O PAPEL DAS TECNOLOGIAS ASSISTIVAS EM MEIO AO PROCESSO DE INCLUSÃO ESCOLAR DE ALUNOS PORTADORES DE NECESSIDADES EDUCATIVAS ESPECIAIS

Alice Maria Figueira Reis da Costa1
RESUMO A inclusão social / digital de alunos com necessidades educativas especiais em ambiente escolar rico em recursos pedagógicos é objeto de estudo dessa pesquisa. Esse tema, desafiador no cenário da educação nacional, tem sido examinado nos últimos anos por diversos pesquisadores de Comunicação Alternativa. Nessa perspectiva, encontravam-se os avanços tecnológicos que passaram a oferecer Tecnologias Assistivas, tentando adaptar de maneira adequada às necessidades físicas dos alunos através da mediação continua dos professores e das próprias tecnologias. Tal contexto faz com que esta pesquisa bibliográfica identifique e analise a evolução dos paradigmas em Educação Especial, os limites e as possibilidades das ações pedagógicas inclusivas e exclusivas praticadas em ambientes de aprendizagem, os aspectos psicossociais da inclusão social/digital. Os referenciais teóricos utilizados se orientam pelos estudos da abordagem sóciointeracionista promovendo o desenvolvimento de habilidades e competências potencialmente existente em cada indivíduo. PALAVRAS-CHAVE: tecnologias assistivas, educação especial, metacognição.

INTRODUÇÃO A Conferência Mundial de Educação Especial ocorrida em Salamanca, Espanha, em 1994 sobre necessidades educativas especiais: acesso e qualidade, que culminou com a Declaração de Salamanca e suas Linhas de Ação, cujo princípio fundamental é “[...] de que as escolas devem acolher todas as crianças independentemente de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras” (COSTA, 2007:38) e entre outras questões contempla a formação e capacitação de profissionais da área de educação. Esta trouxe com a perspectiva da educação inclusiva a apropriação dos avanços tecnológicos como potentes recursos pedagógicos mediadores de novas formas de ensinar e aprender. A construção do conhecimento em espaços de aprendizagem O trabalho de conhecimento da realidade cotidiana do aluno com necessidades educacionais especiais (NEEs) durante o processo de ensino e aprendizagem permite ao professor descobrir as possibilidades e necessidades mais significativas e relevantes para o seu aluno. Na vida de crianças com NEEs a ruptura entre o envolvimento familiar e o envolvimento social representa uma situação crítica que é marcada com o ingresso na escola, por isto, é
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Especialista em Educação Especia, Professora Tutora Presencial da Fundação CECIERJ/Consórcio CEDERJ (UERJ). E-mail: alicemaria.costa@yahoo.com.br.
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importante que a criança entre na escola o mais cedo possível para que ela possa receber as estimulações adequadas ao seu desenvolvimento físico, psíquico e emocional. Nesta perspectiva de oferecer uma diversidade de estímulos Sistema Nervoso Central (SNC) com o intuito de propiciar sinapses de melhor qualidade para o desenvolvimento cognitivo do aprendiz. Mantoan (1997) afirma que:
[...] se uma criança não tem quem lhe faça perguntas e a quem pedir ou fornecer explicações, se não tem oportunidade de relatar suas experiências passadas e de pensar sobre as futuras, enfim, se não está habituada a estabelecer trocas intelectuais que a prepare para se adaptar às exigências de um mundo que é intermediado pela linguagem e não mais, exclusivamente pela ação, ela tem grandes possibilidades de se tornar deficiente e de ser confundida no lar, na escola, na sociedade, como sendo um deficiente real (MANTOAN, 1997).

Para além desta visão interacionista da aprendizagem, Vygotsky (1994) considera que as respostas da criança ao mundo são proporcionadas por sua herança biológica, devido à constante interação da criança com adultos desde o seu nascimento a fim de incorporá-las à sua cultura e a seu corpus de significados e condutas, historicamente acumuladas. A partir da aquisição da linguagem o homem consegue se organizar e pensar, sob o enfoque desta visão do outro social no desenvolvimento dos indivíduos cristaliza-se o conceito de zona de desenvolvimento proximal (ZDP). Dentro deste paradigma, consideram-se as formas pelas quais as pessoas lidam com os estímulos ambientais, organizam dados, sentem e resolvem problemas, adquirem conceitos e empregam símbolos verbais. Sobre essa visão Lévy (1993) confirma o corpo como sendo uma imensa rede de interfaces. Com indivíduos que apresentam algum comprometimento das funções cognitivas os estudos de Capovilla (1998) mostram possíveis intervenções como “Os exercícios são desenhados de modo a requer, de um modo gradual, sistemático e progressivo, o envolvimento cada vez mais intenso e compreensivo do sistema cognitivo que se encontra comprometido”. A identidade do professor frente às novas tecnologias Na perspectiva da educação inclusiva o Plano de Desenvolvimento da Educação (Lei Nº. 10172 de 09/01/2001) nacional estabelece a importância e a relevância em se capacitar os profissionais da Educação, que deve ser incentivado com a ampliação de vagas nos cursos superiores. O papel do professor-mediador-pesquisador é fundamental na capacitação de sua própria classe, pois o educador detém uma proximidade com o sujeito que o permite analisar o contexto que se funde ao saber historiográfico trazendo à tona “demonstração de que há problemas onde ninguém vê problema algum”, segundo Lucien Febvre (1986), onde esta forma de pensar científico passa a implicar a análise concreta do espaço e do tempo. Qualquer atividade esta imbricada de uma multiplicidade de herança / tradições plurais do passado que se expressam num tempo presente através de uma hermenêutica hipotética que visa à compreensão duma diferença de épocas que revela a diversidade de ser e estar humano. Sobre a formação de professores Senna (2004) considera que:
[...] se por um lado, Vygotsky prenunciou um espaço de desenvolvimento em que as pluralidades podem interagir, por outro, os agentes de inclusão escolar necessitam reorientar suas práticas, não para novas metodologias de ensino, mas sim para novas metodologias de produção de
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conhecimento acadêmico-científico, estas sim determinantes de uma verdadeira possibilidade de diálogo com as diferenças culturais (SENNA, 2004:58).

O uso da tecnologia computacional em sala de aula inclusiva A adoção de diferentes abordagens de aprendizagem vem sendo empregadas no sentido de promover a emancipação e autonomia de pessoas com NEEs no exercício pleno da cidadania, dentre estas a abordagem construcionista segundo Morais (1999):
[...] desloca-se do paradigma da transmissão da informação, como foram concebidas as máquinas de ensinar, para uma abordagem orientada para os processos comunicacionais reflexivos e de aprendizagem colaborativa que acontecem com e através da tecnologia, atuando como uma expansão da atividade mental do aluno (MORAIS et al., 1999 apud GOMES, 2002:128).

No que tange as Tecnologias Assistivas ou Ajudas Técnicas o Comitê de Ajudas Técnicas da Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (CORDE) deliberou que:
Tecnologia Assistiva é uma área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e participação, de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social. (Comitê de Ajudas Técnicas, CORDE/SEDH/PR, 2007).

Outros recursos utilizados para codificar e transmitir uma mensagem, sem requerer habilidade de escrita ou vocalização constituem os “meios alternativos e facilitadores de comunicação” (grifos do autor) e sobre estes Capovilla (1997) conceitua a Comunicação Alternativa como “uma área da prática clínica que tenta compensar de modo temporário, ou permanente padrões de incapacidades ou de perturbações exibidos por pessoas com severos distúrbios de comunicação expressiva, da fala ou da escrita”. O educador na tentativa de facilitar o acesso do seu aluno em especial desenvolve vários artefatos e artifícios para adaptá-lo ergonomicamente, como um lápis com empunhadura mais grossa para facilitar a preensão até a sofisticação dos softwares. Estudos realizados por Galvão Filho e Damasceno (1993), no Programa Informática, Educação e Necessidades Especiais: o aluno construindo sua autonomia (InfoEsp), em Salvador / Bahia (www.infoesp.net), detalhou as Tecnologias Assistivas utilizadas para o uso do computador e da Internet em ambiente de aprendizagem computacional com a finalidade de possibilitar a interação, no computador, aos alunos com diferentes graus de comprometimento motor, sensorial e / ou de comunicação e linguagem. Novas possibilidades surgem para aumentar as situações de inclusão de pessoas com NEEs proporcionando um desenvolvimento mais adequado a cada faixa etária e a cada necessidade. O melhor uso das habilidades cognitivas e sócio-afetiva promove a autonomia dos PNEEs perante a sociedade, aumenta a inserção no mercado de trabalho, aumenta a privacidade e independência em diversos ambientes, ou seja, proporciona melhores condições de vida, inclusive para os familiares e profissionais de seu convívio.

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Conclusões Finais Neste breve estudo bibliográfico foi verificada a necessidade primordial que estimulações adequadas ocorram desde o nascimento da criança, para que o desenvolvimento de suas percepções visuais, sensório-motoras e cognitivas seja estimulado ainda no período crítico do desenvolvimento infantil. Considerando a importância desta fase a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei Nº. 9394/96 define o atendimento escolar desde a educação infantil. Com a perpetuação e evolução de tantos aparatos tecnológicos mediando à convivência em sociedade e também na escola, professores-pesquisadores criam, aprimoram e inovam cada vez mais em relação aos instrumentos de mediação pedagógica com o objetivo de contribuir no desenvolvimento integral e, sobretudo cognitivo de alunos com NEEs.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BELLONI, M. L.; GOMES, Nilza Godoy.; CERNY, R. Z.; SUBTIL, M. J. ; CAMPOS, N. P.; PINTO, A. C. A formação na sociedade do espetáculo. São Paulo: LOYOLA, 2002. v. 1. 240 p. BRASIL. Declaração de Salamanca e Linha de Ação sobre Necessidades Educativas Especiais. Brasília/DF: CORDE, 1994. BRASIL. Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. Resolução CNE/CEB nº 2/01. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/resolucaocne.pdf> Acesso em: 28 dez. 2008. CAPOVILLA, Fernando César (org.). Ciência cognitiva: teoria, pesquisa e aplicação - V.1, n.1 jan/jun.1997. - São Paulo, USP-IP, 1997, p.31- 32. COSTA, Valdelúcia Alves da. Os processos de inclusão dos alunos com necessidades educativas especiais: políticas e sistemas. Rio de Janeiro: UNIRIO/CEAD, 2007. 124p.:il. FEBVRE, L. Combates pela história. Trad. Leonor Martinho Simões e Gisela Moniz. Lisboa: Editorial Presença, 1986. GALVÃO FILHO, T. A.; DAMASCENO, Luciana Lopes. Tecnologias Assistivas para Autonomia do Aluno com Necessidades Educacionais Especiais. Revista Inclusão, Brasília: MEC, v. 2, n. 02, p. 25-32, 2006. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/revistainclusao2.pdf>. Acesso em: 05 jan. 2009. GLAT, R; FERNANDES, E. “Da educação segregada à educação inclusiva: uma breve reflexão sobre os paradigmas educacionais no contexto da educação especial brasileira”. In: Revista Inclusão. Brasíli a: Secretaria de Educação Especial; ano 1, Nº. 1, outubro, 2005. MANTOAN, M. T. É. A integração de pessoas com deficiência: contribuições para uma reflexão sobre o tema, Editora Senac, São Paulo, 1997. PIERRE, LÉVY. As tecnologias da inteligência; trad. Carlos Irineu da Costa. – Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993, 208p. (Coleção TRANS). SENNA, L A In: Revista Espaço. Ns. 22 (2004) pp.: 53-58. Rio de Janeiro: INES. ISSN 0103/7668. De Vygotsky a Morin: entre dois fundamentos da Educação Inclusiva. Disponível em: < http://www.senna.pro.br/biblioteca.htm>>. Acesso em: 23 fev. 2009. VYGOTSKY. A linguagem e o outro no espaço escolar. 3ª Ed. Campinas: Papirus, 1994.

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