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Poesia Lírica de Camões - Análise - Profª Adriani (2)

Poesia Lírica de Camões - Análise - Profª Adriani (2)

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Visão geral do período - Renascimento / Classicismo (1527 - 1580)
⇒ Classicismo: retomada dos autores clássicos (greco-romanos) Antiguidade Clássica antropocentrismo Razão / Idade Média (Trovadorismo e Humanismo) teocentrismo Emoção / Sentimento / Renascimento Classicismo antropocentrismo Razão

Contexto histórico ⇒ Capitalismo: - desenvolvimento do comércio; - crescente uso do dinheiro; - as grandes navegações (invenções e melhoramentos técnicos). ⇒ Crise religiosa: Reforma Protestante (Martinho Lutero), que fortalecia a Classe Média, exaltava a atividade comercial e justificava a obtenção de lucros, sendo assim foi apoiada pela burguesia. ⇒ Grandes descobrimentos: navegações e descoberta de novas terras, povos e culturas. ⇒ Divulgação do saber: imprensa e o crescimento das Universidades na Europa (tradução e divulgação de obras grego-latinas de Platão e Aristóteles e Petrarca).

Classicismo português 1527 - Regresso de Sá de Miranda da Itália, trazendo a medida nova (decassílabos com poema de forma fixa, principalmente o soneto, e uso de rimas) 1580 - Morte de Camões e passagem do país ao domínio espanhol.

Principais características ⇒ Racionalismo : razão e liberdade de agir (a razão predomina sobre o sentimento e emoções, que são controlados pela razão) ⇒ Universalismo: expressa verdades universais (passa a retratar o mundo e o homem em geral, e não mais o indivíduo) ⇒ Perfeição formal : surgimento do soneto e adoção da epopéia. ⇒ Humanismo: interesse pelo ser humano e por sua valorização.

Principal autor - Camões A obra de Camões é dividida em: ⇒ Poesia lírica : tem como tema principal o amor e o destino do ser humano. Utiliza a medida nova (decassílabos) e a medida velha (redondilhas). ⇒ poesia épica: “Os Lusíadas” - recria a história do povo português. ⇒ poesia dramática : teatro escrito em moldes clássicos

inatingível e idealizada • mulher ideal – a mulher amada é representada como virtuosa. com a rima ABABABCC (oitava-rima).deusas aquáticas do Rio Tejo.momento: Renscimento: época das grandes navegações . para não nos enganarmos com as cópias imperfeitas. ou seja. paradoxo e oxímoro) • desconcerto do mundo – a existência do ser humano é constituída por contradições contínuas (ninguém pode banhar-se nas mesmas águas por duas vezes.Narração: desenvolve as ações narradas no poema: . uma vez que. Jupter é favorável.proposição (grandes feitos bélicos dos portugueses ilustres) . Essa visão está relacionado à visão da mulher perfeita. como na dedicatória. para que os inspirem e os proteja) . auxiliado por Vênus e Marte) . ⇒ Organização formal 10 cantos (semelhante a capítulos) com 110 estrofes cada.poesia leve e galante (juventude) • medida nova (decassílabos) e forma fixa (sonetos) .Viagem de Vasco da Gama . tudo muda. tudo entra em contradição com o que era antes.História de Portugal . ⇒ A narração de “Os Lusíadas” Composta por 2 ações históricas (as navegações e Portugal) e uma mitológica (luta dos Deuses do Olimpo) . elas sempre se apresentam transformadas).sobre os transes existenciais do poeta e sobre o desconcerto do mundo (mundo é visto como confuso) • platonismo – modelos ideais e eternos – diferenciar neste mundo as coisas boas das coisas más. pois o amor que ela inspirava nos renascentistas deveria ser sobretudo “platônico” (idealizante) • dialética das antíteses .2 Elementos da poesia Lírica • medida velha (redondilhas) .utilização das figuras de linguagem que envolvem as ideias opostas (antítese. Nada fica sendo o que é. Para Camões há mudança dentro da própria mudança Poesia Épica (“Os Lusíadas”) ⇒ 3 ingredientes básicos do gênero épico (narra ações heróicas) . casta. Sebastião. ⇒ Divisão do poema . antes de nascermos foi-nos permitido contemplar no ”mundo das ideias”os modelos de tudo que é Bom. Sebastião) . elevada.Introdução: .assunto: conquista dos mares e de terras desconhecidas .Luta dos Deuses do Olimpo (Baco se opõe às navegações.invocação (às Tágides . compostas de 8 versos. Belo e Verdadeiro. num total de 1102 estrofes e 8816 versos.poeta grandioso: tinha a cultura e as experiências que seu poema exigia.Epílogo: lamenta a situação em que se encontra seu país e de novo enaltece a D.dedicatória (oferecimento a D.

vi-da. roga a Deus. quão cedo de meus olhos te levou. . que te partiste tão cedo desta vida descontente.na.mi-nha. Al-ma. Se lá no assento etéreo.ce. memória desta vida se consente. a sua “alma gentil”. e viva eu cá na terra sempre triste.vi.que -te –par-tis(te) Tão.do. Comentários sobre o poema O soneto. mas. o navio naufraga nas costas do Camboja. que te partiste Alma minha gentil. Vocabulário .cá. E se vires que pode merecer-te alguma cousa a dor que me ficou da mágoa.3 Análise de algumas poesias líricas de Camões Poema I . sendo a forma exata do soneto. DCD para os tercetos (rimas alternadas ou cruzadas). como pode ser observado na divisão apresentada abaixo. de perder-te. ABBA para os quartetos (rimas opostas ou interpoladas). que trazia quase concluído.gen-til. que tão cedo de cá me leve a ver-te. sem remédio. Re-pou-sa -lá.te-rra. Neste poema segue a seguinte distribuição das rimas: ABBA.tris(te) Não se esqueça que devemos contar até a última sílaba tônica de cada verso e também há a junção de uma semivogal final de palavra e uma vogal inicial da palavra da sequência (como pode ser visto no último verso apresentado acima). céu Análise da formalidade O poema é constituído de catorze versos distribuídos em quatro estrofes: as duas primeiras são quartetos (possuem quatro versos cada) e as duas últimas são dois tercetos (possuem três versos cada). Além disso os seus versos são decassílabos heroicos (sílabas fortes nas sextas e décimas sílabas).Alma minha gentil. que teus anos encurtou.vaeu.. onde o poeta seria julgado por delitos administrativos.no. onde subiste. Camões teria conseguido salvar-se e salvar os originais de “Os Lusíadas”. Camões e Dinamene estariam indo da China para a Índia.Céu.sem-pre.des-ta. na viagem.dês-com-ten(te). por volta de 1560. é um dos mais conhecidos de sua obra lírica.assento etéreo – morada celeste. e. repousa lá no Céu eternamente. junto à foz do Rio Meckong. mas teria perdido Dinamene. CDC. amante chinesa com quem Camões teria vivido em Macau. que os biógrafos associam à morte de Dinamene. não te esqueças daquele amor ardente que já nos olhos meus tão puro viste.e-ter-na-men(te).

Em ordem direta. lá no Céu. perfeição. atenuada pelo adjetivo “puro”. ou seja. colocadas de forma discreta. peça a Deus que também encurte a sua vida. por via de muito amar. A presença da espiritualidade está marcada nas locuções “lá no céu” e “no assento etéreo”.Segundo quarteto: o eu lírico faz um pedido para que a amada não o esqueça . buscando a amada no Céu. pode merecer-te alguma cousa. pela sublimação eternizada da amada.” . com a apóstrofe lírica (chamamento): Alma . do imaterial e do atemporal não exclui as ansiedades do amante. levando-o à condição dolorosa da vida e à noção de que a morte é a única forma de esperança e de realização do seu amor. carnal. que me ficou. O soneto pode ser estruturado da seguinte forma: . deverá lembrar-se do amor ardente que eles viveram e que era visto de forma pura nos seus olhos. a morte da amada não impede a realização do amor. O apelo aos sentidos é transcendentalizado. humano. que. a partir de sua morte. A oposição Céu x Terra revela um drama amoroso que mesmo transportado para o plano da morte. guardar memória da vida na terra. que tão cedo de cá me leve a ver-te. Essas marcas de idealização e de religiosidade contrapõem-se à nota sensual presente em “daquele amor ardente”. O platonismo revela-se. a nota sensual aparece em “daquele amor ardente”. assim deveríamos ler os dois tercetos: “E roga a Deus. manifestado pelo poeta. pois esse é um sentimento que pertence à eternidade. o eu lírico fala que se a amada. Na visão platônica do amor expressa no poema.Primeiro quarteto: o eu lírico mostra a saudade que sente pela amada morta .Tercetos: o eu lírico faz o pedido para ir junto da amada No soneto a amada morta aparece elevada à máxima purificação. se vires que a dor. No primeiro quarteto do poema. no soneto. Nos tercetos o eu lírico pede para a amada que. mas persistente e irrecusável. já presente no primeiro verso. o eu lírico fala sobre a sua amada que morreu muito cedo e que está repousando no Céu enquanto ele está aqui na terra muito triste. No segundo terceto. quão cedo de meus olhos te levou. A morte pode ser vista como uma espécie de purificação. que teus anos encurtou. A amada que partiu se tornou objeto de elevação e saudade.4 O tema deste soneto é a saudade da amada morta e o desejo de unir-se a ela numa outra vida. Neste soneto o eu lírico marca o conflito que vive pela perda da amada. é abrandada pela sequência “que já os olhos meus tão puro viste” e no desejo. que o leve para junto dela. O poeta contempla a amada transformada em puro espírito (“lá no assento etéreo”). ao mesmo tempo. de ir ter com a amada no céu. da mágoa sem remédio de perder-te. Mesmo apresentando todas as marcas de idealização e espiritualidade. imaterializado. somente adia. em Deus. se ela achar que ele merece. Aqui está presente o processo antitético mais amplo: Céu x Terra que engloba todas as outras.

na recordação. versos de 9 a 11. como o tempo não permite que nada fique como é. muda-se a confiança. podese observar que a natureza também se modifica. Podemos observar que as mudanças ocorrem desde os aspectos físicos até os aspectos que chamamos de psicológicos. Abre-se outro par antitético: presente x passado. . O tempo cobre o chão de verde manto. Diferentes em tudo da esperança. Que já coberto foi de neve fria. já que ela não muda mais como antes. Vocabulário -soía . Outra mudança faz de mor espanto: Que não se muda já como soía.mor . opondo o tempo da natureza (“os tempos”) ao tempo humano (“as vontades”). no presente não se muda senão do mal para o mal. mudam-se as vontades”.Mudam-se os tempos. no plano da existência. para agravar. Tomando sempre novas qualidades. E. até a mudança sofreu alterações. na memória. Do mal ficam as mágoas na lembrança. mudam-se as vontades. Mas no último terceto o poeta manifesta a mudança mais surpreendente. mudam-se as vontades Mudam-se os tempos. E do bem. e a mudança se dá sempre para pior. Todo o Mundo é composto de mudança. na saudade. o poeta desenvolve o tema renascentista da mudança. E. A mudança das coisas afeta até a própria mudança. Neste poema o eu lírico apresenta a plena consciência de que tudo muda. E em mim converte em choro o doce canto. ela passa a não mudar mais como mudava antes. que nada é eterno. o passado mudava-se do mal para o bem. as saudades.maior Comentários sobre o poema Logo no início do poema “Mudam-se os tempos. Continuamente vemos novidades.costumava . pois ocorre o inverno (“neve fria”) e primavera (“verde manto”). O poema também apresenta o jogo antitético mal x bem. o bem só subsiste no passado. Muda-se o ser. mas par o poeta só há invernos (“e em mim converte em choro o doce canto”). os aspectos exteriores do mundo e os interiores aos seres humanos. se algum houve. os comportamentos. menos a dor. afora este mudar-se cada dia. traduz a noção de que até a própria mudança é inconstante e. na sequência. Assim. ao contrário do tempo natural que tem como característica ser repetitivo. verde manto x neve fria. Nos versos de 5 a 8 para o poeta tudo sofre mudança.5 Poema II . choro x doce canto. da instabilidade do mundo. e do bem para o mal.

com a presença do “eu”. o primeiro verso começa por uma espécie de síntese dos acontecimentos: “Tudo passei.6 Poema III .“sobejaram” – sobraram. quem tanto pudesse que fartasse Este meu duro Gênio de vinganças! Vocabulário/Notas . . Este soneto apresenta uma grande intensidade dramática. no deus Amor. No primeiro quarteto o verbo “conjuraram” está no pretérito perfeito. má fortuna. amor ardente Erros meus. A primeira marca desse sentimento está na constatação dos resultados danosos para a alma: “mas tenho tão presente / a grande dor das cousas que passaram”.“discurso” – no verso possui o sentido de transcurso. concreta. Já no segundo quarteto. para.amor – (verso 12) grafado com letra minúscula. Que para mim bastava amor somente. universal. daquilo que ficou após o encerramento da experiência. 4 e 12). pessoal. apontando para (“erros meus. revelar suas mágoas e tristezas. refere-se à experiência vivida. nem má fortuna. pois as decepções do amor bastariam para lhe deixar a vida infeliz. ou seja. A dor de lembrar.Erros meus. amor ardente Em minha perdição se conjuraram. a apresentação daquilo que pertence aos sentimentos. má fortuna. na sequência. Os erros e a fortuna sobejaram. Comentários sobre o poema O poeta faz uma poesia reflexiva sobre o tema do “desconcerto do mundo”. amor ardente”) aquilo que o sujeito realizou no passado. Oh. o efeito das coisas que passaram (aconteceram) é a grande dor que fica. referindo-se assim a acontecimentos. tudo aquilo que foi realizado . os desenganos amorosos (versos 1. Portanto. O mesmo ocorre com a palavra Fortuna. no sentido de que não eram necessários erros. Tudo passei. indica algo que está no passado. Que as magoadas iras me ensinaram A não querer já nunca ser contente. Camões reveste a palavra de uma significação mais ampla. .“conjuraram” – conspirar.Amor – (versos 1 e 4) – através da inicial maiúscula. 2. A presença de interjeições nos dois últimos versos (verso 13 e 14) realça o sentimento de dor e da revolta cujas causas aparecem ao longo do poema.“que fartaste / este meu duro Gênio de vingança” – que satisfizesse a sede de vingança (contra mim) do meu duro Gênio (no sentido romano de “o outro” que habita dentro de mim). .“a desejos deixar de ser contente” – abandonar o desejo de ser contente . ao fazer uma revisão crítica de sua vida. transformando-o. Ocorre a personificação do sentimento. pelo uso da primeira pessoa do singular. a recusa de ter esperança e a revolta contra a Fortuna (sorte) dão intensidade dramática ao poema. Errei todo o discurso de meus anos. Outro efeito está na experiência adquirida. excederam. Dei causa [a] que Fortuna castigasse As minhas mal fundadas esperanças. má fortuna.“que” (verso 4) – nesse caso tem o sentido explicativo da conjunção “pois” . .” e se inicia. que se acentua com o uso da primeira pessoa. tramar . mas tenho tão presente A grande dor das cousas que passaram. De amor não vi senão breves enganos. no caso.

7 que ensinou ao poeta a não mais se contentar com os desejos. mostra que é impossível estancar a fonte dos males que o afligem. jogou por terra suas “mal fundadas esperanças”. Por ter errado os caminhos de sua vida (“Errei todo o discurso de meus anos”). a Fortuna (o destino) castigou o poeta. . com as coisas de amor. No primeiro terceto ocorre a combinação entre acontecimento e efeito. pois o poeta termina seu poema mostrando o desejo de que alguém fizesse o impossível: satisfazer a sede de vingança que seu “duro Gênio” nutre sempre contra ele. ensinou-o “a desejos deixar de ser contente”. Os dois versos finais do poema vão apresentar a conclusão.

se não fosse . Este soneto narra uma síntese da história bíblica de Jacó e seu amor por Raquel. Começa de servir outros sete anos. pai de Raquel serrana bela. tua filha mais moça.“tivera” – tivesse . Os dias na esperança de um só dia Passava. (Jacó no Velho Testamento é símbolo de fidelidade e constância no amor. ao passo que Raquel era esbelta e bela de aparência. por seres meu parente. Fica comigo. Labão engana Jacó. se não fora Pera tão longo amor tão curta a vida.” Jacó serviu sete anos por Raquel. respondeu a Labão: “Por Raquel.“pera tão longo amor tão curta a vida.” Labão reuniu todos os homens do lugar e fez um banquete. a Labão: “Que me fizeste? Então não foi por Raquel que te servi? Por que me . Ora. Jacó tendo amor por Raquel. Lia tinha os olhos amortecidos. haveis de servir-me de graça? Dize-me qual será teu salário”. Dizendo: mais servira. usando de cautela. Na estória bíblica. servia a ela. e eu quero me unir a ela.“assi” – forma antiga de assim .“pera” – para . pela manhã. de tal modo ele a amava! Disse então Jacó a Labão: “Entrega-me a minha mulher porque já venceu o prazo combinado. caso sua vida não fosse tão breve. Comentários sobre o poema A fonte antiga deste poema está na Bíblia (Gênesis XXIX. desrespeitando o acordo feito e dando-lhe Lia. Como se a não tivera merecida. a mais moça Raquel. 25). Disse Labão a Jacó: “Acaso. devidas a motivos materiais. que se deteve apenas nos elementos românticos da história. a filha mais velha. As complicações futuras entre o sogro e o genro. que a ela se uniu. que segundo o hábito hebaico deveria casar-se primeiro. servir-te-ei durante sete anos. Ora.” Labão respondeu: “Melhor que eu ta dê do que a qualquer outro. se não fora” – mais eu serviria.Sete anos de pastor Jacó servia Sete anos de pastor Jacó servia Labão. a mais velha chamava-se Lia. e estes lhe pareceram poucos dias.) Agora será transcrito o episódio bíblico para que possamos observar o poder se síntese de Camões. eis que era Lia! Disse. Chegando a noite. pois. Labão tinha duas filhas. embora Camões se possa ter inspirado também no verso de Petrarca (poeta italiano) “Per Rachel ho servito e non per Lia”.” – na antítese (longo x curta) Jacó garante que trabalharia mais para obter o amor de Raquel. não aparecem no poema de Camões. Que a ela só por prêmio pretendia. tomou sua filha Lia e a levou até Jacó. contentando-se com vê-la: Porém o pai. (“Servi por Raquel e não por Lia”). Mas não servia ao pai. Vendo o triste pastor que com enganos Lhe fora ssi negada a sua pastora.“mais servira. Labão deu a sua filha Lia uma criada chamada Zelfa. Vocabulário/Notas .“na esperança de um só dia” – aguardando o dia em que Labão lhe entregasse Raquel . Em lugar de Raquel lhe dava Lia.8 Poema IV .

já que o seu sentimento não era da carne.9 enganaste?” Respondeu-lhe Labão: “Em nossa região não é costume dar-se a filha mais moça antes da mais velha. dentro da concepção platônica. pois a teria custasse o que custasse. fazendo com que o pastor viva para e pelo amor. Labão deu como escreva para Raquel sua criada Balá. e então te darei também a outra.” Jacó aceitou. Jacó não serviria a Jacó. Jacó uniu-se também a Raquel e amou-a mais que a Lia. já que desenvolve uma história de forma concentrada. e acabada a semana deu-lhe Labão por mulher sua filha Raquel. que não se importará de esperar um longo tempo para ter a mulher amada. Os versos finais do poema “mais servira. traduz a ideia de que o amor de Jacó transcendia o tempo histórico e projetava-se numa zona ideal. mas sim do espírito. Além da construção de uma narrativa. Os versos 13 e 14 sintetizam o sentimento platônico do poeta. além dos adjetivos “triste” e “bela” nada há que afrouxe o tom condensado dessa narração. E serviu a Labão por outros sete anos. além da malícia e astúcia de Labão. Podemos dizer que esse poema de Camões esboça uma espécie de novela amorosa. se não fora / Pera tão longo amor tão curta a vida”. sendo assim podemos classificá-lo como um soneto narrativo. no soneto ocorre uma concepção filosófica do amor. Acaba a semana com esta. O amor de Jacó por Raquel transcende a tudo e simboliza a fidelidade e a constância. celebrando-o como sendo maior que a vida. O amor. . nesse caso. mas ao amor que sentia por Raquel. embora a possibilidade de concretizá-lo seja remota. por outros sete anos de serviço. torna-se idealizado e perfeito.

ao se interrogar sobre a causa de seu drama (“Se me pergunta alguém porque assi ando”).“abarco” – alcançar . exprimindo sucessivamente o desconcerto: de ser (“. caracterizada pelo pronome possessivo “minha”. Observe que somente o fato de ver a sua “Senhora” desencadeia toda a inquietação do poeta presente no poema. e é de jeito / que em mil anos não posso achar uma hora. 3. agora espero.. presença de seu imaginário.terra x céu. tristeza. agora desvario. que em vivo ardor tremendo estou de frio. agora acerto... de seu desconcerto: “numa hora acho mil anos. O eu lírico. da vista um rio.. o eu lírico afirma a “certeza de sua incerteza”. além do caráter evocativo da expressão “minha Senhora”.“desvario” – ato de loucura. Estando em terra. juntamente choro e rio. o mundo todo abarco x nada aperto. 4. delírio Comentários sobre o poema O soneto é constituído de contradições inspirado em um soneto de Petrarca. espero x desconfio.10 Poema V . chego ao Céu voando. Essas sensações exprimem calor. o mundo todo abarco e nada aperto.fogo x rio.. alteração da percepção de espaço e tempo. minha Senhora. ou seja. A inquietação do poeta é mostrada a partir das contradições manifestadas através do jogo de antíteses e paradoxos (versos 2. frio. É tudo quanto sinto. respondo que não sei. sem poder afirmar.. agora desconfio. 6 e 9) e intensifica os sentimentos através das hipérboles líricas (exageros). O motivo possível para o desconcerto do poeta é a mulher idealizada. contentamento. porém suspeito que só porque vos vi. Contudo. desvario x acerto. de estar (“tremendo estou de frio. O poeta tem consciência de seu drama.estando em terra. tem como resultado a negação: “respondo que não sei”. . o eu lírico desconfia que a resposta está no ver.” No primeiro verso. para realçar o delírio amoroso provocado pela Senhora. numa hora acho mil anos. Se me pergunta alguém porque assi ando. exprimem sensações contrastantes. sem causa. O caráter dramático da composição resulta da constante tensão entre a aparência e a essência. está no amor: “porém suspeito / que só porque vos vi. construído pelo sistema de oposição presente no texto: ardor x frio. alma x .Tanto de meu estado me acho incerto Tanto de meu estado me acho incerto. e é de jeito que em mil anos não posso achar uma hora.”). chego ao céu voando”). um desconcerto. As contradições são conjuntos de sensações corporais opostas. e é de jeito / que em mil anos não posso achar uma hora. Vocabulário/Notas . da alma um fogo me sai. minha senhora”.

que nasce não sei onde. que não pode tirar-me as esperanças. o poeta afirma. O poeta desenvolve antíteses para construir uma genial definição do amor. desprezos . que é indiferente aos sofrimentos do Amor. esta vivência. Do outro. perdido o lenho. Na segunda estrofe. o amor as ameaça como um mistério transcendente aos seres humanos – “um mal que mata e não se vê”. Vocabulário/Notas . Que dias há que n'alma me tem posto um não sei quê. o poeta não teme nem contrastes. novo engenho. e novas esquivanças.Busque Amor novas artes. essa certeza vai ser quebrada pelo súbito reconhecimento de que há dias em que a dor do amor é tão estranha. . nem mudanças em sua vida. pois leva uma vida perigosa e agitada (provavelmente referindo-se a sua participação nas navegações – “andando em bravo mar.metonímia representada pela substituição da coisa pela matéria de que esta é feita) . tirar do poeta o que ele não mais possui – as esperanças. para matar-me. Comparando-se a um náufrago (do amor) perdido em “bravo mar”. que nasce não sei onde. No primeiro quarteto do poema ocorre a afirmação de que o Amor não pode mais tirar as esperanças do poeta.”. Olhai de que esperanças me mantenho! Vede que perigosas seguranças! Que não temo contrastes nem mudanças. perdido o lenho”. andando em bravo mar.11 Poema VI . desmentidas pela realidade .“novo engenho” – novas artimanhas. nos quartetos. conquanto não pode haver desgosto onde esperança falta. transforma-se numa impressão de indefinível desespero: “um não sei quê. e dói não sei por quê. novo engenho Busque Amor novas artes. a sua vivência. que pretende. e dói não sei por quê. / vem não sei como. vem não sei como. O início dos tercetos. dadas a intensidade e variedade dos castigos e sofrimentos que o Amor já lhe impôs. lá me esconde Amor um mal. isso ocorre porque o poeta já não tem mais esperanças. astúcia . Poucos poetas conseguiram explicar tão expressiva e engenhosamente o estado de desatino e desespero provocado pelo sofrimento amoroso. o que demonstra a sua experiência.“Busque” – ainda que o amor busque . que mata e não se vê. O eu lírico chega a esta paradoxal definição do amor através de um raciocínio dialético: de um lado. mas uma definição feita de indefinições. desafia o amor a novamente fazê-lo sofrer. entretanto.“perigosas seguranças” – certezas ilusórias. aguda e perturbadora que a consciência não consegue sequer compreender o próprio sofrimento e a certeza que alimentava no início. Mas. inutilmente. artifício. o uso da conjunção adversativa “mas” introduz uma inesperada contradição: mesmo nada mais tendo a temer. esta experiência são “perigosas seguranças” (oxímoro).“Amor” – quando escrito com letra maiúscula está personificado representando o Deus Amor Comentários sobre o poema Soneto que desenvolve uma visão filosófica do amor. que mal me tirará o que eu não tenho.“lenho” –embarcação (lenho = madeira .“esquivanças” – recusas.

o poeta fala que no seu coração não pode “haver desgosto”. pois não representa somente um sentimento. / vem não sei como.12 No primeiro terceto (versos 9 e 10). mas uma entidade/deus). . que nasce não sei onde. perdido o lenho”). que é o “mal que mata e não se vê” (verso 11) seguida de uma explicação desse Amor – “um não sei quê. Nos quartetos o eu lírico diz que nenhum mal pode piorar a sua situação (“em bravo mar. e dói não sei por quê. sendo assim não pode se desiludir.” (versos 13 e 14). mas nos tercetos o mesmo eu lírico afirma que o Amor ainda lhe reserva um mal indefinível. pois quem não tem esperança/ilusão. Nos tercetos temos um definição do Amor (é utilizado com inicial maiúscula.

o bem do amor.que-rer. É um.do-er.quem –ven-ce.fo-go. é um contentamento descontente. Neste poema segue a seguinte distribuição das rimas: ABBA.não. se tão contrário a si é o mesmo Amor? Vocabulário/Notas verso 10 – é o vencedor servir ao vencido versos 11-14 – mas como será que o favor.não.se. é –ser-vir.dói. É querer estar preso por vontade.bem. é servir a quem vence. pode despertar amizade nos corações dos homens.von-ta(de).pre-so. as . com acentos principais nas sextas e décimas sílabas métricas.le-al-da(de).ma-ta.sem.. Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade. é dor que desatina sem doer.quem.nos.ga-nha em -se.sem. CDC.. é. é andar solitário entre a gente.ver.que. é.que. sendo a forma exata do soneto.sen-(te).é.que-rer. A-mor. é – dor – que. é -ter –com.13 Poema VII .mais. é ter com quem nos mata. Observe que os versos decassílabos são classificados em heroicos.um – con. lealdade. É um não querer mais que bem querer.e. é nunca contentar-se de contente. Nas sextas sílabas métricas também existe a divisão das contradições. ou seja.por.de-as-ti-na. é.fe-ri-da. é – an-dar – so-li-tá-rio .que-rer.o –ven-ce-dor. o vencedor.quear-de.en-trea –gen(te). Além disso os seus versos são decassílabos heroicos (sílabas fortes nas sextas e décimas sílabas). DCD para os tercetos (rimas alternadas ou cruzadas).con-tem-tar-se -de –con-ten(te). e não se sente.um -cui-dar. é um cuidar que ganha em se perder. se o próprio Amor em si mesmo é tão contraditório? Análise da formalidade O poema é constituído de catorze versos distribuídos em quatro estrofes: as duas primeiras são quartetos (possuem quatro versos cada) e as duas últimas são dois tercetos (possuem três versos cada).que. ABBA para os quartetos (rimas opostas ou interpoladas). como pode ser observado na divisão apresentada abaixo.se.ten-ta-men-to. É.des-con-ten(te).Amor é um fogo que arde sem se ver Amor é fogo que arde sem se ver. é –nun-ca.per-der. é ferida que dói.es-tar.a.

revelando a perplexidade da pergunta que funciona como conclusão: como é possível amar. que exprimem sensibilidade e insensibilidade à dor. que se caracteriza pela sua contradição. Os versos apresentam afirmativas que se repetem em enunciados contraditórios (antitéticos e paradoxais). contraditoriamente. 4ª estrofe – apresenta o aspecto paradoxal do amor. “sem doer” (interiormente) e. o “Amor é ferida que dói” (exteriormente) e “não se sente” (interiormente). pode ser dividido em estrofes: 1ª estrofe – apresenta o amor sofrimento. 2ª estrofe – apresenta o amor desinteressado. através de uma operação de fundo intelectual. que não enfoca uma amada.14 primeiras seis sílabas apresenta uma afirmação que é negada pela sua ideia opostas nas sílabas finais de cada verso. racional. o “Amor é dor que desatina” (exteriormente). como elemento de contraste entre os dois membros desses versos. submete e mata. As definições baseadas nas contradições parecem formar a dualidade entre amor-carne (“fogo que arde”. formando um jogo de contradições. no 4º verso. mas a forma geral do amor. Ocorre também uma reiteração do verbo ser no início do 2º ao 10º versos. Isso ocorre no 1º. o segundo membro (“sem se ver”) significa interiormente. O poeta procura analisar o sentimento amoroso racionalmente. revela a opção do amante por um sentimento que prende. transcendente (“e não se sente”). se o Amor é tão contraditório. de tanto que se ama. para um melhor entendimento. “ferida que dói”) e o amor-espírito (“sem se ver” / “não se sente”). o resultado só pode ser o acúmulo de contradições e paradoxos. Mas como o amor é um sentimento vago. No 1º verso. especificando-o e tornando-o ainda mais expressivo. marcando uma sucessão de anáforas. quando o poeta questiona o caráter contraditório do amor (“se tão contrário a si é o mesmo Amor?”). 3ª estrofe – apresenta o amor doação. fixa-se nos efeitos corporais da paixão. no 2º verso. Exprime a intensidade subjetiva com que o apaixonado entrega-se aos caprichos do amor. instável e impossível de conhecer? . este mesmo fogo. Comentários sobre o poema Este soneto apresenta uma enumeração de definições do amor (versos de 1 a 11) que são antitéticas. desembocando no paradoxo do último verso. As oposições apresentadas em cada verso transformam-se num paradoxo final. Essas contradições são aparentes porque o segundo membro do verso funciona como complemento do primeiro. “arde sem se ver”. O sentir e o pensar são movimentos antagônicos: o sentir deseja e o pensar limita. imensurável. 2º. O poeta tenta definir o que é o amor e não consegue. começa com a palavra “Amor” e termina com ela de forma interrogativa. Não se esqueça que devemos contar até a última sílaba tônica de cada verso e também há a junção de uma semivogal final de palavra e uma vogal inicial da palavra da sequência (como pode ser visto no último verso apresentado acima). Mesmo que se tome o referencial fogo. O amor aparece como conflito interior do poeta e da sua própria existência. por exemplo. O poema. 4º e 5º versos. a noção é a de que não é possível querer mais de tanto que se quer. mas ao mesmo tempo. valendo-se de raciocínios próximos da lógica formal. constituindo assim os paradoxos que circulam pelo poema todo. Camões acaba por concluir pela ineficácia de sua análise. no 5º verso. e como o poeta não pode separar aquilo que sente daquilo que pensa. quando confronta duas realidades diversas: uma sensível (“ferida que dói”) e a outra espiritual.

mulher idealizada. contentar-me-ei dizendo a menor parte do desprezo honesto de vossa vista branda e rigorosa” Segundo terceto – “Porém. diante do Amor. observe a sua colocação em ordem direta. Eu cantarei de amor tão docemente. engenho e arte” (versos 12 a 14). Que dois mil acidentes namorados Faça sentir ao peito que não sente. mesmo em quem não ama. que consiga despertar o sentimento. pois lhe falta saber (conhecimento). Contentar-me-ei dizendo a menor parte. perfeita e inatingível. aqui falta(m) saber. Aqui falta saber. reconhece a limitação de sua poesia. Nos dois tercetos ocorre a celebração da mulher amada. conter a expressão do sofrimento despertado pelo desprezo honesto (merecido) do olhar de sua inacessível Senhora. propõe cantar o Amor com tal propriedade.” . O poeta para cantar esse amor. para cantar de vosso gesto A composição alta e milagrosa. Brandas iras. engenho e arte.“Também. Senhora. Primeiro terceto . para cantar a composição alta e milagrosa de vosso gesto. Pintando mil segredos delicados. Nos dois quartetos é apresentado um hino de amor. Senhora. ele é importante para falar do amor. no último terceto. a sua idealização como “Senhora”. para poder exprimir a composição alta e milagrosa do gesto da Senhora. Por uns termos em si tão concertados. Mas para o poeta saber cantar um modelo de “Senhora” tão elevado.Eu cantarei de amor tão docemente. ou seja. O poeta pretende. inclusive o “peito” de quem “não sente” (versos de 1 a 4). falta-lhe “saber. Ainda que o poeta se esforce em cantar o amor de todos os modos. Farei que amor a todos avivente. Temerosa ousadia e pena ausente. engenho e arte. suspiros magoados. Comentários sobre o poema Com este soneto o poeta tem a intenção de cantar um amor tão harmônico que é capaz de sensibilizar a todos. engenho (habilidade) e arte (inspiração). que é muito superior à capacidade do poeta cantor. concebido como energia que anima a tudo que vive. Também. como diz no primeiro terceto.15 Poema VIII . do desprezo honesto De vossa vista branda e rigorosa. se dirige a uma “Senhora” que segue os padrões do Renascimento (versos 9 a 11). sua poesia será sempre insuficiente para cantar a composição do gesto de sua Senhora. Para entender melhor os tercetos. Mas. Porém.

Os dois quartetos configuram a concepção platônica do Amor. Não tenho logo mais que desejar. faz com que passem (amor e coisa amada) a ser uma só alma. não apenas o amor idealizado. através da consumação do amor. Aquele que ama se transforma na amada. O poeta atenua os impulsos do seu eu (sentimento). Dessa forma. que evita todo o derramamento sentimental desnecessário. Dessa forma o Amor ultrapassa a dimensão do desejo físico. Como a matéria simples busca a forma. que só objetivando-se numa forma plena e femininamente humana. é a “semidéia”. unida semideia – feminino de semideus. que se corporifica no seu sentimento amoroso e ganha realidade dentro do próprio poeta. O vivo e puro amor de que sou feito. que já a tem em si mesmo. Que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente pode descansar. Se nela está minha alma transformada. como ideal. “transforma-se o amador na coisa amada” – com a transformação daquele que ama na coisa amada. Está no pensamento como idéia. semideusa Comentários sobre o poema O soneto apresenta a concepção platônica do Amor. sendo colocada em um plano superior ao do poeta.Transforma-se o Amador na Coisa Amada Transforma-se o amador na coisa amada. Neste soneto Camões procura atingir o entendimento dos conceitos do Bem e da Beleza. O racionalismo é evidente na contenção da emoção e do sentimento. a beleza e a verdade como valores absolutos. mas a amada é. 9 a 14) A idealização da mulher não fica bem nítida. Mas esta linda e pura semidéia. O que interessa para o poeta é o Amor e a mulher de forma geral e não particularizados. Por virtude do muito imaginar. como o acidente em seu sujeito. ao mesmo tempo. que busca o bem. Através do pensamento. logo não tem mais o que desejar. Nessa poesia a mulher também aparece idealizada. pois já tem em si mesmo a ideia do ser que deseja. por uma visão impessoal e universal. Assim como a alma minha se conforma. O amor motiva todas as transformações. de tanto idealizá-la. inacessível.16 Poema IX . a ideia platônica da Beleza e do Bem. A incisiva interrogação dos versos 5 e 6 antecipa a afirmação dos versos 7 e 8. corpo e alma. converte-se em uma matéria indefinida. estando ligado ao espírito. pois nele temos o apelo carnal. pois já tem em si mesmo o ser que deseja (versos 5 a 8). O poeta idealiza e imagina tanto a amada. . que é policiado pela razão. não tem mais o que desejar. Pois em mim tenho a parte desejada. pois o poeta deseja a plenitude do amor. pois o poeta idealiza e imagina a amada. Vocabulário/Notas liada – ligada. Nos tercetos. da mesma forma que a matéria busca dar forma às coisas (v. se consuma em corpo e alma (“como a matéria simples busca a forma”). de tanto idealizá-la. Pois consigo tal alma está liada. Que. que já tem em si mesmo (versos 1 e 2). que a amada desperta em seu espírito. Camões concilia a ideia (amor platônico) em forma. o apaixonado (amador) se transforma na “cousa amada” (mulher). co o um ideal que está presente no sentimento amoroso do próprio poeta (versos 3 e 4). Aquele que ama se transforma na amada.

Julga-me a gente toda por perdido Julga-me a gente toda por perdido Vendo-me tão entregue a meu cuidado Andar sempre dos homens apartado E dos tatos humanos esquecido. Celebrada serás sempre em meu canto Porque enquanto no mundo houver memória Será minha escritura teu letreiro Doces lembranças da passada glória Doces lembranças da passada glória. que tenho o mundo conhecido E quase que sobre ele ando dobrando. Com o tempo tudo anda. e não passara. Ela só. Vivo em lembranças. Porque me falte a mim consolação. E se os meus rudos versos podem tanto Que possam prometer-te longa história Daquele amor tão puro e verdadeiro. Mas só aquele tempo que é passado Com o tempo se não faz tempo presente. em humilde estado. para o rio caudaloso. Tenho por baixo. Mas enquanto me a mim a vida dura Sempre viva em minh’alma te acharão. o campo pobre se enriquece. torna o bem já quando esquece. Quem não é com meu mal engrandecido. Que eu só. Ela viu as palavras magoadas que puderam tornar o fogo frio. frio e calma. um louro morre. Ela só viu as lágrimas em fio que d'uns e d'outros olhos derivadas s'acrescentaram em grande e largo rio. enganado. Eternamente as águas lograrão A tua peregrina formosura. enquanto houver no mundo saudade quero que seja sempre celebrada. Busque riquezas. e dar descanso às almas condenadas. deixai-me repousar em paz uma hora. Faltou-te a ti na terra sepultura. ___________________________________________________________________________ _ Com o Tempo o Prado Seco Reverdece Com Com Com Com Com Com Com Com o o o o o o o o tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo tempo o prado seco reverdece. cai a folha ao bosque umbroso. honras a outra gente. cheia toda de mágoa e de piedade. que comigo ganhais pouca vitória. foge o mal duro e penoso. me contento De trazer esculpido eternamente Vosso fermoso gesto dentro n´alma. ___________________________________________________________________________ _ em mim não pode haver mais que a memória. ___________________________________________________________________________ _ Cara minha inimiga. em cuja mão Pôs meus contentamentos a ventura. Com o tempo torna a ser mais eminente. Aquela triste e leda madrugada Aquela triste e leda madrugada. em cuja mão Cara minha inimiga. mas já agora . um é sereno. ___________________________________________________________________________ _ Com o tempo faz mudança a sorte avara. Mas eu. se conhecer soubera o mal presente. de quem sempre devera ser lembrado.17 A partir desse ponto sugiro alguns poemas para vocês lerem e analisarem. e tudo pára. Com o tempo se aniquila um grande estado. Impressa tenho n'alma larga história deste passado bem que nunca fora. outro floresce. fogo. se lhe lembrara estado tão contente. Oh! quem tornar pudera a ser nascido! Soubera-me lograr do bem passado. que nunca poderá ver-se apartada. dando ao mundo claridade. Vencendo ferro. que me tirou Fortuna roubadora. rústico. quando amena e marchetada saía. outro invernoso. Vão revolvendo a terra. ou fora. mouro d'esquecido. viu apartar-se d'uma outra vontade. o mar e o vento.

por vencer.. mas há-de ser inclinação que eu tenho contra mim. tornai-me a minha Ninfa. o mar de longe bate. compelida Brado: Não me fujais. não creio que é Razão. O pescador Aônio. E eu gritando: “Dina. assim deixaste quem não deixara nunca de querer-te! Ah! Ninfa minha.. Escureceu-me o engenho co tormento. mas. Verdades puras são. Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos A diversas vontades! Quando lerdes Num breve livro casos tão diversos. como quem diz que já não pode ser. acordo. a terra. que ao vento deita..18 ___________________________________________________________________________ _ Enquanto quis Fortuna que tivesse Enquanto quis Fortuna que tivesse Esperança de algum contentamento. oh minha escura sorte! Que pena sentirei. tão asinha esta vida desprezaste! Como já para sempre te apartaste de quem tão longe estava de perder-te? Puderam estas ondas defender-te que não visses quem tanto magoaste? Nem falar-te somente a dura morte me deixou.Ondas (dizia). que tão cedo me fizestes à morte estar sujeita. . onde estendida a vista pelo campo desfalece. minha Dinamene.. O céu. por que não perca a pena a seu rigor. O nocturno silêncio repousado. que.” antes que diga “mene”. Ninguém responde. torna a fugir-me. Mas a Razão. Lá numa soidade. Para que seus enganos não dissesse. Lava-lhe o vento a voz. e ela então parece que mais de mim se alonga. temendo Amor que aviso desse Minha escritura a algum juízo isento. minha Dinamene. que tão cedo o negro manto em teus olhos deitado consentiste! Oh mar. já não posso ver-te. a terra.. os olhos em mim com um brado pejo.. Porém. que a luta vence. o vento sossegado. que não pode ser mais que nomeado: . em sonhos aquela alma me aparece que para mim foi sonho nesta vida.. chorando. As ondas.. porque assim o pedia o coração. mas antes muito mais se esforça assim um contrário com outro.. segundo o amor tiverdes. ___________________________________________________________________________ _ Sempre a Razão vencida foi de Amor Sempre a Razão vencida foi de Amor. Move-se brandamente o arvoredo. o vento sossegado. Os peixes.. oh céu. ___________________________________________________________________________ _ O céu. ___________________________________________________________________________ _ Ah. que valha tanto. O gosto de um suave pensamento Me fez que seus efeitos escrevesse. que ainda tenho por pouco o viver triste? Quando de minhas mágoas a comprida Quando de minhas mágoas a comprida maginação os olhos me adormece. Tereis o entendimento de meus versos! ___________________________________________________________________________ _ corro para ela. antes que Amor me mate. quis Amor ser vencido da Razão... Pois nunca houve franqueza no querer. e vejo que nem um breve engano posso ter. e não defeitos. Ora que caso pode haver maior! Novo modode morte e nova dor! Estranheza de grande admiração: que perde suas forças a afeição. que no mar o sono enfreia. E sabei que. sombra benina! Ela. enfim.. assim deixaste Ah. o nome amado em vão nomeia.. deitado onde co’o vento a água se meneia. que se estendem pela areia.

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