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DÉBORA DE MENDONÇA LAGE

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SANTOS

AS DIFICULDADES ENFRENTADAS PELO INTÉRPRETE SIMULTÂNEO:

UMA ANÁLISE DE CASOS E UMA PROPOSTA DE ESTUDO

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como exigência parcial para obtenção do grau de Bacharel em Tradução e Interpretação à Universidade Católica de Santos.

Orientadora: Profª. M.Sc. Carlota Frances Williams Lopes

SANTOS – 2007

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DÉBORA DE MENDONÇA LAGE

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SANTOS

AS DIFICULDADES ENFRENTADAS PELO INTÉRPRETE SIMULTÂNEO:

UMA ANÁLISE DE CASOS E UMA PROPOSTA DE ESTUDO

Banca Examinadora:

Profª. M.Sc. Carlota Frances Williams Lopes

Professora Titular Universidade Católica de Santos

Prof. Me. José Martinho Gomes Professor Titular Universidade Católica de Santos

SANTOS – 2007

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Dedicatória

O presente trabalho é dedicado aos meus pais, que sempre me incentivaram nos estudos e no aprendizado de outras línguas e aos meus professores, que me ensinaram muito ao longo dos anos e confiaram em meu trabalho.

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Agradecimentos

Agradeço primeiramente à minha família, por todo o apoio durante os quatro anos, pelas leituras infindáveis a cada término de capítulo, pelas dicas preciosas e a paciência despendida nos momentos mais complicados. Agradeço à professora mestra e orientadora Carlota Frances Williams Lopes, pelo apoio na escolha do tema e na confiança em meu trabalho e cujo estímulo e opiniões durante todos esses anos tornaram esse trabalho possível. Agradeço também ao professor mestre José Martinho Gomes, por ter aceito fazer parte da banca examinadora e por todo o apoio e dedicação, assim como as horas e fins de semana dispensados com as gravações do corpus e a prontidão com que sempre me ajudou nos momentos que precisei. Agradeço a todos os docentes do curso de Tradução e Interpretação, que me abriram as portas do conhecimento e me estimularam a seguir essa profissão e a me dedicar às línguas. Agradeço também os intérpretes José Augusto Rodrigues e Fernando Santiago dos Santos pela presteza com que se propuseram a realizar as entrevistas para esta monografia e pelas valiosas dicas que certamente a enriqueceram e pelo estímulo dado aos meus estudos para que um dia eu alcance meus objetivos. Por fim, agradeço a todos os meus amigos de classe, que caminharam comigo durante os quatro anos e com quem aprendi muito. Agradecimentos especiais a João Paulo Sorensen de Moura e a Bruno Amorim de Sá, pelo tempo dedicado às gravações dos vídeos originais.

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LAGE, Débora de Mendonça. As dificuldades enfrentadas pelo intérprete simultâneo:

uma análise de casos e uma proposta de estudo. Santos, 2006, 96p. Trabalho de Conclusão de Curso de Tradução e Interpretação da Universidade Católica de Santos.

Resumo:

Desde muito cedo na história, a presença do intérprete faz-se indispensável. Com uma

demanda maior de intérpretes no mundo globalizado em que vivemos hoje, essa

modalidade vem crescendo nas mais diversas áreas do saber. Conseqüentemente, o grau

de conhecimento e precisão do profissional deve atender às exigências do mercado. Este

trabalho tem como objetivo apontar e justificar os fatores que mais induzem o intérprete

ao erro ao analisar um corpus formado por eventos renomados como o Oscar e o Video

Music Awards. Por meio de observação das experiências de intérpretes qualificados,

apresentamos uma proposta de estudo a todos aqueles que tiverem interesse na

modalidade, a fim de que futuros deslizes possam ser evitados ou amenizados.

Palavras-chave: Intérprete, interpretação, interpretação simultânea.

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LAGE, Débora de Mendonça. As dificuldades enfrentadas pelo intérprete simultâneo:

uma análise de casos e uma proposta de estudo. Santos, 2006, 96p. Trabalho de Conclusão de Curso de Tradução e Interpretação da Universidade Católica de Santos.

Abstract:

The presence of interpreters has proved to be essential since very early on world history.

The great demand for interpreters in the globalized world we live in today has caused

this modality to increase in the most diverse areas of human knowledge. Consequently,

the professional’s level of knowledge and accuracy must meet with market demands.

The goal of this paper is to indicate and justify the factors that most often lead the

interpreter to commit a mistake by analyzing a corpus taken from such well-known

events as the Oscar and the Video Music Awards. By observing qualified interpreters’

experiences, we offer a study proposal to whomever is interested in the modality, so that

future mistakes can be avoided or reduced.

Key-words: Interpreter, interpretation, simultaneous interpretation.

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ÍNDICE

INTRODUÇÃO

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Capítulo 1

1.1.

A Origem da interpretação

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1.2.

O Tribunal de Nuremberg

16

1.2.1.

O sistema de interpretação

18

1.2.2.

O recrutamento de intérpretes

19

Capítulo 2

2.1.

Modalidades de interpretação

23

2.1.1. Interpretação consecutiva

24

2.1.2. Interpretação sussurrada

25

2.1.3. Interpretação simultânea

25

2.2.

Áreas de atuação

27

Capítulo 3

3.1.

Interpretação simultânea

31

3.2.

O discurso

33

3.3.

O processo de interpretar

34

3.3.1.

O sentido

35

3.3.2.

A compreensão

36

3.3.3.

Unidades de sentido

37

Capítulo 4

4.1.

A formação do intérprete

41

4.1.1.

As línguas de trabalho

41

4.1.2.

As qualificações de um intérprete

43

4.1.3.

A formação acadêmica

45

4.1.4.

Código de ética

46

Capítulo 5

5.1.

Os fatores que comprometem a interpretação

49

8

5.1.1. O fator fonético

49

5.1.2. A expectativa frustrada

53

5.1.3. A semelhança fonética

55

5.1.4. Falsos cognatos

56

5.1.5. A interferência de estados

56

5.1.6. As dificuldades morfossintáticas

57

5.1.7. As diferenças culturais

59

5.1.8. Citações e provérbios

60

5.1.9. Títulos

60

5.1.10. Poemas e piadas

60

5.1.11. O caso dos números

61

Capítulo 6

6.1. Análise do Corpus

64

6.1.1. Análise do Oscar

65

6.1.2. Análise do Video Music Awards

78

Considerações Finais

82

Referências Bibliográficas

85

Bibliografia Consultada

89

Anexo A – Tribunal de Nuremberg (foto)

93

Anexo B – Citações originais

94

Anexo C – Recursos audiovisuais

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Introdução

O mundo vive uma era de comunicação internacional. Os contatos profissionais em diversas áreas vêm aumentando nesse aspecto, e como resultado, mais pessoas de culturas e idiomas diferentes reúnem-se para discutir questões econômicas, políticas, legais, culturais, técnicas, entre outras. Para que haja uma comunicação efetiva, ambas as partes precisam falar a mesma língua ou contar com o auxílio de um mediador, o intérprete. Este contribui para o entendimento entre povos e a criação de novas alianças entre nações. Com a velocidade das novas tecnologias e a globalização cada vez mais presente no nosso dia-a-dia, faz-se necessário o emprego de interpretações simultâneas em eventos internacionais que necessitem de rapidez e dinamismo. Desse modo, os profissionais dessa área devem propiciar um trabalho de alta qualidade, buscando sempre o aprimoramento de suas habilidades. O presente estudo é teórico, mediante método dedutivo, partindo dos conceitos teóricos e aplicando-os na análise do corpus por meio de utilização de recursos audiovisuais. Para os propósitos desse estudo, foram selecionadas cerimônias de premiação de cinema e música (Oscar 2007 e Vídeo Music Awards 2007), que tiveram como língua de partida o inglês e foram televisionadas e analisadas no português contrastando, sempre que possível, exemplos de interpretação de mais de uma emissora. A escolha do corpus deve-se à verificação da freqüência de fatores que interferem na interpretação e levam ao erro. Por tratar-se de eventos nos quais há a presença de linguagem coloquial, expressões idiomáticas, gírias, sotaques diversos e imprevistos, tal como piadas, a freqüência de problemas de interpretação enfrentados pelos intérpretes é ampla, o que exige do profissional agilidade, raciocínio rápido e adaptação constante. Desse modo, esse trabalho pretende detectar os fatores que mais induzem ao erro, esclarecendo suas causas e conseqüências, a fim de oferecer a todos que possuam interesse na área uma perspectiva do trabalho realizado por intérpretes simultâneos, para que, conscientes das dificuldades encontradas, possam evitar erros em suas próprias interpretações ou utilizar os mecanismos estudados, visando sempre uma interpretação de qualidade.

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A fundamentação teórica que orienta este estudo será a teoria de interpretação de Danica Seleskovitch e Marianne Lederer. Também foram consultados autores, cujas obras discorrem sobre a modalidade simultânea, que é o foco desta monografia. Consta o trabalho de seis capítulos. No primeiro capítulo, um breve relato sobre

a origem da interpretação é apresentado, contando como o Tribunal de Nuremberg foi o

berço da modalidade simultânea e quais foram as dificuldades iniciais enfrentadas por aqueles que tornaram essa modalidade possível. No segundo capítulo, oferecemos uma breve exposição das modalidades que constituem a profissão de intérprete, assim como os propósitos para os quais são utilizadas e a área de atuação do profissional. No terceiro capítulo, aprofundamos a modalidade simultânea, explicando cada fase de que é constituída, abrangendo o discurso, o processo de interpretar, o sentido, a compreensão e as unidades de sentido, para uma maior compreensão do processo cognitivo que é realizado. No quarto capítulo tratamos da formação do intérprete, no que se diz respeito às línguas de trabalho, às suas qualificações e formação acadêmica, mostrando, dessa forma, as exigências profissionais para um bom desempenho. Ao final do capítulo o código de ética também será abordado de forma resumida para apontar a importância da conscientização dos direitos e deveres do profissional. No quinto capítulo, analisamos alguns casos nos quais os intérpretes podem encontrar dificuldades, tomando como exemplo situações colhidas durante aulas de interpretação e outras citadas por profissionais da área. Tais situações abrangem os

aspectos fonéticos, lingüísticos, culturais, psíquicos do intérprete e extrínsecos à língua

– em relação ao equipamento de som e à cabine. No sexto capítulo, encontra-se a análise do corpus na qual, por meio de exemplos extraídos dos eventos citados, a teoria estudada é aplicada. Todas as causas que levaram ao erro detectadas nas interpretações são justificadas conforme a abordagem feita no capítulo anterior. Por último, oferecemos uma proposta de estudo, tendo em vista os problemas encontrados com maior freqüência, a fim de auxiliar os futuros intérpretes ou quem já atua na profissão em suas escolhas. Assim, ao contar com uma base teórica, estarão mais preparados para evitar futuros deslizes.

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Capítulo 1

1.1. A Origem da interpretação

A interpretação é a atividade intelectual que consiste em facilitar a comunicação oral entre duas ou mais pessoas que não falam a mesma língua. Para que ela aconteça são necessários três componentes: o orador, o discurso e o intérprete. Estes devem ser totalmente interligados e dependentes. A interpretação é um processo de decodificação de significados e produção de valores, um processo que ocorre dentro de contextos econômicos, políticos, históricos, sociais e culturais, diretamente relacionado ao mundo em que os participantes vivem. Um dos propósitos da interpretação é aumentar e melhorar a comunicação entre os povos e propagar a paz entre as nações. Apesar dos termos “tradução” e “interpretação” serem aplicados aleatoriamente no dia-a-dia para descrever a ação de transferir significados de uma língua para outra, suas atividades são totalmente distintas. Tradução refere-se à transferência de significados de texto para texto, normalmente escritos, gravados ou em linguagem de sinais. Nela existe tempo suficiente para consultar dicionários, glossários e outras fontes, portanto, seu grau de precisão é muito maior. Já a interpretação acontece in loco. Por lidar com linguagem oral, existe muito pouco tempo para assimilar a informação transmitida, traduzir para a língua de chegada, doravante LC, e reorganizá-la de modo que o discurso seja coerente. Além disso, a pressão é muito maior já que todos os conferencistas e clientes encontram-se presentes. Desde os primórdios do Egito antigo, a importância da interpretação faz-se presente. De acordo com Hermann (cf. 2002, p. 15), os templos e túmulos egípcios possuíam inscrições diversas referindo-se a povos estrangeiros; entretanto, eles estavam sempre em posições sociais mais baixas, como prisioneiros e vassalos. Os egípcios consideravam-nos povos bárbaros e raramente transcreviam seus discursos originais, colocando palavras na boca de estrangeiros e, assim, embutindo em seus discursos a própria ideologia egípcia. Sob tais circunstâncias, os intérpretes não podiam agir como mediadores lingüísticos. Começando no final do período das Pirâmides, tomamos conhecimento do título e das atividades dos intérpretes em casos diversos. Eles aparecem ao lado de mineiros e marinheiros como negociadores comerciais nas regiões das minas de cobre na Península do Sinai, além de serem importantes na administração

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central do Egito. Hermann (cf. 2002, p. 17) afirma que os egípcios possuíam métodos sofisticados para superar a barreira lingüística: Herodotus relata que o Faraó Psammetichus entregava meninos egípcios para os colonizadores gregos para que aprendessem a língua grega. Assim, pode-se dizer que esses foram os primeiros recrutas a entrarem para a classe de intérpretes. Ao invés de fazer estrangeiros aprenderem sua língua, os egípcios mandavam seus representantes aprenderem as outras línguas, pois assim garantiam que sempre seriam entendidos e nunca lhes faltariam intérpretes. Para os gregos o termo “intérprete” ou “tradutor” significava uma pessoa que age como Hermes 1 , que segundo a mitologia era um ser humano encarregado de entregar as mensagens de Olympus ao mundo mortal. Já o equivalente latino é mais realista, e representa a situação da pessoa interpretando. A despeito da palavra “interpres” ser derivada de “inter-partes” ou “inter-pretium”, o termo designa o mediador humano posicionado entre dois partidos ou valores, executando atividades diversas, indo além daquela de proporcionar equivalentes lingüísticos em transações. Os intérpretes eram freqüentemente recrutados pelos gregos para trabalhar na administração, pois na Grécia estudava-se somente o latim. Fora de Roma, a presença de intérpretes da administração da província foi confirmada por pedras inscritas vindas das áreas de Budapeste e Maastricht. Confirmou- se o uso de “army interpreters” em tempos remotos em diversos lugares. Eles eram enviados para realizar transações em ambos os lados e todos confiavam neles, por isso eram chamados de “vir sanctus”, um homem honesto. Hermann (ibidem, p. 21) conta que foram muitas as ocasiões em que os intérpretes apareciam no mundo antigo: antes de mudanças lingüísticas drásticas, tais como aquelas em Roma no período do Papa Damasus I, os intérpretes eram recrutados dos serviços religiosos. Por isso os monges gregos de Jerusalém e do norte da África, que trabalhavam como mediadores lingüísticos, podem ser considerados os intérpretes de conferência mais antigos do mundo oriental. Atualmente, a interpretação relaciona-se a conferências internacionais. Praticamente toda sala de conferência possui uma cabine de interpretação e as instalações necessárias para a realização de eventos. Por ser extremamente necessária no mundo globalizado em que nos encontramos, a prática da interpretação foi rapidamente

1 Hermes, mensageiro ou intérprete da vontade dos deuses.

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disseminada. Entretanto, ela ainda passa despercebida por muita gente e poucos conhecem sua arte e importância na história da humanidade.

A profissão de intérprete é relativamente nova e data de menos de um século

atrás. Ela não era vista como uma profissão e era realizada por pessoas de diversas áreas, tais como militares, diplomatas, secretárias e outras pessoas com conhecimento

em línguas estrangeiras. Nasceu por volta de 1920 quando algumas línguas, além do francês, foram reconhecidas como línguas diplomáticas oficiais. A necessidade de interpretação em conferências internacionais foi criada apenas durante a Primeira Guerra Mundial, pois alguns negociadores dos Estados Unidos e da Grã Bretanha não

falavam o francês e precisavam de interpretação. Nessas reuniões um dos diplomatas traduzia sentença por sentença o texto na língua de partida, doravante LP, para a língua de chegada. Assim nasceu o primeiro tipo de interpretação consecutiva. Elas aconteciam durante as sessões da Comissão do Armistício realizadas em francês, inglês e alemão. Nessas sessões, interpretações frase por frase eram normalmente realizadas por intérpretes do exército e liaison officers 2 .

A partir do momento em que os britânicos insistiram no reconhecimento do

inglês como língua diplomática oficial, qualquer questão podia ser discutida tanto no

inglês como no francês. Houve então a necessidade de se ter uma tradução oral, que aumentou com a criação da Liga das Nações e da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Por se tratar de questões específicas, além das diplomáticas, foi necessário o recrutamento de lingüistas especializados. Para suprir essa necessidade de intérpretes profissionais qualificados nasce em 1941, em Geneva, a primeira Escola de Intérpretes.

A interpretação consecutiva e a interpretação ao pé do ouvido foram as primeiras

técnicas a serem utilizadas. Alguns grupos de delegados não falavam nem inglês nem francês, então eles contavam com a ajuda de intérpretes que sussurravam a tradução dos

procedimentos e interpretavam o que diziam consecutivamente. Apesar da vantagem do intervalo para a reflexão durante a interpretação, a consecutiva começou a perder sua eficiência. Dessa forma, buscaram-se novos métodos na época da Liga das Nações (1920-46): Edward Filene, executivo, Gordon Finlay, engenheiro eletrônico; e Thomas Watson, presidente da IBM, introduziram um equipamento especial que disponibilizava fones de ouvido, um sistema de microfones e

2 Oficiais do exército que trabalhavam auxiliando seus oficiais superiores, especialmente em casos em que a interpretação fosse necessária.

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permitia ao intérprete ouvir o discurso e falar ao mesmo tempo sua tradução. Esse equipamento chamava-se Filene-Finlay e era utilizado nas interpretações simultâneas e nas leituras simultâneas de textos pré-traduzidos na Liga das Nações. A proposta desenvolveu-se à medida que as inovações tecnológicas foram sendo acrescentadas a ela, sendo finalmente testada na Conferência da Organização Internacional do Trabalho de 1928. Por apresentar muitos problemas técnicos, o equipamento somente voltou a ser utilizado em uma conferência internacional na Filadélfia em 1944, mas em condições muito precárias, porque os intérpretes ficavam sob o palanque dos oradores, no subsolo, ouvindo ruídos e tentando se adaptar ao equipamento ao mesmo tempo. Segundo Baigorri-Jalón (30 abr. 2007), intérprete da Organização das Nações Unidas (ONU), o sucesso que os intérpretes obtiveram nas conferências da Organização Internacional do Trabalho de 1928 fez com que o processo da simultânea fosse adotado pela OIT para suas conferências anuais. Entretanto, foi durante o Tribunal de Nuremberg 3 que a Interpretação Simultânea se destacou, pois um novo equipamento teria de ser utilizado para a interpretação de várias línguas simultaneamente.

1.2. O Tribunal de Nuremberg

Apesar dos mais de 40 volumes publicados sobre o assunto, que abrangem aspectos políticos, legais e históricos, nenhum menciona a criação desse campo da interpretação. A interpretação simultânea aconteceu no sótão do Palácio de Justiça de Nuremberg e foi extremamente importante para a realização do tribunal, pois sem ela teria levado quatro vezes mais tempo. Gaiba (1998, p. 26) relata que, em outubro de 1943, os representantes das 17 nações aliadas, exceto a União Soviética, encontraram-se em Londres e fundaram a United Nations War Crimes Commission – UNWCC (Comissão de Crimes de Guerra das Nações Unidas) que juntava provas e documentos para a elaboração de uma lista de crimes. Eles estabeleciam as regras para a incriminação e a acusação dos criminosos de guerra. Baseados nas regras, os representantes das nações aliadas, a Grã Bretanha, a União Soviética, os EUA e o governo provisório da França, assinaram o Acordo de

3 Foto do Tribunal em sessão no anexo A, p. 92.

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Londres em 08 de Agosto de 1945, que continha os estatutos do Tribunal Militar Internacional. A promotoria resumiu em quatro pontos suas acusações: “1. Conspiração contra a paz mundial; 2. Planejamento, início e condução de guerra; 3. Crimes e violações ao direito de guerra; 4. Crimes contra a humanidade” (GESSAT, 1 maio 2007). No dia 20 de novembro de 1945, iniciou-se o tribunal de crimes de guerra em Nuremberg, na Alemanha, que julgou as atrocidades cometidas pela coligação entre Hitler, Mussolini e, posteriormente, o Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Levou-se mais de 10 meses para terminar, com um total de 216 dias, chegando a uma decisão no dia 1º de outubro de 1946. Segundo Gessat (ibidem), dentre os acusados havia vinte e dois réus proeminentes, entre eles três do grupo de líderes mais próximos de Hitler: Martin Bormann, que estava desaparecido desde o final da guerra, Hermann Göring e Rudolf Hess, assim como os militares Keitel, Jodl, Raeder e Dönitz, e os ministros Ribbentrop, Frick, Funk e Schacht. Além desses, a relação prosseguia: Alfred Rosenberg, que comandava a região leste ocupada, Hans Frank, governador-geral da Polônia, Arthur Seyss-Inquardt, comissário do Reich para a Holanda ocupada, Fritz Sauckel, que distribuía os escravos do nazismo, e Albert Speer, que como ex-ministro da Munição e das Armas recrutou vários trabalhadores forçados para as indústrias alemãs do setor. Um dos poucos alemães admitidos como observadores no julgamento, oferece seu depoimento:

Abertura – "O presidente do Tribunal abre a seção [sic]. Então, passa a palavra ao principal promotor americano. Sua voz soa como se estivesse

distante. Os intérpretes murmuram atrás da divisória envidraçada. Todos os

olhos estão voltados para os acusados

réus, a guerra, o pogrom, o rapto de pessoas, o assassinato em massa e a tortura. Gigantescos e invisíveis, eles estão sentados ao lado das pessoas acusadas", descreveu o escritor Erich Kästner 4 suas impressões. (KÄSTNER

Agora estão sentados, no banco dos

apud GESSAT, 1 maio 2007)

Antes do tribunal, um dos réus, Robert Ley suicidou-se em sua cela e Gustav Krupp foi considerado impossibilitado de permanecer no tribunal devido à sua idade e condições de saúde. Vinte e dois réus foram condenados à morte por enforcamento, três foram condenados à prisão perpétua, quatro receberam sentenças de 10 a 20 anos e três foram absolvidos.

4 Escritor alemão envolvido com política que assistia ao julgamento.

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Subseqüentemente, outras 185 personalidades alemãs foram levadas à corte em doze tribunais entre dezembro de 1946 e março de 1949, realizados apenas em alemão e inglês.

O Tribunal de Nuremberg teria levado muito mais tempo para realizar os julgamentos se não tivesse utilizado a interpretação simultânea. Com esse sistema os procedimentos eram realizados no mesmo tempo que uma conferência em apenas uma língua levaria. Além disso, em uma corte o normal seria apenas uma pessoa falar uma língua diferente daquela falada pelo juiz e todos os demais. Quando isso ocorre, o processo é feito da seguinte maneira: um intérprete juramentado é contratado para sentar

ao lado da pessoa e interpretar ao pé do ouvido o que está sendo dito. Quando este fala,

o intérprete traduz simultaneamente ou consecutivamente ao microfone. Esse método não poderia ser aplicado no Tribunal de Nuremberg, pois não havia apenas duas línguas em jogo, mas quatro. Promotores e membros da bancada não se comunicavam na

mesma língua. Para a realização do Tribunal, prometeram-se serviços lingüísticos extraordinários. Desse modo, o equipamento utilizado na Liga das Nações foi aperfeiçoado por Aurèle Pilon, um canadense, engenheiro de som e ex-piloto da Royal

Air Force. Muitos não acreditavam que o trabalho simultâneo funcionaria, mesmo assim a decisão foi tomada. Houve muitos obstáculos: a instalação apresentou alguns problemas

e o recrutamento de intérpretes foi incrivelmente difícil devidos à novidade e dificuldade do trabalho.

1.2.1. O sistema de interpretação

Gaiba (1998, p. 68) conta que foram utilizados fones de ouvido, um sistema de microfones, cabos e amplificadores. Todos os microfones possuíam um dispositivo para ligar e desligar e eram conectados aos fones de ouvido por meio de cabos elétricos de telefone. Muitos não estavam à vontade com os microfones. Os juízes às vezes esqueciam de desligá-los e conversas confidenciais podiam ser ouvidas. Os advogados tiveram de abandonar o hábito de interromper o discurso de outrem e aprender a

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revezar. Justice Jackson 5 já havia declarado que teriam de se organizar para a apresentação das acusações de tal modo que somente uma pessoa usasse o microfone por vez. Para controlar o acesso, havia uma pessoa que monitorava o som, ligando e desligando-o de acordo com a necessidade. Ele devia estar sempre atento, pois a movimentação era muito rápida. Ele também controlava o volume: algumas pessoas falavam muito próximo ao microfone, ou alto ou baixo demais. Para que os intérpretes fossem capazes de entendê-los, esse ajuste era extremamente necessário. Havia também uma outra sala onde o técnico de amplificadores trabalhava. Como mencionado anteriormente, houve muitos problemas: Gaiba (1998, p. 69) conta que, diferentemente de outros prédios, o local era feito de alvenaria e os cabos que costumavam passar por debaixo do chão tiveram de ficar visíveis, o que era motivo de tropeços e desconexão – às vezes por horas – do sistema de som. Outras vezes ao realizar reparos rápidos, os cabos eram conectados de forma errada. Ao serem cruzados, quem deveria ouvir o discurso em francês, ouvia em alemão, por exemplo. Esses, entre outros foram alguns dos desafios enfrentados.

1.2.2. O recrutamento de intérpretes

Os organizadores do experimento de 1928 foram os responsáveis tanto pelos cuidados com o equipamento técnico quanto pelo treinamento dos intérpretes e do processo de seleção. No caso da interpretação simultânea, um fato curioso foi que quatro dos nove candidatos eram mulheres, o que já demonstrava a grande participação feminina futura nessa profissão. Constatou-se que nenhum dos intérpretes consecutivos da Liga quis participar do treinamento. Afirmavam que a interpretação simultânea não funcionaria, pois, diferentemente da interpretação consecutiva, os intérpretes não teriam o tempo necessário para refletir sobre a reprodução e, dessa forma, produziriam uma tradução literal, apenas repetindo as palavras da LP na LC. Mas na verdade, temiam que sua profissão perdesse o prestígio e que fossem ignorados, presos em cabines e desconhecidos por não mais estar diante do público ao lado dos oradores, de igual para igual. Por outro lado, a interpretação simultânea, além de proporcionar um debate mais

5 Robert Houghwout Jackson (1892-1954) foi promotor chefe dos EUA no Tribunal de Nuremberg.

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autêntico, com reações imediatas e poupar tempo e muito dinheiro, também possibilitava o uso de todas as línguas oficiais. Conforme afirma Baigorri-Jalón (30 abr. 2007), os veteranos da Liga encontravam-se ocupados com a recém-criada Organização das Nações Unidas e quem trabalhava na OIT ainda encontrava-se na ativa. Além disso, suas combinações lingüísticas não serviam para o propósito. Assim, procuravam-se intérpretes entre uma grande variedade de candidatos, na maioria expatriados de guerra. A seleção foi feita sob extrema pressão por pessoas que não haviam praticado essa modalidade de interpretação. A única exigência era que a pessoa fosse capaz de ouvir numa língua e interpretar simultaneamente em outra. Havia muito pouco tempo para treinar os canditados selecionados, que normalmente eram empurrados para dentro das cabines quase imediatamente. Para muitos, o Tribunal de Nuremberg foi um centro de treinamento para interpretação simultânea. Para que o tribunal fosse justo e também para diminuir custos e tempo, determinou-se que todos os procedimentos fossem traduzidos para uma língua que os réus entendessem, no caso, o alemão. A dificuldade estava também na terminologia legal adotada em alemão. As descrições dos crimes eram meticulosas e a tradução deveria ser transmitida com muita cautela e precisão. Para que a justiça fosse mantida, todos os réus deveriam ouvir e se comunicar na sua língua mãe para que pudessem exercer seus direitos e não houvesse dúvidas. O mesmo valia para os promotores e juízes ingleses, franceses, russos e americanos, que recebiam o discurso em suas respectivas línguas maternas. Inspirada pelo sucesso do Tribunal de Nuremberg, a Assembléia Geral das Nações Unidas decidiu dar uma chance a esse novo módulo da Interpretação em 1946. O Coronel Dostért, acompanhado de três jovens intérpretes de sua equipe, foi transferido da Alemanha para esse propósito. O teste da décima quinta Comissão obteve êxito e foi repetida na Assembléia Geral de 1947, na qual foi decidido que a interpretação simultânea passaria a ser um serviço permanente, com poucas exceções, como no caso do Conselho de Segurança das Nações Unidas, na qual ambas as modalidades simultânea e consecutiva coexistiram por muitos anos. A hostilidade inicial em relação à simultânea foi logo superada quando se promoveu a unificação das modalidades em 1947. Civis que até a Segunda Guerra trabalhavam como intérpretes se organizaram e criaram a Associação Internacional de

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Intérpretes de Conferência (AIIC) 6 em 1953 – reunindo mais de 2600 intérpretes profissionais em 80 países. A interpretação simultânea vem crescendo desde então e tomando seu lugar dentre as organizações internacionais, tais como a Organização das Nações Unidas (ONU), a União Européia, a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), entre outras. Cada vez mais levantam-se teorias e desenvolvem-se estudos em áreas como a Lingüística, a Fonética e a Semântica, ampliando os horizontes da interpretação e proporcionando aos estudantes e profissionais da área uma base teórica e uma variedade de técnicas de aperfeiçoamento.

6 Associação mundial de intérpretes de conferência fundada em 1953, com sede em Genebra, Suíça, com o objetivo de representar a profissão e agir em nome de todos os intérpretes de conferência.

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Capítulo 2

2.1. Modalidades de interpretação

Por mais que a interpretação esteja cada vez mais presente na mídia, como em apresentações do Oscar, mesas redondas com convidados internacionais, jogos como o Pan-Americano e as Olimpíadas, existem muitas subdivisões dessa profissão ainda desconhecidas. Como citado anteriormente, ela iniciou-se pela Tradução Consecutiva e foi ganhando módulos específicos conforme surgiu a necessidade. Em seguida, com o Tribunal de Nuremberg, ganhou novo foco com a estréia do sistema simultâneo de interpretação. A tecnologia foi se desenvolvendo e com ela a interpretação ganhou novos rumos e públicos. Passou a ser requisitada em eventos não apenas internos como externos, em viagens, na Câmara dos Deputados e, mais freqüentemente, em grandes reuniões mundiais com a chegada da globalização. Ela não se difere tão somente nas áreas em que é requisitada, mas também na linguagem utilizada pelo intérprete, no público alvo e no seu propósito. As interpretações oferecidas no mercado de trabalho atualmente são:

interpretação consecutiva, interpretação sussurrada e interpretação simultânea. Os intérpretes também podem atuar como intérpretes juramentados, intérpretes de conferência, intérpretes acompanhantes, intérpretes de negócios (liaison), guia- intérpretes, intérpretes em áreas da saúde, tecnologia, entre outras, e intérpretes de língua de sinais. De acordo com o site do SINTRA 7 , em julho de 2007, existiam 274 intérpretes filiados com especialização em tradução simultânea/ consecutiva de inglês para português e 203 de português para inglês em todo o Brasil.

7 SINTRA – Sindicato Nacional dos Tradutores.

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2.1.1. Interpretação consecutiva

Considerada a mais difícil das interpretações, a consecutiva costuma ser adotada em casos que não haja nenhum equipamento técnico para a simultânea ou que a segunda não seja possível. Nesse caso, o profissional trabalha sozinho. De acordo com a Associação Internacional de Intérpretes de Conferência (17 jul.

2007):

Na interpretação consecutiva, o intérprete, situado ao lado do orador, interpreta para um determinado idioma, e após o orador, o discurso deste último. O comprimento do discurso pode variar e o intérprete deve tomar notas durante a intervenção do orador.

Na consecutiva, os intérpretes devem saber ouvir, entender, fazer anotações e, principalmente, saber como realizá-las. Ao fazer anotações, ele deve além de ser rápido, desenvolver técnicas para escrever com clareza, pois muitos números, datas, nomes e títulos costumam estar presentes no discurso e a leitura deve ser realizada rapidamente para que a pressão imposta pela interpretação não seja ainda maior. Ele deve respeitar a entonação e a retórica do conferencista original. Pode-se dizer que existem fases diferentes na interpretação. Elas são separadas em duas na consecutiva: a fase da audição e a fase da reformulação.

Fase da audição

- O esforço da escuta.

- O esforço da produção escrita (anotações, não apenas a anotação traduzida do discurso).

- O esforço da memória a curto-prazo (armazenar a informação até ser anotada).

Fase da reformulação

- O esforço da leitura das anotações.

- O esforço da memória de longo-prazo (armazenar a informação por longos períodos

para produzi-las mais tarde).

- O esforço da produção (organizar as informações recebidas e produzi-las com coesão, mantendo o conteúdo do discurso original).

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Um evento com interpretação consecutiva pode levar horas, o que é um grande desgaste para o intérprete. Por utilizar muito de sua memória de longo-prazo, o ideal é que o discurso original contenha pausas providenciais e que a idéia principal daquele trecho seja concluída. Assim, o intérprete poderia traduzir uma idéia completa, importando-se com o seu sentido e não somente com as palavras utilizadas no original. Caso se concentre muito nos detalhes e nas palavras, pode perder-se em suas anotações, prejudicando, desse modo, o entendimento e a clareza do discurso.

2.1.2. Interpretação sussurrada

Segundo a Associação Internacional de Intérpretes de Conferência (17 jul.

2007):

A interpretação sussurrada é um modo de interpretação no qual o intérprete, sentado ao lado de um ou dois participantes, sussurra a interpretação do discurso. É um modo utilizado apenas quando duas pessoas no máximo precisam de interpretação e deve ser evitado quando vários intérpretes trabalham na mesma sala, ao mesmo tempo. Por ser cansativo para as cordas vocais, só é recomendado para reuniões curtas, e como para a simultânea, são necessários dois intérpretes trabalhando em alternância.

Também conhecida do francês chuchotage e do inglês whispered, ela é utilizada em circunstâncias nas quais a maioria do grupo fala uma língua que a minoria (no máximo três pessoas preferencialmente) não fale.

2.1.3. Interpretação simultânea

Segundo Magalhães Júnior (2007, p. 217), esse módulo de interpretação é a tradução oral imediata de uma apresentação ou palestra, na qual os intérpretes, trabalhando sempre em dupla, isolam-se numa cabine onde possam ver o palestrante e ouvir a palestra com a ajuda de fones de ouvido. À medida que vão se alternando, vão repetindo a mensagem imediatamente em outra língua. Assim, os participantes recebem a tradução por meio de receptores sem fio e fones de ouvido, como se fosse um filme dublado.

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Como explica Magalhães (2007, p. 146), a interpretação simultânea é uma tarefa de processamento de informação intensiva na qual os intérpretes podem trabalhar por no máximo 6 horas. Assim como na consecutiva, é imprescindível que o intérprete se cuide para que não fique preso a um trecho procurando a equivalência de uma palavra, pois se muito tempo for gasto com termos, o entendimento do trecho posterior se perderá, prejudicando a interpretação. “A principal razão para se trabalhar a dois é a absoluta atenção exigida no ofício.” (Ibidem, p. 108). Por conter termos desafiadores, tais como vocabulário técnico e jargões, é necessário a total concentração dos “concabinos” 8 , pois o conteúdo freqüentemente é denso e apresentado em alta velocidade e qualquer distração é punida com perda de conteúdo. Magalhães Júnior afirma que já se comprovou cientificamente que o ser humano consegue manter níveis altos de atenção por apenas períodos curtos de tempo. Dessa forma, para que uma interpretação simultânea seja bem-sucedida, os intérpretes devem se alternar a cada 20 ou 30 minutos aproximadamente, permitindo assim, total atenção ao discurso. A parceria entre os concabinos é vital, pois devem entender-se com palavras, olhares, gestos e confiar um no outro. Devem se considerar como iguais, sem tirar vantagem da experiência individual, respeitando tanto os colegas que já atuam na profissão por décadas como os iniciantes. É importante notar que o trabalho de um interfere no do outro, pois, por trabalharem juntos, o sucesso ou fracasso da interpretação dependerá exclusivamente do trabalho feito pela dupla. Enquanto um intérprete atua, o outro trabalha passivamente na cabine, oferecendo suporte ao colega, mantendo-se atento para prever e se possível corrigir eventuais equívocos de entendimento ou interpretação, oferecendo opções por meio de contribuições orais e/ou gestuais. O mais comum, entretanto, é a troca de informações por escrito. São feitas anotações de palavras-chave, confirmações de siglas e números, correções de nomes próprios e da pronúncia correta de algum termo, além de consultas a dicionários e glossários. Para que tudo isso aconteça de forma natural e “sincronizada”, os concabinos devem utilizar o mesmo código de comunicação. Esse código poderá e deverá mudar de acordo com o colega com quem se trabalha. Vale lembrar que durante a comunicação dentro da cabine, todo o cuidado com sons de fundo é pouco. Deve-se evitar a

8 Termo utilizado na interpretação simultânea para designar o colega de cabine.

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interferência de fatores externos na interpretação, que variam desde a respiração direta no microfone até a emissão de sons, tais como: o estalar de dedos, assovios ou comentários feitos entre os concabinos. Nesse último caso, deve-se utilizar o botão disponível no equipamento de som chamado cough button para cortar o canal da interpretação, interrompendo a transmissão para os ouvintes. No decorrer da monografia o código de ética, as condições de trabalho, assim como o processo da interpretação simultânea serão tratados mais a fundo. Conhecida como uma “consecutiva acelerada”, a interpretação simultânea contém operações que exigem uma capacidade de processamento proficiente, devido ao fato de acontecerem simultaneamente e exigirem muita agilidade. Esses processos resumem-se em “esforços”, como citado anteriormente na consecutiva:

- O esforço da escuta (ouvir e analisar o discurso original).

- O esforço da produção (produzir na LC a versão do discurso).

- O esforço de memória a curto-prazo (arquivar a informação recebida até transmiti-la na LC).

Na simultânea, as duas línguas de trabalho são utilizadas ao mesmo tempo na memória ativa ao processar a informação recebida. Assim, é preciso atenção para inibir a influência da língua de partida ao produzir o discurso na língua de chegada a fim de se evitar interferência.

2.2. Áreas de atuação

A área de atuação do intérprete é muito ampla. No entanto, dependendo de suas habilidades e experiência ele pode se especializar em uma área específica. Há aqueles que tendem para o lado jurídico e outros que atuam em áreas acadêmicas. Algumas escolhas exigem mais do que competência linguística em ambas as línguas, como no caso da tradução juramentada. Para se tornar um intérprete juramentado, o Estado exige certificação por meio de concurso. Eles podem prestar serviços em audiências, no setor administrativo de tribunais ou em qualquer outra área que lida com processos legais. Para tal, é necessário conhecimento de leis e procedimentos legais. Uma vez que se submetem à prova e

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recebem autorização do Estado para trabalhar nessa área, tornam-se intérpretes comerciais e precisam respeitar os valores cobrados pela Junta Comercial do Estado de São Paulo, JUCESP. Muitas vezes o profissional já é formado em outra área, como por exemplo a médica, e presta serviços de interpretação em seu campo de especialização. Assim, trabalha em congressos e workshops internacionais cuja terminologia conhece, diminuindo a probabilidade de erro. Há também o intérprete acompanhante, conhecido como escort interpreter, que é aquele “designado para acompanhar uma autoridade estrangeira a reuniões, entrevistas ou outro compromisso, a fim de auxiliar na comunicação verbal. [O profissional] fará a interpretação mais indicada, conforme o formato e o protocolo de cada evento” (MAGALHÃES JR, 2007, p. 213). Os intérpretes de negócios (liaison) participam mais em encontros de negócios entre companhias com poucas pessoas. A cada término de discurso, o intérprete proporciona ao público o conteúdo da conversa na língua exigida. Diferente de outras interpretações, nessa ele precisa se comunicar alternando as línguas. Quem atua na área de turismo pode se tornar um guia-intérprete, acompanhando turistas em viagens e visitas a locais de interesse turístico, tais como museus, palácios e monumentos nacionais, prestando informação de caráter geral, histórico e cultural, atuando normalmente em uma região definida. Outro ramo extremamente interessante é o dos intérpretes de língua de sinais. Assim como o inglês precisa de interpretação para o português, os surdos-mudos precisam de traduções de seus sinais para o português (verbal) e vice-versa, ou até mesmo para uma outra língua. A linguagem de sinais possui um raciocínio único e difere de país para país e de língua para língua. De acordo com Pereira (17 jul. 2007), já foram descobertas 114 línguas de sinais no mundo. Por isso dizemos que a língua de sinais não é universal. Ela possui um status lingüístico completo, com estruturas e gramática próprias, podendo expressar não apenas conceitos concretos, mas também abstratos como em qualquer outro idioma. Qualquer pessoa que possua conhecimento de uma dessas línguas de sinais e de uma segunda língua (verbal ou de sinais) pode ser um intérprete de língua de sinais. O exemplo que Pereira (ibidem) oferece é o de um palestrante ouvinte que falava em português oral e de um intérprete que traduzia em

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Libras 9 . Nesse exemplo, quando um dos surdos fez perguntas ao palestrante, o intérprete traduziu da Libras para o português oral. Outro exemplo da autora referia-se a um deficiente auditivo da França que visitava o Brasil, mas que não conhecia a Libras. Quando isso aconteceu e ninguém conhecia a LSF (Langue des Signes Française - Língua de Sinais Francesa), o intérprete que dominava as duas línguas sinalizadas precisou ser contratado.

9 Sigla mais popular de língua brasileira de sinais.

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Capítulo 3

3.1. Interpretação simultânea

Baseadas nos conceitos da Teoria Interpretativa da Tradução, também conhecida como Théorie du sens do francês, criada no École Supérieure d’Interprètes et de Traducteur – ESIT de Paris III University (Sorbonne Nouvelle), Danica Seleskovitch e Marianne Lederer escrevem a teoria da interpretação atualmente mais utilizada no exterior para estudos. Em seu livro Translation: The Interpretative Model (2003) Lederer apresenta o processo cognitivo que ocorre na mente de um intérprete de

conferência. Assim como na Teoria da Interpretação, para ela a “[

em entender o texto original, desverbalizar sua forma lingüística e então expressar em

uma outra língua as idéias compreendidas e as emoções sentidas” (ibidem, p. 1, tradução nossa). 10 Cary 11 (1985, apud LEDERER, 2003, p. 1, tradução nossa) 12 oferece uma definição de tradução que, pela natureza de ambos os trabalhos, pode ser aplicada à interpretação:

]tradução consiste

A tradução é um processo que procura estabelecer equivalentes entre dois textos expressados em duas línguas distintas. Esses equivalentes sempre dependem da natureza dos dois textos, de seus objetivos, da relação entre as duas culturas envolvidas e suas condições morais, intelectuais e emocionais que, por sua vez, são determinadas por todos os fatores relacionados ao tempo e lugar tanto do texto original como da tradução

Segundo ela, a primeira fase da tradução ou interpretação é compreender o texto. A segunda fase é re-expressar esse texto em uma outra língua. Essas fases são complexas, porém acontecem com extrema rapidez. Para tornar o entendimento possível é necessário que haja ativação tanto do conhecimento lingüístico quanto do extralingüístico. A qualidade da re-expressão depende nesse ponto da habilidade de expressão do intérprete, ou seja, o estilo de seu discurso; do conhecimento da LC e do assunto abordado. O texto sob exame é o mais importante. Ele é tanto a causa como o objeto da tradução/ interpretação. Existe, porém uma diferença entre ‘língua’, ‘sentença’

10 Texto original no anexo B, p. 93.

11 Um pioneiro em estudos da história da interpretação dos anos 50. Um dos primeiros teóricos da tradução a se basear na interpretação de conferência para explicar a tradução escrita.

12 Texto original no anexo B, p. 93.

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e ‘texto’, pois embora seja possível traduzi-los, o processo tradutório para cada um é diferente. Se tomarmos a frase “Did you take it?” como exemplo e a analisarmos no nível da linguagem, na semântica o significado de cada palavra no português será:

Did = Não há tradução (auxiliar inglês), passado simples do verbo ‘do’, marca apenas o tempo verbal; You = Você, vocês; Take = tomar, pegar, alcançar, agarrar, prender, capturar, apropriar-se, arrebatar, arrancar, levar, receber (como pagamento), aceitar, obter, adquirir, tomar, comer, beber, engolir, consumir, ganhar, apanhar, contrair (doença) It = objeto indefinido em expressões idiomáticas, atrativo pessoal (feminino e masculino), pronome etc.

No nível da sentença, o contexto verbal limita o número de correspondências possíveis. O significado de cada palavra é determinado pelas palavras próximas a ela, assim como ele próprio determina o significado das outras palavras, visto que aqui as palavras são o único contexto levado em consideração. Portanto:

Take into account = levar em consideração Take advantage = levar vantagem Take care = tomar conta

Já no nível do texto, o contexto em que a sentença está inserida é extremamente importante para sua significação e para encontrarmos um equivalente em outra língua. Dessa forma, podemos afirmar que tradutores e intérpretes não traduzem apenas a língua, mas sim o autor do texto oral ou escrito. O conhecimento lingüístico e extralingüístico do tradutor permite que ele identifique pelo contexto o equivalente no português de “Did you take it?” como sendo “Você o levou?” quando ‘it’ for um pronome relacionado a objetos; ou como “Você aceitou?” no caso de alguém exigir uma resposta a uma proposta na linguagem de business; ou até mesmo como “Você tomou?” (o remédio) durante uma conversa em um retorno médico. Além disso, o número de pessoas abordado para ‘you’ (você ou vocês) dependerá exclusivamente do contexto em que a sentença está inserida.

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Na interpretação consecutiva, na simultânea ou em qualquer outro módulo, é impossível seguir o método da tradução palavra-por-palavra, a não ser que a palavra esteja isolada o suficiente para que sua significação verbal e contextual seja esquecida. Esse isolamento é chamado de descontextualização, do termo inglês decontextualization. A descontextualização produz um tipo de tradução literal que Lederer chama de tradução lingüística, pois diferente da tradução de textos, que ela chama de tradução interpretativa ou simplesmente tradução, está fora de contexto. Essa descontextualização faz-se necessária durante uma interpretação no momento em que o intérprete precisa se distanciar do texto original e analisar as opções que melhor cabem no contexto apresentado. A interpretação que se mantiver no nível da linguagem será uma interpretação falha, pois se realiza sem conceptualização, ou seja, sem método de trabalho, traduzindo apenas literalmente. Para Cary (1962, apud LEDERER, 2003, p. 7), os intérpretes lidam com a natureza viva do discurso e são colocados diante de alguém que vive, pensa e fala. Ao receber e emitir uma declaração testemunham como o orador sente sua platéia e como formula seus pensamentos de acordo com esse “feeling”. Assim, os intérpretes levam em consideração os pensamentos e sua expressão.

3.2. O discurso

Verba volant, scripta manent.” (LEDERER, 2003, p. 9) A partir dessa reflexão podemos dizer que as palavras desaparecem levando com elas significados individuais e deixando na mente dos destinatários somente o sentido do que foi dito. O discurso expressa uma maturação. O pensamento não-verbal do orador vai tomando forma conforme percebe a reação dos destinatários ao que ele diz, levando-o a fazer adaptações conforme o discurso se desenvolve; adaptações como por exemplo mudanças de tom, de entonação e simplificações. Pode-se dizer que o discurso é perfeito quando o canal de comunicação em que ocorre também é. Quando seus parâmetros são operacionais, há maior clareza, permitindo que o público presente participe ativamente do ato de comunicação. Todos possuem a mesma percepção das circunstâncias gerais, isto é: as condições de produção e recepção do discurso e do conhecimento do tema tratado.

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Consideram-se intérpretes competentes aqueles que sejam capazes de entender todo o significado do discurso e de transmiti-lo. Aconselha-se sempre antes de iniciar uma conferência questionar quem é o orador, quem é o público e quais são as circunstâncias. Quando trabalha na cabine, o intérprete faz o papel de destinatário, procurando compreender o que lhe é dito, com a diferença de que precisa se esforçar mais. Na cabine, concentra-se mais, porém envolve-se menos do que um ouvinte comum. Mais concentrados, porque deve captar todas as nuanças de sentido e todas as dimensões do discurso; menos envolvido por estar reproduzindo o pensamento de outrem. Em função disso, o intérprete não deve julgar as informações do discurso que interpreta, caso contrário, comprometerá sua versão na LC. Foi em uma conferência em Veneza em 1977, com o patrocínio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que os intérpretes afirmaram não traduzir palavras e, sim, sentido.

3.3. O processo de interpretar

A busca por uma teoria da interpretação passou pela Lingüística, pela Psicologia do Desenvolvimento, pela Neuropsicologia, pela Lingüística Comparativa, mas foi uma combinação de disciplinas que ajudou a explicar como os intérpretes passam de um discurso para outro. Entretanto, não era o bastante. Foi por meio de observações de práticas reais que o campo da teoria da interpretação cresceu. Esses estudos mostram que há diversos processos mentais. Segundo Saussure (07 ago. 2007), o signo é uma combinação de um conceito com uma imagem sonora. O signo lingüístico consiste de um significado 13 e um significante 14 , que evoca um sentido em quem lê ou ouve. Ao ver o signo ‘casa’, por exemplo, a pessoa relaciona o seu som à imagem da casa que lhe foi apresentada quando criança. Portanto, para ele, esse pode ser o primeiro significado que vem à cabeça ao visualizar esse signo. Na desverbalização, entendemos o discurso que nos foi transmitido, mas não memorizamos sempre as palavras utilizadas. “Os signos do discurso desaparecem com o som da voz, mas os destinatários – e o intérprete – mantêm uma memória

13 A idéia formada, a imagem que se tem em mente.

14 Parte concreta do signo, como sons ou letras, perceptível por meio dos sentidos.

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desverbalizada, uma consciência das idéias e dos fatos evocados.” (LEDERER, 2003, p.12, tradução nossa) 15 A desverbalização é um processo cognitivo comum a todos. Quando a informação sensorial desaparece, transforma-se em pequenas partes de informação, não mais revestidas de sua forma concreta. A memória cognitiva é a responsável pela retenção das partes de informação. Logo, quando a interpretação simultânea foi introduzida, muitos intérpretes de consecutivas temiam se candidatar para trabalhar, pois acreditavam que intérpretes simultâneos possuíam memórias fenomenais. Mas não era esse o caso. Os profissionais dessa área, da mesma forma, utilizam-se de mecanismos mentais para procurar entender

o discurso primeiramente, antes de reformulá-lo. Ao reter o que foi entendido, enquanto

as palavras desaparecem, o intérprete não fica preso a uma única palavra, pois se assim

o fizer demorará demais nesse termo e perderá o sentido geral do trecho. Nesse caso,

quando o termo for desconhecido, não precisa se desesperar; basta apenas redobrar sua concentração para captar o sentido dentro do contexto.

3.3.1. O sentido

Segundo Sartre (apud LEDERER, 2003, p. 13), o sentido é um todo desverbalizado, retido em associação com a informação extralingüística. É a intenção do orador que vai além da própria língua; aquilo que o autor realmente quer comunicar. O sentido somente se encontra dentro de um contexto. “O sentido não está inserido nas palavras (de um texto), já que é o próprio sentido que permite que o

significado de cada palavra seja compreendido [

nossa) 16 O objetivo que o orador quer passar em um discurso é transmitido por meio da língua, mas não pode ser encontrada nela, isto é, cada palavra do discurso pode ser ouvida uma por uma sem que o ouvinte extraia o sentido geral. Capta-se o sentido do discurso apenas quando se consulta o conhecimento de mundo e se associa o significado particular de cada palavra ao das palavras ao seu redor, ou seja, quando colocadas no contexto. Portanto, o sentido não é uma soma de palavras, mas um todo.

(LEDERER, 2003, p. 13, tradução

].”

15 Texto original no anexo B, p. 93.

16 Texto original no anexo B, p. 93.

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Esse processo é sempre acompanhado da percepção dos signos lingüísticos, que por sua vez é sempre acompanhada pela interpretação. Se ao ouvir uma palavra o ouvinte apenas a deixar passar, sem interpretá-la, então sua percepção estará trabalhando em um nível de consciência elementar, permanecendo passageira. Lederer (2003, p. 14) ressalta que os instrumentos vocais utilizados para comunicar levam a um grau elementar de percepção consciente limitado, ao passo que o sentido corresponde a um estado de consciência.

3.3.2. A compreensão

Para que o sentido seja produzido deve haver uma associação entre uma idéia não-verbal e um signo semiótico (podendo ser uma palavra ou um

[

]

A recepção do

sentido exige uma ação deliberada por parte do destinatário. Assim, uma

gesto, não importando a natureza do que se percebe) [

].

cadeia de palavras torna-se um conjunto de indicadores determinados pelo

]

orador [

(SELESKOVITCH, 1976, apud LEDERER, 2003, p. 15, tradução nossa) 17

]

por meio da língua e reconhecidos [

]

pelo ouvinte [

A compreensão de um discurso não está dividida em fases sucessivas, mas constitui-se de um único processo mental. Podemos inferir então que um texto (verbal ou não-verbal) não é primeiramente compreendido no nível da língua, sua compreensão dá-se diretamente no nível do discurso. Portanto, quando um intérprete ouve o termo maçã, ele não visualiza primeiro a fruta maçã para depois definir se ela será vermelha ou verde, mas a visualiza de acordo com seu conhecimento de mundo. A primeira imagem que vem à sua mente é a da maçã que consome no seu país, que faz parte de sua cultura. Contudo, se um indiano estiver fazendo o discurso e citar o termo vaca, o intérprete ocidental precisará deixar seu conceito de vaca inicial e contextualizá-lo no contexto da cultura indiana, atribuindo-lhe seu valor religioso próprio. As dimensões cognitivas e afetivas do sentido não podem ser desassociadas da semântica. Segundo Barbizet e Duizabo (1977, apud LEDERER, 2003, p. 17), esse processo é experimentado diariamente. Segundo eles, as palavras ‘despertam’ muitas memórias. Ao conversar com alguém diversos pensamentos silenciosos são desencadeados e ficam prontos para sua utilização. Um dos maiores desafios de um intérprete encontra-se no momento da recepção de um discurso. Se muito tempo for gasto em um único termo, perde-se o sentido. Em

17 Texto original no anexo B, p. 93.

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outras palavras, a semântica (significação das palavras) se sobrepôs à cognição (compreensão do sentido).

3.3.3. Unidades de sentido

No desenrolar do discurso, o intérprete ouve as palavras umas seguidas das outras e em intervalos regulados pela compreensão do que foi dito. São nesses intervalos em que uma unidade mental distintiva é constituída. Não são as palavras (unidades gráficas), nem a expressão vocal em si que são as responsáveis por essa compreensão, mas sim uma cadeia de sons. As unidades mentais são idéias que os destinatários recebem e vão atualizando o conhecimento que o orador prevê que possuem. A compreensão dessa soma de sons chama-se unidades de sentido. Estas não possuem uma duração fixa, podendo ocorrer em diversos momentos do discurso, dependendo do conhecimento do intérprete e do ouvinte sobre o tema abordado. Na interpretação simultânea as unidades de sentido sobrepõem-se umas às outras a fim de produzir um sentido total. Em seguida, transformam-se em conhecimento desverbalizado conforme integram unidades maiores e tornam-se idéias mais significantes. O quadro baixo simplifica o processo descrito acima:

palavras + palavras = cadeias de sons cadeia de sons + cadeia de sons = unidade de sentido unidade de sentido + unidade de sentido = conhecimento desverbalizado (idéias significativas)

Em suma, o intérprete ouve o tempo suficiente para que a soma das palavras se torne uma unidade de sentido. Nesse momento as palavras ouvidas individualmente perdem seu significado original e agora fazem parte do todo da unidade de sentido. No segundo seguinte da última palavra ouvida, o intérprete já está criando novas unidades de sentido que irão se somar à unidade de sentido anterior, cujas palavras novamente perdem seu significado individual. Dessa forma, as idéias significativas vão sendo construídas gradualmente.

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Como uma representação mental, as unidades de sentido correspondem a um

breve estado de consciência. Freud (1953, apud LEDERER, 2003, p. 19) apresentou três

tipos de estado mental do conhecimento: 1) o estado da consciência (após a tradução, no

intervalo das unidades de sentido); 2) o estado pré-consciente (quando a primeira

unidade de sentido já foi entendida e as outras unidades estão sendo construídas –

momento em que a primeira passa para o estado pré-consciente, tornando-se uma

pequena parte do conhecimento latente); 3) o estado da inconsciência (possui pouco

impacto na interpretação).

Ao analisar os conceitos de Freud, Lederer (2003, p. 19) questiona se ele

acreditava que o conhecimento pré-consciente em um estado latente permanecia verbal

ou não. Pois de acordo com suas pesquisas, a unidade de sentido é desverbalizada ao

passar de um estado de consciência a um conhecimento latente.

Apoiando-nos nesses conceitos, podemos concluir que nenhum módulo de

interpretação é totalmente simultâneo. Cada intérprete utiliza-se do método com o qual

se adapta melhor. Em forma de gráfico esse procedimento ficaria como no quadro

apresentado abaixo. Para melhor elucidar os exemplos seguintes, utilizaremos os

números (1) e (2) para designar o conhecimento desverbalizado (1) pré-consciente e o

conhecimento desverbalizado (2) consciente, respectivamente. Também utilizaremos o

verbo ‘traduzir’ não no sentido literal da palavra, mas no que se refere à tradução do

trecho interpretado para uma segunda língua.

sons de palavras + sons de palavras = unidade de sentido 1

unidade de sentido 1 + unidade de sentido 2 = conhecimento => tradução desverbalizado

(1)

(consciente)

fase

fase

conhecimento

desverbalizado

traduzido

(1)

(pré-consciente)

+

unidade de sentido 3

+ = conhecimento => tradução

unidade de sentido 4

desverbalizado

(2)

(consciente)

No método mais empregado, a interpretação possui um atraso em relação à

enunciação das palavras no discurso original. Esse atraso resulta em uma sobreposição

na unidade de sentido seqüente, ou seja, o intérprete ouve partes de (2) enquanto ainda

traduz (1). Paneth (cf. 2002, p. 32) afirma que o tempo pode variar de 2 a 4 segundos,

envolvendo de 15 a 21 palavras, dependendo do tamanho das sentenças. Traduções de

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frases curtas poderão se encaixar em uma pausa feita pelo orador, aliviando a memória do intérprete e a velocidade aplicada. Já as traduções de frases longas coincidem parcialmente com o final de sua enunciação no original e parcialmente com o início da seguinte. Conforme o discurso é desenvolvido, os intérpretes costumam se adaptar ao ritmo e ao estilo do orador, acelerando mais ou menos, deixando mais ou menos pausas. Paneth (cf. 2002, p. 34) também confirma a verificação de que os intérpretes costumam traduzir trechos curtos somente após o término de sua enunciação no original, ao contrário de trechos longos. Muitas vezes, quando o discurso é reduzido em volume o intérprete pode até terminar antes do orador, o que ocorre no caso de previsões de clichês e estruturas gramaticais, por exemplo. Já outros intérpretes preferem o método na qual trechos inteiros de (1), (2), (3), etc, ficam para trás antes de começar a traduzir. Isso quer dizer que ele já ouve a parte (4) enquanto ainda enuncia (1), (2) e (3). Nesse caso, ele prefere compor um pensamento mais completo antes de se pronunciar, o que ajuda no caso de a parte (4) ser tão comprida que não haveria tempo suficiente para pausar a fim de terminá-la. Aqueles capazes de falar rapidamente utilizam suas pausas para oferecer mais opções de vocabulário ou elucidar trechos, tornando o discurso mais claro e rico. Vale notar que a velocidade com que o intérprete é capaz de produzir o discurso traduzido não deverá interferir em sua clareza e depende em grande parte das línguas envolvidas, pois umas podem ser muito mais prolixas do que outras.

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Capítulo 4

4.1. A formação do intérprete

Assim como na pintura, o intérprete não trabalha totalmente sozinho. O artista plástico necessita de ferramentas de trabalho tais como as tintas, o pincel, o cavalete e a tela. Já o artista da comunicação necessita de palavras. Essa é a matéria-prima essencial com a qual ele aplica suas técnicas. Entretanto, não são somente as palavras que preocupam o intérprete, afinal, o mercado de trabalho exige cada vez mais. A grande questão entre os profissionais dessa área é a melhor forma de se atualizar e a escolha das línguas de trabalho que devem ser inclusas em seus currículos. A melhor opção é dedicar-se a apenas uma língua estrangeira, à sua máxima proficiência, ou adquirir o domínio de três ou mais, mesmo que esse conhecimento tome tempo, dinheiro e que seu resultado não seja o esperado?

4.1.1. As línguas de trabalho

Em primeiro lugar, qualquer indivíduo decidido a se dedicar aos estudos da interpretação precisa ter um domínio de sua língua-mãe. O segundo pré-requisito básico é dominar no mínimo uma segunda língua. Vale ressaltar que esta nem sempre deve ser uma língua estrangeira, já que muitos países possuem mais de uma língua oficial. Aconselha-se possuir o domínio dessas duas línguas de trabalho antes de se aprofundar nos estudos. Magalhães Jr (2007, p. 211) cita em seu livro o critério utilizado pela AIIC para indicar a competência lingüística de seus membros. A Língua A corresponde à língua- mãe do intérprete ou outra equivalente à sua nativa para a qual ele traduz a partir de outras línguas de trabalho, portanto língua ativa. A Língua B é a língua estrangeira ativa da qual o intérprete possui perfeito domínio e com a qual se sente apto a traduzir a partir de outras línguas de trabalho. E por último, a Língua C corresponde à língua estrangeira passiva, da qual o intérprete tenha plena compreensão e sinta-se apto a traduzir para outro idioma ativo. Ressalta-se que o intérprete, portanto, somente atinge um nível satisfatório de proficiência na segunda língua ativa, a Língua B, após anos de prática e/

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ou vivência no exterior para que a pronúncia e a utilização de expressões cotidianas estejam de acordo com as utilizadas no país. Caso a aquisição da língua tenha-se dado de forma ininterrupta, porém sem a proficiência obtida numa língua A, recomenda-se sua utilização em discussões técnicas, nas quais importa mais a exatidão lexical do que o estilo ou o sentido figurado da língua. Sabe-se que no mundo globalizado em que vivemos grandes empresas necessitam de profissionais atualizados e versáteis, já que as línguas exigidas no mercado mudam constantemente dependendo da economia e da política mundial. Portanto, quem pretende ingressar nesse ramo deve considerar a possibilidade da aquisição de duas importantes línguas européias, as quais devem ser dominadas com proficiência, e o conhecimento de outras duas subsidiárias, as quais devem ser apenas traduzidas para a língua-mãe. Paneth (cf. 2002, p. 31) ainda afirma que por razões práticas e profissionais, aconselha-se a inclusão no portifólio da língua francesa e da língua inglesa. Ela afirma que a importância da língua francesa deve-se ao fato de um dia já ter sido uma língua de comunicação internacional. Outra sugestão seria o profissional ter conhecimentos da língua espanhola, pois, muito provavelmente em intervalos de conferências, visitas sociais e viagens, o cliente se comunicará em inglês, espanhol ou francês, ou até mesmo em mandarim, a grande promessa do mercado. Caso isso aconteça, o intérprete demonstrará confiança e conhecimento, itens muito importantes em sua profissão. Nesta monografia as línguas de trabalho abordadas serão o português e o inglês a fim de limitar e aprofundar os estudos dessas línguas e sua aplicação nos eventos com interpretação simultânea nas transmissões em rede internacional. A grande maioria dos intérpretes começa sua carreira atuando como um profissional liberal. São muitos os fatores que ajudam a tornar-se funcionário fixo de uma empresa, entre eles a combinação de línguas. É muito importante pensar na carreira que se pretende seguir e em que áreas se deseja atuar para que possa concentrar os esforços em línguas específicas. Quanto maior o número de línguas com que se trabalha, melhor as chances no mercado, pois, dessa forma, não será necessário a relé 18 , também conhecida como relay. A relé deve ser evitada, pois existe o risco de um erro cometido em uma cabine ser transmitido para outras, causando o efeito de uma bola de neve. Utiliza-se esse

18 Sistema de interpretação indireto.

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sistema somente em situações que envolvam três ou mais idiomas em um mesmo recinto e não haja intérpretes suficientes para as línguas necessárias. No caso de um profissional que trabalhe com o inglês e o português ter de verter para uma dessas línguas um discurso originalmente em espanhol, ele terá de recorrer à tradução feita por um colega de cabine. Assim, o currículo do intérprete o qualifica melhor conforme a quantidade de línguas que tem a oferecer, não esquecendo é claro, que sua escolha deve depender exclusivamente do mercado de trabalho e da área de atuação, visto que umas línguas podem ser mais utilizadas em conferências do que outras, mais utilizadas para visitas de delegações durante negociações. Segundo o Comitê de Treinamento da AIIC

(2006), as línguas que possuem uma procura maior no mercado são, em ordem alfabética, o árabe, o chinês, o inglês, o francês, o alemão, o italiano, o japonês, o russo

e o espanhol. O grande diferencial do profissional consiste na inclusão de línguas

incomuns em seu currículo, tais como o grego, a língua holandesa, o dinamarquês e outras línguas utilizadas pelas instituições européias. As instituições da União Européia trabalham com 11 línguas oficiais. Os serviços de interpretação da Comissão Européia atualmente exigem três línguas passivas ou duas passivas e interpretação simultânea para uma língua B sendo esta inglês, francês ou alemão.

4.1.2. As qualificações de um intérprete

Há quem afirme que todo intérprete nasce com o dom para a sua profissão. Porém, qualquer pessoa dedicada e comprometida que adquira conhecimento e prática suficientes pode se tornar apto para o trabalho. Pagura (2001, p. 12) afirma que esse profissional deve se concentrar na língua oral de forma a compreender as sutilezas das

vogais e consoantes inglesas, os modelos de entonação e o sentido em suas diversas formas. Além disso, deve apurar o ouvido para o inglês falado por americanos, sejam do Texas ou do Alabama, por ingleses, sejam de Londres ou Liverpool, e também por árabes, alemães, franceses e até mesmo brasileiros com muito sotaque que preferem proferir a palestra em inglês. Sua língua A também não deve possuir marcas de sotaque

e expressões regionais e sua pronúncia deve ser a mais clara possível, com grande dicção na enunciação de sílabas e terminações.

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As distinções importantes entre vogais e consoantes mencionadas acima devem ser cuidadosamente dominadas e o modelo de entonação adequado, adquirido, não só como uma habilidade receptiva, mas também produtiva. Os intérpretes normalmente têm de mudar a direção da língua tão rapidamente quanto uma pergunta é lançada e sua resposta é fornecida. (PAGURA, 2001, p. 12, tradução nossa) 19

Sua personalidade influencia bastante sua prática assim como suas habilidades. Esse profissional deve ser capaz de analisar e construir fatos e utilizar-se de sua intuição, deve estar atualizado com o mundo, deve possuir agilidade de pensamento e perspicácia (reação rápida, habilidade de adaptar-se sem atraso demasiado em relação aos oradores, às situações e ao assunto), assim como deve possuir concentração, poder de síntese, autocontrole, autoconfiança, mente aberta, voz agradável e habilidades de oratória, interesse e curiosidade em assuntos e culturas diversos, tato e diplomacia. No que se refere ao conhecimento profundo da língua, o intérprete deve, tanto na língua ativa quanto na passiva, ser capaz de reconhecer e ativar sinônimos, expressões idiomáticas, provérbios e citações. José Augusto Rodrigues 20 afirma que esse profissional deve estar sempre disposto a pesquisar, interessado no estudo de diversas áreas e a par dos desenvolvimentos em praticamente todos os campos do conhecimento humano, já que um dia poderá lidar com um discurso envolvendo novos conceitos. Fernando Santiago dos Santos 21 reforça que o preparo anterior à conferência, além de proporcionar mais confiança, ajuda a evitar futuros deslizes. Essa prática possibilita o entendimento da discussão entre os especialistas da área e a desenvoltura para se utilizar jargões e falar como eles. Esse preparo conta com: 1. informação sobre o orador e contato para os esclarecimentos necessários; 2. identificação de termos que devem ou podem ser mantidos na língua original; 3. verificação do equipamento de som; 4. informação sobre qualquer mudança no discurso no dia do evento, assim como os vídeos que serão utilizados e as piadas que serão contadas. Também vale lembrar que, assim como qualquer outro profissional, o intérprete deve obter treinamento específico para a realização de sua função, como uma formação

19 Texto original no anexo B, p. 93.

20 Formado em Letras na Universidade Católica de Santos, Rodrigues leciona inglês na escola de idiomas Casa Branca e atuou como intérprete por dois anos consecutivos no Estados Unidos.

21 Formado em Biologia pela Unicamp, Santiago leciona inglês há 20 anos, é coordenador pedagógico do colégio Positivus de Santos, fez curso de Tradução e Interpretação em São Paulo, atua como intérprete há 15 anos, fala inglês, espanhol, japonês, alemão, francês e italiano, mas tem como línguas de trabalho as duas primeiras.

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universitária ou o equivalente, pois um certificado de conclusão de curso de línguas não oferece preparo suficiente para as exigências da profissão. Não se exerce essas qualidades independentemente, pois constituem um todo chamado interpretação profissional. O intérprete que melhor se ajustar ao discurso do orador, tomando seu ponto de vista, utilizando-se de sua retórica e adaptando seu estilo ao do palestrante, alcançará grandes resultados quando perceber que o público demonstra sinais de aceitação e ri de uma piada, sinalizando com a cabeça sua aceitação ou discórdia.

4.1.3. A formação acadêmica

Se assumirmos que o intérprete já possui as qualificações lingüísticas necessárias e identifique-se com o perfil exigido, resta-nos concentrar em sua formação acadêmica. Pode-se dizer que há o treino individual e o treino institucional. O primeiro em relação ao treino feito em casa, por meio de pesquisas, aquisição de vocabulário, leitura, atualização em palestras e congressos, e o último em relação ao treino obtido em instituições com um apoio pedagógico. Essa profissão exige a prática de listening (audição) focalizando na busca de sentido e não de palavras. A paráfrase é um ótimo treino nesse sentido, pois os alunos terão de transmitir a mesma mensagem utilizando palavras diferentes. Eles também deverão aprender a concentrar-se no formato do texto a fim de lembrar o que foi dito sem ter de memorizar os termos utilizados. Pagura (2001, p. 13) sugere que a aprendizagem inicie-se na prática da consecutiva partindo para a simultânea somente mais tarde. Como abordado anteriormente, a interpretação consecutiva é uma impressionante demonstração do trabalho realizado pela memória cognitiva, já a simultânea permite-nos ver como o sentido é construído. Por tais razões, ele afirma que é na consecutiva que o aluno aprenderá a analisar o que está sendo dito sem as restrições de tempo impostas na simultânea. Primeiramente, o aprendiz deve dominar o processo de análise no módulo consecutivo. Em seguida, deve falar e ouvir ao mesmo tempo, para que sua voz não atrapalhe a audição. Um treino de oratória pode proporcionar aos alunos clareza, boa dicção e uma consciência do modo que discursam. Lederer (2003, p. 6) concorda com Pagura no que diz respeito ao treinamento realizado. Segundo ela, o processo da

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consecutiva contém todos os parâmetros do discurso e permite uma análise direta que oferece conclusões claras do fenômeno da tradução:

[ ]

manifestação concreta de um discurso ou texto passa pela mente do tradutor

[ou intérprete] e torna-se uma outra manifestação concreta, desse modo

a interpretação consecutiva é a representação mais pura de como a

transferindo sentido. (LEDERER, 2003, p. 6, tradução nossa) 22

4.1.4. Código de ética

O intérprete de conferências pode ser autônomo ou ser empregado fixo de

alguma organização, ou empresa nacional ou multinacional, tanto no setor público quanto no privado. Sejam quais forem os lugares de atuação, o profissional deve ter sempre em mente sua atitude profissional. Obter o reconhecimento e a confiança dos

clientes é uma certeza de trabalho futuro. Os elementos mais importantes são o senso de responsabilidade, a autodisciplina e o código de ética.

A fim de proporcionar uma idéia geral do código adotado pelos membros da

AIIC, apresentaremos um resumo dos pontos mais relevantes. Em primeiro lugar, o sigilo deve ser mantido independentemente do grau de importância do discurso. Ainda, qualquer trabalho oferecido que contenha conhecimentos que fujam da qualificação do intérprete deverá ser recusado. Da mesma forma, é dever dos membros da associação oferecer aos seus colegas assistência moral e companheirismo. Além disso, deve-se respeitar o preço de mercado determinado pela associação a fim de evitar a desvalorização do trabalho e a concorrência. As condições de trabalho devem ser minuciosamente observadas e exigidas no início de um contrato. Com vistas a assegurar uma interpretação de qualidade, devem-se levar em conta os seguintes pontos: 1. as condições de áudio, visibilidade e conforto devem ser satisfatórias, de modo que a visão do orador seja completa e a distância da cabine não interfira no caso de haver projeção em telão. Não deve haver interferência no som e a altura da recepção deve ser pouco maior do que a altura da fala do intérprete. Santiago, intérprete entrevistado, sugere atenção redobrada quanto a interferências, que podem ocorrer devido a ondas de rádio e tecnologia wireless. Ele recomenda uma distância de 50 metros entre uma cabine e outra, especialmente quando o equipamento

22 Texto original no anexo B, p. 93.

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for móvel. Além disso, a cabine deve ser bem arejada e à prova de som. 2. deve-se sempre trabalhar em duplas, alternando-se a cada 30 minutos no máximo. 3. deve-se solicitar, com antecedência, o envio de textos que serão lidos durante a apresentação, assim como documentos e apresentações em Power Point. Em suma, o Código de Ética, tão importante quanto às ferramentas de trabalho do intérprete, deve fazer parte de seu dia-a-dia, já que é o mais valioso amparo legal disponível atualmente.

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Capítulo 5

5.1. Os fatores que comprometem a interpretação

Nos capítulos 5 e 6 analisaremos os erros mais freqüentes em interpretações simultâneas para oferecermos, mais adiante, uma proposta de estudo com base na teoria apresentada e nas informações obtidas. Os dados analisados não possuem, em hipótese nenhuma, o objetivo de criticar os autores das interpretações. Ao contrário disso, estudaremos as opções de tradução e o processo mental e psicológico responsáveis pelas decisões tomadas. Pelas características da atividade, os erros são muito mais freqüentes do que se imagina, já que a interpretação envolve material textual que é produzido oralmente pouco antes de ser traduzido. Mesmo quando o orador utiliza um texto base ao qual o intérprete teve acesso previamente, é muito provável que haja comentários imprevistos. Posto isso, levanta-se a questão: como garantir os padrões de excelência e profissionalismo previstos pelo código de ética profissional? A fim de propor meios de aprimoramento que ajudem a evitar erros de interpretação, realizamos um estudo de casos para tomarmos consciência das dificuldades mais encontradas de modo a minimizar esses riscos. Os casos citados a seguir são exemplos coletados durantes aulas de interpretação simultânea de alunos do último semestre de Tradução e Interpretação da Unisantos em 2007, do estudo sobre as consoantes do inglês e do português de Ricardo Schütz (03 out. 2007) e do artigo de Raffella de Filippis Quental (2006). Também realizamos entrevistas com os intérpretes José Augusto Rodrigues e Fernando Santiago dos Santos, cujos relatos sobre o módulo simultâneo e os desafios encontrados com maior freqüência foram imprescindíveis para a elaboração desta monografia.

5.1.1. O fator fonético

Quental (ibidem, p. 30) afirma que é bastante comum o intérprete ter de desempenhar seu papel em um cenário em que o som seja de má qualidade, com ruído de fundo, acompanhado de técnicos despreparados. Além disso, o orador pode ser

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confuso, se expressar mal, falar demasiadamente rápido ou devagar, não dominar o idioma em que por opção ou obrigação se expressa ou possuir um sotaque regional ou nacional muito pronunciado. Segundo ela, esses fatores podem interferir em maior ou menor grau na capacidade de concentração e no rendimento do intérprete. No contexto típico da interpretação de conferência, na qual um grupo de pessoas de diferentes nacionalidades se reúne com o propósito de discutir um assunto, é cada vez mais freqüente encontrarmos oradores de diferentes locais comunicando-se em inglês, com pronúncias as mais variadas possíveis. No caso do brasileiro que se comunica em inglês, os fatores que podem agravar sua comunicação devem-se à pronúncia com sotaque. A aspiração das oclusivas surdas do inglês /p/, /t/ e /k/, em posição inicial de palavra, não tem equivalente em português. A transferência das oclusivas /p/, /t/ e /k/ não aspiradas do português causará, em primeiro lugar, um erro fonético 23 e, em segundo lugar, um erro fonológico 24 , pois será percebida por nativos da língua inglesa como /b/, /d/ e /g/, respectivamente. Ricardo Schütz (03 out. 2007) cita o exemplo da palavra pig (porco) [p h Ig]. Caso seja pronunciada como [pIg], sem aspiração, poderá ser confundida com a palavra big (grande) [bIg]. Há também a

interferência causada pelos alofones do português [t ] e [ ] nos fonemas /t/ e /d/

seguidos de [i], respectivamente, causando um erro fonológico. Assim, a palavra till [tIl], abreviação de “até”, pronunciada erroneamente, poderá ser escutada como [t Il], chill, que significa relaxar. Por não possuirmos os fricativos dentais /è/ e /ð/, eles representam outro problema, pois poderão ser trocados por /t/ e /d/, respectivamente, ou ser substituídos

por /t/, /s/ e /f/. O orador pode no primeiro caso ter a intenção de falar thin (magro) [èIn]

e pronunciar tin (lata) [tIn]. Outro erro comum que pode acarretar conseqüências graves

é a troca de palavras que pertencem à mesma classe gramatical, como o caso do verbo think (pensar) [èI k], ser pronunciado como sink (afundar) [sI k]. Schütz também

analisa as oclusivas /p/, /b/, /t/, /d/, /k/ e /g/, as africadas /t / e / /, e as fricativas /f/, /v/, /

è /, /ð/, /š/ e /ž/ que sempre ocorrem em posição final de palavra em inglês. A tendência

brasileira é a de acrescentar o som vogal /i/ após essas consoantes em final de palavra.

23 Schütz afirma que o erro fonético é aquele que causa apenas sotaque estrangeiro, podendo tornar o falante cansativo ao nativo que o ouve. (vide referências bibliográficas).

24 Schütz afirma que o erro fonológico é aquele que pode causar mal-entendido na comunicação. (vide referências bibliográficas).

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Assim, se tomarmos como exemplo back [bæk], que significa “atrás”, back teria uma

sílaba extra [bæki]. Um outro problema envolve os sons /t/ ou /d/, em que o simples erro

fonético resultará em erro fonológico: eat (comer) [it] – each (cada) [it ]; cat (gato)

[kæt] – catch (pegar) [kæt ]; hat (chapéu) [hæt] – hatch (o chocar de um ovo) [hæt ].

Ainda há muitos outros equívocos fonológicos: o caso da retroflexa /r/ do inglês ser

substituída pela fricativa glotal /h/ do inglês resulta em erros como right (certo, direita,

etc.) [raIt] – height (altura) [haIt], a pronúncia errônea das fricativas /s/ e /z/ finais como

no caso da palavra eyes (olhos) [aIz] ser pronunciada como ice (gelo) [aIs], a tendência

de substituir as semi-consoantes /w/ e /y/ do inglês por /u/ e /i/, respectivamente,

causando problemas como year (ano) [yI r] – ear (orelha) [I r].

Muitas vezes o orador tem dificuldade em diferenciar certas palavras no singular

de sua forma no plural, pela proximidade lingüística de seus fonemas, como a diferença

entre man (homem) [mæn] e men (homens) [m n], por exemplo. O fonema /æ/ é

pronunciado em uma posição anterior baixa. A ponta da língua toca levemente a parte

traseira dos dentes da frente inferiores e a mandíbula é abaixada para proporcionar a

distância máxima entre a língua e o céu da boca. Já o fonema / / é produzido em uma

posição anterior média e sem movimentação ampla da mandíbula. Portanto, como

ambos fonemas são vogais simples, o que os diferencia é apenas a posição na cavidade

oral e o formato dos lábios, que ficam um pouco mais abertos ao pronunciar [æ]. Essa

semelhança também pode ser encontrada na pronúncia de bad (mau, ruim, etc.) [bæd] e

bed (cama) [b d] e é o que se chama de minimal pairs 25 .

para

compreender pronúncias diversas. Algumas diferenças na pronúncia americana e

britânica aparecem na tabela a seguir:

Como

proposto

anteriormente, todo

intérprete deve apurar

o ouvido

 

AM

 

BR

 

[r]

omissão de [r]

work

[w rk]

[w3:k]

 

[t] sonoro e [i] [ p h rIti]

[t] surdo e [I]

pretty

[ p h rItI]

 

[OU]

[

U]

boat

[bOUt]

[b Ut]

25 Palavras com significados distintos que possuem os mesmos sons com apenas 1 fonema diferente na mesma posição da palavra, como em mat/sat e pen/pan.

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Se o intérprete não estiver acostumado com ambas as pronúncias e não levar o contexto em consideração, poderá ter dificuldade em reconhecer os seguintes termos:

 

AM

 

BR

coals

[kOUlz]

[k

Ulz]

curls

[k

rlz]

[k3:lz]

joke

[ OUk]

[

Uk]

jerk

[

rk]

[

3:k]

Deve-se ter familiaridade não somente com a língua estrangeira com marca de sotaque, mas também com as variantes que um fonema oferece em um mesmo país. Existem termos como direct (dirigir, apontar, direto, etc.) e data (dados) que aceitam

duas ou mais pronúncias: direct [dI r kt] ou [daI r kt] e data [ deIt ] ou [ dat ]. Por não

saber qual pronúncia o orador utilizará, vale conhecer todas as formas fonéticas que um termo pode apresentar a fim de reconhecê-lo. A velocidade muitas vezes sobrecarrega o intérprete, que acaba cometendo erros. Veja um caso que ocorreu durante uma aula de interpretação na qual os alunos do curso de Tradução e Interpretação ouviam um discurso sobre literatura norte-americana e o professor citou a expressão free verse [fri v rs]. Devido à semelhança fonética e a rapidez com que a expressão foi pronunciada, houve um erro de compreensão e

entenderam fevers [ fiv rz]. Como estranharam o termo fevers (febres) no contexto,

optaram por omiti-lo. Há também o caso da interferência fonética que ocorre quando o intérprete possui domínio quase equivalente entre a LP e a língua-mãe, fato que interfere na interpretação. Por tais razões, o intérprete acaba emitindo o que se chama de shadowing 26 , ao invés de traduzir o termo ou a expressão para a LC. O intérprete pode até mesmo misturar as duas línguas, como nos casos 1 e 2 coletados: no caso 1, o termo na LP era including e foi traduzido como “includindo” e no caso 2, a expressão era tell me que foi repetida sem nenhuma tradução na LC por soar muito natural para o intérprete.

26 Repetição de termos da LP na LC, pronunciados “simultaneamente” com o discurso original.

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5.1.2. A expectativa frustrada

A decodificação fonética incorreta pode ocorrer por diversos motivos. Um deles é a expectativa frustrada, quando a atitude do orador frustra uma expectativa do intérprete, induzindo-o ao erro. Quental (2006, p. 31) cita um exemplo:

Caso 1a: A oradora italiana está falando de um funcionário do alto escalão da empresa e, num tom muito sério, afirma: “x é l’ingegnere piú creativo

dell’impresa”.

A

intérprete

entende

x

é

l’ingegnere

piú

cretino

dell’impresa”.

Sua justificativa é que o intérprete foi induzido ao erro pelo tom grave com que o orador pronunciou sua opinião sobre aquela pessoa, em contraposição ao tom esperado, já que se tratava de um julgamento extremamente positivo. Nesse caso foi a ajuda do concabino que ajudou a evitar o erro e fez com que o intérprete reconsiderasse o que seus ouvidos lhe diziam, utilizando o raciocínio lógico. Outras vezes o orador fala de uma terceira pessoa utilizando-se de um termo no inglês que não possui flexão para diferenciar o gênero masculino do feminino. Termos como teacher Baker, que vêm acompanhados do sobrenome da pessoa, podem causar equívocos quando o intérprete tiver de optar por um gênero. Caso escolha o masculino, por exemplo, pode mais tarde descobrir, por meio de pronomes como her e she, que se trata de uma professora, ferindo uma expectativa. Nosso cérebro conta com uma vasta carga subconsciente, de grande auxílio na interpretação simultânea. Muitas vezes um termo fere a expectativa com relação ao contexto, pois “algo soa errado”, então o intérprete opta por omitir o termo não compreendido na primeira vez que ouve, mantendo o discurso coerente da melhor forma possível, redobrando sua atenção na segunda vez que o termo for citado, traduzindo-o então para a LC. Um outro caso coletado foi o problema de nome próprio e substantivo. O orador discursava sobre uma história de cachorros e citava-os em uma seqüência. Ao pronunciar a palavra pig inesperadamente, o intérprete ficou confuso se esse seria um nome próprio ou se um novo personagem, um porco, entrava na história. A decisão tomada, sob pressão do tempo, foi traduzir como um nome próprio, porém, ao perceber

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o erro, o intérprete se desculpou, corrigindo-se. A correção por parte do intérprete é considerada um procedimento normal e é aconselhável para esclarecer que o erro foi dele e não do orador. Desse modo, ao desculpar-se, o intérprete deve deixar uma marca perceptível no discurso como “desculpe” ou “perdão”, dirigindo-se diretamente ao público. Rodrigues e Santiago, intérpretes entrevistados, são da mesma opinião quanto à pesquisa realizada de antemão. Eles afirmam que esse preparo é de extrema importância, já que ajuda a evitar o erro no caso de uma expectativa frustrada. Recomenda-se, então, levar para a cabine um glossário com termos, nomes de pessoas que serão citadas, a fim de evitar falha na identificação fonética, e abreviações em ordem alfabética, especialmente em congressos técnicos, nos quais a terminologia utilizada é específica. A visão total do orador é outro fator importante, já que a linguagem corporal do orador determinará, com freqüência, o sentido da mensagem e ajudará a desfazer qualquer mal-entendido. Ao interpretar entrevistas com os atores do filme “A Intérprete”, os alunos de Tradução e Interpretação haviam se preparado anteriormente com o vocabulário técnico utilizado no vídeo. Em um certo momento, falava-se sobre o hábito de intérpretes tocarem instrumentos musicais e citaram o instrumento bassoon. Graças ao glossário preparado com antecedência, o termo foi perfeitamente interpretado como “fagote”. Já uma falha na composição do glossário em outro exemplo na qual aparece um nome específico de planta, o termo myrtle, que possui seu equivalente no português como “mirto”, foi generalizado pelo termo “moita”. Rodrigues afirma, durante a entrevista, que uma das maiores dificuldades que sentiu durante os eventos internacionais foi seguir a linha de raciocínio do orador que, ao falar, não finalizava suas sentenças. Ele coloca que muitas pessoas, ao discursarem, afastam-se do tópico principal, entram em um outro assunto e só depois retomam o que falavam, chegando a uma conclusão. Essa linha de raciocínio deixa lacunas e frustra a expectativa do intérprete. A fim de evitar sentenças inacabadas, Rodrigues procura estudar sobre o assunto com antecedência, pois, conhecendo o tema, ele tem como retomar a explicação, contando, às vezes, com o auxílio da apresentação em Power Point para traçar relações lógicas e retornar ao discurso original.

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5.1.3. A semelhança fonética

O erro nesse caso ocorre quando o intérprete pretende dizer um termo, mas, devido à semelhança fonética com o termo pretendido na LC, acaba dizendo outro. Certas palavras pertencem ao mesmo campo semântico, já outras apenas possuem um som semelhante.

É possível que, quando o intérprete busca apressadamente o termo certo na

memória, com a pressão do tempo que é característica da interpretação simultânea, o cérebro às vezes se deixe enganar pela forma e acabe se detendo num termo semelhante, mas errado. (HERCULANO-HOUZEL apud QUENTAL, 2006, p. 32)

Quental (2006, p. 32) coloca a concepção de Maria Paula Frota, apresentada no livro A singularidade na escrita tradutora: linguagem e subjetividade nos estudos da tradução, na lingüística e na psicanálise, que afirma que a ação do inconsciente é impossível de ser evitada.

O ato falho é um mecanismo psíquico ao qual todos estamos sujeitos, que

envolve o aparecimento, na fala ou na escrita, de um termo não intencional, motivado por um desejo ou uma expectativa inconscientes.

Muitas vezes as palavras são simples e não exigem um vocabulário profundo, como o exemplo obtido durante um discurso feito por uma professora sobre Bariloche, em que o termo cinnamon (canela) aparece, mas devido a um ato falho, o intérprete traduz por “cimento”. Outro exemplo coletado durante a interpretação de um trecho dos depoimentos dos extras de “A Intérprete” foi a expressão 3 pieces of information, que o intérprete conhecia e sabia que deveria traduzir como “3 informações”, omitindo pieces para que a expressão no português soasse natural. Entretanto, devido à semelhança fonética com o termo na LC, traduz como “3 pedaços de informação”. Outro exemplo de ato falho foi coletado durante a Simultânea de um vídeo sobre o Central Park em que aparece a expressão all classes of people. A influência da língua inglesa na LC foi tão grande que, mesmo conhecendo a expressão “classes sociais”, o resultado foi “classes de pessoas”. Outro exemplo é o termo track que significa caminho, trilha, e foi traduzido por “truque”.

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5.1.4. Falsos cognatos

Não existe uma relação preestabelecida entre as palavras de línguas diferentes, pois sua equivalência em uma outra língua dependerá do contexto, como visto anteriormente. Entretanto, há alguns nomes próprios como England e palavras de natureza mais técnica que não exigem tanto esforço mental. No campo semântico médico, pode-se facilmente encontrar o equivalente “diabete” para a palavra diabetes, por exemplo. Conforme Schütz (03 out. 2007) explica em seu artigo veiculado na Internet, os falsos cognatos são palavras normalmente derivadas do latim, que possuem, portanto, a mesma origem e que aparecem em diferentes idiomas com ortografia semelhante. Porém, o processo é lento; pois foi ao longo do tempo que elas adquiriram significados diferentes. Esse fator é muito comum e pode ser observado em diversos eventos com interpretação. Foi esse o caso de uma interpretação feita em aula dos depoimentos do “behind the scenes” do filme “Atração Fatal”. O substantivo diversion foi citado e foi traduzido como “divergência”; no entanto, o termo diversion significa diversão, desvio, mudança de aplicação, distração, etc. Já o termo divergência significa uma diferença de opinião; desentendimento, discordância, etc. Outro exemplo é o termo mass, que pode ser confundido por “massa” quando significa “missa”, assim como sympathy (compaixão, empatia), que pode ser confundido por “simpatia”. Esse foi o caso de um dos alunos, que durante um exercício, ao ouvir o termo sympathy lembrou imediatamente de “simpatia”. Ciente de que estava errado, omitiu-o na LC, por não encontrar nenhum equivalente no português. O ideal no caso dos falsos cognatos é a prática de leitura constante na língua com a qual se trabalha, redobrando a atenção aos termos mais problemáticos a fim de tê-los sempre claros na memória.

5.1.5. A interferência de estados

Nesse caso, são as circunstâncias momentâneas sentidas pelo intérprete que interferem na interpretação. Existem casos como os abordados por Quental (2006, p. 32), em que o intérprete, muito cansado ao final de um longo turno, ouviu a frase you were so exhaustive, that we have no questions pronunciada pelo organizador de um

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evento em resposta a uma pergunta do orador. No contexto, o significado de exhaustive era “completo”; entretanto, o intérprete entende we are so exhausted that we have no questions e traduz a frase da seguinte forma: “Estamos tão exaustos, que não temos perguntas”. Esse fator é novamente a prova de que a jornada de trabalho do intérprete deve ser respeitada e que ele deve estar sempre acompanhado de um concabino.

5.1.6. As dificuldades morfossintáticas

As dificuldades morfossintáticas encontradas em interpretações simultâneas referem-se, sobretudo, ao tempo verbal, à substantivação, ao uso de preposições, ao gênero utilizado e ao emprego de verbos específicos. Muitos verbos, substantivos e adjetivos no inglês mudam de função sintática com facilidade, acrescentando sufixos ao radical da palavra, como fortyish e marriageable, por exemplo, que não possuem equivalência no português; já os artigos podem apresentar problemas no caso do intérprete estar acompanhando o orador que fala rápido, e decidir usar o artigo definido masculino “o” quando ele cita the, descobrindo segundos depois que a palavra seguinte é feminina na LC. Muitas vezes ocorre mudança de gênero quando há troca de “ela(s)” por “ele(s)” e vice e versa. As preposições são um caso à parte, juntamente com os famosos phrasal verbs (verbos preposicionais), pois o significado pode mudar bruscamente apenas com a troca da preposição ou do advérbio que acompanha o verbo. No caso da língua inglesa, a quantidade de verbos específicos é muito maior do que no português, o que dificulta o trabalho do intérprete, que precisa ocupar mais tempo acrescentando informação ao verbo. O tempo verbal representa um desafio ao intérprete que traduz do inglês para o português, pois existem diversos equivalentes para estruturas no tempo verbal present perfect. A frase Students have become pode apresentar diversas traduções, de acordo com o contexto: os alunos se tornam, se tornaram, têm se tornado, estão se tornando e vêm se tornando. Deve-se também evitar vícios de linguagem e o uso de gerundismo, que são muito recorrentes na linguagem oral. Alguns exemplos foram coletados em relação à mudança sintática. No primeiro caso, o termo smoothness foi pronunciado ao descrever o gramado de uma pintura e o intérprete encontrou dificuldade em encontrar o equivalente no português. Com a pressão do tempo, não lhe ocorreu o substantivo para “suave” ou “macio”, que seria

58

“maciez”, tendo que omiti-lo. Muitas vezes os termos parecem ser simples ao término do evento, mas, como citado anteriormente, somente a prática fornecerá agilidade de raciocínio. No segundo caso, a expressão forence guy (agente forense) apresentou dificuldade ao intérprete por este não possuir um domínio lingüístico na área de investigação criminal. Assim, não conseguiu encontrar o adjetivo adequado, traduzindo a expressão como “agente forênsico”. Há muitos outros casos: como o do termo heads of state, que também não ocorreu ao intérprete, traduzindo-o como “cabeças de estado” quando no português seria “chefes de Estado”. Há o caso de publisher que foi omitido por faltar a equivalência no português. A linha de raciocínio do intérprete nesse exemplo foi lembrar do verbo “publicar”, seguido de “publicador” que foi automaticamente excluído por não soar natural, seguido da omissão do termo. Devido a uma associação de idéias, o intérprete ficou preso à palavra da LP ao invés de buscar “editor” na memória. O fato de o intérprete ter de conhecer suas línguas de trabalho deve-se às exigências que enfrenta todos os dias. Ao deparar-se com preposições, ele deve estar apto a distinguir o significado de termos acompanhados de to e for, por exemplo. Se o adjetivo responsible estiver acompanhado de for significa ser responsável por algo ou alguém, já responsible to significa ter de se reportar a alguém. Há também os verbos acompanhados de preposições, podendo vir separados como put on e put away que aparecem como put your coat on (coloque seu casaco) ou she put the plates away (ela guardou os pratos), que exigem a atenção do intérprete para aguardar a preposição e definir o significado do verbo. Muitos verbos em inglês são detalhados na forma em que são executados, como os verbos glance, look, glimpse, stare, etc. Outros são utilizados no inglês, mas não no português, como o verbo nod que significa acenar com a cabeça demonstrando aceitação ou concordância. Outras vezes a dificuldade encontra-se na estruturação da sentença: a frase the clothes were perfect ficou como “as roupas foram perfeitas”, mudando o sentido do original. Aqui were possui duplo sentido (foram, ficaram); entretanto, de acordo com o contexto, o termo adequado seria “ficaram”. Outra frase é I went to the clothing rental place traduzida como “Eu fui ao lugar de alugar as roupas”, na qual a intérprete hesitou um pouco ao perceber que, se continuasse a construir aquela estrutura, haveria aproximação sonora dos termos “lugar” e “alugar”.

59

A ordem invertida das palavras no inglês é outro fator problemático. A atenção deve ser redobrada com a aparição de sintagmas nominais. A ordem de adjetivos que antecedem os substantivos pode ser longa, forçando o intérprete a esperar até que ouça o substantivo para re-expressar a sentença, atrasando seu discurso.

5.1.7. As diferenças culturais

Graças à globalização muitas pessoas de nacionalidades diferentes encontram-se em eventos e ministram palestras em diversos países. É importante reconhecer que pessoas de culturas diferentes são distintas de várias formas, incluindo o modo de olhar o mundo, de expressar sua personalidade e ponto de vista, suas crenças, hábitos e valores. Toda língua possui uma carga de significação intrínseca à cultura a que pertence. Portanto, as estruturas, as expressões, ou seja, a língua de um modo geral, possui características que refletem o modo de pensar do povo que a utiliza. Por isso, encontramos com certa freqüência palavras que não existem em outra língua, assim como línguas que são mais detalhadas, redundantes ou sintéticas do que outras. Assim, o desafio dos intérpretes é encontrar equivalentes para expressões e explicá-las. Às vezes basta uma inversão como no caso de 4 by 3 format que ficaria “formato 3 por 4” no português. Outras vezes são necessárias equivalências como no caso de know something like the back of your hand traduzido como “saber algo como a palma da mão” no sentido de conhecer algo muito bem. Nesse exemplo, o termo utilizado pelos falantes da língua inglesa é as costas da mão, enquanto que para nós é a palma. As expressões consagradas merecem cuidado especial, já que nem sempre significam o que parecem: jump to conclusions não significa “saltar nas conclusões” nem “tirar conclusões”, mas sim “tirar conclusões apressadas”. As cores também costumam ter significados diversos em comunidades culturais diferentes, como no caso da expressão to be blue, que significa “estar triste”. A carga semântica do termo “azul” nessa expressão em inglês difere da carga semântica que o termo possui no português:

enquanto azul possui uma idéia de tristeza no inglês, no português ao falarmos “está tudo azul” o termo remete a uma idéia de serenidade, tranqüilidade e paz. Ao entrar no campo das expressões idiomáticas, deve-se tomar cuidado com o público alvo e com a intenção da expressão na LP, pois caso uma expressão como

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raining cats and dogs seja utilizada, deve-se avaliar se o orador teve a intenção de utilizar uma expressão antiga, se a expressão “chovendo canivetes” será compreendida pelo público alvo e se a mudança para uma expressão mais recente não acarretaria mudanças de significado, no caso de uma piada, por exemplo.

5.1.8. Citações e provérbios

No caso de citações famosas e provérbios, não há como prever o que será enunciado, por isso a leitura de mundo do intérprete precisa ser ampla e atualizada. Assim, caso apareça uma citação famosa, o equivalente na LC soará natural. Segundo Santiago, o intérprete entrevistado, o caso dos provérbios é um pouco mais complicado. Como o número de provérbios existentes é muito amplo, torna-se impossível, por maior que seja a freqüência desse tipo de leitura, memorizar todos e ativar a sentença equivalente na LC durante a simultânea. Desse modo, sua sugestão é procurar fazer a equivalência na LC se possível ou, caso contrário, recorrer à explicação do provérbio.

5.1.9. Títulos

Títulos de livros e filmes devem ser verificados anteriormente, pois é necessário conhecer os títulos adaptados na LC. Nem sempre a sugestão dos tradutores durante a produção de uma obra ou filme é acatada. Por trabalhar diretamente com a mídia, a propaganda e a promoção desses trabalhos, cabe aos publicitários intitular as obras. Portanto, muitos títulos não são traduzidos e sim adaptados com propósitos comerciais.

5.1.10. Poemas e piadas

O caso da poesia e da piada gera uma discussão infindável entre tradutores e intérpretes. Traduzir ou não, reproduzir o texto da LP ou não, resumir, qual seria a melhor opção para a interpretação simultânea de um texto tão literário e de outro tão cultural? Um poema que um tradutor levaria horas para traduzir, procurando manter suas rimas e características não poderia ser realizado em poucos minutos, por isso

61

recomenda-se verificar com o orador anteriormente os textos que serão apresentados, para que o intérprete possa se preparar com antecedência e se informar sobre a existência do poema já traduzido na LC. Caso contrário, recomenda-se resumir o que o autor quis transmitir com seu texto. Santiago ainda sugere que o intérprete ofereça ao público o lugar onde possam encontrar o poema original. Caso seja possível, o ideal é propor ao orador que apresente o texto projetado durante sua apresentação. Conhecer a literatura, a história e a cultura do país onde a língua de trabalho é falada é essencial. As piadas contadas, especialmente no caso do Oscar, ilustram a realidade americana. Elas remetem à política, à religião, ao racismo, às guerras e ao que

o país vivencia. Assim, representam um problema mais sério na interpretação, já que

muitas vezes as questões discutidas no país de origem não são as discutidas em um outro naquele momento. Por não surtir o mesmo efeito no público, há uma perda inevitável. O mesmo ocorre com os trocadilhos e jogos de palavras. Devido à falta de equivalência, além do curto tempo disponível para que o intérprete crie uma nova repetição de sons e busque palavras com duplo sentido, elas acabam sendo traduzidas literalmente. Novamente, o que Santiago sugere, na entrevista realizada, é reunir-se com o orador a fim de conhecer de antemão o que será apresentado no evento e as piadas que serão contadas, para verificar o nível de humor, o palavreado e a possível equivalência, reformulando-a, se necessário, para evitar possíveis situações constrangedoras.

5.1.11. O caso dos números

De todos os fatores que comprometem a interpretação, o caso dos números é o mais intrigante. Seja na interpretação consecutiva ou na simultânea, pode-se afirmar que quando números aparecem a situação é realmente mais preocupante. “O aparecimento de números automaticamente coloca o intérprete num estado de alerta mental, que chega

a ser audível no tom de sua voz e visível na sua postura e atitude.” (QUENTAL, 2006, p. 33)

Números como 15 e 50, 17 e 70, assim por diante, costumam ser fatores que confundem na tradução de datas, como o que ocorreu em um caso coletado na qual o ano “1870” na LP ficou como “1817” na LC. Santiago cita a forma como os anos são pronunciados, como o exemplo “1800” (eighteen hundred), que por serem muito

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diferentes da ordem do português, tomam mais tempo do intérprete para raciocinar. Números com ordem de grandeza maior são freqüentemente confundidos, como o exemplo obtido durante a interpretação de um vídeo sobre o Central Park, na qual o número 800.000 aparece e é traduzido como 800. Quental (ibidem, p. 33) acredita que parte do desafio que os numerais representam reside na característica da precisão que possuem. Todos os termos têm, em maior ou menor quantidade, um leque de opções de equivalência, que devem adequar-se ao contexto; entretanto, os números oferecem apenas uma única opção. Além disso, os outros termos oferecem, de certa forma, uma previsibilidade maior em função do contexto do que as informações numéricas e binárias, de modo geral. A autora também sugere a explicação de que a maioria dos intérpretes possui uma formação em ciências humanas e/ou sociais, de modo que não possuem tanta desenvoltura com números quanto um profissional com formação na área técnico- científica. Ao redobrar a atenção quando os números entram em cena, os intérpretes em geral acabam demonstrando um estado de surpresa, com grandes sinais de nervosismo, comprometendo sua capacidade de percepção e aumentando o risco de erro. Portanto, recomenda-se fazer um acordo prévio com o concabino para que, quando um deles estiver na fase passiva, redobre a atenção e anote os números de forma legível para seu companheiro, a fim de evitar a sobrecarga da memória deste, que já está ocupada com outras informações.

64

Capítulo 6

6.1. Análise do Corpus

Os eventos escolhidos para a análise deste corpus foram a 79ª edição do Oscar, realizado no dia 25 de fevereiro de 2007 em Los Angeles, Califórnia e o MTV Vídeo Music Awards 2007 (VMA), realizado no dia 09 de setembro de 2007 em Las Vegas. Os dois eventos tiveram como LP o inglês e como LC o português. Ambos tratam-se de premiações no âmbito das manifestações artísticas (música e cinema) que são direcionadas a diversas classes sociais. A análise será fundamentada à luz dos teóricos abordados nesta monografia que compartilham da mesma opinião em relação à prática dessa profissão. O intérprete responsável pela interpretação do evento deve inteirar-se sobre a história e os procedimentos dos eventos, assim como conhecer as pessoas relacionadas a eles, as premiações e suas nomenclaturas em ambas as línguas. Os intérpretes responsáveis pelos eventos analisados utilizaram a 1ª pessoa do singular no discurso, visto que a 3ª pessoa poderia deixar as sentenças ambíguas e sobrecarregá-las com pronomes relativos, possessivos e conjunções, diminuindo o impacto e a vivacidade do discurso na LC. Ao falar na 1ª pessoa, o intérprete dispensa a citação freqüente de nomes, já que o público conta com o recurso da imagem televisionada. Vale lembrar que é muito freqüente um intérprete homem interpretar uma oradora mulher e vice- versa, já que o intérprete costuma assumir o papel do orador sem causar nenhum estranhamento a quem ouve. Em nenhum dos eventos analisados houve distinção de gênero.

A 79ª edição do Oscar foi apresentada por Ellen Degeneres no Teatro Kodak em Hollywood e foi transmitida originalmente pela rede norte-americana ABC, com transmissão ao vivo no Brasil pelas emissoras Rede Globo de Televisão e TNT. A Globo teve como responsável pela interpretação simultânea Elizabeth Hart 27 e contou com a participação dos comentaristas José Wilker e Maria Beltrão, que, por sua vez,

27 Elizabeth Hart faleceu no dia 29 de outubro de 2007, no Rio de Janeiro. A intérprete estreou na TV Globo em 1981 e trabalhou na premiação do Oscar durante anos, destacando-se pela pronúncia e entonação corretas.

65

alternava-se com a intérprete. O canal TNT teve Regina McCarthy como a responsável pela interpretação simultânea e contou com a participação do crítico Rubens Ewald Filho, que alternava com McCarthy durante a interpretação, e da repórter Maria Cândida. O VMA 2007 foi realizado no Palms Casino Resort em Las Vegas. O evento foi originalmente transmitido pela MTV norte-americana, com transmissão ao vivo pela MTV brasileira. O intérprete responsável pelo evento foi Mario Peixoto, que trabalhou sem a ajuda de nenhum outro intérprete. Nossa análise visa as causas dos erros observados mais freqüentes em interpretações simultâneas. Comparamos as decisões tomadas pelos intérpretes da Globo e da TNT até o Caso nº. 20 com a finalidade de analisar o raciocínio dos profissionais que levou às decisões assim como os fatores mais problemáticos. A partir do Caso nº. 21, apresentaremos apenas as versões do original e da Globo devido à interrupção da gravação transmitida pela TNT. Os vídeos encontram-se disponíveis ao final deste trabalho e os capítulos das cenas analisadas são apresentados no Anexo C. Ao apontarmos os erros, tomaremos como base somente as teorias abordadas nesta monografia e o contexto no qual as sentenças em questão se inserem, uma vez que não foi possível um contato prévio com os autores das interpretações para que explicassem as decisões tomadas.

6.1.1. Análise do Oscar

Por motivos de visualização e organização, adotamos as seguintes normas de transcrição a fim de mantermos uma uniformidade. Segue-se a relação:

1. Reticências entre colchetes [

]

intérpretes indicando reflexão;

2. Interjeições entre colchetes [eh

reflexão do intérprete;

– utilizado para toda hesitação e pausa feitas pelos

],

[ahn

]

– para indicar as interjeições que indicam

3. Palavras entre parênteses ( ) – hipóteses do que se ouviu com dificuldade;

4. MAIÚSCULAS – para indicar ênfase de um termo;

66

5. Grifo – grifaremos todos os termos ou trechos que merecem maior atenção;

6. Explicação entre parênteses duplos (( )) – para indicar os comentários descritivos do

transcritor.

Vale ressaltar que os intérpretes utilizaram linguagem coloquial dada a

informalidade dos eventos. Por se tratar de eventos “televisionados”, adotaremos para a

análise do corpus o termo “telespectadores” ao invés de “ouvintes”.

Caso nº. 1

Discurso Original

   

Globo

   

TNT

(Bub Asman):

     

who, in time of crisis,

que, sempre no momento

que, numa época de crise

have all made that decision to defend their personal

das crises decidiram defender a sua liberdade

tomaram essa decisão de defender a nossa liberdade

freedom

and

liberty,

no

pessoal

[

]

a

qualquer

[eh

]

a

custa

de

todo

matter what the sacrifice

sacrifício

sacrifício

 

Devido ao fato de freedom e liberty poderem ser traduzidos pelo mesmo termo

em português, “liberdade”, ambos os intérpretes optaram por generalizar.

Um dos fatores problemáticos explicados por Quental (2006, p. 31) ocorrente

nesse caso foi a semelhança fonética entre sacrifice e “sacrifício”, que levou ambos os

intérpretes a decidir pelo segundo, muito embora soasse mais natural como “a qualquer

custo” ou “a qualquer preço”.

Caso nº. 2

Discurso Original

Globo

TNT

(Michael Minkler):

   

There’s no way I’m going

Eu não vou conseguir fazer

Não vou conseguir falar isso de memória

to be able to memory, so…

do this by

isso só [eh de cor

]

Devido à semelhança fonética, é muito fácil confundir-se em relação ao termo

adequado na LC. Houve semelhança fonética na interpretação da TNT e a expressão by

memory foi traduzida como “de memória”, causando estranhamento. Já na Globo, o

67

intérprete apresentou a interjeição [er

termo mais adequado, “de cor”.

Caso nº. 3

]

que indica sua reflexão, seguida da escolha do

Discurso Original

 

Globo

TNT

 

(Ellen Degeneres):

 

Earlier

in

the

show

you

Nós vimos a estatueta já e vamos estar interpretando

Vocês viram,

eles

saw

that

we

created

an

recriaram uma estatueta do Oscar e durante o show

Oscar

statue

and

[ahn

]

várias

cenas

de

throughout the night they’ll be interpreting some of the

vários filmes.

 

eles vão interpretar alguns

 

dos

filmes

indicados

do

year’s nominated films.

 

ano.

Houve ocorrência de gerundismo na interpretação da Globo. Não houve

mudança de significado. O intérprete optou por omitir in the show (no show),

generalizando com a primeira pessoa do plural (nós vimos), o que não alterou o sentido.

Não houve especificação dos filmes que seriam interpretados: alguns dos filmes

indicados.

O intérprete da TNT dirige-se ao público, evita o gerundismo e explicita quais

serão os filmes interpretados.

Caso nº. 4

Discurso Original

Globo

TNT

 

(Leonardo Di Caprio):

So Mr Gore we’ve got

a

So,

ENTÃO, Sr. Gore,

Mr Gore, tem muita gente aqui hoje.

big crowd out here tonight, even a bigger one at home, is there anything you might wanna announce?

você viu

que

grande é a

nossa platéia. Você quer

 

anunciar

alguma

coisa,

Alguém

que

você

queira

alguma candidatura?

 

destacar?

Houve repetição do termo inglês So na Globo. Após percebê-la o intérprete se

corrige e enfatiza o termo “então”. O intérprete capta a idéia do “anúncio” e explicita o

tipo de anúncio, “alguma candidatura”.

Também na TNT houve repetição, mas dessa vez do pronome de tratamento Mr

(Sr.) e mudança de sentido na pergunta final.

68

Caso nº. 5

Discurso Original

 

Globo

TNT

(Al Gore):

   

E,

obrigada Leonardo

E, obrigado Leo

And thank you Leo…

 

Na Globo, a intérprete não assumiu o papel do orador, agradecendo no gênero

feminino, o que é uma discrepância com a forma adotada no restante da interpretação,

consequentemente, causa estranhamento ao telespectador. Deve-se adotar um padrão:

falar na 1ª pessoa, adaptando-se ao gênero do orador, ou na 3ª pessoa.

Caso nº. 6

 

Discurso Original

 

Globo

TNT

(Leonardo DiCaprio):

 

The

American

film

A

indústria

americana

A

indústria

do

cinema

industry is always taking

sempre

cumpriu

com

as

americano sempre levou a

its

obligations

to

society

suas

obrigações

sério suas obrigações com a sociedade

very seriously

 

Houve omissão e generalização na Globo quanto ao tipo de indústria americana.

Devido à pressão do tempo, o intérprete da TNT acabou omitindo a palavra “para” que é

a colocação de “obrigações” em “obrigações para com a sociedade”, tornando-a mais

coloquial.

Caso nº. 7

Discurso Original

 

Globo

TNT

(Leonardo DiCaprio):

   

Tonight we are proud to

e

nós temos orgulho de

Hoje temos o

prazer de

announce that for the first time in the history of the

anunciar que pela primeira

anunciar pela 1ª vez na

vez

na história do Oscar

história, o Oscar ficou [

]

Oscars

the

show’s

esse show virou VERDE.

ECOLÓGICO.

officially gone green.

 

69

Houve presença de uma expressão idiomática que foi traduzida literalmente na

Globo, mas a inadequação do termo causou estranhamento na LC. De acordo com os

intérpretes entrevistados Rodrigues e Santiago, deve-se procurar sempre fazer uma

adaptação para a LC.

Houve reflexão e adaptação na TNT. A expressão também poderia ser traduzida

como “está ecologicamente correto” ou “está ecológico”, que obedece a gramática

normativa do português.

Caso nº. 8

Discurso Original

Globo

TNT

(Leonardo DiCaprio):

   

Now, are you sure, are you positive, that all this hard work hasn’t inspired you to make any other kind of

Agora, você tem certeza, positivamente, que você não tá inspirado a fazer nenhum anúncio

Você tem certeza de que este trabalho não te inspirou a fazer outro tipo de comunicado ao mundo?

major,

major

announcement to the world

here tonight?

Faltou ao intérprete da Globo o adjetivo equivalente na LC para o termo

positive. Sua decisão foi transformá-lo em advérbio de modo, o que não soou natural

aos telespectadores. Ao reforçar apenas a idéia de certeza (are you sure, are you

positive), o intérprete da TNT optou por generalizar.

Caso nº. 9

Discurso Original

   

Globo

   

TNT

(Al Gore):

     

Well, I do appreciate that

Olha,

eu

agradeço

Leo,

Bem, eu agradeço, mas o

Leo,

and

I’m

kind

of

LÉO, bem íntimo né, mas eu tô muito surpreso com tudo isso e tá aqui eu tô convencido que eu devia fazer a outra coisa

fato [

]

eu tô me sentindo

surprised at the feelings so

muito bem de estar aqui,

(while) I’m up here you’ve been very convincing

foi muito convincente

Na primeira interpretação, o intérprete repete o nome em inglês Leo, mas

corrige-se logo em seguida, repetindo o nome agora acentuado no português, fazendo

70

uma observação sobre a intimidade do apelido, inexistente no original. Houve perda de

conteúdo em ambas as interpretações e mudança de sentido.

Caso nº. 10

Discurso Original

Globo

 

TNT

(Ellen Degeneres):

   

Well, because the show is green…

Como esse programa hoje é verde

Porque

esse

show

é

ecológico

O erro do Caso nº. 7, abordado por Rodrigues e Santiago em entrevista realizada,

manteve-se na Globo, na qual a tradução literal prevaleceu ao invés de usar uma

adaptação da expressão.

Caso nº. 11

Discurso Original

 

Globo

 

TNT

 

(Cameron Diaz):

   

Animated

features

have

Filmes

de

animação

O desenho animado mudou

come

a

long

way

since

andaram

um

caminho

muito

desde

que

o

Walt

Walt

Disney was awarded

grande desde que o Walt Disney ganhou um Oscar

Disney ganhou um Oscar especial em 1938 por uma inovação na tela

a special Oscar in 1938 for

a

significant

 

screen

especial

em 88

por

uma

innovation

 

inovação

significativa

na

 
 

tela

Conforme abordado por Quental (2006, p. 32), o fator numérico em relação ao

ano foi a causa do erro na primeira interpretação. A relação fonética entre thirty (trinta)

e eighty (oitenta) parece ter sido um fator problemático. Em relação ao trecho have

come a long way, nenhuma das interpretações foi fiel ao sentido do original. A Globo

foi muito literal e a TNT mudou o sentido ao afirmar que o desenho animado havia

mudado. Uma sugestão de tradução para esse caso é “progrediu muito”, que transmite a

idéia original de movimento e progresso.

71

Caso nº. 12

Discurso Original

 

Globo

TNT

(Ben Affleck):

   

There’s an old adage

[ahn

]

Existe

um antigo

Tem uma velha frase

dito

Conforme Quental (2006, p. 31) explica, houve problema de semelhança

fonética. O intérprete da Globo pretendia dizer “ditado”, mas devido à pressão

pronunciou algo parecido, “dito”, porém errado semanticamente. Já o intérprete da TNT

optou por “frase”, que se adequa à situação, mas não possui o mesmo sentido.

Caso nº. 13

Discurso Original

 

Globo

   

TNT

(Tom Hanks):

First, admit that you are powerless over alcohol and

Primeiro você tem que admitir que você não é um alcoólatra

Primeiro,

admite,

admita

que você não tem o menor poder contra o álcool, passo segundo,

your

life

has

become

unmanageable

 
 

Não, Tom, Tom e não,

   

Step 2

 

no

outros

términos

dos

Não, esses são os passos errados

(Helen Mirren ):

 

Alcoólatras Anônimos.

 

Tom, Tom, Tom…

   

(Tom Hanks):

 

Oh, those were the wrong steps

 

No original o adjetivo utilizado powerless mais a preposição over que o

acompanha significa que algo ou alguém não tem poder sobre um outrem ou outra

coisa. Na primeira interpretação, perdeu-se o sentido do original. Na segunda, manteve-

se o sentido e houve correção do tempo verbal utilizado.

Nesse discurso, houve superposição de vozes. Portanto, o trecho de Helen

Mirren não foi traduzido na TNT. Já na Globo, a voz do intérprete utilizada para os dois

72

oradores não demonstrou essa sobreposição, uma vez que os trechos abordados foram

pronunciados rapidamente, sem pausa, tornando difícil a compreensão para os

telespectadores. Também não há equivalência com o texto original e falta coesão na

tradução da segunda fala de Tom Hanks.

Caso nº. 14

Discurso Original

 

Globo

 

TNT

(Ellen Degeneres):

   

I’ll

be

selling

at

the

Eu

vou

estar

vendendo

Eu vou vender isso aí nos bastidores

backstage later or on Ellen TV.com a little later on.

essa,

[

]

esses

negócio

aqui ou então na TV.com no (Ebay)

 

Na interpretação da Globo há a influência da língua inglesa ao utilizar o

gerundismo para indicar uma ação no futuro. Há também uma falha de número em

relação ao trecho “esses negócio”, provavelmente porque a intenção do intérprete era

continuar com um substantivo no plural, mas, por não o encontrar, substituiu-o por

“negócio”.

Caso nº. 15

Discurso Original

Globo

TNT

(Anne Hathaway):

   

Why don’t you say? Everything sounds better with the British accent.

Fala você, que você com o acento britânico fica mais bonito.

Tudo soa melhor com o

sotaque [ inglês.

]

Segundo Quental (2006, p. 31), pode-se afirmar que houve semelhança fonética

do termo accent na Globo. O termo foi traduzido por “acento”, que é muito próximo da

LP, causando estranhamento ao telespectador.

73

Caso nº. 16

Discurso Original

 

Globo

TNT

(Milena

Canonero

   

sotaque francês):

I want to thank Francis, first of all, for introducing me to Sofia when we were doing “Cotton Club” and she was uh, this ((gesto que indica estatura baixa)), and uh, now she is my director…

Eu quero agradecer a Francis, em 1º lugar, por ter me apresentado à Sofia, Sofia Coppola, quando estávamos fazendo “Cotton Club”, quando ela era pequenininha e ela agora é minha grande amiga

Eu quero agradecer a Francis, em 1º lugar, por me apresentar à Sophia, ela era, tinha essa altura agora ela é a minha diretora

A TNT apresenta uma interpretação muito mais concisa em relação à Globo

nesse caso. O sentido em ambas interpretações foi satisfatoriamente mantido, porém o

termo director foi interpretado na Globo por “amiga”, o que pode tornar o discurso

incoerente. Essa falha pode ser atribuída a causas como a expectativa frustrada,

explicada por Quental (2006, p. 31), a pressão psicológica, o cansaço e a velocidade

com que o orador fala.

Caso nº. 17

Discurso Original

 

Globo

 

TNT

(Milena Canonero):

 

Eu não preparei um discurso, então eu quero falar rápido e fazer tudo isso rapidamente, eu quero agradecer a todos que participaram nesse filme

I haven’t

prepared the

Eu não

preparei esse

speech, so I have to hurry up, because Marshall, my husband said that I have to get out here quickly, so I want to thank everybody who had anything to do with this movie

discurso, eu tenho que sair correndo, eu e meu marido temos que sair, ir embora correndo

Eu

quero

agradecer,

 
 

portanto,

a

todos

que

tiveram

a

ver

com

esse

filme

Houve falha de compreensão na interpretação da Globo, acarretando mudança de

sentido. A interpretação da TNT foi muito mais concisa e apresentou o termo “nesse”,

74

que deveria ser substituído por “desse”, já que o verbo “participar” pede a preposição

“de”.

Caso nº. 18

Discurso Original

 

Globo

 

TNT

(Tom Cruise):

   

Tonight we’re gonna take a moment to acknowledge a humanitarian

Hoje a gente vai tirar um momento para homenagear

Hoje vamos ((diz algo como “pegar” muito baixo, mas interrompe sua fala)) levar um momento para reconhecer uma filantropa

uma

pessoa

de

serviço

 

humanitário

 

Houve influência da língua inglesa quando os intérpretes utilizaram os verbos

“tirar” e “levar” para indicar a expressão “dedicar um momento”. Faltou o substantivo

“filantropo” ao intérprete da Globo, que optou por explicar o termo, sem mudança de

significado.

Caso nº. 19

Discurso Original

Globo

 

TNT

(Gwyneth Paltrow):

   

If you would

like to

Se você quer se tornar um filmador muito melhor que você é, há cinco modelos que você tem que ver.

Se vocês quiserem ser

a cinematographer than you already are, here are five movies you need to see.

much better

become

fotógrafos bem melhores

do

que são, aqui estão

cinco filmes que precisam ver.

A equivalência do substantivo cinematographer na LC foi um fator

problemático. Por não encontrar o termo “diretor de fotografia” ou “cinegrafista”, o

intérprete da Globo optou por substantivar o verbo “filmar”, que ficou “filmador”. Já o

da TNT optou pelo termo “fotógrafo”, que não possui a mesma carga semântica de

“cinegrafista”. O intérprete da Globo provavelmente pretendia traduzir movies como

“filme”, mas devido à velocidade e à pressão, acabou dizendo “modelos”, que possui

uma pequena semelhança fonética com “movies”.

75

Caso nº. 20

Discurso Original

Globo

TNT

(John Knoll):

   

Bill Nighy, thanks

for

Bill Nighy, agradecemos por ter sido um parceiro enorme, fantástico e por ter criado o roteiro

Bill Nighy, obrigado por criar este personagem

being such a wonderful partner and creating this character

Houve redução da informação na TNT e mudança de significado na Globo, ao

trocar o substantivo character (personagem) por “roteiro”.

Caso nº. 21

 

Discurso Original

 

Globo

 

(Jodie Foster):

   

In

art

and

in life we seldom mention

Na vida,

na

arte

e

na

vida geralmente

comedy without tragedy, laughter without

mencionamos comédia sem tragédia,

tears, joy without sorrow.

felicidade sem lágrimas, tristeza sem dor.

Houve mudança significativa quanto ao advérbio de freqüência adotado. O

termo seldom indica “raramente”, ao passo que “geralmente” indica uma ação que

acontece com uma certa freqüência. Portanto, o sentido do discurso original foi

distorcido. Ainda no mesmo trecho encontramos a frase joy without sorrow (alegria sem

tristeza) que foi traduzida por “tristeza sem dor”.

Caso nº. 22

 

Discurso Original

 

Globo

(Philip Seymour Hoffman):

   

Hi.

Five

leading

roles,

five

limitless

Hello. OI. Cinco grandes papéis, cinco

actresses. Here are the nominees for

atrizes ilimitadas. Vamos diretamente às

actress in the leading role.

 

indicadas a principal papel de atriz.

76

Houve interferência fonética e shadowing. Após perceber o erro, o intérprete corrigiu seu discurso, enfatizando o termo “oi”. A ordem gramatical em “principal papel de atriz” não condiz com as regras do português, que exige que o substantivo “papel” seja apresentado primeiro, seguido do adjetivo “principal” caso a intenção não seja enfatizar o substantivo. Entretanto, o intérprete poderia ter utilizado a expressão “melhor atriz” que é o equivalente para a premiação em questão.

Caso nº. 23

Discurso Original

Globo

(Ellen Degeneres):

 

Wait. Hold on. Somebody dropped their rolling papers. Oh! The band. Here you go.

Alguém deixou cair esse, esse papelzinho, esse rolinho de papel aqui. Ah! É alguém da orquestra aqui, ó lá.

Nesse caso, a apresentadora faz uma piada ao iniciar o novo bloco do programa. Quando ela encontra no chão rolling papers, que afirma ser da orquestra, a platéia ri, pois a expressão refere-se a papéis de enrolar fumo. Houve perda de conteúdo na tradução da expressão por “papelzinho” e “rolinho de papel”, pois não causou nos telespectadores o mesmo efeito cômico. Para que tal efeito continuasse válido, o intérprete deveria ter explicitado o tipo de papel e sua funcionalidade, dizendo algo como “papelzinho de fumo”.

Caso nº. 24

 

Discurso Original

 

Globo

 

(Forest Whitaker):

 

When I was a kid, the only way that I saw movies was from the back seat of my

Quando eu era criança, eu só via filmes no banco de trás do carro da minha família, num drive in. Essa era a minha realidade,

family’s car (at the) drive in. It wasn’t my

reality

to

think

I

would

be

acting

in

então eu achava [

]

que [

]

algum dia eu

movies.

estaria no cinema.

77

Conforme Quental (2006, p. 31) explica, houve uma expectativa frustrada nesse caso. Ao afirmar it wasn’t my reality (não era minha realidade), o intérprete traduziu a sentença como uma afirmativa “essa era minha realidade”. Ao ouvir que o orador somente assistia a filmes no banco de trás do carro de seus pais, ele quis afirmar que essa era a realidade dele. O orador faz uma inversão em sua fala, iniciando a frase com uma oração negativa, que na ordem direta seria thinking I would be acting in movies wasn’t my reality, que significa “pensar que um dia estaria atuando não era minha realidade”. Ao invés de aguardar a unidade de sentido toda, o intérprete começa com uma oração afirmativa e perde o início da frase. Sua expectativa é frustrada em relação ao final da frase, pois houve perda da linha de raciocínio do orador. Para manter a coesão de seu discurso, o intérprete utiliza a conjunção conclusiva “então” e acaba cometendo um erro ao continuar afirmando. Há mudança de significado ao dizer que o orador imaginava atuar quando na realidade, era o contrário.

Caso nº. 25

Discurso Original

Globo

(Martin Scorsese):

 

Leo DiCaprio, six-and-a-half-year’s work we’ve done together, I hope, another 12, another 15.

Leo DiCaprio, já é a sexta vez que nós, aliás, por 6 anos já trabalhamos juntos, espero que sejam mais 12, mais 16.

O fator numérico, abordado por Quental (2006, p. 32), compromete a interpretação nesse caso. Há um equívoco em relação à quantidade de anos que é trocada pelo número ordinal “sexta vez”. Ao ser percebida, é corrigida visivelmente com a palavra “aliás”, que introduz a interpretação correta da aproximação numérica de “6 anos e meio” com “6 anos”. Também há troca numérica de 15 por 16, provavelmente por influência do número 6 mencionado anteriormente.

Caso nº. 26

Discurso Original

Globo

(Martin Scorsese):

 

and our little Francesca who is 7 years

e à pequena Francesca, que tem 7 anos,

78

old, who’s watching right now. Francesca, stay up for another 10 minutes but then, jump up and down, make a lot of noise in the hotel, ok?

tem 7

anos,

e está vendo,

e pode

ver

bastante, mas pula bastante e vai dormir depois disso no hotel.

O orador nesse caso fala extremamente rápido, então o procedimento adotado pelo intérprete foi resumir seu discurso sempre que possível. Ao tentar resumir, há quebra de raciocínio e “quebra” na fala, ao repetir a idade da garota, ao utilizar a conjunção aditiva “e” em demasia, a fim de relacionar suas orações e ao citar o adjetivo “bastante” duas vezes seguidas. Sua expectativa também é frustrada, já que se entende que toda criança deve dormir cedo. Entretanto, o orador propõe o oposto, ao dizer para a garota fazer barulho no hotel. O orador fala para ela continuar acordada por outros 10 minutos e utiliza em seguida a conjunção adversativa “mas”. Ao ouvir a conjunção, o intérprete deixou-se influenciar por seu raciocínio lógico que lhe dizia que a próxima frase seria algo como mandar a garota ir dormir cedo. Entretanto, o orador frustra essa expectativa, não fazendo jus à conjunção que introduziu, ao dizer à garota que pulasse

no

hotel, fazendo bastante barulho. A quebra de raciocínio na LP influenciou o discurso

na

LC.

6.1.2. Análise do Video Music Awards

Adotaremos as mesmas normas de transcrição utilizadas anteriormente para a análise do VMA.

Caso nº. 1

 

Discurso Original

Interpretação MTV brasileira

(Seth Rogen):

 

I

know what you’re thinking. These

Eu sei o que vocês estão pensando: se as pessoas já são ricos e cheios de sucesso, por que que eu vou me preocupar em votar pra eles e transformar a vida deles e deixar melhor ainda?

people are already rich and successful. Why would I bother voting for them and making their lives even better?

79

Há erro quanto ao gênero adotado. “Pessoas” é feminino, enquanto que “ricos” e “cheios” é masculino. Houve falta de coesão na aplicação das regras gramáticas portuguesas quando o intérprete procura falar e ouvir ao mesmo tempo. Também há erro quanto à colocação. A preposição que segue o verbo “votar” é “em”, “votar em alguém”, portanto, o trecho correto seria “votar neles”.

Caso nº. 2

Discurso Original

Interpretação MTV brasileira

(Apresentadora):

 

Please welcome the new R&B royalty Robin Thicke and Oscar winner Jennifer Hudson.

Favor dê as boas vindas à nova estrela de R&B e o vencedor do Oscar, Jennifer Hudson e Robin Thicke.

Houve inversão no discurso da LC. Ao invés de citar os nomes seguidos de seus títulos, o intérprete optou por citar os títulos primeiro e depois apresentar os nomes. Ao fazer isso, não houve adequação quanto ao gênero do adjetivo “vencedor” que deveria ser feminino, e quanto ao artigo definido masculino “o”, que deveria ser “a”, já que a vencedora do Oscar era a atriz Jennifer Hudson.

Caso nº. 3

 

Discurso Original

 

Interpretação MTV brasileira

(Robin Thicke):

   

The

nominees

for

the

First-ever

Os indicados à primeira prêmio de todos os tempos de Faz-tudo estão no topo de sua forma

Quadruple Threat award are at the top of

their game

 

Houve mudança de gênero acarretando erro gramatical. O intérprete cometeu um erro causado por fatores externos, já que teve de esperar que a unidade de sentido estivesse completa para saber qual o substantivo utilizado após todos os adjetivos. Um dos fatores que pode ter induzido ao erro é o ato falho, que, conforme Quental (2006, p. 32) explica, é aquele motivado por um desejo ou uma expectativa inconsciente. A expressão at the top of their game foi traduzida literalmente, causando estranhamento na

80

LC. O intérprete utilizou o termo “topo”, que possui uma semelhança fonética com o termo top (topo). Nesse caso, a expressão poderia ser traduzida como “estão no auge”.

Caso nº. 4

Discurso Original

Interpretação MTV brasileira

(Shia LaBeouf):

 

I’ve been fortunate enough to know what it’s like to have a great year.

Eu tive muita fortuna de saber o que é ter um ano incrível.

Conforme Quental (2006, p. 31) explica, houve semelhança fonética e o intérprete acabou utilizando um termo semelhante ao da LP, mas que não se utiliza para significar sorte. A interpretação não apresenta erro, mas não soa tão natural quanto à frase “eu tive muita sorte” soaria.

82

Considerações Finais

A profissão de intérprete pode ser muito gratificante, mas exigente ao mesmo

tempo. Conhecer os fatores que mais induzem ao erro é o primeiro passo para quem pretende realizar um bom trabalho. Entretanto, não há um modelo que possa ser seguido, pois, conforme Quental (2006, p. 30) afirma, não há estudo, cultura geral ou atualização que dêem conta de todas as informações às quais somos potencialmente

expostos. Resta-nos, portanto, prepararmo-nos previamente para o trabalho, a fim de minimizar os erros mais freqüentes.

A proposta de estudo desta monografia é incentivar a observação de casos na

mídia e em congressos a fim de que o intérprete se familiarize com os problemas mais

freqüentes enfrentados por profissionais altamente qualificados, fazendo uso dessas experiências em sua própria interpretação.

A ciência de que problemas como sintagmas nominais e números, por exemplo,