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— Andlise Psicolégica (1997), 4 (XV): 595-604 Ajustamento marital em ex-combatentes da Guerra Colonial com e sem perturbacao pés-stress traumatico (*) LINTRODUGAO A Perturbagdio Pés-Stress Traumético (Pos!Trau- ‘matic Stress Disorder) resulta de acontecimentos psicologicamente intensos, que esto para além daqueles considerados normais na vida do ser hhumano (ndo se incluindo as doengas erénicas, falecimento de um ente querido, insucessos fi- naneeiros ou problemas conjugais), ou ainda de ‘outros acontecimentos, como o dano ou ameaca grave a um filho, cénjuge ou familiar intimo, ou ser-se testemunha de outro individuo que foi gra- vemente ferido ou morto, O distirbio caracteri- za-se por um conjunto de sintomas que sto ho- mogéneos, em sujeitos que vivenciaram esses acontecimentos stressantes ¢ trauméticos sendo habitualmente vivido com um medo intenso, terror e, incapacidade de encontrar solucées. O tipo de acontecimentos traumiticos resultam, de Desastres Naturais (inundagbes, sismos, tu- Ges), Desastres Acidentais (desastres de grandes (*) 0 autor apresentou o referido estudo explora ‘rio sobre a Perturbagao pds-stress traumatico em ex- ‘combatentes da Guerra Colonial, no I Coléquio Nacio- nal de Stress Traumitico, Lisboa, Fundagao Calouste Gulbenkian, 25 a 27 de Outubro de 1995, (*) Psicdiogo clinico, CARLOS ANUNCIAGAO (*) proporydes, nomeadamente acidentes de aviago, ferrovidrios, maritimos, incéndios e desabamento de grandes estruturas) e de Desastres causados de ‘modo deliberado (combates, bombardeamentos, tortura, violagdo). O acontecimento pode ser vivi- do isoladamente ou em grupo. 2, DESCRIGAO CLINICA DA PERTURBAGAO POS-STRESS TRAUMATICO. A sintomatologia do PTSD & vasta, embora exista um quadro tipico deste em todas as pes- soas que vivenciaram um acontecimento de vida traumético (criangas, adultos € idosos). Os sinto- ‘mas caracteristicos envolvem: revivenciar do acontecimento traumatico -Recordagdes intrusivas € sonhos pertur- adores sobre 0 acontecimento traumatico, comportamentos ou sensagdes, como se 0 acontecimento estivesse de novo a aconte- cere mal estar, perante algo que simbolize © acontecimento para o sujet (O evitamento de acontecimentos associados a0 trauma ~ Fuga a pensamentos ou sensagdes associa- 595 das ao acontecimento traumitico © evita- mento de actividades que possam desenca- dear essas sensagdes, Embotamento geral da reactividade ¢ um aumento da activagao fisiolégica ~Resiti¢do dos afectos, desligar-se dos ou- tos, auiséncia de projectos pessoais e forte desinteresse por actividades que eram signi- icativas para 0 sujeito antes do aconteci- mento traumtico -Dificuldades em dormir, iritabilidade, hi- pervigilidade ¢ dificuldades de concentra- so e, ainda, reactividade fisiolégica au- ‘mentada perante acontecimentos que fagam relembrar 0 acontecimento traumitico. 3, CONSEQUENCIAS DO PTSD Dum modo geral, 0 quadro sintomatolégico caracteristico do PTSD surge logo apés 0 acon- tecimento traumatizante, embora possa decorter um periodo de laténcia de alguns meses ou mes- ‘mo de anos até se comecar a manifestar, E frequente nos individuos com PTSD uma forte labilidade emocional, sentimentos de de- pressao os quais podem conduzir a comporta- ‘mentos auto destrutivos, abuso de substancias como o alcool e ou drogas. Por exemplo, em muitos ex-combatentes da guerra colonial por- tuguesa tém-se encontrado associado ao PTSD, sintomas de depressio, ansiedade e de psicopato- logia em geral (Albuquerque, 1992), 4, EPIDEMIOLOGIA E ETIOLOGIA © PTSD s6 pode ocorrer se surgirem aconte- cimentos trauméticos, tais como os desastres acidentais, catéstrofes naturais ou desastres que so provocados pelo homem como as guerras e 2 tortura, Assim, sempre que ocorram situagdes stressantes e trauméticas, poderdo aparecer sujei- tos com PTSD. Por exemplo, Sonnenberg (Son- nenberg ef al., 1989) refere um estudo do Center for Disease Control sobre a guerra do Vietname, que 26% dos veteranos manifestavam sintomas Psicopatologicos e que desses, 7% tinham de- pressio: major. Em 27% dos prisioneiros de guetra foi-Ihes diagnosticado doengas psiquistri- 596 See \ ‘cas graves. As estimativas sugerem que cerca de 15% dos veteranos do Vietname sofram de PTSD. Muitos estudos, apontam para um correlaciona- mento positivo entre 0s sujeitos com PTSD e 0 abuso de substincias téxicas, violencia e proble- mas inter-pessoais (idem e ibidem). Segundo Yager (Yager et al., 1984) num estu- do com uma amostra de 713 veteranos, 16% seram ter problemas no emprego e com 0s ami- £205 devido ao alcool, 16% ja tinham sido detidos pela policia pelo menos uma vez ¢ 44% confir- ‘maram continuar a ter recordagdes da guerra que procuravam esquecer. ‘Como se referiu, para que 0 PTSD se mani- feste € necessério que ocorra um acontecimento de natureza traumética no entanto mesmo que tal acontega, nem todas as pessoas que viveneiaram lum acontecimento desses manifesta. sintomas de PTSD. Deste modo, parece que 0 aconteci- mento traumético, & condigdo necesséria mas nio suficiente para desencadear o sindroma. Assim, 05 estudos realizados t8m sido controver- sos e como tal sugerem que para além do acon- tecimento traumtico, os factores da personali- dade, 05 factores genéticos, os factores fisico ¢ psicologicos e as estratégias de coping utilizadas plo sujeito podem concorrer para 0 aparecimen- to do PTSD. Para além destes, também o tipo de rede de suporte social do sujeito contribuira ou nao, para minimizar os efeitos do PTSD. 5, A ORIGEM DO CONCEITO DE PERTURBACAO POS-STRESS TRAUMATICO ‘Andreasen (N. Andreasen, 1985) refere que Ja em 1871, no American Journal of Medical Sciences, Da Costa, um médico de origem portu- guesa, observou e relatou distirbios homogéneos em soldados que vinham da linha da frente de combate aquando da guerra civil americana. Da Costa (Jacob Mendes Da Costa foi um médieo de Filadélfia descendente de judeus portugueses) verificou que estes soldados manifestavam dis- tirbios de ansiedade em consequéncia de facto- res de stress muito intensos durante os combates ©, veio a baptizar esse distirbio como a doenga do coragio irritével (irritable heart) visto que nos sintomas observados incluiam perturbagdes do funcionamento cardiaco. Outros médicos, posteriormente, vieram a ‘encontrar sintomas similares nos combatentes da Grande Guerra, dando-Ihe no entanto outras de- signagdes, como «Astenia neurocirculatéria» © «Choque do abrigoy. Também apés a Il Guerra Mundial, veio a ser designado, entre outras, por «Neurose traumitica de guerran, «Neurose de combate» ou «Grave reacgao de stress». Foi em 1952 que surgiu pela primeira vez 0 conceito de Perturbagio Pés-Stress Traumatico (PTSD) no DSM-1, tendo posteriormente sofrido diversas alteragdes no decorrer do tempo até que se tomou reconhecido o sindroma, pela comuni- dade ciéntifica americana, vindo a ser incluido na tereeira ediglio do DSM, em 1980 e posterio- res. 6, ESTUDOS SOBRE 0 PTSD Muitos t8m sido os trabalhos realizados sobre © PTSD, os quais vao desde a etiologia a0 fend- meno da patologia, passando pelas diferentes in- tervengées terapéuticas. A nivel internacional a maior parte das investigagOes realizadas enqua- ddram-se naguelas que resultam dos aconteci- mentos causados deliberadamente pelo homem, como 0 sio as guerras e consequentemente as vi- timas delas, nomeadamente da guerra do Vietna- me, guerra Israel-Arabe, guerra das Falkland, guerra do Golfo e, ultimamente comegaram a surgir trabalhos realizados em Mogambique ¢ Angola tendo sido estes altimos, apresentados também, no I Coléquio Nacional de Stress Trau- matico que decorreu entre 25 e 27 de Outubro de 1995 na Fundagdo Calouste Gulbenkian, Em Portugal, a maioria dos trabalhos reali- zados sobre o PTSD sto relacionados com a si- tuagao de guerra e, grande parte destes através da equipa do Dr. Afonso de Albuquerque no Ser- vigo de Psicoterapia Comportamental do Hospi- tal Tilo de Matos ‘A maior parte dos trabalhos publicados (Al- buquerque, 1992, 1994) tem incidido em aspectos particularmente importantes, como 0 diagnéstico sobretudo sobre a psicoterapia em ex-comba- tentes com o Perturbagio P6s-Siress Traumatico, através do Servigo de Psicoterapia Comporta- mental com sécios da Associaga0 dos Deficien- tes das Forgas Armadas ¢ da Associagao APOIAR. Segundo Albuquerque (1992) através de fontes —— do EME a guerra colonial, que decorreu entre 1961 e 1974, envolveu cerea de um milhio de homens dos quais 10000 foram mortos ¢ cerca de 30000 ficaram feridos, Ainda segundo Albu- querque (1992, 1994) comparando estes dados com os da Guerra do Vietname, poderio existir cerca de 140000 ex-combatentes portugueses com problemas psicolégicos e desses cerca de 30% com PTSD; isto, sem se ter em conta o nti- ‘mero de pessoas que vivem com o ex-combaten- te e que possam estar, também elas perturbadas (fenémeno que Solomon designou por Traumati- zago secundiria). Perante este contexto, resolveu-se investigar, na rea do PTSD, a relagao marital dos sujeitos ‘em relago a um grupo de controlo, numa amos- tra de ex-combatentes da guerra colonial com PTSD, tendo-se formulado 0 seguinte problema. 7. PROBLEMA E HIPOTESES DE INVESTIGACAO, Problema — Sera que os sujeitos casados, ex- -combatentes da guerra colonial, cujo diagndsti- co de PTSD seja positive, tém mais problemas em diferentes éreas da vida conjugal e mais di- fieuldades de relacionamento marital, do que outros sujeitos casados, aos quais nao thes foi diagnosticado positivamente o PTSD apesar de terem sido também ex-combatentes da guerra co- Ionial? Hipétese Geral ~ Se os ex-combatentes da guerra colonial so casados ¢ tém o PTSD entio tém mais dificuldades de Ajustamento Marital ¢ mais problemas nas diferentes Areas da vide conjugal do que outros sujeitos ex-combatentes casados que ndo sofrem de PTSD. Hipétese 1 — Se os ex-combatentes da guerre colonial sio casados e tém 0 PTSD, entao tém ‘mais dificuldades em demonstrar carinho, sto ‘menos comunicativos e discutem mais do que, ‘outros ex-combatentes casados que nio sofrem de PTSD. Hipotese 2 — Se os ex-combatentes da guerre colonial so casados e tém 0 PTSD, entdio per- ‘cepcionam o seu casamento como «menos feliz» do que outros ex-combatentes casados que nic sofrem de PTSD. 597