A menina que não sabia ler - John Harding

1

O Cisne Foi em abril, embora em meu espírito fosse dezembro, Que um pássaro ferido foi retirado da escuridão do lago, As penas brancas brilharam ao sol, e de sua boca escorreu a água negra, Enquanto por dentro minha voz gritava até pensar que meu coração iria se partir; Fui eu quem assistiu à sua morte, seguindo à deriva, à deriva, esperando em sua vigília Que Deus levasse sua alma.

PRIMEIRA PARTE

1
É uma história curiosa a que tenho de contar, uma história de difícil absorção e entendimento, por isso é uma sorte que eu tenha as palavras para cumprir a tarefa. Se eu mesma digo isso, quando talvez não devesse, é que, para uma menina da minha idade, tenho um ótimo vocabulário. Extremamente bom, para falar com franqueza. Porém, devido às opiniões rígidas de meu tio em relação à educação das mulheres, tenho escondido minha eloquência, soterrado meu talento e mantido apenas as formas mais simples de expressão aprisionadas no cérebro. Tal dissimulação transformou-se em hábito e foi motivada pelo medo, pelo grande medo de que, se falasse como penso, ficaria evidente meu contato com os livros e eu seria banida da biblioteca. E, como expliquei para a pobre sra. Whitaker (pouco antes de sua trágica morte no lago), isso é algo que não acredito que possa suportar. Blithe House é um grande celeiro, uma mansão de pedra rústica com muitos cómodos, tão imensa que meu irmão caçula, Giles, tão rápido nas pernas quanto lento na cabeça, leva três minutos ou mais para percorrê-la; uma casa desconfortável e deteriorada pela prudência, negligenciada, com os gastos controlados rigidamente (meu tio ausente tendo perdido todo o interesse por ela), com vazamentos e buracos, traças e ferrugem, fria, mal iluminada, repleta de cantos escuros, de modo que, apesar de ter vivido aqui toda

A menina que não sabia ler - John Harding

2

a vida até onde consigo me lembrar, às vezes, especialmente às vésperas do inverno, quando vem caindo o crepúsculo, sinto tremores. Blithe tem dois corações, um quente, um frio; um iluminado, outro sombrio mesmo no dia mais ensolarado. A cozinha, onde o forno está constantemente ardendo, é alegrada pela gorda Meg, sempre sorridente e com os braços enfiados na farinha, normalmente flertando com John, o empregado, que tenta conseguir um beijo, mas contenta-se com uma bitoca enfarinhada. Na porta ao lado, com o fogo estalando durante nove meses do ano, fica a sala da governanta, onde se pode encontrar a sra. Grouse sentada na poltrona costurando ou diante da escrivaninha às voltas com inúmeros papéis, tentando, como ela diz, dar sentido às coisas "sem pé nem cabeça" — o que me parece contraditório —, para que se encaixem. Esses dois aposentos formam um dos corações, o quente. O coração frio (mas não para mim! Ah, não para mim!) bate no outro lado da casa. Mal-amada e esquecida, exceto por mim, a biblioteca não poderia ser mais diferente da cozinha: sem lareira, fria até no auge do verão, gelada no inverno, as janelas escurecidas por cortinas pesadas jamais abertas, de maneira que preciso roubar velas para ler e depois limpar os pingos incriminadores do chão. De uma ponta à outra mede 104 passos meus com sapatos, e 37 na largura. Três homens poderiam ficar em pé, um em cima do outro, e mal conseguiriam tocar o teto. Cada centímetro das paredes, tirando a porta, as janelas e os assentos abaixo delas, está coberto por prateleiras de madeira, do chão até o teto, todas ocupadas inteiramente por livros. Nenhuma criada jamais entra aqui; o piso não é varrido, pois, se intocado por passos, por que deveria sê-lo? As prateleiras não têm marcas de impressões digitais, as escadas móveis para se chegar às prateleirasmais altas são mantidas sempre no mesmo lugar, os livros suplicando para serem abertos, todo o lugar relegado à poeira e ao abandono. Sempre foi assim (exceto quando havia governanta, mais adiante), ao menos até onde me lembro, pois aqui cheguei pela primeira vez há um terço da minha vida, quando tinha 8 anos. Ainda não tínhamos governanta, porque Giles, que é três anos mais novo que eu, e a quem se destinava a educação, era considerado jovem demais para a escola ou

espirrando com a poeira ao abrir cada um deles.John Harding 3 para qualquer tipo de aprendizado. srta. Ele deixou muito clara sua visão a respeito da educação das jovens. todos os milhares — acho que milhões — de linhas codificadas com impressão indecifrável. Alisou a testa. pegando um livro atrás do outro. nem mesmo os criados precisam saber. após receber uma reprimenda por ter desaparecido por tanto tempo que a sra. Muitos livros eram ilustrados. — Esboçou um sorriso. Instintivamente.A menina que não sabia ler . cada uma delas mostrando a miserável impotência do tracejar dos dedos. se você fica em silêncio. realmente gostaria. Ela respirou profundamente e soltou um longo suspiro. Acho que ele diria que este não é o momento. Grouse colocara todo mundo à minha procura. não apenas as criadas mas também a enfarinhada Meg e John. pois. pedi à sra. srta. o que foi que a levou a ter essa ideia? Era uma daquelas perguntas que é melhor não responder. Ela riu e depois voltou a ficar séria. Florence. mocinha. gostaria de poder fazer isso. e descobri esse imenso tesouro de palavras. E claro que eu não sabia ler. senhorita. mas poderia perder meu emprego. fui de prateleira em prateleira. o que . ele não precisa saber. Depois. para me esconder dele ali. mas por algum motivo isso me deixava ainda mais maravilhada. — Sinto muito. Grouse que me ensinasse a ler. — Mas. sra. que meu eu mais jovem não conseguiu vencer -. uma que até então sempre estivera trancada — ou assim pensava eu. e se ele surgisse de repente eu poderia esconder meu livro atrás das costas e colocá-lo sob as almofadas da poltrona. citações frustrantes logo abaixo. E então. falta-lhes a persistência das crianças. é que não estou certa de que seu tio queira isso. Florence. A brincadeira foi logo esquecida. A senhora poderia me ensinar em sua sala. por favor. — Mas vou lhe dizer uma coisa: sobrou um pouco dos recursos para as despesas deste mês. — A verdade. nada falei da biblioteca e senti muito medo quando ela me olhou de forma estranha e disse: — Muito bem. Grouse. provavelmente devido à sua rigidez. com xilogravuras e gravuras coloridas. os adultos sempre partem para alguma outra coisa. e um dia estávamos brincando de esconde-esconde quando abri uma porta estranha. talvez o suficiente para uma nova boneca. Eu não contaria a ninguém. algo que fazia sempre com facilidade.

acabei decifrando o código. apesar de toda a sua conversa sobre fantasmas e monstros na casa. Naqueles primeiros tempos. Ele se satisfazia em ficar correndo para cima e para baixo pelas escadas e subindo nas prateleiras ou escondendo-se atrás das cortinas. Um dia. e com alguma dificuldade. ficar longe do lago. mesmo naquela tenra idade. passava horas e horas lendo. crianças. meu irmão Giles não possui muitos talentos. embora pudesse manter-se entretido pelos desenhos coloridos de pássaros ou borboletas por uma ou duas horas. a partir daí e daqui e dali. Lentamente. e como minhas ausências. tive a sorte de encontrar uma cartilha de criança e. No entanto. Grouse. que era fundo demais em alguns lugares. minha existência. era melhor parecer comprada. talvez oferecesse. . na biblioteca. Mantendo-se à parte. Depois que Giles chegou aos 8 anos e foi enviado para a escola. evitar o velho poço. pois. fazia muito tempo que haviam deixado de ouvir os passos inexplicáveis no escuro. Giles e eu ficávamos soltos. seriam notadas à noite. mas é muito bom para guardar segredos. e por isso mesmo era apenas uma daquelas coisas com que os adultos gostam de se preocupar e não oferecia perigo nenhum para nós. ao contrário de nós. aprendi a ler sozinha. ou então brincava lá fora. você podia confiar nele. esses mesmos adultos cautelosos não perceberiam o surgimento da ameaça real para nós. entretanto. pouca importância deu aos livros. meu quarto tornou-se um depósito de livros. podíamos brincar do que quisés— semos na maior parte do dia. mas sua recusa em me ajudar. embora despercebidas durante o dia.A menina que não sabia ler . foi o oposto e apenas estimulou minha determinação. Podia ir e vir como bem entendesse. passou despercebida por todos. Quando o levei até a biblioteca. embora estivesse coberto com tábuas e lajes muito pesadas para podermos levantá-las. Ficava na cozinha e roubava letras de John enquanto ele estava lendo o jornal. Tínhamos apenas duas restrições: uma delas. Assim começou a dissimulação em minha vida. Como os adultos gostam de ver perigo onde não existe. Eu. é claro.John Harding 4 diria de uma nova boneca? Eu disse sim para a boneca. Apontava para um "s" ou um "b" e perguntava a ele qual era o som. procurá-lo em um lago ou em um poço que em si mesmos não podem causar qualquer mal sem a in— tervenção da negligência ou malevolência humanas. longe de me desencorajar. a outra. para evitar o lago ou os olhos indiscretos da sra.

as histórias de Edgar Allan Poe. pretendo shakespearear algumas palavras. absorvi o Declínio e queda. os romances de Sir Walter Scott. não muito antes de Giles ser enviado para a escola. as pessoas da propriedade vizinha. os Van Hoosiers. Quis a infelicidade que Giles estivesse de cama naquele dia. Ele poetava o idioma. filho único que queriam desentediar. Quando crescer e tornar-me escritora. apareceram. passei para as histórias e logo consumi rapidamente o resto.A menina que não sabia ler . George Eliot. a sra. Por inventar palavras. ele simplesmente a inventava. simplesmente adorei. tão logo o jovem Van Hoosier e eu atravessamos as portas. Dessa maneira. estavam todos lá. Comecei com Romeu e Julieta. Parecia que. A ausência de Giles. Theodore. O que eu mais gostava em Shakespeare era a facilidade com que lidava com as palavras. e sei que me tornarei. Mas um autor destacou-se entre todos. Meu irmão é tão doente quanto eu sou saudável. Meu maior desejo sempre foi ver Shakespeare no palco. Depois. Hamlet. por isso entusiasmou-se por encontrar-me. Ele me incomodou. fiquei com medo de Otelo e aterrorizada com Macbeth. obcecado que estava para que eu permitisse que ele me beijasse. Os sonetos emocionaram-me. estranha paixão para uma garota de 11 anos. mas não existe nenhum teatro daqui até Nova York. de Gibbon. Grouse sugeriu que eu mostrasse o lago a Theodore. Whitman. Sentouse e examinou-me durante todo o chá. Shakespeare. Eu não tinha uma objeção . é claro. Jane Austen. alguns anos mais velho que eu. e o jovem não tinha quem o distraísse.John Harding 5 essa parte da casa era tão pouco frequentada que fiquei atrevida e pouco me preocupava com o fato de alguém me ver entrar na biblioteca ou em perturbar o pó que ali vivia. E já estou praticando. desesperançando minha grande ambição. No último verão. tendo que cuidar dele e me preocupar. apaixonei-me pelo pen— tâmetro iâmbico. Dickens. Chorei pelo rei Lear. deu ao meu visitante a chance de soltar as rédeas comigo. a poesia de Longfellow. Trollope. enquanto eu não tenho tempo para indisposições. eles tinham um filho. se não houvesse palavra para o que queria dizer. Keats. tem doenças suficientes para nós dois. viajando centenas de quilómetros até aqui apenas no verão para fugir do calor da cidade. Viviam em Nova York durante a maior parte do ano. recolhido em razão de uma forte dor de cabeça. Acima de tudo. Wordsworth e Coleridge. ele bate qualquer outro autor.

Em vez disso. Grouse e eu. não só beijada grosseiramente. John. Eis como acabava a ode de Van Hoosier. Pus-me alerta. conseguiu acompanhar os outros garotos de sua classe que viviam em lugares tão remotos quanto Blithe. pelo menos a sra. afinal.A menina que não sabia ler . Estávamos sentados lado a lado em um banco de pedra junto ao lago. não muito mais jovem do que Julieta quando se apaixonou. e estava prestes a levantar-me para ir embora quando então ele deixou escapar. Giles estava feliz e rindo.John Harding 6 determinada. a sra. é claro. depois de ter forçado o beijo a que alegava ter direito. ele parecia um varapau. sou alta para a minha idade. deixou-me chorando junto ao lago. que havia visto Hamlet. enquanto John perdia a batalha para o lábio trémulo. Em pouco tempo estava arrancando a página em que havia escrito e entre— gando-a a mim. e o colocamos no trem para Nova York. Tinha uma cabeça grande e olhos como bolas que saltavam das cavidades. eu senti. sentando-me na outra ponta. por considerar suas atenções aborrecidas. pois jamais fui dessas pessoas que gostam de ser olhadas de cima. Nós o levamos na carroça até a estação. Talvez. mas ouso dizer que se pode imaginar o que aconteceu. Bem. e realmente pensei que pudesse. esse rapaz não fosse tão iletrado quanto conseguia fazer parecer. Eu lhe daria permissão para o beijo que tanto desejava se ele escrevesse um poema para mim. apesar de novo. Choramos. onde ele seria recebido pelos professores da escola. o que me impressionou bastante. havia possibilidades aí. enrolou-me com um versinho e. sem metade da carne. sendo como era. mas afasteime dele. Grouse e eu. Garota idiota. en— direitei-me e olhei para ele novamente. mas o jovem Van Hoosier não era um Romeu. eu queria que ele me desse um dia de verão. onde não havia escola adequada. mas Theodore era ainda mais alto. mas também com uma poesia ruim. Ele não se lembrava . assim você entenderá por si mesmo: Quem é que sendo um pouco inteligente Não gostaria de beijar Florence? 2 Giles foi mandado para a escola no último outono quando tinha 8 anos e. ele puxou caderno e lápis e atirou-se à tarefa ali mesmo. sem dúvida porque devo ter mencionado Shakespeare. Agora. o que não me agradava. Propus-lhe um acordo. Parecia um inseto gigante.

não conseguia imaginar mais além. A ideia do meu pequeno Giles sendo brutalizado tomou conta de mim de novo justamente quando estava começando a me controlar. embora a princípio isso não parecesse ter importância. Eu compreendia suas falhas e o amava por elas. principalmente em internatos. se não casado de verdade. ocupou seu lugar. acenando e sorrindo para nós da janela. que era muito belo quando jovem. Grouse. Com cuidadoso questionamento da sra. meu coração pesou. situação que durou vários anos. Voltei para casa desolada. A jovem matriculou-se em uma série de cursos em uma faculdade de Nova York. Durante toda a nossa vida. Uma vez a bordo.A menina que não sabia ler . mas também as coisas da mente. tinha ficado noivo. uma dica ou duas que John deixou escapar e ouvidos atentos aos cochichos dos empregados. tinha sido casado. Fiquei feliz quando o trem finalmente começou a se movimentar e ele desapareceu em uma nuvem de fumaça. ou pelo menos profundamente apaixonado por uma jovem. se pudessem compartilhar não apenas o amor. mas foi muito difícil. . Meu tio. eu não sabia o que aconteceria com essa minha vida nova. era como se eu tivesse ficado sem uma parte de mim. O futuro parecia promissor até que ela meteu na cabeça (ou isso foi colocado ali por meu tio) que era inferior a ele tanto nas coisas culturais quanto intelectuais. além de Giles e do tolo Van Hoosier. sua vida juntos seria enriquecida. com seu jeito simples. ou. infantil. Giles e eu nunca tínhamos nos separado. A jovem era extremamente bonita. enquanto eu mordi o lábio e fiz o que pude para sorrir de volta. assim ficou decidido. A maioria das garotas da minha idade com as mesmas condições de vida há muito tempo teria uma governanta. mas não estava à sua altura em termos de educação e refinamento. mas eu sabia que isso não era para mim. eu sabia pelas minhas leituras como eram cruéis uns com os outros. como se podia ver nos quadros a óleo pendurados junto à escada principal.John Harding 7 de ter algum dia colocado os pés em um trem e. amputada. destrinchei as razões. Quando nos aproximávamos de Blithe House e a carroça saiu da estrada pegando o longo caminho ladeado por imponentes carvalhos tomados por ninhos. Como ele se sairia sem a minha proteção? Apesar de não ter experiência com garotos.

terminando por esnobá-lo intelectualmente. e. e o resultado foi que acabou considerando que havia superestimado meu tio. eu me enfiava na biblioteca. e ficasse toda cheia de ideias. rodopiando levemente pelas tábuas nuas. a fumar e a perpetrar todo tipo de ações obscuras. provavelmente começou a beber. eu percorria solitariamente a casa imensa. E logo meu tio voltou-se contra a educação das mulheres. onde não imagino que pudesse ter tantos livros. apesar de não lembrar muito bem quanto disso escutei e quanto minha mente criou. imagino. até onde posso dizer. punha-me a procurar novos lugares para esconder quando ele voltasse no final do semestre. o que acontecia com frequência cada vez maior. com bebida e cigarro. imaginando famílias inteiras e. enterrando-me naquele coração frio que mais e mais se transformava em meu verdadeiro lar. podemos imaginar o que aconteceu. que comecei a acreditar que fosse real. Bem.John Harding 8 Bem. pois Blithe era uma casa abandonada pelas pessoas. mas conseguia imaginá-lo em uma poltrona grande. Não tenho ideia de como passava seu tempo sem livros. Assim. Fechou Blithe House. Certa manhã me sentei com — lembro disso tão bem — Os mistérios do Udolpho. com o rosto pálido para combinar. Pelo menos acho que foi isso o que aconteceu. Enchia a casa com seus fantasmas. quando ouvia sons não identificados no sótão. os olhos vazios no rosto antes belo e agora tragicamente arruinado. como eu devia ter sido um dia. Para me desemocionar.A menina que não sabia ler . deixou a biblioteca mofando e mudou-se para Nova York. estava quase acabando de ler quando percebi um som do lado de fora da janela. abrindo as portas e perturbando a poeira dos quartos vazios. madura para fantasmas. teatro e filosofia. que imaginava de vestido branco. sempre acabava por me lembrar das brincadeiras com Giles. é claro. porque nunca o tinha visto. e depois de duas ou três horas. e quando isso se tornava desinteressante. que era inevitável que encontrasse outro. Não demorou muito para que se tornasse letrada. deitava-me em uma cama e imaginava que era a pessoa que havia perambulado por ali. Ele tam— bém se aculturou bastante. Em pouco tempo ela descarrilou. a voz de um homem chamando. mas via uma menina. não admitia a ideia de ratos. A imagem dessa menina. isso era um evento . versada em música e poesia. olhando para o espaço e pensando no que a educação havia feito com sua garota e como arruinara sua vida. Às vezes.

— Bem. Final— mente. Rápida e silenciosa como um rato. Obviamente havia acontecido algo que exigia minha presença imediata. Ouvi vozes na sala de estar ao passar na ponta dos pés e entrar na cozinha. . Por sorte. Ao ouvirem a porta. o hábito de falar sozinho. Nunca lhe permitiram. a voz começou a se distanciar. abri a porta. de costas para a porta. Fechei o livro cuidadosamente e o coloquei de volta em seu lugar na estante. Florence! Srta. E então a porta da biblioteca abriu e Mary surgiu chamando meu nome novamente. Meu coração disparou. Então. mas ela tem que estar em algum lugar. como eu. O som de Florence expirando. é claro. Florence!". a empregada. mas estava tão absorvida em minha história gótica que o barulho não atiçou minha curiosidade. Se fosse descoberta seria o fim da minha vida. vindo em minha direção.A menina que não sabia ler . voz humana do lado de fora. a voz de Meg: — Ela não está aqui. por isso sei que deveria ter ficado surpresa e saído para investigar ime— diatamente. cada vez mais alto. Murmurei uma prece para que não reparassem nos muitos livros em cujas lombadas eu deixara a marca dos dedos. e a voz de Mary. Saboreei mais algumas páginas quando ouvi passos. mas dessa vez dentro. Livros nunca mais. em vez disso. O som da porta fechando. estava sentada em uma cadeira com braços grandes. que conversavam ani— madamente. fiquei imaginando o que teria provocado aquele rebuliço. fechei-a atrás de mim e corri pelo corredor para colocar o máximo de distância possível entre mim e meu santuário antes de ser encontrada. Nenhum som. nas minhas pegadas no chão. até morrer completamente ou ser levada pelo vento do outono que estava ganhando força lá fora. Congelei. desde que. e todos os lugares eram particularmente silenciosos agora que Giles não estava e nossas brincadeiras às vezes barulhentas tinham sido interrompidas. Arrastei-me até a porta. encostei o ouvido. não adentrasse a sala. seguidos por uma enxurrada de pés no corredor do lado de fora. irritou-me. O que estaria fazendo aqui? A menina não sabe ler. Enquanto me dirigia para a cozinha. chamando "srta. invisibilizando-me a quem quer que estivesse ali. pode ser — respondeu Mary —. e ele não tinha. e mais gritos. sua tonta. saí. pois só John trabalhava do lado de fora. de mais de uma pessoa.John Harding 9 incomum em Blithe. onde interrompi Meg e a jovem Mary.

meu tio! Eu nunca o havia encontrado e sabia pouco a seu respeito. Seu rosto. limpando a farinha do braço com uma batida do pano de prato. afora que.. srta. — Não há nada de errado com o relógio. — M-mas isso é impossível — murmurei. de acordo com seu retrato. mas é você quem está errada. Whitaker quando ela chegou. Indicava três horas e cinco minutos. e então parei. mocinha — rebateu Meg. rosado com as veias partidas como se fossem o delta do Mississipi e seus tributários. . Fiquei grudada onde estava. -Você tem ideia de que horas são. Ela se virou e saiu para o corredor. — balbuciei. Exceto. Onde é que você se meteu? Antes que eu pudesse responder. — O relógio deve estar errado. -Você tem uma visita. — Não se preocupe. Uma visita! Quem poderia ser? Eu não conhecia ninguém. A sra. o que seria endossado pela srta. senhorita? — Ela apontou a cabeça na direção do grande relógio pendurado na parede oposta ao fogão e meus olhos seguiram os dela para ver o mostrador. s-sinto muito. porque ela e todos os criados tinham vindo para Blithe somente depois que eles morreram. é claro. senhorita. minha querida — ela disse amavelmente. senhorita. — S-sra. Grouse dizia que nada sabia. Ele! Então era meu tio! Agora talvez eu pudesse fazer a ele todas as perguntas que queria fazer. — Oh. era muito bonito. Grouse. A respeito dos meus pais. ouvi o som de passos atrás de mim e ao me virar fiquei cara a cara com a sra. ou pelo menos livros..John Harding 10 elas pararam de falar e ergueram os olhos na minha direção com um misto de surpresa e alívio. venha comigo. — Bem. Grouse. sobre quem a sra. A respeito da minha educação. — Peço desculpas. não deve deixá-lo esperando. Florence — disse Meg.A menina que não sabia ler . uma jovem de verdade e não um nome em uma carta. Talvez quando me visse em carne e osso. Não pode ser tão tarde. Deixou a casa inteira preocupada. exibia um grande sorriso. graças a Deus você está aqui. talvez me permitisse ter uma governanta. Certamente vai ouvir umas boas da sra. Grouse. Grouse parou no corredor e voltou-se para mim.

com o ar limpo.. Grouse. por que estaria ocupada? Não sabe sequer costurar. — Poderei vê-la todos os dias — disse Theo. é claro. — Ela fez um aceno na direção de Theo. eu não entendo. e foi imediatamente atacado por um acesso de tosse que durou algum tempo até ele conseguir tirar do bolso do casaco uma pequena garrafa de metal com uma bola de borracha. segurando o chapéu. Grouse parou na entrada da sala de estar e acenou para que eu passasse à sua frente. sr. como se fosse um vidro de perfume. Assenti com a cabeça. — Acho que sim. Giles foi para a escola. Depois. — Não que tenha asma. srta. Grouse entrou na sala. — E-eu não sei muito bem — murmurei. Poderão fazer companhia um ao outro. Ouvi alguém tossir. — Posso visitá-la. Isso me deu vontade de tossir também. então? — disse Theo. mas só depois do almoço. é claro. Ela acha que estarei melhor aqui. — Theo Van Hoosier! O que está fazendo aqui? Não deveria estar na escola? — Asma — ele disse. Nervosa. — Talvez esteja. mas que tenha vindo nos visitar. em tom triunfante: — Eu tenho asma! — Eu. por favor? Ele ficou parado. — Eu tenho asma. A escola me mandou de volta para casa.John Harding 11 Talvez eu conseguisse cativá-lo e mostrar-lhe que não era como ela. — Se permitir. Ele apontou a .A menina que não sabia ler . Van Hoosier. no campo. Minha mãe me trouxe para cá para que eu me recuperasse. andando pela casa sozinha. Florence? — perguntou a sra. Florence ficou num estado deplorável desde que o sr. — Por que. entrei e parei.. a mulher que a cultura havia afastado dele. Florence? Eu sabia que gostaria.. A sra. — Isso significa que posso. A srta. A sra. mas isso estava fora de cogitação. exibindo um sorriso. — Ocupada. Senti vontade de cuspir em seu olho. — Isso não é ótimo. Ele caminhou na minha direção e sorriu. — Esplêndido! — ele disse. srta. desculpando-se. ocupada.. passando os dedos pela borda.

não tivesse despertado a mente da sra. o que pareceu acalmar a tosse. o que provocou a tosse e o chiado novamente. ao me livrar de Theo. abaixando-se ao mesmo tempo que a sra. Então. recolocando a garrafa no bolso. Grouse já estava tão farta de Theo Van Hoosier que não pensou em me interrogar a respeito do meu paradeiro mais cedo. Parece que funciona. Seguiu-se um silêncio estranho enquanto Theo absorvia lentamente que o assunto não era tão interessante para mim quanto era para ele. quando ele parou de tossir e estava de novo passando os dedos pelo chapéu. mas não para mim. Não entendi. lembrei-me de algo a respeito da . jorrando uma névoa fina em sua boca. durante um almoço tardio. — O primeiro é extraído das folhas do manjericão. Bradley. esperando que. Lancei um olhar curioso para ele e depois para a garrafa. Grouse para minha anterior ausência. com todas as repercussões aí envolvidas. ele conseguiu deixar cair o cha— péu.John Harding 12 boca da garrafa para o rosto e apertou a bola. Mas a questão era mais fácil de apresentar que de resolver. teria que me certificar de que não deixaria de aparecer para outra refeição novamente. minha existência ficou desaconchegante. o outro é uma erva chinesa usada há muito tempo no tratamento da asma. Bradley teve a grande ideia de colocá-los na forma líquida e com o spray jogá-los na garganta para absorção rápida. mostrou um sorriso fraco e disse: — Posso visitá-la agora. eles bateram a cabeça um no outro. então? Afinal.A menina que não sabia ler . — Tulsi e ma huang — ele disse. em que a sra. Ainda não almocei hoje. — Talvez tenha passado a hora — eu disse -. O dr. — Invenção do seu dr. Em primeiro lugar. E então me virei e deixei a sala com o máximo de elegância que consegui. já passou a hora do almoço. Senti-me seriamente prejudicada. Eu não tinha relógio. Ele está fazendo experiências e sou sua primeira cobaia. por medo de que me encontrassem da próxima vez que saíssem à minha procura. Grouse para pegá-lo. 3 Subitamente. Finalmente. Então.

consolando-se com alguns versos ruins. por isso era pouco provável que isso fosse acontecer agora. como tinha visto John fazer com outros relógios da casa. mas. pois meu dedinho havia tocado em algo pendurado em um gancho pequeno. Se a sua asma era suficiente para impedir que fosse à escola. Algo. quando ia sair de mãos vazias da caixa. e lá estava a chave. Além disso. Era grande. escondido em um canto escuro. Eu havia reparado nas horas ao deixar a cozinha e por garantia acrescentei quinze minutos para compensar o tempo de chegar à biblio-teca e encontrar a chave.John Harding 13 biblioteca que poderia desdificultar meu problema e. O tiquetaque do relógio tinha um volume satisfatório e pensei que finalmente não me sentiria mais sozinha ali. tendo o relógio resolvido um problema. e tentei encontrar a chave. pensei que teria azar. A princípio. mudo e despercebido. pois John já me avisara que o excesso de corda matava muitos relógios. meus livros e algo próximo de outro coração batendo. Fiquei com os dedos cruzados e o imaginei asmatizado em casa. tomando cuidado para parar quando encontrasse resistência. abri a caixa. deslizei e abri caminho até lá. Pois se por acaso alguém se aventurasse pela biblioteca. além disso. Naquela tarde esfriou e nossa primeira neve do outono caiu. certamente não poderia caminhar pela neve com ela. cuja perspectiva de visitas diárias quase me desemocionou por ter encontrado o relógio. ninguém jamais estivera ali em todos os meus anos de bibliotecagem. Eu precisava saber as horas durante minha permanência ali ou seria descoberta de qualquer maneira. Estremeci e afastei esse pensamento. Como não podia deixar de ser. Cautelosamente. É claro que. embora não tão alto quanto Theo Van Hoosier. assim que terminei de comer. Fiquei assistindo alegremente. Eu a inseri no orifício da frente e comecei a girar. e logo esse alguém se poria a imaginar quem estaria lhe dando corda até descobrir quem havia estado ali. logo criou outro. era um risco que eu teria que correr. mesmo que apenas na regularidade. torcendo para que isso significasse que Theo Van Hoosier não teria como fazer sua visita. maior que eu. o tique-taque era tão alto que não poderia deixar de ser percebido. Que seja. Seria uma pena se acontecesse. .A menina que não sabia ler . que não era Theo Van Hoosier. estava um relógio cuco. senti um tilintar. Estaríamos eu.

e aninhei-me nelas com dois cobertores fazendo uma cama e o terceiro estendido por cima do encosto . se encontrasse com alguém no caminho. É claro que seria arriscado transportá-los até a biblioteca. então precisava ser feito. Quase derrubei minha carga. Era um fardo pesado e estranho. então não sou a única a fazer isso!). menor o risco. eu pensei. falando consigo mesma (Ah.John Harding 14 Com sua promessa de salvação. corri para baixo. a neve dificultava-me em outros aspectos. eu não conseguiria ler de qualquer maneira. porque.A menina que não sabia ler . assento com assento. vou ter que voltar para pegar. Eu nunca ficava muito tempo na biblioteca no inverno porque não havia lareira e era muito gelado. Em vez disso. Ouvi um leve gemido de agradecimento enquanto a escada se livrava de seus pés e depois passos nervosos e apressados ao longo do corredor. No entanto. esperando para ouvir outro passo. mas saí do quarto e fechei a porta atrás de mim com a habilidade de pés flutuantes. seria completamente inexplicável. ao contrário de um livro. Não havia nada a fazer senão parar e aguardar meu destino. e porque antes eu sempre tive Giles para me manter distraída em outros lugares. de uma forma ou de outra seria pega. Mas ele não veio. sem os cobertores. Ali encontrei um quarto cuja cama despida estava coberta apenas pelo pó. pois um seria tão difícil de esconder quanto três. De nada adiantaria virar e correr. — Muito bem. quanto mais manter a mente entorpecida concentrada. meus dedos ficaram tão frios que eu mal conseguia segurar o livro e virar as páginas. mas nos pés tinha um baú de carvalho com três cobertores grossos. eu não poderia simplesmente esconder um cobertor dentro do vestido. Segurei a respiração. Estava na metade das escadas de trás e prestes a fazer a volta quando ouvi o inconfundível ranger de um dos degraus abaixo. atravessei a passagem correndo e escondi-me atrás da porta da biblioteca. Ou melhor. Apesar de tentar bravamente. Saí da sala e através da escadaria dos fundos subi até o andar de cima. Esperei alguns instantes até o som desaparecer. ouvi a voz de Mary. Aí juntei duas das grandes poltronas de couro. Maldita. Decidi levar os três de uma vez. onde foi que coloquei aquela coisa? Eu tinha certeza de que estava em meu bolso. e quanto menos viagens fizesse. leitora determinada que sou. os três formando uma pilha tão alta que eu mal conseguia enxergar por cima deles. entretanto. a queda da temperatura. E.

imagine se eu fosse para a biblioteca e o jovem Van Hoosier chegasse enquanto eu estava lá. e começou a falar que eu deveria fazer algo útil.A menina que não sabia ler . apesar dos meus esforços para programá-lo. até o relógio bater um quarto para a uma. meus dias começaram a ter um novo padrão. Assim. quando eu desaninhava. que se pôs a perguntar como nunca havia reparado nisso. ele se mostrou tão pouco confiável quanto era alto. O pior foi que meu fazer nada chamou a atenção da sra. separei as poltronas novamente. Havia a possibilidade remota de que alguém ao entrar na sala não reparasse no relógio ou não depreendesse o significado correto caso isso acontecesse. Ela até me fez sentar um dia e começou a confundir-me com alguns pontos. Pensei que fosse perder a cabeça. Imaginei os quatro pilares. Eu não tinha como saber a que horas ele poderia chegar e. Por outro lado. Li em algum lugar que o tédio gera grandes ideias e assim foi comigo. mas é claro que mal tinha um. ela não imaginava como eu sempre havia conseguido me fazer sumir. e por isso ele precisava ser construído todos os dias. Onde eu estava errando era na minha associação da leitura com a biblioteca. Ficava sentada girando os polegares. Ao deixar a sala. Mas. quando na verdade tudo de que eu precisava era um lugar onde pudesse ficar só e de onde pudesse ficar de . escorregava para fora da sala e corria para o almoço. Agora. contentando-me com meus livros. minhas tardes se complicaram. Pela manhã. Foi isso o que fui obrigada a fazer nos primeiros dias de Van Hoosier. Desculpava-se alegando que tinha um tutor e ficava à sua mercê. como aprender a costurar. se ficasse no escritório ou na cozinha esperando por Theo e ele chegasse tarde. outras vezes. só chegava depois das quatro. Procurariam por mim e ou o meu segredo seria descoberto ou mais tarde o arrancariam de mim. estando os relógios sempre presentes em muito cómodos e algo frequentemente despercebido. Grouse. Mas a ninguém escaparia meu ninho. Às vezes aparecia logo após o almoço. eu perderia horas de precioso tempo de leitura. dobrei os cobertores e os escondi atrás de uma chaise longue. assim que Theo Van Hoosier começou a aparecer. a olhar pela janela para a neve ou brincando sozinha.John Harding 15 das poltronas fazendo um dossel. ia na ponta dos pés até meu ninho. Seria tão ruim quanto aquela vez em que perdi o almoço.

mas não havia ponto de apoio. naturalmente. Blithe House tinha duas torres. Estava lacrimosa de frustração. o que. nunca foram tealizados. para ir do quarto no primeiro andar para o outro no mesmo andar na parte vizinha da casa. Tentei colocar os pés em uma placa para pular. o acesso foi-me completamente negado. outras tantas tábuas tão grossas quanto. primeiro era preciso descer as escadas da torre até o térreo. pois cada uma tinha sua própria escada.A menina que não sabia ler . Além disso. Mas o que as torres prometiam era uma visão dominante da entrada. qualquer entrada tão árdua e difícil seria tão lenta que eu estaria entregue à descoberta na cena do crime se alguém decidisse aparecer por ali. proximidade necessária porque eu teria que levar livros para lá. pensei. e não eram mais usadas. então só consegui cortar um dedo para meu azar. para evitar que Giles e eu sofrêssemos acidentes fatais. Atravessadas no fundo da escada. parti para a torre oeste apenas para dar de encontro com o mais terrível destruidor de esperanças aos pés da escada. pregadas à coluna central. como as placas e pedras sobre o poço. Além disso. mas elas estavam presas firmemente. várias placas grossas. a torre oeste tinha outra grande conveniência: ficava a apenas um pequeno corredor e uma escada de distância da biblioteca. Imitavam o gótico. armada com alguns livros e pronta para uma tarde de leitura e vigília por Van Hoosier. Tão logo pensei nisso encontrei a solução. . cheias de ameias. uma na ponta de cada ala. Consequentemente. Do quarto mais alto de ambas. ir até uma das escadas que levavam para o resto da casa e depois subir de novo. mesmo que tivesse conseguido pular. Em toda a minha conspiração havia algo de que eu esquecera. colocadas ali. Por isso eu podia ter certeza de que ninguém nunca iria até lá.John Harding 16 olho na entrada da frente para ver quando Theo Van Hoosier chegasse. Se eu pudesse chegar lá sem ser notada. A função das torres sempre fora mais decorativa que prática. percebi. como nas antigas fortalezas. Coloquei os livros no chão e tentei tirar as placas. Suspeito que nunca tenham sido. e os andares de cirna só eram alcançados a partir do chão. na tarde seguinte. bloqueando completamente a subida. eu poderia ver toda a sua extensão curvilínea. e a da ala oeste estava além dos limites permitidos para Giles e eu porque precisava desesperadamente de reparos. com as limitações impostas por meu tio. poderia ler e espiar de \( / em quando a entrada. assim.

Era mobiliado com parcimônia e parecia ter sido um estúdio algum dia. de onde podia ver não apenas a entrada. Parei e olhei para baixo com satisfação para a barricada.John Harding 17 Peguei meus livros e tinha começado a me afastar. então. a própria Rapunzel acima do mundo que eu conhecia. se eu me sentasse à escrivaninha poderia espiar a en-i rada e desde que não me mexesse excessivamente ninguém me veria. Grouse esticando a perna sobre o corrimão. graças às pernas compridas. ( o loquei os livros no chão e fui fazer a varrição. mas. Voltei correndo. dei a volta em torno da escada. mas estavam todas presas. As janelas tinham cortinas nos quatro cantos. e minha primeira tarefa era conseguir mais cobertores. mesmo que fossem espertas o bastante para pensar nisso. em minha torre de contos de fadas. A ventilação dos painéis faltantes significava que o quarto seria sempre frio. Alguns dos pequenos painéis dos vitrais estavam faltando. Subi até o primeiro andar. Olhei ao redor para meu novo reino. por isso uma fina corrente de ar soprava pela sala. Dessa maneira. e diante da escrivaninha uma cadeira de girar de capitão. Tinha certeza de que ninguém seria capaz de me seguir.A menina que não sabia ler . eu estava maravilhada. Podia-se tirar na cara ou coroa se havia mais pó na biblioteca ou nesta sala. Eu tinha esvaziado meu velho . Não conseguia imaginar Mary ou a gorda Meg ou a gorducha sra. mostrando que o vento não era a única coisa que entrava por esse caminho. senhora de tudo o que achara. e percebi que precisaria ser cuidadosa e manter a cabeça abaixada para não ser vista de baixo. Não importava. Entediava-me ter que descer até o térreo e depois voltar a subir ao primeiro andar para minha gatunice. mas também o telhado do prédio principal. sentindo quanto ficaria segura em meu novo domínio. com janelas em todos os lados. e havia fezes de pássaros no assoalho empoeirado. poderia passar pela barricada e então. colocando os pés nos vãos. e eu não teria gostado de apostar nisso. Fiquei ali. depois até o segundo e finalmente passei por um alçapão até o terceiro. levantei-me e descobri que poderia subir as escadas pelo lado de fora. pular o corrimão e subir a escada. o couro por sua vez coberto por uma fina camada de mofo. Havia uma chaise e uma escrivaninha com tampo pesado de couro. cerebrei uma ideia. o mais alto. Ainda assim. O topo da torre tinha apenas um quarto. empurrei os livros através de um dos vãos do corrimão. profundamente desconsolada com a perda das minhas tardes justamente quando acre— ditava que as havia recuperado. mas não havia outra maneira.

pensando — não sabia por que — em Giles. cobertada em minha escrivaninha. Afinal. longe na escola. antes de segui-la. Então ali estava eu. De repente senti uma pontada. meu Deus. e perguntei-me se estaria feliz. E então ela abriu a porta do corredor principal de novo. — Ai. Lembrei que uma vez havia cortado em duas uma carta — a rainha de espadas -. pegando uma pá de lixo para a qual evidentemente tinha varrido algo. talvez pensando em mim. você verá. Quando estiver aqui há tanto tempo quanto eu. — Fantasmas. esperando não ser vista pelos vãos. pelo menos até começar a escurecer. Meg ergueu uma das so— brancelhas. Espionei-as por um buraco na barricada. princesada em minha torre. baixando a guarda. você verá.A menina que não sabia ler . mas descobri que havia ficado sem nenhuma. Examinei o que havia feito. bem no meio. roubei dois dos três cobertores que havia por luíxo e depois recoloquei as colchas. porque não poderia ter velas delatoras ali. quem em Blithe — além de um fantasma trémulo — roubaria um cobertor? Certifiquei-me de que o caminho estava livre e corri pela escada até o térreo. e se uma criada refizesse a cama provavelmente nao suspeitaria. provavelmente — disse uma voz que reconheci como pertencente a Meg. Mas encontrei alguns quartos de hóspedes mantidos de prontidão para o caso de aparecer alguma visita e. Sem tempo para esperar! Atireime de cabeça sobre o corrimão nas escadas. — Dizem que Blithe é cheia de fantasmas. .John Harding 18 baú de cobertores para a biblioteca e não tive a fortuna de encontrar outro. que foi isso? — era a voz de Mary. pensando em fazer duas rainhas de uma. Ela desapareceu lá dentro. — Reconheço que trabalho aqui há cinco anos e vi muitas coisas. Tinha acabado de transportar-me para o lado de fora da escada quando a porta do corredor principal foi aberta. mas não conseguia imaginar por que alguém notaria. tremendo um pouco quando soprava o vento. acredita? — A voz de Mary traía certa falta de confiança nas palavras que havia murmurado. — Ora! Você não acredita nessas bobagens. Mary fez uma careta nas costas da outra. pelo corredor principal. mas só e podendo ler. arranquei as colchas. uma imagem em cima e a outra embaixo. onde caí atrás da barricada. Havia deixado as camas mais magras. e atirei os cobertores pela barreira ao pé das escadas da torre.

se eu demorasse mais e ele aparecesse sem ser visto no exato momento em que eu virasse as costas. quando ia para o quarto da torre depois do almoço. latim e grego. decidi medir quanto tempo Hieo Van Hoosier levaria para atravessar a entrada.John Harding 19 com duas partes inúteis por si só. Dessa maneira. caso contrário. Bibliotecária as manhãs com livros sólidos. filosofia. era que não podia ter um lapso de concentração. Se não estivesse. para ter certeza de que Van Hoosier não estava à vista. não poderia continuar com o mesmo livro de tarde. carregando-os aumentariam as probabilidades de ser pega. As manhãs na biblioteca e as tardes na minha torre. três Shakespeares. onde eles ficariam até serem terminados. que era uma parte da minha pessoa. que Giles estivesse ali para dividir comigo. dois Shakespeares. e para ter certeza de que meus segundos tinham o tempo certo imaginei-os assim: um Shakespeare. A única mosca na minha sopa. antigos mitos e Edgar Allan Poe. não podia entregar-me demais às palavras que flutuavam diante dos meus olhos e na minha cabeça e desconcentrar-me do meu destino. Como eu mediria o tempo. Entreguei-me à sra. segundo por segundo. se não tinha relógio? Contei. italiano. Resolvi por isso fazer um contrabando de livros para a torre (onde havia poucas chances de ser descoberta). Era tudo que faltava para a felicidade. desde o momento de visibilidade da torre até o momento em que desaparecesse de vista sob a varanda da frente da casa. Isso significava que. pois jamais tinha ouvido alguém falando-as. Assim. calculei que o jovem Van Hoosier ficaria à vista por quatro minutos e meio. Raciocinei que seria tolice ter que ficar devolvendo livros para a biblioteca depois de ter terminado meu dia na torre. porém. e pensei que assim era eu sem Giles. Kadcliffe. história e afins. as tardes eram meu momento de fantasia. ele poderia chegar até a . também comecei a ensinar-me línguas e a elaborar um conhecimento passável de francês. apropriada para minha torre. que tinha uma visão direta da entrada. Por isso comecei minha nova vida. No dia em que ocupei minha torre. Como queria que começassem as férias logo para poder mostrar a ele nosso novo reino. se fosse ler alguma coisa pela manhã.A menina que não sabia ler . Mas não estava. apesar de não garantir minha pronúncia nas duas primeiras. e que meu dia de leitura teria duas partes separadas. primeiro espiava o escritório. então eu tinha quatro minutos e meio para chegar à torre.

normalmente estava em duzentos-Shakespeares e tinha que subir pelo lado de fora da escada. tão mais vali. Não só isso. vi o chapéu de Van Hoosier desaparecendo sob a varanda da frente. ao olhar pela janela. tirar os sapatos (por medo de que meus passos correndo fizessem barulho no piso não acarpetado) e entrar no quarto da torre a tempo. é claro) e vê-lo majestando seu caminho Dela neve. Quando eu chegava ao fundo da escada da torre. julguei-o pelas aparências. Grouse disse-me para esperar na saleta. atirar-me para a parte de fora e entrar no corredor principal de novo antes que eles começassem a gritar por mim. atirar-me pelo corrimão. imaginei-me impermeabilizada contra o garoto Van Hoosier. dois-Shakespeares e.John Harding 20 porta da frente e ficar fora de vista de novo antes de eu chegar ao meu posto e assim ocasionar toda a perigosa chamada e procura por mim. Deixe-me dizer que era preciso esticar as pernas para chegar à torre naquele tempo. voltava para o escritório novamente. Se acontecesse de eu encontrar John ou Mary ou Meg ou a sra. pular o corrimão. ou seja. se alguém falasse comigo e eu perdesse o número. Grouse e me atrasasse mesmo que por alguns segundos. tive que voltar pela escada. A sra.A menina que não sabia ler . isa do que sua poesia jamais seria. Ouvi-a abrir a porta da frente e convidá-lo a sacudir a neve das botas. Houve uma ocasião em tinha acabado de entrar e. . 4 Naquele primeiro dia em que nevou. mas cometi o mesmo erro que muitas pessoas cometiam comigo (quem imaginaria que eu tinha dois ninhos de livros? Quem imaginaria que eu francesava e shakespeareava?). isso impossibilitaria minha jornada no tempo alocado e significaria que eu teria de voltar e checar a entrada e começar tudo de novo. durante todo o tempo eu tinha que ficar contando um-Shakespeare. que se dividiria em duas sem a camisa engomada para mantê-lo na vertical. Mas também jamais alguém me disse que ter uma vida secreta seria fácil. percebi. Eu o via como uma espécie de erva alta forrageira. Ressenti uma admiração por ele naquele dia ao olhar da saleta para a entrada (ainda não tinha encon-trado meu refugio na torre. seguindo-se um in-tei valo de pisadas prodigiosas. Devoção obstinada e canina por mim.

— Parece que sim — atirei de volta. de um lado para outro. quando voltamos a nos sentar. aqui estamos. finalmente -. a porta da saleta abriu-se e a sra. Eu não sabia o que fazer com ele. e no fato de adjetivar nosso convidado como jovem. — Bem — ele disse. Grouse disse: — O jovem sr. Nisso. posso? Ele o entregou agradecidamente. como se eu estivesse muito acostumada a visitações. a sra. E. e seu olhar trágico provocou-me uma pontada de culpa. também. Finalmente. Foi obrigado a voltar a estalar os dedos. . Olhei duro para suas canelas e ele captou meu olhar e. Eu o convidei a sentar-se. — O quê? Ele sabia que estava sendo gozado. pois agora ele não tinha nada com que mexer. Então ele disse: — Ah. estendendo a mão irritada. e não a anfitriã. Na verdade. que ela era a governanta e ama-seca. Sentou-se e ficou girando-o para cá e para lá. rodan-do-o com os dedos de uma mão para a outra. desta forma e daquela. Sentamo-nos e sorrimos educadamente um para o outro. percebi que podia ter removido o chapéu. levantei-me e aproximei-me dele. dobrando-se como se tivesse dobradiças nos joelhos e no quadril. mas não conseguia entender como. Quando fechou a porta atrás de si. quando o deixou cair pela terceira vez. Posicionei-me em uma poltrona com braços para impedir qualquer possibilidade de aproximação e ele se acomodou no sofá. eu o exacerbara.Sentamo-nos em silêncio por mais alguns instantes. Saí para o corredor e pendurei-o com seu casaco. Mas. eu disse: — Por favor.John Harding 21 Pouco depois. mas não tinha removido o problema. Como se nós duas não soubéssemos que eu estava ali sentada esperando por ele e. sim. Finalmente pegou um papel dobrado e começou a desdobrá-lo. pôs os dois pés firmemente no chão. percebi que havia até negligenciado o chapéu de Van Hoosier. Van Hoosier está aqui para vê-la. Muita neve. — Fria e branca — eu disse. — Está muito frio lá fora. ou cruzar e descruzar as pernas. Parecia insultado. e ele não sabia o que fazer com seu chapéu. descruzando as pernas. quase ia esquecendo — e começou a procurar nos diferentes bolsos de seu casaco e da calça numa movimentação desçonvinte de desconhecimento da localização de algo. Grouse revelava que ela mesma não sabia como se comportar. senhorita.A menina que não sabia ler .

como seu verso. sr. embora. quando sugeriu que saíssemos. mais uma vez. quanto menos se falar a respeito do segundo verso Van Hoosier. nesse caso. era uma referência ao meu suposto número de admiradores. especialmente por não carregar a ameaça de um beijo. você não precisa conceder um beijo . hein? — Não muito — eu disse. pois se ficássemos dentro era . melhor.A menina que não sabia ler . *** Nesta última ele se revelou tão bom quanto sua palavra. derrubando uma mesinha lateral aqui ou tropeçando em um tapete ali. está tudo bem. felizmente. ele se apresentou todas as tardes nas semanas seguintes. onseguir. onde parecia que um ou outro deles estava sempre se agitando involuntariamente. Depois de visitar-me algumas vezes. Descongelei o rosto e recostei-me na poltrona.John Harding 22 — Escrevi outro poema para você. você vai ver. seu corpo esguio rimava desajeitadamente e esquadrinhava mal. pode atirar. — Bem. Ficava impossibilitado de sentir-se à vontade em ambientes fechados. O olhar que lancei em sua direção era vários graus mais frio que a neve e quase suficiente para fazê-lo fugir de volta para lá. Não há nenhuma questão envolvendo beijos desta vez.lesta vez. mas continuarei tentando in . Seus membros compridos não se encaixavam facilmente em uma saleta. Van Hoosier. — Maldição — ele disse amavelmente -. por isso. — Ainda não está bom. comecei a ver que. mas no enfrentamento da neve também. *** Bem. não. na quarta ou quinta visita. não só na versificação. Não importava se caía uma nevasca. Ele amassou o papel e guardou a bola no bolso. O máximo que se poderia dizer era que estava longe de ser tão ruim quanto o primeiro. eu não tenha ficado muito impressionada com a rima final de "Florence" e "crescente". ele era como uma grande garça epiléptica. — Ah. Theo ergueu os olhos do papel e viu minha expressão. trovoava ou ventava como se fosse o fim do mundo lá fora. Quando acabou de ler. não ao meu tamanho. fiquei aliviada. Não sou de desistir.

deixando no chão aquela figura disforme. mas eu podia imaginar como ele ficaria perturbado.John Harding 23 só uma questão de tempo até que alguma porcelana fosse quebrada. com sua asma e tudo. temendo pelo que iria encontrar. e senti-me culpada. corri até ele. Não que Theo tivesse perdido sua inaptidão neste novo elemento. O que fez várias vezes. como tinha feito aquilo com Giles. quando o ar está seco e limpo. — Que nada. não que eu me importasse. sem conseguir parar de bater os dentes. de forma que Theo. e então. e de repente congelei até o fundo da alma. Era tão cômico que na primeira vez desatei a rir antes de conseguir con — trolarme. como a pilha de ossos não se mexesse. Quando isso acontecia. Então ele sugeriu que fizéssemos um boneco de neve. mas sim que este elemento estava tão nu e vazio de obstáculos que ele nada mais tinha a fazer senão cair no gelo. sair no frio. porque eus arremessos eram muito ruins e acertavam mais a si mesmo do que a mim. Seria seguro estar com ele na neve e no gelo com todo aquele desajeitamento? Seus pais não me culpariam se um de seus braços ou pernas se quebrasse em vez da porcelana? Deus sabe que havia porcelana suficiente. Só depois de colocarmos nossos casacos é que comecei a ter dúvidas. — Isto é inteligente? — eu disse. vendo isso. Mas ele sempre se recompunha com uni sorriso e depois de um tempo começamos a fazer bolas de neve e atirá-las um no outro. Então saímos e. pois não havia nada de valor em Blithe e ninguém para se preocupar de qualquer maneira.A menina que não sabia ler . nos divertimos por algumas horas. e então tudo desmoronava como Uma cadeira dobrável. para minha surpresa. porque tal qual moinhos de vento seus grandes braços derrubavam a cabeça de qualquer um que estivesse no caminho e suas pernas balancavam no ar como as de marionetes. e ele ficou terrivelmente encoberto. Pensei nele encarcerado em algum lugar enquanto eu estava ali me divertindo sem ter pensado nele uma única vez durante duas horas inteiras. — O que você quer dizer? — Bom. mas estávamos apenas na metade da cabeça de tamanho considerável quando me lembrei do inverno anterior. enquanto ele se encachecolizava. um dia frio como hoje. *** . era preciso ficar longe. minha grande surpresa. Isso é a melhor coisa. começamos. São os dias tristes e úmidos que penetram no meu peito e me fazem tossir. insistiu para entrarmos.

A sra. maravilhava-se com a rapidez com que a escola o ensinara a escrever. mas não me importo. Grouse esteja bem. eu não deveria saber ler por mim mesma. faltando-lhe a minha facilidade com a palavra escrita. ou puxões de cabelo ou queimaduras? Ou seria apenas uma figura de linguagem. Espero que Meg e Mary e John estejam bem.John Harding 24 Como se meus pensamentos tivessem sido mexidos pelos do próprio Giles ou os meus tivessem mexido os dele. no dia seguinte chegou uma carta. .A menina que não sabia ler . entretanto. Temos um tempo para isso e todos os garotos devem escrever. embora eu tivesse feito tudo o que podia para ensiná-lo a ler e a escrever. totalmente ignorante desse fato. é claro. Grouse. descobrir praticamente tudo. tão letrada. tive que ouvir os palpites da sra. é claro. obrigado. Mas quando eu a tive para mim. que era. Sou muito lento nas aulas. quanto meu próprio irmão. depois a coloquei debaixo do travesseiro para ver se assim eu me sentia mais próxima do pobre Giles. a menos que tivesse sido instruído a não preocupar as pessoas de de sua casa falando a respeito disso? A carta arrancou-me lágrimas e naquela noite tentei decifrá-la novamente. Espero que esteja bem. Não estou com saudade de casa. Querida Fio. mas com as risadas eu não me importo tanto. Grouse sobre o que poderiam significar os retorcidos hieróglifos. Ele não era um grande correspondente. uma forma de dizer que não sentia saudade de casa? Por que nem sequer mencionar o fato. Vou terminar agora. A pobre mulher. só conseguiu desbravar uns três quartos e mais ou menos inventou o resto. consegui com longo estudo. Os outros garotos riem de mim por causa disso. Antes de colocar as mãos na carta. Estou muito bem. ou iletrada. Giles O que significava "com as risadas eu não me importo tanto"? Tanto quanto o quê? Havia outras coisas com as quais ele se importava mais. e conhecimento de Giles. Seu irmão que a ama. Vou escrever para casa aos domingos. beliscões. ou tapas. Espero que a sra. pois. intimidação física talvez. apesar de suas cartas serem tão mal for— muladas que levava algum tempo para entender até uma breve epístola como aquela. eu suspeitava.

A neve perfeitamente branca. estava na torre e ergui os olhos do livro. por essa mesma razão. pelo meu ritmo de leitura. subitamente esquecia que sete ou oito páginas. pela primeira vez compreendi que não havia nada inteiramente bom e nada inteiramente ruim. Com alguma margem para erro. A cena era um retrato perfeito do meu novo estado de espírito. e se ali estivesse igualmente sem Theo à vista. eu não tinha relógio e não me imaginava passando um relógio cuco por sobre o corrimão e arrastando-o escada acima.John Harding 25 5 Você não deve deduzir a partir da tarde na neve com Theo Van Hoosier que eu era toda alegria desligada durante suas visitas. ou até dez ou catorze. pela janela. eu não tinha como saber se Van Hoosier tinha passado pela entrada sem ser visto durante essa negligência. voltar correndo para a torre. três e meio. eu calculava o tempo de leitura de algumas páginas pelo relógio cuco.A menina que não sabia ler . Um dia. Com um bom livro como Jane Eyre. Havia muita coisa a desligar minha alegria. Não eram apenas as longas e frequentemente inesperadas interrupções que as visitas causavam. se não estivesse ali o visitante. Havia também todos os momentos em que ele não aparecia. isso significava a cada quatro minutos. vi uma gralha bicando alguma coisa na neve. quando estivesse lendo na torre. As vezes. eu teria que olhar pela janela nesse intervalo. dar uma espiada na entrada. Assim. Se fossem três páginas e meia. Por isso. é claro. Mas. então. Você deve se lembrar de que sempre que estava na torre eu precisava olhar a entrada a cada quatro minutos e meio. três e meio. quandoo autor me cercava com um mundo inteiramente novo. uma parte de mim combatia a deliciosa entrega a tal absorção dizendo três e meio. tinham passado sem que eu olhasse. que cada página tem uma mancha. por isso não havia outra coisa a fazer senão fechar o livro e descer as escadas. eu esperava todas as noites . então. eu podia ficar subindo e descendo as escadas até quatro ou cinco vezes em uma única tarde. para determinar exatamente até onde iria durante quatro minutos. Quando isso ocorria. a única maneira de julgar o tempo era pelo virar das páginas. e. todas as vezes que me deixava levar pelo livro. Era como tentar não pegar no sono. mas nada mais do que a perturbação da minha leitura. antes de tirar um livro da biblioteca. contrariada com esse método de leitura maluco de quatro minutos e. a gralha preta como uma mancha no lençol recém-lavado. Nem sei dizer quanto isso era aborrecido.

Theo abriu a sacola de couro que estava carregando com O floreio de um mágico tirando um coelho da cartola. Isso me deu esperança. vigiando Van Hoosier o resto do tempo. com talvez uma ou duas pequenas coisas de que ele não gostasse? Mesmo assim. Theo estava sempre pronto para sai na neve. Mas a gralha era uma mancha pequena e o resto era todo branco. A gralha na minha paisagem era Giles. caiu de ii r i ostas e ficou pendurada em uma das mãos. apesar de não ter certeza do que isso me poderia trazer de bom. e todo o sofrimento que ele podia estar passando.? — gritei. mas fiquei calada.John Harding 26 sombrias por uma pequena luz brilhante. havia os feriados do Natal. Bom. mas felizmente o observei um pouco mais e então a corcova se mexeu. e o resto organizou-M-. — Patins. adquirindo a inconfundível forma desengonçada de Theo. e todo o sofrimento que eu suportava com o grande buraco dentro de mim onde ele deveria estar.. No salão. pois pensei que devia ser algum entregador. Isso não oferecia a perspectiva de que a maior parte da vida escolar do meu irmão pudesse ser feliz e despreocupada. não tem? A sra. O homem parecia IHn corcunda com uma grande protuberância na coluna. a tentativa de nos deixar preocupada com suas dificuldades sociais em vez de com nossa própria morte não era a maneira mais correta de argumentar. Então COrri. quando Giles estaria em casa e eu poderia arrancar a verdade dele. a não ser para me tranquilizar? O que poderia significar senão que estava? De qualquer maneira. Enquanto isso eu lia iodas as manhãs e em algumas das tardes. e não ele. Como era preciso manter os membros inquietos e desobedientes distantes da porcelana fina.A menina que não sabia ler . . você tem um lago lá fora. por que ele havia dito que não estava com saudade de casa. Imagine se a crosta de gelo Blli muito fina e se quebrasse e afundássemos e nos afogássemos? O que ela diria à mãe de Theo? Para mim.. Grouse era toda preocupação. Um dia olhei pela janela da minha torre e vi uma figura curvada caminhando pela entrada e quase voltei para o meu livro. pulando o corrimão e disparando pelo corredor. É claro que ninguém estava preocupado com o que diriam à minha mãe. — Que.

significativamente. Grouse que havia patinado em lagos quando garoto e que nessa época do ano o gelo tinha pelo menos um pé de espessura. girando e fazendo volteios. Para minha grande surpresa. calhou de John estar passando por ali nesse momento e ouvir e interferir. pois esperava ver Theo subindo pela entrada. ele . comecei a melhorar. ensinando-me. sempre com graça e suavidade. comandando-me como eu o comandava na terra desenvernizada. Theo revelou-se um patinador habilidoso. e desengonçado como um inseto lutando para sair do chão e soltar-se no ar. ou tapetes para tropeçar e intranquilizar seu progresso. um dia. Ele me fez pensar em um cisne. Desde muito pequeno. Grouse não mencionou nenhum possível embaraço com meu tio. durante um período de algumas semanas. em vez de a cada quatro minutos. Por insistência da sra. e minhas costas tinham intenções sedentárias. mas que na água desliza serenamente. principalmente após os tombos e es— corregões na neve em torno da casa. ele praticava muito todos os anos no Central Park e conseguia dar voltas em torno do lago em alta velocidade. o que fez John revirar os olhos e sorrir quando ela lhe deu as costas. Depois que colocou os patins. Ele garantiu à sra. era uma pessoa diferente. Mas Theo foi gentil e ajudou-me. a sra.John Harding 27 E. E então. de forma que logo estava ficando dez minutos inteiros sem cair ou escorregar no gelo. e depois se mantendo aí com grande dificuldade. Foi assim que me peguei erguendo os olhos de cada página. gingando de um lado para outro. ele se transformou. Em contrapartida. Por sorte. ele se comprometeu a nos acompanhar até lá fora e examinar cuidadosamente a superfície do lago para verificar se havia "alguma rachadura".A menina que não sabia ler . Minhas pernas es— tavam determinadas a ir a direções opostas. minha cabeça tinha uma afinidade com o gelo e parecia querer estabelecer uma estranha amizade com ele. assumindo o controle. pois nós duas sabíamos que ele lamentaria tal evento como um desembaraço. Acho que foi um grande alívio para Theo estar no lago congelado sem nada com que colidir. nenhuma mesinha delicada ou porcelana fina. Grouse. eu desesperançava da tarefa. E gradualmente. que é igualmente desajeitado como caminhante.

mas isso nunca o impedira antes. sendo o ponto mais alto e ocidental de Blithe. Cara Florence. O que poderia ter acontecido com Iheo? Por que não tinha vindo? Verdade. — Muito bem. eu ainda conseguia ler.. O médico foi chamado. Não era exatamente Walt Whitman. Van Hoosier — ela disse. pois ja— mais precisara. Ao dobrar o bilhete e entregá-lo a mim (apesar de não saber o que ela. continue a patinar e dê uma ou duas voltas por mim. que me acreditava incapaz de ler. Teria sido proibido por seu tutor? Talvez algum novo trabalho o tivesse mantido ocupado? Encontrei a sra. esperava que eu fizesse com ele). — eu ia dizer que nunca havia visitado ninguém. Gostei deste. irei pela manhã. pois não conhecíamos nenhuma. — Mas.. Mas era melhor. Eu estava lendo O monge. Agora eu percebia. pois a torre. Giles e eu nunca havíamos brincado com outra criança.John Harding 28 simplesmente não apareceu. ficando com os cabelinhos da nuca em pé. Esse era um dos motivos por que me preocupava tanto com ele na escola. Por favor. A asma é minha companheira esta tarde.A menina que não sabia ler . É o que uma jovem dama deveria fazer. antes que eu pudesse responder: — Chegou um bilhete para você — ela disse. tremendo no silêncio mortal da torre. perguntar a respeito dele. quando olhei ansiosamente por Theo e percebi que mal conseguia enxergar a entrada. Mas Giles saindo de casa e Theo visitando tinham mudado isso. acrescentando. Sinto por não poder ir hoje. era onde o sol permanecia por mais tempo. muito melhor. Grouse na cozinha. É o que esperam. Grouse disse: — Você deve visitar os Van Hoosiers. havia nevado pesadamente naquela manhã. — Onde você estava? — ela perguntou irritada. O bilhete terminava com um poema: Por Florence eu sairia Mas a asma com a Hasma não permitiria. Colocou seus óculos e examinou-o. a sra. . — É do jovem sr. exibindo um envelope que abriu tirando e desdobrando uma única lolha de dentro. e começou a ler. Fechei o livro e desci. exercícios extenuantes proibidos. pois a claridade estava desaparecendo rapidamente.

das caminhadas em si eu não lembrava nada. Então o capuz do manto sempre caía para trás e eu captava um vislumbre do seu rosto. 6 Não sei dizer quando começaram as caminhadas noturnas.John Harding 29 E a sra. levando meu irmãozinho com ela. E seus olhos realmente tinham um brilho faminto. Ela colocava rapidamente o capuz de volta na cabeça e saía silenciosa e ligeira do quarto. era com um sonho. Nesse momento do sonho eu queria gritar. que agora era apenas de Giles. e. No entanto eu sabia como as caminhadas sempre começavam. Eu acordava e o luar brilhava através da janela — muitas vezes. Meu corpo era como chumbo. e uma vez no quarto de Mary. Enquanto eu olhava. é claro. e o sonho era sempre o mesmo. ao fazer isso. uma forma. ela colocava os braços em torno de Giles e — ele era sempre muito pequeno no sonho — tirava-o da cama. Nele eu estava em minha cama. como realmente estava. exceto de acordar em lugares estranhos. e só com um esforço sobre-humano é que eu finalmente conseguia erguer . Eu queria segui-la. mas era como se estivesse presa à cama. mas nunca consegui. pois eu as tinha até onde ia minha memória. um vestido preto de viagem com manto e capuz. uma mulher. vira-va-se abruptamente e parecia ver-me pela primeira vez. eu poderia comê-lo!". como a estufa. Grouse dizer que eu estava me tornando uma jovem dama e não deveria mais ficar em um quarto com meu irmão.A menina que não sabia ler . embora longe de ser sempre. No começo isso era tudo. e várias vezes na cozinha. Alguma coisa bloqueava minha garganta. Grouse sorriu e pude sentir seus olhos em minhas costas enquanto eu caminhava até a cozinha para perguntar a Meg que docinhos ela poderia ter que eu pudesse levar para Theo. Ela olhava para o rosto adormecido do meu irmão — pois ele jamais acordava — e dizia sempre as mesmas palavras: "Ah. mas que eu compartilhava com ele até a sra. por exemplo. só que era sempre no antigo quarto das crianças. no sótão. Então a mulher colocava o manto em torno de Giles e. era como se uma mão gelada a agarrasse e eu mal pudesse respirar. mas gradualmente fui percebendo que era uma pessoa. meu querido. as caminhadas aconteciam perto da lua cheia — e eu olhava e via uma forma inclinada sobre a cama de Giles. toda vestida de preto.

visível através de uma janela. talvez. quem quer que fosse. mas não sabia para que lado a mulher tinha ido. quando veio trabalhar em Blithe. e começava a andar. Não adiantava tentar avaliar as coisas. depois sumindo para reaparecer novamente através de outra janela. minhas primeiras palavras eram sempre as mesmas: — Giles. certificando-se de que eu não me machucaria ou sofreria algum acidente. às vezes sozinha. eu acordava. ou sairia lá fora e me afogaria no lago. O sr. me convenci de que o que eu estava vendo era algum espectro maligno. suplicando às minhas pernas pesadas que se mexessem.A menina que não sabia ler . Grouse ou John ou Meg ou Mary. — Eu não me importo de lhe dizer. Quando eu acordava... Sentava-me e tentava gritar. toda de branco. senhorita — ele me disse muitas vezes -. Giles está seguro e profundamente adormecido. como sempre os atraiu e prendeu. ele nada sabia a respeito dos meus hábitos noturnos. dizia: — Está tudo bem. sentada no banco do piano da saleta. mas nada acontecia. foi até a taberna da aldeia numa noite de sábado e estava chegando um tanto bêbado quando olhou para a casa e viu uma figura pálida. salvo um gemido de pardal que morria tão logo tocava meus lábios. um corredor envidraçado no primeiro andar que se estendia pela parte central da frente da casa. ou na cadeira de Meg na cozinha. Eu colocava os pés no chão. e eu estava perdendo um tempo precioso especulando. Ali eu olhava para ambas as direções do corredor.. foi apenas um sonho. ela podia ter ido tanto para a direita quanto para a esquerda. preciso salvar Giles. E a sra. acordar toda a casa.. era sempre a direita. eu não sou católico. Giles. Normalmente eu gostava de caminhar pela longa galeria. mas provavelmente cercada pelos criados. Tinha certeza de que entraria e encontraria todos na casa mortos em suas camas. Então eu escolhia a direita. E então. o que eu sabia das minhas caminhadas noturnas vinha das observações das outras pessoas. . apesar da urgência da situação -até a porta. Na época. John me contou que. movimen-tando-se lentamente pelo longo corredor. Como eu não me lembrava de absolutamente nada da parte da caminhada do sonho. e então. firmava-me em pé e caminhava lentamente — os membros ainda não funcionavam como eu gostaria. que estariam me observando. mas me benzi ali mesmo.John Harding 30 braços e pernas. Florence. Conhecendo a reputação de Blithe por causa dos fantasmas. srta.

para o qual se sentiam atraídos como pedaços de ferro em relação a um ímã. afinal. quando começou a se tornar padrão. no momento em que parecia ter emergido do sonho. colocou luzes brilhantes nos meus olhos. andando pela casa. Precisamos encontrá-lo. Eu não conseguia lembrar nada dos meus pais — minha mãe morreu no parto e meu pai cerca de quatro anos depois com minha madrasta. a única presença consistente em minha vida. antes de ser eu mesma. pelos meus medos concentrados em Giles. não. começava a chorar e ficava bastante perturbada. Meg disse-me que. etc. ele disse. Não lembrava nada deles. as caminhadas pareciam ter contribuído para a superstição. com os braços estendidos à frente como se fossem cegos e temessem uma colisão. Fiquei curiosa com as palavras "reviravoltas da minha primeira infância" e "problemas com a mãe de Giles". e como os criados foram todos contratados depois que meus pais . o que era apenas natural. por assim dizer. era inútil falar comigo. mas Meg uma vez me disse que a população local achava que o lugar atraía os espíritos. devemos!". conside-rando-se minha condição de órfã e as reviravoltas da minha primeira infância. Depois de três ou quatro noites de sonambulismo. não se preocupe comigo! É Giles quem precisa de ajuda. o médico local. Isso era confirmado. "você estivesse sobre rodas". Florence. que parecia não ouvir durante vários minutos. E agora. Bradley. sem as sacudidelas da caminhada normal. ela dizia. como se. quando acordava do meu sonambulismo. mãe de Giles. e se alguém tentasse me confortar eu o afastava e dizia: "Não. em um acidente de barco.John Harding 31 A sra. que veio e me deu uma boa examinada. Minha postura sempre foi muito ereta e eu parecia deslizar. mas com os braços caídos do lado. chamaram o dr. mas ainda não tinha voltado para a vida real.A menina que não sabia ler . mas suavemente. quando ela tinha ido até a cidade. que era. Grouse um dia. Grouse disse-me que eu sempre caminhava devagar. Frequentemente. que era um de seus locais favoritos. mesmo que fosse apenas eu. A sra. Ele disse que eu estava bem e que provavelmente aquilo era uma manifestação de algum transtorno de ansiedade. não como os sonâmbulos normalmente descritos nos livros. Era verdade o que John havia falado a respeito de Blithe e os fantasmas. ou algo assim. mexeu nos meus ouvidos e escutou meu coração. Grouse considerava tudo aquilo um absurdo. Li tudo isso em um relatório que encontrei na mesa da sra.

parece que acham que não tenho mais que fazer além de passar o dia lendo cartas para você. onde a sra. é claro. Mas você não precisa se preocupar com isso porque não acontece frequentemente. Espero que esteja bem. Grouse começou a lê-la. Grouse e enfiei-a no bolso do meu casaco. Espero que Meg e Mary estejam bem. No que dizia respeito à minha primeira infância. sobre o quarto da torre. é claro.John Harding 32 estavam mortos. 7 Antes de ir visitar os Van Hoosiers na manhã seguinte. Suas referências a socos e beliscões faziam-me tremer. Grouse e John estejam bem. um campo branco de neve. É melhor do que levar um soco ou beliscão. Grouse recebia correspondência do meu tio talvez duas ou três vezes por ano e até menos. onde pesou no meu espírito como se fosse a perna de ferro de um condenado ou um pedaço de pão roubado . por isso peguei a carta da sra. Estava toda pronta para fazer a visita. de qualquer maneira. apesar de não estar claro se ele realmente havia sofrido abuso físico ou se "você não precisa se preocupar com isso porque não acontece frequentemente" referia-se apenas às provocações. Espero que a sra. mas eu não tinha tempo para refletir sobre isso agora. Eu a li tantas vezes e ela está rasgando de tanto dobrar e desdobrar. Grouse e por isso não continha nada das coisas que eu gostaria de contar a ele. Giles A carta a que Giles se referia havia sido escrita. Obrigado por sua carta. também não podiam me contar nada. John chegou da cidade com uma carta. ocorrência rara em Blithe. de totalmente desmissivada apenas algumas semanas antes.A menina que não sabia ler . sem nem mesmo a marca de uma gralha. Querida Fio. e refleti que. por exemplo (apesar de ainda não ter decidido se contaria ou não sobre isso). Seu irmão que a ama. Não tão frequentemente. depois de ter fungado e dito: — Hum. Você acha que Theo Van Hoosier conseguirá encontrar patins que sirvam em mim? Será que o gelo irá aguentar o peso de nós três? Ou revezaremos? Sou muito lento nas aulas. mas não me importo quando os outros riem de mim. Gosto do som dos seus patins e mal posso esperar pelas férias. e meu coração quase saiu pela boca quando a sra. Era para mim. era um vazio. e nenhuma das perguntas preocupadas a respeito dele mesmo que eu desejava fazer. pela sra. eu era agora a pessoa mais epistolada das redondezas. A carta era de Giles.

A menina que não sabia ler - John Harding

33

nas calças de um menino. Eu queria andar até a casa de Van Hoosier, mas a sra. Grouse não quis saber. Ficava a cerca de 1,5 km e, apesar de as estradas estarem sem neve, se voltasse a nevar eu ficaria presa na metade do caminho, para não falar que, mesmo se isso não acontecesse, eu morreria de frio. Ela não se preocupara com o fato de eu ter estado no frio todas as tardes. Por isso John me levou na charrete até lá, o que por mim estava bem, pois, quando nos afastamos de Blithe e dos olhares perscrutadores da sra. Grouse, ele me deu as rédeas e me deixou conduzir, como sempre fazia quando a governanta não estava por perto. O velho cavalo que levávamos preso, Bluebird,era tão dócil e conhecia todos os caminhos tão bem que na verdade não havia muito que fazer, e, mesmo que nevasse, era pequeno o perigo de o cavalo sair da estrada e cair em uma vala. CO Eu nunca tinha visto a casa dos Van Hoosiers; chegava-se ali por uma longa entrada, e ela ficava no meio de um bosque tão longe da estrada principal que se tornava invisível, exceto pelas chaminés quando passamos. Por isso me surpreendi ao ver que era menor do que Blithe, embora muito maior em todos os aspectos. Podia-se dizer isso logo ao deixar a estrada e passar pelos portões de entrada, que haviam sido pintados recentemente, contrastando com nossos portais descascados e desbotados. As margens do caminho estavam cuidadosamente podadas e o gramado de ambos os lados, milimetricamente aparado. A casa em si brilhava e resplandecia ao sol do inverno; não absorvia a luz como a velha Blithe. John me deixou na porta da frente. — Vou levar a charrete para trás e esperar na cozinha dos criados, srta. Florence — ele disse, ajudando-me a descer. — É só mandar me avisar quando estiver pronta para ir. Aproximei-me ansiosamente para puxar o sino. Estava com minha melhor roupa e não me sentia em minha própria pele. A porta foi aberta (silenciosamente, não rangia como quase todas as portas de Blithe) por um homem uniformizado. — Pois não, madame — ele disse, com um olhar inquisitivo. — Eu... eu vim saber como está passando o sr. Van Hoosier — murmurei. — Isto é, quero dizer, o jovem sr. Van Hoosier. — E a senhora é...? — Florence, de Blithe House. Dava para ver de onde Theo havia tirado sua altura, mas ela era também cheia, sólida, não flexível como seu menino. Era dotada de grandes seios que se projetavam à sua

A menina que não sabia ler - John Harding

34

frente; podia-se colocar alguma coisa ali, um vaso de flores e um busto de Beethoven, e uma ou duas fotografias de família, talvez. O cabelo era amontoado acima da cabeça, o que provavelmente lhe acrescentava alguns centímetros. Quando me sentei ela se agigantou sobre mim, o que não ajudou a diminuir meu nervosismo. Ela colocou uma das mãos sobre a cornija da lareira e inclinou-se. — Eu... eu vim saber de Theo, quer dizer, do sr. Van Hoosier — murmurei. — Esperava talvez visitá-lo e quem sabe animá-lo. Ela exibiu um sorriso insincero. Parecia uma careta. — Ah, sim, quanta gentileza sua, mas receio que isso não será possível. Ele está muito doente. O médico proibiu qualquer emoção. Sorri com a ideia de que poderia constituir alguma emoção. — Acha isso divertido? -Ah, não, madame, absolutamente. Era só, bem... — minhas palavras sumiram. A porta abriu-se e Melville reapareceu com uma bandeja. A sra. Van Hoosier sentou-se do outro lado da lareira. Melville aproximou uma mesinha e colocou a bandeja. Ele colocou outra mesa ao meu lado. — Está ótimo, Melville. Pode ir... Ela serviu o café, colocou leite e me deu uma xícara. — Você tem gostado da companhia de Theo, parece. Acenei com a cabeça. — Ah, sim... — Bem, é claro, ele é um garoto fascinante. Não é a palavra que eu usaria para Theo. — E pensei que seria bom para ele ter uma companhia aqui. Tomei um gole nervoso do café. Ela levou a xícara até os lábios, mas parou, baixando-a ligeiramente. — Mas agora penso, em vista do que aconteceu, se isso não foi um erro. — Um erro? Ela ofereceu um prato de biscoitinhos, mas declinei. Serviu-se de um e colocou-o inteiro na boca, mastigando-o lentamente por alguns instantes. O relógio em cima da cornija começou a bater mais alto. Ela engoliu. — Sim, um erro. Toda essa patinação e atividade no frio. Acho que não foi bom para seu peito.

A menina que não sabia ler - John Harding

35

— Mas, sra. Van Hoosier, se me permite o atrevimento... — Não permito. Ela colocou outro biscoito na boca e mastigou com tanta raiva que senti pena dele. Quando ele finalmente morreu, ela se virou e me encarou, como se fosse uma cientista e eu uma espécie de inseto que ela examinava ao microscópio. — O problema, Florence, é que a deixam andar solta. Acho que seu tio deveria ficar de olho em você. Ser guardião é mais do que prover de casa e comida. Perguntei avidamente: — Conhece meu tio? — Não, receio não ter tido o prazer, nunca sequer ouvi falar do homem até comprarmos este lugar, apesar de ter encontrado sua madrasta uma vez. — Como era ela? A sra. Van Hoosier comprimiu os olhos, como se estivesse se fechando para o presente e olhando para um passado distante. Por fim, ela os abriu e pegou um sino na mesinha ao lado. — Isso foi há muitos anos, quando ela não era muito mais que uma menina. Era bonita, embora não muito sofisticada, mas fora isso eu não me lembro de absolutamente nada. Depois soube que havia se casado com alguém destas paragens. Ela tocou o sino. — Acho que era meu pai — eu disse. — Assim parece — ela disse. — E eles morreram, em um acidente de barco, creio. — Que trágico — disse a sra. Van Hoosier, como se não fosse. Melville apareceu na porta. — De qualquer forma — ela continuou -, acho que talvez fosse uma boa ideia se Theo a visitasse um pouco menos. Ele tem as aulas e, com sua doença, o tutor teme que ele fique para trás... — A... a senhora vai impedir suas visitas? Fiquei chocada com essa importância súbita. Não imaginava que fosse me importar. — Não, minha cara, eu não gostaria de privar meu filho de toda a diversão. Só irei controlá-las um pouco, é tudo. Acho que emoção demais não é bom para ele. Melville, peça que tragam a carruagem da senhorita, sim?

Teria sido melhor se ela o tivesse banido de uma vez. e sim os comentários descuidados sobre meu tio e minha madrasta. Como você pode imaginar. ocorreu-me por que não havia pensado nisso antes. Depois eu estava pensando em Theo Van Hoosier. suas cartas seriam censuradas. em um dos meus muitos despertares. estava com a cabeça cheia demais para dormir. ou me preocupando com Giles. pois haveria muito mais tardes em que Theo não apareceria. quaisquer que fossem meus pensamentos. "Só . Primeiro. Era a gralha e a neve virgem de novo. Então. Além daquela frase ambígua sobre socos e beliscões. por mais estranho que ele fosse. É claro que eu não havia chegado até aqui sem jamais ter pensado em meus pais. Van Hoosier disse a respeito do filho. havia o pobre Giles. esse pensamento não me tranquilizou nem um pouco. mas também em como a sra. Mas a coisa mais despertante naquela noite não foi o que a sra.John Harding 36 8 Aquela noite foi toda vira-e-mexe e esperando o amanhecer. e seria frustrante nunca saber quando ele estivesse vindo e quando não. a escola não iria querer que más impressões fossem transmitidas para deixar os pais ansiosos. eles continuavam subjacentes. É claro. Não apenas em como sentia falta de suas visitas. mas ela sempre me obstruía. eu não poderia ir para a biblioteca às tardes. Qualquer atrevimento certamente seria cortado. mas teria que continuar vigiando Theo da torre. uma professora as leria antes de permitir que fossem enviadas para casa. Grouse sobre eles. não havia nada em que eu pudesse realmente me apegar. agora estava inteiramente ocupada com todas as coisas que estavam acontecendo em minha vida. vi-me sentindo sua falta e desejando que estivesse ali. Só que agora seria muito mais do que três páginas e meia. Do jeito que estavam as coisas. por isso teria que ficar mais tempo. Amaldiçoei Theo por ter entrado em minha vida e por todos os inconvenientes e.A menina que não sabia ler . isso não. mas com menos frequência. Mesmo quando estava pensando em Theo. ao mesmo tempo. Van Hoosier havia se intrometido com sua determinação de que poderia continuar a me visitar. Tinha tentado fazer perguntas à sra. nenhuma reclamação direta. De uma garota que tinha tempo demais à disposição. embora eu tivesse certeza de que ele o faria se realmente estivesse com problemas ou contrariado. e na maioria das vezes sem motivo algum. e as entrelinhas de suas cartas.

mesmo sabendo em meu coração que ele não viria naquele dia. "Então é isso". Meu tio havia dado ordens estritas para me analfabetizarem. ela disse. eu teria adivinhado imediatamente. após a noite maldormida. Florence". então nosso pai devia ser seu irmão. era tudo o que ela dizia. eu diria a ele. junto com a mãe do sr. ele na cadeira vitoriana. Perguntar-lhe novamente a respeito de minha mãe e de meu pai não me traria mais informação. ele não ficaria satisfeito ao encontrar minha caligrafia entre sua correspondência da manhã. e cochilando. só a deixaria alerta em relação à minha curiosidade e a qualquer outra ação da minha parte." Agora eu pensava em como poderia descobrir mais se escrevesse para meu tio e simplesmente lhe pedisse diretamente para me dizer quem eu era e tudo sobre meus pais. quando ele era ainda bebé". "e isso foi em Nova York. "O que posso fazer?" Ele coçava o queixo. com longas . Todas as vezes que sentia a cabeça cair e a erguia para acordar. eu na poltrona.A menina que não sabia ler . "Encontrei seu tio uma vez apenas. srta. não conseguia mentir. mas é claro que não era tão simples. Se estivesse escondendo alguma coisa. não podia correr o risco. mas para eliminar qualquer possibilidade de cometer um erro. Giles. Giles. tinha que descer correndo até a entrada para ver se havia perdido Theo. mas pensando nisso. discutindo meu problema. como que contornando a pergunta não para evadir-se. quando ele me contratou para vir para cá administrar a casa e olhar por você e o sr. de volta à torre após a descida infrutífera. Ela era uma alma simples e de sentimentos transparentes. Passei uma tarde inteira na torre não lendo. porque simplesmente nada sabia. é claro. dizendo-lhe que.John Harding 37 sei o que me contaram. Ela nada me disse. Você estava com 4 anos e isso é tudo o que sei. tendo resumido a coisa toda. era como George Washington. Tentei seguir outra direção. desde que Giles e eu temos o mesmo sobrenome de nosso tio. Que ação poderia ser essa era um enigma. levantava-se e caminhava da maneira mais sistemática. Sua mãe deixou o mundo quando você chegou e seu pai morreu em um acidente de barco. Grouse. perguntando-lhe sobre minha linhagem. Não falamos sobre sua árvore genealógica. fingia que estava e nos imaginava frente a frente. Era óbvio que não adiantava voltar à sra. Queria que ele estivesse lá e.

Theo estava certo. mas nada encontrei. tirando das prateleiras todos os livros. inquieta demais para ler. Subi e desci as escadas até ficar tonta. Estava em busca de qualquer coisa que não fosse inequivocamente um livro. Comecei na manhã seguinte na biblioteca. "Você não percebe? Deve haver algum documento seu. cegando-me a olhar para a neve lá fora. tudo o que precisava fazer era procurar o papel. E eles devem estar em algum lugar em Blithe House. "A menos que meu tio os tenha levado com ele para Nova York. "O que você quer dizer?". esperando uma reação. Vale a pena tentar. "Documentos". pois ali havia muito papel. é claro. eu perguntava. ele dizia. Mas pode ser que não. Levantava-me ansiosa da poltrona e depois caía de volta." Meu Theo imaginário dava de ombros. mas não havia muitos lugares onde os papéis pudessem estar guardados. Blithe era uma grande residência. mas. não havia nenhum. meu nariz coçava e minha cabeça doía pela overdose de poeira. ele não estava ali. olhei pela janela para a entrada vazia de sua figura desengonçada. mesmo que estivesse. eu sabia por minhas leituras que ninguém passa por esta vida ou mesmo por parte dela sem que algo esteja escrito em algum lugar." Ele me soltava e ficava olhando para mim. e assim agradeci sentindo mais sua falta. Embora minha criação tivesse me desmun-danizado. um registro talvez.A menina que não sabia ler . mãos nas costas. Desordenei o lugar. Finalmente parava e olhava para mim. "Talvez. e. abrindo e sacudindo-os para soltar qualquer documento escondido que pudessem conter.John Harding 38 passadas. segurando meus braços com as mãos grandes e ossudas. o que o deixava parecido com um louva-deus tentando trocar de pele. isso poderia ensejar outro poema. Em vez disso. Ele se aproximava e flexionava um dos joelhos." Eu poderia tê-lo abraçado. Às tardes eu me deprimia em minha torre. Você deve pensar que em quatro anos andando livremente pelo lugar eu teria visto algo assim se estivesse por ali. Todo mundo tem documentos. Bem. abrindo um sorriso. como se esperasse encontrar algum indício de onde os papéis . foi toda uma semana infrutífera de manhãs na biblioteca. ou algum tipo de arquivo. Eu devia estar documentada como qualquer outra pessoa. mas é preciso lembrar que o espaço não só era imenso. mas também que até então apenas os livros me interessavam.

Por isso bati à porta de sua saleta e. compungido do outro lado da escrivaninha. por falta de coisa melhor para fazer. Olhei para a porta para me certificar de que a sra. quando já tinha desistido da minha busca e nem estava mais pensando nela. Peguei-as uma após outra. ou talvez lá fora. que eu tinha visto sobre a escrivaninha milhares de vezes.John Harding 39 que eu procurava poderiam estar. todas organizadas com presilhas. talvez apenas três ou quatro vezes por ano. Grouse não estava voltando e. aboletei-me em sua cadeira. naquela tarde.A menina que não sabia ler . ele certamente levara todos os documentos com ele. agarrei o puxador da gaveta da direita e abri. o acaso colocou uma possível resposta no meu caminho. Então. repreendi com severidade o meu eu imaginário. entrei. pensando em experimentar como seria ser como ela. Isso me desatentaria do desespero dos meus dias solitários. Ali estava o livro de contas da sra. Nada além de contas. dando a John alguma instrução ou qualquer outra coisa. diante da porta ligeiramente aberta. "Já lhe disse uma centena de vezes". decepcionando-me imediatamente. separados em pequenas pilhas. Eu tinha rasgado a meia em um prego de uma das escadas da biblioteca e era meu último par. não obtendo resposta. "Florence. alinhando-o com o tinteiro e sua caneta. Acabei aproximando-me da escrivaninha e. crianças. vi-me ajeitando o mata-borrão que estava de qualquer jeito em cima da escrivaninha. então me interrompi. Ela deveria estar na cozinha ou em outro lugar da casa. sem perigo à vista. nós. no celeiro. esta pilha do . Estava cheia de pedaços de papel. pois diante de mim vi o que deveria ter imaginado desde que começara minha busca. Finalmente começou a ficar óbvio para mim que. observando os enfeites sobre a cornija e o bordado feito pela metade na poltrona. as mãos atrás das costas. a cabeça baixa. e pensei que talvez fosse uma boa desculpa para ir à cidade. Perdi as esperanças de encontrar alguma coisa ali. O lugar estava vazio. Grouse. uma ao lado da outra. embora meu tio pudesse não ter visto nenhuma utilidade nos livros quando deixou Blithe. mas pensei que a sra. levantei-o para ver que outros tesouros a escrivaninha poderia conter. onde é que você estava?". sentindo-me travessa. Grouse talvez desse permissão a John para me levar. A escrivaninha tinha duas gavetas. Então. Depois de pousar os olhos nele. quase nunca íamos lá. Andei pelo aposento.

Fiquei com o coração na boca de novo quando ela abriu a gaveta. O passeio até nossa pequena cidade distraiu-me. Grouse passava por mim com o tilintar das chaves da casa no grande aro de ferro que ela usava no cinto. a sra. A sra. mas. Com o coração na boca alcancei o puxador.. e a sra.John Harding 40 armazém. satisfeita que Blithe poderia bancar. outra do vendedor de tecidos. agarrei o puxador e. vaguei pela casa. desbibliotecando de manhã. Saí da cadeira e corri para o outro lado da sala. Não havia nada além disso. Florence. Não havia tempo para examinar a segunda gaveta sem ser pega. pois não conseguia pensar em mais nada além daquela gaveta trancada e em como poderia conseguir a chave. bem. No entanto. Ela entraria na sala a qualquer momento. o que levou a uma conversa sobre o fato de eu estar crescendo rápido e precisar de roupas novas. até a cidade. não consegui evitar. Nos dias seguintes. Isso não ocorreu e. Queria alguma coisa? Contei a ela a respeito da meia.A menina que não sabia ler .. pois ela sentiria sua falta no . tinha que sair da cadeira rapidamente e afastar-me da escrivaninha ou enfrentar as consequências. — Deixe-me dar uma olhada no livro de contas e ver o que podemos fazer — ela disse. pois podia ouvir a aproximação de passos do lado de fora. e estava olhando inocentemente pela janela quando a governanta entrou atrás de mim. — Ah. Quase salivava cada vez que a sra. aquela do estábulo. trancada. Grouse e Meg. Nesse momento a porta da sala começou a se abrir e eu quase gritei de susto. Nesse momento ouvi vozes no corredor. aterrorizada com a possibilidade de ela perceber algum desarranjo no conteúdo. e sim me afastando da minha tarefa urgente. Grouse — pois era ela na porta — parou para responder... nada aconteceu. mas então ouvi a voz de Meg na outra ponta do corredor. destorrerizando à tarde. soando como o sino do jantar para um homem faminto. embora não estivesse acolhendo alguém entediado. aí está você. Coloquei-as no lugar e o livro de contas e fechei a gaveta. ela mesma e eu. A gaveta estava presa. Grouse prestes a entrar. tinha que ver o que havia na gaveta. autorizou uma viagem no dia seguinte. Seria impossível roubá-las.

Devia haver umas trinta chaves naquele anel e eu sabia que tinha apenas um ou dois minutos para encontrar a que eu queria. sra. Deixei a gaveta des-trancada. — Aqui. Grouse. Ela entrou graciosamente na fechadura. — O que é agora. Em um instante ela tirou o chaveiro do cinto e o entregou a mim segurando uma determinada chave.John Harding 41 instante em que desaparecessem. por favor? Ela suspirou exasperada. Girou com um clique de satisfação. eu não conseguiria. depois tranque o armário e traga as chaves de volta para mim. mesmo que eu conseguisse fazer uma mágica para tirar o aro do cinto. Saí da casa correndo e cheguei perto dela sem fôlego. lá fora. Fiquei tentada a abrir a gaveta. o que era minha estratégia desde o começo. Ela me lançou um olhar aborrecido com a interrupção. sem dúvida ele havia perdido alguma coisa em algum lugar. Essa era minha chance. Muitas eram obviamente grandes demais. Saí correndo. abra o armário grande da despensa e pegue uma. A conversa parecia acalorada. grandes chaves de portas. Grouse. Florence. Fui direto para a saleta da governanta e sua escrivaninha. Aí começou uma ansiedade de tentativas com as chaves. Minha oportunidade chegou um dia ao escurecer quando eu a vi através da janela da saleta. apesar de todo o meu desejo. — Sra. derrubei minha agulha no chão do meu quarto e não posso procurar porque não tenho uma vela. apenas uma. Não havia tempo para ir até a despensa à procura da . e corri de volta para fora. Tive sorte na quarta tentativa. Era evidente que ela o estava repreendendo. se fizesse isso e encontrasse algo. e era só o que poderia fazer naquele momento. Grouse! — gritei ao me aproximar. da parte dela. não teria forças para deixar de olhar e acabaria sendo pega. mas não prestei atenção a isso. conversando animadamente com John.A menina que não sabia ler . criança? — Por favor. mas sabia que. por isso me concentrei em cerca de uma dúzia de chaves pequenas que podiam ser de gavetas ou armários. pois John jamais perdia a calma. Normalmente essa seria a chance de furtar uma ou duas velas extras para a biblioteca. pois ela havia sido encarregada por meu tio de manter todas as despesas de Blithe com rédea curta. sra. o que. Poderia pegar uma nova para mim. Estava no meio da reclamação e não queria ser interrompida. como uma criança na cama quentinha em uma noite fria. lembre.

Também era meu esconderijo de velas furtadas. pois. Nos candelabros duplos eu agia nas duas velas dessa maneira. não poderia levar vela e fósforos comigo. Essa noite eu pretendia abrir a gaveta que tinha destrancado e examinar seu conteúdo. A planta era um arbusto com folhas grandes. colocar debaixo do tapete perto da escrivaninha da sra. ninguém jamais reparou que as velas estavam ficando menores. sob as quais meu equipamento de iluminação não seria visto. Grouse não pensasse nisso ou. para manter a aparência de que estavam queimando no mesmo ritmo. A minha vela eu poderia apagar. Grouse e recuperá-la de manhã. quando ficava sozinha na saleta. Felizmente ela ainda estava ocupada reclamando com John e simplesmente pegou as chaves sem me dirigir uma palavra ou mesmo um olhar. ritmo. guardava-a no bolso e recolocava a parte de cima. e se por acaso alguém me ouvisse e entrasse na sala. quebrava a metade de baixo. Por isso. o que havia feito muitas vezes antes. Não podia me arriscar a acender as velas da saleta da sra. mesmo que eu percebesse e conseguisse apagar as velas primeiro. etc. eu pegava uma sempre que podia. ficaria óbvio que o passeio tinha sido planejado e nada tinha de sonambulismo. com que postura.A menina que não sabia ler . deduzisse que estava em meu bolso e não pedisse para ver. se fosse pega. e para isso eu iria precisar da minha própria vela. . Era ali que eu guardava meus livros da hora de dormir. poderiam notar a fumaça saindo ou que a vela estava quente e macia. e afastei-me rapidamente. se pensasse. Meu sonambulismo já me havia sido descrito tantas vezes que eu sabia exatamente como deveria caminhar. expressão facial. pois eu era a única a mexer na caixa. se tivesse algum. Por exemplo. levei minha vela e fósforos para baixo e os escondi em um vaso de planta do salão. antes que ela voltasse sua atenção para mim. Mas havia uma dificuldade extra dessa vez: como a minha camisola não tinha bolsos.John Harding 42 vela. Subi até meu quarto e puxei a caixa com velhas bonecas e coisas infantis que estavam havia muito tempo sem brincar debaixo da cama. Ela poderia notar no dia seguinte que haviam queimado misteriosamenre durante a noite. Grouse. quando perdia o sono e queria ir até a biblioteca durante a noite. por isso torci para que a sra. Minha intenção era fingir uma crise de sonambulismo. eu tirava uma vela do candelabro. que eu precisava para a biblioteca e para ler na cama à noite.

o gémeo do meu primeiro encontro e. ouvindo os sons da velha casa enquanto se acalmava para a noite. Meu grande medo era que a sra. o que significava que não só minha missão havia sido derrotada. e não toquei na vela ou nos fósforos. Desci o mais rápido que pude no escuro. coloquei minha vela cuidadosamente e sen-tei-me na cadeira da dona.A menina que não sabia ler . o que não era rápido. e se ela tivesse precisado pagar um comerciante ou os criados? Respirei profundamente e puxei. velha esperta que era. mexi e mexi. Parei e coloquei a mão na testa. encontrei a porta da saleta da sra. de fato. Coloquei as mãos cegamente à minha frente e senti outro vaso. Ergui a vela. É claro. Finalmente. meti as mãos em suas folhas araneiformes. E se fosse assim. Fiquei alarmada ao pensar que alguém tivesse encontrado a vela e os fósforos. os chiados e gemidos. Pois eu não tinha ideia do que ela guardava ali ou com que frequência a abria. De vez em quando eu ouvia a pequena garota no sótão acima de mim fazendo piruetas nas barras. apesar de dura e . esperando para me pegar. lá estavam a minha vela e os fósforos. saí da cama. que estava lisa com suor. Meu coração estava em pânico desatado agora. Risquei um fósforo e acendi a vela. por que a mantinha trancada? Talvez porque o dinheiro da casa estivesse guardado ali. mas que amanhã eu seria desmascarada. satisfeita porque todos os sons humanos haviam cessado. O puxador de metal da gaveta da esquerda era frio e proibitivo ao toque. Finalmente cheguei ao salão e tateei até encontrar o vaso de planta e. A gaveta cedeu. em algum relógio soou a meia-noite e. talvez Mary ao regar as plantas. congelados no assoalho nu. examinando a sala para verificar se estava vazia. Olhei a escrivaninha. fechando a porta silenciosamente atrás de mim. havia mais de uma planta! Eu estava no vaso errado. Grouse a tivesse descoberto destrancada e a tivesse trancado novamente. Grouse e entrei. Grouse ali sentada. enquanto relaxava depois de um longo dia contendo todas as pessoas e nossos medos e esperanças e segredos. Não havia ninguém. embora a noite estivesse fria e meus pés. pois minha mente meio que esperava encontrar a sra.John Harding 43 Nessa noite fiquei acordada na cama até tarde. Senti a terra. Em primeiro lugar. encontrando-o. De algum lugar acima veio o gemido de alguém adormecido acordando e virando-se. A imagem de Mary regando as plantas inesperou-me uma inspiração. por precisar tomar cuidado para não bater nas coisas e acordar a casa.

muito mais alta que esta. um álbum de fotografias. Não havia ninguém ali. perto de uma planta no vaso. e de novo sem cabeça. Ao lado dele. que. Então voltei para a primeira fotografia e depois de novo para a segunda. um homem de terno em pé diante de Blithe House. para a mulher decapitada. eu não saberia dizer. Identifiquei-o imediatamente. Estremeci na noite silenciosa e olhei por cima do ombro.John Harding 44 relutante. parecia satisfeito consigo mesmo. Não era nada sinistro. dizendo a mim mesma que era bastante compreensível. poderiam virar pó. como se fosse uma relíquia sagrada. os ossos de algum santo que. também sorridente. Puxei-a lentamente. Tinha o mesmo olhar atrevido. Então uma terceira foto.A menina que não sabia ler . fosse ou não a mesma mulher. o braço enganchado no seu. Coloquei o livro na escrivaninha e abri e vi imediatamente o que era. como um pescador orgulhoso de um grande peixe que pescou. alguns anos antes. pois era o mesmo rosto da pintura na curva da escada: meu tio. Engoli e retirei-o cautelosamente. Mais uma vez meu tio com a segunda mulher. o que eu podia ver apesar da ausência da cabeça da segunda. mas. Esta devia ser pelo menos um palmo mais baixa. Ali estava ele de novo. Dessa vez com a mulher segurando um bebé. e acalmei-me um pouco. um . pois lá dentro vi um único objeto. Olhei de novo para a foto. a camada de pó testemunhando sua longa des-perturbação. Virei a página e encontrei outra foto de meu tio. um livro grande. sentindo subitamente um homem parado ali com uma faca para fazer comigo o que havia sido feito com a mulher da fotografia. Virei a página. Virei a página de novo. como os que Mary havia me mostrado uma vez de toda a sua família. com um buraco no lugar em que a cabeça da mulher havia estado. com capa de couro. pois a primeira era mais alta. sentindo meus dentes enquanto a madeira reclamava. mas eu já começava a ver formas nos cantos ensombreados da sala. mal manuseados. de novo com uma mulher. porque a foto havia sido cortada. com a certeza de que a casa inteira iria acordar. o mesmo ar ligeiramente divertido nos lábios. estava uma mulher de vestido branco. mas com uma alegria leve e solta. olhando de novo. não como o homem. As mulheres não eram a mesma. que alguém havia removido sua cabeça para colocá-la em algum armário ou algo assim. Mas eu não podia esperar para ouvir. uma mulher bonita. A primeira página tinha apenas uma foto. mas dessa vez retratado no estúdio de algum fotógrafo.

pois meus olhos embaçaram e tive que fechar o livro com medo de molhá-lo. outro pensamento ocorreu-me e voltei freneticamente para a primeira página. E então tudo fez sentido para mim. essa mulher tão feliz e orgulhosa devia ser minha mãe. os lábios apertados. E então percebi algo familiar. e seu olhar me fez estremecer e pensei em como não gostaria de encontrar essa criança. afinal. abri-o na primeira página e arranquei a foto de minha mãe. Fui para a página seguinte e havia outra foto. quase idênticos. e a mulher sem rosto sua mãe. ele não fosse o homem da pintura a óleo na curva da escada. Tirar a fotografia foi uma atitude precipitada. afinal de contas. Mas como podia ser isso? Como o meu tio poderia ser meu pai? Olhei-o mais atentamente. olhando fixamente para o fotógrafo. Então. parecia. minha madrasta. Encarei o homem durante algum tempo. o rosto da mulher havia sido cruelmente cortado.A menina que não sabia ler . Por . aqueles olhos desafiadores. Ela estava em pé ao lado deles. Peguei minha vela e fósforos e fui para a porta. igual à última. O homem era definitivamente o mesmo das outras fotos. Se a menina era eu. De novo. e me dei conta: a criança assustadora era eu. embrulhado e engolido por um longo xale branco. Virei-me e voltei correndo até a escrivaninha. que morreu antes mesmo de conhecer sua menininha. O grupo familiar. Eram quase gémeos. que tinha a semelhança familiar. Era muito. pela postura solta. uma menina. Fechei os olhos e inspirei profundamente. Virei a página e não havia mais fotos. Abri a gaveta. tinha se juntado aos outros. quanto mais olhava. Recoloquei o álbum. Não era meu tio. essa outra mulher. fechei a gaveta. tirei o livro. se tivesse sido pega. como se estivesse pronta a pular em cima de quem se aproximasse. Pela pose. saí da sala e subi depressa com a vela iluminando o caminho. coloquei o livro de volta e relutantemente a fechei. muito parecido. por que estavam com meu tio? Não fazia sentido. Tendo digerido isso. indubitavelmente. especialmente agora. se fosse isso. abri a gaveta. Mas. mas talvez não fosse o mesmo. Estava quase fora quando tomei uma decisão repentina. na calada da noite. então o bebé devia ser Giles. a mulher que tinha se afogado. não poderia fingir sonambulismo. certamente era o marido da mulher e pai dessa família. só que agora uma criança pequena. mas seu irmão. mais as feições da mulher ficaram turvas. Talvez. Olhei e olhei e. Voltei freneticamente. pois.John Harding 45 bebé pequeno.

O tempo passará rápido. pegando-o no rosto. 9 No dia seguinte levei minha preciosa fotografia para minha torre. levantei o olhar e reconheci uma figura alta e magra lutando para cruzar a neve da entrada. Ele só podia ficar um pouco. Fiquei contente. quando ele virou na estrada principal e desapareceu. Mas. Fiz uma bola de neve pesarosa e atirei nele. pois precisaria deles em Nova York. na verdade tinha vindo pegar os patins. E Giles chegará para as férias de Natal a qualquer momento. em algum momento peguei no sono. por mero acaso. fazendo-o gritar. não tinha tempo nem para patinar. e felicitei-me por tê-lo machucado. — Estão me mandando de volta — ele anunciou. onde poderia olhá-la e conversar com ela sem medo de ser descoberta. *** . — Você não imagina como é. — O médico disse que estou melhor e vão me colocar na escola para a última semana antes das férias. pois fazia quinze dias desde que o vira pela última vez e ansiava por contar-lhe minhas novidades. assim que o encontrei na porta da frente. Fiquei olhando até o último momento. — Voltarei no próximo ano quando a família vier para o verão novamente. Ele enfiou a mão no bolso. Peguei meu casaco e seus patins e descemos estranhamente pela entrada. Então desdobrei o papel que ele me dera e li: Não posso falar. tirou um pedaço de papel e atirou-o na minha mão.John Harding 46 isso imaginei que podia também correr o risco e iluminar meu caminho. E era o que estava fazendo alguns dias depois quando. não tem tempo sequer para ouvir minhas novidades e ver o que tenho para lhe mostrar. Mas nada aconteceu na volta até meu quarto e. Então. virou-se e foi caminhando pela neve. sem outra palavra. E aparece correndo todo jovial. não posso conversar Pois para Nova York vão me mandar Mas não irei feliz inteiramente Pois meu coração ficará aqui com Florence Era um poema tão ruim que dobrei o papel de novo e não consegui evitar um soluço. minhas esperanças se desfizeram.A menina que não sabia ler . — Estou tão sozinha — eu disse. depois de não sei quanto tempo olhando para a foto de minha mãe.

e era isso o que a escola havia feito. Ficamos ao lado do rrilho enquanto o grande dragão de ferro se aproximava com seu rugido metálico. procurando em meio ao nevoeiro. e então parou ao nosso lado soltando uma nuvem de fumaça que nos envelopou a todos. Foi só quando estávamos na charrete. . Quando chegamos a Blithe. na plataforma. — Não. dada a sua natureza algo vulnerável". em silêncio. Grouse. Obviamente a natureza simples de Giles tinha-o levado a ser abusado. que entendi por que Giles estava tão excitado. Grouse. "não suficientemente maduro ou academicamente avançado". dançava com um pé e com o outro e balbuciava coisas sem sentido. — Não vou voltar. E finalmente chegou o dia em que John colocou os arreios em Bluebird e fomos até a estação de trem. Meu irmão não conseguia ficar quieto: pulava para cima e para baixo. apesar de triviais em si. "uma disposição muito tímida e frágil para o tumulto de uma escola de meninos muito animados". Grouse olhou-me incrédula pelas costas dele. A sra. "sugerimos que um tutor em casa seria mais apropriado neste momento. diante de nós. mal conseguindo ler. ele e a sra. sra. Fio. Peguei a mão de Giles e apertei-a. exceto pelo cavalgar de Bluebird. também não a leu em voz alta. você não entende. sr. deduzi o resto. — Bem. Juntamo-nos atirando os braços e trocando muitos beijos. a sra. Giles abriu sua mala e apresentou uma carta. "um ou dois incidentes que. Ele se virou para ela. Quando a névoa começou a se dissipar.A menina que não sabia ler . Grouse não a mostrou para mim. exceto por uma ou duas frases. para encontrar meu querido irmão. Nunca mais! Era verdade. todo o meu ser esperando com impaciência. não por um tempo. e segui solitária. Era uma notícia tão maravilhosa. De qualquer maneira. não vou voltar! A sra.John Harding 47 Theo estava certo. deixando a cidade. Eu não precisava ver tudo. não. causaram preocupação. toda preocupada. Grouse e eu. não até depois do Natal. Quase comemorei em voz alta. estava Giles. É claro. Era mais fácil removê-lo do que lidar com os provocadores. possivelmente com a natureza mais suave de uma professora". Giles. como eu não poderia ler. dobrou a carta e guardou-a no bolso. eu teria a volta de Giles para esperar.

Vamos tirar o Natal do caminho e então escreverei. mordi a língua e me autoaconse-lhei. e na manhã de Natal fomos para o gelo e nos divertimos caindo e levantando e voltando a uma época em que éramos pequenos. a srta. porque então teria que explicar sobre sua própria mãe. ao nos ver sorrir. — Devo escrever para seu tio a respeito disto. onde eu poderia protegê-lo de todas as coisas ruins de fora. foi como nos velhos tempos. Não vou escrever ainda. — Ela ergueu os olhos e. estava claro que nosso tio. Grouse mordeu o lábio. que não tinha tempo algum para nós.A menina que não sabia ler . tão doce que ria até quando se machucava. Mas é claro que isso aconteceu. de qualquer maneira. tagarelando sobre como era bonito e como parecia atraído por ela quando a entrevistou e deu-lhe o posto de preceptora de Giles antes que ela dissesse uma palavra. não podia se dar ao trabalho de questionar aquela mulher idiota e queria . mas então percebi que não poderia. Eu tinha pedido à sra. melhor. De que adiantaria. mostrar-lhe fotos de sua mãe sem o rosto? O que ele sentiria senão que a profanação da mãe era um ataque cruel a ele mesmo? Por isso. pensei que nunca mais o deixaria sair para o mundo. também ficou radiante. Era uma jovem tola que parou feito boba diante do quadro de meu tio na escada. Vendo Giles tão feliz e despreocupado no lago. onde seria maltratado e torturado. uma carta para seu tio. mesmo estando tão ansiosa. quanto menos falarmos sobre Whitaker. A sra. Bem. pois tenho ordens estritas para não o incomodar. Enxerguei tudo imediatamente. como você pode imaginar. Tudo seria como sempre foi. Não deixaria que nada estragasse a nossa felicidade. Ele terá que contratar alguém. Ou melhor. uma governanra. Grouse que comprasse patins para Giles como presente. — Mas não agora. e não tenho tempo nesta época do Natal. e eu não estaria mais sozinha. Preciso pensar bastante.John Harding 48 Meu irmãozinho estava salvo e seguro. pelo menos em sua primeira encarnação. alguém estragou. O vandalismo chocante perpetrado contra sua imagem nunca deveria chegar ao seu conhecimento. Um mês depois. Pensei em mostrar a ele a fotografia de minha mãe. eu acho. e me esforçaria para man-tê-lo sempre aqui ao meu lado em Blithe. Whitaker chegou. CO Bem.

mesmo que nada disso tivesse adiantado. Alinhamo-nos para receber a nova preceptora assim como tínhamos feito para a pobre srta. só que melhores. pré-escola. Giles e eu ficamos calmos e tranquilos durante quatro meses inteiros. Giles e eu. e quando meu desejo foi concedido quase morri de desgosto por não poder retirá-lo. mas não queria dizer aquilo. de como . tão chateada que fiquei. SEGUNDA PARTE 10 Estávamos repetindo a história nós três na frente da casa. quero que ela morra". e ficava pensando "se ao menos eu tivesse isso" e "se ao menos eu tivesse aquilo". por quem demonstrava menos interesse que em escovar os cabelos e olhar-se no espelho. sua vida). primeiro por uma razão. eu agora a valorizava ainda mais. Como nosso tio estava viajando pela Europa. tendo perdido duas vezes nossa vida antiga com apenas Giles e eu correndo desabridamente pela casa e pelo terreno. Tudo o que percebi foi que negligenciava Giles. Whitaker até então. o dia da chegada da sua substituta. pois qualquer outra teria sido preferida. Whitaker há um tempo que parecia uma vida inteira (e na verdade foi. pois foi exatamente no dia em que ela me desbibliotecou que eu havia repetido aquelas palavras várias vezes em meu coração: "quero que ela morra. porque. sua partida para a escola. inocente. o que dificultava o con-tato com ele. desde a desgraça da srta. Achava apenas que ela era tola e culpei-me por desprezá-la quase tanto quanto me culpei por não a ter salvo. e depois por outra. Basta dizer que não vi o coração gelado dessa criatura então. Tinha esquecido como podia ser ocupada a vida com Giles. Grouse. Whitaker.John Harding 49 esquecer o assunto rapidamente. ou as coisas talvez tivessem sido diferentes.A menina que não sabia ler . Tinha sido como os velhos dias pré-Whi-taker. Até me perguntei se ela não teria sido a única pessoa que ele viu para o posto. a sra. e quando ela se foi tragicamente no lago eu quase me afoguei no lago de minhas próprias lágrimas. não percebi sua verdadeira natureza. mesmo que isso fosse impossível. Também me recriminei pelos maus pensamentos que estavam em minha cabeça quando ela foi para seu túmulo aquático.

Whitaker chegaria a qualquer momento. e pensei em quanto aquilo era estranho. ela estava à nossa frente. com traços fortes. mas percebi como combinava com as gralhas que agora estavam circulando acima de nós. E quando os Van Hoosiers chegaram para as férias de verão. Taylor poderá ver que houve a intenção. sua aparência beirando a meia-idade. Pelo menos a srta. fazendo-o voar de forma que o entardecer parecia sempre chegar cedo. onde o cavalo e a charrete iriam parar. Theo juntou-se a nós nas brincadeiras quase todos os dias e os três corríamos soltos como se não houvesse amanhã. (Fiz uma desmotivada para a srta. com meu melhor vestido. inspecionando nossa limpeza e asseio. Mas é claro que haveria. Grouse. e houve. Whitaker que ela passou despercebida. Grouse passou os últimos minutos discursando sobre boas maneiras e tentando mais uma vez ensinar-me a fazer uma reverência.A menina que não sabia ler . seus olhos cruzaram com os meus e havia algo em seu olhar. Tudo o que nos restava daquele verão dourado era o tempo que John levaria para trazer a nova mulher da estação de trem na cidade. Whitaker.John Harding 50 ele conseguia transformar em dezembro um dia de julho. Quando John lhe deu a mão para descer da charrete. apesar de estar mais que disposta a receber a preceptora com uma reverência. E a substituta da srta. meus membros relutaram até a sra. como se elas também tivessem vindo especialmente para dar as boas-vindas a ela. imagino que teremos que nos contentar com isso. Sua figura esquelética estava vestida toda de preto. Satisfeita por estarmos apresentáveis. Whitaker havia me dito que todas as preceptoras sempre vestiam cinza. ou pelo menos tão apresentáveis quanto poderíamos estar. a sra. olhos escuros e cabelos pre tos. um brilhante avental branco por cima para garantir.) Por alguma razão. eu acho. diante da casa. pois a srta. não familiaridade exatamente. Era uma mulher bonita. . Grouse exasperar-se. Era muito mais velha que a pobre srta. Giles estava com a roupa da escola e eu. os três em desfile. Momentos depois. mesmo que falhe a execução. Então lá ficamos nós. A escola recomeçaria e Theo voltaria para Nova York. tentando ver a pessoa sentada atrás de John. uma pequena guarda de honra. — Bem. Finalmente ouvimos o som metalizado dos cascos de Bluebird na estrada principal e então vimos o cavalo e a rédeas subindo a estradinha até a entrada. Ela me olhou criticamente e abandonou-se em um suspiro. e esse pouco tempo foi ocupado pela sra.

Giles — insistiu a sra. Grouse — devolveu a srta. Taylor encarou-o durante um instante. Taylor — disse a sra. Taylor -. Grouse. contraindo o rosto com interesse genuíno -. desnecessariamente. os olhos prontos agora. embora não tenha sido um grande sucesso. não seja mal-educado. ante a improbabilidade de que a recém-chegada fosse outra pessoa.A menina que não sabia ler . como se ela pudesse ver através de mim o eu que eu fingia ser. Grouse. sem o tom de galhofa necessário para que a sra. — Vamos lá. Giles — disse a srta. — Você deve ser a srta. Grouse e disse bruscamente: — Bem. ela desviou o olhar e presenteou a sra. Grouse notasse. você não tem nada para dizer? Meu irmão mordeu o lábio nervosamente. pois tão logo nossos olhos se conectaram.John Harding 51 mas um tipo de reconhecimento de quem eu era que despertou imediatamente minha ansiedade. Grouse -. procurando soar como se quisesse dizer isso. Ela se virou para a sra. — E vocês é claro que são Florence e o pequeno Giles. fale. — Bom — Giles falou. madame — murmurei. — Prazer em conhecê-la. Esse olhar desconcertou-me e evidentemente a ela também. — Muito bem. sorriu largamente. depois ergueu a sobrancelha para a sra. se puder mandar o criado levar as malas para meu quarto. sem revelar nada. — E você deve ser a sra. Ela se virou para Giles e para mim e. apesar de ter saído como a oração de domingo. Grouse com um sorriso. a senhora preferiria ser fervida no óleo e comida por canibais ou ser atingida por uma baioneta de um soldado confederado e vê-lo arrancar suas entranhas diante de seus olhos? A srta. . Fiz a reverência quando ela pronunciou meu nome. da maneira que a maioria das pessoas tem por um lugar novo. Taylor. mas parecia que ela não tinha curiosidade ou qualquer interesse. Lá dentro ela não olhou muito em volta e também não fez comentários sobre a casa. com uma leveza que conseguiu ser também algo crítica. Não era exatamente algo que você pudesse jurar. — Imagino que teremos um pouco de trabalho por aqui — ela observou. era como se não fosse diferente do que esperava.

— Muito bem. Foi no jantar. — Sempre comi com as crianças. descerei nesse horário. A que horas é servido o jantar? — Bem. Estou vendo quatro lugares — disse a srta. . e virou-se para encarar a sra. — Alguma coisa errada? — perguntou ansiosamente a sra. dizendo isso. depois sorriu fracamente para Giles e para mim. Whitaker adaptou-se muito bem a esse arranjo. seguiu John pelas escadas.A menina que não sabia ler . Grouse. forçada a se espremer entre a preceptora e a porta para entrar na saleta. ou antes mesmo que ele começasse. Taylor apareceu pouco antes da hora combinada. A srta. A srta. sim. onde sempre comíamos. Whitaker chegou ela se juntou a nós. mas não é apropriado. e quando a srta. A sra. Devemos agir de acordo com as conveniências. — E. Whitaker. — Pode ser. sempre fomos apenas nós três durante muitos e muitos anos até o sr. Atrás de si deixou o aroma de alguma flor. Giles ir para a escola. quantas pessoas dá isso? — O quarto lugar é para mim — disse a sra. Giles. — A srta. que corou. mas.John Harding 52 eu gostaria de me refrescar e deitar após a viagem. Pelo bem da educação das crianças. por mais que tentasse. Grouse conteve-se. E ninguém jamais havia se referido a John como "criado". e a sra. minha mente não conseguiu apreendê-lo. geralmente comemos às seis. — Por acaso há outra criança na casa que eu desconheça? Vamos lá. Mas eu não sou a srta. Ela não estava habituada a que falassem com ela daquele jeito. como está sua matemática? Você. Grouse. Florence e eu. Grouse a levou para a pequena saleta do café. sim. junto à cozinha. e ameaçou-a com um sorriso. A sra. A srta. Não era de deixar que passassem por cima dela. Taylor. eu sou a preceptora. Grouse ficou olhando para ela até perdê-la de vista. que a primeira dificuldade se apresentou. Veja. Taylor parou junto ao batente da porta e olhou para a mesa. Grouse. Taylor ergueu uma sobrancelha. — Bem. — Ah. Você é a governanta. você entende.

Não havia luz vindo das janelas porque era noite sem lua. uma mesinha qualquer. também precisava mapear em minha cabeça onde é que eu estava. apesar de eu não estar preocupada com isso. era não ter uma vela para iluminar o caminho como acontecia quando caminhava sonâmbula. dentro a casa estava quieta como um túmulo. Quando avancei um pouco mais e não estava longe da escada que me levaria para o andar térreo foi que ouvi algo. Pouco depois. eu podia pelo menos erguer os braços e sentir à minha frente qualquer obstrução. Ainda assim. apesar do grande risco de ser pega. No final. descer até a biblioteca e ler durante algumas horas até ficar cansada o bastante para dormir. fato pouco facilitador. Dessa maneira. Naquela noite não consegui dormir.A menina que não sabia ler . A biblioteca ficava no outro extremo da casa. como esta não era uma crise de sonambulismo. Fiquei parada e prestei atenção. e dentro de mim também havia um uivo que eu não conseguia bloquear nem colocando o travesseiro nos ouvidos. No escuro. agora que a srta. decidi fazer o que sempre fazia nessas horas. eu tinha que tomar cuidado para não bater em alguma peça do mobiliário. Embora o vento soprasse e bufasse do lado de fora. Seria muito fácil virar na direção errada e assim acabar vagando a noite inteira até o amanhecer mostrar-me o caminho. Mary entrou com o rosto vermelho e começou a retirar a louça e os talheres do quarto lugar. e tanto pior por isso. Grouse deixou a sala. por exemplo. Fiquei com medo de dormir e sonhar de novo com a pobre srta. Nós três nos sentamos. Mas então.John Harding 53 A sra. enquanto a sala da governanta ficava ao fundo da escada. mas minha ansiedade vigilante era uma coisa obscura que eu não conseguia ver ou nomear. Meu principal problema. como sempre. e acordar toda a casa. Taylor estava ali. exceto pelo tique-taque dos relógios e o ocasional ranger das vigas de Blithe acomodando-se para a noite. mas não impossibilitador para uma caminhada noturna. Lá fora. se me pegassem. A srta. tudo o que eu precisava fazer era fingir uma crise de sonambulismo. quase abaixo do meu quarto. Whitaker e o dia em que ela morreu. Grouse. — Pode servir a comida agora — ela disse. Era muito mais difícil chegar à biblioteca dessa maneira do que até a saleta da sra. todos os . Taylor sorriu para ela. o vento uivava como uma besta selvagem cercando a casa. procurando uma forma de entrar. lentamente alcancei o corredor.

estava. e então este som tomou a mesma direção a que se dirigia no começo. felizmente. estava vindo na minha direção. e assim fui sentindo o caminho ao longo do corredor até o andar térreo . sentindo o ar como um predador sente a presa. A mulher estava bem em cima de mim agora e. se mulher fosse e não um fantasma. sem velas. mas porque minha colega de sonambulismo o sentiria no rosto como eu sentia o dela no meu. Quem quer que fosse. No início pensei que fosse o vento soprando o galho de uma árvore contra alguma parte da casa. Tudo ficou quieto. de forma que ela — só podia ser de mulher aquele barulho — logo estaria em cima de mim. Perguntei-me se uma mulher normal poderia se movimentar com tanta rapidez naquele breu total. seguida por uma longa pausa com a respiração sustentada enquanto ela ouvia. ficando cada vez mais suave e mais suave até se transformar num sussurro e desaparecer.A menina que não sabia ler .John Harding 54 sentidos alertas. Que tipo de criatura poderia ser. o de colocar o máximo de distância possível entre mim e essa mulher. e mesmo assim era capaz de movimentar-se em um ritmo considerável. reconheci o som do farfalhar de saias contra o assoalho. como se a mulher tivesse virado repentinamente. por sorte. pois era o mesmo som sibilante das folhas raspando em algo. um recanto raso incrustado na parede. o farfalhar parou. além disso. encontrei um espaço atrás de mim. mas agora. Finalmente. Mas então percebi que o barulho não era fixo. Um minuto depois. Pressionei-me ali e prendi a respiração. vagarosa. e sim algo em movimento que. uma inspiração incisiva. não só por causa do barulho. como um gato sente do rato ou um cão de uma ratazana. Meus pulmões estavam quase explodindo pela longa retenção do ar. como eu. Ouvi um pequeno som. de forma que iríamos colidir a qualquer momento. Respirei ofegante e engoli o ar como um nadador vindo à superfície depois de um longo mergulho. ou meu cheiro. além de um gato? Ela não poderia estar a mais de três metros de distância. de repente. Senti que ela estava vindo na minha direção. Tinha apenas um pensamento. Instintivamente encostei as costas na parede e. e foi como se essa criatura tivesse sentido a minha presença. mas não ousava soltá-lo. houve um farfalhar abrupto. até o vento parecia ter parado de soprar como se fosse aliado dessa outra sonâmbula para permitir que ouvisse melhor. e vindo na minha direção. depois uma expiração longa. bem quando eu pensava que o jogo tinha acabado e que deveria respirar ou nunca mais o faria.

Mas talvez tudo isso fosse apenas a minha imaginação. pois eu jamais havia encontrado algo como o que havia ocorrido na noite anterior. se fosse um dos fantasmas de Blithe. acontecera com a mãe de Giles e por que as fotos não tinham rosto. Taylor. Aí acendi minha vela. Pois não havia a pobre srta. Deitei-me exausta e preocupada. a imaginação da minha mente.A menina que não sabia ler . o que era? Poderia ser um fantasma ou outra coisa sobrenatural? Pois que mulher. e atravessar o corredor até seu quarto. E no cheiro de lírios da srta. esse amor pelo rebuscamento. Havia algo em comum? Tais pensamentos assustaram-me tanto que fiquei preocupada com Giles e tive que levantar da cama. se o que passou por mim no corredor na noite anterior não era a nova preceptora. apesar de estar exausta. Whitaker encontrado tragicamente uma morte precoce e repentina sem oportunidade para fazer as pazes com seu criador? Não poderia ela estar revirando-se embaixo da terra no cemitério local por causa da maneira como havia morrido? De repente peguei-me pensando no que. e era muita coincidência que ela tivesse acabado de chegar à casa. parecia-me que havia algo do seu perfume no ar. especialmente uma estranha recém-chegada. Quem era aquela mulher? A resposta mais óbvia era que se tratava da srta. sua beleza feia sobre o caixão. passei um braço por cima dele e caí imediatamente num sono profundo e pesado. onde o encontrei num sono ignorante e contente. que eu lembrava tão bem do funeral da srta. la-muriei-me pelo resto da noite até a luz começar a abrir caminho pelas pontas das cortinas e consegui correr de volta para meu quarto. Mas. e logo descobri que era perfume de lírios. então. fiz meu ninho e aninhei-me. aquele perfume que eu havia notado quando nos encontramos pela primeira vez. Eu entendia perfeitamente como algo assim poderia acontecer.John Harding 55 e dali até a biblioteca. poderia percorrer a casa com tanta rapidez no escuro? E se não fosse deste mundo. de fato. Estendi-me ao seu lado. Taylor. Ao recordar o incidente depois. Whitaker. 11 . apesar de estar perturbada demais para ter qualquer esperança de sono. o que estava procurando ali? Os fantasmas que eu conhecia normalmente eram espíritos perturbados incapazes de encontrar seu caminho para o outro mundo por causa da maneira como haviam deixado este.

Giles agarrou seu waffle de novo. vi. Grouse. assim não. por alguma força de vontade. Desejou bom-dia a Giles e a mim e foi até a porta da cozinha dar bom-dia para todos os criados e também para a sra. apenas pela nossa simples existência. pudéssemos de alguma forma ofender. junto com a sra. a sra. — Giles. Grouse. pois a srta. lançou-me um olhar tão melancólico que quase me senti culpada demais para comer. Os olhos de Giles começaram a encher-se de lágrimas. Whitaker havia sido tratada como uma espécie de criada. andando para cá e para lá para nos trazer cereal. . a mesa mais uma vez estava posta para três. Isso me fez pensar. todos já estavam agindo em relação a ela como se fosse da realeza. então tomou um gole do seu café e pousou a xícara. dando tantas mordidas sem recorrer à mastigação e deglutição. Taylor ocupava a mesma posição e mesmo assim. quer dizer. naquele momento ela chegou. Giles engasgou. Grouse era no fundo uma boa alma e também fácil de controlar. quando Giles e eu chegamos para o café. Como havia acontecido isso? Comemos nervosamente. Taylor disparou como uma chicotada e derrubou-o de sua mão. Mary e John. porque certamente seria ouvida em alto e bom som.A menina que não sabia ler . Grouse sentada à mesa. Whi-. Falando do diabo (pois tal era ela. A srta. waffles e calda. Meg e Mary arrastaram as cadeiras e levantaram-se deixando a própria refeição. embora de outro nível. srta. Foi a srta. srta. Apesar de todas as falhas. a sra. — Que jeito seria. e a mão da srta. Ao sentar-me. Ela riu para mim e eu devolvi um sorriso fraco. como você verá). como se. ovos. não comemos desse jeito. através da porta aberta da cozinha. Desconcertadas. Taylor não seria assim.John Harding 56 Pela manhã. tomando café com Meg. Taylor quem quebrou o silêncio. Quando me ouviu. Teria sido um bom momento para deixar cair uma gota caso houvesse dificuldade para controlá-la. — Eu lhe disse — ela sibilou -. pois tanto Giles quanto eu temíamos chamar atenção. — Giles — ela disse. Uma parte de mim já sabia que a srta. Taylor? — Bem. em silêncio e tomando cuidado para não deixar o garfo bater no prato ou pousando os copos de leite na mesa sem fazer barulho.

sem parar para mastigar ou engolir. subitamente liberado do latim e de história.. — Não por aí. antes mesmo de começarmos a subir. até a coisa toda desaparecer. Mal sabia eu. tão familiar. que me perguntei quanto havia chorado enquanto estava na escola. que talvez essa fosse uma mulher de temperamento ríspido. meu garoto. o sol está brilhando. nós nos soltamos e agimos como se não tivéssemos uma nova preceptora. uma mordida depois da outra. Giles e eu saímos correndo à frente dela. pois suas bochechas estavam cheias como as de um hamster. como não fizesse outra coisa além de sorrir ternamente diante de nossas ações e acenar em sinal de aprovação. a srta. Taylor chamou-nos. e balançou a cabeça. Começamos cautelosamente. e então ela finalmente engoliu tudo e disse: — É assim que não se come. como um pássaro maluco bicando. tão odiosos para ele quanto o bordado para mim. deduzi. Ficamos em silêncio durante todo o resto do café. e senti o coração desolado com a ideia de passar o dia sobre alguma tapeçaria inútil quando desejava estar na biblioteca. . Houve um longo silêncio em que Giles e eu ficamos olhando para ela de boca aberta. esse jeito de limpar as lágrimas foi um gesto tão inconsciente e por isso. mas no fundo de boa vontade. Poucas vezes vi Giles chorar e. porém. quando saímos da sala de jantar. Giles e eu fomos na direção da escada para ir até a sala de estudo. Vejam. Diante de um dia tão adorável.. pois não tínhamos ideia de quais seriam as restrições. Assim como? — Bem. Depois que terminamos. E eu também pensei que isso talvez não fosse tão ruim.John Harding 57 — Eu. senhorita. abriu um sorriso concedendo-lhe instantaneamente seu perdão pelo tapa na mão que lhe arrancou o waffle. Taylor examinou os arbustos em que nos escondíamos principalmente porque estavam tão altos que ofereciam um ótimo esconderijo. assim! — ela agarrou o waffle e começou a mordê-lo freneticamente. Na propriedade. Mas. Entende agora? As bochechas de Giles iluminaram-se e ele limpou as lágrimas com as costas da mão. e também meu primeiro aqui. escon-dendo-nos atrás de arbustos e pulando um sobre o outro. no entanto.A menina que não sabia ler . mas não entendo. por que vocês não me mostram a propriedade? Giles. A srta. crianças. eu sinto muito.

— Diga-me. sua brancura gelada no caixão da srta. Ela olhou para Giles. Ela começou a andar em volta dele e nós a seguimos. passando pelo velho embarcadouro de madeira e a casa de barcos. A alimentação. e estávamos na metade da volta quando ela parou e olhou para a água. — Ah. era o lugar exato. que se contorceu como se o seu colarinho tivesse ficado muito apertado repentinamente. Estremeci com o fato de ter escolhido exatamente aquele lugar. perseguindo um ao outro em seu rastro. Mas eu não podia dizer isso. senhorita. . assim como os cuidados com a propriedade. Você não estava no barco com ela? Pelo que sei. como havia pensado no dia do enterro. balançando a cabeça de maneira enfastiada. afinal de contas.A menina que não sabia ler . Antes de conseguir me recompor. percebi que alguém estava falando comigo e que era a srta.. a limpeza e os exercícios dos cavalos. senhorita — respondi educadamente. que não está ficando mais jovem. Aquele. Taylor. estava. E pensei. senhorita. — O que quer dizer? — O acidente.John Harding 58 — Tudo tão tristemente negligenciado e desleixado — ela murmurou. é o que ele diz. Finalmente chegamos ao lago. sem perceber que ela estava falando para si mesma. "pior que erva daninha cheira o lírio que apodrece". Nesse momento olhei para a beira da água e vi os lírios florescendo e lembrei imediatamente do seu perfume na mulher invisível que havia passado por mim à noite. especialmente um que não está ficando mais jovem. Ela disparou um olhar. — Sim. Whitaker. veja bem. eu — ele balbuciou. Continuou caminhando e nós a seguimos. — Por que permitiram que ficasse desse jeito? Parei de brincar. Ela se distanciou sorrindo e examinou os arbustos novamente. — Eu. o lago — ela constatou. é claro. só temos John para cuidar de tudo e ele tem tantas tarefas na casa. é muita coisa para um homem. — Quer dizer.. — Bem. e respondi. onde foi que aconteceu? Soube imediatamente o que ela queria dizer. no verso de Shakespeare. e senti um frio na espinha.

Nesse momento soprou uma brisa que mexeu o fino tecido de sua blusa. Não gosto de pensar naquele dia. — Sim. Taylor virou-se e dirigiu-me um sorriso malicioso. e quando decidi que era seguro encará-la novamente.John Harding 59 — Não Giles — eu disse. pegava exceto quando havia neve. que seu interesse despertou e ela me fez algumas perguntas a respeito dele. e que era esse caminho que Theo. se não se importa. para o lugar em que estava o barco quando a pobre srta. A srta. Depois caminhamos a esmo pela propriedade e perambulamos pelo bosque. embora eu tenha acrescentado "com um pouco de sorte ele logo ficará doente de novo". eu estava na sala de estudos. o que deixou seu rosto com uma expressão desconcertada. . e isso é muito ruim para seu peito. — Prefiro não falar sobre isso. como se já soubesse as respostas ou não tivesse interesse nelas. apesar de estar certa de ter sentido o peso dos seus olhos em minhas costas. e então passou por mim. e lá estava ele novamente. — Vai começar a esfriar e umedecer em poucas semanas — entusiasmei-me -. com o verão quase acabando. ele logo estaria voltando para Nova York e para a escola.A menina que não sabia ler . — Só eu. voltando para o caminho de onde tínhamos vindo. o perfume mortiço dos lírios. meu amigo especial. no que ela disse "Ah". Expliquei que. Estávamos só ela e eu no barco. Whitaker havia lhe dado algumas frases em latim para escrever. Foi só quando estávamos no bosque e expliquei que a trilha em que estávamos levava até a casa dos Van Hoosiers. como se isso fosse o certo. mas não estava realmente ouvindo o que eu dizia. Ela me fez perguntas a respeito do lugar. Ela não respondeu. mas eu não sabia se era dos lírios de verdade que cresciam junto ao lago ou se era o perfume da nova preceptora. por isso ri e expliquei que Theo sempre vinha até aqui quando estava com asma e por isso esperava que ele tivesse outra crise em breve. Ele estava na sala de estudos. — E o que aconteceu exatamente? Eu lhe dei as costas. — A srta. Giles confirmou com a cabeça. Whitaker desapareceu tragicamente. ela estava olhando para o lago. vi que não estava olhando para mim.

do aroma de lírios mortiços em minhas narinas e. embora no caso dela não só com uma porta para o corredor. intermediados pelo quarto de estudos. foi a mesma coisa: fiquei desassossegada e não consegui dormir. mas então foi interrompido e acordei na cama. quanto a isso não havia dúvida — não conseguisse se decidir se estava cantando ou não. mas sempre que eu olhava para ela sentia que estava nos observando. mas não exatamente. Mary veio. embora só pudéssemos alcançá-lo pelo corredor. quase um canto. e parecia estar adormecida enquanto Giles e eu brincávamos de pega-pega. Quem afinal era essa mulher? Como havia sido contratada? O que sabíamos a respeito dela? Ela não havia deixado escapar nada.John Harding 60 Passava do meio-dia quando voltamos para a casa. e decidi que o risco de fazer aquilo numa segunda noite seguida era grande demais. por isso eu tinha essa sensação de que ela havia engolido uma cobra ou um lagarto. Pela maneira como haviam sido arranjados. como os de um réptil. mas então me lembrei da figura roçando em mim no escuro. da srta. porém. colocou um grande tapete no gramado atrás da casa e junto com Meg trouxeram comida. tenho certeza de que muito depois da meia-noite. como se a mulher — pois era uma voz feminina. os olhos estranhamente entreabertos. Assustei-me com o sonho e fiquei ansiosa com Giles. Depois a srta. realização da srta. Whitaker. mas ela nos disse para esperar do lado de fora e entrou para pedir a Meg que nos preparasse um piquenique. a srta. claro. Ficando na cama. devo ter adormecido. . Em determinado momento. Taylor. Giles e eu tínhamos cada um nosso próprio quarto. No outro lado do quarto de Giles era onde a srta.A menina que não sabia ler . 12 Aquela noite pensei em fazer-me de sonâmbula novamente. um som estranho. Taylor sentou-se com as costas apoiadas em uma árvore. Percebi que vinha um som pelo corredor daquela direção. não diretamente dos quartos. que tinha tomado seu corpo e agora olhava cobiçosamente através de seus olhos. Taylor sentada observando-nos perto do lago. que estava preso dentro dela. Whitaker. pois comecei a ter o sonho. e agora. mas também com outra para o quarto de Giles. dormia. acima de tudo. com aqueles olhos de serpente entreabertos. meu sonho de sonâmbula.

mas ouvi apenas o vago sibilar do vento da noite e tranquilizei-me. Era pior do que eu pensava. Balancei a . Tropeei pelas tábuas nuas. Percebi que estava quase encantada com aquilo. Fui descalça até a porta.John Harding 61 lamentando talvez a morte de alguém. tanto para conforto quanto para qualquer outra coisa. na verdade pensando em alardear minha aproximação para talvez afugentar a coisa. baixo e misterioso como um hino fúnebre. parando por um instante quando ela rangeu. mas como se tivesse aprendido música de alguma maneira e estivesse uivando no tom. iriam soar daquela maneira. o que quer que fosse. Porém. eu tinha que continuar. saí para o corredor. tateei até encontrar meu robe e me cobrir. pois sabia que nunca conseguiria descansar até me convencer de que meu precioso irmãozinho estava a salvo. Agora. soando como nada além do próprio vento. Mas. pois o canto persistia como antes. nem um ser vivo. Coloquei cautelosamente a mão na maçaneta da porta e virei—a lentamente. pois a coisa que estava fazendo barulho. espreitei por algum tempo. mesmo que fosse. se você tivesse me perguntado antes que tipo de barulho um fantasma faria. então. eu não poderia responder porque jamais havia pensado se eles produziam algum som. não havendo mudança. pois a noite do final do verão estava quente e não havia ninguém. além do tilintar de correntes ou do queixume constante ou algo desse tipo. pelo menos. e então. Abri a porta e o que vi quase me tirou o fôlego. como poderia pensar em mim mesma quando Giles estava completamente sozinho — mesmo que isso não representasse nenhum perigo — e mortalmente aterrorizado com aquele som horrível? Saí da cama.A menina que não sabia ler . desatenta ao barulho que fazia. por isso levei alguns segundos até perceber de onde vinha o barulho. Instintivamente cobri a cabeça com os cobertores para me esconder do que quer que fosse que andava à noite e para abafar o barulho que fazia. Abri a porta lentamente. Mal tinha colocado um pé na frente do outro quando captei novamente aquele lamento baixo. soube que minha presença não fora notada. se os espíritos dos mortos realmente caminhassem e pudessem dar voz aos seus sentimentos inquietos. convencendo-me que devia ter sido aquilo o que eu ouvira o tempo todo. quando cheguei à porta de Giles. Mas. estava no quarto de Giles. para me ver de camisola. mas reconhecia agora que. temendo mais uma vez fazer qualquer barulho.

Eu tinha começado o sonho. Taylor. e então a tinha visto. tinha sido apenas meu sonho novamente. *** Acordei na minha própria cama com a luz do sol brilhando através dos vãos da cortina. e colocarei o café à sua frente. comecei a lembrar mais e mais. Ou pelo menos me parecia agora que tinha sido assim. mas era tarde demais. srta. o estranho canto fantasmagórico que havia me tirado da cama em primeiro lugar. tirou o cabelo de seus olhos e então disse: — Ah. quando eu caminhava à noite. mas então acordei. Agora. Sentia que havia algo diferente da maneira como as coisas sempre foram. era assim que começava o meu sonho: eu via a mulher inclinando-se sobre a cama de Giles. Com um gesto materno. foi o barulho do meu corpo caindo no chão. em vez do negro do meu sonho. — Bom dia. A última coisa que acho que ouvi. ela estava vestida toda de branco. seguida por Mary entrando com uma bandeja. depois não me lembrava de ter caminhado. é verdade. Normalmente.John Harding 62 cabeça incrédula. Era quase exatamente como no meu sonho de todos aqueles anos. estendi a mão para segurar o batente da porta e salvar-me. eu poderia comê-lo! A mulher era a srta. com camisola e robe de renda. Sempre. seja uma boa menina. afinal. A cena diante de mim não desapareceu. senhorita. Obedeci. sente-se. que não era nada parecido com qualquer coisa do meu sonho. saí da cama e caminhei perfeitamente consciente. cantando suavemente. . nem eu acordei. então tive a presença de espírito de beliscar meu braço.A menina que não sabia ler . Mas o quê? Então percebi. pois tinha ouvido dizer que isso serve para verificar se o corpo está dormindo ou não. Atordoada. deunos um grande susto ontem à noite. está tudo bem agora? Fico feliz em vê-la acordada. mas suas crises de sonambulismo sempre assustam. Mas eu simplesmente havia sonhado ou caminhado sonâmbula também? Havia algo estranho em tudo isso e por um minuto ou dois minha cabeça vacilante não conseguiu adivinhar. e então eu caminhava. a mesma mulher estava inclinada sobre a cama de Giles. tentando limpar a visão à minha frente. apesar de não sentir. ela estendeu a mão na direção do meu irmão. meu querido. Aos poucos. Mas na noite anterior eu havia caminhado antes. só que agora. Houve uma batida na minha porta. Então. Florence.

O que ela estaria fazendo ali àquela hora? Não. Mas na noite passada eu tinha ido para a cama . — (Apesar de ter sido ela quem falou o tempo todo. pois não havia sido informada das suas buscas noturnas.John Harding 63 — En-então aconteceu. eu não podia. eu poderia comê-lo!". Depois que Mary saiu. tomei meu café. ela a ouviu e ficou bastante aborrecida. No passado acontecera muitas vezes de eu desmaiar em algum lugar e ser carregada de volta para a cama inconsciente. eles certamente haviam me encontrado com ele e me levado diretamente para a cama. Acordou toda a casa. — Ah. senhorita. — Meu Deus. tudo parecia muito simples. Taylor ouviu? Mas ela já não estava lá? Mary olhou para mim e riu. E não parecia como no sonho. Era uma hora da manhã. como ficávamos quando éramos pequenos. pois estava faminta. normalmente não havia som algum até a mulher incli-nar-se sobre a cama e dizer: "Ah. Nunca tinha havido nenhum som como esse no meu sonho antes. Também percebi depois que eu ainda estava usando meu robe. Sempre o sonho começava comigo no mesmo quarto que Giles. No mínimo porque havia a cantoria. Eu tivera o sonho e um dos meus sonambulismos. e no final John pegou-a e colocou-a de volta em sua cama. onde desmaiou no chão. abriu as cortinas para que a luz do sol inundasse o quarto e ocupou-se servindo-me chá e descobrindo um ovo cozido. mas quanto a continuar na cama e voltar a dormir. Giles. Agora já chega de conversa. A srta. provavelmente não querendo me acordar tentando tirá-lo. Mas o que me afligia era a ordem das coisas. sim. não nos quartos separados que tínhamos agora. não antes. pois minha mente era uma colmeia de pensamentos. meu querido.A menina que não sabia ler . Taylor disse que você não deve nem sequer pensar em descer antes do meio-dia.) — Tome o seu café. Taylor ter ouvido seu tombo. Sabe que sempre fica cansada depois das suas aventuras noturnas. só até o quarto do sr. ou teria ficado ali a noite inteira e acordaria dura como uma tábua. caminhei sonâmbula ontem à noite? Ela colocou a bandeja no meu colo. Por um lado. — Disse que a srta. depois continue deitada e volte a dormir. senhorita. Giles continuou dormindo o tempo todo? Sorte sua a srta. Na verdade. apesar de não ter ido longe. E eu sempre havia sentido que a caminhada começava depois do sonho. Acredita que o sr. senhorita. não.

No curso de uma manhã tumultuada. havia algo dela na primeira preceptora. O principal entre eles era meu sonho. Se fosse verdade. O que significava tudo isso? Apenas que a nova preceptora pretendia nos fazer mal.A menina que não sabia ler . Percebi finalmente porque desde o início tinha havido essa sensação de familiaridade com a srta. pois desde a mais tenra infância eu a vira inúmeras vezes no sonho. Taylor. agora tornado realidade diante dos meus próprios olhos. Taylor havia mentido quando disse que me ouviu cair e saiu da cama para investigar. ido para o quarto de meu irmão e lá havia ficado tão chocada pela visão do meu sonho. nunca vestia meu robe. como o homem de Edgar Allan Poe em "O enterro prematuro". quando saía caminhando. Taylor — estava fazendo e. um olhar. Whitaker. e eu estava certa disso. sempre o fazia com a roupa que estava usando na cama. tinha levantado. E é claro que ela mentiria. ansiosa com Giles. A coisa toda não fazia sentido. assim como nunca parava por causa de uma vela. colocado o robe. mais parecia . talvez.John Harding 64 apenas com a camisola. E quanto mais andava e pensava. porque não iria querer que ninguém soubesse que estava no quarto de Giles no meio da noite. algo na falsidade do seu sorriso. eu o tinha visto na vida real. quando lhe contaram do meu sonambulismo. meu coração estava acelerado como se eu estivesse correndo. Mas como podia ser que eu tivesse sonhado com ela antes mesmo de a conhecer? Como podia acontecer isso? Cerquei e cerquei isso em minha mente e não consegui chegar a uma explicação racional. planejou enganar-me para aceitar sua versão da história. muitos outros pensamentos ocorreram-me. apavorada demais para mover um músculo. Ou. Minha frustração acabou vencendo meu medo e eu me levantei e comecei a vagar pelo quarto. E. ao pensar nisso. Certamente não tinha ido para a cama de robe e. uma expressão. Apesar de continuar sentada na cama. estranhamente. a não ser que tivesse acontecido exatamente como eu lembrava. apesar de que. na verdade incapaz. se não a nós. na verdade não se parecia nada com ela. Eu tinha começado o sonho. a Giles certamente. Não que ela tivesse alguma semelhança com a srta. mas então havia acordado com o barulho que a mulher — a srta. a srta. que desmaiara. Meu sonho havia se tornado realidade! Exatamente como sempre acontecia.

Era o mais próximo que ela jamais chegara de alguma crítica ao meu tio. Grouse. — Sra. Pois qual pessoa que ao acordar subitamente após ter dormido em um lugar inadequado. por isso arrisquei a saleta da sra. obrigada. apesar de ter certeza de que . onde a encontrei sozinha. a pessoa que mantém tudo isto — ela estendeu os braços para mostrar tudo ao seu redor. Grouse — disse. — A sra. Muito bem. — Ah. senhorita. vendo seu rosto agora. mas a srta.John Harding 65 haver apenas uma explicação. apenas o que ela disse a todos nós. e era isto: eu tivera uma premonição. pela maneira como ela entoava as palavras "Ah. eu poderia comê-lo!". e meu sonho tinha um objetivo: salvar meu irmão de qualquer que fosse a maldade que ela havia planejado. — Tenho certeza de que não receberei confidências especiais. — Meu tio não lhe escreveu para falar dela e lhe contar sua história? Ele não teria referências. meu querido. Grouse fungou de novo. ela não pensaria que eu estava mentindo. sabe. srta. a razão para estar ali. — Sentindo-se melhor. aí está você. sempre um sinal de desaprovação. — Ela se empertigou e fungou. espero. não insiste em que não havia dormido de forma alguma? Decidi adotar uma conduta diferente. Tinha me avisado nesse sonho a respeito dessa mulher que um dia entraria em nossa vida. mexendo à toa no mata-borrão que ficava em cima de sua mesa. Grouse. Taylor? — Bem. o que a senhora sabe a respeito da srta. como se o que eu estava falando não tivesse importância alguma.A menina que não sabia ler . *** Ao meio-dia desci para a sala do café. ela jamais acreditaria em mim. e pela maneira como olhava para Giles eu não duvidava que ele fosse o objeto de suas atenções. Ah. apesar de parecer impossível. não mais que você. Ela é a preceptora e eu sou a governanta. da família e de empregos anteriores? — Seu tio não teve nada a ver com isso. mas apenas enganada. — Sra. mas. referindo-se a Blithe e a todos que ali residiam — funcionando perfeitamente. Pensei em falar do suposto sonambulismo e de como não havia acontecido e do que tinha visto. ignorei o pensamento. Ela queria lhe fazer mal. Taylor e Giles ainda não estavam lá. Florence — ela disse alegre. — Sim. talvez em uma carruagem ou no teatro. Eu não tinha dúvida da maldade. exceto por mecanismos sobrenaturais.

se eu compartilhasse confidências com a sra. Balancei a cabeça. Taylor que a incomoda? Não respondi. e tinha visto o que ela pretendia. Ergui os olhos. só isso. A sra. Houve um estranhamento e logo ouvi as vozes de Giles e da srta. — Não.John Harding 66 ela o considerava negligente em relação a nós. ao mesmo tempo. . estava no exterior. contrariada como estava com a nova preceptora. bem. ela estava reconhecendo o que ambas sabíamos. talvez não goste dela? Ela falou com um tom conspirativo e eu sabia que. mas consciente. crianças. eu gosto dela. sabendo que esse era um caminho perigoso. Eu não me esquecera de como ela havia se conciliado com a srta. ficaria vulnerável se as relações entre elas melhorassem.A menina que não sabia ler . Taylor foi toda sorrisos. As pessoas de lá devem ter verificado suas qualificações. De certa forma. Além disso. A srta. — E que. desculpei-me e saí. senhorita? Há alguma coisa na srta. Pois. a desconsideração em tom jocoso com o que havia acontecido não como a manifestação de alguma perturbação mais profunda. Parecia um beco sem saída. Taylor. pode ter certeza disso. Mexi com o mata-borrão mais um pouco. Whitaker e não poderia se incomodar com uma entrevista atrás da outra para encontrar uma nova preceptora. Paralisei diante daquela palavra e da maneira como ela a enfatizara. igno-rando-nos e desejando preocupar-se o mínimo possível conosco. Acautelei-me. sem importância. sem saber o que dizer. Só estava curiosa. que eu não estava sonâmbula. Grouse. por isso contratou uma agência educacional para tomar conta do assunto. — Ele disse que havia tido o inconveniente de entrevistar a srta. — Espero que tenha se recuperado da sua aventura de ontem à noite. Whitaker. Grouse queria tornar-me sua aliada. Pode contar que ela veio totalmente recomendada. Grouse estava me olhando pensativamente. mas algo leve. Ainda assim. — Mas por que está perguntando. Não havia outra pergunta que eu pudesse imaginar. sinalizavam que deveria haver uma espécie de trégua entre nós em que a verdade ficaria adormecida. seus sorrisos. a sra.

senhorita. A srta. Acredito que seja o resultado de um cérebro ocioso. mas com gratidão quando. — Sim. mas estamos em 1891. e você não é diferente. — Para onde estamos indo? — perguntei enquanto corríamos atrás dela. Eu quis protestar. não com ressentimento.A menina que não sabia ler . girando-o por um momento na boca antes de engolir e prosseguir. Lançou-nos um olhar expectante. — A srta. pois ninguém jamais havia demonstrado tal familiaridade com nenhum de nós. Obrigada. uma imaginação que não tem o suficiente para ocupá-la e então procura coisas que não existem. Whitaker me fazia costurar. Os dias em que as damas só tocavam piano e pintavam um pouco — e mal — e bordavam coisas inúteis estão chegando ao fim. srta. Teria ele esquecido o incidente no café da manhã do dia anterior? Mas assim era Giles. Ela parou e tomou um gole do seu café. precisam de um pouco mais de estímulo. Ela limpou os lábios com o guardanapo e ficou em pé. . Isso me pareceu uma espécie de aviso. durante os intervalos em que não o provocavam ou machucavam. meu querido. — Ah. Eu me concentrei nas respostas breves. e Giles e eu entendemos que isso significava que o café havia acabado. mas como podia fazer isso com Giles olhando para ela como um filhotinho agradecido? Parecia até que iria lamber a mão dela. costura! — ela pareceu irritada. é claro que existem coisas que se esperam que uma jovem aprenda. mostravam qualquer gesto de bondade.senhorita.John Harding 67 — Sim. Eu podia imaginar como havia reagido aos provocadores da escola. Taylor estendeu a mão e mexeu em seus cachos loiros. Isso não lhe fez bem. — Bem. embora eu confesse que não o fazia muito bem. Taylor virou-se para mim. — Deixaram-na sempre solta. — E eu dormi o tempo todo — Giles falou alegremente. sem nada para mantê-la ocupada. — Entendo alguma coisa de sonambulismo. Ficamos em pé num salto e ela saiu marchando conosco em seu rastro. mas depois suavizou um pouco. Vou corrigir isso. Sou da opinião que todas as mulheres. você dormiu o tempo todo. por mais triviais ou mesmo inconscientes da sua parte.

para onde mais? Para a biblioteca! 13 Naquela noite o vento não uivou. de maneira a parecer educada. ou não teria permitido depois de ter proibido durante tantos anos. embora houvesse um pouco — como poderia não haver depois de ter visto a srta. apesar de não ter nem sequer dobrado um joelho. por favor — disse a srta. Ficamos perto da entrada. pode terminar de fazer isso depois. não tanto por ansiedade.John Harding 68 Ela atirou sua resposta sobre o ombro. Mary. apesar do frescor da brisa do final do verão. preenchendo o vácuo que lhe fora negado durante tanto tempo. . de boca aberta diante do que vimos. que estava nos levando para a biblioteca? A sra. especialmente para uma garota que passara a maior parte da vida enterrada em Blithe. embora eu lamentasse até certo ponto porque. com um toque delicado nas costas conduziu-nos para dentro da sala. palavras que pensei que jamais ouviria. Havia uma coisa boa e uma má. Giles e eu havíamos acompanhado a srta. sem fôlego para falar por causa do passo acelerado. disse "Sim. mas porque não conseguia deixar de ver e rever os acontecimentos do dia. pegou seu balde de água. Grouse sabia? Meu tio? Eu certamente não acreditava que soubesse. O que significava aquilo.A menina que não sabia ler . a coisa boa era muito boa — nossa visita à biblioteca. senhora". Taylor bruscamente. — Muito bem. As cortinas haviam sido abertas e a luz do sol banhava todo o aposento. lutando para manter o ritmo. sem conseguir acreditar em nossos próprios olhos. Havia acontecido tanta coisa. e saiu da sala. O pó acumulado durante tantos anos havia sido varrido do chão. Taylor enquanto ela seguia naquela direção. carecia do habitual cheiro de mofo reconfortante dos livros antigos. Algumas das janelas estavam abertas. mas de olhos arregalados um para o outro. limpando os vidros com um pano. — Ora. Taylor cobiçando Giles em sua cama? -. e Mary agora estava nas janelas. Então abriu a porta e deu-nos passagem. e apesar de a coisa má ser uma gralha em um monte de neve. Nossa nova preceptora parou diante da biblioteca e esperou que a alcançássemos. fiquei me revirando na cama. no entanto. e Mary endireitou-se imediatamente.

Não ouse. Ao contornar a chaise. pois ela pareceu ter suavizado. eu sinto muito — saiu sem que eu pudesse evitar e desejei poder retirar as palavras imediatamente. Taylor observou-o com um leve sorriso. Ela se virou e olhou para Giles enigmaticamente. mas não sem ternura.John Harding 69 Quando a porta se fechou atrás dela. Mas naquelas circunstâncias era a coisa certa a dizer. imagino que nunca esteve aqui também? Giles se contorceu. como se lamentasse o gesto. . ficou tão nervoso que se atrapalhou todo. para arrumar o cabelo. Quem teria imaginado? A srta. fui até o fundo da sala. — Puxa — ele disse. não por querer. passando o dedo por um livro aqui. a mão. parecia que não conseguia olhar para Giles sem morder os lábios. — Estou certa de que não sei do que está falando. sem dúvida levantados por Mary. Ainda assim. — Sua pequena cómoda de linho não está aí. Ela atravessou a sala como uma bala. Encarei-a despudoradamente.A menina que não sabia ler . por isso me virei e caminhei lentamente pela sala. Mandei que tirassem tudo. agarrou-me pelo pulso. — E você. Taylor virou-se para nós. ou pelo menos assim esperava eu. e eu sabia que ele estava meramente evidenciando meus próprios pensamentos. na direção da chaise longue atrás da qual escondia meus cobertores e minha vela. reconhecido que era ela quem mandava. e ao ver aquele sorriso percebi que ela sabia das minhas visitas à biblioteca.. Giles olhou ansiosamente para ela e para mim. mais rápida do que o ataque de uma cobra. — Não banque a espertinha comigo. Eu não iria adulá-la. — Eu. Engoli em seco. Dessa maneira errante. mas porque eu tinha feito o que não queria. como sempre. como os grãos de poeira. Ela me soltou e levou a mão que me agarrara à cabeça. tocando a lateral de uma prateleira ali. olhando ao redor de modo bem teatral -. Aproximou o rosto do meu e eu senti o forte aroma de lírios mortiços. Taylor atravessou a sala até mim. da maneira mais casual possível. a voz da srta. ou seja. pairando nos raios de luz que entravam pelas longas janelas. minha jovem. O que fazer agora? Deveríamos agir como se nunca tivéssemos visto aquele lugar antes? Ou assumir que ela já devia ter imaginado o contrário e por isso abriu o jogo? Giles.. quantos livros. a srta. eu não iria admitir de imediato.

ela prosseguiu. você nos acompanhe com algum bordado que esteja fazendo. Mas não vejo sentido em que continue a vir às escondidas à procura de livros como vem fazendo há tantos anos. mas isso mostra quão ridiculamente desa-tualizado está esse homem. ou que a maré não suba. você e eu sabemos que isso é bobagem.. muito obrigada. você entende. digamos. escute atentamente. senhorita. Sugiro algo bem grande.John Harding 70 — Bem. Giles e eu ficamos grudados no lugar. — Bem. Talvez deva salientar que nem a sra.. Taylor relaxou subitamente e ela sorriu. Eis o que proponho. você só precisará certificar-se de que o bordado esconda qualquer coisa. qualquer obje-to. O rosto da srta. do que um livro médio aberto. Ela o agraciou com um sorriu. que esteja em seu colo. — Sim. Sempre foi. para cá e para lá. — Sei que seu tio proibiu. Você também pode — fez uma pausa — sugerir livros que Giles possa gostar de ler mais tarde na sala de estudos e eu os levarei até lá. eu. Não posso ir abertamente contra as restrições de seu tio. não? Vendo-me desconcertada para responder. quer dizer. eu. — Como o rei Canuto! — exclamou Giles. Eu não conseguia acreditar. maior.. — Agora. como o rei Canuto.. quando trouxer Giles comigo para estudar. Whi. Ela se dirigiu a mim. o que me diz? — Sim. Fui e fiquei ao lado dele. Ela se virou e caminhou pela sala.. — ele me olhou pedindo socorro. tentando agradá-la. passando o braço em torno de sua cintura. Esforcei-me para compor o rosto. Também não pretendo perder meu tempo tentando impedi-la. srta. por mais ridículas que possam ser.. Por fim. Por isso não questionarão a presença de nenhum livro. Sugiro que. não indelicadamente. — Se formos interrompidos por um dos criados. Taylor. sem dúvida. Você também pode ordenar que o sol não brilhe. srta. Bem. é.A menina que não sabia ler . — Dizem que você não sabe ler.. Eu a desafiei com o olhar. senhorita. Grouse nem os criados conseguem distinguir que livros são apropriados para um menino da idade de Giles e quais estão além dele. voltou para onde havia começado. parando diante de nós. .

todos os quais. no quarto de estudos. Estava na metade do segundo capítulo do livro quando bateram à porta. ensinando verbos franceses a ele. Aberto no meu colo eu tinha o primeiro volume de A mulher de branco. terá que aprender a não se interessar tanto pelos assuntos dos outros. . senhorita. — Só há uma coisa — ela olhou para Giles. Isso é exatamente o que seu tio gostaria. é claro. Deve continuar a fazê-lo. Taylor na outra com Giles. Ela me viu primeiro e um sorriso iluminou seu rosto como um fósforo numa fogueira. embora silenciasse tanto naquela quanto na minha língua nativa. sem querer fazer nada que pudesse estragar uma coisa boa. de Wilkie Collins. — Nossa. como se estivesse perdida em pensamentos. Nunca tinha visto os livros todos de uma vez e em toda a sua glória. mas sempre lá para me ajudar em minha jornada para ler todos os livros da biblioteca. admito isso agora. que prazer vê-la tão entretida com as agulhas. isto é. Fechei o livro e o cobri com o bordado assim que a porta se abriu e a sra. srta.A menina que não sabia ler . guardou o segredo de sua meia-irmã durante muitos anos e guardou-o bem. A srta. Quase desmaiei de tanta emoção.John Harding 71 Ela se virou para a janela e observou os gramados iluminados pelo sol. como se retirasse o elogio que me havia feito porque elogiava ainda mais a professora que havia conseguido a mudança. E você. Muito claro. eu sei. Na mesinha junto ao meu cotovelo estava meu bordado. Coloquei a vida do meu irmão em risco pelo meu próprio prazer culpado. eu já conhecia. Enquanto isso. mocinha. Não fará perguntas a respeito deles nem espionará durante o dia ou à noite. Então ela evidentemente se lembrou do que tinha vindo fazer e o sorriso desapareceu quando voltou sua atenção para a srta. Taylor virou-se abruptamente. C/5 Então lá ficamos naquela tarde. caso contrário posso começar a procurar o que há embaixo do seu trabalho com as agulhas. senhorita. eu numa ponta e a srta. — Você. uma capa de almofada que seria como a de Penélope. Taylor. Está claro? — Sim. Florence. Com que facilidade a mente se torna egoísta! Com que facilidade deixamos de lado a perspectiva de um futuro desastre pelo prazer do presente! Fiz-me de avestruz por causa dos livros. Grouse entrou. nunca acabada. olhei ao redor. pois teremos todos dificuldades se não o fizer.

Naquele momento. mas depois percebi que essa talvez não fosse a razão. Taylor — disse a sra. Theo. Nesse momento ela estava quase no seu eu sempre áspero. Esperei um pouco até a sra. Taylor apoiando-se no batente da porta. Nossa nova preceptora pareceu incomodada por um instante. a mão na testa como se fosse desmaiar. Virou-se para nós e sussurrou: — Continuem. mesmo que para o encargo piegas da despedida por quem sabe quantas semanas. enquanto ajudo a srta. Vão até a saleta e recebam Theo e sua mãe. não . Grouse. — Realmente? — Sim. céus! A sra. e tínhamos acabado de atravessá-la quando ouvimos um gemido atrás de nós. imaginei que tivesse ficado aborrecida por ter sido perturbada no meio do trabalho. A srta. A srta. crianças. ou. no meu caso. e curvou-se bruscamente para pegá-lo. olhando para trás para ver a sra. mas então. Sentamo-nos e desejamos boa-tarde a ela. Grouse com um tom de zombaria tão imperceptível e sutil que ela não poderia demonstrar-se ofendida abertamente sem causar embaraço a si mesma -. Taylor apressou-nos para a porta atrás da sra. Giles e eu nos olhamos e demos de ombros. que não a conhecia ainda. Van Hoosier e o jovem sr. devemos ir nos despedir. Giles. No começo foi difícil ver Theo. e então me preparei para seguir a governanta. empolgada com a perspectiva de ver Theo. Grouse me dar as costas para poder tirar A mulher de branco do colo e deixá-lo na mesinha. Taylor com um braço em torno da sua cintura e le-vando-a pelo corredor na direção do quarto da preceptora. Taylor. Folheou o livro que estava segurando. Vieram prestar seus respeitos antes de fecharem a casa para voltar a Nova York. Nós três nos viramos e vimos a srta. crianças. srta. Van Hoosier ocupava quase toda a saleta. a sra. não devemos deixar nossas visitas esperando. pois a sra. mas temos visitas. — Oh. o rosto algo preocupado. descemos a escada. pelo menos até seu próximo ataque de asma. dizer olá e adeus imediatamente. Grouse parou e apoiou-a. que caiu no chão. — Bem. — Ai! — ela disse. Grouse apoiando a srta. Fizemos como ela falou.John Harding 72 — Peço a sua licença.A menina que não sabia ler . Ela ficou em pé esperando e Giles fechou seu livro agradecidamente e ficou em pé também. Taylor ergueu os olhos.

e examinou meu irmão. peça que me tragam um chá. Viemos apenas para nos despedir e dar uma olhada na nova preceptora. madame — eu disse. por favor. — De qualquer maneira. mas Theo e eu não gostávamos tanto da brincadeira. sorrindo com os olhos. C/3 Lá fora. madame — irrompeu Giles. — Olá. não quero que você me venha com outro ataque de asma justamente quando estamos de partida. Van Hoosier colocou diante dos olhos os óculos. — Ela estava vindo conosco e sentiu-se mal.John Harding 73 conseguia desviar os olhos dos seus peitos e ficava olhando para eles como se fossem um monumento famoso. Theo. se vocês. que usava pendurados em um cordão em torno do pescoço. Tomarei sozinha se a infeliz não está bem. A sra. por gentileza.A menina que não sabia ler . preferiria ser pregada no chão nua e coberta com mel à mercê de formigas assassinas que a matariam lentamente. onde está você. como as pirâmides. quiserem ir lá fora. — Qual é seu problema. A sra. — Que infelicidade que ela tenha escolhido justamente este momento para sentirse mal. neste caso. e Florence. é claro. agora completamente dominado por uma combinação de busto e estilo bombástico -. Virou-se para mim. Nada contagioso. — Theo. Giles nos implorou para brincarmos de esconde-esconde e saiu correndo para se esconder. e nada de correr. uma dupla delas. Ah. Van Hoosier virou a cabeça para trás indicando sua surpresa por ser cumprimentada dessa maneira e então sorriu. madame. ou. — Nunca viu uma dama antes? — Por favor. meu garoto? — Ela perguntou. Giles. A sra. não é realmente típico de menino preocupar-se com coisas assim? Eu me lembro de quando Theo tinha essa idade — nisso ela virou a cabeça para cá e para lá. eu acho que isso não será possível. eu não me oponho. Florence — ele disse. mas só por meia hora.. — Bem. Grouse ficou cuidando dela. Van Hoosier afundou em uma poltrona.. espero? — Ela acenou para nós. ou ser colocada em um barril e enviada para as cataratas do Niágara e esmagada em pedaços rapidamente nas rochas? O que acha? A sra. — Expliquei para aquela sua governanta que não podemos nos demorar. não mais que isso. Temos que pegar o trem das seis e quinze para Nova York. crianças. talvez. — Olá. garoto? Theo surgiu atrás dela. — Eu. Fomos .

Giles chamou e eu disse: — E melhor ir procurá-lo. Nós vamos embora. Que outro aliado além de Theo eu teria contra a srta. Meu coração disparou uma vibração de pássaro preso na gaiola. Ele está atrás do rododendro. — Eu sei! — Theo falou e afastou-se. — Europa — repeti hesitante. — Seis meses.. Não respondi. Taylor? Quem mais poderia me ajudar a proteger meu irmão quando ela tentasse levá-lo embora. como dois animais estranhos lutando. Theo — eu disse. meu pai. minha mãe e eu. Ergueu a cabeça e lançou-me um olhar sofrido. — Por quanto tempo? Ele me olhou melancolicamente. pelo menos não por enquanto. Nesse momento. ele disse: — Florence. A notícia não poderia ter vindo em pior momento. Vim adiando porque não suportava. você logo vai voltar para a escola. que se interligavam e soltavam como se ele não tivesse controle sobre elas..John Harding 74 sentar na parede de pedra que ficava atrás da casa para podermos conversar. Por fim. Tentei absorver o que ele acabara de contar. ou pior. e corou. embora a cada cinco minutos Theo tivesse que se levantar para encontrar Giles apenas para mantêlo interessado no jogo e longe de nós. Ficou contemplando sorumbaticamente o encanto daquele dia. Ele abaixou o olhar para as mãos. Eu não vou voltar para a escola. — Foi justamente isso que vim lhe dizer. Saímos na sexta-feira.A menina que não sabia ler . Theo voltou e sentou-se tristemente ao meu lado. aqueles longos dedos ossudos que pareciam desprovidos de carne. assim que sentamos pela primeira vez -. — Vamos todos para a Europa. eu estava pensando. — Embora? O que você quer dizer com embora? Ele ainda estava interessado em suas mãos. fazer uma viagem a passeio. -Sim? — Bem. . — Eu devia ter lhe contado antes. se fossem essas as suas intenções? Para quem mais além de Theo eu poderia me voltar em caso de necessidade? Giles tendo sido encontrado e saído para se esconder novamente. — Então.

— Eu sei — ele disse. — Prometa. é claro. Devia ser uma pessoa muito desconfortável para abraçar. Theo estendeu um de seus dedos enormes e limpou-a delicadamente. Ficamos sentados contemplando o dia mais um pouco. Taylor e como a encontrei andando pela casa à noite sem luz. não me sentia inclinada a mandá-lo embora com uma recusa. não será tão ruim. não pode ser tão ruim assim. — Bem. afastando-me um pouco para oferecer-lhe o rosto. — Caramba. prometa que. Apenas seis meses. e como ela ficou sobre o corpo adormecido do meu irmão e como eu temia que ela no mínimo pretendesse roubá-lo de mim.A menina que não sabia ler . você não está imaginando coisas demais? — Prometa. Uma lágrima marcou meu rosto. beijá-la. Ele me olhou com ansiedade. Quer dizer. sinto mesmo. receio que não. mas só um fantasma ou algo parecido. parecendo ao mesmo tempo tímido e orgulhoso. se poderia. não fale assim. Você acredita que hoje não tenho um? Sinto muito por isso. e uma garota não poderia vê-lo romanticamente. considerando que vou embora e tudo o mais e que não nos veremos durante meio ano. E inclinei a cabeça. mas ele abaixou a cabeça e contornou meu rosto beijando-me nos lábios. Theo. nesse caso a resposta é sim. Passa logo. isso foi uma coisa furtiva para fazer com uma garota. conseguiria fazer. Florence. talvez? Se concordar desta vez. você sabe. E então contei tudo a ele sobre a srta. Prometa. Florence. Ele simplesmente tinha um rosto muito comprido e era muito ossudo. Theo. Theo. algo que nenhum ser humano. se você voltar da Europa e algo ruim tiver acontecido a Giles ou a mim. No entanto. Olhei para ele. você não descansará enquanto essa mulher não pagar. — Isso envolve algum poema? — Bem.John Harding 75 eu estava pensando. — Não. bem. Theo. — Puxa. Não parecia certo sentir tanta tristeza em um dia tão bom. fantasmas! Vamos lá. Tinha aqueles olhos grandes como bolas. — Puxa. . você não entende.

e nós estamos aqui nas Américas. senhorita. vendo quanto era sério. Florence. — Estaremos por nossa própria conta. Taylor surgiu atrás de nós na porta da frente. fazendo um pequeno ninho para elas. fechando-nos do lado de dentro. então. — Ah! Não cheguei a tempo? — ela disse. — Que pena — ela disse. senhorita. a sombra de um sorriso? Giles ergueu os olhos para a srta. e nós a seguimos. do outro lado. É no outro lado do Atlântico. de uma maneira que me fez pensar que ela devia estar na mesma companhia teatral de Giles quando ele fingiu que nunca tinha estado na biblioteca antes. alcan-çando-a. de tão pouco convincente. não por um bom tempo. certo? Ela se virou e seguiu na direção da escada. talvez para sempre.A menina que não sabia ler . talvez apareçam novamente em breve. mas detectei um sinal de triunfo em seus lábios. 14 A carruagem dos Van Hoosiers não chegara à metade da entrada quando a srta. senhorita? — Giles ronronou. — Está se sentindo melhor. tomou minhas mãos nas suas. refleti amargamente. sabe? — É mesmo? — Ah. Nossa nova preceptora ignorou os equívocos de Giles. Não por alguns meses. e são quase cinco mil quilómetros no meio. Giles.John Harding 76 Ele deu de ombros e então. prometo mesmo. — Ah. — Bem. estou muito melhor agora. Taylor enquanto ela fechava a porta. e talvez. — Como assim? Ela falou casualmente. esses lugares ficam na Europa. de onde Giles e eu estávamos vendo Theo e sua mãe desaparecerem das nossas vidas por seis meses pelo menos. como se estivesse desinteressada. — Ah. — Theo vai para a Itália e a França e todos esses lugares. de um lado do oceano. sim. sim. olhou-me nos olhos e disse: — Eu prometo. não. dirigindo-me um olhar significativo. obrigada. . O aceno de Giles desfez-se no ar quando a carruagem finalmente virou na estrada principal e desapareceu de vista.

Alguém de uma classe superior provavelmente seria muito mais observadora. não pudesse saber disso. Sua rápida recuperação evidenciava que não estava absolutamente mal. Outra coisa chamou minha atenção. O que haveria com a sra. John e Mary eram pessoas simples que não enxergavam além do óbvio. Grouse e a Meg e Mary e outros. o capitão. desde que ela chegara. Taylor tinha procurado evitar. Van Hoosier parecia-me alguém capaz de arrancar os segredos de uma pedra — embora a srta. Uma mulher como a sra.A menina que não sabia ler . e que só poderia haver uma razão para isso. em como seu abandono forçado de mim deixava-me totalmente nas garras daquele demónio. . Taylor. Taylor sentiu-se mal de repente. Taylor sequestrasse meu irmão e desaparecesse ou — eu odiava o simples fato de pensar na palavra — o matasse e desaparecesse? Uma mulher na situação da sra. questioná-la a respeito do seu nascimento e de sua família e o que mais a preceptora tivesse feito antes. conseguiria situar seu sotaque. Taylor. pois tal acreditava que fosse. é claro. Grouse. sabia que se dirigia apenas a mim. Ela teria liberdade para fazer perguntas à srta. mas pertencer à fidalguia e. Meg. era evidente que nossa nova preceptora desejava evitar qualquer investigação sobre seu passado. Isso me deixou intrigada. identificar suas roupas e dar outras pistas que pudessem levar à sua eventual detenção e prisão. Aventei vários pensamentos. Por que teria desejado evitá-los? O que poderia significar isso? Eu me mexi e me virei. Van Hoosier que fez a srta. atirando-a por cima do ombro. Van Hoosier não ser uma criada. Mas independentemente das características da mãe de Theo. portanto. não estar sujeita às mesmas restrições impostas à sra. Taylor evitar sua presença? A resposta tinha que ser o fato de a sra. mas que havia fingido tudo.John Harding 77 E pela maneira como entoou a última palavra. C/3 Mais tarde. E se no futuro a polícia — meu velho amigo. deitada na minha cama. Tudo isso a srta. Van Hoosier estaria em condições de fornecer uma descrição mais exata. e era a de ter desejado evitar encontrar Theo e sua mãe. talvez — se envolvesse? E se a srta. e isso me levou a pensar na visita da tarde e em como a srta. A sra. pensei em Theo e em como sentiria sua falta. o que estava começando a se tornar minha rotina noturna naquelas noites.

Taylor pegou-o no seu quarto logo cedo e o levou para tomar café . Decidi falar com Giles a respeito disso. ou ela não teria ficado tão encantada com a notícia de sua ausência temporária. A srta. e antes de poder garantir isso ela teria que conquistar sua confiança. Imagine que fosse por um resgate. foi difícil encontrar um tempo em que pudesse ficar a sós com ele. E se não fosse por um resgate. Só uma coisa não fazia sentido para mim. ela teria que levá-lo e mantê-lo escondido e talvez por um tempo considerável antes de o resgate ser pago. Mas se ela pretendia apenas pegar Giles. O acaso poderia precipitar as coisas e ela aproveitaria a oportunidade. O que a srta. se pretendesse ficar com Giles para sempre. então por que não o fazer logo? A menos. ela precisaria de sua cooperação. Taylor para evitar os Van Hoosiers?). é claro. Era tão evidente que quase me chutei por não ter percebido isso antes. sua súbita explosão de raiva. entretanto. No dia seguinte. Taylor estava planejando seria executado antes que os Van Hoosiers voltassem. Eu teria que vigiá-la como uma águia. até que comecei a pensar a respeito do que poderia acontecer depois que ela o pegasse. teria primeiro que conquistar um lugar seguro em seu afeto. E ela havia liberado a biblioteca para mim para manter-me afastada enquanto se impunha sobre Giles. Era isso! Certamente era isso! Ela simplesmente estava esperando até que Giles ficasse suficientemente ligado a ela para engolir alguma história que lhe contaria sobre o porquê de ele ter que ir embora com ela. Se fosse assim. todos os dias afastando-o sempre um pouco mais de mim. então por que não agir logo? Que diabos estava esperando? No começo isso me incomodava porque não fazia sentido. e a bajulava como se ela fosse a pessoa mais maravilhosa que já existira. Para levar Giles embora. O que quer que fosse.John Harding 78 Se eu estivesse certa (e que outros motivos poderia ter a srta. avisá-lo do perigo que estava correndo.A menina que não sabia ler . que quisesse inventar um acidente para que não fosse responsabilizada e estivesse apenas esperando o momento oportuno. então outra coisa também era verdadeira. Se o seu objetivo era fazer mal a Giles. e então ela desapareceria. aconteceria logo. ele já havia esquecido o incidente do café da manhã. aconteceria em menos de seis meses. poderia ser a qualquer hora. Ora. e depois continuar com ela. algo que não se faz em um minuto. e sua aparente ternura por ele parecia sugerir isso.

é hora de brincar. é que percebia quanto ela o havia sequestrado de mim. tropeçando atrás de nós. quando me aproximei de Giles e comecei a sussurrar que precisava falar urgentemente com ele. Mesmo assim. também. com Giles correndo atrás de mim. agarrei-o pelo ombro e puxei-o para o arbusto.A menina que não sabia ler . — Eu não quero falar. uma espécie de fantasma. Afastei-me instantaneamente dele e gritei: — Você não me pega. Mas. — Você não entende — sibilei. Estou quase convencida de que ela não é humana. Quando tive certeza de que ela tinha se afastado. Só agora. que é uma espécie de ser do mundo dos espíritos. mas um recémchegado teria dificuldade para discernir. preciso falar com você. Um lugar onde podia ouvir a srta. alcancei um de seus braços. os arbustos estavam malcuidados e haviam crescido muito. — Não temos mais tempo para conversar como antes. olhei e vi que ela deixara a cadeira e aproximava-se de nós. eu acho. Giles ficou empolgado com isso. Podemos falar a qualquer hora. Acho que veio para cá com algum objetivo maligno. Taylor passar. seguindo um caminho que Giles e eu conhecíamos bem. Taylor procurando no meio do mato. de onde observava-nos atentamente. Você não percebeu? — Bem. embora eu pudesse ver que estava um pouco mais do que receoso. Isto não é hora de falar. Taylor acompanhou-nos até lá fora e sentou-se em uma cadeira reclinável no terraço. . qual o problema se ela ouvir? Por que nos preocuparmos? — Porque tenho certeza de que ela não é quem finge ser. até ouvirmos a srta. Não ficamos mais sozinhos. circulando pela trilha. Ele se contorceu sob o meu aperto. quase sem respirar. Em determinado momento. a srta. sim. Corri. Taylor escute tudo o que tenho para dizer. Fiz sinal com o dedo para que ficasse quieto e ficamos assim. Quando ele passou. quando estava tentando falar com ele. Eu não posso falar com você sem que a srta. Como você deve lembrar. você não me pega! — e sumi no meio dos arbustos. com a outra mão cobrindo sua boca para que ele não gritasse. Escondi-me em um arbusto de rododendro e ouvi os passos de Giles. quanto rara — mente ficávamos a sós. sussurrei para ele: — Giles. então.John Harding 79 com ela e a partir daí ficaram juntos quase sempre.

— Mas por que ela faria isso. Fio? Ele olhou para mim como para uma estranha. antes que eu pudesse dizer outra palavra ao meu irmão. Giles estava transformando aquilo em um grande jogo. se ela for a srta. Nesse momento houve um farfalhar perto de nós. Você não pode permitir que ela abra caminho em seu coração. Whitaker.John Harding 80 — Um fantasma? Mas por que viria até aqui se não tem nenhuma ligação com Blithe? Fantasma de quem ela poderia ser? Mordi o lábio. Ela quer conquistar sua confiança para poder convencer você a ir embora com ela. Whitaker. Talvez. . ou a você? Talvez ela só queira assombrar o último lugar que conheceu quando estava viva. — De qualquer maneira. revelando o rosto da srta. não seja bobo. as folhas do rododendro se separaram. — Ah.. Depois riu. — Eu sei! É óbvio Fio. Ela deve ser o fantasma da srta. o que não servia em nada aos meus propósitos. Quem disse que os fantasmas conservam a mesma aparência que tinham quando estavam vivos? Talvez se disfarcem para enganar as pessoas que ainda estão vivas. Elas não têm nem sequer o mesmo tipo de cabelo. Precisa tomar cuidado. Fio. aí estão vocês — ela disse. Está na hora de voltar para nossos livros. levantando a sobrancelha.. Talvez ela gostasse de ser nossa preceptora e quisesse voltar. espantado. Giles — eu me desesperei -. e. — Você não pode saber isso. crianças. Levantou a sobrancelha de novo. — Giles. voltou para o lugar onde teve sua morte prematura. falsificando um sorriso -. Ele também pensou. — Fio. Ela não parece nada com a srta. Depois de meio minuto. é mesmo.. processo que nunca durava muito tempo com Giles.. ainda não consegui descobrir. você precisa me ouvir. — Ah. talvez. — Eu não sei. por que iria querer me fazer mal. você fala as coisas mais estranhas. seu rosto iluminou-se de repente. Whitaker.A menina que não sabia ler . meus dois pintinhos perdidos. vocês já brincaram bastante. Giles olhou para mim. Vamos lá. Taylor. um grande faz de conta em que ele não acreditava mais que eu.

algo na sensação gelada que subia e descia minha espinha. à procura da srta. mas lá estava ele. os membros pesados. Taylor. tamanha quietude no ar que senti algo gelado na espinha e fazendo cócegas no pescoço. Taylor tirou um livro da bolsinha e começou a ler. mas seguido à nossa frente. Pensei que. sentado no mesmo lugar em que estava antes de eu pegar no sono. o lugar em que a srta. Senti-me cansada e com dor de cabeça. sua proximidade pressagiando uma tempestade.John Harding 81 15 No dia seguinte fizemos um piquenique perto do lago. não para a margem onde Giles estava sentado. Taylor caminhou ao redor dele até chegar ao local na margem mais próximo de onde a srta. Whitaker desaparecera tragicamente. disse-me para olhar para o lago. e então um silêncio. no meio dele. depois que acabamos. . No caminho ela não havia falado. o zumbido de mosquitos. O dia estava quente e. mas ela não estava onde pudesse ser vista. ele foi meu primeiro pensamento. Mais uma vez. se as fechasse por um minuto apenas. Eu não sei por quanto tempo dormi. por mais que tentasse lutar. a srta. Seu livro estava aberto e virado para baixo no tapete do piquenique. nosso apetite estimulado pelo ar fresco. mas para o próprio lago. A srta. acomodou-se no banco para pescar. por isso não sabia se tinha ficado inconsciente por apenas um minuto ou por uma hora ou até mais. dificultavam a respiração. levantei-me e abri os olhos em um único movimento. Taylor pegou a comida de um jeito que me fez observá-la como nunca tinha feito antes durante uma refeição. e deitei-me no tapete do piquenique. para o lugar que nunca quis olhar. o ar opressivo. naturalmente. a srta. um único minuto. Whitaker se desgraçara. Temi por Giles. perto da margem. a perturbação suave da superfície do lago com a agitação de um peixe. De repente me senti exausta. Percebi imediatamente que havia alguma coisa errada. como se estivesse sendo arrastada por uma força invisível. Então. e lá eu a vi. e então reparei que ela não fazia nenhuma tentativa para comer qualquer coisa. Em algum momento ouvi o zumbido de uma abelha. A intensidade do sol. e. que havia trazido sua vara.A menina que não sabia ler . mas não havia sinal dela. mas a srta. Giles. Olhei ao redor. alguma coisa naquela quietude. não consegui evitar que as pálpebras caíssem e se fechassem. parecia que mal podia esperar para chegar lá. não havia como dizer. recuperaria meus sentidos. Dispusemos a comida e Giles e eu comemos com vontade.

A menina que não sabia ler - John Harding

82

Taylor, no meio da água, a visão mais espantosa, de tal forma que pensei estar sonhando ou alucinando, só que era bem real. Ela estava na superfície da água, mas sem nenhum barco. Estava lá em pé, exatamente no centro do lago, com a água batendo nos sapatos, embora não houvesse nada em que pudesse se apoiar, nenhum pontão submerso, nenhuma ilhota ou banco de areia. Estava olhando para a água com uma expressão melancólica, ou algo assim na sua postura, pois eu não conseguia discernir suas feições daquela distância. E então, sentindo meus olhos sobre ela, encarou-me e olhou através de mim, eu senti, de forma que imaginei seus olhos vidrados como os de uma escultura, incapaz de dizer se ela tinha me visto ou não. De repente ela começou a andar pelo lago espirrando água cada vez que seus pés batiam na superfície, caminhando rápida e objetivamente na minha direção, de forma que só pensei em uma coisa: correr, correr para longe daquela visão terrível. — Giles! — gritei, pois sempre tive mais medo por meu irmão. — Giles! Olhe! Levantei-me do chão e comecei a correr em sua direção. Ele não deu sinais de ter me ouvido ou de ter visto... a coisa sobre a água. — Giles — ensaiei novamente. Estava quase perto dele e a figura sobre a água continuava a vir para cima de nós. Dessa vez ele me ouviu. Olhou para mim, divertido. — O quê, Fio? Qual o problema? Você não devia ficar gritando desse jeito, vai assustar o peixe. — Olhe para o lago — gritei, alcançando-o e colocando o braço em seus ombros, para dirigir seu olhar. — Olhe! Em vez disso ele olhou para mim, os olhos alarmados, evidentemente assustado com minha agitação, mas depois de um momento fez o que ordenei e olhou para a água. Observei seu rosto, esperando por sua reação. Ele apertou os olhos, perplexo, então se virou para mim. — O quê? Para o que eu devo olhar, Fio? Eu o sacudi. — Não está vendo? Você não a vê? — Quem, Fio? Quem? — Ora, a srta. Taylor, é claro, caminhando pelo lago! Ele olhou bem para mim. — Não seja boba, Fio, como ela poderia fazer isso? Eu o sacudi forte. — Você tem que ver! Tem que ver! Virei-o para olhar para o lago novamente.

A menina que não sabia ler - John Harding

83

— Diga que não vê a bruxa, caminhando sobre a água! Giles esfregou os olhos com a mão. — Eu... eu acho que vejo. Eu... eu, sim, Fio, estou vendo! De verdade, sabe? Segui seu olhar até a água. Não havia ninguém lá. Ela tinha ido embora. Eu o soltei. Evidentemente estava mentindo para me agradar e não tinha visto absolutamente nada. Ele olhou para mim, num último recurso. — Acho que a vi, Fio. Olhei para ele por um instante, depois olhei para o lago novamente, sem nada. Olhei para o lago vazio, vendo a brisa enrugar sua superfície, imaginando se aquilo havia realmente acontecido. Senti um ruído atrás de mim, o som de folhas ao vento e, antes mesmo de ela falar, eu sabia que estava ali. — Muito bem, crianças — ela disse. — Acho que é relaxamento suficiente por um dia, não acham? Devemos voltar ao trabalho. Eu me virei e olhei-a nos olhos. Foi o olhar da serpente que me olhou de volta, segura de si, e tive certeza de que ela sabia que eu a tinha visto no lago, e o que era pior, muito pior, ela não estava nem um pouco preocupada com isso. nem um pouco preocupada com isso.

16
O jantar daquela noite resolvi observar a srta. Taylor. Tinha pensado em contar à sra. Grouse sobre o incidente no lago, mas no final decidi por não contar, pois sabia que não acreditaria em mim. "É apenas a sua imaginação, minha querida", ela diria. Pois eu não era essa criança estranha que caminhava à noite e antes da época das preceptoras passava horas (era o que ela pensava, pois não sabia, é claro, da biblioteca e da torre) vagando pela casa e pela propriedade sozinha, sonhando acordada? Além disso, se eu lhe contasse e ela desacreditasse, sem dúvida mencionaria o assunto à srta. Taylor e tudo ficaria exposto; nossa nova preceptora saberia que havia pedido ajuda — e falhado — e que eu era sua inimiga, se é que ainda não suspeitava do fato. Em vez disso, eu faria meu próprio aconselhamento, falaria apenas quando falasse comigo durante a refeição, e lhe daria liberdade para falar e rir com Giles enquanto eu a vigiava sem ser óbvia demais.

A menina que não sabia ler - John Harding

84

A refeição confirmou o que eu havia percebido durante o piquenique. A srta. Taylor cortava a carne, abaixava a faca, segurava o garfo com a mão direita, separava um pedaço de carne, levava-o aos lábios, mas então pensava em algo novo para dizer ao meu irmão e baixava o garfo novamente. Isso aconteceu várias vezes. Em certo momento ela reclamou que Giles não havia comido o bastante de legumes. Não restava nada na travessa, por isso ela tirou o garfo dele, pegou vários pedaços de brócolis do seu próprio prato e transferiu-os para o dele. Tudo muito benfeito, como num passe de mágica, e, se não estivesse observando atentamente, eu jamais saberia. Mas vi como tinha sido esperta. A carne tendo sido cortada e espalhada pelo prato não parecia equivalente ao único pedaço com que havia começado; um pouco dos brócolis que estavam em seu prato havia sido transferido para o de Giles, não havia como dizer quanto ela realmente havia comido. Ex-ceto que eu sabia. Eu, que a observara como uma águia o tempo todo, vi que nem um único pedaço de alimento havia passado por seus lábios; em resumo, ela não tinha comido absolutamente nada. E ao pensar nisso tive certeza de que, além daquele momento de loucura em que ela agarrou o waffle de Giles e mordeu-o como um pássaro ensandecido, jamais a tinha visto consumir coisa alguma. Quando terminou a refeição, fui até a cozinha, onde encontrei Meg limpando os pratos no latão que John mantinha para os porcos. Fiquei por ali até ela concordar em reparar em mim e interromper sua tarefa. — Muito bem, senhorita, o que pode estar querendo aqui? — Não quero nada. Ela ergueu a sobrancelha. — Ora, vamos lá, senhorita, conheço seu jeito, que é o jeito de todas as crianças, especialmente das que estão crescendo depressa. Veio até aqui para que eu lhe desse algo para beliscar, certo? Deixei escapar um pedaço de sorriso para que ela pensasse que queria controlá-lo e acenei com a cabeça. Imaginei que, deixando-a pensar que esse fosse o motivo, ela desistiria de descobrir o verdadeiro. Ela olhou para a porta e certificou-se de que nem a srta. Taylor nem a sra. Grouse estavam por perto, então abriu um dos armários, tirou uma lata, extraiu um biscoito e entregou-o a mim. Recolocou a lata no armário, mas, ao alcançar a prateleira, lembrou-se de algo, retirou a tampa, pegou outro biscoito, que colocou entre os dentes para deixar a

mas Meg estava atenta ao seu serviço e parecia não ter notado. mesmo que toda cortada. Estremeci diante disso. Ela ponderou por alguns instantes. ela voltou para o armário. eu poderia comê-lo!. Tenho sorte por não ser uma delas. se é como diz. é claro. você realmente deveria comer sua comida. órfã. srta. Meg não é o que se pode chamar de figura esbelta. meu querido. quando ela retomou sua tarefa de limpeza dos pratos no latão e imediatamente me arrependi de também ter entrado para a escola de teatro de Giles. — Mas eu comi tudo — disse.A menina que não sabia ler . pois. Você não reparou que as sobras aumentaram muito desde que a srta. Ela olhou para mim. — Com sua idade. depois deu de ombros e raspou o último prato ruidosamente no latão. algumas dessas senhoras pomposas. Ela. Como que para confirmar isso. então ela deixou toda a costeleta. — Ah. talvez eu tenha. a lembrança da sua avidez sobre Giles à noite. Taylor deve estar comendo como um pássaro então. evidentemente. sim — ela disse —. meu irmãozinho . e esse prato é o dela. são assim mesmo.John Harding 85 mão livre para tampar novamente a lata e recolocá-la no armário. se diverte mais cortando que comendo. — E Giles come muito. Taylor chegou? Meg pensou a respeito. 17 O que eu deveria fazer agora? Ali estava eu. agora que diz isso. — Ainda assim — disse Meg -. — Bem. sozinha no mundo. depois de terminar de limpar os pratos. — Bem. a faca raspando a porcelana. quanto desperdício! — disse. pegou a lata de biscoitos novamente e nós duas nos servimos. exceto por alguns criados queridos mas estúpidos e. Tenho coisas melhores a fazer do que passar todo o dia preocupada com minha cintura. Obcecadas com a silhueta. e eu comprimi os dentes. Florence. ouvi em minha mente. Florence. — Puxa. depois pegou o biscoito na mão e começou a mordiscar. a srta. senhorita. Ah. o tipo de gente que se dá ares e graças. uma garota de 12 anos. srta. e fica cada vez pior. pois era tudo o que podia fazer para não cobrir os ouvidos com as mãos. aí não teria necessidade de vir até aqui pedir um biscoito. como se mal pudesse resistir à tentação de cravar os dentes em sua carne macia.

quando estava começando a desesperançar da minha situação e descartando qualquer ideia de ajuda de uma parte — meu tio -. quando ele se sentou atrás de sua escrivaninha com os dedos na frente do rosto. um homem que estava preparado para ouvir o que você desejasse contar a ele. observando-me como se eu fosse um animal ou pássaro morto que ele fosse dissecar. saltou da — quilo para o inquérito e então para outra coisa que possivelmente solucionava tudo. No mínimo porque não deveria saber escrever e. Contei a ele o que já tinha contado ao policial que me havia interrogado imediatamente após o "evento". mas alguma forma de castigo por tê-lo desobedecido alfabetizando-me. quando seus negócios apresentaram questões tão prementes que ele não pôde sequer encontrar tempo para participar do processo. uma carta minha provavelmente traria não ajuda. mas sem aquele ar de superioridade que os adultos costumam ter em relação às crianças. parando frequentemente em meu relato para limpar os olhos com um lenço. ele detestava qualquer interferência de Blithe em sua vida. pelo menos. ouvindo o que ele chamava de minha "versão dos fatos". Como eu disse. — Bem. tinha até mesmo causado alguma comoção em suas cartas na época do incidente com a srta. precisava da minha proteção. pelo que sabia dele. Pois. Eu me lembrava muito bem da nossa primeira entrevista. ou da minha própria mente. Além disso. Whitaker caiu direto na água? — ele perguntou finalmente. as pontas pressionando o nariz.A menina que não sabia ler . Ele ouviu a história toda sem comentários e então ficou sentado em silêncio. pelo menos eu acho que sim — parei por um momento. ela se levantou para pegar os . sem nenhuma ajuda minha. tentando lembrar. minha mente. Era verdade que o capitão Hadleigh não era de forma alguma meu amigo. continuando a trabalhar por conta própria. Ali estava uma pessoa que era inteligente e bem-educada. sim. Whitaker. Pensei em escrever ao meu tio. longe de poder me ajudar. especialmente pela publicidade do inquérito. O capitão Hadleigh.John Harding 86 que. mas então pensei mais e percebi que não poderia esperar socorro de sua parte. Não canso de me impressionar com a inteligência da mente humana. os olhos acima dos dedos. tenho certeza que sim. pois não conseguia conter as lágrimas. — Sim. ou para inspirar profundamente antes de prosseguir. — A srta.

houve uma espécie de estalido alto antes do barulho da água. foi tudo tão rápido. senhor.A menina que não sabia ler . parecia ter me lembrado de um som. — Ela não bateu a cabeça na beirada do barco ao cair? Então foi minha vez de pensar. Virei o lenço encharcado nos dedos. — Muito bem — ele disse. senhor. — Não. — E isso foi tudo o que aconteceu? — Sim. O tipo de barulho que uma cabeça poderia fazer contra a madeira. tentando ver a cena. isso poderia ter produzido o som. minha jovem. Ele olhou mais um pouco para mim. se entende o que quero dizer. direto. . Apertei os olhos. Eu não me lembro. Eu estava longe demais para alcançá-la. Ficamos ali sentados mais uma década ou duas. Até onde lembro. mas parecia que sua queda havia afastado o barco. — Bem. — E quando ela caiu na água você não tentou salvá-la? — Ora. mas só vi um branco. — Vamos lá. Então me olhou por cima dos dedos de novo. Porém. leva algum tempo até a pessoa afundar. sim. tudo aconteceu tão depressa. Ele pensou mais um pouco.John Harding 87 remos da minha mão e o barco meio que balançou e ela tropeçou e acho que enroscou na barra do vestido e lá foi pela borda. por isso continuei a encará-lo de volta. Você poderia ter remado até ela. É claro. Nunca ouvi o som da madeira no osso. agora que mencionou. como se eles fossem a mira da arma e eu a presa infeliz. senhor. — Ela poderia ter batido a cabeça na lateral. Como eu disse. Pelo menos eu queria. senhor. — E você diz que ela caiu direto na água? — Sim. apesar de não ver nada. Sentia-me desconfortável. mas não iria me deixar abalar por um jovem rapazote como ele. não entendo o que quer dizer.

um objeto de fascinação. se o senhor se lembra. Senti que. No tribunal eu o peguei olhando para mim como se eu fosse um enigma que ele não conseguia decifrar. Ao responder vendo Hadleigh com seus olhos sobre mim. mas eu não tinha nada a acrescentar.John Harding 88 — Ah. senhor. Como eu lhe disse. Senti que ele estava insatisfeito com aquilo tudo. O problema era que o barco era largo demais para que eu pudesse colocar ambas as mãos ao mesmo tempo na água. o barco estava à deriva. — Ah. ensaiar-me para quando viessem as perguntas de verdade. não pude deixar de pensar se tudo aquilo havia sido desde o início o objetivo de seus interrogatórios. senhor. e empurrando com uma das mãos de cada vez eu só conseguia fazê-lo girar em círculos. Estava quase saindo pela porta quando sua voz alcançou-me e de-teve-me. e todas as vezes foi a mesma coisa. por acaso? Eu o encarei novamente. Ele concordou com a cabeça. C/3 Tivemos mais dois ou três encontros depois disso. ou deveríamos dizer madeira na cabeça? Não poderia ter sido um remo. — Os remos foram encontrados flutuando no lago depois. -Sim. — Muito bem. pois é um som que nunca ouvi. só mais uma coisa. mas eu estava a uns seis metros dela. Ele permaneceu calado. Tive que responder a muitas perguntas iguais do médico-legista. senhor. que era um idoso gentil que me disse para sentar quando eu testemunhava e mandou um funcionário trazer-me um copo d'água. Eu me virei. da cabeça na madeira. ciente de que o sangue fugia do meu rosto. não. Tentei levar o barco até ela com minhas mãos.A menina que não sabia ler . senhor. Os remos foram com ela. reconhecendo-o como um detalhe que só alguém que tivesse tentado poderia descrever. isso é tudo por enquanto — ele disse finalmente. assim como ela. em um baile talvez — não que eu já tivesse ido a um — ou em um rinque de . mas achei que isso se devia à natureza do homem e às exigências do seu trabalho. senhor. e estavam fora do meu alcance. Whitaker estava tirando-os de mim quando perdeu o equilíbrio e caiu na água. — Isso eu não saberia dizer. — Pode ir.. eu não estava com os remos. a srta. ele voltava à questão do som e questionava-me de novo e de novo sobre os remos.? — Aquele barulho.. se tivéssemos nos conhecido em circunstâncias diferentes.

Hadleigh havia se mostrado meu salvador em todo o episódio do irmão da srta. apesar de não ter sido amigável comigo. mas continuar a examinar-me com aqueles olhos azuis astutos. salvando-me da dor e da humilhação infligidas pelo irmão da srta. Além disso.John Harding 89 patinação. pegaram-no pelos braços. e que havia algo "podre em tudo aquilo". Era Hadleigh ou ninguém. Aconteceu a mesma coisa quando saí do tribunal e de novo quando voltei no dia seguinte. que a morte de sua irmã não tinha sido investigada adequadamente. especialmente naquela terrível cena no tribunal. ninguém a quem recorrer. assim que saltávamos da charrete. pois jamais voltei a pousar os olhos nele. e sua proteção não era mais amigável que isso. com todos os olhares em cima de mim. Então. mas. a situação com Hadleigh estava bem equilibrada. Então por que acreditava que Hadleigh iria querer me ajudar? Por que acreditaria na minha história. mas. mas. um enigma que só ele poderia resolver. Por um lado. eu não tinha mais nada. até mesmo nossa preceptora anterior e agora morta desdenhando o outro mundo por este. engolisse a história — mais um conto de fadas propriamente do que mistério — de que meu irmão e eu tínhamos uma preceptora má que estava conspirando para roubá-lo. eu o confundira bastante. olhava para mim como se eu fosse seu caso de estudo especial. Por outro. tão logo começou o tumulto. coisas tão terríveis que precisei cobrir os ouvidos. um policial cético. os homens de Hadleigh o pegavam e sumiam com ele. caso eu chegasse a lhe contar? Era um pouco demais esperar que um adulto. que seu empregador deveria ser responsabilizado por tê-la deixado no lago sem outra pessoa além de uma criança para salvá-la. Assim. como abutres sobre um coelho morto. Suspeito que ele tenha dado um susto no homem. Whitaker ficava esperando por mim. Hadleigh teria gostado de mim. quando o homem se levantou e gritou. ele tinha sido meu cavaleiro. que ela poderia não ser humana.A menina que não sabia ler . Senti que quase morri de vergonha de tudo aquilo. novamente. Ainda assim. evitando qualquer dano. Whitaker. que tudo aquilo era uma simulação. Whitaker. por causa do caso Whitaker. levaram-no para fora da sala e não o deixaram voltar pelo resto da sessão. . mas uma manifestação de outro mundo. Hadleigh e seus homens estavam em cima de Whitaker.

Taylor não permitiria. — Dentista? Pedir para ver o dentista? Que medo! Não quero que me furem com a broca ou que me arranquem os dentes um por um. Eu o acompanharia e. quando se apresentasse a oportunidade. Esta última lembrança me fez pensar. Grouse. Giles teria que visitar o dentista. Giles enfiou o dedo na boca e correu os dentes com ele. pois todas as nossas necessidades eram atendidas em Bli-the. mas isso não seria suficiente. como bem poderia. Field. Uma vez. escaparia até a delegacia. Giles. assim teria que ser levada até o sr. a pesada cadeira de metal e couro. Não há nada de errado com eles. nem mesmo da sra. não teria a oportunidade para visitar a delegacia de polícia e falar com o capitão. fui levada até a cidade para ver o dr. Giles. Era evidente que um dentista não poderia vir até Blithe. tempo suficiente para expor-lhe meu plano. Field.A menina que não sabia ler . pois precisaria de seu equipamento. que nunca vi em ação. A delegacia de polícia ficava em nossa pequenina cidade. porque não há nada de errado com seus dentes. um velho desagradável que evidentemente odiava seu trabalho e ainda mais quando envolvia crianças. Éramos atendidos por um médico. Sua reação não foi diferente do que eu esperava. e a broca ameaçadora. quando eu era menor e tive um dente de leite dolorido. o dentista.John Harding 90 Decidir que não tinha nada a perder procurando sua ajuda não era a mesma coisa. A distância era de quase dezoito quilómetros e eu não tinha como chegar lá a não ser que fosse levada por John. Taylor tam bém fosse. mas só de ouvi-la da sala de espera foi o suficiente para me fazer estremecer. que a obter. Demorei alguns dias até conseguir ficar a sós com Giles. sabia? — Mas. . verificando. porém. Só uma solução sugeriu-se a mim. na verdade nunca tive permissão antes de sua chegada. onde éramos alimentados e lavados e medidos para ter roupas e atendidos quando ficávamos doentes. Mas eu não podia dizer apenas "Quero ir até a cidade". Giles e eu raramente nos aventurávamos até a cidade. A Inquisição espanhola usava isso como forma de tortura. Pensei em me queixar de dor de dente. pois a srta. pois se a srta. — Como pode estar tão certa? E se eu chegar lá e o velho Field descobrir algo e usar aquela broca? — Ele não vai fazer isso. mas não por um dentista. você não precisa que usem a broca ou que lhe arranquem os dentes.

mas nada disse e voltou a passar manteiga no pedaço de pão com a mesma concentração intensa com que. estava passando desde que nos sentamos para tomar café. Taylor reapareceu e Giles voltou para seus livros. A srta. ou melhor. que se atirou ao papel de menino com uma terrível dor de dente com tamanho entusiasmo que quase colocou em perigo todo o nosso esquema. Nesse momento a srta. — Dor de dente! — eu disse a Giles. Bem. então. se arrancar um dente bom não vai contra o juramento. Giles me olhou desconfiado. dando-lhe outro chute forte na canela. está certo. Tínhamos passado cerca de três quartos do café da manhã e fiquei preocupada por achar que ele tivesse esquecido do plano ou mudado de ideia.. é contra o juramento de Hipócrates. só para poder arrancá-lo e receber o pagamento? — Ele não faria isso.. — Ai! — ele soltou. porque agora você também é dentista? E se ele disser que há alguma coisa errada com um deles mesmo que não haja. — Não acabei ainda..John Harding 91 — Ah. mas quando expliquei o que era esse juramento para Giles ele não me questionou. — Ah. Field. eu poderia ter poupado minha respiração nesta última frase porque pareceu servir apenas como estímulo para Giles. sim. deveria. Quando você quer que eu desça com dor de dente? — Amanhã de manhã será bom.A menina que não sabia ler . Taylor olhou desconfiada para ele e depois para mim. — Agora. — Não — ele sinalizou e apontou para a pilha de pão e geleia em seu prato. olhei-o fixamente e quando ele teimou decidi assumir o caso com minhas próprias mãos. . — Bem. eu faço. Não é permitido. É. avaliando suas alternativas. Eu não tinha certeza disso. por isso o chutei por baixo da mesa. Não queremos que fique muito tarde para pegar o dr. — Tem certeza de que ele não vai fazer nada comigo? — Juro pelo meu coração. Ele se virou e murmurou: — O quê? — Não exagere. eu tinha percebido. pés. Suspirei exasperada. Giles — sussurrei para ele.. é. o que mostrava que.

Grouse trouxe o vidro de láudano e eu fiquei olhando. Giles foi levado a sentar-se enquanto ela o embalava. com o coração acelerado. Nossa nova preceptora examinou sua boca. — Exi aqui. Taylor ajoelhou-se ao seu lado e tentou acalmá-lo.A menina que não sabia ler . — Ai. Giles mudou o dedo de lugar. pois John já tinha ido preparar o cavalo e a charrete. mas está doendo muito. srta. — Calma. porém. quieto. Ai! Ai! Ai! Ela se levantou da cadeira e foi direto até ele. Giles. A srta. O barulho havia atraído toda a casa. acho que vou morrer! Com isso ele caiu no chão e começou a espernear. . Taylor — disse Giles. É dissíssil dizê. ele pudesse esquecer tudo e revelar nosso plano. A sra. enquanto ela administrava algumas gotas ao meu irmão. Ele enfiou o dedo na lateral da boca. só que Giles mantinha a mão na testa. um deles está doendo muito. calma. você precisa mostrar-me qual dente está doendo. — Ah. Foi nesse momento. O que está acontecendo? Giles olhou para mim. se ela o deixasse muito dopado. meu Deus do céu. temendo que. Taylor.John Harding 92 — Ai! — foi muito mais alto desta vez e não podia ser ignorado. que até então estava funcionando perfeitamente. Taylor. querido. onde o colocou no sofá. — Acho que o ouvi gritar antes. Taylor colocou-o em pé e levou-o até a saleta. não exagere. — Quieto. mas olhei para ele sem expressão e felizmente ele percebeu que era o momento perfeito para encenar seu número. que meu esquema começou a desandar. — O que foi. Ele saltou da cadeira. dando a entender a todos que a dor de dente o deixara incapaz de ficar em pé. — Não vejo nada errado com ele. como um rato quando você o espeta com um pau. srta. soltando-se dela com um empurrão. não xei. como fazem os atores nas fotografias em que aparecem exibindo seu ofício. dando um descanso para a faca e pousando-a junto com o pão no prato. — E o meu dente. Giles? — disse a srta. A srta. — Ou exi aqui. Seu braço o envolveu como uma cobra e ela o abraçou.

você não lembra? Preciso ir até a cidade. Taylor perguntou. seria muito mais difícil escapar. A srta. Taylor voltou para a sala.John Harding 93 — Só um instante. — Ai. roubar Giles de Blithe e nunca mais voltar? — Mas o quê? — a srta. Giles — disse a srta. — Está tudo bem. me deixe morrer! — ele gritou. Mary atrás dela segurando o casaco de Giles. eu ficarei com você.. — Seu garoto idiota — sussurrei. fazendo-o gritar de verdade dessa vez. antes de girar os calcanhares e sair da sala. Giles. — Shhh. Grouse olhou para mim sem saber o que fazer. chutando com as pernas e esmurrando com os braços e gritando a plenos pulmões. Entrei em pânico. Taylor. — comecei a falar. sondando-me com os olhos. Não precisa incomodar Florence.A menina que não sabia ler . — Só preciso pegar meu casaco e chapéu. Giles — eu disse. você deve exigir que me levem. se a srta. — É essa a questão. em voz baixa: — Por que. Grouse e eu fôssemos levar Giles até a cidade. — Mas eu. Eu sabia que. — EU QUERO A FLO! A srta. Taylor nos acompanhasse. que ela fosse sozinha com Giles para a cidade e eu ficasse para trás. Esperava que a sra. Taylor está vindo. me deixe morrer! Por favor. ou seja. Ajoelhei-me ao lado do meu irmão e comecei a secar sua testa. e por que diminuiria. é claro. por que preciso de você? Sub-repticiamente. Murchei. como sempre fizemos. . e se eu tivesse acabado de lhe dar a oportunidade que ela queria. — Pensei que iria com Giles. Taylor empurrou-me para o lado e tomou meu lugar. se a srta. e o seu casaco. meu Deus. — Ah. — FLO! — ele gritou. — Isso não será necessário — ela sibilou.. se a sua agonia era inteiramente encenada? Ele escorregou do sofá e deitou-se no tapete da saleta. Fio. de casaco. A sra. Agora ela parecia estar sugerindo uma situação ainda pior. sim — ele sussurrou. depois sussurrei: — Giles. e depois. com o chapéu na mão. O láudano não havia diminuído a dor de Giles. puxei seu cabelo.

resmungando solenemente que caso morresse não devíamos chorá-lo.John Harding 94 — Não é incómodo algum — eu disse. e fiquei imaginando. a srta. não se encaixava nos seus planos. mas lembrar de como ele era em um dia de verão no jardim alguns anos atrás. Na verdade. como se talvez aquele ar de familiaridade que encontrei em sua expressão pudesse ser ainda mais aparente para os outros. caso a srta. Giles voltou a chutar e esmurrar. Não tive tempo para aprofundar o pensamento porque paramos diante do . Whitaker vinha sempre à cidade. John. ainda receosa de que fossem sem mim caso eu não me apressasse. Taylor. a srta. algo que normalmente não fazia. Uma coisa chamou minha atenção quando entramos na Main Street. seguindo na direção da cidade. — EU QUERO A FLO! EU NÃO VOU SEM ELA! NÃO POSSO IR SEM ELA! — Está bem — disse a srta. por uma estranha coincidência. que o fato de não me lembrar dele como algo diferente de qualquer outro dia me fez lamentar bastante. O menino tinha talento para o melodrama. Tão perturbado ficou John com o barulho de Giles que fomos a galope até a cidade. e foi que a srta. Taylor abaixou o véu. Taylor. o que. um dia que parecia tão especial. e Giles gemendo e choramingando como um porco preso. se não havia aqui alguém que ela temesse poder reconhecê-la. ainda aborrecida com a minha presença. em geral imperturbável. o que dificultava bastante meu esforço para não cair na gargalhada. se não exatamente por isso. então porque Giles precisasse primeiro e sobretudo de mim. imaginei. 18 Formávamos um grupo estranho. resoluta. mantendo um silêncio glacial. é claro. isso eu não podia negar. Por que faria isso. Taylor fosse realmente uma e a mesma primeira preceptora. ou. — Vou pegar meu casaco e chapéu — eu disse. Giles parecia tão trágico que eu tinha certeza de que havia esquecido de que tudo não passava de encenação. ele estivesse com dor de dente de verdade e não fosse mais encenação.A menina que não sabia ler . dizendo ao cavalo para animar-se e dando-lhe algumas chicotadas. por que não queria que seu rosto fosse visto? É claro. e saí correndo da sala. uma vez por semana. ele manifestava seu sofrimento tão incansavelmente que me peguei pensando se talvez.

o barulho da broca recomeçou. Coloquei uma mão na testa e comecei a cambalear. pegando-me bem a tempo. — Não. — Ai. — Está tão quente. esse dente precisa de tratamento. meu dente parece bem melhor -ele disse. quando estivemos ali antes) que recendiam a uma mistura forte de tabaco e elementos químicos cujo odor teve o efeito imediato de me provocar mal-estar. Não foi.John Harding 95 consultório do dr. Não estou mesmo. Suspirei e fingi que ia cair da cadeira. — A jovem. que tinha toda a atenção voltada para Giles e não percebera. sério que foi. Taylor. tão quente aqui dentro — murmurei. A pequena e tímida esposa do dr.A menina que não sabia ler . senhorita. mandou-nos sentar na sala de espera. Taylor. . John carregou Giles para dentro. Depois que passar. — Está executando um trabalho complicado com a broca em outro paciente e está bem no meio. Flo — suplicou com o olhar. Field. Flo? Diga a ela. Field. Acredite. Giles — ela contemporizou. Foi tudo uma brincadeira. depois de amarrar o cavalo. realmente está. senhorita — disse a sra. não estou com dor de dente. srta. que fazia as vezes de aten-dente e enfermeira. Para confirmar. impedindo-o de andar. Field. — É apenas o láudano começando a fazer efeito. mas naquele momento ouvimos um gemido repentino da cirurgia do dentista que me deu a oportunidade perfeita para executar a outra parte do meu plano. um lúgubre ajuntamento de poltronas forradas de veludo vermelho (para disfarçar o sangue. Field e. — Não. exibindo um sorriso fraco. parecendo assim que a inflamação havia se espalhado pela boca e chegado até as pernas. Giles insistiu. eu juro. senhorita! — exclamou a sra. Field. depois começou a fazer barulho de novo. — Acho que vai desmaiar. — Ele não vai demorar — disse a sra. mas desta vez não pelo fingido sofrimento. — Sim. — Sabe de uma coisa. mas por causa do medo. você sentirá muito mais dor que antes. e Giles silenciou imediatamente. — O que é isso? — disse a srta.

Fiquei aliviada por ver John sentado na charrete.. senhorita. levantei minhas saias e comecei a correr. Flo — Giles gritou..A menina que não sabia ler . Bati e abri a porta. No momento em que a porta se fechou atrás dela. — Preciso de ar — eu disse. casas. Depois de alguns instantes. por isso dei-lhe meu nome. — Mas. bares e hotéis. Um jovem policial. — Algumas pessoas ficam assim. Field. — Eu a levo lá fora se desejar. — Tenho coisas a fazer. pois a verdade é que estava quente. pois ele está muito ocupado e pode não ter tempo para vê-la se não marcou uma entrevista.John Harding 96 Era fácil exibir um desempenho mais convincente que o de meu irmão. Ignorei sua oferta para sentar-me. Field que estava bem o bastante para ficar em pé sem apoio e ficaria bem sozinha. E voltou para o consultório do dentista. levantou-se quando entrei. Pude ver que. A mulher do dentista ajudou-me a ficar em pé e levou-me até a calçada. mas preciso anunciá-la primeiro. totalmente distraída com Giles. simplesmente acenou com a cabeça. o pêndulo tiquetaqueando como um pica-pau ensandecido. seria apenas um desperdício de tempo valioso. Sem lhe dar tempo para falar. Havia um grande relógio na parede e seus ponteiros pareciam estar correndo. ao que a srta. com apenas uma avenida principal. . madame — disse a sra. se discutisse. Taylor. Não agora. — Acho que ela ficou assustada com o barulho que fez o paciente do meu marido — disse a sra. — ela disse. — Bem. se tiver certeza. eu disse: — Preciso ver o capitão Hadleigh imediatamente. e fiquei andando de um lado para outro enquanto ele estava dentro do escritório. Field. garanti à sra. Corri pela calçada e parei sem respiração diante da delegacia de polícia para recompor-me. fumando seu cachimbo e olhando para o outro lado. que estava sentado a uma escrivaninha. — Você não pode sair. Ele está? — Sim. picando meu tempo precioso. Nossa cidade é pequena. especialmente as jovens. Felizmente a delegacia de polícia ficava na direção oposta à que John estava olhando. onde estão situadas todas as lojas. pois estava muito agitada. senhorita. e o cheiro muito forte estava realmente me causando grande mal-estar. O idiota tinha esquecido de que esse era exatamente o meu obje— tivo.

— Isto é uma surpresa — ele disse. o que mais? — Não. depois deu a volta de novo e voltou a sentar-se na sua. Engoli em seco.. Eu ainda podia ouvir o relógio da antessala. Ele ergueu a sobrancelha. é claro. . e eu tenho certeza de que ela nos quer fazer mal. não. Senão. tudo me pareceu uma loucura. bem.John Harding 97 O rapaz da recepção reapareceu. sim. irá raptá-lo e levá-lo embora. senhor. que tinha a visão noturna de um cego? Na verdade não havia nada a dizer. Não a srta. — minha voz sumiu como o triste canto de um bacurau desaparecendo com o vento do inverno. — A srta. O que exata-mente havia a dizer? Que ela tinha uma cobra dentro dela? Que podia caminhar pela água. senhor. Whitaker. — Não aconteceu nada com ela. espero. É que ela tem alguma coisa que me assusta. ou pelo menos fará mal ao meu irmão. como antes. É que. — O capitão irá vê-la agora..A menina que não sabia ler . Ele me acompanhou até a sala de que me lembrava tão bem. senhor. — Bem. Ignorei seu cinismo. Ele olhou para mim fixamente. deu a volta e cumpri-mentou-me. descobrir o que realmente acontecia por dentro. o que a traz aqui? Tem algo a me dizer? Algo talvez que tenha esquecido? Houve um longo silêncio. a srta. imagino que jamais conseguirá ter uma educação. Nossa nova preceptora. — Não. senhorita. Colocou as mãos diante do rosto. Tinha certeza de que ele iria me achar maluca. não está entendendo. e indicou-me a poltrona ao lado da mesa. ou. Taylor. Não é nada disso. Seu tique-taque parecia ter desacelerado para uma batida melancólica. como tantas vezes antes. é difícil explicar. — Bem. — Sim? Mas o que eu iria contar a ele? De repente. Whitaker. se não isso. — É sobre a nossa preceptora. Hadleigh levantou-se da cadeira atrás da mesa. como se tentasse me entender.

. senhor.John Harding 98 — Ela lhe fez algum mal? Machucou Giles? — Bem. em que o fantasma de Banquo aparece para Macbeth? — Sim — a voz saiu.. tão. — minha voz reduziu-se a um sussurro — acho que ela é um fantasma. Whitaker está morta.. — Mas a srta. — Lembra-se da cena na festa.. eu acho. Whitaker. — Foi isso o que eu quis dizer.. é claro. senhor. Olhei para ele confusa. E apenas a culpa de Macbeth. senhor. mesmo não parecendo nada com ela. Exceto talvez por não ter conseguido salvar a srta. bem. Ele se levantou. mas há alguma coisa tão. como se tivesse en— golido uma cobra que fica lá dentro olhando através de seus olhos. Seria meio-dia. Ele ficou me olhando durante muito tempo. pois sabia que isso serviria apenas para desacreditar todo o resto. por não ter conseguido pensar com mais clareza ou agir com mais rapidez. não que se possa dizer isso. — Foi a algum médico recentemente? Funguei e enxuguei uma lágrima. — Não há fantasma. Decidi então não dizer nada a respeito do incidente no lago. como alguém fechando um caixão. — não consegui falar mais nada.. Ela tem esse olhar estranho.. . bem. pois minha garganta fechou. — Eu. às vezes capto em seu rosto um aspecto que me lembra. — Ela ameaçou fazer alguma coisa? Ela disse que irá levá-lo embora? — Não. Podia sentir meus olhos enchendo-se de lágrimas.. eu. sobre tê-la visto caminhar pela água. Voltei para o presente. — Já leu Macbeth7. a srta. mas como um guincho. eu. Aspirei pelo nariz. ao mesmo tempo. senhor. O relógio lá fora desacelerou ainda mais. e me faz pensar que seja ela. deu a volta na mesa e sentou-se nela. peculiar a respeito dela.A menina que não sabia ler .. — Não tenho por que me sentir culpada. senhor. senhor. Estendeu o braço e colocou a mão em meu ombro. — Não. E. Mordi o lábio e endireitei-me... Whitaker. O relógio lá fora começou a soar. como bem sabe. não..

19 Você já pensou como seria estar morto? Às vezes acho que sei tão bem que já devo ter morrido e estou caminhando no exterior.A menina que não sabia ler . muitíssimo obrigada. — O quê? Percebi que estava tão nervosa que havia esquecido e falado na linguagem que usava para conversar comigo mesma — Quero dizer. por isso arrancou todos só para ter certeza. — Obrigada. — O dentista tirou todos os dentes de trás — ele balbuciou. — Puxa. e não tinha ideia se ela tinha reparado ou não na minha ausência. ficará desconfiada. Quando a srta. Seu rosto estava próximo do meu. — Escute. se ela sentir minha falta. senhor. soltou Giles. a porta abriu-se e Giles saiu apoiado de um lado pela sra.John Harding 99 — Senhor. o que de certa forma me reconfortou. o que aconteceu? Ele me lançou um olhar rancoroso. — Ele não conseguiu encontrar o que estava estragado. para fazer companhia à . pode contar comigo para descobrir. Saí pela sala de fora. acaso não saísse antes da décima segunda badalada. — Irei visitá-la quando tiver um tempo livre para dar uma olhada nessa mulher. Taylor olhou para mim. Cheguei ao dentista bem na hora. tenho que ir. Giles — sussurrei -. um terrível feitiço fosse cair sobre mim. Se houver alguma coisa errada. Se sentir me falta. a sra. passei pelo funcionário surpreso e voei pela rua. suspeitará. posso ver que está inquieta — ele disse. Enxuguei uma lágrima errante e agradeci com um sorriso. Ele deu a volta na mesa e estava com a mão na maçaneta antes de eu alcançá-la. Estava soluçando. com aqueles seus modos deferentes. senhor. Ao me ver. com bolhas de cuspe vermelho nos lábios. Coloquei meu braço em torno dele. No momento em que subi ofegante. Field. E então o relógio chegou a onze badaladas e eu já estava na porta — como se. a cabeça inclinada e o rosto enfiado em um lenço coberto de sangue. Seu hálito cheirava a leite e canela. outro fantasma. não pude ver sua expressão por causa do véu. passando-o para mim. Levantei-me e fui na direção da porta. Taylor. Field e do outro pela srta.

meu tio talvez. encolhen-do-se ao ouvirem a primeira pá de terra batendo na tampa do caixão. apesar de o encontro ter sido insatisfatório. Taylor. Seguro a respiração e imagino que a escuridão do quarto é o escuro dentro do meu túmulo. o que. Agradeci-lhe pelo sacrifício de seus dentes.A menina que não sabia ler . vai se resumindo a um lamento e depois a nada. onde sua conversa gradualmente se volta para outros assuntos ao ter início o conforto do esquecimento. E. passou subitamente a odiar. em pé ao lado dessa cova funda e escura no chão. fico deitada e ouço minha própria respiração até acabar todo o ar. faço a cama apertada e depois entro debaixo das cobertas e deito com os braços rígidos dos lados. e aquele som ficando surdo gradualmente. mas. Taylor deixar escapar para a sra. enquanto estava na cadeira. com dois metros de terra acima de mim. Penso nas pessoas voltando para casa no final de um dia de sol no inverno. Meg. ninguém consegue me escutar gritando e gritando. e então não há mais respiração ou escuta porque não há mais absolutamente nada. nascida Whitaker. a sra. . à noite. e me imagino ainda viva. ele tinha gritado "coisas sem sentido" sobre não ter nenhuma dor de dente e tudo ter sido fingimento. e quando terminou de me culpar. e por não ter revelado meu plano. com meus pensamentos voltando para meu corpo supostamente morto. embora por uma ou duas palavras que ouvi a srta. de Poe. em meu novo lar. pois Giles ainda está bravo comigo por seus molares perdidos. Mary e John. embora. manteve-me afastada. Muitas vezes. é claro. aconchegando-se em torno do fogo. Imagino que de vez em quando uma delas irá lembrar-se de como me deixaram pouco antes sozinha na terra fria. e como a luz está se apagando e estou começando minha nova existência ali. enquanto minha cova se enche. até que primeiro minha voz diminui.John Harding 100 srta. Ele protestou porque só podia comer sopa. Grouse percebi que. lembro-me de "O enterro prematuro". Penso no meu funeral. pois tinha me possibilitado ver Hadleigh. arranhando com as unhas a tampa do caixão. embora fossem apenas dentes de leite que logo cairiam de qualquer forma. Giles. não possa realmente dizer que o conheço. Grouse. Estou muito solitária agora. como se estivesse dentro do meu caixão. é claro. em meu buraco no chão. Imagino a tampa do caixão em cima de mim. em todos que conheço. vendo-me ser baixada. apenas terra por cima de terra. gritando que quero sair.

como eu. Pois de pé. Parei no salão diante de um grande espelho ali pendurado e fiquei olhando para mim mesma. meu vestido e avental branco pendiam dos meus ossos como se estivesse ficando menor em vez de crescer. Tudo isso significava que. ocorreu outro incidente que me deixou bastante temerosa. e para mim não parecia direito. . e eu tinha acabado de deixar a sala de jantar. então o garoto é realmente um ótimo ator. tinha sido ela quem aquiescera à decisão do dentista de arrancar os dentes.A menina que não sabia ler . pois Giles agora me evitava tanto que se apegou a nossa nova preceptora. e eu mal me reconhecia. Whitaker nunca fez uma coisa dessas. ela se afastou. Certamente a srta. com uma tez tão pálida que não parecia bem. eu havia atirado Giles nos braços da srta. não foi a um custo pequeno. com um sorriso triunfante. O que me fez desconfiar que. Eu encontrava sempre a srta. Meus olhos estavam abandonados em grandes discos pretos. Voltei-me para o espelho e o que vi ali gelou meu sangue. mas ela já tinha ido. Houve um movimento súbito atrás de mim e a srta. parecia muito doente. Houve um farfalhar de seda e eu me virei e olhei quando. Olhei imediatamente por cima do ombro. abraçando-o de uma maneira que eu garantiria que era pouco profissional. Florence — ela me informou.John Harding 101 — Se aquilo foi fingimento — disse a sra. e dentro de mim uma pomba branca agitou-se e caiu morta no chão. Taylor apareceu no espelho. como tentei demonstrar. zombeteiro. apesar de ter alertado Hadleigh. estava a srta. membros longos e pescoço esticado. Ficamos paradas olhando para o meu reflexo. Foi depois do almoço. Virei-me para o espelho e lá permanecia seu reflexo. considerando-a sua protetora. Assim. — Mas você tem certo encanto que é muito mais importante que a mera beleza. desengonçada. Grouse -. — Você não é bonita. Taylor de tal maneira que poderia ter literalmente acelerado sem intenção o progresso do que eu acreditava ser o seu plano de fazê-lo cúmplice do próprio sequestro. Taylor com Giles a seu lado. embora. No dia seguinte à nossa ida ao dentista. atrás de mim. apesar de ter Hadleigh do meu lado. Vi uma garota alta. sem outra palavra. a mulher nunca tinha estado em um teatro. olhando-me por cima do ombro. Taylor.

diante da qual estava meu irmão. — Shh.John Harding 102 rindo silenciosamente. ela vai escutar. presa como uma cotovia na gelatina. olhando-me diretamente nos olhos. seu reflexo preso no espelho. nossa nova preceptora estava ficando cada vez mais magra. E lá estava. apesar de ser um conto maravilhoso. agarrei Giles pela mão e levei-o na direção oposta. impaciente para ir embora. estou com fome. pelo tanto que temia o que veria. mas não consegui evitar parar e olhar para o espelho uma última vez. vazio de carne. . Venha. pois a comida esfriaria. pendia como o de uma galinha depenada. Aconteceu que. mas ao mesmo tempo mal podia esperar para voltar lá. a srta. apesar de estar ali há não mais do que umas poucas semanas. quando estávamos prestes a entrar na sala para jantar. pisquei. Taylor virou na escada e sumiu de vista. Isso era algo que havia acontecido uma ou duas vezes antes. o mais terrível. Agora me parecia que a pele de seu rosto estava esticada sobre os ossos de seu crânio. quando abri os olhos. só vai levar um minuto. rindo um sorriso terrível. Sacudi minha imagem para livrarme do seu toque e saí correndo pelo corredor. a cópia da minha algoz. e eu tinha decidido que era apenas uma desculpa para evitar comer. na verdade. Giles. com a cabeça para trás.A menina que não sabia ler . Ela disse a Giles e a mim para nos sentarmos à mesa e não esperar por ela. para ver se ainda estava lá. o que está fazendo? Este não é o caminho para o jantar! Me solta. lá estava ela. Taylor real. ainda olhando por cima dos ombros da minha imagem. atrás da srta. aquela desengonçada solitária. Há algo que quero que veja. Quase desmaiei quando chegamos diante do espelho. Taylor lembrou-se de algo que havia deixado em seu quarto. Não consegui levantar os olhos para olhar. Temia ver aquilo de novo. Não conseguia pensar em nada além da terrível cópia da minha inimiga. atrás de mim. mas. Giles e eu fomos para a sala do café. mas no momento em que a srta. levantei os olhos lentamente e vi meu outro eu. Senti-me tonta. intrigando seu gémeo com um olhar desmotivado. e. como sempre soube que estaria. — Flo. dentro daquele espelho. ainda. pois. Naquela tarde na biblioteca eu me desconcentrei em "O coração delator". silencioso. mas com Giles segurando minha mão. e abaixo do queixo seu pescoço. com um sorriso pretensioso.

— Sabe. Giles. Flo. — Eu não gosto. e. de quem você está falando? — Ora. eu só estava provocando quando disse aquilo. Taylor.John Harding 103 Giles desviou o olhar e tentou me puxar de volta para a sala do café. não retire o que disse agora. Ele se virou e foi para a sala do café. e a expressão de sua imagem era vazia. — Ela está lá em cima. como eu poderia vê-la se ela está lá em cima? Você também viu que ela foi. Sacudi seus ombros. Não tenha medo nem finja que não viu. Giles. incapaz de conter meu alívio. — Não. deixando-me a olhar para ele. você não vê? Você não vê? Giles ficou olhando para o espelho. imaginando se teria visto o que vi. — O que você vê? — Uma bruxa — ele disse. — Então você também a vê! Realmente vê! Ele me empurrou e me olhou de soslaio. Flo. Flo. Ele se virou de novo para o espelho. você sabe de quem. sim. Segurei a respiração. Ele ficou olhando para o espelho. e certamente para a mulher atrás de mim. por que iria fingir que não? C/3 Passei o jantar preocupada. Você a viu. — Não seja boba. — Uma bruxa feia e assustadora. desta vez não para si mesmo. olhou para ele e depois para mim. Flo — ele disse. se sim. para mim. Soltei-o e ele sacudiu os ombros. — Não quero brincar mais disso. estou morrendo de fome! — Giles. — Quem. não viu? Não viu? Giles me estranhou. Virei-o e abracei-o. vamos nos atrasar para o jantar. espere. mas para cima. De qualquer maneira.A menina que não sabia ler . é claro. Sabe muito bem. que mesmo agora ria para mim. presa no espelho. Flo. agarrando seus ombros por trás. por favor! Arrastei-o de volta e. só um segundo. . mas sua cópia está aqui. dirigi seu olhar para o espelho. — Vamos lá. Virei-o de novo para o espelho e apontei com meu dedo para a maldita imagem. eu te vi. Da srta. diga-me o que vê. Mas você não é realmente feia ou uma bruxa. — Olhe.

Taylor durante toda a refeição e só mostrasse alguma ansiedade quando olhava de relance para mim? A srta. — Sinto muito. — Vamos lá. Perguntei-me por que ele insistiria em dizer que não. que ela tinha nos visto com os olhos da sua imagem no espelho. não importando os poderes sobrenaturais que pudesse ter à sua disposição. Mas. Não sou de deixar as coisas paradas e havia decidido combater aquele demónio.John Harding 104 No início. Era até possível que ele genuinamente acreditasse que não tinha visto nada. pois. — Muito bem. se ela podia manter o fingimento. mexi a comida no prato. reparei que a senhora mesma não come o suficiente para manter um pássaro vivo. senhorita. nem mesmo por isso. Senti como se tivesse engolido um bando de estorninhos inquietos. Mas naquele olhar eu soube que o nosso atraso para o jantar era do seu conhecimento. acho que não consigo. Taylor como se nada tivesse acontecido. Mary. nem mesmo para me agradar? Diante disso eu ri. . não tive dúvidas de que Giles tinha visto o reflexo hediondo preso no espelho. Mas se esse fosse realmente o caso.A menina que não sabia ler . porque a alternativa era terrível demais para aceitar. pois era tão claro quanto seu próprio rosto. era uma grande ironia. eu também podia. Florence — agradou-me a srta. Vamos lá. Seu rosto magro enrubesceu. depois do que havia acontecido pouco antes. Taylor ignorou. criei coragem. — Não. — Ora essa. quando Mary entrou para recolher os pratos depois do prato principal — você quase não comeu. senhorita. então por que Giles estaria tão calmo agora. — Não sou uma menina em fase de crescimento que precisa de muito alimento. — Sabe. incapaz de engolir mais que uma ou duas garfadas. senhorita. Depois que Mary saiu. então. rindo e brincando com a srta. acho que consegue comer mais um pouco. pode retirar os pratos. exceto por um olhar demorado quando entrou na sala e sentou-se. que ela havia deixado seu reflexo para nos espionar. e a única resposta que me ocorreu foi que estava com medo. Ele não queria admitir a verdade.

qualquer corpo vivo. como se dissesse que era o que era e faria o que quisesse e minhas perguntas jamais iriam alterar isso. estava tendo um efeito depressivo sobre o meu espírito. Ali. e aconteceu o mesmo de antes. que eu sempre amara talvez mais que qualquer outro autor. Ela pegou o guardanapo e limpou a boca. Abri a porta do quarto de Giles e encontrei meu irmão profundamente adormecido e a srta. um em que nunca havia reparado antes. Taylor sobre ele. nossa nova preceptora o dispensou.A menina que não sabia ler . mas certamente qualquer corpo. Dor e perda. Taylor para descer até a biblioteca em busca de outro livro. Tão atenta estava à sua presa que nem sequer levantou os olhos ou deu qualquer sinal de sentir minha presença. Desci e estava no corredor principal da ala oeste quando subitamente temi pelo que poderia ver à frente. exceto Shakespeare. você sabe. um pudim de arroz. pois vi que foi surpreendida pela minha franqueza e precisava de uma pausa para pensar. é claro. dado o que aconteceu depois. Taylor. precisa de algum sustento. — Existem muitas razões para uma pessoa ficar sem comer. me fez pensar que eu havia tido uma pre-monição do choque que estava por vir. podem diminuir o apetite. pois não há janelas nessa parte da passagem e só há luz nas duas extremidades. e começou a servi-lo. Nesse momento Mary voltou com a sobremesa. Incapaz de me acalmar. na penumbra. gesto que me agradou. porque. Poe. quando finalmente caí em algo que lembrava sono. o que. pedi permissão à srta. senhorita. sabia o que . desafiandome. Quando chegou na srta. pois por que teria olhado para ele quando havia tão pouca luz para ver meu reflexo? Assim que notei o espelho. onde fiquei tremendo até o amanhecer. Passei toda a manhã nervosa no quarto de estudos. inquietei-me novamente e por fim fiz-me de sonâmbula. meu coração disparou. por exemplo. vi que estava me aproximando de um espelho. quase o lambendo. de forma que acabei saindo e voltei para minha cama. Havia horror demais em minha própria vida para querer ler a respeito. 20 Naquela noite. mesmo antes de olhar para ele.John Harding 105 — Sim. suas asas batendo freneticamente no meu peito.

o rosto ao lado do meu. Ao me aproximar do espelho abaixei a cabeça para evitar qualquer conjunção dos olhos. estava presa no espelho. superou o medo. Ela respirou profundamente como se inspirasse meu cheiro e então a língua saiu de sua boca e passou por seus lábios. ofegante. Esse conhecimento afinal me fez parar. de alguma maneira tinha certeza de que isso era verdade. rápida como a de um lagarto. virei-me e voltei pela passagem. ali atirada. lá estava ela. tão rápida que não poderia se perceber. Foi quase como um sonho. Bem. mas ao passar não consegui resistir. que em determinado nível.A menina que não sabia ler . sempre amara. sobre a parede acima da cornija. que era pequeno. óleos pendurados de ancestrais do meu tio mortos há muito tempo. pois ela não poderia me seguir. Encostei-me no batente de uma porta. eu me virei e corri. onde corri para minha poltrona favorita. e tive uma conversa séria comigo mesma. cansada de todo aquele terror. matronas valentes e homens de negócios de aparência austera. meu olhar foi arrastado e encontrou o dela. não exatamente rindo. com gravatas e colarinhos apertados. Passei rapidamente e vi-me na biblioteca. Levan-tei-me da poltrona e. possivelmente o maior espelho da casa. como sempre acontece comigo. nem podia me fazer algum mal diretamente. mais deitada que sentada. dobrava o número de livros da sala. Seus olhos brilharam ao olhar para mim. Ora. atravessei a sala e fiquei diante dela. mas ainda triunfante. eu percebia agora. é claro. Desta vez foi tão previsível que não me encolhi de medo. Corri e corri. . com um único olhar. em minha meia vida nessa sala eu havia olhado para ele milhares de vezes. sem dúvida. e naqueles olhos o sorriso indiferente. mas então a curiosidade. Não podia escapar. A mulher estava no espelho. Pela primeira vez reparei nas fotos na parede. E é claro. quando levantei a cabeça e olhei diretamente para o espelho. de forma que continuei na direção dele.John Harding 106 encontraria. E então fiquei diante do espelho. em seu próprio mundinho. meus olhos viram. Parei e pensei em voltar. uma moldura pesada segurando um quadrado de vidro empoeirado. porque continha outra sala idêntica a esta que eu tanto adorava e. E então. como uma sonâmbula. Cautelosamente. e mesmo com os pés preci-pitando-se pelo assoalho de madeira encerada eu sabia que era tolice. Por algum motivo eu sabia disso.

agora que refletia. até o último. embora por algum motivo não tivesse certeza de ter realmente dito as palavras em voz alta ou de tê-las mantido encarceradas dentro de mim. Praticamente todos os cómodos tinham pelo menos um. Em voz alta ou não. Enquanto andava pelos corredores. pois havia sentinelas em todos os lugares. sua bruxa — eu disse entredentes. que entendi o verdadeiro estado das coisas. Taylor. porque seria muito desconfortável sentar-me e lê-los ali. seu demónio idiota. embora na verdade as letras douradas desbotadas das lombadas dançassem diante dos meus olhos e fizessem pouco sentido. havia um espelho atrás de mim. Foi só ao fazer o caminho de volta para a escada. Ninguém que não saiba (e quem mais além de mim pode saber uma coisa dessas neste mundo?) pode imaginar o que é conduzir toda a sua vida sob os olhos de outrem. estavam em quase todas as passagens. Virei-me de costas. e que aonde quer que eu fosse na casa ela estaria me observando. e. . eles pantomimaram. passando seu pequeno posto avançado na parede do corredor. pois não lhe daria a satisfação de ver meu desconforto. o terror absoluto que me percorreu a espinha e ameaçou ex-plodir-me o coração no peito. podia me ver de frente e de costas. assim como ela estava no espelho. que em protesto eu virei para a parede. Porque. pois seus lábios se abriram no agora familiar sorriso cruel e pareceram dizer uma palavra: "Giles". Acalmei-me nas prateleiras de livros e comecei a pegá-los como se estivesse escolhendo um para ler. ela as ouviu ou leu em meu pensamento. Ela estava até no pequeno espelho da penteadeira no meu quarto. ela realmente tinha olhos atrás da minha cabeça. quando fazia minhas refeições. e a partir de agora não haveria lugar dentro da casa onde pudesse passar despercebida. sentia que ela me observava. Peguei três ou quatro a esmo e deixei a sala. "Giles". pois não daria a ela a satisfação de me ver despir-me ou de me fazer tirar a roupa no escuro. por isso a srta. sentada à minha frente. compreendia o fato terrível: havia muitos espelhos em Blithe. sem precisar olhar. entendi que ela havia povoado todos eles.John Harding 107 — Você. como se as palavras estivessem escritas em sânscrito.A menina que não sabia ler .

Simplesmente. meu corpo se ajustara à vida sob esse novo regime. mas porque a srta. para o centro da casa. mesmo que a srta. Não havia nenhum espelho espião ao longo do corredor ali! Além disso. da minha torre. Se ao sair da biblioteca eu virasse à esquerda. essas espias de espelho. voltaria para o corredor principal. o salão. meus braços e pernas haviam automatizado. Taylor nunca estivera ali. Depois de alguns dias. pois precisava conquistar sua confiança para seduzi-lo e afastá-lo de Blithe. minhas perguntas a esse respeito. todos provavelmente arrancados — pois havia quadrados mais claros onde os quadros tinham estado pendurados — quando a torre foi abandonada. Se. a escada que levava à minha torre não tinha quadros ou espelhos.A menina que não sabia ler . como também nunca houvera um espelho. no entanto. mas também para que eu soubesse que era observada e com isso impedir qualquer rebelião. a cozinha. eu virasse à direita. O quarto da minha torre também não tinha espelho algum. Taylor não estivesse presente. uma expressão ousada ou um gesto descuidado. só serviram para reforçar a ideia de que meu comportamento causava-lhe estranhamento. os ombros não relaxa-vam mais. pareceu-me que havia um lugar livre do olhar da nossa nova preceptora. ficaria aos pés da torre oeste. A última coisa que ela desejaria seria assustá-lo. Eu estava agora ainda mais circunscrita em meu contato com Giles. afastando-o ainda mais de mim e jogando-o em seus braços famintos. tudo o que eu precisava fazer era caminhar para o lado oeste do corredor e esconder-me em minha torre e estaria fora do seu mapa. . a única resposta poderia ser porque ela não queria que visse. meu rosto se mascarara. porque. pois não havia espaço de parede. era difícil evitar uma de suas espias nos espelhos — um de seus espelhos espiões — e não ser observada e ouvida. Notei que eu estava andando toda rígida. Não só por isso. é claro. a saleta. era envidraçado em todos os lados. pois não sabia trair meus pensamentos e sentimentos através de um movimento. não seria povoado por ela. Ao mesmo tempo. com seu espelho no meio do caminho. ela tornara visíveis para mim essas réplicas. que fiz uma ou duas vezes antes de desistir.John Harding 108 Intrigava-me que Giles não pudesse ver as espias que ela havia deixado nos espelhos. porque queria não apenas me observar para detectar qualquer comportamento contra ela. Além disso. ao contrário.

Sentei-me na cadeira de capitão e passei alguns minutos olhando a entrada. mas poupá-la para quando surgisse a necessidade. Maroto. Hadleigh! Ele mantivera a promessa. que. pré-Whitaker e entre preceptoras. lembrando aqueles dias deliciosos e despreocupados. Todos os poucos cómodos entre a biblioteca e a torre deviam conter algum espelho. a escada parecia intransponível. é claro. percebi outra coisa.A menina que não sabia ler . já o conhecia do caso Whitaker. mas ela não era idiota e certamente não demoraria a descobrir que só havia um lugar onde eu poderia estar. tão atrevida com essa bênção repentina que no caminho mostrei a língua para o espelho espião ao passar. Apesar John Harding de ter sumido do mapa da srta. Agora. Era importante não desperdiçar o tempo em minha torre agora bancando a princesa. de modo que meu último refúgio seria revelado. Grouse. dei de novo a desculpa da necessidade de pegar um livro na biblioteca e fui para a torre. e assim meu desaparecimento poderia intrigar a srta. e nesse caso meu rastro terminaria ao pé da torre. ele ergueu a sobrancelha na . Parecia ter sido há um século! Mas. Desci correndo as escadas e atravessei o corredor. quando eu sentava ali. e mais cedo do que eu esperava. Taylor. E claro. tirando o chapéu e o casaco e entre-gando-os à sra. Grouse. Ele viera! E quão apropriado! Eu de princesa na torre.John Harding 109 No momento em que percebi isso. chegaria o momento em que eu iria precisar de um esconderijo assim. Florence — ele disse. ele o cavaleiro de armadura brilhante subindo pela entrada. estava para sair quando captei um movimento na entrada e vi um homem em cima de um cavalo trotando na direção da casa. Com isso em mente. Evidentemente. mas sua postura rígida me era familiar desde o início do verão. depois de um pouco de nostalgia. Taylor durante algum tempo. subindo pelo lado de fora do corrimão e pelos frágeis degraus. lendo três ou quatro páginas e olhando a entrada por algum sinal de Theo. tentação que tivera o cuidado de reprimir até então. — Ah. Cheguei ao salão justamente quando o capitão estava sendo recebido pela sra. não havia muitos lugares para onde poderia ter ido. Em algum momento eu poderia ter que tra-var uma luta desesperada contra esse demónio que tinha vindo para assombrar Blithe e precisaria de um lugar para me esconder. estava muito longe para ver o rosto do visitante.

A menina que não sabia ler - John Harding

110

minha direção. — Estava passando por aqui e pensei em parar para ver como estão todos. — Suas habilidades teatrais eram muitíssimo melhores que as do meu irmão. — Estamos muito bem, obrigada, senhor — eu disse. — Temos uma nova preceptora. — Realmente? Então eu gostaria muito de lhe apresentar meus respeitos, se não for intromissão da minha parte. A sra. Grouse despachou Mary para o quarto de estudos para chamar Giles e a srta. Taylor. Eles demorariam alguns minutos para descer, e desconfiei que ela não quisesse vê-lo, pois o teria visto pelo espelho no salão no momento em que ele entrou na casa. — Está trabalhando em algum caso interessante, senhor? — perguntei a Hadleigh, para manter a conversa enquanto esperávamos. — Ah, o de sempre. Assassinato, incêndio criminoso, assalto à mão armada e coisas desse tipo. Essas coisas estão sempre acontecendo em um lugar movimentado como este. A sra. Grouse, surda para a ironia, pobre alma simples, pergun-tou: — É mesmo, senhor? Bem, quem pensaria numa coisa dessas? Sempre pensei nesta parte do país como um lugar calmo e sem agitação. Hadleigh lançou-me um olhar significativo. — Ah, bem, e é, na superfície, madame, mas raspando um pouco descobrimos que nada é o que parece. A srta. Taylor e Giles chegaram. Meu irmão escondido atrás de suas saias, pois não havia gostado dos interrogatórios de Hadleigh no passado. Nossa nova preceptora apertou a mão do capitão e olhou-o diretamente nos olhos, o que me alegrou, pois ele certamente devia ter visto a cobra ou o quer que estivesse dentro dela. Àquela hora do dia, ela sugeriu que tomasse chá conosco no gramado e saímos. Ali nos sentamos, enquanto Meg trazia pão, manteiga e geleia. Hadleigh era, eu percebi o que nunca tinha percebido antes, um interrogador inteligente, pois conseguiu fazer-lhe perguntas investiga-tivas na forma de conversa trivial.

A menina que não sabia ler - John Harding

111

— Está neste emprego há muito tempo? — ele começou, estudando o lago distante como se a pergunta fosse meramente uma questão de educação e ele não desse a mínima importância à resposta e, na verdade, nem sequer estivesse se importando se a ouvia. — Apenas cinco semanas — ela respondeu. Ele riu. — A senhora não me entendeu, madame. Ele pegou outro bolo, com toda a atenção aparentemente voltada para a escolha certa. — Quero dizer, é preceptora há muito tempo? — Há mais tempo do que gostaria de lembrar — ela disse, exibindo um sorriso educado. Não seria fácil despistá-lo. — Vamos lá, não pode ser tão ruim, não com encargos tão adoráveis quanto Florence e Giles. Onde esteve antes para ficar tão acerba em relação à sua profissão? — Eu não quis dizer que não gosto do trabalho, capitão, apenas me referi ao fato de que não gosto de pensar na passagem dos anos desde que comecei. Nenhuma mulher gosta de ser lembrada de que está ficando velha. — E conhece o tio das crianças, imagino. Ela tomou um gole de chá. — Não, receio ainda não ter tido esse prazer. Não fui contratada diretamente por ele. — Uma agência, então? Ela sorriu e inclinou a cabeça ligeiramente, como se reconhecesse algo vergonhoso, o que para pessoas de certa classe poderia ser, sendo caçada como um trabalhador em busca de emprego. Hadleigh bateu com a mão no joelho. — Então a senhora é exatamente a pessoa que pode me ajudar! Ela o olhou com uma expressão duvidosa. — Sabe, madame, tenho esses amigos mais ou menos na mesma situação do tio das crianças e eles precisam de uma preceptora, e seria útil ter o nome de uma boa agência.

A menina que não sabia ler - John Harding

112

— Bem, eu não sei se a que me contratou é boa — ela respondeu. Era como observar dois esgrimistas se enfrentando, exceto que Hadleigh mostrava menos sutileza quando se tratava de matar. Parecia mais um cão sacudindo a ratazana até a morte. — Ah, mas ela a encontrou, não é, madame? Ela rebateu. — É exatamente o que quero dizer. — Madame, deixe de ser tão modesta. Ele a olhou nos olhos. — Apenas me diga o nome da agência. Meu amigo é um homem de negócios, ele saberá dizer se é boa ou não. Ela o olhou longamente e depois lhe deu o nome e o endereço em Nova York. Hadleigh agradeceu com a mesma simpatia com que agradeceria por um pedaço de bolo, mas em seus lábios havia um ar de satisfação, como se, suspeitei, ele a tivesse vencido no embate. Pouco depois, Hadleig levantou-se e disse que precisava ir, e pe-diu-me para acompanhálo com seu cavalo até o começo da entrada. Assim que ficamos sozinhos, perguntei-lhe: — Então? — Se está querendo saber se acho que ela se parece com a falecida srta. Whitaker, eu não poderia dizer. Só a vi em fotografias e a maioria depois que a tiraram do lago. Eu não consegui responder. Meus olhos se encheram de lágrimas com a ideia de uma visão dessas, embora não tivessem permitido que eu visse. Foi ele quem quebrou o silêncio. — Quando falei que a dor faz coisas estranhas com as pessoas... — É mais que isso, senhor. Ele parou e olhamos um para o outro. Tentei pedir-lhe com o olhar, pois não tinha palavras para fazê-lo mudar de ideia se tivesse decidido que eu estava imaginando tudo. Ele colocou o pé no estribo, levantou a outra perna sobre o cavalo e subiu na sela. — Escute, tenho o nome das pessoas que seu tio usou para contratá-la. Vou enviar para Nova York e pedir que investiguem e ver o que posso descobrir, está bem? — Está bem — eu disse. E com isso ele saiu galopando, deixando-me ali na entrada, pensando subitamente que ali pelo menos, ao ar livre, não havia espelhos e ninguém me veria chorar. ***

Pensei na investigação de Hadleigh em Nova York. era como se o garoto não quisesse ser salvo. Taylor. Antes da sua visita. Faria tudo o que pudesse para combater essa criatura morta — pois tinha certeza de que assim estava nossa nova preceptora. eles veem apenas um caminho para a solução de qualquer caso: informação. Whitaker já tinha mostrado que a água não consegue deter um espírito morto. primeiro você precisa conhecê-lo. Mas o que fazer? Ai. enquanto hamleteava a respeito. depois de ter chorado enquanto Hadleigh desaparecia na curva da estrada principal. então precisava descobrir exatamente o que ela pretendia. Isso começou a fazer sentido para mim. pois a srta. a melhor parte de mim mesma. meu irmãozinho indefeso? Tudo era possível. pois por que outro motivo iria querer me assombrar? Quem mais eu conhecia que tivesse morrido. essa era a questão. e de que eu não estava sozinha na minha busca para salvar Giles. ele não iria considerar o que eu disse por seu valor aparente. e na minha presença? Será que de alguma maneira me culpava por não tê-la salvado. Como alguém combate um fantasma? Você não pode simplesmente afogá-lo. paralisada por meus medos. E todos os dias. . de forma que me sentia completamente impotente e não conseguia sequer pensar no que poderia fazer para impedir a bruxa. minha ansiedade. do contrário.John Harding 113 Embora Hadleigh ainda não tivesse realmente feito alguma coisa por mim. e qualquer expressão de hostilidade da minha parte em direção à preceptora despertava nele igual hostilidade em relação a mim. a vigília cons-tante e a solidão do meu compromisso juntaram-se para congelar-me. pois. como poderia caminhar sobre a água ou habitar os espelhos? Também suspeitava de que fosse Whitaker reencarnada. o simples conhecimento de que pelo menos estava ao meu lado. como eu mesma me culpava? Seria isso suficiente para fazer com que quisesse me punir fazendo mal ou tirando de mim a única coisa que eu realmente amava. nada concreto em termos de ajuda. era suficiente para animar meu espírito. eu tinha que ver Giles insinuando-se cada vez mais para os braços dela. para derrotar seu inimigo. Se queria derrotar a srta. isto é. estava decidida. Agora. pelo menos. Refleti hora após hora com pouco a mostrar pelo meu esforço. Desde a ida até o dentista e o incidente com o espelho. ou. aquela não era a maneira de os policiais raciocinarem. Mas alguma coisa eu precisava fazer. ele estava ressabiado comigo.A menina que não sabia ler .

a menos que fosse feito à noite. e era seu quarto. que havia um grande espelho na penteadeira da preceptora. eu. todas as noites. Mas como iria acessá-lo? Não podia simplesmente fingir que ia até a biblioteca quando ela e Giles estivessem no quarto de estudos. ou seja.. até onde eu sabia. seria descoberta. Com a maioria das pessoas isso seria impossível. soprar a vela e retirar o pano. a srta. depois de dar esse salto. A revista do quarto era impossível enquanto o espelho estivesse lá. pois elas raramente deixam seus quartos depois de se recolher após o anoitecer! Mas a srta. mas eu sabia que não era mais o caso. e não saberia a diferença entre a noite e o meu pano. cantando para ele daquela forma monstruosa. é claro.A menina que não sabia ler . logicamente. quebrar não adiantava. no momento em que pusesse os pés lá dentro. observando-o. sempre que eu estava inquieta ou acordada à noite e ia até o quarto de Giles. Taylor estivesse ausente do quarto em algum momento durante a noite e por tempo suficiente para que eu fizesse o que tinha que fazer. Tentei imaginar planos para retirar o espelho. com o espelho quebrado. Taylor saía de seu quarto! E. A menos. Por fim.John Harding 114 Bem. Pensei em pedir a Giles que fingisse algum acidente e o quebrasse. Seria necessário que a srta. mesmo que não fosse observada do espelho no ato de cobri-lo. . algo impossível de realizar em si. Eu poderia fazer o que quisesse sem que ela visse. que o quarto parecia estar no escuro. quando espiei ocasionalmente pela porta aberta do quarto de Giles. havia apenas um lugar onde poderia encontrar tais evidências sobre a nossa preceptora. coisa que antes faria. por isso. ela saberia. Exceto que. apenas pelo prazer de o fazer. Se entrasse em seu quarto quando estivesse escuro e colocasse um pano preto sobre o espelho eu poderia então acender uma vela para ver seus pertences e. Assim que essa ideia se apresentou a mim. pensei na possibilidade de cobri-lo com um pano. que ele havia sido coberto e que só poderia haver um culpado. Pensei nisso por alguns dias. lá estava ela. Pois. pelo súbito obscurecimento da sua visão do quarto. também se evidenciou sua deficiência. sem questionar. Taylor não poderia concluir sua toalete e assim. Não. Além disso. simplesmente o substituiria imediatamente.. quando minha tarefa estivesse concluída. pois sabia muito bem da época da Whitaker. A imagem no espelho observaria apenas uma coisa.

eu praticaria o caminho do meu quarto para o dela. Seu comportamento em cada ocasião era o de alguém quase em transe. tão encantada parecia ficar com sua presa. depois que a srta. É claro. quando tinha a rota gravada na minha mente. o que a deixaria de sobreaviso e ao mesmo tempo colocaria em perigo meu plano. Fiz isso primeiro com uma vela e de olhos abertos. o medo também de ser descoberta. enquanto estava ocupada contando histórias de dormir para Giles. em segundo lugar. Guardei a posição de alguns quadros na parede para não esbarrar neles acidentalmente e produzir algum ruído. A parte do corredor contígua aos nossos quartos não tinha espelhos. pisando da maneira que conseguiria fazer no escuro. quando pisei houve um rangido na tábua do assoalho e percebi sua posição para depois poder pulá-la. então eu não teria tempo para uma revista adequada do quarto e poderia ser pega no ato. bem.. eu não tinha como saber quantas noites eu tinha antes que ela colocasse seu plano em ação. se essa minha hipótese estivesse errada e suas visitas fossem breves. Então fui para meu quarto e tirei do guarda-roupa um velho manto preto.A menina que não sabia ler . O resultado dos meus melindres e covardia era que não tinha ideia de quanto tempo duravam essas suas visitas a Giles. Taylor me mandasse para a cama. seria observá-la por uma noite ou duas para descobrir a duração de suas visitas ao meu irmão. tão silenciosamente quanto um fantasma. E se esta noite eu a observasse e no dia seguinte ela levasse Giles embora? Não havia alternativa. Em dado momento. caso houvesse alguém ali. Cuidei de todos os preparativos. ou de que sentisse minha presença. Tinha que ser esta noite. tão distraída de tudo o mais que pouco provavelmente perceberia algum barulho no quarto adjacente. eu sabia. embora não imaginasse que outra pessoa poderia haver . primeiro. porque todas as vezes que eu a observasse haveria a chance de ser pega. soprei a vela e fiz o caminho de novo com os olhos fechados e depois mais duas vezes.John Harding 115 Ficava tão enojada com suas visitas ao quarto do meu irmão que em cada uma dessas ocasiões não tive desejo de ficar. A única coisa sensata a fazer.. Por fim. Meu plano era colocá-lo sobre minha camisola branca para me deixar invisível no corredor escuro. até ficar satisfeita para navegar o caminho do meu quarto para o da preceptora tão silenciosamente quanto. por isso. afastavam-me imediatamente. Mas eu estava relutante. Suspeitava que fossem lon-gas. daqueles cruéis olhos de cobra olhando-me.

mas agora semelhante a um alarme. Tinha tomado a precaução de apagar a vela para o caso de pegar no sono e remexer as cobertas revelando meu manto preto. ouvi o barulho da maçaneta da porta e senti que estava parada na entrada. seria suficiente para mostrar-me aparentemente adormecida. Lá fora. O quarto estava completamente escuro. apagaria a vela. mas tudo o mais estava em silêncio. que imaginei ser o da srta. Uma vez ali. Eu não precisava ter medo de pegar no sono. Levantei as cobertas e coloquei os pés no chão. me cobriria com ele e deixaria o quarto. Uma vez em seu quarto. atenta a qualquer som de movimento. os olhos pouco acima das cobertas. que. com o manto tendo servido a dois propósitos. Pensei que esse era um plano que daria muito certo e cumprimentei-me por ele para esconder de mim mesma todas as minhas dúvidas. nada mais imprová-vel. Finalmente ouvi um ruído surdo do outro lado do quarto de estudos.A menina que não sabia ler . Coloquei o manto e entrei na cama. Em algum lugar da casa eu podia ouvir um relógio tiquetaqueando e batendo os quar-tos das horas. observando-me. uma coruja piou e não pude deixar de pensar que esse som melancólico podia ser ouvido em todas as boas histórias de fantasmas e que eu mesma estava em uma agora. com medo da tarefa à minha frente. Virei a maçaneta. Taylor entrando no quarto do meu irmão. e um segundo ou dois depois ouvi a porta se fechar suavemente. Fiquei de pé e tateei até encontrar a vela e os fósforos. a coruja piou mais uma vez. da entrada da porta. eu tiraria o manto. acenderia minha vela e começaria minha procura. mas sem revelar o manto. se a srta. Meia hora depois. Se a srta. Quando terminas-se. e soube que estava na hora de me mexer. Abri a . pegaria o manto. agucei os ouvidos e prendi a respiração. Taylor. cobriria o espelho. Taylor olhasse.John Harding 116 além da srta. Taylor decidisse abrir a porta para me dar boa-noite (na verdade para me espionar). teria apenas a luz de sua própria vela. de forma que. mas eu conhecia meu caminho até a porta. exceto pelos gemidos e rangidos da velha casa acomodando-se ao descanso noturno. soltando pelas narinas uma expiração que era quase um ronco. Respirei forte. depois os enfiei nos bolsos do meu manto. puxando as cobertas até em cima. Sabia que teria uma longa espera até minha inimiga fazer o caminho para o quarto do meu irmão. ela não veria minha estranha vestimenta. praguejando silenciosamente contra o barulho normalmente imperceptível. Fiquei ali deitada.

Até ali. e a primeira lembrança que tive do piso barulhento foi quando coloquei o pé nele e ele soltou um gemido mais alto que o anterior. Parei e segurei a respiração. com um oceano entre nós. e dos bons tempos que passamos no gelo. e minha espinha gelou e estremeceu. se ela. Estava com tanto medo que me esqueci de contar. ela nunca estava nas outras vezes em que a observei. como esperava. isso era exatamente o que eu desejava. exceto que. Meu coração parecia que ia saltar da boca. como se me reprovasse por ter esquecido. É claro. agora tão distante. o que me fez lembrar de Theo. resolvesse aventurar-se pelo corredor. Percebi o suor na testa. não queria que visse a porta de seu próprio quarto aberta.A menina que não sabia ler . Só que não era a resposta à minha imperícia. e. esperando. Entrei num piscar de olhos e fechei a porta atrás de mim suavemente. mas parecia o sussurro surdo do vento distante transformando-se na cantoria suave que eu tinha ouvido na primeira vez que peguei a preceptora em suas atividades noturnas. O quarto estava escuro como breu. Girei-a lenta e cuidadosamente e não houve barulho algum. o coração batia com tanta força que me perguntei se não acordaria a casa toda. Taylor. Apesar de . Senti o frio do metal da maçaneta da porta em minha mão e re-zei para que não protestasse com muito barulho quando eu a virasse. exceto por um brilho débil debaixo da porta de ligação para o quarto do meu irmão.John Harding 117 porta levemente e passei deslizando os pés descalços pelo chão. É claro que eu não podia ter certeza absoluta do seu paradeiro. pois significava que o espelho também não podia me ver. mas não iria arriscar -. Segui pelo corredor. ela estava com Giles. Deslizando assim pelas tábuas corria o risco de me espetar com uma farpa. Respirei profundamente e abri a porta. pelo que eu lembrava. Não o via por dentro desde a época da Whitaker. passei pela porta do quarto do meu irmão e cheguei ao da srta. embora estivesse contando cuidadosamente cada passo. ouvi um barulho. tudo bem. mas julguei que era melhor que o som de passos. por qualquer motivo — não que eu pudesse pensar em um. Não podia sequer ter certeza de que a porta de ligação entre seu quarto e o do meu irmão não estaria totalmente aberta. Deparei imediatamente com um problema que não havia levado em consideração no meu planejamento: o quarto estava tão escuro que eu não conseguia ver absolutamente nada. Mas eu não estava especialmente familiarizada com o quarto.

Cada vez que levantava um pé. digamos — em que eu pudesse tropeçar. Quase imedia-tamente meu pé prendeu em um tapete e por pouco não tropecei. e o medo me paralisou. Meu coração batia como uma marcha militar. a parede -e nada mais.. O que eu devia fazer? Se fosse para a porta do corredor talvez tivesse uma chance de alcançá-la antes que ela abrisse a porta de conexão. Dei a volta. e ela piava. tinha apenas uma vaga lembrança da posição de tudo. uma poltrona e algumas cadeiras menores. o que teria me complicado bastante. Assim continuei pelo quarto. Parecia ter levado horas.John Harding 118 estar razoavelmente segura de que a srta. decidi. era inútil sequer pensar nisso. Eu sabia que a penteadeira ficava na parede oposta à da porta para o quarto do meu irmão. Tinha que pensar em algo depressa. meu querido. Taylor havia conservado a mobília — a cama. embora fosse uma chance mínima. Tive certeza de que a qualquer segundo a porta de conexão seria aberta e eu seria pega em flagrante. a saliva pingando dos lábios. fui até a parede e. Nesse momento. eu poderia comê-lo". tateando. atravessei o quarto. por isso continuei deslizando pelo chão naquela direção. como . o sangue em minhas veias congelou. Então ouvi sua voz. mais ou menos a cada minuto. limitando-me a passos pequenos para não me estender demais e perder o equilíbrio caso encontrasse outro obstáculo. O que quer que aconteça agora. que eu sabia estar diante da penteadeira. inclinado sobre meu irmão. Mas não havia tempo para tal repugnância.. eu seria pega. a penteadeira. Com esse rastejar incómodo. Soltei o pé do tapete e depois movimentei o outro pé. mas felizmente parei e consegui controlar-me antes de prosseguir. Não. senti. eu sabia.A menina que não sabia ler . Em dado momento bati com o joelho em alguma coisa dura e imaginei que fosse a ponta da cama. A penteadeira não estava onde deveria estar. então poderia muito bem levar adiante a minha missão. tateava cuidadosamente à frente. embora a coruja tenha piado só mais uma vez. dava meio passo e colocava-o no chão de novo com muito cuidado. Foi tão rápido que quase gritei. um guarda-roupa. e pensei naquele demónio a alguns passos de distância. uma mesi-nha de cabeceira e uma outra mesinha — no lugar em que estava na época da sua predecessora. baixa e suave: "Ah. a canção no quarto ao lado parou. de forma que eu mal podia acreditar que fosse inaudível para a mulher no quarto ao lado. De repente. Não tivera a oportunidade de calcular as distâncias e não tinha como saber se a srta. Taylor havia deixado alguma coisa no chão — suas valises.

atravessei o quarto até chegar à parede. pareceu-me uma grande soma para uma simples preceptora. um sabonete perfumado. Como a posição de uma penteadeira poderia ter alguma importância?. segurei a respiração. perguntei a mim mesma. depois tirei o manto.A menina que não sabia ler .John Harding 119 que para recompensar-me pela bravura. E respondi imediatamente: a luz. vidros de loção e perfume. a canção prosseguia. O que eu precisava avaliar agora era por que e para onde? Pensei em onde estava antes e no que poderia haver de errado com aquele lugar. Disse a mim mesma novamente que aquele não era o momento para tais pensamentos. pensando que talvez a tivesse alertado. mas minha mão foi mais rápida e peguei-o antes que pudesse cair. Ao lado delas encontrei um recorte de jornal que reconheci imediatamente. Colocando-o no lugar. e a mim o barulho pareceu tão alto quanto o que John fazia quando tirava com a pá o gelo que se formava na entrada. depois de acender a vela. uma de cada lado do vão central onde se põem as pernas ao sentar. Na mesa não havia nada além dos apetrechos femininos habituais. onde estava a janela. esperei alguns segundos até ter de novo certeza de que estava tudo bem. A penteadeira tinha duas gavetas. Ela tinha mudado a penteadeira. pois era uma reportagem que eu mesma tinha visto antes do inquérito da Whitaker. Continha notas de dólares e. Ela estava no canto. para aproveitar a luz quando olhasse no espelho. Abri primeiro a do lado direito. a canção recomeçou e senti um mal-estar só de pensar naquela coisa acariciando a testa de meu irmãozinho indefeso. tinha que voltar minha mente para o problema em questão. comecei a revista. um vidro pequeno. e a parte de trás contra a parede de fora. meu caro Watson! Mas essa não era hora para vangloriar-me. Cautelosamente. algum enfeite ou algo assim. fui tateando até alcançar a janela e lá estava! Elementar. seu perfume de lírios mortiços. Então peguei um dos fósforos e risquei. ou precipitação — chame como quiser -. mas não. por isso. com a lateral contra a parede oposta ao quarto de Giles. Não havendo interrupção da canção. escovas. estendi o manto e joguei-o sobre o espelho. Estava tão afoita que bati em algo na mesa. Peguei a vela e os fósforos do bolso do meu manto e coloquei-os na mesinha. . Com todo o cuidado para não esbarrar em nenhum outro enfeite. embora não tivesse tempo para contá-las. sem dúvida.

na verdade tive que estender o braço e apoiar-me na mesa. O criado-mudo estava vazio e em cima da cómoda não havia nada além de uma vela e um copo vazio. e ouvi a voz da srta. Taylor: — Shh. Não tinha nada além de sais de cheiro e um vidro com um rótulo de uma farmácia de Nova York. Fiquei arrasada. Mantendo as passagens em uma mão. Olhei embaixo da cama e vi as duas malas da srta. Taylor. aonde eu não poderia segui-la ou mesmo trazê-lo de volta. Passagens! Meu coração quase parou ao ler o que estava escrito em um deles. nada. Abri o guarda-roupa e revistei os bolsos do seu casaco e dos vestidos. Quando o abri. Cabine Porto D14. E não só para longe de Blithe. Partida à meia-noite. ansiosa que estava por ter ficado tempo demais no quarto. Passei a mão embaixo de toda a volta do colchão. Senti uma tontura e mal consegui me equilibrar. com a outra coloquei a Bíblia de volta na gaveta e a . o canto de um papel saindo do livro. Estava prestes a fechar a gaveta quando reparei em algo. Não havia mais aonde olhar. Fui até a cama e tateei embaixo dos travesseiros. olhando em volta e fiquei ainda mais intrigada. mas para fora do país. Silêncio! A canção no quarto ao lado havia parado. Então meus olhos se voltaram para uma mesinha que eu lembrava da época da Whitaker. não há nada a temer. shh. Não havia tempo a perder.A menina que não sabia ler . De repente senti uma diferença no quarto e levei meio segundo para perceber o que era. Fechei a gaveta e abri a que ficava do outro lado. caíram dois cartões. Coloquei minha vela sobre a mesa e tirei-o da gaveta. por isso o recoloquei relutantemente de volta na gaveta e a fechei. 1— Classe. Agacheime e abri a fechadura.John Harding 120 Nesse momento ouvi uma tosse no quarto ao lado. Vazios! Fechei a porta do guarda-roupa delicadamente e parei em pé. perto da porta que dava para o corredor por onde eu havia entrado. Duas semanas! Duas passagens! Era quando ela pretendia levar Giles embora. Eu não tinha tempo para examiná-lo agora. nada menos do que a França. Nova York — Le Havre. 14 de novembro. SS Europa. para a Europa. Abri a gaveta da mesinha e fiquei decepcionada quando vi que não tinha nada além de uma Bíblia. que reconheci como sendo Giles. 14 de novembro. Peguei-os e vi imediatamente do que se tratava. mas estavam completamente vazias. meu amor. O outro era exatamente igual. Isso seria dali a duas semanas. Peguei minha vela na penteadeira e fui na ponta dos pés até ela.

que eu tinha trazido com esse propósito. segundo. Então desci até a biblioteca. apesar da tristeza e da . Fiquei no corredor. Mesmo assim. não demoraria muito até resolver verificar as passagens. pois eu havia voltado a Poe. passei e fechei-a atrás de mim no mesmo momento em que a porta do quarto do meu irmão foi aberta. alcancei a maçaneta. eu sabia que. Coloquei as passagens nessa abertura. encobrindo o som da outra. tendo ficado acordada tanto tempo durante a noite. Com um movimento. Taylor já havia encontrado o manto. não para a sala do café. Por isso me vesti depressa. e fingi que arrumava o cabelo. peguei as passagens embaixo do meu travesseiro. Fiquei como uma estátua por cerca de um minuto. saí do mapa da preceptora e subi até a minha torre. eu esperava. parei diante do espelho pouco antes da biblioteca e olhei para ele. usando ambas as mãos para que visse que estavam vazias. Tateei embaixo do assento da cadeira de capitão e. meu manto. aflita com o que havia feito. primeiro. porque se tivesse já teria invadido meu quarto há muito tempo. ignorando quanto pude o rosto lívido da srta. empurrando-as para dentro do forro e certifi-cando-me de que não poderiam cair. até o pio da coruja me tirar do devaneio. No corredor. Então passei pela biblioteca. na coisa propriamente dita e. onde havia dormido sobre elas por questão de segurança. na longa espera para começar minha aventura noturna. pois não poderia nem sequer escovar o cabelo sem que isso acontecesse. mas para a ala oeste. cortei o couro. virando-me e remexendo-me na cama. 22 Na manhã seguinte levantei tarde. Histórias de mistério e imaginação. com meu canivete. a srta. encostada na parede para ter apoio. soprei a vela. quase desmaiando pelo que acabara de descobrir e por ter escapado por tão pouco. Evidentemente. com as passagens de navio e com o que havia deixado para trás. depois. e foi aí que percebi que havia deixado para trás meu manto. onde peguei o livro que estava lendo no dia anterior. com o som de uma.A menina que não sabia ler . Taylor olhando-me com raiva. abri a porta. coloquei-as no bolso do meu avental e desci. Felizmente eu estava perto da porta do corredor. Ouvi passos no quarto de Giles aproximando-se da porta de comunicação. mas acreditava que ainda não tivesse dado por falta das passagens. ao pensar que eu havia estado em seu quarto.John Harding 121 fechei.

Taylor o conteve. convenceria o demónio de que eu tinha ido somente até a biblioteca e a nenhum outro lugar. Quando entrei. eu esperava. depois de eu ter passado sem nenhum. Ela me olhou desa-fiadoramente. segurei a ave ímpia de mau agouro. Ao abrir a porta. assim. e. Taylor. embora a cada bocado só me sentisse pior. Taylor. as asas pousando nas cadeiras vizinhas de ambos os lados. diante da srta. Ela se recuperou rapidamente. mas. prestes a dizer alguma coisa. — Você esqueceu no meu quarto — ela disse. O livro. porque nesses dias ade-quava-se ao meu estado de espírito. — Obrigada — eu disse. triunfante como al-guém que pegou o outro em uma mentira ou ato desprezível. pegando-a desprevenida. Abaixei os olhos e fui humildemente para o meu lugar. Eu não estava com fome. mas estava determinada a não lhe dar satisfação alguma. Ao chegar à minha cadeira. a comida sen-do nada para ela. embora não fosse possível perceber isso de fora. os olhos de cobra penetrando nos meus. tão chocada fiquei. fiz questão de passar lentamente pelo espelho segurando o livro aberto à minha frente e fingindo que o lia. Ela continuou a me olhar pelo resto da refeição. não seria levado a explorar a torre. Taylor desafiadoramente. o coração fazendo acrobacias em meu peito. vi o meu manto. meu estômago revirando pela apreensão do que poderia vir. meu manto. Logo que saí da frente do espelho. pendurado como um velho corvo preto. Apenas acenei. Quase parei de respirar.John Harding 122 melancolia. Saindo da biblioteca. Giles olhou para mim e abriu a boca. pois não havia o ti-ti-ti costumeiro de Giles e nada das respostas tolas da srta. . Taylor e Giles já estavam lá. depois a dobrei e. no encosto da cadeira que sempre foi minha. e tirei-a do encosto das cadeiras. e peguei meu garfo e faca. pousando a mão na sua e ele fechou os lábios e silenciou. a srta. a srta. Ergui os olhos e encarei a srta. corri para a sala do café. que nem chegava a percebê-la. antes que pudesse falar.A menina que não sabia ler . pois. de forma que comi tudo o que estava à minha frente. sentando-me em meu lugar. senti as pernas falharem. coloquei-a em uma das cadeiras ao lado.

— É claro.. e ele acabou dizendo: — Por favor. Giles ficou em pé e correu para a porta. havia sido contratada para servir. — Falarei com você mais tarde.John Harding 123 Não demorou muito para Giles começar a impacientar-se. virou-se e lançou um olhar ameaçador. que era a única pessoa a quem podia me apegar neste mundo duro e frio. Era como se o meu corpo quisesse se purgar de tudo o que o havia poluído por tanto tempo. mas a insolência daquela palavra. afinal de contas. muito vazio. corri para o ba-nheiro e vomitei tudo o que havia consumido. um pensamento me fez estremecer. e mesmo quando meu estômago já estava muito. Depois de quase ter me acovardado e de ter resolvido ir para fora. e pela primeira vez não foi a maneira com que falou. eu não conseguia evitar as convulsões. pois parecia sinalizar que tínhamos ultrapassado os limites das convenções sociais. Sentia tanta fraqueza que mal conseguia andar e comecei a chorar. "garota".A menina que não sabia ler . Ela afrouxou o olhar que tinha sobre mim e olhou para ele como se tivesse esquecido que estava ali. senhorita. ele e a preceptora tendo. o que me assustou. deslizando pelo piso como se caminhasse no ar. . de tal forma que só conseguia vomitar ar. pois não conseguia ver como poderia continuar. para alguém que. Só quando estava atravessando a porta é que parou. é claro. tomado café durante um tempo considerável antes da minha chegada. todo o meu medo de perder Giles. que as luvas haviam sido tiradas e que ela estava pronta para uma luta feroz. toda a minha culpa. ela o seguiu com aquela maneira silenciosa e imponente de andar.. de forma que parecia que ela podia estar sempre espionando minha própria alma. Assim que o som de seus passos desapareceu. todo o veneno que a bruxa Whitaker tanto viva quanto morta havia colocado no meu coração. meu querido — ela murmurou e empurrou sua cadeira. garota — ela sibilou. podemos ir agora? Tenho certeza de que comi o suficiente para o dia todo e a senhora nunca come o suficiente para manter um pássaro vivo de qualquer maneira. onde deveria estar a salvo das dezenas de pares de olhos com os quais ela acompanhava todos os meus movimentos e monitorava cada expressão e gesto em cada parede da casa.

Não desistiria. — Bem.. aquele em que a vira pela primeira vez. e então ficar sério. trinta e sete? Ou trinta e cinco. — Sete vezes sete. mas seria difícil dizer qual era. — Trinta e nove — arriscou Giles. privar-me dos livros. Ela não fez nenhum gesto para pegá-la. depois se virou e saiu depressa do quarto. não importava que poderes sombrios tivesse à sua disposição. Ela balançou a cabeça. e ela ergueu os olhos. Giles ficou confuso. e então foi possível ver seu rosto mudar quando estava a meio caminho de um sorriso. Eu não havia deixado que Whitaker me levasse ao desespero quando estava viva. quando fez aquela coisa terrível. Não fui feita para isso. Ele não disse mais nada. onde en-contrei Giles sentado ao seu lado junto à escrivaninha. surpreso. com um sorriso pouco convincente. Estragaria seus planos. Giles — ela murmurou. Estou tentando. e eu não me dobraria e não cederia agora. — Qual o problema. — O que está acontecendo.. por onde pretendia sair. ficou em pé. Matemática não era o seu forte. É algum número por aí. ela me encarou. pois nesse momento a porta se abriu com um estrondo e a preceptora entrou no quarto e veio direto para nós. senhorita? Eu não quero ser tão pouco inteligente. Ela começou a rir. vamos lá. eu sei. quando me aproximava da porta da frente. o cabelo despenteado e espetado como se ela tivesse tirado todos os grampos em um acesso de . Se ela quisesse uma luta teria uma. Giles — ela disse. Antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa.John Harding 124 Porém. e o sorriso arrogante do seu simulacro. Eu seria a abelha do seu piquenique. Fio? O que foi tudo aquilo com seu manto no café da manhã? O que você fez desta vez? Às vezes eu acho. olhou longamente para mim e. abruptamente. eu a vi no espelho. Giles ergueu os olhos. os olhos selvagens. tão depressa que a cadeira caiu para trás. que parecia zombar da minha impotência. isto é. aquilo que mais me magoaria depois da perda de Giles. é sério. alterou meu curso. — Não é isso. amavelmente. — Não é tão difícil.A menina que não sabia ler . Virei e segui pelo salão e subi até o quarto de estudos.

Nós nos encaramos. Durante todo o tempo. — O que foi que você fez com elas. Afastei a cabeça e senti um puxão no couro cabeludo e vi que estava livre. duas feras em combate mortal. e tínhamos criado algumas rotas quando eu o acompanhava até a metade do caminho na volta para sua casa. mas mesmo quando estávamos presas nesse duelo eu sabia que. empurrei-a e finalmente saí para o jardim. E antes que ela tivesse uma chance de se recuperar eu atravessei o quarto e saí pela porta aberta. Disparei pelo corredor com o barulho de suas botas nas tábuas do assoalho atrás de mim. Então pensei na outra direção e no bosque. pois estava acenando com elas na frente do meu rosto. eu estava presa atrás da escrivaninha e inevitavelmente seria pega. pois. — Onde estão elas? — ela gritou. ela de um lado da escrivaninha. mas conseguindo me recuperar no último. eu recuei para o outro. da maneira como estavam as coisas. tirando os poderes especiais que ela poderia ter e que eu ainda . Ela me alcançou em um instante e agarrou meu braço. — Onde estão elas? Onde estão. não mais que uma mesa. deixando-me em desvantagem. ela me impediu. sua pequena vadia? Eu não consegui evitar um grito. Coloquei os dedos sob as beiradas do tampo e com um rugido poderoso empurrei e virei a escrivaninha ao mesmo tempo. a boca contorcendo-se com um sorriso estranho. enquanto avançávamos e recuávamos. eu do outro. Fechei a porta com um estrondo e olhei ao redor. pulando três ou quatro degraus de cada vez e depois pelo menos seis ou sete de uma vez. podia ouvir os gritos atrás de mim. derrubando-a. se nada mudasse. que eu havia atravessado várias vezes para me encontrar com Theo quando ele cortava caminho por ali para me visitar. Pensei no lago. Só havia uma coisa. Pensei que fosse arrancar meus olhos com suas unhas. sem gavetas cheias de livros para fazer peso. por sentir muita dor.A menina que não sabia ler . pois Giles e eu costumávamos brincar de esconde-esconde e. Então tentei fugir por onde havia entrado. era eu quem deveria ser a perdedora. Era como uma dança da morte. Ela fez que ia para um lado. enquanto ela segurava uma mecha do meu cabelo.John Harding 125 raiva. Desci pela escada de trás. quase me arrependendo ao pular no fundo. mas então me lembrei de sua facilidade com a água e imaginei que seria capaz de cortar caminho por ele. sua petulante? Cheguei a uma porta lateral. A escrivaninha era leve. Eu as conhecia bem e os esconderijos também.

mas quando o caminho bifurcou peguei o menor dos dois. Estava com o coração na boca. não deste mundo. o que me fez temer todo tipo de coisas. porém.John Harding 126 ignorava. Logo eu estava completamente cercada e tive que parar. Não levei em consideração o que aconteceria depois de tudo isso. rasgando meu avental com seus tentáculos espinhosos. tomei a má decisão de sair da rota que eu conhecia e ir na direção de alguns arbustos. comecei a me cansar e meu avanço diminuiu. como se minha perseguidora tivesse talvez algum controle sobre eles. Em pânico. Levantei as saias e comecei a correr enquanto ouvia o barulho da porta se abrindo atrás de mim. mantive-me na trilha. pois minhas pernas eram mais jovens. entretanto. Ainda assim. pois passava por um ajuntamento denso de arbustos e lugares em que as árvores haviam deitado mudas e era preciso desviar para passar nos espaços estreitos entre elas. pois nunca esqueci que era um espírito. e no espaço aberto era mais rápida. A princípio. ter uma breve conversa comigo mesma para acalmar-me. É claro que meu pensamento não foi além da fuga. quando olhei por cima dos ombros ela estava a uma boa centena de metros atrás e embrenhei-me na mata. Eu tinha uma boa vantagem sobre ela. como se fossem os pontos ruins que produzia quando a Whitaker obrigava-me a bordar. especialmente que uma de suas habilidades feiticeiras fosse a capacidade de voar. paciente e cuidadosamente comecei a arrancar os espinhos que me prendiam. indo para o coração da floresta. mas que de fato era a rota que Theo e eu havíamos determinado como a mais curta entre seu lado da mata e o meu. Não era a mais rápida. ou como a vida poderia voltar ao normal. e fiz o mesmo cerca de cem metros à frente quando bifurcou novamente. perturbei algumas gralhas e elas voaram de sua árvore fazendo muito barulho ao grasnar e bater as asas. e logo me vi entre espinheiros que se estendiam cruelmente. ao ganhar distância sobre ela. e eu tinha certeza de que poderia ocultar-me completamente. pois a luta só estava piorando a situação. Pelo menos ela não teria espias observan-do-me. Agora estava em algo quase irreconhecível como caminho. .A menina que não sabia ler . pois sabia que devia ter alertado minha perseguidora quanto à minha localização. o que me levou a amaldiçoar-me. tinha certeza de minha superioridade entre as árvores. Em determinado momento. Enquanto a vegetação ficava cada vez mais espessa e a travessia cada vez mais difícil.

vislumbrei algo preto entre as folhas e soube que estava perdida. Virei-me e. apenas o chacoalhar das mudas e arbustos que mexia. a causa revelando-se quase imediatamente em uma grande comoção na direção de onde eu viera. o rosto lívido. Quando os espinhos enganchavam em meu vestido. pois não podia ver a coisa em si. porém mal tive tempo de celebrar devido a outro súbito revoar de gralhas. aquele que levava ao lado Van Hoosier do bosque. Taylor. saí do matagal e encontrei um caminho. Não importava qual fosse o obstáculo. com a certeza de que deixava minha perseguidora para trás. e percebi que estava presa pelos espinheiros. Um barulho tão alto que me convenci de que devia ser um cervo atravessando a vegetação. Abri caminho à força entre eles.A menina que não sabia ler . Acreditando que havia colocado alguma distância entre nós. e a princípio não tive medo. Mas então. Ela fez menção de correr para mim. o rosto na terra. mas foi contida. Podia ouvir minha perseguidora logo atrás e esperava a qualquer momento sentir seu hálito quente em minha nuca. com a família distante. sem diminuir o passo olhei por cima do ombro para verificar. Transfigurei-me de medo. Ela não estava em nenhum lugar à vista e eu me felicitei. Olhei para a trilha que estava criando. praticamente bufando de raiva. quando meu pé bateu em algo duro — a raiz de uma árvore — e tropecei. Mas então. sem pensar. não que pudesse esperar qualquer ajuda ali. final— mente. enquanto esperava que o animal chegasse e passasse. Fiquei ali deitada. enquanto eu especulava. rindo descontroladamente enquanto corria. incapaz de pensar por um momento para onde me virar e fugir. pois a casa ainda estava fechada.John Harding 127 Finalmente consegui me soltar e vacilei até uma pequena clareira. mas. sem conseguir sufocar um grito de dor quando meu tornozelo virou e caí sobre ele com todo o meu peso. mas havia encontrado o caminho em que estava antes. Sem pensar além da fuga imediata. indiferente aos rasgos e descos-turas. Parecia não haver passagem para fora da clareira além da rota que me trouxera até ali. . atireime nos arbustos à minha frente. pois podia ouvir galhos se quebrando como se alguma coisa estivesse forçando a passagem. eu os arrancava. os arbustos à minha frente se abriram e lá estava a srta. eu forçava minha passagem. como eu ficara. pois não existe cervo preto. Estava livre! Não só isso. corri quanto pude. e só poderia ser uma coisa: o vestido da preceptora. pois sabia que não era época do ano para ataques de cervos.

— Florence estava se escondendo e eu a estava procurando — ela disse. É apenas uma brincadeira. — O que estão fazendo? — Theo perguntou. um par de mocassins pretos. o rosto suado e florescendo com pequenas pétalas vermelhas. 23 — Theo — disse ofegante — o que. Ouvi um barulho atrás de mim e virei de lado para ver a srta Taylor em pé. Sua expressão ainda mais confusa do que o normal. você está fazendo aqui? — Asma — Theo disse. — Deixe-me apresentar-lhe o sr.John Harding 128 sabendo muito bem que meu tornozelo era inútil. Para confirmar. madame. Taylor. nossa nova preceptora. cortesia dos espinhos. — Bem. Ela ajeitou o vestido e concentrou-se em algo que parecia um sorriso. enfiando as garras no meu braço. Theo era não só meu amigo. em nome do demo. Ele se abaixou para ajudar-me a levantar. Ele olhou de uma para a outra. Sentei-me e gesticulei na direção de Theo. . Afinal. Van Hoosier. com uma aparência que eu imaginava devia ser parecida com a minha. Taylor deveria pegar-me pelo outro lado. a não mais que alguns centímetros de distância. abriu a boca e apertou. mas também seu superior social. Podia ouvir sua respiração ofegante atrás de mim. Ela não sabia como reagir. indicando com o arquear da sobrancelha que a srta. começou a tossir e tirou do bolso seu frasco com o bulbo de borracha que o dr. aproximando-se cada vez mais. Ergui os olhos e vi diante de mim. senhoras. Bradley receitara. acho que estão levando a sério demais. rasgado e coberto de mato. Levantei a cabeça para ver mais além e dei com um par de pernas de garça que conhecia bem e pensava que nunca mais veria novamente. — E acho que ganhei. Sr. o vestido sujo. o cabelo desgrenhado. Van Hoosier. E então ouvi à minha frente um barulho que parecia uma tosse.A menina que não sabia ler . a srta. — Brincando de esconde-esconde — respondi.

Afinal.A menina que não sabia ler . Taylor e estavam todos procurando por nós. então tivemos que parar para que ele tomasse outra dose do remédio. bobo. -Tive um sério ataque de asma na véspera da nossa partida. — Acho que não. — Acho que torci. o que aconteceu? Por que correu daquele jeito? Eu não tinha resposta. Com um braço debaixo do meu ombro para me dar apoio. A sra. Então eles me levaram. Grouse sobre a minha fuga da casa perseguida pela srta. — Você não se importa? — perguntei. mas a nova preceptora . — Eu não quis dizer isso. agitando as mãos: — Oh.John Harding 129 — Ai! — gritei. Meg e John vieram correndo ao nosso encontro. enquanto eu me arras-tava como podia no meio. A srta. Agora me mandaram para cá para me recuperar com o ar melhor. Tomo sorvete depois de todas as refeições. quando recomeçamos. Meus pais tiveram que ir sem mim. Fiquei no hospital e depois aos cuidados de uma tia. Precisamos ajudá-la a voltar para casa. um de cada lado. Grouse parecia uma galinha-mãe. E se eu lhe contasse a respeito das passagens de navio. minha querida. Taylor correu para trocar o vestido enquanto me colocavam na chaise longue na saleta de estar. Mal começamos a andar e Theo começou a tossir. Sou o senhor da casa. era só para ver algumas ruínas e pinturas e coisas assim. certamente parece estar bem inchado. deixando Theo livre para tossir à vontade. — Bem. John assumiu e carregou-me nos braços como se eu não pesasse mais que uma pena. Meu primeiro pensamento foi contar-lhe tudo o que havia acontecido e confiar que seu bom senso enxergaria a srta. O problema era que eu queria ser acreditada. Estava falando da viagem para a Europa. Taylor como era e informaria meu tio. pois Giles havia alertado a sra. e sei que poderei ir outro dia e elas ainda estarão lá. e então acrescentei: — Meu tornozelo! — pois não queria lhe dar a satisfação de me fazer chorar. Quando nos aproximamos da casa. — É por isso que estou aqui — ele disse. Theo abaixou-se para examiná-lo. — De forma alguma.

Agora coloque os ouvidos em meus lábios e escute. Grouse acenou com a cabeça duvidosamente e disse que nos traria um bule de chá. Ergui os olhos e a vi no espelho sobre a lareira. precisava manter as passagens em minha posse. Assim que ela saiu. Grouse a respeito das passagens. quando o agarrei pela lapela e o puxei para perto. Theo. ele não fez obje-ção alguma. não é hora! — eu disse. Van Hoosier. mas.. Mesmo que falasse com a sra. — Assim que Giles souber que você está aqui virá como uma bala. podem ouvir? — ergueu as sobrancelhas. A sra. A fraqueza desse plano estava na dificuldade de contatar o capitão. Grouse. Ele inclinou a cabeça sobre a minha e emboscou-me um beijo nos lábios. pois representavam a evidência que ele iria querer antes de poder agir. O melhor plano em que conseguia pensar era mostradas a Hadleigh. não podia deixar que soubesse a respeito do quarto na torre porque não queria entregar um possível esconderijo. Mas o que quer que fizesse.John Harding 130 viesse com alguma história para explicadas? Eu teria que devolvê-las e assim daria a ela o poder de levar Giles embora. Ainda assim. Taylor dizer que havia perdido as passagens e teria outras. como se estivesse tentando adivinhar meu próximo passo. pois me envergonhava ser beijada com a preceptora vendo do espelho. Mas se as conservasse e permanecesse em silêncio também poderiam não me valer de nada. Se não conseguisse chegar a Hadleigh não haveria outra coisa a fazer senão colocar-me à mercê da sra. — Se não se importa. O tempo estava se esgotando.A menina que não sabia ler . Eu não sabia como as companhias de navegação se conduziam. Grouse. não havia como empreender a difícil subida. um lugar para guardar coisas secretas e uma base. Pelo que sabia. talvez bastasse a srta. Ele me olhou sem entender. acenei para que Theo se aproximasse. — Os espelhos. por causa do meu tornozelo. — Agora não. olhando-me atentamente. Eu já havia usado um dos meus catorze dias. eu gostaria de ficar a sós para conversar com o sr. o rosto aquecendo. pois tenho uma ideia caso os espelhos possam ouvir. Decidi não contar à sra. — Explicarei depois — eu disse à perplexa governanta. pelo menos não ainda.. imaginando sem dúvida que .

— Florence — ele sussurrou. entrou. — Juro por qualquer coisa que você quiser. olhando-me.A menina que não sabia ler . é verdade — sibilei. sendo que tivera a confirmação dessa hipótese ao encontrar as passagens de navio. Eu pensei que talvez não fosse o pó o que havia restaurado suas feições. colocou as mãos nos bolsos da calça e andou casualmente pela sala. Você não terá tempo para isso antes que Giles chegue aqui e ela reapareça. Theo soltou uma sonora gargalhada e afastou-se de mim. preciso lhe dizer. — Florence. e não seus lábios. — Mas ainda não. mas sou a única que pode veda. Temos que esperar nossa hora. pondo um freio em sua zombaria -. virando sua cabeça de forma que seu ouvido encostasse em minha boca. de forma que mal se notava qualquer coisa diferente. Sussurrei a ele sobre os espelhos e como a srta. — Ela está lá. — Ah. preto como o anterior. Eu lhe direi quando. talvez um fantasma pudesse se renovar sempre que quisesse.John Harding 131 estava a caminho de outro beijo. se é que havia. Taylor estava planejando levar Giles embora. ou melhor. arrumando a gravata enquanto observava. — De qualquer forma. agora com outro vestido. Depois de terdhe exposto minha crença de que a srta. Eu havia decidido confiar a ele um dos meus maiores segredos. Ficou em pé. Logo o desiludi. um sorriso brincando em seus lábios -. pode fazer graça se quiser. ela não está lá. não se preocupe com o espelho agora. não estou! — acenou a cabeça de modo tão condescendente que eu o teria acertado na cabeça se não estivesse tão desesperada por sua ajuda. desviou o olhar do espelho e veio sentar-se na ponta da chaise longue. estou vendo. Taylor tinha praticamente a casa toda sob vigilância. parando diante do espelho e olhando. Ele me lançou um olhar condescendente. Taylor. . sussurreidhe como chegar ao quarto da torre e onde as encontrar. mas escute. Satisfeito por se achar muito bem. Ao ouvir isso. Como se isso fosse um sinal. a porta abriu e a srta. Ela havia penteado o cabelo para cima de novo e limpado os cortes do rosto e passado pó. sim — retruquei. tem certeza de que só torceu o tornozelo? Por acaso não bateu a cabeça também? — Theo.

como realmente estava. qual é o problema? — Puxa. mas ficou a alguns centímetros de distância. Encontrei passagens de navio.John Harding 132 — Ah. Teve uma crise de asma.. — O que está acontecendo. — Eu já mandei que John trouxesse o médico. Logo estará aqui. A porta da saleta abriu e Giles apareceu. Agora acho que. Seu rosto iluminou-se. — Giles — eu disse -. como se tivesse sido pego fazendo algo que não deveria. Theo não teve escolha. mas agora penso que devo pedirdhe para cessar seus préstimos. e feche a porta — sussurrei para ele. você precisa me ouvir -baixei a voz para um sussurro por causa do espelho. — Ainda está aqui. ao ouvir minha conversa sediciosa. — Foi muita gentileza sua cuidar de Florence. — Europa? — ele pensou um pouco e depois disse: — Por que Theo voltou tão rápido da Europa? Ele não gostou de lá? — Ele nunca foi. — Tenho provas de que ela pretende levar você embora. Giles. Voltarei amanhã. . madame. depressa! Ele hesitou por um instante. Theo ficou em pé. — Mas. Ela o levou para fora como se fosse uma vaquinha dócil e eu fiquei sozinha..A menina que não sabia ler . o tornozelo. não foi? Por que você fez isso? — Não se preocupe com isso agora. ouvindo o som de suas vozes no salão. fora do meu alcance. mas depois fez o que lhe disse. Van Hoosier — ela sorriu galanteadora para Theo. — Passagens de navio? Eu vou viajar de navio? — Sim. Fio. pois a pobre garota — ela me olhou sarcasticamente — precisa de descanso. se ela não for impedida. mas olhando da entrada. Apertou-me a mão. — Venha cá. — Venha cá. Para a Europa. sr. Giles. Apro-ximou-se de mim. segurando a maçaneta sem entrar. se saísse. Theo endireitou-se desajeitadamente. Florence. o que foi tudo isso? Você deve ter feito algo muito ruim para deixada tão louca. — Cuide-se.. Fio? Por que ela perseguiu você daquele jeito? Foi por que você entrou no quarto dela? Você deixou o manto lá..

— Não posso fazer isso. não tinha alternativa senão ouvir. seu demónio. — Isso é o que você pensa. — Muito bem. Eu. Ela praticamente cuspiu as palavras. . Afinal.John Harding 133 — Ah. esticou o braço e pegou meu tornozelo. olhe — eu disse. e ouça bem. vá para o quarto de estudos. A srta. Você me entregará agora ou sofrerá as con-sequências. mas obviamente ele não pôde ver e afastou-se. — Afinal. é claro — ela me olhou significativamente. embora eu visse que ele estava ressabiado com ela como estivera antes comigo. Ela ficou em pé. Acenei debilmente. que poderia me dar a oportunidade de cavar um fosso entre eles. Refleti que isso era algo que eu poderia aproveitar. — Náo irá encontrá-las. não devemos revelar seu segredo. os olhos percorrendo meu corpo como se estivesse pensando em me revistar. — Devolva-as para mim. Taylor entrou. — Agora. é claro. não é? Assim que ele saiu. deitada como estava. olhando para a casa com uma expressão que misturava perplexidade e preocupação. — Giles — ela disse -. o que era difícil. pois não estão comigo. por favor. ouça. Nesse momento ouvi a porta da frente fechar e pela janela vi Theo caminhando de costas. seja um bom menino e traga o livro de Florence para ela. Foi toda sorri-sos com Giles. Ela me soltou e olhou desconfiada. presa ali com meu tornozelo inútil. ou estivesse avaliando em que lugar do corpo poderiam estar escondidas as passagens.A menina que não sabia ler . — Eu náo posso. — Você náo falou com ele? — Só para dizer olá. — Quero o que é meu. pois estava como uma prisioneira. apertando com força. e tudo o que consegui fazer foi não gritar. Mas irá me dizer onde estão. Ela se sentou na beirada do sofá. ele havia visto a maneira como ela saíra atrás de mim. mocinha. — Vá em frente. Taylor me disse que ele estava de saída. E seu bordado. ela veio para cima de mim. A porta se abriu novamente e a srta. o que devia ter abalado sua impressão de que ela era toda doçura e leveza.

pois ficou claro que a governanta de nada suspeitava. quando ficava sozinha com ela. Não. Não vai ficar parada. mas continha-me. fosse o que fosse. com a precaução de mantê-lo livre de todo o peso por uma semana. e sua perda será para mim apenas um inconveniente. À noite. 24 Naquela tarde o médico veio me ver e constatou que meu tornozelo estava torcido. Ela ficou longamente em silêncio. mas na verdade lendo meu livro. você deve me dar o que é meu. E está errada. prescrevendo descanso total. depois se virou e deixou a sala. Ela estava aborrecida. pois não lhe podem servir para nada. — Eu não vou ficar parada e deixar que leve meu irmão embora.John Harding 134 — Posso tornar sua vida muito difícil. Só levará Giles sobre o meu cadáver. com um tom mais conciliador -. se insistir em me desafiar. deixando atrás de si um rastro de raiva e frustração. garota. — Se eu estiver morta. Todas as manhãs. pois ainda duvidava de que seria acreditada. Terei apenas que escrever uma carta para que sejam substituídas. pois não ficará em pé de forma alguma por alguns dias. Estará deitada. E está certa. que eu cobria sempre que a sra. traziam-me uma pequena mesa com a comida. levando-me do quarto para passar o dia no sofá da saleta. Taylor havia dito à sra. São a prova de seus planos diabólicos. John vinha para carregar-me. Grouse ou qualquer um dos criados entrava. obviamente a convencera de que não havia passado de um jogo. o melhor plano seria fazer Theo pegar as . John levava-me de volta para o quarto. elas não são inúteis para mim. ocorria-me contar-lhe tudo. tão impotente quanto está agora. ficava deitada na saleta fingindo que estava bordando. Assim. Na hora das refeições. — Vamos esperar que não chegue a isso. frustrada com a minha intransigência. eu podia ver. mas. E essa foi minha rotina nos dias seguintes. Não tinha ideia do que a srta. — Vamos lá — ela disse.A menina que não sabia ler . Por que não tornar as coisas mais fáceis para nós dizendo-me onde estão? — Estão onde nunca as encontrará. — Seu meio-irmão. você quer dizer. As vezes. Grouse em relação à perseguição pelo bosque.

havia interpretado "descanso total" como nenhuma visita. fazê-las chegar a Hadleigh e assim provar as intenções da nova preceptora. a sra. o que preferiria ter. — Ele também disse que não era uma boa ideia que eu saísse.A menina que não sabia ler .John Harding 135 passagens e então. — Fingi um ataque de asma. arquejante. pois a srta. mencionei que era uma pena que você não pudesse receber visitas. ela lhe disse alguma coisa sobre ir embora com ela? — Fio — ele se retraiu -. Grouse o trouxe até mim. pois estava falando da asma. Até mesmo as vindas de Giles para ver-me foram reduzidas ao mínimo. Em suas visitas. esquivava-se de todas as minhas tentativas de voltar a falar de sua iminente viagem com a costumeira tagarelice infantil. O problema imediato que eu tinha em relação a isso era como fazer para que Theo se apossasse das passagens. . assim meu pessoal trouxe o médico e. Naturalmente ele disse que isso era bobagem e que nada lhe faria melhor. mas esse é outro assunto. Alguns instantes depois. a coisa toda parecia desesperançada. Ele encheu o peito como um pombo ao cortejar a pomba. O próprio Giles havia superado seu medo momentâneo em relação a ela. Por isso me surpreendi na terceira manhã da minha indisposição ao olhar pela janela da saleta para a entrada e dar com a figura familiar caminhando com seu andar de garça na direção da casa. agora que ficava sozinho com ela durante a maior parte do dia. de passagem. — Giles — sussurrei quando ficamos sozinhos por um instante durante a manhã —. de alguma maneira. — Quanta inteligência da sua parte. como conseguiu Apelando para uma autoridade maior — ele sussurrou. — Sim — sorriu envergonhado. agora que você ficou sem usar uma de suas pernas por algum tempo. Taylor. — Theo — eu disse. dado o meu estado. pois ela o havia banido. Por isso estou aqui. assim que ficamos sozinhos -. uma perna cortada ou um dos olhos arrancados? Como eu responderia a isso? Dificultava enormemente o fato de não conseguir pensar em como poderia trazer Theo para casa para colocar meu plano em ação. pois eu burlar a proibição? — coloquei um dedo nos seus lábios para que falasse baixo e lembrei-o do espelho com um sinal de cabeça. acatando o médico. o que eu imaginava ser apenas o esperado.

venha Giles. Taylor tenha decidido dar uma olhada em mim enquanto ele estava fora. que se aproximou dele e o encheu de perguntas e súplicas para jogar isto e aquilo. Taylor no caminho diria que havia se enganado ao sair da biblioteca e se perdera. Taylor entrou bruscamente na sala. conseguiria se fazer acreditar. sussurrando enquanto eu lhe explicava o que devia fazer com as passagens se as conseguisse pegar. — Onde está o sr. Com sorte. embora a srta. Taylor esperou pacientemente até que a primeira onda de entusiasmo de Giles por nosso velho amigo diminuísse. omitindo o alerta em relação a si mesmo. — Preciso dizer. A srta. Entendi imediata — 2IO John Harding mente o que ele pretendia. de qualquer forma. Taylor ficou mastigando o lábio e então disse: — Muito bem. está precisando de algum livro da biblioteca? Ele estava de costas para o espelho e fazia sinais com a sobrancelha para mostrar que não estava falando sério. Pedi-lhe que trouxesse Macbeth. sr. Não queremos que ela seja muito estimulada. Foi primeiro à biblioteca. Então ele ficou em pé e disse de maneira teatral: — Diga. madame. Van Hoosier. Se por acaso encontrasse a srta.John Harding 136 Nesse momento a srta. Felizmente não encontrou ninguém no breve desvio. Sob o pretexto de ir até a biblioteca para mim. Van Hoosier? — ela perguntou. conversamos mais um pouco. ele poderia chegar à torre e pegar as passagens. Eu jurava que ela suspeitava de algo. A srta. encontrou Macbeth onde eu lhe disse que estaria e então foi para a torre. e então disse: — Acredito que lhe disse. que garantiu-me que lhe fará bem ter companhia — e explicou o que havia dito o médico. sendo Theo aparentemente tão vago e idiota. que o médico ordenou descanso total para Florence. Van Hoosier mais tarde. tenho o aval da autoridade médica. . Poderá ver o sr. Quando Theo e eu ficamos sozinhos.A menina que não sabia ler . não é mesmo? Theo sorriu. que não consigo ver como qualquer estímulo pode ter algum efeito sobre o tornozelo de uma pessoa. Então Theo saiu. seguida por Giles. e o que deveria dizer a Hadleigh. evidentemente tendo visto Theo através de um dos seus espelhos. Evidentemente o tinha visto sair através do seu espelho espião e o perdera de vista quando ele saiu do seu mapa ao deixar a biblioteca. mas. está na hora da lição.

John Harding 137 — Ele foi até a biblioteca para me trazer um livro. sinto muito. Agora era óbvio que a preceptora sabia que ele tinha as passagens. sr. Quando se recuperou. mas também na mais terrível ignorância quanto ao andamento dos meus. Taylor. caminhar sobre a água e observar as pessoas através dos . que essa mesma preceptora era um fantasma. junto com o que eu havia lhe contado. absolutamente nada. Van Hoosier. Entregou-me o livro e. Então Theo voltou. Isso era a pior parte do envolvimento de Theo e Giles em qualquer estratagema: eles não tinham meu dom. Meu tutor é rigoroso e devo manter o ritmo dos meus estudos para quando estiver bem o bastante para voltar à escola. Matemática e grego. colocou a mão sobre o bolso do peito. com as costas voltadas para ela e o espelho. A srta. além disso. mas por algum motivo que ainda não estava muito claro. deitada e impotente como estava. Eu não tinha como saber o que Theo estava fazendo. que esse mesmo espírito podia enxergar como uma coruja no escuro. mas por dentro praguejei por ele ter arruinado as coisas ao tentar bancar o esperto. o que logo se transformou em uma tosse. ao fazer isso. Ocorreu-me que a resposta podia ser simplesmente nada. uma garota meio maluca num estado de descompostura indecorosa perseguida pelo bosque por sua preceptora. Ela não sabia o que faria. e o que poderiam ser essas coisas? Theo corou e começou a gaguejar. não só incapaz de fazer qualquer coisa para impedir o avanço dos planos da srta. Taylor ficou imediatamente de orelha em pé. Essa recuperação foi boa para os padrões de Theo. Suponhamos que ele refletisse sobre o que tinha visto. 25 Os dias que se seguiram foram uma agonia para mim. — E mesmo. um pouco disso e daquilo. Isso era verdade e estava de acordo com o que ela tinha visto. acrescentando com estudada significância: — Tenho coisas a fazer. Florence. ele disse: — Ah. sem recorrer a velas. o espírito de uma preceptora anterior que havia voltado para nos assombrar e levar embora meu irmão. o que por sua vez levou à necessidade de usar o spray.A menina que não sabia ler . srta. Taylor. mas preciso ir — ele disse. mas teria sido melhor que permanecesse no escuro quanto ao seu paradeiro. — Bem.

mas não escondia muito bem o fato de que tinha um. mas Theo. E se ele refletisse sobre tudo isso e decidisse que eu não estava em meu juízo perfeito? Era muita coisa para esperar que mesmo alguém tão ingénuo como Theo acreditasse. Estava tão aflito que quase entrou correndo na sala e des— pejou tudo. no quarto de estudos. que me paparicavam tanto que nunca ficava mais que uma hora sozinha. desfazendo à noite o que havia bordado durante o dia. . minha ausência dando-lhe a oportunidade perfeita para envenenar sua mente contra mim e seduzi-lo com seus planos. Grouse e de Meg. Mas então não foi Hadleigh quem apareceu. Podia jurar que havia algo de errado no momento em que atravessou a porta. e então mudava de assunto rapidamente. Tão logo me acomodava para ler. Giles não revelaria facilmente um segredo.John Harding 138 espelhos da casa. Ficava pensando em como a sra. quando eu tinha que erguer os olhos para ver se Theo estava chegando. Ele se aproximou de mim no sofá. Outra coisa que me deixava ansiosa era o que aquela bruxa da nossa nova preceptora poderia fazer com Giles. quando conseguia sussurrar-lhe uma pergunta. Pois. além de alguns minutos aqui e ali. como depois de uma refeição. Assim. mas levantei um dedo e gesticulei na direção do espelho para alertá-lo. Evidentemente.. ou se secretamente me considerava uma Penélope. inclinando a cabeça e evitando meus olhos. ficava lendo e parando e era quase como nos velhos dias das três ou quatro páginas na torre. Mas então o garoto enganou-me. de forma que eu estava constantemente pegando meu bordado e colocando-o sobre o livro. uma ou outra entrava para acender a lareira ou trazer-me algo para beber ou algum docinho.. Embora tivesse poucas chances de ficar sozinha com Giles. Praticamente o único entretenimento que tinha durante a minha recuperação era dissimular meu livro da sra. ele agora fazia parte de seu plano. esperando que Had-leigh surgisse em sua reluzente armadura. não comigo. ele era reticente. tudo o que podia fazer era passar os dias como a Dama de Shallott. Grouse não se perguntava por que meu bordado não avançava. ela o mantinha longe de mim. Não havia como eu mudar isso por enquanto.A menina que não sabia ler . os segredos eram divididos com ela. bolo ou um dos biscoitos que Meg havia preparado especialmente (e sem dúvida consumido meia dúzia).

pois ele erguera a voz o suficiente para ser ouvido pelo espelho.John Harding 139 — Você encontrou Hadleigh? — sussurrei. — Não. de forma que entre os acessos sua respiração era um chiado. levantei o dedo. — Porque ele não estava lá! — Theo me devolveu no mesmo tom. Lá chegando. para depois poder escapar até a delegacia de polícia. A existência de meu irmão poderia depender disso e tamanha decepção soterrava minhas esperanças. ontem eu estava muito melhor e pedi para sair com a car-ruagem para um passeio. Theo abaixou a voz. é nisso que vou chegar. por isso meu tutor não permitiria que eu fosse. prefere passar a vida estudando seus livros — e assim. pois não queria dar-lhe a impressão de que não me importava. antes que pudesse res-ponder. o que aconteceu? — sibilei. — Então. mas. Desejei tanto que tivesse sido eu em vez de Theo a caminhar por aquelas calçadas. — Mas você não conseguiu ver Hadleigh? — Era difícil evitar um tom de exasperação. pois a asma de Theo não des-pertava em mim o mesmo interesse que despertava nele. disse que queria ir até a papelaria para ver se haviam recebido algum livro novo. incomodado com minha exasperação. 2l6 John Harding — Mas por que não? — Eu sabia que parecia zangada. Não que pudesse ir de qualquer forma. . Theo teve uma crise de tosse. Tive outro ataque de asma. deu uma boa aspirada e acabou se acalmando. mas não conseguia me controlar. Theo era agora meu único aliado até que Hadleigh aparecesse. Amolecida. — O que disse ele? Theo mexeu a cabeça miseravelmente. — Bem. embora nisso logo visse que estava enganada. senti que eu não teria falhado. Impacientei-me diante de tudo isso. como alguém serrando madeira ou raspando as unhas na lousa. a pior que eu já testemunhara. dessa vez de verdade — ainda estou muito mal — e fiquei acamado. Senti um frio nos dentes. uma vez na carruagem.A menina que não sabia ler . Que doença de quem quer que fosse interessaria a outro alguém? Mas eu não disse nada. pedi ao condutor que me levasse até a cidade. Meu tutor não quis acompanhar-me — ele nunca quer. Theo tirou seu spray. — Só ontem consegui ir à cidade.

do lado direito. pois ela sabia que Theo estava com as passagens. escorreguei um pouco. embora tudo isso devesse ter levantado as suspeitas da srta. Coloquei a mão direita dentro do seu casaco e senti instantaneamente a carta e as passagens e as tirei. ele se levantou e. Se Theo se aproximasse mais.John Harding 140 — O funcionário disse que estava trabalhando em um caso importante. Nenhuma esperança. agindo estranhamente diante de seus É claro. Olhei para o espelho. As passagens também. Taylor no espelho. deixe-me pensar. Senti a frustração de empacar a cada volta. Com Theo entre mim e o espelho. — Escute. Ficará fora por um mês. — Está bem. ela não apareceu pessoalmente. uma carta. — Espere. onde está? — Bem. dentro do meu casaco. mas estava lá em seu nome. — OK! — Theo — disse em voz alta -. Será que você poderia fazer a gentileza de me levantar? — la. Florence. Você acha que é seguro passá-la aqui? — Espere um momento. em que lugar do seu casaco? — No bolso de dentro. ou minha virtude estaria comprometida ou seria óbvio que ele estava me entregando algo. consegui transferir o contrabando para dentro do corpete do meu avental. O funcionário perguntou-se do que se tratava e eu mencionei que não era assunto meu. O estranho foi que. — Então não há esperança. pois era a última coisa em que alguém da casa havia demonstrado qualquer interesse. adoraria poder ajudá- . srta. colocou as mãos debaixo dos meus ombros e me ergueu. e ali estava ele. Uma lágrima escorreu-me pelo rosto. e ele disse que nesse caso tinha algo para você.A menina que não sabia ler . Florence. Faça o que eu disser e eu vou enfiar a mão dentro do bolso do seu casaco e pegar a carta. Quando ele me soltou coloquei o meu butim debaixo do bordado. Fiquei pensando nisso. Era realmente impossível qualquer tipo de subterfúgio com ele! No entanto. inclinando-se sobre mim. você ainda não ouviu tudo. — Mantenha a voz baixa! — sibilei novamente. Ele está em Nova York. — Uma carta. OK? Theo arregalou os olhos diante da agradável impropriedade do gesto. vou falar normalmente com você.

A menina que não sabia ler - John Harding

141

olhos. Fiquei bastante intrigada. Era como se ela não se importasse mais com as passagens e isso me fez pensar que, conforme havia ameaçado, simplesmente havia escrito e obtido as substitutas. Se fosse esse o caso, era-me conveniente, pois a posse das passagens nunca fora uma garantia para impedir seu plano, mas apenas a prova de sua existência. Isso também significava que a srta. Taylor não tinha medo de mim, o que só podia ser verdade porque ela não sabia da minha visita a Hadleigh ou que a visita que ele nos fizera significava algo além do que aparentemente tinha sido. Por outro lado, talvez agora não tivesse necessidade de temer qualquer ajuda que eu pudesse ter daquela parte, porque Hadleigh aparentemente estava longe e assim ficaria até muito depois que ela colocasse seu plano em prática e levasse meu pobre irmão. Theo ficou comigo algumas horas, durante as quais, é claro, Meg apareceu e logo estávamos nos refestelando com pão, mel e bolo. Ninguém havia chamado a srta. Taylor, e ela preferiu não aparecer por vontade própria. Não fosse o perigo iminente e a carta — que, é claro, eu ainda não tinha podido ler — ardendo como se tivesse feito um buraco em meu corpo, talvez tivéssemos tido uma tarde agradável. Da maneira que foi, era fácil demais deixar escapar alguma observação superficial sobre isto ou aquilo, um livro ou algo assim, e voltar ao assunto que mais nos preocupava, e que às vezes tínhamos que interromper o outro no meio da fala, pois em alguns momentos acabávamos esquecendo que estávamos diante do espelho. Até me ocorreu que isso talvez fosse uma armação da srta. Taylor, deixar-nos sozinhos e nos dar corda suficiente para nos enforcarmos esquecendo que estávamos sendo observados. Apesar de tentarmos recuperar nossa antiga alegria, e acho que Theo quase conseguiu — porque para ele, talvez, todo o negócio com nossa preceptora era uma espécie de jogo, algo em que ele realmente não acreditava -, havia certa tensão em nossa relação. A falta era minha; eu o estava usando, pois o queria não tanto como amigo naquela tarde, mas como instrumento para fazer passar rapidamente as horas lentas. Finalmente ele precisou ir embora e fiquei sozinha para jantar em uma pequena mesa, sem sequer conseguir ler enquanto comia, receando ser descoberta por um dos criados. Depois Giles apareceu e brincou comigo por algum tempo, mas a verdade era que

A menina que não sabia ler - John Harding

142

eu não queria sua companhia e desejava que fosse logo chamado para a cama e que John viesse para me levar para a minha. Por fim o tempo passou, como sempre passará, e John colocou-me na cama. Como sempre, Mary trouxe-me a camisola e iria me ajudar a vesti-la, como fazia todas as noites durante minha indisposição, mas eu lhe disse que não precisava dela e a dispensei. Temia que a carta de Hadleigh pudesse ser revelada quando tirasse meu vestido. Quando tive certeza de que ela havia ido embora, coloquei a carta e as passagens debaixo do colchão, vesti a camisola, soprei a vela e meti-me entre os lençóis. Teria uma longa espera até que a srta. Taylor viesse dar uma olhada e depois se retirasse para dormir — isto é, se é que ela dormia a noite inteira, com suas visitas noturnas a Giles e tudo o mais. Após a breve inspeçáo, sem um relógio visível no escuro, contei os longos tempos da noite pelos pios da minha velha amiga coruja, certamente o relógio mais impreciso que alguém poderia imaginar, mas, quando tive certeza de que havia passado da meia-noite, a hora das bruxas, como dizem nos livros, decidi que era seguro acender minha vela e tirar a carta. Não tinha conseguido pensar em mais nada durante todas aquelas longas horas, como se pode imaginar, pois não tinha ideia do que poderia conter. Por que Hadleigh escreveria para mim? O que poderia ter a dizer? Eu não estava otimista, pois temia que fosse apenas um sermão sobre a dor e o remorso, que eu deveria ler e viver menos na minha imaginação e sair mais para o mundo. Cara Florence, Estou lhe deixando esta carta porque uma missão especial me afastará do meu posto por algumas semanas. Quero lhe garantir que não esqueci o assunto que discutimos, embora tivesse sérias dúvidas para sua motivação na época em que falamos e, fosse eu da área médica, talvez tivesse diagnosticado um sério caso de histeria. Por isso, devo-lhe agora um pedido de desculpas porque, embora tenha que dizer que seus sentimentos em relação à sua preceptora são muito fantásticos para que um corpo sensível acredite nas suas suspeitas, talvez não sejam totalmente infundados. Após a minha visita, tratei de contatar imediatamente a agência que contratou os serviços da srta. Taylor como sua preceptora. A primeira coisa estranha foi que ela não respondeu a um anúncio para o cargo porque eles não costumam fazê-lo, preferindo contar com as professoras que já fazem parte de seus registros, embora a srta. Taylor não fosse uma

A menina que não sabia ler - John Harding

143

delas. Não apenas isso, mas, ao entrar em contato com a agência, ela não estava à procura de qualquer emprego, mas falou espe— John Harding cificamente do posto em Blithe. A senhora com quem falei tem a impressão de que a srta. Taylor também já havia contatado outras agências para ver se o posto era um dos que estivessem procurando preencher. Infelizmente, a agência não foi muito diligente para investigar a srta. Taylor. Ficaram tão encantados por encontrar alguém que se dispusesse a assumir o cargo sem discutir o salário (seu tio, ao que parece, não é muito generoso em relação a isso) ou que não tivesse outras condições como visitar as crianças primeiro e etc, e que além disso sabia das circunstâncias infelizes sob as quais o posto ficara vago e não se importava — parece que tais acidentes não raramente desencorajam muitas candidatas -, que simplesmente o ofereceram a ela. Isso em si mesmo não teria importância, um pássaro na mão e tudo isso, exceto que, quando pressionados, admitiram que estavam com tanta pressa para indicá-la, sem ter outra candidata adequada, que aceitaram as duas cartas de referência que ela lhes entregou sem verificá-las. Estou agora em Nova York e ontem tentei visitar essas pessoas, mas descobri que os endereços das cartas de referência não existem. Bem, que isso aconteça com um endereço pode ser considerado um simples erro, mas com dois? Alguma coisa não está certa. Sugiro que mostre esta carta à sra. Grouse, que eu espero confronte a srta. Taylor ou talvez queira escrever para seu tio a respeito. Ele sem dúvida irá querer investigar o assunto, e se ficar provado que a srta. Taylor realmente inventou sua história, então estou certo de que será demitida e qualquer incómodo para você e Giles será eliminado. Espero que isto esclareça o assunto para você. Com meus melhores votos, Seu amigo, Frank Hadleigh Fechei a carta triunfante. Eu sabia! Finalmente eu tinha a prova, a prova ocular de que não era uma garota maluca, mas que nossa nova preceptora não era quem fingia ser, mas uma fraude, falsa. Junto com as passagens, a carta certamente seria uma evidência convincente de que pretendia fazer algo ruim e suficiente para convencer a sra. Grouse a mandá-la embora da casa sem esperar por notícias do meu tio. Eu queria dançar. Queria tirar o pano que havia atirado sobre o espelho todas as noites e fazer piruetas diante dos olhos maus da bruxa. Eu já não

limpando o sorriso. que era sempre antes de nós. Escondi a carta de Hadleigh e as passagens de navio dentro do corpete do meu vestido.A menina que não sabia ler . Quando entrei. Quando terminei de fazer isso. mas felizmente isso não aconteceu. Como não podia andar normalmente. Quando cheguei à escada. pois havia vencido. que. crianças. pular era meu único meio de locomoção. depois fui pulando pelo quarto até o guarda-roupa. Taylor. pior ainda ser pega confraternizando com eles também. apesar de muito mais forte agora. — Ora.John Harding 144 me importava se ela soubesse o que eu estava pensando. Ao me ver. a primeira cotovia havia cantado e agora a luz era suficiente para que eu soubesse quando a sra. eu espero. Estava evidentemente constrangida. Florence — ela disse -. . e tampouco que eu irrompesse pulando enquanto comiam. Taylor. Com a ajuda do pilar da escada fiquei em pé novamente e fui pulando até a cozinha. pois ninguém esperava que eu conseguisse movimentarme sozinha. ainda não suportava todo o peso do corpo. estavam todos rindo de alguma piada ou história engraçada. sentei-me no primeiro degrau do alto e fui descendo um a um até chegar embaixo. Não havia espelho no corredor superior entre o meu quarto e a escada. por isso não tive medo de ser observada. Giles estava salvo! 26 Mal podia esperar até que amanhecesse. À primeira intimação de luz escoando pelas pontas das cortinas. e da srta. Então. com alguma dificuldade por causa do tornozelo. Grouse corou e rapidamente levou o guardanapo à boca. consegui tirar a camisola e substituí-la pelo vestido. levantei-me e sentei na beirada da cama e. mas o riso parou assim que me viram. peguei outra blusa e pulei até a porta. que diabos está pensando? Sabe muito bem que não deve ficar em pé. Grouse estaria de pé. srta. vendo minha expressão. Anigia-me pensar que o barulho pudesse chamar a atenção da srta. já era ruim ter que comer com os criados. a sra. além de ficar deitada e arrastar-me pouco a pouco. ela disse: — Não há nada de errado. onde encontrei a governanta tomando café com os criados.

Extremamente agitada com meu tom. para alguém que não soubesse o que estava acontecendo na casa. Taylor. estou vendo. mas obedeceu. — São passagens de navio para uma viagem de Nova York para a França — eu disse a ela. — A srta. Ela se aproximou de mim e eu lhe entreguei os papéis. Mas qual o sentido disso? — Eu as encontrei no quarto da srta. é claro. mas protestei. depois de examiná-las por alguns instantes. que ela devolveu dando de ombros. e tirei do cor-pete a carta de Hadleigh e as passagens de navio. assim que ele saiu. Isso não está certo. Grouse enquanto John me colocava no sofá. perguntou: — E quem poderia ser "ela"? Alguém que vive no espelho. surpresa e preocupada. Ele trocou um olhar surpreso com a governanta. sra. Você não deveria nem sequer ter estado no quarto. — Bem. Ela ficou me olhando. Ele estava prestes a colocar-me no sofá. — E preciso falar-lhe em particular imediatamente. — Mas não está vendo? São passagens dela. — Não. fingindo que considerava meu gesto razoável. A sra. Grouse. espere! — apontei para o espelho na parede e fiz sinal para que ele me levasse até lá. — Eu não acho que devesse fazer isso. o que provocou outro olhar de surpresa de John para a sra. Grouse simplesmente ficou me olhando. minha querida. Taylor — eu disse.John Harding 145 — Há algo muito errado. a boa mulher deixou seu café no mesmo instante e pediu a John que me levasse para a saleta.A menina que não sabia ler . Grouse franziu a sobrancelha. — Não quero que ela nos observe — eu disse para a sra. não era. A sra. — Tenho algumas coisas para lhe mostrar — eu disse. ao que a sobrancelha do homem começou a mexer de maneira incontrolável. talvez? — seu tom de voz era condescendente. pois eu a trouxera para isso. Grouse — atrevi-me a dizer. quanto mais ter tirado coisas dela. Grouse fez sinal para que nos deixasse e. — O que é isto? — ela perguntou. A sra. o que. Uma vez junto ao espelho. joguei a blusa sobre ele. .

Grouse parecia totalmente assombrada. apesar de ter sido necessário para termos alguma privacidade em relação aos olhares indiscretos da preceptora. Veja isto. — Ah. Ele não é o capitão de polícia? — Sim. ela disse: — Frank Hadleigh. isso não é tudo. eu o encontrei quando fomos até a cidade para levar Giles ao dentista e confiei-lhe minhas suspeitas a respeito dessa mulher diabólica. — Ora. a sra. Taylor e a Whitaker eram uma só. que é de três meses. E veja a data. se não sabe ler? — Isso não importa agora. E não poderia sair na próxima semana. são para o final da próxima semana. Uma viagem para dois. Quando chegou ao fim.. De qualquer forma. Grouse examinou as passagens de novo. mas a senhora vê que ela não se preocupa com essas coisas. E por que faria isso a menos que tivesse más intenções? A sra... — Mas por que iria querer fazer uma coisa dessas? Não faz sentido. eram inteiramente justificadas. Pois eu não poderia lhe contar o verdadeiro motivo. Mas eu não entendo. Meu gesto em relação ao espelho já havia abalado minha credibilidade. Como pode ver. A questão é que isso significa que ela está planejando uma viagem. senhorita. mas tenho certeza de que é o que pretende. Ela levou um tempo considerável para ler.A menina que não sabia ler . pois aquilo era demais para ela. para ela e mais alguém. e então um sorriso. Grouse reexaminou a carta de Hadleigh e vi a compreensão espalhar-se por seu rosto. Ela não disse que estaria partindo. — Uma viagem.. — E entreguei a ela a carta de Hadleigh.John Harding 146 — Mas como sabe de quem são. . Realmente. pois teria que cumprir seu aviso prévio.. Tomei o cuidado de não mencionar minha teoria de que a srta. — Giles? — a sra. o pobre rosto chorando. — Eu. vacilei. eu não sei. Grouse era muito lenta. Diante disso. Eu. Ela simplesmente quer levar Giles. A sra.. pois ela obviamente conseguiu o posto com artimanhas. — Sim.

vamos resolver tudo. o que me lembrou o velho Giles e de forma alguma o novo. pois eu finalmente consegui sentar e virar-me de forma a colocar o pé no chão. nós vamos. Grouse. Giles entrou correndo na sala. Taylor e Giles quando vinham para o café. Ah. as duas gritando. quase todo o caminho até embaixo. Taylor e a sra. pois estava no meu lado bom. Podíamos ouvir as vozes das duas mulheres na parte de cima agora. ofegante. — Fio! — ele disse. Pouco depois. onde seu corpo parou enquanto a cabeça pareceu continuar até bater no piso frio e duro do salão fazendo um barulho. Ouvi vozes no andar de cima e deduzi que a sra. os olhos brilhando de excitação. o rosto com uma expressão determinada. o indiferente que se tornara sob a nossa nova preceptora que me deixava os olhos cheios de lágrimas. Grouse saiu bruscamente da sala. . Mostreilhe que estava me oferecendo o ombro errado. Giles e eu tínhamos acabado de atravessar a porta para o salão quando ouvimos um estrondo enorme. Ela ficou ali completamente parada. Fiquei desesperada para saber o que estava acontecendo e comecei a lutar para sentarme. seguido por um forte barulho de queda. pois ouvi seus passos marcharem de volta e depois escada acima. Grouse havia encontrado a srta. Grouse estão tendo uma briga feia! Então ele parou e lembrou-se do meu tornozelo. A sra. Fazendo-me comer com os criados. e veio correndo pela sala e ofereceu-me seu ombro para me apoiar. e chegamos a tempo de ver a governanta rolando escada abaixo. realmente! Ela se levantou. Podia ouvir a voz zangada da sra. Felizmente a sra. — Vamos resolver isso agora. deixando-me estendida no sofá. Grouse havia deixado a porta aberta. A srta. mas ao mesmo tempo o som não era distinto o bastante para que entendêssemos alguma coisa. — Você tem que vir depressa. — Ah — ele disse. A srta.John Harding 147 — Eu sabia! Sabia desde o começo que alguma coisa não estava certa com essa mulher. sim. tendo obviamente descido a escada correndo. Taylor e Giles evidentemente ainda não estavam lá. e ele se apressou a dar a volta e eu me inclinei sobre o outro. mas para minha frustração não conseguia entender uma palavra do que estava dizendo. ouvi-a marchar na direção da sala do café e abrir a porta.A menina que não sabia ler .

mas tinha um coração gentil e sempre agia com boa vontade. Sim. bem. Srta. Bradley. mas então. Tinha conhecido aquela mulher durante toda a minha vida ou pelo menos até onde lembrava. mas tudo aconteceu tão depressa. Ela me ajudou a atravessar o longo corredor. estava no alto da escada. Leve-as daqui. — Sim. é claro — a srta. Deitou a cabeça no peito da outra. John pegue a carruagem e vá chamar o dr. seu ombro sob o meu braço. -Estava gesticulando e. Ela fez sinal para que Giles se afastasse e colocou seu braço sob o meu. os olhos indo de um para outro como se procurasse aceitação para suas palavras. Taylor murmurou. Grouse rolando pela escada.. evidentemente pretendendo que subíssemos para o quarto de estudos. lembrou-se do meu tornozelo. ela estava muito longe. A srta. Endireitando-se. ela assumiu. não havia quem pudesse me levar para cima. . Com John tendo saído para buscar o médico. Grouse para pensar em outra coisa. e. John Harding — Ela estava nervosa com alguma coisa — ela disse. — Vamos. de costas para os degraus e deve ter perdido o equilíbrio. Taylor vinha descendo as escadas correndo. por isso ainda há esperança. eu tentei segurá-la. Percebi que ela tinha na mão a carta de Hadleigh e as passagens de navio. — Ela ainda está respirando e não vejo sangue. bem. — Venham. a expressão assustada.. Era ser uma velha tola. Eu estava preocupada demais com a sra. Nenhum de nós falou. ao perceber que não a seguíamos. Eu a vi colocar os papéis no bolso. John e Meg. nós vamos para a biblioteca.John Harding 148 Giles ajudou-me a chegar perto dela. Ela caminhou de volta até nós. Chegamos quando a srta. Taylor olhou para nós. pois caiu para trás. ela se virou e. chegaram ao salão. Taylor.A menina que não sabia ler . Meg estava de joelhos junto à governanta. Nesse momento.. tendo ouvido o barulho da sra.. isto não é visão para crianças. vendo a relutância de Giles. Eu. crianças! Ela começou a dar a volta em torno da pobre governanta. Diga-lhe para vir com a máxima urgência.

Giles. olhando para ela. — Não penso assim agora. Finalmente ela sorriu e balançou a cabeça. como se eu a tivesse empurrado. Giles. Nossa nova governanta ficou me olhando por alguns instantes. medindo-o de alto a baixo. Whitaker — eu disse. Eu estava totalmente sem provas agora. — Não! Não diga uma coisa dessas. seu demónio! Giles exibiu um olhar assustado. desaparecendo como se nunca tivesse existido. não deve falar desse jeito. mana. de forma que se dobrou sobre si mesma e então se tornou preta e virou cinza. Ela caminhou até a lareira. — Você a empurrou. a sra. primeiro ardendo e depois as bordas se dobrando. tirou algo do bolso. Taylor depositou-me na grande poltrona e começou a andar de um lado para outro. — Obrigada. — Não é a srta. muito tempo atrás. Taylor — eu disse. como imagino que um pugilista olhe para seu oponente. A pobre mu-lher ficou agitada por algum motivo. Foi isso. Taylor? — Giles estranhou. — Essa foi minha ideia. — Acho que a matou! — ousei dizer. Foi um acidente. Quem mais poderia ser? — A srta. A srta. — Ora. Dava-me prazer virar a faca. Ela deu um passo atrás. . Taylor iria querer fazer isso? — Porque ela não é a srta. Não havia nada que eu pudesse fazer além de vê-la desaparecer na fumaça. seu rosto. depois começou a rir. A srta. Ela não permitia que Fio viesse até aqui. — Fio.A menina que não sabia ler . Ela tem essas fantasias estranhas. como um garoto preparando-se para lutar com outro. senhorita — ele disse. Giles ficou olhando de uma para a outra e então balançou os ombros.John Harding 149 Na biblioteca. Taylor. agora se contorcia em uma agonia de ansiedade. ou que visse os livros. Taylor sorriu docemente para ele. Por que a srta. desequilibrou-se e caiu. — Não dê atenção a sua irmã. que só havia visto mascarado ou fingindo um sorriso ou irritado. é claro que ela é a srta. A senhora não é como ela. Whitaker era realmente má. Ela interrompeu sua deambulação e encarou-me. que eu sabia ser a carta de Hadleigh. e atirou-a nas chamas.

e pela maneira como o dr. abrindo a porta da sala de jantar). Pouco depois. Meg a reconfortara colocando um travesseiro sob a sua cabeça e jogando um cobertor sobre ela. eu sentia que a dor havia diminuído e sabia que pela manhã estaria bem o bastante para caminhar novamente. do qual ela acordará sem problemas e revigorada pela manhã. a governanta parecia estranhamente calma em repouso. quando ouvimos o médico chegar. Grouse havia sofrido uma concussão e estava inconsciente. e. depois de ter colocado o tornozelo no chão algumas vezes. Tudo isso foi feito. pois comi quase tão pouco quanto a preceptora. Giles em suas lições com a srta. embora tivesse decidido silenciar a respeito.John Harding 150 — E.A menina que não sabia ler . meu querido? — Nós ainda não tomamos café. Eu a visitarei novamente pela manhã e. Taylor perguntou o que significava isso exatamente. Taylor foi chamada. voltamos à biblioteca. Grouse ainda estava deitada ao pé da escada. onde poderá ser mantida sob observação adequada. O que proponho é que John e eu a levemos para a cama para que fique confortável. eu taciturna com um livro. depois que as coisas se ajeitaram novamente. ele a indicara para chefiar a casa. muito mais sério. só para termos segurança. pelo menos em sua cabeça. mas ela não dava outro sinal de vida e certamente não tinha nenhuma consciência do que acontecia ao seu redor. a srta. Pode ser como um sono após o jantar. parecia que. Para uma mulher que parecia estar quase sempre zangada ou ansiosa quando animada. senhorita. Eu podia ver seu peito subindo e descendo ritmicamente. e o resultado disso pode ser mais sério. Bradley agiu em relação a ela (pois Giles e eu assistimos e ouvimos. A sra. Quando a srta. os criados com medo de mexer nela. quer saber de outra coisa? — O que. em dois ou três dias. e para isso tinha minhas razoes. mas o raio de luz em meu universo despedaçado foi que. Taylor e contando e arrulhando com ela como se nada de grande . sugiro que seja removida para o hospital municipal. Giles tinha. Então ali estávamos nós. Ele disse a ela que a sra. C/3 Caminhamos e pulamos de volta para a sala do café. ou pode ser que fique em coma. o que quer dizer absolutamente nada. ou melhor. se não houver melhora. Tínhamos acabado de tomar café. os três na biblioteca. Bradley balançou a cabeça e murmurou: — Receio não poder responder com absoluta certeza. O pular constante era cansativo.

A srta. em sua mente essa impressão lutava com outra mais sombria. e. — E algo muito sério acusar uma pessoa de ato de violência tão deliberada quanto empurrar alguém de uma escada — disse Theo. John Harding Grouse em corpo. e Giles subornado do meu lado pelos feitiços malignos da bruxa. Na manhã seguinte. o dr.A menina que não sabia ler . todos os criados reportavam-se à srta. Mas havia uma grande diferença em relação à maneira como as coisas eram antes. não com o doutor ali. Com Hadleigh ausente. mas definitivamente não em espírito. — Passei por este jovem réprobo caminhando pela entrada — ele disse. como se nunca tivéssemos ouvido falar em passagens de navio. a sra. como se a sua irmã nunca a tivesse chamado de assassina. você não tem nada em termos de motivo para sugerir. a exemplo do médico. — Theo! — exclamei. Theo acompanhou-me até a saleta. a de uma garota estranha que inventava coisas ou tinha fantasias góticas induzidas pelo excesso de leitura. e era o fato de estarmos sempre sendo interrompidos. no entanto. saindo quando deveria estar repousando em casa. Grouse. Taylor e vinham constantemente consultá-la sobre os assuntos ligados à administração da casa. . Taylor não podia recusar a visita de Theo. onde instantaneamente fui até o espelho e o cobri com seu lenço de bolso. baixando o olhar para suas grandes mãos. embora o médico cacarejasse a respeito de o garoto ignorar seus conselhos. e eu podia jurar que estava me avaliando. Taylor e a sra. Não consegui evitar. pois ele tinha apenas a versão oficial do médico. Bradley chegou em sua carruagem e trouxe alguém com ele. ele era toda a ajuda que eu podia procurar. Sabia que queria me ver como essa jovem bonita por quem podia se apaixonar. pois agora. pois nunca me sentira tão feliz em ver minha garça desastrada. falou de maneira tão gentil que se podia ver que não falava tão a sério.John Harding 151 importância tivesse acontecido. Ele me roubou um olhar de soslaio sem erguer a cabeça. Descrevi para ele o que havia acontecido entre a srta. — Com o fim da carta de Hadleigh.

para quem apelaríamos? Hadleigh está longe. Theo? Você não me apoiaria nisso? — É claro. Queimei os miolos para elaborar um plano que se contrapusesse ao dela. Duas crianças. — Esperemos que ela se recupere logo — murmurei. Eu contaria a John a respeito das passagens e ele iria até a cidade com essa informação e a entregaria à polícia. ou seja. eu conhecia sua intenção final. eu.A menina que não sabia ler . meu tutor é tão ausente que não sonharia em desafiar uma mulher como essa. você sabe que faria qualquer coisa para ajudá-la. Eles telegrafariam para Nova York. Pois eu sabia a respeito das passagens de navio e a data e a hora da partida. e então? Os criados logo perceberiam. mas não conhecia os detalhes mecânicos de como esse objetivo seria alcançado. — Mas o quê. onde seus colegas prenderiam a srta. Meu temor mais imediato era que se não fizesse algo rapidamente seria tarde demais. Taylor quando ela tentasse embarcar. — Pois ela finalmente ficou do meu lado e é nossa melhor esperança. Ah. Quem acreditaria na nossa palavra contra a dela? Além disso. — Sim. e nem saberia onde buscar informações. 27 Faltava agora apenas uma semana para que o plano da srta. Grouse está completamente fora deste mundo. mas. . Florence. a qualquer hora ela poderia levar meu irmão embora. que era a meia-noite da sexta-feira no final da semana. e a sra.John Harding 152 — As passagens de navio.. — Você as viu. Suponhamos que ela roubasse Giles amanhã. e considerei muito cruel que ele falasse daquele jeito. não tem. Taylor fosse colocado em execução e ela e Giles fossem embora. — Sua única esperança — Theo murmurou. meus pais estão do outro lado do Atlântico. Ela as tem. — Na verdade. Mas então percebi que ela não poderia fazer isso por um simples motivo. tenho isso. Mas seja realista.. mas o problema era que ignorava exatamente qual era o seu plano.

que ficava no andar acima de onde Giles e eu dormíamos. mas até o último dia. Tentei visitar o quarto da governanta. acendi a vela e pus-me a fazer uma revista mais detalhada do que havia feito antes. era a primeira prova concreta de que ia sequestrar Giles. Todas as manhãs. se ela recuperasse a consciência. é claro. mesmo que ela deixasse para fugir de Blithe no último momento possível. de forma que ninguém mais entrava. Grouse era minha única esperança. que ela quisesse me tirar do caminho antes disso. Depois de duas noites com a srta. Taylor. então o jogo estaria acabado para a srta. mas descobri que a outra estava mais pesada. um chiado que assustaria uma coruja. uma camisa limpa e roupa de baixo suficiente para vários dias. A menos. examinei o que havia dentro e soltei um gri-to. e.John Harding 153 Na verdade. mas pelo menos uma coisa tornava-se óbvia agora. Cobri seu espelho. Estava a salvo até esse último dia. e nesse caso ela poderia roubar Giles e ninguém saberia de nada a respeito do navio. uma calça e casaco. Isso confirmava suas intenções. Peguei as duas malas que estavam embaixo da cama e encontrei uma vazia como antes. e ordenara a Mary que lhe levasse cobertores para que pudesse dormir à noite em uma poltrona ao lado da cama da outra mulher. Minhas pernas transformaram-se em água e precisei me apoiar na cama para não cair. senti-me segura o bastante para entrar novamente no quarto da preceptora. Fechei rapidamente a mala e coloquei-a de volta embaixo da cama. Eu realmente não conseguia imaginar qualquer plano dela que pudesse funcionar. como tinha feito com a sra. como fizera na minha primeira visita.A menina que não sabia ler . Grouse. Devo ter levado alguns minutos para recuperar os sentidos e me lembrar de onde estava. essa situação se aplicaria não só ao dia seguinte. A sra. Ali dentro havia uma muda completa de roupas do meu irmão. Também me lembrei do grito que havia escapado e imediatamente fiquei aflita ao pensar que o demónio pudesse ter escutado. Abri os fechos. mas nossa preceptora havia indicado a si mesma como sua enfermeira. ela dava a Giles algumas tarefas para fazer no quarto de estudos e então ia para o quarto da governanta. Grouse. Depois de esperar alguns minutos sem que houvesse algum som . Guardava-o dos criados. quando ela e Giles saíssem do trem em Nova York a polícia já estaria no cais. Taylor dormindo no quarto da sra.

— Florence. as roupas de Giles na mala da preceptora. bem o suficiente para saber que são do meu irmão. mas então o sorriso desapareceu e ele sentou-se de novo. Fechei a gaveta e estava prestes a retirar meu manto e deixar o quarto quando repensei subitamente e abri de novo a gaveta. afinal. o vidro de remédio. Não sabia se o vidro de remédio tinha alguma importância. tentando ver as . — Aí você tem a prova definitiva de que adivinhei seus planos cor-retamente — eu disse. antes que aparecesse alguém. o que me fez agir imediatamente. mesmo que tivesse. ela as tinha escondido em outro lugar. mas imaginei que. comecei a revistar o resto do quarto e encontrei. Taylor pensaria que tudo o mais também estava. mesmo nesta hora tão tardia. Como gato escaldado tem medo de água fria. nada. Por quê? — Bem. fui até a torre e ali deixei o vidro. embora eu não pudesse imaginar qual seria.. Meu coração batia aceleradamente quando atravessei o corredor de volta para o meu quarto. Grouse. sim. ela não pensaria em procurá-lo. Primeiro contei a Theo sobre minha descoberta significativa. sim! — ele disse. que tinha uma única palavra: CLOROFÓRMIO.A menina que não sabia ler . você olhou bem as roupas? — Ora. ou seja. certamente a srta. Tirei-o e olhei mais atentamente para o rótulo. Senta-mo-nos na saleta. soprei a vela e peguei meu manto. mas não estavam mais lá.. sem saber o que significava aquilo. pois não mexi nele na última vez que entrei no seu quarto e peguei as passagens. Na manhã seguinte. entende. deduzi que havia sabiamente se precavido e as mantinha consigo. depois de cobrir o espelho. Tinha esperado encontrar as passagens de navio na gaveta da escrivaninha para poder pegá-las e talvez. estou apenas fazendo o papel do advogado do diabo. mas então a coruja piou. pulando da cadeira com um grande sorriso de triunfo. — Caramba. Sem pensar. Theo apareceu e expliquei que não havia nenhuma alteração nas condições da governanta. coloquei o vidro no bolso. Talvez o remédio tivesse algum significado em sua tramóia. Fiquei olhando para ele. Como não consegui encontrá-las no quarto. evitar que as usasse. Três dias após a queda da sra. fechei a gaveta. Olhei novamente na outra gaveta da escrivaninha e não encontrei nada além do que havia ali antes. Estando elas a salvo.John Harding 154 de descoberta.

lembrando-me do vidro de remédio -. coisas que Giles perdeu por ter crescido. que pergunta estranha é essa? Eu disse a ele que havia encontrado no quarto da srta. pois ela não pensou nas coisas adequadamente. — Ora. Não importa como tenha organizado as coisas.A menina que não sabia ler . — Então é fácil — eu disse. É usado pelos dentistas e cirurgiões para deixar os pacientes inconscientes para que não sintam dor durante uma operação. — De que lado você está? E quanto a todas as outras evidências? — OK. — Meu Deus. — Mas. pois eu não tinha conseguido encontrar nada a respeito na biblioteca. Percebi que ele concordaria com qualquer coisa para agradar-me. Mas. Quando eu acordar e der o alarme. e principalmente não aceitar nada que possa ter sido contaminado por ela. — Tudo o que preciso fazer é tomar cuidado com o que como e bebo. Irá me fazer dormir para poder levar Giles embora. eu disse a ele o que havia deduzido sobre os planos da srta. Mas seu rosto ainda estava em dúvida. Poderia haver uma explicação inocente. — É isso o que ela pretende fazer. ela já estará em alto-mar. OK! SÓ estou dizendo o que vão dizer. — Ah. É simples assim. Theo começou a andar pela sala. — Isso é algo bastante peculiar para que uma preceptora o tenha. . Voltamos a ficar em silêncio e ruminamos esse terrível pensamento por algum tempo. — A menos que aconteça algo comigo antes disso — falei. Taylor. Theo. Depois de um ou dois instantes de silêncio desconfortável. talvez.John Harding 155 coisas da maneira que um adulto cético veria se lhe contasse: as roupas podem ser velhas. Florence. você poderá soar o alarme a tempo de impedi-la. Theo — exasperei-me. acho que você descobriu! Pulando da cadeira de novo. Taylor. o que é clorofórmio? — perguntei. você não vê? Não é óbvio? Ela pretende usá-lo em mim! É assim que pretende colocar em ação seu plano. Ela pode tê-las pegado para dar a um parente. — Então você nada tem a temer — ele disse -. é um anestésico. — Theo — eu disse.

talvez. sobre sua preceptora querendo matar você. Poderia haver uma centena de explicações. — Quer dizer. quando olho para os espelhos. Quando você diz coisas como essa. um pouco fantástico. — Eu não sei. talvez. uma mulher que pode observar os outros através dos espelhos? Afinal. E talvez tenha fabricado as referências porque estava sem sorte e desesperada por um emprego e não tivesse trabalhado como preceptora antes. Talvez um velho amor as tenha enviado para ela. Seus olhos captaram o espelho.John Harding 156 Theo olhou para mim. Ela pode ter um amigo. — Bem. não necessariamente com Giles. — Você não sabe se ela pretende me matar? — Não. A pessoa desmaia. talvez pensasse que o trabalho lhe seria conveniente e que o conseguiria antes de outra pessoa. bem. . só vejo a mim mesmo. mas parou de andar. — Então por que vir trabalhar aqui? E por que sair sem pagamento? Além disso. os olhos arregalados. mas pode viajar para a Europa? — Talvez as passagens não sejam para ela. talvez! Como se uma dessas coisas fosse provável.A menina que não sabia ler .. — Estava sem sorte e desesperada.... ela tem passagens de navio. ela requisitou especialmente o posto aqui e suas referências não existem. É claro. Ele riu e acenou na direção do relógio. — Theo. Florence. — Ela poderia estar planejando uma viagem com outra pessoa. — Theo. se você pensar bem. Talvez as tenha comprado em nome de outra pessoa. — Ora.? — Você embebe um pano com ele e coloca sobre a boca e o nariz da pessoa para que ela aspire. se a pessoa começar a acordar. você acha que ela quer me matar? Theo não respondeu. Sabe. não sei nada a respeito disso tudo. A beleza está em que. e ele olhou por alguns instantes para o espelho e depois para mim. você não sabe.. quer dizer. não pode dar muito ou a pessoa pode morrer.. Estremeci diante disso. Florence? Não se dá clorofórmio para uma pessoa beber ou comer! — Não? Então como. coberto com seu lenço. talvez. você pode lhe dar outra dose da mesma maneira. tudo parece tão. — Talvez.

não. suado e cansado.A menina que não sabia ler . naquele momento ouvimos uma carruagem subindo pela entrada e. Taylor fez uma mesura com a cabeça. e depois eu o levarei para casa. meu jovem amigo. Conto com você. enquanto olhava para a preceptora como se algo o intrigasse. que desbotou e estava com a pele táo descolorida quanto a de uma galinha antes de ser colocada no forno. não. olhando pela janela. e resmungou. a respiração saindo novamente com aqueles chiados. O fato é que talvez esteja pior. Grouse.. onde ele ficou acabrunhado em uma poltrona. — Ah. Tive dificuldade para não lhe dedicar uma parte da minha mente.John Harding 157 — Não são mais prováveis que uma governanta morta voltando em um corpo diferente e caminhando sobre a água e vivendo nos espelhos? Ele agora estava praticamente gritando. Ele subiu a escada enquanto Theo e eu voltamos para a saleta. Vendo minha expressão inquisitiva.. — Não quis dizer que. madame — respondeu o doutor. Bradley vindo fazer sua visita diária à sra. como se indicasse que ele não estava inteiramente certo do que queria dizer. Fomos abrir a porta da frente para ele. Você não está bem. sabe. para testar sua eficácia. — Sinto muito — ela mentiu —. mas me contive. A srta. e se continuar recusando meus conselhos acabará ficando pior. Finalmente ouvi um barulho na escada e saí para o salão para encontrar o doutor com a srta. Bradley olhou para Theo. Lá ficará melhor. ao que a tosse cedeu e ele afundou na poltrona. Felizmente para nossas boas relações. o que me surpreende. pois ele obviamente estava muito doente.. Grouse. Agora vá sentar-se até que eu veja a sra. — sua voz sumiu. Atrapalhou-se para tirar o spray do bolso do casaco. o médico disse: — Receio não ter havido melhora nas condições da sra. o que o fez tossir durante vários minutos. mas finalmente conseguiu e deu a si mesmo uma boa dose. Lembrei-me de que havia . fiz o melhor. Taylor ao seu lado como um anjo caído. Vou voltar à cidade e mandar uma ambulância para que a levem para o hospital. E suspeito que não está usando o spray tanto quanto deveria. avistamos o dr. — Hummmpf! Vim para ver uma paciente e descubro que terei de lidar com dois.. O dr. tão consternada ficara com sua súbita falta de fé em mim. Grouse.

Temia que o demónio pudesse ter colocado um travesseiro sobre o rosto da pobre mulher para evitar que saísse do seu controle e pudesse revelar seus segredos. pois certamente seria quando a bruxa daria seus passos. Taylor para me impedir. de forma que mal podia comer ou dormir. desci o mais rápido que pude e esperei no salão. mas principalmente para poder observar a entrada. Dois homens da ambulância levaram a sra.A menina que não sabia ler . quando a descoberta da minha leitura era tudo com que precisava me preocupar. e. John Harding Theo saiu com o doutor e pelo resto da tarde fiquei sozinha na torre. Ela estava completamente inconsciente e parecia uma estátua de cera ou uma boneca muito grande. Pouco antes de colocarem a maca no veículo. tinha-me como um pássaro no ninho. Grouse e ter uma ideia das condições em que estava. Grouse em uma maca. confortei-me ao saber que ainda estava viva. corri até lá. mas sem vida. uma grande perua com uma equipe de quatro pessoas subindo pela entrada. 28 Embora parecesse agora que a batida do meu coração estava acelerada e que havia bandos de pássaros em meu estômago. Queria a oportunidade. Queria que tudo acabasse logo. finalmente. Mas. desejava que o dia chegasse. realista. avaliando que nossa nova governanta estava preocupada demais com sua paciente para se preocupar comigo. sem dar tempo à srta. e beijei a sra.John Harding 158 tratado a srta. batendo as asas inutilmente. . Grouse nos lábios. de lutar com ela e vencer. não importava quanto me apavorasse a ideia do que deveria enfrentar. Whitaker algumas vezes devido a enxaquecas e ocorreu-me que talvez uma centelha de lembrança tivesse sido acesa pela srta. Queria dar uma olhada na sra. Para meu alívio eles estavam quentes. apesar de ela não ter tido nenhuma reação. Assim que vi a ambulância. depois de tantos subterfúgios de ambas as partes. Tinha pteferido a torre à biblioteca um pouco em nome dos velhos tempos. Taylor. vi-me temendo e ao mesmo tempo desejando a sexta-feira. No que lhe dizia respeito. acima de tudo.

Grouse recebesse visitas. Segui o trio. Taylor com uma mistura de sorrisos e cortesias na porta da frente. — O que está acontecendo? Para onde estão indo? Vão nos deixar sozinhos? — gaguejei. O dr. John havia preparado uma velha carruagem que usava para buscar suprimentos na cidade e ajudou as duas mulheres a subir. Ela sorriu para mim. Nós a conhecemos e trabalhamos e vivemos com ela todos estes anos. — Ficarão perfeitamente bem — disse Meg. sempre podia me confortar com o conhecimento de que nada poderia acontecer até o último dia. — Deixei uma pilha de comida para vocês. Assim foi que quase desmaiei quando desci para o almoço na quinta-feira e dei com John. Senti o coração desfalecer. Meg estava abraçando Giles enquanto Mary estava fazendo o que podia para sufocá-lo com beijos. e que mesmo então. São apenas duas noites. Taylor. — Pensei que seria agradável se a sra. Tenho dois cestos de delícias que preparei para ela. sorrindo para a srta.. Estaremos de volta no sábado ao meio-dia.John Harding 159 E quando o medo aumentava tanto que. — E todos nós queremos ver a sra. Taylor está a par de tudo. . os três com suas melhores roupas de domingo e cercados por cestos e bolsas de viagem. Ela tinha conseguido manobrar direitinho. Meg pegou-me pela bochecha. que agradeceu à srta. assim terá um conforto de casa quando voltar a si. Meg e Mary no salão. Ouvi um farfalhar de seda atrás de mim e nossa nova preceptora postou-se ao meu lado. Bradley disse que nesses casos o som de vozes familiares pode ajudar um paciente a recuperar os sentidos. o que provocou muitos risos. Então seria tarde demais. quando ela descobrisse o desaparecimento do clorofórmio. Então estaria tudo acabado. eu sentia vontade de correr para longe. e a srta. e não podemos nem sequer pensar nela sozinha.A menina que não sabia ler .. Eu não havia pensado nisso em meus devaneios sobre o esquema da bruxa. teria que pensar em um plano diferente. em vez disso. — Mas Giles e eu. Grouse também.

Nós três ficamos vendo a velha carruagem desaparecer entrada afora. Giles — ela disse. desci o mais rápido que pude. e ele teve que empurrá-la colocando o ombro debaixo do seu derrière para ajudá-la. enquadrando-a para a batalha que viria. — Bem! Aqui estamos nós. Uma vez na casa. Por isso peguei um dos guarda-chuvas que ficavam na entrada e quebrei o vidro.. triunfante.. segurando-o contra o peito. Durante a tarde fiz o mesmo com o espelho no corredor de cima. — Venha. Eu mal conseguia me mexer. e quando estava todo estilhaçado passei o cabo do . Então ele se sentou na frente. deu-me uma piscadela e sacudiu as rédeas. Voltei pelo corredor. esse poderia ser o momento em que ela atacaria. Até onde sabia. Olhei aqui e ali e olhei várias vezes por cima do ombro. Era fantástico demais para qualquer um que não tivesse imaginação. e de qualquer forma teria sido muito pesado para que eu o levantasse. Coloquei o espelho no chão e pulei em cima dele até o vidro ficar em pedaços. Pois eu não deixaria que visse em meu rosto o grande pânico que sentia por dentro. Taylor virou-se para mim.John Harding 160 pois Meg era tão gorda que não conseguia subir. Estava tudo perdido! O jogo estava encerrado! Eu não tinha mais ninguém para me ajudar agora. e os dois voltaram para dentro da casa. Quem poderia adivinhar os poderes que possuía aquele demónio? Que truques malignos havia aprendido em sua breve estada no inferno? Em vez disso. Minhas pernas e todos os outros ossos do meu corpo estavam tremendo. Encarei-a com um olhar de desafio. Voltei. ela segurou a mão de Giles. tentando descobrir onde os outros poderiam estar. A srta. Theo estava certo. Subi furtivamente e ouvi vozes vindo do quarto de estudos. procurei ouvir. A srta. depois joguei a moldura na água. Amaldiçoei-me por ter amansado enquanto os criados ainda estavam ali. O espelho do salão de entrada estava preso na parede com parafusos. tirei o espelho do gancho e. mas sabia que não seria acreditada.A menina que não sabia ler . passei pelo espelho e então parei. Taylor contava histórias para Giles. Eu deveria ter me atirado sobre eles e gritado e contado tudo. Saí pela porta de trás e corri até o lago. pois não queria ser pega desprevenida.

John Harding 161 guarda-chuva pela beirada da moldura para que não restasse um único pedaço por onde ela pudesse ver onde eu estava. removendo a vantagem dos espelhos espiões. Era pior se ela não o fizesse. ela desceria sobre mim enfurecida. Taylor saísse da casa e visse a luz. pois não queria que Giles se acidentasse com eles. Mas então entendi. após o ataque do outro dia. Durante todo o tempo em que fiquei fazendo isso. Após o pôr do sol. Foi uma longa tarde. à espera de uma figura amigável. estava do meu lado. É claro que eu não podia acender minha vela por medo de que a srta. e. não houve sinal de Theo. quanto mais para uma mulher normal. para um homem forte. nem mesmo Giles sabia a respeito dele. simplesmente não importava onde eu estava ou o que fizesse. mas havia outro motivo para ficar na torre: eu precisava observar a entrada. se não impossível. biscoitos e um jarro de água. Fui pelo corredor e subi até a minha torre. eu não poderia perdê-lo. Naquela noite dormi sobre a porta do alçapão. pois. ao ver pelos espelhos o que eu estava fazendo. eu precisava sentar-me e pensar e fazer meus planos. Com todos os outros fora. mas felizmente não havia necessidade dela. abri-la por baixo com meu peso em cima. e eu me considerava segura ali. sua asma havia ficado tão séria que ele não me faria outra visita senão depois do meu Armagedom com a preceptora. Fui até a cozinha e peguei pão. pois a lua estava quase cheia. Imaginei que seria difícil. Tive que enfrentar a possibilidade sombria de que. começou a esfriar. se Theo aparecesse. fria. A princípio fiquei bastante surpresa com isso. e amarrei tudo em uma toalha. apesar de ter ficado de olho na entrada. pelo menos. John Harding Depois peguei uma vassoura do armário de Mary e varri os pedaços de vidro. É claro que a srta. e considerei isso um bom sinal de que alguma coisa. banhando a torre com uma luz pálida. ele era minha última esperança. Era um lugar onde não me encontraria facilmente. pois esperava que. ela não apareceu. Agora que ela não poderia ver-me andando pela casa. cães ao longe começaram a latir e a coruja piou. Taylor não era uma mulher normal e eu não . Significava que me considerava impotente.A menina que não sabia ler . bolos.

para aquelas construções que eu sabia serem importantes vigiar. ia e vinha inquieta pela torre. mas dobrei a cabeça e continuei. pois. a cabeça dobrada contra a força do vento. Eu teria que esperar para ver. Mas não sabia se fantasmas realmente podiam atravessar paredes ou se essas histórias eram apenas bobagem. Olhei para a entrada e vi que não havia sinal dele. Sacudi essa bobagem de mim mesma e fiquei em pé. forcei-me a mastigar quatro ou cinco biscoitos de Meg. Em algum momento devo ter dormido. O vento soprava com tanta força que quase me derrubou. embora eu só o vislumbrasse aqui e ali através dos buracos no dossel cinza daquele dia lúgubre. Encontrei meus suprimentos e. para que ela não pensasse que eu poderia estar na torre. Fui até o outro canto da minha torre e olhei para os fundos da casa. para que o meu plano fosse bem-sucedido. que a preceptora faria seu primeiro movimento. Fui voando pelo corredor até a porta de trás e saí. Enquanto isso. a nova e a velha. pois seria ali. E finalmente fui recompensada! Houve um movimento e vi a preceptora. A porta do estábulo estava aberta e olhei atentamente ao redor da viga e a vi como imaginava que . Enquanto estava deita-da durante a noite. com o gelado acordando-me completamente e preparando-me para a tarefa. uma maneira de salvar Giles e talvez banir nossa nova preceptora. Quando me mexi. mas isso não era de surpreender. e acima de tudo torcer. para sempre.John Harding 162 tinha como saber que poderes um fantasma como ela poderia ter. pois ainda era muito cedo e demoraria uma hora ou mais até que ele aparecesse com seu jeito tímido.A menina que não sabia ler . Foi uma longa espera. Não perdi um momento. todos os membros e músculos doíam como se meu corpo não quisesse enfrentar o dia. quando abri os olhos. verificando a entrada. O sol se levantou e continuou a subir pelo céu. Levantei a porta do alçapão. a luz clara da lua havia dado lugar a um amanhecer cinzento. Passei uma noite febril. Eu sabia que podia caminhar sobre a água. apesar de estar com o estômago virado. se eu suspeitava corretamente. Mas. eu precisava que Theo Van Hoosier aparecesse. segurando seu manto. havia me ocorrido uma maneira de fazer com que tudo desse certo. saindo da casa em direção ao estábulo. Um vento forte uivava sobre a torre fazendo com que nuvens esfarrapadas corressem pelo céu como pássaros assustados fugindo do inverno que se aproximava. desci e pulei o corrimão num instante. Tomei um bom gole d'água e usei o resto para molhar o rosto. depois verificando as construções do fundo.

Ele se levantou. não é? Está bem. Eu não tinha com que me preocupar. Taylor me disse que você estava doente. Giles estava sentado olhando para um livro de figuras e. Ela havia tirado um arreio da parede e estava caminhando em direção à baia de Bluebird. pois sabia que a srta. pois nenhum menino consegue resistir a uma escalada. depois virei e fui seguida por Giles. O melhor esconderijo de Blithe. Eu a empurrei e um minuto depois estávamos em meu reino secreto. Taylor me disse para esperar aqui. preciso lhe mostrar uma coisa! Ele ficou em dúvida. por isso é tão bonito. não estou! Venha depressa. como nos bons velhos tempos. Taylor levaria um tempo considerável para colocar os arreios em Bluebird. ele veio atrás de mim. mas ao chegar ao alto não teve força para levantar a porta do alçapão do quarto da torre. — Bem. ela vai me levar para um passeio. Ainda não havia perigo. Eu o levei até o fim do corredor e desci com ele e depois até a escada da torre. não sei. Giles. Parece impossível. e a srta. Pulei o corrimão. — Não vai demorar mais que um minuto. voei pelo corredor e abri a porta do quarto de estudos. não.. Um lugar secreto! Um lugar realmente secreto. — Bem.A menina que não sabia ler . colocando os pés nos intervalos. desta vez com o vento às minhas costas. subi dois degraus de cada vez. Ela. Ninguém jamais o encontrará lá. diante da minha entrada abrupta.John Harding 163 estaria. voltei correndo para a casa. A srta. senhores de tudo o que víamos. — OK. — Fio! Onde é que você tem andado? Você perdeu o café da manhã e o jantar. olhei para trás e vi meu irmãozinho de olhos arregalados e maravilhados. temos que subir! Ele olhou para os destroços amontoados no fundo dos degraus e me perguntou: — Como? — Ah. . — Fio. Percebi que estava usando seu melhor traje. Sentamo-nos na escada rindo. OK. Sem precisar que eu dissesse algo. mas me virei e. mas só por alguns minutos. siga-me.. É uma coisa especial. Eu não precisava ver mais nada. levantou a cabeça assustado. Quando comecei a subir por fora do corrimão. Ficamos em pé e Giles me fez subir correndo.

Quando cheguei à porta da frente e olhei pela janela. subindo pela entrada. — Onde? — respondi. não há tempo a perder. arrumei-o numa posição confortável. pegando-o pela mão —. você não está vendo. — Theo — eu disse. coçando a cabeça. tirando o vidro do bolso do meu vestido.A menina que não sabia ler . venha depressa! Ele ficou parado. Deixei que caísse lentamente até o chão e curvei-me sobre ele para verificar se estava respirando. — Vamos! Corremos pela frente da casa e pela lateral. o olhar intrigado.John Harding 164 — Olhe! — Giles gritou. fechei-a atrás de mim. Agradeci por ter chegado ali antes que Theo fosse embora. seriam menores as chances de se levantar. Taylor não poderia ter ouvido dos estábulos. colocando uma almofada debaixo de sua cabeça. não queria que meu irmãozinho acordasse com dores — como eu havia acordado — por ter dormido de mau jeito. estava confuso. e começou a virar a cabeça. Abri a porta e sua expressão ficou aliviada ao me ver. Taylor ainda estaria entretida . se estivesse confortável. cobrindo seus protestos com o lenço até ele parar de lutar. como ninguém atendera. — Ai. mas era tarde demais. agarrando-o junto a mim. Evidentemente havia tocado várias vezes e. mas no lado oposto ao dos estábulos. Não importava que tivesse tocado o sino porque a srta. Preciso da sua ajuda. 29 Depois de ter deixado Giles confortável. — Florence. — É o Theo! — e lá estava ele. a garça tão familiar caminhando na direção da casa. Feito isso. pulei o corrimão e atravessei o corredor correndo. pois coloquei o lenço em seu rosto e meu braço em torno da sua cabeça. saí pela porta do alçapão. Fio? Abri a garrafa e coloquei um pouco do líquido no meu lenço. Theo estava parado olhando para a casa. onde a srta. — Ali! Ali! Na entrada. chegando até os fundos da casa. embasbacado. Eu o cutuquei. onde está todo mundo? Pensei que estivessem todos mortos por causa da praga. desci. que cheiro é esse? — Giles perguntou. Além disso. pois eu não sabia como funcionava o clorofórmio e imaginei que.

sim. mas. apontando com a mão para o velho poço. Fui até o poço. mas ficou ali parado. as mãos nos quadris. grunhindo e gemendo. eu precisava me apressar. — Preciso da sua ajuda para tirar tudo isso daqui — eu disse. por favor. — Theo. estava pronto para a batalha. mas minha força cedeu e tive que soltar. Sem olhar para Theo. peguei a pedra de cima e comecei a tentar levantá-la. — Muito bem! — eu disse. sinto muito. E aquilo era totalmente contra as regras! Além disso. e o conduzi para o que era o coração do meu plano. Quando a soltamos. Dessa maneira. se o fizesse. o que mais podia ser? Vendo seu rosto. as placas de madeira sobre ele e para as lajes de pedra grandes e pesadas por cima delas. Logo chegaríamos ao fim da tarde e o sol já estava pensando em se retirar para a noite. Não havia tempo a perder. — Sim. é claro que é um poço. Theo ficou olhando para a mu-reta. — E um poço — Theo falou. consegui levantar um lado. Theo correu para me ajudar. e juntos conseguimos tirá-la e colocá-la no chão. peguei a pedra novamente e comecei de novo a gemer e grunhir enquanto lutava com ela. — Não tenho tempo para explicar agora. Theo. não que tivesse aparecido muito durante o dia. Fiquei pensando se poderia contar a ele. ajude-me! Ele não respondeu.A menina que não sabia ler . . Soprando e ofegando. mas lá no fundo eu sabia que. Isso era demais para qualquer cavalheiro. soprando e ofegando. Levei Theo através de algumas velhas estufas que estavam deterioradas havia muito tempo por falta de quem cuidasse delas.John Harding 165 preparando o cavalo. abrandei. A bruxa podia terminar nos estábulos a qualquer momento. mas para evitar que essa bruxa leve Giles precisamos fazer isto agora. tossindo e pulverizando com o spray. com grande es-forço. Theo começou a tossir e precisou usar o spray. Impacientei-me. Por favor. Theo sempre se mostrara tão escrupuloso em relação a coisas tão pequenas e também se acovardava diante de tudo que fosse contra as regras. assim que o acesso passou. provocaria uma discussão que eu não tinha certeza de conseguir vencer. pegou o outro lado da pedra e começou a levantá-la também. — Mas por quê? Exasperei-me. olhando primeiro para o poço e depois para mim. conseguimos tirar todas as cinco lajes e colocá-las em uma pilha no chão.

— Caramba! É um buraco e tanto. Ele colocou o spray no chão ao seu lado. deixou-o cair e começou imediatamente a tossir. uma por uma. Giles ainda dormia tranquila-mente no chão. Verificando cuidadosamente o salão e o corredor. — E o que você anda fazendo? — Ele me olhou com curiosidade. o que pareceu acalmá-lo. — Fique aqui e cuide dele. Isso tem um fundo? Eu não respondi.A menina que não sabia ler . — Não fale agora — sussurrei. Voltarei logo — eu disse. — Theo. — Clorofórmio — eu disse. que estava parado olhando para mim. Siga-me e não diga mais nada. — Bem. eu o levei até a outra ponta. Quando terminamos. venha! Pouco depois estávamos na torre. Theo olhou para o poço e assobiou. mas pode ter terminado. — Ora. Sentan-do-se com as costas na parede. Mostrei a ele o vidro e o lenço. pois quanto menos falasse sobre o poço melhor. — Para que tudo aquilo com o poço? Coloquei um dedo em seus lábios para que se calasse. não fique aí olhando. e quando Theo começou a tossir depois da terceira. descanse um pouco. Estava nos estábulos. — Eu o quebrei — disse orgulhosa. Quando estava na metade do caminho parei e olhei para Theo. Elas não eram tão pesadas. evidentemente exausto. — Não sei onde ela pode estar. o que me deixou bastante aliviada. — Precisava ter certeza de que ela não podia ver o que eu estava fazendo. Caiu no chão mortalmente pálido e arfando. ao ver a moldura vazia logo na entrada. . tirei a quarta sozinha. o que aconteceu com o espelho? — ele disse. Theo pegou o pano e cheirou. onde saímos e chegamos ao pé da escada que levava para a torre.John Harding 166 Depois retiramos as quatro placas grossas de madeira. Theo olhou do meu irmão para mim. a respiração subindo e descendo suavemente. Comecei a subir pelo corrimão. dê-lhe outra dose. tirou o spray do bolso e aspirou. Peguei sua mão e cuidadosamente contornei a casa e levei-o até a porta da frente. Se começar a acordar.

— Giles! Você está bem? Eu a empurrei para o lado e subi na mureta. — Cuidado. — Srta. Bati de novo e acertei com mais força. Soltei a madeira. Não havia nada além da escuridão. deixe-me ver! — ela disse. segurando-se à estaca. — Um acidente? O que quer dizer? — Por favor! — Eu me virei e comecei a correr. — Onde está ele? Eu não vejo nada. esticou o pescoço e olhou para baixo. Taylor! Srta.A menina que não sabia ler . Foi embora com um único grito.. um grande buraco que podia ir até o centro da Terra. tão perto de mim estava ela. apontando para o poço. Juro que podia sentir sua respiração quente em meu pescoço.. — Venha! Levantei a saia. Taylor! — gritei.. Parei. o tronco. Como João e Maria. Ergui a mão trémula. Desci da mureta e num instante ela ocupou meu lugar. Ouvi de novo o barulho e os dedos largaram a estaca. mas eu era veloz como o diabo e ela mal podia me acompanhar.. sem lhe dar tempo para pensar. Meu corpo todo. Juro que bati com tanta força que ouvi os metacarpos se quebrando. eu disse a ele para não. apoiando-me nos joe-lhos. os nós dos dedos brancos como ossos.John Harding 167 Levantei a porta do alçapão e desci o mais rápido que pude. Cheguei aos estábulos quando a srta. até onde eu sabia. corri e passei por trás da casa. empurrando-me a perna. agarrei-me à estaca que um dia havia segurado a corda do balde para poder balançar a cabeça até o centro da abertura. — Giles! — ela gritou. correu para a mureta em torno do poço e debruçouse.. Taylor estava saindo e imaginei que tivesse terminado de colocar os arreios. Peguei-o e bati com força e acertei a mão que estava segurando a estaca. apoiando-se sobre os joelhos e. — Giles. — Venha depressa! É Giles! Ele sofreu um acidente! Seu rosto ficou pálido como o do cadáver que eu sabia que era. o poço. — Posso vê-lo! Acho que está se mexendo. até os . — Lá está ele! — gritei. Ela entendeu imediatamente. tão ofegante que mal conseguia falar. joguei todo o meu peso sobre ela e com ambas as mãos empurrei-a de tal forma que lá foi ela para o poço. Corri pelo corredor e saí pela porta de trás.. Olhei pela beirada do poço. mas ela se agarrou à vida. Giles! Giles! Dei a volta e vi um pedaço de pau perto do poço. eu havia me livrado da bruxa com um golpe magnífico.

Theo estava onde eu o havia deixado. Suas duas malas estavam sobre a cama. conseguiu ficar em pé e seguiu-me até a porta do alçapão. . Com grande esforço. Fiz o mesmo com as outras placas até a abertura ficar inteiramente coberta. como estava antes. Levantei a ponta de uma das placas de madeira e arrastei-a até a ponta da mureta. Ele estava com aquela aparência de galinha pronta para ir ao forno de novo e sua respiração era um chiado. vi que ainda dormia tranquilamente e então desci. Pois eu não conhecia os poderes do demónio. mas preciso da sua ajuda de novo e preciso agora. Peguei a ponta de uma das placas e manobrei até chegar à mais próxima. mas nada aconteceu. eu saberia se tinha escapado enquanto eu estivesse longe. Então voltei para a casa. Abri a outra mala. pois já estava. eu sei que está mal. que de certa forma misturava medo e desdém.John Harding 168 dedos dos pés. Mas era possível que pudesse voar. como alguém que estivesse sonhando. levantei-a e deslizei-a sobre o abismo para que ficasse apoiada em cada lado da mureta. Depois recoloquei as placas no lugar e voltei para a torre. Quando coloquei a cabeça através da porta do alçapão. Mas havia algo estranho. Então coloquei a bolsa e o casaco na mala em que antes estavam as coisas de Giles. algo na maneira como olhou para mim. Fiquei aliviada ao ver que nenhuma das placas havia sido removida. o coração na boca. ela ainda devia estar presa. Dessa maneira. levei-as para baixo e até o poço. Abri a bolsa. — Theo. coisa de que não tinha visto sinal. como se não tivesse ouvido o que eu disse. Abri a que continha as roupas de Giles. encontrei algum dinheiro e peguei tudo. Olhei rapidamente para Giles. — Muito bem — ele falou. Sabia que ela não podia ser morta. Peguei primeiro uma mala e depois a outra e joguei-as pelo buraco que havia feito. Fui direto até o quarto da preceptora. Olhei para o quarto e vi seu chapéu. mas todo o resto estava na mala. casaco e bolsa. o spray ao seu lado. ambas fechadas. Rezei para que não estivessem trancadas e felizmente não estavam. fui até a outra ponta. Depois de fechar bem as duas malas. estava tremendo com o triunfo e também de medo. A menos que tivesse o poder de passar através de objetos sólidos. Deixando-a lá. tirei-as e levei-as de volta para seu quarto.A menina que não sabia ler . pois a qualquer momento esperava vê-la chegar gritando como o génio libertado da garrafa.

o que certamente teria quebrado todos os meus ossos. porém. o rosto uma careta de agonia. — Não posso — ele engoliu o ar com um chiado terrível. mas consegui me controlar a tempo e. no entanto. Pois a primeira pergunta que qualquer um que estivesse familiarizado com Blithe. — Eu o deixei. Assim que terminamos de colocá-la. jogando meu corpo contra a beirada da pedra. use o sprayl — gritei. muito mais pesada que antes. Peguei o outro e começamos a levantar. — Theo. Theo começou a tossir. na torre. Quando terminamos de colocá-la no lugar. de forma que todo o peso veio para cima de mim.. Finalmente chegamos ao poço. Theo agora tossia incontrolavelmente. pois Theo a largou subitamente. Pareceu levar uma eternidade. mas finalmente colocamos três pedras no lugar e quase tínhamos acabado de colocar a quarta. ele se curvou e pegou um lado da pedra de cima da pilha que havíamos feito. como se estivesse segurando todo aquele tempo. coloquei-a no lugar. Fiquei aliviada ao ver as quatro placas de madeira no lugar.. Ele. pois não podia permitir que me abandonasse agora. mas eu o empurrei.John Harding 169 Theo tropeçou duas vezes na escada e teve dificuldade para saltar o corrimão. — Ajude-me a levantar as pedras — eu disse a Theo. Theo. Deu de ombros. Ele apalpou os bolsos.. mas eu insisti com ele. como um homem morto sem expressão ou um autómato sem vontade própria. mas não tirou o spray. tinha apenas a força de um menino pálido e tremulo. controlou o acesso e começamos com a segunda pedra. Agora tínhamos que a levantar. que creditei à excitação que corria em minhas veias. curvou-se bravamente para cumprir a tarefa. Quase deixei a pedra cair no meu pé. . Eu parecia ter a força de cem homens. faria era: quem moveu as pedras? Ajudei Theo a dar a volta na casa como se ele é quem estivesse com problemas no tornozelo agora. eu o deixei lá. evidentemente imperturbadas. tal como John. Dessa maneira levantamos a primeira pedra sobre as placas de madeira. com um grito alto por causa do esforço. apenas nivelando-a com a de baixo. Estava muito. quando Theo vacilou e soltou onde estava segurando. Sem uma palavra.A menina que não sabia ler . porque tínhamos apenas escorregado a pedra para baixá-la. Theo estava tossindo sem parar..

A menina que não sabia ler . Ele havia concordado com o que considerava loucura minha porque era o caminho mais fácil e seguro. Vendo-me parada como uma estátua. Se houvesse qualquer dúvida em relação ao que pensava das minhas açóes. com o rosto no chão. pois pensei que estava quase . corra! — ele arfou. Então percebi. E soube que tinha visto. um pensamento que não consegui identificar imediatamente. Assim que se afastasse de Blithe. Era aquele medo que eu havia visto em seus olhos. arquejando pela vida. ele começou a tentar se levantar. Caiu para a frente. perfeitamente à vista. mas arfando como um corredor depois de uma longa corrida. No quarto da torre fui direto até o spray. Coloquei-o suavemente no chão. — Florence. e no caminho notei que Giles ainda dormia tranquilo e respirava suavemente. Significava uma coisa. Subi e pulei com o corpo cansado escada acima. atravessei o quarto e olhei pela janela de trás. ou como quando você pesca um peixe e o coloca no chão junto ao lago e fica olhando e ele fica buscando ar até morrer.John Harding 170 Coloquei meu ombro embaixo do seu e ajudei-o a dar a volta na casa. John Harding — Theo. espere aqui. por favor! Por que está parada aí? Por favor! Eu não me mexi e assisti horrorizada. Era óbvio por que não o fizera. Ele repetiu a súplica. seguido pela maneira resignada com que me seguiu e me ajudou com as placas e as pedras. Soube então que Theo estivera ali. — Florence. E eu conhecia Theo. ele não estava mais tossindo. parando para olhar para Theo. O que poderia significar? Instintivamente. Do degrau de cima do último lance da escada olhei para baixo e vi Theo. completamente branco. que empalideceu e escorregou na parede. vou pegar o spray. Já ia descer pela porta do alçapão quando algo me afligiu subitamente. Atravessei a porta do alçapão e desci. ele teria protestado. encostando-o na parede. corra! Eu não me mexi. aquele medo de mim em seus olhos. — Por favor. Abaixo eu vi o poço. teria se recusado a me ajudar. aquele olhar que Theo havia dirigido a mim quando voltei para o quarto da torre. e eu corri para ajudá-lo. Entramos pela porta de trás e fomos até o pé da escada que dava na torre. ele contaria. Eu me virei e subi.

— sua voz arranhou o ar e era como se alguém estivesse arranhando minha alma. nunca fora compatível com a tarefa de manter meu segredo. ele conseguiu ficar em pé. com que reserva de força eu não sei. Ele se apoiou nas mãos e conseguiu se endireitar. mas o que ele disse foi: — Florence.A menina que não sabia ler . 30 Tinha primeira dificuldade era descer sem perturbar Theo. Ele caminhou vacilante até a escada. — Florence. Levantei sua cabeça um pouco e pressionei os lábios contra . no último minuto agarrou o corrimão e então. como um cão. não faça isso! Eu não vi nada! Não vou dizer nada. observando horrorizada enquanto ele avançava. o pobre. Inclinei-me encostei o ouvido sobre ele. dada a sua natureza simples. Sua respiração deu uma última raspada e então não houve nada além de silêncio. Ele alcançou a escada. — Florence! — sua voz cortou meu coração. Não havia sinal daqueles pobres pulmões cansados.. ele estendeu um braço para um lado e uma perna para o outro sobre o corrimão.. Depois de tanto sofrimento. O esforço para falar foi demais e ele começou a tossir tão brutal-mente que era doloroso assistir. mas a palavra. e estava agora apoiado apenas em um joelho. Fazendo força com as mãos. ou palavras. Eu não respondi e ele levantou um pé e o colocou no corrimão. ele pulou e colocou o outro pé no corrimão. mas então seu corpo se contorceu e ele se ergueu sobre as mãos e os joelhos. mas agora que havia acontecido eu reconhecia que seria necessária. Recuei e encostei-me na parede atrás de mim. escorregando. mas caiu. Pobre Theo. — Florence. como um pretendente fazendo a pergunta. depois de uma pausa terrível. morreu na sua garganta. conseguiu levantar-se de novo. não iria mais patinar. minha pobre garça. era um ato de misericórdia darlhes finalmente um descanso. a cabeça pendendo entre os braços.. Essa morte dele em cima de mim não estava nos meus planos. tão graciosa patinando no lago. De alguma maneira. pobre Theo.John Harding 171 morto. Conseguiu colocar um dos pés no chão.. largando o peso do corpo. Tentou dizer algo.

Não poderia usá-lo para descer. Pulei o corrimão. por mais leve que fosse Theo.John Harding 172 os seus. mas abaixei a cabeça. onde o coloquei de forma que a carruagem ficasse abaixo do nível da rampa de embarque. não me impedia de andar. virei-o de frente para a carruagem e com um poderoso empurrão virei-o de forma que Theo caiu na parte de trás. Fui até o celeiro e encontrei o carrinho de mão de John. Levantei-me e soltei lentamente o peso do pé direito e fiquei aliviada ao ver que. não tinha mais tempo a perder. bem abaixo de Theo. corri e subi em não muito mais que alguns segundos. onde Bluebird esperava pacientemente. rezando em silêncio para conseguir levantá-los. . pois eu não sabia se aguentaria o peso de Theo. Já estava escuro. mas felizmente o céu estava claro. Ele caiu como um saco de batatas diretamente no carrinho. Eu estava a três metros do chão e não havia outra coisa a fazer senão pular. dando-lhe o beijo que ele sempre desejara. Levei-o até a porta dos fundos e pelo corredor até o pé da torre. por isso fiquei aflita por sobrecarregá-lo. subi a rampa de carga. Soltei o freio e. fazendo-lhe carinho e sussurrando coisas gentis. e eu o empurrei pelo corredor. Coloquei-o ao lado da escada. peguei os braços do carrinho. com algumas poucas nuvens. Desci e peguei os braços do carrinho. Deixei ali o carrinho e seu conteúdo. ele não parecia pesar mais que um pardal. pois Theo estava no caminho. e essa era minha sorte. Caí no chão em cima do tornozelo direito. das galinhas e de outros. Eu o levei até o celeiro e empurrei o carrinho pela rampa que John usa para a comida dos cavalos. e a lua cheia me propiciava uma boa luz. mas não era largo. deixei que fosse até o celeiro. e fui até a porta ao lado. Depois saltei.A menina que não sabia ler . Coloquei o spray no bolso do seu casaco e subi alguns degraus. Então me arrastei até ficar embaixo do corrimão e puxeio. apesar de doer um pouco. atravessei a porta dos fundos e pensei em como a doença o deixara frágil e fraco. Respirei profundamente de novo. aquele que já havia machucado. Respirei profundamente. Eu não queria tirar seu corpo do corrimão porque já estava formulando um plano em que ele precisava permanecer ali. todo arreado. Levei apenas um instante. Era comprido. mas jamais recebera apropriadamente. e sabia que teria problemas para me explicar. Ainda cantarolando suavemente. até os estábulos. subi até o assento da carruagem e coloquei o freio. e doeu tanto que imaginei que o tivesse quebrado. levantei-o e me surpreendi. fechei os olhos e saltei. Foi uma subida difícil.

temendo que aparecesse alguém. apesar de agora estar mais inquieto. Depois que ele comeu e tendo certeza de que estava contente. soltei o freio e sacudi as rédeas para acelerar Bluebird. mas só uma rápida desta vez. melhor. Todo o tempo com o coração na boca. Fiquei imensamente aliviada ao voltar para a estrada principal. Voltei para o celeiro. Estava tão cansada que de bom grado teria me deitado ali e dormido. soltei o freio de Bluebird e levei-o para fora.John Harding 173 Tive que descansar um pouco depois disso. Fiz Bluebird dar a volta de forma que a traseira da carruagem ficasse de frente para o bosque. pois tinha medo de exagerar. Peguei o pano com o clorofórmio e lhe dei outra dose. murmurando para si mesmo. Virei e fui até a metade do caminho. Voltei para a boleia. e então deixei a torre e fui até o quarto da preceptora para pegar o dinheiro e o outro item que havia tirado da sua bolsa. Fui até meu quarto e coloquei meu manto preto. Parecia que Theo tinha ficado mais pesado na última hora desde que eu subira a rampa com ele. ou talvez eu estivesse mais fraca por toda aquela atividade. Estava suada e ofegante. e o luar indicou-me o caminho como se estivéssemos em plena luz do dia. e se me encontrassem ali seria meu fim. Fui até o barril de maçãs. conhecia o caminho para a cidade. Subi no lugar do condutor e segurei as rédeas para que começasse a trotar. peguei o carrinho e deixei-o onde o havia encontrado. Bluebird. Agora era noite bem avançada e eu sabia que havia passado muito do horário em que Theo deveria estar em casa para o jantar. Esperei alguns minutos para ter certeza de que estava respirando normalmente e com facilidade. era praticamente o único lugar para onde ia.A menina que não sabia ler . peguei uma e a ofereci a Bluebird. Não me atrevi a ir mais longe. por isso não tive muita necessidade de dirigi-lo até chegarmos à entrada para a casa dos Van Hoosiers. . coloquei o freio e subi na parte de trás. mas levei um tempo considerável para conseguir jogar o corpo por sobre a beira da carruagem. Giles ainda estava dormindo. Depois voltei para a casa e fui até a torre. quanto maior a distância entre mim e Theo. Os criados já deveriam estar procurando por ele. é claro. Mas finalmente consegui. pois o tutor de Theo ou os criados poderiam ouvir o barulho das ferraduras de Bluebird. mas sabia que não podia. O vento havia diminuído e a noite estava clara e límpida. voltei para a rampa.

assim que o vi. entrando na Main Street com minhas feições protegidas como as da srta. Finalmente as luzes começaram a surgir à minha frente e a se multiplicar quanto mais eu avançava. virei-o segurando o freio e. dando um bom puxão nas rédeas. mesmo sabendo que outros cavalos. seu chapéu. O condutor da charrete não acenou para mim. como comida pesada demais para digerir. como um dragão deitado à minha espera. Taylor. Em poucos minutos estávamos trotando rumo à estação. o silvo do vapor. a locomotiva. puxei o capuz do meu manto sobre o rosto para não ser reconhecida. Depois disso fiquei só com a lua e o barulho dos morcegos que passavam aqui e ali. ao me aproximar da es-tação de trem propriamente dita. Virei-me e peguei o item que havia retirado do quarto da srta. O velho cavalo estacou.A menina que não sabia ler . Percebi o barulho do metal e. passando pelas primeiras casas esparsas. de forma que antes de eu perceber quase passamos o lugar. Havia grupos de pessoas indo e vindo da estação e muitos carros e charretes seguindo nas duas dire-çóes também. Na curva para a estação de trem atrapalhei-me com o controle das rédeas e não consegui fazer Bluebird virar. que eu considerava minha amiga. Encontrei apenas uma charrete de um fazendeiro na estrada e. mas do que tinha para fazer e de não ser capaz de fazê-lo. Eu tinha tão pouca experiência na condução da carruagem — só algumas vezes John havia me deixado experimentar por brincadeira que fiquei nervosa e queria ir depressa. ideia que me atraía nesse momento. balancei as rédeas para que começasse a andar. Abaixei o capo e coloquei o chapéu firmemente sobre a cabeça e puxei o véu sobre o rosto. de forma que às vezes as rodas da carruagem patinhavam de maneira alarmante. o medo apertava minha garganta. e mesmo debaixo do manto estremeci. e em poucos minutos cheguei à cidade. — Ooa. porém não era medo da noite. os cavalos da noite. Imediatamente o silêncio se foi. A geada começara a cair com força e a estrada estava escorregadia. passariam rapidamente. pois se havia algo que eu sabia fazer era pará-lo. sua longa cauda de vagões . Desci. Taylor quando visitáramos o dentista. pois era uma noite para estar dentro de casa e ficar ao redor do fogo. garoto! — gritei. pois lá estava. quando estava voltado para a direção certa. Havia poucas pessoas por ali. ao qual respondi com um aceno silencioso.John Harding 174 Estava com frio agora. apenas levantou o chicote como cumprimento.

quando vi que ninguém prestava atenção a mim. Caminhei por toda a extensão do trem e voltei. pelo que agradeci. bufando cada vez mais alto. desci e amarrei Bluebird. A mulher inclinou a cabeça sobre o meu ombro. e bateu forte com os nós dos dedos. um deles empurrou o outro de lado e. tirando o chapéu. Taylor. Eu sabia para onde deveria ir desde que havíamos trazido Giles para ir à escola. pois era mais uma entre tantos. No início tive medo de toda essa comoção. pois me escondera. Olhei ao redor. Ergui os olhos e vi o relógio da estação e quase caí morta de choque. uma pequena cabeça careca surgiu à minha frente. — Sim. Sem olhar para a direita ou para a esquerda. Ao me ver. indicou-me os degraus. Faltavam apenas dez minutos para as nove. uma nuvem de fumaça saiu da locomotiva e engolfou-me. mas logo me lembrei de que precisava ser vista. Parei a carruagem junto a um poste. Saí da sala de reservas para a plataforma. — Viagem de ida e volta. pois a locomotiva estava raspando o chão. Havia homens gritando.John Harding 175 de passageiros estendendo-se atrás dela. Se não me apressasse estaria atrasada demais para o Circular. Um homem e uma mulher ficaram atrás de mim. mas. — Depois da senhora. cavalos relinchando. percebi que isso me era vantajoso. por favor. — Só de ida. passando por pessoas ali reunidas. nervosa por dentro. O homem levava um saco de viagem e era evidente que iriam pegar um trem. O homem que estava atrás logo começou a comprar as passagens para ele e sua companheira e não pareceu dar-me nenhuma atenção. Como num passe de mágica. Não havia ninguém ali. . O homem e a mulher continuavam esperando atrás de mim e senti que ficavam impacientes. Eu não pretendo voltar. marchei direto para a sala de reservas. No vagão da frente encontrei um grupo de seis ou sete homens subindo as escadas e ousei aproximar-me. Ao me aproximar do trem. madame? — Não — falei em voz alta. madame? — Quero comprar uma passagem do Circular para Nova York. Ele me entregou a passagem e paguei com o dinheiro que havia tirado da bolsa da srta. que saía de hora em hora. portas batendo. — Você precisa bater no vidro — ela disse.A menina que não sabia ler . e fui direto ao guiché. muitas delas despedin-do-se. madame. ansiosa para partir.

— Eu... madame.. madame. — Vai encontrá-lo ocupado em toda a extensão do vagão. pois não podia ocupar o lugar. acenei com a cabeça e agradeci com a mão. Ele tirou o chapéu e olhou-me cauteloso. eu não mordo. Eu não sabia o que fazer. eu me despedia de minha irmã e estava tão chateada por deixá-la que acabei me esquecendo completamente dela. madame. — Ora. sentindo-me encurralada. obrigada — eu disse. como se fosse para o outro vagão à procura de um lugar melhor. estava prestes a descer os degraus. é claro. eu.. Hesitei. que deixei alguns vagões atrás.A menina que não sabia ler . um grupo de senhoras vinha na direção oposta e tive que dar passagem a elas. pois o trem havia feito muitas paradas antes desta. é. este assento está livre. Que idiota eu sou! Faria a gentileza de ir pegá-la para mim? Ele colocou o chapéu e passou a mão pela beirada. posso garantir. Houve um silvo súbito e uma grande nuvem de vapor da locomotiva. continuei em direção ao fundo do e saí pela porta.. O momento de hesitação quase me custou caro. Recuperando-me rapidamente. Caminhei pelo corredor. um homem de terno xadrez e chapéu-coco ao me ver passar tirou a mala do lugar ao seu lado e disse: — Aqui. ficaria feliz em ir pegá-la para a senhora. olhando aqui e ali como se procurasse um lugar.John Harding 176 Acenei em sinal de agradecimento e subi. — Vamos lá. é vermelha. veja bem. mas ouvi uma voz atrás de mim... Meu plano era descer do trem e fugir. Eu. Estava atrás da minha mala. madame. Veludo vermelho vivo. O trem deu um solavanco e precisei segurar-me na moldura da porta para não tropeçar. — Não há como não vê-la.. Eu a deixei no último assento do vagão antes deste. Pró-ximo ao fundo. O vagão estava quase cheio. é claro. mas. eu não estava indo à procura de outro lugar. mas sabia que não podia ser rude e ignorá-lo. O trem deu outro solavanco. Virei-me e vi o terno xadrez. ao sair do primeiro vagão para o segundo. . Quando elas se foram. Se disser como é. — Mas. sabia? — Ora.

sem passar pela sala de reservas desta vez.A menina que não sabia ler . Puxei o capuz sobre a cabeça e afastei-me rapidamente. Ele teria uma espera longa e fria. pois sentia pelo que lhe havia causado. enfiei-o debaixo do manto e desci os degraus. Devo ter levado uns bons vinte minutos para afastar-me dos arredores da cidade. Agora volte para lá e sente-se onde eu estava sentado. confesso. olhei pela última vez para Bluebird e a charrete. Pensei em Theo. Estava cansada não apenas porque normalmente já estaria na cama há muito tempo. Taylor teria tido uma mala se tivesse pegado o trem. um barulho de metal contra metal. eu já volto com sua mala. não havia ninguém à vista. . Pulei e consegui não tropeçar. É claro. o que foi bom. se eu tivesse levado uma. Esperava que qualquer testemunha da mulher de véu na estação não se lembrasse se ela estava ou não carregando uma mala. madame. E pode pegar o lugar junto à janela. Na rua. O trem começou a se mexer em ritmo vigoroso. A plataforma ainda estava movimentada com pessoas acenando para os amigos e carregadores indo e vindo. mas por tudo o que havia passado. e não pude deixar de sorrir para mim mesma ao pensar no terno xadrez procurando por uma mala de veludo vermelha que nunca encontraria. se não pulasse agora seria tarde demais. deitado no chão frio com a geada endurecendo-lhe o cabelo e. e também só de pensar que teria dezesseis quilómetros para caminhar ou tudo o que fizera até agora seria para nada. teria que deixá-la a bordo.John Harding 177 — Será um prazer. e pela abertura da porta vi a sala de reservas começar a passar. mas. o trem deu outro solavan-co e desta vez houve outro silvo. Olhei para a direita e para a esquerda. derramei uma ou duas lágrimas por isso. a corrida para cá e para lá. agora parecia durar uma eternidade a pé. a srta. mesmo me considerando lenta pela inexperiência em conduzi-la. O bom e velho cavalo esperava pacientemente e estava como eu o havia deixado. Quando ele desapareceu no outro vagão. o que me trouxe uma lágrima aos olhos. mas contornando-a. o trabalho pesado para tirar e recolocar as pedras e placas de madeira. O que havia levado tão pouco tempo de charrete. ficando no primeiro. Tirei o chapéu. para carregar Theo. e sendo encontrada abandonada depois poderia levantar mais suspeitas. avançando e ganhando velocidade. pois já não queria chamar atenção para mim.

Mais de uma vez tropecei e caí. O vento aumentou e nos últimos quilómetros soprou diretamente contra o meu rosto como se tentasse me segurar. seu tutor e os criados dos Van Hoosiers começariam a se preocupar e sairiam para procurá-lo. é claro. cada morcego que passava me fazia encolher. onde. Se não o encontrassem na propriedade de sua própria casa. Então ergui os olhos e vi à minha esquerda. mas o encontrariam na entrada saindo da estrada principal. eu não conseguiria me explicar. O que tornou a jornada pior foi minha aflição. as chaminés de uma grande casa acima das árvores. eu havia largado o corpo ao lado da entrada. Quando Theo não voltasse para casa. Era a casa dos Van Hoosiers! Não estava a mais de meia hora de casa. Poderiam pensar que havia acontecido algo ruim em Blithe. Cada pio de coruja me fazia pular. Desesperei-me para pensar. Minha esperança era que tivessem encontrado Theo ao subir a entrada.John Harding 178 A estrada estava vazia e qualquer barulho me assustava. mas onde? Se estivesse muito longe. e tinha que sair da estrada e esconder-me atrás de uma árvore. o lógico seria procurá-lo em Blithe. deitar e dormir onde estava e deixar que me encontrassem e que fizessem comigo o que quisessem. Pois subitamente me ocorreu que havia uma parte do meu plano sobre a qual eu não ti-nha nenhum controle. talvez passassem por ele no escuro e continuassem em direção a Blithe. pois eu já não me preocupava. Algumas vezes ouvia carruagens se aproximando. com os criados fora e comigo ausente. algo que talvez envolvesse Theo — pois seria muita coincidência se sua ausência e a ausência de todos em Blithe não tivessem nenhuma ligação. onde sabiam que era visita frequente. Se entrassem na casa e descobrissem que eu não estava. machucando os joelhos e arranhando as mãos. Acelerei o passo e com o coração na boca passei pela entrada dos Van . encontrariam a casa no escuro e nenhuma resposta ao bater na porta. Como exatamente havia deixado Theo? Era óbvio que seu pessoal não conseguiria pegar o atalho pelo bosque até Blithe porque seria impossível no escuro. alguns metros à frente. Agora. Pensei em Blithe e em Giles e em tudo sendo como era antes e sen-ti-me entusiasmada.A menina que não sabia ler . Em determinado momento estava tão cansada e a estrada à frente parecia tão sem fim que decidi que poderia desistir.

Mas ninguém apareceu. estava tão imóvel e pálido sob a luz do luar que parecia um cadáver. pois no fundo temia ter dado a ele uma dose muito forte de clorofórmio e afligia-me pensar que pudesse ter feito exatamente o que mais temia. Arrastei-o assim até a porta do alçapão e o deitei com os pés virados para o buraco. sentei-me à mesa e os devorei como se não comesse há dias. cortei uma grande fatia de pão e um grande pedaço de queijo. o que. e pareceu outra eternidade até ver a entrada da casa. Felizmente ele era muito pequeno e leve. Eu o sacudi e ele se mexeu. Mas. sem dúvida. peguei o atiçador e acendi o fogo. Taylor nas chamas e observei até que se transformasse em cinzas e não pudesse nunca mais ser visto. os primeiros raios vermelhos da alvorada dedilhavam o céu e eu . fui direto até a cozinha. Pulei o corrimão e subi. vi seu peito subir e descer suavemente e finalmente pude eu mesma respirar. Finalmente. Atirei o chapéu da srta. A essa altura eu tropeçava a cada passo. Parecia estranhamente vazio sem ele. Meu problema agora era como fazer para levar Giles de volta para sua cama. Estremeci com o que havia acontecido ali e. ao pensar a respeito. Abri o fogão. Estava sentada havia meia hora quando meus olhos começaram a se fechar e eu sabia que estava na hora de me mexer de novo ou do contrário ficaria dormindo até os criados voltarem e me encontrarem. encontrando novas energias por estar tão perto. Dentro de casa. era a pura verdade. ao abrir a porta que dava para a escada. Então atravessei o longo corredor até os pés da minha torre.A menina que não sabia ler . Havia tirado Giles da minha mente ou não conseguiria fazer nada. desci os primeiros degraus e fiquei com a cabeça e os ombros na abertura. quase esperei encontrar a sombra de Theo estendido no corrimão. Nesse momento quase o larguei. lá estava ela. murmurando algo que não entendi. Quase gritei quando levantei a porta do alçapão e o encontrei ali deitado.John Harding 179 Hoosiers e temi por um momento que os criados da família pudessem vir correndo. à procura de Theo. com os pés alguns degraus acima dos meus. pois me assustei subitamente ao ouvir o canto de um galo. Deixando-o ali. Fiquei atrás dele e coloquei os braços em torno de seus ombros e o levantei para colocá-lo sentado. e por um momento ou dois não consegui me aproximar dele com medo de confirmar meus piores pensamentos. tão cansada estava. servi-me de um grande copo de leite. Então puxei Giles para mim. quando o fiz. Puxei-o pelos pés e ele acabou deitado nos degraus. e subi praticamente trotando. E.

Deixei Giles deitado e voltei para fechar a porta do alçapão. Estava muito cansada e queria dormir e. coloquei-o de pé e desta vez o carreguei nos braços. Era a última coisa que eu precisava fazer. de forma que ele acabou deitado no corrimão. não foi um grande tombo e não quebramos nada. Agora era mais fácil. Pensei em deixá-la ali. ele em cima de mim. de forma que caímos os dois no chão. mas foi forte demais e perdi o equilíbrio. disse a mim mesma. dobrei e ergui uma de suas pernas e joguei-a por cima do corrimão.A menina que não sabia ler . Um livro. Ao sair do quarto. pois duvidava que tivesse força para o menor esforço. Dei um puxão em Giles. na pequena cómoda ao lado da cama do meu irmão. agradecendo por ser alta e forte e ele. E então lá estava. Já tinha começado a me virar quando reparei que havia algo destoante no quadro do meu irmão dormindo tranquilamente. pois logo os criados estariam de volta. eu na frente e depois puxando Giles. fiquei em pé. Não importa. Segurando-o para que não caísse. parei à porta e olhei para ele por um minuto para observar a respiração em seu peito e ter certeza de que estava tudo bem. encostei Giles de forma que sua cabeça caiu por cima. até chegarmos ao primeiro lance de degraus. coloquei o ombro debaixo do dele e carreguei-o pelo resto da escada como ele me havia ajudado quando machuquei o tornozelo. Quando chegamos ao ponto em que precisávamos pular o corrimão. . onde o despi. embora não conseguisse entender o que era. vesti-o com a camisa de noite e coloquei-o na cama. afinal. pequeno e leve. Taylor.John Harding 180 sabia que devia me apressar. John Harding Subi com ele até seu quarto. De volta ao meu irmão. como se Giles levasse algum livro para a cama! Fui até lá. Descemos um degrau de cada vez. suas malas estavam feitas e na verdade isso devia ter acontecido. recuperando o fôlego. Empurrei Giles para tirá-lo de cima de mim. O que eu temia agora era o corrimão. peguei-o e reconheci imediatamente a Bíblia da srta. Quase rejeitei o pensamento como tola ilusão causada pelo cansaço extremo. pois ao olhar para a cena nada vi de anormal. a última coisa. Então eu mesma pulei e fiquei do outro lado. como o pobre Theo. descansando por um momento. É claro. um braço e uma perna para cada lado. a mesma em que havia encontrado as passagens de navio. não era algo impensável que a tivesse esquecido.

Respirei aliviada. A parte de cima da foto queimou primeiro e o rosto da malvada escureceu e desapareceu. o corpo sem o rosto zombeteiro. mas era tarde demais. peguei o atiçador. pois mal conseguia ficar acordada. mas com aquele mesmo olhar determinado. Mas agora era tarde demais e disse a mim mesma para esquecer. esfreguei os olhos e concentrei-me novamente no rosto da mulher e então eu vi. lá estava novamente. Meus olhos doíam tanto de sono que mal conseguia focar a visão. e eu quase desejei não ter queimado a fotografia. e minhas pernas enfraqueceram e tive medo de desmaiar. É claro! Era a srta. para que a bruxa ardesse como certamente arderia no inferno. E então. pois era apenas minha imaginação. Peguei a Bíblia e entreguei-a ao fogo. no centro. Vi a língua das chamas lamberem as beiradas. Na cozinha.A menina que não sabia ler . esmagadora. Então era isso. pois tinha certeza de que. mexi de novo o fogo e estava prestes a jogar o livro nas chamas quando alguma coisa voou como uma borboleta até o chão. e então acabou. só que mais jovem. abri o fogão. Busquei na lembrança. a sensação de uma lembrança que eu não podia alcançar. Taylor. Coloquei-a debaixo do braço e desci. descobriria muito mais. mas não consegui lembrar e quase a rasguei. quando olhei para o que restava. tropeçando como um bêbado no caminho. um pequeno bebê. Pobre Giles. Havia algo familiar naquela jovem mãe. Tentei tirar a foto do fogo. e eu não queria que restasse uma sombra de dúvida de que ela havia ido embora. depois a fotografia.John Harding 181 Mas podia levantar suspeitas o fato de não tê-la levado. onisciente. algo na sua postura ou no vestido. Giles nunca saberia. Abaixei-me para pegar e vi que era uma fotografia. cansada além do suportável e vendo coisas que não existiam. ardeu nas chamas e tive que me afastar para não me queimar. Um jovem casal e. como se eu já tivesse visto aquela foto antes. estava tudo explicado. frustrada com essa sensação. A lembrança perdida incomodou-me durante todo o caminho até o andar de cima. era isso o que eu havia reconhecido. Balancei a cabeça. . e fiquei olhando para a imagem sem conseguir entender o que via. só que agora mais forte. sem as linhas que o tempo gravara em seu rosto desde então. se tivesse tido a chance de examiná-la adequadamente.

estava a caminho do meu próprio quarto quando outro pensamento me ocorreu. Não estava ali. O pano tinha um cheiro forte e estranho. E se eles saíssem à procura da srta. forte como se fosse a própria flor.. mas não tão estranho quanto clorofórmio. . Especialmente se a polícia estivesse envolvida. os estábulos. Corri até o quarto da srta.A menina que não sabia ler . Levantei-me imediatamente. pois ninguém o encontraria ali. talvez? Como imputaria isso à srta.John Harding 182 Quando cheguei ao meu quarto havia plena luz do dia. Inclinei-me sobre ele. mas não acordou. Taylor? Ou todos iriam simplesmente supor que tivesse algo a ver com ela? Ocorreu-me que. Ele fedia ao líquido. JohnHarding Estava colocando a bacia e o sabonete no lugar quando outro pen-samento me ocorreu e quase deixei cair o que tinha na mão. Ele se mexeu e sacudiu a cabeça. parabenizando-me. Suspirei aliviada. E se eu o tivesse deixado cair na charrete? Ou em outro lugar. Senti o perfume. Tivera um pesadelo. Peguei um pano. Virei-me e fui até a torre. no quarto da torre. como o da cirurgia no dentista e. Ele ainda dormia tranquilamente. se não o tivesse deixado cair. o que poderia parecer estranho para Giles. cobri-o com o sabonete e passei no rosto dele. O clorofórmio! Que idiota eu tinha sido para cometer um erro tão simples! Saltei da cama e corri até o quarto de Giles. Taylor? Não era algo além do reino das possibilidades que alguém pudesse sugerir uma espiada na velha torre. pois um homem como Had-leigh não deixaria de revirar uma única pedra. mas então um punhal atravessou meu coração. De repente senti uma mão em torno do meu pescoço agarrando-me por trás e outra cobrindo minha boca e meu nariz com um pano de forma que quase sufoquei. então ainda estava onde eu o havia usado. Coloquei um pouco de água na bacia e levei-a até o quarto de Giles. como se mesmo no sonho os meninos tivessem aversão natural pela água. Assim. O que tinha feito com o vidro de clorofórmio? Apalpei os bolsos. Comecei a relaxar novamente. Taylor e encontrei um tablete de sabonete junto à bacia.. pensando em voltar a dormir. Cheirava a lírio. Cansada demais para me despir ou mesmo para puxar as cobertas. Acordei e descobri que estava sozinha na cama. No fim ele cheirava a lírios. caí na cama e peguei num sono profundo.

ela simplesmente foi embora. Desci pela porta do alçapão e corri escada abaixo. pois olhei para a entrada e lá vinha a carruagem. Entrei pela porta de trás quando os criados entravam pela frente. pois precisava engolir para limpar qualquer dúvida da minha garganta. Quando a viram pela última vez estava embarcando em um trem para Nova York. Hadleigh olhou-me tão longamente que fiquei desconfortável a ponto de ter que falar novamente. Quando viessem verificar por que não havíamos descido para tomar café. tampei e atirei o mais longe que pude no lago. — Sim. Podia deixar o vidro ali. e depois o pano. ela se foi. Taylor a dormir. 32 — Então. Virei no corredor para a escada do fundo quando Meg e Mary surgiram no corredor abaixo. Nessa hora.A menina que não sabia ler . Não restava nada que pudesse me denunciar. tinha que agir depressa. um movimento atraiu meu olhar. Saí pela porta de trás e fui até o lago. pois seria ainda pior se me pegassem com o vidro nas mãos. rasguei-o em pedacinhos e atirei-os ao vento. a primeira coisa que vi foi o vidro. Nem se despediu de Giles. . Não consegui evitar um sorriso. Inclinei-me sobre a água. Subi para o quarto e peguei-os. eu estaria dormindo tranquilamente em minha cama. — Uma noite. Pobre Bluebird. Pude ouvi-los tagarelando alegremente. Por outro lado. mas podia acontecer uma busca antes que eu tivesse a chance de voltar. Não pude evitar pensar que isso ajudaria a srta. ficou no frio durante toda a noite. parece que ela se foi? Tomei um gole do meu chá. empurrando-o até que caísse no abismo.John Harding 183 Colocando a cabeça através do buraco do alçapão. Voltei para a casa e no poço coloquei o pano no vão estreito entre duas placas de madeira. enchi o vidro. Era um risco que não ousava correr. onde eu os havia deixado. Arranquei o rótulo do vidro. Os criados estavam de volta! Fiquei indecisa. Deixou o cavalo e a charrete na estação de trem. Era isso! Havia cuidado de tudo.

— E esse acidente da sra. talvez tenha sido por sua causa. o mesmo olhar penetrante. . quem sabia que pedras ele poderia revolver? — Tenho certeza de que a sra. — Acho que estava errada em relação a isso. Fazia quase um mês que a srta. Ele havia aparecido logo depois de ter voltado. depois de John Harding ter mentido a respeito de suas referências e tudo o mais. Então encolheu os ombros e colocou a xícara e o pires na bandeja do chá. sim. Eu o acompanhei até a porta. Lá tudo estava coberto de branco. Taylor quando isso aconteceu. senhor. Ele se virou e olhou para mim. levou sua xícara e pires até a janela e ficou olhan-do para fora.A menina que não sabia ler . — Bem. — Sim. então balançou a cabeça e tomou um gole do seu próprio chá. Exceto pelo fato de não conseguir se lembrar do dia do acidente. Grouse lhe diria o mesmo. se conseguisse lembrar. Grouse? Ela nada teve a ver com isso? — Ah. se fora. ela está fazendo progressos. Taylor sendo responsabilizada por aquilo e Hadleigh saindo à procura dela. — Pelo que sei. — Sem Giles. senhor. — Bem.. Estávamos em dezembro agora e tínhamos tido muita neve.John Harding 184 Ele me encarou de novo longamente. Não teve nada a ver com ela. como se fosse de mim mesma. Inclinei a cabeça.. Taylor. Talvez imaginasse que seria demitida de qualquer maneira. senhor. Ele tomou outro gole de chá. não. especialmente de uma acusação que eu sabia ser verdadeira. Ela se foi logo depois disso. mas a última coisa que desejava era ver a srta. O dr. — Por que acha que ela faria uma coisa dessas? — Bem. — Se conseguisse lembrar-se de alguma coisa. é melhor eu ir. — Estranho que tenha ido dessa maneira — ele disse. está praticamente igual ao que era antes. eu estava com a srta. Olhou-me desconfiado. Ele ficou em pé. Eu ri. Senti-me estranha defendendo minha velha inimiga. Brad-ley espera que ela possa retomar suas obrigações em algumas semanas. Estou feliz que tenha dado tudo certo. Estávamos na saleta. Mostrei a ela sua carta.

é o fracasso do tratamento que faz com que tudo pareça pior para ele. pois não salvou Theo. um médico detesta perder um paciente. mas no último momento ele se virou e saiu caminhando para a lateral da casa. senhor.A menina que não sabia ler . essa é uma maneira de ver as coisas. ele era tão jovem. — O que aconteceu com o espelho? Segui seu olhar até a moldura vazia. — Bem. — Meu Deus. pois quando Giles acordou de seu longo sono naquele dia não se lembrava de ter estado lá. Ele encolheu os ombros e saiu. — Não é só isso. Um mal terrível. e a doença talvez tenha que esperar muitos anos por um tratamento como o que ele acreditava ter encontrado. — Ora.John Harding 185 — Sim. pois Theo nem tinha vindo nos ver naquele dia. Ele pareceu chocado. Grouse se recuperar e escrever ao meu tio sobre o que aconteceu. senhor. Quando a sra. Van Hoosier. O dr. Ele me contou do sonho que havia tido. — O jovem sr. — E vocês terão uma nova preceptora. Está toda de preto. Fechei a porta e saí pelo longo corredor e poucos minutos depois estava em minha torre. — Ah. sim. Hadleigh olhou-me de alto a baixo. com Theo e ele juntos em um castelo. imagino. graças ao senhor. Ele se virou para a porta e saiu. — Agora é que reparei. quebrou. Estamos todos consternados por ele. senhor. senhor. então a morte do jovem é uma tragédia dupla? — Pelo menos agora o pobre Theo está livre do seu sofrimento. sim. — Asma. Bradley. e depois . Ele parou na entrada e colocou o chapéu e o casaco. — Ah. De repente. mas eu disse que aquilo era impossível. Agora diz que o experimento falhou. Disse que parecia tão real que achava que devia ter sido verdade. — Sim. e fui atrás dele pelo salão e segurei a porta da frente. Ele passou o dedo pela beirada do chapéu. Eu o vi caminhar até o cavalo. Bradley acreditava ter resolvido o problema da asma com aquele spray que inventou. eu acho. especialmente o dr. Ainda era meu esconderijo especial.

Giles e eu juntos. Fiquei imaginando como seria nossa nova preceptora. Atravessei para o outro lado da torre e o vi surgir na frente da casa. Abruptamente. Ele atravessou a neve até seu cavalo e montou. Lançou um último olhar na direção da casa. levaria algum tempo até encontrarem outra professora. Hadleigh virou-se e afastou-se do lago.John Harding 186 Giles disse que desejava que tivesse sido verdade porque aquele foi o dia em Theo morrera e ele gostaria muito de tê-lo visto em seu último dia de vida. Whitaker tinha desaparecido. Além disso. e ficou lá durante um bom tempo. Olhei pela janela e vi Hadleigh andando pela lateral da casa. Passou pelo velho poço sem sequer olhar e desapareceu em algum ponto abaixo de mim. de qualquer forma. e então virou o cavalo. . Nada perturbaria isso agora. para o lugar em que a srta. uma gralha preta no meio da neve branca. As coisas estavam como eram quando eram melhores. pois agora sabia seu peso. isso não me afligia mais. é claro. Sentei-me em minha torre e fiquei olhando para eles enquanto desciam pela entrada.A menina que não sabia ler . tanto que quem não conhecesse o lugar nem sequer adivinharia que ali havia um lago. Com sorte. E prometi a mim mesma que ninguém tiraria Giles dali. porque de alguma maneira eu havia prendido sua alma para sempre. E claro que agora estava congelado e sobre ele havia várias camadas de neve. olhando para a água. Contornou por trás e então começou a descer para o lago. até que aparecesse. cavalo e cavaleiro fundindo-se em uma forma escura. tinha Giles para mim. e até lá seria como devia ser. Imaginei se seria a Whitaker de novo e senti que não. Hadleigh sabia. tinha minha torre e.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful