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FINAL DE EXPEDIENTE

Conto

1
Olhei para o relógio de ponto na outra extremidade
e vi que já se passava das dezenove horas. Era o
único funcionário que ainda estava na gráfica, além do
vigia. Desliguei a máquina em que trabalhava,
comecei a limpeza necessária antes de me lavar.
Impressor gráfico tem que lidar com tintas e solventes
que cheiram mal e sujam as mãos e os braços, sem
falar na graxa usada todos os dias para lubrificar a
impressora off-set; dá gastura, ansiedade. Essa é a
parte ruim do meu trabalho.
Sou intolerante com a sujeira, confesso. Odeio
tudo que cheira mal, no sentido literal e figurado,
talvez por causa desse sentimento, vivo solitário.
Contudo, sou um solitário por opção acautelada.
Tenho os meus motivos, uma atividade paralela...

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Goiânia, Goiás, Brazil - 1996,
Morava antes em companhia de uma tia, a tia
Antônia, que vivia me obrigando a lhe fazer certos
favores em troca do dinheiro para a faculdade e outras
despesas que o meu salário de meio expediente como
empacotador não cobria. E ela cheirava mal, o seu
quarto fedia de tanto perfume estrangeiro, naftalina e
mofo.
Meus pais nem cheguei a conhecer. Fui criado
pela minha avó numa palafita em Salvador. Quando
ela morreu, Tia Antônia me tirou de lá e passou a
cuidar de mim, só que eu já estava com dezesseis
anos. A Tia não era rica, mas também não era pobre.
O que era mesmo, além de vaidosa e bem enxuta
para a idade, era uma ninfomania sádica.
Fui um achado para ela e, apesar do meu nojo,
me submetia aos seus caprichos por não ter mais
ninguém nesse mundo a quem recorrer e não queria
voltar a ter uma vida miserável, como àquela no meio
do mangue, com o esgoto a céu aberto, a podridão
que sempre conheci, desde que me entendi por gente,
morando com a minha avó. Mas isso é passado.
Hoje moro numa casa só minha! Faço o que
quero, do jeito que quero, sempre atento à limpeza, ao
asseio. Tenho uma vida calma, tranqüila, mas me
aborreço muito com o lixo social, o lixo político, o lixo
neo-pentecostal... O mundo virou uma enorme e
fedida lixeira. Assim, procuro agir, ajudante de limpeza
no que me cabe e, nestas ocasiões esse viver pacato
transmuta-se em agitação.
Eu penso muito, o tempo todo, de forma a não
ficar agastado, sofrendo com a imundice que é essa
vida nesse mundo esquecido por Deus. E penso no
que é minha vida, nas coisas que já fiz, nas que tenho
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o dever sagrado de fazer, num sentimento de repulsa
cotidiano que me agasta e me arrasta para o agir; só
desejo um lugar mais limpo, mais asseado para viver
com meus semelhantes.
Impressora lavada e preparada para o dia de
amanhã! Agora vou direto ao banheiro. Esfrego as
mãos com bucha vegetal, bastante sabão e enxáguo
três vezes. É sempre assim, dia após dia. E não
adianta: nunca vou me acostumar. Só tolero por
necessidade de trabalhar, afinal o homem sem
trabalho não pode ser alguém honrado.

2
Hoje pretendo fazer mais uma tarefa de assepsia,
perto de onde moro e estou certo de que vai
transcorrer tudo bem, como nos cinco anteriores.
Estou calmo e preparado. Minha imagem no espelho
do armário é a de um sujeito que toma iniciativas, que
faz a sua parte para tornar a vida das pessoas de bem
um pouco melhor. Penteio-me, abro a torneira e lavo
mais uma vez as mãos e os braços. Ao chegar em
casa tomarei um banho completo.
A água escorrendo abundantemente da torneira,
por associação, me dá vontade de urinar. Ao me
aproximar do vaso sanitário o coração dispara, um frio
percorre todo o meu corpo, seguido de um calor nas
faces e um pulo para trás. Tudo acontece numa fração
de segundos.
Tamanho susto, desses que até a visão fica turva,
foi por causa do que vi: uma enorme ratazana
tentando subir pelas paredes do vaso. Animal nojento!
Nojento e horripilante; feio mesmo! Os pelos grudados
e eriçados, encardido e com aquela cara medonha,
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dentes à mostra, repuxando a narina... Acho que ele
também se assustou com a minha súbita aparição no
seu campo visual.
E agora? Olho para as minhas mãos trêmulas
sentindo a boca seca e a respiração curta... Tento me
acalmar, raciocinar. Puta que pariu! Que susto! Mas o
desgraçado desse bicho vai me pagar caro! Animal
nojento, sujo... Só podia viver mesmo no esgoto!
Encostado na pia e sem tirar os olhos do vaso
sanitário, fico imaginando como um coisa-ruim desses
consegue passar pelos canos de esgoto; deve ter bem
uns trinta centímetros de comprimento, quase do
tamanho de um gato!...
O começo de vertigem que senti já se passou e os
batimentos cardíacos começam a voltar ao normal. O
que vou fazer?... Penso numa maneira de acabar com
esse miserável de uma forma merecida, sem piedade,
um aniquilamento animalesco. É o mínimo que
merece, o miserável!... Aqueles dentes afiados, a boca
repuxando-se e o som arranhado, meio sibilante e
demoníaco, ainda estão na minha cabeça.
Devagar me desencosto da pia e sinto as pernas
ainda um pouco bambas. Procuro sair sem fazer
barulho e vou até à bancada que fica próxima à
máquina em que trabalho. Ali estão as tintas e os
solventes, ferramentas diversas, chapas off-sets e
estopas... Tudo que necessito para executar o meu
serviço de impressor.
A gráfica está silenciosa e vazia, sem nenhuma
alma viva. Também pudera, já são mais se sete horas
da noite. Sou sempre o último a sair, por não ter a
pressa dos compromissados com a cerveja e a
cachaça. A maioria dos que aqui trabalham, apesar de
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serem pais de família, vivem na farra, gastando o
pouco que ganham e jogando conversa fora. Mas,
nem sei por que me lembro desse fato; é a vida é
deles, que façam dela o que quiserem, contanto que
não se intrometam comigo, que não me aporrinhem.
Cada um sabe aonde o sapato lhe aperta.
De posse de uma lata de solvente, vou à bancada
do Nestor pegar uma caixa de fósforos emprestada.
Volto ao banheiro e me aproximo devagar do vaso
sanitário, antecipando a visão horripilante daquela
ratazana. O silêncio sepulcral da gráfica a esta hora
da noite só era quebrado pelos meus passos. Sem
perceber, deixei que a minha sombra, provocada pela
fraca luz amarelada, cobrisse o vaso. Joguei-me para
o lado, com uma sensação de idiotice, por denunciar-
me tão abertamente. Se bem que ela já sabia da
minha presença, pelo olfato, pelo barulho dos meus
passos... Respirei fundo e fui em frente.
Ela estava lá, da maneira que vira da primeira vez,
lutando tenazmente para sair do vaso liso e
escorregadio. Suas sujas e horripilantes garras não
encontravam apoio na louça, mas ela não desistia,
nadando com as patas traseiras, com metade do
corpo submerso. Ao lançar seus olhos sobre mim,
arreganhou o focinho e repuxando os lábios, mostrou
seus dentes afiados novamente e soltou aquele som
tenebroso e eu vi a fúria de um satanás. Estremeci e
comecei a suar frio. Ela estava disposta a me
enfrentar e o faria com certeza se não estivesse em
desvantagem. Não havia intimidação em seus
pequenos olhos, ao contrário de mim.
Analisei se havia a mínima chance dela escapar lá
de dentro, saltando ou coisa parecida... Não, a sinistra

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ratazana só teria um jeito de escapulir: voltar pela
passagem de onde veio, ou seja, o cano do esgoto.

3
Alguém deve imaginar que sou um fraco, cheio de
frescura... Não, ao contrário, sou uma pessoa de porte
físico franzino, mas sou forte, determinado e
destemido. Tenho minhas convicções e não aceito
cabresto de ninguém. A situação com esse rato de
esgoto é inusitada, é muito nojento esse bicho; eu,
que tenho desprezo por tudo que lembra sujeira,
chego ao extremo da fobia em episódios assim.
Foi como no caso do mendigo que vivia
incomodando a vizinhança onde eu moro; sujo e
fedido, se recusava a tomar banho. Passar ao lado
dele se tornou um tormento e, aí, não tive outra opção
senão fazer uma limpeza geral, visando o bem da
comunidade.
Planejei tudo com cuidado. Perto de meia-noite,
com a rua vazia, vi que ele dormia na calçada em
frente à padaria. Fui até lá e o acordei. Falei que tinha
feito um ensopado de peixe e o convidei para comer
um pouco. Ele se animou rapidinho e me seguiu. Pedi
para não fazer barulho, pois já era tarde e a
vizinhança toda estava dormindo.
O ensopado estava no capricho; coloquei uma
mesa no quintal, duas cadeiras e o servi ali, sob uma
fraca luz pendurada na jaqueira velha. Eu sentia
engulhos, o estômago revirava e o suor frio
contrastava com a face ardente. Era a minha cota de
sacrifício para o benefício comum.

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Ele comeu como nunca na vida, posso apostar. Ao
final arrotou satisfeito e um nojo maior se apossou de
mim. Agradeceu-me com os olhos lacrimejantes
enquanto assuava o nariz na roupa velha e encardida.
Cheguei perto dele para pegar o prato e deixei cair a
colher que ele, imediatamente, abaixou-se para pegar.
Desferi um golpe certeiro em sua cabeça e ouvi o som
de ossos se quebrando. Com o martelo na mão direita,
fiquei observando ele cair duro e secamente no chão
de terra batida.
Sem perder tempo, envolvi minhas mãos em duas
sacolas plásticas e agarrando-o pelos tornozelos,
arrastei seu corpo inerte até uma vala cavada no
fundo do quintal. Ficou um rastro de sangue que
jorrara de seu nariz e da sua boca desdentada.
Enterrei-o. No lugar, hoje, existe uma pequena
plantação de couve e cebolinha.
A rua ficou mais limpa. Mas existe muita sujeira
nesse mundo. A desgraça e a miséria o habitam e nele
circulam como cavaleiros do Apocalipse, num galope
massacrante, tenaz. Isso é o que mais me atormenta,
pois é injusto, é injustificável e ainda querem nos
consolar com a estapafúrdia idéia de um Deus justo e
piedoso... À merda com estas embromações! Mas o
pior é que tem gente, e muita gente, que acredita no
lero-lero das pregações evangélicas. Meu Evangelho é
outro, refuto as incoerências bíblicas e me apoio em
princípios que eu mesmo estabeleço. Meu Evangelho
são minhas idéias, o modo como enxergo a vida a
partir das minhas intuições e sinais que me aparecem,
vez ou outra. É impossível limpar tudo? Sim, o mundo
é grande, mas faço a minha parte.
E agora chegou essa ratazana infeliz,
atrapalhando meus planos. Se bem que tenho tempo
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de dar cabo dela e ainda fazer a outra limpeza, essa já
programada há dias. Voltei minhas atenções para ela
e tratei de deixar de lado essas lembranças, bem
como minha ojeriza com o sujo, o imundo.
Aproximei um pouco mais e a encarei. Na mão
atrás das costas segurava a lata de solvente. Além de
porca e horrenda, a ratazana era burra. Insistia em
subir por uma superfície lisa como a louça. E
continuava a me mostrar os dentes afiados e muito
grandes para o seu tamanho. Sorri, involuntariamente,
com desprezo antes de despejar o líquido sobre ela.
Debateu-se como um possuído pelo demônio,
soltando sons ferozes e rodopiando... Era meu
momento de glória!
Ao colocar a lata na pia, cuidei de pegar logo o
fósforo e acender. Mirei bem e o soltei sobre o animal
enfurecido, encharcado do líquido inflamável. Só não
contava com um fraco vento que redirecionou o palito
acesso para a borda do vaso sanitário. As chamas se
espalharam pelos respingos que haviam caído ali e,
surpreso, assisti o imenso rato sumir no buraco abaixo
da linha d’água, numa agilidade espantosa. A longa
cauda demorou a desaparecer, sinuosa como uma
cobra. Joguei-me sobre a válvula de descarga para
apagar o fogo antes que toda a louça explodisse com
o calor. Foi uma atitude instintiva que deu resultado.
Fiquei naquela posição ridícula, o corpo curvado
sobre o sanitário, apoiado com as mãos na válvula,
observando a água escoar. Não estava acreditando
que eu fora tão idiota, enganado por uma maldita
ratazana de esgoto... Mas foi o que aconteceu. Como
vingança e de uma maneira tão infantil quanto
necessária, esvaziei a bexiga ali, como se estivesse
urinando naquele roedor miserável.
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Voltei-me para a pia e lavei as mãos sem coragem
de me olhar no espelho. Em seguida encostei-me à
parede azulejada, procurando recuperar o
autocontrole, retomar o curso dos acontecimentos.
Entretanto estava furioso; furioso e contido – uma
combinação perigosa.

4
No meu primeiro trabalho de limpeza, ao terminá-
lo, senti uma euforia interna avassaladora, como se
houvesse um coro de mil anjos cantando para mim.
Lembro bem, nunca esqueci. Sentara-me na varanda
e de lá observava o pequeno monte clareado só pela
luz da lua. Rezei uma “Salve-Rainha” para o infeliz do
mendigo e naquele momento eu era todo paz. E foi
dessa paz que nasceu, aos poucos, uma excitação de
vida, de um ser pleno, capaz de remover o sujo, o
nefasto, dando fim ao sofrimento de uma existência
infeliz e um merecido descanso final. Impelido por
aquele estado de beatitude, fui até onde o tinha
enterrado e me masturbei num frenesi de sensações
psicodélicas, gozando abundantemente, regando com
meu esperma a terra vermelha, recém remexida.
Dormi muito pouco naquela noite. Vi diante de
mim um mundo de possibilidades assépticas. Andei
pela casa a esmo, não me continha de felicidade. E
chorei, depois. Chorei bastante, não sei se de alegria
ou de tristeza, mas fora um chorar profundo, tão
profundo quanto reparador.
A bem da verdade, o mendigo não foi a primeira
tarefa. Esta esquecendo da tia Antônia. Tudo começou
mesmo foi com ela. Um certo dia, assim do nada,
percebi que já estava de bom tamanho a sua vida.
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Havia chegado ao limite da tolerância e da
repugnância. Dei um jeito e acabei de vez com a
submissão, com aquela relação nojenta e, até chorei
no seu velório.
Foi tudo muito bem feito, uma obra de mestre para
um iniciante. A polícia jura que foi latrocínio. Para mim,
tudo bem, não esperava por menos. Fiquei com uns
trocados que ela tinha guardado no banco e com uma
bela casa. Larguei a faculdade, fiz um curso técnico e
hoje trabalho aqui, como impressor, sem
preocupações financeiras. O pouco que ganho é
suficiente, já que não sou consumista.
Subitamente me lembro que tenho um serviço
importante, ainda hoje. E não posso ser fraco, não
tenho o direito de me submeter aos pequenos
percalços que surgem à minha frente. Ouço a voz que
me diz, “confio na sua capacidade, por isso o designei
para as tarefas mais árduas, sei que não vai me
decepcionar... Se a tarefa é penosa, a recompensa é
um paraíso inigualável... Vai, meu rapaz, cumpra sua
tarefa; o que tem que ser realizado, o será”. Sim,
tenho compromissos com o que está acima de mim.
Eu sou o escolhido e vou honrar essa dádiva!

5
Olho-me no espelho com o pensamento no meu
trabalho de logo mais. Esquecera-me da ratazana.
Porém, um barulho que veio de lá, do vaso sanitário,
desviou minha concentração. Não pode ser! Olho e
vejo que é... A miserável voltou! Maldita ratazana!
Desgraçada!
Sem muito pensar, pego o rodo e viro o cabo para
baixo e desço com todas as minhas forças sobre ela,
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para esmagar, triturar! Erro... Tento novamente e nada
de acertar esse demônio que veio para infernizar meu
início de noite! Miro bem, desta vez, com calma e
ensaio verificando se está no rumo do seu corpo
gosmento. Está. Conto mentalmente até três e...
Aonde ela foi? Miserável, filha da puta! Fugiu
novamente! A fúria renasce, mais forte e incontrolável,
tomando conta de cada poro do meu corpo. Penso em
arrancar o vaso sanitário, ir atrás, nem que tenha que
me transformar numa outra ratazana!
Coloco a ponta do cabo do rodo na abertura por
onde aquele infeliz veio, tapando-a parcialmente; o
restante do cabo fica apoiado na borda da louça.
A minha fúria é avassaladora, sem freios. Quase
enlouquecido, tiro toda minha roupa e abro as
torneiras e os dois chuveiros. Deixo que a água
transborde e começo a esfregar o chão, as paredes...
Tenho que limpar o banheiro, retirar todas as
manchas, esfrego incansavelmente, com uma escova,
com as mãos, busco estopas e ensabôo cada canto.
Esfrego-me também, o corpo inteiro e, quando me
faltam as forças, deito-me no piso molhado e deixo
que as lágrimas escoem de meus olhos para se juntar
as poças próximas à minha cabeça. Encolho-me em
posição fetal num estado de angústia inimaginável. O
que eu fiz para merecer isto? Não tenho sido bom o
suficiente com todos, com o meu mundo? O que mais
posso fazer que não tenha feito? É muita sujeira
espalhada por aí, Senhor... Não dou conta de tudo!
Não dou conta... Diz-me, o que eu faço? Diz-me!...
Não me abandone, fale o que devo fazer... Sinto que
começo a pegar no sono... Não posso...

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6
Sonho com os lindos trabalhos que fiz depois
daquele do mendigo. O segundo (ou terceiro?), como
fui aconselhado, deu-se com um traficante de drogas.
Esse, sim, causou mais prazer do que qualquer outro.
O imundo marginal apareceu de repente, do nada e
entrou em minha casa.
Estava fugindo de uma batida policial e pulou no
meu quintal. Como deixo a porta da cozinha sempre
aberta, ele entrou sem fazer barulho e levei um baita
susto ao vê-lo apontando uma arma para mim, com o
dedo na boca pedindo silêncio. Estava distraído, lendo
uma revista masculina. Ele me perguntou se estava
sozinho e depois disse que não ia fazer nada comigo,
que eu ficasse tranqüilo, estava só dando um tempo
até os “home vazá”.
“Eu te trouxe um trabalho grande e honrado...
Faça-o”. A voz me veio à mente e me preparei para
executar a tarefa, mesmo com o coração aos pulos.
Disse ao traficante que podia ficar sossegado, pois
tinha birra com polícia, também e seria um prazer
ajudá-lo a escapar das garras daqueles macacos.
Falei meu nome e ele disse se chamar Mirim. Nessas
horas sinto-me capaz de raciocinar com precisão
milimétrica. É como se uma inteligência superior se
apossasse do meu corpo.
Ofereci um refrescante suco de maracujá e ele
pediu-me uma bebida forte... Eu não tinha, detesto
bebida alcoólica! Desculpei-me e ele, sem cerimônia,
começou a enrolar um cigarro de maconha. Falei que
iria fazer um ensopado de peixe para o jantar; ele
aprovou. Ficou me vigiando, mas logo se acalmou e
sentou-se na varanda enquanto eu terminava o jantar.
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Ele comeu tudo. Devia estar na maior larica! Fui
lavar as vasilhas enquanto Mirim se instalou na minha
cadeira de fio trançado, confortável, aonde me sentava
para contemplar a noite... Aí... Sinto uma dor, mas é
estranho... Dor em sonho? Alguma coisa me mordeu,
mas o sonho não mostra... Estou mesmo dormindo?
Lembro... Como arde meu pescoço... Lembro que
coloquei um disco d e música pop no micro-system e
esperei. Havia socado uma cartela inteira de Rivotril
no amassador de alho e botado no fundo do seu prato,
colocando o ensopado por cima. Meia hora depois ele
estava apagado, literalmente. Concentrei-me à espera
de uma ordem sobre como deveria proceder. Não
demorou e ela veio. Mirim era a pior das pragas e não
merecia nenhum tipo de misericórdia.
Sonho estranho... Dói muito... A perna esquerda, o
pescoço... Não vou dar atenção à dor. Quero contar
como terminei essa minha obra-prima da higienização
social...
Fui ao fundo do quintal e cavei. Uma hora depois,
achei que o buraco estava numa profundidade boa.
Arrastei o traficante pelas axilas e o coloquei dentro da
cova. Comecei a jogar terra em cima, ferozmente e
quando seu rosto começou a ser coberto ele se
remexeu. Joguei mais e mais, incansavelmente até
completar o serviço. Enterrado vivo, dormindo, mas
vivo. No lugar existe outro canteiro, com saudáveis
hortelãs e um pé de boldo. Às vezes é bom tomar um
chá para ajudar na digestão... Mais doloridas
mordidas, picadas ou o que será? Um sonho bom que
virou pesadelo? Esquece as dores, esse sofrimento...
Esforço-me para não cair na armadilha do pesadelo...

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Já o penúltimo serviço foi mais complicado. Quero
narrá-lo, nesse meu sonho bom... Mas esse pesadelo
de dores... Foi com uma miserável puta que... Está
meio esquisita, toda essa dor... Até no rosto... E como
dói! É real ou é parte do sonho? Engraçado, parte de
minha mente está desperta, outra parte se recusa a
acordar! Onde estou? Essa dor, novamente! Que
confusão é essa em minha cabeça? Não consigo
saber o que fazer; queria contar, tenho muito que
dizer... Mas meu corpo inteiro dói como se estivesse
sendo picado por abelhas... E sinto frio. Muito frio! Dor
e frio; inconsciência e consciência... É sonho?... A
puta... O mendigo... Dói demais! O que faço?... Fujo
de mim e logo retorno. O tempo... Onde foi parar o
tempo... Não estou mais conseguindo suportar esse
frio, essas mordidas doloridas, muito doloridas!...
Frio... Gelo... Fogo, insuportáveis dores me cobrem
por inteiro... Pesadelo?... Frio... Frio... Muito e frio e
uma deliciosa paz... Paz... O que mais posso querer
nesse mundo? O nada e a paz... Enfim... O nada...

Osair de Sousa Manassan


31 de janeiro de 2009, 03:42 hs.

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