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36681593 Dialetica Para Principiantes Carlos Cirne Lima

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Dialética para Principiantes

Carlos Cirne-Lima Editora Unisinos Coleção Idéias 5

Sumário Prefácio Parte I – Nós e os Gregos 1. O Pátio de Heráclito 2. O Jogo dos Opostos 3. O Mito da Caverna 4. A Análise do Mundo 5. A Explicação do Mundo Parte II – O que é Dialética? 1. O Quadrado Lógico 2. A Síntese dos Opostos 3. Os Três Princípios 4. Ser, Nada, Devir 5. Dialética e Antinomias Parte III – Um Projeto de Sistema 1. Dialética e Natureza 2. Ética 3. Justiça e Estado 4. O Sentido da História 5. O Absoluto

Para Maria e para meus alunos

PREFÁCIO Escrevi esta Dialética para principiantes pensando em meus alunos. Escrevi para eles. Fiz um texto voltado para principiantes, Dialectica Ingredientibus, como diria Abelardo. Para aqueles jovens de cara limpa e olhos brilhantes, atentos, lúcidos, sequiosos de aprender, que sabem muito bem que não sabem nada. E que por isso querem aprender. Para eles escrevi este livro, a eles o dedico. Muito justo, aliás. Pois foi com eles, com as perguntas, as discussões e debates com eles que esta Dialética nasceu, cresceu e se consolidou. Não que eu seja autodidata, ou que faça desfeita a meus mestres. Nada disso, tenho na mais alta conta aqueles que foram meus professores. Devo muitíssimo a eles. Mas foi com meus alunos que, neste passar dos anos, aprendi o que agora, com este livro, lhes devolvo. Principiante é aquele que não sabe nada, ou quase nada. Principiante é quem se dá conta de que não sabe nada. E por isso quer aprender, quer entender as palavras, quer captar o sentido das frases, quer acompanhar a montagem da argumentação. Para eles escrevi. Escrevi em estilo simples e direto, escrevi uma Filosofia singela, sem frescura, sem enfeites, sem ranço acadêmico e sem demonstrações aeróbicas de erudição. As idéias aqui expostas são muito antigas. Há novidades, sim, pois quem faz Filosofia e entra em contenda com as idéias, com as idéias mesmas, sempre descobre alguma novidade. Quando pegamos e levamos adiante a riqueza que herdamos da tradição, esta se revitaliza e cresce. Este trabalho nasceu da grande tradição filosófica. Que ele conduza os leitores de volta aos mestrespensadores da tradição são os meus votos.

1 O PÁTIO DE HERÁCLITO 1.1 Perguntas iniciais De onde viemos? Para onde vamos? Qual o sentido do mundo e de nossa vida? O universo teve um começo? Terá um fim? Há leis que regem o curso do universo? Estas leis valem também para nós? Podemos desobedecer a estas leis? O que acontece quando desobedecemos a elas? Há recompensa e castigo? Há mesmo ou deve haver? Isso ocorre já durante esta vida ou numa existência após a morte? Pode-se pensar, sem contradição, uma vida eterna, uma existência após a morte? Pode haver um tempo depois que todo tempo acaba? Pode haver um depois após o último e definitivo depois? Afinal, o que somos? Estas são as perguntas que, desde a Antigüidade, toda pessoa que fica adulta sempre se coloca. Estas são as perguntas que, desde os pré-socráticos, ocupam os filósofos. Filosofia é a tentativa, sempre frustada e sempre de novo retomada, de dar uma resposta racional a essas questões. É isso que agora passamos, neste texto, a desenvolver de forma interativa. Resposta final e definitiva, que responda completamente a todas essas perguntas, não existe. Mais, uma tal resposta completa e acabada em Filosofia é, como veremos, impossível. Mas, assim como muitas perguntas podem ser feitas, muitas respostas podem e devem ser dadas. 1.2 Filosofia é um grande quebra-cabeça Filosofia é a ciência dos primeiros princípios, dos princípios que são universalmente válidos e que regem tanto o ser como o pensar. Hoje a Filosofia é muitas vezes pensada como a ciência das justificações racionais últimas, isto é, como fundamento racional de todas as outras ciências. O grande tema da Filosofia é, assim, usando metáfora tirada da Arquitetura, a questão de fundamentação última. É neste sentido que já na Antigüidade

até que todas as peças estejam corretamente colocadas e a imagem final. coerente e com sentido.. a de um quebra-cabeça. cada pedaço com figuras próprias. Ética. Em jogos grandes pode perfeitamente acontecer que consigamos montar pedaços da grande imagem final. que antigamente faziam parte daquela grande e abrangente ciência que então se chamava de Filosofia. formando um todo coerente. Nada tenho a opor contra a concepção de Filosofia como ciência da fundamentação última. todas as peças estarão. a História. a Química. a Biologia. também. A imagem do fundamento é meio pobre. Se jogarmos até o fim. Se sobrarem peças. como Lógica. uma na outra. etc. As ciências. o jogo está desfalcado e a imagem final ficará incompleta. fique visível. Física.. O jogo de quebra-cabeça consiste em inserir peça por peça. Astronomia. não sobrarão peças. No jogo de quebra-cabeça temos que encaixar cada peça com as peças vizinhas. Política. Fazer Filosofia hoje é como montar um grande quebra-cabeça. com ajuste perfeito de contornos. descarnado. Estética etc. a Sociologia. mas sem a composição final. e a imagem global estará clara e visível. princípios estes que são o fundamento racional de todas as demais ciências.Aristóteles fala de Filosofia Primeira. e se o jogo não estiver desfalcado de peças. Ela é isso. de modo que os contornos de cada uma coincidam com os contornos das peças vizinhas. para caracterizar o que seja Filosofia. a Psicologia. então. sem buracos e sem rupturas. A Filosofia Primeira trata dos primeiros princípios do universo – do ser e do pensar –. a Arqueologia. Filosofia é um grande jogo de quebra-cabeça. Mas essa metáfora aponta só para um dos núcleos duros daquele todo maior que realmente é a Filosofia. não faltarão peças. como a Física. É como se se apontasse aí para um osso nu. são . e que no final mostra uma imagem. a Astronomia. devidamente encaixadas. Se faltarem peças. Eu pessoalmente prefiro. outra metáfora. Biologia. o jogo não foi jogado até o fim.

O Filósofo não dispõe de todas as peças – o futuro ainda não chegou –. Não se pode fazer de conta. de sorte que se possa ver a imagem global. As ciências particulares trabalham. como a História e a Evolução não terminaram. a História não terminou. Nenhuma delas se preocupa e se encarrega da composição total do grande mosaico. isto é. cada uma delas trata de algumas figuras. a Filosofia sempre é e continuará sendo apenas Amor à Sabedoria. Cada uma das ciências particulares monta o seu pedaço particular. Muitas coisas. Isso também é importante. e. o sentido último de nossa vida. Na Filosofia não temos todas as peças.recortes parciais do grande quebra-cabeça que é a Filosofia. um projeto inconcluso. temos que pular para dentro do mosaico final da Filosofia. mas cada uma delas se limita a um pequeno pedaço. montar todas as peças. assim. A Grande Ciência nunca estará completa e acabada. Mas Filosofia é mais do que apenas uma . isso também é parte da Filosofia. o mosaico final sempre estará incompleto. Isso não obstante. que Filosofia seja apenas Filosofia da Linguagem ou Teoria do Conhecimento. O universo ainda está em curso. ou seja. estão por vir. é preciso montar o jogo com todas as peças existentes. inclusive o próprio jogador. a Ciência Universalíssima. Fazer Filosofia significa jogar o jogo até o fim. Cada um de nós. na montagem do grande jogo de quebra-cabeça. que somos os jogadores concretos. Não se pode fazer de conta que as ciências particulares não existam. embora global. a imagem que aparece no mosaico. que nem sabemos quais são. sempre conterá grandes lacunas. que é o sentido universal do universo em que vivemos. enquanto correr o tempo da História. aí a Filosofia fica existencial. o sentido do universo. a razão. E aqui aparece a primeira diferença entre o brinquedo mencionado e a Filosofia. Mas. como alguns Filósofos hoje fazem. sim. Isso significa que a Filosofia como sistema global do conhecimento é e sempre ficará. que é a Filosofia.

logo depois. A tarefa programática da Filosofia é ainda mais ampla que a da Física do início do século XXI. entretanto. repito. em 1989. mas devemos admitir que muitos filósofos hoje abandonaram a idéia da Grande Síntese e se contentam com subsistemas parciais. sempre de novo. Fazer Filosofia sempre foi e continua sendo fazer a explicação do mundo. Voltaremos ainda muitas vezes a esta palavra. cresceram também os recursos à disposição do Filósofo para. a História. na qual os subsistemas atualmente trabalhados possam ser integrados. tentar construir o travejamento básico da Grande Teoria Unificada. pois com ela se diz realmente tudo o que a Filosofia pode e deve pretender. Pois assim como se desenvolveram as ciências particulares. que contém dentro de si todas. Só que a Grande Síntese é mais do que apenas a conciliação da teoria geral da relatividade com a mecânica quântica. todas as ciências particulares com suas teorias e suas questões ainda em aberto. Aí surge a pergunta: isso ainda é possível? Hoje. porém. que deixaram de fazer verdadeira Filosofia. Essa grande tarefa era chamada antigamente de explicatio mundi. Com alegria. e após o colapso político do marxismo. se vê que os Físicos continuam procurando a Grande Teoria Sintética. a Psicologia. pois queremos descobrir quais as leis que são válidas para tudo. também têm que entrar nessa teoria sintética que é a Filosofia. É meio vergonhoso. ainda é possível fazer uma Grande Síntese? Claro que é necessário e que é possível. com o esfarelamento da . com a queda do Muro de Berlim e. Filosofia é a Grande Ciência. isso significa. A Biologia. com o incrível e inédito desenvolvimento das ciências particulares.Teoria sobre Metalinguagens. para todas as coisas. etc..3 Crítica da razão pós-moderna Após o colapso intelectual do sistema de Hegel. na segunda metade do século passado. 1. que é um tipo de hegelianismo de esquerda. em nosso século. a Sociologia.

mais atentos à alteridade. ou seja. as razões das muitas perspectivas diferentes. temos hoje as múltiplas razões. que sejam válidos sempre. Hoje falamos de lógicas no plural e com letra minúscula. os interstícios entre os vários subsistemas ficam vazios. em todos os âmbitos. como afirma Wittgenstein. a Lógica de Aristóteles e dos mestres pensadores da Idade Média. sempre um ao lado do outro. que era ambiciosa e andava sempre à procura da Grande Síntese. a Filosofia parece ter chegado a um beco sem saída. escrita em letra minúscula. as razões dos múltiplos jogos de linguagem. vivam as múltiplas razões com seus relativismos. Hoje temos. que era antes una. as razões dos múltiplos horizontes. mais abertos para com as outras culturas. como quer Heidegger. no plural e com letra minúscula. O particular. como diz Nietzsche.União Soviética. Esta a tese do pensamento pós-moderno. mais compreensivos. A razão pós-moderna nega a existência de princípios ou leis que sejam universalíssimos. A razão. O lado positivo dessa dissolução da razão que era defendida pelo Iluminismo é que ficamos em nosso século mais modestos. e ainda mais outro. A Razão. A Razão morreu. é declarada morta. ao lado da lógica aristotélica. é destruída a golpes de marreta. que os abranja. em todos . Ao invés da Grande Síntese temos apenas um grande impasse. que interliguem os diversos subsistemas. ou seja. Isso que ocorreu com a Lógica aconteceu também com a Razão como um todo. vivam as múltiplas pequenas razões. una. A razão pós-moderna põe um subsistema ao lado de outro subsistema. a razão una. única e universalíssima. A Razão. única. progridem imensamente. morreu. transforma-se. Ao invés da Razão. no singular e com letra maiúscula. sem uma unidade mais alta e mais ampla. e mais outro. una e única. mais tolerantes para com o estrangeiro. inclusive as ciências particulares. muitas outras lógicas. única e com letra maiúscula. Até a Lógica.

Quem quiser fazer Filosofia à maneira da razão pós-moderna. justapondo subsistemas. É o mesmo que ocorre em sala de aula. entretanto. Ela não pode ser universalizada. ela detona uma implosão lógica. ela diz que – a rigor – não há proposição que seja universalmente válida. sem jamais fazer uma teoria. existe. quando o professor reclama das conversas e Joãozinho diz: Professor. mas que uma tal razão existe. a exceção implicitamente feita desmente a universalidade daquilo que foi afirmado: não é verdade que todas as proposições sejam falsas. abrangente. neste sentido. Mais. quem faz tal afirmação. não existe e nunca existirá. Fica com isso demonstrado que se pode voltar a uma razão una. Ela pode consistir de poucas regras e princípios. talvez ela consista de um único princípio. É por isso que a razão pós-moderna é boa. é péssima. Assim também ocorre com a proposição pós-moderna Não há nenhuma proposição que perpasse todos os subsistemas. Tal afirmação é uma contradição em si mesma. sim. está sendo afirmada como sendo verdadeira. se o fazemos.os interstícios e para todas as coisas. única e universalíssima. que está sendo afirmada. Tomemos a proposição Não existe nenhuma proposição verdadeira. Ao falar e dizer isto. Meu amigo Habermas me perdoe. ela se detona. Assim. está fadado ao insucesso da autocontradição. mais simples. ao dizer e afirmar isso. por mínima que seja. exceto esta mesma que agora estou dizendo. Joãozinho desmente exatamente o que está dizendo. Quem afirma uma tal coisa está implicitamente dizendo Não existe nenhuma proposição que seja verdadeira. Este é o motivo por que uma Filosofia pós-moderna. ao dizer. não tem ninguém falando. eis que pelo menos esta. Quem o . enquanto respeito para com a alteridade e apreço pela diversidade. mas não dá: implode. Ora. se desdiz. como substituto da razão universalmente válida. – Vejamos o que ocorre em outro exemplo. estamos dizendo que ao menos essa proposição é válida para todos os subsistemas.

no altar de uma . Entre um subsistema e outro fica o lixo da razão. o que é puro repouso. talvez. declara Parmênides. A explicação do mundo pode ser. como vimos. as múltiplas coisas deste mundo em que vivemos.4 A esfera de Parmênides Parmênides. uma mera aparência. que varremos as contradições e os problemas mal resolvidos. de outro lado. que se movem. sacrificou todas as aparências. Mas que ela é possível. elas são uma doxa. para esses interstícios vazios. foi de certo modo o precursor da razão pós-moderna. As aparências enganam. um ao outro. é. E isto não basta. permitem que entre um subsistema e outro brotem e vicejem os maiores absurdos. onde o dedo corre sem nunca chegar a um começo ou a um fim. Ele contrapõe. Parmênides diz que a realidade realmente real é apenas o ser imóvel. É preciso repensar tanto Parmênides como também Heráclito. em contradição.negar se detona e entra em autocontradição. É para aí. o subsistema do ser realmente real. estas coisas. não são uma realidade realmente real. articuladas somente como subsistemas. É preciso pensar tanto a multiplicidade como também a unidade. sob a qual não há um ser realmente real. As teorias particulares. Multiplicidade na Unidade. que estão em movimento. bem. E as coisas deste mundo. sem nenhum movimento. minimalista. O lado mais negativo da razão pós-moderna é o lixo que se acumula nos interstícios entre os diversos subsistemas. Sem unidade a multiplicidade entra. Este ser imóvel e imutável é simbolizado pela esfera que não tem limites. 1. um dos grandes pensadores da Filosofia présocrática. Ele foi mais radical. dois grandes subsistemas: o ser realmente real e a doxa. Mas Parmênides não é um pósmoderno. que nascem e morrem. o subsistema das aparências. foram apenas varridas. As contradições não foram resolvidas. Unidade na Multiplicidade – é preciso conciliar ambos os pólos igualmente legítimos e necessários. De um lado. a mera aparência.

traz o exemplo da corrida entre Aquiles e a tartaruga e o exemplo da flecha parada. não consegue reconquistar a vantagem e. é contraditório. Pois antes de percorrer a distância que o separa da tartaruga. por igual. como o não-ser não existe. Pois. Ou então. ele tem que percorrer a metade dessa metade. trata-se de uma ilusão. Isso significa que não há perecimento nem nascimento. Logo. de um Logos uno. é. o não-ser não é nada. não existe movimento. não significa nada e não faz nada. afirma Zenão. diz Parmênides. não há passagem para o não-ser. E assim por diante. e a corrida começa. E antes de cruzar a metade dessa metade.racionalidade exacerbada. Aquiles aposta uma corrida com uma tartaruga. O que não é não é. Como a quantidade é infinitamente divisível e sempre há uma nova metade da metade. a tartaruga pede dez metros de vantagem. E o que não é não é nada. assim. diz Zenão. imutável. Como Aquiles é um grande herói e exímio corredor. como ele não é nada. para demonstrar o que ele pensava ser a impossibilidade lógica do movimento. único. não é nada. a passagem do não-ser para o ser. discípulo de Parmênides. Zenão de Eléia. como o movimento é algo contraditório. se pensamos que algo está em movimento. do não-ser não pode sair nada. argumenta Parmênides. Por quê? Porque o movimento. pela lógica. Perecer e nascer são ilusões. ele não pode nem mesmo ser pensado. E tudo aquilo que o não-ser determina está sendo determinado como sendo nada. isto é. o nascer. isto é. conclui-se que Aquiles não avança um passo. passagem a partir do não-ser. Aquiles concorda. Basta pensar. perde a corrida para a tartaruga. ou seja. Não há. imóvel. Movimento é sempre a passagem do ser para o não-ser. infinito. ele tem que percorrer a metade dessa metade. E antes de percorrer essa metade. ele não pode ser pensado até o fim sem que surja . é pura ilusão. são meras aparências. O não-ser não existe. E. O que é. reparem que Aquiles não vai conseguir ganhar. Aquiles deve percorrer a metade dessa distância. Reparem. Ora. o perecer.

5 O pátio de Heráclito Segundo Heráclito. A realidade realmente real é uma tensão que liga e concilia Ser e Não-Ser. sem limites. Tudo é o Uno. apesar desse grande erro. Falta Heráclito. infinito e sem movimento que é o ser que realmente é. por igual. A realidade não é apenas Ser. A flecha parada e a corrida de Aquiles com a tartaruga demonstram. ela não é. A realidade realmente real não é a esfera imóvel e imutável. Não há começo e não há fim. é não ter levado igualmente a sério o momento da diversidade e do movimento. visível para todos. pensa Zenão. agora é a própria realidade realmente real. fica parada. mera aparência e ilusão. tendo que percorrer as infinitas metades da metade. O que para os Eleatas era doxa. por isso. Panta Rei. Eis a esfera de Parmênides. único e imutável. são . mas não porque não exista movimento. 1. são o começo e o fim de toda a Filosofia. Parmênides tem o Todo e o Uno. apenas NãoSer. O Todo e o Uno. pela primeira vez na História da Filosofia. mas sim o movimento que. sempre de novo começa. Hen kai Pan. tudo é movimento.uma contradição insolúvel. de toda a ciência que se queira e entenda como a Grande Síntese. dos Eleatas. Parmênides. sem jamais cessar. falta-lhe o movimento que em tudo flui. único. A flecha. temos que nos ater somente ao ser uno. Aparece aqui. nisso Heráclito concorda com Parmênides. tese e antítese. tudo flui. O erro que cometeu. – O mesmo raciocínio é aplicado à flecha disparada pelo arqueiro contra um alvo qualquer. Ser e Não-Ser. o grande pensador do ser uno. é. o pai intelectual de toda a verdadeira Filosofia. pois foi ele que primeiro pensou tão a sério a unidade da razão e do ser. a tese de Parmênides de que o movimento é impossível e que. tudo está em constante fluir. Ele não conseguiu pensar o nãoser como algo que de certo modo é. a Dialética. e sim porque tudo está sempre em constante transformação.

volta à sua forma retilínea. que existe nessa primeira etapa da Dialética. uma excluindo a outra. mais alto. Nesta primeira etapa um pólo anula e liquida o outro. o instrumento musical dos antigos gregos.conciliados. Para manter o arco vergado. A tensão existente na primeira etapa. E então. a Música. Só que o arco. O arco e a corda. deixado solto. Só que a coisa não pára aí. Essa oposição. constituindo. faz surgir algo completamente novo. A lira se compõe de um arco e das cordas. na segunda etapa. o Devir. nessa primeira etapa. Tese e antítese se contrapõem. que à primeira vista se opõem e se excluem. os pólos se conciliam e se unificam. mas entram em amálgama e se fundem para constituir uma nova realidade. Na primeira etapa há oposição excludente e conflito. Há um movimento. Ser e Não-Ser. formando um arco. eles são excludentes. uma contra a outra. mais complexo. num patamar mais alto. No Devir existe um elemento que é o Ser. algo maravilhoso: a música. A lira. a corda contra o arco. o arco contra a corda. nessa segunda etapa. ou antes. conciliação sintetizante que faz surgir algo de novo. é preciso amarrá-lo com uma corda. cede o lugar à síntese que é a música. Numa primeira etapa temos dois pólos contrários que se excluem mutuamente. não mais se repelem e se excluem. a corda quer vergar o arco. há um desenvolvimento. num plano mais alto. bem misturados. estão em tensão. uma nova unidade. se e quando devidamente dosada. com letra maiúscula. mas existe por igual um outro elemento igualmente essencial que é o Não-Ser. na realidade realmente real constituem uma unidade sintética. há um progresso. os traços fundamentais da Dialética. Temos aí. Quem quer construir uma lira pega uma peça de madeira apropriada e a verga. Ser e Não-Ser. serve de exemplo a Heráclito. através de uma síntese. . um contra o outro. que é o Ser em Movimento. ou com várias cordas. que é uma das nove Deusas que regem e inspiram as Artes. O arco quer rebentar a corda. mais nobre. já em Heráclito.

Helena decide-se a aceitar o amor de Heitor e o ama de volta. um em oposição relativa ao outro. responde afirmativamente. ou a outra. é o movimento de fílesis. passando pelo amor que. não é mais exclusividade de um ou de outro dos amantes. vai reagir e o que vai responder. O amor tem começo. ambos. a outra. ou a outra. Se o outro. e sim uma resposta e a aceitação de um convite já feito. o outro é antítese. Fílesis e antifílesis são. que é bilateral. Trata-se de dois atos independentes. um diferente do outro. mais alta e mais nobre. ou seja. amando. e antifílesis não. atos unilaterais. formando um amálgama. Na filía. se fundem. para chegar ao amor que. pode responder que sim. Heitor ama Helena. Este ato unilateral e arriscado é chamado em grego de fílesis. Este amor de volta é a antifílesis. no qual não importa mais quem . se fundem numa única realidade mais complexa. de antemão. Alguém tem que começar. o movimento dialético que leva de um amor inicial. antifílesis e filía. amor este que. então temos filía. porém. um é tese. mas não é mais um ato arriscado. completos e acabados. e sim unidade de ambos. mas ainda não se decide. O começo é um ato estritamente unilateral e sempre arriscado. se sabe correspondido. Na filía. – O outro. como pode também responder que não. responder que sim. então temos uma antifílesis. Heitor ama e sabe que ama. Não se sabe. amizade. perguntado. pois não é mais só uma pergunta e só um convite. algo de novo. que também é um ato unilateral. Os gregos chamavam isso de filía. mas raramente mencionado hoje em dia. Isso de início está em aberto e é contingente. num plano mais alto. ambos os amores individuais deixam de ser atos unilaterais e transformam-se num único ato. como o outro. Helena percebe o convite feito. fílesis contém risco.Um dos mais belos exemplos de Dialética. os dois pólos inicialmente diferentes e opostos. muito conhecido na Antigüidade. que propõe e pergunta. sendo sintético. Mas quando ambos se cruzam e. um que pergunta e outro que responde.

É o outro que realiza o sentido da vida. diz Homero na Ilíada. Heitor primeiro se perde: quem ama vive se perdendo. conduzem os gregos com suas naves curvas para a interminável guerra. Mas. agora profundamente enriquecido. que já estava neles. a pessoa amada. na primeira etapa. lutam até morrer. que. Na síntese. dirá Hegel muito mais tarde. o Eu e o Tu. o Nós. um ato em que o Eu foi mediado através do Tu para constituir um Nós. os começos de nossa civilização. É por isso. A História de gregos e troianos. chefiados por Heitor. Numa segunda etapa. eles estão superados. Por um lado. que é o centro do universo. a Ilíada e a Odisséia. e sim um ato conjunto.pergunta e quem responde. se sabe novamente cheio de sentido e de vida. os pólos estão guardados na síntese. Heitor ama perdidamente Helena. pois o cerne positivo. Ulisses e Agamemnon. desaparecem. Tudo só por causa da filía. No exemplo do amor de amizade. É só por isso que os troianos. pelo outro lado. assim. como Helena ama Heitor de volta. primeiro se perdem. é tão forte e tão precioso. que Aquiles. ao se amarem. pois ambos os amores iniciais perderam seu caráter individual. é o outro. os pólos iniciais estão superados e guardados (Aufheben). o caráter de unilateralidade e o de risco são superados e. Tudo só por causa de uma mulher. Mas. os pastores de povos. Amor aí vira História. É por isso que gregos e troianos lutaram por tantos anos. Só que esta nova vida e este novo sentido do universo não são um ato unilateral só dele. pólos opostos que se repelem e se excluem. Tese e antítese são. Pois o sentido de toda a existência passa a residir no outro. ambos se unificam numa síntese que é algo mais alto e mais nobre. É por isso que o amor de amizade. Heitor e Helena. que transcende os indivíduos e se constitui em síntese mais alta e mais forte. para se unificar como algo de novo. pois perderam algumas de suas características. somente por amor de amizade. . o sentido do universo perfaz um círculo completo e retorna a Heitor. um ato bilateral. filía.

antítese e síntese constituem aquilo que os filósofos gregos chamam de jogo dos opostos. fica mais amor ainda. Vê-se. tudo é luta e guerra. Quando e por que há síntese? Que existam sínteses no universo é claro. Percebe-se. A pergunta central de toda a Filosofia. O rio não é o mesmo. Tese. dizendo que Tudo flui. Mas a pergunta é: por que às vezes há síntese. mais complexo. ou vice-versa. Ciência da Grande Síntese. ou ambos se anulam mutuamente. Mas depois há. dizendo que Tudo é o Uno. é: por que os opostos às vezes se excluem. o pai da Dialética. No jogo de opostos. Parmênides.continua sendo conservado. fornece o elemento do Logos universal que abrange tudo. desde então. é o movimento que é a realidade realmente real. O amor. Heráclito. Heráclito. muitas vezes. A realidade. Hen kai Pan e Panta Rei. O Todo e o Uno e Tudo flui são. pois os opostos se opõem e se excluem: Pólemos patér pánton. A luta é o começo de tudo. Os pólos opostos nesse caso atuam só como agentes destrutivos. fornece o elemento da Dialética. ao deixar de ser ato unilateral. o que ocorre é só morte e destruição. No começo. Tudo está em movimento. Eis o começo e a raiz da Dialética. mais alto. se faz Filosofia. passa a ser a Síntese. nós não somos os mesmos. aí não se faz Dialética. às vezes não? Quem descobrir isso descobrirá a resposta à pergunta sobre a harmonia no universo. uma síntese conciliadora que faz nascer algo de novo. desde então. ensina. Aí não surge síntese. constitui-se dialeticamente através do jogo dos opostos. lemas de toda e . para que se possa compreender o universo. que a grande questão. de imediato. mais nobre. que é um cosmos ordenado. diz que não podemos entrar duas vezes no mesmo rio. Muitas vezes. fica um amor mais alto e mais nobre. que tudo é movimento de pólos opostos. nem sempre surge um resultado positivo. O primeiro anula o segundo. às vezes se conciliam? É entre Parmênides e Heráclito que se abre o espaço em que. basta olhar o cosmos.

Do deus Caos surgem. há apenas caos. entre Totalidade e Dialética. havia apenas o Mito. em seu ponto central. Caos é o começo de tudo e o primeiro dos deuses. pai e origem de todas as coisas. Deus. assume a figuração da genealogia. bem no começo. entre os gregos. Também na tradição judaico-cristã o Mito assume a forma básica de genealogia. isto é. diz a Bíblia dos judeus e dos cristãos. um grupo de deuses que é comandado por Zeus. era só ele mesmo. Então. de pensar o mundo como um todo. uma esfera que remeta ao SerUno de Parmênides. O Mito. É por isso que num pátio que se queira simbólico de nossa Filosofia ocidental tem que haver. Deus. como e de que ela se compõe. é preciso que esta esfera esteja em perpétuo movimento de fluir. envolta pelo fluir da água. então. como de uma fonte.1 A Filosofia da Natureza dos Pré-Socráticos Os filósofos pré-socráticos foram os primeiros. qual o lugar do homem nela. o Pai de todas as coisas. No começo. aos atuais habitantes do Olimpo. seja o símbolo da Grande Síntese entre Repouso e Movimento. a esboçar uma visão racional do mundo. no primeiro dia. de filosofar. contam os antigos gregos. No começo. outros deuses numa seqüência genealógica em que um deus sucede a outro por filiação. uma esfera de pedra. até chegarmos aos deuses atuais. O Mito é uma primeira forma. Antes desses primeiros construtores da racionalidade. para que a esfera. em nossa cultura. ainda não crítica. chamando a luz de dia e as trevas de . Água tem que brotar dela.qualquer Filosofia. antes de criar as coisas. havia somente Deus. cria a luz. estava sozinho. Voltar 2 O JOGO DOS OPOSTOS 2. dizendo como a Natureza se origina. de pensar o universo em sua totalidade. Mas. como a filosofia de Parmênides tem que ser balizada e corrigida pela de Heráclito.

No segundo dia. Feito assim o travejamento entre passado e presente. são uma história do primeiro começo do mundo e da seqüência histórica das gerações. e também os que voam. No quarto dia. então. os peixes. as plantas e as árvores frutíferas. diz o mito bíblico. Deus então os abençoa e manda que se multipliquem. e outra menor. constitui o pano de fundo em que se insere o tempo presente. engendra os animais que vivem nas águas. que são as estrelas. uma maior. Ele cria também as pequenas luzes do firmamento. Deus separa a terra e o mar. de um lado. cada qual segundo sua espécie. bem como os que vivem em terra. os mares e os rios. para que ele presida os peixes do mar. com ênfase específica no povo dos judeus. O tempo passado é sintetizado como uma história que tem começo e que conduz até o tempo presente. cria as luzes no firmamento do céu. também o cotidiano se entranha de valores éticos e estéticos. o Pai. a terra verde. Deus faz o homem à sua imagem e semelhança. o Criador. as aves do céu. as aves. e águas acima do firmamento. o sol. que depois caem como chuva. A partir deste primeiro começo. e o Gênese judaico-cristão. e domine assim sobre a terra. No terceiro dia.noite. pára. Tanto o mito dos gregos como o mito dos judeus e cristãos contam a história da origem do universo desde seu começo até a seqüência histórica dos tempos. é uma história dos patriarcas e de seus povos. Ambos os mitos têm grande valor poético e funcionam como . Esse apanhado histórico do tempo passado. Deus descansou. a lua. dando sentido às coisas e. permitindo que se projete o tempo futuro. do outro. toda a Bíblia é uma história genealógica. às nossas vidas. Deus. que sempre contém juízos de valor – o Bem e o Belo –. Heródoto. Deus faz o firmamento e separa as águas. dividindo assim o dia da noite. E no sétimo dia. olha para as coisas que criou e vê que todas elas são boas. havendo então águas abaixo do firmamento. No sexto dia. No quinto dia. assim. Deus. fazendo assim aparecer o solo. as bestas. as bestas e todos os répteis. Deus.

se amolda e. É na geometria que os primeiros pensadores se inspiram em seu ânimo de objetividade científica. depois. como o nome diz. Mas há que se pensar e argumentar racionalmente. Os filósofos pré-socráticos conhecem o Mito e apreciam sua beleza selvagem e sua relevância pedagógica. O caos se organiza. uma primeira causa. A Filosofia da Natureza deveria ser tão exata. Deus. e. em última instância. tão objetiva e tão convincente quanto a geometria. As coisas se constituem e diferem umas das outras pelo grau de umidade. entram em seqüência genealógica. não é pensada como uma causa eficiente externa ao processo do universo.arquétipos estruturadores de uma determinada visão do mundo. No mito grego há um deslocamento. A causa. e é por isso e para isso que existem filósofos. Isso é Filosofia. as criaturas que. a partir de si mesmo. Mas é de dentro desse caos. também os homens. engendra suas determinações. mas não chegaram até lá. O deus inicial é o caos. No mito judaico-cristão há uma estrutura que contrapõe. é totalmente indeterminado. Isso significa que o processo de gênese do universo deve ser analisado e descrito com a exatidão e a frieza objetiva que caracterizam a ciência. Surgem aí os outros deuses e. o Pai . não há nele coisas ou seres com limites e contornos. causa primeira de tudo. O deus Caos. Por isso Ele é. que engendra tudo. assim. Tales de Mileto pensava que a origem e o princípio – a arkhé – de todas as coisas é a água. de um lado. no pensamento grego. as coisas criadas. um princípio interno de autodeterminação que molda o universo de dentro para fora. O deus Oceano é. ao determinar-se a si mesmo. na seqüência destes. de outro lado. O caos. Deus. Os présocráticos bem que tentaram. se dá forma e figura. é pensado aí também de forma genealógica como o Criador e o Pai de todas as coisas. é de dentro desse deus Caos que o universo bem ordenado vai surgindo. mas como uma causa interna. responsável por tudo e escreve direito até por linhas tortas.

O número 10 é considerado o número perfeito e é visualizado como um triângulo equilátero. o mundo é concebido como um processo que se origina a partir de um só princípio e se desenvolve de acordo com determinadas regras. até formar as coisas determinadas que vemos no mundo sensível. o ponto central. Anaxímenes de Mileto. segundo ele. no centro do triângulo assim delineado. ser este que vai sendo então ulteriormente caracterizado por determinações que o limitam mais e mais. aceita a doutrina de seu mestre sobre o ser infinito. que constitui o começo de todas as coisas. Não se trata ainda da doutrina da Física contemporânea sobre o Big Bang. é o princípio de todas as coisas. segundo regras e proporções numéricas. uma explicação do mundo. que dele se originam e através dele se explicam. discípulo de Anaximandro. O universo se desenvolve a partir de um primeiro princípio. Filosofia aqui já é uma explicatio mundi. abarca e circunscreve todas as coisas. há um único ponto. o ápeiron. uma primeira e primitiva forma do jogo dos opostos. Pitágoras e os pitagóricos dão um passo adiante e descobrem o número como princípio de todas as coisas. mas não o toma de forma tão abstrata. O primeiro princípio é contraposto às coisas diferenciadas.de todas as coisas. que determinam o processo e dão forma às coisas. Anaximandro. ele rege e governa tudo. na Filosofia da Natureza dos filósofos jônicos. – Observamos aqui. As relações que os números estabelecem entre si constituem as regras que determinam o processo de explicação do mundo. para nunca mais terminar. também de Mileto. Cada número possui aí um sentido próprio e dá às coisas uma forma determinada. a matematização do mundo. provavelmente discípulo de Tales. o ápeiron. definindo-o como o ar: o ar. totalizando . mas é o primeiro começo dela. no qual cada lado se forma por quatro números. sem limites e sem determinações. Este ser indeterminado inicial. diz que o primeiro princípio é um ser totalmente indeterminado. Começa aí.

Depois de atingirmos o 10. o sistema decimal de contagem e de cálculo. Luz 9. Dessa primeira oposição saem os números 1 e 2. é a própria perfeição. que vai influenciar depois Platão e toda a escola neoplatônica. os números ímpares são mais perfeitos: neles se pensa. então. ou o 10 em forma de triângulo. também sua síntese. conforme combinados entre si. Mas é preciso haver síntese. A assim chamada mística dos números dos filósofos pitagóricos. a síntese é o 3. Reto 8. Em paralelo com a doutrina sobre os números. O triângulo formado de dez pontos. O Um se opõe ao Outro. A essa mística dos números soma-se. para não sair mais de nossa civilização. Macho 6.o número 10. quem aprende a . a lista dos dez pares de contrários – as substâncias elementares –. antítese é o 2. e aí surge o 3. Direita 5. os filósofos pitagóricos desenvolvem ulteriormente o jogo dos opostos. Surge assim. É por isso que. Tese é o 1. Ímpar 3. Quieto 7. é preciso pensar tanto o 1 como o 2 como um novo conjunto. é o berço de onde vêm as equações da Física contemporânea. que então é chamado de Dois. segundo os pitagóricos. dão forma a todas as coisas: 1. Já os números têm entre si a relação de contrários. Segundo os filósofos pitagóricos. Quadrado Ilimitado Par Múltiplo Sinistra Fêmea Móvel Curvo Trevas Mal Retângulo O jogo dos contrários aqui se apresenta como uma tabela básica dos contrários. além da oposição dos dois pólos contrários. Limitado 2. Uno 4. que. tudo é apenas uma repetição. Bem 10.

ou vice-versa. e assim por diante até chegarmos ao elemento 112. A dosagem de líquido e de sólido. Pelo contrário. Eis aqui a primeira forma. aí temos o hidrogênio. Os átomos. daquilo que hoje chamamos na Química de Tabela dos Elementos. houver dois a girar em órbita. afirma ele. pode compor a constituição interna de cada coisa. Anaxágoras de Clazomene também aceita a premissa de que o Não-Ser não pode existir e continua pensando o mundo como um . que são como que os elementos constitutivos dos seres existentes. seja inexistente. em vez de um elétron. seja contraditório e. Os químicos hoje usualmente não se dão conta. ainda muito tosca e primitiva. As determinações das coisas variam conforme a composição nelas desses quatro elementos. Não se pode concluir. Aceita essa premissa inicial do argumento dos Eleatas. a eletricidade positiva e a negativa entram em equilíbrio e assim temos uma molécula estável. sempre fazendo o jogo dos opostos. e sim misturas e dissoluções de quatro substâncias fundamentais. mas eles são descendentes diretos dos filósofos pitagóricos. Se. na Química de hoje. a proporção em que esses elementos se misturam é o que dá forma e figura às coisas. assim. Os elementos básicos não são dez pares de opostos e sim dois. de fogo e de ar. o ar e o fogo. Na mesma linha de seus antecessores. que só surge em laboratório. então já se trata do segundo elemento da Tabela dos Elementos. seja impossível e. Ele se dá conta de que o Não-Ser não existe e não pode nem mesmo ser pensado. Um elétron gira em torno de um núcleo atômico. só que não é a passagem do Ser para o Não-Ser. por isso mesmo. mas não aceita a conclusão.jogar com esses dez pares de contrários. a terra. que o movimento seja impensável. que permanecem eternas e indestrutíveis: a água. são pensados conforme o modelo atômico de Niels e Rutherford. o movimento existe. Empédocles é o primeiro que expressamente tenta resolver o problema colocado por Parmênides e Zenão de Eléia.

A própria palavra. são indivisíveis. em movimentos circulares. cada um divisível em si mesmo. Tomein significa cortar. de espermas. Postula. mostra a tendência biológica dessa Filosofia. As determinações das coisas são então produzidas por uma Inteligência Ordenadora. nessas linhas verticais de queda livre. são “a-tomos”. os átomos de Leucipo e de Demócrito. todos eles qualitativamente iguais. pequenos desvios para um lado e para outro. esses primeiros princípios de todas as coisas. que já em grego significa o espermatozóide masculino. Só que eles não estão em queda livre e. Os espermas seriam numericamente infinitos. Esses pequenos desvios tornam a concentração de átomos mais ou menos densa. julga Anaxágoras que só dos quatro elementos não é possível construir a diversidade real das coisas. mas como uma causa interna.processo de composição e de dissolução de elementos básicos. o nous. átomo é aquilo que não é mais divisível. para isso. Depois dos espermas de Anaxágoras temos. de novo. que. então. que mistura os espermas de forma ordenada. Essas variações de densidade constituem o núcleo da explicação do mundo. A figura do Deus criador aparece aqui. Estes átomos. Os átomos. sim. se encontram inicialmente em queda livre. incontáveis. Os átomos. indiferenciados uns dos outros. Os . Cada coisa é o que é devido à mudança da concentração de átomos. Os átomos e o acaso constituem os dois elementos que explicam a natureza das coisas. não como uma causa externa. Segundo eles. a partir de dentro do caos. Em oposição a Empédocles. faz com que este se organize. O acaso – eis aqui. vamos reencontrá-los no modelo atômico da Física moderna. constituem inicialmente uma massa informe. o que não pode ser cortado por ser um elemento primeiro. sem com isso perder sua força germinadora e determinante. a existência de spermata. de infinita variedade. o deus Caos – faz que haja. Essa massa inicial de esperma é a matéria-prima do mundo. isto é. que também aceitam o princípio de que o Não-Ser não pode existir. os primeiros atomistas.

abre novos horizontes e inaugura novos valores e novas virtudes. a velha aristocracia entra em lenta.2 Os Sofistas “Sofista” é um termo que significa inicialmente o sábio. vão adquirir sentido pejorativo. na mutação pelo acaso da moderna Biologia. o que é o Mal. Afinal. . mas inexorável decadência e em que surge. Surge aí uma novidade. A virtude tem que ser rediscutida e redefinida. o que é o Bem. A força da inércia. 2. Aumentando o número de elétrons em órbita. que a tradição possui. A polis não é mais a cidade isolada. na Física. e. São os sofistas que primeiro transplantam o jogo dos opostos de Heráclito do plano da Filosofia da Natureza para o plano das relações sociais. eles se interessam pelo demos. O termo “sofista” bem como a palavra “sofisma” só mais tarde. por intermédio das viagens e dos viajantes. surge aí a necessidade intelectual e política de rediscutir e de redefinir o que é a virtude. Não é mais líquido e certo que uma determinada maneira de agir seja virtuosa apenas por ser oriunda da tradição.elétrons giram em órbita em torno de um núcleo. depois da polêmica com Platão e Aristóteles. o poder do povo. daí Filosofia significar etimologicamente amor à sabedoria. o povo. elemento nº 1. cada vez mais forte. ela se descobre como uma cidade entre muitas outras. e sim da vida do povo nas cidades. até o elemento nº 112. principalmente. que rompe com os estreitos limites do mundo antigo e. aumenta o peso específico dos elementos. com sua constituição própria e suas virtudes tradicionais. na Grécia. do hidrogênio. surgem novas questões sobre o que é Bem e o que é Mal. É o povo que faz comércio. não tanto da Natureza. não serve mais como fonte única de legitimação das virtudes. Ao surgirem novos horizontes. Os sofistas se ocupam. É a época em que. e pela polis. sofía significa sabedoria. vamos reencontrá-lo na relação de indeterminidade de Heisenberg. O acaso. que vai de uma cidade para outra.

mais e mais nítida. em se tratando do jogo de opostos. é preciso vê-lo em sua relação de oposição para com o outro homem. em suas relações sociais. ambos os pólos contrários só podem ser entendidos correta e plenamente quando conciliados na unidade maior e mais alta. Isso é válido especialmente em dois campos das relações humanas: no Direito e na Política. É preciso sempre. Pois. uma parte. O jogo dos opostos. o jogo dos opostos se encarna como uma das mais antigas e mais importantes regras de toda e qualquer justiça: Seja ouvida sempre também a outra parte. No Direito. assim. eis as questões que se impunham. significa que cada homem é apenas um pólo da oposição. Cada homem. se e enquanto for pensado em relação a seu pólo oposto. em si.o que é virtude? O que é o certo? O que está moralmente errado? Eis as perguntas que os novos tempos colocavam. importantíssimos pensadores. As primeiras respostas foram dadas pelos sofistas. em sua época. A fílesis só se entende bem se a pensamos em relação à antifílesis. Para entender um pólo. Os sofistas foram. Protágoras. Para entender esse primeiro homem. Górgias e Pródico foram homens de seu tempo que procuraram pensar criticamente os problemas de seu tempo. para que possa ser feita . transportado para a trama das relações sociais. As relações humanas são. é apenas um pólo. A grande característica – positiva – dos sofistas foi a elaboração ulterior do jogo dos opostos como uma maneira metódica de pensar e de agir. cada pólo só pode ser entendido. analisadas à luz do jogo dos opostos. na filía. O homem que procura justiça diante de um tribunal é sempre uma parte. Audiatur et altera pars. a Dialética. na qual ambos estão superados e guardados. que é o seu contrário. mais ainda. surge aí. para saber o que um pólo em realidade é e o que ele significa. é preciso sempre pensar esse primeiro pólo em sua relação de oposição ao segundo pólo. Ele é apenas uma única parte de um todo maior.

A opinião e a vontade de um grupo de cidadãos divergem da opinião e da vontade de outro . pode ser que só a outra parte tenha razão. É por isso que até hoje os juristas falam da necessidade do “contraditório”. é sempre parte. Exatamente isso e somente isso é justiça. o primeiro pólo da oposição. daquele todo maior e mais nobre dentro do qual cada parte é apenas um pedaço. Até hoje. Nestes costuma haver uma polarização. um pedaço que exige a sua contraparte.justiça. jamais a tese ou a antítese isoladas. há discussão e debate. no sistema de Direito. é o exercício constante e sistemático do jogo dos opostos. Smith”). uma sem a outra. para que haja justiça. pode ser que ambas as partes tenham alguma razão. Justiça. que ambas estejam parcialmente certas e parcialmente erradas. é preciso ouvir também a outra parte. pois. sempre. o preceito de ouvir a outra parte. ou seja. Até hoje os processos penais nos países de tradição anglo-saxã contêm a menção do “povo versus A. O termo “contraditório” significa aqui o contexto dialético que nos vem desde a Antigüidade. nem sempre precisa ter razão. especialmente nas assembléias de cidadãos. Smith” (“the people against A. o que chamamos de Direito. Também o Direito Penal é. neste uma das partes é sempre o povo. ouvir a outra parte. Em todo caso. um elemento constitutivo de uma unidade maior. isto é. Esta outra parte. Antes que surja a decisão por consenso político. o seu oposto. A primeira parte. um pedaço de um todo maior. A justiça exige que a razão de cada parte seja medida e avaliada no contexto maior da posição sintética. todos nós somos dialéticos. o outro pólo no jogo dos opostos. às vezes uma ruptura. que se constituem em democracia. para que se estabeleça justiça. Tão importante quanto no Direito é a função do jogo dos opostos na Política. A parte. pois justiça é sempre o processo de formação da síntese. é sempre apenas “parte” no sentido literal. Pode ser que só a primeira parte tenha razão. Os juristas hoje muitas vezes não se dão conta disso: eles são dialéticos.

Os sofistas não foram os inventores do Direito e da Política. adquirem sentido e têm justificação. dois grupos com opiniões e vontades diversas. que hoje podemos tematizar com precisão: em vez de dizer que tanto a tese como a antítese são falsas e que a síntese e só a síntese é a verdade inteira. Assim se faz Política. Mais uma vez temos aqui o velho jogo dos opostos. de imediato. assim. isso vale tanto para os regimes despóticos dos antigos gregos como para os totalitarismos do século XX. Fora disso. mas foram os primeiros filósofos. partido único é um mostrengo. Esse mérito tem que lhes ser dado. Isso porque cometeram um grande erro teórico. em nossa cultura. os sofistas algumas vezes inverteram os sinais e disseram que tanto tese como antítese são. pois a identidade de cada um deles é determinada pela identidade do outro. por igual. que Política só existe quando há dois partidos. Por outro lado. O partido político só se entende e só se justifica se e enquanto contraposto a seu partido oposto. que tanto tese como antítese são falsas porque parciais. verdadeiras. na qual e somente na qual os partidos. Nisso eles acertaram. pode também ser que cada grupo tenha razão apenas parcialmente e que. havendo concessões de parte a parte. que pensaram teoricamente o jogo dos opostos como elemento constitutivo e essencial das relações sociais. Pode ser que um grupo tenha cem por cento de razão e consiga convencer o outro grupo disso. vê-se. Esquematizemos. A unidade se quebra em duas partes. a posição sintética.grupo de cidadãos. se forme a vontade geral. A dialética verdadeira e correta afirma que cada parte é apenas parte. por certo. ou seja. e surgem aí os partidos políticos. Até hoje os sofistas têm má fama. A vontade geral é aí aquela unidade mais alta e mais nobre. Em Política. cometeram alguns erros graves e fizeram bobagens que a História até hoje não lhes perdoa. Os sofistas às vezes dizem: tanto tese . e a palavra “sofisma” tem conotação altamente negativa. Ambos os grupos precisam debater e dialogar. que são apenas pedaços. Formam-se.

Os sofistas. ele sozinho. Ambas as posições são falsas. se levanta para criticar o desvirtuamento que os sofistas fizeram com a Dialética. 2. Aristóteles. muitas vezes. agora no mau sentido da palavra. desde que se possua desenvoltura verbal para argumentar. Está certo. Não é possível defender tanto a tese como também a antítese. Com razão. porque exigem e recebem pagamento. qualquer parte. dela se afastam. Verdadeira é apenas a síntese que . Platão. O jogo dos opostos. o último dos sofistas Sócrates é. qualquer partido como se fosse. Justiça então deixa de existir. pode-se defender tanto uma como outra. passaram então a defender tanto uma parte como outra. Os sofistas. E agora ainda pior: os sofistas o fazem porque são pagos para isso. eis o grande erro e a grande culpa dos sofistas. defendem qualquer pessoa. Sócrates. Esqueceram que parte é sempre e somente parte. a verdade total. Sócrates é a grande voz que. e instala-se a mentalidade sofística de que qualquer posição é boa. O senso do direito e do correto vai para o ar. por igual. Depois de resgatar e reinventar a dialética. de ótimo que era transforma-se em péssimo. verdadeiras. ninguém jamais os perdoou. se tanto tese como antítese são verdadeiras. uma parte. em Atenas. no mau sentido.quanto antítese são. do jogo de opostos que se completam e se unem para constituir um todo maior. é exatamente o contrário. o grande defensor. parte essa que só com a contraparte correspondente forma um todo maior. como se ambas fossem verdadeiras. Não é isso. chamado de último dos sofistas. Pois. como se ambas tivessem razão.3 Sócrates. seja apresentado como se fosse o todo. quando desvirtuado e invertido. se entendemos o termo “sofista” em sua conotação positiva. exigido e aceito para que um partido. nos assuntos morais e políticos. As conseqüências desse erro lógico são incríveis e politicamente pesadíssimas. Sócrates foi o grande pensador da Dialética. O pagamento em dinheiro.

O jogo dos opostos tem que ser realizado corretamente. depois mostrando a falsidade da antítese. a favor da tese. ele restabelece a forma e a estrutura correta do jogo de opostos. Como os sofistas. Não é verdade que tanto tese como antítese sejam verdadeiras. às vezes. diz Sócrates. pois. É contra isso que se levanta a voz de Sócrates. argumentava primeiro a favor da verdade da tese. na conciliação de ambas. pago pelo outro grupo. às vezes. mas. a parcialidade da tese. pago por um grupo. para que então possa surgir. Ou seja. na vida prática. com o dinheiro embolsado. em desmascarar tanto tese como antítese como sendo erradas. ou seja. Os sofistas argumentavam. Só o todo maior. isto é. em oposição aos sofistas. ia embora. . E. e sim. deixando os cidadãos entregues à perplexidade e à contradição. Saber ouvir a outra parte significa. ela não é o todo. a verdade do todo maior e mais alto. como se esta fosse a verdade toda inteira. virtude moral. Em muitos casos concretos. o certo é que geralmente ambas são parciais e por isso falsas. Mais ainda. só assim se adquire conhecimento verdadeiro e se descobre qual das antigas virtudes não é apenas tradição boba e sim atitude moralmente correta. na vida política. é preciso argumentar primeiro mostrando a falsidade. Isso. a favor da antítese. a favor da verdade da antítese. É por isso que se deve sempre ouvir também a outra parte. Sócrates é um pensador da Moral e da Política. só a síntese é que é verdadeira. Filosofar para Sócrates é saber entabular diálogos. que também é parcial. Só assim se descobre e se engendra a verdade. diálogo de pessoa com pessoa. e depois. pelo contrário. em seguida.de ambas se engendra. é fazer Política numa cidade de cidadãos racionais e livres. A virtude. como sendo apenas elementos parciais de um todo maior. A parte é somente parte. o mesmo sofista. estabelecer um diálogo. isto é – o que é o mesmo –. não consiste em defender uma tese – ou uma antítese –. ele se ocupa do jogo dos opostos nas relações sociais.

Sócrates. Sócrates perscruta a voz interior da consciência. mesmo quando o esquema lógico é transposto para o plano das relações sociais. se o importante é dialogar concretamente. Sócrates responde. mesmo quando se escreve. cometido grave crime contra os deuses da cidade de Atenas e atentado contra os bons costumes. Primeiro. é sempre o diálogo. o bom espírito. Sócrates não escreve. Não temos dele nem um único escrito. e aí é o primeiro que tem que ser abandonado. em que Platão relata os acontecimentos e as idéias que cercam a condenação e a morte de Sócrates. morre dialogando. as verdades apenas parciais contidas nos pólos opostos. Sócrates pergunta. O grande pensador do “Sei que não sei nada”. para. como sabemos. pervertendo a juventude. constitui-se numa das obras-primas de nossa civilização. discípulo e seguidor de Sócrates. Sócrates ouve. podem acontecer três coisas. pode ser que o primeiro pólo seja verdadeiro. chama de daimon. aí o segundo pólo é falso e tem que ser abandonado. Segundo. Mas pode ser também que ambos os pólos sejam falsos. foi. Pois. a virtude. Ele teria. o grande mestre do diálogo na Ética e na Política. de parte a parte. 3 O MITO DA CAVERNA 3. o bom demônio. que ele. com seus diálogos. e aí há que se descobrir. para que escrever? Quando Platão. condenado à morte por seus concidadãos. sempre fruto do jogo entre tese e antítese. . personificando-a. se encontra apenas através do diálogo real que se faz nas esquinas e na praça pública.Para Sócrates.1 Platão e o jogo dos opostos No jogo dos opostos. diálogo de pessoa com pessoa. pode ser que o segundo pólo seja o verdadeiro. O diálogo “A Apologia de Sócrates”. ensina e escreve na Academia. Daí os Diálogos de Platão. o homem do diálogo ético e político. continua valendo a regra de que a forma literária de tratar de assuntos filosóficos.

é mais introdutória. mas síntese que seja boa ele quase nunca elabora. A doutrina exotérica é mais fácil. sem que jamais se chegue a uma conclusão. que leva o jogo dos opostos à perfeição. é mais didática. aquilo que fica completo e acabado. em que nada falta e nada está sobrando. quando faz Filosofia. examina por vários lados . – Não ocorre nunca. de becos sem saída. e tese e antítese ficam uma contra a outra. sem síntese final? É pura verdade. nunca depois. Nunca antes dele. debate. vindos de fora. sem os pressupostos necessários. ela é feita e explicada para os principiantes e para os que. Platão aí levanta uma tese. Perfeição é aquilo para o que Platão nos aponta. – Como assim? Não é exatamente o contrário? Pois todo o mundo sabe que Platão é um filósofo de aporías. A doutrina exotérica – o prefixo “ex” está a indicar – destina-se ao uso das pessoas de fora. o homem apontou para tão alto. E não é verdade que os diálogos de Platão são quase sempre aporéticos. que tanto a tese como a antítese sejam verdadeiras. Como então chamar Platão de pensador sintético. Platão. esboça a tese. pois é logicamente impossível que ambos os pólos sejam verdadeiros. aponta para a síntese? Sem síntese a Dialética se desarticula. este o fundamento lógico-sistemático dos erros morais e políticos que cometeram.unindo-as e conciliando-as. ele a discute. Nela o jogo dos opostos realmente fica quase sempre em aberto. A doutrina exotérica e a doutrina esotérica. sem uma síntese final. engendrar a unidade verdadeira de uma síntese mais alta. Há em Platão duas doutrinas que se complementam e se completam. Perfeito é aquilo que é feito até o fim. ambas negativas e cientes de sua falsidade. O jogo dos opostos em Platão é levado à perfeição. isto é. se ele nunca. em seus diálogos. Este é o erro lógico em que os sofistas incorreram. Isso já sabemos e já vimos através do erro cometido pelos sofistas. ainda não estão em condições de entender o núcleo duro da doutrina. traceja a antítese. ou quase nunca.

Então é levantada a antítese. com um piscar de olhos. esforço e trabalho. isso é o beco sem saída. mas. bem como de Sócrates. diremos. Isso é a aporía. com uma tese falsa e uma antítese igualmente falsa. E Platão. no final. Os diálogos de Platão. ela aparece sob a forma de doutrina exotérica. num instante. discípulo do filósofo heraclitiano Crátilo. invariavelmente refutada. isto é. A Dialética. Na doutrina exotérica. trabalhoso. sendo. . então. A criança não se faz homem num dia. a árvore não cresce numa semana. o jogo dos opostos. os contrários são levantados. em toda a sua seriedade. nas mãos. entre os contemporâneos da Escola de Frankfurt: a Dialética aí é uma dialética negativa. A tese é sempre demonstrada como falsa. assumindo o risco intelectual da tarefa. desembocam num beco sem saída. sabia muito bem disso. como. assim também a Dialética requer tempo. sério. se não o forem. muitas vezes doloroso processo de superação das contradições existentes entre tese e antítese. Mas isso.e. procure acertar as peças do quebra-cabeça. sozinho. no fim. se realiza num processo lento de aprendizado e de maturação. aí não é levada a termo. de opostos sem conciliação. é preciso que ele mesmo tente e experimente juntar as peças. não é boa dialética. Falta sempre a síntese. Os opostos têm que ser trabalhados seriamente. É por isso que. dita ou escrita. É preciso que essa massa meio informe de oposições contrárias sem síntese. para os principiantes e para os de fora. um refutando o seu oposto. finalmente. a Dialética não é exposta e explicada de imediato em sua completude. a síntese será chocha e vazia. como esta. é preciso que o próprio leitor. ambas imprestáveis. Dialética é educação e. uma dialética sem síntese. Ficamos. Realmente não há aí síntese expressamente formulada. a refuta. Como sabia também que a Dialética não se faz por um passe de mágica. e sim num longo. que também é examinada e debatida. Platão deixa seus ouvintes e seus leitores em suspenso. Certo. quase todos – excetuam-se alguns diálogos da velhice – são aporéticos. aliás.

uma Filosofia estritamente dualista. Matéria e espírito aí jamais se unificam na devida harmonia. na doutrina esotérica. por outro. sem antes passar pelo longo processo de maturação dos pólos opostos. É como o olho a olhar diretamente para o sol. A doutrina exotérica é. O dualismo duro. É por isso que a doutrina de Platão. parece ser um sistema de Filosofia dualista. a Dialética sem síntese. Pois as sínteses finais são tão simples e tão luminosas. O mundo das coisas e o mundo das idéias são. as idéias se opõem às coisas. daí surjam as grandes idéias sintéticas. com clareza e plenitude. . fica tão ofuscado. uma em oposição à outra. um contra o outro. um jogo de opostos em que os opostos nunca se unificam. Quem só ouve e só estuda a doutrina exotérica. então. e mundo espiritual das idéias. por um lado. que pensa não estar vendo absolutamente nada. fica ofuscado e não enxerga mais nada. na assim chamada Doutrina Não-Escrita. se olhar direto para as grandes sínteses da doutrina esotérica. os opostos sem conciliação sintética. para o iniciante. aí. se opõem como pólos contrários e excludentes. Mundo material. quando brotam e emergem. eis o eixo intelectual da doutrina exotérica. assim. em que os pólos opostos nunca se conciliam plenamente. O iniciante.fique um bom tempo fermentando para que. uma fora da outra. sem que entre ambos haja – à primeira vista – verdadeira conciliação. fica pensando que Platão considera o mundo das idéias e o mundo das coisas como duas esferas de ser existentes uma ao lado da outra. Há em Platão perfeita conciliação. a doutrina que os principiantes não conseguem captar nem entender. O espírito se opõe à matéria. só que ela só vai aparecer. dois pólos opostos. a doutrina que os iniciados discutem entre eles. sem jamais chegar à síntese final da doutrina esotérica. constituem então a doutrina esotérica. Por isso é que o trabalho penoso de jogar com os contrários tem que ser realizado previamente. Essas grandes sínteses. que quem as busca diretamente.

Pensemos na idéia errada – atribuída a Platão – que entrou em nossa tradição cristã de que o espírito é bom. sem síntese. Lamentavelmente. e principalmente o . mas muitas vezes é tomada – erroneamente – como sendo a Filosofia de Platão. os pólos dicotômicos tornam-se problemas sem solução. quando falam de Platão. deixar um destruir o outro. E isso é. são ótimos. da Dialética em seu sentido pleno de unificação e de conciliação dos opostos. Mas o Platão que geralmente se estuda nos livros e – muito grave isso – o Platão de parte grande da tradição acadêmica é apenas o Platão da doutrina exotérica. deixar que ambos os pólos girem um em torno do outro. isso ocorreu muitas vezes. pois vai gerar dicotomias em que os pólos opostos jamais são reunificados. deixando um rastro de erros teóricos e de graves deformações éticas. em nossa tradição filosófica. ou melhor. Esta é apenas uma primeira aproximação na escalada que leva ao saber filosófico. atiçar um contra o outro. Isso desde a Antigüidade se chama trabalhar por dicotomias. conflitantes. matéria e espírito. Numa Dialética negativa. Ao invés de ser compreendido como o pensador da Grande Síntese. o Platão dos opostos sem síntese. ele é pensado como um novo sofista que pega os pólos opostos sem os unificar e sem os conciliar. a carne. pois são momentos que apontam e conduzem para mais adiante.Muitos autores. a grande oposição de dois pólos que deveriam ser unificados e conciliados. transformam-se num problema dicotômico sem solução. numa Dialética plena e levada à sua devida síntese. construir os pólos opostos. O Platão de verdade é um pensador da Grande Síntese. irredutíveis. porém. Pólos opostos. Platão é violentamente desvirtuado. o Platão dualista. um desastre intelectual. O mundo das coisas e o mundo das idéias. eis a Dialética sem síntese. como dois guerreiros em luta mortal. deixando-os como dois princípios opostos. então. Cortar em dois. que passam pelos filósofos posteriores e entram em nossa cultura e em nossa educação. só estudam e só mencionam essa doutrina exotérica.

uma unidade sintética.2 O mundo das idéias e o mundo das coisas Os sofistas argumentavam a favor dos dois pólos. o que hoje chamaríamos de tesão. o corpo é rebaixado. num exemplo bem concreto. diz que a concupiscência. sendo pecado. como um mal-entendido aparentemente pequeno no começo leva a erros de grande gravidade no fim. muitas vezes . o homem perde a unidade sintética. O desejo sexual. aí ocorrem desastres intelectuais e culturais de grandes dimensões. E. um mal moral. examinando-o cuidadosamente pelos dois lados. se fundem e assim se transformam numa unidade mais nobre e mais alta. É por isso que devemos estudar com atenção esse primeiro binômio da filosofia platônica. que nisso consiste o próprio pecado original. É nisso que dá quando não se faz a síntese devida. algo que é uma culpa. vira um anjo a cavalgar um porco. A doutrina agostiniana. é sempre algo moralmente negativo. e sim homens. a Dialética da Grande Síntese. dentro da qual os pólos primeiramente opostos. vira pecado. Primeiro como dois pólos opostos que aparentemente se excluem. perfeita e acabada realidade. depois como dois elementos que se unificam. então. que depois é assimilada pela esmagadora maioria dos pensadores cristãos e que vem até nosso século. Nós homens não somos anjos montados em porcos nem centauros. o mundo das idéias e o mundo das coisas. corpo e alma. desaparecem enquanto opostos e se transformam em uma nova. é um mal em si. para transformar-se num ser completamente ridículo. algo de que devemos nos envergonhar.sexo. Quando a Doutrina Exotérica é tomada como se fosse a Doutrina Esotérica. o desejo sexual. quando a Dialética negativa é tomada como se fosse a legítima Dialética. Eis aqui. 3. que é de corpo e alma. defendendo indistintamente tanto um como o outro. O homem nessa dialética sem síntese vira uma caricatura.

era algo flutuante. Os sofistas pensavam que a virtude. antes mesmo de serem adotados pelos homens em suas comunidades políticas. O mundo que de fato existe. algo relativo. como dizia o sofista Górgias. numa doutrina sobre a ordem do Universo. O universo é um cosmos. O Dever-Ser é o ideal a ser atingido. são princípios gerais da ordem do mundo. a descobrir a síntese entre tese e antítese. nos ensina que assim não dá: dois pólos contrários não podem ser simultaneamente verdadeiros. Sócrates.argumentando a favor dos dois: argumentari in utramque partem. A condenação – injusta – e a morte de Sócrates mostraram com clareza a Platão que o Mundo-Que-DeFato-É nem sempre coincide com o Mundo-Ideal-Que-Deve-Ser. a Ética e a Política. como ele está aí frente a nossos olhos. O que é virtude? Sócrates dizia que não sabia e mandava dialogar. . Nasce assim a idéia platônica. o último dos sofistas. o que é virtude? Se não é a força bruta do pólo mais forte que decide tudo. Platão elabora uma filosofia prática. kósmos significa aquilo que é ordenado. baseando-se em princípios que o homem tem que adotar porque são princípios de ordem de todo o universo cósmico. algo que variava de situação para situação. Sócrates nos ensina a perguntar e a encontrar as respostas. A Ética de Platão se baseia numa Ontologia. e sim na virtude. Afinal. numa doutrina sobre o ser em geral. o Dever-Ser é a idéia. nem sempre coincide com aquilo que deve ser. Platão não aceita um tal relativismo. Há princípios éticos que valem sempre e para todos. Este ainda é o tema central e o grande problema de Platão. e que não havia princípios válidos para todos os casos. então em que consiste a virtude? A resposta a esta questão é o começo de toda a filosofia de Platão: virtude é aquilo que deve ser. o Dever-Ser. e estes princípios são universalmente válidos porque eles. Essa síntese não consiste na força do mais forte.

No Diálogo Menon. mesmo quando boas e úteis. Pois bem. uma mera convenção construída pelos homens? Convenções. que não pode ser mudada ou transformada. não sabe ler. não conhece o teorema de Pitágoras. responde: Os primeiros princípios estão inscritos no âmago do ser e por isso também no âmago de nossa alma. Se ele nunca estudou Geometria. em que livro. Como é que o escravo conseguiu? Como é que ele sabe? Platão responde: Ele já sabia. passo a passo. que discutia com amigos sobre a existência ou não-existência de princípios gerais do ser do Universo e de todo conhecer. onde estariam inscritos tais princípios? Onde. Como saber que uma determinada regra ou determinado princípio é. mais do que uma mera convenção. desde sempre ele já sabia. em que monumento estariam eles escritos? Sócrates. que é assim e tem que ser assim. E Sócrates começa. docemente. Querem ver? Esse escravo nunca estudou nada. vou fazer perguntas – só perguntas – e deixar que responda. mas podem ser diferentes. uma regra inquestionável. o que ocorre? E se ali traço mais esta outra?” E assim. vou dialogar com ele. em todos os lugares do mundo? É possível encontrar e trazer à luz tais princípios fundamentais da ordem do Universo? Platão sorri e mostra que sim. “E se traço esta linha aqui. então. Afinal. uma regra que não pode ser negada. sempre o personagem central de Platão. o escravo vai avançando. ele precisava somente recordar o que já sabia e tinha apenas esquecido.Como podemos saber que uma determinada regra não é apenas uma invenção de algum governante tirânico ou. desenhando na areia do chão e formando as figuras. isto é. vai descobrindo os nexos e consegue formular o grande teorema da Geometria. a perguntar. são contingentes. podem ser assim. Alguns duvidavam de que se pudesse descobrir e elaborar tais princípios. Sócrates sempre só perguntando. agora e para todo o sempre. não sabe escrever e nunca estudou Geometria. Esse conhecimento estava . um escravo analfabeto é trazido à presença de Sócrates. não tão mau assim.

Os muitos patos que existem têm. Eles organizam o Universo de dentro para fora. que pela ontologia da participação existe no âmago de cada coisa. com um Mito. Pato é pato. a pluralidade dos indivíduos que existem no mundo das coisas e. . diz Platão. o desenho básico. de um lado. Esses princípios de ordem do Universo. se elas são as forças formadoras do mundo. outra coisa são os milhares de motores individuais que são feitos de acordo com o projeto. A Forma é como que o desenho feito pelo projetista. que faz com que daquele ovo se desenvolvam sempre patos. As muitas galinhas possuem todas a forma galinácea. estava dentro da alma do escravo. ou seja. na doutrina exotérica para principiantes. Esse princípio formador de cada coisa Platão chama de “forma”. No ovo de um pato há um tal princípio de ordem. a unidade da Forma.inato. é o princípio de ordem que a determina e que comanda seu desenvolvimento. onde encontrá-las? Como conhecê-las? Como saber que o que estou conhecendo é uma verdadeira Forma e não uma ilusão? Platão responde aqui. de outro lado. de cada coisa. Surge então a pergunta: onde estão as Formas? Onde existem as Formas? Onde podemos vê-las? Se as Formas são tão importantes. Temos aí. A Forma determina o que a coisa é e como ela vai desenvolver-se. Do ovo de galinha sai sempre galinha. E assim com todas as coisas. são universalmente válidos e estão sempre presentes. são eles que fazem com que as coisas do mundo não sejam uma massa desordenada e caótica de eventos. todos eles. Cada coisa tem sua forma determinada e específica. bem ordenado. ínsitos em cada coisa. E estava lá dentro porque é um princípio que está dentro de cada ser. e sim um Universo cósmico. uma coisa é o projeto de um motor. Uma única forma. A Idéia. a mesma forma de ser pato. um único desenho básico que é realizado em diversos indivíduos. galinha é galinha e homem é homem. porque é um princípio da própria ordem do Universo.

é jogada no cárcere do corpo. conhecer é lembrar-se da Idéia Universal de uma coisa e aí. uma anámnesis. Porque os nomes.3. as determinações específicas de cada coisa. embora as coisas sejam sempre individuais. que existe desde sempre na Estrela. Esse violento deslocamento faz que a alma se esqueça de tudo ou de quase tudo que ela havia visto na Estrela. existem também as almas individuais de todos os homens que vão nascer. Nesse Mundo das Idéias. As coisas ordenadas do universo cósmico vêm depois. As idéias são de outro mundo. naquilo está se concretizando a forma do pato. diz o individual sempre de maneira universal. já existiam as Formas. Quando aqui no Mundo das Coisas nasce o homem. ele se lembra da Idéia que viu na Estrela durante a preexistência de sua alma e. conhece. Este mundo Platão chama de Mundo das Idéias e o localiza numa estrela fictícia. portanto. isto está realizando a forma de homem. E nossa linguagem.3 O Mito da Estrela As Formas existem desde sempre. diante da coisa individual. É por isso também que possuem validez universal. ao esbarrar nelas. portanto. que já existia desde sempre na Estrela. Embora estejamos . coisa estranhíssima. elas já existem e valem. no Mundo das Idéias. pois são elas as forças ordenadoras da ordem do cosmos. dizer: Aha. elas existem já antes. ao encontrar-se com as coisas do mundo. Este nosso cosmos não é regido e determinado por elas? Logo. antes que as coisas de nosso mundo tenham começado a existir. separado do Mundo das Coisas. Isso explica por que as idéias são sempre universais. Elas formam um mundo inteiro que consiste só de formas. Mas quando o homem se desenvolve e cresce. aquilo é um pato. Antes do cosmos existir. elas sabem tudo de tudo. Conhecer é sempre uma relembrança. a alma dele. representam formas e as formas são sempre universais. antes de existirem as coisas. isto é um homem. na linguagem. As almas vêem as Idéias face a face e sabem. Primeiro. relembrando.

dessa Doutrina do Ser. durante a preexistência na Estrela. Não menos e também não mais. assim as coisas participam de uma determinada idéia e por isso são assim como são. da Justiça. no Mundo das Idéias. questionar e examinar cada questão. para ter certeza de que encontrou exatamente a Idéia da coisa. discutir. são determinadas assim e não de outra maneira.4 O Mito da Caverna . possui caráter de idéia universal. Como o motor individual participa do projeto desenhado de motor ideal. e também a Idéia do Bem. O conhecimento é correto. porque se apóia em Idéias que são as Formas do Universo. É por isso que o filósofo tem que dialogar. isto é. Mas como é que eu sei. uma coisa tão simples e tão baixa. Tais questões só podem ser trabalhadas satisfatoriamente na Doutrina Esotérica com aqueles que já sabem mais do que apenas os primeiros princípios. Conhecer é o ato pelo qual a alma agora relembra aquilo que já tinha visto antes. As coisas do mundo são aquilo que são. Em cima dessa Ontologia. em sua Doutrina Exotérica. porque elas participam da Forma original que existe na Estrela. então.vivendo neste mundo de coisas individuais. nossa linguagem. tais perguntas não podem ser respondidas no âmbito do Mito da Estrela. no Mundo das Idéias. sempre no Mito para Principiantes. que estou de fato relembrando a Forma dela? Não existem erros? Ilusões? É claro que existem. Mas será que precisa haver uma Idéia do Lodo? Lodo. E Platão aí. pergunta: Existe uma Idéia para cada coisa? É certo que exista a Idéia de Homem. o logos. Platão fundamenta. quando esbarro numa coisa. Afinal. Esta é a Ontologia de Participação. precisa ter uma idéia que lhe seja própria? Platão deixa a pergunta no ar. sua Teoria do Conhecimento. Temos aí uma belíssima explicação do mundo. e a ciência é universalmente válida. diz ele no Diálogo O Sofista. 3. diz Platão.

às costas deles. carregando sobre os ombros figuras que se erguem acima do muro. dizem. Atrás desse muro andam homens. Imaginemos homens que moram em uma caverna. Quando sai da caverna e tenta olhar para o sol. vê a entrada da caverna e. Atrás dos prisioneiros amarrados. vê a luz. Ele desce o olhar. baixa a cabeça. Eles estão acorrentados ali desde a nascença e pensam que o mundo é isso e tão-somente isso. O que os prisioneiros vêem é apenas esse jogo de sombras e de ecos. lá fora. mas sombras de meros simulacros. Em nenhuma outra imagem a doutrina de Platão é tão bem representada. Eles só conseguem enxergar essa parede no fundo. A fogueira dá luz. Percebe também que as figuras são apenas figuras. para libertar seus companheiros. Quando esse homem volta à caverna. para lá e para cá. aí vê os homens que carregam as figuras. há uma grande fogueira. Ele pula o muro e sai. e apenas isso. Desde o nascimento eles estão presos lá dentro. na entrada da caverna. de maneira que os olhos estão sempre voltados para o fundo da caverna. Imaginemos agora que um dos prisioneiros consiga libertar-se de suas amarras. ouve suas vozes. O mundo é isso mesmo. vê a fogueira. há um muro da altura aproximada de um homem.Encontramos no sétimo Livro da República o mais importante e o mais conhecido Mito de Platão: o Mito da Caverna. Mais atrás ainda. Ele sabe que são. ele sabe. bem na entrada da caverna. a luz ilumina a cena e projeta as sombras das figuras por sobre o muro até a parede no fim da caverna. Ouvem também ecos de vozes – dos homens que carregam as figuras atrás do muro – e pensam que esses ecos são as vozes das próprias figuras. sombras. ele de imediato vê o muro e percebe que as sombras projetadas no fundo da caverna são apenas isso. fica ofuscado. recompõe-se. A realidade realmente real é a realidade da luz . Sabe que as sombras são apenas sombras. Voltando-se para a entrada. a saber. não apenas sombras. Os prisioneiros vêem apenas as sombras projetadas pelas figuras. acorrentados pelos pés e pelo pescoço.

não podia ser escrita. a concepção do mundo de Aristóteles. . à Doutrina Esotérica de Platão. uma Teoria do Conhecimento. Esta só será apresentada e discutida. Aí temos Platão de corpo inteiro. ninguém é tão pouco platônico como ele. uma Pedagogia. Aristóteles foi por muitos anos discípulo de Platão. então. Antes. Todo o resto são sombras e ilusões. Aí temos toda uma Ontologia da Participação. Ele nunca mais confundirá a realidade com a sombra do simulacro da realidade. ele vê então a realidade que é realmente real. Afinal. a luminosa realidade das Idéias. um fortemente contra o outro. de voltarmo-nos para a Doutrina Não-Escrita de Platão. se descobre livre e vidente. para poder fazer o devido contraste. sem nos conduzir a uma posição verdadeiramente sintética. para estes sim. no entanto.e do sol. Platão pensava que essa doutrina. Mas aí temos principalmente. mas cuja existência está muito bem documentada – Sobre o bem. Falta sempre a síntese. e sempre de novo. uma Ética. a realidade das coisas mesmas à luz do sol. por ser tão importante e tão difícil. quando se liberta das amarras que o mantêm preso. vejamos. à doutrina para os iniciados. ninguém elaborou um projeto filosófico tão diferente. porém. O homem. o Mito que coloca os dois pólos opostos em sua contraposição. Daí existir o diálogo – jamais escrito pelo próprio Platão. quando os principiantes deixarem de ser principiantes e transformarem-se em iniciados. ninguém criticou Platão tão duramente. Quem viu a luz sabe. em que é exposta a Doutrina Esotérica. Para os iniciados. uma Política. onde está a conciliação unificadora entre o Mundo das Idéias e o Mundo das Coisas? Entre Forma universal e Coisa individual? Entre Forma necessária e Coisa contingente? Platão não nos dá resposta nos Mitos da Doutrina Esotérica. e. Depois de tematizar a Filosofia de Aristóteles. quando os principiantes tiverem amadurecido intelectualmente. voltaremos. há resposta.

Lamarck. Aristóteles. ao traçar para seus alunos e leitores um panorama sinóptico da História da Filosofia desde os filósofos pré-socráticos até o dia dele. vai constituir-se num método e numa visão do mundo que influenciarão de forma decisiva nosso pensamento ocidental. De Parmênides e Aristóteles temos a Analítica. de mão em mão. Proclo e. Ambas as correntes perpassam toda a História da Filosofia e toda a nossa cultura e nos acompanham até hoje. possui a Grande Síntese. Platão. por Nicolaus Cusanus. os físicos de hoje com sua teoria do Big Bang. por Espinosa. por Plotino. Charles Darwin e quase todos os grandes biólogos contemporâneos. em parte. A Analítica. abandona o jogo dos opostos e envereda por um caminho totalmente diferente: a Analítica. Giordano Bruno na Renascença. como Stephen Hawking.4 A ANÁLISE DO MUNDO 4. De Heráclito e Platão temos a vertente da Dialética. por Johannes Scotus Eriúgena. descoberta e largamente elaborada por Aristóteles. Schelling. sabe compor o grande mosaico do sentido da vida. menciona sempre o jogo dos opostos como núcleo metódico em torno do qual se estruturam as diversas opiniões. Quem aprendeu a Dialética e sabe fazer o jogo dos opostos. porém. O projeto platônico passa. com os buracos negros. todos eles são . Ficino. pensa Platão. sabe fazer a explicação do mundo. Hegel e Karl Marx na Modernidade. Tudo o que pensamos e que somos vem de duas vertentes: a Dialética e a Analítica. Os diversos pares de opostos são os elementos a partir dos quais se constroem as coisas. como Richard Dawkins e Stephen Jay Gould. no diálogo O Sofista. pela Escola de Chartres e tantos outros pensadores neoplatônicos na Idade Média.1 Passagem da Dialética para a Analítica Até Aristóteles toda a Filosofia trabalha com o jogo dos opostos. diz que a Dialética é o próprio método da Filosofia. por Santo Agostinho na Antigüidade. Ele mesmo.

Newton e Einstein são pensadores à feição analítica. Na continuação e ulterior elaboração do projeto aristotélico. por Alberto Magno. Mas. Esta é uma proposição completa e bem formada. Tomás de Aquino. passa por Descartes. O projeto aristotélico da Analítica passa. eles não o sabem.2 Lógica e Linguagem 4. o que a Analítica tem de tão poderoso e interessante que produz tantos frutos por tão longo período de tempo? O que é Analítica? Toda a Analítica se baseia em duas coisas. Eles geralmente nem se dão conta disso. toda uma concepção filosófica do mundo que se caracteriza por seu caráter extremamente estático. e sim uma . Grande parte de nossa cultura e de nossa tecnologia se baseia nisso. Kant. Copérnico. Galileu. Leibniz. em nossas línguas. Por sobre o fundamento de sua lógica analítica Aristóteles desenvolve.1 A análise da proposição O homem fala por frases que. ela não é nem uma pergunta.pensadores neoplatônicos. nem um imperativo ou um invitativo. Ele está muito mais para Parmênides do que para Heráclito. Frege. sob a guia do método analítico. grande parte dos físicos. Wittgenstein e pela Filosofia Analítica de nossos dias. afinal. se compõem sempre de sujeito e predicado. prosperaram a Lógica. Sócrates é justo é uma tal frase. na Modernidade. uma Ontologia. ambas descobertas e elaboradas por Aristóteles: a análise da proposição e o sistema silogístico de argumentação. 4. O projeto que levantam e no qual esboçam suas teorias é o projeto platônico da Grande Síntese através da Dialética. Duns Scotus e Guilherme de Ockham. a Física. a Matemática. uma Ética e uma Política. na Idade Média.2. Nessa tradição analítica de Aristóteles estão todos os lógicos de hoje. como depois veremos. mas são pensadores de filiação claramente platônica.

quando bem formadas. Ela diz que uma coisa é assim e não assado. Todos os homens são mortais e Alguns brasileiros são gaúchos também são proposições bem formadas. 4. Trata-se aí do sujeito oculto. Sócrates é o sujeito lógico dessa proposição. estas duas últimas já apresentam os quantificadores aristotélicos Todos e Alguns. bem como proposições em que o sujeito lógico não está expresso e sim subentendido. Há também uma que outra proposição estranhíssima. a gente não a entende. Mas deixemos essa exceção de lado. como Chove. É claro que há vocativos como Oi. Se digo apenas é justo. não é possível dizer se a proposição é verdadeira ou falsa. seja ele individual (Sócrates). es regnet. ou particular (Alguns brasileiros). temos aí. Neva. o sujeito e o predicado. As proposições. possuem sempre sujeito e predicado. A mesma coisa com o verbo. que é predicado. pois em outras línguas indo-germânicas a mesma expressão contém obrigatoriamente um sujeito lógico: it rains. o predicado é é justo. ou . isso não faz sentido e logo se pergunta: De quem estás falando? Quem é que é justo? Qual é o sujeito da proposição? Esta é a estrutura básica da proposição tal como é analisada por Aristóteles.2. sem predicado: Sócrates. il pleut.frase propositiva. Quando a proposição não está completa. claros e distintos. que estão aparentemente sem sujeito. Na proposição afirmativa pegamos um determinado sujeito. Uma proposição truncada. Sócrates o quê? Fala mais! Diz o resto! Sem o predicado essa proposição não está bem formada e não faz sentido. incompleta. quando ela não é bem formada. mal formada consta só de sujeito. não se sabe o que o falante quer dizer. na Lógica e na Matemática de hoje falamos em argumento e função. que até são chamadas de proposições sem sujeito. Sócrates corre também é uma proposição bem formada. Sócrates.2 A proposição afirmativa As proposições podem ser afirmativas ou negativas.

é colocado dentro de um todo maior. mas nem todos os mortais são brasileiros.universal (Todos os brasileiros). Aqui. existem também animais e plantas que também estão contidos no conjunto das coisas mortais. que um conjunto está totalmente contido dentro de outro conjunto maior. O conjunto menor. que é o predicado. e o colocamos dentro de um todo maior. e nem todos os gaúchos são brasileiros. pois também há gaúchos uruguaios e argentinos. Daí um gráfico um pouco diferente: Não é como antes. está contido dentro de um conjunto maior. Por isso o sujeito lógico Todos os brasileiros está totalmente contido dentro do conjunto maior dos que são mortais. este Sócrates aqui. que está contido dentro do conjunto maior que representa tudo aquilo que é mortal. Vejamos os gráficos desenhados à maneira do matemático Euler: O sujeito lógico individual. a coisa complica um pouco: nem todos os brasileiros são gaúchos. – Na proposição Alguns brasileiros são gaúchos. Existem pessoas de outras nacionalidades. o conjunto expresso por alguns brasileiros está parcialmente contido dentro do conjunto . que representa o sujeito lógico. O sujeito lógico Todos os brasileiros é um conjunto menor. que é o predicado. Todos os brasileiros são mortais. que é o predicado é justo.

O conjunto do sujeito está de um lado. aqui não há conciliação. mas ao mesmo tempo também está fora dele. o sujeito. dentro de si. como se vê no Quadrado Lógico. E pronto. Os dois conjuntos entram em sobreposição parcial.são gaúchos. como no jogo dos opostos da Dialética. Leis de inferência são chamadas as regras lógicas que permitem. Um pólo exclui o outro. aqui não há movimento. Esta distinção. 4. Um está fora do outro. Um conjunto inclui o outro? Ou exclui? Ou é neutro e pode tanto incluir como também não incluir? A verdade de uma proposição dada implica a falsidade da proposição que lhe é oposta? E a falsidade implica o quê? .2. No gráfico é fácil de ver. importantíssima. O sujeito não está contido no predicado. em Lógica Analítica. vai ser o campo de batalha em que analíticos e dialéticos vão se digladiar por mais de dois mil e trezentos anos. o trânsito lógico de uma ponta para outra. mas as idéias básicas e as leis que o regem foram todas – quase todas – descobertas por Aristóteles.3 A proposição negativa Na proposição negativa. o conjunto do predicado do outro. a distinção entre opostos que são contrários e opostos que são contraditórios.4 O Quadrado Lógico Os pensadores medievais ilustraram as leis de inferência de Aristóteles com a figura geométrica do quadrado. O Quadrado Lógico foi desenhado depois.2. o predicado não está contido no sujeito. no Quadrado Lógico. mas a ele se opõe. 4. o predicado não contém. não se procura síntese. Mas aqui. A única diferenciação ulterior que Aristóteles faz em sua Análise é.

perguntando se uma proposição inclui ou exclui a outra. a outra. isto é. Aristóteles as descobriu e descreveu todas. responde Aristóteles. Para cada tipo de oposição há regras diferentes de inferência. entre duas proposições particulares: uma afirmativa. e entre E e O. Peguemos um exemplo qualquer. formemos as quatro proposições do Quadrado Lógico e façamos os correspondentes diagramas de Euler. ambas as proposições são universais: uma é positiva. Se é verdadeiro que Todos .Há diversos tipos de oposição. A oposição entre A e O e entre E e I é chamada de oposição entre contraditórios. E a passagem de A para E? E de A para I? Para cada tipo de oposição há regras específicas. que lhe é contraditoriamente oposta? Sim. A oposição entre A e E é chamada de oposição entre contrários. da verdade de A segue logicamente a falsidade de O. é chamada de subalternação. Da verdade de uma proposição A pode-se concluir a falsidade da proposição O. Aristóteles elaborou as regras do Quadrado Lógico. no lado direito. negativa. sempre. A passagem de A para I é fácil. aplicando de maneira conseqüente o mesmo método que usou para analisar a estrutura interna da proposição. A oposição entre contraditórios cruza pelo meio do Quadrado Lógico. A oposição subcontrária é a que vige entre I e O. a outra negativa. A oposição entre A e I. no lado esquerdo do Quadrado Lógico.

é aí que todos tropeçam. Tropeçam e caem. a segunda grande descoberta feita por Aristóteles. Isso. A Trácia continua rindo de Analíticos e Dialéticos. A passagem de E para O é igualmente óbvia. O conjunto maior aí inclui. A diferença entre oposição de contrários e oposição de contraditórios é simples de entender. mas. o conjunto menor. Tales de Mileto estava olhando as estrelas e.2. tropeçando e caindo. bem como os outros caminhos lógicos que seguem os demais lados do Quadrado Lógico ou o cruzam por dentro. quando voltarmos a discutir o que é Dialética. Pois o todo sempre contém sua parte. que em pleno século XX continuam trocando as pernas. então também é verdadeiro que Alguns homens são mortais. caiu num buraco.os homens são mortais. como sabemos. as premissas. E a escrava Trácia riu dele. O caminho inverso já não é viável. articuladas entre si. sempre e necessariamente será também verdadeira. A Trácia ri porque não se entendem uns com os outros. A verdade de A implica sempre a verdade de I. É verdade que Alguns homens são malvados. veremos mais tarde em pormenor. consiste na concatenação lógica de duas proposições que. pois é exatamente aqui que Analíticos e Dialéticos entram em confusão. mas isso não significa que Todos os homens são malvados. então a proposição delas resultante. Porque não sabem a diferença entre contrários e contraditórios. distraído.5 O Silogismo O silogismo. Um exemplo: . a conclusão. pois a verdade de uma proposição I ou O não diz nada sobre a falsidade das proposições A e E correspondentes. forem verdadeiras. por mais simples que seja. é claro. 4. Porque não sabem mais montar o jogo dos opostos. A verdade de E implica sempre a verdade de O. fazem sair de si uma terceira proposição. Se as duas proposições iniciais.

Na conclusão aparece como sujeito da predicação aquilo que era sujeito da segunda premissa e como predicado da predicação o que era predicado da primeira proposição. é predicado. que liga o sujeito da segunda premissa ao predicado da primeira e serve assim de mediador para que surja a proposição que vai aparecer como conclusão. esse nexo lógico de inclusão. que já vimos antes na estrutura da proposição. de forma bem intuitiva. Vê-se aí que o silogismo é apenas uma ulterior elaboração do método de inclusão e de exclusão. Esse conjunto lógico. o Termo Médio é sujeito da proposição. todos os brasileiros são homens Conclusão Logo. . não reaparece de novo na proposição que é conclusão. O esquema tradicional ilustra bem o que se quer dizer. na segunda. M aí é o termo médio: M S ==== S–P – – P M Na primeira premissa. que está em ambas as premissas e que serve à primeira como sujeito e à segunda como predicado. uma espécie de denominador comum. O sujeito da primeira premissa é o predicado da segunda premissa: Homem. Isso é chamado de Termo Médio. Ele é algo intermediário. melhor que as palavras. O diagrama de Euler mostra. todos os brasileiros são mortais Há nesta construção lógica uma concatenação entre a primeira e a segunda proposições.Premissa nº 1 Todos os homens são mortais Premissa nº 2 Ora.

receberam nomes. é claro. por sua vez. O . Conforme a posição do Termo Médio. na Antigüidade e na Idade Média. o qual. A doutrina aristotélica sobre o silogismo continua válida. quatro são as formas básicas do silogismo: 1 M – S – ==== S–P 2 PP – MM – ==== S–P 3 MP – SS – ==== S–P 4 MM – MM – ==== S–P P S Os silogismos. Sobre esse modelo básico Aristóteles desenvolve sua doutrina sobre o silogismo e calcula exatamente quais as formas silogísticas que são logicamente válidas e quais não são. inclui um conjunto menor ainda.Vê-se aí com clareza o que é e como funciona o Termo Médio. Entre o sujeito e o predicado da conclusão é feita uma mediação tal que o conjunto maior inclui um conjunto menor. é claro que os nomes significavam algo de importante. que essa primeira elaboração ficou a definitiva. Esse sistema silogístico foi tão bem construído por Aristóteles. e ainda hoje constitui a espinha dorsal de toda a Lógica. uma nova fundamentação e uma ampliação. Somente com Frege é que a Lógica vai ter um novo impulso.

a segunda premissa é A. Ferison. Segunda Figura: Cesare. isto é. Fesapo. Quarta Figura: Bamalip. A – I – I. O segundo silogismo chama-se Celarent. isto é. O quarto silogismo é Ferio. uma proposição particular afirmativa. Tomemos como exemplo um silogismo A – I – A. uma proposição universal negativa. Primeira Figura: Barbara. Bocardo.primeiro silogismo da primeira figura chama-se Barbara. um silogismo A – I – A não é válido. somente estes funcionam sempre de sorte que da verdade das premissas surja a verdade da conclusão. Fresison. A primeira premissa aí é A. Dimatis. uma proposição universal negativa. a premissa menor é I. – Os nomes dos silogismos são os seguintes. a conclusão é E. O diagrama simplesmente não se monta. Felapton. na primeira figura. Ou antes. A primeira premissa aí é E. Camestres. que na primeira figura não é válido: . Festino. A – A – A. o diagrama não sai. Celarent. Por exemplo: um silogismo com a seqüência A – I – A. É impossível fazer um tal diagrama. Mas somente os silogismos acima elencados são logicamente válidos. proposições universais afirmativas. universal negativa. e a conclusão é O. e o Darii. Os três A deste nome – Barbara contém três vezes a letra A – indicam que ambas as premissas e também a conclusão são. a segunda premissa e a conclusão são I. Válido é o silogismo Barbara. uma proposição universal afirmativa. ao montar-se. O terceiro silogismo chama-se Darii. proposições particulares afirmativas. Pela mera combinação de letras haveria um número muito maior de silogismos. é inválido. uma proposição universal positiva. Darii. A premissa maior aí é uma proposição E. no Quadrado Lógico. pois a seqüência de continente e conteúdo fica subvertida. particular negativa. proposições A. Datisi. Calemes. Baroco. Disamis. vê-se logo que a coisa não funciona. Ferio. Todas as outras combinações são inválidas. Terceira Figura: Darapti. Por quê? Como se sabe? Quando se tenta fazer o diagrama de Euler de um silogismo que não é válido.

Isto é. Os medievais criaram por isso diversas regras de construção de silogismos.Todos os brasileiros falam Ora. alguns gaúchos são Logo. todos os gaúchos falam português português brasileiros A premissa maior é verdadeira. não falam português. A conclusão correta seria uma proposição I (Alguns gaúchos falam português) e não a proposição universal A (Todos os gaúchos falam português). por isso. a segunda premissa é particular e. a conclusão também deverá ser negativa ou particular. A mais importante delas diz: a conclusão segue sempre a parte pior. No exemplo de antes. pois alguns gaúchos. Onde está o erro? Na Forma lógica incorreta. a premissa menor também. os gaúchos uruguaios e argentinos. Mas a conclusão é falsa. havendo nas premissas uma proposição que seja negativa ou que seja particular. havendo uma . a saber. a conclusão também deve ser particular. como se vê no diagrama de Euler correspondente: O conjunto de todos os gaúchos está só parcialmente dentro do conjunto de Todos os brasileiros. Tirar uma conclusão universal.

Era assim na Antigüidade. ao mesmo tempo. levaram-no a uma posição radicalmente contrária à Dialética de Platão e ao jogo dos opostos dos antigos. O jogo de tese. antítese e síntese simplesmente não funciona. Nada de racional resulta disso. ao mesmo tempo. mas aquela bobagem que os sofistas costumavam fazer. É por isso que a conclusão aí não conclui e está errada: Há gaúchos que não falam português. Dialética em Aristóteles muda de sentido.premissa particular. afirmar a verdade da tese e. ela não é mais um procedimento correto e muito importante. É claro que ele não ataca frontalmente seu velho e respeitado mestre Platão. Eis o sentido altamente pejorativo do termo Sofista. que são a doutrina sobre a predicação e o sistema de silogismos. Nada de jogar com teses e antíteses. Platão é apenas um bobo? Aristóteles não diz isso. Quem afirma uma coisa e. Pois quem diz e. então. Essa é a principal e mais dura objeção de Aristóteles contra Platão. Tentar segurar ao mesmo tempo tese e antítese é pura bobagem. Dialética é bobagem? Contra Platão e contra a Dialética Aristóteles levanta e formula o Princípio de Não-Contradição.2. ele desconversa. Mas a leitura meditada do livro Gama da Metafísica mostra com clareza como Aristóteles mais e mais se distancia de Platão e do jogo dos opostos. Para Aristóteles. está fazendo bobagem. Este é o tema central deste livro. continua assim até hoje. o velho mestre Platão com sua Dialética? Se Dialética é bobagem. essa é a objeção dos Filósofos Analíticos contra os Filósofos Dialéticos. a outra sempre é falsa. afirma o contrário está dizendo bobagem. E como fica. como em Platão. é incorreto. ou vice-versa. ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto.6 O Princípio de Não-Contradição As idéias centrais de Aristóteles. 4. se desdiz não está dizendo nada. O Princípio diz: é impossível . Disso não sai nada. Se uma delas é verdadeira. a verdade da antítese é pura bobagem.

isso pode ser. o Não-Ser não é. Aristóteles trata o tema de forma mais sutil pela introdução de aspectos de ser. ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. mais claramente. ulteriormente diferenciada em Aristóteles. e que dizem em seus predicados coisas opostas e excludentes. não-vermelha. o que fazer? Em tais casos há uma regra de procedimento: fazer as devidas distinções. Ele está dizendo besteira. a principal tese do velho Parmênides: o ser é. A rosa não pode ser. não ser. Aristóteles e. na prática. Mas se. de novo. isto é. Quem diz e. a regra: o que é não pode. Mas ser e não ser sob o mesmo aspecto.50 m de altura. pois trata-se de dois instantes diferentes de tempo. Pode. Sócrates. isto é impossível. Mas aí tem que haver aspectos diferentes. no caule ela é verde. Trata-se de aspectos diversos. sob o mesmo aspecto. ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. O Princípio de Não-Contradição é sempre válido. ocorrer que a rosa seja antes verde e depois fique vermelha. sim. O que fazer? Voltar a . a outra proposição é Sócrates tem mais de 1. E é por isso que não se pode. Temos aí duas proposições com o mesmo sujeito. mais uma vez. e ambas parecem certas. Pode também ocorrer que a rosa seja ao mesmo tempo vermelha e verde. sob o mesmo aspecto. Mas temos boas razões para defender tanto uma como outra. Nas pétalas a rosa é vermelha. temos duas proposições que têm o mesmo sujeito. Sócrates tem menos de 1. excluindo o Tudo Flui de Heráclito. O caráter estático da Filosofia de Aristóteles começa a aparecer. A idéia central de Parmênides. os filósofos aristotélicos da Idade Média acrescentam ao Princípio de Não-Contradição uma regra prática da arte de pensar e de discutir corretamente. vermelha e verde. Mas destes vale. Certo. Vemos aqui. volta a dominar o pensamento filosófico.50 m de altura é uma proposição.predicar e não predicar o mesmo predicado do mesmo sujeito sob o mesmo aspecto e ao mesmo tempo. afirmar e negar um predicado do mesmo sujeito. mas predicados contrários. A esfera de Parmênides volta a brilhar. se desdiz não está dizendo nada.

1. Sócrates enquanto está de pé possui um atributo que Sócrates enquanto está sentado não pode ter. Em tais casos.50 m 2. depois de feitas as devidas distinções. é menor que sujeito1. então. enquanto está sãosentado. e se a verdade de uma não exclui a outra. isso é Analítica. enquanto de pé). Nada de Dialética. Isso é Aristóteles. nada de jogo de opostos. ou então se trata de um sujeito lógico que contém dois aspectos diversos. ou um elimina o outro. pela reduplicação fica um sujeito duplo.defender a Dialética? De jeito nenhum. . é maior que 1. Na prática. portanto. então se deve verificar com cuidado até encontrar nesse sujeito único dois aspectos lógicos que permitam predicar os opostos sem ofender o Princípio de Não-Contradição. que era uno e simples. mas sob aspectos diversos (enquanto sentado. enquanto está de pé. Cria-se então um sujeito duplo. conciliar os predicados inicialmente excludentes. O sujeito lógico.50 m Os predicados opostos. Embora a pessoa de Sócrates continue sendo a mesma. são atribuídos ao mesmo sujeito. ou trata-se de um sujeito com dois aspectos diferentes. O primeiro Sócrates é o sujeito lógico inicial. a Analítica manda fazer as devidas distinções no sujeito lógico da predicação. Sujeito lógico principal Aspectos que acrescentados ao principal Sócrates. Daí decorre uma regra prática de procedimento: quando surgem predicações com dois predicados opostos e o mesmo sujeito. Sócrates. havendo predicados opostos. Com a introdução de aspectos lógicos ulteriores (enquanto sentado e enquanto de pé) criam-se uma ampliação e uma reduplicação do sujeito. o que permite. Ou um oposto elimina o outro. Isto é perfeitamente possível.

para os Livros que vêm depois da Física. os que estão depois da Física. que é aquilo que está por baixo da coisa mesma. Pois é nesses livros. de outro lado.4. assim também o universo cósmico. As mesmas leis que regem a articulação do discurso lógico regem também o curso das coisas e as relações entre as coisas. o mundo das coisas.3. A palavra metà tà physicà. subjectum. que é a Lógica. é indispensável para a proposição. Pela etimologia. De um lado. que não significava nada de importante. nada de espetacular ou de profundo nessa palavra. hypokeimenon. sem ele não se sabe de que se está falando. corresponde nas coisas a substância. a sub-stância. Da mesma forma tem que haver dentro das coisas um núcleo duro subjacente. que organizou as obras de Aristóteles.1 Substância – essência e acidente Metafísica foi o nome dado por Andrônico de Rodes. Assim como a linguagem obedece a leis de uma gramática. dando-lhe sustentação. obedece a uma gramática. temos a linguagem com suas leis exatas e claras – vejam-se as regras sobre a proposição e o sistema de silogismos –. pois. aquilo que está subjacente à proposição predicativa. . temos um cosmos também ordenado por leis.3 A Metafísica 4. Ao sujeito lógico da linguagem. a mesma estrutura que a proposição bem formada. suporte da articulação predicativa. diz Aristóteles. Na proposição temos o sujeito e o predicado. e é por isso que ele está perfeitamente ordenado. O termo tà metà tà physicà significa o que vem depois da Física. passou a designar o núcleo de toda uma visão filosófica do universo. que Aristóteles traça o esboço de sua explicação do mundo. Ao substrato lógico. O sujeito lógico. As coisas possuem. A grande tese de Aristóteles é que a mesma gramática que é a gramática da linguagem é também a gramática do mundo. As grandes leis da Lógica são também as grandes leis da Ontologia.

A cor aí é acidental. em grego ousia. O que é substância? O que é acidente? Na estrutura lógica há certos predicados que são exigidos necessariamente pelo sujeito. Há muitas outras mutações que são meramente acidentais. Estas são chamadas de acidentes. por baixo. com sua terminologia própria. ou seja. Acidental é uma característica que a substância tanto pode possuir como. morre. O triângulo pode ser azul ou vermelho. A vinculação entre esse sujeito e esse predicado é necessária. em seu núcleo duro. a essência. A essência é. podem existir outras determinações. corresponde nas coisas a sub-stância. Assim o sujeito lógico triângulo exige sempre e necessariamente o predicado tem três lados e três ângulos. às vezes não. Elas acontecem às coisas. por igual. Estar-Acordado e Estar-Dormindo . são primeiramente substâncias. À estrutura lógica corresponde a estrutura ontológica. lhes dá suporte. Aristóteles. depois. há outros predicados que são permitidos. que existem sobre o substrato da substância que. Por sobre esse núcleo duro. nas coisas. Essas determinações ulteriores são determinações não-necessárias.sub-jectum. por isso chamadas de acidentais. a substância determinada por suas características necessárias. às vezes elas acontecem. O ser vivo nasce e. As coisas. em seu fundamento. A esses predicados necessários corresponde. Aos predicados permitidos. As mutações que ocorrem na natureza às vezes afetam a própria substância. aos predicados não-necessários correspondem nas coisas os acidentes. segundo Aristóteles. Nascer e morrer são transformações que afetam a própria substância da coisa. não possuir. Não é possível pensar ou falar triângulo sem a característica de ter três lados e três ângulos. fala de geração e de corrupção. Trata-se de um predicado lógico e de uma característica ontológica que não são necessários. que é a substância subjacente. O mesmo animal que agora está acordado é também o que depois está dormindo.

a homenagem a Apolo. abandonou completamente o método dialético de seu mestre. relações não-substanciais.2 Substância – forma e matéria A essência das coisas é diferente dos acidentes. 4. a causa eficiente e a causa final são externas à coisa causada. Uma idéia? . os acidentes não são necessários. Até aqui tudo bem. Forma e matéria são elementos que entram na composição da estátua de Apolo. o outro é a matéria. elas ficam dentro dela. O escultor aí é a causa eficiente. Eis aqui. matéria é aquilo em que a forma se realiza. A substância se compõe de forma e matéria. no âmago da Ontologia de Aristóteles.3. A forma pura. ambas essas causas ficam fora da própria estátua. a forma de Apolo é a causa formal da estátua. sem a matéria. A estátua é a forma enquanto concretizada na matéria. a finalidade para a qual foi feita a estátua. Ei-la de volta. Tomemos uma estátua feita em honra a Apolo. é a causa final. A substância contém dentro de si dois elementos constitutivos: um deles é a essência que funciona como forma. responde Aristóteles. o mármore ainda informe não é estátua de Apolo. Forma é o fator determinante que dá contorno e determinação. a matéria é algo indeterminado. O mármore é a causa material. isto é. – A cor nas figuras geométricas é sempre algo acidental. a causa formal e a causa material são internas. explica as quatro causas. é o mesmo que a essência necessária para o Ser-Assim da coisa? Não. é apenas uma idéia na cabeça do escultor e dos homens. Aristóteles. Mas significa isso que substância e essência são simplesmente a mesma coisa? A substância. nesse contexto. uma articulação conceitual que remete de volta à Teoria das Formas de Platão. discípulo de Platão. Sem a forma. que está por baixo dos acidentes e lhes dá suporte. mas não abandonou a Teoria das Formas. A essência é necessária para a coisa ser o que é. Aristóteles.designam acidentes. Cada coisa tem sempre quatro causas.

é o vazio. A água. Acidente é aquilo que é não-necessário. a água mesma é a substância. Os estados líquido. nesse núcleo duro de sua Metafísica. se compõe de essência e de matéria. de apresentar essa ou aquela cor. a forma ideal. Recapitulemos. Matéria em si e de si não possui nenhuma determinação. O ser. É aí. ela é informe. sólido e gasoso são acidentes da água. está aí de volta a Teoria das Idéias. a pura potencialidade. que Aristóteles continua sendo um filósofo neoplatônico. A matéria é aquele material a partir do qual e dentro do qual a forma se concretiza como uma determinação concreta. afinal. formam a substância. lembremos que os gregos costumavam pintar as estátuas que hoje admiramos nos museus apenas com a cor do próprio mármore. que às vezes é líquida. Quase toda a substância se compõe de forma e de matéria. é a causa material. A essência é a causa formal que determina que o Ser-Água seja desse jeito e não daquele. às vezes fica sólida como gelo. que é o princípio que a molda. em conjunto. a matéria. a Teorias das Formas de Platão. por sua vez.Exatamente. A substância. É também aí que se enraíza a teoria aristotélica sobre a gênese e a estrutura do conhecimento: a Metafísica do Conhecimento. E os acidentes? Acidental na estátua de Apolo é o fato de ela ser de mármore. a coisa concreta para a qual apontamos. Substância é o ser subjacente aos acontecimentos. A matéria assim é algo indizível. a forma de Apolo mais o mármore. que ao ser esculpida no mármore adquire materialidade e vira a estátua de Apolo. Mas matéria. Dentro da substância a essência é a causa formal. o que é? Matéria é o indeterminado. o que apenas acontece. A idéia de Apolo é a causa formal. ou seja. inerte. Tudo lhe vem da forma. a determina e lhe dá feição e contorno. é mera possibilidade passiva de que algo possa ser feito nela e a partir dela. às vezes evapora e fica gás. vai dizer Aristóteles. Forma e matéria juntas. . é algo composto de substância e acidente.

4. inextensos. necessários em seus nexos? Como passar do mundo das coisas para as idéias? As coisas não podem. contingentes. algo suscetível de engendramento e de corrupção. representa as coisas mesmo quando estas estão ausentes e. são extensas. enquanto intelecto agente. que atuam sobre nossos sentidos. Esta imagem sensível. nos mostra como a coisa é. uma imagem sensível que. mesmo estando elas ausentes. A imagem dada pelos sentidos muda à medida que as coisas se apresentam ou deixam de se apresentar. ensina Aristóteles. como passar dela para o conceito universal. remete para uma coisa real que não é ele mesmo. espaciotemporais. torna as coisas de novo presentes. extensas.3 Metafísica do conhecimento As coisas neste mundo concreto em que vivemos atuam sobre nossos sentidos. A imaginação representa as coisas.3. é algo mais independente. Há. ao conceito? Se a sensibilidade é ainda corpórea. Mas ela ainda é apenas sensível. A imaginação é um poderoso sentido interno. Mas como chegamos à intelecção. fora do espaço e do tempo? As coisas são individuais. algo mais interiorizado. sendo sinal. não estão atuando sobre os sentidos externos. A imagem da imaginação. dentro de nós. um sentido interno. e estes elaboram. a partir das sensações percebidas. algo determinado pelo espaço e pelo tempo. ela não é uma intelecção. como um sinal de que. ela é algo corpóreo. são espaciais e temporais. está fora do tempo e do espaço. produzir conceitos universais. no . por elas mesmas. A imagem produzida e elaborada pelos sentidos externos e internos é sempre apenas um sinal sensível. re-presenta. O conceito é universal. no entanto. Já a imagem elaborada pela imaginação. Como podem as coisas individuais. Tudo passa por ela. eivada de espaço e tempo. fazer essa passagem. é algo que está mesclado com o corpo. assim. Quem engendra os conceitos é o próprio intelecto enquanto função ativa. produto mais elaborado do processo do conhecimento. é inextenso.

Eis de novo a Teoria das Idéias de Platão agora no núcleo duro da Metafísica do Conhecimento de Aristóteles. Aristóteles em seu âmago continua sendo discípulo de Platão. são espacio-temporais. têm cores. mas quem vê mesmo é o intelecto . O triângulo. Este nous volta-se para a imagem produzida pelos sentidos externos e internos e com sua luz a alumia. a Forma do triângulo. esta é sua maneira material de existir. diz Aristóteles. Mas o conceito de triângulo é necessário em seus nexos. a Forma é extensa. Forma inteligível. de novo. mais prosaico. quando penetra nossos sentidos. Mas só à luz do intelecto agente é que esta Forma adquire. em todos os tempos e todos os lugares. visibilidade e fica transparente a si mesma. elas são necessárias. estava também dentro da coisa mesma. ínsita nas coisas. são de diversos tamanhos. fora do espaço e do tempo. aparece então a Forma que estava lá dentro da imagem sensível e. espaciotemporal e contingente. inextensa. O núcleo conceitual do Mito da Caverna volta aqui mais sóbrio. Mas sob a luz do intelecto agente a Forma se destaca da matéria. que a individualiza e prende. necessária. sim. em todos os homens. transforma-se e adquire suas verdadeiras características. com menos imagens. Mas é a idéia platônica que aqui está de volta. As Formas são idéias. e volta a ser Forma pura. Forma sem matéria. A Forma que dá feição e contornos à coisa – como que um princípio vital dentro de cada coisa – é a mesma Forma que está implícita na imagem sensível reproduzida pelos sentidos. É esta Forma eterna que vem à luz sob a atuação do intelecto agente. Sob a luz do intelecto agente. estão fora do espaço e fora do tempo. Os triângulos que existem aí no mundo material das coisas são contingentes. é eterna e vale sempre. A Forma. e permite pensar simultaneamente os mais diversos tamanhos. sob a luz do intelecto agente. Na coisa. não é mais espaciotemporal. é inextenso e abstrato. um poderoso intelecto agente. são inextensas.homem. Vemos. é claro.

Este Poder-Ser Aristóteles chama de potência. ela aí fica transparente.agente em nós. apenas dormitando. À luz do intelecto agente a Forma é atualizada. 4. Ato e Potência. inteligível e se sabe como ela em verdade é. Nas coisas inanimadas e nos animais de nosso mundo sublunar a Forma está em potência. ela volta a ser em ato. A Forma. . ele continua pensando e defendendo a Teoria das Formas de Platão. podia ser transparente a si mesma. Platão teria dito que as Formas existem na Estrela. mas. quando pensada pelo homem à luz do intelecto agente. Mas não aqui. Mas Aristóteles diz que as Formas estão dentro das coisas. Por isso ela não é transparente a si mesma. Uma mesa não sabe que ela é mesa. O intelecto agente é o Ato que atualiza a Forma que dormitava em potência dentro da coisa mesma e dentro da imagem produzida pelos sentidos. percebe-se aqui. Essa seria a grande diferença entre Aristóteles e Platão.4 Ética e Política As proposições descritivas dizem como as coisas de fato estão. era apenas uma potência. a Forma se libera da matéria e volta a si mesma. está eivada de materialidade. Ela podia ser pensada. Podia. Quem não percebeu ainda que a Estrela é apenas a forma mitológica usada por Platão para contar a mesmíssima coisa? Aristóteles e Platão têm entre si diversas diferenças. nas coisas individuais que existem em nosso mundo sublunar. ela fica transparente e ciente de si mesma. Aí vemos as formas universais e eternas das coisas individuais e contingentes. num mundo separado. enquanto estava na matéria. mas de fato não estava. A Forma. o Ser e Poder-Ser aí se imbricam. ela volta a ser atualidade de si mesma. Mas. Aristóteles desenvolveu conceitos mais técnicos. Esta mesa está com um pé quebrado é uma proposição descritiva. como um universal com seus nexos necessários. Tolice. um gato não possui o conceito de gato. fora do espaço e do tempo.

do Dever-Ser. o Dever-Ser é determinado pela funcionalidade. das proposições que são necessárias ou contingentes. Nas relações da pessoa com outras pessoas. face ao outro homem. Bem. Até agora estávamos nos movimentando no terreno da razão teórica. tendo diversas alternativas de escolha. O homem. isto é. Este Dever-Ser. – Virtude. deve em seu livre-arbítrio escolher aquela alternativa que é ética. É dentro desse reino da contingência. é preciso que ela se assente firme. virtude vem da tradição local.Mas a mesa não devia estar assim. aí está o reino do Dever-Ser. O fator decisivo da . pode agir de uma maneira ou de outra diferente. virtude vem de longe. que Aristóteles localiza a Ética. que podem acontecer como podem também não acontecer. ou seja. As coisas possuem nexos que são substanciais e necessários. diz Aristóteles. mas não é o fator decisivo. Às vezes há dezenas de maneiras de agir. Agora entramos em novo território. mas que dizem apenas o que necessariamente é e o que de fato está sendo assim e não assado. começa um território completamente novo. Virtude é um hábito. é algo meramente funcional. Há situações em que o homem. ao agir livremente face às outras pessoas. mas pode também ser diferente. Ser virtuoso é obedecer às regras da terra em que a gente se encontra. é puro conservadorismo? A tradição é muito importante. o que pressupõe que o pé não pode estar quebrado. O que é Ética? Qual é o ato ético? Aquele – ensina Aristóteles – que é feito de acordo com a virtude. Nas coisas de uso. cheio de alternativas. o império do DeverSer. qual o critério do Dever-Ser? Qual deve ser minha relação com outros homens? Aí. o território da Ética. segundo Aristóteles. então. o pé não devia estar quebrado. Mas o que é virtude? Já Platão discutia isso longamente. Este é o âmbito da contingência: uma coisa pode ser assim. no caso da mesa de pé quebrado. Para que a mesa funcione bem como mesa. Possuem outros que são meramente acidentes.

encontrar a reta razão? Um bom critério prático. que voltaremos a encontrar nos clássicos medievais. Sendo assim. diz que não devemos optar pelos extremos. A virtude fica na coragem que está no meio do caminho entre temeridade e covardia. o logos reto. reta é a razão que obedece à gramática do logos prático. na geometria. As regras na razão prática são mais flexíveis. é a ligação mais curta entre dois pontos. Orthos é o logos. exige-se um critério que seja final e decisivo. na Ética de Aristóteles. na construção. Como. é a razão reta. Havendo uma briga. são menos exatas. paredes e tetos. como vai ser chamada na tradição.eticidade. então. Covardia e temeridade são pólos extremos. diz Aristóteles. é apenas uma regra auxiliar. A reta. A virtude fica no meio. eticamente errados. Esse erro – considero isso um grande erro . Trata-se de um tipo diferente de logos. é o coroamento da vida virtuosa. A regra áurea. obtém-se o traçado arquitetônico de pisos. Os princípios da primeira não coincidem com os da segunda. A felicidade. O reino da razão teórica não coincide com o reino da razão prática. O critério filosófico do Dever-Ser consiste na reta razão. o orthos logos. que são eticamente errados. e sim ficar no meiotermo. o último critério. na dúvida. A razão prática – a Ética e a Política – não obedece às mesmas regras da razão teórica. Na arquitetura é o canto que se traça e se obtém espichando um cordão ou uma linha. Está aqui antecipada. nem tão ligeiro que pareça covardia. pois o meio-termo nem sempre está exatamente no meio. Aristóteles sabe muito bem que a regra do meio-termo. A gramática da razão teórica não é a mesma que a da razão prática. deve-se sair não tão devagar que pareça ousadia. Aristóteles introduz aqui a noção de razão prática como algo distinto e contraposto à razão teórica. da mesotes. Quem vive praticando atos no meio-termo vai ser feliz. em Kant e em quase todos as Éticas contemporâneas. eudaimonia. é ficar no meio-termo. a dicotomia entre razão teórica e razão prática. Seguindo a linha.

negligencia. os homens precisam uns dos outros. – Que Aristóteles. – As formas de governar o Estado são múltiplas. Justiça é a razão reta que diz como os muitos homens.–. mas privilégio (privi-legio. que em seu tempo existiam. causou e vai continuar causando inúmeros males. devem tratar-se uns aos outros. Por isso é que a lei justa é aquela que é igual para todos. o jogo dos opostos. é algo típico da Analítica. ele governa em nome do bem comum e para o bem comum de todos os cidadãos. que não está em Platão e não se encontra assim nos filósofos neoplatônicos. Quando ele fala. Mas isso Aristóteles não busca. Se não é igual para todos. Separar dois pólos opostos. tem que falar no plural. É por isso que o rei. A Dialética. dirão na Idade Média. mesmo depois de Aristóteles e de Kant: Como essas razões se imbricam? Quais os princípios comuns a ambas? Os homens vivem uns com os outros. O mesmo vale quando alguns poucos governam – Aristocracia –. Ambas as razões se imbricam. de uma conciliação entre razão teórica e razão prática. são todos que estão decidindo. sem fazer a menor tentativa de conciliá-los em nível mais alto. Por isso os homens se organizam em Estados. quando ele decide. Só as feras não precisam de ninguém e vivem sozinhas. Para o Dialético a grande pergunta continua sendo. logo tem que haver alguns princípios comuns a ambas. não podiam ser escravos mostra como mesmo os maiores dentre os grandes pensadores podem ser acometidos de cegueira. pela própria inércia de seu raciocínio. tenha se esquecido de que os escravos. manda que em tais situações se continue a busca de uma síntese. são todos os cidadãos que falam. De igual para igual. O homem que vive na estrutura de um Estado é um cidadão. lei privada). iguais entre si como cidadãos do mesmo Estado. não é lei. ou . mas todas elas devem visar o bem comum. isso a Analítica. A principal virtude do cidadão é a justiça. Mesmo quando há um único governante – Monarquia –. nesse contexto. o bem de todos os cidadãos. mesmo sendo indivíduo.

no século II. em seu movimento. se interpõe entre o sol e a lua. de Mercúrio e da Lua. a lua. exímio observador das coisas. há oligarquia. Se a terra fosse um disco. O sol. surge o despotismo. que. há democracia.quando as assembléias públicas governam – Politéia. pela ordem. A terra. causando assim o eclipse. os planetas e as estrelas fixas giram em oito órbitas ao redor da terra. Democracia. Quando o governo dos muitos reunidos em assembléia degenera. A lua constitui a . e depois de Vênus. era um ponto imóvel no centro do universo. A seguir vêm as órbitas. pensava que a terra era fixa. possui em Aristóteles sentido marcadamente pejorativo. descreve o universo aperfeiçoando o modelo cosmológico aristotélico. As estrelas fixas constituem a mais alta e última esfera. já sabia que a terra em que vivemos é redonda. então o governo degenera. de Marte. há que se concluir que a terra é redonda. ele escreve que os eclipses da lua são causados pela posição da terra. de Saturno. a sombra da terra projetada sobre a lua não poderia ser redonda. O sol. Quando o governo de um só governante degenera. como a maioria dos pensadores de seu tempo imaginava. a lua. No tratado Sobre o céu. 4. Mas Aristóteles não se dá conta de que essa é a única forma ética de estruturar o Estado. Quando o governo de alguns poucos degenera. como vemos. Isso só descobriremos na Modernidade. os planetas e as estrelas giram em círculos ao redor de um ponto central que é a terra. seguindo a opinião de seu tempo. Mas Aristóteles. O que hoje chamamos de democracia – única forma ética de governar e de ser governado – Aristóteles chama de Politéia. Esta idéia é elaborada ulteriormente por Ptolomeu.5 A concepção analítica do mundo Aristóteles. Como a sombra que o sol projeta sobre a lua é sempre redonda. ficando contrário ao bem de outros. do Sol. Quando o governante perde de vista o bem comum e governa para o bem de alguns. de Júpiter.

a noite. a mais baixa. a escolha por livrearbítrio. tudo ocorre em ciclos absolutamente regulares: o dia. ficam extensas. cheio de acasos e contingências – espaço que permite a liberdade de livre escolha do homem –. Esse mundo imutável. a que está mais perto da Terra. as Formas estão mescladas com matéria. que se processa a decisão livre. neste espaço aberto pela contingência. vivem e perecem. Cão é cão porque possui a Forma de Cão. É por isso que as estrelas entre elas estão fixas. e assim com gatos. é quase tão estático quanto a esfera de Parmênides. as estações do ano. mas não há neles nem geração nem corrupção. os planetas. que é o mundo em que vivemos. tornam-se espaciotemporais. Plantas. Da lua para baixo temos o mundo sublunar. aparece e desaparece. As Formas. ao entrar em composição substancial com a matéria. não há transformações nem movimentos acidentais. peixes. o sol e a lua constituem um mundo que se movimenta. princípios de ordem e de determinação. No mundo acima da órbita lunar não há movimentos individuais: o único movimento é o girar das próprias esferas. Neste nosso mundo sublunar tudo o que fica. entretanto. Nesta trama de eventos acidentais tanto o homem individual como os homens reunidos em Polis têm. em que o único som é a música das esferas celestes. tudo o que é estável é assim porque as Formas eternas lhe dão estabilidade. Esse espaço de movimento. animais e homens nascem. tudo o que permanece. Aí não há acaso nem contingência. No mundo dos astros. em sua órbita eterna e imutável. são em si eternas. Neste nosso mundo concreto as Formas. É aí.primeira esfera. muitas vezes. plantas e com todas as coisas. O resto tudo é acidental. porque ele sempre está sendo ordenado pelas Formas. não é um caos total. Se o homem escolhe a alternativa correta. o mês lunar. ficam entregues ao processo de geração e de corrupção. Homem é homem porque possui a Forma de SerHomem. mais de uma alternativa de agir. surge e depois se esvai. As estrelas. seu ato é . No mundo sublunar.

mesmo neste nosso mundo sublunar. e que permite previsões exatas. Essa concepção de mundo de Aristóteles é também a concepção de mundo dos grandes pensadores medievais. em torno dele giram os planetas. à Física e à Cosmologia de hoje. é uma teoria que explica bem tudo o que ocorre. Só mais tarde. Com Newton o pensamento analítico iniciado por Aristóteles e pelos geômetras gregos passa assim por Copérnico. Em 1514. Só que estes. inclusive movimentos aparentemente estranhos de alguns planetas. em 1687. Mas. o modelo geocêntrico de Aristóteles foi aceito e usado por todos como explicação do universo cósmico. o Todo-Poderoso. Copérnico propõe um modelo mais complexo. mas muito mais exato: o sol é o centro do sistema. terra. é mau. Kepler. A teoria geocêntrica. que é o começo e fim de tudo. a saber. No começo está Deus. e por isso é que é possível haver uma ciência que conhece esses nexos necessários. defendida por tantos séculos. não consideram o universo como algo eterno. Se não. entra aí em colapso e é abandonada porque não consegue dar conta de um fenômeno observado por todos os estudiosos do céu estrelado. Galileu e conduz à Modernidade.eticamente bom. O modelo de Copérnico explica algo que a teoria geocêntrica não conseguia explicar. Deus cria os seres. Newton vai explicar através de princípios muito simples como este universo todo funciona: pela Lei da Gravidade. a Hubble e a Einstein. inclusive a terra. Os seres criados são criaturas de Deus. seguindo a tradição bíblica do cristianismo. assim como Aristóteles. O universo todo. sol. ulteriormente elaborado por Kepler e Galileu. Até Copérnico no século XVI. lua e estrelas . Tanto os nexos necessários existentes dentro das coisas como a ciência teórica sobre esses nexos necessários se fundamentam nas Teorias das Formas e a partir delas se explicam. O modelo heliocêntrico de Copérnico. por que os planetas de vez em quando giram para trás. há nexos necessários. mas como criação feita por Deus.

até o último pormenor. os assim chamados ateus. que explicam tudo. O que há é apenas o fato de que muitas vezes ainda não conhecemos as leis que regem certos eventos. os pensadores aristotélicos da Idade Média cristã defendem em quase tudo o modelo aristotélico. sabe-se. Mas quase ninguém se dá conta de que ambos os modelos. os sem Deus. principalmente a partir de Heisenberg. Só que os físicos contemporâneos. Uma fórmula simples. têm a mesma estrutura aristotélica. Einstein neste ponto ficou pensando à maneira antiga. ficasse explicado. Deus cria os astros – e aqui se assume o modelo aristotélico – como algo fixo. procurou incansavelmente até sua morte o que ele chamava de fórmula do mundo. que planejou e executou tudo em seus mínimos detalhes. bem no começo. Não há.são criaturas de Deus. que tudo é obra de algumas grandes leis – ainda não totalmente descobertas – que determinam tudo. Aí . todo o universo. o Grande Arquiteto ou o Grande Relojoeiro. como a da energia. no fundo. Até hoje grande parte dos filósofos e dos físicos continua pensando o universo como um grande relógio à maneira de Aristóteles e da Analítica. Os que acreditam em Deus dizem que há. pensava ele. os pensadores católicos são fortemente contrários a ele. que possui enorme força explicativa: o modelo platônico de Explicação do Mundo. nos processos da natureza acaso nenhum. na qual e pela qual tudo. Os outros. Garantido o lugar do Deus Criador. a concepção estática do mundo de Aristóteles e do Método Analítico. que regem tudo. Mesmo Newton e o próprio Einstein ainda são pensadores aristotélicos e usam o método analítico sem perceber que existe outro modelo. Einstein. ele pensava que não havia acaso na Natureza. importantíssimo. dizem que não se precisa de arquiteto nenhum. como algo que se movimenta em órbitas perfeitamente regulares. Quando Copérnico e Galileu levantam o modelo heliocêntrico. riquíssimo. Galileu é condenado pela Igreja Católica por subverter a ordem celestial. levam o acaso e a contingência mais a sério.

Julgo que todas essas coisas estão entrelaçadas. para responsabilidade moral. na discussão havida. que existem no curso das coisas contingência e acaso. Heisenberg e outros muitos dizem que sim. descobriremos as leis que regem o evento aparentemente casual. Depois do colapso dos sistemas de Espinosa e do Idealismo Alemão. O Sistema da . para justiça. mais tarde. não haveria espaço para decisões livres. de democracia e verdadeira historicidade. Einstein achava que Deus não joga dados. Penso que.falamos de acaso. de um Deus Criador que jogue ou não jogue dados. Quando pesquisarmos mais. acaso e sim apenas um déficit de conhecimento. Perguntava-se se Deus joga dados. o segundo Wittgenstein. e sim se existe acaso na natureza ou não existe. para democracia política. na minha opinião. foi transposto para uma imagem religiosa. Penso que Einstein estava errado e que quem estava certo era Heisenberg. A questão aí não é religiosa. para livrearbítrio. o que fazer? O que estava errado? Nietzsche. Não devíamos falar de acaso. Eu penso que sim. Heidegger. na realidade. Aí está. Isso. nessa discussão do século XX. Deus joga dados. mas sim de uma Natureza na qual existem ou não existem contingência e acaso. Einstein pensava que não existe acaso na natureza. falar de liberdade. se não existisse essa contingência. para historicidade. um dos pontos nevrálgicos da Filosofia dos últimos 150 anos. Não se trata mais. se Deus usa o acaso como instrumento de seu ato criador. e o que parecia ser acaso desaparecerá e se mostrará como o processo regido por leis totalmente determinadas. A Natureza joga dados? Einstein e muitos outros dizem que não. Popper vão nos dizer: Faltou a historicidade. de livre-arbítrio. Quem não aceitar o acaso e a contingência lá no âmago da Lógica e da Ontologia não poderá. faltou o acaso. faltou a contingência. não se procura saber se Deus existe ou não. não há. depois do colapso do sistema teórico de Hegel e do sistema prático-político de Karl Marx e de Lênin.

lá dentro. tudo está dobradinho lá dentro. Gadamer). lá está préprogramado em seu desenho básico o que vai resultar. nasce de uma pequena semente.Filosofia tinha que admitir que há dentro das coisas e nas relações entre as coisas contingência e acaso. surgem dobras. explicar uma coisa. Tudo está dentro do ovo inicial do universo. Assim. Tudo já está lá dentro. Dar uma explicação das coisas significa reconstruir mentalmente esse processo de desdobramento. aos múltiplos jogos de linguagem (Wittgenstein. Uma explicação grande e cabal exige que se faça o desdobramento desde o primeiro começo. isto é. Está certa esta ênfase. Isso é importante elemento daquilo que em nossa tradição se chama de Explicação do Mundo. Só que então. Isso. É por isso que em nosso século foi dada tanta ênfase à existência concreta do indivíduo (Kierkegaard. abrir as dobras. Explicação. na mente e no discurso. grande e frondosa. até formar a figura atual. Muitos animais nascem de um ovo. É de lá de dentro do ovo que tudo se desenvolve e se des-dobra. aqueles brinquedos de dobrar e desdobrar. A árvore. Deus. Dobra por dobra. De lá é que tudo vai se desdobrando. aliás. No ovo. bem assim – pensam os filósofos neoplatônicos – é o universo. 5 A EXPLICAÇÃO DO MUNDO 5. e mais dobras ainda. Platão já sabia. está contido tudo. aos horizontes do tempo (Heidegger. aliás. a Natureza joga dados. Isso. Sartre). ou seja. plica por plica. Filosofia Analítica).1 Explicar é desdobrar Plica em latim significa dobra. significa reproduzir discursivamente. Como num origami japonês. desde o . o desdobramento de uma determinada coisa. é um ponto central da Doutrina Não-Escrita de Platão. ao se abrir. isto é. naquele ovo inicial. Ex-plicare significa des-dobrar. A coisa mesma surge sempre de um processo de desdobramento. mais dobras.

uma primeira célula viva. No começo. está comprovada cientificamente. Os neoplatônicos diziam exatamente isso. Isto é uma explicatio ab ovo. entrementes aceita e defendida por todos. Aí surge a oposição bipolar: dentro do Uno. Os biólogos de hoje não têm a menor dúvida sobre esse processo de desenvolvimento a partir de um primeiro ser vivo. formando os tecidos celulares. eles falavam de todo o universo. disso hoje ninguém mais duvida. extremamente simples em sua estrutura. que é Tudo que existe. surgem dois pólos. Há no começo algo assim como um ovo. Este núcleo. Aí a mesma célula passa a ter dois núcleos. mas sim duas células. e assim já são quatro. uma explicação desde o ovo inicial. Temos. Também estas duas células se desenvolvem ulteriormente por duplicação bipolar de seus núcleos. Redescoberta e reformulada na Modernidade por Lamarck e Darwin. Isto é Filosofia. No começo há um primeiro ser que é o Uno. ficando cada núcleo com sua célula. Só que os biólogos não se dão conta de que tudo isso é Filosofia Neoplatônica. Os biólogos hoje pensam o mundo dos seres vivos como um grande processo evolutivo em que tudo se desenvolve a partir de um primeiro ser vivo. A Biologia dos gregos já conhecia o fenômeno do desenvolvimento a partir de um ovo. que inicialmente é único. E assim por diante. a Biologia de hoje só ampliou e aprofundou esse conhecimento. Os filósofos neoplatônicos ensinavam que tudo começa num ovo inicial e que a partir daí. Que existem no universo coisas que possuem essa estrutura. se um pólo não anular o . a célula inicial se desdobra em duas. não mais uma. que é no começo o Todo. o Uno é Tudo. Da célula original desenvolveram-se assim duas células. a Teoria da Evolução.ovo inicial. só que eles não falavam apenas da evolução dos seres vivos. tudo se engendra. Então surge uma parede divisória. um se contrapondo ao outro. Esta célula possui um centro. Aí. um núcleo. no processo de evolução se desdobra em dois. por desdobramentos. agora.

O processo ontológico de desdobramento pensado pelos neoplatônicos é o paradigma a partir do qual os biólogos desenvolvem suas teorias. desde o ovo inicial. Tudo bem. dentro do qual então surgem dois pólos opostos. fáceis de ler. Não se encontra. Platão escreveu diálogos acessíveis. vão adiante. os defensores da Explicação do Mundo. nos diálogos. Só que os biólogos geralmente não sabem disso. Eram felizes e não sabiam. então teremos dois seres. Só que Platão quase nunca leva seus leitores à síntese em que ambos os pólos estão superados e guardados.2 A Doutrina Não-Escrita de Platão Para o grande público. Essa teoria vale não apenas para a evolução dos seres vivos. Os neoplatônicos. Os argumentos são arrolados e discutidos a favor de um lado. isto é. Ambos juntos formam o Todo. Exceto em alguns diálogos escritos em sua velhice. Eles eram filósofos neoplatônicos e não sabiam. dois pólos que se opõem. não se flagram de onde tiraram suas teorias. 5. dobra por dobra. É o jogo dos opostos. se surge uma parede divisória entre eles. Dentro do SerUno surge o Múltiplo. Quem quiser entender e explicar o universo tem que reproduzir intelectualmente o processo de desdobramentos. E assim por diante. cada um deles um Ser-Uno. Só isso é uma verdadeira Explicação do Mundo. Platão não tira conclusões claras e bem definidas. teremos quatro seres. sabemos que se trata aí de tese e de antítese. que é Uno e que é o Todo. a . Isto é ex-plicatio.outro e se os pólos não se destruírem mutuamente. ela vale para todo o universo. iluminados por Mitos tão belos e tão ricos que até hoje alimentam todos aqueles que querem aprender Filosofia. Mas os diálogos são quase sempre inconclusivos. Se cada um deles entrar novamente em processo de desdobramento. depois são discutidos e avaliados os argumentos apresentados pelo outro lado. teremos a seguinte estrutura ontológica: um Ser. Se estes pólos adquirem ser próprio.

Platão pensava que a síntese final. antítese e síntese. Proclo. os sistemas filosóficos dos autores referidos. em primeiro lugar. com todos os imprevistos. tanto o método triádico como também o processo de desdobramento de tudo a partir do Uno. Dialética significa aí duas coisas interligadas. O nome Enéade significa nove. um defensor da Dialética Negativa? De jeito nenhum. para os que começaram a compreender. mas também com toda a riqueza que o diálogo vivo oferece e permite. nos diálogos escritos para os principiantes. Nicolaus Cusanus e Hegel sejam aqui mencionados. Dialética significa. especialmente a Grande Síntese. nove são as partes do livro. o roteiro com o mapa da mina. Alguns pensadores neoplatônicos assimilaram por inteiro ambos os elementos constitutivos da Dialética. A Grande Síntese é a Dialética.conciliação de pólos opostos. Para os iniciados. É por isso que o livro de Plotino se chama Enéade. o método de tese. para estes Platão oferece no diálogo vivo. Esta é a estrutura do sistema em Proclo e em Hegel. Daí vem a Enéade de Plotino. trata-se do jogo dos opostos. Platão. que caracteriza a verdadeira síntese dialética. cara a cara. temos um total de nove partes. como uma coluna vertebral. As estruturas triádicas e o processo de evolução perpassam. Por escrito. Dialética significa. mas não completamente idênticas. Como cada uma dessas partes se subdivide de novo em três. não seria compreendida pelos principiantes e pelos que estavam lá fora. a partir de um primeiro começo. em segundo lugar. antítese e síntese. longe do diálogo vivo e pessoal. Platão apresenta apenas o momento inicial da Dialética em que os pólos opostos são articulados um contra o outro. . no qual perguntas e respostas se fazem de face a face. a concepção de que tanto o mundo das coisas como o mundo do discurso se desenvolvem. que correspondem a tese. um livro que consta de nove partes. Plotino. dobra por dobra. Um sistema neoplatônico se constrói sempre de três partes.

exatamente isso é Dialética. diz Platão. de Erasmus e Charles Darwin.Já em alguns outros pensadores neoplatônicos. repouso é ser. de Herbert Spencer e de praticamente todos os biólogos contemporâneos. veremos que são. em um poema de encantadora simplicidade. sugere que imaginemos Deus não como um ser que está fora do mundo. os que melhor representaram a tradição neoplatônica. por exemplo. síntese também da mesmice e da alteridade. mas como algo que está dentro do próprio universo e de dentro tudo movimenta. O universo se compõe então desses quatro elementos? Não. Mas repouso não é ser? Se não fosse ser. Movimento não é ser? Claro que é. É claro que se trata de pólos opostos. O universo é primeiramente Ser. Também está certo. todos eles marcadamente neoplatônicos. manipulando de fora as órbitas das coisas. professor em Oxford. Schelling e Hegel foram. Em Filosofia. tese e antítese. Dentre os biólogos de hoje destaquese. não existiria. analisando os autores com cuidado. Espinosa. o método dialético com sua tríade como que esvanece. Goethe. na Modernidade. essa é a Explicação do Mundo. da Dialética sem Síntese. não obstante essa variação. sai do pensamento conscientemente metódico e deixa no primeiro plano só o processo de desenvolvimento de tudo a partir de um único começo. logo. Entre os poetas seja mencionado Goethe. Como são neoplatônicas as raízes filosóficas de Lamarck. Certo. Fichte. embora sejam pólos mutuamente excludentes. Os dois pares de opostos que surgem como os mais altos e mais explicadores são repouso – movimento e o mesmo – o outro. No diálogo O Sofista. síntese de repouso e de movimento. – O Repouso não é movimento. se conciliam como . Olhando bem. de um jogo de opostos. o belíssimo trabalho de Richard Dawkins. Então tanto repouso como também movimento. Este é o caso de Espinosa. Platão mostra com clareza que não é um defensor da Dialética Negativa. Ele pergunta neste diálogo quais são os gêneros supremos. E o movimento não é repouso. Isso.

O primeiro princípio diz que tudo é Um. pois desde sempre ele é dentro de si também o Outro. primeiramente ele é o Uno. nunca escrito por Platão pessoalmente. a multiplicidade indeterminada. O Ser-Uno é o Todo. mas não dizem com clareza.3 Os dois Primeiros Princípios Platão deriva tudo. E este Ser não é apenas o Ser que é Uno e que é o Todo.Ser num nível mais alto e mais nobre. Peri tou Agathou. no começo só existe o Uno e este é o Todo. foi lançado ao pergaminho por seus alunos. é o Uno que é Tudo e dentro do qual se desdobram os pólos opostos. O Ser é Uno. diz que tudo começou com a unidade. todo o processo de desdobramento do universo. é dela que deriva toda a tradição neoplatônica: o processo triádico e a idéia da evolução universal. a mais central de todas. mas ambas são Ser. ter dado ênfase à Doutrina Esotérica e ter reconstruído em suas linhas gerais o teor dessa obra central de Platão. Hen kai Pan. O Uno. O mesmo ocorre com a mesmice e a alteridade. O Ser. É mérito da Escola de Tübingen. Ser é a síntese dos dois pares de opostos que regem a construção do universo. A Doutrina Não-Escrita foi compilada por seus alunos sob a forma de um diálogo Sobre o Bem. O Ser é aquilo que ele é. sintético. este é Tudo. O Ser é o Uno. Ele é . O Ser-Uno não é apenas o Uno. continuada hoje pela Escola de Milão. ele é o Bem. E de onde vem a multiplicidade das coisas? Vivemos num mundo de múltiplas coisas? A Multiplicidade começa com a Dualidade. em nosso século. Este diálogo. Pois é por ela que se entende o que os diálogos insinuam. O Dois é o começo da Multiplicidade. Dentro do Ser polarizam-se repouso e movimento. mesmice e alteridade. O Ser é Síntese. Hen kai Pan. é a Grande Síntese. 5. Ambas se excluem mutuamente. e o Todo. O Uno possui desde sempre a semente da multiplicidade dentro de si: aoristos dyas. a partir de dois Primeiros Princípios: o Princípio da Unidade e o Princípio da Dualidade ou da Pluralidade.

o Princípio da Identidade. O Mesmo e o Outro. Para esclarecer melhor a seqüência e o imbricamento entre os princípios. ao depois. síntese é o Ser que é tanto o Uno como também o Outro. Deus Filho e Espírito Santo. No começo só existe Deus. antítese é o SerOutro que desde sempre se opõe ao primeiro pólo. Existe somente um Deus. Tese é o Ser-Uno inicial. o Filho. síntese. como um Outro. mais adiante. Deus é Deus Pai. Por isso há uma tríade. mas este Deus é simultaneamente trino. O primeiro princípio. está desde o começo dentro do Ser. Chamarei esse terceiro princípio de Princípio da Coerência. desdobro o Princípio de Unidade de Platão em dois princípios: um que é o Princípio da Identidade e que vem antes do Princípio da Multiplicidade. o Ser-Uno. a Santíssima Trindade.bipolar. Neste trabalho. O Pai não é o Filho. acrescento aos dois princípios de Platão mais um terceiro princípio. é a fonte da Multiplicidade. um amando o outro.4 O Mistério da Trindade A tríade platônica e neoplatônica da Dialética entra fundo na tradição cristã e dá estrutura intelectual àquilo que os primeiros pensadores cristãos chamam de mais importante e mais alto mistério da religião. 5. o Princípio da Multiplicidade. Há um pólo que é ele mesmo. a multiplicidade que surgiu. o primeiro par de opostos. é o caos a partir do qual emerge a diversidade das coisas. Esse . que então se chama Espírito Santo. Deste Deus-Uno se engendra. O Ser-Todo. No começo do processo do engendramento trinitário há o Deus-Uno. Pai e Filho se opõem como pólos opostos. O segundo princípio. fornece unidade ao universo e é a fonte de toda a ordem. Ele é Uno e Trino ao mesmo tempo. nem vice-versa. ambos se conciliam numa síntese mais alta. mas há sempre também o outro pólo que é o Ser-Outro. Mas quando Pai e Filho se reencontram. Essa alteridade fundamental existe desde sempre dentro dele. inclui dentro de si dois pólos opostos. outro que vem depois e que ordena.

ninguém no mundo intelectual católico sabe avaliar e dizer direito o que está acontecendo.5 De onde vem a Multiplicidade Determinada? A Explicação do Mundo. nitidamente neoplatônico. com vantagem sempre mais nítida para os primeiros.processo eterno de engendramento se chama Santíssima Trindade. não se consegue inseri-lo na linha da antiga tradição. Filosofia oficial do Catolicismo. relegando o pensamento neoplatônico quase ao esquecimento. é de fácil compreensão. em nova reformulação. Do século XII em diante. no século XX. No começo há o Ser-Uno. E ambos são conciliados no SerTodo. Esse núcleo central da doutrina cristã é. não se consegue contextualizar sua proposta intelectual. Quando então. que é um Deus só. Até aqui tudo bem e tudo claro. um filósofo-teólogo como Teilhard de Chardin aparece e propõe de novo. como se vê. Ser é a unidade mais alta em que Ser-Uno e Ser-Outro se conciliam. O aristotelismo em sua versão tomista vai ser declarado. muitas vezes não se dão conta de suas raízes. que difere do Ser-Uno e a ele se opõe como um outro. Só com Alberto Magno e Tomás de Aquino é que o Ocidente volta a ler e estudar o sistema aristotélico e sua concepção estática do mundo. como os biólogos de hoje. em seus primeiros passos. Um é o espelhamento do outro. Mas esse primeiro Ser-Uno e esse primeiro Ser-Outro são iguais. O cristianismo até o século XII sempre foi uma variante rica e produtiva da doutrina neoplatônica. O Deus. O Deus-Uno é também o Deus-Trino. que contém tanto um como o outro. os pensadores cristãos dividem-se em aristotélicos e neoplatônicos. Mas tanto o Ser-Uno como também o Ser-Outro são Ser. Até aqui trata-se do . Mas os pensadores cristãos. Deste surge então o SerOutro. a doutrina neoplatônica. Não se entende nada do que ele quer dizer. desdobra-se dentro de si mesmo em três pessoas. 5. no século XIX.

Só se explica o que está implicatum. assim as Formas de todo o Universo estão completamente pré-programadas no Ser-Uno inicial. um é só a alteridade do outro. Só se desdobra o que foi antes dobrado. A Explicação do Mundo se desenrola assim como está se desenrolando. como num origami japonês. Mas as coisas de nosso mundo têm determinações próprias. Um é o espelhamento do outro. Essa primeira diferenciação entre dois pólos é uma dualidade indeterminada. desde sempre pré-programadas em sua estrutura e seus mínimos detalhes. em todos os seus pormenores. ou seja. Tudo. O primeiro começo é trino. no ovo inicial. estão contidas implicitamente no primeiro começo. Os pólos opostos ainda não se apresentam com características diferentes. Assim como o pássaro inteiro está pré-programado no ovo. A primeira corrente diz que toda a Multiplicidade que se vê hoje está completamente préprogramada dentro do primeiro ovo. Ex-plicar é desdobrar. De onde vem essa Multiplicidade Determinada? Qual a raiz e o princípio das determinações diferentes? De onde vem a variedade? Aqui há uma encruzilhada. Dessa imbricação entre explicatio e implicatio derivam duas conseqüências que ficaram importantíssimas na História da Filosofia e que. Trata-se do movimento que é interno ao primeiro começo. Os pólos nesse primeiro desdobramento ainda são pólos exatamente iguais. aoristos dyas. Tudo bem. cada qual diferente das outras. Toda a Multiplicidade que existe e que está sendo desdobrada pela evolução está desde sempre implicada dentro do ovo inicial. cada um com características e determinações próprias. Implicare significa fazer as dobras e pô-las dentro do ovo inicial.movimento de engendramento que os antigos chamavam de Trindade. Todas as Formas. em minha opinião. porque toda essa evolução está implicada no ovo inicial. conduziram essa primeira vertente do neoplatonismo a erros: o necessitarismo da . Esse tipo de alteridade é a dualidade ainda indeterminada. Aqui a doutrina neoplatônica se cinde em duas correntes.

todas as proposições que constituem a Explicação do Mundo. Num processo de evolução sujeito a um tal necessitarismo só ocorre o que está predeterminado. nem Política. a dos filósofos neoplatônicos necessitários. uma obsessão – errônea. Muito menos Democracia. livre-arbítrio. então a Filosofia deve reconstruir logicamente. O melhor exemplo de um sistema neoplatônico nesses moldes é o de Espinosa. é claro – desses pensadores. então. A segunda conseqüência extremamente negativa é que os pensadores que seguem esse modelo rígido de explicatio e implicatio pretendem deduzir toda a multiplicidade das coisas do mundo a partir de um primeiro princípio lógico. Tudo ocorre necessariamente como conseqüência lógica da predeterminação inicial. Em Espinosa não há contingência nenhuma. a priori. Não havendo liberdade nem responsabilidade. O necessitarismo do processo evolutivo é uma conseqüência lógica da rigidez do esquema. Não há aí caos. Não havendo livre-arbítrio. Em ambos os casos. se todas as coisas derivam ontologicamente de um primeiro princípio ontológico. A primeira corrente. Assim não há liberdade de escolha. não há responsabilidade. ou se as Formas por si mesmas já estão desde sempre dobradinhas lá dentro. só pode ser desdobrado aquilo que foi no começo posto dobradinho lá no ovo inicial. não há contingência. em forma de dedução rigorosa. isto é.evolução na Ontologia e o apriorismo conceitual do projeto de sistema. Deduzir tudo a priori fica. não abre espaço para alternativas que sejam por igual possíveis. não há Ética. Pois. Não interessa aqui se foi um Deus Criador que fez a implicação. não permitindo contingência. Entre os contemporâneos que defendem uma tal concepção do mundo alinham-se Dieter Wandschneider e Vittorio Hösle. através . pôs dobradinho lá dentro. Um tal sistema. explica a Multiplicidade através de uma Predeterminação. o processo de desdobramento fica sujeito a um rígido necessitarismo: só pode ser desdobrado aquilo que já está préprogramado.

A. ela se engendra. não estava implicatum. A alteridade determinada. Mas em tudo isso não saímos do A. Mas ainda não temos com isso a multiplicidade determinada. se desdobra sim numa explicatio. não à alteridade indeterminada Não-A. Trata-se de chegar a algo que não seja o próprio A. elas não são dedutíveis. Eis o Princípio da Diferença.. O Primeiro Princípio. etc. Porque as variações que surgem e emergem não são predizíveis. faz dobras que não existiam antes. sem que esteja desde sempre predeterminado.? Este é o problema. surge. podemos construir o Não-A pela anteposição da negação. etc. dá uma explicação diferente e introduz o Princípio do Caos. em linguagem contemporânea. A préprogramação. Ele diz ainda que A=A.. O Uno. pois este só fica no A. ou. o Princípio de Identidade. a Emergência do Novo. eis o Caos que de dentro de si mesmo engendra as variações. A segunda corrente. pois esta não nos fornece um Outro que seja em si determinado.A. não determina os pormenores. Como então surge a Multiplicidade Determinada? De onde vem? Ela surge de si mesma. como dizem os biólogos hoje na Teoria de Sistemas.da implicatio. à qual me associo. diz apenas A. só determina as grandes linhas do processo evolutivo. Como chegar. o Outro. mas a uma alteridade determinada como B. o Princípio da Diferença. mas não estava já antes dobradinho lá dentro. dizendo também A. Tratase aí da Emergência do Novo. Mas isso não leva a um caos total? À anarquia lógica? À destruição da ciência? Não. em suas iterações e em sua identidade reflexa. Ele repete o A. É por isso que ele se chama Caos. não . ou D. e sim a feitura de uma nova dobra. em seu processo de evolução. Essa questão não pode ser resolvida só pelo Princípio de Identidade. feita pelos primeiros princípios. ela de repente está aí e aparece.A. a dos neoplatônicos libertários. ou C. A nova dobra não é apenas o desdobramento de uma dobra já anteriormente dobrada e posta lá dentro. Ele emerge. Ela também não pode ser resolvida só pela anteposição da negação. E aí? Não é o caso de dizer Não-A? Certo.

a libertária. há espaço para a liberdade e para a responsabilidade.conduz. fica um sistema aberto à História. trata-se inicialmente de um Princípio da Diferença que é um Princípio do Caos. o Ser-Outro. aoristos dyas. A e B neste caso ficam partes constitutivas de um Todo Maior. que é o Princípio da Coerência. e D. sem serem pré-programadas. como que andando para trás. Há espaço para múltiplas variações.. Ou então A e B se mostram compatíveis e entram em coerência um com o outro. não são passíveis de dedução a priori. Essa segunda vertente da doutrina neoplatônica. nesse modelo proposto. as variações. que permite rastrear a gênese das coisas. sempre de novo sob a regência do Princípio da Coerência. liberdade e historicidade. etc. O mais importante nesta exposição que fiz é o papel que está sendo conferido ao Caos. e sim um caos que vem a ser ordenado por um princípio de ordem. Nesta exposição desdobrei o primeiro princípio de Platão em dois. Mas não pressupõe que todas . Platão tinha dois princípios: o Princípio da Unidade. a Alteridade Determinada não estão préprogramados. O Novo. Se contra um pólo A surge um pólo B. que volta a pôr ordem na evolução do universo e no desdobramento das coisas. Só que as variações assim surgidas de imediato são reguladas pelo Princípio de Coerência. à Emergência do Novo. Ou B elimina A. entra em função o terceiro Princípio: o Princípio da Coerência. Por isso contém contingência. então podem ocorrer três coisas. Este faz que a ordem se restabeleça. Princípio de Identidade e Princípio de Coerência. E aí surgem C. e F. dizendo como e quando as variações ocorreram. para explicitar melhor como o Caos que surge a partir do Princípio da Multiplicidade não é um caos caótico demais. Ou A elimina B. Pois assim que surgem. Trata-se inicialmente de um Caos. to on. e o Princípio da Multiplicidade Indeterminada. oferece uma Explicação do Mundo que contém um momento caótico. há espaço para a contingência das coisas e para várias alternativas. O sistema de Filosofia.

Ferido nesse exato lugar. Os sistemas de Filosofia também possuem seu calcanhar-deaquiles. tinha uma folha de árvore colada no calcanhar de seu pé esquerdo. onde estava colada a folha. Por isso é que ela se chama História Natural. a Filosofia da Explicatio Mundi. também o livre-arbítrio e a responsabilidade moral. em seu calcanhar. que era neoplatônico. Aquiles foi morto. embora não seja o elemento mais importante. os padres gregos e latinos. Santo Agostinho. banhada com o bálsamo milagroso.6 O Calcanhar de Aquiles Uma deusa ofereceu ao guerreiro Aquiles um bálsamo que lhe daria proteção e o tornaria invulnerável às armas dos inimigos. Nicolaus Cusanus tenta mais uma vez no Renascimento. por isso. Espinosa. passou toda a sua vida tentando conciliar a predeterminação com o livre-arbítrio. pois. A Natureza tem. Aquiles. O acaso. ao banhar-se com o bálsamo. mas podia ter sido diferente. 5. Já na Antigüidade. é um elemento indispensável na gênese evolutiva do universo. fica a História de homens livres. contém acasos. Johannes Scotus Eriúgena tenta de novo no começo da Idade Média. uma História que foi assim. rende-se ao necessitarismo rigoroso e fica um . pensador apaixonado pela Ética e pela Filosofia Política. A Natureza nesse projeto contém caos. no que toca os homens. os pensadores cristãos. A pele. levantavam contra os filósofos neoplatônicos a objeção de que um tal sistema acabava eliminando a contingência do mundo e. Naquele lugar.essas variações estão pré-programadas e que por isso são momentos necessários no desdobramento da Natureza. ficaria impenetrável. Os sistemas neoplatônicos. entretanto. contém variações que podiam ter sido diferentes. o bálsamo não pôde atuar. nesse lugar Aquiles era vulnerável. Este é o calcanhar de Aquiles. possui como calcanhar-de-aquiles a questão do necessitarismo e da pretensão de querer deduzir tudo a priori. Não conseguiu. A História.

Segundo Espinosa. Calcular para trás. Vittorio Hösle. Pois.necessitarista explícito. imbuídos da importância da liberdade. nem livre-arbítrio. Hegel apresenta uma forte tendência para o necessitarismo neoplatônico. penso. No momento em que descobrirmos as leis físicas que hoje ainda não conhecemos. É claro que um tal sistema não permite nem a existência de alternativas. E por que não? Não. Hegel tenta pôr a contingência de volta. embora tente resistir. elimina a contingência das coisas. contingência simplesmente não existe. o acaso do qual falam os biólogos. bem dentro da Lógica. dizendo exatamente tudo o que ocorreu. nem democracia. ou se ela é contingente. e entregar-nos mesmo à força do Destino? O argumento a favor de uma concepção não-necessitária do mundo consiste. se tudo está desde sempre predeterminado. ainda não conhecemos todas as leis. no princípio de que a teoria . tudo isso no fundo é apenas um déficit de conhecimento. a meu ver. então é que existe um déficit em nosso conhecimento subjetivo. O mundo é um processo totalmente determinado por leis completamente rígidas. – Mas não é o caso de abandonarmos todas essas coisas. de momento. Dentre os contemporâneos. Mas não consegue levar a idéia a bom termo e perde-se. poderemos calcular o curso do universo. que seriam apenas ilusões. nas coisas. em última análise. Schelling e Hegel. tentam de novo. E calcular para a frente. no homem. Ele declara – o único em toda a História da Filosofia – que a Necessidade Absoluta é a Contingência Absoluta. no Estado. Se. As coisas são assim e não diferentes porque elas têm que ser assim. dizendo tudo o que vai ocorrer no futuro. recai no necessitarismo. por quê? O necessitarismo. só nos cabe entregarnos ao destino e à sua força inexorável. em ambigüidades. ao negar a existência de contingência no curso da evolução do mundo. No fundo. A inexatidão medida pelos físicos. Em Hegel não se sabe nunca se a Necessidade é mesmo necessária.

A isso se acrescenta a questão do ônus da prova. Ela é conseqüente e explica todas as coisas sem a necessidade de teorias adicionais. sim. Ela permite entender o uso do cálculo de probabilidades como único método adequado para certos setores da natureza. E é aí que surge a necessidade de sempre novas hipóteses adicionais: Não se trata aí de algo verdadeiramente contingente. que acima chamei de libertária. Basta trazer um único exemplo de contingência para demonstrar a falsidade de um tal princípio. etc. introduz o Princípio da Diferença. sem poder provar. o livre-arbítrio e a responsabilidade. a necessidade está escondida lá dentro. Quem é que tem o ônus da demonstração? O que aceita a contingência em certas coisas? Ou o que aceita a necessidade total de tudo? O ônus da prova. exceto através de complicadíssimas hipóteses a serem acrescentadas à teoria principal. desde o começo. que todas as coisas em todos os aspectos são necessitárias. em Biologia. o Caos. Explicação do Mundo. a concepção necessitária não permite explicar nada disso. Com Platão e Aristóteles a Filosofia se bifurca em dois grandes ramos: a Explicação do Mundo e a Análise do . 5. em Filosofia. que acima chamamos de libertária. a relação de indeterminidade de Heisenberg.7 A encruzilhada Bem no começo da Filosofia Clássica. recai sobre quem pressupõe. a meu ver. em Filosofia Política e no Direito. mas contando também com o elemento do acaso. que é mais condizente com a realidade. Fico com a vertente neoplatônica. a importância do acaso na gênese das mutações. – Em contrapartida. – É por isso que fico com a teoria que é mais simples. há uma grande encruzilhada. A teoria neoplatônica. Ela permite e explica a contingência nas coisas. em Física. que não precisa de sucessivas hipóteses adicionais. Levantar uma tal proposição como princípio universal é mais do que temerário.mais simples é a mais correta.

De Aristóteles saem Teofrasto. a meu ver. 5. Hegel. como a que eu proponho. foi posta quando o Schelling tardio criticou. no que toca a esse problema. Ficino. Espinosa. de Proclo e de Plotino: falta contingência no sistema. Desde então a . Frege. Santo Agostinho. Dentro do pensamento neoplatônico há uma segunda grande encruzilhada. Dentre os contemporâneos. os pensadores medievais até o século XII. O sistema da Explicação do Mundo é necessitário ou contém contingência? Plotino e Proclo se inclinam fortemente para o necessitarismo. não é apenas um acidente de percurso e sim uma conseqüência lógica do sistema. Tomás de Aquino. era o mesmo erro de Espinosa. De Platão saem Plotino. Hegel quer contemplar a contingência. Habermas e toda a Filosofia Analítica de hoje.8 A Grande Questão A Grande Questão. a mais importante questão em Filosofia Moderna.Mundo. Kant. mas. não consegue e se perde. em suas Preleções de Munique sobre Filosofia Contemporânea. Wittgenstein. Descartes. Karl Marx se inclina fortemente para o necessitarismo. Johannes Scotus Eriúgena. o sistema de seu amigo Hegel porque faltava nele a contingência. a meu ver. O erro de Hegel tinha origem e história. Esta Explicação do Mundo com acaso e contingência surpreendentemente coincide com a Teoria Geral da Evolução. Proclo. o neoplatonismo e o aristotelismo. Alberto Magno. Guilherme de Ockham. Nicolaus Cusanus. Giordano Bruno. Fichte. Espinosa é escancaradamente necessitarista. quer encontrar uma maneira de salvar a contingência e de repô-la dentro do sistema. Schelling. em ambigüidades. Karl Marx. é por isso que o stalinismo. Bertrand Russell. Hans Jonas defende uma Explicação do Mundo com contingência e liberdade. Apel. Wandschneider e Hösle tendem para o necessitarismo. que está sendo proposta pelos biólogos Stephen Jay Gould e Richard Dawkins.

Mas é depois de Espinosa. Schelling e Hegel que as críticas ficam mais veementes. ao mesmo tempo. mas não é idêntica a ela. Na Idade Média. que a Dialética não era o método da Filosofia. criticando Platão. retomando a grande questão já levantada por Aristóteles. Como então fazer . Como dizer que ambos são verdadeiros? Ou que ambos são falsos? A velha regra lógica diz: Se um dos contraditórios é verdadeiro. pergunta duramente: A Dialética nega o Princípio de Não-Contradição? Como dizer e. Como conciliar o jogo dos opostos com o Princípio de NãoContradição? Como usar a contradição como instrumento de construção e não de destruição? Isto é possível? Como jogar com tese e antítese sem fazer bobagem? Voltar 1 O QUADRADO LÓGICO 1. Ela está ligada à primeira. desdizer-se? Tese é o Dito. Antítese é o Contradito.tarefa consiste exatamente nisso: como botar a contingência de volta para dentro do sistema de Explicação do Mundo? Esta é uma das duas questões centrais deste trabalho. Trendelenburg.1 A Grande Confusão Dialéticos e Analíticos falam uns com os outros. o outro é falso. à encruzilhada entre duas vertentes dentro do pensamento neoplatônico. mas não se entendem. Não se entendem mesmo. Lembremos que essa era também a tarefa que o jovem Hegel se pusera: como conciliar o Eu livre de Kant com a substância necessária de Espinosa? Esta questão se refere. Se um deles é verdadeiro. Uma espécie de aeróbica intelectual. A segunda questão se refere à encruzilhada entre platonismo e aristotelismo. e vice-versa. Aristóteles dizia. e sim tãosomente um exercício intelectual para aguçar a mente. o outro é falso. diríamos hoje. Alberto Magno e Tomás de Aquino adotam posições igualmente negativas face à Dialética. como se vê.

Robert Heiss. ao formalizar as Lógicas Paraconsistentes. Um brasileiro e um chinês. em minha opinião. batendo na mesma tecla. ou então é uma questão de línguas diferentes. Há centenas de trabalhos que procuram desatar o nó górdio que os gregos nos deram de herança. O que significa que toda a Dialética é uma grande bobagem. não conseguem se entender. apesar da boa vontade. Não é que não se esteja trabalhando. de jeito nenhum. Face a essas objeções. aumentando a confusão em outros pontos. mas. Kullenkampf. Também aqui foi-se em frente. . escreve em 1976 que ninguém sabe direito o que é Dialética. não foi menos duro: Quem afirma como verdadeiro tanto P como Não-P está fazendo bobagem. É isso que é preciso esclarecer com a pergunta O que é Dialética? 1. Kesselring e D. Muito pelo contrário. Mas então o que é que está havendo aí? Está havendo uma enorme confusão. Dieter Henrich. esclarecendo alguns pontos. A. deu um grande passo na direção certa e nos ensinou que existem múltiplas formas de negação. Newton C. na tentativa de salvar a Dialética. T. uma confusão que dura há séculos. o que é Dialética? Nega-se na Dialética o Princípio de Não-Contradição? Abrem-se as portas para que toda e qualquer bobagem possa ser afirmada? Não. negar a racionalidade do discurso. que não se escreva sobre o tema. Afinal. Dieter Wandschneider repete o mesmo em 1995.Dialética? Karl Popper. um dos principais pesquisadores da Dialética hoje.2 Duas línguas com sintaxes diferentes Quando as pessoas falam e. é que estão falando línguas diferentes. os Dialéticos do século XX ficaram quase sem fala de tão perplexos. em nosso século. da Costa. Continua Popper: A partir desse pressuposto qualquer bobagem pode ser deduzida. Falar sem se entender ou é um problema de má-fé total. Wandschneider tentam reconstruir a Dialética a partir da estrutura das antinomias lógicas e semânticas. Não se pode.

o predicado é justo é atribuído ao sujeito Sócrates. A proposição Depois de um tempo. compreensível porque o sujeito foi mencionado na frase anterior. A linguagem usada pelos Analíticos se compõe. Os chineses provavelmente usam uma expressão semelhante quando não entendem o que o outro diz. não entendemos nada. sentaram faz sentido e é. dizem hoje os matemáticos. Sócrates é o sujeito lógico. Para que uma tal proposição faça sentido. Pois sem o sujeito não se sabe de que se está falando. é preciso que o ouvinte. pense o sujeito lógico que está sendo subentendido. Sócrates o quê?. Há proposições em que o sujeito está oculto. quando não entendemos nada. Sócrates. Sujeito lógico tem que existir. A proposição está sintaticamente bem formada quando contém sujeito e predicado: Sócrates é justo. dizemos Isso é chinês. diz alguém. Nem por isso. se há vontade de comunicação e se há boa-fé. Dialéticos e Analíticos não se entendem porque falam línguas diferentes. são ambos indispensáveis para que a proposição faça sentido. sozinho. não diz nada. Geralmente o sujeito lógico foi expresso um pouco antes. para que a proposição faça sentido. de imediato perguntamos: De quem você está falando? Sujeito e predicado. perguntamos. – Sem dizer o predicado não se diz nada. . como já Aristóteles ensinava. não se entendem enquanto não descobrirem uma língua comum a ambos. Há que encontrar um intérprete ou então uma língua que ambas as partes compreendam. como no exemplo: Pedro e Ana estavam passeando. Se alguém diz o predicado lógico é justo. Só o sujeito lógico Sócrates. Nessa proposição. É isso que ocorre nos casos em que o sujeito lógico não está expresso.embora tenham ambos boa vontade. de imediato. é de abandonar o diálogo. brasileiros. de proposições bem formadas. respectivamente o leitor. Depois de um tempo. argumento e função. Para nós brasileiros. é justo é o predicado. o que o chinês está dizendo é realmente chinês. um sujeito lógico. sentaram. Nós. Além do predicado lógico tem que haver. isto é.

a proposição está sem sujeito. Os Dialéticos utilizam uma língua com sintaxe própria. Nas linguagens corpóreas quase nunca há sujeito expresso. Proposição sem sujeito? Mas isso. não pode existir. es regnet. – Há algumas poucas expressões que hoje. chamamos de proposições sem sujeito. Nada. mostram que existem na linguagem articulada proposições aparentemente sem sujeito. E aí. a gente não encontra o sujeito. Quem é que chove? Quem neva? Em língua portuguesa. indeterminado. em português. ou para o alemão. As idéias de Platão ou os Begriffe de Hegel não se compõem de sujeito e predicado. segundo a Lógica de Aristóteles. Mas os exemplos mencionados mostram que nem sempre o sujeito está aí visível. Existe? O exemplo que os gramáticos dão para esse tipo de proposição é chove e neva. embora raras. Sintaxe diferente. é um grande e impessoal Ele. que não é a sintaxe de nossa linguagem articulada usual. o sujeito é sempre algo masculino ou neutro. Isso posto. na terceira pessoa do singular. é exatamente isso que ocorre com a Dialética.senão a proposição não faz sentido. são o quê? São . o Repouso e o Movimento em Platão. A Mesmice e Alteridade. realmente não há sujeito visível. há que se fazer o registro do fato: Há linguagens que possuem uma sintaxe diferente. it rains. Ser. Devir em Hegel. É isso que chamamos de linguagem articulada. dizendo a mesma coisa de maneira mais dura. às vezes não há sujeito. nessas expressões existe um sujeito. Mas. ou para o francês. fazer o quê? Estamos perdidos? Em nossa linguagem usual. Ou. se passarmos para o inglês. terceira pessoa. Quando passamos para a linguagem corpórea (body language). ela não está completa. Quem é este Ele? A Natureza? Provavelmente. E agora. Mesmo olhando bem. o que era exceção na linguagem articulada passa a ser regra geral. il pleut. um distinto e separado do outro. a proposição sempre tem que ter sujeito e predicado. Bem. Essas exceções. como entender-se? É preciso traduzir de uma linguagem para a outra. não obstante indeterminado.

predicados, sim. Mas de quem ou de que Platão e Hegel estão falando? As idéias às vezes se opõem, outras vezes se atraem, elas se conciliam. Mas, afinal, de quem ou de que Platão está falando? De quem é que Hegel afirma que ele é Ser, Nada e Devir? Hegel, na Lógica da Enciclopédia, nos dá uma pista. Ser, Nada, Devir, etc., ou seja, as categorias da Lógica, são sempre predicados. Mas predicados de quem? De quem se está falando? Hegel responde: Se alguém tiver dificuldade em pensar sem que o sujeito e o predicado da predicação estejam expressos, pense como sujeito das predicações O Absoluto. É isto, é exatamente isto que Hegel nos recomenda. Ele se deu conta de que para a maioria de nós ficou difícil pensar sem um sujeito lógico expresso e por isso nos dá uma receita prática de como proceder para entender a linguagem da Dialética. Ele nos manda pensar o Absoluto como sujeito lógico de tudo que está sendo dito. Ser, Nada, Devir, Estar-Aí, o Mesmo, o Outro, etc. são determinações categoriais que estão sendo predicadas do Absoluto. Para completar as proposições, que na Dialética de Hegel estão sem sujeito lógico, é preciso pensar, dizer e escrever: Tese: O Absoluto Antítese: O Absoluto Síntese: O Absoluto é Devir é é Ser Nada

E assim por diante com todas as categorias da Lógica e com as figurações na Filosofia Real. Mas de que Hegel está falando? Que Absoluto é este? O Absoluto é Deus antes de criar o mundo, responde Hegel. Mas pôr Deus aí, bem no começo do sistema, não é fazer um pressuposto indevido? Deus não sai aí que nem um tiro de uma pistola? De repente demais, de imediato demais? Que nem um tiro de uma pistola, essas palavras são de Hegel. Ele sabe muito bem que não se pode pôr Deus no começo do sistema, assim sem mais, sem cuidados críticos, sem preparação, sem

demonstração. Mas por que o faz? Porque aqui, bem no começo, não se trata de Deus mesmo; este só aparecerá no fim da Lógica, como a última categoria, a Idéia Absoluta, e no fim do sistema, como o Saber Absoluto. Mas que Deus é este, que já no começo aparece como sujeito lógico de todas as predicações? Este Absoluto inicial é explicado cuidadosamente, passo por passo, no capítulo sem número que abre a Ciência da Lógica e que tem o sugestivo título Como fazer o começo?. O começo de uma Filosofia que se quer crítica não pode conter pressuposições indevidas. Pensamento crítico tem que exibir e justificar todos os seus pressupostos. É por isso que Descartes começa duvidando de tudo, colocando em dúvida toda e qualquer proposição ou princípio. Mas o ato de pôr tudo em dúvida, o ato de duvidar, bem, este é indubitável. Quanto mais a gente duvida, mais forte e consciente fica o ato de duvidar. Este é o começo crítico que não pode ser negado por ninguém, este, diz Descartes, é o primeiro princípio a partir do qual toda a Filosofia receberá sua justificação metódica. Descartes começa sua Filosofia a partir da dúvida universal, dúvida esta que não consegue duvidar de si mesma e que nos obriga a dizer: estamos duvidando, estamos pensando, logo existimos. Este é o Cogito, ergo sum de Descartes. Kant, que também é um filósofo crítico, parte de alguns poucos juízos sintéticos a priori que são verdadeiros. Esse é o começo de que ninguém pode duvidar. A partir daí Kant pergunta pelas condições necessárias de tal pressuposto. O mapeamento dessas condições necessárias a priori é o que Kant chama de transcendental; aí se funda a certeza. Esta é a estrutura das três Críticas de Kant. Hegel sabe, portanto, através da tradição, que em Filosofia crítica não se pode pressupor nada sem a devida justificação. E ele não pressupõe nada de determinado; não pressupõe nenhuma proposição ou princípio determinado. Ele, ao começar o sistema, não pressupõe nada. Mas, ao não pressupor nada de determinado,

ele está pressupondo de maneira indeterminada todas as coisas; está pressupondo tudo de forma indeterminada. Esse Tudo, esse Todas as coisas, colocado como o grande pressuposto indeterminado, é o sujeito lógico da predicação dialética. Ao invés de Absoluto podemos dizer Tudo é Ser, Tudo é Nada, Tudo é Devir. Ou então: Todas as coisas são Ser, Todas as coisas são Nada, Todas as coisas são Devir. O Absoluto, Deus, Tudo, Todas as coisas são os termos que usamos para significar aquele Grande Indeterminado, aquele balaio no qual colocamos todas as coisas, todas as palavras, todas as proposições, tudo que é determinado. O começo se faz traçando na mente uma grande linha divisória e pondo, à esquerda dela, todas as coisas determinadas. À direita da linha divisória, no começo, não há nada. O espaço está vazio. É ali que vamos, durante a construção do Sistema de Filosofia, repor todas as coisas que foram colocadas à esquerda. Fazer Filosofia é repor, à direita, o que foi pressuposto, à esquerda. Só que, ao fazer essa reposição do que foi pressuposto, devemos examinar peça por peça desse quebra-cabeça e prestar contas por que estamos colocando nesse lugar e não em outro. Repor, sim, na devida ordem. Qual é a ordem devida? A ordem que está ínsita em cada peça que pegamos para repor à direita, a ordem das próprias coisas, a ordem exigida pelo Princípio da Coerência. Se não obedecermos a esta Ordem de Coerência, acontece o quê? Aí, como um oposto não é compatível com o outro, um elimina o outro. As peças têm que se encaixar, ou seja, tem que ser coerentes com seu meio ambiente imediato e mediato, em última análise, com o quadro total. Assim surge, à direita da linha imaginária, o Grande Mosaico do Sentido do Mundo. Qual é, afinal, o sujeito lógico da predicação dialética, o sujeito subentendido, mas nunca expresso? É sempre o Absoluto, Deus, Tudo, Todas as Coisas, aquela Totalidade que é pressuposta como real à esquerda para que se possa repô-la como sistema filosófico à direita.

Mas como isso tudo está só subentendido ou escrito em letrinha miúda num adendo, os Dialéticos falam e falam, mas nunca dizem explicitamente de que estão falando. E aí os Analíticos não entendem mais nada. Uma linguagem usa o sujeito sempre oculto, a outra exige que o sujeito seja expresso. Daí a Grande Confusão. Essa confusão fica bem específica e engrossa mais ainda quando se trata de Contrários e de Contraditórios. Contrários e Contraditórios são coisas bem diferentes e obedecem a regras diferentes. Aristóteles e os Analíticos sabem bem disso. Mas os Dialéticos, que não têm sujeito expresso na predicação, fazem uma grande confusão. Falam de contradição, mas estão querendo dizer contrariedade. Falam de contraditórios, mas querem dizer contrários. Os Dialéticos estão dizendo bobagem? Sim e não. Os antigos, como Platão, não estavam fazendo bobagem, pois foi só com Aristóteles que se começou a distinguir entre contraditórios e contrários. Mas os dialéticos posteriores deviam ter percebido que estavam usando os termos em sentido diverso daquele que foi definido por Aristóteles. Os Dialéticos deviam ter percebido que estavam – e continuam – usando os mesmos termos que os Analíticos, mas com sentido diferente. Daí a confusão. É por isso que temos que nos debruçar agora sobre o Quadrado Lógico, explicando com exatidão o que é o jogo dialético de opostos e indicar, com o dedo, o exato lugar em que ele se faz. Quem não fizer isso está condenado a dizer bobagem. 1.3 Os Quatro Cantos As Leis de Inferência, descobertas e formuladas por Aristóteles, foram visualizadas no Quadrado Lógico. É aí que se explica a diferença entre Contrários e Contraditórios. É bem aí, porque os Dialéticos não têm a mesma terminologia que os Analíticos, porque eles não entendem direito ou não levam a sério as diferenciações feitas por Aristóteles, que começa a Grande Confusão entre Dialéticos e Analíticos.

I e O. se ela é positiva e tem o quantificador particular. cada um designado por uma letra. Uma proposição é do tipo E (E de nego. Na proposição Todos os homens são mortais. E. segunda vogal de nego. Alguns não é o quantificador particular negativo. Uma proposição é do tipo A (A de Afirmar). Alguns é o quantificador particular afirmativo. Uma proposição é O (O. A. pois ocorre aí uma quantificação do sujeito. se ela é positiva e possui um quantificador universal. Nenhum homem é imortal.O Quadrado Lógico tem quatro cantos. Nenhum e Alguns. E é uma proposição universal negativa. I e O estão embaixo e representam proposições particulares. do verbo negar). e Nenhum é o quantificador universal negativo. A é uma proposição universal afirmativa. o sujeito lógico Os homens está ulteriormente determinado pelo quantificador universal Todos. Uma proposição é do tipo I (I segunda vogal de afirmar). se ela é negativa e tem um quantificador universal. O sujeito lógico está aqui ulteriormente determinado pelos termos Todos. sendo I particular afirmativa e O particular negativa. Todos os homens são mortais. A e E estão em cima e representam proposições universais. Alguns homens são brasileiros. Estas determinações ulteriores do sujeito lógico são chamadas de quantificadores. primeira pessoa do presente do verbo .

Há. passagens logicamente válidas. Façamos um exemplo inverso. Não é uma mesma regra que se pode aplicar sempre. logo. A partir daí.negar). são diferentes. Façamos a construção. se um é falso. A regra sobre os contraditórios diz: Se um dos contraditórios é verdadeiro. E vice-versa. Estas proposições formam. se ela é negativa e possui o quantificador particular. em linguagem mais técnica. A proposição I é particular afirmativa: Alguns homens são mortais. então. tendo já o sujeito e o predicado. então a proposição O correspondente é sempre falsa. E aqui então é preciso distinguir. E assim é. Tomemos . Mas essas leis. Assim. o outro é verdadeiro. com o mesmo sujeito e o mesmo predicado das quatro proposições. é universal e negativa: Nenhum homem é mortal. é falsa a proposição O de que Alguns homens não são mortais. conforme a trilha que se toma no Quadrado Lógico. A oposição entre A e O. os diversos tipos de oposição. Mas cada tipo de oposição tem um nome particular e obedece a regras próprias. num mesmo exemplo. – Em nosso exemplo. são as leis de inferência. Cada uma das quatro letras está em oposição para com todas as outras. é verdadeira a proposição A de que Todos os homens são mortais. as diversas trilhas existentes no Quadrado Lógico. como sabemos. podemos construir as outras três proposições correspondentes aos três outros cantos do Quadrado. Isso é importante. como também a oposição entre I e E. então o outro é falso. de acordo com a regra sobre os contraditórios. com Aristóteles. Alguns homens não são honestos. é chamada de oposição de contraditórios. em certos casos. A proposição E. os quatro cantos do Quadrado Lógico. A proposição O é particular negativa: Alguns homens não são mortais. ou. se a proposição A é verdadeira. Tomemos como exemplo a proposição de tipo A: Todos os homens são mortais. As regras lógicas que permitem – e em alguns casos não permitem – a passagem de um canto para outro são chamadas Leis de Inferência.

A regra de inferência sobre os contrários é diferente da regra sobre os contraditórios. Exemplo: é verdadeiro que Todos os homens são mortais. isto é. e vice-versa. o outro é sempre falso. logo é falso que Nenhum homem é mortal. Mas isso não funciona ao inverso: se a gente sabe que um dos contrários é falso. ela não funciona nas quatro direções. Alguns gaúchos não são brasileiros – há gaúchos argentinos e uruguaios –. se a gente sabe que um dos contrários é verdadeiro e parte daí. não dá para concluir nada sobre o contrário oposto. Da verdade de A infere-se corretamente a falsidade de E. entre proposições universais positivas e proposições universais negativas.uma proposição O que seja verdadeira. A regra aqui não é mais tão simples. Os contraditórios são expressos da seguinte forma: A oposição entre contrários é aquela que existe entre proposições do tipo A e do tipo E. Isto é. São os contrários. Este pode ser falso como pode também ser verdadeiro. A regra é: se um contrário é verdadeiro. A regra é clara e funciona nos quatro sentidos possíveis: da verdade de um contraditório infere-se a falsidade do outro. mas apenas em duas direções. então daí se conclui a falsidade da proposição A: Todos os gaúchos são brasileiros. então pode-se inferir a falsidade do outro contrário. ambas as hipóteses são possíveis. Vale .

é . nunca poderia ocorrer que ambas. Como os Dialéticos não usam o sujeito expresso e assim também não usam o quantificador expresso. apontado com o dedo. Mas. passemos à síntese. Eles falam muitas vezes de contraditórios e da contradição existente entre tese e antítese. em se tratando de contraditórios. é perfeitamente possível que ambas sejam falsas.também o vice-versa. Os contrários são expressos da seguinte forma: Então pode ocorrer que tanto A como E sejam ambas proposições falsas. nada pode ser inferido sobre E. fossem falsas. como prometido. a outra seria falsa. assim sendo. em se tratando de contrários. dizem eles. Tese e antítese são contrários ou contraditórios? Os Dialéticos. tese e antítese. sendo uma verdadeira. com o sujeito e com o quantificador ocultos. Perfeitamente. não sabem dizer e se confundem. Pois. Eis aqui o exato lugar em que Dialéticos e Analíticos se perdem na confusão. da verdade de E pode-se inferir a falsidade de A. como se afirma na Dialética do jogo dos opostos. E. O lugar exato e único. Mas não se pode concluir nada quando se parte da falsidade de A ou de E. A tese é falsa. então tudo bem. Mas se tese e antítese são contrários. É aqui. mas o que realmente querem dizer são os contrários. se tese e antítese fossem contraditórios. Se A é falso. é perfeitamente possível. A falsidade de ambos os opostos. isso é impossível. eles nunca sabem direito se estão falando de contrários ou de contraditórios. a antítese também é falsa. e é somente aqui que se faz Dialética. é exatamente aqui. no sentido técnico do termo. E nesse caso tanto pode ser verdadeiro como também falso.

este: o jogo dos opostos se faz sempre entre contrários que são ambos falsos. mas ambas particulares: Alguns gaúchos são brasileiros e Alguns gaúchos não são brasileiros. Mas isso é apenas contingente. Da verdade de uma das subcontrárias nada pode ser inferido sobre a outra. sem aprofundamento. É aqui. sejam mencionadas. outra negativa. a Dialética vira bobagem. pois existem gaúchos uruguaios e argentinos. A oposição de subcontrários é a que existe entre proposições I e O. A oposição de subalternação é a que existe entre A e I. Mas o vice-versa não funciona. jamais de contraditórios. A regra sobre as subcontrárias diz: Se se sabe que uma das subcontrárias é falsa. Da . A rigor foi dito tudo que é realmente importante para desfazer a confusão existente entre Dialéticos e Analíticos. as duas restantes formas de oposição: a oposição entre subcontrários e a oposição de subalternação. e entre E e O. uma positiva. que se dá o pulo do gato. No exemplo dado. Mas. a proposição O por motivos contingentes também é verdadeira. entre proposições A e E. por um lado. e por isso nada pode ser inferido sobre a verdade ou a falsidade de O. respectivamente. Mas da falsidade de A e de E nada se pode inferir sobre I e O. já que estamos no Quadrado Lógico. então se infere que a outra é verdadeira. exatamente aqui. Se a gente não entende que se trata sempre de contrários. No exemplo dado. não é lógico. é verdadeiro que Alguns gaúchos são brasileiros. por outro. O pode ser tanto verdadeira como também falsa. A regra diz: Da verdade de A e E pode-se inferir a verdade de I e O.

Os conjuntos I e O estão necessariamente contidos em A e E As proposições subalternas obedecem às seguintes regras de inferência: 1. Vê-se de imediato que o Filósofo . Primeiro.4 A construção analítica de Contrários e de Contraditórios Quando se fala a linguagem analítica. pôr a negação.falsidade de I e de O pode-se inferir a falsidade de A e de E. Mas da verdade de I e de O nada se infere sobre A e sobre E. para formular a proposição correspondente O. é fácil distinguir Contrários e Contraditórios. que é negativa e particular: Alguns homens não são mortais. Assim. Mas para formular a proposição contrária. segundo. a partir de Todos os homens são mortais. Nenhum homem é mortal é a proposição E. Isso se baseia no princípio geral de inclusão. é preciso fazer só uma coisa: pôr a negação. forma-se a proposição contraditória. Pois o quantificador fica o mesmo. é preciso fazer duas coisas. Todos os homens são mortais é a proposição A. isto é. alterar o quantificador. Para formar o Contraditório de uma proposição universal afirmativa A.

mas querem dizer Contrários. se ficou particular. o outro é sempre verdadeiro. além disso. Os Dialéticos falam de contradição e querem dizer aquilo que os Analíticos chamam de contrariedade. se ele continua sendo universal em ambas as proposições. não dos Contraditórios. não de contraditórios. trata-se de contrários. aquele que aprendeu e sabe bem o que é Contrário e o que é Contraditório. Fácil e exato. É claro que os Dialéticos não querem dizer contradição. É claro que o jogo dos opostos é o jogo dos Contrários. terminologias diferentes. Os Dialéticos não são idiotas. A Dialética diz que ambos os opostos são falsos. a terminologia dos Dialéticos é aqui diversa da terminologia dos Analíticos. Platão. foi alterado o quantificador. Se se tratasse de pólos contraditórios. E por isso o quantificador também fica oculto. Aliás. por isso. Daí nasce a confusão entre Analíticos e Dialéticos. não se perde. Ou vice-versa. Quando os Dialéticos falam do jogo dos opostos e dizem que tanto tese como também antítese são falsas e que. desdizer-se. Eles não negam o Princípio de Não-Contradição. trata-se sempre de pólos contrários. Eles usam linguagens com estruturas sintáticas diversas e empregam. Cusanus e Hegel não são bobos para dizer e. ninguém pode negá-lo sem abandonar a racionalidade da argumentação. mas sim contrariedade. se estes são Contrários ou são Contraditórios. É só pegar as proposições e verificar se. somos levados à síntese. O sujeito lógico na sintaxe usada pela Dialética está quase sempre oculto. além da negação. Os Dialéticos falam de Contraditórios. então a antítese seria verdadeira. E não é isso que a Dialética diz. É por isso que os Dialéticos nunca estão bem seguros. quando falam de dois pólos opostos. trata-se de contraditórios. tanto a tese como a antítese.Analítico. sendo a tese falsa. Basta observar o Quadrado Lógico e verifica-se . Só que os Dialéticos usualmente não empregam o sujeito expresso. Se o quantificador não foi alterado. ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Sendo um dos opostos falso. Se ele foi alterado.

nos interessa a maneira de construir proposições contrárias. É só antepor a negação. sem o Eu que sente e percebe. para analisar essa questão delicada e muito importante. E a Escrava Trácia vai cair na risada. é na oposição entre contrários. Isso pode ser feito. as proposições . o engendramento do contrário é muito mais complicado e está. Este e somente este é o espaço em que se faz Dialética. sujeito e quantificador explícitos. basta o comando antepor a negação sem mudar o quantificador. Para os Dialéticos. Agora. Para os Analíticos. O Filósofo Analítico tem enorme facilidade em formar proposições opostas. Por isso também nem perguntam como se constrói uma oposição de Contraditórios. como sempre na Dialética dos opostos. Já os Dialéticos têm grande dificuldade em formar o pólo contrário. entre objetividade e subjetividade. A tese inicial diz que A verdade da certeza sensível está no objeto. sobre os Contraditórios nem falam. a oposição entre objeto e sujeito. ou seja. Hegel faz essa demonstração mostrando que sem o sujeito. Quem não percebe isso está perdido e vai cair em buracos. sujeito a mal-entendidos. como se vê. mas fica negativa. tanto contraditórias como também contrárias. é demonstrada como falsa. assim. aqui. Isto é invenção de Aristóteles e assunto de Analíticos. A partir de uma proposição do tipo A qualquer.que o único espaço em que pode ocorrer esse tipo de oposição negativa. a oposição entre tese falsa e antítese também falsa. pois eles não possuem. que é o tema central do primeiro capítulo da Fenomenologia do Espírito. a oposição de contrários. Tomemos como exemplo. para formar a proposição contrária correspondente basta pôr a negação sem alterar o quantificador.5 A construção dialética de Contrários Os Dialéticos trabalham sempre com Contrários. 1. ou seja. na sintaxe que usam. Esta tese inicial. A proposição continua universal. por manipulação lógico-formal.

é claro. Bem. é a totalidade do Universo. Aqui nos interessa um ponto específico: qual é o pólo antitético de objetividade? É a subjetividade. O contrário de objeto é sujeito? O contrário de objetividade é subjetividade? É claro. Trata-se aí. é claro. mas constitui apenas uma pequena parcela dele. mas sim falsa. Objeto e Não-Objeto. Mas não é tão simples assim como fazemos no pensamento intuitivo. o Dialético manuseia as idéias e as palavras. O conceito de Sujeito está contido. Não-Objeto é a mesma coisa que Sujeito? Certamente que não. E verifica que a proposição. como numa explosão. Passam algumas horas e agora não é mais dia. agora é noite. inclui todas as coisas existentes e possíveis desde que não sejam objeto. sim. de uma proposição objetiva. está certo. escrita na pedra. mas não tão claro assim. A gente olha. Peguemos o conceito de objeto e façamos a anteposição da negação. E. sob o conceito de Não-Objeto. Hegel faz aí como que um experimento racional. O conceito de Não- . é claro. não é verdadeira. exatamente por ser apenas objetiva. ao ser escrita. perde muito logo sua verdade. para fora dela.perdem a verdade. Para onde ir? Para a antítese. Não-Objeto. Como um químico em seu laboratório. sim. depois de demonstrar a falsidade da antítese. Na falsidade não se pode morar. observa e escreve na pedra Agora é dia. de Subjetividade. Dessa maneira é comprovada a falsidade da tese e o Dialético é empurrado. Sob o conceito de Não-Objeto são subsumidas entre tantas outras coisas também os conceitos de Sujeito. A verdade da certeza sensível está no sujeito é a antítese correspondente à tese A verdade da certeza sensível está no objeto. O conceito de Não-Objeto somado ao conceito de Objeto abrange a totalidade de coisas existentes e possíveis. chega-se à síntese. daí sai o conceito de Não-Objeto. Essa clareza precisa ser meditada. de Intersubjetividade. ela ficou totalmente objetivada. Mas uma tal proposição objetiva. O conjunto dos dois conceitos assim opostos. tomada só em seu caráter objetivo. a negação total de Objeto.

o contrário de Branco realmente é Preto. outros contrários. não temos a totalidade das coisas existentes e possíveis. eles precisam procurar na linguagem e na História qual seja o pólo semanticamente oposto à tese dada. porque eles têm sujeito e quantificador expressos. Por isso é que a contingência e a História entram na Dialética. Tomemos como conceito tético Branco e perguntemos: Qual o contrário de Branco? Imediatamente se responde: Preto. Um exemplo mais concreto pode facilitar a compreensão desse ponto que considero de grande importância. que foi país de escravocratas e de escravos. aqui. O Branco permite. A antítese na Analítica pode ser formada por manipulação lógicoformal da negação. É aqui. A oposição de contrários. no sistema. Não-Objeto é uma oposição global ao conceito de Objeto. Na Dialética. Como os Dialéticos não os têm.Objeto é muito mais amplo que o conceito de Sujeito. No Brasil. Na Analítica isso pode ser feito. Qual é o ponto-chave? Branco e Preto são pólos opostos de maneira contrária. Essa é a porta metódica através da qual a contingência e a historicidade entram no âmago do próprio método dialético e. no Brasil em que o comércio de escravos negros oriundos da África era usual. que não excluem a existência de um tertium quid. Esse é o mecanismo de engendramento do pólo contrário. surge da linguagem e da História. o contrário não é construído a priori pela mera anteposição da negação. o contrário de Branco é realmente Preto. por sintaxe. ambas concretas e contingentes. No Brasil. . Mas qual é o contrário de Branco em Tokyo ou em Xangai? Não sei. Podem existir outros contrários. além do Preto. mas tão-somente dois pólos opostos. sim. assim. A oposição de contrários em Filosofia Dialética é sempre assim. como Branco e Amarelo. Sujeito é uma forma bem específica de oposição a Objeto. na cultura em que vivemos. Somando o Branco e o Preto. mas penso que deve ser Amarelo. na Dialética não. mas pressupõem e permitem que existam outras configurações de contrariedade.

no engendramento da antítese. Pondo NãoSérvio em oposição a Sérvio. Este é. em vez da negação indeterminada. Qual é o contrário? Se dissermos Não-Sérvios. não uma negação indeterminada. etc.exatamente aqui. A negação que forma os opostos. ou quase nada. Ela fica uma Dialética do Concreto. os uruguaios. daí não sai faísca nenhuma. Platão intuía isso. uma Dialética da História. no qual estamos até nós incluídos. teremos um conjunto enorme e informe de nacionalidades e etnias. Sujeito é o contrário de Objeto. a descoberta ou a formação do conceito antitético não se faz a priori. a meu ver. nós brasileiros. aí não surge Dialética. os argentinos. neles a oposição de contrários não é específica. de imediato saem faíscas. O que temos a ver com os Sérvios? Nada. nada ocorre. não funciona. e sim indeterminada. para Hegel Dialética é sempre Filosofia da História. Esta. o erro maior dos Dialéticos no século XX. e sim através de um conceito que se encontra a posteriori na linguagem e na História e que está articulado em oposição contrária bem específica. que a Dialética adquire seu caráter de contingência e de historicidade. Eles acertaram o passo com o ritmo ternário e construíram poderosos sistemas de Filosofia porque não tentaram fazer da Dialética um método lógico-formal que fosse operado de maneira a priori. O engendramento do pólo oposto. Ou um pólo . E a Dialética entra em movimento e aparece em cena. Peguemos como tese Sérvios. Agostinho e Cusanus sabiam disso. rasa e geral. pusermos como oposto de Sérvio o Bósnio. em Dialética. diz Hegel com toda a razão. Mas se. é a negação determinada. Não-Branco e Não-Objeto são conceitos muito mais amplos. Para ver que a negação indeterminada não funciona. basta pegar um caso atual. pela mera anteposição de negação. Branco é o contrário de Preto. Sérvio e Bósnio estão em oposição de contrários através de negação específica e determinada.

Existe contingência. como cores. que busca e encontra os contrários na linguagem e na História. uma desvantagem. existe verdadeira Historicidade. A soma de dois conceitos contraditórios. ser diferentes. Esta é a grande vantagem. A grande vantagem de uma tal Dialética do Concreto é que ela admite a existência da contingência e da historicidade das coisas e do homem. deuses. Ou então há que se construir uma síntese. por igual. abrange a totalidade de coisas existentes e possíveis no universo. O grande tema de Schelling. . melodias. Este é o espaço do livre-arbítrio e da responsabilidade moral. fruto da negação determinada. isto é. que forma os conceitos opostos de maneira semântica e não de maneira sintática. que é uma Dialética do Concreto. aqui sempre datur tertium. Há alternativas no curso contingente das coisas. ao que parece. Assim a História está aberta.6 A Dialética do Concreto Essa concepção de Dialética. Sérvio e Não-Sérvio). 1. etc. eles são contingentes e possuem essa característica em sua estrutura de oposição. ou vice-versa. Estes conceitos contrários. Sérvio e Bósnio). vêm da linguagem e da História. A soma de dois conceitos contrários não abrange a totalidade das coisas existentes e possíveis. tem uma grande vantagem e. A grande vantagem é que se indica com clareza de onde vêm os conteúdos contingentes e históricos que ocorrem nos sistemas dialéticos: eles vêm da estrutura sintática da Dialética. de Nietzsche e de Heidegger contra o necessitarismo dos sistemas de Espinosa e de Hegel foi incorporado aqui à estrutura do próprio Método Dialético. não são conceitos contraditórios (Ser e Não-Ser.elimina o outro. há situações e coisas que podem ser assim e que podem. Existe contingência. Temos agora uma Dialética do Concreto. as antíteses. Os contrários. sabores. Sérvio e Não-Sérvio. e sim conceitos contrários (Ser e Nada.

com esse método. Esta a minha opinião. é preciso. como elemento periférico. a antítese é O Absoluto é Nada. SchmiedKowarzik e outros. um sistema aberto. diz o filósofo analítico. Da concepção de Dialética acima apresentada e fundamentada segue como conseqüência lógica que o sistema não pode operar exclusiva e preponderantemente de maneira a priori. fica visível a diferença dos perfis. Mas só o núcleo duro do sistema é comum a todos os horizontes e a todos os tempos. que são sempre concretos. segue-se que o Método Dialético não é dedutivo e a priori. é sempre só Projeto de Sistema. As outras perspectivas (Nietzsche). os outros horizontes (Heidegger) são respeitados e entram. É verdade. A Filosofia perde em rigor científico. é possível ver como cada uma dessas Filosofias projeta um perfil específico e facilmente recognoscível. isto é. Para alguns pensadores. Só o núcleo duro possui pretensão de verdade única. duas formas de pensar Analítica e Dialética são línguas com sintaxes diferentes e produzem Filosofias com perfis diferentes. sempre de novo a ser construído. Hösle. A tese é O Absoluto é Ser. O Sistema. A pretensão do Sistema é grandemente diminuída. 1. só aparente. fazer as devidas . contingentes e históricos. Em linguagem analítica a reconstrução seria a seguinte. Como a formação dos contrários não se pode fazer pela mera anteposição da negação. Como ambas estão erradas. não é desvantagem e sim vantagem. isso parece ser uma grande desvantagem. nos Projetos de Sistema. um sistema que permite e exige que outros sistemas coexistam ao lado dele. o abandono da pretensão de uma dedução a priori de todo o Sistema. é claro que existem. Não que não existam princípios gerais. Se pegamos a Lógica de Hegel e a esquematizamos de acordo com os dois métodos. Já agora.A desvantagem é. através do problema metódico. em minha opinião. A desvantagem.7 Analítica e Dialética. como Wandschneider.

é o Nada. o que estava errado foi corrigido. esse sujeito vai sempre se duplicando. Como? Não pela elaboração de uma síntese. e sim pela elaboração das devidas distinções. o Absoluto. Só que os Analíticos. Ele. não há síntese. Na Dialética. como os Dialéticos fazem. daqui para frente. o sujeito fica sempre o mesmo. A tese então fica assim: O Absoluto. A reduplicação do sujeito é o que supera aquilo que os Dialéticos chamam de contradição. ao contrário. Nos passos seguintes do sistema. O perfil de uma tal filosofia é o seguinte: A Analítica corta em dois e separa. pelo desdobramento de aspectos diversos do sujeito lógico da predicação. sempre o mesmo. a Filosofia se perde na fragmentação pós-moderna da razão. Aí. Os sujeitos lógicos se multiplicam e. O que muda são os predicados que determinam ulteriormente o sujeito. se não ficarmos muito atentos. é Ser. vão ter dois sujeitos. em vez de terem um sujeito só. O perfil da Dialética é o seguinte: . A antítese: O Absoluto. Foram feitas as devidas distinções. é o Absoluto. enquanto este desaparece e deixa de ser. sempre oculto e subentendido.distinções. enquanto este se origina e vem a ser. A situação de falsidade de tese e de antítese foi superada pela introdução de dois aspectos no sujeito lógico. em tal caso.

o único lugar em que pode haver Dialética: entre uma proposição tética A e uma proposição antitética E. mas se complementam. na Dialética de Lênin e do stalinismo. mas sempre de Opostos Contrários. jamais de Opostos Contraditórios. ela é mais Sistema. ela ganha em clareza. há espaço para a Dialética. penso eu. O importante. Como nela o sujeito lógico e os diversos aspectos do sujeito são sempre enumerados explicitamente. Isso posto. Isso ocorre às vezes em certos representantes da Filosofia Analítica contemporânea. por exemplo. O Quadrado Lógico. hoje. Voltar 2 A SÍNTESE DOS OPOSTOS 2. Só aí é possível que tanto uma proposição como outra a ela oposta sejam ambas falsas. Isso ocorreu. não se excluem. onde essa diferença fica bem visível. Sob esse aspecto. em se tratando de contrários. sim. A Analítica corre o risco de perder a unidade do sujeito do Sistema e de acabar falando só de abobrinhas. quem confundir isso merece o riso da Escrava Trácia. a Filosofia Dialética é mais Filosofia. se corretamente aplicados. é perceber que ambos os métodos. Sabemos apenas que. apontando com o dedo.1 O espaço em que se faz Dialética No capítulo anterior foi discutida a diferença entre Contraditórios e Contrários. Depois das objeções de Trendelenburg e de Popper. Mostrei. o exato lugar. A Dialética corre o risco de tornar o sujeito lógico único algo de totalitário.Ambos os métodos têm desvantagens específicas. No espaço lógico entre uma proposição A e uma proposição E é . A vantagem específica da Dialética é que ela lida sempre com o Absoluto. com a Totalidade. Dialética é o Jogo de Opostos. – A vantagem específica da Analítica é a clareza. foi minuciosamente discutido. Só aí há espaço para a Dialética. conforme prometido. temos que confessar que ainda não sabemos o que é Dialética.

então ambos estão de acordo e em consenso. dirão os Analíticos. é preciso entrar em diálogo. podem ser ambas falsas. A tese inicial. ao natural. formando uma idéia mais alta. quando alguém diz alguma coisa e emite uma opinião. sim. até aqui. o dito e o contradito. que é uma opinião contrária à tese. foi aceita e endossada por mais um outro e é agora uma tese com base ampla e mais geral. que agora tem que ser mostrado e discutido em seus aspectos positivos. 2. Tudo muito bem. quando o segundo falante não aceita a tese e levanta a antítese. Começou o Diálogo.possível que tanto tese como antítese sejam falsas. concreto e real. mas apesar disso elas dizem e contêm a Verdade. Isso não repugna à Lógica.2 Oposição e conciliação As idéias em Platão e nas Filosofias neoplatônicas têm vida própria. isso é freqüente. sabemos. Nada a opor. Tudo bem. tese e antítese. às vezes se anulam. mas aqui ainda não se trata de Dialética propriamente dita. Para saber o que é a Verdade. como Sócrates fazia e ensinava nas esquinas e na praça pública. Em Direito e em Política . é nelas e só nelas que está a Verdade. Esse começo é válido e importante. As idéias não se compõem de sujeito e predicado. Esta resposta pode ser afirmativa. Mas e daí? Como é que a Dialética anda? Como ela funciona? O que é que a move? Aonde nos leva? O que nos ensina? Bem. e retornamos a nosso tema central. nas ruas e esquinas. voltada quase sempre às objeções dos Analíticos. Tese e antítese. No Diálogo surgem. É só cuidar e ficar observando. No Diálogo. Elas às vezes se opõem. que era de um só. com essas perguntas saímos da postura preponderantemente defensiva. A antítese surge quando o segundo falante discorda da opinião expressa pelo primeiro. muito logo surge a resposta. em sendo contrárias. Aliás. A tese inicial proposta pelo primeiro falante foi endossada pelo segundo falante do Diálogo. às vezes se atraem e se juntam. mas há apenas Tese. Na vida prática.

pegar e pôr em lugar mais alto. mais nobre e. acima da parcialidade de tese e de antítese. ao Deus verdadeiro. Aufheben significa. eles são partes litigantes em busca de uma solução única. Guardei tua comida no refrigerador. utilizando um termo oriundo da Bíblia e da Teologia Cristã. colocar em cima. guardar e pôr em nível mais alto – ocorrem . Quando não há. terceiro. os pedaços daquele todo maior que deve existir e a que se quer chegar. Aufheben significa. Hen kai Pan. A unificação dos pólos opostos em nível mais alto e mais nobre era chamada pelos gregos de Unidade dos Opostos. Die Sitzung wird aufgehoben. Pois a verdade é o Todo. A Política pede e exige que se forme a vontade geral. depois de arrepender-se de seus pecados.isso se chama de parte e de partido. primeiro. acima dos partidos. Dois cidadãos têm pontos de interesse contrários e se desentendem. Er hebt das Taschentuch vom Boden auf und legt es auf den Tisch. o Juiz faz justiça elevando as partes à ordem que está acima dos interesses meramente individuais. A sessão é dissolvida. Ele pega o lenço do chão e põe em cima da mesa. mais rica. um contra o outro. entram em conflito e brigam. Aufheben significa. e se reconcilia com ele. desfazer. Quando comparecem face ao juiz. Assim como o povo judeu. Por exemplo. assim também na Dialética ocorre uma reconciliação entre os pólos que primeiro estão em oposição. a Dialética procura a verdade mais ampla que. que atenda a ambos. mais alta e mais justa. Os três sentidos de Aufheben – superar. mais verdadeira. que é o consenso. dissolver. Aufheben possui um sentido triplo. em Política. a unidade da assembléia se rompe e formam-se nela grupos que se opõem. Por exemplo. segundo. é mais alta. assim. Nicolaus Cusanus. Essa ruptura faz com que surjam os partidos. guardar. Hegel utiliza aqui a palavra Auf-heben. Ich habe dir dein Essen im Kühlschrank aufgehoben. anular. consenso e sim ruptura. chama isso de Conciliação dos Opostos. volta a Javé. Por exemplo.

E é por isso mesmo que o Discípulo vem para o Mestre. Esta relação inicialmente é uma relação de negação e de oposição excludente. O segundo sentido: apesar da dissolução havida. o Discípulo não sabe. A idéia que bem no começo era uma idéia só. existe só nele. são pólos opostos de uma relação. Na síntese. o caráter excludente que existia entre tese e antítese é dissolvido e desaparece. O Mestre explica. antiphílesis e philía. num primeiro momento. houve aí uma ascensão a um nível superior. Mas. Nesse passo inicial há oposição. Uma coisa exclui a outra. a Dialética que se engendra como amor de amizade. o Discípulo está totalmente consciente disso. porque sabe que não sabe. Quem é Mestre não é Discípulo.na formação da síntese. sabe repetir e refazer sozinho o que aprendeu. no início. ele ainda não a ouviu e aprendeu. 2. os pólos não mais se excluem. quem é Discípulo não é Mestre. agora é uma e a mesma idéia que existe e está em dois. e o Mestre sabe disso. Com relação . A relação é assimétrica. E sabe que o Mestre sabe. depois do Mestre dizer e explicar a idéia. No aprendizado o Mestre expõe uma idéia que. no Mestre e no Discípulo.3 Mestre e Discípulo Como em capítulo anterior já foi mencionada a Dialética de phílesis. Mestre e Discípulo. está tanto no Mestre como no Discípulo. A mesma idéia. a qualquer tempo. o Discípulo capta o explicado. num segundo momento começa o aprendizado. O Mestre sabe. os pólos foram conservados e guardados em tudo aquilo que tinham de positivo. que é clássico: a relação dialética entre Mestre e Discípulo. tomemos aqui outro exemplo. O terceiro sentido: na unidade da síntese chega-se a um plano mais alto. sem deixar de ser uma única idéia. Ele vem aprender. o Discípulo a capta e a possui. repete a explicação e. depois. O primeiro sentido: a oposição dos pólos é superada e anulada. negação e exclusão. Após esse encontro inicial entre dois pólos opostos. No discípulo não existe essa idéia.

Um sabe o que o outro sabe. A relação entre Mestre e Discípulo. Ser-Mestre é uma realidade negativa e autodestrutiva. ele também. pois o Mestre possui o saber. Mestre e Discípulo têm a mesma idéia. Participam da mesma idéia. no processo de ensinar e de aprender. sob esse aspecto. Nesse ponto. no fim do processo. mas. No fim do processo há a simetria. A idéia. mas que existe em dois pólos diversos. Quando. consistem em ensinar. continua sendo uma única idéia. pois é o mesmo Saber do Mestre que transformou o Discípulo em Mestre. os três momentos. a assimetria da relação foi superada e anulada. um Mestre. positiva. Temos. A verdade e a essência de Ser-Mestre. Temos. Temos. Mestre e Discípulo aqui se igualaram e se fundiram numa unidade mais alta e mais nobre. a unificação de ambos em um plano mais alto. partilham da mesma idéia. pois o Mestre quer que o Discípulo aprenda e fique. que no começo faltava. do saber que estava só no Mestre e que agora está também no Discípulo. ter Discípulos. significa também querer que o Discípulo deixe de ser discípulo e fique ele também Mestre. diversas. Eles sabem a mesma coisa. Embora sejam duas pessoas. termina o aprendizado. e o Mestre declara de público que o Discípulo deixou de ser Discípulo e que ele agora também é um Mestre.a essa idéia. algo essencialmente positivo e nobre. Mestre e Discípulo ficaram exatamente iguais. Mestre e Discípulo se unificaram. terceiro. que no início era assimétrica. por um lado. partilhada pelos dois. isto não existe mais. segundo. Ser-Mestre é uma realidade. primeiro. isto é. Por outro lado. a guarda e a manutenção de tudo aquilo que era positivo. por outro. Mas ensinar significa. que é uma única. a superação da oposição enquanto esta é excludente. fica simétrica. por um lado. Com isso. Isso é Dialética. no exemplo da Dialética de Mestre e Discípulo. Só é Mestre aquele que ensina. o Mestre deixa de ser . o Mestre ensinou tudo o que podia e o Discípulo aprendeu tudo o que devia. Temos aí.

mas toda a positividade neles contida foi guardada em nível mais alto e mais nobre. As relações inter-humanas são pensadas. Na Dialética. Nem vice-versa. o homem é um nó na grande rede de relações sociais. Platão trata dos cinco gêneros supremos. na maioria das vezes. o homem é como que um nó na rede do pescador: ele existe como entrelaçamento de fios que perpassam e formam a tessitura da rede. Para a Analítica as relações sociais. 2. Trata-se de duas concepções do homem e de sua sociabilidade. O homem é primeiramente substância. O ápice dessa pirâmide da Ordem do Universo é constituído por dois pares de opostos. . Os pólos aqui se excluem. apenas como um acidente superveniente. É para a idéia de Ser que tudo conflui e a partir dela que tudo possui sua unidade. são apenas acidentes que ocorrem entre substâncias. – O Mesmo não é o Outro. em seus nexos de oposição e de atração. Não é a Analítica. Aufheben. e vice-versa. Na Dialética. Cada substância é e existe em si e para si mesma. mas sim a Dialética que capta e compreende adequadamente as relações intersubjetivas. Também aqui os pólos são excludentes. Os gêneros supremos são aqueles que formam o ápice da pirâmide sob a qual as idéias se ordenam. que é a rede de relações sociais.Mestre de Discípulos para ficar um Mestre entre outros Mestres. que paira sobre tudo como a síntese final. Repouso e Movimento. e pela idéia de Ser. agrupam-se em forma piramidal. por acidente ele fica social. O que está em repouso não está em movimento. superar e guardar. o homem individual só é o que é enquanto elemento de um todo maior. A negatividade inicial dos pólos opostos foi superada. Na Dialética. em conseqüência. ao contrário. Todas as idéias.4 O Diálogo O Sofista de Platão No Diálogo O Sofista. o Mesmo e o Outro. Repouso não é Movimento.

e Movimento também é Ser.Mas Repouso – Movimento e Mesmice – Alteridade são predicáveis uns dos outros. A questão única foi exposta antes. 2. ele é o Mesmo. Tanto um como o outro participam da idéia de Ser. Ser é o Gênero Supremo. Daí deriva e emana todo o resto. como Movimento também é Ser. também se chama de Uno e de O Bem. No Ser a oposição deixa de ser excludente. Mesmice e Alteridade. que é o Ser. deste Ser que está no começo. da unidade do Ser tudo emana. Podemos dizer que o Repouso é o Mesmo. emana da Unidade do Ser. não existiriam. Em outros escritos Platão diz que esse Gênero Supremo. não seriam nada. inicialmente pólos excludentes. plica por plica. A Multiplicidade das coisas. Se eles não fossem Ser. Tanto Repouso é Ser. é o Outro que não o Repouso. nem que o Mesmo é o Outro. Ambos são Ser. no Ser tanto Repouso como Movimento estão unificados. O Mesmo é Ser. Para o Ser tudo conflui. Mas Repouso é Ser. – Repouso e Movimento. O Universo é. um desdobramento. se unificam no Ser do qual participam. dobra por dobra. Ele é ele mesmo. uma explicação. Então o Movimento é o Outro. e os opostos se reunificam em unidade. o Outro também é Ser.5 Hegel – O Ser que é o Nada . em outro lugar: esse processo é totalmente necessitário ou contém alguma contingência e algum acaso? Os neoplatônicos necessitaristas ficam com a primeira alternativa. Podemos também inverter os pólos e dizer: O Movimento é o Mesmo. então. que é a que está sendo exposta e defendida neste trabalho. Então o Repouso é que é o Outro. eu fico com a segunda. Embora pólos opostos e excludentes. Mesmice e Alteridade podem ser predicados uns dos outros. Aí temos o Ser-Uno dos filósofos neoplatônicos e o Bem Supremo da Doutrina NãoEscrita. em Platão. Mas não se pode dizer que Repouso é Movimento.

o Sistema de Filosofia é um processo de reconstrução mental dos desdobramentos havidos no Ser. Dialética. depois de Kierkegaard. O Ser é o Ser que está em Repouso e em Movimento ao mesmo tempo. Hegel é dúbio. indo além de Platão. dentro de si. A única grande questão que fica em aberto é sobre a existência ou não da contingência no âmago do processo. Contingência e Historicidade são. insere explicitamente a Multiplicidade no âmago da Unidade. que Deus joga dados. Mas ele dá um passo adiante quando. mas Dialética com contingência. depois de Nietzsche. sim. Esta é a opinião de todos os pensadores neoplatônicos. já contém o Mesmo e o Outro. e penso que este é o espaço de alternativas por igual possíveis que permite liberdade. embora sob aspectos diferentes. depois de Schelling. elementos indispensáveis a qualquer pensamento que se queira crítico. Voltar 3 OS TRÊS PRINCÍPIOS 3. depois de Gadamer. Proclo. Quem não levar isso em conta cai no buraco do necessitarismo. depois de Heidegger. O Ser em Hegel é pensado expressa e explicitamente como processo. Schelling e Hegel pensam exatamente assim. Penso que há contingência. O Ser. antítese e síntese. como é feita por . O Universo é um processo do Ser em desdobramento.1 A necessária tradução Para os Filósofos Analíticos a exposição tradicional do movimento triádico de tese. O Ser é tanto o Mesmo quanto o Outro.Hegel aprendeu Dialética com Platão e com os filósofos neoplatônicos. Plotino. E a Escrava Trácia cai no riso. Mesmice e Alteridade estão desde sempre contidas dentro do Ser. Há contingência? Há acaso? Deus joga dados? Espinosa diz que não. responsabilidade moral e democracia política. com Plotino e Proclo. Cusanus. Espinosa.

que foram reiteradas na tradição por tantos outros. para a linguagem usada pelos Analíticos. o Princípio da Diferença e o Princípio da Coerência. ao mesmo tempo. no século XX. já foi dada. Isso gera confusão e. É pior ainda. quando os Dialéticos falam de Contraditórios. é algo tão incompreensível como chinês. Trata-se de duas línguas com sintaxes diferentes. Vimos já.Platão. o que a torna de difícil compreensão. Estes . no século passado. passo por passo. querem dizer Contrários. Não se entende nada. por isso. A resposta a essas questões. que a linguagem usada pelos Dialéticos não tem sujeito lógico e quantificador expressos. eles querem dizer aquilo que os Analíticos chamam de Contrariedade. por Trendelenburg. Vimos também que. desdizer-se? Isso não é bobagem? Estas são as perguntas clássicas. É chinês puro. incompreensão. na Idade Média. é aí desrespeitado. Sob este viés recolocamos a questão básica: quais os princípios lógicos que regem o curso do pensamento dialético? Respondemos: os mesmos princípios lógicos que regem também o pensamento analítico. É por isso que Analíticos e Dialéticos não se entendem. e hoje por toda a Filosofia Analítica. o Princípio de Identidade. em capítulo anterior. quando os Dialéticos dizem Contradição. dizem eles. acrescentam. em princípio. Pois tudo indica que o Princípio de NãoContradição. pedra fundamental e primeira na construção do discurso racional. que é também chamado de Princípio de Não-Contradição. Como é que tese e antítese podem ser simultaneamente falsas? Como pode ocorrer que tanto o Dictum como o Contradictum sejam ambos falsos? Isso não é agir contra o Princípio de Não-Contradição? Isso não é dizer e. como por Tomás de Aquino. Cusanus e Hegel e como foi por mim reproduzida no capítulo anterior. A saber. por Karl Popper. formuladas já por Aristóteles no Livro Gama da Metafísica. É por isso que temos que traduzir aquilo que os Dialéticos querem dizer.

identidade simples. do campo que o cerca. Quando se diz ou escreve A. Enquanto a repetição é meramente iterativa. etc. Embora tácito. ainda não podemos fazer uma predicação completa e acabada. ele está sendo sempre pressuposto como verdadeiro. estamos dizendo uma Identidade Simples. Este Princípio é tão fundamental e tão básico. A. Este A destaca-se de seu pano de fundo e de seus arredores. 3. Mas temos o primeiro começo. os mesmos três princípios. Ou se repete uma terceira vez.1 A Identidade Simples não pode ser explicada ulteriormente. que aqui começa o movimento. Mas isso que está sendo dito não é dito até o fim. identidade simples. pois só temos o primeiro A. É só o A que se repete. ou qualquer outra coisa. A. uma quarta vez. regem tanto a Lógica Dialética como também a Lógica Analítica.três princípios. e aponta para algo determinado. identidade simples.2 A Identidade Iterativa ocorre quando o primeiro A se repete. etc. Não temos aí.2 O Princípio de Identidade O Princípio de Identidade diz que A é A. A. que geralmente nem nos damos conta de que o estamos usando. não surge nada de novo. ou seja. sempre o mesmo. A. ficando então A e A. distintos um do outro..2. no entanto. ficando A. Observemos. Mas ela é ainda uma multiplicidade do que é sempre o mesmo. 3. Tanto na linguagem do dia-a-dia como na linguagem científica sempre pressupomos o Princípio de Identidade. enquanto é só o A que se repete.2. Essa identidade iterativa é a primeira e mais básica forma de Multiplicidade. Nem poderíamos ter... aponta para algo determinado e diz algo determinado. . A. Nele estão contidos três subprincípios. 3. Como ainda não temos sujeito e predicado. uma predicação completa e acabada. ainda.

A e Não-A são conceitos contraditórios. quando dizemos que eles são idênticos. então obtemos um conceito contrário. isto é. este NãoA. na grande tautologia inicial. a mãe de todas as predicações ulteriores: A = A. Assim surge a tautologia. ou à série de A.2 Oposição contrária Se pomos em oposição a A.3. etc. Diferença nesse sentido genérico é tudo que não é A. A. pode estar em duas formas de oposição a si mesmo. A soma de ambos os conceitos abarca a totalidade das coisas existentes e possíveis. A.3. começa quando ao A. que o primeiro A é a mesma coisa que o segundo A. então temos uma oposição contraditória. 3. Só aqui é que a Identidade chega a sua maturidade e sua plenitude.3 O Princípio da Diferença A Diferença no sentido estrito..2. se acrescenta algo que não é apenas a repetição de A. Tudo o que existe e que é possível pertence ou ao conjunto A ou ao conjunto Não-A.3A Identidade Reflexa começa quando dizemos que A é igual a A. As diversas Lógicas da Identidade que hoje conhecemos estão todas fundamentadas na Identidade Reflexa.3. O sujeito lógico dessa primeira predicação é o primeiro A. Só agora conseguimos formular a primeira predicação. a Alteridade. O conceito contrário a A . o predicado é o segundo A.1 Oposição contraditória Se pomos em oposição a A pura e simplesmente um Não-A. não um conceito amplíssimo como Não-A.. o Não-A. mas um conceito mais específico e mais determinado. pois só agora temos sujeito e predicado distintos.. em oposição contraditória ou em oposição contrária. Este Algo Diferente. A construção de conceitos contraditórios se faz pela mera anteposição da negação. 3. ou seja. 3.

não-derivável. pelo Princípio da Coerência. B. Um tal contrário é. NãoA.4 O Princípio da Coerência O Princípio da Coerência. um enriquecimento. uma negação determinada. B aí é um conceito contrário. A soma de dois conceitos contrários. Eles se encaixam? Um se ajusta ao outro? Isso é determinado pelo terceiro Princípio. mas não são indeterminados e amplos. como C. também chamado de Princípio de NãoContradição. Isso significa. Identidade simples. um perigo para a racionalidade do discurso. não podem ser construídos à maneira lógicoformal. Em tais casos datur tertium. iteração e identidade reflexa não conseguem explicar o que é B e como este B emerge. em oposição aos conceitos contraditórios. diz que a contradição deve ser evitada. O Princípio não diz que a contradição é impossível. etc. etc. como Não-A. O que é contrário. 3. por outro. etc. Esses conceitos são tirados da linguagem e da História. algo que não pode ser derivado por manipulação lógica a partir de A. a priori. como. D. diz apenas que ela não . algo primeiro. do ponto de vista lógico-formal. Tais conceitos são diferentes de A. criando um espaço em aberto na estrutura lógica da linguagem. Ele é assim. D. algo original. sem causa pré-jacente. não abrange a totalidade das coisas existentes e possíveis. D.não é aquele que se obtém por uma negação indeterminada. Contingência e acaso entram aqui. mas aquele que se obtém por uma negação determinada. C. como A e B. Esses conceitos contrários. não-dedutível. há uma situação que não é apenas de Identidade. Eles apontam para coisas específicas que são exatamente B. está aí e aparece na linguagem e na experiência. Isso significa que um tal contrário é algo contingente. por exemplo. C. de repente. Sempre que a um A se acrescenta algo como um B. mas pode ser diferente. Em tais casos é preciso examinar se A e B podem coexistir. por um lado.

Racional é todo discurso que pretende se livrar de contradições. diz. usa o operador modal tradicional É Impossível para formular o Princípio de Não-Contradição. no livro Gama. Quem nega isso está negando a própria racionalidade do discurso. Aqui não há exceções. se contradições de fato existirem. Mas isso não deveria ocorrer. não um É Impossível. Tais bobagens às vezes acontecem nos discursos que fazemos no dia-a-dia e na ciência. segundo. A contradição é indevida. que deve ser evitada. que é universalmente válido. ela é inconveniente. aliás. Quem afirma e nega o mesmo predicado do mesmo sujeito sob o mesmo aspecto está dizendo bobagem. mais adiante vai nos permitir lançar a fundamentação crítica do primeiro princípio de uma Ética Geral. que. Ele abandona o discurso racional. Nunca. mas um Não Se Deve. primeiro. o castigo vem em seguida. Este é o sentido universal e amplo – esta é a definição – de Racionalidade. cai fora da razão. falando. na Lógica. Aqui. jamais. que contradições devem ser evitadas.1 O sentido geral O Princípio da Contradição a Ser Evitada diz. Aristóteles não tem razão quando. Não é que seja impossível. . Mas às vezes ocorre. Este é o sentido geral. ele é deôntico. a contradição não é logicamente impossível. Isso.4. do Princípio de Não-Contradição. não devia existir. é que não se deve predicar o mesmo predicado do mesmo sujeito sob o mesmo aspecto.deve existir. Um tal vivente. e daí em diante tem que ficar calado que nem uma planta. diz e se desdiz. é uma bobagem. No começo de todas as Lógicas há. esse Princípio normativo diz três coisas: 3. Fora dos sistemas lógico-formais. que. que são livres de contradição. Se alguém ignora a proibição expressa pelo Princípio de Não-Contradição e de fato se contradiz. elas têm que ser trabalhadas e superadas. O operador modal aqui é mais fraco que o tradicional. e sim racionalmente indevida. Aristóteles aí tem completa razão. não está mais a dizer nada.

não é sempre aplicável. o dito e o contradito se opõem de tal maneira que um é verdadeiro. dois subprincípios que estão contidos implicitamente no Princípio de Não-Contradição. deve-se tentar aplicar o primeiro subprincípio. vale a regra de que dois contraditórios não podem ser simultaneamente verdadeiros. Quando uma tal anulação ocorre. mas não sempre. é porque o discurso racional não foi completado.1 Dito e Contradito podem estar em oposição de contraditórios. Se este não resolver. Se um é verdadeiro. bem de acordo com a grande tradição aristotélica. porque a racionalidade do discurso ainda está em construção. A anulação de um pólo através do outro ocorre às vezes. não necessariamente. se no discurso concretamente existente existirem de fato contradições. Esse Subprincípio do Princípio de NãoContradição não possui validade universal.2 A anulação de um dos dois pólos O primeiro Subprincípio do Princípio de Não-Contradição diz que. o outro. então o outro é verdadeiro. De acordo com a tradição. é preciso aplicar ou um ou outro. então a Analítica começa a sua marcha. Em tais casos. nem simultaneamente falsos. a racionalidade do discurso exige que se guarde o pólo verdadeiro.Mas. um pólo anula . como se vê. sempre é falso. 3. o outro é falso. E vice-versa. Em tais casos. Para superar a contradição existente. em muitos casos. Em tais casos. se um é falso.2. então o que fazer? Fazer o quê? Se ainda ocorrem contradições. Nesses casos. jogando fora o pólo falso. 3. Aí radica tudo aquilo que chamamos de Analítica. é preciso aplicar. para se completar a instalação da racionalidade no discurso. pega-se o segundo. o que está em oposição de contraditórios.4.4. Mas quando ocorre a anulação de um dos pólos? Em quais casos? A resposta a isso a tradição nos dá através das regras do Quadrado Lógico.

se uma proposição é verdadeira. assim há também instruções sobre o uso da razão. mas é perfeitamente possível que ambas sejam falsas. sim. em tais casos. Assim como qualquer aparelho eletrodoméstico ou qualquer remédio tem instruções sobre o modo de uso. 3. como nos contraditórios. A primeira regra diz: Na oposição entre contrários.3 Fazer as devidas distinções É o que nos manda este segundo Subprincípio. Por isso é que se diz na tradição: duas proposições contrárias não podem ser simultaneamente verdadeiras. O que fazer se ambas as proposições são falsas? Devemos. E é preciso ir adiante. exatamente aqui.2 Dito e Contradito podem estar em oposição de contrários Em tais casos. ser ambas falsas. Trata-se de uma instrução. Uma das proposições permanece como racional. portanto. se enraíza a Dialética.4. não se deve fazer isso. Aqui um pólo anula e elimina completamente o outro. na elaboração do discurso. há duas regras. Se a primeira proposição.2. A segunda regra diz: Da falsidade de uma proposição não se pode inferir a verdade da proposição contrária correspondente. a segunda proposição tanto pode ser verdadeira como pode ser falsa. a outra implode e tem que ser jogada fora do discurso. uma contradição.2. mas podem.completamente o outro. Trata-se aqui de uma dessas instruções para o uso da razão face a dificuldades bem específicas. então se tenta aplicar o primeiro .4. jogar fora ambas as proposições? Não. É impossível que ambas sejam verdadeiras. Isso pode acontecer. isso às vezes ocorre. é falsa. O segundo Subprincípio do Princípio de NãoContradição nos mostra como. que está contido implicitamente no Princípio de Não-Contradição e que foi sendo formulado explicitamente pelos comentadores gregos e latinos de Aristóteles. E aqui. 3. a outra é sempre falsa. isso não nos leva adiante. Jogar fora ambas as proposições não adianta nada. Se surge.

porém. Se não se consegue isso. tese e antítese: As mesas contingentemente existentes não podem não existir Antítese As mesas contingentemente existentes : podem não existir Tese: Na tese é afirmada a impossibilidade de não existir. na antítese. então um dos pólos da oposição é anulado. Na tese é afirmada a necessidade. como tais. Isso não se pode fazer. que – como o primeiro – não possui vigência universal e não está desde sempre efetivado. Ao fazermos as devidas distinções no sujeito lógico da predicação. um exemplo clássico da Lógica e da Ontologia tradicionais. Todas as mesas que aí existem são. por igual. não podem não existir. em alguns casos de propositio reduplicativa. Se isso é possível. então é preciso fazer as devidas distinções no sujeito lógico. que é indispensável para que a contradição seja superada. Por outro lado. mas sim sob aspectos diferentes. o mesmo atributo não é predicado e não-predicado do mesmo sujeito sob o mesmo aspecto. Isso é o que há que ser demonstrado a seguir. passo por passo. Em tal caso. Assim surgem dito e contradito. a possibilidade de não existir. essas mesas são seres contingentes e. Na Idade Média chama-se isso de propositio explicativa. na antítese.subprincípio. a contingência. se isso não é possível porque ambos os pólos são falsos. por um lado. tanto podem existir como podem. Esse segundo subprincípio do Princípio de Não-Contradição. existentes. Enquanto elas são existentes. Antes. evitamos que o mesmo predicado seja e não seja atribuído ao mesmo sujeito sob o mesmo aspecto. o sujeito lógico da predicação é reduplicado. não existir. é o fundamento da Dialética. porém. mencione-se e desdobre-se. Entre dito e contradito há uma oposição . Através da elaboração de aspectos diversos.

de maneira que os pólos contrários sejam conciliados num nível superior. o que restabelece o bom senso da razão: Sujeito: As mesas existentes contingentemente Sujeito reduplicado enquanto elas de fato existem 1: Predicado: não podem não existir – As mesas contingentemente Sujeito: existentes Sujeito reduplicado enquanto elas são contingentes 2: Predicado: podem não existir Foram feitas as devidas distinções.contrária. são falsas. de agora em diante não se predicam mais do mesmo sujeito e sob o mesmo aspecto tanto a necessidade como também a não-necessidade. e o sujeito lógico que era um só transformou-se num sujeito duplo. E assim são gerados dois aspectos diversos. Através da reduplicação do sujeito lógico foram gerados dois novos aspectos que elaboram a contradição antes existente e a superam. a contingência. isto é. e ambas as proposições. O sujeito lógico da proposição foi reduplicado através de duas propositiones explicativae que lhe foram acrescentadas. A todas as mesas contingentemente existentes cabe tanto necessidade como também contingência. . O que fazer? Fazer as devidas distinções. O sujeito originário foi mantido (As mesas contingentemente existentes). Sendo assim. Através das distinções feitas a contradição que existia entre duas proposições contrárias foi trabalhada discursivamente e assim superada. só que sob aspectos diferentes. ensina a tradição. tomadas simplesmente como elas estão aí. mas através das proposições explicativas ele foi reduplicado.

1 Tese – Tudo é Ser . A Dialética. põe a ênfase na unidade do sujeito lógico. visto no movimento processual de seu engendramento. também. Só que não nos damos conta. não à unidade do sujeito lógico originário. isto é. mas não tematiza o engendramento dos dois novos aspectos que se acrescentam ao sujeito lógico originário. aí. hoje. Ela acentua também. não se dá conta de que o sujeito lógico. é muito usado.Esse modus procedendi é conhecido em toda a tradição e. Mas a Analítica dá ênfase. não tematiza a maneira específica como os pólos contrários coexistem na síntese sem que haja implosão. pois ela pressupõe como sujeito lógico algo que está determinado até o último pormenor. parcialmente com razão. Voltar 4 SER. NADA. ao contrário. neste ponto. a unidade originária e considera o sujeito apenas como um sujeito duplo. hoje é infelizmente desconhecido. como se sabe. A Analítica faz as devidas distinções e pensa. como dois sujeitos lógicos. A Dialética. muitas vezes não está completamente determinado e que necessita. empobreceu mais ainda. A Lógica Analítica. A Analítica negligencia. mas sim à duplicidade dos dois novos aspectos gerados. por via de regra. Com isso perdeu-se. Esse sujeito lógico. Nos últimos cem anos. que na Idade Média era evidente. isto é. sob este aspecto. à dualidade que surgiu na reduplicação do sujeito. a dualidade dos pólos contrários. que assim tudo ficou certo e correto. por seu turno. DEVIR 4. a Analítica e a Dialética se interligam. como a Analítica. assim. o elo que liga a Analítica e a Dialética. na construção do discurso argumentativo. assim. de ulterior determinação através do engendramento de novos aspectos que se lhe acrescentam e que o tornam um conceito mais preciso. a Analítica. que exatamente aqui.

é falsa. relembremos o contexto em que surge a questão: trata-se de tematizar o sujeito lógico da predicação. O objeto de estudo da Filosofia sempre foi o Ser. se existem como tais. Cada um deles diz uma . sem mediação. Possibilidades. é claro. como logo veremos. ou então O Absoluto é ser. Sem essa precaução voltamos ao estágio de confusão em que Analíticos e Dialéticos falam cada um sua língua. Mas é o próprio Hegel que. E essa tese. que é sempre pressuposto sem que se diga de quem ou de que se está falando. Mas as coisas que são meramente possíveis também são um ser. recomenda não pôr o Absoluto no começo do sistema sem que isso seja devidamente mediado. isto é. Afinal. Aristóteles. qual Hegel tem razão. sem explanações e fundamentações convincentes. O que é o Ser? Esta é a questão. é assim em Platão. no Prefácio da Fenomenologia. mas não se entendem mutuamente. para que eles possam compreender de quem e de que nós Dialéticos estamos falando. que para os Dialéticos está sempre oculto. Esta última fórmula é a que Hegel indica e aconselha num adendo ao começo da Lógica da Enciclopédia. assim como está aí. Tudo aquilo que é. Em vez de dizer Tudo é Ser.No começo de tudo está o Ser. Continua sendo assim em Hegel. Para nos entendermos com os Analíticos. é um ser. Plotino e Proclo. na polêmica contra seu amigo Schelling. Todas as coisas que existem são um ser. Era assim em Parmênides e Heráclito. Esta é a primeira tese de todos os grandes sistemas dialéticos. é preciso pôr claros e explícitos o sujeito lógico da predicação e seu respectivo quantificador. o da Fenomenologia ou o da Enciclopédia? Em primeiro lugar. Conclui-se que tudo é ser. O Absoluto não pode aparecer no sistema de repente. Ou utilizando a grande arte das letras maiúsculas: Tudo é Ser. poderíamos dizer também Todas as coisas são ser. como um tiro saído de uma pistola. também são um ser: elas s ã o possíveis. seja ele existente ou meramente possível.

e o outro só entende blá-blá-blá. O conceito ainda é tão amplo e está tão vazio. chamavam-no de bárbaro. Bar-Ba-Ro. Os gregos. De onde tiramos esse sujeito lógico? Como o justificamos? Simples. quando não entendiam a língua do outro. Bárbaro vem de blá-blá-blá e significa exatamente isso. tem que justificar rigorosamente seus pressupostos. Princípio é começo. na cadeia de argumentações. Mas isso tudo que estamos apenas antecipando ainda não se sabe quando se dão os primeiros passos. Para não cair num buraco. e assim por diante. começo na ordem da argumentação. diz Aristóteles. vendo a confusão entre Analíticos e Dialéticos. do mesmo Absoluto. observe-se: o Sujeito lógico e seu respectivo quantificador têm que ser expressos. Trata-se. nesses primeiros passos da Dialética. desde Descartes. Mas o que é o Absoluto? O que é Tudo? O Absoluto. que vai aparecer no fim do Sistema como Deus. Porque os Filósofos continuam caindo em buracos. sem pressupor ao menos duas premissas? Aristóteles já havia formulado essa questão. As argumentações dependem logicamente de argumentações anteriores. que não se vislumbra nele quase nenhum vestígio daquele Absoluto. Princípio diz duas coisas.coisa. temos que pressupor algum começo. temos que fazer começo em algum lugar. A resposta à questão do . O melhor mesmo é não fazer pressuposto nenhum. Esse começo lógico. Por isso é melhor dizer – o que é a mesma coisa – Tudo é Ser. ele o chama de Princípio. assim mesmo. do Absoluto mesmo. No começo ele está indeterminado e é vazio. sim. e estas de outras mais anteriores ainda. O começo de um sistema crítico. cai no riso. Princípio é também regra. ainda não significa Deus. ou Todas as coisas são Ser. no fim ele está determinado e é riquíssimo. Tudo é Ser. Mas como argumentar. se não se pode fazer nenhum pressuposto? Como fazer demonstração. E a Escrava Trácia. O Absoluto é Ser. Como não se pode remontar ao infinito.

Basta olhar com o olho interior e a verdade dele salta à vista. O Estagirita cita como Primeiro Princípio. Este. ao negá-lo. argumentando e dizendo coisas. É por isso que. ao continuar falando e argumentando. principalmente a assim chamada contradição performativa. O argumento central. não tem ninguém aqui. um barulho suspeito e pergunta: Tem alguém aí? Joãozinho. como sabemos. sendo Primeiro Princípio. pressupõe-o de novo. A mãe ouve. O cético radical que nega o Princípio de Não-Contradição. O . É mérito de Robert Heiss. segundo Aristóteles. O próprio ato de fala pelo qual se nega o Princípio de NãoContradição. Evidência vem de ver. como Fênix das cinzas. no fundo. mas. este Princípio é evidente em si mesmo. muito antes de Descartes. é um só. exatamente aquilo que negou antes. núcleo duro da assim chamada Primeira Filosofia. no livro Gama da Metafísica. A Filosofia contemporânea resgatou magnificamente tais formas primeiras de argumentação. Um exemplo simples: Joãozinho está na geladeira pilhando as geléias da família. este cético está pressupondo. A única coisa que o cético radical pode fazer de maneira conseqüente é ficar completamente calado. de Austin e de Karl-Otto Apel terem redescoberto essas formas sutis. na fala que vem depois. Aristóteles. O que foi negado ressurge. Quem nega o Princípio de Não-Contradição fica mudo. responde: Não.primeiro começo lógico. E muito bem. não precisa ser demonstrado. há ilusões. é que esses primeiros começos. fica reduzido ao estado de planta. de longe. não têm e não precisam de justificação. mas muito importantes de argumentar. que são também primeiros Princípios. pois. O silêncio total é a única alternativa para quem nega o princípio básico de toda fala. já sabia disso. E ver pode ser algo muito subjetivo. depois de negá-lo. o Primeiro Princípio que não precisaria de justificação. afobado. o Princípio de Não-Contradição. ele faz sete tentativas de justificar o Princípio de NãoContradição. continua falando.

ele tem que dizer: Não há nenhuma proposição que seja verdadeira. Quem diz e afirma Não há nenhuma proposição que seja verdadeira entra em autocontradição e se refuta. O Princípio de Não-Contradição. então existe pelo menos uma proposição que é verdadeira e então é falso que Não há nenhuma proposição que seja verdadeira. mas continua falando. Mas. tem que ser demonstrada como sendo falsa. O conteúdo expresso na proposição é desmentido pela existência dos caracteres escritos no papel. exceto esta mesma. justificar a falsidade da tese? E. para poder funcionar como tese de um jogo de opostos. repõe por seus atos de fala exatamente aquilo que negou. aqui ainda não estão disponíveis para montar o argumento. Isto é uma contradição performativa. repõe como verdadeira pelo menos a proposição mesma que ele está dizendo. Como fazer isso? Como mostrar a falsidade dessa tese? A falsidade de uma tese não é simplesmente dada. é justificado através de uma tal contradição performativa. que ainda não foi respondida: como justificar o uso desse sujeito lógico Todas as coisas? Aí entram formas mais sutis de argumentação.próprio ato de fala nega aí o conteúdo falado. ao dizer e pôr como verdadeira essa proposição universal negativa. mas muito semelhante de argumentação. sutil mas muito forte. Essa demonstração. Ou seja. O ato de fala apresenta um conteúdo – Não tem ninguém aqui – que é negado pela própria existência da fala. E o que tem isso tudo a ver com a primeira tese do sistema dialético Todas as coisas são ser? É que essa proposição. se esta mesma é verdadeira. Também . Um tipo não igual. Ele. que são sintáticos. Quem o nega. já está no livro Gama da Metafísica. ela não pode ser admitida sem justificação crítica. bem no começo. é a refutação do Ceticismo Radical. Outro exemplo de contradição performativa: numa folha de papel está escrita a frase Não há nada escrito aqui. retomando a questão anterior. em Aristóteles. E aí se põe a pergunta: como. Os mecanismos usuais de argumentação.

especialmente dos hegelianos? Não está aí. não estamos pressupondo nada de determinado. Semântica é a doutrina sobre os sinais. sua falsidade. Como então argumentar? Temos que operar num plano mais profundo. Não pressupomos cadeiras. Coisas são coisas. então vamos começar sem pressupor nada. Um sinal aponta para o quê? Um sinal significa o quê? Qual é o significado de Todas as coisas? Podemos pressupor que sabemos o que sejam coisas. . mesas. é algo totalmente claro que pode e deve ser justificado passo por passo. etc. Mas o que significa Todas? O quantificador universal significa o quê? Não estamos. Ela é semântica. o totalitarismo político do stalinismo? Stalin se diz seguidor de Lênin. absolutamente nada. computadores. Não é com essa Totalidade posta aí no começo que se engendra o totalitarismo intelectual e político dos Dialéticos. na Lógica. A justificação não pode ser sintática. Ao dizer isto assim. desta forma. Mas. ao dizer que não estamos pressupondo nada. que se diz seguidor de Hegel. deuses. aquilo que nos cerca. a Totalidade que aparece nesse primeiro começo. assim. desde o começo. O Totalitarismo em Filosofia Política não está embutido desde o começo. quaisquer coisas.não temos premissas que possamos pressupor como verdadeiras. é claro. a pragmática nos mostra a contradição existente na tese e. no sujeito lógico Todas as coisas. aquilo que existe e é possível no mundo em que vivemos. a pressupor um conceito indevido de totalidade? Heidegger levanta essa objeção contra os grandes Dialéticos da tradição. no plano da semântica e da pragmática. nesses primeiros passos do sistema? Não. que se diz seguidor de Karl Marx. especialmente contra Hegel. num sentido bem amplo e vago. O que significa Todas as coisas? Para o que se aponta quando se diz isso? – Como um sistema que se quer crítico não pode pressupor nada. Tudo bem. implícito e ainda não desenvolvido. A semântica nos justifica o uso de Todas as coisas como sujeito lógico da predicação.

os Pressupostos Determinados e Tudo-Que-Não-É-PressupostoDeterminado. Não-Cadeira é uma negação forte deste algo determinado. Todas as coisas são postas à esquerda. Quem usa um conceito amplo. Eis que ressurge o conceito de Tudo ou de Todas as Coisas. como de fato queremos.estamos a apontar para um espaço vazio onde realmente não há nada de determinado. trata-se de um conceito que se justifica semanticamente. Cadeira é uma coisa determinada. Tudo. Isso é o pressuposto. É como se traçássemos em nossa mente uma linha divisória e puséssemos à esquerda dela todas as coisas existentes e possíveis. mas onde há lugar para pôr qualquer coisa que seja. ao fazer a reposição. Quem não pressupõe nada de determinado está pressupondo tudo de maneira indeterminada. onde todas as coisas determinadas podem ser postas. à direita da linha. A negação forte de algo determinado é sempre um amplo espaço vazio em que cabem todas as outras coisas existentes e possíveis. todas as coisas estão aí contidas. Fica aí. O conceito de Não-Pressuposto é amplíssimo. Todas as coisas que não são cadeira estão contidas no conceito amplo de Não-Cadeira. quem não significa e não pressupõe nada de determinado está apontando para um imenso espaço vazio. Não pressupor nada de determinado significa pressupor tudo de forma indeterminada. Como por um passe de mágica. Cadeira e Não-Cadeira. A tarefa da Filosofia é a de repor à direita da linha imaginária todas as coisas que foram pressupostas e colocadas à esquerda. Se ela quer ser Filosofia Crítica. examinar cada peça com o maior cuidado e verificar como ela se encaixa – Princípio da Coerência – com as peças que lhe são . E isso não é perigoso? Isso não é falta de crítica? Não. Tomemos um exemplo mais simples: Cadeira e Não-Cadeira. Quem nega pressupostos determinados está a pôr a totalidade dos pressupostos indeterminados. um enorme espaço vazio. então é preciso. quem não aponta para algo determinado. Essa tarefa de reposição não é uma mera cópia.

quanto ao sujeito lógico da primeira predicação do sistema. diz que este algo é ser. surge à direita da linha imaginária um grande mosaico que é o Sistema da Filosofia. . A explosão lógica que ocorre com a contradição performativa nos expele para fora. Não se pode morar na falsidade. Tudo é Ser. a do Princípio da Coerência Universal. E assim fica justificado semanticamente o uso do sujeito lógico da proposição tética Tudo ou Todas as Coisas. com o sentido global. Determina-se algo dizendo que este algo é indeterminado. A explosão nos expele para fora da posição tética. negar nossa argumentação estará sempre a fazer uma negação. uma única.2 A Antítese – Tudo é Nada É falsa a tese de que Tudo é Ser. A Totalidade desde o início aqui posta e agora criticamente reposta é algo que se impõe semanticamente.vizinhas e. Quem quiser. Demonstrada a falsidade da tese. formular uma alternativa. Pois ser é um conceito bem amplo e quase vazio. Assim. Quando se diz de algo apenas que este algo é ser. ou seja. Qual a regra da reposição? Uma só. O ser que aparece aí como predicado lógico é a mais simples determinação. 4. e precisamos. peça por peça. A contradição pragmática consiste exatamente nisso: a gente quer determinar algo e. engendrando e pressupondo exatamente uma totalidade como aquela que ele quer negar. então. então estamos determinando este algo como um indeterminado amplo e vazio. que também chamamos de Princípio da Contradição a Ser Evitada. em última instância. para determinar. então. Tudo bem. Mas como se demonstra a falsidade dessa tese? Pela contradição pragmática. Como o Joãozinho quando fala Não estou falando. Eis a contradição performativa. O ato de dizer e a intenção do falante estão em contradição com aquilo que realmente é dito. para ser mais crítico. Todas as coisas são Ser. Para onde? Para a antítese. não podemos continuar nela. é um indeterminado vazio.

Na antítese. puro Nada. a violência da explosão é. no fim de uma refeição. é um Nada da determinação. não é verdade que Tudo é Nada. estamos querendo dizer o contrário daquilo que o garçom oferecia. puro Ser. e sim um contrário. Esta é uma das facetas da tremenda força da negação. Nada é o negativo. da reconstrução do mosaico. foram determinadas apenas como Ser. É igualmente falsa a antítese de que todas as coisas sejam apenas Nada. O Ser é o aparecer. sempre maior que na tese. Nem o quantificador. é um Não-Determinado. não queremos mais nada. Nada é o Deixar-De-Ser. que Todas as coisas são Nada. É falsa a tese de que todas as coisas sejam Ser. Todas as coisas são Nada. são Ser. É neste sentido que dizemos Todas as coisas são Nada. e nós respondemos que não. não estamos ficando niilistas nem pensamos em acabar com a vida e com o universo. nessa determinação inicial em que nos situamos. quando vem a ser. Como dizer que Tudo é Nada. Essa proposição antitética também é falsa. ele é algo indeterminado. é mais do que Nada? Ao menos nosso ato de pensar e de falar é e existe. como se vê. Este Ser é vazio e indeterminado. que não queremos mais nada. o ato de fala. – Como e em que sentido Todas as coisas são Nada? Todas as coisas são Nada. Ser é o Vir-A-Ser. Ser é o positivo. pois todas as coisas por enquanto.Surge assim a proposição antitética Tudo é Nada. Todas as coisas. Querem mais? Não. Ou seja. Logo. ao dizer Nada. Observe-se bem uma coisa: não foi mudado o sujeito lógico da predicação. Muito pelo contrário. A falsidade da antítese é demonstrada pela implosão que nela ocorre. – Quando o garçom pergunta. quando deixam de ser. Tanto na tese como na antítese o sujeito lógico e o quantificador ficam os mesmos. que Todas as coisas são Nada. O Nada não é um contraditório. trata- . ficam Nada. o Nada é o desaparecer. se pelo menos nosso ato de falar e de dizer é um Ser? Se ele. Todas as coisas.

que não . tem que ser trabalhada e superada. formando duas proposições reduplicativas. um conceito sintético. isto é. entretanto. enquanto elas se originam e vêm a ser. face à falsidade de Todas as coisas são Ser e de Todas as coisas são Nada. que não têm sujeito lógico expresso. as devidas distinções no sujeito lógico: Sujeito: Sujeito reduplicado: Predicado: Sujeito: Sujeito reduplicado: Predicado: Todas as coisas. Os Analíticos fazem a superação distinguindo dois aspectos no sujeito lógico. Os Analíticos. um conceito que não aponte só para o puro Ser. enquanto elas fenecem e deixam de ser. 4. são Nada Os Dialéticos. E é por isso que os Analíticos nada podem opor a essa argumentação. para superar a contradição. buscam um novo conceito que seja sintético. se de fato existente. Os Dialéticos. para superar a contradição. que não dispõem de um sujeito lógico – este não está expresso –. O que fazer? Fazer o quê? Os Analíticos diriam: Devemos fazer as devidas distinções. Nada a opor. precisam procurar. a antítese também é falsa. mas dois contrários podem ser simultaneamente falsos. A tese é falsa. Ninguém está dizendo bobagem. Vimos no Quadrado Lógico: dois contraditórios não podem ser simultaneamente falsos. Os Dialéticos dizem: Vamos fazer uma síntese. fariam. Dois contrários podem ser simultaneamente falsos.3 Síntese – Tudo é Devir Tanto para o Analítico como para o Dialético vale a regra de que uma contradição.se de contrários. são Ser Todas as coisas. não de contraditórios.

As Antinomias Lógicas. sem que haja contradição excludente. terneiros com duas cabeças e similares eram colecionados e expostos no assim chamado Gabinete de Curiosidades.1 A Lógica da estrutura antinômica As Antinomias Lógicas. Gigantes. não eram muito mais do que isso para os filósofos. é o conceito que serve para a função de síntese entre Ser e Nada. Devir – o tema central de Heráclito –. No Devir ambos estão conciliados. um escorrendo para dentro do outro. E aí ele encontra o conceito de Devir. um conceito pré-jacente na linguagem e na História. Voltar 5 DIALÉTICA E ANTINOMIAS 5. eram vistas e tratadas pelos filósofos como pequenos monstros existentes em longínquos territórios à margem do mundo da Razão. de início. anões. um determinando o outro. mas que aponte para ambos ao mesmo tempo. Elas morrem e desaparecem. Isso faremos. em Filosofia. Todas as coisas estão em Devir. que é preciso. à esquerda da linha imaginária. e procura aí um conceito que signifique tanto o Ser como também o Nada. Ir e vir. As coisas se engendram e surgem. . que há uma Evolução. aparecer e desaparecer. mais adiante. Daí decorre. O mundo está em movimento. especialmente na Idade Média e na Renascença. nascer e morrer. tudo se movimenta. o universo está em perpétuo Devir. falar da Evolução. Tais mostrengos sempre existiram na Natureza e foram. O Dialético vai ao Grande Balaio das Coisas Pressupostas.aponte só para o puro Nada. Devir é o Ser que se transforma em Nada. no capítulo Natureza e Evolução. objeto de curiosidade. é também o Nada que vem a Ser. conhecidas desde a Antigüidade. de imediato. embora sob aspectos diferentes. Tudo se move.

apresenta uma estrutura lógica que nos faz oscilar. e se esse cretense. antinomia no sentido estrito. a questão é retomada. O Super-Mentiroso. então p é verdadeiro. A estrutura lógica da Antinomia do Cretense. está dizendo a verdade. então o que ele diz é verdade. se ele está mentindo. Mas se isso é verdade. entre verdade e falsidade: se p é verdadeiro. Sendo mentira.Todos conheciam a Antinomia do Cretense Mentiroso: Um cretense diz “Todos os cretenses são mentirosos”. e a falsidade o joga de volta para a verdade. problema maior para a Lógica e para a . Logo. O ouvinte é jogado da verdade para a falsidade e. Aí é verdade que todos os cretenses são mentirosos. Paulus Venetus chega a apresentar um elenco de 14 soluções. a Antinomia do Super-Mentiroso. então também esse cretense está mentindo. Se todos os cretenses mentem e se isso está sendo dito por um cretense. então. Mas se é verdade que todos os cretenses são mentirosos. Quem entra numa estrutura antinômica desse tipo fica prisioneiro dela e não consegue mais sair. Se a questão das antinomias se restringisse à Antinomia do Cretense Mentiroso e a uma que outra antinomia a mais. da falsidade para a verdade. formula-se. então isso é uma mentira. E assim por diante. Logo os cretenses falam a verdade. não é verdadeiro que todos os cretenses sejam mentirosos. é verdade que alguns cretenses dizem a verdade. de volta. No século XX. Mas. Por conseguinte. que à época foram propostas para solucionar o problema. num movimento que não acaba mais. não é verdadeiro. talvez. Petrus Hispanus e Paulus Venetus se ocuparam longamente com ela. não haveria. se p é falso. então p é falso. em sua formulação antiga. num movimento que nunca termina. Na Idade Média. foi muito discutida e estudada desde a Antigüidade. sem outra saída. o que está falando. então não é verdade que os cretenses sejam mentirosos. A verdade o joga para a falsidade. que é logicamente mais dura que a antinomia em sua formulação antiga.

como se vê na natureza. Uma tal classe pertence à classe das que se contêm a si mesmas ou à classe das que não se contêm a si mesmas? Se ela pertence à primeira. tudo bem. da Filosofia em geral. pois o termo substantivo é. em que o fenômeno das antinomias sai da periferia e entra no centro das atenções. se ela pertence à . a grande novidade e o grande problema consistem no seguinte: existem classes que se contêm a si mesmas e existem também classes que não se contêm a si mesmas. trata-se de uma classe que se contém a si mesma. acontece com Frege e com Russell. O problema surge quando se verifica que não se trata de um fenômeno isolado à margem do mundo racional. Essa virada. Por exemplo. algo que está contido nessa classe. então pertence à segunda. mas sim de algo bem central. substantivo é uma classe e é. A novidade. Se eles não ocorrem em grande número. Surge assim. Frege. ao montar a fundamentação da Matemática através da Lógica. Isso existe e nisso não surge nenhum problema. o conceito da classe que contém todas as outras classes. Existem coisas ou objetos. Até aqui. já no século XX. se ficam à margem. podem ser ignorados. no ápice. mas sim classes. no núcleo duro da argumentação de Frege. especialmente desde Porfírio. Essa estrutura piramidal em que os conceitos se ordenam e hierarquizam é algo bem conhecido dos lógicos desde Platão e dos filósofos neoplatônicos. distingue e utiliza vários conceitos básicos. existem também classes que contêm não objetos. assim. e vai marcar profundamente a concepção contemporânea de racionalidade. Mostrengos bizarros e esdrúxulos. sempre existiram. ele próprio. o conceito de classe que contém classes e. ao mesmo tempo. A questão surge quando se constrói – e Frege precisava disso para fazer a fundamentação da Matemática – o conceito da classe das classes que não se contêm a si mesmas.racionalidade da razão. existem classes que contêm objetos. um substantivo. de algo que afeta conceitos fundamentais da Lógica e da Matemática e.

Ela consiste na seguinte proposição: (p): Esta proposição p é falsa. autoreferentes (selbstbezüglich). Mas se ela é falsa. Bochenski e Albert Menne. sem jamais parar. como. assume e defende a proibição dura de fazer a autoflexão. Wittgenstein não faz justiça ao pensamento de seu mestre . M. e. por exemplo. neste lugar. Sim e Não oscilando. então pertence à primeira. Ludwig Wittgenstein. isto é. Em cima da Antinomia da Classe Vazia Russell constrói a assim chamada Antinomia da Verdade. Afinal. Ao acrescentar entre parênteses. que se proibisse a construção de conceitos e proposições que fossem autoflexivos. pois ela está a dizer que é falsa. Esta classe se contém e não se contém a si mesma. um pressupondo o outro. Não se pode dizer e. Se esta proposição é verdadeira. ela é falsa. I. Temos aí toda a Teoria dos Tipos. a falsidade de p implica a verdade de p. Bertrand Russell localizou o problema e chamou a atenção de Frege para ele: a classe das classes que não se contêm a si mesmas é um conceito antinômico. a oscilação entre sim e não leva ao infinito e paralisa o pensamento. ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Para resolver a questão das antinomias foi então proposto. entretanto. no Tractatus. desdizer-se. então é verdadeira. bem no começo. As antinomias têm que ser resolvidas. que a rigor devia ser chamada de Antinomia da Falsidade. E assim ao infinito. Eis a primeira grande antinomia elaborada e estudada com rigor na Filosofia contemporânea. ou seja. um se baseando no outro. Esta proibição geral de utilizar construções autoflexivas encontrou guarida em muitos bons autores. O Princípio de NãoContradição não pode ser negado sob pena do colapso total da racionalidade. Surge assim o movimento de oscilação entre verdade e falsidade.segunda. Não se pode dizer Sim e Não ao mesmo tempo. então ela é o que é. sem que nunca se chegue a bom termo. vice-versa. ela pertence a qual classe? Não há resposta. a verdade de p implica a falsidade de p. Ou seja. um remetendo ao outro.

em um segundo nível se situa a falsidade. de níveis lógicos. ou seja. Num primeiro nível há a verdade. no caso das antinomias que possuem um sujeito logicamente autoflexivo. ela é impossível porque a própria linguagem natural em sua estrutura é auto-referente. A proibição de auto-referência. ela pode perfeitamente ser escrita em português. tomada como um princípio duro e geral. o português é aí auto-referente. A proibição de fazer a auto-referência resolve. Com a finalidade específica de evitar antinomias do tipo da Antinomia do Mentiroso. introduz não aspectos lógicos de um mesmo sujeito lógico estático. por exemplo. sem dúvida. da Antinomia da Classe Vazia e da Antinomia da Verdade. mas mata o paciente junto. pois sem auto-referência de fato não surgem antinomias. o que fazer para evitar as antinomias? Abandonada como impossível a idéia de uma proibição geral de fazer auto-referências. proposta por Bertrand Russell. Se levamos a sério a proibição geral de autoflexão. A gramática da língua portuguesa não precisa ser escrita em latim. Foi feito por Sir Bertrand exatamente aquilo que o venerando Princípio manda: se surge contradição. uma tal proibição radical destrói muitos conceitos que são importantes para a Filosofia. Mas se a autoreferência não pode ser proibida. Russell. que propõe uma teoria bem mais sofisticada e mais correta. o conceito de autoconsciência.Bertrand Russell. mais. Verdade e falsidade coexistem. Salva-se assim a racionalidade. cumpre-se assim o que é determinado pelo Princípio de NãoContradição. como antigamente se fazia. mas um . ele cura a doença. como. mas em níveis diferentes. Só que o remédio é forte demais. sim. a questão das antinomias. a Teoria dos Tipos. é preciso fazer as devidas distinções. sim. é inviável por desqualificar conceitos cientificamente indispensáveis. o primeiro grande avanço na discussão contemporânea das antinomias lógicas é. Bertrand Russell introduz a distinção de tipos.

dos diversos níveis lógicos existentes em cada linguagem. Com a teoria sobre os níveis de linguagem de Tarski fica claro por que. Blau. distingue seis níveis lógicos. sob o mesmo aspecto. onde os termos se referem só a termos no segundo nível.sujeito lógico que se movimenta passando por níveis ou tipos diferentes. U. cada um com determinado . Todos continuam na trilha aberta por Russell e por Tarski. etc. mas sim remetem a coisas existentes no nível zero. típica da estrutura das antinomias. se passamos de um nível de linguagem para outro sem a devida atenção. elaborou a teoria. Muitos lógicos contemporâneos voltaram a debruçar-se sobre o problema das antinomias. num trabalho de 1985. No nível zero existe a mesa que é uma coisa. Penso que Wittgenstein. onde estão as coisas. onde os termos remetem não a coisas. A oscilação entre Sim e Não. Assim o Princípio de Não-Contradição não é negado. ou seja. A solução em princípio é sempre a mesma: o Sim e o Não não são afirmados no mesmo nível. Tarski. há ainda um segundo nível. surgem problemas. entre verdade e falsidade. por todos conhecida. foi feito exatamente aquilo que ele manda fazer: foi feita a devida distinção de aspectos. A explanação de Tarski deu à Teoria dos Tipos de Bertrand Russell um conteúdo lingüístico específico e lhe tirou o caráter de teoria feita somente ad hoc. mas a termos existentes no primeiro nível. onde os termos não são coisas. Muito pelo contrário. somente para resolver a questão das antinomias. A solução é simples e brilhante. não havia captado o núcleo forte da solução proposta por Bertrand Russell. sim. quando escreveu o Tractatus. encontra uma explicação racional porque o Sim e o Não moram em níveis diferentes. em cima dela. a palavra mesa. há um primeiro nível de linguagem. de aspectos diferentes. no primeiro nível. Trata-se de níveis diversos. no segundo nível se diz que mesa é um substantivo. há um terceiro nível. Há um nível zero. captou o ponto importante da Teoria dos Tipos e. E assim por diante.

Nunca se diz Sim e Não ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. A proposição antinômica. A grande vantagem da teoria proposta por Blau é que a proposição antinômica em cada nível possui um único valor de verdade. neutro. Bochensky. Blau e muitos outros participaram do debate. Bertrand Russell. Isto não é Dialética? Dialética não é exatamente isso? Não é na estrutura antinômica que reside o núcleo lógico de toda e qualquer Dialética? A questão da Dialética assim formulada. Tarski. Não há verdade e falsidade no mesmo nível. É natural que filósofos interessados em Dialética se voltassem para esse tema tão discutido entre os lógicos e que apresenta um fenômeno tão intrigante. O valor de verdade Aberto aplica-se a regressos e progressos ad infinitum. A antinomia a que Hegel se . entre o Sim e o Não.valor de verdade. a contextos vagos e àqueles sem sentido. tem os seguintes valores de verdade: verdadeiro. segundo Blau. 5.2 A estrutura antinômica e a Dialética A discussão entre os lógicos sobre a estrutura das antinomias perpassa todo o século XX: Frege. O valor de verdade NãoFalso deixa em aberto se a proposição é verdadeira ou neutra. colocada no horizonte da discussão lógica sobre as antinomias. segundo Blau. Verdade e falsidade são os valores de verdade usualmente empregados. surge bem ao natural. Vêse aqui a sofisticação a que foi levada a teoria inicial que distinguia apenas dois ou três níveis diversos. O valor de verdade Neutro aplica-se. segundo Blau. aberto. falso. Há estruturas lógicas em que verdade e falsidade se implicam mutuamente. de um valor de verdade para outro. O valor de verdade Não-Verdadeiro deixa em aberto se uma proposição é falsa ou neutra. A antinomia. Hegel já havia dito que a antinomia é a maneira privilegiada de apresentar a verdade. rola de um nível para outro. não-verdadeiro e não-falso. há estruturas em que ocorre uma oscilação entre Verdade e Falsidade.

mas inspirada por Robert Heiss – de que a estrutura antinômica constitui o núcleo duro de toda a Dialética. entre os contemporâneos.refere é aquela que é elaborada e exposta por Kant na Dialética Transcendental. passando por uma belíssima releitura da dúvida cartesiana que se autodissolve. orientada por Theodor Adorno. com uma agudez e uma sensibilidade que só iremos reencontrar. é a Antinomia da Classe Vazia. a estrutura da Dialética é descrita e analisada sob perspectivas novas. num livro extremamente estimulante com o título Logik des Widerspruchs. sendo falsas. Antinômicas são as proposições que. Robert Heiss não é lógico. no fundo sempre é uma antinomia. sendo verdadeiras. que levanta a tese – aliás sua Tese de Doutoramento em Frankfurt. e sim filósofo. Arend Kulenkampff. é algo muito bem definido. Robert Heiss descreve e analisa diversas estruturas autoflexivas negativas. Neste texto pouco conhecido. O grande fruto de seu trabalho Heiss publica em 1931. dizem eles. são verdadeiras. em que retoma. Antinomia. até a antinomia dos lógicos modernos em seu sentido estrito. com fôlego e . um filósofo que passou toda a sua vida perguntando o que é Dialética. são falsas. ou é isso. agora. É a esta que se referem os filósofos contemporâneos que pensam encontrar na estrutura antinômica um fio condutor que permite dizer o que é Dialética. de 1970. é a Antinomia da Verdade de Bertrand Russell. ou não é nada. diz Kulenkampff. Dialética. Thomas Kesselring e Dieter Wandschneider pensam que sim. Thomas Kesselring publica o livro Die Produktivität der Antinomien. Este é o tema de Antinomie und Dialektik. em 1984. no século XX. Toda Dialética. Mas é Arend Kulenkampff o primeiro. A Dialética dos autores clássicos é uma antinomia lógica no sentido contemporâneo? Robert Heiss. desde aquilo que hoje chamamos de contradição performativa. por novos vieses. Alguns anos depois. que eu saiba. Quem quiser saber o que é Dialética tem que primeiro saber o que é Antinomia. nos trabalhos de Dieter Henrich.

Mas no principal. a idéia de que a estrutura antinômica é o motor que faz a Dialética andar. Por que. em certos casos – nas antinomias –. em primeiro lugar. Não são só os dialéticos. que os filósofos analíticos não devem exagerar e ficar exaltados na defesa do Princípio de Não-Contradição. Miraram para o lado errado. Kesselring descreve e mapeia as antinomias. A reconstrução. erraram o tiro. pois mesmo os lógicos reconhecem que. em 1995. a partir daí. portanto. a reconstrução de alguns trechos do sistema de Hegel. A Dialética consiste no jogo dos opostos. uma reconstrução da Lógica de Hegel. passa por quatro pares de opostos e aí termina. põe em destaque sua estrutura lógica de negação autoflexiva e tenta fazer. que desafiam o Princípio de Não- . que a tentativa de reconstrução empacava no sexto ou sétimo par de opostos. continua a elaboração da tese central de Kulenkampff e Kesselring. exatamente isto é Dialética. formuladas por um intelectual honesto. partindo do Ser e do Nada. À semelhança do que Kesselring já havia feito. esta consiste na oscilação entre Verdade e Falsidade. Mas em que consiste o jogo dos opostos? Quais opostos? Contraditórios ou contrários? A Dialética desobedece ao Princípio de Não-Contradição? A tese de que as antinomias estão no núcleo da Dialética diz. Isto. em 1994. há uma oscilação entre Verdade e Falsidade. Dieter Wandschneider. e a Dialética em sua grandeza e flexibilidade lhes escapou. Todos sabemos disso. Penso que tanto Kesselring como Wandschneider têm razão em muitas coisas. penso eu. analisa sua estrutura. Tento esclarecer o que quero dizer. no livro Grundzüge einer Theorie der Dialektik.em pormenores. perguntava ele? Por que pára aqui? Por que não dá para ir adiante? Perguntas intelectualmente honestas. em um Colóquio por ele organizado em Aachen. De viva voz ouvi de Wandschneider. A Dialética consiste basicamente na estrutura antinômica. a partir de sua teoria. Wandschneider tenta fazer. que ocorre nas proposições antinômicas.

pois. Wandschneider empaca na reconstrução da Lógica de Hegel depois de alguns passos. nas antinomias ocorre um movimento em que a verdade de uma proposição implica a falsidade dela. alegam eles. Trata-se aí de níveis diferentes de linguagem. penso eu. Esta é a primeira mensagem transmitida. Não é. oscilando sempre entre verdade e falsidade. Os opostos. O movimento típico da Dialética origina-se. os níveis de Tarski – leva à necessidade de descrever com exatidão os níveis em pauta e a passagem de um nível para outro. assim de saída e de modo geral. afirmada com clareza. A segunda mensagem. E é isso que salva a validade universal do Princípio de Não-Contradição. no movimento que há na estrutura antinômica. uma mistura entre os níveis diversos. entre Verdade e Falsidade. Não obstante essa distinção de níveis de linguagem. Mas.Contradição. há em ambos os autores. Kesselring e Wandschneider afirmam que o Princípio de NãoContradição não pode ser negado. O que houve? O que deu errado? O principal erro nas teorias propostas por Kesselring e Wandschneider consiste. e vice-versa. afirmam eles. É na síntese dialética que isso ocorre. contida nas teses de Kesselring e de Wandschneider. Eles . Não se pode afirmar e negar sob o mesmo aspecto. também na Lógica existem estruturas que parecem fugir dele. afirmam ambos os autores. diz que o verdadeiro motor da Dialética consiste na perpétua oscilação entre verdade e falsidade. Qual movimento? A oscilação. precisam ser conciliados. A elaboração desses diferentes níveis de linguagem – os tipos de Russell. Isso é central tanto para Kesselring como para Wandschneider. sendo simultaneamente verdadeiros e falsos. em julgar que a oscilação perpétua entre Verdade e Falsidade é algo de racional. há sempre uma certa superposição de níveis que eles não conseguem definir melhor. sem parar. dizem eles. de se desautorizar a Dialética. Além disso. segundo Kesselring e Wandschneider.

eis que o sujeito. no século XX. Eles namoram o irracional. Kesselring e Wandschneider não perceberam isso. e sim o supra-sumo da irrazão. que dois contrários podem ser simultaneamente falsos. e sim um absurdo lógico. e somente aí. Kesselring e Wandschneider não se deram conta de que contradições podem de fato existir. não entre contraditórios. mas sim pela inserção de um novo predicado que leve em consideração a falsidade tanto de tese como de antítese e concilie ambas em novo conceito. quando existem. não é uma síntese dialética. sem jamais parar. devem ser superadas. que contradições. e a solução foi a mesma de sempre: fazer as devidas distinções. e vice-versa. que são estruturas circulares.cederam à perigosa fascinação que as antinomias parecem exercer e sucumbiram ao irracional. a síntese tem que ser feita. Como o sujeito . Os lógicos. sim. Esse processo ad infinitum não é um bem. Ser jogado da Verdade para a Falsidade. No caso das antinomias. não pela elaboração de novos aspectos no sujeito lógico. é preciso fazer as devidas distinções. Ninguém pode morar racionalmente na oscilação perpétua entre Verdade e Falsidade. Não perceberam que os opostos na Dialética não têm estrutura predicativa e que. então. é resolvida exatamente através da aplicação do antigo princípio aristotélico: sempre que há contradição. Não perceberam que a questão das antinomias lógicas. Isso não faz o menor sentido. uma contradição potenciada. que se faz a Dialética. é claro. por isso. não é algo racionalmente bom. mas não se deram conta de que é exatamente aí. É um absurdo total. O que foi feito? O que houve? Houve uma contradição. precisam fazer a distinção entre níveis de linguagem. não podendo fazer as devidas distinções só no sujeito. e sim um mal. a distinção não pode ser feita só no sujeito lógico. Eles sabem. Não perceberam que o jogo dos opostos se faz entre contrários. É totalmente irracional. se repete no predicado. entre o Sim e o Não. pela ipsoflexão.

Os lógicos do século XX têm razão a esse respeito. É exatamente esta a solução proposta por Russell. o que está certo? O que é racional? Distinguir níveis de linguagem ou misturá-los? Essa imbricação de níveis diferentes de linguagem existentes nas antinomias. por todos os lógicos. pode e deve ser ulteriormente pesquisada para proveito tanto da Lógica como da Dialética. Mas não se pode restringir a Dialética à estrutura das antinomias lógicas. Uma tal situação é racionalmente insustentável e deve ser superada. eles dão ênfase à mistura de níveis. algo de dialético nas antinomias. ao movimento de passagem de um nível para outro. Dialética é algo muito mais amplo e mais abrangente. em minha opinião. embora façam a distinção entre níveis como os outros. entre o Sim e o Não. Os filósofos que namoram a irracionalidade das antinomias e identificam a estrutura da Dialética com a estrutura das antinomias lógicas precisam ser alertados de que a oscilação que ocorre nas antinomias é racionalmente tão perversa quanto o . Mas não é só aí que se faz Dialética. sim. a solução é fazer a distinção entre tipos ou níveis de linguagem. é algo de racional. volto a dizer. Ela tem que ser superada. por Blau.lógico das antinomias está em movimento circular. à sobreposição parcial. Kesselring e Wandschneider também fazem essa distinção. Não se pode morar em tal oscilação. O erro central. e é por isso que Wandschneider empaca tão cedo na reconstrução da Lógica de Hegel. A solução das antinomias é apenas um caso particular de uma solução muito maior: fazer as devidas distinções. por Tarski. Essa superação ocorre realmente quando se faz a devida distinção entre níveis diferentes de linguagem. Existe. penso eu. Afinal. Mas. de Kesselring e de Wandschneider é pensar que a oscilação perpétua entre Verdade e Falsidade. A malha da Dialética não é tão estreita como pensam Kesselring e Wandschneider.

mas isso não a faz . que é sempre um fato intersubjetivo. A antítese. um conhecimento que está sempre inserido na História. em nosso século. como o necessário que se efetiva no processo contingente de evolução. sim. a antítese é construída. mas é assumida da linguagem e da História. verdades eternas – como dois mais dois são quatro –. A Dialética é um conhecimento que vai buscar na História seus conteúdos e é. por trabalhar com opostos que são apenas contrários. exatamente por isso.processus ad infinitum dos autores clássicos. Dialética não é isso. Voltar 1 DIALÉTICA E NATUREZA 1. mas mesmo estes são pensados sempre como a eternidade que se realiza no curso do tempo. por trabalhar com opostos não construídos a priori. mas não se trata aí de uma construção apriorística de conceitos.1 Filosofia como Projeto de Sistema A Dialética. A Dialética é um conhecimento que capta. remetendo as verdades atemporais sempre de volta à História. A Dialética conhece. Cornelius Castoriadis. no jogo dos opostos. Dialética surge exatamente quando se supera isso. está sempre inserida na historicidade contingente da linguagem e do mundo em que vivemos e pensamos. não é construída a priori. Não se trata aí de uma operação conceitual a priori no sentido técnico dos racionalistas e dos kantianos. contém sempre um momento que é a posteriori e contingente. sim. e representa os nexos necessários e atemporais que às vezes – nem sempre – existem entre as coisas. e sim do engendramento lingüístico e social – a posteriori – de algo novo. O importante para nós aqui é ter presente que a Dialética. mostrou muito bem como se processa um tal engendramento de realidades intersubjetivas. onde elas se encarnam. Às vezes.

enquanto contingentes. guardamolo na memória. a Filosofia abandona seu velho nome de amor à sabedoria para elevar-se ao estatuto de Ciência que sabe tudo. e projetar o futuro que está aberto. Hegel erra quando afirma que. O tempo passado.esquecer e descurar das verdades contingentes que se passam no horizonte do tempo. Em Agostinho. mas existem também coisas e nexos contingentes. a Dialética nunca leva a um sistema completo e acabado que abarque todas as coisas. O que podemos. inclusive o futuro contingente. mas não pretensão de plenitude e de acabamento. sim. mais três são nove. A Filosofia continua sendo amor à sabedoria. como já vimos e demonstramos antes. Enéada é o título da obra e do sistema de Plotino. Ele levanta pretensões de verdade e de universalidade. mais três. O sistema divide-se em três partes. o que devemos fazer. É por isso que. desde Plotino e Proclo. Filosofia. em Proclo. Três. mas também o movimento que perpassa e ordena o universo da natureza e do . O presente que nos escorre por entre os dedos é o mesmo presente que permanece e que fica: o eterno momento presente. é possível. Existem nexos necessários e atemporais. Não podemos deduzir. a tríade da Santíssima Trindade é não apenas um movimento processual de Deus para consigo mesmo. sim.2 A estrutura tripartite do Projeto de Sistema Os sistemas de Filosofia propostos por pensadores neoplatônicos apresentam. nunca. algo interno ao Absoluto. sim. A mesma divisão em três partes com suas respectivas subpartes é utilizada. é pensar o passado contingente. que não é mais. nem um nem outro. O futuro está aberto. com requintes. com a Dialética. o Sistema de Filosofia é apenas um Projeto de Sistema. mas só como projeto de sistema aberto. atribuindo-lhe os valores devidos. uma estrutura rigorosamente tripartite. 1. cada uma destas três partes subdivide-se novamente em três. decidindo sobre o presente. Não.

o tema é a criação. Hegel. a tese. de acordo com a grande tradição neoplatônica. Natureza. Na Filosofia do Espírito. que. o Grande Mistério que fundamenta e explica a efetivação da Cidade de Deus no âmago da Cidade dos Homens. se faz homem e se efetiva como pessoa contingente na História. ou. Mistério aqui não significa algo que não podemos conhecer. se sabe como consciência e como espírito. Ela é. é várias coisas. mas. uma Filosofia da Linguagem que analisa e disseca as regras e princípios de todo falar e pensar. de acordo com o sábio de Hipona. Filosofia da Natureza e Filosofia do Espírito. Tudo o que foi feito neste trabalho até agora é parte integrante da Lógica. que examina e levanta as condições de possibilidade de nosso falar e de nosso . a estrutura sistêmica é nitidamente triádica. O Projeto de Sistema aqui proposto tem. primeiro. engendra o universo da Graça em que Deus fica homem e os homens transformam-se em Deus. morando de novo em si e consigo. Todo conhecimento. em que Deus sai de si mesmo. divide o sistema em Lógica. voltando a si mesmo. isto é. Na segunda parte. ao redimir a humanidade. Em Nicolau Cusanus. como Hegel escreve. isto é. O mistério da encarnação. trata-se de Deus antes de criar o mundo. Na terceira parte. se reencontra como o Eterno Momento Presente. o primeiro princípio explicativo de todo o conhecimento.homem. na mesma tradição. ao contrário. se reencontra e. segundo Agostinho. de Deus antes de criar o mundo. A Lógica trata do Absoluto em si mesmo. o Absoluto. A Lógica. Trata-se aí de elaborar a estrutura e o movimento triádico do discurso lógico. é. a antítese. nessa volta a si mesmo. Espírito. que fica Natureza e História e. Na primeira parte do sistema. a natureza e o homem. a síntese. a idéia central é o Homem Deus. é apenas um reflexo ulterior deste Mistério que é a luz que tudo ilumina: o Logos que se faz carne. A Filosofia da Natureza versa sobre o Absoluto que sai de si mesmo e se aliena como algo que é o Outro dele mesmo. assim concebida. três partes: Lógica.

Analítica e Hermenêutica. a estrutura triádica de Tese. A Lógica é. sob o império do Princípio da Coerência. A Lógica é. A Lógica é. entretanto. ou seja. aí. Pôr é apenas repor criticamente. pois ela formula princípios válidos também para o ser de todos os seres. A contingência das coisas e a Historicidade foram.3. pois. Diferença e Coerência) e o imbricamento existente entre Dialética. – Isso posto. uma História das Idéias.3 Dialética e Evolução 1. segundo. que é expressamente pressuposto como início e começo. Quero dar ênfase. ela está sempre falando do Absoluto. em seu sentido contemporâneo. além de ser uma Filosofia da Linguagem.1 Lógica e Natureza – Os Mesmos Princípios A Lógica. Os temas centrais são. mas sim uma reconstrução crítica do universo fáctico de todas as coisas. – A Lógica Formal. pois é da linguagem e da História que ela tira seus conteúdos. a um ponto central: não tento fazer uma dedução a priori das categorias lógicas. os três Primeiros Princípios tanto da Dialética como da Analítica (Identidade. na Lógica enquanto Filosofia da Linguagem. Se isto é verdade. esta trata tanto da Lógica Dialética como também da Lógica Analítica. Antítese e Síntese. Sobre a primeira parte do projeto de sistema.pensar factuais. muito se poderia acrescentar. está inclusa no primeiro sentido acima mencionado. posta a Lógica. ao dizer o que o ser é. os princípios que regem o pensar e o falar são também princípios que ordenam o ser dos seres. penso. é uma Ontologia. uma Teologia. uma doutrina geral sobre o ser. terceiro. o que dizer da Natureza? Qual a Filosofia da Natureza? 1. uma Ontologia. devidamente respeitadas: o Sistema só põe o que foi pressuposto desde o começo. sobre a Lógica. mas o básico já foi exposto nos capítulos anteriores deste trabalho. Os mesmos princípios . quarto.

regem tanto o discurso como também a natureza. A Gramática básica do discurso é também a Gramática que rege o curso das coisas. Se isto é verdade, então os primeiros princípios do discurso, que foram acima analisados e elaborados, têm que coincidir com os princípios que, segundo as Ciências Naturais, regem a evolução das coisas na Natureza. – A demonstração aqui se faz apenas pela inserção do núcleo duro das Ciências Naturais num todo maior. Isto pode ser feito. Há coerência. Existe de fato uma perfeita correlação entre os Primeiros Princípios da Lógica, como ela foi acima exposta, e os Primeiros Princípios da Natureza. Para verificar isso, basta colocar lado a lado, com a necessária tradução de nomenclatura, os princípios da Lógica e os princípios que regem a Natureza. – A correlação mencionada, a rigor, deveria ser mostrada tanto em relação à Biologia como em relação à Física. Como meus conhecimentos de Física lamentavelmente são insuficientes, restrinjo-me à correlação entre Lógica e Biologia. Princípios da Lógica Princípios da Natureza

1. Identidade: 1.1. Identidade simples AIndivíduo 1.2. Identidade iterativaIteração, AAA reprodução 1.3. Identidade reflexa A Espécie =A 2. Diferença: 2.1. Diferença contraditórios 2.2. Diferença contrários 3. Coerência: de

replicação,

A e Não-A (não existente)

deA e B Emergência do novo, mutação por acaso

3.1. Anulação de um dos Morte, seleção natural pólos 3.2. Elaboração das Adaptação devidas distinções

3.3. História da Dialética História da Evolução 1.3.2 A Identidade simples, na Lógica, e o indivíduo, na Natureza No começo está a identidade simples, que se destaca do pano de fundo, ou seja, de seu meio ambiente, como sendo algo determinado. A partir desse primeiro começo desenvolve-se, então, formando processos longos e complexos, tudo aquilo que chamamos de Universo. Esse é o primeiro começo de tudo: a identidade simples. – A história da evolução das coisas foi, desde sempre, o primeiro e mais importante tema do mito e, quando este se depura como razão, da Filosofia. A história da gênese do mundo bem como das coisas nele existentes pertence aos fundamentos de nossa História, isto é, de nossa cultura. Desde os pré-socráticos os filósofos procuram formular, com o Ser, com o Nous, com os Átomos, com as Idéias, com a Substância, etc., os princípios que determinam a gênese e o desenvolvimento de nosso mundo complexo a partir de um primeiro começo que é simples. Ultimamente, nós filósofos – é lamentável – abandonamos quase completamente esse tema, que talvez seja o mais importante de todos, e nos dedicamos quase só à análise das conexões existentes entre palavras. O ciclo das grandes questões sobre a gênese do universo e da vida nós entregamos aos físicos e biólogos, que hoje tecem teorias bem razoáveis sobre a origem e o desenvolvimento do universo. Cosmologia antigamente era uma tarefa de filósofos e uma disciplina da Filosofia, hoje ela só é tratada teoricamente por físicos e biólogos. Isto não deveria ser

assim. Se a Filosofia quer ser fiel a seu nome e a sua tradição, então há que se colocar de novo, tentando respondê-la, a pergunta pelo sentido de nossa vida, a questão sobre o começo e o desenvolvimento do universo. No começo está a identidade simples; o que é idêntico se destaca de seu meio ambiente. Chamemos este algo simples de Determinado, ou, para usar uma terminologia mais atual, Sistema. O meio ambiente no qual o Sistema está e do qual ele se destaca chamamos como tal, ou seja, de Meio Ambiente. Um Sistema, algo determinado, está no começo e se destaca e se distingue de seu Meio Ambiente, que, bem no começo, é apenas o caos. Não dá para dizer mais sobre isso. No começo não há muito que dizer. É claro que já existem, aí, implícitos os princípios do ser, que determinam o desdobramento ulterior da evolução. Eles foram, mais acima, elaborados em sua forma lógica; trata-se agora de mostrá-los enquanto atuam no desenvolvimento da Natureza, enquanto atuam como princípios de organização interna das coisas. 1.3.3 A Identidade iterativa, na Lógica, e a iteração, a replicação e a reprodução, na Natureza A identidade simples, quando se repete, torna-se identidade iterativa. Ao primeiro A se acrescenta um segundo, um terceiro, um quarto A, etc.: A, A, A, A, etc. O segundo A origina-se do primeiro? O segundo A emerge do primeiro a partir do primeiro? Isso afirmavam os neoplatônicos; é isso que entrou na doutrina sobre a trindade de Agostinho e, assim, na grande tradição da Filosofia. Mas não é esta a questão que agora nos ocupa. Aqui nos interessa primeiramente o elemento da iteração, da repetição. É sempre o mesmo que vem de novo e aparece; pelo menos até agora. O universo consiste não mais de um simples A, mas de A, A, A, etc., que se repetem e seguem uns aos outros. – Uma forma específica de iteração é a que se encontra no movimento elíptico,

respectivamente circular, dos planetas e também dos elétrons, que, girando em torno de um ponto central, descrevem sempre a mesma órbita. Assim eles voltam sempre ao mesmo lugar e constituem algo que permanece. Assim surgem, no começo, os átomos e os sistemas solares. Uma outra forma de iteração, que encontramos, por exemplo, em cristais e nos seres vivos, é aquilo que chamamos de simetria. Uma metade é, aí, a iteração por espelhamento da outra metade. Na Biologia, a identidade iterativa aparece de forma bem específica como replicação e reprodução. Estes são hoje os conceitos-chave que descrevem a característica específica dos seres vivos e constituem, assim, a própria definição do que seja vida. Reprodução é o processo no qual um determinado organismo faz e deixa sair de si – re-produz – um outro ser vivo organizado de acordo com o mesmo plano de construção. Replicação é o processo no qual o plano de construção de um determinado organismo, codificado e empacotado no ácido nucléico, faz cópias de si mesmo. Reprodução é a iteração de organismos que são iguais uns aos outros. Replicação é a iteração de planos de construção que são iguais a si mesmos. Há, aí, em toda parte, presente e atuante, o princípio da identidade iterativa. 1.3.4 A identidade reflexa, na Lógica, e a espécie, na Natureza A identidade reflexa diz que o segundo (bem como o terceiro, o quarto, etc.) A é igual ao primeiro A: A = A. Aparece aqui um fenômeno que desde a Antigüidade nos faz cismar. Para poder dizer a identidade de A, é preciso dizê-lo ou escrevê-lo duas vezes; primeiro à esquerda, depois à direita do sinal de igualdade. Somente assim – através da posição explícita dessa primeira diferença – é que podemos dizer plenamente a identidade de A. A diferença, a alteridade, o simplesmente o outro é o que aqui desponta e começa a emergir. Ainda estamos tratando do mesmo, daquilo que é idêntico a si mesmo, mas a diferença emergente

isto é. espírito. Essas leis. ou pensamento e ação livre. de características típicas da espécie. em certos casos. A espécie é aquela identidade na qual dois ou mais seres vivos individuais se igualam. segundo. gravado nos genes de todos os indivíduos que a compõem. A essa identidade reflexa da Lógica corresponde. nos seres vivos. no fundo. até contrafatos. As variações individuais que sempre de novo aparecem no curso da ontogênese se originam do fato de que as instruções gravadas nos genes não são leis duras. a diferença está apenas esboçada. Percebe-se que há aqui um processo em curso. Mas ainda não chegamos lá. assim como o operador modal do Princípio de Não-Contradição. a species. depois. Esta gravação determina aquilo que é comum aos diversos indivíduos. por que a estrutura da espécie está gravada nos genes e as determinações individuais não? Ambas as questões levantam um problema que. são apenas um . a espécie. Essas leis não impedem que surjam pequenas variações e. O plano de construção de uma determinada espécie. voltar a si mesmo.começa a se fazer notar. a isso chamamos. isto é. aquilo que é comum aos muitos indivíduos. não são regras que determinam tudo até o último pormenor. ser autopoiético. como vida. Este movimento circular é elemento característico da estrutura básica de muitas coisas importantes que aparecem mais tarde na evolução. verdadeira). sem com isso perder sua individualidade. ou seja. como tal. no qual o idêntico sai de si para. Assim. Como se distingue o que é característica da espécie e o que é determinação do indivíduo? E. forma no decorrer da ontogênese a estrutura típica da espécie. – Duas perguntas se põem aqui ao natural. mas a particularidade específica. de um ovo de galinha sai sempre e somente galinha. é o mesmo: a lenta e gradual emergência da diferença. Na espécie se expressa não a singularidade (o isto para o qual aponto com o dedo). então. Está gravado nos genes aquilo que lá está gravado (proposição tautológica e.

pois. uma propriedade adquirida pelo indivíduo) entra no plano genético de construção.dever-ser. Se uma tal qualidade primeiramente individual (isto é. igualdade. É claro que o dever-ser aqui não pode ser tomado no sentido estritamente humano de ética e de lei moral. mas apenas uma igualdade tal e tanta que permita que também a diferença entre indivíduos exista. então essa qualidade passa a fazer parte das características da espécie e torna-se. os indivíduos são determinados de modo que possuem relativamente muitas qualidades individuais. até o último pormenor. assim. na Lógica. Isso – este é o grande tema de Lamarck – é inicialmente apenas um fato no curso de uma evolução que decorre de maneira contingente. hereditária por reprodução. ao contrário. mas não determina tão fortemente como as leis da Lógica Formal e da Matemática. 1. No caso de igualdade de cem por cento – nem mesmo gêmeos são assim –.3. a saber. é uma qualidade apenas do indivíduo. sim. isto é. vê-se através da história da evolução. É exatamente esse um dos temas que os biólogos hoje mais pesquisam. Quando e como uma propriedade individual entra no plano genético de construção.5 A diferença de contrários. O Princípio de Identidade diz. não da espécie. a mutação pelo acaso. ainda há uma diferença no espaço temporal entre os indivíduos. uma propriedade adquirida) não entra no plano genético de construção. sobre isso não temos ainda respostas satisfatórias. a qualidade surgida de maneira individual (isto é. Na maioria dos casos. Se uma propriedade primeiramente individual entra ou não no plano genético de construção. mas apenas como uma lei da natureza que determina. Se. que circunstâncias físico-químicas são aí determinantes. então ela continua sendo uma propriedade apenas individual. isto é. na Natureza . no mecanismo de replicação genética. e a emergência do novo. se uma propriedade individual torna-se ou não uma propriedade da espécie.

sem que se pressuponha uma causa eficiente que deva existir antes dele. isto é. tanto na Lógica como também na Natureza. um elemento necessário para a gênese ontológica e para a reconstrução lógica dessa totalidade na qual vivemos concretamente e na qual fazemos o discurso filosófico. surgem também C. tais como . de uma substância à maneira de Espinosa. está para A em oposição não de Contraditórios. etc. F. ela não era previsível. ser e decorrer de maneira diferente. mas sim de Contrários. não corresponde às Ciências Naturais. sem o acaso a Natureza seria apenas a explicação necessária (explicatio) daquilo que foi implicado (implicatum) na semente inicial. bem no começo. E assim como surgiu B. De repente surge aí algo diferente. A. o contrário não). – Temos aí. não era calculável. Sem o acaso. não haveria Dialética. que obviamente é diferente de A. mas o desenvolvimento necessário. daquilo que é por acaso. sem a contingência. que não pode ser deduzido de maneira a priori (o pólo contraditório pode ser construído a priori. A alteridade do outro não se fez anunciar. A. aparece quando surge um B que é diferente do A que se repete na série A. sem que se pressuponha uma razão a ele pré-jacente.O outro. ou na identidade reflexa A = A. na Natureza trata-se daquilo que é contingente. um elemento muito importante. não haveria na Lógica a oposição neoplatônica de contrários e. ou o que é diferente. que contém tão-somente o elemento da regularidade. Fica claro que uma tal teoria necessitarista. Esse B. isto é. O acaso é. O diferente. etc. A. não tem uma razão suficiente que a anteceda. No âmbito da Lógica tratava-se do pólo contrário. B. etc. sem que isso esteja dado ou pré-formado na série anterior A. primeiramente. Sem o acaso a natureza não seria uma história contingente que poderia. a emergência do novo. Ele surge como um caso. Ele é um acaso. sem que se postule antes de toda e qualquer galinha um proto-ovo de galinha. por isso. A. surge como um caso. por igual. o único possível. D.

o contrário é verdadeiro. por exemplo. tornam possíveis a livre-escolha. de alternativas que sejam por igual possíveis. como hoje muitas vezes se supõe. Não caímos. Richard Dawkins e Stephen J. por princípio. na Natureza A conservação do diferente é possibilitada e explicada primeiramente por um princípio simples: permanece mais o que mais permanece.elas hoje descrevem e explicam a gênese e o desenvolvimento do mundo. Tais proposições nem sempre são vazias. a contingência. a anulação de um dos pólos da oposição. nada disso é possível. Com isso formula-se uma das mais importantes leis da natureza: a lei da conservação.6 Coerência. e a seleção natural. Uma Teoria da Evolução. A lei de conservação Permanece . é muito importante também como um pressuposto para a correta construção da Ética e da Política. Estamos aqui conferindo ao acaso a mesma importância que lhe é dada pelos biólogos de hoje. por sua vez. Em alguns casos. Fica claro também que uma teoria necessitarista da Natureza impossibilita. como também na Natureza. de conteúdo e de força explicativa. como hoje a concebemos. 1. que contém como um elemento constitutivo o acaso. Sem contingência. Gould. sem acaso. a livre-escolha entre alternativas que sejam por igual possíveis. porém. na estrutura básica da teoria? Esta virada para o caos não torna tudo caótico demais? Não. no caos total ao pôr o acaso. a decisão livre e a responsabilidade ética. pois permanece mais aquilo que mais permanece.3. ou seja. assim. a contingência e. na Lógica. assim. Ela abre o espaço da contingência e. que. como. com isso ficam impossíveis tanto a liberdade do homem como também a verdadeira historicidade. como aqui. Esta proposição é uma tautologia como A = A. como a que os biólogos hoje defendem e nós aqui estamos apresentando. Proposições tautológicas são sempre verdadeiras e valem não só no âmbito da Lógica.

já é. Só fica parte constitutiva do mundo o que é mais e dura mais que aquelas entidades que surgem e cintilam como faíscas por demais fugazes para logo dissolver-se em nada. Todo o resto. de replicação e de reprodução. tudo que é evanescente. uma lei de seleção. sob a forma de movimentos orbitais. A. mas não vingou. se aplicada às diferenças que surgem. B. que está contida implicitamente no Princípio de Identidade Iterativa. permanece. em última instância. nada permanece por muito tempo. então não permanecem e desaparecem. como disso . Ele existiu e durou por um breve espaço de tempo. Somente entidades estáveis perduram e continuam a existir. a ordem tem mais sucesso que a desordem. um tal ser diferente deixa de ser e desaparece. A assim chamada seleção natural. o que através do movimento iterativo se torna uma mesmice durável. voltando ao caos. Permanece só o que se mantém a si próprio. B. tudo que não se repete. A. sem esse movimento circular. Se B e C. Dito de outra maneira: é a identidade iterativa que.mais o que mais permanece explica muitíssimas coisas. que não se dá duração – através de movimentos circulares. dá consistência a todas as coisas. Sem iteração. etc. mas que não permanece mais. não permanecem mais. tudo que não se reproduz desaparece no curso do desenvolvimento. Ela explica que só o duradouro. A lei de conservação. replicação e reprodução –. voltando à indeterminação e ao caos. Só permanece mais o que mais permanece. etc. ou então aquilo que através da repetição de si mesmo se dá consistência. sem a replicação como ela ocorre no DNA. que é próprio de elétrons e de estrelas. B.. isto é. Ela explica que. sem a reprodução como ela caracteriza os organismos. diz também que há um princípio de seleção que atua desde o começo na gênese e no desenvolvimento do universo. Essa primeira lei da conservação. não o passageiro. Fica tão-somente o que se repete. etc. formulada de maneira tautológica. O diferente que surge. a série A. isto é.

do pólo que é falso. Na Natureza. de forma positiva: se sabemos de uma fonte positiva qualquer – uma razão positiva. Pode ocorrer. não presta para nada e deve ser jogado fora do discurso racional. a verdade de um pólo contrário implica a falsidade do outro. . na Natureza. então segue logicamente que o outro pólo é falso. na Lógica. na Natureza. não sobrevive. isto é. a priori. qual dos dois pólos da oposição é verdadeiro. o que no embate perdeu. ex post – de vencedor. Na Natureza chamamos isso de morte. A isso corresponde. O outro pólo não permanece. À anulação de um dos pólos da oposição corresponde. Para poder concluir sobre a falsidade da antítese. duas coisas podem ocorrer. Neste caso. Um dos dois pólos da oposição. na maioria das vezes não é um nexo lógico. vence. aquele que sobreviveu. que não a simples estrutura da Dialética como esquema formal – que um pólo da oposição é verdadeiro. o outro. a anulação de um dos pólos da oposição. O pólo falso da oposição. muitas vezes não se sabe antecipadamente. Ex post constatamos isso e dizemos então que esse pólo é o vencedor. é preciso que a verdade da tese seja demonstrada a partir de um argumento positivo (por exemplo. pelo outro. na Lógica. na Lógica. quando há um choque entre A e B – entre Sistema e Meio Ambiente –. a morte. como na Lógica. mas um simples fato. não. ele morre. é uma forma mais específica de um princípio lógico simples. O pólo que perdura é então chamado – na maioria das vezes só depois. isto é. só perdura um dos pólos. isto é. exatamente por ser falso. quando surge uma oposição de contrários. Essa demonstração. este morre e desaparece de volta no caos. Na Lógica. através de uma contradição performativa). Também na Natureza um dos dois pólos deve mostrar-se como sendo o verdadeiro ou o correto. que um pólo elimine o outro. primeiro.se depreende. O outro pólo dessa oposição. Esta anulação se efetiva. que é o pólo verdadeiro. na Natureza. Na Natureza.

é o que vimos antes. na Natureza Voltemos à alternativa dura. mas sim do ser. são aspectos reais. dobras. na Lógica. O que acontece. como acontece também na Lógica. então. Se há na Natureza pólos contrários que são ambos falsos. que não são adequados. duas coisas podem ocorrer. sem piedade e sem amor? Não. a uma visão humanista do mundo. são novos cantos. como se verá mais adiante. chega-se. por ser “verdadeiro”.). ou – sendo ambos inadequados – a Natureza gera novos aspectos reais (cantos. mas podem ser simultaneamente falsos. novas facetas que. Primeiro. uma vez elaborados e pronunciados. Os novos aspectos. Na Lógica. que são necessários para superar a contradição realmente existente na Natureza. 1. A alternativa agora é a seguinte. isto é. Ou um pólo anula o outro. Dois pólos contrários não podem ser simultaneamente verdadeiros. e a adaptação. Se na Natureza surge um choque entre dois pólos contrários. para não ficar num beco sem saída. não se trata do falar e do pensar. pode ocorrer que um dos pólos. mas também o enraizamento deste na ordem cósmica. Na Natureza. uma Filosofia aética. é preciso fazer as devidas distinções. segundo. então duas coisas podem ocorrer.7 As devidas distinções. tratava-se de aspectos lógicos que. em sendo reais. na qual aparecerão com clareza não apenas a dignidade do homem. Se esse raciocínio é levado conseqüentemente até o fim. superam realmente a contradição que surgiu na Natureza e que nela existe como algo real. etc. Pode ocorrer.3. elimine o outro.Isso não é uma Filosofia da mera sobrevivência. Esses aspectos reais assim . na Natureza. novas dobras. superavam e resolviam a contradição existente. facetas. quando – isso não é raro – ambos os pólos são “falsos”? Então se aplica a mesma regra que já na Lógica resolvia o problema: se ambos os pólos da oposição são falsos. que ambos os pólos sejam “falsos”.

assim como os movimentos lógicos da Dialética. em minha opinião. A história da evolução dos seres vivos. na Lógica. e ter reunido. A geração de novos aspectos. É por isso que a . Sistema e Meio Ambiente.3. é chamada pelos biólogos de Evolução. são conciliados e unidos através do engendramento de novos aspectos reais. 1. aqui na Natureza atende pelo nome de adaptação. Esse engendramento de novos aspectos reais pode ocorrer tanto no Sistema como no Meio Ambiente. a importância cada vez maior que se dá ao acaso. concebida já pelos filósofos gregos e desenvolvida ulteriormente pelos mestrespensadores da Idade Média e da Modernidade. então. mais complexo e mais rico. pode também ocorrer em ambos. mas também sempre contém. Isso se percebe especialmente quando se comparam as diferentes formas por que passou a teoria da evolução de Darwin até a teoria de sistemas de nossos dias. que na Lógica se chamava de elaboração das devidas distinções. isto é. segue sempre – este é um lado – as regras necessárias que foram discutidas na Lógica. a contradição antes existente. isto é.8 A História da Dialética. Adaptação é a formação de aspectos reais que resolvem a contradição real antes existente e que conciliam ambos os pólos num nível mais alto. e a História da Evolução. material empírico tão abundante e abrangente que podemos hoje discutir o assunto de forma científica. o acaso. que antes estavam em oposição contrária e que eram ambos falsos. à contingência. como lá foi mostrado – e este é o outro lado – a imprescindível contingência.desenvolvidos superam. para comprovação dela. que dá conta concretamente de como todas essas adaptações ocorreram até constituir o estágio atual. na Natureza A evolução das coisas na Natureza. É mérito de Charles Darwin ter reformulado essa velha teoria sobre o desenvolvimento do universo. Decisiva nesse contexto é.

mas há aí também um elemento que é contingente e a posteriori. um elemento que é necessário e a priori (o Princípio da Identidade e o Princípio da Coerência). o Pater. representados por pequenas estatuetas colocadas à beira do Lar. merece mais e mais a atenção dos pesquisadores. como algo contingente se engendrou de maneira contingente e. postados em fila indiana. A História da Dialética. que então era chamado de Hestia. A História da Evolução da Natureza é hoje um dos temas centrais da Física e da Biologia. Voltar 2 ÉTICA 2. eram o pai. com uma coroa de flores na cabeça. O Pater. quais as recompensas das boas ações e quais as penas dos delitos. ex post –. assim como a história da Dialética. onde crepitava o fogo sagrado que Prometeu havia roubado dos céus. por certo. depois.1 A Família Antiga Nos primórdios de nossa civilização o Dever-Ser. pois. o que não se deve fazer. portanto. à frente da Mater e dos demais membros da Família. tem que ser escrita a posteriori. Há aí. tudo era regrado e determinado pelo Canto que o Pai de Família.história da evolução. que também contém sempre um elemento contingente. tema central de toda Ética. o . História se escreve quando se conta e se descreve. o bisavô. Os Deuses Domésticos. o que se deve fazer. como aliás tudo o mais na Lógica Dialética e também na Natureza. História é. o avô. emanava da Família e nela se concretizava. entoava executando a dança ritual em torno do fogo sagrado do Lar. puxava a dança sagrada em homenagem aos Deuses Domésticos. uma união ou uma conciliação do que é necessário com o que é casual. como esse ser contingente se insere na rede de princípios que são necessários e a priori. todo vestido de branco. primeiro – sempre. O Bem e o Mal.

Para desligar da Família uma filha legítima. Ambas as significações estavam. dos Deuses Domésticos.tetravô. começam cantando os heróis que são antepassados. ou melhor. O fogo do Lar era algo muito importante. pior ainda. Era Lei tudo aquilo que constava no Canto entoado pelo Pater. homenageando os antepassados. A cerimônia do desligamento era realizada em uma dança em torno do fogo sagrado do Lar. mas logo depois ficava bem mais prático. Extinto o fogo. os antepassados que são todos heróis. o Pater tinha de cantar o Canto Sagrado. Aquiles. filha do Pater e da Mater.antes de casar. e a Mater era a principal encarregada de que ele jamais se extinguisse. no começo de nossa civilização. que. iniciava. O Bem e o Mal. É por isso que todos os grandes cânticos. O Canto em honra dos antepassados. Nomos em grego significa tanto cântico como também lei. vestida de branco e . estabelecia o estatuto normativo da Família. A noiva. Na Ilíada se canta o herói da guerra de Tróia. Na Eneida. isto é. os pais fundadores da cidade de Roma. Tudo o que o Pater cantava no Hino da Família era uma norma que ou obrigava a algo ou proibia algum tipo de ação. A mulher jovem. entoado pelo Pater. a boa e a má ação. O Hino cantado pelo Pater em todas as cerimônias importantes da Família era em honra dos antepassados. a virtude e o vício. precisava ser desligada de sua Família de origem. Nos Lusíadas. para distingui-los bastava ouvir e atentar para o Canto Sagrado. O fogo era sagrado porque fora roubado por Prometeu dos Deuses do Olimpo. além de homenagear os Deuses Domésticos. intimamente ligadas. O Hino da Família também. a Família caía em ruína. sim. ficava equiparada às bestas que comem comida crua e que padecem no frio.. todos eles heróis de muitas virtudes e muitos feitos. voltava à situação de barbárie. “as armas e os barões assinalados” que fundaram Portugal. na Antigüidade. etc. incluindo neste a menção de que naquele exato momento estava desligando da Família sua filha de nome tal e tal.

Este é o fundamento normativo de nossa civilização. o bisavô. a saber. mas não podia entrar no aposento central da casa. conduzia a noiva enquanto os circunstantes cantavam um hino chamado de Himeneu. Ela é. o tetravô de seu marido. Isto era proibido sob pena de morte. E então sacra esto – seja morta em sacrifício. a noiva é conduzida pelo Pater na dança ritual em torno do fogo sagrado. ela é um invasor estranho que quebra a paz do domicílio. a noiva descia do carro. não podendo entrar por seus próprios pés. como o próprio Pater. Excetuam-se dessa regra apenas os hóspedes que são permitidos. O Pater então pergunta se ela quer casar com o noivo e. assim deve ser feito. solene. assim. cantando o Hino de seus novos Deuses Domésticos. assim. passar a pertencer à nova Família. tem que ser carregada nos braços pelo noivo que a conduz. às vezes cruel. todo enfeitado de flores. Simples. era então conduzida à casa de seu futuro esposo. a noiva. o noivo deposita sua futura mulher no chão. Se entrar e pisar o chão sagrado sob o qual jazem as cinzas dos antepassados. Nessa cerimônia. Ali.com uma coroa de flores na cabeça. centrada na Família e no Canto Sagrado do Lar. até o fogo sagrado da Hestia. Ao chegar à casa de sua futura Família. ela não pode entrar. Um carro puxado por um boi branco e um boi preto. face ao Pater e à Família reunida em festa. Assim se faz. pois quem está ligado ou religado à Família tem que obedecer ao que é cantado no Nomos. é a fonte e o critério de toda a Ética. sem que ela pise o chão. que é Cântico e também Lei. ela passa a ter religião. é ligada a sua nova família. se e enquanto forem trazidos e conduzidos à mão pelo dono da casa e anfitrião. a Religião. Um estranho jamais pode entrar na sala onde queima o Fogo Sagrado do Lar. já desligada de sua família de origem. Até hoje as noivas . É por isso que a noiva. re-ligada. Esta é a Ética dos antigos. o avô. Naqueles tempos. Como a noiva ainda não é membro da Família. mas também não é apenas um hóspede que depois parte e vai embora. Ao responder que sim.

Sociedade é a Família. Esta é a Ética que deu origem à nossa civilização e por muitos séculos regrou nossa cultura. ao casar. todas as mulheres. Em certos botequins mais antigos de nosso interior. como foi a nossa. Modernização houve. bom é ser homem. Vir significa homem.2 A Ética das Virtudes Em uma cultura patriarcal. sociedade é também a Fratria. Virtus significa a força do homem. e sim da Grécia antiga. ao levantar da cama de manhã. Os velhos costumes continuam influenciando nossas ações. Mas o homem só é forte quando vive e atua em sociedade. 2. Mas sabemos que na realidade de . melhor ainda é ser um homem forte. E quem faz as Leis da Cidade? Quem faz a Política. A Lei da Cidade é a norma de valor de todas as ações. O santo aí não vem da África. principalmente. antes de empinar seu copo de cachaça. Mas não sabem mais por quê. oferece o primeiro gole para o santo. depois pronunciando em boa e alta voz. As leis assim feitas são legítimas e. trata-se de uma libação. que os gregos chamavam de Polis. Agora. E não sabiam por quê. e sim a Cidade que diz o que é bom e o que é mau. Vive bem quem vive na Cidade.se vestem de branco e põem coroas de flores. adotavam o nome da família do marido. quem levanta com o pé esquerdo vai ter azar. isso se fazia primeiro cantando. um agrupamento de famílias e. têm que ser promulgadas. A Cidade sucede no tempo à Família como centro gerador de eticidade. a Cidade. Até bem pouco tempo atrás. Hoje temos o Diário Oficial. o matuto. a Lei da Polis? Os cidadãos reunidos em assembléia discutem e fazem as leis. justas. não é mais o Canto do Pater da Família. que preenche exatamente essa função. cuidam bem para pôr no chão primeiro o pé direito. Muitos de nós. para serem válidas. Até hoje as leis. geralmente. mas nem sempre e não em tudo. Eis o primeiro significado da palavra virtude.

corajoso. forma o núcleo central da resposta de Sócrates. Virtude é o hábito de fazer atos bons. sob a égide do conceito de Bem Supremo. Se a Mesotes não está bem no meio. seguindo . Por que uma lei é justa. Mesotes é o meio-termo. O Diálogo. tentaram dar uma resposta racional a ela. e os Costumes Locais. até a tradição tropeça: alguns costumes não são bons. cada um à sua maneira. A virtude consiste em estar no meio.fato há leis que não são justas. através do exame crítico das razões levantadas de parte a parte. A reta razão é a resposta de Aristóteles. em forma piramidal. Mas. Mas Aristóteles percebe que o meio-termo nem sempre está exatamente no meio. qual então o critério último de eticidade? Aristóteles reponde: a Reta Razão. Platão e Aristóteles. In medio stat virtus. No meio está a virtude. e as muitas discussões sobre o assunto feitas em seu tempo não lhe permitem ficar só com isso. Aristóteles afirma que um ato é virtuoso se e enquanto ele emana de uma virtude. Bom é aquilo que se costuma fazer habitualmente. outra lei não é? Por quê? Qual o critério? Esta é a principal questão posta pelos Sofistas. é aquela posição que não está num extremo do espectro nem no outro. Ético é aquele que não é nem covarde nem temerário. sim. são certamente um princípio e um critério da eticidade. Mas Aristóteles é um filósofo crítico. Reto vem da linha reta dos geômetras. Sócrates. avós e bisavós faziam. os Mores. e sim situado no meio-termo. se não é a Mesotes o critério decisivo para decidir entre o Bem e o Mal. às vezes. Na Ética dedicada a seu filho Nicômaco. A hierarquização de todos os valores. é a resposta de Platão. Eis o conceito de hábito que remete à tradição dos bons costumes e firma como princípio geral da Ética que bom é aquilo que nossos pais. A Tradição. e sim no meio. A coragem está mais próxima da temeridade do que da covardia. vem da regra dos arquitetos de puxarem um fio e construírem tetos e paredes. Por quê? Qual critério aplicar as tais casos? Aristóteles responde: a Mesotes.

Que existem pelo menos alguns juízos verdadeiros é claro e é admitido . como na Arquitetura.exatamente a linha reta traçada pelo cordão esticado: a distância mais curta entre dois pontos. algo que não está sendo dito só pelo sujeito. elas vêm antes. até hoje não sabemos direito o que é Razão. são a priori. A Ética de Aristóteles funcionou tão bem e por tanto tempo – Tomás de Aquino a adota. na Modernidade. Retidão. Kant pensa nos primeiros princípios elaborados por Newton em sua Física. os tomistas até hoje a defendem –. tranqüilamente aceito por todos. Tais juízos são sintéticos. E Razão. sim. nos quais o predicado acrescenta ao sujeito algo de novo. Trata-se de juízos com sujeito e predicado. retidão como nas figuras geométricas. Em cima desse pressuposto Kant aplica a assim chamada pergunta transcendental: quais as condições necessárias de possibilidade desse pressuposto feito? Condições necessárias de possibilidade são o que as palavras dizem: se existe um p qualquer. Kant as chama de verdades a priori. Ele parte de um pressuposto fático.3 O Imperativo Categórico Kant utiliza em suas Críticas sempre o mesmo esquema básico. O que é Razão? Até hoje estamos perguntando o que é Razão. é tomado por Kant como sendo verdadeiro. elemento básico da Geometria e da Arquitetura. Kant pressupõe que existem juízos sintéticos a priori que são verdadeiros. Este pressuposto. 2. Kant parte do pressuposto de que existem de fato alguns juízos sintéticos a priori que são verdadeiros. explica mais e dá um vigoroso passo adiante. são tomados como sendo válidos sem que possam ser conferidos a partir da experiência. E eles são a priori. que não é questionado por ninguém. Elas são condições necessárias daquilo que é o pressuposto aceito. quais as condições necessárias para que p possa existir? Mapeadas as condições necessárias de possibilidade. Na Crítica da Razão Pura. por quê? O que é Razão? O que é Razão Reta? Kant.

pois. que é composto por um sujeito vazio. Por isso a ciência que trata das verdades eternas é chamada por Johannes Duns Scotus de scientia . tanto da Geometria como da Física de Newton. Logo. se necessárias e eternas. este é o pressuposto. Pode-se. estão ancoradas as Verdades Eternas. são condições necessárias de possibilidade. Este é o fato inicial. e as formas mínimas de interligar sujeito e predicado em juízos.por todos. Mas tais juízos existem. tranqüilamente pressupor que existem pelo menos alguns juízos sintéticos a priori que são verdadeiros. Que muitos desses juízos sejam sintéticos todos também admitem. os primeiros princípios. Em Deus. mesmo os mais críticos de nós. – Transcendental significa aqui somente a conditio sine qua non de um pressuposto que de fato está sendo feito. Como elas não existem. levanta-se a pergunta: quais as condições necessárias de tal fato? Kant mapeia as condições sine qua non do pressuposto que todos. e eles são a priori. têm que ser colocadas na essência do próprio Deus. Que alguns desses juízos sintéticos verdadeiros sejam a priori. de que existem de fato juízos sintéticos a priori verdadeiros. isto é. por exemplo. mas que são absolutamente indispensáveis. Eles são necessários. ou seja. sempre fazemos. Isso tudo Kant chama de transcendental. Verdades. de categorias lógicas. não podem ser conferidos em sua verdade a partir da experiência sensível. e pelas categorias também vazias. existe um Eu transcendental. são aceitos por todos como verdadeiros. em uma estrela platônica. isto é algo admitido por todos? Sim. sim. Eis o mundo transcendental de Kant. que é transcendente. um número mínimo de predicados. têm que estar fundamentadas em algum lugar. O sujeito transcendental e as categorias transcendentais são aquelas condições mínimas sem as quais não poderia existir nem um único juízo sintético a priori verdadeiro. Elas são: um sujeito geral que possa formular juízos. como tais. os mestres-pensadores ancoravam as Verdades Eternas na essência de Deus. – Na Idade Média. Isto pressuposto.

na segunda Crítica. predicado. é o seguinte: se existe de fato conhecimento a priori. sim. existe a sua conditio sine qua non. O argumento de Kant. Kant não pressupõe a retidão da Ética de um povo ou de uma cultura determinada. Ora. é preciso que exista uma estrutura a priori. que é a condição necessária a priori e o denominador comum das múltiplas éticas locais. um princípio transcendental da Razão Prática. Há. Este princípio prático Kant chama de Imperativo Categórico: age sempre de tal maneira que a norma da tua ação possa ser elevada ao estatuto de uma lei universal. Na Crítica da Razão Prática.transcendens. mas em compensação é válido para todos. . é o pressuposto inicial. Não. Este Dever-Ser Kant chama de Fato da Razão. que é comum a todos os eus empíricos e neles está ínsito. mais tarde. mas num Eu universal e necessário. ele só pressupõe o que é absolutamente geral: algum tipo de Dever-Ser. a estrutura do raciocínio é a mesma. o conhecimento a priori existe. é preciso que exista um Eu transcendental prático que se guie por um único grande princípio geral. Esta consiste naquelas estruturas mínimas: sujeito. todas elas têm algum DeverSer. então existe a conditio sine qua non de um tal conhecimento. A verdade do conhecimento está ancorada não mais num Deus transcendente. Aqui Kant insere a pergunta transcendental: qual a condição necessária de possibilidade de tal fato? Qual a conditio sine qua non? Para que todos os povos em todos os lugares tenham um tal Dever-Ser. ligação entre sujeito e predicados. pois. Este grande imperativo moral é vazio de conteúdos. Kant parte de um pressuposto fáctico: todos os povos em todos os tempos e em todas as culturas possuem algum tipo de Dever-Ser. Logo. Christian Wolff e outros a chamam de scientia transcendentalis. Este. posto em seqüência lógica. Daí é que Kant tira seu problema e sua terminologia: a pergunta transcendental e o Sujeito Transcendental. Muito embora os conteúdos variem muito de cultura para cultura.

ao negar repõe exatamente aquilo que quer negar: a racionalidade da roda do Discurso. caracterizando melhor seu núcleo especulativo. tem que ser aplicado simultaneamente com o Princípio D. Críticas muito justas. em sua eticidade.4 A Ética do Discurso O Imperativo Categórico. Quem tentar negar. deve-se dizer. É passível de universalização? Então. Este Princípio. segundo Apel e Habermas. que é o velho imperativo Categórico de Kant. eles o denominam com outro nome. Na roda do Discurso sem violência. da roda do Discurso. Apel e Habermas constroem a estrutura mínima que é pressuposta na roda do discurso racional. é preciso tentar universalizar o interesse particular e verificar se ele é passível de universalização. e o chamam de Princípio U. Do Princípio D. Quem tentar negar o Princípio . Só que este Princípio U. que é o Princípio do Discurso. Do Princípio U. levaram a questão mais adiante. diz o mesmo que o Imperativo Categórico de Kant. como aplicar o Imperativo Categórico na vida prática do dia-a-dia? Apel e Habermas. O Imperativo Categórico é ótimo e foi muito bem demonstrado por Kant. quanto a seu conteúdo básico. Pois. através de discurso racional. os interesses particulares de cada um são examinados. em que só valem as razões apresentadas por cada um dos participantes. Brilhante. Ética se faz. Alguém na roda do Discurso tem de fato um interesse determinado. no vaivém entre o Princípio D e o Princípio U. atraiu muitas críticas. por argumentos. vêm os conteúdos contingentes e históricos que faltavam no Imperativo vazio de Kant. não tendo conteúdos. vem a normatividade. é ético. Princípio da Universalização. o Princípio D. a partir da aplicação do Princípio U. este interesse é ético? Para descobrir isso. Mais brilhante ainda a agudeza da demonstração. em nosso século. por ser vazio de conteúdos. o Dever-Ser. A partir da teoria contemporânea sobre os atos de fala.2. para funcionar.

de saída. Os dois Primeiros Princípios da Ética do Discurso. de proposições normativas. . Mas ainda não completo. sem que o nexo entre elas possa ser restabelecido. uma forma modernizada da Ética de Kant. Todos eles partem. Quem nega U e D entra em contradição performativa. que não é mais una. ou seja. que foram se cristalizando no decorrer dos últimos séculos. A primeira: como se faz a passagem de proposições meramente descritivas para proposições normativas? A segunda: qual o primeiro princípio ou quais os primeiros grandes princípios que regem o Dever-Ser? A terceira: como se faz a passagem do particular para o universal e vice-versa? A primeira pergunta não é respondida nem por Aristóteles. sem maiores cuidados de elaboração crítica. Isto é ruim. dizem Apel e Habermas. nem por Kant. dissociadas. não podem ser negados. Kant e a Ética do Discurso vão mais a fundo e muito além. Essa razão. bem mais certos que os antigos. pois usa argumentos que só são válidos por ser universais. hoje. Com isso fica demonstrado que os Princípios U e D são universalmente válidos. À segunda pergunta Aristóteles e Tomás de Aquino respondem com um elenco de virtudes e valores. ainda é a Razão? Como pensar essa dualidade sem unidade? Pode? Não pode. Brilhante. são declarados os primeiros princípios de toda a eticidade.U. muito ruim. Pois a razão teórica e a razão prática são. de uma razão prática. válidos são os Princípios U e D. Quem os negar entra em contradição performativa. O Primeiro Princípio é o Imperativo Categórico. Estes. tem que responder a três perguntas básicas. se nega a si mesmo. nem por Tomás de Aquino. desde o começo. em minha opinião. distintas e separadas.5 As Três Grandes Questões Todo projeto de construir uma Ética. Eles estão. Há duas razões. ao fazê-lo. D e U não podem ser negados sem que ressurjam sempre da própria negação. 2. que está cindida em duas razões.

esta. vazio de conteúdo. desde o começo. Pois desde o primeiro começo da Lógica estamos operando com o Princípio de Não-Contradição. como nós mais acima o modificamos e formulamos. fica sem resposta satisfatória. Como fazemos a passagem de proposições descritivas para proposições .6 A Passagem de Proposições Descritivas para Proposições Normativas Como se faz a passagem de proposições descritivas para proposições normativas? No projeto de sistema aqui proposto. aliás. A passagem do Imperativo Categórico. Este princípio. É por isso que. A essa questão Apel e Habermas nos oferecem a melhor resposta. a estrutura bifacial da Ética a eles corresponde. 2. mas que elas devem ser evitadas. Uma se imbrica na outra. para as Máximas Morais e destas para a decisão individual se faz com grandes solavancos. que é um dos três princípios básicos. já na própria Lógica. embora não completa. esta é uma atitude espiritual de feições difíceis de definir com clareza. Aristóteles e Tomás de Aquino utilizam aqui o que chamam de prudência. a resposta a esta primeira pergunta é fácil e vem ao natural. O Dever-Ser é o operador modal do Princípio da Contradição a Ser Evitada. por um lado. Essa resposta é totalmente plausível. por outro. Como os atos de fala são sempre universais.A terceira pergunta trata da difícil passagem que é preciso fazer entre a validade universal de um princípio e sua aplicação à situação individual concreta. será a grande objeção de Hegel à Ética de Kant. Dissemos que contradições às vezes existem. estamos no âmbito do Dever-Ser. pois apenas desloca o problema. trabalha com um operador modal: o Dever-Ser. A imbricação entre o universal e o particular se faz em paralelo à imbricação entre os Princípios D e U. Kant. porque a situação ideal do discurso (U) tem que ser antecipada na situação real do discurso (D). mas concretamente individuais. face a essa questão.

Neste ponto. desde o começo. Estamos. trabalhando com proposições que são primeiramente normativas. um subsistema dentro de um sistema maior. não de toda a realidade. pois esta tem no Dever-Ser sua característica maior. A Razão Prática inclui e contém em si a Razão Teórica. mas elas não são o ponto de partida. Não há acordo. que é uma proposição normativa. Proposições descritivas existem. O próprio Princípio de Não-Contradição é uma proposição normativa.normativas? Não a fazemos. por abstração e por estreitamento de âmbito. não são o paradigma geral. Quando dizemos É impossível que existam contradições. situado dentro do conjunto maior que é a Razão Prática. a saber. é normativa. Tira-se da . que cindem a razão em duas. O Dever-Ser. a Razão Teórica. em seu começo. desde o Princípio da Não-Contradição. um novo enfoque. Aqui a Razão é uma só. nem com Aristóteles nem com Kant. A passagem da proposição normativa para a proposição descritiva se dá por abstração. elas são apenas uma subespécie. que dentro de si contém um subsistema específico. é claro. neste ponto. em nosso projeto de sistema é o círculo mais amplo e mais abrangente. A Razão Teórica é uma abstração tirada daquele todo maior que é a Razão Prática. A Lógica. sim. o operador modal aqui é o tradicional É impossível. A Razão Teórica é um círculo menor. o que está sendo proposto coincide com a teoria de Habermas sobre a Razão Comunicativa. Desde o primeiro começo estamos operando com proposições normativas. A questão da passagem de proposições descritivas para proposições normativas recebe. a Razão Prática. temos um princípio universalíssimo. uma única. Quando se diz Não se devem fazer contradições. O Discurso e a Dialética são desde sempre normativos. que são secundárias. estamos falando apenas de alguns subsistemas lógico-formais. assim. vem depois. por recorte e por empobrecimento. A passagem dessas primeiras proposições normativas para as proposições descritivas. válido sempre e sem restrições.

o reino das possibilidades necessárias. também na Natureza. Também as coisas da Natureza em sua evolução são regidas por um Dever-Ser. Ou um dos elementos em contradição elimina e anula o outro. porque uma tal objetividade pura não existe. e surgem assim. A evolução dos seres consiste exatamente nisso. de duas uma: ou um elimina o outro. 2. por um lado. com outro nome. ou surge a adaptação. Os Sistemas mudam e se adaptam. por outro. ou são elaboradas as devidas distinções. se baseia nisso. de novas formas de complexidade. desde o começo do sistema. de forma que as características antes opostas e excludentes se transformem em qualidades que se completam e se complementam. A adaptação consiste exatamente naquelas pequenas mudanças que surgem de lado a lado. Na Natureza. porque nunca conseguimos fazer um recorte perfeito e acabado. o reino dos fatos a serem captados e descritos em sua facticidade. como ela foi acima exposta. embora com menos freqüência e em escala menor. contradições.7 O Primeiro Princípio do Dever-Ser O Primeiro Princípio do Dever-Ser é. De adaptação em adaptação surgem as mudanças e as grandes . Se há aí contradição. de novas facetas. o Meio Ambiente também muda e se adapta. Ambos os reinos são apenas um recorte e uma abstração. ou. Sistema e Meio Ambiente não podem estar em contradição. o Princípio da Contradição a Ser Evitada.proposição normativa concreta o operador modal deôntico. se de fato existem. Desde o começo da Lógica trabalhamos com esse Princípio: contradições. Surgem. o Princípio da Coerência. O Discurso Dialético é regido por um Dever-Ser. E aí o Princípio da Coerência entra de rijo. as distinções são feitas pelo engendramento de novos lados. Toda a estrutura da Dialética. devem ser trabalhadas e superadas. Não conseguimos. É por isso que nunca conseguimos ser totalmente objetivos.

chamamos de Princípio da Coerência. Ela é uma Lei que forma e molda. em pequenos passos. coerência externa com seu Meio Ambiente imediato. possuem alguns mecanismos de autodeterminação. O que não se adapta. determinando como um DeverSer. Não é que o incoerente nunca exista. Às vezes ele existe. ou eliminando os opostos. Trata-se de uma Lei. em Lógica. às vezes. mas de uma Lei flexível. – Aliás. o que não é coerente. Não no sentido pleno que nós homens damos ao Dever-Ser. mas que a curto prazo permite que contrafatos existam. Neste sentido amplo de Dever-Ser também as plantas e animais participam da Ética e poderiam ser chamados de éticos. que a longo prazo conduz as coisas. a realidade como a conhecemos. Ele será eliminado da Natureza. Mas o que é isso? Plantas e animais têm um Dever-Ser? A resposta é primeiro: Não. Por quê? Porque eles devem se adaptar. coerência última com o resto do Universo. mas aos poucos. Em Biologia isso se chama Evolução. exercem algumas escolhas e estão sujeitos à Lei Universal que manda que sejam coerentes. assim. sim.transformações. quem não viu ainda e não percebeu que os cães. trata-se de uma realidade que. se auto-engendra. ou conciliando-os através de adaptações. Mas a resposta é Sim no sentido de que também as plantas e animais gozam de certa autonomia. às vezes agem com má consciência? Qual o cavaleiro que nunca percebeu que . Os seres simples ficam mais e mais complexos. permitindo sempre e pressupondo o engendramento do novo e. Também as plantas e animais têm que possuir coerência interna entre suas partes. Trata-se de uma realidade na qual nem tudo está sempre determinado até o último pormenor. Aí a Coerência entra. Morte e Seleção Natural são os nomes usados pelos biólogos para expressar aquilo que nós. se auto-regula. no convívio com os homens e no convívio entre si. se autoreproduz. não deve ser. sim. mas a prazo maior a Coerência se impõe.

o Imperativo Categórico de Kant inexiste no âmbito da Razão Teórica. a Natureza e também o Espírito. Trata-se de um grande Princípio que determina a Lógica. As três grandes partes do Sistema estão ancoradas no Princípio da Coerência.8 A Passagem do Universal para o Particular e vice-versa A grande dificuldade na Ética de Kant era a descida do Imperativo Categórico através das Máximas da Razão até a decisão individual do homem. à maneira deles.seu cavalo reage. Qual é. 2. Esta é a diferença entre os kantianos e o que aqui está sendo proposto. até o Absoluto. então. uma certa Ética. penso que a Ética que estou propondo entra em congruência com aquilo que é proposto por Apel e Habermas. Em oposição a essa amplidão sistêmica. Como se faz uma passagem legítima de um Princípio Universal que é vazio para o Particular que possui conteúdos concretos? Apel e Habermas respondem dizendo que o Princípio U tem que ser exercido sempre junto com o Princípio D. às vezes satisfeito. sim. E o Princípio U de Habermas existe na Lógica. perpassa todo o Sistema de Filosofia desde o começo da Lógica até o fim. na roda concreta do Discurso. a formulação do Primeiro Princípio de uma Ética Geral de acordo com o Sistema que estamos propondo? Exatamente aquela do Imperativo Categórico de Kant ou do Princípio U de Apel e de Habermas. Com relação a estes. A resposta é boa. Tirante isso. assim como o entendemos e antes expusemos. e fazer a tentativa de universalizá- . mas não esclarece totalmente a questão. ou seja. concreto e histórico. sim. mas não perpassa a Natureza. às vezes com más intenções? Plantas e animais têm. a diferença específica desse projeto é que o Princípio da Coerência. Como é possível juntar o Princípio formal e vazio U com a situação real do Discurso? Apel e Habermas respondem dizendo que cada membro da roda do Discurso tem que pegar seu interesse particular.

não há uma oposição não-conciliada entre matéria e espírito. este é o conjunto maior a partir do qual fazemos os recortes que chamamos. do particular para o universal é um problema que surge sempre que se segue um sistema dualista. A gente sabe o que deve ser somente quando se faz o experimento de universalização. penso eu. entre o particular e o universal. A matéria é desde sempre. de Individual e de Particular. A passagem entre Universal e Particular os defensores da Ética do Discurso fazem por intermédio de um experimento. O que existe de fato não é o universal abstrato e raquítico de um conceito tirado de sua tessitura original. Num sistema monista.lo. Aristóteles. . Apel e Habermas são dualistas. quando ainda não sabem com que substâncias estão lidando. Só que aqui o Universal está sendo pensado como o Universal Concreto. então é contra a Ética. com essas palavras. Apel e Habermas mandam que façamos um experimento moral. a ação conjunta dos muitos homens em suas relações de trabalho e de fala. Kant. aí dentro. como o que está sendo aqui proposto. vice-versa. em seu íntimo. então. assim também os Sinais ritmam as ações conjuntas nas quais se inserem. Aí. Como as batidas do tambor são partes integrantes de um todo maior. e sim o Universal Concreto. O Individual e o Particular são apenas recortes que se fazem dentro do Universal. Consegue-se. surgem os Sinais que ritmam as ações e que são partes constitutivas do todo concreto no qual estão inseridos. fazem experimentos empíricos. então é ético. Provavelmente ficariam furiosos comigo. a música de todo o conjunto. algo de espiritual. A passagem do universal para o particular e. que pode ser gravado e filmado. Não se consegue. Como os químicos. Este é o verdadeiro ponto de partida. Ética é experimentação. Mas é assim e só assim que funciona. Eles nunca disseram isso como eu acabo de dizer. Surge aí o problema que fica. sem solução. O sistema monista consiste justamente na conciliação desses pólos opostos.

Estes são os Sinais Concretos que remetem para um Todo que está presente; eles são uma pars in toto. Quando tiramos os sinais de seu contexto concreto, quando emitimos o sinal, não dentro do todo que está presente, mas fora dele, então os sinais são pars pro toto. Eles ainda remetem para o Todo, mas o Todo não está mais presente. O Sinal Concreto se transforma e vira um Sinal Abstrato. O Sinal Abstrato aí só é entendido se e quando o ouvinte tem a capacidade de relembrar o Todo original, do qual o Sinal era parte integrante e para o qual ele ainda remete. Quais as conseqüências disso? O que chamamos de Universal no dia-a-dia – depois de Ockham – é só um Sinal Abstrato. Este Sinal, o Universal Abstrato, só está em oposição excludente ao Indivíduo num primeiro momento, à primeira vista. Aí entra a Dialética, e, feita a conciliação dos opostos, percebe-se que num plano mais alto Universal e Individual se identificam. No Universal Concreto não há mais a oposição excludente entre Universal e Individual, e sim a conciliação. O problema, pois, da passagem entre universal, particular e individual, que nos sistemas dualistas é insolúvel, na Dialética monista se resolve quase que ao natural. E, de inhapa, compreendemos que para entender o significado de um conceito, de um sinal abstrato, temos que saber reinseri-lo na totalidade concreta de onde ele tem seu pleno sentido. Saber um conceito é saber usá-lo. Wittgenstein tinha razão nisso. 2.9 Recompensa e Castigo Toda boa ação é, em si mesma, sua recompensa. Ela está em coerência consigo mesma, com seu Meio Ambiente próximo e remoto. Ela está coerente e, por isso mesmo, não apresenta conflitos. Nem internos, nem externos. Por isso a boa ação se sente bem. Ela é feliz e sabe que é feliz. A má ação, ao contrário, não está em coerência. Ela entra em conflito ou consigo mesma ou com seu Meio Ambiente. Na má ação sempre há conflito. Por

isso, sentindo o conflito, ela se sente em perigo, se sente mal. Ela é seu próprio castigo. – Recompensa e castigo, num primeiro momento, são apenas uma outra face da bondade ou da maldade de uma ação. Muitas vezes, a coerência ou incoerência não é algo imediato. Muitas vezes, não se trata de uma contradição interna ou de uma contradição com o Meio Ambiente imediato, mas de um tipo de coerência mais distante, em espaços e principalmente em tempos mais afastados. Trata-se aí de uma coerência mediata com o Meio Ambiente. – Há substâncias que, mal postas na boca, já provocam dor ou mal-estar. Há outras substâncias que, no primeiro momento, sabem bem, mas depois, no dia seguinte, provocam profundo mal-estar ou ressaca. Existem outras substâncias ainda que – como o fumo – só ao longo de muitos anos provocam seus males e suas dores. A estrutura de recompensa e castigo é, no fundo, a mesma. Mas as distâncias aumentaram como que em círculos concêntricos. Ético é aquele que sabe antecipar os conflitos provenientes de uma incoerência remota ou futura e, de saída, busca a coerência e não entra no conflito. Quem não é ético, quem entra na incoerência, mais cedo ou mais tarde a contradição pega e castiga. O castigo aí vem de dentro da própria ação, só que com retardo. Fumar vinte cigarros por dia é um mal que, após algum tempo, às vezes após longo tempo, se transforma em seu próprio castigo. Em suma: o Bem é recompensa de si mesmo, o Mal se castiga. Os antigos sabiam que o Bem e o Mal, às vezes, levam gerações inteiras à felicidade ou à desgraça. Hoje achamos isso injusto. Afinal, qual é a culpa desse pobre indivíduo? Não há, talvez, culpa individual nele, mas a culpa coletiva fica. Os alemães depois da Segunda Guerra Mundial perceberam, de novo, que há algo como uma culpa coletiva. Os judeus, os cristãos primitivos, os povos árabes, os orientais ainda têm vestígios desse conceito amplo de Bem e de Mal Coletivos, de Recompensa e de Castigo

Coletivos. Nós, herdeiros modernos do solipsismo de Descartes e das mônadas de Leibniz, só enxergamos indivíduos, só vemos o Individual e o Universal Abstrato. Por isso não entendemos como e por que o Bem e o Mal, Recompensa e Castigo não habitam somente o Indivíduo, mas perpassam gerações, passam por povos inteiros, criando estruturas extremamente complexas de BemEstar e de Mal-Estar Coletivos, que não conseguimos mais compreender. Exatamente porque ficamos burros, encerrados em nossas individualidades por demais estreitas. Quem pensa bem, quem pensa o Universal como Universal Concreto, sabe que o Bem se recompensa, o Mal se castiga. Se não a curto, então a longo prazo. Se não no indivíduo pontual, então na tessitura social do grupo. É aí que surge a necessidade de haver um Estado e a Lei do Estado. 2.10 O Estado e a Política Como a coerência nem sempre é imediata, como Recompensa e Castigo às vezes vêm muito depois, é preciso instituir o Estado e a Lei do Estado. Se o indivíduo, em sua historicidade contingente, não se dá conta de que uma determinada ação vai entrar, algum tempo depois, em conflito; se o indivíduo não liga para incoerências, porque elas são remotas e porque o castigo não o atingirá diretamente, então é preciso que a Sociedade, o grupo de homens, numa decisão coletiva para o Bem Comum de todos eles, estabeleçam a Lei e com a Lei o Castigo para os que desrespeitarem a Lei. O Estado é um Universal Concreto no qual o Dever-Ser da Ética dos muitos homens individuais é elevado ao estatuto de um Dever-Ser Coletivo, externo e superior aos homens individuais, no qual a vontade de cada um se funde com a vontade de todos os outros numa Vontade Geral. O Estado é o Indivíduo que se sabe agora como um Universal Concreto. A Lei é o Dever-Ser que agora, para alguns, crianças e tolos, passa a ser algo apenas

externo. Para os que sabem das coisas, para os adultos, a Lei, mesmo quando posta através do Estado na exterioridade, continua sendo um Dever-Ser interno. A Lei é, no Universal Concreto de uma Sociedade, o que o Costume era na Família, o que a eticidade da boa ação é no Indivíduo. O Estado é apenas a outra face, a face universal, da própria Ética. Por isso a Política tem que ser Ética. Por isso a Ética, ao desenvolver-se e concretizar-se em sua exterioridade, fica Política. Sem rupturas e sem mistérios. Voltar 3 JUSTIÇA E ESTADO 3.1 O Que é Justiça? O Bem é aquilo que, no reino da liberdade, isto é, das decisões livres do homem, está em coerência consigo mesmo, com seu Meio Ambiente próximo e também com seu Meio Ambiente total, que é remoto. O Mal é aquilo que contém alguma incoerência. O Bem, de acordo com o Princípio da Coerência, é aquilo que deve ser. O Mal é aquilo que não deve ser. Ambos se distinguem um do outro por estar ou não estar em coerência. O Primeiro Princípio da Ética é o mesmo Princípio que está lá no começo da Lógica, o Princípio da Contradição a Ser Evitada, ou seja, o Princípio da Coerência. Na Ética, esse Princípio toma a forma do Imperativo Categórico de Kant ou do Princípio U de Habermas: ético é aquilo que possui a capacidade de ser universalizado. O Bem existe sob muitas formas, ou, como os gregos diziam, sob a forma de muitas virtudes. Virtudes são para os gregos, por exemplo, a Sabedoria, a Coragem, a Temperança, a Justiça, etc. O elenco de virtudes varia de autor para autor, mas uma virtude assume sempre uma posição ímpar: a Justiça. Em Platão quatro são as virtudes cardeais. Três delas correspondem às três partes da alma e aos três estamentos do Estado. A Temperança corresponde à alma concupiscente e ao estamento dos camponeses, dos

como habitação e comida. de acordo com a tradição cristã. a terceira das virtudes cardeais. cuida do Estado e o defende de seus inimigos externos. lhes é comum e lhes serve de base e fundamento. Assim pensam Agostinho. A Justiça é um capítulo. por conhecer e contemplar o Bem Supremo. o que é o Bem e o que é o Mal.artesãos e dos mercadores. na Ética Nicomaquéia. mas não a mais importante. em última instância. três são as partes da alma. o guerreiro. Acima das virtudes naturais estão as virtudes teologais: a Fé. sim. mas vai além dela. a dúvida dos gregos é dirimida em favor da Caridade. A rainha de todas as virtudes. três são os estamentos no Estado. no Estado Ideal. dizendo quais são eticamente bons e quais são maus. Mas o que é Justiça? Ela por acaso é o Bem Supremo? Aristóteles também entra em dúvida. pode parecer que sim. o que deve ser feito e o que não deve ser feito. É no Estado. ela as perpassa. é a Caridade. A Sabedoria. A Caridade pressupõe a Justiça. têm a capacidade de ordenar o Estado e de dizer. que. que tem que ser ao mesmo tempo manso e forte. a quarta e mais ampla das virtudes cardeais. a Temperança ordena e disciplina os desejos e prazeres. Uma virtude entre outras? Ou a rainha das virtudes? Com o advento do Cristianismo. corresponde à alma intelectual e ao estamento dos governantes. Tomás de Aquino e os . a segunda das virtudes cardeais. a Justiça. Três são as virtudes. a nenhuma parte da alma e a nenhuma das classes que constituem a Politéia. de maneira específica. corresponde à alma irascível e ao estamento dos guerreiros. que tratam das necessidades materiais de todos os cidadãos. a Esperança e a Caridade. A Justiça é a primeira e a mais importante das virtudes? Pelo menos à primeira vista. A Justiça é mais ampla que as outras três virtudes cardeais. A Justiça é uma importante virtude. entre outros. Só que Platão acrescenta a estas três mais uma. tudo em estreita correlação. A Justiça não corresponde. sim. aos quais cabe a defesa do Estado. Até aqui. que a Justiça se realiza plenamente. A Coragem.

A Lei é justa se vale. Eqüidade. o que é justo? Justas. É a tentação de dizer que as Leis que estão em vigência no Estado concreto e . A Justiça é assim. pouco dotados. pois alguns homens são de nascença. Justo é o prêmio. que corresponde à Identidade Reflexa da Lógica. à primeira vista. que assim resumem as dúvidas e as perplexidades da tradição anterior a eles. Muitos outros são. Afinal. desde os primórdios de nossa civilização. se e enquanto o outro homem é considerado enquanto igual. exatamente aqui e sempre de novo aqui. Basta abrir os olhos para ver isso. Justiça é a situação de igualdade entre homens. uma grande tentação. Justiça é isso. em seu relacionamento interpessoal. estes são pobres de nascença. Justiça é fazer aquilo que é justo.2 Identidade. Igualdade e Eqüidade A Justiça é muito rica e muito ampla. A tautologia aqui. igualmente. estes são ricos de nascença. Mas a pergunta continua sem resposta: o que é Justiça? Justiça é dar a cada um o que a ele compete. O homem e sua ação são justos. pois todos os homens são iguais perante a Lei. Justa é a divisão dos frutos coletados ou do animal abatido na caça. para todos. e apenas isso. e não enquanto diferente. é a contrapartida ética do Princípio de Identidade. Justiça é eqüidade. e muito pobre. A Justiça é muito pobre e muito restrita. Surge aqui. no fundo. A Lei é a mesma para todos. bem dotados. não é esclarecedora.clássicos medievais. são a ação e a atitude do homem que considera o outro homem como sendo igual. muitas vezes são os próprios homens que engendram. a diferença entre ricos e pobres. se para candidatos de mérito igual forem dados prêmios iguais. Justo é o castigo que é igual para delitos iguais. que na Lógica tem a forma A = A. Muitas vezes não é a Natureza. Muito rica. Tudo isso. se e enquanto a divisão for feita em partes iguais. tem duas faces. 3. pelas contingências da Natureza. pelas contingências da Natureza. dizem os romanos. Suum cuique.

histórico. significa transformar a pobreza em um grande valor ético. para haver Justiça. queremos ser iguais a eles. Esta Grande Tentação vem desde as comunidades dos primeiros cristãos. passando pelo socialismo de Proudhon. a diferença entre ricos e pobres não pode ser aceita assim como de fato está. É a tentação de dizer que essas Leis são injustas. que as Leis devem ser mudadas para que se implante a Justiça. mas um mal a ser evitado. sem solução. desde os primeiros cristãos até os hippies da paz e do amor. Está certo? Sim e não. Pois. a miséria. A pobreza. quer mesmo é ficar rico. até a questão social que continua. os sábios muitas vezes não sabem se . entre nós. ela é um mal social que é resultado de ações eticamente perversas. Se existem pobres. passando por Karl Marx e pelos diversos tipos de marxismo e de comunismo. Quem é pobre. Quem é bem pensante percebe que. passando pelas comunidades hippies de algumas décadas atrás. pelos miseráveis. A confusão provoca aqui uma Grande Tentação. pela base. A pobreza não é valor nenhum. no qual vivemos e no qual existem tais desigualdades. os que são éticos e querem agir eticamente. que foram essas Leis que provocaram a pobreza. E assim está formada a confusão. Se existem pobres. só o intelectual metido a besta é que deseja ser pobre. com a classe dos trabalhadores. Daí as sociedades comunitárias e igualitárias. de sorte que todos os homens fiquem exatamente iguais. Estabelecer a igualdade por baixo. Daí a forte identificação dos socialistas e comunistas com a classe daqueles que à época eram os mais pobres. E os bem pensantes. identificam-se com os pobres. passando pelos monges que habitavam no deserto. pobre de verdade. E não falam por quê? Os malandros não têm interesse em contar. não é uma virtude. passando pelo voto de pobreza das grandes ordens religiosas da Idade Média e do Renascimento. como sabem os sábios e os malandros. estão completamente erradas. isto é. Os sábios e os malandros sabem disso. então também nós queremos ser pobres.

embora rica e ampla. Sim. no exame. A Tentação. todas as relações entre as pessoas. sim. sem solução prática e sem solução teórica que seja satisfatória. mais uma vez. e. A fortiori não é o critério mais alto. A virtude da Justiça. embora importantíssima. perante a Lei e a Justiça todos os homens são iguais. Por conseguinte. e sim justiça. em situação de exame todos os alunos são rigorosamente iguais e devem ser medidos exatamente pelos mesmos parâmetros. a Grande Tentação consiste em pensar que. sim. aplica os mesmos critérios de avaliação para todos os alunos. na Alemanha. Acabou. já que todos os homens são iguais perante a Lei. A queda do Muro de Berlim e o esfarelamento do assim chamado Mundo do Socialismo Real significaram um marco histórico que tapou a boca de alguns políticos extremistas e de muitos pensadores. A relação de Mestre e Discípulo sirva aqui. desde que Horkheimer e Adorno. pois. Mas a pobreza continua na prática. na França. independentemente de simpatias e de relações de amizade. Em exame não deve haver. como se vê. em tudo. mas pobres em substância crítica. A Justiça. com a queda do Muro de Berlim.expressar. também a Tentação continua na teoria. embora ampla como ela é. o mais tardar. a eqüidade. No exame o professor deve ser rigorosamente justo. não perpassa tudo. No . dialéticos. a absoluta simetria de relações do Igual para com seu Igual. muito antes. desde que Sartre. não abrange todos os aspectos da vida humana. assim. Ficamos. não afeta. Os homens devem ser iguais perante a Lei. é pobre porque não determina todas as relações sociais em todos os seus pormenores. O professor justo é aquele que. Mas a Justiça. incentivo didático. de fio condutor. eles devam ser iguais em tudo. Castoriadis e Lefort. O Marxismo como teoria determinista da História e como receita prática de acabar com a pobreza e com a injustiça acabou. nem sempre é o critério a ser aplicado para aferir o Dever-Ser de uma ação determinada. criticaram-no de dentro para fora.

desde que não impeça a Justiça. onde é que deve haver Justiça? E onde pode existir desigualdade? De forma mais exata e mais dura: onde pode haver desigualdade. o amor geral que. Entre marido e mulher. Pelo contrário. – Mas. pode e deve tratar alunos diferentes de maneira diferente. sendo igual para com todos. . um momento. o incentivo é indispensável. o Dever-Ser em tais situações é ditado por outras virtudes que não a Justiça. é boa e pode existir. nesse equívoco.decorrer do aprendizado. para que venham a se igualar em excelência. o casamento aberto defendido por alguns intelectuais no começo de nosso século. O professor. Nisso consiste o Eros pedagógico: tratar de maneira desigual aqueles que são desiguais. o libertinismo existente entre alguns quiliastas. o amor livre entre os anarquistas. e esta diferença. os votos de pobreza e de vida celibatária dos monges. que fica muitas vezes sem resposta: onde é que a igualdade é o critério do Dever-Ser. entre amigos. O marido que queira transar – para ser justo – com todas as mulheres e a mulher que queira fazer sexo com todos os homens não são o paradigma das virtudes matrimoniais. fora da situação de exame. trata-se da mesma questão: a Justiça não exige que todos sejam sempre tratados como sendo iguais? A resposta é clara: nem sempre. entre pais e filhos. entretanto. a Justiça não é o critério maior para distinguir o Bem do Mal. comunistas e hippies. E aqui surge a pergunta decisiva. a Justiça nem sempre é o critério do Dever-Ser. sem que haja injustiça? Esta é a questão. Não são? Por que não? A Justiça não exige que tratemos todos como sendo iguais? É aqui. Em todos os casos. há Justiça nisso? Onde fica a Justiça? A Justiça nem sempre se aplica. isto é. não em tudo. ela existe por Natureza. impede e exclui o amor particular para com uma pessoa determinada. que entram construções curiosas como a sociedade igualitária e comunista dos cristãos primitivos. Há diferença entre os homens. em princípio. Aqui há incentivos. e outras mais.

os indivíduos se dissolvem dentro do coletivo. para todas as coisas. Ora. Logo. É aí que se enraízam e fundamentam as Lógicas da Identidade. à Diferença corresponde a Liberdade que o Indivíduo tem de ser diferente. Todos os homens seriam iguais em tudo. que isso está errado porque a Diferença. ao lado do Princípio de Identidade. Justiça corresponde. Além de A. Todos ficariam iguais em tudo: casa. Sem este. Só que. é simplesmente . O Indivíduo é aniquilado num tal Estado.3 Justiça e os Direitos Humanos Uma sociedade que quisesse realizar em tudo o ideal da Justiça. na Ética. seria algo monstruoso. sim. hábitos. que ele seja válido em Lógica. o D. o universo ficaria reduzido à tautologia A = A. ele não vale de todo. existem o B. predileções. à Coerência corresponde o quê? Não temos um termo próprio para de-signar isso. Em Lógica é preciso admitir. pensamentos. A Identidade não impede a Diferença. na teoria. roupa. Talvez tenhamos que cunhar uma expressão nova: a Ética dos Direitos Humanos. ele não se aplica sempre. uma sociedade em que o igualitarismo fosse levado a suas últimas conseqüências. gestos. comida. sob todos os aspectos. o segundo grande Princípio de todo o Sistema. Sabemos. o Princípio de Identidade não vale sempre. ninguém duvida. é o Princípio da Coerência. o C. Vimos em nosso século onde isso leva. em Lógica. todos sabemos que esse princípio não vale sempre. àquilo que na Lógica vige como Princípio de Identidade Reflexa: A = A. ambas podem e devem coexistir sob a égide da Coerência. a resposta é simples e bem fundada. Que este Princípio seja importante. também o Princípio da Diferença. etc. a todas as coisas. À Identidade corresponde a Justiça. O que vale. Os Estados totalitários caminharam nessa direção.Na teoria pura. Por que Ética? Por que Direitos Humanos? 3. inclusive para o Novo que emerge sem que haja uma razão a ele pré-jacente. Num tal Estado. ou seja. existe a múltipla variedade das coisas.

isto é. O Estado Totalitário e a Sociedade fechada que este pressupõe são.eliminada. Tanto Identidade como Diferença pertencem aos Direitos Básicos de cada ser humano. e também no Espírito. ao instituir o Estado de Direito e ao definir. os cidadãos devem introduzir no âmbito da Cidadania. na prática. isto é. Karl Popper tem aí toda a razão. o da Igualdade. os Direitos Humanos Mínimos. o âmbito da Diferença. Na teoria. pelo Direito Positivo o que é justo e o que não o é. que são as condições mínimas de possibilidade do homem como agente livre e responsável. bem como o Direito de. o âmbito em que todos devem ser iguais e aquilo que é espaço da liberdade individual. precisa definir o que pertence à Cidadania. a Diferença? A resposta a esta pergunta direta e simples é. tanto na Lógica como na Natureza. Como sabemos. ser Diferente. isto é. assim. E assim volta a pergunta: quando deve ser aplicado o critério da Justiça. um horror. e quando deve ser permitida. o Direito de ser tratado como um Cidadão igual aos outros Cidadãos. ao ser instituído. isso ainda não ocorre. na teoria. eis a conciliação de idéias contrárias que funciona aqui como síntese. muito difícil. um grande erro. Uma tal eliminação da Diferença é impossível e está errada. Mas a sociedade eivada de injustiça não é também um horror? Ela não está. como boa. Mais: a consciência de quais sejam os Direitos Mínimos do Homem vai evoluindo na . Quem conhece estes pagos onde vivemos não pode nem fingir que está num mundo justo. em pé de igualdade. ou seja. incorrendo em erro? Certamente. devem respeitar os Direitos Mínimos do Homem. O Estado. a resposta é fácil: os homens. Ao traçar esses limites na Instituição e na Constituição do Estado. Entre os Direitos do Homem estão. A igualdade equalitária de ser Cidadão igual a todos os outros Cidadãos e a liberdade de poder ser desigual dos outros em todo o resto. no âmbito da Igualdade e da Justiça. em tudo que não afetar a Cidadania. na prática. na teoria.

como sendo iguais. o Filósofo vira Político. corresponde à decisão conjunta que foi tomada: isto aqui é Lei e vale para todos por igual. . Mas Ser Cidadão significa apenas ser igual diante da Lei. por certo. de maneira a incluir mais e mais elementos. discutiram de igual para igual e deliberaram fazer o Estado. Privar o homem de sua liberdade individual é um crime contra os Direitos Humanos. diante daquilo que é posto no estatuto da Lei. que devem na vida real definir os contornos do Estado. 3. O Estado é uma construção social – autofundante e autofundada – na qual a Justiça se encarna e se transforma em Lei. Os Estados estão na História. Já no âmbito da Família. Podem-se traçar limites ainda mais exatos entre a Cidadania dos Iguais e a Liberdade Individual? Sim. para quem quiser. são os cidadãos através de seus representantes. felizmente.4 A Instituição e a Constituição do Estado Os homens fazem o Estado. Estamos. o âmbito daquilo em que todos os homens no Estado são iguais. isto é. ou seja. são instituídos. Nesse nível de pormenor. isso não significa que os homens devam ser iguais em tudo. são construídos. Estão lá onde Homens Livres e Iguais instituem a Justiça e a Lei como o denominador comum que os junta e unifica em seu agir em conjunto. o tamanho do Estado. isto é. O Pai deve tratar os filhos. aquilo ali é o espaço da liberdade individual. já existia a Família Antiga. em certas situações. tão grave quanto o crime de esvaziar a Cidadania. ficando mais e mais Cidadãos. o Filósofo cala e passa a palavra ao Político.História de nossa Civilização. Os Estados são feitos. ou. entre Marido e Mulher. E na Família já existiam vestígios daquilo que chamamos de Justiça. da Cidadania que deve ser. O desenho do Estado. mais civilizados. os homens sentaram diante das chamas da fogueira. Num determinado momento da História da Evolução. Antes de haver o Estado. Isto ocorre. os parlamentares. isto é.

Pais e Filhos. Mas ele se reencontra como sendo o Outro. O Eu. o altruísmo. as feministas têm toda a razão. o homem se perde e. Justiça. membro da Família e cidadão do Estado. as relações são primeiramente de complementaridade e só secundariamente de igualdade. Mas Homem e Mulher como gêneros são diferentes: cada um é à sua maneira. fica esfumada num segundo plano. Mas a Paridade de Igual para Igual não é a característica determinante da estrutura da Família. Na Família. Homem e Mulher como seres humanos são rigorosamente iguais. Na Família. Essa diferença não pode nem deve ser destruída. se reencontra a si mesmo. que na Família se transforma em Nós. Entre Homem e Mulher – enquanto gêneros –. é igual a si próprio. quase se perde nessa alteridade. Se a diferença vai para o segundo plano e se a igualdade vem sozinha para o primeiro plano. Não é a justiça. mora simultaneamente em três mundos. Mas. sozinho em si mesmo. como diz a canção popular. Vive la difference!. ao perder-se no outro. Entre Pai e Mãe. Na estrutura familiar o Tu. é pura Identidade e Igualdade. Neste ponto. o Homem e a Mulher se amam um ao outro e assim se completam e adquirem sentido pleno. como a Sociedade Civil e o Estado. que ninguém hoje pode nem quer negar. como sendo desigual de si mesmo. adquire como que um primado sobre o Eu. entre Homem e Mulher. por mais parecidos que sejam. O Homem. são diferentes. a igualdade só faz sentido quando concebida junto com a diferença. não Eu. Ele. entre Pais e Filhos. Ele é idêntico a si mesmo.entre Pais e Filhos. então a Família desaparece e surgem outras formas de grupamento. Sem isso não há justiça. A complementaridade está no primeiro plano: a igualdade. quem ama vive se perdendo. a . dizem hoje os pós-modernos na França. na solidão de sua consciência. por certo. A diferença entre o Adulto e a Criança é a marca registrada dessa relação. implícita e não desenvolvida. Na Família já existe. É o Outro que vive. existem relações igualitárias.

Qual a melhor forma de governo? Qual a forma de governo que leva à Justiça? Tanto A República como As Leis têm como tema central exatamente essa questão. uma Identidade que passou pela Diferença e voltou a si mesma. O governo feito por um colegiado constituído por alguns homens. as dificuldades são grandes. a Lei Magna. de que é importantíssimo definir com clareza qual é a forma de governo que faz florescer a Justiça e a Cidadania. assim também é feita a Constituição. tudo é simples. primeiramente. uma nova Identidade já agora midiatizada. que se supõe serem excelentes em virtude e sabedoria. Assim como o Estado se instituiu historicamente num determinado momento do tempo. O governo feito por um só homem é a Monarquia. 3. Sem Leis não há Liberdades. Na prática. Identidade. Diferença e. de novo. como sabemos. No Estado. a simetria se restabelece e o homem se reencontra a si como igual a si mesmo. sem Liberdades não há Leis. claro e fácil. é a Aristocracia. Platão passou a vida inteira preocupado com isso. Identidade. mas ela não determina tudo em todos os pormenores. sem interstícios não há regras. . Platão hesita e se inclina.5 A Democracia como única forma de Governo Os filósofos gregos se deram conta muito cedo. Sem regras não há interstícios. o Governo dos Melhores. Na teoria.igualdade de direitos. para o Governo dos Melhores. que determina positivamente quais são os Direitos Humanos e qual o âmbito da liberdade individual de cada Cidadão. Os interstícios existentes entre as regras que travejam a estrutura são o espaço da liberdade individual. A Justiça como a virtude dos Pares e dos Iguais atravessa e perpassa toda a vida. O governo feito pela ação conjunta de todos é a Democracia. na história de nossa cultura. e sim a filía que está no primeiro plano. Há várias formas de governo. para a Aristocracia. o Governo de Um Só. o Governo de Todos.

fazer o quê? Torcer para que lá atrás. assim. o que sabe a diferença entre o Bem e o Mal. Democracia e Assembléia Geral. ou seja. alguém experiente. e a aeromoça. a 11 mil pés de altura. a aeromoça nem comunicaria aos passageiros a morte do piloto e do co-piloto. meio dormindo. deve ser dirigido por quem entende do assunto. Alguém competente. em tais casos. é claro. não há problema. É por isso que o Estado deve ser governado pelos filósofos. Na vida real. lamentavelmente. depois de voar seu turno. nas poltronas do fundo. Ela iria direto. e sim de . Mas se a aeromoça. – Isto tudo é Platão.O Estado. com uma pequena maleta preta. numa situação dessas. está no vôo de retorno à base. o que fazer? Torcer para que o copiloto seja competente. por quem sabe governar. pálida. Quem sabe governar? Aquele que sabe a diferença entre o que é justo e o que é injusto. Mas nem tanto. assume o governo do avião e. Surge. Quem é este homem que sabe melhor que os outros o que é o Bem Supremo? O filósofo. Se isto for o caso. de susto. acrescenta que o co-piloto. sem tropeço e sem problemas. alguém que conhece o assunto. nos leva à terra firme do aeroporto seguinte. não deveria convocar uma assembléia geral dos passageiros para decidir qual a melhor solução para pôr o avião sob governo e sob controle? Antes de chamar o piloto em vôo de retorno à base. Mas isto não é contra a Democracia? A aeromoça. comunica pelos alto-falantes que o piloto. mais pálida ainda. Só que ele não falava de avião. também morreu. nem pensar. de imediato. Se estamos num avião de carreira. responde Platão. diz ele. se encontre um senhor. um daqueles velhos pilotos que. voando a 950 quilômetros por hora. a aeromoça não deveria convocar uma Assembléia Geral? A Democracia não exige isso? A aeromoça não está nos privando de nosso Direito de Cidadania? Não. em Platão a concepção aristocrática do Rei Filósofo. pedir auxílio ao velho e experiente piloto que dormita em sua poltrona no fundo do avião. um pouco grisalho. morreu. É bobagem? É.

quem sabe o quê. através da Democracia. sozinho. para que Assembléia? Para nada. Como o saber não é só a priori. como na Suíça. Neste caso. nesses casos. como o saber não é apenas um dom da Natureza. é melhor do que a Democracia. As outras formas de governo. isto é. A Aristocracia. perdido numa tempestade e sem piloto. É só na Assembléia Geral que se descobre quem realmente sabe fazer. É só nela que os homens se autodeterminam como Cidadãos e como sendo livres. e Governo Colegiado. Oligarquia Democrática. a Assembléia é dispensável e. Monarquia e Oligarquia. como hoje na Holanda e na Suécia. se só alguns poucos sabem fazer. a Democracia também é dispensável. E mesmo havendo Assembléia. às vezes. ou seja. em Assembléia. Mas a Grande Tentação continua e. sabe melhor o que fazer? É aí que está o erro. é preciso que a escolha da forma de Governo seja adequada ao que somos: seres que se autodeterminam como indivíduos livres e que se autodeterminam também como Estado. que sabemos quem é quem. O . por isso. Pois é só assim. quem seria o escolhido e designado para a tarefa? Aquele que sabe fazer. O curto-circuito que há nesse raciocínio consiste em omitir um elo da corrente. A Democracia é. e é só a Assembléia Geral que pode designar legitimamente esse detentor de saber para a função de governar. nos sussurra ao pé do ouvido: Para que Assembléia Democrática se o Bem-Pensante. deve-se convocar dentre os passageiros aquele que sabe pilotar. a única forma de governo eticamente correta. são eticamente legítimas só enquanto incorporam em si a Democracia: Monarquia Constitucional. Então. através da Assembléia. Um navio. Só sabemos o que é melhor através da discussão ampla e democrática. o que fazer? Assembléia Geral? Discussão democrática? Não. por conseguinte. Só através das Assembléias é que sabemos quem é realmente o Bem-Pensante. De nada adianta discutir em assembléia e votar.navio.

um Estado . ou seja. a este é preciso somarse o conhecimento a posteriori. A Eticidade. uma Família. continuam tendo recaídas políticas e voltam a instituir governos nãodemocráticos. muito certo. e assim por diante. É por isso que todos os povos em todas as culturas. Mas ele é um Universal Concreto. inclusive aquele a posteriori que emerge da Assembléia Democrática. É que a Democracia. as Ditaduras são formas de governo que. é sempre também um Universal. abandonam a Democracia – tão lenta.conhecimento é só parcialmente a priori. Hoje. Os assim chamados Místicos sempre disseram isto. mas sou também o segundo. só se descobre fazendo o Discurso Real em que todos. Trata-se da dinâmica do Eu que. mas é compreensível. Neste ponto Habermas tem toda a razão. que sou eu individual. iguais entre iguais. não há justificativa. mesmo depois da invenção da Democracia pelos gregos de Atenas. eu sou também meu povo. mas há explicação para isso. os bons ecologistas dizem isso. tão complexa. a Monarquia Absoluta. sob um pretexto ou outro. Está certo. permite e respeita a autodeterminação do Homem Livre. O Eu tem que se pensar como os círculos concêntricos que surgem quando se joga uma pedra na água tranqüila de um lago. apelam para formas não-democráticas de governo. sou também minha Família. sou todo o Universo. apresentam suas razões. além de ser Indivíduo. é realmente algo complexo. única forma de governo que permite a plena auto-organização do Povo e que. O Eu. Isso está profundamente errado. Mas a tentação de pensar que eu sozinho sei o que é melhor para todos permanece com suas promessas falaciosas. assim. A Tirania. Eles eram pensadores neoplatônicos. uma Sociedade. à primeira vista tão incompetente – e apelam para uma pseudo-solução. a capacidade que um interesse particular possui de ser universalizado. o terceiro. às vezes com receio de parecer idiotas. até que o Eu atinja dimensões cósmicas. tão demorada. Eu sou o primeiro círculo que surge. eu sou Tudo.

A Coerência não é algo que esteja pronto e acabado. emergindo e se impondo. e a Democracia. bem lá no fundo. devemos construí-la. E a Democracia ateniense foi frágil e fugaz. embora complexa em sua estrutura e lenta em suas reações. que só existe e se realiza enquanto de fato o vivemos e realizamos. Os inventores da Democracia. os gregos de Atenas. como os cidadãos discutiam juntos.para os quais podemos apontar com o dedo. em determinadas datas. e sim de um Universal Concreto. 3. É por isso que a Democracia. Quando aumenta o número de cidadãos. não se precisava de uma instituição inventada mais tarde. ocorria como que ao natural. num dos mais belos textos de nossa Tradição. Face ao pequeno número de cidadãos. Péricles nos conta. que a única forma ética de Governo é a Democracia. Tanto no discurso lógico. E a Democracia vem. Não se trata aí de um Universal Abstrato. constituindo assim a vontade geral. como também no Estado. no fundo. parlamentando. Como pode uma instituição tão certa durar tão pouco? O que é certo não devia ser algo duradouro que. planejavam juntos e juntos decidiam sobre a vida na Polis. aos metecos. a longo prazo. constituíam um grupo pouco numeroso de homens. A teoria já estava perfeita. É por isso. exibisse sua verdade? Certo é aquilo que está em Coerência Universal. aos escravos. A Democracia era direta. Os Cidadãos. sempre de novo. . a Democracia grega estava cheia de problemas. permanecendo. de um mero sinal tirado – abs-tractum – de seu contexto. se reuniam em Assembléia e decidiam o que fazer. A Cidadania não se estendia às mulheres. a Assembléia podia deliberar sobre tudo. isto é. o Parlamento. Nem tudo era um mar de rosas. a Assembléia fica mais e mais difícil e lenta. Na prática. Isso exige. a esta altura do desenvolvimento. assim. é a única forma de governo eticamente correta.6 A Representação Parlamentar Democracia se faz falando.

onde se realiza o discurso político. nunca menos do que isso. O cidadão individual. deve falar e. É por isso que as votações para eleger Deputados devem obedecer a uma certa periodicidade. que é a espinha vertebral da Democracia. O Deputado. onde se discutem e priorizam os . Como nem sempre todos os cidadãos podem estar presentes e ativos em todas as deliberações. consiste em fazer a mediação entre um grupo particular de Cidadãos e a Vontade Geral de Todos. se faz o que deve. Os cidadãos continuam tendo seus representantes. na Câmara Municipal. Sua função. É por isso que os parlamentares devem ser legitimamente eleitos. que corresponde à Assembléia dos Cidadãos do Estado Democrático. ele exerce um mandato. os vereadores. do Estado e da Justiça. é apenas a encarnação. Mas. O Parlamentar fala em nome dos cidadãos que são seus representados. de seus cidadãos representados. Parlamento é o lugar onde se parla. Este re-presenta. no Parlamento. institui-se em Assembléia a figura do Político Parlamentar. na instituição parlamentar. na vida política.7 O Orçamento Participativo Na Mui Leal e Valorosa Cidade de Porto Alegre estamos implantando. no Parlamento. Parlamentares são os que participam deste ativamente. sua voz e seu voto. 3. nos últimos anos. uma belíssima forma de fazer a mediação. Para que haja representação legítima. o cidadão pode se fazer presente em reuniões feitas bairro por bairro. principalmente. Nunca mais. entre o Particular e o Universal: o assim chamado Orçamento Participativo. para que o cidadão se sinta realmente presente no Discurso Político que faz a Lei do Estado. além de ser representado pelo vereador eleito democraticamente. transfere para seu Representante Político seu lugar.que se introduza o Parlamento. um grupo de cidadãos. Ele deve ouvir. deve cooperar para que se forme a Vontade Geral. na sala do Parlamento.

sua mulher. sim. O Oráculo dissera a Laio que ele jamais devia ter filhos. grandes seriam as aflições e os castigos. aqui já prometida. Era o Destino que. se tivesse. sim. apesar de avisados pela profecia. mas a força do Destino acaba sempre vencendo. O Homem pode tentar resistir. A Pítia. A Democracia está ficando mais e mais real. O filho que ele engendrasse viria a matá-lo. então. é rejeitado pelos pais e abandonado no ermo para que os lobos o . O cidadão de Porto Alegre. para os gregos. em sua loucura. a discussão aberta e o espírito democrático estão vencendo os percalços. está a anunciar mudanças radicais nas formas de representação política. Laio era Rei de Tebas. Chega de barbárie. com mão férrea. muitas vezes ele resiste. nos últimos anos. engendram um filho.problemas locais. de cima. A introdução da consulta popular através da informática. mas a ele se entrega. pode participar ativa e pessoalmente das decisões orçamentárias de sua cidade. O oráculo. dizia o que o Futuro iria trazer. pensa poder resistir ao Destino. O caso do Rei Édipo mostra o que acontece quando o Homem. A Tragédia Grega trata exatamente desse entrechoque entre a vontade do homem individual e o Destino. Quem é sensato. Funciona? Funciona. Mas Laio e Jocasta. que. Poder aí é só querer. Para durar? Espero que sim. tudo dirige. Voltar 4 O SENTIDO DA HISTÓRIA 4. o menino. a ele. inspirada pelos vapores emanados de dentro da terra. seu pai. casando-se depois com sua mãe Jocasta. dirigia a vida dos homens e determinava o curso da História. pois. pois. diz o que vai acontecer. Nas reuniões por bairro. não resiste ao Destino.1 A Força do Destino Os gregos acreditavam no Destino. Jocasta. Para evitar os males preditos pelo Oráculo. sacerdotisa no templo de Apolo em Delfos.

Édipo é ofendido e atacado por um nobre que. que por sua vez a entrega. e esta diz que ele deve evitar a presença de seu pai. que. Édipo consulta a Pítia. Édipo. Só que ele não sabe disso. E verifica que tudo que o vidente havia dito estava certo. a Tebas e acaba casando com Jocasta. que só queria o bem. lhe diz que ele havia assassinado o pai e casado com a mãe. Édipo entra em crise. então. vai matá-lo para depois casar-se com sua mãe. chama-o de Édipo e o educa como se filho fosse. com seu séquito. Édipo evita voltar a Corinto. sua mãe. Mas um pastor encontra a criança e a dá de presente a outro pastor. mas arrastam aquele que pretende resistir. Até hoje ressoa entre nós. Quando um vidente. arranca ambos os olhos. mas acaba de assassinar seu pai verdadeiro. não tendo filhos. ao vê-lo. Ele não sabe disso.devorassem. Apavorado. herdeiros remotos dos legionários do Império Romano. Édipo. se enreda na teia que o Destino lhe traçou. Ele não tinha estado todo o tempo cego? Não havia se levantado contra o Destino? Com o Destino não se brinca. também se dirige à cidade. Quando um estrangeiro. cego dos dois olhos. Vai para Tebas. filho rejeitado do Rei de Tebas. muito tempo mais tarde. Existe Destino? Existe um sentido oculto nos eventos da História? Os gregos pensavam que sim. pensa que é filho legítimo. latino-americanos. Os fados conduzem aquele que a eles se entrega. então. E quem entra em crise e não sabe o que fazer deve consultar o Oráculo de Delfos. Na entrada de Tebas. um antigo ditado: Fata volentem ducunt. nolentem trahunt. é criado como filho do Rei de Corinto. Édipo. Também os romanos. que ficavam de sentinela na longínqua Ibéria. Édipo reage e mata quem o insultou. para criar. para assim não ver seu pai. marido de sua mãe. procura inteirar-se de toda a verdade. Édipo. ao Rei de Corinto. Assassino do pai. que queria ser um homem justo. vindo para uma festa. se no fim é o Destino que vence? Não é melhor desde . Ofendido e atacado. revela que ele não é filho legítimo dos Reis de Corinto. Para que resistir. pois. Édipo vai.

o Fatalismo continua sendo linha diretriz de nossa cultura. em nossa História. sem agir. este é o caldo cultural que herdamos e que explica. A História não somos nós. então. há uma tese filosófica clara e simples: Tudo é necessário. mesclando-se com os índios nativos. pelo menos em parte. o Assim está escrito dos árabes e a predeterminação dos cristãos. Nós brasileiros. assim. nós. Para que agir. Mesmo quando nós homens entortamos bastante as linhas. Dose dupla de fatalismo. por sua vez. Nossos antepassados estavam impregnados de fatalismo até o fundo da alma. o fado dos romanos. uma rede de nexos em que os acontecimentos ocorrem numa sucessão inexorável. Quando. dos romanos e dos árabes. se tudo já está predeterminado? O Destino dos gregos. fatalismo em cima de fatalismo. . portugueses e espanhóis descobrem o Novo Mundo e. que conquistaram parte da Península Ibérica. aguçado e potencializado pelo fatalismo dos árabes. tu. sem reagir: tudo está desde sempre escrito e determinado. nós latino-americanos somos herdeiros do fatalismo ibérico. Pois não somos nós. dão início àquilo que somos. então. Eu.2 O Necessitarismo Lógico Por trás dessa concepção necessitária do mundo. que. vem do fatalismo dos gregos. Esse fatalismo romano foi.logo entregar-se ao Destino? E assim fizeram nossos antepassados romanos na remota Ibéria. que com sua Divina Providência dirige e administra tudo. 4. tantas vezes ficamos inertes. é Deus quem a escreve. É por isso que. formando. não aliviou muito a situação. é a Divina Providência quem escreve a História: Deus escreve direito por linhas tortas. Deus com sua Divina Providência as desentorta de novo e escreve direito. que herdamos de gregos e romanos sob o nome de fatalismo. por que o desenvolvimento na América Latina é tão diferente do da América do Norte. O cristianismo com seu Deus Todo-Poderoso. Também os eventos da História estão concatenados uns com os outros de maneira necessária.

comentando o texto de Aristóteles. na própria idéia de verdade lógica. Tomás de Aquino. responde firme: A Lei da Bipolaridade do Valor de Verdade das proposições bem formadas vale sempre. Ou verdadeira ou falsa. para sermos mais exatos. não conhecemos a realidade por inteiro. Non datur tertium. de um déficit de conhecimento. . para escapar dessa armadilha. mas que um tal nexo existe. defendido. O que vai acontecer amanhã é uma conseqüência lógica de uma verdade que já hoje está fixa e determinada. a realidade. exceto quando se tratar de futuros contingentes. exceto quanto aos futuros contingentes. Afinal. existe. E como se sabe que se trata de um futuro contingente e não de um futuro necessário? Tomás de Aquino não responde a isso. Nós. ela consiste de nexos necessários entre eventos necessários. está em si totalmente determinada. apenas. seres contingentes.que somos finitos. mas se abre um enorme espaço para exceções. já hoje. Esta é a teoria do Determinismo Lógico. a proposição Amanhã vai haver uma batalha naval é uma proposição bem formada. Logo. Ela. Aristóteles faz voltas e rodeios. esta proposição é verdadeira ou é falsa. As proposições são sempre verdadeiras ou falsas. Ou seja. constante de sujeito e predicado apropriados. Trata-se aí. no Peri Hermeneias. A Lei vale. Ora. na véspera. Uma proposição bem formada é sempre verdadeira ou falsa. não é válida a lei lógica que diz que uma proposição bem formada é sempre verdadeira ou falsa? Aristóteles titubeia. por Diódoros Chronos. Como o próprio nome diz. embora nós – sujeitos cognoscentes finitos – talvez ainda não a conheçamos. talvez não saibamos exatamente qual o nexo necessário que há entre os eventos. Esta é a tese central do Determinismo Lógico. está fixo e determinado o que vai acontecer amanhã. por exemplo. essa concepção determinista do mundo se baseia na Lógica.

Quem entra nessa teia de necessidades. se há necessidade de um lado. que marcaram tão fundo nossa cultura. de acordo com um tal pensar. Quem defende o . ao afirmar o que não é óbvio. Para que argumentar se os outros têm necessariamente as idéias que de fato têm? O fato de discutirmos a sério mostra que. apenas um déficit momentâneo de conhecimento. do Direito e da Justiça. o mundo é uma teia de necessidades? Ou há contingência no mundo? Quem afirma que só existem necessidades nega de maneira radical a contingência das coisas. existe apenas necessidade. Uma tal teoria. A Lei da Bipolaridade do Valor de Verdade das proposições bem formadas não é uma lei universalíssima. pelo contrário. da liberdade da pessoa humana. que supostamente perpassariam todo o universo. não consegue mais sair. Não existe. há também contingência de outro. Mais. O erro fica patente. da responsabilidade moral. E prova não existe. o que. ela não vale sempre. Quem quiser defender o Necessitarismo de forma sistemática e conseqüente entra em contradição performativa e tem que abandonar a roda do discurso argumentativo. O argumento contra o Necessitarismo é claro e decisivo. é a vertente necessitária de onde emergem. O que de fato ocorre necessariamente tem que ocorrer. é contra o senso comum. Mais. Quem se engana a esse respeito e pensa que as proposições são verdadeiras ou falsas entra num sistema lógico e ontológico que é estritamente necessitário. nessa hipótese. afinal. Quem afirma que todo o universo é apenas uma teia de necessidades e que a suposta contingência das coisas é apenas um déficit de nosso conhecimento está a negar a possibilidade do livre-arbítrio. a facticidade das coisas.O Necessitarismo Lógico. O que pensamos ser facticidade é apenas uma necessidade que ainda não captamos e reconhecemos como tal. Contingência e facticidade são. – Mas. enraizado na própria estrutura da predicação. tem o ônus da prova. na Antigüidade. o fatalismo religioso e a concepção de Destino.

um à frente. a partir de um ovo inicial. Assume-se. em Necessitarismo Filosófico ou – a mesma coisa sob outro nome – em Necessitarismo Sistêmico. de Plotino e de Proclo. que estão implícitas no ovo inicial. Mas a tentação lógica – quem disse que não há tentações lógicas? – continua a entoar seu canto de sereia. de que o mundo é regido por uma lei. no ovo inicial. é o desenvolvimento necessário em que. saem dessa semente inicial. está contido.3 O Necessitarismo Filosófico O Necessitarismo Lógico muito cedo transforma-se. erro antigo. Todas as coisas bem como todos os acontecimentos são elos de uma grande corrente. Não é verdade. O processo de desenvolvimento é pensado. Erro. O desdobramento dessas dobras. todas as coisas se desdobram (ex-plicatio). sob a égide de Platão. Um elo está preso a outros dois. nesta concepção do mundo. toda a Filosofia Neoplatônica transforma-se numa teia de nexos necessários. as plicae. oculta sim. Não obstante o argumento acima mostrado.Necessitarismo não pode nem mesmo argumentar a sério a favor dele sem entrar numa contradição performativa. que nos vem dos gregos e romanos e que afetou profundamente nossa cultura. no qual tudo está pré-programado (im-plicatio). assim. como um processo inexorável em que tudo acontece de maneira necessária. no ovo inicial. como que numa semente. Do ovo só sai o que já estava contido lá dentro: a explicitação do que está implícito. O universo foi posto. ele está implicatum. O universo. nessa concepção necessitarista. que no primeiro começo. mas inexorável. Nesse . Não é só a Lógica que é necessitária. todo o universo. continua aflorando na consciência a idéia sub-reptícia de que as proposições são sempre verdadeiras ou falsas. 4. o outro atrás. dá-se de maneira inexorável. E todos os nexos entre os diversos elos são absolutamente necessários. todo dobradinho. As dobras. de que há um Destino que tudo dirige e tudo determina.

processo necessitário não existe contingência; não existe acaso. Por isso não existe espaço para alternativas de ação que sejam por igual possíveis. E por isso não pode haver uma decisão livre entre alternativas igualmente reais. Por isso não há espaço para o livrearbítrio. Não havendo espaço para a liberdade, não há verdadeira responsabilidade pelas decisões tomadas. Não havendo responsabilidade real, o Estado tem que ser autoritário. O governo tem que ser entregue a quem possui o conhecimento ou, em linguagem moderna, a quem é detentor do know how. Platão, Plotino e Proclo, grandes e virtuosos pensadores que tanto admiro, me perdoem o contexto histórico-sistemático em que os estou colocando, mas o fato é que diversos tipos de totalitarismo têm suas raízes no pensamento neoplatônico. Um pequeno erro no começo provoca um grande erro no fim. Parvus error in initio, magnus in fine, diziam os medievais. O Necessitarismo Sistêmico, que encontramos esboçado em Platão e nitidamente delineado em Plotino e Proclo, provocou, sem que seus autores o desejassem, horríveis erros políticos. A passagem do Necessitarismo Filosófico para o Necessitarismo Político se processa quase ao natural: deve governar apenas quem sabe. A massa ignara só pode ser governada por quem possui o Saber. A massa ignara quer mesmo ser dirigida por mão férrea. Mais um pequeno passo e estamos diante da chocante conclusão: a massa ignara quer mesmo ser enganada. (Alguém por acaso está pensando em certos políticos que ainda temos?) É duro dizer, mas é verdade: o stalinismo com todos os seus horrores tem suas raízes últimas na vertente neoplatônica. Stalin vem de Lênin; este vem de Marx, que vem de Hegel, que vem de Espinosa, que vem dos neoplatônicos medievais, que vêm de Plotino e Proclo, que vêm de Platão. Qual o erro? O Necessitarismo Filosófico. Já os Padres Cristãos haviam percebido que a Filosofia Neoplatônica pecava pelo necessitarismo e impossibilitava, assim, a liberdade e a

responsabilidade. Agostinho, por exemplo, passou toda a sua vida tentando conciliar a Predeterminação e a Providência Divina com o livre-arbítrio do homem. Não conseguiu. Nicolaus Cusanus, na Idade Média, tenta de novo. Em vão. Espinosa, o grande pensador neoplatônico da Modernidade, capitula diante do problema. Espinosa quer escrever uma Ética, mas o sistema que produz é apenas uma teia de relações necessárias. Tudo é necessário no sistema de Espinosa. A contingência, segundo Espinosa, nem existe. Trata-se apenas de um engano subjetivo a ser corrigido pela Filosofia. Depois de Espinosa vem Hegel. Hegel pretende, como programa geral de sua Filosofia, conciliar o Sistema Neoplatônico com o conceito de liberdade, tal como este foi elaborado pelos clássicos medievais e resumido, na Modernidade, por Kant. Hegel, no Prefácio da Fenomenologia, nos diz, sem rodeios e sem meias palavras, exatamente o que quer: conciliar a Substância de Espinosa com o Eu Livre de Kant. Está dito aí com todas as letras: o Grande Problema consiste em conciliar o Projeto Neoplatônico de Sistema com um Eu verdadeiramente livre, conciliar a Substância com o Eu Livre. Este é o grande problema que Hegel trata durante toda a sua vida. Quem, segundo Hegel, escreve a História Universal? É a Razão, ou somos nós que escrevemos a História? Hegel procura, hesita, titubeia e acaba capitulando diante da Tremenda Força da Razão. É a Razão que escreve a História, afirma ele. E Nós? Onde ficamos Nós? Ora, nós só temos legitimidade racional enquanto nos deixamos dissolver dentro da Razão Universal. Em Hegel, o Determinismo Filosófico transforma-se num Determinismo da História. Marx, na esteira de Hegel, herda o mesmo problema não-resolvido e reincide no mesmo erro, aprofundando-o. O Necessitarismo em Marx fica ainda mais forte e mais claro que em Hegel. Os marxistas, logo depois, transformam o erro teórico num grande erro político. O erro fica assim potenciado. Nascem dessa forma o stalinismo e as assim chamadas democracias populares, nas quais

a Ditadura do Proletariado deveria fazer valer a Justiça e o Direito. Para os marxistas, toda a História estava predeterminada. A Revolução era inexorável e – grande ingenuidade política – ela tinha que dar certo. A História, diziam os marxistas aqui de Porto Alegre, andava de bonde. Na Argentina diziam que a História andava de trem. Bonde e trem são veículos que andam em trilhos, que já estão pré-colocados; todo o caminho está desde o começo predeterminado. Eles falavam das célebres Leis da História e estavam seguros de que, também na prática, a teoria iria dar certo. Eram filósofos neoplatônicos e repetiam apenas um erro que vinha já da Antigüidade. Tudo isso passou, sim, mas é importante compreendermos o contexto filosófico em que isso ocorreu, para que nossos filhos e nossos alunos não repitam o erro. Um erro que vem de longe, um erro que começa com Platão, o divino Platão, e que, passando por Scotus Eriúgena, por Espinosa, por Hegel e Marx, chegou até nossos colegas e amigos de esquerda: o Necessitarismo Filosófico, que se instala como Necessitarismo Histórico. Quem apontou para o erro? Na Antigüidade, os Padres Cristãos. Na Idade Média, os grandes pensadores aristotélicos, que, percebendo o defeito necessitarista do sistema neoplatônico, passaram a defender o aristotelismo e, em especial, a concepção aristotélica de livre-arbítrio, Alberto Magno, Tomás de Aquino, Boaventura, Duns Scotus e Guilherme de Ockham. No fim da Idade Média, foram os ingleses que deram forma a uma concepção renovada de livre-arbítrio e de Filosofia Política. Na Modernidade, surgem, assim, o Empirismo Inglês e uma Filosofia Política centrada na liberdade do indivíduo: de Hobbes até Hume e Locke. No Idealismo Alemão foi Schelling o primeiro a dar ênfase ao erro contido no Sistema Necessitário. Em suas Preleções sobre Filosofia Contemporânea, ministradas na Universidade de Munique, Schelling aponta de dedo em riste para o grande erro cometido por Hegel: o escamoteamento da

contingência. Depois de Schelling, quase todos os grandes pensadores batem na mesma tecla. Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger, Sartre, Horkheimer, Adorno, Popper, Habermas, Apel, Rawls, Rorty, todos apontam para o erro ínsito no necessitarismo. Contra a Razão necessitária de Hegel e dos projetos neoplatônicos levanta-se, no século XX, a voz dos defensores da contingência, da historicidade, da temporalidade, da multiplicidade das razões. A Sociedade tem que ser uma sociedade aberta; o Universo tem que ser pensado como um Universo aberto. O erro apontado é realmente um erro? Sim, é um erro. A refutação do Sistema Filosófico Necessitário, em sua primeira raiz, se faz através de uma contradição performativa. Quem levanta a tese do Necessitarismo Radical entra, ao fazê-lo, em contradição performativa. Pois quem argumenta, ao argumentar na roda do discurso, está pressupondo que quer convencer, através de boas razões, os outros participantes da roda do discurso. As boas razões não se impõem necessariamente por um processo histórico inexorável. Elas precisam ser expostas e discutidas. Por quê? Porque nem todas as razões estão prontas e acabadas. Nem todas as razões estão pré-programadas. Algumas estão, outras não. Alguns nexos são necessários, outros são contingentes. É na roda do discurso que percebemos o que é razão necessária e o que é nexo meramente contingente. Se todos os nexos fossem necessários, não precisaria haver discurso. Cada um descobriria, sem perguntar nada aos outros, qual o sentido do mundo. O diálogo real com os outros homens, num sistema necessitário, seria desnecessário e inútil. Afinal, o diálogo real é necessário ou é contingente? É necessário que façamos o diálogo para que nele apareça o que é necessário e o que é contingente. Quem diz que tudo é sempre necessário não precisa de diálogo. Quem dialoga está pressupondo que há motivo para dialogar. Eis a raiz performativa que legitima a contingência e proíbe o Necessitarismo como Teoria Geral do Universo.

por princípio. . 4. feitas pelos pensadores contemporâneos. uma postura profundamente ambígua. Já Kant percebera o problema com toda a clareza. ao negá-lo. ao fazer a negação. há muitos argumentos negativos. tem que negar também o livre-arbítrio. se não existem. ele percebe o problema do Necessitarismo como este foi posto por Espinosa. absolutamente convincentes. E o efeito já está sempre predeterminado dentro da causa. a Justiça. Nesse ponto. está pondo um ato que é e se sabe contingente e pressupõe que. em princípio. nem sob sua forma sistêmica. o está pressupondo de novo. a responsabilidade. no ouvinte. afirma que o Princípio de Causalidade vale sempre e em todos os casos. Em Kant.4 A Teoria dos Dois Mundos de Kant Hegel tem. todas as coisas estão. O Necessitarismo Científico. Heidegger e Popper estavam totalmente certos a este respeito. Ou então fica reduzido ao estado de planta. Quem nega que a contingência exista no Universo. Assim. a meu ver. trata-se basicamente do mesmo argumento que já Aristóteles usava para fundamentar o Princípio de Não-Contradição. tem que haver uma causa pré-jacente. contingência e historicidade. contingência no mundo? Sim. Por um lado. Conciliar a Substância de Espinosa com o Eu Livre de Kant. Onde há um efeito. haja um ato contingente. eis o projeto de vida que norteou todo o trabalho de Hegel. – Existem outros argumentos a favor de que há. uma forma específica dentro do gênero maior do Necessitarismo Filosófico. em princípio. Quem nega a contingência. a respeito da História. quer salvar a liberdade como esta foi descrita e afirmada por Kant. e sim sob a forma de cienticismo. as críticas contra o Necessitarismo da História em Hegel. o Necessitarismo aparece não tanto sob sua forma lógica. Nada disso pode existir. Quem nega o Princípio de Não-Contradição.O argumento não é fraco? Não. o Estado Democrático. o Direito. são. por outro lado.

Dois mundos são postulados. para salvar um espaço em que a liberdade ainda seja possível. sempre situada em dois mundos. Postular dois mundos é um absurdo. predeterminadas em suas causas. vê-se aqui a importância que Kant atribuía à liberdade. Kant oferece uma solução que é meramente ad hoc. antes de dizer que a liberdade era algo impossível. entrou num atoleiro. Preferiu admitir uma tolice a sacrificar a liberdade. Tão grande era o respeito que ele tinha pela liberdade e pela responsabilidade do homem que. que eu estou decidindo livremente sem que a série causal predetermine minha decisão? Isso não é um absurdo? Isso não é uma contradição? É. por conseguinte. Tudo está. nas causas anteriores. como propõe Charles Taylor. ou pela Teoria dos Graus. no Mundo dos Númenos existiria a Liberdade. está absolutamente predeterminada através dos nexos causais vigentes e afirmar. diz Kant. por um lado. A Teoria dos Interstícios supõe que existam. E. que não é solução nenhuma. no mundo dos númenos.desde sempre. Para salvar a liberdade. segundo Kant. postulou a absurda teoria dos dois mundos. Por outro lado. no Universo. o grande Kant. E estas. Kant. um mestre-pensador entrou num atoleiro tão feio como este. predeterminado desde a primeira causa. se situaria a liberdade do homem com sua capacidade de optar entre alternativas que são por igual possíveis. admitir uma tal teoria? Como resolvemos a questão? Pela Teoria dos Interstícios. Num dos mundos. A vigência universal do Princípio de Causalidade leva a um Necessitarismo total e abrangente. por sua vez. é uma contradição. No outro mundo. como se propõe neste trabalho. por outro lado. leis que o perpassam e travejam como uma estrutura de . hoje. Kant percebeu muito bem isso. vigem o Princípio de Causalidade e o Necessitarismo deste decorrente. Dois mundos? Cada coisa estaria. no mundo dos fenômenos. No Mundo da Causalidade vigeria o nexo causal necessário. Precisamos nós. Postular dois mundos? Dizer que minha ação. Raras vezes na História da Filosofia.

titubeia. faz parte desse processo de desdobramento. que é o Devir. O Ser é o Nada. Tudo determinado? Tudo predeterminado? Hegel fala em marcha inexorável do pensamento. mas queria. que é também o Nada. Dobra por dobra. E onde ficam a contingência das coisas e a historicidade dos eventos que podem ser. até chegar ao Saber Absoluto. Hegel hesita. por outro lado. que é o Outro. Também a História com seus eventos é um mero desdobramento durante o processo em que o Ser Indeterminado. inclusive toda a História.cimento armado perpassa e sustenta um edifício. 4. etc. Fazer o quê? Fazer como? O Sistema de Hegel desde seu começo pretende ser um Sistema Neoplatônico: tudo vem do Ser. muda de opinião. se transforma em Saber Absoluto. em processo necessário de desenvolvimento. que Hegel conhecia muito bem.5 A Coruja de Minerva e a Razão Absoluta Hegel tinha um único grande objetivo em seu fazer filosófico: conciliar a Substância de Espinosa com o Eu Livre de Kant. O espaço aberto pelas Leis Fracas é o lugar da contingência e dos atos livres. Segundo a Teoria de Graus. que não são regulados por leis determinísticas. também. mas que podem por igual não ser? Hegel estuda a questão. A Contingência Absoluta que Hegel põe lá no . que é o Algo. por um lado. Esses interstícios. em necessidade da História. Hegel queria. existem Leis Fortes e Leis Fracas. formam o espaço em que existe contingência e em que se insere a decisão do livre-arbítrio. tudo se desdobra a partir de um primeiro e simples começo. O Sistema de Espinosa. que nesse sistema houvesse espaço para a verdadeira liberdade do Homem. aos poucos. Afinal. esta é uma questão central para ele. Entre as vigas de concreto há interstícios em que se podem pôr paredes como se quiser. Todo o Universo. pecava pelo Necessitarismo extremado. construir um sistema de acordo com o projeto neoplatônico de Filosofia.

o assalta e termina por conquistar-lhe coração e mente. é a Razão que o escreve.6 O Materialismo Histórico Os marxistas. somos apenas marionetes guiados pelo Grande Ardil. emerge e se instala como a Sociedade Sem Classes. ativeram-se estritamente a essa concepção de História. A Revolução Proletária é. Também Hegel fica. a meu ver. Um pequeno erro no começo. Nós somos apenas conduzidos pelo Ardil da Razão. depois dos eventos. Os crimes do stalinismo. É por isso que. que está latejando no íntimo do Proletário. É que. É por isso que ela não pode nunca estar errada. o esfarelamento da União Soviética. que. pela Tremenda Força da Negação. segundo eles. num palco em que o grande drama escrito pela Razão Absoluta é encenado por nós. segundo Hegel. É neste que se encarna o Absoluto. o momento em que este Absoluto. vai sendo dissolvida e termina transformando-se em Necessidade Absoluta. A História transformase. vem à tona. um grande erro no fim. se não respeitarmos a contingência. Hoje sabemos que. Mas Hegel não fica coerente. depois que as coisas ocorreram. sem o saber. Hegel é o primeiro e o último. Essa concepção necessitária da História levou. E a Necessidade o assedia. a difusão do marxismo por todo o mundo. discípulos de Hegel. então. fica claro. É por isso que a Coruja de Minerva só levanta vôo quando cai o entardecer. assim. ao Totalitarismo Político. 4. No lugar da Razão Absoluta da Lógica de Hegel pegaram o Proletariado. pensa Hegel. um pensador necessitarista. segundo os marxistas. post factum. a queda do Muro de Berlim. é o único pensador que considera a Contingência uma característica típica do Absoluto. os processos de Moscou. tudo decorre de um erro de Filosofia.meio da Lógica da Essência vai sendo corroída pela bordas. viramos . a uma concepção necessitária do Estado. O roteiro da História do Mundo. que tudo era movido e determinado pela Razão. a Revolução é inexorável.

como a francesa. que a História não é um processo inexorável. depois. que a contingência existe. afinal. voltado em nostalgia para o passado. citado nesse contexto por Michelet. que. De Michelet a Feuerbach. é um assassino. Quem parou para pensar percebeu. Quem de fato matou alguém é um assassino. Karl Marx e Lênin a distância é grande. mas aprendemos. que o homem é livre. queriam substituir a Coruja de Minerva pelo canto na madrugada do Galo Gaulês. que o Estado não deve ser total. cedeu lugar aos jovens hegelianos de esquerda que. completo e acabado. Certo? Errado. Matou. mas a tônica é a mesma. Mas o assassino pode e deve. muito antes da queda do Muro. Continuamos sempre responsáveis por eles. acabou e não volta mais. que muitas vezes há alternativas de opção. refere-se à Revolução Francesa e anuncia uma nova Grande Revolução.7 Nós e a Coruja de Minerva Um ato humano. quando feito. encarando o futuro. um dos alunos de Hegel. Cabe a nós. dar-lhes seu valor moral. tudo isso teria sido desnecessário. O tom melancólico destas palavras de Hegel. Teria sido? A Coruja de Minerva só levanta vôo quando cai o entardecer. Mas se não é a Razão que escreve o roteiro da História do Mundo. 4. Custou muito. O tempo passou. quem é. avaliar . Até que caiu o Muro de Berlim. nós fazemos a História. Se tivéssemos entendido melhor a crítica de Schelling. Podemos e devemos sempre de novo avaliar os atos que fizemos no passado. Os jovens hegelianos pensavam que a História estava em marcha e que esta marcha era inexorável. sim. mas nossos atos nunca passam completamente.robôs e o mundo transforma-se num pesadelo. O Galo Gaulês. dia a dia. deverá transformar completamente o mundo político. o autor? Quem o escreve? Nós o escrevemos. de Kierkegaard e de Nietzsche contra Hegel.

colocando as ações inicialmente . algo que faria de novo. Historiar é contar os fatos. mas. E a Ética se baseia na liberdade. É claro que o termo Nós aí significa o Universal Concreto. Era algo de mau. convicto de ter feito bem em assassinar. O fato passado pelo arrependimento não muda enquanto fato que ocorreu. avaliar eticamente seus feitos. nos limites de sua potencialidade. no fim de cada dia. por sua vez.moralmente o ato feito. somos modestos co-autores do roteiro da História. cada um de nós. a Cultura que somos e que fazemos. depois. atribuindo-lhes a devida avaliação moral. pois. Nossa contribuição é modesta. Não seria de admirar que um tal assassino. sendo assim. o já uma vez assassino está convicto de que o assassinato foi algo de bom e. Os monges medievais faziam. Assim avaliando. alguém foi realmente morto. A Ética é o núcleo duro da História. Esta avaliação que a cada dia fazemos dos eventos passados é o núcleo da História. que escreve a História? Nós a escrevemos. Cada um de nós contribui com uma pequena pedrinha para o grande Mosaico do Sentido da História. arrependendo-se dos maus. confirmando os atos bons. Trata-se de um assassino que a qualquer momento pode vir a matar de novo. cometa outros assassinatos. o homem reto deve. – Um outro comete um assassinato. o autor do roteiro da História do Mundo somos nós mesmos. a Sociedade em que vivemos. Toda a cautela com uma tal pessoa é pouca. se baseia na capacidade de opção entre alternativas possíveis. Nesse sentido. mas muda em sua coloração moral. nós com nossas decisões e avaliações morais. o assassino mataria mais uma vez e se acharia cheio de razão. Quem é. Ele se arrependeu. como se vê. então. se arrepende. Os fatos ocorridos e as ações realizadas durante o dia eram. avaliadas em seu conteúdo ético. No Exame de Consciência. Se a avaliação é positiva. O fato do assassinato não muda. mas ela é real. não quer voltar a matar. Nós. Mas o arrependimento muda a pessoa e a História Pessoal do assassino. que. um examen conscientiae. diziam os medievais.

especialmente pensadores medievais como Anselmo de Canterbury e Tomás de Aquino. O Individual transformava-se. sem pressupor a fé cristã. de modo a inserir-se. Os atos praticados pelo indivíduo eram assim. O argumento ontológico de Santo Anselmo e as Quinque Viae de Tomás de Aquino são tentativas de demonstrar só pela razão. ou seja. então. além de nós. na trama universal da História. preocupavam-se seriamente com a demonstração da existência de Deus. Essa problemática entrou forte em nossa . desse modo. Deus existe? Voltar 5 O ABSOLUTO 5. E não existe ninguém acima de nós cuidando para que não se perca o roteiro da História? Não existe. um ser pensante que coordene nossas contribuições individuais para o Sentido da História? Nossos antepassados diziam que Deus escreve direito por linhas tortas.isoladas no grande contexto da História da Salvação. é preciso perguntar antes se Deus existe. Escreve mesmo? Não é Deus o Grande Coordenador do Sentido da História? Para poder pensar Deus como a Razão na História. postos no horizonte da História Universal. os filósofos existencialistas e os psicanalistas exercem a função que era dos Padres Confessores: fazer o indivíduo flectir-se sobre si mesmo. Os atos isolados feitos pelos indivíduos entravam num trabalho de tessitura e constituíam uma trama: o Sentido da Vida. Existe Deus? Existe o Absoluto? Anselmo e Tomás de Aquino procuram montar argumentos racionais para provar que Deus existe. – Com o gradativo desaparecimento dos monges surgem. um roteirista-mor. no exame de consciência.1 Deus existe? Muitos clássicos da Filosofia. em Universal. pela reflexão universalizante. os sucedâneos laicos. que Deus realmente existe. No século XX.

Ora. que estou aqui pensando. Como? Por quê? As coisas são relativas ou absolutas. que está sendo sempre pressuposto. A existência do Absoluto. As coisas relativas são relativas porque remetem lógica e ontologicamente para algo outro. e assim por diante. Quem nega o Absoluto. Todo relativo é uma relação para algo outro. Se existe um ser que seja relativo. se for relativo. remete para mais outro. Logo. Quem é o Absoluto? Como é o Absoluto? Por acaso serei eu. Mais. A pergunta sobre a identidade do Absoluto é uma pergunta que faz sentido e . ou pelo menos que não sou Eu o Absoluto todo e por inteiro. que estou aqui pensando. necessariamente existe também um ser que é Absoluto. eu mesmo. existo e sou um ser. Uma tal pergunta não é mais cabível. A pergunta que cabe não versa sobre a existência do Absoluto. ao negá-lo. volta a afirmar-lhe a existência. existem seres no Universo.tradição filosófica e cindiu os pensadores em dois grandes grupos: os que aceitam a demonstração da existência de Deus e os que não a aceitam. Pode-se demonstrar a existência de Deus? Isso é factível? Teísmo ou Agnosticismo? Nem um nem outro. Sempre se pressupõe um algo que seja Absoluto. Sobre a existência do Absoluto tenho uma posição nítida e clara: penso que a questão não pode nem mesmo ser colocada. e sim sobre sua identidade. tal como o entendo. Quem entende isso não pode mais perguntar se o Absoluto existe. Teístas e agnósticos até hoje discutem e debatem. o próprio Absoluto? Basta um pouquinho de bom-senso e de reflexão para descobrir que não sou Eu o Absoluto. é relativo ou absoluto. em última instância para algo absoluto. este algo. por sua vez. até chegarmos ao Absoluto. É claro que existe o Absoluto. pelo menos não no sentido em que se usam hoje essas palavras. existe também algo de Absoluto. Quem nega o Absoluto entra em contradição performativa. não pode sequer ser questionada sem que a pergunta imediatamente se transforme numa resposta afirmativa.

perfeitamente cabível. Tomás de Aquino que me perdoe. porém não é uma afirmação completamente boba. – É por isso que acho tolice discutir sobre a existência do Absoluto: é claro que o Absoluto existe. Schelling e Hegel. Isso posto e pressuposto. como o Eu que está falando. A grande pergunta é a seguinte: Quem é Deus? Como é o Absoluto? Onde está o Absoluto? Ele é transcendente e paira acima de todas as coisas? Ou é imanente e está dentro das coisas? Esta é a pergunta decisiva. O mesmo raciocínio se faz com referência ao binômio relativo-absoluto. . que estou aqui falando e escrevendo. Como o relativo sempre pressupõe o absoluto. que vem dos Padres Gregos. é um ser transcendente. mas tentar demonstrar a existência de Deus é tão tolo quanto tentar provar que eu. isto a meu ver é uma tolice. por conseguinte existe um Absoluto. diz que Deus é o primeiro motor imóvel. de Johannes Scotus Eriúgena. Trata-se aqui do mesmo argumento que Leibniz usa no começo da Monadologia. Deus existe. é claro. O conceito neo-aristotélico de Deus. além dos limites das coisas finitas. entretanto. Mas perguntar a sério se o Absoluto existe. a resposta que diz que o Eu é o Absoluto não está correta. se existe um relativo. Há em nossa tradição filosófica dois conceitos de Absoluto: o conceito neo-aristotélico e o conceito neoplatônico. de Agostinho. existe necessariamente também o Absoluto. As coisas são simples ou complexas. assim. sabe-se de imediato que existe algum ser que é simples. aqui se cindem as opiniões. isto é. cunhado por Alberto Magno e Tomás de Aquino à luz de temas clássicos de Aristóteles. existo. Pois existem seres. As complexas são formadas por simples. O conceito neoplatônico. de Nicolau Cusanus e entra em Espinosa. ele existe lá em cima.que é. é a primeira causa não-causada. esta é a questão séria e decisiva: o Absoluto é transcendente ou imanente? Ele paira acima das coisas ou está dentro delas? Aqui se separam as águas. Fichte. O Absoluto existe. é a questão sobre a natureza do Absoluto. Bem diferente.

sim. Se Deus se entende assim. então Deus não existe. Só que este não é o Deus que aprendemos na escola de nossos bondosos e bem-intencionados catequistas. Ele é também transcendente. diminui a imanência. de acordo com as premissas que foram sendo expostas e demonstradas no decorrer deste trabalho. se Deus é isso. do Deus da tradição neo-aristotélica. A segunda concepção. ou no mínimo – por boas maneiras – agnóstico. Que Deus é este? Veremos. aristotélica e tomista. nessa concepção dialética. Minha tese central é. Uma é analítica. Duas concepções de Deus aqui se contrapõem. é tanto imanente como também transcendente. ela afirma que transcendência e imanência não são opostos que apenas se excluem – tese e antítese –. Transcendência e imanência são inversamente proporcionais. é neoplatônica. sem dúvida nenhuma. diz que Deus é tanto transcendente quanto imanente. que o conceito neoplatônico de Deus está correto e que o conceito neoaristotélico está errado. então Deus não existe. A primeira defende a tese de que Deus é transcendente e que transcendência e imanência são características que se opõem e excluem mutuamente. mas opostos que podem e devem ser conciliados numa síntese mais alta. assim.diz que Deus é imanente e está dentro das coisas. Se cresce a transcendência. porque não se identifica com nenhuma coisa particular e. este não é o Deus de nossos professores no ginásio católico ou protestante. A outra é dialética. Transcendência e imanência são diretamente proporcionais. Face a essa concepção de Deus é preciso ficar ateu. à maneira neo-aristotélica. Deus. Ele é imanente porque está no âmago de cada coisa. entendemos Deus como este é concebido pelos pensadores neoplatônicos. Se. então Deus existe. O Deus designado e pensado pelo conceito neo-aristotélico não existe. inclusive do Eu que aqui fala e escreve e do Tu que escuta e lê. . a transcende. Mas antes há que se falar do Deus que não existe. e vice-versa. a dialética. entretanto.

então. é movido por algo anterior a ele. Quidquid movetur ab alio movetur. Esta concepção de movimento – errada – é o cerne desse tipo de argumento da existência de Deus. Se existe no Universo algum ser em movimento. . argumenta Tomás de Aquino. não são Deus. Logo. em si. O próprio Aristóteles considera os seres vivos como autokíneton. existe Deus como primeiro motor imóvel. Tomás de Aquino põe este princípio no centro de seu sistema filosófico: Quidquid movetur ab alio movetur. embora mova tudo o mais. isso nos parece fácil e óbvio.5. O princípio invocado. por sua vez. Se algo é movido. Se este. Este primeiro e último movente. Aí está o erro. Ora. o argumento para demonstrar a existência de Deus como primeiro motor imóvel. assim. também é movido. Tomás de Aquino e os tomistas não se dão conta de que existem seres que se automovimentam e que. existe também um primeiro motor imóvel. como um ser-que-semovimenta-a-si-mesmo. existem seres em movimento. embora importante e válido para muitas coisas. apesar disso. Em cima deste princípio se monta. é movido por algo outro que lhe é externo. não é válido sempre e em todas as coisas. é. O próprio conceito de automovimento lhes é estranho. Nem todos os movimentos são provocados por algo que é externo e anterior à coisa movida. É por isso que o argumento não conclui. Hoje. O movimento. um ser movente. Cada ser movido pressupõe. por algo que lhe seja externo. para os medievais. com a Biologia contemporânea falando de sistemas autopoiéticos. E assim por diante. Mas para os medievais não era. Qual o erro? Onde a falha? Nem tudo que se move é movido por algo outro. até chegarmos ao primeiro movente de todas as coisas movidas.2 O Deus transcendente da tradição neo-aristotélica Já Aristóteles ensinava: Tudo que é movido é movido por outro. era sempre fruto de um movente externo à coisa movida. imóvel.

está errado.O outro grande argumento para provar a existência de Deus. que é sempre externa ao efeito. – As . é. pois supõem que causa e efeito sejam sempre e necessariamente pólos opostos. na Universidade de Berlim. O Princípio de Causalidade parece ser uma proposição analítica e. Efeito não pressupõe sempre uma causa? O ser causado não pressupõe sempre uma causa anterior a ele? Hume nos mostrou que a questão não é tão simples assim. O conceito de uma causa que se causasse a si mesma seria em si contraditório. antes de Schopenhauer. aqui. empacam e não vão adiante. Schopenhauer está aqui defendendo a concepção neo-aristotélica da causa. e. na formulação que foi dada. ou seja. então necessariamente se postula uma causa anterior a ela. justamente a Hegel. Leibniz. se baseia no Princípio de Causalidade: Tudo que é causado precisa de uma causa que lhe é anterior. Este é o tema central da Tese de Livre-docência que Schopenhauer escreve contra o conceito hegeliano de autocausação e apresenta. que exclui por princípio a própria estrutura de uma Causa Sui. O erro consiste em pressupor que toda e qualquer causa seja sempre externa e anterior a seu efeito. universalmente válida. liberdade. Um tal conceito. enquanto tal. consciência. pois pensa a causalidade somente como algo externo. Mas quem diz que a mesa é um efeito causado? Quem diz que as coisas contingentes são realmente algo causado? Tomás de Aquino e os tomistas. foi adiante e tentou fundamentar o Princípio de Causalidade num princípio mais amplo e mais válido: o Princípio da Razão Suficiente. uma proposição analítica e. O Princípio acima invocado. que a autocausação seja algo impossível. Mas quem nos diz e garante que essa mesa para a qual estou apontando seja realmente um efeito? Que ela seja algo causado? Se a mesa é um efeito. assim. percebeu bem o problema. sempre verdadeira. pensamento. penso eu. sem admitir o conceito neoplatônico de autocausação. Se isso fosse verdade. etc. se ela é causada. não poderiam existir vida. semelhante ao primeiro.

A desvantagem é que o Princípio de Causalidade foi tão potenciado e estendido. o Princípio da Razão Suficiente: Toda coisa contingente. tem que existir um Deus Não-Contingente. Elas podem existir e podem. A vantagem é que o argumento da existência de Deus parece ser convalidado: como existem coisas contingentes. tanto podem existir como podem também não existir. leva a um paradigma causal totalmente necessitário e impossibilita a liberdade do homem e a contingência da História. Ele gostaria de ter uma solução. que valeria realmente de tudo e de todos os nexos. Errado é o adendo feito em silêncio: essa razão suficiente é sempre externa à coisa contingente. de fato existem? Qual a razão por que as coisas. porém.coisas são contingentes. Isto é analítico. Com esse adendo – errado. Mas se as coisas de fato existem. podendo também não existir. está fora dela. Por quê? Por que não pode haver algo contingente que . de fato existem? Qual a razão suficiente disso? Leibniz formula. se de fato existe. Daí a doutrina – estranhíssima em si. Só que geralmente se subentende um adendo: tem que ter uma razão suficiente anterior a ela. por igual. que é a razão suficiente dessas. em minha opinião –. Qual o erro de Leibniz? O que está certo? O que está errado? Está certo dizer que todas as coisas contingentes têm que ter uma razão suficiente. isso. O princípio assim formulado está certo. volta-se a uma situação parecida com a do argumento anterior. mas não tem. Mesmo quando as coisas existem de fato. não existir. pois. por sua essência. elas continuam contingentes. certíssimo. feito geralmente de forma silenciosa e sub-reptícia. fora dela. mas compreensível se colocada no contexto correto – da Harmonia Preestabelecida. que pode existir como pode também não existir. Obtêm-se uma vantagem e uma desvantagem. seguindo uma tradição da Idade Média tardia. que podem não existir. então. por que elas. Leibniz sentiu bem o problema e capitulou face a ele. tem que ter uma razão suficiente.

é preciso distinguir dois aspectos lógicos e dois momentos ontológicos. Por quê? . os dois pólos. e não como Causa-de-Si-Mesma. o elemento movente e o elemento movido. Isso está certo. ponto final. conciliados. tanto o elemento causante como o elemento causado. como uma AutoMovimentação. Os Analíticos. Onde? Qual contradição? A contradição dos Analíticos consiste em jamais conciliar o movente e o movido. de seus movimentos vitais? Não é esta a própria definição de vida? Nossa decisão livre não é uma autodeterminação? O homem. entram em contradição. a transcendência e a imanência. para evitar a contradição explosiva. e nunca movido. Segundo os Analíticos. É por isso que o Primeiro Movente é pensado como sendo Imóvel. tanto entre os gregos como entre os medievais. não conseguem pensar as boas circularidades. o necessário e o contingente. na Ontologia é um absurdo. postulam que o Ser Supremo seja só ativo. como Causa Sui. que ele seja apenas movente. e nunca efeito. e não contingente. sob outro aspecto são causados e movidos. e não passivo. o absoluto e o relativo. Só que os Analíticos aqui vão mais adiante e. ao decidir livremente.seja razão suficiente de si mesmo? A vida não é razão suficiente. os pólos opostos se excluem. que ele seja apenas causa. que ele seja só necessário. ao recusar as estruturas de boa circularidade. não é uma causa sui de sua decisão? – Os pensadores analíticos. separam cuidadosamente os dois aspectos. sem perceber que a conciliação entre ativo e passivo é perfeitamente possível e existe em muitos seres. e não como um Movente-Que-Se-Move-a-Si-Mesmo. pois a natureza está cheia de seres que contêm em si. o causante e o causado. Para eles. todo movimento circular é sempre um círculo vicioso. Alguns seres são sob um aspecto causantes e moventes. Na Lógica. em si mesma. O erro cometido fica visível. Os pensadores analíticos. o ativo e o passivo. afirmam. e assim. o movimento circular não prova nada. A Primeira Causa é pensada como sendo incausada.

sem que jamais as contrapartidas lógicas e ontológicas lhe sejam atribuídas. E o que é logicamente impossível não pode existir. um anulando o outro. é que pensam que os opostos sempre se excluem. o contingente. não existe nem pode existir. o absoluto sem o relativo. E por isso eles jamais pensam que uma síntese seja possível. o necessário sem o contingente. o movido. Eles não percebem que pólos opostos se constituem mutuamente. não se dão conta de que um pólo só pode ser pensado através de sua relação para com o outro. um tal Deus se desfaz e deixa de ser Deus. Um tal Deus perde a divindade e apresenta-se como fruto da negação que o próprio homem está a fazer. A falha dos Analíticos é que jamais aprenderam a fazer o jogo dos opostos. Um tal Deus é um Deus construído. a causa sem o efeito. como Necessário. Por conseguinte. como Transcendente. A fala fica impossível. decorrente do primeiro. pois negação só existe como Negação de Algo. Mais. o relativo são sempre algo inferior e menos perfeito. não pode existir no Ser Supremo. à maneira neo-aristotélica.Porque pensam – erroneamente – que o passivo. como a Pura Negação. como Movente. Este. é pensado como Causa. então. impensável. O Deus dos Analíticos é uma conseqüência lógica desses dois erros. e assim um Deus falso . Onde o erro? Qual a falha? É impossível pensar o ativo sem o passivo. assim pensado. Os Analíticos pensam Deus como o Ser que é totalmente Outro. então. O discurso sobre o Ser Supremo torna-se uma Teologia Negativa. – O segundo erro cometido pelos Analíticos. o movente sem o movido. que a síntese seja algo devido. Ora. Onde o erro? Qual a grave falha? O erro dos Analíticos consiste em pensar que pólos opostos sempre se excluem mutuamente. Tal imperfeição. necessário como operações lógico-formais. Como isso é logicamente impossível. Ele é um Deus que é imóvel como uma pedra. o Ser Supremo fica. o Ser Supremo. o causado. dizem eles. como Absoluto.

e perverso. E o argumento da existência de Deus que é feito através da ordem existente no Universo? A ordem existente das coisas não exige. está dentro. como usual na tradição neo-aristotélica. uns com os outros. planejou e executou todo o projeto. que. parece confirmar uma tal idéia do Grande Arquiteto. que lhe ficam sempre externos. Deus é um Princípio que é interno. que somos obrigados a admitir que uma aeronave com tal grau de complexidade não é fruto do mero acaso. porém. então seria melhor ser ateu. Deus não está fora. Ele não empurra de fora os planetas e os átomos em suas órbitas. o Absoluto. girando as esferas dos astros e dos átomos. um Grande Arquiteto que planejou tudo e que tudo conduz com mão firme? – Este argumento. Deus não brinca com planetas. O mundo não é bem ordenado? As maravilhas da natureza não exigem. sim. Só que este é outro Deus. exatamente de maneira a constituir uma aeronave funcional? Uma tal probabilidade é tão irrisoriamente pequena. Ele possui ainda a vantagem de não levar necessariamente a um Deus Negativo. com muito engenho e arte. não é um Deus que fica fora do mundo. no âmago. muito popular nos séculos XVIII e XIX. astros e homens como uma criança brinca com seus brinquedos. Afinal. lá no começo de tudo. O cálculo de probabilidades. por força do mesmo raciocínio. Deus. qual a probabilidade de que todos os átomos de um Boeing 767 se juntem. O Grande Arquiteto. por cortesia. é realmente melhor ficar ateu ou. este é o Deus dos . ele está dentro. agnóstico. Conclusões desse tipo foram feitas por muitos filósofos que só conseguem pensar o Absoluto através do conceito neoaristotélico. que de dentro para fora constitui o Universo. Se isso fosse Deus. e sim um Deus que está no âmago das coisas e do Universo. parece à primeira vista estar fundamentado em boas razões. e sim do cuidadoso trabalho de um engenheiro. num primeiro relance. Em tal caso. um Grande Arquiteto? Exigem.

do Ser que é Uno. Já os Padres Gregos e Latinos argumentam – neste ponto com toda a razão – contra os neoplatônicos da Antigüidade. A idéia central em Plotino é de que toda a multiplicidade emana do Uno. de Schelling e de Hegel. o Ser que é o Universal Concreto. o erro. no começo do século. a água transborda e cai. em cascata. que é o Universal. para a escolha livre. em todo o redor. É só ir lá e olhar. de Eriúgena e de Nicolau Cusanus. numa bacia mais abaixo. diziam os antigos. Num tal sistema não há espaço para a contingência das coisas. sem verdadeira historicidade. Em Proclo. Aqui em nossa Porto Alegre. de gêneros vem. sem acaso. Quando esta fica cheia. Quando esta está cheia. no Parque da Redenção. o Deus de Goethe. também ela transborda e fornece água para a bacia maior que lhe está em baixo. Ela jorra no centro. para a construção da Razão na História. O defeito. um tal chafariz. algum arquiteto se lembrou disso e construiu. Como vimos em vários . consiste no necessitarismo. de um primeiro começo que é o Ser-Uno. de espécies. Os gregos chamavam isto de Emanação.3 O Deus da tradição neoplatônica A concepção neoplatônica do Universo foi captada em sua plenitude e luminosamente expressa por alguns artistas do Renascimento no Chafariz em Cascata. E assim chega ao solo. Ambos pensam o Sistema do Mundo como uma sucessão determinística de etapas que se sucedem numa série necessária. o Deus de Plotino e Proclo.neoplatônicos. Bonum diffusivum sui. A água é a mesma. o Deus de Teilhard de Chardin. lá no alto. sem contingência. 5. Lá ela jorra e cai numa primeira bacia. Toda a multiplicidade de indivíduos. através de emanações. o Deus de Agostinho. Bem no centro há um cano que leva a água até o alto. De lá ela emana e desce. em Plotino e Proclo. O Bem se difunde. até o chão. a grande tese é de que os Seres Particulares emanam do Ser Uno. de bacia em bacia. para o livre-arbítrio dos homens. de Fichte. que é um pouco maior que a de cima.

O Livro IV do tratado De Divinis Nominibus é uma prova cabal de como o cristianismo foi profundamente influenciado pelo neoplatonismo. em degraus. à maneira de Plotino e Proclo. Do Pai e do Filho sai o Espírito Santo. O problema – voltaremos a ele logo mais abaixo – é de como conciliar a concepção neoplatônica com a concepção criacionista do mundo. percebe claramente o problema do necessitarismo. os filósofos neoplatônicos da Idade Média vivem aos trancos com duas concepções do mundo que não são de fácil conciliação: o mundo como o doce fluir do Absoluto. que. Deus é o Criador que engendra o mundo através de um ato livre. Do Pai sai o Filho. Quem o afirma entra em contradição. continua forte e atuante. À emanação necessária dos neoplatônicos ele opõe a criação livre através de Deus. sai de si – emana – e faz brotar de si toda a multiplicidade das coisas. retoma a idéia central do Pseudo-Dionísio. Johannes Scotus Eriúgena. apesar do criacionismo dos pensadores cristãos. e. o grande pensador cristão que se faz herdeiro da concepção neoplatônica do mundo. Até hoje teólogos católicos e protestantes – alguns. o necessitarismo é um erro. Mas a concepção neoplatônica do mundo. de um lado. Assim. pelo menos – estão com este problema atravessado na garganta. sem conseguir resolvê-lo a contento. O assim chamado Pseudo-Dionísio. Do Deus-Uno-Trino . o mundo pode ser pensado como algo contingente e histórico. um dos maiores e mais influentes pensadores da Antigüidade cristã. depois dele. confeccionado por um Deus Criador que lhe fica externo. em seu tratado De Divisione Naturae. Agostinho. como ondas de ser que são irradiadas a partir de um ponto central que é Deus-Pai. Agostinho e. voltam através do Logos à unidade primeva. no século IX.lugares no decorrer deste trabalho. Deus é o começo e o fim de um grande processo de desenvolvimento. de outro. explica o mundo. o mundo de Estrelas fixas e de Espécies imutáveis. constituindo assim o Universo. As ondas que emanam do Pai e se espalham.

passando por Hugo de São Victor. afinal. somente aqui. em Scotus Eriúgena está clara e distinta. transcendência e imanência não se excluem. Aqui. A doutrina da forma essendi em Tierry de Chartres. a Natureza. mais imanente ele fica. Qual é. E assim continua o fio vermelho que constitui a trama neoplatônica. que se cinde e se divide. a dialética neoplatônica como método volta ao centro das atenções. A concepção neoplatônica do Universo. Através de Alberto Magno e Tomás de Aquino volta o aristotelismo. mas o Absoluto está sempre dentro do Universo. Em Gilberto de la Porré. à melhor maneira neoplatônica. a concepção de Deus dos pensadores neoplatônicos? O Absoluto num sistema neoplatônico não é pensado como algo meramente transcendente. O Deus neo-aristotélico é o contrário: quanto mais transcendente Deus é.sai o Universo Criado. de Deus Criador e de Natureza Criada. como o todo transcende cada uma de suas partes. por Abelardo até Petrus Hispanus. a teoria dicotômica de ato e potência. já na época. e vice-versa. e sim se incluem. Na concepção dialética. neo-aristotélica. sim. no século XII. até nossos dias. Em Tierry de Chartres. que é característica dos pensadores neoplatônicos. afirma que Deus está ínsito nas coisas. menos imanente ele fica. os neoplatônicos . e se subdivide mais ainda. a Explicação do Mundo. O Absoluto transcende o mundo. As condenações que lhe foram impostas pela Igreja Católica em 1209 e 1212 mostram. Os aristotélicos não sabem conciliar pólos opostos. em Bernardo Silvester e em Guilherme de Conches encontramos uma identificação do Espírito Santo com a Alma do Mundo da tradição neoplatônica. no século XII. Quanto mais transcendente Deus é. A Idade Média. constituindo as coisas que vemos com os olhos. começa a perder sua substância neoplatônica para tornar-se mais e mais. as dificuldades da conciliação entre neoplatonismo e criacionismo. é que o aristotelismo é redescoberto e faz sua entrada triunfal no pensamento cristão.

impensável e impossível. E o Deus dos Analíticos? Este Deus é. um Arquiteto Criador que está fora do processo do Universo. julgo eu. por decisão livre. Há uma Lógica. em que sentido Deus existe. sim. criou também o homem. no começo. os neoplatônicos são dialéticos. na superabundância de sua perfeição decidiu livremente criar o mundo. Eles são Princípios da Lógica. O Mito do Deus Criador deve ser substituído por uma boa Teoria Geral da Evolução. não há mais que se falar. como vimos antes. existe um Logos. do que foi exposto no decorrer deste trabalho. são fruto de uma Evolução.sabem. criou as diversas espécies de plantas e animais. são Princípios do Pensar e do Falar. então. 5. criou as coisas. Este é o tema central deste pequeno livro. E assim. O elemento errado é imaginar este Espírito como. Um Idealismo que . Neste sentido. A teoria que estou defendendo é uma forma de Idealismo. inclusive o Homem. no catecismo. de um Deus Criador. Todas as coisas. o Deus dos Dialéticos existe. Diferença e Coerência constituem. pois. desde o primeiro começo. o outro errado. Deus existe. – Este Mito da Criação contém dois elementos: um certo e verdadeiro.4 Deus é Criador do Mundo? Pode-se pensar o Absoluto como o Criador do Mundo? O conceito de criação diz que. O elemento certo é a idéia de que o Espírito Livre é o começo e o princípio estruturante do Universo. o Universo com suas maravilhas. como vimos na primeira e na segunda partes deste trabalho. Eis aqui o Logos que está no começo e que tudo perpassa. Os aristotélicos são analíticos. existia Deus como um Ser inteligente e absolutamente perfeito. o da Diferença e o da Coerência. Estes Princípios. Mas uma boa Teoria Geral da Evolução – teoria que é lógica e também ontológica – baseia-se em três Primeiros Princípios: o da Identidade. Identidade. O Princípio do Universo é Uno e Trino. em Filosofia. É de compreender. Deus.

tanto protestantes como católicas. Seja-me permitido citar ainda dois autores: Meister Eckhard e Goethe.contém contingência. o Grande Pagão. Schelling e Hegel eram ateus. o outro é chamado de Grande Pagão. mas um Idealismo. isso se deve ao pouco conhecimento que as autoridades eclesiásticas da época. se Deus está em toda parte. 5. Cusanus ficou sob suspeita. influenciou decisivamente toda a concepção de mundo de Goethe. Mas. o Místico . no âmago de cada coisa. Afinal. mais moderadamente. está perfeitamente adequado. Para pensar o Absoluto há que se desmascarar a Má Infinitude e entender o Absoluto como Boa Infinitude. nada mais? Sim. Se me fosse permitido. É por isso que julgo que o conceito de Absoluto em Hegel. tinham da concepção neoplatônica de Deus. me pedisse alguma indicação bibliográfica sobre o problema de Deus. Meister Eckhard. desde a Antigüidade. Um é um Grande Místico. tinham que pensar e dizer que Fichte. ambos possuem o mesmo conceito de Deus. O Grande Místico e o Grande Pagão têm um denominador comum: ambos são neoplatônicos. como Idéia Absoluta e como Saber Absoluto. eu sugeriria que as autoridades eclesiásticas competentes mandassem pesquisar melhor as questões que desde o século IV de nossa cultura foram debatidas entre neoplatônicos e neo-aristotélicos e que o termo Panteísmo fosse resgatado em seu sentido positivo. eu responderia que lesse todos os autores neoplatônicos citados neste estudo e que estudasse de maneira especial o conceito de Absoluto em Hegel. a esta altura. Hegel são acusados de Ateísmo. A pecha de Panteísmo foi levantada. contra os pensadores neoplatônicos. Se Fichte e. assim. Scotus Eriúgena foi condenado. com as leves correções aqui feitas. Os Bispos pensavam Deus só através do conceito neo-aristotélico. sim. fora Hegel. o Grande Místico.5 O Círculo dos Círculos Se alguém.

a rigor não precisa mais entrar em igrejas. sem poesia. . o Eu que é Indivíduo. pois. o Eu que é o Absoluto. e assim até se perder de vista. Quando se joga uma pedra num lago. Mas é a poesia que coroa e finaliza tudo. não deixam de ser Eu Mesmo: o Eu que é Nós. Um pequeno círculo. Ou será que Deus privilegia com sua presença alguns espaços arquitetônicos? E se o Místico não vai nunca à igreja. outro maior ainda. E assim por diante até que o Eu se saiba o Eu Universal Concreto. surgem a partir do ponto de impacto círculos concêntricos que se espalham no espelho d’água. Seja-me. O segundo Círculo é o Eu que somos Nós. O terceiro círculo é o Eu que somos a própria Natureza. Fazer Filosofia Dialética é saber passar de um Eu estreito para os outros Eus.está sempre se encontrando com Deus. a Sociedade. O primeiro círculo sou Eu. como os crentes. embora mais amplos. geralmente. permitido encerrar com uma imagem poética tipicamente neoplatônica: o Círculo dos Círculos. O trabalho do conceito é penoso e. que. um maior. o Estado. O quarto círculo é o Eu que é o Planeta Terra. E como ele se encontra com Deus em todas as pessoas e em todas as coisas. ele não vai ser chamado de Grande Pagão? Meister Eckhard e Goethe – ninguém se admire – podem e devem ser lidos um ao lado do outro. o Gênero Humano. o Eu que é Natureza.

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