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Etica Da Infertilidade, Um Olhar Alem Da Reproducao Assistida

Etica Da Infertilidade, Um Olhar Alem Da Reproducao Assistida

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Publicado porCarlos Sapura
O desinteresse no sofrimento das pessoas inférteis é uma moda que devasta as ciências sociais incluindo a Ética. A discussão ética encontrada na literatura tem que ver com a Reprodução Assistida. Em nenhum livro, nem artigo na internet é possível encontrar assuntos éticos da infertilidade.
A possibilidade de ter filhos e o tratamento da infertilidade devem ser considerados como elementos que fazem parte dos Direitos Humanos básicos numa sociedade. A manutenção das espécies com todas suas características requer que as pessoas consigam reproduzir-se.

A teoria ética utilitarista aconselha a diminuição do pronatalismo para minimizar as consequências sociais e psicológicas da infertilidade.
Este trabalho vai abordar esta situação de forma profunda.

O desinteresse no sofrimento das pessoas inférteis é uma moda que devasta as ciências sociais incluindo a Ética. A discussão ética encontrada na literatura tem que ver com a Reprodução Assistida. Em nenhum livro, nem artigo na internet é possível encontrar assuntos éticos da infertilidade.
A possibilidade de ter filhos e o tratamento da infertilidade devem ser considerados como elementos que fazem parte dos Direitos Humanos básicos numa sociedade. A manutenção das espécies com todas suas características requer que as pessoas consigam reproduzir-se.

A teoria ética utilitarista aconselha a diminuição do pronatalismo para minimizar as consequências sociais e psicológicas da infertilidade.
Este trabalho vai abordar esta situação de forma profunda.

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UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MOÇAMBIQUE FACULDADE DE CIÊNCIAS DE SAÚDE

CURSO: MESTRADO EM SAÚDE PÚBLICA

TEMA: ÉTICA DA INFERTILIDADE, UM OLHAR PARA ALÉM DA REPRODUÇÃO ASSISTIDA

DOCENTE DR Pe. ANTÓNIO TICAQUI DISCENTE: Carlos Armando Amade

2    

ü Dedicatória Dedico este trabalho à minha filha, Irene Mayra Amade, minha esposa Quimanle Raisse e a minha mãe Irene Ramos, que são anjos de guarda e a razão do meu acordar cada dia.

     

que com sua invejável sabedoria forneceu-me os conhecimentos necessários para ter um “pensar ético” numa sociedade cada vez mais consumista e pobre de ética.       . Vão também os meus agradecimentos ao Docente Dr Padre António Ticaqui. Finalmente agradeço a minha família que suportou-me neste tempo.3     ü Agradecimentos Agradeço a Deus por pela saúde e força suficiente para enfrentar este trabalho.

Género e Ecologia Humana do curso de Mestrado em Saúde Pública. Este trabalho vai abordar esta situação de forma profunda. Em nenhum livro. É um tema sem exploração actualmente. ü Índice       . O desinteresse no sofrimento das pessoas inférteis é uma moda que devasta as ciências sociais incluindo a Ética. A discussão ética encontrada na literatura tem que ver com a Reprodução Assistida. nem artigo na internet é possível encontrar assuntos éticos da infertilidade.4     ü Resumo O presente trabalho faz parte do estudo do Módulo de Ética. A teoria ética utilitarista aconselha a diminuição do pronatalismo para minimizar as consequências sociais e psicológicas da infertilidade. A manutenção das espécies com todas suas características requer que as pessoas consigam reproduzir-se. A possibilidade de ter filhos e o tratamento da infertilidade devem ser considerados como elementos que fazem parte dos Direitos Humanos básicos numa sociedade. Pela vontade de despertar interesse na sociedade escolhi o tema Ética da Infertilidade.

5     Item Página Dedicatória--------------------------------------------------------------------------------------2 Agradecimentos--------------------------------------------------------------------------------3 Resumo------------------------------------------------------------------------------------------4 Abreviaturas/Acronómios---------------------------------------------------------------------6 Introdução---------------------------------------------------------------------------=-----------7 Objectivos ---------------------------------------------------------------------=-----------------8 Procedimentos metodológicos-----------------------------------------------------------------9 Definições da Infertilidade--------------------------------------------------------------------11 Prevalência da Infertilidade--------------------------------------------------------------------11 Causas da Infertilidade-------------------------------------------------------------------------11 Infertilidade e Cultura num mundo com HIV/SIDA---------------------------------------12 Aspectos psicológicos da Infertilidade-------------------------------------------------------13 Consequências da Infertilidade----------------------------------------------------------------15 Abordagem da Infertilidade--------------------------------------------------------------------17 Saúde pública e Infertilidade-------------------------------------------------------------------18 Infertilidade e Ética-----------------------------------------------------------------------------19 Ética e tratamento da Infertilidade------------------------------------------------------------21 Conclusões e Recomendações-----------------------------------------------------------------25 Bibliografia---------------------------------------------------------------------------------------27       .

6     ü HIV DST ITS SNS SIDA DBCP DDTEUA OMS TRA FIV ICSI MISAU SMI TARV Abreviaturas Humman Imuno-Deficiency Virus (Vírus de Imuno-Deficiência Humana) Doença de Transmissão Sexual Infecções de Transmissão Sexual Serviço Nacional de Saúde Síndrome de Imuno-deficência Adquirida 1.2-dibromo-3-cloropropano diclorodifeniltricloretano Estados Unidos da América Organização Mundial da Saúde Técnica de Reprodução Assistida Fertilização in Vitro intracytoplasmatic sperm injection (injecção intracitoplasmática de esperma) Ministério de Saúde Saúde Materna e Infantil Tratamento Anti-Retroviral       .

Além disso. porque a maternidade. muitas vezes negligencima o reconhecimento e o tratamento de infertilidade. nos países desenvolvidos não ter filhos pode ser tanto uma condição voluntária ou involuntária. Pesquisas sobre ter filhos tornaram-se uma questão espinhosa após a revolução. incluindo o Vírus de ImunoDeficiência Humana (HIV) e outras Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs). como mandam os documentos sobre direitos humanos. Este grupo de pessoas muitas vezes não tem autonomia de decidir sobre a prática de relaxões sexuais e a escolha de um modo de vida condigno. Para recordar este desinteresse que a sociedade tem em relação a este tema surgem questões relacionadas com a Ética. a adoção. também contribuiu para a negligência da infertilidade como um problema de nível social. nomeadamente cenários e experiências desagradáveis sobre a reprodução e a infertilidade continuam a ser negligenciados e a discussão da infertilidade como um problema de saúde pública é limitado.  1999:  494           . 1 Apesar da proliferação de estudos sobre a reprodução. a infertilidade é mais frequentemente expressa como um estado patológico individual. A revolução feminista dos anos 1960 e 70. Indivíduos e casais que sofrem de infertilidade passam por indesejadas experiências significativas. A falta de discurso sobre a infertilidade reflete a visão dos Políticos Ocidentais que                                                                                                                         1  Bernenstein. a pesquisa torna-se difícil. relegado ao segundo plano.INTRODUÇÃO A infertilidade é uma condição que cruza os domínios médicos individuais e colectivos nas comunidades actuais. a falta de cuidados aos casais inférteis e a pressão social que estes casais sofrem muitas vezes estão longe de serem actos justos. porque. alguns aspectos. em última instância. no entanto. A Saúde reprodutiva abrangente e cuidados. A prevalência de infertilidade é alta e a condição é muitas vezes ligada a infecções evitáveis. Em primeiro lugar. Não será uma violação crua. como um componente essencial da vida das mulheres. por oposição a um problema social merecedor de análise social. foi posta em causa. às vezes colocando a vida em risco. especialmente causada pela insuficência do sexo masculino.7     1. sucessiva e abrangente de princípios éticos? Ora vejamos. A Infertilidade é vista como uma condição dolorosa para os indivíduos e casais afectados. o facto de não agir para proteger estes necessitados apesar de conhecimentos que os sistemas de saúde têm põe em questão os princípios de benificiência e não-maleficiência. é um assunto considerado tabú muitas vezes não divulgado publicamente. Existem várias justificativas para o abandono geral de infertilidade. pois a falha reprodutiva. é geralmente considerada como um assunto privado para ser resolvido usando a medicina (tradicional e convencional) e o recurso.

especialmente aqueles do mundo não-ocidental. é extremamente negligenciada. mas não da infertilidade. mas é também desejável que a distribuição dos filhos seja equitativa entre os casais.2 Ironicamente pessoas do mundo não ocidental são geralmente as mais severamente afectadas pela infertilidade devido a maior prevalência de normas sociais pró-natalistas. bioéticas e psicológicas identificaram o tratamento da infertilidade como um problema para exploração no entanto. Há controle da fertilidade. Por outro lado as altamente elogiadas e muito debatidas tecnologias de reprodução estão fora do alcance para a maioria das pessoas afectadas pela infertilidade hoje. Pela minha experiência resultante de trabalho feito no Serviço Nacional de Saúde (SNS). este está muito preocupado em atingir as coberturas na componente de planeamento familiar. O planeamento familiar neste caso é entendido como a possibilidade de espaçamento dos filhos (não fazê-los) sem pensar na outra vertente: e aqueles que não têm.                                                                                                                         2  Look. É inegável que o espaçamento de filhos melhora de forma significativa a saúde das mulheres e crianças. como deve ser o seu planeamento familiar? (como fazer filhos?). 2.OBJECTIVOS Objectivo Geral: • Analisar a abordagem ética da Infertlidade Objectivos específicos: • Descrever aspectos gerais da infertilidade • Mostrar a relação da infertilidade com a cultura e HIV/SIDA • Analisar os aspectos éticos da infertilidade • Propôr medidas de melhoria da abordagem actual da infertilidade ü Relevância Do Tema Quando a questão da ética da infertilidade é gerada é. muitas vezes no contexto das novas milagrosas tecnologias reprodutivas ou críticas filosóficas destas tecnologias. a real experiência da infertilidade vivida por indivíduos e casais.8     são guiados pela ideia de contenção da fertilidade actualmente considerada alta. A explosão demográfica é uma justificação para estes Políticos. as causas biológicas e sociais e as consequências de infertilidade têm sido esquecidas como tópicos que merecem atenção da pesquisa no campo da saúde pública e da ética.  2001:17-­‐21         . Investigações médicas.

9     Apesar da escassez de pesquisas anteriores há importantes razões para o estabelecimento de infertilidade como um tema público. ü Observação direita Para este estudo a observação presencial do autor com o acompanhamento da rotina das consultas de mulheres inférteis. Assim sendo baseou-se nas experiencias abordadas por vários autores sobre a ética e fez interferência para o caso particular da ética no ramo da infertilidade. “a análise documental busca identificar informações factuais nos documentos a partir de questões ou hipóteses de interesse”. ü Pesquisa Bibliográfica Este método é indispensável para qualquer tipo de pesquisa. onde pode-se recorrer a várias informações com dados credíveis. permitiu uma observação minuciosa das diferentes queixas e sensibilidades. bem como uma preocupação com a saúde pessoal. 3 3. (1981:38)         . fazendo um levantamento detalhado das dificuldades éticas da infertilidade                                                                                                                         3  Relatório  da  OMS.  2001:  24    LUDKE 4 E ANDRE citando Colley.PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS E TÉCNICAS DE PESQUISA ü Método de Abordagem O autor deste trabalho recorreu ao método hipotético–dedutivo. Este trabalho oferece uma introdução aos elementos culturais e epidemiológicos da prevalência da infertilidade. incluindo aspectos éticos envolvidos na abordagem da infertilidade.4 Para o suporte científico deste trabalho o autor consultou varias bibliografias escritas por diversos autores que versam sobre a problemática da infertilidade.

A esterilidade acontece quando um dos casais tem uma condição que tenha incapacidade permanete de ter filhos como é o caso de remoção de útero numa mulher. ü Dificuldades Na Abordagem Do Tema A abordagem do Tema foi um grande desafio pelos seguintes motivos: • Falta total de abordagem deste tema (ética e infertilidade) nos livros e sites de internet. Fraca participação de homens nas consultas de infertilidade e nos questionários feitos • 4. (4) É um fenômeno global. Chama-se infertilidade primária quando nunca houve gravidez e infertilidade secundária como a incapacidade de ter gestações adicionais após existência de gravidez anterior. tabelas contendo várias informações.                                                                                                                         5 LUIDKE e ANDRE ( 2003 :33 )      Berek.5 Foi realizada entrevista com mulheres infertéis em Inhamudima para colher informações dos casais infertéis.  2002:199   6       .DEFINIÇÕES DE INFERTILIDADE A infertilidade é uma doença do sistema reprodutivo que afeta homens e mulheres com quase igual freqüência. 4) Embora não haja universal definição de infertilidade. um casal geralmente é considerado infértil quando “clinicamente a gravidez não ocorre com pelo menos doze meses de actividade sexual regular.10     ü Método Estatístico–Matemático O autor usou este método para fazer representações gráficas. 2. ü Entrevista Na “entrevista é a relação que se cria é de interacção havendo uma atmosfera de influência recíproca entre quem pergunta e quem responde”. tendo sido usados livros de abordagem indirecta do tema. com uma parte de cada população humana afetada. sem o uso de Contraceptivos”6. (1.

In: Vayena E.11     5. a origem do estado nunca é identificada e a causa é tratada como inexplicável. Finalmente. condições masculinos causam ou contribuem para cerca de metade de todos os casos de infertilidade de causa identificável. outro terço a factores femininos. Daar A. p. não se dispõe de nenhum teste objetivo ou definição universalmente aceite para esta condição. Embora a infertilidade das mulheres é de maior atenção da pesquisa. a avaliação e a medição é complicada pelo facto de que a condição é geralmente experimentada por um casal. Ethical. e o restante terço por combinação de ambos os factores masculinos e femininos. 16         . Infertility and social suffering: the case of ART in developing countries. Existe geral consenso de que as taxas de infertilidade são subestimadas por causa da dificuldade em medir a prevalência e preconceitos culturais que criam categorias escondidas da infertilidade. O "Cinturão da Infertilidade" constituido pelo centro e sul da África tem maiores taxas mundiais de infertilidade. Não há dados sobre infertilidade em Moçambique. ovulação anormal.PREVALÊNCIA DA INFERTILIDADE A prevalência de infertilidade no mundo é estimada em 10% nos casais após o primeiro ano de tentativas de gravidez e cai para 7. Switzerland: WHO. malformações congênitas do sistema reprodutor e endometriose.7 A • • • 6-CAUSAS DA INFERTILIDADE Infertilidade possui uma ampla variedade de causas provenientes de três fontes gerais: Disfunções fisiológicas (algumas evitáveis) Causas evitáveis Questões inexplicáveis. motilidade                                                                                                                         7   Merali. and Social . Problemas Anatômicos. Em primeiro lugar. Report of a meeting on "Medical. Aspects of Assisted Reproduction. Griffin D. As causas fisiológicas da infertilidade feminina são: bloqueio de trompas de falópio (principalmente por infecções). 20021. Os fatores masculinos incluem problemas na quantidade. e não um indivíduo. Outra razão é que geralmente o desejo ou a possibilidade de gravidez é necessário para ser considerados como inférteis. Estima-se que cerca de um terço dos casos de infertilidade de causas identificáveis são devidos a factores masculinos. 2001 17-21 Sept. estimadas ao redor de 25%. editors. Existem várias dificuldades inerentes à avaliação da ocorrência de infertilidade. Há também um preconceito social para identificar a infertilidade. para fornecimento de cuidados de saúde e da culpa social. Rowe P. Em aproximadamente 20% dos casos. genéticos. Geneva. endocrinológicos e imunológicos que podem causar ou contribuir para a infertilidade.5% quando passam dois anos.

bifenilos policlorados (PCBs) e as dioxinas. as causas ambientais contribuem para um número menor de casos de infertilidade.INFERTILIDADE E CULTURA NUM MUNDO COM HIV/SIDA É importante lembrar que a definição de infertilidade varia entre culturas.2-dibromo-3-cloropropano (DBCP). Alguns lugares é a incapacidade de ter o número de filhos que as normas culturais ditam. em outros lugares a infertilidade pode ser entendida como não ter filhos. aflatoxinas e desreguladores endócrinos. tendo como representantes a gonorreia e a clamília tracomatis. Porém. Várias ocupações estão associadas a exposição a produtos químicos.  2002:243         . 7. glicol. arsênico. A Infertilidade em países em desenvolvimento como Moçambique é principalmente causada por infecções que levam ao bloqueio de trompas de falópio. hábito de fumar. ou não engravidar logo após o início da atividade sexual. contribuem também para infecções ginecológicas. Este bloqueio é responsável por até dois terços de infertilidade em mulheres nulíparas na África sub-sariana. mas as consequências são graves. estilos de vida. Os riscos ambientais e profissionais constituem outra causa de infertilidade. são estilos de vida que podem levar a infertilidade. como o óxido nitroso. estresse. principalmente infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). da 1. uso de álcool. O HIV é causa e consequência da infertilidade como vem abordado a seguir. A obesidade. exercícios físicos vigorosos. A relação entre esses perigos e diminuição da fertilidade nem sempre é claramente estabelecida e é difícil medir. geralmente clandestinos. casos adicionais de infertilidade provêm de causas evitáveis tais como infecções. fumigantes do solo. Todos estes produtos estão associados com taxas superiores à média de infertilidade. divórcio e família influenciam em certa                                                                                                                         8  Berek. As normas sociais sobre casamento. A esquistossomose (bilharziose) e malária também podem causar infertilidade. muitas vezes não significa estritamente a incapacidade de dar à luz uma criança. éteres. Para além das causas fisiológicas referidas e as de origem desconhecida. avançada idade materna na hora de tentativas de concepção e os riscos ambientais e ocupacionais.12     e qualidade dos espermatozóides e disfunções ejaculatórias. Infertilidade. solventes orgânicos. A infertilidade é tida como consequência de falta ou má abordagem do diagnóstico e tratamento de infecções do trato genital. pesticidas. Fatores inexplicáveis pode ser provenientes do sexo masculino ou feminino. 8Abortos mal-tratados. como diclorodifeniltricloretano (DDT). magreza. ü Como se vê as causas mais comuns de infertilidade são evitáveis. um terço da infertilidade em outras partes do mundo em desenvolvimento e até um quarto no mundo desenvolvido.

Para a maioria das pessoas. em alguns casos.13     medida nas percepções do significado de não ter filhos. incluindo nos serviços de saúde. mas também é claro que o tema de infertilidade suscita pouco ou nenhum interesse na sociedade actual. É clara a associação destas duas condições que nas consultas de mulheres com infertilidade nunca se podia deixar perguntar o estado de HIV da pessoa e vice-versa. Na mulher. Entretanto.                                                                                                                         9  American Society of Reproductive Medicine. Um estudo feito em Botswana mostrou que as mulheres inférteis correm um risco 2.  1994:237         . A relação entre a Infertilidade e HIV não é muito abordada na literatura. interferindo na relação do casal.5 vezes maior de ter HIV do que as mulheres que geram filhos. embora ocorra de forma similar no homem e na mulher.São Lucas da Beira indicaram uma prevalência de 82% de HIV em mulheres infertéis de 20 a 45 anos tratadas de 2010 a junho de 2012 contrastando com os 26% em mulheres férteis. também no desempenho profissional. desenvolve-se de maneira distinta. A falta de menção de medidas de prevenção de HIV no tratamento de casais inférteis e a não inclusão da infertilidade como um determinante social culturalmente ligado para infecção por HIV nos currículos de educação em saúde em Moçambique são duas grandes perdas de oportunidade.S.org/Patients/FactSheets/Infertility-Fact.pdf (26 Feb 2004). 10  Wiener.asrm. refere-se somente que o HIV causa a infertilidade e não que a infertilidade seja um poderoso factor de risco para aquisição de HIV. http://www. nas relações familiares e sociais e. Dados colhidos no C. uma mulher que teve um filho é considerada como se não tivesse tido filhos e todo casamento é esperado produzir filhos. a comoção causada pela infertilidade geralmente independe de quem apresenta a alteração responsável pela dificuldade de engravidar. 10 O impacto desta crise sobre o casal. pois sua presença implica interrupção do projeto de vida dos casais envolvidos. ter filhos e formar uma família são metas em determinado momento de sua evolução pessoal ou do casal. 8-ASPECTOS PSICOLÓGICOS DA INFERTILIDADE A infertilidade deve ser considerada como sendo uma enfermidade que transcede os limites do orgânico. Os filhos são sinónimos de riqueza e uma bênção divina por prática de bons actos. principalmente nas áreas rurais e outros países do leste e sul de África.9 Em partes de Moçambique. Estar impedido de alcançar esta meta pode produzir uma crise que afeta principalmente o bem estar psíquico. a profundidade da crise psicológica no homem é bem mais acentuada quando o problema reprodutivo está relacionado a ele.

em especial quando o casal é questionado a respeito disso. quando o casal começa a pensar em qual o caminho irá percorrer. tanto pelo estresse emocional quanto pelo tempo consumido pelo tratamento. em especial quando o casal resolve manter sua infertilidade em segredo. em maior ou menor grau. Sua característica essencial é o desenvolvimento de sintomas emocionais ou comportamentais em resposta a um componente psicossocial identificável. Algumas situações provocam grande sofrimento. profissional ou acadêmica. • Angústia diante da situação. da estruturação do casal e do cuidado da equipe ao abordar a questão. a situação indesejada gera ainda sentimentos de ansiedade. Em alguns casos. esta situação pode influenciar até mesmo o rendimento no trabalho. Por outro lado. Assim. como por exemplo as associações entre fertilidade e virilidade e entre fecundidade e feminilidade. principalmente depois de um longo período de incertezas). • Tristeza e desesperança. A expressão clínica consiste em mal-estar superior ao esperado. Porém. • Gradual ajustamento e aceitação. humilhação.  2002:32         .11 Estas etapas foram descritas por Elisabeth Kubler-Ross em seus estudos sobre acontecimentos trágicos e inesperados. pois variações desta sequência clássica podem ocorrer dependendo de cada indivíduo. culpa. Este quadro específico de sofrimento vivenciado. ansiedade. de sua personalidade e atitudes. O impacto da infertilidade sobre o funcionamento psicológico é complexo e está influenciado por vários fatores. principalmente quando não se tem informação ou acesso ao tratamento específico. angústia. aceitação. O ajustamento emocional envolve um certo tempo e o processo é descrito como uma sequência de estágios: • Choque.14     As relações sociais e familiares tendem a se tornar afectadas devido a diversos fatores. O modelo não deve ser tratado como uma fórmula rígida. não há como negar que os casais se sentem emocionalmente vulneráveis diante de tal situação. principalmente quando o casal já apresentava alguma questão orgânica anterior ao relacionamento. alívio (diante de uma causa precisa. tais como reuniões onde são comentados assuntos relacionados a filhos. os quais podem não ocorrer em alguns casos. o recebimento do diagnóstico de infertilidade pode envolver diversas reações emocionais. por todas as pessoas que estão tentando ter um filho e não conseguem. No decorrer de um período. podem contribuir para a inadequação do casal. dada a natureza desse factor ou numa deteriorização significativa da atividade social. raiva e protesto. mitos e crenças socialmente partilhados. sensação de desafio. tais como: choque.                                                                                                                         11  Inhorn. topor ou negação num primeiro momento. pode ser definido dentro dos transtornos adaptativos. impotência.

Os aspectos psicológicos envolvidos no tratamento da infertilidade têm como base a conjunção de uma série de circunstâncias. as quais os pacientes têm que enfrentar quando decidem por essa opção: aspectos emocionais. É nesta realidade. financeiros. propiciar um espaço onde se possa falar da história de suas vidas.15     Ao procurarem um especialista em infertilidade. que se faz necessário levar em conta que por traz da questão orgânica existe um sujeito. casais e da sociedade como um todo. É importante escutar o que o casal pensa. único em seus sentimentos e que deve ser tratado de um modo integrado. sendo uma tentativa e não uma garantia de que dentro de nove meses terão um bebê nos braços. social e físico. 9-CONSEQÜÊNCIAS DE INFERTILIDADE A Infertilidade interfere com uma das atividades mais fundamentais e altamente valorizadas pela humanidade e assim. • depressão. A carga de infertilidade inclui o sofrimento psicológico. Além disto. • culpa.                                                                                                                         12  Bernestein. • frustração. ou um casal. demanda física do tratamento. uma vez que poucos casais se dão conta realmente de que. processos legais. ainda. dos projetos. medos. a possibilidade de uma eventual gestação gemelar ou múltipla que deve ser levada em consideração e discutida pelo casal. • diminuição da satisfação com a vida. Existe.  1999:57         . fantasias e expectativas. ao fazer um tratamento de infertilidade. 12A Infertilidade quase sempre leva a diminuição dos níveis de bem-estar pessoal e para muitos indivíduos causa consequências muito mais graves. • medo. muitos casais geralmente já vivenciaram esta ampla variedade de emoções conflitantes. é importante ressaltar a questão de este ser um tratamento que lida com possibilidades. éticos e morais dentro da comunidade. É importante a visão multidimensional do paciente para que se discuta cada caso. Conseqüências documentadas incluem: • ansiedade. Com a procura de um tratamento de infertilidade surgem as necessidades médicas. apresenta um desafio importante na vida para aqueles que desejam filhos. A condição traz questões relacionadas com a saúde e o bem-estar dos indivíduos. passando o tratamento a determinar a rotina do casal. estão fazendo um tratamento de tentativa de gravidez. abordando tanto os aspectos físicos quanto os aspectos psíquicos e emocionais. • tristeza. muitas vezes excessivamente técnica e rigorosa.

Índia.  1999:511    Larson. as conseqüências parecem maior no mundo em desenvolvimento. Um estudo realizado em Andhra Pradesh. onde o tratamento está disponível. dissolução e abandono. O principal objetivo do casamento é a reprodução e uma mulher infértil é considerada uma "perda". Na Ásia. como resultado de infertilidade. estigma. Algumas mulheres indianas relataram não serem permitidas segurar recém-nascidos parentes ou participar de cerimônias de nominação infantil por causa de temores supersticiosos que uma nova criança vai morrer nos braços de uma mulher infértil. muitas famílias dependem de crianças para sobrevivência econômica e casais sem filhos correm risco grave de privação econômica e isolamento social pela falta de pessoas para ajudá-los na velhice. dolorosas ou com risco de vida. o bem-estar das mulheres parece ser mais seriamente afetados pela infertilidade do que o dos homens. dificuldades econômicas.  2002:7         . perda de status social.16     • • • • • • • • • impotência. A agonia resultante da infertilidade é transformada em um estigma público duro com devastadoras consequências. relatou que 70% das mulheres que vivenciam a infertilidade eram punidas com a violência física por seu "Fracasso" e quase 20% das mulheres relataram que sofreram violência severa nas mãos de seus maridos. culturais e emocionais para as mulheres mais negativas do que talvez qualquer outra condição que não é imediatamente fatal. intervenções médicas desconfortáveis. tanto em termos reprodutivos e econômicos. Em países sem sistemas de segurança social. 14 O casamento é considerado uma troca de capacidades produtivas e reprodutivas entre uma mulher e a família do seu marido. 13 Na maioria das regiões do mundo. violência física e psicológica pela comunidade e. não ter filhos tem repercussões sociais. A                                                                                                                         13 14  Bernstein. na Tanzânia. como resultado de não ter filhos. Um estudo da infertilidade feminina. constatou que as mulheres experimentam muitas dificuldades e graves conseqüências sociais. coação marital. A natureza e gravidade das consequências da infertilidade diferem entre países em desenvolvimento com países desenvolvidos e embora os efeitos variam de acordo com vários fatores. isolamento social e da alienação. redução do desempenho no trabalho.

toma uma esposa adicional.html1#Q2: (12 Mar 2004). o Escritório de Tecnologia de Avaliação dos Estados Unidos da América (EUA) concluiu que "os prejuízos pessoais. como comer fezes e induzir o vômito. a Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou um artigo inédito que mostra uma estratégia que considera o tratamento da infertilidade como elemento importante da saúde sexual e reprodutiva. familiares e sociais provocados pela infertilidade eram tão grandes do que o previsto”.ABORDAGEM DA INFERTILIDADE Como uma parcela considerável da infertilidade é devida a causas evitáveis. A prevenção é especialmente vital em países em desenvolvimento.asrm.org/Patients/faqs.org www. na esperança de provar a sua fertilidade produzindo crianças. sendo a mais temida a infecção por HIV. As crianças também fornecem economicamente para seus pais na velhice e melhoram o estado deles na hierarquia doméstica. a prevenção primária é um componente importante e de custo eficaz para o combate da infertilidade. que quase sempre sinaliza o fim do casamento através do divórcio ou abandono. Frequently asked questions about infertility.17     expectativa de vida é limitada devido à falta de cuidados de saúde. um processo segundo qual os espermatozóides são colocados dentro de colo do útero de uma mulher para facilitar a fertilização e gravidez. o desenvolvimento e liberação de mais de um ovócito por cada ciclo ovulatório e a inseminação intra-uterina. que representam mais de 95% de infertilidade: são aqueles que não envolvem a recuperação de oócitos ou fertilização fora do corpo.15 Da mesma forma. agrupadas em duas grandes categorias: Ø Tratamentos com baixa tecnologia. asrm. Se o casamento não não termina o marido. A infertilidade pode gerar abandono conjugal e uma retirada de apoio económico. Um relatório de 1988. Muitos governos e provedores de cuidados de saúde pública consideram a prevenção uma prioridade. muitas vezes.         . 10.                                                                                                                         15  American Society of Reproductive Medicine. Outras conseqüências incluem desagradáveis ou perigosos remédios tradicionais empreendidos na esperança de cura da infertilidade. onde a maioria dos casos são devidos a infecções resultantes das DSTs e abortos inseguros. As infecções também podem advir da infertilidade. Estes incluem muitas vezes o uso de medicamentos de fertilidade para estimular a "superovulação". Uma gama de opções de tratamento médico existe para a infertilidade. Em Moçambique o citrato de clomifeno é usado frequentemente para tentativas de ovulação.

As taxas de sucesso geralmente aumentam com o número de ciclos de TRAs. Desde o nascimento do primeiro bebê humano resultante da fertilização in vitro. houve mais de um milhão de bebês nascidos como resultado de ARTs com a Europa líder mundial em termos de número de tratamentos. O tratamento da infertilidade avançou dramaticamente. Geneva. um ciclo de IVF custa uma média de $12.18     Ø Tratamentos de alta tecnologia. 16 Apesar do potencial das Artes. Em alguns países europeus até 5% de todos os nascimentos são devido às artes. um procedimento em que o esperma de um homem e o ovo de uma mulher são fertilizados em laboratório e o embrião resultante é transferidos para o útero de uma mulher. incluindo: idade do paciente. TRAs comuns incluem a fertilização in vitro (FIV). também chamados de tecnologias de reprodução assistida (TRAs): são tratamentos ou procedimentos que envolvem a manipulação de ovos ou esperma para ajudar a mulher a engravidar. no valor de apenas 0.003% dos custos de cuidados de saúde nos Estados Unidos. e o tamanho e qualidade da instalações onde o tratamento está sendo fornecido.400 e é fornecido com uma taxa média de sucesso inferior a 30 por cento . 2001 17-21 Sept. número de tentativas anteriores de FIV.4% de mulheres dão à luz para cada ovo recuperação realizada. duração da infertilidade. em que um único esperma é injectado num único ovo durante a FIV. Nos Estados Unidos.         . A adoção de crianças em orfanatos ou outros lugares é o último mecanismo de consolo dos casais infertéis.29. 31. Switzerland: WHO. Muitos países em desenvolvimento como Moçambique não incluem este tipo de tretamento no financiamento do sector da saúde. 2002.                                                                                                                         16  Social Aspects of Assisted Reproduction. há um debate considerável sobre o custo e acessibilidade do tratamento da infertilidade. outros tratamentos também podem ser caros. com financiamento público e cobertura de seguro variando amplamente em todo o mundo. e injecção intracitroplasmica de esperma (ICSI). em 1978. p. O tratamento por TRAs é sujeito a críticas éticas. As taxas de sucesso destas artes variam de acordo com vários fatores. Embora a FIV em si é utilizada com menos de 5% de casais inférteis que procuram tratamento. tornando possível a paternidade para muitos que teria até recentemente sido incapazes de alcançar este objetivo.

raça ou religião. A Saúde Pública Visa prevenir a ocorrência ou recorrência de problemas de saúde através da implementação de programas de: educação. Adicionalmente. Enquanto algumas pessoas considerem que questões infrequentes não podem merecer atenção pública. não somente a ausência de doença”. aumentar a percepção sobre este tema e melhorar as opções de tratamento.INFERTILIDADE E ÉTICA. Em nenhum livro.19     11-A INFERTILIDADE É UM PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA A OMS define a Saúde como "um estado de completo bem-estar físico. A manutenção das espécies com todas suas características requerem que a reprodução seja eficiente. mas não conseguem.17                                                                                                                         17  Human  Rights. Experiência de Saúde plena considera a quantidade e qualidade de vida como pontos importantes. têm o direito ao casamento e construção de família”. principalmente a Fertilização in Vitro. qualidade e acessibilidade dos cuidados de saúde. regulamentação dos sistemas e de profissionais de saúde conduzindo pesquisas com a visão de limitar as disparidades em saúde e em larga medida na luta para a equidade.  art:16. a infertilidade é comum e. UM CAMPO POR EXPLORAR O desinteresse no sofrimento das pessoas inférteis é uma moda que devasta as ciências sociais incluindo a Ética. a prevalância real é subestimada.  1948. como mencionado anteriormente. nem artigo na internet é possível encontrar assuntos éticos da infertilidade. A possibilidade de ter filhos e o tratamento da infertilidade devem ser considerados como elementos que fazem parte dos Direitos Humanos básicos numa sociedade. administração de serviços.1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 10 de Dezembro de 1948 diz: “homens e mulheres em idade madura.1         . O artigo 16. muitos casos podem ser prevenidos. A discussão ética encontrada na literatura tem que ver com a Reprodução Assistida. psíquico e social. sem limitações de nacionalidade. desenvolvimento de políticas. Recordemos que ter filhos é uma opção pessoal e a infertilidade é um problema somente para as pessoas que escolheram ter filhos. Considerar o tratamento da infertilidade como um direito humano iria diminuir o estigma. 12.

porém. No Oriente. Ø O princípio de não prejudicar ou não maleficiência. A Ética Médica assenta em 4 grandes princípios: Ø O princípio do respeito pela autonomia do paciente. Ø O princípio do benefício ou beneficência. Ø O princípio da justiça. passiva da infertilidade. isto é. Governos e organizações devem sentir a obrigação de promover a justiça em relação a distribuição equitativa dos filhos. que deve ser encarado como uma pessoa responsável. que torna obrigatório que se reconheçam as necessidades de outrem sem distinção de idade. uma escolha. é geralmente atribuída a mulheres e muitas vezes é vista como retribuição pelo passado errado fazendo tanto da parte do homem. ou seja dar a cada um segundo as necessidades e pedir-lhe segundo as suas possibilidades. de não empreender nada que seja contrário ao bem do paciente. a obrigatoriedade de agir num determinado sentido em sociedade. segundo o qual o prestador de cuidados deve servir o melhor possível os interesses do paciente. mesmo quando se denota o enfraquecimento das suas capacidades. Destes dois princípios decorre a avaliação riscobenefício. a Infertilidade. um componente macho. mulher ou os antepassados.       . A injustiça social que sofrem os casais inférteis é manifesta por meio de: • • • Estigma Problematização Isolamento de pessoas infertéis Mulheres inférteis que entrevistei nas consultas médicas em Niassa e Sofala revelaram sofrer de forte estigma social e atitudes machistas que criam uma dinâmica onde as mulheres se culpam pela infertilidade. Ética é o limite que faz com que uma pessoa diga não a si mesma. Todos os quatro princípios éticos são violados na abordagem actual.20     A Ética na sua definição simples é uma Ciência que estuda o comportamento moral dos indivíduos e grupos enquanto entende-se por Moral ao Conjunto de regras que orientam a vida humana em comunidade. fêmea e um elemento que vem de ambos os sexos masculino e feminino. uma direcção. A ética não envolve apenas um juízo de valor sobre o comportamento humano. classe ou religião. mas determina em si. raça. há reconhecimento que existem três elementos de quais depende a reprodução.

no entanto não propõe medidas aceitáveis para diminuir o sofrimento. Relatórios nas últimas décadas têm deixado crenças em pessoas de países ocidentais de que a superpopulação é o maior problema de desenvolvimento. As confissões religiosas têm aversão a reprodução assistida e a manipulação de partes humanas como espermatozóides e óvulos. dadas as enormes dificuldades dos países pobres em recursos para fornecer até mesmo os bens mais básicos. • recursos limitados. Enquanto existe muita literatura do debate sobre a moralidade das técnicas de reprodução assistida. Os cinco argumentos contra a aplicação de tratamento de infertilidade são • sobre-priorização da população. a contribuição da sociedade deve ser dirigida       . os ensinamentos religiosos tratam a infertilidade como castigo por algum erro do casal ou dos seus antepassados. Isso também é verdade nos países em desenvolvimento. ela beneficia somente a pessoas ricas. Entretanto. é em grande parte responsável para os efeitos devastadores da infertilidade.21     Os casais inférteis por sofrerem grande pressão social optam por comportamentos sexuais de risco. A questão religiosa pode apresentar influência em alguns casos. em países desenvolvidos. o comportamento de risco traz consigo as consequências de infecções por DSTs que agravam ainda mais a infertilidade e o casal põe-se em risco para ter o HIV. Esta prática é uma maneira frustrada de conseguir filhos fora-de-portas. principalmente quando alguns pontos do tratamento contradizem os princípios religiosos do casal ou quando. e esquece-se dos países em desenvolvimento onde existe maior número de casos de infertilidade. As demandas da autonomia reprodutiva requerem que esforços devem ser feitos para que aspessoas possam determinar quantos filhos ter. Como pode ser entendido. Existem argumentos avançados a favor e contra o fornecimento de tratamento de infertilidade para países com poucos recursos. principalmente a infidelidade e o não uso do preservativo nas relações sexuais ocasionais. Há dois argumentos a favor: • autonomia reprodutiva e • enorme carga de infertilidade. • Falta justiça e igualdade de acesso e • risco de abuso às técnicas. que reina em quase todos os países em desenvolvimento. proporcionando grupos de ajuda. No entanto. deve-se ressaltar que muitas vezes a fé religiosa actua como fator de apoio para quem a segue. • Oferece prevenção e não a cura. O Pronatalismo. em alguns casos. ü Ética E Tratamento Da Infertilidade O fornecimento de tratamento de infertilidade em países em desenvolvimento é controverso.

A conferência adoptou a definição de saúde reprodutiva que integra tanto controle da fertilidade e tratamento de infertilidade: Ø "A saúde reprodutiva é um estado de completo desenvolvimento físico. sem um governo central e infra-estruturas médicas mínimas.22     principalmente para a prevenção das causas da infertilidade e a importância que a infertilidade é dada. a reação das pessoas é quase instantaneamente negativa. mental e bemestar social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade. Dois avisos preliminares devem ser feitos: Ø Primeiro. portanto. quando e quantas vezes para fazê-lo ". 19 Planeiamento familiar implica tanto evitando crianças indesejadas e ter filhos desejados. Saúde reprodutiva implica. em todas as questões relacionadas com a reprodução sistema e suas funções e processos. também desempenham um papel. não significa para atender às necessidades de pessoas para controlar quando e quantas crianças ter. crescimento da população. A concepção do tratamento de infertilidade no contexto geral da reprodução. planeiamento de saúde e da família é fundamental para a avaliação ética. que as pessoas são capazes de ter uma vida sexual segura e que eles têm a capacidade para se reproduzir e a liberdade de decidir se. Para eles. enquanto se limitar o uso de RTA. Isto leva à um erro da convicção na forma como as pessoas ocidentais olham a a prestação da contracepção e controle da fertilidade em países de poucos recursos. Preocupações das pessoas em países ricos sobre a imigração e os temores de ser invadido pelo Sul. 1994         . Sempre que se menciona a prestação de tratamento de infertilidade em países em desenvolvimento. Este ponto pode ter um enorme impacto sobre o debate como as pessoas desses países encaram o tratamento. Esta convicção foi e ainda é a principal barreira para não se considerar o tratamento da infertilidade em países de poucos recursos. A fim de evitar mal-entendidos. em Cairo. devemos estar cientes da grande heterogeneidade dos países "em desenvolvimento" em termos de riqueza.18 Mas as coisas estão muito lentamente mudando para melhorar a situação. Um ponto crucial para a nova evolução foi a Conferência sobre População e Desenvolvimento em 1994. não é surpreendente que elas fiquem perplexas com a sugestão de introduzir a fertilização in vitro FIV. provavelmente. Pessoas de Sudão. Serra Leoa ou Ruanda.   1998:23   19 Nações Unidas. devem existir regras que estipulam que o tratamento de infertilidade só poderá ser considerado quando duas condições forem                                                                                                                         18  Grimes. essas tecnologias são maneiras de reduzir o crescimento da população. recursos de saúde etc. ou outros países que têm tido batalhas de guerras civis por décadas.

Duas reacções são possíveis: Ø A primeira reação é se concentrar na mudança que visa as pessoas inferteis não serem hostilizadas e discriminadas. um desempenho que é devido à família (como lei) e à comunidade. Mais bem-estar seria criado ou mais infelicidade evitada. evitando consequências sociais e psicológicas do que o fornecimento de TRA a primeira opção deve ser feita e vice-versa. proporcionando TRA para um casal na África do que a um casal na Europa. a reprodução é um objectivo de auto-escolha. como a fertilização in vitro. FIV e ICSI. Se mais bem-estar pode ser adquirido. ter filhos é uma obrigação social. essas tentativas não têm base moral. não é claro até que ponto essas consequências negativas no desenvolvimento de infertilidade nestes países justificam a concessão de tratamento da infertilidade. De acordo com a teoria ética utilitarista. outras intervenções de menor natureza técnica podem ser oferecidas para tratar a infertilidade. a discussão centra-se em alta freqüência nas intervenções tecnológicas. dependendo da riqueza e do desenvolvimento geral. a escolha entre essas reações só pode ser feita em evidência empírica. A tecnologia bem como o momento da introdução de uma técnica terá de ser específico do país. A minha posição é que a discriminação baseada na saúde ou incapacidades (ter filhos) é inaceitável e pró-natalismo leva a tal discriminação. Ø A segunda reacção é a de proporcionar um tratamento de infertilidade como uma solução médica para um problema social. os utilitaristas defendem que é melhor tratar a infertilidade em países com as piores consequências. uma sociedade deve fazer o que maximiza a felicidade ou bem-estar. A partir de uma postura utilitarista. ou seja. Deveria também ser combatida a ideologia pró-natalista. Esta é uma abordagem a considerar em Moçambique. o mínimo de estabilidade política e uma estrutura básica de saúde.23     satisfeitas. Isto pode ser feito de várias maneiras: ducação como um meio para que as mulheres obtenham emprego que lhes dá uma alternativa para aumentar sua auto-estima e para garantir a independência econômica e segurança. 2001         . Embora haja tentativas de outros para influenciar o planeiamento familiar de um determinado casal. Muitos problemas de saúde actualmente como a obesidade são tratados. Em Sociedades nãoocidentais. Ø Em segundo lugar. O consenso geral na reunião de Arusha foi que há três níveis de dificuldade técnica: IIU.                                                                                                                         20  Van Balen e Gerrits. em grande parte a escolha é pessoal ou do casal. No entanto. No entanto. 20 Nos países desenvolvidos.

2006:119         . As pessoas que se concentram em igualdade tendem a concluir que. Cuidados de saúde. O pessoal bom é sacrificado em prol de um bem coletivo ou agregado. É altamente improvável que as intervenções de alta tecnologia terão um impacto na população nos países em desenvolvimento uma vez que apenas um pequena minoria da população pode pagar. Seriam nestes casos considerados por casais inférteis? Este facto surge da infertilidade ser definida não somente usando a matemática de meses sem gravidez. Pessoas pobres nos países ricos. As pessoas que excluem os homossexuais da infertilidade deixam-os de fora da necessidade de adopção de técnicas e mecanismos para a reprodução deles. Outra questão ética surge com a proliferação de casais homossexuais que. A necessidade pessoal de ter filhos não pode ser satisfeita pelos vizinhos. tendo necessidade a procriação.24     Mais inaceitável ainda é que apesar de tecnologias altas. em geral. quando o acesso não pode ser garantido para todos. enfrentam o dilema da falta de espermatozóide ou ovo. A diferença entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento é uma questão de gradação. sem cobertura de seguro para tratamento de infertidade não têm acesso à alta tecnologia de tratamento também. Independentemente das objeções que se pode ter contra este sistema. aumentando o acesso (quanto mais as pessoas podem obter o tratamento. ninguém deve ter acesso. algumas pessoas vão ficar sem filhos na mesma trazendo consequências mais negativas ainda. Justiça pode ser promovida por qualquer aumento de igualdade (ninguém tem acesso ou todos têm acesso). ninguém deverá. Um dos paradoxos demográficos é que os países com a maior fertilidade são também aqueles em que a prevalência de infertilidade secundária é mais elevada21. é certamente mais justo e equilibrado medir do que a proposta que casais inférteis devem permanecer sem filhos porque os seus vizinhos têm muitas crianças (e mesmo mais do que eles querem). são importantes porque asseguram o intervalo normal de oportunidades e permitem pessoas a florescer. Isso resulta no que Engelhardt chamou uma "ética da inveja ": se eu não posso ter isso. A questão da justiça na área da saúde não é limitada aos países em desenvolvimento. O princípio da justiça contém duas dimensões: a igualdade e acesso. mas também da vontade da procriação do casal incluindo a quantidade de filhos. Isso explica porque devem ser fortemente rejeitadas algumas medidas como a esterilização forçada. Esses direitos individuais têm um estatuto muito elevado.                                                                                                                         21  Nachtigall. melhor). A China tem dado o exemplo de uma abordagem igualitária para o problema da superpopulação com a política de um filho por família. O argumento de superpopulação atribui um alto valor para benefícios a sociedade em detrimento do indivíduo. A eqüidade na saúde significa igualdade de acesso aos cuidados básicos de saúde sem encargos excessivos.

desenvolvendo políticas públicas de vigilância e tratamento da infertilidade e envolvendo a população em debates sobre aspectos éticos da infertilidade.25     Alguns países aceitam o homossexualismo apesar desta prática não ser vista com bons olhos por muitas pessoas. ele deve ser considerado e combatido. A infertilidade existe em qualquer sociedade. ela precisa ser tratada como um problema de saúde pública e os debates éticos devem ser aboradados sem restrições. que são questões globalmente debatidas actualmente. A infertilidade é ainda muito negligenciada por todos estratos da sociedade e as pessoas inférteis têm uma privação ética considerável. As suas consequências são graves. mas em certa medida ela pode ser prevenida ou os seus efeitos diminuídos independentemente as condições que cada sociedade tem. O campo da Saúde Pública deve contribuir usando as suas capacidades em pesquizas sobre a infertilidade para estimular percepções sobre as consequências da privação de filhos. Há relação entre a infertilidade e o HIV/SIDA e outras DSTs. a infertilidade é manifestação de doenças. A infertilidade é um problema de saúde pública porque existe no cruzamento entre os aspectos médicos e social das pessoas. Uma barreira crítica na luta contra as doenças não é a falta de tecnologia. será necessária uma auscultação dos problemas e necessidades das pessoas infértis antes de estabelecer prioridades da saúde reprodutiva. Em Moçambique. A incapacidade de lutar contra a infertilidade representa o triunfo do modelo de justiça do mercado com a ênfase na habilidade individual e capacidade reprodutiva geral e é um fracasso da ética de saúde pública em promover a saúde e bem-estar de todos. Geralmente a infertilidade afecta a minoria silenciosa mas as consequências são graves. mas precisa ser enfrentada. Os conhecimentos sobre a infertilidade são importantes para o desenvolvimento de serviços de tratamento da infertilidade como mandam os direitos humanos. Continuam debates se as novas medidas de tratamento da infertilidade incluindo a reprodução assistida deviam ser consideradas como direitos humanos e se todas essas medidas de tratamento vão ao encontro da moral humana.CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES Apesar da variação entre os países dos problemas que surgem da infertilidade. os governos e organizações devem empreender esforços para diminuir as dificuldades destas.       . mas o que deve ser feito é que enquanto os debates continuam. nem sempre prevenível e tratável. 13. mas a ética social que injustamente protege somente os grupos mais numerosos ou poderosos contra o sofrimento. Apesar de ser difícil a medição do sofrimento causado pela infertilidade.

Formação de grupos comunitários de apoio aos casais inférteis 8.Reconhecimento da infertilidade pela lei da família 4.Formação do tema “ética da infertilidade” nos livros de ética médica e geral.Sensibilização dos órgãos de comunicação a este tema 10. Apesar do papel fundamental da prevenção.26     Na minha opinião em Moçambique onde também uma grande percentagem de infertilidade resultante de infecções a situação seria melhor abordada através da prevenção e tratamento eficaz de infecções sexualmente transmissíveis. 12. A questão da infertilidade deve ser transformada em um programa no SNS com representatividade desde o nível perifério (distritos) até o central (Ministério da Saúde. 11. Acções que devem ser feitas para lutar contra a infertilidade em Moçambique: 1.Elaboração de documentos que dê ênfase a necessidade de tratamento e prevenção da infertilidade como um direito fundamental de cada família 3. e a necessidade de tratamento existe claramente.Abordagem da infertilidade nos programas de DSTs.Inclusão nos currículos de formação nas escolas (saúde escolar) e nas instiuições de formação de funcionários de saúde 6. em combinação com a formação de base de saúde para fornecer informações sobre saúde sexual e reprodutiva e diminuição da política pró-natalista.Formação de um programa responsável pela prevenção e tratamento da infertilidade.       . nem todos os casos de infertilidade podem ser evitados. bem como a mitigação das suas consequências.A abordagem da infertilidade deve ser alargada a todos sectores da sociedade e não ser relegada ao MISAU. incluindo nos serviços de tratamento anti-retroviral. Estas mensagens devem ser incorporadas em programas existentes como o planeiamento familiar (SMI).Debates de figuras influentes e a sociedade em geral sobre a ética da infertilidade incluindo todos aspectos e não somente o uso de reprodução assistida. MISAU).Ensinamento da comunidade sobre o tratamento ético dos casais inférteis e sua educação sobre o pró-natalismo 9.Inclusão no currículo de formação na abordagem do Tratamento Anti-Retroviral (TARV) 7. Saúde Materna e Infantil. 5. 2.

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