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R EVI STA DE PSIQUIATRIA E DE PSICOLOGIA Revista de Paigulata © ce Piolo Sire QO) No 12 34 / Jan-fun,e Jul-Des ~ 2004 MULTICULTURALIDADE, ETNIA E PERSONALIDADE ABILIO AFONSO LOURENCO RESUMO: A reilexdo tedrica que se apresenta procura saber até que ponto a nogio de pertenca a um grupo (etnia) ou classe so- cial pode influenciar 0 desenvolvimento cultural e a personalidade dos individuos. Tentou-se estabelecer os pontos de conexdo/desconexio entre 05 conceitos de Etnia, Cultura e Accio Humana, bem como contemplar as abordagens existentes entre Educacio e Cultura. Da anélise, verifica-se que urge e hé que ter em conta 0 necessério movimento de aproximacao do ideal de justia e de solidariedade, invocado por todos os conscienciosos e tedricos da Antropologia, da Sociologia e da Psicologia, Para isso é essencial uma mudanga de pratica nas sociedades através de uma abordagem proactiva secking out substituindo a tradicional coaiting mode PALAVRAS-CHAVE: Multiculturalidade, etnia, personalidade. Introdugio Quando nascemos pertencemos a um determinado grupo social. A nossa familia, 0 nosso bairro, a nossa cidade, 0 nosso pais, sio exemplos de categorias sociais a que pertencemos. Pouco a pouco vamos tomando consciéncia da nossa pertenga a estes grupos através da lingua que falamos, das normas de conduta que aprendemos enquanto nos desenvolvemos, do meio em que crescemos. Adquirimos em simultaneo uma identidade pessoal, identificando-nos com © nosso corpo, com as nossas sensagdes, com © nosso sexo e, assim, vamos conciliando a nossa identidade pessoal ¢ social. Todas as pessoas tendem a ter uma identidade pessoal e social positiva. A identidade pessoal positiva permite-nos ser tinicos e a nossa identidade social positiva possibilita-nos manter os nossos valores compartilhados pelo nosso grupo de pertenca. Nem todas as pessoas, nem os grupos vivem isolados. E por isso que, quer a identidade pessoal, quer a social, se adquirem por comparagio. £ a partir desta comparagdo que os individuos materializam representagées sobre a prépria estrutura social e as divisdes sociais e é no 29 quadro das classes oferecidas por essas representagdes que se autoposicionam e fomentam redes de relagdes, nas quais se produzem e transformam as representacGes sociais. Como se sabe, este processo de categorizacao refere-se a percepeao e organizacdo do meio ambiente em classes de objectos, acontecimentos e grupos de pessoas. Outro aspecto a considerar neste elevar da identidade do individuo é que a percepcao do mundo é algo que se vai construindo através do proces- s0 de comunicagdo interpessoal, se bem que se trate de um fenémeno inter- no. Ela desenvolve-se em fungao do contexto sécio-cultural em que se vive, e através dos sentidos que captamos da realidade envolvente. Perante a multiplicidade de estimulos recebidos, 0 ser humano selecciona e discrimina- os de tal modo que, os mesmos estimulos poderao ser interpretados de dife- rentes modos, por diferentes sujeitos. A experiéncia que cada um adquire Unica, ainda que possa ser partilhada pelos outros. E através da comunicacao que se processa a estruturacdo da realidade. O comportamento de cada um forma-se em funcao da imagem que adquire do mundo, em funcao da expe- riéncia, das pessoas e das coisas percepcionadas, em suma, em fungio da con- cepcao que faz da realidade, E do atrés explicitado que o individuo se vai tomando cénscio da sua pertenga a uma estrutura/categoria social, esta de- senvolve-se num espaco sistémico multicultural e neste contexto serd erigida a sua personalidade Grupo e Comportamento Intergrupal estudo do comportamento intergrupal no ambito da Psicologia So- cial inclui abordagens que, apenas, analisam variaveis sdcio-psicoldgicas e outras, que incluem, em articulag3o com as primeiras, variéveis estruturais, relativas A situacdo intergrupal em que os individuos se inscrevem. Esta teorizacdo de Tajfel (1982), considerado um dos impulsionadores da Psicologia Social 6, sem duivida, um bom exemplo da simultanea preocupagéo com os processos cognitivos, individuais e com as manifestagdes desses mesmos processos na estrutura social, na modificagdo das mentalidades, no surgimento dos conflitos, na preservagao das ideologias, na reprodugdo das estruturas sociais dominantes, e isto apesar da teorizagao se basear, fundamentalmente, em estudos experimentais. Os processos sécio-psicolégicos influenciam a estrutura das relagdes objectivas entre os grupos e esta estrutura, por sua vez, influencia os processos sécio-psicolégicos. Os esterestipos sociais constituem um exemplo de como os processos sdcio-psicolégicos influenciam o design de uma situacao intergrupal objectiva. © mesmo autor refere que se deve entender como intergrupal sempre que individuos pertencentes a um grupo interagem, colectiva ou individualmente, com outro grupo ou seus membros em termos do seu grupo 30