A menina que não sabia ler - John Harding

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O Cisne Foi em abril, embora em meu espírito fosse dezembro, Que um pássaro ferido foi retirado da escuridão do lago, As penas brancas brilharam ao sol, e de sua boca escorreu a água negra, Enquanto por dentro minha voz gritava até pensar que meu coração iria se partir; Fui eu quem assistiu à sua morte, seguindo à deriva, à deriva, esperando em sua vigília Que Deus levasse sua alma.

PRIMEIRA PARTE

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É uma história curiosa a que tenho de contar, uma história de difícil absorção e entendimento, por isso é uma sorte que eu tenha as palavras para cumprir a tarefa. Se eu mesma digo isso, quando talvez não devesse, é que, para uma menina da minha idade, tenho um ótimo vocabulário. Extremamente bom, para falar com franqueza. Porém, devido às opiniões rígidas de meu tio em relação à educação das mulheres, tenho escondido minha eloquência, soterrado meu talento e mantido apenas as formas mais simples de expressão aprisionadas no cérebro. Tal dissimulação transformou-se em hábito e foi motivada pelo medo, pelo grande medo de que, se falasse como penso, ficaria evidente meu contato com os livros e eu seria banida da biblioteca. E, como expliquei para a pobre sra. Whitaker (pouco antes de sua trágica morte no lago), isso é algo que não acredito que possa suportar. Blithe House é um grande celeiro, uma mansão de pedra rústica com muitos cómodos, tão imensa que meu irmão caçula, Giles, tão rápido nas pernas quanto lento na cabeça, leva três minutos ou mais para percorrê-la; uma casa desconfortável e deteriorada pela prudência, negligenciada, com os gastos controlados rigidamente (meu tio ausente tendo perdido todo o interesse por ela), com vazamentos e buracos, traças e ferrugem, fria, mal iluminada, repleta de cantos escuros, de modo que, apesar de ter vivido aqui toda

A menina que não sabia ler - John Harding

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a vida até onde consigo me lembrar, às vezes, especialmente às vésperas do inverno, quando vem caindo o crepúsculo, sinto tremores. Blithe tem dois corações, um quente, um frio; um iluminado, outro sombrio mesmo no dia mais ensolarado. A cozinha, onde o forno está constantemente ardendo, é alegrada pela gorda Meg, sempre sorridente e com os braços enfiados na farinha, normalmente flertando com John, o empregado, que tenta conseguir um beijo, mas contenta-se com uma bitoca enfarinhada. Na porta ao lado, com o fogo estalando durante nove meses do ano, fica a sala da governanta, onde se pode encontrar a sra. Grouse sentada na poltrona costurando ou diante da escrivaninha às voltas com inúmeros papéis, tentando, como ela diz, dar sentido às coisas "sem pé nem cabeça" — o que me parece contraditório —, para que se encaixem. Esses dois aposentos formam um dos corações, o quente. O coração frio (mas não para mim! Ah, não para mim!) bate no outro lado da casa. Mal-amada e esquecida, exceto por mim, a biblioteca não poderia ser mais diferente da cozinha: sem lareira, fria até no auge do verão, gelada no inverno, as janelas escurecidas por cortinas pesadas jamais abertas, de maneira que preciso roubar velas para ler e depois limpar os pingos incriminadores do chão. De uma ponta à outra mede 104 passos meus com sapatos, e 37 na largura. Três homens poderiam ficar em pé, um em cima do outro, e mal conseguiriam tocar o teto. Cada centímetro das paredes, tirando a porta, as janelas e os assentos abaixo delas, está coberto por prateleiras de madeira, do chão até o teto, todas ocupadas inteiramente por livros. Nenhuma criada jamais entra aqui; o piso não é varrido, pois, se intocado por passos, por que deveria sê-lo? As prateleiras não têm marcas de impressões digitais, as escadas móveis para se chegar às prateleirasmais altas são mantidas sempre no mesmo lugar, os livros suplicando para serem abertos, todo o lugar relegado à poeira e ao abandono. Sempre foi assim (exceto quando havia governanta, mais adiante), ao menos até onde me lembro, pois aqui cheguei pela primeira vez há um terço da minha vida, quando tinha 8 anos. Ainda não tínhamos governanta, porque Giles, que é três anos mais novo que eu, e a quem se destinava a educação, era considerado jovem demais para a escola ou

A senhora poderia me ensinar em sua sala. não apenas as criadas mas também a enfarinhada Meg e John. mocinha. é que não estou certa de que seu tio queira isso. fui de prateleira em prateleira. se você fica em silêncio. nem mesmo os criados precisam saber. Ele deixou muito clara sua visão a respeito da educação das jovens. o que . — Sinto muito. nada falei da biblioteca e senti muito medo quando ela me olhou de forma estranha e disse: — Muito bem. pois. falta-lhes a persistência das crianças. srta. E então. Instintivamente. Depois. Grouse que me ensinasse a ler. Acho que ele diria que este não é o momento. Eu não contaria a ninguém. srta. Grouse colocara todo mundo à minha procura. e um dia estávamos brincando de esconde-esconde quando abri uma porta estranha. senhorita. pegando um livro atrás do outro. o que foi que a levou a ter essa ideia? Era uma daquelas perguntas que é melhor não responder. com xilogravuras e gravuras coloridas. talvez o suficiente para uma nova boneca. Alisou a testa. pedi à sra. que meu eu mais jovem não conseguiu vencer -. — A verdade. algo que fazia sempre com facilidade. mas por algum motivo isso me deixava ainda mais maravilhada. uma que até então sempre estivera trancada — ou assim pensava eu. mas poderia perder meu emprego. Ela riu e depois voltou a ficar séria. cada uma delas mostrando a miserável impotência do tracejar dos dedos. os adultos sempre partem para alguma outra coisa. Florence. Ela respirou profundamente e soltou um longo suspiro. todos os milhares — acho que milhões — de linhas codificadas com impressão indecifrável. A brincadeira foi logo esquecida. espirrando com a poeira ao abrir cada um deles. após receber uma reprimenda por ter desaparecido por tanto tempo que a sra. para me esconder dele ali. citações frustrantes logo abaixo.John Harding 3 para qualquer tipo de aprendizado. Grouse. por favor. ele não precisa saber. e se ele surgisse de repente eu poderia esconder meu livro atrás das costas e colocá-lo sob as almofadas da poltrona. realmente gostaria. — Esboçou um sorriso. Florence.A menina que não sabia ler . sra. — Mas vou lhe dizer uma coisa: sobrou um pouco dos recursos para as despesas deste mês. — Mas. Muitos livros eram ilustrados. E claro que eu não sabia ler. gostaria de poder fazer isso. e descobri esse imenso tesouro de palavras. provavelmente devido à sua rigidez.

seriam notadas à noite. longe de me desencorajar. Quando o levei até a biblioteca.A menina que não sabia ler . era melhor parecer comprada. Ele se satisfazia em ficar correndo para cima e para baixo pelas escadas e subindo nas prateleiras ou escondendo-se atrás das cortinas. que era fundo demais em alguns lugares. embora despercebidas durante o dia. passou despercebida por todos. Tínhamos apenas duas restrições: uma delas. crianças. ao contrário de nós. Como os adultos gostam de ver perigo onde não existe. esses mesmos adultos cautelosos não perceberiam o surgimento da ameaça real para nós. Lentamente. Apontava para um "s" ou um "b" e perguntava a ele qual era o som. ficar longe do lago. Mantendo-se à parte. você podia confiar nele. fazia muito tempo que haviam deixado de ouvir os passos inexplicáveis no escuro. talvez oferecesse. . a outra. Grouse. Assim começou a dissimulação em minha vida. mas é muito bom para guardar segredos. aprendi a ler sozinha. Giles e eu ficávamos soltos. e com alguma dificuldade. embora estivesse coberto com tábuas e lajes muito pesadas para podermos levantá-las. a partir daí e daqui e dali. embora pudesse manter-se entretido pelos desenhos coloridos de pássaros ou borboletas por uma ou duas horas. tive a sorte de encontrar uma cartilha de criança e. mas sua recusa em me ajudar. evitar o velho poço. passava horas e horas lendo. meu quarto tornou-se um depósito de livros. mesmo naquela tenra idade. ou então brincava lá fora. Podia ir e vir como bem entendesse. Depois que Giles chegou aos 8 anos e foi enviado para a escola. e por isso mesmo era apenas uma daquelas coisas com que os adultos gostam de se preocupar e não oferecia perigo nenhum para nós.John Harding 4 diria de uma nova boneca? Eu disse sim para a boneca. minha existência. No entanto. foi o oposto e apenas estimulou minha determinação. acabei decifrando o código. podíamos brincar do que quisés— semos na maior parte do dia. e como minhas ausências. Ficava na cozinha e roubava letras de John enquanto ele estava lendo o jornal. Eu. pois. entretanto. pouca importância deu aos livros. para evitar o lago ou os olhos indiscretos da sra. apesar de toda a sua conversa sobre fantasmas e monstros na casa. procurá-lo em um lago ou em um poço que em si mesmos não podem causar qualquer mal sem a in— tervenção da negligência ou malevolência humanas. meu irmão Giles não possui muitos talentos. na biblioteca. Um dia. Naqueles primeiros tempos. é claro.

simplesmente adorei. é claro. viajando centenas de quilómetros até aqui apenas no verão para fugir do calor da cidade.A menina que não sabia ler . Grouse sugeriu que eu mostrasse o lago a Theodore. Quis a infelicidade que Giles estivesse de cama naquele dia. Depois. passei para as histórias e logo consumi rapidamente o resto. de Gibbon. Acima de tudo. No último verão. Quando crescer e tornar-me escritora. recolhido em razão de uma forte dor de cabeça. Theodore. as histórias de Edgar Allan Poe. absorvi o Declínio e queda. apareceram. Parecia que. os Van Hoosiers. e sei que me tornarei. pretendo shakespearear algumas palavras. Shakespeare. se não houvesse palavra para o que queria dizer. a poesia de Longfellow. O que eu mais gostava em Shakespeare era a facilidade com que lidava com as palavras. Chorei pelo rei Lear. A ausência de Giles. Viviam em Nova York durante a maior parte do ano. tem doenças suficientes para nós dois. as pessoas da propriedade vizinha. eles tinham um filho. os romances de Sir Walter Scott. Whitman. Dickens. Trollope. desesperançando minha grande ambição. Comecei com Romeu e Julieta. Meu irmão é tão doente quanto eu sou saudável. Ele poetava o idioma. por isso entusiasmou-se por encontrar-me. Por inventar palavras. estranha paixão para uma garota de 11 anos. estavam todos lá. ele bate qualquer outro autor. tão logo o jovem Van Hoosier e eu atravessamos as portas.John Harding 5 essa parte da casa era tão pouco frequentada que fiquei atrevida e pouco me preocupava com o fato de alguém me ver entrar na biblioteca ou em perturbar o pó que ali vivia. Jane Austen. ele simplesmente a inventava. e o jovem não tinha quem o distraísse. Mas um autor destacou-se entre todos. Dessa maneira. George Eliot. Eu não tinha uma objeção . fiquei com medo de Otelo e aterrorizada com Macbeth. E já estou praticando. apaixonei-me pelo pen— tâmetro iâmbico. Wordsworth e Coleridge. Hamlet. alguns anos mais velho que eu. deu ao meu visitante a chance de soltar as rédeas comigo. tendo que cuidar dele e me preocupar. mas não existe nenhum teatro daqui até Nova York. a sra. filho único que queriam desentediar. obcecado que estava para que eu permitisse que ele me beijasse. Ele me incomodou. não muito antes de Giles ser enviado para a escola. Keats. Sentouse e examinou-me durante todo o chá. enquanto eu não tenho tempo para indisposições. Os sonetos emocionaram-me. Meu maior desejo sempre foi ver Shakespeare no palco.

Ele não se lembrava . en— direitei-me e olhei para ele novamente. enrolou-me com um versinho e. enquanto John perdia a batalha para o lábio trémulo. Giles estava feliz e rindo. Parecia um inseto gigante. mas Theodore era ainda mais alto. Propus-lhe um acordo. depois de ter forçado o beijo a que alegava ter direito. onde ele seria recebido pelos professores da escola. mas também com uma poesia ruim. o que não me agradava. sem metade da carne. Choramos. é claro. Garota idiota. eu queria que ele me desse um dia de verão. John. havia possibilidades aí. Grouse e eu. sendo como era. mas o jovem Van Hoosier não era um Romeu. Eu lhe daria permissão para o beijo que tanto desejava se ele escrevesse um poema para mim. Bem. e estava prestes a levantar-me para ir embora quando então ele deixou escapar. pelo menos a sra. Estávamos sentados lado a lado em um banco de pedra junto ao lago. Em pouco tempo estava arrancando a página em que havia escrito e entre— gando-a a mim. não muito mais jovem do que Julieta quando se apaixonou. apesar de novo. ele parecia um varapau. pois jamais fui dessas pessoas que gostam de ser olhadas de cima. assim você entenderá por si mesmo: Quem é que sendo um pouco inteligente Não gostaria de beijar Florence? 2 Giles foi mandado para a escola no último outono quando tinha 8 anos e. eu senti. sentando-me na outra ponta. mas ouso dizer que se pode imaginar o que aconteceu. Em vez disso. sem dúvida porque devo ter mencionado Shakespeare. Agora. afinal.John Harding 6 determinada. que havia visto Hamlet.A menina que não sabia ler . Nós o levamos na carroça até a estação. Eis como acabava a ode de Van Hoosier. por considerar suas atenções aborrecidas. Talvez. não só beijada grosseiramente. deixou-me chorando junto ao lago. conseguiu acompanhar os outros garotos de sua classe que viviam em lugares tão remotos quanto Blithe. sou alta para a minha idade. Tinha uma cabeça grande e olhos como bolas que saltavam das cavidades. e o colocamos no trem para Nova York. e realmente pensei que pudesse. Pus-me alerta. o que me impressionou bastante. onde não havia escola adequada. mas afasteime dele. a sra. esse rapaz não fosse tão iletrado quanto conseguia fazer parecer. ele puxou caderno e lápis e atirou-se à tarefa ali mesmo. Grouse e eu.

A maioria das garotas da minha idade com as mesmas condições de vida há muito tempo teria uma governanta. tinha ficado noivo. com seu jeito simples. amputada. embora a princípio isso não parecesse ter importância. infantil. se pudessem compartilhar não apenas o amor. que era muito belo quando jovem. não conseguia imaginar mais além. mas foi muito difícil. uma dica ou duas que John deixou escapar e ouvidos atentos aos cochichos dos empregados. se não casado de verdade. eu sabia pelas minhas leituras como eram cruéis uns com os outros. mas não estava à sua altura em termos de educação e refinamento. principalmente em internatos. destrinchei as razões. Com cuidadoso questionamento da sra. Durante toda a nossa vida. Fiquei feliz quando o trem finalmente começou a se movimentar e ele desapareceu em uma nuvem de fumaça. meu coração pesou. . Meu tio. assim ficou decidido. como se podia ver nos quadros a óleo pendurados junto à escada principal. Grouse. mas também as coisas da mente. ocupou seu lugar. Voltei para casa desolada. A jovem era extremamente bonita. Eu compreendia suas falhas e o amava por elas. mas eu sabia que isso não era para mim. tinha sido casado. situação que durou vários anos. sua vida juntos seria enriquecida. eu não sabia o que aconteceria com essa minha vida nova. Giles e eu nunca tínhamos nos separado.A menina que não sabia ler . enquanto eu mordi o lábio e fiz o que pude para sorrir de volta. Quando nos aproximávamos de Blithe House e a carroça saiu da estrada pegando o longo caminho ladeado por imponentes carvalhos tomados por ninhos. acenando e sorrindo para nós da janela. ou pelo menos profundamente apaixonado por uma jovem.John Harding 7 de ter algum dia colocado os pés em um trem e. ou. Uma vez a bordo. O futuro parecia promissor até que ela meteu na cabeça (ou isso foi colocado ali por meu tio) que era inferior a ele tanto nas coisas culturais quanto intelectuais. A jovem matriculou-se em uma série de cursos em uma faculdade de Nova York. Como ele se sairia sem a minha proteção? Apesar de não ter experiência com garotos. além de Giles e do tolo Van Hoosier. A ideia do meu pequeno Giles sendo brutalizado tomou conta de mim de novo justamente quando estava começando a me controlar. era como se eu tivesse ficado sem uma parte de mim.

mas conseguia imaginá-lo em uma poltrona grande. pois Blithe era uma casa abandonada pelas pessoas. provavelmente começou a beber. terminando por esnobá-lo intelectualmente. deitava-me em uma cama e imaginava que era a pessoa que havia perambulado por ali. e. que imaginava de vestido branco. madura para fantasmas. é claro. até onde posso dizer. estava quase acabando de ler quando percebi um som do lado de fora da janela. E logo meu tio voltou-se contra a educação das mulheres. isso era um evento . e depois de duas ou três horas. porque nunca o tinha visto. abrindo as portas e perturbando a poeira dos quartos vazios. sempre acabava por me lembrar das brincadeiras com Giles. a voz de um homem chamando. imagino. e o resultado foi que acabou considerando que havia superestimado meu tio. não admitia a ideia de ratos.John Harding 8 Bem. Às vezes. versada em música e poesia. Pelo menos acho que foi isso o que aconteceu.A menina que não sabia ler . eu percorria solitariamente a casa imensa. onde não imagino que pudesse ter tantos livros. podemos imaginar o que aconteceu. imaginando famílias inteiras e. Assim. Não demorou muito para que se tornasse letrada. como eu devia ter sido um dia. Enchia a casa com seus fantasmas. quando ouvia sons não identificados no sótão. eu me enfiava na biblioteca. e ficasse toda cheia de ideias. o que acontecia com frequência cada vez maior. e quando isso se tornava desinteressante. punha-me a procurar novos lugares para esconder quando ele voltasse no final do semestre. olhando para o espaço e pensando no que a educação havia feito com sua garota e como arruinara sua vida. Fechou Blithe House. a fumar e a perpetrar todo tipo de ações obscuras. Para me desemocionar. que comecei a acreditar que fosse real. A imagem dessa menina. Ele tam— bém se aculturou bastante. enterrando-me naquele coração frio que mais e mais se transformava em meu verdadeiro lar. deixou a biblioteca mofando e mudou-se para Nova York. Não tenho ideia de como passava seu tempo sem livros. com o rosto pálido para combinar. apesar de não lembrar muito bem quanto disso escutei e quanto minha mente criou. com bebida e cigarro. Em pouco tempo ela descarrilou. os olhos vazios no rosto antes belo e agora tragicamente arruinado. mas via uma menina. teatro e filosofia. Certa manhã me sentei com — lembro disso tão bem — Os mistérios do Udolpho. que era inevitável que encontrasse outro. Bem. rodopiando levemente pelas tábuas nuas.

voz humana do lado de fora. . e mais gritos. desde que. Nenhum som. vindo em minha direção. não adentrasse a sala. de mais de uma pessoa. saí. O som de Florence expirando. mas estava tão absorvida em minha história gótica que o barulho não atiçou minha curiosidade. onde interrompi Meg e a jovem Mary. por isso sei que deveria ter ficado surpresa e saído para investigar ime— diatamente. O que estaria fazendo aqui? A menina não sabe ler. Enquanto me dirigia para a cozinha. Se fosse descoberta seria o fim da minha vida. Então. Ouvi vozes na sala de estar ao passar na ponta dos pés e entrar na cozinha. e a voz de Mary. E então a porta da biblioteca abriu e Mary surgiu chamando meu nome novamente. de costas para a porta. Saboreei mais algumas páginas quando ouvi passos.A menina que não sabia ler . o hábito de falar sozinho. fiquei imaginando o que teria provocado aquele rebuliço. a voz de Meg: — Ela não está aqui. encostei o ouvido. nas minhas pegadas no chão. estava sentada em uma cadeira com braços grandes. Final— mente. sua tonta. Murmurei uma prece para que não reparassem nos muitos livros em cujas lombadas eu deixara a marca dos dedos. que conversavam ani— madamente. pois só John trabalhava do lado de fora. Rápida e silenciosa como um rato. cada vez mais alto. Arrastei-me até a porta. em vez disso. Florence! Srta. chamando "srta. abri a porta. e todos os lugares eram particularmente silenciosos agora que Giles não estava e nossas brincadeiras às vezes barulhentas tinham sido interrompidas. invisibilizando-me a quem quer que estivesse ali. e ele não tinha. Fechei o livro cuidadosamente e o coloquei de volta em seu lugar na estante. Meu coração disparou. a empregada. até morrer completamente ou ser levada pelo vento do outono que estava ganhando força lá fora. Congelei. Por sorte.John Harding 9 incomum em Blithe. mas ela tem que estar em algum lugar. Obviamente havia acontecido algo que exigia minha presença imediata. fechei-a atrás de mim e corri pelo corredor para colocar o máximo de distância possível entre mim e meu santuário antes de ser encontrada. — Bem. irritou-me. é claro. Florence!". Ao ouvirem a porta. Nunca lhe permitiram. como eu. O som da porta fechando. a voz começou a se distanciar. Livros nunca mais. seguidos por uma enxurrada de pés no corredor do lado de fora. mas dessa vez dentro. pode ser — respondeu Mary —.

uma jovem de verdade e não um nome em uma carta. é claro. rosado com as veias partidas como se fossem o delta do Mississipi e seus tributários. meu tio! Eu nunca o havia encontrado e sabia pouco a seu respeito. e então parei. — Peço desculpas. — S-sra. A respeito da minha educação. -Você tem ideia de que horas são. ou pelo menos livros. limpando a farinha do braço com uma batida do pano de prato. Ela se virou e saiu para o corredor. — Não se preocupe. exibia um grande sorriso. — O relógio deve estar errado. . Ele! Então era meu tio! Agora talvez eu pudesse fazer a ele todas as perguntas que queria fazer. Grouse. senhorita? — Ela apontou a cabeça na direção do grande relógio pendurado na parede oposta ao fogão e meus olhos seguiram os dela para ver o mostrador. Deixou a casa inteira preocupada. de acordo com seu retrato. Grouse. Uma visita! Quem poderia ser? Eu não conhecia ninguém. Grouse parou no corredor e voltou-se para mim. Onde é que você se meteu? Antes que eu pudesse responder. Fiquei grudada onde estava. srta. Florence — disse Meg. Talvez quando me visse em carne e osso.. Whitaker quando ela chegou. senhorita.John Harding 10 elas pararam de falar e ergueram os olhos na minha direção com um misto de surpresa e alívio. s-sinto muito. não deve deixá-lo esperando. talvez me permitisse ter uma governanta. Exceto. Indicava três horas e cinco minutos. venha comigo. era muito bonito. graças a Deus você está aqui. — M-mas isso é impossível — murmurei. porque ela e todos os criados tinham vindo para Blithe somente depois que eles morreram. o que seria endossado pela srta. Grouse. ouvi o som de passos atrás de mim e ao me virar fiquei cara a cara com a sra. — Bem. afora que.A menina que não sabia ler . senhorita. Seu rosto. mas é você quem está errada. -Você tem uma visita. A respeito dos meus pais. mocinha — rebateu Meg. minha querida — ela disse amavelmente. — Não há nada de errado com o relógio. Não pode ser tão tarde. Certamente vai ouvir umas boas da sra. — Oh.. sobre quem a sra. A sra. — balbuciei. Grouse dizia que nada sabia.

A menina que não sabia ler . — Se permitir. Depois. srta. Nervosa. por favor? Ele ficou parado. Minha mãe me trouxe para cá para que eu me recuperasse. Ela acha que estarei melhor aqui.John Harding 11 Talvez eu conseguisse cativá-lo e mostrar-lhe que não era como ela. mas isso estava fora de cogitação. A sra. A escola me mandou de volta para casa. — Eu tenho asma.. Ele caminhou na minha direção e sorriu. é claro. entrei e parei. — E-eu não sei muito bem — murmurei.. exibindo um sorriso. passando os dedos pela borda. Isso me deu vontade de tossir também. Florence? Eu sabia que gostaria. Florence? — perguntou a sra. a mulher que a cultura havia afastado dele. Van Hoosier. — Posso visitá-la. segurando o chapéu. sr. Poderão fazer companhia um ao outro. Assenti com a cabeça. então? — disse Theo.. Ele apontou a . — Por que. Giles foi para a escola. mas que tenha vindo nos visitar. — Isso não é ótimo. A sra. mas só depois do almoço. — Poderei vê-la todos os dias — disse Theo. desculpando-se. Grouse entrou na sala. ocupada.. Grouse. e foi imediatamente atacado por um acesso de tosse que durou algum tempo até ele conseguir tirar do bolso do casaco uma pequena garrafa de metal com uma bola de borracha. — Ela fez um aceno na direção de Theo. — Acho que sim. em tom triunfante: — Eu tenho asma! — Eu. por que estaria ocupada? Não sabe sequer costurar. Florence ficou num estado deplorável desde que o sr. andando pela casa sozinha. com o ar limpo. Ouvi alguém tossir. — Theo Van Hoosier! O que está fazendo aqui? Não deveria estar na escola? — Asma — ele disse. — Isso significa que posso. srta. como se fosse um vidro de perfume. no campo. — Esplêndido! — ele disse. Grouse parou na entrada da sala de estar e acenou para que eu passasse à sua frente. — Ocupada. é claro. A srta. eu não entendo. Senti vontade de cuspir em seu olho. — Não que tenha asma. — Talvez esteja.

Bradley. esperando que. — O primeiro é extraído das folhas do manjericão. mas não para mim. jorrando uma névoa fina em sua boca. por medo de que me encontrassem da próxima vez que saíssem à minha procura. Eu não tinha relógio. Lancei um olhar curioso para ele e depois para a garrafa. Grouse para pegá-lo. já passou a hora do almoço. Senti-me seriamente prejudicada. ele conseguiu deixar cair o cha— péu. Então. o que pareceu acalmar a tosse. Em primeiro lugar. Parece que funciona. — Tulsi e ma huang — ele disse. quando ele parou de tossir e estava de novo passando os dedos pelo chapéu. Grouse para minha anterior ausência. Mas a questão era mais fácil de apresentar que de resolver.John Harding 12 boca da garrafa para o rosto e apertou a bola. 3 Subitamente. recolocando a garrafa no bolso. o outro é uma erva chinesa usada há muito tempo no tratamento da asma. Bradley teve a grande ideia de colocá-los na forma líquida e com o spray jogá-los na garganta para absorção rápida.A menina que não sabia ler . Seguiu-se um silêncio estranho enquanto Theo absorvia lentamente que o assunto não era tão interessante para mim quanto era para ele. E então me virei e deixei a sala com o máximo de elegância que consegui. Finalmente. Grouse já estava tão farta de Theo Van Hoosier que não pensou em me interrogar a respeito do meu paradeiro mais cedo. O dr. em que a sra. teria que me certificar de que não deixaria de aparecer para outra refeição novamente. mostrou um sorriso fraco e disse: — Posso visitá-la agora. Não entendi. Ainda não almocei hoje. não tivesse despertado a mente da sra. — Talvez tenha passado a hora — eu disse -. — Invenção do seu dr. Então. minha existência ficou desaconchegante. ao me livrar de Theo. durante um almoço tardio. então? Afinal. eles bateram a cabeça um no outro. o que provocou a tosse e o chiado novamente. Ele está fazendo experiências e sou sua primeira cobaia. com todas as repercussões aí envolvidas. abaixando-se ao mesmo tempo que a sra. lembrei-me de algo a respeito da .

pois John já me avisara que o excesso de corda matava muitos relógios. logo criou outro. O tiquetaque do relógio tinha um volume satisfatório e pensei que finalmente não me sentiria mais sozinha ali. senti um tilintar. meus livros e algo próximo de outro coração batendo. que não era Theo Van Hoosier. Eu havia reparado nas horas ao deixar a cozinha e por garantia acrescentei quinze minutos para compensar o tempo de chegar à biblio-teca e encontrar a chave. escondido em um canto escuro. certamente não poderia caminhar pela neve com ela. A princípio. e tentei encontrar a chave. o tique-taque era tão alto que não poderia deixar de ser percebido. Fiquei assistindo alegremente. assim que terminei de comer. deslizei e abri caminho até lá. como tinha visto John fazer com outros relógios da casa. tendo o relógio resolvido um problema. Seria uma pena se acontecesse. mesmo que apenas na regularidade.John Harding 13 biblioteca que poderia desdificultar meu problema e. pois meu dedinho havia tocado em algo pendurado em um gancho pequeno. Eu precisava saber as horas durante minha permanência ali ou seria descoberta de qualquer maneira. Que seja. É claro que. Naquela tarde esfriou e nossa primeira neve do outono caiu. consolando-se com alguns versos ruins. Estaríamos eu. pensei que teria azar. mudo e despercebido. e lá estava a chave. cuja perspectiva de visitas diárias quase me desemocionou por ter encontrado o relógio. maior que eu. tomando cuidado para parar quando encontrasse resistência. . quando ia sair de mãos vazias da caixa. Estremeci e afastei esse pensamento. por isso era pouco provável que isso fosse acontecer agora. Fiquei com os dedos cruzados e o imaginei asmatizado em casa. Cautelosamente. e logo esse alguém se poria a imaginar quem estaria lhe dando corda até descobrir quem havia estado ali. Era grande. Se a sua asma era suficiente para impedir que fosse à escola. mas. era um risco que eu teria que correr. Pois se por acaso alguém se aventurasse pela biblioteca. torcendo para que isso significasse que Theo Van Hoosier não teria como fazer sua visita. Algo.A menina que não sabia ler . embora não tão alto quanto Theo Van Hoosier. Como não podia deixar de ser. Eu a inseri no orifício da frente e comecei a girar. abri a caixa. estava um relógio cuco. Além disso. além disso. ninguém jamais estivera ali em todos os meus anos de bibliotecagem.

ouvi a voz de Mary. corri para baixo. então não sou a única a fazer isso!). ao contrário de um livro. mas nos pés tinha um baú de carvalho com três cobertores grossos. meus dedos ficaram tão frios que eu mal conseguia segurar o livro e virar as páginas. Quase derrubei minha carga. E. Ali encontrei um quarto cuja cama despida estava coberta apenas pelo pó. Esperei alguns instantes até o som desaparecer. falando consigo mesma (Ah. eu não poderia simplesmente esconder um cobertor dentro do vestido. Não havia nada a fazer senão parar e aguardar meu destino. então precisava ser feito. porque. Estava na metade das escadas de trás e prestes a fazer a volta quando ouvi o inconfundível ranger de um dos degraus abaixo. vou ter que voltar para pegar. pois um seria tão difícil de esconder quanto três. esperando para ouvir outro passo. eu não conseguiria ler de qualquer maneira. Apesar de tentar bravamente. Aí juntei duas das grandes poltronas de couro. quanto mais manter a mente entorpecida concentrada. onde foi que coloquei aquela coisa? Eu tinha certeza de que estava em meu bolso. mas saí do quarto e fechei a porta atrás de mim com a habilidade de pés flutuantes. assento com assento. eu pensei. os três formando uma pilha tão alta que eu mal conseguia enxergar por cima deles.A menina que não sabia ler . No entanto. É claro que seria arriscado transportá-los até a biblioteca. — Muito bem. entretanto. seria completamente inexplicável. De nada adiantaria virar e correr. Era um fardo pesado e estranho. Ouvi um leve gemido de agradecimento enquanto a escada se livrava de seus pés e depois passos nervosos e apressados ao longo do corredor. Saí da sala e através da escadaria dos fundos subi até o andar de cima. Segurei a respiração. leitora determinada que sou. sem os cobertores. de uma forma ou de outra seria pega. Decidi levar os três de uma vez. e aninhei-me nelas com dois cobertores fazendo uma cama e o terceiro estendido por cima do encosto . Ou melhor. a queda da temperatura. Eu nunca ficava muito tempo na biblioteca no inverno porque não havia lareira e era muito gelado. atravessei a passagem correndo e escondi-me atrás da porta da biblioteca. menor o risco.John Harding 14 Com sua promessa de salvação. a neve dificultava-me em outros aspectos. se encontrasse com alguém no caminho. e quanto menos viagens fizesse. Mas ele não veio. Em vez disso. Maldita. e porque antes eu sempre tive Giles para me manter distraída em outros lugares.

meus dias começaram a ter um novo padrão. apesar dos meus esforços para programá-lo. Seria tão ruim quanto aquela vez em que perdi o almoço. estando os relógios sempre presentes em muito cómodos e algo frequentemente despercebido. dobrei os cobertores e os escondi atrás de uma chaise longue. Pensei que fosse perder a cabeça. Havia a possibilidade remota de que alguém ao entrar na sala não reparasse no relógio ou não depreendesse o significado correto caso isso acontecesse. ia na ponta dos pés até meu ninho. escorregava para fora da sala e corria para o almoço.A menina que não sabia ler . Procurariam por mim e ou o meu segredo seria descoberto ou mais tarde o arrancariam de mim. outras vezes. minhas tardes se complicaram. Mas. Li em algum lugar que o tédio gera grandes ideias e assim foi comigo. Pela manhã. Ela até me fez sentar um dia e começou a confundir-me com alguns pontos. a olhar pela janela para a neve ou brincando sozinha. Eu não tinha como saber a que horas ele poderia chegar e. que se pôs a perguntar como nunca havia reparado nisso. Desculpava-se alegando que tinha um tutor e ficava à sua mercê. Mas a ninguém escaparia meu ninho. se ficasse no escritório ou na cozinha esperando por Theo e ele chegasse tarde. Onde eu estava errando era na minha associação da leitura com a biblioteca. Às vezes aparecia logo após o almoço. e começou a falar que eu deveria fazer algo útil. Imaginei os quatro pilares. imagine se eu fosse para a biblioteca e o jovem Van Hoosier chegasse enquanto eu estava lá. e por isso ele precisava ser construído todos os dias. como aprender a costurar.John Harding 15 das poltronas fazendo um dossel. Ficava sentada girando os polegares. Foi isso o que fui obrigada a fazer nos primeiros dias de Van Hoosier. separei as poltronas novamente. ele se mostrou tão pouco confiável quanto era alto. O pior foi que meu fazer nada chamou a atenção da sra. eu perderia horas de precioso tempo de leitura. ela não imaginava como eu sempre havia conseguido me fazer sumir. Ao deixar a sala. Por outro lado. só chegava depois das quatro. assim que Theo Van Hoosier começou a aparecer. mas é claro que mal tinha um. Grouse. Assim. contentando-me com meus livros. quando eu desaninhava. quando na verdade tudo de que eu precisava era um lugar onde pudesse ficar só e de onde pudesse ficar de . Agora. até o relógio bater um quarto para a uma.

outras tantas tábuas tão grossas quanto. e a da ala oeste estava além dos limites permitidos para Giles e eu porque precisava desesperadamente de reparos. Imitavam o gótico. nunca foram tealizados. percebi. qualquer entrada tão árdua e difícil seria tão lenta que eu estaria entregue à descoberta na cena do crime se alguém decidisse aparecer por ali. cheias de ameias. mesmo que tivesse conseguido pular. e não eram mais usadas. Tão logo pensei nisso encontrei a solução. uma na ponta de cada ala. ir até uma das escadas que levavam para o resto da casa e depois subir de novo. como nas antigas fortalezas. na tarde seguinte. armada com alguns livros e pronta para uma tarde de leitura e vigília por Van Hoosier. para ir do quarto no primeiro andar para o outro no mesmo andar na parte vizinha da casa. o acesso foi-me completamente negado. Consequentemente. para evitar que Giles e eu sofrêssemos acidentes fatais. Coloquei os livros no chão e tentei tirar as placas.A menina que não sabia ler . com as limitações impostas por meu tio. pregadas à coluna central. Além disso. Atravessadas no fundo da escada. várias placas grossas. o que. Blithe House tinha duas torres. Em toda a minha conspiração havia algo de que eu esquecera. poderia ler e espiar de \( / em quando a entrada. pois cada uma tinha sua própria escada. a torre oeste tinha outra grande conveniência: ficava a apenas um pequeno corredor e uma escada de distância da biblioteca. colocadas ali. eu poderia ver toda a sua extensão curvilínea. bloqueando completamente a subida. Além disso. parti para a torre oeste apenas para dar de encontro com o mais terrível destruidor de esperanças aos pés da escada. mas elas estavam presas firmemente. Por isso eu podia ter certeza de que ninguém nunca iria até lá. como as placas e pedras sobre o poço. Do quarto mais alto de ambas. Suspeito que nunca tenham sido. então só consegui cortar um dedo para meu azar. naturalmente. mas não havia ponto de apoio. Se eu pudesse chegar lá sem ser notada. assim. A função das torres sempre fora mais decorativa que prática.John Harding 16 olho na entrada da frente para ver quando Theo Van Hoosier chegasse. Mas o que as torres prometiam era uma visão dominante da entrada. e os andares de cirna só eram alcançados a partir do chão. primeiro era preciso descer as escadas da torre até o térreo. Estava lacrimosa de frustração. pensei. Tentei colocar os pés em uma placa para pular. proximidade necessária porque eu teria que levar livros para lá. .

dei a volta em torno da escada. e percebi que precisaria ser cuidadosa e manter a cabeça abaixada para não ser vista de baixo. O topo da torre tinha apenas um quarto. e eu não teria gostado de apostar nisso. Dessa maneira. Subi até o primeiro andar. colocando os pés nos vãos. se eu me sentasse à escrivaninha poderia espiar a en-i rada e desde que não me mexesse excessivamente ninguém me veria.A menina que não sabia ler . sentindo quanto ficaria segura em meu novo domínio. levantei-me e descobri que poderia subir as escadas pelo lado de fora. e minha primeira tarefa era conseguir mais cobertores. Olhei ao redor para meu novo reino. o mais alto. depois até o segundo e finalmente passei por um alçapão até o terceiro. graças às pernas compridas. A ventilação dos painéis faltantes significava que o quarto seria sempre frio. As janelas tinham cortinas nos quatro cantos. empurrei os livros através de um dos vãos do corrimão. mesmo que fossem espertas o bastante para pensar nisso. poderia passar pela barricada e então. com janelas em todos os lados. então. de onde podia ver não apenas a entrada.John Harding 17 Peguei meus livros e tinha começado a me afastar. mostrando que o vento não era a única coisa que entrava por esse caminho. cerebrei uma ideia. por isso uma fina corrente de ar soprava pela sala. a própria Rapunzel acima do mundo que eu conhecia. Voltei correndo. Ainda assim. Havia uma chaise e uma escrivaninha com tampo pesado de couro. mas não havia outra maneira. e diante da escrivaninha uma cadeira de girar de capitão. mas. em minha torre de contos de fadas. Eu tinha esvaziado meu velho . Entediava-me ter que descer até o térreo e depois voltar a subir ao primeiro andar para minha gatunice. profundamente desconsolada com a perda das minhas tardes justamente quando acre— ditava que as havia recuperado. mas estavam todas presas. pular o corrimão e subir a escada. Não conseguia imaginar Mary ou a gorda Meg ou a gorducha sra. Podia-se tirar na cara ou coroa se havia mais pó na biblioteca ou nesta sala. Era mobiliado com parcimônia e parecia ter sido um estúdio algum dia. e havia fezes de pássaros no assoalho empoeirado. eu estava maravilhada. Grouse esticando a perna sobre o corrimão. Parei e olhei para baixo com satisfação para a barricada. Não importava. Alguns dos pequenos painéis dos vitrais estavam faltando. ( o loquei os livros no chão e fui fazer a varrição. Fiquei ali. o couro por sua vez coberto por uma fina camada de mofo. Tinha certeza de que ninguém seria capaz de me seguir. mas também o telhado do prédio principal. senhora de tudo o que achara.

cobertada em minha escrivaninha. baixando a guarda. esperando não ser vista pelos vãos. provavelmente — disse uma voz que reconheci como pertencente a Meg. Sem tempo para esperar! Atireime de cabeça sobre o corrimão nas escadas. talvez pensando em mim. que foi isso? — era a voz de Mary. . e perguntei-me se estaria feliz. Quando estiver aqui há tanto tempo quanto eu. roubei dois dos três cobertores que havia por luíxo e depois recoloquei as colchas. antes de segui-la. e atirei os cobertores pela barreira ao pé das escadas da torre. porque não poderia ter velas delatoras ali. meu Deus. bem no meio. Espionei-as por um buraco na barricada. — Reconheço que trabalho aqui há cinco anos e vi muitas coisas. mas só e podendo ler. mas descobri que havia ficado sem nenhuma. — Ora! Você não acredita nessas bobagens. pensando — não sabia por que — em Giles. você verá. pelo corredor principal. pegando uma pá de lixo para a qual evidentemente tinha varrido algo. De repente senti uma pontada. arranquei as colchas. Mas encontrei alguns quartos de hóspedes mantidos de prontidão para o caso de aparecer alguma visita e. Lembrei que uma vez havia cortado em duas uma carta — a rainha de espadas -. Tinha acabado de transportar-me para o lado de fora da escada quando a porta do corredor principal foi aberta. tremendo um pouco quando soprava o vento. quem em Blithe — além de um fantasma trémulo — roubaria um cobertor? Certifiquei-me de que o caminho estava livre e corri pela escada até o térreo. mas não conseguia imaginar por que alguém notaria. Examinei o que havia feito. Ela desapareceu lá dentro. Havia deixado as camas mais magras. uma imagem em cima e a outra embaixo. pensando em fazer duas rainhas de uma. princesada em minha torre. acredita? — A voz de Mary traía certa falta de confiança nas palavras que havia murmurado. — Fantasmas. Meg ergueu uma das so— brancelhas. Mary fez uma careta nas costas da outra. e se uma criada refizesse a cama provavelmente nao suspeitaria.John Harding 18 baú de cobertores para a biblioteca e não tive a fortuna de encontrar outro. pelo menos até começar a escurecer. onde caí atrás da barricada. — Ai. Afinal. E então ela abriu a porta do corredor principal de novo.A menina que não sabia ler . você verá. — Dizem que Blithe é cheia de fantasmas. Então ali estava eu. longe na escola.

A única mosca na minha sopa. não podia entregar-me demais às palavras que flutuavam diante dos meus olhos e na minha cabeça e desconcentrar-me do meu destino. calculei que o jovem Van Hoosier ficaria à vista por quatro minutos e meio. apropriada para minha torre. filosofia. ele poderia chegar até a . Bibliotecária as manhãs com livros sólidos. e pensei que assim era eu sem Giles. caso contrário. decidi medir quanto tempo Hieo Van Hoosier levaria para atravessar a entrada. Era tudo que faltava para a felicidade. também comecei a ensinar-me línguas e a elaborar um conhecimento passável de francês. carregando-os aumentariam as probabilidades de ser pega. que era uma parte da minha pessoa. italiano. pois jamais tinha ouvido alguém falando-as. então eu tinha quatro minutos e meio para chegar à torre. Como queria que começassem as férias logo para poder mostrar a ele nosso novo reino. Kadcliffe. e para ter certeza de que meus segundos tinham o tempo certo imaginei-os assim: um Shakespeare. e que meu dia de leitura teria duas partes separadas.A menina que não sabia ler . era que não podia ter um lapso de concentração. que tinha uma visão direta da entrada. se fosse ler alguma coisa pela manhã. que Giles estivesse ali para dividir comigo. Raciocinei que seria tolice ter que ficar devolvendo livros para a biblioteca depois de ter terminado meu dia na torre. três Shakespeares. desde o momento de visibilidade da torre até o momento em que desaparecesse de vista sob a varanda da frente da casa.John Harding 19 com duas partes inúteis por si só. segundo por segundo. Mas não estava. apesar de não garantir minha pronúncia nas duas primeiras. antigos mitos e Edgar Allan Poe. Resolvi por isso fazer um contrabando de livros para a torre (onde havia poucas chances de ser descoberta). As manhãs na biblioteca e as tardes na minha torre. quando ia para o quarto da torre depois do almoço. história e afins. não poderia continuar com o mesmo livro de tarde. latim e grego. Assim. onde eles ficariam até serem terminados. Isso significava que. para ter certeza de que Van Hoosier não estava à vista. dois Shakespeares. se não tinha relógio? Contei. primeiro espiava o escritório. Entreguei-me à sra. Se não estivesse. se eu demorasse mais e ele aparecesse sem ser visto no exato momento em que eu virasse as costas. porém. No dia em que ocupei minha torre. as tardes eram meu momento de fantasia. Dessa maneira. Por isso comecei minha nova vida. Como eu mediria o tempo.

tirar os sapatos (por medo de que meus passos correndo fizessem barulho no piso não acarpetado) e entrar no quarto da torre a tempo. ou seja. Grouse disse-me para esperar na saleta. Ressenti uma admiração por ele naquele dia ao olhar da saleta para a entrada (ainda não tinha encon-trado meu refugio na torre. A sra. ao olhar pela janela. Ouvi-a abrir a porta da frente e convidá-lo a sacudir a neve das botas. se alguém falasse comigo e eu perdesse o número. imaginei-me impermeabilizada contra o garoto Van Hoosier. durante todo o tempo eu tinha que ficar contando um-Shakespeare. dois-Shakespeares e. tive que voltar pela escada. Deixe-me dizer que era preciso esticar as pernas para chegar à torre naquele tempo. normalmente estava em duzentos-Shakespeares e tinha que subir pelo lado de fora da escada. 4 Naquele primeiro dia em que nevou. Mas também jamais alguém me disse que ter uma vida secreta seria fácil. Houve uma ocasião em tinha acabado de entrar e. Não só isso. voltava para o escritório novamente. mas cometi o mesmo erro que muitas pessoas cometiam comigo (quem imaginaria que eu tinha dois ninhos de livros? Quem imaginaria que eu francesava e shakespeareava?). Devoção obstinada e canina por mim. atirar-me pelo corrimão. é claro) e vê-lo majestando seu caminho Dela neve. julguei-o pelas aparências. tão mais vali. Se acontecesse de eu encontrar John ou Mary ou Meg ou a sra. Eu o via como uma espécie de erva alta forrageira. isa do que sua poesia jamais seria. vi o chapéu de Van Hoosier desaparecendo sob a varanda da frente. . Grouse e me atrasasse mesmo que por alguns segundos. percebi. pular o corrimão. isso impossibilitaria minha jornada no tempo alocado e significaria que eu teria de voltar e checar a entrada e começar tudo de novo. que se dividiria em duas sem a camisa engomada para mantê-lo na vertical. atirar-me para a parte de fora e entrar no corredor principal de novo antes que eles começassem a gritar por mim. seguindo-se um in-tei valo de pisadas prodigiosas.A menina que não sabia ler . Quando eu chegava ao fundo da escada da torre.John Harding 20 porta da frente e ficar fora de vista de novo antes de eu chegar ao meu posto e assim ocasionar toda a perigosa chamada e procura por mim.

sim. . posso? Ele o entregou agradecidamente. ou cruzar e descruzar as pernas. Mas. a porta da saleta abriu-se e a sra. estendendo a mão irritada. — Fria e branca — eu disse. Finalmente. E. Olhei duro para suas canelas e ele captou meu olhar e. dobrando-se como se tivesse dobradiças nos joelhos e no quadril. a sra. senhorita. Então ele disse: — Ah. quando voltamos a nos sentar. — Parece que sim — atirei de volta. que ela era a governanta e ama-seca. — Bem — ele disse. Sentou-se e ficou girando-o para cá e para lá. desta forma e daquela. Saí para o corredor e pendurei-o com seu casaco. Quando fechou a porta atrás de si.John Harding 21 Pouco depois. Como se nós duas não soubéssemos que eu estava ali sentada esperando por ele e. rodan-do-o com os dedos de uma mão para a outra. Finalmente pegou um papel dobrado e começou a desdobrá-lo. finalmente -. descruzando as pernas. eu disse: — Por favor. Eu não sabia o que fazer com ele. de um lado para outro. Muita neve. Posicionei-me em uma poltrona com braços para impedir qualquer possibilidade de aproximação e ele se acomodou no sofá. percebi que podia ter removido o chapéu. percebi que havia até negligenciado o chapéu de Van Hoosier. aqui estamos. levantei-me e aproximei-me dele. Grouse revelava que ela mesma não sabia como se comportar. — Está muito frio lá fora.Sentamo-nos em silêncio por mais alguns instantes. e no fato de adjetivar nosso convidado como jovem. pois agora ele não tinha nada com que mexer. Eu o convidei a sentar-se. Van Hoosier está aqui para vê-la. e não a anfitriã. Na verdade.A menina que não sabia ler . — O quê? Ele sabia que estava sendo gozado. Foi obrigado a voltar a estalar os dedos. Sentamo-nos e sorrimos educadamente um para o outro. mas não tinha removido o problema. e seu olhar trágico provocou-me uma pontada de culpa. Grouse disse: — O jovem sr. e ele não sabia o que fazer com seu chapéu. quase ia esquecendo — e começou a procurar nos diferentes bolsos de seu casaco e da calça numa movimentação desçonvinte de desconhecimento da localização de algo. quando o deixou cair pela terceira vez. pôs os dois pés firmemente no chão. como se eu estivesse muito acostumada a visitações. mas não conseguia entender como. Nisso. eu o exacerbara. também. Parecia insultado.

você não precisa conceder um beijo . especialmente por não carregar a ameaça de um beijo. quanto menos se falar a respeito do segundo verso Van Hoosier. por isso. Theo ergueu os olhos do papel e viu minha expressão. O olhar que lancei em sua direção era vários graus mais frio que a neve e quase suficiente para fazê-lo fugir de volta para lá. pode atirar. O máximo que se poderia dizer era que estava longe de ser tão ruim quanto o primeiro. mas continuarei tentando in . quando sugeriu que saíssemos. onde parecia que um ou outro deles estava sempre se agitando involuntariamente. ele se apresentou todas as tardes nas semanas seguintes.John Harding 22 — Escrevi outro poema para você. Seus membros compridos não se encaixavam facilmente em uma saleta. mais uma vez. derrubando uma mesinha lateral aqui ou tropeçando em um tapete ali. era uma referência ao meu suposto número de admiradores. — Maldição — ele disse amavelmente -. Ele amassou o papel e guardou a bola no bolso. — Ainda não está bom. Van Hoosier. como seu verso. Quando acabou de ler. não ao meu tamanho. eu não tenha ficado muito impressionada com a rima final de "Florence" e "crescente". sr. nesse caso. você vai ver. hein? — Não muito — eu disse. Depois de visitar-me algumas vezes. Ficava impossibilitado de sentir-se à vontade em ambientes fechados. — Ah. comecei a ver que. trovoava ou ventava como se fosse o fim do mundo lá fora.lesta vez. Não importava se caía uma nevasca. pois se ficássemos dentro era . fiquei aliviada. felizmente. Descongelei o rosto e recostei-me na poltrona. embora. — Bem. onseguir.A menina que não sabia ler . ele era como uma grande garça epiléptica. melhor. não só na versificação. na quarta ou quinta visita. está tudo bem. seu corpo esguio rimava desajeitadamente e esquadrinhava mal. Não há nenhuma questão envolvendo beijos desta vez. *** Bem. não. *** Nesta última ele se revelou tão bom quanto sua palavra. mas no enfrentamento da neve também. Não sou de desistir.

minha grande surpresa. *** . — Isto é inteligente? — eu disse. nos divertimos por algumas horas. corri até ele. Então ele sugeriu que fizéssemos um boneco de neve. mas estávamos apenas na metade da cabeça de tamanho considerável quando me lembrei do inverno anterior. Isso é a melhor coisa. Era tão cômico que na primeira vez desatei a rir antes de conseguir con — trolarme. e ele ficou terrivelmente encoberto. começamos. era preciso ficar longe. mas sim que este elemento estava tão nu e vazio de obstáculos que ele nada mais tinha a fazer senão cair no gelo. O que fez várias vezes. quando o ar está seco e limpo. e então tudo desmoronava como Uma cadeira dobrável. sem conseguir parar de bater os dentes. não que eu me importasse. Seria seguro estar com ele na neve e no gelo com todo aquele desajeitamento? Seus pais não me culpariam se um de seus braços ou pernas se quebrasse em vez da porcelana? Deus sabe que havia porcelana suficiente. um dia frio como hoje. enquanto ele se encachecolizava.John Harding 23 só uma questão de tempo até que alguma porcelana fosse quebrada. — Que nada. Mas ele sempre se recompunha com uni sorriso e depois de um tempo começamos a fazer bolas de neve e atirá-las um no outro. Só depois de colocarmos nossos casacos é que comecei a ter dúvidas. deixando no chão aquela figura disforme. temendo pelo que iria encontrar. — O que você quer dizer? — Bom. porque eus arremessos eram muito ruins e acertavam mais a si mesmo do que a mim. Então saímos e. e então. mas eu podia imaginar como ele ficaria perturbado. vendo isso. com sua asma e tudo. de forma que Theo. sair no frio. como tinha feito aquilo com Giles. e de repente congelei até o fundo da alma. São os dias tristes e úmidos que penetram no meu peito e me fazem tossir. Pensei nele encarcerado em algum lugar enquanto eu estava ali me divertindo sem ter pensado nele uma única vez durante duas horas inteiras. e senti-me culpada. insistiu para entrarmos. para minha surpresa. porque tal qual moinhos de vento seus grandes braços derrubavam a cabeça de qualquer um que estivesse no caminho e suas pernas balancavam no ar como as de marionetes. como a pilha de ossos não se mexesse.A menina que não sabia ler . Não que Theo tivesse perdido sua inaptidão neste novo elemento. pois não havia nada de valor em Blithe e ninguém para se preocupar de qualquer maneira. Quando isso acontecia.

pois. no dia seguinte chegou uma carta. ou puxões de cabelo ou queimaduras? Ou seria apenas uma figura de linguagem. Espero que a sra. Estou muito bem. Grouse. intimidação física talvez. é claro. apesar de suas cartas serem tão mal for— muladas que levava algum tempo para entender até uma breve epístola como aquela. . tive que ouvir os palpites da sra. Vou escrever para casa aos domingos. Querida Fio. a menos que tivesse sido instruído a não preocupar as pessoas de de sua casa falando a respeito disso? A carta arrancou-me lágrimas e naquela noite tentei decifrá-la novamente. mas com as risadas eu não me importo tanto. eu suspeitava. Giles O que significava "com as risadas eu não me importo tanto"? Tanto quanto o quê? Havia outras coisas com as quais ele se importava mais. mas não me importo. ou tapas. consegui com longo estudo. Grouse esteja bem. Espero que Meg e Mary e John estejam bem. A pobre mulher. Os outros garotos riem de mim por causa disso.A menina que não sabia ler . que era. uma forma de dizer que não sentia saudade de casa? Por que nem sequer mencionar o fato. entretanto.John Harding 24 Como se meus pensamentos tivessem sido mexidos pelos do próprio Giles ou os meus tivessem mexido os dele. tão letrada. faltando-lhe a minha facilidade com a palavra escrita. eu não deveria saber ler por mim mesma. é claro. maravilhava-se com a rapidez com que a escola o ensinara a escrever. Ele não era um grande correspondente. depois a coloquei debaixo do travesseiro para ver se assim eu me sentia mais próxima do pobre Giles. beliscões. Sou muito lento nas aulas. só conseguiu desbravar uns três quartos e mais ou menos inventou o resto. descobrir praticamente tudo. Espero que esteja bem. Antes de colocar as mãos na carta. ou iletrada. embora eu tivesse feito tudo o que podia para ensiná-lo a ler e a escrever. quanto meu próprio irmão. Mas quando eu a tive para mim. Grouse sobre o que poderiam significar os retorcidos hieróglifos. Não estou com saudade de casa. Vou terminar agora. obrigado. e conhecimento de Giles. totalmente ignorante desse fato. A sra. Seu irmão que a ama. Temos um tempo para isso e todos os garotos devem escrever.

voltar correndo para a torre. se não estivesse ali o visitante. Com um bom livro como Jane Eyre.John Harding 25 5 Você não deve deduzir a partir da tarde na neve com Theo Van Hoosier que eu era toda alegria desligada durante suas visitas. então. a gralha preta como uma mancha no lençol recém-lavado. subitamente esquecia que sete ou oito páginas. uma parte de mim combatia a deliciosa entrega a tal absorção dizendo três e meio. Com alguma margem para erro. que cada página tem uma mancha. Se fossem três páginas e meia. Nem sei dizer quanto isso era aborrecido. Havia muita coisa a desligar minha alegria. Havia também todos os momentos em que ele não aparecia. pela janela. pela primeira vez compreendi que não havia nada inteiramente bom e nada inteiramente ruim. então. Um dia. eu esperava todas as noites . Assim. dar uma espiada na entrada. Não eram apenas as longas e frequentemente inesperadas interrupções que as visitas causavam. Você deve se lembrar de que sempre que estava na torre eu precisava olhar a entrada a cada quatro minutos e meio. por essa mesma razão. ou até dez ou catorze. As vezes. tinham passado sem que eu olhasse. contrariada com esse método de leitura maluco de quatro minutos e. quandoo autor me cercava com um mundo inteiramente novo. Mas. estava na torre e ergui os olhos do livro. A neve perfeitamente branca. eu não tinha como saber se Van Hoosier tinha passado pela entrada sem ser visto durante essa negligência. todas as vezes que me deixava levar pelo livro. e. eu podia ficar subindo e descendo as escadas até quatro ou cinco vezes em uma única tarde. Quando isso ocorria. isso significava a cada quatro minutos. eu teria que olhar pela janela nesse intervalo. A cena era um retrato perfeito do meu novo estado de espírito. a única maneira de julgar o tempo era pelo virar das páginas. quando estivesse lendo na torre. mas nada mais do que a perturbação da minha leitura. pelo meu ritmo de leitura. Por isso. Era como tentar não pegar no sono. por isso não havia outra coisa a fazer senão fechar o livro e descer as escadas.A menina que não sabia ler . três e meio. e se ali estivesse igualmente sem Theo à vista. eu calculava o tempo de leitura de algumas páginas pelo relógio cuco. eu não tinha relógio e não me imaginava passando um relógio cuco por sobre o corrimão e arrastando-o escada acima. vi uma gralha bicando alguma coisa na neve. para determinar exatamente até onde iria durante quatro minutos. três e meio. é claro. antes de tirar um livro da biblioteca.

Bom. e não ele.A menina que não sabia ler . adquirindo a inconfundível forma desengonçada de Theo. Como era preciso manter os membros inquietos e desobedientes distantes da porcelana fina. apesar de não ter certeza do que isso me poderia trazer de bom. Theo abriu a sacola de couro que estava carregando com O floreio de um mágico tirando um coelho da cartola. Isso não oferecia a perspectiva de que a maior parte da vida escolar do meu irmão pudesse ser feliz e despreocupada. Theo estava sempre pronto para sai na neve. Então COrri. havia os feriados do Natal. . No salão. com talvez uma ou duas pequenas coisas de que ele não gostasse? Mesmo assim. mas felizmente o observei um pouco mais e então a corcova se mexeu. Imagine se a crosta de gelo Blli muito fina e se quebrasse e afundássemos e nos afogássemos? O que ela diria à mãe de Theo? Para mim. não tem? A sra. — Patins. — Que. Grouse era toda preocupação. a não ser para me tranquilizar? O que poderia significar senão que estava? De qualquer maneira. Enquanto isso eu lia iodas as manhãs e em algumas das tardes. Mas a gralha era uma mancha pequena e o resto era todo branco.John Harding 26 sombrias por uma pequena luz brilhante. e o resto organizou-M-.? — gritei. É claro que ninguém estava preocupado com o que diriam à minha mãe. vigiando Van Hoosier o resto do tempo. caiu de ii r i ostas e ficou pendurada em uma das mãos... a tentativa de nos deixar preocupada com suas dificuldades sociais em vez de com nossa própria morte não era a maneira mais correta de argumentar. O homem parecia IHn corcunda com uma grande protuberância na coluna. A gralha na minha paisagem era Giles. Isso me deu esperança. pulando o corrimão e disparando pelo corredor. quando Giles estaria em casa e eu poderia arrancar a verdade dele. pois pensei que devia ser algum entregador. mas fiquei calada. Um dia olhei pela janela da minha torre e vi uma figura curvada caminhando pela entrada e quase voltei para o meu livro. e todo o sofrimento que ele podia estar passando. por que ele havia dito que não estava com saudade de casa. você tem um lago lá fora. e todo o sofrimento que eu suportava com o grande buraco dentro de mim onde ele deveria estar.

ensinando-me. era uma pessoa diferente. nenhuma mesinha delicada ou porcelana fina. Grouse não mencionou nenhum possível embaraço com meu tio. Por insistência da sra. Desde muito pequeno. principalmente após os tombos e es— corregões na neve em torno da casa. mas que na água desliza serenamente. girando e fazendo volteios. Minhas pernas es— tavam determinadas a ir a direções opostas. Por sorte. pois nós duas sabíamos que ele lamentaria tal evento como um desembaraço. E gradualmente. um dia. gingando de um lado para outro. Em contrapartida. e minhas costas tinham intenções sedentárias. ele . assumindo o controle. Foi assim que me peguei erguendo os olhos de cada página. Grouse que havia patinado em lagos quando garoto e que nessa época do ano o gelo tinha pelo menos um pé de espessura. o que fez John revirar os olhos e sorrir quando ela lhe deu as costas. ele praticava muito todos os anos no Central Park e conseguia dar voltas em torno do lago em alta velocidade. Grouse. e depois se mantendo aí com grande dificuldade.John Harding 27 E. durante um período de algumas semanas. Theo revelou-se um patinador habilidoso. de forma que logo estava ficando dez minutos inteiros sem cair ou escorregar no gelo. a sra. e desengonçado como um inseto lutando para sair do chão e soltar-se no ar. Mas Theo foi gentil e ajudou-me. eu desesperançava da tarefa. minha cabeça tinha uma afinidade com o gelo e parecia querer estabelecer uma estranha amizade com ele. calhou de John estar passando por ali nesse momento e ouvir e interferir. em vez de a cada quatro minutos. significativamente. comandando-me como eu o comandava na terra desenvernizada. Ele garantiu à sra.A menina que não sabia ler . ele se transformou. Depois que colocou os patins. ele se comprometeu a nos acompanhar até lá fora e examinar cuidadosamente a superfície do lago para verificar se havia "alguma rachadura". Ele me fez pensar em um cisne. E então. sempre com graça e suavidade. que é igualmente desajeitado como caminhante. Acho que foi um grande alívio para Theo estar no lago congelado sem nada com que colidir. pois esperava ver Theo subindo pela entrada. ou tapetes para tropeçar e intranquilizar seu progresso. comecei a melhorar. Para minha grande surpresa.

Ao dobrar o bilhete e entregá-lo a mim (apesar de não saber o que ela. — eu ia dizer que nunca havia visitado ninguém. quando olhei ansiosamente por Theo e percebi que mal conseguia enxergar a entrada. exercícios extenuantes proibidos. . acrescentando. sendo o ponto mais alto e ocidental de Blithe. irei pela manhã. continue a patinar e dê uma ou duas voltas por mim. pois ja— mais precisara. O médico foi chamado. esperava que eu fizesse com ele). — Mas. Não era exatamente Walt Whitman. Colocou seus óculos e examinou-o.. exibindo um envelope que abriu tirando e desdobrando uma única lolha de dentro. É o que uma jovem dama deveria fazer. O bilhete terminava com um poema: Por Florence eu sairia Mas a asma com a Hasma não permitiria. tremendo no silêncio mortal da torre. que me acreditava incapaz de ler. Agora eu percebia. mas isso nunca o impedira antes. Giles e eu nunca havíamos brincado com outra criança. Sinto por não poder ir hoje. É o que esperam. eu ainda conseguia ler. Van Hoosier — ela disse. Eu estava lendo O monge. Teria sido proibido por seu tutor? Talvez algum novo trabalho o tivesse mantido ocupado? Encontrei a sra. — Onde você estava? — ela perguntou irritada. Gostei deste.A menina que não sabia ler . — Muito bem.John Harding 28 simplesmente não apareceu. Mas Giles saindo de casa e Theo visitando tinham mudado isso. Grouse na cozinha. era onde o sol permanecia por mais tempo. ficando com os cabelinhos da nuca em pé. Esse era um dos motivos por que me preocupava tanto com ele na escola. Cara Florence. pois a torre. perguntar a respeito dele. havia nevado pesadamente naquela manhã. a sra. Grouse disse: — Você deve visitar os Van Hoosiers.. e começou a ler. A asma é minha companheira esta tarde. Mas era melhor. — É do jovem sr. antes que eu pudesse responder: — Chegou um bilhete para você — ela disse. Fechei o livro e desci. pois não conhecíamos nenhuma. muito melhor. pois a claridade estava desaparecendo rapidamente. Por favor. O que poderia ter acontecido com Iheo? Por que não tinha vindo? Verdade.

Enquanto eu olhava. era como se uma mão gelada a agarrasse e eu mal pudesse respirar. uma forma. Ela olhava para o rosto adormecido do meu irmão — pois ele jamais acordava — e dizia sempre as mesmas palavras: "Ah. no sótão. Alguma coisa bloqueava minha garganta. como a estufa. Grouse dizer que eu estava me tornando uma jovem dama e não deveria mais ficar em um quarto com meu irmão. as caminhadas aconteciam perto da lua cheia — e eu olhava e via uma forma inclinada sobre a cama de Giles. mas nunca consegui. é claro. Então a mulher colocava o manto em torno de Giles e. eu poderia comê-lo!". Nele eu estava em minha cama. mas que eu compartilhava com ele até a sra. No entanto eu sabia como as caminhadas sempre começavam. Ela colocava rapidamente o capuz de volta na cabeça e saía silenciosa e ligeira do quarto.John Harding 29 E a sra. um vestido preto de viagem com manto e capuz. e só com um esforço sobre-humano é que eu finalmente conseguia erguer . uma mulher. Grouse sorriu e pude sentir seus olhos em minhas costas enquanto eu caminhava até a cozinha para perguntar a Meg que docinhos ela poderia ter que eu pudesse levar para Theo. Então o capuz do manto sempre caía para trás e eu captava um vislumbre do seu rosto. exceto de acordar em lugares estranhos. e uma vez no quarto de Mary. embora longe de ser sempre. Meu corpo era como chumbo. ela colocava os braços em torno de Giles e — ele era sempre muito pequeno no sonho — tirava-o da cama. toda vestida de preto. 6 Não sei dizer quando começaram as caminhadas noturnas. Eu acordava e o luar brilhava através da janela — muitas vezes. meu querido. mas era como se estivesse presa à cama. Nesse momento do sonho eu queria gritar. e. só que era sempre no antigo quarto das crianças. ao fazer isso. por exemplo. pois eu as tinha até onde ia minha memória.A menina que não sabia ler . como realmente estava. Eu queria segui-la. que agora era apenas de Giles. No começo isso era tudo. vira-va-se abruptamente e parecia ver-me pela primeira vez. era com um sonho. e o sonho era sempre o mesmo. e várias vezes na cozinha. das caminhadas em si eu não lembrava nada. mas gradualmente fui percebendo que era uma pessoa. levando meu irmãozinho com ela. E seus olhos realmente tinham um brilho faminto.

como sempre os atraiu e prendeu. Sentava-me e tentava gritar. depois sumindo para reaparecer novamente através de outra janela.John Harding 30 braços e pernas. toda de branco. ela podia ter ido tanto para a direita quanto para a esquerda. E então. quem quer que fosse.A menina que não sabia ler . Ali eu olhava para ambas as direções do corredor. movimen-tando-se lentamente pelo longo corredor. que estariam me observando. Eu colocava os pés no chão. Giles. Florence. E a sra.. eu acordava. Não adiantava tentar avaliar as coisas. firmava-me em pé e caminhava lentamente — os membros ainda não funcionavam como eu gostaria. Como eu não me lembrava de absolutamente nada da parte da caminhada do sonho. Tinha certeza de que entraria e encontraria todos na casa mortos em suas camas. mas me benzi ali mesmo. e eu estava perdendo um tempo precioso especulando. Normalmente eu gostava de caminhar pela longa galeria. John me contou que. o que eu sabia das minhas caminhadas noturnas vinha das observações das outras pessoas. mas não sabia para que lado a mulher tinha ido. srta. eu não sou católico. Quando eu acordava. mas provavelmente cercada pelos criados. mas nada acontecia. ele nada sabia a respeito dos meus hábitos noturnos. dizia: — Está tudo bem. ou na cadeira de Meg na cozinha. O sr. — Eu não me importo de lhe dizer. e começava a andar. visível através de uma janela. Conhecendo a reputação de Blithe por causa dos fantasmas. suplicando às minhas pernas pesadas que se mexessem. era sempre a direita. preciso salvar Giles. Na época.. foi apenas um sonho. Giles está seguro e profundamente adormecido. minhas primeiras palavras eram sempre as mesmas: — Giles. às vezes sozinha. Então eu escolhia a direita. me convenci de que o que eu estava vendo era algum espectro maligno. ou sairia lá fora e me afogaria no lago. talvez. . foi até a taberna da aldeia numa noite de sábado e estava chegando um tanto bêbado quando olhou para a casa e viu uma figura pálida. apesar da urgência da situação -até a porta. salvo um gemido de pardal que morria tão logo tocava meus lábios. um corredor envidraçado no primeiro andar que se estendia pela parte central da frente da casa. e então. senhorita — ele me disse muitas vezes -.. quando veio trabalhar em Blithe. Grouse ou John ou Meg ou Mary.. certificando-se de que eu não me machucaria ou sofreria algum acidente. acordar toda a casa. sentada no banco do piano da saleta.

devemos!". que era. com os braços estendidos à frente como se fossem cegos e temessem uma colisão. como se. para o qual se sentiam atraídos como pedaços de ferro em relação a um ímã. mãe de Giles. quando começou a se tornar padrão. Minha postura sempre foi muito ereta e eu parecia deslizar. mas Meg uma vez me disse que a população local achava que o lugar atraía os espíritos. Li tudo isso em um relatório que encontrei na mesa da sra. não como os sonâmbulos normalmente descritos nos livros. Isso era confirmado. Bradley. e como os criados foram todos contratados depois que meus pais . que era um de seus locais favoritos. "você estivesse sobre rodas". mas com os braços caídos do lado. quando acordava do meu sonambulismo.John Harding 31 A sra. Florence. começava a chorar e ficava bastante perturbada. afinal. quando ela tinha ido até a cidade. Grouse um dia. e se alguém tentasse me confortar eu o afastava e dizia: "Não. Era verdade o que John havia falado a respeito de Blithe e os fantasmas. o médico local. Grouse disse-me que eu sempre caminhava devagar. o que era apenas natural. sem as sacudidelas da caminhada normal. não se preocupe comigo! É Giles quem precisa de ajuda. antes de ser eu mesma. em um acidente de barco. Frequentemente. chamaram o dr. andando pela casa. conside-rando-se minha condição de órfã e as reviravoltas da minha primeira infância. Eu não conseguia lembrar nada dos meus pais — minha mãe morreu no parto e meu pai cerca de quatro anos depois com minha madrasta. pelos meus medos concentrados em Giles. não. que parecia não ouvir durante vários minutos. Grouse considerava tudo aquilo um absurdo. no momento em que parecia ter emergido do sonho. Meg disse-me que. Ele disse que eu estava bem e que provavelmente aquilo era uma manifestação de algum transtorno de ansiedade. Depois de três ou quatro noites de sonambulismo. por assim dizer. ou algo assim. que veio e me deu uma boa examinada. etc. mas ainda não tinha voltado para a vida real. A sra. E agora. Não lembrava nada deles.A menina que não sabia ler . Precisamos encontrá-lo. mexeu nos meus ouvidos e escutou meu coração. mesmo que fosse apenas eu. mas suavemente. ele disse. as caminhadas pareciam ter contribuído para a superstição. a única presença consistente em minha vida. colocou luzes brilhantes nos meus olhos. Fiquei curiosa com as palavras "reviravoltas da minha primeira infância" e "problemas com a mãe de Giles". era inútil falar comigo. ela dizia.

de qualquer maneira. Mas você não precisa se preocupar com isso porque não acontece frequentemente. John chegou da cidade com uma carta. Seu irmão que a ama. sobre o quarto da torre. de totalmente desmissivada apenas algumas semanas antes. onde pesou no meu espírito como se fosse a perna de ferro de um condenado ou um pedaço de pão roubado . onde a sra. apesar de não estar claro se ele realmente havia sofrido abuso físico ou se "você não precisa se preocupar com isso porque não acontece frequentemente" referia-se apenas às provocações. é claro. Estava toda pronta para fazer a visita. Era para mim. pela sra. Grouse e por isso não continha nada das coisas que eu gostaria de contar a ele. Não tão frequentemente. um campo branco de neve. Suas referências a socos e beliscões faziam-me tremer. Espero que Meg e Mary estejam bem. Você acha que Theo Van Hoosier conseguirá encontrar patins que sirvam em mim? Será que o gelo irá aguentar o peso de nós três? Ou revezaremos? Sou muito lento nas aulas. e refleti que. Grouse e enfiei-a no bolso do meu casaco. e meu coração quase saiu pela boca quando a sra. Giles A carta a que Giles se referia havia sido escrita. sem nem mesmo a marca de uma gralha. é claro.A menina que não sabia ler . Obrigado por sua carta. ocorrência rara em Blithe. eu era agora a pessoa mais epistolada das redondezas. parece que acham que não tenho mais que fazer além de passar o dia lendo cartas para você. depois de ter fungado e dito: — Hum. É melhor do que levar um soco ou beliscão. Espero que esteja bem. Gosto do som dos seus patins e mal posso esperar pelas férias. e nenhuma das perguntas preocupadas a respeito dele mesmo que eu desejava fazer. A carta era de Giles. mas eu não tinha tempo para refletir sobre isso agora. 7 Antes de ir visitar os Van Hoosiers na manhã seguinte. Grouse começou a lê-la. Grouse e John estejam bem.John Harding 32 estavam mortos. Grouse recebia correspondência do meu tio talvez duas ou três vezes por ano e até menos. também não podiam me contar nada. era um vazio. por exemplo (apesar de ainda não ter decidido se contaria ou não sobre isso). Querida Fio. por isso peguei a carta da sra. mas não me importo quando os outros riem de mim. Eu a li tantas vezes e ela está rasgando de tanto dobrar e desdobrar. Espero que a sra. No que dizia respeito à minha primeira infância.

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nas calças de um menino. Eu queria andar até a casa de Van Hoosier, mas a sra. Grouse não quis saber. Ficava a cerca de 1,5 km e, apesar de as estradas estarem sem neve, se voltasse a nevar eu ficaria presa na metade do caminho, para não falar que, mesmo se isso não acontecesse, eu morreria de frio. Ela não se preocupara com o fato de eu ter estado no frio todas as tardes. Por isso John me levou na charrete até lá, o que por mim estava bem, pois, quando nos afastamos de Blithe e dos olhares perscrutadores da sra. Grouse, ele me deu as rédeas e me deixou conduzir, como sempre fazia quando a governanta não estava por perto. O velho cavalo que levávamos preso, Bluebird,era tão dócil e conhecia todos os caminhos tão bem que na verdade não havia muito que fazer, e, mesmo que nevasse, era pequeno o perigo de o cavalo sair da estrada e cair em uma vala. CO Eu nunca tinha visto a casa dos Van Hoosiers; chegava-se ali por uma longa entrada, e ela ficava no meio de um bosque tão longe da estrada principal que se tornava invisível, exceto pelas chaminés quando passamos. Por isso me surpreendi ao ver que era menor do que Blithe, embora muito maior em todos os aspectos. Podia-se dizer isso logo ao deixar a estrada e passar pelos portões de entrada, que haviam sido pintados recentemente, contrastando com nossos portais descascados e desbotados. As margens do caminho estavam cuidadosamente podadas e o gramado de ambos os lados, milimetricamente aparado. A casa em si brilhava e resplandecia ao sol do inverno; não absorvia a luz como a velha Blithe. John me deixou na porta da frente. — Vou levar a charrete para trás e esperar na cozinha dos criados, srta. Florence — ele disse, ajudando-me a descer. — É só mandar me avisar quando estiver pronta para ir. Aproximei-me ansiosamente para puxar o sino. Estava com minha melhor roupa e não me sentia em minha própria pele. A porta foi aberta (silenciosamente, não rangia como quase todas as portas de Blithe) por um homem uniformizado. — Pois não, madame — ele disse, com um olhar inquisitivo. — Eu... eu vim saber como está passando o sr. Van Hoosier — murmurei. — Isto é, quero dizer, o jovem sr. Van Hoosier. — E a senhora é...? — Florence, de Blithe House. Dava para ver de onde Theo havia tirado sua altura, mas ela era também cheia, sólida, não flexível como seu menino. Era dotada de grandes seios que se projetavam à sua

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frente; podia-se colocar alguma coisa ali, um vaso de flores e um busto de Beethoven, e uma ou duas fotografias de família, talvez. O cabelo era amontoado acima da cabeça, o que provavelmente lhe acrescentava alguns centímetros. Quando me sentei ela se agigantou sobre mim, o que não ajudou a diminuir meu nervosismo. Ela colocou uma das mãos sobre a cornija da lareira e inclinou-se. — Eu... eu vim saber de Theo, quer dizer, do sr. Van Hoosier — murmurei. — Esperava talvez visitá-lo e quem sabe animá-lo. Ela exibiu um sorriso insincero. Parecia uma careta. — Ah, sim, quanta gentileza sua, mas receio que isso não será possível. Ele está muito doente. O médico proibiu qualquer emoção. Sorri com a ideia de que poderia constituir alguma emoção. — Acha isso divertido? -Ah, não, madame, absolutamente. Era só, bem... — minhas palavras sumiram. A porta abriu-se e Melville reapareceu com uma bandeja. A sra. Van Hoosier sentou-se do outro lado da lareira. Melville aproximou uma mesinha e colocou a bandeja. Ele colocou outra mesa ao meu lado. — Está ótimo, Melville. Pode ir... Ela serviu o café, colocou leite e me deu uma xícara. — Você tem gostado da companhia de Theo, parece. Acenei com a cabeça. — Ah, sim... — Bem, é claro, ele é um garoto fascinante. Não é a palavra que eu usaria para Theo. — E pensei que seria bom para ele ter uma companhia aqui. Tomei um gole nervoso do café. Ela levou a xícara até os lábios, mas parou, baixando-a ligeiramente. — Mas agora penso, em vista do que aconteceu, se isso não foi um erro. — Um erro? Ela ofereceu um prato de biscoitinhos, mas declinei. Serviu-se de um e colocou-o inteiro na boca, mastigando-o lentamente por alguns instantes. O relógio em cima da cornija começou a bater mais alto. Ela engoliu. — Sim, um erro. Toda essa patinação e atividade no frio. Acho que não foi bom para seu peito.

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— Mas, sra. Van Hoosier, se me permite o atrevimento... — Não permito. Ela colocou outro biscoito na boca e mastigou com tanta raiva que senti pena dele. Quando ele finalmente morreu, ela se virou e me encarou, como se fosse uma cientista e eu uma espécie de inseto que ela examinava ao microscópio. — O problema, Florence, é que a deixam andar solta. Acho que seu tio deveria ficar de olho em você. Ser guardião é mais do que prover de casa e comida. Perguntei avidamente: — Conhece meu tio? — Não, receio não ter tido o prazer, nunca sequer ouvi falar do homem até comprarmos este lugar, apesar de ter encontrado sua madrasta uma vez. — Como era ela? A sra. Van Hoosier comprimiu os olhos, como se estivesse se fechando para o presente e olhando para um passado distante. Por fim, ela os abriu e pegou um sino na mesinha ao lado. — Isso foi há muitos anos, quando ela não era muito mais que uma menina. Era bonita, embora não muito sofisticada, mas fora isso eu não me lembro de absolutamente nada. Depois soube que havia se casado com alguém destas paragens. Ela tocou o sino. — Acho que era meu pai — eu disse. — Assim parece — ela disse. — E eles morreram, em um acidente de barco, creio. — Que trágico — disse a sra. Van Hoosier, como se não fosse. Melville apareceu na porta. — De qualquer forma — ela continuou -, acho que talvez fosse uma boa ideia se Theo a visitasse um pouco menos. Ele tem as aulas e, com sua doença, o tutor teme que ele fique para trás... — A... a senhora vai impedir suas visitas? Fiquei chocada com essa importância súbita. Não imaginava que fosse me importar. — Não, minha cara, eu não gostaria de privar meu filho de toda a diversão. Só irei controlá-las um pouco, é tudo. Acho que emoção demais não é bom para ele. Melville, peça que tragam a carruagem da senhorita, sim?

uma professora as leria antes de permitir que fossem enviadas para casa. e sim os comentários descuidados sobre meu tio e minha madrasta. agora estava inteiramente ocupada com todas as coisas que estavam acontecendo em minha vida. É claro. Mesmo quando estava pensando em Theo. por isso teria que ficar mais tempo. ao mesmo tempo.John Harding 36 8 Aquela noite foi toda vira-e-mexe e esperando o amanhecer. De uma garota que tinha tempo demais à disposição. mas com menos frequência. Tinha tentado fazer perguntas à sra. por mais estranho que ele fosse. eles continuavam subjacentes. Era a gralha e a neve virgem de novo. mas teria que continuar vigiando Theo da torre. Então. Não apenas em como sentia falta de suas visitas. Amaldiçoei Theo por ter entrado em minha vida e por todos os inconvenientes e. a escola não iria querer que más impressões fossem transmitidas para deixar os pais ansiosos. Teria sido melhor se ela o tivesse banido de uma vez. Qualquer atrevimento certamente seria cortado. e seria frustrante nunca saber quando ele estivesse vindo e quando não. ou me preocupando com Giles. mas também em como a sra. Só que agora seria muito mais do que três páginas e meia. esse pensamento não me tranquilizou nem um pouco. suas cartas seriam censuradas. isso não. "Só . Grouse sobre eles. nenhuma reclamação direta. vi-me sentindo sua falta e desejando que estivesse ali. pois haveria muito mais tardes em que Theo não apareceria. Do jeito que estavam as coisas. Além daquela frase ambígua sobre socos e beliscões. É claro que eu não havia chegado até aqui sem jamais ter pensado em meus pais. Mas a coisa mais despertante naquela noite não foi o que a sra. Van Hoosier havia se intrometido com sua determinação de que poderia continuar a me visitar. quaisquer que fossem meus pensamentos. e na maioria das vezes sem motivo algum. em um dos meus muitos despertares. embora eu tivesse certeza de que ele o faria se realmente estivesse com problemas ou contrariado. Van Hoosier disse a respeito do filho.A menina que não sabia ler . estava com a cabeça cheia demais para dormir. Como você pode imaginar. Depois eu estava pensando em Theo Van Hoosier. havia o pobre Giles. mas ela sempre me obstruía. não havia nada em que eu pudesse realmente me apegar. ocorreu-me por que não havia pensado nisso antes. e as entrelinhas de suas cartas. Primeiro. eu não poderia ir para a biblioteca às tardes.

Queria que ele estivesse lá e. porque simplesmente nada sabia. ele não ficaria satisfeito ao encontrar minha caligrafia entre sua correspondência da manhã. Giles. Grouse. Tentei seguir outra direção. dizendo-lhe que. Não falamos sobre sua árvore genealógica. eu teria adivinhado imediatamente. Você estava com 4 anos e isso é tudo o que sei. Meu tio havia dado ordens estritas para me analfabetizarem. Era óbvio que não adiantava voltar à sra. "Encontrei seu tio uma vez apenas. Todas as vezes que sentia a cabeça cair e a erguia para acordar. com longas . não podia correr o risco." Agora eu pensava em como poderia descobrir mais se escrevesse para meu tio e simplesmente lhe pedisse diretamente para me dizer quem eu era e tudo sobre meus pais. quando ele era ainda bebé". só a deixaria alerta em relação à minha curiosidade e a qualquer outra ação da minha parte. discutindo meu problema. Ela nada me disse. Passei uma tarde inteira na torre não lendo. Giles. mesmo sabendo em meu coração que ele não viria naquele dia. eu diria a ele. levantava-se e caminhava da maneira mais sistemática. Perguntar-lhe novamente a respeito de minha mãe e de meu pai não me traria mais informação. "O que posso fazer?" Ele coçava o queixo. junto com a mãe do sr. ela disse. após a noite maldormida. desde que Giles e eu temos o mesmo sobrenome de nosso tio. eu na poltrona. perguntando-lhe sobre minha linhagem. tendo resumido a coisa toda. era como George Washington. tinha que descer correndo até a entrada para ver se havia perdido Theo. e cochilando. Que ação poderia ser essa era um enigma. de volta à torre após a descida infrutífera. Se estivesse escondendo alguma coisa. Florence". mas é claro que não era tão simples. ele na cadeira vitoriana. Sua mãe deixou o mundo quando você chegou e seu pai morreu em um acidente de barco. mas para eliminar qualquer possibilidade de cometer um erro. Ela era uma alma simples e de sentimentos transparentes. é claro. não conseguia mentir. quando ele me contratou para vir para cá administrar a casa e olhar por você e o sr.John Harding 37 sei o que me contaram. era tudo o que ela dizia. "Então é isso".A menina que não sabia ler . mas pensando nisso. fingia que estava e nos imaginava frente a frente. então nosso pai devia ser seu irmão. como que contornando a pergunta não para evadir-se. srta. "e isso foi em Nova York.

como se esperasse encontrar algum indício de onde os papéis . ou algum tipo de arquivo. e. Estava em busca de qualquer coisa que não fosse inequivocamente um livro. abrindo um sorriso. Subi e desci as escadas até ficar tonta. Mas pode ser que não. ele dizia.A menina que não sabia ler . Às tardes eu me deprimia em minha torre. Você deve pensar que em quatro anos andando livremente pelo lugar eu teria visto algo assim se estivesse por ali. eu sabia por minhas leituras que ninguém passa por esta vida ou mesmo por parte dela sem que algo esteja escrito em algum lugar. e assim agradeci sentindo mais sua falta. isso poderia ensejar outro poema. Embora minha criação tivesse me desmun-danizado. Theo estava certo. tudo o que precisava fazer era procurar o papel. Blithe era uma grande residência. mesmo que estivesse. cegando-me a olhar para a neve lá fora." Ele me soltava e ficava olhando para mim. mas não havia muitos lugares onde os papéis pudessem estar guardados. "Documentos".John Harding 38 passadas. Desordenei o lugar. E eles devem estar em algum lugar em Blithe House. inquieta demais para ler. mãos nas costas. tirando das prateleiras todos os livros. ele não estava ali. meu nariz coçava e minha cabeça doía pela overdose de poeira. eu perguntava. não havia nenhum. um registro talvez. Levantava-me ansiosa da poltrona e depois caía de volta. Finalmente parava e olhava para mim. o que o deixava parecido com um louva-deus tentando trocar de pele. "Você não percebe? Deve haver algum documento seu. mas é preciso lembrar que o espaço não só era imenso. é claro. "O que você quer dizer?". Em vez disso. mas nada encontrei. pois ali havia muito papel. Ele se aproximava e flexionava um dos joelhos. abrindo e sacudindo-os para soltar qualquer documento escondido que pudessem conter. olhei pela janela para a entrada vazia de sua figura desengonçada." Eu poderia tê-lo abraçado. esperando uma reação. foi toda uma semana infrutífera de manhãs na biblioteca. Vale a pena tentar. segurando meus braços com as mãos grandes e ossudas. "Talvez. "A menos que meu tio os tenha levado com ele para Nova York." Meu Theo imaginário dava de ombros. Eu devia estar documentada como qualquer outra pessoa. Comecei na manhã seguinte na biblioteca. mas. Bem. mas também que até então apenas os livros me interessavam. Todo mundo tem documentos.

O lugar estava vazio. vi-me ajeitando o mata-borrão que estava de qualquer jeito em cima da escrivaninha. Depois de pousar os olhos nele. Então. Eu tinha rasgado a meia em um prego de uma das escadas da biblioteca e era meu último par. que eu tinha visto sobre a escrivaninha milhares de vezes. Grouse. talvez apenas três ou quatro vezes por ano. separados em pequenas pilhas. e pensei que talvez fosse uma boa desculpa para ir à cidade. por falta de coisa melhor para fazer. a cabeça baixa. Ali estava o livro de contas da sra. Acabei aproximando-me da escrivaninha e. ele certamente levara todos os documentos com ele. uma ao lado da outra. dando a John alguma instrução ou qualquer outra coisa. no celeiro. Perdi as esperanças de encontrar alguma coisa ali. esta pilha do . embora meu tio pudesse não ter visto nenhuma utilidade nos livros quando deixou Blithe. "Florence. Então. diante da porta ligeiramente aberta. crianças. A escrivaninha tinha duas gavetas. não obtendo resposta. decepcionando-me imediatamente. Ela deveria estar na cozinha ou em outro lugar da casa. Olhei para a porta para me certificar de que a sra.A menina que não sabia ler . todas organizadas com presilhas. Finalmente começou a ficar óbvio para mim que. pois diante de mim vi o que deveria ter imaginado desde que começara minha busca. Grouse talvez desse permissão a John para me levar. naquela tarde. entrei. Peguei-as uma após outra. Grouse não estava voltando e. Estava cheia de pedaços de papel. levantei-o para ver que outros tesouros a escrivaninha poderia conter. aboletei-me em sua cadeira. Nada além de contas. pensando em experimentar como seria ser como ela. mas pensei que a sra. agarrei o puxador da gaveta da direita e abri. Por isso bati à porta de sua saleta e. onde é que você estava?". quando já tinha desistido da minha busca e nem estava mais pensando nela. Andei pelo aposento. ou talvez lá fora. "Já lhe disse uma centena de vezes". então me interrompi. repreendi com severidade o meu eu imaginário.John Harding 39 que eu procurava poderiam estar. Isso me desatentaria do desespero dos meus dias solitários. nós. quase nunca íamos lá. o acaso colocou uma possível resposta no meu caminho. as mãos atrás das costas. alinhando-o com o tinteiro e sua caneta. sentindo-me travessa. observando os enfeites sobre a cornija e o bordado feito pela metade na poltrona. compungido do outro lado da escrivaninha. sem perigo à vista.

e a sra. bem. outra do vendedor de tecidos. Quase salivava cada vez que a sra. embora não estivesse acolhendo alguém entediado. nada aconteceu.John Harding 40 armazém. A gaveta estava presa. e estava olhando inocentemente pela janela quando a governanta entrou atrás de mim. agarrei o puxador e. Queria alguma coisa? Contei a ela a respeito da meia. Nos dias seguintes. mas então ouvi a voz de Meg na outra ponta do corredor. Ela entraria na sala a qualquer momento. aí está você.. Isso não ocorreu e. A sra. Grouse prestes a entrar.. Não havia nada além disso. destorrerizando à tarde. e sim me afastando da minha tarefa urgente. tinha que ver o que havia na gaveta. Grouse e Meg. ela mesma e eu. Seria impossível roubá-las. pois não conseguia pensar em mais nada além daquela gaveta trancada e em como poderia conseguir a chave. Nesse momento ouvi vozes no corredor. Não havia tempo para examinar a segunda gaveta sem ser pega. soando como o sino do jantar para um homem faminto. O passeio até nossa pequena cidade distraiu-me. satisfeita que Blithe poderia bancar. Nesse momento a porta da sala começou a se abrir e eu quase gritei de susto. No entanto.A menina que não sabia ler . Florence. até a cidade. não consegui evitar. tinha que sair da cadeira rapidamente e afastar-me da escrivaninha ou enfrentar as consequências. Grouse — pois era ela na porta — parou para responder. Fiquei com o coração na boca de novo quando ela abriu a gaveta. — Deixe-me dar uma olhada no livro de contas e ver o que podemos fazer — ela disse. o que levou a uma conversa sobre o fato de eu estar crescendo rápido e precisar de roupas novas. autorizou uma viagem no dia seguinte. pois ela sentiria sua falta no .. a sra. desbibliotecando de manhã. trancada. aterrorizada com a possibilidade de ela perceber algum desarranjo no conteúdo. mas. pois podia ouvir a aproximação de passos do lado de fora. vaguei pela casa. Grouse passava por mim com o tilintar das chaves da casa no grande aro de ferro que ela usava no cinto. — Ah. Saí da cadeira e corri para o outro lado da sala. Com o coração na boca alcancei o puxador. Coloquei-as no lugar e o livro de contas e fechei a gaveta.. aquela do estábulo.

apesar de todo o meu desejo. — O que é agora. da parte dela. Poderia pegar uma nova para mim. e era só o que poderia fazer naquele momento. mas não prestei atenção a isso. Grouse! — gritei ao me aproximar. grandes chaves de portas. Saí correndo. derrubei minha agulha no chão do meu quarto e não posso procurar porque não tenho uma vela. não teria forças para deixar de olhar e acabaria sendo pega. se fizesse isso e encontrasse algo. por favor? Ela suspirou exasperada.A menina que não sabia ler . Tive sorte na quarta tentativa. Deixei a gaveta des-trancada. — Sra. sem dúvida ele havia perdido alguma coisa em algum lugar. Devia haver umas trinta chaves naquele anel e eu sabia que tinha apenas um ou dois minutos para encontrar a que eu queria. pois ela havia sido encarregada por meu tio de manter todas as despesas de Blithe com rédea curta. Ela entrou graciosamente na fechadura. depois tranque o armário e traga as chaves de volta para mim. mas sabia que. Essa era minha chance. — Aqui. Normalmente essa seria a chance de furtar uma ou duas velas extras para a biblioteca. Girou com um clique de satisfação. Grouse. abra o armário grande da despensa e pegue uma. Fui direto para a saleta da governanta e sua escrivaninha. apenas uma. lembre. Saí da casa correndo e cheguei perto dela sem fôlego. como uma criança na cama quentinha em uma noite fria. sra. o que. pois John jamais perdia a calma. Minha oportunidade chegou um dia ao escurecer quando eu a vi através da janela da saleta. Em um instante ela tirou o chaveiro do cinto e o entregou a mim segurando uma determinada chave. e corri de volta para fora. Aí começou uma ansiedade de tentativas com as chaves. por isso me concentrei em cerca de uma dúzia de chaves pequenas que podiam ser de gavetas ou armários. Ela me lançou um olhar aborrecido com a interrupção.John Harding 41 instante em que desaparecessem. mesmo que eu conseguisse fazer uma mágica para tirar o aro do cinto. Grouse. A conversa parecia acalorada. Florence. Não havia tempo para ir até a despensa à procura da . o que era minha estratégia desde o começo. Estava no meio da reclamação e não queria ser interrompida. conversando animadamente com John. Muitas eram obviamente grandes demais. eu não conseguiria. lá fora. Fiquei tentada a abrir a gaveta. sra. criança? — Por favor. Era evidente que ela o estava repreendendo.

Ela poderia notar no dia seguinte que haviam queimado misteriosamenre durante a noite. expressão facial. ritmo. pois eu era a única a mexer na caixa. mesmo que eu percebesse e conseguisse apagar as velas primeiro. Nos candelabros duplos eu agia nas duas velas dessa maneira. Por isso. se fosse pega. com que postura. eu tirava uma vela do candelabro. . eu pegava uma sempre que podia. antes que ela voltasse sua atenção para mim. A minha vela eu poderia apagar. Minha intenção era fingir uma crise de sonambulismo. quando ficava sozinha na saleta. por isso torci para que a sra. e para isso eu iria precisar da minha própria vela. A planta era um arbusto com folhas grandes.A menina que não sabia ler . guardava-a no bolso e recolocava a parte de cima. se tivesse algum. pois. sob as quais meu equipamento de iluminação não seria visto.John Harding 42 vela. Grouse e recuperá-la de manhã. quando perdia o sono e queria ir até a biblioteca durante a noite. Felizmente ela ainda estava ocupada reclamando com John e simplesmente pegou as chaves sem me dirigir uma palavra ou mesmo um olhar. poderiam notar a fumaça saindo ou que a vela estava quente e macia. Grouse não pensasse nisso ou. Também era meu esconderijo de velas furtadas. Mas havia uma dificuldade extra dessa vez: como a minha camisola não tinha bolsos. Grouse. e se por acaso alguém me ouvisse e entrasse na sala. quebrava a metade de baixo. ninguém jamais reparou que as velas estavam ficando menores. levei minha vela e fósforos para baixo e os escondi em um vaso de planta do salão. o que havia feito muitas vezes antes. etc. Meu sonambulismo já me havia sido descrito tantas vezes que eu sabia exatamente como deveria caminhar. Por exemplo. se pensasse. que eu precisava para a biblioteca e para ler na cama à noite. colocar debaixo do tapete perto da escrivaninha da sra. deduzisse que estava em meu bolso e não pedisse para ver. para manter a aparência de que estavam queimando no mesmo ritmo. Essa noite eu pretendia abrir a gaveta que tinha destrancado e examinar seu conteúdo. Era ali que eu guardava meus livros da hora de dormir. não poderia levar vela e fósforos comigo. Subi até meu quarto e puxei a caixa com velhas bonecas e coisas infantis que estavam havia muito tempo sem brincar debaixo da cama. e afastei-me rapidamente. ficaria óbvio que o passeio tinha sido planejado e nada tinha de sonambulismo. Não podia me arriscar a acender as velas da saleta da sra.

e não toquei na vela ou nos fósforos. A imagem de Mary regando as plantas inesperou-me uma inspiração. encontrando-o. meti as mãos em suas folhas araneiformes. O puxador de metal da gaveta da esquerda era frio e proibitivo ao toque. Parei e coloquei a mão na testa. encontrei a porta da saleta da sra. Finalmente. É claro. Grouse e entrei. pois minha mente meio que esperava encontrar a sra. Grouse a tivesse descoberto destrancada e a tivesse trancado novamente. congelados no assoalho nu. Desci o mais rápido que pude no escuro. examinando a sala para verificar se estava vazia. esperando para me pegar. velha esperta que era. De vez em quando eu ouvia a pequena garota no sótão acima de mim fazendo piruetas nas barras. por que a mantinha trancada? Talvez porque o dinheiro da casa estivesse guardado ali. em algum relógio soou a meia-noite e. os chiados e gemidos. satisfeita porque todos os sons humanos haviam cessado. Risquei um fósforo e acendi a vela. o que não era rápido. saí da cama. mexi e mexi. De algum lugar acima veio o gemido de alguém adormecido acordando e virando-se. por precisar tomar cuidado para não bater nas coisas e acordar a casa. ouvindo os sons da velha casa enquanto se acalmava para a noite. que estava lisa com suor. Grouse ali sentada. Fiquei alarmada ao pensar que alguém tivesse encontrado a vela e os fósforos. o gémeo do meu primeiro encontro e. e se ela tivesse precisado pagar um comerciante ou os criados? Respirei profundamente e puxei. Ergui a vela. Olhei a escrivaninha. embora a noite estivesse fria e meus pés. fechando a porta silenciosamente atrás de mim.A menina que não sabia ler . Finalmente cheguei ao salão e tateei até encontrar o vaso de planta e.John Harding 43 Nessa noite fiquei acordada na cama até tarde. havia mais de uma planta! Eu estava no vaso errado. apesar de dura e . de fato. talvez Mary ao regar as plantas. Coloquei as mãos cegamente à minha frente e senti outro vaso. Senti a terra. Meu coração estava em pânico desatado agora. enquanto relaxava depois de um longo dia contendo todas as pessoas e nossos medos e esperanças e segredos. Pois eu não tinha ideia do que ela guardava ali ou com que frequência a abria. mas que amanhã eu seria desmascarada. o que significava que não só minha missão havia sido derrotada. Em primeiro lugar. E se fosse assim. coloquei minha vela cuidadosamente e sen-tei-me na cadeira da dona. lá estavam a minha vela e os fósforos. A gaveta cedeu. Não havia ninguém. Meu grande medo era que a sra.

também sorridente. e acalmei-me um pouco. o braço enganchado no seu. Esta devia ser pelo menos um palmo mais baixa. olhando de novo. mas com uma alegria leve e solta. a camada de pó testemunhando sua longa des-perturbação. para a mulher decapitada. sentindo subitamente um homem parado ali com uma faca para fazer comigo o que havia sido feito com a mulher da fotografia. porque a foto havia sido cortada. que alguém havia removido sua cabeça para colocá-la em algum armário ou algo assim. fosse ou não a mesma mulher. Mas eu não podia esperar para ouvir. Coloquei o livro na escrivaninha e abri e vi imediatamente o que era. como um pescador orgulhoso de um grande peixe que pescou. não como o homem. muito mais alta que esta.John Harding 44 relutante.A menina que não sabia ler . Ali estava ele de novo. e de novo sem cabeça. com capa de couro. como os que Mary havia me mostrado uma vez de toda a sua família. Tinha o mesmo olhar atrevido. A primeira página tinha apenas uma foto. Virei a página e encontrei outra foto de meu tio. como se fosse uma relíquia sagrada. mas eu já começava a ver formas nos cantos ensombreados da sala. alguns anos antes. com um buraco no lugar em que a cabeça da mulher havia estado. um livro grande. Ao lado dele. As mulheres não eram a mesma. Então voltei para a primeira fotografia e depois de novo para a segunda. mal manuseados. pois era o mesmo rosto da pintura na curva da escada: meu tio. com a certeza de que a casa inteira iria acordar. eu não saberia dizer. parecia satisfeito consigo mesmo. os ossos de algum santo que. Engoli e retirei-o cautelosamente. pois lá dentro vi um único objeto. Puxei-a lentamente. dizendo a mim mesma que era bastante compreensível. sentindo meus dentes enquanto a madeira reclamava. Mais uma vez meu tio com a segunda mulher. estava uma mulher de vestido branco. um . um álbum de fotografias. mas dessa vez retratado no estúdio de algum fotógrafo. um homem de terno em pé diante de Blithe House. Não era nada sinistro. pois a primeira era mais alta. perto de uma planta no vaso. poderiam virar pó. Olhei de novo para a foto. Então uma terceira foto. Virei a página de novo. o mesmo ar ligeiramente divertido nos lábios. Dessa vez com a mulher segurando um bebé. Identifiquei-o imediatamente. Não havia ninguém ali. Virei a página. o que eu podia ver apesar da ausência da cabeça da segunda. que. Estremeci na noite silenciosa e olhei por cima do ombro. uma mulher bonita. mas. de novo com uma mulher.

indubitavelmente. quase idênticos. embrulhado e engolido por um longo xale branco. E então tudo fez sentido para mim. e me dei conta: a criança assustadora era eu. ele não fosse o homem da pintura a óleo na curva da escada. Estava quase fora quando tomei uma decisão repentina. pois meus olhos embaçaram e tive que fechar o livro com medo de molhá-lo. Virei-me e voltei correndo até a escrivaninha. Tirar a fotografia foi uma atitude precipitada. tirei o livro. se tivesse sido pega.John Harding 45 bebé pequeno. uma menina. saí da sala e subi depressa com a vela iluminando o caminho. Mas como podia ser isso? Como o meu tio poderia ser meu pai? Olhei-o mais atentamente. Tendo digerido isso. Mas. O homem era definitivamente o mesmo das outras fotos. Pela pose. Então. Eram quase gémeos. Voltei freneticamente. abri-o na primeira página e arranquei a foto de minha mãe. e a mulher sem rosto sua mãe. Virei a página e não havia mais fotos. mas seu irmão. De novo. como se estivesse pronta a pular em cima de quem se aproximasse. só que agora uma criança pequena. se fosse isso. fechei a gaveta. aqueles olhos desafiadores. muito parecido. Fui para a página seguinte e havia outra foto. então o bebé devia ser Giles. por que estavam com meu tio? Não fazia sentido. não poderia fingir sonambulismo. parecia. mais as feições da mulher ficaram turvas. E então percebi algo familiar. certamente era o marido da mulher e pai dessa família. a mulher que tinha se afogado. Recoloquei o álbum. que tinha a semelhança familiar. Encarei o homem durante algum tempo. na calada da noite. O grupo familiar. minha madrasta. pois. igual à última. essa outra mulher. mas talvez não fosse o mesmo. abri a gaveta. afinal. Peguei minha vela e fósforos e fui para a porta. Olhei e olhei e. outro pensamento ocorreu-me e voltei freneticamente para a primeira página.A menina que não sabia ler . Por . Abri a gaveta. olhando fixamente para o fotógrafo. essa mulher tão feliz e orgulhosa devia ser minha mãe. Fechei os olhos e inspirei profundamente. Ela estava em pé ao lado deles. pela postura solta. Era muito. Talvez. Não era meu tio. tinha se juntado aos outros. o rosto da mulher havia sido cruelmente cortado. Se a menina era eu. afinal de contas. e seu olhar me fez estremecer e pensei em como não gostaria de encontrar essa criança. quanto mais olhava. especialmente agora. coloquei o livro de volta e relutantemente a fechei. que morreu antes mesmo de conhecer sua menininha. os lábios apertados.

Peguei meu casaco e seus patins e descemos estranhamente pela entrada. Fiz uma bola de neve pesarosa e atirei nele. Fiquei contente. onde poderia olhá-la e conversar com ela sem medo de ser descoberta. Então. E aparece correndo todo jovial. por mero acaso.John Harding 46 isso imaginei que podia também correr o risco e iluminar meu caminho. levantei o olhar e reconheci uma figura alta e magra lutando para cruzar a neve da entrada. Mas nada aconteceu na volta até meu quarto e. — Estão me mandando de volta — ele anunciou. Ele só podia ficar um pouco. — Voltarei no próximo ano quando a família vier para o verão novamente. virou-se e foi caminhando pela neve. não tinha tempo nem para patinar. pois fazia quinze dias desde que o vira pela última vez e ansiava por contar-lhe minhas novidades. 9 No dia seguinte levei minha preciosa fotografia para minha torre. — O médico disse que estou melhor e vão me colocar na escola para a última semana antes das férias. na verdade tinha vindo pegar os patins. O tempo passará rápido. em algum momento peguei no sono. minhas esperanças se desfizeram. quando ele virou na estrada principal e desapareceu. Mas. — Estou tão sozinha — eu disse. pois precisaria deles em Nova York. pegando-o no rosto. tirou um pedaço de papel e atirou-o na minha mão. assim que o encontrei na porta da frente. sem outra palavra. Então desdobrei o papel que ele me dera e li: Não posso falar. E Giles chegará para as férias de Natal a qualquer momento. Ele enfiou a mão no bolso. — Você não imagina como é. depois de não sei quanto tempo olhando para a foto de minha mãe. e felicitei-me por tê-lo machucado. fazendo-o gritar.A menina que não sabia ler . não tem tempo sequer para ouvir minhas novidades e ver o que tenho para lhe mostrar. E era o que estava fazendo alguns dias depois quando. não posso conversar Pois para Nova York vão me mandar Mas não irei feliz inteiramente Pois meu coração ficará aqui com Florence Era um poema tão ruim que dobrei o papel de novo e não consegui evitar um soluço. *** . Fiquei olhando até o último momento.

sr. mal conseguindo ler. que entendi por que Giles estava tão excitado. toda preocupada. Ele se virou para ela. para encontrar meu querido irmão. Fio. dobrou a carta e guardou-a no bolso. "sugerimos que um tutor em casa seria mais apropriado neste momento. "uma disposição muito tímida e frágil para o tumulto de uma escola de meninos muito animados". a sra. apesar de triviais em si. Era mais fácil removê-lo do que lidar com os provocadores. Grouse não a mostrou para mim. . causaram preocupação. não até depois do Natal. Quando a névoa começou a se dissipar. exceto por uma ou duas frases. Quando chegamos a Blithe. Eu não precisava ver tudo.John Harding 47 Theo estava certo. Giles abriu sua mala e apresentou uma carta. "um ou dois incidentes que. possivelmente com a natureza mais suave de uma professora". não. você não entende. É claro. Ficamos ao lado do rrilho enquanto o grande dragão de ferro se aproximava com seu rugido metálico. Nunca mais! Era verdade. exceto pelo cavalgar de Bluebird. também não a leu em voz alta. e então parou ao nosso lado soltando uma nuvem de fumaça que nos envelopou a todos. Quase comemorei em voz alta. como eu não poderia ler. Foi só quando estávamos na charrete. Grouse. na plataforma. — Não. Grouse e eu. diante de nós. Peguei a mão de Giles e apertei-a. deixando a cidade. deduzi o resto. Grouse. Giles. — Bem. "não suficientemente maduro ou academicamente avançado". Era uma notícia tão maravilhosa. — Não vou voltar. ele e a sra. em silêncio. Grouse olhou-me incrédula pelas costas dele. e segui solitária. E finalmente chegou o dia em que John colocou os arreios em Bluebird e fomos até a estação de trem. e era isso o que a escola havia feito. A sra. não por um tempo. Meu irmão não conseguia ficar quieto: pulava para cima e para baixo. estava Giles. dançava com um pé e com o outro e balbuciava coisas sem sentido.A menina que não sabia ler . não vou voltar! A sra. dada a sua natureza algo vulnerável". Juntamo-nos atirando os braços e trocando muitos beijos. De qualquer maneira. Obviamente a natureza simples de Giles tinha-o levado a ser abusado. procurando em meio ao nevoeiro. eu teria a volta de Giles para esperar. sra. todo o meu ser esperando com impaciência.

onde eu poderia protegê-lo de todas as coisas ruins de fora. Eu tinha pedido à sra.A menina que não sabia ler . e me esforçaria para man-tê-lo sempre aqui ao meu lado em Blithe. mordi a língua e me autoaconse-lhei. Vamos tirar o Natal do caminho e então escreverei. a srta. Ele terá que contratar alguém. — Mas não agora. porque então teria que explicar sobre sua própria mãe. melhor. como você pode imaginar. De que adiantaria. Era uma jovem tola que parou feito boba diante do quadro de meu tio na escada. mas então percebi que não poderia. onde seria maltratado e torturado. pelo menos em sua primeira encarnação. Pensei em mostrar a ele a fotografia de minha mãe. mesmo estando tão ansiosa. Grouse mordeu o lábio. Ou melhor. Preciso pensar bastante. que não tinha tempo algum para nós. estava claro que nosso tio. mostrar-lhe fotos de sua mãe sem o rosto? O que ele sentiria senão que a profanação da mãe era um ataque cruel a ele mesmo? Por isso. Vendo Giles tão feliz e despreocupado no lago. alguém estragou. também ficou radiante. ao nos ver sorrir. Não deixaria que nada estragasse a nossa felicidade. pois tenho ordens estritas para não o incomodar. Enxerguei tudo imediatamente. eu acho. Um mês depois. — Devo escrever para seu tio a respeito disto. O vandalismo chocante perpetrado contra sua imagem nunca deveria chegar ao seu conhecimento. pensei que nunca mais o deixaria sair para o mundo. foi como nos velhos tempos.John Harding 48 Meu irmãozinho estava salvo e seguro. e não tenho tempo nesta época do Natal. Whitaker chegou. Não vou escrever ainda. — Ela ergueu os olhos e. Grouse que comprasse patins para Giles como presente. e na manhã de Natal fomos para o gelo e nos divertimos caindo e levantando e voltando a uma época em que éramos pequenos. de qualquer maneira. A sra. tagarelando sobre como era bonito e como parecia atraído por ela quando a entrevistou e deu-lhe o posto de preceptora de Giles antes que ela dissesse uma palavra. e eu não estaria mais sozinha. uma governanra. Tudo seria como sempre foi. tão doce que ria até quando se machucava. Bem. CO Bem. uma carta para seu tio. quanto menos falarmos sobre Whitaker. Mas é claro que isso aconteceu. não podia se dar ao trabalho de questionar aquela mulher idiota e queria .

sua partida para a escola. Whitaker há um tempo que parecia uma vida inteira (e na verdade foi. Basta dizer que não vi o coração gelado dessa criatura então. tão chateada que fiquei. Giles e eu. só que melhores. porque.A menina que não sabia ler . o dia da chegada da sua substituta. mas não queria dizer aquilo. e depois por outra. Giles e eu ficamos calmos e tranquilos durante quatro meses inteiros. primeiro por uma razão. mesmo que isso fosse impossível. por quem demonstrava menos interesse que em escovar os cabelos e olhar-se no espelho. a sra. Como nosso tio estava viajando pela Europa. não percebi sua verdadeira natureza. ou as coisas talvez tivessem sido diferentes. Até me perguntei se ela não teria sido a única pessoa que ele viu para o posto. e ficava pensando "se ao menos eu tivesse isso" e "se ao menos eu tivesse aquilo". de como . sua vida). e quando ela se foi tragicamente no lago eu quase me afoguei no lago de minhas próprias lágrimas. Whitaker. o que dificultava o con-tato com ele. pois foi exatamente no dia em que ela me desbibliotecou que eu havia repetido aquelas palavras várias vezes em meu coração: "quero que ela morra. desde a desgraça da srta. Alinhamo-nos para receber a nova preceptora assim como tínhamos feito para a pobre srta. Grouse. Também me recriminei pelos maus pensamentos que estavam em minha cabeça quando ela foi para seu túmulo aquático. Achava apenas que ela era tola e culpei-me por desprezá-la quase tanto quanto me culpei por não a ter salvo. Whitaker até então. pois qualquer outra teria sido preferida. e quando meu desejo foi concedido quase morri de desgosto por não poder retirá-lo. pré-escola. Tinha esquecido como podia ser ocupada a vida com Giles. eu agora a valorizava ainda mais. SEGUNDA PARTE 10 Estávamos repetindo a história nós três na frente da casa. Tinha sido como os velhos dias pré-Whi-taker. quero que ela morra".John Harding 49 esquecer o assunto rapidamente. inocente. Tudo o que percebi foi que negligenciava Giles. tendo perdido duas vezes nossa vida antiga com apenas Giles e eu correndo desabridamente pela casa e pelo terreno. mesmo que nada disso tivesse adiantado.

ou pelo menos tão apresentáveis quanto poderíamos estar. Theo juntou-se a nós nas brincadeiras quase todos os dias e os três corríamos soltos como se não houvesse amanhã. Satisfeita por estarmos apresentáveis. E a substituta da srta. mas percebi como combinava com as gralhas que agora estavam circulando acima de nós. Whitaker que ela passou despercebida. com meu melhor vestido. Pelo menos a srta. Era muito mais velha que a pobre srta. — Bem. Grouse exasperar-se. com traços fortes. a sra. Momentos depois. Quando John lhe deu a mão para descer da charrete. sua aparência beirando a meia-idade. mesmo que falhe a execução. não familiaridade exatamente. como se elas também tivessem vindo especialmente para dar as boas-vindas a ela. um brilhante avental branco por cima para garantir. e esse pouco tempo foi ocupado pela sra. Taylor poderá ver que houve a intenção. meus membros relutaram até a sra. tentando ver a pessoa sentada atrás de John. uma pequena guarda de honra. A escola recomeçaria e Theo voltaria para Nova York. Ela me olhou criticamente e abandonou-se em um suspiro. Whitaker. Era uma mulher bonita. E quando os Van Hoosiers chegaram para as férias de verão. diante da casa.) Por alguma razão. imagino que teremos que nos contentar com isso. (Fiz uma desmotivada para a srta. seus olhos cruzaram com os meus e havia algo em seu olhar. Finalmente ouvimos o som metalizado dos cascos de Bluebird na estrada principal e então vimos o cavalo e a rédeas subindo a estradinha até a entrada. Giles estava com a roupa da escola e eu. Grouse passou os últimos minutos discursando sobre boas maneiras e tentando mais uma vez ensinar-me a fazer uma reverência. os três em desfile. . Whitaker havia me dito que todas as preceptoras sempre vestiam cinza. fazendo-o voar de forma que o entardecer parecia sempre chegar cedo. e pensei em quanto aquilo era estranho. Tudo o que nos restava daquele verão dourado era o tempo que John levaria para trazer a nova mulher da estação de trem na cidade. Então lá ficamos nós. apesar de estar mais que disposta a receber a preceptora com uma reverência. e houve. onde o cavalo e a charrete iriam parar. eu acho.A menina que não sabia ler . Mas é claro que haveria.John Harding 50 ele conseguia transformar em dezembro um dia de julho. olhos escuros e cabelos pre tos. inspecionando nossa limpeza e asseio. Sua figura esquelética estava vestida toda de preto. ela estava à nossa frente. Grouse. pois a srta. Whitaker chegaria a qualquer momento.

procurando soar como se quisesse dizer isso. Grouse — devolveu a srta. Grouse notasse. — E vocês é claro que são Florence e o pequeno Giles. Grouse -. não seja mal-educado. mas parecia que ela não tinha curiosidade ou qualquer interesse. Ela se virou para a sra. Grouse. Ela se virou para Giles e para mim e. sem revelar nada. a senhora preferiria ser fervida no óleo e comida por canibais ou ser atingida por uma baioneta de um soldado confederado e vê-lo arrancar suas entranhas diante de seus olhos? A srta. Esse olhar desconcertou-me e evidentemente a ela também. — Bom — Giles falou. depois ergueu a sobrancelha para a sra. — Prazer em conhecê-la. Taylor encarou-o durante um instante. — E você deve ser a sra. Grouse e disse bruscamente: — Bem. Taylor -. os olhos prontos agora. embora não tenha sido um grande sucesso. sorriu largamente. contraindo o rosto com interesse genuíno -. Taylor — disse a sra. você não tem nada para dizer? Meu irmão mordeu o lábio nervosamente. sem o tom de galhofa necessário para que a sra. da maneira que a maioria das pessoas tem por um lugar novo. — Você deve ser a srta. com uma leveza que conseguiu ser também algo crítica. Não era exatamente algo que você pudesse jurar. Taylor. Grouse. pois tão logo nossos olhos se conectaram. Lá dentro ela não olhou muito em volta e também não fez comentários sobre a casa. apesar de ter saído como a oração de domingo. Giles — insistiu a sra. fale. se puder mandar o criado levar as malas para meu quarto. Giles — disse a srta.John Harding 51 mas um tipo de reconhecimento de quem eu era que despertou imediatamente minha ansiedade. era como se não fosse diferente do que esperava. madame — murmurei. ela desviou o olhar e presenteou a sra. desnecessariamente. como se ela pudesse ver através de mim o eu que eu fingia ser. Grouse com um sorriso. — Muito bem. ante a improbabilidade de que a recém-chegada fosse outra pessoa.A menina que não sabia ler . — Imagino que teremos um pouco de trabalho por aqui — ela observou. — Vamos lá. Fiz a reverência quando ela pronunciou meu nome. .

e a sra. Giles. — Bem.John Harding 52 eu gostaria de me refrescar e deitar após a viagem. . A sra. quantas pessoas dá isso? — O quarto lugar é para mim — disse a sra. como está sua matemática? Você. Whitaker chegou ela se juntou a nós. minha mente não conseguiu apreendê-lo. que corou. — Por acaso há outra criança na casa que eu desconheça? Vamos lá. A que horas é servido o jantar? — Bem. — E. Taylor ergueu uma sobrancelha. Mas eu não sou a srta. Devemos agir de acordo com as conveniências. — Ah. Grouse ficou olhando para ela até perdê-la de vista. forçada a se espremer entre a preceptora e a porta para entrar na saleta. Não era de deixar que passassem por cima dela. Veja. Whitaker adaptou-se muito bem a esse arranjo. E ninguém jamais havia se referido a John como "criado". Taylor. Grouse. — Muito bem. Atrás de si deixou o aroma de alguma flor. seguiu John pelas escadas. sim. Giles ir para a escola. A srta. Estou vendo quatro lugares — disse a srta. junto à cozinha. Florence e eu. por mais que tentasse. — A srta. A sra. — Alguma coisa errada? — perguntou ansiosamente a sra. sempre fomos apenas nós três durante muitos e muitos anos até o sr.A menina que não sabia ler . geralmente comemos às seis. — Pode ser. onde sempre comíamos. Grouse a levou para a pequena saleta do café. mas. Grouse. ou antes mesmo que ele começasse. Taylor parou junto ao batente da porta e olhou para a mesa. sim. Grouse. Ela não estava habituada a que falassem com ela daquele jeito. Pelo bem da educação das crianças. eu sou a preceptora. A srta. mas não é apropriado. A srta. dizendo isso. — Sempre comi com as crianças. e quando a srta. descerei nesse horário. Whitaker. e virou-se para encarar a sra. depois sorriu fracamente para Giles e para mim. e ameaçou-a com um sorriso. você entende. Taylor apareceu pouco antes da hora combinada. que a primeira dificuldade se apresentou. Você é a governanta. Grouse conteve-se. Foi no jantar.

quase abaixo do meu quarto. enquanto a sala da governanta ficava ao fundo da escada. Era muito mais difícil chegar à biblioteca dessa maneira do que até a saleta da sra. Nós três nos sentamos. fato pouco facilitador. Grouse. mas minha ansiedade vigilante era uma coisa obscura que eu não conseguia ver ou nomear. decidi fazer o que sempre fazia nessas horas. Mary entrou com o rosto vermelho e começou a retirar a louça e os talheres do quarto lugar.John Harding 53 A sra. A srta. apesar do grande risco de ser pega. também precisava mapear em minha cabeça onde é que eu estava. todos os . Não havia luz vindo das janelas porque era noite sem lua. e dentro de mim também havia um uivo que eu não conseguia bloquear nem colocando o travesseiro nos ouvidos. Taylor sorriu para ela. Embora o vento soprasse e bufasse do lado de fora. exceto pelo tique-taque dos relógios e o ocasional ranger das vigas de Blithe acomodando-se para a noite. No escuro. Mas então. Naquela noite não consegui dormir. o vento uivava como uma besta selvagem cercando a casa. por exemplo. procurando uma forma de entrar. — Pode servir a comida agora — ela disse. apesar de eu não estar preocupada com isso. e tanto pior por isso. Fiquei parada e prestei atenção. Grouse deixou a sala. agora que a srta. Seria muito fácil virar na direção errada e assim acabar vagando a noite inteira até o amanhecer mostrar-me o caminho. e acordar toda a casa. Taylor estava ali. A biblioteca ficava no outro extremo da casa. No final. tudo o que eu precisava fazer era fingir uma crise de sonambulismo. Ainda assim. lentamente alcancei o corredor. dentro a casa estava quieta como um túmulo. como sempre. se me pegassem. Meu principal problema. Lá fora. Fiquei com medo de dormir e sonhar de novo com a pobre srta. Quando avancei um pouco mais e não estava longe da escada que me levaria para o andar térreo foi que ouvi algo. Pouco depois. como esta não era uma crise de sonambulismo. eu tinha que tomar cuidado para não bater em alguma peça do mobiliário. mas não impossibilitador para uma caminhada noturna. descer até a biblioteca e ler durante algumas horas até ficar cansada o bastante para dormir. era não ter uma vela para iluminar o caminho como acontecia quando caminhava sonâmbula. eu podia pelo menos erguer os braços e sentir à minha frente qualquer obstrução. Whitaker e o dia em que ela morreu. Dessa maneira.A menina que não sabia ler . uma mesinha qualquer.

Mas então percebi que o barulho não era fixo. estava. além de um gato? Ela não poderia estar a mais de três metros de distância. ficando cada vez mais suave e mais suave até se transformar num sussurro e desaparecer. houve um farfalhar abrupto. de repente. até o vento parecia ter parado de soprar como se fosse aliado dessa outra sonâmbula para permitir que ouvisse melhor. Senti que ela estava vindo na minha direção. No início pensei que fosse o vento soprando o galho de uma árvore contra alguma parte da casa. Tinha apenas um pensamento. e foi como se essa criatura tivesse sentido a minha presença. e assim fui sentindo o caminho ao longo do corredor até o andar térreo . e mesmo assim era capaz de movimentar-se em um ritmo considerável. Ouvi um pequeno som. mas agora. depois uma expiração longa. sentindo o ar como um predador sente a presa. bem quando eu pensava que o jogo tinha acabado e que deveria respirar ou nunca mais o faria. se mulher fosse e não um fantasma. pois era o mesmo som sibilante das folhas raspando em algo. Instintivamente encostei as costas na parede e. por sorte. mas porque minha colega de sonambulismo o sentiria no rosto como eu sentia o dela no meu. como um gato sente do rato ou um cão de uma ratazana. como eu. além disso. de forma que ela — só podia ser de mulher aquele barulho — logo estaria em cima de mim. A mulher estava bem em cima de mim agora e. sem velas. Respirei ofegante e engoli o ar como um nadador vindo à superfície depois de um longo mergulho. não só por causa do barulho. Tudo ficou quieto. Que tipo de criatura poderia ser. um recanto raso incrustado na parede. encontrei um espaço atrás de mim. o de colocar o máximo de distância possível entre mim e essa mulher. e sim algo em movimento que. estava vindo na minha direção. Pressionei-me ali e prendi a respiração. felizmente. uma inspiração incisiva. ou meu cheiro. Perguntei-me se uma mulher normal poderia se movimentar com tanta rapidez naquele breu total. reconheci o som do farfalhar de saias contra o assoalho. vagarosa. Meus pulmões estavam quase explodindo pela longa retenção do ar. mas não ousava soltá-lo.A menina que não sabia ler . Finalmente.John Harding 54 sentidos alertas. de forma que iríamos colidir a qualquer momento. Um minuto depois. e então este som tomou a mesma direção a que se dirigia no começo. o farfalhar parou. e vindo na minha direção. seguida por uma longa pausa com a respiração sustentada enquanto ela ouvia. Quem quer que fosse. como se a mulher tivesse virado repentinamente.

11 . e atravessar o corredor até seu quarto. a imaginação da minha mente. o que era? Poderia ser um fantasma ou outra coisa sobrenatural? Pois que mulher. Pois não havia a pobre srta. e logo descobri que era perfume de lírios. se fosse um dos fantasmas de Blithe. pois eu jamais havia encontrado algo como o que havia ocorrido na noite anterior. Whitaker encontrado tragicamente uma morte precoce e repentina sem oportunidade para fazer as pazes com seu criador? Não poderia ela estar revirando-se embaixo da terra no cemitério local por causa da maneira como havia morrido? De repente peguei-me pensando no que. apesar de estar exausta. Ao recordar o incidente depois. e era muita coincidência que ela tivesse acabado de chegar à casa. então. fiz meu ninho e aninhei-me. Deitei-me exausta e preocupada. passei um braço por cima dele e caí imediatamente num sono profundo e pesado. parecia-me que havia algo do seu perfume no ar. de fato. especialmente uma estranha recém-chegada. esse amor pelo rebuscamento. sua beleza feia sobre o caixão. Mas talvez tudo isso fosse apenas a minha imaginação. Whitaker. apesar de estar perturbada demais para ter qualquer esperança de sono. la-muriei-me pelo resto da noite até a luz começar a abrir caminho pelas pontas das cortinas e consegui correr de volta para meu quarto. Taylor. o que estava procurando ali? Os fantasmas que eu conhecia normalmente eram espíritos perturbados incapazes de encontrar seu caminho para o outro mundo por causa da maneira como haviam deixado este. Havia algo em comum? Tais pensamentos assustaram-me tanto que fiquei preocupada com Giles e tive que levantar da cama. Quem era aquela mulher? A resposta mais óbvia era que se tratava da srta. aquele perfume que eu havia notado quando nos encontramos pela primeira vez. Taylor. Estendi-me ao seu lado. onde o encontrei num sono ignorante e contente.John Harding 55 e dali até a biblioteca. que eu lembrava tão bem do funeral da srta. Eu entendia perfeitamente como algo assim poderia acontecer. E no cheiro de lírios da srta. se o que passou por mim no corredor na noite anterior não era a nova preceptora. acontecera com a mãe de Giles e por que as fotos não tinham rosto. Mas.A menina que não sabia ler . Aí acendi minha vela. poderia percorrer a casa com tanta rapidez no escuro? E se não fosse deste mundo.

Quando me ouviu. por alguma força de vontade. Falando do diabo (pois tal era ela. Isso me fez pensar. dando tantas mordidas sem recorrer à mastigação e deglutição. Grouse sentada à mesa. apenas pela nossa simples existência. — Giles. srta. — Eu lhe disse — ela sibilou -. waffles e calda. a mesa mais uma vez estava posta para três. ovos. Giles agarrou seu waffle de novo. andando para cá e para lá para nos trazer cereal. Taylor disparou como uma chicotada e derrubou-o de sua mão. naquele momento ela chegou. — Que jeito seria.John Harding 56 Pela manhã. tomando café com Meg. A srta. Teria sido um bom momento para deixar cair uma gota caso houvesse dificuldade para controlá-la. Grouse. Desejou bom-dia a Giles e a mim e foi até a porta da cozinha dar bom-dia para todos os criados e também para a sra. pudéssemos de alguma forma ofender. Ela riu para mim e eu devolvi um sorriso fraco. Foi a srta. através da porta aberta da cozinha. quando Giles e eu chegamos para o café. Taylor quem quebrou o silêncio.A menina que não sabia ler . lançou-me um olhar tão melancólico que quase me senti culpada demais para comer. assim não. Taylor? — Bem. Como havia acontecido isso? Comemos nervosamente. Taylor ocupava a mesma posição e mesmo assim. srta. Taylor não seria assim. todos já estavam agindo em relação a ela como se fosse da realeza. e a mão da srta. Giles engasgou. então tomou um gole do seu café e pousou a xícara. como se. Apesar de todas as falhas. a sra. não comemos desse jeito. pois tanto Giles quanto eu temíamos chamar atenção. Uma parte de mim já sabia que a srta. a sra. vi. como você verá). em silêncio e tomando cuidado para não deixar o garfo bater no prato ou pousando os copos de leite na mesa sem fazer barulho. junto com a sra. — Giles — ela disse. Whi-. Desconcertadas. porque certamente seria ouvida em alto e bom som. Grouse era no fundo uma boa alma e também fácil de controlar. quer dizer. Ao sentar-me. Os olhos de Giles começaram a encher-se de lágrimas. Whitaker havia sido tratada como uma espécie de criada. Meg e Mary arrastaram as cadeiras e levantaram-se deixando a própria refeição. Grouse. pois a srta. embora de outro nível. Mary e John. .

Giles e eu saímos correndo à frente dela. no entanto. e então ela finalmente engoliu tudo e disse: — É assim que não se come. Ficamos em silêncio durante todo o resto do café. abriu um sorriso concedendo-lhe instantaneamente seu perdão pelo tapa na mão que lhe arrancou o waffle. — Não por aí. nós nos soltamos e agimos como se não tivéssemos uma nova preceptora. escon-dendo-nos atrás de arbustos e pulando um sobre o outro. e balançou a cabeça. Mal sabia eu. subitamente liberado do latim e de história. meu garoto. Assim como? — Bem. E eu também pensei que isso talvez não fosse tão ruim. por que vocês não me mostram a propriedade? Giles. Na propriedade. Mas. pois suas bochechas estavam cheias como as de um hamster. tão odiosos para ele quanto o bordado para mim. como não fizesse outra coisa além de sorrir ternamente diante de nossas ações e acenar em sinal de aprovação. porém. A srta. e também meu primeiro aqui. deduzi.John Harding 57 — Eu.. senhorita. como um pássaro maluco bicando. antes mesmo de começarmos a subir. . mas no fundo de boa vontade. e senti o coração desolado com a ideia de passar o dia sobre alguma tapeçaria inútil quando desejava estar na biblioteca. Depois que terminamos.A menina que não sabia ler . quando saímos da sala de jantar. até a coisa toda desaparecer. a srta. mas não entendo. Taylor examinou os arbustos em que nos escondíamos principalmente porque estavam tão altos que ofereciam um ótimo esconderijo. o sol está brilhando. que talvez essa fosse uma mulher de temperamento ríspido. Taylor chamou-nos. Vejam. Poucas vezes vi Giles chorar e.. esse jeito de limpar as lágrimas foi um gesto tão inconsciente e por isso. que me perguntei quanto havia chorado enquanto estava na escola. pois não tínhamos ideia de quais seriam as restrições. Diante de um dia tão adorável. Houve um longo silêncio em que Giles e eu ficamos olhando para ela de boca aberta. Giles e eu fomos na direção da escada para ir até a sala de estudo. sem parar para mastigar ou engolir. Começamos cautelosamente. crianças. eu sinto muito. tão familiar. assim! — ela agarrou o waffle e começou a mordê-lo freneticamente. Entende agora? As bochechas de Giles iluminaram-se e ele limpou as lágrimas com as costas da mão. uma mordida depois da outra.

Taylor. — Quer dizer.. . onde foi que aconteceu? Soube imediatamente o que ela queria dizer. era o lugar exato. Aquele. "pior que erva daninha cheira o lírio que apodrece". é o que ele diz. passando pelo velho embarcadouro de madeira e a casa de barcos. Mas eu não podia dizer isso. senhorita. como havia pensado no dia do enterro. — O que quer dizer? — O acidente. a limpeza e os exercícios dos cavalos. e estávamos na metade da volta quando ela parou e olhou para a água. é muita coisa para um homem. Você não estava no barco com ela? Pelo que sei. só temos John para cuidar de tudo e ele tem tantas tarefas na casa. Ela se distanciou sorrindo e examinou os arbustos novamente. o lago — ela constatou. Finalmente chegamos ao lago.A menina que não sabia ler . é claro. no verso de Shakespeare. Continuou caminhando e nós a seguimos. eu — ele balbuciou. estava. sua brancura gelada no caixão da srta. Ela começou a andar em volta dele e nós a seguimos.. — Bem. veja bem.John Harding 58 — Tudo tão tristemente negligenciado e desleixado — ela murmurou. senhorita. assim como os cuidados com a propriedade. Antes de conseguir me recompor. e senti um frio na espinha. Nesse momento olhei para a beira da água e vi os lírios florescendo e lembrei imediatamente do seu perfume na mulher invisível que havia passado por mim à noite. — Eu. que não está ficando mais jovem. Ela disparou um olhar. Ela olhou para Giles. E pensei. e respondi. Estremeci com o fato de ter escolhido exatamente aquele lugar. afinal de contas. senhorita — respondi educadamente. — Ah. percebi que alguém estava falando comigo e que era a srta. — Por que permitiram que ficasse desse jeito? Parei de brincar. balançando a cabeça de maneira enfastiada. — Diga-me. que se contorceu como se o seu colarinho tivesse ficado muito apertado repentinamente. perseguindo um ao outro em seu rastro. especialmente um que não está ficando mais jovem. A alimentação. sem perceber que ela estava falando para si mesma. Whitaker. — Sim.

para o lugar em que estava o barco quando a pobre srta. Não gosto de pensar naquele dia. Expliquei que. Ela me fez perguntas a respeito do lugar. se não se importa. embora eu tenha acrescentado "com um pouco de sorte ele logo ficará doente de novo". o perfume mortiço dos lírios. mas eu não sabia se era dos lírios de verdade que cresciam junto ao lago ou se era o perfume da nova preceptora. Foi só quando estávamos no bosque e expliquei que a trilha em que estávamos levava até a casa dos Van Hoosiers. no que ela disse "Ah". Whitaker havia lhe dado algumas frases em latim para escrever. eu estava na sala de estudos. como se já soubesse as respostas ou não tivesse interesse nelas. Nesse momento soprou uma brisa que mexeu o fino tecido de sua blusa. e que era esse caminho que Theo. e quando decidi que era seguro encará-la novamente. — A srta. Giles confirmou com a cabeça. — Vai começar a esfriar e umedecer em poucas semanas — entusiasmei-me -. ele logo estaria voltando para Nova York e para a escola. por isso ri e expliquei que Theo sempre vinha até aqui quando estava com asma e por isso esperava que ele tivesse outra crise em breve. Taylor virou-se e dirigiu-me um sorriso malicioso. vi que não estava olhando para mim. e lá estava ele novamente. ela estava olhando para o lago. Ela não respondeu. A srta. — Só eu. Ele estava na sala de estudos.A menina que não sabia ler . meu amigo especial. pegava exceto quando havia neve. — E o que aconteceu exatamente? Eu lhe dei as costas. — Prefiro não falar sobre isso. apesar de estar certa de ter sentido o peso dos seus olhos em minhas costas. o que deixou seu rosto com uma expressão desconcertada. com o verão quase acabando. que seu interesse despertou e ela me fez algumas perguntas a respeito dele. — Sim. Estávamos só ela e eu no barco. Depois caminhamos a esmo pela propriedade e perambulamos pelo bosque. Whitaker desapareceu tragicamente. e então passou por mim. como se isso fosse o certo. . voltando para o caminho de onde tínhamos vindo. mas não estava realmente ouvindo o que eu dizia. e isso é muito ruim para seu peito.John Harding 59 — Não Giles — eu disse.

quanto a isso não havia dúvida — não conseguisse se decidir se estava cantando ou não. realização da srta. da srta. os olhos estranhamente entreabertos. intermediados pelo quarto de estudos. pois comecei a ter o sonho. Ficando na cama. Pela maneira como haviam sido arranjados. tenho certeza de que muito depois da meia-noite. mas também com outra para o quarto de Giles. foi a mesma coisa: fiquei desassossegada e não consegui dormir. Depois a srta. Giles e eu tínhamos cada um nosso próprio quarto. devo ter adormecido. Taylor sentada observando-nos perto do lago. Whitaker. que tinha tomado seu corpo e agora olhava cobiçosamente através de seus olhos. e parecia estar adormecida enquanto Giles e eu brincávamos de pega-pega. como os de um réptil. porém. mas então foi interrompido e acordei na cama. quase um canto. Assustei-me com o sonho e fiquei ansiosa com Giles. por isso eu tinha essa sensação de que ela havia engolido uma cobra ou um lagarto. do aroma de lírios mortiços em minhas narinas e. Whitaker. Em determinado momento. claro. mas então me lembrei da figura roçando em mim no escuro. como se a mulher — pois era uma voz feminina. mas sempre que eu olhava para ela sentia que estava nos observando. embora no caso dela não só com uma porta para o corredor. mas não exatamente. um som estranho. colocou um grande tapete no gramado atrás da casa e junto com Meg trouxeram comida. meu sonho de sonâmbula. e agora. que estava preso dentro dela. a srta. mas ela nos disse para esperar do lado de fora e entrou para pedir a Meg que nos preparasse um piquenique. embora só pudéssemos alcançá-lo pelo corredor. Taylor sentou-se com as costas apoiadas em uma árvore.A menina que não sabia ler .John Harding 60 Passava do meio-dia quando voltamos para a casa. Percebi que vinha um som pelo corredor daquela direção. não diretamente dos quartos. 12 Aquela noite pensei em fazer-me de sonâmbula novamente. . dormia. Taylor. e decidi que o risco de fazer aquilo numa segunda noite seguida era grande demais. No outro lado do quarto de Giles era onde a srta. Mary veio. com aqueles olhos de serpente entreabertos. acima de tudo. Quem afinal era essa mulher? Como havia sido contratada? O que sabíamos a respeito dela? Ela não havia deixado escapar nada.

pelo menos. pois a noite do final do verão estava quente e não havia ninguém. para me ver de camisola. por isso levei alguns segundos até perceber de onde vinha o barulho. se você tivesse me perguntado antes que tipo de barulho um fantasma faria. Percebi que estava quase encantada com aquilo. quando cheguei à porta de Giles. convencendo-me que devia ter sido aquilo o que eu ouvira o tempo todo. Abri a porta lentamente. Coloquei cautelosamente a mão na maçaneta da porta e virei—a lentamente. Mas. tateei até encontrar meu robe e me cobrir. nem um ser vivo. e então. estava no quarto de Giles. soube que minha presença não fora notada. se os espíritos dos mortos realmente caminhassem e pudessem dar voz aos seus sentimentos inquietos. Instintivamente cobri a cabeça com os cobertores para me esconder do que quer que fosse que andava à noite e para abafar o barulho que fazia. pois sabia que nunca conseguiria descansar até me convencer de que meu precioso irmãozinho estava a salvo. temendo mais uma vez fazer qualquer barulho. Fui descalça até a porta. eu tinha que continuar. mas ouvi apenas o vago sibilar do vento da noite e tranquilizei-me. Mas. o que quer que fosse. saí para o corredor. desatenta ao barulho que fazia. Porém. além do tilintar de correntes ou do queixume constante ou algo desse tipo. Abri a porta e o que vi quase me tirou o fôlego. então. mas como se tivesse aprendido música de alguma maneira e estivesse uivando no tom. não havendo mudança. Balancei a . mas reconhecia agora que. pois o canto persistia como antes. parando por um instante quando ela rangeu. Tropeei pelas tábuas nuas.John Harding 61 lamentando talvez a morte de alguém. espreitei por algum tempo. eu não poderia responder porque jamais havia pensado se eles produziam algum som.A menina que não sabia ler . como poderia pensar em mim mesma quando Giles estava completamente sozinho — mesmo que isso não representasse nenhum perigo — e mortalmente aterrorizado com aquele som horrível? Saí da cama. baixo e misterioso como um hino fúnebre. na verdade pensando em alardear minha aproximação para talvez afugentar a coisa. soando como nada além do próprio vento. Era pior do que eu pensava. Agora. tanto para conforto quanto para qualquer outra coisa. Mal tinha colocado um pé na frente do outro quando captei novamente aquele lamento baixo. iriam soar daquela maneira. pois a coisa que estava fazendo barulho. mesmo que fosse.

Florence. Houve uma batida na minha porta. comecei a lembrar mais e mais. — Bom dia. Mas na noite anterior eu havia caminhado antes. ela estava vestida toda de branco. senhorita. A última coisa que acho que ouvi. Sentia que havia algo diferente da maneira como as coisas sempre foram. A cena diante de mim não desapareceu. cantando suavemente. e colocarei o café à sua frente. com camisola e robe de renda. srta. mas era tarde demais. é verdade. quando eu caminhava à noite. Agora. tentando limpar a visão à minha frente. Com um gesto materno. Aos poucos. o estranho canto fantasmagórico que havia me tirado da cama em primeiro lugar. Ou pelo menos me parecia agora que tinha sido assim. eu poderia comê-lo! A mulher era a srta. Eu tinha começado o sonho. sente-se. que não era nada parecido com qualquer coisa do meu sonho. afinal. e então eu caminhava. pois tinha ouvido dizer que isso serve para verificar se o corpo está dormindo ou não. foi o barulho do meu corpo caindo no chão. Taylor. seja uma boa menina.John Harding 62 cabeça incrédula. Atordoada. está tudo bem agora? Fico feliz em vê-la acordada. ela estendeu a mão na direção do meu irmão. Mas o quê? Então percebi. em vez do negro do meu sonho. então tive a presença de espírito de beliscar meu braço.A menina que não sabia ler . mas então acordei. *** Acordei na minha própria cama com a luz do sol brilhando através dos vãos da cortina. era assim que começava o meu sonho: eu via a mulher inclinando-se sobre a cama de Giles. Mas eu simplesmente havia sonhado ou caminhado sonâmbula também? Havia algo estranho em tudo isso e por um minuto ou dois minha cabeça vacilante não conseguiu adivinhar. tinha sido apenas meu sonho novamente. só que agora. deunos um grande susto ontem à noite. nem eu acordei. Obedeci. mas suas crises de sonambulismo sempre assustam. Então. a mesma mulher estava inclinada sobre a cama de Giles. Normalmente. apesar de não sentir. Era quase exatamente como no meu sonho de todos aqueles anos. meu querido. seguida por Mary entrando com uma bandeja. tirou o cabelo de seus olhos e então disse: — Ah. e então a tinha visto. Sempre. depois não me lembrava de ter caminhado. . saí da cama e caminhei perfeitamente consciente. estendi a mão para segurar o batente da porta e salvar-me.

Nunca tinha havido nenhum som como esse no meu sonho antes. senhorita. Era uma hora da manhã. senhorita. — Disse que a srta. — Meu Deus. sim.John Harding 63 — En-então aconteceu. eu poderia comê-lo!". só até o quarto do sr. ou teria ficado ali a noite inteira e acordaria dura como uma tábua. pois não havia sido informada das suas buscas noturnas. e no final John pegou-a e colocou-a de volta em sua cama. Por um lado.) — Tome o seu café. não. tudo parecia muito simples. não antes. pois minha mente era uma colmeia de pensamentos. — (Apesar de ter sido ela quem falou o tempo todo. eu não podia. E não parecia como no sonho. senhorita. abriu as cortinas para que a luz do sol inundasse o quarto e ocupou-se servindo-me chá e descobrindo um ovo cozido. pois estava faminta. Também percebi depois que eu ainda estava usando meu robe. O que ela estaria fazendo ali àquela hora? Não. Taylor ouviu? Mas ela já não estava lá? Mary olhou para mim e riu. Acredita que o sr. Giles continuou dormindo o tempo todo? Sorte sua a srta. No passado acontecera muitas vezes de eu desmaiar em algum lugar e ser carregada de volta para a cama inconsciente. A srta. — Ah. não nos quartos separados que tínhamos agora. Depois que Mary saiu. tomei meu café. Sempre o sonho começava comigo no mesmo quarto que Giles. caminhei sonâmbula ontem à noite? Ela colocou a bandeja no meu colo. ela a ouviu e ficou bastante aborrecida. apesar de não ter ido longe. Acordou toda a casa. onde desmaiou no chão. Taylor disse que você não deve nem sequer pensar em descer antes do meio-dia. Mas na noite passada eu tinha ido para a cama . provavelmente não querendo me acordar tentando tirá-lo. normalmente não havia som algum até a mulher incli-nar-se sobre a cama e dizer: "Ah. eles certamente haviam me encontrado com ele e me levado diretamente para a cama. No mínimo porque havia a cantoria. Na verdade. Giles. Mas o que me afligia era a ordem das coisas. Taylor ter ouvido seu tombo. mas quanto a continuar na cama e voltar a dormir. meu querido. depois continue deitada e volte a dormir. Eu tivera o sonho e um dos meus sonambulismos. E eu sempre havia sentido que a caminhada começava depois do sonho.A menina que não sabia ler . Sabe que sempre fica cansada depois das suas aventuras noturnas. como ficávamos quando éramos pequenos. Agora já chega de conversa.

Eu tinha começado o sonho. Percebi finalmente porque desde o início tinha havido essa sensação de familiaridade com a srta. assim como nunca parava por causa de uma vela. havia algo dela na primeira preceptora. apavorada demais para mover um músculo. Taylor. uma expressão. E quanto mais andava e pensava. Taylor havia mentido quando disse que me ouviu cair e saiu da cama para investigar. Não que ela tivesse alguma semelhança com a srta. na verdade incapaz. O principal entre eles era meu sonho. Meu sonho havia se tornado realidade! Exatamente como sempre acontecia. meu coração estava acelerado como se eu estivesse correndo. apesar de que. eu o tinha visto na vida real. ao pensar nisso. mas então havia acordado com o barulho que a mulher — a srta. na verdade não se parecia nada com ela. Ou. mais parecia . Whitaker. se não a nós. Certamente não tinha ido para a cama de robe e. a srta. Apesar de continuar sentada na cama. como o homem de Edgar Allan Poe em "O enterro prematuro". pois desde a mais tenra infância eu a vira inúmeras vezes no sonho. No curso de uma manhã tumultuada. a Giles certamente. tinha levantado. quando lhe contaram do meu sonambulismo.John Harding 64 apenas com a camisola. porque não iria querer que ninguém soubesse que estava no quarto de Giles no meio da noite. que desmaiara. colocado o robe. A coisa toda não fazia sentido. O que significava tudo isso? Apenas que a nova preceptora pretendia nos fazer mal. E é claro que ela mentiria. Minha frustração acabou vencendo meu medo e eu me levantei e comecei a vagar pelo quarto. Mas como podia ser que eu tivesse sonhado com ela antes mesmo de a conhecer? Como podia acontecer isso? Cerquei e cerquei isso em minha mente e não consegui chegar a uma explicação racional. planejou enganar-me para aceitar sua versão da história. algo na falsidade do seu sorriso. quando saía caminhando. agora tornado realidade diante dos meus próprios olhos. um olhar. E. a não ser que tivesse acontecido exatamente como eu lembrava. estranhamente. nunca vestia meu robe. e eu estava certa disso. ido para o quarto de meu irmão e lá havia ficado tão chocada pela visão do meu sonho. talvez. sempre o fazia com a roupa que estava usando na cama. ansiosa com Giles. Se fosse verdade. Taylor — estava fazendo e. muitos outros pensamentos ocorreram-me.A menina que não sabia ler .

Ela queria lhe fazer mal.John Harding 65 haver apenas uma explicação. — A sra. e pela maneira como olhava para Giles eu não duvidava que ele fosse o objeto de suas atenções. apesar de ter certeza de que . — Meu tio não lhe escreveu para falar dela e lhe contar sua história? Ele não teria referências. mas apenas enganada. — Ela se empertigou e fungou. srta. ignorei o pensamento. — Sra. como se o que eu estava falando não tivesse importância alguma. a razão para estar ali. Taylor? — Bem.A menina que não sabia ler . senhorita. — Sentindo-se melhor. Grouse. mas. *** Ao meio-dia desci para a sala do café. Ah. obrigada. mexendo à toa no mata-borrão que ficava em cima de sua mesa. mas a srta. talvez em uma carruagem ou no teatro. não mais que você. a pessoa que mantém tudo isto — ela estendeu os braços para mostrar tudo ao seu redor. Muito bem. Grouse. pela maneira como ela entoava as palavras "Ah. — Ah. por isso arrisquei a saleta da sra. — Sim. Grouse fungou de novo. Tinha me avisado nesse sonho a respeito dessa mulher que um dia entraria em nossa vida. — Tenho certeza de que não receberei confidências especiais. Eu não tinha dúvida da maldade. Ela é a preceptora e eu sou a governanta. Pensei em falar do suposto sonambulismo e de como não havia acontecido e do que tinha visto. referindo-se a Blithe e a todos que ali residiam — funcionando perfeitamente. aí está você. sabe. Era o mais próximo que ela jamais chegara de alguma crítica ao meu tio. Taylor e Giles ainda não estavam lá. apenas o que ela disse a todos nós. eu poderia comê-lo!". Florence — ela disse alegre. vendo seu rosto agora. ela não pensaria que eu estava mentindo. o que a senhora sabe a respeito da srta. meu querido. Pois qual pessoa que ao acordar subitamente após ter dormido em um lugar inadequado. e meu sonho tinha um objetivo: salvar meu irmão de qualquer que fosse a maldade que ela havia planejado. sempre um sinal de desaprovação. apesar de parecer impossível. Grouse — disse. onde a encontrei sozinha. espero. — Sra. da família e de empregos anteriores? — Seu tio não teve nada a ver com isso. não insiste em que não havia dormido de forma alguma? Decidi adotar uma conduta diferente. ela jamais acreditaria em mim. exceto por mecanismos sobrenaturais. e era isto: eu tivera uma premonição.

ela estava reconhecendo o que ambas sabíamos. Grouse estava me olhando pensativamente. A srta. mas consciente. Taylor foi toda sorrisos. Mexi com o mata-borrão mais um pouco. — Espero que tenha se recuperado da sua aventura de ontem à noite. talvez não goste dela? Ela falou com um tom conspirativo e eu sabia que. a sra. Houve um estranhamento e logo ouvi as vozes de Giles e da srta. Além disso. sabendo que esse era um caminho perigoso.John Harding 66 ela o considerava negligente em relação a nós. e tinha visto o que ela pretendia. Ainda assim.A menina que não sabia ler . ao mesmo tempo. sem importância. Paralisei diante daquela palavra e da maneira como ela a enfatizara. Ergui os olhos. Só estava curiosa. Pode contar que ela veio totalmente recomendada. — E que. igno-rando-nos e desejando preocupar-se o mínimo possível conosco. por isso contratou uma agência educacional para tomar conta do assunto. sinalizavam que deveria haver uma espécie de trégua entre nós em que a verdade ficaria adormecida. crianças. desculpei-me e saí. Grouse. seus sorrisos. Acautelei-me. As pessoas de lá devem ter verificado suas qualificações. — Não. A sra. Não havia outra pergunta que eu pudesse imaginar. Taylor. eu gosto dela. . Grouse queria tornar-me sua aliada. Pois. — Ele disse que havia tido o inconveniente de entrevistar a srta. Eu não me esquecera de como ela havia se conciliado com a srta. Whitaker. só isso. — Mas por que está perguntando. se eu compartilhasse confidências com a sra. Parecia um beco sem saída. mas algo leve. bem. que eu não estava sonâmbula. Balancei a cabeça. ficaria vulnerável se as relações entre elas melhorassem. De certa forma. senhorita? Há alguma coisa na srta. contrariada como estava com a nova preceptora. a desconsideração em tom jocoso com o que havia acontecido não como a manifestação de alguma perturbação mais profunda. sem saber o que dizer. Taylor que a incomoda? Não respondi. pode ter certeza disso. estava no exterior. Whitaker e não poderia se incomodar com uma entrevista atrás da outra para encontrar uma nova preceptora.

— Sim. Obrigada. — E eu dormi o tempo todo — Giles falou alegremente. — Ah. pois ninguém jamais havia demonstrado tal familiaridade com nenhum de nós. e você não é diferente. e Giles e eu entendemos que isso significava que o café havia acabado. Taylor estendeu a mão e mexeu em seus cachos loiros. Whitaker me fazia costurar. Teria ele esquecido o incidente no café da manhã do dia anterior? Mas assim era Giles. não com ressentimento. — Para onde estamos indo? — perguntei enquanto corríamos atrás dela. — Entendo alguma coisa de sonambulismo. sem nada para mantê-la ocupada. Lançou-nos um olhar expectante. mas como podia fazer isso com Giles olhando para ela como um filhotinho agradecido? Parecia até que iria lamber a mão dela. meu querido. mas com gratidão quando.John Harding 67 — Sim. mostravam qualquer gesto de bondade. — Deixaram-na sempre solta. Eu quis protestar. senhorita. Ela limpou os lábios com o guardanapo e ficou em pé. mas estamos em 1891. você dormiu o tempo todo. Eu me concentrei nas respostas breves. Isso não lhe fez bem. Ela parou e tomou um gole do seu café. Sou da opinião que todas as mulheres.A menina que não sabia ler . precisam de um pouco mais de estímulo. girando-o por um momento na boca antes de engolir e prosseguir. Vou corrigir isso. . A srta. — Bem. por mais triviais ou mesmo inconscientes da sua parte. durante os intervalos em que não o provocavam ou machucavam. uma imaginação que não tem o suficiente para ocupá-la e então procura coisas que não existem. Os dias em que as damas só tocavam piano e pintavam um pouco — e mal — e bordavam coisas inúteis estão chegando ao fim. costura! — ela pareceu irritada. Acredito que seja o resultado de um cérebro ocioso. Eu podia imaginar como havia reagido aos provocadores da escola. Taylor virou-se para mim. embora eu confesse que não o fazia muito bem. é claro que existem coisas que se esperam que uma jovem aprenda.senhorita. mas depois suavizou um pouco. — A srta. Isso me pareceu uma espécie de aviso. Ficamos em pé num salto e ela saiu marchando conosco em seu rastro. srta.

O pó acumulado durante tantos anos havia sido varrido do chão. — Ora. de maneira a parecer educada. embora houvesse um pouco — como poderia não haver depois de ter visto a srta. Nossa nova preceptora parou diante da biblioteca e esperou que a alcançássemos. Taylor cobiçando Giles em sua cama? -. Então abriu a porta e deu-nos passagem. preenchendo o vácuo que lhe fora negado durante tanto tempo.A menina que não sabia ler . mas porque não conseguia deixar de ver e rever os acontecimentos do dia. e saiu da sala. e Mary endireitou-se imediatamente. Havia uma coisa boa e uma má. Taylor bruscamente. — Muito bem. a coisa boa era muito boa — nossa visita à biblioteca. limpando os vidros com um pano. Giles e eu havíamos acompanhado a srta. e apesar de a coisa má ser uma gralha em um monte de neve.John Harding 68 Ela atirou sua resposta sobre o ombro. e Mary agora estava nas janelas. pegou seu balde de água. Algumas das janelas estavam abertas. O que significava aquilo. pode terminar de fazer isso depois. fiquei me revirando na cama. lutando para manter o ritmo. Ficamos perto da entrada. As cortinas haviam sido abertas e a luz do sol banhava todo o aposento. carecia do habitual cheiro de mofo reconfortante dos livros antigos. de boca aberta diante do que vimos. sem conseguir acreditar em nossos próprios olhos. no entanto. para onde mais? Para a biblioteca! 13 Naquela noite o vento não uivou. mas de olhos arregalados um para o outro. senhora". embora eu lamentasse até certo ponto porque. não tanto por ansiedade. Mary. especialmente para uma garota que passara a maior parte da vida enterrada em Blithe. sem fôlego para falar por causa do passo acelerado. Havia acontecido tanta coisa. Taylor enquanto ela seguia naquela direção. com um toque delicado nas costas conduziu-nos para dentro da sala. Grouse sabia? Meu tio? Eu certamente não acreditava que soubesse. ou não teria permitido depois de ter proibido durante tantos anos. apesar de não ter nem sequer dobrado um joelho. disse "Sim. apesar do frescor da brisa do final do verão. por favor — disse a srta. palavras que pensei que jamais ouviria. . que estava nos levando para a biblioteca? A sra.

ou seja. Ela se virou e olhou para Giles enigmaticamente. tocando a lateral de uma prateleira ali. e eu sabia que ele estava meramente evidenciando meus próprios pensamentos. reconhecido que era ela quem mandava. Taylor observou-o com um leve sorriso. fui até o fundo da sala. Não ouse. ou pelo menos assim esperava eu. Aproximou o rosto do meu e eu senti o forte aroma de lírios mortiços. — Puxa — ele disse. Engoli em seco. da maneira mais casual possível.. Taylor virou-se para nós. Dessa maneira errante. Encarei-a despudoradamente. Quem teria imaginado? A srta. Ela me soltou e levou a mão que me agarrara à cabeça. mais rápida do que o ataque de uma cobra. Eu não iria adulá-la. O que fazer agora? Deveríamos agir como se nunca tivéssemos visto aquele lugar antes? Ou assumir que ela já devia ter imaginado o contrário e por isso abriu o jogo? Giles. por isso me virei e caminhei lentamente pela sala. quantos livros. pairando nos raios de luz que entravam pelas longas janelas. Taylor atravessou a sala até mim. como se lamentasse o gesto. Mas naquelas circunstâncias era a coisa certa a dizer. . a srta. a voz da srta. — Sua pequena cómoda de linho não está aí. como os grãos de poeira. eu não iria admitir de imediato. mas não sem ternura. — Não banque a espertinha comigo. Ela atravessou a sala como uma bala. a mão.. eu sinto muito — saiu sem que eu pudesse evitar e desejei poder retirar as palavras imediatamente.John Harding 69 Quando a porta se fechou atrás dela. — Eu. agarrou-me pelo pulso. mas porque eu tinha feito o que não queria. e ao ver aquele sorriso percebi que ela sabia das minhas visitas à biblioteca. para arrumar o cabelo. Ao contornar a chaise. parecia que não conseguia olhar para Giles sem morder os lábios. como sempre.A menina que não sabia ler . — E você. passando o dedo por um livro aqui. minha jovem. pois ela pareceu ter suavizado. sem dúvida levantados por Mary. não por querer. — Estou certa de que não sei do que está falando. na direção da chaise longue atrás da qual escondia meus cobertores e minha vela. Giles olhou ansiosamente para ela e para mim. ficou tão nervoso que se atrapalhou todo. olhando ao redor de modo bem teatral -. imagino que nunca esteve aqui também? Giles se contorceu. Mandei que tirassem tudo. Ainda assim.

eu. como o rei Canuto. sem dúvida. é.. senhorita. Whi. Talvez deva salientar que nem a sra. ela prosseguiu. você entende. Mas não vejo sentido em que continue a vir às escondidas à procura de livros como vem fazendo há tantos anos. Não posso ir abertamente contra as restrições de seu tio. muito obrigada. para cá e para lá. — Se formos interrompidos por um dos criados.. — Como o rei Canuto! — exclamou Giles.. Eu não conseguia acreditar. Sugiro algo bem grande. tentando agradá-la. ou que a maré não suba. srta. parando diante de nós.. — Dizem que você não sabe ler.. escute atentamente. quer dizer. maior. — Bem. Eis o que proponho. Eu a desafiei com o olhar. senhorita. . você e eu sabemos que isso é bobagem. — ele me olhou pedindo socorro. eu. passando o braço em torno de sua cintura. por mais ridículas que possam ser. do que um livro médio aberto. Esforcei-me para compor o rosto. — Sim. você só precisará certificar-se de que o bordado esconda qualquer coisa. Ela o agraciou com um sorriu. mas isso mostra quão ridiculamente desa-tualizado está esse homem. O rosto da srta.A menina que não sabia ler . Bem. Você também pode — fez uma pausa — sugerir livros que Giles possa gostar de ler mais tarde na sala de estudos e eu os levarei até lá. — Agora. Também não pretendo perder meu tempo tentando impedi-la. srta.. Sugiro que. que esteja em seu colo. Por isso não questionarão a presença de nenhum livro. não indelicadamente. Por fim.John Harding 70 — Bem. digamos. Você também pode ordenar que o sol não brilhe. qualquer obje-to. Grouse nem os criados conseguem distinguir que livros são apropriados para um menino da idade de Giles e quais estão além dele. voltou para onde havia começado. Ela se dirigiu a mim. Taylor relaxou subitamente e ela sorriu. Taylor. Sempre foi. não? Vendo-me desconcertada para responder.. quando trouxer Giles comigo para estudar. Giles e eu ficamos grudados no lugar. o que me diz? — Sim. Fui e fiquei ao lado dele. — Sei que seu tio proibiu. você nos acompanhe com algum bordado que esteja fazendo. Ela se virou e caminhou pela sala.

Aberto no meu colo eu tinha o primeiro volume de A mulher de branco. como se retirasse o elogio que me havia feito porque elogiava ainda mais a professora que havia conseguido a mudança. Deve continuar a fazê-lo. mocinha. Isso é exatamente o que seu tio gostaria. Na mesinha junto ao meu cotovelo estava meu bordado. todos os quais. Coloquei a vida do meu irmão em risco pelo meu próprio prazer culpado. mas sempre lá para me ajudar em minha jornada para ler todos os livros da biblioteca. como se estivesse perdida em pensamentos. Muito claro.A menina que não sabia ler . Está claro? — Sim. de Wilkie Collins. Taylor virou-se abruptamente. Estava na metade do segundo capítulo do livro quando bateram à porta. Taylor. E você. — Só há uma coisa — ela olhou para Giles. terá que aprender a não se interessar tanto pelos assuntos dos outros. ensinando verbos franceses a ele. caso contrário posso começar a procurar o que há embaixo do seu trabalho com as agulhas.John Harding 71 Ela se virou para a janela e observou os gramados iluminados pelo sol. Enquanto isso. admito isso agora. pois teremos todos dificuldades se não o fizer. Ela me viu primeiro e um sorriso iluminou seu rosto como um fósforo numa fogueira. Quase desmaiei de tanta emoção. que prazer vê-la tão entretida com as agulhas. . olhei ao redor. no quarto de estudos. é claro. guardou o segredo de sua meia-irmã durante muitos anos e guardou-o bem. Florence. A srta. Fechei o livro e o cobri com o bordado assim que a porta se abriu e a sra. eu numa ponta e a srta. senhorita. Com que facilidade a mente se torna egoísta! Com que facilidade deixamos de lado a perspectiva de um futuro desastre pelo prazer do presente! Fiz-me de avestruz por causa dos livros. Grouse entrou. Então ela evidentemente se lembrou do que tinha vindo fazer e o sorriso desapareceu quando voltou sua atenção para a srta. uma capa de almofada que seria como a de Penélope. Nunca tinha visto os livros todos de uma vez e em toda a sua glória. — Nossa. eu já conhecia. Taylor na outra com Giles. senhorita. srta. C/5 Então lá ficamos naquela tarde. sem querer fazer nada que pudesse estragar uma coisa boa. Não fará perguntas a respeito deles nem espionará durante o dia ou à noite. embora silenciasse tanto naquela quanto na minha língua nativa. nunca acabada. eu sei. — Você. isto é.

que não a conhecia ainda. pois a sra. — Bem. Grouse com um tom de zombaria tão imperceptível e sutil que ela não poderia demonstrar-se ofendida abertamente sem causar embaraço a si mesma -. Folheou o livro que estava segurando. a mão na testa como se fosse desmaiar. Sentamo-nos e desejamos boa-tarde a ela. Esperei um pouco até a sra. A srta. mas temos visitas. mesmo que para o encargo piegas da despedida por quem sabe quantas semanas. e então me preparei para seguir a governanta. pelo menos até seu próximo ataque de asma. Nossa nova preceptora pareceu incomodada por um instante. que caiu no chão. no meu caso. descemos a escada. Fizemos como ela falou. Nesse momento ela estava quase no seu eu sempre áspero. Grouse me dar as costas para poder tirar A mulher de branco do colo e deixá-lo na mesinha. Van Hoosier ocupava quase toda a saleta. Giles. Taylor com um braço em torno da sua cintura e le-vando-a pelo corredor na direção do quarto da preceptora. crianças. mas então. Nós três nos viramos e vimos a srta. Grouse.A menina que não sabia ler . Vão até a saleta e recebam Theo e sua mãe. Taylor — disse a sra. devemos ir nos despedir. Theo.John Harding 72 — Peço a sua licença. não devemos deixar nossas visitas esperando. imaginei que tivesse ficado aborrecida por ter sido perturbada no meio do trabalho. Naquele momento. Virou-se para nós e sussurrou: — Continuem. dizer olá e adeus imediatamente. empolgada com a perspectiva de ver Theo. Grouse parou e apoiou-a. — Oh. não . e tínhamos acabado de atravessá-la quando ouvimos um gemido atrás de nós. a sra. céus! A sra. crianças. No começo foi difícil ver Theo. srta. o rosto algo preocupado. enquanto ajudo a srta. Van Hoosier e o jovem sr. — Ai! — ela disse. olhando para trás para ver a sra. e curvou-se bruscamente para pegá-lo. Grouse apoiando a srta. Vieram prestar seus respeitos antes de fecharem a casa para voltar a Nova York. Taylor apoiando-se no batente da porta. mas depois percebi que essa talvez não fosse a razão. Giles e eu nos olhamos e demos de ombros. A srta. Taylor. Ela ficou em pé esperando e Giles fechou seu livro agradecidamente e ficou em pé também. ou. — Realmente? — Sim. Taylor apressou-nos para a porta atrás da sra. Taylor ergueu os olhos.

Viemos apenas para nos despedir e dar uma olhada na nova preceptora. Van Hoosier colocou diante dos olhos os óculos. não mais que isso. — De qualquer maneira. sorrindo com os olhos. — Eu. mas Theo e eu não gostávamos tanto da brincadeira. por favor. não quero que você me venha com outro ataque de asma justamente quando estamos de partida. Tomarei sozinha se a infeliz não está bem. eu acho que isso não será possível. e examinou meu irmão. Theo. por gentileza. ou. Florence — ele disse. — Que infelicidade que ela tenha escolhido justamente este momento para sentirse mal. Nada contagioso. — Qual é seu problema. e nada de correr. Ah. mas só por meia hora. e Florence. A sra. eu não me oponho. — Expliquei para aquela sua governanta que não podemos nos demorar. Virou-se para mim. preferiria ser pregada no chão nua e coberta com mel à mercê de formigas assassinas que a matariam lentamente. ou ser colocada em um barril e enviada para as cataratas do Niágara e esmagada em pedaços rapidamente nas rochas? O que acha? A sra. C/3 Lá fora. — Ela estava vindo conosco e sentiu-se mal. madame. Van Hoosier afundou em uma poltrona. garoto? Theo surgiu atrás dela. Giles nos implorou para brincarmos de esconde-esconde e saiu correndo para se esconder. — Bem. agora completamente dominado por uma combinação de busto e estilo bombástico -... A sra. peça que me tragam um chá. crianças. como as pirâmides.John Harding 73 conseguia desviar os olhos dos seus peitos e ficava olhando para eles como se fossem um monumento famoso. Giles. quiserem ir lá fora. — Theo. — Olá. Temos que pegar o trem das seis e quinze para Nova York. meu garoto? — Ela perguntou. madame — irrompeu Giles. Van Hoosier virou a cabeça para trás indicando sua surpresa por ser cumprimentada dessa maneira e então sorriu. madame — eu disse. Grouse ficou cuidando dela. Fomos . A sra. onde está você. — Olá. uma dupla delas. talvez. é claro. neste caso. se vocês. espero? — Ela acenou para nós. — Nunca viu uma dama antes? — Por favor. não é realmente típico de menino preocupar-se com coisas assim? Eu me lembro de quando Theo tinha essa idade — nisso ela virou a cabeça para cá e para lá.A menina que não sabia ler . que usava pendurados em um cordão em torno do pescoço.

— Seis meses. — Europa — repeti hesitante. — Embora? O que você quer dizer com embora? Ele ainda estava interessado em suas mãos. que se interligavam e soltavam como se ele não tivesse controle sobre elas. . Ele abaixou o olhar para as mãos. — Vamos todos para a Europa. fazer uma viagem a passeio.. aqueles longos dedos ossudos que pareciam desprovidos de carne. Que outro aliado além de Theo eu teria contra a srta. você logo vai voltar para a escola. — Eu devia ter lhe contado antes. se fossem essas as suas intenções? Para quem mais além de Theo eu poderia me voltar em caso de necessidade? Giles tendo sido encontrado e saído para se esconder novamente. — Então. — Foi justamente isso que vim lhe dizer. Não respondi. Vim adiando porque não suportava. Eu não vou voltar para a escola. Ficou contemplando sorumbaticamente o encanto daquele dia.. Meu coração disparou uma vibração de pássaro preso na gaiola. Ele está atrás do rododendro. embora a cada cinco minutos Theo tivesse que se levantar para encontrar Giles apenas para mantêlo interessado no jogo e longe de nós. Theo — eu disse. como dois animais estranhos lutando. — Eu sei! — Theo falou e afastou-se. Por fim. pelo menos não por enquanto. Taylor? Quem mais poderia me ajudar a proteger meu irmão quando ela tentasse levá-lo embora. -Sim? — Bem. ou pior.John Harding 74 sentar na parede de pedra que ficava atrás da casa para podermos conversar. eu estava pensando. A notícia não poderia ter vindo em pior momento. Nesse momento. assim que sentamos pela primeira vez -. Tentei absorver o que ele acabara de contar. — Por quanto tempo? Ele me olhou melancolicamente. ele disse: — Florence.A menina que não sabia ler . Saímos na sexta-feira. Theo voltou e sentou-se tristemente ao meu lado. Ergueu a cabeça e lançou-me um olhar sofrido. Giles chamou e eu disse: — E melhor ir procurá-lo. minha mãe e eu. Nós vamos embora. meu pai. e corou.

sinto mesmo. Prometa. você não está imaginando coisas demais? — Prometa. é claro. se poderia. — Bem. — Prometa. — Não. Quer dizer. isso foi uma coisa furtiva para fazer com uma garota. prometa que. E inclinei a cabeça. — Eu sei — ele disse. bem. você não descansará enquanto essa mulher não pagar. não fale assim. você não entende. Apenas seis meses. No entanto. beijá-la. — Caramba. se você voltar da Europa e algo ruim tiver acontecido a Giles ou a mim. Uma lágrima marcou meu rosto. Ele simplesmente tinha um rosto muito comprido e era muito ossudo. Olhei para ele. E então contei tudo a ele sobre a srta. Você acredita que hoje não tenho um? Sinto muito por isso. mas só um fantasma ou algo parecido. e como ela ficou sobre o corpo adormecido do meu irmão e como eu temia que ela no mínimo pretendesse roubá-lo de mim. Ficamos sentados contemplando o dia mais um pouco. algo que nenhum ser humano. Theo estendeu um de seus dedos enormes e limpou-a delicadamente. considerando que vou embora e tudo o mais e que não nos veremos durante meio ano. .John Harding 75 eu estava pensando.A menina que não sabia ler . Não parecia certo sentir tanta tristeza em um dia tão bom. — Isso envolve algum poema? — Bem. Ele me olhou com ansiedade. fantasmas! Vamos lá. não me sentia inclinada a mandá-lo embora com uma recusa. Theo. Theo. não será tão ruim. Florence. Passa logo. e uma garota não poderia vê-lo romanticamente. você sabe. não pode ser tão ruim assim. Taylor e como a encontrei andando pela casa à noite sem luz. Devia ser uma pessoa muito desconfortável para abraçar. Theo. Florence. receio que não. talvez? Se concordar desta vez. parecendo ao mesmo tempo tímido e orgulhoso. — Puxa. — Puxa. Tinha aqueles olhos grandes como bolas. afastando-me um pouco para oferecer-lhe o rosto. mas ele abaixou a cabeça e contornou meu rosto beijando-me nos lábios. nesse caso a resposta é sim. conseguiria fazer. Theo.

— Ah. obrigada. de uma maneira que me fez pensar que ela devia estar na mesma companhia teatral de Giles quando ele fingiu que nunca tinha estado na biblioteca antes. — Bem. não. fazendo um pequeno ninho para elas. . de onde Giles e eu estávamos vendo Theo e sua mãe desaparecerem das nossas vidas por seis meses pelo menos. olhou-me nos olhos e disse: — Eu prometo. — Estaremos por nossa própria conta. sim. então. talvez para sempre. não por um bom tempo. — Ah! Não cheguei a tempo? — ela disse. de tão pouco convincente. mas detectei um sinal de triunfo em seus lábios. É no outro lado do Atlântico. tomou minhas mãos nas suas. Taylor surgiu atrás de nós na porta da frente. alcan-çando-a. — Ah. estou muito melhor agora. — Theo vai para a Itália e a França e todos esses lugares. senhorita? — Giles ronronou. esses lugares ficam na Europa. sabe? — É mesmo? — Ah. Não por alguns meses. — Está se sentindo melhor. de um lado do oceano. prometo mesmo. senhorita. Taylor enquanto ela fechava a porta. 14 A carruagem dos Van Hoosiers não chegara à metade da entrada quando a srta. sim. e talvez. e são quase cinco mil quilómetros no meio. Giles. — Como assim? Ela falou casualmente. senhorita.A menina que não sabia ler . O aceno de Giles desfez-se no ar quando a carruagem finalmente virou na estrada principal e desapareceu de vista. Florence. dirigindo-me um olhar significativo. Nossa nova preceptora ignorou os equívocos de Giles.John Harding 76 Ele deu de ombros e então. e nós a seguimos. e nós estamos aqui nas Américas. certo? Ela se virou e seguiu na direção da escada. a sombra de um sorriso? Giles ergueu os olhos para a srta. — Que pena — ela disse. talvez apareçam novamente em breve. refleti amargamente. como se estivesse desinteressada. fechando-nos do lado de dentro. vendo quanto era sério. do outro lado.

portanto. Outra coisa chamou minha atenção. o capitão. Taylor evitar sua presença? A resposta tinha que ser o fato de a sra. pensei em Theo e em como sentiria sua falta. identificar suas roupas e dar outras pistas que pudessem levar à sua eventual detenção e prisão. atirando-a por cima do ombro. e era a de ter desejado evitar encontrar Theo e sua mãe. questioná-la a respeito do seu nascimento e de sua família e o que mais a preceptora tivesse feito antes. deitada na minha cama. Taylor. mas pertencer à fidalguia e. e que só poderia haver uma razão para isso. John e Mary eram pessoas simples que não enxergavam além do óbvio. Van Hoosier estaria em condições de fornecer uma descrição mais exata. . Taylor sentiu-se mal de repente. sabia que se dirigia apenas a mim. Tudo isso a srta. Alguém de uma classe superior provavelmente seria muito mais observadora. talvez — se envolvesse? E se a srta. Isso me deixou intrigada. Ela teria liberdade para fazer perguntas à srta. Taylor tinha procurado evitar. C/3 Mais tarde.A menina que não sabia ler . Van Hoosier não ser uma criada. não pudesse saber disso. conseguiria situar seu sotaque. pois tal acreditava que fosse. Grouse. Taylor sequestrasse meu irmão e desaparecesse ou — eu odiava o simples fato de pensar na palavra — o matasse e desaparecesse? Uma mulher na situação da sra. e isso me levou a pensar na visita da tarde e em como a srta. Meg. Van Hoosier parecia-me alguém capaz de arrancar os segredos de uma pedra — embora a srta. A sra. O que haveria com a sra. Por que teria desejado evitá-los? O que poderia significar isso? Eu me mexi e me virei. mas que havia fingido tudo. desde que ela chegara. Van Hoosier que fez a srta. Uma mulher como a sra. Taylor. Grouse e a Meg e Mary e outros. em como seu abandono forçado de mim deixava-me totalmente nas garras daquele demónio.John Harding 77 E pela maneira como entoou a última palavra. E se no futuro a polícia — meu velho amigo. Sua rápida recuperação evidenciava que não estava absolutamente mal. era evidente que nossa nova preceptora desejava evitar qualquer investigação sobre seu passado. não estar sujeita às mesmas restrições impostas à sra. o que estava começando a se tornar minha rotina noturna naquelas noites. Aventei vários pensamentos. Mas independentemente das características da mãe de Theo. é claro.

Era isso! Certamente era isso! Ela simplesmente estava esperando até que Giles ficasse suficientemente ligado a ela para engolir alguma história que lhe contaria sobre o porquê de ele ter que ir embora com ela. entretanto. todos os dias afastando-o sempre um pouco mais de mim. é claro. Taylor estava planejando seria executado antes que os Van Hoosiers voltassem. Só uma coisa não fazia sentido para mim. teria primeiro que conquistar um lugar seguro em seu afeto. E se não fosse por um resgate. Mas se ela pretendia apenas pegar Giles. se pretendesse ficar com Giles para sempre. avisá-lo do perigo que estava correndo. algo que não se faz em um minuto. ele já havia esquecido o incidente do café da manhã. então por que não o fazer logo? A menos. Ora. O que a srta. então outra coisa também era verdadeira. E ela havia liberado a biblioteca para mim para manter-me afastada enquanto se impunha sobre Giles. O que quer que fosse. A srta. até que comecei a pensar a respeito do que poderia acontecer depois que ela o pegasse. Eu teria que vigiá-la como uma águia.A menina que não sabia ler . que quisesse inventar um acidente para que não fosse responsabilizada e estivesse apenas esperando o momento oportuno. e depois continuar com ela. ela precisaria de sua cooperação. aconteceria logo. sua súbita explosão de raiva. e sua aparente ternura por ele parecia sugerir isso. Decidi falar com Giles a respeito disso.John Harding 78 Se eu estivesse certa (e que outros motivos poderia ter a srta. então por que não agir logo? Que diabos estava esperando? No começo isso me incomodava porque não fazia sentido. ou ela não teria ficado tão encantada com a notícia de sua ausência temporária. e a bajulava como se ela fosse a pessoa mais maravilhosa que já existira. Se o seu objetivo era fazer mal a Giles. e então ela desapareceria. poderia ser a qualquer hora. Imagine que fosse por um resgate. Se fosse assim. O acaso poderia precipitar as coisas e ela aproveitaria a oportunidade. Taylor para evitar os Van Hoosiers?). aconteceria em menos de seis meses. foi difícil encontrar um tempo em que pudesse ficar a sós com ele. No dia seguinte. Para levar Giles embora. e antes de poder garantir isso ela teria que conquistar sua confiança. Taylor pegou-o no seu quarto logo cedo e o levou para tomar café . ela teria que levá-lo e mantê-lo escondido e talvez por um tempo considerável antes de o resgate ser pago. Era tão evidente que quase me chutei por não ter percebido isso antes.

com a outra mão cobrindo sua boca para que ele não gritasse. — Eu não quero falar. Acho que veio para cá com algum objetivo maligno. qual o problema se ela ouvir? Por que nos preocuparmos? — Porque tenho certeza de que ela não é quem finge ser. quanto rara — mente ficávamos a sós. agarrei-o pelo ombro e puxei-o para o arbusto. — Não temos mais tempo para conversar como antes. embora eu pudesse ver que estava um pouco mais do que receoso. alcancei um de seus braços. Você não percebeu? — Bem. Giles ficou empolgado com isso. até ouvirmos a srta. tropeçando atrás de nós. quase sem respirar. é hora de brincar. Mas. sussurrei para ele: — Giles. Taylor escute tudo o que tenho para dizer. Afastei-me instantaneamente dele e gritei: — Você não me pega. então. seguindo um caminho que Giles e eu conhecíamos bem. a srta. Fiz sinal com o dedo para que ficasse quieto e ficamos assim. Eu não posso falar com você sem que a srta. Taylor passar. Estou quase convencida de que ela não é humana. Ele se contorceu sob o meu aperto. Só agora. Escondi-me em um arbusto de rododendro e ouvi os passos de Giles. Em determinado momento. também. Corri. com Giles correndo atrás de mim. eu acho. Não ficamos mais sozinhos. quando me aproximei de Giles e comecei a sussurrar que precisava falar urgentemente com ele. Um lugar onde podia ouvir a srta. sim. Podemos falar a qualquer hora. Isto não é hora de falar. Mesmo assim. olhei e vi que ela deixara a cadeira e aproximava-se de nós. . você não me pega! — e sumi no meio dos arbustos. — Você não entende — sibilei. Quando ele passou. é que percebia quanto ela o havia sequestrado de mim. uma espécie de fantasma. de onde observava-nos atentamente. circulando pela trilha. que é uma espécie de ser do mundo dos espíritos. preciso falar com você. Taylor acompanhou-nos até lá fora e sentou-se em uma cadeira reclinável no terraço. Quando tive certeza de que ela tinha se afastado. Como você deve lembrar.John Harding 79 com ela e a partir daí ficaram juntos quase sempre. os arbustos estavam malcuidados e haviam crescido muito. Taylor procurando no meio do mato.A menina que não sabia ler . mas um recémchegado teria dificuldade para discernir. quando estava tentando falar com ele.

. antes que eu pudesse dizer outra palavra ao meu irmão. voltou para o lugar onde teve sua morte prematura. — Você não pode saber isso. se ela for a srta. Nesse momento houve um farfalhar perto de nós. Elas não têm nem sequer o mesmo tipo de cabelo.. talvez. meus dois pintinhos perdidos. não seja bobo. — Fio. levantando a sobrancelha. o que não servia em nada aos meus propósitos. Vamos lá. Fio. você fala as coisas mais estranhas. Giles olhou para mim. Ela quer conquistar sua confiança para poder convencer você a ir embora com ela. — Giles. Está na hora de voltar para nossos livros. Whitaker. — Ah.John Harding 80 — Um fantasma? Mas por que viria até aqui se não tem nenhuma ligação com Blithe? Fantasma de quem ela poderia ser? Mordi o lábio. — Eu sei! É óbvio Fio. Talvez ela gostasse de ser nossa preceptora e quisesse voltar. por que iria querer me fazer mal.. — Mas por que ela faria isso. ainda não consegui descobrir. — Eu não sei. é mesmo. as folhas do rododendro se separaram.. Whitaker. Giles — eu me desesperei -. Depois riu. Quem disse que os fantasmas conservam a mesma aparência que tinham quando estavam vivos? Talvez se disfarcem para enganar as pessoas que ainda estão vivas. um grande faz de conta em que ele não acreditava mais que eu. Whitaker. Você não pode permitir que ela abra caminho em seu coração. Precisa tomar cuidado. Ela não parece nada com a srta.. — De qualquer maneira. Taylor. Talvez. espantado. e. Depois de meio minuto. seu rosto iluminou-se de repente. crianças. revelando o rosto da srta. falsificando um sorriso -. Fio? Ele olhou para mim como para uma estranha. aí estão vocês — ela disse. — Ah. Giles estava transformando aquilo em um grande jogo. Ele também pensou. processo que nunca durava muito tempo com Giles. Levantou a sobrancelha de novo. Ela deve ser o fantasma da srta. vocês já brincaram bastante. ou a você? Talvez ela só queira assombrar o último lugar que conheceu quando estava viva.A menina que não sabia ler . você precisa me ouvir.

mas não havia sinal dela. mas ela não estava onde pudesse ser vista. Taylor tirou um livro da bolsinha e começou a ler. Percebi imediatamente que havia alguma coisa errada. Mais uma vez. alguma coisa naquela quietude. se as fechasse por um minuto apenas. sua proximidade pressagiando uma tempestade. perto da margem.John Harding 81 15 No dia seguinte fizemos um piquenique perto do lago. e deitei-me no tapete do piquenique. e então reparei que ela não fazia nenhuma tentativa para comer qualquer coisa. Giles. e então um silêncio. dificultavam a respiração. o zumbido de mosquitos. Whitaker desaparecera tragicamente. mas seguido à nossa frente. o ar opressivo. a srta. por isso não sabia se tinha ficado inconsciente por apenas um minuto ou por uma hora ou até mais. e. A srta. A intensidade do sol. Então. Pensei que. Olhei ao redor. nosso apetite estimulado pelo ar fresco. mas lá estava ele. Seu livro estava aberto e virado para baixo no tapete do piquenique. . e lá eu a vi. mas para o próprio lago. Senti-me cansada e com dor de cabeça. que havia trazido sua vara. um único minuto. O dia estava quente e. ele foi meu primeiro pensamento. para o lugar que nunca quis olhar. mas a srta. não para a margem onde Giles estava sentado. depois que acabamos. a srta. No caminho ela não havia falado. recuperaria meus sentidos. Taylor. levantei-me e abri os olhos em um único movimento. Eu não sei por quanto tempo dormi. Taylor pegou a comida de um jeito que me fez observá-la como nunca tinha feito antes durante uma refeição. Taylor caminhou ao redor dele até chegar ao local na margem mais próximo de onde a srta. o lugar em que a srta. parecia que mal podia esperar para chegar lá. não havia como dizer. acomodou-se no banco para pescar. naturalmente. Dispusemos a comida e Giles e eu comemos com vontade. tamanha quietude no ar que senti algo gelado na espinha e fazendo cócegas no pescoço. como se estivesse sendo arrastada por uma força invisível. não consegui evitar que as pálpebras caíssem e se fechassem. no meio dele. De repente me senti exausta. a perturbação suave da superfície do lago com a agitação de um peixe.A menina que não sabia ler . à procura da srta. disse-me para olhar para o lago. por mais que tentasse lutar. Em algum momento ouvi o zumbido de uma abelha. Whitaker se desgraçara. os membros pesados. sentado no mesmo lugar em que estava antes de eu pegar no sono. algo na sensação gelada que subia e descia minha espinha. Temi por Giles.

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Taylor, no meio da água, a visão mais espantosa, de tal forma que pensei estar sonhando ou alucinando, só que era bem real. Ela estava na superfície da água, mas sem nenhum barco. Estava lá em pé, exatamente no centro do lago, com a água batendo nos sapatos, embora não houvesse nada em que pudesse se apoiar, nenhum pontão submerso, nenhuma ilhota ou banco de areia. Estava olhando para a água com uma expressão melancólica, ou algo assim na sua postura, pois eu não conseguia discernir suas feições daquela distância. E então, sentindo meus olhos sobre ela, encarou-me e olhou através de mim, eu senti, de forma que imaginei seus olhos vidrados como os de uma escultura, incapaz de dizer se ela tinha me visto ou não. De repente ela começou a andar pelo lago espirrando água cada vez que seus pés batiam na superfície, caminhando rápida e objetivamente na minha direção, de forma que só pensei em uma coisa: correr, correr para longe daquela visão terrível. — Giles! — gritei, pois sempre tive mais medo por meu irmão. — Giles! Olhe! Levantei-me do chão e comecei a correr em sua direção. Ele não deu sinais de ter me ouvido ou de ter visto... a coisa sobre a água. — Giles — ensaiei novamente. Estava quase perto dele e a figura sobre a água continuava a vir para cima de nós. Dessa vez ele me ouviu. Olhou para mim, divertido. — O quê, Fio? Qual o problema? Você não devia ficar gritando desse jeito, vai assustar o peixe. — Olhe para o lago — gritei, alcançando-o e colocando o braço em seus ombros, para dirigir seu olhar. — Olhe! Em vez disso ele olhou para mim, os olhos alarmados, evidentemente assustado com minha agitação, mas depois de um momento fez o que ordenei e olhou para a água. Observei seu rosto, esperando por sua reação. Ele apertou os olhos, perplexo, então se virou para mim. — O quê? Para o que eu devo olhar, Fio? Eu o sacudi. — Não está vendo? Você não a vê? — Quem, Fio? Quem? — Ora, a srta. Taylor, é claro, caminhando pelo lago! Ele olhou bem para mim. — Não seja boba, Fio, como ela poderia fazer isso? Eu o sacudi forte. — Você tem que ver! Tem que ver! Virei-o para olhar para o lago novamente.

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— Diga que não vê a bruxa, caminhando sobre a água! Giles esfregou os olhos com a mão. — Eu... eu acho que vejo. Eu... eu, sim, Fio, estou vendo! De verdade, sabe? Segui seu olhar até a água. Não havia ninguém lá. Ela tinha ido embora. Eu o soltei. Evidentemente estava mentindo para me agradar e não tinha visto absolutamente nada. Ele olhou para mim, num último recurso. — Acho que a vi, Fio. Olhei para ele por um instante, depois olhei para o lago novamente, sem nada. Olhei para o lago vazio, vendo a brisa enrugar sua superfície, imaginando se aquilo havia realmente acontecido. Senti um ruído atrás de mim, o som de folhas ao vento e, antes mesmo de ela falar, eu sabia que estava ali. — Muito bem, crianças — ela disse. — Acho que é relaxamento suficiente por um dia, não acham? Devemos voltar ao trabalho. Eu me virei e olhei-a nos olhos. Foi o olhar da serpente que me olhou de volta, segura de si, e tive certeza de que ela sabia que eu a tinha visto no lago, e o que era pior, muito pior, ela não estava nem um pouco preocupada com isso. nem um pouco preocupada com isso.

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O jantar daquela noite resolvi observar a srta. Taylor. Tinha pensado em contar à sra. Grouse sobre o incidente no lago, mas no final decidi por não contar, pois sabia que não acreditaria em mim. "É apenas a sua imaginação, minha querida", ela diria. Pois eu não era essa criança estranha que caminhava à noite e antes da época das preceptoras passava horas (era o que ela pensava, pois não sabia, é claro, da biblioteca e da torre) vagando pela casa e pela propriedade sozinha, sonhando acordada? Além disso, se eu lhe contasse e ela desacreditasse, sem dúvida mencionaria o assunto à srta. Taylor e tudo ficaria exposto; nossa nova preceptora saberia que havia pedido ajuda — e falhado — e que eu era sua inimiga, se é que ainda não suspeitava do fato. Em vez disso, eu faria meu próprio aconselhamento, falaria apenas quando falasse comigo durante a refeição, e lhe daria liberdade para falar e rir com Giles enquanto eu a vigiava sem ser óbvia demais.

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A refeição confirmou o que eu havia percebido durante o piquenique. A srta. Taylor cortava a carne, abaixava a faca, segurava o garfo com a mão direita, separava um pedaço de carne, levava-o aos lábios, mas então pensava em algo novo para dizer ao meu irmão e baixava o garfo novamente. Isso aconteceu várias vezes. Em certo momento ela reclamou que Giles não havia comido o bastante de legumes. Não restava nada na travessa, por isso ela tirou o garfo dele, pegou vários pedaços de brócolis do seu próprio prato e transferiu-os para o dele. Tudo muito benfeito, como num passe de mágica, e, se não estivesse observando atentamente, eu jamais saberia. Mas vi como tinha sido esperta. A carne tendo sido cortada e espalhada pelo prato não parecia equivalente ao único pedaço com que havia começado; um pouco dos brócolis que estavam em seu prato havia sido transferido para o de Giles, não havia como dizer quanto ela realmente havia comido. Ex-ceto que eu sabia. Eu, que a observara como uma águia o tempo todo, vi que nem um único pedaço de alimento havia passado por seus lábios; em resumo, ela não tinha comido absolutamente nada. E ao pensar nisso tive certeza de que, além daquele momento de loucura em que ela agarrou o waffle de Giles e mordeu-o como um pássaro ensandecido, jamais a tinha visto consumir coisa alguma. Quando terminou a refeição, fui até a cozinha, onde encontrei Meg limpando os pratos no latão que John mantinha para os porcos. Fiquei por ali até ela concordar em reparar em mim e interromper sua tarefa. — Muito bem, senhorita, o que pode estar querendo aqui? — Não quero nada. Ela ergueu a sobrancelha. — Ora, vamos lá, senhorita, conheço seu jeito, que é o jeito de todas as crianças, especialmente das que estão crescendo depressa. Veio até aqui para que eu lhe desse algo para beliscar, certo? Deixei escapar um pedaço de sorriso para que ela pensasse que queria controlá-lo e acenei com a cabeça. Imaginei que, deixando-a pensar que esse fosse o motivo, ela desistiria de descobrir o verdadeiro. Ela olhou para a porta e certificou-se de que nem a srta. Taylor nem a sra. Grouse estavam por perto, então abriu um dos armários, tirou uma lata, extraiu um biscoito e entregou-o a mim. Recolocou a lata no armário, mas, ao alcançar a prateleira, lembrou-se de algo, retirou a tampa, pegou outro biscoito, que colocou entre os dentes para deixar a

depois pegou o biscoito na mão e começou a mordiscar. a faca raspando a porcelana. pois era tudo o que podia fazer para não cobrir os ouvidos com as mãos. talvez eu tenha. — Ah. e eu comprimi os dentes. e fica cada vez pior. — Bem. evidentemente. ela voltou para o armário. Você não reparou que as sobras aumentaram muito desde que a srta. algumas dessas senhoras pomposas. Florence. 17 O que eu deveria fazer agora? Ali estava eu. — Mas eu comi tudo — disse. — Com sua idade. Ela olhou para mim. quando ela retomou sua tarefa de limpeza dos pratos no latão e imediatamente me arrependi de também ter entrado para a escola de teatro de Giles.A menina que não sabia ler . senhorita. e esse prato é o dela.John Harding 85 mão livre para tampar novamente a lata e recolocá-la no armário. Meg não é o que se pode chamar de figura esbelta. então ela deixou toda a costeleta. depois de terminar de limpar os pratos. se é como diz. eu poderia comê-lo!. quanto desperdício! — disse. a lembrança da sua avidez sobre Giles à noite. órfã. Florence. exceto por alguns criados queridos mas estúpidos e. Como que para confirmar isso. você realmente deveria comer sua comida. ouvi em minha mente. — Puxa. pois. pegou a lata de biscoitos novamente e nós duas nos servimos. o tipo de gente que se dá ares e graças. mesmo que toda cortada. aí não teria necessidade de vir até aqui pedir um biscoito. meu irmãozinho . — Bem. Taylor chegou? Meg pensou a respeito. Taylor deve estar comendo como um pássaro então. uma garota de 12 anos. sim — ela disse —. Tenho sorte por não ser uma delas. srta. a srta. sozinha no mundo. Ela ponderou por alguns instantes. Obcecadas com a silhueta. Tenho coisas melhores a fazer do que passar todo o dia preocupada com minha cintura. meu querido. é claro. Ela. se diverte mais cortando que comendo. — E Giles come muito. agora que diz isso. Ah. são assim mesmo. — Ainda assim — disse Meg -. srta. como se mal pudesse resistir à tentação de cravar os dentes em sua carne macia. Estremeci diante disso. mas Meg estava atenta ao seu serviço e parecia não ter notado. depois deu de ombros e raspou o último prato ruidosamente no latão.

No mínimo porque não deveria saber escrever e. Eu me lembrava muito bem da nossa primeira entrevista. precisava da minha proteção. mas então pensei mais e percebi que não poderia esperar socorro de sua parte. Como eu disse. quando estava começando a desesperançar da minha situação e descartando qualquer ideia de ajuda de uma parte — meu tio -. Ele ouviu a história toda sem comentários e então ficou sentado em silêncio. — Bem. Pensei em escrever ao meu tio. O capitão Hadleigh. ela se levantou para pegar os . — A srta. as pontas pressionando o nariz. tentando lembrar. Era verdade que o capitão Hadleigh não era de forma alguma meu amigo. mas sem aquele ar de superioridade que os adultos costumam ter em relação às crianças. Ali estava uma pessoa que era inteligente e bem-educada. ou para inspirar profundamente antes de prosseguir. parando frequentemente em meu relato para limpar os olhos com um lenço. ou da minha própria mente. um homem que estava preparado para ouvir o que você desejasse contar a ele.John Harding 86 que. Além disso. Contei a ele o que já tinha contado ao policial que me havia interrogado imediatamente após o "evento". ouvindo o que ele chamava de minha "versão dos fatos". mas alguma forma de castigo por tê-lo desobedecido alfabetizando-me. uma carta minha provavelmente traria não ajuda. os olhos acima dos dedos.A menina que não sabia ler . Pois. minha mente. observando-me como se eu fosse um animal ou pássaro morto que ele fosse dissecar. — Sim. Não canso de me impressionar com a inteligência da mente humana. saltou da — quilo para o inquérito e então para outra coisa que possivelmente solucionava tudo. Whitaker caiu direto na água? — ele perguntou finalmente. tenho certeza que sim. continuando a trabalhar por conta própria. Whitaker. longe de poder me ajudar. especialmente pela publicidade do inquérito. ele detestava qualquer interferência de Blithe em sua vida. pelo menos. sem nenhuma ajuda minha. pelo que sabia dele. sim. pelo menos eu acho que sim — parei por um momento. quando seus negócios apresentaram questões tão prementes que ele não pôde sequer encontrar tempo para participar do processo. pois não conseguia conter as lágrimas. quando ele se sentou atrás de sua escrivaninha com os dedos na frente do rosto. tinha até mesmo causado alguma comoção em suas cartas na época do incidente com a srta.

sim. — Vamos lá. senhor. tudo aconteceu tão depressa. Sentia-me desconfortável. mas só vi um branco. Virei o lenço encharcado nos dedos. Até onde lembro. direto. — Ela poderia ter batido a cabeça na lateral. Pelo menos eu queria. O tipo de barulho que uma cabeça poderia fazer contra a madeira. — E você diz que ela caiu direto na água? — Sim. — E quando ela caiu na água você não tentou salvá-la? — Ora. por isso continuei a encará-lo de volta. isso poderia ter produzido o som. minha jovem. . — Muito bem — ele disse. leva algum tempo até a pessoa afundar. mas não iria me deixar abalar por um jovem rapazote como ele. apesar de não ver nada. — Ela não bateu a cabeça na beirada do barco ao cair? Então foi minha vez de pensar. Eu estava longe demais para alcançá-la. foi tudo tão rápido. Como eu disse.A menina que não sabia ler . como se eles fossem a mira da arma e eu a presa infeliz. houve uma espécie de estalido alto antes do barulho da água. Eu não me lembro. — Bem. Você poderia ter remado até ela. senhor. — E isso foi tudo o que aconteceu? — Sim. Apertei os olhos.John Harding 87 remos da minha mão e o barco meio que balançou e ela tropeçou e acho que enroscou na barra do vestido e lá foi pela borda. Então me olhou por cima dos dedos de novo. É claro. agora que mencionou. tentando ver a cena. mas parecia que sua queda havia afastado o barco. Porém. Nunca ouvi o som da madeira no osso. Ficamos ali sentados mais uma década ou duas. não entendo o que quer dizer. senhor. Ele pensou mais um pouco. parecia ter me lembrado de um som. se entende o que quero dizer. senhor. — Não. Ele olhou mais um pouco para mim.

reconhecendo-o como um detalhe que só alguém que tivesse tentado poderia descrever. não pude deixar de pensar se tudo aquilo havia sido desde o início o objetivo de seus interrogatórios. se tivéssemos nos conhecido em circunstâncias diferentes.. ele voltava à questão do som e questionava-me de novo e de novo sobre os remos. e estavam fora do meu alcance. — Os remos foram encontrados flutuando no lago depois. Tive que responder a muitas perguntas iguais do médico-legista. — Pode ir. pois é um som que nunca ouvi. Eu me virei. Ele concordou com a cabeça. — Ah. mas achei que isso se devia à natureza do homem e às exigências do seu trabalho. o barco estava à deriva. assim como ela. em um baile talvez — não que eu já tivesse ido a um — ou em um rinque de . um objeto de fascinação. senhor. ou deveríamos dizer madeira na cabeça? Não poderia ter sido um remo. senhor. Whitaker estava tirando-os de mim quando perdeu o equilíbrio e caiu na água.. — Muito bem. senhor. ensaiar-me para quando viessem as perguntas de verdade. mas eu não tinha nada a acrescentar. -Sim. Senti que ele estava insatisfeito com aquilo tudo. da cabeça na madeira. que era um idoso gentil que me disse para sentar quando eu testemunhava e mandou um funcionário trazer-me um copo d'água. isso é tudo por enquanto — ele disse finalmente. e todas as vezes foi a mesma coisa. O problema era que o barco era largo demais para que eu pudesse colocar ambas as mãos ao mesmo tempo na água. senhor. por acaso? Eu o encarei novamente.A menina que não sabia ler . Senti que. — Isso eu não saberia dizer.? — Aquele barulho. e empurrando com uma das mãos de cada vez eu só conseguia fazê-lo girar em círculos. senhor. Tentei levar o barco até ela com minhas mãos. a srta. Ao responder vendo Hadleigh com seus olhos sobre mim. Estava quase saindo pela porta quando sua voz alcançou-me e de-teve-me. só mais uma coisa. eu não estava com os remos. C/3 Tivemos mais dois ou três encontros depois disso. Como eu lhe disse. ciente de que o sangue fugia do meu rosto. se o senhor se lembra.John Harding 88 — Ah. não. Os remos foram com ela. No tribunal eu o peguei olhando para mim como se eu fosse um enigma que ele não conseguia decifrar. mas eu estava a uns seis metros dela. Ele permaneceu calado.

pois jamais voltei a pousar os olhos nele. Suspeito que ele tenha dado um susto no homem. Por um lado. ele tinha sido meu cavaleiro. levaram-no para fora da sala e não o deixaram voltar pelo resto da sessão. apesar de não ter sido amigável comigo. evitando qualquer dano. um policial cético. eu não tinha mais nada. caso eu chegasse a lhe contar? Era um pouco demais esperar que um adulto. Hadleigh e seus homens estavam em cima de Whitaker. que tudo aquilo era uma simulação. Ainda assim. mas continuar a examinar-me com aqueles olhos azuis astutos. Assim. Senti que quase morri de vergonha de tudo aquilo. tão logo começou o tumulto. Whitaker ficava esperando por mim. um enigma que só ele poderia resolver. Então por que acreditava que Hadleigh iria querer me ajudar? Por que acreditaria na minha história. Whitaker. com todos os olhares em cima de mim. mas. Então. quando o homem se levantou e gritou. novamente. olhava para mim como se eu fosse seu caso de estudo especial. pegaram-no pelos braços. os homens de Hadleigh o pegavam e sumiam com ele. coisas tão terríveis que precisei cobrir os ouvidos. Por outro.John Harding 89 patinação. e sua proteção não era mais amigável que isso. eu o confundira bastante. como abutres sobre um coelho morto. Whitaker. especialmente naquela terrível cena no tribunal. a situação com Hadleigh estava bem equilibrada. que seu empregador deveria ser responsabilizado por tê-la deixado no lago sem outra pessoa além de uma criança para salvá-la. mas. Hadleigh teria gostado de mim.A menina que não sabia ler . Além disso. que ela poderia não ser humana. assim que saltávamos da charrete. mas. salvando-me da dor e da humilhação infligidas pelo irmão da srta. ninguém a quem recorrer. Aconteceu a mesma coisa quando saí do tribunal e de novo quando voltei no dia seguinte. Hadleigh havia se mostrado meu salvador em todo o episódio do irmão da srta. Era Hadleigh ou ninguém. engolisse a história — mais um conto de fadas propriamente do que mistério — de que meu irmão e eu tínhamos uma preceptora má que estava conspirando para roubá-lo. . até mesmo nossa preceptora anterior e agora morta desdenhando o outro mundo por este. por causa do caso Whitaker. e que havia algo "podre em tudo aquilo". mas uma manifestação de outro mundo. que a morte de sua irmã não tinha sido investigada adequadamente.

a pesada cadeira de metal e couro. como bem poderia. — Dentista? Pedir para ver o dentista? Que medo! Não quero que me furem com a broca ou que me arranquem os dentes um por um. Taylor não permitiria. escaparia até a delegacia. e a broca ameaçadora. porque não há nada de errado com seus dentes. fui levada até a cidade para ver o dr. mas isso não seria suficiente. A delegacia de polícia ficava em nossa pequenina cidade. pois precisaria de seu equipamento. mas não por um dentista. Giles enfiou o dedo na boca e correu os dentes com ele. tempo suficiente para expor-lhe meu plano. você não precisa que usem a broca ou que lhe arranquem os dentes. o dentista. sabia? — Mas. nem mesmo da sra.A menina que não sabia ler . que a obter. Demorei alguns dias até conseguir ficar a sós com Giles. onde éramos alimentados e lavados e medidos para ter roupas e atendidos quando ficávamos doentes. Giles. Uma vez. pois se a srta. Esta última lembrança me fez pensar. Sua reação não foi diferente do que eu esperava. porém. assim teria que ser levada até o sr. pois a srta. mas só de ouvi-la da sala de espera foi o suficiente para me fazer estremecer. Eu o acompanharia e. verificando. — Como pode estar tão certa? E se eu chegar lá e o velho Field descobrir algo e usar aquela broca? — Ele não vai fazer isso. Giles teria que visitar o dentista. na verdade nunca tive permissão antes de sua chegada. A Inquisição espanhola usava isso como forma de tortura. Só uma solução sugeriu-se a mim. Field. Não há nada de errado com eles. um velho desagradável que evidentemente odiava seu trabalho e ainda mais quando envolvia crianças. Field. . pois todas as nossas necessidades eram atendidas em Bli-the. que nunca vi em ação. Taylor tam bém fosse. quando eu era menor e tive um dente de leite dolorido. Grouse. quando se apresentasse a oportunidade. Era evidente que um dentista não poderia vir até Blithe. A distância era de quase dezoito quilómetros e eu não tinha como chegar lá a não ser que fosse levada por John. Mas eu não podia dizer apenas "Quero ir até a cidade". Giles. não teria a oportunidade para visitar a delegacia de polícia e falar com o capitão.John Harding 90 Decidir que não tinha nada a perder procurando sua ajuda não era a mesma coisa. Éramos atendidos por um médico. Giles e eu raramente nos aventurávamos até a cidade. Pensei em me queixar de dor de dente.

o que mostrava que. pés. dando-lhe outro chute forte na canela. eu faço.. avaliando suas alternativas. eu poderia ter poupado minha respiração nesta última frase porque pareceu servir apenas como estímulo para Giles.. deveria.. — Bem. mas quando expliquei o que era esse juramento para Giles ele não me questionou. — Tem certeza de que ele não vai fazer nada comigo? — Juro pelo meu coração. sim. é. — Ah. Field. — Não acabei ainda. eu tinha percebido. Giles me olhou desconfiado. É. por isso o chutei por baixo da mesa. Nesse momento a srta. só para poder arrancá-lo e receber o pagamento? — Ele não faria isso. Não é permitido.John Harding 91 — Ah. . Eu não tinha certeza disso. A srta. mas nada disse e voltou a passar manteiga no pedaço de pão com a mesma concentração intensa com que. — Dor de dente! — eu disse a Giles. — Agora. se arrancar um dente bom não vai contra o juramento. — Ai! — ele soltou. porque agora você também é dentista? E se ele disser que há alguma coisa errada com um deles mesmo que não haja. então. que se atirou ao papel de menino com uma terrível dor de dente com tamanho entusiasmo que quase colocou em perigo todo o nosso esquema.A menina que não sabia ler . — Não — ele sinalizou e apontou para a pilha de pão e geleia em seu prato. está certo. Bem. Giles — sussurrei para ele.. Quando você quer que eu desça com dor de dente? — Amanhã de manhã será bom. olhei-o fixamente e quando ele teimou decidi assumir o caso com minhas próprias mãos. Ele se virou e murmurou: — O quê? — Não exagere. Não queremos que fique muito tarde para pegar o dr. Tínhamos passado cerca de três quartos do café da manhã e fiquei preocupada por achar que ele tivesse esquecido do plano ou mudado de ideia. Suspirei exasperada. é contra o juramento de Hipócrates. estava passando desde que nos sentamos para tomar café. Taylor reapareceu e Giles voltou para seus livros. Taylor olhou desconfiada para ele e depois para mim. ou melhor.

Giles. É dissíssil dizê. mas olhei para ele sem expressão e felizmente ele percebeu que era o momento perfeito para encenar seu número.John Harding 92 — Ai! — foi muito mais alto desta vez e não podia ser ignorado. mas está doendo muito. calma. Giles mudou o dedo de lugar. dando a entender a todos que a dor de dente o deixara incapaz de ficar em pé. como um rato quando você o espeta com um pau. — Não vejo nada errado com ele. Taylor. Taylor — disse Giles. onde o colocou no sofá. — Quieto. Taylor ajoelhou-se ao seu lado e tentou acalmá-lo. A srta. Ai! Ai! Ai! Ela se levantou da cadeira e foi direto até ele. que até então estava funcionando perfeitamente. porém. meu Deus do céu. soltando-se dela com um empurrão. . O barulho havia atraído toda a casa. que meu esquema começou a desandar. — Exi aqui. temendo que. Seu braço o envolveu como uma cobra e ela o abraçou. Taylor colocou-o em pé e levou-o até a saleta. só que Giles mantinha a mão na testa. — Acho que o ouvi gritar antes. Foi nesse momento. — Ai. querido. você precisa mostrar-me qual dente está doendo. um deles está doendo muito. Ele saltou da cadeira. enquanto ela administrava algumas gotas ao meu irmão. — E o meu dente. — Calma. acho que vou morrer! Com isso ele caiu no chão e começou a espernear. Giles? — disse a srta.A menina que não sabia ler . srta. Nossa nova preceptora examinou sua boca. — O que foi. ele pudesse esquecer tudo e revelar nosso plano. A sra. Giles foi levado a sentar-se enquanto ela o embalava. Grouse trouxe o vidro de láudano e eu fiquei olhando. Ele enfiou o dedo na lateral da boca. — Ou exi aqui. pois John já tinha ido preparar o cavalo e a charrete. não exagere. — Ah. não xei. se ela o deixasse muito dopado. O que está acontecendo? Giles olhou para mim. srta. dando um descanso para a faca e pousando-a junto com o pão no prato. A srta. Taylor. como fazem os atores nas fotografias em que aparecem exibindo seu ofício. com o coração acelerado. quieto.

puxei seu cabelo. A sra. . Eu sabia que. Grouse olhou para mim sem saber o que fazer. se a srta. como sempre fizemos. — EU QUERO A FLO! A srta.John Harding 93 — Só um instante. — Está tudo bem. meu Deus. se a srta.. Murchei. Entrei em pânico. — comecei a falar. Fio. chutando com as pernas e esmurrando com os braços e gritando a plenos pulmões. Agora ela parecia estar sugerindo uma situação ainda pior. Ajoelhei-me ao lado do meu irmão e comecei a secar sua testa. Grouse e eu fôssemos levar Giles até a cidade. que ela fosse sozinha com Giles para a cidade e eu ficasse para trás. Giles. roubar Giles de Blithe e nunca mais voltar? — Mas o quê? — a srta. — Ai. sim — ele sussurrou. você não lembra? Preciso ir até a cidade. Giles — eu disse. — Só preciso pegar meu casaco e chapéu. de casaco. e depois. — Isso não será necessário — ela sibilou. se a sua agonia era inteiramente encenada? Ele escorregou do sofá e deitou-se no tapete da saleta. em voz baixa: — Por que. antes de girar os calcanhares e sair da sala. por que preciso de você? Sub-repticiamente. Esperava que a sra. sondando-me com os olhos. Não precisa incomodar Florence. Taylor está vindo. — Seu garoto idiota — sussurrei. A srta. fazendo-o gritar de verdade dessa vez. Taylor nos acompanhasse. e se eu tivesse acabado de lhe dar a oportunidade que ela queria. Taylor voltou para a sala. Giles — disse a srta. é claro. — Mas eu. depois sussurrei: — Giles. e o seu casaco. eu ficarei com você. e por que diminuiria. Taylor perguntou. me deixe morrer! — ele gritou.A menina que não sabia ler . Taylor. — Pensei que iria com Giles. — Ah. Taylor empurrou-me para o lado e tomou meu lugar. me deixe morrer! Por favor. seria muito mais difícil escapar. Mary atrás dela segurando o casaco de Giles. ou seja. O láudano não havia diminuído a dor de Giles. — É essa a questão. — Shhh. você deve exigir que me levem. com o chapéu na mão.. — FLO! — ele gritou.

Tão perturbado ficou John com o barulho de Giles que fomos a galope até a cidade. mas lembrar de como ele era em um dia de verão no jardim alguns anos atrás. Giles voltou a chutar e esmurrar. que o fato de não me lembrar dele como algo diferente de qualquer outro dia me fez lamentar bastante. — EU QUERO A FLO! EU NÃO VOU SEM ELA! NÃO POSSO IR SEM ELA! — Está bem — disse a srta. John. Uma coisa chamou minha atenção quando entramos na Main Street. mantendo um silêncio glacial. em geral imperturbável. e fiquei imaginando. ainda receosa de que fossem sem mim caso eu não me apressasse. algo que normalmente não fazia. ou. Por que faria isso. por uma estranha coincidência.A menina que não sabia ler . como se talvez aquele ar de familiaridade que encontrei em sua expressão pudesse ser ainda mais aparente para os outros. uma vez por semana. seguindo na direção da cidade. resoluta. Taylor. ele estivesse com dor de dente de verdade e não fosse mais encenação. 18 Formávamos um grupo estranho. e saí correndo da sala. o que. não se encaixava nos seus planos. e foi que a srta. caso a srta. Giles parecia tão trágico que eu tinha certeza de que havia esquecido de que tudo não passava de encenação. Taylor. Taylor abaixou o véu. se não havia aqui alguém que ela temesse poder reconhecê-la. ele manifestava seu sofrimento tão incansavelmente que me peguei pensando se talvez.John Harding 94 — Não é incómodo algum — eu disse. e Giles gemendo e choramingando como um porco preso. ainda aborrecida com a minha presença. Whitaker vinha sempre à cidade. dizendo ao cavalo para animar-se e dando-lhe algumas chicotadas. resmungando solenemente que caso morresse não devíamos chorá-lo. por que não queria que seu rosto fosse visto? É claro. o que dificultava bastante meu esforço para não cair na gargalhada. Taylor fosse realmente uma e a mesma primeira preceptora. imaginei. é claro. isso eu não podia negar. um dia que parecia tão especial. Na verdade. se não exatamente por isso. — Vou pegar meu casaco e chapéu — eu disse. O menino tinha talento para o melodrama. então porque Giles precisasse primeiro e sobretudo de mim. a srta. Não tive tempo para aprofundar o pensamento porque paramos diante do . a srta.

realmente está. depois de amarrar o cavalo. srta. mas naquele momento ouvimos um gemido repentino da cirurgia do dentista que me deu a oportunidade perfeita para executar a outra parte do meu plano. Giles insistiu. A pequena e tímida esposa do dr. um lúgubre ajuntamento de poltronas forradas de veludo vermelho (para disfarçar o sangue. Foi tudo uma brincadeira. parecendo assim que a inflamação havia se espalhado pela boca e chegado até as pernas. mas por causa do medo. John carregou Giles para dentro. Suspirei e fingi que ia cair da cadeira. Para confirmar. Coloquei uma mão na testa e comecei a cambalear. exibindo um sorriso fraco. — Sim. o barulho da broca recomeçou. Taylor. Field e. mandou-nos sentar na sala de espera. . Giles — ela contemporizou. não estou com dor de dente. senhorita! — exclamou a sra. Field. — Não.A menina que não sabia ler . — Ele não vai demorar — disse a sra. Não estou mesmo. meu dente parece bem melhor -ele disse. mas desta vez não pelo fingido sofrimento. Field. Field. Depois que passar. — Acho que vai desmaiar. quando estivemos ali antes) que recendiam a uma mistura forte de tabaco e elementos químicos cujo odor teve o efeito imediato de me provocar mal-estar.John Harding 95 consultório do dr. Não foi. Taylor. eu juro. — É apenas o láudano começando a fazer efeito. — A jovem. que fazia as vezes de aten-dente e enfermeira. senhorita. Field. você sentirá muito mais dor que antes. — Está executando um trabalho complicado com a broca em outro paciente e está bem no meio. — Sabe de uma coisa. pegando-me bem a tempo. Flo? Diga a ela. depois começou a fazer barulho de novo. — O que é isso? — disse a srta. — Ai. e Giles silenciou imediatamente. impedindo-o de andar. — Não. senhorita — disse a sra. sério que foi. esse dente precisa de tratamento. Flo — suplicou com o olhar. que tinha toda a atenção voltada para Giles e não percebera. tão quente aqui dentro — murmurei. Acredite. — Está tão quente.

. fumando seu cachimbo e olhando para o outro lado. e fiquei andando de um lado para outro enquanto ele estava dentro do escritório. onde estão situadas todas as lojas. Felizmente a delegacia de polícia ficava na direção oposta à que John estava olhando. Taylor. — Mas. Pude ver que. ao que a srta. levantei minhas saias e comecei a correr. Ignorei sua oferta para sentar-me. E voltou para o consultório do dentista. picando meu tempo precioso. Field. seria apenas um desperdício de tempo valioso. Não agora. Depois de alguns instantes. casas. — Acho que ela ficou assustada com o barulho que fez o paciente do meu marido — disse a sra. O idiota tinha esquecido de que esse era exatamente o meu obje— tivo. Bati e abri a porta. — Eu a levo lá fora se desejar. mas preciso anunciá-la primeiro. Ele está? — Sim. — Você não pode sair. senhorita. pois estava muito agitada. Um jovem policial. — Tenho coisas a fazer. Corri pela calçada e parei sem respiração diante da delegacia de polícia para recompor-me. Field que estava bem o bastante para ficar em pé sem apoio e ficaria bem sozinha. Fiquei aliviada por ver John sentado na charrete. A mulher do dentista ajudou-me a ficar em pé e levou-me até a calçada. Field. e o cheiro muito forte estava realmente me causando grande mal-estar. — Algumas pessoas ficam assim. — ela disse. senhorita. o pêndulo tiquetaqueando como um pica-pau ensandecido. por isso dei-lhe meu nome. levantou-se quando entrei.John Harding 96 Era fácil exibir um desempenho mais convincente que o de meu irmão. simplesmente acenou com a cabeça. eu disse: — Preciso ver o capitão Hadleigh imediatamente. pois ele está muito ocupado e pode não ter tempo para vê-la se não marcou uma entrevista. bares e hotéis. se discutisse. com apenas uma avenida principal. Havia um grande relógio na parede e seus ponteiros pareciam estar correndo.A menina que não sabia ler . Flo — Giles gritou.. Sem lhe dar tempo para falar. totalmente distraída com Giles. Nossa cidade é pequena. que estava sentado a uma escrivaninha. — Preciso de ar — eu disse. garanti à sra. . pois a verdade é que estava quente. especialmente as jovens. madame — disse a sra. — Bem. No momento em que a porta se fechou atrás dela. se tiver certeza.

depois deu a volta de novo e voltou a sentar-se na sua. Tinha certeza de que ele iria me achar maluca.. imagino que jamais conseguirá ter uma educação. — O capitão irá vê-la agora. como tantas vezes antes. Seu tique-taque parecia ter desacelerado para uma batida melancólica. Nossa nova preceptora. e indicou-me a poltrona ao lado da mesa. O que exata-mente havia a dizer? Que ela tinha uma cobra dentro dela? Que podia caminhar pela água. É que ela tem alguma coisa que me assusta. o que mais? — Não. Taylor. não. sim. ou. é difícil explicar. Ele me acompanhou até a sala de que me lembrava tão bem. senhorita. que tinha a visão noturna de um cego? Na verdade não havia nada a dizer. Senão. Não a srta. tudo me pareceu uma loucura. — A srta. Whitaker. Engoli em seco. o que a traz aqui? Tem algo a me dizer? Algo talvez que tenha esquecido? Houve um longo silêncio. É que. Eu ainda podia ouvir o relógio da antessala. — Não. Whitaker. a srta. Hadleigh levantou-se da cadeira atrás da mesa. é claro. — Bem. senhor. deu a volta e cumpri-mentou-me. Ignorei seu cinismo. irá raptá-lo e levá-lo embora.John Harding 97 O rapaz da recepção reapareceu. e eu tenho certeza de que ela nos quer fazer mal. Colocou as mãos diante do rosto. senhor. bem.A menina que não sabia ler . descobrir o que realmente acontecia por dentro. — Não aconteceu nada com ela. Ele olhou para mim fixamente. — Sim? Mas o que eu iria contar a ele? De repente. Não é nada disso. não está entendendo. senhor. ou pelo menos fará mal ao meu irmão. — É sobre a nossa preceptora. Ele ergueu a sobrancelha. — Isto é uma surpresa — ele disse. se não isso. — minha voz sumiu como o triste canto de um bacurau desaparecendo com o vento do inverno. — Bem.. como se tentasse me entender. espero. como antes. .

— Foi isso o que eu quis dizer. E apenas a culpa de Macbeth. — Lembra-se da cena na festa. mas há alguma coisa tão. — Já leu Macbeth7. Aspirei pelo nariz. senhor. Exceto talvez por não ter conseguido salvar a srta.. Whitaker. como se tivesse en— golido uma cobra que fica lá dentro olhando através de seus olhos. peculiar a respeito dela. — Mas a srta. Ele ficou me olhando durante muito tempo. — Foi a algum médico recentemente? Funguei e enxuguei uma lágrima. às vezes capto em seu rosto um aspecto que me lembra. — Ela ameaçou fazer alguma coisa? Ela disse que irá levá-lo embora? — Não. deu a volta na mesa e sentou-se nela. E. pois sabia que isso serviria apenas para desacreditar todo o resto. tão. Mordi o lábio e endireitei-me. não. Voltei para o presente. senhor. como alguém fechando um caixão. por não ter conseguido pensar com mais clareza ou agir com mais rapidez. senhor. Whitaker está morta. senhor. Olhei para ele confusa. e me faz pensar que seja ela. O relógio lá fora desacelerou ainda mais. Ela tem esse olhar estranho. pois minha garganta fechou. Estendeu o braço e colocou a mão em meu ombro. — Eu. é claro. Decidi então não dizer nada a respeito do incidente no lago. Seria meio-dia. mesmo não parecendo nada com ela.A menina que não sabia ler . O relógio lá fora começou a soar.... . — Não. ao mesmo tempo. senhor. Podia sentir meus olhos enchendo-se de lágrimas. — minha voz reduziu-se a um sussurro — acho que ela é um fantasma. Whitaker.. eu acho. em que o fantasma de Banquo aparece para Macbeth? — Sim — a voz saiu. — Não há fantasma.John Harding 98 — Ela lhe fez algum mal? Machucou Giles? — Bem. a srta.. não que se possa dizer isso.. eu. Ele se levantou.. como bem sabe.. sobre tê-la visto caminhar pela água.. mas como um guincho.. eu. bem.. — Não tenho por que me sentir culpada. bem. — não consegui falar mais nada. senhor.

Field. Seu hálito cheirava a leite e canela. ficará desconfiada. Field e do outro pela srta. senhor. suspeitará. a cabeça inclinada e o rosto enfiado em um lenço coberto de sangue. No momento em que subi ofegante.John Harding 99 — Senhor. a porta abriu-se e Giles saiu apoiado de um lado pela sra. Giles — sussurrei -. um terrível feitiço fosse cair sobre mim. por isso arrancou todos só para ter certeza. Ao me ver. Seu rosto estava próximo do meu. não pude ver sua expressão por causa do véu. se ela sentir minha falta. soltou Giles. E então o relógio chegou a onze badaladas e eu já estava na porta — como se. acaso não saísse antes da décima segunda badalada. a sra. Cheguei ao dentista bem na hora. — O dentista tirou todos os dentes de trás — ele balbuciou. Taylor olhou para mim. senhor. outro fantasma. com bolhas de cuspe vermelho nos lábios. para fazer companhia à . — Puxa. — Obrigada. o que aconteceu? Ele me lançou um olhar rancoroso. 19 Você já pensou como seria estar morto? Às vezes acho que sei tão bem que já devo ter morrido e estou caminhando no exterior. Ele deu a volta na mesa e estava com a mão na maçaneta antes de eu alcançá-la. posso ver que está inquieta — ele disse. Coloquei meu braço em torno dele. muitíssimo obrigada. — Irei visitá-la quando tiver um tempo livre para dar uma olhada nessa mulher. Taylor. Se sentir me falta. Quando a srta. — Ele não conseguiu encontrar o que estava estragado. Estava soluçando. tenho que ir. Se houver alguma coisa errada. pode contar comigo para descobrir. — O quê? Percebi que estava tão nervosa que havia esquecido e falado na linguagem que usava para conversar comigo mesma — Quero dizer. — Escute. Saí pela sala de fora. passei pelo funcionário surpreso e voei pela rua. passando-o para mim. e não tinha ideia se ela tinha reparado ou não na minha ausência. Levantei-me e fui na direção da porta. com aqueles seus modos deferentes.A menina que não sabia ler . o que de certa forma me reconfortou. Enxuguei uma lágrima errante e agradeci com um sorriso.

Grouse. Ele protestou porque só podia comer sopa. embora. Agradeci-lhe pelo sacrifício de seus dentes. fico deitada e ouço minha própria respiração até acabar todo o ar. Seguro a respiração e imagino que a escuridão do quarto é o escuro dentro do meu túmulo. e como a luz está se apagando e estou começando minha nova existência ali. e aquele som ficando surdo gradualmente. . em meu buraco no chão. nascida Whitaker. onde sua conversa gradualmente se volta para outros assuntos ao ter início o conforto do esquecimento. manteve-me afastada. Mary e John. e quando terminou de me culpar. embora por uma ou duas palavras que ouvi a srta. vendo-me ser baixada. embora fossem apenas dentes de leite que logo cairiam de qualquer forma. Taylor deixar escapar para a sra. gritando que quero sair. o que. Taylor. Penso nas pessoas voltando para casa no final de um dia de sol no inverno. passou subitamente a odiar. apenas terra por cima de terra. Imagino a tampa do caixão em cima de mim. aconchegando-se em torno do fogo. não possa realmente dizer que o conheço. ele tinha gritado "coisas sem sentido" sobre não ter nenhuma dor de dente e tudo ter sido fingimento. Penso no meu funeral. Giles. Estou muito solitária agora. e então não há mais respiração ou escuta porque não há mais absolutamente nada. arranhando com as unhas a tampa do caixão. em pé ao lado dessa cova funda e escura no chão. faço a cama apertada e depois entro debaixo das cobertas e deito com os braços rígidos dos lados. e por não ter revelado meu plano. com meus pensamentos voltando para meu corpo supostamente morto. vai se resumindo a um lamento e depois a nada.A menina que não sabia ler . Imagino que de vez em quando uma delas irá lembrar-se de como me deixaram pouco antes sozinha na terra fria. em meu novo lar.John Harding 100 srta. é claro. Grouse percebi que. em todos que conheço. meu tio talvez. enquanto estava na cadeira. Meg. apesar de o encontro ter sido insatisfatório. lembro-me de "O enterro prematuro". de Poe. ninguém consegue me escutar gritando e gritando. como se estivesse dentro do meu caixão. pois tinha me possibilitado ver Hadleigh. E. mas. encolhen-do-se ao ouvirem a primeira pá de terra batendo na tampa do caixão. e me imagino ainda viva. a sra. é claro. Muitas vezes. até que primeiro minha voz diminui. à noite. pois Giles ainda está bravo comigo por seus molares perdidos. enquanto minha cova se enche. com dois metros de terra acima de mim.

Taylor. Pois de pé. e eu tinha acabado de deixar a sala de jantar. apesar de ter Hadleigh do meu lado. com uma tez tão pálida que não parecia bem. pois Giles agora me evitava tanto que se apegou a nossa nova preceptora. Virei-me para o espelho e lá permanecia seu reflexo. Voltei-me para o espelho e o que vi ali gelou meu sangue. Vi uma garota alta. Taylor com Giles a seu lado. embora. Olhei imediatamente por cima do ombro. Meus olhos estavam abandonados em grandes discos pretos. Taylor de tal maneira que poderia ter literalmente acelerado sem intenção o progresso do que eu acreditava ser o seu plano de fazê-lo cúmplice do próprio sequestro. Houve um movimento súbito atrás de mim e a srta. parecia muito doente. Certamente a srta. apesar de ter alertado Hadleigh. estava a srta. meu vestido e avental branco pendiam dos meus ossos como se estivesse ficando menor em vez de crescer. sem outra palavra.A menina que não sabia ler . como tentei demonstrar. como eu. eu havia atirado Giles nos braços da srta. No dia seguinte à nossa ida ao dentista. — Mas você tem certo encanto que é muito mais importante que a mera beleza. Parei no salão diante de um grande espelho ali pendurado e fiquei olhando para mim mesma. Foi depois do almoço. tinha sido ela quem aquiescera à decisão do dentista de arrancar os dentes. então o garoto é realmente um ótimo ator. — Você não é bonita. não foi a um custo pequeno. Eu encontrava sempre a srta. O que me fez desconfiar que. mas ela já tinha ido. a mulher nunca tinha estado em um teatro. ocorreu outro incidente que me deixou bastante temerosa. atrás de mim. desengonçada. Florence — ela me informou. e eu mal me reconhecia. Grouse -. zombeteiro. considerando-a sua protetora. e dentro de mim uma pomba branca agitou-se e caiu morta no chão. Tudo isso significava que. . e para mim não parecia direito. Houve um farfalhar de seda e eu me virei e olhei quando. ela se afastou. membros longos e pescoço esticado. com um sorriso triunfante. Whitaker nunca fez uma coisa dessas.John Harding 101 — Se aquilo foi fingimento — disse a sra. Taylor apareceu no espelho. Assim. Ficamos paradas olhando para o meu reflexo. olhando-me por cima do ombro. abraçando-o de uma maneira que eu garantiria que era pouco profissional.

pendia como o de uma galinha depenada. o mais terrível. com a cabeça para trás. mas ao mesmo tempo mal podia esperar para voltar lá. apesar de estar ali há não mais do que umas poucas semanas.A menina que não sabia ler . na verdade. intrigando seu gémeo com um olhar desmotivado. Taylor virou na escada e sumiu de vista. Taylor real. agarrei Giles pela mão e levei-o na direção oposta. como sempre soube que estaria. Isso era algo que havia acontecido uma ou duas vezes antes. . a srta. e eu tinha decidido que era apenas uma desculpa para evitar comer. olhando-me diretamente nos olhos. atrás da srta. rindo um sorriso terrível. E lá estava. Naquela tarde na biblioteca eu me desconcentrei em "O coração delator". mas. seu reflexo preso no espelho. Senti-me tonta. e abaixo do queixo seu pescoço. aquela desengonçada solitária. pois a comida esfriaria. Quase desmaiei quando chegamos diante do espelho. ela vai escutar. diante da qual estava meu irmão. a cópia da minha algoz. — Flo. pisquei. Não consegui levantar os olhos para olhar. com um sorriso pretensioso. presa como uma cotovia na gelatina. atrás de mim.John Harding 102 rindo silenciosamente. dentro daquele espelho. vazio de carne. silencioso. e. Há algo que quero que veja. quando abri os olhos. Taylor lembrou-se de algo que havia deixado em seu quarto. pois. pelo tanto que temia o que veria. só vai levar um minuto. ainda olhando por cima dos ombros da minha imagem. Não conseguia pensar em nada além da terrível cópia da minha inimiga. Giles. Agora me parecia que a pele de seu rosto estava esticada sobre os ossos de seu crânio. ainda. Giles e eu fomos para a sala do café. Temia ver aquilo de novo. para ver se ainda estava lá. Sacudi minha imagem para livrarme do seu toque e saí correndo pelo corredor. nossa nova preceptora estava ficando cada vez mais magra. — Shh. mas no momento em que a srta. lá estava ela. quando estávamos prestes a entrar na sala para jantar. estou com fome. Ela disse a Giles e a mim para nos sentarmos à mesa e não esperar por ela. o que está fazendo? Este não é o caminho para o jantar! Me solta. mas com Giles segurando minha mão. Venha. Aconteceu que. levantei os olhos lentamente e vi meu outro eu. apesar de ser um conto maravilhoso. mas não consegui evitar parar e olhar para o espelho uma última vez. impaciente para ir embora.

— Não seja boba. Sacudi seus ombros. Da srta. — O que você vê? — Uma bruxa — ele disse. presa no espelho. Virei-o e abracei-o. se sim. Taylor. — Quem. . e certamente para a mulher atrás de mim. — Uma bruxa feia e assustadora. Ele se virou e foi para a sala do café. por favor! Arrastei-o de volta e.John Harding 103 Giles desviou o olhar e tentou me puxar de volta para a sala do café. só um segundo. Giles. diga-me o que vê. Virei-o de novo para o espelho e apontei com meu dedo para a maldita imagem. — Ela está lá em cima. mas para cima. Você a viu. você sabe de quem. estou morrendo de fome! — Giles. de quem você está falando? — Ora. sim. eu te vi. por que iria fingir que não? C/3 Passei o jantar preocupada. Flo. Segurei a respiração. — Olhe. Flo. Ele ficou olhando para o espelho. dirigi seu olhar para o espelho. mas sua cópia está aqui. incapaz de conter meu alívio. agarrando seus ombros por trás. Giles. — Eu não gosto. — Não. para mim. Mas você não é realmente feia ou uma bruxa. vamos nos atrasar para o jantar. e a expressão de sua imagem era vazia. espere. deixando-me a olhar para ele. — Sabe. — Então você também a vê! Realmente vê! Ele me empurrou e me olhou de soslaio. — Vamos lá. Flo — ele disse. Flo. não retire o que disse agora. você não vê? Você não vê? Giles ficou olhando para o espelho. não viu? Não viu? Giles me estranhou. De qualquer maneira. que mesmo agora ria para mim. Ele se virou de novo para o espelho. Sabe muito bem. olhou para ele e depois para mim. e. como eu poderia vê-la se ela está lá em cima? Você também viu que ela foi. eu só estava provocando quando disse aquilo.A menina que não sabia ler . — Não quero brincar mais disso. Não tenha medo nem finja que não viu. é claro. desta vez não para si mesmo. Soltei-o e ele sacudiu os ombros. imaginando se teria visto o que vi. Flo.

Taylor como se nada tivesse acontecido. porque a alternativa era terrível demais para aceitar. Mary. acho que não consigo. pois. acho que consegue comer mais um pouco. senhorita. senhorita. Depois que Mary saiu. — Não sou uma menina em fase de crescimento que precisa de muito alimento. — Não. Vamos lá. Ele não queria admitir a verdade. — Sinto muito. que ela havia deixado seu reflexo para nos espionar. criei coragem. Mas. Era até possível que ele genuinamente acreditasse que não tinha visto nada. que ela tinha nos visto com os olhos da sua imagem no espelho. não importando os poderes sobrenaturais que pudesse ter à sua disposição. incapaz de engolir mais que uma ou duas garfadas. era uma grande ironia. Mas naquele olhar eu soube que o nosso atraso para o jantar era do seu conhecimento. — Vamos lá. então. Não sou de deixar as coisas paradas e havia decidido combater aquele demónio.John Harding 104 No início. mexi a comida no prato. — Ora essa. depois do que havia acontecido pouco antes. Mas se esse fosse realmente o caso. não tive dúvidas de que Giles tinha visto o reflexo hediondo preso no espelho. Taylor ignorou. Taylor durante toda a refeição e só mostrasse alguma ansiedade quando olhava de relance para mim? A srta. exceto por um olhar demorado quando entrou na sala e sentou-se. Senti como se tivesse engolido um bando de estorninhos inquietos. rindo e brincando com a srta.A menina que não sabia ler . pois era tão claro quanto seu próprio rosto. reparei que a senhora mesma não come o suficiente para manter um pássaro vivo. senhorita. — Sabe. Florence — agradou-me a srta. Seu rosto magro enrubesceu. então por que Giles estaria tão calmo agora. . nem mesmo para me agradar? Diante disso eu ri. quando Mary entrou para recolher os pratos depois do prato principal — você quase não comeu. Perguntei-me por que ele insistiria em dizer que não. pode retirar os pratos. nem mesmo por isso. e a única resposta que me ocorreu foi que estava com medo. se ela podia manter o fingimento. eu também podia. — Muito bem.

Taylor para descer até a biblioteca em busca de outro livro. Desci e estava no corredor principal da ala oeste quando subitamente temi pelo que poderia ver à frente. pois não há janelas nessa parte da passagem e só há luz nas duas extremidades. podem diminuir o apetite. dado o que aconteceu depois. meu coração disparou. Ali. exceto Shakespeare. me fez pensar que eu havia tido uma pre-monição do choque que estava por vir. Taylor sobre ele. suas asas batendo freneticamente no meu peito. pois vi que foi surpreendida pela minha franqueza e precisava de uma pausa para pensar. como se dissesse que era o que era e faria o que quisesse e minhas perguntas jamais iriam alterar isso. pedi permissão à srta. Ela pegou o guardanapo e limpou a boca. inquietei-me novamente e por fim fiz-me de sonâmbula. na penumbra. porque. e aconteceu o mesmo de antes. Dor e perda. onde fiquei tremendo até o amanhecer. Passei toda a manhã nervosa no quarto de estudos. Nesse momento Mary voltou com a sobremesa. precisa de algum sustento. mesmo antes de olhar para ele. Havia horror demais em minha própria vida para querer ler a respeito.John Harding 105 — Sim. quando finalmente caí em algo que lembrava sono. que eu sempre amara talvez mais que qualquer outro autor.A menina que não sabia ler . pois por que teria olhado para ele quando havia tão pouca luz para ver meu reflexo? Assim que notei o espelho. de forma que acabei saindo e voltei para minha cama. um pudim de arroz. Incapaz de me acalmar. um em que nunca havia reparado antes. senhorita. é claro. o que. Taylor. quase o lambendo. Tão atenta estava à sua presa que nem sequer levantou os olhos ou deu qualquer sinal de sentir minha presença. e começou a servi-lo. nossa nova preceptora o dispensou. — Existem muitas razões para uma pessoa ficar sem comer. 20 Naquela noite. gesto que me agradou. por exemplo. mas certamente qualquer corpo. qualquer corpo vivo. Poe. Abri a porta do quarto de Giles e encontrei meu irmão profundamente adormecido e a srta. sabia o que . vi que estava me aproximando de um espelho. desafiandome. Quando chegou na srta. você sabe. estava tendo um efeito depressivo sobre o meu espírito.

de alguma maneira tinha certeza de que isso era verdade. mas ao passar não consegui resistir. meus olhos viram. pois ela não poderia me seguir. Cautelosamente. sempre amara. dobrava o número de livros da sala. e tive uma conversa séria comigo mesma. E é claro. rápida como a de um lagarto. o rosto ao lado do meu. Esse conhecimento afinal me fez parar. sem dúvida. Parei e pensei em voltar. virei-me e voltei pela passagem. que em determinado nível. mais deitada que sentada. Foi quase como um sonho. eu me virei e corri. mas ainda triunfante. E então. é claro. Ao me aproximar do espelho abaixei a cabeça para evitar qualquer conjunção dos olhos. com um único olhar. Passei rapidamente e vi-me na biblioteca. ali atirada. e naqueles olhos o sorriso indiferente. lá estava ela. possivelmente o maior espelho da casa. e mesmo com os pés preci-pitando-se pelo assoalho de madeira encerada eu sabia que era tolice. superou o medo. estava presa no espelho. sobre a parede acima da cornija. porque continha outra sala idêntica a esta que eu tanto adorava e. Ela respirou profundamente como se inspirasse meu cheiro e então a língua saiu de sua boca e passou por seus lábios. cansada de todo aquele terror. . nem podia me fazer algum mal diretamente. Levan-tei-me da poltrona e. eu percebia agora. tão rápida que não poderia se perceber. como sempre acontece comigo. Ora. que era pequeno. E então fiquei diante do espelho. quando levantei a cabeça e olhei diretamente para o espelho. mas então a curiosidade. Por algum motivo eu sabia disso. Encostei-me no batente de uma porta. Pela primeira vez reparei nas fotos na parede. em seu próprio mundinho. uma moldura pesada segurando um quadrado de vidro empoeirado. A mulher estava no espelho.John Harding 106 encontraria. meu olhar foi arrastado e encontrou o dela. onde corri para minha poltrona favorita. atravessei a sala e fiquei diante dela. matronas valentes e homens de negócios de aparência austera. Não podia escapar.A menina que não sabia ler . Corri e corri. Bem. em minha meia vida nessa sala eu havia olhado para ele milhares de vezes. óleos pendurados de ancestrais do meu tio mortos há muito tempo. Desta vez foi tão previsível que não me encolhi de medo. não exatamente rindo. Seus olhos brilharam ao olhar para mim. com gravatas e colarinhos apertados. de forma que continuei na direção dele. como uma sonâmbula. ofegante.

entendi que ela havia povoado todos eles. e a partir de agora não haveria lugar dentro da casa onde pudesse passar despercebida.John Harding 107 — Você. que em protesto eu virei para a parede. por isso a srta. podia me ver de frente e de costas. porque seria muito desconfortável sentar-me e lê-los ali. e. como se as palavras estivessem escritas em sânscrito. assim como ela estava no espelho. Em voz alta ou não. e que aonde quer que eu fosse na casa ela estaria me observando. "Giles". eles pantomimaram. sentada à minha frente. Taylor. Virei-me de costas. embora na verdade as letras douradas desbotadas das lombadas dançassem diante dos meus olhos e fizessem pouco sentido. sua bruxa — eu disse entredentes. passando seu pequeno posto avançado na parede do corredor. Porque. Ninguém que não saiba (e quem mais além de mim pode saber uma coisa dessas neste mundo?) pode imaginar o que é conduzir toda a sua vida sob os olhos de outrem. Praticamente todos os cómodos tinham pelo menos um. havia um espelho atrás de mim. Enquanto andava pelos corredores. . estavam em quase todas as passagens. que entendi o verdadeiro estado das coisas. embora por algum motivo não tivesse certeza de ter realmente dito as palavras em voz alta ou de tê-las mantido encarceradas dentro de mim. Acalmei-me nas prateleiras de livros e comecei a pegá-los como se estivesse escolhendo um para ler. seu demónio idiota. sentia que ela me observava. ela realmente tinha olhos atrás da minha cabeça. Peguei três ou quatro a esmo e deixei a sala. quando fazia minhas refeições. o terror absoluto que me percorreu a espinha e ameaçou ex-plodir-me o coração no peito. ela as ouviu ou leu em meu pensamento. Ela estava até no pequeno espelho da penteadeira no meu quarto. compreendia o fato terrível: havia muitos espelhos em Blithe.A menina que não sabia ler . até o último. sem precisar olhar. pois não lhe daria a satisfação de ver meu desconforto. pois seus lábios se abriram no agora familiar sorriso cruel e pareceram dizer uma palavra: "Giles". agora que refletia. pois não daria a ela a satisfação de me ver despir-me ou de me fazer tirar a roupa no escuro. Foi só ao fazer o caminho de volta para a escada. pois havia sentinelas em todos os lugares.

meu corpo se ajustara à vida sob esse novo regime. para o centro da casa. essas espias de espelho. mesmo que a srta. a escada que levava à minha torre não tinha quadros ou espelhos. voltaria para o corredor principal. tudo o que eu precisava fazer era caminhar para o lado oeste do corredor e esconder-me em minha torre e estaria fora do seu mapa.A menina que não sabia ler . eu virasse à direita. Não havia nenhum espelho espião ao longo do corredor ali! Além disso. é claro. a saleta. mas também para que eu soubesse que era observada e com isso impedir qualquer rebelião. uma expressão ousada ou um gesto descuidado. era envidraçado em todos os lados. Se ao sair da biblioteca eu virasse à esquerda. que fiz uma ou duas vezes antes de desistir. porque queria não apenas me observar para detectar qualquer comportamento contra ela. minhas perguntas a esse respeito. a única resposta poderia ser porque ela não queria que visse. só serviram para reforçar a ideia de que meu comportamento causava-lhe estranhamento. porque. Ao mesmo tempo. pois não havia espaço de parede. ficaria aos pés da torre oeste. os ombros não relaxa-vam mais. no entanto. A última coisa que ela desejaria seria assustá-lo. era difícil evitar uma de suas espias nos espelhos — um de seus espelhos espiões — e não ser observada e ouvida. o salão. mas porque a srta. O quarto da minha torre também não tinha espelho algum. não seria povoado por ela. com seu espelho no meio do caminho. todos provavelmente arrancados — pois havia quadrados mais claros onde os quadros tinham estado pendurados — quando a torre foi abandonada. ao contrário. meu rosto se mascarara. como também nunca houvera um espelho. . Taylor nunca estivera ali. Taylor não estivesse presente. Eu estava agora ainda mais circunscrita em meu contato com Giles. pois não sabia trair meus pensamentos e sentimentos através de um movimento. meus braços e pernas haviam automatizado. afastando-o ainda mais de mim e jogando-o em seus braços famintos. ela tornara visíveis para mim essas réplicas.John Harding 108 Intrigava-me que Giles não pudesse ver as espias que ela havia deixado nos espelhos. pois precisava conquistar sua confiança para seduzi-lo e afastá-lo de Blithe. Notei que eu estava andando toda rígida. Simplesmente. Se. Depois de alguns dias. Não só por isso. a cozinha. pareceu-me que havia um lugar livre do olhar da nossa nova preceptora. da minha torre. Além disso.

não havia muitos lugares para onde poderia ter ido. E claro. Taylor. já o conhecia do caso Whitaker. depois de um pouco de nostalgia. estava muito longe para ver o rosto do visitante. ele ergueu a sobrancelha na . Taylor durante algum tempo. Cheguei ao salão justamente quando o capitão estava sendo recebido pela sra. lembrando aqueles dias deliciosos e despreocupados. que. mas poupá-la para quando surgisse a necessidade. Grouse. pré-Whitaker e entre preceptoras. Em algum momento eu poderia ter que tra-var uma luta desesperada contra esse demónio que tinha vindo para assombrar Blithe e precisaria de um lugar para me esconder. Maroto. tirando o chapéu e o casaco e entre-gando-os à sra. de modo que meu último refúgio seria revelado. Evidentemente. Era importante não desperdiçar o tempo em minha torre agora bancando a princesa. — Ah. e mais cedo do que eu esperava. Ele viera! E quão apropriado! Eu de princesa na torre. chegaria o momento em que eu iria precisar de um esconderijo assim. mas ela não era idiota e certamente não demoraria a descobrir que só havia um lugar onde eu poderia estar.John Harding 109 No momento em que percebi isso. Sentei-me na cadeira de capitão e passei alguns minutos olhando a entrada. Florence — ele disse. estava para sair quando captei um movimento na entrada e vi um homem em cima de um cavalo trotando na direção da casa. Com isso em mente. Todos os poucos cómodos entre a biblioteca e a torre deviam conter algum espelho. e nesse caso meu rastro terminaria ao pé da torre. Desci correndo as escadas e atravessei o corredor. dei de novo a desculpa da necessidade de pegar um livro na biblioteca e fui para a torre. Apesar John Harding de ter sumido do mapa da srta. Grouse. e assim meu desaparecimento poderia intrigar a srta. ele o cavaleiro de armadura brilhante subindo pela entrada. Agora.A menina que não sabia ler . a escada parecia intransponível. percebi outra coisa. mas sua postura rígida me era familiar desde o início do verão. quando eu sentava ali. Hadleigh! Ele mantivera a promessa. subindo pelo lado de fora do corrimão e pelos frágeis degraus. Parecia ter sido há um século! Mas. tentação que tivera o cuidado de reprimir até então. lendo três ou quatro páginas e olhando a entrada por algum sinal de Theo. é claro. tão atrevida com essa bênção repentina que no caminho mostrei a língua para o espelho espião ao passar.

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minha direção. — Estava passando por aqui e pensei em parar para ver como estão todos. — Suas habilidades teatrais eram muitíssimo melhores que as do meu irmão. — Estamos muito bem, obrigada, senhor — eu disse. — Temos uma nova preceptora. — Realmente? Então eu gostaria muito de lhe apresentar meus respeitos, se não for intromissão da minha parte. A sra. Grouse despachou Mary para o quarto de estudos para chamar Giles e a srta. Taylor. Eles demorariam alguns minutos para descer, e desconfiei que ela não quisesse vê-lo, pois o teria visto pelo espelho no salão no momento em que ele entrou na casa. — Está trabalhando em algum caso interessante, senhor? — perguntei a Hadleigh, para manter a conversa enquanto esperávamos. — Ah, o de sempre. Assassinato, incêndio criminoso, assalto à mão armada e coisas desse tipo. Essas coisas estão sempre acontecendo em um lugar movimentado como este. A sra. Grouse, surda para a ironia, pobre alma simples, pergun-tou: — É mesmo, senhor? Bem, quem pensaria numa coisa dessas? Sempre pensei nesta parte do país como um lugar calmo e sem agitação. Hadleigh lançou-me um olhar significativo. — Ah, bem, e é, na superfície, madame, mas raspando um pouco descobrimos que nada é o que parece. A srta. Taylor e Giles chegaram. Meu irmão escondido atrás de suas saias, pois não havia gostado dos interrogatórios de Hadleigh no passado. Nossa nova preceptora apertou a mão do capitão e olhou-o diretamente nos olhos, o que me alegrou, pois ele certamente devia ter visto a cobra ou o quer que estivesse dentro dela. Àquela hora do dia, ela sugeriu que tomasse chá conosco no gramado e saímos. Ali nos sentamos, enquanto Meg trazia pão, manteiga e geleia. Hadleigh era, eu percebi o que nunca tinha percebido antes, um interrogador inteligente, pois conseguiu fazer-lhe perguntas investiga-tivas na forma de conversa trivial.

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— Está neste emprego há muito tempo? — ele começou, estudando o lago distante como se a pergunta fosse meramente uma questão de educação e ele não desse a mínima importância à resposta e, na verdade, nem sequer estivesse se importando se a ouvia. — Apenas cinco semanas — ela respondeu. Ele riu. — A senhora não me entendeu, madame. Ele pegou outro bolo, com toda a atenção aparentemente voltada para a escolha certa. — Quero dizer, é preceptora há muito tempo? — Há mais tempo do que gostaria de lembrar — ela disse, exibindo um sorriso educado. Não seria fácil despistá-lo. — Vamos lá, não pode ser tão ruim, não com encargos tão adoráveis quanto Florence e Giles. Onde esteve antes para ficar tão acerba em relação à sua profissão? — Eu não quis dizer que não gosto do trabalho, capitão, apenas me referi ao fato de que não gosto de pensar na passagem dos anos desde que comecei. Nenhuma mulher gosta de ser lembrada de que está ficando velha. — E conhece o tio das crianças, imagino. Ela tomou um gole de chá. — Não, receio ainda não ter tido esse prazer. Não fui contratada diretamente por ele. — Uma agência, então? Ela sorriu e inclinou a cabeça ligeiramente, como se reconhecesse algo vergonhoso, o que para pessoas de certa classe poderia ser, sendo caçada como um trabalhador em busca de emprego. Hadleigh bateu com a mão no joelho. — Então a senhora é exatamente a pessoa que pode me ajudar! Ela o olhou com uma expressão duvidosa. — Sabe, madame, tenho esses amigos mais ou menos na mesma situação do tio das crianças e eles precisam de uma preceptora, e seria útil ter o nome de uma boa agência.

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— Bem, eu não sei se a que me contratou é boa — ela respondeu. Era como observar dois esgrimistas se enfrentando, exceto que Hadleigh mostrava menos sutileza quando se tratava de matar. Parecia mais um cão sacudindo a ratazana até a morte. — Ah, mas ela a encontrou, não é, madame? Ela rebateu. — É exatamente o que quero dizer. — Madame, deixe de ser tão modesta. Ele a olhou nos olhos. — Apenas me diga o nome da agência. Meu amigo é um homem de negócios, ele saberá dizer se é boa ou não. Ela o olhou longamente e depois lhe deu o nome e o endereço em Nova York. Hadleigh agradeceu com a mesma simpatia com que agradeceria por um pedaço de bolo, mas em seus lábios havia um ar de satisfação, como se, suspeitei, ele a tivesse vencido no embate. Pouco depois, Hadleig levantou-se e disse que precisava ir, e pe-diu-me para acompanhálo com seu cavalo até o começo da entrada. Assim que ficamos sozinhos, perguntei-lhe: — Então? — Se está querendo saber se acho que ela se parece com a falecida srta. Whitaker, eu não poderia dizer. Só a vi em fotografias e a maioria depois que a tiraram do lago. Eu não consegui responder. Meus olhos se encheram de lágrimas com a ideia de uma visão dessas, embora não tivessem permitido que eu visse. Foi ele quem quebrou o silêncio. — Quando falei que a dor faz coisas estranhas com as pessoas... — É mais que isso, senhor. Ele parou e olhamos um para o outro. Tentei pedir-lhe com o olhar, pois não tinha palavras para fazê-lo mudar de ideia se tivesse decidido que eu estava imaginando tudo. Ele colocou o pé no estribo, levantou a outra perna sobre o cavalo e subiu na sela. — Escute, tenho o nome das pessoas que seu tio usou para contratá-la. Vou enviar para Nova York e pedir que investiguem e ver o que posso descobrir, está bem? — Está bem — eu disse. E com isso ele saiu galopando, deixando-me ali na entrada, pensando subitamente que ali pelo menos, ao ar livre, não havia espelhos e ninguém me veria chorar. ***

enquanto hamleteava a respeito. eu tinha que ver Giles insinuando-se cada vez mais para os braços dela.A menina que não sabia ler . então precisava descobrir exatamente o que ela pretendia. era suficiente para animar meu espírito. estava decidida. Agora. Faria tudo o que pudesse para combater essa criatura morta — pois tinha certeza de que assim estava nossa nova preceptora. Se queria derrotar a srta. para derrotar seu inimigo. Mas o que fazer? Ai. pois. paralisada por meus medos.John Harding 113 Embora Hadleigh ainda não tivesse realmente feito alguma coisa por mim. como poderia caminhar sobre a água ou habitar os espelhos? Também suspeitava de que fosse Whitaker reencarnada. a vigília cons-tante e a solidão do meu compromisso juntaram-se para congelar-me. de forma que me sentia completamente impotente e não conseguia sequer pensar no que poderia fazer para impedir a bruxa. Como alguém combate um fantasma? Você não pode simplesmente afogá-lo. meu irmãozinho indefeso? Tudo era possível. Mas alguma coisa eu precisava fazer. eles veem apenas um caminho para a solução de qualquer caso: informação. e de que eu não estava sozinha na minha busca para salvar Giles. Antes da sua visita. E todos os dias. nada concreto em termos de ajuda. e qualquer expressão de hostilidade da minha parte em direção à preceptora despertava nele igual hostilidade em relação a mim. primeiro você precisa conhecê-lo. isto é. do contrário. ele estava ressabiado comigo. pois a srta. e na minha presença? Será que de alguma maneira me culpava por não tê-la salvado. ou. era como se o garoto não quisesse ser salvo. Pensei na investigação de Hadleigh em Nova York. essa era a questão. Refleti hora após hora com pouco a mostrar pelo meu esforço. Whitaker já tinha mostrado que a água não consegue deter um espírito morto. Isso começou a fazer sentido para mim. Taylor. . minha ansiedade. pois por que outro motivo iria querer me assombrar? Quem mais eu conhecia que tivesse morrido. aquela não era a maneira de os policiais raciocinarem. pelo menos. a melhor parte de mim mesma. como eu mesma me culpava? Seria isso suficiente para fazer com que quisesse me punir fazendo mal ou tirando de mim a única coisa que eu realmente amava. depois de ter chorado enquanto Hadleigh desaparecia na curva da estrada principal. ele não iria considerar o que eu disse por seu valor aparente. Desde a ida até o dentista e o incidente com o espelho. o simples conhecimento de que pelo menos estava ao meu lado.

John Harding 114 Bem. Taylor não poderia concluir sua toalete e assim.A menina que não sabia ler . depois de dar esse salto. quando espiei ocasionalmente pela porta aberta do quarto de Giles.. que havia um grande espelho na penteadeira da preceptora. no momento em que pusesse os pés lá dentro. havia apenas um lugar onde poderia encontrar tais evidências sobre a nossa preceptora. cantando para ele daquela forma monstruosa. ela saberia. com o espelho quebrado. apenas pelo prazer de o fazer. Não. eu. por isso. pois sabia muito bem da época da Whitaker. pelo súbito obscurecimento da sua visão do quarto. A revista do quarto era impossível enquanto o espelho estivesse lá. Além disso. mesmo que não fosse observada do espelho no ato de cobri-lo. soprar a vela e retirar o pano. lá estava ela. todas as noites.. logicamente. e era seu quarto. simplesmente o substituiria imediatamente. Se entrasse em seu quarto quando estivesse escuro e colocasse um pano preto sobre o espelho eu poderia então acender uma vela para ver seus pertences e. Seria necessário que a srta. a menos que fosse feito à noite. Assim que essa ideia se apresentou a mim. Exceto que. Taylor estivesse ausente do quarto em algum momento durante a noite e por tempo suficiente para que eu fizesse o que tinha que fazer. algo impossível de realizar em si. até onde eu sabia. sempre que eu estava inquieta ou acordada à noite e ia até o quarto de Giles. Pois. quando minha tarefa estivesse concluída. Pensei nisso por alguns dias. seria descoberta. A imagem no espelho observaria apenas uma coisa. que ele havia sido coberto e que só poderia haver um culpado. Tentei imaginar planos para retirar o espelho. observando-o. Pensei em pedir a Giles que fingisse algum acidente e o quebrasse. Por fim. Eu poderia fazer o que quisesse sem que ela visse. pensei na possibilidade de cobri-lo com um pano. A menos. Com a maioria das pessoas isso seria impossível. mas eu sabia que não era mais o caso. quebrar não adiantava. que o quarto parecia estar no escuro. também se evidenciou sua deficiência. pois elas raramente deixam seus quartos depois de se recolher após o anoitecer! Mas a srta. coisa que antes faria. a srta. é claro. Taylor saía de seu quarto! E. e não saberia a diferença entre a noite e o meu pano. sem questionar. ou seja. Mas como iria acessá-lo? Não podia simplesmente fingir que ia até a biblioteca quando ela e Giles estivessem no quarto de estudos. .

Taylor me mandasse para a cama. quando pisei houve um rangido na tábua do assoalho e percebi sua posição para depois poder pulá-la. A parte do corredor contígua aos nossos quartos não tinha espelhos. afastavam-me imediatamente. E se esta noite eu a observasse e no dia seguinte ela levasse Giles embora? Não havia alternativa. eu praticaria o caminho do meu quarto para o dela. bem.. o que a deixaria de sobreaviso e ao mesmo tempo colocaria em perigo meu plano. quando tinha a rota gravada na minha mente. pisando da maneira que conseguiria fazer no escuro. ou de que sentisse minha presença. Suspeitava que fossem lon-gas.. por isso. eu sabia. soprei a vela e fiz o caminho de novo com os olhos fechados e depois mais duas vezes. Tinha que ser esta noite. porque todas as vezes que eu a observasse haveria a chance de ser pega. Em dado momento. Fiz isso primeiro com uma vela e de olhos abertos. caso houvesse alguém ali. em segundo lugar. o medo também de ser descoberta.John Harding 115 Ficava tão enojada com suas visitas ao quarto do meu irmão que em cada uma dessas ocasiões não tive desejo de ficar. até ficar satisfeita para navegar o caminho do meu quarto para o da preceptora tão silenciosamente quanto. então eu não teria tempo para uma revista adequada do quarto e poderia ser pega no ato. Guardei a posição de alguns quadros na parede para não esbarrar neles acidentalmente e produzir algum ruído. tão encantada parecia ficar com sua presa. Então fui para meu quarto e tirei do guarda-roupa um velho manto preto. embora não imaginasse que outra pessoa poderia haver . Meu plano era colocá-lo sobre minha camisola branca para me deixar invisível no corredor escuro. seria observá-la por uma noite ou duas para descobrir a duração de suas visitas ao meu irmão. depois que a srta. Seu comportamento em cada ocasião era o de alguém quase em transe. se essa minha hipótese estivesse errada e suas visitas fossem breves. É claro.A menina que não sabia ler . tão silenciosamente quanto um fantasma. tão distraída de tudo o mais que pouco provavelmente perceberia algum barulho no quarto adjacente. Cuidei de todos os preparativos. A única coisa sensata a fazer. primeiro. daqueles cruéis olhos de cobra olhando-me. enquanto estava ocupada contando histórias de dormir para Giles. Por fim. Mas eu estava relutante. eu não tinha como saber quantas noites eu tinha antes que ela colocasse seu plano em ação. O resultado dos meus melindres e covardia era que não tinha ideia de quanto tempo duravam essas suas visitas a Giles.

apagaria a vela. mas eu conhecia meu caminho até a porta. Taylor. Levantei as cobertas e coloquei os pés no chão. de forma que. Tinha tomado a precaução de apagar a vela para o caso de pegar no sono e remexer as cobertas revelando meu manto preto. praguejando silenciosamente contra o barulho normalmente imperceptível. Fiquei de pé e tateei até encontrar a vela e os fósforos. agucei os ouvidos e prendi a respiração. e soube que estava na hora de me mexer. teria apenas a luz de sua própria vela. Respirei forte. Uma vez em seu quarto. pegaria o manto. puxando as cobertas até em cima. atenta a qualquer som de movimento. com o manto tendo servido a dois propósitos. Taylor decidisse abrir a porta para me dar boa-noite (na verdade para me espionar). Abri a . ela não veria minha estranha vestimenta. mas sem revelar o manto.John Harding 116 além da srta. Taylor olhasse. acenderia minha vela e começaria minha procura. ouvi o barulho da maçaneta da porta e senti que estava parada na entrada. Fiquei ali deitada. que. a coruja piou mais uma vez. Meia hora depois. com medo da tarefa à minha frente. O quarto estava completamente escuro. os olhos pouco acima das cobertas. Quando terminas-se.A menina que não sabia ler . nada mais imprová-vel. Sabia que teria uma longa espera até minha inimiga fazer o caminho para o quarto do meu irmão. Em algum lugar da casa eu podia ouvir um relógio tiquetaqueando e batendo os quar-tos das horas. Virei a maçaneta. Uma vez ali. Lá fora. mas tudo o mais estava em silêncio. observando-me. Se a srta. Pensei que esse era um plano que daria muito certo e cumprimentei-me por ele para esconder de mim mesma todas as minhas dúvidas. cobriria o espelho. Coloquei o manto e entrei na cama. se a srta. Eu não precisava ter medo de pegar no sono. depois os enfiei nos bolsos do meu manto. exceto pelos gemidos e rangidos da velha casa acomodando-se ao descanso noturno. que imaginei ser o da srta. me cobriria com ele e deixaria o quarto. e um segundo ou dois depois ouvi a porta se fechar suavemente. soltando pelas narinas uma expiração que era quase um ronco. seria suficiente para mostrar-me aparentemente adormecida. da entrada da porta. eu tiraria o manto. mas agora semelhante a um alarme. Finalmente ouvi um ruído surdo do outro lado do quarto de estudos. uma coruja piou e não pude deixar de pensar que esse som melancólico podia ser ouvido em todas as boas histórias de fantasmas e que eu mesma estava em uma agora. Taylor entrando no quarto do meu irmão.

Não podia sequer ter certeza de que a porta de ligação entre seu quarto e o do meu irmão não estaria totalmente aberta. ela nunca estava nas outras vezes em que a observei. e. passei pela porta do quarto do meu irmão e cheguei ao da srta. resolvesse aventurar-se pelo corredor. mas julguei que era melhor que o som de passos. Segui pelo corredor. O quarto estava escuro como breu. ouvi um barulho. o coração batia com tanta força que me perguntei se não acordaria a casa toda. exceto por um brilho débil debaixo da porta de ligação para o quarto do meu irmão. Senti o frio do metal da maçaneta da porta em minha mão e re-zei para que não protestasse com muito barulho quando eu a virasse. embora estivesse contando cuidadosamente cada passo. Entrei num piscar de olhos e fechei a porta atrás de mim suavemente. É claro que eu não podia ter certeza absoluta do seu paradeiro. como se me reprovasse por ter esquecido. Girei-a lenta e cuidadosamente e não houve barulho algum. Deslizando assim pelas tábuas corria o risco de me espetar com uma farpa. e a primeira lembrança que tive do piso barulhento foi quando coloquei o pé nele e ele soltou um gemido mais alto que o anterior. Deparei imediatamente com um problema que não havia levado em consideração no meu planejamento: o quarto estava tão escuro que eu não conseguia ver absolutamente nada. e dos bons tempos que passamos no gelo. pois significava que o espelho também não podia me ver. exceto que. isso era exatamente o que eu desejava.A menina que não sabia ler . agora tão distante. se ela. Parei e segurei a respiração. Percebi o suor na testa. Meu coração parecia que ia saltar da boca. esperando. pelo que eu lembrava. Estava com tanto medo que me esqueci de contar. com um oceano entre nós.John Harding 117 porta levemente e passei deslizando os pés descalços pelo chão. o que me fez lembrar de Theo. como esperava. e minha espinha gelou e estremeceu. Só que não era a resposta à minha imperícia. Respirei profundamente e abri a porta. mas não iria arriscar -. tudo bem. por qualquer motivo — não que eu pudesse pensar em um. É claro. não queria que visse a porta de seu próprio quarto aberta. Taylor. Apesar de . Não o via por dentro desde a época da Whitaker. Mas eu não estava especialmente familiarizada com o quarto. ela estava com Giles. Até ali. mas parecia o sussurro surdo do vento distante transformando-se na cantoria suave que eu tinha ouvido na primeira vez que peguei a preceptora em suas atividades noturnas.

uma mesi-nha de cabeceira e uma outra mesinha — no lugar em que estava na época da sua predecessora. mais ou menos a cada minuto. Foi tão rápido que quase gritei. Mas não havia tempo para tal repugnância. Não. eu poderia comê-lo". O que eu devia fazer? Se fosse para a porta do corredor talvez tivesse uma chance de alcançá-la antes que ela abrisse a porta de conexão. tateava cuidadosamente à frente. como . De repente. a parede -e nada mais.A menina que não sabia ler . Tive certeza de que a qualquer segundo a porta de conexão seria aberta e eu seria pega em flagrante. Nesse momento.John Harding 118 estar razoavelmente segura de que a srta. decidi.. o que teria me complicado bastante. Cada vez que levantava um pé. embora fosse uma chance mínima. Então ouvi sua voz.. Assim continuei pelo quarto. atravessei o quarto. tinha apenas uma vaga lembrança da posição de tudo. Taylor havia deixado alguma coisa no chão — suas valises. mas felizmente parei e consegui controlar-me antes de prosseguir. e ela piava. Eu sabia que a penteadeira ficava na parede oposta à da porta para o quarto do meu irmão. que eu sabia estar diante da penteadeira. meu querido. Parecia ter levado horas. então poderia muito bem levar adiante a minha missão. A penteadeira não estava onde deveria estar. Meu coração batia como uma marcha militar. tateando. inclinado sobre meu irmão. embora a coruja tenha piado só mais uma vez. e pensei naquele demónio a alguns passos de distância. a penteadeira. a saliva pingando dos lábios. Dei a volta. a canção no quarto ao lado parou. dava meio passo e colocava-o no chão de novo com muito cuidado. limitando-me a passos pequenos para não me estender demais e perder o equilíbrio caso encontrasse outro obstáculo. senti. era inútil sequer pensar nisso. eu seria pega. O que quer que aconteça agora. eu sabia. Soltei o pé do tapete e depois movimentei o outro pé. por isso continuei deslizando pelo chão naquela direção. baixa e suave: "Ah. Em dado momento bati com o joelho em alguma coisa dura e imaginei que fosse a ponta da cama. e o medo me paralisou. digamos — em que eu pudesse tropeçar. o sangue em minhas veias congelou. Quase imedia-tamente meu pé prendeu em um tapete e por pouco não tropecei. Tinha que pensar em algo depressa. Taylor havia conservado a mobília — a cama. um guarda-roupa. de forma que eu mal podia acreditar que fosse inaudível para a mulher no quarto ao lado. Não tivera a oportunidade de calcular as distâncias e não tinha como saber se a srta. uma poltrona e algumas cadeiras menores. fui até a parede e. Com esse rastejar incómodo.

Então peguei um dos fósforos e risquei. ou precipitação — chame como quiser -. esperei alguns segundos até ter de novo certeza de que estava tudo bem. Com todo o cuidado para não esbarrar em nenhum outro enfeite. vidros de loção e perfume. pareceu-me uma grande soma para uma simples preceptora. Ao lado delas encontrei um recorte de jornal que reconheci imediatamente. perguntei a mim mesma. algum enfeite ou algo assim. com a lateral contra a parede oposta ao quarto de Giles. Na mesa não havia nada além dos apetrechos femininos habituais. a canção prosseguia. Continha notas de dólares e. Como a posição de uma penteadeira poderia ter alguma importância?. e a parte de trás contra a parede de fora. atravessei o quarto até chegar à parede. onde estava a janela. e a mim o barulho pareceu tão alto quanto o que John fazia quando tirava com a pá o gelo que se formava na entrada. . uma de cada lado do vão central onde se põem as pernas ao sentar. Disse a mim mesma novamente que aquele não era o momento para tais pensamentos. Peguei a vela e os fósforos do bolso do meu manto e coloquei-os na mesinha. Colocando-o no lugar. pensando que talvez a tivesse alertado. escovas. para aproveitar a luz quando olhasse no espelho. seu perfume de lírios mortiços. por isso. depois de acender a vela. meu caro Watson! Mas essa não era hora para vangloriar-me. segurei a respiração. O que eu precisava avaliar agora era por que e para onde? Pensei em onde estava antes e no que poderia haver de errado com aquele lugar. um sabonete perfumado. tinha que voltar minha mente para o problema em questão. fui tateando até alcançar a janela e lá estava! Elementar. mas minha mão foi mais rápida e peguei-o antes que pudesse cair. A penteadeira tinha duas gavetas. mas não. comecei a revista.John Harding 119 que para recompensar-me pela bravura.A menina que não sabia ler . Estava tão afoita que bati em algo na mesa. Ela estava no canto. a canção recomeçou e senti um mal-estar só de pensar naquela coisa acariciando a testa de meu irmãozinho indefeso. sem dúvida. um vidro pequeno. depois tirei o manto. embora não tivesse tempo para contá-las. pois era uma reportagem que eu mesma tinha visto antes do inquérito da Whitaker. estendi o manto e joguei-o sobre o espelho. Cautelosamente. Ela tinha mudado a penteadeira. E respondi imediatamente: a luz. Abri primeiro a do lado direito. Não havendo interrupção da canção.

Silêncio! A canção no quarto ao lado havia parado. Cabine Porto D14. ansiosa que estava por ter ficado tempo demais no quarto. olhando em volta e fiquei ainda mais intrigada. caíram dois cartões. O criado-mudo estava vazio e em cima da cómoda não havia nada além de uma vela e um copo vazio. na verdade tive que estender o braço e apoiar-me na mesa. Senti uma tontura e mal consegui me equilibrar. Coloquei minha vela sobre a mesa e tirei-o da gaveta. Nova York — Le Havre. mas para fora do país. Passagens! Meu coração quase parou ao ler o que estava escrito em um deles.A menina que não sabia ler . Fui até a cama e tateei embaixo dos travesseiros. Quando o abri. meu amor.John Harding 120 Nesse momento ouvi uma tosse no quarto ao lado. com a outra coloquei a Bíblia de volta na gaveta e a . Eu não tinha tempo para examiná-lo agora. Partida à meia-noite. shh. mas estavam completamente vazias. Não havia mais aonde olhar. Não havia tempo a perder. nada. De repente senti uma diferença no quarto e levei meio segundo para perceber o que era. Vazios! Fechei a porta do guarda-roupa delicadamente e parei em pé. O outro era exatamente igual. Então meus olhos se voltaram para uma mesinha que eu lembrava da época da Whitaker. Agacheime e abri a fechadura. Peguei minha vela na penteadeira e fui na ponta dos pés até ela. perto da porta que dava para o corredor por onde eu havia entrado. não há nada a temer. Fechei a gaveta e abri a que ficava do outro lado. Passei a mão embaixo de toda a volta do colchão. Taylor. Peguei-os e vi imediatamente do que se tratava. Duas semanas! Duas passagens! Era quando ela pretendia levar Giles embora. Abri o guarda-roupa e revistei os bolsos do seu casaco e dos vestidos. Estava prestes a fechar a gaveta quando reparei em algo. Não tinha nada além de sais de cheiro e um vidro com um rótulo de uma farmácia de Nova York. Taylor: — Shh. aonde eu não poderia segui-la ou mesmo trazê-lo de volta. Fiquei arrasada. Abri a gaveta da mesinha e fiquei decepcionada quando vi que não tinha nada além de uma Bíblia. para a Europa. por isso o recoloquei relutantemente de volta na gaveta e a fechei. Olhei embaixo da cama e vi as duas malas da srta. nada menos do que a França. 14 de novembro. 14 de novembro. que reconheci como sendo Giles. E não só para longe de Blithe. 1— Classe. Isso seria dali a duas semanas. SS Europa. e ouvi a voz da srta. o canto de um papel saindo do livro. Mantendo as passagens em uma mão.

eu sabia que. Fiquei no corredor. empurrando-as para dentro do forro e certifi-cando-me de que não poderiam cair. Taylor já havia encontrado o manto. saí do mapa da preceptora e subi até a minha torre. até o pio da coruja me tirar do devaneio. onde havia dormido sobre elas por questão de segurança. alcancei a maçaneta. soprei a vela. a srta. e foi aí que percebi que havia deixado para trás meu manto. na longa espera para começar minha aventura noturna. com meu canivete. usando ambas as mãos para que visse que estavam vazias. primeiro. que eu tinha trazido com esse propósito. Fiquei como uma estátua por cerca de um minuto. segundo. Então passei pela biblioteca. ao pensar que eu havia estado em seu quarto. Tateei embaixo do assento da cadeira de capitão e. e fingi que arrumava o cabelo. pois não poderia nem sequer escovar o cabelo sem que isso acontecesse. abri a porta. Mesmo assim. encobrindo o som da outra. encostada na parede para ter apoio. ignorando quanto pude o rosto lívido da srta. Taylor olhando-me com raiva. com o som de uma. apesar da tristeza e da . Felizmente eu estava perto da porta do corredor. peguei as passagens embaixo do meu travesseiro. não para a sala do café. depois. tendo ficado acordada tanto tempo durante a noite. quase desmaiando pelo que acabara de descobrir e por ter escapado por tão pouco. não demoraria muito até resolver verificar as passagens. eu esperava. pois eu havia voltado a Poe. coloquei-as no bolso do meu avental e desci. 22 Na manhã seguinte levantei tarde. Histórias de mistério e imaginação. meu manto. mas para a ala oeste.John Harding 121 fechei. com as passagens de navio e com o que havia deixado para trás. Com um movimento. passei e fechei-a atrás de mim no mesmo momento em que a porta do quarto do meu irmão foi aberta. onde peguei o livro que estava lendo no dia anterior. No corredor. aflita com o que havia feito. Então desci até a biblioteca. cortei o couro. Ouvi passos no quarto de Giles aproximando-se da porta de comunicação. virando-me e remexendo-me na cama.A menina que não sabia ler . parei diante do espelho pouco antes da biblioteca e olhei para ele. porque se tivesse já teria invadido meu quarto há muito tempo. na coisa propriamente dita e. mas acreditava que ainda não tivesse dado por falta das passagens. Coloquei as passagens nessa abertura. Por isso me vesti depressa. Evidentemente.

assim. O livro. pegando-a desprevenida. eu esperava. Ao chegar à minha cadeira. embora a cada bocado só me sentisse pior. depois de eu ter passado sem nenhum. — Você esqueceu no meu quarto — ela disse. no encosto da cadeira que sempre foi minha. senti as pernas falharem. de forma que comi tudo o que estava à minha frente. sentando-me em meu lugar. pendurado como um velho corvo preto. convenceria o demónio de que eu tinha ido somente até a biblioteca e a nenhum outro lugar. tão chocada fiquei. — Obrigada — eu disse.A menina que não sabia ler . e tirei-a do encosto das cadeiras. a srta. e peguei meu garfo e faca. mas. Quase parei de respirar. Quando entrei. Apenas acenei. mas estava determinada a não lhe dar satisfação alguma. Abaixei os olhos e fui humildemente para o meu lugar. pois. e. diante da srta. depois a dobrei e. Taylor. vi o meu manto. Ergui os olhos e encarei a srta. corri para a sala do café. prestes a dizer alguma coisa. a srta. Saindo da biblioteca. os olhos de cobra penetrando nos meus. Taylor o conteve. as asas pousando nas cadeiras vizinhas de ambos os lados. triunfante como al-guém que pegou o outro em uma mentira ou ato desprezível. fiz questão de passar lentamente pelo espelho segurando o livro aberto à minha frente e fingindo que o lia. meu manto. Eu não estava com fome. pousando a mão na sua e ele fechou os lábios e silenciou. Taylor. Logo que saí da frente do espelho. segurei a ave ímpia de mau agouro. Giles olhou para mim e abriu a boca. . Ela se recuperou rapidamente. coloquei-a em uma das cadeiras ao lado. a comida sen-do nada para ela. Taylor desafiadoramente. embora não fosse possível perceber isso de fora. meu estômago revirando pela apreensão do que poderia vir. Taylor e Giles já estavam lá.John Harding 122 melancolia. pois não havia o ti-ti-ti costumeiro de Giles e nada das respostas tolas da srta. não seria levado a explorar a torre. porque nesses dias ade-quava-se ao meu estado de espírito. Ela me olhou desa-fiadoramente. Ao abrir a porta. Ela continuou a me olhar pelo resto da refeição. antes que pudesse falar. que nem chegava a percebê-la. o coração fazendo acrobacias em meu peito.

senhorita. afinal de contas. muito vazio. Depois de quase ter me acovardado e de ter resolvido ir para fora. pois parecia sinalizar que tínhamos ultrapassado os limites das convenções sociais. tomado café durante um tempo considerável antes da minha chegada. de forma que parecia que ela podia estar sempre espionando minha própria alma. onde deveria estar a salvo das dezenas de pares de olhos com os quais ela acompanhava todos os meus movimentos e monitorava cada expressão e gesto em cada parede da casa. Sentia tanta fraqueza que mal conseguia andar e comecei a chorar. deslizando pelo piso como se caminhasse no ar. um pensamento me fez estremecer. todo o meu medo de perder Giles. Ela afrouxou o olhar que tinha sobre mim e olhou para ele como se tivesse esquecido que estava ali. meu querido — ela murmurou e empurrou sua cadeira. Giles ficou em pé e correu para a porta. todo o veneno que a bruxa Whitaker tanto viva quanto morta havia colocado no meu coração. toda a minha culpa. o que me assustou. — Falarei com você mais tarde.. Assim que o som de seus passos desapareceu. . ela o seguiu com aquela maneira silenciosa e imponente de andar. é claro.. e pela primeira vez não foi a maneira com que falou.A menina que não sabia ler . corri para o ba-nheiro e vomitei tudo o que havia consumido.John Harding 123 Não demorou muito para Giles começar a impacientar-se. ele e a preceptora tendo. e ele acabou dizendo: — Por favor. e mesmo quando meu estômago já estava muito. eu não conseguia evitar as convulsões. podemos ir agora? Tenho certeza de que comi o suficiente para o dia todo e a senhora nunca come o suficiente para manter um pássaro vivo de qualquer maneira. para alguém que. que as luvas haviam sido tiradas e que ela estava pronta para uma luta feroz. Só quando estava atravessando a porta é que parou. havia sido contratada para servir. — É claro. Era como se o meu corpo quisesse se purgar de tudo o que o havia poluído por tanto tempo. pois não conseguia ver como poderia continuar. que era a única pessoa a quem podia me apegar neste mundo duro e frio. garota — ela sibilou. virou-se e lançou um olhar ameaçador. de tal forma que só conseguia vomitar ar. mas a insolência daquela palavra. "garota".

amavelmente. Não desistiria.John Harding 124 Porém. e eu não me dobraria e não cederia agora. — Não é isso. privar-me dos livros. — Não é tão difícil. isto é. Eu seria a abelha do seu piquenique. Matemática não era o seu forte. senhorita? Eu não quero ser tão pouco inteligente. ela me encarou. — O que está acontecendo. onde en-contrei Giles sentado ao seu lado junto à escrivaninha. — Qual o problema.A menina que não sabia ler . Eu não havia deixado que Whitaker me levasse ao desespero quando estava viva. alterou meu curso. Virei e segui pelo salão e subi até o quarto de estudos. trinta e sete? Ou trinta e cinco. Ela balançou a cabeça. É algum número por aí. e o sorriso arrogante do seu simulacro. com um sorriso pouco convincente. Giles — ela murmurou. Não fui feita para isso. Ele não disse mais nada. surpreso. olhou longamente para mim e. é sério. mas seria difícil dizer qual era. ficou em pé. quando me aproximava da porta da frente.. Giles — ela disse. — Sete vezes sete. o cabelo despenteado e espetado como se ela tivesse tirado todos os grampos em um acesso de . quando fez aquela coisa terrível. — Trinta e nove — arriscou Giles. e então foi possível ver seu rosto mudar quando estava a meio caminho de um sorriso. Giles ergueu os olhos. os olhos selvagens. Estou tentando. que parecia zombar da minha impotência. Antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa. Ela começou a rir. aquele em que a vira pela primeira vez. não importava que poderes sombrios tivesse à sua disposição. Estragaria seus planos. eu a vi no espelho. vamos lá. Se ela quisesse uma luta teria uma. eu sei. por onde pretendia sair. tão depressa que a cadeira caiu para trás. Fio? O que foi tudo aquilo com seu manto no café da manhã? O que você fez desta vez? Às vezes eu acho.. depois se virou e saiu depressa do quarto. Giles ficou confuso. aquilo que mais me magoaria depois da perda de Giles. Ela não fez nenhum gesto para pegá-la. — Bem. abruptamente. e então ficar sério. e ela ergueu os olhos. pois nesse momento a porta se abriu com um estrondo e a preceptora entrou no quarto e veio direto para nós.

ela de um lado da escrivaninha. sem gavetas cheias de livros para fazer peso. Afastei a cabeça e senti um puxão no couro cabeludo e vi que estava livre. Coloquei os dedos sob as beiradas do tampo e com um rugido poderoso empurrei e virei a escrivaninha ao mesmo tempo. Fechei a porta com um estrondo e olhei ao redor.A menina que não sabia ler . não mais que uma mesa. derrubando-a. duas feras em combate mortal. pois. sua petulante? Cheguei a uma porta lateral. — O que foi que você fez com elas. Só havia uma coisa. E antes que ela tivesse uma chance de se recuperar eu atravessei o quarto e saí pela porta aberta. Era como uma dança da morte. podia ouvir os gritos atrás de mim. pulando três ou quatro degraus de cada vez e depois pelo menos seis ou sete de uma vez. Pensei no lago. Durante todo o tempo. Nós nos encaramos. e tínhamos criado algumas rotas quando eu o acompanhava até a metade do caminho na volta para sua casa. da maneira como estavam as coisas. Desci pela escada de trás. que eu havia atravessado várias vezes para me encontrar com Theo quando ele cortava caminho por ali para me visitar. Então pensei na outra direção e no bosque. pois estava acenando com elas na frente do meu rosto. enquanto ela segurava uma mecha do meu cabelo. — Onde estão elas? — ela gritou. deixando-me em desvantagem. era eu quem deveria ser a perdedora. Eu as conhecia bem e os esconderijos também. enquanto avançávamos e recuávamos. mas mesmo quando estávamos presas nesse duelo eu sabia que. eu recuei para o outro. A escrivaninha era leve. quase me arrependendo ao pular no fundo. tirando os poderes especiais que ela poderia ter e que eu ainda . Disparei pelo corredor com o barulho de suas botas nas tábuas do assoalho atrás de mim. Então tentei fugir por onde havia entrado. mas conseguindo me recuperar no último. eu do outro. Ela me alcançou em um instante e agarrou meu braço. eu estava presa atrás da escrivaninha e inevitavelmente seria pega. pois Giles e eu costumávamos brincar de esconde-esconde e. empurrei-a e finalmente saí para o jardim. Ela fez que ia para um lado. mas então me lembrei de sua facilidade com a água e imaginei que seria capaz de cortar caminho por ele. se nada mudasse. — Onde estão elas? Onde estão. Pensei que fosse arrancar meus olhos com suas unhas. ela me impediu. sua pequena vadia? Eu não consegui evitar um grito.John Harding 125 raiva. a boca contorcendo-se com um sorriso estranho. por sentir muita dor.

não deste mundo. Eu tinha uma boa vantagem sobre ela. como se minha perseguidora tivesse talvez algum controle sobre eles. quando olhei por cima dos ombros ela estava a uma boa centena de metros atrás e embrenhei-me na mata. indo para o coração da floresta. pois nunca esqueci que era um espírito. como se fossem os pontos ruins que produzia quando a Whitaker obrigava-me a bordar. ou como a vida poderia voltar ao normal. porém. rasgando meu avental com seus tentáculos espinhosos. . ao ganhar distância sobre ela. Levantei as saias e comecei a correr enquanto ouvia o barulho da porta se abrindo atrás de mim. Em determinado momento. especialmente que uma de suas habilidades feiticeiras fosse a capacidade de voar. Estava com o coração na boca. Em pânico. mas que de fato era a rota que Theo e eu havíamos determinado como a mais curta entre seu lado da mata e o meu. Pelo menos ela não teria espias observan-do-me. ter uma breve conversa comigo mesma para acalmar-me.John Harding 126 ignorava. e eu tinha certeza de que poderia ocultar-me completamente. mas quando o caminho bifurcou peguei o menor dos dois. paciente e cuidadosamente comecei a arrancar os espinhos que me prendiam. Não era a mais rápida. pois a luta só estava piorando a situação. Não levei em consideração o que aconteceria depois de tudo isso. Ainda assim. Agora estava em algo quase irreconhecível como caminho. comecei a me cansar e meu avanço diminuiu. o que me fez temer todo tipo de coisas.A menina que não sabia ler . Logo eu estava completamente cercada e tive que parar. mantive-me na trilha. pois passava por um ajuntamento denso de arbustos e lugares em que as árvores haviam deitado mudas e era preciso desviar para passar nos espaços estreitos entre elas. entretanto. tomei a má decisão de sair da rota que eu conhecia e ir na direção de alguns arbustos. pois sabia que devia ter alertado minha perseguidora quanto à minha localização. Enquanto a vegetação ficava cada vez mais espessa e a travessia cada vez mais difícil. É claro que meu pensamento não foi além da fuga. perturbei algumas gralhas e elas voaram de sua árvore fazendo muito barulho ao grasnar e bater as asas. e no espaço aberto era mais rápida. e fiz o mesmo cerca de cem metros à frente quando bifurcou novamente. tinha certeza de minha superioridade entre as árvores. pois minhas pernas eram mais jovens. o que me levou a amaldiçoar-me. A princípio. e logo me vi entre espinheiros que se estendiam cruelmente.

eu os arrancava. corri quanto pude. pois não existe cervo preto. . pois a casa ainda estava fechada. e a princípio não tive medo. Um barulho tão alto que me convenci de que devia ser um cervo atravessando a vegetação. praticamente bufando de raiva. sem diminuir o passo olhei por cima do ombro para verificar. apenas o chacoalhar das mudas e arbustos que mexia. enquanto esperava que o animal chegasse e passasse. não que pudesse esperar qualquer ajuda ali. indiferente aos rasgos e descos-turas. Ela não estava em nenhum lugar à vista e eu me felicitei. Quando os espinhos enganchavam em meu vestido. Ela fez menção de correr para mim. incapaz de pensar por um momento para onde me virar e fugir.John Harding 127 Finalmente consegui me soltar e vacilei até uma pequena clareira. Mas então. porém mal tive tempo de celebrar devido a outro súbito revoar de gralhas. pois sabia que não era época do ano para ataques de cervos. sem conseguir sufocar um grito de dor quando meu tornozelo virou e caí sobre ele com todo o meu peso. Abri caminho à força entre eles. quando meu pé bateu em algo duro — a raiz de uma árvore — e tropecei.A menina que não sabia ler . Transfigurei-me de medo. Não importava qual fosse o obstáculo. enquanto eu especulava. Parecia não haver passagem para fora da clareira além da rota que me trouxera até ali. final— mente. mas. Taylor. saí do matagal e encontrei um caminho. Sem pensar além da fuga imediata. eu forçava minha passagem. Olhei para a trilha que estava criando. atireime nos arbustos à minha frente. pois não podia ver a coisa em si. mas havia encontrado o caminho em que estava antes. Acreditando que havia colocado alguma distância entre nós. com a família distante. Estava livre! Não só isso. aquele que levava ao lado Van Hoosier do bosque. e só poderia ser uma coisa: o vestido da preceptora. Mas então. pois podia ouvir galhos se quebrando como se alguma coisa estivesse forçando a passagem. Virei-me e. mas foi contida. o rosto lívido. Podia ouvir minha perseguidora logo atrás e esperava a qualquer momento sentir seu hálito quente em minha nuca. Fiquei ali deitada. como eu ficara. sem pensar. o rosto na terra. vislumbrei algo preto entre as folhas e soube que estava perdida. os arbustos à minha frente se abriram e lá estava a srta. com a certeza de que deixava minha perseguidora para trás. e percebi que estava presa pelos espinheiros. a causa revelando-se quase imediatamente em uma grande comoção na direção de onde eu viera. rindo descontroladamente enquanto corria.

— Bem. Para confirmar. Taylor. Sentei-me e gesticulei na direção de Theo. a não mais que alguns centímetros de distância. o vestido sujo. Ele se abaixou para ajudar-me a levantar. Van Hoosier. Podia ouvir sua respiração ofegante atrás de mim. Ela não sabia como reagir. Sua expressão ainda mais confusa do que o normal. — Deixe-me apresentar-lhe o sr. Bradley receitara. o rosto suado e florescendo com pequenas pétalas vermelhas. Ergui os olhos e vi diante de mim. com uma aparência que eu imaginava devia ser parecida com a minha. É apenas uma brincadeira. o cabelo desgrenhado. cortesia dos espinhos. Taylor deveria pegar-me pelo outro lado. Afinal.A menina que não sabia ler . Van Hoosier. E então ouvi à minha frente um barulho que parecia uma tosse. começou a tossir e tirou do bolso seu frasco com o bulbo de borracha que o dr. um par de mocassins pretos. Sr. você está fazendo aqui? — Asma — Theo disse. mas também seu superior social.John Harding 128 sabendo muito bem que meu tornozelo era inútil. abriu a boca e apertou. — O que estão fazendo? — Theo perguntou. enfiando as garras no meu braço. Ela ajeitou o vestido e concentrou-se em algo que parecia um sorriso. Ele olhou de uma para a outra. madame. a srta. Ouvi um barulho atrás de mim e virei de lado para ver a srta Taylor em pé. nossa nova preceptora. em nome do demo. — E acho que ganhei. rasgado e coberto de mato. aproximando-se cada vez mais. acho que estão levando a sério demais. senhoras. — Florence estava se escondendo e eu a estava procurando — ela disse. indicando com o arquear da sobrancelha que a srta. . Theo era não só meu amigo. — Brincando de esconde-esconde — respondi. 23 — Theo — disse ofegante — o que. Levantei a cabeça para ver mais além e dei com um par de pernas de garça que conhecia bem e pensava que nunca mais veria novamente.

Precisamos ajudá-la a voltar para casa. Quando nos aproximamos da casa. pois Giles havia alertado a sra. Taylor correu para trocar o vestido enquanto me colocavam na chaise longue na saleta de estar. — De forma alguma. — É por isso que estou aqui — ele disse. Então eles me levaram. A sra. deixando Theo livre para tossir à vontade. enquanto eu me arras-tava como podia no meio. Meu primeiro pensamento foi contar-lhe tudo o que havia acontecido e confiar que seu bom senso enxergaria a srta. E se eu lhe contasse a respeito das passagens de navio. bobo. agitando as mãos: — Oh. certamente parece estar bem inchado. Agora me mandaram para cá para me recuperar com o ar melhor. Grouse sobre a minha fuga da casa perseguida pela srta. — Acho que não. Estava falando da viagem para a Europa. — Você não se importa? — perguntei. Com um braço debaixo do meu ombro para me dar apoio. e sei que poderei ir outro dia e elas ainda estarão lá. Mal começamos a andar e Theo começou a tossir. Tomo sorvete depois de todas as refeições. Sou o senhor da casa. Fiquei no hospital e depois aos cuidados de uma tia. Theo abaixou-se para examiná-lo. mas a nova preceptora .A menina que não sabia ler . A srta. — Acho que torci. o que aconteceu? Por que correu daquele jeito? Eu não tinha resposta. então tivemos que parar para que ele tomasse outra dose do remédio. era só para ver algumas ruínas e pinturas e coisas assim. — Eu não quis dizer isso. -Tive um sério ataque de asma na véspera da nossa partida. Meg e John vieram correndo ao nosso encontro. Taylor como era e informaria meu tio. Grouse parecia uma galinha-mãe. O problema era que eu queria ser acreditada.John Harding 129 — Ai! — gritei. Meus pais tiveram que ir sem mim. Afinal. quando recomeçamos. — Bem. e então acrescentei: — Meu tornozelo! — pois não queria lhe dar a satisfação de me fazer chorar. um de cada lado. John assumiu e carregou-me nos braços como se eu não pesasse mais que uma pena. minha querida. Taylor e estavam todos procurando por nós.

A fraqueza desse plano estava na dificuldade de contatar o capitão. Agora coloque os ouvidos em meus lábios e escute. Mas o que quer que fizesse. — Assim que Giles souber que você está aqui virá como uma bala. O tempo estava se esgotando. — Se não se importa. Theo. Ele me olhou sem entender. A sra. pois tenho uma ideia caso os espelhos possam ouvir. Grouse a respeito das passagens. Pelo que sabia. Eu já havia usado um dos meus catorze dias. ele não fez obje-ção alguma. pelo menos não ainda. Taylor dizer que havia perdido as passagens e teria outras. Se não conseguisse chegar a Hadleigh não haveria outra coisa a fazer senão colocar-me à mercê da sra. não podia deixar que soubesse a respeito do quarto na torre porque não queria entregar um possível esconderijo. quando o agarrei pela lapela e o puxei para perto. imaginando sem dúvida que . não é hora! — eu disse. Grouse. mas. olhando-me atentamente. Mas se as conservasse e permanecesse em silêncio também poderiam não me valer de nada. Eu não sabia como as companhias de navegação se conduziam. Ergui os olhos e a vi no espelho sobre a lareira.John Harding 130 viesse com alguma história para explicadas? Eu teria que devolvê-las e assim daria a ela o poder de levar Giles embora. — Agora não. o rosto aquecendo. O melhor plano em que conseguia pensar era mostradas a Hadleigh..A menina que não sabia ler . Assim que ela saiu. — Explicarei depois — eu disse à perplexa governanta. como se estivesse tentando adivinhar meu próximo passo. por causa do meu tornozelo. podem ouvir? — ergueu as sobrancelhas. Mesmo que falasse com a sra. não havia como empreender a difícil subida. precisava manter as passagens em minha posse.. pois me envergonhava ser beijada com a preceptora vendo do espelho. pois representavam a evidência que ele iria querer antes de poder agir. Van Hoosier. Ainda assim. eu gostaria de ficar a sós para conversar com o sr. acenei para que Theo se aproximasse. Decidi não contar à sra. — Os espelhos. Ele inclinou a cabeça sobre a minha e emboscou-me um beijo nos lábios. um lugar para guardar coisas secretas e uma base. Grouse. Grouse acenou com a cabeça duvidosamente e disse que nos traria um bule de chá. talvez bastasse a srta.

entrou. sendo que tivera a confirmação dessa hipótese ao encontrar as passagens de navio.A menina que não sabia ler . talvez um fantasma pudesse se renovar sempre que quisesse. estou vendo. — Florence. Você não terá tempo para isso antes que Giles chegue aqui e ela reapareça. sussurreidhe como chegar ao quarto da torre e onde as encontrar. — Ela está lá. — Florence — ele sussurrou. Ficou em pé. preciso lhe dizer. — Ah. Ela havia penteado o cabelo para cima de novo e limpado os cortes do rosto e passado pó. mas escute. Sussurrei a ele sobre os espelhos e como a srta. — De qualquer forma. pode fazer graça se quiser. — Mas ainda não. Eu havia decidido confiar a ele um dos meus maiores segredos. sim — retruquei. preto como o anterior. agora com outro vestido. Logo o desiludi. Eu lhe direi quando.John Harding 131 estava a caminho de outro beijo. de forma que mal se notava qualquer coisa diferente. é verdade — sibilei. um sorriso brincando em seus lábios -. ela não está lá. Temos que esperar nossa hora. Taylor estava planejando levar Giles embora. mas sou a única que pode veda. Eu pensei que talvez não fosse o pó o que havia restaurado suas feições. não estou! — acenou a cabeça de modo tão condescendente que eu o teria acertado na cabeça se não estivesse tão desesperada por sua ajuda. não se preocupe com o espelho agora. Theo soltou uma sonora gargalhada e afastou-se de mim. pondo um freio em sua zombaria -. parando diante do espelho e olhando. tem certeza de que só torceu o tornozelo? Por acaso não bateu a cabeça também? — Theo. colocou as mãos nos bolsos da calça e andou casualmente pela sala. . a porta abriu e a srta. desviou o olhar do espelho e veio sentar-se na ponta da chaise longue. Ao ouvir isso. arrumando a gravata enquanto observava. virando sua cabeça de forma que seu ouvido encostasse em minha boca. olhando-me. Taylor tinha praticamente a casa toda sob vigilância. Como se isso fosse um sinal. Ele me lançou um olhar condescendente. Satisfeito por se achar muito bem. — Juro por qualquer coisa que você quiser. Depois de terdhe exposto minha crença de que a srta. se é que havia. e não seus lábios. Taylor. ou melhor.

Encontrei passagens de navio. — Tenho provas de que ela pretende levar você embora. ao ouvir minha conversa sediciosa. — Cuide-se. pois a pobre garota — ela me olhou sarcasticamente — precisa de descanso. segurando a maçaneta sem entrar.. e feche a porta — sussurrei para ele. — O que está acontecendo. — Eu já mandei que John trouxesse o médico. Logo estará aqui. mas olhando da entrada. mas depois fez o que lhe disse. Agora acho que. madame. — Venha cá. A porta da saleta abriu e Giles apareceu. — Passagens de navio? Eu vou viajar de navio? — Sim. Theo endireitou-se desajeitadamente. ouvindo o som de suas vozes no salão. Apro-ximou-se de mim. o tornozelo. se saísse. Theo não teve escolha. Para a Europa. o que foi tudo isso? Você deve ter feito algo muito ruim para deixada tão louca. Florence. se ela não for impedida. — Mas. — Giles — eu disse -.. Giles. . Giles. qual é o problema? — Puxa. — Ainda está aqui. mas ficou a alguns centímetros de distância. como realmente estava. Apertou-me a mão. depressa! Ele hesitou por um instante. Teve uma crise de asma. Ela o levou para fora como se fosse uma vaquinha dócil e eu fiquei sozinha.. Seu rosto iluminou-se. Fio? Por que ela perseguiu você daquele jeito? Foi por que você entrou no quarto dela? Você deixou o manto lá. Theo ficou em pé. você precisa me ouvir -baixei a voz para um sussurro por causa do espelho. Fio.A menina que não sabia ler . — Foi muita gentileza sua cuidar de Florence. fora do meu alcance. — Europa? — ele pensou um pouco e depois disse: — Por que Theo voltou tão rápido da Europa? Ele não gostou de lá? — Ele nunca foi.John Harding 132 — Ah. Van Hoosier — ela sorriu galanteadora para Theo. não foi? Por que você fez isso? — Não se preocupe com isso agora. sr.. mas agora penso que devo pedirdhe para cessar seus préstimos. Voltarei amanhã. como se tivesse sido pego fazendo algo que não deveria. — Venha cá.

e ouça bem. Afinal. Acenei debilmente. — Não posso fazer isso. Você me entregará agora ou sofrerá as con-sequências. — Isso é o que você pensa.A menina que não sabia ler . é claro — ela me olhou significativamente. — Agora. olhando para a casa com uma expressão que misturava perplexidade e preocupação. — Náo irá encontrá-las. mocinha. Nesse momento ouvi a porta da frente fechar e pela janela vi Theo caminhando de costas. os olhos percorrendo meu corpo como se estivesse pensando em me revistar. — Quero o que é meu. é claro. deitada como estava. A srta. ela veio para cima de mim. Taylor entrou. — Giles — ela disse -. — Você náo falou com ele? — Só para dizer olá. Ela praticamente cuspiu as palavras. pois não estão comigo. Mas irá me dizer onde estão. — Vá em frente. E seu bordado. ou estivesse avaliando em que lugar do corpo poderiam estar escondidas as passagens. Ela se sentou na beirada do sofá. olhe — eu disse. mas obviamente ele não pôde ver e afastou-se. Refleti que isso era algo que eu poderia aproveitar. não é? Assim que ele saiu. presa ali com meu tornozelo inútil. embora eu visse que ele estava ressabiado com ela como estivera antes comigo. seja um bom menino e traga o livro de Florence para ela. ouça. Ela me soltou e olhou desconfiada. ele havia visto a maneira como ela saíra atrás de mim. apertando com força. Eu.John Harding 133 — Ah. Taylor me disse que ele estava de saída. por favor. não tinha alternativa senão ouvir. o que era difícil. — Devolva-as para mim. — Eu náo posso. A porta se abriu novamente e a srta. . que poderia me dar a oportunidade de cavar um fosso entre eles. vá para o quarto de estudos. — Muito bem. não devemos revelar seu segredo. esticou o braço e pegou meu tornozelo. pois estava como uma prisioneira. Ela ficou em pé. Foi toda sorri-sos com Giles. o que devia ter abalado sua impressão de que ela era toda doçura e leveza. — Afinal. seu demónio. e tudo o que consegui fazer foi não gritar.

você quer dizer. — Vamos lá — ela disse. As vezes. Ela ficou longamente em silêncio. Não tinha ideia do que a srta. ficava deitada na saleta fingindo que estava bordando. garota. pois não lhe podem servir para nada. Ela estava aborrecida. E essa foi minha rotina nos dias seguintes. Grouse ou qualquer um dos criados entrava.A menina que não sabia ler . deixando atrás de si um rastro de raiva e frustração. o melhor plano seria fazer Theo pegar as . Terei apenas que escrever uma carta para que sejam substituídas. e sua perda será para mim apenas um inconveniente. traziam-me uma pequena mesa com a comida. Todas as manhãs. Não. mas. prescrevendo descanso total. — Seu meio-irmão. eu podia ver. ocorria-me contar-lhe tudo. mas continha-me. tão impotente quanto está agora. Por que não tornar as coisas mais fáceis para nós dizendo-me onde estão? — Estão onde nunca as encontrará. você deve me dar o que é meu. obviamente a convencera de que não havia passado de um jogo.John Harding 134 — Posso tornar sua vida muito difícil. Na hora das refeições. pois ficou claro que a governanta de nada suspeitava. quando ficava sozinha com ela. levando-me do quarto para passar o dia no sofá da saleta. que eu cobria sempre que a sra. frustrada com a minha intransigência. 24 Naquela tarde o médico veio me ver e constatou que meu tornozelo estava torcido. Assim. Só levará Giles sobre o meu cadáver. — Vamos esperar que não chegue a isso. fosse o que fosse. elas não são inúteis para mim. John levava-me de volta para o quarto. pois ainda duvidava de que seria acreditada. E está certa. pois não ficará em pé de forma alguma por alguns dias. — Se eu estiver morta. À noite. com a precaução de mantê-lo livre de todo o peso por uma semana. Não vai ficar parada. depois se virou e deixou a sala. se insistir em me desafiar. com um tom mais conciliador -. Estará deitada. Grouse em relação à perseguição pelo bosque. E está errada. São a prova de seus planos diabólicos. Taylor havia dito à sra. — Eu não vou ficar parada e deixar que leve meu irmão embora. John vinha para carregar-me. mas na verdade lendo meu livro.

O problema imediato que eu tinha em relação a isso era como fazer para que Theo se apossasse das passagens. O próprio Giles havia superado seu medo momentâneo em relação a ela. Alguns instantes depois. Naturalmente ele disse que isso era bobagem e que nada lhe faria melhor. a sra. mencionei que era uma pena que você não pudesse receber visitas. agora que você ficou sem usar uma de suas pernas por algum tempo. esquivava-se de todas as minhas tentativas de voltar a falar de sua iminente viagem com a costumeira tagarelice infantil. de passagem. Por isso me surpreendi na terceira manhã da minha indisposição ao olhar pela janela da saleta para a entrada e dar com a figura familiar caminhando com seu andar de garça na direção da casa. Taylor. como conseguiu Apelando para uma autoridade maior — ele sussurrou. havia interpretado "descanso total" como nenhuma visita. pois a srta. agora que ficava sozinho com ela durante a maior parte do dia. acatando o médico. assim que ficamos sozinhos -. — Fingi um ataque de asma. Ele encheu o peito como um pombo ao cortejar a pomba. o que preferiria ter. Em suas visitas. pois ela o havia banido.A menina que não sabia ler . dado o meu estado. . — Quanta inteligência da sua parte. fazê-las chegar a Hadleigh e assim provar as intenções da nova preceptora. assim meu pessoal trouxe o médico e. de alguma maneira. ela lhe disse alguma coisa sobre ir embora com ela? — Fio — ele se retraiu -. — Ele também disse que não era uma boa ideia que eu saísse. — Theo — eu disse.John Harding 135 passagens e então. a coisa toda parecia desesperançada. mas esse é outro assunto. o que eu imaginava ser apenas o esperado. Grouse o trouxe até mim. Até mesmo as vindas de Giles para ver-me foram reduzidas ao mínimo. pois eu burlar a proibição? — coloquei um dedo nos seus lábios para que falasse baixo e lembrei-o do espelho com um sinal de cabeça. — Sim — sorriu envergonhado. uma perna cortada ou um dos olhos arrancados? Como eu responderia a isso? Dificultava enormemente o fato de não conseguir pensar em como poderia trazer Theo para casa para colocar meu plano em ação. arquejante. — Giles — sussurrei quando ficamos sozinhos por um instante durante a manhã —. Por isso estou aqui. pois estava falando da asma.

está na hora da lição. Poderá ver o sr. embora a srta. — Preciso dizer. Taylor ficou mastigando o lábio e então disse: — Muito bem. que garantiu-me que lhe fará bem ter companhia — e explicou o que havia dito o médico. evidentemente tendo visto Theo através de um dos seus espelhos. Van Hoosier. Van Hoosier? — ela perguntou. Quando Theo e eu ficamos sozinhos. Taylor tenha decidido dar uma olhada em mim enquanto ele estava fora. Felizmente não encontrou ninguém no breve desvio. Eu jurava que ela suspeitava de algo. sr. que se aproximou dele e o encheu de perguntas e súplicas para jogar isto e aquilo. tenho o aval da autoridade médica. Evidentemente o tinha visto sair através do seu espelho espião e o perdera de vista quando ele saiu do seu mapa ao deixar a biblioteca. Sob o pretexto de ir até a biblioteca para mim. A srta. está precisando de algum livro da biblioteca? Ele estava de costas para o espelho e fazia sinais com a sobrancelha para mostrar que não estava falando sério. que o médico ordenou descanso total para Florence. Então ele ficou em pé e disse de maneira teatral: — Diga. ele poderia chegar à torre e pegar as passagens. venha Giles. Van Hoosier mais tarde. . encontrou Macbeth onde eu lhe disse que estaria e então foi para a torre. não é mesmo? Theo sorriu. de qualquer forma. Taylor no caminho diria que havia se enganado ao sair da biblioteca e se perdera. Não queremos que ela seja muito estimulada. conseguiria se fazer acreditar. madame. A srta. mas. que não consigo ver como qualquer estímulo pode ter algum efeito sobre o tornozelo de uma pessoa. Pedi-lhe que trouxesse Macbeth. Taylor entrou bruscamente na sala. omitindo o alerta em relação a si mesmo. Taylor esperou pacientemente até que a primeira onda de entusiasmo de Giles por nosso velho amigo diminuísse. Se por acaso encontrasse a srta. Foi primeiro à biblioteca. e o que deveria dizer a Hadleigh.John Harding 136 Nesse momento a srta. e então disse: — Acredito que lhe disse. sendo Theo aparentemente tão vago e idiota. seguida por Giles. Com sorte. conversamos mais um pouco. sussurrando enquanto eu lhe explicava o que devia fazer com as passagens se as conseguisse pegar. Entendi imediata — 2IO John Harding mente o que ele pretendia. Então Theo saiu. — Onde está o sr.A menina que não sabia ler .

A menina que não sabia ler . absolutamente nada. deitada e impotente como estava. caminhar sobre a água e observar as pessoas através dos . um pouco disso e daquilo. que essa mesma preceptora era um fantasma. sr. o que logo se transformou em uma tosse. o que por sua vez levou à necessidade de usar o spray. Quando se recuperou. que esse mesmo espírito podia enxergar como uma coruja no escuro. Taylor. Agora era óbvio que a preceptora sabia que ele tinha as passagens.John Harding 137 — Ele foi até a biblioteca para me trazer um livro. mas teria sido melhor que permanecesse no escuro quanto ao seu paradeiro. Essa recuperação foi boa para os padrões de Theo. colocou a mão sobre o bolso do peito. junto com o que eu havia lhe contado. Florence. Taylor. ao fazer isso. não só incapaz de fazer qualquer coisa para impedir o avanço dos planos da srta. mas também na mais terrível ignorância quanto ao andamento dos meus. Ela não sabia o que faria. Então Theo voltou. — Bem. o espírito de uma preceptora anterior que havia voltado para nos assombrar e levar embora meu irmão. A srta. sinto muito. além disso. Van Hoosier. Suponhamos que ele refletisse sobre o que tinha visto. Eu não tinha como saber o que Theo estava fazendo. mas preciso ir — ele disse. Entregou-me o livro e. acrescentando com estudada significância: — Tenho coisas a fazer. Ocorreu-me que a resposta podia ser simplesmente nada. — E mesmo. srta. uma garota meio maluca num estado de descompostura indecorosa perseguida pelo bosque por sua preceptora. mas por algum motivo que ainda não estava muito claro. Matemática e grego. 25 Os dias que se seguiram foram uma agonia para mim. ele disse: — Ah. sem recorrer a velas. mas por dentro praguejei por ele ter arruinado as coisas ao tentar bancar o esperto. e o que poderiam ser essas coisas? Theo corou e começou a gaguejar. Meu tutor é rigoroso e devo manter o ritmo dos meus estudos para quando estiver bem o bastante para voltar à escola. Taylor ficou imediatamente de orelha em pé. Isso era a pior parte do envolvimento de Theo e Giles em qualquer estratagema: eles não tinham meu dom. Isso era verdade e estava de acordo com o que ela tinha visto. com as costas voltadas para ela e o espelho.

Ficava pensando em como a sra. tudo o que podia fazer era passar os dias como a Dama de Shallott. uma ou outra entrava para acender a lareira ou trazer-me algo para beber ou algum docinho. Evidentemente. além de alguns minutos aqui e ali. Giles não revelaria facilmente um segredo. inclinando a cabeça e evitando meus olhos. os segredos eram divididos com ela. Praticamente o único entretenimento que tinha durante a minha recuperação era dissimular meu livro da sra. Assim. mas não escondia muito bem o fato de que tinha um. Estava tão aflito que quase entrou correndo na sala e des— pejou tudo. ela o mantinha longe de mim. como depois de uma refeição. Tão logo me acomodava para ler. desfazendo à noite o que havia bordado durante o dia. Ele se aproximou de mim no sofá.. e então mudava de assunto rapidamente. Outra coisa que me deixava ansiosa era o que aquela bruxa da nossa nova preceptora poderia fazer com Giles. Grouse não se perguntava por que meu bordado não avançava. bolo ou um dos biscoitos que Meg havia preparado especialmente (e sem dúvida consumido meia dúzia). Pois. minha ausência dando-lhe a oportunidade perfeita para envenenar sua mente contra mim e seduzi-lo com seus planos. Mas então o garoto enganou-me. no quarto de estudos. não comigo. quando eu tinha que erguer os olhos para ver se Theo estava chegando.. ele agora fazia parte de seu plano. Não havia como eu mudar isso por enquanto. de forma que eu estava constantemente pegando meu bordado e colocando-o sobre o livro. quando conseguia sussurrar-lhe uma pergunta.A menina que não sabia ler .John Harding 138 espelhos da casa. ou se secretamente me considerava uma Penélope. E se ele refletisse sobre tudo isso e decidisse que eu não estava em meu juízo perfeito? Era muita coisa para esperar que mesmo alguém tão ingénuo como Theo acreditasse. ficava lendo e parando e era quase como nos velhos dias das três ou quatro páginas na torre. Podia jurar que havia algo de errado no momento em que atravessou a porta. Embora tivesse poucas chances de ficar sozinha com Giles. esperando que Had-leigh surgisse em sua reluzente armadura. que me paparicavam tanto que nunca ficava mais que uma hora sozinha. Grouse e de Meg. ele era reticente. mas levantei um dedo e gesticulei na direção do espelho para alertá-lo. Mas então não foi Hadleigh quem apareceu. mas Theo. .

Não que pudesse ir de qualquer forma. Que doença de quem quer que fosse interessaria a outro alguém? Mas eu não disse nada. a pior que eu já testemunhara. incomodado com minha exasperação. — Só ontem consegui ir à cidade. embora nisso logo visse que estava enganada. Amolecida. — Não. levantei o dedo. antes que pudesse res-ponder. pois não queria dar-lhe a impressão de que não me importava. ontem eu estava muito melhor e pedi para sair com a car-ruagem para um passeio. — Mas você não conseguiu ver Hadleigh? — Era difícil evitar um tom de exasperação. prefere passar a vida estudando seus livros — e assim. de forma que entre os acessos sua respiração era um chiado. mas. por isso meu tutor não permitiria que eu fosse. — Porque ele não estava lá! — Theo me devolveu no mesmo tom. 2l6 John Harding — Mas por que não? — Eu sabia que parecia zangada. deu uma boa aspirada e acabou se acalmando. A existência de meu irmão poderia depender disso e tamanha decepção soterrava minhas esperanças.A menina que não sabia ler . Theo tirou seu spray. senti que eu não teria falhado. Tive outro ataque de asma. Lá chegando. uma vez na carruagem. Theo era agora meu único aliado até que Hadleigh aparecesse. para depois poder escapar até a delegacia de polícia. mas não conseguia me controlar. como alguém serrando madeira ou raspando as unhas na lousa. Impacientei-me diante de tudo isso. pois a asma de Theo não des-pertava em mim o mesmo interesse que despertava nele. o que aconteceu? — sibilei. Meu tutor não quis acompanhar-me — ele nunca quer. . Theo teve uma crise de tosse.John Harding 139 — Você encontrou Hadleigh? — sussurrei. — Bem. Senti um frio nos dentes. dessa vez de verdade — ainda estou muito mal — e fiquei acamado. — O que disse ele? Theo mexeu a cabeça miseravelmente. disse que queria ir até a papelaria para ver se haviam recebido algum livro novo. pedi ao condutor que me levasse até a cidade. é nisso que vou chegar. pois ele erguera a voz o suficiente para ser ouvido pelo espelho. Desejei tanto que tivesse sido eu em vez de Theo a caminhar por aquelas calçadas. — Então. Theo abaixou a voz.

ela não apareceu pessoalmente. agindo estranhamente diante de seus É claro. Nenhuma esperança. Com Theo entre mim e o espelho. pois ela sabia que Theo estava com as passagens. onde está? — Bem. em que lugar do seu casaco? — No bolso de dentro. deixe-me pensar. e ele disse que nesse caso tinha algo para você. OK? Theo arregalou os olhos diante da agradável impropriedade do gesto. Coloquei a mão direita dentro do seu casaco e senti instantaneamente a carta e as passagens e as tirei. você ainda não ouviu tudo. As passagens também. O funcionário perguntou-se do que se tratava e eu mencionei que não era assunto meu. uma carta. adoraria poder ajudá- . consegui transferir o contrabando para dentro do corpete do meu avental. colocou as mãos debaixo dos meus ombros e me ergueu. Ficará fora por um mês. dentro do meu casaco. Faça o que eu disser e eu vou enfiar a mão dentro do bolso do seu casaco e pegar a carta. — Então não há esperança. Florence. Você acha que é seguro passá-la aqui? — Espere um momento. Será que você poderia fazer a gentileza de me levantar? — la. srta. ele se levantou e. Se Theo se aproximasse mais. Olhei para o espelho. — Uma carta. Florence. Fiquei pensando nisso. Ele está em Nova York. pois era a última coisa em que alguém da casa havia demonstrado qualquer interesse.A menina que não sabia ler . — OK! — Theo — disse em voz alta -. — Espere. mas estava lá em seu nome. ou minha virtude estaria comprometida ou seria óbvio que ele estava me entregando algo. — Está bem. inclinando-se sobre mim. O estranho foi que. — Mantenha a voz baixa! — sibilei novamente. — Escute. Quando ele me soltou coloquei o meu butim debaixo do bordado. vou falar normalmente com você. Era realmente impossível qualquer tipo de subterfúgio com ele! No entanto. Uma lágrima escorreu-me pelo rosto. escorreguei um pouco.John Harding 140 — O funcionário disse que estava trabalhando em um caso importante. Taylor no espelho. Senti a frustração de empacar a cada volta. do lado direito. e ali estava ele. embora tudo isso devesse ter levantado as suspeitas da srta.

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olhos. Fiquei bastante intrigada. Era como se ela não se importasse mais com as passagens e isso me fez pensar que, conforme havia ameaçado, simplesmente havia escrito e obtido as substitutas. Se fosse esse o caso, era-me conveniente, pois a posse das passagens nunca fora uma garantia para impedir seu plano, mas apenas a prova de sua existência. Isso também significava que a srta. Taylor não tinha medo de mim, o que só podia ser verdade porque ela não sabia da minha visita a Hadleigh ou que a visita que ele nos fizera significava algo além do que aparentemente tinha sido. Por outro lado, talvez agora não tivesse necessidade de temer qualquer ajuda que eu pudesse ter daquela parte, porque Hadleigh aparentemente estava longe e assim ficaria até muito depois que ela colocasse seu plano em prática e levasse meu pobre irmão. Theo ficou comigo algumas horas, durante as quais, é claro, Meg apareceu e logo estávamos nos refestelando com pão, mel e bolo. Ninguém havia chamado a srta. Taylor, e ela preferiu não aparecer por vontade própria. Não fosse o perigo iminente e a carta — que, é claro, eu ainda não tinha podido ler — ardendo como se tivesse feito um buraco em meu corpo, talvez tivéssemos tido uma tarde agradável. Da maneira que foi, era fácil demais deixar escapar alguma observação superficial sobre isto ou aquilo, um livro ou algo assim, e voltar ao assunto que mais nos preocupava, e que às vezes tínhamos que interromper o outro no meio da fala, pois em alguns momentos acabávamos esquecendo que estávamos diante do espelho. Até me ocorreu que isso talvez fosse uma armação da srta. Taylor, deixar-nos sozinhos e nos dar corda suficiente para nos enforcarmos esquecendo que estávamos sendo observados. Apesar de tentarmos recuperar nossa antiga alegria, e acho que Theo quase conseguiu — porque para ele, talvez, todo o negócio com nossa preceptora era uma espécie de jogo, algo em que ele realmente não acreditava -, havia certa tensão em nossa relação. A falta era minha; eu o estava usando, pois o queria não tanto como amigo naquela tarde, mas como instrumento para fazer passar rapidamente as horas lentas. Finalmente ele precisou ir embora e fiquei sozinha para jantar em uma pequena mesa, sem sequer conseguir ler enquanto comia, receando ser descoberta por um dos criados. Depois Giles apareceu e brincou comigo por algum tempo, mas a verdade era que

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eu não queria sua companhia e desejava que fosse logo chamado para a cama e que John viesse para me levar para a minha. Por fim o tempo passou, como sempre passará, e John colocou-me na cama. Como sempre, Mary trouxe-me a camisola e iria me ajudar a vesti-la, como fazia todas as noites durante minha indisposição, mas eu lhe disse que não precisava dela e a dispensei. Temia que a carta de Hadleigh pudesse ser revelada quando tirasse meu vestido. Quando tive certeza de que ela havia ido embora, coloquei a carta e as passagens debaixo do colchão, vesti a camisola, soprei a vela e meti-me entre os lençóis. Teria uma longa espera até que a srta. Taylor viesse dar uma olhada e depois se retirasse para dormir — isto é, se é que ela dormia a noite inteira, com suas visitas noturnas a Giles e tudo o mais. Após a breve inspeçáo, sem um relógio visível no escuro, contei os longos tempos da noite pelos pios da minha velha amiga coruja, certamente o relógio mais impreciso que alguém poderia imaginar, mas, quando tive certeza de que havia passado da meia-noite, a hora das bruxas, como dizem nos livros, decidi que era seguro acender minha vela e tirar a carta. Não tinha conseguido pensar em mais nada durante todas aquelas longas horas, como se pode imaginar, pois não tinha ideia do que poderia conter. Por que Hadleigh escreveria para mim? O que poderia ter a dizer? Eu não estava otimista, pois temia que fosse apenas um sermão sobre a dor e o remorso, que eu deveria ler e viver menos na minha imaginação e sair mais para o mundo. Cara Florence, Estou lhe deixando esta carta porque uma missão especial me afastará do meu posto por algumas semanas. Quero lhe garantir que não esqueci o assunto que discutimos, embora tivesse sérias dúvidas para sua motivação na época em que falamos e, fosse eu da área médica, talvez tivesse diagnosticado um sério caso de histeria. Por isso, devo-lhe agora um pedido de desculpas porque, embora tenha que dizer que seus sentimentos em relação à sua preceptora são muito fantásticos para que um corpo sensível acredite nas suas suspeitas, talvez não sejam totalmente infundados. Após a minha visita, tratei de contatar imediatamente a agência que contratou os serviços da srta. Taylor como sua preceptora. A primeira coisa estranha foi que ela não respondeu a um anúncio para o cargo porque eles não costumam fazê-lo, preferindo contar com as professoras que já fazem parte de seus registros, embora a srta. Taylor não fosse uma

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delas. Não apenas isso, mas, ao entrar em contato com a agência, ela não estava à procura de qualquer emprego, mas falou espe— John Harding cificamente do posto em Blithe. A senhora com quem falei tem a impressão de que a srta. Taylor também já havia contatado outras agências para ver se o posto era um dos que estivessem procurando preencher. Infelizmente, a agência não foi muito diligente para investigar a srta. Taylor. Ficaram tão encantados por encontrar alguém que se dispusesse a assumir o cargo sem discutir o salário (seu tio, ao que parece, não é muito generoso em relação a isso) ou que não tivesse outras condições como visitar as crianças primeiro e etc, e que além disso sabia das circunstâncias infelizes sob as quais o posto ficara vago e não se importava — parece que tais acidentes não raramente desencorajam muitas candidatas -, que simplesmente o ofereceram a ela. Isso em si mesmo não teria importância, um pássaro na mão e tudo isso, exceto que, quando pressionados, admitiram que estavam com tanta pressa para indicá-la, sem ter outra candidata adequada, que aceitaram as duas cartas de referência que ela lhes entregou sem verificá-las. Estou agora em Nova York e ontem tentei visitar essas pessoas, mas descobri que os endereços das cartas de referência não existem. Bem, que isso aconteça com um endereço pode ser considerado um simples erro, mas com dois? Alguma coisa não está certa. Sugiro que mostre esta carta à sra. Grouse, que eu espero confronte a srta. Taylor ou talvez queira escrever para seu tio a respeito. Ele sem dúvida irá querer investigar o assunto, e se ficar provado que a srta. Taylor realmente inventou sua história, então estou certo de que será demitida e qualquer incómodo para você e Giles será eliminado. Espero que isto esclareça o assunto para você. Com meus melhores votos, Seu amigo, Frank Hadleigh Fechei a carta triunfante. Eu sabia! Finalmente eu tinha a prova, a prova ocular de que não era uma garota maluca, mas que nossa nova preceptora não era quem fingia ser, mas uma fraude, falsa. Junto com as passagens, a carta certamente seria uma evidência convincente de que pretendia fazer algo ruim e suficiente para convencer a sra. Grouse a mandá-la embora da casa sem esperar por notícias do meu tio. Eu queria dançar. Queria tirar o pano que havia atirado sobre o espelho todas as noites e fazer piruetas diante dos olhos maus da bruxa. Eu já não

Taylor. Como não podia andar normalmente. Florence — ela disse -. Estava evidentemente constrangida. pular era meu único meio de locomoção. . pior ainda ser pega confraternizando com eles também. Quando entrei. sentei-me no primeiro degrau do alto e fui descendo um a um até chegar embaixo. pois ninguém esperava que eu conseguisse movimentarme sozinha. vendo minha expressão. Com a ajuda do pilar da escada fiquei em pé novamente e fui pulando até a cozinha. apesar de muito mais forte agora. pois havia vencido. que diabos está pensando? Sabe muito bem que não deve ficar em pé. srta. depois fui pulando pelo quarto até o guarda-roupa. que.John Harding 144 me importava se ela soubesse o que eu estava pensando. Então. Grouse corou e rapidamente levou o guardanapo à boca. por isso não tive medo de ser observada. mas felizmente isso não aconteceu. mas o riso parou assim que me viram. ela disse: — Não há nada de errado. limpando o sorriso. Ao me ver. eu espero. onde encontrei a governanta tomando café com os criados. Quando cheguei à escada.A menina que não sabia ler . e da srta. já era ruim ter que comer com os criados. Taylor. e tampouco que eu irrompesse pulando enquanto comiam. levantei-me e sentei na beirada da cama e. Giles estava salvo! 26 Mal podia esperar até que amanhecesse. Quando terminei de fazer isso. Grouse estaria de pé. À primeira intimação de luz escoando pelas pontas das cortinas. Não havia espelho no corredor superior entre o meu quarto e a escada. — Ora. que era sempre antes de nós. com alguma dificuldade por causa do tornozelo. além de ficar deitada e arrastar-me pouco a pouco. Anigia-me pensar que o barulho pudesse chamar a atenção da srta. peguei outra blusa e pulei até a porta. Escondi a carta de Hadleigh e as passagens de navio dentro do corpete do meu vestido. ainda não suportava todo o peso do corpo. crianças. estavam todos rindo de alguma piada ou história engraçada. a sra. a primeira cotovia havia cantado e agora a luz era suficiente para que eu soubesse quando a sra. consegui tirar a camisola e substituí-la pelo vestido.

— E preciso falar-lhe em particular imediatamente. perguntou: — E quem poderia ser "ela"? Alguém que vive no espelho. fingindo que considerava meu gesto razoável. quanto mais ter tirado coisas dela. Taylor — eu disse. — Eu não acho que devesse fazer isso. surpresa e preocupada. Extremamente agitada com meu tom. — Mas não está vendo? São passagens dela. A sra. — A srta. — São passagens de navio para uma viagem de Nova York para a França — eu disse a ela. e tirei do cor-pete a carta de Hadleigh e as passagens de navio.A menina que não sabia ler . — O que é isto? — ela perguntou. estou vendo. espere! — apontei para o espelho na parede e fiz sinal para que ele me levasse até lá. assim que ele saiu. talvez? — seu tom de voz era condescendente. é claro. joguei a blusa sobre ele. Ela se aproximou de mim e eu lhe entreguei os papéis. . Mas qual o sentido disso? — Eu as encontrei no quarto da srta. minha querida. Ela ficou me olhando. — Tenho algumas coisas para lhe mostrar — eu disse. Grouse simplesmente ficou me olhando. Isso não está certo. Ele estava prestes a colocar-me no sofá. — Não quero que ela nos observe — eu disse para a sra.John Harding 145 — Há algo muito errado. que ela devolveu dando de ombros. Grouse franziu a sobrancelha. Grouse — atrevi-me a dizer. sra. — Não. Ele trocou um olhar surpreso com a governanta. o que. Taylor. mas protestei. Grouse. — Bem. Você não deveria nem sequer ter estado no quarto. ao que a sobrancelha do homem começou a mexer de maneira incontrolável. pois eu a trouxera para isso. Uma vez junto ao espelho. Grouse fez sinal para que nos deixasse e. o que provocou outro olhar de surpresa de John para a sra. A sra. A sra. Grouse enquanto John me colocava no sofá. mas obedeceu. depois de examiná-las por alguns instantes. para alguém que não soubesse o que estava acontecendo na casa. a boa mulher deixou seu café no mesmo instante e pediu a John que me levasse para a saleta. não era.

Ela levou um tempo considerável para ler. são para o final da próxima semana. Veja isto. eu não sei. A sra. apesar de ter sido necessário para termos alguma privacidade em relação aos olhares indiscretos da preceptora.. — E entreguei a ela a carta de Hadleigh. Quando chegou ao fim. — Giles? — a sra. Grouse era muito lenta. . eu o encontrei quando fomos até a cidade para levar Giles ao dentista e confiei-lhe minhas suspeitas a respeito dessa mulher diabólica. pois aquilo era demais para ela. mas tenho certeza de que é o que pretende. Pois eu não poderia lhe contar o verdadeiro motivo. A questão é que isso significa que ela está planejando uma viagem..A menina que não sabia ler . vacilei. Ela simplesmente quer levar Giles. ela disse: — Frank Hadleigh. pois teria que cumprir seu aviso prévio.. Tomei o cuidado de não mencionar minha teoria de que a srta.. pois ela obviamente conseguiu o posto com artimanhas. eram inteiramente justificadas. Grouse parecia totalmente assombrada. a sra. Ela não disse que estaria partindo. — Ah.John Harding 146 — Mas como sabe de quem são. Grouse examinou as passagens de novo. Grouse reexaminou a carta de Hadleigh e vi a compreensão espalhar-se por seu rosto. De qualquer forma.. — Eu. E não poderia sair na próxima semana. Diante disso. Uma viagem para dois. — Uma viagem. e então um sorriso.. Realmente. E por que faria isso a menos que tivesse más intenções? A sra. o pobre rosto chorando. se não sabe ler? — Isso não importa agora. — Ora. Como pode ver. Meu gesto em relação ao espelho já havia abalado minha credibilidade. — Mas por que iria querer fazer uma coisa dessas? Não faz sentido. — Sim. E veja a data. senhorita. que é de três meses. Mas eu não entendo. Taylor e a Whitaker eram uma só. Ele não é o capitão de polícia? — Sim. Eu. para ela e mais alguém. mas a senhora vê que ela não se preocupa com essas coisas. isso não é tudo.

John Harding 147 — Eu sabia! Sabia desde o começo que alguma coisa não estava certa com essa mulher. o indiferente que se tornara sob a nossa nova preceptora que me deixava os olhos cheios de lágrimas. tendo obviamente descido a escada correndo. Giles entrou correndo na sala. sim. nós vamos. mas ao mesmo tempo o som não era distinto o bastante para que entendêssemos alguma coisa. A sra. Ouvi vozes no andar de cima e deduzi que a sra. Taylor e Giles evidentemente ainda não estavam lá. Grouse saiu bruscamente da sala. vamos resolver tudo. deixando-me estendida no sofá. seguido por um forte barulho de queda. ofegante. o que me lembrou o velho Giles e de forma alguma o novo. ouvi-a marchar na direção da sala do café e abrir a porta. — Vamos resolver isso agora. Giles e eu tínhamos acabado de atravessar a porta para o salão quando ouvimos um estrondo enorme. Grouse estão tendo uma briga feia! Então ele parou e lembrou-se do meu tornozelo. as duas gritando. Ah.A menina que não sabia ler . quase todo o caminho até embaixo. Grouse. — Fio! — ele disse. A srta. Felizmente a sra. Podia ouvir a voz zangada da sra. — Você tem que vir depressa. os olhos brilhando de excitação. onde seu corpo parou enquanto a cabeça pareceu continuar até bater no piso frio e duro do salão fazendo um barulho. A srta. mas para minha frustração não conseguia entender uma palavra do que estava dizendo. pois ouvi seus passos marcharem de volta e depois escada acima. pois estava no meu lado bom. Grouse havia deixado a porta aberta. Mostreilhe que estava me oferecendo o ombro errado. e chegamos a tempo de ver a governanta rolando escada abaixo. Pouco depois. Ela ficou ali completamente parada. realmente! Ela se levantou. e veio correndo pela sala e ofereceu-me seu ombro para me apoiar. Taylor e a sra. Taylor e Giles quando vinham para o café. — Ah — ele disse. Podíamos ouvir as vozes das duas mulheres na parte de cima agora. o rosto com uma expressão determinada. Fazendo-me comer com os criados. Grouse havia encontrado a srta. Fiquei desesperada para saber o que estava acontecendo e comecei a lutar para sentarme. . e ele se apressou a dar a volta e eu me inclinei sobre o outro. pois eu finalmente consegui sentar e virar-me de forma a colocar o pé no chão.

Chegamos quando a srta. Leve-as daqui. Eu estava preocupada demais com a sra. ela assumiu. Bradley. John Harding — Ela estava nervosa com alguma coisa — ela disse. bem.. bem. por isso ainda há esperança. Com John tendo saído para buscar o médico. John pegue a carruagem e vá chamar o dr. mas tinha um coração gentil e sempre agia com boa vontade. chegaram ao salão. John e Meg. crianças! Ela começou a dar a volta em torno da pobre governanta. nós vamos para a biblioteca. Deitou a cabeça no peito da outra. Percebi que ela tinha na mão a carta de Hadleigh e as passagens de navio. Tinha conhecido aquela mulher durante toda a minha vida ou pelo menos até onde lembrava. Taylor murmurou. Nesse momento. não havia quem pudesse me levar para cima.. — Sim. Taylor. -Estava gesticulando e. Nenhum de nós falou. a expressão assustada. — Vamos. — Venham. ao perceber que não a seguíamos. tendo ouvido o barulho da sra. pois caiu para trás. Srta.John Harding 148 Giles ajudou-me a chegar perto dela. estava no alto da escada. Ela caminhou de volta até nós. Ela me ajudou a atravessar o longo corredor. isto não é visão para crianças. eu tentei segurá-la. ela estava muito longe. mas então. ela se virou e. Grouse rolando pela escada. Ela fez sinal para que Giles se afastasse e colocou seu braço sob o meu. Eu. e. Meg estava de joelhos junto à governanta. . lembrou-se do meu tornozelo. mas tudo aconteceu tão depressa. Era ser uma velha tola. Sim. Taylor olhou para nós. vendo a relutância de Giles.A menina que não sabia ler . Taylor vinha descendo as escadas correndo. Endireitando-se. Diga-lhe para vir com a máxima urgência. — Ela ainda está respirando e não vejo sangue. de costas para os degraus e deve ter perdido o equilíbrio. Grouse para pensar em outra coisa.. seu ombro sob o meu braço. A srta. os olhos indo de um para outro como se procurasse aceitação para suas palavras. Eu a vi colocar os papéis no bolso. evidentemente pretendendo que subíssemos para o quarto de estudos.. é claro — a srta.

Não havia nada que eu pudesse fazer além de vê-la desaparecer na fumaça. senhorita — ele disse.A menina que não sabia ler . depois começou a rir. olhando para ela. — Fio. agora se contorcia em uma agonia de ansiedade. Whitaker era realmente má. — Ora. de forma que se dobrou sobre si mesma e então se tornou preta e virou cinza. Por que a srta. Eu estava totalmente sem provas agora. — Não penso assim agora. — Não! Não diga uma coisa dessas. mana. como imagino que um pugilista olhe para seu oponente. A srta. Finalmente ela sorriu e balançou a cabeça.John Harding 149 Na biblioteca. medindo-o de alto a baixo. Giles ficou olhando de uma para a outra e então balançou os ombros. Taylor — eu disse. Ela interrompeu sua deambulação e encarou-me. A senhora não é como ela. — Acho que a matou! — ousei dizer. Quem mais poderia ser? — A srta. A srta. Taylor sorriu docemente para ele. é claro que ela é a srta. Ela tem essas fantasias estranhas. Taylor? — Giles estranhou. Giles. Ela não permitia que Fio viesse até aqui. seu rosto. ou que visse os livros. Giles. Foi isso. — Essa foi minha ideia. . que eu sabia ser a carta de Hadleigh. como se eu a tivesse empurrado. A pobre mu-lher ficou agitada por algum motivo. Dava-me prazer virar a faca. — Não dê atenção a sua irmã. muito tempo atrás. Taylor. Whitaker — eu disse. como um garoto preparando-se para lutar com outro. não deve falar desse jeito. — Você a empurrou. Foi um acidente. Taylor iria querer fazer isso? — Porque ela não é a srta. — Obrigada. Taylor depositou-me na grande poltrona e começou a andar de um lado para outro. que só havia visto mascarado ou fingindo um sorriso ou irritado. Ela caminhou até a lareira. Nossa nova governanta ficou me olhando por alguns instantes. tirou algo do bolso. — Não é a srta. e atirou-a nas chamas. primeiro ardendo e depois as bordas se dobrando. Ela deu um passo atrás. desaparecendo como se nunca tivesse existido. seu demónio! Giles exibiu um olhar assustado. a sra. desequilibrou-se e caiu.

e o resultado disso pode ser mais sério. mas ela não dava outro sinal de vida e certamente não tinha nenhuma consciência do que acontecia ao seu redor. do qual ela acordará sem problemas e revigorada pela manhã. muito mais sério. e. A sra. Pode ser como um sono após o jantar. sugiro que seja removida para o hospital municipal. a srta. os três na biblioteca. quer saber de outra coisa? — O que. Tínhamos acabado de tomar café.A menina que não sabia ler . Pouco depois. ou pode ser que fique em coma. O que proponho é que John e eu a levemos para a cama para que fique confortável. Giles tinha. Para uma mulher que parecia estar quase sempre zangada ou ansiosa quando animada. onde poderá ser mantida sob observação adequada. Bradley agiu em relação a ela (pois Giles e eu assistimos e ouvimos. Bradley balançou a cabeça e murmurou: — Receio não poder responder com absoluta certeza. Grouse ainda estava deitada ao pé da escada. Grouse havia sofrido uma concussão e estava inconsciente. depois que as coisas se ajeitaram novamente. o que quer dizer absolutamente nada. os criados com medo de mexer nela. meu querido? — Nós ainda não tomamos café. Ele disse a ela que a sra. em dois ou três dias. depois de ter colocado o tornozelo no chão algumas vezes. ou melhor. eu sentia que a dor havia diminuído e sabia que pela manhã estaria bem o bastante para caminhar novamente. mas o raio de luz em meu universo despedaçado foi que. Meg a reconfortara colocando um travesseiro sob a sua cabeça e jogando um cobertor sobre ela. O pular constante era cansativo. Então ali estávamos nós. C/3 Caminhamos e pulamos de volta para a sala do café. Eu podia ver seu peito subindo e descendo ritmicamente. parecia que. pois comi quase tão pouco quanto a preceptora. Tudo isso foi feito. abrindo a porta da sala de jantar). Taylor foi chamada. embora tivesse decidido silenciar a respeito. pelo menos em sua cabeça. Quando a srta. senhorita. a governanta parecia estranhamente calma em repouso. e pela maneira como o dr. e para isso tinha minhas razoes. ele a indicara para chefiar a casa. só para termos segurança. Eu a visitarei novamente pela manhã e. Taylor e contando e arrulhando com ela como se nada de grande . voltamos à biblioteca.John Harding 150 — E. Taylor perguntou o que significava isso exatamente. quando ouvimos o médico chegar. Giles em suas lições com a srta. eu taciturna com um livro. se não houver melhora.

— Theo! — exclamei. em sua mente essa impressão lutava com outra mais sombria. baixando o olhar para suas grandes mãos. Na manhã seguinte. e Giles subornado do meu lado pelos feitiços malignos da bruxa. — Com o fim da carta de Hadleigh. mas definitivamente não em espírito. falou de maneira tão gentil que se podia ver que não falava tão a sério. a de uma garota estranha que inventava coisas ou tinha fantasias góticas induzidas pelo excesso de leitura.A menina que não sabia ler . Theo acompanhou-me até a saleta. o dr. John Harding Grouse em corpo. a sra. e era o fato de estarmos sempre sendo interrompidos. todos os criados reportavam-se à srta. Descrevi para ele o que havia acontecido entre a srta. — E algo muito sério acusar uma pessoa de ato de violência tão deliberada quanto empurrar alguém de uma escada — disse Theo. e. você não tem nada em termos de motivo para sugerir. Taylor e a sra. Mas havia uma grande diferença em relação à maneira como as coisas eram antes. como se a sua irmã nunca a tivesse chamado de assassina. Com Hadleigh ausente.John Harding 151 importância tivesse acontecido. Ele me roubou um olhar de soslaio sem erguer a cabeça. pois ele tinha apenas a versão oficial do médico. e eu podia jurar que estava me avaliando. Sabia que queria me ver como essa jovem bonita por quem podia se apaixonar. onde instantaneamente fui até o espelho e o cobri com seu lenço de bolso. Taylor não podia recusar a visita de Theo. . Grouse. pois nunca me sentira tão feliz em ver minha garça desastrada. embora o médico cacarejasse a respeito de o garoto ignorar seus conselhos. saindo quando deveria estar repousando em casa. ele era toda a ajuda que eu podia procurar. não com o doutor ali. pois agora. como se nunca tivéssemos ouvido falar em passagens de navio. A srta. Taylor e vinham constantemente consultá-la sobre os assuntos ligados à administração da casa. Não consegui evitar. no entanto. a exemplo do médico. — Passei por este jovem réprobo caminhando pela entrada — ele disse. Bradley chegou em sua carruagem e trouxe alguém com ele.

e a sra.John Harding 152 — As passagens de navio. mas. mas não conhecia os detalhes mecânicos de como esse objetivo seria alcançado. — Você as viu. ou seja. — Esperemos que ela se recupere logo — murmurei. Queimei os miolos para elaborar um plano que se contrapusesse ao dela. — Sua única esperança — Theo murmurou. meu tutor é tão ausente que não sonharia em desafiar uma mulher como essa. eu. meus pais estão do outro lado do Atlântico. Taylor quando ela tentasse embarcar. — Sim. onde seus colegas prenderiam a srta. Taylor fosse colocado em execução e ela e Giles fossem embora. — Mas o quê. Mas seja realista. e considerei muito cruel que ele falasse daquele jeito. Meu temor mais imediato era que se não fizesse algo rapidamente seria tarde demais. Eles telegrafariam para Nova York. Theo? Você não me apoiaria nisso? — É claro. Duas crianças. Pois eu sabia a respeito das passagens de navio e a data e a hora da partida. 27 Faltava agora apenas uma semana para que o plano da srta. Suponhamos que ela roubasse Giles amanhã. que era a meia-noite da sexta-feira no final da semana. Grouse está completamente fora deste mundo. Ela as tem.. e então? Os criados logo perceberiam. eu conhecia sua intenção final. — Pois ela finalmente ficou do meu lado e é nossa melhor esperança. a qualquer hora ela poderia levar meu irmão embora. Florence. tenho isso. não tem. mas o problema era que ignorava exatamente qual era o seu plano. — Na verdade. Eu contaria a John a respeito das passagens e ele iria até a cidade com essa informação e a entregaria à polícia. Ah. Mas então percebi que ela não poderia fazer isso por um simples motivo. .A menina que não sabia ler . Quem acreditaria na nossa palavra contra a dela? Além disso. e nem saberia onde buscar informações. para quem apelaríamos? Hadleigh está longe. você sabe que faria qualquer coisa para ajudá-la..

Guardava-o dos criados. essa situação se aplicaria não só ao dia seguinte.John Harding 153 Na verdade. então o jogo estaria acabado para a srta. Grouse. como tinha feito com a sra. que ela quisesse me tirar do caminho antes disso. Peguei as duas malas que estavam embaixo da cama e encontrei uma vazia como antes. Depois de duas noites com a srta. acendi a vela e pus-me a fazer uma revista mais detalhada do que havia feito antes. Fechei rapidamente a mala e coloquei-a de volta embaixo da cama. um chiado que assustaria uma coruja. Taylor dormindo no quarto da sra. mas descobri que a outra estava mais pesada. ela dava a Giles algumas tarefas para fazer no quarto de estudos e então ia para o quarto da governanta. e ordenara a Mary que lhe levasse cobertores para que pudesse dormir à noite em uma poltrona ao lado da cama da outra mulher. e. Todas as manhãs. Taylor. Tentei visitar o quarto da governanta. Depois de esperar alguns minutos sem que houvesse algum som . quando ela e Giles saíssem do trem em Nova York a polícia já estaria no cais. A sra. de forma que ninguém mais entrava. Também me lembrei do grito que havia escapado e imediatamente fiquei aflita ao pensar que o demónio pudesse ter escutado. era a primeira prova concreta de que ia sequestrar Giles. mas nossa preceptora havia indicado a si mesma como sua enfermeira. que ficava no andar acima de onde Giles e eu dormíamos. Ali dentro havia uma muda completa de roupas do meu irmão. mas até o último dia. A menos. e nesse caso ela poderia roubar Giles e ninguém saberia de nada a respeito do navio. se ela recuperasse a consciência. Isso confirmava suas intenções. Abri os fechos. uma camisa limpa e roupa de baixo suficiente para vários dias. examinei o que havia dentro e soltei um gri-to.A menina que não sabia ler . Estava a salvo até esse último dia. Devo ter levado alguns minutos para recuperar os sentidos e me lembrar de onde estava. Grouse. mas pelo menos uma coisa tornava-se óbvia agora. Grouse era minha única esperança. mesmo que ela deixasse para fugir de Blithe no último momento possível. uma calça e casaco. como fizera na minha primeira visita. Cobri seu espelho. Eu realmente não conseguia imaginar qualquer plano dela que pudesse funcionar. é claro. Minhas pernas transformaram-se em água e precisei me apoiar na cama para não cair. senti-me segura o bastante para entrar novamente no quarto da preceptora.

fechei a gaveta. certamente a srta. Por quê? — Bem. embora eu não pudesse imaginar qual seria. o vidro de remédio. — Florence. Sem pensar. comecei a revistar o resto do quarto e encontrei. soprei a vela e peguei meu manto. fui até a torre e ali deixei o vidro. Senta-mo-nos na saleta. Tinha esperado encontrar as passagens de navio na gaveta da escrivaninha para poder pegá-las e talvez. Estando elas a salvo. entende. mesmo que tivesse. Primeiro contei a Theo sobre minha descoberta significativa. Tirei-o e olhei mais atentamente para o rótulo. — Caramba. estou apenas fazendo o papel do advogado do diabo. o que me fez agir imediatamente. mas não estavam mais lá. mesmo nesta hora tão tardia. antes que aparecesse alguém. Não sabia se o vidro de remédio tinha alguma importância. Três dias após a queda da sra. que tinha uma única palavra: CLOROFÓRMIO. mas então o sorriso desapareceu e ele sentou-se de novo. Talvez o remédio tivesse algum significado em sua tramóia. ou seja. nada. Grouse. Meu coração batia aceleradamente quando atravessei o corredor de volta para o meu quarto.. tentando ver as . você olhou bem as roupas? — Ora. mas então a coruja piou.. pulando da cadeira com um grande sorriso de triunfo.John Harding 154 de descoberta. depois de cobrir o espelho. — Aí você tem a prova definitiva de que adivinhei seus planos cor-retamente — eu disse. ela não pensaria em procurá-lo.A menina que não sabia ler . Na manhã seguinte. as roupas de Giles na mala da preceptora. afinal. mas imaginei que. coloquei o vidro no bolso. deduzi que havia sabiamente se precavido e as mantinha consigo. Como não consegui encontrá-las no quarto. sim! — ele disse. sem saber o que significava aquilo. pois não mexi nele na última vez que entrei no seu quarto e peguei as passagens. Taylor pensaria que tudo o mais também estava. bem o suficiente para saber que são do meu irmão. Theo apareceu e expliquei que não havia nenhuma alteração nas condições da governanta. sim. ela as tinha escondido em outro lugar. Fiquei olhando para ele. Como gato escaldado tem medo de água fria. Fechei a gaveta e estava prestes a retirar meu manto e deixar o quarto quando repensei subitamente e abri de novo a gaveta. evitar que as usasse. Olhei novamente na outra gaveta da escrivaninha e não encontrei nada além do que havia ali antes.

— De que lado você está? E quanto a todas as outras evidências? — OK. OK! SÓ estou dizendo o que vão dizer. Mas. que pergunta estranha é essa? Eu disse a ele que havia encontrado no quarto da srta. pois ela não pensou nas coisas adequadamente. o que é clorofórmio? — perguntei. — Mas. Poderia haver uma explicação inocente. — Então você nada tem a temer — ele disse -. Mas seu rosto ainda estava em dúvida.A menina que não sabia ler . você poderá soar o alarme a tempo de impedi-la. lembrando-me do vidro de remédio -. Irá me fazer dormir para poder levar Giles embora. Ela pode tê-las pegado para dar a um parente. — Ora. — Então é fácil — eu disse. Florence. Não importa como tenha organizado as coisas. Taylor. coisas que Giles perdeu por ter crescido. Theo começou a andar pela sala. Theo. eu disse a ele o que havia deduzido sobre os planos da srta. Taylor. Voltamos a ficar em silêncio e ruminamos esse terrível pensamento por algum tempo. — A menos que aconteça algo comigo antes disso — falei. acho que você descobriu! Pulando da cadeira de novo. ela já estará em alto-mar. É usado pelos dentistas e cirurgiões para deixar os pacientes inconscientes para que não sintam dor durante uma operação. talvez. e principalmente não aceitar nada que possa ter sido contaminado por ela. Theo — exasperei-me. pois eu não tinha conseguido encontrar nada a respeito na biblioteca. você não vê? Não é óbvio? Ela pretende usá-lo em mim! É assim que pretende colocar em ação seu plano. É simples assim. Depois de um ou dois instantes de silêncio desconfortável. — Theo — eu disse. é um anestésico. — Meu Deus. — Ah. . Percebi que ele concordaria com qualquer coisa para agradar-me. Quando eu acordar e der o alarme. — Isso é algo bastante peculiar para que uma preceptora o tenha.John Harding 155 coisas da maneira que um adulto cético veria se lhe contasse: as roupas podem ser velhas. — Tudo o que preciso fazer é tomar cuidado com o que como e bebo. — É isso o que ela pretende fazer.

quando olho para os espelhos. mas parou de andar. não pode dar muito ou a pessoa pode morrer. talvez. tudo parece tão. — Ora. Talvez as tenha comprado em nome de outra pessoa. — Theo. não necessariamente com Giles. — Theo.John Harding 156 Theo olhou para mim. mas pode viajar para a Europa? — Talvez as passagens não sejam para ela. você pode lhe dar outra dose da mesma maneira. ela requisitou especialmente o posto aqui e suas referências não existem. — Você não sabe se ela pretende me matar? — Não. Florence? Não se dá clorofórmio para uma pessoa beber ou comer! — Não? Então como.. Seus olhos captaram o espelho. bem. Talvez um velho amor as tenha enviado para ela. Quando você diz coisas como essa. — Então por que vir trabalhar aqui? E por que sair sem pagamento? Além disso. e ele olhou por alguns instantes para o espelho e depois para mim. os olhos arregalados.A menina que não sabia ler . — Estava sem sorte e desesperada.. É claro. Estremeci diante disso. . — Eu não sei. um pouco fantástico. Ele riu e acenou na direção do relógio. Ela pode ter um amigo.. se a pessoa começar a acordar. Florence. Sabe. — Bem. você não sabe. talvez. talvez. E talvez tenha fabricado as referências porque estava sem sorte e desesperada por um emprego e não tivesse trabalhado como preceptora antes. talvez pensasse que o trabalho lhe seria conveniente e que o conseguiria antes de outra pessoa. Poderia haver uma centena de explicações. ela tem passagens de navio.. quer dizer. — Ela poderia estar planejando uma viagem com outra pessoa. não sei nada a respeito disso tudo.. sobre sua preceptora querendo matar você. talvez! Como se uma dessas coisas fosse provável. se você pensar bem. A beleza está em que. A pessoa desmaia. você acha que ela quer me matar? Theo não respondeu. só vejo a mim mesmo.? — Você embebe um pano com ele e coloca sobre a boca e o nariz da pessoa para que ela aspire. uma mulher que pode observar os outros através dos espelhos? Afinal. — Talvez.. — Quer dizer. coberto com seu lenço.

Bradley olhou para Theo. sabe. que desbotou e estava com a pele táo descolorida quanto a de uma galinha antes de ser colocada no forno. Fomos abrir a porta da frente para ele. — sua voz sumiu. mas finalmente conseguiu e deu a si mesmo uma boa dose. Grouse. pois ele obviamente estava muito doente. Grouse... a respiração saindo novamente com aqueles chiados. Atrapalhou-se para tirar o spray do bolso do casaco. Lá ficará melhor. Vendo minha expressão inquisitiva. o médico disse: — Receio não ter havido melhora nas condições da sra. suado e cansado. como se indicasse que ele não estava inteiramente certo do que queria dizer. O dr. fiz o melhor. Lembrei-me de que havia . e depois eu o levarei para casa. Taylor ao seu lado como um anjo caído. não. — Não quis dizer que. Ele subiu a escada enquanto Theo e eu voltamos para a saleta. Grouse. O fato é que talvez esteja pior. E suspeito que não está usando o spray tanto quanto deveria. para testar sua eficácia. Finalmente ouvi um barulho na escada e saí para o salão para encontrar o doutor com a srta. Tive dificuldade para não lhe dedicar uma parte da minha mente. Bradley vindo fazer sua visita diária à sra.. avistamos o dr. o que o fez tossir durante vários minutos. Felizmente para nossas boas relações. — Ah. Conto com você. Taylor fez uma mesura com a cabeça. Agora vá sentar-se até que eu veja a sra. ao que a tosse cedeu e ele afundou na poltrona..John Harding 157 — Não são mais prováveis que uma governanta morta voltando em um corpo diferente e caminhando sobre a água e vivendo nos espelhos? Ele agora estava praticamente gritando. Você não está bem. madame — respondeu o doutor. o que me surpreende. enquanto olhava para a preceptora como se algo o intrigasse. Vou voltar à cidade e mandar uma ambulância para que a levem para o hospital. — Sinto muito — ela mentiu —. não. e se continuar recusando meus conselhos acabará ficando pior. onde ele ficou acabrunhado em uma poltrona. e resmungou. naquele momento ouvimos uma carruagem subindo pela entrada e. A srta. tão consternada ficara com sua súbita falta de fé em mim.A menina que não sabia ler . — Hummmpf! Vim para ver uma paciente e descubro que terei de lidar com dois. olhando pela janela. meu jovem amigo. mas me contive.

quando a descoberta da minha leitura era tudo com que precisava me preocupar. desci o mais rápido que pude e esperei no salão. Whitaker algumas vezes devido a enxaquecas e ocorreu-me que talvez uma centelha de lembrança tivesse sido acesa pela srta. Para meu alívio eles estavam quentes. Queria dar uma olhada na sra.John Harding 158 tratado a srta. Taylor para me impedir. tinha-me como um pássaro no ninho. John Harding Theo saiu com o doutor e pelo resto da tarde fiquei sozinha na torre. avaliando que nossa nova governanta estava preocupada demais com sua paciente para se preocupar comigo. vi-me temendo e ao mesmo tempo desejando a sexta-feira. mas principalmente para poder observar a entrada. pois certamente seria quando a bruxa daria seus passos. apesar de ela não ter tido nenhuma reação. Ela estava completamente inconsciente e parecia uma estátua de cera ou uma boneca muito grande. Queria a oportunidade. finalmente. depois de tantos subterfúgios de ambas as partes. Mas. mas sem vida. de lutar com ela e vencer. Tinha pteferido a torre à biblioteca um pouco em nome dos velhos tempos. confortei-me ao saber que ainda estava viva. Dois homens da ambulância levaram a sra. e beijei a sra. Taylor. desejava que o dia chegasse. batendo as asas inutilmente. Queria que tudo acabasse logo. No que lhe dizia respeito. uma grande perua com uma equipe de quatro pessoas subindo pela entrada. não importava quanto me apavorasse a ideia do que deveria enfrentar. Grouse em uma maca. corri até lá. sem dar tempo à srta.A menina que não sabia ler . Assim que vi a ambulância. realista. acima de tudo. Grouse e ter uma ideia das condições em que estava. de forma que mal podia comer ou dormir. Temia que o demónio pudesse ter colocado um travesseiro sobre o rosto da pobre mulher para evitar que saísse do seu controle e pudesse revelar seus segredos. Grouse nos lábios. . e. 28 Embora parecesse agora que a batida do meu coração estava acelerada e que havia bandos de pássaros em meu estômago. Pouco antes de colocarem a maca no veículo.

John Harding 159 E quando o medo aumentava tanto que. Então estaria tudo acabado. Ela sorriu para mim. São apenas duas noites. Grouse também. Tenho dois cestos de delícias que preparei para ela. Nós a conhecemos e trabalhamos e vivemos com ela todos estes anos. Ouvi um farfalhar de seda atrás de mim e nossa nova preceptora postou-se ao meu lado. Estaremos de volta no sábado ao meio-dia. Senti o coração desfalecer. em vez disso. eu sentia vontade de correr para longe. — Mas Giles e eu. o que provocou muitos risos. . Taylor com uma mistura de sorrisos e cortesias na porta da frente. O dr. Meg estava abraçando Giles enquanto Mary estava fazendo o que podia para sufocá-lo com beijos. — Deixei uma pilha de comida para vocês. Eu não havia pensado nisso em meus devaneios sobre o esquema da bruxa. que agradeceu à srta. quando ela descobrisse o desaparecimento do clorofórmio. Taylor. os três com suas melhores roupas de domingo e cercados por cestos e bolsas de viagem.. — Ficarão perfeitamente bem — disse Meg. — E todos nós queremos ver a sra. e a srta.. Então seria tarde demais. John havia preparado uma velha carruagem que usava para buscar suprimentos na cidade e ajudou as duas mulheres a subir. — O que está acontecendo? Para onde estão indo? Vão nos deixar sozinhos? — gaguejei. e não podemos nem sequer pensar nela sozinha. Assim foi que quase desmaiei quando desci para o almoço na quinta-feira e dei com John. teria que pensar em um plano diferente. Grouse recebesse visitas. Ela tinha conseguido manobrar direitinho. — Pensei que seria agradável se a sra. Bradley disse que nesses casos o som de vozes familiares pode ajudar um paciente a recuperar os sentidos. Taylor está a par de tudo. sempre podia me confortar com o conhecimento de que nada poderia acontecer até o último dia. Segui o trio. sorrindo para a srta. assim terá um conforto de casa quando voltar a si. Meg e Mary no salão. e que mesmo então.A menina que não sabia ler . Meg pegou-me pela bochecha.

Até onde sabia.. O espelho do salão de entrada estava preso na parede com parafusos. e quando estava todo estilhaçado passei o cabo do . enquadrando-a para a batalha que viria. Taylor virou-se para mim. Por isso peguei um dos guarda-chuvas que ficavam na entrada e quebrei o vidro. Taylor contava histórias para Giles. — Bem! Aqui estamos nós. depois joguei a moldura na água. Pois eu não deixaria que visse em meu rosto o grande pânico que sentia por dentro. Voltei.A menina que não sabia ler . triunfante. tirei o espelho do gancho e. segurando-o contra o peito. A srta.John Harding 160 pois Meg era tão gorda que não conseguia subir. Então ele se sentou na frente. — Venha. e os dois voltaram para dentro da casa. Saí pela porta de trás e corri até o lago. ela segurou a mão de Giles. passei pelo espelho e então parei. Giles — ela disse. e ele teve que empurrá-la colocando o ombro debaixo do seu derrière para ajudá-la. tentando descobrir onde os outros poderiam estar.. Eu deveria ter me atirado sobre eles e gritado e contado tudo. A srta. Nós três ficamos vendo a velha carruagem desaparecer entrada afora. Theo estava certo. Coloquei o espelho no chão e pulei em cima dele até o vidro ficar em pedaços. Amaldiçoei-me por ter amansado enquanto os criados ainda estavam ali. desci o mais rápido que pude. Olhei aqui e ali e olhei várias vezes por cima do ombro. deu-me uma piscadela e sacudiu as rédeas. esse poderia ser o momento em que ela atacaria. Estava tudo perdido! O jogo estava encerrado! Eu não tinha mais ninguém para me ajudar agora. Era fantástico demais para qualquer um que não tivesse imaginação. Quem poderia adivinhar os poderes que possuía aquele demónio? Que truques malignos havia aprendido em sua breve estada no inferno? Em vez disso. procurei ouvir. e de qualquer forma teria sido muito pesado para que eu o levantasse. Voltei pelo corredor. pois não queria ser pega desprevenida. Minhas pernas e todos os outros ossos do meu corpo estavam tremendo. Subi furtivamente e ouvi vozes vindo do quarto de estudos. mas sabia que não seria acreditada. Uma vez na casa. Durante a tarde fiz o mesmo com o espelho no corredor de cima. Eu mal conseguia me mexer. Encarei-a com um olhar de desafio.

John Harding Depois peguei uma vassoura do armário de Mary e varri os pedaços de vidro. à espera de uma figura amigável. biscoitos e um jarro de água. Foi uma longa tarde. banhando a torre com uma luz pálida. para um homem forte. estava do meu lado. e amarrei tudo em uma toalha. Fui pelo corredor e subi até a minha torre. mas felizmente não havia necessidade dela. É claro que a srta. ela não apareceu.John Harding 161 guarda-chuva pela beirada da moldura para que não restasse um único pedaço por onde ela pudesse ver onde eu estava. não houve sinal de Theo. e eu me considerava segura ali. pois esperava que. Mas então entendi. removendo a vantagem dos espelhos espiões. Taylor saísse da casa e visse a luz. Significava que me considerava impotente. Agora que ela não poderia ver-me andando pela casa.A menina que não sabia ler . Fui até a cozinha e peguei pão. nem mesmo Giles sabia a respeito dele. e considerei isso um bom sinal de que alguma coisa. bolos. eu não poderia perdê-lo. mas havia outro motivo para ficar na torre: eu precisava observar a entrada. Após o pôr do sol. e. Naquela noite dormi sobre a porta do alçapão. cães ao longe começaram a latir e a coruja piou. Tive que enfrentar a possibilidade sombria de que. se não impossível. simplesmente não importava onde eu estava ou o que fizesse. se Theo aparecesse. fria. apesar de ter ficado de olho na entrada. Com todos os outros fora. sua asma havia ficado tão séria que ele não me faria outra visita senão depois do meu Armagedom com a preceptora. ele era minha última esperança. Imaginei que seria difícil. Durante todo o tempo em que fiquei fazendo isso. ao ver pelos espelhos o que eu estava fazendo. pois. Era pior se ela não o fizesse. eu precisava sentar-me e pensar e fazer meus planos. pelo menos. Era um lugar onde não me encontraria facilmente. ela desceria sobre mim enfurecida. começou a esfriar. A princípio fiquei bastante surpresa com isso. Taylor não era uma mulher normal e eu não . pois não queria que Giles se acidentasse com eles. É claro que eu não podia acender minha vela por medo de que a srta. após o ataque do outro dia. pois a lua estava quase cheia. quanto mais para uma mulher normal. abri-la por baixo com meu peso em cima.

Fui voando pelo corredor até a porta de trás e saí. Olhei para a entrada e vi que não havia sinal dele. desci e pulei o corrimão num instante. verificando a entrada. Enquanto estava deita-da durante a noite. Tomei um bom gole d'água e usei o resto para molhar o rosto. apesar de estar com o estômago virado. pois ainda era muito cedo e demoraria uma hora ou mais até que ele aparecesse com seu jeito tímido. A porta do estábulo estava aberta e olhei atentamente ao redor da viga e a vi como imaginava que . a cabeça dobrada contra a força do vento. para sempre. todos os membros e músculos doíam como se meu corpo não quisesse enfrentar o dia. Um vento forte uivava sobre a torre fazendo com que nuvens esfarrapadas corressem pelo céu como pássaros assustados fugindo do inverno que se aproximava. Sacudi essa bobagem de mim mesma e fiquei em pé. O sol se levantou e continuou a subir pelo céu. pois. Mas não sabia se fantasmas realmente podiam atravessar paredes ou se essas histórias eram apenas bobagem. quando abri os olhos. Fui até o outro canto da minha torre e olhei para os fundos da casa. Enquanto isso. mas isso não era de surpreender. pois seria ali. havia me ocorrido uma maneira de fazer com que tudo desse certo. uma maneira de salvar Giles e talvez banir nossa nova preceptora. embora eu só o vislumbrasse aqui e ali através dos buracos no dossel cinza daquele dia lúgubre. que a preceptora faria seu primeiro movimento. saindo da casa em direção ao estábulo. para que o meu plano fosse bem-sucedido. eu precisava que Theo Van Hoosier aparecesse. Encontrei meus suprimentos e. segurando seu manto. Levantei a porta do alçapão. com o gelado acordando-me completamente e preparando-me para a tarefa. Foi uma longa espera. a nova e a velha. e acima de tudo torcer. Eu teria que esperar para ver. Em algum momento devo ter dormido. Passei uma noite febril. Mas. para que ela não pensasse que eu poderia estar na torre. se eu suspeitava corretamente. Quando me mexi. E finalmente fui recompensada! Houve um movimento e vi a preceptora. ia e vinha inquieta pela torre. a luz clara da lua havia dado lugar a um amanhecer cinzento.A menina que não sabia ler . Não perdi um momento. depois verificando as construções do fundo. O vento soprava com tanta força que quase me derrubou. mas dobrei a cabeça e continuei. forcei-me a mastigar quatro ou cinco biscoitos de Meg. para aquelas construções que eu sabia serem importantes vigiar. Eu sabia que podia caminhar sobre a água.John Harding 162 tinha como saber que poderes um fantasma como ela poderia ter.

Ela havia tirado um arreio da parede e estava caminhando em direção à baia de Bluebird. siga-me. preciso lhe mostrar uma coisa! Ele ficou em dúvida. Ninguém jamais o encontrará lá. O melhor esconderijo de Blithe. Ficamos em pé e Giles me fez subir correndo.A menina que não sabia ler . Quando comecei a subir por fora do corrimão. Um lugar secreto! Um lugar realmente secreto. senhores de tudo o que víamos.John Harding 163 estaria. mas ao chegar ao alto não teve força para levantar a porta do alçapão do quarto da torre. não é? Está bem. Ela. Percebi que estava usando seu melhor traje. diante da minha entrada abrupta. levantou a cabeça assustado. ela vai me levar para um passeio. — OK. não estou! Venha depressa.. mas me virei e. desta vez com o vento às minhas costas. não. e a srta. Eu o levei até o fim do corredor e desci com ele e depois até a escada da torre. pois sabia que a srta. É uma coisa especial. Eu a empurrei e um minuto depois estávamos em meu reino secreto. — Fio. temos que subir! Ele olhou para os destroços amontoados no fundo dos degraus e me perguntou: — Como? — Ah. Eu não precisava ver mais nada. ele veio atrás de mim. Taylor levaria um tempo considerável para colocar os arreios em Bluebird. A srta. OK. não sei. colocando os pés nos intervalos. Ele se levantou. Eu não tinha com que me preocupar. mas só por alguns minutos. Sem precisar que eu dissesse algo. voei pelo corredor e abri a porta do quarto de estudos. Taylor me disse que você estava doente. como nos bons velhos tempos. — Não vai demorar mais que um minuto. voltei correndo para a casa. Ainda não havia perigo. Parece impossível. Pulei o corrimão. — Fio! Onde é que você tem andado? Você perdeu o café da manhã e o jantar. — Bem. Giles estava sentado olhando para um livro de figuras e. pois nenhum menino consegue resistir a uma escalada. — Bem. depois virei e fui seguida por Giles.. Giles. subi dois degraus de cada vez. por isso é tão bonito. Sentamo-nos na escada rindo. olhei para trás e vi meu irmãozinho de olhos arregalados e maravilhados. Taylor me disse para esperar aqui. .

mas era tarde demais. estava confuso. se estivesse confortável. colocando uma almofada debaixo de sua cabeça. o olhar intrigado. pois coloquei o lenço em seu rosto e meu braço em torno da sua cabeça.John Harding 164 — Olhe! — Giles gritou. pois eu não sabia como funcionava o clorofórmio e imaginei que. cobrindo seus protestos com o lenço até ele parar de lutar. Preciso da sua ajuda. 29 Depois de ter deixado Giles confortável. coçando a cabeça. onde está todo mundo? Pensei que estivessem todos mortos por causa da praga.A menina que não sabia ler . — É o Theo! — e lá estava ele. Feito isso. venha depressa! Ele ficou parado. — Vamos! Corremos pela frente da casa e pela lateral. não há tempo a perder. onde a srta. subindo pela entrada. — Onde? — respondi. chegando até os fundos da casa. e começou a virar a cabeça. como ninguém atendera. tirando o vidro do bolso do meu vestido. Eu o cutuquei. arrumei-o numa posição confortável. embasbacado. Abri a porta e sua expressão ficou aliviada ao me ver. Taylor não poderia ter ouvido dos estábulos. Agradeci por ter chegado ali antes que Theo fosse embora. Além disso. — Ali! Ali! Na entrada. agarrando-o junto a mim. que cheiro é esse? — Giles perguntou. desci. a garça tão familiar caminhando na direção da casa. Evidentemente havia tocado várias vezes e. — Ai. Fio? Abri a garrafa e coloquei um pouco do líquido no meu lenço. seriam menores as chances de se levantar. — Theo — eu disse. mas no lado oposto ao dos estábulos. Deixei que caísse lentamente até o chão e curvei-me sobre ele para verificar se estava respirando. — Florence. Theo estava parado olhando para a casa. você não está vendo. Taylor ainda estaria entretida . fechei-a atrás de mim. Quando cheguei à porta da frente e olhei pela janela. pulei o corrimão e atravessei o corredor correndo. não queria que meu irmãozinho acordasse com dores — como eu havia acordado — por ter dormido de mau jeito. saí pela porta do alçapão. Não importava que tivesse tocado o sino porque a srta. pegando-o pela mão —.

é claro que é um poço. Levei Theo através de algumas velhas estufas que estavam deterioradas havia muito tempo por falta de quem cuidasse delas. Theo sempre se mostrara tão escrupuloso em relação a coisas tão pequenas e também se acovardava diante de tudo que fosse contra as regras. — Mas por quê? Exasperei-me. Fiquei pensando se poderia contar a ele. Sem olhar para Theo. provocaria uma discussão que eu não tinha certeza de conseguir vencer. Theo correu para me ajudar. Não havia tempo a perder. — Sim. . peguei a pedra de cima e comecei a tentar levantá-la. ajude-me! Ele não respondeu. — E um poço — Theo falou. mas para evitar que essa bruxa leve Giles precisamos fazer isto agora. abrandei. consegui levantar um lado. Soprando e ofegando. E aquilo era totalmente contra as regras! Além disso. peguei a pedra novamente e comecei de novo a gemer e grunhir enquanto lutava com ela. — Muito bem! — eu disse. mas minha força cedeu e tive que soltar. se o fizesse. Isso era demais para qualquer cavalheiro. Impacientei-me. as placas de madeira sobre ele e para as lajes de pedra grandes e pesadas por cima delas. sinto muito. pegou o outro lado da pedra e começou a levantá-la também. não que tivesse aparecido muito durante o dia. — Não tenho tempo para explicar agora. apontando com a mão para o velho poço. — Preciso da sua ajuda para tirar tudo isso daqui — eu disse. — Theo. o que mais podia ser? Vendo seu rosto. mas. conseguimos tirar todas as cinco lajes e colocá-las em uma pilha no chão. assim que o acesso passou. sim. Theo. com grande es-forço. soprando e ofegando. e o conduzi para o que era o coração do meu plano. estava pronto para a batalha.A menina que não sabia ler . Fui até o poço. mas lá no fundo eu sabia que. Quando a soltamos. por favor. Dessa maneira. grunhindo e gemendo. tossindo e pulverizando com o spray.John Harding 165 preparando o cavalo. mas ficou ali parado. as mãos nos quadris. Logo chegaríamos ao fim da tarde e o sol já estava pensando em se retirar para a noite. eu precisava me apressar. Por favor. Theo ficou olhando para a mu-reta. Theo começou a tossir e precisou usar o spray. e juntos conseguimos tirá-la e colocá-la no chão. A bruxa podia terminar nos estábulos a qualquer momento. olhando primeiro para o poço e depois para mim.

— Para que tudo aquilo com o poço? Coloquei um dedo em seus lábios para que se calasse. Comecei a subir pelo corrimão. — Eu o quebrei — disse orgulhosa. — Caramba! É um buraco e tanto. uma por uma. deixou-o cair e começou imediatamente a tossir. o que pareceu acalmá-lo. Sentan-do-se com as costas na parede. o que me deixou bastante aliviada. o que aconteceu com o espelho? — ele disse. — Clorofórmio — eu disse. Siga-me e não diga mais nada. — Bem. — Não sei onde ela pode estar. eu o levei até a outra ponta. Mostrei a ele o vidro e o lenço. descanse um pouco. Isso tem um fundo? Eu não respondi. onde saímos e chegamos ao pé da escada que levava para a torre. Estava nos estábulos. Peguei sua mão e cuidadosamente contornei a casa e levei-o até a porta da frente. Se começar a acordar. mas pode ter terminado. Elas não eram tão pesadas. Verificando cuidadosamente o salão e o corredor. Voltarei logo — eu disse. tirei a quarta sozinha.A menina que não sabia ler . ao ver a moldura vazia logo na entrada. a respiração subindo e descendo suavemente. Quando terminamos. não fique aí olhando. venha! Pouco depois estávamos na torre. — Não fale agora — sussurrei. Theo olhou do meu irmão para mim. pois quanto menos falasse sobre o poço melhor. dê-lhe outra dose. evidentemente exausto. — Theo. tirou o spray do bolso e aspirou. . Quando estava na metade do caminho parei e olhei para Theo. Caiu no chão mortalmente pálido e arfando. — Fique aqui e cuide dele.John Harding 166 Depois retiramos as quatro placas grossas de madeira. — Precisava ter certeza de que ela não podia ver o que eu estava fazendo. — E o que você anda fazendo? — Ele me olhou com curiosidade. e quando Theo começou a tossir depois da terceira. que estava parado olhando para mim. — Ora. Theo pegou o pano e cheirou. Theo olhou para o poço e assobiou. Ele colocou o spray no chão ao seu lado. Giles ainda dormia tranquila-mente no chão.

segurando-se à estaca. — Srta. — Onde está ele? Eu não vejo nada. Como João e Maria... — Posso vê-lo! Acho que está se mexendo. o poço. tão ofegante que mal conseguia falar. eu havia me livrado da bruxa com um golpe magnífico. apontando para o poço. Meu corpo todo. — Giles! Você está bem? Eu a empurrei para o lado e subi na mureta. Parei. agarrei-me à estaca que um dia havia segurado a corda do balde para poder balançar a cabeça até o centro da abertura.John Harding 167 Levantei a porta do alçapão e desci o mais rápido que pude. Bati de novo e acertei com mais força. — Venha depressa! É Giles! Ele sofreu um acidente! Seu rosto ficou pálido como o do cadáver que eu sabia que era. sem lhe dar tempo para pensar. Taylor! — gritei. Taylor! Srta. — Giles. esticou o pescoço e olhou para baixo. Desci da mureta e num instante ela ocupou meu lugar. Taylor estava saindo e imaginei que tivesse terminado de colocar os arreios. empurrando-me a perna.A menina que não sabia ler . mas ela se agarrou à vida. mas eu era veloz como o diabo e ela mal podia me acompanhar. Soltei a madeira. Juro que podia sentir sua respiração quente em meu pescoço. Ouvi de novo o barulho e os dedos largaram a estaca. corri e passei por trás da casa. — Giles! — ela gritou.. apoiando-me nos joe-lhos. — Cuidado. até os . o tronco.. joguei todo o meu peso sobre ela e com ambas as mãos empurrei-a de tal forma que lá foi ela para o poço. eu disse a ele para não. apoiando-se sobre os joelhos e. Ergui a mão trémula. correu para a mureta em torno do poço e debruçouse. — Um acidente? O que quer dizer? — Por favor! — Eu me virei e comecei a correr. Ela entendeu imediatamente. Não havia nada além da escuridão. tão perto de mim estava ela.. deixe-me ver! — ela disse. até onde eu sabia. um grande buraco que podia ir até o centro da Terra. os nós dos dedos brancos como ossos. Peguei-o e bati com força e acertei a mão que estava segurando a estaca. Juro que bati com tanta força que ouvi os metacarpos se quebrando. Cheguei aos estábulos quando a srta. Giles! Giles! Dei a volta e vi um pedaço de pau perto do poço. — Lá está ele! — gritei.. — Venha! Levantei a saia. Corri pelo corredor e saí pela porta de trás. Foi embora com um único grito. Olhei pela beirada do poço.

Peguei primeiro uma mala e depois a outra e joguei-as pelo buraco que havia feito. Deixando-a lá. Fiz o mesmo com as outras placas até a abertura ficar inteiramente coberta. ambas fechadas. ela ainda devia estar presa. casaco e bolsa. estava tremendo com o triunfo e também de medo. que de certa forma misturava medo e desdém. coisa de que não tinha visto sinal. Então coloquei a bolsa e o casaco na mala em que antes estavam as coisas de Giles. Quando coloquei a cabeça através da porta do alçapão. Então voltei para a casa. Rezei para que não estivessem trancadas e felizmente não estavam. pois já estava. — Theo. Mas havia algo estranho. mas nada aconteceu. o spray ao seu lado. levei-as para baixo e até o poço. Depois de fechar bem as duas malas. Abri a bolsa. algo na maneira como olhou para mim. eu sei que está mal. mas preciso da sua ajuda de novo e preciso agora. como alguém que estivesse sonhando. Fui direto até o quarto da preceptora. como estava antes. levantei-a e deslizei-a sobre o abismo para que ficasse apoiada em cada lado da mureta. Com grande esforço. . pois a qualquer momento esperava vê-la chegar gritando como o génio libertado da garrafa. fui até a outra ponta.A menina que não sabia ler . Olhei rapidamente para Giles. Levantei a ponta de uma das placas de madeira e arrastei-a até a ponta da mureta. Olhei para o quarto e vi seu chapéu. A menos que tivesse o poder de passar através de objetos sólidos. encontrei algum dinheiro e peguei tudo. Pois eu não conhecia os poderes do demónio. como se não tivesse ouvido o que eu disse. eu saberia se tinha escapado enquanto eu estivesse longe. Ele estava com aquela aparência de galinha pronta para ir ao forno de novo e sua respiração era um chiado. mas todo o resto estava na mala. Theo estava onde eu o havia deixado. Sabia que ela não podia ser morta. Mas era possível que pudesse voar. o coração na boca. tirei-as e levei-as de volta para seu quarto. Abri a que continha as roupas de Giles. conseguiu ficar em pé e seguiu-me até a porta do alçapão. Depois recoloquei as placas no lugar e voltei para a torre. — Muito bem — ele falou. vi que ainda dormia tranquilamente e então desci. Fiquei aliviada ao ver que nenhuma das placas havia sido removida.John Harding 168 dedos dos pés. Peguei a ponta de uma das placas e manobrei até chegar à mais próxima. Suas duas malas estavam sobre a cama. Dessa maneira. Abri a outra mala.

Assim que terminamos de colocá-la. no entanto. Pois a primeira pergunta que qualquer um que estivesse familiarizado com Blithe.. mas eu o empurrei. o rosto uma careta de agonia. mas não tirou o spray. evidentemente imperturbadas. mas finalmente colocamos três pedras no lugar e quase tínhamos acabado de colocar a quarta.. quando Theo vacilou e soltou onde estava segurando. tinha apenas a força de um menino pálido e tremulo. — Eu o deixei. curvou-se bravamente para cumprir a tarefa. apenas nivelando-a com a de baixo. Dessa maneira levantamos a primeira pedra sobre as placas de madeira. com um grito alto por causa do esforço. Fiquei aliviada ao ver as quatro placas de madeira no lugar. Finalmente chegamos ao poço. de forma que todo o peso veio para cima de mim. pois Theo a largou subitamente. porque tínhamos apenas escorregado a pedra para baixá-la. eu o deixei lá. Ele. Deu de ombros. Theo. Peguei o outro e começamos a levantar.. como se estivesse segurando todo aquele tempo. . controlou o acesso e começamos com a segunda pedra. mas eu insisti com ele. use o sprayl — gritei. jogando meu corpo contra a beirada da pedra. Theo começou a tossir.John Harding 169 Theo tropeçou duas vezes na escada e teve dificuldade para saltar o corrimão. coloquei-a no lugar. Quase deixei a pedra cair no meu pé.. Quando terminamos de colocá-la no lugar. — Theo. Eu parecia ter a força de cem homens. Pareceu levar uma eternidade. pois não podia permitir que me abandonasse agora. porém. faria era: quem moveu as pedras? Ajudei Theo a dar a volta na casa como se ele é quem estivesse com problemas no tornozelo agora.A menina que não sabia ler . que creditei à excitação que corria em minhas veias. o que certamente teria quebrado todos os meus ossos. Ele apalpou os bolsos. Theo estava tossindo sem parar. na torre. mas consegui me controlar a tempo e. — Não posso — ele engoliu o ar com um chiado terrível. — Ajude-me a levantar as pedras — eu disse a Theo. Theo agora tossia incontrolavelmente. ele se curvou e pegou um lado da pedra de cima da pilha que havíamos feito. como um homem morto sem expressão ou um autómato sem vontade própria. tal como John. Sem uma palavra. Estava muito. Agora tínhamos que a levantar. muito mais pesada que antes.

— Florence. pois pensei que estava quase . espere aqui. ele não estava mais tossindo. Do degrau de cima do último lance da escada olhei para baixo e vi Theo. ele contaria. E soube que tinha visto. — Florence. Significava uma coisa. Ele havia concordado com o que considerava loucura minha porque era o caminho mais fácil e seguro. um pensamento que não consegui identificar imediatamente. Subi e pulei com o corpo cansado escada acima. O que poderia significar? Instintivamente. Soube então que Theo estivera ali. ou como quando você pesca um peixe e o coloca no chão junto ao lago e fica olhando e ele fica buscando ar até morrer. encostando-o na parede. por favor! Por que está parada aí? Por favor! Eu não me mexi e assisti horrorizada. Atravessei a porta do alçapão e desci. aquele medo de mim em seus olhos. Entramos pela porta de trás e fomos até o pé da escada que dava na torre. Era aquele medo que eu havia visto em seus olhos. com o rosto no chão. Assim que se afastasse de Blithe. vou pegar o spray. ele teria protestado. Ele repetiu a súplica. mas arfando como um corredor depois de uma longa corrida. No quarto da torre fui direto até o spray. Já ia descer pela porta do alçapão quando algo me afligiu subitamente. Abaixo eu vi o poço. Então percebi. Vendo-me parada como uma estátua. E eu conhecia Theo. corra! Eu não me mexi. e eu corri para ajudá-lo. John Harding — Theo.A menina que não sabia ler . perfeitamente à vista. — Por favor. seguido pela maneira resignada com que me seguiu e me ajudou com as placas e as pedras. corra! — ele arfou. Eu me virei e subi. completamente branco. aquele olhar que Theo havia dirigido a mim quando voltei para o quarto da torre.John Harding 170 Coloquei meu ombro embaixo do seu e ajudei-o a dar a volta na casa. que empalideceu e escorregou na parede. atravessei o quarto e olhei pela janela de trás. parando para olhar para Theo. Caiu para a frente. teria se recusado a me ajudar. e no caminho notei que Giles ainda dormia tranquilo e respirava suavemente. Era óbvio por que não o fizera. ele começou a tentar se levantar. Se houvesse qualquer dúvida em relação ao que pensava das minhas açóes. arquejando pela vida. Coloquei-o suavemente no chão.

pobre Theo. dada a sua natureza simples.John Harding 171 morto. O esforço para falar foi demais e ele começou a tossir tão brutal-mente que era doloroso assistir.. nunca fora compatível com a tarefa de manter meu segredo. Depois de tanto sofrimento. como um cão. minha pobre garça. mas o que ele disse foi: — Florence. largando o peso do corpo.. ele conseguiu ficar em pé. como um pretendente fazendo a pergunta. era um ato de misericórdia darlhes finalmente um descanso. Pobre Theo. — Florence. Inclinei-me encostei o ouvido sobre ele. mas caiu. — Florence! — sua voz cortou meu coração. Tentou dizer algo. observando horrorizada enquanto ele avançava. morreu na sua garganta. mas a palavra. mas então seu corpo se contorceu e ele se ergueu sobre as mãos e os joelhos. Essa morte dele em cima de mim não estava nos meus planos. e estava agora apoiado apenas em um joelho. conseguiu levantar-se de novo. ele estendeu um braço para um lado e uma perna para o outro sobre o corrimão.A menina que não sabia ler . no último minuto agarrou o corrimão e então. Fazendo força com as mãos. tão graciosa patinando no lago. De alguma maneira. Levantei sua cabeça um pouco e pressionei os lábios contra . a cabeça pendendo entre os braços. com que reserva de força eu não sei. Não havia sinal daqueles pobres pulmões cansados. ou palavras.. Conseguiu colocar um dos pés no chão. Sua respiração deu uma última raspada e então não houve nada além de silêncio. Eu não respondi e ele levantou um pé e o colocou no corrimão. escorregando.. — Florence. 30 Tinha primeira dificuldade era descer sem perturbar Theo. não faça isso! Eu não vi nada! Não vou dizer nada. — sua voz arranhou o ar e era como se alguém estivesse arranhando minha alma. não iria mais patinar. mas agora que havia acontecido eu reconhecia que seria necessária. Ele caminhou vacilante até a escada. Ele se apoiou nas mãos e conseguiu se endireitar. depois de uma pausa terrível. Recuei e encostei-me na parede atrás de mim. Ele alcançou a escada. ele pulou e colocou o outro pé no corrimão. o pobre.

Eu o levei até o celeiro e empurrei o carrinho pela rampa que John usa para a comida dos cavalos. Eu não queria tirar seu corpo do corrimão porque já estava formulando um plano em que ele precisava permanecer ali. fazendo-lhe carinho e sussurrando coisas gentis. Soltei o freio e. não me impedia de andar. Coloquei o spray no bolso do seu casaco e subi alguns degraus. Respirei profundamente. até os estábulos. mas não era largo. atravessei a porta dos fundos e pensei em como a doença o deixara frágil e fraco. dando-lhe o beijo que ele sempre desejara. mas jamais recebera apropriadamente. Era comprido. Depois saltei. aquele que já havia machucado. todo arreado. Eu estava a três metros do chão e não havia outra coisa a fazer senão pular. onde o coloquei de forma que a carruagem ficasse abaixo do nível da rampa de embarque. pois Theo estava no caminho. com algumas poucas nuvens. corri e subi em não muito mais que alguns segundos. e eu o empurrei pelo corredor. Fui até o celeiro e encontrei o carrinho de mão de John. mas felizmente o céu estava claro. Não poderia usá-lo para descer. rezando em silêncio para conseguir levantá-los. Caí no chão em cima do tornozelo direito. Pulei o corrimão. Ainda cantarolando suavemente. peguei os braços do carrinho. e a lua cheia me propiciava uma boa luz. Foi uma subida difícil. fechei os olhos e saltei. subi a rampa de carga. Levantei-me e soltei lentamente o peso do pé direito e fiquei aliviada ao ver que.A menina que não sabia ler . mas abaixei a cabeça. Deixei ali o carrinho e seu conteúdo. Então me arrastei até ficar embaixo do corrimão e puxeio. ele não parecia pesar mais que um pardal. virei-o de frente para a carruagem e com um poderoso empurrão virei-o de forma que Theo caiu na parte de trás. Coloquei-o ao lado da escada. e sabia que teria problemas para me explicar. bem abaixo de Theo. levantei-o e me surpreendi. . não tinha mais tempo a perder. subi até o assento da carruagem e coloquei o freio. Respirei profundamente de novo. por isso fiquei aflita por sobrecarregá-lo. Desci e peguei os braços do carrinho. Ele caiu como um saco de batatas diretamente no carrinho. e essa era minha sorte. Levei apenas um instante. apesar de doer um pouco. Levei-o até a porta dos fundos e pelo corredor até o pé da torre.John Harding 172 os seus. e doeu tanto que imaginei que o tivesse quebrado. onde Bluebird esperava pacientemente. pois eu não sabia se aguentaria o peso de Theo. e fui até a porta ao lado. Já estava escuro. por mais leve que fosse Theo. das galinhas e de outros. deixei que fosse até o celeiro.

voltei para a rampa. Estava tão cansada que de bom grado teria me deitado ali e dormido. Fui até o barril de maçãs. soltei o freio de Bluebird e levei-o para fora. Fiquei imensamente aliviada ao voltar para a estrada principal. apesar de agora estar mais inquieto. conhecia o caminho para a cidade. pois tinha medo de exagerar. Voltei para a boleia. ou talvez eu estivesse mais fraca por toda aquela atividade. e então deixei a torre e fui até o quarto da preceptora para pegar o dinheiro e o outro item que havia tirado da sua bolsa. . coloquei o freio e subi na parte de trás. é claro. O vento havia diminuído e a noite estava clara e límpida. Agora era noite bem avançada e eu sabia que havia passado muito do horário em que Theo deveria estar em casa para o jantar. Parecia que Theo tinha ficado mais pesado na última hora desde que eu subira a rampa com ele. mas levei um tempo considerável para conseguir jogar o corpo por sobre a beira da carruagem. Mas finalmente consegui. melhor.A menina que não sabia ler . peguei uma e a ofereci a Bluebird. mas só uma rápida desta vez. quanto maior a distância entre mim e Theo. era praticamente o único lugar para onde ia. por isso não tive muita necessidade de dirigi-lo até chegarmos à entrada para a casa dos Van Hoosiers. Fui até meu quarto e coloquei meu manto preto. Esperei alguns minutos para ter certeza de que estava respirando normalmente e com facilidade. Os criados já deveriam estar procurando por ele.John Harding 173 Tive que descansar um pouco depois disso. Estava suada e ofegante. e o luar indicou-me o caminho como se estivéssemos em plena luz do dia. Voltei para o celeiro. pois o tutor de Theo ou os criados poderiam ouvir o barulho das ferraduras de Bluebird. Peguei o pano com o clorofórmio e lhe dei outra dose. soltei o freio e sacudi as rédeas para acelerar Bluebird. temendo que aparecesse alguém. mas sabia que não podia. peguei o carrinho e deixei-o onde o havia encontrado. murmurando para si mesmo. Depois que ele comeu e tendo certeza de que estava contente. Giles ainda estava dormindo. Depois voltei para a casa e fui até a torre. e se me encontrassem ali seria meu fim. Virei e fui até a metade do caminho. Todo o tempo com o coração na boca. Fiz Bluebird dar a volta de forma que a traseira da carruagem ficasse de frente para o bosque. Subi no lugar do condutor e segurei as rédeas para que começasse a trotar. Bluebird. Não me atrevi a ir mais longe.

O velho cavalo estacou. e mesmo debaixo do manto estremeci. o silvo do vapor. sua longa cauda de vagões . Desci. quando estava voltado para a direção certa. Havia grupos de pessoas indo e vindo da estação e muitos carros e charretes seguindo nas duas dire-çóes também. ao me aproximar da es-tação de trem propriamente dita. entrando na Main Street com minhas feições protegidas como as da srta. ideia que me atraía nesse momento. Eu tinha tão pouca experiência na condução da carruagem — só algumas vezes John havia me deixado experimentar por brincadeira que fiquei nervosa e queria ir depressa. virei-o segurando o freio e. como um dragão deitado à minha espera. Havia poucas pessoas por ali. que eu considerava minha amiga. — Ooa. mesmo sabendo que outros cavalos. balancei as rédeas para que começasse a andar. garoto! — gritei. seu chapéu. Encontrei apenas uma charrete de um fazendeiro na estrada e. pois era uma noite para estar dentro de casa e ficar ao redor do fogo. passando pelas primeiras casas esparsas. a locomotiva. de forma que antes de eu perceber quase passamos o lugar. A geada começara a cair com força e a estrada estava escorregadia. mas do que tinha para fazer e de não ser capaz de fazê-lo. Depois disso fiquei só com a lua e o barulho dos morcegos que passavam aqui e ali. dando um bom puxão nas rédeas. e em poucos minutos cheguei à cidade. Taylor quando visitáramos o dentista. pois se havia algo que eu sabia fazer era pará-lo. os cavalos da noite. puxei o capuz do meu manto sobre o rosto para não ser reconhecida. como comida pesada demais para digerir.A menina que não sabia ler . apenas levantou o chicote como cumprimento. Imediatamente o silêncio se foi.John Harding 174 Estava com frio agora. Finalmente as luzes começaram a surgir à minha frente e a se multiplicar quanto mais eu avançava. Virei-me e peguei o item que havia retirado do quarto da srta. de forma que às vezes as rodas da carruagem patinhavam de maneira alarmante. Percebi o barulho do metal e. Na curva para a estação de trem atrapalhei-me com o controle das rédeas e não consegui fazer Bluebird virar. assim que o vi. Abaixei o capo e coloquei o chapéu firmemente sobre a cabeça e puxei o véu sobre o rosto. Em poucos minutos estávamos trotando rumo à estação. pois lá estava. ao qual respondi com um aceno silencioso. Taylor. O condutor da charrete não acenou para mim. porém não era medo da noite. o medo apertava minha garganta. passariam rapidamente.

Havia homens gritando. — Depois da senhora. percebi que isso me era vantajoso. O homem e a mulher continuavam esperando atrás de mim e senti que ficavam impacientes. Como num passe de mágica. desci e amarrei Bluebird. Taylor. nervosa por dentro. marchei direto para a sala de reservas. Se não me apressasse estaria atrasada demais para o Circular. Eu não pretendo voltar. Ao me aproximar do trem. quando vi que ninguém prestava atenção a mim. O homem levava um saco de viagem e era evidente que iriam pegar um trem. Caminhei por toda a extensão do trem e voltei. — Sim. No início tive medo de toda essa comoção. . Ele me entregou a passagem e paguei com o dinheiro que havia tirado da bolsa da srta. madame? — Quero comprar uma passagem do Circular para Nova York. pelo que agradeci. pois me escondera. Faltavam apenas dez minutos para as nove. mas. madame? — Não — falei em voz alta.John Harding 175 de passageiros estendendo-se atrás dela. tirando o chapéu. cavalos relinchando. mas logo me lembrei de que precisava ser vista. muitas delas despedin-do-se. uma nuvem de fumaça saiu da locomotiva e engolfou-me. e fui direto ao guiché. pois era mais uma entre tantos. No vagão da frente encontrei um grupo de seis ou sete homens subindo as escadas e ousei aproximar-me. — Só de ida. que saía de hora em hora. Sem olhar para a direita ou para a esquerda. um deles empurrou o outro de lado e. passando por pessoas ali reunidas. Um homem e uma mulher ficaram atrás de mim. Parei a carruagem junto a um poste. — Viagem de ida e volta. por favor. pois a locomotiva estava raspando o chão. Ao me ver. Olhei ao redor. portas batendo. uma pequena cabeça careca surgiu à minha frente. bufando cada vez mais alto. — Você precisa bater no vidro — ela disse. O homem que estava atrás logo começou a comprar as passagens para ele e sua companheira e não pareceu dar-me nenhuma atenção. A mulher inclinou a cabeça sobre o meu ombro. Saí da sala de reservas para a plataforma.A menina que não sabia ler . ansiosa para partir. Ergui os olhos e vi o relógio da estação e quase caí morta de choque. madame. Eu sabia para onde deveria ir desde que havíamos trazido Giles para ir à escola. indicou-me os degraus. Não havia ninguém ali. e bateu forte com os nós dos dedos.

O momento de hesitação quase me custou caro. — Eu.. madame. é claro. O trem deu um solavanco e precisei segurar-me na moldura da porta para não tropeçar. que deixei alguns vagões atrás. Quando elas se foram. Eu a deixei no último assento do vagão antes deste.John Harding 176 Acenei em sinal de agradecimento e subi.A menina que não sabia ler . estava prestes a descer os degraus. madame. — Vai encontrá-lo ocupado em toda a extensão do vagão. sabia? — Ora. mas. — Ora. um homem de terno xadrez e chapéu-coco ao me ver passar tirou a mala do lugar ao seu lado e disse: — Aqui. — Mas. ao sair do primeiro vagão para o segundo. sentindo-me encurralada. Meu plano era descer do trem e fugir. Caminhei pelo corredor. Que idiota eu sou! Faria a gentileza de ir pegá-la para mim? Ele colocou o chapéu e passou a mão pela beirada. eu me despedia de minha irmã e estava tão chateada por deixá-la que acabei me esquecendo completamente dela. ficaria feliz em ir pegá-la para a senhora. — Vamos lá. acenei com a cabeça e agradeci com a mão. mas sabia que não podia ser rude e ignorá-lo... um grupo de senhoras vinha na direção oposta e tive que dar passagem a elas. este assento está livre.. Eu. Eu não sabia o que fazer. pois não podia ocupar o lugar. Pró-ximo ao fundo. é claro. Recuperando-me rapidamente. Hesitei. obrigada — eu disse. Houve um silvo súbito e uma grande nuvem de vapor da locomotiva. Virei-me e vi o terno xadrez. madame. continuei em direção ao fundo do e saí pela porta. eu não mordo.. é. olhando aqui e ali como se procurasse um lugar... madame. veja bem. Se disser como é. Estava atrás da minha mala. mas ouvi uma voz atrás de mim. eu. . como se fosse para o outro vagão à procura de um lugar melhor. eu não estava indo à procura de outro lugar. Ele tirou o chapéu e olhou-me cauteloso. O vagão estava quase cheio.. — Não há como não vê-la. é vermelha. Veludo vermelho vivo. pois o trem havia feito muitas paradas antes desta. posso garantir. O trem deu outro solavanco.

John Harding 177 — Será um prazer. Na rua. . se não pulasse agora seria tarde demais. o que foi bom. Devo ter levado uns bons vinte minutos para afastar-me dos arredores da cidade. e não pude deixar de sorrir para mim mesma ao pensar no terno xadrez procurando por uma mala de veludo vermelha que nunca encontraria. derramei uma ou duas lágrimas por isso. deitado no chão frio com a geada endurecendo-lhe o cabelo e. Pensei em Theo. mesmo me considerando lenta pela inexperiência em conduzi-la.A menina que não sabia ler . sem passar pela sala de reservas desta vez. avançando e ganhando velocidade. e sendo encontrada abandonada depois poderia levantar mais suspeitas. Quando ele desapareceu no outro vagão. enfiei-o debaixo do manto e desci os degraus. Esperava que qualquer testemunha da mulher de véu na estação não se lembrasse se ela estava ou não carregando uma mala. pois já não queria chamar atenção para mim. não havia ninguém à vista. O que havia levado tão pouco tempo de charrete. mas por tudo o que havia passado. Tirei o chapéu. O bom e velho cavalo esperava pacientemente e estava como eu o havia deixado. um barulho de metal contra metal. Ele teria uma espera longa e fria. olhei pela última vez para Bluebird e a charrete. Agora volte para lá e sente-se onde eu estava sentado. ficando no primeiro. se eu tivesse levado uma. E pode pegar o lugar junto à janela. Puxei o capuz sobre a cabeça e afastei-me rapidamente. e pela abertura da porta vi a sala de reservas começar a passar. teria que deixá-la a bordo. eu já volto com sua mala. pois sentia pelo que lhe havia causado. A plataforma ainda estava movimentada com pessoas acenando para os amigos e carregadores indo e vindo. Pulei e consegui não tropeçar. O trem começou a se mexer em ritmo vigoroso. Olhei para a direita e para a esquerda. o trabalho pesado para tirar e recolocar as pedras e placas de madeira. É claro. Estava cansada não apenas porque normalmente já estaria na cama há muito tempo. agora parecia durar uma eternidade a pé. a srta. o trem deu outro solavan-co e desta vez houve outro silvo. o que me trouxe uma lágrima aos olhos. e também só de pensar que teria dezesseis quilómetros para caminhar ou tudo o que fizera até agora seria para nada. mas contornando-a. a corrida para cá e para lá. madame. Taylor teria tido uma mala se tivesse pegado o trem. para carregar Theo. confesso. mas.

algo que talvez envolvesse Theo — pois seria muita coincidência se sua ausência e a ausência de todos em Blithe não tivessem nenhuma ligação. e tinha que sair da estrada e esconder-me atrás de uma árvore. Minha esperança era que tivessem encontrado Theo ao subir a entrada. pois eu já não me preocupava. onde sabiam que era visita frequente. as chaminés de uma grande casa acima das árvores. o lógico seria procurá-lo em Blithe. Acelerei o passo e com o coração na boca passei pela entrada dos Van . onde. talvez passassem por ele no escuro e continuassem em direção a Blithe. alguns metros à frente. encontrariam a casa no escuro e nenhuma resposta ao bater na porta. com os criados fora e comigo ausente. Pois subitamente me ocorreu que havia uma parte do meu plano sobre a qual eu não ti-nha nenhum controle. Era a casa dos Van Hoosiers! Não estava a mais de meia hora de casa. mas onde? Se estivesse muito longe. Agora. O que tornou a jornada pior foi minha aflição.A menina que não sabia ler . eu não conseguiria me explicar. Mais de uma vez tropecei e caí. Desesperei-me para pensar. Como exatamente havia deixado Theo? Era óbvio que seu pessoal não conseguiria pegar o atalho pelo bosque até Blithe porque seria impossível no escuro. Então ergui os olhos e vi à minha esquerda. mas o encontrariam na entrada saindo da estrada principal. seu tutor e os criados dos Van Hoosiers começariam a se preocupar e sairiam para procurá-lo. deitar e dormir onde estava e deixar que me encontrassem e que fizessem comigo o que quisessem. machucando os joelhos e arranhando as mãos. Pensei em Blithe e em Giles e em tudo sendo como era antes e sen-ti-me entusiasmada.John Harding 178 A estrada estava vazia e qualquer barulho me assustava. O vento aumentou e nos últimos quilómetros soprou diretamente contra o meu rosto como se tentasse me segurar. Cada pio de coruja me fazia pular. Poderiam pensar que havia acontecido algo ruim em Blithe. Se não o encontrassem na propriedade de sua própria casa. Quando Theo não voltasse para casa. Algumas vezes ouvia carruagens se aproximando. Em determinado momento estava tão cansada e a estrada à frente parecia tão sem fim que decidi que poderia desistir. Se entrassem na casa e descobrissem que eu não estava. cada morcego que passava me fazia encolher. eu havia largado o corpo ao lado da entrada. é claro.

ao pensar a respeito. Havia tirado Giles da minha mente ou não conseguiria fazer nada. encontrando novas energias por estar tão perto. Parecia estranhamente vazio sem ele. Nesse momento quase o larguei. Mas ninguém apareceu. era a pura verdade. ao abrir a porta que dava para a escada. desci os primeiros degraus e fiquei com a cabeça e os ombros na abertura. Fiquei atrás dele e coloquei os braços em torno de seus ombros e o levantei para colocá-lo sentado. vi seu peito subir e descer suavemente e finalmente pude eu mesma respirar. Estremeci com o que havia acontecido ali e.A menina que não sabia ler . Atirei o chapéu da srta. tão cansada estava. fui direto até a cozinha. pois me assustei subitamente ao ouvir o canto de um galo. Abri o fogão. sem dúvida. com os pés alguns degraus acima dos meus. e pareceu outra eternidade até ver a entrada da casa. Estava sentada havia meia hora quando meus olhos começaram a se fechar e eu sabia que estava na hora de me mexer de novo ou do contrário ficaria dormindo até os criados voltarem e me encontrarem. Finalmente. A essa altura eu tropeçava a cada passo. Pulei o corrimão e subi. murmurando algo que não entendi. peguei o atiçador e acendi o fogo. Arrastei-o assim até a porta do alçapão e o deitei com os pés virados para o buraco. quando o fiz. Então puxei Giles para mim. os primeiros raios vermelhos da alvorada dedilhavam o céu e eu . e por um momento ou dois não consegui me aproximar dele com medo de confirmar meus piores pensamentos. E. lá estava ela. Dentro de casa. Puxei-o pelos pés e ele acabou deitado nos degraus. Então atravessei o longo corredor até os pés da minha torre. pois no fundo temia ter dado a ele uma dose muito forte de clorofórmio e afligia-me pensar que pudesse ter feito exatamente o que mais temia. e subi praticamente trotando. Mas. estava tão imóvel e pálido sob a luz do luar que parecia um cadáver. à procura de Theo. Felizmente ele era muito pequeno e leve. Meu problema agora era como fazer para levar Giles de volta para sua cama. cortei uma grande fatia de pão e um grande pedaço de queijo. quase esperei encontrar a sombra de Theo estendido no corrimão. sentei-me à mesa e os devorei como se não comesse há dias.John Harding 179 Hoosiers e temi por um momento que os criados da família pudessem vir correndo. Deixando-o ali. Eu o sacudi e ele se mexeu. servi-me de um grande copo de leite. Taylor nas chamas e observei até que se transformasse em cinzas e não pudesse nunca mais ser visto. o que. Quase gritei quando levantei a porta do alçapão e o encontrei ali deitado.

Empurrei Giles para tirá-lo de cima de mim. Descemos um degrau de cada vez. Segurando-o para que não caísse. John Harding Subi com ele até seu quarto. Então eu mesma pulei e fiquei do outro lado. pequeno e leve. suas malas estavam feitas e na verdade isso devia ter acontecido. como o pobre Theo. É claro. De volta ao meu irmão. disse a mim mesma. pois logo os criados estariam de volta. E então lá estava. . Estava muito cansada e queria dormir e.A menina que não sabia ler . não era algo impensável que a tivesse esquecido. de forma que ele acabou deitado no corrimão. Já tinha começado a me virar quando reparei que havia algo destoante no quadro do meu irmão dormindo tranquilamente.John Harding 180 sabia que devia me apressar. afinal. na pequena cómoda ao lado da cama do meu irmão. até chegarmos ao primeiro lance de degraus. Quase rejeitei o pensamento como tola ilusão causada pelo cansaço extremo. a mesma em que havia encontrado as passagens de navio. embora não conseguisse entender o que era. pois ao olhar para a cena nada vi de anormal. encostei Giles de forma que sua cabeça caiu por cima. Pensei em deixá-la ali. eu na frente e depois puxando Giles. onde o despi. dobrei e ergui uma de suas pernas e joguei-a por cima do corrimão. descansando por um momento. peguei-o e reconheci imediatamente a Bíblia da srta. Um livro. Ao sair do quarto. de forma que caímos os dois no chão. Não importa. vesti-o com a camisa de noite e coloquei-o na cama. coloquei-o de pé e desta vez o carreguei nos braços. como se Giles levasse algum livro para a cama! Fui até lá. fiquei em pé. agradecendo por ser alta e forte e ele. Quando chegamos ao ponto em que precisávamos pular o corrimão. pois duvidava que tivesse força para o menor esforço. O que eu temia agora era o corrimão. recuperando o fôlego. um braço e uma perna para cada lado. a última coisa. Dei um puxão em Giles. ele em cima de mim. Deixei Giles deitado e voltei para fechar a porta do alçapão. Taylor. parei à porta e olhei para ele por um minuto para observar a respiração em seu peito e ter certeza de que estava tudo bem. Agora era mais fácil. mas foi forte demais e perdi o equilíbrio. Era a última coisa que eu precisava fazer. coloquei o ombro debaixo do dele e carreguei-o pelo resto da escada como ele me havia ajudado quando machuquei o tornozelo. não foi um grande tombo e não quebramos nada.

e minhas pernas enfraqueceram e tive medo de desmaiar. mas não consegui lembrar e quase a rasguei. o corpo sem o rosto zombeteiro. depois a fotografia. para que a bruxa ardesse como certamente arderia no inferno. esmagadora. ardeu nas chamas e tive que me afastar para não me queimar. Mas agora era tarde demais e disse a mim mesma para esquecer. Meus olhos doíam tanto de sono que mal conseguia focar a visão. Abaixei-me para pegar e vi que era uma fotografia. esfreguei os olhos e concentrei-me novamente no rosto da mulher e então eu vi. um pequeno bebê. Giles nunca saberia. pois tinha certeza de que. Pobre Giles. Busquei na lembrança. Vi a língua das chamas lamberem as beiradas. a sensação de uma lembrança que eu não podia alcançar. A parte de cima da foto queimou primeiro e o rosto da malvada escureceu e desapareceu.John Harding 181 Mas podia levantar suspeitas o fato de não tê-la levado. Tentei tirar a foto do fogo. Taylor. sem as linhas que o tempo gravara em seu rosto desde então. peguei o atiçador. lá estava novamente. Havia algo familiar naquela jovem mãe. e eu quase desejei não ter queimado a fotografia. mas com aquele mesmo olhar determinado. tropeçando como um bêbado no caminho. descobriria muito mais. Um jovem casal e. se tivesse tido a chance de examiná-la adequadamente. e eu não queria que restasse uma sombra de dúvida de que ela havia ido embora. É claro! Era a srta. no centro. frustrada com essa sensação. e então acabou. pois era apenas minha imaginação. . Coloquei-a debaixo do braço e desci. quando olhei para o que restava. abri o fogão. Na cozinha. como se eu já tivesse visto aquela foto antes. A lembrança perdida incomodou-me durante todo o caminho até o andar de cima. só que mais jovem. cansada além do suportável e vendo coisas que não existiam. Então era isso. mas era tarde demais. mexi de novo o fogo e estava prestes a jogar o livro nas chamas quando alguma coisa voou como uma borboleta até o chão. e fiquei olhando para a imagem sem conseguir entender o que via. Peguei a Bíblia e entreguei-a ao fogo. pois mal conseguia ficar acordada. era isso o que eu havia reconhecido. E então. onisciente. só que agora mais forte. Respirei aliviada. Balancei a cabeça. estava tudo explicado. algo na sua postura ou no vestido.A menina que não sabia ler .

no quarto da torre. Corri até o quarto da srta. Não estava ali. Comecei a relaxar novamente. Inclinei-me sobre ele. como se mesmo no sonho os meninos tivessem aversão natural pela água. caí na cama e peguei num sono profundo. o que poderia parecer estranho para Giles.John Harding 182 Quando cheguei ao meu quarto havia plena luz do dia. forte como se fosse a própria flor. mas não acordou. Assim. Taylor? Não era algo além do reino das possibilidades que alguém pudesse sugerir uma espiada na velha torre. Ele ainda dormia tranquilamente. mas então um punhal atravessou meu coração. se não o tivesse deixado cair. Senti o perfume. JohnHarding Estava colocando a bacia e o sabonete no lugar quando outro pen-samento me ocorreu e quase deixei cair o que tinha na mão. talvez? Como imputaria isso à srta. Coloquei um pouco de água na bacia e levei-a até o quarto de Giles. como o da cirurgia no dentista e.A menina que não sabia ler . Especialmente se a polícia estivesse envolvida. parabenizando-me. Cansada demais para me despir ou mesmo para puxar as cobertas. De repente senti uma mão em torno do meu pescoço agarrando-me por trás e outra cobrindo minha boca e meu nariz com um pano de forma que quase sufoquei. O pano tinha um cheiro forte e estranho. Taylor? Ou todos iriam simplesmente supor que tivesse algo a ver com ela? Ocorreu-me que. . pensando em voltar a dormir. O que tinha feito com o vidro de clorofórmio? Apalpei os bolsos. No fim ele cheirava a lírios. E se eles saíssem à procura da srta. Virei-me e fui até a torre. Ele fedia ao líquido. pois ninguém o encontraria ali. cobri-o com o sabonete e passei no rosto dele. E se eu o tivesse deixado cair na charrete? Ou em outro lugar. Ele se mexeu e sacudiu a cabeça.. estava a caminho do meu próprio quarto quando outro pensamento me ocorreu.. pois um homem como Had-leigh não deixaria de revirar uma única pedra. O clorofórmio! Que idiota eu tinha sido para cometer um erro tão simples! Saltei da cama e corri até o quarto de Giles. os estábulos. Peguei um pano. mas não tão estranho quanto clorofórmio. Taylor e encontrei um tablete de sabonete junto à bacia. Acordei e descobri que estava sozinha na cama. Levantei-me imediatamente. Suspirei aliviada. Tivera um pesadelo. Cheirava a lírio. então ainda estava onde eu o havia usado.

— Uma noite. Nessa hora.John Harding 183 Colocando a cabeça através do buraco do alçapão. — Sim. Quando a viram pela última vez estava embarcando em um trem para Nova York. um movimento atraiu meu olhar. tampei e atirei o mais longe que pude no lago. ficou no frio durante toda a noite. tinha que agir depressa. onde eu os havia deixado. Saí pela porta de trás e fui até o lago. Arranquei o rótulo do vidro. Desci pela porta do alçapão e corri escada abaixo. Nem se despediu de Giles. Pude ouvi-los tagarelando alegremente. mas podia acontecer uma busca antes que eu tivesse a chance de voltar. pois seria ainda pior se me pegassem com o vidro nas mãos. Pobre Bluebird. Era isso! Havia cuidado de tudo. pois olhei para a entrada e lá vinha a carruagem. Virei no corredor para a escada do fundo quando Meg e Mary surgiram no corredor abaixo. Era um risco que não ousava correr. pois precisava engolir para limpar qualquer dúvida da minha garganta. Subi para o quarto e peguei-os. enchi o vidro. empurrando-o até que caísse no abismo. Inclinei-me sobre a água. Não restava nada que pudesse me denunciar. Os criados estavam de volta! Fiquei indecisa. Entrei pela porta de trás quando os criados entravam pela frente. Quando viessem verificar por que não havíamos descido para tomar café. eu estaria dormindo tranquilamente em minha cama. a primeira coisa que vi foi o vidro. Voltei para a casa e no poço coloquei o pano no vão estreito entre duas placas de madeira. e depois o pano. 32 — Então. parece que ela se foi? Tomei um gole do meu chá. Deixou o cavalo e a charrete na estação de trem. Podia deixar o vidro ali. Não pude evitar pensar que isso ajudaria a srta. ela simplesmente foi embora. Taylor a dormir. . Hadleigh olhou-me tão longamente que fiquei desconfortável a ponto de ter que falar novamente. Não consegui evitar um sorriso.A menina que não sabia ler . rasguei-o em pedacinhos e atirei-os ao vento. Por outro lado. ela se foi.

Exceto pelo fato de não conseguir se lembrar do dia do acidente. Brad-ley espera que ela possa retomar suas obrigações em algumas semanas. Ele se virou e olhou para mim. depois de John Harding ter mentido a respeito de suas referências e tudo o mais. mas a última coisa que desejava era ver a srta. como se fosse de mim mesma. Grouse? Ela nada teve a ver com isso? — Ah. — Bem. talvez tenha sido por sua causa. — Sim.A menina que não sabia ler . Mostrei a ela sua carta.John Harding 184 Ele me encarou de novo longamente. eu estava com a srta. — Acho que estava errada em relação a isso. Não teve nada a ver com ela. ela está fazendo progressos. se fora. Então encolheu os ombros e colocou a xícara e o pires na bandeja do chá. Taylor quando isso aconteceu. Ele tomou outro gole de chá. O dr. Ele havia aparecido logo depois de ter voltado. — Pelo que sei. Senti-me estranha defendendo minha velha inimiga. levou sua xícara e pires até a janela e ficou olhan-do para fora. sim. Taylor. — Estranho que tenha ido dessa maneira — ele disse. Estávamos na saleta. Fazia quase um mês que a srta. é melhor eu ir. . então balançou a cabeça e tomou um gole do seu próprio chá. Estou feliz que tenha dado tudo certo. — E esse acidente da sra. se conseguisse lembrar. — Se conseguisse lembrar-se de alguma coisa. Talvez imaginasse que seria demitida de qualquer maneira. quem sabia que pedras ele poderia revolver? — Tenho certeza de que a sra.. — Por que acha que ela faria uma coisa dessas? — Bem. Eu o acompanhei até a porta. senhor. especialmente de uma acusação que eu sabia ser verdadeira. Lá tudo estava coberto de branco. Inclinei a cabeça. — Sem Giles. Grouse lhe diria o mesmo. Ela se foi logo depois disso. o mesmo olhar penetrante. Estávamos em dezembro agora e tínhamos tido muita neve. não. senhor. Eu ri. — Bem. Olhou-me desconfiado.. Ele ficou em pé. senhor. está praticamente igual ao que era antes. Taylor sendo responsabilizada por aquilo e Hadleigh saindo à procura dela.

é o fracasso do tratamento que faz com que tudo pareça pior para ele. Agora diz que o experimento falhou. com Theo e ele juntos em um castelo. — Não é só isso. — Meu Deus. Hadleigh olhou-me de alto a baixo. Grouse se recuperar e escrever ao meu tio sobre o que aconteceu. quebrou. e a doença talvez tenha que esperar muitos anos por um tratamento como o que ele acreditava ter encontrado. sim. Bradley acreditava ter resolvido o problema da asma com aquele spray que inventou. Ainda era meu esconderijo especial. Está toda de preto. e fui atrás dele pelo salão e segurei a porta da frente. — Ora. senhor. — O jovem sr. — Bem. sim. Ele se virou para a porta e saiu. senhor. especialmente o dr. pois Theo nem tinha vindo nos ver naquele dia. — Asma. pois não salvou Theo. — O que aconteceu com o espelho? Segui seu olhar até a moldura vazia. — Ah. Bradley. De repente. graças ao senhor. — Agora é que reparei. imagino. Eu o vi caminhar até o cavalo. Um mal terrível. essa é uma maneira de ver as coisas. Ele me contou do sonho que havia tido. pois quando Giles acordou de seu longo sono naquele dia não se lembrava de ter estado lá. Ele parou na entrada e colocou o chapéu e o casaco. um médico detesta perder um paciente. ele era tão jovem. Estamos todos consternados por ele. Fechei a porta e saí pelo longo corredor e poucos minutos depois estava em minha torre. — Sim. Ele encolheu os ombros e saiu.John Harding 185 — Sim. mas eu disse que aquilo era impossível. então a morte do jovem é uma tragédia dupla? — Pelo menos agora o pobre Theo está livre do seu sofrimento. senhor. eu acho. Ele passou o dedo pela beirada do chapéu. — Ah. Quando a sra. Van Hoosier. O dr. Disse que parecia tão real que achava que devia ter sido verdade. senhor.A menina que não sabia ler . mas no último momento ele se virou e saiu caminhando para a lateral da casa. Ele pareceu chocado. — E vocês terão uma nova preceptora. e depois .

isso não me afligia mais. E prometi a mim mesma que ninguém tiraria Giles dali. de qualquer forma. porque de alguma maneira eu havia prendido sua alma para sempre. . tanto que quem não conhecesse o lugar nem sequer adivinharia que ali havia um lago. pois agora sabia seu peso. Whitaker tinha desaparecido. Passou pelo velho poço sem sequer olhar e desapareceu em algum ponto abaixo de mim. uma gralha preta no meio da neve branca.John Harding 186 Giles disse que desejava que tivesse sido verdade porque aquele foi o dia em Theo morrera e ele gostaria muito de tê-lo visto em seu último dia de vida. cavalo e cavaleiro fundindo-se em uma forma escura. E claro que agora estava congelado e sobre ele havia várias camadas de neve. Com sorte. é claro. e ficou lá durante um bom tempo. e então virou o cavalo. Lançou um último olhar na direção da casa. levaria algum tempo até encontrarem outra professora. Imaginei se seria a Whitaker de novo e senti que não.A menina que não sabia ler . até que aparecesse. Hadleigh sabia. Além disso. Hadleigh virou-se e afastou-se do lago. As coisas estavam como eram quando eram melhores. Fiquei imaginando como seria nossa nova preceptora. Contornou por trás e então começou a descer para o lago. e até lá seria como devia ser. tinha Giles para mim. Ele atravessou a neve até seu cavalo e montou. Olhei pela janela e vi Hadleigh andando pela lateral da casa. Sentei-me em minha torre e fiquei olhando para eles enquanto desciam pela entrada. tinha minha torre e. Abruptamente. Giles e eu juntos. para o lugar em que a srta. Atravessei para o outro lado da torre e o vi surgir na frente da casa. olhando para a água. Nada perturbaria isso agora.