Freud. fá menor. Parece-me que não se trata de um gênero comum de mentira e que. mas como . Florêncio. É um recriador e vê-las-á não como se apresentam. desde o ridículo até o espantoso. a fim de conseguirmos uma versão média. antes. Previsões do clima mental:—Más. sobre uma ocorrência qualquer. cinco Silvianos presenciaram aquele fato. me acho em presença—não de um indivíduo. Flotow—Marta—ópera-cômica. Às vezes tenho a impressão de que. Silviano chega às vezes a ser exasperante. acontece que às linhas reais de um episódio ele acrescenta uma extraordinária riqueza de pormenores imaginários. cada um a seu modo. Sabe quanto é precária a tentativa de sacar um depoimento preciso do marido. Estranho homem. julga-o um mistificador. Outras vezes. tripla. nada tem de comum com aquilo que entendemos vulgarmente por mistificação. E há de tudo nele. Na verdade. elementos próprios de sua imaginação.° 3—Adágio. em sua simplicidade. quíntupla de um fato. lhe pecamos nova narrativa do acontecimento. Silviano. espaçadamente.Beethoven—Concerto n. O que desorienta o Florêncio. pelo contrário. quando o interrogamos em sua presença. de uma unidade—mas de um ser múltiplo ou. E é divertido ver-se o ar céptico que Joana assume. Leituras:—Amiel:—Journal intime. dez ou vinte vezes. formas especiais que ele lhes empresta.) O que lhes parecerá cômico. é porque realmente dois. perco a noção de "ser" para ter apenas o pressentimento de que lido com algo extrahumano e puramente cerebral. Mas o que Florêncio e Joana não compreendem é que a mistificação. Se nos contou um fato que nos interessa. Não conheço criatura mais complexa. possivelmente veraz. mas é que viu ou ouviu por um processo psicológico menos fiel que o nosso: abundantemente se incorporam às percepções. qualquer coisa como um conflito de paixões que transborda das fronteiras do indivíduo. Maranon:—Amiel. que ele tem das coisas. Silviano é exato no que diz. é um dos muitos aspectos curiosos do Silviano: a impossibilidade de se obter dele informação direta ou exata. será preciso que. daquilo que desejamos saber. em Silviano. Há nele uma nebulosidade permanente.

pois.. As mentiras deixadas em casa de Jandira são daquelas que pertencem ao processo de recriação do Silviano. em casa de Jandira. embora não o possa evitar. conversa muito interessante entre o Professor Otelo e outros da Universidade. com tal trabalho.. que mora em Sabará e queria passar uma semana em casa deles. nos mentia. e que é um estudo sobre o suicídio. a arquitetura. achou mais interessante figurar a si mesmo uma fugida sem o consentimento da mulher. no dia seguinte. Vi que esta noite não brigaram. Falavam a respeito dele. como de costume. num café. me disse que "o nosso amigo Abundando" lhe contou ter ouvido. dando-se por mentiroso consciente. em vez de cômica. deu o golpe: "Ah!. eu encontraria. que andou a bebericar com o Florêncio. depois. mas Joana. o esboço. Deixou que o marido se preparasse para sair. talvez o perfil nítido desse singular histrião. mais tarde. Com sua lucidez. outro dia. você no meu antro! Galernos ventos o trouxeram. por certo. ora num alfabeto cuneiforme. e fica uns dias conosco. uma concessão especial: ser permitida a vinda de sua mãe. Dizendo ali ter estado sem que a mulher o soubesse. como cabotino consumado. portanto. visando a esconder-se da Joana e dos estranhos. . atualmente no prelo. à hora em que este punha o chapéu na cabeça. pareceram-me sinceras. para uma platéia futura. e procura iludir-nos. Acrescentou que esta pretendia obter. Silviano espera. Esqueci-me de dizer-lhe que Mamãe chega amanhã. achando-se a mulher informada de que a reunião tinha caráter inofensivo.gostaria que se apresentassem. Vinha alegre. Estava pensando em você! Contou-me. Ouvi. ora em latim macarrônico.. Humorista. e denotavam grande expectativa em torno de opúsculo seu. Silviano vota horror à sogra. manhosa e songamonga. muito satisfeito.. Aquelas páginas. Escute. soube fazer a transação. com aquiescência da Joana. Redelvim diria que Silviano representa perante si mesmo. Se algum dia pudesse decifrá-las. com essa beatitude que o sexto ou oitavo chope nos traz. percebe o fenômeno. amigo Porfírio. ao cabo de contas. —Olá. para que o Reitor .. que fora à casa de Jandira. Exibe-se. ora escritas em alemão. no momento propício. Mas estou certo de que não é assim." E ele não tugiu. mas. tudo isso. Silviano não tardou muito. Você já vai? Espere. que exerce o teatro gratuito e interior para uso pessoal. repetir-lhes-ei que a página será trágica. criador de um sistema de mistificação longamente desejado e encontrado. de sua própria boca. Ou talvez dissesse que ele compõe essas memórias com a esperança de que o caderno íntimo algum dia venha a cair sob os olhos de alguém. dentro da nebulosa perturbadora. tal como fez. reforçar os seus títulos na Universidade. Voltando ao Diário. indecifrável. nem mugiu.

também minha. de Goya. Por mim! Fui roubado! . Porfírio. homem de planície. para mim. "Presente de uma jovem amiga". —Elas representam a vida. era Ia estrangulacion dei amor por el conocimiento: ei problema de Fausto. Isso é um mal incomensurável.. quando disse que o "mito Donzela Arabela" é um símbolo fáustico.. Mas. —O mito Donzela Arabela é um símbolo fáustico. em que o herói. que página! Puramente fáustica! Infelizmente você não entende o alemão. respondi.. —Bem... uma inquietação fáustica. de súbito. É este. piscando um olho. Incomensurável! E traduziu para mim o trecho do Also sprach Zarathustra. com um gesto espetacular: —Isso deveria ter sido escrito por mim... dizendo-me que. Saltando de assunto para assunto. vida. Porfírio! A um olhar meu. ande em tais altitudes. A alturas tantas ficou um pouco melancólico. Porfírio. Lembrando-me da página do Diário.. não quis significar que você. Só vive lendo romances. na síntese de Salvador Albcrt.. continuou: —Puramente fáustico! Você já leu Spengler? Certamente não leu. estrangulado pelo conhecimento. depois. pareceu-me afundado em altas meditações. —Veja que página. . como ei de tantos hombres.. encontra raparigas que bailam numa clareira. atravessando a floresta com seus companheiros. para cá.. de algum modo." E continuou: —Onde viu isso? Onde? —Não me lembro. respondi-lhe com ar de quem procura recordar qualquer coisa: —. a vida que foge diante do asceta! E. interrogativo.lhe melhore a situação. por motivos especiais. Apenas me pareceu que essa aspiração do imaterial e do intemporal feminino. segredou-me. Andando majestosamente para lá. o fáustico de Amiel se enquadra no definido por Spengler... apanhou uma c leu: "En efecto. Silviano arregalou os olhos: —Onde é que andou escarafunchando isso? Sim. Silviano estava no seu grande estilo. Creio que em uma revista literária . Foi à estante e de lá retirou um livro. vista momentos antes. Problema fáustico.. Foi a uma gaveta. o problema fáustico. uma cópia da Maja Desnuda. dizendo que ia ler-me algo maravilhoso. . é. Virou-se. Espere. Esta noite. el problema de Amiel. mostrou-me. pensara muito em uma confidencia que lhe fiz há tempos. O amor. Sim. consultou as fichas.

que minha melancolia tenha vindo simplesmente da atmosfera. Quanto a mim. abre-se mais: foi-me extremamente gentil. muito mais meteorológicos do que supomos e tudo o que modifica a atmosfera. para definir certos estados de espírito. velho profissional da tristeza. a maginar. o peru foi omitido. para trás. Não se resolve nada. no coração. a inventariar o realizado e o não realizado. Pode ser. UMA DATA IMPORTANTE. por gestos. achando bonita a expressão. Tomado o café e pedidas a Joana notícias da prole. É dia que ninguém esquece. entrando com uma bandeja de café. E o dia de hoje amanheceu pesado como chumbo. e uma gripe pneumônica . Um acesso muito forte de Francisquinha. que Mariana anda restringindo. VINTE e cinco de agosto de 1935. Emília. Como estivesse sem fome. no curso destes últimos anos. também. que foi que aconteceu? disse Joana. quando ela me barrou os passos. entendi de sair. para me mostrar. e ia pegando o chapéu. aqui em casa tudo vai bem. Depois de nossa última conversa. meio aflita. Viva a tradição dos Borbas! Não esqueceu mesmo não. juntaram-se hoje as angústias especiais do aniversário e talvez um pouco daquilo a que o Silviano chama "inquietação fáustica". provoca alterações em nossa substância espiritual.—Sossega. recebe-o com boa disposição: é mais um pretexto para o chope. para frente. a folhinha pendurada na parede. Não acredito na sinceridade daqueles que dizem nem sequer perceber a passagem do aniversário. amanheci com certo peso. despedi-me do filósofo. na verdade. com certeza. O homem é um animal definidor. Eis uma data importante neste solar da Rua Erê: completo 38 anos. À melancolia do amanuense. A loucura de Francisquinha parece atenuada. que é de origem cósmica. dei para me sentir um tanto ou quanto fáustico. porque é dia de balanço. à tarde. mas ficamos satisfeitos. O déficit é grande. menos taciturna. por exemplo. desde a chuva até a música. Somos. homem. Olhamos a vida. § 21. não se esqueceu do peru tradicional. Grande coisa é encontrarmos um nome imponente. puxou-me pela manga do paletó e levou-me ao quarto grande. muito conhecido. naquele ano. pouco tempo depois de haver chegado da repartição (onde recebi numerosos abraços). Entretanto. mas nem sempre se fica macambúzio: Florêncio. como se diz em Vila Caraíbas. Um anjo pacificador desceu sobre as coisas. Aliás. só em 1930 e em 1933. e Emília. Aludia ao aniversário.

esta noite. Tratei-os bem. assim foram aparecendo o Silviano. a alma relaxa-se. esquecendo a dispepsia que acompanha os Borbas há tempos imemoriais. ou principalmente. ao tomar comigo as refeições. por último. o calor de qualquer ser humano. Silviano já o disse. que foi preferido por todos. o Redelvim. confeccionados segundo um rito especial de Vila Caraíbas. prodigalizei-me libações. Fiquei para o jantar e a mesa me comoveu: além do peru. Nada houve de especial na reunião e a conversa correu alegre. Emília coloca diante de si. A gentileza desta tarde. e. que o anteparo de papelão foi hoje suprimido (comumente. pergunto a mim mesmo se o caso Arabela não terá sido apenas fruto de solidão e timidez. Notei. E tudo isso compõe. tipo 1910. outros tantos meios artificiosos que a vida emprega para manter. em quem nossa alma não encontra ressonância. ONDE SE APRESENTA UM REVOLUCIONÁRIO. e o caso assumiu um aspecto quase doce. o interesse vital. com um litro de uísque mandado vir do fornecedor e algumas botelhas de cerveja de sobressalente. transportando-me para um plano onde as coisas perdem o travo amargo. e se persigna. para não me ver. tive. Sentindo-me tão bem disposto. em nós. Retiraram-se. após ligeiro discurso às velhas. sem dúvida. mas esta não apareceu para receber cumprimentos. e. quando vê o pequeno escritório ocupado por tais clientes. as mágoas se esquecem. § 22. Quem se entende? A gente amanhece sombria e anoitece. sobre a mesa. o peru. ainda. um anteparo de papelão). as canecas de vinho realizaram uma operação benéfica. Logo depois que voltei. deixou-me . às vezes. UMA CONVERSA com Redelvim. mesmo de pessoa como Emília. cujo autor é ignorado. compareceram-me os amigos Giovanni e Prudêncio Gouveia. tem surpreendentes efeitos analgésicos. na manhã de hoje. Ah! Não: é um símbolo fáustico. reconciliando-se com os velhos amores. Apreciaram muito os pastéis de Emília. Florêncio abriu-as com ternura. quase feliz. no dia natalício. impediram a comemoração a que os Borbas varões têm direito. a Jandira e o Florêncio. meus vizinhos. Jantei amplamente.de Emília. A uns julga loucos e a outros criaturas excomungadas. Acabado o uísque. Arabela hoje não me está doendo muito. no outro.nos vinho do Rio Grande e peixe de Pirapora. a lembrança das comemorações domésticas. O que não a impede de ser uma valsa deliciosa. Um nada qualquer. saí para a rua assobiando a valsa Saudades de Ouro Preto. entre anedotas.

mas ele. propriamente ditas. para o que desse e viesse. Mas o que houve de extraordinário foi que. Redelvim. Silviano era um reacionário imbecil. Fiquei melancólico e cívico. meio nervoso. a fim de alcançar. estava incluído. o expediente do Banco. para breve. que houvesse receios no espírito do amigo e perguntei-lhe acerca do que lhe poderia acontecer. por um instante. alguma compreensão. Pensei.. . Ao final de uma das páginas que ficaram para trás já lhes contei o que se passa em mim. Redelvim ficou irritado com o meu tom e interrompeu-me dizendo que falava a sério. vem uma guerra para destruir o excesso de indivíduos que perturba o equilíbrio social. Ao contrário do que acontece ao primeiro (se acaso foi sincero no que disse) os indivíduos significam demais para mim. por ocasião do fechamento da sede do Partido. Os indivíduos nada significam. Redelvim. Supus. ainda. que sua situação pessoal não interessava e que um pequeno burguês. Talvez algumas leis. ao ensejo desse encontro. seria solidário. ainda cedo. ou abstrações econômicas. que me vêm. sempre que começo a meditar: perco-me num labirinto de antinomias. a civilização poderia ter. além do mais. eu vejo homens. E. superpopulação. Mas sou apenas um falido poeta lírico e rir-se-ão das idéias. operações da economia da espécie. E que a polícia.. só cuidava da própria pele. apreendera documentos. neste País. asperamente. sobre o problema. por exemplo. Elas não são. que os acontecimentos se estão precipitando e que se fala na possibilidade de uma revolução. sempre que se trata de "sujigar a onça" (como diz o Florêncio. referindo-se ao ato de reformar uma promissória) e temos uma sociedade de avais mútuos. não sabia de nada. criaturas que sentem e pensam. Revoluções sempre as houve e haverá. Quanto às revoluções. não estava a par dos planos. se começasse a haver prisões. E que. um sentido mais cordial.apreensivo. recolhera a relação de todos os seus membros em cujo número ele. deixando-me aturdido. que revoluções ou guerras são reajustamentos. Respondi-lhe que isso não era motivo para aflições. Nós nos servimos um do outro. Silviano acha. pois a polícia vivia atenta. e o fracasso era fácil de prever. no Redelvim e na Jandira. como eu. Quanto ao mais. Quando há. aliás. Ele apareceu aqui em casa. mesmo. depois.. sem os cruentos conflitos que andam pelo mundo. saiu às pressas. muito claras e comumente se manifestam contraditórias. pensando que. Onde os outros vêem unidades mecânicas da massa. Tratava-se de uma revolução proletária.. certamente. me contou ele. Respondeu-me. segundo seu modo de pensar. for para colher o meu aval.

para certa gleba da fazenda velha. onde os homens. E ele me parece mais anarquista. eu experimentava indizível angústia que resistia a . curvados. conheci Redelvim numa república de estudantes. Temos sido companheiros em tudo. gera uma tolerância grande para com os golpes que me vêm dele. Meus receios se vão confirmando. mas bom amigo. reservada ao plantio. que é terno. simultaneamente. naquela página do Diário. mas não dou importância a isso. Qual a relação entre tal acontecimento meteorológico e nossa sensibilidade? Eu não saberia precisála e apenas poderei dizer que um homem rural. malgré lui. Por outro lado. E homem difícil. o homem Redelvim.Vejo. As deste princípio de setembro já não são as primeiras. punham sementes e as cobriam. despertou em mim. Um anarquismo lírico. Foi um pé-d'água violento e rápido. sensível. inteligente. Há quinze anos passados. o mesmo fenômeno que. por exemplo. onde moramos juntos. aproximadamente. em virtude de uma desavença com o diretor de sua repartição. Na manhã de hoje. suponho. veio a chuva. subiu do solo um hálito intenso e fecundante. Quando. Trata-me com dureza. CHUVAS DE SETEMBRO.. Dentro em pouco estará irremediavelmente dissolvido. mas determinam. Ao passo que sentia veemente apelo da terra e um desejo vivo de evadirme para lugares e épocas distantes. tomei casa própria para viver com Emília e Francisquinha. cuja imolação em nome de uma quimera seria uma crueldade do destino. O pequeno círculo em que vivo. § 23. inclusive no celibato. seus temores. nestes últimos tempos. o amigo registrou. que lhe voto. adormecido. que não dá para atirar bombas nem praticar atentados. que comunista. nas aperturas financeiras e na burocracia. o sol nasceu forte e o chão me queimava os pés. após instantânea formação de nuvens. quatro anos. Também não levarei a sério as declarações que me fez pela manhã. é agora trabalhado por dissensões mais profundas.. sabendo que a causa de tudo é o nervosismo em que vive. a anotação a propósito das chuvas: "Tempo —Primeiras chuvas de 1935". até quando. e passou a trabalhar somente em jornais. a admiração. com seu primitivismo. abriam covas. falecido o velho Borba. Deixou ultimamente o Estado. Este nosso anarquista tropeçará sempre no coração. AGORA compreendo por que Silviano incluiu. e cujo equilíbrio sempre foi precário. sua força e. Jamais acreditei no seu ativismo partidário. mas o cheiro de terra impregnou-me as narinas o dia inteiro.

assim. Pretendo. E criei um ser fantástico. a mim próprio. Curioso homem. Com uma esbatida imagem física. agora. de vagabundo lírico. Uma tarde dessas. fez-me encarná-lo nessa donzela Carmélia. ANÁLISE ESPECTRAL DE CARMÉLIA.. que tenho passado no correr dos tempos. Reajo. estou escrevendo um. a meus olhos. tal como ocorre nas composições musicais onde a frase dominante por vezes se eclipsa ou flui tão sutilmente que não a percebemos no concerto de sons. ou que conservava apenas preceitos morais. que nem esses preceitos me restam e que o que há em mim são sentimentos de ordem moral. Já era tempo de fazê-lo. legados pelo velho Borba. eu revivi um processo infantil e o velho mito de Arabela volveu a perseguir-me. Disse-lhe que me presumia um homem sem princípios. apenas de passageira anistia. porém. publicar um dia este caderno de confidencias íntimas. Uma noite de carnaval. § 24. desde que vacilaram e caíram. bonançosos. que não se trate. a salutar reação que em mim se processa. Aos dias difíceis. construí uma Carmélia cerebral que me causava devastações. entretanto. em encontros rápidos de Livraria. e o pouco interesse que seu regresso me despertou evidencia. durante os quais todos os fantasmas se desvanecem e os temas torturantes deixam a tona da consciência. É um narcisismo a que ninguém escapa. Quem escreve um Diário (afinal. Ao escrever esta página. e esclareceu.) não se pode furtar à sua própria contemplação. fornecida pela moça da Rua Paraibuna. e um homem não se deve entregar. Há solicitações graves. A solidão trabalhou. cheia de sortilégios. perdoem-me os leitores as anotações de caráter muito pessoal que forem encontrando e que certamente não lhes interessarão. GLICÉRIO chegou ontem. contra essa ridícula história da noite de carnaval. diz-me coisas surpreendentes a meu próprio respeito. a que devemos atender.toda tentativa de análise. que se resume na disposição de orientar-me exclusivamente pela sensibilidade. todas as convicções e pontos de apoio da consciência.. acaso. O desembargador fitou-me com os olhinhos penetrantes. onde . que havia dentro de mim. e com sombras e luzes. aos meus olhos. sempre se sucederam outros. a uma vida inútil. por detrás das lunetas grossas. lembra-me uma palavra que ouvi do desembargador Linhares^ acerca da predominância da face campesina em meu temperamento. com virilidade. Se. sem problemas. confiei-lhe meu estado de espírito. Nosso comércio é escasso: temo-nos visto apenas uma vez ou outra. que não tem culpa de coisa alguma.

Não entendi bem o seu piemontês. —Que há. e dispunha-me a sair. Mas. e que eu era chamado a intervir. A Carmélia que amei não existe. inclusive a abolição do colarinho alto (excelente medida. . por causa do filho. preocupado com a situação de Redelvim e de Jandira. na Seção. hoje cedo. cal vegna veder sior Joanin que lesta a crepar de dispiazer parché ei bambin 1'andá via! Avaliem o susto que me trouxeram os gritos e a entrada espetacular da velha. quando me veio dar novidades do Rio. já se sabe. § 25. Chegado à casa de Giovanni. como dizem os cronistas sociais. GIOVANNI E PIETRO. É preciso fazer qualquer coisa. em pranto convulso. entrou desabaladamente pela minha porta. a gritar: —Madona Santa! Sior Bermir. ponhamos de parte essa história e lembremo-nos de que não se pode ser criança aos trinta e oito anos. mas calculei que o velho Giovanni (Joanin. sei lá. saber algo a respeito da moça. sob os olhares perscrutadores de alguns curiosos que farejaram qualquer coisa de anormal na agitação da velha e em suas palavras aflitas. explorando inconscientemente minhas fraquezas sentimentais pela jovem Carmélia. das noites ermas.só entram tênues traços da moça. que me acho de ânimo isento. Agora. cunhada do velho Giovanni. Nada tem com ela a formosa senhorinha da Rua Paraibuna. Marianina. pondo-lhe a mão sobre os ombros. Tratei-o mal ontem. Nem lhe perdoei todo o tempo que me fez perder. segundo o dialeto do vizinho) passava maus quartos de hora. Giovanni? perguntei-lhe. tornando vão meu esforço para. é contribuição do luar caraibano. reconheço ter sido grosseiro para com ele. ou vêneto. pois a noite está quente. em procura desta última. Descontei tudo. E quem está pagando tudo é o pobre do Glicério. Saí rapidamente. Pura imaginação: tudo se resume nisso e nada há além disso. um bar que nunca se fecha. Sobretudo tomar um sorvete. na Avenida. Há. quando me ocorreu algo extraordinário. aliás) e as exibições em rodas sociais. vizinho de quarteirão. Aproveitemos a insônia e caminhemos um pouco. DORMI mal a noite passada. cabeça deitada sobre o braço. acompanhando Marianina. secreção da fazenda e da Vila. o mais. distinto ornamento do nosso set. de todo o mórbido romantismo. encontrei-o junto à mesa da copa. Não pude esquecer-me dos maus momentos que me trouxe durante semanas. através dele.

seu patrício: —Son un disperat. a porta já havia sido forçada. ergueu os olhos. em língua mais acessível. continuou na língua engrolada.Sem levantar o rosto. porque lhe chamaram "mocinha". que não entendo seu dialeto. landa dré ai auter. gaveva minga tanta colpa. Um delegado. Com a respiração entrecortada. em sua confusão. com uma vara de marmelo. ou talvez confundindo-me com Beppe (Giuseppe. no fundo do quintal. a valer. Depois de havê-lo açoitado. quando foi ao botequim. Enquanto apanhava. noto que as linhas estão dispostas em versos. que reproduzo agora. ciao. sior! Minha presença serenou-lhe um pouco o espírito. ma mi son anda in fúria e giu bastonate. até novas instruções. nada furtara. pur un infelice! Me fiol! Me fiol! Só minga cos faro! Depois. e o velho explicou-me. o velho estendeu-me nervosamente um bilhete amarrotado. esquecendo. na polícia. acompanhara os mais crescidos. besta!" Fico à espera de uma explicação. que o garoto fazia parte de uma quadrilha de menores arrombadores. Assaltavam botequins para comer gulodices. amigo de Giovanni. e lhe mandaram vestir uma saia. Os chefes da quadrilha foram remetidos para um abrigo de delinqüentes juvenis. beber guaraná e abastecer-se de cigarros. reconheceu-me. como se se tratasse de um poema: "Besta velha falso. . É tolice me percurar porque já estou longe. com o auxílio de Beppe: —El me bambin. . Lendo-o. mas Pietro era o mais novo deles e ficou provado que agira induzido pelos outros. Haviam descoberto. ao fugir de casa. medroso. o velho foi tomado de grande abatimento. Mi voleva far dei me fiol un duttor. que o papel amarrotado era um bilhete deixado pelo bambin. puareto. ciao Falso como tu Só merece pau. o sapateiro). em sua amargura.. diz-me. mas. alta madrugada. obteve que o menino fosse entregue ao pai. sob o compromisso de ficar detido em casa. a criança gritava que não tinha culpa. Sim. até nunca! Ciao. meu caro sior..

deixando aquele bilhete. também italiano. Só depois de fatigado de surrar o filho. Conheço-o há vários anos. e esta. pude ir à casa de Jandira. já um pouco tarde. ao mesmo tempo com remorsos. Ficara prostrado. pude perceber a profunda revolta operada na consciência do filho. pois a filha e a mulher morreram. Dois dias depois. por haver maltratado o menino. Queria fazê-lo doutor. sua visita é tradicional. e com horror pelo que este fizera. Tinha doze anos. que um investigador da polícia me declarou haver indícios de que o pequeno Pietro fugiu para o Norte do Estado. Disse-me a tia. seu melhor companheiro. Pelo que me contou. Bebo o vinho e distribuo as nozes pelas crianças da redondeza. É um camarada alegre. Tinha amigos na polícia e haveríamos de achar o garoto. aquela havia já três anos. sua vida estará irremediavelmente des troçada. Pereirinha lhe dera um serãozinho. Não a encontrei. contando-me histórias do seu Piemonte. D. Giovanni estava agoniado. Hortênsia—que ainda não se havia recolhido. que o Dr. onde mora seu padrinho. Quase que diariamente temos nosso dedo de prosa. ao pensar na mulher e na filha mortas. Tratava-se de concluir um urgente trabalho de datilografia. às linhas finais das notas ontem escritas. Era a primeira vez que o castigava assim. Mas o velho estava como que surdo. não atribuí importância ao caso e achei tudo . ESQUECEU-ME acrescentar. Preocupado com Pietro. § 26. falando-me de uma coisa ou de outra. foi que as palavras deste puderam penetrar-lhe um pouco no espírito. pedindo-me notícias de Francisquinha. Vou comprar-lhe cigarros e ele sempre me detém. De vez em quando me aparece em casa e. Este problema ocupou-me ontem o dia todo e só à noite. azeitonas. Se assim é.limitando-se a ver os companheiros beberem e tirarem cigarros. Prometi-lhe que o auxiliaria. talvez tenha ido para Diamantina. certamente para esperar a moça—. dez. e fustigava sem parar. embora às vezes lhe desçam sombras. fugia de casa. NOVA CONVERSAÇÃO COM JANDIRA. desde que me instalei na Rua Erê. Para ele é que trabalhava. pelo Natal ou Ano-Bom. Traz-me uma botelha de Chianti ou de Barbera d'Asti. E não será difícil recambiá-lo à casa. passas e nozes. Imagino o drama do velho. Se o filho não volta. Pietro—repetia Giovanni entre soluços—era filho único.

como todos os outros que. disse-lhe algumas tolices para amainála.. Tive ímpeto de passar-lhe a mão pelos cabelos e (por que não?) de dar-lhe uris beijos que não seriam senão paternais. Mas o gesto morreu no pensamento e os beijos ficaram recolhidos. em vez de fazê-lo depois. calculei que se esses serões se repetem. vulgar. que. por que ando tão sumido. Chamei-lhe Jandirinha. Disse-lhe. simulando ar desinteressado. que não conheço. é casado. Esse Dr. terminou. —Só um idiota poderia supor que eu me vou vender a seu Portela.muito natural. teremos futuras complicações. agastada. que acordou tarde. e as mulheres (de preferência moças e bonitas) tem sido ocupadas nesse ministério. não estava para conversas. Deus me perdoe. Só hoje cedo. mas o seu modo de olhar para baixo e para os lados não me enganou. ou pensando bem. as complicações se multiplicaram na face da terra. então. As impossibilidades próprias do estado civil deles.. foi isso o que eu pensei e me fez procurar Jandira.tive oportunidade de. amorosos ou simplesmente ternos. esta manhã. mas. pelos virgíneos amores. por que me faço difícil. Atirar-me-ia à cara o primeiro utensílio que encontrasse à mão. Perguntou-me. Daí a pouco. não raro trágico. tal a ternura que ela me inspirava naquele instante. porque não ficaria. meditando sobre o assunto. estávamos a conversar despreocupadamente e. com desprezo. da parte de Jandira. adulei-a. imune a qualquer desejo amoroso. só me cumpria retirar-me condignamente e procurar novos amores. Não se mostrou surpresa. contar-lhe a conversa havida com Redelvim. tendo ela optado pelo quarentão (o de que lhes falei atrás). não fazem senão aguçar-lhes os apetites ou desenvolver neles certo gosto. continuou: —Vocês acreditam que são absolutamente necessários? Não se pode viver sem homens? Cada qual é mais grosseiro. de modo algum. Desde que se inventou a datilografia. para lhe desfazer o mau humor. os casados. antes de ir à repartição. Fez por esconder o mau humor. isso não é obstáculo. respondeu-me. ou à noite. Tanto melhor para mim. o mais vago que fosse. Não tem outro assunto? Esquecendo-se das confidencias que me fez há pouco tempo. —Tá ouvi falar nisso. Minhas palavras bastaram. minha imaginação ensaiou para as virgens que passaram pelo meu caminho. excluída a hipótese de uma reação diversa. porém. Jandira. que acreditava serem ela e o Redelvim as criaturas mais . Pereirinha. Os advogados sempre têm arrazoados urgentes por fazer e vivem às voltas com os prazos processuais. Pensando mal. Respondi com uma brincadeira desajeitada.

insistia em promovermos a expulsão do espírito. porém. se assentou de novo. E. põe-se à frente do bando. vários padres . Veja que chique: a jovem Jandira. Certa vez Silviano. ao assunto. concitando os homens à luta. e compôs cuidadosamente as vestes. desviou inteiramente o curso do meu pensamento. passeando para lá. desde alguns dias. Em palestra. Movimentando-se por aquela forma. deixasse de imprudências. ouve anedotas fortemente temperadas. voltou. Já não falava. Jandira desnorteia a gente.inofensivas do mundo e nada terem os poderes públicos que temer de seu comunismo meramente literário. quanto ao Dr. Mas decerto notou que eu lhe observava as formas com impertinência. mas defende-se como leoa. Bem. em chamarmos um padre. Ela não o confessa. zombeteira. É partidária do amor livre e de todas as outras liberdades. IDÉIAS DA EMÍLIA. um dos quais é médium. —Foi para isso que veio aqui? perguntou-me. se for preciso. tem admitido que abordemos temas perturbadores e. empunha a bandeira vermelha. compõe-se. a fim de se realizar uma sessão com a presença da doente. que fosse discreta. para cá. para o exorcismo. numa atitude garota. lhe deixava os joelhos de fora... logo depois. Josefa lavadeira convenceu-a de que seria melhor trazer aqui três espíritas que conhece. Pereirinha. Recusei várias vezes meu consentimento. Conviria. E. de boa vontade. Emília.. não suporta um olhar de desejo. Ruboriza-se. dizendo-me que a Zefa garantira que não. Voltei tranqüilo para casa. agitava umas carnes saudáveis e fazia nascer em mim uma ternura nada parecida com a que me despertara momentos antes. cai abatida pela metralha. Fico lisonjeada com essa idéia de que sou conspiradora. porém. mas a contradição é da vida. objetando. Nada terei que temer. HAVENDO Francisquinha piorado de novo. não se esquecendo de puxar a barra do vestido que. Dificilmente isso se concilia com as minhas inclinações líricas. em relação a Jandira. a pretexto de despedir-se. Emília. para dissuadi-la disso. § 27. tentou abraçá-la e levou carão. que essas práticas eram contra a religião. Não lhes contei que é um dos meus fracos dar certo tom picante às conversações com moças donzelas. mas está sem nenhuma disposição de meter-se em conspirações. sempre que está em xeque. etc. portanto. porque. a imitar a cena imaginada. reage. que a princípio cedeu. Entretanto. mas a polícia poderia pensar de outro modo. não sejamos apressados em conclusões.. sendo curto.

De pé. Emília e Josefa. meus filhos. com alguma dificuldade. procuravam mantê-la naquela posição. o médium começou a agitar-se. nossa pobre irmã Francisca vem sendo perseguida por um irmão transviado. interrogou a Josefa sobre o caso. com a outra mão. pela boca do médium. a quem falta a luz. trouxeram Francisquinha e puseram-na em uma cadeira. mãos nos seus ombros. Depois. respirou profundamente e sob as preces dos circunstantes. levantada e posta ao meio da sala. os homens chegaram. concentrando-se. Os espiritistas tomaram uma xícara de café. também. Um. Dentro em pouco.admitiam o espiritismo. Dispus-me também a sair. tirando-lhe a razão. e. O espírito saiu. cedi. cumprimentaram-me cerimoniosamente e assentaram-se em torno da mesa. Vendo que estava inteiramente obcecada pela idéia e não seria prudente contrariá-la por mais tempo. já no portão de casa. Que o demônio da lavadeira arranjasse a reunião. ao lado do médium. não mais a persiga. enquanto Francisquinha foi. O médium levantou-se. o homem voltou ao seu lugar. Pai João. dela ouvindo um histórico a respeito das perturbações da mana. por Josefa e Emília. gesto de lhe tirar do corpo alguma coisa. Estava terminada a sessão. que o irmão. todos rezaram padre-nossos e ave-marias. Às oito da noite. Que é que vocês querem? O presidente respondeu: —Pai João. Pobre mana! . que muito dano lhe tem feito. que me disseram ser presidente da mesa. Quanto a mim. e Francisquinha foi levada para o quarto. pondo-se em transe. com suas orações. declarou que iria fazer uns passes e que todos deveriam ajudá-lo. Foi o que se fez hoje. tornou a si. a cabeça e começou a falar: —Deus esteja nesta casa. fiquei a um canto. ouvi Emília dizer: —Chica vai melhora com o dijitório de Deus. desejaram-nos paz e se despediram. Colocando a mão direita por sobre a cabeça da mana e andando em torno dela. observando o rito. depois. para meu giro habitual pela Avenida. Em seguida. fez. Pai João está aqui. Inclinou. Pedimos vossa ajuda'para que ela se livre desse mau espírito.

—Isso é o menos. Pereirinha a perseguia.. Não calcula como é difícil a gente sustentar esta defesa permanente. também. atendendo a um convite da amiga. onde costumamos reunir-nos. Há uma distinção. E. seu jogo foi o de um conquistador apressado.. interrompi. Pereira. Durante o trajeto de bonde não conversamos. FOI BOM nada ter concluído. o Dr. não saber o que irá acontecer. Hoje.§ 28. De um relance. Esse foi. Nao basta a virgindade. salvou a situação. PROBLEMAS DE PROLETÁRIA. e conversarmos à vontade. Sei que não sou. pequeno. Estávamos à espera de um bonde. ar donzelesco e . Desde muito tempo. que reconhecia a ilegitimidade de qualquer pretensão sua. em um restaurante. porque. com ela desci na Avenida para irmos ao Parque. por passar muito vagarosamente junto de nós e ter voltado duas vezes. Aquelas a que vocês chamam "moças em flor". Esse período de suspiros durou uns dois meses. É preciso que as donzelinhas tenham. Era um sujeito incrível. A um olhar interrogativo. —E você é uma. compreendendo que ela não se prestava a ser objeto de divertimento. que entrava na ante-sala do escritório. Muito fora dos seus hábitos. Queria frutos imediatos. —Não. o sedutor foi mais atirado. explicou Jandira que o fulano era o tal advogado. pois está desesperado. Jandira desabafou-se. —Mas o problema continua. terminou Jandira. Pereirinha. Declarou não poder viver sem ela. tentando beijá-la. O rumor dos passos de um cliente. Depois. quanto ao Dr. aliás. de tenacidade fora do comum. dispensando-me de fazer conjeturas sobre os motivos que a teriam levado a procurar-me. Nos últimos dias. já que era um impedido. —Em resumo. que percebo. abraçou-a à força. a que ela deu a competente resposta. pois não era a primeira vez que se via assediada por homens. Por várias vezes. a dizer que não exigiria nada. Pereirinha. mesmo. Mas o Dr. ao chamá-la para o escritório. Tal manobra não a surpreendeu. Passou a suspirar. Alguns mais ousados se aventuraram. ao ouvir palavras de repulsa. deixei o emprego. quando um homem. Dr. a fazer-lhe propostas desonestas. compreendi o resto. Confessou-lhe que. entrara num período de ação e vivia procurando contatos. guiando uma baratinha de luxo.. me atraiu a atenção. apertos de mão. ela ameaçou deixar o serviço.. Sentados à mesinha ao ar livre. técnica. respondi. o pirata mudou de.. um infeliz. A princípio. Jandira esperou-me hoje à saída da repartição para jantarmos juntos. Estava apaixonado.. já a amava. Sempre haverá um homem e uma datilografa. que lhe dirigi. que observou ainda não ser hora de jantar. casados ou não. Arranja-se outro.

Acontece que sou de carne e osso. SENDO cedo para ir à Seção. de cuja margem pende um salgueiro. de finura. Afinal. pelo menos durante a crise atual. fortuna—que as torne difíceis. de um garanhão. E amanhã será a mesma coisa. e inspire a vocês uma série de lendas românticas. dizendo-lhe que de fato era mais romântico e também mais conforme à técnica da tragédia. respeitadas. Declarando-me não conhecer o episódio de Ofélia. prometi levar-lhe.. É UM ESPÍRITO REALISTA. já quase com a expressão costumeira. um exemplar do Hamlet. quando fomos jantar. Belmiro. § 29. mas aquela insistência. Despedimo-nos. pois meu propósito não era senão afastá-la dum pensamento amargo. É um inferno. É mais do estilo belmiriano. deliberei passar antes pela casa de Jandira. ontem pro metido. Afinal. era o único homem que estava junto de mim. Jandira calou-se. talvez aborrecida comigo. Continuou: —Essas fulaninhas não conhecem o nosso problema. com outro Pereira qualquer. não. num regato. amanhã. Belmiro. disse-lhe brincando: —Vou recomendar a D. dizendo não ser fácil aceitarmos que a pobrezinha tenha tido tempo . Durante o trajeto de bonde. E respondeu-me: —Com sublimado. às vezes me dá vontade de acabar com isso. como Ofélia. a fim de levar-lhe o Hamlet. no que faria injustiça. Afogar-se. Protestei inutilmente. Olhe. Hortênsia que não deixe o frasco de sublimado perto de você.. um animal. Aproveitei essa oportunidade para nos desviarmos de uma conversa melancólica e continuei no mesmo tom. sua fisionomia se abriu. irmãos. de fazer um disparate. Jandira não é um temperamento poético e há de fazer restrições à descrição da morte de Ofélia. Não gosto do Pereira. Afogar-se é mais romântico. fui folheando o livro. já não havia nuvens em Jandira e o repasto foi alegre. ficando combinado que serei mais assíduo em sua casa. depois. Querendo mudar o tom da conversa e dissipar a melancolia da amiga. regado a vinho. Não têm a companhia forçada de um patrão. que é um misto de atrevimento.sejam protegidas por todo um sistema de fortificações—papais. de graça. Depois. Não sei como pude resistir sempre.

impermeável aos símbolos e à linguagem da poesia. de inveja dela um galho se rompeu. A dar-se crédito ao depoimento da Rainha. Além disso. concedi-lhe. um excelente moço e nenhuma culpa tem de não me ter sido útil na aventura em que muito me aproximei do herói manchego. nunca me despertou senão um interesse superficial. E Glicério se permite brincadeiras que eu próprio não ouso: chegou a dizer à mana que ia . É verdade que esta lhe responde apenas por monossílabos às perguntas. vejo agora ao reler o belo episódio. é a única tolerada por Emília. § 30.de trautear fragmentos de velhas canções. sem saber a que atribuir minha súbita mudança de atitude. pretendeu inutilmente. nossas relações. na esperança angustiada de aproximar-me de Carmélia. e reagi de modo primário. quase de chofre. Das pessoas que aparecem. mas noto que fica serenada com sua presença. em vez de cantar. Se não mudar de idéia. acha-se agora sob a esfera de influencia do amigo Redelvim. Arrependo-me. durante dois ou três anos. aqui em casa. quando a virgem subia ao salgueiro. A PROPÓSITO DE GLICÉRIO. Mesmo o papagaio não o hostiliza. que considera os poetas "traficantes de tóxicos". sustentado? pelo capitalismo para entorpecer o espírito de rebeldia das massas. em tal conjuntura. afinal. fazendo-a cair na torrente. não sei por que artifícios. Ao dizer isto. uma camaradagem estreita que. como já disse. a situação de constrangimento que se criou entre nós dois. a inveja do galho: é um espírito realista. não houve suicídio. Tendo-se arrefecido o meu entusiasmo pela jovem Carmélia. também. senti-me trapaceado pelo janota. Mesmo porque. Objetará que. durante o expediente. Soube conquistá-la. com o seu auxílio. que de nada me serviu no transe. certamente por solidariedade com a velha. pertencendo a uma casta diversa da nossa. cortando. Havia ido a uma aula de taquigrafia. Como poderia adivinhar meus sentimentos. Antes de sua partida. Hortênsia. não é minha intenção deprimir o rapaz e enaltecer-me. de vez em quando. se os ocultei obstinadamente? Exigi-lhe um absurdo. e freqüentando-nos apenas por esnobismo. É. Jandira impugnará. em poucos dias. mesmo louca. enquanto se afogava. procurarei desfazer amanhã. uma pessoa deveria gritar. GLICÉRIO olha-me espantado. É que. reservo avaramente minhas disponibilidades de tempo para velhos amigos. Talvez até lhe conte a história toda. Não a encontrei em casa e deixei o livro com D.

ao que parece. pouco depois de nossa vinda para a Rua Erê. achando-se este comigo. E. o Indalécio—é como se chama —fez-lhe uma advertência qualquer. Sebastião. Chegado à estação de onde partem os três ramais. o almoço tá na mesa!. Pois a velha se limitou a baixar os olhos e a sair para a cozinha. cortou-me os rodeios e desculpas prévias: —Não carece falar não. buliu com Emília a respeito.. também. uma outra para Diamantina. em suma. em vez de um só direto. fiquei arrepiado. Há alguns anos. que não ignora essa rixa. para anunciar que a mesa já foi posta). nesse dia. Com o dinheiro que levou consigo. consolidou sua situação perante a velha. Acredita o velho que a compra de dois bilhetes. Glicério soube corresponder-lhe às atenções e deu-lhe um corte de cetineta (que dificuldade para obter esse tecido caído da moda!). na expectativa de uma explosão. *** Estas considerações a propósito de Glicério quase me fazem esquecer de anotar. para avisar que Pietro está mesmo em Diamantina. porque Emília não simpatiza com o homem e nem tolera essa pilhéria de casamento. ou de exclamar. Bom rapaz. Quando Glicério. Tive outro sinal de sua estima ao mancebo num dia em que. Emília nunca me permitiu comensais e foi com receio que a procurei. Ao dirigir-lhe a palavra. Quando vai à capela (duas ou três vezes por ano. se se encontra com o sacrista volta para casa enfurecida. depois de ali . convidei-o para almoçar. em vez de simplesmente bater um garfo nos pratos (como faz. Pensa que a gente não entende das coisas! Pensa que a gente não entende das coisas! Coerente em suas demonstrações de apreço ao Glicério. quando mais comunicativa: Se "alguém" quisé almoça. para que pusesse mais um prato na mesa. à hora do almoço. nesse dia ela veio ao quarto advertir gentilmente que o almoço estava esfriando e que comida fria não presta. aqui. timidamente.. um acontecimento de importância: o velho Giovanni veio verme à tardinha. que eu já sei. delirante de alegria. desta estação. preferiu.promover-lhe o casamento com o sacristão da capela de S. exprime que o menino hesitava entre Montes Claros. na cozinha. o famoso anteparo de papelão. que já mencionei em outro ponto destas notas. e foi o bastante. Pirapora e Diamantina. ou apenas na Páscoa). Brincadeira perigosa. suprimiu. O mimo. Não o deixarei de procurar amanhã e hei de penitenciar-me de minhas picuinhas. tomou uma passagem de segunda classe para Corinto e.

permanecer três dias, seguir para aquela última cidade, na qual mora seu padrinho. E Giovanni interpreta favoravelmente a preferência por Diamantina: indo procurar o padrinho, o garoto já mostrava um começo de arrependimento ou, pelo menos, desistia da intenção de sumir-se pelo mundo. Essas informações lhe foram prestadas pelo investigador meu amigo (o Parreiras), que muito se interessou pelo caso na Polícia Central. Giovanni espera receber amanhã uma carta do seu compadre anunciada em telegrama de hoje. Se não receber, partirá pelo noturno do Norte.

§ 31. UM DIA BEM-HUMORADO.
DÁ-ME vontade de rir, ao relatar, aqui, a celebração de minhas pazes com Glicério. Encontramo-nos antes de entrar na Seção, no momento de marcarmos, no relógio do ponto, a hora da chegada. Disse-me, sisudo: —Bom dia, Belmiro. —Bom dia, senhor Glicério. Como vai o senhor? respondi, mais sisudo ainda. Surpreendeu-se com o acréscimo cerimonioso que fiz ao cumprimento, e ficou sem saber se deveria interpretá-lo como pilhéria ou como advertência para que me tratasse com menos intimidade. Tal foi a expressão de sua fisionomia, que não pude conservar a cara fechada e reprimir uns gracejos. Mas isso, em vez de o pôr à vontade, encabulou-o ainda mais. Por fim, dando-lhe o braço, eu disse que precisávamos conversar, e o conduzi a um canto do saguão do edifício. Com espanto para ele, expliquei-lhe, desde as origens, os motivos por que, de um momento para outro, passei a tratá-lo de modo diverso. Fui rigorosamente exato nessas explicações, que duraram cerca de meia hora. Remontando ao caso de Carmélia, não receei ser ridículo ao referir-lhe toda a história, inclusive a da noite de carnaval. Ao expor-lhe o fenômeno da humanização do mito "donzela Arabela", experimentei alguma dificuldade, pois tive a impressão de que o petimetre me supunha vítima de perturbação mental. Zombei, então, do episódio, para tranqüilizá-lo quanto à minha sanidade de espírito. Contudo, persistia em sua face um ar de comiseração. Em outras circunstâncias, isso me haveria irritado, mas a disposição de esclarecer o caso e talvez a necessidade de confessar a alguém o romance vivido em segredo fizeram com que eu prosseguisse na minuciosa narrativa de minhas tolas aventuras. Também não me aborreceu o aparte, um tanto imprudente, dado por ele

em certo momento: —É extraordinário que você tenha conseguido imaginar tanta coisa em torno de uma criatura simples como Carmélia!... Sim, era extraordinário, concordei de má vontade. Era mesmo divertido. São coisas que acontecem. Depois, disse-me que se eu lhe houvesse confiado os meus desejos, nada lhe teria sido tão fácil como levar-me ao salão da viúva Miranda. Lá esteve algumas vezes, durante o período em que eu tanto me obstinava em obter, sem contudo as pedir, notícias a respeito da moça. E só não falou nisso, porque nem de leve poderia adivinhar meu interesse por ela. A viúva é meio difícil, com suas pretensões de aristocrata paulista— continuou—mas não fazia nenhuma restrição a ele, Glicério, e aos seus amigos. Quanto à donzela, era um anjo. Fina, inteligente, conversável. Teria gostado imensamente de conhecer-me — avançou. Depois da morte do pai, fecharam-se um pouco, era natural. Mas, passado o trigésimo dia, já a família estava recebendo, já se conversava, ali, como em vida do Dr. Aurélio. —Você teria feito sucesso na casa, concluiu com entusiasmo. Fiquei lisonjeado, mas disse-lhe que o assunto estava encerrado; que os mitos se recolheram, competentemente, aos seus lugares; que eu lhe agradecia muito os serviços que não prestara, mas poderia ter prestado, se eu lhos houvesse pedido, e que, ao cabo de tudo, só desejava sua inteira reserva a respeito. —Está certo, não se preocupe. Mas, em qualquer tempo que queira... acrescentou, com uma ponta de malícia. Passei o resto do dia bem disposto. Não sei se a causa disso foram as pazes com o Glicério, se a confissão, com que me desoprimi, ou as palavras amáveis, que me disse a propósito de um possível êxito meu junto à moça. Podem ter sido todas essas coisas juntas. O certo é que tive uma tarde bemhumorada.

§ 32. OS ACONTECIMENTOS CONDUZEM OS HOMENS.
E ASSIM vai a vida... Os acontecimentos que até aqui se desenrolaram e em que desempenhei ora o papel de ator principal, ora o de espectador, mudaram, por completo, as intenções deste livro. Naquela noite de Natal, ao início destas notas, expus o plano de ir alinhando apontamentos que me

permitissem publicar, mais tarde, um livro de memórias. Estava, então, concebendo qualquer coisa, e essa coisa se me agitava, no ventre, reclamando lugar ao sol. Jamais pensei, naquela ocasião, ou antes dela, que o presente pudesse vir dominar-me o espírito por forma tal, dele expelindo as imagens do passado que então o povoavam, abundantes e vivas. Estive refletindo, esta tarde, em que, no romance, como na vida, os personagens é que se nos impõem. A razão está com Monsieur Gide: eles nascem e crescem por si, procuram o autor, insinuam-se-lhe no espírito. Não se trata, aqui, de romance. É um registro nostálgico, um memorial desconchavado. Tal circunstância nada altera, porém, a situação. Na verdade, dentro do nosso espírito as recordações se transformam em romance, e os fatos, logo consumados, ganham outro contorno, são acrescidos de mil acessórios que lhes atribuímos, passam a desenrolar-se num plano especial, sempre que os evocamos, tornando-se, enfim, romance, cada vez mais romance. Romance trágico, bufo ou sem nenhum sentido, conforme cada um de nós, monstros imaginativos, é trágico, é cômico ou absurdo. Vejo que a história do presente já expulsou, definitivamente, destes cadernos, a do passado. Carmélia (travestida de Arabela) e Jandira afastaram a sombra de Camila, que, bem o percebo agora, era outra encarnação do mito infantil. Silviano, Redelvim, Glicério, Florêncio e Giovanni e seus pequenos mundos baniram os fantasmas caraibanos, as evocações dos velhos Borbas, a vida sentimental da Vila e da fazenda. Em vão, tento uma sondagem em Vila Caraíbas, naquele ano extraordinário de 1910. Baldo esforço: como resistir a personagens e fatos que, a cada instante, incidem no plano de nossa consciência? Às vezes ainda me vem a necessidade angustiosa de rever antigas paisagens, evadir-me para uma região que realmente já não se acha no espaço, e sim no tempo. Mas, no comum dos dias, agora é o presente que me atrai.

§ 33. RITORNELO.
ESCAPOU-ME ontem, à noite, esta lamentação: acham-se no tempo, e não no espaço, as gratas paisagens. Verifiquei esse angustiante fenômeno quando, em 1924, fui à Vila pela última vez. O Borba já havia morrido, a fazenda passara a outras mãos e as velhas já aqui estavam com sua extravagante bagagem. Camila ainda vivia. Lembra-me quão penoso foi o encontro com o passado. Lembra-me o dia em que só, debruçado no peitoril da varanda, na

já longínquos e mortos. trancas de 1910. A velha fazenda. Mas. o buritizal. penetrar no mundo que já morreu e que. arquétipo. o buriti. Camila era a virgem na sua realização integral. O sertão estraga as mulheres e a pobreza as consome. os olhos apenas refletiam imagens. a fazenda. dos Borbas. A essência da juventude parecia haver-se aprisionado em seus gestos. em comum com aquele. e não criatura. para sempre. vivo. ai de nós. . ao morrer da luz. cores e aromas de outros dias. logo as devolvendo para o exterior. que. a gameleira solitária no monte—que viviam em mim. devastação maior lhes causa porventura a nossa imprudência. ao cotejar com a realidade as invenções de uma desenfreada fantasia. Que restava de tudo. em vez de se localizar em nós mesmos. e a lagoa. se nos tornou interdito. não encontrei senão pobres espectros. inapelàvelmente. e seus olhos me diziam da Eternidade. as colinas e os vales que se desdobravam até ao azul da Serra do Juramento. iluminados por um sol festivo de 1910. os esfumados traços de coisas que se vão extinguindo. os irmãos pássaros. exibiu-me apenas a ossatura desnuda daquilo que. a lagoa. e pesada tristeza. O luar. A lagoa foi drenada e convertida em pasto. Na verdade. fremente. com um sol grande a despontar na serra. quem sabe. que é procurar as sombras de um mundo que se perdeu na noite do tempo. fiquei a percorrer. com um vago olhar. a serenata. o campo orvalhado em manhãs de maio. cores e aromas de cada objeto ou de cada perspectiva. Em vão' busquei nas linhas. ou apenas esboçados por um luar inesquecível que caiu sobre as coisas. nos parece estar no fundo e na forma de cada coisa. ao som do velho piano. porque algo impedia uma comunicação entre o mundo de fora e o de dentro. que só possuía. fora um corpo exuberante de vida. Onde pretendi encontrar a alma das épocas idas. que se apresentavam aos meus olhos. muralha do meu mundo antigo. em certas oportunidades. Inútil tentativa de viajar o passado. e beija-flores. rico de uma paisagem mais numerosa. em hora por si mesma de intensa melancolia—a hora rural do pôr do sol—. A namorada. polcas no salão cheio de retratos. naquela noite de 1907—ali já não estavam. envolvendo-me naquela onda de saudade e naquele desejo de encontrar uma forma de morte. afinal? O que a meus olhos surgiu foi a sombra miserável de um tempo que morreu. Como se pode suprimir uma lagoa? Como se pode cortar uma árvore? É como se destruíssemos algo humano. e borboletas.fazenda. desde que deixou de existir e se arremessou para trás. em outros tempos. a montanha. as linhas. Segredos de moça em flor. Percebi que vago delírio se apossara de mim. ou. o rio. Vila Caraíbas.

*** Não voltarei a Vila Caraíbas. a cada instante: é o espírito cotidiano. impressões. Este caderno. o cartaz "Desculpem a poeira"—tanto mais gentil quanto o pedido de desculpas é. como no penúltimo capítulo. que lhe configura a imagem no tempo. novo. § 34. os que me acompanham. dirigido a todos os que vêm depois—apresento aqui minhas escusas. conduzindo. a fazer considerações em torno da mudança de rumos. nestas profundas regiões caraibanas do meu espírito. há uma semana escritas. Começo. mas gentilmente trazem. doce. tornou-se. um problemático leitor futuro sentirá os abalos que tais desnivelamentos determinam. a própria vida. e quero apenas significar que. . que às vezes me parecem tão remotas e metafísicas. cada dia. ainda que infinitesimal. Em todo este esboço de livro. Como os autocaminhões que. Esse espírito sutil representa a coisa. para dar lugar a outro. A alma das coisas. RELENDO. no domínio físico. fugiu nas asas do tempo e só devemos buscá-la na duração do nosso espírito. onde alinho episódios. as derradeiras páginas. As coisas não estão no espaço. o que. a meus olhos. inesquecível. Em vão o procuramos depois. fico a pensar nestas diferenças de nível que me acorrem. agora. então. e acabo por mergulhar. pois lhe foge. Há nelas ilusória permanência de forma. a que fui forçado na elaboração destas notas. sem tropeços. sem distinção. no último. algo se desprende da coisa. nestes apontamentos íntimos. sentimentos e vagas idéias. Que me perdoem os abalos passados e os futuros. que dela emerge. no momento preciso em que com ela nos comunicamos. assim como a matéria se esvai. tão rápidas e súbitas que a mim próprio me pasmam. levantam nuvens de pó. percorrendo a estrada de Morro Velho. mas falta-me engenho para isso e nem poderia pô-lo. em certa manhã de maio no ano de 1910. ou em determinada noite primaveril. "DESCULPEM A POEIRA". as coisas estão é no tempo. Desejaria planar suavemente. Mas não me refiro à perda da matéria. tanto se acha embebido de tudo o que de mim provém e constitui a parte mais íntima de minha substância. que esconde uma desagregação constante. sem o risco de falseá-los. as coisas estão é no tempo. se nos depara é totalmente estranho. pendurado na parte posterior da carroçaria. e o tempo está é dentro de nós. Na verdade. nos domínios da sensibilidade.

A casa me parece mutilada com a sua ausência. quando de outras vezes tive de valer-me do Instituto. No correr desta semana (que ficou em branco no caderno de notas) suas crises se tornaram fortes e freqüentes. Chegado à sua toca da Rua Erê. uma temporada. Emília quis recorrer de novo ao espiritismo. com o malogro da tentativa feita na sessão de quinze dias atrás. a ponto de querer agredir-nos. mais achacada da gota ciática e já não suporta os esforços violentos a que a irmã a obriga. É medida extrema. Não excluo a hipótese de que alguma âmesoeur (e deve havê-la. Emília também se ressente da falta da Chica. estava. aliás. COM grande pesar. como a . fui forçado hoje. pela manhã. perguntando-me. mas consegui convencê-la de que o caso pertencia à medicina. Passa. e temo que não as encontre em maior número. o Belmiro egresso de Caraíbas se apalpa. e certamente por isso não ofereceu resistência. neste vasto mundo) possa comprazer-se e contemplar-se na leitura dele. Já lhes contei que nada ou pouco fala à irmã. a mim próprio. Um grande silêncio—a que estou desabituado. desde que as velhas se acham comigo. que compensa o primeiro e o retifica. ali. Está ficando mais velha. se reajusta e assobia a fantasia do Hino Nacional de Gottschalk. Emília. O médico que ali a recebeu prometeu melhorá-la com a aplicação de duchas e injeções. Publique-o ou não. um pouco desencantada. a levar Francisquinha para o Instituto de Alienados. A um Belmiro patético. na atmosfera caraibana—contemplando a devastação de suas paisagens—sempre sucede um Belmiro sofisticado. Tais desnivelamentos é que compõem minha vida e lhe sustentam o equilíbrio.Não é senão por isso que fugiria a publicá-lo. agitavase muito. A pobre mana se recusava sistematicamente a ingerir alimentos. torna-se mais calma e volta para casa. enorme. e gritava dia e noite. § 35. durante o dia e às primeiras horas da noite—modifica o aspecto das coisas e me oprime. mas não se imprime um livro para uma ou duas almas irmãs. reconheceu logo a necessidade da medida. se acaso oferece espetáculo de interesse para quem quer que seja. terei de dar-me como sou. FRANCISQUINHA PIORA. que se expande. que não tenho empregado muitas vezes no curso destes doze anos. alimenta-se melhor. que sempre relutou. ajustando-o aos quadros cotidianos. Sempre a tratou como a uma criança de colo e suas diabruras deveriam diverti-la.

DE NOVO. mas sei quanta ternura se esconde por trás da cara fechada dessa velha Borba. limitaram-se a pedir notícias da mana e a oferecer os préstimos. recebida a carta do compadre de Diamantina. Na carta.mim. pela Rua Erê. ainda que pelo avesso. ainda. chorando e trocando abundantes interjeições. Destacarei o mais importante. Já não há quem dê mingaus a ratinhos. que jamais exploraremos. transfigurado. Abraçaram-se demoradamente. que foi a volta do Pietro. Vivia a chorar. de emoção. que fala mal. suje a roupa com seu sistema de lavagem e faça. Alguém . qualquer coisa. a lamentar-se no seu dialeto (pude notar que. subiu a dos Pampas e andou pela Rua Diábase. há cinco dias. mexa com as galinhas. AFINAL. Tais preocupações impediram-me de registrar alguns acontecimentos da semana. ignorado o paradeiro do menino. onde se recolhem. dizendo que hoje dormimos arlequim. CARMÉLIA. As vestes ficam guardadas num armário de nossas profundezas onde se amontoam indumentos de infinita variedade. para movimentar nossa solidão. se exprime na língua natal. o velho ficou quase louco. desceu pela do Piau. pelo tempo que lhes apraz. as combinações múltiplas. Contou-me o Prudêncio Gouveia que o regresso do menino foi patético. Marianina foi para a cama. tantas vezes contraditórias. Informados de que eu me achava preocupado com a situação doméstica. que compõem as formas sucessivas do nosso espírito. tomando-lhes os pintos. amanhã acordaremos pierrô. registrarei aqui dois encontros com Jandira e um com Silviano. abismos insondáveis. esquecendo-se da nossa. são inúteis essas tentativas de análise e de interpretação de nós mesmos. Por último. para depois lhes fazer minha visita. quando era. Explicar-me-ei. correu. Estou deixando que o velho volte à vida habitual e o menino se adapte à situação (está muito desapontado. o compadre pediu prazo para vir. § 36. A mulher estava adoentada e ele não poderia ausentar-se imediatamente. várias. de ponta a ponta. consentiu em ficar mais alguns dias sem ver o bambino. de acordo com a informação do Prudêncio). a bater no peito. mas sempre fala para ser entendido). na rua. Há. Foi a custo que. para anunciá-la a amigos e conhecidos. enfim. se está abalado em sua sensibilidade. em nós. O velho Giovanni. Durante as duas semanas de separação e principalmente nos seis primeiros dias.

se desvaneçam os espectros que. passou a afastar-me. Aurélio. Por que não tive coragem de me abrir e de rogar que me levasse à casa dela? Conversamos o dia todo. O fato é que se frustra todo o esforço que despendemos para nos impor certa disciplina. durante o sono. na Seção. algum diabo malicioso inutiliza o nosso trabalho. em minhas condições de vida.no-las troca sorrateiramente. menos de Carmélia. Parecia. . Acordei. a esperá-lo. Carmélia me apareceu neles. Como já disse. ora morta. também. faço com que. com mil pretextos. ou muitos) me impressionou amargamente. Depois. Estou com vergonha de confessar o que se passa comigo. E esse alguém às vezes se diverte. ou pregando-nos um rabo de papel no jaquetão. dentro de mim. disse-me duras franquezas. mostrando que. certa unidade. com rancor. . Faço esta divagação para me justificar. poderia apanhar uma pneumonia. a fim de encontrar Glicério. chego a relatar ao Glicério toda a história. Não são decorridos quinze dias. e hoje somos o que ontem fôramos e não quiséramos ser mais. Em vez de tomar o bonde das onze. supondo-a uma burlesca história do passado. a mão esquerda terá de limpar o que a direita escreveu. compuseram uma Carmélia imaginária. Eu fazia uma serenata (como nos velhos tempos) sob a janela da namorada. cedendo a um impulso de revolta (?). quem surgiu em cena foi o falecido Dr. falamos de tudo.. de acordo com um critério que nos escapa. antes. tiro do altar o meu mito. e. certa coerência.. E à tarde despedi-me dele. em vez de me aproximar dela. pilherio comigo mesmo. de pijama.. a gente não sabe como essas coisas acontecem. pondo-nos de casaca e em cuecas. ora de outros. participando de cada um. com pesar. para me aconselhar que não ficasse a cantar. À sorrelfa. Carmélia bailava à sombra de árvores que refulgiam ao sol. como se a culpa fosse sua. Um desses sonhos (não sei se foi um. ora viva. julgo-me curado da fantasia. Há cerca de vinte dias. Descobri que Glicério a amava. um gracioso espírito do ar. quando o sonho se tornava rasgadamente fantasioso: vestida com uma túnica diáfana. Em certo momento. e amanhã seremos o que não queremos. Começou a interessar-se por ela desde que o pus a par dos meus amores e. Fiquei aflito por que chegasse a hora do trabalho. acordei. à luz do dia. chamando-me à realidade. como a atrair-me. na noite úmida. e ele apareceu à porta. jamais poderia pretender a moça. amanheci angustiado depois de ter passado uma noite fértil em sonhos. ora minha. Quando me estendia as mãos. na Praça. Uma semana depois. tomei o das dez e pus-me um tempo enorme. Só posso dizer que experimentei hoje uma recidiva violenta.

agora. que as coisas voltam e não vale a pena fazer projetos. com estas coisas? —Não! diz-me alguém. Depois. pelo timbre era idêntica à do amigo. antes. embalado pela música das máquinas. pensava no Silviano. pois não tem passado bem as noites. embora não haja trabalho. Os apitos das duas fábricas próximas (a da frente. vi que a bela manhã deste domingo valia um passeio e preferi fazê-lo. O "PERREXIL". Dedica-te aos eternos problemas. Creio que com ele sonhei. fiquei reduzido a níqueis. e a que se acha por trás do lote vago. embora estejamos a sete do mês. Eram seis e meia. É bem possível que amanhã tudo seja diferente. sei. a primeira idéia que me veio foi a de procurar. Não me faltam cuidados na vida. imaginando que Emília demoraria a levantar-se. que é de toalhas. O que nos deve preocupar são os problemas eternos! A exclamação que ouvi dentro de mim foi do Silviano. A voz veio de dentro. Às vezes estou a pensar e ouço um interlocutor. que é de calçados) sempre me despertam a tais horas. doente. que a manhã nasceu bela e o corpo pedia um passeio. que me vem. chegando à Avenida Paraopeba. e é ridícula essa trama sentimental em que me envolvi. Entretanto. eternos ou não. Deliberei tomar o desjejum na cidade. Problemas eternos! A razão talvez esteja com Silviano. pois. não serve senão para me mostrar que continuo personagem de uma novela de amor. Sei que estou amando a mulher e não o mito. O ordenado se foi nessas despesas imprevistas e ainda há contas por pagar. eu acorde assustado. Lá está Francisquinha no Instituto. É ridículo. sei.Encontro uma sorte de libertação em escrever estas páginas. em toda a . Belmiro! § 37. Olho em torno. Desde dois dias. porém. ontem à noite. E a força do hábito faz com que. ponho-me de novo a dormir. ao despertar de manhãzinha. percorri-a folgadamente. AO RECOLHER-ME. aqueles que poderiam merecer o qualificativo de "eternos". entre os problemas. ouvindo qualquer apito do outro mundo. não há nada. Já lhes disse. Mas a lucidez. Devo também esclarecer que sempre embromo os donos das fábricas reais e o da fábrica imaginária dos'domingos: acabados os apitos. porém. deixando de lado os problemas. Emília se acha de cama. e as aflições do dia se dissipam. Não deveria preocuparme. Amanhã terei de visitar o agiota. Não vale a pena pensar nas dificuldades da vida. com majestade. Desci a Rua do Piau e. aos domingos ou dias santos.

Desta vez. tem a mania de mudar o nome das pessoas. Toca a andar. me telefonará. logo que estivemos a sós no escritório. a quem atender ao chamado. ao voltar. meu velho. porque sei que não é dessas devoções. pouco depois. para um giro qualquer. Silviano segredou-me que possuía convites para o Country Clube e desejava levar-me em sua companhia. a cara que se me deparou. ainda. de onde. ótimo. a uma hora destas!" Silviano me disse que fora à missa. dando-se como secretário da Universidade. porém. Estrabão é o chofer do Silviano para excursões de caráter reservado. a questão. mas. Tomei um cafezinho na Rua da Bahia. Vamos procurar o Estrabão. veio-me o palpite de pegar o primeiro bonde. pois acabamos passando todo o dia juntos. na capela do Colégio Santa Maria. Tentei esquivar-me. Oh! oh! oh! Com mulheres. chegamos até a sua casa e ali fiquei a conversar e a folhear livros. que o Reitor quer ver-me com urgência para conversar comigo sobre os programas do curso de literatura. já escrevi. Fiz tudo conforme prescreveu o Silviano e. A mim às vezes me chama Porfírio. que é nome de dois dos . Dirá. por intermédio do Prudêncio Gouveia. Objetei-lhe que não éramos homens para lugares mundanos assim. —Ótimo. Terminado o almoço. e viemos falando acerca de outras coisas. Mesmo por isso não insisti. Apareceu o da Floresta. tendo tido o cuidado de. o sol ainda era fraco. pelo telefone. com uma cara muito satisfeita. —O problema agora. fechou. Escapou-nos. que não fosse dos meus. Seu nome é Sebastião. São mais quinhentos mil-réis. e cedi.extensão. Joana não desconfiou. Ficou até a apressarme. sem que fôssemos incomodados e que seria divertido observar os "filistinos". em cuja casa há um desses aparelhos. chispe. por algum tempo. aceitei o almoço. Foi um encontro cheio de conseqüências. o único da rua. a mesma exclamação de surpresa: "Você por aqui. disse-me. mas o Silviano. na Avenida. aparente calma. Está aflita por que eu obtenha a cadeira. A explicação complicou mais ainda o caso. em chegando à esquina. uma desculpa dessas é tiro e queda. e a brisa agradável me ajudava as pernas. durante o trajeto. foi a do amigo Silviano. no primeiro poste de parada. mas retrucou que poderíamos ficar tomando alguma coisa. Ande. abanquei-me nele e fui até ao fim da linha. A um convite insistente de Joana. tinha-o a meu lado. a ambos. Depois de andarmos um pouco pelos cafés. é arranjar as coisas com a Joana. Vão dar-me a cadeira. Você se despedirá e irá incontinenti ao café da Rua Pernambuco. a um canto. olhei os jornais e. Como se tivesse havido uma comunicação psíquica entre nós. mandar um aviso prévio a Emília.

passou-lhe a mão pelo gargalo e disse-me: —Está bem. pego "embalagem". Tive de obtê-los laboriosamente. Vamos. pedido pelo Silviano. inclusive este. Já está gasto o processo antigo. Fui acalmá-la e dar-lhe uma colher de xarope. chama Abundâncio. até que ela me mandasse para a rua. Que havemos de fazer. Um tanto inquieto. Quando voltou. viu. agora. Depois.. Já que os deuses não são propícios. este se ausentou logo. apontando para o clube. deitei-me.. Ia procurar o Perrexil. e ao Florêncio. NÃO PUDE terminar o relato da conversa com Silviano. rápido. sentindome cansado. se este algum dia me cair de novo sob as . quando dobro a esquina. minutos depois. Emília tossia muito. aparentando a maior circunspeção. mas forças contrárias tudo desfizeram. e lembrei-lhe que estávamos sem transporte. Já não está aqui. Apanharei a narrativa no ponto em que a deixei ontem.meus avós. Vocês querem ser literatos sem ter lido Camilo. situado num recanto da montanha. Consolei-o como pude. O Estrabão só daí a uma hora viria buscar-nos. Você imagina. § 38. ora caceteando a família inteira. Depois. Porfírio. luz no escritório e ficou a resmungar. doutorai. Eu não podia deixar de vir. E. respondeu. uso vários. Joana me traz de olho. de cujo edifício nos aproximávamos. tinha a fisionomia transtornada. rindo-se: —Saio com um passo grave. Ultimamente. —Já não está aqui. PARABOSCO & FERRABOSCO LTDA. Chegados ao clube. —"Perrexil"? perguntei. me confiou um segredo: —Não me deram os convites. preciso renovar sempre os meus expedientes. Idealizei tudo. entre estes filistinos? Vamos embora. pela estrada afora. Silviano ia-me dizendo pelo caminho: —É a técnica. deixando-me a sós Com a bebida. Que vem a ser isso? —Eis aí. Mas. Animado pelo uísque. acordou. Estrabão pisou no acelerador e nos levou. Eu ficava em casa. "Perrexil" é o estimulante do pensador. com grande irritação deste. abancamo-nos em torno de um litro de uísque. previ os mínimos pormenores. pela fresta da porta. disse-me. Silviano contou-me coisas que muito me ajudarão a decifrar seu Diário. Aliás. o "Perrexil" está aí. Silviano olhou com ternura o litro de Mc Callum's. Perrexil é a Musa. ora meio sorumbático. Há uma conspiração universal contra mim. quando planejo uma sortida. bebamos. é moroso e de resultado incerto.

. Silviano. Silviano nada sabe a seu respeito senão que possui uns olhos excepcionais. Dolores reagiu e correu para dentro. E deu-lhe presentes. se fora menos transcendente. Há poucos meses..). Respondeu que não queria nada. que não a tem visto muitas vezes. de presente. atemorizada. —Porfírio. tentou abraçá-la (esquecendo-se. Ela jamais compreenderia o "fenômeno". assim sem mais nem menos? —Sim. . ajunto eu. um chapéu. —Continuo a amá-la violentamente. Silviano de pé. Descobriu-lhe o endereço. Lembram-me um verso de Baudelaire: "Tes yeux sont la citerne ou boivent mes ennuis... filha de um espanhol rico. Dãome a impressão de água parada. emendei. Representava. com citações. Belmiro. em Dumas. na expressão do olhar! Contou-me. a moça em flor. a eterna graça. senhor. um capítulo a fio sobre a função do nervo patético. Amava. um chapéu! exclamei." concluiu com um ar cismador. quando a mãe morreu.. Dolores lhe perguntou. o amor. em alemão. não. Não gostou do aparte e passou a contar-me os fracassos das . informado de que a moça se achava só. a vida que foge. na Avenida. que andei lendo. O "Perrexil" é uma jovem de nome Dolores Gigedo. um chapéu. E abismou-se em seus olhos. quando morreu a mãe da moça. Impressionaram-me tanto. E um belo dia. mandou-lhe. —Que olhos. Os olhos dela são estranhos. mandou-lhe um perfume francês e outras coisas mais. Foi grande o susto que esta experimentou. cisterna. depois. aluno dele. pois.. um universal e não um particular. Observei-lhe que. novidade da estação. Foi-lhe apresentada pelo irmão. E não sou nenhum idiota para dar logo a minha identidade! Mandou-lhe... —Que olhos! continuou. nela. Conheceu-a um dia. uma amaurose. —Que idéia. Depois. fabricante de tijolos. —Você já ouviu falar em gota-serena? Não ouviu? É uma doença dos olhos. declarou-lhe amor.. de que não se pode abraçar um universal. Dir-se-ia que sofre de gota-serena. Porfírio. disse-me. proveniente de lesão na retina e alteração no nervo ótico.vistas. no alpendre. deixando-o sucumbido. escreveu-lhe uma longa e sentida carta. de Heine e Goethe. para ele. Que tem isso? As mulheres gostam muito de chapéus. talvez tivesse tido melhor acolhida. disse-lhe ser o homem que desde algum tempo lhe mandava coisas e escrevera a carta. tudo isso sem se dar a conhecer. apareceu-lhe de supetão em casa. que pretendia dela.

de grande iniciativa. as expressões ora de surpresa. o problema delas. Chega a urdir histórias inteiras. estava ali. Resolveu. então. Disse que constantemente sonha acordado. Voltando às moças. subitamente. os freqüentadores subiam de auto. as meninas figurando sempre. Silviano acompanhou. com que minha fisionomia me denunciou os pensamentos.. que converter a Pedreira Prado Lopes num luzido centro de diversões. Fracassara mais uma vez. um italiano chamado Ferrabosco. correu aflito a casa de um arquiteto conhecido. ladeando docemente a encosta. Não conseguindo detalhar o interior do edifício que imaginara. Estavam enlutadas pela morte do pai. Não me estou avizinhando da loucura. Condoído da sorte delas (ficaram em extrema pobreza). Com o olhar atento. Homens arrojados. Atualmente vive o caso de "Parabosco & Ferrabosco Ltda. quem é Ferrabosco? Imaginou. do gênero folhetinesco. Vários episódios se sucederam. numa contínua produção de fantasias. pela Rua Caetés. quando viu duas lindas jovens. para prolongá-la sempre. Por último. por uma "sinuosa". pôs-se a dar tratos à bola. nada menos. *** Ao sétimo uísque deu para me contar estranhas coisas em que não sei se devo acreditar. Para chegar ao edifício. colocou-as facilmente nos escritórios do Cassino. Mas. Mas a história de Parabosco & Ferrabosco ainda não terminou. ora de incredulidade. Presentemente estão eles em entendimento com o proprietário de um edifício à Praça Sete. recompôs-se com a família e a moça ficou por lá. durante o relato. ao andar pelas ruas. —Não se impressione. Parabosco & Ferrabosco fizeram.tentativas anteriores. Achou. Eis como nasceu esta novela cerebrina: Ia passando. há dias. assim. ou de pena. Vou recomendá-las ao Ferrabosco! pensou. No alto da colina. Depois voltou.. Já estudei . um cassino de luxo. assegurando-lhes a proteção da importante firma. de linhas moderníssimas. um prédio de numerosos andares. nos cabarés de luxo. que se associara a outro de nome Parabosco. nada mais. a fim de consultar revistas de arquitetura. finalmente. freqüentado pelo grande mundo. O Ferrabosco se apaixonou pela mais velha e com ela fugiu para a Itália. retoma a história no ponto em que a deixou na véspera. Comprá-lo-ão para o derrubar e construir. que se suicidara. no local. procurando um meio de auxiliá-las. criando a firma Parabosco & Ferrabosco Ltda. o que convinha a seus amigos Parabosco & Ferrabosco Lida. Cada dia. tudo como se fosse realidade.

Nosso amigo claudica sempre nas regências verbais e Silviano não estava conosco para lhe chamar a atenção.estava findo e que não deveríamos interrompê-lo. coisa que desde muito tempo Emília não conseguia fazer. QUANDO me assentei no banco do bonde que deveria levar-me ao Instituto de Alienados. quis acompanhar-me. Achei a doente bem melhor. NO INSTITUTO. e fomos juntos. ficou séria. Afirmei-lhe que não. dorme tranqüilamente. Na volta. Piorou muito e tive de levá-la para o Instituto. respondi. Os cabelos. terminou. perguntou-me. Não se levantou. Achava-se sentada na cama. estavam arranjados em trança. depois.. . Lá chegados. dizendo que a guerra iria acabar e poderíamos voltar para a Rua Erê (aludia. É uma forma de imaginação difluente. Florêncio procurou reter-me na Avenida. A velha abriu-se em sorriso (coisa tão rara!) quando lhe contei a conversa com Francisquinha. a coisas passadas há cinco anos... reclama o outro. "Deixa eu falar como eu quiser. O caso não tem gravidade.. e já não tem acessos violentos. Aflito por dar boas notícias a Emília. Notei-lhe paz na fisionomia. Muitas vezes brigam por causa da língua: "Que é que você tem com isso?" retruca Florêncio. alegrou-se como uma criança. Vireime: era o Florêncio. esperou-me no saguão do edifício para não perturbar a visita." "Mas isso me fere os ouvidos afeitos ao bom vernáculo". perguntando se não era feitiço. que lhe levei. e comi um para dissipar as dúvidas. Quis trazê-la comigo. mas pôs-se a rir. —Vou ver Francisquinha. mas o médico de plantão objetou que o tratamento não. segundo me informou a enfermeira. suponho. Vendo o pacote de biscoitos. quando entrei no quarto. que ouviu a notícia com ar compungido. e regressei alegre à casa.o fenômeno. Estrabão havia chegado e tocava insistentemente a buzina do carro. § 39. Espírito romanesco. furioso. na revolução de Trinta). alguém me tocou no ombro. Alimenta-se. —Que vai fazer em Santa Ifigênia? Nunca lhe vejo por aqueles lados. Forma frustrânea. quando nos levantávamos para sair. meio grisalhos. amistosamente. Não é da sua conta. não aceitei o convite. Florêncio. o que é bom sinal.

—Qué dizê qui está mêlhó! Que dizê qui está mêlhó! exclamou, satisfeita.

§ 40. CHOQUES.
ESTIVE hoje em casa de Jandira e lá encontrei Redelvim. Percebi que ficaram desapontados com a minha presença e que esta foi interromper uma conversa ainda não acabada. Com certeza, maquinavam revoluções, porque, pouco depois, com irritação mal disfarçada, Redelvim me disse: —Então, continua nessa vidinha sórdida de pequeno burguês? Minha resposta foi perguntar-lhe se tinha cem mil-réis para me emprestar (realmente, estava precisando). Jandira sorriu, e Redelvim, que continuava azedo, respondeu: —Não prova nada a sua exibição de quebradeira. Você pertence à pior espécie de burgueses: os que o são por sentimento, e não por instinto de defesa da propriedade. Fiquei calado, sem dar resposta. Redelvim se obstina em não me compreender. De que servem as discussões? Sei que, apesar de tudo, é meu amigo e pensará de outra forma, agora ou mais tarde. Por que hão de classificar os homens em categorias ou segundo doutrinas? O grande erro é lhes oferecerem apenas caminhos radicais. Socialismo, individualismo, isso, aquilo. As idéias da gente podem não comportar-se dentro dessas divisões arbitrárias. Não é possível ser-se tudo, ao mesmo tempo? E, se sentimos que a verdade e a contradição foram semeadas em todos os campos, como poderemos definir-nos? Tudo o mais é violência ao espírito. Dizem que tal perplexidade ou cepticismo conduzem à inação. A prova do contrário está em mim. Atuo, no meu setor, como se acreditasse nas coisas. As necessidades vitais fazem o indivíduo agir e não permitem que ele se tome um contemplativo puro. O que é injusto é quererem extorquir de nós uma definição, quando a procuramos, em vão, sem a encontrarmos. Redelvim me olha com desprezo neste momento, mas talvez me compreenda amanhã. Às pessoas de sensibilidade não é fácil resistir aos atrativos do romantismo político da época. O mais cômodo é entregarmo-nos a ele, acompanharmos a maré. Mas teremos procedido honestamente, com relação ao espírito? Meu silêncio, em vez de pôr termo à conversa, exasperou o meu contendor, que não me deu tréguas. Estava em um dia de excitação, nesses dias de raiva descomunal, que lhe vêm. Então, fica sempre contra. Contra qualquer coisa, contra tudo. Se eu adotasse seu ponto de vista, estou certo de

que, dentro em pouco, ele me contrariaria pela mesma forma. —Afinal, que é que você é, na ordem das coisas? perguntou-me. —Talvez um "individual-socialista", respondi, para lhe satisfazer. Você, tão lógico, tão seguro de suas idéias, não vai achar sentido nisso; o certo é que não encontro vocábulo que me defina. Talvez esses dois juntos me tirem do embaraço. Se vier a revolução, não é preciso, porém, que me deportem ou me fuzilem. Sou um sujeito inofensivo, para todos os regimes... Minha resposta o enojou tanto, que dessa vez foi ele quem se calou, provavelmente para não me dizer coisas duras. Aproveitei o ensejo e despedi-me, alegando que ali estava apenas de passagem a fazer hora para o dentista. Jandira tentou reter-me, mas apeguei-me a uma dor de dentes imaginária e saí. Não o deixo de estimar por isso. Os companheiros são raros, precisamos conservá-los a todo custo. E quando não possamos ser amigos cem por cento, sejamos cinqüenta ou vinte. Quando encontro, em alguém, cinco por cento de afinidade, contento-me com essa escassa percentagem. Para preservar nossa amizade, tenho procurado pouco o Redelvim ultimamente. E tenho-o conversado menos ainda, principalmente em presença de outras pessoas. Criva-me de ironias, aborrece-me. Não lhes falei que ando sempre desconfiado. Muitas vezes, ao chegar a casa, fico a dar balanço às palavras trocadas com os amigos, com tanto maior desgosto de mim próprio, se notei que alguém, na roda, acolheu, com sorriso irônico, alguma observação minha. E sou sempre gauche. Quando converso, as melhores idéias ficam cá dentro, sem encontrar expressão, e freqüentemente digo coisas que não deveriam ser ditas e que, de ordinário, não foram meditadas. Como explicar certos despropósitos que, mal proferimos, nós próprios imediatamente reprovamos, mordendo os lábios de despeito, porque ninguém saberá que a nossa censura funcionou, logo depois, dando-nos a conhecer a inépcia daquela idéia? Por orgulho, não voltamos atrás e preferimos sustentar a infeliz opinião. Cada vez nos perturbamos mais, e acabamos dizendo dez tolices, em vez de uma. Fico a conjeturar que se trata de uma vingança das idéias tolas. É provável que, repelidas mais de uma vez, quando nos achamos vigilantes, elas fiquem andando a esmo, pela cabeça, a conspirar contra nós. Um ligeiro cansaço nosso, eis que a asneira sai. Será uma vingança das parvoíces, ou a necessidade irreprimível de nos vermos livres delas? O certo é que nos escapam, escolhendo maliciosamente a pior oportunidade. ***

De que valem esses choques entre amigos? Cada qual continua onde estava, aferrado às suas idéias. Tanto mais aferrado, se as contraditamos. No que me toca, julgo ter chegado a uma altura em que a gente já sabe aquilo que é, e para que é. Não no domínio metafísico, mas no da vida corrente. "Fay ton faict, et te cognoy", aconselha o velho Montaigne, repetindo Platão. "Qui auroit à raire son faict, verroit que sa première leçon, c'est cognoistre ce qu'il est, et ce qui luy est propre: et qui se cognoist ne prend plus l’estranger faict pour le sien. .." Sou apenas um poeta lírico, em prosa, e só desejo que me deixem sossegado. Façam os outros o que lhes convém, ou o para que estejam destinados. Farei o que me é próprio, isto é... § 41. MATINADA. JH^ADRUGADA DE 12 DE OUTUBRO.-Compus um hino ao Dia, imitando o alto estilo de Zaratustra, mas tive o bom senso de rasgar a folha de papel em fragmentos miúdos e atirá-los à cesta. A posteridade ficará, pois, privada desse documento. Na verdade, foi uma linda aventura. Recolhendo-me ontem muito cedo, contra os meus hábitos, acordei às quatro da manhã, e perdi o sono. Durante uma hora, tentei conciliá-lo e permaneci nos domínios proustianos da insônia, onde os pensamentos não têm contornos nítidos e a consciência se confunde. Depois, como os bondes começassem a descer a Rua Erê, os gaios iniciassem seu concerto e, finalmente, a fábrica desse indícios de vida, verifiquei a inutilidade de minhas tentativas e levantei-me resoluto. Bela antemanhã! Subindo a Rua Erê, tomei à esquerda a Rua Diábase, que, mais para o alto, recebe o nome de Esmeralda. Segui-a até ao fim e, pela estrada que a continua, cheguei ao Morro dos Pintos. Do alto da colina, contemplei Belo Horizonte, que apenas despertava. As cores, já vivas, do céu e a luminosa beleza da cidade feriram-me os olhos. Os edifícios suntuosos, os grandes jardins públicos, as retas avenidas situam Belo Horizonte fora dos quadros habituais de Minas. Dentro das casas mora, porém, o mesmo e venerável espírito de Sabarabuçu, Tejuco, Ouro Preto e de tantas outras vetustas cidades. Penso no homem mineiro que se levanta, lê seu Minas Gerais, cuida dos passarinhos e se prepara, tranqüilo, para as labutas do dia. A mulher cirze apressadamente um par de meias para ele e lhe pede que não se esqueça de deixar dinheiro para algumas compras. Sai, porém, sorrateiro. Façam-se as compras amanhã, não se corre para gastar. Os meninos estão

o Giovanni). Comenta-se a batida dada na véspera.. e não pode esconder sua satisfação. a cidade e se perdem no horizonte. Mas. Giovanni.. pela polícia. Good morning. a se desdobrarem e ampliarem para que personagens e paisagens se movam. —Mais um pouquinho. de acordo com o hábito.. mas seres encantados. Alguém abre uma porta. como nos livros clássicos. de novo. Que faça um café bem gostoso para "sior Bermir". Ouço outra voz familiar: —Wonderful! Wonderful! É o Prudêncio Gouveia. manifesta o mesmo espanto que Giovanni. Também ficou estupefato com a minha matinada. Nem pressentimentos. Volto para casa. Giovanni! O velho fica boquiaberto. Os livros. amigo Prudêncio! Tomamos. com o seu How do you do. Prudêncio relata pormenores. Há anos que não me vê a estas horas. conta que o Prefeito novo vai melhorar o bairro do Prado. Barriga honrada de chefe de Seção. Faz cara de grande surpresa ao topar comigo. Giovanni me interroga com os olhos. —Bom dia. O velho conquistou. na macumba da Barroca. com alegria geral.vestidos. A aurora. que à noite me parecem. em desalinho. cá estão reduzidos à imobilidade. A manhã me atrai. Que mais é preciso? Meus olhos deixam. ele não tem dessas coisas. há mantimentos na despensa. quanto ao Giovanni. Muito bem-humorado com o encontro (bom amigo. o café. Refere-nos todos os episódios. meio reumática. pela cozinha. satisfeito. ocorridos após a volta do rapaz. É o bom Prudêncio. Resmunga lá suas coisas que não entendo. nem angústias. —If you please. Tenho . baixinho. Fuma-se um cigarro. —Ele quer mais café. já de pé. não coisas inertes. corre à procura de Marianina. o ar fino da manhã e a intensidade da luz extasiam o amanuense—ave noturna que a madrugada surpreendeu. Geral e particular. Barrigudinho. A latitude deste.. sempre que Prudêncio sai com o seu inglês. Quando está a sós com o velho. sior Prudêncio. Saio de novo.. Emília. que acaba de realizar antiga aspiração: o filho consentiu ontem em ir para o colégio. Depois. a passear pelo quarteirão e que. esclareço. mundos vivos. o menino. porém. Ficará semi-internado. Mas minha presença o anima a mostrar as habilidades. As sombras fugiram. respondeu. juntos. ao ver-me. Como os fantasmas todos se dissipam! Volto a casa e abro as janelas do escritório. É Giovanni. arrasta-se. entrou em carro triunfal e expulsou as sombras. estendendo a xícara. com uma cadeia de ouro traspassada numa casa do colete.. até insignificantes fatos domésticos. não diz nada.

Onde está Florêncio. Se não me detenho a . as preocupações são outras. É que Florêncio. Silviano é uma criatura complicada. Não é que tenha procurado embriagar-me. Florêncio divertiu-me bastante com suas anedotas. eu te amava. pode ser que se case. apenas a tua imagem. no Largo do Cruzeiro. com quem a gente não pode contar sempre. O que amo nessa Carmélia. foi. e não preciso dizer que tomamos um pifão. Glicério não passa de uma criança. e era uma vez a amiga. está o chope. Entretanto. vive nos seus "altiplanos". Redelvim. mas do estado de espírito. e está num cemiteriozinho branco. só querem saber do marido e seu tempo é pouco para imaginar meios de prendê-lo. Além disso. ENCONTREI Florêncio. dos poucos amigos descobertos no decurso destes magros trinta e oito anos. não é senão mulher. é.. só ele me restará. Só quando morava na república isso me aconteceu algumas vezes. Às vezes penso que. Se às vezes nos compreende. Quem quer saber de mim e das manas? A possível esposa morreu em 1925. por mais que seja masculina a nossa amizade. Talvez só me fique o Florêncio. e outra é a compreensão das coisas. Camila? Na verdade. UM HOMEM SEM ABISMOS. afinal. Jandira. Conheço o estilo Borba e não me engano. conforme ensina a ópera. achando-me disposto. outras vezes se mostra impermeável. Se eu me casasse. Pertence a outra geração..certeza de que gosta de mim. E a bebida pode levá-lo cedo. e as gerações não se entendem. Apontamento para uso pessoal: bebi mais que de ordinário e não perdi o prumo. fazem muito bem.. fiquei em boa forma e isso me fez pensar que a embriaguez depende.. não da quantidade de álcool ingerida. Excelente e repousante camarada. talvez. Quando se casam. o fiel companheiro. O VELHO BORBA. deixa-me pelas idéias. e passamos a tarde juntos. em companhia de alegres boêmios. No que. que não atinjo. renovando os copos. Por que te deixei. aí vem tolice. no momento. Está sempre provido das melhores e mais recentes. Ora. sorrateiramente. § 42. ao sair da Secretaria. Não tem problemas: é o homem sem abismos—o homem linear—na expressão do Silviano. e a mulher é vária. § 43. aliás. O SISTEMA BORBA. VEJAM como terminei ontem o último capítulo. em Vila Caraíbas.

se toma chá às cinco. na minha casa. Era de prever isso!. O papagaio perdeu a plumagem e parece caducar. à lusitana. Onde já se viu tal disparate? Às cinco. A uma delicada palavra que lhe dirigiu o político. o mesmo ciclo biogenético!" Tratava-se de Haeckel. desandei a suspirar. quando um Belmiro lírico. repetia passagens inteiras dos Lusíadas. vocês mandam ensebar o assoalho. na casa da viúva Miranda. É a hora de Camila. a ponto de ficar até hoje gravado em minha memória. e que são as velhas e esse mal-humorado Tome. de coração enorme. Era assim o Borba.tempo. Já escrevi que não casarei. cairia em pranto. Não compreendi. seu doutor. ia dentro um bilhete: "Veja. Ouvi que. Quanto aos demais seres que me cercam. que lhe queria votos. . em que ela se dará sem ser buscada. E seria ridículo pensar em Arabela. Ainda que viesse pedir a mão do Dom Donzel da Rua Erê. violento: —Também. Quanto aos amigos. bem vejo que os não terei por muito tempo. pois Camila se foi. Dia virá. De uma vez que veio à Capital. viril. apesar da degenerescência deste fim de raça. porém. um deputado. Escrito a lápis. em Carmélia. então. .. simultaneamente. os Borbas gritam dentro de mim. busco a solidão. Como Amiel. Lembro-me de um dia em que me mandou levar um livro ao provisionado Loiola. mas. Meditando na possibilidade de que. levou-o a almoçar e foi um desastre. o velho retrucou. Ríspido. para o futuro. era a janta na fazenda. já escrevi atrás o que pressinto. isto é. botam-se as travessas todas na mesa. Sei que. rude. Por isso é que vocês envelhecem tão depressa. lhe voto horror. nem aquela intolerância com etiquetas. Não compliquemos a vida. me faz sua visita. meu isolamento se agrave. O sistema Borba não comporta nem prevê senhoras de tão fina estirpe. Não se pôde conter quando o serviram à francesa: —Olhe. Loiola. Aqueles sagrados furores não me são estranhos. para tirá-lo do embaraço. havia em Vila Caraíbas. Freqüentou a escola de latinidade que. Bastaria isso para exasperar o velho Borba. Era sólido no vernáculo e seguro em matemáticas e história. A primeira coisa que lhe aconteceu foi escorregar no pavimento encerado. o sentido daquelas palavras e talvez por isso o bilhete me impressionasse tanto. Gostava dos seus clássicos. Sua formação intelectual alicerçava-se em bom fundo humanístico. Francisquinha vai de mal a pior e Emília está ficando com o coração fraco. como o herói de Lamartine Essas coisas sempre acontecem às duas da madrugada. . ao tempo do Império. Devíamos deixar de estrangeirices. Lia coisas incríveis para aquele lugar e aquele tempo..

Mas, em matéria de modos, manteve-se-lhe intata a campesina rudeza de Borba, apesar da influência que nele exerceu a velha, que vinha dos Maias, gente da Vila. Os Maias eram finos e a avó Maia, mulher delicada e inteligente. Fora de Ouro Preto para a Vila, quando casou com meu avô materno, deputado geral. Tinha finuras genuínas; não mesuras e lisonjas de salão. Desse consórcio de Maias com Borbas foi que surgiu o amanuense, sem a virilidade destes e sem a polidez daqueles. A aspereza dos Borbas, que é antes couraça, para defender um coração mole tem, na Emília, sua expressão integral. Ao ouvi-la resmungar, franzir os sobrolhos, penso, com uma ternura que me umedece os olhos, nesse velho que foi o último da raça. Toda sua força, sua dureza de metal nobre, transferiu-se à mana. Para mim não restaram senão vagos reflexos e, ainda assim, bem no fundo, bem no fundo. A autoridade que emana de Emília e das sombras familiares que povoam esta casa basta, porém, para sustentar nela, em plena vigência, aquilo a que tenho chamado sistema Borba. E o leitor já não se rirá de mim, agora, quando repito as palavras escritas atrás: Mesmo que, algum dia, Carmélia a mim viesse, as bodas seriam impossíveis. O sistema Carmélia e o sistema Borba se repelem. Entre Emília e a viúva Miranda há distâncias interplanetárias. E, ai de mim, estou que o casamento não baniria os mitos. Mito tocado é mito morto, e a imaginação busca outros, sentindo-se ludibriada. Fique Arabela no seu nicho.

§ 44. REDELVIM TEM, TAMBÉM, UM DIÁRIO.
HÁ QUATRO dias não ponho os olhos neste caderno. Andei em maré de ler, e não de escrever. E Silviano tem-me suprido do bom e do melhor, no que toca a livros. Ele os compra aos metros cúbicos, e muito lhe devo nesse capítulo, desde os tempos de república, quando o conheci e já era professor. Interromperei, esta noite, a leitura de um dos volumes que me mandou (abasteceu-me, desta vez, de gregos, e estou atacando a Ilíada, que nunca pude ler de fio a pavio), para não me esquecer de anotar aqui uma visita a Jandira. Ao entrar em casa, de volta da Secretaria, Emília me disse: —A excomungada mandou um positivo trazê um escrito. Está em riba da mesa do quarto. Como de costume, falou-me sem se virar para mim. Achava-se de costas,

a pôr a mesa, e assim continuou. Ri-me, feliz, quando ouvi a palavra "positivo", na acepção que lhe deu e em que há mais de vinte anos não a ouço. Em Vila Caraíbas, "positivo" quer dizer mensageiro expresso e especial. O Borba não empregava tal vocábulo. Usava de outro, que os léxicos admitem com esse sentido: "próprio". Lembro-me de que, certa vez, corrigiu um dos nossos empregados. Ao dizerlhe o vaqueiro: "Seu Jucá do Riachão mandou um positivo aqui para dizê ao sinhô seu Coroné qui ele já fez o acêro", o velho emendou:—Um próprio; um próprio: "positivo" é outra coisa. —Propre, seu Coroné? —Sim, sim, respondeu, impaciente. Também me divertiu ouvi-la estender a excomunhão a Jandira. Já lhes disse que isso não significa desestima e provavelmente esconde ternura, mas ainda assim continua chistoso. Eis o escrito, segundo a expressão caraibana da Emília: "Honrado amanuense: preciso falar-lhe. Venha ver-me hoje à noite, se puder.—Jand.” Mal jantei, saí. Sentia-me em falta com ela. Havia oito ou dez dias que não a procurava. Chegado ao pequeno apartamento, fui recebido por D. Hortênsia, que ficou comigo alguns minutos, enquanto a amiga arranjava o penteado. Ou melhor, ficou consigo a um canto. Está acostumada a permanecer horas e horas sem dizer palavra, quando assiste às nossas reuniões, nos dias em que Jandira nos convoca. Mas hoje, forçada a fazer as honras da casa, sentia-se visivelmente constrangida, a todo momento se mexia na cadeira, como quem não acha o que dizer e se aflige por isso. Felizmente Jandira não se demorou, e sua chegada tirou a pobre senhora do apuro. Num movimento vivo, em contraste com o seu modo discreto e ausente, D. Hortênsia fugiu da sala, assim viu a sobrinha. Por certo, teve medo de que ela volvesse a dar mais uns toques no cabelo, o que faz freqüentemente, e a deixasse de novo comigo, na embaraçosa situação. Foi tão ágil e rápida a saída, que Jandira achou graça: —A velha está lépida, hoje... Depois, disse-me, andando para lá, para cá, segundo seu costume: —Não há nada de novo, seu Belmiro. Escrevi o bilhete pensando que você estivesse zangado comigo. Sumiu tantos dias... —Zangado por quê, minha flor? —Porque eu não o socorri, quando Redelvim começou a azucriná-lo. —Ora, Redelvim é um menor exaltado, respondi. Ela riu-se. Depois falou-me que, se não interveio, foi para não agravar a

situação; Redelvim estava irritadíssimo e precisava desabafar-se. Como eu já estava acostumado a servir de pára-raios, ela preferira ficar de lado... A polícia dera-lhe busca na casa, levara-o à delegacia para explicações e lhe tomara os melhores livros, bem como o seu Diário, que nada tem de extraordinário, diz ele, mas o acompanha há longos anos, é coisa de estimação. Li páginas desse cartapácio, há tempos, pelo mesmo processo clandestino por que conheci o do Silviano. Provavelmente Jandira não o suspeita, mas o nosso amigo, noto-o bem, está irritado não é por causa dos livros, nem pelo chamamento à delegacia, nem por estar sendo seguido pela polícia secreta: é por causa do Diário... Como todos os documentos dessa natureza, contém histórias muito íntimas, amores (inclusive o caso da pequena espanhola, que o torturou bastante) e versos de adolescência. Não permite que se lhe fale nos amores, nem nos poemas. Esse Diário nas mãos da polícia deve ser-lhe motivo de profunda inquietação. —Ele não lhe quis dizer nada, porque acha que você é gente do Governo... Não deixei de ficar lisonjeado. É a primeira vez, na minha carreira de funcionário, que me consideram pessoa integrada na administração, ou, mais que isso, "gente do Governo". Redelvim é um pândego. —Acho que você lhe pode ser útil, continuou Jandira, procurando recuperar seus papéis e livros, na polícia. Era, pois, este o objetivo de Jandira, ao chamar-me. Prometi-lhe arranjar a devolução das coisas por intermédio do Senador Furquim, via Glicério. Sempre é bom conhecer um senador. E voltei logo para casa, porque Emília aqui está com a gota ciática de sempre, necessitando de mim. Não terminarei esta página sem dizer que Jandira estava uma tentação, mais desejável do que nunca. Trazia uma flor artificial no peito, muito chique. Esquecia-me dizer, também, outra coisa importante: arranjou emprego num escritório comercial. O patrão é pessoa idosa e não tem filhos. Por ora, o problema Pereirinha está, portanto, afastado.

§ 45. EXTRAORDINÁRIAS DECLARAÇÕES DE GLICÉRIO.
MEU ESPÍRITO está, agora, serenado, e procurarei expor

ordenadamente o que se passou. O sonho a que me referi numa destas páginas não deixou de ser exato, no que toca a Glicério. Pelo que hoje me disse, percebi que minhas confidencias o impressionaram de tal forma, que tem, agora, uma visão diferente de Carmélia e a olha por um ângulo aproximadamente idêntico àquele sob que ela me surgiu, na noite de carnaval. Sugestionável como é, foi empolgado pelo mito da Donzela ou, pelo menos, empresta, agora, a Carmélia parte dos atributos misteriosos de que a dotei. Ela se cristaliza, rapidamente, a seus olhos, se me permitem o uso da expressão stendhaliana. Hoje, na Secretaria, falou-me da moça como se se tratasse quase de um ser quimérico. Ao ouvi-lo, oscilei, de início, entre a satisfação de autor que verifica o êxito de sua criação, e a angústia de namorado que pressente um rival. Disse-me que Carmélia é antes um símbolo do que criatura humana, pelo que há de imaterial beleza, graça, dança, música e poesia nos seus dezoito anos. Sem perceber as reservas com que lhe recebia as expansões e supondo que me iludiria quanto aos seus sentimentos, continuou a falar, ajuntando que a moça lhe despertara grande interesse (puramente estético, sublinhou), depois que eu, com minha confissão, lhe chamara a atenção sobre ela. Fora quatro ou cinco vezes à casa da viúva Miranda e estivera com Carmélia. Não me contou isso há mais tempo, esclareceu, porque acredita, de acordo, aliás, com as minhas declarações, que o caso já não me seduz. E insistiu nisso: aproximando-se da moça, procurando conhecê-la de perto, verificara tratar-se, realmente, de uma criatura fora do comum. Não se deve dar a Carmélia o apelativo "mulher", que com impropriedade se aplica indiferentemente a ela e a D. Paculdina, mulher do nosso chefe de Seção. Esta é uma porção bestial de gorduras, enquanto Carmélia é toda harmonias. Não disfarçando o despeito que me causava a dissertação de Glicério em torno de tema originariamente meu, respondi-lhe que, sobre essa diferença de substância entre Carmélia e D. Paculdina, haveríamos de conversar depois. Deixasse vir os anos, os cuidados, o casamento e os filhos à moça. E acrescentei que, no mais, estava fazendo literatura. Com a água fria que lhe pus no entusiasmo, calou-se. Notando-o aborrecido, recuei e pus-me a procurar um meio de reaver suas boas graças. Não o fiz por generosidade, mas para obter novas informações sobre seus encontros com a donzela. O aparecimento oportuno do Carolino, que nos veio trazer café (estávamos a uma janela do edifício), ofereceu-me ensejo para romper o silêncio e reatar a conversação. Ao servir-nos, Carolino nos pôs ao corrente de grande novidade: nosso companheiro Sepúlveda havia

a meu ver. explicando que os momentos de cisma da moça é que lhe deram.. Lia o melhor que vinha da França. —Você é louco? Você falou nisso? indaguei. pelo aparte. —Dou-lhe minha palavra... A morte do pai lhe trouxera grande tristeza. Sem sombra de convencionalismo. respondeu. Havia na casa. finas. o Sepúlveda! comentei eu.. Não. Glicério. Se não gostar. esforçando-me por fingir indiferença. cortei: —Ora. uma densa nuvem de melancolia. Fazia gosto conversar com ela. desculpe-me. sem saber que pintor mencionaria. . com hesitação.. com o coração batendo desordenadamente.. melancólica e terna de uma virgem descuidosa... Receando que a evocação do incidente viesse suspender a conversação sobre Carmélia. Se cantava ainda. respondeu. esta coisa fulminante: —Esquecia-me de lhe falar: conversei com ela. dessas que a gente vê nas telas de. Você anda irritante. Fui. Falei.. Tinha palavras ágeis. homem! Está ficando muito melindroso.. esclareceu. disse-lhe. literárias .. ultimamente. insinuei que já nem me lembrava de meus ardores sentimentais pela moça. "tinha a expressão casta. E que educação perfeita. Disselhe que você a conhecia. quando por acaso lhe ouvi uma canção napolitana. já lhe disse que aquilo foi brincadeira.. —Contei-lhe que. Desembaraçado. não o pude socorrer).tirado sessenta contos na loteria.. —É claro. Já confiante. —Imagino. Perguntei-lhe que coisas ela dizia. Informei-a a seu respeito. Gostava muito de versos. Depois de pequeno intervalo deixou escapar.. ficou suspenso. Não se pode fazer uma brincadeira." (nessa altura. imagino. —Não é possível! exclamei. que naturalidade! Quando cismava. Achando-o mais abordável. as impressões. Você não faria isso. ainda mais aflito. de um pintor teimosamente anônimo. respondeu-me que a achava simplesmente fabulosa. ainda. na última noite de carnaval. amuado.. sim. com voz tão bonita.. . é. Não sendo versado em pintores. então. não estava cantando. sem querer. Glicério continuou. mais direto: —Desamarre essa cara. foi despeito. ontem. como há dois anos. a ele. Ou melhor. Mas você não me contou se a moça ainda canta. a garota parecera excepcional. sentia prazer em verificar que a ele. Por isso não fora hoje à repartição. —Sujeito de sorte. —É. Fiquei suspenso.. a respeito de você. Contudo.

como pude. Ela ficou com pena e quis alegrá-lo. as palavras ouvidas a Glicério. você tinha tido um desmaio. que o levasse para fora. não houvera mal. Isso foi quase de manhã. depois. olhando o salão como se olhasse para o mar. homem! Contei-lhe apenas que você a achou linda e muito "distinta". Disse-me. estas notas. porém. talvez se estivesse divertindo à minha custa. Fiquei arrasado. que se achava atrás. Você teve um desfalecimento e ela pediu ao pai. Não notando meu mortal desgosto. Não. que ela mostrou desejo de me conhecer e pediu-lhe que me levasse lá. Aqui reproduzo. com o qual eu gostaria de conversar. e você ficou deitado no sofá... Glicério. com sua incapacidade de perceber certas coisas. que não. magro. Arabela. provavelmente. Falava em "Arabela. O pai a informou de que. Mas pouco depois voltou a si. sorrindo. Estava muito triste.. Ou. aqui. Não sei bem que dizer de tudo isso. ainda me perguntou: —Acha que fiz mal em lhe falar nisso? Respondi-lhe. Sinto-me cansado e interromperei. . Eu retinha a respiração para ouvi-lo. insistiu no assunto. Não respondi nada. Pela forma como se referira a mim. A incompreensão do Glicério atingiu a esse limite. sei lá. a um pequeno salão.". Ela acabou achando graça na história. Quase lhe fez medo. por efeito de álcool e éter.. meio maduro (Glicério sorriu com malícia neste ponto). quando lhe fiz um aceno de mão... mas era coisa sem importância. num gesto de despedida. recomendado a um dos garçons do clube. como quem estivesse vendo qualquer coisa extraordinária. Notou que você a fitou. Tinha um título vencido e precisava reformá-lo. um dia. primo de Carmélia. —Vai sujigar a onça? perguntou-me. e disse ao Glicério que precisava sair para alcançar o horário do Banco.—Sossegue. Acrescentou pormenores: —Disse que deram apenas alguns passos. ela disse que se recordava. com a fidelidade que me é possível. falando-me que as pessoas que freqüentam a casa não são desinteressantes e que há lá agora um rapaz muito "distinto". alto. tão extraordinárias revelações que não lhe guardo rancor. caso eu não tivesse ficado encabulado com o incidente. Fez-me. com um modo esquisito. onde havia um sofá. consultando o relógio com fingida ansiedade. Um homem de pince-nez. Depois de tentar lembrar-se do episódio. Cortei o assunto. depois de lhe ter dado a mão.

sem mencionar nomes) hão de ser Delly e Ardei. magro." Dormi ontem pensando nessas palavras. Arabela. mas. as palavras teriam sido espontâneas. Deixaram-no deitado no banco (estava embriagado. UM BELMIRO OCEÂNICO.. Que eu fosse lá. e seus autores franceses (a que Glicério aludiu de um modo geral... considerei que uma jovem que diz frases semelhantes não pode deixar de ter. eis o que Carmélia pressentiu em . tomei. Um Belmiro oceânico. Nesse caso. e comecei a gostar desse Belmiro que olhava para o salão como se estivesse contemplando o mar.. porém. também.. A referência à embriaguez e a declaração de que acabara "achando graça na história" doíam-me como pontadas no peito. fez isso para me desfrutar? Por fim. Deve ser das tais que colecionam autógrafos... Em vez de ficar no seu mundo e no seu lugar. Era de um romantismo aguado e soava ridiculamente.. porém. se fora meter na roda de filistinos. r»(|ii Estava muito triste olhando o salão como se olhasse l\Lrl para o mar. Esqueceram-me todas as mágoas.. O quadro foi realmente grotesco. seria rigorosamente exata. afinal. Bem feito.. quem sabe. {l^Ef^M HOMEM de pince-nez. e a moça tinha razão.. Efeito de álcool e éter.. ficar muito tempo nessa atitude de combate. sentia prazer em esquadrinhá-las e decompô-las. se não tivesse ficado encabulado com o incidente. meio maduro. Veio-me a idéia de que a frase talvez fosse pèrfidamente construída pelo Glicério. de seu círculo.. Em vez de tomar o meu partido. Não pude. O resultado não poderia ser outro. Embora me deprimissem. necessárias para definir precisamente uma impressão. sonhei com elas e amanheci hoje a repeti-las.. achei que a comparação "triste como se olhasse para o mar" devia ser mesmo de Carmélia. olhando o salão como se olhasse para o mar"—deu-me compensações. um álbum onde colherá pensamentos de mocinhos tolos. O rapaz está pondo as manguinhas de fora. Era um sujeito meio maduro e dizia: "Arabela. irremediavelmente oceânico. e. Acabou achando graça na história.§ 46. que redundava na defesa do pobre bêbado da noite de carnaval. o da moça. correspondendo a imagens que flutuam no seu espírito e. A donzela terá um temperamento romântico e talvez pense muito no mar. meio maduro. o desfalecimento. examinando-as em todos os sentidos... alto. Quanto à rebuscada frase—"Estava muito triste. coitado) e riram-se dele. Era um tanto literária.". esse parvajola. ajudando-a a ridicularizar esse pobre idiota da noite de carnaval. Procurando tirar desforra.

agora. As revelações de Glicério me proporcionaram um mundo de meditações e suscitaram-me os mais desencontrados sentimentos. pus-me a urdir vasto enredo. até então. um homem magro. com a pequena. dispondo os mais insignificantes pormenores. ao mesmo tempo." . trazendo ao peito uma gravata clara. Esquisito. Mas. "Carmélia está um sonho". vestido de jaquetão e calças listradas. enxerguei tudo. na Praça. Como assentam. nela. Bem feito.. O casal caminhava ao ritmo da música. primo de Carmélia. ao chegar à porta da Secretaria. na Avenida. uma frase que... e. dei maquinalmente o sinal de parada. na hora do sim?" A um canto. e ele. foi quando eu tomava o bonde para a Secretaria que me veio. denunciando-me a existência de Belmiros ainda inexplorados. os garçons de honra. Quando. todos com os passos também cadenciados. em voz baixa: "Belo casamento. durante todo o trajeto. triste e maduro contemplava o desfile. Depois. Um moço "distinto". Não será minha. dava-lhe o braço. Depois. às vezes tão bravo e sombrio quando bate no Arpoador. fitei-o com pena e. Há muitos anos que não vejo o nosso irmão Atlântico. em sondagens. não fora objeto de exame. se arrastava pelo pavimento da igreja de Lourdes. Como Silviano. "como se olhasse para o mar". tomando-se um bonde que sobe a Rua da Bahia. Voltarei a conversá-lo um dia.. apoiado a uma coluna do templo. A cauda do vestido. com quem você gostaria de conversar".. Para rematar: melancólico. Os demais assistentes trocavam impressões. também não será você. por que não pensei nisso há mais tempo? O fato é de importância capital. como sabem. Pois. um alfinete de pérola. E. mas também não será sua. Uma jovem extremamente bela. alto. paguei maquinalmente ao condutor. realçada pelo fundo escuro da roupa. não vi ninguém.mim. faz-se baldeação. Nós ficamos com o mito. um ao outro".. simpático. pensei. quando isso me seja possível. dando uma solenidade espetacular ao acontecimento. com uma sensação de vitória: "Ora. vestida de noiva. "Você notou como o noivo estava comovido. vinham as damas de honra. um rapaz muito "distinto". encontrei Glicério. tão absorto me debrucei sobre as outras: "Há lá. baldeação inclusive. como um relâmpago. mas resignado. E a manhã de hoje correu assim. Lá se foi ela com o moço 'distinto'. sem dar conta de coisa alguma. muito longa. Tocava-se a Marcha Nupcial de Mendelssohn. Quem será esse primo? Como será? Que veio fazer aqui? Quais serão as conseqüências de sua convivência com Carmélia? Da Rua Erê à Seção do Fomento a distância não é pequena.

—Olá. disse Glicério.. por exemplo. e só no último caso iria à sua mesa. na Seção. ando há muito tempo com necessidade de leituras mais sólidas. tocará. à hora do café. como vai essa força? disse-lhe. para montar aqui um serviço de radiologia. É rapaz "distinto".. Se não me engano. Mas tocará. Quando o encontrei. jovem.. —Que Jorge? Não sei de quem se trata. observando-lhe que o primo de uma criatura. por partes. não.. Jorge chegou apenas há uma semana. —Vai morar com a viúva? .. se soubesse disso. primeiro. na igreja de Lourdes. Pois o rapaz mal chegou a Belo Horizonte! —Quer apostar? Não o conheço. Preciso debulhar... Belmiro. como de costume.. Respondi-lhe que. bom. Mas. Glicério há de falar-me hoje a respeito desse moço.. Queria que Glicério tivesse a iniciativa de me procurar.—Olá. Formou-se há pouco tempo. Estamos em frente de um inimigo comum. —Então. Calculei como um astrônomo. Se você quiser. tanto quanto o gênero comporta.. À hora do café. me interessaria. pensei. —Bom.. Dia morno. você falava de Schopenhauer. É verdade.. enquanto imaginava meios de conduzir a conversa para esses lados. sabe? Especializou-se na Alemanha. . outros livros que Silviano também me emprestou e já está cobrando. mas estou vendo tudo claro. Não tenhamos pressa. aparentando admiração. seria sempre "a propósito". Acabei de visionar o seu casamento. respondi. como Carmélia. —Ah! a propósito. —Casar? Você está doido? Quem lhe falou nisso? perguntou. esforçando-me por parecer despreocupado. ele veio falar-me e se disse encantado com a "schopenhaueriana" que Silviano lhe está emprestando. não é "a propósito".. —Ora. ainda com ar triunfante. pois era um grande bandido: ia casar com a moça mais interessante da cidade. O Jorge de Figueiredo. primo de Carmélia. É ameno. Pus em dia o protocolo de processos. —Você se meteu em grandes funduras. a propósito de qualquer coisa.. puxarei sua língua. Algum do seu clube? —Não. assustado. Quero dizer. Tirei-o do apuro. Deveria fazê-lo.. disse-lhe. Se ele não tocar no assunto. Encontrei-me hoje com o Jorge. trarei para você um volume do Ruyssen sobre Schopenhauer. Seremos solidários no combate ao filistino. por ora. estava comprando móveis para o gabinete. —Você é fantástico! Carmélia havia de rir. E que a mim.

em frente da igreja? O melhor é dar uma volta e não criar este problema. definitivamente. ou não. vestindo o velho jaquetão preto e levando um chapéu-de-sol ao braço. desço na Avenida. Só agora veio a Minas. quando é vazia como neste domingo. Com as notícias que lhe dei sobre Francisquinha. Emília sempre acredita. à tarde. que a Chica ficou boa. Leio o Minas que deixou sobre a mesa. depois.—Não. E casar-se-ão mesmo na igreja de Lourdes. Com ele estive duas ou três noites a bebericar. leve. que a velha traz silenciosamente. a moléstia mental se manifestou nela. Quando o espírito se me torna. que se casem e sumam. Depois. Posso compor meu olhar oceânico para. Outra coisa não deveriam fazer o Prudêncio Gouveia e Beppe. porém. Muito viajado. Talvez possamos trazer a mana para casa no fim desta semana. Mas talvez seja melhor armar a rede no quintal e folhear revistas velhas. no Instituto. Enquanto eu dormia. Veio-me a idéia de sair um pouco. ao ver terminada uma crise. o Jorge. § 47. Homens e mulheres sobem a escadaria da igreja de São José. Finalmente resolvo. a manhã deve estar alegre e o parque cheio de gente. o tema foi o mesmo. em boas condições. assistir à cerimônia. Lá fora. Tomo o café. Os jornais anunciam um encontro sensacional. Giovanni. Ora bolas. parece muito animada. Está lá. procuro o Florêncio. ainda moça. talvez o futebol. pela tarde toda. disfarçado no meio do povo. experimentadas pela pobre irmã. Cá dentro. E a vida é quase boa. e ainda agora me ocupa. Andei lendo. É admirável esse otimismo que a faz esquecer-se da longa série de crises e melhoras. a ver a rua. sucessivamente. NENHUM DESEJO NESTE DOMINGO. para espairecer. Não há dúvida que se casarão. nenhum problema nesta vida". haverem as duchas e os remédios produzido bom efeito. A ciática passou. Tomo o bonde. apenas enquanto se instala convenientemente e se adapta mais ou menos ao meio. o sapateiro. Contei-lhe que o médico me disse ontem. Pus-me à janela. dar um giro. "Nenhum desejo neste domingo. ia à missa. assim. e ela anda. Por que não fazer o mesmo? Devo. como diz o poeta. por insistência dela. andei perambulando. NESTES últimos cinco dias não toquei nestes assentamentos. desde que. Emília devia ter estado na igreja. para ouvir a missa das cinco. entre bocejos. de assunto. há uma semana. quase despreocupadamente. Não. Uma banda militar desce . tirar o chapéu. na cidade. Mudamos. Viveu sempre de São Paulo para o Rio e do Rio para a Europa. Dei para vidente.

O coveiro não se assemelhava em nada ao de Vila Caraíbas. NÃO TENDO nenhum defunto familiar no Bonfim. abeirando-me de um ou outro retardatário par de namorados—para ouvir-lhes a conversa —ou examinando alguns mausoléus e inscrições. visitas extraordinárias ao cemitério. afinal. Algum político importante deve estar a chegar. não estando muito premido pela necessidade de vê-la. Depois. rumo à estação da Central. não tinha o ar amigo nem a expressão honesta do coveiro caraibano.. Domingo bom e alegre. fiquei o dia todo a hesitar entre ir e não ir. Ir. lá no Parque. senão estas. Depois. não encontrou outras palavras. pus-me a andar a esmo. quando já escasseavam os visitantes. FINADOS. Aproximei-me do local e fui deitar. segundo o padrão habitual. Sem que nada me recomendasse. depois. Neste Finados de 1935. seu olho mole. aos seus. também. ver morenas que não nos verão. Para dizer verdade. não deixou de fitar- . que enterrava as pessoas com um pesar que se adivinhava sincero. o melhor é. para um coveiro consciencioso. no dia de Finados. à parte nova do cemitério. voltaremos para casa. abriremos a rede. nada se poderia prometer de melhor. arranjarei uma terrinha virgem para ele. em anos anteriores. Passando. informado da morte de um compadre. do cemitério do Bonfim. Ah! é verdade. impressionou-me fortemente com o olhar frio que me deitou. convenhamos em que cada um exprime o seu sentimento como pode e que. escreverei neste caderno que não era tanto pelos seus hóspedes: imaginei que talvez encontrasse Carmélia. nenhum problema nesta vida. suponho eu. foi que me decidi. Nenhum desejo neste domingo. o chefe da Seção pediu-me que comparecesse ao desembarque do Ministro. § 48. minha pá de terra ao morto. esquisito. para exprimir à viúva sua grande dor: "Console-se. ou não ir. logo pela manhã. Lembra-me que. chamaremos o velho Giovanni para um dedo de prosa. Ia por esporte. Defunto metódico esse que deliberou morrer no próprio dia de Finados." Mas. do que terra virgem. Mas. vi que se enterrava alguém. Homem sombrio. poupando. senti desejo de visitar o cemitério. amigo que era de todos. ou para acompanhar algum amigo. Ali chegado. poucas vezes ali fui.marcialmente a Rua da Bahia. Qual.. eis a questão. às preferências daquela pessoa de tão fúnebre ofício. O coveiro da quadra 55. toma-se um refresco no Bar. ao pé do túmulo do pai. À tarde. a um defunto.

Nesse documento Redelvim concitava o companheiro a agir." Por último. seriam outros tantos agitadores. pois o delegado é finório. efeito. teria ela. Glicério me disse que entrou em tudo isso apenas em atenção a . alcançado os seus objetivos. Realmente. Um calafrio correu-me pela espinha. acharam indícios de que fora um dos promotores da última greve de operários. § 49. fazendo-as gemer. pois os homens sem trabalho. que não o soltaram senão para lhe acompanhar o desenvolvimento das atividades. que não foram boas. uma cópia de carta enviada pelo nosso amigo a um estudante Lousada. seriam compensados pela felicidade das gerações futuras. O Senador Furquim. a carta. ajuntou. e este fora encerrado havia mais de quatro anos. resolveram manter Redelvim sob vigilância constante. o Bonfim é menos convidativo que de costume. acossados pela necessidade. A uma hora dessas. seu manguarão!" Havia qualquer coisa de triunfante e de perverso naquele olho aguado. nem mudasse de residência. Era já lusco-fusco. mesmo. FUI HOJE à casa de Jandira comunicar-lhe que a polícia deliberou devolver a Redelvim o seu Diário. Em vista de tais documentos. era. relações de dívidas. O investigador. e deixei o cemitério com o espírito opresso. que a polícia conservou. apontamentos diversos. dizendo-lhe que não criasse problemas de consciência. e um vento frio e fino soprava as casuarinas. Que o homem de ação não deve ter escrúpulos. assim. terminada tragicamente. mesmo assim. ou mesmo por isso. que lhe devia levar o Diário. sem notificar a polícia. Por que me encararia assim. O Senador prestou outras informações. Que não entrasse em indagações sobre se a greve surtiria. memórias. chamou este último à sua residência para o cientificar de que haviam sido expedidas ordens para isso. no sentido de que não se afastasse de Belo Horizonte. até de uma geração. ou Almada. Mas na correspondência e em papéis avulsos. Em consideração ao Senador. teve também a incumbência de transmitir-lhe recomendação expressa do delegado. que se incumbiu do caso a pedido de Glicério. não encontraram no Diário senão poesias. "Desconfia o Senador. enquanto estive à beira da cova. com ar agoureiro? Parecia dizer-me: "Não demorarás a vir também. JANDIRA SE MOSTRA PRUDENTE. De acordo com o que me repetiu Glicério. Que se a greve falhasse e os operários fossem postos no olho da rua.me um só momento. As sombras se insinuavam aqui e ali. Consideram Redelvim bastante comprometido. ou não. o delegado mostrou-lhe. Que a miséria e o sacrifício.

—Mas é um absurdo. você vê como tudo anda embrulhado na Rússia. se cometam erros maiores. andando para lá. Mas estava em maré de confidencias e.mim e que não se interessava pelo Redelvim. Tive de esperar um pouco. mas reconheço que Redelvim o tem hostilizado bastante. que eu ouvira. algum namorado nestes dez dias em que tenho estado ausente de sua casa. Não lhe exprimi esta satisfação. Poderia talvez fazer a felicidade do . chamando-nos imbecis. Jandira fora dar uma volta na Avenida com a amiga nova que descobriu: uma professora já meio entrada em anos que se instalou na mesma casa de cômodos. apelando para a violência. Fiquei satisfeito com suas palavras. também. falou. tem a mesma graça leve e a mesma carne ágil dos dezenove. Conhecia-o. O mundo está errado. Arranjou. Respondi-lhe que seria bom isso. Quando voltou.. Temos problemas que nenhum regime resolve. mas acredito que anda decepcionado com os antigos companheiros. receoso de que se melindrasse e. Dei-lhe conhecimento das informações prestadas pelo Senador. retrucou. para cá. ou porque tivesse julgado o discurso cheio de chavões e quisesse anular o efeito das frases mais ou menos convencionais. Ficou apreensiva e manifestou o propósito de ir procurar o delegado. na expectativa de qualquer coisa. E que nosso amigo não fará nada. com certeza. O orador é vivamente cumprimentado. por picardia. provavelmente. disse-me: —Olhe. assim.. pois a polícia anda rigorosa. a assumir atitude oposta. seu jeito provocante. de sua boca—ou simplesmente movida pela sua natural versatilidade. que tantas vezes desaparece a meus olhos. Redelvim conversou comigo longamente. Jia cana. com ar brejeiro: —Prolongada salva de palmas. sem convicção alguma. Além disso. Suas mudanças súbitas. Depois. era homem atencioso. reacionários. Nesse negócio da greve entrou por lirismo. nada lhe acontecerá. em nossas conversações. Qualquer dia a idiota da Jandira estará. cumprimentou-me com ar alegre. É orgulhoso e não confessa. Jandira se mostra prudente e não se tem envolvido em complicações. sem que eu insistisse no assunto. Belmiro. Confio na evolução social. Aos vinte e cinco anos. que se agüente. tenho pensado que o papel de indivíduos como nós é conter os impacientes." Glicério foi duro. vive falando mal de mim e do Silviano. mas receio que. Além disso. surpreso. "Ele se meteu em embrulhos. Somos criaturas sem fé e pensamos demais. Não tem mais ligação com o Partido. a fim de lhe pedir um pouco de condescendência no caso. mas talvez fosse inútil a tentativa. viesse. sua mímica muito feminina me fazem lembrar a Jandira mulher.

E há. Escreverei também que não me falta simpatia humana e muito me preocupam os males do mundo. § 50. entra-me no quarto. a não ser a volta de Francisquinha. como fogo de monturo. em mim. Não é meu . que D.. ou do seu amigo Redelvim. Glicério não voltou a falar-me sobre o primo de Carmélia. Há muito não tenho uma semana assim tranqüila. com os seus homens. da casa de Jandira.velho mancebo que escreve estas notas. quando a mana piorar. um pouco despeitada por haverem os médicos conseguido o que não conseguiram seus amigos espiritistas. Não sei para onde irá uma. depois de ter andado muito pela cidade. Mas isto aqui não é romance. § 51. Como cedi uma vez. saí. de novo. Tenho lido alguns livros do Silviano e consegui liquidar o Homero. Hortênsia nos arranjou. mas não lhe sinto as chamas. Josefa lavadeira. alimentada. JÁ ANDAM JUNTOS PELA RUA. Enfim. dentro e fora de casa. sobretudo. como diz Jandira. e ainda me acho um pouco transtornado pelo que me ocorreu à tarde. UMA SEMANA QUE PASSA. com esta preocupação. nem outra. pôs-se a resmungar que Francisquinha só há de ficar inteiramente boa é com as rezas da "sessão". Está outra pessoa: arrumadinha. no Instituto. Mas há. quer converter a casa em centro espírita e fala em voltar. Pensamos e sofremos. Fui buscá-la.. uma contínua suspeita de que é desconhecer a natureza do homem. Silviano anda sumido. Redelvim? Como me ocorreu isso? Excelente meio de dar cabo de duas personagens difíceis: casá-las. ESCREVO à meia-noite. anteontem. Vejamos por quanto tempo poderemos conservá-la assim. Depois de tomar um café. para me contar qualquer coisa que a Chica falou. escrúpulos de espírito e de sentimento que não aceitam radicalismos revolucionários. e os caminhos da vida são mais complicados. nem isso me preocupou. NADA de novo nesta semana. A injustiça social me dilacera a sensibilidade. E aqui a escrevo. pensamos demais. limpa. Emília anda radiante: volta e meia. Talvez o amor continue a lavrar manhosamente. pretender discipliná-lo com teorias rígidas.

que os recém-vindos eram Carmélia. pouco ou quase nada percebi do que se passava em torno de mim e do que Glicério dizia. ondulados. e meti-me num bar da Rua Espírito Santo. dizendo que não poderia deixar de ir à mesa da viúva e da filha. Daquele momento em diante. pelo lado do Correio. Fiz um esforço sobre-humano para ocultar minha agitação e apenas lhe disse um "Ah!" distraído. tendo necessidade de sair. para jantar. num gesto disfarçado. O luto fechado lhe realçava singularmente os traços finos. observei que. Comi às pressas e sem vontade. sem olhar para os lados. refletida nos espelhos da parede. Acabei por me interessar: . a tomar chope. E saí rápido da sorveteria. assim tão mesureiro. pegando um jornal e fingindo mostrar-mo. me davam a impressão de que ela estava notando a insistência do meu olhar. Insistiu em minha permanência.hábito sair com Glicério depois do trabalho. Devia estar com uma cara de alma do outro mundo. Voltaria logo. supondo que seu propósito me houvesse agastado. Emília já está mais ou menos habituada à minha impontualidade e guarda-me o prato feito. que é menos transitado. apanhando o chapéu e dizendo-lhe ter um encontro urgente com Redelvim. Glicério se levantava e saudava pessoas que entravam. Jorge de Figueiredo. voltando logo para a rua e tentando assistir a uma sessão de cinema. menos freqüentados. e o chope só pode ser tomado com a devida unção nos bares. Ao sorvete prefiro o chope. através do espelho. sem ânimo de sequer mexer-me na cadeira. ainda que atrasado. Pediu-me licença para se afastar por instantes. das ruas transversais. com teatral mesura. ia fazê-lo imediatamente: ele poderia ficar à vontade. Finalmente. sempre transido de temor cada vez que os seus olhos. Pouco depois que chegamos. a viúva e o Dr. não vi essas pessoas. Vi nisso uma tábua de salvação e respondi-lhe que. Embebi-me na sua contemplação. Andei a Avenida a passos largos. Fiquei medrosamente a fitar a imagem de Carmélia. O chope me levantou o moral. Resumi a conversa. a epiderme branca e delicada e os cabelos castanho-claros. dirigindo-se para um ponto ou outro. nem costumo freqüentar as sorveterias da Rua da Bahia ou da Avenida. e perguntei-lhe a quem cumprimentava. e pude vir para casa. Segredou-me. Estando de costas para a rua. Mas o demônio as arma: não sei por que desci hoje com o rapaz e entrei numa sorveteria onde se reúnem as elegâncias de Belo Horizonte. Eu respondia por palavras vagas ao que me dizia Glicério e este deverá ter notado minha ausência. apresentar-lhes cumprimentos. pois sentia que o sangue me tinha fugido do rosto. trouxe-me de modo brusco à realidade. onde estive mais de duas horas.

acordada pelos miados de um gato. e foi para o quintal. UMA FRANCISQUINHA. Parece possuir nas mãos um magnetismo especial. Recusou a muitos colegas empréstimos de dinheiro. e. para o leito. que me levou a um café e se pôs a contar o modo por que empregou o dinheiro tirado na loteria. no caso de um dos Bancos quebrar. quase despida. Chamei ontem o Dr. O velho está apreensivo. Pois o casamento se dará. tentando acalmá-la. Quando eu a supunha bem melhor. pensando na possibilidade de uma pneumonia. uma força qualquer que faz bem e . não. e que levou. Esqueceu-se de me dizer que gastou cinco contos com uma espanhola. A pobre mana está presa ao leito com febre alta. do seu quarto. EXTRAVAGÂNCIA DE HÁ TRÊS dias não saio de casa senão para ir à farmácia. com relutância. Fagundes.era uma comédia leve. E os vinte restantes foram despendidos em reparos na casa e compra de terrenos. finalmente. cá estou a escrevinhar. pois. E ali ficou durante mais de uma hora.passando muito mal. dizendo que não podia estar ali. se levantasse para o pôr fora de casa e desse por falta dela.. com toda a certeza. Não me tenho afastado do seu quarto e nada ou pouco dormi nestas duas noites. Noto que sua simples presença tem ação sedativa. abri um ou outro livro. pondo-se de cócoras a um canto do muro. uma surra de madame Sepúlveda. a seu modo. § 52. que é o médico da casa. Tosse com violência e sente dores agudas nas costas. não perderia senão aquela quantia. ansiada. fez uma grande extravagância. que provocava grandes risadas do público. por isso. Emília me despertou. sob uma chuvinha miúda. É um homem excelente. ou comprar uma coisa ou outra. encontrei Sepúlveda. até que Emília. presumivelmente. O resultado da extravagância foi uma forte gripe. pois Francisquinha está . Mas comigo o caso era diferente: se eu quisesse era só falar. pois havia uma mula-sem-cabeça dando coices debaixo da cama. Ficamos acordados o resto da madrugada. Em cada Banco depositou dez contos. e tanto Emília como Francisquinha o estimam muito. desde anos. À saída. Saiu de madrugada. mais ou menos conformado com o casamento de Carmélia. Não era tolo para pôr fora o cobrinho. Voltou. pusemo-nos a procurar a pobre mana e a encontramos naquela postura. Voltei para casa. já tranqüilo. Já andam juntos pela rua. agitada..

vindo a pneumonia. Trata Francisquinha como a uma criança e é indulgente para com as suas impertinências.. grande .domina os males. dá-me. E a sombra de Francisquinha a prende mais ainda. sempre dizendo: "Deus chamou a coitada. fraca como é. Sua rudeza cedeu lugar à ternura. apegando-se muito a mim. perguntando-me se algo me ligava. Penso nos gestos serenos e simples de Emília. não resista à moléstia. § 53. e lá se acham o velho Borba. Em sua pouca luz. àquela caricatura da razão. Deus bom. Redelvim. Recomendou-me estar atento. Emília está mudada. todos.. Já aqui estamos há doze anos. realmente. Não resistiu sete dias. Emília foi mais forte do que eu. Faz dois dias já que a mana está no Bonfim. que pertenceu à velha Maia. quanto a Francisquinha. Silviano esteve ontem aqui em casa. Vestiu-a. a velha Maia. Como se transformou nos últimos momentos! Encolhia-se feito uma criancinha doente e fitava-me com olhos tão compreensivos. Silviano. Que felicidade poder pensar que Francisquinha foi para o seio do Eterno. sempre que houvesse qualquer novidade. que assiste os coitados. possui invisíveis pontos de apoio: mostrou uma singela grandeza. Deus chamou a coitada!" Pôs-lhe ao peito um crucifixo de ferro. agora. Receia que. Prudêncio. desnutrido. É mais forte. Vejo agora quanto estava preso a ela. OBRE Francisquinha! Lá se foi. Florêncio. Dá-me vontade de sair desta casa. Ofereceu mandar-me a Joana. e ela se afeiçoou às coisas e ao meio. O corpo velho. Levei-a até lá com Giovanni. porém Emília não quer. com fisionomia resignada. Donde lhe virá tanta força? Talvez de seu Deus que tudo explica. pretextando arrumar uma ou outra coisa. como de costume. Tratei-a sempre com desvelo. agora. FORTALEZA DE EMÍLIA. todos. àquela deformação do espírito. Conversa pouco. Emilia tem revelado qualidades excepcionais de enfermeira. baqueou com a pneumonia. Jandira e Sepúlveda. mas permanece a meu lado. mas olhava-a talvez com esta quase neutralidade com que se contempla o que é de todo estranho a nós. mas notou minhas preocupações e não disse ao que veio. para nos auxiliar no tratamento da irmã. arranjou tudo. se for preciso. que me parecia humorístico. Glicério. sempre que pode. O velho papagaio. e chamá-lo. a mana. Emília encontra uma paz que não atinjo. Pobre mana. que se tornou mais sombria.

tenho a impressão de que estou vivendo não em Belo Horizonte. cismadores. para não ser vista. embora não entrasse na Capela. deu-me um rápido abraço e desapareceu. mas no âmbito da fazenda. Experimentei uma sorte de inibição para escrever. Deve ter sido um pesadelo. horas infindas. um pouco. Não queria convidar ninguém. Anda decadente. Soubera da morte de Francisquinha e viera consolarme. talvez enfraquecido pelas demoradas vigílias e pela má alimentação. e o tempo não exercerá sobre ela sua ação desagregadora. Não conseguia fixar a atenção em coisa alguma. pelo Parque. grande. Carmélia apareceu-me com freqüência. perde a plumagem. como em uma tela esfumada. Fechado dentro de casa. Associei-a à minha vida. e as imagens se confundiam. Esperou-me à saída. Durante estes dias em que tenho estado encerrado. cheguei a vê-la transpor o portãozinho de ferro e aproximar-se de mim. OUVIMOS hoje missa de sétimo dia pela alma de Francisquinha. CASTOS AMORES. ler. concentrando-se nos olhos grandes. ou mesmo para pensar. e passa o dia todo a cochilar. Quase sempre deixa. . até ao momento em que Emília veio trazer-me um copo de leite. na atmosfera moral da casa velha.. Nessa longa noite. como no domínio do sonho. ora sob o seu aspecto real. casará.pena. § 54. Mas a que construí será sempre minha. Depois de ter andado hoje. porque está fora dos domínios do tempo. o que a torna mais leve e lhe realça o ar virginal. sem contornos precisos. como que alheio a tudo. poucas vezes peguei neste caderno e apenas duas escrevi. Sempre me apareceu assim. com o corpo extremamente fraco. ora encarnada em Camila e integrada na paisagem caraibana. e a visão desapareceu. Emília assistiu à missa das cinco da manhã. as coisas se misturaram no meu espírito. mas Jandira se informou do local e da hora e avisou os amigos. sentado ao alpendre da casa. terá filhos. Redelvim também compareceu. em cuja sala de jantar este mesmo relógio de repetição assinalava as horas de um dia grande. Depois do enterro ainda não saí. Como é casto este amor! Nenhum desejo. Uma tarde. Conversamos muito tempo. nenhuma representação sensual. Já não reajo contra as visitas dessa doce imagem.. tenho a impressão de haver saído de longa noite de insônia. Só as feições se mostram nítidas. A Carmélia real. circulando por entre meus fantasmas. na lata. Estava de vestido branco. a maior parte da comida que lhe damos. ela me pertence. será de outro. inatingível.

Por que esta preocupação de parecer o que não somos? Ponham-me a data de 1830. com esse propósito. a fim de lhe explicar a situação do amigo e pedir-lhe. com a notícia das sublevações de Recife e Natal. Havemos de ver isto. JANDIRA veio procurar-me.. Os que não estiverem envolvidos serão postos em liberdade. não se sabe ainda se o movimento surgirá em outros pontos do país. Apenas ficarão detidos. Não se pode negar o homem. —No momento é impossível.. nada tinha com os acontecimentos. Neste instante. olhando-me com insistência. Desejava que fôssemos juntos àquela autoridade. Hum. sei que não é suspeita. e a polícia está prendendo todos os elementos suspeitos. senhorita. aliás. Conheço-a. conseguimos falar com o homem. depois de termos vivido dois dias de inquietação. Pela madrugada. Sabíamos que Redelvim estava ultimamente alheio às atividades do Partido e nenhuma ligação tinha com os conspiradores. respondeu. Chegada a nossa vez. Vá tranqüila para casa. Interrogava numerosas pessoas que..Também não reajo contra o sentimento romântico que me domina. entravam. . Só depois de duas horas de espera. e é inútil situá-los em outras épocas. havia rebentado uma revolução comunista no Rio. enquanto se fazem investigações. entre policiais. a todo momento. se possível. Jandira veio propor-me um entendimento com o delegado seu conhecido. —Hum. a soltura. ontem. Jandira dirigiu-lhe a palavra nervosamente. que lhe fosse permitido visitá-lo. e está incomunicável. pode comprometê-la perante meus colegas. Aconselho-a. Ninguém receberá maus tratos. aflita. § 55. então. Seu amigo será bem tratado. quando eu saía para sua casa com o mesmo objetivo: Redelvim foi preso. a não insistir. mas sua presença aqui. Vivem-se horas ansiosas e a cidade anda cheia de boatos. Um pouco intimidada. não obstante as aparências em contrário. após duros combates cujos pormenores os cartazes dos jornais ainda estão registrando febrilmente. mas a carta a que aludi o comprometeu aos olhos da polícia. mas a verdade é que esses sentimentos são de natureza eterna. REDELVIM VAI PRESO. dizendo que ali fora para esclarecer que Redelvim.. Foi sufocado o levante. Os prisioneiros vão ser ouvidos com toda a atenção. Combinamos fazê-lo imediatamente e dirigimo-nos à Polícia Central. Jandira pediu.

disse. aproveitando esta manhã sossegada. dentro de poucas horas. —Quanto ao senhor. muito pálida. em seguida. ter ali deixado um bilhete para Glicério. deliberamos retirar-nos. Com untuoso sorriso profissional. Procurei. § 56. Deixei-a em casa. desfechou-me à queima-roupa: —Estou bem impressionado com o senhor.. Talvez tivesse de fazer pequena viagem com ele. Se for detido." Sinto-me cansado. que o delegado apenas me pedira voltar à sua presença. vim rapidamente à Rua Erê. à noite. É sujeito antipático. Não se preocupasse com alguma demora: eu já tomara providências para que o contínuo da Seção viesse dormir em nossa casa. Calculei que expedia ordens para que me vigiassem os passos. Assustado com o imprevisto convite. dentro do prazo. Fá-lo-ei amanhã cedo. ENTRE LUNFAS. ao sair. Jandira. como outros. pois teremos meio de encontrá-lo. mas cortês. Vou fazê-lo pormenorizadamente. O delegado recebeu-me razoavelmente. nos seguintes termos: "Suspeitam de mim. Foi pontual e procedeu corretamente em casa. Percebi.. para tranqüilizá-la. desejo que volte aqui. aviso-o de que nada lhe adiantará fugir. Não o conheço. passando pela Secretaria. para avisar Emília de que teria de demorar-me fora e talvez voltasse à noite. assegurei-lhe que voltaria. Disse. pois repreendeu-me: —Parece que já esqueceu da Chica. a fim de prestar depoimento sobre Redelvim. perguntou-me o que acontecera. que relataria hoje tudo o que me aconteceu na Polícia. Que o "Chefe" precisava de mim. havia de ser desfeito o equívoco. quando o delegado me chamou à parte. por não ter dormido esta noite. e eu ia fazê-lo com Jandira. Não tentou destruir papéis. peço-lhe que olhe pela mana e obtenha que o Carolino vá dormir lá em casa... mas. Embora inquieto pelo que me poderia acontecer. Fora da delegacia. que o delegado chamava um funcionário e lhe dava instruções. PROMETI-ME. Com certeza supôs que eu ia a alguma pândega. Fui chamado à polícia. depois de. . se equívoco houvesse quanto a mim. e não poderei escrever agora o que se passou comigo. e retirei-me com Jandira. ontem.Diante disso. apresentei-me ao delegado com uma convicção: a de que. o delegado. Assegurei-lhe que não. para evitar dúvidas. Leve a moça à casa e apareça-me dentro de uma hora.

. um pouco tranqüilizado pela acolhida. Sou obrigado a detê-lo. meu companheiro de Seção.. o investigador Parreiras. sem indagar que coisas continha. Lembrei-me de que. pedi arranjasse as coisas de forma que não atribulasse a velha. de chofre. pertencia ao serviço público. disse o delegado. Posso reproduzir a conversa que teve com uma senhora velha que mora lá. respondeu. por seu intermédio? perguntou. que serão tomadas por termo. Poderiam tomar informações com Fulano. fazendo apelos à memória. quando entrou em casa. Assim a velha não se assustaria.. eram livros extremistas? Em suas freqüentes mudanças de pensão. Pode ser que os haja e tenham sido esquecidos. indicando-me com um gesto de queixo. É comum haver esquecimentos. fitando -me dentro dos olhos. Declarei. em sua companhia. Os investigadores de guarda disseram-lhe que não havia lugar para mais ninguém e que os "pássaros" já . etc. O policial levou-me pelo braço. Redelvim as vezes dava meu endereço para que lhe fossem enviadas cartas ou encomendas. Beltrano. e na interpretação que poderia dar à busca. —Vejamos. Interpreto favoravelmente o fato de não se ter demorado para se desfazer de documentos incômodos. enquanto não se der uma busca em sua residência. Então. Digo "talvez". Talvez não existam. recomendou a um policial.. pela janela.. etc. Pelo tom de suas palavras. Fí-lo.. de uma feita.. o acadêmico Glicério de Sousa Portes. naturalmente. cheio de gente. Olhou três salas e achou-as repletas. que eu era pessoa inteiramente inofensiva. note bem. Farei o que for possível. ainda. chegar às mãos do destinatário. um tanto inquieto. o pacote registrado parecia de livros. e. Como explica o fato de mandarem livros extremistas ao sr. imprevidências. onde estão os que aguardam depoimento.. —Mas. quando contei o que se passara. respeitava o regime.Vendo minha surpresa. meu conhecido (o que se interessou pelo caso do Giovanni). Mas precisamos investigar.. observou-me de modo impertinente. —Sua explicação é aceitável. sem idéias políticas. prosseguiu: —Pensou que ia sozinho? Um investigador o acompanhou durante o trajeto e o observou. Cessou a pressão. Vejamos. Pondo-o a par da situação especial de minha casa. que este levasse. por um corredor comprido. Pensei logo em Emília.. que. destacasse. fiquei certo de que assim procederia.. se fosse possível. Durante os segundos em que me demorei a responder. Pode fazer suas declarações. Redelvim. para a diligência. Vasculhei a memória. —Conduza-o a uma das salas.

—Mancou. Com eles me distraí bastante até que. A cana é isso. Sou punguista. porém. ou melhor. Bem que tinha vontade de fazer um servicinho de vez em quando. rindo-se. acolheram-me com chufas. mas não dou para isso. de vez em quando aparteado pelo outro. ganhando a confiança dos marotos. velho. pessoar! Depois se apresentou: —Não ouviu falar de mim. mas quis ver a morena. Mas isto é doce de leite para mim. de cicatriz na face. Tiro só a grana e deixo o couro para o ota não dar o grito. —Qual nada! falei. O homem fitou-me. onde havia dois presos. . seu manguarão. Saído o investigador. com orgulho profissional. não tem sopa.. disse.. Um me dirigiu a palavra: —Não ache ruim. mestrepunguista. pelas onze da noite. Ia para a Bahia. Já corri os Estados todos. —Está com pinta de lunfa de penosa.estavam reclamando contra isso. não? Os jornais estão cheios. Não afano a carteira. puseram o senhor no meio desses malandros! Vou contar ao delegado. Não valia a pena. Namora. A combinação "lunfa de penosa" era-me. prosseguiu. deixemos de luxinhos.. Tão surpreendido fiquei. veio ver a nega e foi encanado. fingindo zangar-se. Mas sufoquei a raiva e entrei na sala de janelas gradeadas. —Seu Belmiro. para o outro. Fui preso por causa dele. Você vai é mesmo para as grades. meio impaciente. Mancou agora. não. disse. Na gíria policial "pinta" é aparência. menos Goiás. Já fui encanado mais de cinqüenta vezes. e isso me exasperou. Que seria "lunfa de penosa"? Propus-me apurar isso. e "lunfa" é ladrão. jeito. respondeu-me o baixo.. e falou: —Ora. É a segunda pessoa que me trata. disse o magro. estranha. indicando-me o companheiro magro e alto: Este é o Manequinho. A sodade apertou.. Percebi que estava em meio de larápios e a experiência despertou-me a curiosidade. Mato Grosso e Amazonas. E continuou a contar sua vida e aventuras. Pedi que não o fizesse.. Até me haviam ajudado a . —Pois olhe. e os tiras estavam acampanando a grinfa. o investigador Parreiras veio procurar-me para me levar à presença do delegado. maltrata de "manguarão". Banco o vigário só quando não encontro otários para punga.. então. gordo.. —Mais amor e menos confiança. que o mau humor se desfez. mesmo. Fomos juntos à casa da pequena..

Meio mundo se movimentou por sua causa. precisávamos de provas. —Sim senhor. Sublinhava as palavras. Eram onze da noite. . —Tive de me enfronhar nessa maçaroca. As declarações íntimas.passar o tempo. de um ano até aqui. O momento não é para condescendências. VAI. Nossa Constituição já acolheu numerosos princípios da socialdemocracia. em que as transformações se possam operar sem que sejam necessárias as revoluções. Olhei de soslaio para Silviano e Glicério: era de malícia a expressão deles. emendou. Apesar das declarações do Senador Furquim em seu favor. perguntei-lhe qual era a minha situação. PARA ALGUMA COISA SERVIRAM ESTAS NOTAS. Iríamos ver. o senhor acha... e o senhor deve . socialdemocrática. Respondeu que ficasse tranqüilo: parecia boa. Correu-me um calafrio pela espinha. pois suas confissões (novo sorriso irônico) têm cunho de sinceridade... Veja se entendi bem. assumiu ar professoral e disse que. nada justifica o sacrifício de sangue. § 57. "Ou melhor. Com aflição e vergonha vi. À noite relatarei o resto da aventura.. que não passa de um "anarquista lírico". Surpreendeu-me agradàvelmente a presença de Glicério e Silviano no seu gabinete. minhas idéias se comportavam bem dentro da Constituição liberal-democrática. Cá estão as suas "memórias". prosseguiu. Devo levar isso em conta. prefere os regimes brandos. continuou o delegado. portanto. esforçando-se para brilhar: é um céptico. afinal. intimidado que me achava pelas circunstâncias.. disse o homem. os três cadernos em que venho deixando notas. AGORA. no seu Diário. Acha que viveremos sempre de erro em erro e que." —Quanto ao seu amigo Redelvim. o mais que houve na delegacia. pois o Chefe de Polícia mandou examinar o caso com urgência. Depois.. com o seu enjoativo sorriso. a folhas e folhas. São dez da manhã e devo preparar-me para ir à Secretaria. Por isso. —Foi o que o salvou. imaginando que o delegado fosse ler páginas dos cadernos na presença de Silviano e Glicério. Depois. mas não os cumprimentei senão com um gesto de cabeça. continuou. quando o investigador me levou ao delegado. esclarecem sua posição. tirando partido do meu embaraço. em suas mãos.

O ímpeto meu era de esbofeteá-lo. declararam aqui ter vindo para arrolar os bens do inventário de Francisquinha... a "peça". quem sabe. tímido. apontando.conhecer bem o homem. os cadernos que estavam sob o meu braço. e tomei a mão do calhorda. E.. encabulado. Ele. que instintivamente fiz.. Justamente esses é que constituem o nosso maior problema. Depois.. Mudou de assunto. em companhia de Glicério e Silviano.. funcionário da Polícia. Ou. à espera de solução. Seguindo comigo. Glicério não teve coragem de fazer o mesmo. com o queixo. um pouco. com a pequena. interrompeu a conversa e ficou a rir. Notando minha angústia e o gesto. Separou-se de nós. A fim de tranqüilizar Emília. Glicério. Já conversamos bastante. meti os cadernos debaixo do braço e saí.. O delegado fora atencioso. Silviano pediu que eu lhe mostrasse. atuam lenta.. irritado. depois de uma pausa. mande-me um exemplar. . e que isso serviu para apressar as investigações. disse. Pedimos-lhe desculpas pelo equívoco. aludindo à embrulhada em que o Redelvim me meteu.. pondo o dedo nos lábios. pouco adiante. um conselho. Respondi. apesar dos pesares.. pois.. Acompanhara o Parreiras e um estudante. assistiu à busca nos meus papéis. O senhor pode retirar-se.. Seu Diário me interessou. sendo grande o número dos detidos. também. Se publicar as memórias. de novo tornando ao seu jeito presunçoso e cínico: —Bem. talvez eu tivesse de ficar mofando na grade. Lá fora. Bem.. Parece necessitar de mim e querer dizer-me confidencialmente qualquer coisa. que eram notas para uso íntimo. que julgou necessário solicitar os bons ofícios do Senador Furquim no meu caso. Mas. O senhor erra julgando-o de todo inofensivo. Glicério contou-me. os senhores são literatos e sabem o que lhes convém. e foi uma violência do delegado o ter-lhes posto os olhos. que deviam ter achado a cena muito cômica e por certo me consideraram um pobre-diabo. porém. Silviano não insistiu na zombaria. . encontrei bom entretenimento durante as horas de detenção. mas o bofetão ficou na mente. Noto. Gostaria de vê-lo mais ousado. que o senhor é platônico em demasia. Abusando de nossa tolerância. Entretanto. Falei-lhe que o caso estava encerrado e que. se me permite. estendendo-me a mão em despedida. Mais direto na questão da. mas profundamente. para indicar que o assunto era reservado.. emprazando-me para um encontro amanhã. sobre os espíritos fracos. —Enfim.. teremos de conservá-lo algum tempo. de resto. então.

Finalmente. Minha fé-de-ofício não ficaria prejudicada. e. Eu o julgava um aluado. Vi. ao despedir-se. mais de uma vez.. encontrei-o estendido num colchão. —Os home da justiça mexeram em tudo.. com o distinto médico-radiologista Dr. AMANHÃ DE 3 DE DEZEMBRO. depois de tirar umas graças com a Emília. quando se foi o Borba. Carolino contou-me histórias de sua vida. mais tarde.. para produzir efeitos na Secretaria. e. A busca não teve maiores conseqüências: Emília acreditou na história do inventário. Ficamos a conversar até às duas da manhã. um pedaço de bolo envolvido em papel impermeável. É interessante que a gente conviva tantos anos com uma pessoa sem a descobrir. criou-lhe estima. dizendo que achara bom obter aquela declaração. Desempenhou com carinho as incumbências que lhe dei. Carolino ficou de voltar. Jorge de Figueiredo. Nesse documento se atestava nada haver contra mim e que minha detenção fora. Emília já se havia recolhido. onde se anunciam os contratos de casamento. Glicério entregou-me um papel. folheei com emoção o Minas Gerais. meu pensamento estava distante. percorrendo. no Natal de 1934. que não lhe falta siso. PELO AMOR. de vez em quando. Ao encerrar a página de hoje. nisso seguia a opinião geral da Secretaria. para colher depoimento sobre terceiro.-Tento analisar e explicar os sentimentos que a notícia do noivado de Carmélia me despertou. apenas.ma Viúva Dr. Partiu hoje. temi essa notícia e. aqui. quando a informação me caiu sob os olhos: "Acha-se contratado o casamento da prendada senhorinha Carmélia Miranda. ao servir o almoço. Aurélio de Miranda. Ótimo rapaz.. ao que parece. Desde a vinda de seu primo. "Gente sem modos". contou-me. cedinho. inclusive a de pedir ao contínuo Carolino que dormisse aqui em casa. Ao chegar. a coluna social. § 58. a medo. pois lhe deu. tirando-me de apuros com a Polícia. filha da Ex. Os noivos." Sempre pensei que experimentaria grande abalo com o acontecimento. minha gratidão a estes cadernos: para alguma coisa serviram. quase à meia-noite. têm sido muito cumprimentados. que pertencem à nossa haute-gomme. O AMOR. A velha. Hoje cedo. no ponto de bondes. na sala de jantar. . o Glicério. lembrando-se de que fizeram o mesmo quando morreu a velha Maia. embora este se manifeste às vezes de forma inusitada. ontem. consigno. vagando em torno de uma conversação havida com Silviano. à hora da despedida.

Há. A tal ponto se fortaleceu. mas. mas o desejo de realizar o mito. a situação. ontem. a convicção de que um grande abismo me separa de Carmélia e de que toda pretensão minha. só agora. Verdade. O amor era pelo amor. e eu o bendigo. Entretanto. com serenidade. Aviltei-me demais e coloquei-a num altar que talvez não merecesse. é que o namorado teve descerrada. a seus olhos. teria desfechado um processo rápido de "descristalização"? Afinal. para ir passando o tempo. tão desvirilizado. que me vem no momento. livros e frutas. porventura. já não conferiu muito com a intemporal Arabela. se o noivo não aparecesse. Andei reagindo um dia ou outro. aproveitando uma fresta de luz.Entretanto. ou talvez o de dar sentido a uma vida sem sentido. . não passará de uma prendada e fina senhorinha e não terá sido senão um "momento" da incorpórea Arabela. na hora que passa. E a tristeza foi resignada. em mim. que não duvido fosse capaz de lhe procurar um noivo. e Jeová lhes abençoe a prole. desde que Carmélia foi revista. terei cultivado e incitado uma paixão puramente cerebral. e quem sabe se a convivência teria destruído a lenda que criei. O que me deve interessar. certamente. de uma coisa e outra. verdade. o meu desencantamento. neste instante. hoje. procurou sempre encobrir. Pergunto. uma ponta de despeito em tudo isso. em si. E o Cavaleiro da Triste Figura se pôs em marcha. A sensibilidade nos oferece surpresas dessas. Avançarei um pouco mais. a seu respeito. a minha impressão foi de que se tratava de fato antigo. Como aqueles que. já por mim conhecido. portanto. que seu arrefecimento viesse privar-me de uma emoção que enchia minha vida. cuja divulgação se fazia. a distância. cultivam o sofrimento e o exacerbam. quando Carmélia tem dono. é a situação do Redelvim. Esta solidão da Rua Erê. seria ridícula. sem esforço. Vi-a sempre à distância de uma estrela. se é amor um sentimento tão acompanhado de renúncias prévias. torturados por não sofrer demasiadamente a perda de um ente querido. É essa. a razão por que me conformei sem esforço com uma notícia que deveria ser catastrófica.. fora daquela noite de sortilégios. o fenômeno. Jandira foi quem o supriu.. no caso. a mim próprio. ao outro lado do espírito. com atraso. agora. sobretudo a distância da moça em flor. tenham numerosos filhos. Farei com que lhe entreguem. Verifiquei ser uma criatura sujeita às contingências do humano e sem a essência eterna do mito a que o amanuense aspira. a tristeza de viver de carícias compradas. Haverá despeito e mau humor nestas linhas? Creio que não: investigo. é que geraram a lenda. o despeito trouxe luz. Que se casem. pela sua Dulcinéia. a cortina interior que ocultava sutil trama psicológica. receando. aceitando eu.

—É. a mangar.. falou pouco. Você sempre diz que o rapaz é muito "distinto". Registrarei antes. Ficou? respondi. tive essa impressão.. e imagino que terá recebido a notícia do noivado com menos espírito esportivo do que eu.. porque não possui força de sentimento para tanto. porém. quanto a falar. porém. e. É um inquieto. O bacharelando Glicério de Sousa Portes não estava de boa cara. Tudo isso me foi denunciado pela sua fisionomia. Bom casamento.. quanto a Carmélia. noto o seguinte: Glicério é um hesitante. apesar dos . sabe que Carmélia ficou noiva do Jorge? —Ah!. —Não suspire. suspiroso. Talvez não passe de um prelúdio de amor. e você pertence. prendada. Não amou. Reduzidas as coisas às verdadeiras proporções. na Seção. Entendo que só serão felizes casando-se com homens tranqüilos. Você não serviria para ela. É fina. tive comprida conversa com Silviano. contagiando-se do meu entusiasmo pela moça e vendo-lhe propriedades metafísicas que lhe atribuí. E você compreende: pode ser um bom camarada entre gente da sociedade. como não dispõe dos recursos com que conto. Namoricou apenas. um homem sem endereço. é Glicério quem terá primazia. para se lhe tornar desagradável o acontecimento. me fez maltratar esse excelente mancebo: supus que me estivesse fazendo concorrência e passei a hostilizá-lo. NOITE DE 3 DE DEZEMBRO. Um bom burocrata deve obedecer. respondi. palavras menos importantes trocadas com Glicério. não o conheço. Foi o bastante.§ 59. concordou. E. Não é homem de nosso clima. Também ela não serviria para você. Não chegarei a dizer que o amigo esteja amando a prendada senhorinha. achou jeito de tocar no assunto: —Por falar em festas (Sepúlveda se melindrara por não termos ido a uma festinha em sua casa). ao passo que assumi uma atitude olímpica. O ciúme. Nosso clima não é salubre para mulheres. tem razão. prolíficos e domésticos. à ordem cronológica. e a moça será feliz. ficou um pouco sugestionado. com os seus "a propósito" sem nenhum propósito. no relato dos acontecimentos. nesse capítulo. continuei. Mas para bem dizer. segundo esta. —Tanto melhor para ela. porque..-Depois de encerrado o expediente na Seção... Sujeitos de alma simples. há tempos.. já com o propósito de contribuir para que seu aborrecimento passasse. aparentando indiferença. À hora do café. aborreceu-se. e não tem configuração nítida de suas aspirações. Esse Jorge deve ser mais ou menos isso. AINDA O NOIVADO. —É... É um indeciso.

Afinal é uma criatura de carne e osso. aqui. ou à noite. O melhor é tomar um chope e mandar um telegrama de parabéns. nossa amizade veio a salvamento depois de todas essas crises. ao "distinto". agora. Se leva desvantagens em nossa roda. É disso que precisa. O QUE SILVIANO ME FALOU. sem notar o tom de troça da pergunta. Confiante. —Que problema? O "Fáustico"? perguntei.. impaciente. atalhou. mesmo. lhe votei. quero saná-la. Glicério me interrompeu: —Ora. vejo que me estendi demasiado sobre a conversa com Glicério e o cansaço já não me deixa. Tal era sua ânsia de confidencia que não deu a menor importância ao fato de nos acharmos dentro de um veículo. falei.. carregando a fisionomia (só . Em seguida. retificando. não é senão pela pouca idade e experiência. Foi uma injustiça e. nunca deu importância a certas deficiências de Glicério e está sendo amigo melhor: orienta-o. Glicério é bom amigo e rapaz aproveitável. não me venha com bobagens. Felizmente. mais compreensivo do que eu.. E conversamos mais um pouco. Ao mencionar Silviano.. expôs-me a história. ambos bem-humorados. Vamos aproveitar o despeito e restabelecer a realidade. —Pode abrir o coração. mais uma vez.. em certo momento. —Nada disso. Não faz mal: fica para amanhã cedo. quando tive ciúmes de Carmélia com ele. § 60. meu juízo a seu respeito. com invencível horror ao "fino". Cada um de nós tem seu lado fraco e. Admiro Carmélia. a uma fauna complicada. Deu uma risada e concluiu: —No fundo estamos despeitados. Nunca pensei nisso. O QUE Silviano tinha a confiar-me (provavelmente desde o dia em que veio à Rua Erê e encontrou-me preocupado com a moléstia de Francisquinha) era o seu novo caso amoroso. Silviano. mal tomamos o bonde para ir a um bar da Avenida. explorei-lhe esse lado fraco. Haveria conflito de temperamentos. Você quer assiná-lo também? Respondi-lhe que não. cercados de curiosos. anima-o. —Você me está dificultando a solução do problema. não suspeitou dos rancores que. tentando ridicularizá-lo. Também estou inclinado a achar que exageramos.. e deu-me tempo para reconhecer o erro.pesares. Oficialmente não conheço a família. Somos animais intratáveis. Tempo é que não me falta. Sem maiores preâmbulos. Há vários dias que preciso falar-lhe e não encontro oportunidade. nada disso. relatar o outro encontro. mas acho que andamos exagerando um pouco.

. como de costume. Há cerca de um mês. a fazer intermináveis compras. O amuo passou logo. pois este teve a precaução de mandar imprimir cartões de visita com o nome do seu venerado mestre. Enjoado! —Sua Zizi. que não lhe permite ressentir-se com pilhérias. à espera de um bonde. Chama-me gatinho! O bilhete.. a não fazer. estendeu-me um bilhetinho amarrotado. para o ofídico. entrava noutra.. em aventuras de subúrbio. potelée é o termo justo. antes. Não tem de que se rir. Silviano prometeu-lhe casamento.. Silviano se coloca em plano de superioridade tal. pois. dando uma gargalhada: —A pequena estranhou... Ah! ah! ah!. dizia: "Meu gatinho:—Você é muito gostoso. interessante. preocupado com a precisão vocabular: só os franceses é que classificam bem as mulheres. Miudinha. virou-se para mim:—Você sempre com zombarias tolas. ingrato. a moça o percebeu e deu-lhe corda. Diz-me sempre: "Seus motejos me deixam na mais divina indiferença". . Sim. Não era do tipo angélico e pendia.) Exibiu-me um dos cartões. e ele a seguiu. O assunto é sério. Estou mortinha de saudades. divertido. o "Perrexil". mas acabou concordando em que o mundo está cheio de nomes esquisitos.. Travou-se namoro. para não perder de vista a presa). excursões pelos pontos mal iluminados da cidade. o negócio está nesse pé: a pequena lhe manda bilhetinhos incríveis. . (Talvez conseguisse mais. sessões de cinema. resfolegando. esclareceu. porém. dizendo: —Veja que coisa horrorosa. endereçados a Aristóteles de Estagira (acredita ingenuamente que Silviano se chame assim.. melhor . Depois. é uma pequena de outro estilo. O nosso filósofo varia sempre. se não o tivesse prometido. Isso é de espíritos mesquinhos. Por que não vem ver a sua gatinha? Por que não foi à matinée do cine Brasil? Estou com a unhazinha afiada para arranhá-lo. pela posta-restante. E calou-se. maior atenção. potelée. ou. foi contando o caso. Passeios de automóvel. escrito em bom cursivo. Ao fim de certo tempo. Combinaram-se outros encontros.) Enfim. Silviano não gostou: "Isso é muito trágico.." . Saía de uma loja. porque mandava descer a loja inteira das prateleiras e nada lhe servia (imagino esse gordanchudo Dom Juan a dobrar o passo. Agora. estava ele no Bar do Ponto. quando a mulher passou.depois de alguns segundos o remoque o atingiu)." Ri-me. Veio-lhe uma grande aura de desejo. para encobrir a identidade. assim nos abancamos no bar.. continuou. Sem me dar. assumindo ar sério. Não se trata mais da jovem da gota-serena.

diante de si mesmo! disse. . comunicando-lhe que fora chamado à Macedônia. no último Natal. quase um ano depois. —É. —Ora. Belmiro. . —É o que vou fazer! exclamou. adestrada em aventuras desse gênero. A pequena arranjaria logo outro entretenimento. a respeito. com urgência. Aliás eu não o procurei por esse motivo. muitos presentes... A carne é profundamente triste. Porfírio era meu avô. Será a última concessão à Besta! Respondi-lhe que o problema era simples. E atacou a questão. não. isso não tem a menor importância. dano moral no caso. De modo que não há compromisso. Pelo que me expôs. Será a última concessão à Besta! Sugira-me um meio de safar o filósofo Aristóteles dessa embrulhada. aliás. depois: —Chamar-me gatinho! Que monstruosidade! Aristóteles de Estagira. Noto que nas primeiras páginas deste caderno registrei. gatinho! Continuei. mandaria um bilhete à pequena. —Porfírio. Foi um momento de fraqueza do Pensador (aludia a si próprio). O caso está resolvido.. Devemos deliberar juntos. Aristóteles pode seguir para Estagira sem nenhum remorso.. Já me informaram de que ela cultiva homens casados para receber regalos e brindes. —Mas sempre se purificou. É. E nem poderia haver. aliás. Foi uma estupidez essa aventura. —Então.. e não morrerá sem dar à luz mais alguns imbecis que se disponham a sair do repouso cósmico! O que há é que estou enojado disso. Hoje.. Porfírio. dizendo-lhe que. e que deveria partir pelo primeiro vapor.. Dei-lhe. Não é a primeira queda.E continuou: —Foi uma estupidez.. Coisas que a Dolores Gigedo devolveu. não há problema. objetei-lhe. palavras que trocamos no Parque. uma porção de miudezas. Salvo se. com soberba inflexão de voz. Joana continua sólida. —Não! Não receio que haja perigo de acréscimo ao registro civil! exclamou. —Mas o Pensador já fraqueou mais de uma vez. Agradeceria a boa convivência e lhe desejaria prosperidade. que denomina "atitude católica em face da besta". tratava-se de uma pequena fácil.. portanto. Quem o assumiu foi Aristóteles de Estagira. por alto.. depois. desgostante. mas por causa da "coisa em si"... E.. se me visse envolvido em semelhante alhada e quisesse sair dela. Não é por causa do compromisso. Não haveria.

ainda.. é a única pessoa com quem uma conversa definitiva me pareceu possível. Você é um pateta. Louco! Não tem senso filosófico. sorvê-la.) Precisamos renunciar de uma vez. um pacóvio. e. —Estou perdendo o meu latim! disse. isso é que é. Aos coríntios. E o grande caminho é a ascese. de Kant! E que em Kant a gente encontra de tudo. (Deu vigoroso acento à palavra "ascese". Impossível dominá-la. Para os que. a frase interrompida em 1934. em forma definitiva. no mesmo tom grave em que me falava. não se casaram. —Vejamos se agora ele desiste de reformar a humanidade e se enxerga a "coisa". ele disse que é melhor casar do que abrasar-se. ao despedir-se. é outra. que acaba de cometer aventura indigna de um filósofo! Falamos. —A solução é a conduta católica. e Hegel. Dei-as.retomou ele o fio da conversação. Atrai-nos sempre e nos deixa sempre insatisfeitos. Não vê o Jerônimo? Engolfou-se nos doutores. e não podemos deliberar juntos. à saúde de Aristóteles de Estagira. Não entende nada. eliminando todos os seus atrativos. —Mas. nem histórico. violentamente. disse. Vai pela cabeça desse maluco de Marx! Esqueceu-se de que Marx saiu de Hegel. Depois de alguns minutos. depois. e não transcorrera todo um agitado ano entre aquela tarde natalina e a de ontem. É o que precisamos fazer. então cortado. E caiu num mutismo desalentado. —Você sempre pequenino. não chegou ao alto da montanha. Porque a carne luta contra o Espírito e o Espírito contra a carne. Entretanto. sobre coisas várias. objetei. para evitar nova explosão. Sublimou-se. uma gargalhada. Ela é ardilosa e inesgotável em astúcia. Porfírio.. como eu. para ver o espetáculo. irritado. todos os seus excitantes. respondi. Não compreende o problema. a meditação deve versar sobre esse ponto. rastejando. como houve romantismo literário! . porém. tal como se continuasse. pediu-me notícias do Redelvim. Rechaçar a Besta. cortando-me a palavra. —Precisamos meditar sobre as palavras de Paulo: andai pelo Espírito e não satisfareis a cobiça da carne. deu. Nosso problema—entende?—é repudiar a vida. Tive a impressão de que a vida havia parado. isso é que é. Porfírio. —Não tenho tamanha aversão à vida. a favor e contra! Louco! Romantismo político. pois estes são opostos um ao outro. exclamando: —Bebamos. —É porque está. querelante! A questão é mais geral. sem o intervalo de doze meses. Não insisti em minhas réplicas. —Minha situação em face de Paulo.

na Vila. Quanto o inconsciente é fino. NADA me aconteceu de novo esta noite senão que. tirada por vozes sem artifício. no estribilho.. pois Silviano é bom sujeito. dei com uma "roda morena". nem lhes apreendemos a substância rica de poesia. até que o relógio da torre do Mercado desse suas nove horas que equivaliam a um toque de recolher. Uma toada se espraiava no ar. § 61. "RODA MORENA". a cor. um canto límpido se alteava—desacompanhado: "Nesta rua tem um bosque que se chama Solidão dentro dele mora um anjo que roubou meu coração. Minhas ruas e meus largos de Vila Caraíbas eram. plenas de melodia: "Eu estava na estação quando o meu amor chegou deu um vento na roseira e o salão encheu de flor. Suas palavras "vejamos se agora ele desiste. a cantar em solo. vamos com os olhos da alma penetrar no âmago daquelas paisagens extraordinárias. enquanto as outras faziam coro. nos seus trabalhos subterrâneos! Só hoje. que pareciam perdidos.E deixou-me. andando a esmo no Carlos Prates. a luz e a música de longínquos dias. através da memória.. depois de uma ascensão lenta." . sutil. sob o luar." indicam que não se incomoda muito com as atribulações do amigo.. No momento preciso em que certos quadros se desdobram aos nossos olhos. Mais tarde é que.. ali pelos lados da Rua Serpentina. que desprendiam beleza e inocência. Uma ia ao centro do círculo. povoados de ranchos femininos. receptivo. Nosso olhar circula vago e às vezes quase indiferente. Achei-o duro com relação a Redelvim. braços dados. Assim chamavam. Mas talvez a dureza seja aparente." Depois. as camadas profundas do espírito me trazem o panorama. entoavam velhas modinhas. quase sempre não lhes percebemos a intensidade lírica. Ê as cantigas todas eram cantadas. à dança em que raparigas. assim.

porventura. e de nossa roda ser quase sempre heterogênea. ao contrário. ocorrendo. apesar de meio rabugento. E está aí. a amizade nunca foi.. a explicação do fato de nos unirmos a pessoas de caracteres tão diversos. os amigos não nos vêem como a um ser indiviso. às vezes em uma linha. Entre mim e Jandira. que buscamos. Consultarei Silviano sobre esse conceito antifederativo do . da. aliás. Somos amigos fracionários. que nos impele. em nós. moral ou afetiva (egoística. § 62. É verdade que nos encontramos quatro ou cinco vezes durante esse espaço de tempo. nos fragmentam. mordido pelo remorso de tê-la abandonado tanto tempo. NOVOS RUMOS DE JANDIRA. um conflito em que prevalecerão as partes simpáticas. embora não tivesse recebido nenhuma reclamação contra isso. cujo chefe é homem velho e bondoso. não o indivíduo. mas os vultos femininos sugeriam donzelas caraibanas. As cantigas da "roda morena" de Carlos Prates não eram as mesmas. Fui vê-la ontem. Se eu roubei teu coração tu roubaste o meu também!" Melodiosas noites! O luar batia em cheio na Matriz branca de cal. não será difícil investigar-mos a necessidade de ordem espiritual. dizem. São partes nossas que se unem por simpatia às de outros seres.Vinha a réplica de alguém. Elegem. Faz-me isso pensar que. senão que continuava nos escritórios da firma Sobral Lt. a seu respeito: não estava precisando de mim. e o assunto foi a vida dos outros. entra em tudo—mesmo no reduto das amizades mais puras. mas os encontros foram rápidos. fora da roda: "Se eu roubei teu coração é porque te quero bem. O egoísmo. ou mesmo em um ponto apenas.. no geral. Provavelmente aconteceu com ela o que sucedeu comigo. que nos parecem espontâneas e gratuitas —e. embora haja umas que se repilam. mas certo aspecto dele. as feições que lhes aprazem. ou fazia que a torre do Mercado deitasse ao chão de grama uma sombra grande. castas e descuidosas. faz dois meses já. mas. um no outro. aquele sentimento integral a que aspiramos. procuramnos em um ângulo. afinal). se saímos à procura de um amigo. fantástica. Nada me falou sobre coisas suas. eu me ausentara de Jandira. então. misteriosa. DESDE o dia em que tivemos uma conversação amarga sobre os seus problemas.

torpe D. Influência da professora vizinha. Ela. se eu não tinha pé-frio. Creio que perdi a amiga.. se lhe pegavam uma carta. Vim de lá quase magoado." Agradeci ao falastrão e insisti para que continuassem o jogo. A amiga está-se dispersando. Anita me sorriu. também. dava um suspiro e dizia: "Muito bem! exclamou o Conde. invectivava furiosamente a carta: "Canalha gentil. À vista de um coringa. os amigos se deslocam. Atendido. desde logo senti um ambiente frio. . Belmiro. na Santa Casa. Chegado à sua casa. esclarecendo a minha qualidade de velho camarada. e o doutorando deume forte aperto de mão. e isso me fez meditar. Pode encontrar-me no apartamento ou na Faculdade. Juan!" E. Jogavam coon-can-play na pequena sala. Os quadros se vão sucedendo. O canalha gentil compareceu logo. sorridente. as perspectivas se transformam. pus-me ao lado do Almirante. Apresentoume à roda.indivíduo. minha amiga. em companhia do Prudêncio Gouveia. E mencionou os outros. e lhes pedirei desculpas por esta divagação inoportuna.. D. É que Jandira me desapontou. Noto que virou quase um quadrante na sua rota. com tristeza. este é o Azevedo Leão. bem diverso da atmosfera tépida que sempre ali encontrei. fruto de pequeno despeito. o professor declarou que já me vira. pessoa com quem simpatizei. Toda vez que perdia com o coringa. Procuramos inutilmente fixar um círculo. com seu olhar meio estrábico. dizendo com ar importante e um charuto entre os dentes: "Sempre às suas ordens. a professora e dois cavalheiros de desigual idade e catadura. cujo nome não guardei." Durante todo o tempo em que estive a seu lado. (Citou qualquer especialidade arrevesada. com quem ela se relacionou há uns dois ou três meses? Reação contra o ritmo um tanto monótono de sua vida? Coisas de mulher. doutorando.) Precisando. depois de prolongado silêncio. mas a vida é terrivelmente móvel. uma paisagem em que nosso espírito se compraz. o professor Barroso. De manhã trabalho. se não o fizessem. Respondi-lhe que não sabia. ficou satisfeitíssimo e segredoume: —O senhor tem um olho episcopal. mas não me fez a festa do costume. na mutação dos quadros da vida. sob pena de retirar-me. Perguntou-me este.. Um amigo de Jandira passa a ser meu. Sou assistente de clínica.. procurando outros climas. e finalmente. nem precisa quarentena. disponha. Experimentaríamos. para mim: —Anita. Não queria ser desmancha-prazeres. É um sujeito divertido. aqui conhecido por "Almirante": foi Anita quem nos trouxe esta flor. coisa grave numa idade em que já não se fazem novos amigos. Jandira correspondeu com ligeiro sorriso à minha saudação.

suspenderam o próprio Florêncio. isto é. ao ler os jornais. Ainda se encontrava aqui. foi criando um outro núcleo que fará concorrência ao nosso na disputa de sua pessoa. pedindo-lhe explicação da gíria que lhes ouvi. Combinamos aparecer juntos.ouvi-lhe frases desse gênero. em que pese à Mariana e aos médicos. não está com a mesma cara. encantado com o Almirante. achando tudo ruim. LUNFA DE PENOSA. Um pândego. . Os médicos lhe suspenderam o chope. na Polícia Central. o nome do nosso amigo. pois chegara hoje pela manhã e havia muitos negócios para tratar. E Florêncio se divertiu bastante ao saber que os larápios me acharam com cara de ladrão de galinha. Anda queixoso e neurastênico. que passou quinze dias em Sete Lagoas a fazer seguros de vida.. Parece-me que Jandira não tardará a desertar de nosso pequeno círculo. Certamente lhe pertence a baratinha que vi à porta da casa. Não tinha podido ir visitá-lo. Levarei amanhã. TIVE duas visitas esta noite: Florêncio e o investigador Parreiras. amanhã. quando as namoradas me abandonam. Está indignado com Mariana. Disse-me o investigador que lunfa de penosa significa ladrão de galinha. provocou-me imediata aversão. Foi ele quem me reteve ali. Tenho pruridos filológicos. no dia da soltura. quando veio o Parreiras para me anunciar que já posso ver Redelvim. § 63. Quanto ao pedante doutorando. E ficou estabelecido que. por certo apanhadas em leituras. ao entrar. haverá chope. Sorrateiramente. Aconselhei-o a voltar ao copo com urgência: será o meio de reencarná-lo em si próprio. É rapagão bem vestido e elegante. novos livros e alguns maços de cigarros. e isso me enciumou. Nem sequer me perguntou pelo Redelvim. Creio que pressenti nele um possível namorado para Jandira. descobriu. Florêncio contou-me que experimentou grande abalo quando. Eram dez da noite quando saí. para que lhe sejam entregues. deixando-os ainda com as cartas. por ter a mulher conspirado com os médicos e viver a espioná-lo. em Sete Lagoas. O primeiro. que virou outro. nestes dois meses. Será possível que ela o namore? Como tolerará um indivíduo dessa espécie? Fiquei cerca de duas horas a sapear o jogo. na relação das pessoas presas. Pobre Redelvim! Já vai para semana e meia que está preso e continua incomunicável.. à delegacia. Aproveitei a presença do Parreiras para um esclarecimento a respeito da conversa dos lunfas. despertando-me um interesse que venceu a natural hostilidade para com a nova roda da amiga.

pequena. De outro modo. com jagunços de um e outro lado.° Regimento. de parte a parte. pássaro—detento. A isso chamavam um "fogo". ainda. punguista—batedor de carteira. Pela tarde. a prisão. ESTA manhã. falou-me que o outro.Quanto aos outros vocábulos: cana quer dizer prisão. A pergunta de Emília. com a aniquilação de todos os elementos válidos. Pela situação desta casa. Havia recontros armados. § 64. que o substituiu hoje na entrega de pães. um pouco aflita. se não fugíssemos. iam às armas. ontem. nos confins do Norte. quando as manas me deram grande trabalho. ocorreram durante muito tempo querelas sangrentas. ficaríamos entre as balas do Exército. afanar—furtar. do nosso padeiro. bancar o vigário— passar o conto-do-vigário. provavelmente vindas do Morro dos Pintos. trouxa. Dois coronéis fazendeiros brigavam por questões de terra ou de honra. acampanar—seguir o criminoso ou indivíduo suspeito. a propósito da revolução comunista. também. Parreiras e Florêncio (que também é versado nesse calão) prometeramme um completo vocabulário dos termos em uso entre os malandros. —Móde quê? perguntou (dizia o velho Borba que essa locução é uma corruptela de "por amor de quê"). matavam-se. tira—investigador. um . servi-me da mesma explicação dada durante a revolução de 1930: fora uma briga de dois coronéis. grinfa— morena. namorada. polícia secreta. Emília veio indagar se era verdade que houve um "fogo". A vila era pacífica. Cessada a luta. e esta só terminava. às vezes. que vinham da colina. lhe disse ter sido causa disso uma guerra havida no Rio. Para satisfazer à sua curiosidade. Em Vila Caraíbas havia. vi que a casa fora. que tão raro se exercita. que procediam do edifício onde hoje se acha o Departamento de Instrução da Força Pública. lembrou-me os dias penosos de 1930. otário—simplório. grana—dinheiro. mas um pouco além. e as da Polícia. Filhos. que consumiam famílias inteiras. couro— carteira de dinheiro. então ocupado por um contingente policial. Narrando. em meias-palavras. e gaiola—prisão. gente graúda. pouco antes de se iniciar o cerco do 12. UM "FOGO". memória das rixas seculares entre famílias importantes. netos e bisnetos herdavam a contenda avoenga. e morreu muita gente. brindada com algumas balas perdidas. Aludia à revolução de novembro. ser-lhe-ia difícil compreender. Respondi afirmativamente: houve "fogo". ser encapado— ser preso.

quase como a de saudade da amada que morreu. intimando os moradores a desocupar as casas. de meio metro de altura. não. tranqüilizando-a. por certo. dormindo no mato. para a casa da mãe dele. considerado ponto estratégico. Teria sido impossível permanecer na casa: o alpendre. livrando-nos de passar os maus momentos que muitas famílias experimentaram. Emília — vendo a irmã em tal estado—começou também a oferecer resistência. a seis ou oito quilômetros da Capital. e voltaram). no porão nosso. que fora apenas um combate ligeiro. pudemos carregar a Francisquinha nos braços. Emília nos acompanhou. naquele dia. às oito da noite.° Regimento. num recanto do bairro da Floresta. tive de resignar-me e aguardar os acontecimentos. depois. Bem que tenho tido desejo de dizer que ainda amo a donzela. Decorreram já duas semanas desde o dia em que o Minas Gerais publicou a infausta informação esponsalícia. às pressas. muito mal. —Não. § 65. mesmo. vindo Giovanni e Prudêncio Gouveia em meu auxílio (depois de se terem retirado. disse eu. Pirraça pura. Emília me perguntou se o "fogo" de agora ia durar e se se estenderia a Belo Horizonte. DEVEM ter notado (publicarei. Lembrando-se. com as velhas. Um rápido tiroteio. que dá para a Rua do Piau e está inteiramente a descoberto. O bom Prudêncio levou-me. que resolvera ocupar aquele edifício. Francisquinha estava. deu-me a impressão de que a luta se iniciara. Um vizinho deliberou não evacuar a zona e instalou-se no porão. ficou crivado de balas. Posto que estivesse mais ou menos a par da situação. entre a guarda da Cadeia Pública e o pessoal do 12.pequeno destacamento de soldados descera a Rua Erê. embora sob uma forma diferente. Algumas vararam as portas e foram alojar-se no meu escritório e nos quartos. e Giovanni se incumbiu de transportar pequenas coisas indispensáveis para passarmos alguns dias fora. Emília queria que fizéssemos o mesmo. lembraram-se de que eu deveria estar em apuros. E O CASAMENTO É PARA JÁ. e há muito não . O Governo entrou no meio e prendeu todos. Não encontrando quem me auxiliasse em remover as duas velhas. e foi vão todo o esforço para tirá-la de casa. Só à meia-noite. com as manas. as crises vão-se espaçando. nem no Glicério. das vicissitudes sofridas naquela ocasião. Soube. com a família. estes cadernos?) que há muito não falo em Carmélia. Pelo menos.

Por exemplo: o companheiro de lunetas douradas.. aqui ou alhures.. logo aos primeiros quinze dias. porque Glicério me prestou interessantes informações. fingindo supor que se tratava do caso do velho companheiro de Seção. que ficaram registradas em páginas passadas destes cadernos. Rompo. o noivo ou o noivado. a donzela. —Então? —A coisa já vinha de muito tempo. e a noiva tem apenas vinte e dois anos. Embora surgissem vários "a propósito". É como disse: estavam-se namorando sorrateiramente. segundo. e o caso foi comentadíssimo. Só fala que pode morrer sossegada (ninguém tem mais medo da morte do que ela). porém. Acabou entregando os pontos e vindo falar-me sobre a namorada comum. —À sua. Hoje. Primeiro. mas vá lá. Com a vinda de Jorge. Francamente cacete. aquela "bomba" no Minas Gerais! —Estive lá ontem. sem a gente saber.. Ora esta. mencionar-lhe o nome.ão. pois nestes quinze dias não me disse nada que envolvesse Carmélia. continuou. Um belo dia.—O do Filgueiras? —Nã. Sindiquei a respeito do noivado. Mas ficou um ranço.. daquelas bravas. Deixá-lo esparramar-se no papel. —Novidades. Esta literatura íntima é a minha salvação. nem se firmou compromisso. e noto que isso de silenciar sobre a moça não exprime indiferença e antes pode ser indício de manhosos e subterrâneos sentimentos. Segundo diz o Jorge. seu Belmiro.. Que pena o Dr. Receava que Carmélia se casasse com "qualquer um" daqui. Está beirando os sessenta. emendei. hoje. —Amigo urso! Na hora ruim não quer ser companheiro. porque conheço muito o Dom Donzel da Rua Erê . Pelo sim. Melhor "a propósito" não haveria. deve ter chegado ao extremo da resistência. pois seu ideal se realizou. reduzi-lo a coisa escrita é o meio mais eficaz de liquidá-lo e.experimento uma recidiva. de quem lhes falei há meses (sele a petição e volte. repete a todo . os mesmos não foram utilizados. a coisa pegou outra vez.. A viúva está ovante. Aurélio não estar vivo. pelo não. Estabeleci comigo mesmo o compromisso de não mais. querendo). há três anos. cometeu a loucura de contratar casamento. Foram namorados quando Carmélia esteve em São Paulo. melhor será não sabotar o Belmiro flautista. Quanto ao Glicério. com o regresso de Carmélia. O de Carmélia. sua idéia de vir para cá foi um pouco por causa disso. o pacto.. Inteiramente à nossa revelia. —Que noivado? perguntei. com ele. por dois motivos. você é que era interessado. O namoro não continuou. se é que o tem. pareceu-me que também fizera pacto idêntico com o seu demônio. mas Glicério ficou firme..

Realiza-se já.. O dia certo não sei. no Rio. É quase uma afronta a nós todos. A viúva seguirá amanhã ou depois para comprar. não há outra expressão. satisfeito. com ligeiro golpe. de São Paulo. está numa arrogância insuportável. Os mais pródigos vão à Argentina. Depois. —Mas você se esqueceu de que se trata de gente rica e importante.. Então você é que está besta. leitão assado. para corrigir a rudeza da comunicação: —Você não imagina como ficou melosa. com bailes. comunico-lhe (nesse momento não pôde evitar um tom de superioridade.. O casamento vai ser na intimidade. lamentei de mim para mim o desperdício da cena que compus no trajeto de bonde e que ficou registrada em outro ponto destes cadernos. com uma taça de champanha. —Não é possível! Nunca se fez isso em Minas. —Quer dizer que não haverá doces? perguntei. mas recuou logo. Mas a portas fechadas. —Dois proveitos num saco! Mas é pena estragar a lua-de-mel com esse negócio de curso. Enfim. não haverá cerimônias complicadas. —E quando é o casório? perguntei. —É compreensível. em estudos de aperfeiçoamento. O Jorge tem dinheiro a valer e já andou pela Alemanha.— Você anda positivamente de má vontade para com o rapaz. Quanto ao mais. bebidas a rodo. Vai ver que nem ficou tão besta assim. besteiras de enxoval. fica horas e horas a contar grandezas. O Jorge vai aproveitá-la para fazer um curso em Paris. onde as festas duravam três dias e três noites. (disse-lhe. Está besta.. tomando a pergunta ao pé da letra. com o coração meio agitado. que lhe perdôo) que sou dos poucos convidados. o resto do enxoval.. —Isso mesmo. Belmiro. guardei a grande novidade para o fim: vão à Europa em lua-de-mel. O melhor não é isso. coisas de filistinos. respondeu.. Por isso. para compensar. vendo-me fechar a cara). Quanto ao Jorge. . respondeu. com o noivado. Depois. aquilo.momento.. A viúva diz que não é bem uma lua-de-mel. É uma noiva perfeitamente vulgar. Doces deve haver para os íntimos. seu Belmiro. seu assalto anterior. pensando nos casamentos de Vila Caraíbas. Foi a própria Carmélia quem me fez o convite.. Não passam de filistinos. —Bom. Acabou-se a sua Arabela (mandou-me essa estocada.. era louco pelo Jorge. Com a vitória obtida sobre os elegantes da terra. Preciso reagir: Glicério está-me faltando ao respeito). Mas o trivial é ficar mesmo pelo Rio. dando acento irônico às suas palavras." Nesta altura. e não faz ainda um ano que o velho morreu. isso.. —Está certo. —É para já.

para o seu amor. Era uma flor de rapariga. e nós nos despedimos. O velho não se abalou. TEMA PARA UMA ELEGIA. desde logo. espécie de senhor feudal da localidade. no acontecimento. por atos de bravura. Afinal. álgido e inflexível. o sentido de tragédia. no peito do soldado. a ambição de galgar postos e conquistar galões para conseguir a mão da amada. a segundo-tenente. aos funerais de um tenente da Força Pública. mas suficiente para entreter o fio do amor. que se acha recolhida. Como vêem. Arranjou. Apaixonaram-se um pelo outro. Ao desviar-se de um bonde. e os dois estabeleceram. clandestinamente. o segundo-sargento conquistou mais uma divisa. quiseram casar-se. dando-lhe morte instantânea. Estava casado havia dois meses apenas. Há dez anos. foi colhido por um automóvel. Na revolução de 30. os riscos por que passou ali. Na revolução de 1932. a conversa acabou bem. O fazendeiro redobrou sua oposição. esse tenente. para a moça. meu companheiro de bairro. Arriscavase nas mais difíceis diligências.Disse isso com tanta raiva que não pude conter uma gargalhada. Como o namoro continuasse. no setor do Túnel. logo depois. Tão cheio. filha de importante fazendeiro. por mim encontrado entre os que acompanhavam o enterro. Dentro de dois anos. já agora primeiro-sargento. o velho pôs em ação seu prestígio político e obteve a remoção do militar para município distante. que o atirou a um poste. que me deixou cansado a ponto de não conseguir. senão por violento esforço. Foi quando conheceu a pobre senhora que é hoje sua viúva. . O professor Barroso. era segundo-sargento. O velho declarou que. então simples furriel. referiu-me uma história que vem aprofundar. afrontava todos os perigos. mas o velho fazendeiro continuava duro em sua negativa. Esta bateu o pé e jurou que só se casaria com o seu antigo namorado. foi um dia cheio de novidades. p primeiro-sargento passou a sargento-ajudante e. § 66. de parte a parte. A paixão se agravou. já era questão de capricho. Já era hora de se encerrar o expediente. comandava um destacamento policial em pequena vila do interior do Estado. enquanto vivo. cheia de extravios e incidentes. uma correspondência epistolar. Nada adiantaram. levar estas linhas até ao fim. neste momento. um casamento de conveniência. esta manhã. na Rua dos Pampas. Cresceu. morto em circunstâncias dramáticas. ASSISTI. mas o pai fez uma oposição obstinada. não cederia. e o golpe transtornou a razão da viúva. ao Instituto de Psicopatas. Não haveria de casar a filha com um furriel.

E chorou amargamente. § 67. no caso. Barroso não pôde dar à narração a intensidade afetiva do acontecimento. e outra. pelo que me disse. à imagem longamente sonhada e que era uma imagem do passado. No meio deste ano. mas o nosso tenente. mas. debruçado sobre a mesa. Flevit amarè. não sabe qual. É ela. O furriel de outros tempos era. no alpendre. Trocam-se cumprimentos comovidos. Não sou eu. é a sua amada. o ranzinza bateu a bota. calculo como foi extraordinário o que." Barroso contou-me que o homem. garboso primeiro-tenente de nossa milícia. Há uma. de modo insólito e cruel. e sua morte veio permitir a realização do casamento dez anos projetado. NOVA LUZ SOBRE SILVIANO. ficou inimiga do pai. de ir ver Redelvim. mas procurar desvendar o que se passou. perplexo. sucedeu.. Mas esta percebe o equívoco e lhe diz: "Não. Tal como aconteceu a mim—quando procurei Camila e não vi senão uma sombra—o espectro daquilo que fora os seus amores se sobrepusera. Ele chorou talvez a mocidade. desde o início da história. então. gasta e melancólica. porque chegaram a nós pessoas aparentadas com o morto. ressequida. ESQUECEU-ME dizer-lhes que a morte do tenente e seu enterro me impediram. no espírito do tenente. extremamente pálido... E o que importa não é isso. como Simão Pedro. a fim de . Talvez já não houvesse amor. Fui hoje cedo à casa deste último. se apoiou a uma cadeira.Mas o seu capricho só fazia animar o capricho do militar. viçosa. nem o poderia dizer. fixou-se o dia do casamento. fazendo um gesto de abraço. depois se assentou e pôs-se a chorar. ontem. Encontrei-o de pijama. ferido nos brios de homem. A moça deixa a fazenda para ir recebê-lo na casa da vila. Pela parte da moça.. toda aberta em sorrisos. a não ser que também continuou firme no juramento e que. Combinadas as coisas por correspondência. a vida que nela morreu. apresentar desculpas (deve ter ficado aborrecido com a minha ausência no local determinado para o encontro) e repetir o convite para a pretendida visita. e o Romeu foi buscar sua Julieta. Dada a explicação do meu impedimento na tarde de ontem. Não me disse o amigo como foi interpretada a atitude do noivo. Barroso pouco sabe. agora. então. dentre elas. a renovar o alpiste dos passarinhos.. acompanhada da irmã e de um irmão. conforme combinei com Florêncio.. ele se prontificou a sair comigo. dirige-se para a que lhe é grata aos olhos. Depois de ligeira hesitação.

Florêncio respondeu que. disse Florêncio. rasgando o ar com o braço. E agradeço o convite. num gesto que deveria exprimir desprezo. Alvitrei que fôssemos. então. entregou-me algumas tiras de papel escritas. —Esteve com ele? Como vai? —Não. Silviano teve um sorriso olímpico e pôs a mão no ombro do Florêncio. Para o caso de que você. que tomei. Sofreia os teus ímpetos. para um artigo no suplemento da Gazeta de Minas. agastado. —Ora. Florêncio e eu tivemos grande alegria com a notícia. dada a hostilidade mútua que há entre os dois. Propusemos-lhe uma ida imediata à pensão do amigo. E despediu-se de nós. conforme o nosso amigo Wolfgang Goethe. A suspensão do chope me faz quase doido. se existisse alguém com nome tão arrevesado. na Universidade. amigavelmente: —Não se mostre mal-humorado. venha com ironias. Devo ficar acima de coisinhas. —Já falei com você que não me chamo Abundâncio. Silviano nos disse. Você por aqui? —Vim visitar o esquerdista. Simples notas de minha Spicilegia. Quando chegamos à escadaria externa que leva ao saguão do edifício. Quero mostrarlhe apontamentos. Afinal. Preciso falar-te. Deveria estar lá. —Não há necessidade de tamanho açodamento. apanhara a bagagem e mudara de residência.irmos imediatamente à delegacia. disse Silviano. se informara a respeito. O regime estará perfeitamente seguro. Julgando improvável uma visita sua a Redelvim. posto ontem à noite em liberdade. Fizeram bem. Porfírio. à casa de Jandira. enquanto for ameaçado pelo Redelvim. é um destrambelhado. disse o Silviano. esse alguém não poderia deixar de ser um acabado imbecil. em . O mau humor é um vício. porém. Redelvim. Ele a teria procurado. desde algum tempo. com certeza. Como de costume. não deixou endereço. com surpresa. advirto-o de que só me causam tédio e pena.. o Abundâncio!. Deliberei perdoar-lhe os aleives que me assacou.—Venha comigo.. sacando o relógio. Melhor é que venhas à minha casa. e disse parecer-lhe melhor que eu as lesse calmamente. perguntei-lhe: —Que novidade é essa?.. Depois. alegando ter pressa de voltar para casa. pelo telefone do gabinete do delegado. Silviano. que. E não quero acabar de ficar. ouvindo suas loucuras. Que venha também o Abundâncio. fora à pensão. miudinho como sempre. Já o soltaram. verificou que era chegada a hora de aula.. Assim entramos em seu escritório. que descia majestosamente os degraus. vimos.

no Fausto. as maravilhosas expressões de Goethe. ou seja a nossa aspiração incoercível para a totalidade. dessa estratosfera do pensamento—e lidas as notas. afinal? Eis as notas. agora o que nos importa é esse encontro diário com o mistério impenetrável: o sentido da vida e o destino do homem. Desembarcados. Não fora o receio de ser chacinados pela vil raça dos revisores de imprensa. Como extrair um sentido dessa vã agitação de sombras vãs. que se acham sob a epígrafe Libido sciendi: "Para nós.. quando os sinos. aqui." A filosofia de Santo Tomás (um filistino. e outras palavras eternas com que o altíssimo poeta define o fáustico problema! Tal é a termometria de um constante estado psicológico: a vida estrangulada pelo conhecimento. Isto de partir de si mesmo e de reduzir o mundo a si mesmo é um solecismo filosófico. Já vão longe os tempos em que o espírito adejou em torno das damicelas encantadoras. Estranho homem! Que pensar dele. porém. E seguimos juntos. Bebi as minhas próprias cinzas. O homem não esgota a Verdade. Outros nos fazem divagar e devanear pelos intermúndios além. Platão e Bergson—quem o ignora?—são aedos suculentos. que chegamos ao dealbar dos quarenta e que vivemos em grandes escafandrias mentais. anunciam a ressurreição do Cristo. estabelecendo a confusão) é a mais estupenda tentativa de fechar o ciclo de nossas angústias. para nós só existe um problema. um não-iniciado diria São Tomás.. Estamos inquietos.) Meditar esta tarde nas palavras do incomensurável aquinatense: "O HOMEM NÃO PODE SABER 0 QUE DEUS É. citaríamos aqui. que outra sombra impele? Clemente de Alexandria estaria certo? Deveremos encarar o mundo como. Agora (e como nisto diferimos desses que sempre perseguem seus ideais de pobres-diabos e suas ambições sombrias!). no original. (verificar o texto. MAS APENAS O QUE ELE NÃO É. Transcrevo. até ao ponto de bondes. mas Newman nos tranqüiliza: To be at easy is to be unsafe. as observações hauridas nessas viagens às vezes tão longas e sempre exaustivas —vemo- . Precisava sair com urgência. aliás o eterno: o Fáustico. parte desses apontamentos.casa. A emoção trágica verdadeira não surge em nós senão no dia em que percebemos as coisas no seu ilogismo eterno. que mostram o estado de espírito do amigo e as meditações em que anda metido.

4) Estas notas a mim confiadas. sem a outra ciência.-Madruguei em casa .) REM MEDITARI—O homem é ordenado para um fim que lhe transcende o entendimento! Daí o ser impossível. "Je me puis trouver le repos. Defeituoso. olhando para as estrelas e erguendo os braços. mas também não é inexplicável (Santo Tomás Aq. Urge um equilíbrio entre o transcendente e o imanente. Que o leitor as aprecie. este pobre verme. A verdade em si. Tenho sono. absoluta. ó Imensurável. prestes a ser tragado no hausto universal! § 68. a revelada. na essência. AMANHÃ DE 21 DE DEZEMBRO (nove horas). no Alto do Cruzeiro. mas bordeja grandes abismos e procura culminâncias. no seu largo estilo silviânico. e os bondes da madrugada já correm pela Rua Erê. sopro dum instante. Necessidade da ascese: "A sabedoria não entrará numa alma malévola. esclareceu Silviano.nos vítimas daquela famosa ficção universal. Devem ser cinco horas. UM PROCURADOR DE AMIGOS. De um modo geral e perfunctório. assinalada pelo Jules de Gaultier e espantamo-nos do tumultuário e do desconcertante de nossas idéias. resumi-las e copiá-las deixou-me cansado. O trabalho de lêlas (a caligrafia do amigo é impenetrável). —A vida não é evidente. ó Transfinito. proferiu esta prece: —Ó Inconcebível. achei-as soberbas. condescende em que se prostre a teus pés este farrapo de um farrapo. Homo: animal metaphysicum. que pode tanger o ridículo. O homem nasceu Para uma condição limitada. fazendo estremecer as paredes do escritório. Elas me lembram um Silviano majestoso que certa noite.). conhecermos e atingirmos o nosso fim. nem habitará um corpo escravo de pecados" (Espírito Santo— Sabedoria I. todo conhecimento que repousa na autoridade humana. j'ai soif d'infini" “Mon ame languissante aspire aux inconnus lointains" (RABINDRANATH TAG. eheu! está muito além das nossas míseras possibilidades. deverão fundamentar um artigo seu na Gazeta de Minas. Só assim conjuramos o desespero de não conhecer tudo: convencendo-nos de que incognoscível não é sinônimo de inexistente.

sou apenas um procurador de amigos. —Vou descobrir o urso. Será certamente impossível uni-los de novo. e. Redelvim e Silviano. Se Jandira e Redelvim—de um lado—e Silviano e Glicério—de outro—se entendem. hoje dissolvido. de alma simples. Neste mundo. que a acorda e envia para o escritório comercial onde entra às oito. afirmativa. o mesmo não acontece entre Redelvim e Glicério. —Como? Já foi solto? interrogou. na realidade? Ou este círculo apenas existiu no meu desejo? Os encontros que tivemos. para aguardar o almoço. agravadas pela atmosfera pesada deste fim de ano. Por volta das oito horas. Esperei-a um pouco. sempre revoltada contra o despertador. Vejo que Redelvim ainda não a procurou também. Glicério. tantas vezes. Jandira. tranqüilo pequeno burguês. uma impossibilidade de comércio e de reunião entre elementos tão diferençados? Bem vejo que. este nosso amigo veio procurar-me para agradecer os . Silviano. o homem da hierarquia intelectual e da torre de marfim. quanto a uma recomposição do nosso pequeno círculo. anarquista. durante todo o tempo percorrido. Devo nutrir esperanças. eu sacrificaria minha idéia mais nobre para não perder um amigo. que não opina. Silviano e Jandira. Florêncio. no momento. socialista. e isso me admira porque. antes. quando entrou na casa comercial.-Novidades no setor Redelvim. até que tivesse terminado sua toilette e pudéssemos sair juntos. é Jandira a pessoa que ele mais freqüenta. causou-lhe uma alegria que me fez lembrar os antigos tempos de nossa convivência. § 69. satisfeita. Minha resposta.de Jandira para saber notícias do Redelvim. com tendências aristocráticas. quem criou e sempre procurou sustentar essa agitada assembléia onde atuam forças tão antagônicas. perguntei-lhe se o nosso revolucionário não tinha estado lá. não evidenciaram. sete da madrugada. Finalmente. as dissensões de pensamento. com o meu desejo de sociedade. Voltei à Rua Erê. despedindo-se com um aceno de mão. ENTREVISTA COM REDELVIM. disse-me. Silviano e Florêncio. nem pelos misteriosos princípios de aglutinação que regulam as aproximações humanas. Por que hão de os homens separar-se pelas idéias? De bom grado. a pequena roda não foi sustentada por força própria. ponho-me a rabiscar estas linhas. NOITE DE 21 DE DEZEMBRO. lhe apressam a dissolução. conforme diz a amiga. Redelvim. A caminho. Eram sete horas. Noto que fui eu.

dormindo menos. Dissipado o receio da remessa para o Rio ("Você compreende que seria bem pau. a princípio. lendo. pois não pode fazê-lo em estado de dúvida. dar rumos aos indecisos. nos meses que antecederam o golpe extremista. um regime de vida que há anos não conhecia e lhe permitiu talvez uma restauração nervosa. Redelvim os viveu agitadamente. extraem da gente o que querem"). durante o "retiro espiritual" (reproduzo expressões suas). Concluiu que ficaria mesmo por aqui e seria. acossado pelos credores e explorado pelos diretores de jornal. arrancando unhas. nestes vinte dias. Embora haja abortado. Conhecendo a sua energia. pelo menos. descansando e meditando. supondo que o fossem enviar para o Rio. Lá. depois dos primeiros interrogatórios. despertar. e que a polícia do Rio. tirou todo o atraso. de um modo geral. esteve um pouco inquieto. posto em liberdade. Revolta decerto justificável. considerou que. sobre o assunto. na expectativa de qualquer coisa extraordinária. Refletindo. Está um pouco mudado. afinal. deveria estar com as prisões cheias de conspiradores. não há pedicuros. disse. de redação para redação. O que terá determinado tal transformação foi o retiro espiritual. durante vinte dias. Aqui. não atribuirei essa mudança ao fato da prisão.livros. efeitos consideráveis. A atmosfera foi opressiva. que foi tratado humanamente na prisão. Aliás. Recordemos a conversação de há pouco: contou-me. "embora ordinários". psicologicamente. mas está picado pela desconfiança e pela incerteza e se julga um elemento inapto para agir. O certo é que Redelvim está diferente. por outro lado. alimentando-se pouco. de início. operando essa descarga que deveria desoprimir o ambiente. o senso de responsabilidade de cada um. mais cedo ou mais tarde. Acredito também (e isso aconteceu a muitos) que o choque de novembro tenha produzido no seu espírito uma descarga. Em suma. a rebelião teve. abusando dos excitantes. que viesse satisfazer à sua necessidade de terremotos e à sua revolta contra as coisas. que lhe mandei. passou a encarar o caso corri espírito esportivo e deliberou tirar vantagem da situação. que só poderia exacerbar-lhe o sentimento revolucionário e jamais intimidá-lo. o delegado lhe deu a entender isso. como ele próprio denomina sua reclusão involuntária. Provavelmente esse repouso completo lhe ofereceu ensejo para uma revisão de rumos e reflexão mais serena sobre as coisas. fosse de outro. acabou por chegar ao "estado de raiva". mas desorientada. Isolado em pequeno compartimento. disse-me continuar contra o Estado burguês e capitalista. porém. dissipar as fantasias. Não quer cooperar . levou. fosse de um lado. como diz Silviano. Vivendo inquieto. Confessou-me que desde alguns anos não dormia regularmente e que. não existiam provas de sua participação no movimento. quanto aos meios.

Meditara bastante sobre o conflito entre Trotsky e Stalin. —A velha anda muito doente e foi morar na fazenda com o meu tio.para uma ação em cujas diretivas não possa influir. Acredito que se Redelvim houvesse ficado em sua companhia o afeto maternal lhe teria ocupado inteiramente o coração e não a deixaria disponível para outros afetos. como suporiam os sujeitos maldosos. pois teme os desvios duma ditadura. Estou querendo ir passar uns tempos lá. então. Acostumou-se. então. a mãe se casou com um pobre homem que sofria um incômodo nervoso. se a polícia deixar. quando o conheci. estava brigado com ela. ao papel de enfermeira e. Procurei-o em casa de Jandira e soube que também lá não esteve. para lhe dispensar cuidados de mãe. nem lhe foi perguntado. a idéia marxista. não encontrando jeito de continuar a exercê-lo depois da morte do marido. nem tendo perto de si o Redelvim. se comprazem na dor. Pus-me a pensar em D. decerto impelida pelo mesmo sentimento com que teria tomado o hábito de irmã de caridade. Por isso. porém. a respeito. quando o pai sucumbiu a uma hemoptise. Até logo. pelo contrário. informou haver recebido uma carta da mãe. Maria Júlia. Por último. —Cheguei até a porta do seu apartamento. após longa enfermidade. Perguntei-lhe por onde andou metido. Pareceu-me que alguns imbecis jogavam com ela. Está bem. Não compreendendo isso. Tempos depois. no caso. Redelvim. teve pena do infeliz e decidiu desposá-lo. vencida pelo orgulho. Realizado o casamento. vai abster-se da ação e será apenas um espectador. que me oculta uma reviravolta mais profunda. e que vivia a tremer. Redelvim combateu violentamente e em vão o projeto. achou também que o Brasil não está suficientemente preparado e ainda não surgira a equipe que poderia organizar o pós-revolução. Viúva desde muitos anos. Depois de pensar maduramente. ficou furioso e dispôs-se a não mais ir vê-la. respondeu. na íntegra. Sua probidade intelectual foi. Passava. contrariado. mas ouvi vozes lá dentro e voltei. depois que o puseram em liberdade. Não o faz há anos: ela é que aqui vem. resolvera contrair segundas núpcias. de cujo nome não me lembro. sempre que pode. sem dúvida. . Mas ele veio para Belo Horizonte desde rapazinho. exprimirá uma impossibilidade de realizar-se. Creio. É dessas criaturas que têm vocação para o sacrifício ou que. e perguntara a si próprio se a ação de Stalin terá um sentido apenas particular e episódico ou. pedindo insistentemente que fosse vê-la. até quando lhe convier. Nada mais disse. dos quarenta.

Deve andar perto dos sessenta. o tabelião informava: "O que ele comeu hoje foi um arrozinho mole. para consolar o paladar da passagem da bebida por outra via. Se ele voltar à vida antiga não a viverá muito. Nem sei mesmo explicar como a tuberculose. galhofeiro." Ou. freqüente na família. E. por via bucal. Habituou-se a tratá-lo como um indivíduo à parte. que conheceu numa cidade do Sul de Minas. Belmiro velho. Não lhe contei ainda a história do funil. bochechava com o resto que havia no fundo do copo. Servindo-se de um funil. nos últimos meses de vida. Contou-me também que. independente do organismo. Estava transfigurado: era o Florêncio antigo. § 70. para dar a grande notícia: obteve permissão para voltar ao chope. exclamou: —É verdade. amiudou as visitas ao filho. mesmo de líquidos. E referiu-me o caso de um tabelião Carpóforo. no antebraço. Bom será que a mãe o retenha algum tempo na fazenda. perguntado pelo médico sobre a natureza do alimento tomado em determinado dia. FLORÊNCIO foi buscar-me hoje. Florêncio relatou o caso com espírito. O HOMEM DO FUNIL. ainda não o colheu em suas malhas. por meio de sonda introduzida diretamente no estômago. —E agora. Como gostava muito de beber. esclareceu. amável. Vítima de um tumor maligno que lhe comprimiu o esôfago a ponto de não lhe permitir a ingestão. ilustrando a narrativa com . num gesto trágico e cômico ao mesmo tempo. não o quis privar do vício. Levoume logo a um bar. há três anos. à saída da Secretaria. esse homem teve de alimentar-se. o velho Carpóforo levava a bebida ao estômago. Parece-me que só os nervos o sustentam. que o sabia condenado à morte. Mas a velha vinha a Belo Horizonte sempre que as circunstâncias permitiam. Enviuvou pela segunda vez.enquanto estivesse na companhia do segundo marido. e. desde então. beberei nem que seja pelo funil! —Funil? Por quê? Dando uma gargalhada e segurando-me com a mão peluda. o médico." O "ele" a que se referia era seu estômago. dispensando-o de ir à procura dela. Há alguns meses tem estado enferma e quem fará a viagem agora é o Redelvim. doutor.. —O médico apenas me recomendou que não tomasse mais de dez por dia.. então: "Ele tomou um caldinho.

Talvez fosse algum extraviado. o equívoco se desfaria sem ser preciso abrir a porta. Respondeu-me que fora o professor Otelo. Não receberia ninguém e teria cães ferozes para estraçalharem . um pouco rudemente. então. com preguiça de levantar-me. já destituídas de intimidade. e eu estava muito resfriado.) Ia. Jandira jamais foi tão acertada como quando. quando alguém me bateu à porta da casa. Assim pensando. no alpendre da casa. nesse caso. Bem me pareceu que havia de ser o Otelo. em que—talvez por ser meio gira—se tornou grande especialista) e faz humorismo quando o procuram para outras moléstias. procurei. o amigo se referia. depois. —É o Conde de Revila y Gigedo. o "Perrexil"). Devia primeiro indagar se povo existe! A mim. um escritor frustrado. pois. me fez sentir isso: nada há de mim que possa interessar. andando a passos largos.adequada mímica. compraz-se na criação alheia. Perguntei-lhe. na leitura. —Quem é? perguntei. pois que me dirijo sempre a um leitor imaginário? Prometi a mim mesmo que nunca escreveria um livro. "É o medicamento específico". se não lhe pudesse dar proporções monumentais. depois de dado um giro pela cidade. ONDE APARECE O "DOUTOR ANGÉLICO" CANSADO de escrever. de um modo especial. folheando autores prediletos. E. Não acredita na medicina (salvo na sua psiquiatria. Por que continuar tais confidencias. irritado. (O leitor é. de certa forma. ainda que em parte. e. pude ver que de mim nunca sairia um monumento. Incapaz de criar. a uma de suas discussões com Redelvim: "Persegue-me com a sua mania de povo. § 71. logo ao iniciar a tarefa. satisfazer. e incerto quanto à conveniência de prosseguir nestas notas. disse-me. com alguma veemência. pois reconheci logo a voz do Silviano e passou-me rapidamente pelo espírito a lembrança de um dia em que. Aceitei o sorvete e apanhei uma gripe pneumônica. responderam. ao monstro literário. Convidou-me um dia a tomar sorvete. qual o médico a que recorrera para obter a volta ao chope. a outrem. o homem que tem o senso da hierarquia!" E expôs-me sua idéia de construir um castelo e comprar o título de Conde de Revila y Gigedo (nesse tempo amava Dolores Gigedo. Não tive tempo de assustar-me. pus-me a ler um pouco.

um capítulo sobre imaginação difluente. de há muito. Silviano assim o apelidou por causa de sua profissão de fé tomista. minha presença seria talvez ridícula. e. Não sei. Surpreendemo-lo em sua biblioteca. É o que há de definitivo. Silviano lho tomou das mãos. que lhe trouxeram da Itália. pela sua cabeça passam grandes coisas e também coisas disparatadas. Entretanto. Silviano levou-me pelo braço e foi entrando portas adentro. ver-se-ia um cartaz: "Domínios privados do Conde de Revila y Gigedo". acompanhei o filósofo. como chegar a uma conclusão? Voltemos.. seu Angélico. e disse: —Leia isso. Mas. também. emprestado pelo próprio Silviano. Não é por acaso que conserva um retrato do Poeta sobre a mesa. Imagine. no final. Silviano não me deu tempo para cumprimentos. Quero que venha. que o fato de ter sublinhado o trecho signifique haver o amigo encontrado nele o estudo de caso análogo ao seu. houvesse improvisado. Vista-se. porém. disse-me à queima-roupa: —Vim buscá-lo para irmos juntos ao Doutor Angélico. além disso. Aberta a porta. Jerônimo é um pascalizante. Dar-se-ia que Silviano. Você vai testemunhar um espetáculo soberbo! respondeu-me. uma série de depoimentos de indivíduos do tipo "espírito romanesco". Retrato autografado.aqueles que viessem perturbar as meditações do Pensador. Chegados à casa do Jerônimo. Leia isso. segundo me informa o Silviano. até que ponto faz teatro para os outros e para si mesmo. Uma idéia bem d'annunziana. Próximo à ponte levadiça. Porfírio. por isso. Embora tomista. . passando-o para as minhas. Seria inútil qualquer resistência. sugestionado pela leitura. Aquela história de Parabosco & Ferrabosco. objetei ao Silviano que. sustenta com ele interminável discussão sobre a posição de Pascal perante a Igreja. Acabo de fortalecer minhas convicções a respeito do cepticismo de Pascal. ora caprichos de criança. a novela Parabosco? É possível.. para mim. Já lhes disse que o nosso amigo não se deixa medir pela bitola comum: ora tem gestos soberbos. a folhear um pequeno volume de Luc-Benoist: La Cuisine des Anges. ("Doutor Angélico" é o Jerônimo. por exemplo: folheando outro dia um volume de Ribot. —Não.) Imaginei que deveria ser sensacional uma luta entre os dois. ao Conde de Revila y Gigedo. assinalado a lápis. encontro. que. o carro está à porta. leigo no assunto. o Saisset o coloca entre Aenesidemo e Kant! Quero que você assista ao embate: vou fulminar o Doutor Angélico! Ah! ah! ah!. sempre suspensa. como se vê. seguia-se-lhe.

Silviano puxou-o. .. mas penitenciou-se. —Lá vem você deslealmente. Silviano. Desde as edições de Brunschvicg e Strowski. depois. afirmou que "il est mort en bon catholique". publicaram.. voltando-se. continuou Jerônimo. . emprega argumentos dessa natureza? Eu me apoio nos próprios textos de Pascal! E em qualquer edição que você queira. com enfado. Você sabe que os jansenistas.. —Oh!!! exclamou Silviano. Você verá que Pascal é um caso típico de suspensio judicii sceptica.. dando uma gargalhada. que o assistiu. com o sofisma das edições mutiladas pelos jansenistas. Não respondeu de pronto e se pôs nervosamente a tirar livros das estantes.. aparteou Silviano.. em 1670. entende? Ao seu Beurrier. hein? —Estou apenas procurando forrar-me de caridade cristã. numa suspensio judicii indagatoria. . respondeu Jerônimo. com calor. . não me faça perder o tempo.. Pascal é arrolado entre os cépticos. deveras.. Ou melhor.. cortou o outro. —Leia. gritou Jerônimo. você. Você incide no mesmo erro da corrente racionalista do estúpido século dezenove. — . não se insiste mais neste grosseiro erro. pela manga do paletó. —Leia. "parfaitement soumis à l’Eglise et à Notre Saint-Père le Pape".. para poder conversar com um sofista de sua laia. sem prestar atenção ao Silviano. O Bremond responde a tudo isso. Já lhe disse que.—Que é? O Saisset? perguntou Jerônimo com ar desdenhoso. veja simplesmente a Enciclopédia Espasa. mais tarde. Leia. Toda a crítica moderna da França é unânime em reconhecer que ele superou o seu cepticismo. Bréhier. no máximo. Jerônimo ficou um tanto perturbado com a arremetida. faça o favor. agastado. Silviano tirou partido da situação: —Não quer confessar que os Jesuítas são suspeitos. respondo com Cousin... Jerônimo. —Os jansenistas. perro aleivoso!" —Pascal foi um herético. Já lhe disse que caiu. que é de Jesuítas. exclamando: —Mas. —Absolutamente! tornou o Jêronimo. seu energúmeno! —Ora. Pascal reconheceu os seus erros. colocando-os sobre a mesa ou empilhando-os em minhas mãos... uma edição dos Pensamentos suprimindo o que lhes não convinha. então. com um sorriso vitorioso. "Mentis pela gorja. —La vieille chanson. gesticulando nervosamente e dirigindo-se a mim..quanto a Pascal. Michelet. nos últimos anos. para mim. .. Sua má-fé é evidente.. de suas heresias jansenistas! O abade Beurrier.

a dúvida não subsiste.. Foi o fim da conversa. Talvez por gentileza. de Pascal. foi feito para afirmar e não pode estar inerte.. Jerônimo provocara o desabamento. sem o terem ainda encontrado. Minha situação é de não negar. por se tratar de um tema familiar ao Silviano. pois que o espírito é ativo. Jerônimo procurou diagnosticar o meu caso. dizendo ao Jerônimo que não declaro dúvida. —Impossível. Silviano lembrou que eram onze da noite e Joana deveria estar aflita. Não era nada: mexendo desajeitadamente na parte superior de uma das estantes. no entanto. Até àquele momento eu conseguira entender o que diziam. meditando.. Silviano. Voltei e fiquei a folhear o livro. interessado. com o barulho de livros que desabavam de uma prateleira. a braços com a minha incapacidade de debater o assunto. passei a um quarto contíguo. Lembrando-me do pensamento lido pouco antes. E ali cochilei. ele assim é. Despedimo-nos. ia prosseguir no capítulo. para mostrar-me que notava minha presença. O espírito foi feito para afirmar. então. muitas vezes objeto de suas conversações comigo. dizendo que vivo em dúvida e isso não é possível... se perderam em tais funduras. própria para cochilos. Teremos de duvidar da própria dúvida e.. A certa altura. Para repousar o espírito. aliviando-o da forte tensão a que os amigos o obrigaram. onde havia uma cadeira austríaca. Silviano aprovou. com um sorriso condescendente. quando os dois sutis doutores vieram buscar-me. Só é admissível isso como atitude provisória. Estavam cansados e combinaram uma trégua até ao domingo seguinte. já não duvidamos.. que me senti impossibilitado de acompanhar a discussão. . origem de tamanhas querelas. deliberei dar um ar de minha graça. nem afirmar. encontrei palavras que pareciam adequadas a mim e. travando acalorada disputa nos domínios da teologia. Mas Jerônimo... e disse que eu pertencia ao número daqueles "infelizes e razoáveis". Ao que Jerônimo respondeu tratar-se de outra atitude impossível. se acreditarmos na dúvida. Fui ver os dois. Silviano tomou-me a defesa. Por outro lado. as minhas palavras. atalhou. porfiam em procurar a Deus. ágil e eloqüente. disse: —E. tendo nas mãos um volume dos Pensamentos que o Jerônimo deixara nelas. Tendo eu ficado quieto. Tive a impressão de que se passara um tempo considerável quando despertei.. Mas. tu ne me chercherais pas si tu ne m'avais trouvé". desde então. Foi o bastante para que se ateasse nova discussão. pondo-me a mão sobre o ombro: —Mas Pascal também escreve: "Console-toi. Silviano pareceu abalado e.E por aí continuaram.

que. abraçou o espiritismo. dizendo-lhe. não perdi a noite. Além disso. os atrativos que lhe descobre o Filgueiras (o de lunetas douradas) e vive em tentativas: colecionou selos. por não ter . haverá de encontrar o seu rumo. Veio para mim com as delgadezas e impertinências da Escolástica! Mas apanhei-o numa ignorantía elenchi. mas acabou no ilícito comércio literário. PERPLEXIDADE DE GLICÉRIO. ali. Ainda estou um pouco aturdido pelas coisas que ouvi e não me admirarei de que —ao tentar resumilas nestas páginas—tenha dito algum disparate. por fim. Procurei consolá-lo. Andou tentando vários caminhos. o nosso Doutor Angélico! Foi pena que você não assistisse à última fase dos debates. também. estudou esperanto. que isso não poderia ser senão uma atitude provisória. Apanhou o vício da literatura e só acha graça nisso. inclusive o de rapaz elegante. Terminada a festa. § 72. numa fallacia consequentis e num abuso de fallacia plurium interrogationum. O bacharelando Glicério de Sousa Portes saiu pelo braço do amanuense Belmiro. Não encontra. os seus seiscentos mil-réis. Como vêem. Não pode comigo! Não pode comigo! Separamo-nos em uma parada de bondes. à maneira de Jerônimo.De volta. cá fora.. A indecisão e o desânimo de Glicério me causam pena. cada bacharelando saiu de braço dado com a irmã. traficando entorpecentes com Silviano. disse-me. criou canários de briga. não estão ganhando. A família mora nos confins do Triângulo e não pôde comparecer ao ato. aos cinqüenta anos. Instruíram-me bastante. o coronel Portes. Não sabe o que vai fazer do diploma. por motivo de moléstia do chefe. ainda não achou coisa a que se aplicar. E nesse setor não espera produzir nada. a propósito. que teve alguma imponência. da situação do Sepúlveda (o do bilhete de loteria). GLICÉRIO colou grau hoje e fui assistir à cerimônia. E lembrei-me de mim. quantia que os advogados novos. Confessou-me que não se julga habilitado para coisa alguma e há muito tempo esta idéia o amofina. mãe ou namorada. noiva. virou integralista e. não se sente atraído pela profissão. Deixa ou não deixa a Seção do Fomento Animal? Pega. Também não quer ir para o interior.. e é possível que eu venha a tomar gosto por esse gênero de polêmica. Lembrei-me. na Seção do Fomento. Por que não? Fali na vida. no seu conhecido estilo: —Ora.

mandava vir rendas de Grão Mogol. em caixetas. Daqui a dezoito dias. § 73. seu Belmiro.") Depois. Agora. passeamos pela Avenida e nos despedimos. —Merry Christmas. se não me engano. É o que Glicério informa. Compram tudo feito. perguntei-lhe para mudar de assunto: —E a Nonoca? Acabou-se o namoro? —Você anda no mundo da lua. não é sintoma disso? (Ocorrem-me umas palavras bem significativas de Gregorio Marañón: "En el hombre adulto la práctica del Diário equivale a una supresión progresiva de la personalidad activa. social. Não se falou em Carmélia. em caixetas. com as peças do enxoval. Irão mesmo à Europa. Vestido de cetineta. SERÁ no dia 15 de janeiro o casamento. —Vamos tomar um cafezinho quente. Hoje é assim. § 74. —Bom dia. Coisa de filis-tinos. MERRY CHRISTMAS. cosia com amor. presente do Glicério. En realidad un Diário equivale a un lento suicídio. para assistir ao embarque. Com certeza. tudo vem feito. Só zarpa a 18. basta a . SERÁ NO DIA QUINZE. Foi bom para ela: está quase noiva de outro. Dois proveitos num saco. Que tal uma ida ao Rio. Mister Belmiro. acrescentando que a viúva já regressou do Rio. com o vestido novo que exumou da canastra e cheira a naftalina. de su autor. uma donzela levava um ano a preparar enxoval. Fazia riscos. MAIS UM NATAL. e comigo não haveria casamento. Qual foi mesmo o vapor que Glicério disse? Oceania. Aquilo era um passatempo. ou coisa que o valha. Este Diário. Terão de esperá-lo no Rio. Emília volta da missa. Muito obrigado pelo Chianti e pelas castanhas. amigos. Tomamos um chope.encontrado rumos. Giovanni. Era um gosto ver essas coisas. Em Vila Caraíbas. Mister Prudêncio. Como vai a Marianina? E o Pietro? O relógio de repetição dá oito horas na sala de jantar. aprendia a arte do bilro. bordados. O Senhor esteja convosco. com grande indiferença? Ora.

então. Estabelecido que uma coisa não é outra. isto é. Mas você não é Borba. Foi essa indiscrição que deu novo rumo às nossas conversações. apenas o fui conhecer mais a fundo quando. Dom Donzel da Rua Erê. Sim. de seu espírito. Lembre-se daquele arranjo seu: "o mito Arabela". Carolino? —O senhor acha que eu sou um homem abjeto? —Ora. descobrindome regiões novas. aceitando a opinião geral da Secretaria: era um aluado. você é um pobre flautista. Como disse atrás. Seja lógico. Para todos os efeitos. humanização do mito etc. Diga que ainda ama a Carmélia. impraticáveis donzelas. no dia da prisão. para torturar-se. e passou-me despercebida até hoje. E morrerá donzel. inexploradas. torna-se razoável uma ida ao Rio. você não passa disso: um masoquista. Você não tem nada de abjeto. conversamos longamente. Disse. você amou o mito e não a moça. Ou então declare-se de uma vez. para a fazenda de Vista Alegre. quando lamentei a quase dissolução de nosso pequeno círculo. um outro Silviano tem crescido a meus olhos. esteve aqui em casa para fazer companhia a Emília. na Rua Erê. neste ano de 35. No curso de uns oito ou dez anos não lhe conheci senão o pitoresco ou. Que diria o velho Borba? Um Borba teria furtado a moça e a levaria na garupa do cavalo. Convivo com essa criatura há seguramente um lustro. deixe-se disso. Seu destino é sonhar. Coisa algo parecida ocorreu-me com relação ao Silviano. ou melhor. NOVAS AQUISIÇÕES. A vida é um constante descobrimento e uma retificação constante. como o Jerônimo. antes. Masoquismo espiritual. Fique sossegado na Rua Erê e deixe-se de histórias. Devo corrigir o pensamento pessimista. naquela noite. entretanto. que já não estou em idade para arranjar novos amigos e hoje me convenço do contrário: havemos de fazer descobertas até o último dia. Naquele dia. sou? Perguntas desse gênero Carolino sempre me fazia. Nunca lhe prestei muita atenção. § 75. que ficou para trás. Nesse caso. —Que é psicopata? —Psicopata? —Sou psicopata.idéia de ir ao Rio para excluir a de indiferença. o caricatural. Penso nesse . Carolino. E tudo por causa da indiscrição de haver lido uma página do seu Diário. fique com o seu mito e deixe a moça passear. O SENHOR pode dizer-me o que é abjeto? —Para que você quer saber isso. para assistir à partida.

as contas que devem ser pagas no fim do mês. Já não me pergunta se é uma criatura abjeta. Quando. fazendo-os do próprio bolso. Se eu for. Calcula minhas despesas. a ele contadas pelo velho—e quando me disse que foi visitar seu Prudêncio. Deu para freqüentar. Esta consiste em separar. a estima que lhe voto. pois é muito seguro. Todos o julgavam desmiolado. com ela. mesmo. pela manhã. Assumiu a gestão de minha complicada contabilidade. E não aceita remuneração de nenhuma espécie. comecei a cultivá-lo. a aquisição do novo amigo. Tornou-se um personagem indispensável na Rua Erê. Emília será confiada ao Carolino. Ê inteligente e dedicado. Que pensará Tome dessas aventuras a que há tanto tempo não se entregava? Carolino. direi que devo a ela minha salvação. Desde que. pela rua. Emília aprecia-o muito. torno-me .excêntrico e bom Carolino. escrevo dez linhas. recebe o dinheiro para os pagamentos mensais. há pouco. nesta página. Mas. ao Rio. Venho da rua oprimido. hoje bem postos na vida. Celebro. insisti em lhe pagar o trabalho. § 76. a Rua Erê e fica a conversar com Emília até que eu me levante. Carolino procurava apenas isso: uma pessoa com quem pudesse conversar. nem ocupar posição igual à de companheiros de infância. Foi o que notei esta manhã. pois o dinheiro é pouco e os pretendentes. procura retribuir. está se aproximando do Giovanni e do Prudêncio Gouveia. e Tome. incumbe-se de uma tarefa que sempre me pareceu transcendente: a seleção dos credores. levado por simpatia e curiosidade. O pai também se enganou sempre. por eqüidade. mostrou-me uma caderneta de depósito no Banco: possui setenta contos. Carolino pega a ave e passeia. Parece que lhe tirei o complexo de inferioridade. que me comparece nesta altura da vida. com ele dando uma prosa. Quanto a mim. parte de economias próprias. quando. quando o supôs débil de espírito. ORA BOLAS. veio repetir-me coisas do Piemonte—já de mim conhecidas. e ele acabou como contínuo quando deveria ser amanuense ou—por que não? —primeiro-oficial. que parece desejar adotar outros amigos meus. ainda encontrou meios de se lhe afeiçoar. Procedente de boa família. que conversa é esta de ir ao Rio? O melhor seria ir à Vila e não pensar mais nestas coisas. certa vez. parte provinda de herança. não pôde estudar. como entende. UEM quiser fale mal da literatura. em sua caduquice. Às vezes me adianta os pagamentos. muitos.

" E é isso mesmo: por que havia de mortificar-me? O desejo de vir não foi veemente: era.olímpico. uma vaga idéia. Senti desejo de vir. Fique lá uns dias e traga-me um relatório. como defesa prévia. Bravo! Comecei bem a justificação de minha fraqueza alegando as imposições naturais da vida e daí concluindo que não devemos maltratar o irmão corpo com outras privações. apenas. Deixei Belo Horizonte com antecedência de alguns dias para não dar na vista do Glicério. tomamos o bonde e vamos para casa sossegados. partiu dela própria a idéia de se chamar o Carolino. É um homem poderoso. ou sua inquietação. este se prontificou a arranjar-me passe e diárias: "Precisamos. para estudar os métodos de propaganda postos em prática pelo técnico americano que o Governo Federal contratou—disse. Mas tudo conspirou a favor. O indivíduo que representa no palco nos fará rir. Parte de nós fica no palco enquanto outra parte vai para a platéia e assiste. Em verdade vos digo: o que escreve neste caderno não é o homem fraco que há pouco entrou no escritório. para lhe fazer companhia em minha ausência. § 77. Sempre há um argumento para os homens de boa vontade. e vim. mesmo. o comediante se encarnará em nós e teremos de tolerá-lo. Os amigos andaram sumidos— ora bolas. Lá se foi o ano—ora bolas. mandar alguém ao Ministério da Agricultura. Descobri o segredo do Silviano: transferir os problemas para o Diário e realizar uma espécie de teatro interior.. para o caso em que eu venha a ralhar comigo mesmo por haver cometido esta proeza: "A vida já. sorri e diz: "Ora bolas. Mas à noite. EIS-ME NO RIO. Terminado o espetáculo da noite. quando toquei no assunto." Primeiro de janeiro—ora bolas. Durante o dia. somos espectadores sem compromissos." E Emília não fez má cara. suas mágoas. nos comoverá ou nos suscitará graves meditações. . Vou combinar isso com o Diretor. que espia para.. Será mesmo no dia quinze—ora bolas. com a pena entre os dedos.dentro. Mas é um indivíduo autônomo. e isso deve ficar escrito aqui.. e nada temos que ver com suas palhaçadas.. EIS-ME nesta mui leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. depois de um chocolate. Falando por alto com o Chefe. Vi a donzela com o noivo—ora bolas. De que vale a gente viver a contrariar-se? Por si mesma a vida já nos impõe tantas limitações.

contemplando uma sociedade que está sempre a renovar-se. mas. O Rio antigo traz-me imagens machadianas que amei na adolescência. Muito malandro. distraído. Jamais me passara pela idéia uma visita a paragens tais. e a pé (não aprendi. numa travessa. Aceitei-os. A cidade nova e brilhante. com o peito deprimido. dois vultos que deslizavam furtivos à luz escassa dos lampiões: Capitu e Escobar. mas tratei de esquecê-los no bureau da Seção. encontrado no Ministério. pela manhã. de Minas. jogavam voltarete e tinham. contraditório desejo de ver consumados o casamento e a partida. não teremos vindo somente pelo amor. que me pareceu puxado por burricos. Safei-me daquele mercado estranho. pensamentos sutis. moveu-me a curiosidade de examinar os transeuntes e o local.. que é o que amo. Velho conhecido mineiro. Em certo bonde. Tenho tentado. Examinando as coisas a fundo. deste Rio torto e encardido. Os passos me levaram. me havia designado para ir ao Rio. a certos quarteirões movimentados. beber uma cerveja modesta. arrastando sua língua difícil. e lobriguei. sobre o mundo. Sofremos apenas difusa melancolia. algumas damas de poucas ou nenhumas vestes me propunham em francês coisas não muito adequadas ao meu ofício e condição. também. mana Rita. Desde cinco dias não faço outra coisa senão freqüentá-lo no cais. etc. Divisei. me assusta e intimida. em vão. na contemplação comovida deste Rio velho. Ali nenhuma ilusão era possível. ali. com grande surpresa minha... pensei. que nasceu dos flancos da outra. Anda enfurecido e sombrio. que começaram a olhar-me de soslaio. fez disso motivo de troça e quis dar-me uns "endereços". mana Rita fazia insinuações (Cale a boca. com o amigo. ribeirinhos do Mangue. num entra-e-sai de teatro de revista. na praia. pela noite. com saudade. Nossos amigos cariocas não sabem o que vale o mar para nós. Percorrendo a Rua Matacavalos. A meus ouvidos. Estaremos amando neste momento? Creio que não. a usar convenientemente os ônibus). levou-me ontem a um local encantador. Havia. Perco-me. naqueles cavalheiros que andavam de tílburi. e tratei de retirar-me com dignidade. também. também fui dar comigo em regiões não machadianas.Glicério ficou informado apenas da versão oficial dos acontecimentos: comuniquei-lhe que o Chefe. ainda. a que dão o nome de Juá. Não fui muito adiante: encontrei militares de terra e mar algo tocados. conversá-lo: está inacessível. em tal comissão. a um canto.). Aboletei-me a um canto. Pode-se. tive a meu lado Dom Casmurro. Andando sempre. a necessidade de rever o Rio (seis anos sem o ver) e de espiar o Atlântico. e . como já ali me achasse. o vulto amável de Sofia e tive dó do Rubião. Atrás..

Cruzando-a em hora de intenso movimento e descuidando-me de observar os sinais. aquelas criaturas deslumbraram o pobre solteirão da Rua Erê e no seu coração instilaram fermentos perturbadores. O PROVIDENCIAL IRMÃO LUSO. porém.. Borba. o da Biblioteca Nacional. não é? (assumia um ar paternal de esculápio). Depois de andarmos um pouco a pé.pus-me a olhar mulheres finas e possivelmente caras. a passos rápidos. Devo ter tido uma vertigem. pois. quando pude identificar uma voz: —Se não o pego de jaito. Fez-me perder muito tempo. Andando pela Avenida vira um ajuntamento. perfumarias. e sabe defender-se. ainda um pouco tonto. Borba? Um pequeno susto. de charuto entre os dentes. Agradeci. Neste quarto sombrio. despedimo-nos. quando recebi um forte puxão no colarinho. um irmão dalém-mar quem me salvou. sobraçando cãezinhos peludos. Não rende. comovido. mesmo. Alguém. entrara nele e. Pela conversa. POR pouco. § 78. namoro. Sr.. então. Fossem damas da alta-roda ou simplesmente mundanas de luxo. —Quase o esgano.. de corpo longo e pernas curtas. Perguntei se tinha vindo há pouco e pedi notícias de Jandira. Levantei-me e. que estava na roda de curiosos. —Que foi isso. Queria certamente desfrutá-la. tal a violência do puxão. O pirata se iludiu. se não é o golpe. Era o mesmo homem importante. ao luso amigo. perfumarias. que por pouco me asfixiava. estava meio tonto. dirigiu-se. Talvez não tenha vindo de Portugal senão para livrar um amanuense incauto das rodas de um ônibus assassino.. ganhar o lado oposto. sem atinar com as coisas. As saudades . e fui arrastado até o passeio. com a amiga. a mim: era o doutorando Azevedo Leão.. conhecido em casa de Jandira. Sr. Mas. haim? Mas. com grande surpresa. quis. me reconhecera. —Boa pequena. Sentado no mosaico e já cercado de curiosos. fui com ele a um café próximo.. verifiquei que houve. Pelo que me disse o companheiro. um animalejo daqueles custa o preço de uma coleção de clássicos Garnier. . a solidão está-me castigando muito. que chegavam em grandes automóveis. Dei o fora. Foi. Contou-me que estava de passeio no Rio.. Recolhi-me ao hotel. Deixei-a com suas literaturas. mas a moça reagiu à altura. este corpo magro teria ficado hoje no asfalto da Avenida. vosmecê iria desta pra melhoire. louvando-lhe a destreza e segurança dos músculos. É uma pequena leoa.

fica desejando conhecer tudo. fazendo resplandecer cristaizinhos de mil cores. cada vaga. Tornaram-se coisas velhas. depois. Ou fico um pouco mais? § 79. que me atraía. A gente fica pensando nas terras do lado de lá. um grande rio. dentro de uma Nau Catarineta que jamais chegaria a porto algum. deixarei o Rio. no cais. Eram viajantes perfeitamente vulgares. Vai-se afastando. Estou cansado. RECUEI instintivamente. Se fiquei triste. que é vário e a cada instante se recria. Já nenhum interesse havia na escura. procurando-os ali. como centenas de outros. e já não penso senão em voltar. PARTIRAM. ocupados com vertiginosas imagens sofregamente sorvidas do exterior. de rio e floresta. Na luta para alcançar o mar. perguntei-me se foi para "aquilo" que viera ao Rio. O mar me perturba. andei. coisas vistas. senti-me vazio pelo resto do dia. Amanhã. sem ver a partida. dezoito. e coração e espírito se fecharam para as coisas de dentro. ele descobria o que de mais surpreendentemente belo tenho visto em perspectivas naturais. numa viagem. Nenhum interesse nas praias fluviais. Foram feitos para ser vistos apenas uma vez. Irritado comigo mesmo. Ao voltar. nem houve eclipse do sol. A paisagem. onde o sol caía reto. VOZES ATLÂNTICAS. E não aconteceu nada de excepcional. Mal os vi. PARTIDA. mas sempre retrocedendo para o mar. enfim. Andei. correr o mundo. está presa a uma condição melancólica: foi feita para ser vista apenas uma vez. Não assim o panorama do mar. vai-se afastando. procurando-os aqui. Cada onda lhe traz formas distintas. da floresta e da serra.de Minas me trabalham surdamente. Tive a impressão de que me haviam roubado qualquer coisa. A terra não tremeu. Metido no meio da multidão. Margeei longamente. Uma saída de navio é sempre coisa triste. vem vindo. Mas o cansaço vem vindo. pelo mesmo caminho. apiedei-me do rio. § 80. densa mata. Entretanto. Aos primeiros dias. Preciso voltar para Minas. traços novos de vida. cansado. Pareceu-me que desde cem anos eu as contemplava. até sumir-se no azul. só os encontrei com os olhos quando subiam para o vapor. foi com a saída do navio. havia muito que ver. .

os olhos sem brilho. encontrar-lhe a expressão real. ora múltiplo. Em alto estilo apocalíptico nela encontraremos resposta às nossas questões. Por que me perturba. que é intraduzível. As trombetas do Juízo Final deverão ser. assim.. De onde nos será possível descortinar o alto panorama? Qual será o caminho—o da humildade ou o da dureza? Deixando o Arpoador. Mas. como o marinheiro do poeta. sufocado entre montanhas. assim. ora móvel. atlântico. como a uma sinfonia wagneriana. Por que o mar nos transporta às reflexões sobre o amor e a morte? O amor e a morte encerrarão o destino do homem? Por que. inexprimível por palavras.Pareceu-me que do mar me vinha qualquer mensagem. exalto-me e quero compartilhar de sua energia cósmica. Se ao menos o amor se definisse. as vagas que batem no rochedo. o pensamento revelador.. teríamos um sentido. Uma grande voz' confusa se erguia do fundo das águas. quando devia amesquinhar-me. Procurei. também. nos seus recônditos. neste. ora uno. nos convida a romper nossas limitações? Dir-seia que nos propõe a medida da latitude e da profundidade das suas águas inquietas. Que segredos guarda. tal como ouvimos a voz do mar. sem a interferência dos sentidos. A voz do grande paralítico. Que imperiosas determinações me vinham das águas atlânticas? O corpo sem nervos. Ouvi-las-emos é dentro da alma. porque na linguagem do cosmos. era um verme a rastejar. nesta noite extraordinária. o mar? Diante dele. Esse Belmiro avultava cada vez mais no espaço e percorria o tempo. Ainda estou a ouvir. que sabemos do amor? Impossível fixá-lo. captar a surda mensagem. e seu objeto é ora fixo. senti-me lúcido e triste. Ficaram-me desejos confusos de amor e de ani-quilamento. permanente. Ele se compõe da variedade e da ondulação. a um tempo distantes e próximas. surdas. . Um Belmiro dominador. Eis que surgiu um Belmiro poderoso e elementar. a alma sem forças receberam um hálito forte. Conhece todas as gradações. para que lhe tenham paralisado a língua? Ainda assim o grande paralítico nos manda sua fala. devassando todas as idades. mas dominadoras. arrastando-se como um trovão longínquo. ao pé do qual o pobre Belmiro. uma inteligência e um anseio de comunicação que nos fazem estremecer. Nossa alma se inclina sobre si mesma e procura. e contudo inquietante. Há.

Entretanto. Para que maior felicidade? Seu espírito. As coisas. à paz desta casa imutável.§ 81. e ganha expressão honesta e repousante. onde o relógio de repetição bate horas caraibanas. homem! Que carga de ossos! Ao passo que se aproxima dos cinqüenta. pequenas árvores que não dão frutos. Quero possuir o espírito pacífico destes velhos móveis. nem possuem raízes medicinais. molécula puramente pictórica. Silviano o considera primário. Terá passado o furacão? Até então. A verdade está na Rua Erê e não no Arpoador. onde não subsiste nas coisas o sinal das atribulações. Tirante a ausência da pobre Francisquinha. este que se foi! O velho Borba não confiava na paz das coisas e dizia que os reveses vêm. repousa na ordem de coisas que encontrou e foi estabelecida sobre um sistema de ficções . quis explicar-se. que não indaga. Depois. depois. que se torna grandiosa à medida que seus cabelos branqueiam. talvez. Ali estão. desta Emília velha. Feliz Florêncio! Enquanto Silviano se consome em escafandrias. inquieto. que encontro um refúgio embora precário. Emília continua grave e exata. ano tempestuoso. sem outro destino? Deveria conformar-me com isto. Vivi um ano com intensidade superior à da soma de muitos anos de vida. que nos abre de longe os braços. Não estarei aqui somente para integrar o vasto painel humano—ponto de luz ou de sombra. nem sombra. uns sobre os outros. Retorno. Assim foi em 35. as transformações interiores me devastaram. A VERDADE ESTÁ NA RUA ERÊ. Por que procurar um sentido individual de existência? Há. mas o caniço pensante. gritando na Avenida: —Você precisa comer mais feijão. É aqui nesta sala de jantar. homem sem abismos. Tudo está como deixei e como sempre esteve. Redelvim se perde em furores. COMO esta Rua Erê me enternece! Cá estou de novo. não se mexeram de seu lugar. os acontecimentos me arrastaram no seu tumulto e me fizeram viver. apenas para compor a paisagem. mas não me dá o desejado repouso. a vida me parecera de tal modo parada que supus estar no passado o sentido de minha existência. louvado Deus. nada se alterou no curso destes doze anos. agora. o ventre se lhe vai arredondando. nas intermináveis chapadas do sertão.. A quietude suaviza os meus ardores. Mau físico para um agente de seguros de vida. e melhor fora não ter saído. Ano difícil. pois Florêncio é a vida na sua manifestação mais confiante e tranqüila. Jandira busca aventuras para se iludir e Glicério se mostra perplexo. Florêncio é o mesmo homem de chapéu-dechile e ventre honrado.

e. e esta figuração tinha em vista os funcionários e duas pessoas que o visitavam naquele momento. o malogro dos planos da moça. Foi uma festa . a viver em interrogações. como há doze anos passados. § 82.metafísicas. acaso. com a mesma força. que se achava. Propõe-me uma experiência. NOSSO chefe de Seção é um pândego: pegou-me o relatório. onde os homens esperam pachorrentamente a aposentadoria e a morte. Glicério se abeirou de minha mesa. limpou o pince-nez. correu os olhos distraidamente pela primeira das cinco laudas de papel e achou-o excelente. SEÇÃO DO FOMENTO ANIMAL. prossigamos no caminho até aqui percorrido. instintivamente me vou avizinhando do Silviano. Respondi-lhe que pelos jornais as teria mais recentes: eu chegara havia três dias. quanto à minha capacidade de fazer. sem a Bela e sem o Bosque. A família aprovava o namoro e viu. Não creio que me forneça uma certeza que me encha a vida. pedindo-me novidades do Rio. encetar de novo a marcha e procurar o caminho de Florêncio. Todo artifício será inútil e. Mas queria apenas puxar conversa e me contar o casamento de Carmélia. Queria dar-se importância. Seu equilíbrio de belo animal humano não é. para dar o bote. Talvez só encontre nele areias movediças. céptico. porém. dava ao Glicério um sinal de sua hostilidade. por aqui tivemos uma: o casamento de Carmélia. nesse caso. fazendo crer que ele e o Fomento são levados em conta pelo diretor. Serviu-se do acontecimento para fazer o que Glicério denomina uma "figuração". com pesar. de há muito. a sério." Achei graça em toda essa história inventada pelo chefe. Percebeu que já não me mantenho de pé. Inútil. À hora do café. morais e políticas. A ele devemos a modorral pacatez da Seção do Fomento. Desde que o rapaz deixou a Nonoca. Glicério quis ver a peça. —Pois. o chefe o olha com reservas. não acredita intimamente nos relatórios nem no Fomento. ideal? Impossível. Mas o chefe não deixou: "É assunto urgente. aliás justas. nesta altura dos acontecimentos. um trabalho daqueles. O diretor tem interesse pelo caso. mas que fazer? Quem me oferecerá terra firme? Jerônimo? Jerônimo está-me espreitando. encaminhando-o "à consideração superior". por que não te transformas em paz de espírito? Tudo está como dantes. Dir-se-ia a Bela Adormecida no Bosque. e. Como eu. Insiste em que minha atitude há de ser provisória. por outro lado. Paz física da Rua Erê.

. ponderou. —É serviço mais próprio para mim. como diz o Silviano. DEDIQUEI todo o domingo à leitura dos quatro cadernos de que já se compõe esta espécie de Diário. a fim de alcançar o Oceania. sim. Já não terei com quem conversar na Seção. mulher é acessório. Carolino teve um sorriso desapontado e retirou-se com a bandeja. no dia 18. Pedirei ao Glicério que não o trate assim. penso também em outra coisa: os outros se movimentam. abandonará a Seção.. Pouco antes de sairmos. A VIDA SE ENCOLHE. A notícia me entristeceu. ao escrever estas notas. Tenho coisas sérias em que pensar. Compareceu na casa o que há de bom e de melhor. Isso é coisa do século passado. que nos servia o café e ouviu a conversa. Quero ver se mais tarde consigo um lugar de auxiliar jurídico. Glicério pareceu-me sincero. § 83. efetivamente. um dia destes. portas adentro? —Mas isso não impediu que a viúva convidasse pessoas do seu círculo. Noto que o casamento de Carmélia não o abalou. estimo-o bastante e estou habituado à sua companhia. —E você. —Ah! É verdade. No mais. E pequenas não me faltam. uma vantagem encontraremos em deixar no papel o registro dos acontecimentos de nossa . E. O Senador Furquim lhe obteve uma comissão no gabinete do Advogado Geral do Estado. Que é acessório? Eu sou um acessório? —Não te metas. —Acessório? perguntou Carolino. há alguns anos.. Ficarão lá somente dois meses. enfim. mas. se deslocam. Afinal. Estava uma noiva linda. pois o Jorge se diz ansioso por trabalhar. acrescentei. —Embarcaram. rompem.fina. Continua incapaz de amar.. o jovem bacharel voltou à minha mesa para dizer que. dissimulando meus passos no Rio. Carmélia! Casou-se afinal? Mas você não disse que a cerimônia seria singela. Se ao menos atingisse a beatitude burocrática do Filgueiras.. Seguiram no mesmo dia para o Rio. Só eu resto e envelheço nesta vida modorrenta. Sua retirada dá-me uma sensação de desamparo. —Embarcaram sempre? Pensei que essa história de Europa não vingasse.. respondeu Glicério com dureza. muito abatido? —Não me venha com as suas. progridem ou regridem. Não havendo outras. Eu é que ando cansado delas.

o caderno toma a feição de Diário e nele passo a expor fatos. e. Não procurarei os amigos: se não me aparecem é porque já não me querem. A vida ganhou movimento. De agosto a janeiro. loucas fantasias. impressões. no ato de escrever. Continuar a acompanhar a vida dos outros? Isso seria interminável. que inexperiência. que passa. Leio um pouco e caminho pela cidade. A vida dos amigos apenas se me revelou quando incidiu na minha. aliás. que escrever. ando sempre. Giovanni e Prudêncio. E os amigos se desviaram de mim. Pouco há. Anda pela fazenda e dele não tenho notícias. como dentro de um caramujo. se mergulhei em Silviano. Ah! É verdade: Florêncio não me tem faltado. Depois. sob mil formas. Nestes vinte dias não me saiu sequer uma linha. Quantas contradições. colorido. Às vezes não encontro lugar que me sirva. Dentro em pouco. permanece a oferecer interesse. pois não dá sinal de si. Eu não renunciara ainda ao projeto de um livro de memórias e me consumia em tentativas. quão diversos estados de espírito. para instrução e advertência nossa um ser bem diferente daquele que supúnhamos encarnar. o movimento amortece. Acabou o namoro com o tal doutorando. Redelvim. também. repelindo as solicitações de um presente que se insinuava. Só conhecemos. Vive no seu mundo de Pereirinhas e de Azevedos Leões. Isto é: encolhe-se na Rua Erê. Carolino. a satisfação de outros tempos. e nisso está sua felicidade. modifica o aspecto das coisas! Minha vida se reduz a Emília. ingênuos pensamentos. quase que escrevo dia por dia. quase me parece estranha. Agora. Apenas Silviano. como Judeu Errante. Que dizer dele? É um homem sem história. talvez nada tenhamos de comum. que sempre foi pouco afetivo. Creio que já escrevi tudo o que havia em mim para escrever. Jamais entrei nos seus domínios íntimos. ainda que pouco encontradiço. a vida alheia pelos seus pontos de incidência com a nossa: o mais é conjetura ou romance. Já não encontro. e ando. no meu espírito e disputava lugar às imagens do passado. emoção. em companhia do Carolino. mas deve ter arranjado outros. . Glicério deixou a Seção e passou a trabalhar nos serviços de advocacia do Estado: foi o bastante para afrouxar nosso convívio. o calor se vai. Outras se sucederam com largos intervalos. que desconhecimento de nós próprios! Há pouco mais de um ano escrevi a primeira página. Não tenciono escrever romance.vida: veremos surgir aos nossos olhos. tomou o seu rumo. Como um ano. Mas continua Florêncio. Jandira se afasta cada vez mais. foi porque nele encontrei possíveis itinerários para as minhas incertezas. as coisas desbotam e se tornam mais frias do que antes.

esse que surpreendi em tão difícil conjuntura. com as patas traseiras em repouso. batendo a lata em quantos obstáculos encontrava no caminho. a julgar pela miséria orgânica do resto do corpo. á escrever. pois fui encontrar o rafeiro já um tanto cansado. ofereceu-me café e contou-me que o marido anda enfurnado em casa. através de uma lata de lixo. o corpo apoiado nas dianteiras e o focinho para cima. Fez-me pena. Talvez seja esta a razão . UM "VIRA-LATA". Bem podia ser que ele me agradecesse o benefício com uma dentada. O "vira-lata” deveria estar preparado espiritualmente para semelhantes situações. dando com a lata aqui e acolá. deixei-o consigo mesmo. na meia-noite silenciosa da Rua dos Pampas. Que pensaria ele naquela situação? O mundo. VOLTANDO para casa. e ele ignorasse minhas intenções. Como eu me aproximasse. para ter em paz a consciência. De tal modo insinuara ele o focinho numa lata de lixo. que esta se lhe prendeu à cabeça. que me recebeu com bondade. Joana. Está fazendo um livro. Estava fora. E cá o ponho nesta página. Era um autêntico "vira-lata". OUTROS dez dias de solidão. refleti. Qualquer coisa me liga a esse cachorro magro e abandonado que encontrei na Rua dos Pampas. que por aí circulam nos adágios. Afinal. pôs-se a correr como pôde. ou aromas amáveis. para o livrar do incômodo apêndice. não deve oferecer paisagens atraentes. UM POUCO MENOS PESSIMISTA. e não resisti mais: fui procurar Silviano esta noite. isto é. § 85. mas também me fez rir. Mas o cão não era porventura permeável às palavras de eterna sabedoria. apesar dos esforços desesperados do animal. dia e noite. Ainda o vi ao longe. com a resignação de quem espalhou ventos e acabou colhendo tempestades. para tortura de um focinho possivelmente magro. a escrever sempre. encontrei um pobre cão em ridícula postura. esta noite. Simpatizei com o cão e lamento que os animais não estejam a cobro do ridículo. É o que presumo com indiscutíveis fundamentos. na direção das estrelas. não mais largando dali. Não é muito recomendável estar fuçando as coisas e quem as fuça deve agüentar as conseqüências.§ 84. a lata para cima.

Jandira não está. e eu era uma idiota.—Olhe. —Mas essa vida. Continua no emprego e foi aumentada no ordenado. resolvi aproveitar a quebra do meu compromisso íntimo (o de não procurar ninguém). falou. Saiu hoje apenas para ir à casa do Jerônimo. Jandira olhou. deixe essa mania de dramatizar. Sendo apenas oito da noite.. que vá na parola. Resolvi dar um sentido mais esportivo à vida. Este velho anda meio caduco. belezinha! disse Barroso. Não o pus de lado. Lá cheguei à hora em que se retiravam o professor Barroso e D.. assim. complicando tudo. com um sorriso perverso. Anita. Você acertou em nos deixar de lado. e toquei para a casa de Jandira. Brigam. —Caduco por sua causa. ainda. já a descerem a escada. Não têm culpa de ter sido este encontro retardado pela vida. Redelvim queria tornar-me revolucionária. Vocês me andavam envenenando com histórias. É o que faço no momento. não hão. que leva agora. mas cada vez andam mais juntos. —E de amores? —Amores. E. disse. Fica falando bobagens com seu Belmiro. São uns patetas. o patife?). com malícia. meu velho? A acolhida me animou um pouco. brigam. Já não há Pereirinhas. Glicério não passa de um convencido. não. Silviano pensava desesperar-me. satisfaz? —E a sua satisfaz? —Bem. Aproveitaram o rápido encontro para me comunicar que estão noivos. Informou-me.. que se afastava: —Nasceram um para o outro. Barroso. Contou-me que tudo vai bem. —Não dramatize. Belmiro. Descobri uma coisa chamada flerte. . sorridente. com suas loucuras (sabe que tentou conquistar-me. O que faço é procurar viver. lançando à noiva um olhar lúbrico. E você me intoxicava com literatura. consultar a biblioteca. —Siga o meu exemplo. Esta repreendeu-o: —Você é sem modos.. seu Belmiro. vou aproveitar as forças que me restam. Arranjem outra. disse-lhe. Não repare. e carregue os problemas da turma. doutor (o Almirante tem a mania de chamar-me doutor). —E você? Isso é mais importante. de que o Jerônimo tem estado sempre com ele.do seu sumiço. virando-se para mim: —Afinal. o par já maduro. você por aqui! Por onde tem andado. enlaçando-a pela cintura. anedia como supus. O velho Sobral é bom chefe e amigo. isso é verdade.

dando uma gargalhada. aqui. Vendo que eu não cedia. Dizia que não havia de casarse como um burguês. continuou. voltava." Achei graça. a propósito de que desencadeou sobre mim o seu furor? —A propósito de uma conversa que teve com você. Perguntei-lhe se estava possuído de um sentimento burguês chamado ciúme. afinal.. doze páginas. embora não lhe interessasse reproduzir a espécie.. que tolice! Alguém me quer? Quem poderia casarse comigo morreu há anos em Vila Caraíbas. Eu ainda não lhe falei que agora cuido de outras coisas. da casa de Jandira. DEPOIS de prolongada ausência. Queria que fôssemos morar juntos.. na estacada! O idiota é capaz de ter pensado que fraqueei em minhas convicções. antes de partir e logo que saiu da prisão. mas depois fiquei irritada. Ora. um casamento. de ódio. depois da prisão.. Respondi-lhe que sim. desde que um dos dois não quisesse mais o outro. o Barroso e a Anita a jogarem. SILVIANO E SEU PLANO DECENAL. menos pessimista... Ia sair. mas continua interessante. surge-me. o Silviano. Em uma delas tachou você de imbecil. Sugeria o concubinato puro e simples. estendendo-me uma folha de papel: —Trouxe apenas a parte em que se refere a você. deu para perseguir-me com propostas. Diz isto apenas para posar. Aconteceu que eu me achava num momento de dúvida e de fraqueza. E sempre desejável.. Obedecia apenas ao instinto. Vou buscar a carta. de modo algum. Bem que seria capaz de lhe propor casamento.E depois fez uma confidencia imprevista: Redelvim assediou-a também. com todos os efes e erres.. Mas. propôs-me afinal. Jandira me perguntou se acreditava na sinceridade daquelas palavras. É fabuloso! A princípio tive pena. Quase me bateu. quando me veio ver. Insistiu em que não se tratava do sentimento capitalista denominado amor. Quer que eu admire seu fervor revolucionário. Mudou muito. e encontrou. —Pois você se engana. Li o trecho: "Quanto ao imbecil do Belmiro. Continuo onde estava. disse eu. —Imagine que coisa divertida. Regressei. Ótimo! Imagine se eu iria casar com aquele maluco! Agora me escreve cartas de dez. —O extraordinário seria que não me chamasse imbecil. Ultimamente. § 86. O resto são declarações amorosas. à . Dentro em pouco.. Aborreceu-se. o Azevedo Leão. nada devendo prender-nos. . diga-lhe que não se considere triunfante com as coisas que me ouviu.

—Magnífico! Sempre achei que você deveria fazer isso. sempre com os olhos nas pastas. isto é. Sofreia os teus ímpetos! Nada viste. Acossado por grandes aperturas financeiras. o Retórico. folhas de papel que.. com estrépito. disse-me. com a perspectiva de um desabamento. a carga. Depois de uma pausa respiratória continuou: —Evolui. ameaçavam despejar-se pela mesa e pelo chão. havendo. Assentou-se de novo e. começa a ter a intuição do problema. Primeiro. tentando arranjá-las a jeito. pondo as mãos sobre os meus pulsos. (Sempre que me repreende. impediu-me. o precário equilíbrio. Conta coisas mui secretas.) Levantou-se e. sem maiores cumprimentos. Não o Velho. mas o autor de De constantia sapientia e De tranquillitate animi. que compreende a espécie amor. folheando as notas escritas em papel grosso e com tinta roxa. Tenho um Diário. —Há dois meses. todo o texto em latim. Eis o fruto delas! E indicou. resolvi escrever a minha vida. embora passageira. de tocar nos papéis. quando Silviano. presumivelmente preciosa.sua procura. Não me sendo possível escrever. de modo catastrófico. —Larga! Não vês que me vais tumultuar as notas? Conversemos. Sentei-me. falou.. Capítulo Evolutio Veneris. lhe advém a preocupação com os alimentos e escreve o capítulo De usu ciborum. quando ele me bate à porta. para alívio meu. logo empós. então. adoecido e passado longos anos em uso de comidas leves. que mantinham. —Joana me disse que você esteve lá. primeiro. em forma de memórias. porém. no qual o homem. declarou. com solenidade. com energia. com o braço estendido. "Eis que. no herói o sentido de Vênus. e nele encontro material abundantíssimo. apenas os títulos dos capítulos e o da obra serão no idioma de meu dileto Sêneca. intenta escrever a sua vida —De vita própria. como desejaria. Estive recolhido em graves lucubrações. já ao dealbar dos trinta anos. a seu lado. foi-me expondo o plano da obra: —Silviano. Eu pretendia evitar o desastre. passa a tratar-me na segunda pessoa. no capítulo Cogitationes privatae. intranqüilo. ainda. Porfírio. Fá-lo-ei em Memorabilia. como que referindo-se a outra pessoa. lançando sobre a mesa. Inútil dizer que todos os psicólogos modernos consideram o amor uma doença. —Não sejas impetuoso. aos quarenta anos. como lhes era possível. sobraçando duas pastas de cartolina. retirou de sobre a mesa as pastas que ali se mantinham em duvidoso equilíbrio e me assustavam. que remonta aos longes de minha infância. o . trata da sua infância e adolescência. não cabendo dentro das pastas. alude ao morbo sagrado (capítulo Sacer morbus).

de gozar "em" ou "com" todos os sentidos. sempre existiu no herói. terá de haver a suma dos capítulos. respondeu. então. "A Libido sciendi. Porfírio. —Respiguei aqui e ali. confiava em que não lhe faltariam forças para atacar uma obra de tal porte. Bem achadas as suas epígrafes latinas. o majestoso pórtico. bem sua. prosseguiu. "Bendita a hora em que lhe veio tal intento! exclama. a gana de sentir. sentia vontade de o ler. suspirando profundamente. que. Por ele norteado. Estava comovido. Dentro de sua melancolia profunda. No final. encontra. então. Euclides de Megara. forças para reagir e adota a filosofia lusa do "não te rales". Eu me lembrava de ter visto. continuou. o que pensa.. Antístenes e Aristipo de Cirene.. —Diga-me." concluiu. Je prends mon bien ou je le trouve. cínicos.. então. . desde os trinta e cinco anos. dialéticos. vem-lhe grande onda de cepticismo. versou os bons autores e se afez ao vinho capitoso da filosofia. Respondi que me parecia interessantíssimo o plano do livro.. o aeternus hostis. O herói ataca. que é outro capítulo.. Aenesidemo. Eis que Silviano. "Aos trinta e cinco anos. farto de prazeres ilusórios. o capítulo Ars semper gaudendi. Transpõe..pensador solitário cai em pessimismo e vê que pecuniae obediunt omnia— como diz o Eclesiastes—"ao dinheiro obedecem todas as coisas". gravemente. e atravessada a crise política (Libido dominandi). porém. pôde. Donde o capítulo De omnibus dubitandum. com a soberba ênfase. et pour cause matrimoniado. esclareceu o amigo. coisa parecida. de sol a sol. Porventura isso interessa? Pouco importa que o . e.. Escreve. pretende libertar-se da tristura de fera em jaula. Já vem você com nugas. da vaidade de toda ciência (De vanitate scientiarum) e apreende a sutileza das coisas (De subtilitate rerum). Surge.. as grandes meditações sobre a Libido sentiendi. o Amor. alcançando os domínios da verdadeira e perfeita filosofia (De vera et perfecta philosophia). ao dealbar dos quarenta. em alguma parte. Convinha precaver-se contra alguma imitação involuntária. desde verde. Nela encontrará a Grande Consolação (De Consolatione Philosophiae). de novo. "Não se fazem esperar as conseqüências. em grande retorno. Conhece. aí. desde já. agora. num supremo esforço. Carneades e Sexto Empírico. o herói atinge a via triumphalis da sabedoria e da libertação.. subir a grande montanha! Dedicado ao labutar intelectual. isto é. O herói continua a cultivar a ataraxia de Pirro e o cepticismo radical de Agesilau. o capítulo máximo. preparando o capítulo-mestre. hedonistas e pirrônicos sobre ele se atiram.

achome na força culminante do espírito. E saiu apressadamente. em matéria de compreensão! Deverei concluí-lo aos cinqüenta. Até logo. carecia abrir-me com alguém. Enfim. você já terá. todavia.. É o defeito das obras escritas em tanto tempo. nem aos grandes doutores! disse. Porfírio. Adolescentes.. § 87. Ainda tenho os olhos cheios de sua luminosa mocidade. Vai certamente reformar tudo. Sentado à sombra de uma gameleira. Fotógrafos se mantinham solícitos..evangelista João me tenha fornecido epígrafes para três capítulos. ou que uma frase apanhada ao acaso me descortine grandes paisagens. um tanto desanimado com a minha mesquinharia. à espera de clientes. As notas que tomei até agora são a síntese do pensamento filosófico que veio até a nós. em alegres pares.. MOCIDADE. É um plano decenal...Dei um passeio pelo parque em companhia de Carolino. —Não poderei exceder-me a mim próprio. talvez. Já lhe falei o que precisava e talvez tenha errado em ter falado. Na ilha próxima. Cantar-lhes-ei baixinho estes versos de Molière: . Mas Silviano se encoleriza com as menores observações que eu faça.. outro conceito da vida. dizendo-lhe o que desejava ouvir: devia mesmo prosseguir no trabalho. MANHÃ DE 28 DE FEVEREIRO. Às vezes me parece que você não vai além do Abundâncio. quando permaneço calado. Aos cinqüenta. Quanto às minhas meditações próprias. fiquei a folhear o Hermann e Dorotéia. que poderia alcançar grandes proporções. Pensou que fosse coisa para já? Como é ignorante. respondeu. brilhantes de sol. O plano era notável.. o bar do alemão. então. junto ao tripé de suas máquinas. sai outra. eram cruzados por dezenas de barcos. enquanto Carolino andava de bicicleta pelas alamedas. e os lagos. Projeta-se uma coisa. a jogos infantis e corriam e brincavam. um problema. —Surge. cheio de gente. arrisquei-me a dizer. Voltei ao principal. Do mesmo modo se porta.. Súbito. inclusive do que seja vera et perfecta philosophia. enfadado. que dança diante de mim neste velho escritório. Não poderei exceder-me! Não me faça objeções idiotas. Deu-me pesar que a conversa não durasse mais tempo. moças e rapazes invadiram o jardim. tenho mais em que cuidar. Bem. Quanto tempo gastaria para fazer o livro? —Talvez uns dez anos. entregavam-se. Só para delineá-lo gastei quase dois anos de estudo.

. . com quem conversar. Resta-me Carolino. de ha muito. conversaram um pouco. pelo Silviano. Já não tenho com quem conversar. uma fisionomia definida. que os camaradas me olham com alguma reserva. Volto a preocupar-me com a velha questão: que vim fazer neste mundo? Até agora nada realizei. durante as horas de expediente. pois. Mas Carolino se conserva distante. e passaram a repelir-se imediatamente." ". . para diante. que um presente de grego. Seria interessante promover um encontro entre Jandira e Jerônimo. no seu rebanho de almas. respeitando a hierarquia burocrática. Havia de ser uma coisa épica: há dois anos atrás se conheceram." § 88. Grande presa.. Profitez du printemps. são menores as possibilidades de qualquer realização. supondo-me alheio a tudo. pois é um terrível catequista. . Já não tenho. A SEÇÃO DO FOMENTO se tornou inabitável com a saída do Glicério. Percebo o cerco: adivinha minhas fraquezas e faz-me uma ofensiva em regra. Qui nous ôte le goût de ces doux passe-temps. além disso. UM DIA COMO OS OUTROS."Profitez du printemps de vos beaux ans. porventura. nada menos. Vage de glace vient à sa place. grandes abismos entre nós. tentando novamente catequizar Jandira. Que poderia encontrar de novo nestes velhos companheiros? Todos adquiriram. imaginando que mal lhes noto a presença. Talvez conseguisse mais. Talvez tenham mágoa de mim. A estima que lhes dedico terá a natureza da que voto ao Giovanni ou ao Prudêncio Gouveia. apenas o tal arbusto da chapada? Jerônimo continua a enviar-me recados. Pressentem. E. é certo. que não se renova. Serei. É constante.La beauté passe. Mas Jerônimo insistirá. mesmo. como duas forças opostas. Dir-lhe-ei que terá nada mais. . Creio. para ter mais esta presa. e isso é grave para uma pessoa que foge de conversar consigo mesma.. le temps 1'éfface. aimable jeunesse. imutável. mas se alimenta antes do silêncio que da conversação.

que bem poderia ser do velho amanuense. de bota e esporas pedindo café e falando que a Chica está no meio dos anjos. para o chope do costume. vou perguntar-lhe se a história acabou ou continua. Eu e Silviano poderíamos escrever uma novela de parceria. por via do Silviano. com saudade. proseando com o Fritz na sua língua arrevesada. NHÔ BORBA me apareceu. na história de Parabosco & Ferrabosco Ltda. uma gorda ama alemã. Mas. pelo menos por algumas horas. Entretanto. Soou a campainha. Mas.Surge-me uma indagação: atingirei o Jerônimo. NHÔ BORBA. Apanhemos o chapéu e apressemo-nos. Ando em fugas freqüentes. o grande prédio. Terão. consegui vencer mais este dia morno da Seção do Fomento. no local do costume. Passarei. se algum dia eu seguir as águas deste. o prudente é não falar em mulheres dos outros. amigos. mesmo de modo platônico. O chope é uma solução. Certamente já construíram. O marido pode não achar graça nessas coisas e minhas costelas já não agüentam pancada. com os olhos carregados de imagens e o espírito cheio de . Por falar nisso. como o Silviano. paremos por aqui. como a que vi outro dia. da velha Maia e de Francisquinha devem rondar. ao servir-me o prato. à hora do almoço. O Florêncio nos espera. os tempos de Arabela. com certeza. as mãos pelos cabelos de Carmelinha ou de Jorginho. oferecerei um sorvete ao Jorginho e contar-lhe-ei histórias do Gigante Brasilião. disse Emília. Está bem. . . § 89. que é isso? Estou arranjando todo um enredo. comovidamente. . Misturaremos as nossas dúvidas e tatearemos na grande confusão. Que pena Glicério estar ausente. Sim. mandando encerrar o expediente. há de pensar sempre nos velhos. ou o Silviano se perderá comigo no seu mare magnum? A última hipótese é a mais provável. em torno dela. Havia muito que não me falava em Nhô Borba. Já não é donzela. enquanto as crianças tomavam sorvete. se algum dia encontrar no Parque essas crianças e se a ama for pessoa de boa cara. nem Arabela. Onde andarão? Em Ostende ou em Biarritz? Estejam onde estiverem desejo-lhes felicidades e prole. De que pensamentos se alimentaria senão destes? Os vultos do velho Borba. nem Arabela. Imagino essa prole. . se não houvesse o plano da Memorabilia. na Praça Sete. É a senhora Jorge de Figueiredo. Poderíamos recordar. Já não é donzela. sentada a uma mesa do bar. mais que em redor de mim.

como no tempo em que ela me punha ao colo. como fez hoje. Mariana impôs: ela e os meninos precisavam tomar um pouco de ar. Mandou arreiá a besta e dis-qui-ia na roça do Corr-go. em companhia do Florêncio. sinto-me quase uma criança. Chamo. A velha Maia tinha. porém. que lá permaneceram depois do 13 de Maio. Levou roupa de banho e passava quase o dia todo na lagoa. Contudo. enquanto eu . a que se aplicar. Que pensará de mim? Às vezes ralha comigo. que a substitui como pode. A seu lado. Como isso doía ao Borba. Pouco ou quase nada fala. e no carnaval não havia a desculpa dos negócios. chama-me "excomungado". ou conte um sonho. Creio que já não tenho mais nada para escrever. o velho não pôde ver que a ignorância é meia felicidade. —Falou não. FIQUEI outros quinze dias sem mexer nestes cadernos. mas há boa cerveja. É raro que me comunique uma opinião. Como avulta. que sonhava mandá-las estudar em Diamantina! Vivendo só na fazenda e em meio de antigas escravas. —Venha comigo. e a pele encardida mal cobre os ossos. mas. é a figura dominadora da casa.preocupações. Lá não há chope fresco. vazia. Lembra-me o desgosto que se estampava em sua fisionomia. como o faz. bem velha. mas deve amar-me bastante. resignava-se. quando Emília ou Francisquinha (antes de se agravar a perturbação desta última) falavam errado em sua presença. Houve outro carnaval: passei-o em Lagoa Santa. vivendo dias que se passaram há vinte ou trinta anos. a figura de Emília! Está velha. e há de estar permanentemente embebida nessa atmosfera caraibana. nesta casa. —Nhô Borba não falou mais nada? perguntei-lhe. Foram criadas como bicho-do-mato. disse-me. A gota ciática muitas vezes a prende ao leito. No seu desgosto. Coitado do velho. Florêncio não foi por gosto. de resto. impedindo-a de ir à cozinha. então. Belmiro. como se fosse eu o interessado no chope. espírito mais conformado. LAGOA SANTA. grande tristeza. para fugir das recordações e não ser tentado pela Avenida. pois a vida se torna vazia. a alma simples de Emília não encontra. para fazer dormir. sua amiga Josefa lavadeira. § 90. também. à Zefa ou ao Carolino. É uma figura dominadora: para ela se transferiu a força do velho Borba. Dirige-se a mim por monossílabos. Emília e Francisquinha aprenderam com elas o pouco que sabiam do mundo e da língua.

baniu a literatura de suas cogitações. Apenas provisoriamente (enquanto tomo gosto pelos arrazoados) farei abstinência.. depois.. suas palavras me indicavam que havia. Ou com eles joga escopa. a mil e tantos metros de altitude. Não gostou muito da minha precipitação. com a chegada de uns rapazes. mas compulsória). e adotaram os novos companheiros. Glicério deve ter ido aos bailes dos clubes elegantes. E de Redelvim não há notícias..) A conselho de um dos companheiros. sem a menor consideração. O amigo Carolino. talvez. Felicitei-o. travou relações definitivas com Giovanni e Prudêncio. Belmiro. disse. chegada essa notícia ao Silviano. que me fez a esmola de ficar aqui em casa com a Emília. soube que.. Certa manhã. Lendo-se qualquer coisa mais atraente. à sua custa. dá prosas intermináveis com os dois. ESTÃO DE VOLTA. perde-se a coragem de mergulhar nos tratados. Perguntou-me gentilmente pela Emília e prometeu uma visita à Rua Erê. na sua renúncia. andou a meditar na Serra do Cipó. Quis apresentar-me: pedi-lhe que não o fizesse. A verdade é que já passamos. Diverti-me. não sei em que se ocupou. mais adequado à sua situação de bacharel. durante minha ausência de três dias. encontrado um rumo. Quanto a Jandira. as moças o abandonaram. RÁPIDO encontro com Glicério. (Amabilidades: estou certo de que não virá. na Praça da Liberdade. afinal. De manhã. que. Por falar em Silviano.. no balcão do botequim. e Silviano é quem está certo. pois. ou à noite. —O direito é árido. —Mas isto não quer dizer que eu me afaste da roda. aproveitando-se de um pequeno resfriado que reteve Mariana no hotel. Que permaneça na fazenda. trouxe-me um calção e queria por força que eu o acompanhasse. pois amarguei bem meu retorno às donzelas. fazer este sacrifício. .. Havia três ou quatro moças bonitas. Está muito satisfeito com o novo emprego. é o melhor. § 91. compulsória (estou convencido de que essa renúncia não é virtuosa. com quem o Florêncio travou logo relações. este lhe cancele o diploma de clerc. receando. exibindo este corpo magro e desconforme para a sociedade que deixou Belo Horizonte e foi brilhar na Lagoa. quando não está comigo.lia meia dúzia de livros que carreguei comigo. Imaginem que figura faria eu. Foi preciso energia para resistir. amigo Florêncio. Vou. durante o carnaval.

Ouvi risos por detrás do pára-brisa. se esse demônio do Glicério não ficasse a cutucá-lo. fingindo-me preocupado com a água de enxurro com que o carro me salpicou. seguida de um chiado forte. fiquei a passar as mãos pela roupa. e a doença da viúva não prejudicou o programa. Tanto se achavam enlevados um com o outro. espalhava no ar molhado.. de freios pisados com violência.. dei ridículo salto para um lado. O carro se pôs de novo em movimento e seguiu rápido. que nem me pediram desculpas. Uma chuva inesperada me havia retido quase uma hora no. Já próximo do portão que dá para a Avenida.. Não se demorariam no Rio. fui contando nos dedos. pois o carro parará. Se a doença é grave. Os sons musicais que ainda ouvia não me deixaram perceber o ruído do motor. e só a buzina. Haverá. e ali irão morar. Assustado. o Oceania? Ou embarcariam no Cap Arcona? Talvez já tenham chegado. caramanchão do bar e. pelo menos. EU ANDAVA pelo Parque. Para que me . deu-me esta informação: —Sabe que a Carmélia e o Jorge vêm por aí? Deveriam chegar ontem ao Rio. Mas. doença. AGRADEÇO-VOS OS SALPICOS. Muito confuso. que tenho com isso? Já me haveria desinteressado do assunto. tendo verificado que se aproximava a hora do expediente da Seção. como sempre tenho feito ultimamente. que vinha veloz. mesmo. e Glicério não saiba.. por minha conta. deveriam ter vindo de zepelim. quase fui apanhado por um carro. Já completaram os dois meses? —Não sei. —Não. Eram Carmélia e Jorge. mas bem poderiam ter dito qualquer palavra amável. Era um carro grande de ricos. Na verdade. recebi apenas salpicos. Já não é donzela nem Arabela.. fanhoso.Ao despedir-se. boato de doença. pôde despertar-me. O que eu sabia é que ficariam dois meses por lá. Terão voltado pelo mesmo navio. cessada ela. quando já não havia perigo. Lá se foram com seu namoro de lua-de-mel. ali fiquei mais algum tempo. Depois saí às pressas.. havendo doença. e trazia placa de Berlim. ou é fita da velha? Glicério disse há tempos que ela tem medo à morte como o diabo à cruz. Ao descer a Avenida João Pinheiro. ou. Já se foram os dois meses. para ouvir uns restos de opereta que o alto-falante. Parece que a viúva não anda muito bem e pediu que voltassem. Para que me conta essas coisas? § 92. Estão certamente hospedados na mesma casa da dama-da-noite.

Pirulito que já bateu. mas posto em mim deixa de o ser. como a querer invadir todo o espaço. falou o poeta irônico: "Mundo mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo seria uma rima. silenciosos. o poeta místico indagava: —"Senhor. não seria uma solução. eu vos agradeço.aparecem? Por que exatamente a mim? Secretas intenções do acaso. Passando-me a mão pelos cabelos. em poltronas da frente. § 93. QUANDO Emília bateu à porta do meu quarto. humildemente. cantarolava o poeta sem nome: "Pirulito que bate. O primeiro disse: sou o poeta irônico. os salpicos." E. Quem gosta de mim é ela. braços erguidos." Depois. a certo momento. braços dados. saltitando. que soprava um grande trombone. se levantaram." . MUNDO. colocando-se em torno de mim. Bocejando. volteando em redor de mim e acompanhados pelo chefe de trem." Com os olhos postos no céu. acordei assustado. Quem gosta dela sou eu. e que dirão literário. MUNDO. e o calor e o cansaço me derreavam. cantavam a una voce: "Mundo mundo vasto mundo. pus-me a lembrar do sonho que tive. mais vasto é meu coração. cresciam. Já eram dez horas. As coisas se tornavam confusas e os botões dourados da blusa azul do chefe de trem cresciam. O terceiro disse: sou o poeta sem nome. Eu fazia longa viagem. Três passageiros que iam. O segundo disse: sou o poeta místico.. são os remos ou são as ondas o que dirige o meu barco? —Eu tenho as mãos cansadas e o barco voa dentro da noite. bate..

. vendo o corpo consumir-se lentamente. . e parece-me.§ 94. Acho-me pouco além do meio da estrada... —Que faremos. Negação de Belarmino. Carolino me trouxe esta manhã uma porção de blocos. porém. Dois deles. Em média. mesmo com o coração descompensado. fazer qualquer coisa. Viviam a vida. Ai de mim! É necessário. nem de boiões de tinta. Carolino amigo? . Sangrou rudemente o almoxarifado da Seção do Fomento. TENDO verificado que se esgotara minha provisão de papel. ÚLTIMA PÁGINA. Viviam com plenitude os velhos Borbas da linha-tronco. os Borbas vão até aos setenta. entretanto. chegados aos oitenta. de Firmino e de Baldomero. sim. Esqueceu-me dizerlhe que a vida parou e nada há mais por escrever. Não morriam aos poucos. ainda pediam mais dez. parecia queda de gameleira ferida pelo raio. que cheguei ao fim. nem de penas. Trinta e dois anos. Previdente e providente amigo! Esqueceu-me comunicar-lhe que já não preciso de papel. para empurrar os presumíveis trinta e dois anos que me restam. Quando um tombava. de Porfírio.

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